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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CHUVA SELVAGEM /Christine Feehan
CHUVA SELVAGEM /Christine Feehan

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

O que ela tinha feito?  Com uma nova identidade, uma morte simulada e uma oportunidade de fugir da traição que a espreita, Rachael escapou de um assassino anônimo.  Agora, a milhares de milhas de sua casa, sob o luxurioso dossel da selva tropical, encontra refúgio.

Onde podia se esconder? Neste mundo de estranhas criaturas caminha a mais exótica de todas elas.  Seu nome é Río.  Um nativo do bosque cheio de fortes habilidades... Alguém para ser desejado.  Possuído por seus próprios segredos, é digno de ser temido.

Em quem pode confiar? O passado de Rachael ameaça tão opressivamente como o calor do bosque, e quando Rio libera os secretos instintos animais que correm por seu sangue, Rachael teme que seu isolado refúgio se torne um inferno inevitável…

 

 

 

 

A pequena lancha ia se deslocando lentamente no rio a um passo que permitia o grupo de viajantes ver o bosque circundante. Milhares de árvores competiam por espaço, tão longe como alcançava o olhar. Parreiras de trepadeiras e plantas pendentes, algumas varrendo a superfície da água. Papagaios de brilhantes cores, papagaios arco-iris australianos e martins pescadores revoavam continuamente de ramo em ramo, de modo que a folhagem parecia estar viva com o movimento.

–Aqui tudo é tão belo – Disse Amy Somber, voltando-se dos bosques para olhar os outros – Mas tudo no que posso pensar é em serpentes, sanguessugas e mosquitos.

–E a umidade – Acrescentou Simon Freeman, desabotoando os dois botões superiores de sua camisa – Sempre estou suando como um porco.

–Isto é opressivo – Esteve de acordo Duncan Powell – Me sinto como se estivesse asfixiando.

–Que estranho – Disse Rachael Lospostos. E era estranho. A umidade não a incomodava absolutamente. As abundantes árvores e as videiras trepadeiras faziam que o sangue cantasse através de suas veias, fazendo-a se sentir mais viva que nunca. Levantou o pesado arbusto de espesso cabelo negro de seu pescoço. Sempre o tinha usado comprido em memória de sua mãe, mas o tinha sacrificado por uma muito boa causa, salvar sua própria vida – Realmente adoro isto. Não posso imaginar alguém bastante afortunado para viver aqui – Trocou um pequeno sorriso de camaradagem com Kim Pang, seu guia.

Ele indicou com um gesto para o bosque e Rachael captou uma olhada de uma ruidosa tropa de micos de cauda longa que saltavam de árvore em árvore. Sorriu quando ouviu o canto das cigarras que chupavam a seiva, inclusive sobre o rugir da água.

–Também eu gosto disto. – Admitiu Dom Gregson. Era o reconhecido e respeitado líder de seu grupo, um homem que visitava frequentemente o bosque pluvial e reunia recursos para os fornecimentos médicos que eram necessários na região.

Rachael olhou fixamente o rico e exuberante bosque, o desejo crescia nela como uma força que a estremecia. Ouviu a contínua chamada dos pássaros, de tantos deles, vendo-os voando de ramo em ramo, sempre ocupados, sempre em vôo. Tinha um desesperado desejo de se lançar do barco e nadar até desaparecer dentro do escuro interior.

O barco sorteou uma onda particularmente picada e a lançou contra Simon. Ela sempre tinha tido uma boa aparência, inclusive de menina, desenvolvendo-se rapidamente com exuberantes curvas e um generoso corpo de mulher. Simon a apertou perto dele quando a agarrou cavalheirescamente, seus seios se esmagaram contra seu peito. Suas mãos se deslizavam desnecessariamente para baixo por sua coluna. Cravou-lhe o polegar nas costelas, sorrindo docemente enquanto se separava de seus braços.

–Obrigado, Simon, parece que as correntes estão se tornando mais fortes – Não havia raiva em sua voz. Sua expressão era serena, inocente. Para ele era impossível vê-la arder de raiva diante a maneira que aproveitava cada oportunidade para tocá-la. Ela olhou para Kim Pang. Ele viu tudo, sua expressão era quase tão tranquila quanto a dela, mas tinha notado a posição das errantes mãos de Simon – Por que o rio está se tornando tão selvagem e agitado, Kim?

–Choveu rio acima, há muitas inundações. O adverti, mas Dom consultou com outro e disseram que o rio era navegável. Quando conseguirmos ir mais longe rio acima, veremos.

–Pensei que estavam chegando uma série de tormentas – Se defendeu Dom – Comprovei o tempo esta manhã.

–Sim, o ar cheira a chuva.

–Ao menos com o vento soprando tão forte, os insetos nos deixarão em paz - Disse Amy – Estou esperando o dia em que não tenha cinqüenta picadas sobre mim.

Havia um enorme silêncio enquanto o vento puxava suas roupas e açoitava através de seu cabelo. Rachael manteve seu olhar sobre a beira e as árvores com seus ramos elevados às viajantes nuvens. Em um momento viu uma serpente enroscada ao redor de um ramo baixo e outra vez um descolorido morcego voador pendurando nas árvores. O mundo parecia um rico e maravilhoso lugar. Um lugar longe das pessoas. Longe dos enganos e a traição. Um lugar no qual um possivelmente fosse capaz de desaparecer sem deixar rastro. Esse era um sonho que gostaria que se fizesse realidade.

–A tormenta está se aproximando. Temos que nos refugiar rapidamente. Se nos alcançar no rio, poderíamos todos nos afogar – Kim comunicou a sinistra advertência, surpreendendo-a. Tinha estado tão absorta no bosque que não tinha prestado atenção ao escurecido céu e às aglomeradas nuvens.

Um coletivo grito de alarme passou através do pequeno grupo e instintivamente se apertaram uns contra os outros na potente lancha, esperando que Kim pudesse levá-los rio acima antes que explodisse a tormenta.

Disparou-se uma quebra de onda de adrenalina através do fluxo sanguíneo de Rachael, disparando uma rápida esperança. Esta era a oportunidade que tinha estado esperando. Levantou o rosto ao céu, cheirou a tormenta no selvagem vento e sentiu as gotinhas sobre sua pele.

–Tome cuidado, Rachael – Advertiu Simon, puxando seu braço, tentando segurá-la sobre os contornos do basco enquanto remontavam as picadas águas rio acima para o acampamento. Ele tinha que gritar as palavras para fazer-se ouvir por cima do rugido da água.  

Rachael lhe sorriu e obedientemente retornou ao basco, não desejava parecer diferente de maneira nenhuma. Alguém estava tentando matá-la. Talvez, inclusive Simon. Não estava disposta a confiar em ninguém. Tinha aprendido a lição da maneira difícil, mais de uma vez antes que isto a afundasse, e não estava disposta a cometer outra vez os mesmos enganos. Um sorriso e uma palavra de advertência não significavam amizade.

–Oxalá tivéssemos esperado. Não sei por que escutamos esse velho dizer que hoje era o melhor dia para viajar – Continuou Simon, gritando as palavras em seu ouvido - Primeiro esperamos durante quase dois dias claros porque os presságios eram ruins e depois com a palavra de um homem sem dentes simplesmente nos subimos à lancha como se fôssemos ovelhas.

Rachael recordava o ancião com suspeitos olhos e grandes ocos onde deveriam ter estado seus dentes. A maioria das pessoas que conhecia eram amistosas, mais que amistosas. Sorrindo e sempre dispostos a compartilhar tudo o que tinham, as pessoas ao longo do rio viviam simplesmente com total felicidade. O ancião a tinha incomodado. Buscou-os, falando com Dom Gregson na saída apesar da óbvia relutância de Kim Pang. Kim quase se jogou para trás sobre guiá-los ao povoado, mas as precisavam da e as guardou cuidadosamente.

–É a medicina moeda de pagamento para os bandidos? – Gritou a pergunta a Simon por cima do ruído do rio.

Os bandidos eram famosos por ser do mais comum ao longo dos sistemas fluviais da Indochina. Tinham sido advertidos por mais de uma amigável fonte de que tomassem cuidado quando continuassem rio acima.

–Não só a medicina, mas também nós também o somos – Confirmou Simon – Houve um rastro de sequestros por alguns dos grupos rebeldes para supostamente arrecadar dinheiro para sua causa.

–Qual é sua causa? – Perguntou Rachael com curiosidade.

–Fazer-se ricos. – Simon riu de sua própria brincadeira.

O basco se moveu a sacudidas sobre a água, sacudindo a todos, salpicando espuma da água em suas caras e cabelo.

–Odeio este lugar – Se queixou Simon – Odeio tudo o que tem a ver com este lugar. Como poderia querer viver aqui?

–Sério? – Rachael olhou para a selva quando se apressaram. Enormes árvores, tão emaranhados juntas que ela não podia distinguir uma da outra, mas pareciam convidativas. Um refúgio. Seu santuário – Para mim é bonito.

–Inclusive as serpentes? – O basco cabeceou grosseiramente e Simon se agarrou a um cabo para não sair arremessado pela amurada.

–Há serpentes em todos os lugares. – Replicou Rachael suavemente, incapaz de ouvir por cima do rugido da água.

Ela tinha tomado cuidado ao desaparecer de sua casa nos Estados Unidos, tinha planejado cada passo cuidadosamente, com paciência. Sabendo que era observada, tinha ido casualmente ao departamento de roupa e tinha pago uma enorme soma a uma estranha para que saísse levando suas roupas, óculos escuros e jaqueta. Rachael prestou atenção aos detalhes. Inclusive os sapatos eram os mesmos. A peruca era perfeita. A mulher deu uma volta lentamente ao longo da rua, olhou vitrines, escolheu uma enorme loja, trocou de roupa nos provadores, afastando-se muito mais rica do que jamais se imaginou. Rachael tinha desaparecido sem deixar rastro nesse momento.

Comprou um passaporte e um DNI com o nome de uma mulher há muito tempo falecida e partiu a um Estado diferente, unindo-se a um grupo de missionários em uma viagem de ajuda às remotas áreas da Malásia, Borneo e Indochina. Tinha conseguido escapar dos Estados Unidos sem que a detectassem. Seu plano tinha sido brilhante. Exceto porque não funcionou. Alguém a encontrou. Dois dias antes encontrou uma cobra em seu quarto fechado. Rachael sabia que isso não era uma coincidência. A cobra tinha sido deixada em seu quarto de propósito. Inclusive tinha tido sorte de vê-la antes que tivesse oportunidade de mordê-la, mas ela sabia que não tinha que depender da sorte. Alguém a quem conhecia podia ser um capanga. Não tinha outra opção que não fosse morrer, e a tormenta provia a oportunidade perfeita.

Rachael estava cômoda em um mundo de decepção e traição. Não conhecia outro modo de vida. Sabia que era melhor não depender de ninguém. Sua existência teria que ser solitária se concentrava em sobreviver. Mantinha seu rosto separado dos outros, adorando a sensação do vento. A umidade deveria ter sido opressiva, mas ela a sentia como um sudário, um lençol de proteção. O bosque a chamava com a fragrância das orquídeas, com o gorjeio dos pássaros e o zumbido dos insetos. Onde os outros se encolhiam a cada som e olhavam a seu redor temerosos, ela abraçava o calor e a umidade. Sabia que tinha chegado em casa.

O barco rodeou uma curva e se dirigiu para o desvencilhado cais. Elevou-se um coletivo suspiro de alívio. Todos eles podiam ouvir os ruídos de quedas na distância e da correnteza que estava crescendo com intensidade.

Os homens trabalhavam para manobrar o barco para o pequeno porto. Um solitário homem permanecia à espera. O vento rasgando suas roupas. Ele olhou nervosamente o bosque circundante, mas caminhou para a lamacenta plataforma que servia como passarela, estirando sua mão para agarrar a corda que lKim Pang lançou.

Rachael podia ver as gotas de suor sobre sua testa e escorregando por seu pescoço. Sua camiseta estava manchada com suor. Havia umidade, mas não era essa umidade o que a manchava. Olhou cuidadosamente a seu redor, suas mãos procuraram automaticamente sua mochila. Precisava do conteúdo para sobreviver. Notou que o homem que tinha que atar a corda a sua lancha para rebocá-los estava tremendo, suas mãos tremiam tanto que tinha dificuldades com o nó. Ele se deixou cair repentinamente, suas mãos cobrindo sua cabeça.

O mundo explodiu em um pesadelo de balas e caos. Os frenéticos gritos de Amy obrigaram os chiantes pássaros ao deixar as copas das árvores, subindo para as buliçosas nuvens. A fumaça se misturava com a capa de névoa. Os bandidos saíam do bosque, agitando as armas grosseiramente e repartindo ordens que não podiam ouvir-se por cima do rugir do rio. A seu lado, Simon desabou repentinamente no chão do barco. Dom Gregson se dobrou sobre ele. Duncan arrastou Amy para o chão do barco e se estirou sobre Rachael. Evitando as mãos de Duncan, Rachael colocou rapidamente a mochila e se livrou da corda de segurança atada ao redor de sua cintura. Kim tentava freneticamente cortar a corda tentando trazê-los para a borda.

Murmurando uma silenciosa prece pelos outros e por sua própria segurança, Rachael se deslocou para o lado do barco, deslizando-se no interior das rápidas águas e foi imediatamente arrastada rio abaixo.

Como se fosse um sinal, os céus se abriram e verteram um muro de água, alimentando a força do rio. Debris se revolveu e se apressou para ela. Seguia movendo os pés em um esforço para evitar algumas rochas ou troncos inundados. Custava-lhe manter a cabeça por cima das agitadas ondas, mas se esforçava para que a água não entrasse em sua boca ou nariz enquanto permitia que a corrente a arrastasse afastando-a dos bandidos que corriam para a lancha. Ninguém a viu entre o redemoinho de restos de ramos de árvores, e folhagem que era levada rapidamente rio abaixo. Afundou-se uma e outra vez e teve que lutar para voltar para a superfície. Tossindo e engasgando-se, sentindo-se como se tivesse engolido a metade do rio, Rachael começou a tentar agarrar-se a uma ou duas das árvores maiores que tinha derrubado a força da água. A primeira vez falhou e seu coração quase deixou de pulsar quando sentiu que a água a puxava outra vez para baixo. Não estava segura de que tivesse a força suficiente para lutar com a monstruosa sucção do rio.

Sua manga se enganchou em algo sob a superfície, obrigando-a a deter-se enquanto a água formava redemoinhos a seu redor. Agarrou-se freneticamente a um ramo. Permitindo que deslizasse da mão. A água a puxava implacavelmente, puxando de suas roupas. Uma bota se soltou e girou afastando-se dela. As pontas de seus dedos tocaram a arredondado borda de uma grossa e submersa rama. Sua rasgada camiseta e a água a reclamavam, vertendo-se sobre sua cabeça, forçando-a para o fundo. De algum jeito se pendurou sobre o imóvel ramo. Rachael passou ambos os braços a seu redor e a abraçou firmemente, uma vez mais irrompendo sua face na superfície, ofegando por ar, tremendo de medo. Era uma nadadora forte, mas não havia maneira de que pudesse permanecer com vida nas enfurecidas águas.

Rachael se agarrou ao ramo, lutando por ar. Já estava exausta, seus braços e pernas pareciam de chumbo. Embora tivesse ido com a corrente, o tentar manter a cabeça fora da água tinha sido uma terrível luta. Inclusive agora a água lutava para levá-la de volta, puxando-a, arrastando seu corpo continuamente. Quando foi capaz se colou ao longo da árvore caída até que esteve apertada entre o tronco e os ramos e pôde puxar a si mesma o suficiente para chegar ao enorme montão de raízes. Agora estava no lado afastado do rio, longe dos rebeldes e esperava que também fosse muito difícil vê-la sob o aguaceiro.

Concentrando-se em cada polegada que pudesse ganhar, Rachael começou a mover-se rapidamente para o ramo mais próximo. Uma serpente acariciou seu quadril e se afastou. Não podia dizer se era a vida ou morte mas tudo isto para que seu coração pulsasse com mais força. Cuidadosamente arrastou seu corpo ao longo da raiz, extraindo-se da força da água, ofegando ali estendida, temerosa de sua precária posição. Um movimento em falso poderia enviá-la de volta à água. As árvores se estremeciam quando a água tentava liberá-las de sua âncora.

O ramo estava escorregadio pelo lodo do aterro de onde se desprendeu, mas formava uma espécie de ponte sobre a borda. Parecia estar a um milhão de milhas de distância. Todo isso enquanto chovia, e adicionando-se à escorregadia superfície. Rachael envolveu seus braços ao redor da raiz e se deslizou lentamente, polegada a polegada, sobre o retorcido e curvado galho. Escorregou várias vezes e teve que abraçar a raiz, seu coração se acelerou até que pôde recuperar sua coragem e seguir adiante. Uma eternidade depois as engenhou para caminhar sobre o aterro. Seu pé se afundou no lodo que sugou sua bota quando tentou libertar-se.

Rachael tirou a bota restante e a lançou longe ao interior da água, afastando-a das árvores onde possivelmente conseguiria chamar a atenção para onde ela as tinha engenhado para chegar à borda. Sua única esperança era que a árvore, segura sobre umas precárias raízes, fosse varrida rio abaixo, sem deixar rastro dela.

Descalça, a lama esmagada entre seus dedos, empapada e tiritando de medo, Rachael se arrastou sobre o pântano para a linha de árvores do caminho. Só então tentou ver o que estava ocorrendo na borda contrária. Tinha sido arrastada centenas de metros rio abaixo e a chuva formava uma cortina quase impenetrável. Rachael se afundou atrás da folhagem, olhando através da cortina de chuva enquanto calçava suas botas sobressalentes, gastas se por acaso tivesse que sacrificar seu outro par se tivesse a oportunidade de saltar pela amurada. Ela não tinha contado com as selvagens correntes, mas a oportunidade de escapar, apesar do perigo, era muito boa para deixá-la escapar.

Os bandidos pareciam estar zangados, conduzindo aqueles que ficavam com vida a um pequeno grupo tremulo. Todos eles estavam sacudindo suas cabeças. Vários homens passeavam ao longo do rio procurando algo… ou alguém. O coração de Rachael se afundou. Tinha uma furtiva suspeita de que a incursão se levou ao fim para matá-la. Que melhor maneira de assegurar sua morte que encontrar-se com uma bala perdida enquanto eram rodeados como prisioneiros para raptá-los? O rapto era um sucesso bastante comum e os bandidos podia comprar facilmente para levar a cabo um assassinato. Rachael ajustou sua mochila, jogou uma última olhada ao rio e se internou na selva.

Não podia deixar de tremer enquanto corria através do bosque, procurando um quase imperceptível caminho que a dirigisse para o interior. Tinha passado quase um ano preparando-se para esse momento. Corria cada dia, fazia peso e escalada. Não era uma mulher particularmente pequena, mas aprendeu como transformar cada fibra em músculo. Um instrutor particular trabalhou com ela a autodefesa, lançamento de facas e luta com paus. Tinha ido tão longe para investigar livros de sobrevivência, comprometendo-se tanto como podia para memorizá-los.

