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CHAMPOLLION, O EGÍPCIO / Christian Jacq
CHAMPOLLION, O EGÍPCIO / Christian Jacq

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CHAMPOLLION, O EGÍPCIO

 

Este livro é um romance, mas apresenta a particularidade de ter sido escrito por um egiptólogo, celebrando a memória do primeiro e do mais genial dos egiptólogos. Jean-François Champollion nasce em Figeac, em 1790, e morre em Paris, em 1832. Se Champollion é conhecido como descobridor do significado dos hieróglifos, esquece-se muitas vezes a sua obra científica e literária que compreende gramática, dicionário, ensaios históricos, notas descritivas, cartas.

De Julho de 1828 a Dezembro de 1829, Champollion vive os momentos mais excepcionais da sua demasiado breve existência: ele, a quem chamavam "o Egípcio", consegue por fim deslocar-se a esse Egipto com que tanto sonhara. É essa viagem extraordinária pela sua intensidade, os seus dramas e as suas descobertas que relata o romance de Christian Jacq. O autor dá a palavra ao próprio Champollion, integrando as frases capitais que ele pronunciou ou escreveu. A maior parte dos acontecimentos relatados correspondem à realidade dos factos. O papel do romancista consistiu em reviver por dentro uma viagem que foi igualmente uma peregrinação rumo às origens do Egipto, em amalgamar certas personagens e preencher os "brancos" deixados por Champollion nos seus escritos.

Se a finalidade do romance não é ser fiel, à letra, à verdade histórica, pelo menos é de o ser a Jean-François Champollion, um dos maiores génios de todos os tempos...

 

 

O doutor Brousset, com feições crispadas e expressão sombria, esvaziou um copo de rum.

- Qual é o seu diagnóstico, meu caro colega? O doutor Robert limpou a testa com o lenço.

- Crise de gota originada pelo estômago, tuberculose pulmonar, princípio de apoplexia, paralisia da espinal medula, doença de fígado proveniente da absorção das águas do Nilo... Champollion vai morrer. Desta vez, o cavalo fogoso que exigia sempre ração tripla gastou demasiada energia.

- Excelente análise. O organismo está esgotado. A sua fatigante viagem, a arte funesta que emana dos túmulos dos faraós, o ardor do seu cérebro, as constantes preocupações do seu espírito calcinaram-lhe o sangue e vão conduzi-lo ao caixão. Acrescentarei ainda uma hipertrofia do coração. Na minha opinião, não chegará à madrugada.

Champollion vai morrer.

Zoraide, a garotinha de oito anos, escondida atrás de um cortinado, tinha ouvido a terrível predição. Sabia que o pai a ia abandonar para sempre. Já muitas vezes partira para longe. Sobretudo quando trocara a França por aquele Oriente misterioso que tanto amava e de que ela tinha a marca no seu nome.

Champollion estava doente desde o regresso do Egipto. Não conseguia suportar Paris. Apenas pudera dar algumas aulas no Collège de Fran-ce, onde leccionava a primeira cadeira de egiptologia criada no mundo inteiro. Indisposições repetidas tinham-no obrigado a interromper a sua docência, a silenciar a voz clara e apaixonada que fazia ressurgir a luz do Antigo Egipto.

Zoraide não precisava da ciência dos dois médicos que, há várias semanas, tentavam em vão tratar Jean-François Champollion. Zoraide era vidente. Sabia que aquela noite de 4 de Março de 1832 seria a última.

Violando as ordens dos médicos, introduziu-se no quarto do moribundo.

- Papá... estás a dormir? Jean-François Champollion abriu os olhos.

- Vem... vem depressa!

Zoraide correu até à cama e lançou-se ao pescoço do pai. Chorou durante muito tempo com o rosto encostado ao peito dele.

- Traz-me o meu fato do Egipto - pediu, com uma voz muito fraca. Zoraide precipitou-se. Abriu o armário onde o pai conservava as suas

recordações do Oriente, longas túnicas multicores, turbantes, sandálias. Demasiado apressada, fez cair uma pilha de cadernos cobertos com uma escrita esguia e apressada.

- Papá, encontrei também isto!

Champollion, com mão trémula, abriu o caderno que a filha lhe estendia. Continha as primeiras notas que tomara no Egipto, durante aquela viagem em que tinha atingido o apogeu da sua vida.

- Papá... porque é que nunca me contaste?

- Contar... queres dizer... de lá?

- Sim, de lá, da tua verdadeira casa. Quero que me digas tudo. Tudo o que nunca disseste.

A dor fez estremecer Champollion. Zoraide beijou-lhe as mãos.

- A ti, não recusarei nada... Deita a cabeça no meu ombro. Zoraide obedeceu. Era bom obedecer àquele pai cuja voz muito doce

começava a contar a mais famosa das viagens.

 

- Senhor Jean-François Champollion, suponho?

- O próprio. Prazer em conhecê-lo, capitão.

Cosmao Dumanoir, um homem de estatura média e sorriso afável, era capitão da corveta VÉglé. Rosto liso, impecavelmente barbeado, botões do uniforme polidos com o maior cuidado, recebeu-me a bordo do seu navio com verdadeira afabilidade.

Naquele 24 de Julho de 1828, em Toulon, quando os últimos clarões do crepúsculo incendiavam o Mediterrâneo, o caminho tão esperado abria-se finalmente à minha frente. O caminho do Egipto.

Talvez o Egipto falasse de novo. Talvez a sabedoria dos antigos egípcios fosse de novo transmitida. Estava no caminho dos seus mistérios, tinha começado a decifrar os hieróglifos, essas palavras dos deuses carregadas de magia. Mas faltava-me ainda uma chave essencial. Uma chave que só no Egipto poderia encontrar. Precisaria de verificar passo a passo as minhas intuições, pedir à terra dos faraós as respostas que me faltavam.

Depois de meses e meses de complicações administrativas, conseguira finalmente organizar uma expedição na qual participariam vários cientistas que, sob a minha direcção, atingiriam Alexandria a bordo da VÉglé.

- Quer fazer o favor de me seguir, senhor Champollion?

Tivera a sensação, ao atravessar a passarela da corveta, de ultrapassar um ponto de não regresso. Eis-me obrigado a ir até ao limite de mim mesmo, a arriscar a minha vida naquele Oriente desconhecido.

Até agora, a minha existência foi um perpétuo combate. Para conseguir a mínima coisa, tive de lutar, defender-me palmo a palmo, desmantelar manobras, enfrentar a calúnia. Sem querer, desencadeio em meu redor o ciúme de incapazes e de incompetentes que me censuram por ir demasiado longe e demasiado depressa. Nada me protegeu nunca das línguas envenenadas. Sou como uma truta lançada viva na frigideira. Mas sinto-me tão feliz por estar já longe de Paris! O ar daquela cidade consome-me. Lá, cuspo como um danado e perco a minha força. Paris é horrível. Rios de lama correm pelas ruas.

Com a elegância um pouco rígida dos homens que envelhecem de uniforme, o capitão Cosmao Dumanoir conduziu-me até à sua cabina, onde me ofereceu champanhe.

A alegria fugaz que fervilhava naquele líquido foi impotente para dissipar as angústias que me tinham amarfanhado durante a viagem de Aix a Toulon.

Como não pensar nas duas cartas tão diferentes que me tinham chegado às mãos de forma misteriosa e que trazia escondidas entre as minhas notas científicas?

A primeira proferia as mais graves ameaças:

"Esqueça os seus projectos, permaneça no seu país; caso contrário, é a morte que o espera no Egipto."

A segunda parecia mais encorajadora, embora muito enigmática:

"Esperamos por si. Se decifrou realmente a linguagem dos deuses, saberemos acolhê-lo."

Loucos? Iluminados? Encontrei tantos desde aquela manhã de Inverno, em Figeac, em que os meus olhos de criança poisaram pela primeira vez sobre os hieróglifos egípcios, sobre esse mundo pleno de símbolos e de sinais detentores de uma vida eterna. Soube imediatamente que a pátria da minha alma estava ali e que seria forçoso que um dia lesse o meu próprio destino decifrando aqueles enigmas, aquela palavra perdida há tantos séculos. O Antigo Egipto é o meu sangue. É o meu coração. Exige tudo de mim.

O essencial das minhas descobertas encontra-se numa pequena maleta preta que me servirá de viático. Por um instante, senti desejo de fugir. Tocar naquele modesto objecto, apalpar os maços de folhas onde está inscrito o melhor de mim mesmo dissuadiu-me. O Egipto triunfou. Triunfará sempre.

Logo que chegasse, dirigir-me-ia ao Instituto do Egipto. Há lá um velho sábio a quem chamam "o Profeta" e que possui os elementos essenciais para as minhas investigações. Nunca quis comunicá-los a ninguém. Ao saber que a minha expedição estava a ser organizada, fez chegar ao meu conhecimento que me esperava e que me forneceria a pedra que faltava ao meu edifício.

Uma mulher de altiva nobreza, com cabeleira de um louro veneziano quase irreal, entrou na cabina do capitão. Envergava um vestido cinzento-pérola de reflexos furta-cores que valorizava a sua tez pálida. Grandes olhos de um verde-claro animavam um rosto de uma beleza que ousaria classificar de egípcia. Longas mãos finas faziam-me lembrar certos desenhos de rainha que tinha salvaguardado ao criar a secção faraónica do Museu do Louvre, da qual me tinham querido nomear conservador... sem salário. Com cerca de trinta anos, aquela mulher possuía uma distinção inata não desprovida de estranheza.

- Apresento-lhe Lady Redgrave - indicou o comandante Dumanoir. - Viajará connosco até Alexandria.

Sinto uma raiva instintiva pelas actividades mundanas. Nunca ninguém me forçou a participar nelas. Movido por um impulso que a mim mesmo surpreendeu, inclinei-me no entanto, beijando a mão daquela aristocrata britânica que saudou a minha submissão com um sorriso enigmático.

- Ouvi falar muito de si, senhor Champollion - disse ela com voz meiga, ensolarada, apimentada por um ligeiro sotaque. - Em Londres é motivo de escândalo. O meu compatriota, Thomas Young, pretende que decifrou os hieróglifos antes de si e que o seu sistema está completamente errado.

Pouco à vontade, o capitão Dumanoir olhou para o mar. O meu sangue acelerou-se.

Thomas Young... aquele hipócrita enxertado em pretensioso. O inglês não sabe mais de egípcio antigo do que de malaio ou manchu, de que é professor. As suas descobertas, anunciadas com tanta pompa, não passam de uma charlatanice. A sua chave dos hieróglifos faz-me pena. Lamento os infelizes viajantes que, no Egipto, forem obrigados a traduzir as inscrições com o dicionário do doutor Young na mão!

- Tenho muita estima pelo senhor Young, minha senhora, e não gosto de criticar um confrade, seja qual for o seu procedimento a meu respeito. Se o conhece bem, dê-lhe um conselho: que mude de profissão.

- Conheço-o bem - retorquiu ela com uma vivacidade divertida. - Thomas Young é meu tio. Ver-nos-emos mais tarde...

Sufocado, vi-a sair da cabina sem poder encontrar réplica a dar. Sempre foi assim: a minha sensibilidade é tão exacerbada que levo demasiado a sério o menor acontecimento que contrarie a minha Investigação.

- E... é uma armadilha - consegui finalmente articular, tomando como testemunha o capitão Cosmao Dumanoir.

- Acalme-se - recomendou o bom homem, tão perturbado como eu. - Em breve esquecerá este incidente.

- Thomas Young é o meu pior inimigo - expliquei, um pouco arquejante. - Há anos que me persegue, que falsifica comunicações científicas, que tenta acabar com os meus trabalhos por todos os meios. Esta mulher é uma espia da pior espécie.

O capitão Dumanoir reflectia. Tentou animar-me.

- Ela está só, senhor Champollion, e não passa de uma mulher. O senhor está rodeado por vários colaboradores que com certeza lhe são muito dedicados. Estou certo que não corre qualquer risco. Trata-se de uma simples manobra de intimidação.

Colaboradores totalmente dedicados... Sentia-me muito menos optimista que o capitão.

- Esses senhores já chegaram?

- Ainda não - respondeu Cosmao Dumanoir. - Espero-os esta noite.

Sentia a garganta apertada. Doía-me a barriga. As minhas pernas tremiam ligeiramente. O aparecimento daquela diaba, mesmo no coração da corveta que me conduzia ao objectivo final da minha existência, não constituiria o mais sinistro dos presságios? Não seria melhor renunciar à viagem, adiá-la para mais tarde, tomar mais precauções?

Estava aterrado. Da exaltação que sentira ao chegar a Toulon, caía numa espécie de desespero que me fez subir as lágrimas aos olhos. O meu empreendimento parecia condenado antes mesmo de ter nascido.

- Devo levá-lo até ao Egipto e hei-de fazê-lo, sejam quais forem os obstáculos - afirmou o capitão Dumanoir. - Pode contar comigo.

- Que obstáculos? - inquietei-me.

- A nossa corveta - respondeu - destina-se a escoltar navios mercantes. Durante a sua viagem, não escoltará ninguém. Não se atrevem a fazer-se ao mar, não por haver perigo de perda de corpos ou de bens, mas porque o comércio com o Egipto está num estado de absoluto torpor; o próprio Egipto já não envia algodão. Mas repito-lhe - afirmou, poisando-me a mão no ombro esquerdo - pode contar comigo.

Raramente encontrara uma tal expressão de bondade. Cosmao Dumanoir compartilhava realmente a minha perturbação. Mas a sua ajuda não me valia de nada. Não suprimia a presença daquela intriguista desdobrada em espia.

- Devia repousar - propôs-me.

Mal tinha pronunciado aquelas palavras, bateram à porta da cabina. Era um marinheiro.

- Há um doutor que quer ver o senhor Champollion - anunciou.

- Um doutor? - espantei-me. - O que me quer ele?

O marinheiro afastou os braços em sinal de ignorância. Irritado com aquele novo mistério, decidi segui-lo.

Ao fundo da passarela esperava-me um homem envergando uma sobrecasaca preta. Pequeno, mal barbeado, nariz pontiagudo, olhar maldoso, assemelhava-se a uma caricatura da maledicência ou da discórdia. Foi-me desde logo desagradável.

- Senhor Champollion?

- Eu próprio.

Tinha uma voz aguda como a de uma rapariga nervosa. Olhava-me por baixo.

- Tenho uma notícia importante a comunicar-lhe.

- Peço-lhe que fale.

Demorou algum tempo, como para melhor saborear a sua revelação.

- Senhor Champollion, a sua expedição foi anulada.

 

Contemplava o homenzinho de negro com um espanto misturado com furor.

- O que quer dizer?

- A epidemia de peste, senhor Champollion, atinge todas as cidades do Midi. Deve ser declarada quarentena por todo o lado. Se partir hoje, será condenado a ficar no mar. Nenhum porto o receberá.

Uma formidável gargalhada abalou-me o corpo. O homem de negro, que primeiro considerara como um demónio, não me parecia mais do que um diabrete ridículo.

- Lê demasiados jornais, doutor! - exclamei com paixão. - Tratam os leitores como imbecis. É um facto que morremos às centenas, tanto em Marselha como aqui! Acho que misturou um tanto na sua cabeça a peste física e a peste moral que assola o nosso país.

Quando já lhe voltava as costas, ele saltou na minha direcção, como uma aranha a correr sobre a teia, e agarrou-me no braço.

- Um instante, Champollion! Está à espera de sábios que vêm da Tos-cânia... Estabeleci um cordão sanitário em redor de Toulon. Avançaram regimentos para ocupar todas as saídas dos Alpes. As cartas e os jornais que vêm de França são rasgadas e passadas por vinagre. Os seus amigos não ultrapassarão as barragens. Se o capitão desta corveta for suficientemente louco para se fazer ao mar, será o seu único passageiro.

- Meu caro senhor - disse-lhe eu com ferocidade - é um mentiroso. Essa epidemia é uma invenção de médicos que pretendem chamar as atenções. Aconselho-o a deixar chegar a este navio os membros italianos da minha expedição, Rosellini e o professor Raddi.

O diabo fez uma careta, exibindo um maço de papéis.

- Estes relatórios denunciam-no como agitador político, Champollion! Eles não se enganam. Ninguém está acima das leis. O cordão sanitário não será levantado antes da epidemia ser totalmente extinta. Dois ou três meses, suponho...

Tê-lo-ia certamente estrangulado se a minha atenção não tivesse sido atraída pelo estranho espectáculo que se desenrolava no cais. Um padre envergando uma sotaina digna de um vestígio arqueológico, espancava com uma bengala uma mula carregada de bagagens. Reconheci o padre Bidant, um religioso barrigudo, quase careca, doido por orientalismo. A sua natural apatia ocultava um espírito vivo e astuto. Aquela presença não era para mim motivo de regozijo. Era enviado pelas autoridades eclesiásticas para se assegurar que a minha expedição não ultrapassasse os limites da religião. Esta, com efeito, receava que a cronologia bíblica fosse posta em questão por descobertas incómodas em terra egípcia.

Por trás do padre Bidant, arquejando e bufando, surgiu a elevada estatura de Nestor L'Hôte, um desenhador de talento que se habituara ao traçado dos hieróglifos. Este sólido e vigoroso fulano possuía um carácter firme e colérico, mas contava muito com ele para copiar as inscrições com a necessária perfeição.

- Eis-nos enfim! - exclamou o padre Bidant, empurrando o diabo de negro para me vir cumprimentar. - Sabe que nos trataram como pestíferos? Afastei um bando de patifes com a minha bengala e uma carta do arcebispo.

- Quem é este? - interrogou Nestor L'Hôte com a sua impressionante voz de baixo, encarando o pequeno doutor.

- Um médico que nos quer reter em terra - respondi.

- Quer desaparecer imediatamente daqui! - rugiu L'Hôte brandindo o punho.

O diabo de preto não hesitou. Resmungando algumas ameaças indistintas, afastou-se às arrecuas e desapareceu sem tentar interferir mais.

- Está com um ar preocupado, Champollion - observou Nestor L'Hôte, firme com as pernas afastadas e os punhos nas ancas.

- E tenho razão para isso. Esse cordão sanitário arrisca-se a amputar a nossa expedição dos seus membros toscanos, Rosellini e Raddi. Sem eles, não poderemos respeitar o nosso programa de trabalho.

- Confie em Deus - sussurrou o padre Bidant. - Se o nosso coração for justo, ele virá em nosso auxílio.

O religioso desafiava-me. Com certeza tinha recebido confidências sobre a minha pouco convicta devoção ao deus dos cristãos. Os que me estavam próximo, alguns sábios, jornalistas, tinham acabado por cognominar-me "o Egípcio", considerando que a minha verdadeira pátria era a dos faraós e que eu professava uma fé entusiasta e sincera pelos deuses de Tebas.

Olhando o mar, para além do qual se encontrava o país dos faraós, tive de admitir que tinham razão.

O capitão Cosmao Dumanoir releu uma vez mais a carta de Drovetti, cônsul-geral de França no Egipto, que lhe tinha sido trazida, dois dias antes, por um correio proveniente de Paris. Drovetti expressava nela as mais profundas reservas sobre a oportunidade da expedição organizada por Champollion. Preconizava mesmo um regresso imediato a Paris, considerando-se incapaz de garantir a segurança do sábio em território egípcio. Méhémet-Ali, o paxá todo poderoso instalado no Cairo, era fortemente influenciado por conselheiros que detestavam os europeus. Veria certamente com muito maus olhos a chegada do decifrador de hieróglifos.

Devia ou não prevenir Champollion dos perigos que o espreitavam? A leitura daquela carta transformaria o seu desencorajamento em desespero. Teria sem dúvida renunciado definitivamente à viagem para não pôr em perigo a vida dos membros da sua expedição.

Mas Cosmao Dumanoir não queria saber do paxá nem dos faraós. Renunciar àquela travessia estava acima das suas forças. Das suas últimas forças, pois seria a última viagem do capitão de corveta, com o organismo desgastado por uma doença que não lhe concedia mais do que alguns meses de vida. O seu único desejo era morrer a bordo do seu navio, em pleno mar ou num porto oriental, longe da Europa à qual já nada o ligava. O Oriente, fonte de luz... Cosmao Dumanoir esperava que a sua vida moribunda aí encontrasse o além.

O destino decidiria. É verdade que o cônsul-geral Drovetti anunciava uma futura carta oficial anulando a expedição por razões de segurança, com proibição formal de embarcar. Felizmente, as comunicações entre Paris e Toulon eram muito lentas. Com certeza que o Ministro do Interior utilizaria o correio de dia e de noite, reservado ao governo, para alcançar Champollion antes da eventual partida da corveta VÉglé. A viagem dependia presentemente da rapidez do correio, da importância dos ventos e da chegada dos colaboradores italianos de Champollion.

Na sua missiva, Drovetti referia que havia perturbações graves em Alexandria e no Cairo. O paxá era ameaçado pelos membros violentos do partido da oposição. Se as grandes cidades do Egipto fossem dominadas pela revolta e a sedição, o sangue dos europeus seria o primeiro a correr. Mas o cônsul-geral não teria exagerado, pintando a gravidade real da situação, para impedir Champollion de chegar ao Egipto e descobrir o seu verdadeiro papel? Alguns marinheiros tinham contado a Dumanoir que Drovetti era um terrível traficante de antiguidades, não hesitando em abusar da sua autoridade para juntar à carga de navios mercantes, estátuas, esteias, papiros roubados nos estaleiros das escavações. Esses tesouros tomavam o caminho da Europa onde o cônsul-geral os reencontraria um dia. Ora Champollion passava por ser um homem íntegro, inacessível às manipulações financeiras e desejando profundamente preservar o património artístico do Antigo Egipto. Se os rumores referentes a Drovetti se revelassem exactos, Champollion podia vir a ser incómodo.

Há vários dias que estou prisioneiro em Toulon. Esta cidade torna-se odiosa para mim. A corveta está amarrada no cais, como um pássaro na gaiola. O cordão sanitário foi reforçado, embora nenhum caso de peste tenha sido detectado com certeza. Andei durante horas, consultei as minhas notas, joguei xadrez com o padre Bidant que maneja o bispo com rara habilidade. Nestor L'Hôte já conhece as tabernas do porto, não que seja dado à bebida, mas porque gosta de encontrar gente. É curioso de tudo. Não voltei a ver a bela "espia" inglesa que se mantém na sua cabina onde as refeições lhe são servidas.

Desde a madrugada desse 31 de Julho que o céu está coberto. O vento levanta algumas vagas. Impossível agarrar na pena. Em geral, escrever é uma alegria profunda, um momento de plenitude suspenso entre tempo e eternidade. Mas tenho o coração demasiado apertado pela angústia. Se não partir para o Egipto, acho que a minha vida será privada de sentido e que serei um homem perdido para si mesmo e para os outros.

Cosmao Dumanoir entrou na pequena sala de refeições onde saboreio um café negro e quente. Tem uma expressão descomposta.

- Se não largarmos as amarras esta manhã, senhor Champollion, receio que a nossa viagem esteja definitivamente comprometida.

O capitão da VÉglé tinha razão. Recusando render-me à evidência, não quisera acreditar que o cordão sanitário impedisse os toscanos de chegarem até à corveta. Mas eles eram apenas sábios, desarmados perante as medidas administrativas.

Entrou um marinheiro.

- Um homem bizarro pergunta pelo senhor Champollion.

Preparava-me para seguir o marinheiro até à passarela, mas este apontou-me o mar. Debruçando-me por cima da amurada, vi uma embarcação cheia de caixas. Na frente, manobrando os remos desajeitadamente, o professor Raddi, o rosto curtido como o pergaminho de um velho herbário, a barba emaranhada como um jardim de Outono, uma lupa no bolso do casaco e dois pares de óculos no nariz.

- Champollion! - gritou ele quando me viu. - Estamos aqui!

- Onde está o Rosellini?

- Escondeu-se atrás das minhas caixas de minerais. Tivemos que vir por mar para evitar um bando de loucos que nos chamava pestíferos.

O embarque do material científico que o professor Raddi considerava indispensável às suas experiências demorou cerca de duas horas. Quanto ele era pequeno e gordo, Rosellini era magro e alto. O próprio Raddi vigiou a instalação das suas preciosas caixas, enquanto que o meu aluno Rosellini, a quem tinha ensinado os princípios da decifração, se dirigiu para mim, comovido até ao mais profundo da sua alma.

- Mestre... temos de levantar ferro imediatamente.

O meu discípulo italiano não era homem para se perturbar facilmente. Frio, distante, reflectido, seria em breve um grande sábio que honraria a egiptologia nascente. De momento, parecia fora de si.

- Recebi uma carta do cônsul-geral Drovetti anunciando que a nossa expedição ia ser anulada. Despeitada por ter falhado na sua tentativa de conquistar a Grécia, a Turquia está decidida a declarar guerra aos russos e a arrastar o Egipto para o conflito. A nossa segurança deixará de poder ser assegurada.

- Disparates - decidi eu com firmeza, como se tivesse qualquer influência sobre aquela política de loucos que odiava. - Está decidido a seguir-me, sejam quais forem os riscos?

A alegria que iluminou o rosto de Rosellini foi a mais reconfortante das respostas. Mas o meu discípulo ficou subitamente sério.

- Não recebeu uma ordem escrita de Paris?

- Vamos depressa! - Entusiasmava-me a ponto de dar uma mão aos marinheiros que estavam a acabar de fazer subir para bordo as caixas do mineralogista. Rosellini, a princípio hesitante, imitou-me. Nestor l’Hôte, muito feliz por poder utilizar a sua força física, juntou-se à festa.

Soava o meio-dia nos campanários de Toulon quando a corveta VÉglé, utilizando ventos favoráveis, levantou ferro rumo ao Oriente. A brisa de Oeste que refrescava o ar lançar-nos-ia para o mar alto em menos de uma hora. Deixava-me invadir pelos fortes aromas que vinham do largo quando vi um correio a cavalo chegar a todo o galope ao cais. A minúscula silhueta interpelava-nos, brandindo um documento.

A carta do ministro Martignac, avisando o prefeito de Toulon de que a nossa expedição se não podia realizar por causa da situação internacional.

Com a mão, fiz-lhe um gesto de adeus.

Estava desolado pelo governo de França, mas "o Egípcio" acabava de tomar o rumo de um outro mundo. O da sua verdadeira pátria.

 

Por causa da presença da "espia", o capitão Cosmao Dumanoir tivera que rever a distribuição dos compartimentos. Instalara-me à força na sua cabina. A meus pés, em colchões, dormiam o meu discípulo Rosellini, o professor Raddi e o padre Bidant. Este último, famoso dorminhoco, tinha a maior dificuldade em arrancar-se à sua natural apatia. Raddi passava os dias e boa parte das noites a perscrutar à lupa os xistos, os basaltos, os granitos, preparando o seu encontro com os minerais do deserto dos quais esperava fazer uma abundante colheita.

Reinava em geral a maior tranquilidade no navio. Eu trabalhava nos hieróglifos com L'Hôte e Rosellini que avançavam rapidamente. O seu desenho adquiria uma segurança de traço indispensável ao registo das inscrições. Reproduziam com calma cabeças, vasos, corujas, leões, portas... A velha língua revivia graças a eles. O padre Bidant raramente conseguia arrancar o professor Raddi do seu universo mineral para o arrastar a um jogo de xadrez.

Por vezes, a emoção contraía-me a garganta, no momento em que tomava consciência que nos aproximávamos do Egipto. Debruçava-me numa das amuradas para ter sob os olhos apenas o céu e o mar. O quadro era unicamente animado por algumas evoluções de marsuínos e a pesada aparição de dois cachalotes.

Reinava entre nós uma harmonia real. Formávamos um verdadeiro corpo expedicionário, dotado de um indispensável espírito de clã necessário para enfrentar as provações que nos esperavam. Nestor L'Hôte tinha-me baptizado "o general", afirmando que ele e os companheiros apenas de mim receberiam ordens.

Quando contornávamos a costa da Sardenha empurrados por um vento forte, o sempre calmo professor Raddi foi dominado por violenta cólera.

- É inadmissível! Não suporto isto mais tempo! Quero regressar imediatamente a Florença!

O bom mineralogista parecia possuído pelo demónio, a ponto de o padre Bidant, inquieto, fazer no ar o sinal da cruz. Rosellini meteu-se num canto da cabina. Nestor L'Hôte tentou aproximar-se de Raddi, que o repeliu com uma violência insuspeitada num homem da sua espécie. Cheguei à conclusão que "o general" tinha que intervir para fazer regressar a serenidade ao seio das suas tropas.

- O que se passa, professor?

- Ah, Champollion... se soubesse... tenho de confessar o pior dos crimes...

A fúria de Raddi tinha-se transformado subitamente em desespero. Acedeu a sentar-se. O padre Bidant, L'Hôte e Rosellini, comunicando uns com os outros por gestos e piscadelas de olho, saíram sem ruído da cabina. A hora era de confissão.

- O meu pobre gabinete, o meu pobre Museu - lamentou-se ele, extraindo uma chave do bolso. - O meu gabinete... Fechei a porta com três voltas da chave, mas deixei as janelas abertas! Está a ver, Champollion? A minha mulher vai entrar naquele santuário que sempre lhe foi interdito! Vai profaná-lo, tenho a certeza... Só sonha com espanador e vassoura. Tenho que regressar a casa para evitar esse desastre. E os roubos, já pensou, Champollion? Vão pilhar as minhas colecções!

- E o Egipto, professor, pensou nele?

A minha pergunta surpreendeu Raddi, interrompendo o seu fluxo de palavras.

- O Egipto... Sim, quero ver os seus desertos... Há lá inestimáveis tesouros! Mas não tenho o direito... Preciso de voltar para eu próprio fechar as janelas.

Acalmei o professor. Um Raddi desesperado e choraminguento em breve exasperaria os outros e tornaria infernal a nossa existência quotidiana.

- Acredite, professor, os deuses egípcios velam por nós. O seu Museu e as suas colecções não correm qualquer perigo.

Vi acender-se no seu olhar um brilho de confiança.

- Diga-me, professor... para além das caixas com material científico, pensou em trazer alguma roupa?

- Roupa? Claro. Tenho-a vestida. Este fato de ganga amarela e sapatos sólidos para andar. Acrescente um chapéu de palha de abas largas e fica a conhecer o meu guarda-roupa. Não o acha perfeito?

Naquele 19 de Agosto, de madrugada, estava só na ponte da corveta com um óculo na mão. Ao longe, distinguia a coluna de Pompeia.

Finalmente, Alexandria.

Via o Porto Velho, a cidade cujo aspecto se tornava cada vez mais imponente, uma imensa floresta de construções no intervalo das quais se viam casas brancas.

Já não pensava na furiosa tempestade que espalhara o pânico entre os meus colaboradores. O vento soprava com tanta violência que nem sequer nos conseguíamos ouvir uns aos outros. Não tive medo. Morrer no mar parecia-me tão inconveniente como impossível.

O Egipto... O Egipto, depois de tantos anos de sonhos e de esperanças. Jacquou, o feiticeiro, que tinha sido o meu parteiro num 23 de Dezembro, prometera a meus pais o mais grandioso dos destinos para o filho. No entanto a minha infância não tinha sido muito alegre: as loucuras da Revolução em Figeac, a violência, as armas, o sangue, grupos berrando a Carmag-nole, fugitivos tremendo de medo e vindo refugiar-se na biblioteca do meu pai, nessa caverna de tesouros cujo acesso ele me proibia.

Os livros tornaram-se amigos, confidentes. Aprendi a ler sozinho, letra a letra, palavra a palavra. A minha melhor recordação de infância é o calor do grande fogão da cozinha. Aninhava-me perto da lareira, com um livro na mão, até ser invadido por uma maravilhosa sensação de bem-estar, tão longe do frio e do céu cinzento. O sol do Egipto estava escondido naquele fogo.

Como tinha frio no liceu, em Grenoble! À noite, enquanto os meus camaradas dormiam, lia as biografias dos homens ilustres escritas por Plutarco. Queria conhecer melhor os imperadores, os chefes, aqueles que tinham transportado o mundo sobre os ombros. Recortei medalhões em cartão e desenhei os seus retratos, acrescentando a data do nascimento e da morte. Assim, tinha junto de mim a minha galeria de personagens célebres. Essa colecção era o meu maior orgulho de aluno.

O de estudante foi poder apresentar um estudo sobre a geografia do Egipto na Sociedade das Artes e das Ciências de Grenoble quando tinha dezassete anos. Quando fui nomeado professor na Faculdade de Letras de Grenoble, aos vinte e um anos, acreditei por um instante que o futuro seria risonho. Mas foi necessário ir a Paris, esbarrar com a ciência que estava na moda, procurar em vão um lugar, acabar por regressar a Grenoble para me tornar professor de História, recebendo um quarto do salário dos meus colegas. Depois, o meu irmão e eu fomos proscritos e colocados com residência fixa em Figeac porque tínhamos apoiado Napoleão. Eu tinha vinte e seis anos e desesperava de vir a conhecer um dia o meu Egipto.

No entanto, continuei a lutar, a procurar, a tentar convencer os outros que estava no bom caminho, que devia empreender essa viagem.

Chegámos a Alexandria ao nascer do Sol, depois de dezanove dias de travessia. Não tinha dormido, de tal forma estava nervoso com a ideia de atingir por fim o território do Egipto. A minha boa fortuna vencera a má sorte. Com um gesto da mão, como uma criança, tinha saudado a Torre dos Árabes, que marcava o local da antiga Taposiris, cidade que tinha ocupado tantas horas de investigações para escrever o meu primeiro livro, O Egipto no tempo dos faraós.

- Satisfeito, senhor Champollion?

O capitão Cosmao Dumanoir aproximara-se sem ruído. Barbeado de fresco, impecável, possuía um humor inalterável. Com o seu meio-sorriso nos lábios, aquele homem parecia inacessível às influências do mundo exterior.

- Para além de tudo o que pudesse ter esperado, capitão.

- Precisa ainda de um pouco de paciência antes de tocar no solo egípcio.

- Porquê?

- Os europeus impuseram um bloqueio a Alexandria. Entraremos no velho porto, a oeste. A manobra não vai ser fácil, porque há muitos navios de guerra franceses e ingleses que dificultam o acesso.

Profundas rugas vincaram-me a fronte. O ar fresco da manhã pareceu-me de repente glacial.

- Que verdade me oculta, capitão? Recebeu más notícias? Cosmao Dumanoir hesitou um instante.

- As tropas egípcias devem regressar em breve da Grécia - explicou. - Estão mesmo autorizadas a repatriar material e despojos de guerra.

- Mas... isso é maravilhoso! Isso significa que as tropas francesas e egípcias já não se defrontam no Peloponeso! É a paz, capitão... O paxá vai acolher-nos de braços abertos.

- Desejo-lhe que sim, senhor Champollion... Esta situação não é apreciada por todos. O partido da oposição censura as decisões do paxá. O bloqueio garante a manutenção da ordem em Alexandria, mas não vai ser eterno. E ignoro o que se passa no Cairo.

- Tenho confiança, capitão.

- Invejo-o.

Uma expressão de infinita tristeza fez subitamente envelhecer vários anos o rosto de Cosmao Dumanoir. Senti vontade de provocar as suas confidências mas, pretextando que a sua presença era indispensável para dirigir a manobra, foi-se embora.

À entrada da passagem, um tiro de canhão da corveta saudou a chegada a bordo de um piloto árabe. Guiou-nos pelo meio dos quebra-mares e colocou-nos em segurança no meio do Porto Velho. Encontrámo-nos ali rodeados de navios franceses, ingleses, egípcios, turcos e argelinos e o fundo desse quadro, verdadeira miscelânea de povos, era ocupado pelas carcaças de construções orientais salvas do desastre de Navarin. Estava tudo em paz em nossa volta. Só lançámos o ferro às cinco horas da tarde.

Os meus companheiros de aventura, debruçados na amurada, observavam com curiosidade a cidade de Alexandre o Grande que nos ia acolher. Alexandria adAegyptum, diziam os antigos, significando que a cidade, de origem grega, ocupava a orla do Egipto, a sua fronteira, sem fazer realmente parte dele.

Sentia a garganta contraída e respirava com dificuldade. Para mim, Alexandria era a fronteira do paraíso. Vivia o meu segundo nascimento. Tinha a sensação de reencontrar finalmente a minha verdadeira pátria, de regresso de um longo exílio que aproveitara para decifrar o que me seria oferecido.

- Há uma barca que se dirige para nós - fez notar Nestor L'Hôte. Alguns instantes mais tarde, subia a bordo um homenzinho vestido de preto. Julguei que se tratasse do médico de Toulon que tentara reter a corveta no cais.

- Fui enviado pelo cônsul-geral Drovetti - anunciou ele - para entregar um envelope ao senhor Champollion.

O envelope continha uma autorização excepcional para desembarcar, apesar do bloqueio e da quarentena imposta devido a uma epidemia de tifo. Não achava necessário transmitir essas informações aos meus companheiros para não os inquietar inutilmente.

- Segui-lo-emos de boa vontade - disse eu, com voz pouco firme. Quando os meus companheiros se metiam à minha frente, prontos a descer para a barca, Cosmao Dumanoir interpôs-se.

- Acho que o senhor Champollion merece ser o primeiro a desembarcar e que deseja estar só.

- Tem razão, capitão - concordou Rosellini.

- Que o general enfrente o Egipto como guarda avançada - brincou Nestor L'Hôte.

- Essa honra compete com efeito ao Egípcio - admitiu por sua vez o padre Bidant.

O professor Raddi mantinha-se à parte, examinando uma rocha proveniente do Vesúvio.

Subiram-me as lágrimas aos olhos. O meu coração batia aceleradamente. Sentia a maior dificuldade em me exprimir.

- Agradeço-lhes... eu...

- Vá, general - exigiu Nestor L'Hôte. - Nós também temos pressa de conhecer esta terra.

Cosmao Dumanoir observava-me com um olhar estranho. Senti que me queria confiar um último pensamento antes de os nossos caminhos se separarem para sempre. Devia àquele homem ter franqueado sem dificuldade o imenso passo que separava Toulon de Alexandria, tendo-se transformado num amigo. Mas não se desenhava já a morte sobre seu rosto fatigado?

- Adeus, senhor Champollion - disse ele, apertando-me a mão com calor.

De pé na barca que avançava lentamente em direcção ao cais, confesso ter esquecido Cosmao Dumanoir, os meus companheiros, a corveta VÉglé. Há quantos anos esperava aquele momento com o mais ardente desejo.

A barca acostou. Um marinheiro, segurando-me pelo braço, ajudou-me a subir para o cais. Não pude impedir-me de ajoelhar, beijar e abençoar aquele solo sobre o qual tinham vivido os maiores sábios da História e onde nascera a civilização de que nós, europeus, somos os herdeiros.

As descrições que se podem ler desta cidade não conseguem dar dela uma ideia completa; foi para nós uma espécie de aparição dos antípodas e um mundo novo: vielas estreitas ladeadas de tendas, apinhadas de homens, de cores e de cães adormecidos; gritos roucos vindos de todos os lados e misturando-se com a voz estridente das mulheres; uma poeira sufocante e, aqui e além, alguns senhores magnificamente vestidos, conduzindo belos cavalos ricamente ajaezados.

Avançávamos como podíamos pelo meio de uma multidão efervescente na direcção do palácio do cônsul-geral. Seguia imediatamente atrás do guia árabe encarregado de nos abrir caminho naquele magma humano, povoado de homens com turbante, crianças seminuas agarrando-se às abas dos nossos casacos, mulheres veladas com longos vestidos negros. Camelos, carregados de cestos cheios de alimentos, empurravam as pessoas. Passámos em frente de um quiosque com madeiras trabalhadas onde três músicos tocavam uma canção tão inebriante como os pesados perfumes de rosa e jasmim que se impregnavam nas nossas roupas, disfarçando outros odores menos suaves que subiam dos sulcos abertos na terra. Aqui e além, na esquina de uma ruela, surgiam minaretes. Avançávamos sob arcadas que nos abrigavam dos raios do Sol. O calor era refrescado por lufadas de ar que vinham do Mediterrâneo. Nestor L’Hôte mantinha-se a meu lado. Rosellini, o padre Bidant e o professor Raddi tinham alguma dificuldade em seguir o ritmo imposto pelo nosso guia que parecia ter pressa de se desembaraçar de nós. Ser visto na companhia de estrangeiros não parecia agradar-lhe nada.

O som de um galope. À minha frente, a multidão afastou-se com espantosa rapidez. Vi surgir uma personagem barbuda, com um turbante enterrado até aos olhos e montado num macho que avançava sobre mim. Fiquei estupidamente especado no mesmo lugar, vendo o focinho fumegante do quadrúpede aproximar-se a grande velocidade.

Nestor L'Hôte agarrou-me pela cintura e afastou-me da trajectória do macho que continuou a fender a populaça e desapareceu no meio de um grande concerto de indignação.

- Escapou de boa, general!

- Não exageremos - retorqui eu, arvorando uma tranquilidade de calma muito artificial. - Agradeço-lhe a sua intervenção. Os nossos companheiros?

O religioso francês e os dois sábios italianos tinham tido reflexos melhores do que os meus, espalmando-se de encontro às fachadas das casas para evitarem ser derrubados pelo macho enlouquecido. O guia árabe aproximou-se de mim. Falava um mau francês.

- Não ferido?

- Continuemos. Estou impaciente por encontrar o cônsul-geral. Trazia comigo as duas cartas misteriosas que me tinham chegado às mãos antes da partida para o Egipto. Aquele incidente seria uma agressão disfarçada? A minha imaginação far-me-ia divagar?

O palácio do cônsul-geral era uma construção pomposa edificada no centro de um jardim povoado de palmeiras. A fachada, rasgada por uma porta coroada de um arco-íris trabalhado, era adornada por uma larga trave que suportava uma varanda de persianas fechadas. No limiar, dois jardineiros acocorados.

Entrei. Um intendente, envergando uma galabié branca, convidou-me a segui-lo e pediu aos meus companheiros que esperassem no átrio, onde existiam alguns bancos de pedra. Conduziu-me ao vasto gabinete de Bernardino Drovetti, cônsul-geral de França.

Com cinquenta e três anos, nascido em Livorno e naturalizado francês, participara na expedição de Bonaparte ao Egipto. Advogado, militar de elevada patente, diplomata, era considerado uma das personagens mais influentes do país. Tecendo a sua teia na sombra, reinava, dizia-se, sobre um gigantesco tráfico de antiguidades. Alguns pretendiam que, fortuna feita, se preparava para a reforma. Não tinha o costume de formar opinião sobre qualquer pessoa a partir de mexericos. Eu próprio sofri demasiado com os rumores públicos para sobrecarregar outro com eles.

Bernardino Drovetti estava sentado à secretária com as mãos cruzadas à sua frente, como um juiz que se preparasse para ditar a sua sentença. O homem tinha motivos para impressionar os seus interlocutores: testa alta, espessa cabeleira castanha encaracolada, sobrancelhas hirsutas, olhos negros, maçãs do rosto salientes, nariz direito e pontiagudo, um bigode denso e comprido terminando em caracol.

- Sente-se, Champollion, e oiça-me bem - ordenou com voz seca, característica de um homem habituado a dar ordens e a ser obedecido.

Permaneci de pé, desafiando com o olhar o cônsul-geral de quem tudo tinha a recear. Só ele me podia conceder a autorização necessária para visitar os sítios arqueológicos e comprar objectos destinados a enriquecer a colecção do Louvre. Drovetti tinha autoridade para limitar a minha expedição a um breve passeio.

- A sua chegada não é oportuna, Champollion. A situação política é confusa. Pedi a Paris que expedisse uma ordem para Toulon anulando a sua viagem. Suponho que não a recebeu.

A pergunta era mordaz, incisiva, contrastando com o aspecto luxuoso e acolchoado daquele vasto compartimento mobilado à oriental, com tapetes multicores e assentos baixos.

- A sua suposição é exacta, senhor cônsul-geral. Estava escrito lá no alto que eu veria o meu Egipto este ano.

A cólera enrubesceu as faces de Bernardino Drovetti que dificilmente se conteve.

- Já que o vinho foi servido, há que bebê-lo, não é verdade? Se a guerra estalar entre os russos e os turcos, o Egipto será arrastado para o conflito e não poderei garantir a sua segurança. O senhor e os membros da sua expedição correrão nesse caso os maiores perigos.

Baixei a cabeça. Drovetti acreditou na minha submissão.

- Vejo que é razoável, Champollion. Residirão em Alexandria até que seja levantado o bloqueio e depois regressarão a França. Pode ter a certeza que velarei pessoalmente pelo vosso conforto.

Considerando a entrevista terminada, levantou-se.

- Alexandria é apenas uma etapa para mim, senhor cônsul. Explorar o Egipto é o objectivo da minha vida. Nenhuma guerra me impedirá de cumprir o meu destino, mesmo com o preço da minha existência.

Não faltava inteligência a Drovetti. Não lhe escapou a força da minha determinação. Recostou-se de novo na poltrona.

Tinha um poderoso motivo para me causar os piores aborrecimentos. Conseguira expor no Louvre uma parte da colecção de Salt, cônsul-geral de Inglaterra e grande inimigo de Drovetti. Jomard e o conde de Forbin, director-geral dos Museus, tudo tinham feito para me impedir de vir a ser conservador. Mas a 15 de Dezembro de 1827, não tendo podido contar senão comigo mesmo, inaugurara a galeria egípcia do Museu Charles X.

- É um amigo pessoal de Henry Salt, Champollion?

- Nem sequer o conheço.

- Tanto melhor para si. Esse nunca mais será útil a ninguém. Morreu. O conhecimento aprofundado das antiguidades é uma arte difícil. Um amador arrisca-se a estragar a profissão.

- É por isso que a minha expedição apenas é formada por profissionais, senhor cônsul.

- O que deseja ver no Egipto?

- Os monumentos do Delta.

- Perfeito, Champollion. Vou mandar preparar-lhe as autorizações necessárias.

- Preciso também de outras para a Tebaida e a Núbia - acrescentei com ar sereno.

Os meus nervos estavam prestes a estoirar. Jogava forte face a um poderoso adversário. Se ele tivesse podido ler em mim, teria constatado a que ponto me sentia frágil e perturbado. Mas uma força inalterável impelia-me a enfrentar o obstáculo. Pois não tinha eu do meu lado o melhor dos aliados, o Egipto?

- Porquê Tebas?

- É o coração do Egipto. Espero desenvolver lá o mais importante programa de escavações jamais realizado.

- Com que dinheiro?

- Com o que me proporcionará, senhor cônsul-geral. Estando em missão oficial, conto com o auxílio financeiro que tem o dever de me atribuir.

- Com certeza... mas vai ser necessário algum tempo. Esse dinheiro chegar-lhe-á a Tebas quando estiver pronto para iniciar as escavações. O que deseja mais?

- A sua confiança. Sou um investigador e venho aqui para verificar as minhas teorias e satisfazer um sonho de criança. Fazer reviver a civilização dos faraós será para mim a mais bela das recompensas.

Foi a vez de Drovetti baixar um pouco a cabeça. Esperei com ansiedade o resultado das suas meditações.

- Dormirá aqui esta noite, Champollion, no quarto em que dormiu Kléber, o vencedor de Heliopólis. O meu palácio serviu de quartel-gene-ral ao exército de Napoleão. Tem a minha protecção. Gosto dos idealistas.

- Um último pormenor... Gostaria de me dirigir imediatamente ao Instituto do Egipto para me encontrar com um velho sábio...

- O Profeta?

- O próprio.

- Pode poupar essa deslocação, Champollion. O gabinete no qual ele trabalhava ardeu. As papeladas que lá acumulava foram destruídas e ele próprio morreu no incêndio.

O cônsul-geral estendeu-me um salvo-conduto redigido em árabe.

- Seja prudente, Champollion. O Egipto é um país perigoso.

Bernardino Drovetti viu sair do seu gabinete aquele curioso senhor Champollion cuja orgulhosa determinação o espantara e inquietara. Um simples sábio? Um iluminado? Um espião enviado pelo governo francês para descobrir a natureza do negócio ao qual se dedicava o cônsul-geral nos últimos anos? Era difícil avaliar a ameaça que Champollion representava. Estava fora de questão correr o menor risco tão próximo da meta.

Drovetti agitou uma campainha.

O intendente de galabié branca surgiu quase imediatamente.

- Não te afastes nem por um instante do homem que acabo de receber. Relatar-me-ás os seus mínimos actos e gestos. Que nada te escape. E vais dizer ao nosso amigo que redobre de vigilância.

 

Tinha vestido o meu melhor fato depois de uma noite agitada no quarto outrora ocupado pelo grande Kléber. Durante o jantar para o qual Drovetti me convidara, falámos da França, de Napoleão, da arte egípcia. Depois, o cônsul-geral anunciara-me que era indispensável uma entrevista com o paxá para confirmar a minha liberdade de circulação no território egípcio.

O cônsul-geral declarou-se demasiado ocupado para me conduzir pessoalmente até junto do paxá e vice-rei, Méhémet-Ali. Confiou essa tarefa ao seu intendente, um tal Moktar. Naquele domingo, 24 de Agosto, às sete horas da manhã, sentado na antecâmara do palácio do paxá, situado na antiga ilha de Pharos, esperava ser recebido.

Estava deliciosamente fresco naquele imenso edifício, com o tecto tão alto que o olhar se perdia nos caixilhos esculpidos formando um céu de embutidos do mais belo efeito.

Sentia-me quase desesperado. O Profeta, com o qual contava tanto para me guiar, tinha desaparecido. Encontrava-me só naquela terra desconhecida, como uma criança abandonada. Precisava de fazer apelo aos meus próprios recursos e apenas a eles. Bastariam para me conduzir ao termo da minha investigação? Consentiria o Egipto em responder às perguntas que me queimavam a alma?

Um homem de cabelos cinzentos sentou-se a meu lado. Elegante, fino, exprimiu-se em voz baixa como se receasse que nos surpreendessem. Moktar, o meu mentor, acabava de se eclipsar.

- Tenho pouco tempo para lhe falar, senhor Champollion. O meu nome é Anastasy.

- O senhor...

A minha surpresa não era fingida. De origem arménia, o diplomata Anastasy representava a Suécia no Egipto. Verdadeiro Crésus, possuía uma boa metade da frota comercial alexandrina e era conhecido sobretudo como um importante coleccionador a quem os Países Baixos tinham aliás adquirido grande quantidade de magníficas peças.

- Conheço os seus projectos, senhor Champollion. Sendo um amigo pessoal de Méhémet-Ali, que não desdenha recorrer às minhas competências financeiras, intervim pessoalmente em seu favor. Mas é impossível saber se o paxá está favoravelmente disposto a seu respeito.

Anastasy mostrava-se muito modesto. Na realidade, tinha em seu poder vários ministros e enchia regularmente as caixas do paxá em troca da organização de escavações em locais privilegiados que soubera detectar com um faro infalível.

- Não sei como lhe expressar o meu reconhecimento, Excelência, mas porque...

- Partilhamos a mesma paixão, senhor Champollion, mas o senhor é muito mais qualificado do que eu para decifrar os mistérios do Egipto. Não subestime os perigos que o espreitam. Fique a saber que o meu maior inimigo é o cônsul-geral Drovettí que tem a sua sorte administrativa entre as mãos. A forma como ele despoja este país dos seus tesouros escandaliza-me. Desconfie dele, mesmo que pareça ceder às suas exigências de cientista. Drovetti apenas se interessa pelo dinheiro e pelo poder. Estou convencido que está prestes a realizar um negócio importantíssimo cuja natureza exacta ignoro. A sua chegada pode baralhar as cartas que ele vem a dispor sabiamente há alguns meses.

Sentia em relação àquele homem uma confiança instintiva, imediata. A sua simples presença dava-me segurança. Possuía aquela calma maravilhosa dos seres íntegros cuja memória não está sobrecarregada com nada de errado. Veio-me aos lábios uma pergunta.

- Excelência... enviou-me uma carta antes da minha partida para o Egipto?

- Eu? Não. De maneira nenhuma. Drovetti tinha proclamado que a sua viagem fora anulada e que o senhor nunca tocaria o solo do Egipto.

A longa silhueta de Moktar surgiu no extremo de um corredor que vinha dar ao grande átrio. Anastasy levantou-se.

- Tenha cuidado, Champollion - murmurou.

Afastou-se com passos medidos, voltando-me as costas. Alguns instantes mais tarde, o meu mentor inclinou-se à minha frente.

- Méhémet-Ali espera-o.

O paxá recebeu-me num pequeno salão cheio de divãs e almofadas. A luz filtrava-se apenas por uma minúscula janela gradeada. Sobre uma mesa baixa, de tampo de mármore com veios rosa, uma chaleira e taças de porcelana. De pé, ladeando o senhor do moderno Egipto, dois impressionantes guarda-costas armados com sabre.

- Bem-vindo, senhor Champollion - disse Méhémet-Ali, destacando bem as sílabas. O paxá era uma espécie de colosso de aspecto bonacheirão. Pobre de quem se fiasse nessa aparência. Órfão, nascido na Macedónia, Méhémet-Ali lançara os olhos sobre o Egipto, abandonado aos turcos pelos ingleses. Varrera a medíocre autoridade dos pequenos potentados locais para impor o seu punho de ferro sobre um povo habituado a numerosas ocupações desde o fim do império faraónico. Expulsara mamelucos e wahabitas, colocando-se como interlocutor respeitado pelas potências europeias. Em Paris, os diplomatas descreviam-no como um tirano e um homem cruel. Gabavam a sua aguda inteligência, a persistência em conservar o seu poder.

Méhémet-Ali segurava um cachimbo decorado com diamantes. Na sua frente, um narguilé de prata dourada coberto de pedras preciosas.

Os seus olhos tinham uma expressão viva e penetrante. Cobria-lhe o peito uma magnífica barba branca. A fisionomia estava sombria, quase taciturna.

- Caluniam-me na Europa - continuou como se tivesse lido no meu pensamento. - Acusam-me de ser impaciente, demasiado apressado, de explorar o povo, de lhe impor pesados impostos, de colocar um polícia atrás de cada felá (1). E como posso agir de outra maneira para manter a ordem? Sou obrigado a ser o único proprietário de bens de raiz, a ter o monopólio do arroz, do trigo, das tâmaras e da bosta de gado que serve de combustível. Posso assim governar a economia e endireitá-la. Até mesmo as raparigas de prazer, os bailarinos e os escroques me pagam tributo para a maior felicidade do meu povo.

Um soluço convulsivo interrompeu o discurso do paxá. Aquela incongruência era o resultado de uma tentativa de envenenamento à qual Méhémet-Ali sobrevivera. Os melhores médicos não tinham conseguido livrar dos soluços o senhor do Egipto.

- Modernizo o país - continuou. - Comércio, indústria, agricultura... Actuo em todas as frentes... Nunca foram construídas tantas fábricas. Não é a vossa opinião?

- Espero, Vossa Beatitude, que os monumentos do Antigo Egipto não tenham sofrido muito com os indispensáveis progressos de que sois o instigador.

 

(1) ' Felá — camponês do Egipto.

 

O paxá sorriu por trás da barba abundante.

- As vossas esperanças não serão frustradas - respondeu untuosa-mente. - Aprecio muito as velhas pedras.

Méhémet-Ali não tinha entregue os tesouros dos faraós aos comerciantes e aos diplomatas, não se interessando em preservar uma arte que não era a dos muçulmanos? As antiguidades não lhe serviam para atrair personagens com fortuna, capazes de lhe proporcionarem um dízimo confortável na condição dele fechar os olhos ao seu tráfico?

- Sinto-me feliz com isso, Vossa Beatitude. Conto com a vossa benevolência para facilitar o meu trabalho nesta terra que tanto amo.

- Esperemos que uma guerra com a Rússia não perturbe a paz da qual eu sou o garante - retorquiu o paxá enquanto nos serviam o chá.

- Todos contam com a vossa sabedoria. Haveis sido suficientemente filósofo para rir da vossa derrota de Navarin, no Peloponeso, onde a frota egipto-turca foi aniquilada pelos franceses, os ingleses e os russos.

Atrevi-me a espicaçar o vice-rei. Mais valia assegurar-me desde já da sua verdadeira disposição de espírito a meu respeito. Recordando-lhe a memória pungente da batalha que pusera cobro aos seus sonhos de expansão, destacava-me da fileira dos cortesãos lisonjeadores para me mostrar preocupado com a verdade. Esta atitude tinha-me muitas vezes valido fracassos e profundas inimizades, mas não era capaz de conceber outra.

O peito de Méhémet-Ali foi sacudido por um imenso riso comunicativo.

- Sois um fulano curioso, Champollion! - exclamou ele em tom forte. - Pretendem que conheceis o significado dos sinais bizarros que os egípcios gravaram nos seus monumentos?

- Falta-me verificar as minhas teorias no terreno.

- Haveis estado com o cônsul-geral Drovetti, não é verdade? Os olhos de Méhémet-Ali tinham-se tornado penetrantes.

- Com efeito, Vossa Beatitude. Deu-me um salvo-conduto, precisando que só vós havíeis a possibilidade de validar esse documento.

Apercebi-me do contentamento do paxá ao mesmo tempo que detectava a sua fraqueza. Aquele homem tinha um culto desmesurado do seu poder. Contestar a sua autoridade parecia-lhe o pior dos crimes. Exaltá-la, Pelo contrário, produzia-lhe o mais intenso prazer.

- Gosto muito da França - afirmou. - As mais brilhantes inteligências do Cairo vão estudar para Paris. São bem recebidos. O vosso cônsul-geral, Drovetti, é um homem notável que me auxiliou a recolocar o Egipto no bom caminho e a desembaraçar-me dos ambiciosos que tentavam formar facções contra mim.

A voz tornou-se mais abafada.

- Sabeis, Champollion, que foi um comerciante francês que evitou que eu morresse de fome quando era criança? Recolheu-me numa rua da minha aldeia e alimentou-me como se fosse seu filho. Hoje está no paraíso de Alá. Jurei a mim mesmo ser útil aos franceses que precisassem de mim.

Acreditei na sinceridade do paxá.

- Preciso da vossa ajuda. Para além da vossa autorização para visitar os sítios do Egipto e da Núbia, preciso de navios e de dinheiro para pagar carregadores e servidores que acompanhem os membros da minha expedição.

- Impossível.

Fiquei estupefacto. Aquela resposta era de uma crueldade inaudita, inexplicável.

- Impossível... mas porquê, Vossa Beatitude?

- Não concedo mais autorizações de escavações a simples viajantes. O cônsul-geral Drovetti faz questão de evitar as pilhagens.

- Mas... eu não sou um visitante vulgar! - inflamei-me eu, indiferente às consequências da minha atitude. - A minha missão tem carácter oficial! Fui nomeado pelo Rei Charles X conservador dos monumentos egípcios e gozo das prerrogativas de um representante do governo francês se a salvaguarda da honra nacional o exigir. E é este o caso! Tenho de referi-lo aos ministros do rei. Sei que os comerciantes de antiguidades e os traficantes estremeceram todos quando foi anunciada a minha vinda. Foi organizada uma cabala contra mim para me retirar qualquer autorização e me impedir de dar um único golpe de picareta. Se assim é, farei saber ao rei os motivos que me impediram de cumprir a minha tarefa. Ofendendo-me a mim, é ele que é desafiado!

Méhémet-Ali permanecia com uma calma absoluta.

- O que desejais?

- Ter acesso à totalidade dos sítios do Antigo Egipto.

- Exigências razoáveis... O meu melhor guarda, Abdel-Razuk, partirá convosco. É um policial de elite. Ser-lhe-á útil no Alto Egipto para fazer respeitar a minha autoridade. Lá, as populações são por vezes hostis aos turcos. Existem ainda bandos de bandidos que não hesitam em despojar os viajantes. Seja prudente, Champollion.

- Conformar-me-ei com as vossas exigências e com as da ciência - declarei em árabe, no dialecto do Cairo.

Méhémet-Ali fitou-me com estupefacção. Sentia uma imensa surpresa.

- Falais a nossa língua?

- É indispensável para conhecer bem o Egipto.

- Com certeza - admitiu o paxá sem entusiasmo. - Os camponeses eram felizes no tempo dos faraós?

Aquela pergunta inesperada ocultava uma armadilha. Pouco importava. Era-me insuportável mentir.

- Creio que sim. A natureza mostrava-se por vezes cruel, quando a cheia do Nilo era demasiado abundante. Mas o Faraó, que era dono do Egipto inteiro, supria as falhas do rio. Os antigos egípcios comiam à vontade e tinham prazer em viver. Não é essa uma aspiração eterna?

O paxá mandou servir novamente o chá de hortelã.

Não tivemos tempo de o beber.

Um grupo de beduínos, ladeados por soldados, interrompeu a audiência. Precipitaram-se para o paxá, ajoelharam e beijaram a orla da sua roupa. Depois, afastando-se, deram passagem a três homens que traziam nos braços uma jovem pantera, uma gazela branca e uma pequena avestruz. Com grandes cuidados, depositaram os seus presentes aos pés do trono.

Méhémet-Ali não pronunciou a mínima palavra de agradecimento. Os soldados, com brutalidade, fizeram sair os beduínos que continuaram a curvar-se enquanto recuavam.

- Posso confessar-vos a minha maior angústia, Vossa Beatitude?

O olhar de Méhémet-Ali ensombrou-se. Não me proibiu de continuar.

- Trata-se de Tebas, a cidade do deus Amon, a mais bela cidade do mundo... Foi preservada da destruição? Velaram bem pelos seus templos?

Aquelas perguntas obcecavam-me há vários meses. Circulavam inquietantes rumores sobre a pilhagem dos antigos monumentos. Mutilar Tebas teria privado o mundo da luz.

- Podeis estar descansado, Champollion. Velo pela Tebaida com o maior cuidado. É a mais querida das minhas províncias. Encontrareis a sua velha capital intacta com todos os seus esplendores.

- Graças sejam dadas a Vossa Beatitude - declarei sem que as minhas inquietações ficassem completamente dissipadas.

O feliz resultado da minha entrevista com o paxá teve a melhor das influências sobre o comportamento de Drovetti. O cônsul-geral convidou os meus companheiros para a sua mesa e alojou-os no seu palácio. A corveta Véglé tinha levantado ferro sem que eu tivesse oportunidade de rever o capitão Cosmao Dumanoir.

"Os preparativos da vossa expedição demorarão várias semanas", prevenira-me Drovetti. Mentira diplomática? Tentativa de me reter em Alexandria servindo-se de pretextos? Encontrava-me mergulhado na incerteza. Conhecia demasiado bem a administração para ignorar as demoras ainda aumentadas pela indolência natural dos orientais. Drovetti e o paxá desejariam realmente o êxito da minha missão? Não teriam optado por me enganar com palavras contemporizadoras?

Agitava esses sombrios pensamentos contemplando, ao pôr do Sol, a coluna de Pompeia erguendo os seus vinte e cinco metros de altura no bairro sudoeste de Alexandria. Examinando a base com atenção, apercebi-me que era formada por blocos pertencentes a monumentos mais antigos. Consegui mesmo decifrar o nome do ilustre faraó Seti I, pai de Ram-sés II. Perto dali, erguia-se a antiga biblioteca de Alexandria, incendiada por mãos criminosas.

A brisa do mar bateu-me no rosto. Invadiu-me uma infinita tristeza. Aquela coluna isolada, único vestígio de um mundo desaparecido, tornava-se o símbolo do fracasso. O Egipto do crepúsculo, desolador e desolado, mergulhava nas trevas de uma memória destruída. Certamente nunca conheceria nada mais além deste miserável vestígio, elevado à memória de um romano sobre as ruínas da cidade de Alexandria. Não me falava de eternidade mas sim de degradação. O meu Egipto dos faraós ficava longe, muito longe daquela Alexandria moderna de onde os deuses egípcios tinham desertado. Apoiava-me com todo o meu peso de encontro à coluna de Pompeia com a esperança de a ver desmoronar-se e pôr fim ao meu sonho.

- Em que pensa, senhor Champollion?

Lady Ophelia Redgrave, envergando um vestido de musselina amarela com ornatos prateados, surgia na luz laranja dos últimos momentos do dia. Mal distinguia o seu rosto nimbado de uma luminosidade irreal. Pareceu-me de singular beleza, evocando a deusa do céu prestes a acolher no seu seio o sol da tarde para o regenerar.

- Seguiu-me, minha senhora?

- De maneira nenhuma. Passeava, como o senhor. Esta coluna é o ponto de encontro dos curiosos desiludidos de Alexandria. Só há grego e romano neste passado. O Egipto não deixou aqui a sua marca.

- Estará a tornar-se egiptóloga? - ironizei. - O seu papel de espia necessita de tanta sabedoria?

Ela sorriu, divertida.

- Considera-se acerbo e é apenas apaixonado. Não é o único a amar loucamente este país. Se lhe garantir que não sou sua inimiga, não me acreditará. Não importa. Não tentarei convencê-lo. Saiba que passei a fazer parte da sua expedição. Onde for, irei eu.

Estava estupefacto. Lady Redgrave afastou-se no poente.

A 22 de Agosto, a meio da manhã, vagueava pelo meio das dunas, a sul da cidade. Alexandria tornara-se um local de suplício. Os meus companheiros de aventura descobriam com uma curiosidade divertida os encantos do Oriente, bisbilhotando nos souks, refastelando-se no jardim do palácio de Drovetti, conversando com os letrados árabes, os ulemás, que tentavam convertê-los ao Islão evocando os benefícios passados da presença francesa no Egipto.

Tinha necessidade de respirar, de encher os olhos com um pouco de deserto, de me sentir atraído para o sul, para o Cairo. Apanhei areia na palma da mão direita e deixei-a lentamente escorrer por entre os dedos.

Um velho árabe, apoiando-se numa bengala, avançava na minha direcção. Olhei em redor, receando uma agressão. Mas o homem estava só, andando lentamente. Um cego.

- Bom dia, cidadão - cumprimentou-me. - Dá-me qualquer coisa. Há muito que não como.

"Cidadão"? Teria ouvido bem aquele qualificativo republicano com-pletamente inesperado na boca de um alexandrino?

- Despacha-te - insistiu ele. - O meu estômago grita com fome. Procurei nos bolsos e dei-lhe o dinheiro francês de que dispunha. Tacteou as moedas com destreza e atirou-as para a areia.

- Essas moedas já não passam aqui, meu amigo. Procura melhor.

O velho insolente fascinava-me. Sentia-me obrigado a obedecer-lhe. Consegui encontrar uma piastra. Pareceu satisfazê-lo.

- Esta é boa - considerou ele. - Agradeço-te, cidadão. És digno de Bo-naparte. Lamento o exército vindo de França. Julguei que nos protegeria das aves de rapina que devoram o Egipto. Tinha homens que amavam este país. Havia mesmo sábios. Loucos de verdade, como tu.

- Quem sois vós?

- Um cego. Guarda bem contigo a carta que recebeste antes da partida. Pedir-ta-ão um dia.

Gostaria de o ter retido, de lhe perguntar quem era, de qual das cartas falava. Mas, caminhando a uma velocidade surpreendente, desapareceu Por trás de uma duna.

Só no fim do mês de Agosto fui convocado com urgência ao palácio de Méhémet-Ali. Reinava a maior agitação. Corriam ministros em todas as direcções, apostrofavam-se, saíam, entravam. Esgueirei-me pelo meio daquela multidão de cortesãos até ser retido pelos dois guardas armados com sabres que tinham assistido à minha primeira entrevista com o paxá.

Este recebeu-me num salão luxuoso de paredes cobertas com trofeus. Ele próprio envergava uma indumentária muito espampanante, misturando o ouro e o vermelho. Altivo, quase desdenhoso, o vice-rei queria mostrar-se como um chefe de Estado. Aquele aparato não pressagiava nada de bom.

- Ah, Champollion! - exclamou ao ver-me. - Tenho muito más notícias.

Não conseguia ocultar a minha ansiedade.

- As tropas francesas acabam de ocupar a quase ilha grega de Moreia - explicou-me, aborrecido.

Significaria aquilo que o Egipto se ia tornar parte interessada num conflito com a França e que, portanto, a minha expedição seria um nado-morto?

- Os vossos compatriotas não são nada razoáveis - afirmou ele, muito incomodado. - Creio que fiz mal em demonstrar-lhes reconhecimento. Colocais-me um problema delicado, Champollion. Devo tratar-vos como amigo ou como inimigo?

Sustentei o olhar do paxá.

- Como a vossa decisão já está tomada, Vossa Beatitude, resta-vos apenas comunicar-ma.

Um sorriso feroz iluminou o rosto de Méhémet-Ali.

- Enganais-vos, Champollion. Acabo de tomá-la neste preciso instante. Sois insolente e orgulhoso, mas visais sempre o objectivo que havíeis fixado para vós próprio. Gosto das pessoas da vossa raça. Ide ter com Drovetti. Nada farei contra vós.

Forcei mais de uma dezena de vezes a porta do cônsul-geral Drovetti durante os primeiros dias de Setembro. Recebeu-me sempre com a maior cortesia, deplorando os atrasos dos quais não podia ser considerado responsável. Devido ao conturbado clima político, não conseguia arranjar uma equipagem suficientemente corajosa para nos acompanhar até à Núbia.

Era impossível levar a sério semelhante explicação. Drovetti fazia tempo. Nada mais fácil para ele do que arranjar um grupo de dóceis servidores.

Méhémet-Ali oferecera-me de pés e mãos atados ao seu cúmplice que, proclamando oficialmente a sua benevolência a meu respeito, me retinha em Alexandria.

Tendo visto claro no seu jogo, decidi agir à minha maneira. Reuni os meus companheiros no jardim do palácio consular e expus-lhes os meus planos ao abrigo de ouvidos indiscretos.

 

Moktar, o intendente do cônsul-geral Drovetti, e Abdel-Razuk, o polícia ao serviço do paxá, perguntavam a si mesmos se não estariam a sonhar. Os dois turcos eram conscienciosos. De acordo com as instruções recebidas, não tinham deixado de ter Champollion ao alcance da vista. Onde quer que fosse, o sábio francês era seguido discreta e eficazmente. Aliás, ele próprio facilitava a tarefa dos seus seguidores porque, perdido nos seus pensamentos, nunca se voltava.

Porque razão, naquele domingo tórrido, à uma hora da tarde, Champollion tomara a direcção da necrópole ocidental de Alexandria, Kôm el-Chou-gafa, uma sequência de colinas ao longo da beira-mar? O calor era só ligeiramente atenuado por um fraco sopro de vento vindo do Mediterrâneo. Champollion não parecia afligir-se com a temperatura, avançando num passo rápido que surpreendia os alexandrinos sentados à sombra para beber um café antes de se entregarem a uma longa sesta. "Este excelente calor é uma inestimável fonte de saúde, tinha afirmado Champollion aos seus companheiros; derretemos como círios e perdemos as nossas gorduras prejudiciais."

Moktar, habituado à frescura do palácio de Drovetti, já não estava habituado a correr as ruelas da cidade durante as horas caniculares. Abdel-Razuk também não se sentia mais à vontade. No entanto, não teriam desculpa se perdessem o rasto de Jean-François Champollion que, a duzentos passos das fortificações, abandonava o domínio dos vivos para penetrar no dos mortos. O sábio francês, com efeito, enfiava-se por uma escada que dava acesso a catacumbas escavadas nos rochedos calcários.

