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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CÉU EM CHAMAS / Janice Diniz
CÉU EM CHAMAS / Janice Diniz

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

        Thales Dolejal jamais fora um peão de fazenda ou um caubói de qualquer espécie. Nascera na década em que se pregavam a paz e o amor. Aos doze anos, o pai, oriundo de uma geração de agricultores, dissera-lhe:

       — Vá morar com seu avô no garimpo, fazer a vida. Aqui, a gente não tem vez, vamos capinar na terra dos outros até morrer numa maca no corredor de um hospital.

       Aos doze, a noção de vida e morte era a mesma que a de disco voador. Ele queria ficar no sítio com os pais e jogar futebol. Era bom na zaga, alto, forte e destemido. Marcava os atacantes adversários sem cometer faltas. Depois que vinha da escola, atirava a mochila sobre a cama, almoçava e saía para os treinos. Treinava na várzea, no melhor estilo, como os bons um dia treinaram. O estômago quase vazio e a cabeça cheia de sonhos. Levando a bola de lado, com o pé, protegendo-a com o corpo, ninguém o alcançava. A menos que o derrubassem. Havia sempre um desavisado que se arremessava contra ele, contra a sua torre de ossos e carne. Quando o acertavam e o solo recebia-o do golpe, injetava no sangue o combustível para a explosão. Pavio curto. Briguento. Atirava-se sobre o adversário e o enchia de socos e pontapés. Batia até ser arrancado de cima do incauto. Voltava para casa com a camiseta rasgada, a pele esfolada, o sangue seco no canto do nariz e da boca e o amargor debaixo da língua. Thales detestava interromper o que mais gostava de fazer na vida para ter de aplicar lições nos mais fracos. E, por ser forte antes mesmo de ser homem, decidiu-se que iria para o centro-oeste viver e trabalhar com o avô, pai de seu pai. A decisão não partiu de uma reunião familiar democrática entre ele e os seus progenitores. A ditadura começava dentro de sua casa e se estendia pelo país, que, naquele tempo, literalmente marchava.

 

 

 

 

       O solavanco na estrada despertou-o dos devaneios. O latifundiário evitava viagens nostálgicas, uma vez que nada que deixara para trás valera grande coisa. A tristeza que experimentava ao permitir-se recordar a juventude relacionava-se muito mais a si mesmo que aos outros. Algo misterioso acontecia-lhe ao olhar para trás, pois o sentimento que o consumia nada mais era que a falta que sentia de si, de quem um dia ele fora. Uma época em que ainda acreditava em dias ensolarados, na bola de futebol exprimida contra a rede e no paraíso depois da curva na estrada.

       Voltou-se irritado para o motorista da Silverado. Este, percebendo de esguelha o movimento do fazendeiro em sua direção, lançou-lhe um olhar envergonhado e apontou para a estrada:

       — Desculpe, patrão, mas não fui eu que abri essas crateras no asfalto. — disse o rapaz loiro, com um sorrisinho no canto dos lábios.

       Sustentou por alguns segundos o olhar zombeteiro do subordinado. Era estranho que ele ainda estivesse ali, ao seu lado, depois de tudo. No entanto, desde que o resgatara da mesma estrada em que trafegavam naquele momento, sabia que somente ele, Franco, iria se manter leal até o fim dos seus dias. Não era novidade que o rapaz era o melhor entre os seguranças da Arco Verde e, muito mais que isso, era o seu segurança particular e braço direito. Mas havia algo nele, bem no fundo dos olhos que sempre mudavam o tom do azul, algo que o intrigava e também o entristecia. Era como se Franco jamais estivesse completamente ao seu lado e a sua lealdade fosse simulada. Ironicamente, resgatara-o de seu destino também aos doze anos.

       — O que guarda aí, dentro da sua cabeça, Franco? — foi direto ao alvo, perscrutando-lhe a feição antes sardônica, agora, confusa.

       Por um instante o rapaz manteve-se em silêncio. Era provável que digeria a questão e escolhia as palavras mais apropriadas para responder. Ele não dava ponto sem nó. A impulsividade natural, às vezes, era enganada pelo raciocínio frio de alguém criado à beira da BR-163 e adotado por um bando de pistoleiros.

       — Além do excesso de caipirinha?, quase nada. — brincou, tentando aliviar a tensão.

       Thales apertou os lábios como se fazia quando a paciência em se explicar era curta. Abriu o porta-luvas e retirou o celular. Antes de digitar os números de um laboratório de Análises Clínicas de Cuiabá, ordenou:

       — Tenha mais cuidado ao dirigir a minha camionete. Deu para perceber que não é a sua sucata vermelha.

       Franco achou graça e balançou os cabelos loiros jovialmente:

       — Deu “mesmo” para perceber. — enfatizou para, em seguida, reduzir a velocidade e informar: — Ainda mais quando o Bronson não leva a sua camionete, patrão, para a revisão como o combinado.

       Voltando-se para o motorista enquanto esperava a ligação ser completada, Thales arqueou a sobrancelha, curioso:

       — Por que está parando?

       — Tem alguma coisa errada, a direção está pesada... Acho que temos um pneu furado ou um problema mecânico. Vou parar e dar uma olhada. — resolveu, jogando lentamente o veículo para o acostamento até estacioná-lo à beira do mato baixo e seco.

       Automaticamente, o fazendeiro relançou um olhar para o retrovisor e avistou a estrada nua. Início de tarde em Matarana, o branco espraiava-se soltando no ar a fumaça num tom quase cinzento. O tráfego naquela parte da rodovia federal era menos intenso. Mas o que o incomodou não foi a parada, e sim o motivo para pararem. Viu quando Franco pegou a chave da ignição e preparou-se para descer. Puxou-o pelo antebraço fazendo com que se virasse:

       — Que conversa é essa?, a camionete é nova. — afirmou, mal descolando os lábios.

       Franco apenas sorriu levemente e voltou os olhos para a mão como uma garra no seu antebraço.

       — Sabe o quanto é perigoso para mim esse tipo de situação. — insistiu o fazendeiro.

       — É por isso que tenho de resolver o quanto antes o problema. — retrucou com olhar duro e a mão enfiada no cós do jeans, pronta para pegar a automática. — Fique aqui, no ar-condicionado, patrão, que resolverei isso rapidamente.

       Talvez fosse o modo do garoto falar, sempre baixo, calmo e mordaz. Talvez fosse o olhar de outro mundo, de outras vidas, um olhar insistente e seguro de quem habitava o planeta havia milênios mas com o pé em outro lugar fora dele. Talvez a falta de comunicação com Cuiabá, já que não conseguira completar a ligação, fizessem os pensamentos de Thales rodarem em direções obscuras em relação à sua versão vinte anos mais jovem. Ele temia a verdade.

       — Certo, mas não demore, estamos em menor número, caso os homens do coronel decidam resolver negócios pendentes.

       Cinco minutos depois, o rapaz voltou e falou que eles tinham um pneu furado. Parecia irritado por ter de trocá-lo. Bufando, começou o serviço. Aproveitando a distração do outro com a troca do pneu, Thales tentou mais uma vez falar com Cuiabá. Percebendo, então, que era impossível, juntou-se a Franco, mantendo-se de pé ao seu lado, sem esboçar qualquer movimento para auxiliá-lo.

       — Você furou o pneu quando passou por aquele buraco. — acusou-o, descansando os olhos na paisagem à sua frente, a planície de troncos retorcidos e queimados.

      Um motoqueiro com capacete e roupa escura passou em alta velocidade. Thales bocejou e fez um movimento em direção à camionete. Tentaria cochilar até chegarem de volta à fazenda. Retornava de Barretos, de um estúpido e infrutífero leilão de cavalos. Ansiava por um banho e uma cama. No entanto, não seria nesse momento que descansaria no conforto da cabine da camionete. Voltou-se para Franco ao vê-lo, ainda agachado diante da roda traseira do veículo, fitando a lataria como se estivesse hipnotizado. Era uma imagem estranha. Nada em sua postura se movia além dos cabelos com o vento morno. Pensou em chamá-lo para tirá-lo do que lhe parecia uma espécie de transe, mas não foi necessário. O garoto ergueu-se devagar e falou tão baixo que Thales teve de pedir para que repetisse:

       — Cortaram o pneu. É uma emboscada.

       Ao acabar de proferir a sentença, os dois ouviram novamente o motor de uma motocicleta roncar. Na linha do horizonte, o motoqueiro dera meia-volta para seguir pela pista contrária ao encontro deles. Acelerava, agora, ao ponto de em questão de segundos alcançá-los. Uma de suas mãos foi retirada debaixo da jaqueta jeans escura, a ponta da pistola espiou o alvo e disparou. O estampido seco reverberou pelo prado despojado de veículos.

       Tudo aconteceu tão rapidamente que Thales não esboçou reação. Ouviu o barulho do celular espatifar-se no asfalto e levou a mão ao peito. Baixou a cabeça para ver o sangue manchando a camisa italiana. Não encontrando a nódoa nem a dor, observou a moto distanciar-se e respirou aliviado. Somente depois de certificar-se de que estava fora de perigo, ele viu o rapaz caído aos seus pés. A mancha de sangue estava era na camisa de Franco, na linha do coração. Abaixou-se e tomou-lhe o pulso. 

       — Vou levá-lo para o hospital. Aguenta firme! — ordenou.

       — Não sei se poderei obedecer ao senhor dessa vez... — replicou, com um sorriso frágil.

       O rosto pálido e os olhos toldados por nuvens. Era como se ele estivesse se preparando para partir. O fazendeiro jamais permitia uma transgressão às suas ordens. Pegou-o nos braços e o pôs no banco detrás. Em seguida, pisou fundo no acelerador, a borracha do pneu riscando o asfalto.

       — A 163 matou a minha mãe e me matou. — ele dizia, olhando para o teto, sem conseguir se mexer.

       — Por que não atirou antes de ele atirar, Franco? Por acaso acha que é imortal? — perguntou com rispidez, contraindo os lábios e de olho no retrovisor, vendo-o imóvel.

       — Nasci para salvá-lo. — afirmou numa voz quase sumida.

       Thales sentiu uma contração dolorida na boca do estômago. Não precisou se virar para saber o que havia acontecido.

         

       O relógio despertou no mesmo horário de todas as manhãs, inclusive aos sábados, domingos e feriados. Eram sete horas quando Thales Dolejal, proprietário de fazendas no Mato Grosso e Pará, levantou-se da cama com a testa porejada de suor.

       Nas últimas semanas a angústia assolava-o se transmutando em repetidos pesadelos misturados às recordações reais do seu passado. Acordava com o coração acelerado, após reviver nos sonhos o dia em que Franco levara um tiro para lhe salvar a vida. E ele ainda nem sabia que salvava o próprio pai.

       Agora, separados, esbarravam-se em poucas ocasiões. Na maior parte das vezes, quando Thales ia à prefeitura ou ao seu escritório no centro e observava de longe a picape vermelha estacionada diante da delegacia. Outras vezes, encontrava-o fazendo a proteção armada do coronel Rodrigues quando o último resolvia passar a semana na sua fazenda em Matarana.

       Abandonou-se debaixo da ducha, o jato forte da água morna açoitava a pele de suas costas e aliviava a pressão na nuca. Era um homem que nunca relaxava. A contração de seus músculos revelava-se no raro sorriso, quase sempre forçado, na postura da coluna vertebral ereta e na maneira contida de expor suas emoções. Ao fechar o registro do chuveiro e secar o corpo na toalha e pô-la ao redor da cintura, já havia decidido o que fazer quanto ao filho único. Vestiu-se e desceu para o escritório.

       Abriu os janelões que separavam o ambiente interno da sacada. E, como fazia quando tinha de alinhavar os pensamentos, se pôs diante de suas terras. Empertigou a coluna e ergueu ligeiramente o queixo, aspirando no ar o odor característico das plantações de soja, da terra úmida e da atmosfera morna. Pegou-se retesando os maxilares e passeou os olhos em revista ao prado, encharcado pelos irrigadores eletrônicos, até firmá-los na figueira, a copa alta e densa e galhos como artérias tortuosas.  Quase podia ver os pés de Onório Dolejal balançando no ar. O marco do início de seu reinado, em Matarana, começava ali, naquela árvore que fornecia uma das melhores sombras diante da casa-sede.

       Abandonou a paisagem verdejante e sentou-se na poltrona de espaldar alto. Recostou-se, tranquilamente, uma vez que sabia o que fazer e como fazer. Telefonou para um de seus advogados e determinou que entrasse em contato com o coronel Rodrigues.

       — Peça para que Rodrigues demita Franco. — mandou, sem acréscimo de justificativa.

 

       Para Karen o gosto do fracasso era tão conhecido que despejava da glândula salivar como parte de seu organismo. Todos os dias se sentia a pior de todas. A pior mulher, a pior namorada, a pior mãe. Não tinha uma carreira profissional nem diploma algum. O único patrimônio fora vendido para um coronel sem farda. Um futuro incerto e a certeza de que por mais que lutasse jamais alcançaria o primeiro lugar no pódio. Nem o segundo. Porque ela não era uma mulher de sorte. Era tão-somente uma gladiadora na arena farpada. Uma pessoa que se reconhecia sem disfarces ou hipocrisia. Karen Lisboa sabia muito bem quem era. Ela era a vaca louca que corria desvairada pelo prado. Ela era aquela que trincava os dentes a cada surra da vida. E, ainda assim, conseguia respirar o ar mais puro da cidade.

       Uma nesga de sol se espalhou pela mesa do bar. Estavam em Santa Fé, e as nuvens se juntavam para despejarem água sobre a região. Desde pela manhã, o cinza chumbo era a cor predominante sobre a brancura regular. Avançando pouco a pouco e rompendo o colchão de fumaça, nuvens densas ameaçavam pôr um fim à estação do estio. Em algumas horas, uma tempestade transformaria a paisagem e o clima. Mas Karen somente pensava em sorver a sua cerveja e acertar os detalhes da primeira corrida do semestre.

       Everaldo desaparecido, ela precisava agendar as suas próprias corridas. Vitorino, braço direito do coronel Marau, organizava a competição.

       O circuito se estendia de Matarana a Santa Fé, em lugares vigiados por um grupo de pistoleiros das fazendas locais. Um novo fôlego para a competição. Apenas dois cavalos correndo a distância de cem metros já não rendiam boas apostas. Era preciso incrementar as disputas. O fato de uma mulher deixar os caubóis para trás comendo poeira, não era mais uma novidade capaz de arrancar a grana da audiência para apostas de alto nível. Ela entendia o ponto de vista de Vitorino. Boa parte dos apostadores trabalhava nas fazendas. Uma vida dura e desgraçada. Duas vezes por semana, eles se reuniam para beber cerveja ao redor das picapes e dos cavalos e fazer suas apostinhas. Valia pelo dinheiro extra. Quase nada, ninguém enriquecia. No entanto, valia também pela adrenalina, os gritos, os xingamentos, o coração na boca. Bêbados e calejados, vibrar à beira da estradinha de chão batido era melhor que pescar no Rio Verde ou jogar bocha na praça.

       — Vale tudo para chegar até o fim. — começou Vitorino, citando as novas regras: — Emparelhar animal com animal, se jogar para cima do adversário e lutar no chão. O primeiro a voltar a montar e cruzar a linha de chegada é o vencedor.

       — Que merda é essa? Não vou machucar o Prefontaine. — disse resoluta.

       — Ninguém quer que os bichos se machuquem. Acha que é fácil manter um cavalo? — falou impaciente. — Não entendeu. Vale tudo é para os humanos. Meter a mão na cara, soco na barriga, a porrada pode comer geral desde que, — nesse momento ele fez uma pausa de suspense e continuou em um tom significativo: — volte pra cima do cavalo e ultrapasse a linha de chegada.

       — Não sei, não, é muito violento. — ponderou, franzindo o cenho.

       — Olha só, ninguém usará armas, terá revista. Além disso, o coronel bancará as apostas. Todas começarão a partir de dois mil reais. O que acha?

       As corridas eram ilegais. As apostas eram ilegais. E as regras da competição absurdas e violentas. Ela vivia com um policial que seguia as regras da legalidade. Dividia a cama com um homem que acreditava que o certo era fazer as coisas certas. Karen fazia as coisas erradas. Que, às vezes, davam certo.

       — Não bato em irmã. — afirmou convicta.

       Vitorino engasgou-se com o gole de cerveja. Apertou os olhos e exclamou entre surpreso e ligeiramente irritado:

       — Por Deus, que tipo de pessoa pensa que sou? Nada de freiras competindo! Que é isso, porra?!

       Karen suspirou impaciente e tirou o outro da ignorância:

       — Quis dizer que não bato em mulher. Se outra doida resolver correr será apenas em cima do cavalo, não cairei no chão com ela. Agora, quanto aos caras, sem problemas, meto a mão até tirar sangue.

       — Ô dona Karen, acha mesmo que tem outra doida como você competindo?

       — Sempre aparece uma. — deu de ombros e refrescou a sua memória: — Lembra aquela lésbica de Belo Quinto?

       — Ah, claro, a do moicano, mas ela tinha brigado com a namorada e precisava descarregar a raiva praticando esportes. — falou ele, com um sorrisinho ao lembrar-se da cena. Os homens enlouquecidos enquanto duas mulheres loucas de fúria pegavam fogo sobre os cavalos. — Que corrida! Teve cara que nem usou Viagra naquele dia, sabia?

       Karen torceu o lábio para baixo, emborcou o resto da cerveja e se ergueu para sair.

       — Se o delegado de Matarana souber alguma coisa sobre essas corridas, homem nenhum precisará mais de Viagra porque não terá o que levantar. Entendeu, Vitorino? — prometeu com uma carranca dos diabos.

       O outro riu pela boca e pelo nariz, fazendo um som estranho.

       — Acha que sou louco? Quem quer o caubói da lei nos seus calcanhares? — resmungou.

       O braço direito do coronel meteu os olhos azuis no traseiro da mulher que atravessava o bar sem olhar para ninguém, as passadas largas, o caminho aberto pelos olhos e a fúria contida. Era uma fêmea de ossos grandes e carnes revestindo músculos sempre tensos. Se Matarana entrasse em guerra, os generais recrutariam aquele soldado. Até ele, Vitorino, homem criado à base da força e aspereza, tremia ao vê-la estreitar os olhos escuros antes de engatilhar e fulminá-lo com palavras. Tinha guerra no sangue, aquele vulcão chamado Karen Lisboa. Era possível que nocauteasse seus próximos adversários.

       Porém, o dia em que ela caísse e fosse enfim destruída, ele encheria os seus bolsos de dinheiro.

       Seria, então, um dia bom.

         

       O manga-larga galopava pelo prado seco e batido, a terra à mostra, agredida, exposta como uma doença no couro cabeludo. Os cascos do animal socavam forte, as pernas estiravam-se, os músculos pressionavam o couro. Ele levava em sua montaria o homem que preferia reconhecer os seus domínios no interior da camionete de luxo com ar-condicionado a fazê-lo como naquela tarde, quando decidira cavalgar até cansar o corpo. O vento morno balançava o chapéu Stetson e ameaçava arrancá-lo de sua cabeça. Avistou um emaranhado de árvores de copas altas e frondosas e decidiu apear para que Nero descansasse. Thales puxou ligeiramente as rédeas até se ver debaixo dos eucaliptos que os protegiam do sol escondido por entre as nuvens de fumaça.

       Ainda não estava cansado o suficiente para voltar para casa. Acendeu um cigarro com a mão em concha e tornou a guardar o isqueiro no bolso traseiro do jeans. Os olhos azuis varreram a amplidão do terreno à sua frente. Se fosse um tipinho emocional em vez de cavalgar até distender um músculo estaria enchendo a cara com o puro malte escocês. Mas não fora criado para ser um fraco. As surras do velho Onório serviram para alguma coisa, afinal.

       Recriminou-se por ter esquecido os óculos escuros sobre a mesa do escritório, toldou os olhos com a mão e não avistou vivalma por aquelas bandas. Livrou-se da camisa, o suor escorria-lhe pelo tórax largo. Possuía a constituição física grande apesar de não passar dos um metro e oitenta. O abdômen enxuto e as coxas que forçavam o tecido do jeans não foram forjados com equipamentos. Se a musculatura do seu corpo de 42 anos era como a de um jovem de menos de 30, devia-se ao trabalho duro no garimpo, quebrando pedras, carregando outras, como um infeliz apanhando da vida. O que o transformara em um bruto. Um sofisticado empresário do agronegócio. Mas um bruto.

       Naquela tarde, ao voltar de uma reunião na sede do partido político de um dos seus advogados, que disputaria a eleição à prefeitura de Matarana — ele decidiu queimar energia para controlar a vontade de procurar Karen. O noivado com a texana recrudescera a vontade, sempre refreada, de tê-la sob seu jugo outra vez. Além de não ser um fraco também odiava perder. Mesmo que a tivesse dispensado, aberto a porteira para ela ir embora. Esperava que voltasse. Rastejando, ganindo, implorando. Mas voltara armada e disposta a matá-lo. Ah, Karen, você conseguiu. Atingido por um raio que o partira em dois. Duas metades de si que se enfrentavam em uma luta constante e sem vencedores. Ora desejava-a de tal forma que tinha de cavalgar pelo prado para aquietar cada milímetro do corpo, ora desprezava-a ao ponto de enojar-se por tê-la como amante por dez anos. Uma vaca egoísta. Uma meretriz. Como a mãe de seu único filho. Somente vadias, todas, como a noiva texana paga a dólar; uma negociata entre ele e o pai da loira bulímica. No entanto, o que realmente incomodava Thales Dolejal era a mudança no comportamento da ex-amante. À época em que estavam juntos, ela transara com pelo menos quinze infelizes. Uma infidelidade bastante leal. Mas desde que se amontoara na casa do delegado jamais soubera que pulara a cerca. Talvez Karen Lisboa tivesse realmente medo da polícia, pensou com ironia, sabendo de antemão que Rodrigo Malverde mantinha silenciosa e eficiente campana ao redor de sua suposta mulher. Até quando Karen se deixaria ser vigiada era outra questão. Thales sabia tudo sobre ela, tivera-a debaixo de si muito mais vezes que o seu atual amante e qualquer outro homem que ela possuíra na vida. Mais dia menos dia, ela pularia a cerca e fugiria outra vez. Uma mulher selvagem não merecia o cabresto. 

       Um corte abrupto separou-lhe dos seus devaneios. Ao celular, Bronson.

       — Patrão, a Lúcia quer mais dinheiro. A menina está cada vez mais esganada. — o segurança sempre ia direto ao ponto.

       Lúcia...

       — Quem? — indagou impaciente.

       — A ex-mulher do Everaldo. Está ameaçando abrir a boca, falar com o delegado. Diz que a mesada é minguada demais, quer parar de trabalhar e...

       — Viver de chantagens? — interrompeu-o, perguntando num tom de deboche, alçando a sobrancelha diante da ousadia da outra.

       — Bem, ela acha que merece mais, pôs na cabeça que a mentira inventada para o delegado rende mais do que mil reais por mês.

       — É mesmo? — ironizou, acrescentando um tom de rispidez ao prosseguir: — Então, ela quer contar ao Rodrigo que o Everaldo foi contratado para matar o Mendes? Humm, é certo que o delegado fará dessa investigação a missão de sua vida. — concluiu, permitindo-se pensar alto.

       — Pois é, patrão. O problema é que não sabemos o quanto o Everaldo sabe. — o pistoleiro coçou o cabelo grisalho e oleoso e continuou: — É melhor não arriscar.

       — Que merda, Bronson, não consegue resolver isso?

       — Tentei, cheguei ao ponto de pedir para que deixasse isso quieto. Poderia recomeçar a vida e até viver comigo inclusive. Sabe, a Lúcia é bonitinha, novinha e só quer alguém pra proteger ela.

       — Mas é uma vagabunda. — interrompeu Thales com secura. — Diga para me ver hoje à noite. Vou mostrar, Bronson, como se trata esse tipo de gente.

       O fazendeiro tornou a montar no manga-larga. Puxou as rédeas indicando ao cavalo o caminho a seguir.

        

        Não era para ele estar naquele lugar. Definitivamente, não. Dispensara um churrasco com a família em função do trabalho. E, ainda por cima, não fazia ideia de onde estava sua namorada.

       Quando Rodrigo Malverde entrou no Colono Tranquilo a confusão já estava instalada. Ele ajeitou o chapéu, erguendo ligeiramente a aba e tornando a baixá-la, para ter uma visão melhor da cena que se desenrolava no pior bar da cidade. Pôs as mãos nos quadris e descansou o corpo nessa posição. Avaliava a situação. E a situação era a seguinte: um garoto esquálido, cabelo loiro, seco e sujo, rosto avermelhado e olhos injetados do tamanho de ovos fritos, apontava a faca para quem ousasse aproximar-se dele. Vestia jeans duro de poeira e uma camiseta que um dia fora da seleção brasileira de futebol, um modelo amarelo-morreu, roubada do varal de algum incauto. A faca ainda não fora usada, como o delegado bem observou ao mascar pela terceira vez o chiclete que, logo depois, foi cuspido na lixeira ao seu lado. Sim, ele sempre estava perto do lixo. A faca ainda não fora usada porque estava limpa e o inox refletia as sombras distorcidas dos rostos dos policiais e de mais três camaradas que haviam decidido se embebedar na hora errada.

       Observou com atenção, sem mover um músculo da face, o dono do bar atrás do balcão com uma espingarda apontada para a cabeça do garoto surtado. Ao fundo, entre a jukebox e uma vassoura piaçava, um quarentão segurava uma garrafa quebrada e a posição de seu corpo sugeria que estava prestes a atacar. O problema era que ele estava torto de bêbado e balançava como se dançasse a chula em câmera lenta ao redor da outra vassoura que jazia aos seus pés. A nata da sociedade mataranense reunida no bar com iluminação precária e furos de projéteis nas paredes de madeira. A nata mesmo — conjecturava Rodrigo, desviando o olhar do homem da chula para o guri da fissura — uma vez que a parte do leite que se grudava na língua para ser logo cuspida era de fato a nata. Enganchou dois dedos no cós do jeans e apontou o indicador discretamente para o dono do bar. Falou numa voz suave e determinada:

       — Larga essa merda e cai fora. — não era uma sugestão.

       Como o outro bancou o surdo, ainda empunhando a arma como a cruz diante de satã, o delegado teve de raspar a garganta e, mantendo os olhos no guri com a faca, se impôs:

       — Ô amigo, quer que eu chame a Bonnie para pegar a sua arma ou prefere essa policial bonitona para algemá-lo à caçamba da minha picape?

       O dono do bar tivera problemas com a própria mãe lá pelos seus seis anos de idade. E, desde então, era resistente a autoridades femininas. Entretanto, ele conhecia muito bem o caubói da lei, o cara que mantinha a ordem e os trilhos retos em Matarana. Conhecia também Adele, que lhe apontava a Glock com a mãozinha gorducha cheia de anéis. Manuel, proprietário do Colono Tranquilo, sabia também sobre a fama de louca-na-TPM da cadela dobermann do delegado. Então por que simplesmente não deitar a espingarda sobre o balcão, devagar, erguer as mãos e procurar uma saída para manter a dignidade intacta e o ego bem calibrado. Era melhor obedecer à lei do que ser preso por porte de arma, por exemplo.

       — Esse guri está chapado! Entrou aqui fugindo de não sei quem. Já estava armado, se enfiou debaixo das cadeiras e depois começou a ameaçar a gente. Já disse!, chapadão, o desgraçado.

       — Muito bem, fez o seu relato, agora, retire-se do recinto. — ordenou Rodrigo, olhando para Manuel, a sua visão periférica captando movimentos aqui e ali. E, antes que o viciado avançasse na direção do dono do bar, falou com aspereza: — Fique onde está, João Alfredo Marau!

       Adele fez um gesto irritado com a mão chamando Manuel e indicando a porta de saída. Baixou a arma e tornou a travá-la. Os outros dois policiais eram militares, da singela corporação da cidade. Meia dúzia de PMs para ficar de olho em 13 mil habitantes. Em uma terra de pistoleiros, a segurança pública cedia espaço e função à privada. Os endinheirados caprichavam na ração dos seus seguranças, forneciam habitação de primeira nas fazendas ou em quartos de hotéis da região. Compravam-lhes a lealdade e a discrição. Os pobres, por sua vez, se defendiam como dava. Ora esperando pela boa vontade da polícia militar, ora se associando aos traficantes de drogas da região, um grupinho ainda modesto que plantava maconha no quintal de casa. A escrivã relançou um olhar para o garoto com a faca e, depois, para o delegado e concluiu:

       — É óxi, chefe. — fitou o relógio no pulso — Mais uns minutinhos, e ele voltará ao normal, quero dizer, acaba a maluquice.

       Rodrigo assentiu lentamente, apesar de não estar com paciência para esperar o efeito da droga passar. Pela aparência do neto do coronel Marau, esquelético, cheio de manchas na face, as narinas dilatadas de medo e os ossos dos maxilares projetados contra a pele áspera, a conclusão de Adele parecia perfeitamente razoável. A paranoia característica do uso do óxi, assim como a do crack, alterava o comportamento do viciado. A maconha dava-lhes um ar de idiotas inofensivos. Mas a rapadura do diabo, como era apelidado o óxi, tornava-os loucos e agressivos. E como não enlouquecer se eles fumavam-no em latas e cachimbos com a pasta base das folhas da cocaína acrescidas com querosene, gasolina, fluído de bateria e cal virgem?

       Ergueu as mãos e procurou manter contato visual com João que, arfando e olhando para tudo e todos nervosamente, tremia a mão que ameaçava esfaquear alguém.

       — Escute aqui, cara, vou me sentar e esperá-lo ficar calminho. — ele falou devagar.

       Fez o que disse, puxou a cadeira sem desviar do semblante transtornado do jovem. Ele emitia um ruído alto e rouco, mas não falava. O seu olhar falava por si. Havia muito de medo e desconfiança.

       — Vamos nos acalmar? — insistiu o delegado, fazendo sua pergunta retórica enquanto punha as duas mãos sobre a mesa — Não usarei minhas armas, e você larga essa faca no chão. Combinado?

       — Falar com drogados é falar com as portas. — debochou Adele, sentindo o olhar fixo do chefe sobre si: — Oh, desculpa minha falta de humanidade! Pouco me importa se esse piá tem 14 anos ou 32. Ele tinha tudo na vida e largou para ficar agachado no meio do mato fumando o cachimbo da guerra. — resmungou.

       — Ok, Gandhi às avessas, quer levar todo mundo para fora e me deixar aqui com meu novo amigo? — alçou a sobrancelha à espera que a escrivã se retirasse e levasse consigo os policiais militares que aguardavam qualquer vacilo do garoto para encherem-no de porrada.

       Ele não precisou pedir uma segunda vez. A escrivã fez um sinal para os PMs seguirem-na. Relançou um olhar para o guri, ainda com ar de tresloucado e com a faca espetada no ar, sem mexer um centímetro do lugar onde estava. Em seguida, deu um tapinha amistoso no ombro do chefe e sussurrou:

       — O Marau pouco se importa com o garoto, viu? E a mãe não quer vê-lo nem pintado de ouro. Parece que roubou até as calcinhas dela. — piscou o olho e saiu, seguida pelos homens de uniforme e coturno.

       Rodrigo inspirou pesadamente enquanto se ajeitava na cadeira, espichando as pernas e cruzando-as debaixo da mesa. A ideia era diminuir a tensão no ambiente. Por isso chispara os colegas de ofício. Riscou o fósforo e acendeu um cigarro. Por trás da fumaça, com as pálpebras semicerradas, percebeu um filete de urina escorrendo por entre as pernas magras de João, e o fato de ele estar urinando significava o quanto sentia pavor, tomado que estava pelo efeito da droga. Seu pensamento, então, voou para Johnny e, essa rápida e profunda viagem, custou-lhe uma contração de angústia no peito. Não era justo uma criança sofrer tanto, ele pensou.

       — Quem está atrás de você? — indagou num tom brando para transmitir segurança, mergulhando no delírio a fim de acessar a sua mente.

       Quando João falou não abaixou a faca nem relaxou na postura de quem espera por um ataque para atacar. Descolou os lábios secos, dilatou as abas do nariz e soltou palavras impregnadas de veneno:

       — Eles estão escondidos e vieram pra me levar. Eu sei o que digo! — insistiu, elevando a voz, o olhar desvairado. — Não tenho como escapar. — e, dizendo isso, fez o inesperado, virou a ponta da faca para si à altura do abdômen.

       Rodrigo deu um salto da cadeira, sacou sua automática e, fechando a cara numa expressão de raiva contida, perguntou sem gritar mas com bastante ênfase:

       — Onde eles estão, João? Quer ser salvo? Me diz onde eles estão? — franziu a testa, alçando as sobrancelhas salientando a interrogação.

       A cabeça do menino tremia como se ele tivesse Mal de Parkinson. Não tinha medo da arma apontada em sua direção, de nenhuma delas. Quando se voltou devagar para o fundo do bar, o braço estendido, o dedo indicador mirado para a fileira de zumbis cuspindo sangue à espera de lhe estraçalharem o corpo, respondeu balbuciando:

       — Ali... todos... Eles estão ali.

       Foi tudo o que Rodrigo ouviu. Descarregou a pistola e decorou com mais buraquinhos a parede do Colono Tranquilo. Os policiais entraram afoitos, revólveres em punho e pararam antes de alcançarem a metade do bar, debaixo do lustre de pingentes de plástico, comprido e empoeirado. Adele surgiu por trás dos militares, a feição constrita que logo se fez em um sorriso de satisfação. Tudo bem com o seu chefe, não matara ninguém à toa.

       Rodrigo ergueu a arma, sinalizando aos policiais que estava tudo certo. Depois tornou a enfiar a Glock no cós dianteiro do jeans e recebeu, para o seu espanto, um abraço trêmulo e apertado. João, viciado e infeliz, chorava contra o corpo do delegado. Constrangido, não sabia o que fazer com os braços e com aquele corpo frágil escorando-se no seu como uma boia de salvação. Não o abraçou, mas se deixou ser abraçado. Voltou-se para a parede onde antes havia uma vassoura piaçava, agora, baleada.

       Ele não permitiu que algemassem o menino agarrado à sua cintura. Fez um sinal com a mão para se afastarem. Fitando Manuel perguntou com a cara de poucos amigos, induzindo-o à resposta pretendida:

       — Vai registrar queixa?

       Manuel deu de ombros, subitamente, envergonhado.

       — Bem, ele não machucou ninguém, só afugentou uns bêbados... Além disso, caindo aos pedaços ou não, ainda é um Marau, melhor deixar quieto, doutor.

       Rodrigo sorriu com escárnio e voltou-se para João. Afastou-o de si o suficiente para encará-lo e dizer:

       — Vamos ter uma conversinha com sua mãe. Conheço um lugar em Santa Fé que cuidam de humanos com problemas. Lá, é impossível que os mortos-vivos o alcancem, entendeu?

       Recebeu um olhar molhado e pesado de dúvida e insegurança. Foi aquele olhar que detonou o início de uma caçada. Já bastavam os latifundiários gananciosos, os pistoleiros sem escrúpulos, a Vila Zumbi apodrecendo à beira da estrada, as emboscadas, o dinheiro sujo e a especulação imobiliária. Não, o tráfico de drogas jamais dominaria Matarana.

       O delegado ajeitou o chapéu de caubói e levou a mão maquinalmente ao peito, como se tocasse na estrela do xerife.

         

       Ele tinha os olhos de Thales. E a postura de um Dolejal. Agora sabendo de sua origem, Nova se sentia ainda mais fascinada com a aparência do pai de seu filho. O loiro à sua frente, sentado sobre uma das caixas de papelão com livros ou panelas – ela, emocionada ao revelar a Franco sobre a gravidez já não mais conseguia ler a etiqueta – tinha um dedo sobre o lábio num gesto que denunciava a sua preocupação. Acabava de saber que aos vinte e dois anos seria pai. Digeria a novidade em silêncio. Vagueava por uma estrada que somente ele conhecia e tinha permissão. O cabelo cor do trigo e sempre despenteado caía-lhe sobre a face bonita e circunspecta. Havia poucos minutos enfiara-se no banheiro e se trancara à chave. O barulho da água jorrando na pia. Um som abafado e rouco. Ele chorava. E, ao ouvi-lo chorar, os olhos de Nova encheram-se de lágrimas.

       Tudo o que ela mais quisera na vida fora encontrar o amor para, enfim, pari-lo nove meses depois. Ele estava dentro do seu ventre crescendo, respirando, vivo. O homem que realizara o seu sonho era um pistoleiro, segurança de fazendeiro criado pelo abandono e pela rejeição. Os piores pais. Mas o filho de Dolejal superara a própria origem e destino. Completamente desapegado da fortuna que o esperava do outro lado de uma porteira tantas vezes arrancada do solo. O herdeiro de um imponente feudo desfizera-se do conforto e luxo em nome do amor. E também da falta do amor.

       Quando saiu do banheiro, a ponta do nariz avermelhada, ela examinou a expressão do seu rosto.

       — Me diz que está feliz, por favor.

       — Isso é importante? — ele rebateu sem olhá-la, sentando-se numa das caixas, procurando os cigarros apalpando os bolsos da camisa e do jeans.

       A pergunta pegou-a de surpresa. Ficou observando-o acender o cigarro e o tragando fundo enquanto balançava a cabeça e jogava ligeiramente as mechas loiras para trás. Havia uma nota arrogante naquele gesto, um resquício de pose de superioridade que costumava usar quando na defensiva. Por causa de tal atitude ela anunciou a sua devida posição no mundo, mesmo o amando como Yoko amou John:

       — Se não está feliz em ser pai, a gente fica por aqui. De minha parte, já me sinto realizada, o meu sonho sempre foi ser mãe. — falou com calma, permitindo-se um sorriso autoconfiante.

       — Não sabe o que está falando. — disse sério, as sobrancelhas quase juntas.

       — Sei exatamente o que quero, Franco. Cabe a você decidir o que fazer.

       — Nossa, que mulher desalmada! — debochou com um sorriso torto e emendou: — Deve estar bem feliz do feito, não? Engravidou de um merda como eu, sem eira nem beira e com a genética ruim. Sabe o que teremos? Um mutante; metade humano, metade Dolejal. — acrescentou com escárnio.

       Nova tentou permanecer séria, mas Franco estava tão carrancudo ao dizer tamanha asneira, que ela acabou rindo. Pôs a mão sobre a boca para disfarçar. Ele percebeu e contraiu os ombros, fingindo indiferença.

       — A metade Dolejal vai estar na cor dos seus olhos, meu anjo loiro. Nunca vi um azul tão lindo como esse. — falou, aproximando-se dele o suficiente para vê-lo todo, o sulco no meio da testa, o esgar de amargura no canto esquerdo da boca, a pupila escura centrando o universo que explodia em fachos de azul, cambiando para o prata, o azul claríssimo, o branco, milhares de raios atraindo-a para dentro de si, hipnotizando-a e a pondo sob seu domínio. Viu-se ajoelhada ao seu lado, as mãos apertando-lhe os pulsos para tê-lo concentrado no que ela dizia: — Você é tudo para mim, não se diminua porque assim eu também ficarei pequena. Vamos criar esse moleque juntos.

       — Nunca pensei o contrário, dona. — resmungou, sorrindo de leve, e acrescentou: — Acontece que sei de onde vim e, de lá, nada é bom.

       —Você é bom. — enfatizou.

       Ele riu de um jeito estranho e, esmagando o resto do cigarro no cinzeiro, falou:

       — Devia ter se casado com o Rodrigo. Os dois veem bondade em quem não presta.

       — É, eu até tentei seduzi-lo, mas ele já estava apaixonado pela Karen.

       Franco fechou a cara.

       — Claro que sim.

       — Que tal a gente comer os nossos sanduíches e terminarmos de arrumar as coisas, hã? Logo o caminhão da transportadora chegará para começar a mudança. — disse, erguendo-se e olhando ao redor. Era prudente que mudasse de assunto.

       — A gente vai casar. — determinou, empinando o nariz em desafio.

       Nova riu com vontade.

       — Por quê? Pensa que meu pai virá de Minas para apontar uma espingarda contra a sua cabeça? – brincou.

       O pistoleiro estreitou os olhos avaliando-a. Era visível que não gostara do tom de brincadeira e deboche que ela usara. Sem elevar a voz, disse:

       — Não, quando ele me conhecer, é provável que aponte para a sua. — enfatizou para, em seguida, se pôr de pé e completar: — A questão é que você é minha mulher e quero ter um papel com isso escrito e registrado. Letras bem grandes, entendeu?

       — Que besteira, Franco.

       — Caramba, Nova, nem pense em não querer casar comigo! — ele falou com rispidez. — Não é um pedido, minha filha, é uma ordem!

       — Ridículo! Vai casar comigo porque estou grávida... ridículo...caipira idiota!, — pôs as mãos na cintura e começou a zanzar por entre as caixas espalhadas na cozinha: — tosco, retrógrado...  banana conservador!

       — O que está falando? — indagou intrigado: — Metade do que disse não entendi, mas sei que não é coisa boa. — reclamou.

       — Olha só, Franco Dolejal, não me casarei porque estou grávida. Isso não existe mais, pelo amor de Deus!

       Ele arou o cabelo com as mãos, nervoso.

       — Ai, ai, ai, Nova, acha que quero casar só porque está prenha?

       — Grávida, grávida, use a palavra certa! — corrigiu, zangada.

       — Amo você, ô esquentadinha! — puxou-a para um abraço e, apertando-lhe o rosto entre as mãos, asseverou convicto: — E quero ser o marido da mulher mais linda do mundo.

       Ela sentiu o calor dos lábios que entreabriram os seus. Um afago leve, um veludo de carne levemente úmida. Bocas que se roçaram com ternura. E ele tornou a se afastar e olhá-la nos olhos. Sério, intenso e completo. Um olhar completo que a revirava por dentro e bagunçava a organização de seus pensamentos, os mais sensatos e decentes. Ele vasculhava a alma incendiando-lhe o corpo. Sem tocá-la. Os braços soltos ao longo do corpo. Os pontos da barba. O cheiro dele. Nova era viciada no cheiro dele. Era viciada nele.

       Franco baixou a cabeça e aproximou novamente seus lábios dos dela. Não a beijou. Fechou os olhos aspirando o ar que saía dos pulmões de Nova. Sem nenhuma pressa, afagou-lhe o rosto com o dorso da mão.

       Havia tamanha doçura nos gestos dele que ela ficou sem ar, impotente diante da beleza do momento. Queria-o dentro de si, amá-lo e fazê-lo feliz. E foi assim que o carinho se transformou em necessidade física. Tomou-lhe o lábio inferior chupando-o com vontade enquanto suas mãos se enfiavam por debaixo da camiseta dele, ganhando a pele morna e fresca. Colou-se ao seu corpo alto e forte, os pés subiram sobre as suas botas e os braços rodearam-lhe o pescoço, trazendo-o ainda mais para si. As pernas moles como gelatina. Não havia mais chão nem gravidade. Dois corpos ocupavam o mesmo espaço. Ela esfregava os seios nele, sentindo contra o corpo a dureza de sua virilidade. Desceu a mão e deslizou-a pressionando a parte frontal do jeans. Gemeu dentro da boca que a beijava com desespero, um gemido arfante, o prazer de uma bela constatação.

       Num átimo, Franco afastou-se e puxou a camiseta pela cabeça, jogando-a em qualquer parte da cozinha. Parou, encarando-a profundamente, dando-lhe tempo para degustar a imagem de seus músculos definidos, a plenitude e frescor de seus vinte e poucos anos. Então ele sorriu e era um sorriso que convidava ao prazer.

       Ela retribuiu o sorriso e despiu-se devagar. Livrava-se de cada peça de roupa sem deixar de encará-lo. Ao tocar no cós da lingerie, ele fez um sinal de contenção com a mão e falou numa voz arrastada de desejo:

       — Eu tiro a sua calcinha.

       A palavra “calcinha”, no timbre rouco e masculino, pareceu-lhe extremamente sensual.

       — Sim, Franco, tira a minha calcinha... — concordou num tom de pedido, de súplica, de quem tem o rosto inchado de sangue e debaixo da pele o calor inflamado. Sim, Franco, pulo da ponte. Sim, Franco, te seguirei de olhos vendados. Sim, sim, sim...

       Abandonou-se a ele como escrava de sentimentos e sensações que a consumiam sem enfraquecer. Viu-o abaixar-se, ajoelhar à sua frente, e descer com delicadeza, lentamente, a roupa íntima. Segurava-a pelas tiras laterais, pressionando ligeiramente a pele de suas coxas, joelhos, panturrilhas, tornozelos... Depois voltou pelo mesmo trajeto, sem a lingerie. Somente a carícia erótica de sua boca. E ela precisou se apoiar na ponta da mesa para não desabar.

 

       Após morar uma semana em um apartamento alugado no centro, Cristiano Bittencourt decidiu se mudar. Gastou semanas inteiras rodando pelas ruas principais até se dar conta de que continuando a morar perto do trabalho seria ainda mais consumido por ele. Mesmo que toda a sua vida se resumisse a tratar e cuidar de crianças, Cris temia que seus plantões de setenta e duas horas não fossem suficientes para acalmar o diretor do hospital. Todavia, desde que Nova se fora, virar noites sem dormir parecia mais saudável que fechar os olhos e sonhar com ela. E o diabo.

       Em um dos jantares na Arco Verde, Dolejal sugerira que fosse morar no Solar dos Sulistas, um de seus prédios na cidade. Na cobertura a oito andares do chão e cinco quadras do hospital. Um apartamento por andar. Três dormitórios, gabinete, suíte com hidromassagem e piscina no terraço. Paredes envidraçadas. Mezanino no segundo andar, mármore, inox e elevador panorâmico. Um luxo para poucos.

       Entre um gole de vinho branco e outro, o fazendeiro dissera-lhe:

       — Fique por lá, desde que construí o prédio não consegui comprador para a cobertura. Parece que dinheiro e sofisticação não andam de mãos dadas por aqui. — sorveu a bebida e completou em um tom de enfado: — Tem um advogadozinho que está me rondando para adquiri-la, quer assentar a sua puta enquanto a mulher e os cinco filhos comem poeira em Belo Quinto. Mas sabe como valorizo a família e os bons costumes. — disse com ironia.

       Cris sorriu, assentindo.

       — É aquele assessor da prefeita? — deduziu sagazmente.

       Thales balançou a cabeça em afirmativo. A prefeita de Matarana era apoiada pela família Marau. Havia duas eleições consecutivas que se mantinha no poder. Ainda que não fossem aliados, ele e a prefeita não eram inimigos. Thales admirava a mulher que criava sozinha uma adolescente que, vez ou outra, publicava histórias sobrenaturais em seu jornal. Para o próximo pleito, o latifundiário paulista já preparava o seu concorrente. Apostava em outro advogado, um dos seus, que trabalhava no departamento jurídico de seu grupo empresarial.

       Entretanto, os pensamentos do médico rodavam em outra direção. À mesa do jantar, diante de um de seus melhores amigos e pai do seu único inimigo, Cris conjecturava fazer algo por Nova, algo que lhe garantisse um futuro seguro e digno. Não precisava de uma bola de cristal para prever a brevidade daquele relacionamento.

       Agora, sentado no único móvel na sala para dois ambientes, as venezianas fechadas, a escuridão envolvendo-o e combinando com os vinte graus do ar-condicionado, ele ouvia Chopin e sentia mais do que nunca a falta dela, de sua companheira de vida e empreitada no centro-oeste. Por ele, Nova se enfiara na terra de ninguém e se envolvera com um bandido. Para ela, Cris comprara a cobertura, registrando-a em seu nome. Pedira a Dolejal que mantivesse segredo, porque um dia Nova voltaria. Quando o encanto e a projeção acabassem, ela voltaria para ele. E cada móvel e acessório do apartamento que ainda não tinha história para contar seria decorado por ela. Era somente uma questão de tempo.

         

       Adele parou à entrada e analisou o que via. Cruzou os braços e procurou não chamar atenção. Era mais fácil investigar em silêncio e nem sempre se encontrava em uma posição privilegiada como aquela. Admirou o traseiro do chefe estufado no jeans, pequeno e durinho, encimado pela cintura estreita e os ombros largos cujas rótulas salientes faziam um desenho sexy debaixo da roupa. Uma parte das fraldas da camisa xadrez estava para fora da calça e as mangas dobradas despojadamente até os cotovelos. Diante do fogãozinho de duas bocas, Rodrigo Malverde queimava a pedra encontrada no bolso do neto do coronel, apreendida ao ser revistado.

       O delegado sentiu uma presença e voltou-se. Sorriu de leve ao perceber Adele novamente de olho na sua retaguarda. Às vezes, ele tinha a impressão de que ela o via como um bolinho de um metro e noventa. Quando estava mal-humorado, esse tipo de olhar malicioso e, mais do que isso, guloso, irritava-o. Tinha vontade de dizer-lhe que não era um objeto sexual, que era um homem com sentimentos e, além disso, porra!, o seu maldito chefe! No entanto, na maior parte das vezes, divertia-se ao ser comido com os olhos.

       Apontou para a fumaça escura que se dissipava lentamente pelo recinto e afirmou:

       — Como pensávamos, é óxi.

       Um dos testes para identificar o tipo de pedra era queimá-la em uma panela. Se a fumaça fosse branca, a pedra era de crack. A cor da fumaça revelou o destino da cidade como numa bola de cristal. O tráfico de óxi atravessara a fronteira com a Bolívia e começava a fincar seu domínio na parte norte do centro-oeste.

       — Eu sabia. — disse Adele, forçando-se desviar os olhos das veias grossas que despontavam debaixo da pele morena dos braços dele. Continuou, chamando-se à razão: — Vou arrancar do piá o nome do traficante que vendeu para ele as pedras.

       Rodrigo assentiu levemente e determinou:

       — Sim, faça isso. Depois, vou cruzar a fronteira, quer dizer, a 163, e fazer uma visitinha à Vila Zumbi.

       A última batida na vila com os policiais militares rendeu um tiroteio. Além de uma prisão, a de um ladrão pé de chinelo. Os traficantes foram avisados sobre a chegada da polícia. Ao longe, os camaradas galopando pela planície e se misturando à vegetação. Adiante deles, camionetes importadas levando consigo os clientes dos traficantes.

 

       Era a primeira vez que Lúcia Moela, ex-senhora Everaldo Viegas, adentrava a casa de um ricaço. O choque foi tremendo, e ela cuidou para não esbarrar em nada caro. Mas tudo era caro. Colou-se a Bronson ao atravessar a sala de três ambientes e subir a escadaria até o escritório do fazendeiro que podia lhe render uma boa vida.

       Logo que entrou, percebeu que aquela parte de Matarana era menos mormacenta e empoeirada. O céu não estava azul, já que ameaçava despencar uma tempestade. Entretanto, o ar era menos selvagem e árido. Havia brisa, um cheiro de eucalipto e frescor. Talvez os ricos também comprassem a atmosfera. E percebeu também que o dono daquele lugar e de muitos outros metia medo. Ele tinha uma beleza impressionante, como pudera perceber quando o via descer e subir na Silverado preta que atravessava a cidade ou nas raras vezes que ela ia ao centro sacar dinheiro no caixa eletrônico, no andar térreo do prédio em que se localizava o escritório dele. Obviamente, o fazendeiro jamais a percebera. Caminhando com o queixo erguido, passadas largas e uma leve contração de desdém na comissura dos lábios, Thales Dolejal pertencia a outro plano da existência, inacessível a pessoas comuns como Lúcia. Apesar disso, observando o cabelo castanho claro, cortado como os militares da Força Aérea, os olhos grandes e azuis e o corpo atlético vestido nas roupas sociais, ela se sentia atraída por ele do mesmo modo como ao se postar à beira de um precipício. Lúcia era acrofóbica.

       Bronson deteve-se à soleira da porta e cedeu-lhe passagem. O cinquentão marcado por bolsas embaixo dos olhos possuía expressão imperscrutável.  Durante o caminho inteiro entre a casa da stripper, do outro lado da cidade, até a Arco Verde, mantivera-se calado ao volante. E agora a conduzia discretamente para diante do patrão.

       — Entra, Lúcia. — falou baixo, o timbre rouco de quem fumava muito.

       Ela assentiu com a cabeça, intimidada pelo ambiente nada acolhedor.

       Foi-lhe difícil vislumbrar o fazendeiro sentado na cadeira de espaldar alto, detrás da escrivaninha de vidro e aço, o notebook ladeando o telefone sem fio. A luz claríssima avançava pelos janelões envidraçados e tornava a figura do homem à sua frente um vulto com contornos bem definidos. Mas era apenas uma moldura.

       Quando ele se ergueu sem pressa, a luz ao seu redor o acompanhou. E parecia que era dele que se irradiavam os raios solares que, por dois ou três segundos, cegaram-na. A stripper toldou os olhos com a mão e viu muito mais do queria. Atrás de Thales Dolejal, cerca de dez homens com seus chapéus, armas na cintura, jeans surrados e camisas empoeiradas. Era a segurança armada da fazenda.

      Instintivamente, ela se voltou para o outro segurança. Bronson ignorou-a, ocupado em obedecer ao patrão a qualquer momento. Descobriu, então, que estava outra vez sozinha. Os elogios, as conversas assistindo à tevê, as promessas de algo mais no futuro, bem, isso Lúcia já não via nos olhos servis do pistoleiro. Mas via que debaixo dos seus pés e sobre o sofá, atrás de si, havia uma forração plástica estendida. A garganta secou ao descobrir que caíra em uma armadilha.

       — Como vai, Lúcia?

       Ela se assustou com o tom suave daquela voz, um veludo quente, quase um sussurro. Imaginava-o rugindo ou rosnando ao invés de falar. Porém, Lúcia ainda pensava no plástico debaixo de suas sandálias e na sua serventia. De repente a minissaia e o top de lycra denunciavam-lhe a nudez. Porque, além de sozinha e nascida mulher, ela viera para Matarana sem a benção do destino como uma espécie de amuleto para ganhar da vida. Visto que da morte era impossível qualquer vitória.

       — Bem, senhor Dolejal. — respondeu sem encará-lo.

       Contraiu-se como uma folha seca. O fazendeiro circundou a própria mesa, parou e sentou-se na beirada. Tal gesto obrigou-a a olhá-lo. E foi o que Lúcia fez. Viu um homem bonito, bem vestido e extraordinariamente limpo.

       — O que pretende com isso? — a voz saiu num tom normal, apesar das felpas de aço.

       Por certo, referia-se a sua intenção de pedir um aumento na mesada que estava diretamente ligado à chantagem. Engoliu em seco. Antes, negociando somente com Bronson, o plano pareceu perfeito.

       — Não tenho como impedir a volta do Everaldo. — tentou ganhar tempo e prosseguiu: — Falei pro Bronson que não quero prejudicar o senhor, não quero mesmo. — enfatizou.

       — De que modo acredita que possa me prejudicar?

       Ela levantou os olhos, aturdida. Havia tamanha serenidade no timbre de sua voz, que, por um momento, confundiu-se na cena.

       — Abrindo a boca. — balbuciou.

       Ele assentiu com a cabeça, levemente, e fitou as próprias mãos cruzadas sobre as coxas de forma displicente.

       — E quanto vale o silêncio de uma dançarina de boate viciada em crack? — indagou com a mesma serenidade, retocando cada palavra com pinceladas de ironia. — Não sei se é um valor tabelado. Talvez possamos chegar a um consenso. — fez uma breve pausa e emendou agora contundente: — Por outro lado, o fato de mencionar o xerife põe abaixo qualquer perspectiva de entendimento entre nós. — ele ameaçou um sorriso e finalizou: — Então, sinta-se à vontade para correr até a delegacia e contar que você mesma inventou uma historinha de dívida para encobrir o assassinato cometido pelo seu marido.

       — Não contarei nada, senhor Dolejal. — o lábio inferior tremia.

       — Mulheres do seu tipo são confiáveis? — ele alçou a sobrancelha como se realmente se interessasse pela resposta. Voltou-se para Bronson e perguntou: — Posso deixá-la sair e acreditar que não debandará para os lados do delegado?

       — Eu cuido dela, patrão. — disse o mais velho, resoluto.

       Até poucos minutos atrás, Lúcia teria ficado aliviada ao ouvir tal afirmação. Mas já não sabia mais se Bronson cuidaria dela para protegê-la ou fazê-la desaparecer.

       Thales levantou-se e pôs as mãos nos bolsos laterais da calça social. Tomou a postura de quem pronunciaria uma sentença. Ele não costumava inocentar os réus. Punia-os, ela bem o sabia. Tantos camaradas expulsos da cidade... tantos desaparecidos...A verdade era que ela nunca enfrentava um homem, pois sempre que o fizera, a punição era a perda de uma parte de si. Dente, mecha de cabelo, lasca de pele, sanidade. Acatou o veredicto, cabisbaixa, percebendo que os pistoleiros aproximavam-se.

       Um metro e sessenta, talvez menos. Magra e trêmula. Era incrível como a valentia das mulheres da vida sumia quando enfrentavam cara a cara um oponente que as conhecia muito bem, pensou Thales. Fez sinal para um dos seus homens e perguntou:

       — Que tipo de música toca no inferninho da Lúcia?

       O camarada riu debaixo de suas sardas e chacoalhou a cabeça como se a alusão a tal lugar o levasse de fato para lá.

       — Ah, sei lá, patrão. — deu de ombros, rindo-se, e completou: — A gente enche a cara e fica surdo.

       Diante da inutilidade do funcionário, ele se voltou para o outro com mais tempo de serviço, experiência e lealdade:

       — Ponha uma música para a moça se apresentar para nós. — e, virando-se para ela, que o fitava com os olhos arregalados, comunicou com bastante calma: — Você vai dançar, Lúcia.

       — Por quê?

      — Entenda como um ritual, uma espécie de dança da sorte. — debochou.

       Bronson então cometeu um erro. Pôs para tocar a música proibida. Lapso ou uma leve provocação, o pistoleiro deixou Fagner começar “Deslizes” impunemente. O fazendeiro crispou os lábios ao ponto de forçar os ossos dos maxilares contra a pele. Era o hino dos cornos ressoando pelo ambiente e era também a mensagem do chefe da segurança ao patrão: eu também sei o seu ponto fraco.

       — Desliga essa merda. Ela vai dançar sem música. — determinou com rispidez.

       Mais uma vez obedeceu-lhe. A lealdade a Dolejal era desmedida, mas, por outro lado, Bronson era um cara calejado, que vivera na pobreza até comprar uma loja de pneus em Palmas, depois falira e se atolara em dívidas. Em vez de pagá-las, adquiriu uma Kombi e se bandeou para Santa Fé, em seguida, Matarana. Fora contratado por Onório Dolejal e presenciara as surras que o então moleque e depois adolescente Thales levava do avô. Microempresário falido, ex-matador de aluguel, capanga de fazenda e chefe da segurança da Arco Verde, ele impunha respeito sem forçar a barra, apenas nos detalhes. Forjado pela brutalidade da vida daqueles que comem poeira sem se engasgar, não era um cara estúpido nem sofrera lavagem cerebral. Às vezes, era preciso dar um leve corretivo no ainda moleque Thales.

       Às gargalhadas, os pistoleiros se chegaram e esperaram de pé, atrás do dono de tudo, começar o show.

       Ele acendeu um cigarro. Voltara a postar-se sentado na beirada da escrivaninha. Enquanto a fumaça enchia-lhe os pulmões, observava a mulher miúda e magra balançando o corpo com lentidão, sem jeito, mal afastando os pés do chão, os joelhos juntos, o cabelo loiro caindo pra frente do rosto, já que não tinha coragem de erguer a cabeça. Mais de dez homens fitavam-na. Um e outro gemiam alto, debochando. Thales deixava a coisa rolar. Não interferiu quando um deles agarrou a stripper e a abraçou dançando junto com ela. Relanceou o olhar para Bronson. Não havia nada para olhar, o velho apenas observava as intenções do subordinado. Um momento interessante aquele — Thales pensou, quase sorrindo, uma stripper constrangida ao dançar para o seu público.

       Ela tremia o queixo e as pernas finas. Feia e acabada. A beleza que Bronson vira estava mais nos olhos dele do que naquela mulher.  As mãos com unhas roídas até o talo empurravam o rapaz que, até havia pouco tempo, seguia Franco pela fazenda como o espectro o médium. Era alto, forte, ruivo e pretensioso — como boa parte dos ruivos o era, palavras do antigo chefe da segurança. Talvez fosse a pretensão do ruivo que o incentivara a se exibir diante de todos. Thales não se importava com gente fora dos eixos. Continuou impassível observando a moça tentando se afastar do inconveniente. Ao perceber que o seu homem forte tencionava separar o casal e proteger a sua vagabunda particular, Thales o conteve com apenas um gesto, a mão erguida e um leve sorriso. Foi o suficiente para detê-lo.

       No empenho em se livrar do brutamonte, Lúcia escorregou e caiu de joelhos. O camarada riu e tentou erguê-la. Antes disso, virou-se para o patrão a fim de se orientar quanto à direção dos ventos. Parado com as pernas abertas, arfando e um sorriso endemoniado na face, Paulo, aos 18 anos, sabia que fazia a coisa certa. Esperava se tornar o braço direito do patrão, ocupar a posição deixada por Franco. Agora, pelo menos, aguardava apenas que humilhar a chantagista contasse pontos ao seu favor. Mas o maior problema do sujeito pretencioso era a cegueira. Paulo era tão cego que não prestou atenção nos detalhes, como Bronson sempre o fazia. E foi o último que reparou na palidez no rosto do patrão, o olhar fixo nas cicatrizes marcadas nas costas de Lúcia, riscos sinuosos e rosados, bonitos até, de uma beleza que doía em quem os vissem.

       Thales via a si mesmo naquelas feridas cicatrizadas. O espancamento da stripper era o espelho do seu próprio espancamento. Vítimas se encontravam, e uma delas ainda queria ferir.

       — Quem fez isso com você? — o tom era duro e enérgico.

       Ela voltou-se com os olhos rasos de lágrimas e uma vontade muito doida de correr pelo cerrado até enlouquecer a sua última gota de lucidez.

       — Aquele que não me bateu com palavras.

       — Responda! — elevou a voz.

       O primeiro relâmpago riscou o céu escuro e anunciou o fim do estio e a tempestade que separava uma estação da outra. Imediatamente, um vendaval soprou forte venezianas, portas e vidraças da casa.

       Assustada com a rispidez do homem à sua frente, Lúcia resolveu dispensar o ressentimento e entregar o seu algoz.

       — O Júlio, dono da boate onde trabalho.

       — É somente ele que a espanca ou são todos? — sondou-a, o semblante carregado.

       Ela fungou e respondeu:

       — Ele acha que passo a perna nele... Só o Júlio me bate, mas não adianta fazer nada. Pensei em dar queixa... — deu de ombros e prosseguiu, vencida: — Mas pra quê?, se ele vai me moer de pancada assim que eu voltar da delegacia...

       Thales sorriu com desdém e falou:

       — Esse tipo de problema a gente mesmo resolve. — em seguida, virou-se para Bronson e ordenou: — Fale com alguém do comércio e consiga uma colocação para ela. Incentive os caipiras a empregá-la com um salário justo e enfatize que é minha protegida. — voltando-se novamente para a mulher que não sabia se olhava para Bronson ou para o maldito plástico aos seus pés, perguntou: — Onde posso encontrar esse cafetão de merda?

       Mais tarde, Lúcia perguntou a Bronson sobre a mudança repentina no comportamento do fazendeiro. Porém, ele respondeu que era melhor aceitar o seu destino e calar a boca. Então a stripper insistiu, querendo saber sobre a forração plástica.

       — O patrão mandou pintar as paredes do escritório, por quê? Cada um forra o chão com o que quer, ora! Isso não é problema seu, menina.

       Até o fim de seus dias, Lúcia seria leal a Thales Dolejal. Além de não matá-la, arranjou-lhe emprego e deu um jeito de Júlio, o cafetão espancador, nunca mais caminhar.

         

       Móveis, quadros, cortinas, tapetes e acessórios decorativos. À beira do Rio Verde, a casa de alvenaria e tijolo à vista, ampla, avarandada, cercada pelos canteiros de rosas e margaridas parecia congelada no tempo, sedimentada como um fóssil. Até mesmo o cheiro no interior de cada ambiente permanecera do jeito que Cris abandonara antes de partir, levando apenas suas roupas e artigos pessoais. Ele não partira, de fato, pois deixara para trás uma parte da história de ambos. No abajur de pé, Nova via o jantar após a compra da luminária, a excentricidade do amigo na escolha do vinho e a corrida até o carro enquanto a chuva despencava torrencialmente. Ao lado, a estante com os livros, órfã dos de Medicina e alguns de Robin Cook, Kundera e Graciliano Ramos. Mais adiante, os porta-retratos exibindo fotografias de um casal abraçado e sorrindo para a câmera, um casal romântico que nunca vingou. Vingança maior era a do pediatra ao manter a casa mobiliada para que o novo amor da amiga se sentisse deslocado. Contudo, quem se constrangeu foi Nova, parada à soleira da porta, em dúvida sobre qual decisão tomar, enquanto o céu escurecia-se e torturava as nuvens com descargas elétricas raiadas de prata.

       Manteve a porta afastada sem abri-la de todo. O motorista do caminhão de mudança e seus ajudantes desciam caixas e móveis com agilidade, certos de que a qualquer momento um dilúvio acabaria com a civilização. Três homens revezavam-se empilhando tudo o que ela juntara nas poucas semanas vividas no bangalô do condomínio de Karen e depositando sobre a calçada em frente à sua nova velha casa. Voltou-se para eles, mordendo o lábio inferior, num gesto que revelava incerteza e ansiedade. Seu olhar foi interceptado por um míssil preparado ferozmente para sondar os seus mais profundos pensamentos. Franco, soltando as cordas que prendiam o sofá da sala sobre a caçamba da sua picape, largou o que fazia e se aproximou dela. A face séria e a vontade de escavar a sua alma até encontrar o que sabia que deveria encontrar.

       — O que ele fez? — indagou, franzindo o cenho.

       Nova suspirou profundamente contendo um palavrão. Ela estava cansada de arrumar os utensílios domésticos, desmontar móveis e separar objetos para a mudança. Não contava que abriria a porta de casa e descobriria que os seus próprios móveis, comprados com o dinheiro e a liberdade de escolha de uma pessoa disposta a recomeçar, não caberiam ali. E, ainda por cima, um vento forte começava a dar sinais de vida. Fez um gesto com mão, sinalizando à frente, a sala mobiliada.

       — Foi o que ele não fez. — resmungou.

       Era de se esperar que Franco rejeitasse os vestígios de Cristiano. Esperado e aceito, Nova pensava, vendo-o observar atentamente cada peça sobre o assoalho de madeira, caminhando com bastante precaução no terreno que, poucos dias atrás, pertencia a outro homem. Parou junto ao batente da porta que fazia a divisa entre a sala e a cozinha, pôs as mãos nos quadris e indagou:

       — Isso incomoda você, princesa?

       Balançou a cabeça em afirmativo e completou ao gesto:

       — Esse agora é o lar da nossa família, Franco. Não quero nada que não seja nosso.

       Ele sorriu, ajeitou o chapéu puxando a aba para frente, quase escondendo os olhos. Pegou o celular e digitou para alguém que o atendeu prontamente.

       — Tenho umas coisinhas para doar. — em seguida, foi até a mulher, tocou-lhe a face com o dorso da mão e completou para o seu interlocutor — O pessoal gostará de ganhar uns móveis estilosos, não é, Bronson? — piscou o olho para Nova. — Veja qual família precisa, só tem coisa boa, e manda alguém buscar aqui antes do temporal. — dito isso, encerrou a ligação e assegurou-lhe que seus ex-colegas de trabalho da Arco Verde limpariam qualquer resto deixado pelo antigo morador.

       — Obrigada. — agradeceu com um sorriso cúmplice.

       A dupla estava funcionando, ela conjecturou, aceitando dois braços fortes ao redor de sua cintura puxando-a para si.

       Ele se afastou e perscrutou-lhe a feição. Encontrou a devoção de sempre.

       — A dona ficará sentadinha, aqui, descansando. Não quero ver você carregando peso.

       Podia objetar afirmando que não era uma inútil. Até considerou rebelar-se ou fingir-se de ofendida, afinal, era a única mulher entre tanta gente do sexo oposto. Mas preferiu o caminho mais fácil, sorriu, concordando.

       — Tudo bem, meu amor, mas não pense que passarei a gravidez inteira descansando, viu? Amanhã mesmo volto para o Gringo. — advertiu-o com brandura.

       — Claro, eu sei. — assegurou, conduzindo-a pela mão até o sofá de Cris e puxando-a para si, bruscamente, falou: — Mas saiba que sua escolta já está reservada. Não haverá uma noite sequer que andará pela cidade sozinha. Sou o seu anjo protetor, a sua sombra e... — baixou o tom da voz até quase um sussurro ao seu ouvido: — o seu dono.

      Ao erguer o rosto para encará-lo compreendeu a seriedade da afirmação. Franco olhava-a com intensidade e era possível que esperasse novamente por uma objeção ou algo feminista e bem urbano. No gesto de alçar as sobrancelhas levemente — característica peculiar dos Dolejal, captou Nova, um desafio silencioso lançado à tarde do dia que escurecia e se arrastava em um turbilhão de terra vermelha.

       — Sim, — balbuciou seduzida pelo sentimento de pertinência: — você é o meu dono, Franco. — reafirmou, a sensação de leveza parecia arrancá-la do chão.

       Deitada, espichou-se até soltar a musculatura tensa. Acordaram cedo para terminarem de empacotar e embrulhar os apetrechos da cozinha. Apesar do oferecimento de ajuda por parte de Val, Nova não queria sobrecarregá-la, já que o funcionamento da casa dos Lisboa e Malverde dependia do gerenciamento da amiga. Vó Ninita continuava batendo perna na rua, Johnny na escola, Sabrina entre o curso de enfermagem e o namoro com Eduardo e Karen agendando corridas, sobrava para a futura dona de confeitaria administrar a casa que passava por reformas. Era verdade que Rodrigo e Franco revezaram-se na arrumação para a mudança. E ela supervisionara de perto o trabalho dos dois que, a cada dia, se tornavam próximos. Rodrigo possuía um tipo de carisma à prova de balas e à prova de pistoleiro durão, como Franco.

       Assustou-se ao ouvir os motores das camionetes da Arco Verde. Levantou-se do sofá que seria enviado diretamente para a casa de um dos funcionários de Dolejal. Foi até a cozinha desviando o olhar do que poderia atraía-la para algum pensamento inconveniente. Evitava pensar em Cris. O tempo em que o amara era carregado de drama, incerteza e dependência emocional. E ela não vivia mais esse tempo.

       Sentou-se no primeiro degrau da escadinha que levava à área coberta no pátio onde eles costumavam estacionar seus automóveis. Apertou-se aos joelhos flexionados, ouvindo a algazarra dos homens mexendo na mobília e carregando-a para fora da casa. Naquele momento solene em que tudo recomeçava no mesmo lugar, ela impediu-se de se autoanalisar. Manteve a atenção nos galhos mais altos de uma palmeira. Balançavam com ferocidade, o tronco mantendo a árvore segura no solo. Acariciou o abdômen, agora, a parte mais importante de seu corpo. Ao longe, ouviu a voz que enchia suas veias de paixão:

       — O doutor é um idiota, mas tem bom gosto.

       Ela riu e voltou-se para ele, concordando.

       — Cris é um homem sofisticado.

       — Fresco, você quer dizer. — debochou, afastando-se com um quadro adquirido em uma galeria de Belo Horizonte. Em seguida, ele avisou: — Tem um celular berrando, aqui, na sala!

       Ao atendê-lo, a voz feminina e hesitante preferiu confirmar alguns dados.

       — É a dona Nova Monteiro do Jornal do Cerrado?

       Nova considerou esclarecer que não trabalhava mais como jornalista. Pelo visto, a notícia ainda não se espalhara pela cidade. A bem da verdade, até mesmo o fato de ela estar namorando o pistoleiro do coronel Rodrigues ainda não tinha ganhado as orelhas dos fuxiqueiros de Matarana. Por outro lado, o fragmento de hesitação ou ponderação dissipou-se ao descobrir que a jornalista dentro de si não se demitira de sua vida.

       — Sim, quem está falando?

       — Meu nome é Bety e li o que a senhora escreveu sobre os colonizadores da cidade, esses ricaços cretinos esbanjadores de uma figa! E quero que saiba que a senhora é a porta-voz dos mais fracos. Ninguém nunca falou a verdade sobre a fundação desse paraíso para poucos. Quero ajudar a derrubar essa cambada! — grunhiu a outra.

       — Não entendi. — resolveu pisar no freio.

       — Sou vizinha do Teobaldo. Sabe o Teobaldo, né?

       — Sei, sim... — concordou, expectante.

       — A gente tem que se ver, dona Nova.

       — E por quê?

       — É sobre o assassinato do Teobaldo Vilela.

       — Como?

       — Isso que eu disse.

       Nova sentiu a mão de Franco sobre o seu ombro, voltou-se para ele e tentou sorrir. Foi retribuída por um sorriso jovial enquanto um filete de suor escorria-lhe pela têmpora, demonstrando o seu cansaço. Do outro lado da linha, Bety completou:

       — Vamos conversar, dona Nova. Moro na casa nos fundos da imobiliária Vilela. Acho que a senhora se interessará sobre o que tenho para dizer.

       Nova queria perguntar por que não relatava o que vira ao delegado.

       — Falou com alguém?

       — Sou mãe de família, passo pra senhora a informação e deixo que decida o que fazer com ela, sem me envolver.

       Franco beijou-lhe o topo da cabeça, encheu um copo com água e voltou ao trabalho.

       — É sobre quem o matou?

       — Amanhã, à tarde, dona Nova.

       E desligou.

         

       Acendeu os faróis do Fusca 75 enquanto trafegava pela avenida principal. O céu imerso no violeta profundo era ricocheteado por breves explosões de eletricidade. A noite chegara mais cedo naquela tarde de domingo. E o Volks engasgava na troca da marcha.

       Karen praguejou alto, o cigarro no canto da boca, o chapéu de vaqueira deitado no banco ao lado. Pisou no acelerador e passou em frente à construção moderna que lembrava uma galeria comercial, mas era apenas o templo católico. O jardim verdejante, mesmo durante a estação da seca, irrigado vinte quatro horas por esguichos eletrônicos plantados no solo, ao lado das hortênsias e rosas de diversas cores. Um paisagista de Brasília fora contratado para planejar o jardim que antecedia o arco de ferro ladeado por palmeiras-imperiais. As missas eram realizadas por um padre que tinha por costume (ou obrigação profissional) visitar o seu rebanho, quinzenalmente, ao volante de uma Hilux com cabine refrigerada e CD player com MP 3. O dízimo pago pelas ovelhas seguia a cotação média do dólar comercial.

       O vento forte levantava do chão sacos plásticos e sacolas e carregava para o alto folhas, papéis e uma faixa grossa de poeira. O estrondo dos trovões e os relâmpagos faziam as pessoas correrem como formiguinhas desesperadas atrás de proteção. E assim que o redemoinho de terra se formou à sua frente, Karen ergueu o vidro lateral e manteve o do passageiro abaixado. Não queria sufocar dentro da lata de sardinhas barulhenta, com motor batido e a correia ganindo como um porco a caminho do matadouro.

       Ao parar diante da sinaleira, deitou a cabeça para trás e suspirou resignada. Ela não era mulher para um Fusca, definitivamente, não; merecia algo melhor, uma espécie de Prefontaine de quatro rodas, pensou, fitando o volante original que se assemelhava a um bambolê com aro de metal e botão de buzina.

       Passou em frente à delegacia e reduziu a velocidade. Não lhe custava nada investigar por onde andava o delegado. Digitou os números do celular dele. Antes que o segundo sinal se completasse, bateu os olhos na Silverado que vinha na sua direção contrária. Imediatamente, reconheceu o motorista. Tentou desviar o olhar e ignorá-lo. Mas o que fez a amedrontou muito mais que a mudança nas regras das corridas que disputaria em breve. Desligou o celular antes de Rodrigo atender. E, enquanto a chuva caía pesadamente em gotas grossas arrastadas pelo ciclone, ela esperava que o tornado provocado pela visão de Thales lhe escapasse pelas orelhas, nariz e boca. Garganta seca e o sangue engrossando quente nas principais artérias. Raiva e frustração, algo maior, inominado, à semelhança de um paroxismo vulcânico a fez pular para calçada e quase quebrar o vidro ao bater a porta do carro.

       Parada, açoitada pelo vento e a torrente de água gelada, Karen desafiou o antigo amante para um duelo. Já fazia algum tempo que ela desejava encontrá-lo. Na última vez levara um .38 para presenteá-lo com um ou dois projéteis nos genitais. Agora apenas queria chamá-lo para briga. Porque ainda tinham certas coisinhas para acertarem. Dez anos não se apagavam assoprando-se velinhas. No início de tudo, ela o amara e acreditara que o seu futuro era ficar com ele até o fim. O resto de ilusão e inocência entregues àquele que decidira que ela serviria para o sexo casual, com dia e hora marcados na agenda. Pois bem, já chegara a hora de sacarem as armas no meio da avenida enquanto os raios explodiam acima de suas cabeças. Nada como esperar o momento certo, quando a dor era tão suave que se sedimentava entre as costelas forçando a medula. Ela sabia que a redução na velocidade da camionete era proposital.

       A água molhava-lhe o cabelo longo e preto, e escorria pelo rosto o que poderiam ser lágrimas. Mas não o eram. Karen raramente chorava; ela batia, gritava e punha para correr.

       Esperava que um relâmpago levasse a Silverado para o inferno. A tempestade não cedia, e Thales Dolejal, o homem que lhe fora quase a segunda pele por uma década, desceu da camionete. Havia tanta palavra não dita nos olhos fixos nos dela que Karen empinou o nariz para se impor àquela força brutal. Debaixo da chuva, parados à espera do primeiro movimento, ambos se mediam testando a resistência do tempo separado ou do tempo vivido, juntos, consumido por brigas, quedas de braço, paixão e infidelidade.

       O ressentimento empurrou-a para frente, avançando no primeiro passo, e ela viu o esboço de um sorriso no rosto que poucas vezes sorria. Entendeu que, para ele, a vitória era certa. Ela se jogaria aos seus pés como quando era mais jovem e menos lúcida, nos primeiros anos de paixão desenfreada e cega. Fazia tantos anos, e Karen crescera, abrira os olhos e aprendera com Thales mesmo que precisava armazenar oxigênio para não morrer de rejeição. Retribuiu o sorriso com a segurança de quem provou o veneno e sobreviveu. Quase agradeceu ao algoz, mas lembrou que o havia amado e fora reduzida à sua amante eventual. Se fosse sensata, dava-lhe as costas e o arrancava de sua vida como um siso inflamado. Mas o que era a sensatez para quem tinha coragem? Um soco no estômago, de dentro para fora, o peso de uma mão e a fúria. Cerrou os punhos e, com passadas largas, avançou contra o vento e a chuva que lhe tornavam pesados pálpebras e cílios. Tiraria sangue da nobreza feudal. Ninguém a impediria de se vingar.

       Os olhos azuis brilhavam de prazer admirando o fogo dentro do jeans e da camiseta. Não era à toa que aquela mulher deixava-o fora de si. Por ela, cometera atos que possivelmente o trancafiariam numa cela. Um crime a mais ou a menos, ele pouco se importava. Desde que Karen ainda o colocasse como prioridade em sua vida, arriscando-se a ser pega em flagrante pelo amante delegado, tentando atacar o que corria em suas veias como uma droga. Manteve-se à espera de sua aproximação, cruzou os braços, essa era a melhor parte.

       Ela mergulhou a sola das botas na poça d’água sem se abalar, sem desviar os olhos dos dele, sem olhar para trás. Não havia nada atrás. Apenas ele e ela.

       Até que a polícia chegou.

       — Karen! — a voz do delegado alteou-se acima dos trovões.

       Como uma corda firmemente esticada e enrolada à sua cintura, viu-se paralisar entre os dois homens. A percepção de Rodrigo atrás de si a imobilizou por alguns segundos. Era como se voltasse a pensar, a raciocinar. Tudo o que tinha a fazer era ignorar o seu lado viciado e primitivo e correr para os braços do seu amor.

       Ela encarava o ex-amante sem conseguir se mexer. O estranho era que jamais o havia visto tão bonito, a expressão facial melancólica misturada ao desdém, as roupas encharcadas. E, mais do que todo o conjunto, a violência da atração.

       — Não lute contra o inevitável, Karen. — ele disse com arrogância. — Até quando enganará o mocinho da história se passando por boa-moça? — emendou com um sorrisinho que a irritava sobremaneira.

       — Karen! — novamente o chamado da lei.

       — Maldito, temos algumas pendências para resolver. — ela afirmou, entredentes.

       Rodrigo aproximou-se, a cara de poucos amigos expressando o que sentia no meio de tudo. Cumprimentou Dolejal com um aceno de cabeça e voltou-se para a mulher, incisivo:

       — O que houve com seu celular?

       Karen virou-se para ele e respondeu com naturalidade:

       — Tempo ruim, sabe como é. — em seguida, tornou a encarar o fazendeiro e provocou-o: — Era tão bonita a amizade de vocês, e ainda dizem que as mulheres são desunidas.

       — Algum problema, Thales? — Rodrigo atacou primeiro, desafiando o outro por debaixo do chapéu pingando água, e era somente por estar molhado que não voava de sua cabeça.

       — Nenhum. — afirmou impassível.

       — A conversa entre vocês terminou ou pretendem lavar a roupa suja em público? — perguntou com dureza, olhando para um e outro à espera da resposta.

       Karen notou os maxilares forçando-lhe a pele e as veias das têmporas salientes. Ele jamais perdia o controle. Voltou-se e sorriu, procurando amenizar a situação. Ao vê-lo, perdera um pouco o pique para a briga. O lado claro e arejado de sua vida abria sol por entre nuvens de chumbo.

       — A chuva acabou lavando a sujeira, amor. — disse com estudada meiguice que cambiou para o deboche logo após. — Cuidado apenas, Dolejal querido, para não desaparecer em um desses bueiros, sabe? — enganchou o braço por debaixo do de Rodrigo. — Os ratos merecem companhia melhor.

       — Vamos voltar para casa, Karen. — determinou Rodrigo, apertando-a contra si e lançando um olhar significativo ao fazendeiro que se mantinha imperturbável e parado como que soldado ao asfalto.

       — Ei, Rodrigo, — chamou-o e aguardou que o outro lhe desse atenção. Então sentenciou calmamente: — aproveite bem o tempo que terá com o que é meu. 

       Karen pulou para atacá-lo, a raiva era tamanha que lançou um rosnado baixo ao se projetar para frente. Rodrigo foi ágil o suficiente para agarrá-la pela cintura e contê-la. Puxou-a contra si e abraçou-a tentando acalmá-la.

       — Não perca a cabeça, meu anjo. — beijou-lhe a testa, sentindo o corpo da namorada estremecer em contrações violentas; e, encarando o fazendeiro, completou: — Sejamos adultos, ok? Acho que um dia desses vocês têm de ir a um lugar público e conversar. Precisam resolver essas tais pendências para poderem continuar a viver na mesma cidade.

       — Vou é meter uma faca nele, isso, sim. — grunhiu ela, com o rosto contra o peito de Rodrigo.

       Thales deu-lhes as costas, circundou a camionete e antes de entrar, fez-se ouvir:

       — Não tente, delegado. — o tom era baixo e beligerante quando continuou: — Simplesmente, não tente. A sua ponderação fede à covardia. Não esqueça que a lei aqui é feita por mim, e você não passa de uma casca de pipoca entre os dentes. Sem a minha proteção não é ninguém, vale menos que o seu chapéu.

       — Está me ameaçando? — estreitou os olhos, avaliando-o.

       — Entenda como lhe for conveniente. Às vezes, Rodrigo, o destino tem de interferir em certas questões, ora com uma transferência, ora com uma emboscada. Ninguém está livre do seu destino, ninguém, meu amigo.

       Desestabilizar. Quando as ondas do mar tomavam sua forma, a única ação destrutiva do tornado era soprar contra elas, desestabilizando a naturalidade do movimento. Thales era a ação contrária, o vento negro derrubando telhas e arrancando árvores da raiz. Ao passo que a Rodrigo restava a missão de pôr tudo em ordem.  A Silverado avançou na avenida amassando os restos do que ficava para trás. Coube ao delegado observar o estrago da tempestade. E era somente o início da estação.

       — Por que sempre tenta salvar o mundo, Poliana? Isso é verdadeiramente irritante. — ironizou Karen, desvencilhando-se dos braços de Rodrigo e se encaminhando de volta ao Fusca. Enquanto se afastava, falava alto, por cima do barulho da chuva e dos trovões: — Sei me virar sozinha, acha mesmo que preciso de sua intervenção de homem centrado? Me poupa, Rodrigo, conheço esse desgraçado e sei muito bem como pô-lo na linha!

       — Pô-lo na linha? — ele já estava novamente de posse de seu braço, pressionando-lhe o cotovelo com a mão fechada em garra. Não lhe deu tempo para responder e a puxou ao seu encontro: — Está armada, Karen? — perscrutou-lhe a expressão.

       — É claro que não! — elevou a voz, mantendo os olhos firmes nos dele.

       Ele arrastou-a sem cerimônia em direção à delegacia.

       — O que é agora?

       —Vamos sair debaixo dessa chuva e conversar. — determinou praticamente arrastando-a bem firme e sem sentir resistência alguma por parte dela.

       — Ah, nem vem, nada de discutir a relação, tenho o estômago fraco pra isso. — zombou, percebendo que mal precisava caminhar quase flutuando acima do chão, presa e conduzida pelo braço forte e musculoso do seu namorado.

       Ao entrarem na recepção, cortada pelo balcão que separava o corredor da sala da escrivã e do investigador, Karen deu de cara com Adele. Tentou sorrir e ser espirituosa:

       — Como vai, querida?, ainda incentivando o tráfico de muffins?

       Adele fitou o chefe, que lhe enviou um olhar sério, e respondeu:

       — Não culpe a intermediária, Karen. — tentou brincar. Queria mesmo era mandar longe aquela mulher descabeçada que não valorizava o homem que tinha, pensou a policial.

       — Vou quebrar a Rita vadia, me aguarde! — prometeu Karen, sorrindo com deboche enquanto varria com os olhos o balcão cheio de cestas decoradas com laços e guarnecidas com os doces de Rita. — Ela não sabe que estamos de coisa, Rodrigo? Você precisa dar um basta nesses doces libidinosos!

       Ele a ignorou até o momento de arrastá-la para dentro de sua sala. Empurrou a porta com o pé sem deixar de fitá-la ostensivamente, o rosto sério e concentrado no que viria a seguir. Deu dois passos, arrancou o chapéu e o jogou sobre a escrivaninha, irritado. A voz saiu baixa e obstinada ao ordenar:

       — Me dê a sua arma!

       — Está de brincadeira? — pôs as mãos nos quadris e emendou exasperada: — Você apreendeu o meu .38 quando fui tirar satisfações do desgraçado na Arco Verde. Não falei nada, mas sei muito bem que passou a mão no meu revólver! — empinou o nariz.

       — Revólver sem registro, por sinal. Eu podia tê-la posto atrás das grades como já fiz com muita gente por aí. — aproximou-se como um puma espreitando a presa.

       — E por que não me prendeu, senhor certinho? — desafiou-o com ar superior.

       — Acha que está acima da lei?

       — Não, delegado, só quero que um dia a lei fique do lado do mais fraco. — ironizou.

       — É mesmo? Talvez eu tenha que proteger o Dolejal então. — retrucou no mesmo tom.

       Ela sorriu sem jeito, mas não perdeu o rebolado:

       — Aproveita e dorme com ele também.

       — É o que você tem vontade de voltar a fazer, Karen? — perguntou, sondando-a com atenção.

      — Pode ser que essa minha raiva seja um sintoma de abstinência, não é, mesmo? Ele é a droga que meu corpo sente falta. Quem sabe? — respondeu irônica, debaixo da língua, o gosto da raiva contida. — Não tente medir forças comigo. O último que fez isso larguei como um chiclete mastigado. — falou com amargura.

       Sentia prazer em machucar Thales. Pelo menos em tentar atingi-lo. Entretanto, ferir Rodrigo era uma experiência dolorosa para ela.

       Ele estava colado contra o seu corpo e o semblante de quem mantinha o demônio na coleira revelava o quanto se controlava. Mais uma vez. Dois dedos em gancho tocaram-lhe o queixo erguendo o seu rosto. Um sentimento forte e profundo escureceu os seus olhos castanhos. Tal constatação a fez estremecer e lembrar que estavam no começo, no período de adaptação.

       — Sei que me abandonará, não sou burro nem nasci ontem. Só não quero que seja tão cedo. — ele disse de forma tão natural, que era como se aceitasse a convivência com um câncer. Antecipando-se a sua reação determinou sereno: — Mas antes que isso aconteça, não quero que faça nenhuma bobagem maior que me deixar. Agora, vire-se que vou revistá-la.

       Atordoada pelo o que acabara de ouvir, apenas lhe obedeceu, afastando as pernas e os braços. As palavras haviam-lhe sumido. Deixou-se ser tocada pelas mãos grandes que tatearam a sua perna esquerda até o início da coxa e depois desceram em sentido contrário pela perna direita. Quando se dirigiram para a linha da cintura, virou-a para si e manteve os olhos pregados nos dela. Era um desafio mudo, um jogo de poder e, ao mesmo tempo, uma demonstração de força. Estava diante de um homem passional e sensível, de um cara que arriscaria a própria vida para salvá-la — Karen tinha certeza absoluta disso —, entretanto, livre de qualquer vestígio de fraqueza e submissão. Exalava masculinidade pelos poros, o cavanhaque ralo circundando os lábios cheios e duros que, normalmente, curvavam-se em um esgar de escárnio, suavizavam-se num sorriso encantador e se moldavam à devassidão de beijos e carícias que a perturbavam tanto quanto àquela sua demonstração de autoridade.

      Dedos longos e macios subiram-lhe pelo abdômen por baixo da camiseta, deslizando como se procurassem um caminho seguro num campo minado. Ao alcançarem a parte frontal do sutiã, ela segurou o ar nos pulmões e forçou-se a manter os olhos abertos e firmes nos dele.

       — Foi o senhor quem fechou o meu sutiã pela manhã. Sabe que não tem nada perigoso aí. — alçou a sobrancelha e sorriu ao vê-lo esboçar um sorriso.

       — Você toda é um perigo, Karen. — brincou e emendou baixinho: — Seu corpo é uma arma e, Deus tenha piedade de mim, mas prefiro enfrentar uma AR-15 a ter de resisti-lo. Isso é impossível.

       Ele baixou a cabeça e mordiscou-lhe o lábio inferior, prendendo-o entre os seus. Depois, parou e a encarou. Ela continuava à espera, expectante e alerta. O beijo veio devagar. Beijou-a nos cantos dos lábios, chupando-lhe as dobras deles e enfiando a ponta da língua por entre as comissuras. E, não encontrando na peça de lycra e renda nada que a incriminasse, afastou-se. Somente o necessário para dizer sem falar que o que procurava encontraria. Mas não tinha pressa. Voltou a buscá-la, pegando-a pela nuca e puxando-lhe a cabeça ao encontro de sua boca. Para não se desequilibrar, ela se grudou nele e enlaçou-lhe o pescoço.  Foi a sua vez de lhe tomar os lábios e penetrar a língua para chupar a dele com vontade. Sentindo duas mãos explorando e pressionando o seu corpo por sobre a roupa, investigando cada parte daquele território febril, alcançando o traseiro, apertando-o, puxando o quadril dela contra si.  A revista acabava no abraço apertado e possessivo. Ela tinha os seios esmagados contra o tórax dele, a boca comprimida contra outra que a devorava como a um pêssego polpudo. O cheiro da colônia almiscarada acentuava ainda mais a fragrância natural de macho. Rodrigo colou-a contra a parede, enfiando uma perna entre as suas. Com a mão livre, baixou-lhe o zíper do jeans e desceu até o cós da calcinha. Karen gemeu por entre os lábios dele. Perdia as forças e era arrastada por um turbilhão de sensações avassaladoras. Entregou-se ao deleite e praticamente parou de pensar.

       Quando Rodrigo se afastou, ela ainda permaneceu por alguns segundos imersa naquele mundo particular das sensações onde o ar era rarefeito. A sorte era que estava encostada contra a parede. Pois, mesmo de pé, a qualquer momento temia cair de joelhos. Abriu os olhos, aos poucos, acostumando-se à claridade relampejante que explodia em flash prateados através do vidro da sala. A boca inchada e entreaberta, as pálpebras semicerradas, o coração bombeando forte o sangue. Sabia que se olhasse para si veria o jeans abaixado expondo a parte da frente da roupa íntima e a camiseta erguida até metade da barriga. Ela preferiu olhar para ele. Só conseguiu balbuciar:

       — É sempre assim que revista os seus suspeitos?

       Ligeiramente ofegante, ele procurou voltar ao controle da situação. Arou o cabelo com os dedos e bagunçou-o ainda mais. Urgia acalmar-se. Mesmo por que uma bela ereção despontava em seu jeans. Sorriu de leve e buscou a carteira de cigarros. Precisava fumar antes de desarmá-la. Havia um objeto debaixo do jeans, possivelmente, uma faca presa no elástico da calcinha.

       — Quer que eu chame a Adele ou prefere a Bonnie? — sim, ele a tratava como uma suspeita.

       — As duas que mais me odeiam? Obrigada, dispenso.

       — Karen, — ele esperou que ela o encarasse e perguntou: — o que tem escondido aí? — apontou para a calça dela na linha da cintura. — Sei que está armada.

       Ela sorriu de forma inocente.

       — Por que não tirou o senhor mesmo quando me apalpou?

       — Estou lhe dando o benefício da dúvida.

       — Certo. — concordou ela, puxando da calcinha o estilete com cabo amarelo e exibindo-o como se fosse a primeira vez que via um daqueles, continuou sem se abalar: — Está se referindo a este objeto aqui? — antes que ele respondesse, emendou com tranquilidade: — Pois é, comprei para o Johnny. Aí, vi perdido pelo quarto dele e pensei em usá-lo para me proteger. Afinal, uma mocinha como eu deve andar acompanhada de algo que perfure.

       O delegado controlou-se para não rir. Karen era cara de pau demais, pensou, mantendo o semblante sério.

       — Isso é uma arma, e não preciso pedir para que me entregue, não é mesmo? — arqueou uma sobrancelha, a fim de enfatizar a questão.

       — Por quê? Vai me prender, me fichar, me tornar uma bandidona? — provocou-o, enquanto subia o zíper da calça sem se importar em resgatar o estilete e entregá-lo à autoridade. — Sabe de uma coisa, meu caro? Não tem como afirmar que vou deixá-lo. Pra quê falar isso, hein?! Odeio quando banca o superior, odeio!

       Ele franziu o cenho, estranhando o rumo da conversa.

       — Não sou superior a você, nunca fui. — afirmou, balançando a cabeça em negativo. — Só quero que não se machuque. E se não me entregar essa maldita arma, terei de algemá-la e arrancar as suas roupas.

       Falando sério, com uma ruga marcando-lhe o meio da testa, Rodrigo parecia-se mesmo com um oficial da lei, Karen considerou. A vida era feita de momentos, o de avançar e o de recuar. Havia também o de parar e fingir-se de morta. Se forçasse a situação teria de ir até o fim. Preferia perder um round por pontos a ser nocauteada no ringue. Recuou e entregou o estilete pelo cabo.

       — O dia em que encontrar meu corpo desfigurado no mato, lembrará que eu estava desarmada. — sentenciou de forma dramática.

       O estilete foi trancafiado em uma das gavetas da mesa do delegado. Ele a contornou e puxou a mulher para um abraço apertado.

       — O Mendes está morto, e ninguém mais encostará um dedo sequer em você. Entendeu?

       Ela o abraçou e aconchegou-se nele. Os trovões reverberavam na tarde que se transformou em noite. O barulho do vento batendo contras as janelas e o seu assobio ecoando pelas ruas eram assustadores. Mas Karen se sentia em paz. Mesmo que soubesse a farsa de sua confissão. Jamais pensara em se proteger. Porque a melhor proteção era o ataque. E a única pessoa que poderia, um dia, ter o rosto rasgado por seu estilete — que acabava de ser apreendido pela polícia, era a mesma pessoa que a instigava a participar das violentas corridas e a beber como homem. Thales era o seu demônio particular.

       — Meu expediente acaba por aqui. Hoje é plantão da Adele. E se não fosse o surto do neto do Marau, eu estaria em casa. — comentou, desvencilhando-se dela e juntando seus pertences sobre a mesa para sair. — Temos de comprar sorvete e fazer o pessoal de casa feliz. Os poucos domingos de folga que tenho quero passar com a minha família. — afirmou, sorrindo, e pegando-lhe a mão.

       — O Johnny está na casa de um amigo, a vó com a Veridiana aprontando alguma, a Sabrina passou o dia com o Eduardo e a Val deve estar esparramada na cama roncando. — ela enumerou, divertindo-se. — Bem, ainda tem o jantar, e todo mundo sempre volta para jantar à mesa.

       Ao volante da camionete, Rodrigo deu uma espiada no Fusca pelo retrovisor e viu-o afastar-se. Suspirou, cansado. Do outro lado da rua, um aceno de mão desviou-lhe a atenção de si mesmo. Era Rita. Devolveu-lhe o aceno sem sorrir.

         

       Naquela hora da manhã o calor era intenso. Faltava pouco para o meio-dia. O sol tentava em vão aparecer e, descontente em ser privado de se exibir, enviava raios de fogo para fustigar os terráqueos. Entretanto, mesmo que chovesse ou caísse neve no pátio da casa conjugada ao mercadinho, ainda assim Nova estaria com a garganta seca. Aceitou a água mineral com várias pedras de gelo oferecida pela dona da casa. A bebida refrescou-lhe um pouco, mas não a livrou do nervosismo. O que a mulher, proprietária do estabelecimento e esposa de um alcoólatra em reabilitação, funcionário do cartório no centro, acabara de lhe dizer era capaz de secar também o sangue nas suas veias.

       Tudo começou com uma ligação. Antes disso, tudo começou com a publicação de um artigo para o Jornal do Cerrado. À época, Nova trabalhava como jornalista e acreditava que um artigo apontando os colonizadores de Matarana como assassinos e desapropriadores de terras alheias, podia lhe render destaque junto à imprensa nacional. O que lhe rendera mesmo fora a venda de seus princípios por um punhado de dinheiro. O seu serviço de ghost  writer e o silêncio comprados a peso de ouro por Thales Dolejal.

       A história entre Nova e o ex-chefe e, agora, avô de seu filho, teria acabado por aí caso algumas pessoas não tivessem o hábito de guardar jornais velhos. Como Bety, a loira magra, fumante e com aparência de gruppie de banda de rock dos anos 70. Ela cuidava da casa, do mercado e de três garotos supersônicos. Talvez fosse por isso que fumasse e roesse as unhas em movimentos intercalados. Nova até pensou em pedir-lhe para apagar o cigarro em respeito à sua gravidez. Mas estava na casa daquela mulher que jamais vira na vida, sentada à mesa no meio da cozinha, cercada por brinquedos e panelas sujas, esperando que a tal revelação prometida ao telefone fosse valer a pena aspirar por alguns minutos o ar poluído.

       Bety lhe telefonara quando, ao forrar o piso da cozinha com jornal para descongelar a geladeira, lera o artigo escrito pela jornalista que cantava no bar do Gringo. A loira perdera as ilusões quanto a ter uma vida em que não tivesse de trabalhar muito e ainda ter de ser uma boa mulher e uma amante eficiente. Ela guardava para si um segredo que sabia ser valioso. Pensara em vendê-lo para o coronel Rodrigues. Mas havia o receio de estar fazendo a coisa errada. Pediu a Deus um sinal — como disse a Nova, um sinal. Quando desistiu do sinal, resolveu pôr um fim na crosta grossa de gelo no congelador. Pegou os jornais guardados na garagem. Tudo mudou, outra perspectiva. O segredo deveria ser revelado. Bety, então, quis falar. Telefonou para a dona do artigo e pediu que viesse à sua casa na rua detrás da Imobiliária Vilela.

       — Vem aqui, dona Nova. — chamou-a Bety, à porta da cozinha que dava para o seu pátio. — Está vendo aquela porta, ali, depois das pilhas de telhas? — espichou o braço e apontou para os fundos da construção de alvenaria que dividia o mesmo terreno com a sua casa.

       Acompanhou a indicação com os olhos enquanto se posicionava ao lado da vizinha de Vilela, falecido corretor de imóveis.

       — Sim, é a imobiliária onde o corretor foi assassinado. — comentou Nova, franzindo o cenho e tentando assimilar antecipadamente a razão de estar fuxicando a respeito do local de um crime.

       Bety foi precisa ao dizer:

       — Vi quem matou o Teobaldo.

       — É? — perguntou à mulher, desconfiada. Se mostrasse ansiedade, o passarinho alçaria voo. E era bem provável que, tendo uma vizinha grudada à sua casa como únicas diversões criar filhos e vender Coca-Cola gelada, o corretor fosse motivo de espiadelas vez por outra.

       Com um movimento de cabeça como se quisesse se esquivar de um inseto em sua orelha, a loira falou, voltando-se para Nova:

       — Eu estava tentando pôr as crias na cama, e isso é uma tarefa de fazer qualquer uma suar. As pragas fogem e se escondem só de sacanagem. — ela bufou e, em seguida, tornou a concentrar-se no que de fato deveria se concentrar: — Bom, uma das pestes escapou, a peste do meio, e eu vim buscar aqui no pátio.

       Nessa parte da narrativa, a peste-mãe encaminhou-se até a metade do pátio contornado pela cerca-viva mais morta que Nova havia visto. Os arbustos amarelados e secos, apesar de abundantes, não eram tão altos ao ponto de encobrirem totalmente a visão do quintal de cimento e, adiante, a entrada dos fundos da imobiliária. De onde estavam entre o tanque de concreto azulejado colado à parede e as plantas crescidas por sobre a amurada de madeira, via-se o perímetro que compreendia a porta dos fundos. E era para lá que as duas mulheres olhavam quando Bety reafirmou:

       — Vi o camarada que matou o velho. Não ia dizer nada, manter as coisas nos eixos, seguir minha vida sem me envolver com merda nenhuma dessa cidade. Mas quando li o que a senhora escreveu, dona Nova, me subiu o sangue pra cabeça e eu pensei, merda!, até quando os endinheirados se safarão? — refletiu por dez segundos e prosseguiu: — Vou contar o que vi, mas não pense que irei testemunhar na polícia, na justiça ou no confessionário. Não meterei a minha mão em vespeiro, eu só mostrarei onde a vespa atacou. Se aceitar as minhas condições... — deu de ombros à espera.

       O que faria com um segredo que não poderia revelar?

       — Quem matou Teobaldo Vilela?

       Saber sobre ele já lhe bastava.

       Bety sorriu, satisfeita.

       — Darei três pistas e, se a senhora for esperta, e eu sei que é, deduzirá quem é o assassino do corretor. — ela fez uma pausa de suspense e meteu os dois olhos em Nova, dizendo: — Ele é dono de quase toda a cidade e...

       A mulher de Franco fez um gesto de contenção para a outra e falou:

       — Não precisa ir adiante. — tentou sorrir, a charada mais fácil da paróquia, ela pensou e perguntou diretamente: — O que realmente viu? — precisava de certezas.

       — Isso que acabei de dizer, o dono de tudo saiu pela porta dos fundos da imobiliária do velho na noite em que ele foi assassinado. Depois não vi mais o velho. Por isso telefonei para a polícia, de forma anônima, claro.

       Nova estreitou os olhos, pôs as mãos nos quadris e foi direto ao ponto:

       — Viu o coronel Marau saindo da imobiliária na noite em que Teobaldo Vilela foi morto?

       Foi a vez de Bety estreitar os olhos, sondando a ex-jornalista de forma avaliativa. Por que ela não deixou dar as outras duas pistas?

       — Não.

       — Não? Não o quê?

       — Não vi o coronel.

 

       Franco não estava acostumado a esperar por ninguém. Naquele dia, zanzava de um lado para o outro no corredor do prédio comercial, enquanto a portas fechadas homens poderosos jogavam cartas com vidas humanas. Era certo que boa coisa não faziam, considerava o segurança do coronel Rodrigues. Isso, particularmente, não o incomodava. Se tramavam traficar madeira ou subornar agentes do Ibama, para Franco, pouco importava. Irritava-o era a espera e o lado errado da porta. Deveria estar lá dentro, a postos, à esquerda do patrão. Como no tempo em que trabalhava para outro fazendeiro. Sempre ao lado, quase como um ectoplasma, uma sombra ou uma terceira visão. Não apenas a presença física, mais como uma antena mística captando fluídos negativos e pestilentos ao redor do chefe e protegido. Quando ainda era segurança de Thales Dolejal, jamais houvera entre eles porta ou parede. Para aonde fosse o fazendeiro levava-o e o mantinha à sua cola, interceptando olhares, analisando atitudes, observando o pulsar de uma veia na têmpora do interlocutor. Porque o homem que o resgatara da estrada e lhe apontara com ferro e fogo o destino sabia que Franco decifrava códigos antigos e esquecidos pelo resto da humanidade. Ainda mais depois de voltar da terra dos mortos. Porém, o coronel de Goiás, seu atual patrão, preferia excluí-lo dos seus negócios no centro da cidade. Precisava do serviço de proteção quando estava a céu aberto, saindo ou entrando da camionete importada, administrando sua fazenda distante poucos quilômetros da Arco Verde ou, à noite, quando desfilava por Matarana com a esposa de vinte anos.

       Como proteger um corpo sem lhe conhecer a alma? Era o que ele se perguntava, enfiando a mão no bolso traseiro do jeans e puxando a carteira de cigarros. Ignorou o aviso que o proibia fumar. Riscou o fósforo e pôs fogo na ponta do cigarro. Tragou-o com legítimo prazer. A fumaça o separou do seu colega de ofício sentado displicentemente em um banco de madeira duro disposto junto à parede. Era um quarentão com a fisionomia de um jovem envelhecido mais pela dor do que pelo tempo. O tempo marcava com um arado a face, linhas profundas e secas; a dor, por sua vez, tingia órbitas oculares de nebulosidade, inchava a pele debaixo dos olhos e nas pálpebras e tatuava olheiras. Franco via isso nos outros, as faces envelhecidas pelo tempo ou pela dor. Era o caso de Alberto que, além de ter enterrado pai e mãe e controlar-se para não voltar a encher a cara, era religioso. Boa parte do seu salário pagava a sua crença mensalmente. Uma das crenças de Alberto era a obediência. O segurança obedecia ao patrão, a Deus, ao pastor e às placas de sinalização. Ao vê-lo fumar, franziu o cenho, contrariado, e o provocou:

       — Não leu a placa, guri?

       Franco era um sujeito normalmente indiferente aos outros. Poucas pessoas interessavam-no. Ao longo da vida, aqueles que deveriam amá-lo também se desinteressaram dele. Se não fosse a eficiência de uma placenta, ele não existiria. E se não fosse o desvio de um projétil a centímetros do seu coração, ele não estaria caminhando com impaciência no corredor acarpetado e fumando sob o olhar acusador de um ser temente a Deus e adorador do malte e da cevada. Descoberto filho de um dos homens mais ricos da região ao mesmo tempo em que escapava de um matador de aluguel contratado pelo próprio pai, Franco considerava um sobrevivente das trevas, disposto a fazer da melhor maneira possível o seu trabalho. Abrira mão de administrar a fazenda onde crescera e que, possivelmente, herdaria. Jogara no acostamento da estrada federal a chance de seguir a cartilha de Thales Dolejal e prosperar. Esnobara a negociata e resistira a vender sua alma ao diabo. E por que o fizera? Porque odiava o fato de sentir-se incompleto sem ele, sem o desgraçado que inoculara sua mãe com seu esperma.

       Parou no meio do corredor e armou o sorriso debochado que oferecia aos que o tomavam por idiota:

       — Às vezes, colega, sinto uma vontade enorme de torcer o seu pescoço.

       Alberto empertigou-se no banco e, com tal gesto, a bainha do jeans se ergueu exibindo as botas velhas e furadas.

       — Por que não tenta? — já não mais sorria quando o desafiou. — Quer perder o seu único amigo?

       O segurança tragou o cigarro e, em seguida, jogou a bagana sobre o carpete e pisou com a bota sobre ela, esmagando-a. Imaginava o princípio de um incêndio, as labaredas, a destruição do prédio e o patrão gorducho com seu chapéu gigantesco torrando como um porco na grelha. Deu as costas ao suposto amigo e observou a avenida principal através da parede envidraçada.

      — Sempre quis matar um amigo para testar a temperatura da minha alma, sabe? — falou com desinteresse, como se conversasse consigo mesmo. — A cidade inteira acredita que eu seja um maluco, um psicopata. No entanto, trabalho, vivo com uma mulher linda e inteligente e vou ser pai. Mas ninguém vê isso. E sabe por que, Alberto? — ele se virou para o segurança e acrescentou com sorriso mau: — Porque ninguém foge do que é, da sua origem, da sua árvore genealógica e eu sou o fruto do mal. Então, meu caro amigo, quando digo que tenho vontade de matar você é melhor não testar os meus limites, uma vez que nem mesmo eu sei até onde sou capaz de resistir à minha natureza destruidora.

       No templo Jesus é Divino, o pastor pregava sobre a tolerância aos que não eram cristãos. Jesus não havia morrido na cruz por nada. E ele não morrera por causa dos que acreditavam nele. O sangue de Cristo fora derramado devido à existência de tipinhos como Franco. A humanidade era infestada deles, como praga na lavoura do Senhor. Matando-se um, nasciam mais três. Levar-lhe a Palavra uma missão impossível. Quando não se tinha Deus no coração, a seta do destino apontava na direção do inferno. Foi isso que Alberto disse a Franco.

       — Não enche, Alberto!, sou apenas um homem e não o trânsito de São Paulo. Sabe muito bem onde enfiar a sua seta. — falou de um jeito jocoso.

       — É por isso que sempre tem de olhar por cima do ombro. Se a sua natureza torna você forte também pode tornar você um defunto. Sabe muito bem que o coronel te contratou, porque o senhor Dolejal interferiu.