O vento agitou o espesso dossel em todas as direções, dando banho em Rachael com folhas e raminhos e uma multidão de flores. Apesar do vento, o denso dossel ajudava a defendê-la da chuva, rompendo a sólida parede de água de modo que caísse com um apagado ritmo. Ela ia tão rápido como podia, decidida a pôr a maior distancia entre o rio e seu destino. Estava segura de que poderia construir ou encontrar uma das velhas moradias nativas. Uma choça com três paredes de folhas e casca e um teto inclinado. Tinha estudado o desenho e parecia o bastante simples para segui-lo.

Apesar de tiritar continuamente, Rachael se moveu com confiança e esperança. Pela primeira vez em meses a terrível força que pressionava sobre seus ombros se dissipou. Tinha uma oportunidade. Uma oportunidade real para viver. Possivelmente tivesse que viver sozinha, mas podia escolher como viveria.

Algo se rompeu no arbusto a sua esquerda, mas mal olhou nessa direção, confiando em seu sistema de advertência para alertá-la de ter sido uma ameaça real. A água chapinhava em suas botas, mas não se atrevia tomar o tempo para trocar-se com roupas secas. Isso não faria nenhum bem; tinha que cruzar vários terrenos alagados, alguns com fortes correntes. Viu-se forçada a usar as trepadeiras para agarrar-se na ascensão de uma escarpada costa para manter seu caminho. Rachael Lospostos se foi para sempre, tragicamente afogada quando tentava levar fornecimentos médicos a um povoado remoto. Em seu lugar, nasceu uma nova e independente mulher. Suas mãos doíam pelas muitas vezes que se arrastou para subir as escarpadas rochas para internar-se profundamente no bosque.

A noite começava a cair. O interior era escuro, e sem o ocasional raio da luz do sol abrindo caminho através das copas, o mundo a seu redor mudava radicalmente. O pelo da parte posterior do pescoço se arrepiou. Deixou de andar e tomou tempo para olhar dentro da rede de ramos que corria sobre sua cabeça. Era a primeira vez que realmente olhava a seus arredores.

O mundo era um exuberante alvoroço de cores, cada sombra de verde competia com as vividas cores brilhantes que brotavam no alto e descia dos troncos das árvores. Por cima de sua cabeça e sobre o chão do bosque, flores, fauna e cogumelos competiam pelo espaço nesse secreto e oculto mundo. Inclusive sob a chuva podia ver evidências de vida selvagem, sombras voando de ramo em ramo, lagartos deslizando-se na folhagem. Em uma ocasião localizou a um evasivo orangotango no alto das árvores, metido em um ninho de folhas. Deteve-se e ficou olhando à criatura, assombrada ante o bem que se sentia.

Rachael encontrou um caminho muito difuso, apenas perceptível na riqueza de espessa vegetação que cobria o chão do bosque. Deixou-se cair sobre um joelho, olhando intensamente o caminho. Os humanos tinham usado o caminho, não só os animais. Afastava-se do rio, internando-se profundamente no interior. Exatamente o que ela estava procurando. Seguindo o imperceptível caminho que descia, mas permanecendo nele, aliviou o passo enquanto se movia para o coração do bosque.

Algo nela estava cobrando vida. Ela o sentia mover-se em seu interior. Consciência. Calor. Alegria. Uma mistura de cada emoção. Possivelmente fosse a primeira vez que sentia que tinha uma oportunidade para viver. Rachael não conhecia a razão. Estava exuberante. Cada músculo doía. Estava cansada, dolorida e imersa até os ossos, mas se sentia feliz. Deveria ter estado assustada, ou ao menos nervosa, mas queria cantar.

Quando a escuridão cobriu o bosque, deveria ter estado às cegas, mas seus olhos pareceram ajustar-se rapidamente a um tipo de visão diferente. Podia distinguir coisas, não só a altitude dos troncos das árvores com multidão de fauna ascensão neles, mas também pequenos detalhes. Rãs, lagartos, inclusive pequenos casulos. Seus músculos zumbiam e vibravam a tom com a natureza que a rodeava. Um tronco caído não era obstáculo a não ser uma oportunidade para saltar, sentindo o aço em seus músculos, um conhecimento de como trabalhavam sem incidentes sob sua pele. Ela se sentia quase como se pudesse ouvir a mesma seiva correndo nas árvores.

O bosque estava vivo com insetos, grandes arranha e libélulas. Escaravelhos movendo-se trabalhosamente ao longo da terra e sobre as árvores e folhas. Um mundo dentro de outro mundo, e todo ele surpreendente, inclusive familiar. Ouvia-se o bater de asas quando os pássaros noturnos voavam de árvore em árvore e os mochos iam para a caça. Um coro de rãs começou a coaxar, gritando ruidosamente quando os machos procuraram as fêmeas. Chegou a ver uma serpente voadora, ziguezagueando de um ramo à outro.

Sorrindo, Rachael continuou, sabendo que estava no atalho correto. Sabendo que estava finalmente em casa. Ao longe, ouviu o som de disparos, afogados e tênues, atenuados pelo ruído da chuva e quão distante estava ela do rio. O som parecia intrusivo em seu paraíso. Trazendo uma estranha e sinistra advertência com isso. Com cada passo sua alegria diminuía e o medo começava a crescer. Já não estava sozinha. Estava sendo observada. Espreitada. Caçada.

Rachael olhou cuidadosamente a seu redor, prestando particular atenção à rede de ramos por cima de sua cabeça, procurando sombras. Os leopardos eram estranhos, inclusive ali no bosque pluvial. Certamente, as pessoas não podiam tê-la encontrado e caminhado brandamente em silencio atrás dela. A idéia era aterradora. Os leopardos eram caçadores mortais, rápidos e desumanos, capazes de derrubar uma enorme presa. Sua pele picava da inquietação e pôs mais cuidado quando se moveu ao longo do caminho para qualquer lugar que o destino tivesse decretado para ela.

A chuva caiu constantemente, não uma lenta garoa, mas sim lâminas de palpitante chuva tão densa que a visibilidade era virtualmente nula. Os trovões sacudiam as árvores, ressoando através do alto dossel das copas das árvores do bosque, todos os caminhos conduziam a profundos cânion e desfiladeiros cortados na terra por transbordamentos de água. O relâmpago iluminava o chão do bosque, revelando enormes samambaias, densa folhagem e um grosso tapete de agulhas, folhas e uma incontável turva feita de centenas de espécies de plantas.

A inesperada luz caiu através do caçador, mostrando os duros ângulos e planos de sua cara em um rude relevo. A água reluzia no espesso e ondulado cabelo negro que caía sobre sua testa. Apesar do elevado peso da enorme mochila a suas costas, movia-se facilmente e em silêncio. Não parecia estar preocupado pelas fortes precipitações que empapavam suas roupas enquanto seguia o estreito caminho. Seus olhos se moviam sem descanso, sempre procurando movimentos na escuridão do bosque. De um frio ártico, seus olhos não mostravam piedade, não tinham vida, eram os olhos de um predador procurando sua presa. Não mostrava sinal de que a espetacular demonstração da natureza o preocupasse. Em vez disso, parecia misturar-se nisso com fluída graça animal, muito em sintonia com o primitivo bosque.

Um passo atrás dele, igual a uma imprecisa sombra lobuna, rondava um leopardo longibanda de vinte e três quilos, olhos resplandecentes, tão alerta quanto o caçador. Pela direita, observando para frente e depois seu caminho à costas, um segundo leopardo, gêmeo do primeiro, tinha os pequenos animais do bosque tremendo alarmados a seu passo. Os três se moviam juntos, uma única unidade treinada.

Por duas vezes, o caçador estirou sua mão deliberadamente e retorceu uma enorme folha, permitindo-a voltar para seu lugar. Em algum lugar atrás deles rangeu um ramo, o som levado pelo implacável vento. O leopardo que rastreava deu um salto voltando-se, mostrando os dentes, grunhindo em ameaça.

– Fritz – A simples palavra foi bastante reprimenda para fazer que o animal se acalmasse ao lado do homem enquanto eles seguiam seu caminho através da molhada vegetação sobre o chão do bosque.

A missão tinha sido um êxito. Haviam tornado a sequestrar o filho de um homem de negócios japonês dos rebeldes, saíram correndo cruzando a beira do rio, sua equipe se separou e se fundiram no interior do bosque. Drake era responsável por levar o menino à família que o esperava e sair do país, enquanto Rio deliberadamente conduzia os perseguidores, afastando-os dos outros, conduzindo-os ao profundo território conhecido por cobras e outras criaturas desagradáveis e altamente perigosas. Rio Santana estava cômodo na vasta selva, cômodo estando sozinho rodeado de perigo. O bosque era seu lar. Sempre seria seu lar.

Rio acelerou o passo, quase correndo, dirigindo-se ao aumentado banco do furioso rio. A água tinha estado crescendo constantemente durante horas e tinha pouco tempo se queria conseguir que os leopardos cruzassem com ele. Dirigiu seus inimigos através do bosque, fazendo-os ir várias vezes em círculo, mas mantendo-se fora de alcance para obrigá-los a seguir atrás dele. Seus homens se reportaram um por um. O rádio crepitava na tormenta, mas com cada murmúrio de estática, ele dava outro suspiro de alívio.

O contínuo ruído do correr da água era muito alto, afogando todo som de modo que tinha que confiar no par de gatos para dar o alarme se seus tenazes adversários o agarrassem antes do que ele planejava. Encontrou a alta árvore ao lado do aterro. A árvore tinha um tronco cinza prateado rematado em uma emplumada coroa de um radiante verde e se elevava alto sobre o banco, fazendo-o fácil de reconhecer. A água já formava redemoinhos a seu redor, movendo-se com rapidez, arrastando as raízes que rodeavam o largo tronco. Fez um gesto aos gatos para que o seguissem quando ele passou rapidamente pelo alto, na taça, saltando facilmente de ramo em ramo, quase tão ágil quanto os imprecisos leopardos. Perto do topo, cobertas pela folhagem, encontravam-se uma roldana e uma atiradeira que tinha assegurado antes. A mochila passou primeiro, cruzando alto por cima do rio. Levaria mais tempo levar os gatos. Não havia rede de ramos para estender uma ponte sobre o rio e este se movia muito rápido para nadar. Os gatos teriam que ser colocados um por um dentro da tipóia e arrastá-los cruzando o rio, algo que nenhum deles se encontrava muito entusiasmados por fazer. Sabiam como arrastar-se fora da tipóia por cima dos ramos. Isto era uma fuga que tinham realizado e aperfeiçoado muitas vezes.

Já no lado oposto do banco, Rio se agachou entre as raízes de uma alta árvore mengaris e olhou através da torrencial chuva ao outro lado do caudaloso rio. O vento açoitou seu rosto e suas roupas. Estava impermeabilizado do tempo, elevou os óculos de visão noturna e os centrou no banco do outro lado. Agora os tinha à vista, quatro deles. Inimigos sem rosto, furiosos por sua interferência em seus planos. Tinha-lhes roubado seu prisioneiro, afastando-os de sua meta final, e estavam decididos a matá-lo. Colocou seu rifle em posição, ajustando a mira. Podia acertar dois antes que os outros pudessem devolver um disparo. Sua posição era bastante protegida.

O rádio que tinha metido em sua jaqueta crepitou. O última dos sinais que tinha estado esperando. Vigiando constantemente os quatro homens do outro lado do rio, tirou o pequeno rádio de seu bolso interno.

–Adiante. – Disse suavemente.

–Tudo claro – Proclamou a imaterial voz. O último de seus homens estava a salvo.

Rio passou uma mão sobre o rosto, repentinamente cansado. Acabou. Não tinha que tomar outra vida. Por uma vez o isolamento de sua existência era convidativo. Queria deitar-se e escutar a chuva, para poder dormir. Estar agradecido de estar com vida um dia mais. Colocou os oculos em sua mochila, seus movimentos lentos e ágeis, cuidando de não chamar a atenção. Seu sinal enviou Fritz arrastando-se fora do matagal de raízes, aprofundando no limite da vegetação arbórea. Os pequenos leopardos se misturavam perfeitamente com as folhas e o chão da selva. Era quase impossível detectá-los.

O relâmpago cintilou no alto, o estrondo do trovão crescendo através do bosque. Rio não sabia se foi o trovão ou os gatos o que assustou javali adulto que fugiu através dos arbustos. Imediatamente o céu explodiu com rajadas de chamas vermelhas, uma quebra de onda de balas estendidas como uma ponte sobre o rio que destroçaram o matagal de raízes. Lascas de casca salpicaram seu rosto e pescoço, caindo inofensivas sobre sua espessa roupa. Algo lhe mordeu o quadril, escorregando sobre a carne e esfolando a medida que continuava avançando.

Rio apoiou o rifle em seu ombro, seu objetivo já escolhido, lançou dois mortais ronda em resposta. Seguiu com uma rajada de fogo, atirando-se rapidamente ao chão para cobrir-se enquanto se largava a seguir os gatos. Seus perseguidores não seriam capazes de cruzar o rio, e com dois mortos ou feridos, abandonariam a busca no momento. Mas voltariam e trariam reforços. Essa era uma maneira de vida. Nenhuma que tivesse escolhido necessariamente, mas era a única coisa que tinha escolhido.

Dispersos tiros ziguezaguearam através dos arbustos, zangadas abelhas sem pontaria. O rio afogou as ameaças que lhe lançavam, as promessas de retribuição e sangue. Jogou o rifle ao ombro e se deslizou no interior do profundo bosque, permitindo que a progressiva vegetação o defendesse.

Rio se impôs um passo duro. A tormenta era perigosa, o vento ameaçava derrubar mais de uma árvore. Os gatos compartilhavam sua vida, mas tinham a liberdade de escolher seu próprio caminho. Esperava que procurassem cobrir-se, passar a tormenta sob proteção, mas eles permaneciam perto dele, voltando-se ocasionalmente para as árvores para viajar ao longo da auto-estrada de enredados ramos. Eles o observavam espectadores, perguntando-se por que não se unia a eles, mas mantendo-se a seu regular ritmo.

Viajaram durante milhas baixo na empapada chuva. Perto de casa, Rio estava começando a relaxar quando Fritz elevou sua cabeça, subitamente alerta, girando-se de forma brusca para tocar o homem que instantaneamente se deteve, fazendo-se quase invisível, uma sombra entre as altas árvores. Atrás dele, o segundo gato se colou ao chão, congelado, uma estátua com olhos brilhantes. Rio vaiou brandamente entre seus dentes e fez um pequeno sinal circular com uma mão. Fritz imediatamente desapareceu no bosque, movendo-se cuidadosamente, detendo-se ao lado de uma árvore. O animal rodeou o comprido tronco uma vez, então, como um silencioso espectro, retornou ao homem. Juntos, os três se aproximaram, assegurando-se de não fazer mais ruído do que o fazia o Leopardo Longibanda. Fazendo caso omisso à ferocidade da tormenta que rugia a seu redor, Rio inspecionou a árvore cuidadosamente. Uma corda alcançava de um tronco a outro.

–Isto não é um pau – Murmurou em voz alta aos gatos – Só é uma parte de corda, nem sequer oculta. Por que delatariam sua presença desta maneira? –Desconcertado, examinou o chão, claramente esperando uma armadilha de algum tipo. Era impossível encontrar uma pista na empapada vegetação. Indicou aos animais que se estendessem e continuou com mais precaução ao longo do fraco rastro.

Rio sempre se cuidava de usar diferentes rotas para alcançar a árvore ao lado do rio. Se alguém fizesse uma inspeção cuidadosa da árvore, encontrariam muito provavelmente as marcas de garras de um leopardo, ou pensariam que algumas cicatrizes tinham sido causadas pelas improvisadas escadas, estacas, degraus, para alcançar um ninho de abelhas selvagens. Ele deixava pouco ou nenhum sinal, e sempre levava o sistema de roldanas com ele. Ainda assim, se sua rota tivesse sido comprometida, era possível que os rebeldes tivessem enviado um assassino na frente para rodeá-lo e acaso mentir, em espera dele. Embora sua identidade fosse um mistério, tinha estado no topo da lista de êxitos durante muito tempo.

Sua casa estava no profundo interior do bosque pluvial. Estava acostumado a usar diferentes rotas para chegar ali, frequentemente subia às árvores para não deixar rastro, mas ainda assim, qualquer um que tivesse podido encontrá-lo tinha que ter sido bastante persistente. Era muito bom para rastrear e alguns de seu tipo se vendiam se o dinheiro fosse muito bom.

As raízes das árvores eram altas e abertas em um amplo leque, monopolizando um considerável território como se o demandasse. As grandes redes de raízes criavam uma selva em miniatura. Ao longo das centenas de troncos, outras espécies de plantas e formas cresciam para criar uma miríade de cores. No tremendo dilúvio os cogumelos cresciam sobre os caídos, podres troncos resplandeciam na escuridão com misteriosos verdes e brancos brilhantes. O inquieto olhar de Rio observou e catalogou o fenômeno, destacando-o como pouco importante até que registrou uma pequena mancha sobre um tronco, depois um minúsculo entalhe sobre uma raiz. Um giro de seus dedos enviou um silencioso sinal aos gatos. Os animais fracionaram a área, entrecruzando-se para trás e adiante, vaiando e cuspindo em advertência.

Aproximou-se de sua casa do sul, sabendo que era o lado mais oculto e portanto mais vulnerável seria o inimigo que estivesse preparado à espera. A casa estava construída entre as árvores, uma estrutura corrida ao longo dos mais altos e grossos ramos, por cima do chão e nada fácil de ver com a densa folhagem. Com os anos os cogumelos e as orquídeas cobriram progressivamente as paredes de sua casa, fazendo-a quase invisível. Tinha fomentado o crescimento das grossas videiras para ocultar a casa de olhos bisbilhoteiros.

Rio elevou a cabeça para cheirar o ar. Com a chuva deveria ter sido impossível detectar o tênue aroma de lenha queimada, mas ele tinha um apurado sentido de olfato. Levava setenta e duas horas sem dormir.

Duas semanas de cansaço e dura viagem. Uma faca tinha fatiado de um lado a outro seu ventre e ainda queimava igual a um atiçador quente. Uma bala barbeou a pele de seu quadril. Nenhuma das duas feridas era significativa. Certamente tinha sofrido piores ao longo dos anos, mas deixar muito tempo sem tratamento tais feridas no bosque poderia acabar em desastre. Endireitou seus ombros e se dirigiu a sua casa com firme determinação.

Apesar do rio alagado, apesar de todas suas cuidadosas precauções, parecia como se o inimigo tivesse dado um rodeio para tomar a dianteira e preparar-se esperando-o em sua própria casa. Um engano muito estúpido e custoso.