Os dois turcos entreolharam-se, inquietos. Não gostavam daquele lugar. Não conheciam muito bem a religião dos defuntos que ali estavam enterrados. Sabia-se apenas que não eram cristãos nem muçulmanos e que deuses perigosos velavam pelo seu eterno repouso.

Alguns larápios tinham conseguido despojar os cadáveres das suas jóias mas contava-se que tinham tido fraco lucro, pois o roubo abreviara os seus dias.

- Temos de o seguir - considerou Moktar.

- Talvez não seja necessário - replicou Abdel-Razuk. - Não há outro acesso. Basta esperar que reapareça.

Era um argumento de peso. Mas não existiria outra saída desconhecida dos dois homens? Correr semelhante risco pareceu pouco conveniente ao intendente de Drovetti, que conhecia a severidade do seu senhor para com os servidores incompetentes.

- Fica aqui. Vou lá ver.

Abdel-Razuk, cujo fervor religioso aumentava com a idade, o que mais receava eram os locais mortuários onde os espíritos malignos não suportavam a presença de intrusos. Aceitou portanto sem protestar a proposta de Moktar.

Este penetrou por sua vez na escada, que tinha os primeiros degraus cobertos de areia. Chegou quase logo a uma primeira câmara muito estreita, com o tecto em forma de abóbada de volta abatida. Escavados nas paredes, havia nichos contendo urnas. No chão, uma abertura. Moktar, pouco seguro de si, introduziu-se por ela, descobrindo uma escada circular que ia dar a túmulos dispostos em vários andares, mergulhando cada vez mais profundamente na terra.

Nem rasto de Champollion.

O intendente atreveu-se a continuar a sua exploração. Com a garganta apertada, percorreu as salas onde eram armazenados os sarcófagos e aquelas onde as famílias vinham celebrar banquetes em memória dos defuntos. Vendo-se na presença de um chacal vestido como legionário romano e pintado numa parede, recuou instintivamente, encostando-se a um nicho. Qualquer coisa mole tocou-lhe nas costas. Assustado, afastou-se, quase caindo. Com o coração a bater, convencido de ter sido atacado por um espírito perturbado durante o sono, recuperou pouco a pouco a calma e notou que o nicho continha um monte de roupa: a de Champollion!

Este tinha-se portanto despido... Moktar hesitou. Devia continuar a descer ou subir para prevenir Abdel-Razuk? Porque tinha o francês agido assim? O ar rarefeito da necrópole, as figuras inquietantes que a povoavam, influenciaram a sua decisão. Regressou à superfície a correr.

Abdel-Razuk esperava-o com impaciência.

- O Champollion? - interrogou.

- Desapareceu. Saiu alguém?

- Não. Só vi um árabe a passear na colina, lá em baixo. Moktar precipitou-se para o local indicado pelo seu compatriota. Havia ali a entrada de uma passagem que conduzia ao interior da necrópole.

Com um turbante na cabeça, envergando uma galabié castanha, com babuchas calçadas, a tez suficientemente bronzeada, parecia-me com um velho muçulmano. Tinha tido razão em deixar crescer a barba desde a chegada a Alexandria. Pouco a pouco, a aparência europeia tinha desaparecido para dar lugar a um rosto e um aspecto orientais que tinham enganado o polícia do paxá. Aconselhara os meus companheiros a seguirem o meu exemplo e adquirirem os hábitos locais. O padre Bidant protestara com teimosia, recusando-se a abandonar a sua sotaina.

Por agora, depois de me ter vestido à egípcia na necrópole e de ter despistado os meus seguidores que conheciam mal o plano daquelas catacumbas, dirigi-me para o porto. Alexandria, dizia-se, não passava de uma gigantesca loja. Precisei, com efeito, de atravessar bairros inteiros constituídos por tendas, estabelecimentos e oficinas mergulhados no torpor da sesta. Ninguém atrás de mim. Os estaleiros marítimos eram anunciados por armazéns. Visto que Drovetti se afirmava incapaz de fretar as embarcações necessárias para a expedição, eu próprio me encarregaria disso.

A construção naval era uma das grandes artes alexandrinas. Estava convencido de conseguir encontrar um alugador. Os cais pareciam desertos, mas sabia que dezenas de olhos me observavam. Forçava-me a andar lentamente, com uma certa despreocupação, para não despertar atenções. Atingi uma doca onde dormitavam pequenos barcos. Um guarda estava semi-adormecido, encostado à abita de amarração.

Dirigi-me a ele em árabe e pedi-lhe que me indicasse uma pessoa capaz de me arranjar embarcações para ir para sul. O homem hesitou antes de responder. Tentou obter mais informações mas, já imbuído da estratégia oriental, soube mostrar-me evasivo. Estendendo a mão, consentiu em indicar-me um armazém aparentemente fechado. Consegui sem dificuldade fazer deslizar a grande porta de madeira e introduzir-me no seu interior.

Apesar da penumbra, distingui sem dificuldade o rosto sarcástico de Moktar, o intendente de Drovetti, rodeado por uma dezena de homens armados.

- Estávamos à sua espera, senhor Champollion.

- O que significa isto, Champollion? Porque está disfarçado de árabe? Porque tentava alugar navios? Não tem confiança em mim? Não sabe que eu trato de tudo?

O cônsul-geral Drovetti disfarçava mal a sua cólera com aquela avalanche de perguntas. O seu intendente trouxera-me de volta ao palácio com uma cortesia firme. Não revelara qualquer veleidade de fuga, aliás votada ao fracasso, tendo em vista o imponente cortejo que me acompanhava. A minha infeliz experiência permitira-me avaliar o poder real de Drovetti sobre a população alexandrina. Os seus homens estavam por toda a parte, fazendo reinar uma ordem paralela à do paxá.

- Sinto uma atracção profunda pela vida oriental - respondi eu. - Como conhecer o Egipto se não adoptarmos os seus costumes?

Ao lado de Moktar mantinha-se Abdel-Razuk, com as minhas roupas europeias embrulhadas.

- Suponho que deseja recuperar os seus fatos, não?

- Como quiser, Excelência. Sinto-me bem na minha nova pele. Irritado com a minha arrogância, Drovetti mandou embora os seus homens. Ficámos frente a frente.

- O seu comportamento é estúpido - atacou ele. - Rebaixa-se ao nível de um escravo. Nunca terá a menor autoridade sobre os seus servidores muçulmanos.

- Permita-me que tenha uma opinião diferente - retorqui eu com convicção. - O senhor reina pelo medo, eu pela amizade.

Drovetti lançou-me um olhar assassino. Desaparecia o último verniz mundano. Deixou transparecer o seu ódio.

- Não tem mais nada a fazer no Egipto, Champollion. Há dois ou três anos, a sua expedição teria sido bem-vinda. O país estava posto a saque por ladrões e comerciantes de antiguidades que apenas pensavam no seu lucro e não na preservação dos monumentos. Graças a Anastasy e a mim próprio, a situação mudou muito. Acabámos com esses tráficos sórdidos. Não há mais nada a reformar nem a descobrir. Os sítios foram explorados e investigados.

Drovetti voltou-me as costas, contemplando o jardim do consulado por uma das janelas do seu gabinete. Estava com certeza convencido de ter pronunciado palavras definitivas. Instalei-me numa poltrona.

- Gostaria tanto de poder acreditar em si, Excelência! Mas tenho outra versão dos factos, apoiada em testemunhos e observações pessoais. Todos os comerciantes de antiguidades estremeceram em todo o território. O senhor mesmo e o paxá recusam-se a conceder-me as autorizações reais indispensáveis para organizar a minha expedição. Esquecem o carácter oficial da minha missão. Vim aqui a fim de fazer escavações para os museus do rei. Redigi portanto uma nota que lhe é dirigida bem como aos seus ministros para lhes dar a conhecer as causas que me impedem de cumprir as instruções que me tinham sido dadas. Nela explico que as dificuldades administrativas são provavelmente devidas a sórdidas intrigas mercantis. Vindo em nome do rei, mandatado por ele e pelo seu governo, é ofendê-lo recusar-me os papéis necessários. Se o paxá quer manter a sua reputação de protector das artes e das ciências, deveria neste momento apressar-se a tratar do meu assunto. Caso contrário, os jornais europeus e a opinião pública egípcia podem bem apoderar-se do caso e causar-lhe grandes aborrecimentos, bem como a si.

Bernardino Drovetti voltou-se, muito pálido.

- Ameaças, Champollion?

- Em que pode sentir-se ameaçado? Cometeu algum acto censurável?

- Proíbo-lhe que me fale nesse tom! - berrou ele. - O paxá está fora de causa. Sou o único a poder conceder-lhe as autorizações que exige. Mas seria um erro fatal para a França. O senhor não estaria em condições de garantir a protecção dos sítios. Anastasy esfregará as mãos. Manterá as suas concessões com toda a tranquilidade.

- Errado, Excelência.

- O que quer dizer? - interrogou, tão intrigado como inquieto.

- Anastasy cedeu-me os seus direitos de escavação nos locais reservados que controlava até agora. O único a permanecer em situação ilegal perante a minha expedição é o senhor.

O medo deformou as feições de Drovetti, atenuando a sua soberba. Sentia-se preso numa rede da qual lhe seria difícil sair sem perder alguns privilégios. Estavam em jogo a sua reputação e a sua fortuna.

- Supondo que eu imito Anastasy, como hei-de arranjar-lhe navios? Estão todos requisitados pelo paxá.

- Problema resolvido, Excelência. Não sou o único a passear vestido de árabe. Os meus companheiros imitaram-me. Graças à minha ordem de missão oficial, conseguiram convencer os capitães do Isís e do Hátor, que são, ao que parece, fiéis amigos de Anastasy.

Verificou-se, creio, um instante de conivência entre Drovetti e eu. Reconheceu que eu era um adversário digno dele e que tinha cometido um erro em subestimar-me. Mas aquilo que li no seu olhar teria assustado a alma mais forte. O rancor do cônsul-geral devia ser temível.

- Terá amanhã a sua autorização, Champollion.

A 13 de Setembro à noite, os meus companheiros de viagem estavam reunidos no salão de honra do consulado de França, na presença de Drovetti. O cônsul-geral brindou ao rei, à França, ao paxá. Desejou o êxito da nossa expedição. Agradeci-lhe, com a maior seriedade, pela ajuda que nos tinha dado. Um sopro de sinceridade atravessou o meu breve discurso, de tal forma me sentia exaltado com a ideia de partir finalmente rumo à civilização faraónica.

- Não podemos sair daqui! - anunciou Nestor L'Hôte. - Dezenas de condutores de burros obstruem a entrada do consulado.

A notícia da nossa partida, que eu teria querido discreta, espalhara-se por Alexandria. Drovetti não devia ser estranho a essa divulgação. Aumentava a sua reputação de grande senhor liberal e generoso. Divertido, reconfortou-me.

- Vamos, Champollion, não se inquiete por tão pouco! Os guardas do paxá dispersarão essas pessoas. A populaça gosta de fazer festa por qualquer coisa, mas tem o sangue demasiado quente.

Os condutores de burros não se mostravam ameaçadores. Cantavam, berravam, queriam tocar nos membros da expedição, obter deles algumas moedas. Os polícias do vice-rei armados com paus bateram para um lado e para outro com uma violência que me revoltou. Seria necessária uma repressão tão brutal?

Caía a noite quando uma longa caravana, seguida por curiosos, chegou ao canal Mahmudieh onde estavam fundeados os dois navios que deviam conduzir-nos para o sul. Rosellini, L'Hôte e eu próprio embarcámos no Ists, um imponente navio que o próprio paxá não teria desdenhado utilizar. O professor Raddi e o padre Bidant subiram para bordo do Hátor. O pessoal - criados, cozinheiros, carregadores - distribuiu-se de acordo com as instruções de Moktar, o intendente de Drovetti, e de Abdel-Razuk, o polícia preferido de Méhémet-Ali. É evidente que estes dois tinham escolhido o Isís para poderem manter a vigilância à minha pessoa.

Preparávamo-nos para largar as amarras. Dois marinheiros retiravam a passarela quando um grito de mulher os fez estacar.

- Esperem! - ordenou Lady Redgrave, acompanhada por quatro condutores de burro puxando pelos infelizes quadrúpedes carregados de pesadas caixas.

Ao lado da aristocrata inglesa, Méhémet-Ali em pessoa, protegido por uma guarda de honra.

O vice-rei mandou colocar de novo a passarela.

- Desejo-vos boa sorte, Champollion - disse com solenidade. - Que Alá vos proteja. Cuidai da minha convidada.

Lady Redgrave passou à minha frente, aérea, leve.

- Preveni-o, senhor Champollion, e só tenho uma palavra.

O ruído delicioso do primeiro sulco aberto na água do canal pela proa do Isís tirou-me o desejo de lhe responder. A verdadeira viagem ia começar.

 

O canal Mahmudieh ligava directamente Alexandria ao Cairo. Realizava um dos meus votos mais queridos: viajar pelo Nilo como os antigos egípcios, sentir-me avançar pelo rio divino que passava por templos e aldeias. Cada instante me proporcionava um novo deslumbramento. Descobria paisagens verdejantes, camponeses trabalhando com instrumentos idênticos aos utilizados pelos seus longínquos antepassados, identificava locais, plantas, árvores... um mundo de hieróglifos vivos deslizavam perante os meus olhos insaciáveis. Tinham dificuldade em arrancar-me àquela contemplação para me lembrarem a existência das refeições e a necessidade do sono.

Desde o primeiro dia daquele cruzeiro em direcção a um passado eterno, uma feliz surpresa confirmara-me o sentimento que o nome dos navios, o Isís e o Hátor, era um presságio favorável colocando a nossa expedição sob a protecção de duas das mais amáveis deusas egípcias. Um árabe de cerca de trinta anos, muito digno, com um fino bigode, esperava-me na minha cabina. Inclinou-se respeitosamente quando eu entrei.

- O meu nome é Soliman - disse, num francês áspero. - Estou ao seu serviço.

Soliman, o nome de um príncipe que conhecia os poderes dos génios, grande mágico capaz de manipular as forças do além... O homem que me cumprimentava pareceu-me muito diferente dos servidores árabes que tinha encontrado até agora. A sua natural nobreza impressionou-me. Parecia-me impossível dar ordens a um personagem como ele.

- Sejamos amigos - propus-lhe. - Com certeza que terei necessidade de si, Soliman. Se tiver confiança em mim, poderemos trabalhar em conjunto.

Exprimira-me em árabe. Soliman não evidenciou a mínima surpresa, mas o seu olhar pareceu-me ser absolutamente franco. Curvou-se de novo, não como um servidor perante o seu senhor mas como um hóspede saudando um seu igual: a mão tocando na testa, na boca e no coração, para significar que o seu pensamento, as suas palavras e os seus sentimentos estavam orientados para mim de forma favorável.

Não tardei a constatar os efeitos benéficos daquela aliança. Soliman, que conhecia cada parcela do seu país, permitia-me corrigir os mapas da Descrição do Egipto, redigida pelos sábios de Bonaparte que, até àquela viagem, era a referência científica. Ao longo do Nilo, ao ritmo lento do Isís, fazia com que me fosse nomeando os mínimos aglomerados a fim de rectificar os erros e completar as falhas. Hora a hora, ia traçando um novo mapa do Egipto onde surgiam as correspondências entre as localidades antigas e modernas. Este primeiro resultado, por si só, era de um valor inestimável.

Nestor L'Hôte, cujo sólido apetite se satisfazia com uma administração à francesa, passava a limpo as minhas indicações em companhia de Ro-sellini, cuja paixão científica se alimentava já de elementos de qualidade. Em Alexandria não perdera tempo. Comprara numerosas peças destinadas à colecção que devia levar ao grão-duque da Toscânia, Léopold II.

Lady Redgrave não se dignava dirigir-me a palavra. Com certeza que a sua qualidade de convidada privilegiada do paxá a colocava acima dos simples mortais. Contentava-se em apanhar sol e só tinha contacto com os dois servidores colocados ao seu serviço. Tinha que descobrir uma maneira de a abandonar no Cairo.

Quando ao princípio da tarde saboreava um copo de água do Nilo cujo sabor me parecia preferível ao do mais suave champanhe, distingui, no meio de um pequeno bosque de acácias, uma minúscula aldeia de um encanto particular. Quis o acaso que o Isís acostasse para comprar frutos frescos.

- Gostaria de visitar este lugar - pedi eu a Soliman, que me dizia o nome da aldeia: Ed-Dahariye.

No momento em que descia a passarela, o polícia Abdel-Razuk interveio.

- Permaneça a bordo - exigiu. - Este lugar não é seguro.

- Obrigado pelo seu conselho - respondi, saltando para terra.

Sentia-me atraído por aquelas cabanas de felás feitas de terra, precedidas por canteiros quadrados desenhados com cuidado para facilitar a irrigação. As pobres moradias beneficiavam com a sombra projectada pelas palmeiras e as acácias. Grandes potes, onde era conservado óleo e trigo, encontravam-se encostados à fachada da casa maior. O tempo detivera-se definitivamente aqui. Os únicos acontecimentos eram as estações, os nascimentos, os casamentos e as mortes. A noção de progresso não tinha qualquer significado. A vida reduzia-se aos seus componentes mais simples e mais essenciais.

Ed-Dahariye parecia deserta. Os habitantes trabalhavam nos campos. Ao aproximar-me da moradia principal, apercebi-me com horror que uma cabeça masculina, de olhos fechados, surgia no topo do mais alto dos potes. Incapaz de me mexer, vi um velho sair da casa e, ameaçador, dirigir-se para mim.

- Quem o envia? - perguntou com hostilidade.

- Ninguém - respondi com a garganta contraída.

- É francês?

- Sou...

O velho cuspiu aos meus pés e levantou a mão direita para me amaldiçoar.

- Vá-se embora daqui! Não lhe basta ter assassinado o meu filho? Precisa ainda de vir perturbar o meu repouso?

Expliquei ao infeliz que as suas acusações não me diziam respeito. Conseguindo compreender o seu discurso muito fragmentado, acabei por reconstituir os acontecimentos que tinham culminado na morte trágica de um homem. Este tinha roubado um bronze antigo a um dos batedores de Drovetti. Quando tentava vender-mo, fora preso pelos guardas do sultão. O seu corpo fora encontrado num canal. Os polícias tinham explicado à família que o prisioneiro se evadira durante a noite e que se perdera no campo. O pai afirmava que o tinham assassinado.

Muito perturbado por aquela triste ocorrência que punha em causa Drovetti e os seus esbirros, tive dificuldade em concentrar-me no meu trabalho de cartografia ao regressar a bordo. O auxílio de Rosellini, exacto e meticuloso, foi precioso para mim. Quantas gerações de sábios seriam necessários para explorar completamente a imensidão do Delta, o reino da "Coroa Vermelha", que tinha tido tantas cidades santas durante a época dos faraós?

Chegou a noite de 16 de Setembro que todos esperávamos com mal contida impaciência. Depois de termos passado em frente da cidade de EsSafeh, os navios acostaram para nos permitir atingir o primeiro grande sítio finalmente acessível sem ser apenas aos ladrões de antiguidades: a misteriosa cidade de Saís, que os antigos tinham transformado no centro de uma elevada sabedoria de que a deusa Neit era a detentora. Depois de ter criado o universo pronunciando sete palavras, tecera a vida cujos segredos eram transmitidos por colégios iniciáticos femininos, fabricando os tecidos sagrados para todo o Egipto. Consultava os planos de Sais feitos de acordo com as descrições de Heródoto quando bateram à porta da minha cabina.

Fui abrir. Era o padre Bidant, que subira a toda a pressa a bordo do Isís.

- Tenho um favor a pedir-lhe, Champollion.

- Faça favor, padre. Se lhe puder ser útil...

O padre Bidant hesitava em formular o pedido.

- Não paremos em Sais. Este lugar é maldito. Sigamos até ao Cairo. Estupefacto, poisei a pena. Com certeza tinha compreendido mal.

- É um grande sábio, Champollion, mas também um grande ingénuo. Esta terra está povoada de demónios. Não são inofensivos. Acredite: evitemos Sais.

Levantei-me, meio-furioso, meio-divertido.

- Em que poderia esta velha cidade afectar a fé cristã, padre? Não existe lá nenhum documento que ponha a Bíblia em questão, que eu saiba.

- Sais era uma academia de feiticeiros - explicou ele. - Os efeitos dos seus malefícios não desapareceram. Arriscamo-nos a ser contaminados e vermos a nossa expedição corrompida.

- Está muito supersticioso, padre! - espantei-me. - O Deus dos cristãos não nos protege dessas ilusões?

O padre Bidant dirigiu-me um olhar bem pouco caritativo e eclipsou-se. Sucederam-se-lhe Nestor L'Hôte e Rosellini, muito excitados com a ideia de descobrir o seu primeiro estaleiro de escavações. Informaram-me que o professor Raddi, fascinado pelo estudo de pedaços de calcário recolhidos numa pedreira de Alexandria, não se apercebera que íamos fazer escala. Ninguém tinha a coragem de o interromper nos seus trabalhos.

- Eis-nos prestes a começar! - exclamou Nestor L'Hôte com entusiasmo. - As suas instruções, meu general?

- Antes de mais nada, prudência. Têm os vossos cadernos de apontamentos?

Os meus colaboradores estavam preparados para desenhar e registar a colheita de achados. Abraçámo-nos, orgulhosos e felizes por estarmos ali, naquela noite de Verão em que íamos fazer reviver o mais maravilhoso dos passados.

Soliman e uma dezena de auxiliares transportando tochas conduziram-nos até ao lugar de San el-Hagar onde se elevava outrora a cidade santa. Aquela luz, adicionada à da lua que brilhava no centro de um céu estrelado de admirável pureza, ofereceu-nos a mais fantomática das explorações.

Tinha acreditado na existência de um grande templo, de uma imensa morada divina de altas paredes cobertas de baixos-relevos. Passando por uma brecha aberta numa gigantesca cerca, descobri apenas um campo de ruínas. Sais, cidade destruída, cidade perdida. A minha curiosidade foi tão grande como a minha decepção. Teriam sido necessários meses para inventariar aqueles fragmentos de blocos, medir o recinto cercado, recolher os fragmentos de estátuas. Em silêncio, evoquei a deusa Ms cujo véu tinha sido erguido aqui mesmo por iniciados nos seus mistérios. Quem podia ter-se mostrado suficientemente cruel para destruir aquele elevado local da espiritualidade, transformar pedras vivas em destroços semelhantes a rochedos desfeitos pela tempestade ou por tremores de terra? Um horrível odor subia de massas de águas estagnadas que se tinham infiltrado num cemitério árabe vizinho, muito mal cuidado. Rapidamente detectei, na orla nordeste do muro de cerca, uma zona bem seca sobrevoada por numerosas pequenas corujas, consideradas pelos antigos como símbolo da sabedoria e da ciência. Avancei para lá apressadamente, seguido por Rosellini e por L'Hôte. Em breve nos convencemos de ter identificado uma colina funerária em que se encontravam túmulos. Os meus companheiros tomavam notas com uma celeridade que me sossegou sobre a continuação do nosso empreendimento. L'Hôte mostrava-se febril, Rosellini mais metódico. Se o destino me fosse favorável, jurei a mim mesmo regressar a Sais, devolver vida àquele corpo destruído.

Enquanto os meus companheiros desenhavam um plano exacto das ruínas, permaneci só no sector sudoeste, junto da cerca, onde tinha detectado fragmentos de estátuas. Tive a sensação que se erguia aqui a célebre Casa da Vida cuja ciência rivalizara com a de Heliopólis, o centro espiritual do Antigo Egipto. Aqui tinha sido penetrado o mistério da imortalidade. Mas a transmissão dessa sabedoria perdera-se na areia. Teria de procurar mais longe, mais para a frente. Sais escapava-me, devastada pela ignorância e a loucura de gerações. Esse vazio lamentável, que a princípio me tinha desencorajado, transformava-se em apelo.

- Sais não passava de uma etapa, senhor Champollion - disse uma voz feminina encantadora.

Lady Ophelia Redgrave, envolta na luz lunar, envergava um vestido de noite bordado com fios de prata.

- Parece uma deusa - disse-lhe eu, fascinado com tanta graça, esquecendo as minhas desconfianças a seu respeito.

Esperava um sorriso, recebi apenas uma expressão grave.

- Não fale assim. "Deusa" é uma palavra ainda com uma carga de sagrado a meus olhos. Não passo de uma mulher, o que lhe parece sem dúvida pouco em comparação com Neit...

- Não julgue isso - protestei.

- O que pensa disto?

Mostrou-me um pequeno objecto que tinha apanhado. Uma estatueta de servidor do outro mundo, obedecendo às ordens dos glorificados que, nos campos paradisíacos, apelavam a ele para que fertilizasse a terra. Bastava ler os hieróglifos que adornavam o seu corpo de pedra ou de madeira para o tornar vivo.

- Uma linda peça da época tardia... Não lhe posso permitir que a leve. Deverá ser inventariada e entregue ao museu.

- Eu sei. Não vale a pena pregar-me moral. Não pertenço às hordas de Drovetti.

Ferido, agarrei-a pelos pulsos.

- Quem é realmente, Lady Redgrave? Libertou-se com a agilidade de uma gata.

- Decifre-me, senhor Champollion.

Foi a primeira a deixar Sais para regressar ao Isís. Fiquei durante muito tempo no sítio. Não sabia o que pensar daquela mulher. Em geral, a minha opinião sobre as outras pessoas formava-se rapidamente. Desta vez, estava desorientado a ponto de esquecer os séculos de história que dormiam sob os meus pés.

Nestor L'Hôte arrancou-me à minha meditação.

- Temos de sair daqui, general. Os indígenas estão a tornar-se ameaçadores. Acreditam que perturbamos os espíritos dos mortos.

Deixei-me arrastar para o navio, não sem notar a presença atenta de Abdel-Razuk, o polícia do paxá, que não tirava os olhos de cima de mim.

Trabalhava incessantemente horas e horas para esquecer Sais e Lady Redgrave. Qualquer arqueólogo estaria satisfeito, mas eu procurava mais do que os vestígios de uma extinta glória. O meu humor era tão sombrio que recusei abrir a porta da cabina fosse a quem fosse, pretextando uma investigação minuciosa. Os meus companheiros, habituados àquelas crises de solidão, não se perturbaram.

Apenas Soliman se permitiu insistir. Cedi.

- Devo referir um incidente grave. O Hátor está bloqueado no cais por um magistrado turco.

- Porque motivo?

- Taxa fiscal. Dois marinheiros foram presos. Não tinham pago o dízimo ao paxá.

- O padre Bidant não conseguiu resolver esse caso?

Soliman calou-se. O seu mutismo exprimia uma reprovação. Na minha qualidade de "general", senti-me no dever de intervir sem demora. Segui portanto Soliman, deixando o Isís para me dirigir ao local do drama, o burgo de Zawyet er-Redsin.

À sombra de uma das paredes da mesquita, sentado em macias almofadas, rodeado por uma pequena corte de fiéis, o magistrado turco fumava um longo cachimbo. À sua frente, com os pulsos atados atrás das costas, os dois marinheiros do Hátor. De cabeça baixa, pareciam resignados ao pior.

O turco viu-me aproximar com um olhar cruel e malicioso. Estava muito satisfeito por me ter feito vir até ao seu tribunal ao ar livre. Ridicularizar um europeu seria uma prova evidente do seu poder. As negociações seriam difíceis.

Soliman lançou-se numa peroração florida onde eram referidas as inúmeras qualidades do sultão e dos seus servidores, a submissão total dos seus súbditos e a justiça divina. O turco apreciou o discurso, permitindo-me dizer porque razão estava ali diante dele.

- Gostaria de saber que falta cometeram esses homens para assim serem amarrados.

O turco respondeu com raiva que deviam uma grande soma ao fisco. Mereciam umas bastonadas e, certamente, mutilação. A multidão aumentava. Nestor L'Hôte, Rosellini e o padre Bidant em breve estavam a meu lado.

- Tenho documentos oficiais - afirmei - com o selo do sultão.

O turco quis ver os meus salvo-condutos. Examinou-os com atenção.

- Porque não pagou por eles? - perguntei em voz baixa ao padre Bidant. - Teríamos evitado esta comédia.

- Bem... há despesas inúteis... Estes dois piratas serão facilmente substituídos.

Se o religioso e eu próprio estivéssemos sós, não sei se teria sido capaz de dominar a minha cólera.

- O padre tem razão - confirmou Nestor L'Hôte. - É inútil perder tempo por causa de dois ladrões.

O magistrado turco devolveu-me os documentos. Não lhe interessavam. É verdade que me credenciavam como uma personagem importante e digna de respeito, mas não ilibavam os acusados, ameaçados de perder tudo. Invadiu-me um poderoso sentimento de revolta contra aquela injustiça.

- Meus senhores, não partirei daqui sem esses dois marinheiros. Que o respeitável funcionário do fisco tenha bem consciência disso. Através de mim, é a pessoa do vice-rei que insulta.

Aquelas pesadas ameaças foram transmitidas ao funcionário que as levou muito a sério e se aconselhou com os seus cortesãos. -

- É demasiado sensível, general - observou Nestor L'Hôte. - Se pretende resolver a sorte de todos os indigentes, mais vale voltarmos para trás.

- Estes homens fazem parte da minha equipagem, senhor L'Hôte. Se os abandonarmos, os seus colegas nunca mais terão a mínima confiança em nós. E não deixarão de ter razão. Quanto a si, padre - disse, voltando-me para Bidant - seja suficientemente caritativo para me livrar da sua presença. A sua sotaina importuna os nossos anfitriões.

De vagamente agressivo o religioso tornou-se francamente hostil. Contava com mais um inimigo. Regressou ao Hátor, indiferente ao resultado do confronto.

- Não lhe parece... - interveio Rosellini docemente.

- Não recuarei na minha decisão.

Sentindo-se inúteis, L'Hôte e Rosellini saíram do círculo de basbaques. O turco informou-me que as minhas ameaças não o impressionavam. Tinha a lei do seu lado e o paxá não o desautorizaria. Um bando de desgraçados aglutinava-se à assistência. O caso tomava cada vez maiores dimensões. Não era frequente ser desafiado um emissário do fisco.

- Indiquem-me a soma devida pelos acusados. Encarrego-me de a pagar em troca da sua libertação.

A proposta pareceu escandalosa ou chegou cedo demais... Espalhou a maior perturbação no tribunal do turco, que recorreu ao insulto para restabelecer a ordem. Recusando responder às suas perguntas, eu permanecia imóvel, significando assim que se tratava da minha derradeira proposta. Tive de esperar o resultado da deliberação durante quase uma hora sob o Sol ardente que não me incomodava.

O turco, furioso, cuspiu um valor. O dobro da soma devida. A diferença era para ele e para os seus cortesãos. Não discuti, sob pena de passar por parvo. Os dois marinheiros do Hátor foram libertados dos laços que os prendiam. Agradeceram-me com uma emoção que me dilatou o coração, como teriam escrito os antigos egípcios.

- Méhémet-Ali é um tirano - comentou calmamente Soliman no caminho que nos conduzia ao Isís. - Fez a guerra, distribuiu somas consideráveis aos europeus de quem tinha necessidade, mas o povo está esfomeado e os cobradores são mais impiedosos do que os chacais. Continuam a exigir àqueles que já não têm nada. O vice-rei possui terras, comércio e indústrias. Para ele a riqueza, para o seu povo a miséria. As sanguessugas turcas e o seu punhado de homens de mão esvaziam o Egipto do seu sangue. Um dia também será vítima deles. Mantenha-se vigilante.

Não deixei de ter o aviso em consideração. Como Rosellini vinha ao nosso encontro, não pude interrogar Soliman sobre o significado exacto da sua recomendação.

Lady Redgrave observava-nos da ponte do navio. Sorria, como que iluminada por uma alegria interior.

Na madrugada de 19 de Setembro, vi pela primeira vez as pirâmides. Aproximávamo-nos de Mênfis, a capital dos faraós do Antigo Império, cujo simples nome me fascinava desde a adolescência. A cidade era protegida pelo deus Ptah, o senhor dos empresários, dos artesãos, dos ourives.

Subitamente, o nosso navio encalhou num banco de areia e foi detido. Os nossos marinheiros atiraram-se ao rio para o libertarem, servindo-se do nome de Alá e, bem mais eficazmente, dos seus largos e robustos ombros. A maior parte desses marinheiros são Hércules admiravelmente talhados, com uma força espantosa, parecendo, quando saem do rio, estátuas de bronze recém-fundidas.

Atingimos sem dificuldade a ponta do Delta onde se separam os braços de Rosette e de Damiette. A perspectiva é magnífica. A largura do Nilo é imensa. A ocidente, a massa das pirâmides destaca-se de um horizonte de palmeiras. Um grande número de embarcações correm, umas à direita no braço de Damiette, outras à esquerda no de Rosette. Outras ainda dirigem-se para o Cairo, poderosa cidade que se evidencia pelos seus minaretes, a colina do Moqattam e a sua austera cidadela de atalaia sobre o deserto.

Pedi que parassem por altura da aldeia de El-Qattah para que Nestor L'Hôte desenhasse aquela paisagem sublime. Os outros membros da expedição juntaram-se a nós.

- Se essas pirâmides fossem desmontadas pedra por pedra - disse o professor Raddi, cujo estado estático se acentuava com o passar dos dias. - Que bela contribuição para a mineralogia!

- Esses monumentos não têm grande interesse - contrariou o padre Bidant. - Foram edificados por tiranos abomináveis que levaram à morte milhares de homens, condenados a trabalhos esgotantes.

Como não me inflamar ao ouvir semelhantes inépcias?

- Ora aí estão muitas mentiras que já era altura de deixarem de ser espalhadas, padre. A religião egípcia nunca produziu escravos. As pirâmides são um símbolo do Conhecimento.

- Patranhas - rosnou o religioso, preferindo afastar-se.

- Pergunto a mim mesmo se encontraremos lá alguma inscrição - considerou Rosellini.

Deixando cada um deles entregue aos seus sonhos, deixei-me invadir por esse espectáculo sobre-humano das pirâmides ao nascer do Sol, ao longe.

Uma longa e fina mão enluvada de cabedal fulvo poisou sobre a minha. Fui incapaz de reagir, embora devesse ter protestado com violência.

- Imaginava uma luz como esta, senhor Champollion? - interrogou Lady Ophelia Redgrave num murmúrio que apenas eu ouvi. - Não somos os mais felizes dos privilegiados?

A bela aristocrata mudara uma vez mais de toilette, adoptando um vestido em tons esbatidos de ocre que a transformavam num Sol a diferentes horas do dia.

- Creio ter merecido esta sorte. E não sei ainda que género de privilégio me reserva.

Tinha as duas cartas sobre o meu coração.

 

Às três horas da tarde de 19 de Setembro entrávamos nos subúrbios do Cairo. Seguia à frente, acompanhado por Soliman. No desembarcadoiro esperava-nos um enviado do paxá. Seguiam-se Abdel-Razuk e Moktar, a quem não voltara a dirigir a palavra desde Alexandria; Rosellini e L'Hôte, que identificavam a longa álea de árvores plantada pelos soldados de Bo-naparte cuja vitória nas pirâmides evocavam; o padre Bidant e o professor Raddi, continuando um diálogo de surdos, cada um na sua especialidade. No porto de Boulaq fomos mergulhados na maior confusão que um cérebro destrambelhado teria podido imaginar: as barcas e os navios estavam tão apertados que nenhum deles podia manobrar. No entanto, entrávamos e saíamos, certamente por efeito de uma magia cujas leis nos escapavam ainda. Nos cais, um formigueiro de marinheiros, mercadores, mendigos. Misturavam-se núbios, árabes e europeus. Aqui e além discutia-se energicamente o valor de um carregamento, o preço de um transporte ou qualquer outra operação menos lícita.

Havia homens vestidos de forma muito bizarra: bonés em forma de pão de açúcar, enfeitados com cores gritantes; barbas e enormes bigodes de estopa branca; faixas estreitas apertando e desenhando todas as partes dos seus corpos; e cada um deles tinha acrescentado enormes acessórios de pano branco fortemente torcido. Aquelas roupagens, aquelas insígnias e as suas posturas grotescas pareciam representar os velhos faunos pintados nos vasos gregos de estilo antigo.

Parámos no pátio de um edifício bastante arruinado e muito pouco acolhedor. Paredes inteiras ameaçavam ruir. No limiar, um soldado com um uniforme imundo dormia a sono solto, com a espingarda poisada ao lado. O enviado do paxá pediu-nos que esperássemos, entrou no edifício, permaneceu lá alguns minutos e regressou para junto de nós com expressão carrancuda.

- Acesso ao Cairo interdito - declarou em árabe a Soliman.

- Porquê? - perguntei-lhe na sua língua.

- Alfândega - respondeu, surpreendido. - Faltam papéis. Tem as autorizações?

Chamei Rosellini que tinha os documentos assinados por Méhémet-Ali e Drovetti. O nosso interlocutor apoderou-se deles e desapareceu de novo no edifício da alfândega.

- Isto deve resolver tudo rapidamente - disse eu a Soliman.

- Talvez - respondeu, evasivo.

A sua reserva inquietou-me. O que receava? Nenhuma expedição possuía recomendações semelhantes às nossas. Para iludir a minha nascente angústia, dei alguns passos no pátio, enquanto os meus companheiros suportavam as coisas com paciência, saboreando o chá verde que lhes era oferecido por um militar andrajoso. Vi mulheres veladas retirando água com os seus potes de uma enorme tina poisada sobre calços de madeira. A sua forma intrigou-me. Aproximei-me e, para minha estupefacção, apercebi-me que se tratava de um magnífico sarcófago de basalto pertencente a um sacerdote da época saita! Não sem brutalidade, afastei as donas de casa para decifrar os hieróglifos daquela época tardia, pretendendo assemelhá-los aos do tempo das pirâmides. Falavam de imortalidade e do destino estelar do Justificado perante o tribunal do outro mundo. Eu lia, lia com facilidade! Os sinais falavam-me! Febrilmente, copiei as principais inscrições e precipitei-me para L'Hôte e Rosellini, cuja expressão me pareceu muito sombria.

- Descobri uma obra-prima para o Louvre, aqui mesmo! - anunciei. Soliman apareceu.

- A alfândega recusa-se a permitir a nossa entrada no Cairo - declarou com fatalismo.

- Como? A assinatura do sultão não basta para os seus funcionários? Penetrei no edifício administrativo, esbarrando imediatamente com um

cérbero barrigudo e com bigodes que me apostrofou com veemência e me ordenou que desaparecesse dali. Repliquei com a mesma veemência. Revelou-se impossível qualquer diálogo, pois o homenzarrão recusava explicar a sua decisão. Sob a ameaça de prisão, tive que voltar para o pátio onde me esperavam, aflitos, os meus companheiros. Tentei encontrar palavras de reconforto, embora eu próprio estivesse desesperado.

Lady Redgrave passou à nossa frente, altiva. Seguimo-la com os olhos e vimo-la entrar, estupefactos, no edifício da alfândega.

- Vão tratá-la mal - inquietou-se L'Hôte.

- Nada receiem - retorquiu Soliman. - Os meus compatriotas não têm o hábito de agredir as mulheres.

- O que se passa? - inquietou-se por fim o professor Raddi. - Estamos a perder tempo!

O padre Bidant explicou-lhe a situação. Rosellini roía as unhas. Eu lia-lhe no pensamento: iria a nossa expedição fracassar às portas do Cairo por causa de uma alfândega tacanha?

- É preciso avisar o sultão e Drovetti - propôs o padre Bidant.

- Não será necessário - disse Lady Redgrave, cujo vestido violeta brilhava ao sol. - Aqui estão as nossas autorizações.

Estendeu-me uma dezena de folhas sebentas cobertas de carimbos e depois afastou-se. Alcancei-a, ardendo de curiosidade.

- O que fez?

- Age demasiado à europeia, senhor Champollion. Em caso nenhum os seus papéis podiam impressionar o chefe deste posto de alfândega.

- E porquê?

- Porque ele não sabe ler.

Fiquei de boca aberta. Lady Redgrave contentara-se, como qualquer pessoa, em pedir as folhas carimbadas com antecedência, sem mostrar ao iletrado homem da alfândega salvo-condutos que ultrapassavam a sua compreensão.

- Mas... então fala árabe?

- Cada um tem os seus pequenos segredos, senhor Champollion. E se entrássemos no Cairo?

Foi portanto a 20 de Setembro que a expedição, em grande aparato, se apresentou em rigorosa ordem hierárquica perante a corte de Omar. A cavalo, vestidos à turca, tínhamos um ar soberbo. Eu ocupava a cabeça do cortejo, com a fronte febril tanto pelo orgulho do sucesso como pela visão do mundo novo que se oferecia na sua efervescência de cores e odores. Uma multidão inumerável enchia as ruas da cidade.

Centenas de turbantes brancos e coloridos passavam entre carruagens, camelos e burros. Os condutores de burros desta cidade são sem dúvida os mais famosos dos poliglotas e dos fisionomistas: ao primeiro olhar, identificam o alemão, o inglês, o francês, o italiano ou qualquer outro estrangeiro e dirigem-lhe algumas palavras na sua língua natal. Nenhuns melhor do que os seus jericos, quadrúpedes pequenos e robustos, são tão perfeitamente qualificados para circular nas estreitas ruelas. Com gritos e toques com o aguilhão, os condutores de burros dirigem os seus animais com uma precisão que causa admiração. Espantando-me por ver vários com uma orelha cortada, perguntei a razão a Soliman. Explicou-me que eram assim castigados os burros surpreendidos a roubar no prado alheio.

Não imaginemos, com este epíteto de "burro", o nosso infeliz quadrúpede da Europa, insultado e batido, destinado aos mais duros trabalhos, reduzido à mais triste das condições, não inspirando a menor piedade. Não imaginemos também o burro rebelde, dotado do pior dos caracteres, lançando ao chão seja quem for que ouse cavalgá-lo. Não, quem não viu o burro do Egipto não conhece um dos mais admiráveis animais da criação. É vivo, vaidoso, gracioso, mantém a cabeça erguida e manifesta a sua inteligência a qualquer momento. O seu proprietário gosta de cuidar dele, de o escovar, de lhe brunir o pêlo até que pareça veludo.

"Direita!", "Esquerda!", "O pé!", berravam os condutores de burros, evitando dificilmente dois cortejos que se cruzavam, um de um casamento e o outro de um funeral! Cavaleiros cujas montadas estavam adornadas com coberturas de veludo bordadas a ouro não hesitavam em empurrar quem lhes impedia a passagem, mesmo que fosse mulher ou criança.

Por toda a parte, comia-se e bebia-se à vontade. Nas cozinhas ao ar livre, as mulheres, rodeadas por uma nuvem de crianças, preparavam favas quentes. Nabos cozidos, pepinos de conserva e bolinhas de carne conviviam alegremente num apetitoso molho vermelho à base de especiarias. Um vendedor de chá, com apetrechos de latão de uma limpeza impecável, oferecia a sua excelente bebida, rivalizando de habilidade com o transportador de água e os vendedores de xaropes de frutos, de refresco de alcaçuz, de infusão de alfarroba ou de tâmara, de sumo de uvas secas. Adolescentes gabavam os méritos das suas frutas, melancias, romãs, tâmaras, uvas, tomates e figos. Saboreavam-se tortas mornas, limões, cebolas. Em grandes marmitas de cobre coziam pedaços de carneiro.

O Cairo, para nos acolher, transformara-se em sala de festim.

Chegávamos no momento certo: aquele dia e o seguinte eram os da festa que os muçulmanos celebravam pelo nascimento do Profeta. A grande e importante praça d'Ezbékieh estava coberta de gente que rodeava os saltimbancos, as dançarinas, as cantoras e as lindíssimas tendas sob as quais eram praticados actos de devoção. Ali, muçulmanos sentados liam cadenciadamente capítulos do Corão; além, trezentos devotos alinhados em filas paralelas, sentados, deslocando incessantemente a parte de cima do corpo para a frente e para trás como bonecas de balanço, cantavam em coro La-Allah-EH'Allah, "não há outro Deus além de Deus"; mais longe, quinhentos energúmenos de pé, dispostos em círculo e encostados uns aos outros, saltavam cadenciadamente e lançavam do fundo do peito cansado o nome de Alá, mil vezes repetido, mas com um tom tão surdo, tão cavernoso que nunca ouvi na minha vida coro mais infernal: aquele terrível burburinho parecia sair das profundezas do Tártaro. Ao lado daquelas manifestações religiosas, circulavam os músicos e as raparigas de prazer e havia diversões de todo o género em plena actividade. Aquela mistura de jogos profanos e de práticas religiosas, aliada à estranheza dos rostos e à extrema variedade dos fatos, formava um espectáculo do outro mundo.

As mães mergulhavam os filhos na água lamacenta, tanto para os divertirem como para os lavar. Saíam de lá negros como sapos e riam às gargalhadas. Todos votavam intenso culto àquela água que subia por vezes tão alto que se formava um lago no qual vinham circular barcas cheias de elegantes.

- Champollion! Venha ver!

O cavalo de Rosellini chegara junto do meu. Dirigi o olhar na direcção indicada pelo meu aluno, mas só distingui um grupo de bailarinos executando a sua arte junto de uma caldeira fumegante, em redor da qual se amontoavam os convivas.

- Tenho a certeza - disse Rosellini, perturbado. - Foi mesmo ele que vi.

- Quem?

- Drovetti, o cônsul-geral.

- É impossível.

- Juro-lhe que o vi.

Um movimento da multidão obrigou-nos a separarmo-nos e retomarmos o caminho em fila indiana. Não duvidava da boa fé de Rosellini, sem no entanto acreditar na presença de Drovetti. Ter-lhe-ia sido necessário viajar ao mesmo tempo que nós, noutro navio. E com que intenção?

- A rosa era espinho - pronunciou uma voz grave. - Pelo suor do Profeta floriu.

Mesmo à minha frente avançava um vendedor de pistácios. Não lhe via o rosto.

- É aquele que sabe ler a escrita das velhas pedras? - perguntou com o mesmo timbre profundo.

- Creio poder conseguir fazê-lo, com efeito... Mas quem é o senhor?

- O aviso da carta vai realizar-se em breve. Vá amanhã, às sete horas, à mesquita de Thouloun.

O homem apressou o andamento e dirigiu-se para uma ruela que seguia para a direita.

- Espere! De que carta...

O vendedor de pistácios tinha desaparecido.

Têm dito muito mal do Cairo. Quanto a mim, sinto-me lá bem. Aquelas ruas de dois a quatro metros de largura, tão caluniadas, parecem-me bem calculadas para evitar os grandes calores. Esta é uma cidade monumental, uma cidade das Mil e Uma Noites, embora a barbárie turca tenha destruído ou deixado destruir a maior parte dos deliciosos produtos das artes e da civilização árabe.

Como negar? Estou apaixonado por este encavalitado de casas, muitas vezes quase em ruínas, de ruelas estreitas onde trabalham curadores, oleiros, ourives, onde passam vendedores e cozinheiros ambulantes. Tudo isto é feio, por vezes sórdido, mas liberta uma magia que faz desta cidade repelente, quase desumana, uma caça-corações. Pode-se passear pelo Cairo até quase perdermos a alma. Na condição, evidentemente, de abandonarmos o bairro reservado onde se refugiam residentes e viajantes europeus, protegidos por trás das grandes portas de madeira que se fecham todas as noites, isolando-os da população e protegendo-os dos motins e das epidemias. As casas do Cairo juntam-se umas às outras para formarem bairros anárquicos cujos únicos pulmões, os pátios interiores, estão a maior parte das vezes ocupados por uma multidão de animais. Para respirar um pouco, as pessoas dirigem-se naturalmente para os lugares calmos e desimpedidos, a grande praça d'Ezbékieh, as mesquitas ou a cidadela. Do alto desta, onde me encontrava para saudar o nascer do Sol, a fealdade desaparecia. Ao longe, no deserto, vi formar-se uma caravana. Eram cerca de trinta camelos, a maior parte deles sentados. A seu lado, enormes fardos de mercadorias. Os guias de camelos, com o auxílio de paus, começaram a reagrupar os animais. Abaixo de mim, a capital do Egipto moderno estendia a sua imensidade. Descobri milhares de terraços, minaretes, cúpulas. A Oriente desenhou-se o traço de fogo do levante, criando o ouro do nascer do dia. Raios de luz petrificados, as pirâmides surgiram do deserto. Por baixo estendia-se o reino da morte, a terra dos deuses: Saqqara, Dahs-hur, Abusir, Guiza onde os antigos egípcios tinham escavado a eternidade até descobrir o seu segredo. O único segredo que merecia ser descoberto.

Meu Deus, como aquela visão era sublime! Tive a sensação de estar no céu, longe da mesquinhez humana, sentir o impulso que tinha animado o espírito e a mão dos construtores. Mas havia aquele encontro marcado pelo vendedor de pistácios.

Um condutor de burros conduziu-me até à mesquita de Thouloun, edifício do século ix. Embora parcialmente arruinado, é o mais belo monumento árabe do Egipto. A elegância das suas linhas, a sobriedade da sua arquitectura impõem respeito. Enquanto observava a porta, um velho xeque propôs-me que entrasse na mesquita; aceitei rapidamente e franqueei a primeira porta. Detiveram-me na segunda: era preciso entrar no lugar santo sem sapatos. Tinha botas, mas estava sem meias; a dificuldade tornava-se premente. Tirei as botas, utilizei um lenço para embrulhar o pé direito e outro para o pé esquerdo. E eis-me no mármore do recinto sagrado, deserto àquela hora. Esperei durante bastante tempo, não me atrevendo a deambular muito por aquele lugar cuja calma contrastava com a agitação das ruas.

Surgiu um turco de elevada estatura com um sabre de mameluco na mão. O rosto era quase inteiramente devorado por uma barba negra. Deteve-se a um metro de mim, severo como um Anúbis guardião de túmulo. Receei de repente ter caído numa cilada. Que mais fácil do que fazer desaparecer um intruso acusando-o de ter violado o recolhimento de uma mesquita? No entanto, eu agora parecia um árabe perfeito. Mesmo o condutor de burros me tomara por um dos seus compatriotas, esquecendo-se de me roubar. Se aquele cérbero me agredisse é porque eu tinha sido denunciado. Sentindo-me preso num laço, faltava-me o ar. Bater-me? Em momento algum, na minha curta existência, recorri à violência. Repugna-me. Mesmo para defender a minha vida, achava-me incapaz de travar um combate.

Permanecemos imóveis, como que fascinados um pelo outro. Eu devia sem dúvida ter tentado fugir, mas considerava essa atitude indigna. Talvez o primeiro golpe desferido desencadeasse em mim uma vontade diferente. O turco avançou, de sabre em evidência, com extrema lentidão. Veio-me à boca o gosto dos hieróglifos. O seu apelo irresistível arrancou-me à resignação que me pregava ao solo. Cerrando os punhos, decidi defender-me.

- Parta - ordenou ele. - Esperam-no no bazar, em Khan el-Khalil. O vendedor de livros.

Embainhando o sabre, afastou-se de mim como se eu não existisse.

Khan el-Khalil era a mais famosa e a mais atravancada das entradas do bazar. Grande quantidade de tendas quase impedia o acesso. Vendedores de bolos, mendigos, fumadores de narguilés, condutores de burros, misturavam-se num permanente tumulto, modulado como o marulhar de uma vaga inesgotável. Confeiteiros apostrofavam atletas que, enquanto demonstravam a sua capacidade para levantar blocos de pedra, impediam a clientela de se aproximar do balcão. Um fabricante de chinelos de cabedal vermelho divertia-se com o incidente.

Nenhuma livraria à vista. O fabricante aproximou-se de mim.

- As acções dos homens são julgadas de acordo com as suas intenções - disse ele. - A cada homem a sua recompensa, de acordo com as suas intenções.

Recitava o provérbio inscrito sobre a porta dos barbeiros.

- Quais são as suas? - perguntei.

Afastando as filas de chinelos, deixou a descoberto uma série de livros encadernados a vermelho.

- Tire um.

Tirei um exemplar do Corão.

- O do lado interessar-lhe-á mais.

Obedecendo-lhe, descobri um relato de viagens escrito por um veneziano que tinha visitado o Egipto no século xvii e redescoberto Tebas! Enquanto eu mergulhava numa leitura apaixonada, o livreiro-sapateiro tocou-me no antebraço. Ergui os olhos e notei no meio da multidão dos que passeavam uma silhueta familiar: Drovetti!

Vestido à turca, avançava com o seu andar marcial e decidido, contrariando a indolência dos orientais. Esquecendo o livro do veneziano, lancei-me em sua perseguição, decidido a não o perder de vista e a pedir-lhe contas. Então Rosellini não se tinha enganado. Porque razão o cônsul-geral tinha vindo ao Cairo ao mesmo tempo que nós?

Um cortejo nupcial desabou sobre mim. Imobilizando-se no meio da ruela, rapazes e raparigas ergueram uma tenda sobre quatro hastes de madeira, com uma peça de pano como tecto. Tocadores de tambor fizeram ecoar os seus instrumentos, enquanto eram penduradas as lanternas e dispostos os bancos para permitir que os convidados descansassem. Serviram café aos passantes que tomaram parte na festa. Aquela explosão de alegria provocou-me grande embaraço, pois Drovetti aproveitara para desaparecer. Esgueirando-me entre as pessoas amontoadas, tendo o cuidado de não empurrar ninguém e de não me mostrar impaciente, consegui ultrapassar o obstáculo.

À minha frente surgiu Lady Ophelia Redgrave.

O vestido violeta formava uma mancha incongruente no meio das galabiés castanhas. Imóvel no centro do remoinho dos que passavam, observou-me com expressão inquieta.

- O que faz aqui?

- Eu é que lhe devo fazer essa pergunta. Não viu agora mesmo o cônsul-geral Drovetti?

Embaraçada, hesitou.

- Não... claro que não... Drovetti não está no Cairo. Ficou em Alexandria.

A ruela era demasiado estreita para que não tivesse visto Drovetti. Com certeza tinham tido tempo para trocar algumas palavras. Estava agora convencido que tinham marcado encontro no bazar, ocultos na populaça. A minha presença devia tê-los atrapalhado.

- Enviou-me alguma carta, em França, antes da partida da expedição? Os seus belos olhos verdes matizaram-se de espanto.

- Nunca tive o prazer de lhe escrever - respondeu com uma ligeira ironia na voz.

Lady Redgrave tinha excepcionais talentos de comediante, mas a situação real esclarecia-se. A inglesa e Drovetti tinham estabelecido um pacto contra mim, mandatados pelos meus adversários europeus, decididos a impedir-me de verificar as minhas descobertas no terreno. Drovetti observava-me à distância, tomando as disposições necessárias para entravar qualquer progresso, enquanto que Lady Redgrave realizava o seu trabalho de espia junto de mim. Montada assim, a armadilha não deixaria escapar a sua presa. Sairia do Egipto um Champollion quebrado, vencido e ridicularizado. Eu estava condenado a morrer naquela terra sem ter transmitido ao mundo o fruto dos meus trabalhos.

- Está muito preocupado, senhor Champollion. Não poderia servir-me de guia neste dédalo? Só o senhor me pode fazer descobrir as maravilhas que se ocultam sob estes ouropéis e falsas peças de ourivesaria.

O seu sorriso desarmou-me. Vagas humanas contornavam-nos sem chocar connosco. Formávamos uma ilhota de imobilidade no seio daquele inesgotável movimento. Embora as minhas suspeitas em relação a Lady Redgrave permanecessem vivas, não tive coragem de recusar o seu pedido.

Dando-me o braço, arrastou-me para as profundezas do souk, na direcção do bairro dos ourives. Ali se misturavam horríveis imitações e pequenas obras-primas realizadas por artesãos para quem o tempo não contava. Sem qualquer necessidade dos meus conselhos para distinguir o verdadeiro do falso, Lady Redgrave escolheu uma pulseira de ouro adornada com lápis-lazúli cuja cor azul-noite evocava o céu nocturno do Egipto onde se revelam miríades de estrelas, abrigo das almas dos defuntos faraós.

Enquanto ela examinava a jóia regateando o preço, de acordo com o hábito local, o meu coração estremeceu. O bloco de pedra que servia de balcão ao ourives tinha uma dezena de hieróglifos, gravados no estilo mais puro do Antigo Império! Interrompendo a discussão do negócio, pedi ao artesão que me deixasse contemplar aquela pedra preciosa entre todas. Intrigado, o homenzinho concordou, retirando utensílios, jóias e a balança que se amontoavam sobre o augusto vestígio.

Empalideci. Tinha um cartucho, uma oval terminada por uma argola na qual estavam inscritos os nomes dos faraós.

- Compro-lha - disse eu ao ourives. Este recusou.

- De onde veio esta pedra?

- Pertence à minha família há várias gerações. É o nosso talismã. Protege-nos e nunca abandonará o nosso atelier.

Conhecia bem demais a força da superstição para me considerar capaz de a vencer. Aquele bloco extraordinário estava definitivamente perdido para a ciência. Logo que partíssemos, a tarefa mais urgente do ourives seria ocultar a pedra em qualquer lugar inacessível.

- O que lhe revela esta inscrição? - inquietou-se Lady Redgrave, enquanto eu copiava os hieróglifos.

- Uma nova prova do meu sistema de decifração e a recordação de um dos maiores reis que a terra jamais teve! Repare... esta peneira transcreve-se kh, este pintainho de codorniz, u, esta víbora com cornos, f e de novo o pintainho... lê como eu: ( •i-^.J Khufu,o nome do faraó a que os gregos chamaram Quéops e cujo nome egípcio significa “Que Deus me proteja”.

- O construtor da grande pirâmide?

- O próprio.

- Esta pedra provém do seu monumento?

- Com certeza... Alguns viajantes afirmavam que boa-parte do Cairo tinha sido construída com blocos arrancados às pirâmides... Receio bem que seja essa a terrível realidade.

Lady Redgrave estava comovida. Apesar do autocontrolo que evidenciava em qualquer circunstância, constatei que a minha demonstração a tinha pelo menos abalado. Pela primeira vez, sem dúvida, germinava no seu espírito a ideia de que eu não era nem um escroque nem um fantasista.

- Se Deus protegeu Quéops - disse ela com gravidade - que possa mostrar-se igualmente generoso para consigo.

Visitámos os souks até ao cair do dia, momento em que os vigilantes turcos fecharam as portas do bazar diante das quais permaneceriam de guarda até à madrugada seguinte. No Oriente, a noite cai em poucos minutos. Com ela veio o silêncio. A maré humana desapareceu. Os cães saíram do seu torpor para percorrerem as ruas em busca de algum alimento. Os cafés iluminaram-se com lanternas, tal como as tendas que permaneciam abertas. Os guardas das ricas moradias prepararam os leitos de folhas de palmeira na soleira das casas que estavam encarregados de proteger contra os saqueadores. Ali se estenderiam e dormiriam até ao nascer do dia. Os apelos dos muezzins atravessaram o ar tépido, convidando os crentes à oração.

Pareceu-me que Lady Redgrave apertava o meu braço com um pouco mais de força. Inebriado pela doçura da noite egípcia, banhado pelos seus perfumes, perturbado pela presença de uma inimiga demasiado sedutora, esquecia por um instante as exigências da minha busca. A felicidade passou trespassando-me como uma rajada de vento, como essa brisa refrescante que os antigos egípcios saboreavam no mais profundo do seu ser quando o calor do dia se atenuava.

Mas o que me reservava o amanhã?

 

Dois dias depois da nossa chegada ao Cairo, onde estávamos agradavelmente alojados em villas do bairro europeu, ofereci aos meus companheiros uma festa que durou, como era hábito, das seis horas à meia-noite. Só o padre Bidant se recusou a tomar parte nela, convencido de que a parte essencial daquelas diversões era constituída por diabruras licenciosas. Dirigiu-me amargas censuras quanto à minha conduta, acusando-me de me deixar corromper pelos costumes orientais. Como os meus protestos eram letra morta, deitei para trás das costas as admoestações do bom padre, que se enganava quanto à natureza daquelas distracções cairotas. No capítulo de diabruras, apenas tivemos direito a um longo recital da cantora Nefíse, o rouxinol do Cairo, ídolo de um povo inteiro. Para ouvidos europeus, habituados a harmonias requintadas, a provação foi dura. A melopeia lancinante, de inflexões lânguidas, acabou no entanto por nos encantar e mesmo por nos fazer mergulhar numa espécie de beatitude.

Como não pensar nas orquestras faraónicas, nas sacerdotisas músicas e cantoras cuja voz se destinava a encantar os deuses? Esses sortilégios arrancavam a alma às vulgaridades deste mundo e, pela magia dos sons, faziam-na mergulhar no sagrado.

O padre Bidant não estava totalmente errado: o Oriente começava a tomar posse de nós.

Esta festa serviu de oportunidade para apresentar os membros da expedição às personalidades influentes do Cairo, cujos favores íamos conquistando pouco a pouco. A mais importante delas não era a mais brilhante: tratava-se de um médico arménio, Botzari, de pequena estatura, pele escura e espírito vivo. Tendo em conta as atenções que lhe dispensavam, era fácil compreender que detinha entre as suas mãos o destino de inúmeros notáveis.

Com o decorrer das conversas, fiquei a saber que ocupava a invejada posição de primeiro intriguista do paxá e que nenhuma questão de envergadura chegava a bom termo sem o seu acordo.

Quando me interrogava sobre a melhor maneira de o abordar, dirigiu-se a mim, brincalhão.

- Saiamos para o jardim, senhor Champollion. Lá estaremos tranquilos para conversar.

Quem nunca conheceu a doçura de um jardim oriental numa noite de Verão ignora que o paraíso existe na terra. Os perfumes das rosas misturam-se com os dos hibiscos e das tamargueiras: uma apaziguadora frescura sobe do solo regado pelos jardineiros ao crepúsculo.

Damos conta de nós a sonhar com um universo em que o ser humano soubesse de novo confraternizar com a mais humilde das flores.

O médico arménio não se entregava a tão bucólicos sentimentos. Para ele, o Cairo era uma cidade de negócios em que exercia o seu poder.

- Está satisfeito com a sua estadia, senhor Champollion?

- Cada dia é uma revelação.

- A sua reputação cresce constantemente... Sabe como o chamam?

- Ignoro.

- Tem direito a múltiplos títulos: “filho de faraó”, “homem que lê os sinais mágicos-... O que eu prefiro é o mais simples. Chamam-lhe muitas vezes “o egípcio”, como se tivesse nascido nesta terra e nunca a tivesse abandonado.

As palavras de Botzani fizeram-me sobressaltar. Considerei-as quase assustadoras, revelando-me aspectos misteriosos do meu destino nos quais me recusava a reflectir.

- Não passa de poesia - respondi, pouco seguro.

- Desconfie deste país - disse o arménio gravemente. - Os árabes não conseguiram abafar as antigas divindades. Estão ainda bem presentes graças a essas inúmeras pedras gravadas das quais pretendem que possui a chave. É detentor de um temível tesouro, senhor Champollion. Imagina bem as consequências dos seus actos?

À surpresa de ouvir um discurso teológico na boca de um intriguista sucedeu a fúria. Que autoridade se arrogava aquele médico para pôr em causa as minhas investigações?

- Senhor Botzari, a decifração dos hieróglifos é actualmente inevitável. Ninguém poderá impedir que esse tributo seja em breve prestado à ciência.

Um musaranho, com um gracioso salto, fugiu à nossa frente. Pensei com curiosidade que o pequeno animal, inimigo jurado das serpentes, era uma das incarnações de Áton, o grande deus criador dos antigos egípcios.

- A ciência, senhor Champollion, a ciência... Não passa de uma ilusão mais.

O desagrado evidenciado pela expressão do arménio fez por instantes vacilar as minhas certezas. Teria realmente nesta terra a missão de ler de novo a língua dos deuses, arrancar ao esquecimento a maior das civilizações? Não se trataria de uma pretensão louca?

- Esqueça a sua ciência, senhor Champollion - recomendou. - Não lhe servirá de nada nas grandes provações.

Reconfortado, sorri.

- Nesse ponto, engana-se. É a minha melhor aliada desde a infância. Não há tormento que não tenha conseguido ultrapassar trabalhando nos meus queridos hieróglifos.

Botzari parou de andar e olhou-me com perspicácia, trespassando-me a alma com os seus olhos penetrantes.

- Tem muita sorte - concluiu. - Interrompa aqui a sua viagem.

- Porquê? - indignei-me.

- Não conseguirá evitar todos os perigos que o espreitam.

- Quais, diga-me? Quem me odiará ao ponto de querer atentar contra a minha vida?

- Regressemos - exigiu.

O arménio conseguira estragar-me aquela doce noite. A angústia apertava-me a garganta. As ameaças proferidas por aquele homem calmo, de espírito sereno, possuíam um sinistro sabor.

No limiar da vasta moradia, deteve-se, sonhador.

- Conhece melhor os antigos egípcios do que os novos senhores deste país, senhor Champollion. As suas investigações tornam-se perturbadoras para estes últimos. As antiguidades apenas interessam aos sábios. Deixe portanto a podridão humana cobrir as ruínas e engoli-las. O Egipto apenas tem a morte para lhe oferecer.

- Estou aqui para devolver a vida ao Antigo Egipto, seja qual for o preço a pagar.

Olhou-me de baixo.

- Preveni-o. Regresso amanhã a Alexandria. Portanto, adeus, senhor Champollion.

O arménio eclipsou-se. Quando reencontrei os meus companheiros de viagem, estendidos em almofadas de seda e fumando narguilés, dificilmente conseguia conter a minha perturbação. Nestor L’Hôte notou-o.

- As coisas não vão bem, general?

- Sim, sim...

- Más notícias?

- Sim e não. Encontrei um mensageiro do além.

- Ei-las, ei-las! - gritou o professor Raddi, de pé no tecto da cabina do Hátor, descobrindo as célebres pedreiras de Tura, de onde os antigos extraíam o mais belo calcário do país.

Os gritos de entusiasmo do mineralogista tinham despertado a equipagem dos dois navios, assim como os felás ainda adormecidos nas suas cabanas de estacas, na margem a que estávamos acostados. Durante a noite de 30 de Setembro, reunira os meus companheiros a bordo do Isís para lhes explicar os meus projectos: explorar aquela espantosa região de onde tinham saído a necrópole de Mênfis e todos os grandes edifícios dessa cidade. Nenhum obstáculo, nem mesmo um calor sufocante, nos deteria. Tínhamos a oportunidade de penetrar no ventre de pedra onde nascera o Egipto dos construtores. Tensos, quase nervosos, decidimos ir-nos deitar muito cedo.

Não conseguira conciliar o sono antes das duas horas da manhã. Tal como os outros, fui acordado pela explosão de alegria do bom professor. Durante aquele breve repouso, sonhara com pedreiros e talhadores de pedra extraindo blocos destinados aos templos. Julguei reviver os seus gestos, os seus esforços, os seus sofrimentos. Transformava-me nas suas mãos. Raddi arrancou-me àquela visão mas, graças a ele, saboreei uma indizível felicidade: passar de um sonho a uma realidade que possuía também o encanto de um sumptuoso sonho. Tura! Encontrava-me realmente em Tura, junto daquele horizonte calcário onde soprava ainda o vento da eternidade.

Às cinco horas da manhã reuníamo-nos na margem, em frente dos navios. Lady Redgrave, que se levantara antes de nós, esperava, montada num burro cinzento. Vestia de verde e trazia um chapéu branco de largas abas. Aproximei-me dela.

- Minha senhora, não é...

- Não desperdice palavras, senhor Champollion. Sei de antemão o que vai dizer: não é lugar para uma mulher. Nem tente demonstrar-me essa ideia absurda. Quero conhecer tudo deste país.

Não tinha qualquer possibilidade de a fazer recuar na sua decisão. Aborrecido, passei-lhe à frente seguindo o professor Raddi que não esperara pelo meu sinal para avançar para as pedreiras. A bela espia não abrandava a vigilância. Eu devia experimentar a mais profunda irritação, mas bem no fundo sentia-me satisfeito por não a ver afastada da nossa pequena comunidade.

- Parecem enormes casernas destinadas a um exército de gigantes - afirmou Nestor L’Hôte, descobrindo as pedreiras do cimo de uma crista rochosa. - Lá em baixo - disse, apontando com o dedo escavações na rocha - há portas e janelas.

Sentíamo-nos esmagados pela vastidão da tarefa. Como explorar semelhante imensidão? Atribuí a cada um dos meus companheiros um sector de escavações, de forma a cobrir o mais vasto território possível. Ro-sellini, pouco propenso ao trabalho físico, emitiu um vago protesto. Nestor L'Hôte, feliz por despender o seu excesso de energia, distribuiu apitos. Ficou combinado que quem efectuasse uma descoberta importante utilizaria o instrumento para me prevenir.

- Creio que se esqueceram de mim - interveio Lady Redgrave.

- Minha senhora, não é...

Não me atrevia a terminar a frase. O brilho divertido que lhe iluminava o olhar cobriu-me de ridículo a meus próprios olhos. Estendeu a mão para receber um apito e dirigiu-se para o sector que eu lhe tinha destinado.

O professor Raddi trabalhava num estado próximo do delírio. Apalpava cada bloco, examinava-o com ternura, metia lascas num grande saco, inconsciente do peso que acumulava. O calor, que aumentava rapidamente, diminuía o ardor dos meus companheiros. O meu não esmorecia. Copiei numerosas inscrições datando das épocas mais remotas e recordando o nome daqueles que tinham trabalhado naqueles lugares.

Um apito.

Vinha do sector de Lady Redgrave. Pensei de imediato num acidente e, sem pensar no perigo, corri por uma crista calcária para ir ter com ela.

- Atenção, general! - berrou Nestor L’Hôte.

O seu aviso fez-me estacar. Um ruído surdo encheu-me os ouvidos. Erguendo a cabeça, vi descer na minha direcção um enorme bloco. Instintivamente, recuei, com risco de partir o pescoço uns vinte metros mais abaixo. O bloco passou rente, cobrindo-me de pó. Protegendo os olhos, segui o fim da sua louca corrida no fundo da pedreira.

- Por aqui - indicou L’Hôte, estendendo-me a mão.

Depois de atingir uma plataforma, tomei fôlego. As batidas do meu coração abrandaram.

- Escapou de boa, general.

- Onde está Lady Redgrave?

- Lá em baixo.

De pé sobre um promontório, deslumbrante de beleza sob a violenta u^^r-i mif> parecia nascer da rocha, misturando-se com o ouro do Sol, olhava para nós. Não teria premeditado um crime? Não teria tentado atrair-me para uma armadilha mortal? Precisava de ter uma certeza. Com as pernas ainda trémulas, fui ter com ela.

- Onde está a sua descoberta? - ironizei.

- À sua frente - respondeu ela sem se perturbar, apontando uma parede muito lisa sobre a qual estava gravado um episódio raro, a elevação de um monólito.

Chocado pela segurança do traço, agarrei imediatamente no meu caderno para registar a cena.

- Ao lado - acrescentou ela - está o nome do faraó Psamético. Estupefacto, parei de desenhar.

- Como conseguiu ler?

- Utilizando o seu método - respondeu ela com o mais encantador dos sorrisos.