       — O “senhor” Dolejal não tem nada a ver com a minha contratação. Para falar a verdade, ele bem iria preferir que eu estivesse desempregado e me humilhando para voltar a trabalhar para ele. — afirmou, o queixo erguido em tom de desafio. — Ele jamais me ajudaria, a não ser se fosse para me empurrar de um penhasco.

       — Bom, é só falar com o coronel. Todo mundo sabe que o senhor Dolejal telefonou para o coronel pedindo que te desse uma chance. Acho que estava com medo que morresse de fome ou que não conseguisse sustentar a tua mulher...

       Por um momento, ele sorveu o que acabava de ouvir até o veneno deitar no fundo do seu estômago e queimar. Respirou fundo e ajeitou o chapéu.

       — Se o meu antigo patrão me deu boas referências é porque eu mereci elas. — ele fez um sinal com a cabeça para a porta do escritório e completou: — Pelo menos o Dolejal não esconde nada dos seus funcionários, o que faz deles os seus guerreiros leais.

       — Ou cúmplices. — instigou Alberto.

       — Sim, cúmplices do crime de devoção. — afirmou Franco, escarnecendo.

       —Ééé, se o meu pai fosse dono de Matarana, eu também adoraria ele. Para falar a verdade, até construiria um altar em seu louvor. — o homem encurvou o corpo para frente como se fosse contar um segredo, mas apenas brincou com o fogo: — Me diz uma coisa, rapaz, a estratégia é esnobar o que mais quer? Fazer birra pro papai para ver se ele corre para te buscar de volta? Ou acha mesmo que o coronel Rodrigues vai com os teus cornos?

       O pistoleiro estreitou os olhos sentindo a claridade do dia pressionar-lhe as pálpebras. Cogitou ignorar o colega de profissão, ainda mais que ele falava a verdade. No fundo do seu amargo coração, queria muito que o pai precisasse dele. Nem precisava amá-lo como filho. Ninguém podia viver de sonhos. Desejava que Dolejal descobrisse que os anos passados juntos os tornaram predestinados um ao outro. Reféns de uma cumplicidade tão antiga quanto maléfica. O relato do assassinato do primeiro Dolejal em solo mataranense vinculara-os ao mesmo destino.

       Se Franco conseguisse conter a sua impulsividade e a necessidade de aceitação paterna, talvez pudesse postar-se novamente à esquerda do seu legítimo patrão. Porque decididamente o coronel Rodrigues era um bosta.

         

       Nova dirigia o jipe com as duas mãos no volante, vez ou outra endereçava um rápido olhar para o retrovisor e percebia um automóvel na estrada que a levava de volta para casa, à beira do Rio Verde. Entrou pela alameda de cascalhos, após ultrapassar os portões de madeira, abertos.

       A picape vermelha estacionada indicava que Franco chegara para almoçar. Felicitando-se por ter feito a comida na noite anterior, ela desligou o motor do jipe e pegou no banco ao lado o seu velho bolsão. Encaminhou-se até a porta dos fundos de casa imaginando-se como o assassino de Teobaldo fazendo o mesmo. A pistola enfiada no cós da calça pronta para ser sacada e disparada à queima-roupa. Um tiro certeiro no rosto. Fora assim que o homem sem passado morrera.

       Todas as suas inquietações se dissiparam ao entrar na cozinha. O cheiro da comida quente tornava aquela parte da casa o coração acolhedor. Mas não era apenas isso. Era muito mais que isso. Era o homem, ali, no jeans surrado, na camiseta de algodão puída, nas botas de vaqueiro. O chapéu sobre a mesa e o cabelo loiro, despenteado, por sobre a nuca, roçando-lhe os ombros em mechas irregulares, queimado, um amarelo vivo sobre a cor do trigo. Toda a vez que ela o via, em todos e cada segundo que dividia o ar com ele e a própria vida, sentia fundo a sensação de perda, de que alguém o arrancaria de si. Amava-o então em cada fração do tempo que ainda possuíam, aproveitando-o, sorvendo-o, fazendo um estoque dele dentro de si para a eternidade.

       Vê-lo de costas mexendo o suco de laranja com uma colher, concentrado na tarefa de preparar o almoço para os dois, encheu seu coração de ternura e decidiu que jamais lhe contaria que seu pai matara mais um.

       Ele se virou com um sorriso nos lábios. Sem falar, o dedo em gancho chamando-a para junto de si, para se aconchegar entre seus braços. Abraçou-o com força como se não o visse há anos. Franco entendia esse tipo de carinho, chamava-se abraço de saudade.

       — Onde as duas estavam, hein? — perguntou baixinho, a voz morna e macia.

       Ela aspirou o cheiro da sua camiseta, roçou o nariz contra o tórax firme que se tornara seu porto seguro.

       — Continua insistindo que teremos uma filha. — provocou-o com um sorriso, afastando a cabeça para olhá-lo nos olhos.

       — É uma menina, eu sei. — teimou, franzindo o nariz como as coelhinhas da playboy o faziam. — Não precisamos de máquina nenhuma para dizer isso.

       Franco punha na cabeça que qualquer máquina usada para investigar o interior do ser humano liberava substância tóxica ao organismo. Portanto, ele era contrário à ecografia. Na primeira consulta batera boca com a obstetra, reafirmando sua posição de pai zeloso e tosco, como Nova lhe dissera em casa ao chegarem:

       — Franco, querido, a doutora só disse que mais para frente é bom fazermos uma ecografia para ver se está tudo bem com o bebê.

       — Eu sei que está tudo bem. Nada de máquinas perto da nossa filha.

       — Ai, meu Santo Cristo, não seja tosco, caubói. Estamos no século XXI, vai me dizer, por acaso, que nunca usou um computador?

       Ele lhe endereçou um sorriso daqueles nem um pouco envergonhado, e soltou a pérola:

       — Não, dona, nunca mexi num bicho desses, nem sei pra quê serve.

       — Mas usa celular, ora! — debochou, rindo-se.

       — O Dolejal me obrigou. — replicou a contragosto.

       Ele era assim mesmo, aquilo que dizia e acreditava. Natural, selvagem e completamente passional. Não havia um pingo de pragmatismo. Franco era explosão e combustão humana. Possuía ideias conservadoras e, por vezes, sem pé nem cabeça, como a rejeição a máquinas, por exemplo, ou a teoria quase obsessiva de que Cris a qualquer momento se atravessaria no caminho deles.

      Ele era direto e preciso, falava o que pensava na lata, na cara da pessoa. Engatilhava as palavras e testava a resistência alheia até o limite. Peitava Rodrigo, mesmo considerando-o amigo e aliado. Lutava no ringue verbal com Karen, não baixava nunca a guarda, atacava de frente sem desviar os olhos. Jamais tornara a chamá-la de vadia. Ele aprendia, aos poucos, a respeitar quem merecia respeito. Evitava encontrar Dolejal pela cidade, falava mal do coronel Rodrigues, seu patrão, para quem quisesse ouvir. Mal educado, cuspia no chão, falava palavrão e estava sempre pronto para uma briga. Mas com Nova tudo era diferente. Para Nova, Franco Dolejal era simplesmente um príncipe. Um nobre com os olhos azuis claríssimos que a paquerava à mesa do jantar e depois a erguia nos braços para pô-la sobre o capô da picape. Durante toda a estação das chuvas, o céu minado de estrelas, iluminava a cidade dos apaixonados, dos que se sentavam sobre o capô de uma camionete e, abraçados, ficavam por ali, vivendo a densidade do momento até a sua raiz, tudo.

       Para Nova, Franco era uma benção, uma dádiva, a prova concreta da existência de Deus. Não raras vezes acordava durante a madrugada para vê-lo ao seu lado, adormecido, o seu caubói irreverente, o seu menino abandonado, o seu homem protetor. Afagava o seu cabelo e puxava-o para si, abraçando-o como se o tivesse posto no mundo, como se lhe tivesse dado o primeiro banho e o ensinado a caminhar. Ela queria preencher a lacuna deixada pela mãe, a ferida ainda aberta, a brutalidade enraizada no gene. Mas então ele acordava, a cabeça deitada sobre seios dela, despertava aos poucos, aturdido, descabelado, lindo. E, desperto, os papéis se invertiam. De olhos abertos, Franco era o homem da casa, o protetor, o líder, o cara no comando. Cuidava da mulher, nutria-a de comida, bebida e paixão. Não a mimava ou adulava, uma vez que a treinava para ser forte, indestrutível como ele. Ensinara-a a atirar e não deixava que ela saísse sem uma automática dentro da bolsa. Determinava. Ordenava. Exigia. Oferecia-se todo e completo para ser amado e amava na mesma medida de sua entrega.

       Se alguém procurava um amor perfeito, um homem perfeito, não deveria andar com Franco. Caso quisesse um amor de verdade, aquele tipo mais comum, do cotidiano, forjado pela vontade de se estar junto até o fim, custasse o que custasse, viagem ao centro da Terra, descida aos infernos, bem, era assim com Franco. Sem meias medidas ou disfarces.

       Vendo-a quieta, com o nariz enterrado em sua camiseta de banda, ele insistiu:

       — Por onde andava, princesa? — como não era diplomático, o tom da voz demonstrava uma curiosidade tendendo à desconfiança.

       — Lembra que falei sobre aquela mulher que telefonou, depois de ler o meu artigo sobre a colonização de Matarana? — começou, ainda abraçada, e continuou: — Bem, fui até a sua casa antes de ela acabar vindo aqui.

       Ele se afastou e pegou-lhe o queixo com dois dedos, erguendo-lhe o rosto. Oh, sim, começava a inspeção de sua alma. Precisava encarar o abismo e não sucumbir. Estava decidida a protegê-lo. Ainda não sabia o que levava Thales Dolejal a matar um corretor de imóveis. Porém, pressentia que Franco tinha a resposta. Ele não queira mais o pai e ex-patrão em sua vida, e não seria Nova a trazê-lo. Além do mais, somente Rodrigo poderia ajudá-la.

       — O que ela queira com você?

       — Emprego para o marido, pelo o que entendi. — mentiu, olhando-o nos olhos e completou a farsa: — O cara trabalha no cartório e quer mudar de vida. Ela achou que eu era uma espécie de porta-voz dos oprimidos. — deu de ombros, fingindo naturalidade.

       Ele ainda a fitava com bastante atenção.

       — Sabe que não gosto que saia sozinha.

       — É, eu sei, mas era aqui pertinho.

       — A louca não sabe que você não trabalha mais no Jornal? — perguntou num tom ríspido. Ele sabia. Nova engoliu em seco, ele sabia que ela estava mentindo.

       — Acho que não. — balbuciou.

       — Devia ter me avisado que tinha decido fazer uma visitinha a Bety. — afirmou, desafiador.

       — Como sabe o nome dela?

       — Você me disse. — falou simplesmente e acrescentou com estudada naturalidade: — Vamos almoçar antes que a comida esfrie. Sabe que não gosto de usar o micro-ondas.

       Ela se desvencilhou dele e foi até o banheiro se lavar. Aproveitou para refrescar-se e molhou o rosto com as mãos em concha. Ao erguer a cabeça, viu-o através do espelho, atrás de si. Sorriu nervosa. Era a segunda vez que mentia para ele. A primeira fora quando declarara que não haveria nada sério entre eles, que a noite no hotel à beira da estrada, a primeira noite deles, fora apenas um romance passageiro, um namorico. E agora mentia novamente.

       Sentou-se à mesa ainda sentindo aquele olhar bisbilhoteiro sobre si. Ao servir-se de arroz, metade dos grãos caiu sobre a toalha. Era difícil ignorá-lo.

       — Por que está me olhando assim?

       O gato analisava com um meio sorriso o ratinho encurralado contra a parede. O felino sorria esperando para dar o bote. Mas preferiu servir-se de comida após a mulher. Em seguida, enchendo a colher com ervilhas e cenouras cruas, raladas, concentrou-se em mastigar, fingindo admirar a combinação do quadriculado de listras azuis e brancas do tecido da toalha.

       Tal atitude irritou-a. Preferia o embate verbal à perigosa indiferença. Ainda mais com Franco, que não deixava nada em suspenso.

       — Nunca disse o nome da mulher para você. — afirmou, fitando-o atentamente.

       Ele triturou o alimento com movimentos preguiçosos enquanto desviava os olhos da toalha e a encarava com escárnio. E apenas isso.

       — Como sabe que fui falar com ela? — ela insistiu.

       — Você disse, princesa, só que não lembra. — respondeu com a calma de um monge.

       Nova torceu o canto dos lábios num gesto de irritação.

       — Estou grávida, não caduca! — exclamou e, vendo que ele arqueava as sobrancelhas surpreso por sua reação, fulminou: — Não acredito que me seguiu.

       Por um momento, ele pareceu sem jeito, incomodado até, mexeu-se desconfortável na cadeira. Para ganhar tempo emborcou todo o suco do copo. Depois, espreguiçou-se, erguendo os braços para o alto e, por fim, observando o semblante amarrado de Nova, defendeu-se sem vestígio de preocupação:

       — Não preciso segui-la. Todo mundo sabe sobre todo mundo. É assim que funcionam as coisas no interior. Alguém viu você estacionar diante da casa da maluca e me telefonou.

       — Essa gente não tem o que fazer, não, é? — bufou, irritada.

       Ele riu.

       — Tem, sim, manter todo mundo bem informado.

       — Que saco! — reclamou, empurrando o prato para o lado e cravando os olhos no segurança do coronel Rodrigues: — E daí que fui conversar com a Bety? Ela estava com vergonha de pedir ajuda para o marido...

       — Mas você não sente nenhuma por inventar merda para o seu futuro marido, não é? — a pergunta foi feita com calma, em um tom baixo e suave, medindo a rispidez para não estressá-la. Mas, ainda assim, ele jogou o desafio na mesa.

       — Concordo que continue bancando o meu segurança, sei que se preocupa com o bebê e com a minha saúde, mas isso não lhe dá o direito de...

       Foi interrompida por uma voz um tom mais áspero que o normal; pelo menos, para quando ele falava com ela.

       — De quê?, de saber por onde anda a minha mulher? É, Nova? Um camarada me liga e diz que você está de fuxico com uma louca de carteirinha, uma ex-paciente de hospício cujo marido faz de tudo para entrar em coma alcoólico e escapar do casamento, e quer que eu mantenha os meus olhos no traseiro gordo do coronel? — fez uma pausa para se ajeitar na cadeira, os cotovelos agora cravados na mesa, e continuou: —Você sabia, senhorita Monteiro, que a tal Bety saiu do hospício municipal, porque ele fechou por falta de verbas? Se não acredita, posso levar a senhorita até a prefeitura para ler os registros do antigo sanatório público de Matarana. Tenho um conhecido que trabalha lá e consegue esses arquivos fácil, fácil. Dez anos atrás, quando nem você nem o seu amiguinho haviam chegado à cidade, nós, mataranenses, tínhamos o nosso hospício querido e amado. Quando ele fechou, os doidos foram mandados para suas famílias. E a dona Bety conheceu o seu pinguço e se encheram de filhos. Não sei o que ela disse pra você, mas, seja o que for, faz parte do seu delírio. Ninguém leva essa mulher a sério. Por isso acho melhor deixar o marido dela trabalhando no cartório. Afinal, ele faz isso há uns quinze anos, eu acho. — deu de ombros com estudada indiferença.

       Uma cidade envenenada pela ambição tinha de ter o seu lugar para o repouso. Isso justificava a existência de um hospital psiquiátrico, ponderava Nova. Era evidente que Bety não batia bem da cabeça, os trejeitos nervosos, fumando e roendo as unhas, o modo como falava dos filhos, a aparência excêntrica. Mas até ser considerada uma louca de pedra era outra história. A jornalista dentro de si implorava para ver os registros do hospital e ler o nome da loira esquisitona. Por outro lado, a futura esposa de Franco acreditava nas suas palavras, seu coração acreditava nele e não via motivos para que mentisse...

       Até que ele falou:

       — Fique desse lado da margem, princesa, é claro e límpido. Não molhe o seu corpo em água suja.

       — Está me ameaçando, pistoleiro? — fitou-o com firmeza, contraindo os maxilares e não se deixando enganar pelas suas emoções.

       Franco estreitou os olhos e era o diabo loiro voltando ao seu corpo. Um ou dois segundos, o suficiente para Nova descobrir que uma vez pistoleiro, sempre pistoleiro, e que uma vez cego devoto de Thales Dolejal, apesar de tudo, ainda devoto do assassino de Teobaldo e mandante do assassinato de Mendes. Ela era a margem límpida, como lhe afirmou, o lado claro de sua vida e personalidade. Contudo, seria também o mais forte e dominante?

       Quando o caubói caiu de joelhos ao seu lado na cadeira e deitou a cabeça sobre suas pernas, abraçando-as como uma boia solta no oceano, pensou ter ouvido:

       — Me perdoa.

       Mas não foi isso que ele disse.

         

       Maria Helena trabalhava para Cristiano Bittencourt havia duas semanas. Desde que ele se mudara para o apartamento no prédio mais luxuoso do centro da cidade. À época houvera rumores que sua mudança da casinha à beira do Rio Verde para um dos imóveis de Thales Dolejal — um edifício envidraçado de cinco andares, o quinto como sendo a cobertura do médico, relacionava-se à união de sua amiga de infância com o pistoleiro que todos chamavam de diabo loiro. O que acontecera fora rapidamente absorvido pelos mataranenses: o doutor se transformara. Atendia ainda no hospital municipal, uma vez que a cidade somente podia contar com dois pediatras como funcionários públicos, mas também, agora, possuía consultório em uma clínica onde dividia as salas luxuosas e bem equipadas com duas médicas, ambas obstetras.  A clínica sofisticada — pensava Maria, torcendo o lábio num esgar de desgosto e entrando na sala de estar ampla cujo janelão exibia um céu nublado — era o atrativo da classe abastada da região. Se o pediatra não atendesse a população mais pobre, entre uma consulta e outra com as crianças herdeiras de fazendas e empresas, Maria, com certeza, não esfregaria tão bem o chão do médico. O fato de ele ser considerado o melhor partido da cidade nada significava para ela.

       Encontrou-o no terraço, sentado à mesa, diante da caneca de café com leite, ladeada pelo suco de laranja, torradas e um mamão pela metade. Lia o jornal, um de seus hábitos matutinos — como ela bem observara. Sentado com displicência na cadeira estofada, as pernas esticadas e cruzadas, descalço e vestido na calça de sarja bege e camiseta branca, de mangas curtas e gola V, tinha as sobrancelhas franzidas, o que lhe acentuava a sobriedade do semblante de 37 anos, o rosto de quem carregava um fardo sobre os ombros e, que, sem saber, eram os próprios ombros.

       Quando apontou às portas duplas envidraçadas do terraço, o médico voltou-se e, reconhecendo-a, sorriu. Fez um sinal para entrar e indicou-lhe com a cabeça a cadeira à sua frente.

       — Bom dia, Helena. Como está?

       A diarista sorriu encabulada. O doutor Bittencourt era a única pessoa que a chamava pelo segundo nome. Ficava bonito nos lábios dele, o “Helena”. A voz sempre serena e baixa de homem controlado e maduro parecia que lhe acarinhava as letras do nome. E ele falava de um jeito tão simpático e natural que a convidava a aceitar um novo batismo, um novo registro em cartório. No fundo, ela sabia que estava mais para Helena do que para Maria. Oh, sim.

       Puxou a cadeira, discretamente, temendo fazer alguma trapalhada. Toda a vez que ele a convidava para tomarem café da manhã se sentia uma adolescente desajeitada. Sentou-se e antes que fizesse qualquer movimento, o patrão despejava café preto e fumegante sobre uma segunda xícara. Como era quinta-feira, ele deixara uma xícara a mais sobre a mesa. Era um gesto de atenção de sua parte. Definitivamente, o doutor era-lhe o patrão preferido.

       — Desculpa a bagunça. Não acontecerá mais, acho que a coisa fugiu do meu controle. — comentou atento ao leite derramando-se sobre o café e fazendo a mistura dos sabores e cores.

       — Não se preocupe com isso, doutor. — falou ligeiramente ruborizada e emendou rapidinho: — E bom dia para o senhor também. Acho que teremos uma trégua com o calor. Nessa época sempre chove às duas da tarde.

       O café estava delicioso, forte e cremoso. Viu quando ele torceu o lábio num trejeito de amargura enquanto deslizava o talher com geleia sobre uma fatia de torrada, entregando-a em seguida sobre o pratinho de pão.

       — Infelizmente mesmo com a chuva, o mormaço é intenso. O calor que sobe da terra é mais agressivo após os temporais.

       — Obrigada. — ela agradeceu ao receber o prato diante de si. Mordeu a ponta da torrada e comentou com naturalidade: — O clima de Matarana não poupa seus habitantes.

       Ele emborcou mais um gole do café e perguntou bem-humorado:

       — E suas crianças, como estão? Precisam dar uma parada na oficina para revisão?

       Maria riu sem jeito. O doutor havia cuidado de seus dois filhos em momentos distintos. O mais velho caíra e cortara a testa na escola, durante o recreio, correndo no pátio. Recebera alguns pontos e um pirulito de morango. O mais novo tratava a bronquite. A cada três meses, ela levava-o ao consultório do pediatra. Ele nada cobrava e ainda lhe fornecia os remédios. Se não fosse tão carnalmente bonito seria um santo.

       — O pequeno está bem melhor, praticamente, curado. Muito obrigada. O senhor é o melhor médico que conheci.

       O pediatra baixou a cabeça, envergonhado. Ele corava sempre que o elogiavam ou quando tinha seu trabalho reconhecido. Depois se espreguiçou e disse:

       — Então, estamos no caminho certo. Nada de simpatias, viu? — brincou.

       — Sim, senhor. — prometeu, sorrindo, e terminando de sorver o café.

       Voltando a atenção para o jornal aberto à sua frente, ele suspirou profundamente o tipo de suspiro preguiçoso e entediado e constatou:

       — O pior jornal da pior cidade.

       Maria levantou-se e agradeceu mais uma vez o café e a companhia. Recebeu um sorriso simpático e uma piscada de olho. Que charme!, pensou, sorrindo por dentro. Antes de sair do terraço, voltou-se, sentindo-se na obrigação de informá-lo:

       — A dona Karen me indicou à sua amiga. O senhor se importa que eu limpe a casa para a dona Nova? — mordeu o lábio inferior, incerta. — Nada afetará os seus horários, mas se não quiser que eu trabalhe na casa do dia...

       Ele fez um aceno com a mão como se com o gesto quisesse calá-la a tempo de pronunciar o apelido do outro. É, ela havia entrado em um terreno pantanoso, um lugar onde a feição gentil do médico fechava-se numa carranca que o envelhecia anos. Era provável que nem pudesse ouvir qualquer referência ao namorado de sua amiga. Corria o boato que Franco ameaçara capar o médico caso se aproximasse da sua mulher, que, antes, vivia com o doutor. Outro boato, que completava esse, era o de que o pediatra mantinha-se distante, acatando a determinação do pistoleiro, por acreditar que o último fosse de fato um desequilibrado. Ou, pelo menos, um namorado vigilante e obstinado. Naquela cidade o que não faltavam eram chifrudos. O herdeiro de Thales Dolejal não tinha cara de alguém que aceitasse envergar guampas, apesar de ser filho de quem era, concluiu Maria, contendo uma risada, haja vista que a face de seu patrão anunciava tempestade.

       — Não, não me importo. — falou, bruscamente, dobrando o jornal e jogando-o sobre a mesa, irritado.

       Incerta se prosseguia em direção à suíte principal para começar a arrumá-la ou ficava e dizia-lhe algo confortador, ela quase deu de nariz em uma das portas de vidro. Voltou-se ao ouvi-lo falar, de costas para ela, de pé, com as mãos nos bolsos, admirando a rua cinco andares abaixo:

       — Me perdoa a indelicadeza, mas é que esse assunto me incomoda muito.

       — Tudo bem, doutor.

       Antes de afastar-se, ouviu um pedido:

       — Preciso de um favor seu.

       — Qualquer um. — declarou com convicção.

       — Por favor, observe bem a Nova e me avise se ela tem hematomas ou algum tipo de machucado cicatrizado, marcas, arranhões, inclusive veja se ela está magra ou pálida, — virando-se para ela, afirmou, os olhos cheios de dor: — Veja, por mim, se a minha vida está sendo maltratada.

       O pedido não era tão estranho, visto que ele se referia ao seu substituto mal-afamado. Apesar de Maria ser uma das poucas pessoas a não gostar de se intrometer na vida dos outros, a vontade de atender a um pedido do médico a fez reavaliar as suas preferências. A mensagem era clara: veja se existe alguma brecha para eu usar a fim de ter de volta a mulher que ainda amo. Isso não foi dito. Pelo menos, não com essas palavras.

       — Acho que o rapaz não é tão maluco quanto dizem. — arriscou levantar a bandeira branca em prol de um inimigo declarado e emendou suavizando ainda mais o tom da voz: — Afinal, nada passa em branco em Matarana. Se ele alguma vez tivesse machucado a dona Nova, com certeza já teria caído na boca do povo. Ainda mais ele com a péssima fama que tem.

       — A maior parte das vítimas de violência doméstica sofre em silêncio, Helena. Os maus-tratos, normalmente, começam com as agressões verbais e psicológicas. E esse garoto tem a personalidade agressiva, explosiva e com toda a composição de um espancador em potencial. Aliás, o Rodrigo mesmo me disse que é possível que o... que o rapaz tenha matado um camarada anos atrás, e como não encontraram o corpo o caso acabou arquivado. – assegurou, os braços cruzados em frente ao peito, o semblante tenso.

       Cris testou a temperatura de suas acusações, fitando a diarista bem no fundo dos olhos.

       Maria, então, declarou:

       — A dona Nova, sua amiga, não é também amiga do delegado? — sondava-o, por certo.

       Antecipou-se à conclusão da mulher.

       — Sim, são muito chegados, por sinal. De fato, ela poderia pedir auxílio ao Rodrigo. Não nego que isso me passou pela cabeça. — deu de ombros e cravou palavra por palavra ao dizer: — Mas acontece que existe um tipo de mulher que acredita em milagres e mudanças e que sofre calada justamente porque tem medo de perder o marido ou namorado, enfim, perder o seu homem. Elas ficam dando uma chance após a outra, tendo como crença o dia da mudança, no qual a verdadeira personalidade do agressor assumirá o controle e essa suposta verdadeira personalidade é boa, afável e amorosa. — ele riu baixinho com desdém. — Quando acreditamos mais no outro do que em nós mesmos, acabamos por depositar os nossos sonhos nas mãos erradas. E é o mesmo que entregar um buquê de flores a um assassino em série. Se a Nova quer acreditar em dias melhores ou em príncipe encantado, o que posso fazer? Cruzar os braços e assisti-la, outra vez, se meter em encrenca?

       — É uma situação complicada. — balbuciou, fitando as próprias mãos.

       — Sim, é muito complicado, — assentiu, baixando a cabeça e suspirando cansado emocionalmente: — ainda mais quando ela está tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe. Posso entrar no meu carro e, em dez ou quinze minutos, parar diante do portão da sua casa. — encolheu os ombros, desolado. — E, aí? O que muda? Se ela escolheu se vingar de mim, não tenho como lutar contra isso. Ela não acredita em mim. Acabou. Mas não deixarei que aquele... que aquela pessoa a maltrate.

       — Mas será que ele maltrata ela, doutor? — considerou, respaldando-se na dúvida.

       — Quem é esse camarada? — perguntou, retoricamente. — Um cara armado até os dentes que confunde virilidade com crueldade e se impõe a todos por meio de ameaças físicas e psicológicas. O que falam sobre ele em Matarana, hein? Ninguém o encara nos olhos e até mesmo o apelidaram de “diabo” e “psicopata”. E sabe por quê? Porque esse garoto é emocionalmente desequilibrado. Ele se impõe como homem por meio da violência e é somente assim que consegue ser respeitado. Como, me diz, Helena, agindo dessa forma na rua, ele não o faz entre quatro paredes com a Nova?

       — Doutor Bittencourt, vou ficar de olho na sua amiga, e se ela tiver uma manchinha sequer, eu mesma ligarei para aquele tal disque-denúncia da polícia. — afirmou com a convicção de alguém que acabava de aderir a uma seita.

       O médico sorriu com os olhos.

         

       O mato baixo estava molhado depois da chuva. O odor que se desprendia da terra era morno e úmido. Não havia nada mais íntimo e natural à Karen que o cheiro da natureza selvagem. Arbustos, folhas, galhos, árvores inteiras, rios e bichos — a composição mística que se acoplava de forma indelével ao seu DNA humano. Karen era a natureza viva e pulsante, aterradora e primitiva, a beleza do incontrolável.

       Deu um tapinha de incentivo no pescoço do seu amigo de quatro patas e acariciou a crina sedosa, olhando ao longe, por cima das cabeças dos peões que se agitavam ao longo da estradinha de chão batido, na divisa entre Matarana e Santa Fé. Era sempre a mesma sensação antes da largada, uma inexplicável paz interior e o mais completo alheamento da realidade. Um lugar todo seu, onde a mãe de Johnny, a neta de Ninita, a namorada de Rodrigo não viviam. Era ela e o seu corredor cujo nome recebera em homenagem a Steve Prefontaine — que dizia não correr para ser o mais rápido; ele corria para ver quem tinha mais coragem. Assim também funcionavam as coisas para Karen.

       Naquela tarde em especial, o ar parecia mais perfeito, de uma pureza quase hostil. Típica atmosfera que antecedia os grandes eventos. A quietude antes do tsunami, o silêncio antes do tornado ou a plenitude da existência, o seu cume mais agudo, um segundo antes da morte. Ela aspirou fundo e reteve o ar nos pulmões. E com tal gesto punha fim à concentração, expirando-o em seguida.

       Voltou-se para seu adversário montado sobre o cavalo crioulo baio que, possivelmente, era do haras do coronel Marau. Ela sabia que o animal valia, por baixo, uns vinte mil. O corredor mais amarelo que uma espiga de milho, com o chapéu de caubói enterrado até os olhos, não detinha poder de compra para aquela aquisição de porte. O caso de Prefontaine era diferente. Apesar de ele também ser caríssimo. Mas Prefontaine fora roubado.

       — Não devia estar lavando as cuecas do delegado? — alfinetou, o sabugo de milho chamado Prestes, trinta anos na telha e nenhum juízo.

       Karen sorriu com o canto dos lábios, ajeitando-se sobre a montaria, sem deixar de calcular o tempo exato entre o disparo inicial e o momento de se atirar sobre o caubói e arrancar os dentes daquele sorriso arrogante.

       — Me disseram que nunca perdeu uma corrida. Por que será? É a força que vem do tanque ou da pia cheia de louça?

       — Não, imbecil, é a força que vem da cueca do delegado. — debochou, metendo dois olhos na expressão congelada do outro. Depois, apontou o dedo indicador para frente e perguntou: — Está vendo aquele barrigudo fumando a latinha de cerveja? — antes de ele responder completou convicta: — Vai ser ali, naquele ponto, que você perderá os dois dentes da frente.

       O peão manteve o sorriso na cara. Ele não era o tipo que acreditava que existiam mulheres fisicamente mais fortes que homens. A piada sobre o tanque resumia toda a sua cultura acerca do sexo oposto.

       Karen percebeu que a munição do seu concorrente acabava ali. Virou-se para trás, a fim de resgatar com os olhos a figura do organizador da corrida. Vitorino surgiu de uma bruma cinza. A temporada das queimadas já se esgotara havia algumas semanas. A fumaça que o cercava era a que provinha dos cigarros e cachimbos de entorpecentes. A peonada abastecia o cérebro com porcaria, depois de ficarem horas trabalhando em terras alheias. A boa e velha cachaça já não mais segurava o tranco.

       Karen torceu o lábio num esgar de repulsa. Desprezava gente fraca. Mesmo que ela também entorpecesse a cabeça com álcool. Mas era forte o suficiente para de vez em quando enfraquecer. Fato diferente dos coitados que saíam do trabalho esgotados, mais pobres do que nunca e se divertiam gargalhando, gritando e se empurrando num descampado distante da civilização. Eram iscas fáceis para os traficantes locais. E para os espertinhos como Vitorino. Apenas uma pessoa lucraria muito com aquela corrida. Fora-se o tempo em que Everaldo lhe garantia cinquenta por cento.

       — Em dez segundos! — gritou Vitorino e começou a contagem regressiva: — Dez, nove...

       O manga-larga empinou as orelhas e dilatou as narinas. Arrancou pedaços de grama ao disparar ferozmente pela planície. Entre as pernas de Karen a musculatura do animal estirava-se e do interior de seu corpo, entre ossos e carnes, expulsava a força que o impulsionava para frente feito uma locomotiva dos infernos. A cabeça agitava-se como se quisesse desvencilhar-se das rédeas e ganhar o mundo, mas ele era tão tinhoso, aquele Prefontaine do cerrado, que nem era preciso o relho no lombo para lhe fazer fulminar a terra, levantar nacos de barro, abanando a cauda longa e preta na cara do adversário. A poucos metros da linha de chegada, Karen segurou as rédeas, o manga-larga ainda se rebelou por alguns segundos e aceitou o comando reduzindo drasticamente a velocidade. Foi então que Karen pulou para o chão.

       E depois venceu a corrida.

       Frederico coçou a cabeça quando viu aquele povo todo entrar no estabelecimento do seu pai, o Gringo. Deitou o copo que secava sobre o balcão e meteu na cara o seu pior sorriso forçado. Ele não gostava quando o pessoal das corridas se juntava para beber. Falavam alto, excediam-se no álcool e demoravam em se dispersarem. Parecia que nenhum deles tinha vontade de voltar para casa. Os peões ficavam pelo caminho, no Colono Tranquilo, onde a bebida era metade do preço do que no Bar do Gringo. Os corredores, organizadores e os mais endinheirados, como os filhos dos madeireiros e donos de agropecuárias, sentavam-se ao redor de várias mesas e mandavam ornamentá-las com dezenas de cervejas. Alguns vinham com suas mulheres; outros arranjavam por ali mesmo. Em Matarana, o que não faltavam eram mulheres sem ter o que fazer. Caçavam à noite pelos bares, vestidas nos seus jeans colados e nos tops de lycra. Atiravam-se no colo do primeiro caubói que lhes pagassem uma bebida gelada. E era esse tipo de companhia que cercava um dos grupos da corrida, na mesa ao fundo do bar, longe do palco onde Nova não cantava naquela noite.

       Eram oito horas quando Karen decidiu que daria uma passadinha no bar antes de voltar para casa. Era bom manter a camaradagem em alta com os companheiros de corrida. Mostrar-lhes que, apesar de ser uma campeã invicta, ainda era plebeia e comedora de poeira como eles. Atravessou rapidamente o salão e entrou no banheiro das garotinhas. Diante do espelho, ajeitou o cabelo longo e liso para trás. Expos o rosto machucado. Uma pálpebra avermelhada que, com certeza, na manhã seguinte estaria roxa. A boca inchada e cortada no lábio inferior. A camiseta cinza suja e o jeans puído marcado pela lama seca nos joelhos. Descabelada e dolorida. Balançou a cabeça, vigorosamente, para os lados e saltitou no lugar. Encaixou, assim, todos os pinos. Voltou para o salão e parou diante do balcão. Limpou a garganta e fez o seu pedido a Frederico:

       –– Me vê a menos pura.

      O filho do dono do bar lançou um rápido olhar ao pai, que deu de ombros, cumprimentando a freguesa com um aceno de cabeça.

       –– Quem vem buscar você hoje, Karen? O Dolejal ou o Malverde? –– Frederico, mais uma vez, buscou com o olhar a cumplicidade paterna. Mas o pai, com bandagem no meio da cara, pensava apenas em como ficaria seu nariz depois da plástica em Cuiabá.

       Karen sorriu, jovialmente, e despistou.

       –– Quer ver uma coisa?

       O outro estranhou o tom amistoso de confidência na indagação acompanhada pelo sorriso. Aproximou-se acreditando que era uma noite especial. Ouviu o barulho de dados sendo rolados pelo balcão de madeira. Olhou para baixo e precisou de meio minuto para compreender as peças do jogo.

       Voltou-se para a mulher que ainda sorria e perguntou:

       –– Meu Deus, foi espancada?

       Ela gargalhou antes de emborcar o copo com a bebida. Em seguida, respondeu como uma menina travessa.

       –– Não são meus.

       No fundo, ele sabia que não. Entretanto, às vezes, fortalezas desabavam. Manteve a boca aberta vendo-a admirar os dois dentes alheios, bastante satisfeita consigo mesma.

        

        –– O que conseguiu, Adele?

      Foi o que o delegado perguntou, assim que a policial entrou em sua sala. Acabara de interrogar informalmente o neto de Marau.

       –– Um nome e um lugar. –– respondeu, sentando-se pesadamente na cadeira em frente à mesa de Rodrigo.

       –– E...? –– ahhh, ele adorava receber informação em partes, com breves pausas de suspense, realmente, ele adorava.

       –– Parece que tem um cara fabricando óxi, aqui, em Matarana city. –– ironizou. –– Joaquim Santiago. Fucei nos arquivos e não encontrei patavina sobre ele.

       Rodrigo escorou os cotovelos sobre a mesa e franziu o cenho gravemente. Digeria a novidade.

       –– O guri comprou na Vila Zumbi?

       –– Sim, direto de fábrica, sem intermediário.

       Ele alçou a sobrancelha num gesto que revelava o rumo de seus pensamentos.

       –– Vou atravessar a rodovia federal e visitar o povo daquelas bandas.

       Antes que pudesse perguntar por Lucas, que não dava notícias havia dois dias, ouviram o bater de uma mão espalmada sobre o balcão da recepção. Entreolharam-se sorrindo numa cumplicidade que a profissão em comum lhes confiavam.

       –– Com advogado ou sem advogado? –– Adele perguntou, levantando-se da cadeira e se dirigindo à porta.

       –– Sem advogado e com uns três pistoleiros à cola. –– apostou o delegado, divertindo-se com a brincadeira.

       Acendeu um cigarro com a mão em concha. Manteve a chama acesa na ponta do fósforo, um fragmento de segundo, o tempo da escrivã voltar, o semblante de quem acabava de ser contrariada.

       –– O coronel Marau não fala com soldados, palavras dele. –– afirmou, fazendo careta.

       –– Chame-o aqui, então. –– solicitou, suspirando resignado.

       –– Certo, chefe. Aproveito e busco o Marauzinho da cela.

       O que acabara de saber o perturbou. O tráfico de óxi entrara no país, sem fazer alarde, invadindo a região norte e abocanhando, primeiramente, o Acre. O centro-oeste parecia ileso até o momento. Seria Matarana –– o pingo de óleo no meio do oceano, a produzir a droga e distribuí-la para o país?, pensou, enquanto ouvia os resmungos do coronel desde a recepção, passando pelo corredor e entrando em sua sala. Passadas largas para alguém tão gordo, ponderou o delegado, erguendo-se da cadeira e estendendo a mão para ele, sem sorrir.

       –– Na delegacia o garoto tira o chapéu. –– constatou irônico, o coronel sem insígnia.

       Rodrigo sorriu e indicou-lhe a cadeira à frente, mas o latifundiário estava lá para complicar:

       –– Não quero passar nem cinco minutos neste lugar. Busca o piá que tenho compromisso na cidade. –– ordenou, tragando forte o charuto enquanto metia dois olhinhos argutos no delegado.

       –– É melhor que o senhor arranje um pouco de educação para falar comigo, coronel. Aqui, eu também permito que mantenha o seu chapéu, a única regra é a civilidade. –– enfatizou, encarando o outro com a determinação de pô-lo em seu devido lugar. Apesar de não haver um chiqueiro por perto.

       O coronel manteve o charuto entre os dedos numa postura de quem considerava o que acabava de ouvir. Para ele, que era atendido em suas mínimas vontades, o que o delegado lhe falara era um afronta. Já havia algum tempo que cogitava a possibilidade de uma boa emboscada para acabar com o policial indisciplinado. Ainda não o fizera por preguiça, pura preguiça. Sabia que Rodrigo era protegido de Thales Dolejal, e se tocasse nele, a Arco Verde cairia sobre si. A matança se estenderia a todo e qualquer Marau. E não seria por causa de um delegadozinho de merda que o coronel arrumaria encrenca com Dolejal. Mesmo que na fazenda Coração de Ouro, o outro fundador da cidade fosse chamado em tom de deboche de “bicha cosmopolita”.

       O velhote afastou as pernas enfiadas nas bombachas e riu por entre a fumaça:

       — Sabe quantos delegados passaram por Matarana, garoto?

       — Doutor Malverde, coronel. — afirmou com obstinação. Até para os seus ouvidos o “doutor Malverde” soou-lhe estranho.

       — O doutorzinho vai soltar o meu piá ou vou ter que chamar os outros doutores, os da capital, para esfregar a papelada na sua cara?

       — Não precisa chamar ninguém. O seu neto não foi preso, só estava aguardando um responsável para vir buscá-lo. É menor de idade e não foi feito nenhum registro de queixa contra ele. Só espero que o levem a uma clínica de recuperação de viciados, o estado de...

       Foi interrompido abruptamente:

       — Onde está o moleque, porra?

       Adele afastou a porta para que João timidamente entrasse. A figura do avô intimidava-o. O coronel fez sinal para os seus três pistoleiros, indicando-os que levassem o neto para fora da delegacia. Voltou-se para Rodrigo.

       — Sabe por que o meu piá se viciou nessas merdas? — perguntou, debaixo do bigode vasto e grisalho, uma novidade em seu visual. Antes que Rodrigo pensasse em uma resposta, emendou com secura: — Os vagabundos da Vila Zumbi não costumam ser vigiados pela polícia local, já que o delegado prefere ficar de olho nos homens de bem. Outro dia foi me incomodar por causa de uma bostinha metida à jornalista que acabou se amontoando com o pistoleiro mais maluco da cidade. Sabe o que eu acho, ô garoto?, é que você escolheu meia dúzia de idiotas em Matarana para trabalhar para eles e qualquer um que ameace essa gentinha aí você resolve, sim, trabalhar como policial. Se prendesse os vagabundos da vila, o meu neto não teria sido tentado com essas porcarias. Eu fundei essa cidade, ela é minha! E, desde a sua fundação, passaram por esse escritório mofado um bocado de doutorzinhos e todos, sem exceção, ouviram a voz da razão e fizeram o seu serviço discretamente. Não quero ir ao seu funeral, Rodrigo Malverde.

       Enfrentaram-se num embate silencioso. Até que o delegado sorriu e indagou com ironia:

       — Está ameaçando um delegado de polícia, senhor fazendeiro?

       O outro riu com vontade.

       — Não preciso ameaçar ninguém. É o que eu disse, é só ouvir a voz da razão. Bate um vento Minuano e te leva embora, filho. — acentuou o sotaque sem embaçar o sorriso de dentes acinzentados.

       Ele foi até a porta e parou. Virando-se devagar em sua silhueta redonda dentro da roupa de gaudério, sentenciou:

       — Olha, um aviso de quem te conhece há mais de dez anos, a bicha cosmopolita protege quem convém aos seus interesses. A hora que não servir para mais nada, sugiro que crie olhos na nuca.

       — Obrigado pelo aviso, coronel. Quando uma cascavel avisa sobre uma jararaca, é porque o ratinho está em sérios apuros. — debochou, enganchando os dedos no cós do jeans e encaminhando-se ao lado do fazendeiro até a saída da delegacia.

       — Você é um piadista! — riu-se o outro e completou espirituoso: — Soube que roubou a mulher do seu protetor. Não é engraçado isso? Sério, filho, quando quiser recebo você e sua família de braços abertos. Tenho de convir que o doutor faz jus ao que carrega entre as pernas. Apesar de que esse troço não salva a vida de ninguém, não é mesmo? — deu-lhe um tapinha amistoso no ombro e subiu na camionete com cabine dupla. Atrás, João, a cabeça escorada contra o vidro, o rosto pálido.

       — Que vento é esse, o Minuano? — perguntou Adele, chegando-se ao seu lado, intrigada.

       — É um vento gelado que racha a cara da gauchada. — respondeu Rodrigo, contemplando a traseira da camionete do coronel.

       Ainda pensava no guri que era perseguido por zumbis. Um guri que comprara óxi na Vila Zumbi de um camarada chamado Joaquim. Em outro lugar, esse mesmo nome seria o de um dono de padaria. Mas em Matarana, não. Claro que não, pensou o delegado com desgosto, tinha de ser de um traficante.

       — Então, chefe, o Minuano que o levará embora, por acaso, seria a faca de um de seus conterrâneos? — cogitou, como se tentasse encaixar peças redondas em espaços quadrados.

       Rodrigo voltou-se para ela e sorriu de leve.

       — Talvez. — deu de ombros e completou com deboche: — Na Coração de Ouro o que não falta é gaúcho, não é mesmo?, inclusive o coronel.

       Adele não gostou do comentário.

       — Quando ele descobrir que agora o Dolejal também é o seu inimigo, o senhor terá de solicitar escolta e...

       Não conseguiu completar a ideia, uma vez que o delegado interrompeu-a:

       — Adele, uma coisa de cada vez, certo? — ele se virou para voltar à sala e buscar o chapéu, acrescentando no caminho: — Quero saber por onde anda o Lucas. Vou até a casa dele e já volto.

       A escrivã acompanhou-o até o pátio frontal, onde as camionetes do delegado e da polícia civil de Matarana — uma Mitsubishi L 200, ano 1995, dirigida por Lucas e Adele — ficavam estacionadas. Ela queria acreditar que a coragem de um homem o defendia contra qualquer arma de fogo. Mas o fato era que tanto Malverde quanto boa parte dos caubóis daquela cidade acreditavam-se indestrutíveis. Homens corajosos ou insanos — ela ainda não o sabia.

       Ao chegar à casa de alvenaria afastada do centro, em um bairro habitado praticamente por bancários e professores, Rodrigo ligou mais uma vez para o celular de Lucas. Observou os arredores, o lugar assemelhava-se aos subúrbios das metrópoles norte-americanas, gramado frontal sem cercas ou portões nas construções geminadas. Todas as casinhas da mesma cor, azul-celeste.

       Não obtendo resposta, avançou em direção à porta e apertou o botão da campainha. Na segunda tentativa, o seu celular vibrou.

       — Pode abrir, Lucas?

       Do outro lado da linha, uma voz sonolenta respondeu:

       — Posso, mas tem uma enfermeira que faz isso por mim.

       Rodrigo grudou o rosto contra o vidro da janela ao lado da porta. Primeiro, viu o próprio reflexo. Depois, toldou os olhos e examinou a sala bagunçada de uma residência aparentemente vazia.

       — Onde você está? — seria possível o policial ter se envolvido, mais uma vez, com uma sadomasoquista? Cogitou o delegado torcendo o lábio num ricto de desagrado. Lucas era viciado em mulheres chaves de cadeia. Algemas nem sempre conduziam à prisão.

       — No hospital. — ele disse e completou meio que envergonhado: — Fui alvejado por um mosquito. Estou com malária.

         

       Valéria convidara Cris para jantar. À noite, iluminou o gramado diante da casa com dezenas de pequenas lâmpadas coloridas que se acenderam nos galhos das mangueiras iluminando a mesa longa e retangular, revestida pela toalha branca, os pratos, copos e talheres dispostos para uma ceia ao ar livre, no frescor agradável debaixo das estrelas, agora, de todas as cores.

       — Olha só! — apontou Val para a cadela com as orelhas mexendo como antenas parabólicas, o corpo estirado e duro, as pernas preparadas para correr.

       — O Rodrigo está chegando. — adivinhou Cris, sorrindo e admirando a postura elegante de Bonnie à espera do seu Clyde.

       Minutos depois os faróis da camionete iluminaram os quatro que o aguardavam. O sexto sentido de Bonnie jamais falhava, constatou Cris, agachando-se para acariciá-la na cabeça.

       Assim que Rodrigo abriu a porta da picape, a cadela disparou para cima dele. Ele se abaixou e fez um carinho na cabeça dela, que se agitou ainda mais balançando o toco de rabo.

       Os amigos se cumprimentaram com um abraço forte e tapinhas nas costas. Era uma camaradagem antiga e sincera. Faltava apenas o terceiro cara do grupo. Mas o ausente decidira pôr Rodrigo na lista dos ex-amigos. O médico esperava que fosse essa lista, e não a dos inimigos.

       — Vem, Cris, vamos enxugar umas latinhas enquanto o homem da lei toma banho e tira a poeira do corpo. — disse Val, enganchando seu antebraço no dele e levando-o até a mesa.

       Rodrigo acenou com a cabeça se afastando e falou antes de entrar em casa:

       — Ué, não trouxe a garota da vez?

       O outro sorriu sem jeito.

       — Trazer alguém para jantar com os amigos é formalizar algo que não deve ser formalizado.

      — Ai, seu insuportável!, está virando um mulherengo idiota! — ralhou Val, dando-lhe um tapinha de brincadeira no ombro.

       Cris riu e fez uma careta como se tivesse sido machucado por ela. Em seguida, virou-se para Rodrigo curioso:

       — E a patroa?

       — Só Deus sabe. — respondeu, fazendo um trejeito com a boca em sinal de desagrado.

       — A Karen continua vivendo como se fosse solteira. — afirmou Val, depois que o irmão entrou. Não havia censura, era mais uma constatação. — Ela combina mais com o Prefontaine do que com qualquer homem. — brincou, rompendo o lacre de uma lata de cerveja e entregando-a ao amigo.

       Ele aceitou a bebida gelada e amarga.

       — Ela está sempre envolvida com as corridas ou com a reforma do açougue onde será a nossa confeitaria. — continuou, puxando a cadeira e sentando-se ao lado de Cris. — O meu irmão não está acostumado a deixar sua mulher tão solta. A Jasmine vivia colada nele, e ele adorava isso. Mas a Karen vive do jeito dela, sabe, não presta contas a ninguém, porque foi assim que o Dolejal a acostumou. Entendeu, agora, o drama?  O Rodrigo e a Karen se amam. Isso é fato. Mas uma hora a bomba explodirá debaixo daquele teto reformado.

       Cris assentiu sério.

       — Eles combinam.

       — É verdade. Opostos que se completam.

       Filosofou Valéria Malverde.

 

       Rodrigo retirava a torta de bolacha da geladeira quando o ronco do motor da picape de Franco chamou a sua atenção. Depositou o refratário sobre a mesa e escorou-se na soleira da porta arando com os dedos os cabelos curtos. Era outro trejeito seu, ao estar sem o chapéu, que revelava o seu estado de alerta e precaução. Imediatamente, resvalou o olhar para o médico. Este sorria encantado com algo que Sabrina lhe contava, suas histórias do curso de Enfermagem. Ao passo que Val abastecia o prato de Johnny com bastante salada verde. Vó Ninita buscara-o na escola ao volante do Fusquinha de Karen. Nenhum dos dois estranhou o fato de ela não estar para o jantar. Pelo visto, na casa dos Lisboa era comum cada um comer onde e quando quisesse, sem dar satisfações.

       No clã Malverde as regras eram outras. Antes de sair, fosse Rodrigo ou Sabrina, deixavam referência sobre onde poderiam ser localizados. E jamais faltavam às principais refeições.

       Ao ver a picape vermelha adentrar os portões sempre abertos de sua casa, Val endereçou um rápido olhar para Cris e outro, de apreensão, para o irmão, já a postos, descendo os degraus e encaminhando-se até os recém-chegados.

       Cris voltou-se ao perceber a movimentação à entrada da casa.

       –– É a Nova?

       Valéria tocou-lhe no ombro.

       –– Sim, e o rapaz. –– completou, transparecendo na voz o tom de aviso.

       Do outro lado da mesa, Ninita tragou fundo o cigarro e desferiu:

       –– Se fosse você, Cristiano, ficava bem encolhidinho no meu canto. Esse guri é meio biruta.

       O pediatra sorriu de leve, assentindo com a cabeça, e respondeu:

       –– Às vezes, dona Ninita, acho que mais biruta é a Nova. –– constatou.

       –– É papa-anjo, isso, sim. –– resmungou a avó de Karen.

       Johnny e Sabrina caíram na gargalhada. Valéria arregalou os olhos como faroletes.

       — Bom, ela sempre quis ser mãe, arranjou um garoto pra criar. — comentou o pediatra com amargura.

       — Já está na hora de superar, meu amigo. — aconselhou-o Val.

       Ao que Ninita novamente atacou na jugular:

       — Deve ter um fôlego esse moleque! Acho que é por isso que ela está mais magra; não notaram?

       Valéria fez um sinal com a mão em direção a Cris, ostensivamente.

       A avó de Karen já manifestara o seu lado, e ninguém entendia a opção por Franco. Rodrigo tinha uma teoria: Franco era tão malvisto na cidade quanto a sua neta Karen. Além disso, ele ria de todas as piadas sujas que vó Ninita contava.  A teoria de Valéria era outra: Ninita preferia a rudeza sincera do pistoleiro à pose de homem respeitável do médico. Era uma pena que ambas estivessem em lados opostos. Para Val, Nova escolhera a paixão no lugar do amor. E a culpa fora de Cris.

       Nova desceu da picape sem esperar por Franco. Deu uma corridinha até onde as luzes coloridas brilhavam. Tremia diante da possibilidade de contar aos amigos sobre sua gravidez. Ainda que tivesse 34 anos e fosse dona das suas rinites. Diminuiu o passo ao ver inesperadamente quem ela não contava bater de frente. Era por causa dele também que ela tremia. De repente via-se como ele a via, irresponsável, metida em encrencas e uma sonhadora romântica. 

       Instintivamente, virou-se em busca do apoio de Franco. Ele ficara para trás, conversando com Rodrigo. O certo seria acatar a estratégia do delegado, ao retê-lo antes de ver Cristiano, dar meia-volta e desistir da visita e do comunicado.

       Cris interpelou-a antes de conseguir escapar:

       — Está pálida... — constatou o médico avançando em sua direção.

       Nova quase riu, estava era com manchas vermelhas no pescoço e na face por causa da barba por fazer de Franco. De forma alguma a palidez combinava com a coloração de sua pele.

       — Tudo bem, Cris?

       — Ele cuida bem de você? — indagou, sem perder tempo.

       — Nós cuidamos bem um do outro.

       Ele a estudou por um momento.

       — Por que ainda precisa de escolta pela cidade? Não consigo me aproximar de você. — reclamou.

       — O Everaldo ainda não foi preso, é por isso.

       — O que tem a ver com esse bandido?

       — O Franco só quer me proteger.

       — Não, Nova, ele quer isolá-la dos seus amigos. — advertiu.

       Nova abaixou a cabeça e respirou fundo. Precisava contar as novidades antes que ele soubesse através dos outros.

       — Podemos nos encontrar um dia para conversarmos?

       Ele sorriu levemente.

       — Claro, claro. — fez um sinal em direção à mesa conduzindo-a pelo antebraço. — Podemos conversar no meu apartamento. Sabe como chegar lá, não?

       Eles se aproximaram da mesa, e ela aproveitou para abraçar Valéria e, depois, vó Ninita. Acenou jovialmente para Sabrina e Johnny. Ambos pareciam estranhamente expectantes.

       — Sabrina, busque dois pratos. — pediu a mãe.

       — Não, nada disso, nós jantamos antes de vir. — deu uma olhada ao redor e perguntou curiosa: — E a Karen? Vim falar com ela.

       Foi a vez de Ninita interceder a favor da ausente:

       — Hoje começou o circuito das corridas, e ela só chegará mais tarde.

       — Ainda mais que é a campeã da temporada passada. — completou Johnny.

       Nova sorriu para o filho de sua melhor amiga.

       — Queria vê-la correr um dia.

       — Aquela nasceu para viver no meio do mato mesmo. — resmungou Ninita aquele tipo de resmungo que mais parecia uma declaração de orgulho da neta.

       — Senta, Nova, e nos conte as novidades. — disse Val, puxando uma cadeira.

       — Eu...hã...

       — O que está escondendo, hein, mocinha? — perguntou Valéria estreitando os olhos, desconfiada.

       — Pois é, estou sentindo falta da minha amiga.

       — E eu? Não sirvo pra nada, não, sua pilantra? — perguntou Val, com as mãos nos quadris, provocando-a.

       Nova riu e abraçou-a com força.

       — Somos as três mosqueteiras tresloucadas, não?

       Ao ouvido, Val sussurrou-lhe em tom de pesar:

       — Não sabia que viriam hoje, desculpa.

       — Tudo bem, não esquenta. — brincou.

       Ela sentia os olhos de Cris o tempo inteiro sobre si. Uma mistura de constrangimento e tristeza a sufocava. Queria ir embora, voltar para casa e dormir abraçada a Franco. Decidiu pôr fim a visita:

       — Bom, outra hora a gente se fala... temos de comprar água mineral.

       Viu quando ele terminou de rabiscar o endereço em um papel, dobrá-lo e o entregar de forma discreta, como se fossem espiões da CIA. Ou amantes. Ao aceitar o bilhete oficializava novamente a cumplicidade para com o seu amigo de infância. Ela sentiu que traía alguém. A dúvida era se traía o pai de seu filho ou a si mesma.

       — Preciso muito falar com você. — ele murmurou.

       — Desde que não falemos sobre o que passou.

       — Por que está dizendo isso?

       — Estou vivendo com outra pessoa. — enfatizou.

       — Ah, sei, então considera normal jogar no lixo uma amizade de trinta anos. — afirmou ressentido.

       — Não é por aí...

       Cris torceu o lábio num trejeito de desdém. Quem era aquela mulher sem vida própria? Que tipo de lavagem cerebral sofrera?

       — Contou a novidade, princesa? — era a voz de Franco ressoando alta e clara em um tom de desafio. Ele caminhava devagar, com certa displicência, ladeado por Rodrigo.

       — Que novidade? — Cris pegou no ar algo que não lhe parecia bom.

       Valéria tornou a se sentar e endereçou um rápido olhar para vó Ninita, esta amassou o cigarro no cinzeiro, com um sorrisinho malandro, e encheu o copo com cerveja.

       — Que novidade, Nova? — insistiu.

       — Espero que seja coisa boa. — resmungou a avó de Karen.

       — Ela vai ter um filho meu, vó.  — comunicou Franco com um sorriso da mais pura e cruel felicidade.

       Rodrigo assimilou rapidamente o que pairava no ar. Ficou surpreso com a notícia. Por um momento manteve sua atenção em Cris. Como policial sabia qual fio deveria cortar primeiro, caso tivesse de desarmar uma bomba de fabricação caseira.

       — É verdade?

       — É, Cris. — Nova assentiu, impassível.

       — Que vingança absurda.

       — Sabe que sempre quis ser mãe.

       A expressão de repulsa do pediatra foi tão autêntica que não lhe foi preciso falar mais nada. Ele manteve o olhar nela, sondando-a de modo avaliativo, tentando compreender por que descera tanto na vida ao ponto de engravidar de um capanga de fazenda. Ela, que nascera em uma família tradicional de Minas, estudara em bons colégios e sempre tivera o melhor.

       — Acho que não é o momento para discussões. Afinal, um bebê é sempre bem-vindo. — ponderou Rodrigo, com um sorriso jovial, e recebendo um olhar exasperado da irmã.

       O delegado ignorou a irmã e o amigo, abraçando Nova e a erguendo do chão. Ela enlaçou-o pelo pescoço e sorriu alegremente.

       — Tem que se alimentar melhor, e nada de cantar até tarde no Gringo. — advertiu, largando-a no chão.

       — Vou me cuidar, papai. — brincou.

       Ele se voltou ao ouvir Franco afirmar com estudada naturalidade, os olhos fixos e desafiadores em Cris:

       — A gente vai casar.

       A mente humana ainda era um mistério para o delegado. Mesmo se vivesse oitocentos anos não a compreenderia de todo. Cris assimilara a gravidez com uma aceitação quase mecânica, na mesma situação de quem se encontra acuado por cães ferozes contra uma cerca eletrificada. No entanto, a referência ao casamento foi como uma faísca de eletricidade em um ambiente com vazamento de gás. A única reação a tal ação ocorreu num movimento rápido e impulsivo. O médico avançou para cima da amiga e a pegou pelos ombros.

       — Seus pais sabem que você está comigo, que estamos juntos, que viemos para cá para vivermos juntos. O que acha que pensarão quando souberem que a filha está grávida de um merda que mal passou dos vinte anos? O que dirá a eles? Onde está a sua carreira profissional? Onde estão os seus sonhos? Onde está você?

       — Me deixa, Cris — pediu, tentando desvencilhar-se.

       Ele apertou-a ainda mais e a chacoalhou com força.

       — Volte a si, Nova. A vida não é um romance de ficção, e você não está vivendo um conto de fadas. O que será de sua vida se acabar pagando pelos crimes dele, hein?

       — Me deixa em paz. — ordenou com os maxilares trincados. — Isso não lhe diz respeito!

       — Você é uma egoísta imatura e mimada que encontrou um brinquedo, uma distração, para não precisar viver de verdade.

       Rodrigo avançou um passo em direção a eles. Porém, Franco segurou-o pelo antebraço, contendo-o.

       — Ela está aprendendo a se defender. Não estrague tudo. — afirmou, acendendo um cigarro calmamente.

       Acatou a decisão do outro e, ao ver a irmã sinalizar para que ele agisse, deu de ombros como se não tivesse um papel exato a executar.

       — Falarei com Raquel e Guilherme e contarei o que realmente está acontecendo por aqui. É capaz de eles enviarem uma equipe de psiquiatras para levá-la numa camisa de força.

       — Tudo isso por que não quero mais a sua falsa amizade?

       — Não, Nova, não é por isso. — ele retirou as mãos dos ombros dela e completou com tristeza: — E minha amizade nunca foi falsa. Está sendo injusta ao me chamar de mau caráter. Mas não levarei em consideração, já que deve estar passando por uma lavagem cerebral com esse aí.

       — Sim, doutor, duas vezes por dia, todos os dias. — debochou Franco.

       — É isso que tem a oferecer? Sexo? — indagou com desprezo.

       — Certo, pessoal, vamos nos acalmar. — intercedeu Rodrigo, erguendo as mãos tentando apagar o incêndio.

       — A torta de bolacha, Rodrigo. — pediu Val, sorrindo nervosa.

       — Claro, vamos sentar e comer a sobremesa. — afirmou o delegado se sentindo um pateta. O clima não era para tortas e doces.

       Franco tragou fundo o cigarro e estreitou os olhos, mirando o médico por entre a fumaça.

       — É, sexo, e muito. Não deixo faltar nada pra ela, nenhuma lacuna a ser preenchida por outro.

       — Típica mentalidade de adolescente. — escarneceu Cris com um sorrisinho. — O que vai fazer? Puxar um revólver e me ameaçar?

       — Não, de jeito nenhum, respeito os mais velhos. — zombou.

       — Rodrigo, você não vai pegar a maldita torta, porra!

       Ele estava parado no meio do jardim assistindo ao desenrolar da cena e a sua possível e imediata intervenção. Ao ser chamado atenção, sorriu sem graça e enfiou-se na cozinha. Imediatamente mudou de ideia ao ver Bonnie dormindo no sofá. Por um momento, ponderou sobre o mundo canino. Cris podia até latir como um rottweiler, mas Franco era um pit bull. Ignorou o refratário com a torta de bolacha e voltou para o quintal.

       Cris estava de costas para Franco, a cabeça baixa, as mãos na cintura, parecia que tentava recuperar o autocontrole. Ao passo que Franco continuava fumando e, vez por outra, fitava as estrelas, numa postura displicente. Em um segundo tudo mudou. E o punho do médico fez um giro de 180 graus e acertou o ar, já que Franco se esquivou antes de receber o golpe no rosto. Deu dois passos para trás, enquanto o médico tornava a tentar acertá-lo com o punho cerrado. Ouviu quando Val gritou chamando-o:

       — Pelo amor de Deus, Cris, não!

       O delegado encaminhou-se até a dupla com a intenção de separá-los, apesar de estarem separados. A situação do seu amigo era desconcertante. Ele tentava aplicar socos que, devido à agilidade do outro, golpeavam o vazio. Franco apenas se esquivava. Tal atitude fez com que Rodrigo mudasse de ideia. Eles podiam resolver o problema sozinhos. Voltou à cozinha mesmo ouvindo Valéria praguejar. Abriu a geladeira e rompeu o lacre de uma lata de cerveja. À porta, chegou a tempo de ver o instante em que Franco encheu-se da brincadeira. Estendendo o braço com precisão, ele golpeou o nariz do médico com um soco seco e rápido. Cris caiu para trás, inconsciente.

       Rodrigo continuou imóvel, bebendo sua cerveja, observando o pistoleiro encaminhar-se até a namorada e pegá-la pela mão, a feição fechada, havia feito algo que não estava em seus planos. Mas a namorada sorria. Cogitou que ela estivesse nervosa diante da briga. Não, Nova verdadeiramente sorria. Parecia que se sentia vingada por Franco. Franziu o cenho tentando entender a situação. Franco sério e abalado por ter agredido Cris. Nova quase exultante por Franco ter nocauteado Cris. Johnny, Sabrina e vó Ninita trocando cédulas de cinco pratas em uma presumível aposta. Val atirada ao lado do médico completamente histérica. O que ele tinha de fazer?

       — Gosto muito de você, Nova, mas não quero que volte com esse psicopata de novo! — gritou Val, segurando a cabeça de Cris pela nuca. — É inadmissível o que ele fez! Inadmissível!

       Nova teve uma crise de riso.

       — Desculpa, pensei que o Cris estava tendo um ataque epilético, não sabia que tentava lutar com o Franco.

       Valéria estava tremendo de raiva.

       — Sabrina, me ajude a levá-lo para a sala. — voltou-se para o irmão e berrou: — Dá para ajudar ou agressão física é algo banal para o senhor também? — por último sobrou para a amiga: — Você podia ter controlado o seu homem, mas não quis. Acha bonito dois caras brigarem por sua causa? A Karen não vai gostar nada de saber sobre sua gravidez, tampouco que o Franco meteu a mão no Cris. Acha isso bonito também? Vai continuar rindo quando enfrentar a Karen e dizer que engravidou de um pistoleiro, porque não era amada pelo Cristiano? Acha que a Karen vai aceitar numa boa a sua submissão ao filho do Dolejal? E, mais, ela é amiga do Cris, todos nós somos. E quanto ao Franco...bem, ele é aceito por nós por sua causa. Essa é a diferença entre os dois. E é isso que ouvirá da Karen, Nova Monteiro.

       Franco a puxou para si, pôs o braço por sobre seus ombros, levando-a consigo.

       — Vamos para casa, princesa.

       Da porta, terminando sua cervejinha, Rodrigo avisou:

       — Domingo tem pescaria, não esquece, hein, Franco!

       O outro sorriu e assentiu com a cabeça.

       — Por favor, Rodrigo, vamos levar o Cris para o sofá! — gritou Val.

       — Chega de cochilar, Bonnie. — disse ele, batendo na coxa para chamar a cachorra. — Um poodle acabou de ser atropelado. — falou baixinho, brincando.

         

       Entrou com as botas na mão. Pisava no assoalho da casa como uma ladra, na ponta dos pés, segurando a respiração. Ao alcançar a porta do quarto, ouviu um rosnado baixo e rouco. Maldita cadela dos infernos, grunhiu Karen. Preferiu enfiar-se primeiro no banheiro. Já sabia o que iria encontrar no espelho, uma mulher com a cara de quem brigara feio com alguém. Além disso, estava com o corpo dolorido e havia bebido um pouquinho a mais da conta. Sentou-se sobre a tampa da privada e averiguou os machucados da noite. Até que tivera sorte. O camarada fora pego de surpresa e derrubado do cavalo. Meter o punho fechado em sua boca e arrancar dois dentes foi mais fácil do que imaginara. Problema maior era encarar a polícia.

       Gemeu ao levantar-se e abrir o registro do chuveiro. Despiu-se e permitiu que a água morna quase fria a livrasse da poeira e do sangue, dela e do outro. Mais uma vez gemeu. Encostou a cabeça contra os azulejos do boxe.  Fechou os olhos e voltou o rosto para o jato d’água.

       Ao se virar para pegar a toalha e se enxugar, assustou-se. Riu sem jeito, o homem da lei observava os seus ferimentos ao longo do corpo. Ela não os havia percebido antes. Escoriações nas coxas e no quadril, nódoas roxas com halos esverdeados. Delicados hematomas como florzinhas pincelando a sua pele morena.

       Os olhos do delegado demoraram-se na inspeção e, à medida que conferiam os estragos, estreitavam-se de forma beligerante. Karen deveria temer tal olhar, mas, a bem da verdade, o homem era lindo demais para ser temido. Ainda mais vestido apenas no short do pijama de algodão azul escuro, exibindo o abdômen enxuto e a musculatura definida.

       Ele nunca fora discreto. Sempre simples, direto e preciso. Apontou o dedo indicador para o seu corpo sem tocá-lo. Um arquear de sobrancelha acompanhou a indagação:

       — O que significam essas marcas?

       — Ah, droga, acordei você. Boa noite, amor.

       Para o delegado, todos eram culpados até provarem a sua inocência. A mulher que esfregava a toalha com cautela no braço esquerdo e evitava encará-lo tinha culpa no cartório, sim.

       — Boa noite. Onde arranjou essas marcas? — insistiu.

       — Ossos do ofício. Às vezes, me deparo com um competidor mais, digamos, selvagem e acabo me machucando além do previsto. — brincou, controlando novo gemido.

      Não foi a voz rouca com ligeiro acento irônico que lhe chamou a atenção, tampouco a sutileza da aproximação felina, o que a fez encará-lo foi o que ele disse sem preâmbulos:

       — Ou fez sexo selvagem com alguém ou está participando do MMA e não me contou. — ele não fazia piada. Semblante sério, olhar interrogativo e a nuvem escura descendo sobre ambos.

       A feição era tão dura que Karen pensou que havia alcançado, enfim, o seu limite. Torrado a sua paciência. Tantas vezes fazendo as mesmas merdas, um dia, uma hora, um minuto depois de puxar o pino da granada... explodia.

       — Sabe que temos um pacto de fidelidade, e eu jamais o quebraria. — falou secamente, enrolando-se na toalha.

       Com os braços cruzados em frente ao peito, escorado contra a parede, displicentemente, ele apenas a analisava com o olhar desconfiado. Entretanto, era possível que por trás da desconfiança houvesse um fundo de amargura e tristeza.

       — Nunca está em casa, Karen. Só consigo encontrá-la antes de ir para a delegacia e, nas últimas semanas, vejo-a machucada e desviando os olhos dos meus. Não resolvemos viver juntos para nos tornarmos estranhos. Pelo menos, não foi essa a minha intenção. — sem lhe dar tempo para contra-argumentar, disparou: — Onde são as corridas?

       — Em Neverland. — respondeu, encarando-o em desafio.

       Ele suspirou, irritado.

       — Está se comportando como uma criminosa e, desse jeito, só me resta agir como policial. Terei de investigá-la, ou melhor, vigiá-la para descobrir onde corre.

       — Não me diga que vai virar um maluco possessivo como o seu protegido Franco. — debochou, um sorriso de zombaria na boca inchada e ferida.

       Sem nada falar, endereço-lhe um olhar duro e virou-se para sair.

       Karen seguiu-o até o quarto. Fechou a porta atrás de si e desvencilhou-se da toalha. Deitou na cama e estendeu o corpo como se, com o gesto, se livrasse do cansaço. Cruzou os braços debaixo da cabeça e, fitando a pintura clara do teto, fez uma recomendação ao delegado, que sentara aos seus pés, à beira da cama.

       — Acho que esqueceu o acordo que fizemos antes de juntarmos os trapos. Tenho que refrescar a sua memória uma vez por semana ou posso ir direto ao ponto e reafirmar a minha intenção de não criar uma identidade de casal? Preciso novamente explicar que não nasci para fazer parte de qualquer tipo de “duplinha” seja afetiva ou sertaneja que, por sinal, a merda é a mesma? Vivemos juntos mas somos dois; não dois em um, e sim um mais um. Entendeu o cálculo, Rodrigo, ou prefere complicar? — perguntou, secamente.

       Ele se voltou e fitou-a sério. Digeria as palavras ditas sem o calor de uma discussão. Karen jamais discutia; ela impunha e determinava. Cabia a ele aceitar ou pular fora, sem meio termo, nada de ponto de equilíbrio.

       Era verdade que fora uma dureza trazê-la para dentro de sua casa. Existiam regras, as regras de Karen. E uma delas era a sua independência, a manutenção irrestrita de sua individualidade. Resquícios de sua relação com Dolejal. Ou apenas proteção de quem fora traída e substituída por outra pelos homens com os quais mantivera um relacionamento sério. A questão era que a sua felicidade minguava-se às saídas dela. Karen mal parava em casa e, quando voltava, nem pensava em dar-lhe explicações. Vivia ainda como uma mulher solteira e disponível. 

       — Acho que sou eu quem deve fazer a sua memória funcionar, já que ela é um tanto seletiva quanto ao que realmente quer recordar. — começou sem pressa, pausando as palavras, mantendo os olhos nos dela: — Quando o Dolejal barrou a sua entrada na Arco Verde, trouxe-a para minha casa, cuidei dos seus ferimentos e quase morri quando o Mendes tentou matá-la. Sei que dispensa a minha proteção, mas, desculpe, não posso deixar de ser quem sou. Você quer liberdade e eu quero protegê-la. Aceitei suas condições. Por que não aceita as minhas?

       Antes de falar já sorria o seu sorriso amargo, aquele preparado com a náusea de quem vivera a mesma experiência mas com outros nomes.

       — Proteção e domínio são praticamente sinônimos, meu caro. Você todo se contradiz quando fala que se preocupa com a minha segurança e, ao mesmo tempo, me chama de criminosa. Assim como sua voz é macia e seus olhos revelam aspereza e rancor. — ela se apoiou nos antebraços. — Sabemos tudo sobre armadilhas, não é? Aqui, em Matarana, temos de aprender desde cedo a nos prevenirmos contra elas. E o que propõe, com esse jeitinho meigo de moço de família, é uma puta armadilha. Então repetirei... nada de dar satisfações e, principalmente, nada de se meter nas minhas corridas.

       Ele assentiu, levemente, contraindo os maxilares.

       Karen temeu perdê-lo, jamais o vira irritar-se ou elevar a voz. O pouco que pedia não era atendido. Conhecia-o suficiente para entendê-lo na sua exigência, era um camarada íntegro e dedicado ao amor, ao amor entre eles. Estendia tal amor a Johnny e a vó Ninita, além de abraçar o novato do grupo, Franco. Mesmo que ela própria ainda desconfiasse da sanidade e caráter do filho de Thales. O fato de mais uma vez ele fazer um sinal afirmativo com a cabeça, um suave sinal, a face entristecida de um perdedor, a fez prender a respiração. Ela não era a doce Jasmine, que com meiguice e voz infantil, também fazia o diabo com ele. Manipulava-o com dedos de fada. Karen jogava tudo na cara, sem manipulações ou rodeios.

       Deitando-se de lado e pondo as mãos debaixo do rosto, pôs fim à conversa. Fechou os olhos e fingiu adormecer. Um fingimento mal executado, uma vez que o homem que ainda a fitava com ar pesado e desconfiado, sabia muito bem que ela custava a dormir, ainda mais quando voltava da rua ferida.

       Rodrigo levantou-se e saiu.

       Ela mordeu o lábio inferior tentando conter um gemido. Gemeu por justamente ter mordido o lábio machucado. Na tentativa de agarrar com os dentes o braço do seu rival, mordera a si mesma. Dor maior era aquela dentro do peito. Principalmente, ao ver por entre as pálpebras semicerradas, o seu homem voltar e tornar a sentar-se à beira da cama. Trazia nas mãos algodão, iodo e pomada para os hematomas. Sem emitir palavra, borrifou o antisséptico nos ferimentos. Havia tamanha delicadeza no gesto que Karen se sentiu obrigada a abrir os olhos e voltar-se para ele, que manteve a atenção concentrada na tarefa.

       — Pensa em pular fora? — ela viu-se perguntando numa voz sumida.

       A expressão no rosto do delegado evidenciava a seriedade do assunto. Rugas profundas na testa, o cenho franzido, a comissura dos lábios ligeiramente curvada para baixo num ricto de amargura. Mesmo com um conjunto facial de provas que apontava para a direção do “bater em retirada”, o que Rodrigo falou serviu à sua dor como uma injeção de morfina:

       — Já disse, sou feito de outra substância.

       O que isso significava?

       Karen não questionou. Sabia apenas que por enquanto estava salva.

         

       Rodrigo abriu os olhos antes do galo da vizinha cantar. Era cedo demais. O quarto ainda na penumbra e o silêncio manso do cotidiano. Respirou profundamente aquele tipo de inspiração preguiçosa e lenta. O cheiro do amanhecer ultrapassava os frisos da veneziana.

       Ele se virou para o lado e encontrou um rosto e um sorriso. Retribuiu o gesto, sorrindo devagar, investigando com atenção a expressão facial de Karen. O sorriso sensual movia os lábios como que para hipnotizá-lo. Havia algum tempo que estava acordada, uma vez que o cabelo fora prendido no alto da cabeça e vestia um robe de seda estampado, tão fino que se podia ver as curvas de suas ancas e a força muscular de suas coxas. Rodrigo ficava doido quando a via dentro do robe. Foi então que tentou erguer-se para tocá-la e não conseguiu. Karen gargalhou, deitando a cabeça para trás.

       Ao que o delegado imediatamente compreendeu por que sentia os braços dormentes. Ele havia caído em uma emboscada.

       — E, aí, machão? Como se sente preso? — ela perguntou em tom de deboche, resvalando o olhar para o tórax nu e o cenho franzido do homem que sabia que puxar o braço das argolas de aço era uma atitude imbecil.

       Manteve-se imóvel, fitando-a. Ainda aturdido pelo sono e pela surpresa, custava-lhe organizar os pensamentos mais inteligentes.

       — É assim que se sente comigo? — arriscou.

       Ela manteve o sorriso irônico. Em seguida, abaixou-se até prender entre a língua e os dentes frontais um dos mamilos do delegado. Uma mão que conhecia todos os atalhos daquele corpo deslizou pelo tórax largo, mas logo o abandonou. Aquele homem com sua barriga tanquinho e sua pele morena era um verdadeiro parque de diversões.

       Voltou-se para ele sem deixar de descer a mão para o cós do short do pijama.

       — Mais ou menos... — murmurou.

       O mistério da resposta foi acrescido ao gesto de reconhecer o terreno tantas vezes explorado e protegido pela roupa íntima. Tirando-o para fora, ouviu um gemido baixo e rouco. Ele fechava os olhos e inspirava forte. Retinha o ar nos pulmões. Sabia que precisaria de todo o estoque possível. Ainda assim, lembrando a discussão que haviam tido, retesou os maxilares. Era uma luta danada aquela, a consciência exigindo um posicionamento a respeito do relacionamento dos dois e o corpo, bem, o corpo ardendo em chamas.

       — Me sinto presa... mas com prazer. — ela gemeu, lambendo-o na concha da orelha. O efeito da lambida pulsou na mão dela. — Como se sente à mercê de outra pessoa?

       — Hã...?

       Ela riu baixinho.

       — Quero fazer bem devagar, sabe como é, gosto de mastigar várias vezes antes de comer. E você é um banquete para mil pratos. — murmurou, as narinas dilatadas, o desejo coçando-lhe a pele numa ardência exasperante.

       Ele não sabia direito em que ponto da fala de Karen disparou um gatilho na sua cabeça. Algo não soou bem. Talvez tenha sido o modo de referir-se a ele como mero objeto de prazer. Era assim que Karen via seus amantes. Abatia-os na cama. Mais uma vez se sentia excluído da condição de seu amor. Era uma peça de carne. Mas não era o homem que a enlouquecia como Thales. Endureceu os lábios e, instintivamente, tentou escapar das algemas e da boca que se aproximava do seu quadril.

       — Não. — a voz soou mais seca do que devia.

       Ela parou e o encarou, divertida:

       — Está no seu período fértil?

       Ele fechou a cara. Não seria fácil argumentar duro de tesão.

       — Você apronta a semana inteira a depois quer fazer amor. — reclamou.

       — Bom, não tivemos tempo pra transar... — tentou argumentar sem muita convicção.

       — Porque não parou em casa. — emendou com rispidez.

       Ela fitou-o, detidamente, percorrendo cada parte do rosto bonito, magoado e ressentido. Por fim, apertou os lábios e comunicou:

       — Foda-se, eu preciso descarregar minha energia.

       Rodrigo tentou escapar das suas mãos. Mais de uma vez puxou os pulsos com algemas da guarda da cama. Marcas vermelhas tingiam-lhe a pele, a cama balançava e batia contra a parede. Barulho que acordaria todos na casa. Mesmo lutando e tentando se esquivar das investidas da mulher, viu-se ser despido.

       Com precisão, ela puxou-lhe o short e o jogou do outro lado do quarto.

       — Karen, as coisas não funcionam assim. A gente tem de se acertar, conversar sobre os rumos do nosso ... pelo amor de Deus... o que pretende? me estuprar? — exasperou-se.

       Ela fez um movimento para tirar o roupão. Mudou de ideia e apertou ainda mais o cinto ao redor da cintura.

       — Isso mesmo, depois faz um BO na delegacia... — comentou indiferente e emendou enquanto acariciava o pênis grande e o posicionava para penetrá-la: – mas depois de eu gozar. — dito isso, sentou-se devagar, aceitando a invasão que crescia e tomava-lhe toda como uma lança ígnea.

       Bem que ele tentou ser forte.

       — Isso não está certo... — gemeu enquanto era cavalgado com força.

       Ela pôs as duas mãos sobre os ombros dele e o montou para vencer. Cavalgava com vigor, atirando a cabeça para trás, aguentando firme os açoites de fogo que a queimavam. Sentia-o todo, no ventre, enterrado e dono dela. Ergueu-se centímetros para recebê-lo novamente. Entre as pálpebras semicerradas, viu-lhe a expressão tensa, de sofrimento contido, de quem está à beira de um ataque de vida quente e cremosa. Enterrou as unhas na carne de seu corpo e gritou ao alcançar o pico mais alto. Ele estremeceu ofegante, escabelado, úmido de suor, perfeito.

       Entre suas pernas, esse era o lugar de Rodrigo Malverde, Karen reconheceu.

       Rolou por sobre ele e deitou de costas. A respiração acelerada e o coração bombeando o sangue à beira de uma síncope. Virou-se e procurou pelo cigarro. Precisava fumar e controlar a tremedeira. O ar-condicionado não dava conta do calor.

       — Pode me soltar agora? — ele pediu, ofegante, fazendo uma careta de dor.

       Ficou entre a vontade de fumar e soltá-lo. Preferiu fazer a vontade dele. Dois filetes de suor deslizavam pelas têmporas de Rodrigo. Os ombros marcados por suas unhadas, a pele avermelhada e o cabelo desgrenhado. Controlou a vontade de debochar de seu aspecto “do avesso”.

       — Acho que terei de esconder minhas armas também. — resmungou, sentando-se à beira da cama, olhando ao redor como se procurasse por explicações para o ocorrido. Arou o cabelo com os dedos e balançou a cabeça devagar: — O que você quer, você pega.

       Tentada a concordar apenas sorriu. O sorriso permaneceu congelado ao encará-lo. Ele se virou para ela meio corpo, olhos sérios e investigativos, a boca numa expressão dura. O delegado estava com raiva. Haviam feito sexo, e ele estava com raiva. Karen não sentia mais vontade de debochar ou desafiá-lo. Havia naquele olhar de um castanho quase cor de mel um tipo de ácido corrosivo. Atingira os brios do caubói. Tantas vezes assistira a tempestades em olhares alheios, convulsões de sentimentos nos olhos masculinos, nas expressões de ódio, ironia e desprezo de machos usados e moídos entre suas pernas. Sabia que provocava coisas boas e ruins nos outros.

       E sabia também que Rodrigo não era à prova de fêmea alfa.

       — Acha mesmo que nesse terreno aqui, — começou, a ponta do indicador desenhando um círculo no ar pouco acima da cama — você também dita as regras? Em algum momento da nossa relação eu usei o sexo como um jogo de poder? Não, Karen, não. Porque fazer amor com você tem sido o único jeito de tê-la somente para mim, totalmente entregue. Fora da cama, você se arma até os dentes e se fecha nessa merda de individualidade. E, agora, na cama, brinca de me dominar, se diverte em debochar dos meus princípios. — ele fez uma pausa, avaliando-lhe a expressão: — Antes que faça alguma piadinha infame, volto a lembrá-la que, sim, sou um homem com valores, fora de moda, um idiota romântico e não aceito muito bem ser subjugado.

       — Ah, é mesmo, desculpa, sei que prefere o original papai-e-mamãe — ironizou, alçando a sobrancelha.

       Ele estreitou os olhos perigosamente e moveu o corpo como se preparando para sair da cama. Mas o braço direito se estendeu e a mão agarrou-a pelo tornozelo, puxando-a para baixo, deixando-a esticada sobre o colchão. Num segundo movimento já estava sobre ela sem tocá-la, os braços dando apoio ao seu corpo, as pernas entre as dela, afastando-as com brusquidão. Baixou o rosto até quase esbarrar em seus lábios, não havia intenção alguma de beijá-la. Dos olhos, faíscas de raiva em melífluas labaredas que nada tinham de doce e era tão-somente a cor do mel expulsando o fogo do corpo, tanto autocontrole desperdiçado por sobre o lençol. Por mais que ele fosse um homem equilibrado e mentalmente saudável, as veias em sua testa e têmporas pulsavam como as de alguém à beira de um colapso. Ardiam-lhe as órbitas injetadas porque a temperatura do seu corpo se elevava, um tipo de febre, uma quentura provocada pelo abalo emocional e o desejo sexual. Não havia dilema quanto ao que queria dela nem a menor intenção de não obter. Vendo-a arregalar os olhos assustada com o ataque não amenizou a vontade de atacá-la e, estranhamente, vencê-la. Prendeu-lhe a cabeça entre as suas mãos e cravou os olhos na boca que se abria.

       — O que está tentando provar? — ela perguntou.

       O tom era de um desdém revoltante, e ele não estava acostumado a ser desdenhado por quem amava.

       — Entendo porque tira o Dolejal do sério. — disparou no mesmo tom.

       Ele sabia que viria retaliação. E ela veio.

       Karen tentou erguer o joelho para acertá-lo e o efeito foi o contrário do que esperava. Rodrigo impulsionou o corpo para trás, trazendo-a consigo, o braço lhe envolvendo a nuca. Puxou-a com ímpeto, o suficiente para fazê-la bater contra o seu tórax e apertá-la dentro do arco de seus braços. Mas não era um carinho. Não, ele não sentia carinho por ela naquele momento. Doía-lhe demais não amá-la enquanto a preparava para fazer sexo, descendo um braço para firmá-la pelas costas ao encontro do seu corpo e o outro braço enfiando-se por baixo das coxas separadas para recebê-lo.

       Ela se debateu e o empurrou batendo em seu peito.

       — O que pensa que está fazendo?

       Ignorando-a, jogou seu corpo contra o dela que afundou no colchão. Karen sentia como se uma parede de concreto tivesse desabado por sobre seus seios, abdômen e pernas, imobilizando-a. Por outro lado, a impressão que tinha era a de que ambos digladiavam na cama tentando estabelecer o domínio alfa.

       Ela tentou se safar e foi contida pelas mãos que juntaram as suas e prenderam-lhe os braços no alto da sua cabeça.

       — É a minha obrigação satisfazê-la, não? — ironizou, baixando a boca e cravando os dentes em seu pescoço, os pelos ralos do cavanhaque arando-lhe a pele e provocando espasmos agudos por sua musculatura.

       Manteve a boca fechada para não gritar, ainda tentando se livrar do domínio dele, da força poderosa pressionando-lhe o corpo e da raiva de se sentir subjugada. Era uma luta pelo poder.

       A fragilidade de seus ossos e carne de mulher irritou-a ao ponto de lhe encher os olhos de lágrimas. Lutou o quanto pôde para sair da posição inferior debaixo dele. No entanto, tudo o que conseguiu foi induzi-lo a usar ainda mais a força muscular de macho preparado para qualquer embate.

       Ele desceu a boca pela sua pele morna e abocanhou um mamilo, intercalando pequenas mordidas com os dentes frontais e chupadas que lhe tomavam toda a auréola na boca. Um homem das cavernas se alimentando da caça, virando a caça de bruços, mantendo-a ainda prisioneira, gemendo e arfando, penetrando-a com força seguidas vezes, bombeando forte como se prendesse estacas no seu território e propriedade, até mesmo a placa de dono.

       — Aqui, Karen, quem manda sou eu. — determinou ofegante, apertado dentro dela e louco, louco ao ponto de perder o controle.

       Pegou-a pelos cabelos e a cavalgou com dureza, sentindo o corpo debaixo de si ceder e aceitá-lo, a umidade do suor brilhando e o barulho de carne contra carne atiçando-lhes ainda mais o desejo. O estrado rangia e a guarda superior batia forte contra a parede.

       — É assim que fodia com o Thales, não é? É assim que gostava? — falou baixinho, rouco, a respiração entrecortada. — Nada de romance, apenas uma boa foda.

       Karen gritou com a cara enterrada no travesseiro. Em seguida, ele afundou o nariz no cabelo dela, respirando colado à sua nuca. Os músculos pulsavam, a pele queimava o fogo que aos poucos cedia. 

       Pela primeira vez ele fora rude. E Karen tentava acreditar que não havia gostado, que deveria exigir-lhe explicação ou pelo menos deveria fingir-se ofendida. Mas não conseguiu esboçar nenhum movimento. Estava exaurida e plena. Transpirava e absorvia pequenas explosões, delicados estampidos inaudíveis na musculatura. Até que ele saiu de dentro dela, abandonando-a na cama, sozinha no seu desejo saciado.

       Quando conseguiu levantar-se, ainda atordoada, ajeitou-se no robe e girou a maçaneta da porta do banheiro. Bateu e pediu para ele abrir.

       — Já dei o que queria. Agora me deixa em paz.

       Mordendo o lábio inferior machucado, Karen considerou que ferira os sentimentos de Rodrigo. De repente ouviu a voz de Thales: “Ninguém aguenta a senhorita Lisboa por muito tempo”.  Será que o cretino tinha razão?, pegou-se pensando alto.

       Voltou para o quarto e se sentou na cama. O mundo não era infestado de “Rodrigos” como aquele, de homens íntegros, inteligentes e atraentes até tirar o fôlego. Por outro lado, a vida no mundo não se restringia a se ter ou não homens ao lado. Deitou de costas e fitou o teto.

       Por que era tão difícil ter um amor e se manter dona do próprio nariz? Por que isso só era difícil para as mulheres?

       Rodrigo não voltou para o quarto. Vestira-se no banheiro e saíra sem tomar café e se despedir.

         

       Alberto conduzia com cautela a camionete de luxo do patrão. Ao seu lado e debaixo do imenso chapéu branco, o coronel Rodrigues fumava o charuto cubano e contava como expulsara os “bugres” das terras em que começara a cultivar o algodão. Para ele, tal façanha era motivo de orgulho, expulsar os índios preguiçosos de terras doadas pelo governo. O fato de famílias inteiras viverem em malocas ao longo das estradas não importava. Afinal, o coronel dizia: de que adianta dar vara de pescar para quem não tem braço? E ria da própria piada. O segurança ao volante também ria, mesmo que também não tivesse um teto seu sobre a cabeça e que sua pele fosse da cor da cuia, como a dos índios roubados. No banco traseiro, Franco entediava-se cada vez mais. Ao ponto de bocejar seguidas vezes. Os vidros da picape estavam fechados, a fim de manter em seu interior a temperatura de vinte e dois graus. A fumaça do charuto fedia.

       Ao entraram na estrada que levava diretamente a Arco Verde, ele se retesou. Endireitou-se no banco e perguntou desconfiado:

       — Por que estamos indo à fazenda do Dolejal?

       Alberto piscou nervoso e nada disse. Ninguém perguntava o que fosse ao fazendeiro. No entanto, Franco questionava-o quando lhe dava na telha. Exalando outra baforada o coronel fez a sua parte:

       — Tenho negócios a tratar. — em seguida, virando-se para trás, mirou bem seus olhos nos do segurança mais jovem e o aconselhou: — Fica frio, rapaz, e não se meta no que não lhe diz respeito.

       Franco segurou uma resposta de arrancar cera dos ouvidos de tão cabeluda. Apertou os lábios e desviou os olhos do patrão de Goiás. Não podia se meter com ele e acabar na rua. Limpara suas economias pela manhã. Ainda tinha um pouco de dinheiro guardado, mas seria usado para o casamento. Ele, Nova e os seus convidados teriam tudo do bom e do melhor. Desde que coubessem em menos de dois mil reais, conjecturou desanimado.

       Dinheiro era uma merda que voava. Bastava trocar uma nota ou outra e já estava pelado de novo. A verdade era que não resistira às alianças de ouro com delicados brilhantes. Nada estaria à altura de Nova, o máximo que conseguira fora a aliança mais cara de Matarana. Jamais comprara algo para uma mulher. Sentira-se estranho na joalheria sofisticada frequentada apenas pelos fazendeiros, políticos e empresários da cidade. Cogitou até que não permitissem a sua entrada, enfiado no seu jeans puído e na camiseta dos Ramones. O segurança uniformizado e armado ressaltara antes de ele passar pela porta giratória:

       — Olha, Franco, o chapéu e as armas terão de ficar comigo. Tudo bem, né? —completara com um sorriso, o seu antigo camarada de bebedeiras e puteiros em Santa Fé.

       Alberto estacionou obliquamente à entrada da casa-sede, ao pé da escadaria de pedras que levava ao reino de um dos fundadores da cidade. Franco desceu da camionete farejando no ar qualquer mudança. Um mero detalhe desconhecido na atmosfera ou no cenário de sua infância e adolescência seria prontamente reconhecido. Ouviu o latido dos cães presos no canil. A cascata caindo no açude ao longe. As mangueiras e palmeiras balançando suavemente ao sabor do vento morno.  A figueira que balançara o corpo de seu bisavô. A aproximação dos pistoleiros sempre cuidadosos e desconfiados; nenhum deles gostava de Franco. Apenas o velho que caminhava sorrindo em sua direção. Estendeu-lhe a mão e retribuiu o sorriso:

       — Nada mudou, Bronson.

       — Como quer que mude, Franco, não faz nem dois meses que está fora. — brincou.

       — E o Dolejal? — perguntou o coronel Rodrigues com brusquidão. — Marquei hora com ele, me leve até o seu patrão.

       Bronson e Franco se entreolharam. O primeiro sabia da fama de imbecil do novo patrão de Franco, e o segundo enfiou as mãos nos bolsos traseiros do jeans, numa postura de forçada indiferença.

       Endereçou um olhar irônico e desafiador aos camaradas que o vigiavam sem discrição. Ergueu o queixo na postura que irritava os capangas da fazenda. Antes de entrar atrás dos outros, acenou-lhes com a mão e um sorrisinho debochado. Quase esbarrou na velhinha miúda que lhes abrira a porta. Abraçou-a meio que apertando e segurando-a no esbarrão. Rindo muito, trouxe-a para si, os braços da governanta enlaçaram-lhe a cintura e o seu corpo parecia tremer.

       — Que saudade! Por que não me visitou mais? — perguntou, secando as lágrimas com o dorso da mão.

       — Por que sou um idiota egoísta, Irene. —respondeu com simplicidade.

       — Estou velha, posso morrer a qualquer momento e ficará com a consciência pesada. — reclamou magoada.

       — Com certeza irei entes de você. — afirmou Franco sem sorrir, endereçando um rápido olhar para os homens sentados no sofá, enquanto Bronson subia a escada até o escritório de Dolejal.

       — Anjos são imortais, meu filho.

       Ele se voltou para ela, sorrindo.

       — Mas o diabo depende da boa vontade dos homens. — debochou.

       — Para com isso! Odeio esse apelido de diabo louco, odeio! — ralhou, dando-lhe um tapinha no peito.

       Franco gargalhou, corrigindo-a:

       — É diabo loiro, Irene, não piora ainda mais a situação. — em seguida, tirou do bolso frontal da calça a caixinha delicada e abriu-a: — Vou casar com a jornalista. — revelou sorrindo.

       — Meu Deus, filho...são lindas...meu menino vai casar. — começou a soluçar.

       Envergonhada, disparou para a cozinha.

       Franco fez um movimento para alcançá-la, mas foi contido pela percepção de uma presença que sempre o atraíra. Voltou-se e observou a figura imponente no mezanino fitando-o impassível. Apertou os punhos. Não sentia raiva ou vontade de bater. Continha-se para não correr e atirar-se aos seus pés.

       Thales precisava de uma desculpa para saber como Franco estava se virando. Havia um assunto que se arrastava havia alguns anos, a compra de um grande lote de terras entre a Arco Verde e a fazenda de Rodrigues, terras férteis com direito a um açude natural.

       — Bom dia, Rodrigues. — estendeu a mão ao fazendeiro que, prontamente, ergueu-se a fim de cumprimentá-lo.

       — Como está, Dolejal? Pelo visto, cada vez mais rico. — brincou.

       Camaradagem entre feras — observou Franco, postando-se à esquerda do coronel, com a mão sobre a Glock na cintura e o olhar direto no pai.

       Os fazendeiros não cumprimentavam os seguranças alheios. Era uma questão de se respeitar a casta à qual se pertencia. Por isso Thales ignorou-os e fez um sinal ao coronel indicando-lhe a escada de onde viera.

       Ele não esperava outra reação. Franco acostumara-se a não querer mais do que a vida podia ou queira dar. Acompanhou-os até o escritório e foi surpreendido pelo ruivo sardento sentado no sofá, a perna dobrada sobre o joelho, o chapéu enterrado até os olhos. Assim que Dolejal entrou, seguido por Rodrigues, o caubói se colocou, precisamente, à esquerda de Thales. Era Paulo.

       Franco endureceu os maxilares e endereçou um olhar de fúria contida ao ex-patrão. Thales mais uma vez desconsiderou a sua presença, sentando-se na cadeira atrás da escrivaninha. Antes que ele começasse a falar, o coronel sinalizou com a mão como se tocasse um cachorro:

       — Chispa pra fora, fica lá embaixo com o Alberto.

       Ele nem se mexeu, manteve os olhos cravados nos olhos de Dolejal, que o desafiava secretamente.

       — Meu lugar é aqui.

       — Já disse, pra fora! Era só o que me faltava a peonada participar de uma reunião de negócios! — debochou o fazendeiro, estalando a língua no palato.

       O outro latifundiário, por sua vez, concentrava-se na postura de guerra da sua criatura.

       — Se ele sair, eu saio. — Franco afirmou, acenando com a cabeça em direção a Paulo.

       Paulo riu, sentia-se importante e inatingível em seu posto de braço direito. Mesmo que o patrão o considerasse mera prótese até o verdadeiro membro superior voltar.

       O coronel pôs as mãos nos quadris, o charuto entre os dedos apontava para frente.

       — Ô seu merda, pago o teu salário, ponho comida na tua boca e na boca da tua mulher, então, quando eu mando, só tem uma coisa a fazer. E é pra já, cacete!

       Thales sorriu ligeiramente. Era aquele sorriso usado para intimidar o oponente, um sorriso arrogante e mau. O sorriso endereçado ao filho. Você é um Dolejal ou um merda? O sorriso perguntava.

       O coronel captou a intenção desafiadora no semblante do seu parceiro de negócios e voltou-se curioso para o seu segurança. Ele também aguardava a decisão. Apostava que o medo de ficar sem emprego e dinheiro tendo uma família para sustentar o fizesse curvar os ombros e encostar a cabeça no estômago para ouvir melhor os roncos da fome. Mas Rodrigues não vivia dentro da cabeça de Franco, era mero expectador de suas atitudes que nem sempre correspondiam à verdade de suas intenções.

       Franco ajeitou o chapéu e apertou os lábios numa linha dura e desgostosa. Tentou controlar a enxurrada de sentimentos que ameaçava verter em palavrões. O máximo que conseguiu foi afirmar entre os dentes, encarando o ex-patrão, já que Rodrigues definitivamente continuava sendo um bosta.

       — Não sou um merda nem um Dolejal. Vocês esqueceram? Sou o filho da puta. —provocou-os com a calma de um monge na primavera.

       Rodrigues riu com vontade, puxando a cadeira e sentando-se. Estava louco para começar a negociata de terras. Mas pai e filho ainda se enfrentavam em silêncio medindo forças.

       Thales não mais sorria. Quando o assunto era Franco, palavras poderiam se tornar dardos envenenados; porém, ele era íntimo de poções malignas.

       — Não se rebele ao seu destino, meu filho.

       Dito por outra pessoa e sem o teor de superioridade, Franco até acataria a determinação. Por mais que tentasse manter a cabeça no lugar, nas veias corria-lhe o combustível que, ao menor sinal de faísca, explodia. Não foi preciso mais que três passadas largas e uma mesa para detê-lo.

       — O que eu sou, pai, sendo um Dolejal? Espancador ou assassino? — elevou a voz.

       Um barulho de metal contra metal fez Thales desviar atenção do filho, da febre no azul brilhante de seus olhos e de toda a comoção de seu corpo trêmulo e contido a duras penas.

       Para Thales, Franco era o mais puro e perfeito Dolejal, só lhe faltava a circunstância. Como agora quando o pistoleiro ruivo destravava a automática, estendia o braço e apontava para a sua cabeça. Percebeu quando o coronel se encolheu na cadeira, surpreso pelo rumo da conversa. Entretanto, Franco continuava imóvel, encarando-o à espera que desse uma ordem ao seu novo segurança para atirar. Foi então que explodiu e se atirou para cima do pai, numa provocação explícita a Paulo. Bateu com o quadril na mesa e, mesmo com dor, jogou meio corpo para frente com os braços esticados. Tentou alcançar-lhe o pescoço, mas Thales foi mais rápido e lhe segurou as mãos, os dedos se entrelaçaram, as palmas se tocaram. Mesmo que Franco ainda tentasse atingi-lo para descarregar a dor de amar demais quem não prestava, Thales permaneceu impassível domando a fera que havia criado desde os 12 anos. Empurrou-o calmamente para trás, desvencilhando-se e se voltou para o pistoleiro ao lado, sentenciando com uma cáustica serenidade:

       —Nunca aponte uma arma para o meu filho.

       — Desculpe, patrão. — disse, travando novamente a automática.

       Thales interfonou à governanta, sem deixar de manter os olhos em Franco. Ordenou-a que chamasse Bronson. Depois, indicou a porta para Franco:

       — Acalme-se e vá conversar com a Irene.

       Atordoado não só com a calma de Dolejal, mas também com a determinação no tom da voz, resolveu acatar a sugestão. Relanceou-lhe um olhar que foi absorvido com placidez. Antes que saísse, Bronson entrou, tirou o chapéu e esperou a ordem:

       — Conduza Paulo ao seu alojamento e, depois, deixe-o na rodoviária.

       Bronson nem vacilou:

       — Vamos lá, rapaz.

       — O que? Me perdoa, patrão, eu...

       — Agora, está se borrando, né, ô valentão? — fez troça o coronel, rindo.

       — Não vou expulsá-lo da cidade, Paulo, apenas será transferido para a Lagosta do Brejo.

       O rapaz era filho caçula de uma família que vivia em uma das casas da Arco Verde. O irmão mais velho também era segurança da fazenda e o pai manuseava uma das colheitadeiras na plantação de soja. Por ter apontado uma arma em direção à cabeça do filho do latifundiário, Paulo seria afastado da sua família. Crescera por ali e sabia muito bem o que devia fazer. Baixar a cabeça e aceitar.

       — Obrigado, patrão. — balbuciou e saiu.

       No mesmo instante, Franco entendeu que Thales Dolejal queria o seu retorno.

         

       Nem sempre o sol batia forte contra a janela com a intenção de partir o vidro em mil pedaços. Às vezes, ele apenas deslizava como um lenço de seda tentadoramente em brasa. Era assim também o coração daquele caubói. Mesmo que ao redor fosse tudo verdejante e os tuiuiús se sentissem livres no céu do centro-oeste, o loiro, aceitando a fatia de pão caseiro com queijo de cabra derretido, queimava no peito uma dor antiga. Cavara fossos dentro da alma para se esconder de si mesmo e, de repente, era como se libertasse um monstro. E era um monstro fraco e pedinte que se rastejava em busca da aceitação paterna. Uma criatura estúpida que não aprendia com as quedas.

       Irene beijou o topo da cabeça de Franco e despejou mais café preto em sua caneca preferida. Depois, puxou a cadeira e sentou-se à mesa, um sorriso de satisfação iluminava a feição aperfeiçoada pelas rugas fundas, as trilhas pelas quais a vida passara.

       — Quando a jornalista chegou por aqui, para escrever o livro do patrão, ela bisbilhotava tudo. — riu-se e apertou-lhe o antebraço à recordação. — Eu tinha de ficar de olho, senão era capaz de vasculhar as gavetas das cuecas do seu pai.

       Franco soprou a fumaça do café e o bebericou.

       — Perfeito, perfeito. É o melhor café da cidade.

       — Ela não vivia com o doutor Bittencourt? — indagou, estreitando os olhos, desconfiada. — Você não desmanchou uma família, não é, moleque?

       — Eles eram só amigos, parece que o doutor é meio vacilão, sinceramente, não sei qual é a dele. — deu de ombros, indiferente, e afirmou: — Dormir debaixo do mesmo teto com uma mulher como a Nova e não tentar coisa, isso eu lhe digo, Irene, na minha terra não é normal.

       Ela riu, dando um tapinha carinhoso no ombro dele.

       — É, em Matarana, os caubóis caem matando, né, Franco?

       — Ué, não é assim que tem de ser? Aqui é terra de macho! — brincou. Em seguida, encarou-a com olhar travesso e confidenciou: — Fiz filho nela, Irene.

       A governanta arregalou os olhos surpresa.

       — Já?

       —Não sou o primeiro Dolejal a acertar de primeira. — disse com bom humor.

       — Mas é o primeiro a cair no golpe da barriga.

       Ambos viraram-se ao ouvir a voz do fazendeiro. Franco ergueu-se rapidamente da cadeira, pondo-se em alerta, como se o general chegasse e ele, soldado raso, tivesse de se manter em posição de sentido. Na realidade, a postura desafiadora questionava o comando daquele que endereçava um olhar duro.

       — Como pôde cair nessa?

      — Existem pessoas boas no mundo e algumas delas vêm para Matarana.

       — É mesmo?  — alçou a sobrancelha, irônico, e continuou impassível: — E, por acaso, uma fuxiqueira metida à jornalista e, — nessa parte ele sorriu com desdém: — cantora de bar, não?, pois bem, uma jornalista que vendeu os seus princípios por um punhado de dinheiro é uma boa pessoa? Inteligente, pelo menos, é. Tem noção que recebendo o meu sobrenome, Franco, não só é o alvo preferido dos pistoleiros, como também das pistoleiras?

       Franco sorriu devagar, absorvendo debaixo da língua as palavras que ainda descansavam na saliva. Depois, cuspiu-as:

       — Desculpe, mas não engravidei a sua Karen, patrão. O único que se envolve com pistoleiras é o senhor, até trouxe uma de fora.

       — Interessante mencionar a Karen. O que acharia se eu dormisse com a jornalistinha? Continuaria a implorar pela minha atenção?

       — Pendurava o senhor lá na figueira sagrada. — escarneceu, sem sorrir.

       Thales não tomou conhecimento da provocação. Conjecturava acertar-lhe pelos flancos:

       — Case-se com separação total de bens. Não darei de mão beijada o meu patrimônio para o filho de uma golpista barata.

       A governanta achou por bem interferir na conversa:

       — Patrão, o senhor aceita um café passado agorinha?

       — Por que julga as pessoas por si mesmo? — provocou Franco.

       O berro do coronel Rodrigues chegou até a cozinha. Mas o segurança manteve o olhar direto no antigo patrão. De repente Franco percebeu que ele não era tão alto nem possuía ombros tão largos ou poder que emanasse de seus ossos. O camarada à sua frente era apenas um homem com todas as fraquezas, deslizes e misérias que o fato de sê-lo carregava. Por isso ele voltou à sua posição de adorador mesmo odiando também ser um fraco em sua adoração. Tinha tanta coisa para dizer, tanta palavra sedimentada no céu da boca, tanta eletricidade para verter pelos poros. Mas nada fez. Pois queira fazer mais. E não podia. O chamado do sangue e os galhos da figueira. Respirou fundo, manteve o controle. Por fim, baixou a cabeça e saiu.

       — Quando irão se entender, patrão? — perguntou Irene entristecida.

       Thales observava o filho entrar na camionete e ajeitar-se no banco do passageiro, atrás do coronel. Esboçou um suave sorriso ao revelar um segredo à governanta:

       — Já está tudo acertado. Em breve, voltará a mimá-lo.

       O coronel prometera-lhe que antes de chegarem ao centro da cidade, Franco, o pistoleiro mais perigoso da região, estaria desempregado.

 

       Vestiu o jeans, a camiseta regata e as botas. Soltou o cabelo, lavou o rosto e decidiu enfrentar o dia. Ao entrar na cozinha, encontrou Val posicionada diante da pia terminando de lavar a louça do café da manhã. Os passos de Karen eram pesados, batiam forte os saltos das botas no assoalho de madeira. E, antes de se virar, a irmã do delegado já sabia quem abria a geladeira para se alimentar.

       — O que aconteceu?, foi jogada da janela de um trem? — perguntou num misto de curiosidade e divertimento. No fundo, ela sabia que a cunhada se atracara com alguém.

       Sem se virar, concentrada que estava em ponderar sobre o valor calórico do queijo prato em relação à ricota, Karen respondeu desinteressada:

       — É, o maquinista teve uma crise de sensibilidade e me expulsou do vagão.

       — Meu Deus, o Rodrigo? Nem vem com essa, o meu irmão jamais bateria numa mulher! — exclamou Val na defensiva.

       — Ah, você fala dos hematomas? — perguntou, voltando-se com um sorriso sem graça: — Bem, pensei que... nada, deixa pra lá — puxou a cadeira e armou um belo pedaço de pão caseiro com queijo, ricota, goiabada e uma grossa camada de manteiga com sal. — Já ouviu a expressão “acidente de trabalho”? — indagou com ar debochado.

       — Não, Karen, minha nave espacial pousou ontem no milharal, não sei o que isso significa — retrucou no mesmo tom.

       — Pois é, para vencer às vezes é preciso perder. — filosofou.

       — No seu caso, por exemplo, é perder a compostura e a beleza, né? Seu rosto está inchado e colorido, e o seu adversário provavelmente no hospital ou no necrotério.