Os gatos se aproximaram de cada lado, avançando rente ao chão, movendo-se para as árvores onde estava localizada a casa. Rio tirou sua mochila, deixando-a sobre o chão contra um grosso tronco. Todo o momento permaneceu agachado, sabendo que seria difícil alguém vê-lo com a torrencial chuva. O vento gritava e gemia através das árvores, sacudindo folhas e lançando pequenos raminhos e ramos em cada direção. Não obstante permaneceu estudando a casa por um longo momento. Um débil rastro de fumaça se elevava da chaminé para ser dissipado rapidamente no elevado dossel. Uma débil luz piscante oscilava de um baixo fogo junto às mantas de lã que penduravam sobre as janelas podendo ser vislumbradas através da sempre mutável folhagem. Não havia movimento na cabana. Quem quer que tivesse sido enviado a assassiná-lo ou estava ainda a uma boa distância, ou o tinha colocado uma tentadora armadilha. Rio vaiou entre dentes atraindo a atenção dos gatos, deu um sinal com a mão, um rápido bater de asas com seus dedos e os três, igual a escuros fantasmas, olharam a terra atrás das árvores em busca de qualquer pista que a feroz chuva não tivesse apagado.

Eles se moveram em um ajustado círculo até que chegaram a enorme rede de raízes e ramos. Os músculos de Rio se agrupavam e se contraíam, ondulando-se sob a capa de pele quando saltou ao interior da árvore, aterrissando agachado com perfeito equilíbrio. Os gatos se arrastaram silenciosamente dentro da rede de ramos de árvore para chegar a terraço. Os ramos estavam polidos pelo aguaceiro, mas o trio de caçadores manobrou até a casa com cômoda familiaridade. Rio provou o chão. Encontrando-o resistente, tirou a faca da capa de couro escondido entre suas omoplatas. No brilho do relâmpago, a larga e afiada folha de metal cintilava brilhante. Deslizou a folha na greta da porta e lentamente, polegada a polegada, forçou a pesada barra de metal do interior para cima.

A porta se abriu, então a fechou furtivamente, a repentina corrente fria fez elevar as chamas do fogo, dançando e crepitando antes de voltar a baixar. Rio esperou um batimento de coração para que seus olhos se ajustassem à mudança de luz. Moveu-se cautelosamente cruzando a ampla extensão de chão, pondo cuidado em suas pegadas, evitando cada tabela chiante. Uma imprecisa figura se moveu agitada sobre a cama.

Rio se atirou ao chão, sobre seu estômago enquanto que o selvagem arrebatamento nele rasgou através de seu corpo, aumentando seus sentidos. Ardia-lhe a pele, doíam-lhe os ossos e seus músculos se contraíam. Voltou a lutar, forçando seu cérebro a trabalhar, a pensar, a raciocinar quando seu corpo tentou abraçar a mudança. Por um momento sua mão ondulou com vida, com pele, dedos arrebentando como garras cravando-se no chão de madeira, então se retirou dolorosamente.

Permaneceu imóvel, atirado sobre o chão, a faca em seus dentes, tentando respirar através da dor, respirar afastava o impulso da transformação. Os gatos se separaram sem instrução visível, ambos estendidos no chão, dois pares de ardentes olhos sobre a figura debaixo da manta. Rio podia tirar a escopeta ao lado da parede da cama. Dessa distância seria fácil. Na lareira o tronco se desintegrou em brilhantes carvões vermelhos. A luz brilhou no quarto, iluminou a cama brevemente e partiu.

 

Rachael despertou, instantaneamente consciente do iminente perigo. O aroma de pele molhada misturada com o aroma de algo selvagem, algo perigoso. Não tinha havido nenhum som, mas o sentimento era tão entristecedor que instintivamente se estirou pela escopeta. Uns dedos rodearam seu pulso em um forte apertão, esmagando o osso contra o tendão. A escopeta foi tirada da mão, seu atacante era muito mais forte, além de sua selvagem imaginação. Ela puxou seu pulso que tinha preso como se lutasse contra sua sujeição. Ao mesmo tempo, tirou sua mão direita para agarrar o pau de vime e esgrimi-lo com doentia força contra a cabeça de seu assaltante. Ela rodou de lado afastando-se dele para cair no chão, a cama entre eles.

Para seu horror, Rachael aterrissou a polegadas de uns brilhantes olhos vermelhos, uma cálida respiração em sua cara, enormes, espantosas mandíbulas cheias de dentes indo direto para ela. Não só alguns dentes, estava olhando de frente o que parecia ser um tigre dentes de sabre. Empurrando o pau entre os gotejantes presas, apressou-se em afastar-se, desesperada para alcançar a lareira e uma arma, qualquer arma para defender-se. Uma mão a agarrou, falhando, escorregando sobre suas pernas. Ela quase conseguiu cruzar o quarto, estirando-se pelo atiçador de duro metal a só umas polegadas de seus dedos. Outro passo, um ataque e teria uma oportunidade. Algo agarrou seu tornozelo em uma armadilha selvagem, rasgando sua carne, arrastando-a, cortando sem piedade com agudos dentes.

Rachael imaginou que isto seria o mesmo que ser mordida por um tubarão. Duro. A força de um trem de mercadorias. Pôde ouvir alguém amaldiçoando, animais respirando com força, um terrível bufo. Algo gritando. O pânico a alagou, quase fechando seu cérebro. Uma dor em vermelho vivo se disparou através de seu corpo, a agonia a deixou sem respiração. Retrocedendo para outro ataque, um segundo leopardo saltou sobre ela. Apertando com força os dentes, Rachael se lançou para frente, um grito rasgou sua garganta quando os dentes como lanças perfuraram e destroçaram a carne que recobria o osso. Seus dedos se curvaram ao redor do atiçador, descarregando-o no animal com desesperada força. Uma mão agarrou seu pulso, parando precipitadamente o feroz corte no meio do ar.

Um homem apareceu sobre ela, escuro e poderoso, seu rosto de um diabo vingador, cravado perto do seu. Para seu horror o rosto se contorcionou, cabelo estalando através da pele, dente enchendo a forte mandíbula. A quente respiração de um leopardo soprou em seu rosto, os dentes em sua garganta. Não um pequeno leopardo nebuloso, mas um enorme leopardo negro. O olhar do leopardo se fixou sobre ela com desumana intenção. Rachael advertiu a penetrante inteligência no brilho dos olhos amarelo–esverdeados. O fascinante olhar, ardendo como fogo, com mortal perigo, estava gravado em sua mente. Ela fechou os olhos, disposta a desmaiar, contudo não podia esquecer o concentrado olhar fixo.

Rio lutou contra a besta que se elevava nele. Muitas feridas, muitos dias sem dormir faziam difícil manter o controle. Lutou com a mudança antes que pudesse cometer um assassinato. Respirou e inspirou. Conduzindo o ar profundamente a seus pulmões. Obrigando a sua parte selvagem a voltar a dormir, para encerrá-la em algum profundo lugar em seu interior até que estivesse, uma vez mais, completamente regido por seu cérebro e inteligência.

–Soltem – Estalou. Os gatos obedeceram, enredando-se na perna de seu assassino, deitando-se no chão, ainda em guarda – Agora você. Me dê isso.

Rachael era incapaz de soltar o atiçador. Seus dedos estavam fechados ao seu redor, sua mente nublada com horror. Só podia ficar olhando-o em choque. O terror a mantinha muda.

–Maldita seja, solte-o – Gritou ele, incrementando a pressão sobre seu pulso, sabendo que podia romper facilmente seu osso se ela continuasse resistindo. Sua mão livre rodeou sua garganta igual a um torno, cortando instantaneamente seu ar, afundando o cotovelo em seu peito, os joelhos contra suas coxas. Seu corpo cravou com eficácia o dela no chão com força superior – Poderia quebrar seu pescoço –Apontou ele – Solta isso.

Rachael teria gritado, gritado por ajuda, por salvação, só gritar pelo inferno disto. Estava mais atemorizada com este homem ou do que quer que fosse, que dos gatos e seus malévolos olhos. Ele tinha afogado com êxito todo som, mas a dor que irradiava de sua perna parecia engoli-la, assim tinha a incrível sensação de derreter-se no chão.

Rio xingou outra vez quando a sentiu flácida embaixo dele, o atiçador chocando ruidosamente no chão. Empurrou-o fora do alcance dela e quando o fez, sua mão encontrou uma substância quente, pegajosa. Instantaneamente suas mãos se moveram descendo por sua perna. Murmurou um palavrão ante seu achado. Apertando sua mão sobre a ferida, elevou sua perna no ar.

–Não desmaie sobre mim. Há alguém mais aqui? Me responda, e será melhor que diga a verdade – Estava bastante seguro de que estavam sozinhos, qualquer outro teria revelado sua presença durante a curta mas intensa briga. A casa não continha essência de outro humano, mas não queria mais surpresas.

Um calafrio percorreu o corpo dela, tremendo em reação a terrível ferida de sua perna. Havia dura autoridade em sua voz. Um bordo desumano que levava inerente perigo.

–Não – Ela deu um jeito para ofegar através de sua obstruída garganta.

Rio assinalou aos leopardos nebulosos.

–Espero fodidamente que esteja dizendo a verdade porque eles assassinarão a qualquer um que encontrem – Aplicou um torniquete rapidamente, sabendo que os animais o alertariam se encontrassem outro intruso. Não podia imaginar quem seria o bastante estúpido para enviar uma mulher atrás dele. Rio a levantou com facilidade, levando-a na cama e deixando-a sobre a mesma. Não parecia capaz de assassinar ninguém, sua face estava pálida e seus olhos muito grandes para seu rosto. Ele sacudiu a cabeça e foi trabalhar sobre a horrorosa ferida em sua perna. A punção das feridas era profunda e tinha feito um dano considerável. O gato tinha destroçado a perna quando ela tinha tentado afastá-lo, rasgando com profundidade sua pele, uma incomum ferida para fazê-la um leopardo nublado. Esta era uma suja confusão e necessitava mais destreza da que ele possuía.

Rachael mal podia respirar pela dor. Na escuridão, o ameaçador homem sobre ela parecia invencível. Seus ombros eram largos, seus braços e peito poderosos. A maior parte do peso da parte superior de seu corpo era puro músculo. Havia manchas de sangue em suas roupas. O sangue gotejava da suja navalhada em sua têmpora. Estava empapado, suas roupas feitas pedaços e completamente úmidas. A água gotejava de seu cabelo sobre a perna enquanto ele se inclinava sobre ela, frias gotas sobre seu cálida pele. Tinha uma escura sombra ao longo de sua mandíbula e uns gelados olhos que ela nunca tinha visto em um humano… Ou besta. Brilhantes olhos dourados.

–Deixa de se mover – Havia impaciência no tom de sua voz.

Rachael respirou fundo e se esforçou em baixar o olhar a sua destroçada perna. Deixou escapar um simples som e seu mundo começou a empanar-se.

–Deixa de olhar isso, pequena estúpida – Captou sua inquietação, puxando seu queixo de modo que se visse obrigada a encontrar seu brilhante olhar.

Rio estudou sua pálida cara, podia ver as linhas desenhadas pela dor ao redor de sua boca. Gotas de suor salpicavam sua testa. As marcas de seus dedos apareciam ao redor de sua garganta, torcida e púrpura. Seu olhar se deteve por um momento sobre seu pulso direito, notando o inchaço, perguntando-se se estaria quebrado. Essa era a última de suas preocupações.

–Me escute, tenta seguir o que estou dizendo – Se inclinou perto dela, seu rosto a polegadas do seu. Sua voz saiu rouca, inclusive para seus próprios ouvidos, e a suavizou quando seu olhar vagabundeou sobre ela.

Rachael se pressionou de novo contra o colchão, aterrada de que seu se contorsionasse e a deixasse observando a uma besta mais que a um homem. Ela estava flutuando em muita dor. Um véu de neblina rabiscava sua visão, até que se sentiu a distância de tudo. Um olhar de resolução endureceu a expressão dele, advertindo-a. Fez um intento de assentir para indicar que estava escutando, aterrada da intensidade de seu fixo olhar, temendo que se não respondesse, cresceriam repentinamente nele um bocado de dentes. Tudo o que queria fazer era deslizar-se sob a cama e desaparecer.

–As infecções começam rápido aqui na selva tropical. Estamos incomunicáveis por causa do rio. A tormenta está mau e o rio ultrapassou as bordas. Não posso te conseguir ajudá-la, assim vou ter que me encarregar disto à maneira primitiva. Isto vai doer.

Rachael pressionou uma mão contra sua boca sufocando a histérica risada que brotava. Doer? Estava louco? Estava presa em meio de um pesadelo sem fim em uma casa da árvore com um homem leopardo e dois mini leopardos. Ninguém sabia onde estava e o homem leopardo a queria morta. Acreditava que sua perna não estava realmente dolorida?

–Entendeu? – Parecia morder as palavras que saíam entre seus fortes dentes.

Rachael tentou não ficar olhando esses dentes. Tentou não imaginá-los alargando-se em letais armas. Obrigou-se a assentir, tentando parecer inteligente quando o mais seguro é que estivesse louca. Os homens não se transformavam em leopardos, não em meio da selva tropical. Devia ter se tornado louca, não havia outra explicação.

Rio desceu o olhar a seu rosto, sobressaltado pela maneira como seu estômago se sacudia ante a idéia do que tinha que lhe fazer. Fazia antes coisas parecidas. Fazia coisas muito piores. Era a única oportunidade que tinha de salvar sua perna, mas o pensamento de feri-la mais, adoecia-o. Não tinha idéia de quem era ela. A casualidade era tal que tinha sido enviada para matá-lo. Era um homem procurado. Já o tinham tentado antes. Rio apertou os dentes e jurou silenciosamente. Que diferença havia se seus olhos eram muito grandes para sua cara e parecia tão malditamente vulnerável?

A água caía muito sobre o teto. O vento ululava e açoitava as janelas. Estava intranquilo, vacilante inclusive, algo muito incomum. Baixou o olhar, vendo seus dedos afastando pequenas mechas de cabelo molhado de seu rosto, seu tato era quase gentil, e apartou de repente sua mão como se sua pele queimasse. Seu coração fez um particular tombo. Rio tirou a pequena seringa de injeção do kit médico seguro por uma correia a seu cinturão. Uma mão se afiançou ao redor de sua perna para mantê-la imóvel. Verteu todo o conteúdo sobre a ferida aberta.

Rachael gritou, o som rompeu através da trincada garganta para penetrar as paredes da casa. Tentou brigar contra ele, tentou sentar-se, mas sua força era implacável. Segurava-a para baixo facilmente.

–Não posso te dizer nada. Não sei nada – As palavras eram estranguladas entre tentar respirar através da dor e sua esfolada garganta – Juro que não sei. Me torturar não vai servir te de nada – O olhou, rogando, as lágrimas nadavam em seus olhos negros – Por favor, realmente não sei nada.

–Shh – Repugnado por feri-la, tinha bílis na boca e não sabia por que. A maioria das tarefas eram feitas sem sentimentos. Rio não tinha idéia de por que desenvolvia de repente compaixão por uma mulher enviada para matá-lo. Arquivou suas fugidias revelações para estudá-las em um melhor momento. A necessidade de tranquilizá-la tomava preferência e isso o preocupava. Era um homem que sempre queria conhecimento e informação. Não era do tipo de mostrar-se simpático, especialmente não a quem tinha tentado arrancar sua cabeça – Isto só mata os germes e combate infecções – Se encontrou murmurando as palavras, seu tom estranho. Nada familiar–. Sei que arde. Usei-o em mim mais de uma vez. Só fica deitada enquanto reparo o dano.

–Acredito que vou vomitar – Esse era o cúmulo da humilhação. Rachael não podia acreditar que isto estivesse acontecendo com ela. Tinha planejado tudo cuidadosamente, trabalhado tão duro. Chegado tão longe. Tudo para perdê-lo agora. Este homem ia torturá-la. Matá-la. Deveria ter sabido que não tinha escapatória.

–Maldita seja – Segurou sua cabeça enquanto vomitava uma e outra vez em um balde que tirou de debaixo da cama. Não queria pensar para que era usado esse balde. Não queria pensar em como ia afastar-se dele com uma perna destroçada, em meio de uma tormenta com o rio transbordado.

Rachael voltou a tombar-se, limpando sua boca com o dorso da mão, tentando desesperadamente forçar seu cérebro a trabalhar. A debilidade era um insidioso inimigo, deslizando-se através de seu corpo enquanto seus braços se sentiam pesados e não queria levantar a cabeça.

–Perdeu muito sangue – Disse tenso, como se lesse sua mente.

–O que é você? – As palavras saíram em um sussurro. O vento se aquietou por um momento assim só podia ouvir a chuva caindo sobre o telhado. Rachael conteve sua respiração quando ele voltou o completo impacto de seus frios, desumanos olhos sobre ela. Ele não piscou. Viu que suas pupilas estavam dilatadas. Viu a mesma penetrante inteligência, vislumbrando o perigoso fogo que ardia sem chama. Seu coração pulsava ao compasso da impulsora chuva.

–Eles me chamam o vento da morte. Como poderia não sabê-lo? – Sua voz era tão inexpressiva como seus olhos. Um fraco e arisco sorriso chamaram a atenção sobre sua boca, falhando em iluminar seu olhar – Não a enviaram aqui com muita informação. Nada inteligente para um assassino. Possivelmente alguém a queria morta. Deveria pensar nisso. – Arrastou uma cadeira ao lado da cama, prendeu um abajur e procurou em seu kit médico por mais fornecimentos.

Algo em sua voz lhe deu uma pausa. Ela estudou seu perfil. Havia aceitação em sua voz de quem e o que era ele, não fanfarronice ou arrogância.

–Por que me enviariam para matá-lo?

–Por que não? Tentaram-no muitas vezes e ainda estou vivo – Ele estava dizendo a verdade.

Não entendia o que ele estava contando, mas ouviu a honestidade em seu tom. Tinha uma agulha em sua mão e se inclinou aproximando-se muito a sua perna. Involuntariamente ela se inclinou para trás.

–Não pode simplesmente colocá-lo por cima?

Sua mão se apertou ao redor de sua coxa, aprisionando-a contra o colchão, mantendo-a imóvel.

–O maldito gato fez um destroço em você. Isto segue tudo para o osso. As lacerações precisam unir-se. Não há nada que possa fazer exceto suturar as feridas. Eu não gosto como se vê isto. Você não ajuda de movendo tanto.

–Terei isso em mente – Rachael murmurou as ressentidas palavras em voz baixa. Fechou os olhos para bloquear a visão de seu próprio sangue. Enquanto isso, e apesar de tudo, ela era profundamente consciente de sua mão sobre sua nua coxa–. Obviamente você é um desses machos que só se vêem nos filmes, quem pode receber quarenta e sete patadas nas costelas e continuar na briga. Não preste atenção em mim por parecer humana.

–O que está dizendo? – Sua cabeça girou ao redor, seus olhos enfocados sobre seu rosto.

Rachael podia sentir seu olhar cravado diante dela mas se negava a lhe dar a satisfação de olhá-lo. Ou à agulha. Ela já tinha caído uma vez, não acreditava que uma segundo round ganhasse nenhum ponto.

–É minha imaginação ou se transformou em um leopardo? – Não qualquer leopardo. Não um leopardo nublado como seus dois gatos de companhia – Não como esses pequenos gatos. Estou falando de um grande, de tamanho real, predador, homem come leopardos – Ela podia ter gemido ao minuto que as palavras abandonaram sua boca. Isso era absolutamente ridículo. Ninguém se transformava em um animal selvagem. Agora ia pensar que se tornou completamente louca. E possivelmente o estivesse. A imagem de sua cara contorsionando-se, a cálida respiração, os malvados dentes fechando-se em sua garganta eram muito vívidos. Inclusive havia sentido o toque de sua pele. E esses olhos. Nunca esqueceria esses olhos. Possivelmente não poderia ter imaginado esse predatório olhar. Incapaz de acautelar a si mesma, seu olhar foi à deriva sobre ele, contemplando-o como se nele tivessem nascido duas cabeças. Podia ver que estava realmente fazendo uma impressão.