- Impossível.

- Porquê, senhor Champollion?

- Porque só eu conheço a totalidade do meu método.

- Ignora que possuo o dom da dupla visão? Desculpe; sinto-me um pouco cansada. Volto para o navio.

Vi-a afastar-se, leve como uma deusa nascida do oceano de frescura que, segundo os Antigos, rodeava a terra.

Portanto, tinha revistado a minha cabina e consultado os meus papéis.

Almoçámos numa sala talhada na própria rocha, arranjada durante o reinado do faraó Amósis, fundador da XVIII dinastia, que iria fazer de Te-bas o centro do mundo. Cada um fazia o balanço das suas descobertas. Rosellini reencontrara o bom humor.

- Eu não tinha atribuído a ninguém o sector escarpado de onde rolou o bloco. Alguém trabalhava lá no momento do incidente?

- O padre Bidant - respondeu Rosellini. - Queria ver a pedreira do ponto mais elevado.

O religioso, de costas apoiadas à parede do fundo da nossa estranha sala de refeições, fazia uma sesta. Parecia dormir profundamente. Pareceu-me inútil acordá-lo. Como teria o padre Bidant podido conceber um acto criminoso? A imaginação é má conselheira.

Um tiro de canhão rasgou a tranquilidade de um meio-dia ardente. Saímos para descobrir um curioso espectáculo: uma centena de felás e uma vintena de cavaleiros, conduzidos por um xeque idoso e barbudo, com um turbante verde azeitona. Toda aquela pequena multidão guinchava. A nossa curiosidade transformou-se em estupor quando vimos os felás deitarem-se de barriga para baixo na terra, colados uns aos outros, formando uma verdadeira estrada humana aberta aos cascos dos cavalos que se preparavam para lançar-se sobre ela.

O xeque passou primeiro. Os felás urraram de dor sob o peso do quadrúpede que esmagava os pescoços, as costas, os rins. Horrorizado, quis correr para o local do suplício, mas o meu servidor Soliman barrou-me a passagem.

- Não intervenha. Aqueles homens são voluntários para o ritual da Dô-séh. Os que têm a sorte de ser gravemente feridos vêem os seus pecados perdoados.

Da estrada humana subia uma melopeia, “Alá, Alá!”, que emergia com dificuldade de um concerto de gemidos. Os cascos não ferrados quebravam os ossos, abriam as carnes, mas ninguém fugiu antes da passagem do último cavaleiro. Lady Redgrave, que regressara do barco para almoçar na nossa companhia, solicitou o meu braço. Tal como eu, sentia-se incapaz de desviar o olhar daquela cerimónia abjecta em que o sangue era derramado em nome das mais loucas crenças. Como este Egipto estava longe do dos faraós!

Os infelizes, mais ou menos estropiados, levantaram-se com dificuldade. As roupas estavam manchadas de sangue. Ainda tiveram força para se inclinar em frente do xeque do turbante verde. Cada um retomou em seguida o seu caminho para o Cairo, os feridos apoiando-se mutuamente para andar.

- Resta um! - exclamou Lady Redgrave.

Uma forma alongada, numa cova. O seu vestuário era apenas sangue e areia. O rosto do homem estava profundamente enfiado na terra.

Tinha a nuca quebrada.

Quando Nestor L'Hôte o voltou para constatar a morte, tive uma horrível surpresa. Reconheci o vendedor de pistácios que me tinha aconselhado, no bazar do Cairo. Os punhos estavam atados com uma corda fina. Aquele, pelo menos, não fora voluntário para entrar tão cedo no paraíso de Alá. Os meus adversários da sombra não podiam ter-me proporcionado aviso mais espectacular.

A triste descoberta das ruínas de Mênfis, a mais antiga capital do Egipto, só veio aumentar a melancolia que se apoderara da nossa pequena comunidade.

Não dissera nada a ninguém acerca da identidade da vítima da Dôséh, não sabendo já a quem conceder uma confiança sem limites. Até mesmo o meu servidor Soliman, que me impedira de intervir, me parecia suspeito.

Em que nada desaparecera a imensa cidade rodeada por um muro branco, aquela que era designada “a Balança-das-Duas-Terras”? Tínhamos à frente dos nossos olhos apenas uma extensão de água de onde emergiam altas palmeiras. Cerca do fim da Idade Média, ainda os templos arrancavam gritos de admiração aos mais indiferentes viajantes árabes. Hoje, não restava um único bloco no seu lugar. Os bárbaros modernos tinham pilhado tudo. Não podendo atenuar a consternação dos meus companheiros, segui Soliman que me conduziu até um colosso de Ramsés II, a sul da antiga cerca, protegido da subida das águas. As pernas estavam quebradas, mas do rosto e do torso intactos emanava uma nobreza que me inundou a alma. A sua simples visão devolveu-me uma energia que julgava perdida.

- Admirável - comentou Rosellini.

- Muito mais do que isso, meu amigo. Lembro-me do desagrado que senti em Roma perante as cabeças enormes dos imperadores que foram tanto carrascos como tiranos. Não passavam de horrores vulgares. Apenas os egípcios souberam aliar o grandioso e o humano. A uma escala tão grande, o menor erro de pormenor torna-se um pecado capital. O escultor teve a inteligência de exprimir apenas o estritamente necessário, sem excluir a delicadeza, a gravidade e o sorriso. É essa inteligência que nos alimenta.

As palavras tinham-me brotado espontaneamente dos lábios. Quase tive vergonha de expressar assim os meus sentimentos, mas tinha a certeza de detectar um dos segredos da arte dos antigos egípcios. Permaneci só durante várias horas, em companhia do colosso, mantendo um diálogo mudo com o único sobrevivente do naufrágio de Mênfis.

Sentando-se sobre o peito de Ramsés, Lady Redgrave interrompeu a minha meditação.

- Apenas está apaixonado pelo velho Egipto, senhor Champollion? Sobressaltei-me.

- Vamos, minha senhora. Saqqara espera-nos.

Esta terra do Egipto, pela qual eu suspirava há tanto tempo, trata-me como uma terna mãe. Conservarei, segundo todas as aparências, a boa saúde que trouxe comigo. Bebo água fresca à discrição e esta água é a do Nilo, que chega até nós pelo canal denominado Mahmudieh em honra do paxá que o fez abrir.

O meu servidor Soliman e os árabes do grupo juram que por todo o lado me tomam por um nativo do Egipto. À prática da língua, que conto dominar perfeitamente daqui a um mês, acrescento o uso da indumentária: turbante na cabeça rapada, casaco bordado a ouro sobre colete de seda às riscas, cinto drapeado do mesmo tecido, calças tufadas, chinelos vermelhos. Um belo bigode cobre-me a boca. Este fato é muito quente e é justamente o que convém no Egipto: suamos à vontade e sentimo-nos bem.

Já estou familiarizado com os usos e costumes da terra: o café, o cachimbo, a sesta, os burros, o bigode e o calor, corroborando o que me disse a minha cunhada, Zoé, no dia do seu casamento com Jacques-Joseph: tem a pele demasiado escura. Clareie pelo menos o rosto para a cerimónia!

Apenas Nestor L’Hôte aderiu como eu à moda local. Rosellini permaneceu numa prudente reserva, conservando os hábitos da Europa. O padre Bidant jurou não abandonar a sua sotaina. O professor Raddi hesita entre o turco e o italiano, vestindo-se de acordo com o que apanha à mão pela manhã. Quanto a Lady Redgrave, utiliza um guarda-roupa sabiamente oriental, conseguindo o milagre de aliar a elegância com as exigências do quotidiano. Ninguém se atreve a importuná-la porque, devido às nossas indumentárias, L’Hôte e eu passamos pelos seus dois guarda-costas.

A planície morta de Saqqara espalhou a perturbação entre os membros da expedição. Tínhamos deixado os dois navios fundeados em frente de Badrashein para nos aventurarmos num deserto árido, o antigo cemitério de Mênfis, semeado de pirâmides destruídas e de túmulos violados. O campo das múmias, como lhe chamavam os árabes, é formado por uma série de pequenos montículos de areia, consequência de escavações cegas e de rapinas, tudo pontuado por ossadas humanas. Os túmulos, adornados com esculturas, estão na sua maior parte devastados ou foram tapados de novo depois de terem sido pilhados. A barbárie rapace dos comerciantes de antiguidades exerceu-se aqui com a maior das ferocidades.

Um perfume de fim dos tempos subia-me à cabeça. Instalámos a tenda no coração daquela fria imensidão, povoada de beduínos com rostos fechados. Tendo conseguido comunicar com eles, arranjei maneira de obter os seus serviços. Ocuparam-se das tarefas domésticas e ficaram de guarda em frente do nosso acampamento, tanto de dia como de noite. O chefe local, o xeque Mohamed, manifestou-me mesmo uma real afeição.

Nunca a solidão me pareceu mais pesada do que em Saqqara. Lady Redgrave, a quem os meus beduínos tinham cedido um magnífico alazão, passava a maior parte do tempo a cavalo. Durante a força do calor, dormia. Durante as refeições, conversava alegremente com os meus companheiros.

Há já três dias que não me dirige a palavra. O padre Bidant, pressentindo sem dúvida a presença dos demónios do deserto, não cessa de reler as Santas Escrituras, que acabará por saber de cor. Tentou evangelizar um jovem beduíno, mas os seus esforços saldaram-se por um absoluto fracasso. Nestor L'Hôte diverte-se como um jovem cão louco. Salta de pirâmide arruinada em túmulo devastado, penetra por toda a parte, segue qualquer guia benevolente e traz-me uma grande quantidade de esboços dos quais só uma ínfima parte terá qualquer valor científico. Acho preferível deixá-lo expressar assim o seu dinamismo para melhor o poder controlar mais tarde. O professor Raddi não sai do seu estado estático. O deserto é o seu reino. Basta-lhe curvar-se para apanhar tesouros. Creio que reconstitui a história geológica desta terra e, quem sabe, de todo o planeta, Rosellini está encantado; regateia a manhã inteira com os indígenas e já adquiriu várias peças belíssimas, entre as quais um sarcófago, para o Museu de Turim.

À noite, os beduínos reúnem-se em redor da nossa tenda. Chegam de todos os lados, sombras silenciosas, e acendem pequenas fogueiras. Contam histórias de almas do outro mundo, lendas, proezas guerreiras. Os meus companheiros, fatigados com os seus trabalhos, adormecem cedo. Lady Redgrave retira-se para a sua tenda privada pela qual Soliman vela.

Não consigo conciliar o sono. A visão de línguas de múmias, de ossadas quebradas, de crânios branqueados pelo orvalho do deserto obceca-me. A minha viagem mal começou, ainda estou longe de Tebas e toco já o nada com a ponta dos dedos. Nenhuma inscrição decisiva me permitiu ainda aperfeiçoar definitivamente o meu sistema de decifração. Não identifiquei o caminho que conduz ao conhecimento da vida na eternidade tal como a entendiam os antigos egípcios. E que pensar das duas misteriosas cartas cujos autores permanecem desconhecidos?

Abandonei o nosso modesto acampamento para me aventurar no deserto. Aquela noite pareceu-me de repente menos hostil. As dunas surgiram-me como as vagas petrificadas de um oceano para sempre imóvel. Não dormem maravilhas do passado sob aquela crosta inerte? Senti um formigueiro nas pernas, indicando-me que um dos corações do meu velho Egipto batia ainda naqueles lugares desolados. Quantas toneladas de areia e de pedra seria necessário escavar para trazer de novo para a luz os tesouros que dormitavam sob os meus pés?

A lua cheia iluminou com o seu brilho intenso um profundo declive no fundo do qual jaziam blocos esparsos. O meu instinto de pesquisador instou-me a explorá-lo. A dimensão das pedras indicava suficientemente que se tratava de um edifício imponente, talvez de uma pirâmide. O meu pé tropeçou num pequeno fragmento de calcário no qual estava conservado um escudo, no estilo das épocas altas. Decifrei imediatamente o nome inscrito no interior: Ounis.

Acabava de descobrir um faraó desconhecido.

A 8 de Outubro, de manhã cedo, a nossa caravana deteve-se em frente da grande esfinge, guardiã do planalto de Guiza e das três grandes pirâmides, formas perfeitas para sempre inscritas na eternidade dos homens. Estávamos todos esgotados, depois de termos caminhado uma parte da noite pelo deserto, tanto para evitar o calor como para saborear a luz fresca daquelas solidões apaziguadoras. Uma nuvem de beduínos precipitou-se para nós, oferecendo tâmaras, água e pão. Recebemos aqueles presentes com verdadeira satisfação, mas tive que lembrar aos meus companheiros a presença de uma dama entre nós para que Lady Redgrave fosse a primeira a ser servida.

Os nossos sete camelos com albarda, agrupados em frente da grande esfinge, aproveitaram um repouso bem merecido. Um gole de água fresca bastou para estancar a minha sede, de tal forma estava fascinado pela majestade vigilante da esfinge e a força dos três gigantes de pedra.

Permaneci longos minutos em frente daqueles túmulos. Quanto mais os contemplava, mais pareciam crescer, arrastando-me com eles para o céu. Os mais imensos monumentos jamais saídos da mão dos homens seriam, como tinham pretendido Voltaire e outros espíritos iluminados, apenas edifícios à glória do nada? A admiração que sentia provava-me o contrário. E, de repente, compreendi. Não eram amontoados de pedras, absurda demonstração de vaidade temporal, mas cânticos de imortalidade. As pirâmides não são túmulos mas moradas de ressurreição. Sim, o homem é nada e pó. Mas o seu espírito é luz. Para o abrigar, precisava de uma morada à sua medida e da mesma natureza.

- Estas pirâmides deviam ser desmontadas pedra por pedra - considerou o professor Raddi. - Tenho a certeza que o seu âmago deve ser apaixonante.

- Que monstruosa expressão da mais louca das vaidades! - exclamou o padre Bidant.

Puxei-o imediatamente de parte, enquanto Rosellini começava a regatear as suas futuras aquisições e Nestor L'Hôte desenhava a cabeça da esfinge. Lady Redgrave, sentada por baixo de um guarda-sol seguro por So-liman, dormitava.

- Padre, essas críticas não fazem sentido nenhum. Já que tem a pouca sorte de detestar o Egipto, tenha pelo menos o bom senso de se calar.

Uma miríade de falcões dançava uma ronda incessante em torno dos cumes das pirâmides. O religioso evitou olhar-me nos olhos.

- Não seja insolente - replicou. - Não tem nada que ditar a minha conduta. Sou eu, pelo contrário, que devo vigiar a sua. Olhe para si, Champollion! Já nada tem de um homem bem-educado! Se continuar a deixar-se seduzir por este país cheio de demónios, em breve perderá toda a religião e tornar-se-á o mais pernicioso dos sábios.

- Usaremos o luto juntos, padre. A vaidade que o senhor atribui aos faraós só existe no seu pensamento. Estes imensos monumentos são símbolos. Olhe à sua frente! Pois não varrem a nossa mediocridade, as nossas mesquinhezas, a nossa miserável humanidade?

O padre Bidant encolheu os ombros e voltou-me as costas, afastando-se a resmungar. Nestor L'Hôte puxou-me pela manga.

- General... venha depressa! Uma experiência que não pode perder.

Segui-o sem reflectir. Içado pelo seu braço potente e pelo de um beduíno ágil como um macaco, escalei nem sei como uma aresta da maior das três pirâmides, a de Quéops. Os seus blocos formavam degraus gigantescos. A princípio entusiasmado por aquela ascensão, fiz mal em voltar-me a meio da subida e olhar para baixo. O meu coração palpitou bruscamente, faltou-me a respiração, vacilei. Para escapar à vertigem, fechei os olhos e espalmei-me de encontro à parede. Sentia-me incapaz de avançar ou de recuar ou mesmo de pedir socorro.

- Trepe, general! - exclamou L'Hôte, bem acima de mim.

Permaneci mudo. Invadiu-me uma onda de terror. Ter-me-ia L'Hôte arrastado até aqui para que eu sucumbisse ao mal-estar e quebrasse o pescoço da forma mais natural possível? Mas como teria ele sabido da minha propensão para a vertigem?

Uma mão poisou-me no ombro. Por um instante tive a impressão que me empurrava para o vácuo.

- Não está bem, general?

- Sinto-me mal - gaguejei, sem abrir os olhos.

- Olhou para baixo? Abanei com a cabeça.

- Imprudência, general. Deixe-se guiar. Vai admirar a paisagem lá de cima. Tenho a certeza que não terá mais vertigens. Dê-me a mão, trepe e não pense senão nas pirâmides.

Fraco como uma criança, entreguei-me às ordens de L'Hôte. Os blocos de pedra tornavam-se o meu refúgio. O último reduto entre o meu corpo ofegante e o vácuo. Dava-me segurança tocar-lhes. Como um cego, terminei a ascensão com pés firmes, fixando toda a energia apenas no objectivo a atingir: o cume.

- Já chegámos, general.

A cento e quarenta metros acima do solo, no topo do mais gigantesco edifício concebido por um espírito humano, abri finalmente os olhos, gozando uma visão incomparável. A este, a borda do planalto de Guiza, o Nilo e os rumores do Cairo. A oeste, o deserto. A norte, as pirâmides de Abu Rawash. A sul, Abusir, Saqqara e as duas gigantescas pirâmides de Dahshur erigidas pelo bom rei Sneferu. Era a obra do Antigo Império que assim se oferecia, um povo de pedras erguidas para o absoluto.

- Só nos resta calarmo-nos - disse L'Hôte, fascinado.

O guia beduíno adormeceu com a cabeça sobre os joelhos. L'Hôte desenhava. Eu contemplava. Permanecemos mais de duas horas no cume da pirâmide de Quéops. No lugar onde deveria encontrar-se o piramídion. Os antigos não tinham querido terminar a obra, por muito prodigiosa que ela fosse. A última pedra pertencia apenas ao Criador.

No fim de um dia tão exaltante como extenuante, encontrámo-nos na orla do deserto e das terras cultivadas, sob um bosque de acácias, convidados para uma refeição a que presidia o xeque Mohamed.

- Não há Deus a não ser Deus - declarou ele depois de nos ter convidado a sentar em almofadas pobremente bordadas mas confortáveis.

A refeição era apenas constituída por bolos de cevada; a amizade supriu a austeridade da comida.

- Passei horas soberbas - disse à minha esquerda Lady Redgrave, em voz baixa.

- Não esperava voltar a ouvir a sua voz - censurei eu.

- Ignora que uma mulher definha na solidão?

O meu vizinho da direita, um beduíno, pediu-me para olhar na direcção do xeque Mohamed que se preparava para falar de novo.

- Abençoada seja a vossa expedição, senhor Champollion! - proclamou com ênfase. - Desde Adão e Eva, todos os homens são irmãos, mas ignoram-no. Possa o senhor fazê-los descobrir o que o seu coração aqui veio procurar.

O xeque não pronunciou mais palavras, consagrando-se à refeição. Teria gostado de o interrogar sobre aquelas afirmações enigmáticas, mas a etiqueta oriental proibia-mo. Quando comíamos em silêncio, uma série de tiros de espingarda fez sobressaltar os convivas.

Os beduínos assinalavam assim a chegada de um cavaleiro. Este entrou imediatamente na tenda e curvou-se perante o xeque. Vestido à turca, tinha o porte distinto de Rosellini e a força de Nestor L'Hôte.

- Champollion está aqui? - perguntou.

- Sou eu - disse, levantando-me.

- Queria encontrá-lo. O meu nome é Caviglia.

Caviglia! Olhava-o como se descesse do céu. O homem que vinha ter comigo era o que eu desejava a todo o custo encontrar no decurso da minha viagem.

Caviglia sabia tudo sobre o planalto de Guiza. Onze anos antes, tinha posto a esfinge a descoberto, explorado as pirâmides, iniciado numerosas escavações de cujos resultados só ele tinha conhecimento. Homem estranho, pouco conciliador, recusou conversar com os outros membros da expedição, querendo apenas dialogar comigo e a sós. Durante três longos dias, descreveu-me os seus trabalhos, proibindo-me de tomar notas, sob pena de o ver desaparecer. Almoçávamos e jantávamos ao ar livre, ingerindo tâmaras e pães trazidos pelos beduínos que lhe votavam um verdadeiro culto. À noite, eu dormia na tenda do xeque Mohamed cujo acampamento se deslocava constantemente. Caviglia reaparecia de madrugada, dotado de uma energia sempre renovada e demonstrando uma paixão igual à minha pelo mínimo vestígio de antiguidade egípcia.

Aprendi tanto com aquele homem em três dias como durante anos de estudos em bibliotecas. Estava simultaneamente triste e feliz por me ter desembaraçado da vigilância constante de Lady Redgrave. A que obscuras combinações se entregaria na minha ausência? Porque tinham desaparecido os cães de guarda do paxá e de Drovetti, Abdel-Razuk e Moktar? Como evoluiriam as relações entre os membros da nossa comunidade, privados do seu "general"?

- Está preocupado, Champollion - notou Caviglia, sentando-se à minha frente.

O Sol punha-se. Bebíamos sumo de alfarroba em frente da tenda do xeque Mohamed.

- Agradeço do fundo do coração a sua ajuda, mas...

- Mas pesa-lhe a solidão.

- Não. Mas devo cumprir a função que detenho junto dos membros da minha expedição.

Uma expressão de desagrado surgiu no rosto de Caviglia.

- Uma triste equipa... Bidant é um padre astuto que apenas deseja a sua perda. Rosellini é um comerciante, como tantos outros falsos sábios. L'Hôte, um brutamontes sonhando com brechas e elevações. O professor Raddi, um iluminado perigoso. Quanto a Lady Redgrave... Traí-lo-ão todos, Champollion.

Enfureci-me.

- Não tem o direito de falar assim!

- Encontrou o cartucho do rei Ounis? A pergunta apanhou-me desprevenido.

- Como sabe...

- Não há acasos no Egipto, Champollion. Esse sinal foi com certeza colocado no seu caminho... Bonaparte viveu uma aventura semelhante à sua.

- Qual? - perguntei, intrigado.

- Bonaparte entrou na grande pirâmide na companhia do seu guia. Permaneceu muito tempo no interior. Quando saiu, a sua palidez era extrema. "'O que se passou? interrogou o seu ajudante-de-campo. 'Nada que eu possa explicar', respondeu Bonaparte. 'Não vale a pena falar, não me acreditariam. E depois, jurei segredo.'"

Espantado com aquelas revelações, tentei, por minha vez, saber mais. Mas Caviglia mostrou-se inabalável.

- Bonaparte foi apenas um adepto entre outros. Preocupe-se com o seu próprio destino, Champollion. Os meus amigos e eu esperamo-lo há muito tempo. A tradição não foi perdida, mas as suas descobertas são essenciais. Gostaríamos de trabalhar consigo.

Caviglia não abandonava a natural severidade. Sentia-me simultaneamente atraído e desconfiado.

- O que exige de mim?

- O seu conhecimento dos hieróglifos.

- E o que me oferece?

- As chaves que lhe faltam ainda e o conhecimento do seu destino - respondeu ele, olhando ao longe, na direcção do deserto. - Compete-lhe a si decidir. Esteja esta noite junto da pirâmide de degraus de Saqqara, com o cartucho de Ounis.

Caviglia levantou-se. Eu julgava sonhar. O que significavam aqueles mistérios? Se aquele homem não fosse um célebre pesquisador, facilmente o teria considerado um ilusionista e um charlatão. Mas a gravidade das suas afirmações e da sua atitude desmentiam semelhante ideia.

- Espere... Não me mandou uma carta para França? Caviglia não se voltou.

- É possível - admitiu, antes de montar no seu cavalo e desaparecer no poente.

Estou convencido de não ter medo de nada a não ser da estupidez humana que pode fazer fracassar os mais nobres empreendimentos. Desde a minha juventude que enfrento o desconhecido e tentei aceitar os seus desafios. No entanto, aquele que Caviglia me propunha desconcertava-me. Exigia um acto de confiança para além do que era razoável. Uma única certeza: Caviglia era o autor de uma das duas cartas. Mas de qual? Se se tinha recusado a ser mais preciso não fora exactamente para melhor me atrair a uma cilada?

A planície das múmias, Saqqara, a angustiante... Seria a minha última etapa na terra? Não me sentia preparado para renunciar a esta vida enquanto as minhas investigações não estivessem terminadas. A prudência teria exigido que permanecesse junto dos membros da minha expedição, mas uma curiosidade imperiosa impelia-me a avançar no dorso de um burro em direcção a Saqqara sem prevenir ninguém. Que homem sensato teria recusado a possibilidade de conhecer o seu destino e obter o tesouro que procurava apaixonadamente?

Vi a pirâmide em degraus de Saqqara pela primeira vez. Antes, aquela massa um pouco informe enfiada num monte de areia e de cascalho não me tinha impressionado nada. Na claridade lunar, surgiu-me na sua antiga majestade. Senti desejo de a desobstruir com as minhas próprias mãos para lhe devolver o seu esplendor.

Quando me ajoelhei, uma sombra gigantesca ergueu-se à minha frente.

 

As tâmaras do pequeno-almoço eram deliciosas. Um vento do norte tornava a manhã agradável. A visão das três pirâmides do planalto de Gui-za proporcionava a mais inesquecível das recordações. Lady Ophelia Red-grave não tinha fome. Já não sentia qualquer prazer na contemplação. Há mais de uma hora que percorria o deserto a cavalo, ousando aventurar-se nos mais hostis acampamentos de beduínos.

De regresso à tenda onde dormiam os membros da expedição, viu primeiro o padre Bidant, bebendo chá de hortelã, com o missal ao alcance da mão. Rosellini estudava textos hieroglíficos, incapaz de os decifrar sem a ajuda do mestre. Nestor L'Hôte, de torso nu, entregava-se a exercícios de agilidade. O professor Raddi, indiferente ao mundo exterior, inventariava fragmentos de calcário que examinava à lupa.

Lady Redgrave desmontou e dirigiu-se para Rosellini.

- Viu Soliman?

- Não - respondeu o italiano.

- Não há notícias do xeque Mohamed?

- Nenhumas. Segundo os beduínos, partiu para sul. E... não conseguiu saber nada?

Lady Redgrave mordeu os lábios.

- Actualmente, é um facto que Champollion desapareceu.

Julguei que a pirâmide em degraus se abatia sobre mim. A sua sombra gigantesca envolveu-me como uma mortalha. Voltei-me com rapidez, sentindo uma presença atrás de mim.

Caviglia.

- Está pronto para me seguir, Champollion?

Aquiesci.

Caviglia passou-me à frente. Seguimos ao longo da pirâmide em degraus e dirigimo-nos para o meio da face norte. A massa de entulho era enorme, chegando quase até ao cimo do edifício e estragando qualquer perspectiva. Caviglia escalou a muralha de areia até meio do declive, afastou um grande bloco com um esforço considerável que demorou longos minutos e pôs a descoberto a entrada de uma passagem muito estreita, que mal permitia a passagem de um corpo.

- Este caminho conduz ao fundo dos infernos - declarou. - Faça favor, Champollion.

Haverá presente mais exaltante do que ir ao coração de uma pirâmide? Enfiei-me pelo estreito orifício, seguido por Caviglia que teve o cuidado de recolocar o bloco no seu lugar. O declive revelou-se muito íngreme. Desci-o de costas, com o nariz colado ao tecto, avançando à medida que dobrava as pernas. Caviglia mantinha-se a considerável distância para não me bater quando eu travava com os calcanhares. Arranhei as barrigas das pernas e os joelhos, engoli poeira, bati com a cabeça, mas apressava-me, ansioso por contemplar a sepultura do faraó que tinha construído a primeira das pirâmides.

Quando começava a faltar o ar, o caminho de descida alargou-se bruscamente e tornou-se horizontal. Reinava naquela profundidade uma doce claridade azulada que acalmou imediatamente as fadigas da exploração. Pude endireitar-me. Avançando naquele apartamento funerário onde devia estar reunida uma família inteira, detive-me, maravilhado, diante de um painel de faiança representando a corrida do faraó, com uma estaca na mão, durante a festa da regeneração em que o chefe do Estado, alimentado pela magia divina, readquiria uma força nova para melhor cumprir a sua função.

- Aqui nasceu o Egipto - afirmou Caviglia. - Este túmulo é o de Djoser, o primeiro faraó que celebrou a união das Duas Terras. Um dia hão-de descobri-lo. Pesquisarão o imenso terreno que o rodeia e da terra sairão obras-primas.

- Porque não revelou esta fabulosa descoberta ao mundo inteiro?

- Porque esperávamos por si, Champollion, e ainda não chegou o momento. Peço-lhe segredo absoluto sobre tudo o que verá esta noite.

- E se eu recusar?

Caviglia não respondeu. O seu olhar foi suficientemente eloquente.

- Guarde estas revelações no seu coração. Saiba calar-se até que nós decidamos outra coisa.

- "Nós"... De quem fala?

- Da confraria dos Irmãos de Lucsor.

Os Irmãos de Lucsor... Tinha ouvido falar deles em Paris como de uma seita que coligia os ensinamentos das civilizações antigas, principalmente da índia e do Egipto. A informação parecera-me tão grotesca que não lhe dera a menor importância.

- Desde sempre soubemos que viria. Um dos nossos Irmãos, Henry Salt, predissera que um jovem francês ia descobrir o segredo dos hieróglifos.

Henry Salt, cônsul-geral da Grâ-Bretanha no Egipto, membro da confraria!

- Passei muitos anos a explorar as pirâmides, a pôr a esfinge a descoberto e a descobrir as passagens subterrâneas entre o planalto de Guiza e o sítio de Saqqara - continuou Caviglia. - É o caminho que seguiremos... logo que tenha os olhos vendados.

- Porquê? Desconfia de mim?

- É a nossa regra, Champollion.

- Recuso-a.

Todo o meu ser se revoltava contra aquela encenação absurda.

- Faria mal - disse Caviglia com calma. - Esqueceu o que está em jogo?

- Seja mais preciso - desafiei-o com vivacidade.

- Transformar-se para ser iniciado no espírito do Antigo Egipto. Se não adquirir o olhar justo, não passará de um espectador sem consciência.

- E pretende oferecer-me esse tesouro?

- Eu? Claro que não! Só o próprio Egipto é capaz disso... se o considerar digno de tal.

O significado exacto daquelas palavras escapava-me, mas a serenidade de Caviglia impressionava-me profundamente. Não conseguia fingir-me indiferente. Era evidente que aquele homem possuía um segredo. Como poderia eu esquecer a visão daqueles maravilhosos relevos do faraó Djoser? Como não acreditar num homem que me revelara tais maravilhas?

- Pela última vez, Champollion, peço-lhe segredo para tudo o que vai ver, ouvir e viver durante esta noite. Saiba servir-se disso para decifrar todo o Egipto, mas não revele a chave que lhe será oferecida como Irmão. Um dia virá em que, como eu faço hoje, deverá transmiti-la ao seu sucessor, exigindo dele o mesmo compromisso.

Hesitava ainda, experimentava dez argumentos, debatia-me com o medo.

- Juro.

- Venha.

Vendou-me os olhos com um pano branco perfumado de jasmim. O aroma rapidamente se revelou inebriante. Lamentei não ter permanecido mais tempo em frente das figuras azuladas de Djoser e entreguei-me à mão que me guiava no subterrâneo ligando as pirâmides entre elas. Fui incapaz de avaliar o tempo que demorou o trajecto efectuado sobre um chão dos mais irregulares. A inclinação tornou-se de repente muito acentuada. Caviglia puxou-me com rudeza. O ar tépido da noite encheu-me os pulmões. Acabávamos de regressar ao mundo exterior.

- Ouviu falar do Profeta? - perguntei.

- O velho sábio que trabalhava no Instituto do Egipto? Com certeza.

- Não afirmava ter descoberto o segredo dos hieróglifos?

- É verdade - respondeu Caviglia - que ele afirmava possuir uma ciência perdida.

- Porque não entrou para a confraria?

- Devíamos recebê-lo pouco antes da sua chegada. Mas o gabinete dele ardeu.

- E ele próprio pereceu no incêndio, não é verdade? Caviglia demorou alguns segundos a responder-me.

- Nenhum corpo foi encontrado nos escombros fumegantes. Algumas testemunhas afirmam ter visto Moktar, o intendente de Drovetti, fugir por uma ruela pouco depois do início do incêndio.

Um atentado criminoso... O Profeta queria comunicar-me informações essenciais. Drovetti mandara-o assassinar para o impedir para sempre de falar comigo.

- Ainda estará vivo? - entusiasmei-me.

- Ninguém sabe. A sua presença foi assinalada em Tebas, onde se terá escondido. Alguns pretendem que encontrou refúgio na Núbia, longe de Drovetti e dos seus esbirros.

- Se ainda vive - afirmei, com os maxilares contraídos - hei-de encontrá-lo. Preciso de o encontrar.

- Não pode passar desapercebido - afirmou Caviglia. - O Profeta mede mais de dois metros, usa uma barba branca muito fina talhada em bico e nunca se desloca sem uma grande bengala de acácia com punho de ouro. Acalme-se, Champollion. Vamos prosseguir o nosso caminho.

O fogo da esperança renascia em mim. Abriam-se novos caminhos. Estava pronto para lutar.

Caviglia tirou-me a venda. Distingui em primeiro lugar as estrelas e depois, baixando o olhar, dois gigantescos bancos de pedra que em breve identifiquei como as patas da esfinge. Voltando-me, compreendi que estava em frente do portal e por baixo do queixo do guarda da necrópole.

- Prudência - exigiu Caviglia. - Vamos até à grande pirâmide.

Então, o túmulo de Quéops era o objectivo final daquela estranha expedição, o local onde os Irmãos de Lucsor tencionavam praticar em mim o que os antigos egípcios chamavam “a abertura da boca e dos olhos”. Lado a lado, avançámos em direcção ao imenso monumento cuja massa se destacava nas trevas.

Um árabe ergueu-se à nossa frente com uma espingarda na mão. Caviglia entrepôs-se entre ele e eu, pronunciando uma só palavra cujo sentido me escapou. O árabe inclinou a cabeça com respeito.

- Está de vigia - disse Caviglia. - A sua presença garante que não há nenhum profano nas redondezas.

Nem cães vadios, nem vagabundos... Os Irmãos de Lucsor estavam admiravelmente organizados a ponto de poderem afastar da grande pirâmide qualquer perturbador. Seguindo Caviglia, entrei nela com a garganta apertada. Tive que atravessar uma zona de trevas antes de distinguir o clarão de uma tocha, mesmo por cima de mim. Penetrei numa estreita passagem onde tive que avançar curvado. Em breve me faltou o ar. O clarão extinguiu-se. Atrás de mim, nem um ruído, como se Caviglia tivesse desaparecido.

Instintivamente, senti que não me seria permitido recuar. Avancei portanto, convencido que ia morrer sufocado. Calor e poeira uniam-se para me queimar os pulmões.

Deixei de resistir. Abandonei-me. Para quê opor-me ao inevitável? Para quê crispar-me sobre mim mesmo, tentar reter o que deve desaparecer, mesmo se se trata da nossa própria vida? Morrer no coração da grande pirâmide não será o mais fabuloso dos destinos? O meu nervosismo desapareceu. Abandonei-me aos séculos acumulados naquelas pedras de eternidade, avancei com calma, como se aquela ascensão não devesse terminar nunca. A luz reapareceu no instante em que saí do estreito canal para me endireitar e descobrir um imenso corredor subindo em direcção ao coração da pirâmide.

Havia tochas dispostas na parte de baixo das paredes, espalhando uma luz fulva de onde pareciam nascer os gigantescos blocos de granito. Tive a impressão de estar simultaneamente no centro da terra e no meio do céu, num espaço desconhecido, num tempo que não era o dos homens.

Caviglia poisou a mão sobre o meu ombro esquerdo.

- A última etapa, Champollion.

O caminho pareceu-me mais fácil, quase aprazível. É verdade que tinha que me concentrar para trepar pelo chão de pedras lisas, mas daquele corredor emanava uma energia que puxava para o alto, tornava o corpo menos pesado. Aquele lugar era uma passagem fulgurante para o universo dos deuses. Purificava do que era inútil e artificial. Passo a passo, saía de uma ganga de que não tivera consciência até ao presente.

Depois de ter franqueado um limiar que exigiu uma larga passada, penetrei na câmara do sarcófago. Era iluminada por um único candelabro, semelhante aos que os antigos utilizavam. A mecha não provocava nenhum fumo. No fundo daquele santuário esperavam-me oito homens cujos rostos permaneciam na sombra. Ao aproximar-me, reconheci Anastasy, que me ajudara no Cairo, e o meu servidor Soliman. Os outros, todos vestidos à turca, mas pertencentes a nações diferentes, eram desconhecidos para mim. Teria gostado de lhes falar, de lhes fazer perguntas, mas Anastasy não me deu tempo.

- Entre no sarcófago - ordenou.

A cuba funerária do faraó Quéops tinha sido talhada num único bloco. Nunca fora encontrado qualquer vestígio da tampa. Passando por sobre a borda do mais venerável dos sarcófagos do Egipto no lugar da fractura, introduzi-me nele e deitei-me de costas. Instintivamente, cruzei os braços sobre o peito, como um Osíris.

Uma maravilhosa sensação de calor espalhou-se pela minha coluna vertebral. Não era o repouso da morte que reinava naquela cuba, mas o próprio esplendor da vida. Fechando os olhos para melhor apreciar aquele prazer inaudito que tinha o sabor de uma ressurreição, ouvi a voz profunda de Anastasy salmodiar uma espécie de ritual.

- Este sarcófago nunca foi fechado - disse ele. - Nenhuma tampa foi nunca colocada sobre ele. É nesta câmara das metamorfoses que os nossos Irmãos, desde os tempos do rei Quéops, foram regenerados. É aqui, no centro do mundo, que a luz do interior veio iluminar o seu destino. Bem-vindo entre nós, Jean-François Champollion. Passarás a noite nesse sarcófago. O que pedirdes a esta pirâmide, ela vos oferecerá.

O clarão da última tocha desapareceu. Já não pertencia a mim mesmo. Deixava as visões invadir-me. Tot com cabeça de íbis, o senhor dos sábios e dos escribas, e Anúbis com cabeça de chacal, o que abre os caminhos do outro mundo, retiraram um véu que ocultava as colunas de hieróglifos azul-verde que adornavam a cave de uma pirâmide. Comecei a decifrar, aplicando as bases do meu método. Tot corrigia cada um dos meus erros, preenchia as minhas lacunas. Foi assim que compreendi o destino final do Faraó, as suas incessantes transmutações no céu dos justos, as suas viagens nos espaços cósmicos, a sua fusão na luz do Sol de que tinha saído. Passei para o outro lado da vida, jurando a mim mesmo devolver aos deuses aquilo que me tinham dado (1).

Então, as pirâmides falavam! O que eu tinha lido durante aquela noite talvez existisse realmente algures, num lugar que alguns pesquisadores descobririam (2)...

Perdi toda a noção do tempo. Era assim que vivos nos tornávamos Osíris? Era assim que reencontrávamos a força divina, deitados no fundo de um sarcófago, com os olhos abertos para um céu de pedra?

- A polícia do paxá está prevenida - anunciou Lady Redgrave com expressão sombria.

Junto da pirâmide de Quéops, em pleno meio-dia, a comunidade do general desaparecido afundava-se pouco a pouco na inquietação. Até mesmo o professor Raddi se apercebeu que um acontecimento anormal se verificara.

- Olhem! - exclamou L'Hôte, vendo Soliman aproximar-se da grande tenda, tocando à sua frente um burro carregado de cachos de tâmaras.

Rosellini, com o rosto vincado por uma noite em branco, precipitou-se para o servidor.

- Sabe onde está Champollion? - perguntou o italiano com agressividade.

- Basta levantar os olhos - respondeu Soliman calmamente.

Todos seguiram o olhar do servidor para descobrirem, no cimo da grande pirâmide, a silhueta de Jean-François Champollion envolto na luz do deus Rá.

 

(1) Champollion manteve a sua palavra, conseguindo redigir, durante os poucos anos que lhe restavam de vida, a primeira gramática e o primeiro dicionário dos hieróglifos, obras colossais que é difícil imaginar que possam ter sido concebidas e realizadas por um só homem.

(2) Champollion tinha razão. A pirâmide do rei Wenis, último rei da V dinastia e várias pirâmides de reis e rainhas da VI dinastia têm com efeito textos religiosos de grande importância. O grande Mariette não acreditava na realidade dessas pirâmides com textos de cuja existência só tomou conhecimento no seu leito de morte.

 

Foi o almoço mais ensolarado da minha existência, no cimo da pirâmide de Quéops, vasta plataforma onde poderiam estar mais de quarenta pessoas. No centro, um amontoado informe de grandes blocos, espécie de piramídion arruinado de superfície irregular. Ali tinham vindo ter comigo Lady Redgrave, notável alpinista, Nestor L'Hôte, Rosellini e Soliman, trazendo bolos de mel e água fresca. O padre Bidant recusara-se a escalar um edifício que não estava longe de considerar como satânico. Quanto ao professor Raddi, consagrava-se ao estudo de um fragmento de calcário cujas características excepcionais só para ele eram visíveis.

- O que se passou? - interrogou Lady Redgrave. - Para onde desapareceu?

Toda de branco vestida, com a cabeça coberta por um xaile que mal deixava ver os olhos, a espia britânica surgiu-me como uma temível acusadora, decidida a saber tudo.

- Eu não desapareci. Estava a trabalhar com Caviglia em locais que ele não queria mostrar senão a mim.

- Quais?

- A planície dos mortos de Saqqara e os seus arredores.

- Julguei que detestasse esse lugar - observou Rosellini, ácido.

- Caviglia fez-me mudar de opinião.

- Devia desconfiar desse homem - disse L'Hôte, incisivo. - Vai tentar extorquir-lhe dinheiro, tenho a certeza.

- Não tenha medo, Nestor. Não voltará a ver Caviglia e ele não nos prejudicará em nada.

Esta revelação mergulhou os meus companheiros em perplexidade.

- Isso significa... - afligiu-se Rosellini.

- Caviglia deixou o Egipto - expliquei eu. - Considera que a sua missão de pesquisador terminou e que a nossa expedição abre uma nova era para o conhecimento dos antigos. Deseja-nos boa sorte e pediu-me que partisse o mais depressa possível para o sul, para o coração da Núbia. Segundo ele, esse país degrada-se cada dia mais. Os próprios monumentos correm o maior perigo.

- Então não nos demoremos! - declarou Nestor L'Hôte que, juntando o gesto à palavra, lançou no vazio o seu último bolo de mel e começou a descer.

- Sigo-o! - anunciou Rosellini, nervoso.

Soliman, depois de ter pedido a minha autorização, seguiu-lhes as pisadas. Todos nós parecíamos felizes por irmos procurar um pouco de frescura na base da grande pirâmide.

Lady Redgrave barrou-me a passagem.

- Não acredito nem uma palavra das suas histórias para criancinhas - afirmou com paixão. - Abandonou-nos, com o auxílio dos beduínos, para organizar o seu próprio tráfico de antiguidades. Caviglia não passa de um comparsa. Não passou a maior parte da sua escapada em companhia do cônsul-geral Drovetti, a coberto de olhares indiscretos?

Aquelas acusações eram tão espantosas que me cortaram a respiração.

- Acertei! - insistiu ela, triunfante. - O grande, o nobre Champollion não passa de um ladrão como os outros!

- Minha senhora - consegui responder com voz trémula - está enganada.

Inflamada pela cólera, tirou o xaile. Na luz do meio-dia, o seu rosto resplandecia com uma pureza que apenas tinha visto nas esposas do Faraó.

- Era capaz de jurar por aquilo que tem de mais querido? Pelo seu Egipto?

- Em egípcio antigo, juramento diz-se “vie” (1).. Permite-me que jure por aquilo que considero hoje como o bem mais precioso, a vida daqueles que formam esta expedição?

A minha proposta perturbou-a.

- Paremos com este jogo, senhor Champollion. Vai acabar por confessar-me a verdade, se gosta um pouco de mim.

A tigresa tornava-se meiga, a temível leoa Sekhmet transformava-se em doce gata Bastet. Nenhum homem, diziam os antigos, podia resistir ao seu encanto.

 

(1) Vie — vida.

 

- Talvez goste muito de si... mas prometi guardar o segredo.

Cedendo a um impulso que a mim mesmo surpreendeu, tomei-a nos braços. Os nossos rostos estavam tão próximos que os lábios quase se tocavam. A sua pele, perfumada com jasmim, era de uma extrema delicadeza. O seu olhar, indecifrável, permanecia distante. - Não me ama, Lady Ophelia, espia-me... - Insensato! - exclamou ela, libertando-se.

Quando cheguei ao pé da pirâmide de Quéops esperava-me uma desagradável surpresa. Abdel-Razuk, o polícia do paxá, estava lá acompanhado por uma dezena de soldados turcos. Por trás deles, Moktar, a alma danada de Drovetti, com um vago sorriso nos lábios.

Abdel-Razuk avançou para mim.

- Recebi instruções do paxá, senhor Champollion. Queira seguir-me.

- Por que motivo?

- Ignoro.

- Sua alteza está aqui?

Abdel-Razuk permaneceu silencioso. Lady Redgrave e os meus companheiros eram mantidos à parte por cavaleiros de sabre desembainhado.

- Queira seguir-me imediatamente - ordenou Abdel-Razuk. Pareceu-me estúpido opor-me à força armada. A minha escapadela de três dias tinha causado suficiente escândalo para incomodar o senhor do Egipto. Devia responder perante ele pela minha falta e conseguir obter de novo os seus favores.

Instalaram-me no dorso de um camelo. Era uma posição incómoda, sem dúvida, mas que tentei ocupar com dignidade durante duas longas horas que nos conduziram até ao palácio rodeado de palmeiras, nos arredores do Cairo. Uma vez ultrapassada a barreira de árvores, descobria-se um jardim povoado de acácias e caramanchões cobertos de rosas. Não longe da entrada, um pequeno pavilhão de mármore, junto de um lago com a superfície coberta de nenúfares. A sombra de um eucalipto, dois jardineiros adormecidos. O palácio compreendia dois corpos de edifício ligados por um arco. O primeiro tinha uma longa fachada adornada com janelas gradeadas e mucharabiés. Um porteiro guardava a entrada. Cumprimentámo-nos, cada um tocando com a mão direita na testa, na boca e no peito para significar ao outro que o pensamento, a palavra e o coração lhe pertenciam. Precedido por Abdel-Razuk e Moktar, entrei numa sala de colunas que se abria sobre um pátio a céu aberto cujo centro estava ocupado por uma fonte. O local era deliciosamente fresco. O chão, formado por um mosaico de mármore, reflectia suavemente a luz. Sentado num divã, o senhor da casa entregava-se à delicada arte da aguarela. Voltou a cabeça para mim.

- Bem-vindo, Champollion.

Não era o paxá mas o cônsul-geral de França, Bernardino Drovetti.

- Tornou-se tão turco quanto é possível - declarou, examinando-me.

- Segui o seu exemplo - respondi.

Com os turbantes, as barbas, a pele curtida e as calças tufadas, estávamos muito longe das brumas da Europa.

- Obrigado por ter vindo tão depressa.

- Não me deu alternativa...

Moktar bateu as palmas, desencadeando um bailado de servidores que trouxeram guloseimas e bebidas. Permaneci de pé, declinando um convite para me instalar nas almofadas.

- Sou seu amigo, Champollion.

- Então para quê a polícia do paxá?

- Para o proteger.

O próprio Drovetti deitou o chá de hortelã nas taças de porcelana.

- Convive com pessoas perigosas, Champollion. Podem abusar da sua generosidade. Soube que Caviglia tinha tentado extorquir-lhe fundos que pertencem à França.

- A sua informadora está mal elucidada. Dê menos ouvidos a Lady Redgrave, senhor cônsul.

Drovetti corou.

- As suas insinuações são estúpidas!

- Fico satisfeito com isso. Errar é humano. Concederei então de novo a minha confiança a Lady Redgrave.

Drovetti desafiou-me com o olhar e bebeu um pouco de chá.

- Caviglia pertence a uma sociedade secreta em que se reúnem conspiradores. Tanto o paxá como eu estamos decididos a extirpar essa lepra do Egipto. Esses activistas serão expulsos... bem como os seus simpatizantes.

- Isso não me interessa - disse, indiferente. Drovetti espantou-se.

- Não se encontrou com esse Caviglia?

- Encontrei. Levou-me a visitar os terrenos para escavações que o paxá lhe concedeu.

- Nega ter desaparecido três dias na sua companhia e ter-se encontrado com os seus acólitos?

- Desaparecido? Que romanesco, senhor cônsul! A minha actividade foi estritamente arqueológica. Tenho uma testemunha privilegiada: o xeque Mohamed que é, creio, um amigo e um protegido do paxá.

Tive o cuidado de acentuar as últimas palavras. O rosto carrancudo de Drovetti provou-me que as precauções que tomara tinham sido excelentes. Desta vez, a intervenção de Lady Redgrave mostrava-se completamente ineficaz. Compreendi porque razão, receando a polícia do paxá e a milícia de Drovetti, os Irmãos de Lucsor se tinham dispersado, fazendo a partir de agora pesar sobre os meus ombros o peso da sua missão. Passava a ser o homem encarregado de descobrir e transmitir os segredos dos antigos egípcios, unindo as revelações da confraria e o meu conhecimento dos hieróglifos.

Talvez Drovetti tenha lido no meu pensamento. Sentiu a intensidade da minha determinação.

- Podia ser considerado como um conspirador, Champollion. Podia, pelos seus actos e gestos, ameaçar a autoridade do paxá!

Moktar parecia prestes a prender-me e lançar-me num buraco de uma enxovia.

- Não acredito. Só me interessa a tarefa que me foi confiada pelo rei e que foi aprovada pelo paxá e por si mesmo: descobrir o Antigo Egipto e dá-lo a conhecer ao mundo inteiro. Seguirei o meu caminho a direito para o conseguir, sejam quais forem os obstáculos e as susceptibilidades.

Drovetti inflamou-se de novo.

- Susceptibilidades! Avalia mal os riscos que corre. Cumprir a sua tarefa, tudo bem! Mas não esqueça a ordem que reina neste país. Não ponha em causa os interesses daqueles que a preservam.

O tom tornara-se cortante. O meu “protector” dominava com dificuldade a irritação.

- Não é essa a minha intenção - garanti - na medida em que esses interesses não perturbem o meu trabalho.

Com um bater nervoso das mãos, Drovetti ordenou a Moktar e a Ab-del-Razuk que saíssem. A sua expressão adoçou-se imediatamente.

- O que pensa deste palácio, Champollion? A pergunta surpreendeu-me um pouco.

- É magnífico... Um verdadeiro palácio das Mil e Uma Noites. Faz-me lembrar o Oriente de sonho que descobria nos contos que lia às escondidas, no liceu.

- Um lugar encantador, é verdade... Ofereço-lho! Fique aqui todo o tempo que quiser. Instale cá os seus companheiros. Lady Redgrave apreciará este luxo que convirá mais à sua beleza do que barcos duvidosos e estradas poeirentas. E depois...

O olhar de Drovetti iluminou-se com um brilho cúmplice.

- Poderei sem problemas avalizar o seu relatório científico e até mesmo alimentá-lo abundantemente. Possuo aqui alguns manuscritos de viajantes que o precederam. Bastar-lhe-á copiá-los. Quanto às antiguidades, não se preocupe. Encarrego-me de lhas arranjar para o seu museu do Louvre. Esta combinação agrada-lhe, Champollion?

Reflecti em voz alta.

- Quem recusaria tão aliciante oferta?

Drovetti descontraiu-se finalmente. Uma alegria de ave de rapina iluminou-lhe o rosto.

- Ora ainda bem que é razoável. Tem o estofo de um grande homem, Champollion. A sorte sorrir-lhe-á.

Dei meia volta e preparei-me para sair. Sobressaltado, Drovetti levantou-se.

- Mas... onde vai?

Voltando-me, olhei-o com serenidade.

- Prosseguir a minha viagem, é evidente.

Era quase noite quando entrámos na cidade de Minya onde o mercado, à luz das tochas, ainda estava animado. Passámos em frente de uma fiação de algodão em que trabalhavam mulheres e crianças, curvadas sobre as meadas. O espectáculo fez-me pena.

- O paxá - explicou Soliman, que seguia logo atrás de mim - só tem respeito por si próprio.

Um adolescente de olhos espavoridos desembocou de uma ruela a correr. Esbarrou em cheio com o professor Raddi, que seguia embasbacado, e foi cair sobre Lady Redgrave, rolando os dois na poeira. Surgiram logo a seguir turcos furiosos, de armas na mão. Hesitaram um instante, repararam no rapaz que se levantava com dificuldade e agarraram-no pelo colarinho. Ele berrou de pavor. Um dos turcos cortou-lhe a mão direita com um golpe de sabre. O sangue salpicou Nestor L'Hôte que ficou petrificado antes de vomitar de encontro a uma parede.

Um punho de aço agarrou-me no braço.

- Não intervenha, Irmão - recomendou Soliman. - Já nada pode fazer por ele. Tentou escapar aos soldados que queriam recrutá-lo para o exército do Sultão. Agora, não passa de um traidor e de um rebelde.

Lady Redgrave, ainda atordoada, nada vira da horrível cena. O padre Bidant ajudou-a a levantar, enquanto Soliman deitava água na testa do professor Raddi, semi-inconsciente. Rosellini, chocado, observava um cortejo de mulheres veladas, chorando, seguir os soldados que levavam o desertor.

O solo absorvia já o sangue. Um cão vadio lambia-o.

- O Sultão é um homem cruel - disse Soliman em voz baixa. - O seu poder nasceu do crime, no dia 1 de Maio de 1811, quando convidou os senhores locais, os beis, para o interior da cidadela do Cairo. Vieram envergando roupas sumptuosas, montando os mais belos cavalos ajaezados com pedrarias. Para chegar à cidadela tiveram que passar por ruelas estreitas. Foi um massacre. Os assassinos do Sultão, os albaneses, dispararam sobre os infelizes convidados através de estreitas janelas. A carnificina durou uma meia hora. Não houve, diz-se, senão um único sobrevivente que ousou saltar a cavalo por cima do parapeito da cidadela e desapareceu para sempre no deserto, completamente enlouquecido. Os mamelucos, considerados como inimigos, foram degolados em suas casas. Assim, Mé-hémet-Ali tornou-se o único senhor do Egipto.

- Partamos daqui - exigi. Rosellini protestou.

- Deveríamos descansar e jantar.

Opus uma recusa categórica, apressado em abandonar Minya e chegar ao próximo local a explorar. Ver de novo a arte dos antigos egípcios era o único meio de esquecer o drama que acabávamos de viver.

- Beni-Hassan - informou Rosellini, azedo. - Nada de apaixonante a estudar. Bastará um meio dia. Sobretudo se tiver pressa de entrar na Núbia.

Logo que entrámos para os barcos, sofremos uma violenta rajada de vento. Impedi Lady Redgrave de cambalear.

- Não preciso de si... Não estava a meu lado há pouco, quando...

- Desculpe. Esqueci os meus deveres para consigo. O seu nervosismo pareceu acalmar.

- Será acaso um pouco humano, senhor Champollion? Sentirá afecto por algo mais do que pelas velhas pedras?

De boa vontade a teria esbofeteado se não me tivesse deixado enternecer pela doçura dos seus olhos verde-claros de onde parecia ausente qualquer perfídia.

- Não compreende, Lady Ophelia...

Com um olhar, ela indicou Rosellini que nos observava.

- Cale-se e reflicta. Tem a certeza que aquele infeliz rapaz não lhe vinha comunicar uma mensagem?

 

A borrasca empurrou-nos com tanta velocidade que chegámos cerca da meia-noite a Beni-Hassan. Sucumbindo à fadiga, concedemos a nós próprios algumas horas de sono. Pouco antes da madrugada, desapertei Rosellini para o enviar como batedor à falésia onde se distinguiam as entradas dos túmulos. Voltou menos de uma hora mais tarde, irritado.

- São simples grutas - afirmou. - Não há nada a obter de lá. Partamos de novo.

Como não confiar num colega tão escrupuloso? Beni-Hassan, é verdade, não deixara uma grande recordação na memória dos viajantes que por ali tinham passado.

- Escutemos Ippolito - recomendou Lady Redgrave que acabava de se levantar e cujos cabelos soltos dançavam com a brisa.

Hesitei. Por um lado, seguir para Tebas e para o Grande Sul o mais depressa possível sempre fora o objectivo principal da minha missão. Por outro, um vago pressentimento indicava-me que não abandonasse aquele local sem lhe ter concedido um olhar.

- Deixem-me reflectir.

Desci para a margem. O começo do dia era de uma doçura que tinha um gosto de eternidade. Mal dera alguns passos quando uma mão se agarrou à minha perna direita.

O meu olhar baixou-se vivamente para uma rapariguinha vestindo um longo vestido azul manchado de lama.

- Esperam por ti - disse ela com voz nasalada. - Esperam por ti! Tentei retê-la para lhe pedir que se explicasse melhor mas, rápida

como um felino, desapareceu a toda a velocidade e perdeu-se na vegetação abundante que ocultava um canal.

Seria a famosa mensagem? Aquelas palavras deviam conduzir-me a alguma descoberta essencial? Sonhador, subi de novo a bordo.

- Seria absurdo não examinar rapidamente aqueles túmulos - disse a Rosellini. - Vou lá. Não me demoro.

Que felicidade constantemente renovada caminhar na areia do deserto! Range sob os pés, ondula à menor carícia do vento, forma um corpo leve, eternamente mutável e semelhante a si mesmo. O Sol tinha-se erguido. Era necessário subir para as grutas escavadas na falésia. Senti-me atraído por ela de forma irresistível.

Um rebanho de cabras surgiu à minha frente, umas brancas e outras pretas. Nenhuma se mostrou agressiva. Sentado num bloco, no limiar de um túmulo, o guarda dormia profundamente. Encostada a ele, a sua jovem amiga sem véu e cheia de sono.

Qual não foi a minha surpresa, penetrando numa daquelas grutas sagradas, ao descobrir um vasto espaço povoado por admiráveis colunas, algumas das quais, sem qualquer dúvida, eram dórico primitivo! Tinha assim a prova de que a Grécia nada ensinara ao Egipto e que, pelo contrário, se inspirara nele. Aproximando-me de uma das paredes, distingui uma inscrição a giz traçada à pressa: “1800, 3º regimento de dragões”. A tinta negra, acrescentei por baixo a marca da minha própria passagem: JFC 1828. Foi ao terminar aquele modesto trabalho que o meu olhar, habituando-se à penumbra, julgou discernir figuras mais espantosas umas do que as outras. Dominado por uma louca esperança, corri até ao navio, empurrei Rosellini que comprava figurinhas funerárias a um felá, saltei para a ponte e apoderei-me de uma esponja que um marinheiro, adormecido de encontro a um cordame, deixara poisada a seu lado.

De regresso ao túmulo, molhei com cuidado uma zona da parede, retirando muito lentamente a crosta de poeira que a recobria.

Pinturas! Maravilhosas pinturas... Quando os meus companheiros acorreram para conhecer a causa do meu entusiasmo, pusemos mãos à obra. Graças às nossas escadas e à admirável esponja, a mais bela conquista da inteligência humana, descobrimos uma antiquíssima série de figuras relativas à vida civil, às artes, aos ofícios, à casta militar.

O Egipto do quotidiano ressuscitava perante os nossos olhos. Os soldados de há quatro mil anos desfilavam de novo em passo alegre, pensando mais nos festins do que na guerra. Os marceneiros talhavam cadeiras, camas, arcas; os ourives preparavam jóias para os deuses. O povo dos artesãos trabalhava ao ritmo das ordens salmodiadas pelos contramestres. E ali surgia o deserto, com lebres, chacais, hienas, gazelas.

Tomei notas e fiz esboços durante horas, sem sentir a mínima fadiga. L'Hôte e Rosellini tinham-se lançado ao trabalho. Ao meio dia, Soliman trouxe-nos um almoço composto por pequenos bocados de borrego, uma escudela de leite azedo para molhar a carne e melancias. Lady Redgrave fez-nos uma breve visita no princípio da tarde. Comentei para ela as figuras ressuscitadas pela esponja e li-lhe as inscrições que incitavam os artesãos a transformar a matéria bruta para a tornar bela e harmoniosa. Ouviu-me em silêncio e depois regressou à luz do mundo exterior onde o professor Raddi utilizava a força muscular do padre Bidant para transportar pequenos blocos até à sua cabina.

Foi no fundo do recipiente de leite que encontrei uma pequena lasca de calcário na qual estava gravada uma inscrição em árabe:

“Não vão a Tebas. É a morte que lá vos espera. Demonstraram a vossa coragem. Já demasiados inocentes sofreram.”

Esmaguei com os pés a pequena lasca, reduzindo-a a pó. De quem vinha a mensagem? Dos meus amigos ou dos meus adversários? Tentavam desencorajar-me ou avisar-me?

Tomei uma decisão: não contar nada a ninguém.

Ao pôr do Sol, L'Hôte, esgotado, poisou o cálamo e o caderno de esboços.

- Basta - disse. - Há demasiado a fazer aqui. Só tínhamos previsto meio dia...

Rosellini, atrapalhado, parou de copiar as inscrições.

- Acreditava nisso de boa fé.

- Ficaremos o tempo que for preciso - disse eu com voz firme, aceitando por minha parte descansar um pouco.

Saímos. Do elegante pórtico do túmulo de um monarca denominado Khnumhotepe descobrimos uma magnífica planície, em parte verdejante, em parte inundada. O conjunto era dourado pelos últimos raios do Sol, anunciando as trevas próximas. Quando caiu a noite, regressámos ao barco para jantar.

Beni-Hassan ocupou-nos catorze dias durante os quais não dirigi a palavra a ninguém, demasiado ocupado a dialogar com os velhos egípcios que me surgiam de hora a hora mais vivos por intermédio das imagens eternas que tinham deixado de si mesmos. Nestor L'Hôte, que rapidamente se cansara daquela estadia excessivamente estudiosa, protestou por várias vezes. Rosellini juntou-se discretamente aos seus protestos, afirmando que Lady Redgrave, confinada na sua cabina, estava a ficar com uma disposição horrorosa. Mas nenhum deles, a bem dizer, encontrara o motivo suficiente para me arrancar àqueles túmulos onde o lampejo de uma vida para sempre presente me alimentava o coração.

Foi Soliman quem, com algumas palavras, provocou a partida.

- Não esqueça os seus compromissos - lembrou-me. - Prometeu chegar o mais rapidamente possível à Alta Núbia.

7 de Novembro foi um triste dia, justificando as inquietações dos Irmãos de Lucsor sobre o estado do país e o pouco cuidado concedido pelas autoridades aos monumentos antigos.

Da Ashmunein faraónica, a Hermópolis magna dos gregos, a cidade do deus Tot, senhor dos escribas e criador dos hieróglifos, esperava muito. Talvez lá obtivesse importantes confirmações do meu sistema de decifração. Talvez levantasse uma outra ponta do véu.

A decepção foi enorme. A cidade sagrada não passava de ruínas e restos de colunas.

Com a raiva no coração, decidi seguir caminho, incapaz de suportar mais tempo semelhante desolação. Uma angústia oprimiu-me o coração. E se fosse assim em todo o sul do Egipto? Se a loucura e a imbecilidade humana tivessem conseguido destruir o mais prodigioso testemunho jamais deixado por uma civilização?

Um grito de susto lançado por Lady Redgrave arrancou-me a estas tristes meditações.

Petrificada de horror, estava na parte da frente do navio com as mãos apertadas à altura do rosto, contemplando um espectáculo incongruente: à sua frente, um homem jovem, inteiramente nu e escorrendo água, sorria-lhe abertamente.

Considerando que ela não corria grave perigo, não solicitei auxílio para ir em seu socorro.

- O que se passa?

- Ele... ele nadou até ao barco - explicou Lady Redgrave. - Subiu a bordo com uma agilidade inaudita e dirigiu-se a mim numa língua desconhecida! Segure-o, senhor Champollion!

Coloquei-me entre o homem e a dama. A língua desconhecida, na qual ele se exprimiu com jovialidade, era apenas um dialecto copta. Respondi-lhe utilizando-o igualmente, para a sua maior satisfação.

- O que deseja ele? - inquietou-se Lady Ophelia, escondida atrás do meu ombro.

- É um monge copta. Gostaria de receber uma esmola.

Para melhor apoiar o seu pedido, o religioso nu estendeu para Lady Ophelia um poderoso braço direito no qual estava tatuada uma cruz azul.

- Ele que tome isto e se vá embora! - exclamou ela, indignada, oferecendo-lhe uma moeda de prata.

O monge apoderou-se rapidamente do tesouro, colocou a moeda na boca, voltou-nos as costas sem cerimónias e mergulhou com um vigoroso golpe de rins.

- Vai-se afogar!

Lady Redgrave inclinou-se, inquieta. A cabeça do monge em breve reapareceu no meio do Nilo. Executou uma espécie de cabriola e desapareceu dos nossos olhos, regressando ao seu claustro.

- Incrível país - murmurou Lady Redgrave.

- Maravilhoso país - disse eu - onde os monges nada têm a ocultar.

Não compreendi se o olhar da bela britânica era de ódio ou de divertimento. Mas senti uma espécie de cumplicidade. Ter visto um monge em trajes de Adão, na terra onde nasceu o cristianismo, cria laços.

As ruínas da cidade de Antinoópolis mergulharam-me de novo no desespero. Uma horrível sequência de montículos, de escombros, de fragmentos de louça, de colunas de granito quebradas... e, sentado por baixo de uma palmeira, um copta instalado em cima de uma esteira velha, com um cálamo na mão.

Cumprimentei-o com todo o respeito devido à sua categoria. Agressivo, resmungou uma resposta tão embrulhada que tive que apelar a Soliman para esclarecer as exigências daquele escriba moderno. Reclamava nada menos do que uma elevada taxa em nome do sultão. Perguntei-lhe para onde tinham desaparecido os monumentos que ele estava com certeza encarregado de guardar. Com um cinismo que me fez ferver o sangue, explicou que o sultão tinha mandado destruir os edifícios antigos para alimentar os fornos de cal em cujo desenvolvimento estava mais interessado do que em qualquer outra coisa. Sem a presença de Soliman, teria certamente estrangulado aquele bandido ao serviço de um mau senhor; Por termos contemplado os sofrimentos de Antinoópolis desaparecida, tivemos que pagar a taxa em troca da qual nos foi entregue um recibo.

O padre Bidant, limpando a testa, veio ter comigo.

- Este país é só desolação - sussurrou. - Está nas mãos dos infiéis. Esta expedição é um fracasso, Champollion. Não corresponde aos seus sonhos. Nada ensinará ao mundo dos sábios e só poderá suscitar a reprovação do Senhor. Renda-se à razão e regressemos ao Cairo. Odeio estes campos miseráveis e malcheirosos.

Rosellini empurrou o padre sem pedir desculpa, de tal forma estava excitado.

- Mestre, venha!

Atrás do meu discípulo, quatro felás transportavam uma cabeça de granito. Um sublime retrato de Ramsés.

- Comprei-a por sete piastras - declarou orgulhosamente Rosellini. Era na verdade uma obra-prima. Mas uma obra-prima dolorosa. Uma

cabeça arrancada a um corpo, o fruto de uma destruição à qual podíamos acrescentar a pilhagem. Abandoná-la aqui era oferecê-la a outros saqueadores. Envergonhado, mandei-a levar para o navio e acrescentar piastras para o transporte.

- De boa vontade comia um bolo - declarou o professor Raddi, subitamente saído dos seus sonhos e interrompendo o estudo das suas queridas pedras.

O mineralogista, que continuava a vestir o seu eterno fato de ganga amarela, precipitou-se em direcção à aldeia situada à beira de água, sob as palmeiras tamareiras.

- Espere um instante! - implorei em vão.

Raddi ignorava o árabe. Fui obrigado a correr atrás dele.

Cabras balindo e burros ocupados a zurrar saudaram-me à sua maneira. O sol fazia brilhar as altas palmas com reflexos de ouro, afogando em luz as colinas do deserto. À passagem de Raddi, mulheres vestidas de preto meteram-se à pressa para dentro das suas miseráveis casas. Garotos nus continuaram a brincar na poeira como se nós não existíssemos.

- Onde é a estalagem? - queixava-se Raddi, andando da esquerda para a direita, como perdido.

Saindo da minúscula aldeia sem mesmo se aperceber disso, o mineralogista descobriu com estupefacção aquelas máquinas de tirar água a que chamamos cegonhas, sobrepostas três a três. Graças a um sistema rudimentar de contrapesos, os três primeiros baldes mergulham num canal e deitam a água num tanque a um terço do talude; os três seguintes fazem-na subir para outro tanque; os três últimos distribuem-na pelos canais de irrigação que levam a vida aos campos. Com um esforço constantemente repetido, mas limitado, os resultados são notáveis. Aquelas nove cegonhas estavam dispostas em andares e ligadas entre si por postes; sobre um deles estava um garoto, auxiliando-se com uma vara que lhe servia de ponto de apoio e lhe garantia o equilíbrio.

- Água, finalmente! - exclamou o professor.

- Não avance! - gritei-lhe.

Consegui finalmente alcançá-lo quando chegou à borda da plataforma de terra sobre a qual estavam instaladas as cegonhas. Como receava, escorregou na terra húmida e caiu para a frente. Os camponeses, espantados, imobilizaram-se. O pesado corpo de Raddi descia o primeiro talude.

Escorregando também, consegui agarrá-lo por uma manga. Finalmente consciente do perigo que corria, não se debateu.

Estava a puxá-lo para mim quando, espantado, vi descer na direcção da minha cabeça um pesado vaso de cerâmica que se soltara da respectiva corda.

Serei o mais feliz dos homens? Eis-me no centro do velho Egipto. As suas maiores maravilhas estão a algumas toesas da minha bengala. De momento, estou no coração da mais estranha de todas.

Deir el-Amarna! A cidade do faraó herético, Akhenaton, o apóstolo do sol divino. Os meus companheiros e eu próprio encontramo-nos instalados no seu palácio devastado cujas ruínas estão abandonadas ao vento de areia. Cada um se sentou num bloco ou fragmento de muro. Formou-se um círculo em meu redor. Há várias horas que não pronuncio uma palavra.

Lady Ophelia Redgrave, envolta numa ampla capa de algodão, embebia-se de luz. Ippolito Rosellini desenhava. Nestor L'Hôte, com uma picareta, escavava negligentemente aos pés. O professor Raddi examinava um pedaço de calcário. O padre Bidant recitava o seu terço. Moktar e Soliman mantinham-se à parte, armados com espingardas. A região, frequentemente percorrida por bandos de saqueadores, não era segura.

Ao descobrir as esteias fronteiriças que delimitavam o território sagrado de Deir el-Amarna, ficara estupefacto pelas representações de Akhenaton e dos membros da sua família, com crânios alongados, ventres salientes, formas alongadas. Curioso símbolo também, aqueles raios solares terminados por mãos que ofereciam aos soberanos o signo da vida.