       —No dentista. — respondeu, abrindo a boca e mordendo um bom pedaço de pão.

       Valéria Malverde observou-a se fartando daquilo que ela própria se aspirasse o cheiro engordaria cinco quilos. Mas Karen desistira de todas as dietas e comia plantações de algodão, soja e trigo e todas as vacas e bois do pasto e a gordura se acumulava nas coxas e no traseiro. Era como se a mulher tivesse uma tubulação interna estratégica enviando para os lugares certos os enchimentos necessários. Tinha de dar o braço a torcer, a filha da mãe era um mulherão. Até comendo de forma displicente, farelos no canto da boca, sem maquiagem, boca inchada e cara de sono. Era inegável que um demônio de luxúria animava aquele corpo. Pobre Rodrigo!

       — Precisa extravasar essa libido, Val. Não jogo no seu time. — brincou Karen.

       — Engraçadinha! — pôs as mãos nos quadris e falou criticamente: — O outro saiu com a cara amarrada e nem quis tomar café. Brigaram de novo, é?

       — Me diz uma coisa, Val, os Malverde não gostam de sexo?

       — Hã? — a pergunta à queima-roupa decorou no seu rosto uma imagem um tanto tola. Recuperando-se, arregalou os olhos e puxou a cadeira com a intenção de tricotar com a comadre, mesmo ainda estarrecida com a questão: — Por acaso, está querendo dizer que o meu irmão, um macho alfa puro sangue, não está dando conta do recado? Sabe que a linhagem Malverde vem dos guetos espanhóis, né?

       — Gueto espanhol? Não viaja.

       — O que está acontecendo entre vocês? Sério, Karen. Até poucas semanas estava tudo bem, de beijos e abraços pela casa, a cama quase quebrando a parede e agora...

       — Simples, o seu maninho quer namorar o porco-espinho, mas sem os espinhos.

       — Entendi.

       — Não parece que tenha entendido. — cravou os olhos nela e os dentes no pão e emendou meio mastigando meio falando: — Vou ser mais clara. Sabe por que o porco-espinho tem espinho?

       — Porque Deus quis.

       — É, talvez. Tudo bem, Deus quis. O Nosso Senhor quis dar proteção a sua criaturinha e o armou de espinhos. Só que o seu irmão quer tirar a minha proteção e oferecer a dele. E por que eu aceitaria a proteção de alguém mais fraco? — o tom da voz era calmo, a face serena, tudo muito natural.

       — Como assim, mais fraco? — sondou-a incrédula.

       — Quem estava hoje pela manhã com a cara amarrada, hein? Não precisa responder, eu digo, o mais fraco. — dizendo isso, levantou e depositou o prato de pão na pia, sem intenção alguma de lavá-lo.

       — Quem é forte pra você, então? Um camarada que tentou expulsá-la da cidade? O fato de o Rodrigo ser íntegro e generoso não o transforma num banana.

       — Não, claro que não. — disse ela, afastando a cortina e dando uma olhada no pátio. Voltou-se como quem não queria nada e largou: — Amiga, sabe como é a genética humana? É assim ó, um gene recessivo junto com um gene dominante. É desse jeito que funciona, e o Rodrigo ainda não aceitou o papel que lhe cabe na nossa relação. Mas tenho fé nele, se pus um cretino nos trilhos, posso pôr um bom-moço no seu lugar também. — afirmou convicta.

       Na maior parte das vezes, Valéria assimilava as ideias feministas radicais da amiga. Mas, às vezes, parecia que ela tinha um pino a menos na cabeça. Manteve-se a observando com atenção, talvez com a mesma postura de um médico diante do raio X de um alienígena. Até que Sabrina entrou sorridente, apesar das pálpebras inchadas, os olhos mal se abriam. E Karen farejou o caos.

       — Quem a fez chorar desse jeito?

       Sabrina desmanchou o sorriso e, mecanicamente, pôs uma mecha do cabelo para trás da orelha. Buscou com o olhar a cumplicidade da mãe.

       — Nada, é cansaço. — atalhou Val.

       — Ontem fiquei no computador até tarde. — emendou a filha com um sorriso forçado.

       — Certo. — Karen balançou a cabeça concordando e completou com escárnio: — E o seu anel de compromisso, cadê? Penhorou para comprar ducha vaginal?

       A garota enrubesceu e baixou a cabeça.

       — Olha só, Karen, — a mãe achou por bem se meter na conversa: — isso é coisa dela, certo? Foi uma briguinha de casal como a sua com o Rodrigo. — disse com suavidade.

       Karen endereçou um longo e especulativo olhar para a mãe e, depois, para a filha. Avaliava a extensão da mentira, a farsa da encenação. Havia alguns anos que colecionava na memória expressões faciais de todos os tipos. Mulheres tristes sorrindo, mulheres espancadas disfarçando, mulheres carentes amando. Com um arsenal desses, ela sabia que naquela cena havia duas atrizes canastronas. Preferiu alfinetar a mais velha:

       — Vai deixar barato sacanearem com a tua única filha?

       Valéria tentou sorrir. Afinal, precisava manter o improviso.

       — Ela já tem quase dezoito, sabe como se virar.

       — Deixa quieto, Karen, não é culpa do Eduardo não corresponder às minhas expectativas. — murmurou Sabrina, constrangida em revelar que era o gene recessivo da relação.

       A questão era que Karen simpatizava com os mais fracos.

       — Quem disse essa pérola? — debochou.

       — Conversei com o Cris e...

       — Ah, conversou com o filósofo de Matarana? Ééé, o Cris entende muito de homem e porra nenhuma de mulher!  — ela deu dois passos para frente e apontou o dedo indicador em direção à sobrinha de Rodrigo: — Aposto que o Eduardo meteu um pé na sua bundinha juvenil e, digo mais, ainda saiu por cima e cheio de razão.

       — A gente não tem como fazer alguém gostar de nós. — argumentou a garota.

       — Por que temos que dar satisfações a você, Lisboa? — perguntou Val franzindo o cenho.

       Karen estreitou os olhos, tentando compreender a jogada de quem não deveria ser sua adversária.

       — Vocês passam a mão na cabeça desses cretinos como se fossem meninos travessos, mas não enxergam que são homens crescidos, cruéis e egoístas. — afirmou com desdém. — Se fosse minha filha, por Deus, arrebentava a cabeça do camarada!

       — Nem tudo se resolve no braço! Onde estamos? Ontem o psicopata deu um soco na cara do Cris. Sabia disso?

       — Não me interessa quando dois homens se matam, faz parte do próprio clã, se merecem. Agora, Val, o que me tira do sério é ver uma menina bonita com o rosto desfigurado de tanto chorar. — ela arou o cabelo com os dedos, irritada, respirando fundo para tentar acalmar a enguia que se contorcia dentro de si. — A gente se gaba que somos melhores, que conseguimos fazer trinta coisas ao mesmo tempo, mas, merda!, sempre nos matamos um pouco permitindo que esses filhos da puta nos enganem e nos machuquem.

       — Karen... — Valéria começou a falar. Porém, descobriu que cutucara a colmeia.

       — Sabe o que aconteceu de verdade, Sabrina?

       — O que?

       — Nada, filha. Ajeita o cabelo, lava o rosto e vai para o seu estágio. — pediu Valéria, tentando apaziguar a situação.

       — Espera, não. — empurrou levemente o braço da mãe em seu cotovelo e fitou Karen: — O que fiz de errado? — insistiu quase como que implorando pela resposta.

       — Nada. Não importa o que faça, eles têm as próprias regras do jogo. Se quiser ser má, eles também o serão, mais ainda até. Se quiser ser boazinha, eles te grudaram no asfalto feito um tapete. O único jeito é ter certeza de que não precisa deles, porque essa é a segunda maior verdade do mundo; a primeira é a morte. E a terceira é que vou quebrar a cara desse cafajeste!

       Mãe e filha mantiveram a atenção voltada para o lugar onde, até poucos segundos, Karen riscava o assoalho com as botas. Ela chispara feito um raio por entre a porta aberta. Com passadas largas alcançou o pátio e abriu a porta do Fusca.

       — Meu Deus do céu... — sussurrou Val, ainda espantada, ao ponto de nem conseguir se mexer.

       — Pensei que não era para contar só pro tio. — balbuciou Sabrina.

       — Me esqueci da mulher-bomba.

         

       Vó Ninita acordou com os gritos vindos do pátio. Vestiu um roupão por cima da camisola de algodão e pôs a cabeça para fora da janela. O que viu a fez apertar os lábios num esgar de desgosto. Suspirou irritada, ajeitando os pés nos chinelos e arrastando-se para fora do quarto. Prometera a si mesma dormir até o final da tarde. Depois passaria a noite com Veridiana planejando o negócio que pretendiam abrir. Mas como poderia continuar dormindo com a gritaria daquela mulherada e o barulho de lataria e vidros sendo quebrados a golpes?

       Alcançou a porta dos fundos e avaliou a situação. Empurrou os óculos contra o rosto. Não era possível que a neta enlouquecera de vez.

       — Se for atrás do Eduardo, seja por qual motivo encasquetar, acabará arranhando a imagem da Sabrina. Ele não sabe que ela está sofrendo! — alertou Val, ao ver Karen pular fora do Fusca, fechando a porta com tanta força que quebrou o vidro da janela do motorista.

       Ignorando o feito, postou-se entre o automóvel e Valéria.

       — Mais um motivo para quebrar a cara do infeliz e fazê-lo sofrer ainda mais. — afirmou, batendo a extremidade do taco de beisebol contra a palma da mão. — Não é melhor assim, Sabrina? Saber que ele também está sofrendo? Eu particularmente me sentiria bem melhor.

       A garota ameaçou um sorriso. Queria concordar com Karen e até mesmo ajudá-la a soquear Eduardo. O problema era que a história se espalharia pela cidade feito rastilho de pólvora, e os Malverde não estavam acostumados a cair na boca do povo. Preferiu esconder-se atrás da ponderação da mãe:

       — Deixa quieto, Karen. Não adianta.

      Karen assimilou a resolução de Sabrina como uma traição ao movimento. Ela não sabia bem qual o movimento, mas parecia traição. Aos seus ouvidos, tal decisão revelava que nada havia progredido e a fogueira dos sutiãs não passara de uma piada entre comadres entediadas. Poucas horas atrás, havia lidado com um macho que tentava enquadrá-la em seus artigos jurídicos de homem com uma cartilha de como se viver. A manhã estava nublada. A sucata de quatro rodas sucumbira. Precisava urgentemente descarregar a munição. O taco que quase usara em Franco foi arremessado contra os faróis do automóvel. Ouviu-se um grito. As sinaleiras estraçalhadas. Erguendo no alto e impulsionando-o com força, bateu contra o capô até afundá-lo. Parou para recuperar o fôlego. A atenção totalmente voltada para a destruição de um inconveniente. Ao erguer o taco para pôr um fim no vidro frontal, sentiu nas costas o jato forte de água fria. Surpresa pelo evento, voltou-se a fim de encontrar a avó mirando a mangueira em sua direção.

       Val e Sabrina observavam estarrecidas a ousadia da velhinha de cabelos loiros e eterno cigarro no canto da boca. Segurava uma mangueira posicionada como se fosse uma espingarda. Um banho de água fria para acalmar a fera.

       — O que está fazendo? — gritou Karen, tentando proteger-se da água.

       — Como buscarei o Johnny na escola, hein, sua doida? É o único carro que temos! Não tenho idade para montar em cavalo! É melhor se acalmar, não me faça partir para a ignorância!

       — Para com isso, vó! Merda! — esbravejou a neta, jogando o taco no chão e protegendo o rosto. Deu as costas à avó e se refugiou no interior do automóvel: — Já vi que a sua demência senil se manifestou! E quanto as duas, — berrou através da janela sem vidro: — um fiasco! De que adianta nascer com útero e agir com as orelhas!

       Na terceira tentativa do segundo tempo, o motor roncou como um velhinho no leito de morte. Karen fez um sinal obsceno para as três mulheres que a fitavam dar ré. O dedo médio erguido e a ferocidade natural chispando-lhe dos olhos.

       Ao ganhar a estrada em direção à loja de carros usados, entre Matarana e Santa Fé, já havia decidido trocar de automóvel. Um camarada vendia preciosidades no seu galpão a céu aberto. Agora era uma questão de honra. Karen Lisboa rompera ligações com o Fusquinha.

       No alpendre da casa do delegado, a primeira que falou foi a mais velha.

       — O que é isso, agir com as orelhas?

       Sabrina deu de ombros. Valéria examinou a questão por um ou dois minutos. Por fim, suspirou, a equação era por demais complicada.

       — Ela inventou, vó. Só pode.

        

        O médico acendeu o cigarro e o tragou fundo. Havia amanhecido sem sol. Talvez chovesse antes do meio-dia. Ao ouvir o ronco da cafeteira, pegou uma caneca do armário e serviu-se da bebida. Sentia-se exausto e mal começara o dia. A exaustão era mais como a ponta de um iceberg que denunciava o verdadeiro estado de sua alma. Cris estava destroçado. Olheiras escuras ao redor dos olhos e uma sensação de coração na garganta. A angústia bloqueando a passagem do ar aos pulmões. Sem corpo para enterrar, velava a si mesmo. Ela estava grávida. Ela se casaria outra vez. Ela não o amava mais. Partir ou ficar?

       Voltou para o quarto com a caneca na mão, o cigarro entre os dedos, uma ruga funda envelhecendo os seus trinta e seis anos. Sentou-se à beira da cama e bebeu o líquido fumegante com a vontade ferrenha de se queimar. Precisava da dor física para combater a mais perigosa. Por que no exato momento em que ele engolia o amargor, ela poderia estar fazendo amor com outro. Sendo feliz com outro e decidindo passar a vida inteira com outro. Quem ele era então? Major Tom perdido no espaço.

       Dois braços envolveram-no pelos ombros e uma boca pousou sobre sua nuca. Cris fechou os olhos para que a moça que mal conhecia não visse as suas lágrimas. Puxou o ar do fundo, percebendo que as lágrimas que corriam nas veias não eram visíveis. Podia se debater ou gritar pelo prado. Deixou-se apenas ser embalado por ela. Ainda era jovem e não conhecia de perto a morte.

       Outros dois braços abraçaram-no na cintura. Mas ele não lembrava quem era essa. De que tronco partira os membros superiores que o puxavam para trás, para deitar na cama com elas. Ele obedeceu ao comando das estranhas que conhecera na rua ao parar no semáforo. Acendera um cigarro enquanto um filete de sangue escorria do seu nariz. Elas estavam lá, debaixo de um poste público, preparando-se para voltar. Não havia retorno. Nem todas as ruas apontavam para a saída. Arrependimentos e ressentimentos voando como sacolas no ar.

       — Você está pronto para nós?

       De olhos fechados, permitindo-se ser vasculhado, ouviu a voz num tom malicioso. Assentiu com a cabeça, devagar, em afirmativo. Então elas avançaram e tiraram dele tudo o que podiam. De um corpo cuja alma fugira. Tudo o que podiam. Nada. Nem as lágrimas que Cris engoliu enquanto as mulheres se revezavam na busca selvagem pelo prazer.

 

       — Onde está, minha princesa?

       A voz rouca e ligeiramente arrastada como alguém entediado até para falar ainda lhe arrepiavam os pelinhos da nuca. Ela sorriu enquanto manobrava o jipe em frente à delegacia.

       — Humm, que pergunta é essa? Pensei que eu estava no seu coração. — brincou.

       Do outro lado da linha, ele riu baixinho:

       — Você é o meu coração, quero saber apenas em que parte da cidade ele está. Me disseram que visitará o nosso amigo Rodrigo. A informação procede, meu amor?

       Imediatamente, ela olhou ao redor à procura de alguém com cara de detetive particular dos filmes dos anos 40. Naquela hora do dia, os automóveis trafegavam calmamente e as pessoas nas calçadas carregavam sacolas dos supermercados e lojas. Não havia ninguém com atitude suspeita. A não ser o barbeiro ao lado da futura confeitaria de Karen. Este, sim, olhava por detrás da vidraça na maior cara de pau. Eram os olhos de Franco espalhados por Matarana.

       — Descobri um de seus rastreadores humanos. — afirmou com rispidez.

       — Acena para ele, então. — Franco provocou-a rindo.

       — Vou é mandá-lo tomar naquele lugar!

       — Que boca suja, dona jornalista!. — debochou e emendou em tom de brincadeira: — O que quer com a sua antiga paquera?

       A incipiente irritação se dissipou assim como veio. A espirituosidade de Franco sempre a surpreendia e punha por terra suas tentativas de ser durona com ele.

       — Quem disse que é antiga? — alfinetou-o com bom humor: — Acha que depois que o conheci fiquei cega, é? O Rodrigo verdadeiramente é uma delícia!

       — Conte até cinco, dona Nova. — ordenou.

       Aturdida, ela franziu o cenho. Antes de ter chance de elucidar tanto a ordem quanto o tom de ordem, viu-o atrás do barbeiro, o celular colado à orelha, a feição séria. Ele abriu a porta de vidro da barbearia e atravessou a rua de mão única sem desgrudar os olhos dos dela. Parecia zangado.

       — Foi fazer a barba? — indagou, com um esboço de sorriso, uma vez que investigava os sentimentos que abasteciam aquele corpo saudável.

       — Estou com o coronel gorducho. — respondeu apenas. Enfiou a mão no bolso do jeans e tirou a caixinha com as alianças: — Quero que ponha isso no dedo antes de se meter numa sala com o delegado delícia. — falou sério.

       Ela riu com vontade.

       — Ciúme do Rodrigo?

       Ele não estava para brincadeiras.

       — Me dá sua mão. — pediu, pegando-lhe o pulso e ajustando a aliança no dedo médio. — Eu declaro a senhora minha noiva e isso significa que está blindada. — anunciou solene.

       Nova admirou o aro de ouro com pedrinhas de brilhantes. As lágrimas toldaram sua visão. Não era a primeira vez que alguém lhe punha uma aliança no dedo; era a primeira vez que ela acreditava no valor daquele gesto.

       — É linda, Franco. — balbuciou, emocionada.

       — Pode pôr a minha, não me importo que saibam que o pistoleiro delícia está fora de mercado. — provocou-a ainda sério.

       — É bom mesmo que assuma a aposentadoria, meu diabo loiro. — concordou com um sorriso malicioso enquanto deslizava a aliança em seu dedo. — A partir de hoje muitas garotas vestirão preto em Santa Fé. — brincou.

       A expressão facial do pistoleiro suavizou-se, a carranca obstinada cedeu espaço para um sorriso charmoso, entre tímido e constrangido. Ele não se vangloriava de suas façanhas sexuais. Fitou a própria mão com a aliança que brilhava contra o minguado sol.

       — Posso beijar a noiva?

       — Claro que sim, meu príncipe.

       O beijo de Franco era mais que uma carícia; era uma viagem. Ele apertou-a forte entre seus braços, trazendo-a para si de forma possessiva, como tudo entre eles o era. Ela ficou na ponta dos pés e pôs os braços ao redor do seu pescoço, sobre os fios loiros e irregulares, o cabelo cheiroso que dançava sobre a sua testa, enquanto mantinha os olhos fechados, mergulhada na docilidade erótica da boca do seu homem. Afastaram-se por alguns segundos, olhos nos olhos, absorvidos pelo magnetismo que o próprio amor criava entre criaturas únicas e completas. E não foi estranho sorrirem ao mesmo tempo e esfregarem a ponta do nariz um no outro num gesto que revelava a sincronia dos iguais, o movimento simultâneo dos predestinados.

       — Quando a gente quer dizer mais do que “eu te amo”, o que a gente diz? — ela perguntou numa voz embargada.

       — Para sempre. — ele respondeu confiante.

         

       Torceu o volante à direita e adentrou a revenda de automóveis. A loja era envidraçada. Os veículos estacionados exibiam-se sobre rampas no pátio externo e ao longo do saguão do comércio aberto 24 horas. O proprietário era de Santa Fé e vestia um terno barato e chapéu de caubói, como um texano vulgar. No interior da revenda o ar-condicionado mantinha a atmosfera primaveril, e as nódoas de suor seco debaixo das axilas de Vieira Lobo marcavam-lhe o terno.

       Ele teimava na tentativa de ser elegante custasse o que custasse. A aparência era tudo em seu ramo de negócios. Vieira tinha uma mulher bonita e dois filhos, um casal, como troféus. A propriedade à beira da estrada, numa secundária que levava aos endereços das maiores madeireiras da região, catalisava as atenções dos fazendeiros quando cismavam em trocar de camionete. Virava o ano, novo veículo. Cabia ao empresário proporcionar-lhes o melhor investimento. O cartão de apresentação por aquelas bandas era o tipo de montaria de metal utilizado.

       Karen não escolhera a revenda de Vieira em função do luxo na decoração interna combinando a ardósia com o vidro e a porcelana dos vasos sobre os aparadores, tampouco em razão da simpatia simulada e levemente pedante dos vendedores e do proprietário. Ao entrar com seu fusquinha 75, batido, sem vidro lateral e tossindo para subir o elevado até o estacionamento para clientes, ela sabia que já havia sido analisada e descartada como consumidora em potencial. Tal percepção não alterou a intenção de trocar de meio de transporte. A cidade inteira descartava-a como consumidora em potencial e, até mesmo, como cidadã. Ela não perdia o sono por isso.

       Ignorou o empurra-empurra entre os vendedores para atendê-la. Ninguém queria perder tempo com uma perdedora que saíra do interior de uma lata de sardinhas. Aproveitou para observar os produtos dispostos a céu aberto, reluzentes em suas latarias perfeitas em rodas de magnésio e corpos arrojados como pênis eretos. Era incrível como quanto mais dinheiro os caras tinham maior eram os veículos, como se de fato representassem o falo de seus proprietários. Ou a capacidade orgástica de suas proprietárias. Ela se voltou para o seu Fusca e riu baixinho. Que estupidez, pensou, balançando a cabeça devagar. Daí, lembrou que era proprietária de um cavalo. Conteve a risada alta.

       Vinte minutos examinando os últimos lançamentos, e ela temia aceitar a originalidade de um Fusca batido. Todos iguais, simétricos e luxuosos. Se fossem humanos, os automóveis daquela revenda, estariam nas passarelas da Europa. Bocejou e espreguiçou-se. E tal gesto a fez conhecer aquele que disputaria o seu amor lado a lado com Prefontaine. Ele se chamava Maverick.

       — Gosta disso?

       Ela se virou ao ouvir a voz tabagista perto do seu pescoço. O cheiro do suor e do pedantismo enojava-a. Meneou discretamente a cabeça.

       Vieira olhou-a de cima a baixo e pensou em objetos de prazer. Depois endereçou a atenção ao veículo que trouxera a morena cheia de curvas. Trabalhando com automóveis, ele aprendera a reconhecer as pessoas. Uma lata-velha refletia também o baixo valor da boazuda que paquerava ostensivamente o Ford.

       — Estamos diante de um sonho, de uma aparição dos anos 70... — ele começou de forma teatral.

       — É um legítimo GT 302 motor V8. — ela completou com um sorrisinho arrogante e, aproximando-se do automóvel, tocou com delicadeza o capô vermelho com duas faixas largas pretas no centro e completou: — É um top de linha, não? Com uma arrancada de zero a cem quilômetros por hora em pouco mais de dez segundos. Não é um simples automóvel, é a lenda das feras sobre rodas. — avançou pelas laterais do Maverick cupê com rodas gaúchas e pneus preparados para riscar o asfalto. As pontas dos dedos deslizando pela pintura e sentindo a maciez da pele de metal. — O Gran Turismo do motor de oito cilindros em V, 195 cavalos e quatro marchas. — ela se abaixou e toldou os olhos a fim de observar, através do vidro fechado, o interior: — Painel original com relógio e câmbio manual. Temos uma preciosidade em Matarana! — exclamou extasiada. Em seguida, voltou-se para o dono da revenda e declarou do jeito de quem sabia das coisas: — Sabe qual era o slogan para a venda do Maverick em 1977? — acrescentou antes de Vieira desfazer-se da ruga de interrogação no meio da testa: — “Para gostar dele, basta chegar perto” — riu-se, levando a mão à porta a fim de abri-la.

       — Vejo que é mais uma fã de carro obsoleto. Comprei essa coisa em Lucas do Rio Verde, o cara estava apertado e achei que fazia um favor pra ele. E fiz, não é mesmo? Chegando aqui não é que choveu gente atrás do Maveco. Faz dois dias que o trouxe e tem uma fila de gente disputando quase a tapas.

       Karen ignorou-o, sentando-se no banco largo e agarrando o volante pequeno com as duas mãos. Via-se na estrada correndo como uma louca, ultrapassando os próprios limites, fugindo dos demônios.

       — Quanto quer?

       — É melhor não perguntar, garota, você não tem bala na agulha. — debochou.

       — Dou quinze mil. — declarou em tom de desafio, concentrada em mexer nos botões do rádio e observando que tudo era original naquela relíquia.

       Ouviu o outro rir alto e bastante. Voltou-se com o cenho franzido:

       — Tenho dinheiro no banco, deixo agora um cheque pra você.

       — Sei, um voador. Além do mais, esse carro já foi comprado pelo Leonardo Marau.

       — Quanto ele pagou?

       — Cinquenta mil. — direto, mantendo os olhos argutos sobre a mulher que deitava a cabeça no encosto do banco. — O carro é dele, minha filha. É melhor aceitar a carroça que te trouxe.

       Quanto ainda tinha no banco?, pensou rapidamente. Pouco mais de vinte mil.

       — Ele já pagou?

       — Não, mas a palavra de um Marau tem o poder de uma maleta cheia de dinheiro.

       Verteu tanto pedantismo da voz do homem que Karen começou a se irritar. Era a velha mania de Matarana, considerar o sobrenome como uma assinatura atestando o valor e o caráter da pessoa.

       — Então o tal Maveco — ironizou antes de completar: — ainda está à venda.

       — Não, querida, não me entendeu. O Leonardo já é dono do carango.

       — Acho que você é quem não entendeu. O que ainda não foi assinado não vale. Tem uma placa de vende-se sobre o capô, eu sou uma consumidora e quero comprar esse produto. Portanto, não pode se negar a vendê-lo. — afirmou convicta, saindo do Maverick e encarando o camarada com altivez.

       Vieira detestava mulher metida à besta.

       — Certo, tudo bem, conheço o código de defesa do consumidor, minha filha — fez troça, erguendo as mãos como que se rendendo aos argumentos dela: — Quer comprar? Ele é todinho seu por... deixa eu ver... — fez pose levando a mão ao queixo como alguém preparado para fuzilar um prisioneiro de guerra: — Ahhh, quinhentos mil... Que tal? Isso é bom pra você? Te coloca no teu lugar certinho? — riu-se e concluiu: — Quinhentos mangos em dinheiro, cédula sobre cédula. Viu, só? Não estou me negando a fazer uma venda.

       — Seu filho da puta! — falou entre os dentes, estreitando os olhos, a vontade de voar a mão na bochecha flácida do texano falsificado.

       — É o seguinte, faltou com o respeito. — começou devagar, o dedo em riste, o desdém no canto da boca: — Cai fora daqui ou mando o meu pessoal te escorraçar a pontapés. Não sei de onde veio ou com que tipo de gente lida. Talvez seja uma dessas emancipadas ou só um sapatão no cio, a questão é que essa revenda não trabalha com gente do seu nível.

       Dizendo isso, o homem encerrou a negociação. Fez um sinal com dois dedos chamando seus cães armados. A segurança típica que se encontrava nas fazendas da região. Mudavam os corpos, mas não o estilo. Jeans, chapéu, armas e cara de mau.

       — Certo, entendi, compadre. — debochou, assentindo devagar com a cabeça e emendando com escárnio: — Quando faltam argumentos e caráter apela-se para as armas.

       Deu-lhe as costas e passou pelos seguranças encarando-os sem deixar de remexer os quadris. Era uma forma de chamá-los para briga. Venham, seus porcos, vamos movimentar as coisas, dizia o seu olhar que, ora ia para as pistolas à cintura, ora para os olhos dos rapazes que trabalhavam como policiais particulares.

       Percebeu que daria conta de dois. Apanharia, com certeza. Porém, os camaradas não eram tão fortes, era mais uma questão de pose. Qual o homem que não vira machão escondido atrás de uma pistola?, ela até sorriu, mesmo odiando deixar para trás o Ford fabricado para ser seu e de mais ninguém, como um amante. Ou bem mais que isso.

       Parou e testou a marcação da cena. Os caras permaneceram de olho nela. Avançou dois passos em direção a eles. Na cabeça toda a estratégia. Chute entre as pernas do mais baixo. Antes da recuperação das bolinhas, um gancho de direita no seu companheiro. Tudo esquematizado. Menos avistar a aproximação de mais três seguranças. Atiçados pela curiosidade, apontaram à entrada da revenda, longe do ar-condicionado e do mármore, torrando debaixo do sol, preparados para obedecer ao apito do adestrador. Mas não foi preciso. Karen tinha plena consciência de sua limitação física. Recuperava-se de uma briga feia, ainda sentia o corpo dolorido, uma pálpebra arroxeada e um corte na boca. Tinha de se poupar para a próxima corrida. Ergueu o queixo e entrou no Fusquinha.

       Girou a chave na ignição e torceu intimamente para o motor pegar de primeira. Ainda não se acostumara a ser expulsa dos lugares nem ser maltratada. Uma vez por mês algo desse tipo ocorria. Para suportar esse tratamento só mesmo uma autoestima de extraterrestre, de uma espécie infinitamente superior à raça humana — pensou Karen, ouvindo o ronco da batedeira soar alto e estridente .

       Deu ré e desceu a ladeira, alcançando a estrada vicinal e pondo-se a caminho de casa. A chuva da tarde ameaçava despencar a qualquer momento, tornando o céu carrancudo e cinzento. Pisou no acelerador e a lataria chacoalhou. Respirou fundo procurando se controlar. A viagem mental dentro do Maverick, voando sobre a BR-163, funcionara como um sonhado prêmio da loteria. Planos expressos, arquitetados em questão de minutos, revirando sentimentos adormecidos e desacreditados. Não era apenas um automóvel. Ela não era materialista. O que estava em jogo ainda era a sua liberdade. Aceitar o Volks era aceitar uma situação estabelecida, uma situação ruim. Aceitar o que a incomodava era o mesmo que aceitar uma condição de vida sedimentada que padecia ao relento na indigesta zona de conforto. Um casamento fracassado, um emprego medíocre, uma amizade falsa, uma fobia de qualquer espécie. Aceitação nem sempre era algo bom. Ter um Fusca desejando um Maverick, para Karen, resumia toda a questão.

       Quando a velocidade começou a reduzir por conta própria até o motor sucumbir, a motorista já sabia que a hora do óbito deveria ser registrada. Apenas apertou os lábios contendo um palavrão com poucas vogais. Deitou a cabeça contra o volante.  A vida era uma bosta seca debaixo do sol a pino.

       Maldito Volkswagen! Vingava-se de ter levado uma surra, deixando-a diante da Arco Verde.

        

        Nova sorriu ao ver Rodrigo Malverde erguendo-se da cadeira, circundando a própria mesa e indo abraçá-la.

       — Está muito ocupado para receber a visita de uma grávida literalmente enjoada?

       Ele se afastou ainda sorrindo.

       — Tenho todo o tempo do mundo para a minha parceira de dança. — fitou-a com atenção, percebendo a expressão de quem “comeu e não gostou” — Quer um antiácido? O que não falta na gaveta de um delegado de polícia é remédio para o estômago. — disse de um jeito espirituoso.

       — Aceito, sim, Rodrigo. Quando não é azia, é enjoo.

       — Sente-se aqui. — puxou a cadeira em frente à sua mesa.

       Ao abrir o frigobar e retirar a garrafa de água mineral gelada, voltou-se e deu uma boa olhada na futura mulher de Franco. Sim, ela estava feliz. Despejou o antiácido na água e entregou-lhe o copo.

       — Como vocês estão se virando?

       — Bem, o Gringo paga direitinho. Claro que não muito, nada perto do que eu ganhava no Jornal. Mas ainda temos o salário do Franco também, dá para ir levando — afirmou para, em seguida, emborcar o remédio em uma golada só.

       Rodrigo sentou à beira da escrivaninha e comentou pensativo:

       — Essa vida de segurança de fazendeiro é perigosa, você sabe, não? Deveria encorajá-lo a terminar os estudos e procurar um emprego normal. — afirmou com seriedade.

      Nova entregou-lhe o copo e respondeu meneando a cabeça em negativo, a fim de enfatizar o que dizia:

       — Não posso me meter na vida dele. Quando o conheci já era um pistoleiro. É o que o Franco gosta de fazer e é o que faz melhor. De minha parte, procuro empurrar alguns livros ou incentivá-lo a usar garfo em vez de colher — riu-se divertida e completou com espirituosidade: — Outro dia forcei que usasse xampu no lugar do sabão de coco. Tudo para o Franco é uma questão de macheza.

       Os dois riram. Quem conhecia esse lado do diabo loiro?, Rodrigo ponderou, esfregando o cavanhaque preguiçosamente.

       —Você sabe lidar com ele, Nova. Isso é muito bom. — considerou o delegado.

       — Não está acontecendo o mesmo entre você e a Karen?

       — É, por aí. Não sou tão flexível como você, vejo as coisas erradas e tento consertá-las. O problema é que acabo estragando ainda mais.

       — Temos de amá-los como eles são. Meu Deus, você conhece a Karen há mais de dez anos, nada no comportamento dela deveria surpreendê-lo. O fato de formarem agora um casal deve ser apenas ajustado. Sabe muito bem que ela nunca foi feliz com homem algum. Nem com o Dolejal.

       — Sim, é verdade. — admitiu com um leve sorriso e, depois, provocou-a: — O relacionamento mais sensato seria entre nós dois. Somos pacatos e românticos.

       — E sonhadores. — ela interrompeu-o num tom de brincadeira. — Não sou doida, delegado, naquela noite lá no salão country, quando me convidou para passar a noite com você, já estava apaixonado pela Karen. — constatou com um sorriso travesso.

       Ele fez uma careta engraçada.

       — Eu não devia ter falado aquilo, foi de mau gosto e quero que me perdoe.

       — Deixa de ser bobo! Fez muito bem para o meu ego. — ela bateu no joelho dele amistosamente: — Olha só, Don Juan com distintivo, preciso de umas informações.

       — Sabia que sua visita tinha segundas intenções.

       — Claro, o antiácido e as informações.

       — Certo, Nova Monteiro. Manda ver, o que quer saber?

       Ela podia recuar.

       — O que aconteceu ao hospício de Matarana?

       O delegado estreitou os olhos, sondando o propósito da pergunta. Era difícil extrair algo dele sem uma boa explicação.

       — Por que quer saber sobre isso?

       — Por que os policiais respondem uma pergunta com outra?

       — Força da profissão. — brincou.

       — Matarana teve o seu sanatório? — insistiu.

       Ele ergueu-se e tornou a se sentar detrás da mesa. Uma ruga sulcava a sua testa. O cérebro processava informação antiga.

       — Bem, quando cheguei à cidade o único hospital psiquiátrico da região havia sido desativado. Não me interessei a respeito. Acho que os poucos doentes mentais foram encaminhados para hospitais públicos tradicionais, como os de Matarana e Santa Fé.

       — Então, existiu um hospício aqui?

       Franco não mentira — ela pensou quase sorrindo.

       — Sim, claro. Onde há humanos, há manicômios. — filosofou ironicamente. — Mas por que quer saber?

       — Pesquisa. Pretendo escrever sobre a história da cidade, a verdadeira. — mentiu.

       — Mas já não a escreveu?

       — Refere-se à de Thales Dolejal? A Canaã erguida a partir de lonas e liderada pelo velho Onório, o suicida?

       — É, essa mesma. — respondeu com um sorrisinho.

       — Eu precisava de dinheiro, não sou hipócrita. O Dolejal pagou bem e teve o livro que queria.

       — E seja o que Deus quiser. — brincou o policial.

       — E o que o diabo desejar. — completou de forma ambígua a futura mulher do diabo.

         

       — Algum problema, dona Karen?

       Ela saiu do carro e encostou-se contra a porta fechada. Antes de endereçar sua atenção a Bronson, fitou o céu que escurecia anunciando o fim do mundo. Voltou-se para o segurança constatando que estava sozinho na cabine da camionete vinda do interior da fazenda. Acendeu um cigarro devagar para ganhar tempo e dominar a sensação de fúria incipiente. Estar diante da Arco Verde era quase como estar diante de Thales. A atmosfera, naquela parte de Matarana, tinha o cheiro dele, impregnada de seu domínio.

       — O motor foi para o espaço. — respondeu ao pistoleiro, apagando o fogo da ponta do fósforo com um sopro rápido.

       — Veio falar com o patrão? — perguntou desconfiado.

       Da última vez, ela chegara armada e bêbada. Eles não sabiam que doía muito e tinha de extravasar para não perder a lucidez. Tencionava feri-lo para ver se habitava sangue humano naquele corpo. O fazendeiro encontrava-se fora do seu reino e deixara de viver a maior emoção de sua vida, uma mulher como Karen nocauteada pela rejeição. Por isso enquanto via Bronson descer da picape e se aproximar com cautela, procurou demonstrar um pouco de sanidade.

       — Na verdade, estava indo para casa. Vim da revenda do Vieira, parece que ele não me quer como cliente. — deu de ombros e continuou tentado impor um tom natural à queixa: — Fui trocar essa lata velha por uma peça rara, mas não tenho pedigree.

       Bronson assentiu e fez um sinal para o automóvel.

       — Posso dar uma olhadinha?

       — Claro, é só puxar, quebrei tudo aí na frente e não tranca mais. — disse, meio sem graça. Olhou ao redor e arriscou: — O seu patrão não está, né?

       Com a cabeça enfiada entre o capô aberto e o motor do Fusca, o segurança respondeu sem interesse.

       — Não. — depois, sentenciou: — É, infelizmente, o motor bateu. Mas tem jeito, dona Karen.

       — Está vendo essas marcas aí? Foi o jeito que tentei dar. Não quero mais esse treco, Bronson. Agora só tenho de pensar em um jeito de voltar para casa.

       — Levo a senhora. — afirmou, solícito.

       Ela sorriu de leve e provocou:

       — Acho que o patrão irá chicoteá-lo caso faça isso.

       Ele devolveu o sorriso que mal entortou um canto da boca.

      — Não, dona Karen, é minha obrigação cuidar do pessoal do meu patrão.

       A mulher segurou uma frase cheia de ácido para jogar na cara do homem que ela jamais soubera o nome de batismo mas que era chamado de Bronson. O ronco suave de um veículo foi percebido a apenas poucos metros de si. 

       A Silverado deslizou pela estrada de chão batido com sutileza, a terra grudou nos pneus e bateu debaixo do assoalho. O motorista observava a obstrução à entrada de sua propriedade, os maxilares retesados diante da figura que se desencostava do próprio automóvel, jogava o cigarro no chão e esmagava-o com a sola da bota de vaqueira. Evidenciava com o gesto a intenção de fazer o mesmo com ele. Thales percebeu então que não era à toa que mais uma tempestade se formava.

       Karen preparou o corpo para o confronto. A polícia não a impediria de fazer o que deveria já havia muito ter sido feito. Os justos seriam recompensados, pensava ela, ao ver o fazendeiro descer da picape sendo ladeado por uma mulher. Aturdida por tal aparição, desconcentrou-se do antigo amante e analisou a vestimenta da morena alta e encorpada. Jeans, chapéu e uma Glock enterrada no cós frontal da calça. O cabelo longo e despojado, o rosto limpo de maquiagem e um par de seios que desafiavam a manutenção dos botões naquela camisa xadrez.

       — Vamos entrar, Karen. — Thales disse sem rodeios, os olhos estreitando-se quase imperceptivelmente ao ver os hematomas no rosto dela. Ele não comentou a respeito.  Sabia que aquela mulher jamais se rebaixaria ao papel de uma donzela em apuros. E isso o atraía demais.

       Ela pôs as mãos nos quadris e cumprimentou a segurança.

       — E, aí, comadre? Está disposta a levar chumbo por causa de homem? É burra ou bebeu xixi de camelo?

       A morena avançou um passo e parou, a cara amarrada. O patrão fez um sinal, contendo-a e confidenciou baixinho:

       — Essa é a pessoa que tem acesso irrestrito a mim e à fazenda, além do Franco. — virou-se para Karen e informou com naturalidade: — Ando revendo alguns conceitos e acredito que as mulheres têm um senso de proteção mais apurado. Espero que não se importe. — acrescentou irônico.

       Karen tentou sorrir. Não obteve sucesso.

       — Então, agora, andará pela cidade com uma pistoleira?

       Thales sorriu levemente. A pistoleira em questão manteve-se impassível. Bronson já lhe fizera decorar a cartilha de Dolejal.

       — Vamos entrar, Karen. — insistiu, voltando para a camionete.

       A intenção era que ela seguisse com ele na picape até o casarão.

       — Não vim falar com você. O motor fundiu no pior lugar possível, não tive culpa. Sou comprometida, entendeu?

       — Isso não a impede de almoçar comigo.

       — Estou de dieta.

       — Não seja teimosa. — falou com rispidez: — Precisamos conversar. Não foi o que o delegado sugeriu? Eis uma boa oportunidade. — voltando-se para a segurança, ordenou: — Virgínia, volte com o Bronson. Tenho certeza de que desta vez a senhorita Lisboa não atentará contra minha vida. — virando-se para ela acrescentou com um leve sorriso: — Ou estou errado?

       Virgínia olhou bem nos olhos de Karen. Um duelo de mulheres duronas. Reconhecia que durante anos Thales procurara outra fortaleza feita de estrogênio. Era atraído por mulheres intimidadoras. Não por elas o intimidarem. Isso não, ele não. Mas porque todo o Dolejal nutria dentro de si um bicho louco obcecado por desafios.

       — Fique onde está, sister. Ligarei pro meu namorado quase marido, e ele virá me buscar. — enfatizou, mantendo os olhos na segurança e a visão periférica captando movimentos ao redor.

       Bronson fez um sinal com a cabeça e Virgínia seguiu-o. Ao passo que Thales postou-se diante do volante e fez o motor funcionar. Deslizou o veículo até parar paralelo a Karen.

       — Eu a levo para casa ou para qualquer outro lugar aonde queira ir.

       — Já disse que não preciso de você.

       — Deixa de ser idiota, Karen. — o tom calmo e comedido que tanto a enervava.

       — Cuida da tua vida! — gritou.

       Thales apertou os lábios, irritado, e acelerou até adentrar os domínios da Arco Verde.  No alpendre, Bronson interpelou-o:

       — Olha, patrão, o motor está acabado, aquele carro não sai de lá nem com banda de música.

       — Ela veio me procurar?

       Bronson negou com a cabeça.

       — Desta vez foi azar mesmo.

       — Bom, então, o que posso fazer? Que ligue para o 190 e peça ajuda. — afirmou com desdém.

       Subiu a escadaria que levava aos aposentos do segundo andar. A consciência de que Karen Lisboa estava por perto e que não o procurara, incomodava-o de maneira irracional. Uma separação recente, e ela já vivia com outro homem. Vadia desgraçada!, murmurou, fitando no espelho do banheiro um par de olhos azuis brilhantes, as órbitas avermelhadas, a veia grossa pulsando no meio da testa. Torcia para que um raio a pulverizasse da face da Terra. Mas era capaz do raio, ao atingi-la, partir-se ao meio.

       Depois do banho, vestiu uma camiseta de algodão sem estampas, jeans e tênis. Ficaria em casa o resto do dia. Pelo menos até Karen ser levada pelo caubói da lei. Vê-la havia acabado com seu apetite e sua concentração no trabalho.  Tinha de gerenciar a transferência dos índios à beira da estrada federal para o lote de terras comprado do coronel Rodrigues. Mero prazer, o de provocar o outro latifundiário, promovendo a construção de casas para os índios despejados de suas terras, na divisa entre a Arco Verde e a fazenda de Rodrigues. Tencionava mostrar ao outro o seu lugar, ali, naquele pedaço de mundo que era Matarana.

       Deitou na cama, um braço dobrado sobre a testa, os olhos postos no teto. “Meu marido”, ela dissera com orgulho de si mesma, como se tivesse encontrado uma mina de ouro. Cretina!

       Uma batida na porta e uma voz:

       — Patrão, o senhor precisa ver isso.

       Desceu com Bronson até a sala onde dois seguranças monitoravam as diversas câmeras espalhadas por ângulos estratégicos da fazenda. Em um dos monitores, o enquadramento exato que compreendia o Fusca e a sua proprietária. Furiosamente, a mulher espancava até a morte aquele que a impedia de exercer o seu direito de ir e vir.

       Bronson balançava a cabeça lentamente. Inacreditável! Olhou para os outros dois camaradas que se mantiveram em silêncio, sabendo antecipadamente que comentar sobre a ex-amante do patrão era carregar explosivos na ponta de uma colher. Ao voltar-se para Thales, a fim de cogitar sua intervenção — afinal, ela parecia descontrolada — deteve-se ao perceber o sofrimento daquele olhar fixo na imagem. Ele nunca o vira transtornado ao ponto de desfigurar o rosto. A impressão era a de que ele se agarrava ao orgulho ferido para não desabar.

       — Por que não vai buscar ela, patrão?

       Somente Bronson podia se atrever a incitar qualquer comportamento a Dolejal. Os dois seguranças, sentados atrás da mesa de controle, arriscaram se entreolharem discretamente.

       Thales respirou fundo, descruzou os braços e disse numa voz quase inaudível:

       — É só ela pedir que eu a busco.

       A última tacada acertou o vidro frontal e um dos estilhaços grudou no seu braço. Karen gemeu e puxou de dentro da pele a minúscula lâmina. O sangue subiu à superfície e depois escorreu devagar. Cansada de lutar, preferiu a rendição. Telefonou para Valéria.

       — Meu carro quebrou, vem me pegar.

       Val riu com vontade.

       — Tudo bem, aceito suas desculpas. Só que o meu carro está com a vó. O que aconteceu com aquele seu Fusquinha novo em folha?

       — Foi pro brejo.

       — Ué, liga pro Rodrigo. — sugeriu num tom debochado.

       Foi o que ela fez. Mordeu o lábio inferior, incerta se deveria envolvê-lo em seus problemas. Clamava por liberdade; porém, encrencada chamava-o. Não parecia certo. Livrou-se do dilema de consciência ao notar que o celular do delegado estava fora de área.

       A chuva despencou torrencialmente. Ela soltou um belo palavrão e tentou refugiar-se no interior do automóvel. A porta não abriu. Depois dos inúmeros golpes com o taco de beisebol, a porta simplesmente emperrou. Coube a Karen baixar a cabeça e aceitar a água do céu.

         

       As crianças de Bety pareciam cachorrinhos felizes debaixo da chuva. Saltavam sobre as poças d’água e batiam os braços imitando passarinhos. Felizes, saudáveis e nutridas. Nova reparou que tal fato refletia a saúde mental da mãe. E também o seu amor. Instintivamente, acariciou o próprio ventre ainda magro. Apesar da beleza da cena, ela observava também para além dos anõezinhos loiros, os fundos da imobiliária de Teobaldo Vilela. A porta de acesso ao local do crime, fechada. Voltou-se para a vizinha do falecido e, tocando discretamente em seu antebraço, convidou-a a sentar-se à mesa da cozinha.

       — Espere um minutinho, dona Nova, vou chamar a menina que cuida dos piás pra ficar tomando conta do mercado. Se bobear, até os vizinhos passam a mão nas minhas latas de leite condensado. — afirmou agitada, endereçando um rápido olhar para a garrafa térmica sobre a mesa e voltando-se, em seguida, para a convidada antes de atravessar o corredor entre a casa e o mercadinho: — Se sirva de café que já volto.

       Ela retornou mais calma, um cigarro queimando no canto da boca e o sorriso satisfeito por ver a jornalista bebendo o seu café em um copo de vidro.

       — Dona Nova, andei pensando se não deveria falar com o delegado, sabe? Depois que a senhora saiu aquele dia daqui, conversei com meu marido, e a gente acha que não é certo encobrir o assassinato de um velho tão legal que não fazia mal pra ninguém. Poxa!, um senhor da terceira idade que trabalhava duro pra se sustentar. A senhora sabe muito bem como esse governo trata os idosos, né? Aí, vem um fazendeiro cheio da nota e dá um tiro na cara dele! Caramba! O que o velho fez pra ele? Será que devia dinheiro? Ou será que sabia de algum podre dele, hein? Qual é o seu palpite, dona Nova? — perguntou com evidente interesse pela resposta.

       Nova baixou os olhos e manteve-os na bebida preta e quente dentro do copo. Agora Bety queria acusar Thales Dolejal. Encarou-a com um sorriso tranquilo:

       — Por que não me disse antes que foi interna de um sanatório?

       Bety enrubesceu.

       — Faz muito tempo...

       — Está sob medicação?

       — Não preciso mais, desde que...

       — Casou?

       — Não, não, dona Nova, simplesmente, não preciso. — afirmou, envergonhada.

       — Deu alta a si mesma?

       — É, por aí. Depois que tive as crianças fiquei boa. É que eu só era distante, e os médicos acharam que era esquizofrenia. — falou sem jeito, ajeitando uma mecha do cabelo quase branco detrás da orelha.

       — Saiba que o seu testemunho não tem validade, já que passou um tempo vestindo uma camisa de força. — declarou sem poupá-la e acrescentou com firmeza: — Não pode acusar uma pessoa se não tem certeza sobre o que viu.  A situação é complicada, Bety. Com medicação ou não, o seu relato perde assim a credibilidade.

       Bety arregalou os olhos.

       — Mas eu vi! Sei quem eu vi!

       — Acalme-se. — instigou-a. — Sei quem você viu, só não estou certa de que seja a mesma pessoa que matou o Teobaldo. Veja bem, querida, existe uma grande probabilidade de sua memória tê-la enganado, como enganaria qualquer um.

       — É mesmo? — perguntou curiosa, os antebraços fincados na mesa; depois, balançou a cabeça e assegurou: — Comigo não, nunca aconteceu isso. Nunca fui enganada pela minha cabeça. Quer dizer, fui um pouquinho enganada. Mas sei que vi o senhor Dolejal, posso dizer até a cor da camisa que vestia, era uma azul...

       — À noite? — interrompeu-a. — O assassinato do Teobaldo ocorreu à noite, e você conseguiu ver a cor da roupa dele? — sondou-a desconfiada.

       — Quê? Sim, sim, o cara que entrou e matou o Teobaldo. O velho deixava a lâmpada dos fundos acesa a noite inteira. Devia pagar uma conta de luz quilométrica...

       — Bety, concentre-se! — chamou-a num tom ligeiramente severo. — Precisamos voltar ao dia do crime e refazer os seus passos e o que você de fato viu, entendeu? Caso pretenda acusar o homem mais poderoso da região precisará de provas.

       — Como voltaremos ao passado? Já aconteceu, o velho já morreu... Desculpe, a senhora está me deixando confusa. — choramingou numa voz fininha.

       Ela precisava de remédios. Ela, Nova, para continuar a conversação com a moça do mercadinho à beira da estrada e provável acusadora de seu futuro sogro. Respirou fundo e tornou a articular o raciocínio. Teria de descer alguns níveis a fim de ser compreendida. Espichou o braço por cima da mesa e pegou a mão da mulher.

       — Eu é que peço desculpas, querida, não devia ser tão dura. Tenho medo que se machuque ou que aconteça algo aos seus bebês. Por isso temos de ser precisas quanto ao que você viu. Entendeu, Bety?

       — Sou a favor da justiça, jamais acusaria um inocente. Vi o senhor Dolejal entrando pela porta dos fundos, sorrateiramente, usava chapéu e uma camisa azul do tipo que o pessoal que trabalha em escritório usa, estava pra dentro da calça até. Eu vi Thales Dolejal entrar pelos fundos da imobiliária poucos minutos antes do Teobaldo ser assassinato. É isso que direi ao delegado. — assegurou com a coragem revigorada.

       — Sabia que boa parte de nossas recordações são falsas? — deu um tempo para a outra digerir a questão e engatou a segunda marcha: — O cérebro se lembra de fragmentos da realidade e reconstrói a memória para poder se lembrar de tudo e, assim, compreender o fato. Mas, veja bem, Bety, como pode acreditar no que supostamente viu à noite? Como pode confiar em si mesma, vivendo estressada com as crianças, com a falta de clientes no mercadinho, com a solidão de ter um marido ausente e tentando se livrar do álcool? E assim, sem mais nem menos, vê alguém entrar na imobiliária, sabe lá em que noite, e acaba acreditando que testemunhou um assassinato. Na verdade, você não testemunhou crime algum, não viu o corretor ser morto e tampouco ouviu o estampido de um tiro. É normal que as mulheres se lembrem de detalhes como vestuário, isso não é prova alguma de que fosse o Dolejal a usar tal peça de roupa. Entenda que o nosso cérebro é tão poderoso quanto traidor e distorce o que acreditamos que seja verdadeiro. É provável que você tenha visto o Dolejal em uma outra noite e, por ter ficado impressionada com o meu artigo, uniu o homem, colonizador de Matarana, com a imagem do verdadeiro matador de Vilela. Foi o que aconteceu, o seu cérebro lhe plantou uma memória falsa. — encerrou com convicção.

       A outra roia as unhas, pensativa. Na rua, a chuva desabava em fios grossos e barulhentos contra os vidros e as telhas da casa.

       Nova estava exausta e a sua paciência por um fio.

       — Será que fui enganada pela minha cabeça? — balbuciou: — Não pode ser. Bem, não conheço tão bem assim o senhor Dolejal. Nunca vi ele de perto, sabe? Dizem que é bem bonito, né? Pois é... O que o delegado vai dizer quando eu contar que vi o colonizador de Matarana na imobiliária do Teobaldo? Será que ele vai dizer que me confundi também?

       Estreitando os olhos diante da declaração num tom entre nervoso e qualquer outra percepção malévola, Nova pressentiu que falava com uma loba em pele de cordeiro.

       — Pensa em extorquir dinheiro do Dolejal? — foi direto ao ponto.

       Bety sorriu e havia no sorriso um ar de superioridade:

       — Não, penso em pedir para que a senhora peça para ele.

       Então o tempo inteiro era isso, concluiu a mulher de Franco.

       — Quem pensou isso por você? — avaliou-a, desconfiada.

       Era possível que o marido alcoólatra e fracassado tivesse posto pensamentos perigosos na cabeça porosa e dependente de psicotrópicos da esposa.

       — A gente vê tanta coisa errada. — começou com o olhar distante, captando no horizonte chuvoso o sentido da vida sem sentido: — Outro dia meu marido disse que tinha vindo a Matarana para encher os bolsos, e não o fígado. Ele tem sonhos, e eu tenho filhos.  Às vezes acho que a única justiça é tomar de quem tem demais da conta. — ela riu um riso áspero e rápido e concluiu: — Talvez a falta do lítio tenha me tornado uma pessoa melhor.

      — Mas antes não queria se meter com os figurões nem expor seus filhos, não entendo...

       — Não farei nada disso. Repito, a senhora pedirá o dinheiro ao seu sogro...

       Era possível que o sangue de Nova borbulhasse nas veias. Raiva, muita raiva.

       — Nesse caso, é melhor procurar o delegado e pedir proteção. — falou baixo num tom incisivo.

       — Vou contar tudo o que sei, e é capaz do diabo loiro levar a dele também! — afirmou, estranhamente corajosa.

       — Que ingenuidade! Está se metendo com os Dolejal? Tem ideia de que acaba de ameaçar a minha família? — perguntou, sem tentar controlar a exasperação crescente que cambiava para a ironia e o desdém. Se não fossem as crianças...

       — Uma família de assassinos. Não foi o que a senhora escreveu?

       Se não fossem as crianças, entregava Bety ao Dolejal pai e o seu marido ganancioso ao Dolejal filho.

       Levantou-se da cadeira e circundou a mesa. Parou perto da mulher ainda sentada, perplexa, imóvel. Não se abaixou. Não, ela logo se tornaria uma Dolejal. Ela não se curvaria.  Ergueu o nariz e afirmou com a fleuma de uma nobre:

       — Cretina gananciosa.

       — O que está falando?

       — O que entendeu.

       Nova decidiu que defenderia sua família de todos.

         

       Karen caminhava com a cabeça baixa e os braços abraçavam o próprio corpo. Apesar da temperatura amena, a água que despencava do céu era fria e os pingos grossos machucavam. Evitava olhar para cima e, tal gesto, parecia uma metáfora de sua própria existência, uma metáfora de mau gosto. Estava sempre fitando as próprias botas cuidando para não tropeçar ou tentando acertar o lugar certo onde pisar.

       Soltou o elástico do cabelo e a cascata de fios pretos caiu-lhe sobre os ombros, encharcada. Arriscou erguer a cabeça e olhar ao redor. O prado verdejante absorvia água com desespero. Irrompia da terra a campina vivificada, enquanto as árvores balançavam à força do vento como dançarinas entorpecidas pelo ópio. E ópio para a natureza eram a sua própria força e essência.

       A estação das chuvas transformava a terra de ninguém em um lugar radiante e poderoso. Karen parou e contemplou a impetuosidade que habitava dentro de si, mas, tornada tempestade, pairava diante de seus olhos. Ah, então era isso... — ela pensou, ao descobrir-se integrante daquela energia absurdamente natural. E reconhecendo sua consistência mais íntima, dois caminhos a escolher. Podia aceitar-se e se jogar debaixo da boca de um furacão. Lançar-se à tempestade de si mesma e viver o inferno e o paraíso de ser quem era para todo o sempre. Ou optar pela estrada reta e plana, adaptando-se a uma existência saudável e pacífica. Vestindo roupas leves e escondendo a armadura de aço debaixo da cama. Saber sobre sua própria natureza dava-lhe o poder de trilhar o caminho que fosse. Porque qualquer um deles receberia a força de seus pés e a decisão de sua vontade.

       Tudo parecia perfeito mesmo frio e molhado. Mas havia ele, sempre ele, e o seu poder e tudo de bom e ruim que vinha junto. Karen nem precisou voltar-se para perceber que era seguida. Poderia enfrentá-lo de igual para igual. Virou-se para encarar o seu destino, aquele que a forjara para sobreviver à dureza de amar do jeito que ela aprendera a amar. Levou a mão ao cós do jeans à procura da arma. Um bom momento para feri-lo, para testar a sua humanidade, um robô de carne e músculos parado poucos metros à frente da picape. Ele estava lá. Irrompera também da terra, da sua terra, para aprisioná-la? Karen não sabia a resposta. Diante de Thales, o tempo escurecia, o sangue queimava debaixo da pele e ardia, doíam feridas antigas e a angústia e o fracasso assolavam-na com seus punhos de aço, pondo-a na lona.

       — Temos de conversar. — foi o que ele disse.

      Ordenava, seguro de seus passos sobre o chão batido que se fazia lama. Os olhos demonstravam toda a emoção contida que endureciam os músculos de sua face. As sobrancelhas juntas numa expressão de severidade.

       — Não tente... — balbuciou.

       Ninguém detinha aquele homem. Ele mantinha um sorriso de antecipada vitória enquanto avançava até conseguir admirar-se nos olhos dela, do jeito distorcido que somente ela conseguia vê-lo, uma tarefa bastante fácil. E quanto mais ela esbravejasse e tentasse evitar o inevitável, mais ele estaria disposto a esperá-la voltar.

       — Não me importo com a chuva. — ele assegurou, encarando-a com outras intenções, que foram rapidamente esclarecidas: — Mas podemos voltar para a minha casa ou ir para um hotel.

       Ela sorriu. Ele não gostou. Era o sorriso de quando se punha seis balas no tambor.

       — Acabou, Thales. Ainda não percebeu? — não o permitiu que respondesse e esclareceu em um tom de escárnio: — Encontrei o homem da minha vida. Sou fiel a ele, ao amor que sinto por ele. Não irei para lugar algum com você nunca mais. Teremos de aprender a viver na mesma cidade sem que um incomode o outro.

       Viu-o contrair ligeiramente o canto dos lábios num gesto de desprezo.

       — Imagino que deva estar tornando a vida do delegado um inferno. Por que não escolheu alguém mais maleável para supostamente me substituir? Antes preferia os tipinhos de fácil manipulação. Acho que se cansou, não é? Os desafios existem para polirem o nosso ego. Entendo a sua escolha e sei que esse romancezinho não chegará até a próxima estação. — fez uma pausa, avaliando-lhe a expressão facial e exalou o ar dos pulmões: — Agora quem está entediado sou eu. Se não quer me acompanhar terei de levá-la à força. Tenho mais o que fazer, além de ficar dispensando atenção para uma desocupada.

       — Prefiro ser uma desocupada a uma assassina! — gritou com raiva.

       Thales franziu o cenho tentando entender o rumo da conversa.

       —É melhor calar a boca, Karen. — ameaçou-a, os olhos estreitando-se perigosamente.

       — Não vou entrar na sua camionete. Já tentou me matar uma vez... quem sabe se pessoalmente não consegue. — provocou-o.

       — O que está dizendo?

       Ela pôs as mãos nos quadris e ergueu o nariz.

       — Que foi você quem mandou o Mendes me matar. É isso que estou dizendo.

       Inesperadamente, ele sorriu e era um sorriso amplo, quase juvenil, as covinhas despontando ao redor dos lábios.

       — Meu Deus, Karen!, você é mais burra que a Mary Jessica. Vem, vamos sair dessa chuva. — estendeu mão.

       Olhando para a mão aberta e convidativa, forçou-se a direcionar seus olhos para os dele, divertidos.

       — Vou a pé, não me importo de chegar em casa no Natal. Não quero ser vista com você. Sou uma mulher comprometida; ouviu bem? Teu reinado sobre mim acabou! — ela falava sério, mas, mesmo aos seus ouvidos, soava como uma adolescente birrenta.

       — Certo, faça como quiser. — afirmou, dando de ombros.

       Num átimo, ele se aproximou e dobrou-a ao meio sobre os seus ombros, um braço ao redor de suas pernas, pressionava-as contra si. O movimento foi tão rápido e inesperado que coube a Karen apenas deixar-se ser carregada como um saco de batatas. Era a segunda vez que ele a tratava como uma mercadoria. Tentou soltar-se, empurrando-o com as mãos abertas contra os ombros dele. A reação contrária foi a de apertá-la ainda mais, ao ponto de ter suas coxas imobilizadas.

         — Cretino! Vou registrar queixa, isso é... é alguma coisa no código penal! — esbravejou, sendo atirada para dentro da cabine.

       Foi então que ela percebeu as mudanças no rosto dele. Tão perto. O cabelo curtíssimo, nas têmporas, fios prateados. Ao redor dos olhos azuis, rugas de expressão. Os pontos da barba tingiam-lhe os maxilares de um tom azulado. Era a expressão bela e amargurada da melancolia, se esse sentimento tivesse um rosto.

       — Hoje acertaremos nossas contas, Karen Lisboa. — assegurou, a expressão séria e determinada, mas, sempre, desde sempre, os olhos tristes.

       E era essa tristeza que a fazia calar-se.

       Quando Thales sentou-se diante do volante e não girou a chave na ignição, ela quase implorou:

       — Não podemos ser vistos na cidade.

       Ele assentiu com a cabeça lentamente.

       — Eu sei, — concordou e acrescentou com um leve sorriso: — apesar de todos ainda acreditarem que você está comigo.

       — Nunca estive com você. — afirmou com amargor.

       Arriscou endereçar um olhar direto a ele. Viu-o olhando para frente, o vidro frontal varrido pela chuva, o barulho da água e dos trovões e raios. O semblante cerrado. Ele falou sem se voltar:

       — Sempre soube quem você era e aceitei o seu modo de viver. O que queria de mim? — ele se voltou para ela e perguntou, arqueando uma sobrancelha com ironia: — Que a forçasse usar uma coleira?

       — Não se faça de bonzinho. Foi você quem me trocou por outra, me expulsou da sua vida e mandou me expulsar até da cidade! — tentou controlar-se.

       Ele suspirou pesadamente.

       — Fui fiel durante o tempo em que fiquei com você. Só que cansei de ser corno, Karen. Acho que já disse isso em outra ocasião.

       — E, agora? Está com saudade das guampas? — debochou.

       — Não. — foi tudo o que disse antes de girar a chave na ignição e preparar-se para partir.

       — Espera! — ela pediu.

       Foi atendida.

       — Vou deixá-la no posto de gasolina mais próximo do centro da cidade. Ninguém nos verá, e poderá telefonar para quem quiser que a busque.

       — Não é isso... — balançou a cabeça, procurando manter o tom firme na voz: — Preciso entender para tentar viver em paz com o Rodrigo.

       Ele sorriu com desdém.

       — O que quer saber?

       — O que eu tenho de errado que o fez me deixar? — era a sua voz com as palavras de Sabrina.

       — O que não fará o Rodrigo deixá-la. — ele respondeu prontamente: — É evidente que nenhum homem gosta de dividir o que é seu. Mantenha-se nos trilhos que será feliz para sempre. — acrescentou com ironia.

       — Se você tivesse me amado e me assumido como sua mulher, e não a sua transa semanal, hoje eu não estaria com ele. — começou, sentindo uma lágrima presa na garganta: — Nos primeiros três anos não tive ninguém além de você. Acho que até               que o amei, porque tinha momentos que eu não queria deixá-lo partir, preferia até que... — evitou continuar.

       — Que eu morresse? — completou, alçando a sobrancelha.

       — Para não ser de mais ninguém, talvez. — ela baixou a cabeça e permitiu-se não lutar contra, seguir a maré dos sentimentos: — Tinha outros momentos que sentia uma vontade louca de fugir. Eu dava tanto de mim, e você tão pouco. E, mesmo assim, não o abandonei. Foi você quem me abandonou, me tirou de sua vida, me trocou por outra. Jamais troquei você por homem algum.

       — Então, me diz, Karen, o que é isso que está vivendo com o Rodrigo?

       Ela puxou todo o ar, precisava se controlar, o peito aberto demais.

       — Troquei você, Thales, por mim. O Rodrigo não tem nada a ver com isso.

      — No final das contas, sou eu o vilão? — perguntou com um leve sorriso.

       — Nós dois. — concordou. — Mas não posso viver na mesma cidade que você sem odiá-lo, simplesmente não posso. É doentio, eu sei. Estou agora com um homem que é capaz de morrer por mim. E parece que uma mulher sacana como eu não merece encontrar alguém assim, não é?

       — De que adianta um homem morto? — debochou e emendou encarando-a diretamente: — É preferível um homem que mate por você.

       Era a confissão que ela tanto aguardara nos últimos meses.

       — Matou o Mendes? — indagou, mantendo o ar nos pulmões, expectante.

       — Acha mesmo que alguém machuca a minha mulher e sai impune? — era mais que uma pergunta.

       Ele falou tão baixo e com tamanha certeza sobre o que dizia que, por um ou dois minutos, ela manteve seus olhos nos lábios dele, de onde viera a constatação de que Thales Dolejal era perigoso.

       — Mataria o Rodrigo? — indagou num fiapo de voz.

       — Quer que eu mande matá-lo?

       — Não, por favor.

       Thales sorriu levemente.

       — Não se preocupe, apesar de ser um canalha oportunista, ele continua sob a minha proteção. E se mantenho meus homens vigilantes é por sua causa, não por ele. 

       — Obrigada. — murmurou.

       A risada que ressoou na cabine refrigerada da picape pareceu a Karen um tanto malévola.

       — É tão engraçada a noção de amor que as pessoas têm. — ironizou e acrescentou com velado desprezo: — Acho que já resolvemos nossas pendências. Vou deixá-la onde combinamos. Diferente de como você pensa, Karen, não preciso odiá-la para poder viver em Matarana. É uma pena que seja uma primitiva.

       — É, sou bem primitiva, Thales. — concordou, deitando a cabeça contra o encosto do banco. Sentia-se exausta emocionalmente.

       — O que sobrará de você depois que o delegado domesticá-la? — indagou, em seguida, tocando-lhe o joelho acrescentou num tom ácido: — Depois que o Rodrigo cercá-la de uma interessante ninhada de cauboizinhos? Nada melhor para alguém como ele encher uma mulher como você de crias inúteis.

       Karen observou a mão grande, de unhas curtíssimas, sobre a sua perna. Preferiu esconder-se no silêncio.

         

       Podia sentir os olhares grudados em sua nuca. Desde ao entrar na Vila Zumbi — do outro lado da rodovia 163, ainda nos limites de Matarana, Rodrigo era acompanhado pela obstinação de cortar o mal pela raiz, antecipando-se às dificuldades que surgiriam a partir da aparição da polícia no lugar considerado o refúgio daqueles que não conseguiam se manter na parte da cidade em que os que conseguiam determinavam o progresso.

       Se de um lado de Matarana havia butiques com etiquetas douradas em artigos importados, asfalto nas principais vias, hipermercado e um centro comercial com fôlego para abastecer os mais peculiares fetiches induzidos pelo capitalismo; cruzando a estrada federal, ocorria uma importante metamorfose. O chão era de terra debaixo de fios de luz que constituíam uma legítima teia de aranha eletrificada. O movimento nas ruas — onde trafegavam automóveis dos anos 80, assim como cavalos, carroças e um número interessante de bicicletas — era de um colorido de raças e tipos físicos. Ali estava o país dos brasileiros e a sua ineficiência em respeitar a si mesmo. Não sabendo como igualar a todos, empurrava para um canto os inadequados. Era o que o delegado pensava ao descer da camionete diante da casa de Joaquim, o suposto traficante de óxi que vendera a droga a João Marau. Se o entorpecente tivesse se restringido aos limites da vila, talvez nem mesmo a polícia saberia sobre sua existência. Entretanto, quando alcançava uma família tradicional como a do coronel, o rumo da prosa era outro. Não que Rodrigo fosse um homem contaminado pelo sistema e que se prestasse a defender a elite econômica de Matarana. Ele defendia o que era certo e justo. Vez ou outra esbarrava em um bandido rico; outras, em um bandido pobre. Às vezes até em bandidos fardados ou sentados em cadeiras de espaldar alto, ladeados pelas bandeiras de Matarana, do Mato Grosso e do Brasil.

       Diante da casa de alvenaria pintada de branco e janelas verdes, o quintal florido e molhado pela chuva de até alguns minutos atrás, ele deu uma boa olhada ao seu redor, sustentando os olhares daqueles que passavam devagar e se certificavam de que a sirene da picape não fora acionada e os policiais militares não acompanhavam a visita do delegado.

       Pendurada na janela ao lado da porta que ele batia com os nós dos dedos, a placa de madeira com a inscrição entalhada: “Leio mãos. Consulte a sua sorte. Irmã Iranilda”.

       Foi recebido por uma mulher pequena que aparentava mais idade do que devia ter. O cabelo grisalho puxado para trás em um coque baixo e a face lisa e morena. Ascendência indígena, por certo, analisou o delegado rapidamente. Levou a mão ao bolso a fim de sacar o distintivo. Não foi preciso.

       Ela disse com um leve sorriso:

       — Sei quem é o senhor. Todos nós sabemos.

       Rodrigo retribuiu o sorriso, a consciência de que era vigiado já não mais o intimidava. Nunca o intimidara. Nada o detinha diante de seu dever como defensor da lei. Nem mesmo o semblante gentil da senhora a sua frente.

       — O Joaquim... ? — não era preciso oferecer maiores explicações. Ele era um delegado de polícia.

       — O meu neto está no quarto estudando. Pode entrar, delegado. — cedeu-lhe passagem afastando-se da porta.

       Em respeito à mulher que talvez beirasse os sessenta anos, ele tirou o chapéu e entrou na casa arejada e com móveis simples, porém nada modestos. Averiguou ao redor, daquele jeito que os policiais faziam, olhando de soslaio, apreendendo várias informações e organizando velozmente um quadro mental que incluía os humanos que ali viviam. Eles não eram tão pobres. Do outro lado da  163 até poderiam ser considerados como. Mas, na Vila Zumbi, o status era de classe média. De onde vinha o dinheiro?

       Ele se voltou para a mulher que fechava a porta e se encaminhava em direção a um corredor atravancado de vasos com plantas artificiais.

       — A senhora é a...? — deixou que completasse a informação.

       — Iranilda, doutor Rodrigo. — informou-o sem esperar nada que fosse um leve assentimento por parte da autoridade.

       Ele seguiu-a observando cada objeto, cada quadro na parede, cada fotografia emoldurada que revelava fragmentos de uma existência. Um bebê dando os primeiros passos, um batismo, um dia na praia. Como em qualquer família, imagens congeladas de cenas comuns e cotidianas. Mesmo que fosse na casa de um suspeito de vender óxi.

       Afastou a porta, a velha arrumada no vestido de algodão florido, juvenil para a sua idade, largo demais para sua estrutura física mignon. Pela fresta aberta era possível ver os pôsteres de bandas de rock colados na parede e à frente deles, o neto.

       — Terá de parar de estudar um pouquinho, querido, o delegado se perdeu por essas bandas. — disse num resmungo amargo.

       Rodrigo entendia aquele tom, mas não era obrigado a aceitá-lo. Preferiu ignorar a cidadã e concentrar-se em avaliar o rapaz à sua frente. O jovem ergueu-se da cadeira detrás da escrivaninha e, desconcertado, estendeu a mão:

       — Não leva a mal, a vó não quis ser grossa. — falou, sem jeito, tentando sorrir um sorriso que não vingava nos lábios. — É que a minha mãe fugiu com um policial dois meses depois que eu nasci.

       Por essa o delegado não esperava. Sorriu ligeiramente sem deixar de dar uma varredura com o olhar treinado por sobre os móveis e objetos do quarto. Em cima da escrivaninha pelo menos quatro livros de Biologia, as páginas reviradas. A tabela periódica grudada na parede. Um cartaz feito de papel pardo exibia as principais fórmulas da Física e era ladeado pela estrutura básica da análise sintática da oração: Urge que mantenhamos o silêncio. Era o quarto de um estudante. Ou de alguém que fingia sê-lo. Era possível que tudo ali fosse falso — considerou Rodrigo. O garoto aparentava vinte anos, era alto, magro mas encorpado. O trabalho que fizera nos músculos tinha mais a ver com aparelhos de academia do que com a genética. Boa aparência e olhar tranquilo quase vago. Se fossem os seus primeiros anos na polícia teria deixado de perceber o que ocorria no fundo dos olhos escuros de Joaquim, já vira aquele fenômeno. O rapaz improvisava um personagem.

       Ele indicou uma cadeira para o homem que tornou a pôr na cabeça o seu chapéu.

       — Não, Joaquim, não pretendo bater papo. — começou Rodrigo, mirando o alvo para disparar sem rodeios: — Desde quando traz pasta de coca da Bolívia?

       O rapaz exalou um som esquisito pelas narinas, e era assim que as pessoas faziam ao ouvirem algo absurdo.

       — Delegado, perdão, mas não sei sobre o que o senhor está falando. Como vê, — fez um sinal amplo com a mão, que abarcava praticamente o quarto inteiro, e continuou: — sou apenas um merda tentando ser alguém na vida e poder cair fora desse buraco. Ainda não entendi o seu interesse por mim.

       — É a segunda vez que se desculpa. — constatou Rodrigo, observando um sorriso preguiçoso se armar no rosto do outro — Me parece que você sabe, sim, o que faço por essas bandas, como sua avó diz. E como não tenho todo o tempo do mundo, vou perguntar mais uma vez, e, aí, você decide se quer responder aqui ou na delegacia. Combinado, amigão?

       — Pode perguntar, não tenho nada a esconder. — afirmou, dando de ombros, postando-se de forma displicente meio corpo à beira da escrivaninha enquanto brincava de fazer malabarismos no ar com uma caneta esferográfica. — Sabe, ô delegado, trabalho duro na construção, ponho um tijolo em cima do outro debaixo do sol a pino. Se não fossem as minhas mãos, os ricaços de Matarana ainda estariam vivendo em lonas, porque nenhum deles ergueu nada do chão que não fossem as próprias botas. Eu trabalho para viver, não vendo drogas, não sou bandido. Tudo o que ganho trago para casa ou compro livros. Um dia serei um médico, mas não qualquer médico. Serei um anestesista. E sabe por quê?

       — Sei, para ficar mais perto da morfina. — ironizou Rodrigo. — Olha, moleque, o discurso comunista você guarda para quando encontrar outro colega de profissão lá em Santa Fé, mais especificamente, no presídio. O que sei é que daqui da Zumbi está saindo porcaria e uma porcaria muito nojenta. O melhor a fazer é soltar o verbo, o que deve ser fácil para você, já que está estudando para o vestibular. Tenho certeza de que a velhinha lá na sala põe muita fé no seu futuro. A minha sugestão, então, é que me leve até o seu laboratório.

       Joaquim estreitou os olhos avaliando o que acabava de ouvir. Ainda podia ganhar uns minutos antes da cortina descer. Era o seu momento, driblar o caubói da lei.

       — O pessoal da vila soube da encrenca que o Marauzinho se enfiou. A gente sabia que uma hora ou outra a polícia ia dar as caras por aqui. O senhor até que demorou. Só que não tem o que fazer aqui. O que sei é que ele tem dinheiro o suficiente para comprar a droga direto dos bolivianos. Aliás, tem um sujeito que trabalha pro coronel que traz o que quiser de fora. O Marauzinho jamais precisou atravessar a rodovia atrás de qualquer coisa. Ele tem tudo lá. Na parte clara e arejada, no Texas tupiniquim. É, delegado, é de onde o senhor vem que está todo o mal. Não aqui.

       — Sei... e você é apenas um militante de esquerda. — debochou, já perdendo a paciência: — Então é o seguinte, enfia o nariz naquele canto, afaste as pernas e os braços sem movimentos bruscos. Quero ver se o volume debaixo da sua camiseta é um dos discursos do Hugo Chaves ou uma arma ilegal.

         

       Ele dirigia devagar, uma mão no volante e a outra descansando sobre a própria perna vestida no jeans claro e gasto. Era uma visão diferente aquela — Karen contemplava-o de esguelha, a roupa despojada, a calma à direção e, principalmente, o fato de estar desacompanhado de seus seguranças.

      Thales era um homem marcado. Como Rodrigo e Franco também o eram. Alvos do coronel e de seus aliados. Todavia, os dois últimos andavam armados e eram treinados para a guerra. Franco então era o próprio diabo encarnado. Ao passo que Thales dispensava as armas. A contradição de um homem violento como ele era a de não portar arma; portava, sim, humanos determinados a matar por ele.

       Arriscou endereçar-lhe um olhar disfarçado. Era um rosto másculo e bonito. E quando ele sentia prazer, esse mesmo rosto mudava e traçava rictos que o tornava ainda mais atraente. Ela se lembrava do seu rosto ao fazer amor, tantas vezes e em tantos lugares. No fundo, captava muito bem a intenção da sua displicência ao volante, a velocidade na faixa dos 60 por hora, a simulada intenção de prolongar o encontro. Ao passarem diante da revenda de Vieira, Thales perguntou:

       — O que foi negado a você, Karen?

       Como ela se manteve quieta e procurando fixar o olhar à estrada a sua frente, ele insistiu. Foi obrigada a fitá-lo. Viu a eterna melancolia e viu mais.

       — Por quê? Quer me comprar para depois ter o que cobrar? — indagou com amargor e completou com um sorrisinho cínico: — A mão que dá é a mesma que tira.

       Ele sorriu de leve. Os olhos se mantiveram sérios.

       — Quando cobrei a dívida resgatei também a sua dignidade, mulher. — disse com serenidade.

       Um ponto de vista novo, Karen conjecturou, percebendo que a camionete adentrava os portões da revenda. Os cascalhos bateram contra o assoalho. Era somente o barulho, nada oscilou. Do alto, no interior da cabine de uma Silverado, a rampa de entrada da revenda de automóveis era uma suave inclinação. E, antes mesmo de parar a meio caminho entre o portão principal e o saguão envidraçado, três vendedores atravessavam o pátio a fim de receber o Homem.

       Mas ele estava com preguiça de sair e voltou-se para ela:

       — O que ganho se adivinhar o brinquedo que deseja?

       — O prazer de sabê-lo, seu cara de pau. — respondeu num resmungo.

      Foi a vez de ele sorrir e, como não tinha prática, o sorriso saiu meio torto. Baixou a cabeça, ponderou por poucos segundos e atacou:

       — É seu. O que lhe foi negado será dado por mim. — fitou-a nos olhos.

       — Não seja idiota, você não me conhece.

       — Não, você não, mas conheço os seus desejos e a temperatura deles. — arrastou as palavras e o calor que as cobria.

       — Grande coisa, é só sexo. — debochou, dando de ombros.

       Ele alçou uma sobrancelha numa expressão entre surpreso e divertido.

       — Quis dizer os seus desejos de consumo. — em seguida, o sorriso se abriu revelando um senso de humor jamais visto no fazendeiro: — Mas posso saciar tantos outros que possua e, em relação a isso, Karen, eu a conheço até do avesso. — piscou o olho e saiu.

       Fugia do contra-ataque, ela pensou, com raiva.

       Viu-o ser cercado pelos vendedores e se afastar, o nariz empinado, as costas retas, só faltava o tapete vermelho. Irritava-a a postura de rei, de imortal, de dono da cidade. Suspirou exasperada e voltou a atenção para o celular.  Tentou se comunicar outra vez com Rodrigo. Nada. Diabo de homem difícil de localizar!, murmurou, observando Vieira aproximar-se de Thales com o melhor de seus sorrisos, enquanto o latifundiário varria com o olhar o objeto de desejo daquela que um dia ele tivera e depois mandara embora. A cena era tão patética que lhe ardia o estômago. O dono da revenda limpando o suor da testa com um lenço de pano, os ombros encurvados, o dedinho apontando uma camionete luxuosa e outra, e o cliente ignorando-o, reservando-se o direito de desprezar quem não o interessava. Karen considerou a liberdade que Thales tinha de ser como queria ser. A liberdade oferecida pelo poder. Aproveitou para pular fora da Silverado e se aproximar com um sorriso vitorioso.

       — E, aí? Onde está o objeto de meu desejo, senhor Dolejal? — debochou.

       — Estou estudando o terreno. — respondeu de um jeito tranquilo e voltou à sua pesquisa de campo.

       Até que encontrou o Maverick.

       Ela deu-lhe as costas pisando forte no chão.

       Vieira reconheceu-a, mas não compreendeu a ligação. Ao que o fazendeiro explicou serenamente:

       — Aquela mulher que foi tratada com desrespeito por você é minha.

       — Senhor Dolejal, eu... bem... pensei que fosse boato...estou há pouco tempo na cidade...

       — Ela quer aquela coisa feia e velha ali, não é? — lançou um olhar para o Ford.

       — Sim, mas está reservado para o Leonardo... para o filho do coronel...Entenda a minha situação. — tentou sorrir. Sim, estava metido no óleo fervente, batendo os braços para não se afogar, sendo que a pele se desmanchava e nada podia fazer senão tentar nadar. Vieira estava fodido.

       — É mesmo? — o tom era da mais completa indiferença. — Vamos fazer o seguinte, não quero prejudicá-lo diante do coronel. Sabe que por uma questão de ego, ele e a prefeitinha podem caçar o seu alvará. — abriu a carteira e retirou um cartão pessoal timbrado, entregando-o ao microempresário: — Pegue e guarde com você. Essa é a sua garantia em Matarana. — virou-se para a Silverado e admirou a mulher que acompanhava de longe a conversa: — Ela é linda. E sabe o que posso fazer por ela? — voltando-se para Vieira indagou com arrogância: — O que acha que eu faria por ela?

       O tom era tão satânico que Vieira encolheu os ombros e esboçou um sorriso sem graça.

       — Não sei, senhor.

       — Claro que não sabe. — Thales aproximou-se como se fosse fazer uma confidência junto ao seu ouvido: — Por essa mulher, Vieira, que você negou o prazer de comprar uma porcaria de um carro velho, eu, o dono de sua alma e da alma dos seus filhos, ponho fogo no cerrado. Queimo tudo.  Então, ainda prefere ficar do lado do coronel? — ironizou.

       Vieira olhou para o cartão que o protegia dos Marau.

         

       No sofá velho e revestido pela colcha de chenile, o homem cansado sentou e puxou o filho para um abraço. O garoto aspirou o cheiro do banho recente e era o mesmo cheiro que ele próprio tinha naquela noite. Chovia como no inverno, aquele tipo de chuva que dava trégua após três dias ao menos. Na televisão, um faroeste espaguete enchendo a tela de aridez e dilemas.

       O garoto desviou os olhos de Clint Eastwood e olhou para o seu pai. Ele sorria totalmente envolvido pela história. Era o seu lazer e a sua fuga.

       — Quando crescer serei bombeiro igual ao senhor.  — afirmou com convicção.

       Sem tirar os olhos do filme, o pai retrucou:

       — Não seja bobo, quando crescer será igual a esse gringo aí, Rodrigo. — apontou para quem vingava os fracos e oprimidos.

       Ao seu lado, Joaquim batucava com os dedos sobre a própria coxa. Sem algemas, fora convidado para prestar esclarecimentos na delegacia. Nada muito formal. A placidez dos que não tinham culpa no cartório, vez por outra, cambiava para um olhar intrigado em direção ao motorista. Talvez estranhasse o chapéu gasto, com a aba puxada para frente, ou o jeitão bruto e seco do policial ao falar encarando diretamente os olhos do seu oponente à procura da verdade por detrás da aparência dela. Ou a trilha sonora de Ennio Morricone no CD player incomodava o roqueiro.

       — Então o Vitorino traz tudo da Bolívia. — começou de um jeito displicente, ajeitando o retrovisor e averiguando o movimento na estrada.

       — Não, delegado. — respondeu Joaquim, mantendo a atenção na secundária que os levaria direto à rodovia federal.

       — “Não, delegado?” — Rodrigo zombou, voltando-se para o rapaz com um sorriso irônico: — Certo, você quer valorizar a sua resposta. Entendo, a Adele também faz isso, fala pela metade. Me diz, Joaquim, de onde o Vitorino traz o óxi?

       — Eu não sei. — deu de ombros e fez um beicinho como se a questão não lhe dissesse respeito: — O Marauzinho e eu tínhamos uma banda. Ironicamente a gente se conheceu no salão country — virou-se com o semblante sorridente. — Lembra quando sabotaram a boate dos caipiras? Eu e o Marauzinho cortamos os fios elétricos e deixamos o lugar às escuras.

       — E aí o João Alfredo precisou abastecer o cérebro com ar fresco e o levou com ele até o Vitorino. — o delegado completou a fim de encurtar a história.

       — Mais ou menos. Ele disse que o segurança do avô conhecia uns bolivianos que vendiam drogas, mas só com indicação.

       — Onde eles estão?

       — Não sei. — balançou a cabeça negando e enfatizou num tom grave: — Nunca quis saber. Quem sabe muito também tem muito para revelar, não é mesmo?

       Rodrigo controlou uma resposta grosseira.

       — Não sei quem é você, Joaquim, nem o pessoal que está nos seguindo desde que saímos da Zumbi. — afirmou, endereçando um rápido olhar para o retrovisor e, apertando os lábios, contrariado, completou: — Será que não são os capangas da sua boca de fumo?

       O outro riu um riso seco e nervoso e a sua postura passou rapidamente à condição de súplica:

       — Juro pela minha vó, não tenho nada a ver com óxi. O máximo que fiz foi experimentar uma vez. Mas senti o tampão do meu crânio se descolar e nunca mais. Nem maconha fumo, delegado. Puta merda!, esses caras vão me apagar! Eles estão atrás de mim porque saí da vila com a polícia! — ele se virou para trás, avaliou a situação e se agitou: — Têm uns quatro desgraçados na camionete, e nós somos dois, e não tenho arma e mesmo que eu tivesse, porra!, não sei atirar! — voltou-se para o delegado com olhar esperançoso, a boca tremendo no canto esquerdo: — É claro que o senhor tem um plano!

       Rodrigo relançou um olhar para o retrovisor.

       — O plano é, — apontou para ao assoalho em frente ao banco do passageiro — encolha-se o quanto puder e proteja o tórax. Até da cabeça dá para se tirar um projétil, mas o coração é um besta fraco que não aguenta nem metade de um tiro.

       Joaquim arregalou os olhos.

       — Caralho!, vou morrer! É esse o seu plano? E a cavalaria?

       — A cavalaria deve estar atacando uns muffins. — em seguida, alçou a sobrancelha e enfatizou com serenidade: — Faça o que mandei, Joaquim. — a guinada na direção ajudou-o a empurrar o guri para o chão. No solavanco, ele aproveitou e se atirou com os braços protegendo a cabeça. Era intuitivo, o delegado o compreendia.

       Em vez de pisar no acelerador, fez o contrário e reduziu a velocidade, pisando forte na embreagem. Retesou os maxilares, controlando a picape enquanto ela girava na pista e se esparramava até alcançar o lado oposto da estrada. Assim que parou, o veículo dos perseguidores passou por eles a toda. Fora imprevisível a manobra do policial. Isso não significava que estavam livres. Na verdade, como Rodrigo observou enquanto puxava do cós do jeans a Glock e se ocupava em sair da picape — os rapazes tencionavam resolver o que tinham de resolver ali mesmo, no calor da manhã ao ar livre.

       O primeiro tiro explodiu seco e forte na planície. Rodrigo fez menção de abaixar-se. Mas apenas protegeu o corpo detrás da porta de sua picape. Lançou um rápido olhar para Joaquim, que parecia ter virado uma massa de pastel dobrada ao meio. Baixou a cabeça o suficiente para permitir que somente parte do chapéu entregasse a sua posição. Puxou da bota a outra pistola. Destravou-as e, antes de sair do precário esconderijo, piscou o olho para o guri.

       — Assim que eu começar a atirar, abre a porta e corre feito um doido pelas plantações.

       Joaquim assentiu sem falar palavra.

       A D10 não era nova, o para-choque estava batido e a placa amassada. E quando Rodrigo mandou bala pra cima dela, estourou um dos pneus carecas. Não havia ninguém na estrada além dele, os homens no Chevrolet e o garoto que corria feito um desvairado no meio do mato. Alguns pássaros faziam barulho secando suas asas depois da chuva. O veículo perdeu velocidade e chacoalhou. Parou no meio da pista. Era esse tipo de cena que nos filmes aparecia um corvo sobre uma cerca.

       Ele olhou ao redor, não queria ser surpreendido por mais um grupinho armado. As automáticas apontadas e prontas para o próximo disparo.

       — E aí, seus frouxos, desçam dessa porra!

       Gritou, e ele odiava gritar.

       Avançou devagar, observando que o motor da D10 não fora desligado. Era evidente que preparavam munição para assim que descessem abatê-lo numa saraivada de balas. Não vendo alternativa, o delegado atirou contra a cabine. Era o segundo aviso, o segundo grito.

       — Puta que pariu... — praguejou baixinho, encaminhando-se com cuidado em direção ao veículo. 

       A película escura que revestia o vidro traseiro atrapalhava-lhe a visão. Joaquim havia visto quatro ocupantes, confirmando o que ele próprio percebera desde que os enquadrara nos limites do seu retrovisor. Não eram da Vila Zumbi.

       O terceiro aviso foi desnecessário. Os pneus rodaram no mesmo lugar, revolvendo a terra molhada e disparando cascalhos e pedregulhos para todos os lados.

       O delegado descarregou a munição contra o vidro da cabine. Os tiros assustaram os pássaros que abandonaram os galhos mais baixos das árvores. Correu para tentar alcançar a camionete sem deixar de atirar. Alguns metros e findava a perseguição e o estoque de balas. Abaixou-se, escorando os braços nos próprios joelhos, arfava. O suor escorria-lhe da testa. O chapéu voara pela savana. Ao enterrá-lo novamente na cabeça, a obstinação estampada na cara e a fúria atravessada na garganta. Ele já sabia para aonde ir.

       Cortaria o vento Minuano antes de ele cortá-lo.

        

        Ao terminar de decorar a salada, Nova secou as mãos no pano de prato e foi até a diarista, que esfregava uma bola de jornal amassada no vidro da janela da sala. Uma prática antiga que, segundo os mais velhos, deixavam os vidros brilhando. A mulher voltou-se sorridente ao vê-la se aproximar.

       — Hoje você fica para almoçar. — intimou-a num tom brincalhão. — Daqui a pouco o Franco chega cheio de fome, como ele mesmo diz.

       Maria Helena ainda não tivera oportunidade de cruzar com o rival do doutor Cristiano. Era a segunda vez que limpava a casa da amiga do médico, e o fato de dividir a mesa com o diabo loiro não abria o seu apetite. Rapidamente pensou em uma desculpa para recusar o convite. Ainda não se sentia preparada para enfrentá-lo.

       — Obrigada, dona Nova, mas tenho outra faxina depois e... — deu de ombros, sem jeito: — bem, preciso de um banho para aguentar o resto do dia.

       Nova pôs os braços para trás e balançou suavemente o corpo. Parecia uma garotinha travessa que havia pegado uma mentira no ar.

       — É por causa do Franco?

       — Não, não...

       — Ele é um menino inofensivo, Maria, não se preocupe. — brincou e completou enquanto voltava à cozinha: — A não ser que não encontre a comida pronta.

       Maria juntou o balde do chão, disposta a despejar a água com desinfetante no tanque da lavanderia, trocar de roupa e se mandar. O doutor que investigasse por sua conta a vida afetiva da amiga. O que soubera através de suas comadres eram duas versões sobre a mesma pessoa, uma boa e outra ruim. A boa, no campo da beleza e sedução; a ruim, no comportamento instável e nos atos criminosos pregressos. Como ela não era uma adolescente deslumbrada, não se impressionou com as façanhas amorosas do rapaz.

       Ao ouvir o ronco do motor e as batidas secas dos pneus contra as pedrinhas no caminho que levava até os fundos da casa, viu-se encurralada com o balde na mão.

       Em poucos minutos, ele entraria pelo mesmo lugar que ela tinha de sair para livrar-se dos materiais de limpeza. Ao vê-lo entrar pelos fundos, esgueirou-se atrás da porta que dividia a cozinha da sala. Aproveitou para observá-lo sem que o percebesse. Não imaginou o que veria a seguir, posto que boa parte do que conhecia sobre as pessoas vinha por meio do julgamento de outras. Agora enfim olhava para o demônio de carne e osso com os seus próprios olhos.

       E ele era alto, bem mais alto que dona Nova. E ele era belo, muito mais belo que qualquer homem que Maria tivesse visto na televisão.

       O suco de laranja foi despejado no copo e na toalha. Toda a vez que Nova Monteiro ouvia o motor da picape velha, um tremor percorria-lhe a coluna e a expectativa de vê-lo, vê-lo vindo para ela, era a mesma que ter milhares de fadinhas voando dentro de sua barriga. Era só uma questão de segundos, e adentrava a cozinha o seu caubói. Antes mesmo de deixar o chapéu sobre a mesa, endereçava um sorriso de satisfação ao encontrá-la à sua espera, usando avental, cozinhando alimentos para ele, nutrindo-o de todas as formas. Cinco ou seis passadas largas e um braço puxava-a pela cintura e outro pelos ombros, bocas uniam-se, e Nova ficava na ponta dos pés para senti-lo todo, todo o corpo, cada vez mais perto, cada vez mais um.

       — Estou cheio de fome, dona Nova — disse, com um sorrisinho malicioso.

       — Depois do almoço mato a sua fome, amor, — fazendo um sinal em direção à porta, completou com naturalidade: — temos companhia.

       Era a deixa para Maria apresentar-se e sair detrás da moita. Fingindo ocupada em fechar com força a tampa do desinfetante floral, ela entrou na cozinha e parou ao encontrar os dois ainda abraçados.

       — Como vai, senhor Franco? — indagou a mulher num fiapo de voz. Os olhos azuis tão claros que pareciam olhos de um cego intimidaram-na, mesmo que sorrissem acompanhando o movimento dos lábios.

       — Ajudando a minha princesa? Gosto disso. Conhece a Irene? Ela é a chefona lá na Arco Verde. — disse de forma descontraída.

       — Sim, sim. A Irene tomava passes comigo, e o marido também. — respondeu solícita.

       Franco gargalhou atirando a cabeça para trás.

       — Não sabia que a Irene era passista!

       Maria e Nova se entreolharam. A última resolveu a questão.

       — Está confundindo centro espírita com escola de samba, amor. Que tal um banho antes do almoço para aliviar o cansaço? — sugeriu, pegando-o pela mão e levando-o em direção ao corredor.

       — Eu jurava que a Irene era católica. — ele alçou a sobrancelha, confuso.

       — Católica apostólica mataranense? — brincou ela.

       — Sabe que será severamente punida por estar zoando com a minha cara, né? — falou fingindo seriedade.

       Observando Maria afastar-se com o balde que parecida colado na sua mão, Nova engatou dois dedos no cós do jeans de Franco e falou baixinho:

       — Tem uma banheira com sais esperando por esse corpo gostoso. Vai tirando a roupa que em seguida entro para te dar um banhinho.

       Um segundo depois ele puxou a camiseta pela cabeça e teve de ser contido:

       — Não, Franco! Nossa, que facilidade que tem pra tirar a roupa! Fica pelado no banheiro! Que coisa, quer se exibir pra Maria, é? — perguntou com a cara amarrada.

       — Ué, ela não foi embora?

       — Vai almoçar com a gente.

       —Ah, merda, então o banho terá de ser rápido. — reclamou.

       Nova riu e deu-lhe um tapa no traseiro.

       — Nada que quinze ou vinte minutos não resolvam. Afinal, você já está praticamente pronto, não é, senhor Dolejal? — debochou, fixando os olhos na cintura dele.

       Franco empurrou-a contra a parede e roçou seu corpo no dela.

       — Preciso, é óbvio que não será a minha cultura que manterá você comigo. — ironizou.

       — Para de ficar pedindo elogios! — e, suspirando profundamente, declarou: — Nós temos um problema.

       Ele enfiou uma perna entre as dela, beijou-lhe o pescoço e disse junto ao seu ouvido:

       — Temos dois problemas.

       — O que foi?

       — Você vai rir. Eu pelo menos ri muito.

         

       O semblante carregado do homem que entrou na delegacia já era um aviso de que o tempo fechara e o melhor a fazer era se manter tranquila.

       Adele conhecia o delegado havia anos e testemunhara todas as fases de sua vida e todas as intempéries de seu espírito. A arte da convivência pacífica era saber se esconder atrás de uma moita quando necessário. Pelo menos era assim que se preservavam muitas amizades. Tentou ignorar o guri algemado, pálido, escabelado que era escoltado por Rodrigo. Voltou-se para o computador e alertou sua colega escrivã de Rondonópolis com um tweet de menos de 140 caracteres: @daley Chefe acabou de entrar, acho que pisaram nas suas botas.

       — Conduza o Joaquim à sala de interrogatório. — falou num tom áspero e completou, empurrando o garoto em sua direção: — Sem ventilador, água ou qualquer comodidade. Se pensa que vai tirar a polícia de Matarana pra trouxa, vou mostrar onde a porca torce o rabo!

       — Já disse tudo, delegado! Não sou traficante! — implorou.

       Adele sorriu de canto enquanto pegava-o pelo antebraço e o levava em direção ao corredor. A sala indicada para interrogar suspeitos — e, às vezes nem tão suspeitos assim, localizava-se no lado oposto da sala do delegado, lugar que recebia os raios flamejantes do sol do meio-dia. Era um forno com uma mesa quadrada de madeira e duas cadeiras. O ventilador portátil somente era utilizado na presença de um dos policiais. Muitas vezes deixar os indivíduos assarem por horas, transpirando e com a garganta seca, economizava a saliva da polícia.

       Uma fileira de balas deitou no carregador. A segunda pistola foi carregada em segundos, o slide puxado até o primeiro projétil ajustar-se no canhão da arma. Ajeitando uma delas no coldre na cintura, Rodrigo saiu da sala pisando firme.

       — Seja o que for fazer, chefe, não faça sozinho. — alertou-o a escrivã, colada aos seus calcanhares.

       — É mesmo? Então terá uma surpresa, Adele. — falou por cima do ombro, a ironia misturada à exasperação. — Esses fazendeiros de merda não sabem com quem estão lidando. — acrescentou mal descolando os lábios.

       Adele observou o chefe disparar na camionete como um raio de fogo riscando a terra.

       À entrada da Coração de Ouro, na guarita de alvenaria com vidros blindados, o delegado pisou no freio abruptamente. Pôs a cabeça para fora da janela e, apontando para o portão de ferro fechado, ordenou:

       — Quero trocar uma palavrinha com o seu patrão.

         O camarada com as bochechas coradas e olhos de cachaceiro aproximou-se do delegado com a mão descansando sobre o .38.

       — Tenho que anunciar o senhor, doutor Rodrigo. — visivelmente sem jeito, encaminhou-se de volta ao interior da guarita para fazer a sua ligação.

       Não demorou a voltar, as passadas lentas de quem ensaiava a fala antes de proferi-la:

       — Não pode entrar, doutor.

       — Por acaso, eu pedi para ser recebido? — Rodrigo indagou com brusquidão: — Não quero arranhar a pintura da minha camionete ao pôr o portão abaixo. Acho que é mais fácil abri-lo, não é mesmo, amigo?

       O amigo balançou a cabeça, desalentado.

       — Não posso, são ordens de cima.

       — Do oficial em comando? — debochou — Claro que não. Um coronel de verdade não viveria no meio do pasto a céu aberto. — em seguida, mantendo a voz baixa e controlada, acrescentou: — Pois bem, Ramon, fichado por desordem, atentado violento ao pudor e com um punhado de multas de trânsito vencidas... Bem, vai esculhambar ainda mais a sua vida e me impedir de entrar?

       — Desculpa, doutor. Se o senhor passar, serei um homem morto. — suplicou.

       Rodrigo sorriu com desdém:

       — Isso aí que você protege é considerada uma vida?

       — Qual é o problema, Ramon?

       Um homenzinho com roupas e atitudes de cidadão de cidade grande desceu do automóvel importado. Ele vinha da casa-sede.

       Rodrigo reconheceu um ex-colega de profissão. Cabelo curtíssimo, camisa social para dentro da calça de linho, roupa de grife. E o jeito de andar que ele já percebera também em outros tipinhos esnobes, a postura arrogante de quem caminha carregando entre os braços, nas costas, um cabo de vassoura atravessado para endireitar a coluna. Aproximando-se da picape, encurvou ligeiramente o corpo, ignorando o capanga do coronel e metendo dois olhinhos argutos sobre a autoridade:

       — O senhor tem um mandado?

       Rodrigo controlou-se para não apontar o mandado na testa do almofadinha.

       — Dois mandados, não é mesmo?, o de prisão e o de busca e apreensão, já que tenho certeza de que encontrarei a arma correspondente ao projétil deflagrado contra mim, além da picape que conduzia os quatro pilantras do coronel. — falou com calma.

       — Senhor delegado, o senhor Marau é uma pessoa civilizada e, mesmo que o senhor viva a fantasia de ser um xerifão do Velho Oeste imaginando emboscadas e conspirações, aqui, nesse pedaço de terra, vive uma família honesta que construiu a cidade que lhe dá o sustento. Além disso, o senhor Marau é um latifundiário, e não um mafioso. Obtenha, sim, os seus mandados e eu terei prazer em acompanhá-lo em um, digamos, tour pela Coração de Ouro. — enfatizou.

       — Como se chama, senhor advogado?

       O outro sorriu com arrogância e entregou um cartão com timbre dourado:

       — Alfredo Frozzen, do Miranda & Mirando Associados.

       Foi a vez de Rodrigo retribuir a arrogância:

       — Então não é nem um Miranda nem um Mirando? — antes que o outro respondesse algo entre espirituoso e mentiroso, emendou: — Diga ao seu patrão de bombachas que voltarei com o mandado e também com os fiscais da delegacia do trabalho. Já faz algum tempo que ouço rumores a respeito de uma possível escravidão nas fazendas do coronel. Sabe aquele ditado, né?, onde a fumaça há fogo. — concluiu, tocando ligeiramente na aba do chapéu e dando a conversa por encerrada.

       Ao alcançar a estrada federal, retornando ao centro da cidade, conseguiu enfim relaxar. A emboscada deixara-o mais irritado do que qualquer outro sentimento. Cogitara a princípio que fossem os comparsas de Joaquim, seguranças da boca de fumo do vestibulando de Medicina. Até podiam ser, se Joaquim não tivesse quase se mijado nas calças. Eram pistoleiros profissionais, que sabiam como fazer uma boa campana e surgir no meio do nada, dispostos a tirar proveito do elemento surpresa. Além disso, se quisessem, poderiam tê-lo apagado naquele fim de mundo. Acabado com ele sem deixar pistas, apenas um corpo esburacado como uma peneira. Era evidente que fora somente um aviso. “Fique quietinho no seu lugar, delegado. Ouça a voz da razão e faça o seu serviço discretamente” — dissera-lhe o coronel.

       Rodrigo era teimoso feito uma mula. Talvez tão teimoso feito a mula sem cabeça. E o sujeito que se metia com ele jamais saía impune.

       Não parou na delegacia. Precisava fazer as pazes com Karen. Por pouco não levara um tiro no meio da cara. No fundo, estava cansado de pessoas como o coronel e a sua corja de pistoleiros. As ameaças, o jogo duplo, o comportamento hostil. A polícia de Matarana não estava nas mãos de nenhum mandachuva do cerrado. Pelo menos, a polícia civil. Ele jamais faria conchavo com quem quer que fosse.

       A verdade era que se sentia cercado por todos os lados. Mais do que nunca, ele, o mocinho da história, era pressionado contra a parede para tomar uma atitude. Assistira a tantas imundícies diante de seus olhos e tantas delas foram empurradas para debaixo do tapete. Vista grossa para não começar uma guerra. Urgia pôr a casa em ordem e mostrar aos cidadãos de Matarana que a lei tinha um nome e um sobrenome: Rodrigo Malverde.

       Reduziu a velocidade ao entrar no caminho que levava à garagem. Girou o volante para a esquerda e estacionou, por fim, ao lado de um veículo desconhecido. Pelo visto, estavam com visitas. Entortou a boca com desgosto. Ele só queria um prato de comida quente e a sua mulher para abraçar.

       Até que encontrou Karen vestida de Jasmine.

 

       Franco parou no meio do banheiro, pôs as mãos nos quadris e fitou o que o esperava. Havia poeira em seu corpo e roupas, cansaço e suor também. Debaixo da pele, os músculos tensos como cordas eletrificadas. Um guri crescido em uma fazenda e solto como qualquer animal supostamente domesticado. A vida era dura com aquele camarada. Mas agora nem tanto. Pelo tipo de vida que tivera até encontrar o sentido, Franco, às vezes, pegava-se sorrindo como um tolo.

       — Sais perfumados para o meu caubói relaxar. — ouviu a voz de Nova atrás de si.

       Voltou-se, sorrindo, e puxou-a para um abraço apertado.

       — Por que cuida tão bem de mim, hein?

       — Alguém tem que cuidar de você. — brincou e, em seguida, completou simulando severidade: — Entre na banheira que vou lhe dar um banho.

       Enquanto Franco se despia — tarefa a qual ele era realmente hábil, ela pegou suas roupas e, dobrando-as com cuidado, retomou a informação dita às risadas pelo noivo:

       — Em que problema está metido?

       Ele recostou-se contra a louça da banheira, pegou uma pequena nuvem de espuma e assoprou-a, observando-a voar até desaparecer no ar. Comentou com naturalidade, aproveitando, antes, para mergulhar a cabeça para trás, encharcando o cabelo.

       — Fui demitido. Não é engraçado? Nunca fui demitido antes.

       Ele não parecia se importar com o fato. O que era compreensível, uma vez que tivera apenas um patrão. Ao passo que Nova, como jornalista, já havia sido demitida várias vezes. Ela tinha certa dificuldade em aceitar ordens incoerentes. Pelo menos, incoerentes para ela. Havia um limite para a atuação de um jornalista investigativo. Muitas vezes, seus patrões eram patrocinados pelos objetos de suas investigações.

       — Sabe o que isso significa? — ela perguntou, esfregando o sabonete na esponja e preparando-se para deslizá-la por sobre os ombros dele.

      — O coronel Rodrigues me disse o que isso significa com todas as letras. — interrompeu-se para pegar-lhe a esponja da mão e mergulhá-la na água, informando-a a seguir: — Não sou o seu bebê, Nova... — dizendo isso, numa voz morna e arrastada, esfregou o sabonete na palma da mão dela e indicou o próximo passo: — Quero sentir a sua mão no meu corpo. Lave o seu homem.

       Ele deitou-se para trás e fechou os olhos. A expressão facial descansada de quem se mantinha à espera de ser servido e obedecido. Deslizou a mão ensaboada pelo tórax do pistoleiro que um dia apontara o cano de uma arma contra sua cabeça. E ela o amava tanto que precisava arriscar-se mais uma vez.

       — Como faremos, agora? Você gastou uma fortuna com as alianças, eu estou grávida e o dinheiro do Gringo só dá para pagar o aluguel. — ponderou.

       Franco sorriu sem abrir os olhos.

       — Não se preocupe, princesa, nasci e cresci nessa cidade, trabalho não me faltará. — afirmou confiante e, ao mesmo tempo, desinteressado.

       — Acha mesmo?, com essa fama maravilhosa que tem? — perguntou, desconfiada.

       Para todos, Franco era o diabo loiro, um psicopata. Quem daria emprego a alguém com esse perfil?

       — O Bronson conhece alguns inferninhos de quinta onde eu posso trabalhar como segurança.

       — Não me parece uma boa ideia. — disse, incerta.

       Ele abriu um olho e sorriu:

       — Deixa isso comigo, princesa. Posso cuidar de você e te sustentar. — ajeitando-se na banheira, pegou a mão que esfregava o seu abdômen e indagou com interesse: — Me diz qual é o outro problema?

       Preferiu começar pela beiradas.

       — Sabe a Bety?

       — Sim, eu sei, a Bety louca. O que tem?

       Nova respirou fundo e fitou dois olhos azuis toldados por cílios longos e encharcados d’água.

       — Você, por acaso, machucaria uma mulher com filhos? — sondou-o.

       Franco manteve a expressão impassível ao responder com serenidade:

       — Nunca machuquei nem mulheres nem vadias, e tampouco filhos de mulheres e de vadias.

       — Sei que não, mas precisava ter certeza. O problema é que a Bety quer arrancar dinheiro do seu pai.

       — Azar dela, não é a primeira que tenta se dar bem com o patrão. — respondeu com naturalidade para, em seguida, perguntar o que de fato interessava-o: — Era isso que ela queria com você?

       — Mais ou menos. — retrucou sem jeito.

       — O que a doida tem contra o patrão?