–É um mau hábito meu – Disse ele de forma casual. Fácil. Como se não se importasse. Como se ela realmente não estivesse louca. E realmente pensava que possivelmente tivesse razão.

Rachael o observou tomar ar, deixando-o sair e tomando a primeira união. Ela tentou afastar sua perna de um puxão dele, sua respiração sussurrava saindo entre seus dentes.

–Está louco? O que acha que está fazendo?

–Fica quieta. Acha que isto é fácil para mim? Perdeu muito sangue. Se não repararmos o dano, não só vai perder a perna, vai morrer.

–Pensava que essa era a idéia.

–O que se supõe que pensasse? Estava aqui, me esperando em minha casa.

–Estava dormindo na cama, não me escondendo atrás da porta pronta para abrir sua cabeça – Ela o brocou com o olhar. Rio voltou sua cabeça outra vez para olhá-la. Rachael teve a graça de ruborizar-se. O sangue gotejava descendo por sua têmpora à escura sombra de barba que crescia sobre seu rosto – Pensei que estava tentando me matar. Estava, não é certo?

–Se eu a quisesse morta, acredite, estaria morta e teria enterrado seu corpo no bosque. Permanece quieta e corta o bate-papo. Em caso de que não a tenha advertido, estou empapado e tenho algumas feridas próprias das quais me encarregar.

–E todo este tempo pensava que era um macho e não tinha que preocupar-se dessas coisas pequenas.

Murmurou algo em voz baixa, estava segura de que não eram cumprimentos, antes que uma vez mais se inclinasse sobre sua perna.

Rachael se rendeu ante a idéia de ser uma verdadeira heroína diretamente saída dos filmes. Tinha estado tentando fanfarronar só para concentrar-se em algo mais que não fosse a muito aguda dor em sua perna, mas ele não colaborava com sua pequena costurinha. Sentia-se como se ele serrasse sua perna com uma folha desafiada. Não podia só agarrar o travesseiro e afogar-se porque sua mão não trabalhava apropriadamente. Podia ouvir alguém gritando. Um odioso e detestável som que não parava. Um elevado lamento manteve concentrada sua respiração, fazendo impossível manter-se imóvel.

Com cara sombria, Rio a manteve deitada enquanto trabalhava. Esteve agradecido quando finalmente sucumbiu à dor e ficou estendida imóvel, sua respiração acelerada, seu pulso pulsando. Seu suave gemido o fazia chiar os dentes corroendo seu coração.

– Demônios Fritz, tinha que lhe tirar a perna? – Tinha levado perto de uma hora a meia luz, com minúsculos pontos, trabalhar sobre o exterior. Endireitando-se, suspirou, limpando o suor da cara com o dorso de suas mãos, manchando com seu sangue o resto de barba de sua cara. Agora podia acrescentar torturar a uma mulher a sua longa lista de pecados. Retirou-lhe o cabelo para trás, franzindo o cenho ante seu pálido rosto – Não morra – Ordenou, tomando o pulso. Tinha perdido muito sangue e sua pele estava fria e úmida. Ia entrar em choque – Quem é? – Cobriu-a com os lençóis e voltou a levantar o fogo para esquentar um enorme caldeirão de água e acrescentar uma pequena panela para fazer café. Ia ser uma noite longa e precisava de um estimulante.

Os gatos deitados perto do fogo, já dormiam, mas despertaram quando Rio os examinou em busca de feridas. Murmurou-lhes, nada que tivesse sentido realmente, mostrando seu carinho por eles com estupidez quando os desverminava e despenteava sua pelagem. Nunca admitiu para si mesmo que lhes tinha carinho, mas sempre se alegrava quando escolhiam permanecer com ele. Fritz bocejou, mostrando seus longos dentes afiados. Franz lhe deu uma cotovelada dormindo. Normalmente brincalhões, os dois leopardos estavam esgotados. Enquanto lavava as mãos, Rio começou a reparar em quão incômodas eram suas molhadas roupas. Cada músculo em seu corpo doía agora que se permitia pensar neles. Tinha que limpar e suturar suas próprias feridas e a perspectiva não era agradável. Sua mochila estava ainda fora estendida contra o tronco de uma árvore e necessitava os conteúdos do enorme kit médico que sempre levava.

Enquanto esperava pela água da panela investigou sua casa em busca de algumas evidências de quem era ela e por que estava ali.

–Pequena chapeuzinho vermelho, o que fazia caminhando pelo bosque? – Jogou uma olhada à mochila que continha suas roupas – Vem da elite. Um montão de dinheiro. – Reconheceu as etiquetas de grife por ter resgatado a mais de uma vítima rica – Por que estaria perambulando sozinha por meu território? – Seu olhar se transladou a seu rosto, uma correia de seda espremida em sua mão. Não queria dar vida à pergunta que tinha em mente murmurando-a em voz alta. Por que sofria cada vez que olhava seu rosto pálido? Por que sentia como se tivesse um nó em seus intestinos, cada vez que via a marca de seus dedos em sua garganta? Como demônios as tinha engenhado para o fazer sentir culpado quando ela era a única tinha que invadido seu lar, preparando-se esperando por ele?

O café o esquentava por dentro e o ajudava a esclarecer a névoa de seu cérebro. Ficou de pé diante dela, sorvendo o quente líquido e estudando seu rosto. Ela pensava que desejava com tanto desespero a informação para torturá-la por isso.

–Que informação? O que sabe para que alguém deseje tão desesperadamente feri-la por isso? – A idéia disso provocava que se elevasse o demônio de seu interior.

Agitou-se ante o som de sua voz, movendo-se inquieta, a dor revoando sobre seu rosto. Afastou-lhe o cabelo com uma gentil carícia, querendo aliviá-la, sem querer que despertasse já que ele não poderia aliviar seu sofrimento.

A eletricidade correu através de seu corpo, faiscando através da ponta de seus dedos e açoitando sua corrente sanguínea. Cada músculo em seu corpo se contraiu. Cauteloso, deu um simples passo atrás. Sentia a mudança elevando-se nele, ameaçando tomá-lo em seu cansado estado. Inclinou-se sobre ela e pressionou seus lábios contra sua orelha.

–Não cometa o engano de trazer minhas emoções à vida – Sussurrou a advertência, apenas audível com o tamborilar da chuva contra o teto e o uivo do vento nas janelas. Essa era a única advertência que podia lhe dar.

Rio tirou os projéteis da escopeta, metendo-os no bolso e depositando a arma em um pequeno espaço fora da vista. No momento em que abriu a porta, a chuva o alcançou, penetrando em suas empapadas roupas. A tormenta não mostrava sinais de amainar, o vento soprava sem piedade através das árvores. Os ramos estavam escorregadios, mas se moveu atravessando facilmente apesar do dilúvio de água.

Rio se ajoelhou ao lado de sua mochila para alcançar seu rádio. Duvidava que pudesse dar com alguém ali na densa selva com a furiosa tormenta, mas o tentou repetidamente. Não gostava do aspecto das feridas dela e ia entrar em choque. A selva tinha uma curiosa maneira de decidir as coisas e ele a queria a salvo em alguma parte sob o cuidado de um doutor. Quando a estática foi a única réplica jogou uma olhada para a casa com preocupação, amaldiçoando os leopardos, a mulher e todas as coisas nas quais podia pensar. Levantou-se precipitadamente, devolvendo a rádio ao interior da mochila antes de voltar para sua casa.

Rachael pensou que devia estar dormindo, presa em meio de um pesadelo, um filme de terror que passava uma e outra vez. Havia sangue e dor e homens convertendo-se em leopardos com o fôlego quente e malvados dentes. Havia uma estranha sensação de flutuação como se a tivessem tirado do que queira que tinha acontecido, mas a dor se empurrava perto dele, abrindo passagem com através de seu corpo, insistindo em não ser ignorado. Deixou escapar lentamente seu fôlego, temerosa de abrir os olhos, temerosa de que se não o fizesse, estaria presa para sempre nesse mundo de pesadelos. E estava cansada de estar assustada. Parecia como se estivesse estado assustada toda a vida.

Uma rajada de ar anunciou que não estava sozinha. A porta se fechou bruscamente. Os dedos de Rachael se curvaram ao redor do lençol apertando-a em um punho. Elevou seus cílios só o suficiente para ver, esforçando-se em manter a respiração.

Seu atacante deixou cair uma enorme mochila ao lado da pia e revolveu tudo, tirando várias coisas e as deixando sobre a mesa com cuidado. Suas costas ficou de frente a ela quando deixou cair sua jaqueta perto da mochila. Levava uma pistolera em seus ombros alojando uma pistola com aspecto letal. Entre seus ombros se colocava uma capa de couro com a manga de uma faca se sobressaindo. Tomou ambas as armas e as pendurou em um gancho ao lado da lareira.

O homem se voltou ligeiramente quando se sentou em uma das cadeiras, fazendo uma careta como se o movimento o machucasse. De sua bota tirou outra pistola, comprovou o carregador e a deixou sobre a mesa perto de sua mão. Só então se desprendeu de sua camiseta. Ela captou uma olhada de um imenso peito, muito musculoso. Parecia ser um homem normal. Não havia pelo excessivo, nada de cabelo, só sangue e manchas roxas. Um pouco de tensão se filtrou fora de Rachael. Ele gemeu, o som era quase inaudível. Havia um tom de repugnância. Seu peito e estômago levavam cicatrizes. Havia uma recente ferida da qual emanava sangue através de seu estômago e uma pequena sanguessuga marrom presa a sua pele. Voltou-lhe as costas.

Rachael deixou escapar a respiração, os músculos de seu estômago se contraíram. Tinha cicatrizes nas costas. Várias delas. E tinha outra sanguessuga.

–Tem outra em suas costas. Venha aqui e lhe tirarei – O pensamento de tocar a sanguessuga era asqueroso, mas a adoecia ver a coisa presa sobre ele como um parasita.

Seus ombros ficaram rígidos. Nenhum grande movimento, mas um que lhe dizia que o tinha surpreendido e que não gostava das surpresas. Voltou a cabeça, um lento movimento igual ao de um animal. A respiração de Rachael ficou presa em sua garganta. Seus olhos brilhavam igual aos de um gato na escuridão. As chamas da lareira saltavam em suas profundidades amarelo esverdeadas. Houve um longo momento de silêncio. Uma lenha chiou e se moveu. As faíscas voaram.

–Obrigado, mas passo. Estou acostumado a elas. – Soou brusco e mal-humorado inclusive para seus próprios ouvidos. Diabos, tudo o que ela tinha feito era lhe oferecer ajuda. Não havia necessidade de arrancar sua cabeça – Acredito que tem o pulso quebrado. Não tive tempo para enfaixá-la – Não podia recordar ninguém lhe oferecendo ajuda antes. Raramente passava uns poucos minutos em companhia de outros, e sua estreita proximidade era perturbadora. O fazia sentir-se vulnerável de maneira que não podia entender.

Rachael olhou um pouco surpreendida seu pulso quebrado. A dor irradiando de sua perna a consumia até o ponto de que não tinha advertido seu pulso.

–Suponho que é isso. Quem é?

Viu-o tomar tempo antes de responder, tirando a sanguessuga de seu estômago com a facilidade da prática e desfazendo-se dela. Seus estranhos olhos se enfocaram imediatamente nela.

–Rio Santana – Obviamente ele estava esperando uma reação a seu nome.

Rachael piscou. A intensidade de seu olhar fazia que seu coração se acelerasse. Nunca tinha ouvido seu nome antes, estava segura disso, ainda assim algo nele parecia familiar. Mudou de posição e a dor a atravessou como uma faca.

A impaciência cruzou voando seu rosto.

–Deixe de se mover. Começará a sangrar outra vez, e nem sequer limpei o primeiro destroço.

–Passou muito tempo trabalhando em suas maneiras, não é verdade? – Observou ela.

–Tentou me golpear a cabeça, Senhora. Não acredito que precise que me dê uma lição sobre maneiras. – Falou cruzando a sala para tirar a faca da capa.

Seu coração deu um salto, então se centrou em um lento batimento. Cada coisa a respeito da maneira em que se movia recordava um animal. As chamas da lareira fizeram que a folha da faca brilhasse com um horripilante vermelho alaranjado enquanto a segurava.

–Deixa de me olhar como se tivesse duas cabeças – Explodiu ele, soando mais impaciente que antes.

–Estou olhando o que você faz com essa enorme faca. – Disse ela. Sua perna palpitava com dor, forçando-a a apertar os dentes e tentar relaxar. Como se supunha que ia deixar de mover-se quando se sentia como se estivessem usando uma serra sobre sua carne?– E eu não tentei golpear você na cabeça exatamente. Não era nada pessoal.

–A faca é para tirar a sanguessuga das minhas costas. Não posso alcançá-la de outra maneira – Explicou ele, embora por que se sentia inclinado a explicar o que era perfeitamente óbvio, não sabia – E sempre tomo como algo pessoal que alguém tente arrancar minha cabeça dos ombros.

Ela fez uma careta. Uma feminina expressão de exasperação. E o fez com pequenas linhas brancas de dor ao redor de sua boca. Isto o fascinou, essa expressão totalmente feminina. Seu estômago fez um tombo estranho.

–Não me ouviu me queixar quando seu pequeno mascote mastigou minha perna. Os homens são tão crianças. Não é sequer maior que uma incisão.

Teve o impulso de rir. Saiu de nenhum lugar, tomando-o por surpresa, rompendo sobre ele inesperadamente. Não riu, é obvio, entretanto franziu o cenho ante ela.

–Furou minha cabeça.

–Você vai furar as costas com essa faca. Deixa de se fazer de super macho e me permita tirar essa horrível coisa.

Suas sobrancelhas se arquearam de repente.

–Quer que ponha uma faca em suas mãos, minha senhora?

–Deixa de me chamar minha senhora, está começando a me incomodar. – A dor a golpeou agora tão forte que quis levantar-se outra vez. Isto definitivamente fazia difícil pensar. Manteve o temor coberto com sua usual conversa, mas não seria capaz de mantê-la durante muito mais tempo. E não se atrevia a pensar no que aconteceria então.

–Não sei exatamente como se chama. De onde eu venho, minha senhora isso é um cumprimento.

–Não nesse tom de voz. – Objetou ela – Rachael Os… – Se conteve, tratando de dar com um nome, qualquer nome. Não podia pensar claramente, já tinha esquecido seu novo nome, mas era imperativo que ocultasse sua identidade. A dor atravessou sua cabeça, sacudindo seu corpo – Smith.

Se isto fosse possível, suas sobrancelhas se elevaram mais.

–Rachael Os Smith? – Sua boca se suavizou por uns breves instantes, um oxidado intento de sorriso. Ou careta. Não podia dizê-lo. Sua visão estava começando a nublar.

Rio se aproximou dela, sua boca se torceu uma vez mais em uma careta.

–Está suando – Colocou sua palma sobre a testa dela –. Não pegue uma infecção. Estaremos presos aqui sem ajuda pelo tempo que durar a tormenta.

–Assegurarei-me de seguir suas ordens, Rio, porque tenho o poder para determinar isso, sabe? – O olhar de Rachael seguiu o caminho da faca quando este se aproximou dela – Se não me deixa te ajudar agora, não acredito que vá ser capaz de fazê-lo – Sua voz era divertida, pouco sólida e longínqua–. Essa horrível sanguessuga vai ficar simplesmente aí, fazendo-se enorme com seu sangue. Possivelmente seja uma sanguessuga fêmea e vai ter bebês e todos eles viverão sobre suas costas, sugando seu sangue. Uma pequena comunidade de sanguessugas. Quão perfeitamente adorável.

Ele murmurou algo em voz baixa.

–E não me amaldiçoe ou me porei a chorar. Vou dar o melhor de mim aqui e você não vai dar trabalho.

Seus dedos eram gentis sobre seu cabelo inclusive embora não quisesse tocá-la.

–Não se atreva a chorar – O pensamento era mais alarmante que se alguém viesse para ele com uma pistola. Suas lágrimas possivelmente removessem seu interior – A morfina já não surte efeito, não é verdade? Não a subministrei muita por que temia que entrasse em choque.

Dela escapou uma pequena risada carente de humor. Soava à beira da histeria.

–Estou em choque. Acredito que me tornei louca. Pensei que se transformaria em um leopardo e tentaria arrancar minha garganta.

Ele deslizou a ponta da faca entre suas costas e a sanguessuga, atirando-a ao chão e desfazendo-se rapidamente dela.

–Os leopardos não arrancam gargantas. Remoem a garganta e sufocam a suas presas – Afundou um pano em um balde de água fria e enxaguou o rosto dela –. São assassinos limpos.

–Obrigada pela informação. Eu não gostaria de pensar que minha morte seria um assunto sujo.

Rio estava incomodamente consciente de seu olhar estudando seu rosto. Seus olhos eram grandes, muito velhos para o resto dela. Havia algo triste nas escuras profundidades que atraíam seu coração. Seus cílios eram incrivelmente longos, cobertos por suas lágrimas. Realmente sentiu como se estivesse caindo em suas profundezas, uma gasta e totalmente ridícula noção com a qual estava se inquietando. Seu coração começou a golpear em seu peito. Antecipando algo que ele não conhecia. Deliberadamente passou o pano sobre seus olhos, uma suave carícia para salvar-se de cair sob seu feitiço.

–É sempre tão sarcástica ou devo atribuí-lo ao fato que está grandemente dolorida?

Rachael tentou rir, mas só saiu um ofegante soluço.

–Juro que isto parece como se minha perna estivesse ardendo.

–Está inchada. Vou te dar um pouco mais de analgésico e enfaixar seu pulso – Os dedos de Rio se arrastaram por seu cabelo, uma espessa massa de seda. Havia uma estranha cor rodeando seu corpo, igual a uma sombra que não queria partir. Não importava quantas vezes piscasse, ou se esfregasse os olhos com a mão para esclarecer sua visão, a estranha cor rodeando-a persistia.

–Acredito que precisa se encarregar de si mesmo – Disse Rachael, seu olhar vagabundeando sobre seu rosto. Ele teve a física sensação de uns dedos que o tocavam com uma leve carícia. Ela não parecia advertir o efeito que tinha sobre ele e o agradecia–. Parece cansado. Honestamente neste momento não posso sequer sentir meu pulso, embora acredite que o analgésico é uma boa idéia. Possivelmente uma enorme dose de analgésicos – Rachael tentou fazê-lo sorrir fazendo uma brincadeira. Se não encontrasse algo para deter a dor ia pedir lhe que a nocauteasse. Tinha um punho enorme.

Estava tremendo sob o lençol, um claro sinal de febre. Tinha tratado a ferida com antibióticos antes, mas era óbvio que não ia ser o bastante. Rio jogou umas pílulas em sua mão e a ajudou a sustentar a cabeça para engoli-las. Apertou os dentes, mas um pequeno som parecido ao de um animal ferido, lhe escapou.