Reinava aqui um perfume de um mundo destruído, prestes a mergulhar no esquecimento mas cada dia regenerado pelo poderoso deus sol que fazia renascer o palácio adornado de flores, as villas dos nobres com sumptuosos jardins, as largas ruas onde circulavam os carros, os lagos de água fresca em que o céu se reflectia e onde vogavam as barcas de recreio. Nenhum faraó pode morrer. Esses homens-deuses gravaram demasiado profundamente a sua marca na carne do tempo para que os homens consigam apagá-la.

Akhenaton tinha sido o mais feliz dos soberanos. Criara a sua cidade, afirmara a sua fé, revelara o sol que tinha no coração. Permanecia presente entre nós através daqueles pobres vestígios de tijolos, daqueles muros desmoronados, daqueles templos regressados ao oceano das origens. Teria gostado de me consagrar à sua memória, mas tinha outras preocupações.

- Reuni-vos - disse - porque tentaram matar-me. Rosellini foi o primeiro a reagir.

- Insensato! - exclamou. - É preciso prevenir imediatamente Abdel-Razuk.

- É difícil - objectei. - Foi ele que tentou assassinar-me. Por isso fugiu. Distingui perfeitamente o seu rosto quando atirou na minha direcção um enorme vaso de cerâmica destinado a abrir-me o crânio.

- Não se terá enganado? - sugeriu Lady Redgrave.

- Tenho uma testemunha: o doutor Raddi.

Pouco à-vontade, o mineralogista não levantava os olhos do seu miserável pedaço de calcário.

- Bem - confessou - eu não vi nada... Estava com a cara no chão. A honestidade científica proíbe-me de dizer mais qualquer coisa.

- Não pomos em dúvida a palavra do general - interveio Nestor L'Hôte. - Se encontrar esse Abdel-Razuk dou cabo dele.

- Não faça nada - exclamou o padre Bidant. - Proíbo-lhe que responda à violência com a violência. Seria preso e condenado à morte.

- Afinal toma o partido de quem, padre? - perguntei com irritação.

- Não tomo o partido de ninguém - retorquiu. - A razão impõe-nos prudência. Se a sua pessoa está realmente ameaçada, a nossa também está. Considero que é altura de acabarmos com esta expedição, visto que o senhor deste país nos é hostil.

Tive a impressão que me invadia o espírito de Akhenaton, inflamando-se contra os sacerdotes dominados pela ambição e pela vaidade.

- No entanto, vamos continuar, padre. Continuaremos enquanto eu for vivo.

O religioso enfrentou-me.

- A loucura é indesculpável, senhor Champollion. A partir deste instante, Deus considerá-lo-á responsável por tudo o que de desagradável possa acontecer a qualquer um de nós.

Passámos apenas um breve dia no lugar de Amarna para procurarmos inscrições e copiarmos os planos. Vi que ia ser considerável a tarefa de decifrar aquele sítio. E que dizer dos inúmeros túmulos, certamente ocultos na montanha, a este da cidade?

Era necessário partir para Tebas, para sul, para o mistério, sem saber se os deuses do Egipto me concederiam o privilégio de regressar àqueles locais povoados de sombras com palavras de sol. Mas o que teria eu podido censurar-lhes, se já tanto me tinham dado?

Lady Redgrave tratava-me com frieza, como se a tivesse ofendido. Não estava decidido a dar o mínimo passo na sua direcção. Soliman não tirava os olhos de Moktar, a alma danada de Drovetti, que fingia comportar-se como um bom e fiel servidor. A sua missão de espionagem revelava-se mais difícil devido à ausência do seu parceiro Abdel-Razuk. Mas não tinha este optado por refugiar-se na sombra para melhor atacar? Era necessário que eu me tivesse tornado muito importuno para desencadear semelhante acto de violência. Actualmente, Méhémet-Ali sabia que eu conhecia parte dos saques que infligira ao Egipto. Por que razão tentar impedir-me de ir mais longe, a não ser para evitar que descobrisse ainda pior? É evidente que era necessário que a minha morte parecesse um acidente, longe da presença de testemunhas, para que a França não ficasse muito incomodada com ela.

Não tinha mais coragem do que os homens vulgares, mas maior tenacidade. Morrer naquela terra amada pelos deuses, naquele país para o qual era atraído pela paixão mais ardente e mais exigente também, não me assustava. Na Europa, sofria o mais cruel dos exílios. Aqui, estava em casa. Em casa desde sempre. Apenas tinha um receio que provocava a minha fraqueza: desaparecer antes de ter decifrado a mensagem egípcia em toda a sua pureza. Deixar este universo antes de ter obtido a sua chave.

Pesava sobre mim a terrível ameaça proferida pelo padre Bidant, aquele anátema implacável. O religioso ferira-me em pleno coração e sabia-o. Não tanto por causa do deus dos cristãos que não tinha lugar naqueles templos vivos, mas por causa do amor que dedicava aos meus companheiros de viagem. Era responsável, é verdade, pela sua existência que me causava mais graves preocupações do que a minha própria. O sultão não tinha motivos para os atacar, mas por que meandros enveredaria a sua imaginação oriental para me obrigar a desistir?

O incidente verificou-se no momento em que passávamos pelas impressionantes falésias rochosas de Abu-Feda. O tempo tinha piorado. O Nilo, agitado, erguia-se em vagas furiosas. Uma espécie de tornado decuplicou a fúria do rio. Nestor L'Hôte, que se fazia valente a bombordo, levantou a mão para me informar que corria tudo bem. Gritei-lhe que viesse abrigar-se. Na penumbra do poente, pareceu-me ver um vulto que empurrava L'Hôte pelas costas. Este gesticulou, não encontrou nada a que se agarrar e caiu à água.

- Socorro! - gritei com todas as forças dos meus pulmões.

O ruído da tempestade abafou a minha voz. Precipitei-me para o lugar onde L'Hôte tinha desaparecido, agarrei numa corda e lancei-a ao Nilo.

Senti uma resistência. Teria ele agarrado na extremidade da corda? Cego por uma vaga, sacudido pelo vento, sentia-me incapaz de o puxar para o navio. A corda ficou esticada. O meu companheiro podia ser salvo! O seu destino estava entre as minhas mãos. Não tinha o direito de não ter força. Precisava de arranjar dentro de mim uma força física que não possuía. Ardia-me a palma das mãos. O soalho da embarcação escorregava sob os meus pés. Fraquejava. Não conseguiria salvar L'Hôte. Mas não largaria a corda. A minha vida pela sua vida, a minha vida com a sua vida.

Quando estava prestes a cair também à água, uma força nova, inesperada, puxou a corda para trás. Imobilizei-me e depois, recuperando coragem, consegui recuar. Passo a passo, cheguei até ao centro do barco.

Por fim, apareceu a cabeça de Nestor L’Hôte, escorrendo água do Nilo. O corajoso indivíduo foi suficientemente hábil para se içar a si mesmo para bordo.

Esgotado, com a respiração entrecortada, voltei a cabeça e vi Soliman. Fora ele que salvara L’Hôte. Substituíra-me no preciso momento em que eu desistia. Sem dizer uma palavra, retirou-se. O rio acalmava-se. Tínhamos ultrapassado a passagem perigosa.

Nestor L’Hôte, encharcado até aos ossos, despia-se e enxugava-se.

- Empurraram-no, não é verdade?

- Não sei, general. Não vi ninguém. Senti uma espécie de pancada nas costas, é verdade, mas talvez fosse uma rajada. Já por várias vezes me tinha desequilibrado.

Afastei-me para vomitar. Aquele drama tinha-me transtornado. Se tivesse perdido L’Hôte, teria sido um homem indigno. A minha viagem ter-se-ia desfeito nos rochedos do Nilo.

O padre Bidant conseguira fazer de mim próprio o meu pior adversário.

Quando se acalmaram os últimos sobressaltos do vento, revelou-se o silêncio profundo dos campos de um verde húmido, animados por tufos de palmeiras. Aos rochedos nus das montanhas próximas, quase ameaçadoras, tinham sucedido margens tranquilas, banhadas pela luz brilhante da manhã, dissipando uma bruma ligeira. Estávamos a chegar a Asyut, a Lykópolis dos gregos, a cidade do deus Anúbis que, depois de ter mumificado os mortos gloriosos, os conduzia pelos caminhos do outro mundo.

Os meus olhos febris descobriram com verdadeiro prazer uma cidade menos poeirenta e menos miserável do que as precedentes. Sicômoros, palmeiras, arbustos floridos, rosas, magnólias alegravam as ruelas de Asyut onde os meus companheiros me transportavam numa liteira, como um faraó. Elevavam-se numerosos minaretes para um céu de um azul imaculado. Um número incalculável de gatos circulava pelas ruas. Soliman explicou-me que esta cidade era o paraíso deles. Matavam ratazanas e ratos, protegendo as reservas de alimentos. Portanto, os habitantes da cidade nunca incomodavam um gato adormecido à sombra, preferindo desviar-se para o sol a fim de não o importunarem.

Passámos em frente de um café meio arruinado, parcialmente a céu aberto. Pendiam do tecto panos rasgados. Uma lanterna veneziana iluminava o fundo do estabelecimento onde se amontoavam homens fumando cachimbo em frente de uma orquestra que tocava diversas flautas e de gaiolas onde se agitavam macaquinhos. Soliman pediu a Lady Redgrave, ao padre Bidant, ao professor Raddi e a Moktar que nos esperassem aqui bebendo chá de jasmim. Discutiu longamente com o dono do café, pedindo-lhe que velasse para que os seus importantes convidados fossem como tal considerados.

- Onde estão os monumentos antigos? - perguntei a Soliman.

- Já não restam nenhuns - confessou, impassível. - Só há uma coluna erguida sobre um monte de escombros. As pedras dos templos foram transformadas em móveis, em pias ou em soleiras de portas. Os blocos de calcário serviram de material para os fornos de cal.

A indignação emudeceu-me. Asyut pareceu-me de repente muito menos risonha. Cruzámo-nos com sírios, asiáticos, africanos chegados até ali pelas pistas das caravanas. Muitas mercadorias passavam de mão em mão.

- Os túmulos - disse eu. - Quero ir aos túmulos.

- Não seria prudente, mestre - objectou Rosellini. - Decidimos levá-lo o mais rapidamente possível a um médico.

- Os túmulos - repeti.

Nestor L'Hôte insistiu por sua vez para me fazer mudar de ideias, mas sem qualquer resultado. Soliman evitou intervir.

- Quero andar - afirmei. - Vocês amparam-me.

Guiado por Soliman, apoiado em L'Hôte e Rosellini, trepei com dificuldade as encostas arenosas que conduziam à necrópole escavada na colina que dominava a cidade. Ali, vários anos antes, Desaix instalara o seu quartel-general e colocara os canhões para dominar Asyut. Naquela luminosa manhã não havia armas de guerra. A paz do além reinava como senhora absoluta. Descontraiu-me imediatamente os nervos. Sempre que deixava o universo dos árabes modernos para reencontrar o dos antigos egípcios, um novo dinamismo me invadia.

Como em Beni-Hassan, as paredes das grutas sagradas estavam cobertas de cenas que, tanto quanto podíamos avaliar, não as igualavam. Mas faltava-me a esponja miraculosa e sentia a cabeça a andar à volta. Nestor L'Hôte notou.

- Não se consegue segurar em pé, general. Tem que tratar de si.

Tinha visto os meus túmulos. Exigi ali permanecer ainda alguns minutos antes de ser conduzido para o centro de Asyut onde Soliman me fez entrar no interior dos banhos turcos, à porta dos quais ficaram Rosellini e Nestor L'Hôte à espera. Introduziu-me numa sala que se elevava em forma de cúpula. Era aberta no cimo, de maneira que o ar circulava. Deixámos os nossos fatos sobre um estrado que corria a toda a volta. Cingimos os rins com uma toalha e calçámos sandálias. Seguimos por uma espécie de corredor bastante estreito onde estava mais calor. Atrás de nós, fechou-se uma porta.

Entrámos numa sala de paredes revestidas de mármore. Senti-me bem.

- Vou deixá-lo um instante - disse Soliman. - Nada receie. Deixe andar as coisas. Eu volto já.

Não tive força para protestar. A minha barba começava a escorrer água. E se Soliman me abandonasse nas mãos dos meus adversários? Surgiu um colosso de corpo oleoso. Agarrou-me pela mão. Escorreguei e ele segurou-me. Invadia-me um estranho torpor. Não tinha qualquer desejo de lutar. Se Soliman, que pretendia ser meu Irmão, me tinha traído, em quem poderia eu daí em diante confiar?

O colosso guiou-me até uma nova sala abobadada, muito espaçosa. Ajudou-me a estender junto de um banho e colocou-me uma pequena almofada por baixo da cabeça. Uma nuvem de vapores perfumados penetrou-me no corpo. Descontraí-me.

O homem voltou-me e começou a massajar-me com delicadeza. Depois, munido de uma luva, esfregou-me as costas com vigor. Conduzido para um gabinete particular com torneiras de água quente e de água fria, lavei-me a mim mesmo com delícia. O servidor ofereceu-me em seguida uma cama perfumada onde me estendi de novo, repousado, livre das impurezas, com o peito dilatado, rejuvenescido vários anos.

Um velho de barba branca, envergando uma tanga, aproximou-se lentamente de mim. Ajoelhou e poisou no chão de mármore uma folha de papiro e um tinteiro de ouro.

- Pega no tinteiro - disse-me em árabe - e sacode-o sobre esta folha. Obedeci como um autómato, salpicando de manchas o frágil suporte.

O velho observou-o com grande atenção durante longos minutos.

- A tua doença não é grave - concluiu. - Sono e uma tisana bastarão para te curar. Mas a tua vida não está salva por isso... Há um espírito mau em redor de ti. Um espírito que procura destruir-te. Se não o conseguires identificar, serás vítima dele.

O adivinho amarrotou a folha de papiro e engoliu-a depois de a ter mastigado. Depois desapareceu com a mesma lentidão solene, dando lugar a Soliman.

- O que devo fazer? - perguntou-me.

- Reconduzir-me ao navio, fechar-me na minha cabina e deixar-me dormir umas doze horas.

Só acordei no dia seguinte à tarde, à hora do poente. Senti-me maravilhosamente bem. Junto da minha cabeceira, uma taça de tisana cheirando bem a açucena. Bebi-a deliciado e, depois de algumas abluções, bati à minha própria porta fechada por fora.

Soliman abriu.

A noite estava maravilhosa. Uma estrela cadente atravessou o céu. Tínhamos lançado ferro por altura da aldeia de Sawadiyeh, povoação camponesa muito tranquila. Depois de uma rápida refeição de favas e bolos, reunimo-nos na parte mais espaçosa do barco, que Rosellini baptizara pomposamente de “salão”, para saborearmos o café, jogarmos às cartas e ouvirmos um concerto de flautas dado pelos marinheiros.

Soliman quebrou aquela agradável quietude.

- Aproxima-se uma barca - anunciou.

L'Hôte agarrou numa espingarda. A equipagem foi alertada. Não é habitual a navegação no Nilo depois do cair da noite. Nenhum de nós ouvira falar de piratas, mas a declarada hostilidade do paxá permitia que se receasse o pior.

Tínhamos acendido as tochas cujo clarão manchava de vermelho o azul escuro do Nilo. A barca avançou lentamente. À proa, um servo com turbante lançou-se num discurso tão febril como floreado cujo conteúdo me serenou. Falava em nome do seu senhor, Mohamed Bei, o governador da província, que nos convidava a jantar no seu palácio. Como prova de amizade, enviava-nos aquela embarcação carregada de vitualhas.

Escolhi cuidadosamente as palavras com que me dirigi ao enviado do potentado provincial e ofereci-lhe uma caixa de vinho como agradecimento do seu convite que era obrigado a declinar. Contrariado, o homem insistiu. Mas mostrei-me intransigente, considerando inadmissível ceder a mundanidades que atrasariam a minha chegada a Tebas.

- Essa recusa talvez seja imprudente - murmurou Soliman.

- Não tem importância - retorqui. - Partiremos amanhã, como estava previsto.

A meio da tarde seguinte, quando nos preparávamos para deixar a margem, uma coluna de cavaleiros e de peões, num grande alarido de gritos e poeira, veio opor-se ao nosso projecto. À cabeça daquele pequeno exército, o próprio filho do bei, de linguagem hesitante. Desta vez trazia-me grande quantidade de carne de açougue. Os músicos que acompanhavam os soldados iniciaram uma serenata.

Os meus companheiros, impressionados com aqueles sinais de deferência, pediram-me que respondesse favoravelmente a um convite formulado em termos tão prementes. No entanto, não voltei atrás na minha decisão, com grande contrariedade do filho do bei. Uma longa hora de discussão não afectou em nada a minha determinação. Este contratempo só me deu uma satisfação: tinha recuperado toda a minha energia.

Dei ordem para partirmos, tencionando navegar até anoitecer.

O padre Bidant, sempre enfiado na sua sotaina, correu para mim arquejando.

- Espere, Champollion, espere!

- E porque é que hei-de esperar?

- O professor Raddi e Nestor L'Hôte desapareceram.

- A sua imaginação fá-lo delirar, padre.

- Verifique por si mesmo!

Depois de ter inspeccionado as cabinas e os mais pequenos recantos do barco, tive que me render à evidência: L'Hôte e Raddi não estavam a bordo. Ninguém os vira sair. Lady Redgrave, embora distante e inacessível, parecia inquieta. Rosellini, nervoso, não parava quieto no mesmo lugar.

- Onde vive esse Mohamed Bei? - perguntei a Soliman.

- Há uma dezena de homens seus na margem. Basta perguntar-lhes.

- Que eles me conduzam a sua casa.

- Acompanho-o.

- Irei só, Soliman. Ficas aqui para olhar pelos outros. Se eu não regressar, Rosellini encarregar-se-á de dirigir a expedição.

- Não será correr um grande risco?

Olhei o meu Irmão bem no fundo dos olhos.

- Sou o chefe da nossa comunidade, Soliman. Tenho a plena e inteira responsabilidade daqueles que nela participam, quer sejam aliados ou adversários, quer pensem em trair-me ou em ajudar-me. Os nossos dois companheiros foram raptados por esse bei, tenho a certeza. Um apóstolo do paxá, com certeza... Se é a mim que ele quer, não o decepcionarei. Desde que L'Hôte e Raddi recuperem a liberdade.

- A menos que ele não vos prenda aos três... ou vos reserve um tratamento mais grave ainda.

- Não tenho escolha, Soliman. Não serei cobarde aos meus próprios olhos.

O meu interlocutor curvou-se com respeito.

- Está certamente escrito que ninguém se consegue opor à vossa vontade...

Os homens do bei, depois de um breve périplo, conduziram-me a uma casa branca, soberba no seu isolamento, alegrada por um vasto jardim plantado com limoeiros. Da porta principal, aberta, brotava um jorro de música lancinante. Altos candelabros, formando uma álea, espalhavam uma luz cada vez mais viva à medida que se esbatiam os últimos clarões do dia.

A mais atraente das armadilhas. Tudo parecia respirar luxo e voluptuosidade. Mas como esquecer que o potentado reinante naquele oásis de paz tinha como reféns dois dos meus companheiros?

Muito mais angustiado do que parecia, pedi a um intendente que me anunciasse e imobilizei-me ao fundo do lanço de degraus que conduziam à entrada. Alguns segundos mais tarde apareceu no limiar um volumoso homem de rosto avermelhado, vestido com sedas deslumbrantes.

- Champollion! - exclamou com voz tonitruante. - Entrai depressa! Espantado por aquela recepção, não tive outra opção senão obedecer.

Levantei a cabeça para o céu do Egipto, receando não voltar a vê-lo tão cedo.

A imponente personagem tomou-me pelo braço.

Contraí-me.

- Exijo que os meus dois amigos sejam imediatamente libertados.

- Libertados? De quem estão prisioneiros? Entrai!

Teria querido protestar mais, obter primeiro aquilo que queria... mas o meu anfitrião arrastou-me vigorosamente para o interior da casa.

Descobri uma imensa sala de festins onde os convidados, estendidos preguiçosamente em almofadas, conversavam alegremente. Na penumbra e por entre o fumo saído dos cachimbos que cada um fumava, identifiquei Nestor L’Hôte e o professor Raddi, lado a lado, divertindo-se a saborear gigantescos pepinos.

- Eles... têm os movimentos livres? - perguntei, interdito.

- Completamente - respondeu Mohamed Bei. - São meus convidados como vós. Chegaram anunciando-me vossa vinda próxima, com o que muito me alegrei. O lugar de honra está reservado para vós, ao meu lado.

Tratava-se de uma cilada mas fora-me armada pelos meus próprios aliados.

- General! - exclamou L’Hôte ao ver-me. - Tinha a certeza que não me abandonaria!

Titubeante, dirigiu-se para mim.

- General... Não podíamos ofender o nosso anfitrião... Soliman disse-me que ele poderia impedir-nos de continuar a expedição... Sou-lhe muito dedicado... e atraí-o aqui... Tudo se arranjou pelo melhor!

- E o professor Raddi?

- Veio atrás de mim. Quis mandá-lo para trás, mas jurou-me que morria de desejo de participar numa festa muçulmana. Em Florença, com a mulher, não se diverte muito...

O honorável professor estava incapaz de responder à mínima pergunta. A cair de bêbado, contentava-se em passar ao vizinho o grande copo cheio de licor que circulava na assembleia. Cada um bebia à sua passagem. Tive, apesar da minha repulsa por esse género de álcool, tão doce como pernicioso, de mergulhar nele os lábios. Quando o copo ficava vazio, o bei mandava-o encher. Ele próprio bebia grandes copázios e fumava um longo cachimbo. Num formidável impulso de generosidade, Mohamed Bei decretou uma amnistia para todos os delinquentes e distribuiu moedas aos pobres que se tinham reunido em frente da casa.

Foram-nos servidos mais de vinte pratos: borrego sob diversas formas, melões, anchovas, saladas. Limpámos as mãos em guardanapos bordados a ouro. Dois cantores constituíram o apogeu artístico da noite. O primeiro, um grego de setenta anos, gratificou-nos com algumas doces romanzas. O segundo, um árabe que ultrapassara os oitenta anos, modulou uma melopeia tradicional. Quando se calou, a maior parte dos convivas tinha adormecido. Nestor L’Hôte encarregou-se de os acordar entoando A Marselhesa, seguida das odes à liberdade contidas numa obra da moda, Pela calada, de Portici. Aqueles sons, inéditos no palácio do bei, provocaram fraco entusiasmo.

A festa durou toda a noite. Quando o Sol nasceu, apenas Mohamed Bei e eu estávamos ainda acordados. Apesar da enorme quantidade de álcool que tinha absorvido, o potentado permanecia senhor de si. A mão não lhe tremia e os olhos brilhavam com um fulgor perfeitamente lúcido.

- Gostaria de vos manter vários dias comigo, Champollion. A vossa presença aqui é uma bênção de Deus. Porque não havemos de continuar a festa?

- Tenho uma missão, Excelência, e continuarei a cumpri-la.

- Ver velhas pedras, eu sei... Explorai então a montanha. Está cheia delas! Ponho à vossa disposição uma centena de servidores que vos trarão todos os dias inúmeras alcofas cheias de pedras!

- Fico-vos muito grato, mas...

- Quereis as pedras antigas, cobertas de sinais indecifráveis... Para que serve isso? A felicidade, Champollion, é festejar com os amigos, beber e comer em conjunto, ouvir música, prolongar a memória dos mortos enquanto esperamos por nossa vez morrer para que os nossos amigos celebrem a nossa memória.

A sinceridade daquelas afirmações comoveu-me.

- Nada é melhor do que uma longa amizade, Champollion. É preciso aprender a saboreá-la, a saborear cada segundo... Ficai aqui e tornemo-nos velhos amigos. Esquecereis as vossas pedras, o vosso mundo desaparecido para sempre. Parai de correr inúteis perigos. Escolhei a verdadeira paz, a do meu pequeno reino, deste Sol eternamente semelhante a ele mesmo, do Nilo indiferente às paixões humanas.

O bei submetia-me a dura prova. O que ele me propunha era, realmente, de um valor inestimável. Bastava-me deter o passar do tempo, renunciar às minhas ambições, sentar-me numa pedra, em frente do rio, e deixar-me envelhecer com ele.

- Tendes razão, Excelência, mas não creio ter a liberdade do meu destino.

Mohamed Bei levantou-se.

- Vinde, Champollion.

Passámos pelos corpos adormecidos, saímos da branca moradia, avançámos até à margem. Um vento muito suave apagou as fadigas da noite.

- Falais como um predestinado, Champollion. Como um ser que apenas conhece um único caminho, um único amor.

- O Egipto dos faraós - disse eu - é mais forte do que todos os deuses, mais terno do que todos os amores, mais vivo do que todas as amizades. Face aos seus mistérios, nem vós nem eu temos a mínima importância.

Uma poupa cinzenta abandonou o cimo de uma tamargueira para voar na luz.

- Parti então, Champollion - proferiu o bei com voz grave onde aflorava a emoção. - Mas parti com isto.

Deu-me um magnífico anel de jaspe vermelho (1).

- Possa esta jóia proteger-vos. E não mudeis de rota, meu Irmão.

 

(1) Conservado no Museu do Louvre.

 

O destino devia revelar-se cruel poucas horas mais tarde. Estava contente por descobrir a cidade santa de Abidos, o reino de Osiris, juiz dos mortos e senhor das transformações que permitem aos justos avançar pelos caminhos do além.

A natureza tinha decidido de outra forma. A cheia, este ano, é magnífica para aqueles que, como nós, observam o campo para o admirar. Não se passa o mesmo com os pobres felás. O rio, ao transbordar, já destruiu várias colheitas. Os camponeses serão obrigados, para não morrerem de fome, a comer o trigo que o paxá tinha deixado para a próxima colheita. Vimos aldeias inteiras dissolvidas pelo Nilo, ao qual não podem resistir as miseráveis cabanas construídas de lodo seco ao sol: as águas, em muitos lugares, estendem-se de uma montanha a outra. Nas colinas mais elevadas que não são submersas vemos os felás, mulheres, homens e crianças, transportando cestos cheios de terra, tentando opor a um rio imenso diques de sete a oito centímetros de altura e salvar assim as suas casas e as poucas provisões que lhes restam. É um quadro desolador e que me angustia o coração.

Foi do topo do barco, em pé no tecto da cabina, que saudei de longe a antigos Abidos. A morte osiriana não aceitava a minha presença. Repelia-me para longe, como se ainda não tivesse chegado a hora. Era no entanto daquela localidade sagrada que provinha uma das inscrições que estavam na base das minhas descobertas. Abidos possuía certamente outras tábuas hieroglíficas com a chave da língua sagrada. Uma língua que ainda me recusava os seus últimos tesouros que possuía um homem, o Profeta, oculto sob aquele sol resplandecente.

Chegámos a Girga numa manhã fresca. O vento do norte agitava o Nilo. A cidade de Saint-Georges, caída em decrepitude depois de ter conhecido uma certa glória com os mamelucos, está situada numa curva do rio, quase esmagada por uma alta falésia. Múltiplas aves, garças-reais, gralhas, gaviões, sulcavam o céu.

No cais havia um ajuntamento. Discutiam alto e violentamente. Mok-tar, depois de ter tratado com maus modos alguns basbaques, avisou-me que o pesquisador de Anastasy pedia para me ver.

- O pesquisador de Anastasy? - espantei-me. - Em que escavação trabalha ele?

- Não sei.

Com ar carrancudo, o servidor de Drovetti não estava nada satisfeito com aquele convite.

- Onde está esse homem?

- No convento dos Irmãos de Saint-Georges - respondeu Moktar.

- L'Hôte acompanha-me - declarei.

- Eu também - interveio o padre Bidant. - Já que é finalmente possível encontrar verdadeiros crentes, a minha presença é indispensável.

- Como quiser - aceitei.

O acesso ao convento revelou-se bastante difícil. Para lá chegar, era necessário fazermo-nos içar por uma polé que nos levava a considerável altura. Os monges não tinham arranjado outro meio para se subtraírem aos mil problemas com que os árabes os sobrecarregavam.

A igreja e o convento dos coptas de Girga estavam a morrer. O seu asilo não se distinguia em nada das outras habitações da aldeia. Praticavam o voto de pobreza para além de qualquer limite. Bem-estar e alegria tinham sido há muito banidos da existência dos três ou quatro sobreviventes que enregelavam numa igreja tão sombria como uma cripta. Usavam cafetã negro e turbante que em nada indicava a sua condição de sacerdotes.

- Meu Deus, que miséria e que mau cheiro! - indignou-se o padre Bidant.

L'Hôte, que partilhava a opinião do religioso, preferiu ficar à entrada. Pela minha parte, penetrei em passo decidido no interior do reduto pois tinha identificado o homem que se levantara para me cumprimentar: o nadador nu que tanto assustara Lady Redgrave.

- Sou o pesquisador de Anastasy - declarou em copta, língua que nem L'Hôte nem Bidant compreendiam. - Tenho um documento importante a entregar-lhe. Os meus Irmãos não estão ao corrente. Não nos trairão. Só falam árabe. Dentro em pouco, este lugar de culto terá desaparecido. Encontremo-nos esta noite em Qena. Peça para o conduzirem ao zâr.

Sem acrescentar outras explicações, inclinou-se de novo e encostou-se à parede húmida, ao lado dos outros monges, mergulhados num infindável torpor.

- O que lhe disse ele? - perguntou o padre Bidant.

- Que as escavações não tinham dado qualquer resultado - respondi - e que não tinha qualquer hipótese de as continuar.

- Miserável país que deixa morrer os seus religiosos e rejeita a verdadeira fé - protestou o padre.

Com o passar do tempo, cada dia me tornava mais egípcio. Entre o país e eu não havia já nenhuma barreira, nenhum ecrã. O seu céu tornara-se o meu céu, a sua terra a minha terra. A mais doce das magias anulava o meu carácter de europeu, os meus hábitos de francês. O meu pensamento corria ao ritmo do Nilo, mantendo o fulgor das madrugadas e a serenidade dos poentes.

- Está a sonhar, senhor Champollion?

Lady Redgrave sentara-se a meu lado com tanta delicadeza que não pressentira a sua presença. Envergava uma longa túnica branca, quase transparente. Cheirava bem, a perfume de jasmim. Lado a lado num banco de madeira, víamos desfilar a margem na qual caminhava muito lentamente um rapaz montado num burro.

- Fazemos tréguas?

- Estava em guerra, senhor Champollion?

Passei a mão pela barba preta que me adornava o queixo.

- Desde sempre. Em guerra contra os imbecis e os mentirosos. Perdi com certeza de antemão, mas insisto. O Egipto dos faraós não lhes sobreviveu?

- Por que o obceca o Egipto a tal ponto? Não acredita que existam outras filosofias, outras culturas igualmente grandiosas? Deveria debruçar-se sobre as doutrinas da índia ou do Irão, sair da sua cidadela faraónica!

- Já o fiz, Lady Ophelia. Há já muitos anos estudei as religiões da índia, do Irão e da China. Aprendi a língua dessas civilizações. Comecei mesmo a escrever um dicionário de persa antigo, que dominava bastante bem. Acreditei durante muito tempo que havia uma relação muito estreita entre a China e o Egipto, que os hieróglifos dessas duas grandes nações provinham da mesma fonte. Enganei-me. Mas a índia, o Irão e a China atraíram-me profundamente. Fizeram-me mesmo vacilar, quase conseguiram enfraquecer o meu amor pelo Egipto. Mas este acabou por vencer, como sempre. As comparações jogaram a seu favor. Os hieróglifos são a mais bela língua do mundo. O pensamento faraónico é o mais completo, o mais coerente, o mais luminoso. Sou atraído por ele como uma criança pela sua mãe. Tenho o dever de o servir, mas essa tarefa não me pesa. É alegria. Tivesse eu que seguir solitário até ao fim da minha vida para transmitir a minha fé e não o lamentaria.

- Está assim tão só no mundo? - perguntou ela.

- Não. Tenho um irmão, Jacques-Joseph. Sempre me ajudou, me encorajou, me tirou dos buracos em que eu me metia. Se hoje aqui estou, é graças a ele. Cem vezes estive prestes a desistir, cem vezes me convenceu a continuar. Há muito tempo que me prova que ele sou eu. Nunca seremos duas pessoas. Maldito seja o dia que nos separe! É impossível qualquer desentendimento entre nós, pois suporia que eu fosse um ingrato. O presente, o passado, o que eu era, o que sou, o que serei, tudo me impedirá de o ser.

As palmeiras mediterrânicas, cada vez mais numerosas, anunciavam a cidade de Qena. O seu tronco elegante dividia-se em ramos que se abriam até às folhas em forma de leque. Estavam carregadas de nozes do tamanho de um ovo de pata. Os felás comiam os frutos, com gosto de massa açucarada, e utilizavam as folhas para cobrir com elas as suas cabanas.

- E a senhora, Lady Ophelia, está só no mundo? Não obtive resposta. Tinha-se ido embora.

Qena dedicava-se à olaria. A cidade, atravancada de fileiras de vasos , de todos os tamanhos, abrigava uma grande quantidade de fornos de oleiro. Os telhados das casas, os pombais eram feitos com vasos. Uma numerosa frota transportava-os para outras cidades.

Pedi aos meus companheiros que permanecessem a bordo, pretextando que a cidade não era segura. Como desejava obter uma entrevista oficial com o potentado local, tinha necessidade apenas da assistência de Soliman.

O nosso avanço pelas ruas de Qena foi extremamente pitoresco. Em frente de cada casa erguiam-se montículos de vasos de barro, alguns dos quais serviam de assento a mulheres sem véu que, sorridentes, nos dirigiam uma saudação com a mão. Descalças, envergando vestidos pretos, exibiam pesadas pulseiras de prata. Aquela imensa riqueza refulgia no meio de entulho e montes de lixo. Essas encantadoras mulheres eram detentoras da fortuna de Qena e manifestavam assim a sua posição dominante. Foi a uma delas que Soliman perguntou onde ficava o zâr. Munido da preciosa informação, levou-me até uma ruela estreita, tortuosa, que passava por entre casas deterioradas. O mau cheiro era quase insuportável.

Ergueu-se à nossa frente um homem idoso, forte, armado com uma cimitarra.

- O que procuram?

- O zâr - respondeu Soliman.

O homem deixou-nos passar, indicando a porta baixa de uma casa que parecia em ruínas. Tivemos que afastar cascalho e lixo para conseguirmos deslizar de gatas por aquela abertura.

Penetrámos num compartimento muito escuro onde palpitavam inquietantes presenças. Sentámo-nos, habituando-nos à penumbra. O local era sórdido. As paredes de pedra ressumavam humidade. Nos quatro cantos havia palha em putrefacção. No fundo, estavam cinco mulheres tocando em pequenos tambores.

Um homem ergueu-se bruscamente, girou sobre si próprio e caiu no chão, com espuma nos lábios. Uma mulher idosa puxou-o para si. Havia ali mais de vinte pessoas dos dois sexos.

- São todos doentes - explicou Soliman. - Vieram ao zâr para se curarem. Estão possuídos por demónios. Só a magia os pode libertar.

Respirando ruidosamente, um volumoso homem penetrou no compartimento. Levantou-se com dificuldade depois de ter passado pela porta e dirigiu-se imediatamente para nós.

- Sejam bem-vindos - disse-nos. Os tambores pararam de tocar.

- Não se mexam - recomendou o homem. - Observem. Se o vosso demónio não penetrou demasiado na vossa alma, terá medo e fugirá.

A um sinal da sua mão, a orquestra recomeçou a tocar. Uma mulher alta e ossuda, quase descarnada, colocou-se no centro da divisão e iniciou uma dança que pretendia ser lasciva. Abriu uma boca desdentada para oferecer à assembleia um miserável sorriso. Os espectadores bateram com os pés. Um doente entrou bruscamente em transe, rolando pelo chão. A orquestra tentou acompanhá-lo nos seus estremeções.

O homem forte ajoelhou-se e segurou o rosto do doente entre as mãos. Cantando uma melopeia coberta pelo som dos tambores, magnetizou prolongadamente o infeliz cujas convulsões diminuíram pouco a pouco de intensidade. O médico cobriu-lhe então a cabeça com um pano húmido e começou a virá-la em todos os sentidos como se tivesse intenção de a separar do corpo. Quando retirou o pano, o possesso abriu os olhos brancos, desorbitados. O médico submeteu-o a um tratamento de uma violência inaudita: torceu-lhe as orelhas, bateu-lhe na testa, desarticulou-lhe os membros. Quis intervir para interromper aquele suplício, mas Soliman segurou-me. O pior estava para vir: o médico deitou o doente de barriga para baixo, apoiou o joelho no meio da coluna vertebral e puxou a cabeça do possesso para si como se estivesse decidido a partir-lhe as vértebras. Aterrado, fechei os olhos.

Um grito terrível brotou. Apertei o braço esquerdo de Soliman.

- Está tudo bem - murmurou ele.

Atrevendo-me de novo a contemplar o penoso espectáculo, vi o possesso levantar-se e regressar ao seu lugar, ajudado por duas mulheres veladas, o médico instalou no meio do compartimento um pequeno altar de madeira carregado de círios acesos e de um defumador de incenso cujo aroma invadiu imediatamente as narinas. As músicas pararam de tocar tambor e vieram formar um círculo em redor do mestre de cerimónias que pronunciou incompreensíveis litanias onde julguei reconhecer alguns nomes de divindades egípcias. A mulher desdentada trouxe um carneiro negro amordaçado que tinha estado oculto por uma cobertura. Lágrimas de indignação encheram-me os olhos quando o médico apoiou a lâmina de uma longa faca no pescoço do pobre animal. Um instante depois, o sangue da vítima corria sobre o altar enquanto se elevava uma encantação destinada a expulsar os espíritos infernais.

A visão do sacrifício desencadeou um transe colectivo. A maior parte dos doentes iniciaram uma sarabanda desenfreada, empurrando-se, derrubando-se, batendo uns nos outros. Com as costas coladas à parede de terra, vi o médico aspergir-se com o sangue do carneiro, atirar ao ar o cadáver do animal e depois obrigar os doentes a ajoelhar. Erguendo os braços aos céus, o terapeuta interrogou as forças obscuras, apontando para cada possesso, um a seguir ao outro.

A este competia oferecer um anel de prata para ser curado, àquele uma túnica, a este outro carne...

Aproveitando a confusão e o barulho, um homem instalara-se a meu lado.

O monge copta que me marcara o encontro.

- Tome isto - disse em voz muito baixa, estendendo-me uma tabuinha de madeira coberta de hieróglifos. - Da parte do Profeta.

- O Profeta? - sobressaltei-me. - Está aqui?

- Partiu para o sul. Não se demore. Podem tornar-se perigosos. Há verdadeiros loucos.

Vários possessos molhavam os lábios no sangue. Excitando-se uns aos outros, começavam a insultar-se. Saímos do compartimento rastejando, felizes por nos reencontrarmos ao ar livre.

- Deixe algumas moedas sobre esta pedra - recomendou o monge copta. - É o salário do médico.

De regresso ao navio, deixei os olhos correr pela tabuinha que o monge me dera. Estava coberta de pó. Tive de limpá-la com precaução, fazendo surgir os cartuchos que continham nomes reais. O desenho pareceu-me datar de uma época antiga.

Senti uma violenta emoção.

Tratava-se de uma lista revelando os nomes dos reis das mais antigas dinastias. Um documento de um valor inestimável, que lançava uma nova luz sobre as origens da civilização egípcia. Desconhecia vários sinais. Tive a certeza que o Profeta conhecia os elementos que me faltavam. Tinham-lhe com certeza sido legados por uma tradição oral que se esfumaria com ele.

A porta da minha cabina abriu-se com violência. Surgiu o padre Bidant, furioso e corado.

- É intolerável, Champollion! Os rumores públicos fizeram-me saber que participou em rituais satânicos!

Tinha à minha frente um grande inquisidor pronto para me fazer subir à fogueira.

- Não exageremos, padre... Juntei-me por obrigação a uma cerimónia um tanto pagã.

- E por que motivo?

- Por este documento extraordinário - disse, mostrando-lhe a tabuinha.

- E porque razão é assim tão importante esse detestável fragmento?

- Faz recuar as origens da história e do pensamento, padre. O religioso fez-se carmesim.

- Profere abomináveis blasfémias! - berrou. - Só há uma história, aquela que a Bíblia ensina! O resto não passam de mentiras! Abandone a sua falsa ciência, Champollion, e arrependa-se.

A minha única resposta foi um sorriso que exasperou o religioso.

- Outros antes de si tentaram destruir a religião cristã! Fracassaram todos, graças a Deus, e também fracassará!

Levantei-me e dei alguns passos.

- Compreendo as suas angústias, padre, mas o que faz dos documentos? O que faz desta ciência que nasce... a egiptologia?

- A egiptologia não existe e não pode existir! O Egipto está morto, definitivamente morto, e não o ressuscitará. Os hieróglifos não têm qualquer significado. São signos pagãos, maléficos, que devem permanecer no nada. Destrua essa tabuinha, Champollion. Aos olhos do Senhor, não tem qualquer valor.

Enfrentei-o.

- Deixe-me ao menos uma recordação... Acha este documento assim tão perigoso para a sua fé?

Pareceu-me haver muito pouca caridade e amor no olhar inflamado do padre Bidant. Gotas de suor perlavam-lhe a fronte.

- Não compreende o verdadeiro objectivo da sua expedição, Champollion - explicou ele num tom que se tornara calmo, quase suave. - A Igreja segue de muito perto os seus trabalhos desde que começou a publicá-los. É evidente que o Egipto Antigo não ameaça de maneira nenhuma a existência do Vaticano, mas seria estúpido correr o mínimo risco. Estamos rodeados por infiéis e pagãos. Tudo o que possa servir a sua causa deve ser destruído, seja qual for o valor científico dos documentos. A ciência é diabólica quando contradiz a fé. E o senhor será uma incarnação do diabo se desafiar o Senhor Todo-Poderoso. Observe e estude tanto quanto quiser, mas mantenha silêncio. Deixe o Egipto e os seus monumentos satânicos sob as areias. Foi Deus que quis o fim desta civilização orgulhosa e das suas divindades. Não vamos contra os seus desígnios e consideremos a Bíblia como a única ciência digna de respeito.

- Fui educado na sua religião, padre, mas esta pareceu-me muitas vezes hipócrita e mentirosa. Pouco importa. Que os humanos acreditem naquilo que quiserem acreditar. A Providência, se existe, confiou-me uma tarefa: fazer reviver o Egipto dos faraós dos quais nós somos os herdeiros. A Bíblia não passa de um texto entre tantos outros que o antigo Oriente soube gerar. A fé num deus único, manifestado por diversas divindades, existiu antes do nascimento do cristianismo. A história egípcia ascende muito mais atrás no passado do que a história bíblica. Eis as verdades que muito em breve poderei provar.

O padre Bidant persignou-se. A sua palidez tornara-se extrema.

- É pior do que o diabo, Champollion. É o anti-cristo. Sorri de novo.

- Honra-me muito. Não passo sem dúvida de um antigo egípcio de regresso à sua terra natal e desejoso de a homenagear. Vivo a aventura desta nação como a minha história pessoal. É o meu sangue. É a fé dos faraós que eu partilho, o seu desejo de construir, de edificar o homem, de elevar templos à glória de Deus.

O religioso recuou, assustado.

- Meu filho, está a delirar! Cai nas garras do demónio!

- Quando o mundo souber decifrar os hieróglifos, padre, descobrirá a mais elevada espiritualidade algum dia concebida por uma sociedade. E nesse dia, é verdade, as nossas convenções e as nossas crenças serão postas em causa.

Com uma rapidez inesperada, o religioso precipitou-se sobre a tabuinha e tentou quebrá-la. Incapaz de me controlar, iniciei com ele uma luta selvagem e consegui arrancar-lhe o precioso documento.

- Saia daqui! - ordenei. Trémulo de indignação.

O padre Bidant estendeu para mim um indicador ameaçador.

- Actualmente, Champollion, é o próprio Deus que tem como inimigo!

Já nada esperava de Qena e gostaria de ter saído da cidade o mais rapidamente possível para seguir a pista do Profeta, ao mesmo tempo que estudava a tabuinha com o auxílio das minhas notas enquanto o barco vogasse pelo Nilo. Mas Rosellini preveniu-me que existia não longe dali, em Maabdeh, uma catacumba cheia de múmias de crocodilos e talvez de papiros que poderíamos adquirir por baixo preço. Fazendo surgir em mim a insaciável curiosidade do pesquisador, obrigou-me a organizar uma rápida expedição composta por ele próprio e por Nestor L'Hôte.

Maabdeh evidenciava-se ao longe ao viajante pela sua sinistra torre de vigia. Os aldeões, para nossa grande surpresa, não se mostraram nada acolhedores. Mantinham o rosto carrancudo. Alguns fugiram mesmo quando nos aproximámos e entrincheiraram-se em suas casas. Foi um adolescente de cabelos loiros que nos indicou a localização das catacumbas.

Entrava-se pelo cimo de uma colina que L'Hôte trepara com a habitual agilidade. Preveniu-nos que a descida para o interior de uma espécie de caverna não apresentava grandes perigos. Entrando por uma abertura bastante estreita, chegámos a uma sala quente e poeirenta onde reinava um desagradável cheiro, misto de resina e pez. As nossas tochas ardiam mal.

No chão e em buracos pouco profundos encontravam-se restos de cadáveres de crocodilos, alguns ainda rodeados de tiras de linho. Nada de papiros.

- General - exclamou Nestor L'Hôte - é horrível. Não avance.

A seus pés, outro cadáver. O de um homem com o crânio esmagado. O monge copta, pesquisador de Anastasy, que me tinha oferecido a tabuinha do Profeta.

 

- Como entrou aqui? - indignei-me ao ver Lady Ophelia Redgrave evoluir na minha cabina.

- Com a ajuda de Rosellini, senhor Champollion. Não pode ficar aqui fechado.

- Tenho as minhas razões.

- Conheço-as. Rosellini e L'Hôte falaram-me da sua terrível descoberta.

- Mais terrível ainda do que supõe. O nadador nu a quem deu uma esmola, esse infeliz monge copta, estava ao serviço de Anastasy. Foi o bando rival, o de Drovetti, que o suprimiu.

- Não tem qualquer prova. Pode tratar-se de um ajuste de contas local.

- Se eu tiver razão, está declarada a guerra. Estamos todos em perigo. Não tenho o direito de os fazer correr esses riscos extremos.

- Já não somos crianças, Champollion. Reunamo-nos e decidamos em conjunto. Que cada um assuma as suas responsabilidades.

A doce e linda inglesa manifestava uma vontade que não deixava de me agradar.

- Sou o chefe desta expedição, Lady Ophelia, e não tenciono partilhar essa autoridade.

- Um chefe que duvida de si próprio - ironizou ela, agitando o leque. - Um chefe que se retira para a solidão em vez de subir à frente de batalha.

Picado, agarrei-lhe no punho, afastando o leque por trás do qual ocultava o seu rosto.

- Não se iluda, Lady Ophelia. Tive um momento de fraqueza, é verdade... Obrigado por me dar coragem de novo. Seja a minha embaixatriz, quer? Pergunte aos nossos companheiros se desejam continuar esta aventura sabendo que somos perseguidos pelos esbirros de Drovetti. Esbirros que podem ir até matar. Se um deles quiser desistir, que venha aqui ter comigo.

- Aprecio essa missão, Jean-François. Vou executá-la imediatamente.

Uma hora mais tarde, saí da cabina.

Ninguém tinha desistido.

Quando chegámos a Dendera tinha caído a noite. Uma noite odorífera e serena. Estava um luar magnífico e encontrávamo-nos, de acordo com os nossos cálculos, apenas a uma hora de distância dos templos. Quem teria resistido à tentação? Jantar e partir imediatamente foi obra de um instante. Sós e sem guia, com a cabeça envolvida em albornozes brancos, armados até aos dentes, metemos através dos campos. Caminhámos corajosamente, cantando as marchas das óperas mais recentes para acalmar a nossa inquietação. Mas não encontrámos nada, receando termo-nos perdido. Atravessámos um bosquezinho de palmeiras, depois ervas altas, espinheiros e silvados.

Uma planície vazia, deserta, sem fim.

Teríamos que voltar para trás? Estava fora de questão. Os templos tinham que encontrar-se forçosamente por ali. Sentia a sua presença amigável.

Lady Ophelia convenceu-nos a gritarmos todos juntos para assinalarmos a nossa presença. Apenas nos responderam os latidos dos cães selvagens. L'Hôte, animado por um ardor inesgotável e convicto, exortou-nos a continuar. Não receava os demónios nocturnos.

Foi numa volta do caminho pedregoso que vimos um felá adormecido por baixo de uma acácia. Coberto de andrajos pretos, verdadeira múmia ambulante, fugiu a toda a velocidade. L'Hôte agarrou-o. Aterrorizado, tremendo, ouviu as nossas perguntas e aceitou guiar-nos até aos lugares santos. O pobre diabo, magro e seco, tomara-nos por uma tribo de beduínos. Um europeu ter-nos-ia tomado, sem hesitar, por um capítulo de belicosos monges de S. Bruno. O felá indicou-nos o caminho certo e acabou por nos acompanhar de boa vontade. Guiou-nos muito bem e tratámo-lo da mesma maneira.

No final de uma dura caminhada de duas horas, o templo de Dendera apareceu por fim.

Ali, perante o imenso pórtico inundado da claridade celeste, que sensação extraordinária! Pode-se avaliar, mas dar uma ideia é impossível. É a graça e a majestade reunidas no mais alto grau. Uma paz indescritível e uma magia misteriosa reinava sobre aquelas gigantescas colunas, mergulhadas em espessas trevas contrastando com o deslumbrante luar.

L'Hôte acendeu um facho de ervas secas no interior. Um grito de entusiasmo brotou de todas as gargantas. A febre e o entusiasmo apoderaram-se de nós. Beijámo-nos uns aos outros, na exaltação de descobrir um templo admiravelmente bem conservado, de reviver as horas de meditação e de preces que tinham vivido os sacerdotes egípcios durante milénios. Até o padre Bidant parecia subjugado.

Permanecemos duas horas em êxtase no interior do templo de Dendera, correndo as grandes salas com o nosso pobre facho e procurando ler cenas e inscrições.

- Devíamos passar a noite aqui - afirmou Rosellini.

- Não. Não temos o material necessário para estudar. Regressemos aos navios pelo caminho certo e regressemos o mais depressa que pudermos.

Com a cabeça cheia de sonhos, os meus companheiros formaram em procissão para se dirigirem ao Nilo. Fiz questão de fechar a marcha, com uma tocha na mão.

Uma sombra surgiu atrás de mim. Desembainhei o meu sabre.

- Tem medo de uma mulher, Champollion?

A luz fulva dançava sobre o fino rosto de Lady Redgrave.

- Não fique atrás, Lady Ophelia. Pode ser perigoso. Deve haver vagabundos.

- Não tenho medo deles - disse ela erguendo a cabeça para o céu estrelado. - Já não tenho medo de nada. Fez-me viver o momento mais intenso da minha vida. No interior daquele templo, na presença das divindades, senti a realidade de um outro mundo, bem mais real do que aquele que os nossos olhos nos oferecem. Foi o senhor que me trouxe aqui, Jean-François Champollion. Seja quem for realmente, nunca o esquecerei.

Teria querido interrogá-la, perguntar-lhe o significado daquelas estranhas palavras, dissipar o equívoco que me dizia respeito... mas Lady Redgrave tinha avançado para o centro da procissão.

Regressámos ao templo às sete horas da manhã. Munidos do equipamento necessário para desenhar os planos e copiar textos e cenas. O que era magnífico à luz da Lua era-o ainda mais quando os raios do Sol nos permitiram distinguir todos os pormenores. Vi desde logo que o templo era uma obra-prima de arquitectura, mas coberto de esculturas do pior estilo em relação à mão divina dos escultores dos templos antigos.

Os baixos relevos de Dendera datavam de uma era de decadência. O edifício, que é dedicado a Hátor, a deusa da alegria, capaz de criar o brilho das estrelas, foi começado, pelo menos na sua presente forma, pelos Ptolomeus e terminado pelos imperadores romanos. Consegui mesmo determinar, graças aos nomes reais inscritos nos cartuchos, que os principais construtores tinham por nome Cleópatra, Césarion e Augusto. Se a escultura se tinha corrompido, a arquitectura, menos sujeita a variar por ser uma arte de cálculos, manteve-se digna dos deuses do Egipto e da admiração dos séculos.

Ficámos a contemplar as gigantescas colunas do pórtico. São, na realidade, imensos instrumentos musicais, sistros coroados por quatro rostos da deusa Hátor. Abanando-os, os iniciados desencadeavam um murmúrio que difundia as vibrações divinas aos quatro orientes do mundo. Desconfio que o templo inteiro é um feixe de ressonâncias que actua sobre as nossas almas e os nossos corpos. Vândalos, entre os quais cristãos fanáticos, desfiguraram vários retratos da deusa do amor, como se esta pudesse interferir nas suas crenças. Como é ela que está encarregada de receber os mortos na margem do outro mundo, não tenho a certeza que tenham sido bem recebidos lá. Estou convencido que os nossos actos terão o seu prolongamento no invisível. Quem tiver destruído, será destruído.

- Dêem-me uma pá e deixem-me aqui! - exigiu Nestor L'Hôte. - O templo está semi-enterrado na areia! Metade das colunas é invisível... Mas que perspectiva, quando tudo isto estiver liberto!

A verdade é que a areia foi a aliada de Dendera. Ocultando uma boa parte dos seus relevos, protegeu-os dos iconoclastas. Será necessário retirá-la e restituir o edifício ao seu primitivo esplendor.

Acompanhado por Rosellini, fui até ao fundo do santuário, avançando passo a passo no mistério do templo, sem me esquecer de erguer os olhos para o tecto onde se exibiam os quadros astrológicos, os mapas do céu, as divindades do cosmos.

- Que trabalho imenso nos espera, mestre! Serão necessárias dezenas de anos para copiar e traduzir este gigantesco livro.

- E mais ainda para o compreender, Rosellini. Compreendo agora o significado das palavras de Napoleão.

- Então encontrou-o?

- Sim, em Grenoble, aquando do seu regresso da ilha de Elba. Fora o meu irmão, que ele fizera seu secretário, que organizara a entrevista. Durante a recepção aos poderes constituídos, o imperador distinguiu-me na multidão e prometeu mandar imprimir o meu dicionário da língua copta.

Desejava mesmo que o copta se tornasse a língua oficial do Egipto moderno. Napoleão sentia-se fascinado pelo Egipto. Trazia consigo um talismã e acreditava que a magia das pirâmides o protegia. Estava persuadido que os antigos egípcios dispunham de conhecimentos prodigiosos. Ele conhecia o Egipto. Eu sonhava com o Egipto.

O felá andrajoso, o nosso excelente guia, aproximou-se de mim e quis fazer-me descobrir outra maravilha. Erguendo uma laje, revelou o acesso a um corredor subterrâneo que conduzia a uma cripta. Nas paredes, à luz das tochas, vi extraordinárias figuras que falavam da fabricação do ouro espiritual. Depois da astrologia no tecto do templo, a alquimia nos seus subterrâneos ocultos. Apenas o faraó tinha acesso a estas ciências sagradas.

O felá e eu estávamos sentados na poeira, fascinados pelo espectáculo daqueles símbolos, vaso, serpente erguida, cabeça de falcão, explicando como o homem se transformava em luz.

- Encontraste aquele que se faz chamar o Profeta? - perguntei.

- Não há Deus a não ser Deus e Maomé é o seu profeta - respondeu ele, chocado.

- Trata-se de uma personagem bastante alta, com uma barba branca cortada em bico - insisti. - Anda apoiado numa grande bengala com castão de ouro. Compreende os sinais e as figuras dos antigos.

O felá baixou a cabeça, deixando-a poisar nos joelhos. Reflectiu longamente.

- Um homem semelhante a esse veio aqui há duas luas... Eu não o vi. Mas dizem que ficou uma noite inteira em cima do telhado do templo.

- Viram-no partir?

- Dizem que embarcou numa falua e que tomou a direcção de Tebas. Enveredando por um corredor ascendente em cujas paredes estavam representados sacerdotes formando uma imortal procissão, cheguei, por minha vez, ao telhado do templo de Dendera. A beleza do espectáculo embriagou-me de imediato. O campo, o Nilo, as colinas do deserto formavam um quadro de uma serenidade absoluta cujo centro era ocupado pelo templo. Os astrólogos, os sacerdotes da hora” como os chamavam os antigos egípcios, vinham aqui aprender a sua arte.

As cores do poente começavam já a recobrir as pedras com uma luz quente e dourada.

Lady Redgrave estava sentada num dos cantos do telhado, com o olhar dirigido para um palmar sobrevoado por um íbis de asas abertas. Tirara o chapéu. Os cabelos, de um louro veneziano, caíam em caracóis sobre os ombros. A pele, tão branca quando chegara ao Egipto, estava agora bronzeada, conferindo-lhe um encanto oriental. Envergando uma blusa amarela e uma saia preta, nunca estivera tão bela.

Dendera, templo da deusa do amor... Não incarnaria a deusa nesta mulher misteriosa, de rosto perfeito, cuja doçura ocultava a paixão? Não me oferecia a visão de uma felicidade impossível e no entanto tão presente, enquanto o Sol descia no horizonte?

Voltou a cabeça com infinita lentidão.

- Sabia que estava aí, Jean-François. Venha sentar-se a meu lado.

- Lady Ophelia, gostaria de lhe perguntar...

- Cale-se. Falaremos mais tarde. Dê-me a mão.

O poente incendiou-se. Os fulgores do último Sol, brincando com o verde das palmeiras, estenderam um manto laranja sobre os campos de onde se elevou uma área de flauta.

Um único dia consagrado a Dendera... Que sacrilégio! Mas era necessário continuar o caminho, chegar a Tebas onde o Profeta encontrara com certeza refugio. Na minha cabina, sobre a minha mesa de trabalho, estavam espalhados os cadernos em que tinha registado as mais recentes pesquisas. Começava a ler os hieróglifos, é verdade, mas tacteando como um leitor debutante que reconhece as letras, por vezes as palavras, raramente as frases. Faltava-me ainda uma chave de coerência.

O meu pensamento avançava entre a morte e a vida, que duas cartas me tinham prometido por igual antes da minha partida para o Egipto. Uma e outra, é um facto, tinham começado a revelar-se à medida que avançava para sul. Embora Abdel-Razuk tivesse desaparecido e Moktar representasse o papel de um servidor eficaz e obediente, as sombras de Drovetti e do seu senhor, o paxá, continuavam a pairar por cima de nós. Mas havia também a magia favorável dos Irmãos de Lucsor, o Egipto dos templos, o sublime de uma viagem que me transportava para além de toda a esperança... Aquilo era a verdadeira vida, a vida renovada, o mais precioso dos tesouros.

O que me reservaria Tebas, a mais antiga de todas as cidades, o coração de todos os meus sonhos desde a adolescência? O que restaria da maior e da mais célebre capital do mundo antigo?

Bateram à porta. Abri.

O professor Raddi solicitou uma entrevista que lhe concedi imediatamente.

- Não tivemos ocasião de falar desde o início da nossa viagem - começou ele, sentando-se em cima da minha cama e em cima de alguns papéis que lá se espalhavam. - Faço questão de declarar que estou muito satisfeito com as pedras recolhidas e com as perspectivas científicas que entrevejo.

- Fico encantado em sabê-lo, professor! É tão solitário que não achei útil perturbá-lo nas suas pesquisas.

- Obrigado por isso, Champollion... Com efeito, adquiri o hábito de não comunicar muito com a humanidade. Aborrece-me. As pedras falam-me mais. Dão-me também o sentido da observação - acrescentou, com ar sombrio.

- O que quer dizer?

O professor Raddi olhava fixamente em frente como se eu não existisse.

- À sua volta não há só amigos... A voz era quase inaudível.

- Revela demasiado ou demasiado pouco, professor! Quem acusa assim?

- Simples observações científicas. Acredita que Rosellini seja realmente um discípulo fiel?

- Estou convencido disso. É sincero e dedicado. É verdade que tem alguns defeitos... Passa na realidade demasiado tempo a regatear e a comprar. Mas o seu desejo de descobrir e de aprender não pode ser posto em dúvida

Raddi abanou a cabeça, ao mesmo tempo que sacudia o fato enrugado.

- Pode-se ser genial e ingénuo - suspirou. - Aposto que ele o vai trair. E o seu Nestor L'Hôte? Qual é o objectivo dele?

- Dar largas à sua arte de desenhador participando numa aventura fora do comum - respondi com firmeza. - Não é um objectivo suficientemente nobre a seus olhos?

- O discípulo Rosellini sonha apenas em tomar o lugar do mestre e o bravo soldado L'Hôte em tornar-se general... Quanto à encantadora Lady Redgrave, só Deus sabe do que ela é capaz. Uma espia, com certeza... mas também uma mulher apaixonada. Pode destruir ou criar, como lhe mandar o coração. Espero que a corrente lhe seja favorável. Eu não tive essa sorte. A senhora Raddi é uma tigresa da pior espécie. Devia ter recusado casar com ela, mas não me atrevi. Sempre me meteu medo. Tem sempre razão. Neste país perdido, diverti-me pela primeira vez desde há vinte anos. Quase esqueci a mineralogia. É por essa razão que não regressarei à Europa. Lá há demasiados regulamentos, disciplina e frieza. Aqui, tomam-me por um velho louco e deixam-me em paz. Não tenho contas a dar ao deserto. Com ele, falo sem pensamentos reservados. Responde-me no essencial. Sei por que razão está fascinado por este país, Champollion. É mágico. É de um outro mundo. O senhor também não regressará.

Mantive silêncio durante um longo momento. Raddi fixou a minha mão direita.

- Tem um magnífico anel de jaspe... Posso examiná-lo?

- Lamento, professor. Nunca me deve abandonar.

- Ah! O senhor também acredita nos talismãs... Magia, digo-lhe eu! A ciência parece-me tão ridícula, tão infantil nas suas medidas e nos seus números face ao deserto... Proteja-se, Champollion. Não há melhor estratégia contra a desgraça.

- Porque razão não falou do padre Bidant?

A testa do professor Raddi enrugou-se. Irritado, levantou-se e abriu a porta da cabina. No momento de franquear o limiar, deteve-se.

- É o maior génio que tive a felicidade de conhecer, Champollion. O seu destino condu-lo e não pode fazer nada contra isso. No entanto, não esqueça que o homem, mesmo usando sotaina, pode tornar-se o pior dos animais selvagens.

Há dois dias que o vento nos contraria e nos fecha a entrada do santuário: Tebas. Este nome, esta cidade obcecam-me a ponto de me tornar odioso para os meus companheiros. Não parava de estudar e voltar a estudar planos, mapas e descrições de antigos viajantes. De repente, uma ideia atravessou-me o espírito. Saltei para a ponte. Aquele que eu procurava não estava lá. Fumava narguilé na margem, à sombra de uma acácia. Caminhei na sua direcção em grandes passadas, com uma determinação que o assustou.

- Moktar, já vieste a Tebas?

- Não... acho que não...

- Estás a mentir. Quantas vezes aqui vieste com Drovetti?

- Quando ele precisava de mim...

- Deu-te ordens para destruíres os monumentos?

- Ele, não... mostra-se muito respeitoso. Mas somos todos fiéis servidores do paxá...

Um calafrio gelou-me os rins.

- O que exigiu ele?

- Tebas está cheia de velhos monumentos... O paxá considerou que era preciso demolir alguns para construir refinarias de açúcar e fábricas de algodão.

 

Agarrei-o pelos ombros.

- Quantos templos foram deitados abaixo?

- Uma dúzia... talvez mais.

- Talvez mais... - repeti, abalado até ao mais profundo da minha alma.

Afastei-me de Moktar, completamente indiferente à sorte dos monumentos tebanos. Recomeçou a fumar o narguilé, observando-me pelo canto do olho.

Um sopro de vento bateu-me no rosto.

O vento!

O vento que abria finalmente o caminho para Tebas.

O céu do Alto Egipto é o mais belo que se pode saborear. O deus sol reina lá como senhor absoluto, mas sabe criar um azul de uma pureza tão perfeita que o olhar mergulha nele com delícia.

Nas margens, a riqueza depositada pelo Nilo, uma terra negra, rica, leve. Os ventos do deserto espalham um calor seco cuja impressão se pode comparar à que recebemos da boca de um forno vulgar no momento em que se retira o pão.

Esse espectáculo, de que nunca me cansava, não foi capaz de calar a minha impaciência. O navio aproximava-se do cais. Tebas surgia.

- Talvez fosse prudente seguir caminho - disse Soliman, que estava a meu lado.

Olhei com espanto aquele que pretendia ser meu Irmão.

- Deixar Tebas? Enlouqueceste, Soliman?

- Olhe para a esquerda, a árvore grande...

Um sicômoro gigante sombreava uma parte da margem. O seu tecto de folhas descia quase até à terra e devia proporcionar um abrigo delicioso durante os momentos de intenso calor.

- A árvore é magnífica, mas...

- Olhe melhor.

Apesar da distância que nos separava dela, pareceu-me distinguir pés aparecendo por baixo das folhas mas sem tocarem no chão.

- Enforcados - explicou Soliman. - Inocentes executados por terem desagradado ao paxá. A outros foi cortada a cabeça. Mais de trezentas vítimas que tinham cometido o pecado de protestar contra a tirania de Mé-hémet-Ali. Dizem que, entre as perguntas que lhes foram feitas antes do suplício, algumas diziam respeito ao Profeta e ao lugar onde se escondia... Continua a desejar visitar Tebas?

Apertei os punhos. A decisão só a mim pertencia. Com certeza deveria ter pesado os prós e os contras, avaliar os riscos, reflectir... Confiei na única voz interior que me ditava a conduta.

- Tebas espera-nos, Soliman.

 

Os dois navios lançaram ferro em frente do templo de Lucsor. Dançavam andorinhas na brisa que acompanhava o nascer do Sol. Ao longe, as cristas da montanha do oriente tingiram-se de vermelho. Apareceu primeiro uma orla açafrão, depois uma aura flamejante invadiu o céu. Surgiu o disco solar, acendendo no Nilo fulgores deslumbrantes que, de reflexo em reflexo, acordaram os campos.

No seu imenso domínio tebano, o deus Amon ofereceu vasto espaço aos vivos: campos verdes e bem irrigados, divididos em pequenos quadrados, colheitas abundantes, bosques de palmeiras. Com o nascer do dia, homens e animais preparavam-se para enfrentar o seu labor quotidiano. Em frente das casas, crianças nuas brincavam com bonecas de pano. À beira do rio, o chiar das cegonhas de tirar água espalhava os seus primeiros queixumes. As mulheres saíam para a tarefa da água. Os burros e os camelos dirigiam-se com passo calmo para as culturas de onde regressariam carregados de pesados fardos.

O ar era doce. Aspirava-o como uma verdadeira guloseima. Nenhuma palavra poderia descrever aquele clima maravilhoso em que a luz penetra cada parcela do corpo. Seria um dia como os outros, habitado pelo Sol, o Nilo, os templos e os trabalhos dos homens. Um dia perfeito em que a vida e a morte acederiam, uma vez mais, em confraternizar.

A minha frente erguia-se Lucsor, imenso palácio divino, precedido de dois obeliscos, talhados com um trabalho perfeito num único bloco de granito rosa e acompanhados por quatro colossos enterrados até ao peito. Reconheci imediatamente a arte de Ramsés o Grande. O Nilo ameaça o edifício; se não forem tomadas medidas para o proteger, em breve será atacado pelas águas e desfar-se-á.

Os indígenas respeitam bem pouco esse glorioso passado. Ergueram paredes de terracota sobre as próprias ruínas para separarem as suas miseráveis habitações, instaladas no meio dos capiteis das colunas. Pombos e galinhas debicam ao nível das flores de lótus de pedra, os cães correm entre os baixos-relevos, as cagadelas de moscas cobrem admiráveis figuras de divindades. A parte direita do grande pilone de entrada está totalmente obstruída por pombais. Em frente do que foi a fachada de um templo de linhas perfeitas estão deitados camelos, esperando que os seus proprietários tenham concluído intermináveis transações.

O interior do templo está ainda mais devastado. Há lá fornos para frangos, jardins infantis, a casa de um capitão turco, os restos de uma igreja cristã e mesmo uma mesquita que oculta boa parte do monumento. Luc-sor é o santuário egípcio mais profanado e mais maltratado.

Vencido por esta visão pungente de uma Tebas com a qual fizera mal em sonhar demais, chorei, ocultando-me atrás de uma coluna maculada com negro de fumo.

Esta triste meditação durou talvez horas. Foi Nestor L'Hôte que conseguiu encontrar-me. Ergui para ele um rosto sereno, conseguindo dissimular a minha mágoa.

- Venha depressa, general! Vou poder libertar os obeliscos.

- Por que milagre?

- Bastará demolir as casas feitas com tijolos de lodo seco que lhes estão encostadas.

Os olhos de L'Hôte brilhavam de excitação.

- Proíbo-lho.

- Porquê? - espantou-se ele.

- Deixaríamos sem tecto algumas famílias pobres. Não temos esse direito.

Nestor L'Hôte, de braços caídos, não compreendia a minha decisão. Como soldado disciplinado, não se revoltou. Mas percebi que a amizade que me dedicava ficara fortemente abalada.

- Contentar-me-ei em desenhá-los - anunciou.

- Trabalhe sem descanso - recomendei-lhe. - A arquitectura e os relevos são do melhor estilo. Temos que pelo menos salvar isso.

O dia foi de estudo. Tomei notas aqui e ali, imaginando uma formidável campanha de escavações que libertasse o templo dos seus desastrosos ouropéis sem lesar os pobres. O meu coração revoltava-se com a ideia de humanos serem tão inconscientes das maravilhas que tinham ao alcance da mão. Um exame superficial permitiu-me descobrir que Lucsor revelava o mistério do nascimento divino, a forma como o Faraó era construído pelos deuses para se tornar o senhor do Egipto, o mediador entre Deus e o homem. Conseguiriam renascer aquelas sublimes revelações, abafadas pelo lixo da humanidade?

Foi ao entardecer que Lucsor, tão conspurcada, me surgiu num esplendor que recordava a sua beleza de outrora. Um vento ligeiro proporcionou-me uma nova serenidade. Cores quentes revestiram paredes e colunas. O véu alaranjado do crepúsculo estendeu-se sobre o gigante de pedra, apagando as silvas, os detritos e os casebres. A gritaria dos galinheiros desapareceu. Os indígenas deixaram de circular entre as ruínas e regressaram às suas cabanas para prepararem a refeição. Rosellini e L'Hôte tinham voltado para o barco.

Estava só no santuário, só com o que tinha sido uma imensa sala de festas onde deuses e homens comungavam numa alegria luminosa. No entanto, os meus pensamentos não conseguiam elevar-se para além das inquietações nascidas das confidências do professor Raddi. Não estaria realmente rodeado senão por traidores, incapazes e invejosos? Qual de entre eles estava ao serviço do inimigo? Que projecto concebera contra mim e como tencionava pô-lo em prática? Não seria o professor Raddi o mais hábil dos mentirosos, ele que se tentara apoderar do meu anel protector?