       — Parece que ele visitou aquele corretor assassinado na noite do crime. — mordeu o lábio inferior, preocupada. Ainda não lhe era possível ler qualquer emoção no rosto dele.

       — Na noite da morte do Vilela, eu estava com o patrão. — começou com bastante calma, entrelaçando seus dedos nos dedos dela: — Lembra que a gente se encontrou, e depois voltei para a fazenda com ele. Nós brigamos, e eu fiquei pelado à beira da estrada. Foi isso o que aconteceu. Ela não viu o patrão, Nova. — assegurou com o semblante sério, os olhos fixos nos dela.

       — É, mas houve um período de tempo em que você estava comigo... e onde estava o Dolejal? — perguntou desconfiada.

       —No Jornal, o tempo inteiro. Ele tinha uma reunião com aqueles tipinhos intrometidos chamados jornalistas.

       Ela ergueu a cabeça sorrindo, esperando ver um sorriso brincalhão. Franco estava sério e concentrado.

       — Foi por isso que resolveu visitar o Rodrigo?

       — Fui convidá-lo para o nosso jantar de noivado. — baixou novamente a cabeça e emendou: — O engraçado é que me esqueci de convidá-lo.

       — Por que será que esqueceu, Nova? — ele perguntou, soltando a sua mão da dela e erguendo-se da banheira: — Se esqueceu de convidá-lo, o que fez naquela sala durante quarenta e três minutos?

       Nova viu-o secar-se com a toalha de banho, de costas para ela, mas sem deixar de fitá-la através do espelho. O cenho franzido e um sulco fundo entre as sobrancelhas. Agora, sim, ela conseguia fazer uma boa leitura de seus sentimentos. Franco estava irritado.

       — Se pretende mentir, prefiro que não abra a boca. — disse com rispidez.

       — Fui perguntar para o Rodrigo sobre o sanatório de Matarana.

       Ele se virou e olhou-a diretamente.

       — Foi fazer ao delegado a mesma pergunta que fez para mim. — afirmou em um tom de quem constatava uma traição. — Não sou uma fonte confiável, dona jornalista? — alçou a sobrancelha, irônico.

       — Sinceramente, não sei se está preparado para saber a verdade, Franco. — ela começou, sabendo antecipadamente que caminhava sobre um pântano ardiloso. Ergueu-se da beirada da banheira preparando-se para deixá-lo a sós com seus pensamentos. — Eu amo você, isso é fato. Entretanto, entre o que eu sinto e o que eu sei sobre você, existe um abismo considerável. Toda a vez que tento descobrir algo mais sobre o seu passado ou o do seu pai, você se fecha e diz para eu não sair da margem clara do rio. Mas você, Franco, mergulha em ambas as margens, na clara e na escura, e profundamente. Então o que posso esperar quando o assunto envolve o seu pai?, que seja leal a ele ou a mim? Sei que apesar das desavenças continua protegendo-o. Matarana inteira conhece a intensidade de sua devoção a Thales Dolejal. Por isso acredito que mentiria para a mim, a fim de livrar a cara dele de qualquer acusação da Bety. Eu precisava de respostas...

       Ele a pegou pelo antebraço contendo-a.

       — E aí consultou o mais novo inimigo do patrão.

       — Não, escolhi conversar com o meu amigo que vive há mais de dez anos em Matarana. — retrucou com firmeza.

       — Como pode dizer que me ama se não confia em mim?

       — O meu amor, Franco, é intenso e profundo, mas não é burro.

       Ele sorriu sem jeito, um sorriso leve, quase sem vontade de mexer os lábios.

       — Você é boa com as palavras, dona. Só que essa habilidade não pode salvar a sua vida nem a da nossa filha. Não volte a se meter em encrencas. Se voltar a bisbilhotar por aí, terei de fazer alguma coisa. — manteve os olhos fixos, imperscrutáveis. Por fim, mudou o rumo da conversa, era melhor assim: — Vamos almoçar, ok? Acho que seria muito bom se a Irene viesse ajudar com o nosso jantar de noivado. Aliás, deixa que eu mesmo convidarei os Malverde. — piscou o olho e sorriu de leve.

       Ela se desvencilhou dele dando um passo para trás e fitando-o como se não o reconhecesse. Franco esperou que a arma fosse engatilhada e endureceu a musculatura para aguentar o golpe.

       — Não entendeu nada, nada. Fui até a Betty para enganá-la, para que ela deixasse a nossa família em paz e isso inclui o seu pai. Sei o quanto o ama e também o quanto sofre por causa disso. Só não queria aquela mulher atrapalhando a nossa vida, mas também não queria machucá-la. Chega! É impossível ficar em uma margem e você em outra. Já ouviu falar em amor incondicional?

       Dois braços puxaram-na para o aconchego de seu corpo forte.

       — Meu Deus, você é uma criança, Nova. — ele murmurou com os lábios em seus cabelos, a voz abafada pela emoção de constatar que a mãe de sua filha passava pela metamorfose que tornava humanos inocentes em loucos passionais. — Acho que está se transformando em uma Dolejal. Talvez precise de uma transfusão de sangue. — brincou, afastando o rosto para admirá-la.

       — Só preciso de você. — ela afirmou num fiapo de voz.

         

       O último pedaço de bife no canto do prato. Nada como deixar o melhor para depois. Uma rápida olhada ao redor e Rodrigo observou que estavam sozinhos, não apenas à mesa. Final da tarde, e a casa silenciosa. Ao longe, revezavam-se o som grave e rouco dos motores de um automóvel ou outro, ou um caminhão carregado arrastando-se pelo asfalto. Essa morosidade das horas que separavam a manhã da noite emprestava uma atmosfera de nostalgia de dias como aquele, exatamente como aquele — Karen dentro de um vestido florido de alcinhas, dias jamais vividos antes. Ao deitar o garfo e a faca sobre o guardanapo dobrado, decidiu quebrar o silêncio, mesmo que o sorriso ao reconhecê-la meiga e alegre houvesse se antecipado ao pedido de desculpas, ao abraço e ao longo beijo. Como estavam sozinhos pairava uma interrogação no ar.

       — O Maverick lá fora é seu?

       Karen sorriu encolhendo os ombros com dissimulada indiferença.

       — Sim, comprei hoje quando o Fusca me deixou na mão. — disse apenas, rompendo o lacre da segunda lata de cerveja.

       Do outro lado da mesa, Rodrigo conjecturava se o momento era de especular sobre o motivo da compra de um automóvel bebedor de gasolina ou se concentrava a atenção em analisar o fato de ela ter voltado também a beber. O dilema o fez estender a mão e pegar a dela, entrelaçando os dedos.

       — Gosta desse vestido? — era mais seguro enveredar por um atalho.

       Ela olhou para si mesma com indiferença e falou:

       — Só tenho um vestido, aquele que usei quando fui com as meninas ao salão country. Aí, pensei, o delegado vai gostar de me ver vestida de mulher.

       — E sem maquiagem. — constatou, erguendo a sobrancelha, surpreso.

       — Sim, como você gosta. — piscou o olho e completou: — Tudo para agradá-lo.

       Ele riu como se não acreditasse no que ouvia.

       — O que aprontou?

       — Ué, não posso me enfeitar para o meu namorido?

       — Hã?

       — É o que somos. Decidi isso enquanto esquentava a comida que a Val deixou para nós. A gente não é só namorados, mas também, Jesus Cristo!, ainda nada de marido e mulher. Um meio termo, sabe? Algo mais apropriado à situação, se é que me entende.

       — Entendo. Outra invenção para não se assumir compromisso. — resmungou, catando pelos bolsos a carteira de cigarros. — Se não somos uma coisa nem outra; logo, não somos nada.

       — Não seja careta, Rodrigo. Esse negócio de casar já era, é brega.

       — Ah, é? Então avisa o Franco e a Nova.

       — Pois, é, que ridículo! A Val me contou que eles decidiram se enforcar. — balançou a cabeça devagar procurando encaixar as ideias; nunca conseguia o feito. — A Nova é uma safada, sabia? Ela disse que queria um filho e fez um filho. E como é uma mocinha de família, inventou esse casamento. Não tem peito pra bancar uma produção independente.

       — Já passou pela sua cabeça que aqueles dois querem constituir uma família? — indagou, estreitando os olhos na firme intenção de analisar o que viria a seguir.

       Karen se ergueu e procurou diminuir as luzes sobre a questão, juntando os dois pratos e levando-os à pia. De costas, despejando o detergente sobre a esponja enquanto a água jorrava da torneira, ela enfiou uma farpa de madeira debaixo da unha do policial:

       — Estive com o pai dele. Seguimos o seu conselho e conversamos sobre a nossa situação atual. — preferiu continuar a lavar a louça a virar-se para encará-lo.

       — E como foi a conversa?

       Obrigou-se a se voltar para vê-lo. Temia feri-lo ao ponto de ele juntar suas coisas e partir. Por outro lado, era impossível mentir, mesmo para poupá-lo da verdade de quem ela era. Encarou a expressão séria e perscrutadora camuflada pela fumaça do cigarro.

       — A gente reconheceu os erros cometidos, só isso. — respondeu procurando amenizar a circunstância: — O que eu podia fazer? Você tirou o meu .38 e depois o estilete...

       — O Maverick foi presente dele? — direto ao ponto.

       Ela controlou-se para não responder torto. Assim como a arrogância de Thales irritava-a, a pose de “certinho” de Rodrigo lhe tirava do sério. Era evidente que ele desconfiava de que havia dedo do dono da Arco Verde na aparição instantânea do Ford. E, por acaso, ele comentara a respeito? Não, ele guardara para si, a fim de usar o que sabia no melhor momento.

       — Nem sempre está certo. Paguei pelo carro, viu? Quer ver a nota fiscal ou não preciso apresentar provas para o senhor delegado? — ironizou.

       Ele fez um gesto de contenção com a mão, tragou o cigarro fundo e exalou a fumaça pelas narinas. Exausto, espichou as pernas debaixo da mesa.

       — Só me diz uma coisa, Karen.

       — Não dormi com ele. — antecipou-se irritada: — Já falei que estou mantendo o nosso pacto de fidelidade. Por que é tão difícil acreditar em mim? Acha que sou uma vadia que não posso ver um homem que caio matando? Pensa que não me magoa? Ofende a minha honra, sou uma mulher como as outras, sabia? Tenho sentimentos, hormônios, carências e paranoias. Saco!, só porque sou forte não significa que de vez em quando não preciso de um colo! Por que não casa logo com a Rita, que é certinha e loira? Inferno!

       Rodrigo ergueu-se, obstinado, circundou a mesa e pegou-a pelos ombros, fazendo-a olhar para si:

       — Há poucas horas fui avisado sem sutileza alguma que estão de olho em mim. Fiquei com tanta raiva que quase pedi exoneração. Só o que eu queria era voltar para casa e ficar com você. Todos os dias desde que a Jasmine me falou que você apoiava a decisão de ela voltar para o sul, todo o maldito santo dia lembro que estou ligado a você por esse amor de anos, esse sentimento de amigo, de amante, de fracassado no meio dos poderosos, todo o dia, Karen, agradeço por ainda estar comigo. Mas se sentir infeliz ou constrangida ao meu lado, não pense duas vezes, volte para o Thales.

       Antes que pudesse se conter, ela viu a marca no rosto dele, os olhos espantados e a sua mão voltando para junto do corpo. Doeu esbofeteá-lo.

       — Não banque o superior para cima de mim. Você e o Thales são dois homenzinhos egoístas que não valem um grãozinho de terra sequer debaixo das minhas botas. — afirmou com a tranquilidade de uma rainha destronada. — Volte ao seu insignificante lugar e fique lá.

       A princípio, ele não entendeu. Estreitou os olhos analisando-a. Já vira muitos suspeitos, durante os interrogatórios, atacar para se defender.

       — O meu lugar deve ser em um quarto de hotel, suponho. — constatou, girando nos calcanhares e dando-lhe as costas.

       Ela encontrou-o no quarto. As portas do guarda-roupa arreganhadas, cabides jogados no chão e três camisetas atiradas para dentro de uma mala aberta sobre a cama.

       — Você disse que era feito de outra substância. — acusou-o baixinho.

       — Acho que me enganei. — suspirou profundamente e acrescentou com pesar: — Ultimamente ando descobrindo coisas novas e ruins sobre mim. Talvez eu esteja fazendo tudo errado mesmo. Sou só um cara tosco tentando viver do jeito menos errado. — deu de ombros e concluiu com secura: — Acho que é esse o meu maior erro.

       — Por que insiste em seguir a cartilha do certo e errado? Há outras formas de viver e de pensar entre esses extremos. O que aconteceu na sua infância?

       — Meu pai foi comprar aspirina para a minha mãe e acabou descansando no meio-fio da calçada baleado no peito. Foi isso o que aconteceu, Karen. O mundo está dividido entre os bons e os maus, e eu sei quem tenho de proteger.

       — Sinto muito sobre seu pai.

       — Evito falar sobre isso, é duro pra Val. Ela era muito apegada a ele.

       — Não me deixa, Rodrigo. — pediu baixinho.

       — Karen, quero pelo menos mantê-la como amiga. Não sei se consigo ficar sem vê-la todos os dias, nem que seja para juntá-la do chão ou ouvir seus discursos feministas. — brincou sem humor.

       — Não me deixa. — murmurou, encostada contra o batente da porta.

       Ele fechou a mala e sentou-se à beira da cama. A mão esfregou a nuca tentando livrar-se do cansaço que já não era mais físico.

       — Ainda é apaixonada por ele. — afirmou impassível, voltando ao papel de amigo. — As corridas de cavalo, o carro veloz, a bebida... Sente falta dele. Fui um paliativo, não sou a cura para o seu mal. Arrisquei transpor a fronteira da amizade, precisava fazer isso... precisava amá-la como homem. Quebrei a cara, tudo bem, não importa. Quero que seja feliz, assim como queria a felicidade da Jasmine. Pelo amor de Deus, não nasci para fazer as mulheres infelizes. — considerou com amargura.

       — Se sair desse quarto, considere-se um homem morto — ameaçou.

       Ele riu sem vontade, um riso áspero.

       — Terá de pegar uma senha, Karen, e aguardar a vez.

       — Se me abandonar, não te deixarei em paz, seu desgraçado. — afirmou num fiapo de voz.

       Ele voltou-se para dizer que se lembrava de tê-la buscado na Arco Verde quando também fora infernizar Dolejal. Porém, ao ver as lágrimas descendo em abundância pela face dela, parou, ainda segurando a mala pela alça. Era uma visão inédita, e ele sentiu uma pontada aguda no peito, porque até chorando ela era a mulher mais linda do mundo.

       — Nunca a abandonarei, nunca. — ele pegou o seu queixo com o dedo em gancho, erguendo-lhe o rosto para si: — Sempre será a minha preferida entre os meus protegidos. — tentou brincar.

       — Eu te amo. Como pode deixar alguém que te ama?

      — Não, Karen, você ama o Thales. E enquanto não aceitar essa verdade, vai continuar se destruindo. — declarou convicto.

       Ela ergueu ao nariz com altivez.

       — Amo você.

       — Sim, obrigado. — debochou, fazendo menção para sair.

       — Amo você, seu fraco! — elevou a voz.

       — Alguém tem de fazer o papel de fraco nessa história, já que só temos valentões e valentonas.

       Na segunda tentativa de escapulir do quarto, da atmosfera pesada de despedida, ele foi contido por uma mão que se apertou ao redor do seu antebraço, puxando-o para si. Olharam-se por alguns minutos.

       Quando o silêncio pesou demais, ela enfim aceitou dizer:

       — Faço o que quiser, qualquer coisa, pra ficar com você.

       Por dentro, ele respirou aliviado.

       — O que, por exemplo, Karen?

       — Não sei, o que quiser. — respondeu insegura.

       — Vai parar com as corridas? Vai parar de beber? Vai deixar de gostar do Thales? O que, Karen? Vai estar em casa quando eu chegar do trabalho e se comportar como uma mulher normal? Que tal terapia? Que tal nos mudarmos para Cuiabá ou, sei lá, Santa Luzia? É tudo uma merda, não é, mesmo?

       — Não tenho resposta para todas as suas perguntas. — respondeu, baixando a cabeça, desanimada.

       — Eu já sabia.

       Saiu para o quintal. Jogou a mala sobre o banco traseiro da picape e abaixou-se para fazer um carinho em Bonnie.

       — Logo, logo arranjo um lugar para levá-la comigo. Comporte-se, viu? — puxou a cabeça da cadela para si, e ela enfiou o focinho gelado na dobra do pescoço dele. — Cuida dessa moça cabeça dura.

       — Em qual maldito hotel vai se enfiar? — ela gritou do alpendre.

       — Provavelmente o Scalpel. — retrucou, aproximando-se e completando num tom brando: — Assim que me ajeitar, telefono para você. Não tenho a mínima intenção de sair da sua vida, viu?

       — Mas está saindo.

       — Quando eu sair da sua vida você vai saber, — ele disse com seriedade; depois, acrescentou com um leve sorriso, aproximando-se dela: — terá de fazer um belo discurso ao lado do meu caixão.

       — Por favor... — implorou.

       Ele baixou a cabeça e encaixou seus lábios entre os dela, chupando-lhe a língua com força. Apertando-a em seus braços e quase a erguendo do chão. No momento de se afastarem foi impedido. Dois braços agarravam-no pelo pescoço como algemas. Tentou soltar-se se desvencilhando do abraço. Era impossível. Por fim tornou a abraçar o corpo que tremia e soluçava contra o seu.

       E foi embora.

       Valéria foi a primeira a perceber que algo mudara. Encontrou Karen sentada na cadeira de vime, na varanda frontal, no lugar onde Rodrigo ficava ao esperá-la chegar da rua. Uma boneca de cera com o rosto inchado pelo choro. Seu coração subiu à garganta. Imediatamente, telefonou para o irmão. Ele contou quase tudo. Dois que sofriam. Sim, o amor não resolvia tudo. Chamou, então, o resto da família e contou a novidade. Vó Ninita considerou que eles deveriam sair, procurar outro lugar para morar, e não o dono da casa. Mas Val afirmou que Rodrigo queria que continuassem todos juntos. Ele tencionava voltar quando Karen soubesse o que queria.

       — Como assim? — perguntou Johnny.

       — É por causa do Dolejal. — retrucou Ninita, exasperada.

       — É mais do que isso, vó. — considerou Val e emendou: — Como posso ajudá-la? Será que chamo o Cris para conversar com ela também?

       — Nem pensar. — respondeu Johnny com um sorrisinho engraçado: — A gente sempre fica de longe. Se ela quiser conversar, tudo bem. A mãe fica puta se percebe que estamos com pena dela.

       Valéria engoliu em seco e afirmou, balançando a cabeça em negativo:

       — O Rodrigo não devia ter feito isso com ela.

        

        — Amor, a Sabrina me ligou há pouco... Infelizmente, você estava certo sobre a Karen e o Rodrigo.

       — Mais um pulou fora. — constatou, achando engraçada a situação.

       — Franco, a Karen é minha amiga, por favor.  — soou ríspida a sua voz ao celular.

       — Sei disso, princesa. É que os tombos da Karen são sempre hilários.

       — Estou indo para a casa dos Malverde; tudo bem?

       — Pode ir, mas não demore muito por lá. — ressaltou.

       — Antes do jantar estou em casa. — em seguida, baixou o tom da voz ao falar: — Sobre aquele assunto, a Bety, bem, vou ignorá-la. Se ela quiser que vá até a Arco Verde chantagear o Dolejal pessoalmente. Isso se tiver coragem.

       — Boa menina. — brincou — Agora diga: Franco, eu sou louca por você.

       — Sou louca por você — repetiu, rindo.

       Ao desligar o celular, ele suspirou profundamente. Havia muito tempo que não sentia tamanha paz.  Todos os sentidos à flor da pele. Se fechasse os olhos veria através das pessoas. Ouvia suas vozes nas notas mais agudas de seus pensamentos e era como voar dentro da mente. Nem sempre estava na Terra, mesmo pés plantados dentro das botas. Quando ele queria, simplesmente, ia embora. Depois, voltava. Havia um lugar dentro de si onde se refugiava. Lá, protegia-se do exterior. Mas era melhor se esconder debaixo d’água. Fazia algum tempo que se expunha ao sol e aos outros. Desde que Nova acontecera jamais voltara a ocupar o porão escuro e os insetos acalmaram-se. Por isso a paz. Ainda que pressentisse o mal cada vez mais perto, o cheiro nauseante do fosso podre... Ah, era nojento, repugnante senti-lo. Fazia tanto tempo.

       Foi obrigado a deitar o .38 sobre a mesa da cozinha. Toalha plastificada. Na cozinha da Arco Verde a mesa também era revestida por toalhas de plástico. Ele riscava com a ponta da faca as suas iniciais, o que deixava Irene irritada. O revólver não era dele. Definitivamente, ele preferia as automáticas.

       Girou o tambor e deitou sobre a palma da mão os seis projéteis. Sorriu para a munição. Seria interessante se as balas se erguessem e dançassem em círculo e, depois, pulassem para dentro do tambor.

       — Quer ver as balas dançarem Macarena, Bety? — ele perguntou, sorrindo.

       Como ela não respondeu, desviou a atenção da própria mão para a palidez da doida. Parecia que havia visto o diabo, considerou o loiro com bom humor.

       — Hã? Não ouvi.

       Franco pôs uma bala no tambor e o girou. Após o estalo, sorriu para a mulher. Era um sorriso meigo e charmoso. Pegou o revólver pelo cano e entregou-o a ela:

       — Primeiro as damas. — como Bety manteve-se imóvel fitando a arma, completou curioso: — Sabe como é essa brincadeira, não sabe?

       — Você é louco. — ela murmurou, os olhos cheios d’água.

       — Não, não, louca é você. Pega a arma, Bety! — ordenou com a voz macia e baixa.

       — Foi ideia do meu marido. Brinca com ele.

       — Gosto de brincar com os mais fortes, gente fraca me entedia. Vamos lá, Bety, aperta contra a cabeça. Duvido que seus miolos estourem. Quer apostar? — perguntou com o seu melhor sorriso.

       Ela pegou o revólver de sua mão e deixou-o cair sobre a mesa. Assustou-se sem, no entanto, mexer um músculo sequer. A qualquer momento desmaiaria, previu ele, recostando-se confortavelmente contra o encosto da cadeira. Uma boa visão, era verdade. Humanos brincando de roleta russa no calor da tarde. No pátio, as crianças gritavam enquanto jogavam futebol. Sim, era uma tarde maravilhosa. Franco se sentia tão vivo que era capaz de subir na mesa e sapatear.

       — Um dia perguntei para o patrão como os gringos se xingam... E sabe como é, Bety?

       — Por favor, sou azarada. — soluçou.

       — Não, você tem muita sorte. Olha lá fora, três crianças saudáveis. Penso em ter três filhos também. — ele se voltou para ela e parou de sorrir: — Deixará que eu crie em paz os meus três filhos?

       — Nunca quis o seu mal, foi o meu marido, aquele filho da puta, ele quer dinheiro, sempre quer dinheiro, aquele corno manso. — o lábio inferior tremia.

       — Se abrir a boca sobre o meu pai todo poderoso, a gente voltará a brincar como bons amigos que somos, não é mesmo, Bety?  Vamos, responda. Somos amigos, não somos?

       Ela fitou o sorriso gentil e os olhos azuis que brilhavam divertidos.

       — Sim, amigos.

       — Muito bem, estamos conversados. Acredito que sua palavra tenha o mesmo valor que a sua vida.

       — Sim, senhor. — retrucou, balançando a cabeça e observando com atenção o rapaz levantar-se, pôr os demais projéteis no tambor do. 38 e enfiá-lo no cós frontal do jeans. — Jamais me meterei com os Dolejal, juro pelos meus filhos.

       — Certo, dona. — empurrou a aba do chapéu para trás e falou: — Quero que diga ao seu marido que quem dá as cartas é você. O cara é um pinguço inútil, já está na hora de chutar o traseiro dele. Se quiser, posso ajudar a se livrar desse encosto. Me telefona que eu largo o infeliz em Belo Quinto.

       Bety não conseguia ficar em pé, apenas tentou sorrir enquanto olhava para o pistoleiro que já lhe dava as costas.

       — O-obrigada, senhor Dolejal. — balbuciou.

       À porta, ele se voltou e esclareceu de forma quase didática:

       — Ah, Bety, fuck  you. É assim que os gringos se xingam. Fuck  you, Bety. — piscou o olho.

       Na picape, após acalmar-se das gargalhadas, telefonou para Nova:

       —Peguei emprestado o seu .38 com problemas de travamento.

       — Pra quê? — desconfiou.

       — Nada, princesa, só para brincar um pouquinho.

       — Sei... Bem, cuidado, então, o Bronson consertou o problema que fazia o tambor travar, está novinho agora.

       Franco parou de sorrir.

         

       Karen esticou o corpo até ouvir um estalo na coluna vertebral. Esticou-se ainda mais. Era interessante imaginar uma parte do corpo se separando da outra. Pelo menos naquele momento. Olhou para o relógio de pulso e chegou à conclusão de que perdera tempo. Um tempo jamais recuperado. O próximo passo era livrar-se da indumentária caipira.

       Entrou em casa e avistou rostos que esperavam por ela, por sua aparição arrasada e cambaleante. Porém, ela estava inteira e caminhava em linha reta, sabendo para onde ir. Foi para o quarto e rasgou o vestido de verão.

       Quando retornou à sala, encontrou Nova e sentiu vontade de chorar mais um pouco. Conteve-se, porque agora estava metida no jeans e nas botas. Vestida assim ela não chorava, a roupa não deixava, era como um gladiador chorar debaixo de seu elmo.

       — Veio me dar os pêsames? — perguntou com um sorriso torto.

       Nova corou, constrangida, deveria ter esperado as primeiras 24 horas, o efeito da ruptura amenizar.

       —Achei que fosse precisar de um ombro amigo.

       — Ah, certo, e eu sirvo pra quê? — indagou Val, magoada.

       — Já sofri trinta e quatro minutos pelo Rodrigo. Preciso é cuidar de mim, moçoilas. — virando-se para a sua vó, disse: — Vamos sair daqui. Assim que inaugurarmos a confeitaria, vou arranjar um lugar pra gente em Santa Fé. Matarana está ficando pequena demais.

       — Me desculpa, ô amalucada, mas eu vou ficar em Matarana — afirmou vó Ninita.

       — Eu também. — juntou-se a ela Johnny.

       — Pensa nisso mais tarde, Karen, quando esfriar a cabeça. — ponderou Nova, aceitando o copo de limonada oferecido por Val.

       — Olha só, estamos de bem, né? Não quero que ninguém estrague a nossa amizade.

       Nova riu.

       — Está tudo certinho entre nós, Val, mas sugiro que não fale nada contra o Franco, estou sensível demais por causa da gravidez.

       — É, sei como é, quando estava esperando a Sabrina, eu chorava até no banho quando o sabonete escorregava da minha mão.

       Karen pegou o chapéu de vaqueira que estava sobre a geladeira e o pôs na cabeça. Alcançou a porta de saída e disse antes de descer os degraus e postar-se diante do volante do Maverick:

       — Quem quer dar uma volta pela cidade?

       Ninguém queria. Ninita e Val trocaram olhares. Nova interferiu dando voz aos gestos silenciosos das outras:

       — Nós vamos, Karen. — ao vê-la sair, voltou-se e disse: — Se ela for sozinha, pode fazer alguma besteira. Lembra quando o Dolejal a deixou e ela voltou bêbada e armada a Arco Verde? Acho melhor irmos.

       — A Sabrina vai encontrar a casa vazia...

       — Eu fico, Val, e espero por ela. — considerou Johnny.

       Valéria sorriu com gratidão para o garoto que se parecia fisicamente com a mãe. Mais um caubói para ferver o sangue da mulherada de Matarana. Virou-se, então, para a bisavó dele e perguntou:

       — Vai encarar, vó?

       — Por acaso tenho cara de quem fica em casa assistindo à novela? Claro que vou. — declarou, o cigarro no canto da boca, os óculos de armação grossa escorregando para a ponta do nariz.

       Nova ajeitou-se no banco da frente e deu uma olhada de esguelha na motorista. No toca-fitas Joan Jett, I hate my self for loving you não prometia bons momentos. O motor roncou alto e grave, o rugido de um bicho que rasgava o asfalto da avenida principal. Ao seu lado, Karen apertava os lábios como se contivesse a duras penas um palavrão. Ela tinha riscado debaixo dos olhos o lápis preto e na boca o batom vermelho-fúria, uma índia pintada para a guerra. O cabelo escuríssimo era soprado pelo vento morno. Havia tanta determinação naquele olhar sério concentrado na estrada, que Nova considerou que a amiga tinha um plano em mente. E não era apenas dar uma volta pela cidade.

       Atravessaram a avenida principal e deixaram para trás o templo católico, as butiques sofisticadas, as pessoas nas calçadas. Todas tinham para aonde ir e o que fazer. Anoitecia, e ninguém tencionava vagar pelas ruas. Um hábito do interior que não se relacionava à criminalidade. Por mais incrível que parecesse, em Matarana não se cometiam assaltos ou roubos à mão armada. Havia tanto pistoleiro na cidade que tal fato intimidava qualquer ação por parte dos ladrões de menor porte. Era uma realidade diferente para Nova que, mesmo após cinco anos vivendo na terra dos caubóis, ainda lhe chamava a atenção. A lei era feita pela polícia; a ordem, mantida pelos pistoleiros. E todos aceitavam como normal.

       Ao passarem pela casa de alvenaria branca onde era a delegacia da polícia civil, ela endereçou um olhar de esguelha a Karen, que se mantinha determinada a seguir em frente, sem nem mesmo reduzir a velocidade. Até que pisou fundo no acelerador. Vó Ninita exclamou qualquer coisa no banco detrás. Valéria cutucou Nova na perna e apontou para a motorista.

       — Para onde estamos indo? — indagou Nova, com um olho na estrada e outro no velocímetro.

      — Vocês vão me ajudar a pegar aquele homem de volta. — afirmou séria, como se fosse natural o que acabava de dizer. Até era, na cabeça de Karen. Em seguida, prosseguiu quase como uma ameaça: — É para isso que as irmãs servem, para se ajudarem. Pronto, chegou o momento de bater com o taco de beisebol no Rodrigo.

       — Isso não, nada de agredir o meu irmão! Ele errou, foi um panaca, mas nada de bater com taco nenhum. — berrou Valéria, que de fato tinha de berrar em função do ruído cavernoso do automóvel na estrada esburacada.

       — É só um modo de dizer, Val. Quero que argumentem ao meu favor como uma boa tacada na cabeça, entenderam?

       — Vai pedir penico, Karen? Quem te viu e quem te vê. — debochou Ninita. A única que tinha coragem de debochar de Karen.

       Ela endereçou um olhar pelo retrovisor para a vó, acrescentando ao gesto o dedo médio levantado.

       — Que bonito!, faltando o respeito com uma idosa. — declarou Ninita de forma irônica.

      — Acontece, vovozinha, que não estou pedindo para ele voltar para mim. Levarei minhas amigas para orientá-lo que o melhor a fazer é de fato voltar para mim. Entendeu a sutileza? — perguntou entredentes.

       — Ele entenderá do mesmo jeito, minha querida. Dê tempo ao tempo, espere o Rodrigo se ajeitar, passar os dias, sentir a sua falta...

       — Ou ter a paz recuperada. — murmurou Valéria. Ao ver o olhar raivoso da amiga, completou: — É uma faca de dois gumes, Karen, tem de admitir. As separações servem para as pessoas ponderarem a respeito da relação. Às vezes chegamos à conclusão de que estamos melhor sozinhos.

       Nova tinha certeza absoluta de que o bom senso de Val escapava à compreensão de Karen. Reforçou o discurso da irmã do delegado:

       — Sabe que o que é nosso a gente não perde. Por mais que tente forçar uma situação, se o Rodrigo acreditar que vale a pena voltar e tentar novamente, ele voltará. Não conheço homem mais maduro e sensato como ele.

       — Conhece, sim, mas preferiu um surtado. — Val alfinetou bem rapidinho.

       Nova virou-se para responder com ferocidade. No entanto, a guinada brusca a fez bater contra a porta. Ignorou a inimiga declarada de Franco e se concentrou em Karen.

       — E se eu estivesse sem cinto, hein, Karen? — perguntou com rispidez.

       — Não estaria no carro comigo, já teria voado pela janela. — dizendo isso, estacionou em frente ao hotel Scalpel, um hotel três estrelas à beira da rodovia federal. Desligando o motor, virou-se para as três e começou a distribuir as tarefas: — Vocês entram no hotel, todas com cara de enterro. — apontando para Nova sentenciou: — Você, amigona do xerife, vai dizer que eu sou a mulher mais maravilhosa de Matarana e que se ele me perder, não encontrará outra igual e morrerá ao lado de uma chata entediante cujo ápice da sedução será lavar a calçada com sabão em pó. E você, Val — posicionando-se em direção à cunhada: — como irmã do infeliz, conhece os pontos fracos dele. Fale sobre solidão e... bem, o quanto ele me ama e o quanto foi difícil me convencer a viver com ele e, agora, põe tudo a perder, como um fraco que desiste de lutar. Olha que ótimo argumento você tem, hein! Trabalhe bem nele, mexa com as emoções do maninho... Quanto a você, vó, sinceramente, acho que deve ficar no carro comigo, é capaz de falar uma merda qualquer e me pôr na fogueira. O mais importante, gurias, é não deixá-lo pensar, não deixá-lo pesar as vantagens e desvantagens de voltar para casa. Tem de ser como o pessoal do telemarketing faz: ignorar objeções e falar sem parar, entorpecê-lo de argumentos. Então... preparadas para trazê-lo de volta? — perguntou o general, sorrindo.

       As três se entreolharam. Elas seriam loucas se obedecessem às ordens de Karen.

       Cinco minutos depois, as amigas voltavam para o carro com caras de enterro. Karen enfiou a cabeça para fora da janela e gritou:

       — Voltem lá agora e tragam o homem!

       — Ele está na delegacia. — informou Nova ladeada por Valéria.

 

       A sandália vermelha combinava com o batom e talvez com um ou outro pensamento. Ela caminhava sobre saltos finíssimos, a calçada morna recebia os golpes precisos da madeira. Tiras ao longo dos tornozelos, couro, e um pouco de atitude nas passadas. Vestido cor-de-rosa, a mesma cor das roupinhas de bebês, colado na cintura fina de quem jamais precisara fazer dieta. Um pouco acima, seios fartos arfavam através da gola V. Mangas curtas e, por cima delas, um cabelo cor do sol brilhante caindo feito cascata. Rita era uma mulher com uma missão. Acenou para Adele com charme.

       A escrivã indicou com a cabeça a sala do delegado e sorriu. Havia algo de mafioso no aceno, mas também de solidário. Adele presenciara a entrada de um homem vencido que, antes de fechar a porta de sua sala, abrira a gaveta da escrivaninha e retirara de dentro a garrafa de uísque. Havia poucas horas escapara de se tornar mais uma vítima do destino. Morrer era algo verdadeiramente ilegal. Ainda mais um homem como aquele, que dava duro para manter a cidade nos trilhos. Rodrigo Malverde voltara de sua casa destroçado A aparência de alguém que sofrera ao ponto de sair das próprias roupas e fazer-se areia. E diante do farrapo humano nada como a visão do paraíso. Por isso o aceno e Rita.

       O chapéu foi deitado sobre a mesa e o corpo na cadeira, as costas forçando o encosto estofado. A cabeça pendendo para trás, os olhos postos no teto, o cansaço. Vivera junto com Karen por menos de dois meses e já entregara os pontos. Ele podia aceitar as balizas de contenção ao redor de sua individualidade, as corridas ilícitas e o comportamento prepotente. Verdade fosse dita, ela nunca o enganara quanto quem era e como vivia. E como seu amigo próximo por mais de dez anos, sabia tudo, o melhor e o pior, sobre aquela mulher.

       O amargor da bebida desceu queimando a garganta, fez uma careta depositando o copo vazio de volta à mesa. O que fizera? Entregara de bandeja a mulher que amava a outro. Sim, ele era o tipo de cara que respeitava alguns princípios, como o de se preservar quando descobria a possibilidade de se tornar o segundo na lista. Todos os sintomas de paixão recolhida visíveis diante de seus olhos. Desde quando, seu tonto? — perguntou-se, baixinho, irritado. Desde o atentado de Mendes. A forma exagerada e cega de Karen insistir em insinuar o envolvimento de Dolejal no seu sequestro. Aliás, o ódio pelo ex-amante em turno integral transformando-a em uma xiita. Ela tentava lutar contra o mal, o que considerava um mal, uma maldição. Refugiara-se para dentro de sua casa como um viciado para o centro de reabilitação. E, no início, até tentara ser outra pessoa. Como tentara novamente poucas horas atrás, o vestido de Jasmine, a fala mansa e a firme intenção de agradá-lo. Por quê? Entortou o canto dos lábios ao engolir em seco a resposta. Porque voltara a encontrar com quem a tivera por dez anos — mesmo traído, mesmo enganado, mas sempre proprietário das terras de sua alma.

       Bateu o punho fechado contra a mesa, e a porta abriu-se devagar.

       — Posso ter um minutinho de sua atenção, delegado? — perguntou Rita, sorrindo de leve e fingindo não reparar na garrafa de uísque pela metade e o copo vazio.

       A frase “me deixe em paz” escorregou do topo de seu cérebro e parou entre a vontade de dizê-la e a educação ao evitá-la. Apenas meneou a cabeça em afirmativo, vendo a loira entrar sem deixar de fitá-lo, sombra azul nas pálpebras, cílios longos. Definitivamente, Rodrigo detestava maquiagem. Só não sabia o motivo. Indicou-lhe a cadeira à sua frente com um gesto vago de mão e esperou que ela sentasse para fazer o mesmo. Cruzou as mãos sobre a mesa e postou-se como uma autoridade deveria fazê-lo em serviço.

       — Está tudo bem? — os olhos dançaram entre a garrafa e os olhos de Rodrigo.

       — Nada como relaxar após uma diligência na Vila Zumbi. — contornou a intromissão, sem sorrir, alçando a sobrancelha enfatizando a questão.

       Rita sorriu, abriu a bolsa e puxou de dentro uma folha timbrada. Em seguida, adquiriu uma postura ligeiramente solene ao cruzar as pernas, aproximar o corpo da mesa e entregar-lhe o papel.

       — Um dia difícil, imagino.

       — E qual dia é fácil? — perguntou com desinteresse enquanto tornava a guardar a garrafa deitada na gaveta da escrivaninha.

       — Saiba que todos os sacrifícios que o senhor faz pela comunidade de Matarana valem a pena, pois os mataranenses tomam-no como o melhor de todos os delegados que a cidade já teve, um cidadão justo e correto, um exemplo de que as pessoas boas estão aqui. — ela parou e absorveu a atmosfera refrescante no ar; afinal, tinha a atenção completa de Rodrigo que lia a menção honrosa dos comerciantes locais. — Como presidente da associação dos empresários, sinto-me honrada e orgulhosa ao informá-lo de que o senhor é um dos destaques entre as personalidades que serão homenageadas na cerimônia de entrega do troféu Cidadão Mataranense. É uma forma singela de agradecermos pela sua dedicação à terra que acolheu todos os desbravadores brasileiros. O senhor está no coração do nosso povo, delegado.

       Rodrigo esfregou o cavanhaque ralo, decidido a raspá-lo de vez de seu rosto. Endereçou um olhar avaliativo à mulher, ponderando sobre as palavras adocicadas que acabava de ouvir.

       — Obrigado, Rita, apesar de acreditar que não mereço troféu algum. É o meu trabalho e só cumpro com a minha obrigação. Agradeço aos comerciantes a menção, mas não me sinto à vontade para...

       — Por favor, Rodrigo... — ela estendeu a mão e tocou-lhe no antebraço com delicadeza: — Acho que devo ir direto ao ponto. No início do ano, a prefeita homenageou um grupo de pessoas que colaboram para a destruição dos valores morais da nossa sociedade. Todos sabem o que fazem e fingem que nada acontece. E é esse grupo que hoje sustenta o poder político do nosso município. Só os ingênuos não percebem que a cidade está partida ao meio, duas forças ambicionando o controle total de Matarana, e não há como ignorarmos esse fato e nos escondermos na neutralidade. Os comerciantes estão se unindo aos sindicatos de várias categorias com a intenção velada de derrubar o estabelecido, o mal que vinga nessa terra há décadas. Nós escolhemos o nosso lado e queremos o senhor conosco nessa empreitada. — concluiu, incisiva, encarando-o sem desviar.

       — Em outras palavras... — ele não quis terminar a frase, degustava antecipadamente a acidez do que teria que engolir garganta adentro.

       Rita fez uma leve pressão em seu braço e respondeu:

       — Um dos três homenageados colocará na cadeira da prefeitura o seu representante nas próximas eleições.

       — Deixe-me ver se entendi, vocês estão me dando um troféu por que acreditam que eu trabalho para o Dolejal? — perguntou com sarcasmo.

       Ela nem se perturbou.

       — O senhor é incorruptível e correto, por isso o troféu.

       — Certo, certo. — ele sorriu, franzindo o queixo como quem finge que acredita numa inverdade: — Desculpe desapontá-la, mas, sim, prefiro me manter neutro nessa conspiração pelo poder. — debochou; depois, emendou sério: — Minha função é proteger, defender e manter a ordem em Matarana, e não fazer conchavos com grupo A ou B. No momento minha maior preocupação é com a entrada do óxi na cidade, além da possibilidade de haver trabalho escravo nas fazendas do coronel Marau.

       — Então é só o senhor que não vê que já escolheu o seu lado. As drogas, o trabalho escravo, o desaparecimento de pessoas e a apropriação indevida de terras do governo estão diretamente relacionados ao coronel. Por favor, delegado, analise com carinho a possibilidade de nos ajudar a acabarmos com a dinastia Marau.

       Rodrigo decidiu que já estava na hora de encará-la também sem desviar, fazer o seu jogo, rolar os dados para ver a combinação final dos números.

       — O Dolejal está por trás dessa suposta homenagem?

       — Primeiro, é uma homenagem real. — ela enfatizou, franzindo o cenho, como se sentisse ofendida com a desconfiança dele — Houve uma eleição na qual o senhor, o senhor Dolejal e o doutor Cristiano foram escolhidos como as personalidades mais importantes do município. Isso é fato, delegado. Assim, nem mesmo o senhor Dolejal sabe sobre essa homenagem, pois ainda não o falei a respeito. O senhor sabe o quanto ele é, digamos, avesso a aparições públicas... Na verdade, ainda tenho de informá-lo de que o evento será no clube campestre da nossa associação.

       Rita ensaiara um texto bastante solene e crível, pensou Rodrigo, notando o jeito manso e quase infantil do tom de sua voz. Era esse mesmo tom que Jasmine usava para persuadi-lo a fazer as suas vontades. E funcionava.  Entretanto, não naquele momento, não depois do atentado na estrada e da tragédia de separar-se de Karen.

       — Façamos o seguinte, Rita — começou e até conseguiu sorrir, mesmo que fosse um pálido sorriso: — Aceito a homenagem e usarei o meu melhor chapéu para a ocasião. Mas não quero que isso signifique que aderi à sua causa política. Thales Dolejal também está sob a mira da lei.

       Ela recostou-se contra a cadeira e com esse movimento mostrava o decote do vestido e a força do corpo firme contra o tecido. Nos lábios vermelhos a sombra de um sorriso charmoso. Rita gostava de pescar. Tinha paciência de pescador. Jogava a linha e apenas esperava o bichinho ser fisgado no anzol.

       — Negócio fechado, delegado. — afirmou sem deixar de olhá-lo sem desviar.

       Era um convite. Noutros tempos, ele aceitaria para acalmar a alma cheia de solidão e morte. Havia, sim, a solidão. Porém, o vazio que o abatia relacionava-se à vida. E a vontade de acovardar-se e voltar para casa. Por que, diabos, tivera de bater de frente com aquela danada?

         

       Nova endereçou um olhar preocupado a Valéria, que a retribuiu com um sorriso confiante e bateu à porta da sala do irmão.

       Uma mulher vestida para atacar, de pé, apertava a mão do delegado. À sua frente, o caubói sorria levemente, perto demais para ser um simples cumprimento. Era o charme do Clint Eastwood do cerrado, Nova considerou, não gostando nadinha do que via.

       No Maverick, uma fera mordendo o lábio inferior, nervosa, agitada, pronta para usar o tacape e trazer seu homem pelos cabelos de volta para casa. Ver Rita Cupcake em cena, na roupagem de uma predadora sofisticada — diferente de Karen, predadora rústica, provocou-lhe uma irritação instantânea. Nova tinha plena consciência da perturbação erótica que Rodrigo Malverde conscientemente causava nas mulheres. Quase mandara às favas sua idolatria assexuada por Cris quando lhe sentira a coxa entre as suas coxas, no bar do Gringo e, Deus seja louvado!, quase pulara na sua cama ao convite para uma noite de amor, na fatídica ocasião no salão country, antes de Karen ser atacada por Mendes. Naquela mesma época, ele amava Karen e, ainda assim, lançara na atmosfera sua sensualidade aveludada e quente. Era um homem que não precisava fazer muito esforço para bagunçar os pensamentos mais sensatos de uma mulher. Prova disso era que fisgara direitinho a mais durona da cidade.

       E foi por ela que Nova falou com aspereza:

       — Sua mulher está no carro.

       Rodrigo voltou-se para o lugar de onde a voz irrompera e manteve o sorriso charmoso ao ver a amiga ladeada por Val. Por um momento, estreitou os olhos, ao reconhecer que a irmã raramente aparecia na delegacia. Desencostou-se da beirada de sua mesa, mas não se afastou de Rita.

       A loira olhava de um para outro. A menção à palavra “mulher”, dita com tamanha assertividade, soou-lhe como um aviso. Porém, um aviso desnecessário, já que metade da cidade sabia que Karen namorava o delegado; a outra metade ainda acreditava que ela era amante de Dolejal. E os forasteiros nem sabiam que Karen Lisboa existia.

       — Olá, Nova, segundo encontro no mesmo dia? É o meu aniversário? — sorriu, charmoso. Antes que ela respondesse, voltou-se para a irmã: — Agora, quanto a você, não faço a mínima ideia do que a trouxe aqui.

       Valéria Malverde antecipou-se à amiga e respondeu com secura:

       — Um Maverick me trouxe até aqui. Isso revela muita coisa, não é, maninho? — enfatizou, erguendo as sobrancelhas. — Temos de conversar sobre o jantar de noivado da Nova. — mentiu.

       — Pois, é, Rodrigo, me esqueci de convidá-los. — acentuou a mentira, desconcertada.

       O delegado olhou de uma para outra de forma avaliativa. Era evidente que o Maverick era a palavra chave que determinava a presença de duas das Três Mosqueteiras Tresloucadas.

       Rita deu um passo à frente, pôs a mão no antebraço de Rodrigo de um jeito que as pessoas em início de relacionamento o faziam, uma intimidade sem naturalidade, e disse:

       — Bom, já cumpri minha missão e agradeço por ter-me recebido. A gente se vê então mais tarde. — sorriu, exibindo uma fileira de dentes brancos, retos, lixados por uma infância sem doces e com assistência odontológica particular.

       Antes de sair, a doceira e microempresária endereçou sorrisos amigáveis às mulheres que não viam com bons olhos a sua presença ali, em reduto alheio.

       — É a Karen que está ao volante do Maverick? — perguntou ele à irmã, uma expressão desconfiada vagueava pelos olhos castanhos quase cor de mel.

       — Ela só nos deu carona, a gente queria mesmo falar com você. É um absurdo essa separação!

       Nova aproveitou o ligeiro aturdimento que sombreou a face do delegado e entrou em cena no melhor estilo, direta e venenosa:

       — Vai entregá-la de bandeja ao Dolejal? O Franco me contou que ele despachou a noivinha texana de volta para casa, porque estava cansado de beber água mineral sem gás. — ela parou, sorriu sem jeito, e continuou: — Bem, foi assim que o Franco falou. Parece que o Dolejal quer voltar a beber uísque puro sem gelo. E isso revela o que todos nós já sabemos, o ex da Karen está em abstinência, digamos, etílica, desde que você e ela se juntaram, e fará de tudo para tê-la de volta. Ele precisa de uma mulher forte, é da natureza dele, Rodrigo. E você precisa se moldar à natureza forte da Karen, tem de parar de tentar mudá-la tentando transformá-la em uma... sei lá... em uma Rita, por exemplo. Deixe-a viver com liberdade, é assim que vivo com Franco. Ele é tão livre que está sempre comigo. — concluiu, sorrindo com doçura. Queria muito que a parceria Lisboa e Malverde desse certo.

       Ele tornou a se sentar na beirada da mesa, os ombros encurvados, a postura de um homem cansado. Esfregou as mãos no rosto e depois fitou Nova:

       — Preciso de um pouco de tranquilidade. — afirmou baixinho.

       — O que está acontecendo, além disso com a Karen? — perguntou a irmã, preocupada.

       Ele não contaria sobre o atentado na estrada.

       — Muito trabalho e pouco efetivo. Já estávamos defasados e, agora, com o Lucas doente... Daqui a algumas semanas, ele retornará ao trabalho, e eu poderei tirar a minha folga semanal. Por enquanto, preciso ficar quieto num canto. Vocês sabem que não sou um camarada irresponsável ou impulsivo. Sei que corro riscos, claro que sei, sou um delegado de polícia, porra. — tentou brincar, no entanto, o rosto tornou a desvanecer. — Há pouco eu também estava ingerindo o meu uísque sem gelo e o achei até doce demais. É o diabo ficar sem a Karen...

       — Conversa com ela um tantinho só. — sugeriu Nova.

       — Vou chamá-la. — anunciou Valéria, solícita, encaminhando-se para fora da sala.

       — Não, Val! Já falei tudo o que tinha para falar. Se querem ajudar, mantenham-na longe das corridas, porque vou acabar com elas e prenderei todos os envolvidos, inclusive a amiga de vocês. — determinou.

       — O pai sempre disse que você era um cabeça dura. — reclamou Val.

       — Ponderação e bom senso fazem bem à saúde, Val. O melhor que vocês têm a fazer é conversar de forma madura com aquela menina crescida que acredita que o mundo gira ao redor do seu umbigo. O que está acontecendo em Matarana é muito mais importante que um mero relacionamento afetivo. Sinto muito decepcioná-las, mas eu não sou o príncipe encantado. — declarou com dureza. — Fiz o que podia; quem faltou com a sua parte foi ela. E se eu quiser me envolver com a Rita ou qualquer outra da cidade o farei, já que não foram duas ou três vezes que tive meu pedido de casamento negado. Talvez ela esteja esperando o pedido de casamento do Thales.

       — Jamais encontrará uma mulher como ela. — declarou Valéria.

       — Nem tudo na Karen me agrada, Val. — assegurou, expressando cansado.

       — Ainda assim ela é melhor que a maioria. — reforçou Nova, acariciando a barriga.

       — Mas eu não sou. — rebateu com pesar.

 

       Vinte minutos. Dentro de um automóvel, fumando e esperando tudo voltar a ser como antes. Encaixado. Definido. Acordar, viver e dormir. Um pouco de estabilidade não matava ninguém. Até mesmo para manter uma rotina precisava-se de certo talento. Talvez fosse isso que lhe faltava — conjecturava Karen tamborilando os dedos no volante esportivo, talento para conviver com as pequenas e delicadas besteiras do cotidiano. Acomodar-se, enfim. Deixar de ser quem era, por exemplo. Sim, a arte de assumir outra personalidade. Tal atitude era tão comum entre as mulheres, quantas militares se tornavam gueixas... Ou doceiras, vagabundas. E foi uma vadia loira que chamou a sua atenção.

       Abriu o porta-luvas e pegou a carteira de cigarros. Não pôde deixar de achar graça do tamanho da bolsa de Nova, deitada sobre o banco do passageiro, parecia um bunker portátil. Acendeu o cigarro com o isqueiro e tragou fundo um dos seus vícios. A fumaça subiu e dissolveu-se, revelando a inimiga que se afastava lentamente de onde não deveria ter saído.

       — Nem pense! — ouviu a voz tabagista e áspera atrás de si. — Já se rebaixou demais mandando o Batman e o Robin chamar o Superman de volta. Chega de se humilhar, filha.

       Uma convulsão de sentimentos e sensações. A ladra atravessava a rua balançando o rabo debaixo do vestido de verão. Endereçou um rápido olhar para trás e viu a mãe de sua mãe, a mãe órfã de filha, o olhar sem brilho, a ruga entre as sobrancelhas que jamais se desmanchava. A mulher de quase 70 anos, enterrara tanto de si debaixo da terra que lhe era difícil encontrar algo mais triste que o desaparecimento para sempre. Mas Karen era adolescente quando a morte a pegara pelos ombros e a sacudira, tivera tempo para se recuperar e se refazer. E, para ela, a morte estava em cada parte da vida que lhe era roubada.

       — Por que eu sempre perco, vó? — perguntou com a voz embargada.

       — A vida é uma merda, só isso, não pense que é a preferida de Deus. — resmungou, estalando a língua contra o palato e tornando a tragar fundo o cigarro. — E deixa a Rita em paz. Ela é uma burrinha procurando um lugar ao sol cancerígeno de Matarana. — deu de ombros e declarou com indiferença: — Este é o problema quando as putas querem se passar por santas, ficam deslocadas.

       Ao voltar-se, Rita era uma mancha borrada ao longe. À sua frente, Nova e Valéria de mãos vazias e desacompanhadas. Nada havia para ser dito que não fossem olhares de cumplicidade. A mais baixa tentou esboçar um sorriso, algo parecido com um sorriso ou uma lágrima interrompida que se esculpira no canto dos lábios. Um trejeito estranho o de Nova, caminhando devagar, o olhar esgazeado.

       E, de repente, Karen entendeu tudo. Saiu do carro e entendeu tudo. Como um portal da inteligência suprema que revelava todas as merdas da existência. Como quando o pugilista sente o peso do dente sobre a língua antes da lona na cara. Como quando se aspirava o cheiro do paraíso antes do tiro entre os olhos. Como quando se descobria o amor antes de entender que ele era assim e pronto. Elas eram apenas mulheres, diabo!, não esfinges ou messias anunciando uma nova era.

       Valéria balançou a cabeça devagar, o gesto de quem anunciava que perdera um punhado de ações na Bolsa. Mas foi Nova quem falou, pois ela era boa com as palavras e estava acostumada a acalmar pessoas que caminhavam centímetros acima do solo:

       — Ele precisa de um tempo, sei que é clichê, mas é verdade. Karen, olha para mim. — pediu, aproximando-se com cuidado, temendo que a qualquer momento a amiga disparasse em direção à delegacia e atacasse o delegado. — Espera um pouquinho, querida, um pouquinho só. Tenho certeza de que ele sentirá tanta falta de você que...

       — Vai me procurar e pedir para voltar? — indagou Karen com um sorriso amargo.

       — Isso não importa. — interrompeu Valéria, percebendo que vó Ninita saía do carro e se posicionava atrás da neta, pronta para tentar segurá-la.

       De Karen eram sempre esperados fúria e tornados.

       O comércio começava a fechar as portas e a avenida principal do centro da cidade esvaziava-se de gente. O trânsito calmo fluía com naturalidade. Paz debaixo do céu estupidamente estrelado. Uma noite perfeita, arejada, amena.

       — Estou bem. — ela murmurou.

       Não foi na corrida de cavalos ou numa briga que Karen Lisboa caiu de joelhos. A fortaleza enfim desmoronou. Grossos grãos de terra penetraram pelo tecido gasto do jeans e machucaram-lhe os joelhos. Os ossos de suas rótulas se chocaram contra o solo que também pertencera aos seus antepassados. Uma terra dura e cruel que não cedeu ao receber o seu corpo, a sua dor de fracassada, de quem tentava se erguer o tempo inteiro e tornava a cair. Um movimento que estirava os músculos e também desgastava a textura da seda de sua alma.  E ela chorou como nunca havia chorado, cuspindo lágrima e saliva. Os ombros se sacudiam acompanhando os soluços e os ruídos escabrosos da dor.

       Valéria deu dois ou três passos para juntá-la do chão. Interrompeu-se ao perceber que Nova se encurvava a fim de catar uma pedra. Em frente a sua confeitaria, Rita aguardava o desenrolar da cena. Rapidamente a irmã do delegado captou a intenção da mulher que ajeitava a pedra na mão para atirar contra a microempresária. Girou nos calcanhares e agarrou Nova pela cintura, contendo-a a tempo de impedi-la de dar uma pedrada na outra.

       — Pelo amor de Deus, Nova!, não piora a situação!

       — Mato aquela vadia! — gritou ela, furiosa.

       Valéria, ainda segurando a mulher de Franco, endereçou um olhar desconfiado para a doceira. Podia até estar enganada, mas era possível que ela sorria. O motivo da ira de Nova justificava-se. Mas Val estava determinada a manter Nova Monteiro longe de confusão. Se algo acontecesse àquela mulher, das trevas um diabo se ergueria para acabar com a raça de quem fosse.  Suspirou aliviada quando vó Ninita confiscou-lhe a pedra.

       — Uma hora dessas a gente senta o laço nela, mas não agora. — afirmou, sabiamente, a idosa.

       — Ainda mais grávida, não vai aproveitar nadinha. — considerou Val com um sorriso nervoso

       — O problema não é a Rita. — afirmou Karen.

       Bastou apenas espanar a poeira do jeans e juntar o chapéu do chão. Engoliu as lágrimas, digeriu-as no estômago misturando com o suco gástrico. Era essa a verdadeira fórmula do sucesso. E quando regurgitou a nova substância — mesmo rejeição, frustração e perda, regurgitado o sofrimento, o choro se transformou em ação. Enquanto descia todos os degraus até chegar ao fosso, nessa viagem psicótica, descobriu que o problema nunca fora Rita.

       Era Thales.

 

       Adele bateu à porta da sala do delegado e entrou. 

       — Conseguiu o mandado? — perguntou ele, erguendo a cabeça da papelada à sua mesa.

       — O juiz de Santa Fé está preso.

       Rodrigo franziu o cenho intrigado:

       — Que merda!, o que ele fez?

       — Foi esquiar, e uma avalanche prendeu todo mundo no Chile. — respondeu a escrivã, sentando-se pesadamente na cadeira onde até poucos minutos atrás Rita sentara.

       — Custa-lhe muito falar tudo de uma vez, Adele? — indagou ligeiramente exasperado. — Preciso logo desse mandado antes que o Marau suma com a camionete.

       Ela se ajeitou na cadeira, não queria amarrotar a saia que usava pouco acima das botas de couro.

       — O senhor tem certeza de que era o pessoal do Marau? Digo isso em função do punhado de gente que quer comer o seu, com todo o respeito, fígado.

       — É por isso que preciso do mandado, para entrar na Coração de Ouro e ter certeza de que era o pessoal do Marau. — afirmou, impaciente, voltando-se aos papéis que exigiam a sua atenção e assinatura.

       — Chefe...

       — Não quero ser grosso, Adele...

       — Então, não o seja, chefe. Acontece que tem uma mulherada lá na rua gritando e se eu tiver de ir ver o que está acontecendo, talvez venha com a sua mulher ou a sua irmã detidas. E, aí, continuo ignorando o tumulto?

       Ele suspirou profundamente e perguntou com ar cansado:

       — O que está acontecendo?

       Valéria praticamente materializou-se no corredor, sendo seguida por Nova e vó Ninita. À medida que elas avançavam em direção à sua sala, Rodrigo erguia-se da cadeira. Adele pensou que ele se aprontava para correr e trancar a porta antes de elas entrarem. Contudo, era apenas um movimento automático, já que a expressão facial de cada uma revelava o mesmo sentimento, preocupação.

       — A Karen vai tentar matar de novo o Dolejal!

       A escrivã pulou da cadeira, esperando pela ordem do delegado. Já se via na viatura sendo seguida pelos policiais militares, avançando na estrada e adentrando a Arco Verde.

       — Chamarei reforços, chefe, deixa comigo!

       — Adele, por favor, volte ao trabalho... na sua mesa. — afirmou o delegado, indicando a porta de saída à policial.

       — Não, Adele, chama a Polícia Federal também. — pediu Valéria — Precisamos impedi-la de se tornar uma assassina! Rodrigo, faça alguma coisa, cacete!

       — A PF não tem nada a ver com isso. — corrigiu Adele, acrescentando uma risadinha maldosa à sentença: — Nesse caso, o reforço seria a ambulância do hospital psiquiátrico de Santa Fé. — ela se voltou para o delegado e falou: — Desculpe, mas uma boa internação acalmaria os ânimos da sua mulher.

       — Ela não é minha mulher. — afirmou secamente e, virando-se para Val, completou: — Estou trabalhando. Acho que ainda não percebeu que aqui é uma delegacia de polícia.

       — Pois é, você é um policial, deveria defender os cidadãos. — disse Nova, ressentida.

       — Sim, claro... — Rodrigo fez um sinal de contenção com a mão para Nova, pegou o fone, digitou uns números e, enquanto o fazia, perguntou: — Por que acham que ela vai tentar matar o Dolejal? — havia mais curiosidade do que interesse ou preocupação na pergunta.

       — Porque, para a Karen, ele é culpado de tudo, até de ela ter nascido com perereca. — respondeu a avó.

       Valéria endereçou-lhe um olhar zangado e voltou-se para o irmão.

       — Ela viu a Rita sair daqui e ficou puta, vai descontar tudo no Dolejal.

       Rodrigo lançou um olhar para Adele, que estava vermelha por segurar as gargalhadas, o lance da perereca abalara o seu profissionalismo e ela só queria rolar no chão de tanto rir. Não teve tempo de mandar a escrivã de volta para a sua mesa. Do outro lado da linha, Irene o atendeu:

       — Boa noite, Irene. Chama o Dolejal, por favor.

       — Sim, senhor Rodrigo. — assentiu com polidez a governanta.

       Nova tocou-lhe o antebraço e disse baixinho:

       — Ela está armada.

       — Não, não está. — tranquilizou-a Rodrigo — Eu já a desarmei, mesmo que fosse um mero estilete, mas nas mãos da Karen até algodão doce é perigoso. — vendo-a baixar a cabeça, constrangida, ele desconfiou: — O que foi? Você deu uma arma para ela, Nova?

       — Na verdade, sempre carrego comigo uma automática. É por causa do Everaldo, o Franco me ensinou a usá-la e não me deixa sair de casa sem ela.

       Valéria aproximou-se dos dois e se interpôs, curiosa e alarmada:

       — E onde está a porra dessa arma?

       — Na minha bolsa.

       — Que foi esquecida no carro, não é? — adiantou-se Rodrigo com a mão no bucal do fone.

       Nova assentiu balançando a cabeça em afirmativo. Ao que Val suspirou, alto, apavorada:

       — Agora fodeu de vez!

       — Em vez de telefonar, pega a picape e corre pra lá! — pediu Nova com os olhos arregalados.

       — Entre a guarita da Arco verde e o Dolejal há pelo menos vinte pistoleiros para desarmá-la — disse ele com bastante calma.

       — Meu Deus, está preocupado com o Dolejal? — perguntou a irmã, revoltada.

       Rodrigo apenas esboçou um sorriso sem graça.

       — Será que terei de pedir ao Franco? Quem vai protegê-la? — indagou Nova, com rispidez.

       O delegado contraiu o lábio num esgar de amargura e respondeu secamente:

       — O pai do Franco.

         

       — O que fez para irritá-la?  Hoje quando nos encontramos ela estava muito bem. Não sei o que ganha pondo-a contra mim.

       — O recado está dado. — afirmou o delegado com mau humor.

       — Entendi, está bancando o escoteiro e me avisando sobre mais uma invasão daquela que se diz sua... — ele parou por um momento sorvendo o prazer de acrescentar: — amiga íntima ou menos que isso.

       Rodrigo ignorou a acidez do comentário. Já devia ter se acostumado ao seu tom arrogante e superior. Ter se acostumado? Não, não devia.

       — Preste bem atenção no que vou dizer, — começou com rispidez, do jeito que falava com os meliantes: — mantenha seus homens longe da Karen. Se alguém tocar em um milímetro de pele dela, eu mando direto para uma cela e deixo apodrecer. Estamos entendidos?

       Era possível que tivesse escutado uma risada baixa e áspera.

       — O gado só está voltando para o seu rebanho. Não precisa ficar histérico. — afirmou com estudada ironia.

       E desligou.

       Bronson espalitava os dentes, escorado na amurada do alpendre, na casa-sede da Arco Verde. O rosto riscado de rugas demonstrava a satisfação de um estômago cheio. Ele retornava do refeitório da fazenda onde os funcionários foram presenteados com um belo pernil assado.

       — Receberemos visita.

       Voltou-se ao ouvir a voz do patrão. A expressão circunspecta não revelava pista alguma sobre os próximos eventos. Por outro lado, o pistoleiro conhecia muito bem aquele tipo de brilho em seu olhar, era o brilho do veneno. E a única pessoa que o envenenara possivelmente relacionava-se à visita.

       — Reforçarei a segurança. — afirmou, levando a mão ao radiocomunicador no cós do jeans.

       — Não, meu caro Bronson, quero que faça exatamente o contrário. — o dono de quase toda a região endireitou os ombros e postou-se com a altivez que lhe era peculiar: — A senhorita Lisboa não deve ser barrada nem revistada. — sem perder tempo voltou-se para Virgínia e recomendou: — E isso vale para você também.

       Deslocando com a língua o palito para outro canto da boca, Bronson interpelou-o de modo grave e quase solene:

       — Mas a dona Karen não está vindo para tentar matar o senhor outra vez?

       A morena mexeu-se na cadeira, no canto mais escuro do alpendre, onde podia ver tudo sem ser vista. Recurso estratégico muito usado por Deus.

       — Não permitirei que ela se aproxime do patrão. — determinou a segurança.

       Bronson olhou-a de esguelha e sorriu.

       Thales compreendeu o sorrisinho do seu chefe da segurança, era mágico, uma silenciosa conexão e tudo estava dito. Falou com frieza para a pistoleira:

       — Não seja idiota de se meter entre mim e a Karen.

       — Desculpe, patrão, mas se ela estiver armada? — a mulher insistiu.

       Ele ergueu uma sobrancelha, espantado com a pergunta, e retrucou:

       — Aí está a diversão, Virgínia.

 

       O V8 roncou forte e as rodas esmagaram a terra batida da estrada. O rock vibrava no toca-fitas estufando os alto-falantes enquanto a noite entrava pelas janelas abertas. Ao alcançar o caminho de acesso a casa-sede da Arco Verde, Karen reduziu a velocidade, preparando-se para negociar sua entrada com quem estivesse na guarita.

       Passou por baixo do arco de entrada, deslizando por entre a porteira escancarada, sem nenhuma vigilância. Esperou pela aparição dos pistoleiros. Dos arbustos, surgiram apenas dois cães molengas e sonolentos; bem perto, os latidos dos ferozes, provavelmente, presos no canil.

       Estacionou em frente à escadaria que alcançava a varanda coberta; em seguida, a porta dupla da construção de três andares. Da outra vez, o diabo loiro aportara com sua pose de roqueiro psicopata. Da outra vez, ela estava armada e bêbada e a derrubaram no chão. Rodrigo salvara-a, da outra vez.

       Subiu os degraus devagar, olhando ao redor, intrigada. Era como se a fazenda tivesse sido desocupada às pressas. Suspeitou, por uma fração de segundos, que os capangas de Thales dariam o bote a qualquer momento. Mas não aconteceu o esperado, e ela continuou a subir a escada, até parar diante da porta.

       A intenção de tocar a campainha foi tão ridícula quanto cômica, uma vez que precisava tirar a limpo o que trazia dentro do peito. Preferiu bater contra a madeira pintada de branco. Surpresa, a mão em suspenso, uma nesga de claridade vacilante desmanchou-se aos seus pés. Afastou a porta com cuidado, a respiração presa nos pulmões, a expectativa de adentrar o covil da fera. O lugar mais protegido da região, a fortaleza do homem que fazia as coisas acontecerem. E tudo assim, aberto, vazio, à sua mercê. Caso fosse uma armadilha, Karen não se preocupava em ser pega. Ela era cobra criada de Matarana e se safava de qualquer tipo de tentativa de captura.

       A sala ampla e decorada com móveis sofisticados imersa nas luzes pálidas dos diversos abajures de pé. As paredes envidraçadas, protegidas pelas cortinas drapeadas em seda, camuflavam uma figura humana aqui e ali, esgueirando-se, sem se aproximar. Eram os seguranças à espreita. Os cães que não latiam mas que comiam na mão do seu dono. E, para chegar até ele, teria de subir até alcançar o topo da escadaria e seguir pelo longo corredor até a suíte principal.

       Ela entrou devagar na suíte onde apenas uma vez, a última, eles dormiram juntos. Móveis modernos em aço e vidro. Quadros com pinturas abstratas e molduras modernas. Ao lado da janela do terraço, o closet.

       Karen sentiu uma compressão na boca do estômago ao se pôr diante da cama com dossel. O tecido fino caindo sobre a estrutura de madeira imitando uma tenda árabe acima da colcha clara e almofadas largadas despojadamente. Aproximou-se com cuidado, como uma criminosa retornando ao local do crime. Sentou-se na beirada do móvel e, por um momento, não sabia bem o que fazia ao se sentar ali. Deslizou a mão por sobre a textura macia da colcha, afagando uma lembrança, mesmo lutando para esquecê-la. Fora apenas uma noite, uma única noite, deitados debaixo de um céu de renda, nus, colados pele na pele, o som da respiração ofegante e das perguntas não feitas. Ocorrera um crime naquele lugar tão bonito. Thales, minutos antes, informara que ela havia sido trocada por outra, dispensada E os dez anos em quartos de hotéis substituídos por um noivado de conveniência.

       E agora era Rodrigo que a deixava.

       O barulho do chuveiro atraiu a sua atenção e ela abandonou a amargura e a profunda tristeza, tinha algo para fazer.

       Saiu do quarto onde se podia guardar três Mavericks e avançou em direção ao som da água. Entrou no banheiro e viu-o através do boxe de vidro. Um resto de espuma do xampu deslizava-lhe pela parte detrás da cabeça, pescoço, ombros e lhe roçava quadril, traseiro, coxas até sumir ralo adentro. Karen acompanhou a odisseia das delicadas bolhas escorregando e lambendo aquele que um dia lhe mostrara o raro azul do céu de Matarana e a empurrara direto para o inferno, onde ainda vivia.

       No canto do cômodo, três degraus levavam à banheira de hidromassagem ladeada por duas poltronas. Tudo era ostensivo naquele lugar, não apenas quem subira cada alicerce do casarão. Até mesmo a pistola automática deitada sobre a pia dupla. Dividindo espaço com os acessórios de higiene, a arma jazia bem próxima daquele que jamais andava armado.

       Sentiu uma quentura na nuca e se voltou. Thales observava-a, sério, enquanto a água teimava em lhe escorrer no rosto, pesando sobre os cílios espessos, avermelhando as órbitas oculares, encharcando o cabelo curto e todo o terreno feito de carne e músculos.

       Ela desviou os seus olhos dos dele e fitou a arma. O quebra-cabeça se montava em slow motion. Todas as entradas da fazenda escancaradas à sua espera, e ele, nu e desprotegido, oferecendo-lhe o meio para acabar com tudo. Evidentemente, Rodrigo avisara-o sobre a sua chegada. E, então, aí estava a tal da emboscada. O fazendeiro deixara o caminho livre para que ela cumprisse as ameaças de morte que tanto fizera. Desafiava-a a apertar o gatilho para pelo menos feri-lo, tirar um pouco do seu sangue e expô-lo à dor física, subjugá-lo ou humilhá-lo, pondo-o de joelhos. Thales estava propiciando-lhe a chance de ser superior a ele e ao ódio que sentia por precisar odiá-lo para viver. Prova que me odeia, Karen — o brilho de prazer dos seus olhos a incitava. Porém, ela fez o que o seu ex-amante jamais cogitaria que fizesse.

       —Trago uma excelente notícia para você. — falou baixinho, sem conseguir encará-lo, seus olhos fitavam a arma sobre o balcão.

       — Imagino sobre o que seja. — começou ele, sem mexer um músculo sequer, absorvido pela presença sempre impetuosa mas que, estranhamente, mostrava-se prostrada quase vencida. — A vida seguiu o seu curso natural, Karen. E também chegou a hora de cumprir as suas constantes ameaças. — afirmou, por fim, resoluto.

       Ela sorriu com tristeza, perdera boa parte da energia em frente à delegacia de polícia.  Diante de Thales, restava-lhe apenas se manter de pé. Os joelhos ainda ardiam e a poeira se grudara no jeans surrado.

       — Não vim machucá-lo. — disse, lançando um rápido olhar para a Glock.

       Thales imitou-lhe o gesto e se voltou sorrindo:

       — Deixei aqui caso tivesse esquecido o seu .38. Você precisava de uma arma, não?  Sinceramente esperava que não quisesse atirar em mim, porque sei que coragem não lhe falta.

       — Um homem normal se protegeria... — considerou, aturdida.

       — Quero que tenha a chance de enfrentar os seus demônios.

       — Mas é um só.

       Ele riu um riso rápido e áspero.

       — Pois é, Karen, talvez eu valha por muitos demônios. — em seguida, girou o registro do chuveiro e, pegando uma toalha de banho com suas iniciais bordadas, secou-se com lentidão, concentrado novamente nela: — Se não veio me matar, o que está fazendo aqui?

       — Vim me despedir, decidi ir embora de Matarana.

       A caminho da Arco Verde a ideia de recomeçar em outro lugar criara corpo. Se Matarana era pequena demais para ela e Thales, agora, sem Rodrigo, reduzira-se ainda mais. Cuidar para não esbarrar em dois homens tão importantes na cidade era uma tarefa complicada. Ela não sabia como lidar com duas perdas recentes, dois abandonos doloridos.

       — Eu não sou o Rodrigo, — declarou olhando-a nos olhos, a toalha ao redor da cintura, a expressão carrancuda: — não tente me manipular. Tivemos uma conversa franca hoje à tarde, pelo menos, eu fui sincero. E me  lembro de você falar algo como o delegado ser o seu quase marido ou qualquer merda parecida. Então não entendo por que veio até aqui, a essa hora da noite, para me dizer que partirá. É mais um dos seus joguinhos. — afirmou sem deixar de encará-la.

       — Tem razão, vim para esbofeteá-lo por ser um desgraçado e ferrar a minha vida. Como se não bastasse esses malditos anos sendo usada como válvula de escape para os seus traumas, ainda continua infernizando a minha cabeça e me afastando do melhor homem que tive em toda a minha merda de vida. — parou e engoliu as lágrimas. Por certo, ele debocharia de seu choro. Respirou fundo tentando se conter: — Sabe o que eu deveria fazer? Seguir a sua sugestão, pegar aquela porra de arma e meter uma bala entre os seus olhos. Seu maldito filho da puta! Não tenho culpa que os teus pais se foderam na estrada, que teu avô arrancou pedaços das tuas costas de tanta porrada ou se teve um filho com uma meretriz e que ele seja doente da cabeça. — destilou tudo mantendo a voz baixa e pausada: — Você não é superior a ninguém, é só um infeliz endinheirado, um cafajeste com o coração de pedra.

       — Faça o que está destinada a fazer. Se quiser me tirar de sua vida e de suas veias é só me matar, Karen. — insistiu, um sorriso no canto dos lábios.

       Com apenas dois passos, Thales pegou a Glock e a entregou.

       — Está tudo planejado, não se preocupe. — falou como um professor à aluna: — Na primeira gaveta do criado-mudo tem um papel com a combinação de um dos meus cofres, o que fica na parede do closet. Dentro, tem dinheiro o suficiente para recomeçar fora do país. Sim, terá de sair do país com a sua família. Mas também pensei nisso. — sorriu levemente. — O meu avião decolará da pista da fazenda, deixando-a direto na fazenda de um amigo meu na Bolívia. Percebeu, Karen, a sutileza do meu plano? Você se libertará totalmente de mim. A única coisa que tem a fazer é puxar o gatilho. — completou falando baixinho, o olhar cravado nela, revirando-a por dentro. — Chega de ameaças vazias. Porque se não atirar e deixar de concretizar enfim o desejo de me arrancar de sua vida, bem, me desculpe, minha querida, mas terei de acreditar que é completamente apaixonada por mim. — concluiu com um sorrisinho insolente.

       Ele fez tudo certinho, tudo o que ela mais detestava nele.

       Apontou a Glock firmando o pulso de modo a não errar o alvo. O braço estendido e a mão firme.

       — Se realmente não me ama, atira. — insistiu na provocação, o timbre de voz arrastado numa ironia tomada pelo enfado. — Por acaso sabe usar uma automática?

       O estampido seco ecoou pelo ambiente como resposta.

         

       Karen ainda segurava firme a automática, mesmo que não sorrisse mais ou que sentisse o prazer de antes, de quando apertara o gatilho. Agora o prazer era outro; talvez o de sempre, atingir Thales. Era sempre prazeroso vê-lo padecer um pouquinho que fosse só para calibrar o moral. Apesar de saber o quanto o homem que ela gostava de fazer sofrer, sofrera no passado. É, realmente, ninguém entendia as mulheres, pensou Karen com escárnio.

       A palidez instantânea destacou o azul dos seus olhos, normalmente, claríssimo, quase branco e o escureceu. Era visível que não esperava que ela fosse atirar. A expressão surpresa parecia congelada para sempre. Sem ação, sem palavra, Thales apenas mantinha um olhar incrédulo sobre Karen. Aos poucos, no entanto, todos os matizes das emoções mais densas surgiram-lhe com sombrias luzes. A decepção, a perplexidade e algo mais, bruto, fossilizado, irromperam e transformaram-lhe a face. As sobrancelhas juntaram-se, os maxilares se retesaram até forçarem a pele e a boca endureceu numa expressão não mais de desdém ou presunção; numa expressão de desolação.

       Ele não esperava que ela puxasse o gatilho.

       — Quem disse que amo você, pretensioso de merda?  Acho que tem um ego aí bloqueando os teus ouvidos. Já cansei de dizer que te odeio. — afirmou com petulância.

       Thales fitou a Glock que lhe era devolvida.

       — Fique com ela, combina com seus olhos. — murmurou.

       — Acha que não te conheço?

       O tom ríspido da pergunta o fez encará-la, desconfiado. Karen sorriu enquanto depositava a arma de volta sobre o balcão da pia.

       — Você está no grupo dos homicidas, que destrói, subjuga, mata; não dos suicidas, jamais se colocaria na linha de fogo. Eu sabia que não estava carregada.

       Ele esboçou um sorriso que esperava por uma resposta para aparecer de todo.

       — Você sabia. — constatou.

       Karen fez que sim com um gesto de cabeça.

       — Tem razão, eu não te odeio, essa fase já passou. Deixei de odiá-lo quando me apaixonei pelo Rodrigo. O que sinto agora é ressentimento, talvez até orgulho ferido. E foi isso que vim fazer aqui, pôr um fim na nossa história. O susto que levei hoje me fez abrir os olhos. Não desejo nada de mal nem de bom para você, só quero viver minha vida. Sempre foi isso que quis! — concluiu, torcendo o lábio com amargura.

       — Pouco me importa o que quer. — afirmou com desdém, adiantando-se a completar rapidamente o espaço entre os dois.

       Com um movimento ágil, ele enganchou o braço detrás do pescoço dela, puxando-a pela nuca. Sem chance de evitar a colisão, Karen teve os lábios cobertos por uma boca esfomeada e rude.  Tudo nele era feito de poder e violência, até o beijo que exigia a posse total de sua língua e lábios enquanto dois braços serviam-se como correntes ao redor do seu corpo, trazendo-a para si, contra a estrutura vigorosa coberta apenas pela toalha. Os pontos da barba por fazer arranharam-na e, ao mesmo tempo, talharam na sua pele as marcas impregnadas pela mistura de odores de sabonete e xampu. Tentou safar-se, mas o pouco espaço entre ambos a impedia de usar as mãos para afastá-lo.  Quase sem ar, cogitou que estivesse sendo violentada, pois aquele beijo não era uma carícia; era um estupro.

       Desesperada e no limite da resistência, percebeu que seus braços erguiam-se e se aproximavam para abraçá-lo. Não! — uma voz se elevou dentro de si. Não!, por favor, não! As palmas das mãos sentiram a maciez da pele morna e seca, marcada pela aspereza sinuosa das cicatrizes, diversas, grossas, finas, serpenteando-lhe o dorso. A voz continuou quase rouca insistindo enlouquecida: Não... Abraçou-o, enfim, apertou-o, juntou-se a ele e se permitiu senti-lo, possuí-lo, matar a saudade, extravasar o que havia tanto tempo se acumulara, sede, fome, falta. Manteve os olhos fechados para não ver que se rendia ao inimigo. Até que descobriu que a liberdade que julgara possuir era uma ilusão. Correspondeu ao beijo com paixão, buscando-o contra a boca, mordendo-lhe o lábio inferior para, insinuante, apropriar-se de sua língua. Inflamada de desejo, lambeu o queixo com o viciante gosto de sua pele na aspereza dos pontos da barba por fazer.

       Era tudo o que ele precisava para perder o controle e deixar para trás o orgulho. Incitou um movimento para pegá-la no colo e jogá-la na cama. A cabeça girando mil voltas, entorpecido, duro. Afastou-se o suficiente para apenas, com um gesto rápido e forte, rasgar a camiseta dela ao meio e enfiar a mão por dentro de um dos bojos do sutiã.

       — Me perdoa... — ouviu-a sussurrar. — Não posso, Thales. Que tipo de mulher faz amor com um homem pela manhã e com outro à noite? — indagou, consternada consigo mesma.

       A intenção não era a de atingi-lo, chamando Rodrigo para entre os dois e mencionando o fato do sexo recente. Ergueu a cabeça devagar, incerta sobre a reação deflagrada.

       — Você é livre, Karen. — falou, fitando-a intensamente: — Todos somos livres.

       — Se não há comprometimento com alguns princípios, poucos que sejam, não presta para nada a liberdade.

       Thales suspirou pesadamente

       — Certo, filósofa de botequim. Então sejamos realistas, — começou, inclinando a cabeça para o lado, olhando-a com um irônico desafio, um sorriso forçado no canto da boca: — se o sexo da manhã foi tão importante ao ponto de fazê-la se sentir culpada...

       — Por que estou com você? É isso? — ela o interrompeu, recuperando-se rapidamente: — Essa é moleza de responder, meu querido, o Rodrigo não me quer mais.

       O fazendeiro sorriu um sorriso sedutoramente mau.

       — Mas eu a quero, Karen, tudo, cada maldita qualidade, cada delicioso defeito, debaixo de mim, agora.

       Desviou o olhar, consciente da força que Thales exercia sobre si e da sua própria fraqueza. Encontrou sua camiseta no chão, rasgada. Voltou-se para ele com determinação:

       — Ainda é cedo. Quando eu estiver pronta, você será o primeiro a saber. Antes disso, mantenha-se no seu lugar. — repetiu o que fez Rodrigo arrumar as malas e partir. Observou o efeito sobre Thales.

       — Qual é o meu lugar? — perguntou sarcástico.

       — Bem inferior a mim. — ergueu o nariz em desafio.

       Ele pegou-lhe uma mecha do cabelo com delicadeza. Um frágil e enigmático sorriso acrescentou-se à sentença:

       — Quando tiver coragem de voltar, estarei aqui à sua espera... no meu lugar — enfatizou, em seguida, suspirou profundamente e comentou fingindo naturalidade: — Bem, se mais uma vez não vamos pra cama, tenho de tomar outro banho.

       Abraçando o próprio corpo, sem jeito, já que estava apenas de jeans e sutiã, ela perguntou:

       — Como voltarei para casa sem parte da roupa?

       Debaixo da ducha fria, de costas, apoiando o corpo encurvado contra a parede de azulejos e deixando o jato de água escorrer-lhe pela nuca e costas, ele respondeu sem se voltar:

       —Veja nas minhas roupas se tem algo para você. Pedirei ao Bronson para escoltá-la até sua casa.

       — Voltarei sozinha, obrigada. — declarou resoluta.

       — Pro inferno que voltará sozinha.

       Ela saiu do banheiro antes de se irritar. Entrou no closet e parou. Olhou ao redor, estupefata. O lugar era duas vezes o tamanho do seu quarto com Rodrigo. Armários embutidos em U, de madeira maciça. Um corredor levava até o espelho que tomava uma parede em frente ao jardim de inverno e duas poltronas. Era possível morar naquele closet. Abriu uma das gavetas e admirou as camisas sociais dobradas como nas lojas chiques. Saiu do cômodo para alfinetar o seu proprietário e encontrou-o sentado na beirada da cama, vestido no roupão preto de gola alta, ao celular:

       — Eu disse para que ela fosse até o escritório do centro. Aqui não é lugar para isso. — parecia irritado, como Karen constatou, escondida atrás da porta do armário.

       Do outro lado da linha, alguém ponderou sobre algo, e o fazendeiro continuou:

       — Caiu nessa?, que ela estava passando e resolveu parar? — ironizou. — Bronson, como alguém supostamente esbarra em uma fazenda a quilômetros da cidade? Inferno! Diga para entrar, já que está na guarita. — ele afastou o celular da orelha para desligar; porém, aproximou-o novamente: — Espera, qual é o nome da inconveniente? — Após pequena pausa, ele repetiu o nome devagar, compreendendo a informação como um todo apenas de posse da identidade da visita: — Certo, mande a Rita entrar e esperar por mim na sala.

       Karen sentiu as pernas formigarem e a barriga queimar por dentro. Voltou rapidinho para dentro do closet. Sentou-se em uma das poltronas para pensar sobre o que fazer. Rita atacara Rodrigo na delegacia e, agora, vinha dar o bote em Thales. A loira havia escolhido os alvos para sua ascensão social.

       Percebeu a presença do homem à sua frente, intrigado por encontrá-la sentada, ainda de sutiã, como se estivesse na antessala de um dentista à espera de ser atendida.

       — Não encontrará nada do seu tamanho. — comentou, verificando ao redor, sem muito interesse. Era evidente que ele preferia que ela ficasse sem blusa.

       — O que usou hoje antes do banho?

       Ele a fitou com interesse e uma desconfiança regada de malícia. Encaminhou-se até um balcão e abriu uma das várias portas, retirando uma camiseta cinza esportiva. Mostrou a roupa balançando-a devagar no ar.

       — É essa que quero usar. — ela disse com um sorriso.

       — Algumas coisas, realmente, não mudam. Continua a mesma cretina que me provoca e depois pula fora. — afirmou, aproximando-se como um predador da presa, se a presa não fosse outra predadora.

       — Só quero sentir seu cheiro. Sabe que adoro a fragrância amadeirada de alguns canalhas. — rebateu com um sorriso, vestindo a camiseta que lhe alcançava o início das coxas.

       Era difícil insultá-lo, já que a cada ataque ou ofensiva direta parecia mais diverti-lo e excitá-lo do que lhe provocar a ira. Era evidente, por outro lado, que ela evitava os ataques pesados. Os pontos de erupção vulcânica restringiam-se ao seu passado e por isso o melhor a fazer era apenas cutucá-lo, vez ou outra, mas apenas na superfície.

       Seguiu-o após receber seu quinhão de desprezo por meio de um olhar gélido. Possivelmente guardara um insulto ainda pior, talvez tão pior e baixo que resolvera mantê-lo para si. Menos mal, ponderou Karen, observando os quadros nas paredes do corredor. Ao alcançar o topo da escada, alguém tocou a campainha.

       — Preciso de uma bebida. — Karen disse, bruscamente.

       — É? Eu também. — concordou, descendo os degraus da escada à sua frente. Ao ouvir o segundo toque, contraiu os lábios, exasperado: — Esqueci que dei folga aos empregados.

       Ela pescou a intenção no ar e falou em tom de provocação:

       — Achou que ia se dar bem esta noite?

       Sem se voltar, ele retrucou com indiferença:

       — A noite ainda não acabou, você é que está indo embora.

 

       — Esse seu consultório é bem diferente do outro, doutor. — comentou Maria Helena, olhando ao redor, admirando a decoração sofisticada do consultório do pediatra na clínica particular.

       As paredes eram de um azul suave. Certa vez o próprio pediatra explicara sobre a escolha do azul como a cor adequada para o seu consultório. Segundo especialistas, era a ideal para o tratamento de algumas doenças infantis de pouca gravidade. Cris não usava a cromoterapia, mas interessava-se em criar um ambiente propício para os pequenos. Nas estantes aéreas, brinquedos de madeira, bichinhos de pelúcia e bonecas de pano. Havia bolas de diversos tamanhos, coloridas, espalhadas por sobre o assoalho de bambu brilhante, sem tapetes ou cortinas. Mesa ampla de vidro.

       O médico ergueu-se da cadeira, estendeu a mão e sorriu ao recebê-la, após o aviso de sua secretária.

       Havia poucas horas o doutor telefonara convidando-a para ir à sua clínica. Ela sabia o motivo. O nome desse motivo era dona Nova. Devia-lhe um relatório a respeito do casal e, principalmente, do comportamento de Franco. Maria enfrentava um dilema interessante.

       — Você está bem? — ele perguntou gentil.

       — Sim, obrigada, doutor.  — balançou a cabeça devagar.

       Adorável, educado...

       — E como está a Nova? — no alvo, sem rodeios.

       Adorável, educado. Franco era fascinante. Se ele fosse menor de idade e não tivesse pai, por Deus!, ela iria adotá-lo.

       — Não sei como falar, doutor, — começou, torcendo as mãos, nervosa: — Tem alguma coisa naquele menino que é simplesmente inexplicável.

       Cris franziu o cenho, intrigado.

       — Como assim, Helena? Ele a insultou?

       — Não, de forma alguma. — riu-se envergonhada. — É verdade que eu sentia muito medo dele, mas era por causa da fama, má fama, né?

       — Me perdoe por tê-la feito passar por isso. — afirmou, consternado.

       Ela sorriu e sentenciou a pena de morte para ele:

       — Os dois se amam de tal jeito que parece a comprovação de que existe a reencarnação e aquela coisa de almas gêmeas. O modo como se olham... Meu Deus, o modo como eles se olham, nunca vi igual, é como nos filmes, é um olhar de admiração e amor. Estranho... — ela parou, sem saber que palavra usar para definir os seus sentimentos.

       — O que é estranho? — a pergunta saiu numa voz angustiada.

      Maria Helena encarou o seu patrão e viu um homem devastado. Olheiras, rugas e um esgar de amargura desenhado na boca. Um dia ele fora bonito; agora, a beleza estava na profundidade de sua dor, verdadeira dor. Ele estava então perfeito.

       — Desculpa a sinceridade, doutor, mas eles são apaixonados, aquela paixão forte de gente nova, mas tem algo mais, não sei... como se estivessem juntos há anos...

       — Como amor de velhinhos? — ele balbuciou, inseguro, à recordação do que Nova dissera-lhe.

       Ela suspirou, grata pela resolução de um enigma:

       —É, é isso que me pareceu tão estranho. São jovens demais para um amor tão sólido, um amor de anos. Como isso é possível?

       Cristiano baixou a cabeça e leu na lembrança a frase detrás da fotografia: “Meu amor para sempre”. Fora para ele aquela frase. Ou Nova era volúvel ou era carente. Ali, naquela relação doentia entre ela e o seu bandido, havia tudo, carência, desejo sexual, projeção, tudo; menos amor.

       — Doutor, a dona Nova está feliz.

       — Sim, pelo visto, está. — tentou sorrir e acrescentou contemporizando: — Fico feliz por ela também.

       Quando Maria Helena deixou o consultório, Cris telefonou para Belo Horizonte e aguardou que o mordomo da família Monteiro transferisse a ligação para o pai de Nova. O que pensaria o filho e neto de juízes ao saber que a filha vivia debaixo do mesmo teto com um pistoleiro e, ainda por cima, grávida dele? Sim, seria um escândalo para a sociedade mineira. O que era natural em Matarana, a terra de ninguém, ganhava ares pungentes na civilização. Para os pais de Nova, ela ainda estava com o seu amigo de infância, com o homem cujas famílias conheciam-se e se visitavam com frequência. Visto que seus pais eram amigos desde à época da faculdade; um cursara Direito e o outro Medicina. Saíam juntos nas noitadas boêmias de Belo horizonte. E depois de casados mantiveram a amizade. Os filhos cresceram, a filha mais velha dos Monteiro se apaixonara pelo filho mais velho dos Bittencourt, ambos casaram, se separaram e Nova seguiu com Cristiano para o fim do mundo. Até que em uma encruzilhada ela vendera a alma ao diabo.

       Quanto tempo levaria para o amor de velhinhos enfartar?  Cris pagava para ver.

         

       Iranilda apareceu na delegacia para buscar o neto perto das dez horas da noite. Veio com um advogado malvestido e suado cujo hálito podia acender uma churrasqueira e assar uma bela picanha. Baixo, careca no topo da cabeça e vestimenta de quem estivera no Havaí e fora expulso de lá. Usava pochete e calça social de tecido ordinário. Largou sobre a mesa do delegado algumas citações do código penal, da Constituição de 1988, da Declaração dos Direitos Humanos e, por fim, com uma bolinha de saliva no canto da boca, espremeu com rigor versículos bíblicos. Saiu com Joaquim debaixo do braço, uma vez que Rodrigo não tinha motivos nem provas para mantê-lo atrás das grades. 

       O guri ainda estava assustado com o confronto na estrada e, na sua corrida para o matagal, vira a cara amarrada da morte e ela não havia se maquiado. Passar algumas horas em uma sala quente e abafada, sendo interrogado pela policial sarcástica, ao ver dona Iranilda, avó e cartomante, quase se jogou em seus braços. Com um olhar duro, ela evitou o contato físico. Por certo, o garoto fora criado com pulso firme.

       O que o delegado não viu foi a cena de volta à Vila Zumbi. Joaquim desceu do carro ainda abatido, avançou para dentro da casa até parar no meio da cozinha. Voltou-se para avó e falou:

       — Acho que o Marau tentou nos matar.

       Iranilda não previra nas cartas a emboscada, tampouco que quando trouxesse o neto para casa metesse a mão na sua cara.

       — Imbecil! Chega de lidar com essa gente! Amanhã mesmo quero que chame o Vitorino aqui, vamos pagar a última remessa de pasta e pular fora. De agora em diante negociaremos direto com os bolivianos. Chega de alimentar esses parasitas de Matarana!

       — Eles estavam atrás do delegado, vó, não tinha nada a ver com a gente. — reclamou, esfregando a bochecha vermelha.

       — Eu te disse que se o Vitorino fosse discreto e deixasse a polícia longe da vila, a gente podia manter o acordo. Mas depois de ter de abrir a porta para o delegado e deixar ele entrar na minha casa, pelo amor de Deus!, como vamos continuar preparando a pedra desse jeito? Acha mesmo que o caubói acreditou que você é um estudante aplicado?

       Ele riu baixinho.

       — Mas eu sou, pelo menos estudo para Medicina. Onde está a mentira nisso?

       — As cartas não mentem, Joaquim, e elas mostram claramente que teremos uma chacina em Matarana, um banho de sangue, e isso só pode ser por causa desse maldito delegado metendo o nariz nos nossos negócios.

       Joaquim deu de ombros. Raramente a avó acertava suas previsões. Saiu para o quintal em direção à garagem. Atrás da construção simples, de madeira, outra porta levava a um quartinho com apenas uma janela. Debaixo do piso falso, o material para a produção da droga e sua distribuição. Havia o suficiente para abastecer os municípios próximos.

       Se eles desfizessem o acordo com Vitorino e Marau, a distribuição cairia em metade do previsto para um lucro espetacular. Compreendia o ponto de vista da avó, o receio de tê-lo trancafiado em uma cela no presídio de Santa Fé e a sujeirada que seria o confronto entre o pessoal da Zumbi com a polícia.

       Digitou os números do celular de Marau e avisou-o que Rodrigo Malverde tencionava procurar Vitorino.

       — Ficarei satisfeito em recebê-lo. Obrigado pelo aviso, guri.

       Foi o que ouviu do homem que tinha um plano.

 

       Marau desligou o celular e coçou a cabeça. Era um trejeito todo seu, não ajeitava os pensamentos, mas dava tempo para as ideias se perfilarem. Puxou a aba do chapéu para baixo e pulou da amurada de madeira. Da terra arrancou um pedaço de capim e o pôs detrás da orelha, mirando ao longe a chegada de Vitorino, o braço direito do coronel. O camarada beirava os 50, arrastava-se dentro das botas não devido ao organismo enferrujado, muito mais pela preguiça de se mexer, uma preguiça acentuada pela insolência do tipinho que tinha bem certo para si a sua importância no exato lugar onde estava naquele momento.

       Enquanto o pistoleiro encaminhava-se para aquela parte da Coração de Ouro, afastada da casa-sede e próxima do açude verde e límpido, Leonardo Marau considerava a possibilidade de matar vários coelhos com apenas uma bala.

       Ao retornar à sua terra natal, após 10 anos, ele cogitava acreditar que a sabedoria de seu velho pai não era de todo inútil. “É o olho do dono que engorda o gado.” — afirmava o coronel entre uma sugada e outra na bomba do chimarrão.

       De longe, o filho de Marau não enxergava o seu gado e deixar aos cuidados de Vitorino a coisa parecia degringolar de vez.  Chegara a Matarana havia trinta dias. Pisara na terra seca e aspirara os grãos que grudaram dentro de suas narinas. No lombo de 24 anos, a força do sol da estação da chuva — menos intenso que no estio mas ainda sol de Matarana, não lhe punira a pele clara que combinava com os olhos claros e os cabelos curtos e escuros. Ele vendia a aparência de um acadêmico de Direito bem comportado que passava as férias na fazenda da família e, por isso, usava jeans e chapéu de caubói.

       — Olha só, foi muito arriscado o que fizeram hoje na estrada. — disse o velho apontando o dedo para o filho caçula do coronel: — Em plena luz do dia, puta merda! E ainda por cima com a porra do Joaquim como testemunha. — resmungou.

       — Isso pouco me interessa, Vitorino. — comentou, a voz baixa e macia quase feminina — O que tem esse delegado, hein? Por que o coroa já não deu um jeito nele?

       — Tem razão em estranhar, noutros tempos o camarada já estaria bem longe daqui. Mas esse aí tem as costas quentes, por isso o cuidado com qualquer movimento pra acabar com ele. Entendeu?

       Vitorino conhecera o rapaz quando chegara de um enterro clandestino. Vestia poeira e sangue por cima da roupa e trazia uma pá na caçamba da picape. Tivera de resolver um probleminha com um desavisado que resolvera pôr o coronel na Justiça do Trabalho. Entregara-lhe pessoalmente uma passagem para o inferno, sem baldeação, direto na nuca. Ao retornar à fazenda, Catarina chegava abraçada em um rocambole de manta recheado com um ratinho rosado e careca, era Leonardo. Até os 14 anos, ele estudara, aprontara e brincara pela fazenda e arredores. Depois pedira para morar em Cuiabá, sozinho. Tudo o que o caçulinha Marau queria era atendido prontamente. Até que o pai exigiu que voltasse depois de graduado em Direito. O coronel acreditava que o seu dinheiro e o bacharelado do filho — já que a filha estudara Nutrição e se casara com um contador, imporia ainda mais respeito e, melhor que isso, temor. Orgulhava-se do filho advogado e até mesmo mandara construir um prédio de cinco andares com elevador panorâmico para o escritório do doutor Marau.

       — É da turma da Arco Verde? — perguntou, desconfiado. A volta a Matarana trouxera-lhe lembranças que, vivendo em uma metrópole, havia esquecido. A rixa entre famílias e a disputa pelo poder político e econômico. A polícia esmagada no meio de tudo.

       — A amizade anda meio abalada, — começou Vitorino com um sorriso malicioso: — parece que andaram fazendo um rodízio com a mesma mulher. Mas o que ouço por aí é que tem homem do Dolejal disposto em vários pontos de Matarana para ficar de olho no delegado e pronto para meter bala caso ele seja ameaçado.

       Leonardo enfiou as mãos nos bolsos traseiros do jeans e deu uma risada, comentando, depois, num tom de deboche:

       — Onde estavam os homens da Arco Verde hoje à tarde?

       Vitorino olhou fundo nos olhos do outro e perguntou sério:

       — O delegado foi assassinado?

       Ele deu de ombros, indiferente, e fez um gesto negativo com a cabeça.

       — Então tinha homem do Dolejal por perto, sim. O Gregório percebeu uns camaradas a cavalo, longe da estrada, mas perto o suficiente para uma AK 47. Por mim, hoje mesmo usava o meu terno preto para o enterro do Malverde, só que precisamos ter paciência. Você não pode se precipitar e nos deixar cara a cara com o Dolejal. Uma coisa é dar cabo de um delegado fuxiqueiro, outra bem diferente é enfrentar o inimigo declarado do seu pai e o exército armado que ele controla. Além disso... — ele parou e virou meio corpo para trás, fingindo ter ouvido alguém chamá-lo. Entendia muito bem quando suas mulheres lhe diziam que era um jacaré de boca grande.

       — Fala! É sobre o bastardo? — alçou a sobrancelha com um sorrisinho irônico nos lábios.

       Leonardo e o diabo loiro jamais se bicaram. Uma das expulsões escolares do último, e do único colégio particular que Dolejal pagara para ele, fora em razão de uma briga com Leonardo. O que todos sabiam na cidade era que o filho do coronel salvara um garotinho com trejeitos efeminados dos punhos do maloqueiro da Arco Verde — como assim era conhecido Franco. Enquanto o garoto, abaixado ao lado de uma lixeira, tentava se proteger dos chutes e socos do adversário, Leonardo se interpusera entre ambos e, por ser dois anos mais velho e mais desenvolvido fisicamente que Franco, derrubara-o partindo para cima numa sucessão de golpes. O garotinho desapareceu do canto onde se escondera na parte dos fundos da escola. Os pais pediram a sua transferência para um colégio de freiras em Santa Fé, onde jamais abrira a boca para contar a verdade.

       — O bastardo cresceu e virou um maluco obcecado pelo Dolejal, já tomou até tiro por causa do patrão.

       — Que romântico! — debochou, enquanto esfregava o queixo com a cicatriz deixada nele por Franco.

       O pistoleiro estreitou os olhos argutamente e desferiu:

       — Por que esse sorrisinho, Leonardo? Está se lembrando daquela briga que teve na escola, né?, quando inventou que o diabo loiro quebrou a pau o gordinho. Sei que se gaba dessa história e que conseguiu convencer a cidade inteira de que salvou o garoto das garras do maligno filho da meretriz. Só que não esqueça, Leonardo, que você mesmo me contou que quem fez o gordinho comer lixo foi você e acabou levando uma coça do Franco. Não me diga que ainda quer se vingar dele.

       — Claro que não, — declarou sorridente e se preparando para entrar na picape: — nem lembrava mais dos meus tempos de colégio. — ele parou e antes de fechar a porta, perguntou interessado: — Que fim levou o idiota?

       — Está por aí, pedindo emprego de porta em porta.

       Leonardo riu com vontade, deitando a cabeça para trás, era como já se sentisse vingado pela interferência infeliz do bastardo em seus negócios.

       — Teve então o que mereceu.

       Vitorino ajeitou o chapéu e, fitando o horizonte, bem na direção para onde Leonardo tencionava dirigir-se, constatou secamente:

       — O guri é tão orgulhoso quanto o pai. — sorriu ao ver a expressão intrigada do outro. — Ah, esqueci que para você ele ainda é um bastardo. Ouvi dizer por aí que a mãe vadia do Franco transou com o Dolejal. Parece que ele já desconfiava de que a trepada tinha dado merda e mandou fazer uns exames na capital. Bem, Leonardo, não sei se é verdade, mas o que se fala é que o Franco já foi até reconhecido como filho do Dolejal e claro que então ele também é um Dolejal. Nesse ponto, rapaz, vocês dois estão em pé de igualdade. Se quiser retribuir a surra que ele lhe deu no passado, terá de pensar duas vezes antes, porque será uma briga de titãs. — concluiu, rasgando a garganta e cuspindo o catarro.

       O herdeiro de Marau baixou o vidro da janela, a mão no volante e outra acendendo o cigarro, e falou:

       — Resolve o pepino lá da Vila Zumbi, e deixa o delegado e o... como é que chamam ele agora?

       — Diabo loiro, psicopata, por aí.

       Tragou fundo o cigarro e exalou a fumaça pelas narinas. Ainda sorria apesar do nó no estômago, o peso indigesto da raiva antiga:

       — Vito, meu chapa, o que vim fazer aqui onde o Judas perdeu as botas? — indagou sarcástico.

       — Cuidar dos seus negócios, Leonardo. — respondeu obediente o pistoleiro.

       — Quando saí desse buraco, jurei que voltaria rico, mas rico e independente, sem precisar abaixar a cabeça para o coronel. Se tivesse seguido a cartilha do meu pai e me tornado advogado, hoje teria de me curvar a ele como todos o fazem nessa cidade. A rede de contatos que criei na Bolívia, quando vivia no Acre com o dinheiro para a faculdade, me permitiu organizar meticulosamente a entrada da droga que revolucionará o mercado. Em Brasileia me conectei com todos os polos de distribuição do centro-oeste e forneço para eles a pasta de coca, e eles só têm de produzir o óxi no fogão da cozinha de suas maloquinhas e depois vender a pedra por dois paus. — ele tragou o cigarro, manteve por um tempo a fumaça nos pulmões e exalou bem devagar, comentando a seguir: — Amanhã, quando o avião com os defensivos agrícolas pousar na pista da fazenda, receberemos a nossa mercadoria direta dos hermanos e iremos abastecer feito doidos não só Matarana, mas também Belo Quinto e Santa Fé, que ainda não foram agraciados com a chegada da nova era. É só isso que me importa.

         

       “Estou na fase dos enjoos e tonturas. Ainda não tenho uma barriguinha para mostrar e os meus peitos doem pra caramba. Faço caretas para comidas que até pouco tempo eram as minhas prediletas. Não raras vezes, corro para o banheiro com uma ânsia de vômito terrível e fico olhando o fundo da privada sem expelir nada. Sono, muito sono. O que é irritante, porque sempre fui muito ativa. E quando minha pressão baixa e vejo pontinhos pretos, preciso pôr a cabeça entre as pernas e esperar a tontura passar. Não esperava me sentir tão mal fisicamente. Por isso me sinto culpada por somente conseguir expressar a parte chatinha da gravidez e ofuscar a melhor. Quero ser uma boa mãe, me disseram uma vez que eu não estava preparada para ser uma boa mãe. Aí, penso na relação que tenho com a minha e o fato de que nem lembro a última vez que nos falamos por telefone. E não sinto falta dela. Acho que não sou uma boa filha, então, tenho medo de não ser uma boa mãe. Insegura e despreparada é como me sinto”.

       Com dois travesseiros apoiando-lhe as costas na cama, Nova releu o que acabara de escrever no notebook. Era um post para o blog que resolvera criar para compartilhar a sua experiência com outras mamães de primeira viagem. Temia que a sua primeira postagem soasse negativa demais. Não queria induzir nenhuma grávida ao suicídio. Visto por outro ângulo, porém, limitar-se a escrever sobre a plenitude da maternidade e as divertidas compras do enxoval do bebê poderia ter um efeito contrário, já que muitas mulheres não se divertiam comprando e se sentiriam estranhas e complexadas por não curtirem tanto assim cãibras, enjoos, ovários e seios inchados, sensibilidade exacerbada e excesso ou ausência de desejo sexual. Nem tudo eram flores para quem carregava humanos no ventre. O que importava mesmo era que valia a pena.

       Antes de publicar o texto, voltou-se para Franco que ao seu lado lia “Pais Grávidos”. Ela sorriu ao vê-lo absorto na leitura, totalmente compenetrado, folheando devagar as páginas e observando cada ilustração. Sobre o seu criado-mudo outras publicações sobre gravidez, “O que você espera quando está esperando” e “Manual do Grávido”.

       Fora ele quem pedira para arranjar livros sobre o assunto, queria saber como funcionavam as coisas nessa área. Voltara de Santa Fé desiludido por não encontrar nada que o tirasse da ignorância de não saber nem mesmo a diferença entre embrião e feto. Nova então o apresentou ao seu notebook e fez a compra pela internet diante dos olhos curiosos e desconfiados do noivo que tanto criticava a tecnologia. Quando os livros chegaram, Franco adonou-se de todos e levava um deles consigo na picape. Sempre que podia, abria-o e o lia como se estivesse fora do planeta.

       Naquela hora da noite, encostado contra a guarda da cama, nu debaixo do lençol, ele novamente estava fora do planeta. Virou-se para ela ao perceber que estava sendo observado. Comentou com a naturalidade de sempre e um belo sorriso jovial:

       — Antes que eu esqueça, princesa, li em uma revista enquanto esperava para ser interrogado para um emprego que...

       — Entrevistado, amor, não interrogado — interrompeu-o e corrigiu com suavidade, vendo-o sorrir ainda mais.

       — Bom, o camarada se comportou como um policial, não percebi que era apenas uma entrevista para ser segurança de um puteiro. Tenho a impressão de que ele não queria me dar o emprego, sabe? Uma má vontade do cacete! — completou, balançando a cabeça, contrariado.

       — É só mais um idiota. — ela disse, inclinando-se para beijá-lo levemente na boca.

       Ao se separarem, ele recomeçou num tom jocoso:

       — Antes de me interromper, mulher linda, eu estava dizendo que li sobre o sexo nos primeiros três meses de gravidez e digo uma coisa, somos sortudos que não tenha acontecido nada com a nossa pequena.

       Nova estreitou os olhos, confusa, tentando acompanhar a sua linha de raciocínio.

       — Pelo visto se perdeu na ideia, né? — brincou, puxando-a para um abraço e se afastando ligeiramente para encará-la com seriedade: — Olha só, temos de moderar na cama.

       — Como assim? — indagou, tentando controlar uma risada. — Só pode estar brincando! Semana passada você estava gripado com 39 graus de febre e veio com tudo pra cima de mim.

       Ele sorriu sem graça.

       — A culpa é sua, claro. Como acha que consigo me controlar quando põe debaixo do meu braço o termômetro e na minha cara os seus peitos? Mas a questão não é a frequência, Nova. Falo sério agora. Falo mesmo, Nova, para de rir! — censurou-a com brandura e emendou: — O problema é que sou muito, digamos... agressivo quando pego você de jeito.

       — Intenso, amor, é essa a palavra. — brincou.