–Sinto muito, sei que dói, mas tem que fazer que baixem – Se tinha vindo aqui para assassiná-lo, estava sendo um completo estúpido, mas não se importava. Tinha que tirar o desespero de seus olhos. Parecia tão necessitada que retorcia com força seus intestinos em pequenos nós. Subministrou-lhe outra pequena dose de morfina junto com os antibióticos e esperou até que seus olhos se nublaram antes de enfaixar seu pulso. Sua pele estava quente, mas não descuidaria de suas próprias feridas muito mais ou ambos estariam com problemas.

Rachael se sentiu indo à deriva. A dor estava aí. Não queria retorcer-se e provocá-lo, mas podia dirigir a intensidade de que flutuava na superfície. Rio se afastou dela com sua curiosa graça animal. Intrigava-a. Tudo a respeito dele a intrigava. Não podia evitar olhá-lo fixamente, embora tentasse pensar em outras coisas. O vento. A chuva. Os leopardos saltando em sua garganta. Sua pálpebras caíam. Escutou a chuva e tremeu. Antes tinha estado ardendo, agora se sentia inexplicavelmente fria. O som da chuva caindo sobre o telhado a incomodava. Não podia ouvi-lo movendo-se ao redor da casa. E não porque a tormenta afogasse os sons, ele simplesmente estava quieto. Igual a um grande gato da selva.

 

Rachael se forçou a abrir os olhos para mantê-lo à vista. Sentia-se sonolenta, desconectada da realidade. Rio estava a vários passos dela, perto da estufa. Enganchando casualmente os polegares em seu jeans molhados, separou-os de seus quadris, expondo devagar suas nádegas firmes e seu traseiro musculoso. Tratou de não ficar boquiaberta enquanto ele se lavava, usando água quente da estufa. Era cuidadoso, seus músculos se flexionavam enquanto trabalhava. Recordou às estátuas que tinha visto na Grécia, os músculos definidos e bem proporcionados do corpo ultra masculino. O que ocorria era que estava completamente sem roupa em casa. Parecia que tinha esquecido que ela estava no quarto, não mostrando nenhuma modéstia absolutamente.

Acendeu um fósforo e sustentou a agulha que tinha usado para costurar sua perna antes de realizar a mesma tarefa em seu braço. Rachael o ouviu jurar quando molhou seu quadril com o mesmo maldito líquido que tinha usado com ela. Evidentemente guardava grandes provisões para preencher o pequeno frasco. Deu-se a volta ligeiramente enquanto costurava seu quadril e ela conseguiu uma vista frontal. Olhou as colunas gêmeas das coxas e cada parte que era tão bom ou melhor que as anatomicamente corretas estátuas.

–Tem um belo corpo.

Rachael nunca tinha chamado a atenção sobre o fato de que estava nu. As palavras escaparam antes que pudesse censurá-las, ou talvez alguém mais as havia dito. Olhou ao redor para ver se estavam realmente sozinhos. Havia dito isso depois de tudo e quis dizê-lo. A honestidade de sua voz nem sequer a fez se ruborizar ou dar a volta quando a examinou com seu penetrante olhar.

Rachael o olhava abertamente, inspecionando-o do modo em que poderia olhar a uma escultura formosa. Sorriu sonolenta

–Não se preocupe por mim. Acredito que são as drogas que falam. Nunca vi um homem com um corpo tão bonito como o seu.

Não havia convite em sua voz, nem deliberada sedução, só uma simples e honesta admiração. E isso era o que o fazia tão malditamente sexy. Não tinha estado pensando no sexo. Ou em pele suave. Ou em seios cheios. Ou em cabelo sedoso. Ela cheirava como uma maldita cama de flores. Doía-lhe como o demônio. Estava cansado e nervoso, não entendia o que acontecia com ele. E agora seu corpo reagia a sua voz. Ou a suas palavras. Ou a seu aroma. Quem sabia? A necessidade perfurou seu estômago e endureceu seu corpo como uma rocha. Estava furioso com ela. Com ele. Com sua carência de controle. Agora estava malditamente excitado e tinha uma mulher doente em sua cama. E maldição, se tinha que agüentar isso, ela somente poderia olhá-lo.

Terminou de costurar seu quadril, muito consciente de seu fixo olhar. Não parecia lhe incomodar que ele estivesse excitado e preparado, e que estivessem completamente sozinhos. Os olhos dela estavam muito brilhantes, sua pele avermelhada com o calor apesar dos estremecimentos contínuos. Por sorte, a dor da feia incisão sobre seu quadril expulsou o calor de seu corpo pelo qual a luxúria não foi tão brutalmente exposta.

Rio não a olhou mas sentiu seus olhos sobre ele. Quentes. Olhando fixamente. Devorando-o. O pensamento fez que lhe doesse tudo. Jurou outra vez. Inclusive com a dor de costurar suas próprias feridas, o olhar dela, olhando seu corpo endurecido, fez que uns martelos golpeassem em sua cabeça e as têmporas lhe palpitassem.

–Vai me olhar fixamente toda a noite? –grunhiu-lhe as palavras. Uma ameaça. Uma promessa. Vingança nas linhas de seu corpo. Voltou a cabeça e então a confrontou, permitindo que o desejo nu flamejasse, somente para assustá-la como o inferno.

Sorriu serenamente.

–Sinto muito. Estava olhando fixamente? É somente que é o homem mais bonito que já vi. Pensei que se morresse, não poderia ser uma coisa tão má como última imagem.  

Desarmou-o somente com isso. O poder que dirigia era espantoso. Nada o havia tocado do modo como ela o fazia. Com um olhar, uma simples palavra. Somente o tom de sua voz. Ele se afogava e isto não tinha sentido. E isso o fez zangar-se. Só que não estava seguro de com quem estava zangado.

Ela ainda estava olhando-o fixamente, seus olhos enormes. Rio se aproximou a passos largos e pressionou a palma contra sua testa.

–Está ardendo.

–Sei.

Ele estava de pé contra a cama, sua virilha ao nível de seus olhos. Rachael pensou que era extraordinário. Ela flutuava em uma neblina sonhadora, onde nada parecia muito real. Exceto Rio e seu corpo incrível. Estendeu a mão para tocá-lo, não acreditando que pudesse ser nada mais que um sonho.

As pontas dos dedos acariciaram a cabeça do pênis e quase o enviou até o teto. Seu toque era leve como uma pluma, apenas ali, mas o sentiu vibrando por todo seu corpo.

–É real – Parecia intimidada e seu fôlego era quente ao longo de seu eixo, endurecendo cada músculo do corpo. Seus dedos se arrastaram sobre sua pesada ereção, deslizando-se por seu testículo e abaixo a sua coxa, era uma sensação que nunca tinha experimentado.

–É uma coisa malditamente boa que esteja ferida – Disse bruscamente, afastando-se, por medo de que ela pudesse ir mais longe. Com medo que ele pudesse deixar. E nunca se perdoaria se caísse tão baixo. Nunca tinha querido tanto a uma mulher. Era o modo como o olhava. O som de sua voz. A honestidade. Intelectualmente sabia que era a febre que falava, despojando-a de sua inibição natural, mas não podia evitar reagir. Febre ou não, ela gostava do que via. Caminhar era uma tortura, seu corpo tão duro que tinha medo de que com cada passo se rompesse em pedaços, mas se afastou.

Rio encheu um tigela com água fria e alcançou um pano. Quando se girou ela estava olhando-o fixamente outra vez. Suspirou.

–Xinga muito, não é?

–Tem um modo de me fazer sentir como se o precisasse – Disse e arrastou uma cadeira ao lado da cama – Tenho que conseguir que baixe a febre.

Rachael riu brandamente.

–Melhor se vestir então. Não acredito que nada mais vá ajudar.

–Sabe o que está dizendo?

Ela franziu o cenho ante o tom de voz

–Não sei. Deveria mentir?

–Sempre diz a verdade?

Era um desafio. Seus olhos se encontraram.

–Quando posso. Prefiro a verdade. Sinto-o se te faz sentir incômodo. Somente parecia tão em casa sem a roupa. Não pensei que pudesse ser real. Pensei que eu tinha inventado você – Seu olhar foi à deriva sobre seu peito, descendendo para inspecionar seu estômago plano, o pelo escuro e sua virilidade grossa movendo-se entre as fortes colunas de suas coxas–. Não estou em realidade segura de onde estou ou como cheguei aqui. Não é estranho?

Ela soava perdida. Vulnerável. Seu estômago fez aquele salto mortal estranho que começava a associar com ela.

–Não importa – Rio limpou seu rosto com o pano fresco e úmido –. Está a salvo comigo e isso é tudo o que importa. Não me preocupa se quer me olhar fixamente. Suponho que é adulador ter uma mulher como você me admirando.

–Que tipo de mulher eu sou?

–Uma doente – Jogou para trás a colcha, desejando não ter alimentado o fogo da lareira, nem sequer para a água quente que necessitava para limpar as feridas. Pelo bem de ambos, precisava esfriar o quarto – Vou abrir a porta durante uns minutos. O vento deveria ajudar. Não se mova.

–Não o pensava fazer. Sinto-me estranha, pesada, como se não pudesse me mover.  

Rio não fez caso de seu comentário, abrindo a porta para permitir que o vento limpasse o quarto do aroma de sangue e infecção. A flores. O aroma de uma mulher. O ar fresco se precipitou pelo quarto, açoitando as mantas que cobriam as janelas, e puxando o cabelo de Rachael. Ao suave brilho da lanterna, podia ver que seu rosto estava avermelhado, seu corpo muito quente.

–Rachael – Disse seu nome brandamente, esperando atraí-la parcialmente para que entendesse o que lhe acontecia – Vou abrir sua camisa. Não estou tentando paquerar você, somente tento esfriar seu corpo.

–Parece tão preocupado.

–Estou preocupado. Está muito doente. Não tenho muitos remédios comigo. Tenho um pequeno conhecimento de ervas, mas não sou tão bom quanto o curandeiro local da tribo – Se sentou na cadeira e se inclinou sobre ela, seus dedos roçando a suave pele enquanto deslizava os botões pelas casas para abrir a camisa. Seus seios cheios o chamavam, a chamada era muito mais forte do que tinha esperado. Tocá-la parecia familiar e correto. Rio afundou o pano na água e banhou sua pele, tratando de ser impessoal quando tocá-la era tudo menos impessoal.

–Minha perna dói. – Rachael tratou de estirar-se para tocar a ferida, mas Rio agarrou sua mão.

–Isso não ajudará, trata de pensar em outras coisas - Ele precisava pensar em outra coisa. A água fria transformou seus mamilos em duros e convidativos picos – Conte-me o que está fazendo aqui.

Seus olhos se arregalaram.

–Não vivo aqui? – Ela olhou ao redor, seu olhar movendo-se pela habitação e voltando para ele – Não nos mudamos pra cá? Pensei que queria viver em algum lugar onde pudéssemos estar sozinhos e permanecer nus todo o dia.

Suas palavras golpearam uma lembrança profunda de sua memória. Uma visão de outro tempo e lugar. Chuva caindo brandamente contra o terraço. Uma brisa agitando as cortinas em uma janela aberta. Rachael dando voltas em uma cama esculpida ornamentadamente, seus escuros olhos chocolate cheios de amor. Com aquela mesma admiração honesta. Uma risada suave se projetava como um filme em sua cabeça. Sua voz. Suave, sensual e pecaminosa tentação.

A emoção o afogou. Não sabia o que sentia, só que isto o rodeava.

–Eu disse isso? – O pano se movia sobre a elevação de seu seio, insistiu no vale e escorregou por debaixo de seus seios suavemente – Me surpreendo às vezes. Isso soa a uma idéia muito boa.

–Quando olha para você, há uma luz que te rodeia – Sua expressão era travessa, brincalhona – Eu diria um halo, mas certas partes de sua anatomia parecem afastá-la da santidade.

–Ou me elevar a esse estado – Não tinha nem idéia de onde vieram as palavras ou o tom brincalhão e familiar. Ele era sempre brusco e áspero com os forasteiros, embora Rachael não parecesse uma forasteira. Molhou o pano na tigela de água e o permitiu remontar a suave elevação de seu seio. Inclusive parecia familiar para ele. Conhecia seu corpo com intimidade. Sabia que havia uma pequena marca de nascimento diretamente em cima de suas nádegas sobre o lado esquerdo se lhe desse a volta. Conhecia a sensação de afundar a língua em seu atrativo umbigo e ir descendo lentamente mais abaixo. Conhecia exatamente o sabor dela. Estava em sua boca, um sabor forte, meloso, picante que sempre o deixava ansiando mais.

–Conhece-me, Rachael? – Inclinou-se perto, seu olhar capturando o seu – Quando me olha, conhece-me?

Ela tirou a mão para fora de modo que as pontas dos dedos descansaram sobre sua coxa nua.

– Por que me pergunta isso? Certamente que o conheço. Eu gosto de estar na cama com você, seus braços ao redor de mim, escutando a chuva. Escutando o som de sua voz e as histórias que conta. – Seu sorriso estava longe, sonhador – Isso sempre foi minha coisa favorita.

Ela ardia pela febre. Seu corpo estava tão quente a seu toque que ele tinha medo de que o pano fosse se irromper em chamas. Banhou seu braços e a nuca, começando a ficar desesperado. O vento refrescou o quarto mas seu corpo estava avermelhado com um vermelho brilhante. Sua perna estava suja, torcida e infectada, o sangue gotejava da ferida. Seu estômago deu sacudidas.

–Rachael – Disse seu nome desesperado. Sua palma estava queimando um buraco através de sua pele onde ela a tinha deixado.

–Tem medo por mim.

–Sim – Respondeu honestamente. Porque o tinha. Por ambos. Estava tão confuso quanto ela. Bruscamente se levantou e rondou através do quarto até estar de pé na porta aberta. O vento se extinguia, uma calma antes do golpe da seguinte onda. Estava mal-humorado, agitado e incômodo em sua própria casa. A selva fazia gestos, as taças das árvores balançando-se, as folhas quase prateadas enquanto sussurravam ao redor dele com sua própria e estranha melodia. Encontrou o som calmante em meio de sua incerteza.

Rio conhecia Rachael intimamente, embora nunca tivesse posto os olhos sobre ela. Certas coisas eram familiares, mais que familiares, quase uma parte dele, como respirar. Passou uma mão por seu cabelo, necessitando a paz da selva. O olhar fixo de Rachael o seguia a qualquer parte onde fosse.

–Olhe.

Não girou, não quis encontrar a evidente apreciação em seu olhar quando o olhava. Não gostava do fato de que o calor entre eles era uma coisa tangível quando ela estava tão obviamente doente.

–Estou olhando.

Soava divertida e por alguma razão, seu estômago fez aquela coisa idiota de saltar que associava com ela.

–Durma, Rachael – Ordenou ele severamente – Vou tentar o rádio outra vez, e ver se posso conseguir alguma ajuda para você. Posso ser capaz de levá-la daqui a alguma área aberta onde podemos trazer um helicóptero para levá-la ao hospital.

Rachael franziu o cenho, sacudiu sua cabeça com óbvio alarme.

–Não, não o faça. Ficarei aqui com você.

–Não entende. Pode perder sua perna. Não tenho remédios nem a habilidade apropriada que precisa. Deste modo, vai ter uma massa de cicatrizes, e isso se consigo salvá-la.

Ela seguiu sacudindo a cabeça, seus olhos brilhantes que lhe suplicam silenciosamente. Seu estômago se apertou. Bruscamente, deu um passo fora, de noite, arrastando o ar a seus pulmões. Estava prendendo-o com nós. Não sabia por que. Não o entendia. Não gostava ou o queria. Não sabia quem era ou de onde vinha. Não precisava dessa complicação ou do perigo.

–Condenada mulher – Resmungou enquanto estirava seus braços para a chuva. As gotas caíram, sobre sua pele quente, frescas e tentadoras. Suas veias ferviam de vida, palpitavam de desejo. Inclusive longe dela, sentia sua presença.

Não era totalmente humano, nem leopardo. Era uma espécie separada com as características de ambos. E era perigoso, capaz de matar, capaz de grandes ciúmes e arrebatamentos de caráter. O animal nele freqüentemente dominava seu pensamento, uma criatura ardilosa, inteligente, mas com defeitos. Tinha que estar sozinho, um reservado e solitário ser por escolha. Poucas coisas o tocavam em seu mundo cuidadosamente resguardado. Havia algo em Rachael que o inquietava. Mal-humorado. O medo brilhou nele, turvou as bordas do seu controle.

–Maldita mulher – Repetiu.

Estirou-se outra vez, querendo a liberdade da mudança. Querendo sair na noite e simplesmente desaparecer. O estado selvagem se elevou nele como um presente, estendendo-se de tal modo que sua pele picou e suas garras se alargaram. Sentiu os músculos fluir como aço por seu corpo. Cheirou o aroma selvagem do gato, alcançou-o, abraçou-o. Um meio extraordinário de deixar para trás Rio Santana e tudo o que era, tudo o que tinha feito. A pele ondulou sobre seu corpo. Seus músculos se retorceram, os ossos se romperam enquanto isso sua espinho dorsal se fez flexível, enquanto seu corpo tomava a forma do leopardo.

O leopardo levantou sua cabeça e cheirou a noite. Inalou o aroma da mulher. Deveria havê-lo rejeitado, inclusive miserável longe, tão forte como em sua forma humana. O gato agitou a ponta de sua cauda, pela plataforma ao redor do corrimão sob as janelas e depois saltou a um ramo da vizinha árvore. Apesar da chuva torrencial, o leopardo correu facilmente ao longo da rede de ramos, uma estrada em cima da selva florestal. O vento arrepiou sua pele e soprou em sua cara mas isso não podia liberá-lo do aroma atrativo da mulher. Cada passo longe dela lhe provocava inquietação.

O leopardo deu um suave grunhido de protesto, seguido de um rugido de mau humor. Ela não o deixaria sozinho. Aonde ele ia, ela ia com ele. Em sua mente. Em seu revolto estômago. Em sua virilha. Ele rastelou suas garras ao longo do tronco de uma árvore, rasgando a casca em um ataque de vil caráter, arrancando tiras largas. Ela se aderia a ele, não o deixaria ir. A chuva deveria ter refrescado seu sangue quente, mas não fez nada exceto avivar os rescaldos que ardiam dentro dele.

Rio deveria ter sido capaz de desfazer-se de suas preocupações humanas e escapar na mente do animal, mas podia saboreá-la. Senti-la. Ela estava em todas as partes aonde ia, em tudo o que fazia, no ar ao redor dele. Não havia nenhuma lógica ou explicação disso. Era uma forasteira, sem um verdadeiro nome ou passado, mas de algum modo lhe tinha consumido. Alarmava-o. Não confiava nela, e pior, não confiava em si mesmo.

Voltou para a casa em silêncio, andando devagar ao longo do atalho florestal para dar-se tempo para pensar. Não deveria importar tanto que pensasse nela. Era natural. Não tinha tido uma mulher desde por volta de muito tempo e agora uma jazia em sua cama. Rio disse a si mesmo que tinha que ser o que era. Um simples caso de luxúria. Que diabos poderia ser quando nem sequer a conhecia? Satisfeito de havê-lo resolvido, saltou às árvores e voltou para casa usando a rota mais segura e mais rápida.