No coração do templo, serenado pela sua beleza, avaliava o caminho percorrido desde a minha partida de Grenoble. Esta expedição, que deveria ter sido apenas uma aventura arqueológica, despertara ódios e paixões, forçando-me a travar um combate para o qual não estava preparado. Eis-me adversário do omnipotente paxá do Egipto, do implacável Drovetti, das suas hordas de ladrões e de assassinos, atravessado no seu caminho e decidido a não recuar. Aqueles homens decidiram pilhar o Egipto, pô-lo a saque, destruí-lo antes que fosse descoberto. Com certeza preparavam ainda pior. Para eles, não passo de uma palha. Mas uma palha oficial, enviada pelo governo francês. Esse governo contra o qual tanto lutei outrora...

- É o seu passado que o invade, não é?

Lady Ophelia Redgrave aproximara-se com passo leve e silencioso. Permanecia de pé à minha frente.

- Estas pedras ressurgirão um dia em toda a sua beleza - disse ela. - Sinto-o.

- Os sábios são demasiado estúpidos, demasiado cobardes...

- Não está a ser muito amável com os seus colegas... O meu tio descrevia-o como um homem de carácter desabrido, acusando os seus concorrentes de imbecilidade e incompetência.

- Não se enganava. Se conhecesse os eruditos franceses... Os Quatre-mère de Quincy, Raoul Rochette ou Silvestre de Sacy... São incapazes de compreender a importância da civilização egípcia. Não passam de velhos burgueses pretensiosos, enfiados nos seus hábitos mentais, hostis a qualquer descoberta. Gostaria de os ter posto à prova, de os fazer trabalhar de dia e de noite na pequena biblioteca que o meu irmão me arranjara, em Grenoble. Só tínhamos dois compartimentos, cheios de livros. Comprávamos mais constantemente e devoravamo-los. Era o mais suculento dos alimentos. Jacques-Joseph ensinou-me a gramática, o latim, o grego, o hebreu... e completei os seus ensinamentos com o aramaico e o copta.

O Sol poente invadira o templo. A doçura da luz, a tepidez da noite nascente faziam de nós cúmplices que falavam em voz baixa para não perturbarem os deuses.

- O meu tio afirma que não descobriu nada e que é um impostor.

- Young é um mentiroso e um ciumento! - indignei-me. - Foi no dia 14 de Setembro de 1822, ao meio-dia, que pela primeira vez entrevi a leitura dos hieróglifos. “Apanhei-os”, disse ao meu irmão antes de mergulhar num desmaio que durou três dias. Tivera tempo de lhe ditar alguns princípios de decifração que queríamos enviar a um desses sábios de fancaria, esse pobre tradutor Sacy. Convenci Jacques-Joseph a esquecer essa sinistra personagem e dirigir um memorando a Dacier, que tinha o meu irmão em elevada consideração. Infelizmente...

- Infelizmente?

- Ninguém compreendeu nada da minha descoberta. Porque eu era republicano e manifestava demasiado abertamente as minhas opiniões, fui demitido do meu lugar de professor em Grenoble. Foi o meu irmão que me recolheu em Paris, na rua Mazarine, para me confiar a educação dos seus filhos. Essa tarefa não me divertia nada, confesso, mas permitia-me continuar as minhas investigações sem preocupações de dinheiro e de alojamento.

O silêncio das noites do Egipto é incomparável. A humanidade cala-se, os campos mergulham docemente no sono, os templos adquirem o aspecto de sábios de pedra com palavras de eternidade. A paz de Lucsor esbatia a curiosidade de recordações que se misturavam na minha memória. Lady Redgrave fazia-me confessar e eu deixava-me ir. Nunca evocara aqueles períodos difíceis da minha existência que não tinham sido bafejados pela sorte. A minha única fortuna era a inabalável vontade de fazer o Egipto falar, de fazer ouvir aquela voz imensa que estava na origem de toda a civilização.

- Não foi detido pela polícia? - perguntou Lady Redgrave, desconfiada.

- Detido, não; exilado, sim... e sinto-me orgulhoso por essa condenação. Foi o Terror branco que nos obrigou, ao meu irmão e a mim, a residirmos em Figeac. Mil incómodos nos foram aí infligidos. A justiça, apesar da sua má fé, não conseguiu acusar-nos de nenhum delito. Tudo isso me parece bastante irrisório hoje em dia... Há uma única recordação que guardo realmente: a das noites de trabalho, às escondidas, no dormitório do liceu de Grenoble, em que utilizava uma vela para traduzir os autores gregos e latinos. Os meus camaradas dormiam. Já então estava só... só com textos, pensamentos, palavras arrancadas ao silêncio e à morte.

- Venha - disse ela. - Apetece-me passear.

Os baixos-relevos de Lucsor, tão delicadamente gravados, tornavam-se invisíveis. A noite avançava com rapidez, deixando a uma lua brilhante o cuidado de iluminar o templo. De mão dada, fomos até ao santuário onde estava guardada a barca sagrada transportada pelos sacerdotes quando o deus Amon manifestava a sua presença ao povo.

Não passávamos de dois vultos perdidos no segredo de um lugar sagrado onde, na presença do criador, o Faraó se unia à Grande Esposa Real aquando do casamento ritual. Os hieróglifos inscritos nas paredes tornavam aquele acto perpetuamente presente desde que um olhar pousasse sobre eles para os ressuscitar.

Naquela noite, pareceu-me que o templo de Lucsor refulgia de amor.

- Acorde! Acorde, peço-lhe!

Sem brutalidade mas com vigor, Soliman abanava-me. Era o único a possuir um duplicado da chave da minha cabina. Precisei de alguns segundos para voltar a assentar pés na terra. Durante o meu breve sono sonhara com grandiosos estaleiros de escavações, templos arrancados às areias, baixos-relevos restaurados... Reconstruía todo o Egipto.

- O que se passa, Soliman?

- Méhémet-Ali, o todo poderoso paxá do Egipto, acaba de chegar a Tebas.

Saltei, completamente acordado.

- Soliman, consegue-me uma entrevista.

Méhémet-Ali estabelecera domicílio numa vasta mansão em que metade das janelas tinham sido tapadas. Recebeu-me ao meio-dia, rodeado por numerosos cortesãos que fumavam narguilé e bebiam chá verde. Sentado numa poltrona Império, Méhémet-Ali alisava a sua longa barba branca que um servidor acabava de perfumar.

- Sinto-me feliz por vos rever, Champollion. A vossa viagem tem-vos proporcionado as alegrias que esperáveis?

Mantendo-me a respeitosa distância do trono, curvei-me com deferência.

- Que Vossa Beatitude possa ser favorecido pelo céu por me ter concedido audiência.

O paxá ordenou que me oferecessem bolinhos com mel e chá. Saboreei-os calmamente, não querendo apressar uma conversa no decurso da qual estava decidido a lançar o mais arriscado dos desafios. Pensava ter encontrado o meio de vencer o tirano sem o fazer perder a face. Se a ideia fracassasse, seria o fim da minha aventura.

- A saúde de Vossa Beatitude parece florescente.

- Sinto-me muito bem, Champollion. Nunca estive tão decidido a cumprir os meus deveres e tornar o meu povo rico e feliz. A industrialização do meu país é a tarefa mais urgente. Tenho consciência, é um facto, da necessidade de preservar alguns monumentos antigos, mas devo primeiro preocupar-me com o presente.

O aviso era claro. Méhémet-Ali proibia-me de evocar os edifícios desmantelados por sua ordem.

- Poderei eu censurar-vos, Vossa Beatitude? Tive ocasião, no decurso da minha viagem, de ver o estado do povo egípcio ao qual sou tão dedicado... Nenhuma medida em seu favor será demasiado generosa.

O paxá esperava um protesto que não saía da minha boca. A sua perspicácia fazia-o entrever um ataque noutro terreno.

- Não houve nenhum incidente grave durante o vosso périplo, Champollion?

- Algumas mortes violentas, Vossa Beatitude, mas nenhuma que me diga directamente respeito... No Egipto, como em qualquer outro lugar, as paixões humanas traduzem-se por vezes da forma mais brutal. Conflitos de interesses, suponho. Mas sou egiptólogo e não polícia. Não tenho nem o desejo nem a possibilidade de conhecer o reverso dos mapas. Apenas a arqueologia me interessa.

O olhar penetrante do paxá tornara-se fixo. O senhor do Egipto pesava cada uma das minhas palavras. Sabia que eu não era parvo. Apreciava a minha moderação inesperada, tão tranquilizadora para os seus interesses. Nem uma palavra da minha parte sobre Abdel-Razuk, o seu guarda, que tentara assassinar-me. Nem um nem outro tínhamos intenção de evocar essa inquietante personagem.

- Se desejais continuar a vossa expedição, Champollion, como poderei ser-vos agradável? Gostaria de conceder um favor a um eminente embaixador da França.

Bebendo o chá em pequenos goles, reflecti um longo momento, como se hesitasse em formular um voto. Na realidade, rememorava as etapas da minha argumentação para evitar tropeçar nas palavras. Com a voz um pouco trémula, iniciei a conquista do paxá.

- É verdade, Vossa Beatitude, que os ingleses se recusaram a transportar para o seu país um obelisco de Alexandria que lhes havíeis oferecido, com o pretexto que seria necessário construir uma estrada cujo custo era calculado em trezentos mil francos?

Desconcertado, o paxá respondeu com um sinal afirmativo de cabeça.

- Com certeza - continuei - que essa estrada que conduz a um cais de embarque no novo porto é indispensável. Mas recusar o presente do paxá do Egipto é uma falta grave, imperdoável.

Méhémet-Ali tentou permanecer impassível, mas detectei um ligeiro suspiro de satisfação.

- Por essa mesma soma, Vossa Beatitude, tenho muito melhor a propor-vos. Com a condição, bem entendido, de obter o vosso apoio.

- Continuai - ordenou ele, intrigado.

- Compreendo perfeitamente - disse eu - que o sábio engenheiro inglês tenha tido a bela ideia de uma estrada de trezentos mil francos para dissuadir o seu governo e, por via indirecta, o nosso, dos pobres obeliscos de Alexandria! Fazem-me pena desde que vi os de Tebas. Tenho uma ideia mais forte, mais grandiosa... Aquilo que a Inglaterra desdenha, a França aceita com entusiasmo! É preciso um obelisco em Paris, Vossa Beatitude. Não ficaria mal colocar perante os olhos da nossa nação um monumento deste género para a fazer deixar de apreciar as bugigangas e os berloques a que damos o faustoso nome de monumentos públicos, verdadeiras decorações de toucador, bem à medida dos nossos “grandes” arquitectos, meticulosos imitadores de todas as pobrezas do Baixo Império. Por mais que se diga, o grande existirá sempre no grande e não noutro lado. Só as massas se impõem e têm impacto no espírito e nos olhos. Uma só coluna de Lucsor é mais um monumento por si só do que as quatro fachadas da corte do Louvre. Um colosso egípcio colocado no terraço da Pont-Neuf será mais importante do que três regimentos de estátuas equestres do tamanho da de Lomot (1). A nossa capital é triste.

 

(1) A estátua equestre de Henri IV.

 

A arte moderna matou a arte. Paris entrou na era da barbárie. Ao ver aqui obeliscos erigidos em honra de Ramsés, o maior conquistador do seu tempo, tive a certeza que um deles poderia comemorar maravilhosamente a amizade indissolúvel que une o Egipto e a França.

O paxá não conseguia dissimular a surpresa.

- Então qual é a vossa proposta, senhor Champollion?

- Por trezentos mil francos, tenho a certeza de poder garantir o transporte até Paris de um dos dois obeliscos do templo de Lucsor, aquele que fica situado à direita da entrada. A honra nacional ficar-lhe-á eternamente reconhecida, Vossa Beatitude.

- Espantosa proposta e fabulosa empresa - considerou o paxá. - Será com certeza necessário cortar em três esse enorme monólito.

- Tudo ou nada, Vossa Beatitude. O obelisco deve permanecer intacto para resplandecer com toda a sua força sobre o solo de França. O transporte será possível desde que seja confiado a um homem com prática, arquitecto ou mecânico, e nunca a um sábio de gabinete!

Era a única solução para salvar uma das mais perfeitas obras-primas da arte egípcia, todos os dias maculada por vândalos e condenada a uma rápida degradação.

Méhémet-Ali alisou a barba branca com perplexidade, ergueu-se e ordenou secamente aos seus cortesãos que desaparecessem. Esperou que estivéssemos sós para tomar a palavra.

- Sois um homem muito activo, Champollion. O Egipto vivia esquecido e tranquilo antes da vossa vinda. Receio que ides desencadear um interesse demasiado opressivo para este velho país que deve avançar lentamente rumo ao progresso.

- A razão de ser do Egipto, Vossa Beatitude, não será a sua mensagem espiritual?

- Vós vedes templos, esculturas, divindades. Eu, vejo fábricas, máquinas, barragens. Somos adversários empenhados numa luta sem tréguas. Só a posteridade será capaz de nos julgar.

O paxá deteve-se em frente de uma janela aberta e voltou-me as costas. Para ele, a entrevista tinha terminado. Para mim não.

- Perdoai que interrompa a vossa meditação... mas não compreendi a resposta em relação ao meu projecto.

O senhor do Egipto tinha a imobilidade do granito. Durante longos segundos receei que tivesse igualmente adoptado um silêncio mineral.

- O vosso obelisco embelezará Paris, Champollion.

Embriagado com a minha vitória, ousei finalmente dar o último passo que me separava do coração de Tebas: Carnaque, o palácio de Amon-Rá, o senhor dos deuses.

Carnaque, a Tebas das cem portas, que durante muitos séculos reinara sobre o universo. O que me reservava? O que restaria depois da destruição dos assírios, dos cristãos e dos árabes? Carnaque estaria reduzido ao mesmo estado lamentável de Lucsor?

Incapaz de esperar durante mais tempo, caminhei ao sol em passos rápidos. Um condutor de burro propôs-me ajuda que aceitei de bom grado. A distância foi rapidamente vencida. Quando abandonámos a margem para penetrar nas terras e o homem me anunciou orgulhosamente “al-Carnaque!”, fechei os olhos.

Iria ter a maior alegria ou a maior decepção da minha existência? O burro parou. Apeei-me, quase a desmaiar de comoção.

Abri finalmente os olhos.

Carnaque... Carnaque erguia-se à minha frente, imensa, sobre-humana.

Surgiu ali toda a magnificência faraónica, tudo o que os homens imaginaram e executaram de mais grandioso. Tudo aquilo que tinha visto em Tebas me pareceu miserável em comparação com as concepções gigantescas de que estava rodeado. Não tentarei descrever nada, porque ou as minhas impressões não seriam senão a milésima parte do que deve ser dito quando se fala de tais objectos, ou se fizesse um fraco esboço, mesmo muito descolorido, tomar-me-iam por um entusiasta, talvez mesmo por um louco. Bastará acrescentar que nenhum povo antigo ou moderno concebeu a arte da arquitectura numa escala tão sublime, tão vasta, tão grandiosa, como o fizeram os antigos egípcios; concebiam as coisas como homens de trinta metros de altura e nós temos quando muito metro e meio e vinte centímetros. A imaginação que, na Europa, se ergue bem acima dos nossos pórticos, detém-se e cai impotente ao pé das 140 colunas da sala hipostila de Carnaque, floresta de flores gigantes, mundo para além do humano, iluminado por uma luz celeste filtrada por janelas de pedra.

Naquele templo maravilhoso, contemplei os retratos da maior parte dos faraós que tinham feito a glória do Império. O Egipto desfraldou naquelas colunas e nas suas paredes a força do espírito, conseguiu espiritualizar a matéria.

Também Carnaque sofreu com a negligência dos invasores árabes para quem o Egipto não passa de uma terra estrangeira. Há colossos demolidos, montículos de areia a varrer, lintéis que ameaçam ruína, acampamentos de indígenas nos santuários. Mas o génio dos antigos não cedera perante essas agressões do tempo e dos homens. Carnaque, devido ao seu gigantismo, é capaz de desafiar os cataclismos, na primeira linha dos quais figura a estupidez humana.

Os deuses tinham-me conduzido ao centro daquilo que o mundo tem de mais sagrado... e essa visão fez-me esquecer as estupidezes e as baixezas da existência.

- Mestre... mas está aqui!

Abrindo a porta da minha cabina que me tinha esquecido de fechar à chave, Rosellini estava estupefacto por me encontrar instalado à mesa de trabalho, coberta de papéis.

Em Carnaque, rabiscara dezenas de folhas. De regresso ao Isís, ao cair da noite, comecei imediatamente a redigir um ensaio de cronologia dos reis que tinham deixado vestígio do seu reinado. No dia em que o Profeta me entregasse os elementos da tradição oral de que dispunha, estaria finalmente pronto para redigir uma gramática, um dicionário e uma história geral da civilização egípcia.

- Procurámo-lo por todo o lado, mestre... Estávamos muito inquietos. Está doente?

- A minha saúde é excelente. O clima convém-me às maravilhas e sinto-me muito melhor do que em Paris. Trabalhei muito hoje... e espero que tenham feito o mesmo.

Rosellini pareceu vexado.

- Desculpe esta observação... mas parece estar de mau humor.

- Exactamente - disse, atirando a caneta para longe. - Estou mesmo furioso.

- Por minha causa?

- De maneira nenhuma. Por causa da França inteira, daqueles que pretendem ser meus próximos e meus amigos. Nenhuma notícia deles desde a nossa partida. Nem uma carta.

- Dificuldades de envio, com certeza...

- Não tente mentir, Rosellini. Sei que recebeu cartas provenientes de Alexandria. L'Hôte, Bidant, Raddi... todos tiveram notícias. Eu, não.

- Drovetti deve ter mandado reter as missivas que lhe eram dirigidas para o mergulhar no desespero. Não permita que a sua malevolência resulte.

Estava portanto só, absolutamente só, mas o espírito do antigo Egipto entrava em mim, hora após hora. Quebravam-se os laços com a Europa e com o meu passado, uns a seguir aos outros. No fundo de mim mesmo, não sentia qualquer tristeza. Carnaque marcava o apogeu do meu destino, relegando o ontem para o lugar das vaidades arrastadas por uma tempestade de areia. Acabava de ultrapassar um ponto de não-regresso.

O rosto inquieto de L'Hôte surgiu atrás de Rosellini.

- General, uma má notícia. Acabo de ver Abdel-Razuk no cais. Julguei primeiro que estava enganado, mas estou demasiado habituado a observar. Gritei pelo seu nome. Voltou-se e fugiu. É preciso avisar da sua presença as autoridades de Lucsor.

- É inútil - respondi. - Abdel-Razuk está ao serviço do paxá que impedirá qualquer acção contra o seu servidor.

Desejando saborear a luz do poente na ponte do Isís, esbarrei com uma sumptuosa Lady Redgrave, envergando um vestido de noite de seda vermelha e adornada com um colar de pérolas de três fiadas. Estava resplandecente e teria convencido qualquer ermita a renunciar à sua solidão.

- Receio ter de arrancá-lo aos seus sábios trabalhos - disse ela, provocadora.

- Porquê?

Observou-me com um olhar crítico.

- Tem o ar de um explorador acabado de regressar do interior do deserto. Devia arranjar-se um bocadinho para seduzir os seus convivas.

- Não tenho ninguém a quem seduzir, Lady Redgrave. Subi para tomar ar por alguns instantes e volto para a minha cabina. Estabelecer a lista dos faraós parece-me mais essencial do que um jantar mundano.

- No entanto, não vai escapar a este.

- E por que razão?

- Porque as maiores personalidades de Lucsor desejavam ser convidadas para a sua mesa... que está agora posta na ponte.

Preparava-me para subir e verificar aquela notícia, mas Lady Redgrave barrou-me o caminho.

- Com esse aspecto, não, senhor Champollion!

A mesa tinha sido posta sob um pano de tenda estendido entre quatro estacas. Um delicioso sopro de ar tornava a tarde encantadora, apagando as fadigas do dia. Lady Redgrave agira como uma perfeita dona de casa, completando o trivial com lamparinas de óleo e arranjos florais.

Não me enganara quanto à qualidade dos nossos convidados. Havia um Aga turco, comandante-chefe de Gurna; o xeque el-Beled de Medinet Habu, que dava ordens no templo e no Ramasseum; por fim, o xeque de Carnaque, perante o qual tudo se prostra nas colunatas do velho palácio dos reis do Egipto. Reinam sobre um exército de pessoas e de profissões. É impossível dar um passo em Tebas sem o seu consentimento.

Na realidade, a conversa reduziu-se a uma troca de banalidades e de felicitações recíprocas; a intervalos regulares, eu respondia thaibin, “vai tudo bem” à pergunta Ente-thaieb, “vai tudo bem?”. Um sorriso cordial perpassava então pelos lábios dos meus convidados a quem ofereci cachimbos e café em abundância. Soliman contou algumas histórias engraçadas à oriental sobre demónios enganados pelos humanos. Fomos cumulados de presentes: um rebanho de carneiros e umas cinquenta galinhas. Aquela fortuna sobre patas, com a qual Lady Redgrave se manifestou encantada, garantir-nos-ia em breve uma excelente alimentação.

Ao receber um lote de pólvora que lhe proporcionava uma supremacia guerreira, o xeque de Carnaque prometeu-me abundante pessoal para trabalhar no grande templo. Espraiou-se em termos galantes a respeito de Lady Redgrave, a quem atribuiu o título de “vossa esposa”. Devia ter reagido, mas é muito delicado, de acordo com as regras da delicadeza egípcia, contradizer brutalmente um convidado.

Lady Ophelia sorria.

Foi com o coração cheio de esperança que, a partir do dia seguinte de manhã, penetrei de novo em Carnaque como se o imenso domínio de Amon se tivesse tornado meu. Os felás prometidos pelo xeque esperavam-me no grande pátio, por trás do maciço pilone da entrada. Ladeado por Rosellini e L'Hôte, dirigi-me com entusiasmo àquele bando de trabalhadores, dirigidos por um contramestre que lhes fixou o salário em meia piastra por dia. As escavações começaram imediatamente. Rosellini tremia de curiosidade ante a ideia de desenterrar estátuas. L'Hôte estava feliz por abandonar os seus desenhos para se entregar a um trabalho de condutor de homens.

Soliman trouxe-me a personagem que eu lhe tinha pedido para descobrir: Timsah, “o crocodilo”, pesquisador pessoal do cônsul-geral de França, Drovetti, e representante local das autoridades francesas. O crocodilo era baixo e robusto, com testa baixa, mãos fortes e olhos como frinchas.

- Que as minhas saudações estejam contigo, Timsah. O cônsul-geral anunciou-te a minha vinda?

- Sim.

- Enviou-te os fundos necessários para o início das escavações?

- Estou à espera.

- Queres dizer... que não tens nada em teu poder?

- Estou à espera - repetiu.

- Para que data? - impacientei-me.

- Amanhã... talvez depois de amanhã.

- Será amanhã. Torno-te pessoalmente responsável. “O crocodilo” curvou-se e afastou-se em passo lento.

- Como vamos pagar esta noite aos trabalhadores? - inquietou-se Ro-sellini.

- Com o meu próprio dinheiro.

O dia foi uma sucessão de deslumbramentos. Mandei medir o mais alto dos obeliscos egípcios. Um jovem núbio conseguiu atingir o cume da agulha de pedra com o auxílio de um poste envolvido em cordas. Enquanto ele trepava, o contramestre rezava de joelhos a Alá e os operários recitavam versículos do Corão. Noutro lugar, escavavam para libertar as bases das colunas e extraíam da terra os bronzes tardios. Eu voava de templo em templo, de sala de festas em Santo dos Santos, da álea dos carneiros aos pórticos monumentais. Devorava Carnaque à boca cheia, convencido que aquele estaleiro à escala do universo nunca tinha sido encerrado. Até ao fim da sua epopeia, os mestres-de-obra tinham construído, embelezado, desenvolvido. E eu era hoje o seu humilde sucessor, preparado para devolver vida àquele corpo sagrado do Egipto onde o espírito e a mão tinham criado com o mesmo génio.

Copiava uma cena de oferenda gravada numa das colunas da sala hipostila quando o contramestre me veio buscar. Os seus gestos desordenados revelavam uma intensa exaltação. Corri atrás dele até à capela de Séti, em frente da qual se desenrolava um lamentável espectáculo: L'Hôte e o padre Bidant andavam à pancada um com o outro. O religioso parecia estar a levar a melhor, assestando grandes pancadas com a mão aberta. L'Hôte via-se obrigado a recuar, protegendo o rosto.

- Parem imediatamente! - intervim eu com voz forte, pondo imediatamente fim ao combate. - Enlouqueceu, padre? E o senhor, L'Hôte, perdeu toda a dignidade?

- Bidant é um criminoso, general.

- L'Hôte é um louco - contra-atacou o religioso. - Agrediu-me quando eu estava a examinar a parte de baixo de uma parede.

- Não examinava nada - protestou L'Hôte. - Estragava! Tentava apagar as figuras com uma pedra!

Inclinando-me sobre o objecto do conflito, admirei uma cena comovedora: o Faraó, representado em criança, estava sentado nos joelhos da mãe. Compreendi as intenções do padre Bidant.

- A Virgem com Cristo... foi neles que pensou, não é verdade? Quis destruir o motivo egípcio que serviu de modelo aos criadores de imagens da Idade Média. Este nascimento divino antes do Cristianismo era incómodo a seus olhos... O seu combate é inútil, padre. Vai ser forçado a admitir que o cristianismo nasceu nesta terra e que veio buscar os seus símbolos nos mais antigos confins egípcios!

- Sacrilégio! - rugiu o religioso que, fora de si, sacudindo a sotaina coberta de pó, abandonou o recinto sagrado.

Carnaque enfeitiçava-me. Não sentia necessidade de dormir, mal comia. Já nem sequer pensava no perigo. Tinha a impressão de sempre ter ali vivido, de ter percorrido aquelas áleas e frequentado aquelas salas.

Lady Redgrave deixara o navio para se instalar numa confortável moradia de Lucsor, povoada de zelosos servidores. Uma barreira intransponível erguera-se de novo entre nós. O padre Bidant fechara-se na sua cabina onde mandava servir as refeições. O professor Raddi, munido de um banquinho de fechar, sentava-se na orla do deserto que contemplava durante horas. Não ouvia nada nem via ninguém. L'Hôte e Rosellini secundavam-me até ao limite das suas forças, espantados com a minha capacidade de resistência. A minha saúde, preocupação constante nos frios e nas brumas da Europa, melhorava sob o sol do Egipto. Carnaque, além disso, tinha o dom de apagar as fadigas. Circulavam no solo energias divinas que renovavam o corpo. Compreendi por que razão os construtores tinham podido levantar pedras de uma tal dimensão e construir a uma escala tão gigantesca: eram possuídos por uma força sobrenatural que lhes era proporcionada pelo estaleiro do templo.

Aqueles monumentos não pertenciam ao passado. Eram o eterno presente da consciência, serenos como na primeira manhã do mundo. Tebas tornara-se o meu centro do universo, o local onde o meu destino se cumpria, simultaneamente na luz e no mistério. Se me deixassem escavar Carnaque, nunca mais sairia daqui. Esqueceria mesmo o Profeta e a decifração dos hieróglifos. Contentar-me-ia em ser o mais modesto dos operários, tirar areia e pó até ao fim da minha existência.

Foi sonhando com um Carnaque ressuscitado que mergulhei no sono.

Reinava a maior agitação no recinto do templo de Mut, a sul do santuário de Amon. Sob a luz viva da manhã, o local consagrado à mãe divina surgiu-me em toda a sua estranheza: blocos dispersos, ervas bravias, um lago sagrado em forma de crescente lunar.

Tinham-se reunido numerosos felás em torno de L'Hôte, que fizera questão de usar a sua picareta naquele lugar isolado, encerrado há séculos no silêncio e no esquecimento. De boa vontade me teria deixado conquistar pelo encanto daquela planície cheia de tesouros ocultos se não tivesse visto L'Hôte debater-se no meio de uma multidão hostil. Tinha que ir em seu auxílio o mais rapidamente possível.

Afastei alguns operários e dirigi-me ao xeque de Carnaque que, ameaçador, brandia um curto bastão.

- O que se passa?

- Olhe - disse L'Hôte, apontando para um buraco de onde emergia a cabeça negra da estátua de uma deusa-leoa. - Os felás estão convencidos que se trata de um demónio. Querem destruir-lhe o rosto antes de a tirar da terra. Tem mau olhado.

- Têm razão, têm razão! - berrou o padre Bidant, brandindo uma cruz por cima das cabeças. - Que essa estátua maldita seja de novo enterrada na areia!

Rosellini obrigou-o a calar-se. Mas o xeque de Carnaque mantinha um rosto fechado e hostil. Não podia permitir-se perder a face perante os seus homens.

- Há uma maldição - declarou. - A leoa vai saltar-nos à garganta. Ontem, em Qena, peixes ávidos de carne humana atacaram nadadores e comeram-lhes o sexo. Em Akhmim, algumas crianças cortaram uma serpente em pedaços. Reconstituiu-se de imediato e mordeu-as. Há uma maldição. Caiu mau olhado sobre nós.

O xeque teria podido contar muitas outras histórias fabulosas onde permaneciam vestígios da mitologia egípcia. Não tinha tempo para lhe falar da serpente uraeus encarregada de proteger os faraós ou do mito de Osíris, cujo sexo tinha sido engolido por um peixe.

- Sou capaz de tirar o mau olhado - afirmei. - Não tenho medo dele. Intrigado, o xeque afastou dois felás com uma bastonada.

- Prova.

Ajoelhei. Com as mãos nuas, afastei um pouco de terra, pondo com-pletamente a descoberto o rosto severo de Sekhmet, a deusa-leoa de olhar de fogo, encarregada de aniquilar os inimigos visíveis e invisíveis do Faraó, de ensinar a sua arte aos médicos. Tomei a robusta fronte da leoa entre as mãos, provocando um murmúrio de medo.

- Vejam, a deusa aceita-me. Não espalhará nem desgraças nem doenças.

Mantive a postura durante longos minutos. Todos os felás esperavam ver-me devorado pela aterradora leoa. Mas o mau olhado não se abateu sobre mim. O sorriso voltou-lhes aos lábios. Um operário recomeçou a trabalhar, depois um segundo, um terceiro... No fim da manhã, a poderosa estátua de Sekhmet, sentada, erguia-se perante os nossos olhos maravilhados por tanto poder aliado a tanta majestade.

Rosellini dominava com dificuldade a emoção. As mãos tremiam-lhe.

- O que tem, Ippolito?

- O seu olhar, mestre, a sua atitude perante o xeque... Nunca o vi tão determinado, tão indomável... Julguei que se ia bater contra aquela multidão de árabes, que estava pronto a tudo para salvar aquela escultura.

- É verdade, defenderei o Egipto com o bico e com as unhas. Cresceram-me aos cinco anos e desde então nada perderam da sua força. Recordo-me... Ia a passar em frente de uma casa escalavrada. À porta apoiava-se um mendigo segurando um chapéu. Ia colocar lá uma moeda quando um chefe de partido revolucionário deu uma bengalada ao cego que lhe impedia a passagem. Precipitei-me para aquele brutamontes e agarrei na bengala, suplicando-lhe que nunca mais obedecesse àquele homem mau e que lhe batesse a ele! O maldito jacobino desatou às gargalhadas, aconselhando a minha mãe a cortar imediatamente o bico e as garras ao seu passarinho para que outros não fossem obrigados a fazê-lo mais tarde. Outros tentaram efectivamente destruir o meu desejo de justiça. Não conseguiram. E ninguém conseguirá.

Não me demorei mais, preocupado com um grave problema. Soliman devia estar a meu lado há muito tempo. Tínhamos combinado encontrar-nos ao meio-dia em frente do pilone da entrada se ele não tivesse conseguido trazer-me Timsah, “o crocodilo”.

O meu Irmão tinha perdido a sua habitual impassibilidade.

- É impossível deitar a mão a Timsah. Desapareceu.

- Espera-me aqui.

Uma breve e violenta conversa com o xeque de Carnaque, a quem tive que dar uma substancial gorjeta, permitiu-me obter a esperada informação. O crocodilo ocultava-se em casa de uma mulher, na povoação de Carnaque. Em breve estávamos na presença do pesquisador de Drovetti.

- Porque te escondes?

- Estava a repousar.

- Onde está o dinheiro prometido para pagar aos operários?

- Não chegou.

- Quando poderei dispor dele?

- Não sei.

- Como entras em contacto com o cônsul?

- Envio mensageiros.

- Todos os dias? Todas as semanas?

- Depende... Quando ele acha necessário. Há muito tempo que o não vejo. Não é boa estação para viajar.

O crocodilo mantinha os olhos fechados. As minhas perguntas não o impressionavam. Protegido por Drovetti e pelo paxá, sentia-se invulnerável. Parei por ali a inútil entrevista.

Passaram quatro dias. O tempo fugia. Tinha sido obrigado a interromper as escavações por falta de dinheiro. O pesquisador de Drovetti não recebera qualquer mensagem. Não receberia nenhuma enquanto eu persistisse no meu projecto. Portanto, os rumores que corriam em Paris antes da minha partida eram fundados: Drovetti opor-se-ia por todos os meios ao meu desejo de estudar os sítios e de os valorizar.

Devia contentar-me em ser um passante.

Com a alma triste, deambulava pelo cais de Lucsor. O ocidente avermelhava-se. Em breve o Nilo se incendiaria com as mil cores do poente. Tebas estava ali, ao alcance da mão, e eu tinha que renunciar a ela por causa de um diabo que tinha jurado a minha perda e a dos antigos egípcios.

Enquanto contemplava a margem dos mortos, um homem precipitou-se para mim e empurrou-me violentamente para o rio.

 

Sem a intervenção de L'Hôte, teria sido assassinado e lançado ao Nilo. Desembainhando o sabre, ameaçou o meu agressor. Como este tentasse fugir, atirou-lho às pernas, provocando a sua queda. Subiu-lhe para as costas e manteve-o com a cara no chão. O homem debateu-se mas teve de dar-se por vencido. L'Hôte arrancou-lhe o turbante que lhe ocultava a cabeça e o rosto.

Abdel-Razuk! O polícia do paxá tentara suprimir-me uma segunda vez.

- De quem recebes ordens? - perguntei. O guarda ergueu os olhos ao céu.

- Responde - irritou-se Nestor L'Hôte - ou parto-te a nuca! Traduzi a ameaça. A cólera bem real do meu compatriota assustou Abdel-Razuk. Balbuciante, decidiu-se a falar.

- Foi... foi o Profeta que me deu ordem para vos matar. Fiquei estupefacto.

- Porquê?

- Não sei.

- Onde está ele? Encontra-se escondido em Tebas?

- Partiu para o sul...

- Quando?

- Há três dias. Devia mandar-lhe a notícia da vossa morte para ele poder regressar a Tebas.

- Desaparece, Abdel-Razuk. Não te atravesses mais no meu caminho, senão os meus amigos e eu não reteremos os nossos sabres.

Ordenei a L'Hôte que o deixasse ir embora.

- Porque não o levamos ao paxá?

- Se diz a verdade, mais vale deixá-lo em liberdade. Avisará o Profeta. Este vai ficar muito afectado pelo fracasso do seu plano. Estamos mesmo em cima dele. Acabaremos por encontrá-lo e compreender por que razão quer a minha morte. Tudo tem que estar pronto daqui a uma hora. Partimos para o sul.

Os dois navios afastaram-se do cais de Lucsor. Champollion e os membros da sua expedição, auxiliados pelo vento, distanciaram-se rapidamente da prestigiosa capital dos faraós do Novo Império.

Bernardino Drovetti, cônsul-geral de França, abandonou a janela de onde tinha assistido à partida. Acendeu um cachimbo de faiança preparado com tabaco turco e bebeu com grande prazer um vinho de Bordéus.

Sentado num canto do amplo salão que servia de quartel-general ao cônsul, Abdel-Razuk salmodiava versículos do Corão.

- Perfeito - murmurou Drovetti para si próprio. - Visto que abandonou Tebas, podemos continuar em segurança. Abdel-Razuk!

O guarda do paxá ergueu-se. Receava aquele homem sombrio que gozava da confiança de Méhémet-Ali.

- Não te esqueças de tomar as necessárias precauções... Champollion inicia a parte mais perigosa da sua viagem. Talvez a natureza venha em nossa ajuda. Já houve muitos acidentes no sul. O nosso cúmplice poderá por fim revelar-se plenamente, mesmo no coração daquela maldita expedição...

Afastar-me de Carnaque foi dilacerante. Prometi a mim mesmo que ali regressaria como vencedor, com a certeza de poder fazer falar as pedras, de devolver a palavra ao Egipto eterno. Depois daqueles dias passados em terra, os meus companheiros retomaram a navegação com uma certa curiosidade, interrogando-se sobre os novos horizontes que nos esperavam.

Consultando os mapas arqueológicos que eu próprio fizera, fixei a nossa próxima paragem em el-Kab, antiquíssima cidade em que esperava ver vestígios dos templos mais antigos. Quando estávamos a chegar próximo da cidade de Esna, o vento e a noite contrariaram esses projectos. O reis (1) que guiava a navegação recomendou-nos uma paragem. Mandei fazer vela um pouco mais para sul, abandonando os nossos pesados barcos e utilizando barcas para nos dirigirmos ao sítio de ContraLatópolis. Só me acompanhavam L'Hôte e Rosellini, que chegou primeiro à margem.

 

(1) Reis - patrão de barca turca.

 

Correu para ele um indivíduo grande e vestido com uma djelaba suja e rota. Falava alto e articulava mal. Rosellini pediu-me que interviesse. Notei que o homem era desdentado, o que explicava a sua má elocução. O que me pareceu compreender mergulhou-me num tal estado de consternação que me senti desfalecer. A minha palidez alertou L'Hôte, pronto a notar a mínima das minhas reacções.

- O que está esse bandido a contar, general? Insultou-o?

- Pior, meu amigo, muito pior...

Perdera o fôlego. Tive de me sentar, apoiado pelos meus colaboradores. O árabe desdentado estava espantado por me ver tão desesperado.

- Fale, mestre - insistiu Rosellini.

Fiz um esforço considerável para me exprimir.

- Havia aqui um grande templo, há apenas doze dias... Foi inteiramente demolido pelos operários do paxá. As pedras foram utilizadas umas para construir fábricas e outras para reforçar o cais de Esna que o Nilo ameaça arrastar.

Nem L'Hôte nem Rosellini conseguiram encontrar qualquer comentário reconfortante. Sabiam que a destruição voluntária dos monumentos egípcios era para mim o mais insuportável dos sofrimentos. Nada me podia consolar.

O vento frio do norte gelou-me as têmporas. Tremia.

- Regressemos a Esna - disse eu, quase em lágrimas.

Outra calamidade nos esperava.

O Isís, cheio de água, estava encalhado na margem. Felizmente, tinha acostado num ponto pouco profundo e, tocando no fundo, não se afundara. Foi, no entanto, necessário esvaziá-lo para o calafetar e tapar a entrada de água. As nossas provisões estavam molhadas. Tínhamos perdido sal, arroz e farinha de milho.

Vi L'Hôte desmoralizado pela primeira vez.

- Mau sinal, general... O grande sul não vale nada.

- Pelo contrário - repliquei. - Tudo isto nada é perante o perigo que nos teria ameaçado se esta entrada de água se tivesse aberto durante a navegação no grande canal. Ter-nos-íamos afundado irremediavelmente. Que o grande deus Amon seja louvado!

O meu optimismo, que a mim próprio surpreendeu, foi comunicativo. - Com mil diabos, tem razão, general! Estamos sob a protecção dos deuses egípcios! Entreguemos o nosso destino nas suas mãos.

Aquele novo entusiasmo foi imediatamente temperado pela ruidosa chegada de um numeroso grupo, armado com espingardas, longas pistolas, sabres e lanças. Eram comandados por um gigante de bigodes, com ar rebarbativo. Ordenei aos meus companheiros que permanecessem nos barcos. Entrevi Lady Ophelia, com o rosto quase inteiramente oculto por um chapéu malva com largas abas. Não revelava qualquer receio.

Em passo tranquilo, dirigi-me para o comandante que nos cercava. Depois de lhe ter desejado mil bênçãos para ele e para a sua família, perguntei a razão daquela exibição de forças contra a minha modesta expedição que gozava, como toda a gente sabia, dos insignes favores do paxá.

A pouca sorte mantinha-se. Esbarrava com um espírito limitado, inacessível aos encantos do discurso. A sua única resposta foi “siga-me”, num tom que não permitia réplica. Fui convidado a montar um camelo de onde dirigi a L'Hôte um tranquilizador sinal com a mão.

Conduziram-me a uma vasta moradia situada na margem do Nilo, a algumas centenas de metros dali. O comandante ameaçou-me com uma enorme pistola coberta de dourados. Empurrou-me para um potentado barrigudo diante do qual se curvou.

- Sou Ibrahim Bei - declarou o potentado. - A cidade de Esna e os seus arredores estão colocados sob a minha jurisdição. Sois russo?

- De maneira nenhuma, Excelência. O meu nome é Champollion. Sou francês.

- E se fôsseis russo? Se estivésseis a mentir? Ontem, no Cairo, dizia-se que os russos avançavam sobre Constantinopla e que o nosso exército se preparava para os combater. O nosso senhor todo poderoso, o paxá, receia que haja espiões atravessando as nossas províncias. Espera dos seus governadores que os detenham e os executem.

Em meu redor só havia olhares hostis.

- O paxá autorizou-me a viajar no Egipto para estudar os monumentos antigos - disse com calma. - É a minha única missão.

Ibrahim Bei poisou as mãos sobre o ventre.

- Não vos acredito. Quem se poderia interessar por essas velhas pedras?

- Os meus documentos de creditação estão no barco. Bastar-vos-á consultá-los.

O potentado fez uma expressão pouco entusiasmada.

- É longe demais. Estou cansado. O paxá pediu-me que identificasse um espião russo... tenho intenção de lhe obedecer. Sejais vós quem fordes, servis para o efeito.

O comandante e vários dos seus homens rodearam-me, prontos a apoderar-se da minha pessoa pela força.

- Proíbo que me toquem! - exclamei, furioso, brandindo a minha mão direita como uma arma irrisória.

O comandante desembainhou o sabre, decidido a cortar-me o pescoço.

- Afastem-se! - ordenou brutalmente Ibrahim Bei aos seus homens. - Champollion, aproxime-se de mim!

Examinou a minha mão direita com a maior atenção. Uma intensa estupefacção surgiu no seu rosto.

- De onde provém o anel que usais?

- Foi-me dado por Mohamed Bei, o governador da província de Béni-Hassan.

Um amplo sorriso animou os lábios carnudos do potentado.

- É o meu irmão bem-amado - declarou, abraçando-me com tanto entusiasmo que por pouco não me sufocou. - Os amigos do meu irmão são meus irmãos!

As efusões foram intensas e demoradas. O potentado de Esna jurou que me ofereceria o seu braço, tanto neste mundo como no outro, que honraria a minha velhice com presentes sumptuosos e que me guardaria um lugar no paraíso junto dele. Aproveitei aquelas vantajosas disposições para lhe pedir alguns esclarecimentos a propósito dos tais espiões russos que lhe causavam tanta preocupação. Respondeu-me que a questão era séria. Na véspera tinham mesmo julgado que o Cairo, palco de violentos combates, se tinha tornado inacessível. Essas falsas notícias tinham-se felizmente dissipado como uma miragem.

- Já que gostais das pedras velhas - anunciou-me orgulhosamente o paxá - tenho uma coisa para vós.

Enquanto um pacífico exército de operários acabava as reparações dos nossos barcos e uma corte de servidores oferecia pratos suculentos aos membros da minha expedição, dirigi-me com curiosidade para o templo de Esna, visto que o conselho dos deuses assim decidira.

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir, no coração do burgo ruidoso e poeirento, um edifício de considerável tamanho, quase inteiramente enterrado na areia! Além disso, servia de armazém para algodão, o que lhe permitiria escapar à destruição ainda durante algum tempo. O templo fora rebocado com lodo do Nilo, sobretudo no exterior. Tinham igualmente fechado com paredes de lama o intervalo que existia entre as primeiras filas de colunas do pronaos, de maneira que o meu trabalho exigiu o recurso a escadas e lâmpadas para ver os baixos-relevos de perto. Para penetrar no santuário torna-se necessário descer até lá, não sem antes ter afastado o lixo que impede o acesso. Uma vez no interior, é preciso evitar incomodar os homens que dormem numa esteira e os que, descalços e instalados em tapetes, lêem o Corão naquele local que no entanto era destinado a outros mistérios. Aquele santuário, de fundação antiga, é dedicado ao deus carneiro Khnum, que tem por função modelar na sua roda de oleiro a totalidade dos seres vivos. Pelo que pude avaliar, os relevos mostravam aos sábios o processo dessa criação que se encontra na base de todos os artesanatos.

A escada, apoiada entre dois capitéis, chiou de maneira sinistra. Alguém descia. Surgiu a orla de uma sotaina. Com grande dificuldade, o padre Bidant introduziu-se no templo soterrado até ao queixo.

- É aterrador - disse ao ver-me com uma lâmpada na mão. - Parece que penetramos no antro do diabo!

- Descanse, padre. Só cá estamos eu e alguns descrentes.

- Estranho lugar - observou, inquieto.

- Se lhe tirassem a ganga, surgiria como um templo começado na época áurea e terminado pelos imperadores romanos. Há aqui textos surpreendentes sobre o nascimento da vida.

- De acordo com a doutrina cristã? - afligiu-se o padre Bidant.

- Receio que não - confessei. - Daquilo que consigo ver, os textos falam de uma divindade que transmite o seu poder a outras forças criadoras que agem em seu nome... Intermediários entre Deus e o homem, de certa forma. Aquilo a que os antigos chamavam os “génios”, contra os quais o Cristianismo tanto lutou.

Esperava uma réplica contundente, mas o religioso contentou-se em deambular pela sala soterrada.

- Fiz mal em interpelá-lo de forma tão brutal, Champollion. Irritei-me mais do que seria razoável, é um facto. Foi muito pouco cristão. Peço-lhe perdão. Tem que me compreender. O calor, uma alimentação pouco requintada, as fadigas da viagem, a irritação de estar tão afastado do nosso belo país de França, o contacto repetido com infiéis... tantos pesos quase insuportáveis que me levaram àquele lamentável acesso de fraqueza e de intolerância.

Sentia-me profundamente comovido. A sinceridade do padre Bidant apagava as nossas querelas passadas.

- Não estou isento de culpa, padre. Desde que se refiram aos velhos egípcios, ferve-me o sangue. Não me tome por um inimigo da religião cristã.

Creio apenas que ela não é original e que tem as suas raízes numa fé mais antiga e mais vasta que, amanhã, será uma nova luz para a humanidade.

O padre Bidant passou com precaução o dedo sobre um relevo como se as figuras divinas fossem portadoras de uma magia que o pusesse em perigo.

- É evidente que não o posso seguir nesse terreno, Champollion, mas admiro a sua acção e tento compreendê-la. Admita, por sua vez, que tenho o dever de o manter nos caminhos da verdadeira fé.

- Tentarei, padre, convertê-lo à religião dos faraós! O religioso sorriu com bonomia.

- Não tenha esperança disso! Mas continue a trabalhar bem em prol da sua ciência...

O padre Bidant saiu do templo. Enganara-me a seu respeito. Era um bom homem, mal preparado para uma aventura daquelas e completamente desorientado pelo Oriente! A sua tolerância revelava-se a melhor arma para restabelecer entre nós uma paz duradoira e profunda.

Era já noite quando por minha vez deixei o santuário de Esna. Perdera a noção do tempo, espantado pela vastidão da filosofia exposta nas paredes. Espantado e irritado, porque esbarrava ainda em certos hieróglifos e não conseguia a decifração total que, no entanto, sentia tão próxima.

Cá fora reinava uma alegre agitação. Ciganas, as ghaouzis, tinham instalado as suas tendas numa pequena praça. Estavam rodeadas pelos pais, os mercadores de animais que não hesitavam em vender as próprias filhas a quem mais oferecesse. Vestindo um bolero preto e saias brancas, com o ventre a descoberto e o pescoço adornado com pesados colares de nácar, as ghaouzis começaram a dançar e a cantar. A sua voz aguda era acompanhada por sons de flauta, clarinete e alaúde. Aquela música lancinante provocava um efeito imediato: ouviamo-la sem prazer, mas deixávamo-nos encantar por ela. Espalhando-se na noite quente, insinuava-se nas mínimas fibras do nosso corpo.

Uma das dançarinas, que se requebrava cadenciadamente com bastante graça, era particularmente bela. Os seios, livres sob o bolero, fremiam de prazer a cada movimento. O ventre liso, moreno, parecia animado por uma vida independente. Os tornozelos muito finos agitavam-se sobre o solo com surpreendente agilidade.

- Interessa-se pelas raparigas de prazer?

A voz de Lady Redgrave fez-me sobressaltar. Tinha-se vestido de homem, com umas calças pretas e uma camisa castanha, prendera os admiráveis cabelos num carrapito dissimulado sob uma faixa. Na penumbra, podia passar por um rapaz.

- Curiosa ocupação para um homem de ciência - continuou, irónica. - A menos que esse homem tenha mentido quanto à sua verdadeira ocupação e não passe de um espião a soldo dos franceses.

Naquela atmosfera de alegria e descontracção, não me apetecia iniciar uma querela.

- Não é lugar de passeio para uma dama, Lady Redgrave. É muito arriscado aventurar-se no meio desta multidão.

- Porque me abandona à minha solidão, Jean-François? Aborreci-o?

- Não é agradável ser chamado espião... mas é antes a senhora que me tem mantido decididamente de parte!

- Está de má-fé, senhor egiptólogo. Essa falta de rigor científico não o honra.

- Não consegue fazer-me zangar, Lady Ophelia... A noite é demasiado doce, o espectáculo demasiado agradável e a senhora demasiado sedutora. Saboreie estas danças e estes cantos. Falaremos mais tarde.

- Amanhã... sempre amanhã! Fique com as suas cortesãs. Eu regresso a bordo.

Como retê-la? Como convencê-la a ficar a meu lado? Enquanto a bela ghaouzi se erguia numa perigosa acrobacia, Lady Redgrave tinha desaparecido.

Quando regressei, de madrugada, detectei um objecto inquietante instalado na frente do Isís: nada menos do que um canhão de respeitável tamanho!

L'Hôte, que me esperava com uma taça de chá fumegante, explicou-me que se tratava de um presente de Ibrahim Bei para garantir a nossa segurança. Informou-me ainda que não se tinha inquietado com a minha longa ausência porque soldados turcos haviam rodeado o templo enquanto eu lá trabalhava e tinham-me seguido à distância durante a festa das ghaouzis. O seu comandante passara a noite a bordo do barco, eclipsando-se mesmo antes da minha chegada.

Partimos para el-Kab, a antiga Nekheb. Fomos lá recebidos pela chuva, que caiu torrencialmente com trovoada e relâmpagos. Assim, poderemos dizer como Heródoto, aquando da sua viagem que se realizou durante o reinado do rei Psamético: choveu no nosso tempo no Alto Egipto!

Percorri apressadamente o interior da cidade de el-Kab ainda existente, bem como a segunda muralha que rodeava os templos e os edifícios sagrados. Examinei tudo, tanto de dia como de noite, com uma lanterna na mão. Não encontrei uma única coluna de pé; nos últimos meses, os bárbaros destruíram o que restava dos dois templos anteriores e o templo inteiro que ficava fora da cidade. Foram demolidos para o arranjo de um cais e outra construção utilitária qualquer. Tive de me contentar em examinar uma a uma as pedras esquecidas pelos destruidores e nas quais restavam algumas esculturas. Esfumava-se um mundo sagrado. Aqui e além, cartuchos com o nome de grandes faraós, os Tutmósis, Amenófis ou Ramsés, provam que se elevavam aqui obras-primas destruídas pouco antes da minha chegada. Estaria enganado ao ter pressa em vir ao Egipto?

A única consolação veio-me de Lady Redgrave que tinha ido explorar uma colina próxima da cidade antiga. Chamou-me com um grito alegre.

- Há aqui um túmulo curioso - informou-me, logo que a alcancei acompanhado por L'Hôte e Rosellini. - Apenas colunas de texto.

Pus um joelho em terra para as examinar. Sentia uma familiaridade com aqueles sinais, compreendendo o sentido geral. A inscrição fora feita por um militar de alta patente, Ahmosis, chefe dos marinheiros do Faraó. Tinha, durante o reinado de um monarca denominado igualmente Ahmosis, conduzido as suas tropas à vitória para expulsar do Egipto os Hicsos, invasores vindos da Líbia. Era a mais longa e a mais reveladora das inscrições referentes a esta guerra de libertação, ao sair da qual ia resplandecer a glória de Tebas, nova capital do império. A alguns séculos de distância, sentia uma intensa afeição por aquele herói, lamentando que não estivesse entre nós para expulsar do Egipto os seus modernos bárbaros.

Moktar e Soliman interromperam-me na minha cópia para me prevenirem que o professor Raddi tinha desaparecido. Precisavam de mim para explorar a aldeia onde um camponês o vira penetrar em companhia de uma rapariga. Soliman não ocultava uma intensa ansiedade. Se o mineralogista decidira seduzir uma indígena, o caso podia vir a terminar muito mal.

Corri para a aldeia. Saber em perigo um membro da minha expedição mergulhou-me no mais terrível dos tormentos. Nem mesmo os meus queridos hieróglifos me reconfortavam.

Havia apenas uma cinquentena de cabanas, apinhadas umas de encontro às outras de forma a lutarem contra o sol e contra o calor. Algumas crianças risonhas indicaram-nos imediatamente a presença de um europeu numa delas. O professor Raddi estava lá, curvado sobre uma garotinha deitada numa esteira. Sobre o seu rosto, agitava um fio no extremo do qual estava presa uma moeda.

- Não faça barulho, Champollion. Esta criança tem febre. Graças ao meu método, espero curá-la.

Assistimos, impotentes e duvidosos, à cura do professor Raddi. Os olhos dos pais, que tinham ouvido falar da presença de um fazedor de milagres na nossa expedição, brilhavam de esperança. O seu casebre era de uma miséria absoluta e a sua única riqueza consistia em duas bacias de estanho que a mãe areava energicamente.

Passou uma longa hora. A moeda ia e vinha incansavelmente. A garotinha balbuciava frases incoerentes. Saiu do seu torpor, ergueu o busto e reconheceu a mãe, que a tomou nos braços.

- Creio que consegui - suspirou o professor Raddi, limpando a testa.

- Como fez?

- Na minha família temos alguns dons de curandeiro. Em Itália tinha-os esquecido. Aqui, reencontrei-os... É maravilhoso não estar confinado todos os dias numa cidade, num gabinete, não estar mais encerrado em pesquisas que só a mim interessam! Estou a aprender a nunca mais trabalhar, Champollion!

Os pais quiseram agradecer ao professor que lhes retribuiu com numerosos beijos e abraços, com uma exuberância absolutamente italiana. Aproveitei para me dirigir à garotinha.

- Falaste do Profeta há bocado... Conhece-lo?

- Meteu-me medo. Deitou-me mau olhado.

- Viveu na tua aldeia?

- Não. Mas veio aqui há uma semana.

- Sabes para onde foi?

- Disse que ia a Edfu... Estou bem contente por ele já cá não estar.

 

Foi transbordantes de entusiasmo que chegámos cedo em frente do gigantesco pilone do templo de Edfu. A grande distância, impressionara-nos com as suas dimensões colossais. No entanto, aquele prodigioso edifício, o mais bem conservado dos que tínhamos visto até ao presente, estava em grande parte engolido pela areia. As torres sagradas erguiam-se a uma altura de cento e noventa centímetros acima das nossas cabeças e mergulhavam a uma profundidade de, pelo menos, cento e um centímetros suplementares abaixo da superfície do solo.

O grande templo do deus Horus, o protector directo do Faraó, transformara-se numa espécie de aldeia miserável no qual se tinham instalado felás e respectivas famílias, ignorantes do local sagrado que profanavam com a sua presença. Viviam em cima do telhado do templo que conspurcavam sem remorsos. Para lá chegar, fomos obrigados a avançar por entre cabanas antes de atingirmos um lanço de degraus grosseiramente talhados. Imaginava a imensa esplanada oculta sob aquele amontoado de detritos, o grande pátio que precedia a sala de colunas, os vastos compartimentos adornados com relevos e textos, a maior parte dos quais permaneciam inacessíveis para mim. Por toda a parte, um formigar de seres humanos vivendo ao lado de aves de capoeira, de vacas, de cães, de burros e de uma imensidade de parasitas. Caminhávamos sobre inúmeros detritos e tivemos que afastar indígenas que dormiam sobre as cornijas ou os tambores dos capitéis, com as costas de encontro ao rosto da deusa Hátor ou ao do deus Horus. Fumavam, comiam, bebiam sem se preocupar com as divindades.

Aquele templo era um resumo do universo e um somatório das ciências praticadas pelos antigos. Astrologia, botânica, medicina, magia, mineralogia, alquimia e geografia eram ensinados naqueles locais que eu sonhava que fossem um dia devolvidos à plena luz.

Entrando nos quartos arranjados no interior do pilone, Nestor L'Hôte lançou uma exclamação. Acabava de identificar o corpo de guarda utilizado por uma centena de soldados da velha guarda de Napoleão durante a expedição do Egipto. Ali esquecidos depois da convenção de el-Arish, refugiaram-se nas aldeias circundantes mas regressaram àquele acampamento, em cujas paredes gravaram os seus nomes, as datas das mortes, desenharam moinhos de vento de telhado pontiagudo que lhes faziam lembrar um recanto de França. Os últimos desses valentes tinham-se tornado mamelucos, tomando o hábito daqueles que tinham combatido.

- Fabuloso lugar - reconheceu o padre Bidant, que visitava o templo a meu lado.

- Podia ser, com efeito, se fosse desembaraçado do montão de detritos e de areia que o sufoca.

- E o protege da destruição - objectou Rosellini.

Invadiu-me um poderoso sentimento de impotência. Era então necessário enterrar os templos e escondê-los para sempre dos olhares para os salvar? Não era condená-los a uma outra morte, a uma destruição lenta e perniciosa? Não era possível arrancar o Egipto àquela barbárie que o tinha coberto?

Questões administrativas vieram interromper esta meditação. Moktar precisava de mim. Conduziu-me ao extremo da cidade árabe, ao gabinete militar que queria examinar as minhas autorizações.

Julguei que troçasse de mim. Conduzira-me em frente de um nicho fechado por uma cortina, entre duas paredes de tijolos prestes a desabar. Detectando outros nichos semelhantes fechados da mesma maneira, perguntava a mim mesmo com que mistério me tinha que defrontar quando a cortina se abriu. Um homem com turbante, sentado sobre uma pedra, segurava um maço de papéis sujos. Acabava de me mostrar o seu gabinete.

- As suas autorizações - exigiu, agressivo.

Em vez de responder directamente, o que teria constituído uma grave injúria, lancei-me numa ladainha de cumprimentos adocicados sobre a importância e a competência do alto funcionário que me dava a imensa honra de me dirigir a palavra. Aquelas flores de retórica, apesar de escolhidas com cuidado, não seduziram o polícia. Levantou-se para erguer a cortina de outro nicho cheio de papelada. Com uma destreza adquirida no decurso de uma longa carreira, extraiu um documento amarelado que brandiu em frente do meu rosto. Li com espanto uma lei local, datando de 1650, segundo a qual era proibido a qualquer estrangeiro aventurar-se no território de Edfu. O infractor arriscava-se a uma pesada pena de prisão.

Teria sido inútil e perigoso fazer-lhe ver que aquelas disposições estavam caducas.

O homenzinho triunfava, não ocultando o seu ódio pelo estrangeiro. Só havia uma solução: provar que eu não era um deles.

Mudando de atitude, acentuei cada sílaba do meu árabe e ameacei-o das piores represálias cá em baixo e no além se ousasse pôr em dúvida a minha qualidade e os meus títulos. Dominou-me um assomo de cólera.

Assustado por aquela reacção que não esperava, pressentindo que eu era capaz do pior, o funcionário reuniu desajeitadamente os seus papéis, que dobrou à pressa. Deixei-me arrastar por uma estranha inspiração.

- Quem te ordenou que me importunasses assim? Ele apertou os lábios.

- Foi o Profeta, não é verdade? Estás ao seu serviço?

O seu mutismo foi resposta suficiente. Furioso, fechei eu próprio a cortina sobre aquele fantoche.

Dois homens tinham observado a cena do interior de um casebre encavalitado num montículo que dominava a cidade.

- Champollion continua - murmurou Abdel-Razuk.

- Não esperávamos mais deste imbecil polícia - considerou Drovetti. - Espalhou o pouco veneno de que dispunha. Lançou uma nova inquietação no espírito de Champollion. O homem é sensível. Havemos de conseguir assustá-lo e fazê-lo desistir.

A nossa partida foi atrasada por Nestor L'Hôte. O desgraçado penetrara no interior de um dos casebres construídos sobre o telhado do templo para desenhar um capitel que tinha libertado de um monte de imundícies. A sua proeza valera-lhe ficar coberto de borbulhas e de manchas vermelhas. Insuportáveis comichões tinham-no obrigado a banhar-se demoradamente no Nilo.

Os nossos navios atingiram um dos mais surpreendentes locais do vale do Nilo, o Gebel el-Silsila, onde os dois desertos vêm um ao encontro do outro. Concedem ao rio apenas um local de passagem entre duas colinas de grés amarelo. Gebel el-Silsila significa “montanha da cadeia”; de acordo com a tradição, uma cadeia estendida entre esses dois maciços fechava o curso do Nilo. As duas margens foram exploradas pelos antigos egípcios e o viajante sente-se assombrado se pensar, ao percorrer as pedreiras, o número de pedras que tiveram de ser tiradas para dar origem às galerias a céu aberto e aos vastos espaços escavados que não se cansa de descobrir, vivendo com a recordação dos operários que tinham suado sangue e água para fazer nascer o primeiro estado das futuras obras-primas. Pelas imensas falhas e pela quantidade de detritos que ainda se vêem, pode pensar-se que os trabalhos foram realizados durante milhares de anos e que forneceram os materiais utilizados na maior parte dos monumentos do Egipto. Tivemos a sensação de entrar no próprio flanco da montanha onde, bloco por bloco, tinham nascido Lucsor, Deir el-Bahari, Carnaque...

O professor Raddi caiu em êxtase. Nunca tivera oportunidade de saborear tal quantidade de grés de tão bela qualidade. A voz do Nilo, rápido e tonitruante naquele local, evocava as dos mestres-de-obra, contramestres, talhadores de pedra, pedreiros e serventes para quem, durante longos anos, aquela imensa pedreira fora o único horizonte.

- É prodigioso - disse o professor Raddi, ajoelhado em frente de um bloco. - Aqui está o mais belo laboratório da minha carreira. Estão aqui os engenheiros dos velhos tempos, estão aqui, oiço-os! Estas pedras não têm qualquer segredo para eles... Com as mãos conhecem-lhes o interior, o mínimo veio. São capazes de distinguir as boas das más pelo simples contacto da palma da mão. Estão ali para sempre, não podem desaparecer...

L'Hôte e Rosellini contiveram o espanto. O seu olhar revelava sem sombra de dúvida que tomavam o mineralogista por um semi-louco.

- O Sol está demasiado forte - disse Rosellini. - Derrete-nos os miolos. Devíamos regressar a Tebas.

A reacção do professor Raddi foi de uma incrível violência. Empurrou o seu compatriota com tal força que o fez cair no chão.

- Proíbo-o de proferir burrices! É indigno deste lugar... Cale-se ou vá-se embora!

L'Hôte pretendeu lançar-se sobre o mineralogista. Barrando-lhe o caminho, Lady Redgrave impediu-o.

- É inútil ampliar este incidente... Mantenha o sangue-frio, senhor L'Hôte.

Surpreendido, chocado, Rosellini voltava para mim uns olhos suplicantes. L'Hôte esperava as minhas ordens. Estava incapaz de as dar. A desordem mergulhara-me numa total confusão. A nossa pequena comunidade desagregava-se, o ódio substituía a amizade. Indiferente ao drama que provocara, o professor Raddi afastava-se a passo lento, utilizando a lupa para examinar de mais perto cada espécimen excepcional.

- General - interveio L'Hôte - deixe-me dar um correctivo a este malcriado.

Respondi que não com a cabeça. Enraivecido, o desenhador agarrou num pequeno bloco de grés e atirou-o para longe, antes de se ir sentar de parte.

Foi Moktar que ajudou Rosellini a levantar-se. O meu discípulo italiano, que nada tinha de um homem de pugilato, tardava a recuperar o fôlego.

- Porque razão... porque razão me atacou o professor Raddi?

- Seja um homem - exigiu Lady Redgrave. - Feriu-o no seu afecto, ele reagiu. Se cede à primeira batalha, o futuro da egiptologia está mal entregue!

Ippolito Rosellini sobressaltou-se.

- Mestre... esta mulher é um demónio! Não pára de nos espiar, é o apóstolo do nosso pior inimigo! Porque confia nela? Porque não a expulsa? Em breve seremos apunhalados pelas costas!

Moktar sorria. Aqueles desentendimentos agradavam-lhe.

- Deixem-me só - pedi.

Tinham caído as máscaras. As pedreiras de Gebel el-Silsila tinham revelado a verdadeira natureza dos meus companheiros. O professor Raddi, egoísta, fechado nas suas visões; Nestor L'Hôte, vingativo e intolerante; Rosellini, cobarde e sem carácter; Lady Redgrave, imperiosa e implacável. Felizmente, o padre Bidant não assistira aos rasgões que acabavam de romper o nosso tecido fraternal. Tive a tentação de ir ter com ele, a bordo do Hátor e confessar-me a ele. Mas a visão de Soliman, sentado na frente do barco, dissuadiu-me. De que pecados precisava de libertar a minha alma? Não me abandonara a mim mesmo para me oferecer ao Egipto, à espiritualidade que impregnava a menor das suas pedras?

Trabalhar naquelas pedreiras mágicas devolvia-me a calma. Os meus olhos fatigados por tantas esculturas do tempo dos Ptolomeus e dos Romanos reviram com delícia aqueles baixos-relevos faraónicos da época áurea. Havia ali inúmeros vestígios dos reis da décima oitava dinastia e dos seus mestres-de-obras. O meu querido Ramsés, o seu pai, o orgulhoso Séti, e o seu filho Merneptah tinham mandado escavar na rocha capelas de eternidade onde figuravam louvores ao deus Nilo, identificado com o rio celeste que veiculava a água primordial através do universo; é natural que seja honrado aqui, visto que é o lugar em que o rio parece renascer depois de ter rachado as montanhas de grés que lhe barravam a passagem. Quando compreendermos completamente os textos, aperceber-nos-emos que os egípcios tinham uma concepção muito avançada da energia cujas trocas garantem a perpetuação da vida, quer se trate da das estrelas ou da do homem. Imaginavam que a nossa terra estava rodeada por um oceano de vibrações onde tomam forma as forças criadoras, viam cada ser como um feixe de ondas perpetuamente renovadas e interagindo entre si.

Aquelas pedreiras proporcionaram, para além daquele choque, um novo impulso à viagem. incarnavam a juventude do mundo, o desejo de construir uma outra vida. Gebel el-Silsila ensinava que a sociedade dos homens devia ser habitada por templos e que seria sempre um estaleiro de construção.

Bebera reconforto na solidão, no diálogo com a pedra. Via claramente o meu dever: unificar de novo a nossa comunidade.

Durante dois dias, estudámos bloco por bloco o templo duplo de Kom Ombo, uma das metades do qual é consagrada ao deus-falcão Horus e a outra ao deus-crocodilo Sobek. Assim se aliavam o princípio do ar e o da água numa subtil alquimia. O local era soberbo. O santuário forma uma espécie de mirante dominando o Nilo. O poente adorna-o de clarões dourados que apagam a má qualidade das esculturas da época tardia e devolve ao edifício o seu esplendor de outrora.

O padre Bidant permanecia enclausurado na sua cabina, onde se consagrava à oração. Nestor L'Hôte, amuado, desenhava com aplicação e alguma má vontade, os relevos que eu lhe indicava. Rosellini, febril, permanecia de cama. Lady Redgrave lia o Paraíso perdido de Milton no terraço do templo que ficava sobre o Nilo. Soliman continuava a vigiar Moktar, receando os contactos que este poderia estabelecer com adversários na sombra.

Quem, entre os meus companheiros, me traía em benefício do paxá e do cônsul-geral? Quem tinha duplicidade suficiente para mostrar uma falsa amizade e tentar anular descobertas que, tinha a certeza, transformariam em profundidade a história e o pensamento dos homens?

A minha convicção reforçava-se todos os dias. O Egipto era mais do que o Egipto. Tinha feito nascer as ciências, formulado a mais profunda das filosofias, edificado os mais completos templos. Aqui palpita o coração do mundo. Daqui surgirá a revolução espiritual que varrerá as antigas crenças e permitirá aos homens comungar de novo com os deuses. É a razão pela qual devo conseguir, custe o que custar, decifrar esta língua sagrada, estas palavras de criação que fornecem o modo de utilizar a energia celeste. Os egípcios não tinham outra ambição para além da sabedoria. Atingi-la não resultava de uma crença mas do conhecimento do universo.

Estas pedras modeladas por séculos de luz elevam a alma com a sua simples presença. A viagem que eu tanto esperara transformava-se numa peregrinação rumo ao coração do ser. Que indivíduo dotado de consciência teria podido sentir-se estranho àquele país em que cada templo fala do essencial? Daquela altura que dominava o Nilo, avaliava pela primeira vez a minha própria existência. Surgiu-me em toda a sua pobreza e irrisão. Não passava de uma formiga tentando rebuscar algum alimento numa imensa sala de banquete onde gigantes serviam os mais saborosos pratos; mas uma formiga laboriosa, obstinada, com um insaciável apetite e forças desmesuradas em relação ao seu tamanho. A providência oferecera-me o mais belo presente com que um homem possa sonhar: descobrir o paraíso na terra, penetrar nele em vida. Saboreá-lo de forma egoísta teria sido a pior das baixezas. Precisava de transmitir as verdades que tinha entrevisto ao erguer o véu de Isís, trabalhar sem descanso, não fazer caso da fadiga.

O Sol começou a descer para o horizonte, inundando de ouro líquido os reflexos de prata do rio. Saboreava aquela hora como uma oferenda. Os egípcios chamavam-lhe “plenitude”. Tudo serenava. Os perfumes insinuavam-se na brisa do norte que encrespava a superfície da água. Instintivamente, tudo se calava. A paisagem enchia o olhar, dissolvia os pensamentos num oceano de verde e laranja, apagava as impurezas.

Um vulto avançava entre as colunas.

Moktar deteve-se a respeitosa distância.

- Aquele que procurais está aqui - anunciou, misterioso.

- Quem te disse?

- As notícias correm depressa no Oriente... Ninguém sabe quem as transmite. O Profeta está escondido na aldeia, em casa de um mercador.

- E se eu me recusasse a acreditar em ti?