       — Intenso? Tem certeza de que é só isso? Quando terminamos, mal consegue respirar e demora pra voltar a se mexer. Sei que judio, judio com amor, mas judio. Por isso temos de maneirar. Na revista estava escrito sobre... — ele desviou o olhar e baixou-o para o livro.

       Percebendo o tom rosado das bochechas, ela já sabia que era algo bem específico sobre sexo e, apesar de adorar a prática, a parte teórica deixava-o pouco à vontade. O pistoleiro era cheio de pudores. Nova admirava esse aspecto de sua personalidade que se contrapunha à voracidade na cama e a virilidade de seu trabalho como segurança armado.

       — Me diz o que leu na revista, moço. — não resistiu à provocação.

       Ele se voltou e respondeu com a expressão séria e desafiadora, aceitando o seu atrevimento e o devolvendo à altura:

       — Por acaso a senhorita jornalista de cidade grande sabia que a penetração não pode ser muito profunda? O pênis não pode encostar no colo do útero. Sabia sobre isso? O caubói tosco aqui sabe e de jeito nenhum meterei bala. Acredite, Nova, nada de sexo até a nossa filha nascer. Quando estou duro de tesão nem penso em paternidade e acabarei machucando o seu útero e a testa da minha filha. Não deixarei você na mão, sei como satisfazê-la, mas a pistola ficará no coldre. — afirmou determinado.

       Por um momento, ela ponderou sobre o que acabava de ouvir. O tom de voz era de alguém obstinado em cumprir uma missão. Mas ele só podia estar brincando — concluiu ela.

       — Temos pelo menos oito meses pela frente mais o tempo de pós-parto. Você não consegue manter a pistola quieta nem debaixo do lençol quanto menos no coldre... Me poupa, Franco!

       Ele olhou para a própria cintura e se irritou consigo mesmo.

       — Ai, merda! — praguejou, desvencilhando-se do lençol e saindo da cama. — Para resolver esse problema é só tomar um bom banho frio. — declarou, encaminhando-se para o banheiro.

       — Não, volta aqui, temos de conversar. — pediu, pegando-o pelo pulso e puxando-o de volta, fazendo-o se sentar ao seu lado. — A gente toma todas as precauções em relação a isso, é apenas mais um detalhe que temos de nos adaptar temporariamente. — ponderou, entrelaçando seus dedos nos dele e continuou de forma terna: — Como quando nos conhecemos. A gente gamou um pelo outro sem cogitar a hipótese de termos pouco em comum. Não tivemos muito tempo para conversar, debater ideias, contar nossas histórias de vida. Parecia que tudo isso era desnecessário, porque estávamos concentrados em nós mesmos, um no outro, e no tempo presente. E deu certo, não? Sou muito feliz com você e me apavora pensar que posso ser punida por essa felicidade. — ela se ajoelhou na cama, ao lado dele, e o abraçou: — Então não seremos nós a fodermos tudo, ok?

       Dois braços ajustaram-se à sua cintura e, com o rosto colado na camisola dela, ele disse numa voz abafada:

       — Não tenho uma boa índole. Venho de um lugar ruim e, por mais que eu não queira, acabarei machucando você. — afirmou ainda abraçado nela, aspirando o cheiro que o acalmava nas tempestades de sua alma, o cheiro de Nova. — Repetirei o que todos os outros Dolejal fizeram e eles destroem quem mais amam. Vou machucar você.

       Cortou-lhe o coração ouvi-lo falar os seus tormentos. A influência do pai ainda agia de modo bastante eficiente.

       — Tenho pena do Thales por não ter aproveitado o amor que a Karen tentou dar para ele. Você não é o seu o pai nem o seu avô. É outra pessoa completamente diferente deles e muito melhor que todos eles. — ela acariciou os cabelos dele e sussurrou com carinho: — Agora deita nessa cama que vou amá-lo.

       Ergueu-lhe o rosto envolvendo-o entre suas mãos e encontrou um oceano profundo à espera de seu toque sempre apaixonado. Permitiu-se ser conduzido por ela, que o empurrou com suavidade contra os travesseiros e baixou a cabeça até tocar a boca no tórax e omoplatas, alcançando o pescoço, acompanhando a trilha de uma veia grossa que pulsava quente. Enquanto viajava pelo corpo de Franco, aspirava o seu cheiro, o frescor de sua pele, o mapa de seus músculos e a textura tépida e macia de cada contorno, rótula e desvio. De olhos fechados, Nova enxergava cada detalhe do percurso.

       Ele a trouxe em direção aos seus lábios e beijou-a como se fosse partir, despediam-se à beira da plataforma do trem ou retornavam de lugares confusos e distantes e, na névoa intensa da separação, encontravam-se outra vez. Ouvindo-o respirar mais forte, as mãos espalmadas apertando-lhe as nádegas, o corpo quase formando um arco debaixo do dela, querendo o contato, ansiando por se colar ao dela, chupou-lhe o lóbulo da orelha descendo a mão para a vontade que se erguia potente para tomá-la.

       — Deixa comigo, não se preocupe... — gemeu tomada pela febre e uma força arrebatadora que explodia como delicadas descargas elétricas em espasmos por debaixo da pele e a empurravam para ele, para misturar-se a ele ao ponto de coabitá-lo como moradia eterna.

       Ao se posicionar para montá-lo e devastar o prado, foi agarrada pela cintura por duas mãos que a ergueram e puseram-na na cama. Imediatamente Nova apoiou-se sobre os antebraços atenta ao homem ao seu lado. A respiração pesada e os dedos que se enfiaram por entre as mechas loiras, nervosos.

       Ele se sentou, respirou fundo tentando se recompor e voltou-se para ela, pois lhe devia uma explicação:

       — Não posso. — disse simplesmente sem um pingo de contrariedade. Entre a sua consciência e a vontade, parecida determinado a escolher a primeira.

       — Como assim, não pode?

       Antes de sair do quarto em direção ao corredor que levava ao banheiro, Franco disse sem se voltar:

       — É impossível domesticar um animal selvagem com afagos. Por enquanto, é melhor que fique longe de mim.

       Ela se enrolou no lençol e o seguiu. Segurou a porta que ele tentou fechar como obstáculo entre eles.

       — Por que tanto drama? — perguntou, irritada.

       O registro do chuveiro foi girado e o barulho da torrente fria ocupou o espaço para a resposta que pairava no ar. Franco postou-se debaixo da água encharcando o cabelo. Esticou o braço, a fim de pegar o sabão de coco que usava no banho. Não o encontrando virou-se para Nova, que ainda aguardava a elucidação de um fato novo e perturbador que merecia atenção:

       — Onde está o sabão?

       — No tanque, Franco, dei para Maria lavar os tapetes. Já disse que xampu de ceramidas não interfere na sua macheza. — falou com rispidez.

       Ele esboçou um sorriso e apertou o frasco de xampu na mão. Esfregou rapidamente no cabelo e o enxaguou. Em seguida, virou-se para ela e sentenciou:

       — Têm coisas, princesa, que precisam ser do meu jeito.

       — Quase tudo é do seu jeito. — considerou num resmungo.

       — É por isso que está tudo certo entre nós. Não foi o que me disse há pouco? — alçou a sobrancelha com petulância. — Sei o que faço e quero que seja assim.

       — Não tentarei mudá-lo. Falei pro Rodrigo que pessoas como você e a Karen têm de ser aceitas como são ou então precisamos deixá-las partir. Se quer levar a cabo essa decisão maluca de tornar o nosso relacionamento assexuado, como era com o Cris, tudo certo, eu topo. Já estou acostumada a mendigar atenção e tenho a impressão de que nasci para a abstinência sexual. Obedecerei às suas ordens e voltarei para a minha cama de noivinha intocada. — disse, ofendida.

       Saindo do boxe, ele falou com severidade:

       — Acho engraçado quando se põe como vítima do destino. Jamais me passou pela cabeça não servir você. É claro que sua experiência nessa área é bastante restrita, por isso não captou muito bem as minhas intenções. Não vou perdoar a sua ignorância, você raramente deixa de me corrigir, não é mesmo, noivinha?  — ele estendeu o braço e pegou a toalha pendurada detrás dela e, com um gesto ágil, enrolou-a ao redor da cintura. Depois se aproximou e pôs as mãos sobre os seus ombros  e declarou num tom de falso pesar: — Acho que não era bem esse tipo de conto de fadas que você imaginava viver... Ééé, minha amada noiva, nem todas as princesas ganham o príncipe, têm as que são premiadas com o sapo.

       Ele baixou a cabeça e fez menção de beijá-la, recuou, sorriu e deixou-a plantada no meio do banheiro.

       O espelho mostrava uma mulher com cabelo curto, olhos brilhantes e um sulco entre as sobrancelhas. Franco era direto e simples. Mesmo assim, não deixava de se constituir um mistério, pensou ela, decidida a não modificar o seu amado anfíbio.

       Ao voltar para o quarto, encontrou-o vestido com uma camiseta velha e uma cueca boxer preta. Pelo visto tão cedo não tornaria a dormir sem roupa. Suspirou resignada.  Desligou a luz do abajur e ficou quietinha, deitada de lado, percebendo que ele se acomodava para dormir.  De repente a voz baixa veio de uma boca encostada ao seu ouvido:

       — Fui muito grosseiro?

       Ela sorriu no escuro. Preferiu responder com o silêncio.

         

       Rodrigo bocejou pela terceira vez. O que o levou a despejar o café preto, tinindo de quente, no copo plástico e sorvê-lo sem muito cuidado. O amargor fumegante desceu-lhe ardendo a garganta e o despertando totalmente. Praguejou baixinho, ajeitando-se melhor no banco da picape. Passou a mão mais uma vez pelo rosto num gesto que denunciava sua exaustão. Girou a tampa da térmica e a pôs de volta no banco do passageiro. Decidido a varar a madrugada fazendo campana próxima a Coração de Ouro, Rodrigo driblava o sono dando fim a mais um litro de café e ao segundo maço de cigarros. Posicionado, estrategicamente, aguardava o começo da movimentação de desova da camionete. O advogado do coronel, por certo, acreditava que até ao amanhecer o juiz de Santa Fé teria expedido o mandado. Assim, teriam poucas horas para sumirem com a camionete usada no atentado na estrada. Por sua vez, o delegado, sabendo sobre o acidente do juiz no Chile, não botava fé que conseguiria entrar na propriedade do coronel Marau de forma legal.

       Ao perceber a saída de uma picape pela porteira principal, ele abaixou-se discretamente. Foi um gesto mais instintivo do que necessário. Camuflado pelos arbustos à entrada de um bosque cerrado, pouco depois da entrada da fazenda, era impossível de ser visto. Mesmo quando dois círculos de luz focaram os eucaliptos, desprezando-os para, depois, ajustarem-se para frente, iluminando a estrada de chão batido.

       Erguendo a cabeça e dando uma espiada com atenção, percebeu que se tratava da picape do filho caçula do coronel e tornou a se aquietar, encostando o ombro contra a porta e bebendo mais um pouco do seu café.

       O que sabia sobre Leonardo Marau?,  apertou os olhos, buscando na memória alguma informação ao seu respeito.

       O coronel era casado havia uma eternidade com a mesma mulher e tivera dois filhos. A mãe de João Alfredo — que surtara no Colono Tranquilo, e outro garoto de pouco mais de dez anos de idade. Ela era casada com Augusto, contador do próprio sogro, chamava-se Giovana, tinha trinta e poucos anos e era dona de um salão de beleza sofisticado. Filha de Catarina que, aos quarenta anos, descuidara-se e pusera no mundo Leonardo. E os boatos que pairavam sobre as mesas dos bares e debaixo dos secadores nos salões de beleza eram que ao caçula Marau tudo era dado e permitido, menos a palavra não. Por esse tipo de pensamento, Rodrigo já desconfiava que Leonardo se tornara um sociopata. Porém, como até pouco tempo o garoto estava fora da cidade, se possuía ou não transtorno de personalidade, não o interessava.

       Desde que retornara a Matarana, o preferido do coronel — esse também era um dos rumores, parecia estar na fase de adaptação à realidade de uma província alicerçada no feudalismo contemporâneo. Rodrigo apostava sua moeda de um cruzado novo que o rapaz não aguentaria viver numa cidade cujo ápice da vida social dos jovens era as sorveterias das avenidas principais, no centro da cidade, ou o salão country. Talvez a praça com o coreto em frente à igreja católica. Vez ou outra, uma dupla sertaneja tentava a sorte cantando para um público que, ao som dos alto-falantes potentes dos automóveis e picapes estacionados, exibia um gosto musical influenciado pelos gringos do Tennessee, Texas e Kentucky.

       Quando enfim amanheceu, Rodrigo ligou o motor e partiu em direção à delegacia. Adele logo chegaria, depois de visitar Lucas no hospital. Mais uma semana e o policial retornaria ao trabalho.

       Entrou na sua sala, deixou o chapéu sobre a mesa e foi até a pia lavar o rosto. Um quilo de areia debaixo das pálpebras. Pôs a cafeteira para trabalhar enquanto pensava num jeito de voltar a enfrentar uma cama sem Karen. A campana fora uma boa ideia para que não tivesse que dormir sem ela no seu maldito quarto de hotel. Ao livrar-se da camisa e trocá-la por outra, considerou que não estava de todo certo. Era duro admitir que o pior não era dormir sem ela; o pior era acordar.

 

       Espreguiçou-se e avançou um braço em direção à mulher que ainda lutava para se manter de olhos fechados. Um corpo convidativo — um corpo pronto para recebê-lo sempre quando bem o conviesse, escondido por uma parte do lençol; a outra não. Um filete de sol infiltrava-se pela textura puída do tecido e fazia o que aquele homem faria a seguir. Havia tanta fome em seu olhar e tanta violência em sua vontade de aplacá-la que pouco se importou em despertá-la ou em seguir o protocolo do sexo. Dispensou as preliminares, separou-lhe as pernas com as suas e, apertando com força a sua coxa mantendo-a erguida, enfiou-se dentro dela com a brutalidade que lhe era peculiar. Era a sua natureza, justificava-se, vendo-a acordar sobressaltada. Ela nada podia fazer, era refém de outro corpo, mais forte que o seu e disposto a se saciar sem contenção de qualquer espécie. A primeira batida da cabeça contra a guarda da cama a fez proteger-se com as mãos, amenizando os golpes contra a madeira. O fogo crescia na mesma medida que a dor. Ainda não estava preparada para tê-lo, mas isso nunca fora importante para ele. Na maior parte das vezes, após o primeiro ataque e as sucessivas estocadas violentas, ela era açoitada por um fogo denso e agonizante, mexia-se para aprofundar a penetração, para senti-lo todo até o fundo, completamente louca de desejo e terminava se oferecendo ainda mais para ser mordida, arranhada, beijada e esbofeteada pelo seu homem. Era tudo que conseguia dele. Quinze a vinte minutos. Era tudo o que ele podia dar, um amor sexual de menos de meia hora.

       Antes que ela conseguisse controlar a respiração ofegante, Leonardo já pulara fora da cama e se enfiara no banheiro. A porta aberta, o barulho do xixi contra a louça da privada e a cabeça da mulher rodando em mil direções. Culpa, rejeição, paixão fulminante e beco sem saída. A expressão fodida e malpaga cabia muito bem para ela — conjecturou a pistoleira, mordendo o canto do lábio.

       — Como estão as coisas com a bicha cosmopolita? — perguntou ele, voltando e ameaçando juntar suas roupas, vesti-las e cair fora.

       A morena sorriu levemente ao ouvir a expressão que o coronel costumava usar para se referir a Thales Dolejal. Tal pai, tal filho, ela pensou, vendo-o puxar o zíper do jeans, aguardando a sua resposta.

       — Vai receber um troféu no clube campestre, cidadão mataranense ou coisa parecida. — respondeu Virgínia, admirando o traseiro estufado na calça.

       Ele se virou e endereçou-lhe aquele tipo de olhar que quando um homem tem uma ideia maligna endereça — como Adolf quando pensou sobre o que poderia fazer com os judeus.

       — Boa menina! — exclamou com um sorriso preguiçoso. Em seguida, enterrou o chapéu na cabeça e emendou sem deixar de sorrir: — Agora quero que se inscreva na corrida do Vitorino e dê um pau na vadia que ficou com o meu Maverick.

       Virgínia encolheu-se na cama.

       — O patrão me mata.

       — Mata? Que nada! — deu de ombros — Talvez a demita, um belo pontapé na bunda. Mas, aí, a tal Karen Lisboa já estará arrebentada.

       — Preciso trabalhar, Leonardo.

       — Não, meu anjo, não precisa. Você só está na Arco Verde, porque eu quis que estivesse lá. Não se apegue a coisas materiais. Afinal, o que resta ao ser humano quando sua alma está corrompida? — ironizou.

       — O patrão vai me perseguir, me expulsar da cidade... Ele é louco por aquela mulher. — considerou, saindo da cama e começando a se vestir.

       Leonardo acendeu um cigarro e concluiu, fazendo uma careta como se Virgínia lhe tivesse dito o óbvio:

       — Bom, era isso que eu queria saber, qual o ponto fraco do senhor Dolejal, e agora sei. Portanto, acabe com a vaca.

       Quando a porta do quarto bateu, Virgínia tornou a se sentar na beirada da cama e considerou as suas possibilidades. Estava entre a cruz e a espada. Pior que isso, entre um Marau e um Dolejal. E ainda teria de enfrentar Karen Lisboa. Virgínia precisava se benzer.

         

       Às dez horas, Adele entrou na sala do chefe, encostou-se contra o batente da porta e trouxe as boas-novas:

       — Temos um meliante entre nós.  — pôs as mãos na cintura e explicou a situação: — O Lucas quase implorou para eu seduzir os seguranças do hospital, ele queria se escafeder. Chega a dar pena do coitado, toda a sua hiperatividade reduzida a um leito de hospital e uma televisão com somente canais abertos.

       Rodrigo bebeu o resto do café da caneca e, ao depositá-la na mesa, percebeu que a mão tremia. Procurou disfarçar, pegando alguns papéis e jogando-os para dentro da gaveta. Voltou-se para a escrivã e falou:

       — É bom que ele descanse um pouco, mesmo que seja no hospital. — ergueu-se da cadeira e perguntou: — Está de olho no nosso amigo de Santa Fé, não?

       — Claro que sim, chefe, só que ele ainda não voltou do Chile. Parece que o juiz está todo quebrado, vai demorar a erguer o martelo de novo. — respondeu, cedendo-lhe passagem.

       Quase entalaram debaixo do vão da porta. Em vez de a escrivã afastar-se para o delegado passar, apenas encolheu a barriga, aproveitando para tirar uma lasquinha do caubói. Nada mal começar o dia esmagada feito uma lagartixa na parede. Conteve um suspiro, principalmente, ao perceber a cara amarrada do delegado que não gostou nadinha do golpe baixo. Porém, manteve-se calado, seguindo em direção à saída caminhando do jeito que sempre caminhava quando cansado, gingando ainda mais o quadril estreito. Desgraceira de homem bonito! — Adele podia passar horas examinando o seu chefe de cima a baixo, frente e verso, que não se cansaria.

       Ele atravessou a rua depois de olhar para os dois lados e um pouco além. Sempre fora desconfiado. Talvez por isso se tornara policial ou, após ter entrado para a polícia, a desconfiança tenha-se potencializado. O trânsito de automóveis, naquela hora do dia, não era expressivo. Entretanto, acreditava que estava sendo vigiado mais do que o normal. Tinha consciência de que à época em que Dolejal tivera-o como amigo dispersara seus homens em alguns pontos da cidade para vigiá-lo, caso sofresse retaliação por parte do coronel ou de algum forasteiro desavisado. Detestava que considerassem que ele precisava de pistoleiros para executar o seu trabalho. Mas ele precisava. Em outras cidades pequenas, os delegados, sozinhos, não resistiam à pressão e acabavam por escolher uma ou outra opção, como se corromper ou sumir na cauda de um arco-íris. Aceitar, por exemplo, que na esquina da delegacia com a Farmácia do Nogueira houvesse um camarada à espreita com uma automática na cintura preparada para ser sacada caso o policial fosse ameaçado, não seria também uma forma de corrupção?

       Intimamente torcia para que a irmã estivesse sozinha, separada do rebanho de mulheres que sempre a cercava. Precisava voltar para casa e pegar alguns de seus pertences deixados para trás. O inconveniente nessa circunstância era bater de frente com Karen e recomeçar uma discussão.

       Na calçada em frente à Confeitaria de Karen e Val, observou os últimos reparos antes da inauguração. A vitrine de vidro protegida por tiras largas de papel pardo dava um ar de suspense ao que, em questão de dias, fisgaria a clientela. Valéria não parava de falar das doceiras que contratara. Três garotas nascidas e criadas em Santa Fé, jovens demais para terem o próprio negócio e maduras o suficiente para a responsabilidade de fazer os melhores bolos, doces e salgados da região. Enquanto criavam recheios e coberturas cantavam música Gospel, pedindo a benção divina para suas obras.

       Bastou parar em frente à porta de vidro fechada e a irmã já o viu, sorriu e veio ao seu encontro.

       — Pestinha, você apareceu! Dormiu bem? Como poderia dormir bem num hotel de quinta. — puxou-o para dentro e o abraçou, dizendo em tom maternal: — Está tão magrinho... Tudo bem, sempre foi magro, mas essas olheiras, a barba por fazer e... Meu  Deus!, Rodrigo, que tremedeira é essa? — perguntou preocupada, afastando-se dele para olhá-lo melhor.

       — Acalme-se, Val. — fez-lhe um afago no cabelo, embaraçando as mechas avermelhadas e, dando uma olhada ao redor, comentou satisfeito pelo o que via: — É, está ficando interessante esse lugar, hein?

       Valéria acompanhou-lhe o olhar com um sorriso faceiro estampado no rosto. De fato, agora, depois da reforma que incluíra a instalação do piso de taco envernizado, das luminárias, das estantes aéreas que guarneciam os vidros de geleia caseira, ambrosia e compotas, começara a parte restrita à decoração sóbria cujas paredes na cor creme manifestavam claramente a intenção de tornar os produtos expostos como a atração do lugar e não apenas o lugar propriamente dito.

       Um expositor vertical giratório exibiria as mais variadas tortas, enquanto nos três balcões de vidro, à esquerda de quem entrasse, iria expor desde meros brigadeiros, beijinhos, quindins e glaçados e caramelados a barquetes, empadas, croissants e tortas frias. O terceiro balcão seria guarnecido com os pães feitos por Maurício, um rapaz de vinte e três anos, que trabalhara na Confeitaria Colombo. Antes de desembarcar em Matarana, ele passara uma semana em Paris e descobrira os biscoitinhos de massa fina, recheados e coloridos, os Macarons. Ao ser deportado para o Brasil, trouxera-os consigo. E foi isso que Valéria contou ao irmão, puxando-o pela mão até uma das seis mesas revestidas por toalhas beges, rodeadas por cadeiras de madeira escura, onde se encontravam várias caixas de papelão, brancas e retangulares. Ela abriu uma delas devagar, encenando uma grande aparição. Ele riu.

       — E aqui está a estrela da festa! — encenou, arregalando os olhos verdes. — O Maurício sabe fazer o Macaron do jeitinho dos franceses. É viciante, Rodrigo. Você come um e quer todos. Além disso, eles são muito chiques! — exclamou com a voz esganiçada, estendendo-lhe a caixa.

       — Deixa para depois, ô moça empolgada, acabei de tomar café. — fez uma careta e emendou convicto: — Vocês fizeram um ótimo trabalho aqui, é discreto sem ser fresco. — alçou a sobrancelha enfatizando: — E muito convidativo.

      — Rodrigo, pega um Macaron e prova, pelo amor de Deus! — insistiu ela, apertando a caixa contra o abdômen dele.

       — Certo, Val. — suspirou resignado, escolhendo um amarelo bastante chamativo. Provou mordendo um pedacinho e sentindo-o se derreter na sua boca. Meneou a cabeça, satisfeito e comentou: — Humm, delicioso. Com certeza, ficarão ricas. — brincou.

       — Eu não disse, porra?! — bradou bem-humorada.

       Ainda sentindo a doçura debaixo da língua, perguntou interessado, varrendo o olhar por sobre os balcões de vidro ainda vazios:

       — Quando chegam as outras estrelas?

       — Na manhã da inauguração. A Nova entrou em contato com um ex-colega do Jornal do Cerrado e ele fará a cobertura do evento. Nada de mais, sem fogos de artifício e corte de fita. — deu de ombros, rindo-se: — A minha querida sócia disse que é para simplesmente abrir e pôr dinheiro no caixa.

       — É, a Karen é bem prática. — considerou com secura.

       — E a Rita é uma vadia falsa. — desferiu rapidamente.

       Rodrigo riu de um jeito estranho, meio sem graça, era mais como um pigarro na garganta que uma risada.

       — Não tenho nada com a Rita, Valéria Malverde, deixa a coitada em paz. Por outro lado, preciso saber se a Karen está em casa, quero buscar umas coisinhas por lá e prefiro não me atracar com a fera ferida.

       — Gosta de brincar com fogo, né, caubói do cerrado?

       — Não, Val, não gosto. Por isso não quero ver a Karen. Estou cansado e louco de dor de cabeça e isso limita um pouco a minha capacidade de argumentação com ela.

       Valéria fez um trejeito com a boca, demonstrando desgosto pelo o que acabava de ouvir. Esperava que a noite no hotel tivesse amolecido o coração do irmão, ainda mais no tocante à sua natureza solitária e sentimental. Uma combinação que o tornava refém dos seus amores. A questão era que ele havia passado a noite em claro e trabalhando e, pelo visto, prosseguiria nessa tática até o momento do seu corpo desabar de exaustão. Ela conhecia-o desde sempre e sabia o quanto Rodrigo Malverde era um cabra teimoso.

       — Não tem ninguém em casa. — por fim ela disse e emendou com mais informações: — A Sabrina está no hospital, o Johnny na escola e a vó com a Veridiana. Parece que as duas estão fazendo um curso de web designer, acredita? — riu-se.

       — Qualquer coisa para bater perna na rua. — brincou, ajeitando a aba do chapéu para trás. — A Karen tem a quem puxar.

       — Pois é, mas a vó pelo menos diz para onde vai. — declarou Val, fechando a caixa com Macaron.

       Não seria de um dia para o outro que as coisas mudariam. — refletiu o delegado, dando um beijo na testa da irmã e batendo em retirada.

       Val odiava mentir para ele.

 

       Ainda vestida na camisola e com os pés descalços pisando no assoalho frio de madeira, Nova entrou na cozinha e o viu de costas, preparando a mesa com o café da manhã. Havia um vaso com uma rosa vermelha no centro da mesa e os bules de leite e café ladeando o cesto com pães e bolachas. O cheiro do queijo derretendo na frigideira a fez correr para o banheiro e vomitar.

       Ao erguer a cabeça do vaso sanitário, percebeu as pontas das botas de vaqueiro, Franco estava ao seu lado com o remédio para enjoo e um copo com água gelada. Sem falar nada, entregou-lhe o que precisava e saiu.

       Após lavar o rosto e escovar os dentes retornou à cozinha. Encontrou-o à mesa, diante da folha com o nome dos convidados para o jantar de noivado deles e o celular colado à orelha. Ao vê-la fez um sinal com o dedo, indicando-lhe à cadeira a sua frente, e encerrou a conversa com quem quer que fosse do outro lado da linha. Virou-se com o semblante sério e perguntou interessado:

       — Está melhor?

       Nova assentiu com a cabeça lentamente, verificando o esmero da mesa posta para o desjejum. Obrigou-se a tomar o café com leite e dar uma mordidinha de leve em uma torrada.

       — Já convidei todo mundo para o jantar no último sábado do mês.

       — Último? Não tínhamos combinado que seria depois de amanhã? — ela estranhou. — Por que está adiando o nosso noivado?

       Ele alçou a sobrancelha com um ar de quem diz: “ah, sei, agora eu sou importante para você, né?”.

       — Acho que quando enfiei o anel no seu dedo selamos o nosso noivado, o que falta é apenas a comemoração. — afirmou meio que a esnobando.

       Era verdade que Franco ainda estava chateado por ela tê-lo ignorado na noite anterior.

       — Sei que estamos noivos, não é a primeira vez que isso acontece comigo. — falou secamente. — Só não entendo a mudança no dia do jantar de noivado.

       — É por causa disso. — entregou-lhe um envelope aberto e informou: — É o convite para a cerimônia de entrega do troféu Cidadão Mataranense, e papai ganso receberá o seu. — ironizou, fez uma pausa para bebericar o seu café preto e continuou: — Depois da nota no Jornal do Cerrado, anunciando aos quatro ventos que sou filho legítimo de um dos colonizadores da cidade, também fui convidado para o evento. Aliás, Nova, a nossa família foi convidada, ou seja, você e a nossa filha.

       Ela desviou os olhos do papel para o noivo e viu um amplo sorriso no semblante antes carrancudo. Jamais teria paz com esse homem — esse era o seu mantra.

       — Interessante, — disse, enquanto recolocava o convite dentro do envelope — você acaba de ser reconhecido pela sociedade mataranense como um legítimo Dolejal. Como se sente? — provocou-o, sorrindo.

       — Não me importo com isso. — deu de ombros e fincou dois olhos azuis nela: — Quero falar com a sua médica sobre sexo.

       Ela riu e quase verteu o café pelo nariz.

       — Espero ter entendido direito.

       — Se ela disser que não tem problema, tudo bem, a gente volta à ativa. Podemos testar posições diferentes ou... bem... — emborcou o resto do café quase enfiando a cara dentro da caneca: — não quero falar sobre isso. Não sei nem se conseguirei falar sobre essas coisas com uma estranha.

       — Por que nós dois não conversamos com ela? — ponderou.

       — Então você faz as perguntas e eu me concentro nas respostas. — decidiu, começando a juntar a louça na mesa.

       Nova interpelou-o:

       — Posso lavar a louça e cuidar da casa, moço. Deixa tudo aí. Hoje vou para o Gringo, é a Noite Shania Twain. Dobrarei meu cachê com as gorjetas. — declarou alegremente.

       — Por isso mesmo quero que volte para cama a durma até o meio-dia. Tenho uma entrevista às duas da tarde. Um cara me chamou para fazer a segurança de um Armazém na saída da cidade. O salário é bem mais alto do que aquele que o coronel Rodrigues me pagava. Se eu der sorte e não falar muita merda, a gente tira o pé da lama, princesa. — considerou ele, levantando-se e pondo a louça na pia.

       — Não estamos com o pé na lama, pelo menos, ainda não.

       — Mas sem muito esforço chegaremos lá, não se preocupe. — afirmou, de costas, preparando-se para ensaboar os utensílios domésticos.

       Ela o abraçou por trás, deitando a cabeça no dorso largo, aspirando o cheiro dele através do tecido da camiseta de algodão. Apertou-o com força e fechou os olhos para, dessa forma, se separar do resto do mundo que não se restringisse a ela e Franco. Era sempre nesses momentos de intenso amor e ternura, que o sentimento de perda, antecipada perda, a atingia em cheio.

       — Resolveu o problema com a Bety? — ela perguntou sem rodeios.

       — Claro que sim, dona. — respondeu sem hesitar.

         

       — Ah, Val, sacana mentirosa! — murmurou Rodrigo ao entrar pelo portão de sua casa e encontrar o Maverick estacionado, obliquamente, em frente ao avarandado da casa.

       Karen estava em casa, e ele não podia mais dar marcha à ré e impedir novo confronto. Antes mesmo de girar a chave na ignição e desligar o motor, duas patas riscaram a porta da sua picape.

       — Ei, minha velha, vem cá! — ele abriu a porta e desceu, abaixando-se para ser quase derrubado por Bonnie.

       A cadela fez-lhe festa, pondo as patas sobre o seu tórax, latindo e gemendo como se reclamasse a sua falta. Ele acarinhou-lhe a cabeça e as orelhas. Ficaram brincando por um tempo. Rodrigo ameaçava escapar por um lado e virava-se para outro, Bonnie imitava-o, balançando-se toda. Os olhos brilhando e a boca arreganhada assemelhava-se a um sorriso feliz.

       Chamou-a batendo a mão contra a própria perna e se encaminhando em direção à parte detrás da picape. Da caçamba, pegou uma sacola de lona preta.

       A música que vinha da casa era alta. O delegado reconheceu-a como sendo Bonnie Tyler — razão do nome do seu bichinho de estimação, cantando I need a hero. Ele parou entre curioso e ao mesmo tempo interessado em saber o que Karen estaria fazendo enquanto clamava por um herói.

       Entrou discretamente pela porta da sala que, após o pequeno corredor, levava até a cozinha. Encostou-se à soleira da porta, cruzou os braços e observou a mulher vestida no short e camiseta. O cheiro do assado impregnava o ambiente de uma pungência caseira e acolhedora, apesar de a cozinheira estar mais preocupada em dublar a cantora usando o batedor de bife como microfone do que concentrada nos tomates que esperavam serem cortados em rodelas.

       Era incrível como ela mexia com ele. Tudo nela era intenso e brutal, não fosse somente o corpo cheio de curvas e carnes quentes e firmes, havia também aquela aura de mulher que não estava nem aí para homem algum. Sabia que a encontraria bem depois da separação — jamais a imaginara na cama chorando e sofrendo, mas tão bem ao ponto de dançar e cantar era algo que mais do que frustrá-lo ou abalar os seus brios de amante renegado, imprimia a certeza de que Karen Lisboa era uma mulher como poucas. E mais uma vez ponderava sobre tentar dobrá-la ou encaixá-la dentro de suas regras. Poderia imitar o comportamento de Thales e deixá-la solta e livre, acreditar que fechar os olhos para a sua paulatina autodestruição nas bebedeiras e corridas violentas se restringisse a uma questão de personalidade. Ou que o fato de ela ainda se sentir presa ao fazendeiro fosse um daqueles casos os quais o tempo curava.

       Afastou-se devagar para não chamar a atenção sobre si e rumou para a garagem. Agora já não era mais possível voltar e retomar o que tivera com Karen. Se ela tencionava acabar consigo mesma de uma forma ou de outra ou se desistisse das competições e andasse na linha, não adiantava mais. Rodrigo era um alvo ambulante marcado para ser abatido. E qualquer pessoa que estivesse ao seu lado poderia levar a pior.

       Puxou a tampa do alçapão e desceu os quatro degraus da escadinha de madeira. Após acender a lâmpada suspensa no teto, curvou-se debaixo da casa, no sótão onde eram guardados móveis para serem consertados, a máquina de costura aposentada, os apetrechos de pintura de Val, também aposentados, e o baú de cedro. Tirou do bolso a chave e soltou o cadeado. Contraiu os maxilares com dureza. Suas têmporas latejavam quando um sentimento resumiu tudo o que ele sentia: amargura. Ao se substituir o código penal pelas armas, nada mais restava de moralidade que pudesse ser salva em Matarana. Ele não se tornara um defensor da lei para viver esse tipo de situação.

       Em poucos minutos, montou a espingarda calibre 12 e a guardou na sacola juntamente com a munição. Levou a mão à nuca massageando-a. Uma dor de cabeça de lascar.  Precisava de analgésico e algumas horas de sono. Mas, no momento, precisava apenas se virar bem devagar — a expectativa de revê-la misturada à vontade de evitar mais um embate, tão devagar que se esqueceu de respirar até encontrá-la diante de si.

       — Está se escondendo de mim? — o tom era de acusação.

       Ele tentou sorrir. Um martelo golpeava-lhe a cabeça por todos os lados.

       — Não queria atrapalhar a sua apresentação.

       Karen sorriu de um jeito leve e moleque. E Rodrigo pensou em nomes de santos e marcas de jeans para não agarrá-la.

       — Foi um bom show, a plateia estava receptiva. — brincou; em seguida, apontou para a sacola: — O que tem aí?

       — Minha espingarda. Começou a temporada de caça.

       — Não se preocupe com o Thales, ele não tentará nada contra você. — disse ela num tom grave.

       Tal declaração irritou-o sobremaneira. Torceu o canto do lábio num jeito de desprezo e indagou secamente:

       — Desde quando preciso da proteção de um fazendeiro?

       — Sempre foi assim e nunca mudará. Aqui temos de escolher o nosso lado. Em que mundo vive, Cinderela? — perguntou com cinismo.

       Ele devolveu de imediato:

       — No mundo em que a lei e a ordem são estabelecidas pela autoridade policial que, no caso de Matarana, são representadas por mim. — afirmou convicto.

       — O orgulho matou um cego.

       — O que, Karen? — estreitou os olhos tentando entender e insistiu: — O que quer dizer com isso exatamente?

       — Não importa. — saiu pela tangente, já que não fazia ideia do que significava o que havia dito: — Você está sob a proteção do Thales, quer queira ou não. Essa decisão já não lhe cabe mais, delegado.

       — Esse tipo de colocação, vindo de uma das colonizadoras da cidade, me enoja. Que a Rita ou qualquer outro filho da puta ganancioso fale, eu não me importo e continuo mantendo a firme decisão de não me envolver nesse lixo. Agora quando você repete esse mesmo discurso, de escolher um lado para sobreviver, me deixa simplesmente com nojo.

       — Por que escolhi o lado do Thales? — ironizou, arqueando a sobrancelha e investigando-lhe as emoções que dançavam em seu rosto: — Desde que meu marido abandonou a mim e ao meu filho fui obrigada a decidir qual estrada seguir, a que levava para o Dolejal ou para o Marau. Eu era uma mulher sozinha e ingênua, carente até e você chegou com a Jasmine e o resto da saudável e perfeita família Malverde. O Thales obrigou os mataranenses a me aceitarem do jeito que eu era... do jeito que um homem pode ser e uma mulher não.

       — É mesmo, o Thales sempre a valorizou e a considerou como a pessoa mais importante da vida dele. — debochou, fazendo menção de passar por ela e escapulir; mas parou e disse: — É engraçado que defenda um camarada que até pouco tempo você queria descer o cacete. — ele ajeitou o chapéu, empurrando a aba para cima: — É algum complô? Por que todo mundo quer que eu fique do lado certo, se o único lado certo é o lado da lei? E isso significa que é o meu lado.

       Ela baixou a cabeça como se estivesse ponderando sobre algo.

       — Tudo bem, escolho o seu lado. — declarou baixinho e emendou encarando-o sem piscar: — Então quando voltará para mim? Mais vinte e quatro horas sem você e vou enlouquecer.

       Ele tentou não rir.

       — É, deu para perceber pela cantoria que você está meio doida mesmo.

       — O fato de não expressar a dor, não significa que não doa. — disse magoada e completou tentando se justificar: — Essa situação é complicada pra mim. Nunca fui boa com os sentimentos. Não sei expressar da maneira certa a coisa e quando sai, não sai, explode. Foi impossível dormir naquela cama com o seu cheiro e sem você. Passei a noite acordada bolando um jeito de ficarmos juntos de uma maneira que agrade os dois...

       — Não, Karen... — ele fez um gesto com a mão, contendo-a: — É cedo ainda para termos essa conversa.

       — Escuta, Rodrigo, ontem fui falar com o Thales para dizer que acabou e, de fato, acabou. Amo você e quero ficar do seu lado como sua parceira, entendeu?, tipo tiras americanos. — brincou, apesar de a voz transmitir toda a doçura da tristeza: — Precisei perdê-lo por algumas horas para ter certeza de que você é tudo pra mim, é o meu pajé e o meu cacique, é a tribo inteira. — concluiu com um sorriso que temia se formar e desaparecer diante da expressão impassível do delegado.

       Ele suspirou profundamente e arou o cabelo com os dedos. Sentia-se um bagaço sobre botas e enfrentar uma DR não o ajudava em nada a relaxar. Fez menção de dar-lhe as costas e sair do porão. O problema era que Karen falava sério e estava triste, sem vestígio algum de agressividade ou ironia, era como se tivesse enfim baixado a guarda. Um raro momento a ser celebrado, concluiu, aproximando-se dela e tocando-lhe a bochecha num afago quase imperceptível.

       — E você é o amor da minha vida. — declarou numa voz morna.

       — Mas...?  — apressou-se em perguntar, pois a resposta certamente não seria boa.

       — Ah, sim, tem um “mas”, e um dos grandes. — começou, afastando-se para sair: — Preciso de um tempo antes de reatarmos. — ele ouviu-a suspirar irritada e virou-se para ela: — Vamos voltar, isso é certo, seja nessa vida ou na outra. Mas não agora. — afirmou incisivo.

       — Por que, Rodrigo? Tempo para quê? Seja homem e enfrente a situação! — exclamou exasperada, seguindo-o pelo pátio até a entrada da casa pela cozinha.

       O momento precioso de calmaria havia-se perdido, conjecturou o delegado, à procura dos analgésicos no armário aéreo. Percebia que atrás de si uma fera zanzava de um lado para outro como se estivesse enjaulada. Pegou os comprimidos e um copo, atravessando o recinto pelo outro lado da mesa, sem ter de esbarrar na mulher que o olhava de cara feia. Encheu-o de água e ingeriu o remédio.

       — Não entendo quando as pessoas dizem que precisam de tempo. Tempo pra quê? É uma mentira, uma desculpa esfarrapada, uma forma de romper a relação aos poucos sem grandes dramas. — ela parou, pôs as mãos na cintura e ignorou o fato de ele toldar os olhos com a mão para tentar amenizar a dor: — Se sou tão importante para você, nesse tempo que precisa somente para si, ficará pensando em mim, certo? Então vamos encurtar essa história, ok? Preste bem atenção no que lhe direi, você é meu homem e se não trouxer de volta suas roupas para casa, vou até o hotel e ponho fogo nelas!

       — É por isso que prefiro ficar na minha. — afirmou com o semblante carregado. Puxou uma cadeira e sentou-se, cravando os cotovelos na mesa e dois olhos enfiados nela: — Esse tipo de reação maluca não combina com uma mulher saudável e madura que tem filho para criar. O Johnny ainda não é um adulto e precisa de você. Não só como exemplo, mas como apoio e, principalmente, como mãe. Ele tem mãe ou não tem? Você chega em casa machucada, às vezes, machucada e bêbada. Outras vezes, quase pula no pescoço do Thales ou chama as pessoas para a briga... Me diz, Karen, onde está a mulher adulta em você? A mãe do Johnny? Temos o direito de sermos o que somos, você tem razão quanto a isso, eu tento mudá-la, é verdade. Se pouco me importasse com você ou com o guri, deixaria as coisas como estão, afinal a vida é sua mesmo e nada até hoje que fez afetou os Malverde, como diz. Afeta, sim, quem a ama e se importa. Mas não é por isso que não volto. — ele retesou os maxilares e revelou sem fitá-la, apertava as têmporas com os dedos, os olhos fechados: — O coronel está me caçando e tenho de ficar longe de vocês. Deixarei dois policiais militares aqui em casa até tudo se ajeitar. É só uma questão de tempo.

       Abriu os olhos e viu-a sentada à sua frente, a atenção tensa voltada para ele.

       — O negócio está tão feio assim? — preocupou-se.

       Ele fez que sim com a cabeça e acrescentou:

       — Por algum motivo o coronel resolveu mostrar as garras e me tirar de vez do seu caminho. É possível que já tenha mexido os pauzinhos e buscado alguém de fora para ocupar o meu lugar na delegacia.

       — Vou pegar de jeito o safado do Vitorino. — afirmou ela com raiva.

       Ao que o delegado pegou no ar:

       — Como assim? — fingiu-se de desentendido.

       Visivelmente constrangida, Karen tentou sorrir e inventar uma justificativa que ofuscasse o seu deslize. Era só o que faltava entregar de bandeja ao delegado o organizador das corridas ilegais.

       — Bom, ele é o braço direito do coronel... Todo mundo sabe. — riscando a toalha com a ponta da unha, prosseguiu: — Sei que bebe no Colono Tranquilo, posso dar um pau nele. — comentou com naturalidade.

       — Tudo o que falei antes não valeu pra nada, né? — perguntou impaciente: — Brigar? É tão feminino cair no chão com um cara, não, Karen? A senhorita não dará jeito nenhum no Vitorino. Quero é que não arranje confusão. Será que consegue?

       — Claro que consigo. — respondeu meio que ofendida; logo depois, tornou a se levantar e retomou: — Acha então que não sou uma boa mãe... É engraçado que pense assim, vindo de alguém que não tem filhos.

       — Certo, — disse, decidido a encerrar a conversa e erguendo-se a fim de cair fora: — convenhamos que você não está na sua melhor fase como mãe. Agora tenho de ir. Preciso conseguir um mandado para entrar na fazenda do coronel e apreender a... — ele parou antes de contar sobre o atentado. Estranhou a repentina escuridão do ambiente e olhou ao redor tentando compreender o que acontecia.

       — O que foi?

       Rodrigo respirou fundo e tornou a se sentar. Fora apenas uma tontura. Cansaço e paracetamol costumavam jogá-lo para baixo.

       — Deita a cabeça entre as pernas. A Nova me ensinou, assim a gente não desmaia. — aconselhou-o, postando-se ao seu lado e apertando-lhe os ombros.

       Era melhor obedecê-la, decidiu por fim. Permaneceu com a cabeça abaixada até a sensação de alheamento passar. As mãos de Karen permaneciam em seus ombros, apertando-os sem machucar, a pressão necessária para soltar a musculatura e relaxá-lo. Era bom.

       — Está melhorzinho?

       Ouvi-la usar o diminutivo de forma carinhosa era muito esquisito.

       — Estou, Karen, obrigado. — fez menção de erguer a cabeça.

       — Espera, só mais um pouco.

       — Chega, acabarei dormindo. — comentou, desvencilhando-se das mãos dela. — Preciso mesmo voltar à DP. — encarando-a sem desviar, declarou com suavidade: — Temos de construir algo sólido para o futuro. Quero envelhecer ao seu lado, viu, garota? — sorriu levemente.

       Naquele momento tudo o que ela conseguiria dele era o sorriso cansado e uma promessa e, como qualquer promessa, frágil como cristal. Ok, ela topava, mesmo com a intenção de fazê-lo ceder à tentação de morder a maçã. Escorregou para o seu colo, os braços enlaçados no pescoço do homem que mantinha a feição congelada numa fisionomia expectante. Antes que seus neurônios de bom-moço-ponderado-e-racional se agitassem à procura da saída lógica para safar-se do ataque, ela ajustou seus lábios nos dele pressionando-lhe a nuca a fim de aprofundar o beijo. Enterrou os dedos no cabelo curto bagunçando as mechas castanho-claras. Não houve resistência. Dois braços ajustaram-se perfeitamente às suas costas, puxando-a para si, esmagando-lhe os seios contra o tórax rígido. Por entre os lábios, no beijo que ora se convertia em pequenas mordidas, ora em lambidas em comissuras, ora em investidas delicadas como selinhos de namorados, ela ouvia as respirações pesadas e as coisas que ele murmurava, os pedidos que fazia a si mesmo, as ordens de uma mente que nunca parava de trabalhar, ainda que se enfraquecesse à mercê da combinação indestrutível de um coração tenro de amor e de um corpo inflamado de desejo. Um último beijo, tão violento ao ponto de ela gemer e querer mais, o fez recobrar o juízo.

       Apenas por dois ou três segundos.

       — Não me deixe sozinha no mundo — ela implorou, mordiscando-lhe os lábios entreabertos.

       Consciente de que tal pedido feito a um super-herói injetava-lhe ainda mais poder, ela esperou que o último beijo não fosse o último contato entre ambos. Os olhos congestionados e as pálpebras semicerradas combinavam com a dilatação nas narinas e Rodrigo era um homem que atingia o seu limite. Com um gesto rápido e ágil, ele se ergueu  com ela agarrada à sua cintura e a pôs deitada sobre a mesa. Pratos e talheres espatifaram-se no chão.

      A toalha emaranhou-se debaixo de Karen, que jogou os braços para trás, oferecendo a visão de um corpo feito para o dele.

       Rodrigo deslizou as mãos pelos seios que arfavam debaixo da roupa e admirou o semblante de quem era torturada com deleite, um leve sorriso e os olhos quase se fechando para viajar. Baixou a cabeça e beijou-lhe o ventre, a aspereza do cavanhaque ralo roçando a pele. A ponta da língua alcançou o umbigo e desenhou círculos tépidos, a respiração secando-os, os lábios tornando a umedecer a pele. Ao esbarrar no cós do short, ele parou. Tornou a olhá-la com um sorriso secreto de quem planejava algo que os levariam à felicidade. De pé, entre as pernas dela, baixou o zíper do jeans.

       Antes de desgrudar seus olhos dos de Karen e concretizar a intenção, o estouro esganiçado de um vidro e, em seguida, os latidos de Bonnie.

       — Dane-se, é alguma criança... — falou Karen num fiapo de voz, puxando-o pelo pulso: — Volte ao serviço, delegado. — brincou.

       Ele a ignorou e se recompôs, puxando o zíper e sacando a automática enquanto se afastava fazendo sinal com o dedo em frente aos lábios, pedindo o seu silêncio. Encostou-se contra a parede da cozinha, encaminhando-se com cuidado para a sala. No entanto, nem precisou dar mais do que três ou quatro passos. O barulho baixo e seco de pneus rodando sobre cascalhos chamou sua atenção. Imediatamente destravou a arma e retornou, seguindo em direção à porta da cozinha.

       Um segundo estrondo o fez parar. Antes que pudesse visualizar o veículo e seus ocupantes, uma rajada de projéteis espatifou as janelas da sala e da cozinha. Rodrigo só teve tempo de virar-se e puxar Karen para o chão, pondo-se por cima dela, as mãos protegendo-lhe o crânio enquanto abaixava ao máximo a própria cabeça. Debaixo de si, ela tremia e agarrava-se nele, os dedos apertando-lhe firmemente a camisa. O som dos tiros secos parecia não ter fim, próximos o suficiente, acertando o armário aéreo na parede, perfurando-o, lascas da madeira caindo sobre ambos. A louça que estava sobre a pia se fez em pedaços, assim como o monitor do computador de Johnny.

       Rodrigo puxou-a para debaixo da mesa, procurando ficar o máximo possível rente ao chão.

       — Não se mova. — pediu-lhe junto à orelha.

       Ela apenas concordou com um meneio leve de cabeça e viu quando ele se arrastou para fora do móvel. Avançou até a soleira da porta entre a cozinha e a sala e esperou a deixa para confrontá-los atirando. Uma hora a munição acabaria. Na primeira brecha, recuado contra a esquadria da porta, esticou o braço apontando em direção ao pátio e descarregou a pistola. A resposta veio rápida, encontrando como barreira a fachada de alvenaria da casa.

       O delegado obrigou-se a se abaixar. Jogou a automática para o lado, irritado. Precisava da sacola com a espingarda.

       — Karen! — chamou a mulher em posição fetal, protegendo a cabeça com as mãos. — Karen! — aparentemente, ela não estava ferida.

       Arrastou-se de volta à mesa onde estava a sacola com a 12. Suspirou quase feliz ao vê-la sobre o piso de cerâmica. No ardor das carícias, tudo que estava na mesa fora empurrado para várias direções. Depois de o que parecera uma eternidade, os tiros cessaram. Ele ainda teve tempo para municiar a espingarda e, espreitando com cautela, postou-se à janela para atirar. Poupou munição ao ver a cortina de poeira camuflar a placa da mesma camionete que o abordara na estrada com Joaquim.

       Ele apertou os lábios com ódio e disparou numa corrida louca atrás do veículo. Correu até sentir as tripas retorcidas. Quase sem fôlego, parou e disparou um único tiro que não alcançou o alvo.

       — Malditos filhos da puta! Cretinos! — praguejou alto.

       Sentia tamanha fúria e frustração que sua musculatura inteira tremia. Era mais do que uma afronta à sua figura como delegado, os desgraçados tencionavam ferir também a sua família. Agora já se tornava uma questão pessoal, decidiu ele, amparando a espingarda sobre o ombro.

       Um grito desesperado irrompeu no lugar que, até minutos atrás, era o paraíso do silêncio e da paz, isolado próximo ao rio e tendo como único vizinho e não muito perto dali, a casa de Nova e Franco.

       — Rodrigo!

       Ele correu de volta sem sentir o chão debaixo dos pés. Ao chegar diante de casa, deu com uma Karen apavorada e pálida. Nos braços, Bonnie aparentemente adormecida. Só que sangrava.

         

       — Às vezes penso sobre essas grandes tragédias coletivas, saca? Essas merdas que aparecem na tevê, terremotos, malucos se explodindo com bombas ou atirando em escolas, quedas de avião e por aí vai... Os caras falam de, sei lá, cinquenta, cem, quatrocentas vítimas... Porra, é muita gente. Fico de bobeira divagando, entende?,  tipo, 389 vítimas, por exemplo, é um bom número. Mas, de repente, também penso... “porra, que isso significa?” 389 o quê? Viajo um pouco mais na ideia e consigo separar uma ou outra vítima e ficar nela, quase vendo ela vivendo o seu dia a dia... Pode ser a 21ª vítima ou a 5ª, sei lá, não importa, que dia de merda ela teve, não?, tomou café, fez um bom xixizinho, até planejou grandes coisas, aí pegou o avião e se fodeu. — Leonardo parou de falar, mantendo um sorriso sonhador nos lábios; depois, tragou novamente o cigarro e continuou: — Caralho, ela achava que tinha uma vida inteira pela frente ou que uma hora ou outra o jogo viraria, mas pegou a porra do avião errado, ou o certo, se for analisar pela perspectiva da teoria do caos. A coisa toda é muito doida, Vitorino, pensa bem! O que faz com que você perca o trem que vai descarrilhar? Ou que se atrase para a reunião num restaurante que explodirá quando você pegar o cardápio? O que torna alguém vítima ou o que salva alguém de não se tornar uma vítima, um maldito número no grupo dos fodidos pelo acaso? Entende o que falo?

       Os dois homens olhavam para o horizonte nublado. Conversavam sobre os mistérios entre o céu e a terra. Não esperavam necessariamente por respostas; esperavam por um avião.

       Vitorino tomou a dianteira, já que, para ele, o assunto se esgotara. Na verdade, nem precisava ter começado. Leonardo era um sujeito excêntrico e, por vezes, perturbador.

       — Entendo, pra morrer basta estar vivo. — balançou a cabeça como se levasse a sério o que dissera e mudou o rumo da prosa: — O trabalho foi feito. Depois desse cagaço o delegado pega os trapos e se manda.

       O velho catou um cigarro detrás da orelha, riscou o fósforo com a mão em concha e olhou ao redor. Tinha de tirar o chapéu para o rapaz. A escolha de utilizar a primeira pista de pouso da fazenda, de terra e desativada havia anos após a decisão de construir uma asfaltada mais perto da casa-sede, evitava despertar a atenção dos funcionários da Coração de Ouro e do coronel. Além disso, deixava-se de cumprir determinadas formalidades. Mesmo que fosse esperado o carregamento de agrotóxico, o que receberiam seria apenas a embalagem do pesticida contendo a pasta de cocaína. Para todos os efeitos e aos olhos bisbilhoteiros do gerente da fazenda, o carregamento era de pesticida para a lavoura.

       Desde que retornara à cidade, Leonardo conseguira arregimentar um bom número de pistoleiros, considerou Vitorino, verificando que a fidelidade ao patrão mais velho facilmente era transferida para o mais novo. Uma geração sobrepunha a outra.

       — Se ele não se mandar de Matarana, Vitorino, quero o corpo do camarada adubando a lavoura do meu pai. — determinou Leonardo, retomando a expressão séria e obstinada de um homem de negócios.

       — Sim, senhor. — foi tudo o que pôde dizer, sabendo que mais uma vez teria de sujar as mãos de sangue.

       O Cessna 210 despontou no horizonte preparando-se para o pouso. O céu começava a ficar carrancudo e pesado. Era certo que entre duas e três da tarde cairia um toró daqueles. Até lá já teriam descarregado a mercadoria e a escondido num compartimento discreto de um dos armazéns de grãos.

       — Por que fez essa cara? — indagou Leonardo, deixando de fitá-lo para observar o avião encontrando a pista de pouso tranquilamente.

       O velho não era chegado a confissões. Apenas deu de ombros e tragou mais uma vez o seu vício. Leonardo não costumava deixar nada pendente:

       — Não quer matar de novo, né? — perguntou sem esperar a resposta, emendando de um jeito amistoso: — Jamais esquecerei o que fez por mim. A gente tinha de pôr fim na chantagem do corretor, imagina se ele contasse pro meu pai sobre os meus negócios. Não ia ser nada fácil convencer o velho que no lugar do agronegócio, eu optei pelo “narconegócio”. — debochou.

       — Fiz o que tinha de ser feito, Leonardo... Mas sabe o que eu acho?, que o Teobaldo estava gagá e me confundiu com alguém ou sei lá... Ele falou uma merda qualquer sobre o Everaldo Viegas... — suspirou profundamente. — Só não quero virar a porra de um exterminador. Já tenho minha cota de matança nas costas, não preciso aumentar ela.

       — Serviço limpo?

       —Talvez. — respondeu incerto.

       Foi a vez do outro se interessar pelo assunto, desviando a atenção do avião que taxiava na pista e virando-se para o pistoleiro.

       — Explique-se, homem. — pediu, enfático.

       — Me vesti como o Dolejal, tentei me passar por ele, mas sou bem menor e magricela... não sei se a vizinha doida do Teobaldo caiu nessa. — afirmou, meneando a cabeça, inseguro.

       — Bom, pense o seguinte, Vito, o silêncio é reconfortante nesses casos. Se ela o tivesse reconhecido, já o teria procurado para tirar proveito. Desde que voltei, percebi o que sempre soube sobre Matarana: as pessoas boas não estão aqui.

         

       As moscas-varejeiras se alimentavam das mangas caídas do alto da árvore, abertas em estrias como corpos em decomposição. Um gurizinho de cinco ou seis anos abaixou-se para pegar uma delas. Sacudiu a fruta no ar para espantar os insetos e a levou à boca. Assustou-se ao ouvir a voz grave do homem bem atrás de si:

       — Isso é porcaria. — disse Dolejal, tirando a manga da mão do garoto e jogando-a para fora do seu alcance. — Vamos procurar a sua mãe. — determinou, apontando com o dedo indicador o caminho a seguir.

       Havia pouco tempo que alguns dissidentes dos Panarás, vindos de Matupá, ocupavam as terras recém-compradas por Dolejal na negociação com o coronel Rodrigues. A gleba se localizava na faixa de terras entre as duas fazendas vizinhas, e a decisão do proprietário da Arco Verde era a de neutralizar as investidas latifundiárias de Rodrigues na região. Sabia o quanto o último detestava os que não eram da sua raça e também os de sua raça mas não tão claros como ele.

       Thales retirara da beira da BR-163 parte do povo que crescia e precisava de espaço para continuar crescendo. Eram os mais jovens, os índios que se distanciavam daqueles que quase foram dizimados no século XX. Liderados pelo chefe Aturi, os Panarás se distribuíam pelo norte do estado em busca da não extinção. De certa forma, retornavam à estrada que os expulsara à época de sua construção. Essa nova geração não havia sofrido as doenças e a humilhação de ser transferida para qualquer parte, como os sem-tetos à mercê da caridade do governo. Mesmo com sua aldeia em Matupá, os Panarás que se agrupavam ao longo da estrada aceitaram desconfiados o presente do homem que não sorria.

       Agora era esse o passatempo de Thales, quando podia se afastar do escritório e das viagens a trabalho. Gerenciava pessoalmente o assentamento do seu novo e original povo. Ainda que não tivesse ganhado por completo a sua confiança, dia após dia, recebia olhares longos e avaliativos, além de trocas de informações.

       Mengrire, um índio alto e atlético, que insistia em manter longo e ultrapassando a linha dos seus ombros o cabelo liso e negro, era-lhe o tradutor. Compreendia o português tanto quanto a língua nativa, o jê. Tinha 23 anos e andava sempre ao lado, na cola, do chefe Aturi, seu pai.

       O filho do chefe aproximou-se sorrindo, a fileira de dentes alvos contrastando com a pele morena e os olhos escuros e profundos:

       — O senhor sabe como funciona a organização da aldeia?

       O fazendeiro fez que não com a cabeça e apontou para o indiozinho nu, agarrado em seu jeans:

       — Esse pequeno está com fome. Abasteci o armazém com compras do atacado até que a roça comece a dar resultado.

       — Já temos a nossa caça. — afirmou de um jeito que parecia zombar da ignorância do homem branco. — A cultura dos brancos chama isso de cultura autossustentável. Até mesmo nossos guerreiros se preocupam em “abastecer” a aldeia. — enfatizou.

       — De qualquer forma, o Bronson ficará com vocês durante o dia. Acredito que o Rodrigues de início irá incomodá-los, mas logo se cansará. — em seguida, observando os índios trabalharem na construção de suas casas, comentou: — A sua tribo é engraçada, Mengrire, orgulham-se de caçar animais e debocham dos meus enlatados. No entanto, pediram-me computadores e celulares. — constatou, a seguir, salientando: — E, de preferência, frisaram, com antena Wi-Fi.

       Mengrire deitou a cabeça para trás, rindo, e a luz prateada do céu que se contorcia em nuvens plúmbeas cheias d’água iluminou-lhe os músculos dos braços e abdômen. Vestia apenas um jeans.

       — Quando a FUNAI abriu dois telecentros em Matupá e ensinou os mais novos a mexerem nos computadores, despertou a nossa paixão pelos brinquedinhos dos brancos — fez troça com bom humor.

       — É, temos as nossas distrações, — comentou com indiferença e depois com azedume: — como inventar inutilidades tornando-as úteis.

       O índio franziu o cenho, intrigado. Ele achava que Thales Dolejal era um homem cuja alma era uma noite eterna sem estrelas. Todos os dias o fazendeiro passava pela aldeia, que se erguia rapidamente como os colonizadores de Matarana havia trinta anos o fizeram, e verificava o progresso do local, conversava com o chefe Aturi, com os demais índios e, às vezes, assistia a uma partida de futebol na terra batida. Ficava algumas horas debaixo do seu chapéu, o rosto relaxado, mas nunca sorrindo ou alegre. Talvez ele comesse muita comida guardada dentro de latas.

       Thales tinha um plano para essa gente. Mais que isso, tinha um plano para si mesmo. Acendia uma vela para Deus, devolvendo a terra aos seus verdadeiros donos, ainda que fosse a uma minúscula fração deles e acendia outra vela ao diabo, com a venda dos lotes de terras brasileiras aos americanos do Texas. Comprando, vendendo e dividindo a terra por toda a região norte do Mato Grosso, ele fragmentava, assim, o poder econômico dos coronéis, reduzindo-os às suas propriedades até então adquiridas. E nada além.

       Bronson aproximou-se no seu passo arrastado, coçou a cabeça e fez um gesto como quem pretende uma conversa particular com o patrão. Dolejal estendeu o braço e apertou a mão de Mengrire, afastando-se depois de determinar com seriedade:

       — O Rodrigues tem uma espécie de milícia para defender seus interesses e um dos seus interesses é se apropriar das terras alheias. Agora, de acordo com a escritura de transferência que passei ao seu pai, este lugar pertence a vocês. E se for preciso brigar com o coronel, conte com a minha proteção armada. Não se mantém mais um território à base da borduna... Na verdade, a lei sempre foi a do revólver.

       Mengrire aquiesceu retesando os maxilares.

       Encontrou o chefe da segurança encostado junto à lateral da camionete que o trouxera à aldeia.

       — O delegado sofreu novo atentado. — disse simplesmente.

       Dolejal assimilou a informação como o fazia nas reuniões no seu escritório no centro.

       — Está vivo?

       O pistoleiro tentou reconhecer um traço de ansiedade na voz, alguma nota dissonante que apontasse a direção do interesse do patrão. Por fim, torceu o lábio num de seus rictos da idade e respondeu com indiferença:

       — É, escapou dos atiradores. — lançou um rápido olhar para o neto de Onório, a fim de captar uma reação de alívio ou decepção.

       O semblante impassível negava-se a revelar os verdadeiros sentimentos — conjecturou Bronson, arrumando a postura ao endireitar-se para voltar ao trabalho.

       — O Marau está me afrontando quando tenta dar cabo do meu delegado. — afirmou com enfado acrescido de ironia.

       — Seu delegado? — indagou o outro com um meio sorriso.

       — É, meu caro, quero que o Rodrigo permaneça exatamente no lugar em que está.

       — Pois é, desta vez, atiraram na casa dos Malverde... — o velho interrompeu-se ganhando tempo.

       — O que foi? — farejou uma informação omitida propositadamente.

       — Os camaradas demoliram toda a fachada da casa, deviam ser uns três ou quatro caras, todos com .40. Nosso pessoal não chegou a tempo de pegar os desgraçados... — ele parou e raspou da garganta o catarro e cuspiu-o. — Tem um rastro de sangue no pátio, mas não encontramos ninguém na casa. Ou o delegado se feriu ou...

       Thales estreitou os olhos e vasculhou a feição hesitante do funcionário.

       — Está tentando me dizer que a Karen pode estar ferida? — perguntou, mal descolando os lábios.

       Bronson apertou a própria nuca com a mão, tentando soltar os músculos tensos.

       — Ela também estava na casa quando aconteceu o confronto. Mas, patrão, — ponderou com cuidado: — o sangue também pode ser dos camaradas, o delegado é bom de mira.

       — Os homens do coronel abriram fogo contra a casa dos Malverde e com a Karen dentro da casa? — insistiu, a expressão facial de um animal se contendo.

       Novamente a metamorfose de uma criatura que mudava de cor para se camuflar, como um camaleão. Entretanto, não eram as cores na feição de Thales Dolejal que mudavam; eram as emoções inchando veias, avermelhando órbitas oculares e raiando cada sentimento contido, reprimido debaixo da pele. Era um sujeito passional, extremamente passional — considerava Bronson, que implodia em cada célula do seu organismo, sem nunca explodir ao ponto de se expor. Isso era bem diferente de ser um homem frio — como a população de Matarana considerava-o. O herdeiro de Onório era um belo candidato a um derrame cerebral.

       — Pode ser que o sangue não seja dela.

       — Eles abriram fogo contra a Karen? — insistiu incrédulo e, sem esperar a resposta, afirmou quase sorrindo. — Já estão mortos.

       O pistoleiro lembrou-se, então, de Mendes e tudo o que lhe acontecera em seguida ao sequestrar Karen Lisboa.

       — Quero que fique com o chefe Aturi e treine Mengrire. Traga as automáticas e arme os índios. — determinou obstinado, encaminhando-se para sua camionete. O velho no seu encalço. — Eles sabem lutar, mas do jeito errado. — abriu a porta e antes de entrar, ordenou com o olhar gelado: — Encontre o Franco e mande-o a Arco Verde. Preciso de um estrategista, porque nós vamos acabar com toda a família Marau.

         

       Todos estavam à mesa quando ele chegou. Tirou o chapéu e fez menção de sentar-se. Foi interrompido pela mãe:

       — Já não disse que é para lavar as mãos antes de comer? — perguntou com aspereza, o olhar plantado no dele.

       Leonardo apenas sorriu e assentiu levemente com a cabeça, erguendo-se e empurrando a cadeira de madeira e espaldar alto para debaixo da mesa. Captou um movimento de desagrado do pai, à cabeceira da mesa para oito lugares, um gesto quase imperceptível com os ombros e uma leve torção da boca. E isso sempre acontecia quando Catarina impunha sua autoridade ao filho. Ele tinha plena consciência de que o seu velho pai detestava quando a mãe chamava-lhe a atenção.

       Ao voltar do lavabo, retomou a ideia original de sentar-se para almoçar com seus pais e a família de sua irmã, o cunhado Henrique e os filhos deles, Augusto e João Alfredo.

       — Penso em abrir uma filial do Belle em Santa Fé. Matarana é pequena demais para manter um salão de beleza de três andares — choramingou sua irmã, Giovana, no alto de sua postura de perua de 35 anos.

       Ela olhou para cada um de seus familiares procurando vestígio de interesse. Todos concentrados em mexer seus talheres e engolir a comida. Nem os empregados da fazenda se importavam com a presença espalhafatosa da mulher turbinada nos seios, com implantes de porcelana como dentes e prematuro Botox na testa e ao redor da boca.

       O marido queria dizer-lhe que ela parecia uma boneca de plástico, mas trabalhava como contador da família Marau e, assim, não lhe parecia inteligente ser sincero e se importar com a esposa. Augusto recém completara 11 anos, ladeava o irmão que tentava se acostumar à ideia de ser trancafiado em uma clínica de reabilitação em Cuiabá. Ao passo que o coronel, entre uma mordida e outra numa coxa de frango, rememorava a piada contada por Vitorino ao ver Leonardo descer da camionete quando retornara da capital, após concluir a faculdade. Ele dissera:

       — Escuta essa, coronel, — baixou o tom de voz e começou: — um sujeito procura um pai de santo para ver se consegue desfazer uma praga que lhe foi rogada há 30 anos. O pai de santo aí diz pro cara, pode ser, mas eu preciso saber quais as palavras exatas que foram usadas na praga. O sujeito então responde sem hesitar: eu vos declaro marido e mulher!

       O coronel riu alto, o barrigão duro estremeceu enquanto seus olhos se encheram de água — como no jantar, naquele exato momento em que lembrava novamente o que Vitorino lhe falara.

       — Está rindo do quê, Emílio? — indagou a esposa.

       O coronel secou os olhos no guardanapo e respondeu:

       — Tive uma epifania, só isso.

       Alguns anos atrás, quando não precisava de Viagra e Captopril, teria dormido com qualquer mulher que quisesse. Erguera Matarana e tinha o poder e o dinheiro de um colonizador. Mas preferira trabalhar e aumentar o capital em vez de se deitar numa boa cama. Agora, ao seu lado, ele tinha um pau de virar tripa. Uma sessentona flácida e mandona. Praticamente uma ameixa seca com ubres murchos como sacos de leite.

       Voltou para o melhor da família e comentou mastigando um pedaço do frango:

       — Contratei uma paulista para decorar o escritório que montei pra você no centro. Ela estudou fora, tem um baita currículo, foi o teu cunhado aí que arranjou. — deu uma garfada na comida e continuou com o peito estufado: — Já disse e repito: quero o do bom e do melhor para o doutor Leonardo Marau.

       Leonardo sorriu de um jeito que somente os bem-nascidos e bem-fodidos conseguiam sorrir. Mesmo assim valia a pena passar pelo aperto. Olhava para aquelas pobres pessoas, ao redor da mesa de seu dono, mexendo a cabeça para cima e para baixo como vaquinhas de presépio. Eram dependentes e vítimas de um algoz que as nutriam de dinheiro e status enquanto manipulavam as cordinhas penduradas em seus braços e pernas.

       — Perfeito, pai, não vejo a hora de começar. — afirmou, alegremente, emborcando o suco de laranja com genuíno prazer.

       Ele ainda não sabia, não tinha como saber. Qual filho imagina que a partir de determinado momento na vida de um pai, ele decida dedicar-se exclusivamente ao seu rebento, como se a sua própria existência começasse a se apagar, lâmpada após lâmpada, até restar-lhe apenas a escuridão da morte. O coronel sentia-se mais velho do que nunca, observando ao redor a sua geração de amigos desaparecer a cada virada de ano.

       — Esse, sim, é um legítimo Marau. — disse com orgulho e decidido a acompanhar de perto a incipiente carreira jurídica de seu herdeiro.

 

       A antessala da clínica veterinária era modesta.  Dois divãs de napa encostados na parede de alvenaria, decorada com documentos oficiais em quadros com vidro e moldura barata. Um tapete colorido debaixo da mesinha de centro repleta de revistas de fofoca e um balcão alto que quase escondia atrás de si a recepcionista, ironicamente, com a fisionomia que sugeria um ancestral da família dos leporídeos — caso fosse possível tal mistura genética entre os mamíferos.

       Karen não sabia o que dizer. Sentada ao lado de Rodrigo, percebia-o de esguelha, o corpo avançado para frente, ombros encurvados e os dedos entrelaçados, sendo estalados, um a um, num tique nervoso.  A camisa xadrez com as fraldas para fora do jeans com nódoas de sangue e suja de terra. Acima da gola, riscos de arranhões na parte detrás do pescoço e nos braços. Machucara-se ao se atirar no chão para protegê-la e enquanto se esgueirava contra as paredes durante o tiroteio.

       Ao longo do caminho até a clínica mantiveram-se em silêncio. Bonnie deitada sobre os joelhos do motorista que infligira várias regras de trânsito, a fim de salvar a vida de sua amiga de quatro patas e sete anos de idade. Entregara-a ao veterinário disposto a acompanhar o atendimento. Porém, mesmo que a bala não pudesse ser removida, ele foi convidado a aguardar o atendimento na antessala.

       — O doutor Antero é o melhor da cidade, pelo menos é o mais experiente. Ele curou a diarreia crônica do Prefontaine. — tentou consolá-lo.

       Rodrigo esfregou o rosto demonstrando evidentes sinais de exaustão. Recostou-se contra a parede, deitando a cabeça na alvenaria e fechando os olhos. Ao falar, expressava uma voz carregada de emoção:

       — Ela não teve chance alguma no meio dos tiros. — engoliu em seco e continuou, sentindo a emoção à flor da pele: — Essa minha parceira sempre foi durona, garanto que ao vê-los partiu para cima. Sabe por que vocês nunca se deram bem? — virou-se para ela com um leve sorriso: — Porque são iguais, combativas e passionais.

       Karen suspirou fundo e pensou em Prefontaine. Compreendia perfeitamente a dor de Rodrigo.

       — A Bonnie é uma firme defensora do seu território. — brincou, sem sorrir. — Pessoas como ela não são abatidas com apenas um tiro. — afirmou com convicção.

       — Pessoas? — ele indagou com um sorriso.

       — Por acaso, prefere acreditar que quem atirou contra a nossa casa são as verdadeiras pessoas? — enfatizou com ironia.

       Ele tornou a fechar os olhos e tal gesto significava que evitaria falar sobre o assunto com ela. Era um caso de polícia que seria compartilhado apenas entre policiais.

       — Devia existir uma palavra mágica que tivesse o efeito de um analgésico. Queria dizê-la agora e fazer você se sentir um pouco melhor. — declarou com pesar, pegando-lhe a mão entre as suas e acariciando-lhe o dorso.

       — Prefiro o silêncio. — retrucou secamente.

       Karen estranhou a brusquidão da resposta, apesar de que ultimamente a vida do delegado estivesse virada do avesso. E durante o tempo em que viveram juntos de forma alguma ela a tornara melhor.

       A recepcionista aumentou o volume do rádio ao ouvir o locutor anunciar Don’t  Cry e Axl Rose começar a cantar. Uma sucessão de eventos externos parecia combinar entre si, refletindo o que ambos sentiam, impotentes diante do encadeamento de fatos que conduziriam a um desfecho muito ruim, fosse para quem fosse. Por isso, tentando pagar uma dívida para com ele ou aceitando de vez que aquele homem era tudo para ela, Karen o abraçou e o trouxe para si, fazendo-o descansar a cabeça contra o seu ombro e afagando-lhe o cabelo curto.

       — Eu não esqueci que você é assim, — ele falou baixinho e ergueu a cabeça para beijá-la suavemente nos lábios: — uma mulher doce e carinhosa, e quero que aceite proteção policial enquanto o coronel não for detido. Sem discussão e sem brigas, simplesmente aceite. Certo, Karen? — esperou pela sua reação.

       Ela fez uma careta engraçada, meio que revirou os olhos e, por fim, parecendo ceder à proposta apertou-lhe o queixo.

       — Certo, Rodrigo, não vou mais te causar dor de cabeça.

       Quando o estrondo de um trovão se misturou aos acordes da guitarra e a claridade de um relâmpago inundou de prata a sala iluminada pelo dia que virou noite, no mesmo instante em que a natureza se pronunciou prepotente, Thales Dolejal irrompeu no recinto e tudo naquele olhar da cor dos raios que riscavam o céu de Matarana apontava a direção de um calvário.

       Em poucas passadas ele completou o caminho entre a entrada, passando pelo balcão da recepção, e o divã.

       Rodrigo instintivamente afastou-se de Karen, que se virou para ele tentando entender a razão do afastamento. O semblante do delegado tornou a se fechar, as sobrancelhas juntas e as veias latejando contra a pele sensível das têmporas. A mão foi levada à cintura e a ponta dos dedos encontraram o couro do coldre. Uma fração de segundos depois, o cérebro do defensor da lei assimilou a figura do fazendeiro como aliado e também como um homem que não usava armas. Relaxou, ligeiramente, ainda que experimentasse uma sensação ruim na boca do estômago.

       Sem cerimônia, Thales encurvou-se o suficiente para pôr as garras nos ombros de Karen e levantá-la de forma abrupta. Ela só teve tempo de exclamar um “porra!” e já estava de pé, a blusa manchada de sangue sendo arrancada de seu tronco.

       — Seu maluco! — gritou, cruzando os braços em frente aos seios e dobrando o corpo na tentativa de proteger sua nudez.

       — Onde se feriu? — perguntou com rispidez, inspecionando a parte do corpo exposta.

       Rodrigo se interpôs entre os dois, separando-os calmamente.

       — Ela não se machucou. — afirmou incisivo. — O sangue na roupa é da minha cachorra.

       O efeito daquelas palavras provocou uma metamorfose na feição de Thales.  A atitude descabida e violenta foi substituída pelo aturdimento. Ele endureceu os maxilares ao ponto dos ossos se projetarem contra a pele escanhoada. Recuou um passo do casal, avaliando a situação como um todo. Era possível perceber o encadeamento de seus pensamentos, agora, que ele voltava à razão. O pomo de adão subiu e desceu, a confusão fora desfeita e mais uma vez ele fora pego em flagrante delito de paixão explícita.

       Ao ouvir a voz de Karen, ele ergueu o queixo com altivez, preparando-se para o golpe.

       — Imaginou que a vaca louca estava sendo atendida por um veterinário? — alfinetou-o, abaixando-se para juntar do chão a sua blusa.

       Desfeito o mal-entendido, já não se interessava em prolongar o evento. Impassível, deu atenção àquele que balançava o chapéu na mão, com a cara amarrada e olhando-o de modo avaliativo.

       — Pelo visto, o coronel quer pô-lo para correr.

       Rodrigo assentiu devagar sem desfazer o ricto de exasperação do semblante.

       — Com que direito você ataca a Karen dessa maneira, despindo-a publicamente? —indagou sério.

       Thales não se deu por rogado.

       — Apenas examinei os seus supostos ferimentos. — afirmou com um leve sorriso e continuou a fim de esquentar a cena: — É interessante quando o camarada que é pago pelos cidadãos para nos proteger, expõe uma cidadã ao perigo por sua culpa e responsabilidade. — ironizou.

       — Ele me protegeu, seu cretino.  Acha que se o Rodrigo não estivesse lá eu não teria morrido? Minutos antes eu estava ouvindo música num volume tão alto que sentiria o segundo tiro sem ao menos ouvir o primeiro. — reclamou mal-humorada, ajeitando-se dentro da blusa suja e amassada.

      — Esse tipo de proteção não funciona. A situação mudou de perspectiva, meus amigos, e por isso também temos de nos adaptar a ela. — declarou com suavidade, uma suavidade pendendo à arrogância. — A partir do momento em que expõe ao perigo uma pessoa relacionada a você, significa nada mais nada menos que a situação está fora do seu controle. Não quero ser grosseiro ou desafiar a sua autoridade, mas a polícia de Matarana não está dando conta do negócio.

       Rodrigo ajeitou o chapéu na cabeça e sorriu levemente, as linhas de expressão ao redor de seus olhos pronunciaram-se.

       — Assim que eu chamar reforços e, inclusive, a Polícia Federal, já que estamos lidando também com o tráfico internacional de drogas, as coisas voltarão ao controle da autoridade aqui. — apontou com o polegar para si mesmo.

       — Até isso acontecer pretende construir um bunker para proteger os seus familiares? — desafiou-o; em seguida, fez um sinal com a cabeça em direção à recepcionista e completou: — Em uma cidade cheia de ouvidos, como evitará que a sua irmã ou o filho da Karen, por exemplo, sejam raptados ou qualquer outra merda ainda pior? Designará um PM para cada membro querido? — ironizou com um meio sorriso.

       Karen acompanhava o confronto em silêncio refletindo sobre cada argumento. A clareza de ideias de Dolejal era como um rio límpido. Não havia como contestá-lo. Apesar de que era visível o quanto Rodrigo procurava por soluções à altura enquanto riscava o chão com a sola da bota e o olhar distante atravessava a janela aberta.

       — Farei o meu melhor. É uma questão de nos planejarmos, Thales. Ainda assim agradeço a sua preocupação.

       O olhar felino do latifundiário estreitou-se perigosamente.

       — Está me dispensando?  — riu um riso áspero e rápido, emendando num tom bem menos animado: — Não me importo com nossas diferenças, ainda que seja apenas em relação a uma mulher, mas o fato é que sempre nos entendemos, Rodrigo. A verdade, bem, você sabe qual é a verdade, não é mesmo? Está sozinho com uma escrivã e um agente. Confia nos policiais militares? Acredita que não comem na mão do coronel? Se não aceitar a minha ajuda, continuará sozinho no meio da burocracia e do descaso para com um mero delegado na terra sem lei.

       — O que pode nos oferecer? — Karen perguntou.

       — Ok, então já está resolvido — interrompeu o delegado decidido, tornando a se sentar no banco estofado, espichando as pernas: — Depois que acertarem os detalhes me avisem.

       — É bem simples, quero os Malverde e os Lisboa na Arco Verde. Ninguém ousaria invadi-la e todos estariam seguros. Há acomodações para a sua família, Rodrigo, — virando-se para Karen completou: — e para a sua vó e o seu filho. E quando tiverem de sair serão escoltados pelos meus homens.

       Karen voltou-se para Rodrigo na expectativa de saber a sua opinião.

       — Continuarei no hotel, — falou meio que se justificando: — mas acho que temporariamente é uma boa ideia. Isso tudo logo estará resolvido. — afirmou secamente.

       — Claro que estará. — confirmou o outro de modo enigmático.

       — A Val não vai gostar nadinha. — disse Karen, enfiando as mãos nos bolsos traseiros do short. — Aliás, ela vai ficar muito puta quando souber que os desgraçados perfuraram toda a fachada reformada.

       — Mandarei alguém trocar os vidros da casa. — informou Rodrigo, disposto a encerrar a conversa, os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça nas mãos. A preocupação em relação ao estado de saúde de Bonnie voltava a ocupar-lhe os pensamentos.

       Karen estava entre os dois no meio da sala, suja, com sangue na roupa e não conseguindo tirar da cabeça a cena violenta que vivera. O barulho seco e alto dos tiros, os vidros explodindo, os utensílios domésticos destruídos. O assoalho gelado debaixo do seu corpo e a possibilidade de ela e Rodrigo serem alvejados. Por um momento temeu que os pistoleiros entrassem de fato dentro de casa e os executassem.

       — Bom, acho melhor avisarem o pessoal de vocês sobre a mudança. Hoje mesmo enviarei alguns homens para conduzi-los até a fazenda. — Thales informou endereçando um longo olhar a Karen: — Você está bem?

       Ela anuiu sem dizer palavra.  Captou o seu olhar desconfiado. Não tencionava desabafar com ele, já estava acostumada a desabafar por dentro. Esticou o braço e pegou uma mecha do cabelo de Rodrigo num doce afago.

       — Vai dar tudo certo. — falou, tentando sorrir.

       — Eu sei. — retrucou sem convicção, virando-se a seguir para o fazendeiro: — Só entenda que não participo de qualquer aliança contra o coronel. Por mais que insista em oferecer proteção, não tenha dúvida alguma de que não farei vista grossa para o seu lado. — ele parou e sentenciou: — Não fui comprado. Entendeu?

       O recado fora dado, concluiu o policial.

       — Não precisa esfregar na minha cara a sua integridade, eu sei quem você é, e por isso mesmo ainda é o delegado da cidade. Se fosse corrupto, nesse momento, estaria ao lado do coronel planejando uma forma de se livrar de mim. — comentou com um estranho senso de humor e, voltando-se para Karen, perguntou: — Quer trocar de roupa?, você está um trapo.

       Ela buscou a resposta com Rodrigo. E já era a segunda vez que Thales percebia uma mudança em seu comportamento. Impressão ou não, parecia que ela começava a desenvolver os primeiros sintomas de uma doença chamada dependência emocional.

       — Não sabe mais pensar por si mesma? — provocou-a.

       Foi Rodrigo que interveio antes que Karen respondesse torto:

       — É melhor que aproveite a carona. Não sei que horas sairei daqui.

       Karen cogitou permanecer ao seu lado. Temia que o resultado na sala do veterinário não fosse positivo. Porém, Rodrigo precisava pôr os pensamentos em ordem para, depois, sim, executar o que decidisse. Ele deixou-se ser abraçado sem se erguer do sofá nem lhe ofereceu a boca para ser beijada. Podia interpretar de várias maneiras tal gesto. Preferiu apenas não julgá-lo.

       Quando os dois se afastaram, o delegado exalou o ar dos pulmões, cansado demais. Ele não se sentia à vontade com Karen quando Thales estava por perto. A bem da verdade, sentia-se um estranho no ninho. Observou-os atravessar o corredor, lado a lado, até a porta de saída. Ainda havia entre eles a permissividade que somente os anos de intimidade proporcionavam.

         

       Acordou de um sono profundo. Espreguiçou-se espichando as pernas nuas e rolou para o lado vazio, enterrando o rosto na fronha do travesseiro de Franco. Deviam fazer um perfume com esse cheiro, constatou sorrindo ainda sonolenta. Percebeu que estava livre dos enjoos e louca de fome. Mas lembrou também de não ter deixado comida pronta para Franco aquecer no micro-ondas. Estalou a língua no palato irritada consigo mesma e obrigou-se a sair da cama.

       Por mais que quisesse se alimentar, ainda se sentia mole e com preguiça. Enfiou os pés numa rasteirinha e postou-se diante do espelho. Ajeitou com os dedos o cabelo curto e sorriu satisfeita ao se admirar no pijama curto, cor-de-rosa, um tanto infantil. Ficou de lado e forçou a coluna para frente e viu apenas um leve inchaço no baixo-ventre. Em algumas semanas, sua barriguinha já seria visível. O corpo magro e pequeno igual ao de um garoto de 14 anos, que antes tanto a desgostara, colaboraria enfim ao expor sua gravidez já nos primeiros meses.

       No corredor distinguiu duas vozes masculinas vindas de fora. Parou e prestou bem a atenção. Reconheceu a de Franco, baixa, pausada; a outra era a de Bronson. E eles deviam estar à porta da sala debaixo do avarandado. Mordeu o lábio incerta se deveria manter-se escondida para ouvir sobre o quê conversavam, como no tempo em que era de fato uma jornalista atrás de um furo de reportagem ou se deveria seguir calmamente seu caminho em direção à geladeira.

       Ao entrar na cozinha deparou-se com a mesa preparada para o almoço. Entre os pratos um refratário com tampa. O cheiro que exalava de dentro era tentador. Destampou-o, libertando o vapor do ensopado de carne com legumes; a tigela com arroz branco ladeando a com salada verde.

       Ela reconsiderou os dotes culinários do futuro marido. Ele sabia fritar ovo sem furar a gema e esquentar pão com manteiga na frigideira. Nunca precisara cozinhar, comendo a comida da governanta da fazenda ou em restaurantes com o patrão. 

       A resposta para desvendar o enigma veio quando se aproximou da pia para pegar um copo e na lixeira estava a embalagem de um restaurante. Ela admirou a praticidade do seu homem ao mesmo tempo em que o viu entrando na cozinha com ar reflexivo. Por certo digeria um alimento pesado.

       Ao vê-lo ameaçou um sorriso de satisfação que só não vingou porque Charles Bronson existia.

       — Seus roncos são tão lindos quanto você, minha dona. — disse, puxando-a para um abraço prolongado.

       Ele precisava dela. Esperaria que Franco tomasse a dianteira para se abrir. E foi o que aconteceu:

       — O Bronson veio me chamar de volta.

       — É mesmo? — afastou-se ao perceber o tom entristecido na voz.

       — É, “ele” me quer de volta.

       A ênfase no “ele” referia-se ao pai e ex-patrão.

       — O que pretende fazer? — sondou-o.

       Ele deu de ombros e a trouxe ainda mais para si, beijando-lhe o topo do crânio.

       — O que acha que devo fazer?

       — Amor, olha aqui pra mim. — pediu, e ele se afastou centímetros para observá-la, mantendo-se à espera do que ela continuaria a dizer: — Me diz o que o impede de tornar a se aproximar do seu pai?

       Ele não mexeu um músculo ao responder sem rodeios:

       — Ele quer apenas o chefe da segurança de volta.

       — Por quê?

       — Atiraram contra a casa do Rodrigo. — ele adiantou-se ante o seu olhar assustado: — Está tudo bem, acabei de vir de lá. Acontece que os tiros partiram dos pistoleiros do coronel e parece que o patrão pretende montar uma ofensiva contra o Marau. Eles sempre foram inimigos e, agora, com esse atentado contra o delegado, o patrão deve achar que é uma afronta a ele próprio. Matarana inteira sabe que o Rodrigo é um dos protegidos do meu pai... — ele parou e corrigiu-se: — do meu ex-patrão. O Bronson também acredita nisso, que em vez de atacar de frente a parte mais poderosa, o coronel pretenda fulminá-lo através dos seus protegidos... ou talvez seja mera provocação, como o Dolejal está fazendo com o coronel Rodrigues, comprando as suas terras e pondo os índios a viver nelas. Além disso, — suspirou pesadamente e acrescentou: — o Bronson está com os Panarás, e uma tal de Virgínia é quem agora o acompanha como segurança pessoal, isso significa que mais do que nunca, não é a minha presença que ele quer ou que sente falta; é o meu trabalho que faz ele me chamar de volta. Sabe aquela frescura para a qual fomos convidados a ir, lá no clube campestre?

       Nova fez que sim com a cabeça.

       — Acabei de saber que o meu primeiro trabalho é cuidar da segurança do evento com o Rodrigo e a mulher que vai organizar a tal entrega de troféu. — entortou o lábio com desgosto.

       — Ainda há tempo para ir à entrevista no Armazém, o salário é bom e não me parece mais arriscado que chefiar uma ação criminosa contra um fazendeiro.

       Franco precisou de pouco tempo para considerar a sugestão.

       — É verdade, agora tenho família para cuidar e não posso deixar você e a minha filha na mão. Vou ligar para o camarada do Armazém e confirmar o horário da entrevista. — afirmou decidido.

       Ela o observou se encaminhar para a sala enquanto apertava as teclas do celular. Ainda não estava convencida se ele queria mesmo deixar o pai “na mão”. Aparentemente, parecia um dilema fácil de ser resolvido. Se Nova não soubesse quase tudo sobre o coração daquele caubói. Ela não se sentia nada bem ficando entre os dois, entre pai e filho, entre o criador capaz de tudo para ter outra vez e, talvez sempre, a sua criatura para si, para a tal margem turva do rio — como Franco se referia à sua relação com Thales Dolejal.

       Quando ele voltou e parou entre a mesa e o fogão com as mãos na cintura, a postura displicente e uma sombra de desconfiança no olhar, Nova já sabia que a entrevista fora cancelada. Faltava saber a respeito da mentira inventada pelo entrevistador:

       — Eles decidiram ficar com um rapaz que apareceu por lá hoje pela manhã. Um rapaz, sabe? — indagou num tom de amargura e deboche. — Um cara que apareceu do nada, caiu de paraquedas, com um nome tão estranho que parecia inventado na hora, ainda mais quando gaguejam ao falar... — ele baixou a cabeça e respirou fundo e não era para controlar a emoção ou pôr em ordem os pensamentos. Era somente para pronunciar a sentença: — É inútil continuar vivendo em Matarana se não for como pistoleiro do Dolejal. Todos esses empreguinhos de merda...toda essa gente covarde desistiu de me dar um emprego porque ele não deixou. Não conseguirei trabalho na cidade. Aliás, nem na região. Para me ver livre dele teremos de sair do centro-oeste. — ele se riu com desgosto e ponderou: — É, o idiota do Alberto tinha razão quando me disse que o Dolejal havia pedido para o coronel Rodrigues me contratar... E, claro, foi ele mesmo que pediu para o Rodrigues me demitir. — balançou a cabeça, derrotado.

       Nova precisou se sentar quando a firmeza do assoalho abandonou-a. O medo voltou a assombrá-la como antes, antes de conhecer Franco. Fitou-o com olhos desse medo e encontrou tristeza e ternura nos olhos dele.

       Apaixonara-se por um homem condenado.

 

       Adele recolheu as cápsulas das pistolas no assoalho do avarandado que tomava toda a frente da casa dos Malverde. Um bom número delas jazia acondicionado no saco de evidências. Os peritos de Santa Fé não receberiam o material para análise. Ainda que ela soubesse que haveria outra investigação paralela à oficial, uma peculiaridade de Matarana. Toda ação criminosa era investigada pela polícia e pelos colonizadores. A maior parte dos crimes nem chegava ao conhecimento da polícia, resolvia-se debaixo do sol, ao largo da planície descampada e com a boa sorte dos deuses. Acontece que quase ninguém tinha sorte por aquelas bandas. E era por esse motivo que a produção de grãos da cidade ganhava destaque no mercado do agronegócio nacional: a riqueza do solo adubado com ossos humanos.

       A escrivã recebeu um telefonema do delegado que lhe disse para não se esforçar muito com a investigação. Viviam em uma terra com códigos próprios e bem distantes da benção do Papa. O que acontecia em Matarana ficava em Matarana. Fosse acima ou abaixo do seu solo. Assim, a policial pegou seu saco plástico, entrou na viatura e voltou à delegacia. Antes de dobrar a esquina da segunda via, que levava até a delegacia no centro, recebeu um segundo telefonema do delegado. Sorriu satisfeita com a decisão do seu chefe. Gostava dele e queria-o vivo.

       — A notícia sobre o atentado se espalhou? — ele perguntou, sondando-a.

       — Até agora somente os Dolejal...e, claro, os Marau sabem.

       — Refiro-me, Adele, a alguém do Jornal do Cerrado.

       — O Dolejal proibiu que divulgasse o ocorrido. — garantiu e completou insinuante: — Estou com as cápsulas deflagradas e são muitas, chefe. Pelo menos três ou quatro camaradas descarregaram suas automáticas... Pedimos reforços para Santa Fé?

       — Não.

       — Não?

       — Não. — repetiu e comunicou o veredicto: — É o fim da linha para o coronel.

       Adele sorriu satisfeita enquanto pensava num jeito de sumir com a prova do atentado. O que acontecesse ao coronel não poderia ter ligação com o delegado. E o melhor que poderia acontecer com o delegado era se ligar a Thales Dolejal.

 

       Foi o diabo convencer Valéria Malverde e vó Ninita a se mudarem para a fazenda. Karen quase acabou com a bateria do seu celular e com o seu estoque de argumentos a fim de convencê-las a aceitar o improviso da nova situação.

       Val levou uns bons minutos para se recuperar do choque da notícia, e a primeira notícia que Karen lhe dera fora sobre a rajada de tiros contra ela e Rodrigo. Depois, mais alguns segundos para digerir a informação de que Bonnie fora alvejada e, por fim, a decisão de Thales — com a autorização de Rodrigo, de se mudarem por um tempo para a Arco Verde. Todos. Malverde e Lisboa. De mala e cuia na fortaleza de Dolejal. Era compreensível que lhe fosse difícil assimilar tudo em questão de minutos e, ainda por cima, via telefonia móvel. Por outro lado, Karen não tinha muita paciência para dar explicações. O que devia ser feito, seria feito e ponto final. Bastava aceitar a escolta de duas picapes e quatro seguranças para buscarem roupas e demais pertences na casa onde dois vidraceiros consertavam o estrago das janelas e um PM fazia a sentinela.

       Ao contrário de sua relação com o melhor amigo de Rodrigo, Cris, sua irmã não partilhava dos mesmos sentimentos em relação ao outro amigo, Thales. E não era de agora quando disputavam a mesma mulher. Valéria não escondia de ninguém a desconfiança em relação ao fazendeiro no que tangia sua suposta relação amistosa com o delegado da cidade. Era uma amizade no mínimo interesseira, era isso que ela acreditava. Mas em troca da proteção de sua família, ela tentaria uma postura diplomática e aceitaria obedecer à vontade do seu irmão. Ainda que com os dois pés atrás.

       Vó Ninita, de sua parte, irritou-se com a perspectiva de dormir em um lugar — como ela o classificou, estranho e hostil. Desde que a neta decidira viver com Rodrigo, a esperta senhora suspeitara que o antigo amante de Karen fosse partir para algum tipo de retaliação. Não por sofrimento ou para tê-la novamente por amor. Não, não. Thales Dolejal era virado em ego, ego para todos os lados. E era claro e límpido que não estava satisfeito em ver a “sua” Karen Lisboa com o amigo de longa data. Era oportuno o atentado e o convite para se refugiarem nos seus domínios. Ela podia ver de longe as nuvens se juntando, cada qual com uma forma diferente, aproximando-se devagar até exaustas de água explodirem sobre a cabeça de todos. E isso nada tinha a ver com as estações do ano. Por fim cedeu à pressão de Karen com um rosnado baixo e a firme intenção de manter seus olhinhos argutos na nuca do fazendeiro. A neta precisava de paz, paz de espírito, e somente a conseguiria se mantivesse Rodrigo ao seu lado, e não um narcisista egocêntrico.

       O ditado “os últimos serão os primeiros” cabia na situação como dez lutadores de sumô dentro de um Fiat 147. Assim, Johnny apenas foi avisado de que suas roupas, materiais de aula e jogos do computador haviam sido transferidos para outro endereço. Ele não perguntou para onde. E quando uma das camionetes da Arco Verde parou em frente a sua escola, entrou nela e afivelou o cinto. Bronson foi o encarregado de buscá-lo, justamente porque ambos se conheciam de outros carnavais. Ao passo que Sabrina foi a única que ficou encantada com a situação. A opinião que tinha sobre Thales era a de que ele era um coroa bonito que tinha um filho lindo e doido. Mais nada. O resto eram histórias sobre sua relação maluca com Karen ou os confrontos com o coronel. Na verdade, ele não significava merda nenhuma pra ela, mas o fato de morar por um tempo em uma fazenda de luxo soava-lhe como férias em abril. Não era a sua realidade de verdade, ela não era ingênua. Porém, um pouco de ilusão não custava nada ao coração.  Apesar de que para curtir as suas férias no paraíso o tio quase levara bala e Bonnie quase fora morta. Sentia-se culpada por pensar de modo fútil diante de uma circunstância tão grave. Era evidente também que sua maneira de pensar não alteraria os fatos. Problema então resolvido.

       No final das contas, Karen concluiu que os Malverde e os Lisboa eram muito parecidos. As duas famílias aceitavam a proteção de quem não confiavam.

       Quando deu por si, a Silverado estacionou diante da casa de Nova. O comboio com outras duas camionetes ladeou o veículo de Thales. Ele fez um meneio de cabeça para os seguranças, e eles leram a ordem de permanecerem onde estavam.

       — Acha que a Nova está correndo algum risco? — perguntou Karen, preocupada.

       O fazendeiro girou a chave na ignição e desligou o motor. Virou-se para ela com um olhar divertido:

       — Sim, claro, engravidar de um pistoleiro para prendê-lo num casamento é um grande risco. — debochou.

       — Ainda mais sendo seu filho. — desferiu, acrescentando um sorrisinho maldoso.

       Ele riu baixinho e acrescentou a título de informação já se preparando para descer e seguir adiante:

       — O Franco está se fazendo de difícil como o adolescente que é.  A culpa é minha, sempre o criei solto na fazenda, sem regras e disciplina. Nunca impus limites nem ao menos lhe dei uma palmada na bunda. Mesmo não sabendo que era meu filho legítimo, ainda assim, era a única criança que frequentava a minha casa...

       — E ainda o resgatou da estrada, era a sua responsabilidade educá-lo. — ela interrompeu-o, pensativa: — É incrível como nunca percebeu a semelhança entre vocês dois.

       Thales a olhou fixamente.

       — Mas você percebeu e correu para dar a boa notícia a ele, não é mesmo?

       — É verdade, adorei dizer ao vira-lata que o seu paizinho era um cachorrão com pedigree. Você perdeu uma bela cena, Thales, o Franco quase teve um surto psicótico. Me diverti muito! — mentiu. À época ela mesma quase tivera um infarto, Franco ameaçando-a expulsar da cidade a mando de Thales, dentro do seu quarto, sorrateiro e maldoso.

       Ela percebeu o dar de ombros sutil dele e, em seguida, viu-o fechar a porta. Desceu para acompanhá-lo. Talvez precisasse proteger a amiga do veneno de seu futuro sogro.

       A porta da casa escancarada e o diabo encostado contra a soleira, os braços cruzados em frente ao peito, a aba do chapéu quase lhe tapando os olhos, a boca apertada numa linha dura e obstinada. Não mexeu um músculo ao reconhecer o pai. Talvez porque seus músculos estivessem retesados o suficiente para paralisarem-no. Medo? Jamais. Essa palavra fora banida de sua existência desde que vira a mãe debaixo das rodas de uma carreta.

       Ele estava imóvel era diante da expectativa do confronto com a única pessoa que amava e odiava na mesma medida. Devia tudo àquele homem que se aproximava devagar como um felino até a sua presa. Não era um ingrato. Afinal, fora aquele homem com ar altivo que o tirara do abandono, de viver sozinho vendendo laranjas roubadas à beira da 163. Ele o salvara. Ele dera-lhe a vida e a seta do destino em suas mãos. Um teto sobre sua cabeça e uma mãe emprestada que fazia a sua comida preferida. Ele o ensinara a se proteger e a atirar, pusera-o no meio dos pistoleiros, e eles também o criaram. Ele lhe dera um trabalho e, mais do que trabalho, ele o tornara à sua extensão, sombra, protetor. Um protegera o outro. Dois camaradas carentes tateando os bolsos de suas almas à procura do sentido, do sentido de amar quem não queriam amar. Porque Franco acreditava na injustiça de se manter um filho legítimo como empregado de fazenda fugindo da morte encomendada pelo próprio pai, e porque Thales jamais perdoaria a dupla traição. Franco dormira com Karen. Com tantas mulheres na região. Franco dormira com a única que não devia ter dormido. O mais leal e dedicado dos seus pistoleiros — o seu filho, sangue do seu sangue, e a vontade de vê-lo de joelhos, implorando por um amor que duramente fora enterrado com várias pás de terra.

       — O Bronson me passou o recado. — antecipou-se Franco, ainda na mesma posição, mantendo a postura do “caubói entediado”.

       — Como vai? — saudou-o com polidez o ex-patrão.

       — Se Matarana não fosse a pior cidade do mundo, eu estaria muito bem. — retrucou com azedume.

       — Peço perdão por não ter construído uma cidade mais agradável para você nascer. Apesar de que sua noção de mundo não é muito ampla, não é mesmo, Franco? — ironizou.

       — O meu mundo é o que os meus olhos alcançam mesmo quando estou longe. — filosofou de forma displicente.

       Thales endereçou um olhar divertido para Karen, como se dissesse: esse guri fala cada merda! Ao que ela intercedeu:

       — A Nova está em casa?

       — Sim, lá dentro. — respondeu desinteressado, já que sua atenção estava voltada para os homens dentro das camionetes. — Eles não são da Arco Verde. — afirmou quase como uma acusação.

       Thales assentiu levemente, voltou-se e encarou o seu pequeno bando, respondendo com bastante placidez:

       — Bem observado, Franco. Esse pessoal é da Lagosta do Brejo e outros virão de lá também. Em breve, teremos quase quarenta pistoleiros esfomeados por ação e, claro, por dinheiro. Todos sob a sua chefia. — encarou-o fundo nos olhos: — Retorne ao seu lugar de origem e de onde jamais deveria ter saído, filho.

       Era apenas essa palavra que faltava para trazê-lo de volta, para que Franco baixasse a guarda e retornasse à sua vida de antes, sua vida de diabo encarnado. Era com isso que Thales contava, apelando aos sentimentos do rapaz.

       Acontecia apenas que Franco não era mais um rejeitado e tampouco carente. Havia algum tempo que ele encontrara uma mulher que o amava. Bem, — Franco considerou as palavras ouvidas por alguns minutos, encarando o seu progenitor no mesmo nível — ele estava duro, queria casar e dar uma boa vida para a mulher que amava...

       — Me torna gerente da Lagosta do Brejo. — lançou a proposta como um desafio.

       Thales nem piscou.

       — Não, Franco. Quero você debaixo dos meus olhos, e a Lagosta do Brejo fica bem longe daqui. — fez uma pausa, sorriu de um jeito como se somente ele soubesse sobre um segredo e, depois, fez uma perigosa promessa: — Você terá a Coração de Ouro.

         

       — Como vai, Smurfette? — saudou-a Karen com um sorriso jovial.

       Nova impulsivamente jogou-se nos braços da amiga e apertou-a com força.

       — Como puderam atirar contra vocês? — perguntou, desolada.

       — Atiraram contra a casa, amigona. Acho que a intenção era apenas a de nos assustar. Se quisessem dar cabo da gente, teriam entrado e feito o serviço.

       Karen ainda estava aturdida com aquele abraço espontâneo, retribuiu o carinho meio que sem graça. Depois, riram nervosas. E Nova perguntou sobre Rodrigo.

       — Ele está péssimo. — balançou a cabeça devagar, suspirando profundamente: — Acertaram um balaço na Bonnie e ela perdeu bastante sangue.

       — Que merda!, ele  é doido por ela. Para o Rodrigo, a Bonnie não é só um cão, é mais como uma filhinha.

       Karen puxou uma cadeira e sentou pesadamente.

       — E eu não sei? O Prefontaine já está em uma das baias da Arco Verde bem protegido. Ô diabo se tocarem num fiapo de crina dele, parto pra ignorância! — desferiu com severidade.

       A noiva de Franco pegou um prato e começou a enchê-lo de comida.

       — Garanto que ainda não almoçou.

       — Ô mãezona, não estou com um pingo de fome. Quero saber mesmo é como você está com essa pessoa aí dentro e com o doido do seu noivo lá fora? — indagou ela de um jeito engraçado apontando para a barriga da amiga.

       Nova arou o cabelo curto com os dedos, olhou ao redor à procura das palavras certas e então apenas disse o que resumia toda a situação:

       — Acho que nada mudou.

       Karen escorou os cotovelos sobre a mesa e fez um gesto com a mão para que a outra também se sentasse.

       — Ele está lá fora com o Thales. Estão planejando uma ação de arrasar. — depois, baixou o tom de voz e confidenciou serenamente: — Sabe, amigona, eu posso evitar esse derramamento de sangue. Não quero que o Rodrigo se machuque, e tampouco que você fique sem o seu psicopata.

       — Como assim? — perguntou, desconfiada.

       — O Vitorino. — ajeitou-se na cadeira e revelou: — Ele é o cara que organiza as corridas de cavalo. E, além disso, é o braço direito do coronel. Digamos que o Vitorino, para o coronel, equivale ao Bronson para o Thales, e isso significa que quem está por trás desses atentados é ele, a mando, obviamente, do balofo de bombachas. — concluiu com um arquear de sobrancelha. — Vou preparar uma bela emboscada para esse filho de uma égua manca e cegueta. Pode deixar! E sabe o que acontecerá depois? — sem esperar pela reação de Nova completou com um sorrisinho: — Não faço a mínima ideia. Só que tenho de barganhar com o coronel. Não quero minha gente sendo vítima desse safado!

       — Esse cara é muito perigoso, Karen. — ponderou a outra, mordendo o lábio inferior um tanto preocupada com a obstinação da amiga.

       — Sim, ele é perigoso, anda armado, matou sei lá quantas pessoas e continuará matando se não dermos um basta. Mas tem uma coisinha que o enfraquece... ele é humano. E por isso mesmo deve ter uma etiqueta bem bonitinha na nuca com o seu preço. Não vejo o Vitorino montado numa picape último modelo nem vivendo em um casarão em suas próprias terras. Assim, se por acaso o coronel não se importar com um de seus braços, a gente negocia diretamente com o membro em questão. A gente compra a lealdade do pistoleiro. — ela sorriu autoconfiante. — Afinal, o Vitorino não faz parte da seita Dolejal, não é mesmo? Então pode ser muito bem comprado e delatar todas as imundícies para o nosso delegado.

       Nova considerou o que acabara de ouvir. Parecia uma boa estratégia. Teoricamente, poderia dar certo. Os funcionários do coronel não eram leais como os de Dolejal. Pedro, o aliciador cara de cavalo, ainda mofava no presídio de Santa Fé. O coronel era conhecido por abandonar os seus antes que lhe prendessem o rabo. E a recíproca era verdadeira. Vitorino, sim, tinha um preço e poderia ser comprado por Thales. Após a negociação, era provável que ele cantaria até o hino nacional para Rodrigo. E depois? Processo judicial de anos? Proteção à testemunha?, já que Vitorino não estaria mais seguro em Matarana. O braço direito do coronel aceitaria piorar de vida? Agora Nova não estava mais tão certa sobre a eficiência do plano de Karen. E disse tudo isso a ela, que simplesmente respondeu:

       — Eu pego o homem, apenas isso. Talvez o Rodrigo ou o Thales tenham ideias melhores sobre o que fazer com o pacote.

       — Pacote?

       — É, tenho que usar a gíria das ruas. — justificou-se de um jeito engraçado.

       Nova riu baixinho, ainda que estivesse nervosa com a possibilidade de ter diante de si uma futura sequestradora de pistoleiro matador. Tentou uma última alternativa:

       — Acho que seria melhor contar tudo ao Rodrigo sobre o Vitorino e deixá-lo fazer o seu trabalho.

       Karen então lhe endereçou aquele olhar de fulminar como um raio.

       — Jamais. Não sei se o Vitorino quer matar o Rodrigo ou coagi-lo a ficar do lado do coronel e não vou arriscar a sua integridade física pondo um diante do outro. A não ser que o pistoleiro esteja bem amarrado. Essa briga é minha, Nova! Mexeu com homem meu, mexeu comigo!

       — Quer dizer, mexeu com a população masculina de Matarana, mexeu com você.

       Quando ela se ergueu, a cadeira caiu para trás. Encarando os olhos sarcásticos de Franco, Karen mal percebeu que fechara os punhos.

       — Se vai atacar a minha mulher, eu ataco a sua. — a voz de Thales soou calma e firme enquanto a sua presença, seguida atrás do filho, impunha-se como um gigante. Ele cruzou a cozinha e esticou o braço para cumprimentar a nora: — Como está, senhorita Monteiro? — indagou polidamente.