Rachael flutuava em algum lugar entre o sonho e a consciência. Não podia entender onde estava. Tudo parecia estranho, nada era como sua casa. Às vezes pensava que ouvia vozes sussurrando, gritando, exigindo coisas que não podia lhes contar. Outras vezes pensava que estava perdida na selva com animais selvagens que a espreitavam. Tratou de mover-se, de arrastar-se fora do estranho e nebuloso mundo onde parecia estar encerrada.

–Como uma bolha – Disse ela em voz alta – Vivo em uma casa de cristal e se alguém lançar uma rocha, romperei-me em pedacinhos junto com as paredes – Olhou ao redor, franzindo o cenho, tratando desesperadamente de recordar como tinha chegado a esse lugar tão estranho. Sua voz soava diferente, longínqua e nada como ela.

E a dor rasgava através dela com cada movimento que fazia. Tinha sido ferida? Torturada? Alguém tentava matá-la. Por que não terminavam com o trabalho em vez de abandoná-la meio morta? Sempre tinha sabido que isto ia acontecer cedo ou tarde.

Algo se moveu fora da janela. A manta tecida cobria o vidro, mas ela sabia que algo tinha passado. Esforçando-se para ouvir, olhou ao redor grosseiramente em busca de uma arma. Tinham vindo finalmente por ela? Seu coração começou a pulsar com alarmante força e sua boca parecia como algodão. Uma apatia letárgica se apropriou de seu corpo. Podia ouvir o rangido do fogo, o ritmo constante da chuva. A sede a dominava, fazendo necessário levantar-se, mas era difícil, como se abrisse caminho por areias movediças. O intento de sentar-se enviou dardos de dor por sua perna. Encontrou a si mesma no chão, sua perna torcida debaixo dela. Surpreendida, Rachael olhou ao redor do quarto, tratando de recordar onde estava e como tinha chegado ali, tratando de enfocar a habitação. O que estava errado com ela? Não importava com quanta força o tentasse, sua mente rechaçava funcionar corretamente. O abajur estava ardendo intensamente. Não recordava havê-la aceso. Seu olhar se moveu à porta. A barra não estava travada.

Rachael tragou, um nó apertado de medo bloqueava sua garganta, e a contra gosto olhou abaixo para inspecionar sua perna inútil. Sua panturrilha e tornozelo eram irreconhecíveis, inchados quase até explodir. O brilhante sangue vermelho se filtrava e gotejava, fazendo que seu estômago se revolvesse. Tinha sido atacada por um animal selvagem. Recordou claramente seus olhos. A inteligência ardilosa, o perigo penetrante. O terror se derramou sobre ela, quase a paralisando. Foi só então, quando olhou ao redor do quarto, e notou os dois leopardos enroscados perto da lareira. Alguém a olhava fixamente. O outro parecia estar dormido.

Começou a arrastar-se pelo chão. Era puramente instintivo, a causa do medo. Rachael não podia enfocar sua mente o bastante para saber o que estava acontecendo. Aterrorizava-lhe recordar o fôlego quente em sua cara. A sensação de dentes agudos rasgando sua perna. Olhos olhando-a fixamente com intenção mortal.

Arranhando a parede ficou de pé, apertando os dentes contra os soluços que lhe queimavam a garganta, o suor turvava sua visão. Tirando a arma da capa, apoiou-se contra a parede, a única coisa que a sustentava de pé. Seus braços pareciam como de chumbo e era quase impossível apontar com a arma ao leopardo, mal podia vê-lo.

A porta se abriu balançando-se e Rio entrou, levando madeira em seus braços, imediatamente seus olhos não lhe tiraram a vista de cima. Seu cabelo pendurava em úmidas mechas, seu corpo nu coberto de gotinhas. Lentamente fechou a porta com seus pés e cruzou o quarto para deixar a lenha com cuidado, quase diretamente diante dos leopardos.

–Abaixe a arma, Rachael – Sua voz era muito baixa, mas tinha uma dura autoridade – Tem um gatilho sensível. Respira e poderia disparar.

–Estão justo detrás de você – Respondeu Rachael, sujeitando-se à parede como apoio– Não os vê? Está em perigo – Tentava recordar quem era ele, alguém muito familiar para ela. Seu formoso homem nu. Recordava a sensação de sua pele sob as pontas dos dedos – Depressa, afaste-se deles antes que o ataquem – Inspecionou seu corpo, viu os riscos sangrentas sobre seu ventre, seu quadril. A incisão sobre seu quadril – Está ferido.

–Estou bem, Rachael – Manteve sua voz tranquila, calma – Me dê a arma.

–Faz calor aqui – De repente ela soava como uma criança desesperada –. Não faz calor? – Ela limpou o suor do rosto com o dorso da mão para esclarecer sua visão.

Rio estreitou os olhos e a olhou, amaldiçoando silenciosamente quando a arma passou perto de seu rosto. O sangue de sua perna era muito brilhante, sugerindo a necessidade de uma ação imediata. O canhão da arma se agitou, muito perto de sua têmpora. Ela se balançou ligeiramente. Ele se moveu, com indiferença, manobrando a uma melhor posição.

–Está bem, Rachael – Deliberadamente usou seu nome, sua voz calmante, persuasiva. Deu outro passo – São só mascotes. Panteras nubladas. Pequenos gatos, realmente.

Os olhos dela estavam muito brilhantes. Olhou-o com o cenho franzido. Seguiu limpando os olhos em um intento de desfazer-se da imagem imprecisa.

–Olhe o que me fizeram na perna. Separe-se deles e não lhes dê as costas.

Ele se moveu com uma velocidade inesperada, golpeando a arma longe com a mão quando se balançou em sua direção, seu corpo golpeando o dela, defendendo-a protetoramente enquanto uma explosão ensurdecedora reverberou na pequena habitação.

Seu corpo pressionou com força contra o dela, seus seios suaves empurrando contra seu peito, seu rosto contra seu ombro. As pernas dela se dobraram e começou a deslizar-se ao chão.

Rio a agarrou nos braços, embalando-a perto de seu peito. Estava ardendo de febre.

–Tudo está bem. – A acalmou, tratando de ignorar o ruído surdo sinistro da bala golpeando o metal e o que isto significava para eles – Não lute Rachael, está a salvo.

Ela se moveu contra sua pele molhada agitadamente, a dor a fazia sentir-se doente. A pele dele estava fresca em comparação com a sua e queria pressionar-se mais perto.

–Conheço você? Como é que o conheço? – Franziu o cenho, entortou os olhos para olhar atentamente seu rosto. Fez um esforço para levantar a mão, para traçar a linha forte de sua mandíbula, seus maçãs do rosto, sua boca.

Com muito cuidado, Rio a deitou sobre a cama, tentando não golpeá-la. Emoldurou seu rosto com as mãos, forçando-a a enfocá-lo.

–Pode me entender? Entende o que te digo?

–Certamente que posso. – Durante um momento seus olhos se limparam e sorriu. Não de maneira sexy, era mas bem angélico, e ele o sentiu até nos dedos dos pés – Em caso de que não o tenha notado, não leva roupa.

Rachael se afundou no travesseiro.

–Apague a luz por favor, Elijah, estou realmente cansada.

Houve um pequeno silêncio. Algo profundamente dentro dele começou a arder. Algo escuro e perigoso. Rio agarrou sua mão esquerda, seu polegar deslizando-se sobre seu dedo anelar para encontrá-lo nu. Atraiu seus dedos para assegurar-se de que não havia uma linha bronzeada que proclamasse que recentemente tirou um anel. Não tinha nem idéia de por que o aliviou, mas o fez.

–Rachael, trata de seguir o que te estou dizendo. É importante – Levou sua mão a seu peito, sem compreender por que o fazia, sustentando-a ali sobre seu palpitante coração – Tenho que cauterizar a ferida. Sinto muito, mas é o único modo de salvar sua perna. Acredito que a bala golpeou a rádio, mas inclusive se não o fez, não posso levá-la a ninguém com este tempo. A segunda onda da tormenta golpeia agora e há três fortes frentes vindo.

Rachael continuou sorrindo

–Não sei por que parece tão preocupado. Eles não nos encontraram e não penso que possam.

Rio fechou seus olhos brevemente, lutando para respirar. Desejava que seu sorriso fosse para ele, não para um desconhecido chamado Elijah. Isto ia ser um inferno e delirava tanto que não podia prepará-la para o que ia vir. Tinha realizado o procedimento uma vez antes e inclusive então tinha sido desagradável. Afastou-lhe o cabelo da testa. Olhava-o com muita confiança.

–Somente vou fazer o que tem que ser feito. Peço perdão antes do tempo.

Ela poderia ver a relutância e a aversão em seus olhos.

–Está bem, Rio, entendo. Faço-o. Tinha que acontecer cedo ou tarde. Sinto ter te pedido para se encarregar disso. Posso ver que o incomoda.

–Me encarregar de que? – Incitou-a. Estava tranquilizando-o, tentando fazer seu trabalho mais fácil.

–Sei que Elijah me quer morta. Sei que o enviou. Parece tão cansado e triste. Esta errado de sua parte lhe pedir isso.

Rio xingou suavemente, agachando-se ao lado dela. Seus olhos estavam frágeis, sonolentos inclusive, mas mostravam inteligência. Acreditava que ele estava ali para matá-la, inclusive o olhava como se compadecesse.

–Por que Elijah a quer morta?

Ela piscou, agarrando fôlego com uma onda de dor.

–Importa? Somente faça.

–Vai deixar que a mate? – Por alguma razão sua apatia o fez enfurecer-se. Ia deitar se ali e animá-lo a tomar sua vida? Quis sacudi-la.

Aquele mesmo pequeno sorriso puxou sua boca. Parecia longínqua outra vez, girando devagar sua cabeça longe dele.

–Inclusive se me dá um pau muito grande eu não seria capaz de levantá-lo. Terei que passar de ser aquela heroína que recebeu quarenta e sete pancadas nas costelas e seguiu adiante. Não acredito que possa levantar minha cabeça.

Inclinou-se mais perto.

–Rachael? Está comigo outra vez.

Soava como a mulher que o tinha golpeado na cabeça.

–Fui-me? – Fechou os olhos – Oxalá não houvesse tornado. O que está errado comigo? Aonde fui?

–Estive passeando. Não tenho nenhuma opção, tenho que trabalhar em sua perna.

–Então se ponha a isso. Está tão cansado que vai cair sobre seu rosto se não o fizer – Fez um esforço para elevar seus cílios e estudar seu rosto por debaixo das pesadas pálpebras – Não vou culpá-lo se isto doer – Seus olhos estavam claros e naqueles momento lúcidos – Não quero perder minha perna, assim custe o que custar, faz o que seja necessário para salvá-la

Rio não ia falar mais disso. A aversão para a feia tarefa brilhou tenuemente em seus olhos enquanto se inclinava sobre sua perna. A ferida tinha que ser limpa, lavada a fundo, cauterizada e enfaixada com mais antibióticos. Tinha realizado a cirurgia uma vez fora no campo quando um amigo tinha sido alvejado e sangrava profusamente, e o helicóptero não podia recolhê-los imediatamente. Pequenas gotas de suor salpicavam seu corpo, entrando em seus olhos lhe nublando a visão enquanto colocava a folha de sua faca sobre as chamas.

Abrir a ferida para permitir que a infecção saísse fez que seu estômago se revolvesse. Ela gritou quando verteu o anti-séptico, quase saltando fora da cama. Vacilou só um momento, apoiando seu peso sobre suas coxas, e tomando um profundo fôlego pôs a folha da faca contra sua carne. O aroma o pôs doente. Não se apressou, não querendo cometer nenhum engano, foi cuidadoso para limpar e reparar, antes de enfaixar a perna para mantê-la imóvel, para lhe dar uma melhor probabilidade de curar-se.

Não podia olhá-la enquanto limpava o leito e remetia as mantas ao redor de sua perna para mantê-la imóvel. Não tinha se movido fazia muito, sua respiração era baixa, sua pele estava úmida. Definitivamente em choque. Rachael estava tremendo em reação. Rio amaldiçoou brandamente. Relaxou-se a seu lado, estirando-se ao longo da cama, arrastando-a perto dele, incapaz de pensar em que mais podia fazer.

–Rio? – Rachael não se separou dele, em troca se aconchegou mais comodamente contra ele como um gatinho –. Obrigada por tentar salvar minha perna. Sei que foi difícil para você – Sua voz era débil. Ele mal entendeu as palavras.

Rio esfregou o queixo contra o topo de sua cabeça, soprou os fios de cabelo que se engancharam na barba de vários dias.

–Trata de relaxar, não posso te dar mais calmantes durante um momento. Somente me deixe abraçá-la – Seus braços se apertaram com posse. Ao mesmo tempo algo apertava seu coração como umas tenazes –. Contarei para você um conto.

Seu corpo se amoldava ao dele. Curvou-se ao redor dela, coxa contra coxa, suas nádegas embutidas contra sua virilha, sua cabeça empurrava segura contra sua garganta, e encaixava ali como se tivesse sido feita para ele. Seus seios eram cheios e suaves e empurravam contra seus braços comodamente. Tinha deitado com ela antes. Não uma vez, mas muitas vezes. A lembrança de seu corpo estava gravada em seu cérebro, em seus nervos, na carne e nos ossos.

Esfregou sua bochecha na massa de sedoso cabelo. Não era todo físico. Sentia algo por ela. Estava vivo ao redor dela.

–Não é necessariamente uma coisa boa – Disse em voz alta –. Sabe, verdade?

Rachael fechou os olhos, desejando que seu corpo deixasse de tremer, querendo que a dor retrocedesse embora só fosse durante um breve espaço de tempo para lhe dar um momento para respirar normalmente. Rio era uma âncora a que se aferrava, uma parte da realidade que tinha. Quando fechava seus olhos, via homens retorcendo-se, a pele ondulando sobre seus corpos, olhos brilhando de um feroz amarelo–esverdeado. Naquele mundo de pesadelo o som de armas explodiu e sentiu o golpe de uma bala. Olhou aqueles mesmos olhos inteligentes e viu a dor e a loucura. Ouviu sua voz gritando Não. Isso era tudo. Simplesmente não.

–Preciso ouvir sua voz – Porque isso afugentava os demônios. Conduzia o aroma de pólvora e sangue fora de sua mente, e amava a carícia profunda de seu tom.

–Não conheço muitas histórias, Rachael. Eu nunca tive alguém me contando contos na hora de me deitar – Estremeceu pela aspereza de sua voz. Era só que ela tornava brandas suas vísceras e o fazia difícil recordar que poderia ter sido enviada para matá-lo. Acreditava na lógica e o modo como o afetava não era lógico.

–Contarei um quando me sentir melhor – Ofereceu.

Ele fechou os olhos. Ela era como um presente, entregue a ele. Enviado a seu mundo implacável de violência e desconfiança.

–Bem – Concedeu para agradá-la – Mas tenta dormir. Quanto mais dormir mais rápido se curará a perna.

Rachael tinha medo de dormir. Medo de dentes e garras e de toda a dor que os acompanhava. Tinha medo de perder a tênue atadura à realidade. E se assim era, seguia esquecendo quem era Rio. Parecia familiar. Reconhecia sua voz, mas não podia recordar sua vida juntos. Quando lhe falava, flutuava no som de sua voz. Quando suas mãos se deslizavam sobre sua pele quente, sentia-se segura e querida.

Rio contou um absurdo conto sobre bonitos e ursos que inventou. Não tinha sentido, de fato era um conto de fadas terrível e mostrava que não tinha imaginação, mas ela estava tranqüila, deslizando-se em um sonho irregular e isso era tudo o que importava. Se a mulher queria um conto todas as noites, ia ter que afiar a toda pressa umas habilidades inexistentes e aprender a inventar contos interessantes.

Suspirou, seu fôlego revolveu os cachos de seu cabelo. No que pensava querendo ser capaz de contar histórias na hora de deitar-se? Não podia imaginar uma coisa tão ridícula, não podia imaginar-se por que o desejava. Uma mulher própria? Por quê? Para compartilhar uma casa no profundo do bosque? Compartilhar uma vida de morte e violência? Não sabia nada sobre mulheres. Tinha que tirá-la de sua vida tão rapidamente quanto fosse possível.

Rachael murmurava brandamente em seu sonho, agitado, irregular. Um protesto suave contra os pesadelos que se arrastavam em seu sonho. Rio a acalmou com algumas tolices murmuradas, ignorando a dor que trazia para seu coração. Ignorando as lembranças estranhas de sua cabeça e o endurecimento de seus músculos. Embora seu corpo estava esgotado, seu cérebro estava vivo com a atividade. Nem sequer o acalmavam os sons normais do bosque.

Permaneceu escutando-a, o medo rompendo em ondas sobre ele com o pensamento de que ela sucumbisse ao envenenamento do sangue. Sua pele queimava contra a sua. Banhou-a em água fria, mantendo a porta aberta com o mosquiteiro pendurando tanto na porta como ao redor da cama.

Apagou a lanterna para impedir que os insetos entrassem. A chuva persistia, um ritmo constante até o seguinte golpe tormentoso aproximadamente uma hora mais tarde. Ventava com bastante força para fazer voar a chuva através da pesada folhagem. Rio se deslizou da cama, cruzando o quarto para fechar a porta. Esteve muito tempo olhando para fora à escuridão, aspirando o aroma da chuva, a chamada da selva. Um coro de rãs macho cantava desafinadamente, caçando alegremente companheiras, acrescentando o chamariz ao bosque. Durante um momento o selvagem estava sobre ele, lhe golpeando com a necessidade de trocar, de escapar. Mas a chamada da mulher era mais forte. Suspirou e fechou a porta firmemente, deixando fora o vento e a chuva. Deixando fora os sons embriagadores de seu mundo. Avançou lentamente para a cama, puxando uma manta leve sobre ambos, rodeando-a com os braços e soldando seu corpo ao dele. Estava esgotado, mas o seu corpo levou tempo relaxar, a sua mente permitir ir-se. Caiu dormido com uma faca sob o travesseiro e uma mulher nos braços.

 

Eram pesadelos. Simplesmente um a seguir de outro. Rachael sentia que vivia em muita dor e escuridão onde nada tinha sentido exceto pela voz de tom baixo de um homem que murmurava para consolá-la. A voz era seu salva-vidas, atraindo-a da escuridão onde os dentes e as garras destroçavam seu corpo, onde as balas assobiavam ao redor e se estampavam em corpos, onde o sangue fluía e horríveis criaturas se escondiam para atacá-la.

As sombras se moviam pela habitação. A umidade era opressiva. Um gato rugiu. Outro respondeu com um pigarro parecido a um grunhido. Os sons estavam perto, a não mais de uns poucos pés dela. Cada músculo de seu corpo reagiu, contraindo-se de terror, incrementando a dor da perna. Não podia mover o corpo e quando girou a cabeça, não pôde ver o suficiente da habitação para localizar a fonte desses selvagens sons de gato.