- Como vos posso convencer? Não passo de um humilde intermediário. Se desejares que vos guie, estão à nossa espera dois burros.

Moktar estaria a atrair-me a uma cilada? Ele, o servidor dos meus inimigos, poderia conceder-me o seu auxílio sem pensamentos reservados? A quem pedir conselho sem revelar a presença do Profeta? Competia-me correr o risco.

- Sigo-te, Moktar.

O mercado nocturno da aldeia de Kom Ombo estava no auge. A multidão formigava por entre as tendas ao ar livre. Os nossos burros, com uma inabalável paciência, abriam caminho entre caixas cheias de cereais, empurravam os transportadores de água, evitavam os camelos, pisavam montes de pistácios dispostos sobre quadrados de pano. As mulheres dos felás, de rosto descoberto, viram-nos passar com curiosidade. Compravam coisas para comer e negociavam peças de vestuário. Grande número delas reunira-se em redor de um adivinho. Outra, esganiçada, trocava um frango por cebolas. Um carniceiro, indiferente a uma querela que estalara entre dois rapazes, matava um carneiro. Crianças, que tinham roubado favas, trincavam-nas alegremente. Múltiplas lâmpadas de óleo iluminavam os tabuleiros.

O burro parou em frente de uma cabana. A porta estava tapada com palmas.

- Esperam-no lá dentro - disse Moktar.

Hesitei. Nenhum dos membros da expedição conhecia o local onde eu me aventurava.

Moktar, glacial, observava-me. Era impossível detectar a mínima emoção no seu rosto. Se recuasse perante o obstáculo, perderia irremediavelmente a face. Mais ninguém naquele país me dirigiria a palavra. Todos saberiam que o “general”, que o Egípcio, que o enviado do governo francês era um cobarde.

Voltando-me para saudar os últimos clarões do poente, não adiei por mais tempo. Passando por sobre um rebordo de terra, penetrei no pardieiro.

Reinava no seu interior uma total obscuridade. Um intenso cheiro a alho agrediu-me as narinas. Mantendo-me imóvel, retendo a respiração, detectei uma respiração ligeira.

- Sois o Profeta? - perguntei, tenso.

Não obtive resposta. O medo contraía-me as entranhas. Uma luz fraca iluminou o pequeno compartimento no fundo do qual estava uma árabe velada, vestida com um delicado corpinho vermelho e umas calças tufadas de seda azul. Uma rica aristocrata.

- Quem sois? Porque me haveis feito vir aqui?

- Quem sois vós mesmo? - interrogou-me em árabe uma voz alterada pelo véu.

- Champollion, mandatado pela França para descobrir e salvaguardar as riquezas do Egipto antigo.

- Guardai as vossas declarações pomposas para o paxá - retorquiu ela. - Quem sois verdadeiramente?

Uma certeza atravessou-me o espírito.

- Tirai esse véu ou fá-lo-ei eu próprio.

Avancei um passo.

- Atrever-vos-íeis?

A minha atitude provou-lhe que estava decidido a pôr a minha ameaça em execução.

Muito lentamente, retirou o frágil tecido que lhe dissimulava o rosto.

- Lady Ophelia... Qual a razão desta comédia?

- Não é uma comédia, Jean-François. Tinha necessidade de lhe falar longe de qualquer presença inimiga e longe de Soliman.

- Considera todos os membros da nossa expedição como inimigos?

- Estou ao serviço do meu país como o senhor está do seu. Também eu desempenho uma missão. Se gosta um pouco de mim, revele-me os seus verdadeiros desígnios.

- Recorreu a esta mascarada...

- Sinto-me feliz por lhe provar que me adapto ao Egipto tão bem como o senhor. Conheço a sua língua e os seus costumes.

- Conhece sobretudo Moktar... e com certeza o seu senhor, Drovetti.

- Porque o havia de ocultar? É verdade, o cônsul-geral é meu amigo. É verdade, o paxá recebeu-me e ouviu as minhas opiniões. São criminosos por causa disso? Sou a mais desprezível das mulheres por os considerar com o seu justo valor? Tem preconceitos, Champollion. Os senhores do Egipto não são tão diabólicos como julga.

- Tenta persuadir-me que não deixam destruir os monumentos egípcios?

Ela fez um encolher de ombros exasperado.

- Não represente constantemente o arqueólogo ultrajado, Jean-François! Trabalha para a glória da França, eu para a de Inglaterra, é tudo. Temos a mesma ocupação, mesmo estando em campos opostos. O dever não exclui a admiração nem... o afecto.

- Lady Ophelia, não sou um espião - afirmei com a maior firmeza. - A França confiou-me um trabalho científico, é verdade, mas esta viagem ultrapassou todas as minhas esperanças. Eram os maiores mistérios que aqui me esperavam.

Lady Redgrave sorriu.

- Tem génio, Jean-François! A sua personagem de sábio é perfeita. Já quase não duvido da sua paixão pelos hieróglifos. Os seus dons para a comédia são excepcionais.

- Como posso fazê-la admitir o seu erro? Como persuadi-la que sou egiptólogo e nada mais?

Ela velou-se de novo.

- Também sei guardar os meus mistérios - disse com uma carícia na voz. - O meu mais caro desejo seria revelar-lhos... se fosse sincero.

A sublime princesa do oriente avançou para mim ondulando. Sem ter consciência de fazer o mínimo gesto, tomei-a nos braços. A sua boca aproximou-se da minha. A sua pele tinha perfume de jasmim.

- Não - respondi, afastando-a - Não é a mim que ama, mas um fantasma que inventou. Tenha primeiro confiança na minha palavra, confiança total! Caso contrário, continuemos cada um em silêncio.

Trespassou-me o coração com os seus olhos verdes claros, acusadores e despeitados.

 

No calor do meio-dia, sob um Sol escaldante, vogávamos para Assuão. A paisagem modificava-se, adoçava-se. Palmeiras, sicômoros, acácias, tamargueiras, matas verdes alegravam as margens. Aqui e além, manchas brancas formadas por pequenas mesquitas coroadas por uma cúpula ou um minarete. As aldeias eram mais ricas, mais alegres. Os arredores de Assuão marcaram a entrada num mundo novo. O granito sucedia ao grés. A população que víamos agitar-se era uma mistura de felás, turcos, bichâris, núbios, abissínios e sudaneses. As bancadas dos mercados estão cobertas de dentes de elefante, de tâmaras, de resinas, de peles de felinos, de especiarias, de produtos exóticos. Se olharmos a paisagem ao longe, o Nilo está oculto por uma cortina de árvores, de rochedos nus, de colinas áridas que fazem crer que o Egipto termina ali e que as nascentes do Nilo estão muito próximas.

Os meus companheiros estavam encantados com aquele vasto oásis à saída do caminho árido do vale do Nilo. Eu não descansei enquanto não me dirigi à ilha de Elefantina para ali estudar dois famosos templos da época áurea. Tive uma vez mais um lancinante desgosto: tinham sido demolidos há poucos anos. Apenas subsiste o local. Tive que me contentar com uma porta em ruínas dedicada a Alexandre, filho do conquistador, e com alguns actos de adoração hieroglíficos gravados numa velha muralha; finalmente, uns vestígios faraónicos esparsos e utilizados como materiais nas construções romanas. O que um dos guardas da ilha me contou desencadeou a minha fúria: tinham sido o novo palácio do paxá e uma nova caserna que tinham devorado as pedras dos antigos santuários. Nestor L'Hôte, que constatava a minha irritação, desenhava afincadamente em silêncio.

Foi Rosellini que me arrancou ao triste torpor que me dominava.

- Venha, mestre - suplicou-me. - Creio ter descoberto... a fonte sem sombra!

A excitação do meu discípulo estava no auge. Naquele lugar, que era considerado mítico, os raios do Sol caíam verticalmente no dia do solstí-cio de Verão. Os egípcios, mediante sábios cálculos, tinham conseguido medir ali o perímetro exacto da terra.

A fonte sem sombra revelava-se como um pequeno poço, uma espécie de nilómetro que, ao fundo de um lanço de degraus, dava acesso ao rio. Os degraus estavam cobertos de musgo. Rosellini escorregou e caiu pesadamente de lado. Ajudei-o a levantar-se, mas recusou-se a continuar, receando nova queda. Pela minha parte, reencontrava a força e a audácia da juventude logo que entrava em contacto com as velhas pedras. Penetrei com intenso prazer no coração daquele velho monumento ao qual tantos sacerdotes tinham descido antes de mim.

Permaneci um longo momento na penumbra reinante no interior do poço destinado a captar a luz. A sua frescura anulava a fadiga. O tempo parava. Sentia-me mais só, é verdade, desde a ruptura com Lady Ophelia, mas esta solidão era atravessada pelos sóis que iluminavam os meus dias de egípcio. Tinha a sensação de percorrer as salas de um templo imenso, do tamanho de um país inteiro, à medida que avançava para o sul. Compreendera desde o início da minha viagem que era essencial ver o Egipto na sua totalidade. Tendo chegado à porta do sul, a Assuão, enchera-me de paisagens e de santuários. A minha sede de Egipto crescia a cada segundo.

Foi ao voltar-me para subir a escada que a vi.

A víbora fixava-me com o seu olhar vazio, erguida sobre a cauda, pronta para saltar.

Não podia recuar nem avançar. Tinha de permanecer tão imóvel como o réptil. A morte surgia-me sob a forma daquela serpente que, estranhamente, não me inspirava qualquer pavor. Lidara, no decurso das minhas pesquisas, com numerosas deusas-serpentes: a cobra protectora do Egipto, a que se erguia na fronte do rei para afastar do seu caminho as forças nocivas, ainda a que velava pelas colheitas e as ceifas. E que dizer dos répteis que tinham o valor de letras-mãe no alfabeto hieroglífico? Se eu fosse realmente o Egípcio, o que teria a temer de um hieróglifo vivo?

Subi portanto um degrau, sem deixar de fixar a víbora. Ela ergueu-se mais. Continuei muito lentamente. A minha perna esquerda passou a menos de um metro da pequena cabeça achatada. Ainda podia atacar por trás. Não me apressei.

Degrau a degrau, reencontrei a luz do Sol que nunca me tinha parecido tão doce.

A maior celebridade de Assuão é o seu mercado, o mais colorido e o mais animado do país. À entrada, pilhas de trigo, milho e arroz guardadas por felás adormecidos, enrolados nos seus fatos, à sombra de guarda-sóis. Crianças nuas, rodeadas de moscas, corriam em todas as direcções. Mágicos que liam o futuro em figuras de geomancia desenhadas no pó eram assaltados por numerosa clientela. Surpreendi um deles, um grande sudanês cego, a sorrir de prazer com a ideia de explorar tanta credulidade.

- Porque me fizeste vir aqui? - perguntei a Soliman.

- Um dos nossos Irmãos deu-me as mais alarmantes notícias relativas a nós. Todos os membros da nossa confraria abandonaram o Egipto. Drovetti dirigiu numerosos relatórios ao paxá para denunciar os Irmãos de Lucsor como perigosos conspiradores. O paxá decidiu suprimi-los de acordo com os seus métodos habituais, com a mais absoluta discrição. Pesam sobre vós graves suspeitas. Ainda sois protegido pelo carácter oficial da sua missão, mas por quanto tempo? Era melhor regressar ao Cairo o mais rapidamente possível e queixar-se de problemas de saúde para solicitar o repatriamento. Continuar esta viagem constituiria uma imprudência talvez mortal.

Passámos por uma ruela atravancada com uma caravana composta por camelos fatigados, cobertos de poeira. Sofriam sob o peso do seu volumoso carregamento, composto por ovos de avestruz, marfim, pulseiras de ouro e de prata, escudelas de madeira, peles de animais, cabedal e tambores. À cabeça do cortejo, um jumento cavalgado por um velho que tinha as pernas tão compridas que quase tocavam no chão. Das cozinhas ao ar livre subiam embriagantes eflúvios, em que se misturavam especiarias e aromas.

- Estás identificado pela polícia do paxá, Soliman?

- Não sei.

- Não sabes realmente, meu Irmão, ou não mo queres confessar? Manteve-se em silêncio.

- Corres bem mais perigo do que eu, Soliman. Abandona a expedição. Esconde-te.

- Jurei proteger-vos. Não voltarei atrás com a minha palavra.

A luz filtrava-se apenas em palhetas que saíam do tecido estendido por cima da ruela. A terra estava molhada. Homens acocorados fumavam narguilé, outros comiam milho ou tâmaras. Uma pequena núbia, vestida apenas com um colar, com os tornozelos carregados de pulseiras, puxou-me pela manga e fugiu, rindo.

- E eu, Soliman, também não voltarei atrás na minha decisão. Esperei toda a minha vida por esta viagem. É o objectivo e o culminar da minha existência. Sejam quais forem os perigos, irei até ao fim. Para me impedir de tal seria necessário destruir-me. Se devo morrer feliz, será nesta terra.

- Esquece, meu Irmão, que deve transmitir a outrem aquilo que viu e compreendeu. Já não tem o direito de viver para si mesmo.

- Não esqueço nada. A Núbia ainda é desconhecida para mim, mal aflorei Tebas e nem sequer deitei a mão ao Profeta... Enquanto o meu trabalho não estiver terminado, enquanto a minha decifração não for perfeita, não terei nada de sério para transmitir.

- Entremos nesta loja - recomendou Soliman, subitamente inquieto. - Somos seguidos.

O comerciante, um volumoso homem atarracado e calvo, inclinou-se profundamente perante nós e depois, com um abundante lirismo, gabou-nos a extraordinária qualidade dos seus produtos, cuja fama chegava ao mundo inteiro: flechas, arcos, punhais, maças, chibatas, tapetes, narguilés, turbantes... O próprio homenzinho era um bazar. Discutimos o preço de uma manta que tínhamos desencantado no fundo da loja de onde saímos uma hora mais tarde.

Soliman observou a multidão.

- Vamos beber um café - disse, batendo a uma portada de madeira pintada de azul.

A portada abriu-se a meio, no sentido vertical, deixando a descoberto um nicho no interior do qual estava sentado um velho árabe enrugado, velando por uma cafeteira fumegante. Serviu-nos duas taças.

- Estamos em segurança - considerou Soliman. - Pelo menos por algum tempo... Compreendo a sua determinação, mas será razoável?

- Esta viagem é razoável? Querer arrancar o Egipto ao silêncio e às trevas é razoável? Esse argumento não me convencerá, Soliman. A prudência não é para aqui chamada. É preciso ultrapassar em rapidez a adversidade.

- É difícil fazê-lo mudar de opinião, mesmo perante o impossível.

- Drovetti tem agentes na Núbia?

- Não creio. A polícia do paxá está quase totalmente ausente dessa região. Só teremos a recear os ladrões... e os traidores.

- Identificaste a pessoa que Drovetti colocou entre nós? Soliman bebeu um gole de café.

- Acusar sem ter a certeza seria uma infâmia. As palavras pronunciadas não se apagam mais. Não, não a identifiquei.

Forçar Soliman teria sido um erro. Saboreei por meu lado a excelente bebida, esperando que dissesse mais alguma coisa.

- O seu discípulo, Ippolito Rosellini, é um homem estranho. Tem um olhar falso. Manifesta demasiada deferência por si. Não é assim que se comporta um aluno de boa fé.

- Tens factos concretos a censurar-lhe?

- É demasiado manhoso para cometer erros grosseiros. Foi ele, no entanto, que o conduziu à necrópole onde foi descoberto o cadáver do monge copta, o pesquisador de Anastasy. Foi ele, igualmente, que lhe indicou a localização do nilómetro onde o esperava uma víbora. E se Rosellini tivesse organizado o primeiro crime e preparado o segundo?

Não ocultara a Soliman o incidente da fonte sem sombra. Tinham-me atravessado o espírito sombrios pensamentos em relação a Rosellini. Assustado, afastara-os.

- Rosellini não é um traidor.

- De qualquer forma, evite o lugar mais perigoso da região - recomendou Soliman.

- Ou seja?

- As pedreiras.

- As pedreiras de granito? Esse local fabuloso? Soliman, és meu Irmão... não podes proibir-me semelhante alegria! Soliman abanou a cabeça, desencorajado.

- Era precisamente o que eu receava... Esteja pelo menos atento ao comportamento de Rosellini... Se for ele a pedir-lhe para visitar as pedreiras, pense numa cilada.

Ao jantar, a atmosfera estava soturna. Lady Redgrave, indisposta, fazia a refeição na cabina. O padre Bidant começara um jejum. O professor Raddi, que iniciara o estudo dos minerais recolhidos desde o início da viagem, retirara-se para os seus domínios depois de ter engolido um ovo e bebido um copo de vinho. Moktar e Soliman jantavam bolachas e favas na zona dos servidores.

L'Hôte estava de má catadura. Rosellini comia com apetite um frango assado.

- Qual a razão dessa má cara, Nestor?

- Saudades da terra, general. Demasiado calor, demasiado deserto, demasiado pó... Sonho com verdes campos, chuva, nuvens. Recordo-me das manhãs brumosas em que a erva está húmida de orvalho, do fogo na chaminé, das noites frias em que nos enrolamos nos lençóis aquecidos por um monge (1).

 

(1) Monge (moine) - o nome dado no Lot aos esquentadores destinados a aquecer as camas.

 

Também eu recordava os dormitórios gelados do colégio, o chuvisco, a lama das cidades, aquela capa de chumbo parisiense que mascara o sol durante dias inteiros, semanas, meses. Rememorava os dedos gelados, as constipações, as bronquites, os membros doridos, o desespero dos céus baixos... e não sentia saudades!

- General... tem de me dizer onde vamos. Estou sempre pronto a segui-lo, mas gostaria de saber onde me leva... Regressamos a Tebas ou continuamos para o sul?

- Não é meu costume ocultar-lhe a verdade, Nestor. Quando lhe pedi que viesse comigo para o Oriente, disse-lhe qual era o meu objectivo: Tebas e o grande sul, tão longe quanto penetra o Nilo. Estamos às portas da Núbia. Continuamos.

Rosellini interveio.

- Não podemos abandonar Assuão sem ver o templo de Filae. Os antigos afirmam que é uma maravilha.

- Belos desenhos em perspectiva - considerou L'Hôte, entusiasmado.

- Há outro lugar que não devemos esquecer. A sua importância científica é grande.

- Qual?

- As pedreiras de granito, mestre.

Entre Assuão e Filae, as pedreiras estendem-se numa distância de mais de seis quilómetros. Burros ágeis e cheios de energia conduziram-nos primeiro por caminhos só deles conhecidos, caminhos que atravessavam mausoléus muçulmanos em ruínas, antes de desembocarem num oceano de blocos de granito semeado de naos, de esteias, de colunas e de estátuas esboçadas. Aquelas obras tinham sido abandonadas por causa de imperfeições da pedra. Um colosso de Amenófis III, talhado na rocha e depois desbastado para o transporte para “a morada de ouro” onde os escultores, “aqueles que dão a vida”, lhe abririam a boca e os olhos, tinha sido abandonado no caminho que ia dar à planície. O assento da estátua é da altura de dois homens. O mais extraordinário é um obelisco de pelo menos trinta e dois metros de comprimento, bem talhado, mas ainda deitado na rocha da qual não está inteiramente separado. Uma fissura tornara o monólito impróprio para a elevação. Examinando-o de perto, compreendi que, para separar um bloco tão colossal, os pedreiros escavavam com picareta, mais ou menos de seis em seis polegadas, entalhes que delimitavam a superfície de pedra a extrair. Nestes, que podiam ter até vinte centímetros, introduziam cunhas de madeira que iam molhando. Estas inchavam e bastava esse simples mecanismo para fazer estalar o granito, proporcionando aos talhadores de pedra, massas prontas para serem polidas. Aqui e além jaziam restos de percutores que serviam precisamente para desbastar e polir.

Tínhamo-nos dispersado, cada um admirando uma das regiões daquela paisagem mineral onde se sentia ainda a presença dos génios que tinham tido um conhecimento tão íntimo da pedra que sabiam de antemão onde ficava o mínimo veio e lhe destinavam o lugar exacto no futuro edifício.

O professor Raddi, deslumbrado com aquele novo paraíso, aliciara L'Hôte e Moktar para apanharem e transportarem as mais notáveis amostras de granito que ele seleccionava com minucioso cuidado. Aquela renovada paixão tranquilizava-me. De regresso aos seus primeiros amores, o bom professor libertava-se da mágoa de viver que o assaltara.

O padre Bidant estava em animada conversa com Lady Redgrave. Tinham-se sentado, ao sol, sobre um gigantesco bloco de granito rosa. Soliman estava invisível. Percorrendo alguns metros na direcção de uma esteia cujas inscrições hieroglíficas queria anotar, reparei que apenas Rosellini permanecera junto de mim. Com o seu habitual cuidado com o pormenor, tomava numerosas notas.

- Veja isto - disse eu, poisando um joelho no chão. - Vestígios de um plano inclinado... Faziam deslizar por ele os blocos com o auxílio de rolos e de trenós. Eram encaminhados para um desembarcadouro durante o período das águas baixas. Os carpinteiros construíam enormes jangadas por baixo das pedras; quando chegava a cheia, erguia essas massas e transportava-as para todo o Egipto. Certamente uma parte dos colossos, uma vez levantados, permanecia imersa de forma a perder pelo menos um terço do seu peso. Que fabuloso estaleiro, Ippolito... Os egípcios não só sabiam extrair, polir e talhar, como tinham também o génio da organização, da distribuição do trabalho, da criação do sagrado à escala de um país inteiro.

O meu discípulo permanecia carrancudo, como se não apreciasse os meus comentários.

- O que o leva a imaginar tudo isso, mestre?

- Não imagino, Ippolito, vejo. Vejo essas cenas ao falar delas como se as vivesse. Havemos de encontrar os documentos que o confirmarão.

Na mão esquerda, Rosellini segurava uma pedra negra que servira de percutor.

- E se se enganar? Se os antigos egípcios não tivessem passado de bárbaros, como os de hoje?

Contemplava o meu discípulo com espanto. Turvou-se-me a vista. Pareceu-me que erguia o braço como se me quisesse atacar.

- Devo ter ouvido mal, Ippolito... Depois do que vimos, sentimos, como... O braço esboçou um movimento agressivo. Não me mexi. Preferia

morrer a aceitar a traição de um homem a quem dera a minha confiança. De repente, os olhos de Rosellini mudaram de expressão. Estava dominado pelo medo, como se tivesse visto uma presença atrás de mim. Abriu a mão. A pedra aguçada caiu no chão.

- Desculpe, mestre... Um momento de perturbação. O calor, com certeza... Deixe-me anotar o texto desta esteia. Não se canse. Precisamos muito de si.

Estava incapaz de falar. Tinha sonhado? O meu discípulo elaborara um projecto assassino contra mim? Aquilo não passava de um horrível pesadelo. Aliás, tinha a prova disso, visto que renunciara por si próprio à sua primeira intenção, supondo que alguma vez ela tivesse existido.

O ar leve e o Sol ardente que reinavam sobre as pedreiras purificaram aqueles tenebrosos momentos.

Estremeci quando, no montículo sobranceiro ao lugar onde me encontrava com Rosellini, vi Soliman, com o rosto grave como o de um juiz.

Moktar assumiu um ar compungido.

- É completamente impossível - afirmou uma vez mais. - O Isís e o Hátor não podem passar a catarata.

Impressionado por ter sido admitido na minha cabina que transbordava cada dia mais de papéis e de pequenas estatuetas compradas por Rosellini, Moktar, o servidor de Drovetti, falsamente contrito, transmitia-me as ordens da administração egípcia.

- Que solução me propões? - perguntei, conciliador.

- O que Alá não deseja, os homens não podem realizar.

- Muito bem. Não existem, para além da catarata, outras embarcações que nos levem à Núbia?

- Talvez... Mas seria necessário descarregar o Hátor e o Isís e transportar em camelos o material da expedição até ao desembarcadouro, em frente de Filae.

Radioso, eu sorria.

- Muito bem, descarreguemos!

Filae, a ilha sagrada, a morada da grande feiticeira, reservava-me uma má surpresa. Uma dor de reumatismo no pé esquerdo impedia-me de andar. O bom senso ter-me-ia aconselhado repouso, mas como permanecer imóvel quando o templo de Isís estava tão próximo?

Apoiado em Soliman, montei num burro para ultrapassar as pedreiras de granito rosa, cobertas de inscrições hieroglíficas. Depois de ter atravessado o Nilo de barco, fui auxiliado por quatro homens apoiados por outros seis, porque a encosta era quase a pique. Pegaram em mim aos ombros e içaram-me até junto de um pequeno santuário onde me tinham preparado um quarto numas velhas construções romanas muito semelhantes a uma prisão, mas saudáveis e ao abrigo dos ventos.

O solo da ilha era muito árido. Rochedos de granito defendiam as costas. Proporcionava o mais admirável grupo de ruínas que jamais tinha contemplado num espaço tão exíguo. Algumas palmeiras, ervas bravias, flores laranja e amarelas davam uma ilusão de frescura.

O padre Bidant curvou-se para mim.

- Sofre muito?

- O suficiente para ficar aqui preso quando deveria deambular pelo templo.

- Aceita o meu braço?

- Com alegria, padre. Alguns passos apressarão a minha cura. Avançámos dificilmente até à passagem central do pilone exterior,

onde Nestor L'Hôte chorava contemplando uma inscrição. Intrigado, julguei que tivesse repentinamente atingido o pleno e absoluto conhecimento dos hieróglifos! Aproximando-me do objecto da sua emoção, fiquei desiludido.

- Leia, general, leia! Que maravilhosa recordação!

No Ano VI da República Francesa, a 13 Messidor, um exército francês comandado por Bonaparte atingiu Alexandria. O exército demorou vinte dias para pôr os mamelucos em fuga das pirâmides. Desaix, comandante da primeira divisão, perseguiu-os para além das cataratas, onde chegou a 13 Ventôse do ano VII

Enternecido, abandonei o desenhador ao seu entusiasmo patriótico para examinar os inúmeros baixos-relevos do grande templo. O domínio de Isís estava votado ao culto e aos mistérios acessíveis apenas aos iniciados cuja vida era suficientemente pura aos olhos da grande deusa. Viveram aqui até ao século V depois do nascimento do Cristianismo e só foram dali expulsos pelas perseguições. Compreendi que o último monumento erguido pelos egípcios não continha qualquer nova forma de divindade. O sistema religioso daquele povo era de tal forma uno, de tal forma ligado em todas as suas partes e assente desde tempos imemoriais de forma tão absoluta e tão precisa que o domínio dos gregos e dos romanos não provocou qualquer inovação: os Ptolomeus e os Césares refizeram apenas, tanto na Núbia como no Egipto, aquilo que os Persas tinham destruído durante as invasões e reergueram templos onde antes existiam e dedicados aos mesmos deuses. Esta formidável visão do sagrado que eu expunha com entusiasmo não convencia o padre Bidant, que no entanto estava atento às minhas palavras.

- A minha crença basta-me, Champollion. Não devia inflamar o espírito com esses sonhos antigos. Mantenha-se mais vigilante com aqueles que o rodeiam.

A minha gota tornou-se mais dolorosa.

- O que está a insinuar, padre?

- Nestor L'Hôte é uma curiosa personagem... O seu pseudo-afogamento não terá sido um simulacro? Desconfio dele desde o princípio da nossa viagem. Por duas ou três vezes pareceu-me vê-lo em companhia de árabes bastante mal-encarados, com certeza esbirros de Drovetti e do paxá. Receio muito que nos traia.

Impressionado pelas declarações do religioso, tentei rememorar os momentos em que a conduta de L'Hôte se tivesse revelado condenável. O sofrimento causado pelo pé impedia-me de reflectir.

- É muito ingénuo, Champollion. Acredita realmente que um homem como L'Hôte tenha empreendido tão perigosa aventura pelo simples prazer de desenhar? Pense no interesse... É isso que faz andar o mundo. Esse L'Hôte não é melhor do que os outros. Se lhe ofereceram dinheiro para o espiar, a manobra foi fomentada desde França. O seu instigador só pode ser Drovetti.

- Leve-me ao sudoeste da ilha, em frente da porta da sala de colunas.

- Porquê aí?

- Uma recordação, padre, uma simples recordação...

O padre Bidant compreendeu que eu manteria silêncio sobre aquele ponto. Não desejava confiar-lhe a minha esperança de contemplar ali um pequeno obelisco de grés de que recebera uma litografia. Permitira-me identificar um cartucho e decifrar nele o nome de Cleópatra, escrito como previra. Aquele precioso testemunho era uma etapa essencial para o caminho da compreensão dos hieróglifos. Uma verificação no original revelava-se indispensável e dar-me-ia uma chave graças à qual poderei talvez dispensar esse maldito Profeta que fugia constantemente à minha frente. Não havia obelisco mas sim Lady Ophelia Redgrave, envolta num amplo manto de algodão branco que lhe deixava os ombros nus. Habituada ao sol, não usava chapéu, suficientemente protegida pela sua grande cabeleira de um loiro veneziano que deixava solta.

- O seu obelisco está presentemente no British Museum, senhor Champollion. O meu tio precisava dele para os seus trabalhos. Chegou às suas mãos em bom estado.

O tom pretendia ser cortante. Desferia-me um golpe que desejava fosse fatal. Mas o seu olhar dizia outra coisa.

O padre Bidant, optando por evitar uma discussão, arrastou-me para longe dali.

- Renunciemos ao grande sul e regressemos ao Cairo o mais rapidamente possível - recomendou-me. - Este país é aterrador. Vai fazer-nos morrer a todos.

- Com a graça de Deus, padre... É verdade que hesito em prolongar a aventura.

- Estará finalmente a tornar-se razoável?

- Lady Redgrave indicou-me a única decisão a tomar... A ausência deste obelisco obriga-me a procurar o outro vestígio que preludiou as minhas primeiras intuições e que tenho de verificar no local.

- Outro obelisco?

- Um templo inteiro.

- Em Tebas?

- Não, padre. No grande sul. Para onde vamos.

Não regressei imediatamente ao leito. Sentia força suficiente para vaguear sob a galeria do grande templo que ia dar à escadaria em frente da qual acostavam os barcos. Embora o Sol estivesse ardente, o lugar era fresco, repousante. Todos os capitéis da colunata eram diferentes, deliciando o olhar pela delicadeza do modelo. O sorriso da deusa estava gravado na pedra.

A febre foi tão forte que sobreveio o delírio. O rosto de Lady Ophelia confundia-se com o da deusa Isís que recebia a semente de Osíris morto para fazer nascer um filho, Horus, que restabelecia a justiça e a ordem perturbadas pelo seu irmão Seth, assassino do pai. Os relevos de Filae giravam à minha volta, revelando-me a verdadeira natureza de Isís, a Natureza criando de acordo com um plano preconcebido pelos deuses. A grande deusa tornava-se Hátor, o templo de Horus, o sorriso do céu, a eterna alegria da dança das estrelas, mãe e ama da luz. Isís e Hátor, a mesma e a outra, o sorriso do além que faz amadurecer as colheitas e verdejar os campos. A mesma mulher, a que nunca varia, o amor celeste.

- Mestre! Mestre! Consegui!

As exclamações de Rosellini arrancaram-me ao meu sonho. Ergui-me na cama.

- Mestre, um nãos! Um nãos inteiro! Encontrei-o nos quartos subterrâneos do templo. Comprei-o por uma módica soma... O único intacto de todo o Egipto!

Rosellini lançou-se numa descrição pormenorizada desse bloco monolítico, o Santo dos Santos do templo, contendo a estátua do deus que apenas o Faraó podia contemplar.

- Também tenho para si... uma carta de França!

- Dá-ma depressa!

Uma longa missiva de mais de quatro páginas assinada pelo meu irmão Jacques-Joseph. Referia as suas missivas anteriores que, infelizmente, deviam ter-se perdido. Descrevia-me o frio parisiense, as chuvas, o nevoeiro, desejando-me mil felicidades e ainda mais descobertas que servissem de base à ciência egiptológica e fizessem renascer a espiritualidade dos faraós. Falava-me da minha saúde, que imaginava bem melhor do que em França e afirmava-me a sua impaciência por ler as inúmeras notas que eu não deixaria de redigir. Reservava-me para o fim uma má notícia que muito o entristecia: a minha candidatura à Academia tinha sido recusada uma vez mais. A minha fama perante a ciência oficial não cessava de diminuir. As campanhas de calúnias espalhavam-se por todo o lado. Suplicava-me que não me deixasse afectar por isso e tivesse esperança no futuro.

- Tenho fome - disse ao meu discípulo. - Prepare-me uma refeição sólida para festejar a cura.

Todos juntos, organizámos, para nos divertirmos, uma reunião no sítio da catarata, sentados à sombra de um santh, mimosa muito espinhosa, a única árvore do lugar, em frente da rebentação do Nilo, cujo ruído me fez lembrar as nossas torrentes dos Alpes. A majestade do local, a absoluta serenidade das pedras que as paixões humanas não afectavam, reduziram-nos ao silêncio. Preparávamo-nos para franquear uma fronteira e tomávamos consciência da gravidade do acontecimento.

Fiz com que me desembarcassem em seguida na rochosa Biga, de granito cor de sangue. Ali estava inscrita a recordação de Osíris regressando à vida. Não longe, o Nilo abria passagem através de uma acumulação de escolhos, abrindo canais de pedra em que as águas se precipitavam, saltando em alegre cerimónia. A voz da catarata, poderosa e autoritária, enchia-nos os ouvidos. Núbios completamente nus nadavam entre as rochas com o auxílio de molhos de juncos que empurravam à sua frente como flutuadores. Um deles dirigiu-se para nós, pouco preocupado com a presença de uma dama, e convidou-nos a beber chá na sua aldeia composta por cabanas em torno das ruínas de um templo.

Senti desejo de ali me sentar e permanecer, esperando a ressurreição osiriana. O homem, naquele território isolado, era apenas tolerado.

Nestor L'Hôte interrompeu a minha meditação.

- O que decidiu realmente, general? Correm rumores... A sua saúde, os perigos... Preciso de saber.

- Continuamos. O grande sul não nos decepcionará.

- Eis a sua nova esquadra - anunciou Moktar, servil.

Aquela flotilha de depois da catarata era composta por um navio-almirante, uma dahabieh com bandeira francesa sobre a bandeira toscana, duas barcas com bandeira francesa, duas outras toscanas, uma barca de provisões de bandeira azul e uma última com a nossa força armada, isto é, Moktar e alguns esbirros. O barco almirante estava armado com uma peça de canhão de três que o nosso amigo Ibrahim Bei nos oferecera. A dahabieh era um barco de bom tamanho, cuja parte de habitação estava arranjada de forma quase luxuosa. Cada um de nós dispunha de um quarto de dormir e de um gabinete de banho; as partes comuns compreendiam uma sala de refeições e um salão mobilado com dois divãs e um piano.

Moktar explicou-me com ênfase que a dahabieh tinha sido afundada durante quatro dias para ficar livre dos ratos e dos vermes. Os polícias do paxá tinham mesmo ficado de guarda para evitar o regresso dos roedores.

- Quero ver a parte da frente do barco - exigi.

- Não é costume.

- Pouco importa. Devo conhecer a totalidade do navio ao qual serão confiadas as vidas dos membros da minha expedição.

- Em geral, os viajantes não vão...

- Não sou um viajante vulgar. Afaste-se do meu caminho.

Moktar curvou-se. No mesmo momento, um marinheiro deslizou para a água com uma prancheta na mão, para a pregar por baixo da quilha, perto do leme. Desempenharia o papel de travão.

A parte da frente do barco era ocupada por uma cozinha por trás da qual um mastro forte, com uma vela latina, estava preso a uma verga imensa. Perto da cozinha, uma cabina munida de uma minúscula janela da qual emanava uma música lancinante. Entrei. Ali se amontoavam uma dezena de marinheiros, tocando tamboril e flauta. Outros, enrolados nos seus albornozes, estavam estendidos de lado, parecendo embrulhos de roupa velha. A sua única riqueza consistia num cadeirão de vime reservado ao chefe. Aqueles homens viviam na imundície e na miséria mais insuportável.

- Exijo que seja proporcionado alojamento decente a estes marinheiros - disse a Moktar, que não se afastava um passo de mim.

- É impossível... Se mudar os seus hábitos, recusar-se-ão a trabalhar. Esta cabina pertence-lhes. Construíram-na com as suas próprias mãos. Cada um tem o seu lugar. Se os insultar expulsando-os, revoltar-se-ão.

Fui obrigado a render-me às suas razões. Fazer a felicidade dos seres contra sua vontade revelava-se um disparate. Acabava de receber uma lição de humildade que não esqueceria.

Regressando à ponte, descobri um incrível espectáculo. Outra barca tinha sido acrescentada à expedição. A do professor Raddi, que lá tinha amontoado numerosas quantidades de amostras de pedras recolhidas desde o início da viagem. Aquela embarcação, demasiado carregada, arriscava-se a ir ao fundo a qualquer momento. Além disso, o professor, admoestando uma dezena de jovens núbios, tentava fazer transportar uma palmeira com mais de vinte e quatro metros de altura! Fui obrigado a utilizar a mais insistente das persuasões para acabar com aquele projecto. A barca, no entanto, juntou-se à expedição e Raddi instalou-se numa cabina que parecia uma caverna rupestre.

A meio da manhã, sob o céu azul de Filae, trocámos o Egipto pela Núbia. As andorinhas, dançando na luz, saudaram a nossa partida. O vento foi nosso aliado, permitindo uma boa velocidade. Um casal de patos selvagens guiou-nos. Para os antigos, simbolizavam as duas almas de um casal voando para a cidade celeste a fim de se encontrarem com Osíris, senhor da ressurreição. Que melhor sinal podiam as divindades conceder-me?

 

O que protege do frio protege do calor. Vestido com flanelas e peles, carregado com um grosso albornoz e uma capa, adoptara a mesma indumentária para o dia e para a noite. Os meus companheiros não tardaram a fazer o mesmo. Desde que tínhamos ultrapassado o trópico, tremíamos de frio a partir do pôr do Sol.

Dabod, Qertassi, Tafa, Kalabsha, el-Dakka... Os templos da Núbia tinham desfilado perante os nossos olhos, oferecendo áleas de esfinges, pórticos, colossos reais. Foi em Kalabsha que descobri uma nova geração de deuses que completa o ciclo das formas de Amon, ponto de partida e reunião de todas as essências divinas. Amon-Rá, o Ser supremo e primordial, sendo o seu próprio pai, é designado como “marido da sua mãe”, a deusa Mut, a sua porção feminina encerrada na sua própria essência, simultaneamente macho e fêmea. Todos os outros deuses egípcios não passam de formas destes dois princípios constituintes considerados sob diferentes relações encaradas isoladamente. Não passam de puras abstracções do grande Ser. Essas formas secundárias, terciárias, etc, estabelecem uma cadeia ininterrupta que desce dos céus e se materializa até às incarnações na terra e sob forma humana. A última dessas incarnações é a de Horus, modelo e protector do Faraó.

A Núbia revelava-se tão bela como generosa, abria-me ainda mais os olhos, iniciava-me mais na luz espiritual dos antigos, nessa viagem num universo de antes da criação do materialismo.

Quando chegámos a el-Derr, capital da Baixa Núbia, a 23 de Dezembro, outra preocupação me assaltou: fazer cozer o mais rapidamente possível a provisão de pão necessário. Soliman foi procurar o magistrado turco que reinava na região para obter a autorização de utilizar um forno. Enquanto ouvia os músicos, na frente da dahabieh, distingui dois vultos correndo em direcção à aldeia: Nestor L'Hôte e o professor Raddi, que tinha finalmente trocado o fato italiano por trajes orientais. Porque razão se escondiam assim? Inquieto, fui até à cabina de Rosselini. Vazia. Nenhum marinheiro vira o meu discípulo desde o princípio da tarde.

O Sol preparava a cerimónia do poente. Sombrios acontecimentos se tramavam. Angustiado, bati à porta da cabina do padre Bidant. Nenhuma resposta. Ousei entrar. Vi o genuflexório, o crucifixo, uma Bíblia, um leito cuidadosamente feito, mas nem sinal do religioso. Também ele tinha desaparecido. Uma nova investigação junto do reis encarregado da navegação não deu qualquer resultado. Só me restava Lady Redgrave. Talvez ela soubesse o que se preparava. A menos que fosse ela a instigadora da conspiração que estava prestes a descobrir.

Mas Lady Ophelia tinha abandonado a dahabieh sem que ninguém a tivesse visto afastar-se.

Era impossível que todos os meus companheiros se tivessem assim eclipsado sem terem despertado a atenção dos marinheiros. Estes mentiam. Uma chapa de chumbo caía sobre os meus ombros. Tinha a sensação de ser um insecto que se agitava no centro de uma teia de aranha, debatendo-se em vão. Devia permanecer naquele navio ou fugir? Fugir para onde? Procurar ajuda, mas que ajuda?

A chegada do magistrado turco, um homem grande, seco e nervoso, acabou com esse dilema. Acompanhado por uma dezena de núbios apenas de tanga e armados com lanças, subiu a bordo da dahabieh e curvou-se à minha frente.

- Peço-vos para me seguirdes.

- Por que razão?

- Não tenho nenhuma explicação a dar-vos. Estais colocado sob a minha autoridade.

A armadilha fechava-se brutalmente. Ou os meus companheiros tinham sido presos, ou me tinham traído. E havia ainda a considerar a estranha fuga de dois deles...

- Estou mandatado pela França - informei-o. - Não se pode apoderar da minha pessoa a não ser com documentos assinados pelo paxá.

- Sou o representante oficial do paxá - retorquiu. - Actuo em seu nome e não tenho necessidade de documentos.

Perdido naquela longínqua Núbia, a que tribunal poderia eu recorrer? A minha última arma era a minha irrisória honra de sábio. Mesmo que estivesse morto de medo, não perderia a face. Conceder a esta gente o espectáculo do meu pavor era indigno da minha missão. Portanto, segui o magistrado turco. Nenhum dos marinheiros da dahabieh se mexeu. O caso tinha sido bem montado. Tinha ignorado tudo até ao último momento.

Dirigimo-nos para a aldeia por um caminho poeirento. Os miseráveis casebres estavam silenciosos. Nem um riso de criança. Nem vivalma na ruela escura que conduzia ao centro do aglomerado.

Lá havia uma fogueira.

- Avance - exigiu o turco.

Hesitei, certo de receber um ferro de lança entre as omoplatas logo que desse o primeiro passo. Conservando um ar de coragem, pus-me em movimento.

Mal tinha começado a avançar, um imenso clamor fez-me estacar. Os indígenas, saindo de todos os lados, rodearam-me. Entoaram um cântico núbio do qual não compreendi nem uma palavra.

O círculo por eles formado abriu-se para dar passagem a uma procissão conduzida por um grande turco de turbante, com um facho na mão. De que cerimónia bárbara ia eu ser o centro?

Um riso espontâneo, imenso, libertando um excesso de ansiedade, sacudiu-me o peito quando reconheci Nestor L'Hôte, seguido de Rosellini, do doutor Raddi, de Soliman, de Moktar, de uma bailarina velada de cabelos loiros que não era outra senão Lady Redgrave e de um padre de sotaina! Vieram depois o magistrado local e os marinheiros da dahabieh. Todos os habitantes que tinha a Baixa Núbia ali estavam reunidos.

- Mas... porquê? - perguntei a L'Hôte.

- Esqueceu-se da data, general? Estamos a 23 de Dezembro... e festejamos o seu trigésimo oitavo aniversário!

O albornoz à turca tem de prático que se pode descair sobre os olhos para esconder as lágrimas. Aquela noite de aniversário, a mais comovente da minha existência, foi rica em risos, em cantos e em danças. Até o padre Bidant, depois da meia-noite, abandonou um pouco a sua reserva eclesiástica para se divertir com as engraçadas brincadeiras de Nestor L'Hôte e admirar uma dança do ventre realizada com entusiasmo por duas jovens núbias.

Rosellini explicou-me que o potentado local quase se suicidara ao saber que os meus companheiros desejavam organizar uma grande festa em minha honra. A região era tão pobre que não dispunha nem de carne fresca, nem de legumes, nem mesmo de vulgares fornos para cozer os bolos. Lady Ophelia salvara o infeliz da desonra convidando-o a juntar-se a nós e a presidir ao frugal banquete onde comemos biscoitos comprados em Assiut e conservas da Europa.

Pouco importava a riqueza dos alimentos. A que tínhamos no coração tinha uma qualidade inefável.

O vento do schamali soprava com tal violência que provocava tempestades e punha o Nilo em fúria. A margem era fustigada pelas vagas. O Sol encontrava-se obscurecido por nuvens esbranquiçadas. O vento erguia colunas de areia. Mas nada impediu o nosso barco almirante e os seus acólitos de atravessar o país da fome e de avançar para Abu Simbel, que considerava desde sempre como o derradeiro objectivo da minha viagem. Tivemos de lutar a remos contra a corrente, proceder a operações de sirga, evitar recifes no meio do rio e vencer correntes contrárias.

A paixão que me animava soube ser suficientemente fulgurante para afastar qualquer vestígio de desencorajamento em meu redor. Do templo principal do grande Ramsés eu esperava a confirmação do meu sistema de decifração e o encontro com o Profeta. Se devia enfrentar-me ou ajudar-me, seria ali e em mais lugar nenhum. Porque não tinha aceite aquela evidência? O nome real que servira de suporte à minha intuição fora o de Ramsés. A inscrição que o mencionava provinha de Abu Simbel. O destino marcava-me um encontro para o qual me dirigia com um entusiasmo de rapaz.

A vida a bordo da dahabieh não deixava de ser agradável. Cada um possuía os seus aposentos. As refeições eram a ocasião para confidências que nos aproximavam uns dos outros. O padre Bidant contou-nos a sua santa carreira e as suas estadias em Roma. Aceitava esta viagem em terra pagã como uma provação do céu. L'Hôte iniciou-nos na arte do desenho, fazendo o retrato de cada um dos membros da expedição. Rosellini profetizou sobre o futuro do museu de Turim e sobre as colecções de tesouros e de obras-primas que esperava reunir. O professor Raddi, em termos muito eruditos, descreveu-nos os primeiros capítulos da sua monumental história da terra que redigia há mais de vinte anos. Lady Ophelia evocou a sua infância londrina, os passeios no campo inglês, a severa educação guiada por Thomas Young, o seu gosto pelos povos do Oriente.

A frescura nocturna favorecia um sono recuperador. Quando o furacão se acalmou, quando um nascer do Sol fez brilhar o ouro no cume das montanhas, distinguimos finalmente uma margem calma onde camponeses e camponesas nus trabalhavam nos campos irrigados por noras. As jovens núbias eram de uma doce e inocente beleza que relegava para as trevas a Eva do Paraíso. Bois de pele luzidia faziam girar uma roda que elevava recipientes de água recolhida no Nilo a um ritmo lento e regular. Junto à orla, um grupo de palmeiras encostadas umas às outras e sob as quais uma mãe dava de mamar ao filho.

Estava estupefacto com tanta beleza e serenidade. Aqui, o homem reconciliara-se com Deus. A natureza não lhe era hostil. Exigia simplesmente dele a oferenda necessária para, por sua vez, lhe oferecer uma vida solar.

- General! Olhe, na outra margem!

Acima de um imenso montículo de areia acumulado de encontro a uma alta falésia emergiam cabeças gigantescas. Rostos de colossos reais. Era impossível saber se estavam de pé ou sentados.

Eram sete horas quando acostámos junto de um templo que reconheci como pertencente à deusa Hátor que assumira os traços de Nefertári, a Grande Esposa Real querida do coração de Ramsés II e representada sob a forma de estátuas gigantes ao lado do marido. Ver aqueles dois templos, o do rei e o da rainha, na sua edição original, mergulhou-me num verdadeiro êxtase. Aqueles edifícios, talhados na própria pedra, traduziam o nascimento do espírito fora da matéria, a força da luz exprimindo a alma da pedra.

Onde estava oculta a inscrição cuja cópia me tinha, a 14 de Setembro de 1822, aberto as portas da escrita egípcia? Lançara-me em tal estado de excitação que procurara o meu irmão no pequeno apartamento que ocupávamos, não podendo impedir-me de gritar “descobri!” antes de desmaiar.

Uma violenta dor inflamou de repente o meu joelho esquerdo. Faltou-me a respiração. Incapaz de me manter em pé, desfaleci.

- O que se passou? - perguntei ao padre Bidant, cujo rosto reconheci curvado para mim. - Onde estou?

- Um grave ataque de gota. Trouxemo-lo para a sua cabina.

- Tem uma ligadura de tafetá?

- Realmente, tenho.

- Traga-me, assim como um bocado de tecido turco.

A ligadura de tafetá forrada de tecido turco é um remédio excelente para aliviar a dor. Obrigado a encarar a minha doença com paciência e a ficar preso três dias no leito, aproveitei esse período de repouso para iniciar um dicionário hieroglífico e tentar traduzir um texto que intitulava “decreto do deus Ptah”. Obtivera-o a partir de um molde executado na sala grande do templo de Ramsés. Os meus olhos abriam-se pouco a pouco. O encadeamento de frases fazia-se quase naturalmente. A linguagem dos deuses tornava-se cada dia mais familiar para mim. Aprendia a ler e a escrever os hieróglifos tendo como únicos mestres os próprios textos e a magia da terra dos faraós.

Rosellini e L'Hôte informavam-me todas as noites do trabalho realizado. Copiavam relevos históricos ainda animados por cores brilhantes, algumas das quais, infelizmente, começavam a desaparecer. Fervia de impaciência, esperando que aquela maldita gota deixasse de me tornar impotente.

Passava da meia-noite. Uma calma absoluta envolvia a dahabieh. Todos dormiam, depois de um dia de trabalho esgotante. O meu dicionário avançava quase só, como se me fosse ditado por uma voz interior. Não dormia. A doença ia regredindo.

A porta da minha cabina abriu-se lentamente. Lady Redgrave apareceu. O vestido lilás deixava os ombros nus. Um requintado conjunto de noite de cetim, do melhor gosto inglês. Permaneceu no limiar, com o rosto mal iluminado pela luz vacilante de uma vela.

- Está acordado, Jean-François? - murmurou com uma voz juvenil que não lhe conhecia.

- Aproxime-se, Lady Ophelia. Há um cadeirão junto da cama. - Sem fazer caso da cadeira de vime, sentou-se na beira da cama, perto da minha perna esquerda.

- Não poderíamos acabar definitivamente com as nossas hostilidades? - propôs. - Estamos aqui perdidos no fim do mundo, esquecidos da civilização. Devíamos tentar... ser felizes.

Bem podia tentar fechar os ouvidos para não ouvir o canto daquela sereia, mas ela enfeitiçava-me. A minha consciência censurava-me de imediato tão inqualificável fraqueza, mas como lutar?

- Ser feliz... Para isso seria preciso que tivéssemos confiança um no outro, Lady Ophelia.

- Tenho confiança em si, Jean-François. No homem que é. Não no espião ao serviço da França.

- Não sou um espião e aqui já não há França. Apenas a Núbia, os templos, o Nilo, um reflexo do paraíso... e nós dois. Ela sorriu.

- Gostaria de acreditar em si... Mas somos, o senhor e eu, escravos da nossa missão. O meu tio tinha-me avisado: é o mais inteligente e o mais ardiloso dos homens.

- Ajude-me a levantar, peço-lhe.

Apoiei-me ao seu braço para alcançar a mesa de trabalho onde Rosellini arrumara os meus papéis.

- Examine tudo isto - pedi-lhe. - Aqui está o esboço de um dicionário, traduções de textos, a verificação de hipóteses formuladas no frio parisiense, cópia de cenas... Será o trabalho de um espião ou de um egiptólogo?

Com doçura e firmeza, ela obrigou-me a deitar de novo na cama.

- Só se pode convencer a si mesmo, senhor sábio... visto que é o único a ler os hieróglifos.

- O futuro provar-lhe-á que não sigo por um caminho errado. Lady Redgrave tomou a minha mão direita entre as suas.

- Paremos com este jogo cruel, Jean-François. Compreendo o seu empenhamento. Compreenda o meu. Ter amor pelo seu país, desejar a sua grandeza são sentimentos nobres. Talvez não sejamos adversários. O nosso objectivo é sem dúvida o mesmo. Unamos os nossos esforços... na condição de sermos sinceros. Se me ama, revele-me a verdadeira finalidade da sua missão. Poderei então... dar-lhe tudo.

- Poderia mentir-lhe - disse eu, com a voz embargada - mas não me destruirei aos meus próprios olhos... Não, Ophelia, não sou um espião. Foi a França que me deu os meios para organizar esta expedição, é verdade, mas apenas para colocar os meus passos sobre os dos antigos egípcios.

Ela levantou-se, subitamente altiva, e recuou até à porta da cabina. - Já que assim é, Jean-François, passe uma excelente noite...

Só consegui adormecer de madrugada. Mal tinha dormido uns minutos, bateram com violência à porta.

- Abra! Abra imediatamente! - berrava o professor Raddi.

- Empurre a porta - respondi com voz ensonada. Um furacão precipitou-se sobre mim.

- Uma desgraça, Champollion! Uma terrível desgraça! Uma catástrofe sem nome! Um desastre insensato!

Continuou assim durante intermináveis segundos, afogando-se nos termos mais excessivos. Esperei que terminasse a litania para solicitar alguns esclarecimentos sobre a causa daquela cólera.

- Os meus sacos... os meus sacos cheios de amostras minerais... desapareceram!

- Onde os tinha arrumado?

- Na ponte, à frente, por baixo de um toldo. Já não tinha espaço na minha barca. É preciso abrir um inquérito

- Chame o reis.

A investigação foi fácil. Interrogado, o capitão trouxe-nos imediatamente o culpado que se denunciara com espontaneidade.

- O que fizeste das colecções do professor Raddi? - perguntei a um grande diabo magro.

- Os sacos cheios de pedras? Atirei-os à água. Há pedras por toda a parte.

Era impossível explicar àquele infeliz, desprovido de qualquer conhecimento mineralógico, a natureza da sua falta. Antes de transmitir ao bom professor o resultado do meu inquérito, mandei o marinheiro para a sua zona.

Raddi ficou acabrunhado. Vi-o envelhecer dez anos em poucos segundos.

- Abandono Abu Simbel - anunciou-me. - Regresso pelo mesmo caminho ao Cairo. Reconstituirei as minhas colecções pedra por pedra.

- Professor, partilho o seu desgosto. Renuncie a essa decisão, suplico-lhe. Não vai ter as forças necessárias para ir até ao fim do seu périplo. Dedique-se à mineralogia núbia que ainda ninguém explorou.

- Preciso das minhas amostras para escrever a história do mundo. Sem elas, sou um homem perdido.

- Não queria renunciar ao trabalho de gabinete, professor? Não se apaixonou pelo deserto e pelo silêncio?

Raddi baixou a cabeça, envergonhado.

- Sim... mas há a minha obra, a mais imensa jamais empreendida por qualquer homem! Está a ver, Champollion: a história do mundo contada por minerais! Os granitos, os grés, os alabastros, os calcários do Egipto deviam fornecer-me marcos decisivos.

- Tem aqui uma vasta colheita a realizar, professor. Trabalhe sem descanso! É o melhor remédio contra as provações, por mais cruéis que sejam. Quando regressarmos ao norte, encontrará o que perdeu.

Pusera tanta convicção no meu discurso que consegui abalar Raddi. Aceitou renunciar aos seus projectos e permanecer na comunidade.

Quando saiu da minha cabina, eu estava esgotado mas feliz por ter salvaguardado a unidade da nossa pequena comunidade, embora esta me parecesse cada vez mais comprometida. Lady Redgrave tornava-se uma inimiga irredutível. Rosellini, apesar da sua deferência, deixava entrever vestígios de ambição e inveja. L'Hôte, que mantinha os princípios da disciplina, fartava-se pouco a pouco da aventura. O professor Raddi sofria ataques violentos por parte do destino. E qual, de entre eles, decidira trair-me? A única felicidade era a “conversão” do padre Bidant, adepto de uma tolerância que eu já não esperava.

Sempre recusara a fatalidade. Negava-a uma vez mais. Para recuperar uma energia renovada precisava do meu licor de juventude: um templo egípcio. E tinha um, soberbo, a alguns passos de mim.

Esquecendo a doença e o sofrimento, levantei-me.

O grande templo de Abu Simbel é uma maravilha que não desmerecia Tebas. O trabalho que aquela escavação custou assusta a imaginação. O sorriso dos colossos que guardam a fachada e representam Ramsés o Grande é uma das mais absolutas obras-primas saídas do cinzel dos escultores egípcios. É simultaneamente serenidade e força, divino e humano, céu e terra.

Lamento não possuir uma varinha mágica para transportar as estátuas gigantes de Abu Simbel para o meio da praça Louis XIV a fim de assim convencer sem motivo para dúvidas os detractores da arte egípcia.

Apesar do vento glacial, dirigira-me ao santuário, apoiado por Soliman e Nestor L'Hôte. Os núbios tinham instalado vigas e pranchas para chegarem ao buraco que dava acesso ao interior. Os marinheiros tinham consolidado aquela frágil arquitectura que ameaçava ruína. Foi preciso retirar a areia e meter pela estreita passagem.

Verificou-se o milagre: o mal desapareceu e retomei o perfeito uso das minhas pernas. Despi-me quase por completo, mantendo apenas a camisa árabe e um calção de pano, e penetrei de barriga para baixo na pequena abertura de uma porta que, uma vez destapada, teria pelo menos sete metros de altura. Julguei chegar à boca de um forno e, deslizando inteiramente para dentro do templo, encontrei-me numa atmosfera aquecida a cinquenta e dois graus Réaumur. Percorremos aquela espantosa escavação, Rosellini, L'Hôte, Soliman e eu, segurando cada um uma vela na mão.

A primeira sala é sustida por oito pilares aos quais estão encostados outros tantos colossos de nove metros cada um representando Ramsés o Grande; nas paredes, uma fila de enormes baixos-relevos históricos relativos às conquistas do Faraó em África; uma cena sobretudo, representando o seu carro de triunfo acompanhado por grupos de prisioneiros núbios e negros em tamanho natural, o que proporciona uma composição de grande beleza e do maior efeito. As outras salas, e contámos dezasseis, têm abundantes baixos-relevos religiosos, com particularidades muito curiosas.

Tínhamos tomado a decisão de ter o desenho, em grande e colorido, de todos os baixos-relevos que decoram a grande sala do templo. Quando se tornar conhecido que o calor sentido neste templo, hoje subterrâneo porque as areias quase lhe cobriram a fachada, é comparável ao de um banho turco intensamente aquecido; quando se tornar conhecido que é necessário entrar lá quase nu, que o corpo destila permanentemente um suor abundante que escorre para os olhos e pinga sobre o papel já molhado pelo calor húmido daquela atmosfera aquecida como num autoclave, será sem dúvida admirada a coragem da expedição que, defrontando aquela fornalha, só sai por esgotamento e quando as pernas se recusam a suportar o corpo.

Tudo é colossal aqui, sem exceptuar os trabalhos que empreendemos, cujo resultado terá algum direito à atenção pública. Todos os que conhecem o lugar sabem que dificuldades é necessário vencer para desenhar um único hieróglifo no grande templo. Mas quem poderia falar de trabalho perante aqueles esplendores? A fadiga e a dor tinham-me abandonado. Empoleirado numa escada, copiava os textos, fazia moldes, cotejava várias vezes com o original. Os textos seriam em seguida passados para desenhos devidamente preparados para evitar qualquer erro.

Foi quando me encontrava face a face com um retrato de Ramsés que compreendi o significado da sua função. Fazia oferenda a um deus que tinha o mesmo nome de Ramsés. Mas seria grosseiro erro pensar que o soberano se adulava a si próprio. Honrava, por intermédio da sua pessoa simbólica, o sol divino que trazia no coração e do qual era o representante na terra.

Depois de ter visto todos os baixos-relevos, tornou-se imperiosa a necessidade de respirar um pouco de ar puro. Foi preciso regressar à entrada da fornalha, tomando precauções para a saída. Enverguei dois casacos de flanela, um albornoz de lã e a minha grande capa na qual Soliman me envolveu logo que regressei à luz; e ali, sentado junto de um dos colossos exteriores cuja imensa barriga da perna detinha o sopro do vento do norte, repousei uma meia hora para deixar passar a grande transpiração. Regressei depois ao meu barco, onde passei cerca de duas horas sobre a cama. Aquela visita experimental provou-me que é possível permanecer duas horas e meia a três horas no interior do templo sem sentir qualquer dificuldade de respiração mas apenas um enfraquecimento nas articulações.

Aquele banho turco foi o melhor remédio para os pequenos e grandes males de que uns e outros sofríamos. Decidi portanto levar a pelo menos três horas a duração das minhas próprias estadias no templo, impondo a L'Hôte e Rosellini apenas duas horas de trabalho de manhã e outras tantas à tarde, para não os condenar à asfixia.

O grande templo de Abu Simbel, para além das suas revelações faraónicas, ofereceu-me um presente soberbo: livrou-me da gota.

Mandei convocar Lady Redgrave por Soliman. Veio ter comigo quando meditava em frente do pequeno templo de Abu Simbel e das suas seis figuras colossais representando o par real rodeado pelos filhos. Estava furioso contra um desenhador chamado Gau, por intermédio do qual julgava conhecer aquelas obras-primas desprezadas por causa das suas medíocres reproduções. Odiava-o por ter dado a estas estátuas tão esbeltas e de linha tão elegante o aspecto de pesados macacos e gordas cozinheiras nas figuras que tinha ousado publicar.

- O que deseja? - perguntou Lady Ophelia, envergando um vestido de musselina rosa.

Protegia-se dos ardores do sol com uma sombrinha laranja e pavoneava-se como uma elegante, andando em passinhos miúdos, julgando-se no centro de um salão londrino.

- Olhe... olhe este templo, Lady Redgrave. Sabe para quem foi construído? Para Nefertári, a Grande Esposa Real de Ramsés, a que ele amava acima de tudo... Fez vir até aqui o arquitecto chefe do reino, organizou o estaleiro mais activo, compôs o mais terno e o mais nobre dos poemas de amor, para sempre inscrito numa pedra de eternidade. Que mais belo presente podia um faraó oferecer à mulher que venerava?

Lady Ophelia Redgrave baixou a sombrinha. Deu alguns passos na direcção do templo e permaneceu ali, só no meio da esplanada.

O pequeno templo de Abu Simbel provara-me como a civilização egípcia diferia essencialmente das do resto do Oriente, pois não se pode apreciar o verdadeiro grau de cultura de um povo senão pelo estatuto ocupado pelas mulheres na organização social. No tempo dos faraós, a mulher desempenhava as mais altas funções espirituais e materiais. Podia aceder ao posto de chefe de Estado, conhecer os mistérios do templo, ter bens próprios, legá-los a quem quisesse. A sua condição foi das mais elevadas e deveríamos inspirar-nos nela mais vezes. Quando os trabalhos urgentes e indispensáveis, dicionário e gramática, estiverem terminados, consagrarei uma obra à mulher no Egipto antigo. No dia em que Lady Redgrave compreender finalmente que a minha vida está destinada a cantar a glória de uma civilização de luz, talvez tenha prazer em lê-la.

O trabalho continuou a ritmo acelerado. Abu Simbel é um sítio que proporciona uma felicidade imediata e constante. Os núbios, indolentes por natureza, participaram de boa vontade na tarefa. Os achados iam-se acumulando. Assim, nas imediações do grande templo, descobri uma esteia provando que Ramsés tinha anexado tão completamente a Núbia que esta se transformara numa província do Império. Alguns monumentos eram tão pouco acessíveis que tive que copiar os textos elaborando uma perigosa estratégia: em pé numa barca, utilizava dois óculos de longo alcance, graças aos quais identificava cada hieróglifo gravado nos rochedos.

À noite, partilhávamos uma parca refeição com os núbios. Tínhamos a sensação de nos termos tornado aldeões. Esquecêramos o tempo das cidades, o trabalho quotidiano, o ruído, a agitação. O Sol dava o tom, o céu as suas cores, o templo o sentido do eterno. Os alimentos materiais contavam pouco. A doçura da amizade partilhada tornava os fracos bolos mais saborosos do que os mais requintados alimentos.

Em geral, dispúnhamo-nos em círculo em redor do fogo e ouvíamos um velho cego contar longas e belas histórias onde surgia a figura de uma leoa aterradora, encarregada pelo deus sol de destruir a humanidade que tinha traído a luz e maculado a vida. A deusa Hátor interviera para acalmar esses furores assassinos e salvar alguns justos que se tinham refugiado no deserto.

Nessa noite, o chefe da aldeia estava ausente. Esperámos a sua vinda antes de tocar no prato de festa que nos era servido, uma mistura de favas e de cevada. A atmosfera era solene, quase tensa. Ninguém ousava falar. Em breve só se ouvia o crepitar do fogo. O chefe surgiu então em companhia de uma espantosa personagem, um jovem negro de elevada estatura envolto num manto branco que cobria uma túnica azul. O seu penteado espantou-me. Era constituído por grande número de caracóis formando uma peruca que me fazia lembrar a que era usada pelos nobres em alguns baixos-relevos egípcios. Além disso, aquele toucado, que diminuía o fosso entre o passado e o presente, espalhava suaves aromas. As normas egípcias do banquete indicavam que se devia vir com a cabeça perfumada para agradar às narinas dos deuses. O jovem, acompanhando-se à lira, entoou um canto em minha honra, qualificando-me de “grande general enviado por um poderoso monarca”. A sua voz melodiosa, expandindo-se com o

ritmo enfeitiçante de uma melopeia, mergulhou-nos num êxtase colectivo.

O chefe da aldeia, que me ofereceu café, mostrava um largo sorriso.

- Haveis vindo de muito longe - disse-me - e haveis chegado entre nós porque sois um amigo de Deus. A partir de agora, a minha aldeia está aberta para vós. Vireis quando o desejardes e sempre que tocardes no nosso solo, haverá festa. Habitareis na minha casa, dormiremos sob o mesmo tecto e partilharemos o pão. Assim será realizada a vontade de Deus.

Sentia-me profundamente comovido.

Foram-me apresentadas duas crianças, trazidas por uma núbia de ancas generosas.

- Eis os meus filhos - declarou o chefe. - Que a vossa bênção seja sobre eles. Eu não abandonarei a minha aldeia, mas eles talvez vão ao vosso país. Tenho a certeza que lhes concedereis hospitalidade e que também entre vós haverá festa quando chegarem.

Garanti-lhe imediatamente que assim seria, embora estivesse vermelho de atrapalhação. Estava convencido, infelizmente, que dois jovens núbios não receberiam um acolhimento daquela qualidade na nossa velha Europa, onde a maior parte das famílias tinha esquecido os hábitos antigos.

A minha vida pareceu-me irrisória, quase inútil. Aqui, vivia uma serenidade para além dos sentimentos e da razão. O Egipto, na Europa, não passava de um sonho. Naquela aldeia do grande sul, tornava-se eternidade. Destruía em mim o inútil e o superficial. A minha vida? Que importância tinha ela face àquelas pedras sem idade, sem história pessoal, desprovidas do germe da morte? Amá-las, venerá-las não basta. É impossível conhecê-las apenas com a inteligência. Identificar-se com elas, transformar-se em pedra, entrar no seu coração... não será o mais invejável dos destinos?

De manhã, fui chamado pelo chefe da aldeia que fazia questão de nos entregar dois presentes excepcionais: uma gazela que Nestor L'Hôte baptizou imediatamente com o nome de Pierre e um grande gato de Kordofan. Sob a capa de um presente equivalente, pagámos-lhe generosamente e acrescentei uma avultada soma destinada ao cantor que tinha encantado as nossas almas.

Uns risos ruidosos atraíram-me a atenção. Tinha-se formado um grupo de crianças em redor do professor Raddi que tentava adquirir um pequeno cão amarelo e um búfalo. Para negociar, não arranjara outra maneira do que imitar os gritos dos animais, o que provocava uma franca hilaridade. Para grande desespero das crianças, persuadi-o a renunciar às suas aquisições.

De regresso ao navio-almirante, fui para a minha cabina classificar papéis e avançar um pouco com o dicionário antes de regressar ao templo. Sobre a minha mesa de trabalho, uma folha de papel, bem em evidência, com estas palavras em árabe:

'O Profeta deixou Abu Simbel. Espera-vos no Nilo.”

Mal me tinha refeito da surpresa quando um formidável concerto de gritos e vociferações, acompanhado por uma cavalgada, ressoou na ponte. O tempo de lá chegar e a causa do drama desaparecera. O reis explicou-me que acabara de discutir com um dos seus cozinheiros que surpreendera a revistar a cabina de Lady Redgrave. O homem batera-lhe, empurrara-o e fugira. Vários marinheiros tinham-se lançado em sua perseguição.

Julgara o caso de pouca importância quando um marinheiro, esbaforido, regressou para prevenir o capitão que o cozinheiro se tinha refugiado no grande templo de Ramsés e que ameaçava destruir os baixos-relevos se tentassem prendê-lo. A minha presença revelava-se indispensável. Não hesitei um instante, perturbado com a ideia daquelas obras-primas serem-desfiguradas por um fora-de-si.

À entrada do santuário estavam vários marinheiros armados com paus e decididos a aplicar umas bastonadas ao fugitivo cujas invectivas já se não ouviam. Munido de uma tocha que Nestor L'Hôte tinha acendido e sem ouvir nenhum conselho de prudência, enfiei-me imediatamente pela abertura.

A antecâmara e a sala grande estavam silenciosas e desertas. Um exame rápido provou-me que os meus inestimáveis baixos-relevos estavam intactos. Corri até ao fundo do santuário, mergulhado em densas trevas. Em frente das quatro estátuas divinas havia um corpo estendido. Quando o iluminei vi que tinha a nuca partida. O homem tinha tropeçado e partira o pescoço ao embater nos joelhos de uma das estátuas.

O falso cozinheiro não era um desconhecido.

Abdel-Razuk, o polícia do paxá, acabava de terminar a sua miserável carreira, abatido pelos deuses egípcios.

 

Abdel-Razuk foi enterrado no cemitério da aldeia. Moktar, como representante das autoridades, supervisionara a curta e modesta cerimónia.

- Qual era o nome desse infeliz? - perguntei-lhe quando regressou à dahabieh.

- Parece que Siluf. Era a primeira vez que o reis lhe dava emprego. Alá castigou-o pelo seu crime.

Portanto, Moktar recusava-se a identificar o colega, preferindo matá-lo uma segunda vez ao suprimir a sua identidade! O meu silêncio pareceu sossegá-lo. Pensou com certeza que eu me deixava enganar e que não observara o cadáver de perto. Os meus companheiros, por seu lado, não tinham tido essa possibilidade.

A Núbia vencera Abdel-Razuk, pondo termo à desprezível missão que lhe fora confiada. Detectava nisso a intervenção benfazeja do grande Ram-sés que, de além dos tempos, me concedia a sua protecção.

Há vários dias que não troco uma palavra com Soliman, que observa constantemente os membros da expedição. Isolámo-nos na parte de trás da dahabieh que tomara a direcção de Uadi Halfa. Disse-lhe que o cozinheiro morto acidentalmente em Abu Simbel não era outro senão Abdel-Razuk. A notícia mergulhou-o numa sombria perplexidade.