       Ela sentiu um calafrio cruzar-lhe a espinha. Fosse pelo tom da voz sempre sereno e corrosivo, fosse pelo olhar  sarcástico e ligeiramente desafiador, fosse pela sua importância na vida do homem que ela amava — Nova ainda o temia.

       — Estou bem, senhor Dolejal. — respondeu, observando de esguelha o enfrentamento silencioso entre Karen e Franco, próximos o suficiente para se morderem a qualquer momento.

       — O fato de ser um Dolejal não muda o que você é, Franco, — Karen falou baixo o suficiente para que todos sentissem a força daquelas palavras: — um desajustado, um perdido e um pau-mandado. Mais do que isso somente aos olhos da Nova, que vê bondade e beleza até onde Deus fez cagada.

       Franco avançou um passo e parou. Mantinha a sombra de um sorriso, visto que ainda se dedicava à adoração do caos. A fúria reprimida da mulher à sua frente chegava-lhe como energia pura, elétrica, que o abastecia ao ponto de viciá-lo. Ele queria que ela fosse um homem para rolarem no chão até se queimarem ao sol do meio-dia na estação do estio. Mas Karen era uma mulher. Por mais que fosse uma vaca.

       — Como está o seu namorado Rodrigo, ô dona vaca louca? — indagou sempre sorrindo.

      Karen fechou o punho com força e desferiu-lhe um soco. Que atingiu o ar. Numa fração de segundo, dois braços puxaram-na para si, contra uma estrutura encorpada firme. O cheiro suave da colônia amadeirada penetrou-lhe as narinas e o reconhecimento foi imediato. Thales a conteve como Rodrigo o fizera dias atrás.

       — Guarde sua munição para o inimigo, Franco. Não podemos fragmentar a nossa força, e vocês dois são os meus melhores soldados. — afirmou incisivo, apertando dois braços que traziam contra sua virilha um belo traseiro. A carne dela o excitava. O cheiro dela o entontecia. Puxou-a ainda mais para si, a mão aberta sobre o ventre, a quentura da pele sentida através da textura fina do tecido da camiseta. Pegava fogo por dentro, mas nada em sua face e voz o denunciava em chamas: — Além do mais, — completou insinuante: — não quero que a filha de um renomado desembargador mineiro pense que não somos civilizados.

       Karen quase sorriu com prazer ao ver a reação de Franco. Ele se voltou para a noiva aturdido, os olhos estreitaram-se como se tentasse compreender o que a recente informação significava. Era evidente que Nova pouco falava sobre sua família e sua antiga vida em Minas Gerais. Eles viviam o tempo presente. Fato interessante, considerou Karen, ignorar o passado e a origem como um modo ingênuo de proteção. Tanto a vida detrás quanto a da frente sempre davam um jeito de cobrar os seus moradores.

       — Não sabia que sua futura esposa vem de uma tradicional família mineira? — continuou Thales, agora, entretido em brincar com os sentimentos do filho, ao mesmo tempo em que aceitava o ligeiro afastamento da mulher entre os seus braços: — Tive de investigá-la, senhorita Monteiro. Sinto muito, mas é assim que agimos por aqui. Fiquei surpreso ao descobrir que inclusive há uma avenida em Belo Horizonte que leva o nome de seu avô paterno. Entendo agora que a sua relação com meu filho seja puramente afetiva, baseada no sentimento que for, isso não me cabe julgar, apenas Franco. Seja bem-vinda então à minha humilde família e mande lembranças a Sua Excelência. — finalizou com uma ponta de ironia e uma piscada de olho que acentuou o teor da revelação.

       Ele puxou Karen pelo braço depois que ela endereçou um olhar significativo a Nova. Voltariam a se falar, com certeza, a respeito da ideia de pegar de jeito Vitorino. Mas não naquele momento. Quando a poeira abaixasse, a poeira da revelação sobre a família de Nova, Karen convidaria a amiga para um passeio no Ford. E esse dia seria logo após o próximo.

 

       A noite Shania Twain sempre lhe rendia um bom dinheiro. Atrás de si, no palco, quatro músicos que trabalhavam no comércio em empregos de lascar. Eles tocavam com paixão e por um módico cachê. Isso realmente não importava. Valia a pena era estar naquele palco improvisado diante de mesas barulhentas, as pás dos ventiladores girando no teto, os janelões arreganhados exibindo a escuridão da rua, o balcão rústico de madeira, longo, à entrada do Bar do Gringo. Um coração country batia ali, entre as costelas de alvenaria e o assoalho riscado com as marcas das botas. E talvez somente a cantora e os caras da banda pudessem ouvi-lo. O resto enchia a cara com cerveja e a barriga com petiscos.

       Não raras vezes Nova se voltava para o guitarrista e cantava de costas para o público, envolvida pela canção e insultada pela indiferença. No entanto, em algumas noites a plateia ficava realmente em silêncio, quase em santificada quietude. E ela podia cantar Parton, Wynette ou Fafá de Belém. Ninguém dava um pio, olhos fixos no palco, copos depositados suavemente sobre as mesas. O Gringo adorava. A presença do diabo loiro no recinto explicava tamanha consideração para com a cantora e a banda. Em uma dessas ocasiões, diante da barulhada infernal, o pistoleiro sacara sua Glock e dera um tiro para o alto. Bocas fecharam-se e olhos procuraram a origem do estampido seco. Encontraram dois olhos azuis que desafiavam quem fosse a continuar a ignorar a cantora e a sua música. Com o passar do tempo era visível a atitude dos frequentadores do Bar do Gringo ao observarem com atenção se o diabo loiro estava na cadeira em frente à mesa de canto — o seu lugar habitual, ou se tão-somente deixara a noiva no seu local de trabalho para buscá-la perto da meia-noite, antes do bar fechar.

       Nova sinalizou para o baterista ao finalizar Don’t, a penúltima canção da lista do repertório da Noite Shania Twain, sorriu de leve e se voltou a fim de encaixar o microfone no pedestal. Fez uma careta engraçada ao perceber que o público estava bastante agitado em suas mesas. Talvez fosse o momento de cantar algo menos suave e romântico ou esperar que Franco retornasse do banheiro.

       Discretamente cutucou com o antebraço o baixista e falou meio se rindo:

       — Olha só, daqui a pouco teremos a atenção hipnótica do pessoal.

       — Será que se aumentarem o couvert, eles perceberão que o som não é mecânico? —indagou com azedume.

       Era uma dureza dar o melhor de si para quem esperava menos que isso, considerou Nova, entendendo a frustração do outro.

       A cantora consultou o playlist perdendo a concentração ao notar que era observada. Ergueu a cabeça já estampando um sorriso no rosto e encontrou quem o seu coração sabia que encontraria. Franco avançava lentamente por entre as mesas, talvez para marcar a sua presença diante dos clientes do Gringo ou para ganhar tempo e paquerar a sua noiva. Ele vinha para ela com o seu andar ligeiramente gingado, a aba do chapéu caída para frente e uma fresta dos olhos, cúmplices e maliciosos, fincados nos dela. Ao se postar no seu lugar de costume, tirou o chapéu e o pôs sobre a mesa. Mantinha um sorriso de lado que, além de torná-lo ainda mais lindo, emprestava-lhe um ar de moleque travesso. Por isso foi fácil escolher a próxima canção, e ela começou From  This  Moment  On. Somente para ele, não havia mais ninguém naquele lugar no fim do mundo, não havia mundo. Havia mais do que um mundo. Franco.

      Era uma declaração de amor, uma prece ou um hino ao seu amor por ele. Cantou como se rezasse ao seu deus, ao deus com o qual dormia, acordava, se alimentava e para o resto de sua vida pretendia venerá-lo.

       Franco entendeu a mensagem e aceitou de bom grado a oferenda. A voz de Nova entrava pelos seus ouvidos e enchia o seu coração de uma energia que o tornava indestrutível. Voltara da morte para viver aquele amor. Não havia outra explicação. Salvara a vida do pai ao receber o tiro em seu lugar. Morrera por alguns minutos. Talvez tenha morrido por ele naqueles minutos. Entretanto, retornara à vida porque Nova, naquela mesma época, chegava a Matarana. Para ele.

       Quando a música terminou, o silêncio. Ela captou essa lacuna do vazio como algo distante, já que estava dentro dos olhos azuis do homem que não sorria mais.

       Franco engoliu em seco. Tenso e expectante. De repente percebeu o absurdo da situação. Ele não voltara à vida por ela. Ele acabava de perceber que era a sua vida que se construíra, através da rejeição e da carência de afeto, para ser redimida e salva por ela.

       Os aplausos irromperam a partir de uma palma, que foi acompanhada por todos os frequentadores do lugar. Até mesmo o Gringo, atrás do balcão, comoveu-se com a apresentação da sua cantora. Limpou os olhos cheios d’água com um guardanapo de papel.

       Nova sentiu o sangue subir às bochechas. Jamais fora aplaudida em suas apresentações no bar. Envergonhada e, ao mesmo tempo, intimidada pela situação, encurvou-se ligeiramente em agradecimento à plateia eufórica. Sorriu sem jeito e escapou do palco pela escadinha lateral.

       Franco afastou a cadeira para ela sentar e voltou a ocupar o seu lugar. Ele ainda estava sério, porém era um tipo de seriedade de quem acabava de ter um insight. Antes, tinha plena certeza sobre a importância daquela mulher pequena, carinhosa e leal que o olhava com olhos de seguidora de seita. Agora, contudo, descobria que era impossível viver sem ela.

       Como era um Dolejal e temia perder o controle da situação, não importasse qual situação fosse, começou a fazer besteira.

       — Então ainda não falou para sua família sobre mim? Vai esperar o baile de debutante da nossa filha?

       Ela não esperava que depois de uma paquerada altamente erótica, seguida por um olhar carinhoso, viesse uma facada. Quase beijou a garçonete ao vê-la se aproximar com um bloquinho na mão:

       — Quer beber alguma coisa, minha diva? –– perguntou a morena com bom humor.

       Nova tentou sorrir, ainda que sentisse um par de olhos fixos sobre si exigindo-lhe uma resposta à altura de sua importância e da importância do que os dois viviam.

       — Suco de laranja, Maíra. Obrigada.

       Ela anotou o pedido, voltou-se para Franco e falou:

       — Caramba, moço, você faz um bem danado para a nossa cantora, viu! Benzadeus! —exclamou com um sorriso amplo.

       — Acha mesmo?  — perguntou ele com indiferença e completou fitando a noiva: — Me sinto mais como uma joia guardada no fundo de um baú velho para ninguém ver que é falsificada.

       Maíra endereçou um olhar intrigado à Nova que, em resposta, apenas deu de ombros. Não queria se prolongar em explicações e justificativas. Franco era assim mesmo, um homem de fases.

       A garçonete entendeu a mensagem silenciosa. Era possível que já tivesse passado por sua vida um carinha complicado e cheio de charme, que recebesse um elogio como uma bajulação ou ofensa disfarçada. Voltou-se para o caubói de cara amarrada e fez o seu serviço:

       — Vai beber o quê?

       — Cerveja, como sempre.

       Quando a garçonete se afastou, Nova tentou pegar a mão de Franco. Ele não deixou.

       — Você está comigo, grávida de mim, estamos noivos e vamos nos casar. — começou, enumerando cada item com os dedos e continuou, agora, escorando-se displicentemente contra o encosto da cadeira: — Em relação a todas essas mudanças na sua vida, os seus pais sabem sobre o quê? Ou eles pensam que ainda vive com o doutor?

       Ela engoliu em seco.

       — Não contei nada.

       Do outro lado da mesa ele fez um barulho parecido com um rosnado baixo. Era possível que o sentimento de eterna rejeição o cercasse sutilmente.

       — Não posso condenar você por ter vergonha de me assumir para os seus pais, ainda mais para uma família importante... Fico imaginando que o seu pai terá um treco ao saber que trocou um médico por um merda. Espero que pelo menos eles tenham outros filhos para se ocuparem...

       — Sim, minha irmã que está em Paris. — respondeu com naturalidade.

       — Puta merda, Nova!, — exclamou baixinho — Se você fosse minha filha, eu vinha até Matarana te buscar de volta pra casa.

       — É mesmo? Só que eu tenho 34 anos, não sou uma adolescente descabeçada e também não sou obrigada a enviar um relatório para Minas a cada mudança na minha vida. — ela parou, irritada. Precisou respirar fundo para continuar com desdém: — Além disso, o Cris já deve tê-los informado direitinho.

       — Claro que sim. Já que você não fez a sua parte, coube a ele fazer a dele. — ironizou. — O que aconteceu entre nós não estava em seus planos, não é mesmo? Veio para cá com a intenção de fisgar de vez o doutor. Talvez até com o aval de sua família...Mas eu sou um besta ingênuo que me enfiei na sua frente como se você fosse alguém de Santa Fé ou daqui mesmo, uma mulher comum que tivesse disposta a ter uma vida comum com um camarada que esqueceu quase tudo que aprendeu na escola. Eu sou um trouxa, sabe, Nova? Nunca vi o que percebi hoje, quando o patrão falou sobre o seu pai ser um figurão, que você é muita areia pro meu caminhão. Não é isso que falam? Pois é a verdade dos fatos, dona. Jornalista combina com médico. Ou conhece alguma jornalista casada com pistoleiro?

       — A gente precisa dessa merda toda? Falo sério, Franco. A gente precisa falar essas coisas um pro outro? Faz parte do nosso amor ficarmos nos machucando por tão pouco? — ela fincou os cotovelos na mesa, aproximou o rosto e perguntou sagazmente: — E o senhor, me diz, quando falou para o seu pai sobre a minha gravidez e o nosso casamento?

       — Ele é o meu patrão. — afirmou enfático. — Não tenho família.

       — Não, Franco, o Thales é o seu pai. E tenho certeza absoluta de que o seu pai só soube sobre nós através dos outros. E sabe por quê? Porque você também não gosta de dar satisfações sobre a sua vida a determinadas pessoas. Então não comece a me pôr contra a parede e vomitar os seus recalques. Para isso existe terapia. — ela falou sem elevar a voz, os olhos cheios de lágrimas que não transbordaram.

       Ele sorriu sem jeito, baixou a cabeça contemplando as próprias mãos e tornou a fitá-la.

       — Também não precisa me xingar. — resmungou com um meio sorriso envergonhado.

       — Conseguiu estragar a minha noite. Pede a conta e vamos para casa.

       Franco segurou-a pelo pulso antes de ela se levantar para sair.

       — Me perdoa, princesa. Não sei o que me deu. — lamentou.

       Ela voltou a se sentar meio que a contragosto. Sabia o que havia acontecido. Por isso voltara a se sentar. Franco fora influenciado pelas palavras venenosas do pai. Thales ainda o dominava terrivelmente.

       — Olha para mim, Franco. — pediu e foi atendida: — O que você vê? Uma estranha que não conseguindo conquistar um antigo amor optou pelo primeiro camarada que estava à mão? Ou uma mulher que cansou de correr atrás de uma furada e teve muita sorte de encontrar o amor verdadeiro? O que é real, a parte que o seu pai o induz a ver ou a parte que somente você vê? Com quem você dorme? Com quem fez um filho?

       — Me perdoa, não sei o que dizer... Sou um cara sortudo demais, é verdade. Você me deu tudo, princesa, e eu, porra!, já estou fazendo merda. Tem que ter paciência com o tosco aqui, sabe disso, né? — falou balançando a cabeça cheio de vergonha: — E ainda por cima nem homem direito sou, não consigo transar com você... Tento, quero, quero muito, mas aí penso na testa da nossa filha e...não dá, não dá...

       — Que testa, Franco? O nosso bebê tem o tamanho de uma ervilha. — afirmou incisiva.

       — Que seja , mas você pode abortar. Temos de resolver isso também.

       — Para de se torturar! — exclamou, pegando-lhe a mão e emendando com ternura: — Não sei mais como fazê-lo entender o quanto você é importante pra mim. Sei que o seu passado é poderoso, mas, agora, o que importa é um dia depois do outro, e ficaremos juntos para sempre.

       — É certo que sim, moça. — disse, pregando os olhos sérios nos dela; em seguida, considerou com bom humor: — O Bronson sempre diz que eu não sou um camarada fácil. É essa maldita genética estragada.

       — Você é um doce, Franco.

       A garçonete chegou e depositou os copos sobre a mesa. Piscou o olho, cúmplice, para Nova e saiu.

       — Quero ficar bem perto de você hoje, Nova. Se eu fizer bem devagar e com cuidado, acho que não teremos problemas, né?

       Ela sentiu um risco de fogo alcançar-lhe cada vértebra.

       — Como assim, Franco? Não entendi. — fingiu, molhando as palavras no licor de cereja.

       Ele captou a intenção e retomou, falando com a voz arrastada como se já estivessem na cama:

       — Se por acaso eu fizer amor bem devagar, provando o seu gosto antes de me aconchegar dentro de você... se por acaso eu não resistir e for um pouco agressivo, terei de parar e recomeçar, até encontrar o ritmo certo para levar a dona comigo para aquele lugar que a gente é um só...quando entro em você, Nova.

       Ela ficou sem ar.

         

       Duas horas da madrugada, e Val rolava na cama. Desacostumada ao colchão, à suíte e ao ambiente silencioso da Arco Verde. Havia apenas o barulho suave do açude e de alguns pássaros. Vez ou outra se ouvia também pisadas na grama baixa ou nos cascalhos. Eram os seguranças fazendo a ronda ao redor da casa-sede. Outras vezes era possível captar sons no interior do casarão.

       O anfitrião comportara-se ao longo da tarde e noite de acordo com o esperado de uma pessoa que viajara pelo mundo e dominava a etiqueta ao lidar com seus hóspedes. Conversara por um bom tempo com a vó de Karen na sala, após lhe trazer um drinque que havia aprendido a fazer em Dubai, conforme dissera com um sorriso polido. Era inquestionável que o poder de Thales Dolejal era o de ouvir e não o de falar, observou Val, enquanto o esquadrinhava durante o jantar e, depois, ao convidar todos para degustarem a sobremesa, um delicioso pavê de sorvete, às mesas ao redor da piscina. Sabrina pulara na água acompanhada por Johnny.

       Era notável também o quanto o fazendeiro era suscetível a qualquer manifestação de Karen, a qualquer gesto ou postura, como se tivesse um radar preparado para captar fosse palavra, suspiro ou torcer de lábio. À mesa, considerou observar inclusive a cunhada. E durante o tempo inteiro ela mais estivera concentrada no celular, tentando falar com Rodrigo ou enviando um milhão de mensagens do que comendo ou conversando com alguém. Fora por ela que Val soubera que Bonnie se recuperaria do ferimento. Motivo de abraços e lágrimas de alívio entre os Malverde.

       Apesar de toda a educação e polidez de Thales, Val ainda se mantinha na defensiva, investigando as suas intenções. Ele nunca tentara se aproximar dos demais membros da família Malverde. Agora posava de bom-moço e tudo o que representava em Matarana e o seu próprio passado eram simplesmente esquecidos. Não para Valéria.

       Ao ouvir os roncos do seu estômago, resmungou baixinho e pulou da cama. Se estivesse na sua casa já teria assaltado a geladeira uma hora atrás. Pôs a cabeça para fora da porta e espiou o corredor na penumbra. Postou-se diante do espelho de corpo inteiro e considerou a roupa que vestia. Uma camisola de malha, comprida até os calcanhares, mangas curtas e gola redonda. Ponderou, incerta, se deveria pôr um roupão por cima, caso fosse pega em flagrante zanzando pela casa. Entretanto, o que poderia haver de sensual ou despudorado em uma roupa que um fantasma internado num hospital vestiria? Era verdade que seus peitões apertassem a malha e a sua bundona também. E em vez de voltar à dieta e aos exercícios nos equipamentos de academia do irmão, o que ela ia fazer? Cometer um assalto à mão armada cheia de dedos contra a geladeira. Deu de ombros indiferente ao levar em consideração o fato de que o seu corpo era saudável e ele não estava no mundo para agradar ninguém, a não ser a vontade de sua proprietária. Vontade que no momento era a de comer.

       As portas dos quartos estavam fechadas e uma nesga de luz melancólica banhava as salas do andar térreo, iluminadas pelos refletores nos jardins e à frente do casarão. Alcançou a cozinha e notou que Irene e as demais empregadas haviam-se recolhido para seus quartos. Sabia que a governanta morava numa casa ao lado do casarão, vivia com o marido e um mundaréu de passarinhos engaiolados.

       Preferiu manter-se no escuro. Abriu a geladeira e buscou com avidez o pastrame que comprara no mercado antes de ser obrigada a se esconder na Arco Verde. Conjecturou que um sanduíche duplo com provolone, requeijão e meia dúzia de azeitonas não mudaria a rotação do planeta nem aumentariam suas gordurinhas localizadas.

       Ao se voltar com os braços ocupados com o pão de forma integral e os potes que recheariam a sua noite de emoção, quase desmaiou e se esqueceu de deixar de sorrir, visto que a antecipação em comer desenhava no seu rosto um sorriso perfeito de satisfação.

       Ela reconheceu o homem vestido no roupão escuro, sentado à mesa, diante de um belo sanduíche e um copo de leite.

       — Esse é melhor horário para se fazer uma boquinha. — disse Thales com um sorriso.

       Sentindo-se uma pateta, Val recuou incapaz de encará-lo.

       — Tudo o que peguei foi comprado por mim. Aliás, a comida no jantar foi feita por mim e pela cozinheira. O que eu não puder pagar com dinheiro, pago com meu trabalho. — afirmou com altivez.

       Thales riu baixinho.

       — Não nega a origem. — disse com ar divertido e fez um sinal com a mão indicando-lhe a cadeira à sua frente: — Sente-se, Valéria, e me faça companhia. Quer que eu prepare o seu lanche?

       — Não, obrigada. — resmungou.

       Ajeitou os mantimentos sobre a mesa e começou o festival de atrapalhadas. Primeiro, a faca caiu. Ela se curvou para pegá-la e acabou puxando a toalha com o prato de Thales. Ele o segurou enquanto via o copo virar e o leite se espalhar pela mesa. Constrangida, Val levantou o copo que escorregou de suas mãos até a ponta da mesa. Pulou para alcançá-lo antes que caísse e, com o impulso, bateu a barriga contra o móvel e gemeu.

       Thales ergueu-se da cadeira aturdido por toda aquela confusão. Segurou-a pelos ombros obrigando-a a encará-lo:

       — Por que está tão agitada, mulher? — perguntou, sério.

       — Quer mesmo saber a verdade ou prefere que eu continue a desempenhar o papel da irmã compreensiva do seu suposto amigo? — perguntou num tom de acusação.

       Ele franziu o cenho.

       — Vamos por partes, ok? — pediu, ainda de posse de seus ombros — E prefiro começar pela parte do “suposto amigo”. — enfatizou.

       Ela foi direto ao ponto.

       — O único amigo que o meu irmão tem se chama Cristiano Bittencourt. Sei muito bem quais são as suas intenções. Antes da Karen ir morar com o Rodrigo, para você, ele significava meramente uma peça no seu esquema de Poderoso Chefão de Matarana, a extensão do seu poder na delegacia da cidade. Nada mais. E, depois da Karen se tornar a mulher dele, voltou a se aproximar para dar o bote e lhe roubar a antiga namoradinha. Nasci à noite, meu caro, mas não ontem. — avisou-o.

       Thales soltou-se dela a fim de acionar o comutador. A lâmpada oscilou e depois clareou o ambiente. Ele precisava observar a feição alheia para prosseguir em uma conversação. Esquecera-se do quanto a irmã de Rodrigo era geniosa. E do quanto era formidável o corpo grande colado à camisola. Não era gostosa como Karen, mas era um bom corpo para se pegar numa cama. Ainda por cima, com cabelos longos, olhar feroz e determinada a ser correta como o irmão. Algo dentro dele se contorcia quando encontrava alguém empunhando a bandeira da virtude. Boa parte das vezes o “certinho” da história não passava de um legítimo hipócrita.

      — Respeito e admiro o seu irmão como profissional. Mas você tem razão, o meu amigo de verdade também é o Cristiano. Pelo menos ele não roubou a minha mulher assim que teve oportunidade. — falou com serenidade e firmeza.

       — Eu sabia. — afirmou com desdém — Essa papagaiada toda de proteção aos Malverde e Lisboa é só para separar o Rodrigo da Karen...

       — Não, Valéria, — ele a interrompeu com secura: — não quero ver o seu irmão desaparecer como já aconteceu com outras pessoas. Você matou a charada que, na verdade, não era muito difícil de compreender. O Rodrigo me é útil vivo e no lugar em que está. — ele parou e varreu-lhe o rosto com olhar duro: — E agora a segunda parte da questão. Por que está tão agitada, mulher?

       Valéria tivera muitos romances na vida. Todos, sem exceção, de curta duração. Envolvia-se com facilidade e cedia à paixão sem pensar em jogos de sedução. Acordava com a sensação de que fora com avidez demais ao pote e assustara o pretendente. E assustava. De repente eles se tornavam workaholics ou um parente adoecia gravemente ou uma viagem despontava no horizonte. Amores sem futuro — era o que sempre sobravam para ela.

       — Só queria comer o meu sanduíche em paz. — balbuciou.

       — Então... coma. — disse com um sorrisinho malicioso.

       — Certo, é o que pretendo fazer. — falou com azedume.

       — Precisa de ajuda? — perguntou, arqueando levemente a sobrancelha. Um gesto que valia pelas palavras não ditas.

       — Não, obrigada, Thales, sei pôr um pão sobre o outro e enfiar o recheio no meio. — disse nervosa, ao que o ouviu rir com vontade e corou violentamente. — Não quis dizer isso... não me referi a sexo ou... — parou e baixou a cabeça, vencida.

       Ele parou de rir e ergueu-lhe o queixo com o dedo em gancho para fitá-la com intensidade.

       — Que pena.

       Val encarou-o desconfiada. Ele só podia estar tirando sarro dela, o filho da mãe!

       — Fico feliz por ter o poder de diverti-lo, me disseram que a última vez que você foi ao circo o palhaço entrou em depressão. — ironizou.

       — Você é uma coisinha adorável, Valéria, e eu também ficaria muito feliz em poder diverti-la. — comentou com um sorriso arrogante.

       Ela sentiu as bochechas pegarem fogo.

       — Por acaso acha que sou uma vadia, é? — elevou a voz.

       — Espera aqui, que já respondo... — ele falou, olhando por cima dela, para a porta de vidro.

       Viu-o retesar os maxilares e se afastar em direção à saída. Curiosa, ela o seguiu. Uma porta dupla de vidro separava a cozinha do gramado que circundava a piscina. Thales caminhava a passos largos, os pés descalços, em direção à lateral do casarão.

       Por um momento, Val temeu que ele tivesse visto um invasor. Olhou ao redor e reconheceu um ou outro segurança. Eles estavam em seus postos e de lá não saíram, mesmo com a obstinada perseguição do patrão a quem quer que fosse.

       Antes que alcançassem o muro imponente que protegia a intimidade do jardim e piscina atrás da casa-sede, a irmã do delegado avistou a razão da repentina mudança no comportamento do fazendeiro.

       Karen preparava-se para entrar no Maverick e partir.

         

       — Aonde pensa que vai? — ele gritou, e alguns pássaros bateram asas e voaram.

       Karen nem se deu ao trabalho de ver quem gritava, sabia antecipadamente que Thales poderia tentar detê-la.  Contava com um ou outro obstáculo até deixar os limites da Arco Verde e seguir para o Scalpel. Precisava ver Rodrigo, uma vez que suas ligações eram rejeitadas sucessivamente. Uma única mensagem, curta e direta, fora-lhe enviada: “Bonnie conseguiu escapar”. Depois mais nada.

       Ela não conseguia comer, dormir e muito menos pensar direito. A verdade era que por mais que fosse um policial treinado e armado, Rodrigo ainda era apenas um ser humano de carne e osso. E estava sozinho, longe de sua família, acuado num quarto de hotel.

       Antes que abrisse a porta do automóvel, percebeu Thales atrás de si.

       — Aonde pensa que vai? — repetiu, os lábios agora mal se descolando.

       Virou-se e observou os sulcos profundos ao redor dos seus olhos e a expressão dura de quem já sabia a resposta.

       — Preciso vê-lo. — disse apenas.

       — Sabe que não pode. Ele me apoia na decisão de mantê-los protegidos aqui. —afirmou com convicção, as narinas dilatadas denunciavam o desprezo que sentia em ter de lidar com aquele assunto. — Volte para o seu quarto e engula um Lexotan, já que está sem sono. — ordenou.

       Valéria esgueirou-se contra a parede para observar melhor a cena. Karen era um osso duro de roer e Thales não ficava atrás. Ambos eram tão parecidos que tinham tudo para se enquadrarem e viverem juntos. Ao passo que com Rodrigo, Karen tinha o seu oposto. Rodrigo era centrado, racional e romântico. Um cara meio fora de moda, um cavalheiro protetor e fácil de lidar. E Thales Dolejal era um ogro dos infernos, considerou Val, de olho no casal que se enfrentava mais uma vez, mas sem deixar também de se lembrar das palavras luxuriantes do fazendeiro, do olhar rastreando cada parte do seu corpo como uma marca de mão num vidro embaçado. O pior nisso tudo era que ela não sentira raiva ou repulsa em ser revirada do avesso, em ser tratada como um objeto sexual. Porém, deveria; pois sempre fora assim que os homens a trataram.

       Podia chover sapos que ainda assim Karen entraria no seu Maveco e cruzaria a cidade até alcançar a 163 para bater à porta do quarto do delegado.

       — Olha só, meu chapa, acho desnecessário dizer que manter pessoas em cativeiro é crime previsto no código penal. 

       — Pode falar o quiser, mas se sair por aquele portão não tem mais volta. Ficará por conta própria, sem a minha proteção. — declarou sem elevar a voz. Sempre contido e seguro de si.

       Ela sorriu com prazer.

       — Sabe o que faz com a sua proteção?

       — Você se acha muito esperta, não? — indagou mordaz — Saiba que se for pega por algum capanga do Marau, o Rodrigo será obrigado a se expor para libertá-la. O coronel sabe que você dorme com o delegado. Isso significa que tudo o que ele está fazendo para proteger a sua família e se proteger terá sido em vão. E por sua culpa. — afirmou secamente.

       — Ninguém vai me pegar.

       — É mesmo? O Mendes conseguiu pegá-la com bastante facilidade e, inclusive, o Rodrigo estava bem perto e não pôde fazer nada para detê-lo. — ironizou.

       — Às vezes você consegue se superar em canalhice, Thales. Talvez devesse ganhar mais um troféu. — disse com cinismo.

       — Se sensatez é canalhice, então, sou sim um canalha. — considerou com tranquilidade e, em seguida, pegou-a pelo antebraço afastando-a do veículo. — Telefonarei para o Rodrigo, tenho certeza de que ele não rejeitará a ligação de um número que não seja o do seu celular. — um tom de maldade acompanhou a afirmação serena. — Vamos até o meu quarto.

       Ela tentou se desvencilhar em vão.

       — Nada de quarto com você.

       — É onde está o meu celular, Karen. Não tenho intenção alguma de desvirginá-la. —debochou, apertando-lhe o braço.

       — Está me machucando. — reclamou.

       Ele soltou braço dela o suficiente para mantê-lo ainda em seu poder.

       — Fica tão pequena correndo atrás do Rodrigo. — desferiu com menosprezo.

       — Quem desdenha quer comprar. — zombou.

       Ele se virou e fitou-a com raiva.

       — Não sinto tesão por mulher que rasteja.

       — A não ser que rasteje por você, não é mesmo?

       — Nem por mim. Tenho a tendência a pisar sobre quem rasteja, porque é para isso que servem as pessoas fracas. Você já foi mais bonita e interessante. Havia fogo em seu olhar e paixão no seu corpo. Era uma mulher de verdade e não uma mulherzinha dependente de macho. — falou com dureza.

       Karen riu até sentir as lágrimas deslizarem pela face.

       — Jamais cogitaria que um dia veria Thales Dolejal com dor de corno. Pode falar o que quiser, a questão é que nada disso é pra você, meu bem. Pra você, eu fiz uma coroa de guampas!

       O fazendeiro parou e a encarou sem mexer um músculo. Karen manteve o ar nos pulmões diante da intensidade daquele olhar. Havia tamanha dor que ela sentiu frio em pleno centro-oeste. Preparou-se para se desculpar, talvez tivesse acertado alguma artéria importante, cutucado um nervo inflamado. Atingira-lhe o limite, assim como acontecera com Rodrigo. Karen não sabia quando parar.

       Valéria grudou-se à parede e fechou os olhos. Assombrada com o que acabara de ouvir. A ousadia de Karen assemelhava-se à ingenuidade de um homem-bomba que se explodia acreditando no paraíso e nas virgens. A cunhada era uma suicida em potencial. Restava a alguém, como Rodrigo, por exemplo, avisá-la sobre.

       Thales soltou-lhe o cotovelo para lhe pegar a mão. A voz estava ligeiramente embargada quando ele mal abriu a boca para falar.

       — Quero que se case comigo. — ele esperou por uma reação que não veio. Karen olhava-o paralisada. Por isso ele continuou: — Casa comigo, Karen, e eu a tornarei a mulher mais poderosa de Matarana. Terá todos aos seus pés, todos que a humilharam. Casa comigo porque eu amo você.

       Valéria teve de tapar a boca com a mão para não deixar escapar um palavrão cabeludo. Sua antipatia por Thales Dolejal diminuiu bastante ao constatar que ele estava muito doente. Qual homem em sã consciência era maltratado por uma mulher e ainda assim lhe fazia uma declaração de amor? Um doente obsessivo — cogitou.

 

       O Aeroporto de Santa Fé possuía um terminal de embarque e desembarque com a capacidade para cerca de quarenta passageiros por dia. O saguão lembrava as praças de alimentação de um Shopping Center com lojinhas de conveniência e Cafés. Um toque de sofisticação que parecia entreter a vista dos recém-chegados e que lutava bravamente para ofuscar o campo de terra batida que ladeava a pista do aeroporto.

       Cris terminou de beber o seu café expresso e saiu em direção ao portão de desembarque. O voo vindo de Cuiabá estava atrasado. Fretando um jato particular da capital até Santa Fé, vindos de um voo comercial de Belo Horizonte, os pais de Nova em breve conheceriam a terra onde a filha decidira se enterrar.

       Cumpria dessa forma a sua função de amigo de longa data, não apenas se preocupando com o rumo que Nova decidira tomar em sua vida, e sim agindo inclusive para o seu bem. Afinal, seus novos amigos em Matarana não a conheciam como ele, desde a infância. E, para eles, era fácil aceitar que ela se juntasse com um bandido emocionalmente instável.

       Reconheceu de imediato o desembargador ladeado por sua esposa. Era um homem de quase sessenta anos, encorpado, grisalho e polido. Usava um terno escuro e caminhava com os ombros retos e o olhar tranquilo que parecia transpassar as pessoas. O pediatra receava que o doutor Guilherme Castilhos Monteiro – que, para Cris, era simplesmente Guilherme, fosse amolecer o coração assim que pusesse os olhos na filha. Porém, a senhora elegante de traços faciais clássicos vestida num conjunto de blusa e saia em tons pastéis, discreta até o último fio de cabelo, representava o papel da mãe tradicional, ou seja, a que desejava o melhor para a sua filha desde que estivesse de acordo com os seus próprios planos. Seria ela, Raquel Monteiro, a sua verdadeira aliada.

       O maior trunfo de Cris era o conhecimento. Ele sorriu levemente ao se lembrar de uma das várias frases famosas de Sigmund Freud, “Só o conhecimento traz o poder”. Nova era uma pessoa como qualquer outra que precisava da aceitação alheia; principalmente, a dos pais. Como era a rainha soberana no coração do pai, cabia conquistar o coração materno. E Cris não era ingênuo quanto a isso, Nova se embrenhara no cerrado para ficar ao seu lado não apenas porque o amava, mas também para realizar o sonho de Raquel de vê-la casada com o filho mais velho dos seus amigos Bittencourt.

 

       Ainda que explodisse várias vezes ao dia, visto que tinha pavio curtíssimo, Karen não conseguiu nem tentou refrear a fúria irrompida do âmago do seu ser. Coube-lhe apenas aceitar os desígnios de sua natureza agressiva e espalmar a mão na face do latifundiário.

       Ele não tentou se proteger, permanecendo imóvel e impassível, somente os olhos viviam febrilmente aquele momento, fixos nela, embaçados pela água transparente que destacava as órbitas congestionadas.

       — Desgraçado! — ela começou a gritar — Você teve dez anos para dizer que me amava! Fui louca por você e acabei me transformando nessa desajustada que não consegue fazer ninguém feliz! Eu sou assim porque você me fez assim! Tanta vontade de ser importante pra você e o que fez, hein, cretino? Matou os meus sonhos romanticamente idiotas e me tratou como uma mercadoria descartável! Não tem o direito de dizer que me ama! Jamais voltarei para você! Jamais me venderia para ter a merda do seu sobrenome! A única maneira de recuperar pelo menos o meu respeito é mantendo o Rodrigo a salvo do coronel e, se nem pra isso você serve, quero mais é que morra de uma forma lenta e dolorosa.

       Antes de terminar de gritar ferozmente, ela já estava com os punhos fechados golpeando-lhe o peito. Seu corpo tremia em ondas que quase a tiravam do chão. Tentava machucá-lo, arrancar sangue, feri-lo ao ponto de vê-lo prostrado de joelhos. Era tamanho ódio, um ódio de anos nascido de um amor antigo, que irrompeu num choro convulso sem deixar de bater no ex-amante igual a um pugilista no saco de areia.

       Ele aguentou os golpes sem se esquivar. A massa firme de seu corpo cedendo apenas milímetros para trás ao receber as pancadas. Não ergueu os braços para contê-la nem as mãos para se proteger. E quando um dos socos atingiu-lhe o nariz, o recuo da cabeça foi devido à força do ataque, e não ao instinto de proteção, haja vista que de suas narinas dois filetes de sangue deslizaram. Mas o que lhe causou maior impacto, revolvendo dentro de seu íntimo sentimentos obscuros e tensos, não foi a brutalidade de Karen ou as suas duras palavras. Ela chorava. E ele nunca presenciara o som e a dor do seu choro. Vendo-a tremendamente infeliz, puxou-a para si com força, apertou-a entre os seus braços num gesto de consolo e que também podia ser de posse. Presa e ajustada ao tórax firme, Karen começou a espernear, acertando-lhe chutes nas pernas. E isso ele também aguentava.

       — Me perdoa. — ele pediu, quando, enfim, ela aceitou o seu domínio e chorou contra o tecido macio do seu roupão. — Nunca me relacionei com outra pessoa durante o tempo em que estive com você e pensei que na minha fidelidade já estivessem implícitos o amor e a lealdade. Sei que errei por não demonstrar o que sentia. Nos primeiros anos, fiquei apavorado com sua impetuosidade, com o seu cerco ao meu redor, e criei um sistema para contê-la. Você não me asfixiava nem me pedia nada, Karen, de jeito algum.  Não a tornei uma espécie de amante eventual, como me disse outro dia, por desvalorizá-la. A verdade é que pouco sei lidar com as pessoas, não confio nelas, não acredito nelas. E achei que a tratando como um mero caso reduziria os seus efeitos sobre mim. Isso não justifica os meus atos, mas pode explicá-los, se tiver boa vontade para acreditar em mim. — ele parou, tentando reunir as palavras certas que representassem com exatidão os matizes nebulosos de sua alma, e murmurou para somente ela ouvir: — Não posso perdê-la uma segunda vez.

       Aos poucos Karen tomou consciência do que acabara de ouvir e o que tal declaração significava. Era certo que um indivíduo poderoso, para obter tamanho destaque, deveria no mínimo ser persuasivo e obstinado. Enquanto ela se afastava dele o suficiente para conseguir abraçá-lo pela cintura, ponderava a respeito de seu próximo passo. Ele não mentia. Havia-se exposto como uma clareira ao sol a pino. Baixara a guarda, recolhera o ego, pisara sobre a arrogância e a superioridade que lhe eram peculiares. Ele a queria de volta. Amava-a. E um homem como Thales, quando amava, lutava com todas as armas para vencer. E mais uma vez Rodrigo se encontrava na linha de fogo.

       Ela se separou um pouco do abraço, erguendo a cabeça para fitá-lo. Viu-o sangrando. Estranhou que sentisse compaixão e uma vontade considerável de limpá-lo e restituí-lo novamente ao seu posto de líder autoconfiante que era. Estava diante de um homem forte fragilizado. Olhos que mendigavam toldados por lágrimas que não caíam, presas no dique entre as pálpebras, no restinho de dignidade que ele tentava manter. Mesmo que demonstrasse estar devastado.

       — Vamos lá para dentro limpar esse nariz. — falou como uma esposa ao marido amado que voltava aos pedaços de uma briga na rua.

       Ela pegou-lhe a mão. Ele não se moveu do lugar.

       — Quero que se case comigo. — insistiu com seriedade.

       Karen suspirou profundamente.

       — Não casarei nem com você nem com qualquer outro homem. — disse com indiferença. — Um pedido de casamento não é o entoamento de uma fórmula mágica para a felicidade. Já casei uma vez e não costumo repetir experiências ruins.

       Ele ameaçou um sorriso.

       — Nunca casou comigo. Quero lhe oferecer algumas garantias, direitos sobre minhas propriedades, por exemplo. — argumentou com bom senso e emendou insinuante: — Trata-se agora de um relacionamento afetivo, Karen, não mais de uma aventura erótica.

       Thales levou a mão ao nariz e com o dorso limpou o sangue que já lhe atingia o lábio superior. Por um momento contemplou o vermelho vivo contra a sua pele clara e uma imagem que tentava esquecer retornou com ímpeto para ocupar a sua mente. Abraçado à figueira e amarrado ao seu tronco por duas voltas de cordas trançadas, ele sentia escorrer o sangue a cada rasgo que queimava e abria a pele de suas costas com os açoites do avô.  Percebeu então que uma de suas mãos entrelaçava seus dedos entre os dedos de Karen. Desviou o olhar daquele gesto inédito entre ambos e a encontrou fitando-o talvez com o mesmo pensamento. Eles nunca haviam caminhado de mãos dadas.

       Ela falou antes dele:

       — Não podemos mudar o passado nem deixar de sermos quem somos. Estamos cansados demais para mudarmos...

       — Quem pediu para você mudar? — perguntou, franzindo o cenho.

       Karen desviou o olhar de Thales para um grupo de capangas vigiando-os ao longe, atentos. Era evidente que presenciaram o seu ataque ao patrão. Porém, inexplicavelmente, mantiveram-se a distância.

       Aquela pergunta remetia novamente a Rodrigo. Era ele quem queria que ela mudasse.

       — Thales, olha, preciso saber como está o Rodrigo.

       — Eu também quero saber como está nosso amigo em comum. Tenho certeza de que ele apurou mais coisas sobre as ações do coronel. — considerou de um jeito neutro, mas fazendo questão de manter sua mão na dela enquanto se encaminhavam para retornar a casa.

       — Será que quebrei o seu nariz? — perguntou com remorso.

       Ele levou a mão ao nariz e o apertou, sorrindo jovialmente ao soltá-lo:

       — Está inteiro, senhorita Lisboa.

       Era uma novidade o sorriso, ela considerou para si.

       — A gente já tinha acertado nossas pendências... — afirmou, ao que o sentiu puxá-la pela mão a fim de virá-la para si: — O que foi agora?

       — Karen, o acerto de nossas pendências será diante de um Juiz de Paz com testemunhas e alianças. O que pensa sobre casamentos, teoricamente, é interessante, mas em termos práticos bastante limitado. Precisamos de garantias, todos nós, não apenas eu e você. Quero lhe dar segurança e conforto como jamais teve na vida. E se tiver de pedi-la em casamento todos os dias o farei. É claro que o próximo pedido será acompanhado de diamantes. — completou com um sorriso gentil.

       Ela balançou a cabeça devagar já à entrada da cozinha.

       — Qual a dificuldade para assimilar que eu amo o Rodrigo? — indagou emocionalmente exausta.

       O fazendeiro contraiu os maxilares e foi toda a emoção que permitiu demonstrar. Logo depois, encarou-a com um olhar profundo e terno, sacudindo alguns alicerces dentro dela. Foi taxativo ao sentenciar:

       — Todos os dias pedirei para que se case comigo.

       — Thales... — começou, contrariada.

       Ele interrompeu-a decidido:

       — Nada importa.

       — Pelo amor de Deus, acabei de dizer que amo outro homem! — exclamou impaciente.

       — Me perdoa a sinceridade, Karen, mas não acredito em amores instantâneos. Ainda mais os nascidos no calor de uma separação recente, quando estamos carentes e confusos. O nosso amigo estava por perto, e não a culpo por aceitá-lo como suporte, assim como não culparia um acidentado por se tornar dependente de uma bengala. Agora você tornou a se fortalecer e é meio estranho que com pernas biônicas ainda prefira se arrastar com uma muleta. — ironizou para, em seguida, concluir com gravidade: — O Rodrigo também partilha dessa mesma opinião, tanto é que você está aqui debaixo do meu teto.

       — Ele confia em mim. — afirmou.

       — Confia? — indagou com escárnio, alçando a sobrancelha: — Confia mesmo? Por que deveria confiar se você jamais falou para ele sobre sua ligação com o Vitorino e as corridas em Belo Quinto e, inclusive, nas minhas terras? Ele sabe que você mente. Ninguém confia em você, Karen. A diferença é que eu a amo sem condições enquanto o suposto amor do Rodrigo é cheio de ressalvas.

         

       Rodrigo acordou com o barulho do celular sobre o criado-mudo. Foi difícil abrir os olhos e voltar do sono profundo. Escorou-se nos cotovelos e atendeu o chamado, verificando antecipadamente a origem da ligação. Era o número da DP.

       — Fala, Adele. — resmungou com a voz sonolenta.

       — Oh, que judiaria, chefe, desculpe acordá-lo. — falou a escrivã em tom de lamúria. — Por mim, deixaria o senhor na cama... — ela pigarreou e prosseguiu: — Mas o problema é que deu merda na Vila Zumbi.

       Ele arou o cabelo com os dedos e sentou-se devagar, apoiando as costas contra a guarda. Sentia um gosto amargo na boca e as pálpebras pesadas. Parecia que estivera desmaiado por horas. Bocejou alto e perguntou indiferente:

       — Nada que meia dúzia de PMs possam resolver?

       — Ah, sim, eles podem. Na verdade, foram eles que ligaram para a delegacia. — afirmou Adele e emendou com escárnio: — Me diz uma coisa, chefe, se o senhor tivesse o poder de prever o futuro e descobrisse que levaria um tiro entre os olhos numa noite de sexta-feira, ainda assim ficaria em casa, de pijama puído, dormindo com a cabeça sobre um travesseiro sem um tresoitão debaixo dele? Pois é, grande bosta ser cartomante!

       O delegado previu que teria uma longa noite pela frente.

       — A avó do Joaquim foi assassinada?

       — Sim, Allison DuBois. — respondeu espirituosa.

       — E o Joaquim?

       — Foi embora com ela.

       Depois de desligar o celular ainda ficou por um tempo olhando para o aparelho. Esfregou o rosto com as mãos. Enfiou-se debaixo da ducha, baixou a cabeça e permitiu que o jato forte de água quente lhe pressionasse a nuca. Ensaboou o corpo, os pensamentos distantes dali, levando-o pela BR-163, cruzando-a para o outro lado da rodovia. Eles não haviam sido mortos porque Joaquim andara na picape com a polícia.  Outras vezes, fora até a vila e também conduzira para delegacia suspeitos de crimes menores.

       Olhou-se no espelho percebendo que estava livre das olheiras de abatimento. Aproveitou para raspar o cavanhaque. Vestiu-se, pôs o chapéu e foi buscar a resposta racional para uma suspeita que o seu instinto exigia que se comprovasse.

       Pouco antes do amanhecer retornou a Vila Zumbi. Meia dúzia de vizinhos pisavam sobre o gramado ralo, curiosos e amedrontados. Dois policiais militares procuravam afastá-los falando baixo e olhando-os de forma suspeita. Bastava viver naquele lugar para se tornar suspeito de algum ato ilícito. Os moradores mais próximos da casa de Iranilda tinham interesse em saber se a tragédia que a abatera poderia também acertar-lhes na telha, pensou o delegado, acenando levemente com a cabeça para os policiais e entrando na casa, enquanto ajustava as luvas de látex nas mãos e encontrava Adele já no corredor, em frente à porta do primeiro quarto.

       — Os peritos de Santa Fé já estão a caminho. — informou logo que o viu e, antes que esboçasse sinal de surpresa, uma vez que a perícia criminal de Matarana dependia da boa vontade dos profissionais da cidade vizinha, ela atacou com rapidez: — Ainda assim é possível se ter uma boa ideia do que aconteceu por aqui. Agora vou dizer uma coisa, nunca vi tanto sangue fora do corpo! Se serve de consolo a alguém, ela morreu sem imaginar o que lhe acertou a cabeça.

       Rodrigo seguiu-a pelo corredor, observando ao redor vestígios que fornecessem pistas sobre o crime brutal contra uma idosa. Não precisou se esforçar na busca para encontrar, diante da porta do próprio quarto, o ex-futuro médico caído no chão, a poça de sangue por baixo das costas espalhando-se como um véu de noiva, o tórax destroçado. Voltou-se para a escrivã constatando um fato:

       — Pelo visto ele ouviu o tiro e saiu ao encontro da avó. Foi pego no meio do caminho.

       Adele sacudiu a cabeça concordando e apontou em direção ao quarto de Iranilda, na posição onde se encontrava sua cama e ela sobre, de bruços, debaixo do lençol e do sangue espesso com pedaços do cérebro.

       Não era uma boa visão aquela, a escrivã permitiu-se varrer o local do crime com os olhos, captando a destruição de uma cabeça humana por uma provável Taurus. O delegado completou os pensamentos da policial:

       — Foi um tiro bem de perto e pelo estrago só pode ser uma .40. — ele torceu o lábio para baixo num ricto de desgosto: — Aparentemente nada foi roubado. Veja ao redor, tudo no seu lugar. — fez um gesto amplo com a mão e emendou com secura: — Foram executados.

       — É, chefe, mas a porta dos fundos me confidenciou que ela foi arrombada por um pé de cabra.

       — Interessante. — comentou sem muito entusiasmo, aproximando-se do corpo debaixo do molho vermelho. — Os ossos do crânio fraturaram. — observou, jogando o foco de luz da lanterna para a pasta emaranhada de sangue, miolos e cabelos ralos.

       — Tenho aversão as .40. — comentou a escrivã, analisando cada parte do quarto a fim de detectar uma provável digital.

       Rodrigo lembrou-se do seu tempo de academia e o que sabia sobre esse tipo de arma. A bala das .40 tinha um furo na ponta que se abria no momento em que atingia o alvo. Se, por exemplo, alguém atirasse contra uma melancia com um .38, conseguiria um buraco na fruta e ainda a manteria intacta como um todo. Já a bala da .40 estilhaçaria a melancia em vários pedaços. E era isso que esse tipo de projétil fazia no corpo humano, esmagando e rompendo tecidos, criando sulcos preenchidos pelo sangue das veias dilaceradas.

       — Qual era o calibre das cápsulas que você juntou no alpendre lá de casa?

       Ela se virou ligeiramente incomodada. Respondeu sem pestanejar:

       — Pela minha cara o que o senhor acha?

       Rodrigo sorriu levemente, era um sorriso triste.

       — Imagina, então, como está a patinha da Bonnie. — suspirou resignado e completou insinuante: — Sabia que a Taurus é a arma predileta dos pistoleiros do coronel Marau? Além disso, o laudo do legista que fez a necropsia no corpo do Vilela apontou que ele foi morto também por uma .40. Ou seja, pode ter dedo do coronel aqui e na morte do corretor, há dois meses.

       — Pois é, mas não temos como provar que somente os pistoleiros do Marau usam esse tipo de arma. — ponderou.

      — É insustentável, eu sei. Bem, quero esperar os peritos por aqui. Antes, porém, vamos conversar com o Joaquim? Quem sabe ele não nos “fala” alguma coisa. — propôs o delegado com humor negro e uma ponta de razão. Afinal, as vítimas sempre tinham o que dizer sobre seus algozes, fosse por meio de impressões digitais ou material para análise de DNA.

       O delegado aproximou-se da segunda vítima, caída de costas na poça de seu próprio sangue. Pela posição do corpo, constatou que de fato Joaquim fora surpreendido pelo assassino no corredor, assim que ambos saíam dos quartos. O tiro fora disparado contra o peito do rapaz, encharcando a sua camiseta de sangue, e jogando com brusquidão o seu corpo para trás. Joaquim ainda fitava o teto depois de morto, enquanto pouco acima de sua cabeça jazia uma 9 mm recentemente usada — constatou Rodrigo, impassível.

       Endereçou a atenção à parede ao fundo, de onde, à saída da porta, possivelmente surgira o assassino logo após matar Iranilda. Se Joaquim acertara o alvo, não haveria marca no reboco da alvenaria. Aproximou-se e perscrutou o local, encontrando a marca de tiro no reboco da parede.

       Depois de fazer todas as verificações necessárias na cena do crime, irrompeu porta a fora, encontrando Adele conversando com uma senhora baixa, enrolada no robe atoalhado e fumando nervosamente. Era uma das vizinhas e clientes da vidente. Falava e balançava a cabeça, revirava os olhos e descrevia Iranilda como uma boa mulher que criara o neto com rédeas curtas depois que a filha fugira com um policial, sim, ela repetiu para a escrivã:

       — Um policial de Santa Fé, parece que se apaixonaram e deram o fora da vila, o pobre Joaquim ficou para trás. Iranilda fez o melhor que pôde para criar o neto...

       Enquanto a senhora enrugada e de voz grossa de fumante tagarelava sem chegar a lugar nenhum, Rodrigo circundou o terreno ao redor da casa, um gramado baixo e verde, alcançando o quintal dos fundos. Entrou na garagem onde não havia automóveis. Nos fundos, uma bicicleta e um armário de cozinha, o compensado sugeria o cedro. Abriu suas portas e vasculhou os objetos guardados. Eram somente ferramentas encontradas em qualquer casa, chave de fenda, martelo, alicates e, até mesmo, lâmpadas e um pequeno serrote.

       Ele parou com as mãos nos quadris e mascou três vezes o seu Trident. Olhava diretamente para outra porta. E, ao ultrapassá-la, quase ouvia a voz de Joaquim bem atrás de si, fazendo troça:

       — Está morno, delegado... agora esquentou...está fervendo...

       Olhou ao redor. Mesa, balança de precisão, rolos plásticos, colheres medidoras.

       Ele sacudiu a cabeça devagar, bem devagar, com raiva do idiota morto no corredor da sua própria casa. O futuro médico traficando. Descobrir o que já suspeitava não o surpreendeu. Desde que o nome de Joaquim Santiago saíra da boca do neto do coronel Marau, ele sabia que havia, sim, algo de podre no reino de Matarana. Joaquim estava traficando óxi e, provavelmente, era abastecido por Vitorino com a pasta de coca. Restava saber se Vitorino agia sozinho ou em conluio com o coronel. Nesse ponto do raciocínio, o delegado torceu o canto dos lábios num esgar de desgosto. Não era um desgosto por ter de admitir que o coronel estivesse envolvido no caso, e sim porque infelizmente era improvável que o latifundiário se metesse com o tráfico de drogas. Assim, era possível que Vitorino agisse por conta própria, na moita, bem escondido das vistas do patrão. E Rodrigo apostava que as botas do braço direito de Marau haviam pisado o assoalho da casa da cartomante naquela madrugada. Acerto de contas, queima de arquivo ou simples execução de alguém pego pela polícia dois dias atrás, ele ainda não o sabia, mas a verdade era que os peritos encontrariam vestígios do pistoleiro na cena do crime.

       Ao sentir a saliência debaixo das botas, olhou para baixo e percebeu que havia ainda outras camadas a serem descobertas. A portinha de um porão levou-o aos ingredientes necessários para se fabricar a droga.

       Na delegacia, Rodrigo sentou-se detrás da sua escrivaninha e procurou se concentrar na nova situação que se estabelecera na Vila Zumbi. Retirou um celular do saco de provas. Investigou as ligações recebidas, mas se interessou pelas chamadas efetuadas. Cruzou a sala e falou pela fresta da porta entreaberta:

       — Descubra para quem o Joaquim ligou quando voltou para casa ontem.

       Adele aproximou-se e pegou o celular que lhe fora estendido.

       — Certo, chefe. — em seguida, ela o fitou interessada: — E como foi com os peritos?

       Ele coçou a cabeça nas mechas curtas perto da nuca. Fez uma careta de desagrado e respondeu:

       — Nada conclusivo. De qualquer forma, terei uma conversa com o Vitorino. O Joaquim já havia mencionado o pistoleiro como intermediário dos bolivianos. A questão é que ele não está sozinho nisso. O camarada é conhecido por resolver tudo no tiro, tem um passado nebuloso que pode ser verdadeiro ou invenção para valorizar o seu salário como segurança. Só que, Adele, o Vitorino não tem cabeça para ser um empreendedor, seja do ramo que for, entende? Ele simplesmente é burro demais. Não consigo imaginá-lo organizando uma operação de tráfico internacional, lidando com os bolivianos, construindo uma infraestrutura em Matarana para alastrar a rede de distribuição de óxi. Sei lá, — deu de ombros e prosseguiu: — é muito para uma cabecinha tão limitada.

       — Entendi, tem gente graúda por trás. — afirmou, arguta.

       — Alguém que está se impondo à surdina. — constatou pensativo — Talvez um forasteiro ou nossos próprios bandidos. Veja se consegue alguma coisa com esse telefone, ok? — pediu, piscando o olho com charme.

       Adele assentiu sem sorrir, compenetrada na missão de esclarecer um crime. E foi o que fez nas horas seguintes.

         

       O abraço foi longo e apertado. Um abraço de cinco anos de saudade. Nova permitiu que as lágrimas rolassem pelo seu rosto maquiado. E enquanto ela se afastava centímetros da proteção carinhosa do pai, refletia sobre os motivos de pouco terem se falado desde a sua saída de Belo Horizonte. Um dos motivos estava ao lado dele, a mãe que a olhava de forma avaliativa, como sempre, medindo-a de alto a baixo, conferindo se a criatura que nascera de seu ventre fazia valer cada cromossomo cedido. O problema era que o mesmo olhar que media e comparava, exibia a frustração velada da descoberta. Nova então se sentia compelida a pular fora do ninho e procurar abrigo e calor no amor de um homem. Antes, representado pela figura protetora do pediatra; agora, pelo pistoleiro, o novo chefe da segurança armada de Thales Dolejal.

       — Faz praticamente três meses que não nos falamos. — constatou o pai com desprazer, observando de esguelha o rapaz alto segurando um chapéu de caubói na mão; na cabeça, mechas loiras, irregulares, alcançando-lhe os ombros. A feição jovem, extremamente jovem, observou o desembargador, deixou-o intrigado sobre o recente comportamento da filha.

       — A culpa é minha, pai, tanta coisa aconteceu nos últimos meses e tão rápido... Sinto que falhei com vocês. — disse, comovida.

       — É, minha filha, parece que falhou mesmo conosco. — interrompeu a mãe, puxando-a para o seu abraço por direito.

       Abraçou a mãe sem a mesma naturalidade que dedicara ao pai. Havia um vão entre os corpos que representava perfeitamente o relacionamento entre elas, a distância polida entre pessoas próximas.

       Nova percebeu movimentos ao seu redor. Cris voltava com dois copos de uísque com gelo para os amigos dos seus pais. Ao passo que Franco mantinha-se na defensiva, atrás da noiva, analisando a cena como se assistisse a um filme de família, bizarro e com buracos no roteiro.

       — Imagino que o Cris já os tenha atualizado, não é mesmo? — indagou com ironia, vendo o ligeiro aturdimento de Raquel. Impediu-a de responder ao retomar: — Então, vamos às apresentações. — virou-se para encontrar dois pedaços do céu fitando-a com atenção e gentileza e comunicou aos pais: — Esse é Franco, meu noivo e pai do meu filho.

       Guilherme preferiu usar a máscara social que as pessoas bem-nascidas utilizavam em público. Não sorriu nem esboçou qualquer aversão ou antipatia. Estendeu a mão ao desconhecido que engravidara a sua filha.

       — Como vai, Franco?

       Franco não estava bem. Era inusitado o que sentia. Um misto de ansiedade e receio, talvez expectativa. Havia algo nos pais de Nova que o incomodava. Considerou primeiro que fosse a postura altiva, uma ligeira pose esnobe que lhes endureciam a nuca e a coluna. Porém, quanto a isso ele já estava acostumado, uma vez que o patrão também apresentava esse mesmo ar de quem nascera de uma concha de ouro mergulhada no mar de diamantes, e não que saíra de um lugar escuro meio que escorregando por entre as pernas de uma mulher gritando de dor.

      — Muito bem, e o senhor? — apertou a mão do futuro sogro com firmeza, enfiando seus olhos nos olhos dele. Era estranho que visse em sua alma um poço de tristeza. E descobrisse com tamanha facilidade que era um alcoólatra.

       O desembargador franziu o cenho, curioso, reconhecendo intimamente que acabara de sofrer uma invasão, como aquelas maquininhas dos filmes de ficção científica, rastreadores que invadiam sistemas cibernéticos a fim de recolher e roubar dados alheios. 

       Após o término das apresentações e cumprimentos, Cris indicou-lhes o amplo ambiente da sala principal. Foi quando Nova realmente observou o lugar onde o amigo agora vivia. Era sofisticado e com poucos móveis. Não havia quadros nas paredes nem objetos de decoração nas estantes aéreas. O janelão de vidro que separava a sala da sacada estava nu de cortina, exposto em seu vidro e esquadria de madeira nobre. O apartamento onde o médico morava refletia não apenas o seu gosto pessoal requintado — como antes o era o seu apartamento em Minas, refletia também a condição de sua situação atual. A solidão o seduzira para o interior de sua garganta seca.

       O anfitrião manteve um sorriso simpático no rosto relaxado. Um rei que governava seus poucos súditos, os mais importantes, no meio da sala do seu reino. O filho de Dolejal debaixo do seu teto ainda lhe causava mal-estar. Contava que após avisar a amiga sobre a chegada dos pais — sem entrar em detalhes acerca de sua intromissão no evento, o rapaz se esgueirasse para o interior da Arco Verde como um cão sarnento a coçar as suas sarnas. Era-lhe nauseante vê-lo parado na sua sala, dentro de sua casa, sorrindo sem timidez para as pessoas que poderiam lhe tirar a mulher, caso fossem felizes em suas argumentações.

       — O que faz da vida, Franco? — perguntou a futura sogra, aceitando o drinque do médico e tornando a se sentar no sofá, cruzando as pernas nuas até os joelhos, onde a barra da saia descansava.

       Nova não permitiu que ele respondesse. Puxou-o pela mão, conduzindo-o até o sofá de dois lugares, posicionado diante de outros dois. A ideia no desenho da decoração era propiciar aos visitantes o aconchego de um lar, os móveis próximos para induzir conversas íntimas e calorosas.

       — Acho que a senhora sabe que ele é segurança particular. — respondeu ela secamente, sentindo a quentura da coxa de Franco colada à sua.

       — Sim, mas o que isso significa especificamente? Você fica na portaria de uma fazenda com uma prancheta anotando o nome de quem entra e quem sai? — perguntou Raquel a Franco.

       Nova revirou os olhos, irritada. A mãe adorava se fazer de idiota para criar uma boa intriga. Viu quando o pai emborcou a bebida numa golada. Era possível que voltara a beber. Passara-se poucos minutos, e ela queria retornar a sua casa perto do Rio Verde. Virou-se para o noivo que se ajeitava no sofá e, sorrindo, prontamente respondeu:

       — Não, senhora, quem fazia isso era o Bronson. O patrão põe o pessoal mais velho na portaria. Com o tempo, a gente perde o pique para correr e sacar rápido as armas. Mas um dia o Bronson falou pro patrão que a portaria era para os ignorantes, para os que não pensavam com muita força, sabe? Ele disse, olha, patrão, não quero ficar parado como segurança de puteiro, certo?, me põe com os camaradas, posso ser o braço direito do Franco. — ele parou, riu baixinho à lembrança da cena e continuou: — Mas eu acabei brigando com o patrão, e o Bronson ficou no meu lugar. Agora voltei a chefiar os pistoleiros e o Bronson foi treinar os índios para se protegeram dos brancos safados.

       Era um encanto o modo como ele falava. Nova admirava-o embevecida com a espontaneidade do sorriso que acompanhava as palavras tão simples e tão cheias de verdade. O som melódico de sua voz, como se cada nota fosse banhada no mel, arrastada pela correnteza rouca de seu timbre. Às vezes, as sobrancelhas falavam junto, arqueando-se, acompanhando o movimento dos lábios. Noutras, ele franzia ligeiramente o nariz como um trejeito moleque, revelando uma parte do quê ele ainda o era.

       — Frequentou alguma escola?

       O disparo seco e direto veio do outro lado da sala. Cris trazia uma latinha de cerveja e o suco de laranja. E esperava pela resposta do seu arqui-inimigo.

       — Sim, doutor, várias escolas, por sinal. — retrucou em desafio.

       — Interessante, — começou o médico, — então se graduou em quê?

       Nova apertou os dedos ao redor do copo. Queria mesmo apertar era o pescoço de Cris.

       — Fui expulso de todos os lugares em que pus os pés. — afirmou Franco com naturalidade. — Dizem que os gênios não se adaptam ao sistema de ensino tradicional. — comentou espirituoso.

       — Pura verdade, amor. — concordou Nova crédula na teoria — Você é um espírito livre. — aceitando de bom grado o beijo casto na testa.

      — A educação formal é importante, faz parte da constituição do indivíduo. Não entendo como um espírito pode ser livre mergulhado na escuridão da ignorância. — objetou o pai.

       Foi aí que ela percebeu que estava sozinha no meio de abutres. Relançou um rápido olhar a Franco, que sorvia com prazer sua cerveja, ignorando a secura ofensiva do comentário.

       — É que, pai, o que parece escuro para alguns, pode ser excesso de claridade para outros. — afirmou com rispidez.

       — Sofismas, Nova. — cortou a mãe, depositando o copo vazio sobre a mesinha de centro e endireitando os ombros antes de completar: — O que importa mesmo é como pretendem criar essa criança. Sinceramente, não reconheço a menina estudiosa, aplicada, que queria se tornar jornalista e viajar pelo mundo. De onde tirou essa vocação para cantora de bar, hein, minha filha? É algum tipo de fantasia juvenil? Ou é para nos punir por termos a deixado à mercê das babás quando era criança? O que fizemos foi tão grave assim para se autodestruir? Aliás, — começou, voltando-se para Cris: — isso vale para os dois. Nunca entendi porque vieram para esse lugar esquecido por Deus. É uma cidade feia e hostil. As pessoas são hostis, nos olham como se fôssemos saqueadores, verdadeiros bandidos. Elas nos encaram ostensivamente, teve uma que parou ao lado de nossa mesa no restaurante e perguntou se pretendíamos fixar residência na cidade e não parecia nem um pouco feliz com a nossa chegada. Acham o quê? Que vamos assaltar um banco? Estou simplesmente chocada.

       —O povo daqui é meio desconfiado, sim, senhora. — considerou Franco, espichando as pernas enquanto aspirava no ar a energia negativa que o circundava. — É uma terra de forasteiros que detestam forasteiros. Eles têm medo de que os recém-chegados resolvam fazer o que eles próprios fizeram, que foi empilhar uma cédula sobre a outra enquanto compravam todo o chão da cidade.

       — E por que todos andam armados? — perguntou ela, curiosa.

       Ao que o desembargador interveio:

       — Porte de arma é ilegal. Isso deve ser tratado com o delegado de polícia... Apesar de que em cidades pequenas a maioria é corrupta.

       — Não o Rodrigo, nem pensar. — interferiu Nova antes que o pai falasse mais uma asneira. Em seguida, alisou o vestido com as mãos dando a impressão de que se dispunha a levantar-se e partir. — Aqui, em Matarana, as coisas são às claras. A gente usa arma e mostra. Não temos o hábito de apunhalar ninguém pelas costas. — emendou fitando Cris.

       Ele corou ainda que sustentasse o seu olhar gelado.

       — Bem, vamos passar à outra sala para almoçarmos. Fiz questão de pedir para que me trouxessem moluscos fresquinhos da capital. — ele se virou para Franco e perguntou fingindo interesse: — Aprecia escargot?

       O pistoleiro sentiu os olhos da família Monteiro sobre si.

       — O patrão gosta muito. — disse com simplicidade.

       — E quanto a você, rapaz? — insistiu o médico forçando-se um sorriso.

       Franco coçou a cabeça meio sem jeito.

       —Talvez eu goste, custa nada experimentar.

       Nova sorriu para ele e pegou a sua mão. A gente está vencendo essa parada, meu amor — era o que queria lhe falar. Mas não precisou. Ele falou por ela.

       — Sei o que está tentando fazer, doutor, mas talvez só funcione com o seu Guilherme e a dona Raquel. Preparou um jantar com lesma só para me humilhar, mostrar para o pessoal da cidade grande que o caipira aqui não sabe comer direito. Vi o patrão arrancar o bicho de dentro da concha com um garfinho e com a outra mão ele segurava um tipo de pinça. Posso fazer isso também, tenho dez dedos e um pouco de neurônio para me ajudar na empreitada. Acho que não preciso de um diploma para “apreciar” um molusco. — e, virando-se para o casal, continuou calmamente: — E os senhores podem me perguntar o que quiserem. Estão no direito de vocês. Apareci do nada e roubei o coração dessa menina aqui. Não nego de jeito nenhum que pai e mãe são importantes. — deu de ombros e emendou sem constrangimento: — A minha mãe era uma pobre diaba e o meu pai é um camarada muito estranho. Pro inferno que me importo se eles me fizeram sem nunca terem se beijado. A verdade é que nunca me quiseram no mundo, não era para eu ter nascido. E agora vejo os senhores largarem casa e trabalho e virem atrás da filha porque ela corre perigo... isso é realmente bonito. — ele parou e fitou as próprias mãos ao dizer: — Meu pai quando veio atrás de mim foi para me oferecer trabalho, porque, para ele, sempre serei o seu melhor funcionário.

       — Franco... — ela tentou interrompê-lo.

       — Deixa, princesa, quero dizer aos seus pais que posso viver na escuridão da burrice, mas sou guiado pelo meu coração. Jamais machucaria a filha de vocês. Não se preocupem e não tenham medo do futuro dela. Voltem para casa e vivam as suas vidas. Não quero que incomodem a minha mulher e também não quero que me irritem ao ponto de eu perder a cabeça e dar uma boa surra nesse pilantra comedor de lesma. — afirmou com a voz baixa e perigosamente incisiva.

       — Mostrou enfim a verdadeira face! — exclamou Cris de forma teatral. — Sabia que não aguentaria muito a pressão. Conto sempre com a sua instabilidade emocional, pois será ela que um dia o levará a ferir a Nova ou até mesmo matá-la, quando ela acordar do sonho de Cinderela e perceber que se uniu a um desequilibrado.

       Guilherme fez um sinal de contenção com a mão para o pediatra.

       — Espera, Cris, estamos ouvindo o seu lado desde quando nos buscou no aeroporto. — virou-se para a filha e indagou sereno: — Tem um jeito de eu falar com o pai do seu noivo?

       Franco retesou os maxilares.

       — Sou maior de idade. — disse, ofendido.

       — Eu sei, mas gostaria muito de conversar com a sua família.

       — Minha família é a sua filha e a sua neta. — assegurou, sério.

       Nova beijou-lhe delicadamente na bochecha.

       — Amor, você conheceu meus pais. — começou com doçura, o jeitinho de falar que amolecia a dureza do caubói: — Nada mais justo que os meus pais conheçam também o seu.

       Ele pareceu desconcertado com o pedido, balançou o chapéu nas mãos considerando-o, um certo aborrecimento turvava-lhe o brilho dos olhos. Por fim, suspirou fundo, claramente contrariado, puxando do bolso traseiro do jeans o celular.

       — Não posso prometer nada sem antes falar com o patrão. — declarou, erguendo-se subitamente e afastando-se em direção à sacada do primeiro andar da cobertura.

       Cris observou a situação com a mesma frieza quando usara o bisturi no seu primeiro cadáver na faculdade. Guilherme fitava o vazio, o semblante carregado como se cogitasse a possibilidade de uma nova estratégia para ter a filha de volta ao lar. Raquel, por sua vez, exibia a feição de quem vencera uma batalha, ainda que perdesse desonrosamente a guerra. Mostrara o seu ponto de vista e situara o lugar dos Monteiro no universo, cabia agora à filha continuar chafurdando no lodo ou se permitir mudar o seu destino que, a bem da verdade, era tão-somente continuar o que deixara para trás. Por fim, Nova. Ele olhou para ela e, antecipadamente, sabia o que iria encontrar. Contudo, não de modo tão violento. Ele estava perdendo-a. A cada manobra sua para tê-la ele a perdia. Percebeu com clareza que ela e o seu noivo haviam criado um muro de contenção, um bloqueio que os blindavam contra os outros. E assim se tornavam inacessíveis.

 

       Thales Dolejal desligou o motor da Silverado ao estacionar em frente ao casarão. Antes de atender ao celular, sem se voltar para a passageira, indagou com estudada naturalidade:

       — Por que às vezes você desaparece, Virgínia?

       Ela engoliu em seco. Trabalhava havia pouco tempo para o fazendeiro e não podia se dar ao luxo de perder a sua confiança. Se bem que parecia impossível que o senhor Dolejal confiasse em alguém. Talvez apenas em Bronson. Sim, com toda certeza, ele confiava no velhote — considerou a pistoleira.

       — O Bronson sabe para onde vou quando me ausento. Ao me contratar, falei para ele a respeito de minha mãe. Ela tem Alzheimer e é cuidada por uma enfermeira que nem sempre aparece para trabalhar.

       Jogou a mentira no ar.

       Com um movimento quase imperceptível de cabeça, ele acatou a justificativa.  E como ouviu a voz de Franco do outro lado da linha, passou-lhe despercebido o tremor das veias nas têmporas da mulher. Ela aproveitou para abrir a porta, descer e juntar-se aos demais seguranças.

       — Falar com os pais da sua noiva? — repetiu Thales, entre intrigado e divertido, captando a hesitação do filho.

       — Eles querem conhecer o senhor. — informou Franco, contrariado.

       — Humm, entendi, Sua Excelência quer obter informações a respeito da árvore genealógica da família do pretendente à mão da... como você a chama mesmo?...— estalou a língua no palato e, depois, perguntou num tom de troça: — Ah, lembrei... à mão da “princesa”?

       Era claro e límpido que se divertia com o fato de Franco precisar de sua ajuda.

       Franco bufou exasperado.

       — Vai receber os pais da minha noiva ou posso dizer que fui adotado pelo Rodrigo, e eles entram então em contato com ele?

       Thales endureceu os lábios à recordação da noite na estrada quando Franco decidira romper qualquer vínculo com o seu passado na Arco Verde; em seguida, enfiara-se na vida do delegado, no grupo de amigos de Rodrigo e estreitara sua ligação com ele.

       — Não tenho tempo para esse tipo de coisa.

       — Era o que eu esperava. — disse Franco com secura.

       — Mande-os virem agora para almoçarem na fazenda. É pegar ou largar. — determinou antes de encerrar a ligação.

       Assim que pisou no tapete da sala principal, Irene aportou com um sorriso de reconhecimento e ofereceu-se para pegar-lhe a pasta executiva.

       — Estão todos na sala de jantar esperando o senhor. — avisou-o.

       — Está gostando de ter a casa cheia, não é mesmo? — perguntou com um esboço de sorriso.

       Ele sabia que a governanta não via com bons olhos o seu estilo recluso e solitário de viver.

       — Gosto muito, mas ainda falta o meu menino.

       Thales serviu-se de uma dose de uísque puro, bebeu num único gole e voltou-se para a funcionária com o semblante sério.

       — Daqui a pouco ele está chegando. — e emendou contrafeito: — O seu menino aprendeu a negociar o que quer em vez de sucumbir aos seus hormônios juvenis. Deve ter puxado à mãe.

       Irene arreganhou os dentes num sorriso de satisfação. Não resistiu.

       — Puxou ao pai, isso sim.

       Thales encarou-a sem compreender o raciocínio da mulher que o ajudara a criar Franco. Era irritante ter de ouvi-la e aceitar a sua interferência na educação do filho, simplesmente porque ela era a única mulher no casarão, a mais velha e a que tentara se adonar do órfão recolhido da estrada. O correto era ser grato pelos anos de dedicação à fazenda e a Franco. Entretanto, recusava-se a aceitar que se colocasse no papel de intermediária entre ele e o filho, amenizando as coisas, pondo panos quentes.

       Observou-a subir as escadas, a mão no corrimão, as costas encurvadas pelos anos de vida. Serviu-se de mais uma dose. Não era justo que descarregasse suas frustrações na velhinha, era uma boa pessoa. Ingeriu o resto da bebida e fitou a porta dupla que dividia o terceiro ambiente da sala principal com a sala de jantar.

         

       Karen estava escorada na amurada da sacada. Atrás de si, a cortina de voile dançava ao sabor do vento morno, entrando e saindo de onde outras quatro pessoas dividiam a mesa de oito lugares, beliscando pãezinhos, torradas e azeitonas e bebericando seus drinques até a chegada do dono da casa. Uma decisão tomada pela líder do grupo, Val, que acreditava ser falta de educação começar a comer antes do anfitrião. A irmã de Rodrigo era muito chegada a “manuais de etiqueta”, considerava Karen com certo desdém.

       Toldou os olhos com a mão, observando a posição dos pistoleiros ao longo da parte frontal da casa-sede. Precisava enganá-los ou enfrentá-los. Havia-se metido no tipo de situação que evitara a vida inteira. Estava num beco sem saída com as mãos atadas. Urgia libertar-se de qualquer prisão.

       Sentiu uma presença ao seu lado. Abraçou o filho e deitou a cabeça em seu ombro.

       — O Rodrigo quer que a gente fique aqui?

       Ela se virou e tentou sorrir de um jeito confiante.

       — Sim, Johnny, é o que ele quer.

       — E quem está protegendo ele, mãe? — perguntou preocupado.

       — Por incrível que pareça é a mesma pessoa que está nos protegendo no momento. — declarou.

       Johnny sorriu satisfeito com a resposta.

       — Poderei ir à aula amanhã?

       — Sim, mas com escolta.

       — Certo. É meio ostensivo, né? A Sabrina está adorando morar na Arco Verde e andar pela cidade com seguranças. — falou meio se rindo.

       — Pois é, a Sabrina é desmiolada mesmo. — afirmou com azedume e emendou de forma reflexiva: — Isso é uma circunstância temporária. Tenho como resolver logo esse problema com o coronel, mas preciso escapar das garras do Dolejal. Sei como pegar o braço direito do Marau, é ele quem está por trás dos atentados contra o Rodrigo. Só que trancada aqui, nessa fortaleza, fico impedida de agir. — reclamou, pondo as mãos na cintura.

       O garoto apoiou os antebraços na amurada de alvenaria, escorando meio corpo nela. Ficou quieto, absorto, por alguns minutos. Depois, sorriu e afirmou com convicção:

       — Sei como tirá-la da fazenda sem ser vista.

       Karen puxou-o para um forte abraço.

       — Caramba!, Johnny, você é o único cara que me entende! — exclamou enternecida.

 

       Valéria Malverde evitou encarar a figura altiva que entrou na sala exalando a fragrância amadeirada do tipo que somente as colônias caríssimas emanavam. Notas cítricas misturavam-se à composição, como se o cheiro de uma floresta morna de limões e eucaliptos esticassem seus braços para envolvê-la e num murmúrio rouco se impregnasse em sua pele como tatuagem.

       Piscou os olhos seguidas vezes envergonhada com o rumo de seus pensamentos. Na verdade, preocupada com o rumo das sensações que se espalhavam pelo seu corpo. Nunca pensara em Thales Dolejal como homem. Via-o como alguém que trabalhava em excesso e evitava expor-se socialmente. Ele representava a força motriz de uma cidade sem escrúpulos; talvez nem fosse mesmo humano, apesar de tê-lo visto sangrar na última noite. Mais do que isso, vira-o implorar pelo amor de uma mulher. Sim, alienígena ele não o era. E tampouco Valéria insensível a tal visão.

       Ele parou com as mãos nos bolsos laterais da calça social escura, impôs-se um ar descontraído tanto na postura, as pernas ligeiramente separadas, quanto na feição que esboçava a sombra de um sorriso, ainda que os olhos se mantivessem sérios e perscrutadores.

       — Espero que tenham dormido bem. O silêncio aqui na fazenda às vezes incomoda o povo da cidade.

       — Dormi como um bebê sem cólicas. — respondeu a avó de Karen, partindo com delicadeza um pedaço do pão caseiro. — O barulho do açude é como uma canção de ninar, senhor Dolejal.

      — Por favor, dona Ninita, me chame de Thales. — corrigiu-a com charme.

       A senhora concordou com um meneio de cabeça e afirmou sentindo-se bem à vontade:

       — Então terá de me chamar de Ninita. Esse negócio de dona é coisa do seu filho.

       Ele teve de concordar com um breve sorriso. Depois, observou que a sobrinha de Rodrigo estava à mesa e tamborilava os dedos demonstrando ansiedade.

       — Espero que esteja tudo de acordo com o esperado. É uma situação inusitada, concordo, mas também passageira. Eu e o delegado estamos trabalhando para que em breve nossas vidas voltem ao normal. — ele parou até receber total atenção da garota e prosseguiu com gentileza: — Se está havendo algum transtorno em relação ao seu estágio, por favor, Sabrina, me informe. Conheço muito bem o administrador do hospital e posso conseguir alguns benefícios para você.

       Sabrina corou ao receber seu quinhão de atenção exclusiva. Queria se enfiar debaixo da mesa. Porém, nem se mexeu ao balbuciar fitando um par de olhos azuis de matar:

       — Obrigada, mas está tudo bom. — “Tudo bom?” foi isso mesmo que você falou, Sabrina-Tonga-Malverde?, recriminou-se mentalmente, aproveitando para emborcar o suco de laranja.

       O latifundiário assimilou o constrangimento da garota, pois desviou seu interesse para a mãe dela.

       — Se precisar de alguma coisa, Valéria, o que for, me procure. Não se sinta acanhada. Você está entre amigos. — falou de forma sugestiva.

       Ela quase perguntou: para que tipo de coisa posso procurá-lo?

       — É verdade que me sinto um peixe fora d’água e que essa loucura toda que aconteceu em menos de vinte e quatro horas tenha me abalado, mas não posso deixar de notar o seu desvelo e atenção para com a minha família e isso está tornando tudo menos difícil. — declarou séria, tentando impor um tom impessoal.

       — Fico satisfeito em poder contribuir para o bem-estar dos Malverde.

       Val percebeu um tom malicioso e insinuante na entonação de voz do fazendeiro, além de um suave toque de ironia. Thales não dava ponto sem nó, assim como não falava por falar, não gastava saliva à-toa. Era possível também que estivesse interpretando-o mal, distorcendo a verdadeira intenção e conotação de suas palavras.

       — Infelizmente, teremos visitas. — ele parou e riu baixinho, como se tivesse percebido o próprio deslize e corrigiu-se: — A bem da verdade, preferia almoçar apenas com vocês. Entretanto, Franco está a caminho com sua noiva e família. Espero que não se importem de participar do evento.

       Val mal descolou os lábios para responder que seria interessante conhecer a família de Nova, mas conteve-se ao ver que Thales já não mais lhe endereçava atenção. Karen havia arreganhado o janelão da sacada e avançava para a sala acompanhada por Johnny.

       — Bom dia, Karen. — ele disse com calor na voz.

       — Bom dia, Thales. Como foi a manhã no escritório, aniquilou muitas vidas? —debochou, sentando-se à mesa, seguida pelo filho.

       Thales achou graça.

       — De certa forma, sim, minha doce Karen. — devolveu-lhe o deboche e emendou a título de informação: — Estive a manhã inteira reunido com um grupo de texanos que em breve comprarão um bom lote de terras na região.

       Ele sabia que a venda de terras brasileiras aos estrangeiros a irritava sobremaneira.

       — E depois, me diz? O que acontecerá conosco quando o país inteiro estiver nas mãos dos gringos?  Pensa que não leio jornais? Sei que 53 % das terras do centro-oeste já não são mais de brasileiros. Você não tem amor pelo seu país? É uma ganância sem limites, Thales, é só o que tenho a dizer. — declarou com mau humor.

       Ele mantinha um leve sorriso nos lábios, demonstrando o quanto se divertia com o interesse de Karen pelo futuro do Brasil. Sentou-se à cabeceira da mesa e logo em seguida uma das empregadas da casa apareceu com uma garrafa de vinho. Thales observou atentamente o rótulo e aquiesceu, retomando a conversa deixada em suspenso.

       — Não seja dramática. O governo brasileiro, em nome da tal soberania nacional, arranjou um jeito de conter a compra de terras por estrangeiros. O que dificulta um pouco os meus negócios, mas, é evidente, que não os põem ironicamente por terra. — comentou, sendo servido de vinho pela funcionária uniformizada.

       — Claro que não, ainda mais quando arranjam documentos falsos. — afirmou Karen com raiva. — Sabe o que mais detesto nisso tudo? É que esses latifundiários de merda enriqueceram à custa da apropriação de terras devolutas. Não é mesmo, Do-le-jal? — soletrou em tom de troça.

       Ele riu com vontade.

       Por um momento todos se mantiveram em silêncio, expectantes, estranhando que a acusação provocasse tal reação. Ela fora taxativa, e Thales caíra na gargalhada. Ele, que nunca ria a menos se fosse para escarnecer do adversário. Contudo, lá estava o homem se divertindo como nunca.

       Valéria relançou um rápido olhar a Karen que parecia decidida a manter a cara de poucos amigos.

       Assim que conseguiu parar de rir, Thales afirmou sem rodeios:

       — Você não é de todo idiota, Karen, deveria concorrer à prefeitura de Matarana, seus receios em relação ao país são bem convincentes. Agora, volte a fazer o que faz melhor, que é beber um bom vinho e deixar que os outros pensem por você. — desferiu com maldade.

       Karen ergueu-se como se tencionasse encerrar a conversa da pior forma possível. Inesperadamente, Valéria viu-se obrigada a detê-la.

       — A Nova está chegando com a família e ela precisará do nosso apoio. — enfatizou para, depois, reafirmar: — Ninguém quer aquele casamento, Karen. Pra falar a verdade, nem eu. Mas é a vontade da nossa amiga e temos de apoiá-la.

       A menção a Nova e a amizade de ambas segurou a morena na cadeira. E a fez também emborcar outro cálice de vinho. A proximidade com Thales levava Karen a voltar aos péssimos hábitos, como a agressividade incontrolável e a ingestão excessiva de álcool. Era fato que ele provocava o que ela tinha de pior, observou a irmã do delegado.

 

       O cheiro daquela cozinha era o cheiro de sua adolescência.

       Ao mergulhar no ambiente azulejado das paredes, fincou o olhar sorridente no homem sentado na cadeira de rodas, descascando uma laranja e absorto em seus pensamentos. O marido de Irene era um sujeito tranquilo. Não era um deficiente físico por completo. Às vezes até dava suas voltas pela fazenda a pé. Tinha apenas as pernas fracas, ossos porosos e problemas de equilíbrio.  À época de Onório Dolejal fora o capataz da Minuano, a humilde fazenda que se tornara a imensidão de terras que hoje era a Arco Verde.

       Franco meio que se abaixou para beijá-lo no rosto.

       — E, aí, Chicão? — cumprimentou-o jovialmente

       O velho sorriu feliz da vida e largou de lado a sua sobremesa predileta.

       — Que saudade, menino! — exclamou, apertando-lhe os braços como se quisesse atestar a sua materialidade, e, vendo o casal sofisticado parado logo atrás de Nova, comentou sem graça: — Não entre com as visitas pelos fundos, meu filho!

       O segurança pouco se importou e, sorrindo, apontou o dedo para o marido da governanta e anunciou para os sogros:

       — Aqui está o meu pai.

       Nova franziu o cenho intrigada com a intenção daquela mentira. Por certo, uma travessura que não iria longe. Observou seus pais se aproximarem do senhor vestido com simplicidade no jeans velho e na camiseta com a propaganda de um fertilizante. Eles estavam visivelmente embaraçados. O pai do noivo de sua filha — que estudara nos mais caros colégios de Minas — era um pobretão, empregado de fazenda e bem próximo dos oitenta anos.

      — Como está, senhor Dolejal? — indagou com polidez o desembargador, esticando a mão para cumprimentá-lo e apresentando-se: — Sou Guilherme Castilhos Monteiro e essa é a minha esposa, Raquel Matanza Monteiro, somos os pais da Nova. O senhor tem algum lugar, um quartinho talvez para conversarmos sobre o futuro dos nossos filhos?

       Raquel abriu um leque de seda e começou a se abanar freneticamente. Embora as pás do ventilador no teto espalhassem o ar refrescante naquela parte da fazenda. A senhora sofisticada da alta roda mineira estava muito nervosa, agitada, observando ao redor a riqueza do agronegócio tão longe das mãos do rapazinho escolhido pela sua filha. Ela nem se dera conta que evitara falar sobre a gravidez em questão. Talvez se valesse de algum mecanismo de defesa para ignorar algo que abalava os seus princípios. Endireitou os ombros e ergueu o nariz. Por mais que se metessem com caipiras iletrados e detentores de baixo poder aquisitivo, os Monteiro possuíam classe e educação suficientes para suportar tal circunstância constrangedora.

       Escorado com o quadril contra a pia de mármore, Franco segurava-se para não rir. Nada fora planejado. Apesar de estar se divertindo muito com a confusão. Endereçou um rápido olhar à noiva e recebeu uma piscadela cúmplice. Sim, ela também deixaria a coisa rolar.

       O marido da governanta apertou a mão do senhor grisalho que usava um conjunto de calça e blazer escuro sobre a camisa bege. Formal, com ares de cidade grande e bem-apanhado — como dizia a sua esposa.

       O fato de Franco tê-lo apresentado como seu pai não o impediu de ser educado com as visitas.

       — Estou muito bem — respondeu um tanto hesitante em prosseguir com a farsa: — E o senhor? Fizeram uma boa viagem? — e assim ele continuava a meter os pés pelas mãos.

       Raquel adiantou-se para responder, pois queria mostrar a todos que sabia se relacionar com pessoas de todos os níveis.

       — Até Cuiabá foi uma beleza. É uma pena que não residam na capital.

       — Mãe, as fazendas normalmente ficam no interior do estado. — comentou Nova atenuando a rabugice da progenitora.

       — Eu sei, mas acho que seria mais confortável para o pai do seu noivo viver num lugar que tenha calçadas, por exemplo. — virando-se para Chicão, perguntou interessada: — Como o senhor consegue se deslocar, assim, no meio do mato?

       Franco mexeu-se de onde estava, ajeitou o chapéu na cabeça dando um tapinha com a ponta dos dedos para trás na aba e fez um comentário jocoso:

       — O Chicão é um camarada caseiro e quando quer passear pela fazenda, a peonada põe o velho em cima do lombo de um cavalo. Não tem erro, não, dona Raquel, ninguém derruba um Dolejal. — depois, percebendo que já chegara a hora de encerrar a brincadeira, revelou com azedume: — O Chicão é o meu pai de criação; o outro, o dos genes, está nos esperando para almoçarmos com ele.

       Num átimo, o desembargador fechou a cara como se tivesse sido atingido por uma ofensa de dez toneladas. Era peso demais para alguém de sua estirpe levar nos cornos. Uma legítima molecagem — conjecturou Vossa Excelência, limpando o suor da testa com um lenço e fixando seus olhos baços, protegidos por pálpebras empapuçadas, no noivo da filha. Definitivamente, Nova havia-se envolvido com um moleque. Voltou-se para a esposa e declarou ofendido:

       — Acredito que não preciso ir além dessa encenação.

       Nova interveio conciliadora:

       — Que encenação? O Franco apresentou o seu pai de criação, ora. Vocês não queriam conhecer a família dele? Ainda faltam a Irene e o Bronson.

       Franco pensou em dizer-lhes que um bando de caminhoneiros que trafegavam na BR- 163, dez anos atrás, de certa forma, também o haviam criado. Bem, pelo menos alguns lhe pagaram refrigerantes e chocolates enquanto traçavam a sua mãe.

       O celular vibrou e ele teve de atendê-lo.

       — Por que ainda não veio me procurar se já está na fazenda? — perguntou Thales com rispidez.

       — Já estamos indo, patrão. — respondeu contrariado.

       — Talvez o Cristiano tenha lá suas razões, Guilherme, — começou Raquel, — porque isso não é brincadeira que se faça. — ela então se voltou para Franco: — Acredito, meu jovem, que seja engraçado fazer troça com as pessoas, mas, apesar de você ser novo, tenho certeza de que não é mais um adolescente.

       Franco ficou sério de repente e baixou a cabeça como um menino que levava bronca da mãe.

       — Pra quê tudo isso? — indagou Nova, irritada — Sabe o que eu acho? Vocês dois são esnobes demais pro meu gosto.

       — Sua mãe está certa. — declarou Franco sem mais nem menos e continuou, agora, voltado para a mãe de sua noiva: — Peço desculpa pela brincadeira. Vou me comportar direito, juro.

       Nova franziu o cenho ao analisar o comportamento do noivo. Ele acabava de falar como um filho falaria com a própria mãe. Projeção, transferência, o nome que tivesse não interessava, Franco ainda via nas mulheres mais velhas a imagem da mãe morta tão precocemente. Não precisou se virar para encontrar o olhar fixo de Raquel sobre si. Ela também tivera a mesma percepção. 

       — Uma vez o Cris se lambuzou de ketchup para fingir que tinha se ferido e sangrava e fez isso no seu aniversário de 25 anos. Ele brincou, curtiu um pouco, como se fala. E nunca pediu desculpas por ter assustado os próprios pais. — foi até o noivo e o abraçou pela cintura, falando-lhe baixinho: — Sou apaixonada pelo seu senso de humor, pistoleiro delícia.

       Ele a apertou com força e fez de seus braços um cerco de proteção, um forte. E mesmo que com isso mostrasse a Raquel e a Guilherme que lhes roubara a filha para todo o sempre, ainda assim, com todo esse poder de vida e morte sobre alguém, ele não deixou de sorrir como um menino.

         

       O sol bateu em cheio contra os seus olhos e Rodrigo se obrigou a abaixar a aba do chapéu a fim de enxergar a estrada de asfalto à sua frente. No rádio, as notícias não paravam de chegar. Então ele pegou um CD e o pôs para rodar, acionando a tecla que repetia uma única música — a que revestia o esqueleto daquele dia pesado de sangue. E era uma antiga música dos Almôndegas, no volume máximo, soprando o  “Vento Negro” pelo prado.

       O resto do sábado prometia ser daqueles que normalmente lhe testavam a resistência física e a vocação para defensor da lei. Acordara para investigar a morte de uma idosa e um guri. Ainda que estivessem metidos com o tráfico de drogas, para o delegado, era uma merda ver a vida ser ceifada de forma tão estúpida e violenta.

       Endereçou um rápido olhar para o porta-luvas, sabendo que a posse do esperado mandado assinado pelo juiz permitiria a sua entrada na Coração de Ouro. E era para lá que ele se dirigia, as duas mãos no volante e a atenção dividida entre os veículos à sua frente e, através do retrovisor, aos que se mantinham na sua mira, atrás. Até aquele momento tudo parecia normal. Claro, dentro das idiossincrasias da dita normalidade mataranense, ele pensou, abrindo o porta-luvas e pegando os cigarros.

       Com a boca puxou o cigarro da carteira pelo filtro e catou pelos bolsos da camisa xadrez, as mangas arriadas até os cotovelos, o isqueiro. Pôs fogo na ponta e tragou-o com prazer. Precisava disso. Precisava fumar e organizar os pensamentos. O dia seria longo porque emendaria com a noite e a cerimônia no clube campestre. Ele não queria ir. Detestava esse tipo de exposição pública. Queria, sim, era um pouco de paz.

       Ao tentar ultrapassar uma Kombi, avistou no sentido oposto, dentro da picape, o galinho que abatera cartomante e neto na Vila Zumbi.

       O delegado sorriu com tristeza. Por mais que os raios solares tingissem a cidade de calor e luz, ele sentia frio. Era o frio da morte. Quando se trabalhava perto da morte, olhando para ela e para o que ela fazia com os vivos, esse frio, o frio dela, impregnava cada poro de pele e não saía.

       Girou o volante e ganhou o mato baixo do acostamento. Não iria à fazenda do coronel. O mal seria combatido sem trégua, ele decidiu, pondo-se na mesma estrada que Vitorino seguia.

 

       Ela esperou a comida chegar carregada em bandejas pelas duas copeiras. Permaneceu na sua cadeira procurando não chamar a atenção dos demais. Até conseguiu rir baixinho da atrapalhada da mãe de Nova ao cumprimentar Valéria como se fosse a senhora Dolejal. A irmã de Rodrigo ficou vermelha, quase explodiu de vergonha, enquanto Thales lançou-lhe um significativo olhar e nele estava escrito em letras garrafais: A senhora Dolejal é você. Só que Karen não o deixou ler em seu olhar que tencionava fugir para encontrar o homem que amava.

       Johnny sorveu um último gole do seu refrigerante, afastou a cadeira devagar, pediu licença e saiu da sala de jantar.  Observou que todos se concentravam na conversa na outra ponta da mesa, onde Guilherme e Thales falavam trivialidades sociais, algo sobre o clima do centro-oeste e o fato de Matarana depender do Poder Judiciário de Santa Fé. A filha do casal fingia acompanhar com interesse o que lhe parecia desinteressante e o seu noivo contava seus causos de caubói junto ao ouvido de Ninita.

       Karen calculou o exato instante de se levantar e partir. Sabia que não conseguiria sair de fininho como o filho. Por isso murmurou qualquer coisa, sorriu e ignorou o olhar penetrante do anfitrião à cabeceira da mesa.

       Encontrou Johnny no corredor do primeiro andar, próximo ao lavabo, à esquerda do hall de entrada da casa.

       — Fui até o refeitório dos seguranças e disse que o Bronson chegou e se enfiou no banheiro, mal pra diabo. Pedi pra ela não comentar com o Thales, porque não ia ser nada legal para um pistoleiro ser pego vomitando no lavabo do patrão.

       — Vixe! A Virgínia acreditou nessa besteira? — indagou Karen preocupada, esgueirando-se atrás de uma coluna.

       Johnny riu.

       — Bom, ela está vindo para cá. — deu de ombros e emendou indiferente: — Ou acreditou ou quer me dar uma prensa.

       — Certo, — disse Karen esfregando as mãos com ansiedade, — não tenho alternativa senão nocautear uma irmã.  Apesar de que é por uma boa causa.

       — Vê se não quebra nada, viu? Falo sério, mãe, sou contra violência. Se o Rodrigo não estivesse em perigo não me meteria nisso, não. — declarou carrancudo.

       — Sei disso, Johnny, você é um bom garoto.

       Ela bagunçou-lhe o cabelo num afago rápido e desajeitado. Depois se escondeu ao ver o cabelo preto esvoaçando por debaixo do chapéu enquanto sua dona cruzava o hall com determinação. O barulho das botas alcançou-lhe os ouvidos. Karen fez um sinal para o filho voltar à sala de jantar. Ele girou nos calcanhares e deixou a pistoleira plantada diante da porta aberta, intrigada.

       Coube a Karen empurrá-la em direção ao balcão com as pias duplas. A mulher voltou-se com agilidade e a mão no coldre. Um gancho de esquerda a pôs no chão. Rapidamente, ela tornou a se pôr de pé e a mão sacou a Glock, destravando-a. Karen franziu o cenho diante da audácia da segurança de Thales.

       — Não sabe lutar como mulher? Vai fazer o quê, atirar em mim, covarde? — provocou com um sorrisinho de escárnio.

       Virgínia a detestava — foi o que Karen percebeu quando ela guardou a pistola no coldre e preparou o corpo para a luta.

       — E você, Lisboa, vai se esconder atrás do patrão ou atrás do delegado? É fácil peitar todo mundo quando se tem as costas quentes, não é mesmo? — perguntou a pistoleira com rispidez.

       Karen achou graça e falou:

       — Bem, o que posso dizer?, não é pra qualquer uma ter os dois melhores homens da cidade aos seus pés. Mas se você me der suas roupas e me deixar sair da fazenda sem abrir o bico pro teu patrão, juro que não machucarei o teu rostinho. Você até que é bonita, Virgínia, devia tentar seduzir o Thales, ele adora mulher grandona. — declarou com ironia.

       A segurança não estava para brincadeiras.

       — Se eu meter a mão em você, Lisboa, o patrão vai comer o meu fígado e o delegado me mandará para o presídio de Santa Fé. — dizendo isso, pegou o radiocomunicador com a intenção de fazer justamente o contrário que Karen pedira.

       — Espera! — exclamou ela, segurando a mulher pelo cotovelo — Temos de tentar nos entender, preciso pegar o desgraçado do Vitorino.

       Karen não percebeu que as pupilas de Virgínia se dilataram, pois se chegassem a Vitorino estariam a poucos passos de Leonardo. Não, definitivamente, Karen Lisboa precisava ser mantida na Arco Verde.

       Quando Virgínia já sabia o que fazer, levou um segundo soco e caiu no chão feito um saco de batatas.

       Karen não era alguém que contava com a boa vontade dos outros.

 

       — Senhor Dolejal, precisamos conversar sobre o futuro dos nossos filhos.

       O senhor tem um quartinho?, a frase ainda reverberava na cabeça do desembargador.

       O fazendeiro limpou a boca no guardanapo de linho e assentiu levemente, pondo-se de pé.

       — Vamos até o meu escritório. — determinou; em seguida, dirigindo-se aos demais, disse polidamente: — Com licença. Fiquem à vontade, por favor.

       Franco fez menção de acompanhá-los, erguendo-se sem muita vontade, praticamente se obrigando a participar de algo que o entediava demais. O futuro sogro fez-lhe um favor sem ao menos saber:

       — Desculpa, garoto, mas a conversa é entre adultos.

       Franco sorriu e endereçou um olhar divertido a Dolejal. O pai de Nova era um sujeito esquisito que, apesar de ser importante na sua profissão, não enxergava um palmo à sua frente quando o assunto era a sua filha. Talvez fosse apenas mais um tipinho controlador, conjecturou o pistoleiro. Atrás de si, Raquel ajeitava a bolsa no ombro e seguia em direção ao marido.

       — Perdoe-me, senhora Monteiro, mas a conversa é entre homens. Aqui, em Matarana, ainda há o predomínio do patriarcado.

       Por um momento a esposa do desembargador não esboçou reação, imobilizada por uma declaração absurdamente machista. Nova achou por bem chamar a mãe de volta à mesa:

       — A Irene me falou que está trazendo um pavê maravilhoso.

       — O que isso significa, Nova? — indagou Raquel, aturdida e apontando em direção aos homens que cruzavam a porta em direção ao escritório.

       Nova se fez de desentendida:

       — Significa que provaremos a sobremesa.

       Franco abaixou-se ao lado da noiva, pegou-lhe a mão, beijou o seu dorso e falou:

       — Tenho de pegar no batente, princesa. Com essa chateação de entrega de troféus, preciso ir até o clube campestre analisar o ambiente e arredores para planejar o posicionamento dos seguranças. A dona Rita quer tudo muito discreto. Bem, foi o que ela falou. Espero que não pense que a peonada irá vestir terno e gravata. — comentou espirituoso.

       Ela o beijou nos lábios de leve e esfregou a ponta do seu nariz no dele.

       — Vá, então, chefe da segurança. Assim que eu deixar meus pais no hotel, volto para casa e te espero para irmos juntos à cerimônia.

       — Combinado. — ele deu uma olhada discreta ao redor e falou baixinho: — Percebeu que sua amiga se mandou?

       — Sim, percebi. Na verdade, já sabia. Ela foi atrás do Vitorino.

       — É uma louca. — murmurou, contrafeito.

       — Não conte ao seu pai, Franco, por favor. — pediu a ele.

       Franco detestava encobrir as sujeiradas de Karen. Claro que quando Nova interferia a favor da amiga tudo mudava de figura. Por isso ele concordou em ficar de fora do caso.

 

       Acelerou o suficiente para ultrapassar um ônibus de turismo, cumprimentou com um aceno de cabeça o motorista, que retribuiu a gentileza e cedeu-lhe passagem. Quando usava a viatura da polícia era mais fácil conseguir trafegar livremente na rodovia.

       Acionou o pisca ao verificar que a picape de Vitorino fazia o mesmo, antes de entrar numa estrada vicinal de chão batido. Reduziu a velocidade, não queria chamar a atenção do outro. Essa era uma das desvantagens de usar um veículo oficial, branco e azul, com as palavras que punham muita gente para correr: Polícia Civil de Matarana.

       A poeira que se ergueu entre as camionetes ajudou-o a camuflar a perseguição. À tarde certamente choveria e aquela terra toda viraria lama. Mas ainda seca servia como uma cortina que dificultava a visibilidade. Quando se dissipou, o delegado percebeu que Vitorino havia estacionado sobre o acostamento no matagal. Parou a viatura e baixou o volume da música. Podia-se ouvir o tráfego na estrada principal, o motor dos caminhões e automóveis. Embora o movimento fosse tranquilo naquele trajeto de estrada.

       Rodrigo desceu já com a arma na mão e destravada. Olhou ao redor e viu apenas o mato alto e verde. À sua frente, a poucos metros, a picape aparentemente abandonada. Vitorino percebera que era seguido pela polícia e escapara mato adentro, cogitou, ainda se aproximando do veículo. Ao chegar à porta, constatou através do vidro abaixado, que não havia ninguém. Suspirou exasperado e ajeitou o chapéu para trás, erguendo a cabeça e perscrutando o local.

       Tinha raiva de si mesmo por ter alertado o pistoleiro. Não contava mais com o elemento surpresa, Vitorino voltaria para a Coração de Ouro, e o doutor Frozzen o representaria ao longo do inquérito. Era isso que aconteceria. Por um impulso imbecil ele perdera a chance de pegar o pistoleiro que, para livrar a própria cara — ou pelo menos tentar, com certeza, denunciaria o verdadeiro autor dos atentados e mentor da chacina na Vila Zumbi: Leonardo Marau. A última ligação que constava no celular de Joaquim fora para o filho do coronel. Era esse o homem que o delegado tinha de pôr detrás das grades.

       De repente seus músculos se endureceram e um sopro frio na nuca levou-o a se voltar para trás, a automática apontada para a figura mirrada e sorridente que aumentara o volume de “Vento Negro” para encerrar a vida de Rodrigo Malverde em alto estilo.

 

       A justificativa para o encontro fora as corridas. Karen dissera a Vitorino, ao telefone, que precisava de dinheiro, muito, a fim de recomeçar em Santa Fé. Para levantar a grana tinha de competir. Havia algum tempo que Vitorino estava fora do circuito. Claro, ela sabia o motivo. Não era fácil organizar atentados contra o delegado e competições de corrida. Mesmo assim o velho concordara com o encontro, marcara-o à saída de Matarana quase em Santa Fé, num lugar — segundo Vitorino, insuspeito. Como se encontros no meio do mato fossem mesmo inocentes, considerou ela, obrigando-se a acatar a decisão do filho da mãe.

       Localizou o lugar ao ver o outdoor com a propaganda da prefeitura, divulgando o terceiro lugar de Matarana na produção nacional de grãos. Adentrou a estrada de chão, as pedrinhas batiam contra o assoalho. Não era a camionete mais nova da Arco Verde. Reduziu a velocidade, atenta. Ergueu os vidros das janelas e tirou a Glock do porta-luvas, pondo-a sobre as coxas. O jeans de Virgínia não combinava com o seu corpo, pernas e cintura estavam mais largas. Mas tal detalhe não atrapalhara quando Karen saiu da casa em direção à picape, o chapéu abaixado até a linha dos olhos, fingindo que era a segurança de Thales. Ultrapassara a porteira da Arco Verde sem problemas. Ao passo que a verdadeira segurança jazia desmaiada no lavabo de calcinha e sutiã.

       Confusa, parou sem desligar o motor. Ao redor, o silêncio quebrado pelo barulho de alguns pássaros e o deserto verde a se perder de vista. À época do estio, aquela região mais se parecia com o deserto do Arizona do que com um pedaço de um país tropical. Embora os vestígios das queimadas fossem visíveis nos buracos de terra sem vegetação e as clareiras se abrissem com suas pernas de troncos secos, tortuosos, acompanhados pelas raízes expostas como fraturas de contínuas agressões.

       Resolveu seguir pela estrada, mesmo que não lhe parecesse uma decisão inteligente. Deveria evitar se afastar da rodovia federal. O perigo de enfiar-se ainda mais para o interior, seguindo a estrada de chão batido cercada pela mata aberta, era o de se perder. Indecisa, novamente reduziu a velocidade, pegou o celular e ligou para Vitorino.

 

       — Acho bom o delegado deitar a arma no chão bem devagar, aliás, as armas... sei que tem outra no cós traseiro da calça.

       Rodrigo abriu os braços mostrando ao pistoleiro a intenção de lhe obedecer. Mas o seu rosto apresentava os sinais clássicos de alguém contrariado, mais que isso, furioso. Os ossos dos maxilares estavam tão apertados que era possível que quebrasse alguns dentes.

       — Qual é o seu plano, Vitorino? Assassinar um delegado de polícia? — indagou num misto de ironia e desprezo.

       O outro sorriu um sorriso amarelo, aproximando-se com cautela, de olho no policial.

       — Não é o primeiro, Malverde, tenha a certeza disso. — informou-o serenamente e continuou, determinado a pegar as automáticas do delegado e jogá-las bem longe do seu alcance: — Já pus muito doutorzinho pra correr. Quando não seguem as regras do coronel é isso que dá. E pelo visto não vai desistir mesmo. Bem, fim da linha pra você também.

      — Por que está se sujando pelos Marau? Sei que não é coisa do coronel, ele ameaça, tem os seus ataques de prepotência e acaba arranjando uma transferência para os oficiais da lei indesejáveis. Mas, que eu saiba não tem o hábito de executar autoridades. Sabe o que acontece quando um delegado é assassinado? Não é algo que se esconda debaixo do tapete. A polícia não sossega até descobrir o assassino, e você, “meu amigo”, deixou um rastro de sujeira por onde passou, desde a Vila Zumbi até dentro da Coração de Ouro.