Às vezes o vento soprava uma refrescante rajada que cruzava a habitação e se deslizava sobre ela. A chuva não parava de cair. Um contínuo, firme ritmo que de uma vez a acalmava e a irritava. Sentia-se presa e claustrofóbica, confinada na cama como estava.

Era humilhante necessitar que um homem cobrisse cada uma de suas necessidades, especialmente quando a maior parte do tempo não era consciente de quem era ele. Às vezes pensava que estava louca quando as imagens dos pesadelos a respeito de um homem que tomava a forma de um leopardo se repetiam uma e outra vez em sua cabeça. Havia momentos em que conhecia o homem, onde era alagada pelo amor e a ternura, e momentos onde enfrentava um estranho olhar felino que a atemorizava e fazia que seu coração pulsasse desenfrenadamente por causa do terror. A passagem do tempo era impossível de determinar. Às vezes era de dia, e outras de noite, mas o único com o que contava era com a voz para que a guiasse através dos pesadelos e a ajudasse a encontrar o caminho de volta à realidade.

Olhou sem ver para o teto, tratando de não alarmar-se pelos sons de gatos selvagens tão próximos a ela quando nem sequer podia vê-los. Através da janela, viu novamente uma sombra que se movia, fora no alpendre. Seu coração se acelerou. O piso rangeu.

Rio captou movimento pela extremidade do olho e deu a volta no momento em que Rachael tratava de deslizar-se para um lado da cama. Saltou para ela, as mãos aquietando suas resistências.

–O que acha que está fazendo? – O medo fez que sua voz soasse áspera.

Olhou-o direto nos olhos, afundando os dedos nos seus braços.

–Estão aqui. Ele os enviou para me matar. Tenho que sair daqui – Girou a cabeça para olhar temerosamente para um canto do quarto – Estão ali.

O que fosse que via era real para ela. Estava tão convencida, que fez que sentisse calafrios ao longo da espinha dorsal.

–Me olhe, Rachael – Emoldurou seu rosto com as mãos, forçando-a a lhe dar atenção – Não vou deixar que nada te machuque. É a febre. Vê coisas por causa da febre.

Ela pestanejou rapidamente, seus brilhantes olhos começando a enfocar-se nele.

–Eu os vi.

–A quem viu? Quem quer matá-la? – Ele tinha perguntado uma dúzia de vezes mas nunca respondia.

Tratou de afastar a cabeça e permaneceu em silêncio. Desta vez segurava seu rosto entre as mãos, mantendo-a quieta, enlaçando o olhar com o seu.

–Tem os olhos mais formosos que nunca vi. Seus cílios são tão longos. Por que será que os homens sempre têm cílios bonitos?

Tinha uma forma de desequilibrá-lo, de perturbar sua tranquilidade. Encontrava-o tão exasperante que queria sacudi-la.

–Sabe o estúpido que isso soa? – Reclamou – Me olhe, mulher. Tenho cicatrizes por todo o corpo. Tenho quebrado o nariz duas vezes. Pareço um maldito assassino, não um menino bonito – No mesmo minuto em que as palavras abandonaram seus lábios, lamentou-as. “Maldito Assassino” pendurava no ar entre os dois. Com os dentes apertados afastou o olhar desses olhos enormes, soltando juramentos silenciosamente uma e outra vez.

–Rio? – A voz era suave –. Posso ver a dor em seus olhos. É por minha causa? Machuque você de alguma forma? Eu não gosto de machucar a ninguém, e menos a você. O que foi que eu disse?

Passou os dedos pelo desgrenhado cabelo.

–É obvio tinha que estar perfeitamente lúcida neste momento. Como é isso, Rachael? Faz dois segundos estava tão longe que nem sequer sabia seu nome.

Via-se tão torturado que seu coração deu um tombo.

–Foi acusado de assassinato?

Passeou o olhar por seu rosto, examinando cada polegada… Com olhos que tudo via. Estava seguro que podia vê-lo até a alma. Uma feroz cólera que ardia lentamente, escondida profundamente onde ninguém podia vê-la, explodiu ao liberar-se, um holocausto raivoso que não pôde evitar. Ela deveria ter tido medo. Ele tinha medo. Sabia o que podia fazer com esse tipo de fúria, mas a expressão dela era de compaixão, quase amorosa. A mão sã foi para seu rosto, passando a ponta dos dedos sobre os lábios, deslizando-se ao redor de seu pescoço como embalando sua cabeça, lhe oferecendo, O que? Não sabia. Compaixão? Amor? Seu corpo? Ternura?

Ignorou o primeiro impulso que teve de golpear sua mão para afastá-la. Não podia suportar que o olhasse dessa forma. Em troca tomou os dedos, levando sua palma para o peito nu, sobre o coração que pulsava enlouquecido.

–Não sabe nada sobre mim, Rachael. Não deveria me olhar dessa forma – Não sabia o que sentia, uma mistura de irritação, dor e feroz saudade. Maldição, tinha superado isso. Superado o desejo. Superado a necessidade – Não a entendo – A voz era mais profunda, soava quase áspera –. Nada a respeito de você tem sentido. Por que não tem medo de mim?

Ela piscou. Esses enormes olhos cor chocolate, tão escuros que eram quase negros, olhos nos quais um homem podia perder-se.

–Eu tenho medo de você.

–Agora me está tirando o sarro.

–Não, sério, tenho medo de você – Seus olhos se aumentaram com franca honestidade.

–Bem, maldita seja, por que teria que ter medo de mim quando cuidei que você e renunciei a minha cama por você?

–Não renunciou a sua cama. Ainda dorme nela – Assinalou.

–Não há outro lugar para dormir – Disse.

–Está o chão.

–Quer que durma no chão? Tem idéia de quão incômodo deve ser o chão?

–Que bebê. Acreditei que era super homem – Disse com uma careta risonha –. Tome cuidado ou perderá sua imagem de cara duro.

–E o que acontece com os insetos e as serpentes?

–Serpentes? – Olhou os lados com apreensão – Que tipo de serpentes? Tem gatinhos como amigos. Espero que se refira a serpentes amistosas.

A boca se suavizou mas com um pequeno esforço se absteve de sorrir.

–Não conheci muitas serpentes amistosas.

–De onde vieram seus gatinhos? E como pode ser que não estejam treinados para saudar devidamente os convidados?

–Treinei-os para que fugissem dos vizinhos. Odeio quando se deixam cair sem anunciar-se.

Um cacho de cabelo negro meia-noite lhe caiu sobre a testa. Sem pensar, Rachael o voltou para seu lugar com a ponta dos dedos.

–Precisa de alguém que cuide de você – No momento que disso isso se sentiu mortificada. Não parecia poder controlar a língua com ele. Cada pensamento fortuito simplesmente lhe escapava, sem importar quão pessoal fosse.

–Está solicitando o trabalho? – A voz soava áspera novamente, brotando as emoções, afogando-o.

Estava ocorrendo outra vez, essa estranha distorção do tempo. Sentiu que tomava a mão e olhou para baixo. Sua mão envolvia a dela, e com a ponta dos dedos estava acariciando a suave pele e conhecia cada dobra. Até a forma de seus ossos lhe era familiar. Inclusive tinha a lembrança de ter feito isto mesmo, de sua brincalhona voz percorrendo a espinha dorsal como uma carícia.

Rachael fechou os olhos, mas pareceu distinguir o brilho de lágrimas antes que afastasse o rosto.

–Me diga por que esses gatos ficam aqui todo o tempo. São selvagens, não é? Leopardos Nublados?

Rio olhou o outro lado da sala para ver dois gatos atirados perto do simulacro de fogo. Cada um pesava umas cinquenta quilos, por isso quando golpeavam uma cadeira ou a mesa, faziam tremenda animação.

–São mascotes?

–Não tenho mascotes – Disse mal humoradamente – Os encontrei. À mãe a tinham matado e esfolado. Eu retrocedi sobre seus rastros e os encontrei. Eram muito jovens, ainda precisavam de leite.

Ela voltou a cabeça para ele levantando os cílios assim seu olhar próximo devorou seu rosto. O sorriso que iluminava seu pálido rosto tirou o fôlego.

–Amamentou-os com mamadeiras, não é assim?

Deu de ombros, tratando de não sentir-se afetado pela forma como o olhava. Nela notava uma deslumbrante admiração, um olhar que não merecia. Nunca ninguém o olhava, via-o, da mesma forma em que o fazia ela. Era desconcertante, e ainda assim o acelerava. Perdia uma grande quantidade de tempo tratando de não permitir seu corpo reagir, nem o seu coração. Soltou-lhe a mão, afastando-se da cama rapidamente.

Ela riu dele, um som suave e tentador que sentiu como se houvesse dedos jogando sobre sua pele. Estava começando a sentir-se desesperado. Jazia na cama, com o corpo luxurioso e tentador, o sedoso cabelo derramando-se ao redor da cabeça como um halo. Desejava que só se tratasse da tentação de seu corpo. Isso ao menos teria sentido. Não tinha estado com uma mulher em muito tempo. Curvas de mulher, suave pele, calor e a fragrância do bosque eram uma combinação temerária e podia proporcionar uma desculpa para a feroz reação de seu corpo ante o dela. Mas era muito mais que isso. O conhecimento de seu corpo. Lembranças de sua risada. Sussurros na noite, um mundo secreto que compartilhavam. A mente e o coração reagiam ante sua presença. E maldita seja, se fosse um homem que acreditasse nessas tolices, teria pensado que sua alma a reconhecia.

–Não é assim? – Rachael persistia – Encontrou uns gatinhos bebê e os trouxe para sua casa e os alimentou com mamadeiras.

–Não estou de acordo esfolar animais – Foi conciso.

Ela observou como o vermelho rubor subia pelo pescoço para o rosto. O homem não se sentia para nada envergonhado por andar nu por aí mas ficava vermelho ao admitir um ato de bondade. Esse rubor pareceu adorável.

–Por que sempre anda caminhando por aí nu? Deparei-me com uma Colônia Nudista secreta? Ou acha que desfruto te olhando nu?

–Em realidade desfruta me vendo – Rio sorriu apesar de si mesmo. Era muito aberta na apreciação de seu corpo.

Rachael respondeu com a usual candura.

–Bom, devo admitir que é formoso para observar, mas está começando a me fazer sentir incômoda. Por que o faz?

Sua sobrancelha se disparou para cima.

–Faz que seja muito mais fácil mudar de forma de leopardo para sair a correr pelo bosque.

Ela fez uma careta.

–Ah, sempre é tão gracioso? Suponho que nunca me deixará esquecer isso. Penso que depois do que passou é perfeitamente lógico ter pesadelos sobre homens transformando-se em leopardos malignos.

–Leopardos malignos? – Ele revolveu procurando em um pequeno armário de madeira e voltou com um par de jeans –. Os leopardos não são malignos. Pode ser que sejam predadores naturais, mas não são malignos.

–Obrigado por fazer tal distinção. Não tinha idéia de que houvesse uma diferença. Senti o mesmo quando estavam mastigando minha perna.

–Isso foi minha culpa. Estava enfocado na idéia de que alguém me esperava para me matar.

–Por que alguém quereria matá-lo?

Ele riu brandamente.

–Então, não te parece que é mais lógico que alguém queira matar a um homem como eu que a uma mulher como você?

Queria desviar o olhar, mas estava fascinada pelo jogo de músculos debaixo da pele. O fôlego ficou preso na garganta enquanto o via meter-se dentro dos jeans e subi-los casualmente para cima da forte coluna das coxas e os estreitos quadris. Descuidadamente abotoou um par de botões e deixou o resto desabotoado como se fosse muito incômodo terminar.

Umedeceu os lábios, que subitamente tinham secado, com a ponta da língua antes de poder falar.

–Rio, este é seu lar. Eu sou a intrusa. Se estiver mais cômodo sem roupa, posso viver com isso – A comoveu o fato de que se cobrisse por ela… E parte dela não o queria vestido. Havia algo primitivo e sensual sobre a forma em que caminhava tão silenciosamente através da pequena casa, descalço e nu.

–Não me incomoda Rachael. Está presa na cama e sei que te dói como o demônio. Aprecio o fato de que não se queixe. – Deixou que passasse um batimento do coração. Dois – Muito.

–Muito! – Olhou-o–. Não disse uma palavra sobre disparar contra seus preciosos pequenos gatinhos quando puder sair desta cama. Mas estou considerando. Cria-os mal abominavelmente, e para que saiba, danifica sua imagem de cara duro, a faz migalhas.

Os gatos, em meio de uma violenta luta, golpearam-se contra a beira da cama e toda a bravata de Rachael, que havia custado tanto pronunciar, desapareceu por completo. Ofegou com alarme e se equilibrou para um lado longe deles. Rio, parado ao lado do armário, cobriu a distância entre eles com um salto, fixando-a contra a cama, os olhos verdes subitamente brilhando de uma cor amarela ouro. O rosto a polegadas do dela. Rachael olhou para cima, apertando a manta contra os seios nus, parecendo assustada, tratando de fazê-la valente, tentando-o até quase além de sua resistência.

Agarrou-a entre os braços, com cuidado de evitar que movesse a perna.

–Tem que ter presente em todo momento que não pode se mover. Estou a ponto de ficar sem antibióticos e essa perna não pode voltar a abrir-se. Dê-lhe um par de dias mais.

Rachael era muito consciente do peito nu pressionando contra seus seios, das mãos deslizando-se acima e abaixo por suas costas em um movimento calmante. Mas mais que nada era consciente da distância que havia coberto com um só salto. Uma distância impossível. Inclinou a cabeça para olhá-lo, para examinar atentamente seus traços. Tinha cicatrizes, sim. Tinham-lhe quebrado o nariz mais de uma vez, mas encontrava que era o homem mais fascinante que jamais tivesse conhecido. Os olhos eram diferentes. Mais como os de um gato.

–Está fazendo outra vez – Levantou o queixo, rompendo o contato dos olhos, para esfregar a mandíbula sobre a parte de cima de sua cabeça – Posso ver o medo em seu rosto, Rachael. Se fosse machucá-la, já não o teria feito? – Havia exasperação na voz.

Rachael retrocedeu ante sua lógica.

–Os gatos me deixam nervosa, isso é tudo.

Ele deslizou os dedos para a nuca massageando-a brandamente.

–Depois do que passou, não a culpo, mas não a atacaram. Me deixe apresentá-los. Isso ajudará.

–Antes que o faça, importaria-se de me buscar uma camisa para vestir? Acredito que me sentiria menos vulnerável – E talvez evitasse que seu corpo reagisse ao dele, doíam-lhe os seios ansiando que os tocasse. A perna era um desastre, dolorida e torcida, a febre a consumia, mas ainda assim parecia incapaz de evitar a estranha atração que sentia por ele –. Se seus violentos mascotes decidem me comer para o jantar ao menos deverão trabalhar por ela mastigando através da roupa – Os músculos dele pareciam como aço debaixo de sua muito humana pele – Como fez isso? Como cruzou todo o quarto de um só salto? – Se estava perdendo a razão, era melhor sabê-lo imediatamente – Não imaginei e não é pela febre.

–Não, a febre baixou um pouco – Concedeu enquanto a ajudava a colocar-se em uma posição que a deixava completamente estendida – Vivo no bosque e tenho feito isso quase toda minha vida. Corro por cima e por debaixo dos ramos e salto de uma à outra todo o tempo. Subo árvores e nado no rio. É uma forma de vida.

Deixou escapar o ar devagar, agradecida por essa explicação, não querendo examinar mais profundamente a distância. Talvez pudesse fazer-se. Com prática. Muita prática. Observou-o dar a volta para caminhar cruzando a sala de volta para o armário e cuidadosamente evitou contar cada passo que dava. Caminhava descalço silenciosamente, sem fazer nem um só ruído. Rachael olhou como se espreguiçava, o fazia lenta, lânguida e sinuosamente como um gato. Estendeu as mãos, os dedos bem abertos, sobre a cabeça e passou as mãos pelas paredes. Arqueou as costas para incrementar seu estiramento. As pontas dos dedos delinearam umas marcas profundas de garras, algo que obviamente tinha feito muitas vezes, tantas que as fendas eram suaves. Era um movimento natural, desinibido.

O coração de Rachael esmurrava o peito. Eram os leopardos nublados o suficientemente altos para ter deixado essas marcas? Não acreditava. Precisava de um gato muito maior para alcançar a altura onde se achavam os profundos sulcos.

–Como chegaram essas marcas dentro da casa?

Rio deixou cair os braços aos flancos.

–É um mau hábito. Eu gosto de me espreguiçar e me manter em forma – Tomou uma camisa, cheirou-a e deu a volta com um sorriso travesso – Esta não está tão mal – Estendeu uma camisa azul para que a inspecionasse – O que te parece?

–A meu gosto se vê bem. – Começou a lutar para sentar-se.

–Espere por mim – ele deslizou a manga muito cuidadosamente sobre o enfaixado provisório do pulso –. Tem tanta pressa. – A ajudou a sentar-se, envolvendo-a com a camisa, os nódulos roçando a suave pele enquanto a abotoava. Havia algo muito satisfatório em envolvê-la em sua camisa favorita, e sentia como se o tivesse feita centenas de vezes –. Acredito que sua temperatura está começando a subir novamente, maldita seja.

Ela pressionou a ponta dos dedos contra sua boca.

–Amaldiçoa muito.

–Faço isso? – Arqueou a sobrancelha –. E eu que pensava que estava sendo muito cuidadoso com você. Os gatos não se importam – Estalou os dedos e os dois leopardos nublados se apressaram a ficar a seu lado pressionando-se contra suas coxas.

Rachael se forçou a manter-se absolutamente quieta. Por dentro tinha se convertido em gelatina, mas fazia um tempo tinha aprendido os benefícios de mostrar um rosto composto para enfrentar a adversidade, assim manteve um pequeno sorriso na cara e a expressão serena. A chuva golpeava fazendo que soasse um contínuo tamborilar no teto. Era muito consciente do zumbido dos insetos e do ranger das folhas e ramos contra a parte lateral da casa. Tragou o pequeno nó de medo que lhe bloqueava a garganta e inalou o masculino aroma de Rio. Cheirava a perigo e a campo.

–Estou segura que os gatos não se importam, provavelmente já se contagiaram de seus maus hábitos.

Rio se inclinou mais perto dela como sentindo seu medo, embora esfregou as orelhas dos gatos pressionados contra suas pernas. Podia ver sua têmpora onde o tinha golpeado, uma linha dentada, que já estava sarando, mas vendo-se como se tivesse necessitado pontos. Antes de poder deter-se, tocou-a.

–Isso vai deixar cicatriz, Rio. Sinto tanto. Estava tão ocupado cuidando de mim, que nem sequer teve tempo de cuidar de você mesmo... – Sentia-se envergonhada de si mesma por haver batido nele. Os detalhes do ataque se desvaneceram em comparação com as imagens de pesadelo de homens convertendo-se em leopardos.

–Vai seguir procurando razões para não tocar os leopardos? – Tomou sua mão - Este é Fritz. Falta-lhe uma pequena parte de orelha e as manchas formam um padrão muito parecido a um mapa – Fez que lhe acariciasse as costas com a palma da mão do pescoço do animal ida e volta. Ela tinha a pele ardendo outra vez, seca e quente ao tato. Os olhos estavam brilhantes, tinham adquirido esse olhar muito brilhante que se acostumou a ver.