- Então, seguiram-nos até à Núbia...

- Esperavas que nos abandonassem?

- Esta região não interessa ao paxá nem a Drovetti. Abdel-Razuk tinha a plena confiança dos seus senhores. Não era um polícia vulgar. Se tomou a decisão de o seguir onde quer que fosse, é porque a sua pessoa é muito preciosa... ou muito ameaçadora.

- O desgraçado está morto, Soliman. Que riscos podemos correr ainda?

- Não seja ingénuo, meu Irmão. Resta Moktar e, a seu lado, um traidor que nos espia a cada instante. Junto de si paira a sombra do paxá que espera o momento em que dará um passo a mais. Estou inquieto... cada vez mais inquieto.

- O que pensas disto?

Mostrei-lhe a enigmática mensagem referente ao Profeta.

- É impossível obter qualquer coisa de certo sobre esse homem... É mais fugidio do que o vento. Acabo por acreditar que foi enviado por Drovetti para melhor nos desnortear e arrastar para pistas falsas.

- Ele existe, Soliman. Sinto-o. Tenho de o encontrar.

- Mas quem pode ter escrito essas linhas? Aliado ou adversário?

- Quem, entre nós, sabe árabe? Tu e... Lady Redgrave. Soliman sorriu.

- Não esqueça o capitão e alguns membros da tripulação. Serão todos simples marinheiros? Abdel-Razuk conseguira fazer-se contratar como cozinheiro.

- Confiemos no destino... Recuso-me a estar permanentemente angustiado e a viver mergulhado em suspeitas.

A 30 de Dezembro, ao meio-dia, chegámos a Uadi Halfa, a uma meia hora da segunda catarata onde assentam as colunas de Hércules. Há algumas casas de terra batida na orla dos campos de cultura, na margem este do Nilo, palmeiras e sicômoros. Uns núbios magros tentam sobreviver com dificuldade. A catarata é uma barreira de granito formada por uma sequência de pequenas ilhotas por vezes cobertas de mato e arbustos. Por todo o lado, pontas de rochedos à flor da água.

Mais além, como uma sentinela numa ilhota a meio do rio, erguem-se as muralhas da fortaleza egípcia de Buhen que proibia aos negros o acesso à Núbia. O meu coração contraiu-se. Não conseguia afastar o olhar daquela última fronteira. Eis-me felizmente chegado ao extremo limite da minha viagem. Não ultrapassarei esta barreira de granito que o Nilo soube vencer.

Para lá existem muitos monumentos que considero de menor importância e que não verei. Seria necessário renunciar aos nossos barcos, subir para camelos difíceis de encontrar, percorrer os desertos e arriscar morrer de fome, porque vinte e quatro bocas querem pelo menos comer como dez e os víveres já são muito escassos. Foram os nossos biscoitos do As-suão que nos salvaram.

Tenho portanto que deter a minha corrida em linha recta e virar de bordo. A dahabieh e as barcas, incapazes de franquear os rápidos, voltaram a proa para o Egipto. Enquanto a notícia do regresso se espalhava e eram efectuadas as manobras, trepei à elevação de Abusir em companhia de Soliman. Dali, assistimos ao espectáculo das águas em fúria, das vagas quebrando-se de encontro aos recifes, de um horizonte perdido nos tons azulados em que se afogava o céu de África.

Aqui o homem não é nada. Apenas se pode considerar como um hóspede de passagem, mantido no mais absoluto dos silêncios. Nele se elevam as vozes do rio, do sol, dos rochedos. Perde de súbito a soberba ligada àquilo que julgava ser a sua inteligência para se inclinar perante a majestade da vida.

Ao abandonar o promontório, vi que Soliman gravara o meu nome num rochedo, deixando marca da nossa aventura e do homem que dela tomara a iniciativa. Jean-François Champollion... que não passava de um brinquedo entre as mãos da Providência, um homem de desejo que tinha de expressar o fogo intenso que o habitava desde a infância, um explorador do invisível em busca de uma civilização perdida?

Dele nada restaria. Excepto, talvez, um nome gravado num rochedo para sempre esquecido na solidão da catarata.

Um tiro de canhão quebrou a quietude do ar núbio, fazendo levantar voo um bando de pelicanos com grande bater de asas. Lady Redgrave mantinha-se na parte da frente da dahabieh, junto da peça de artilharia cujo tiro acabara de comandar.

Era a nossa última saudação ao grande sul. Os marinheiros entoaram um cântico de adeus, simultaneamente triste e cheio de esperança. Tive a exaltante sensação de que o meu trabalho começava realmente hoje, embora tivesse já em carteira mais de seiscentos desenhos; mas há ainda tanto a fazer que quase me sinto assustado. Teria gostado de explorar a Núbia durante meses, residir em Tebas anos a fio, habitar cada templo, sentir o seu génio próprio, o viver interior.

Mas a angústia minava-me o pensamento, como se tivesse o tempo repentinamente contado.

- Não podemos perder tempo pelo caminho, general - exigiu Nestor L’Hôte, transtornado. - Inspeccionei a barca-dispensa. As provisões diminuem perigosamente. Se demorarmos demasiado nos sítios, arriscamo-nos a morrer de fome. As aldeias são demasiado pobres para nos darem de comer. Concordei com um movimento de cabeça. L'Hôte tinha feito aquela declaração em frente de todos os membros da expedição, de forma que nenhum ignorava a gravidade da situação. A minha responsabilidade encontrava-se assim plenamente comprometida. Aquela atitude entristeceu-me. O meu fiel desenhador parecia farto do Egipto. O país e o trabalho já não o fascinavam. Estava pronto a utilizar qualquer meio para apressar o regresso.

- Não correremos quaisquer riscos - afirmei. - Reduzirei as escavações ao essencial.

- No entanto, o Egipto vale bem algumas refeições - objectou o padre Bidant. - Emagreçamos um pouco para a glória da ciência.

Aquele imprevisível aliado não ficou só. Rosellini e Lady Redgrave concordaram com ele. L'Hôte, considerando-se isolado, encostou-se num canto da minha cabina, cruzou os braços e optou pela desaprovação muda.

- Não percamos tempo em palavras - recomendei. - Vamos trabalhar. Mandei parar a flotilha não longe do sítio do antigo Beheni. Contava encontrar ali duas grandes esteias históricas cuja existência tinha sido assinalada por viajantes. Restava apenas um vasto deserto e miseráveis ruínas. A areia tudo recobrira. Não me confessei vencido. Com a ajuda dos marinheiros, formei várias equipas que escavaram e varreram com entusiasmo nos locais que lhes indiquei.

Em breve a sorte me sorriu. Assistido por Soliman, pus a descoberto uma imponente esteia do primeiro dos Ramsés. Rosellini, com os olhos a brilhar de inveja, acorreu.

- Uma obra-prima - considerou de imediato. - O Louvre tem muita sorte... Pior para a Itália.

Despeitado, afastou-se, lançando-se com paixão na pista da segunda esteia que sabíamos enterrada ali perto. Mas os esforços permaneceram vãos. À noite, exaustos e desencorajados, regressámos ao navio-almirante. A amargura vincava os rostos. Tinha com efeito explicado que o monumento que não fora encontrado devia ser de importância primordial para o estabelecimento da história egípcia. Tanto suor tinha sido vertido em vão... Desesperava de reanimar as minhas tropas para o dia seguinte.

Subestimara a sua coragem. Logo que raiou a manhã estávamos todos prontos para o trabalho, bem decididos a não regressar de mãos a abanar do campo de escavações do qual Rosellini estabelecera o plano pormenorizado. Soliman, sem deixar de velar pela minha pessoa, escolheu um rochedo proeminente para gravar de novo o nome do chefe da expedição, de acordo com o hábito que arranjara. Ninguém se esquivava ao trabalho. Lady Redgrave, de calças compridas, não era a menos activa. O padre Bidant, apesar da sua sotaina, adoptava a posição inclinada do escavador, afastando a areia na esperança de lhe arrancar um tesouro.

Ao meio-dia, estávamos vencidos. Uns após outros, os meus companheiros sentaram-se com as pernas exaustas, a testa a arder, a respiração entrecortada. Restava-me ainda alguma energia. Saí da área delimitada pelo meu discípulo para iniciar um passeio solitário no deserto que amava irracionalmente. Um passo a seguir ao outro, afastei-me do meu pacífico exército até ao instante em que o pé esquerdo esbarrou numa massa dura que mal emergia da areia fina. Ajoelhei-me logo, com o coração a bater, e descobri à pressa o que me parecia ser o cimo arredondado de uma esteia antiga. Tinha uma indiscritível sensação de felicidade. Era o monumento de Sesóstris. Chamei imediatamente os meus companheiros, que acorreram, com Rosellini à frente.

O meu discípulo estava lívido. Compreendeu a qualidade da esteia que acariciou com a ponta dos dedos.

- Que peça admirável... Também a quer para o Louvre, mestre?

- O que achas?

- A lei é a lei... O escavador conserva o resultado das escavações.

- Este monumento é muito querido para ti, Ippolito. Foi um viajante italiano que em primeiro lugar assinalou a sua existência. Pertence-te portanto por direito.

Satisfação? Espanto? Despeito? Senti-me incapaz de decifrar o olhar de Rosellini.

- Recuso, mestre. Estes dois monumentos devem permanecer juntos. São seus e, por intermédio da sua pessoa, pertencem à França. Permita-me que seja mal agradecido.

Agarrei o meu discípulo pelos ombros e abracei-o.

- Que a tua generosidade seja recompensada, Ippolito. Os deuses ficar-te-ão reconhecidos.

Com uma alegria comunicativa, procedemos a um rápido levantamento. Dei ordem para transportarem a esteia de Sesóstris para bordo da da-habieh.

Enquanto se efectuava o carregamento, sob a orientação de Rosellini, permanecemos no deserto, saboreando aquela vitória e saudando Rá, o sol divino que no-la concedera. Até mesmo o padre Bidant se tornava sensível às belezas do Egipto, enquanto L'Hôte, reanimado, cantava o nosso êxito.

Respeitando a minha palavra, dei ordem para continuarmos a descida do Nilo que, a cada segundo, nos aproximava de Tebas. A corrente era forte e o vento do norte soprava com força. Uadi Halfa e a Núbia profunda afastavam-se definitivamente.

No céu azul voaram patos selvagens. Na margem, um búfalo sacudia-se depois do banho. Foi nesse instante que compreendi a beleza oculta da paisagem egípcia. Cada dia mais envolvente, nunca mudava. As únicas modificações residiam na maior ou menor intensidade da luz, na cintilação mais ou menos deslumbrante das águas do Nilo. O homem era hóspede daquela terra e daquele céu que, a cada instante, prolongavam o passado e animavam o futuro com um sopro de eternidade. Esta natureza modelada pelas divindades era ao mesmo tempo solidão e fraternidade; tornava a minha alma contemporânea dos antigos egípcios, fazia apreciar o mais ínfimo dos acontecimentos, a passagem de uma falua, o canto de um pássaro, o reflexo de uma folhagem. Esquecendo-nos de nós mesmos, atingíamos a absoluta simplicidade daquela vida milenar que não escorria como areia por entre os dedos mas antes dilatava o coração, inundando-o com um sol que vira erigir os templos. O supérfluo desaparecia. O ser despojava-se. Tomava consciência da sua finitude e, nesse desprendimento, descobria a esperança, essa união indizível com o fogo secreto que tornava o Egipto inalterável.

Tentando vencer a nostalgia que me invadia, redigia as notas sobre as circunstâncias da descoberta das duas esteias e sobre os próprios monumentos. No decurso desse trabalho, surgiu-me uma dúvida sobre a escrita exacta do nome do rei Sesóstris. Embora já tivesse caído a noite, quis verificar esse pormenor sem mais demora. Abandonando a minha cabina, atingi a parte da frente da dahabieh onde interroguei o reis sobre o local onde tinham sido colocadas as pedras sagradas. Espantou-se com a minha pergunta, afirmando que nenhum objecto daquele tamanho tinha sido embarcado no navio-almirante. Chamou os marinheiros, que confirmaram o facto. Um deles, em contrapartida, declarou que ajudara a um carregamento na barca que servia de dispensa.

- Por ordem de quem? - indignei-me. As descrições indicaram Rosellini.

Mandei-o convocar pelo reis, que o trouxe à minha cabina. Fitei-o em silêncio.

- O que há, mestre? Alguma má notícia?

- Muito má, Ippolito. Já a conheces.

- Eu? Como?

- Não sou um juiz. Compete-te a ti confessar a tua falta e repará-la. Rosellini baixou a cabeça, abandonando o combate.

- Fui estúpido, mestre. Cedi ao mais vil dos impulsos. Tinha um tal desejo dessas duas esteias... Não para mim, para o museu...

- Posso compreender, Ippolito, mas não admito que me tenhas mentido, enganado, iludido a minha confiança.

- Não! - protestou. - Era sincero! Foi ao chegar junto da barca-dispensa que me surgiu a ideia... Um desejo irresistível de possuir as esteias. Julguei que não notaria nada.

Rosellini chorou sem verter uma lágrima, com soluços sufocados e arquejos. Sem levantar a cabeça, saiu da minha cabina.

Logo que a flotilha se imobilizou em Serret el-Gharb, convoquei os meus companheiros de viagem. Rosellini, morto de inquietação, escondia-se atrás de L'Hôte. Receava sem dúvida que estivesse decidido a denunciar a sua ignomínia perante a comunidade.

- Esqueci a data do meu aniversário, mas não a de hoje. Vamos festejar juntos o Ano Novo e fiz questão, como chefe desta expedição, de vos oferecer presentes. Não quero pensar mais nas nossas divergências. Sejamos unidos, na mais fraternal das amizades. Lady Redgrave, quer fazer o favor de se aproximar...

Soliman, a meu pedido, conseguira adquirir um colar de lápis-lázuli com o qual eu próprio adornei o pescoço da bela espia. Comovida, agradeceu-me com um sorriso que não era certamente o de uma inimiga. Rosellini, que se começava a descontrair, recebeu um uchebti, pequena figurinha mágica destinada a trabalhar nos campos do outro mundo ao apelo do ressuscitado, reconhecido como um justo. Nestor L'Hôte foi gratificado com uma colecção de lápis de carvão que reavivaram o seu desejo de desenhar o Egipto inteiro. Ao padre Bidant ofereci um manuscrito copta versando as provações sofridas pelos santos. Ao professor Raddi, um tratado de mineralogia raríssimo que Jacques-Joseph consentira em entregar-me depois de o ter tirado da sua biblioteca.

Dirigi-me em seguida à parte da frente do barco onde, por minha ordem, o capitão reunira a tripulação. Ofereci-lhes um bónus, agradecendo-lhes a sua preciosa ajuda. Os músicos empunharam os seus instrumentos. Um cântico de alegria brotou dos peitos.

A exaltação apoderara-se da expedição. Instalámos mesas na margem. Não longe, uma nora movida por bois fazia soar o seu amargo queixume que nunca se cala. Palmeiras de trinta metros de altura proporcionaram-nos calma e frescura. Erguendo os olhos para o céu onde despontavam as primeiras estrelas contendo as almas dos faraós regressados à luz de onde tinham vindo, contemplei o cume daquelas grandes árvores, capazes de receber o fogo do Sol sem perder o seu verdor. Camponeses, sentados de pernas cruzadas, entrançavam fibras para fabricar alcofas, gaiolas, cestos. Como entrada, tivemos direito a hastes de palmeira exumando uma seiva açucarada e a um puré de caules de plantas jovens. Os rebanhos, a passo muito lento, regressavam dos campos onde ainda brincavam crianças nuas.

Quem saberá contar a vida encantada à sombra das palmeiras? Quem saberá cantar a plenitude de um banquete de Ano Novo na margem núbia, banhada por um ar transparente, herdeira de uma imortal sabedoria que continua a alimentar a voz do rio? Naquele instante, teria querido ser poeta, pintor e músico.

Com a garganta apertada, levantei-me com um copo na mão.

- Gostaria de fazer um brinde ao pleno êxito da nossa expedição.

- Com que néctar? - interrogou Nestor L'Hôte, irónico.

- Com duas garrafas de vinho de Saint-Georges - revelei, feliz por este golpe de teatro.

Soliman trouxe o precioso líquido, que tinha sido cuidadosamente mantido oculto no fundo de uma mala. Saboreámo-lo com veneração, embora estivesse um pouco enfraquecido pelos trópicos.

“Vida, saúde, força”: era esse o triplo voto aliado ao nome de cada Faraó. Foi esse o emitido em honra da nossa comunidade que saudou com exclamações laudatórias a chegada de um núbio alto carregado com uma pele de pantera, plumas de avestruz, uma lança e conchas. Esses presentes foram-nos distribuídos com um entusiasmo comunicativo que o vinho de palma ainda exacerbou mais.

Recebi um grande ovo de avestruz, decorado com desenhos de crianças. O topo tinha sido cortado, formando uma tampa. Enquanto os convivas, um pouco embriagados, cantavam canções em voga repetidas melhor ou pior pelos núbios, tive a curiosidade de abrir o ovo e de olhar para dentro.

Continha uma espécie de papiro cuidadosamente enrolado. Peguei-lhe discretamente e fui desenrolá-lo para debaixo de uma ramada, protegido dos olhares de todos. O documento estava escrito em copta por uma mão que traía os sinais da idade.

O texto estava assinado: “o Profeta”.

'Sinto-me orgulhoso, dizia, por, depois de vos ter acompanhado desde a embocadura do Nilo até à segunda catarata, ter o direito de vos anunciar que não há nada a modificar no vosso alfabeto dos hieróglifos. A vossa decifração é a correcta. Aplicá-la-eis com igual sucesso aos monumentos egípcios do tempo dos romanos e dos gregos. E depois, o que é de muito maior interesse, às inscrições de todos os templos, palácios e túmulos das épocas faraónicas. Com a vossa viagem, haveis reatado a tradição e os vossos trabalhos hieroglíficos serão universalmente reconhecidos. Adeus.”

A chave. A última chave. A língua hieroglífica não tinha variado na sua arquitectura desde o nascimento da civilização até ao último sopro vital, desde os túmulos do Antigo Egipto até aos grandes templos ptolomáicos.

O Egipto, uno e indivisível. O Egipto, criador de uma língua sagrada que escapara ao tempo e à morte.

E a minha decifração estava correcta.

Como não tínhamos tempo para descansar, tanto mais que o banquete de Ano Novo, apesar da sua frugalidade, ainda diminuíra mais as nossas pobres reservas de alimentos, logo a partir do dia seguinte de manhã explorámos a gruta de Machakit cuja entrada se abria numa falésia que caía a pique sobre o Nilo. O tempo estava terrível: um vento violento soprava em rajadas. Nestor L'Hôte, apesar de sofrer de uma forte enxaqueca, não quis renunciar à ascensão. A sua determinação arrastou a minha decisão.

Tinha a maior dificuldade em reflectir. A mensagem do Profeta perturbara-me. Quando ou onde me cruzara com ele? Porque recusava uma entrevista? L'Hôte por diversas vezes estendeu-me a mão para me ajudar a trepar. Os nossos esforços foram recompensados. Descobrimos uma capela da décima oitava dinastia, consagrada por um nobre chamado Paser à deusa da catarata, a bela Anukis, uma mulher muito graciosa com chifres de gazela. L'Hôte desenhou os baixos-relevos e eu copiei as inscrições.

Ao copiá-las, ia-as decifrando. Os hieróglifos já não eram uma língua morta, exterior a mim, mas um discurso do interior tornado tão natural como a minha língua materna.

Lia os hieróglifos.

Os sinais dançaram bruscamente sob os meus olhos.

Formaram um turbilhão. Fui arrastado com eles numa vaga imensa que subia até ao céu.

Uma violenta dor na face esquerda trouxe-me à consciência. Nestor L'Hôte esbofeteou-me uma segunda vez. Abri os olhos.

- Ah, general! Tive medo... Caiu como uma massa! Com certeza de esgotamento...

- Pois, de esgotamento...

- Não podemos demorar-nos. Olhe lá para fora.

O vento do norte, que se levantara pouco antes da nossa chegada ao sopé do rochedo, transformara-se numa espécie de furacão. L'Hôte, sem me largar a mão, arrastou-me pelo caminho da descida. Por várias vezes, rajadas nos obrigaram a ficar colados à parede. Cheguei mesmo a perder o equilíbrio, agarrando-me a um ramo nodoso que gemeu sob a minha pressão.

Quis a sorte que regressássemos sãos e salvos aos barcos onde os nossos companheiros nos censuraram a temeridade. A flotilha avançou durante uma meia hora na esperança de que a corrente conseguisse vencer a violência do vento contrário. Mas o schamali tornou-se furioso, o Nilo encapelou-se como o mar e grandes vagas se elevaram. A tempestade acabou por obrigar-nos a ir para a margem.

Bem-aventurada tempestade, não obstante, porque nos deixou em frente do templo rupestre de Gebel-Adda! Quando penetrámos nele para nos abrigarmos, vimos que o santuário egípcio havia sido habitado por coptas que tinham coberto os relevos faraónicos com motivos cristãos. O padre Bidant, alegremente surpreendido, caiu mesmo de joelhos em frente de um S. Jorge a cavalo que lhe fazia lembrar as suas igrejas familiares.

- Finalmente, Champollion, finalmente! Recordações da verdadeira fé!

- Vim aqui para encontrar santos mais antigos, padre.

Consegui satisfação alguns segundos mais tarde, no Santo dos Santos. O espectáculo era tão curioso que rebentei a rir.

- Venha depressa, padre! Eis uma verdade que o vai surpreender!

O religioso, de facto, ficou mudo. Na parede, o estuque dos cristãos tinha caído parcialmente, deixando a nu uma das figuras egípcias originais, a de um faraó a quem um S. Pedro prestava homenagem!

- Se a cristandade se inclina perante o Egipto - disse ao padre Bidant com gravidade - foi porque reconheceu toda a sua grandeza.

A noite núbia era o mais perfeito dos escrínios para a luz lunar. Cobria de azul as montanhas e o deserto. Tinha deixado a dahabieh para vaguear só pelas ruínas de uma cidadela mameluca desmantelada pelo exército do paxá. Aquele mundo destruído, onde ressoava ainda o som de sangrentas batalhas, mergulhou-me numa dolorosa tristeza. Deixar a Núbia era dilacerante. Cada templo, cada gruta esculpida teria merecido uma longa estadia.

Na frescura nocturna, sob o cintilar das estrelas, a alma e o corpo viviam em plenitude, longe de qualquer agitação. As ânsias e os desejos tinham-se extinguido, dando lugar à serenidade das idades primordiais, quando a alma humana e a do cosmos formavam uma só.

Rolaram pedras não longe de mim. Senti uma presença. Apesar do medo, quis saber quem me tinha seguido. O Profeta, talvez? Teria escolhido aquele lugar solitário para me abordar? Os ruídos de passos aproximaram-se. Um corpo chocou pesadamente com um pilar de tijolos que ameaçava ruína. Precipitei-me e levantei um homem vestido à turca, com o rosto coberto de sangue.

O professor Raddi. O mineralogista estava atordoado. Felizmente, o ferimento, apesar da sua aparência espectacular, era apenas superficial. Um simples golpe. Ajudei-o a sentar-se nos restos de um muro e deixei-o retomar o fôlego.

- Champollion... é você, Champollion? Ah, o deserto... o deserto! Percorri-o durante toda a noite. Contornei rochedos, escalei dunas e encostas em cujos flancos cintilavam calcários. A luz da lua torna-os mais brilhantes... parecem diamantes que saem da areia. Apanhei milhares, milhares... e depois continuei... Vi uma ilha. Nela estava construída uma cidade imensa com colunatas, obeliscos, pirâmides brancas e vermelhas, casas rodeadas de jardins... Como era belo! Vou voltar... É lá que quero viver...

- Iremos juntos - disse-lhe - depois de termos descansado um pouco. Agarrei-o pelo braço. Não opôs qualquer resistência. Avançámos lentamente até à dahabieh. Deitei-o na sua cama. Adormeceu de imediato.

Talvez o professor Raddi estivesse a enlouquecer. Com certeza tinha testemunhado uma dessas miragens de que o deserto tem o segredo. A menos que se tratasse de derradeiras realidades que os homens vulgares não podem ver.

A chegada ao sítio de Abu Simbel foi um grande momento de felicidade para toda a expedição. Tínhamo-nos tornado familiares dos dois templos de Ramsés e da sua esposa. A alegria clara e radiosa que emanava daquelas pedras, o sorriso dos colossos prolongaram a harmonia comunitária criada com a festa de Ano Novo.

Contra minha vontade, tive de apressar o trabalho. As nossas provisões em breve se esgotariam. Era-me insuportável a ideia de pôr vidas em perigo. Verificámos portanto as nossas cópias de textos e de cenas, completando-as e aperfeiçoando-as. Constatei que, apesar dos nossos cuidados, tínhamos cometido erros e omissões. Teria sido necessário passar meses inteiros para rever cem vezes cada parede, cada coluna de hieróglifos.

Uma calma muito egípcia tornara-se a regra da nossa comunidade. Todos trabalhavam em silêncio, revelando o respeito pelas obras-primas com que convivíamos. O padre Bidant abandonara a oração para ajudar L'Hôte, com quem se entendia muito bem. Lady Redgrave prestava assistência a Rosellini, segurando-lhe nos cadernos e encarregando-se de lhe arranjar de beber. O professor Raddi, sentado sobre o pé de um dos colossos, permanecia imóvel face ao Nilo, admirando paisagens que apenas ele via.

Abandonar Abu Simbel foi uma provação quase insuportável. Os dias e as noites passados naquele sítio contar-se-ão entre os mais felizes da minha existência. Quando a 16 de Janeiro, pela uma hora da tarde, as barcas, com as bandeiras desfraldadas, se afastaram da margem sob os gritos dos núbios que entoavam em coro um cântico de partida, o meu coração dilacerou-se.

Ao chegar ao meio do rio, mandei imobilizar o navio-almirante de onde contemplei pela última vez o templo da rainha. Depois, disse adeus às enormes estátuas da fachada do grande templo cuja massa gigantesca crescia à medida que nos afastávamos. Ali deixava um momento essencial da minha aventura, um paraíso reencontrado.

Não consegui evitar um sentimento de abandono de mim mesmo ao deixar assim para sempre, de acordo com todas as aparências, aquele sublime monumento que era também o primeiro templo do qual me afastava para não mais o voltar a ver.

 

No dia 17 de Janeiro à noite estávamos em el-Derr, a actual capital da Núbia, onde ceámos ao chegar, com um luar admirável e sob as mais altas palmeiras que já tínhamos visto. Tendo entabulado conversa com um homem idoso dali, que ao ver-me afastado e só na beira do rio viera delicadamente fazer-me companhia, oferecendo-me aguardente de tâmaras, perguntei-lhe se sabia o nome do sultão que mandara construir o templo de el-Derr. Respondeu-me imediatamente que era demasiado novo para saber isso, mas que os velhos da terra lhe tinham parecido todos de acordo que aquele santuário tinha sido construído cerca de trezentos mil anos antes do Islamismo, mas que todos esses antigos não tinham bem a certeza de um ponto: saber se eram os franceses, os ingleses ou os russos que tinham executado aquela grande obra. Eis como se escreve a história da Núbia!

Continuando o meu passeio solitário, em breve esbarrei com o padre Bidant.

- Parece-me muito perturbado, Champollion. Que dissabor o afectou?

- Nenhum - respondi. - Antes uma grande felicidade... a maior das felicidades.

- Essa famosa decifração, não é verdade?

A sua perspicácia surpreendeu-me. Ele notou.

- Foi aos nove anos que soube da descoberta da pedra de Roseta - recordou. - Aos treze anos decidiu que um dia leria os hieróglifos. Aos vinte anos, concluiu a cadeira de Civilização Antiga na Universidade de Gre-noble. Desde então, nunca mais cessou de perseguir o seu sonho e tentar persuadir o mundo dos sábios de que atingiria o seu objectivo.

- Conhece a minha vida melhor do que eu próprio! - espantei-me.

- Devo saber tudo das almas que estão a meu cargo - retorquiu ele, muito grave.

- A seu cargo?

- Sim, Champollion. Recebi das mais altas autoridades da Igreja a missão de o arrancar às trevas se estas ameaçassem engoli-lo. Receávamos que essas decorações mágicas lhe perturbassem o espírito.

- Os hieróglifos - objectei - não são uma decoração vã. Exprimem um pensamento. Talvez me iluda, mas acredito que os resultados do meu trabalho não deixarão de ter interesse para os estudos históricos e filosóficos. A língua e a escrita do Egipto diferem de tal forma das nossas línguas e de todos os sistemas de escrita conhecidos que a história das ideias, da linguagem, das artes não pode deixar de recolher nelas dados que não parecerão menos importantes do que inovadores. O historiador descobrirá nos tempos mais antigos do Egipto um estado de facto que o decorrer das gerações não aperfeiçoou, porque tal não era possível: o Egipto continua a ser o mesmo em todas as épocas. Sempre grande e poderoso graças às suas luzes.

- Pode, desde já, apreciar as consequências da sua descoberta em relação às verdades reveladas pela Bíblia?

- Vai ser necessário passar tudo pela peneira, padre. Os egípcios eram anteriores aos hebreus. Ensinaram-lhes tudo. Moisés era um egípcio que abandonou o seu país de origem. Amanhã será possível ler centenas de textos que nos ensinarão a sabedoria egípcia, a mais pura jamais vivida pelos homens. A nossa visão do mundo será modificada.

O religioso baixou a cabeça, com o queixo quase a tocar no peito. Resmungou qualquer coisa incompreensível e depois agarrou num terço que começou a passar com nervosismo.

- Seja prudente, Champollion - aconselhou antes de se afastar.

Por muito capital que fosse, el-Derr não passava de um grande burgo reunindo pobres casas em frente das quais os habitantes tinham escudelas, potes, marmitas e colheres, expondo assim a sua fortuna em frente dos olhos dos viajantes. Tivemos direito a uma refeição mais consistente, servida sobre um pedaço de cabedal cortado em círculo onde estavam dispostos pratos com arroz cozido com açafrão, cebolas, grão-de-bico. Todos comeram com apetite, compreendendo que terminara o tempo das restrições.

L'Hôte reencontrara o seu bom humor e vivacidade. Bebera bastante vinho de palma e começava a ficar verdadeiramente animado.

- General - começou com voz forte - concebi um formidável projecto com o reis... Falei dele ao Ippolito, que está de acordo, e a Lady Red-grave, que me deu o seu apoio... Espero que não me recusará o seu.

A inquietação dominou-me. A maneira como o meu desenhador abordava o projecto era nada menos do que misteriosa. A assembleia tornara-se muito atenta.

- É um projecto um pouco espantoso - continuou L'Hôte - mas constituirá a mais viva das recordações. Tem um certo perigo, mas podemos reduzi-lo muito...

Aqueles rodeios não me davam qualquer serenidade. Pedi-lhe que fosse direito ao assunto.

- É uma ocasião única, segundo o reis... Garante-nos toda a segurança se seguirmos as suas indicações.

Irritado, cruzei os braços.

- Caramba, L'Hôte! Qual é esse espampanante projecto tão difícil de contar?

Ele hesitou ainda alguns instantes.

- Uma grande caçada ao crocodilo - confessou, deliciado.

Antes da madrugada proporcionei a mim mesmo o prazer de mais um passeio solitário por entre as moradias rodeadas de acácias e palmeiras. Os habitantes ainda dormiam. O ar fluido da manhã era percorrido pelos cantos dos pássaros. Os mais belos ornamentos da modesta capital, de notável limpeza, eram esplêndidos sicômoros de folhagem brilhante. Sob a sua deliciosa sombra tinha sido edificada uma mesquita construída com tijolos de cores.

Não longe dali ficava um sebil, abrigo onde se instalavam os mercadores vindos do Sudão em longas e pacientes caravanas. Dormiam lá, misturados com os seus escravos dos dois sexos. Um funcionário encarregado de receber os impostos sobre as palmeiras dormia numa esteira. Passei silenciosamente, como uma sombra, para não perturbar aquela organização, eu que era apenas a testemunha de um instante.

Fui ter à berma, onde se preparava a expedição. O reis e L'Hôte tinham, com o meu acordo, requisitado a dahabieh e seis outros barcos, carregados de remadores, de marinheiros e de caçadores armados de espingardas. L'Hôte, animado com um extraordinário entusiasmo, estava em pé à frente da primeira barca, encarregada de lançar o assalto contra os monstros. A corrente era tão forte e o vento tão violento que as embarcações voaram como flechas. Ora a dahabieh tomava a dianteira, ora a barca de L'Hôte. Os marinheiros entraram no jogo e iniciaram uma corrida louca. O padre Bidant, assustado, tapava a cara. Duas barcas da flotilha chocaram violentamente. Houve remos partidos e costas magoadas. Dei ordem ao capitão para abrandar o andamento a fim de não pôr em perigo a tripulação e os passageiros.

L'Hôte, no cúmulo da excitação, brandia a arma, preparado para disparar sobre o primeiro sáurio que passasse ao seu alcance. Mas o Nilo permanecia desesperadoramente vazio de crocodilos. Confesso que eu também estava curioso por ver surgir um desses monstros em cujo corpo incarnava o deus Sobek, senhor das águas que dão a vida.

O rio alargou mas as ilhotas tornaram a navegação difícil. L'Hôte deu um tal grito de alegria que todos se sobressaltaram. Sobre um pequeno promontório arenoso, velhos animais douravam ao sol. L'Hôte disparou imediatamente, convencido de abater um deles. Mas as balas ricochetearam na espessa carapaça. Animais medrosos, assustados pelo barulho, os crocodilos correram até à água e deslizaram para ela velozmente.

A decepção dos caçadores foi considerável. Por despeito, esvaziaram as armas.

Soliman empurrou-me e colocou-se à minha frente.

- Não fique aqui. Acabam de disparar contra si.

O nosso regresso a el-Derr foi saudado por uma multidão de garotos que tomaram os barcos de assalto. Foi necessária uma intervenção um tanto brutal dos marinheiros para pôr cobro àquela exuberância demasiado invasora. Partimos sem demora para o templo de Amada. O inquérito realizado por Soliman não conduzira a nada. Um número considerável de pessoas servira-se da espingarda. Vários caçadores tinham mesmo disparado ao mesmo tempo.

O santuário impressionou todos os membros da expedição. Perdido no deserto, rodeado do mais profundo silêncio, desprovido de qualquer ornamento exterior, aquele templo da época áurea era a própria imagem da serenidade.

Fez-me muito bem, precisamente no momento em que, muito tempo depois, sentia os efeitos nervosos do atentado a que escapara graças à intervenção de Soliman.

Embora estivesse enterrado sob dunas de areia, o templo de Amada continuava a ser um marco sagrado emergindo fora do tempo. Penetrando no interior, vi com desespero que os baixos-relevos faraónicos tinham sido recobertos por uma miserável camada de estuque pelos coptas que haviam transformado o templo em igreja. Até àquele instante, resistira a um desejo que crescera em mim durante o nosso périplo núbio. Desta vez, era demais. Lívido, voltei-me para L'Hôte.

- Traga-me um martelo.

O meu colaborador não demorou a obedecer. Ninguém ousou fazer-me a mínima pergunta. Todos sentiam a imensa cólera que havia dentro de mim.

Agarrei no martelo que L'Hôte me estendia e quebrei um grande pedaço de estuque, deixando assim a descoberto um baixo-relevo egípcio, ainda refulgente com as suas cores originais.

O padre Bidant, indignado, quis deter-me, mas Rosellini e L'Hôte impediram-no de avançar. Com força e precisão, continuei um trabalho que era sobretudo uma homenagem ao génio dos antigos. Animava-me uma alegria tranquila. Ressuscitando aquela arte de luz, purificava-me.

Passámos dois dias maravilhosos a trabalhar sem interrupção no templo de Amada, pondo em evidência a maior parte das figuras antigas, admirando colunas que prefiguravam o estilo dórico, desenhando e anotando com entusiasmo. Com que emoção traduzi sem dificuldade um discurso do deus Tot, senhor dos hieróglifos, cujas palavras eu podia presentemente compreender.

Quando partimos para el-Dakka tinha o coração alegre. Depois de Amada, esperava outra obra-prima. Foi a passo de corrida que nos precipitámos, L'Hôte e eu, para o pilone de el-Dakka ao nascer do Sol. A primeira inscrição hieroglífica que me caiu debaixo dos olhos indicou-me que estava num lugar santo dedicado a Tot. Desta vez, não duvidava: o deus dos escribas concedia-me os seus favores. Não sem irreverência, confesso, acreditei mesmo numa espécie de piscadela de olho da parte do augusto Tot, o Mercúrio egípcio armado do caduceu, o ceptro vulgar dos deuses.

O dia de 26 de Janeiro foi consagrado em parte ao pequeno templo de Dandur. Caímos de novo no moderno. É uma obra inacabada do tempo do imperador Augusto. Embora pouco importante pelo seu tamanho, aquele monumento interessou-me muito porque é inteiramente relativo à incarnação de Osíris sob forma humana. Osíris, o vencedor da morte... essa morte que, nos meus sonhos, me sorria cada vez mais frequentemente.

O professor Raddi deu um grito, seguido de outro grito e depois de outro ainda.

Saímos do santuário. O mineralogista estava feliz como uma criança. Acabava de descobrir, por acaso, um soberbo eco! Repetia muito distintamente e com voz sonora até onze sílabas. Rosellini, tão entusiasmado como o seu compatriota, divertiu-se a fazer o eco repetir os versos de Tasso, misturados com tiros de espingarda que os marinheiros disparavam de todos os lados e que, por magia natural, recebiam como resposta tiros de canhão ou ribombos de trovões.

O destino, infelizmente, reservava-me outra explosão que rasgou o céu clemente. Precisei de um novo bloco para anotar colunas de hieróglifos. Deixando L’Hôte por alguns instantes, fui procurar Rosellini que fazia medições no exterior do templo. Não o encontrando, dirigi-me para uma colina vizinha de onde o eco me trazia farrapos de conversa. Reconheci a voz de Lady Redgrave e de Rosellini. O que o meu discípulo dizia gelou-me o sangue.

- Champollion não é mais sábio do que eu - afirmava Ippolito Rosellini. - De momento, é impossível fazê-lo ver isso. Deixo-o acreditar que me considero seu inferior, quando na verdade sei mais do que ele. De regresso a Itália, tornar-me-ei um grande conservador que criará o maior museu do mundo. Champollion é um sonhador, um idealista... Não saberá explorar os resultados desta expedição. Eu, sim. O único egiptólogo de quem a posteridade reterá o nome serei eu. Mesmo que tenha de afastar Champollion do meu caminho.

Não querendo ouvir mais, voltei para trás.

Depois de termos passado o Trópico de Câncer, a jusante de Dandur, dissemos adeus ao Cruzeiro do Sul em Beit el-Wali, deixando para trás de nós as maravilhosas noites claras da Núbia. Lançando um último olhar àquelas estrelas de um outro mundo, pensava em D. Calmet, o monge que me dava lições de coisas ao ar livre e que fora o primeiro a reconhecer-me o dom das línguas. Como teria apreciado aqueles instantes de intenso recolhimento em que aprendíamos o céu contemplando-o da orla do Nilo.

Uma mão muito suave poisou-me no ombro.

- O que espera ainda, Jean-François? - perguntou Lady Redgrave. - Não atingiu o seu objectivo, decifrar os hieróglifos?

- As informações circulam depressa... mas finalmente acredita-me! Não respondeu. Voltei-me para ela, cheio de esperança.

- Basta! Para quê continuar esta viagem se os seus desejos estão satisfeitos?

- Porque agora preciso de ler! Decifrar Tebas, penetrar no coração da cidade santa! O meu trabalho apenas começou, Lady Ophelia... É um universo que se abre à minha frente.

- E se regressasse a Tebas para encontrar finalmente o famoso Profeta a quem confiará as informações que recolheu? Se perseguisse inexoravelmente o plano que o levará a um último combate com Drovetti?

Estava aterrado. Traído por uns, incompreendido pelos outros... Seria assim tão difícil fazer partilhar um ideal?

- Este céu é o mais belo do mundo - disse ela. - Porque estragá-lo com mentiras? Porque não nos havemos de entregar aos sentimentos que nos animam?

Talvez devesse tê-la tomado nos meus braços, confessar-lhe que a menor das suas palavras me perturbava, dizer-lhe que a sua beleza era a das mulheres nobres do Antigo Egipto... Comportei-me como um cobarde. Mas não queria um afecto que não fosse alimentado por uma total confiança.

Mais valia a solidão do que a dúvida.

Filae aproximava-se. Regressávamos ao Egipto dizendo adeus àquela pobre Núbia, cuja secura acabara por fartar os meus companheiros de viagem. Quando voltássemos a pôr os pés no Egipto, podíamos esperar comer pão um pouco mais suportável do que os magros bolos ázimos com que nos presenteava diariamente o nosso padeiro-chefe, bem à altura do taberneiro árabe que nos deram no Cairo como se fosse um chefe de cozinha.

A 1 de Fevereiro, pelas nove horas da noite, vimos primeiro os possantes rochedos graníticos que formavam as margens do Nilo, depois as falésias de Biga e finalmente o admirável pilone da entrada do templo de Filae. Dei graças às suas antigas divindades, Osíris, Isís e Horus, por a fome não nos ter devorado entre as duas cataratas.

As estrelas brilhavam. Várias famílias núbias acolheram-nos com gritos de alegria quando desembarcámos junto do pavilhão de Trajano. Tivemos direito a um concerto de flautas e tamborins no qual L'Hôte participou com a sua bela voz grave, enquanto o professor Raddi, com um pedaço de granito em cada mão, esboçava passos de jiga que divertiram loucamente as crianças. Rosellini, oferecendo o braço a Lady Redgrave, ajudou-a a sair da dahabieh para pisar de novo a terra dos faraós. Lado a lado, Soliman e Moktar guardaram o acesso ao navio-almirante de forma a desencorajar qualquer tentativa de rapina.

Quando saboreava um café oferecido pelo chefe dos guardas do templo de Filae, agarraram-me pelas calças. Baixando-me, descobri uma garotinha de cerca de dez anos. Trazia um magnífico vestido vermelho, sem dúvida porque acabava de ser a heroína de uma festa.

- Tem que vir comigo - disse ela. Sorri.

- Porquê?

Reflectiu com concentração, para rememorar bem a frase que tinha de pronunciar.

- Um grande amigo do senhor Anastasy espera por si. Anastasy... O seu nome constituía a mais segura das garantias. “Um grande amigo” só podia ser um dos Irmãos de Lucsor. Era impossível prevenir Soliman, de quem Moktar não se afastava um palmo.

- Sigo-te - disse à rapariguinha.

Rápida, conduziu-me ao outro lado da ilha, onde estava amarrada outra dahabieh quase semelhante à nossa. Os dois marinheiros que guardavam a entrada curvaram-se perante mim e deram-me passagem. Retiveram a garota, a quem ofereceram uma boneca que ela imediatamente adoptou.

Um servidor guiou-me até à cabina do mestre. Estava sumptuosamente mobilada: poltronas de cabedal, divã, mesa de acaju, estante de carvalho.

Um homem de cerca de sessenta anos, de porte distinto, levantou-se e dirigiu-se para mim. Envergava um fato branco e fumava cachimbo. O seu rosto, vincado por rugas profundas, estava tisnado pelo sol.

- Feliz por recebê-lo, Champollion. O meu nome é Lorde Prudhoe.

- E é um grande amigo de Anastasy...

- E seu Irmão...

Espontaneamente, abraçámo-nos, ambos igualmente comovidos.

- Será o último dos nossos, Champollion. Méhémet-Ali persegue-nos. Identifica-nos uns a seguir aos outros. A denúncia é eficaz. A maior parte de nós já abandonou o Egipto. Confundem-nos com uma seita revolucionária. Vou iniciar uma grande viagem de exploração, primeiro na Núbia e depois na Arábia. Irei morrer lá, sob aqueles sóis que nunca desiludem a minha expectativa. Parto esta noite. O senhor regressa a Tebas, o mais elevado lugar do universo. Drovetti e os seus homens esperam-no lá. Saiba que a sua existência está em perigo.

- Quem dos membros da minha expedição me trai?

- Ignoro, Champollion. É um facto que foi tudo organizado antes da sua partida de Toulon. Não tenho a mínima esperança de o fazer renunciar à sua estadia tebana. Nem sequer tentarei convencê-lo. Espera há demasiado tempo. Mas tenha consciência de que é ameaçado tanto no interior como no exterior.

Embora mantivesse uma calma aparente, os avisos de Lorde Prudhoe abalaram-me.

- Não tenho escolha - constatei. - Decifrei os hieróglifos. Um longo silêncio seguiu-se a esta declaração.

- Não consegui encontrar o Profeta - acrescentei - mas recebi uma mensagem da sua parte confirmando o valor da minha descoberta.

- Pois bem - disse Lorde Prudhoe - só lhe resta uma última precaução a tomar: partilhar o seu segredo. Assim, se desaparecer, transmitirei os mistérios que até agora estão apenas na sua posse.

Apertou-se-me a garganta. Pedia-me que lhe confiasse o meu mais precioso tesouro, o essencial da minha vida, quando acabava de encontrá-lo pela primeira vez. Com frequência tinha sido demasiado crédulo, concedendo a minha confiança a pessoas que a tinham utilizado para me prejudicar... Lorde Prudhoe tinha um olhar penetrante que analisava perfeitamente a minha luta interior. Paciente, ia fumando o seu cachimbo.

- Dê-me papel - pedi. - Vou explicar-lhe. Sorriu com bonomia.

- É inútil, Champollion. Basta-me a sua confiança. Era incapaz de compreender. Só o senhor está apto a transmitir a sua prodigiosa descoberta às gerações futuras. Um pormenor, no entanto... Tenho um presente para si.

Da estante retirou um volume antigo, um tratado sobre os hieróglifos escrito por um sacerdote egípcio, Horapollon, que vivera na época grega.

- Leu este texto... mas, neste exemplar, está completado por comentários manuscritos que lhe serão úteis. Foram feitos pela mão de um antigo cuja competência o senhor mesmo avaliará. Para a nossa confraria, é uma chave indispensável cuja utilização lhe estava reservada.

Entusiasmado, lancei-me sobre aquele venerável documento que trouxe uma revelação essencial: o triplo sentido da língua hieroglífica, literal, moral e simbólico, estando os três aspectos ligados a maior parte das vezes para traduzir a realidade. Não era apenas uma linguagem que se revelava, mas uma filosofia inteiramente nova, uma visão da vida que surgiria amanhã como a mais essencial das criações.

Segurava entre as mãos uma formidável revolução do pensamento.

Bastaria um Drovetti e alguns facínoras para a impedirem de se realizar? Vendo-me perturbado pela emoção, Lorde Prudhoe ofereceu-me um excelente Porto.

- Se os deuses lhe forem favoráveis, Champollion, as consequências da sua expedição serão incalculáveis. Vai fundar uma ciência, ressuscitar uma civilização e, sobretudo, fazer renascer uma sabedoria de que os homens de amanhã terão a maior necessidade.

- Porque não fica a meu lado?

- Faz parte da nossa regra dispersarmo-nos pelos quatro cantos do mundo. Dirige-se para norte, eu para sul. Assim é que está bem.

- Esse famoso Profeta existe realmente, na sua opinião? Amigo ou inimigo?

- Encontrou-o muitas vezes nos baixos-relevos, Champollion! Um homem altivo, de barba, com uma grande bengala... Não será o fiel retrato de um grande dignitário na corte do Faraó, de cada um dos seus senhores de domínio encarregados de fazer reinar a harmonia sobre esta terra?

Mostrara-me muito pouco atento. A confraria de Lucsor armara-me a mais salutar das ciladas, aquela que deixava maltratada a minha vaidade.

Passámos a noite a falar do nosso passado e dos nossos projectos. Esquecemos que existiria um amanhã e que a madrugada surgiria.

- Tenho horror às despedidas - declarou Lorde Purdhoe. - Não me quero atrasar. Também o senhor não tem tempo a perder. Voltaremos a ver-nos... numa outra vida.

Sem mais cerimónias, Lorde Prudhoe abandonou a sua cabina para se dirigir à parte da frente da dahabieh e dar as suas ordens ao capitão. Na margem, esperei que o navio largasse do cais.

A garotinha do vestido vermelho dormia por baixo de uma acácia, apertando de encontro ao peito uma boneca. Não a quis acordar, mas o meu pé esquerdo fez rolar uma pedra. A pequena esfregou os olhos, levantou-se e agarrou-me no braço.

- Não tens presente para mim? - perguntou.

- Isto agrada-te?

Ofereci-lhe um lenço de assoar bordado. Usou-o para vestir a boneca.

- Gostava de saber... quem te deu esse lindo vestido?

- O senhor do barco que se vai embora... Aquele a quem chamam o Profeta.

 

Segundo as informações obtidas por Soliman em Assuão, Drovetti há muito que abandonara a região para residir em Tebas onde, dizia-se, os seus homens se espalhavam por toda a parte sob o pretexto de escavações a fazer. Teria desejado partir o mais rapidamente possível para a antiga capital, mas foi preciso proceder a uma revisão dos dois navios, o Isís e o Hátor, dos quais ninguém tratara durante a nossa aventura núbia. Os meus companheiros aproveitaram aquele tempo de repouso para dormir tudo o que precisavam e comer à vontade. Sentindo-me bem, nada fatigado depois de tantos acontecimentos, estudava uma vez mais os pobres vestígios dos templos antigos.

Dissemos adeus à antiga Syene a 8 de Fevereiro e tivemos pouca sorte.

Eis-nos a 10 e estamos longe de franquear a distância que nos separa de Ombos, onde se chega de Assuão em nove horas com tempo normal; mas um violento vento norte sopra sem interrupção há três dias e faz-nos rodopiar sobre as vagas do Nilo, encapelado como um pequeno mar. Atracámos com grande dificuldade nos arredores de Mélissah, onde existe uma pedreira de grés sem qualquer interesse; quanto ao resto, estamos de saúde perfeita, com coragem e preparando-nos para explorar Tebas de cima a baixo.

Alegrei-me de antemão pensando que talvez tivesse correio de novo. Acho as cartas de Paris um pouco curtas: esquecem-se que estou a mil léguas de França e que as noites podem ser longas! Fumar ou jogar, sempre! Precisaríamos de uma boa colecção das pequenas encomendas de Paris. Não me considerem exigente, mas quase tenho o direito de o ser tendo em conta as vinte e sete páginas que acabo de escrever e que termino rapidamente com medo que digam que os maiores faladores do mundo são as pessoas que regressam da segunda catarata.

Apoderou-se da nossa comunidade um estranho torpor. O padre Bidant fechou-se de novo nas suas orações; o professor Raddi, instalado na ponte do Hátor, contempla o Nilo e as montanhas, encerrado em silêncio; Rosellini classifica as suas notas científicas; L'Hôte retoca croquise esboços. Por meu lado, avanço o meu dicionário e a minha gramática, trabalhando numa espécie de sonho acordado em que dialogo com o deus Tot que me faz avançar no conhecimento da língua sagrada.

A nossa viagem prossegue sem emboscadas; curta distância nos separa de Tebas.

Os nossos corações estavam em festa por revermos essas ruínas imponentes. Os nossos estômagos colocavam-se também do seu lado, pois falavam de uma barca de provisões frescas, chegada a Lucsor em nossa intenção. Era mais uma cortesia do nosso digno cônsul-geral Drovetti e tínhamos pressa de aproveitá-la. Mas um vento do norte de uma extrema violência deteve-nos durante a noite entre Hermonthis e Tebas, onde só chegámos no dia seguinte de manhã, 8 de Março, bastante cedo. Os nossos barcos foram amarrados junto das colunatas do templo de Lucsor que estávamos decididos a estudar mais a fundo. O estado daquele magnífico palácio divino não tinha, infelizmente, melhorado nada. Continuava obstruído por casebres de felás, desfigurando os seus belos pórticos, sem falar da miserável casa de um brin-bachi, empoleirada na plataforma que fora violentamente perfurada a golpes de picareta para dar passagem às imundícies do turco. O santuário não proporcionava nenhum lugar cómodo nem suficientemente limpo para nos instalarmos. Tivemos portanto que permanecer nos navios até ao momento em que os nossos estudos do templo terminaram.

As provisões oferecidas por Drovetti, que diziam ter regressado ao Cairo depois de escavações muito pouco satisfatórias, foram servidas à mesa de um grande banquete em celebração do nosso regresso a Tebas. Soliman, apesar da minha oposição ao seu projecto, fez questão de provar as carnes, os legumes e os frutos que íamos comer. Nenhum sabor lhe pareceu suspeito até ao momento em que se forçou a molhar os lábios no vinho de Bordéus. Um minuto mais tarde, tinha o ventre em fogo.

O professor Raddi magnetizou-o imediatamente enquanto um marinheiro lhe trazia uma tisana amarga. A dor diminuiu, mas Soliman permaneceu febril durante várias horas.

- Veneno - murmurou - veneno...

Passámos para a margem esquerda no dia 23 e seguimos pela estrada de Biban el-Muluk, onde estão escavados os túmulos dos faraós do Novo Império. Como o Vale dos Reis era estreito, pedregoso, circunscrito por montanhas bastante elevadas e desprovidas de qualquer espécie de vegetação, o calor ali é muitas vezes insuportável. A nossa caravana instalou-se lá nesse mesmo dia e ocupámos o melhor alojamento e o mais magnífico que seria possível arranjar no Egipto. É o rei Ramsés, sexto do seu nome, que nos concede hospitalidade, pois habitamos o seu magnífico túmulo, o segundo que se encontra à direita ao entrar no vale. Aquele hipogeu, admiravelmente bem conservado, recebe o ar e a luz suficientes para ali ficarmos muito bem instalados; ocupamos as três primeiras salas, que têm um comprimento de 75 passos; as paredes, de 15 a 20 passos de altura, e os tectos estão todos cobertos de esculturas pintadas, cujas cores conservam quase o seu fulgor original; é uma verdadeira habitação de príncipe, apesar do inconveniente da sequência dos compartimentos. O chão está inteiramente coberto de esteiras e juncos. Os nossos guarda-costas e criados dormem em duas tendas montadas à entrada do túmulo. Esta foi a nossa instalação no Vale dos Reis, verdadeira morada da morte, visto que lá não se encontra nem uma erva, nem seres vivos, com excepção dos chacais e das hienas que, na penúltima noite, devoraram, a cem passos do nosso palácio, o burro que tinha trazido as provisões.

Esse drama, felizmente, tinha deixado sãos e salvos o gato do Kordofan e a gazela de L'Hôte, que se instalaram na sala do sarcófago onde eu tinha colocado a minha cama de campanha, dormindo com um sono sereno naquela morada de eternidade, junto da alma do Faraó. O meu venerável quarto de dormir era fechado por uma porta de madeira proveniente de uma dahabieh.

Todas as noites, esperava que todos adormecessem acariciando docemente a gazela mergulhada num sono sereno. Quando ouvia as respirações regulares dos adormecidos, acendia uma lamparina um pouco fumarenta para preparar o programa do dia seguinte. Esperavam as minhas ordens e eu devia estar preparado para as dar com clareza e sem hesitação.

Lá fora reinava uma calma quase absoluta, por vezes quebrada pelos uivos dos chacais ou das hienas. Habituados, os operários fechados nas suas tendas não acordavam.

Foram as minhas mais belas horas de trabalho. Tendo entrado vivo naquele túmulo que os egípcios chamavam “moradas de eternidade”, saboreava os seus mistérios e símbolos sem ter necessidade de os dissecar. Os ensinamentos dos faraós não passavam pela mente. Era necessário impregnarmo-nos deles, viver com os baixos-relevos, no seio daquelas figuras estranhas que apenas falavam do essencial.

O repouso dos meus companheiros alegrava-me. Estavam serenos, descontraídos. A energia que se libertava daquelas paredes sagradas quase me dispensava de dormir. Escrevendo, sonhando com as próximas tarefas, sentia-me repousado. Tinha consciência do carácter excepcional daqueles momentos e não queria perder nem uma migalha. O meu dever era proteger os meus companheiros e os meus operários, velar pela sua serenidade; o meu prazer inefável, recompensa suprema, consistia em saborear aquela solidão comunitária, em sentir-me presente tanto no espírito dos antigos como no dos homens que, com a sua obstinação, começavam a arrancar o Egipto à sua mortalha de areia.

A manhã chegava sempre demasiado depressa. O gato e a gazela arrancavam-me sem cerimónias à minha contemplação, demonstrando-me, cada um à sua maneira, um comovente afecto. Deixando-se arrastar pelas manobras dos dois cúmplices, que fingiam estar esfomeados, Rosellini dava-lhes uma segunda vez de comer, murmurando palavras ternas em italiano. O gato, que passava a maior parte do tempo a dormir, transmitira esse gosto à gazela de quem se tornara o senhor incontestado.

Os nossos dois hóspedes privilegiados não gostavam das visitas dos camponeses que se apresentavam à porta do nosso domicílio real com ovelhas, cabras, burros ou galinhas. Nem o gato nem a gazela suportavam a intrusão desses visitantes indesejáveis que éramos obrigados a rejeitar sem piedade.

O alojamento parecia-me cada dia mais conveniente. A longa galeria em suave declive que conduzia ao santuário ficava, durante o calor, mergulhada em doce penumbra. Uma agradável frescura permitia trabalhar sem dificuldade. Sob a direcção de L'Hôte, foram acumulados em desordem fatos, armas e provisões. Em breve o túmulo de Ramsés se parecia com uma caverna de salteadores! Com os nossos bigodes, as nossas barbas, os nossos fatos orientais e os nossos sabres pendurados ao lado, tínhamos o aspecto de temíveis aventureiros prontos a cortar o pescoço ao primeiro que passasse.

Para festejar aquela instalação, ofereci uma pequena recepção regada por um velho borgonha. Erguemos os nossos copos em honra da dinastia dos Ramsés que com tanta cordialidade nos acolhia. Tinha convidado para a nossa mesa o senhor Piccini, agente de Anastasy em Tebas, cuja franca alegria decuplicou a nossa.

Na sequência de uma brincadeira napolitana, inclinou-se para mim.

- Tenho um pedido a fazer-lhe - disse-me ao ouvido.

- Estou a ouvi-lo.

- Tem intenção de fazer escavações?

Hesitei em responder. O rosto franco de Piccini pareceu-me de repente hostil, inquisitorial. Procuraria informar-se para me prejudicar? Seria um agente de Drovetti disfarçado sob a máscara da amizade? Quis ter a certeza. Mais valia revelar os meus projectos e apreciar as suas reacções.

- Com efeito, tenho essa intenção...

- Aqui mesmo, ou nas duas margens?

- Nas duas margens.

- Com que dinheiro?

- O meu, visto que o financiamento anunciado ainda não chegou.

- Nesse caso, permita-me que lhe faça um pedido. Gostaria que ficasse com os meus filhos.

Pronunciara a sua súplica de cabeça baixa, com voz trémula.

- Os seus filhos? Mas que idade...

- Os meus filhos... quero dizer, os meus operários. Os que fazem escavações comigo há catorze anos. Se os pudesse conservar consigo, seria um imenso alívio.

Servi-lhe um grande copo de vinho.

- Pode ficar descansado, senhor Piccini. A nossa expedição não é rica, mas contrataremos o máximo de operários.

Resolvemos imediatamente aquele assunto com Rosellini. As nossas finanças permitiram-nos contratar trinta e seis dos “filhos” do pesquisador italiano que, a partir do dia seguinte, começariam a trabalhar sob a direcção de Rosellini. Piccini estava comovido até às lágrimas. O meu discípulo, cujo espírito prático nada conseguia abalar, começou a distribuir indicações, insistindo particularmente na disciplina.

Nestor L'Hôte instalou-se ao meu lado.

- Tenho uma história óptima para lhe contar - disse L'Hôte, divertido. - Um turco revelara à mulher um ensinamento que recebera na mesquita. O imã tinha evocado a santidade e as obrigações sagradas do casamento. Os maridos que cumprem o seu dever conjugal no início da noite, dissera ele, fazem uma obra tão meritória como se sacrificassem um carneiro. Os que pagam um segundo tributo a meio da noite fazem tanto aos olhos de Deus como se sacrificassem um camelo. Os fiéis que prestam uma terceira homenagem à santidade da sua união ao erguer do Sol, agem com tanta generosidade como se tivessem libertado um escravo. A esposa, que todos sabem que só se preocupa com a salvação do marido, propôs-lhe ao cair da noite: “Vamos sacrificar um carneiro.” O marido obedeceu e adormeceu depois do dever cumprido. Mas a mulher acordou-o a meio da noite para lhe dizer: “Vamos sacrificar um camelo”. O marido obedeceu de novo e tornou a adormecer, esgotado. Ao nascer do dia, a fiel e crente esposa avisou-o que chegara o momento... de libertar um escravo. Estendendo os braços para ela, implorou: “Actualmente, minha querida, eu é que sou teu escravo! Liberta-me, suplico-te!”

Quando os risos se calaram, L'Hôte dirigiu-se a mim com gravidade.

- General... que género de trabalho tenciona dar-me nos próximos dias?

- Vamos enterrar-nos vivos nos túmulos dos reis e estudá-los a fundo.

- Já fez uma escolha?

- Os mais belos...

- Por outras palavras - retorquiu L'Hôte, que começava a conhecer-me - escolhemo-los todos. Quanto tempo tenciona privar-nos da luz do Sol?

- Três ou quatro dias...

- Digamos portanto, pelo menos duas semanas, general, se trabalharmos depressa!

Não me atrevi a contradizer L'Hôte, que tinha adivinhado as minhas secretas intenções. Sombrio, afastou-se, preferindo ouvir o professor Raddi que se lançara num longo monólogo sobre a classificação dos granitos.

- À sua saúde, Champollion! - declamou Lady Redgrave, desafiando-me com o olhar. - Que o vale dos túmulos lhe seja propício!

Desde a madrugada do dia seguinte, a nossa comunidade, composta por burros e sábios, tomou posse da necrópole real escavada para os ilustres faraós do Novo Império.

A impressão produzida era fascinante. Aridez, rochedos cortados a pique, montanhas em plena decomposição apresentando quase todas largas fendas provocadas quer pelo calor extremo, quer por derrocadas internas, e cujos cumes estão recobertos de tiras negras, como se tivessem sido parcialmente queimados. Nenhum animal vivo frequenta aquele vale de morte. Não conto as moscas, as raposas, os lobos e as hienas, porque fora a nossa estadia na morada de Ramsés e o odor da nossa cozinha que atraíra essas quatro espécies esfomeadas.

Ao entrar na parte mais recuada do vale por uma abertura estreita feita evidentemente pela mão do homem e revelando ainda alguns leves vestígios de esculturas egípcias, em breve vemos junto das montanhas ou nas encostas, portas quadradas, a maior parte delas obstruídas, e das quais temos de nos aproximar para decifrar a decoração. Essas portas, que são todas semelhantes, dão entrada para túmulos. Cada uma tem o seu, porque outrora não comunicavam uns com os outros. Eram isolados; foram os pesquisadores de tesouros, antigos e modernos, que estabeleceram comunicações forçadas.

A guardiã imperturbável do vale é uma alta montanha que termina por uma espécie de pirâmide que poderíamos jurar talhada pela mão do homem. Fez-me pensar na pirâmide mãe, o monumento em degraus de Saq-qara de onde deriva toda a arquitectura sagrada. Este cume é guardião do silêncio que deve manter qualquer ser que penetre naqueles locais. Dominando uma natureza petrificada, marca o acesso à paisagem do outro mundo.

Ia visitar os velhos reis de Tebas nos seus palácios escavados a cinzel; ali, de manhã à noite, à luz das tochas, percorri enfiadas de apartamentos cobertos de esculturas e de pinturas, a maior parte de uma espantosa frescura.

Sentia-me aqui plenamente feliz e calmo, como se todo o perigo tivesse desaparecido. Cada túmulo exprimia um génio particular, revelando um aspecto do mistério inscrito naqueles locais. Um pouco por toda a parte encontravam-se restos de tiras de múmias sobre as quais me sentei, meditando antes de explorar aqueles palácios subterrâneos. Que emoção indizível... Neste Egipto construído pela eternidade e para a eternidade, senti na minha carne a sabedoria que envolve qualquer parcela de vida. Estas sepulturas estão escavadas fora do nosso mundo aparente, como se servissem de moradas ao mais antigo dos deuses, à força das origens que as tivessem escolhido como último refúgio. No coração do universo, mergulhada num sonho luminoso, vela sobre o destino da humanidade.

Quando ia penetrar pela primeira vez numa das profundas cavernas, acompanhado por Nestor L'Hôte, armado com uma candeia, este pôs-se a tremer e recuou dois passos, vivamente impressionado pelas representações de serpentes, de homens de cabeça cortada, de génios armados com facas.

- Não vou mais longe - disse. - É o inferno.

- No princípio, Nestor, no princípio... Continuemos.

Apesar dos seus receios, o meu desenhador concordou em avançar no imenso túmulo do faraó Séti I, que mergulhava profundamente nas entranhas da terra. Em breve foi recompensado pela sua coragem. As cenas mais admiráveis surgiram à luz da candeia. Abertura da boca, transposição das portas do além, ressurreição do corpo de luz, visão dos paraísos reservados aos justos... O deslumbramento dos ouros, dos azuis, dos vermelhos revelava-nos o que podia ser a perfeição. Pedi a L'Hôte que desenhasse tudo de maneira a guardar nas nossas pastas uma cópia exacta da realidade. Estava furioso contra as publicações anteriores que traíam o génio egípcio da forma mais escandalosa. Era necessário censurar na praça pública a Comissão do Egipto, Gau e os ingleses que ousaram mostrar esboços tão informes daquelas grandes e belas composições. Posso afirmar que L'Hôte, correspondendo às minhas exigências, reproduziu com escrupulosa fidelidade o estilo verdadeiro e variado dos monumentos das diferentes épocas. Ao chegar ao fundo do túmulo, sob o grande quadro astronómico que decorava o tecto, agradeci calorosamente a L'Hôte pelo imenso serviço que prestava ao Egipto. Comovido, consciente da importância da sua tarefa, redobrou de ardor. '

- Estas esculturas são ainda mais requintadas do que as que vimos nos templos - reconheceu. - Mas por que razão reservaram a perfeição da arte para estes lugares condenados ao silêncio e à obscuridade?

- Talvez porque a beleza só pode desabrochar em segredo - respondi. - O que aqui é mostrado não é a arte tal como a entendemos, mas o segredo da eternidade.

L'Hôte foi conquistado pela magia que impregnava cada centímetro daquelas paredes. As salas desertas animaram-se. As figuras com mais de quarenta séculos de idade ressuscitavam sob o nosso olhar atento. Tudo vivia com uma outra vida que as baixezas humanas não atingiam.

- É impossível imitar semelhante beleza - queixou-se L'Hôte. - Foi tudo revelado aqui e nós perdêmo-lo...

- Não creio, Nestor. O que os faraós inscreveram na sua morada de eternidade é uma mensagem de esperança.

L'Hôte avançou até ao sarcófago vazio. A múmia do rei tinha desaparecido. Restava apenas o espírito. Com o rosto iluminado por uma luz vacilante, o robusto desenhador assemelhava-se a um moderno Aladino descobrindo a caverna do tesouro.

- Obra sobrenatural - exclamou ele. - Sim, sobrenatural... Abandonando-o aos seus pensamentos, imobilizei-me perante um baixo-relevo representando a deusa Hátor acolhendo o rei. Um fac-símile daquela incomparável obra-prima tinha sido exposto em Paris em 1828, por altura da exposição de Belzoni, mas ninguém acreditara na possível perfeição do original. Desta vez, ia ser necessário dar um grande golpe, provando ao mundo inteiro que a arte egípcia estava bem para além dos miseráveis desenhos publicados até então.

Chamei L'Hôte.

- Nestor - disse-lhe - vou ser obrigado a cometer um sacrilégio. Tenho que desfigurar este túmulo para fazer brilhar o Egipto na Europa. Dê-me o seu perdão de artista e de homem de honra.

Atordoado, L'Hôte não foi capaz de pronunciar uma única palavra.

- Dê-me a sua serra.

O desenhador entregou-me o objecto que lhe servia a maior parte das vezes de régua.

Com precaução, de lágrimas nos olhos, cortei o baixo-relevo, ousando utilizar uma serra profana no mais perfeito dos túmulos reais tebanos. Entreguei-o a L'Hôte.

- Embrulhe-o - disse, trémulo de emoção. - É mais importante para mim do que eu próprio. Que ele, pelo menos, regresse intacto a Paris (1).

Tinha pressa de descobrir os túmulos dos outros Ramsés. O de Ramsés III tornara-se um local de visita desde a antiguidade. Basbaques curiosos tinham conspurcado as paredes. Como faziam ainda os dos nossos dias, julgavam ficar para sempre famosos escrevinhando os seus nomes sobre as pinturas e os baixos-relevos que assim desfiguraram. Os estúpidos de todos os séculos têm numerosos representantes. Encontram-se antes do mais egípcios de todas as épocas que escreveram, em hierático os primeiros, os mais modernos em demótico (2); muitos gregos de antiga data, a avaliar pela forma dos caracteres; velhos romanos da República que se condecoram orgulhosamente com o título de Romanos; nomes de gregos e de romanos do tempo dos primeiros imperadores; uma multidão de desconhecidos do Baixo Império, afogados no meio dos superlativos que os precedem ou os seguem, mais nomes de coptas acompanhados de humildes orações; por fim, os nomes dos viajantes europeus que o amor da ciência, a guerra, o comércio, o acaso ou a ociosidade trouxeram a estes túmulos solitários.

Esperava com a maior impaciência descobrir sobretudo o túmulo do grande Ramsés, o faraó que me introduzira no conhecimento dos hieróglifos e cuja obra visível estava presente por toda a parte no Egipto.

 

(1) O baixo-relevo está hoje exposto no Museu do Louvre.

(2) O hierático é uma maneira de escrever rapidamente os hieróglifos a ponto de se tornarem irreconhecíveis; o hierático, ao contrário do que podia levar a crer o seu nome, é uma escrita profana que nunca é utilizada nas paredes dos templos. O demótico é uma forma tardia de escrita utilizada nos documentos administrativos.

 

Logo à entrada, fui atacado por morcegos. A luz da minha vela assustou-os. Revolutearam em todas as direcções, ameaçando apagar a fraca chama. Um deles pendurou-se na minha barba. Com uma pancada seca nas asas, fi-lo largar a presa. Vencido aquele obstáculo, preparava-me para um novo deslumbramento. Que tesouros devia ter acumulado o mais poderoso de todos os reis, cujo reinado durara setenta e três anos!

À minha frente fugiram duas víboras, deixando na areia a marca das suas ameaçadoras ondulações. Não tive medo delas. Também não senti maior receio ao ver um enorme escorpião que se refugiou numa anfractuosidade da rocha. Aqueles hóspedes temíveis causaram-me no entanto um vivo desgosto: desonravam o que deveria ser o mais resplandecente dos túmulos, cheio de entulho quase até ao tecto.

O acesso à cave funerária estava bloqueado. Ordenei a dois operários que me abrissem uma passagem.