       Rodrigo queria ganhar tempo argumentando. Apostava que Vitorino fosse entregar Leonardo de bandeja e negociar sua rendição.

       — Sabe quantas horas levo para cruzar a fronteira? — perguntou de forma retórica, destravando a sua pistola: — Meu tempo de vida útil em Matarana já se esgotou e matar um delegado rende uma boa aposentadoria. Entendeu a sua real situação, Malverde? — provocou-o, piscando o olho.

       — Por que matou a cartomante e o neto?

       — Pro inferno que vou responder!

       — Se vou morrer, quero pelo menos ter algumas respostas. — conjecturou Rodrigo, impassível. Sentia-se estranhamente calmo.

       Vitorino irritou-se.

       — Está querendo me enrolar! Quer fazer com que eu me distraia. Acha que não sei o que faço? Mas vou dar as respostas que quer. É verdade, sim, que tem os seus direitos como futuro defunto. É o seguinte, ô delegado, aqueles dois pilantras compravam a pasta de coca de mim e resolveram bancar os esganados e negociar direto com os bolivianos. Aí, eu fui lá e mandei chumbo neles.

       — Essa merda eu já sabia. Fez isso a mando do Leonardo Marau, não foi?

       — Não, foi a mando de Deus. — debochou. — Limpei a cidade pondo aqueles lixos debaixo da terra.

       Ele se preparou para falar mais alguma coisa, encerrar de vez o papo e levar o delegado para o meio do bosque e executá-lo. O toque do celular interrompeu-o. Manteve o braço erguido, apontando a arma para Rodrigo enquanto atendia a ligação:

       — Olha, acho que está no caminho certo, é só avançar mais um ou dois quilômetros que me encontra. A primeira clareira que achar pelo caminho, estaciona e me telefona. Vou até você.

       Antes de terminar a ligação, Vitorino olhou significativamente para Rodrigo, degustou a breve pausa que fez mantendo o vínculo entre ambos apenas através do olhar, como se antecipasse para si o prazer que sentiria a seguir.

       — Acho que faremos um excelente negócio... Karen.

       Rodrigo assimilou a informação com a mesma clareza profunda e inflamada de quando a mãe o comunicou sobre a morte de seu pai. A percepção de tudo ao redor, cada detalhe do cenário, do alto para baixo. Viu cada ranhura das folhas nas árvores, o balanço dos galhos que recebiam os pássaros para o descanso. O topo da cabeça do pistoleiro, os cabelos ralos, os poros do couro cabeludo. Tudo muito rápido, a velocidade de seus pensamentos supersônicos. Então ele se mexeu. Tomado por uma força que o levou a ignorar o treinamento e o bom senso, uma força que o impulsionava a salvá-la, a salvar aquela que vinha diretamente para os braços do seu assassino. E ele jurara protegê-la. Rodrigo cumpria suas promessas. Por isso ele tornou a se mover. Sem tirar os olhos do bandido, lançou o braço até o início da bota e puxou a Beretta.

       Mas o delegado não era mais rápido que um projétil. O tiro o atingiu antes de se voltar e endireitar o corpo que, ao perder o equilíbrio e cair, projetou a cabeça contra a porta da picape, a mão armada e o tiro disparado contra um arbusto. Depois somente o silêncio.

         

       Seguiu o combinado com Vitorino. Telefonou assim que se deparou com uma clareira. Desligou o motor e enfiou no cós traseiro do jeans a pistola. Avistou o pistoleiro dentro da sua picape, uma perna para fora, balançando-a com displicência.

       Procurou imprimir uma postura leve, como alguém que ia apenas tratar de negócios ocasionais. Ela sentia a garganta seca. À medida que se aproximava do homem, compreendia que havia ido longe demais, a empreitada era maior do que imaginara. Ele tinha fama de matador e não era uma imagem criada pelas conversas de boteco. Engoliu um pouco de saliva e seguiu em frente. Só teria de tirá-lo da picape e desarmá-lo. Tinha um bom pedaço de corda na caçamba e poderia amarrá-lo e levá-lo direto à delegacia.

       O problema era que o camarada parecia calmo demais. Fumava com uma mão no volante. Vitorino somente relaxava quando estava com os bolsos cheios de dinheiro, quando estava por cima, em vantagem. Não passava de um oportunista, um parasita. Porém, mesmo que desconfiasse de suas intenções, ele estava à sua espera, e ela tinha de detê-lo antes que ferisse Rodrigo.

       — Então quer voltar a correr? — o pistoleiro perguntou de modo casual.

       — Pois é, seria bom se conseguisse arranjar um adversário para mim, sabe, à altura, um cara disposto a mudar de ideia sobre as mulheres serem o tal sexo frágil, um cara bem machista seria o ideal — disse ela, de um jeito forçosamente leve.

       Ele então pôs meio corpo para frente, mostrando-se totalmente, uma perna já no chão e pronta para receber o resto do corpo que tencionava sair da cabine. Antes, contudo, falou:

       — Acontece, Karen, que você nunca me procurou para correr. Quando o Everaldo fugiu da cidade, fui eu quem procurou você e ainda recebi uma esnobada. Me diz, moça, refresca a memória desse velho, quantas vezes telefonei chamando para um encontro no Colono Tranquilo, hein? — indagou, ressentido.

       Ela riscou a terra com o salto da bota, sem ter muito o que falar a respeito. Ele estava certo. Se não fosse a sua insistência, jamais teria voltado a competir. Everaldo tinha sido seu agente até se transformar num matador de aluguel.

       O homem ajeitou o chapéu na cabeça e pôs as mãos nos quadris.

       — Tem uma coisa que não entendo. Como pode um clã totalmente burro ainda se manter unido?

       O tom provocador riscou-lhe a coluna vertebral com o mesmo efeito de um bisturi. Ergueu a cabeça e encarou a face enrugada do outro.

       — Bebeu, Vitorino?

       — Estou sóbrio desde que nasci, moça. O que me deixa puto é você achar que sou ingênuo ou idiota em acreditar que me procurou por causa das corridas. Sei que está acampada na Arco Verde e sei também que dorme com o delegado. O clã Dolejal resolveu fechar o cerco em torno de mim, sou a bola da vez, a parte fraca do cabo de guerra, não é? Como não conseguem destruir o coronel, então tentarão acabar com os oficiais subalternos. Estou muito tranquilo com a minha posição no mundo. — disse, com um sorrisinho debochado enquanto avaliava o efeito de suas palavras.

       — O que sabe que poderia afetar o coronel? — ela perguntou sagazmente, pondo-se em alerta, cada músculo distendido como uma corda.

       Ele riu com aspereza e falou com a raiva descansando debaixo da língua:

       — Tudo, tudinho, sei até mais do que deveria saber. — deu dois ou três passos em direção a ela e parou, emendando de forma beligerante: — Mas sei ainda mais sobre Thales Dolejal, e é com isso que deveria se preocupar. Em vez de me atrair para uma armadilha, Karen, deveria se interessar em saber comigo, inimigo declarado da bicha cosmopolita, o que ele pretende fazer com o delegado quando ele deixar de ser útil. Sim, moça, o Dolejal tem planos para o Rodrigo. E é capaz de um dia desses o seu namoradinho aparecer por aí, quem sabe no meio do mato, morto à bala.

       — Me conta uma novidade. — escarneceu.

       O outro riu com vontade.

       — Falo sério! O Dolejal está comprando as terras ao redor da Coração de Ouro e é certo que, junto com o delegado, conseguirá meter um processo pra cima do coronel...Sabe, né, quando se dá ouvidos a boatos... — cuspiu a saliva grossa e continuou: — O delegado cismou que tem gente do coronel trabalhando sem receber e agora ficou obcecado também com esses supostos atentados. Viu como são as coisas?, o fazendeiro mais patriota do centro-oeste está usando a polícia e os brios do caubói da lei para atingir o seu rival e, assim que se apossar das terras do coronel e se tornar o soberano entre os soberanos, bem, minha amiguinha, ele acabará com o delegado... se é que já não fez isso. Falou com o Rodrigo hoje? — perguntou com um sorriso sugestivo.

       Atentados. Uma boa palavra, Karen considerou. Só quem sabia sobre os atentados eram os envolvidos neles e aqueles para os quais os envolvidos contaram a respeito. Vitorino acabara de confessar a sua culpa.

       Quem sacaria sua arma mais rápido?, cogitou, sabendo antecipadamente a resposta. Ela era melhor com os punhos.

 

       Ao perceber que o latifundiário endereçara mais uma vez os olhos para o celular e, em seguida, para o relógio de pulso, Guilherme parou de explanar a respeito da influência de um garoto de 22 anos com antecedentes criminais na educação de uma criança e como chefe de família de um lar cristão. E ele nem levara em consideração o apelido de Franco.

       O escritório era tão sofisticado quanto o resto da casa. Um lugar mais apropriado para um executivo da Avenida Paulista. Era o sinal dos novos tempos, ponderou o juiz, a figura do rústico fazendeiro substituída pelo empresário do agronegócio, o executivo de escritório. No entanto, o perfil do homem à sua frente — culto, viajado e elegante, condizia a uma minoria por aquela região.

       Thales tencionava encerrar logo aquele assunto. Começou a falar com as mãos cruzadas solenemente sobre a escrivaninha:

       — Sim, o meu filho já foi preso por vandalismo ao pôr fogo em um banco de praça. O banco de madeira estava podre, e uma mulher de 85 anos se machucou quando ele quebrou. Digamos que o Franco se vingou do banco em questão. Na mesma época, o delegado Rodrigo Malverde, achando-se o xerife de um vilarejo do México, levou-o para cadeia porque ele o desacatou, e desacatar esse delegado é simplesmente argumentar contra as suas ordens. Bom, em outra ocasião, o Franco estava com um grupo de seguranças bebendo e conversando, eles falavam alto, riam alto, se divertiam como todos deveriam se divertir se não fossem idiotas, e isso também se configurou, para esse delegado, como desordem. Por isso o Franco é fichado por vandalismo, desordem e desacato. Fosse outra cidade ou outro o delegado, ele não teria tido qualquer problema com a polícia, pois, na verdade, era a polícia que tinha problemas com o meu filho. — falou com ironia, mantendo o semblante cerrado, visto que o exasperava revolver tais recordações e o entediava aquela conversa inútil.

       — Ainda assim é muito desconfortável para mim, como representante da Justiça, ter um genro criminoso. Tenho uma reputação a zelar, o senhor deve entender a minha situação. Sempre fiz questão de manter incólume a minha imagem pública. — asseverou Guilherme, inflexível.

       Thales controlou mais um bocejo. Quase suspirou aliviado quando o seu celular tocou. Pediu licença polidamente ao desembargador e saiu para o corredor, a fim de atender o telefonema de Bronson no corredor.

       — Encontrou a espertinha?

       O segurança relatou cada passo de Karen desde a sua escapada da fazenda.

       — Ela se enfiou numa clareira com o Vitorino. — completou Bronson.

       Ao que Thales captou algo no ar.

       — E o delegado?

       — Deixei um dos nossos de olho nele, mas o imbecil acabou perdendo ele de vista. O seu Rodrigo sempre dá um jeito de escapar da nossa vigilância, patrão. — resmungou. — Não sei como é que ainda está vivo.

       — Nem merecia estar vivo. — comentou com descaso e determinou: — De qualquer forma, traga a Karen de volta nem que seja pelos cabelos. — ordenou.

       — Certo, patrão. — acatou o homem sem se esquecer de considerar o pistoleiro da Coração de Ouro: — E o Vitorino?

       Dolejal observou de perto a gravura caríssima que comprara em Roma. Era feia e triste. Às vezes ele acertava; outras não.

       — Despacha.

       Decidiu por fim e desligou o celular.

       Voltou ao escritório e encontrou o funcionário público esparramado em sua cadeira estofada, fumando charuto com as pernas cruzadas como uma mulher. Já estava na hora de também despachá-lo:

       — Vossa Excelência, o Franco é o meu único filho e herdeiro e tenho certeza absoluta de que ele sempre terá cacife para comprar uma reputação, mas ainda sendo um Dolejal, ele mandará tudo isso à merda. Não nos importamos muito com essas misérias moralistas e qualquer outra porcaria que os bem-nascidos se preocupam. Nós, e quando digo nós falo de mim e do meu filho, bem, nós, os malnascidos, apenas queremos nos manter vivos na terra dos homens de boa vontade, por assim dizer.

       O desembargador estava vermelho, acabara de engolir uma granada sem pino.

       — E mais uma coisa, — continuou o pai de Franco, — o seu futuro genro acredita que é um camarada que não merece a sua filha. Ele tem uns probleminhas de baixa autoestima, herança materna, por certo. Mas a questão é que não admito que o trate como alguém inferior como fez há pouco debaixo do meu teto. Não me importo com você, não passa de um lixo com uma esposa decadente e até entendo que vez por outra procure prostitutas nos becos de Belo Horizonte. — ele cravou os olhos no outro e prosseguiu implacável: — Sei que se utiliza de serviço terceirizado para a sua solidão existencial. — debochou, endereçando um sorrisinho maldoso. — Não subestime os caipiras, Guilherme. Quando descobri que o meu filho ia se casar com a jornalista, investiguei até o papagaio que vocês têm que, por sinal, é o único que pode repetir a palavra reputação sem perder a credibilidade.

       Guilherme Castilhos Monteiro ergueu-se ofendido, endereçou um olhar raivoso ao fazendeiro sem emitir palavra, possesso.

       Thales falou por ele, sorrindo com visível prazer:

       — Seja bem-vindo a minha terra.

 

       Ao voltar a si, Rodrigo percebeu que estava encrencado. Fora jogado contra o assoalho da viatura. O céu foi a sua primeira visão. Azul sem nuvens. Um sol sorridente cuspindo raios para todos os lados. Árvores baixas ao longo do acostamento da estrada de chão batido.

       Sentou-se com dificuldade, as pernas esticadas, o ombro queimando de dor e pontadas agudas pouco acima da nuca. Virou o rosto em direção ao ombro e viu o buraco na camisa e a pasta de sangue espesso no tecido. Uma naca de seu ombro, quase na rótula, parecia ter sido puxada do corpo. O sangue descia espesso, assim como da parte detrás da cabeça.

       Segurando-se na lateral da caçamba, ele se arrastou até a beirada para sair e ficar de pé. Pontos pretos turvaram-lhe a visão. Escorou-se no veículo procurando restabelecer-se. As mechas do seu cabelo estavam grudadas na testa e no pescoço e o suor devia-se à dor, latejante e intensa.

       Com uma mão firmada na traseira da picape, sustentou o corpo dobrado a fim de pegar da bota a pistola. Vitorino acreditara que o havia posto na lona. Tal comportamento mostrava a grande diferença entre bandidos e mocinhos. O bandido, acreditando-se superior à autoridade, cometia erros estúpidos, como manter armado um policial combalido. Ao passo que a polícia, inerentemente superior ao criminoso, despojava-o até de suas cuecas. Por isso foi fácil imaginar que o pistoleiro sentia-se seguro após alvejá-lo, jogá-lo na traseira da viatura e levá-la de volta à estrada que circundava o bosque ao redor da clareira.

       Afastou-se do suporte que o veículo proporcionava ao seu corpo alto e vacilante, tentou endireitar-se para voltar à clareira. Sentia que pisava em areia movediça, caminhava trocando as pernas. E ao pressentir que desfaleceria novamente, baixou a cabeça e permitiu que a onda de torpor passasse por cima de si, de suas costas e se dissipasse. O suor molhava-lhe a camisa, era um suor frio e grosso, que se misturava com o sangue morno. Tornou a caminhar sentindo que carregava uma rocha sobre os ombros. O corte na cabeça sangrava. Parou, debruçou-se sobre os joelhos, respirou fundo. Viu o próprio sangue pingar sobre a terra e ser engolido pelo solo arenoso. Obrigou-se a prosseguir na estrada deserta, arrastando debaixo das botas os grãos de areia.

       Arrancou a camisa e amarrou-a ao redor da cabeça.

 

       Karen esticou o braço e levou-o para trás, sem deixar de encarar o pistoleiro. Manteve um sorriso grudado nos lábios enquanto a mão tocava na Glock e puxava-a devagar, bem devagar, de dentro do jeans. Mal respirava. Tensa, coração na boca e coluna dura. Ela via que o homem acompanhava o movimento de seu braço em busca da automática. Ela sabia. Ele sabia.

       Vitorino apontou o .38 que usara no delegado em direção à cabeça de Karen. Para esse tipo de serviço, a execução sumária, preferia a Taurus .40. Tinha o seu estilo de trabalhar. Afinal, não era um principiante. Se não fosse Leonardo sugerir que se desfizesse da arma usada para matar Iranilda e Joaquim, Karen Lisboa teria seu crânio estourado como um melão no tiro ao alvo. Miolos da vaca louca espalhados pela terra de seus antepassados.

       — Quer um duelo? — indagou com escárnio o camarada que franzia o cenho para suportar o sol nos olhos.

       Karen considerou a proposta sem deixar de segurar firme a Glock presenteada por Thales. Era um bom presente. O que será que ele lhe daria no Natal?, pensou, distraindo a mente do medo que gotejava suco gástrico no estômago.

       — Como nos filmes de faroeste?

       — É, sim, como nos filmes, só que um dos dois morre de verdade. — afirmou com um sorrisinho nojento e emendou como que a esnobando: — Se despediu do seu filho?

       Ela cavou dentro de si um resto de coragem.

       — E você, tem alguém para se despedir? Claro que não, vermes não se relacionam.

       — Não sei por que está tão agressiva, sempre te tratei com respeito e consideração... Agora vamos fazer o seguinte, cada um vai para um lado da clareira, de costas, entendeu? Um de costas para outro, contamos até vinte e viramos já atirando. — ele poliu a arma com a manga comprida da camisa puída e disse: — Viu como sou bom pra você? Nunca dei essa chance para o pessoal que abati... nem mesmo para o delegado. — concluiu, observando o efeito da revelação.

       Karen estremeceu, mas se manteve impassível.

      — Mantenha o foco, Vitorino. Um homem não pode ser morto duas vezes. Aliás, nem você nem o Thales conseguem destruir aquele caubói. Ele é como Clint Eastwood nos filmes de Sergio Leone, nunca morre.

       O velho forçou uma risada rápida.

       — Se quer pensar assim... Vamos lá, Karen, vamos tornar o dia especial. Vire-se e comece a contar.

       — Por acaso sabe contar até 20?

       — É o medo que faz de você uma piadista?

       Ela deu-lhe as costas com raiva e iniciou a contagem regressiva. Inconformada com a bestialidade da situação parou. As palavras de Rodrigo incitando-a a ser uma mulher normal e madura... Acontecia que naquele momento não dava para ouvi-lo. Nem testar sua feminilidade nem sua maturidade. Era matar ou morrer. Se desse tempo para disparar numa corrida louca, ela assim o faria como uma condenada à forca.

       Olhou para o céu e pediu ajuda. A vontade de sacar o celular e telefonar para Rodrigo. Jamais o faria, jamais o poria frente a frente com o homem que queria matá-lo. Foi então que ela percebeu que fizera uma idiotice sem precedentes. E pagaria com a vida por isso.

       Ao alcançar o número cinco, a voz falhou, engoliu um pouco de saliva e foi para o próximo número. Apertou com força a arma na mão, que tremia, transpirava, dificultando a aderência ao cano da pistola. Tirou os olhos fixos no mato queimado, calafrios estremeciam-lhe por entre os interstícios das vértebras e fitou a entrada da clareira como uma possível rota de fuga. Era certo que Vitorino atiraria em suas costas.

       — Se parar de contar, atiro! — gritou o infeliz, de costas, encaminhando-se devagar até a sua extremidade da clareira. — Veja o lado positivo, não demorará a reencontrar seus pais. — falou num tom de troça.

       Podia roubar. Seguir as regras de um jogo injusto jamais. E foi o que fez. O giro de 180 graus empunhando a Glock, o corpo meio encurvado já se preparando para se proteger, ela se voltou para acertá-lo pelas costas.

       E ele fez o mesmo.

       Mas ninguém disparou tiro algum. Elos de tensão tornavam a atmosfera pesada. A voz que ouviram era firme, grossa, de alguém que fumava havia anos.

       — Mete o dedo no gatilho, Vitorino, e já pode fechar os olhos! — gritou Bronson.

       Karen entendeu de duas formas a situação. Primeiro, Deus existia. Ainda assim se manteve em alerta, o pistoleiro apontava a arma em sua direção. Segundo, Ele enviara anjos armados para salvá-la. Vários deles, como pôde perceber. Duas picapes com uma dezena de seguranças da Arco Verde embolados nas carrocerias, de pé; outros saíam das cabines e se posicionavam para atirar no alvo.

       Vitorino estava cercado.

       — Acha que vou me entregar pra vocês? Mas não está me reconhecendo, não, Bronson? — debochou, apertando os olhinhos argutos.

       — O patrão não quer que você perca a dignidade.

       — Entendi. — o outro gritou.

       — Põe a arma no chão pra gente poder conversar. — ordenou o braço direito de Dolejal e, voltando-se para Karen, determinou: — A senhora pega o volante e volta pra fazenda. É ordem do patrão.

       Quando ela saísse para a estrada, Vitorino seria assassinado e depois enterrado em algum lugar. Queria interceder pelo velho, mesmo que quase sucumbira em suas mãos. A ideia original era prendê-lo e entregá-lo à polícia. Não concordava com um assassinato frio. Porém, não o defenderia. E também por dois motivos. Primeiro, o pistoleiro tentara matar Rodrigo em pelo menos duas circunstâncias. Segundo, porque jamais interferira nos negócios de Thales. Se ele queria Vitorino morto, Vitorino deveria ser morto. Era por isso que sobrevivera sozinha com o filho e a avó durante tanto tempo. Escolhera um lado, o mais forte. Não lhe cabia julgar o certo ou o errado. Esse julgamento de valores deixava para Rodrigo.

       Saiu meio que emburrada do semicírculo que se formava ao redor do pistoleiro. Sabia que deveria entrar na camionete da fazenda e dar o fora. Mas não voltaria para a Arco Verde, tinha de encontrar Rodrigo. Precisava vê-lo, beijá-lo, tê-lo perto. Só não poderia revelar o destino de Vitorino. Não trairia Thales.

       Enfiou a arma no cós do jeans e ajeitou o chapéu. Filetes de suor escorriam-lhe do couro cabeludo. Tensão pura. Respirou fundo. Tivera sorte mais uma vez. Até que percebeu uma sutil mudança no semblante dos seguranças e estalos de destravamento de armas ressoaram concomitante ao bater de asas de vários pardais. Voltou o corpo para trás, intrigada com o que provocara a alteração no rumo dos ventos.

       — Esse assunto só diz respeito à polícia. Entenderam? — o delegado falou alto para ser ouvido por todos.

       Karen precisou de alguns segundos para entender que o homem pálido, com o rosto encharcado de suor e a camisa estancando o sangue na cabeça era Rodrigo. Ele caminhava devagar, com dificuldade, a arma apontada diretamente para Bronson, as pálpebras semicerradas numa expressão que não admitia objeção à sua ordem.

       Ela correu em sua direção e postou-se debaixo de um de seus braços, quando ele a protegeu trazendo-a contra seu tórax.

       — Meu Deus, está sangrando...

       — Isso é o de menos — falou baixinho, mantendo a cara amarrada para os demais. — Vitorino, deita a arma no mato, bem devagar! — ordenou, atento aos movimentos de todos os pistoleiros.

       Bronson estava lá para cumprir uma ordem.

       — Foi ele quem atirou no delegado? — perguntou, o jeitinho insolente não era a marca registrada do funcionário mais antigo de Dolejal. Por certo estava irritado por não levar a cabo a determinação do patrão.

       Karen apertou-se a Rodrigo, enlaçando-o pela cintura, sem deixar de mirar o bando de camaradas que ainda se postavam para o ataque. Sentiu no seu corpo a tremedeira e fraqueza do corpo colado ao seu. Urgia que ele fosse logo para o hospital.

       O delegado dispensou as explicações ao outro. Endereçou sua atenção a Vitorino, que levantava as mãos num gesto teatral de rendição, e falou de forma clara e direta:

       — É claro que esse tiro não ficará impune, infeliz, — e virando a cabeça em direção a Bronson, afirmou com a cara de poucos amigos: — mas não será uma execução de gangue que vingará os meus ferimentos. Quero vocês todos fora daqui ou chamo reforços e começo a distribuição de algemas. O que preferem? — alteou a voz para que os outros o ouvissem.

       Os pistoleiros esperavam a decisão do líder. E o líder encarava o rosto porejado de suor do delegado e os olhos cuspindo fogo de raiva, os maxilares projetados contra a pele, o desafio velado de quem esperava qualquer objeção para pôr em prática desejos antigos, como enjaular um punhado de foras da lei.

       — Escuta só, delegado, quando chegamos aqui ele estava para acabar com a dona Karen. Com certeza, se não fosse a nossa chegada ela estaria morta. — argumentou Bronson, apelando para os seus sentimentos.

       Rodrigo lançou um rápido olhar para Karen, abraçada nele e protegida pelo seu braço ao redor dos ombros dela, e tornou a encarar o outro:

       — Sei muito bem o que esse desgraçado planejava fazer. Agora recolhe o teu bando e avisa o patrão que agradeço a interferência, principalmente porque salvaram a minha mulher desse imbecil, mas o resto da imundície é só comigo. — afirmou com seriedade.

       Bronson por fim cedeu.

       — Tudo bem, seu Rodrigo, estamos todos no mesmo barco. — resmungou, contrariado.

       Fez sinal para os seus rapazes baixarem as armas e obedecerem à determinação da polícia. Era uma merda ter de retornar a Arco Verde e comunicar ao patrão que a ordem do delegado prevalecera.

       — Precisamos ir para o hospital imediatamente. — assegurou Karen, abraçada a cintura de Rodrigo e servindo-lhe de apoio enquanto Vitorino era algemado. — O Thales tem um helicóptero, em menos de dez minutos está aqui...

       Rodrigo puxou o prisioneiro pelo antebraço conduzindo-o em direção à viatura.

       — O caso não é para uma UTI nem para usar o helicóptero do Thales.

       — Certo, tudo bem, mas pelo menos me deixa trazer a viatura até aqui, quanto menos caminhar melhor. — considerou já se afastando dele.

       — Isso, sim, é bom que faça. — assentiu com um sorriso fraco. — Mas iremos direto para o hospital, acho que a bateria do meu corpo está descarregando. — brincou.

       Karen aquiesceu com a cabeça, preocupada. Correu para o lugar de onde o vira sair minutos atrás.

       Forçando Vitorino a se sentar no mato, ele fez o mesmo e digitou o número da delegacia.

       — Sabe que de uma forma ou outra já é um cara morto, né, ô delegado?

       — É mesmo?

       — É mesmo, quer limpar a cidade no meio de um tiroteio. Se não for morto por alguém do coronel será por um dos homens do Dolejal. É uma questão de tempo, só digo isso.

       — Então não precisa dizer mais nada.

         

       Valéria Malverde andava inquieta nos últimos dias. A tentativa de assassinato do seu irmão abalara-lhe os nervos. Ele e Sabrina eram a sua família, a extensão de si mesma e a razão de acordar todos os dias e viver.

       Bateu à porta do escritório sentindo o coração pulsando na garganta. O que era isso? Lembrava-se vagamente de já ter se sentido dessa forma. Precisava falar com ele. Queria falar com ele. Era um homem doente, como um dia ela também o fora, que precisava de ajuda. Se ajudasse Thales Dolejal a se livrar da obsessão por Karen, também ajudaria o seu irmão e o manteria a salvo de qualquer vingança futura.

       Sim, era um sacrifício que tinha de fazer pelos Malverde.

       — Entre, — ele disse, sem se voltar para quem adentrava o seu escritório, concentrado em fingir que algo no notebook o interessava, os pensamentos direcionados para Vitorino ainda vivo. Ergueu os olhos para a figura parada à sua frente e falou sem sorrir: — É melhor que se sente, Valéria.

       Ela não entendeu, já que fora sua a iniciativa de procurá-lo. Alisou o vestido com as mãos num tique que denunciava a sua ansiedade.

       — Algum problema? — perguntou num fiapo de voz.

       Thales encarou-a diretamente, impassível.

       — Vai ou não se sentar?

       Val deu uma olhada na cadeira em frente à escrivaninha dele. Manteve-se à porta entreaberta, como se, com isso, dependendo o que ele lhe dissesse poderia fugir corredor afora.

       — Estou bem aqui, pode falar.

       Ele esboçou um sorriso e falou com serenidade:

       — Você é uma mula teimosa, Valéria.

       — Obrigada, Thales. — agradeceu, irônica.

       — O seu irmão levou um tiro e foi hospitalizado. — declarou sem emoção na voz e era mais como se tivesse dito que passaria o resto do dia no escritório do centro.

       Por um momento, ela não entendeu o que ouvira. A calma e impessoalidade contradiziam a gravidade da notícia.

       — Como? Não entendi...

       — Vitorino atirou no seu irmão.

       Ele se levantou de onde estava e foi até o bar. Serviu dois copos com uísque e gelo.

       Aos poucos, Val assimilava a notícia, as pernas tremiam enquanto percebia que o carpete afundava.

       — Como ele está? — foi o que conseguiu falar, endereçando o olhar para o homem que vinha em sua direção e estendia um dos copos.

       — Beba e se acalme. Um tiro de raspão nunca matou ninguém. — falou com indiferença.

       E foi essa indiferença para com a vida do seu irmão que a irritou. Ela ignorou o copo estendido e mirou a fúria dos seus olhos verdes nos dele, esbravejando mais histérica do que nunca:

       — Como pode ser assim, me diz? Por mais que não considere o meu irmão como seu amigo, que tenha lá suas diferenças com ele, ainda assim ele sempre fez vista grossa para suas sujeiradas, mais especificamente para as expulsões dos amantes da Karen... Por Deus, homem, não tem alma dentro desse corpo? Nós nos conhecemos há mais de dez anos, Thales! Você conhece o Rodrigo há mais de dez anos, é tempo o bastante para se criar um vínculo, que não seja de amizade e lealdade, mas, pelo menos, de respeito à vida humana!

       Ele sorveu a bebida mantendo os olhos nela. Depois que ingeriu o seu uísque, emborcou o que havia preparado para ela. Respirou fundo antes de perguntar com evidente menosprezo:

       — Qual foi a parte do “tiro de raspão” que não entendeu?

       Valéria sentiu seus olhos encherem-se de água. Apertou as mãos, nervosa. Não aguentava mais tanta pressão.

       — Você é um monstro. — murmurou, resignada.

       — Respeito a vida do seu irmão tanto que a protejo. Se não fosse por mim, ele já estaria morto. — considerou sem se abalar, sentando-se à beira da escrivaninha e cruzando os braços diante do corpo. Postava-se como um homem ponderado que falava com uma louca vertendo lágrimas.

       Ela balançou a cabeça desacreditando nele.

       — Tudo isso porque a Karen escolheu viver com ele... Tudo isso porque está doente. Será que não vê isso?  Busque  se curar, fale com um terapeuta, um padre, sei lá. Tente ser alguém melhor! — falou com raiva, o sangue subindo-lhe à face.

       — E os seus recalques, Valéria? Guardou-os dentro da geladeira? Ou acha normal uma mulher trocar o sexo pela comida? Bem, eu não acho.

       — Meu Deus, você é cruel... — constatou, incrédula.

       Ele sorriu divertido com a observação quase balbuciada.

       — Mas os monstros não são assim, minha cara? — ironizou.

       Ainda quer curá-lo, Valéria? — ouviu a voz de sua consciência.

       — Então, para você, sou uma gorducha assexuada?

       — Não, — ele parou e olhou de cima abaixo para ela, ostensivamente, como os homens vulgares faziam para intimidar algumas mulheres, — é só uma hipócrita assexuada. — completou ferinamente.

       Entendia quando Karen acertava-lhe um murro no meio da cara.

       Ele riu baixinho. Era claro que deixá-la transtornada o divertia.

       — É verdade, Valéria, que vivemos num mundo de falsas amabilidades, e sou uma peça obsoleta do sistema. Talvez falar a verdade me torne um insuportável. Veja, no entanto, que nesse caso a errada é você, nunca tivemos intimidade para que falasse o que falou para mim. Aceitei você em minha casa por causa da Karen. Aliás, por mim, os Malverde podem ir direto para o inferno. Agora, faça o favor de pegar o seu moralismo e a sua carinha de ofendida e zarpar fora do meu escritório. Vá bajular o irmãozinho e me deixa trabalhar em paz.

       Ela não conseguia se mexer.

       — Qual foi a última vez que alguém se importou com você?

       — Essa não é difícil de responder, mas acontece que teria de considerar também os seus valores, ou melhor, falsos valores, claro. Quem se importa comigo é, na sua visão estreita, um psicopata. Viu como são as coisas? Nada é preto no branco, certo ou errado, bom ou mau. O sol que nos oferece vitamina D é o mesmo que nos garante um bom câncer de pele. Abra os olhos, o mundo é muito maior que o espaço entre o seu sofá e a televisão.

       Um muro. Ele erguera um muro.

       — Posso ir até o hospital sem escolta? — viu-se pedindo sua autorização.

       Thales aquiesceu levemente com a cabeça, olhando-a de um jeito como se preferisse prolongar a conversa. Foi como ela percebeu.

       — Desculpa a minha grosseria, é verdade que nos acolheu em sua casa, mesmo que tenha sido pela Karen. — disse Val, meio sem graça.

       Ela queria prolongar a estada ali, sozinha com ele, sem a presença de Karen para desviar-lhe a atenção.

       — Protejo muitas pessoas em Matarana, Valéria. Não me custa tê-los na minha fazenda.

       — Eu sei, — assentiu indo pouco mais além, — mas é difícil levar em consideração o seu lado bom quando faz questão de mostrar o outro.

       — Cada um escolhe o lado que quer ver, não escondo nenhum deles.

       Ela lhe arrancava confissões que mulher nenhuma se interessara em saber. Era melhor então mantê-la distante, ele considerou.

       — Quero que se sinta à vontade em minha casa. — erguendo-se e circundando a escrivaninha, emendou como se pensasse alto: — Imagino que os recentes acontecimentos tenham lhe tirado dos eixos, sua vida é bastante pacata e...

       — Thales...

       Ele parou entre o movimento de puxar a cadeira para trás e se sentar, fitou-a quando o chamou, alçando a sobrancelha, interrogativo.

       — Não continue a falar, porque sei que acabará me ofendendo. — afirmou, procurando imprimir leveza à observação.

       O sorriso demorou a se desenhar nos lábios, um sorriso preguiçoso e cheio de charme.

       — Humm, tenho de me preocupar com você, Valéria, ou é uma feiticeira ou anda me analisando às escondidas.

       Ela corou tremendamente. Ele riu com vontade.

       — Acertei, não é mesmo? Você não é uma feiticeira.

         

       Era estranho que alguém se sentisse tão bem em um hospital, mas era como Rodrigo se sentia deitado contra dois travesseiros, a sutura no ombro e a bandagem no corte na nuca, ainda meio grogue com a anestesia e totalmente à mercê de uma Karen carinhosa e dedicada.

       — Casa comigo? — ele tentou, fitando-a com um sorrisinho travesso.

       Ela devolveu-lhe o sorriso, sentando-se na beirada do leito e bagunçando o seu cabelo jovialmente.

       — Acha que só porque levou um tiro vou mudar de ideia?

       — Esperava que sim, — retrucou, adorando os afagos dela. — pensei que a proximidade da morte pusesse abaixo suas teorias contra nosso casamento.

       — Certo, moço, até caso com você se me responder uma coisinha.

       Ele parou de sorrir e franziu o cenho entre intrigado e expectante.

       — O que quiser, é só mandar.

       Karen ajeitou uma mecha do cabelo atrás da orelha e indagou sem rodeios:

       — O que é mais importante: o amor ou o casamento?

       — Por que um ou outro? A gente casa quando ama alguém, ora. — disse ele, rindo-se.

       — Nem sempre, Rodrigo. As pessoas casam por vários motivos, nem sempre é por amor. Além disso, um não precisa do outro. Não vejo porque colocar os dois no mesmo balaio.

       — Entendo seu ponto de vista, não aceito, mas entendo — suspirou resignado. — E também não quero começar uma discussão. — resolveu, ajeitando-se nos travesseiros. — Pelo menos as suas corridas ilegais acabaram, não é mesmo? — alfinetou-a, piscando o olho.

       — Vitorino me entregou?

       — Adele o interrogou e ele soltou o verbo... e inocentou o coronel. — declarou num misto de amargor e menosprezo. Detestava admitir a inocência do coronel nesse caso. O fato era que um Marau pelo menos estava envolvido.

       — Olha, Rodrigo, achei que o Vitorino apenas organizasse as corridas, jamais me passou pela cabeça que se metesse com drogas. — explicou-se.

       A bem da verdade, considerou Karen, ele intermediava as corridas e distribuía o dinheiro das apostas. Era somente isso que interessava a ela.

       — Espero que não se meta em mais nenhuma atividade ilegal. Estou falando sério, Karen.

       Ela aproximou seu rosto do dele, pretendendo silenciá-lo com um beijo.

       — Espera, quero ouvir de você que não voltará a se envolver em atividades ilegais. — insistiu.

       — Esse negócio de ilegalidade é relativo, Rodrigo. O que pode ser ilegal pra você, é legal para mim...

       — Karen Lisboa! — nem precisou altear a voz para demonstrar firmeza.

       — Mas é verdade.

       — Ka-ren!

       Ela riu baixinho.

       — Certo, xerifão, se a tal atividade estiver enquadrada em algum artigo do código penal como algo ilícito, eu, Karen Lisboa, juro pela bandeira nacional que não me envolverei. Nem vou mais jogar no bicho.

       Rodrigo apertou os olhos, desconfiado.

       — Onde você faz suas apostas?

       — Ei, delegado, quer um beijo meu ou prender um coitado que não tem onde cair morto?

       — Sabia que o jogo do bicho é uma contravenção penal?, que por trás desse “coitado” tem um banqueiro, um camarada ligado ao crime organizado que inclui a agiotagem, assassinato por encomenda e todo o resto que já conhecemos? Karen, o que lhe parece inofensivo é simplesmente a ponta de um iceberg que sustenta a criminalidade. — ele parou e a encarou por alguns minutos. Tinha plena consciência de que falava com as paredes daquele quarto de hospital.

       — Você está nu debaixo desse vestidinho sexy? — ela indagou com ar grave.

       Ele perdeu o rebolado. Aturdido, levantou a ponta do lençol e examinou a roupa do hospital.

       — É, parece que sim. — murmurou.

       Ela sorriu e embarafustou a mão por baixo do lençol, deslizando-a por cima da roupa até encontrar o que tencionava pegar.

       — Alvejado, mas não combalido. — sussurrou com deleite, apalpando-o.

       Rodrigo prendeu o ar nos pulmões e pôs sua mão sobre a dela.

       — É assim que resolve mudar de assunto?

       — Não, — respondeu e passou a língua sobre a boca dele como se lambesse a ponta de um sorvete italiano: — é assim, quer ver?

       Ele respondeu que sim, as palavras escaparam para dentro da boca de Karen. Eles estavam com saudade. Muita saudade. E era como se pegassem fogo, suas roupas queimavam, peles em brasa.

       Ela o beijou com tamanha vontade que sentiu o gosto do sangue dele. Tentou se conter, afastou-se e respirou fundo. Mas ao vê-lo ainda de olhos fechados e os lábios inchados, mandou para o inferno qualquer atitude de contenção e chupou-lhe o lábio inferior para, em seguida, apropriar-se da sua língua, sugando-a com desespero febril, com o mesmo desespero que tencionava enviá-la direto para a cintura dele. Ouvia-o gemer baixinho dentro de sua boca, ofegava e apertava-a contra si num abraço para não largá-la jamais.

       Num átimo, ela se afastou e saiu do leito.

       — Não... vem, por favor... — ele pediu num gemido rouco.

       Ela sorriu e baixou o zíper do jeans. Esperou que ele fizesse alguma objeção ou que citasse algum parágrafo do seu manual de escoteiro. Não esperou muito, mantinha os olhos grudados nele enquanto baixava a calça e deixava-a no chão.

       — Podemos ser pegos... — ele murmurou a contragosto.

       — Isso não é excitante? — ela brincou, puxando o lençol e erguendo a barra da bata.

       — Se não formos pegos, sim. — considerou, arfando.

       Ela riu baixinho ao tocar em um dos quadradinhos da sua barriga tanquinho, a musculatura se contraiu ao toque. Beijou seu abdômen até a extensão do caminho do pecado onde começavam os pelos.

       — Karen...

       Ele a chamou num fio de voz.

       Sabia que o moço de família não relaxaria de todo. Por isso trancou a porta com uma cadeira. Tornou a subir no leito e beijou a testa do homem que a olhava num misto de desejo e admiração. Ela era maluca, e ele era louco por ela.

       — Amo tanto você... — ele disse, a voz rouca.

       Ela afastou a calcinha para o lado e o pôs dentro de si, embalou-o mexendo a cintura devagar, aumentando ritmo à medida que a febre atingia o auge.

       — Aqui é o seu lugar, dentro de mim, entre minhas costelas e entre minhas pernas... em cada centímetro de pele, em cada partícula do meu ar...te amo demais, Rodrigo...demais...

       Segurou-se na base de ferro da cama, acima da cabeça dele, e impulsionou o corpo para cima e para baixo, ofegante, aproximando-se do cume mais alto, tendo uma das mãos grandes e masculinas ao redor da sua cintura, firmando-a no deslocamento dos quadris.

       Alguém tentou abrir a porta.

       Por alguns segundos, eles pararam, ofegantes e contrafeitos. O seu homem estava descabelado e com as órbitas oculares injetadas de desejo, as narinas dilatadas e pronto para se jogar dentro dela.

       — Tem gente, volta outra hora! — ela gritou.

       Rodrigo riu e apertou-a contra si com o braço livre. Era verdade que sentiu uma fisgada no ombro, mas também era verdade que o seu corpo estava para explodir em mil fogos. Puxou-a para si e ergueu-lhe a camiseta, buscando os seios e chupando-os.

       Ela fechou os olhos e suportou o magma da Terra derretê-la de ardor, devastada pelo orgasmo que arrancou um grito rouco da garganta. Grudou suas coxas contra as coxas dele, aguardando a passagem do Tsunami abandoná-la. E, antes que a calmaria lhe tomasse de assalto afastando os vestígios do desejo violento, sentiu-o estremecer debaixo de si, comprimindo a testa entre os seus seios.

       Ao abrir os olhos assustou-se com o que viu. Uma mancha de sangue tingia de vermelho a brancura da bandagem. Nada melhor que tal visão para acabar de vez com a febre do desejo.

       Desvencilhou-se dele e desceu da cama, vestindo-se com pressa.

       Atordoado e ainda respirando pesadamente, ele arou os cabelos tentando entender a mudança repentina do seu comportamento.

       — Vai pelo menos deixar o dinheiro do táxi e o número do seu telefone? — ele brincou, tentando se recompor.

       Ela se aproximou com um sorriso nervoso, ajeitou-lhe a bata e o cobriu com o lençol.

       — Tenho de chamar a enfermeira. — apontando para o ombro dele.

       — Bem, terei de pensar rapidinho numa justificativa para esse sangramento. — falou, sorrindo.

       — Deus Pai!, como você é bonito! — exclamou, parando à porta e admirando o rosto cheio de vida, os olhos castanhos cor de mel, radiantes, e a paixão estampada na cara.

       Ele piscou olhou para ela.

      — Almas gêmeas são parecidas até na fisionomia, li isso em algum lugar. — disse, apertando os olhos como se buscasse tal informação na memória.

       — Sempre tem uma coisa bonita pra me dizer.

       Voltou até ele e o beijou.

         

       A enfermeira bateu à porta do consultório e, vendo-o terminando de prescrever a receita da última paciente, avisou-o sobre a chegada do delegado. E outro detalhe.

       — Obrigado, Joana — Cris agradeceu e voltou-se para a mãe que carregava seu bebê com catapora. — É importante também que corte as unhas dela, quando as feridas começarem a secar, ela vai coçar. — pegou a menina de oito meses no colo e levou-a até a porta, acompanhado pela jovem de vinte e poucos anos.

       — Acho que também contrairei catapora, não é, doutor? — ela considerou com um esboço de sorriso.

       — Se ainda não teve, Clara, agora não escapa. — brincou, entregando-lhe a filha.

       Assim que a paciente saiu, a enfermeira entrou, os olhos arregalados como alguém que se segurava para contar uma fofoca daquelas.

       — Vou subir para dar uma olhada no delegado. — avisou-a.

       — O Dr. Fontes já cuidou do seu amigo, doutor. — afirmou, postando-se no meio do consultório e enfim extravasando sua necessidade: — Nem sabe a confusão que está na recepção.

       Cris sabia que não escaparia das garras da enfermeira. Cruzou os braços com displicência e sorriu de forma a convidá-la a relatar o evento.

       — É incrível a popularidade do delegado. Assim que a cidade soube que ele levou um tiro e que se encaminhava para o hospital, começou a aglomeração de pessoas no saguão de entrada. Uma após a outra, preocupadas e solícitas. — ela fez uma pausa para recuperar o fôlego ou segurar uma risada, o médico não compreendeu a intenção do suspense. — Resumindo a história, temos 57 mulheres enlouquecidas querendo doar sangue para o delegado. Até as trigêmeas da Papelaria Rose, na segunda via, sabe? As solteironas de 80 anos que vieram fazer fortuna no centro-oeste e deram com os burros n’água. — riu-se.

       Foi a vez de Cris rir e aproveitou para provocá-la:

       — E o que está fazendo fora da fila?

       Ela abriu um belo sorriso malicioso.

       — Já doei, doutor. E como fui uma das primeiras e o nosso banco de sangue estava vazio, bem, tem sangue meu naquele corpão.

       — As mulheres de Matarana me põem medo. — comentou sério, acompanhando a enfermeira até o segundo andar, dirigindo-se ao quarto do delegado.

       Encontrou-o meio sentado meio deitado sobre os travesseiros, os olhos fechados, o rosto relaxado, o cabelo para todos os lados e uma mancha espessa de sangue na bandagem. Apontou para o ferimento e pediu para a enfermeira refazê-lo.

       — Ué, fui eu que suturei o ombro... — declarou na defensiva.

       Rodrigo abriu os olhos ao ouvir a voz da enfermeira.

       — E aí, comandante? Como se sente? — perguntou o médico, com um olho no paciente e outro no trabalho da enfermeira.

       — Pronto para receber alta. — respondeu sem perder tempo.

       — O Fontes já viu os raios-X do super-homem? — fez troça dirigindo a pergunta à Joana.

       — Ainda não. — ela tinha uma ruga funda no meio da testa enquanto avaliava o ferimento do paciente. — Os pontos soltaram. Isso nunca aconteceu comigo antes. — resmungou frustrada.

       O médico contraiu os lábios num esgar de impaciência. Observou a outra sair do quarto para buscar os instrumentos e costurar o paciente outra vez.

       — Imagino que ela deva ter ficado de olho no tal corpão que falou. — comentou Cris contrafeito.

       Rodrigo riu baixinho e confessou:

       — Não a culpe, ela fez tudo direitinho.

       — É, deu pra ver.

       — Eu e a Karen nos reconciliamos. — afirmou de modo sugestivo.

       — É mesmo? Fico feliz por vocês. — ele não parecia feliz. — Foi então uma espécie de comemoração por ela ainda ter um namorado?

       Rodrigo estreitou os olhos tentando captar o que viria a seguir.

       — O que está rolando?

       — O que está rolando? Vou lhe dizer o que está “rolando”. Poucos meses atrás a sua atual namorada também estava aqui nesse hospital, vítima de uma facada de um pistoleiro. Não sei como vocês conseguem levar a vida assim. Até entendo que você se envolva com essa gente, afinal é um policial. Mas não consigo aceitar ver meus amigos sendo feridos por esses bandidos.

       — E nunca conseguirá aceitar, Cris. É por isso que estou limpando Matarana, para que ela se torne uma cidade pacífica como qualquer cidadezinha do interior. — ponderou, verificando que a revolta do médico ia além do banditismo dos pistoleiros.

       — Os pais da Nova estão apavorados e partirão hoje à noite para Minas. — falou, suspirando resignado. — Tenho medo de um dia receber a Nova na emergência.

       — Sei que não vai gostar de ouvir isso, mas tenho de dizer. É muito difícil que alguém faça mal a ela.

       — Eu sei, por causa do filho do Thales. — considerou a contragosto.

       Rodrigo assentiu levemente.

       Uma batida suave na porta entreaberta chamou a atenção de ambos. Cris pensava que era a enfermeira e Rodrigo, Karen.

       Era Rita e o seu vestidinho colado, os seios apertados querendo espiar por cima da roupa, o perfume agradável e os cachos loiros caindo-lhe sobre os ombros.

       Automaticamente, Rodrigo e Cristiano entreolharam-se surpresos.

       — Boa tarde, doutor, posso ver como está o nosso delegado?

       Ela falava de um jeito estudado, como uma Marylin Monroe tupiniquim, a voz nasalada e quase infantil, arrastada, a intenção da sensualidade em cada sílaba pronunciada com delicadeza, quase um afago auditivo.

       Cris pensou se ela também havia doado sangue. E depois considerou levá-la para cama um dia, talvez numa tarde de domingo, quando se sentia deprimido.

       — Entre e sirva-se. — brincou e recebeu um olhar feroz do amigo. — Antecipo apenas, Rita, que o nosso delegado não poderá comparecer à cerimônia. É provável que receba alta amanhã ou depois. — ouviu-o resmungar contrariado e emendou com um sorriso amargo: — O senhor está sob a minha jurisdição, delegado. Aqui, o almofadinha manda nos caubóis.

       Mais uma vez a referência a Franco, pensou Rodrigo, percebendo que a ferida no pediatra era mais profunda que a sua no ombro.

       — Mudei a data do evento, será no próximo sábado. As pessoas estão muito abaladas com o atentado contra a sua vida, Rodrigo. — comunicou com um sorrisinho simpático.

       — Obrigado, mas não era preciso. As personalidades mais importantes não estão hospitalizadas. — falou, levando em consideração a figura irritadiça do médico fitando-o gravemente. — O Cris, por exemplo, poderia me representar.

       Rita intercedeu agitada.

       — Já está tudo resolvido. Na verdade, era o que esperavam da organização do evento. Procure esquecer um pouco a cidade e se concentrar em si mesmo, na sua saúde.

       Outra vez, Rodrigo e Cris entreolharam-se, agora, com malícia.

       — Com certeza ele terá de se cuidar, por que daqui só sai quando estiver cem por cento. — afirmou o médico. — Bem, Rodrigo, volto mais tarde, tenho de fazer a minha ronda na ala pediátrica.

       — Certo, volte mesmo... e traga cigarros. — brincou.

       — Engraçadinho! — debochou. — Vou é mandar costurar com linha de aço esse ombro. — disse num tom camarada, atravessando a porta e ganhando o corredor do hospital.

       Coube a Rodrigo voltar-se para Rita, que resolvera se aboletar na beirada do leito, próximo demais. Era certo que se Karen entrasse e a visse tão perto dele o tempo fecharia. Decidiu que o melhor era encerrar a visita o quanto antes.

       — Obrigado por ter vindo, Rita. — começou, forçando-se um bocejo — Preciso tirar um cochilo.

       — Vou esperar a enfermeira refazer os seus pontos. Alguém tem de cuidar de você. — olhou ao redor. — Está sem água?

       Um homem experiente sabia que o rumo daquela prosa era uma briga entre mulheres puxando o cabelo uma da outra. Por isso respondeu prontamente:

       — A Karen está trazendo água.

       Boa atriz que era manteve o sorriso jovial.

       — Como é bom ter os amigos por perto, não é mesmo? Acho então que nós duas poderemos nos revezar.

       Antes que esboçasse qualquer reação, a porta foi afastada e ele desejou muito que fosse a enfermeira.

       Era Karen.

         

       Franco tamborilava os dedos ao volante, o cigarro no canto dos lábios, a aba do chapéu abaixada, parado diante do semáforo. O trânsito tranquilo numa das avenidas principais do centro. Aguardava o vermelho passar para o amarelo, depois o verde. Então ele aceleraria, trocaria as marchas e arrastaria os pneus no asfalto quente. Os olhos descansavam sobre qualquer coisa na paisagem monótona do começo de tarde. Considerava voltar para casa, passar a mão na sua mulher e levá-la para cama. Dormirem abraçados antes e depois de se enfiar dentro dela. E era isso que faria. Era dono de si mesmo, um animal desembestado pelo prado. Um maluco que vencera o Citotec e se pusera no mundo por um golpe de sorte.

       Tragou o cigarro e expeliu a fumaça pela boca entreaberta. Um pouco do vento morno soprou-lhe o cabelo e Franco quase sorriu. Era um dia bom aquele. Para um camarada como ele os dias eram divididos entre bons e bacanas. A dureza do passado fora enterrada numa cova funda. Ainda assim era tocado, vez ou outra, pelo sopro frio detrás da orelha. E era o aviso de que nada era certo e definitivo na vida.

       Uma olhada de esguelha captou a picape parada ao seu lado. O ronco do motor sugeria que o motorista exigia-lhe a atenção. Mas Franco detestava fazer vontade alheia. Não fora domesticado pelos homens; fora, outrossim, abençoado por uma mulher. O que não lhe tirava o veneno dos dardos.

       O motorista acelerou e ultrapassou o sinal vermelho. Riscos de pneus tingiram a primeira camada de piche. A traseira da camionete resvalou de um lado para o outro tomada pela fúria da arrancada. E a poeira pulou para o alto como estrelas despedaçadas.

       Franco riu e pôs Sympathy of  Devil para rodar. Fazia algum tempo que não ouvia os tambores do seu batismo. Jogou a bagana pela janela, trocou as marchas e avançou na troca das cores do semáforo. Bocejou alto e seguiu pela avenida calmamente. Observou o comércio vazio, visto que se aproximava a hora de chover.

       Ao parar no próximo sinal, percebeu que ladeava a mesma camionete. Seus olhos se cruzaram com os do motorista e Franco tocou de leve a aba do chapéu num rápido cumprimento. Voltou-se para frente, um casal de namorados atravessava a avenida. O motor ao lado soou forte, o rugido rouco e impaciente que ameaçava os pedestres. Tal atitude arrogante o fez observar melhor quem estava à direção. Estreitou os olhos buscando na memória o nome do dono da feição de filhinho da mamãe que comprava seu Stetson direto dos gringos, o nariz fino como o de uma mulher classuda e os olhos debochados de alguém que merecia levar um sarrafo só por usar os olhos daquele jeito, para olhar de forma presunçosa, do alto da Montanha da Imortalidade.

       Outra vez o estranho arrancou e avançou em direção à estrada secundária, o asfalto esburacado, a linha reta em direção a Coração de Ouro.

       Com uma mão no volante e a outra digitando as teclas do celular, Franco se manteve atento à traseira do veículo.

       Os primeiros pingos de chuva despencaram grossos e explodiram silenciosamente sobre a estrada de chão batido. Ele subiu o vidro da janela ao seu lado e aguardou a ligação se completar enquanto via as luzes do freio da outra camionete se acenderem. Teve de reduzir a velocidade.

       — Promete não ficar zangada? — perguntou meio se rindo.

       — Não.

       — Olha só, princesa, a cerimônia de hoje à noite foi transferida para o sábado que vem.

       — Merda, Franco, e o nosso noivado?

       — Pois é, teremos de ver outra data. — respondeu despreocupado. — Pena que seus pais já terão voltado para a civilização. — forçou-se um tom de lamento.

       — Por mim, eles nem tinham vindo, ô gente chata. — suspirou com rispidez. — Ai, Franco, o nosso noivado está virando uma bagunça.

       Ele riu baixinho.

       — É só deixar comigo que vira bagunça mesmo.

       — Vem pra casa agora. — pediu, a voz morna.

       Ele sabia o que ela queria. Acelerou até ultrapassar a camionete do desconhecido vagamente familiar.

       — Quer saber o motivo do adiamento, mocinha-nada-egoísta? — ralhou com brandura.

       Foi a vez de ela rir.

       — O Bronson me falou que o Rodrigo levou um tiro do segurança do coronel Marau e está no hospital. Antes que você desmaie, quero que saiba que o seu delegado preferido está passando bem, foi só um tirozinho de nada, viu?

       — Meu Deus, a Val e a Karen sabem? — perguntou, preocupada.

       — Acho que sim. — ele deu uma olhada pelo retrovisor e viu a camionete do desconhecido avançar perigosamente contra a sua traseira. — Amor lindo, tenho de desligar. Tira a calcinha e me espera, ok?

       — Certo, só vou terminar de passar óleo de amêndoas no corpo e vestirei algo por cima. — declarou num tom insinuante.

       — Para com isso, Nova, vou acabar batendo a bazuca no painel. — brincou.

       Atrás, os faróis piscavam intermitentes. Franco reduziu a velocidade e jogou a picape para o lado, cedendo passagem ao desconhecido.

       Emparelharam, e o outro tirou o chapéu como se fosse apresentar-se. Mas era apenas para mostrar o rosto, incitando a memória de Franco a funcionar. Sorriu, o desconhecido, virando totalmente a direção e se chocando contra a porta de Franco.

       O barulho do choque entre os veículos não o surpreendeu tanto quanto a batida em si. Seu corpo balançou e, por um momento, ele perdeu o controle da direção. A picape deslizou para o acostamento, e ele teve de trazê-la de volta à estrada. Acelerou raspando a terra debaixo dos pneus e partiu para cima do outro. Não sabia que tipo de maluco encontrara, apesar de reconhecer que a sua cara não lhe era estranha. Talvez algum inimigo esquecido pelo tempo ou um idiota sem amor à vida, ele considerou, endireitando-se e diminuindo a velocidade até estacionar.

       Desceu da picape, tirou um cigarro da carteira e o enfiou entre os lábios. Esperou tranquilamente. Viu quando o desconhecido acionou os freios, fez o contorno na pista e retornou. Escorou-se com displicência contra o capô. A fumaça saía de sua boca em fios densos e tortuosos. Perto dali, tuiuiús aterrissavam e decolavam como se estivessem em um aeroporto.

       O desconhecido parou e pulou para fora.

       — Não se lembra de mim, não?

       Franco sorriu o mesmo tipo de sorriso que Dolejal pai dispensava a quem não o interessava.

       O outro retribuiu o sorriso, mas de um jeito que demonstrava a sua superioridade de berço. E era como tivesse se forçado a descer alguns degraus no seu orgulho para ter aquela conversa, ali, à beira da estrada com aquele indivíduo que o analisava de cima a baixo com expressão de troça.

       — Não sei se está se fazendo de esquecido ou é conveniente esquecer o passado. A verdade é que pouco me importa a intenção, caminhei muito para chegar aqui, no lugar onde tudo começou... É incrível como as pessoas não mudam, passam por tudo que é tipo de merda, mas a essência, sabe, não muda. O âmago, como dizem, é sempre a mesma porra imutável. Está acompanhando a minha linha de raciocínio, né? Me lembro de você, lembro que se metia a defensor da minoria, era o simpatizante das causas perdidas... — gargalhou, deitando a cabeça para trás.

       Franco fumava com tranquilidade. Bocejou mais uma vez e comentou indiferente:

       — Sinceramente, não sei quem é você.

       — Olha bem para mim, Franco. — pediu, sem deixar de sorrir com arrogância. — Sabe quem eu sou, mas não quer admitir.

       — Não costumo mentir. Isso significa que às vezes minto. E minto. — enfatizou alçando a sobrancelha, divertido. — Quando não gosto da pessoa, minto a valer. Se você é alguém do meu passado, nem deveria ter me procurado, sou o tipo de cara que enterra literalmente o passado, só que a pá que eu trazia na camionete deixei em casa. — debochou — O melhor a fazer é considerar que teve um dia bacaninha e cair fora.

       — Você é muito convincente mesmo. — riu-se e estendeu a mão — Fomos colegas de escola. Na verdade, nunca entendi a mistura de classes sociais naquele colégio. Era esquisito estudar com um empregado de fazenda, o único pobre diabo, claro. Sou Leonardo Marau e essa cicatriz que sempre atraiu a mulherada foi presente seu, Franco, obrigado. — completou com um sorriso sem mágoa.

       Foi a vez de Franco sorrir, aceitando a mão estendida e apertando-a com firmeza. Ouvira por alto que o filho do coronel retornara a Matarana, talvez fora Alberto ou o próprio coronel Rodrigues quem comentara o fato. O assunto não o interessava. Mas o que ocorrera poucos minutos atrás, sim.

       — Por que bateu na minha picape? — perguntou ainda sorrindo e segurando a mão do outro na sua.

       Leonardo tentou se desvencilhar sem sucesso.

       — Queria chamar a sua atenção. Além disso, te dei um bom motivo para trocar de camionete. — comentou com estudado desdém.

       — Acabou amassando a porta e terá de pagar o conserto, Marau. — afirmou, encarando-o com gravidade e soltando enfim a mão do outro.

       — Pago o conserto, mas acho que merece uma novinha. — pôs as mãos nos quadris como os homens que se acham no topo de algo importante. — Vamos até a revenda do Vieira, quero te dar um presente em nome da nossa velha amizade.

       — Essa é boa! — ele deu uma risada engraçada e endireitou o corpo, insinuando bater em retirada. — Um Marau presenteando um Dolejal. Ou acha que ainda sou um empregadinho de fazenda? — provocou.

       — Sei quem você é e também sei quem eu sou. — começou Leonardo, falando num tom sério e adulto. — Por isso acho que deveríamos ser mais próximos, ignorar essa rivalidade idiota entre as nossas famílias, por exemplo. Somos melhores que os nossos pais. Tem alguma dúvida sobre isso?

       Alcançando a porta do motorista aberta, Franco parou e se virou.

       — Bateu na minha picape. — insistiu, veemente.

       O outro ergueu os braços para o céu num gesto teatral.

       — Já disse que conserto essa coisa velha e enferrujada. — metendo dois olhos argutos no seu interlocutor, indagou num tom de desafio: — Como pode ser filho de quem é e andar por aí como um Zé Ninguém? Você tem uma picape caindo aos pedaços, mora de aluguel numa casinha à beira do rio e trabalha como empregado do próprio pai. Não entendo como aceita pouco, quase nada da vida. — deu de ombros, inconformado.

       — Estou bem com o que tenho. A parte da ganância deixo para os mais velhos. — ironizou.

       — Mas pode ter mais, é o seu direito como filho legítimo de um dos colonizadores. Pode calar a boca dos que te chamam por apelidos idiotas e se tornar rico e poderoso. — a voz baixa, persuasiva.

       Franco deu de ombros, indiferente.

       — Já sou rico, tenho um lugar para voltar, uma mulher para chamar de minha, uma mira boa e inimigos bem vigiados. Que mais posso querer?

       — Poder, Franco, e a liberdade que somente o poder traz. — falou de um jeito delicadamente massacrante, igual aos líderes de revolucionários. — Temos de nos unir, estamos no mesmo barco. Somos filhos de uma geração de abutres, podemos mudar o rumo de nossas vidas e nos livrarmos da prisão desses sobrenomes... eles são nomes de outros, não nossos, somos mais que filhos de fazendeiros manipuladores...Somos a nova geração. Entenda que o meu e o seu pai são tiranos dominadores que acreditam que filho, soja, algodão, terra, propriedade fazem parte dos negócios, nada mais. O meu quer que eu seja o advogado que ameaçará qualquer indicativo de processo dos empregados das fazendas. E o seu, Franco, quer transformá-lo num assassino, num justiceiro às avessas. Não precisei de muito tempo para analisar a sua situação, cara, o Dolejal manipula você à vontade, quando precisa, quando quer, quando é conveniente ter um filho com boa mira e uma cicatriz de tiro no peito. Na boa, meu chapa, você está mais fodido do que eu. — concluiu, balançando a cabeça em assentimento.

       — Está me propondo algum tipo de sociedade?

       — Quero lhe mostrar o futuro. — Leonardo cometeu o erro de pousar a mão no ombro de Franco. — Juntos, tomaremos o que é nosso e teremos tudo de Matarana.

       Franco olhou para a mão em seu ombro e, depois, fitou o rapaz à sua frente. Unir-se a um Marau. Trair Thales Dolejal.

       Sorriu para o filho do coronel.

       — Eu sabia que poderia contar com o seu senso de justiça. — afirmou Leonardo, estendendo e apertando a mão de Franco.

       A chuva parou e o cheiro da terra quente e molhada ganhou o ar, pungente.

       Ao voltar para sua casa com a noiva e o bebê que ela esperava, o filho de Thales começou a arquitetar um meio de enganar a cobra que, enroscada no galho baixo de uma árvore, tentara seduzi-lo com munição de baixo calibre.

       Sim, o patrão tinha razão, ele era um legítimo Dolejal.

       E queria a Coração de Ouro.

 

       Karen sentiu o sangue subir para a cabeça. Ver Rita empoleirada na cama, grudada braço com braço em Rodrigo, era uma experiência no mínimo paralisante. Procurou ignorá-la, concentrando-se no moreno visivelmente preocupado, os olhos expressavam ansiedade muda e alguma outra coisa que ela não soube analisar.

       Entrou no quarto e se refestelou no sofá em frente ao leito. Fingir que não era uma louca psicopata doía-lhe o estômago.

       — Não encontrei nenhuma enfermeira nesse andar. — comentou com simulada naturalidade, enviando ao namorado um olhar doce quase juvenil.

       O namorado franziu a testa, intrigado com o seu comportamento. Relaxou por alguns segundos, percebendo que se a bomba não explodiu à entrada então demoraria para se armar de novo. Era só uma questão de tocar nos fios certos, ponderou.

       — O Cris esteve aqui, me deu uma bronca e a Joana vai ter de refazer os pontos.

       Rita, que estava quieta até a chegada de Karen, endireitou os ombros e se voltou para ela.

       — Como vai, querida? Que susto ele nos deu, né? — indagou, buscando uma cumplicidade que jamais seria retribuída. — Esqueceu a água? Precisamos mantê-lo hidratado.

       Rodrigo segurou o ar nos pulmões.

       — Não tem água por aqui? — Karen se ergueu e olhou ao redor, dando a entender que a outra poderia ter escondido a água do paciente.

       — Pois é, não tem, que coisa! Faz o seguinte, fica com ele que já volto com uma garrafinha de água mineral. Depois pode voltar para casa e descansar um pouco, passo a noite com o Rodrigo. Que tal, fica bom para você? — perguntou alegrinha, a sem noção.

       Karen estava estranhamente calma e controlada. Ele achou por bem interferir.

       — Não se incomode, Rita, preciso apenas dormir um pouco. Amanhã mesmo darei um jeito de receber alta. — foi incisivo.

       — Ah, não, faço questão de lhe fazer companhia! — determinou a microempresária.

       — Por mim, tudo bem. — disse Karen com seriedade e pondo-se de pé.

       — Aonde vai? — ele perguntou, pegando-a pelo pulso ao passar pelo leito e puxando-a para si. — Aonde pensa que vai sem me beijar, hein? — indagou numa voz molhada no mel e um sorriso cheio de charme. — Me dá essa boca gostosa, moça.

       Ela sorriu como uma menininha apaixonada. Foi beijada devagar e profundamente. A língua morna penetrando a sua boca e buscando e chupando a sua língua. Ele mergulhava fundo nela degustando-a com erotismo e terna sensualidade. Karen pôs as duas mãos ao redor do rosto dele, sentindo a aspereza dos pontos de barba. Teve de encurvar ligeiramente o corpo para baixo absorvida por todas as sensações e sentimentos que se permitia entregar.

       Abriu os olhos antes dele. Sempre fazia isso, reservando-se o prazer de vê-lo ainda inebriado de paixão. Rodrigo era um bom homem, íntegro, cavalheiro, generoso. Sentia no fundo do seu coração o amor que ele lhe oferecia. E amava-o como somente mulheres impetuosas amavam — toda, inteira, até o talo.

       Por isso saiu do quarto e foi buscar a maldita garrafa de água. A ideia era passar na confeitaria de Rita no dia seguinte e cobri-la de porrada.

       Mas Rita não estava mais entre eles. Pelo menos no quarto, considerou Karen, rebolando faceira pelo corredor.

         

       Debruçada sobre o parapeito da sacada do quarto, Valéria observava a movimentação naquela parte da fazenda.

       A noite estava estrelada de forma incomum. Era como uma conspiração de pontos brilhantes que de tão belos provocava-lhe angústia. Tinha o peito cheio de um vazio pesado, uma pressão suave logo abaixo da garganta e bem próximo das costelas. E uma vontade louca de rir e chorar intercalando-se a suspiros profundos e momentos de introspecção. Acontecia alguma coisa dentro dela, uma rebelião de sentimentos, traidores de uma causa. Ela, que decidira evitar as complicaçõezinhas afetivas. Tanto tempo fugindo, evitando, se escondendo entre o fogão e a lavanderia cheia de roupas para lavar, entre as noites tranquilas assistindo a filmes sacanas com personagens masculinos devotos do amor.

       Era tão fácil se apaixonar por homens inacessíveis, homens sem a secura do cotidiano e a beleza da projeção. Punha-se uma capa sobre os seus ombros e os tornavam mais que homens, a realização de todos os desejos românticos. Pobres coitados se contraíssem uma infecção intestinal ou não conseguissem acertar a cabeça de um prego na primeira martelada. E o que dizer dos ogros como Thales Dolejal?

       E o que dizer dela, Valéria Malverde, na sacada, de madrugada, ignorando tudo o resto que não fossem os faróis de certa Silverado. Que trazia um ogro. Mas o que ela podia fazer se parte do seu cérebro era lógico. E gritava feito um maluco na camisa de força reivindicando o pleno domínio do seu corpo, mandando-a terminar de arrumar a mala, juntar os seus demais pertences e não olhar para trás a partir de amanhã, quando retornasse a sua casa com a filha e os Lisboa. Sim, mas havia a outra parte. Nebulosa, tépida e misteriosa. Completamente obsessiva ao lhe mostrar as mesmas cenas do mesmo filminho, que eram todas as conversas desde a primeira havia dez anos, com Thales.

       Thales? Que nome diferente — ela pensou sem pensar, apenas sentindo o pensamento rolar, pegando-o no alto como uma bolha de sabão, assustando-se ao desconfiar de que havia contraído uma virose. Infectada na alma. Thales. Que nome bonito. Forte. Quem era Thales? Antes, antes de se debruçar no parapeito da sacada, Thales era Dolejal. Agora, a céu aberto, ela descobria que Thales era mais que um Dolejal ou o dúbio amigo de seu irmão. Thales era o nome da maldição que se instalara na parte mais profunda do seu cérebro, naquela cuja remoção de um tumor era impossível. O tipo de danação que a Valéria lúcida e machucada chamava de disfuncional.

       Qualquer autoanálise sensata e bem articulada foi para o espaço quando o motor da camionete parou de roncar e uma porta fez um barulho seco de batida.

       Ela pulou de onde estava e voltou correndo para o quarto. Tremia. Não passava de uma garotinha de 15 anos. O estômago ardia. Elétrica, pulava no mesmo lugar tentando descarregar a tensão. Tinha vontade de se amarrar nos pés da cama. Controlar-se de outro jeito parecia uma missão impossível. Queria vê-lo. Queria cheirá-lo corpo inteiro. Queria estar com ele. Só podia ser uma doida de pedra. Uma carente rejeitada um milhão de vezes. Uma mulherzinha. Fazia tanto tempo que não se sentia assim, tão eroticamente mulherzinha, tão feminina, tão cheia de medo e ansiedade. E esse era o problema. Ficara tanto tempo sem se sentir assim que, agora, nada de meias medidas. Sentia tudo de uma vez só, sem dosagem homeopática, sem equilíbrio, nada de maturidade. Se tivesse se apaixonado mais, por vários homens, não teria acumulado tanto de si para oferecer. Caíra na própria armadilha.

       Olhou-se no espelho e não viu o que via sempre. No lugar de um corpo volumoso e violentado pelo excesso de álcool, ela viu os olhos verdes brilhando, as pálpebras caídas como as de uma chapada e uma sensualidade avassaladora brotando das pernas e braços nus, que o vestido de alças valorizava. Balançou-se como uma criança com roupa nova e sorriu.

       Sorriu amplamente arreganhando os dentes, o chão centímetros abaixo dos pés descalços. E depois de sorrir, riu, riu muito.

      Teria de descer e vê-lo, dizer um boa-noite. Respirar o mesmo ar que ele. E ser açoitada pelos olhos melancolicamente azuis. E por suas palavras.

       Estava blindada. Estava apaixonada.

       Estava era bem fodida.

       Enquanto descia os degraus da escada, devagar e mal respirando, pensava na desculpa que daria ao encontrá-lo na cozinha.

       No primeiro ambiente da sala — longe dos quartos onde se encontravam vó Ninita, Sabrina e Johnny, já que Karen ficara no hospital com Rodrigo, as luzes suaves dos abajures de pé, quase a escuridão, e Caetano Veloso. Reconheceu “Você não me ensinou a te esquecer”, e tal reconhecimento serviu como uma revelação.

       O homem sentado no sofá, de costas para ela, erguendo e abaixando o copo com uísque, olhando um ponto vazio à frente, sabia que Karen pretendia jamais largar Rodrigo. Na alegria ou na tristeza. A verdade de uma vida e o risco de fogo do destino.

       Cogitou dar meia-volta e retornar ao abrigo seguro do quarto. Mas não havia mais qualquer sistema de segurança que a protegesse. Ele era o invasor que quebrara os vidros de sua proteção, entrara em sua casa, revirara os seus móveis, bagunçara as suas gavetas e vedara os seus olhos com os dele.

       Contrariando o bom senso, aproximou-se como se evitasse pisar sobre cacos de vidro. Mordia o lábio, um pé diante do outro. Já conseguia aspirar o cheiro de sua colônia e ver o perfil do rosto contraído numa expressão de uma dor que não era física. Era a dor da perda e a ruminação do luto.

       Ele se voltou ao pressentir a sua presença. Ao redor das pálpebras delicadas rugas acentuavam-se por algum tipo de esforço. Por alguns minutos ele não parou de olhá-la. A face séria, os olhos rasos de lágrimas que se mantinham enfurecidas à beira das pálpebras, sem a intenção de se derramarem.

       Valéria nunca conhecera alguém tão infeliz como Thales.

       — Desculpe incomodá-lo, só vou dar uma passadinha na cozinha para beber um copo d’água.

       — Desde quando abandonou a vodca? — indagou sem sorrir com a boca, apenas os cantos dos olhos expressavam a provocação.

       Desde que percebi que a vodca, perto de você, era chá de camomila com mel.

       Ela balançou os braços para frente e para trás, ao longo do corpo, sem jeito.

       — Tenho sede, apenas. Não estou a fim de afogar as mágoas. — mencionou de maneira sugestiva, endereçando um olhar para o copo que se esvaziava rapidamente.

       Ele acompanhou o seu olhar e quase sorriu. Teria de gastar muita energia para forçar a musculatura do rosto se estirar para os lados.

       A música baixa e suave, a iluminação que lembrava aqueles sonhos esmaecidos e familiares, a tristeza impregnada de densidade, tudo aquilo era muito perigoso. O perfil do rosto dele, o nariz, a testa, o cabelo curto, os lábios duros, os ossos dos maxilares marcando a pele.

       Sentou-se ao seu lado, mas não tão perto.

       — Quer conversar? — indagou com brandura.

       — Acabei de desabafar com Johnnie Walker. — respondeu sem muito interesse, pondo-se de pé e encaminhando-se ao bar. — Prefere a companhia de uma russa ou uma americana?

       Ela cruzou as pernas e o avaliou criticamente. Sorriu e considerou experimentar a vodca russa.

       Retornou com os dois copos.

       — Sobre o quê conversaremos?

       Pegou o copo de sua mão, os dedos se tocaram. Quase virou a bebida sobre si. Ele não achou graça.

       Aprumou-se envergonhada e respondeu:

       — Podemos falar sobre a sua tristeza.

       — Acha que estou triste porque me pegou bebendo uísque? Se fosse suco de abacaxi, qual definição daria aos meus sentimentos? — arqueou a sobrancelha com ironia.

       — Sei que não está bem e precisa de ajuda.

       — Ah, é mesmo, preciso falar com um padre. — fez troça.

       — Para falar a verdade, acho que enlouqueceria toda a cúpula da Igreja Católica.

       — Não, Valéria, eu falo exatamente o que a pessoa precisa ouvir.

       Por favor, para de me olhar assim — ela pedia sem falar.

       — Mas normalmente usa esse dom para tirar as pessoas dos eixos.

       Ele deu de ombros, indiferente.

       — O que posso dizer? A fraqueza humana me diverte.

       — Não sou forte como a Karen, Thales. — afirmou com brusquidão.

       — Por que se comparou a ela?

       Valéria percebeu o próprio deslize.

       Ele manteve os olhos pregados nela, o copo a meio caminho da boca, o interesse perscrutando-lhe a expressão.

       — Por que, Valéria? — insistiu.

       — Só estou querendo dizer que jamais tentaria medir forças com alguém como você. Acho que não tenho muita bala na agulha. — brincou, sorrindo meio sem jeito.

       — Não se iluda, a Karen não é uma mulher forte. A primeira dificuldade que teve veio pedir ajuda a mim, logo que o marido a abandonou. Se fosse forte, teria segurado as pontas sozinha.

       — Está julgando a Karen? Apontando o dedo, Thales Dolejal? — perguntou com sarcasmo.

       — De forma alguma, apenas instruindo-a, Valéria. A Karen é uma mulher como qualquer outra, só que um pouco mais vadia que as demais. E é esse o seu encanto, não?

       Foi uma declaração dita com um amargo cinismo. Ele até tentou sorrir para disfarçar a revolta, a injustiça de perder quem tanto queria, não estava nos seus planos um nocaute no segundo round.

       — Você sabe que é um cretino falando isso.

       Thales se voltou para ela com um sorriso que expressava a surpresa de uma questão até então nem posta em consideração.

       — É mesmo? Acha que só porque não trepa você também não é uma vadia? Pois lhe digo, senhorita Malverde, você também é uma delas. — afirmou com um sorriso sereno.

       Certo, começava o tiroteio.

       — Um homem tão viajado e tão ignorante.

       — Uma vadia assexuada.

       — Você é um legítimo idiota, Thales. Nem sei por que perco meu tempo tentando entendê-lo. — reclamou, ressentida.

       Ele depositou o copo vazio sobre a mesa e disse sem rodeios ou qualquer entonação especial na voz:

       — Não sabe mesmo? Bastaram dois dias debaixo do meu teto e tenho certeza absoluta de que está pensando num jeito de romantizar uma boa foda comigo. É ou não é? Até aceito, seria uma experiência interessante. Nunca comi uma dona de casa, sabia?

       — Meu Deus, seu grosseirão! — ela tentou se erguer, mas foi impedida por uma mão firme ao redor do pulso que a puxou de volta ao sofá.

       — Não banque a hipócrita comigo, já estou bem farto dessa pose toda dos Malverde, os certinhos e cheios de princípios. — uma veia pulsava grossa no meio de sua testa e os olhos chispavam fagulhas de raiva. — Eu não sou um monstro, Valéria? Um doente? Um amigo desleal? Sabendo de tudo isso, ainda assim quer se sentar ao lado do monstro e falar sobre sua tristeza? Sabe o que é realmente triste, mulher? Querer alguém como um miserável, como um faminto comendo farelos das calçadas, querer alguém com os punhos, com os dentes, com a alma, com o pau, Valéria. Querer de volta a mulher que o inferniza a cada minuto do dia simplesmente porque ela existe, ela existe, e não está comigo. A Karen é uma vadia egoísta, não vale um tostão, mas nunca foi hipócrita. E você, Malverde, é tudo o que mais desprezo numa mulher, é fraca, é dissimulada, é inexpressiva.

       Valéria sentiu o gosto salgado das lágrimas na garganta.

       — Seria tão mais simples se tivesse me convidado pra sua cama em vez de enfeitar a merda toda. — ele declarou secamente. — Volte para o quarto, quero ficar sozinho.

       Ela se ergueu tão trêmula que temeu perder o equilíbrio.

       Então fez o improvável.

       — Só queria tentar diminuir a sua tristeza. — murmurou, sentindo-se completamente deslocada diante dele e na casa dele.

       — Certo, a cultura da felicidade, todos alegrinhos e bem nutridos. Pouco me importo com suas intenções, a bem da verdade, nem lembrava mais que o Rodrigo tinha irmã.

       Ela tentou manter um restinho de dignidade que lhe sobrara.

       — Claro, amanhã mesmo não estarei mais aqui e retornaremos à rotina. Obrigada pela hospedagem. De qualquer forma, você foi um bom anfitrião.

       Ele a encarou com a cara amarrada.

       — Ofendida e resignada, essa é Valéria Malverde.

       Podia ficar quieta ou responder. Bem, ele tinha a si mesmo para aguentar. E isso significava que era uma grande punição.

       Atirou-se na cama sem conseguir chorar.

 

       Virgínia segurava contra o inchaço no queixo um punhado de pedras de gelo envoltas num pano. Riscava a toalha de plástico com a ponta de uma faca, fazia o jogo da velha. Indecisa, apostava consigo mesma para resolver uma questão. A primeira diagonal de X decidiria, por ela, o lado a escolher. Dolejal ou Marau.

       Precisava do emprego. Queria o homem.

       Telefonou para Leonardo e avisou sobre a prisão de Vitorino.

       — O idiota errou o tiro ou quis errar? — desconfiou o filho de Marau.

       — Não tem como saber, ele vai ser levado para o presídio de Santa Fé. É só uma questão de tempo.

       — Acho que o velho não vai abrir o bico. — considerou pensativo. — O problema é o coronel. Tenho de pensar numa boa explicação para a prisão do Vitorino.

       — Posso cair fora? Acho que a coisa está meio fora de controle.

       — Fica por aí, preciso que aguente mais tempo, estou para fechar negócio com o Dolejal júnior. — informou, animado.

       — O quê?

       — Foi isso mesmo que ouviu. Tenho uma leve impressão de que fiz a cabeça dele hoje, toquei na ferida, nos direitos que ele tem e tal. Sabe, né?, o Franco sempre foi meio burro. É possível, sim, que se una a mim para passar a perna no Dolejal.

       — Quer pôr o Franco contra o próprio pai? — indagou entre incrédula e curiosa.

       — Por que o espanto? Só estou dando um empurrãozinho, mas, cá entre nós, o Franco tem motivos de sobra para se adonar do patrimônio do Dolejal.

       — Sabe o que é lealdade, Leonardo? Ele é leal ao pai, mesmo que não se deem bem. Para ter o Franco do seu lado só se o patrão aprontar com a dona Nova.

       Silêncio do outro lado da ligação.

       — Leonardo?

       — O que o seu “patrão” pensa sobre a norinha?

       — Não sei, ele não fala a respeito. — ela respirou fundo. — Precisa de mais alguma informação?

       — Sim, todas as informações possíveis.

       — Acabou.

       — A gente se vê em Belo Quinto amanhã.

       — Acabou, acabou tudo entre nós. Você é um filho da puta manipulador. Aqui, tenho emprego e lugar para morar, não quero ser descoberta e pôr tudo a perder. Ou você me assume ou some da minha frente. — foi incisiva.

       Ele riu.

       E ela o mandou à merda.

         

       Foi para cama antes de Franco. Deixou-o na sala assistindo a um filme policial. Vestiu a camisola e se deitou debaixo do lençol fininho. Sabia que o sono demoraria a vir, ainda mais presa que estava a um pensamento obsessivo, a displicência do noivo para com o jantar de noivado de ambos. O que lhe dissera havia pouco ao celular a respeito da suspensão da cerimônia no clube campestre a intrigara. Ele não ficara chateado com o fato de ter desmarcado a data do noivado em função da solenidade que, no final das contas, fora cancelada. Um comportamento estranho para quem, semanas atrás, fazia questão de se casar.

       Por que protelaria o jantar de noivado, evento que tornaria oficial o compromisso de ambos, se fora ele quem fizera questão de oficializar o relacionamento? Não entendia o pouco caso para algo que parecia ser muito importante para ele. Será que pensara melhor a respeito? Talvez após conhecer os futuros sogros. Raquel e Guilherme espantavam qualquer pretendente que não os interessassem. Ou, talvez, a reaproximação com Dolejal o tivesse influenciado a retomar a vida de antes, a vida de pistoleiro solteiro. Esse último raciocínio foi-lhe difícil aceitar, visto que ele continuava dedicado, fiel e próximo, junto, quase colado. Não queria pensar mal dele, desconfiar de suas intenções, sabia que ele a amava.

       Percebeu quando ele desligou a televisão. Entrou no quarto, abriu uma das portas do guarda-roupa, ficou parado olhando para dentro e tornou a fechá-la sem retirar qualquer peça. Observou-o através das pálpebras semicerradas, fingindo que estava dormindo, deitada de costas com as mãos debaixo do rosto. Viu-o então quando se enfiou no banheiro e o barulho da ducha.

       Ele parecia distraído, como se tivesse os pensamentos distantes e concentrados em uma tarefa importante. O retorno à chefia da segurança deixara-o tenso, sempre em alerta, potencializando suas paranoias.

       Quando voltou filetes de água escorriam-lhe pelo tórax, o cabelo molhado sacudido pela toalha, desgrenhado. Apenas a cueca boxer preta aderindo à musculatura definida dos seus quase um metro e oitenta. Olhava diretamente para ela e com tamanha intensidade que quase a obrigou que assumisse enfim que estava acordada e sustentasse o seu olhar. Mas foi por poucos minutos. Em seguida, tornou a sair do quarto.

       Alguma coisa o consumia por dentro, ela pensou, preocupada. Sentou-se na cama incerta se o procurava ou o permitia vir até ela e se abrir. Franco era tão dócil quanto arisco — uma combinação contraditória que somente ela consiga compreender e lidar. Afastou o lençol e parou ao ouvir o barulho da porta dos fundos abrir e se fechar.

       Acendeu a lâmpada do abajur sobre o criado-mudo decidida a descobrir a razão do noivo sair de casa, em plena madrugada, usando apenas uma cueca.

       Manteve a porta entreaberta ao vê-lo ao celular, fumando, zanzando de um lado para outro no quintal, a cabeça baixa e a voz num tom bastante sério.

       — O homem que o patrão trouxe da capital é eficiente? Tudo tem que sair como determinei...

       Ele ergueu a cabeça em direção a luz da lua que iluminou os lábios apertados e os maxilares tesos. Ouvia o interlocutor sem, no entanto, confiar de todo em suas palavras.

       — Quero o serviço perfeito, sem amadorismo, entendeu? É só o que peço. Diz pro patrão que a minha parte será bem feita, como sempre.

       Terminou a ligação e esmagou a bagana do cigarro contra a parede.

       Nova voltou para o quarto rapidamente, cuidando para não pisar forte no assoalho de madeira. Deitou-se na cama e puxou o lençol até o pescoço.

       Ele retornara à margem escura do rio, ela pensou, sentindo uma contração no estômago. O diabo loiro voltara à ativa e estava a serviço do “patrão”. O homem da capital seria um matador de aluguel? Céus, seus pais eram esnobes, mas os Dolejal eram da máfia! Ela começava a ficar apavorada.

       Ouviu o ruído metálico do rompimento do lacre de uma lata de cerveja e os passos descalços pisando firme em direção à sala.

       Afundou a cabeça no travesseiro ao se deitar de bruços. A agitação vista nele contaminara-a. Uma inquietude dos infernos mandara o seu sono às favas. E quase parou de respirar ao perceber que ele se sentara na beirada da cama aos seus pés.

       Não conseguiria manter a respiração regular por muito tempo. A sensação de reconhecer um sentimento havia pouco experimentado, mais precisamente, há quase três meses. Era o medo que o atraíra para ele. O medo que sentia de quase tudo e o medo que sentia dele. O pistoleiro frio e implacável. O melhor da região, o justiceiro do cerrado. Não se apaixonara apenas pelo órfão rejeitado, o seu homem sensual e sensível, o líder. Apaixonara-se pelo diabo loiro.

       Virou-se com lentidão como se acabasse de acordar. Piscou sonolenta e sorriu para o semblante sério que a fitava com intensidade. Franziu a testa, intrigada, e se sentou escorada nos cotovelos.

       — Não me diga que a insônia voltou.

       Antes de conhecê-la, ele dormia duas horas por noite.

       — Não.

       A resposta saiu num fiapo de voz. Os olhos dentro dos olhos dela, revirando-a.

       — O que tem, Franco?

       Ela não sabia se queria ouvir a resposta.

       Ele fez uma careta estranha. Parecia acanhado e, ao mesmo tempo, contrafeito. Levou a mão até o tornozelo dela, por baixo do lençol, e o rodeou possessivo.

       — Preciso da sua ajuda... — começou, enquanto punha o lençol para o lado, expondo a mão em sua perna deslizando com displicência para cima e para baixo. — Você é sensata e inteligente, precisa me ajudar. Não sei mais o que fazer.

       Ela ergueu-se de todo, sentando-se na cama, em alerta. Estendeu o braço e acariciou o seu rosto com ternura:

       — Estou aqui para o que precisar, sem condições. — afirmou, incisiva.

       Ele trouxe a própria mão para junto do corpo, como se a dela o tivesse queimado. Tentou sorrir e desistiu.

       — Não sei mais o que fazer...

       Ela o interrompeu, pondo-se de joelhos e tapando-lhe a boca com a própria mão.

       — Deixa tudo comigo, sou uma mosquinha insuspeita, resolvo tudo para você. — disse determinada a assumir qualquer ônus por ele.

       Franco fitou-a com firmeza.

       — Eu sei, princesa, sei que sempre resolve isso pra mim, mas decidi que não seria mais com tanta frequência. Aceitei fazer uma vez ou outra para não nos prejudicar... Ontem mesmo já foi uma loucura... — ele passou a mão pelo cabelo molhado de um jeito nervoso. — Só que não estou conseguindo cumprir a promessa que fiz a mim mesmo. Fico puto com minha fraqueza. Já tomei banho gelado, fumei, zanzei pelo pátio... Merda, Nova, estou queimando feito um bicho, eu só posso ser um bicho, estou duro de tesão, louco pra te pegar de jeito, te judiar a noite inteira... Diacho, que bosta de homem eu sou que não respeita uma mulher grávida? — ele parou e respirou fundo tentando se controlar — A verdade é que não estava nos meus planos comer a minha princesa dois dias seguidos.

       Ela não esperava por isso. Ficou sem palavras, olhando-o, aturdida. Marcava um possível assassinato por telefone e quase suplicava para impedi-lo de transar com ela.

       — Não sei o que dizer. — balbuciou.

       Ele não gostou nada da resposta.

       — Vou então voltar aos meus tempos de adolescência, se é que me entende.

       — Pensei que precisasse de minha ajuda para outra coisa...

       — Preciso de você para muita coisa, mas, agora, no momento, não consigo imaginar outra serventia para uma mulher gostosa seminua na minha cama.

       Ela riu e se explicou.

       — Pensei que quisesse minha ajuda como bandidona ou algo parecido.

       Franco olhou-a de um jeito desconfiado.

       — Ouviu minha conversa lá fora?

       Nova balançou a cabeça assentindo levemente.

       — E por que não fez as malas e saiu correndo?

       — Porque fiquei excitada. — respondeu, olhando para a boca que se abriu num sorriso preguiçoso.

       — Desse jeito não está me ajudando nadinha... — falou meio que gemendo e cravando os joelhos no colchão, de frente para ela.

       — O que quer de mim, pistoleiro? — ronronou, afastando as pernas o suficiente para a barra da camisola subir e expor o fundilho da calcinha.

       Ele a olhou com fome. Olhou para o vale entre as suas pernas e para o resto todo que lhe era oferecido. A cabeça desceu para tocá-la intimamente mas, de maneira estratégica, mudou o rumo e uma boca esfomeada grudou-se à dela. Teve a língua chupada enquanto duas mãos soltavam-lhe as alças da camisola. Pressa e urgência. E a roupa voou por cima da cama.

       — Precisa me controlar...precisa, Nova... — pedia, ofegante, a voz rouca arrastando as palavras.

       Ela demonstrou o quanto o ajudaria.

       — Mostra quem manda, caubói. — ordenou entre um gemido arfante.

       Ele se afastou e a encarou extasiado. Ela fora feita sob medida para ele, não havia qualquer dúvida disso. 

       — Quer me matar, só pode. — murmurou Franco.

       Ele se enterrou dentro dela e se manteve quieto absorvendo o seu calor.

       Nova deixou escapar um gemido grave, um som gutural e profundo. A pele salpicou-se de suor. Duas mãos pegaram-na pela cintura enquanto ele se mexia dentro dela, deslocando os quadris devagar, bem devagar, num ritmo de uma dança lenta e erótica. Quando o ritmo aumentava e as estocadas eram mais intensas, ele parava ofegante e retomava à cadência lânguida deslocando os quadris e se enfiando e se retirando, mantendo-a firme no arco de seus braços, a aspereza da barba contra o seu pescoço, a tepidez da língua chupando o lóbulo de sua orelha.

       — Me deixa gozar...Franco... por favor. — implorou, virando a cabeça de lado para receber uma boca desesperada.

       — Aguente firme...temos a noite inteira...

       Ele acelerou o ritmo da penetração sem deixar de beijá-la com força. Abraçou-se a ela e a deitou de costas, mantendo-se entre as suas pernas, e sequestrando-a para outro lugar. E, lá, eles se amaram ainda mais.

         

       Karen parou o Maverick em frente à casa de uma de suas amigas. Suspirou fundo, do jeito que algumas pessoas faziam a fim de incorporarem um personagem. Ela sempre fora uma mulher autêntica, ainda que lhe custasse paz de espírito, mas urgia que por algumas horas tivesse de encenar brilhantemente. Desafivelou o cinto e se voltou para outra de suas amigas.

       — Sabe o que fazer, não é? Precisamos tirar a ratinha da toca. — brincou.

       Valéria torceu o lábio, incerta.

       — A ratinha vai pedir permissão para o ratão.

       — É, eu sei, mas está tudo sob controle. — afirmou ela, com um sorriso sugestivo.

       A namorada do xerife bateu à porta com força e sua amiga, seguindo-a ao lado, olhou-a com severidade, as sobrancelhas quase juntas.

       — Que tal pegar uma tora e bancar a viking?

       Karen riu consigo mesma, Val parecia ter acordado com o pé esquerdo inchado.

       A porta foi aberta por alguém que resmungava baixinho e, quando recebeu os raios de sol na cara, quase derreteu como um vampiro. Nova estava enrolada num lençol, descabelada, a cara amassada e com um chupão no pescoço.

       — Enquanto eu passo a noite no hospital com um interno teimoso feito uma mula, a senhorita gasta energia comendo psicopatas.

       — Hoje o humor da Karen está beirando à debilidade mental — reclamou Val.

       — Bom dia para as duas. O que aconteceu? — perguntou Nova, a mão toldando as pálpebras semicerradas, os olhos cheios de sono zanzando de uma para a outra: — O Rodrigo está bem?

       — Ele está tão bem que conseguiu ter alta. O Cris, pra variar, está subindo pelas paredes, queria que ele ficasse uma semana internado.

       — Mas é claro que ninguém escuta a voz da razão nessa cidade maluca. — declarou a irmã do delegado com mau humor — Como é que pode um camarada levar um tiro e sair do hospital vinte e quatro horas depois!

       Karen virou o corpo totalmente para ela e afirmou categórica:

       — Um tiro de raspão e isso significa que a bala não afetou nada importante. Pele é o que a gente mais tem, minha filha. Entendeu ou quer encrencar comigo? — desafiou com as mãos nos quadris e um olhar divertido.

       — Vão ficar discutindo ou querem entrar e tomar um café? — sugeriu a dona da casa.

       As duas fizeram menção de entrar ao mesmo tempo.

       — Primeiro as damas. — disse Karen, com um sorriso debochado e cedendo passagem a Val.

       Nova indicou-lhes a cozinha enquanto se dirigia de volta ao quarto,

       — Vou pôr uma roupa. Adoraria se as meninas preparassem um café.

       Karen olhou para Val e deu de ombros.

       — Acho que essa indireta é para você.

       Era evidente que se na própria casa Karen Lisboa mal lavava uma loucinha vez por outra, na casa dos outros, praticamente improvável que fizesse algo.

       Valéria abriu as portas do armário à procura dos apetrechos para fazer o café e, por cima do ombro, alfinetou a cunhada:

       — Quando o Rodrigo estiver em casa vê se cuida dele. O Lucas já voltou à delegacia e daqui a alguns dias o Vitorino seguirá para Santa Fé, assim o meu irmão não tem motivos para não descansar um pouco.

       — Sim, senhora. — assentiu a outra, sentada à mesa, tamborilando os dedos. — Entendi a mensagem, vou me comportar como uma mulher madura, viu? O seu irmãozinho já havia me dado a dica.

       Nova entrou na cozinha vestida numa bata curtinha, com detalhes em renda nas bordas das mangas e gola, e o jeans escuro. Calçava um chinelo sem salto. Percebeu o olhar profundo e sarcástico de Karen e a sua guinada de cabeça em direção a Val.

       — Precisamos encontrar um bom homem para ela. — declarou bem-humorada.

       Valéria quase deixou cair a xícara que segurava. Arregalou os olhos para Nova e depois para Karen.

       — Estou bem sozinha. Só porque vocês têm os seus namoradinhos, não significa que eu esteja em desvantagem. — recriminou-as com azedume.

       — De forma alguma, — rebateu Nova com gentileza e ajudando-a a encher a cafeteira com água, completou: — mas seria interessante vê-la com alguém passeando pela cidade, se divertindo e tendo uma companhia masculina para conversar. — contemporizou.

       Val segurava o pote com café na mão, a colher enterrada no pó, a atenção desviada de uma amiga para outra.

       — Não preciso de homem para viver.

       Karen escorou as costas no encosto da cadeira.

       — Mulher nenhuma precisa, Val, a gente quer ou não quer ter um homem. — assegurou serenamente.

       A noiva de Franco tomou o pote das mãos da amiga e, com um sorriso, despejou o pó no filtro da cafeteira. De costas, considerou os possíveis pretendentes para a irmã do delegado.

       — Sabe aquele farmacêutico da segunda via?, o que veio de Curitiba depois de se formar? Que eu saiba está solteiro da silva. É um bom partido para começar a desenferrujar. — brincou.

       — Ele não é viado, não? Tem uma carinha de quem adora um gloss. — debochou Karen, observando que Valéria não estava satisfeita com o rumo da conversa. — Sabe de quem estamos falando, né, Valzinha? — provocou-a.

       — Não me interessa saber.

       Nova intercedeu censurando-a sem muito rigor:

       — Qual é o problema de começar pelo menos uma amizade com o rapaz? Você é jovem, bonita, independente e gasta seus dias ao redor dos outros, como uma mãezona italiana da terceira idade.

       — Chega desse papo, a gente veio aqui para passarmos o dia juntas... — começou Val, torcendo as mãos com ansiedade e sentindo o olhar de Karen sobre si. — Pensei em irmos para o salão da Giovana e nos darmos de presente um dia de realeza. Que tal, Nova? A gente podia ficar por lá o dia inteiro tratando da pele, do cabelo... e depois podíamos escolher umas roupas chiques para a cerimônia no clube campestre no próximo sábado.

       Nova ligou a cafeteira, puxou a cadeira em frente a Karen e considerou o programa oferecido. Era verdade que adorava estar com elas, com aquelas duas adolescentes trintonas. O espírito de amizade e, mais do que isso, camaradagem, unia-as num vínculo forte e divertido.

       — O que acha, Karen? Não consigo imaginar você num salão de beleza. — confessou, um sorriso se armando de animação.

      Karen cruzou as pernas debaixo da mesa e enfiou os dedos nos cabelos, ajeitando-os num coque improvisado, preso pelas próprias mechas lisas e pretas.

       — Meu homem voltou pra casa, e eu preciso passar uma lixa debaixo dos pés.

       — Está virando uma mulherzinha, Karen Lisboa?! — brincou Nova, atirando o pano de prato na cara dela.

       Karen riu até ficar vermelha.

       — Certo, admito, quero fazer uma faxina geral! Pele, cabelo, maquiagem e até depilação. — voltando-se para a cunhada completou mordaz: — Você não precisa de depilação, porque nunca vi personagem de filme se interessar por gente de carne e osso. Ou talvez, sei lá, você mesma seja um personagem, né, Val?

       — Não sei se conseguirei te aguentar o dia inteiro. — suspirou Valéria, resignada.

       Karen se levantou, rodeou a mesa e puxou-a para um forte abraço.

       — Se não fosse tão sensível, eu não implicaria tanto com a senhorita. — falou num tom divertido.

       De repente as duas ouviram o que jamais pensariam ouvir de Nova.

       — Por que não tenta coisa com o Cris?

       Elas se entreolharam, e a mulher de Franco sorriu sem jeito.

       — Foi só uma ideia. Ele é um bom homem, só não foi bom pra mim. Além do mais, Val, é próximo, conhecido, sabemos que não é nenhum doido ou pervertido.

       — Mas não sabemos se é bom de cama. Ninguém aqui o experimentou. — concluiu Karen, séria.

       — Só pode estar brincando, né, Karen? — exasperou-se Val. — Acha que estou à procura de sexo, digo, somente sexo? Se eu tiver que me meter em complicação de novo, não será só por causa de sexo casual.

       — Ah, é?, mas com sexo casual não se tem complicação. — escarneceu a cunhada.

       — Karen, espera um pouquinho, a Val está falando sério. — Nova teve de se segurar para não rir. — Presta atenção, você e o Cris se dão muito bem. E, além disso, ele é amigo do seu irmão. Lembro que quando íamos até sua casa, vocês dois ficavam conversando por horas na varanda e me deixavam à mercê do delegado delícia.

       Karen deu olhada afiada na amiga.

       — Não me provoca porque eu experimentei o teu pistoleiro, mas a senhora nunca degustou um tantinho sequer do meu delegado.

       — É, nesse ponto, sou eu quem está em desvantagem... — considerou sem dar muita importância ao fato de ser amiga do ex-caso do noivo. — Mas acho que entendi o que quis dizer sobre o Cris. Bem, eu também não sei se ele é bom naquilo, mas, por outro lado, sempre foi chegado em praticar.

       Nova falou de um jeito tão espontâneo que as outras não se aguentaram e riram.

       A cafeteira roncou, e Val tomou a dianteira para servir as xícaras. Nova, por sua vez, adiantou-se para pôr na mesa o pão caseiro, as geleias e os frios.

       — Por que estão me olhando desse jeito? — indagou ela, surpresa.

       Valéria apontou com o dedo indicador para o pão, como se tivesse encontrado um rato morto.

       — Acha que nós podemos nos empanturrar disso e depois entrar alegrinhas em um vestido novo?

       — Jesus!, que vá à merda o vestido, esse pão está fofinho e cheiroso. Estou salivando! — exclamou Karen, cortando um pedaço do pão e enchendo-o de nata.

       Nova acompanhou-a no gesto e coube a Val se manter na dieta.

       — Acho que eu engordo porque como com culpa. — refletiu Val, tornando a se sentar e emborcando o café sem açúcar.

       — É, amiga, o negócio é comer sem se sentir culpada. — afirmou Karen, piscando o olho de um jeito malicioso.

       — Ou você pode substituir a palavra culpa pela responsabilidade. — ponderou Nova. — Coma com responsabilidade, Val. Permita-se também rompantes de loucura, é tão bom ficar doidinha de vez em quando.

       Será que as amigas aceitariam numa boa se ela dissesse que estava doidinha por Thales Dolejal?

       Terminaram o café e decidiram partir para o salão de beleza da filha do coronel Marau. Em seguida, passariam numa butique onde aceitava cartões de crédito de pessoas cujo sobrenome não era os da tradicional sociedade mataranense.

 

       Lucas aspirou o cheiro da terra úmida e sorriu. Ele não sabia o que mais o agradava, o cheiro da cidade após uma boa chuva ou o da delegacia quando tinha um meliante perigoso atrás das grades. Sentira falta da DP, da rotina de policial do interior entrecortada por momentos de puro tédio seguidos por situações extremamente estressantes.

       Retornou à sua mesa com uma caneca de café requentado e uma pilha de papéis para pôr em ordem. Adele era eficiente e havia-o posto em dia sobre os assuntos atuais tanto na área policial quanto na área relacionada às fofocas. Por isso Lucas estava a par da briga e reconciliação do delegado e Karen, assim como dos atentados e possíveis suspeitos. Além, obviamente, do acontecimento mais bombástico do ano, que era a tentativa de homicídio contra o seu chefe. No fundo, o agente tinha vontade de descer até a cela de Vitorino e dar uma prensa até arrancar o nome de quem ele protegia. Era da mesma opinião que o delegado, o pistoleiro do coronel era um pau-mandado, nada mais. Podia ser perigoso, matador, o escambau, mas não tinha tino nem motivo para dar cabo de uma autoridade. Ele fora mandado por alguém da Coração de Ouro. Lucas apostava no coronel Marau. Porém, o chefe e a escrivã estavam de olho na sua prole.

       O telefone sobre sua mesa tocou e ele esticou o braço preguiçosamente para atendê-lo.

       — Lucas, vou me atrasar um pouquinho. O camarada que vai instalar a minha parabólica acabou de chegar.

       — Não esquenta, está tudo na santa paz. — retrucou o policial.

       Assim que ele pôs o fone no gancho, o barulho de metal batendo contra metal o tirou da cadeira e o levou rapidamente até a entrada da delegacia. Dois carros haviam colidido frontalmente. E um minuto depois dezenas de pessoas se aglomeraram ao redor dos veículos.

       Lucas não pensou duas vezes ao ouvir alguém gritar sobre um bebê preso nas ferragens retorcidas. Do seu celular, ligou para o hospital pedindo uma ambulância enquanto atravessava correndo o percurso entre a delegacia e a avenida principal. Era visível, pelas marcas dos pneus no asfalto, que um dos automóveis tentara frear antes de atravessar o canteiro e bater de frente contra o outro.

       De repente o policial teve uma vertigem. Ele estava no meio de uma bagunça de gritos e pouco a pouco cada parte daquele cenário se separou em pedaços como vidros de um caleidoscópio. Não era uma vertigem de quem recém saíra do hospital; era a de um policial tomado por um insight. Lucas viu o motorista que batera contra o automóvel sair de fininho por entre as pessoas, sem olhar para trás. Poderia até considerar que ele quisesse evitar o flagrante e não prestar socorro. Por um momento, o policial manteve o olhar preso na figura que caminhava tranquilamente em direção a uma rua secundária. A maior parte dos pedestres concentrava a atenção no casal ferido e que sofrera o impacto da batida na parte lateral do seu carro. Por isso Lucas olhou para trás e viu o que poderia ser um bebê se não fosse uma boneca enrolada numa manta. E viu mais. Meia dúzia de transeuntes ao redor do carro da vítima atrapalhando a aproximação dos demais. Ainda que naquela hora do dia a avenida estivesse calma. Alguma coisa não se encaixava na cena.

       Lucas cruzou o olhar com a vítima sentada ao lado do motorista atingido. O air bag protegera-os do impacto, e ela não tinha nem um arranhão sequer. E o motorista também parecia em perfeito estado. Assim que a mulher saiu do carro, meio vacilante, foi amparada pelas pessoas e conduzida a outro veículo. O motorista permaneceu sentado onde estava, conversando com um policial militar que acabara de estacionar a viatura e averiguar a situação.

       O policial civil relatou ao PM sobre a fuga do causador do acidente e retornou à delegacia. Uma sensação estranha incomodava-o. Era como uma coceira debaixo da pele que também se chamava instinto. Nada racional e lógico; apenas o incômodo.

       Ao pisar a bota esquerda na delegacia, a sensação se transformou em pensamento e o incômodo virou preocupação.  Um raio de gelo cruzou-lhe a coluna vertebral e eriçou os pelos de sua nuca. Apertou os lábios com força tomado agora pela raiva. Encenação. Truque. Teatro. Antes de se tornar policial, ele fora ator. Era verdade que atuara em dois filmes pornôs. Mas arte era arte. E a base da arte era a invenção de uma verdade.

       Diante da cela onde estava Vitorino, Lucas parou, pôs as mãos nos quadris e respirou fundo.

       O acidente diante da delegacia fora uma brilhante encenação para chamar a atenção de todos — inclusive a do policial, enquanto o pistoleiro do coronel Marau era abatido a tiros dentro da sua cela.

         

       Karen tinha lama na cara. Nova recebia o branco leitoso na ponta dos dedos. Val tingia o cabelo vermelho de preto. A última chamara a cabeleireira num canto e murmurara, apontando para a amiga mais alta:

       — Quero que deixe o meu cabelo igual ao dela.

       No fundo, sabia que algum mecanismo psicológico a induzira a imitar uma mulher bonita e desejada como Karen; à superfície, porém, Val sabia muito bem a razão de deixar de ser ruiva para se tornar morena. Entretanto, podia também evitar qualquer tipo de autoanálise e acreditar piamente que queria mudar o seu visual porque estava farta de ver a mesma cara diante do espelho ano após ano.

       Giovana tratara-as com educação e sorrisos, sem disfarçar o prazer de ter a noiva de um Dolejal no seu salão de beleza. Ela pouco se importava com a rivalidade entre as famílias, esse assunto dizia respeito somente aos homens. Para a filha mais velha do coronel, Thales Dolejal combinava mais com o seu estilo de vida, relacionado à beleza e à sofisticação, do que o seu pai contando piadas machistas e arrotando à mesa. Particularmente, ela sempre acalentara o desejo de se aproximar da Arco Verde. Queria de verdade fazer parte daquele círculo de amigos restritos dos Dolejal. Queria mesmo era ter amigos.

       O espelho em frente a uma das bancadas de mármore comportava a largura da parede. As três amigas, empoleiradas nas respectivas cadeiras, eram atendidas por profissionais uniformizadas e maquiadas como se fossem à parada gay. Karen ficou em dúvida se uma delas não era homem, mas não encontrou o gogó. Por fim, concentrou-se em ter a pele esfoliada para, depois, receber uma grossa camada de lama.

       — Olha aqui, ô Val, minha amada, final do mês vamos abrir a confeitaria e quebrar a Rita. Ouviu bem? Minhas corridas foram pro brejo e agora terei de me comportar, senão alguém vai pedir um tempo... de novo.