- Não vá lá, general - pediu L'Hôte. - É demasiado perigoso. Arrisca-se a ser picado por um desses animalejos. Estão aqui instalados há muito tempo. É actualmente o seu domínio. Receio que tenham expulso o próprio Ramsés.

Recusava-me a aceitar uma tão triste realidade. O calor sufocante asfixiava os operários. L'Hôte não aguentou mais.

- Venha comigo, general. Não fique aqui. Não há mais nada a ver. Foi tudo devastado.

Obstinado, deslizei rastejando pela estreita abertura que tinha sido aberta com dificuldade. A desilusão foi terrível. O túmulo, de acordo com os vestígios, tinha sido feito numa plataforma muito ampla e decorado com esculturas do melhor estilo. Escavações realizadas em larga escala levaram com certeza à descoberta do sarcófago deste ilustre conquistador. Não é possível, infelizmente, esperar encontrar a múmia real porque os ladrões e os vândalos tudo devastaram. Onde repousa hoje o grande Ramsés? (1) Algum dia serão reencontrados os seus restos? A sorte encarniçou-se sobre a sua última morada. As imensas riquezas que continha desapareceram. Mas ele sobreviveu pelos templos e o seu nome ilumina ainda todo o Egipto.

Reinava em torno do túmulo de Ramsés uma alegre animação. Havia servidores de um lado para outro, trazendo uma sucessão de pratos que alinhavam em boa ordem à entrada do jazigo onde estava Ippolito Rosellini, vestido à turca e à última moda de Tebas.

 

(1) A múmia de Ramsés foi encontrada no esconderijo de Deir el-Bahari, onde fora colocada ao abrigo dos ladrões de túmulos. Foi trazida para o Museu do Cairo em 1881.

 

Recebeu em primeiro lugar o professor Raddi, que para a circunstância tornara a vestir o seu fato de europeu; depois Nestor L'Hôte, com a barba alisada e o farfalhudo bigode cuidadosamente aparado; a seguir, o padre Bidant, que tinha limpo a sotaina; por fim, Lady Redgrave, sumptuosa num vestido de noite grená adornada com jóias de ouro, realçada pelo colar de lápis-lázuli que eu lhe oferecera.

Levei os meus convidados até ao interior do túmulo onde Soliman e Moktar tinham posto a mesa. Toalha branca, candelabros, centro de mesa de flores de jasmim... A celebração anunciava-se quase digna do ilustre hospedeiro que nos recebia.

Tive a alegria de sentir todos os meus convivas felizes. Fascinados pela perfeição das pinturas, respeitaram um silêncio que se impunha por si próprio. Nunca tínhamos conhecido mais sublime sala de festas. O Egipto oferecia-nos um daqueles banquetes de eternidade de que tinha o segredo.

Com o copo na mão, levantei-me.

- Faço uma saúde a Belzoni, o homem que descobriu este túmulo. Sem ele, não poderíamos partilhar estes alimentos na mais bela das moradas de ressurreição.

No íntimo do meu coração, sonhava também com a comunidade dos Irmãos de Lucsor que me tinham aberto novos caminhos.

Soliman atraiu a atenção da assembleia trazendo uma iguaria que anunciei como excepcional. Todos provaram... e detestaram! Queria oferecer à nossa juventude um prato novo para nós e que devia aumentar os prazeres da reunião: era um pedaço de crocodilo jovem em molho picante, tendo o acaso feito com que me trouxessem um que fora morto ontem de manhã. Mas tive pouca sorte, a posta de crocodilo saiu mal. Com ela só ganharíamos na verdade uma boa indigestão.

Quando o bom humor regressou, graças a um guisado de borrego pelo qual Nestor L'Hôte velou, levantei-me de novo.

- Se organizei esta recepção, na qual me sinto tão feliz por ver a nossa comunidade unida, foi em honra da pessoa que é mais querida ao meu coração.

Os olhares fixaram-se em mim, espantados, interrogativos. Lady Redgrave reteve a respiração.

- Refiro-me à minha filha Zoraida. Devia ter celebrado o seu aniversário a 1 de Março, mas não havia suficientes alimentos na Núbia... Hoje, podemos comer à vontade sem prejudicar ninguém.

Os meus hóspedes fizeram em coro uma calorosa saúde. Graças ao festim vindo do Cairo, não precisávamos de racionamento. Enquanto se erguiam cânticos alegres, animados por L'Hôte, Lady Redgrave aproximou-se de mim.

- Não me tinha dito que era pai...

- Estariam as informações do seu tio incompletas, Lady Ophelia?

- Não se preocupa com a sua vida privada. A única preocupação dele consiste em demonstrar que o senhor não é um sábio credível e sério.

- Lamento desiludi-lo.

- Não falou da sua mulher, Jean-François.

Olhou-me com aquela ternura que tão bem sabia manifestar, como uma rede estendida à qual a alma não conseguia escapar.

- Evoquei a minha filha que sinto presente aqui a meu lado. Isso deve bastar-lhe.

- Perdoe se o magoei... mas prefiro não ter rival junto de si. Afastou-se. Durante toda a noite não voltei a estar a sós com ela. Arranjou maneira de vaguear de sala em sala, fazendo admirar a sua beleza.

Quando despontou a madrugada, tínhamos trocado piadas, recordações e esperanças. No meu coração, havia o sorriso de uma garotinha, tão quente, tão intenso, que me parecia, fechando os olhos, apertá-la nos meus braços.

- General, venha depressa!

Saindo bruscamente do meu breve torpor, descobri um L'Hôte emocionado.

- Não tinha sono - explicou. - Comecei os trabalhos com os operários... e creio que encontrei um túmulo inviolado!

Imediatamente desperto, participei no entusiasmo de L'Hôte. Corremos para o local da descoberta, onde já nos esperava Rosellini, advertido pelo barulho. Os operários tinham-se reunido numa multidão compacta e tagarela em que se evocavam fabulosos tesouros em busca dos quais se mantinham constantemente os bandos de ladrões da região tebana, sem contar com os homens de Drovetti. Uma rápida limpeza pôs a descoberto a entrada de um pequeno túmulo que, de facto, estava inviolado. A nossa excitação atingia o auge.

- General - disse L'Hôte com paixão - tenho um favor a pedir-lhe. Queria ser o primeiro a entrar.

- De maneira nenhuma - objectou Rosellini, acerbo. - Não passa de um desenhador. Os directores científicos da expedição são Champollion e eu próprio. Só nós estamos habilitados a explorar uma descoberta arqueológica.

- Não vai ser um italiano a dar ordens a um francês - rugiu L'Hôte, cujas intenções se tornavam pouco pacíficas.

- Basta - intervim eu. - Ippolito, serão seus os objectos que encontrarmos neste túmulo. Nestor, será o primeiro a entrar. Vai ser a sua mais bela recordação. Prestou serviços suficientes à comunidade para gozar essa felicidade.

Triunfante, L'Hôte não conteve por mais tempo a sua impaciência. Desobstruindo a entrada com as mãos, deslizou com uma vela pela abertura.

- O que vê? - perguntei-lhe do exterior.

- Móveis... e múmias, um homem e uma mulher com uma máscara de ouro... e ali, a seus pés... grãos de trigo germinados numa estátua escavada em forma de gamela... há mesmo longas hastes!

Entrando a seguir a L'Hôte, reconheci o prodigioso símbolo de “Osíris vegetante”: do corpo do deus emanava uma nova vida, a da ressurreição do grão, morto e revivificado pelos mistérios celebrados no túmulo. Dali saíram maravilhas: sarcófagos, vasos, estatuetas. Uma modesta relíquia comoveu-me mais do que todas as outras: um disco metálico brilhante, intacto, que servira de espelho. Reflectia os raios do Sol, afogando num fulgor o rosto de quem nele se contemplava.

Quando ia a sair do túmulo, depois de várias horas de um trabalho exaltante, uma voz imperiosa apostrofou-me.

- Satisfeito, senhor Champollion?

Vestido à turca, com o bigode desenhando largas volutas que subiam para as faces, patilhas abundantes, Bernardino Drovetti, cônsul-geral de França, observava-me com um olhar carrancudo.

 

- Feliz, senhor cônsul-geral? Não, não apenas feliz... louco de alegria! A Núbia correspondeu às minhas esperanças e ultrapassou-as. Quanto a Tebas, é um perpétuo deslumbramento. Em breve poderei informá-lo das mais essenciais descobertas. Não lamentará ter depositado a sua confiança na minha expedição. Tem notícias dos fundos que me foram outorgados e que ainda espero?

- Precisamente, senhor Champollion, é altura de pôr termo aos seus trabalhos. O rei fez-me saber que o seu regresso a Paris se revelava indispensável.

- Recebeu uma missiva oficial?

- Não confia na minha palavra? - enfureceu-se.

- Com certeza que sim. Mas gostaria de poder consultar eu próprio os termos desse documento que me diz directamente respeito. Devemos desconfiar da memória... Quando poderei ler essa carta do rei?

- Deixei-a em Alexandria. Dou-lhe mais alguns dias. Depois, fará as bagagens. Esperá-lo-ei no Cairo para preparar o seu regresso a França.

Sem esperar resposta, Bernardino Drovetti pôs termo à conversa e afastou-se em passo rápido na direcção de um grupo de homens a cavalo. Montou no seu e desapareceu numa nuvem de poeira.

Trocando definitivamente o hábito do peregrino pela indumentária do indígena, instalámo-nos mais confortavelmente numa casa de Gurna, perto do admirável templo de Séti I, cujas colunas cobertas de relevos ficam douradas ao pôr do Sol. Por entre grupos de sicômoros e tamareiras vagueiam rebanhos de cabras. A morada de escavação que nos foi reservada domina a via de acesso ao Vale dos Reis. Estamos situados entre o mundo dos vivos, com os seus campos verdejantes, os seus gritos de crianças, os seus casebres de felás, e o além, tornado visível na terra pelos templos e os túmulos. Nem uma única folha de erva, apenas pedras e um sol divino.

Adorei esta casa de Gurna desde que lá entrei e soube que a amaria mais do que o mais sumptuoso dos castelos. Dava vontade de agir, de trabalhar sem descanso, de descobrir. Erigida na margem dos mortos, sorria aos vivos. Acolhedora, fresca, silenciosa, proporcionava as forças necessárias para o trabalho do dia seguinte. Miserável, fazia de nós príncipes. Todos ficaram encantados com o respectivo quarto, dos mais modestos, mobilado com almofadas e tapetes.

Rosellini, que me vira conversar com Drovetti, estava com uma expressão inquieta. Enquanto eu instalava livros e manuscritos numa estante rudimentar, aproximou-se em passo hesitante.

- Mestre... Quanto tempo vamos aqui ficar?

- O máximo de tempo possível.

- O cônsul-geral parecia irritado... Não tinha imperativos para nos ditar?

- Teve algumas informações? - perguntei, intrigado. Rosellini recuou, amedrontado.

- De maneira nenhuma... Uma simples impressão.

- Drovetti tem os seus imperativos e eu tenho os meus. Pense apenas em trabalhar e aperfeiçoar constantemente os seus conhecimentos, Ippolito. Deixe as outras preocupações para mim.

- Como queira, mestre.

Vexado, Rosellini saiu do meu quarto, dando lugar ao padre Bidant que solicitou uma entrevista.

- As notícias não são famosas, segundo parece. Abri os olhos, intrigado.

- Que mau vento lhas transmitiu, padre?

- Ah, Champollion! O meu papel é também de confessar as almas... As informações chegam até mim sem eu perguntar nada. E depois... a atitude de Moktar é significativa. Quer ver-vos em grande segredo e encarregou-me da negociação.

- A que propósito?

- Só a si revelará o que sabe. Esperá-lo-á todo o dia no Ramasseum.

Maciços de tamargueiras rodeiam o Ramasseum, o templo em ruínas do grande Ramsés. É o mais nobre e o mais puro dos admiráveis monumentos de Tebas, apesar das destruições que sofreu. O primeiro pilone oferece agradáveis cenas de guerra em que o Faraó, representante da luz divina, acaba com o domínio do caos e das trevas. Ao fundo do primeiro pátio, um colosso partido, o mais gigantesco jamais criado pelos escultores egípcios. Talhado num único bloco de granito, o seu rosto tem simultaneamente a expressão da força e a da serenidade; o seu polimento ultrapassa a perfeição admissível. Passei longamente a mão pelo formidável ombro, sonhando com a gloriosa época em que o colosso real estava de pé, contemplando o horizonte onde se ergue o Sol.

Avançando com respeito pela sala hipostila onde cerca de trinta colunas encantariam com a sua elegância mesmo os olhos mais precavidos contra tudo o que não seja arquitectura grega ou romana, copiei os nomes dos numerosos filhos do grande Ramsés, reunidos naquele local para celebrar a perpétua ressurreição do seu pai. Por trás da hipostila, descobri duas pequenas salas de colunas. Na primeira, na parede do fundo, uma maravilhosa figura do Faraó sentado no seu trono, sob a folhagem de uma perséa, árvore de um verde profundo com folhas em forma de coração; várias divindades inscreviam ali os nomes sagrados do rei. Penetrando na segunda sala, cujos textos diziam que tinha sido coberta de ouro puro, fui acolhido por duas figuras estranhas, esculpidas na parte de baixo dos umbrais da porta de acesso: um Tot com cabeça de íbis segurando paleta e pincel e uma deusa, Sechat, segurando também uma paleta como redactora dos livros divinos.

Tive a certeza de penetrar numa biblioteca... a biblioteca do Ramasseum, do palácio do grande Ramsés! Ali eram conservados os livros fundamentais da cultura egípcia. Figuravam também outros símbolos: a orelha recebendo o Verbo, o olho capaz de recriar o mundo, o deus da palavra, o da intuição. Naquele compartimento, acessível a alguns, estariam arrumados os volumes relativos aos rituais, à protecção do templo, à sua direcção, aos deveres dos oficiantes, à lista dos bens materiais e dos objectos de culto, ao conhecimento dos movimentos do Sol, da Lua e dos planetas, ao giro das estrelas, às festas, à disposição das muralhas seguindo as regras mágicas, à conjuração das forças do mal, à protecção da barca divina, às grandes horas da ressurreição, à alquimia. Toda a ciência sagrada de que dependia a vida quotidiana do Egipto estava reunida ali, indicando aos egiptólogos futuros infinitos caminhos de investigação.

Dominado por uma vertigem, alarguei a minha exploração à parte de trás do colosso, para além de uma grande acácia que ocultava os restos de um pilone sobre o qual se estendiam as cenas da batalha de Qadesh contra os hititas. Ramsés, abandonado pelas suas tropas, sofreu a provação da solidão, rodeado por milhares de adversários. Prestes a sucumbir e a ver a civilização desmoronar-se sob os golpes dos bárbaros, implorou à divindade: “meu pai, disse, porque me abandonaste? Nunca te traí”! Verificou-se o milagre. O espírito de Deus desceu do céu e incarnou no Faraó, dotando-o da mais formidável força. Só, em pé no seu carro, rompeu o cerco dos seus inimigos, despedaçou-os e empurrou-os até ao Eufrates onde se afogaram.

Fascinado por aquela batalha mística, compreendendo que o Cristianismo tinha surgido todo preparado do pensamento dos antigos egípcios, vi de repente que tinha esquecido Moktar. Enfeitiçado pelo Ramasseum, abandonara-me ao relato das suas pedras vivas.

Moktar não estava longe. Sentado por baixo da grande acácia, fumava um longo cachimbo. Tinha-me certamente seguido com os olhos enquanto eu peregrinava pelo templo.

Sentei-me a seu lado depois de ter afastado algumas ervas altas que nos dissimulavam perfeitamente.

- O que tens para me dizer, Moktar?

- Alá é misericordioso... Revela ao homem as suas faltas e erros. Iluminou-me, a mim que tanto me enganei. Sobretudo a vosso respeito. O meu mestre, o cônsul-geral Drovetti, tinha-vos descrito como um ser pernicioso, ambicioso, pronto a tudo para satisfazer a sua sede de glória, sem qualquer consideração pelos homens, desprezando os servidores... Um verdadeiro chacal do deserto. Mas vi-vos viver durante esta longa viagem. Descobri quem éreis na verdade.

Estava estupefacto. Que crédito podia dar àquele discurso? Podia acreditar na sinceridade do intendente de Drovetti?

- Admiro o meu mestre - continuou ele. - Deu-me uma casa, permitiu-me fundar uma família... Confiava em mim e eu confiava nele. Matei por ele, porque considerava que as suas ordens não violavam a vontade de Alá. Desta vez, é diferente... Sois um homem justo. Só Deus decide pôr termo à vida do homem justo. Ninguém pode pretender substituir-se a ele. Recuso-me a ser o instrumento de um destino que não venha Dele. É por isso que, pela primeira vez, desobedeci ao meu mestre. Não tentei assassinar-vos, não informei acerca de nenhuma das vossas descobertas, nem dos vossos projectos, nem dos vossos encontros. Apenas lhe transmiti o meu silêncio, como se nada se tivesse passado. Mas o meu mestre é um homem lúcido. Em breve compreenderá que lhe menti como ele me mentiu. No entanto, se ele assim desejar, continuarei a servi-lo. Não há só amigos em vosso redor. Deixai Tebas o mais depressa possível. A vossa presença compromete interesses demasiado importantes. Eu vou desaparecer. Nunca mais voltaremos a ver-nos. Adeus. Que Alá vos proteja.

Sem me dar possibilidade de o interrogar, Moktar abandonou a sombra da acácia e desapareceu nas ruínas do Ramasseum.

Invisível, com as costas encostadas à testa do colosso derrubado, Soliman velava.

Restavam-me portanto poucos dias para explorar Tebas. Tebas que me acalmava, me deslumbrava, me enaltecia. Devia ter levado a sério o ultimato de Drovetti. Mas o tempo não existia. Havia demasiado a fazer.

O chefe dos operários recomendara-me que examinasse o sítio de Deir el-Bahari. Abandonei os meus colaboradores nas suas escavações e, utilizando os serviços de um dos burros mais dóceis, avancei no ar leve da manhã.

Que espectáculo cativante constituía aquele santuário único devido ao seu estilo! Apesar da acumulação de areia, tive a certeza de identificar uma sucessão de terraços ligados por uma rampa central e subindo na direcção da muralha vertical da falésia. O mestre-de-obras que concebera aquele plano simples e luminoso tinha utilizado esta como parede de fundo do Santo dos Santos, unindo assim de forma indissociável o templo construído pelos homens e a montanha criada por Deus.

Era com veneração que avançava passo a passo naqueles monumentos com esculturas de incrível delicadeza. Os baixos-relevos são tão ténues, tão impalpáveis que é necessário esperar a hora exacta em que o sol incide sobre eles para os decifrar. O mínimo pormenor, o mínimo hieróglifo, os rostos dos deuses, as cores do seu vestuário, são outras tantas obras-primas que cortam a respiração. Reina aqui uma graça divina que as degradações cometidas pelos cristãos não conseguiram fazer desaparecer. E quantas maravilhas estão cobertas pelas areias que não terei a possibilidade de fazer remover! (1)

Outra surpresa me esperava: admirei-me, ao ler as inscrições, por descobrir a existência de um rei desconhecido das listas antigas, rei devidamente barbudo e correctamente faraónico, mas em relação ao qual eram utilizadas palavras no feminino como se se tratasse de uma rainha! Tendo passado a maior parte do dia a aprofundar aquela questão, cheguei a uma conclusão indubitável:

 

(1) Champollion não pôde ver os admiráveis relevos relatando a famosa expedição enviada pela rainha-faraó ao maravilhoso país do Ponto para lá colher o incenso destinado ao deus Amon.

 

uma mulher de nome Hatshepsut dirigira o Egipto como faraó, com os mesmos direitos e os mesmos deveres que um soberano macho. Seria necessário, a partir das notas tiradas, modificar a minha concepção da história egípcia.

A suave luz do poente revestiu de ouro os pilares de Deir el-Bahari. O perfil da deusa Hátor destacou-se sobre o azul profundo do céu que se tingia de púrpura e laranja. Aquele rosto era o mais belo e o mais puro que me fora dado contemplar. Estava fascinado pela beleza dos seus traços, por aquela pedra tão finamente cinzelada que brilhava como uma jóia difundindo os seus reflexos. Subiram-me as lágrimas aos olhos. Como pudera um escultor viver o génio da sua mão a ponto de recriar nesta terra uma beleza celeste?

Do cimo do templo, perto do último santuário, elevou-se um cântico. Um cântico muito doce que contava o nascimento do amor entre um xeque e uma jovem beduína. Nele se exprimia a poesia da gente do deserto que, em redor de uma fogueira, transmitia histórias de geração em geração desde a alvorada dos tempos. A voz era ondulante, leve. As curvas da melodia seguiam os momentos dramáticos da história. O xeque vira a rapariga de relance. Tendo ficado perdidamente apaixonado, descrevia os grandes olhos negros, vivos como os de uma gazela, o porte altivo e gracioso, o peito semelhante a um par de granadas, as palavras doces como o mel. Devorado pela paixão, o xeque não conseguia dormir. Quantas lutas havia que travar para conquistar a sua bem-amada! Precisava de convencer os pais, desembaraçar-se dos rivais, tocar o coração da beldade... A história acabava bem. De mão dada, os dois jovens amantes dirigiam-se para a tenda do pai da rapariga para verem a sua união celebrada.

As últimas notas do canto morreram com os últimos clarões de um sol vermelho sangue que desapareceu por trás das montanhas. Durante alguns minutos, a margem dos mortos hesitaria entre a noite e o dia, mergulhada numa luz fragmentada em mil cambiantes de ouro, vermelho e púrpura misturadas num amplexo de infinita ternura.

Quis saber a quem pertencia aquela voz encantadora! Saltando por cima dos blocos esparsos, vi uma jovem beduína sentada ao pé de uma coluna, sob a protecção de um capitel com cabeça de Hátor. Tocava uma pequena flauta de sons agudos, mal perturbando o recolhimento dos últimos momentos do dia. Envergando um longo vestido verde, com a cabeça coberta por uma coifa branca cingida com um fio de ouro, a jovem beduína salmodiava uma área antiga e lânguida.

Aproximando-me mais, descobri finalmente o seu rosto.

- Lady Redgrave! Mas de que metamorfoses é afinal capaz?

Continuou a tocar a sua flauta, como se eu não existisse. Teria sido criminoso interrompê-la. Esperei que as últimas notas se esbatessem, saboreando a felicidade simples daquela música sem idade.

- É o lugar que prefiro - disse ela, com o olhar perdido no poente. - Aqui, o amor reina sem partilhas. A sua deusa não é a mais exigente de todas? Não nos pede que revelemos o nosso ser mais íntimo? Quem lhe recusar a sua confiança merece a morte...

- Será o seu caso, Lady Ophelia?

- Esperava por si, Jean-François. Sabia que viria.

- Foi a senhora que pediu ao chefe dos operários que me indicasse este sítio?

Lamentei imediatamente a minha agressividade. Ela não respondeu, continuando a fixar o horizonte.

- Porque recusa falar-me da sua esposa?

- É casada, Lady Redgrave?

A brisa do norte ergueu-se, trazendo o sopro de vida que o faraó, dia após dia, tinha o dever de proporcionar a todos os seres vivos.

- Sim, sou casada.

- Fala-me de Lorde Redgrave?

- É um homem perfeito. Gere o seu domínio, caça a cavalo com galgos, venera Deus e a coroa de Inglaterra. Não comete uma única falta de gosto. Não há mais nada a dizer.

- Sabe que viaja pelo Egipto?

- Lorde Redgrave tem horror ao calor, eu ao frio. Isso cria entre nós um fosso intransponível.

- Tem filhos?

- Lorde Redgrave e eu só nos encontrámos uma única vez: no dia do nosso casamento. Tínhamos conseguido aquilo que pretendíamos um do outro: ele, a minha fortuna, eu, um título e a minha liberdade. A de servir o meu país como queria e viajar. E o senhor, Jean-François, o que espera da senhora Champollion? Porque permanece ligado a ela?

Desceu do seu promontório e ajoelhou-se à minha frente, segurando-me nas mãos.

- Porque querer algo mais do que este instante, Lady Ophelia? Porque pedir à vida mais do que esta felicidade, este templo, este amor divino que nos rodeia?

- O divino não me basta. Até agora mentimos um ao outro por medo; por medo, fugimos... O amor, o verdadeiro amor, não conhece essas manhas. Este templo é feito para si. Guarde os segredos do seu passado, se assim o deseja. A minha missão arrisca-se a ser um fracasso... O que importa, se ficarmos juntos?

- Este templo pertence a Hátor, deusa do céu. Aqui, somos apenas hóspedes de passagem. Não temos nada que impor os nossos desejos.

- E se abandonasse a sua ciência ao vento do deserto? Se aceitasse ser um homem como os outros?

- Isso não mudaria nada - disse eu. - Este santuário permaneceria no mundo celeste e nós no dos humanos.

Ela afastou-se violentamente.

- É um monstro!

Agarrando na flauta, partiu-a em dois pedaços que atirou para longe. Depois, correu na direcção do vale que o Nilo animava com um longo fio de prata cintilando sob a última claridade.

No dia seguinte, logo pela manhã, Rosellini fez questão de me conduzir ao sítio de Amenofium, o gigantesco templo funerário de Amenófis, terceiro do nome, que os gregos quiseram confundir com o Memnon dos seus mitos heróicos. Amenófis III tinha sido o mais brilhante dos soberanos de Tebas, reinando sobre a cidade mais rica do mundo. O seu templo devia ser uma maravilha.

A decepção foi atroz.

Imaginem um espaço de cerca de 549 metros de comprimento, nivelado pelos sucessivos depósitos das inundações, coberto de altas ervas, mas cuja superfície rasgada numa multiplicidade de pontos deixa ainda ver restos de arquitraves, pedaços de colossos, fustes de colunas e fragmentos de enormes baixos-relevos que o lodo do rio ainda não engoliu nem ocultou para sempre à curiosidade dos viajantes. Ali existiram mais de dezoito colossos, os mais pequenos dos quais tinham seis metros de altura. Todos aqueles monólitos de diversos materiais foram quebrados e encontram-se os seus membros enormes dispersos por todos os lados, uns ao nível do solo, outros no fundo de escavações executadas por pesquisadores modernos. Recolhi nesses restos mutilados os nomes de grande número de povos asiáticos cujos chefes cativos estavam representados rodeando a base daqueles colossos. As inscrições gregas e latinas eram demasiado modernas para mim e abandonei-as para me dirigir à aldeia antiga de Deir el-Medina, o próximo sítio tebano a explorar antes de expirar o prazo concedido por Drovetti.

Há muito que Deir el-Medina me intrigava. Tinham-me passado pelas mãos numerosos objectos provenientes daquele lugar. Rosellini tinha adquirido grande número deles para o seu museu. Ele e L'Hôte acompanhavam-me. Avançávamos lentamente ao ritmo dos nossos burros, à frente de Soliman e de uma dezena de operários preparados para intervir e pôr a descoberto a entrada de um túmulo ou de um santuário.

L'Hôte colocou-se a meu lado.

- General, oculta-me qualquer coisa. Não é hábito seu. Com certeza que é grave...

- O que acha, Nestor?

- Ameaças. Recebeu novas ameaças. Trama-se uma conspiração contra si e recusa-se a levá-la em consideração. Porque não quer a minha ajuda?

- Porque ignoro tudo dessas intrigas, à parte o facto de Drovetti ser o instigador, com o provável consentimento do paxá.

- Onde está Moktar?

- Decidiu deixar a expedição. Nunca mais o voltaremos a ver.

- O que tenciona fazer?

- Nada, a não ser continuar a trabalhar e a escavar. Regressámos intactos da Núbia onde nos espreitavam os piores perigos. Tebas não pode mostrar-se menos favorável. Tenha confiança, Nestor... e abra bem os olhos.

Resmungando, L'Hôte voltou a cabeça e afastou-se.

A serena caravana meteu por um estreito carreiro que desembocou numa ravina desértica dominada por rochedos. Numa reentrância tinham sido edificadas as casas dos artesãos, quase totalmente enterradas na areia. Um pequeno templo, rodeado por uma cerca, dominava o deserto na orla do qual crescera uma mimosa; instalado num ramo, um pássaro cantava.

A partir da entrada do templo, descobri de novo aquele deserto onde a alma se dilata para encontrar Deus da forma mais imediata e mais pura. As mediocridades da existência desapareceram. Uma parte do véu que cobre o mistério da vida ergueu-se, deixando entrever o movimento imóvel da eternidade semelhante ao das dunas.

Ao penetrar no templo dos artesãos onde estavam representados os maiores arquitectos egípcios, outro véu se rasgou no meu espírito. Compreendi que as artes do Antigo Egipto não tinham como objectivo especial a representação das belas formas da natureza; visavam apenas a expressão de uma certa ordem de ideias e deviam simplesmente perpetuar não a recordação das formas mas a das próprias pessoas e coisas. Tanto o enorme colosso como o pequeno amuleto eram representações fixas de uma ideia; por mais fina ou mais grosseira que fosse a sua execução, esse objectivo era atingido, sendo a perfeição das formas da figura muito secundária. Mas na Grécia a forma foi tudo; cultivavam a arte pela arte. No Egipto, não foi mais do que um poderoso meio de pintar o pensamento; o mais pequeno ornamento da arquitectura egípcia tem a sua expressão própria e refere-se directamente à ideia que motiva a construção de todo o edifício, enquanto que as decorações dos templos gregos e romanos falam muitas vezes apenas aos olhos e são mudas para o espírito. O génio desses povos revela-se assim essencialmente diferente. A escrita e as artes de imitação separaram-se cedo e para sempre entre os gregos, mas no Egipto a escrita, o desenho, a pintura e a escultura avançaram sempre de frente para um mesmo objectivo; e se considerarmos o estado particular de cada uma dessas artes e, sobretudo, o destino dos seus produtos, havia que dizer que acabavam por fundir-se numa única arte, na arte por excelência, a da escrita. Os templos, como o seu nome egípcio indica, não passavam, se assim nos podemos exprimir, de grandes e magníficos caracteres representativos das moradas celestes: as estátuas, as imagens dos reis e dos simples particulares, os baixos-relevos e as pinturas que relatavam as cenas da vida pública e privada, entravam, por assim dizer, na classe dos caracteres figurativos; e as imagens dos deuses, os emblemas das ideias abstractas, os ornamentos e as pinturas alegóricas, em suma, a numerosa série dos hieróglifos, ligavam-se de forma directa ao princípio simbólico da escrita propriamente dita.

O Egipto escrevia a vida.

Escrevia a minha vida.

O além surgiu-me no interior do templo de Deir el-Medina sob a forma de uma cena pungente, a do pesar da alma que os antigos assimilavam ao coração, concebido como a verdadeira consciência do homem. O grande juiz Osíris ocupa o fundo da sala de uma capela que eu iluminava com a vela. Junto do seu trono ergue-se o lótus, emblema do mundo material, encimado pelas imagens dos seus quatro filhos, génios directores dos quatro pontos cardeais. Os quarenta e dois juizes assessores de Osíris estão sentados, dispostos em duas linhas. Em pé sobre uma base em frente do trono, o Cérbero egípcio, monstro composto por três naturezas diferentes, o crocodilo, o leão e o hipopótamo, abre a sua larga goela e ameaça as almas culpadas... Mais longe eleva-se a balança infernal; os deuses Horus, filho de Isís com cabeça de gavião, e Anúbis, filho de Osíris com cabeça de chacal, colocam nos pratos da balança, um o coração do réu, o outro uma pluma de avestruz, emblema da justiça; entre o fatal instrumento que deve decidir da sorte da alma e o trono de Osíris está colocado o deus Tot, o senhor das divinas palavras. Esse escrivão divino escreve o resultado da prova à qual acaba de ser confiado o coração do egípcio defunto e vai apresentar o seu relatório ao supremo juiz.

Apesar das trevas envolventes, Rosellini adivinhou o meu mal-estar.

- Mestre... sente-se bem?

- Deixe-me só, Ippolito.

- Tem a certeza de não precisar de mim?

- Saia, estou-lhe a dizer.

- Quando devo vir buscá-lo?

- Regresse a Gurna e não se inquiete por minha causa. Copiarei textos e cenas e faço questão de terminar tudo. Preciso de silêncio absoluto a fim de ouvir a voz dos antepassados.

Tinha saído fora do tempo. Permaneci ali cinco dias, apaixonado pelo meu trabalho, comendo o que Soliman me trazia à noite.

Enfrentava a minha morte e o meu próprio julgamento. Decorara a lista das faltas que condenam à “segunda morte”, ao aniquilamento do ser, e confessara as minhas ao deus Tot e à deusa Maat, guardiã da Ordem Universal.

Arrancando-me àquela capela onde se selara um destino ao qual, a partir de agora, ninguém poderia mudar nada, dirigi-me, sem repousar, ao templo de Medinet Habu onde Nestor L'Hôte procedia a um levantamento do conjunto sob a direcção de Rosellini.

- Como suportou o meu discípulo a minha ausência? - perguntei a Soliman.

- Bem e mal. - Bem?

- Soube dirigir os operários.

- E... mal?

- Toma-se por vós. Julga ser um chefe. Afastando-se do seu verdadeiro lugar, distancia-se da verdade e acabará por odiar-vos.

- És demasiado severo, Soliman.

- E vós demasiado generoso.

A visão do imenso templo de Medinet Habu, o maior do Egipto depois de Carnaque, pôs fim à nossa conversa. Uma vez mais, o Egipto subjugava-me. Ramsés amado de Amon, terceiro do nome e sucessor de Ramsés o Grande, criara um edifício gigantesco precedido de um formidável pilone e de um pavilhão real, único pela sua forma.

Arrebatado pelo entusiasmo, vagueei durante várias horas para apreender aquele novo universo, resumo abreviado do Egipto monumental. Ali existe, quase submersa sob os detritos das casas particulares que se sucederam, época após época, uma massa de monumentos de elevada importância que, estudados com atenção, revelam no meio das maiores recordações históricas, o estado das artes do Egipto em todas as épocas principais da sua existência. Ali se encontram reunidos um templo pertencente ao período mais brilhante, o da décima oitava dinastia, um imenso palácio do período dos conquistadores, um edifício da primeira decadência sob a invasão etíope, uma capela mandada construir por um dos príncipes que tinham quebrado o jugo dos persas, um pro-pilone da dinastia grega, propileus da época romana e por fim, num pátio do palácio faraónico, colunas que apoiavam outrora a cumeeira de uma igreja cristã.

A morrer de sede, vi, no primeiro grande pátio, um grupo de beduínos sentados. Se tivessem água, não ma recusariam. Sendo considerada como um dom de Deus, esta não pertencia aos homens. Quem a pedir por esmola deve ser atendido.

Ao chegar a poucos passos de distância, verifiquei que se tratava de um encantador de serpentes e dos seus auxiliares. O homem era idoso e tinha o rosto marcado pelas bexigas. Em torno do seu torso e pescoço enrolava-se uma víbora de cabeça achatada. À sua frente, um grande cesto de onde saíam duas cobras que se erguiam às suas ordens. Um dos assistentes era uma mulher acocorada sobre um tapete poeirento e segurando uma criança nos braços.

Foi um rapaz que me ofereceu água enquanto o mágico continuava a encantar as suas cobras que todos pareciam considerar inofensivas. Apenas Soliman se mostrava inquieto. A bem dizer, aquele espectáculo inusitado parecia-me mais um exercício de treino do que uma sessão de magia. O mais interessante residia nas fórmulas encantatórias que o homenzinho repetia incessantemente em voz baixa. Tendo o cuidado de não perturbar as cobras, aproximei-me dele e debrucei-me para o ouvir melhor. Soliman seguia-me como a minha sombra.

A armadilha funcionou.

As cobras, assustadas, enfiaram-se no cesto, mas a víbora, abandonando o pescoço do dono, distendeu-se a uma velocidade fulgurante. Tetanizado, fechei os olhos, esperando a mordedura fatal.

Não senti nada, ouvi um ruído de passos precipitados traduzindo uma fuga colectiva.

Ao reabrir os olhos, vi o encantador de serpentes, os acólitos e a mulher com o bebé a correr a toda a velocidade. Tinham abandonado o cesto das cobras. Soliman estava deitado de barriga para baixo no chão, segurando a alguns centímetros do rosto a víbora que agarrara pelo pescoço e que se lhe enrolara em volta do braço.

- Arranje um pau - exigiu em voz firme - e esmague-lhe a cabeça. Foi um beduíno, intrigado com aquela barafunda, que desempenhou

a tarefa com a mais tranquila segurança. Soliman levantou-se e sacudiu-se.

- Receava qualquer cilada deste género - disse. - Os encantadores de serpentes não trabalham aqui em geral. Mais valia afastarmo-nos.

- Nem penses! É impossível antes de ter explorado tudo... Este templo é extraordinário.

Resignado, Soliman seguiu-me enquanto eu me dirigia para a estranha torre de Medinet Habu que me surgiu como o único palácio real conservado no recinto de um templo.

Subir os degraus que conduziam aos apartamentos reais foi um prazer suave depois do perigo ao qual escapara. Admirei os frescos devidos ao pincel de um desenhador genial que glorificara as brincadeiras dos pássaros nos maciços de papiros, as flores de lótus azul e rosa, o voo dos patos. O rei e a rainha tinham passado aqui dias felizes, rodeados dos filhos e dos que lhes estavam próximos, sem nunca esquecer o sagrado de que o templo muito próximo afirmava a irredutível presença.

Subi depois a escadaria interior do grande pilone, aquela massa tão tranquilizadora que fizera de Medinet Habu um lugar de asilo contra os salteadores muito tempo depois da extinção das dinastias faraónicas. Do topo, tive uma vista comovente sobre a região tebana. A oriente, o verde das culturas, o Nilo, as colunatas de Lucsor, os obeliscos e os pilones de Carnaque; a norte, o Ramasseum, Deir el-Medina, a imensa necrópole com os seus bairros de Gurnet Murai, Dra Abu el-Naga, Gurna, Deir el-Bahari; a ocidente, o Vale das Rainhas e a falésia líbica. Aquele universo submergia-me, enchia-me de uma alegria intensa que me arrancava a mim mesmo e às minhas limitações de indivíduo. Como falar de morte e de passado perante tanta luz e tanta vida? Como permanecer insensível perante tanta magia que impregnava o mais pequeno dos blocos, a mais humilde das estátuas?

Soliman sentou-se a meu lado.

- Eis a verdadeira realidade - disse. - Os nossos olhos mal a conseguem ver.

- E ainda é preciso decifrá-la, Soliman, lê-la até ao âmago. Tudo isto é o símbolo do além, da nossa verdadeira pátria. Quero transmitir o que vejo. Quero oferecer a outros a possibilidade de seguirem este caminho.

Um e outro tomámos consciência de uma tarefa que nos esmagava. Oferecemos a nós próprios o egoístico prazer de saborear aquele incomparável espectáculo, esquecendo o que não fosse ele.

À saída do templo, ao pôr do Sol, fomos rodeados por crianças. Cada uma tentava vender-nos um escaravelho, um amuleto, uma estatueta, grosseiras imitações fabricadas à pressa numa oficina muito pouco apta para reproduzir a beleza egípcia.

Uma garotinha mantinha-se afastada. Coberta de andrajos, possuía no entanto um encanto perturbador que, pela pureza do seu rosto, evocava o das deusas. Brincava com um objecto escuro, indiferente às tentativas comerciais dos seus camaradas. Quebrando o cerco dos vendedores, olhei por cima da cabeça da pequena.

O objecto que ela manipulava era uma mão de múmia seca.

Para além do horror, uma iluminação inundou-me o espírito. Compreendi naquele instante por que razão estava realmente em perigo de morte.

 

Reuni os membros da minha expedição na sala comum da nossa casa de Gurna. Todos sentiam que eu tinha importantes informações a comunicar.

- Meus amigos, o cônsul-geral de França fixara-me um prazo muito curto para abandonar Tebas. Está certamente há muito ultrapassado. Nada de mau aconteceu. Nenhuma ordem oficial foi transmitida. Espero os fundos prometidos. Explorámos sítios e estabelecemos um programa de escavações para os próximos séculos.

- Perfeito - concluiu o padre Bidant. - Visto que Deus nos foi favorável, não tentemos o diabo. Voltemos ao Cairo e preparemo-nos para regressar por fim a terra cristã.

- Ninguém sabe onde Drovetti se encontra - precisou Lady Redgrave. - Há mesmo dúvidas se não terá abandonado o Egipto.

- Um homem como ele não se declara tão facilmente vencido - declarou L'Hôte. - Ridicularizou-o, general. Deve preparar a vingança. O padre Bidant tem razão: consideremo-nos felizes por termos sobrevivido a tantos perigos, demos graças à Providência e regressemos a casa.

- Parece-me uma opinião razoável - aprovou Rosellini. - Temos de proceder ao inventário dos objectos adquiridos. Só na Europa poderemos trabalhar correctamente.

O professor Raddi foi o único a não dar opinião. Reunira a sua colheita do dia, uma dezena de borboletas que examinava com cuidado.

- As vossas afirmações estão cheias de bom senso - disse eu. - São razoáveis e ponderadas. Suponho que um chefe consciente das suas res-ponsabilidades saberia dar-lhes ouvidos e alinhar pelas vossas ideias. Mas eu não sou esse chefe. Não sou razoável nem consentirei em sê-lo. Resta-me uma tarefa essencial a realizar: regressar aos túmulos.

Emanaram da assembleia suspiros de exasperação. Já esperava. Aquele trabalho não ia ser dos mais fáceis. Tornar-se-ia necessário dar muito de si próprio e sofrer no corpo para descobrir a beleza daquelas cavernas sagradas.

- Porque se obstina assim? - espantou-se o padre Bidant. - Não teve já a sua conta de sepulcros? Visitei dois na companhia de Lady Redgrave e bastou-me. Lá dentro falta o ar, sucumbe-se de calor, sentimo-nos mumificados de tal forma os movimentos são difíceis!

- E não conhecem o calvário que é imposto ao desenhador! - corroborou L'Hôte. - Uma iluminação irrisória, os olhos cheios de poeira, posições que são uma autêntica tortura para as costas, uma incessante tensão para não cometer erros...

- Está a ser muito injusto, Nestor! Esquece a mensagem que entrevimos, as concepções transcendentes que se impõem ao primeiro olhar? Essa espiritualidade oculta sob as suas figuras de velhas verdades que julgávamos muito novas e das quais temos a maior necessidade. Tenho que descobrir a totalidade das representações simbólicas para obter a chave do enigma.

- De que enigma falam? - inquietou-se o padre Bidant.

- Do sentido da nossa vida.

- Vamos, Champollion... Acredita realmente que esta religião morta poderia ter alguma superioridade sobre a nossa fé?

- Não esqueça - interveio Lady Redgrave - que chamam ao senhor Champollion “o Egípcio”.

- Bossuet, que não vai contestar que tenha sido um bom cristão - disse eu ao padre Bidant - só sonhava com estudar a teologia egípcia. Estava reservado à nossa época consegui-lo. E ninguém me impedirá de ir até ao fim desta experiência.

- É inútil erguer-se contra a vontade do Egípcio - disse Lady Redgrave, enigmática. - É mais forte do que todas as nossas reunidas.

Estupefacto por este auxílio inesperado, dirigi um sorriso a Lady Ophelia que permaneceu de mármore.

- Estou esgotado, Mestre - disse Rosellini. - Acompanhava-o de boa vontade, mas já não tenho forças nenhumas.

- Descanse, Ippolito, e comece o seu inventário logo que puder. Deixei de madrugada a casa de Gurna cujos hóspedes estavam ainda a dormir. O meu discípulo voltou para o quarto a bocejar. Por meu lado, sentia-me dotado de uma energia quase inesgotável que três ou quatro horas de sono povoado de sonhos hieroglíficos bastavam para reconstituir. Lá fora esperavam-me dois burros e Nestor L'Hôte, o único aventureiro que não tinha renunciado.

- Qual será o nosso primeiro túmulo, general?

- O de Ramsés o nono.

Que maior felicidade do que avançar assim, a um ritmo ancestral, por um caminho deserto, pouco a pouco invadido pelos raios do Sol matinal, até um lugar sagrado onde os sábios tudo tinham revelado da transfiguração da alma humana? As palavras antigas de um hino de saudação ao Sol nascente vieram-me naturalmente aos lábios. Pois não será justo que a criatura agradeça ao Criador que lhe conceda tais instantes de felicidade?

Mal nos instalámos no nosso túmulo, L'Hôte foi dominado por uma violenta cólera.

- Santo Deus, como os hieróglifos são aborrecidos! Como são enfadonhos! Já temos todos uma indigestão deles... Sou como um homem que caminha no fogo e que só tem um quarto de hora de vida! Estou farto, general. O seu Egipto não é o meu. Preciso de chuva, de planícies verdes e húmidas, de frescura. Vou-me embora.

- Para onde vai, Nestor?

- Para França. Guarde os meus desenhos. E que Deus o proteja, general, se ainda for um pouco cristão. O senhor é o melhor dos homens, é verdade, mas pergunto a mim mesmo se ainda viverá entre eles. O Egípcio... sim, é isso mesmo... tornou-se um egípcio das eras primitivas.

Deixando cair na areia carvões e cartões de desenho, L'Hôte montou no seu burro e saiu do Vale dos Reis, levantando uma nuvem de pó.

Abandonava-me, portanto. Soube que nunca mais o voltaria a ver. Tinha apreciado a lealdade daquele homem, a sua juvenil força, a sua confiança. Não sentia qualquer ressentimento contra ele, persuadido que não me tinha traído.

L'Hôte não se enganava. O Egipto fizera-me compreender que estava apenas de passagem sobre esta terra, um estrangeiro à procura da luz de origem de onde provêm todos os seres e onde serão de novo reunidos se ultrapassarem a prova da morte.

A morte na qual eu penetrava mergulhando nas profundezas de um túmulo real.

A mais absoluta solidão proporcionou-me um poder de concentração tal como nunca até então conhecera. As ideias, as traduções, as interpretações afluíam constantemente ao meu espírito, brotando por si próprias. Penetrando vivo no além representado nas paredes do túmulo, fazia na minha carne o percurso simbólico indicado pelas divindades com as quais vivia uma relação de fraternidade.

Cem vezes estive prestes a perder a consciência. Cem vezes venci a fadiga e a sufocação. Cem vezes realizei a viagem da alma. Depois de passar por baixo de uma porta bastante simples, entra-se em grandes galerias ou corredores cobertos de esculturas perfeitamente conservadas, mantendo em grande parte o fulgor das mais vivas cores, e que conduzem sucessivamente a salas apoiadas por pilares ainda mais ricos de decorações até se chegar por fim à sala principal, a que os egípcios denominavam a “sala dourada”, mais ampla do que todas as outras e no meio da qual repousava a múmia do rei num enorme sarcófago de granito. Os planos daqueles túmulos, publicados pela Comissão do Egipto, dão uma ideia exacta da extensão dessas escavações e do trabalho imenso que deram para serem executadas com picareta e cinzel. Os vales estão quase todos cobertos de colinas formadas pelos fragmentos de pedra provenientes dos terríveis trabalhos executados no seio da montanha.

A decoração dos túmulos reais era sistematizada e o que se encontra num reaparece em quase todos os outros, com poucas excepções. O friso da porta de entrada é adornado com um baixo-relevo que no fundo não é mais do que o prefácio, ou melhor, o resumo do que se seguirá: um disco amarelo no meio do qual está o Sol com cabeça de carneiro, ou seja, o Sol poente penetrando no hemisfério inferior, e adorado pelo rei de joelhos; à direita do disco, isto é, a oriente, está a deusa Néftis, “a soberana do local sagrado-, e à esquerda (ocidente), a deusa Isís ocupando as duas extremidades do percurso do deus no Hemisfério superior: ao lado do Sol e no disco foi esculpido um grande escaravelho que é aqui, como em qualquer outro lugar, o símbolo da regeneração ou dos renascimentos sucessivos; o rei está ajoelhado sobre a montanha celeste, na qual apoiam também os pés as duas deusas.

O sentido geral desta composição reporta-se ao rei defunto: durante a sua vida, semelhante ao Sol na corrida de oriente para ocidente, o rei devia ser o vivificador, o iluminador do Egipto e a fonte de todos os bens físicos e morais necessários aos seus habitantes; o faraó morto foi portanto ainda naturalmente comparado ao Sol poente descendo para o tenebroso hemisfério inferior, que tem de percorrer para renascer de novo a oriente e devolver a luz e a vida ao mundo superior (aquele que nós habitamos), da mesma forma que o rei defunto devia renascer também, quer para continuar as suas transmigrações, quer para habitar o mundo celeste e ser absorvido no seio de Amon, o pai universal.

O segredo da vida é revelado pelo deslocamento da barca divina navegando no rio celeste, sobre o fluído primordial, princípio de toda a existência, durante as doze horas do dia. Assim, à primeira hora, a barca põe-se em movimento e recebe as adorações dos espíritos do oriente; entre os quadros da segunda hora, encontra-se a grande serpente Apópis, o irmão e inimigo do Sol; à terceira hora, o deus Sol chega à zona celeste onde se decide a sorte das almas relativamente ao corpo que devem habitar nas suas novas transmigrações; vemos o Criador sentado no seu tribunal, pesando na balança as almas humanas que sucessivamente se apresentam. Uma delas acaba de ser condenada, vemo-la levada para terra numa barca que avança para a porta guardada pelo deus chacal Anúbis e é conduzida com grandes varadas por macacos, emblemas da justiça celeste; o culpado está sob a forma de uma grande porca, por cima da qual foi gravado em grandes caracteres “gula”. O deus visita, na quinta hora, o paraíso habitado pelas almas bem-aventuradas que repousam das canseiras da sua viagem terrestre. Têm na cabeça uma pluma de avestruz, emblema da sua conduta justa e virtuosa. Apresentam oferendas aos deuses ou então, sob a vigilância do senhor da alegria de coração, colhem os frutos das árvores celestes desses paraísos. Mais longe, outras seguram foices nas mãos: cultivam os campos da verdade. Na sua legenda pode ler-se: “Fazem as libações da água e oferendas dos grãos dos campos de glória; empunham uma foice e ceifam os campos que são a sua parte.” O deus Sol diz-lhes: “Levai os grãos para vossas casas, gozai deles e apresentai-os aos deuses em oferenda pura.” Mais longe, por fim, vemo-las banharem-se, nadar, saltar e folgar num grande lago cheio pela água celeste e primordial, tudo sob a inspecção do deus Nilo celeste. Nas horas seguintes, os deuses preparam-se para combater o grande inimigo do Sol, a serpente Apópis. Armam-se de varas e carregam-se com redes porque o monstro habita as águas do rio.

As almas condenadas, com as mãos atadas sobre o peito e a cabeça cortada, avançam em longas filas; algumas, com as mãos atadas atrás das costas, arrastam sobre a terra o coração arrancado do peito. Em grandes caldeirões, são fervidas almas vivas, quer sob a forma humana, quer sob a de pássaro, ou apenas as suas cabeças e corações.

Em cada zona e junto dos supliciados lê-se sempre a sua condenação e a pena que sofrem. “Estas almas inimigas, é ali dito, não distinguem o nosso deus quando ele lança os raios do seu disco, já não habitam no mundo terrestre e não ouvem a voz do grande Deus quando ele atravessa as suas zonas.” Enquanto que, pelo contrário, se lê ao lado da representação das almas felizes, nas paredes opostas: “Encontraram a graça aos olhos do grande Deus; habitam as moradas de glória, aquelas em que se vive a vida celeste; os corpos que abandonaram repousarão para sempre nos seus túmulos, enquanto elas gozarão da presença do Deus supremo.”

Eis uma das mil provas demonstrativas contra a opinião daqueles que ainda se obstinassem em acreditar que os pensadores egípcios ganharam qualquer aperfeiçoamento com a instalação dos gregos no Egipto. Repito: o Egipto só a si próprio deve aquilo que de maior, mais puro e belo produziu. Embora desagrade aos sábios que fazem uma religião da crença da geração espontânea das artes na Grécia, a verdade é outra. A Grécia imitou servilmente o Egipto na época em que as primeiras colónias egípcias estabeleceram contacto com os selvagens habitantes da Ática e do Peloponeso. Sem a civilização dos faraós, a Grécia não se teria tornado a terra clássica das belas-artes.

Eis a minha completa profissão de fé sobre esta grande questão. Traço estas linhas em frente dos baixos-relevos que os egípcios executaram com génio dois milénios antes da era cristã. O Egipto é a mãe da nossa civilização, a fonte do nosso pensamento naquilo que ele tem de mais elevado e de mais vital.

Quando me encontrava mergulhado no estudo de um quadro fascinante representando o nascimento de um novo sol, de uma nova consciência, resvalaram pedras pela rampa que conduzia ao jazigo.

Acabava de entrar alguém no túmulo.

Um estranho sentimento rasgou-me o peito. Tinha medo mas sem sentir o mínimo receio. Medo de ver a minha existência interrompida antes de ter trabalhado o suficiente e ao mesmo tempo o sentimento de uma calma absoluta ante a ideia de morrer naquela morada de ressurreição. O que esperar ainda da vida depois de tantas revelações que separavam o homem de si próprio para o fundirem no cosmos, o dissolverem nas estrelas?

Os passos aproximavam-se, lentos, pesados. Esperava ver surgir um ser do outro mundo, armado com uma faca, sem piedade, decidido a pedir-me contas e a fazer a lista das minhas faltas.

Sentia-me pronto. Tinha constatado que a fé dos antigos egípcios repousava no conhecimento e não na crença. Acreditar nos deuses não servia para nada. Conhecê-los, nomeá-los, descobrir a que força criadora correspondiam, era essencial. Os hieróglifos eram precisamente as palavras de força que davam acesso a esse conhecimento.

Que demónio ia aparecer? Saberia vencê-lo chamando-o pelo nome? Dentro de poucos segundos estaria à minha frente... A garganta contraiu-se, o coração bateu mais depressa, mas permaneci sereno, embora o vulto dos assassinos de Drovetti se impusesse ao meu espírito.

O angustioso visitante revelou-se por fim, à luz da sua vela.

O padre Bidant.

Sacudiu a sotaina empoeirada e sentou-se num banquinho de pedra que corria ao longo da parede. Limpou a testa.

- Que maldito calor... Como consegue respirar neste banho de vapor?

- Olhe, padre, olhe em seu redor! Verá o inferno, o purgatório e o paraíso! O que o Cristianismo anunciou já estava presente aqui, e muito mais ainda!

Esperava uma reacção muito viva, mas o religioso continuou a limpar a testa com um lenço.

- Era precisamente o que eu receava, Champollion... isto e o resto. Antes desta viagem, católicos e protestantes tinham chegado a acordo num ponto: a cronologia bíblica não devia ser alterada. A revelação cristã nunca seria posta em causa. Ninguém descobriria vestígios de civilização antes da décima sexta dinastia egípcia. Desta forma, a verdade do livro santo permaneceria total e absoluta, inclusivamente no domínio histórico.

- Sou hoje capaz de lhe provar o contrário, padre. A cronologia considerada para o Egipto é falsa. Vai ser necessário recuar muito as datas da aparição do pensamento. Vai ser necessário admitir que a Bíblia não teria existido sem a inspiração egípcia.

- Sei isso tudo, Champollion. Também sei que as suas descobertas vão causar perturbações que nem mesmo pode imaginar.

- Não está a falar como um sacerdote...

- Porque não sou apenas um sacerdote. Há muitos anos que estudo o orientalismo em Roma e que sigo tanto os seus trabalhos como os dos outros sábios desejosos de decifrar os hieróglifos. Rapidamente calculei que seria o senhor o primeiro a atingir esse objectivo inquietante para a Igreja. Que necessidade tinha de erguer o véu espesso que cobria mistérios esquecidos há séculos?

- A resposta está nas paredes deste túmulo, padre! O segredo da alma humana, eis o que os egípcios tinham descoberto!

Bidant aquiesceu com um abanar de cabeça.

- Comecei a ficar muito inquieto quando, ainda adolescente, declarou e depois escreveu que o Egipto tinha uma noção da divindade pelo menos tão pura como o próprio Cristianismo. Era um desafio à fé que ninguém levou suficientemente a sério. E agora, decifrou os hieróglifos... Abre as portas de vários milénios de religião pelas quais penetrarão deuses e deusas.

- Não é um desafio, padre. É uma simples verdade.

- Não brinque com as palavras, Champollion! Não determinou que os gregos tinham fé num deus único e na imortalidade da alma? Não escreverá amanhã que o sentido da existência humana é a reunião com Deus depois do julgamento perante o tribunal do outro mundo?

- Tenho o dever, com efeito, de transcrever o que vi. É a minha moral de sábio.

- Não é um sábio como os outros. É o Egípcio.

- E o senhor, padre, não será o espião ao serviço de Drovetti? Parando por um instante de limpar a testa, o padre Bidant fitou-me

com espanto e interesse.

- Também tinha compreendido isso... Decididamente, é muito menos ingénuo do que os meus superiores julgavam.

- Uma intuição, desde o primeiro segundo em que me encontrei consigo... E um princípio de confirmação quando serviu de intermediário entre Moktar e eu. Aquilo de que quero ter a certeza, por outro lado, é da sinceridade que manifestou na Núbia. Acreditei em si.

- E teve razão... mas tornou-se o meu pior inimigo, Champollion. Quase abalou as minhas crenças. Por pouco não o matei quando, fora de mim, disparei sobre si. É por isso que chegou a altura de me afastar de si e deste Egipto o mais depressa possível. Sabe Deus que tormentos interiores me faria ainda passar se tivesse de o ouvir falar dos seus deuses e da sua religião. Embora essas velhas divindades estejam mortas e confinadas no fundo dos túmulos, pergunto por vezes a mim mesmo se não têm mais força do que alguns dos nossos dogmas. Champollion? Champollion, está a ouvir-me? Champollion!

O Sol estava no zénite quando o padre Bidant, soprando e arquejando, saiu do túmulo de Ramsés IX trazendo às costas Jean-François Champollion, inanimado.

 

A 18 de Maio de 1829, da elevação que domina o Vale dos Reis, penso em ti, meu irmão Jacques-Joseph, e escrevo-te. Perdoa a minha escrita febril, demasiado rápida. Tenho tudo a dizer-te e muito pouco tempo, por causa da imensidade do trabalho que me espera! Estou perfeitamente refeito da indisposição que sofri no túmulo de Ramsés o nono. O padre Bidant, que me levou até junto do professor Raddi para ele me tratar com as suas mãos e o seu magnetismo, abandonou o Egipto. Não se despediu de nenhum dos membros da expedição e eclipsou-se com extrema precipitação.

Há longas semanas que ignoro o que se passa no mundo e que não tenho notícias de ti e daqueles que amo. Isto é duro, muito duro; porque apesar da minha filosofia, embora o nada das coisas humanas esteja escrito em meu redor com caracteres bem evidentes, embora eu vá meditar de tempos a tempos no cimo desta montanha árida de onde se descobre a extensão do grande cadáver de Tebas, ainda me interesso por esta pobre terra, pelos seus infelizes habitantes e sobretudo por aqueles que tiritam do outro lado do Mediterrâneo... França! Não falemos disso, sinto o coração a estoirar... No entanto, devo confessar-te que o meu espírito nunca mais terá outra morada a não ser o Vale dos Reis onde mergulhou nos mistérios da vida e da morte.

Preciso agora de deixar os meus queridos túmulos, abandonar estas moradas de ressurreição para me juntar a Rosellini. Deves considerar-me como um homem que acaba de ressuscitar. Fui durante muitos dias um habitante destes palácios subterrâneos onde ninguém se preocupa com os problemas do século. Vou agora habitar no nosso castelo de Gurna, uma casa de lama de um andar, magnífica em comparação com os casebres e as tocas em que se alojam os nossos concidadãos, os árabes. Mas só lá residirei durante a noite. Logo que o dia comece a despontar, levantar-me-ei, montarei o meu burro e lançar-me-ei pelos carreiros a passo lento, saboreando a frescura da manhã, em busca dos numerosos túmulos que sei estarem ainda enterrados por baixo da areia.

Rosellini quer persuadir-me que estou esgotado e que dou cabo do meu organismo. Não o acredito. Espero provar-te que ainda sou capaz de grandes coisas.

O quartel-general de Gurna, organizado por um Rosellini dotado de um agudo sentido de administração, estava em pleno funcionamento. Uma dúzia de servidores, colocados sob o controlo de um dragomano chamado Boutros, velavam pelos nossos mínimos desejos, nós que éramos os senhores da terra. O dragomano é um intendente de aspecto militar, falando mais ou menos bem quatro ou cinco línguas europeias que mistura com frequência, implacável com os seus subordinados, pronto a roubar tudo o que lhe fica à mão, servil até à saciedade, atento à cozinha e à cave para melhor aproveitar de requintados pratos e boas garrafas, sabendo fazer trabalhar os outros sem verter ele próprio uma só gota de suor, soltando suspiros de rasgar a alma para manifestar a sua simpatia ao ver algum de nós fatigado, quando na verdade nos despreza, mentiroso com um sorriso, bandido nos limites da moral que ele próprio definiu.

Na minha ausência, Rosellini estabelecera uma rígida utilização do tempo: levantar às 6 horas, trabalho científico das 7 horas ao meio-dia, almoço, repouso até às 2 horas e trabalho de novo até às 4 horas exactas. Um verdadeiro programa de director de museu que não me desagradava. Logo que terminava, eu deixava o castelo e aproveitava um burro selado e arreado que me esperava à porta, guardado por dois árabes que abanavam as moscas. Concedia então a mim mesmo, em companhia de Soliman, sempre inquieto, o mais raro dos prazeres: vaguear livremente na necrópole tebana, encher o coração com aquelas paisagens de silêncio que eu sabia actualmente serem as da alma.

Uma tarde, ao regressar do meu passeio habitual, cheguei mesmo a tempo de assistir a uma cena de pugilato entre o professor Raddi e Rosellini. Tão desajeitado um como o outro, não corriam o risco de se infligir mutuamente um golpe fatal, mas considerei aquela disputa indigna de dois sábios e interpus-me entre eles com decisão.

- Meus senhores! Perderam a cabeça?

- Senhor Champollion - declarou o professor Raddi com ênfase - Rosellini impede-me de exercer a minha actividade científica. Este comportamento é inaceitável e apelo para a sua qualidade de chefe da nossa expedição para se impor a este agitador. Rosellini estava vermelho de cólera.

- O professor perdeu a cabeça! - rugiu. - Decidiu transformar esta casa num zoo! A nossa gazela Pierre e o nosso gato não lhe bastam. Acaba de juntar-lhes um burro, um galo, uma cabra e lagartos! Sem falar de uma pantera bebé que encontrou sabe Deus onde e que acaba de exercitar as garras sobre as páginas do meu diário de inventário! É intolerável!

- Este senhor exagera - objectou o mineralogista. - Seja como for, não reconheço a sua autoridade.

- E as suas colecções de borboletas! - continuou Rosellini. - Esses insectos invadem todos os quartos! Champollion até no seu os vai encontrar!

- A ciência sempre avançou graças aos seus mártires - afirmou o professor Raddi, voltando as costas a Rosellini. - Já que assim é, abandono esta miserável casa e vou-me instalar com os indígenas. As minhas colecções desenvolver-se-ão apesar da ignorância e da intolerância. A partir de hoje, garanto que hei-de apanhar espécimes raríssimos que vos hão-de fechar o bico.

Muito digno, com uma rede de borboletas na mão, o andar imperial, o professor saiu para a caça.

- Lamento muito - confessou Rosellini, cuja cólera se esvaía - mas já não o consigo suportar.

Todas as tardes, no regresso do meu passeio em companhia de Soliman, com o qual partilhava emoções mudas, recebia os pequenos e grandes dignitários de Tebas na “grande” sala do palácio de Gurna. Embora Rosellini fosse hostil a esses encontros que considerava inúteis, pela minha parte concedia-lhes a mais extrema importância. Nem o professor Raddi, que vinha dormir a Gurna entre as suas expedições de caça, nem Lady Redgrave, que se dedicava a longos passeios a cavalo pelos campos, assistiam.

Em geral, os xeques das aldeias confiavam-me as suas queixas e pediam-me para intervir junto das mais altas autoridades locais para obterem mais alimentos ou vestuário. Agia em favor dos seus interesses, pedindo-lhes em troca que me arranjassem operários conscienciosos. Ultrapassando uma vez mais a opinião de Rosellini, confiara aos xeques algum dinheiro a fim de que eles próprios pagassem aos homens que vinham trabalhar nos estaleiros. O sistema funcionou às maravilhas, tanto mais que não me mostrava avaro de pequenos presentes para esses rudimentares potentados, felizes por verem reconhecida a sua imensa importância. Na verdade assim era, pois sem o seu consentimento, as escavações ter-se-iam revelado impossíveis. É evidente que ficavam com uma importante parcela das somas a distribuir mas, em contrapartida, garantiam a ordem e a segurança.

Naquele dia, tendo os assuntos correntes sido tratados, restava apenas um xeque idoso, barbudo e silencioso, que me esperava imóvel há mais de uma hora.

- Perdoai que vos tenha imposto esta provação - disse eu, pressentindo que aquela entrevista não se assemelharia em nada às outras.

- Há séculos que a minha tribo e eu próprio esperamos. Uma hora mais nem sequer equivale a um bater de pálpebras no olhar da eternidadde.

O homem era de um orgulho indomável. A sua linguagem intrigava-me.

- Como se chama a vossa tribo?

- Pertenço aos ababdeh, a mais nobre e a mais valorosa das tribos.

- Que Deus lhe seja favorável e a mantenha em prosperidade. Compreendia o motivo da minha perturbação. A língua dos ababdeh era uma das mais antigas e das mais notáveis. Estudara-a apenas de forma superficial e agradecia ao céu que me proporcionasse semelhante conversa, que desejava o mais longa possível.

- Conheceis bem o Egipto? - perguntou ele, inquisidor.

- Tanto quanto mo permitiram alguns meses de estadia e quarenta anos de paixão.

- Porque ajudais os felás?

- Porque são homens, como vós e eu, e considerar-se superior seja a quem for é o mais desprezível dos vícios.

Fez uma expressão dubitativa.

- Sabeis que são mentirosos e preguiçosos? Que desprezam muitas vezes a vossa generosidade?

- Pouco importa. Ajo de acordo com a minha consciência. E sei que vivem em condições miseráveis enquanto que as inúmeras villas do paxá são iluminadas a gás e gozam dos mais modernos confortos. Isso revolta-me. O papel de um chefe de Estado é proporcionar aos seus súbditos a possibilidade de viverem felizes e livres. A miséria não permite isso. É inimiga da civilização. No reinado do Faraó, a festa só podia ser celebrada se nenhuma barriga tivesse fome.

- São afirmações muito perigosas - fez notar o beduíno.

- São afirmações com justiça. Ninguém me fechará a boca.

- A nossa existência não mudou desde o tempo de Abraão - afirmou o beduíno. - Vivemos no deserto e tudo corria bem até à chegada dos mamelucos. A nossa tribo verteu o seu sangue para os combater. Quando Méhémet-Ali tomou o poder, utilizou-nos e contou com o nosso apoio. Hoje, é um tirano tão cruel como aqueles que mandou executar. Concedeu-nos direito de asilo no território egípcio, a nós que somos os filhos imemoriais da areia e do vento. Já que de tão boa vontade ouvis as súplicas dos felás, talvez queirais ouvir as da minha tribo?

O caso tornava-se delicado. Os beduínos não tinham sentido de humor. Para eles, a palavra dada não pode ser retirada sob nenhum pretexto. A nobreza do meu interlocutor ditou a minha decisão.

Ele leu-a nos meus olhos.

- Vinde comigo até ao nosso acampamento - exigiu. - Explicar-vos-ei os meus projectos.

Fui acolhido como um senhor na tenda do chefe dos ababdeh. Bolos de mel, tâmaras, figos e chá de hortelã foram-me oferecidos por duas raparigas silenciosas e vivas como o relâmpago.

O meu anfitrião esperou que estivéssemos saciados antes de continuar a conversa.

- Combatemos os mamelucos. Combateremos o novo déspota.

- Com que meios? - interroguei, ansioso.

- Com a nossa coragem, os nossos sabres e as espingardas que nos hão-de vender. Que nos haveis de vender.

Estava sufocado.

- Mas... não sou um comerciante de armas!

- Não foi o que nos foi dito.

- Quem ousou acusar-me assim?

- Esta pessoa, que afirma conhecer-vos bem - disse o beduíno, levantando-se e fazendo penetrar na tenda Lady Redgrave.

Precipitou-se para mim, ardente, apaixonada.

- O que andou a inventar, Lady Ophelia?

- Esta gente quer revoltar-se contra o paxá, Jean-François. A sua causa é justa! Precisam de nós, dos nossos dois países, do apoio que devemos fornecer-lhes. Não hesite mais.

O beduíno e a espia inglesa encaravam-me com gravidade.

- É uma perfeita loucura! Não passo de um egiptólogo, mas posso afirmar-vos que correis para o desastre se tentardes enfrentar as tropas do paxá. Esmagar-vos-á sem piedade, aniquilará toda a tribo. Subestimais a sua crueldade. Dá a maior importância ao carácter absoluto da sua autoridade e reagirá com a violência máxima à mínima ameaça relativa ao seu trono.

- Mostre-se tal como é - insistiu Lady Redgrave. - Provou cem vezes que se interessa pela sorte dos pobres e dos infelizes. Não tem o direito de abandonar estes homens. Arranje-lhes, tal como eu, com que se baterem e triunfarem!

A cólera invadiu-me.

- Então era essa a sua missão... Provocar o levantamento das tribos beduínas para derrubar o paxá ou o obrigar a pedir apoio a Inglaterra... Mesmo que fosse capaz, nunca me associaria a esse projecto criminoso. Envia para a morte famílias inteiras cuja única verdadeira protecção é precisamente o deserto, onde os soldados do paxá não se aventuram de boa vontade. Pretende destruir um equilíbrio frágil para provocar uma tempestade onde, como é costume, os mais fracos serão as vítimas! É indigno.

- Não passa de um cobarde! - atirou-me Lady Redgrave. - Cá me arranjarei sozinha.

Saiu da tenda do chefe dos ababdeh que se sentara com as pernas cruzadas, à maneira de um velho escriba. A minha sorte estava entre as suas mãos. Uma simples palavra sua condenar-me-ia à morte.

Bateu palmas.

As duas servas trouxeram de novo chá e guloseimas.

- Há um tempo para a tempestade e um tempo para a alegria do coração. Visto que o caminho dos meus pensamentos está de novo livre, bebamos juntos esta bebida de amizade.

Instalou-se um longo silêncio. Eu não o devia quebrar por motivo algum.

- Lady Regrave mostrara-se muito convincente - recomeçou ele. - Creio que seria mesmo capaz de lutar a nosso lado. Os sentimentos que sente a vosso respeito são tão violentos que tinha a certeza de vos convencer. Haveis-lhe infligido uma dolorosa derrota e ferido no seu orgulho.

- Comportei-me como um cobarde na vossa opinião?

- Estes bolos de mel são o nosso mais doce prazer. O meu pai, o pai do meu pai e os seus antepassados saborearam-nos; à noite, quando os homen