       — Até parece que vai se comportar. — resmungou a cunhada enquanto via o seu cabelo cor de fogo receber a primeira pincelada de tinta.

       — Tem razão, é difícil acreditar. — ela tentou sorrir, mas estava com o rosto paralisado pela lama seca. — A questão é que o que eu entendo por bom comportamento talvez seja diferente do que está na cartilha do seu irmão. De qualquer forma, farei o possível para não confrontá-lo nas próximas semanas. — ela se virou para Nova e perguntou curiosa: — Por que não põe cílios postiços? Fez toda essa maquiagem de merda e não pôs cílios postiços.

       Val intercedeu, olhando-as pelo espelho.

       — Pra quê? Ela está linda e natural, não precisa de artifícios.

       — Cílios postiços realçam os olhos, porra! — falou Karen simulando irritação.

       Nova riu com vontade.

       — Ah, vou experimentar então. Mas vai ser estranho fazer o almoço maquiada e com cílios postiços.

       — Fazer o almoço? Que nada, moça. A gente vai passar o dia inteiro aqui e depois vamos torrar dinheiro comprando roupas. E, à noite, meu bem, iremos jantar no salão country com nossos vestidos lindos e nossas caras pintadas. — determinou Karen.

       — Mas não deixei comida pro Franco... — comentou Nova preocupada.

       — Então ele morrerá de fome. — rebateu Karen com deboche.

       — Ele gosta da minha comida. Não vejo problema algum cozinhar para o meu amor, é um gesto de carinho.

       — Não precisa justificar a submissa em você. — brincou Karen

       — Não falei? Ela está impossível. — disse Val, vendo o cabelo vermelho desaparecer por baixa da massa compacta de tintura.

       — Tudo bem, o Franco se vira, ele sabe fazer algumas coisas no fogão. Mas e o Rodrigo, coitado? Recebeu alta e ficará sozinho em casa?

       — A Sabrina cuida direitinho do tio. Além disso, o Johnny está sempre ao redor dele. — comentou Karen despreocupada. — Mas, poxa vida!, já disse que o meu macho alfa não teve um infarto ou derrame, ele está totalmente recuperado.

       — Não tem como estar cem por cento, madame. O Rodrigo se faz de forte pra passar bem. — disse Val.

       Giovana surgiu ladeada pela funcionária que trazia uma bandeja de inox com uma garrafa de champanhe no balde com gelo. Com um gesto discreto de mão, sinalizou para a mulher deixar a bandeja sobre a mesa de mármore, ao lado da bancada com o espelho.

       — Nada como um bom champanhe, não é mesmo? — era a filha do Marau, com um sorriso largo e um olhar astuto. — Verdadeiramente, estou muito feliz em tê-las no meu salão. Saibam que, para mim, vocês já são minhas clientes Vips. Eu até designei essa sala reservada, separada dos demais clientes, para que tivessem maior privacidade.

       Nova e Karen se entreolharam de forma significativa, era óbvio que o tratamento dispensado à noiva do filho de Thales deveria chegar-lhe aos ouvidos. Pelo visto, em Matarana, Giovana representava a Suíça — um território neutro.

       Val aceitou de bom grado a taça oferecida pela funcionária e sorveu a bebida como se tivesse sede. Ultimamente, a sede por álcool aumentara, mesmo que sempre fizesse parte de seu organismo, assim como a cafeína para o irmão. Os Malverde também possuíam seus vícios.

       — Obrigada, Giovana. Fiquei bastante impressionada com o ótimo serviço e a atenção de suas funcionárias. — disse Nova com um sorriso simpático.

       Giovana distribuiu mais dois ou três sorrisos intercalados com elogios e convites para retornarem, despediu-se e voltou ao escritório no mezanino.

       — Dona Karen, a senhora já pode lavar o rosto para passarmos o hidratante de algas. — recomendou a funcionária morena, cabelo preso num coque baixo e o rosto excessivamente maquiado, indicando à cliente o corredor até o lavabo. — Vamos por aqui, por favor.

       Karen levantou-se da cadeira e deu uma boa olhada na sua cara cheia de lama que deixava à vista apenas olhos, nariz e boca.

       — Vê se não acabam com o champanhe, hein!

       Nova ergueu as mãos como que se defendesse de uma acusação.

       — Estou esperando um bebê, não bebo nada com álcool.

       — Claro que não, minha filha, a pinguça aqui é a Val. Ouviu, dona Malverde? — provocou-a com bom humor.

       Valéria sorriu e serviu-se de outra taça numa atitude explícita de afronta à cunhada.

       — É só não demorar muito, mulher lama. — gracejou.

       Assim que Karen saiu da sala, ela aproveitou para estender o assunto relativo ao consumo de álcool. Contudo, o alvo não era ela mesma.

       — Esse tempo em que estive na Arco Verde percebi que o Thales está sempre com um copo na mão. Por acaso ele é meio alcoólatra? — sondou.

       — Meio alcoólatra? — Nova indagou, intrigada. — Acho que não existe isso, Val. Ou se é alcoólatra ou não.

       — Certo, certo. Mas ele é ou não bebum?

       — Acho que não. Quando trabalhei para ele, escrevendo o livro sobre a colonização de Matarana, via-o praticamente todos os dias e não percebi nada de anormal quanto a isso. Sempre me pareceu sóbrio, equilibrado e, de certa forma, distante, distante de todos, para falar a verdade. Claro que agora com essa história do namoro da Karen com o Rodrigo, sei lá, pode ser que esteja bebendo um pouquinho a mais...

       — Ou talvez tenha outro problema, algo relacionado ao seu trabalho. — considerou Val, pensativa.

       — Não, nada em relação a trabalho o faria encher a cara. Ele é um homem de negócios, pragmático, jamais se deixaria levar pelos sentimentos. — falou, balançando a cabeça com convicção. — Mas qual o propósito da sua pergunta?

       — Nada, só curiosidade. Eu o conheço há tanto tempo, mas ele é tão reservado e misterioso que às vezes é quase como um estranho, um forasteiro recém-chegado.

       — Pois é, foi o que falei, ele é uma pessoa meio que distante de todos, fechado, parece que se protege com mil camadas de aço. Veja em relação ao Franco, por exemplo, procurou-o para tê-lo próximo outra vez. E em nenhum momento afirmou isso para o filho. Ele prefere se manter como o patrão leal ao pai protetor. O que custa dizer para o filho que o quer perto de si? Por que não faz isso?

       Val observou a pasta escura e homogênea por sobre sua cabeça, o cabelo todo puxado para trás, e as costas protegidas pela capa de cetim. Cogitou acrescentar à face uma maquiagem parecida com a das funcionárias do salão, com direito a brilho vermelho nos lábios.

       Voltou-se para Nova que se sentara no sofá, as pernas esticadas.

       — Tudo bem?

       — Tudo, só uma preguicinha.

       Val sentou-se na beirada do mesmo sofá e sondou mais uma vez a amiga.

       — Tenho uma teoria sobre o seu sogro.

       — É mesmo?, me conta. — pediu Nova com um sorriso engraçado.

       — Acho que ele está doente, sabe? Acho que por causa daquele desgraçado do avô dele, do espancador dos infernos, ele criou essa tal armadura de aço e se protege nela para não apanhar de novo. Sei que isso não passa de psicologismo, mas a gente faz de tudo para se proteger dos outros, é ou não é? Ele não é um homem mau. É claro que quando abre a boca parece uma metralhadora disparando bala pra tudo que é lado... Eu mesma já levei cada balaço! E não poupa ninguém, é bem democrático mesmo. Só que isto, esse comportamento agressivo e até meio antissocial, é culpa de uma alma perturbada, nas trevas, sabe? Tenho certeza de que ele não é o que aparenta ser; ele é bem melhor do que aparenta, ao contrário de muita gente. Acho que ele precisa de alguém que o aconselhe seriamente a procurar ajuda.

       Nova interessou-se pelo o que a amiga dizia. Apesar de haver um pouco de exagero por parte de Val. Afinal, uma coisa eram problemas emocionais e outra, bem diferente, era constituição da personalidade. Thales Dolejal era antissocial, porque se sentia superior aos ditos caipiras mataranenses — palavras dele.

       — Acha que o Franco deveria se aproximar mais do pai? — cogitou a contragosto. A bem da verdade, não queria jogar o noivo na arena com o leão.

       — Bom, quem se importa com o Thales? A Karen? — ironizou.

       — Sei, não, Val.  Toda a vez que o Franco tentou uma reaproximação saiu ferido. Prefiro manter a integridade emocional do meu amor intacta. — deu de ombros, indiferente, e emendou: — O senhor Dolejal já é um caso perdido, mas o Franco não. — disse, resoluta.

       — Talvez eu devesse falar sobre isso com o Cris. — cogitou baixinho, reflexiva. — Apesar do Franco, ambos são ótimos amigos.

       — Que é isso, “apesar do Franco”? — perguntou Nova com secura. — Nesse caso, quem tem problemas é o seu amigo Cristiano, ouviu bem, Valéria?

       Val riu sem jeito.

       — Calma, Nova, não estou atacando o seu noivo. É que apesar do Franco ser filho do Thales, o Cris soube separar bem as coisas e manteve a amizade com ele, só isso. O mesmo não aconteceu em relação ao meu irmão. O Rodrigo preferiu se afastar do Thales...

       — A decisão do Rodrigo foi certíssima! E a do Cris não me surpreende em nada, afinal, são situações completamente diferentes. Nunca tive um relacionamento com ele e, mesmo que tivesse, não o troquei pelo Thales. Se acha que com isso está provando algum tipo de superioridade ou altruísmo do Cris, engana-se completamente. E, se quer saber, Val, nesse ponto, acho que o Thales vale mais que o Cris. O seu amiguinho se presta a passar por bonzinho e, na verdade, é um farsante manipulador. Ao passo que o Thales não faz questão nenhuma de esconder quem é.

       — Calma, Nova, desculpa. Não se irrita, pode fazer mal ao bebê.

       — Olha só, a Karen a incentiva para ter um caso com Cris, e eu acho que não seria má ideia desde que antes os dois pusessem as cartas na mesa. Você diz o que quer da vida e ele faz o mesmo; se combinar, sigam em frente, boa sorte, amém! É esse o meu conselho.

       A irmã do delegado mordeu o lábio inferior, incerta.

       — Vou pensar a respeito, ainda que ele tenha virado um mulherengo safado. Mas... e quanto ao Thales?

       — O que tem ele?

       — O que acha dele como... como homem?

       — Sei lá, Val, que pergunta!, é pai do meu noivo, só isso.

       Val suspirou resignada.

       — Acha, por acaso, que ele é o belzebu que pintam por aí?

       Nova apertou os olhos, desconfiada. Preferiu ignorar um pensamento estranho que lhe ocorreu no momento. Valéria não dava ponto sem nó.

       — Vou te dizer o que acho sobre Thales Dolejal. Do fundo do coração, para mim, ele é como um escorpião. Não há melhor definição que essa. Um escorpião que, quando ameaçado, ferroa quem o atacou. Só que a maior parte do tempo, ele mesmo se impinge as próprias ferroadas e absorve para si o veneno e a dor. Ele produz o próprio sofrimento e é por isso que se isola. É aí que entra a sua teoria da necessidade por um apoio emocional. O que ele faz para os outros é bem menos do que faz para si mesmo. E, pelo visto, as suas maiores vítimas são normalmente as que mais o atingem. É isso que penso sobre o pai do Franco.

       Val absorveu por um momento as palavras da amiga, ditas de forma tão contundente que mereciam um minuto de silêncio.

       — E sabe o que eu acho?

       As duas se voltaram para uma Karen de rosto limpo e olhar zangado.

       — Esse escorpiãozinho não passa é de um tirano narcisista, dominador e egocêntrico. Ele se acha o senhor feudal, o dono de tudo e destrói quem tenta detê-lo na sua obsessão imperialista. É movido pela competição e tem de ganhar sempre. Devia era ter apanhado mais, isso, sim. Como homem, se quer saber, Val, a única serventia é na cama.  Se o seu objetivo é ser bem comida, então lhe indico o homem certo. Depois do Rodrigo, ele é o melhor. E para mulheres submissas, ele é melhor até que o Rodrigo. Você se vicia nele, é verdade, o Thales nos deixa viciadas nele. E, depois, ficamos loucas sem ele. Eu, que sou forte, virei uma cachaceira. E a texana emagreceu tanto que quase ficou invisível. Com ele, ficamos loucas. Se quiser perder a razão e uivar para a lua, sugiro que se meta com o Thales. Assim que ele se cansar da aventura, mete um pé na sua bunda e segue em frente. Se tiver sorte, Val, encontrará alguém equilibrado e amoroso como o Rodrigo para juntar os seus cacos e recomeçar. Mas isso nem sempre acontece, não é mesmo? Então por que brincar com a sorte. Ele exige tudo da mulher e não oferece absolutamente nada. É o cara perfeito para a vaca da Rita, mas não para alguém com a qual me importo...

       — Só fiz uma pergunta. — falou Val, constrangida.

       — Não, Val, fez várias. — apontou Nova sagazmente.

       — A mulher para o Thales é a Rita. Sabe o que ele fará com ela? Picadinho de alpinista social. E quando ela estiver andando por Matarana trocando as pernas e em farrapos, eu vou rir é muito. Não há a mínima possibilidade de ser feliz com ele!

       — Porque você não foi. — acusou Val com azedume.

       — E quem foi, Valéria?

       — Vai pagar para descobrir? — indagou Nova atenta à resposta.

       — Não sei. — murmurou, fitando as próprias mãos.

       Sentia-se vencida antes mesmo de tentar.

       Nova se levantou do sofá e se espreguiçou.

       — Colegas, estou louca por um suquinho de manga!

       Ela sempre sabia como conduzir uma situação, pensou Karen, prontificando-se a resolver a questão. Apertou a campainha ao lado do sofá e aguardou a chegada de uma das atendentes.

       — Somos Vips ou não somos? — brincou, sentando-se ao lado de Val e pondo o braço por sobre seus ombros: — O que está acontecendo com você, hein? Dois dias na Arco Verde e já pirou? Isso mostra o quanto está carente e desprotegida, que esse tempo todo guardando o pote de ouro foi muito mais perigoso do que se o tivesse leiloado em praça pública. Olha para mim, Val. — ela pegou-lhe o queixo e lhe ergueu o rosto para si: — Você e a Jasmine acompanharam a minha história com o Thales. Se a Nova tivesse se interessado pelo pai no lugar do filho, eu até entenderia, ela é romanticazinha, avoada e não sabe da missa a metade. Mas você não tem o direito de se iludir quanto ao Thales.

       — Ô dona Karen, nunca me interessei pelo Dolejal pai, apesar de ser avoada, como mencionou. Só que eu sei metade da missa, sim. Aliás, a cidade inteira sempre soube, vocês dois nunca foram discretos.

       Valéria respirou fundo.

       — Vamos parar por aqui com essa conversa. — pediu ela. — Tem razão, Karen, passei tanto tempo evitando os homens que acabei me confundindo toda ao dividir o mesmo teto com um cara que não fosse o meu irmão. É perfeitamente justificável e até hormonal. — tentou rir da situação, mas era o mesmo que rir de si mesma.

       Karen percebeu a ponta de tristeza na voz de Valéria. Endereçou um olhar preocupado a Nova. Precisamos fazer alguma coisa, dizia o olhar.

       — Antes de irmos à butique, almoçaremos em um lugar bem chique. — sugeriu Nova.

       — Hum, chique em Matarana? — brincou Karen.

       — É, sua caipira esnobe. — alfinetou-a Nova e, lançando um olhar sugestivo a Val, completou: — O bom nisso tudo é que você é a única que poderá paquerar à vontade.

       A atendente entrou na sala, e elas pararam de falar. Valéria saiu para lavar o cabelo e depois secá-lo e alisá-lo, como bem mandava o figurino.

       Karen tornou a se sentar na cadeira alta em frente à bancada, enquanto era maquiada por uma garota que aparentava recém ter saído da adolescência.

       — Querida, antes de me entupir de cores, pode trazer um suco de manga gelado? Se vocês não tiverem, dou a grana para comprar em algum lugar. O que não podemos é deixar de atender o desejo de uma grávida.

       A menina aquiesceu com um sorriso e desceu a escada até o refeitório do salão. Sim, elas tinham suco de manga.

         

       Era meio-dia quando Cris chegou à galeria comercial localizada no andar térreo do Dolejal Center. Havia algum tempo que evitava almoçar em casa. Ainda não se acostumara a dividir a mesa com outras três cadeiras vazias. Por isso almoçar no restaurante Arizona fora a solução para esse problema.

       Estacionou o automóvel e buscou no porta-luvas os óculos escuros. Desligou o celular. Meia hora desligado do trabalho não mataria ninguém. Ao entrar no restaurante, percebeu os olhares femininos sobre si. Escolheu uma mesa num canto discreto, fitou o relógio e abriu o cardápio.

       O garçom trouxe a água mineral com gás e voltou aos seus afazeres. O pediatra emborcou a bebida e viu quando a sua convidada surgiu à porta. Ela usava um vestido leve, até os tornozelos, flores miúdas, azuis e amarelas. Sandálias nos pés e o cabelo preso num elástico. Aproximou-se da mesa e esperou que ele puxasse a cadeira para ela.

       — Me atrasei um pouquinho. — disse, embaraçada.

       Ele sorriu com charme e fez um carinho com o dorso da mão na sua bochecha.

       — Faz pouco tempo que cheguei. Gostei do vestido, Verônica. — disse, retirando os óculos e depositando-os sobre a mesa. — Com fome?

       A bibliotecária entendeu o duplo sentido da pergunta. Era a terceira vez que saíam, depois de terem-se encontrado havia duas semanas. Alguém lhe dissera que o médico almoçava todos os dias no restaurante perto da biblioteca pública onde ela trabalhava havia quase mil anos. O que ela sabia sobre Cristiano Bittencourt? Que, ao contrário da sua malsucedida investida junto ao delegado, o médico, por sua vez, era um homem fácil. E para provar a sua teoria, ela almoçava com ele.

       — Estou sempre faminta, doutor. — provocou-o com a voz arrastada.

       Ele demorou com seus olhos nos dela, o semblante sério e avaliativo. Tinha pouco tempo, logo teria de voltar ao consultório, a agenda lotada. Considerou levá-la para sua cobertura. Fez sinal ao garçom, sem deixar de encará-la.

       — Vamos comer na minha casa. — determinou.

       Verônica sorriu e sentiu cócegas no estômago. Experimentaria um filé de primeira, considerou quase salivando, a carne saudável da região. Era o que ela queria: abatê-lo, abatê-lo. Ainda lhe sustentando o olhar — pendurado no gancho, o homem mal reconhecia a sua predadora — ela levantou, afastou a cadeira e falou baixinho, quase num rosnado sensual, que precisava retocar a maquiagem.

       Ele assentiu com um sorriso de cumplicidade e observou-a balançar os quadris em direção ao toalete feminino. Esperou em torno de cinco, seis minutos e se encaminhou para a mesma direção, as mãos nos bolsos da calça social, a postura natural e relaxada.

       Entrou no banheiro feminino e averiguou a possibilidade de haver pessoas nos reservados. Empurrou levemente cada porta até que uma delas não cedeu. Em seguida, ela foi aberta e uma mão de unhas curtas e pintadas de azul puxou-o para dentro.

       — Preparado para o couvert?

       Cris empurrou a mulher contra a parede e levantou o seu vestido até a altura da cintura. Puxou-lhe a calcinha para baixo, apossando-se do seu sexo. Ela gemeu e arfou.

       — Não, Verônica, acho que vou almoçar por aqui.

       Ele a virou de costas e a fez inclinar meio corpo para baixo. Baixou o zíper da calça e enfiou-se dentro dela, todo, até o fundo.

       Verônica transpirou toda a água do corpo.

       As estocadas fortes faziam suas coxas baterem contra as dela, era um barulho úmido, estalos que reverberavam pelo ambiente azulejado. Ele ofegava, a respiração alta e pesada enquanto imprimia ainda mais força aos golpes. Verônica sentia dor nos braços que apoiavam o seu corpo por sobre a tampa da privada abaixada. Os seios balançavam na cadência de cada arremetida funda e rápida. Gemia alto e era mais como o ganido rouco de um animal sendo alimentado.

       Depois de se extravasarem, ela juntou a calcinha e vestiu-a. Tremia até mesmo debaixo da pele.

       Ele lavou as mãos e o rosto com sabonete líquido. Puxou o papel toalha do suporte e secou-se; amassou-o e o jogou na lixeira de inox no chão. Não se olhou no espelho.

       Quando Cris voltou à sua mesa, a fim de pagar a conta e levar a mulher para a sua casa e encerrar o serviço por lá, reconheceu aquela que ele tentava esquecer em trepadas eventuais em banheiros, motéis, juntando corpos desconhecidos nas ruas, caçando e sendo caçado para preencher o vazio.

       Assustou-se ao ser pego pela cintura e se virou para receber um beijo da boca de Verônica. Ela estava agitada e era para estar calma. Marcas vermelhas no pescoço, pálpebras semicerradas, boca inchada e o cabelo, nas têmporas e na testa, úmido de suor.

       — Está pálido, o que foi?

       — Acabei de ver o meu passado.

       Foi tudo o que ele disse.

 

       Podia até não ser uma boa ideia — considerou Karen, mas a verdade era que o melhor restaurante de Matarana ficava no prédio comercial onde se localizava os escritórios de Thales. No último andar, ela sabia que ele tinha a vista panorâmica da cidade que fundara junto com o avô e um bando de pioneiros.

       A entrada da galeria, no térreo, assemelhava-se ao saguão de um shopping center, como o que tinha em Santa Fé. Várias lojas chiques e quiosques vendendo perfumes e acessórios femininos dividiam o espaço com o Arizona ao fundo, as paredes envidraçadas, ladeadas pelo arco de entrada no hall dos elevadores. E foi de um dos elevadores que Thales apareceu acompanhado por Virgínia.

       — O Franco era para estar com ele. — murmurou Nova, intrigada.

       Karen intercedeu depois de levar uma cutucada da cunhada.

       — Ele agora é o chefe da segurança e sua função não é andar ao lado do patrão.

       — Como assim?

       — Bom, Nova, é evidente que o Franco está na fazenda.

       Val observou o semblante preocupado da amiga.

       — Ele foi promovido, Nova.

       A irmã do delegado percebeu que sua voz estava trêmula e pigarreou. Rever Thales sem uma devida preparação sacudiu-lhe os alicerces. De repente o chão não passava de uma grossa camada de espuma, os passos desencontrados, pisava sobre nuvens. Não estava deslumbrada, e sim apavorada. O coração martelando forte, tão forte que o sentia na garganta. Sabia-se atraente, maquiada e morena. Mas, ainda assim, vê-lo vestido como um homem de escritório, a calça e o blazer azul marinho, a camisa branca e os sapatos escuros, o cabelo curtíssimo e a pasta executiva, encantava-a, tudo nele exalava masculinidade e poder. O queixo erguido, as costas retas, o jeito de caminhar de quem se sentia o dono do mundo. 

      Thales avistou-as entre a entrada do restaurante e o hall dos elevadores. Parou e fez um sinal com a cabeça para Virgínia prosseguir em direção ao estacionamento. Olhou para as três com um esboço de sorriso e escolheu a nora para primeiramente dirigir a atenção.

       — Como vai, senhorita Monteiro?

       Quando a chamaria de Nova?, ela considerou.

       — Estou bem, senhor Dolejal.

       Ele sorriu um sorriso tímido.

       — Já que entrará para família, sugiro que dispense as formalidades.

       — Combinado. — ela apertou a mão estendida em sua direção. — O senhor, quero dizer, você também pode me chamar pelo meu nome, por favor.

       — Com certeza, Nova. — assegurou para, depois, indagar interessado: — Onde está fazendo o seu pré-natal?

       Ela ficou sem jeito. Jamais cogitaria ouvir tal pergunta do fazendeiro, embora fosse o avô de seu filho.

       — Bem, tenho uma ficha de acompanhamento no hospital.

       — No hospital? — ele arqueou a sobrancelha, surpreso. — Temos de mudar essa situação. Há uma excelente clínica particular em Santa Fé. Eles têm obstetras, os melhores da região. — ele retirou um cartão de apresentação do bolso interno do blazer e entregou-lhe. —Lá, com certeza, terá o melhor atendimento. O Franco já lhe disse que o parto será em Santa Fé? Ideia do seu noivo. Por mim, seria em Cuiabá. Mas ele não quer que viaje de avião. — balançou a cabeça, contrariado. — O Franco é um garoto excêntrico.

       — Sim, ele é especial. — afirmou com um sorriso. — Muito obrigada pelo interesse. Só preciso agora convencer o seu filho a me deixar fazer uma ecografia.

       Thales franziu a testa, intrigado.

       — Outra excentricidade do Franco. — ela revelou num tom divertido.

       — Pode marcar a sua ecografia, eu falo com ele a respeito. — asseverou sério e, virando-se para Val, indagou: — E você, como está?

       O tom de voz que usou era incompatível com o lugar, com as roupas que vestia e com a circunstância. Contudo, combinava com o sorriso preguiçoso, com o olhar cheio de malícia e com a confusão de sentimentos dentro dela. Era um tom de voz usado por quem ainda não saíra da cama depois de ter feito amor. Eles ainda não tinham feito amor, mas parecia que sim. E não apenas para ela ficou tal impressão. Percebeu o olhar de Nova sobre si, ao passo que Karen, descaradamente, dava as costas a Thales.

       — Estou bem. — balbuciou, encabulada.

       Ele a olhou com intensidade e demora.

       — Deixou de ser ruiva. — constatou com visível satisfação. — Tenho um fraco por morenas.

       — Mas ficou noivo de uma loira. — afirmou Karen com acidez.

       Thales voltou-se para ela com um sorriso sarcástico.

       — Manifestou-se, Karen? Como está?

       — Não interessa. A gente só veio almoçar.

       Nova queria que um buraco abrisse debaixo dos seus pés.

       — O que está esperando?, que eu ponha a comida na sua boca? — debochou de forma amarga. — O que mais quer que eu faça por você?

       Ela o encarou com firmeza e falou sem pestanejar.

       — Nada.

       — Então continuarei a fazer a sua vontade e nada farei. — afirmou, ignorando-a explicitamente ao se postar entre ela e Val. — Quero que saiba que sinto falta de nossas conversas, Valéria. — em seguida, ele se aproximou e sussurrou-lhe ao ouvido de forma íntima: — Você está muito bonita.

       Quando ele se afastou e a encarou tentando arrancar-lhe o vestido com os olhos, ela só foi capaz de agradecer o elogio num sussurro quase inaudível. E foi recompensada por um sorriso charmoso e seguro de si.

       Ele se despediu das três e rumou em direção ao estacionamento.

       — Puta merda, Val, o que foi isso? — perguntou Nova, espantada.

       — Vou dizer o que foi, — interferiu Karen, irritada: — ele está dando o bote da naja pra cima da irmã do Rodrigo. É isso, a vingança do perdedor.

       — É mesmo? Sou tão sem graça que o interesse de um homem como Thales por mim só pode ser em função de uma vingança?

       Karen pôs as mãos nos quadris.

       — Pense o que quiser, você já caiu na rede mesmo. Agora, vamos almoçar e esfriar a cabeça.

       Ultrapassaram as portas duplas do restaurante no momento em que Cris e Verônica também o faziam.

       — Cidade pequena é uma merda, não? — comentou Karen fazendo troça.

       Cris assentiu, cumprimentando-as com um sorriso amarelo. Verônica e Val se abraçaram. Fazia um tempo que não se viam. O fracasso do jantar para aproximá-la de Rodrigo havia jogado um balde de água fria na amizade.

       — Precisamos marcar um boliche. — disse Val, sem saber ao certo o que falar.

       Ela acabava de ser açoitada por um tornado disfarçado de executivo da Avenida Paulista, que à simples presença já provocava curto-circuito nos seus neurônios.  A forma como a abordara, o modo de olhá-la e o tom insinuante da voz, tudo, parecia mais com um teatro para Karen. Essa era a verdade.

       “Sinto falta de nossas conversas”, ela também sentia, ainda que fosse fuzilada contra um paredão, ainda que se exaurisse emocionalmente, ainda que ele alimentasse a parte autodestrutiva de sua personalidade, ela sentia falta dele. Por isso, mergulhada nos próprios pensamentos, viu a boca de Verônica abrir e fechar e nada ouviu. Além do grito de uma necessidade.

       — Desculpa, desculpa... Preciso ver uma coisa, já volto!

       Dizendo isso, Valéria desvencilhou-se da amiga e arrancou em disparada a tempo de se livrar das garras de Karen em seu antebraço, tentando impedi-la de correr em direção ao corredor que conduzia a um par de elevadores até o estacionamento no subsolo.

       — Pelo amor de Deus, Val! — ouviu o berro de Karen.

       — Ela é adulta, fica aqui. — afirmou Nova, contendo-a antes que corresse atrás da cunhada.

       — O que está acontecendo? — perguntou Cris diretamente a Nova.

       — Não sei.

       — Como está a sua gravidez?

       — Excelente, estou muito feliz.

       — Isso me reconforta. — em seguida, indagou interessado: — Teve notícias dos seus pais?

       — Eu? Por que eu se eles são mais chegados a você e à sua família? — ironizou.

       — Não é verdade, todos nós nos preocupamos com você. A gente precisa conversar. — pediu com ternura.

       — Não.

       — Não?

      Karen resolveu novamente interferir, fez um sinal com o dedo em gancho, chamando a atenção de Verônica.

       — Que tal uma bebidinha no bar, hein?

       A outra se voltou para o médico e percebeu que mais uma vez estava sobrando. Estalou a língua no palato e decidiu reverter a situação.

       —Tenho de voltar à biblioteca. — informou, secamente.

       Cris voltou-se para ela e sorriu com gentileza, entregando-lhe a chave do seu automóvel.

       — Pode me esperar uns minutinhos?

       Ela retribuiu o sorriso, pegou a chave de sua mão e, endereçando um rápido olhar para Karen e depois para Nova, encaminhou-se para o estacionamento.

       — Bem, pessoal, vou me refestelar lá dentro, no ar-condicionado. Não façam escândalos, ok? Aqui é a parte chique da cidade. — brincou Karen, piscando o olho.

       Nova observou a amiga se afastar.

       — Cada dia que passa você está mais bonita. — ele declarou com um sorriso.

       — O que quer tanto falar comigo? — interrompeu os galanteios indo direto ao ponto. — Se é sobre o nosso passado, é melhor deixar como está, já falamos tudo o que tínhamos de falar.

       — Vamos para um lugar tranquilo.

       — Sua amiga está esperando-o no carro. Tenha, pelo menos, consideração pelos sentimentos dela. — falou num tom ressentido.

       — Ela não é minha amiga; você é que é e sempre foi a minha melhor amiga. Pisei na bola, fiz o que não devia...

       Ela fez um gesto de contenção com a mão.

       — Já disse que não me interessa o passado. Minha vida começou faz pouco mais de dois meses, o resto sinceramente não me importa.

      — Nova, me escuta, a gente veio para cá juntos. Nós temos uma história, crescemos juntos e amadurecemos juntos. Não posso negar que talvez a tenha iludido, mas o fiz por medo de assumir uma relação séria com você e depois fracassar. Não queria perdê-la. Para mim, era mais seguro não fazer nada do que tentar algo e não dar certo. Por favor, acredite, amo você. Preciso de você na minha vida! Não é possível que não sinta a minha falta! Porra, Nova, até quando me punirá?

       Ele tinha lágrimas nos olhos e o rosto constrito pela dor. Era trágico e irônico. Tantas vezes ela também estivera assim. Por causa dele.

       Karen perdoara Dolejal, ainda que o alfinetasse. A vida seguia, era verdade.

      Como Franco se sentiria caso Cris voltasse à sua vida? E, mais que isso, por que arriscaria magoar ou irritar um homem como Franco para satisfazer a vontade de um homem como Cris?

       Ela o olhou no fundo dos olhos.

       — Meu melhor amigo, além de meu amor, é o Franco. A fila anda, Cris.

       Ele retesou os maxilares, exasperado. Nada a fazer a não ser vê-la entrar no restaurante, bela e sorridente.

 

       Ao sair do elevador, Val encontrou a semiescuridão do estacionamento. Olhou ao redor à procura da Silverado. Sentia-se inquieta, eletricidade pura debaixo da pele. Coçava, queimava. Um nó absurdo no estômago, uma ânsia por ar, por todo o ar que pudesse aplacar o paroxismo de sua alma. Síndrome do Pânico? A taquicardia, o suor frio e a tremedeira? Não, bem pior. Estivera próxima demais dele, aspirara o cheiro de sua pele e a colônia amadeirada que a massacrava de desejo, os pontos da barba por fazer, a marca indelével de sua intensa masculinidade. E ele olhara para ela. Olhara de verdade para ela. O azul melancólico com vestígios de luxúria. Sim, Thales, eu também sou uma mulher, uma fêmea, olhe para mim, continue olhando para mim!

       Caminhou perdida por entre os automóveis. Parou, aterrorizada. O que fazia ali? O quê? Perseguindo um homem? Não se reconhecia. E sofria por não entender, por não se reconhecer, por não se aceitar necessitada de outro, de uma extensão de si também humana.

       Voltou-se ao ouvir o ronco suave do motor de um veículo. A picape escura deslizou seus pneus lentamente até estacionar no meio da pista. À janela aberta, o motorista virou-se com o semblante intrigado.

       — Está a minha procura, Valéria?

       Ela não conseguia falar. Precisava correr, correr e correr. Mas não conseguia sair do lugar nem mexer os braços ou as pernas.

       Ele torceu o lábio num esgar de contrariedade, abriu a porta e desceu, pondo-se centímetros diante dela.

       — Está tudo sob controle na fazenda, se quer saber. — afirmou num tom baixo e sério, fitando-a desconfiado. — É isso que quer saber?

       — Uma vez você me disse que odiava hipocrisia, mas também assumiu que falava o que as pessoas precisavam ouvir. — ela parou e o encarou com firmeza: — Quem é você, afinal?

       Thales fechou a cara numa expressão severa, os maxilares contraídos e as sobrancelhas quase juntas.

       — O que quer?

       — Quem... é... você? — insistiu, enfatizando a questão.

       — Um monstro doente, não? — debochou sem sorrir. — A resposta que busca não está em mim. Sinto muito por não poder ajudá-la.

       — Só quero que não me use para atingir a Karen. Isso, sim, é hipocrisia. — afirmou com rispidez.

       Ele quase sorriu; apenas os olhos refletiram um lampejo de divertimento.

       — Não, isso é imaturidade. — ele deu de ombros e acrescentou num tom de descaso: — Se o que fala é por causa do elogio que fiz há pouco, fique tranquila, foi autêntico. Você está realmente bonita, perdeu aquele ar de cama, mesa e banho. — sorriu com charme — Apesar de que são lugares perfeitos para fazer sexo. Quer começar por onde, Valéria?

       Ele baixou a cabeça e parou antes de tocar o rosto dela. Os lábios entreabertos num esboço de sorriso, como se esperasse que a iniciativa do beijo partisse de quem o mais desejava no momento.

       — Vamos começar por onde? — insistiu, sussurrando, a voz rouca.

       Valéria Malverde grudou seus lábios nos dele e puxou-lhe a nuca com força contra o seu rosto. Teve a língua chupada com sofreguidão enquanto dois braços apertavam-na ao redor das suas costas, trazendo-a para o tórax rijo. Ela sentia-o inteiro, dentro do arco de seus braços, toda a estrutura alta e forte, músculos compactos. E cada parte do seu corpo reviveu como quando a estação das chuvas se impunha em Matarana. A pele arrepiou-se e os bicos dos seios endureceram. Apertou-se ainda mais contra ele e enfiou uma perna entre as dele, o sexo duro e pronto contra o seu abdômen. Gemeu baixinho, rezava baixinho, chorava baixinho. E ele percebeu as suas lágrimas, que deslizaram por sobre os seus lábios. Por um momento Thales fitou-a gravemente e havia algo mais no seu semblante, algo que Valéria ainda não compreendia, porque aquele homem antes não existia para o seu mundo.

       — É melhor que volte para junto de suas amigas. — falou Thales, a respiração pesada.

       — Por quê? — ela queria mais, tudo, ele.

       — É melhor que encontre um lugar seguro.

       Ela balançou a cabeça negando aceitar o que não compreendia.

       — Aproveite enquanto o monstro está adormecido e fuja, Valéria, fuja para a sua vida e me esqueça. — declarou com dureza.

       — Vou curá-lo, Thales. — prometeu.

       Ficaram-se olhando por muito tempo. Medindo-se e se avaliando. Ela viu o abismo escuro, o vácuo e o fim da luz. A escuridão revolta e a transparência acetinada da dor, de uma dor antiga e sedimentada. Ele viu a si mesmo antes de se tornar quem era, a pureza, a beleza da vertigem, os campos floridos e o frescor dos eucaliptos.

       — Procure alguém do seu nível, Valéria Malverde. Porque quando a Karen se cansar do seu irmão, ela voltará para mim. E eu estarei esperando por ela. — afirmou com arrogância, sentindo prazer em vê-la perder o brilho, como uma flor linda e recém-colhida esmagada contra o asfalto.

       Empurrou-a delicadamente pelos ombros e se afastou a tempo de não se contaminar com a ingenuidade e fraqueza da mulher que já deveria ter-se vacinado contra homens como ele. Antes que se posicionasse atrás do volante, ouviu uma voz alta e clara:

       —O Rodrigo sempre lutará pela Karen. Nós, os Malverde, não desistimos facilmente. Escreva no seu diário de monstro ferido: eu sou a mulher da sua vida! E sugiro que comece a montar o seu arsenal de guerra, porque enfrentará uma daquelas!

       Ele puxou a porta e a bateu com força, sem deixar de encará-la com firmeza, avaliando o grau de sua sanidade. Por dentro, explodia em fogos.

         

       A butique Pomme fora criada por uma cearense casada com um catarinense. Eles haviam-se conhecido em Presidente Prudente durante um show de rock. Anos depois, decidiram tentar a sorte no centro-oeste e encontraram pelo caminho Matarana. Chegaram bem depois dos primeiros colonizadores, da eletricidade e da emancipação de Santa Fé. E, se tal fato não tivesse acontecido, amargariam retorno à terra natal num caminhão de mudança com os pneus carecas. Isso por que o que eles trouxeram, havia mais de uma década, não era algo inerente àquela cidade: a sofisticação. Era verdade que rolava dinheiro, na camada superior, com certa facilidade. No entanto, classe não se comprava no varejo, ainda que se fosse dono de várias extensões de terra e outros patrimônios. O dinheiro comprava a educação formal, mas não revestia de polidez e requinte um brucutu e tampouco lhe disfarçava os modos.

       Quando o casal pisou na terra de ninguém, sofreu o golpe do menosprezo. Traziam roupas de grife, originais e caríssimas. Os fazendeiros andavam em camionetes luxuosas e enfiados em bermudas velhas e jeans puídos. Comiam churrasco e emborcavam cerveja, arrotavam alto e se vestiam melhorzinho apenas para as missas e cultos. Uma cidade cuja poeira se erguia na estação do estio e vestia os seus habitantes também com ela. E, então, um casal tipicamente urbano inaugura uma lojinha minúscula, com iluminação indireta, aparadores de mármore, roupas femininas no melhor estilo internacional, atendimento exclusivo com hora marcada e etiquetas douradas com preços em dólar — uma novidade que os mataranenses demoraram a se acostumar. O povo, a massa uniforme e vital da sociedade, jamais se acostumou. Mas aquela loja não era para eles. Uma dúzia de endinheirados a sustentava comprando artigos vindos diretamente de Paris, Dallas e Milão. Contrabando ou não, os proprietários viviam muito bem em um sobrado de dois andares, no centro, uma quadra depois da delegacia.

       — O que estamos fazendo aqui? — Nova cochichou para Karen, perscrutando o recinto com decoração moderna e discreta. — Vixe!, não tenho dinheiro para esse tipo de lugar.

       Karen sorriu e ajeitou o decote V do vestido que experimentava. Marcado nos seios e na cintura, caía com leveza um palmo abaixo dos joelhos. Um tecido delicado tingido num bordô sensual. Danielle, dona da Pomme, mencionara que os tais vestidos longuetes combinavam com qualquer evento formal, bastava não destoar dos acessórios e usar os calçados adequados.

       Ela falava assim mesmo, como se lesse uma revista técnica de moda, nada parecido com aquelas revistas femininas com palpites e dicas de como se vestir, como encontrar um marido, como alcançar o orgasmo, como não se engasgar em público. A empresária dominava a sua arte, porque estudara durante anos o comportamento feminino.

       Quando a morena, alta e elegante anunciou que precisava mostrar-lhes uma peça encantadora e saiu da salinha íntima com sofás e provadores, a chefona do clã dos Lisboa voltou-se para a amiga e comentou alegremente:

       — É o coronel Marau que vai pagar nossos luxinhos.

       — Como assim? — perguntou Nova, arregalando os olhos.

       — Bom, ainda tenho grana no banco da venda do terreno com os bangalôs. — declarou com naturalidade, endereçando um olhar significativo para Valéria, que desfilava com seu vestido longo, soltinho, a frente única com as costas à mostra. O estampado no fundo escuro e o drapeado logo abaixo do busto disfarçava a barriguinha.

       — Preciso urgentemente perder uns 10 kg. — resmungou Val, balançando o corpo em frente ao espelho, os pés calçados na sandália aberta totalmente escondida pelo tecido macio do vestido. — Meu Deus, é gente demais pra pouca roupa!

       Nova virou-se para ela, encantada. A amiga estava maravilhosa e os seus complexos não a deixavam ver essa beleza radiante.

       — Lynn, conhece? Tara Lynn! É uma modelo deslumbrante que tem o corpo igualzinho ao seu, é linda e sensual, exala erotismo, Val, assim como você.

       Valéria fez um trejeito engraçado com o canto dos lábios, duvidando das palavras de Nova e acreditando no que encontrava refletido no espelho.

       — Dick, amiga, conhece? Moby Dick, é como me sinto. — declarou em tom de lamento. — Tenho de parar de cometer crimes à noite, chega de assaltos à geladeira, e nunca mais provarei um maldito Macaron!

       — Se pensa em fazer dieta por causa do Thales, é melhor continuar como está. Ele é meio tarado pelos tamanhos G. — insinuou Karen, fitando a cunhada através do espelho. Percebendo que Val baixou a cabeça embaraçada, emendou num tom de zombaria: — Além disso, se relacionando com um predador alfa acabará emagrecendo de qualquer forma.

       — E por falar em Macaron, quando pretendem abrir a confeitaria? — intercedeu Nova diplomaticamente, ajustando as alças do seu tubinho preto.

       Mas Karen estava disposta a retomar o que falava, voltando-se diretamente para a cunhada:

       — Só espero não vê-la pela cidade trocando as pernas e em farrapos, digo, por dentro, em farrapos. Se isso acontecer, o seu irmão baterá de frente com o Thales e não será como o delegado íntegro e ponderado, e sim como homem. E, escute bem, dona sonhadora, se acontecer alguma coisa com o Rodrigo, eu acabo com o Thales sem hesitar, mato, enterro e ainda faço a dança da morte em cima da sua sepultura. Entendeu, agora, o perigo que é essa sua atração fatal por ele? — indagou com os maxilares retesados e os olhos duros sobre ela.

       Nova olhava de uma para a outra, despojada de argumentos conciliadores. Era novidade o interesse de Val por Thales e também nada bom. Por outro lado, lembrava um pouco a sua relação com Franco e o quanto os seus amigos — inclusive a própria Valéria, tentaram dissuadi-la a levar a sério. Por isso se sentia compelida a apoiar a irmã do delegado.

       — Todos nós somos adultos, inclusive o Rodrigo. A Val se relaciona com quem quiser e cabe a nós, suas amigas, apoiá-la. Se eles resolverem brigar, bem, isso está fora da nossa alçada. A tensão entre os dois não é de agora e não começou com a Val. Não é mesmo, Karen? — direta e seca.

       Karen sorriu diante da ousadia da outra.

       — Estou enfrentando a aluna do diabo loiro.

       — Meus punhos estão no cérebro, amiga. — declarou Nova com um sorrisinho superior.

       Val endereçou um olhar divertido à cunhada. Sim, a influência de Franco era visível.

      — É, ele está fazendo um bom trabalho. — considerou Karen, contrafeita.

       Nova sorriu satisfeita consigo mesma.

       — Trouxeram batom? — perguntou ela.

       As outras duas assentiram e foram convidadas a sacarem o cosmético de suas bolsas.

       A noiva de Franco estendeu o seu batom para frente e para o alto e exclamou feliz da vida:

       — Uma por todas e todas por uma!

       Karen e Val se entreolharam, confusas. Depois, controlaram-se para não caírem na gargalhada, visto que Nova bradou sozinha.

       — Ai, suas vacas, vamos de novo! — ordenou com o rosto em brasa.

       Mesmo que se sentissem tolas e sem graça com a proposta da outra, Val e Karen ergueram para o alto os seus batons, tocando-os como se fossem as espadas de Athos, Porthos e Aramis.

       — Uma por todas e todas por uma!

       Bradaram.

       Danielle entrou na sala trazendo num cabide um vestido esvoaçante e no rosto uma expressão carregada de curiosidade. Fitou as amigas que riam de posse de suas armas fatais, bastões para tingirem os lábios. Sabia, agora, que deveria desempenhar muito bem o seu papel. E assim o fez.

       — Vocês estão magníficas! — exclamou com sinceridade e, posicionando o vestido branco em frente ao próprio corpo, disse: — Não pude resistir e tive de buscá-lo para que o vissem. Esse é nada mais nada menos que o vestido da Cinderela. Foi comprado por um fazendeiro da região, veio direto dos Estados Unidos, é um modelo inspirado no desenho da Disney. Olhem a perfeição dessa peça! Não é um sonho?

       Nova foi a primeira a se aproximar para ver melhor se não era mesmo fruto de sua imaginação o vestido longo com a saia armada. Não ousou tocá-lo, tão branco e perfeito. A saia armada parecia ter sido feita para um baile em Viena. Imediatamente sua curiosidade se aguçou.

       — Quem vai casar deve ser muito importante, né? Um vestido desses custa uma pequena fortuna.

       — Isso é coisa de algum besta da alta roda, querida. — escarneceu Karen. — O que não falta por essas bandas é gente querendo aparecer e ostentar os seus milhões.

       — Gastar uma nota preta num vestido de noiva me parece mais um gesto de amor e carinho. É muito romântico. — rebateu Val, aproximando-se do vestido e tocando-o com delicadeza.

       Danielle ergueu-o ligeiramente e o avaliou sem disfarçar a admiração pela roupa.

       — Qual mulher não gostaria de casar se sentindo uma princesa de contos de fada?

       — Realmente, ele é lindo! — comentou Nova, admirando o decote bordado que deixava os ombros nus, acentuado pelo corpete cruzado marcando a cintura. — Meu Deus, e o que são esses microcristais na saia? Meninas, esse vestido é simplesmente gamante! — exclamou extasiada.

       Val piscou o olho para Karen, discretamente, e se aproximou de Nova como quando a cobra enrolada no galho da árvore se contorceu até alcançar Eva.

       — Por que não o experimenta? — perguntou, insinuante.

       Antes que a amiga fizesse alguma objeção, Karen estava bem ao seu lado e também queria lhe oferecer a maçã.

       — É o tamanho exato para uma Smurfette. Imagino que a mulher que o vestirá seja do seu tamanho, Nova.

       Danielle pigarreou.

       — Sim, ela tem o seu tipo físico. Se quiser, pode experimentá-lo no provador, sem problemas. Parece que o casamento da moça é somente daqui a seis meses.

       Nova olhou de uma amiga para outra, indecisa.

       — O que vocês acham?

       — Esse vestido está pedindo o seu corpo, guria. — disse Karen com um sorriso malicioso.

       — É evidente que não está pedindo os nossos, né, ô mulher do delegado? — brincou Val, pegando o cabide com o vestido de Danielle e levando-o consigo enquanto empurrava Nova pelo antebraço: — Vamos vestir essa belezura, princesa.

        

        Rodrigo tinha de fazer uma ligação. Terminou de vestir o blazer escuro com a ajuda de Johnny. Ainda sentia uma fisgada rápida e aguda na altura do ombro e o esforço de pôr a camisa social e o paletó era uma tarefa incômoda. Manteve as botas por baixo da calça social, toldou a cabeça com o chapéu e rumou para o alpendre, onde Sabrina e vó Ninita aguardavam-no.

       Antes de encontrá-las, bem vestidas para a ocasião, telefonou para Karen. Uma ruga funda marcava-lhe a testa.

       — Amor, preciso resolver um problema na delegacia. Tudo bem por aí?

       — Você está de licença médica, Rodrigo.

       — Eu sei, mas tenho de voltar ao trabalho. Houve um assassinato “dentro” da delegacia. Entendeu?

       Karen considerou por alguns minutos o que acabara de ouvir. Sentou-se no sofá diante dos provadores.

       — O Vitorino?

       — Sim, ele mesmo. Simularam um acidente de carro para distrair o Lucas e tirá-lo da DP. O atirador aproveitou a confusão e deu dois tiros no Vitorino. Resta saber se foi obra do Marau pai ou do Marau filho. — falou com a voz cansada.

       — Marau filho? Como assim?

       — Depois te conto, andei descobrindo que nem tudo de ruim que acontece em Matarana pode ser atribuído aos primeiros colonizadores. Pois bem, eles procriaram e parece que a semente também não rendeu bons frutos. — ironizou.

       — Bom, não vejo como impedir que a Nova se case com uma dessas sementes ruins.

       Rodrigo riu baixinho.

       — Não há semente ruim por parte dos Dolejal, meu amor. O Franco é a semente dos bons e novos tempos para Matarana. Mas no caso dos Marau, o Leonardo é tão perigoso quanto o coronel.

       — Puxa vida!, me sinto aliviada por isso! Quer dizer, bem, pelo Franco não ser tão ruim quanto o Thales.

       — Quero o Thales bem longe de nós. — declarou com convicção.

       Automaticamente, Karen endereçou um olhar cauteloso para o provador onde estava a irmã do delegado. Era evidente que alguma coisa acontecera no estacionamento do centro comercial. Valéria voltara com o rosto afogueado como se tivesse assado bife sobre a grelha debaixo do sol do meio-dia. Além disso, ela conhecia Thales, o homem Thales, o líder e autoconfiante troglodita, capaz de dobrar uma mulher sobre os seus ombros e levá-la para cama.

       — Por aqui está tudo indo as mil maravilhas. Cinderela acaba de vestir-se para o baile. É melhor avisar o príncipe encantado. — brincou.

       — O nobre está tão nervoso que não para de me telefonar, pobre diabo — riu-se.

      — É bom que sofra um pouco, faz parte do processo de se tornar homem. — ironizou, ouvindo do outro lado do aparelho, a risada gostosa do delegado. — Aproveita e diz pra ele que o momento é agora. Já fizemos a nossa parte.

       Rodrigo concordou e encerrou a ligação. Por um momento manteve os olhos presos no celular, a cabeça longe, um sorriso preguiçoso nos lábios e o peito estupidamente cheio de amor. Lidava com crimes, drogas, violência e morte.

       E ainda assim não passava de um rapaz romântico.

 

       Val terminou de fechar os botões traseiros do corpete do vestido e deu um passo para trás, a fim de avaliar o caimento da roupa. O que viu foi mais que a beleza do corte ou do tecido. Encontrou, diante do espelho, a elegância e a beleza de uma nobre. Havia também uma aura de luz ao redor da mulher vestida de noiva, uma luz brilhante que lhe escapava pelos olhos e através de seu sorriso de admiração. Ela estava em outro mundo e em outro nível, um palmo acima da realidade e deitada de braços abertos sobre a morna maciez dos sonhos. Nova não era mais a forasteira de Minas, a amiga do médico, a jornalista que cantava no bar do Gringo e vivia com um pistoleiro. Quem girava o corpo de um lado para o outro, avaliando o efeito do brilho dos delicados e minúsculos cristais na saia e o balanço do vestido contra as pernas nuas, era uma mulher modificada pelas circunstâncias.

       — Não é lindo, Val? Me sinto uma adolescente no seu primeiro baile... — declarou com lágrimas nos olhos e um sorriso de plenitude.

       — Quando a gente se apaixona parece que está sempre se preparando para o primeiro baile. — considerou Val, ajeitando a saia do vestido da amiga.

       — A dona desse vestido é uma sortuda!

       — Olha só isso, — disse Val, apontando para o objeto que Danielle trazia consigo na mão, — é uma tiara de cristal! Caramba, que raio de coisa bonita!

       Danielle sorriu complacente, aproximando-se de Nova e ajeitando a tiara por entre as mechas curtas do cabelo dela.

       — É linda, querida! Cristal Swarosvki! Se é para brincar de Cinderela, vamos fazer direitinho. — completou com espirituosidade. — Agora só faltam os sapatinhos.

       — De cristal? — perguntou Nova, incrédula.

       — Não, não. — riu-se Danielle. — Já temos bastante excentricidade com esse modelo da Disney.

       Conduzida até o sofá, Nova deixou-se ser calçada pelas duas mulheres. O salto era alto e fino, o prateado na tira sobre a sandália fechada e ao redor dos tornozelos.

       — Sabe, meninas, isso não se faz com uma noiva. — disse ela, sorrindo e erguendo-se sobre os saltos. — Eu não devia ter experimentado esse vestido, já tinha combinado com o Franco que a gente ia casar no cartório, num evento simples com apenas a presença das testemunhas. É o meu segundo casamento e não sou mais uma garotinha. Mas agora...sei lá, só penso no quanto gostaria que ele me visse assim...tão bonita!

       — É só tirar umas fotos! Cadê o celular? — perguntou Val, olhando ao redor, à procura do bolsão da amiga.

       Nova se virou para Danielle, visto que talvez fosse comprometê-la ao ser fotografada com o vestido de noiva de outra cliente.

       — Sintam-se à vontade, — afirmou com um sorriso simpático e completou: — peço somente para que não postem as fotos na internet.

         

       Franco olhou para o céu estrelado acima da sua cabeça e considerou que aquele era um bom momento para viver. Postou-se na calçada, ajeitou o chapéu preto que combinava com o terno escuro, a camisa social, a gravata e as botas da mesma cor. A roupa clássica o tornava mais alto e mais magro e ele não se parecia mais com o pistoleiro que sacava rápido e comia poeira da estrada. Longe também a aparência de executivo, tão evidente na postura do seu pai e patrão. Franco Dolejal tinha estilo próprio e era ele que dava sentido e vida à roupa, não o contrário.

       Percebeu ao redor de si o pequeno burburinho que sua presença causava. O povo de Matarana sabia que por onde andava aquele rapaz algo acontecia. Algumas pessoas estremeciam alicerces com a mesma suavidade do bico do beija-flor por entre as pétalas de seu alimento. Um acontecimento natural, uma manifestação sem encenação ou imposição. Franco jamais passava despercebido, ainda que algumas vezes fizesse questão disso.

       Leu a mensagem no seu celular e sorriu satisfeito. Era o sinal verde para entrar em ação. Endireitou os ombros e procurou ignorar as pessoas que saíam curiosas dos mercados, lojas e padarias e se plantavam na calçada diante da butique sofisticada da primeira via.

       Entrou no saguão da Pomme, tirou o chapéu e segurou-o contra o corpo. Observou o efeito de sua chegada nas atendentes que de pronto se agitaram como pardais alçando voo sobre a roça. Sorriu, discretamente. O ambiente sofisticado intimidava-o um pouco; não o suficiente para detê-lo. A ideia era levar uma princesa para o seu castelo.

       Ao avistar Karen descendo os degraus da escada em sua direção, sentiu-se estranhamente reconfortado.

       — Está com a aparência de quem de fato é: o único herdeiro de um milionário do agronegócio. — ironizou com um sorrisinho de desdém.

       Franco retribuiu o sorriso.

       — A dona está enganada, não passo de um sujeito com muita sorte e amado por Deus.

       Ela se aproximou o suficiente para tocar os lábios junto à orelha dele e murmurou:

       — Mija fora do penico com a Nova, e eu tosto os teus bagos na churrasqueira lá de casa.

       O pistoleiro riu baixinho.

       — Engraçado, o Rodrigo me falou algo parecido. — em seguida, com a expressão séria e profunda, emendou: — Vocês dois não me conhecem. Nem vocês nem os pais da Nova ou o doutor. Nunca mais dê a entender que eu farei mal à minha mulher. Caso contrário, eu também tostarei os teus bagos, Karen Lisboa.

       Foi a vez de Karen sorrir abertamente, divertindo-se com a provocação.

       — Deus me livre, está cada dia mais parecido com o teu pai! Vamos, então, moleque, movimentar as coisas. — ela deu-lhe as costas e voltou a subir os degraus. Antes de desaparecer, já no andar superior, voltou-se: — Esqueceu o buquê, babaca!

       Franco sentiu a testa porejar de suor frio. Num átimo, ao seu lado, uma das atendentes entregou-lhe o buquê de rosas brancas.

       — Não se preocupe, senhor Franco, está tudo certinho como o combinado com aquele senhor esquisito da capital. — disse-lhe a moça com um sorriso confiante.

       O senhor esquisito era o produtor de eventos de Cuiabá. Um camarada bem vestido e perfumado, contratado a peso de ouro por Thales Dolejal para que o seu único filho tivesse um casamento de acordo com o seu nível social. Mas, para Franco, o planejamento do seu casamento com Nova começara desde que descobrira que teriam o seu primeiro filho, e ele significava um presente, alguma coisa importante que ele queria e podia lhe dar, além do amor e do bebê. Se, para isso, entregava novamente a sua alma ao patrão, pouco importava.

 

       — Tem alguém lá embaixo que quer vê-la.

       Nova parou de sorrir para a câmara do seu celular e disse sem um pingo de hesitação:

       — Não quero falar com o Cris. — voltou-se para a fotógrafa a sua frente e praticamente implorou: — Desce e resolve isso pra mim, Val. Vocês se entendem tão bem, e eu não quero fazer uma cena!

       Val não sabia o que fazer, visivelmente, confusa. Foi preciso que a cunhada viesse em seu auxílio de forma incisiva.

       — Está bancando a mulherzinha, Nova? Se escondendo atrás das amigas em vez de peitar os caras? Há pouco deu uma de diaba morena pra cima de mim e agora quer se enfiar debaixo do vestido da Val, me poupa!

       — É, amiga, a Karen tem razão, vá dizer ao Cris que tudo isso aí é para o Franco. — sugeriu Valéria com um sorriso malicioso. — Veni, vidi, vici, poderosa! 

       Ela não estava muito satisfeita em seguir as orientações das amigas. O encontro em frente ao Arizona fora desgastante e, de certa forma, desnecessário. Cris sempre fora um homem equilibrado e razoável, por que, diabos, ainda insistia em bater na mesma tecla?

       Ergueu ligeiramente a saia do vestido com as mãos e se encaminhou até a escada. Sentia todos os olhares queimando a sua nuca. Fechou a cara, não estava a fim de ser amistosa. Cansava repelir o ex-amigo, visto que não tinha mais argumentos para isso, todos já haviam sido usados. Se o estrago não fosse ainda maior, pediria auxílio de Franco para resolver a questão.

       Precisou de meio minuto para dar forma e sentido à sensação de delicioso sufocamento, reconhecendo, enfim, a face bonita do seu futuro. Ele estava ali, inteiro. Nas mãos, flores. A expressão serena e o sorriso juvenil, orvalhado e pleno de admiração. Uma fina camada de água toldava os olhos dele e revestia de brilho o azul quase branco. Silencioso, valente e belo, diante da mulher que se atirou nos braços do destino — como antes e sempre, ao se jogar no rio para salvá-lo ou se pôr entre ele e o revólver de um policial ou desafiar os pais, os amigos e a cidade por ele —, ela se atirou nos braços dele consciente de que qualquer palavra dita naquele momento não teria força e verdade, pois a única verdade era a devoção a ele. Por todos os dias de sua vida.

       Abraçaram-se durante uma eternidade. Aplacavam nesse abraço a saudade de eras, de épocas em que não conseguiram se encontrar, ainda que febrilmente o tentassem. Mas quando o amor era antigo, resistia a todas as intempéries e aguardava terno repouso no DNA dos amantes, como um vírus do bem à espera do gatilho para se desenvolver, eclodir, vingar; à espera do encontro prometido, quando todas as vidas passadas se encontravam dentro de duas pessoas.

       Ela não conseguia falar e com um gesto de cabeça agradeceu-lhe o buquê e aceitou  a sua mão estendida. Chorava e tremia tomada pela imperiosa necessidade de viver. Mais um pouco, levitava.

       Ao sair da butique e ganhar a calçada, viu a charrete aberta e o condutor que segurava as rédeas de dois cavalos.

       — Obrigada, amor da minha vida — conseguiu murmurar.

       Franco baixou a cabeça e sorriu meio sem jeito. Ela estava tão bonita que se sentia aturdido.

       — Eu sabia que esse era o vestido perfeito para você, mas jamais pensei que ficaria tão mais linda que na minha imaginação... — ele parou, tomou-lhe o queixo com o dedo em gancho e ergueu-lhe o rosto, indagando com seriedade e doçura: — A gente está indo casar e é para sempre. Quer mesmo me acompanhar nessa empreitada, dona?

       Nova sorriu como uma criança que se sente querida e protegida.

       — Sim, eu quero.

       Foi depois de dizer o primeiro “sim” da noite, que ela percebeu o aglomerado ao redor da charrete, cercando-os à espera dos eventos. E não foi surpresa para ninguém que ouvissem palmas e vissem sorrisos encantados. Uma comoção de gentes com sacolas de supermercado, preparando-se para voltar às suas casas e contar sobre um homem que se transformara de suposto diabo para príncipe encantado e de uma forasteira indesejada, responsável por essa magia.

       Karen observou com atenção o caubói ajudar sua noiva a subir no transporte alugado em Santa Fé. Tinha de dar o braço a torcer, aqueles dois não eram normais. Cutucou Valéria para soltar uma piadinha sobre a cena. Afinal, a caipirada que muitas vezes inventara histórias absurdas sobre o diabo loiro, agora, secava lagriminhas de emoção, bando de urubus, ela considerou. Só que não pôde compartilhar seus pensamentos, visto que a cunhada estava com o rosto afundado num lenço.

         

       Vó Ninita ajeitou-se no tailleur azul-claro, aproveitando para dar uma olhada na roupa do neto ao seu lado. Ele usava uma camisa social branca e calça escura, tinha o cabelo lambido para trás e duro de gel, e era evidente que espalhara um pouco de pó compacto nas bochechas para disfarçar as espinhas. Havia algum tempo que a senhora setentona observava o repentino interesse de Johnny pela sobrinha de Rodrigo. Bem, ele estava numa idade em que os hormônios ordenavam voltar-se para outros interesses além do videogame e do futebol. E Sabrina era especialmente bonita e carismática.

       O que também lhe chamava a atenção naquele momento era a decoração do lugar. Segundo o que dissera Karen, o profissional contratado para organizar o casamento optara pela parte mais fresca da fazenda, próxima ao açude. E lá construíra uma réplica do interior de uma igreja a céu aberto. Bancos de madeira de lei, lado a lado, dispostos em dois grupos separados por um caminho atapetado e com arranjos de rosas brancas e na cor champanhe por sobre colunas de vidro, ladeadas por vasos mais baixos. A iluminação romântica e intimista era feita pelas velas aromáticas flutuantes postas em tubos grandes, intercalando os arranjos florais. As luzes indiretas dos diversos sposts espalhados ao longo do caminho até o discreto altar revelavam e escondiam as árvores, o gramado baixo e as águas limpas e verdes do lago artificial dando um aspecto de sonho ao pequeno grupo convidado pelos Dolejal.

       No altar, Irene e o marido como padrinhos do noivo. A governanta não parava de secar os olhos com um lencinho bordado, a mão carinhosamente sobre o ombro do marido na cadeira de rodas, bem vestido e sorridente, orgulhoso de presenciar o casamento daquele que também considerava como um filho seu. Os padrinhos da noiva eram os irmãos Malverde.

       Os pais de Nova ignoraram o convite de casamento enviado pelo produtor de eventos de Cuiabá. Era verdade que os Dolejal foram incisivos sobre o retorno dos Monteiro a Matarana, ainda assim seriam bem-vindos, mesmo porque foram convidados por um dos donos da cidade. Como Guilherme e Raquel faziam oposição ferrenha ao noivo da filha, determinaram que a vergonha de tê-la casada com um pistoleiro filho de mafioso não se alastraria por Minas Gerais e adjacências. Nova, agora, estava por sua conta e risco.

       Karen sentou-se ao lado da avó, ajeitou o vestido sobre as coxas e comentou baixinho:

       — O Thales abriu bem a carteira, hein! Me deu até vontade de me enforcar com aquela belezura, ali, vestido de policial federal.

       — É, mesmo? E por que não casa? — desafiou a avó.

       — Não começa, vó, já basta o xerifão. — resmungou Karen.

       — Bom, querida, tem uma loirinha a dois bancos daqui que está com o olhão vidrado na sua belezura. E, pela minha experiência, ela deve guardar uma corda bem forte pra amarrar homem, enquanto você deixa eles soltinhos no pasto à vista dos ladrões. Ééé, a tal liberdade feminina é uma conquista e tanto! Boa sorte, mulher liberada. — ironizou com um sorrisinho travesso.

       Karen não estava gostando do rumo da prosa.

       — Olha só, dona Ninita, ele me deu um beijão na frente dela, sacô? E sabe o que isso significa? Que ele, a parte que me interessa, deixou bem claro a Rita que nós dois temos coisa. Então não venha jogar lenha na fogueira!

       — Pois é, tem mulher que se interessa ainda mais por homens assim, fiéis, que fazem declarações de amor em público... Elas veem nisso um desafio, algo para calibrar o ego, sabe? Corromper um bom homem e tirá-lo de outra mulher como uma espécie de bônus. Homens leais valem mais no mercado.

       — Você está falando das vadias? Não se preocupe, avozinha, quando o lobo está comendo, o gato está miando. — declarou Karen, filosófica.

       Vó Ninita virou-se para a neta, confusa.

       — Hã?

       — Hã, nada, vó! A Juíza de Paz se posicionou, vamos prestar atenção no casório. — determinou ela, ignorando a expressão de aturdimento no rosto de sua avó.

       Karen lançou um longo olhar em direção ao altar. O namorado mantinha o chapéu de caubói puxado para frente, toldando parte de seus olhos que, vez por outra, colidiam com os dela. E quando isso acontecia, seus lábios ajeitavam-se num sorriso tranquilo. Um sorriso que afirmava categoricamente que um dia seriam eles, ali, diante da mulher vestida para casar.

       Ao lado do padrinho, o noivo inquieto. Franco apertava o seu chapéu nas mãos, curvava a aba para baixo e tornava a erguê-la num tique nervoso. Virou-se para Rodrigo e tentou sorrir. Estava uma pilha de nervos.  Era verdade que tudo estava perfeito. A atmosfera úmida e perfumada pelos eucaliptos e as diversas velas aromáticas. E principalmente a sua mulher, linda e perfeita. Ele a trouxera na charrete aberta, escoltados por duas picapes com os seguranças da fazenda até a entrada da casa-sede. No caminho, ela deitara sobre o seu peito e se abraçara a ele. Enquanto os cavalos riscavam a estradinha de chão batido, um atalho fora da BR-163, rememoravam o primeiro encontro de ambos no escritório de Dolejal. Franco ostentando o seu olhar desafiador e as suas armas. Nova tentando desmascarar a origem da verdadeira colonização de Matarana.

       Aos primeiros acordes de Don’t Die Before I Do, Franco endireitou-se e ajeitou o chapéu na cabeça. Soltou os braços ao longo do corpo e para compensar a ansiedade que o fazia mordiscar o canto esquerdo do lábio inferior, ergueu ligeiramente o queixo com altivez. Rammstein, a escolha musical do noivo roqueiro, fez o resto espalhando pelo campo a música que anunciava a entrada da noiva.

       Nova pôs a mão ao redor do antebraço de Thales. Olhou-o de soslaio, a discrição do terno azul-marinho e a camisa cinza clara, combinando com a gravata um tom mais escuro. Ele tinha o semblante sério e afável. Não havia rastro de emoção ou qualquer sentimento em relação ao fato de presenciar o casamento do seu único filho. Porém, fizera questão de levá-la ao altar no lugar do seu pai. Postou-se ao seu lado com a sofisticação que lhe era peculiar, mais do que isso, com a dignidade e altivez que o distinguia de todos. Não sorrira ou lhe enfeitara com elogios, tão-somente lhe oferecera o braço e a senha para sua nova vida:

       — Seja bem-vinda à minha família.

      Havia tamanha força e autenticidade em tal declaração que a emocionou. Sabia o quanto era importante para aquele homem o seu sobrenome. Era um clã, um feudo, onde apenas alguns, os escolhidos, podiam participar. Dentro da sociedade mataranense, Nova elevara-se ao nível máximo de reconhecimento e prestígio. Mas o que a fazia chorar — enquanto se encaminhava lentamente pelo tapete, conduzida pelo pai do seu futuro marido, era o sentimento de pertinência, pertencia àqueles dois homens de formas distintas, inexoravelmente, ligada a eles para todo o sempre.

       — Obrigada, senhor Dolejal. — disse num fiapo de voz.

       Viu-o sorrir levemente.

       Thales parou diante do noivo, voltou-se para Nova e beijou-lhe o dorso da mão. Depois, virando-se para o filho, entregou-lhe a noiva.

       — Faça o seu melhor. — determinou a Franco.

       Ele assentiu, pegando a mão da noiva e repetindo o gesto do pai. Respirou fundo e não pôde conter o sorriso de admiração.

       — Estou sem ar, princesa. — murmurou junto ao seu ouvido. — Sou um filho da mãe danado de sortudo. — declarou bem-humorado.

       Ela sorriu e enganchou seu braço no dele.

       — Somos dois danados de sortudos, meu amor!

       Por um momento eles ficaram atentos ou ao outro. Quando, em seguida, a Juíza de Paz começou a sua breve exposição sobre o amor e o cotidiano.

       Ao lado de Rodrigo, Valéria tentava impedir que seus olhos se fixassem na figura imponente sentada no primeiro banco diante do altar. Obrigou-se a prestar atenção na cerimônia civil. Vez por outra, endereçava um rápido olhar para o pai do noivo que se mantinha atento às palavras da Juíza. Ainda sentia na boca a maciez da boca de Thales e, assim, a vontade de tê-lo tornava-a sua refém. Mas  uma refém sem ilusões, visto que havia anos trafegava pelas tais estradas da vida. Por isso lançou um olhar profundo e penetrante, daqueles que feriam sem tocar, e foi retribuída pela atenção do seu alvo.

       Ele aceitou a invasão, ainda que por pouco tempo. Encarou-a diretamente sem mexer um músculo da face.

       E foi assim que Valéria Malverde decidiu que para tê-lo definitivamente para si teria de submetê-lo a um tratamento de choque. Fazia muitos anos que não se interessava por ninguém, tampouco sentira falta de um homem, amor ou companheiro de cama. Mas agora tudo mudara. E ela o queria. E ela era uma mulher. E tinha suas armas. Teria Thales Dolejal de qualquer jeito, nem que fosse para deixá-lo em seguida. Precisava ao menos experimentá-lo. Talvez seus olhos tivessem revelado a sua intenção, porque o fazendeiro esboçou um esgar de arrogância, de quem se sabia desejado, antes de ignorá-la pelo resto da noite.

 

       — A semente do amor vinga no solo que recebe adubo e luz do sol, e o que é essa luz senão o carinho e o ver-se-no-outro como extensão de si mesmo. A felicidade do outro é a minha felicidade, a tristeza de quem amo é a minha ruína, visto que o amor entre um homem e uma mulher, antes de tudo, é o amor pelo ser humano, pela humanidade inteira. Assim, chegamos ao momento em que Franco e Nova declaram esse amor, não apenas aos seus familiares e amigos, como também à eternidade de seus dias como seres nascidos para esse amor e para vivê-lo em toda a sua plenitude, juntos, através dos tempos.

       A Juíza sorriu ao perceber que o padrinho estava distraído.

       — As alianças? — insistiu, voltando-se para o delegado da cidade.

       Rodrigo emergiu de um breve devaneio. Nele, Karen aceitava o seu terceiro ou quarto pedido de casamento. Constrangido, apalpou os próprios bolsos até encontrar a caixinha revestida de veludo com as alianças de Franco e Nova, aros de ouro, grossos, como as joias dos casamentos de antigamente. Entregou-a ao noivo que, agora, sereno e sorridente, balançou a cabeça meio que condenando amistosamente a atrapalhada do padrinho da noiva.

       — A aliança de casamento significa a eternidade, o amor eterno. Um anel é um círculo completo, sem interrupção, sem início nem fim, o que significa o eterno. E é por meio da troca de alianças que Franco e Nova selam o compromisso que assumiram consigo mesmos e com o amor que os uniu. — declarou a Juíza, postando-se ao lado do noivo. — Franco, pode iniciar o ritual sagrado da troca de alianças.

       Nova estendeu-lhe a mão esquerda e Franco deslizou o aro de ouro em seu dedo médio. Em momento algum deixou de fitá-la, a profundidade do azul convidando-a a viajar dentro dos olhos dele, cheios de emoção e paz.

       Um vento morno soprou-lhe as mechas loiras, escondendo parcialmente o seu rosto, e tremeluzindo as velas. Ele não sorria mais, tomado que estava por um sentimento que o calava como um grito de agradecimento. E quando ela repetiu o seu gesto, as mãos pequenas e femininas trêmulas, Franco tocou-a no seu rosto e fez-lhe um carinho.

       A Juíza sorriu e encerrou a cerimônia com a sentença de praxe:

       — Eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva!

       Franco estendeu a mão e enganchou-a na parte detrás do pescoço de Nova, aproximou o corpo até tocá-la, baixou a cabeça e, separando-lhe os lábios com os seus, mergulhou dentro de sua boca. Um beijo profundo, que terminou num abraço longo, o tipo de abraço que era bem comum entre ambos, quando sentiam saudades um do outro várias vezes por dia.

       Ele se afastou ao ouvir o barulho dos bancos e as pessoas se levantando e aplaudindo-os. Mas não se afastou totalmente. Ainda de posse do corpo dela entre os seus braços, trouxe-a para mais perto e beijou-lhe a testa, a ponta do nariz e o pescoço. Junto ao seu ouvido, murmurou um segredo:

       — Da última vez que morri, eu vi você, dona.

       Ela não sabia o que falar, posto que nem a vida nem os seus pais haviam-na preparado para receber um presente como Franco Dolejal e o filho dele.

       Entrelaçaram-se os dedos e se voltaram para incitarem os primeiros passos sobre o caminho atapetado e se postarem, ao lado de Thales, a fim de receberem os cumprimentos dos convidados.

       Nova apertou forte a mão do seu marido.

       Após a cerimônia civil, os convidados escolhidos a dedo por Franco e um dos executivos de Thales Dolejal, encaminharam-se para as mesas dispostas ao longo do gramado, circundando a piscina. A tenda aberta, com suportes retangulares e caimento lateral para o tecido diáfano e branco, servia como o lugar onde os noivos e o pai do noivo dividiam a mesa retangular, de madeira de lei, que fora carregada até lá por meia dúzia de peões.

       O produtor de Cuiabá gerenciava a movimentação dos diversos garçons e garçonetes e não relaxava nem um minuto sequer. Se fizesse muito bem o seu trabalho, era provável que os ricaços de toda a região norte do Mato Grosso contratassem-no. E, para eles, Andrei Fragoso puxava do bolso a tabela de preços VIP — Valores Impossíveis para os Pobres. Ainda assim, era um trabalho e tanto aquele. E, em momento algum, poderia se dar ao luxo de pisar na jaca com um fodão do agronegócio — conjecturou Andrei, de olho na equipe de filmagem que viera especialmente de São Paulo para fotografar e filmar o casamento do filho do latifundiário que despontava como um dos mais importantes do país. Era uma lástima o senhor Dolejal ser inacessível ao ponto de terem trocado quatro ou cinco palavras e ele logo o indicara para que tratasse sobre assunto com o seu diretor administrativo. Por outro lado, parecia que a falta de habilidade social não era um traço hereditário, uma vez que o noivo, Franco Dolejal, acompanhara todas as reuniões com evidente interesse e acatando sugestões como um verdadeiro líder no comando. Ele não queria ostentar nenhum tipo de luxo.

       Andrei convivera ao longo de sua trajetória profissional com gente graúda, não aceitava trabalhar com pechincheiros ou com medíocres da classe média brasileira; trabalhava, sim, para os ricos, com mentalidade de ricos e conta bancária de ricos. E por isso tinha experiência o suficiente para perceber em Franco, o noivo apaixonado e encarregado da segurança da fazenda Arco Verde, as características de um soldado que supera o seu comandante, do subordinado que ultrapassa a chefia, do discípulo que põe na lona o mestre e do filho que vai muito além do pai.

       As mesas redondas, para quatro lugares, recebiam a toalha de linho branco com listras grossas num dourado suave, o tecido deslizava até o chão e protegia a madeira da mesa ao receber os suportes de vime para os pratos, os talheres de prata, os cálices e o arranjo de flores do campo. As mesas retangulares para oito lugares ocupavam os espaços entre as mesas menores e o amplo palco baixo, diante da banda contratada para tocar covers da música country gringa. E a primeira a pôr os casais na pista foi On The Road Again, cantada por um sujeito de cabelos grisalhos e longos, ao estilo Willie Nelson. E até poderia sê-lo, se o moço não tivesse nascido em Goiás.

       — É estranho que a prefeita e o seu arqui-inimigo da câmara dos vereadores estejam dividindo a mesma mesa. — comentou Val, com um sorrisinho irônico.

       — Pelo visto, a disposição dos convidados em cada mesa foi organizada de forma estratégica. O fato dos Malverde e Lisboa ocuparem uma das mesas maiores não é coincidência. — afirmou Rodrigo, aceitando de bom grado a água mineral com gás oferecida pela garçonete, e continuou com bom humor: — Por outro lado, pôr na mesma arena dois leões que se detestam só pode ser fruto do bom humor dos Dolejal, resta-nos saber de qual deles foi a ideia.

       — Só pode ter sido ideia do Thales. — declarou Karen — Olha ao redor, a maioria dessas pessoas estarão no clube campestre para a entrega do tal troféu de bom samaritano mataranense. Ele aproveitou o casamento do filho para a campanha eleitoral do seu candidato, estreitar os laços, sabe, com seus aliados.

       — Vou dizer uma coisa... — começou Ninita, balançando seu drinque: — essa comida está uma delícia, a música fantástica e tudo cheira a muito dinheiro, dinheiro verde, minha querida, dólar, ok? Depois dizem que dinheiro não traz felicidade... Não sei de vocês, mas encontrei a felicidade sem esforço algum! 

       Valéria apertou levemente a bochecha da avó de Karen num trejeito brincalhão.

       — É porque a senhora sabe viver.

       — Nasci para ser rica, Val, gosto das coisas boas da vida. Mas aí casei com um pobre diabo e me ferrei. — completou, emborcando o resto da bebida azul.

       — Vocês estão vendo de onde vem o meu lado cachaceiro e fora da casinha, né? — brincou Karen, emendando sugestivamente: — E tem gente que ainda quer ter filho comigo. Tive sorte com o Johnny, o próximo nasce torto como um bom Lisboa. — riu-se.

       Rodrigo entendeu a indireta. Como a reconciliação era recente, preferiu manter o sorriso nos lábios e relevar o que ouvira. No lugar de uma objeção, beijou o ombro nu da namorada.

       — Bom, pelo menos posso continuar fazendo a minha parte, não é? Nem que eu tenha de remendar esses pontos outra vez. — simulou um resmungo.

       Karen sorriu e enlaçou-lhe o pescoço, beijando-o na boca, um beijo rápido, estalado.

       — Pois é, temos de nos controlar, senão a sutura poderá inflamar. Hoje dormiremos como irmãos de sangue. Fingirei que você é a irmãzinha que nunca tive.

       Ele riu baixinho e balançou a cabeça em negativo.

       — Acha mesmo que ainda é o gene dominante da relação? — alçou a sobrancelha, divertido. — Sim, sim, tenho meus informantes, não adianta olhar feio pra Val... Escuta aqui, meu amor, pretendo pegá-la duro todas as noites, de um jeito ou de outro aprenderá a dançar, nem que seja apenas na horizontal — comentou, provocando-a.

       — Tenho certeza de que sua próxima profissão será a de professor de dança. — afirmou ela, languidamente, os olhos postos na boca dele.

       — Sei ensinar muito bem, com calma e rigor, mantendo uma boa cadência, você bem sabe. — afirmou com a serena segurança de quem dominava o assunto.

       — Ai, meu Santo Onofre, o Johnny não precisa ouvir sacanagem! — exclamou Val, fitando o irmão e indicando com a cabeça o garoto.

      — Não sou mais criança, Val. — disse Johnny, procurando não ser hostil, quando, na verdade, estava saturado de tratarem-no como uma criancinha.

       Rodrigo sorriu para o enteado; depois, se voltou para Karen e perguntou sem rodeios:

       — Ainda sabe mexer os quadris?

       Ela semicerrou as pálpebras avaliando-o detidamente.

       — Qual é a sua intenção, homem da lei?

       Ele sorriu com charme.

       — Convidá-la para dançar. Um tantinho, é claro, porque mal posso mexer o meu ombro.

       — Ah, é? Agora sou eu a sua parceira de dança?, a estepe?

       — Uma boa estepe, por sinal.

       — Convida a Nova, ora!— exclamou, fingindo exasperação.

       — Olha só para aqueles dois, passaram a noite inteira de mãos dadas, deve ter algum tipo de cola grudando-os. Acho que tão cedo o Franco não vai liberar a sua esposa para dançar com outro homem...

       — Nem eu libero o meu namorido, pombas!

       Rodrigo não gostou de ouvir outra vez aquela palavra. O “namorido” em questão já havia provocado uma briga feia. E ele simplesmente detestava ser chamado assim. Fechou a cara e ergueu-se da cadeira. A obstinação marcando-lhe fundo o vinco entre os olhos. Estendeu a mão a Karen e, quando ela a pegou, puxou-a contra si.

       — Vamos dançar. — declarou, incisivo.

       Karen percebeu que não era uma pergunta ou um convite; era uma ordem. Farejando uma incomodação no ar, acatou a determinação do caubói e o seguiu até a pista de dança, juntando-se aos demais casais. Ainda pôde ver de esguelha, Nova e Franco, sentados à mesa, o braço dele sobre os ombros dela, possessivamente, um sorriso bobo estampado no rosto.

       — Espera aqui. — mandou Rodrigo, seguindo por entre os casais até os rapazes da banda.

       Com toda a confusão das últimas semanas, ele se esquecera de que devia algo a si mesmo. Precisava mandar um recado simples e direto ao ex de Karen. Não aceitava mais a condição de estranho no ninho ou de alguém que fora desleal e oportunista. Karen era a sua mulher e ponto final. Se Thales quisesse jogar sujo para tê-la novamente, ele também o faria. Odiava jogos, mas isso não significava que não soubesse jogar. E por odiar jogos e ser obrigado a jogar, somente o fazia para vencer.

       O recado ao amigo da Arco Verde foi dado de maneira nem um pouco sutil. Quando Girl, You’ll Be a Woman Soon começou a tocar, ele sabia que seria apenas a fagulha de um futuro e promissor incêndio.

       Puxou a mulher pelo pulso e a trouxe contra o seu tórax. Sem se mexer, manteve os olhos duros nos dela, os maxilares tesos e as mãos descendo para as suas ancas, atraindo-as para o seu quadril.

       Ela deixou escapar um gemido ao ter as pernas separadas pelas dele, uma delas encaixada bem abaixo do seu sexo, pressionando-o. Apertou-a entre os seus braços que a envolveram pelas costas até as mãos pararem e apertarem-na nas nádegas. E foi somente depois de firmar a sua posição de comando sobre ela, que começou a se mexer, a balançar devagar, às vezes flexionando ligeiramente os joelhos, sempre agarrado nela, mal a permitindo respirar, a boca colada no lóbulo da sua orelha, o hálito morno eriçando-lhe os pelos do pescoço.

       Karen tentou acompanhá-lo, mas acabou por se deixar levar. Ele era experiente, um experiente dançarino, e a conduzia sem se soltar dela, levando-a de um lado para o outro, as mãos espalmadas em sua bunda eroticamente. Num instante ele a largou, e ela quase se desequilibrou. Estava arfando e úmida, e sem o suporte do corpo dele, sentiu-se zonza. Abraçou-se nele com força, e giraram lentamente enquanto suas bocas se comiam com fome.

       Quando a música parou, ela quase não conseguiu se manter de pé. Os joelhos tremiam, a musculatura do corpo inteiro latejava.

       Os outros casais haviam feito um semicírculo para vê-los.

       Nova puxara Franco pela mão, sabia sobre os efeitos da dança altamente erótica de Rodrigo e era como a explosão de uma mina dentro do ventre, espalhando calor por debaixo da pele. Enquanto ela se divertia admirando a indecência daquela dança, Franco olhava além, como sempre, para além do imediato e posto. Um homem sofria como se um ácido lhe corroesse as veias, as linhas entre as pálpebras acentuadas, a boca apertada e os punhos cerrados sobre a mesa. Num segundo, ele se levantou. O filho cogitou deter o pai. No entanto, não foi preciso. O pai tomara uma decisão que faria Rodrigo Malverde se arrepender por desafiá-lo daquela forma. Virou-se para trás e procurou com os olhos o seu alvo. Não foi difícil encontrá-la. A hipócrita moralista que tencionava curá-lo. Tentou sorrir ao imaginar o dano que causaria.

       Karen abraçou-se a Rodrigo.

       — É sempre assim que dança? Por acaso, já cogitou fazer algo que não tenha conotação sexual? — murmurou.

       Ele fitou-a sério e respondeu sem hesitar.

       — Não.

       Ela assentiu lentamente, assimilando a constatação. Vendo-o endereçar um olhar altivo a Thales, emendou com azedume:

       — Entendi, a dança foi para ele.

       O delegado desviou seus olhos da figura do fazendeiro e virou-se para ela com um esboço de sorriso:

       — Estou apenas pondo cada um no seu devido lugar.

       — Sei... — considerou ela, desconfiada. — E o meu lugar, por acaso é na sua cama?

       — Claro que sim... e também na minha vida. — foi direto e preciso.

       Aceitou o braço sobre os ombros, e voltaram para a mesa. Aos poucos as pessoas tomaram a pista e dançaram até o amanhecer, bem depois dos noivos saírem de fininho para a casa à beira do Rio Verde.

         

       Rodrigo lançou um rápido olhar pelo retrovisor e viu os faróis do carro de Val, que trazia Sabrina, Johnny e vó Ninita. Ao seu lado, uma parede invisível separava-o de Karen. Amava-a, era a mais pura verdade. Era louco por ela, talvez desde antes do acidente e morte de Jasmine na BR-163. E amá-la, ainda à época de sua esposa estar viva, mesmo planejando divorciar-se dele, tornava esse amor pesado, dramático. Por um lado, tinha medo de perdê-la, fosse para a vida, na figura do ex-amante dominador ou para a maldita individualidade que se tornara um muro de proteção para Karen. Temia perdê-la também para a morte, andando agora com ele, como seu calcanhar de Aquiles. Decidido a pôr fim no tráfico de óxi e nos bandidos de Matarana, ele voltaria à ativa com tudo, arrebentando porteiras com ou sem mandados, revolvendo a lama que encobria os poderosos. Começaria por Thales Dolejal, em seguida, a família Marau responderia por suas ações. E, com isso, iria expor novamente a sua família.

       Relançou um longo olhar à mulher no banco do passageiro e tornou a se concentrar na estrada.

       — Minha licença termina semana que vem — começou; percebendo o movimento ao seu lado, voltou-se e a encarou: — e farei uma limpa na cidade. Entrarei na Coração de Ouro com os policiais militares e na Vila Zumbi com a Polícia Federal. Até o fim da próxima estação, aqui não será mais a terra de ninguém. Matarana se tornará apenas uma pacata e inofensiva cidadezinha do interior. E você bem sabe qual é o preço da paz.

       Karen aquiesceu gravemente.

       — De minha parte, pode deixar que irei proteger a nossa família.

       — Acha que dá conta?

       — Pode confiar em mim, xerife.

       Ele esboçou um sorriso que não vingou.

       — Mas precisa seguir as minhas ordens, entendeu? Caso contrário, apreendo a automática que o Dolejal lhe deu.

       Ela corou e baixou a cabeça.

       — Por que não me dá uma mais potente que a dele?

       — Em casa lhe dou.

       Karen virou-se para olhá-lo a fim de encontrar algum rastro de malícia ou luxúria. Contudo, ele mantinha os olhos fixos na estrada e o semblante amarrado. Sim, se referira ao armamento de verdade.

       — Não vou desapontá-lo, Rodrigo.

       — Sei que não. — ele reduziu a velocidade, desligou o rádio e acionou o pisca. Pouco antes de parar diante da garagem de casa, completou ainda sério: — E sei também que só o amor e uma cabana não levam um relacionamento adiante. Temos nossas limitações como pessoas, Karen, e nossas diferenças. E são elas que estão competindo contra o que sentimos um pelo outro. Não quero fazer merda e perdê-la, porque quero me casar com você, mas também não posso me iludir e fingir que isso não é importante para mim. Não sou seu namorido, esqueça isso, não quero mais ouvir essa palavra; sou o seu homem, o cara que vive com você. Temos de construir uma base bem sólida para o nosso relacionamento, senão a gente vai conseguir estragar direitinho. Quero, sim, que proteja a nossa família e aceito, sim, que ande armada pela cidade. — ele suspirou profundamente e continuou de forma incisiva — Estou apostando minhas fichas em você e em nós. Só que isso não basta. Por isso quero que aceite fazer terapia de casal.

       Parou a picape diante do alpendre, girou a chave na ignição e voltou-se para ela à espera da objeção.

       Karen fora pega de surpresa. Quem era aquele camarada mandão à sua frente? Por um momento rebelou-se à autoridade.

       — E se eu não topar essa frescura? — desafiou, erguendo o queixo com altivez.

       Os ossos dos maxilares de Rodrigo despontaram por debaixo da sua pele. E ele foi direto sem se permitir hesitar:

       — Volto para o hotel e para a minha vida de homem solteiro.

       Ela sentiu o suco gástrico jorrar fumegante no estômago.

       — Está blefando.

       — Quer apostar?

       — Você não vive sem mim. — afirmou com arrogância, a raiva crescendo por perceber que ele viveria sem ela.

       Ele arqueou uma sobrancelha em tom de desafio.

       — Não quero viver sem você, isso é verdade.

       — Não me provoca, Rodrigo. Por Deus, não tente me pôr contra a parede. Só porque voltamos não significa que deixarei de ser quem sou. Sempre fui clara com você, nunca o enganei...

       — Pois é, minha amiga, a gente às vezes precisa levar um tiro para tomar jeito na vida, não é mesmo? — indagou com ironia.

       — Confia muito no teu taco, né?

       — Não, Karen, confio mais é no seu bom senso. Somos muito diferentes e temperamentais, e isso nada tem a ver com o nosso amor. Amo muito você, Lisboa, — ele balançou a cabeça se sentindo vencido: — e farei de tudo para que a gente não se destrua. Preciso que me ajude, parceira. — piscou-lhe o olho com charme.

       O olhar terno e pedinte atravessou todos os escudos dela. Eles eram diferentes, opostos até. Entretanto, somente Rodrigo conseguia acalmá-la e compreendê-la. Ele tinha a chave de acesso, a senha, todos os códigos. Diante dele, ela se punha nua e verdadeira. Por isso os defeitos também apareciam.

       — Tudo bem...aceito. — antes que ele entendesse errado ou distorcido, emendou rapidinho: — Aceito a terapia, não o casamento.

       Ele sorriu e tocou-lhe no queixo com carinho.

       — Uma coisa de cada vez.

       Como não queria ouvir nada que o contrariasse, beijou-a longamente para calá-la. Sabia que teria várias guerras pela frente.

      

Dois Meses Depois

        A primeira sala de cinema de Matarana foi inaugurada debaixo de fogos de artifício e uma cerimônia solene em que a prefeita cortou uma larga fita com uma tesoura sem fio. O Jornal do Cerrado documentou o evento, entrevistando e fotografando as autoridades presentes no local. Na estreia, Duro de Matar III. Havia, entretanto, a promessa de valorizar o cinema nacional. E como era uma promessa política, o próximo filme a estampar cartaz na vitrine envidraçada na galeria comercial era Duro de Matar IV.

       O gerente do cinema trabalhava no almoxarifado da prefeitura. Era-lhe difícil conseguir filmes novos. A licitação da Secretaria de Cultura estava sob investigação de uma CPI na Câmara dos Vereadores. O rapaz dos filmes, como era chamado o gerente do cinema, aceitava as doações do projetista do cinema de Santa Fé, um senhor aposentado com problemas na bexiga.

       Três semanas após inaugurar não havia mais filas diante do cinema. Além do mais, a novidade em Matarana era adquirir um potente aparelho de som para automóveis. Na praça central, os motoristas escolhiam a pior música criada por um terráqueo e elevavam o volume a mil. Ninguém conversava, porque o barulho era ensurdecedor.

       Naquela tarde em especial, Franco decidira que levaria sua mulher ao cinema. Detestava lugares escuros e fechados. Nada relacionado a fobias. A preferência tinha a ver com a sua profissão. Como segurança particular, a máxima “ao entrar, veja por onde sair” tinha de ser levada no seu sentido literal. Sentar-se quieto numa cadeira por mais de uma hora, no escuro, num lugar cheio de gente, com ventilação artificial, ouvindo a língua enrolada dos gringos e tendo de se concentrar em ler as legendas, bem, não parecia um programa promissor. Antes ficar em casa rolando do sofá para a cama, acariciando a barriguinha redonda de Nova, ouvindo-a contar sobre as bizarrices dos clientes do bar do Gringo ou, simplesmente, pô-la na camionete e ganharem a estrada, se enfiando no meio das árvores para um piquenique ou no rio para um longo e refrescante banho. Mas Nova dissera-lhe certa vez que um pouco de cultura não doía. Apesar de ela não estar se referindo a Duro de Matar. Ele sabia que sua mulher espichava os olhos para a fachada do cinema toda a vez que cruzavam o centro. Afinal, ela vinha de uma cidade grande, e ele entendia que sentisse falta dos lugares que frequentara no passado. Por isso decidira levá-la ao cinema.

       Abraçado à esposa, conduziu-a até as duas últimas cadeiras da terceira fila, próximo ao corredor. De lá, posicionava-se estrategicamente perto dos extintores enquanto não deixava de observar as saídas de emergência e a entrada para os banheiros. Era verdade que ficava de costas para a entrada da sala de exibição e por esse motivo não conseguia desfazer a ruga de preocupação no meio da testa.

       — Cuidado é uma coisa; paranoia é outra. — murmurou Nova com um sorriso bem-humorado.

       Ele se voltou e beijou-a na testa, aconchegando-lhe a cabeça junto ao seu ombro.

       — A paranoia faz parte do meu armamento pesado, dona. E esse lugar tem tudo para ser uma boa armadilha, só faltam os ganchos no carpete para prenderem os meus tornozelos. — retrucou baixinho, mantendo a atenção concentrada no grupinho de estudantes fazendo barulho e se empurrando pelo corredor até se acomodarem nas cadeiras.

       — Precisa aprender a relaxar, amor lindo, a gente veio aqui para se divertir. — ela afastou a cabeça e o fitou com um sorriso: — Vamos ver o filme e comer a nossa pipoca, ok? Aproveita a sua juventude, tente se divertir, senão vai acabar ficando igualzinho ao velho Bronson.

       Ele sorriu desconcertado.

       — Sou rabugento também?

       — Um pouquinho. — brincou.

       Foi a vez de ele rir, embora, antes de relaxar na cadeira e passar um braço por sobre os ombros dela, relançasse uma última vez o olhar desconfiado para as poucas pessoas sentadas em seus lugares.

       A iluminação foi reduzida até quase a completa escuridão. Uma explosão de sons tremeu o piso acarpetado debaixo das botas de Franco. Ele bocejou e deitou a cabeça no topo da cabeça de Nova e aguardou, pacientemente, o início do filme. Ao conseguir enfim relaxar, percebeu que dormiria sentado. Ajeitou-se na cadeira e descansou uma mão sobre o ventre de sua mulher. Baixou a cabeça e indagou curioso:

       — A Paola se mexe?

       Nova riu baixinho.

       — Quer dizer o Marcelo, né? — provocou-o. — Bem, já se mexe, sim, não é feito de gesso, gato, mas como deve pesar uns 20 gramas ainda não sinto. — completou sem disfarçar o tom irreverente.

       — Que lindinha, a gente casa e não é mais respeitado. — rebateu, fingindo-se de ofendido; em seguida, completou: — Caramba, princesa, estou pregado de sono. É só apagar a luz que o meu cérebro entende que é hora de dormir. Acho que não existe uma cabeça mais trouxa que a minha.

       — Dorme no meu ombro, mas tenta não roncar. — brincou.

       — Olha quem fala! — exclamou, divertido, e a beijou na boca antes de se levantar: — Fica quietinha aqui que vou jogar uma água na cara e já volto.

       Ele atravessou o corredor ao som do falatório em inglês, alcançou a entrada do hall que levava aos sanitários. Esfregou os olhos uma segunda vez antes de ultrapassar a porta do banheiro masculino.

       Meia dúzia de reservados perfilados diante do espelho que tomava metade da altura da parede pintada de bege. Era pequeno e limpo, não cheirava a flores, mas ainda tinha aspecto de lugar novo.

       Abriu a torneira de uma das cinco pias e juntou as mãos em concha para enchê-las com água fria. A aba do chapéu caiu para frente da sua testa, atrapalhando-o. Tirou o chapéu e o depositou ao lado, na bancada. Voltou a juntar a água e mergulhou o rosto nela. Aproveitou para umedecer o cabelo e a nuca. Quando seu corpo não estava em ação, a tendência era economizar energia ao máximo e a resposta a isso uma bela preguiça.

       Manteve a cabeça baixa ao sentir um fio gelado percorrer toda a extensão de sua coluna. Era uma sensação conhecida essa. Os pelos de sua nuca se eriçaram soprados pelo bafejo morno de alguém que até poucos minutos atrás não estava ali. Surgira do nada depois de tanto tempo. Ele nem teve tempo de piscar os olhos para se livrar das gotas d’água em seus cílios e já sabia que o encontro teria de ser naquele momento. De certa forma, esperava pelo encontro, desejara-o até, ainda mais que estava sozinho.

       Através do espelho Franco fitou o homem que usava dreads e apontava um .38. A hora do acerto de contas. Um dia Franco fora marcado para morrer. E o agenciador do matador de aluguel morrera antes dele. Agora o matador encarava-o com dureza, determinado a apertar o gatilho e encerrar o serviço.

       — Alguma vez chegou a sair de Matarana?

       Everaldo armou um sorriso desbotado.

       — E deixar de acompanhar a sua ascensão... chefe? — ironizou, ajeitando o chapéu surrado no topo do crânio, as mechas de cabelo, duras e espetadas para abaixo, atiradas às costas. — Você agora é importante, é o filho do homem. Como essa vida é uma bosta mesmo, toda aquela sua pose irritando todo mundo, como se fosse o herdeiro do patrão, um merdinha insuportável e, no fim das contas, é mesmo a porra do filho do patrão...

       Franco sorriu serenamente.

       — Pra ver como Deus é irônico.

       — Tem razão, tão irônico que estou aqui, apontando uma arma contra a sua cabeça.

       — Aí já não vejo ironia divina alguma, meu amigo, vejo é uma idiotice tipicamente humana.

       — Ei, quem tem a arma sou eu. — sacudiu-a rindo-se. — E, por falar nisso, deite todas as suas no balcão, calmamente, do jeito que gostaria que eu fizesse caso “você” não fosse um humano tipicamente idiota.

       Ah, a adorável beleza do caos!, pensou Franco, e era um tipo de pensamento que emergia do fosso do cérebro como sais efervescentes. Então todo aquele sono era a proximidade da ação, da reação contrária ao fim, a onda magnética que empurra o guerreiro para trás a fim de impedi-lo de cruzar o portal. Acontecia, nesse caso, que o guerreiro era o portal.

       Virou-se lentamente para o outro pistoleiro e viu, no fundo dos seus olhos, a mesma crença.

       Muito devagar e sem deixar de sorrir todos os dentes alvos, desarmou-se. Obedecendo à ordem do outro, encurvou-se o suficiente para tirar de dentro da bota, o canivete novinho cuja lâmina partia um fio de cabelo em dois.

       — E, agora, “chefe”? — indagou Franco em tom de deboche.

       Everaldo se aproximou com cautela, ainda empunhando firmemente o .38 como um escudo de proteção e não uma arma de ataque. Com um safanão, jogou as automáticas e o canivete para o outro lado do balcão, longe do alcance de Franco. Ele temia piscar e perder o domínio da situação. Conhecia muito bem com quem estava lidando, fora-lhe seu subordinado à época em que trabalhara na Arco Verde. Franco era temido e odiado por boa parte dos pistoleiros da fazenda. Havia uma aura de arrogância e superioridade incompatível para com a origem de bastardo nascido de uma vadia de beira de estrada, criado na fazenda e protegido pelo homem mais poderoso da região. Era nesse ponto que o rapaz despertava a ira dos demais empregados. Por que Thales Dolejal escolhera-o para se postar ao seu lado, o esquerdo, a posição hierarquicamente mais importante? E por que, para ele, concedera a chefia da segurança, tornando os desafetos de Franco os seus empregados? Everaldo sabia que a vida era injusta e bagunçada. E quando Teobaldo Vilela chamou-o para um servicinho limpo, sem vestígios, custou-lhe compreender de onde partira a ordem para a execução de Franco. Qualquer um dos pistoleiros que o detestavam tinham armas, vontade e colhões para matá-lo. A intermediação de um corretor da morte apontava quase sempre para o risco de uma chantagem futura para o mandante do crime. Ou a queima de arquivo do agenciador. O que de fato acontecera a Teobaldo.

       — Sabe, chefe, fiquei em Matarana para analisar o panorama. — começou, balançando o cano do revólver com displicência. — Saquei direitinho quem queria o Mendes morto. Mas, engraçado, não fechava com a segunda encomenda: você, Franco. Por que o patrão queria mandar você de volta para o inferno, hein?

       — Coisas do coração, Everaldo, você não entenderia. — balançou a cabeça numa encenação de pesar.

       — Ah, já sei, a piranha da Karen trepou contigo também. — declarou com um sorriso largo e satisfeito. — A potranca tem um fogo que ninguém apaga.

       — Vai me matar hoje ou depois da Páscoa?

       — Está sempre debochando dos outros, né, ô seu filho da puta? Tem a pose do patrão e a cara do patrão; como não percebi antes? — fitou-o com desprezo. — Qual é o teu valor morto? — ele fez uma pausa, descendo e subindo os olhos pelo corpo do caubói, avaliativo, reflexivo, determinado a abocanhar um pedaço de sol para iluminar o resto dos seus dias. — Nenhum, Dolejalzinho, e ainda terei o Bronson me caçando até arrancar o meu couro! Por enquanto, tenho que te manter vivo e consciente... Então, é o seguinte, pega o teu celular e liga para o papai.

       Franco nem se mexeu, ainda sorria, os olhos cravados nos olhos do outro.

       — Não se faça de sonso, desgraçado! Pega a porra do celular e liga pro patrão! Diz pra ele que você está comigo!

      — Tenho uma leve impressão de que ele dirá para você me matar. Afinal, o combinado com o corretor não foi isso?

       — Se ele te quisesse morto, você não estaria aqui falando comigo. O que não falta por essas bandas é gente querendo te esfolar e até de graça, camarada! Agora, faça o que eu mandei e depois cada um vai para o seu lado.

      — O patrão não costuma conversar com chantagistas. — afirmou Franco, dando de ombros, indiferente. — Esse tipo de assunto sempre foi tratado por mim e o Bronson, sabe, o nosso faxineiro, por assim dizer.

       — Está me ameaçando? Desarmado, com um revólver apontado pra tua cabeça e tendo a poucos metros a tua mulher grávida e inocente vendo o filminho do Bruce Willis? Sabe que atiro em você, abro a porta, caminho menos de trinta passos e arrebento a cabeça dela também, né? — falou irritado, projetando-se para frente e se cuspindo.

       Franco estreitou os olhos perigosamente, toda a sua atenção, fria e calculista, perscrutando a mente do seu adversário.

       — O que sabe sobre a minha mulher?

       — Fiz o dever de casa, chefe. Nada mais. Aprendi a espreitar, vigiar e perseguir como você mesmo nos ensinou lá na fazenda. — respondeu, sagazmente.

       O pistoleiro mais jovem fez um sinal em direção ao bolso da camisa xadrez que usava e retirou a carteira de cigarros; puxou um e ateou fogo na ponta, balançando o fósforo para cima e para baixo.  Ofereceu um deles para Everaldo.

       — Acha que me engana? Está ganhando tempo, só não sei para quê. — ele engatilhou a arma e crispou os lábios com raiva. — Já faz algum tempo que se enfiou no banheiro, talvez a esposinha apareça para ver se você está bem. Sabe como mulher é, né? Dizem que é instinto materno, que nós não sabemos nos cuidar, mas, no fundo, não passam de vacas enxeridas.

       Franco tragou fundo o cigarro e exalou a fumaça sem pressa, observando-a se dissipar antes de alcançar o teto. Recebia contra o peito os elos de tensão exalados pelo corpo suado de Everaldo, um suor morno e azedo. Manteve a mente limpa, sem pensamentos, sem sentimentos. Apenas absorvendo a maciez volátil das asas dos insetos. Cogitou que fosse levitar tamanha paz e plenitude. Mas apenas ergueu a perna esquerda alto o suficiente para chutar o .38 que, antes de cair  no piso de ardósia, branco e sujo, disparou um projétil contra o espelho, despedaçando-o.

       Atordoado, Everaldo atirou-se contra o balcão, o corpo estendendo-se feito um arco flexível, os dedos quase tocando na Glock. Faltava pouco, bem pouco, já sentia a gelidez do cano da arma e a explosão na cabeça de Franco. Alcançou-a e se virou como uma enguia desesperada retirada da água, apertou o gatilho e atirou.

       Horrorizado, percebeu o erro.

       A parede de material foi perfurada.

       Um braço rodeou-lhe o pescoço por trás e, com um apertão preciso e brusco, interrompeu o fluxo de oxigênio ao cérebro.

       Franco permitiu que Everaldo escorregasse para o piso; deitou a cabeça dele e se aproximou do seu nariz; uma respiração com chiado, pesada.

       Terminou de fumar, cruzando as pernas e se escorando contra a parede, próximo à única janela do recinto. Observou o beco do outro lado, úmido, um depósito a céu aberto de todos os lixos dos restaurantes, lanchonetes e padarias da rua. Cheirava mal; depois da chuva, o sol tostando o lixo molhado.

       Acabou o cigarro, apagou-o debaixo do jato de água da torneira e guardou a bagana no bolso traseiro do jeans.  Telefonou para Bronson.

       — Encontrei o Everaldo.

       — Quer negociar ou entregar para o patrão?

       — Nem um, nem outro. Preciso que limpe o banheiro do cinema.

       — É para já, garoto.

       Abaixou-se e revistou os bolsos de Everaldo. Duas notas de dez reais, um maço de cigarros pela metade e uma medalhinha de Santo Antônio. Esboçou um sorriso sem muita vontade. Sim, a vida era bagunçada, injusta, irônica, uma bosta. Mas, na maior parte das vezes, bela. Deixou o santo com o bandido. Levantou-se suspirando resignado e encarou o homem que lutava consigo mesmo para abrir os olhos, as pálpebras tremiam, os músculos da face se repuxavam como se ferrolhos de portas de aço tivessem de ser rompidos para ele poder respirar e voltar e viver a vida que era bela.

       A beleza da vida era viver somente entre os bons.

       Franco estourou a cabeça de Everaldo com dois tiros.

 

       Nova decidiu esperar mais cinco minutos antes de se encaminhar para o banheiro masculino. Olhou mais uma vez para a tela do celular, aguardando chegar o momento de tomar a iniciativa e procurar Franco. Puxou com os dentes frontais a cutícula do polegar, nervosa. E a tensão aumentou ainda mais quando percebeu a movimentação no corredor. A silhueta de Bronson, o chapéu, a barrigona e os ombros encurvados. Ele entrava no banheiro.

       Respirou fundo tentando se controlar. Como sempre a dualidade. O que deveria fazer? O que acontecera a Franco? Ergueu-se num átimo, mas não prosseguiu no intento. Viu-o aparecer à porta, cedendo passagem a Bronson e se afastando, voltando pelo mesmo corredor que seguira antes.

       Não conseguia ver o seu rosto, a iluminação da tela dificultava-lhe a visão. Esperou ele se sentar com displicência. Um braço descansou sobre os seus ombros, abraçando-a carinhosamente.

       Por exatos vinte minutos nada falaram. O silêncio entre ambos falava por eles, já que não conseguiam se concentrar no filme.

       Nova ergueu a cabeça e perguntou baixinho, junto ao ouvido do marido:

       — Você está machucado?

       Ele virou o rosto em sua direção e respondeu diretamente:

       — Não.

       — Precisa da minha ajuda?

       — Não.

       — Certo. — declarou, aceitando como certo tudo o que vinha dele, e emendou com um sorriso jovial: — Eu e o bebê estamos doidos por um Twix.

       Franco ainda manteve a atenção voltada para ela. As orelhas como antenas avaliando a entonação da voz, as palavras e o sentido; o cérebro girando feito um doido. Experiente que era na arte de analisar o comportamento humano e, de certa forma, tirar proveito dessa percepção aguçada, ficou intrigado com a facilidade na aceitação dos fatos por parte de sua mulher. A tentação de contar a verdade brotou da necessidade de lhe ser leal sempre.

       Um peso absurdo no coração.

       E a certeza de que aqueles dois tiros também matariam o seu casamento.

       Arriscou:

       — Não posso viver sem você.

       Ela sentiu o sangue gelar. Segurou o ar nos pulmões e pulou.

       Para dentro da alma dele.

       E nada falou.

 

 

                                                                                                    Janice Diniz

 

 

 

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