Rachael fez um esforço supremo para evitar tremer.

–Olá Fritz. Se foi você que mordeu minha perna a outra noite, por favor absten de voltar a fazê-lo outra vez.

A dura linha que era a boca de Rio se suavizou.

–Bonita saudação. Estou seguro de que recordará disso. Este é Franz. A maioria das vezes tem uma disposição muito doce, até que Fritz fica um pouquinho rude com ele, então tem um pouco de temperamento. Às vezes desaparecem por vários dias, mas a maior parte do tempo ficam aqui comigo. Deixo-lhes a decisão tanto se querem ficar ou ir – Pressionou a mão sobre a pele do gato.

Rachael não podia evitar o pequeno estremecimento que a percorria ante o pensamento de estar tocando a uma criatura tão selvagem e elusiva como eram os leopardos nublados.

–Olá, Franz. Não sabia que se supõe que tenha medo dos humanos? – Franziu o cenho–. Não considerou que ao fazê-los mascotes, os tem feito mais vulneráveis aos caçadores que cobiçam as peles?

–Não estão precisamente domados, Rachael. A única razão pela qual a aceitam é porque sentem meu aroma sobre você. Dormimos juntos. É por isso que estou reforçando sua relação com você, para que não haja mais enganos. Escondem-se dos humanos.

–Não estamos dormindo juntos – Objetou agudamente –. E não tenho uma relação com eles e não posso imaginar tê-la alguma vez. Ocorreu a você que não é precisamente normal? Esta não é a maneira em que a maioria das pessoas prefere viver.

Rio olhou seu lar.

–Eu gosto.

Ela suspirou.

–Não quis implicar que não seja agradável – Voltou a mover-se trocando a outra posição com a esperança de aliviar a pulsação de dor da perna.

Retirou-lhe o cabelo da nuca. Estava empapado em suor. Rachael estava nervosa e impaciente, trocando continuamente de posição em um esforço para aliviar seu desconforto.

–Rachael, só relaxe. Prepararei uma bebida refrescante.

Mordeu a língua quando ele se levantou com graça casual. Não tinha a intenção de que tudo soasse como uma ordem…. Estava hipersensível. Rachael tratou de afastar da testa o pesado cabelo. Estava se frisando em todas as direções como sempre ocorria com tão alta umidade. Enquanto jazia ali poderia ter jurado que as paredes começaram a curvar-se para dentro, apanhando-a, tirando o ar da sala. Tudo a incomodava, do som da incessante chuva até os brincalhões leopardos. Se tivesse tido uma sapatilha à mão a teria jogado em um arranque de mau humor.

Desviou o olhar por volta de Rio como sempre fazia. Exasperava-a não poder conter a si mesma o suficiente para deixar de olhá-lo, e saber exatamente o que ia fazer antes que o fizesse. Conhecia a forma como se movia, o gracioso fluir de seu corpo enquanto procurava na geladeira. Conhecia-o. Se fechasse os olhos estaria ali na mente, lhe falando brandamente, estirando-se inconscientemente para afastar seu cabelo do rosto, curvando os dedos sobre sua nuca.

Por que associava cada pequeno movimento que realizava, cada gesto, com os de um gato? Especialmente seus olhos. Estavam dilatados da forma que estariam os de um gato de noite e ainda à luz do dia as pupilas permaneciam quase invisíveis.

–Vale, não há forma em que possa se transformar em um leopardo – Rachael olhou o teto e tratou de trabalhar o problema na mente. Tinha que deixar de fantasiar a respeito dele saltando através das taças das árvores com seus pequenos amigos gatos. Era estúpido e só provava que estava no limite da prudência.

–Sobre que está murmurando agora? – Rio revolvia o conteúdo do copo com uma colher de cabo longo. – A metade do tempo não a entendo.

–Não sou responsável pelo que digo quando estou com febre – Rachael se encolheu um pouquinho ante seu tom. Soava antipática. Estava cansada. E cansada de estar cansada. Cansada de sentir todo tipo de coisas e farta de tratar de adivinhar que era real e que tinha tido lugar em sua enfebrecida imaginação.

–Poderia tratar de não dizer nada – Sugeriu.

Rachael voltou a encolher-se. Sempre falava muito quando estava nervosa.

–Suponho que tem razão. Poderia pôr cara de pedra e permanecer muda olhando as paredes como faz você. Provavelmente nos daríamos melhor – Mais que nada estava envergonhada de ser antipática com ele, mas era isso ou começar a gritar.

Ele voltou o olhar para seu rosto. Estava muito ruborizada, os dedos agarravam a magra manta apertando-a com inquietação. Cada vez que a olhava, sentia essa estranha mudança muito profundamente no interior de seu corpo onde uma parte dele ainda sentia emoções.

–Nos damos bem – Disse resmungão –. Não é você. Não estou acostumado a estar rodeado de gente.

Rachael suspirou.

–Sinto – Por que tinha que ser tão malditamente agradável quando ela queria manter uma animada briga? Teria sido bom descarregar sua frustração com ele e pretender que foi justificado. Lançou-lhe um olhar muito sofrido –. Estou com pena de mim mesma, isso é tudo. Honestamente a metade das vezes não sei o que é o que está acontecendo. Faz-me sentir estúpida – E inútil. Sentia-se tão inútil que queria gritar. Não queria estar presa em uma casa com um completo estranho que parecia tão perigoso como obviamente era na realidade –. É um estranho para mim, não é? – Podia sentir o calor de seu olhar até a ponta dos pés. Por que não se sentia como se fosse um estranho? Quando a tocava, por que parecia tão familiar?

A sobrancelha dele se disparou para cima.

–Está em minha cama. Estive cuidando de você noite e dia durante um alguns dias. Melhor rezar para que não seja um estranho.

Rachael golpeou a cabeça contra o travesseiro, completamente frustrada.

–Vê o que faz? Que tipo de resposta é essa? Acaso cresceu em um Monastério onde ensinavam a falar com adivinhações? Porque se isso é o que está tratando de fazer, acredite, soa mais incomodado e estúpido que misterioso e profético – Soprou para cima para afastar a franja –. Meu cabelo está me deixando louca, tem tesouras?

–Por que sempre está me pedindo objetos afiados?

Pôs-se a rir. O som encheu a sala e sobressaltou vários pássaros pousados no corrimão do alpendre. Tomaram vôo com um ruidoso movimento de asas e um gorjeio zangado.

–Sinto que tenho que me desculpar com você a cada uma ou duas frases. Irrompo em sua casa, uso sua ducha, durmo em sua cama, golpeio sua cabeça e o forço a cuidar de mim enquanto estou semi-inconsciente e irritável. Agora estou ameaçando-o com instrumentos afiados.

–Me ameaçar cortando seu cabelo poderia ser igualmente doloroso – Cortou a distância que os separava e se agachou para olhá-la nos olhos, revolvendo seu cabelo com os dedos. – Ninguém pode me forçar a fazer algo que não quero fazer – A única exceção podia ser a intrigante mulher que jazia na cama, mas não ia admitir diante dela… Ou ante si mesmo –. Seu cabelo já está o suficientemente curto. Não precisa cortá-lo mais – Esfregou as desiguais pontas de cabelo com a ponta dos dedos.

–Estava acostumado a estar muito mais longo. Mas é tão grosso, com a umidade me dá muito calor.

–Encontrarei algo para recolhê-lo e afastá-lo do pescoço.

–Não se incomode, Rio, só estou nervosa – Sua amabilidade a fazia sentir-se envergonhada.

–Essa noite encontrei roupa cheirando a água de rio. Estava no rio?

Ela assentiu, fazendo esforços para concentrar-se.

–Os bandidos nos atacaram. Vieram da selva disparando armas. Acredito que Simon foi ferido. Atirei-me pela amurada e o rio me arrastou.

Os músculos esticaram em reação a essas palavras.

–Poderiam tê-la matado.

–Tive sorte, minha camisa ficou presa em um ramo debaixo da superfície e arrumei isso para nadar para uma árvore caída. A casa foi uma surpresa. Quase não a vi mas o vento soprava tão forte, que limpou algo da cobertura. Tinha medo de não voltar a encontrá-la se começasse a explorar, assim atei uma corda entre duas árvores para que me assinalasse o caminho. Pensei que era uma choça nativa, uma que usavam quando viajavam de um lugar a outro.

–E eu pensei que era um bandido que tinha me espreitado e tinha se organizado para localizar-se à minha frente e estava me esperando. Deveria ter me dado conta, mas estava exausto e dolorido como o inferno. Quem é Simon? – Tinha esperado uma quantidade adequada de tempo, levando uma conversa como um ser humano racional. Podia sentir a intensidade de suas emoções reprimidas mordendo as vísceras. Era inteligente não deixaria que se metesse na alma. Era inteligente, mas ela já estava ali. Não sabia como tinha passado e ainda pior, não sabia como tirá-la dali.

–Simon é um dos homens de nosso grupo da igreja de ajuda médica.

–Assim é um estranho. Nenhum de vocês se conhecia antes desta viagem – O alívio que o alagou o irritou endemoniadamente.

Ela assentiu.

–Todos somos voluntários de diferentes partes do país e nos reunimos para trazer os abastecimentos.

–Quem era seu guia?

–Kim Pang. Parecia muito agradável e me deu a impressão de que era muito competente.

A mão dela repousava na coxa dele onde a tinha posto quando ficou de cócoras ao aproximar-se da cama e sentiu como ficava rígido. Os olhos brilhavam com uma súbita ameaça, enviando calafrios por todo seu corpo.

–Chegou a ver o que lhe aconteceu?

Ela sacudiu a cabeça.

–A última vez que o vi, estava tentando desesperadamente de cortar a corda para permitir que a lancha se libertasse. É seu amigo? – Queria que Kim Pang estivesse a salvo. Queria que todos os outros estivessem a salvo, mas seria perigoso se o guia e Rio fossem amigos.

–Sim, conheço Kim. É um homem muito bom – Passou a mão pela face –. Devo sair e ver se algum deles segue com vida, ver se posso recolher algumas pistas.

–Com este tempo? Já está obscurecendo. Não é seguro Rio. Foram atacados do outro lado do rio – Deveria ir imediatamente. Rachael detestava quão egoísta a fazia sentir-se. É obvio que Rio precisava ajudar a outros se podia, embora não via como podia obter algo contra um grupo armado de bandidos.

Em um súbito arranque de ira contra ela mesma, ou a situação, jogou a magra manta.

–Preciso sair desta cama, desta casa, antes de me tornar completamente louca.

–Devagar, senhora – Rio a agarrou, acautelando qualquer movimento – Só sente-se quieta e me deixe ver o que posso fazer – Havia um brilho de entendimento em seus olhos, como se pudesse ler sua mente e conhecer seus pensamentos egoístas.

Rachael observou Rio sair majestosamente e desaparecer de vista. Podia escutá-lo fazendo ruído no alpendre, o que era incomum dado quão silencioso era habitualmente. O vento ajudava a limpar o opressivo calor e a claustrofobia, mas queria chorar, presa na cama, incapaz de cruzar a pequena distância até a entrada. O mosquiteiro batia as asas com a brisa. Como sempre, Rio não tinha acendido a luz, parecia ser capaz de ver na escuridão e preferi-lo assim.

O pensamento disparou uma lembrança longamente esquecida. Risadas, suaves e contagiosas, os dois sussurrando juntos na chuva. Rio balançando-a entre seus braços e dando voltas em círculo enquanto as gotas caíam sobre seu rosto voltado para cima. A respiração ficou presa na garganta. Nunca tinha acontecido. Saberia se tivesse estado com ele. Rio não era um homem que uma mulher pudesse esquecer nunca ou queria deixar.

–Vamos, vou levá-la para fora. Está chovendo, mas o teto sobre o alpendre não tem goteiras assim pode se sentar fora um momento. Sei o que é sentir-se enjaulado. Deixe-me fazer o trabalho – Disse. Passou-lhe um braço por debaixo das pernas –Ponha seus braços ao redor do meu pescoço.

–Peso muito – Disse precavida, obedientemente entrelaçando os dedos atrás de seu pescoço. A alegria brotando dentro dela, um profundo calor entusiasta borbulhando pela perspectiva de sair da cama, e olhar o céu aberto.

–Acredito que posso ajeitar isso - Ele disse secamente – Prepare-se, quando eu levantá-la, irá doer.

Doeu, tanto que enterrou o rosto contra o calor de seu pescoço, afogando um grito de alarme. A dor irradiou para cima de sua perna, golpeou-lhe no fundo do estômago e explodiu através de todo seu corpo. Afundou as unhas na pele e mordeu com força o polegar.

–Sinto muito, Rachael, sei que dói – Disse suavemente.

Moveu-se suavemente, quase deslizando-se para não haver vibrações para sua torcida perna. Enquanto saia pela porta, o zumbido natural do bosque lhe deu a boa vinda. Os insetos e os sapos, o falatório dos animais, a vibração de asas e o constante som da chuva se fundiram todos juntos.

Rio tinha tirado uma suave e macia cadeira, sua única apreciada posse. Localizou-a com cuidado nela, acomodando a perna em um travesseiro sobre uma cadeira de cozinha. Rachael recostou a cabeça para trás e absorveu o alto dossel de folhas através do fino mosquiteiro. Todo o alpendre estava cercado. Os corrimões eram feitos de ramos de árvores, retorcidas e polidas, misturando-se com as árvores dos arredores de tal maneira que não podia distinguir onde começava o bosque e terminava o corrimão.

Rio se afundou em uma cadeira ao lado dela, segurando um copo de frio líquido.

–Beba isto, Rachael, pode ajudá-la a se refrescar. Em uma hora mais ou menos, posso te dar mais medicamentos para baixar sua febre.

Estava suando mais pela dor que pela febre, mas não queria dizer isso, não depois de todos os incômodos que deu. O vento parecia refrescante sobre o rosto, puxando os selvagens cachos na massa sem remédio que era seu cabelo. Se passasse os dedos através do mesmo antes de tomar o copo que ele oferecia. A mão tremia tanto que um pouco do frio líquido se derramou sobre a beira do copo.

–Rio, me diga a verdade – Olhou atentamente para os troncos das árvores e os ramos carregados de orquídeas de todas as cores – Vou perder a perna? – Tudo nela estava quieto, esperando a resposta, dizendo a si mesma que podia suportar a verdade – Preferiria saber disso agora.

Rio negou com a cabeça.

–Não posso te prometer nada, Rachael, mas o inchaço está cedendo. A febre vai e vem em vez de te abraçar continuamente. Não há mais linhas subindo pela, perna assim penso que evitamos o envenenamento do sangue. O mais cedo que pudermos, levarei-a ao médico e deixaremos que lhe joguem um olhar. Pelo rio podemos viajar bastante rápido.

–Não posso ir ver um doutor – Admitiu relutantemente –. Ninguém pode saber que ainda estou viva. Se descobrirem, estou morta sem remédio.

Observou como os lábios tocavam o copo, como o conteúdo do mesmo se inclinava, a garganta trabalhando enquanto ela engolia. Estirou as pernas em frente a ele, estendendo-se como se estivesse completamente relaxado quando na realidade era justamente o contrário.

–Quem a quer morta Rachael?

–Não é realmente pertinente, não é? Tive a presença de ânimo para lançar meus sapatos à água. Pode ser que os encontrem quando procurarem por mim. E acredite, irão me procurar. Contratarão os melhores rastreadores que possam encontrar.

–Então virão me buscar. Rastrear é ao que me dedico quando não estou provocando os bandidos.

Rachael engoliu o súbito medo que subia pela garganta.

–Genial. Não é como se pudesse fugir de você. Oferecerão a você muito dinheiro para que me entregue – Estremeceu, tratando de parecer natural quando queria jogar-se pelo alpendre e correr –. Ou talvez lhe peçam que me mate em seu lugar. Dessa forma teriam menos problemas.

Pô-lhe a mão sobre a cabeça.

–Por sorte para você, não estou particularmente interessado em me fazer rico. Não preciso de muito dinheiro para viver aqui. A fruta é abundante e posso caçar facilmente e fazer trocas pelas coisas que preciso – Acariciou fios de encaracolado cabelo entre os dedos – Acredito que tenho uma veia preguiçosa. – Sorriu – Além disso, esgrime um malvado pau. Não acredito que queira me meter com você.

–Quando lhe perguntarem, vai dizer onde estou?

–Por que faria isso quando posso conservá-la para mim somente?

Rachael fez escorregar o resto do suco dentro de sua garganta. Era refrescante e doce. Descansou a cabeça no ombro de Rio e se permitiu relaxar. A noite era incrivelmente bonita com tantos tipos diferentes de folhagem e árvores balançando-se brandamente com o vento. A chuva tocava uma melodia de fundo, quase calmante agora que estava fora e soprava a brisa. Podia ver movimento nos ramos, como planadores passando de uma árvore a outro.

–Me deixará adivinhar, ou vai me deixar em suspense? Por que alguém estaria tão decidido a matá-la?

 

–Sabe como chatear uma maravilhosa noite perfeitamente não é? – Rachael não afastou a cabeça da comodidade de seu ombro, mas olhou atentamente para o bosque. As sombras se moviam como um dossel em direção ao chão. Cada rangido criava uma sinfonia de sons, os rangidos e o som dos insetos acompanhavam o vento – Sempre pensei que seria tranquilo. Os limites dos bosques têm muita atividade ao redor dos pântanos. Os peixes saltam e os insetos sempre estão atarefados, mas por alguma razão pensei que no interior todo estaria mais tranqüilo.

–Pensa nisso como se fossem as canções do bosque. Sempre eu gostei de escutar a revoada dos insetos e o som dos pássaros entre as folhas no vento. Se você gostar dessas coisas, é como se fosse música, Rachael.

–Suponho que sim. Por que as pessoas não podem nos deixar em paz Rio? De acordo, escapei. Tanto importa por que o fiz? De quem fugi? Que diferença há se estiver aqui, no meio do bosque?

–É normal que queira e tenha que saber por que alguém quer matá-la. Tem um marido do qual escapou? Alguém rico e o bastante poderoso para seguir seu rastro até aqui? Por que não a deixa ir simplesmente? – Sentou-se a seu lado, ajustando-se perfeitamente às linhas de seu corpo. Ouvindo sua suave respiração. Sua pele era cálida, suave e convidativa. Era algo mais que a atração física, era sua coragem e seu senso de humor. Invadia seus pensamentos e seu sangue. Rio se estirou para colocar seu pulso quebrado em cima do colo para que estivesse o mais cômoda possível – Acredito que é uma pergunta tola. Eu tampouco poderia ter te deixado ir.

Rachael levantou a cabeça para olhá-lo. Um débil sorriso curvou sua boca.

–Isso que disse é algo muito bonito, Rio. Obrigado.

Pareceu sentir-se acossado em vez de agradecido por suas palavras.

–Tem que me dizer o motivo, Rachael. Se for vir alguém te procurando, tenho que estar preparado.

–Não há maneira de preparar-se, assim que possa fazê-lo, continuarei fugindo. Tem que haver algum lugar onde não possam me encontrar. Espero que achem que morri.

–Se Kim estiver vivo, saberá que sobreviveu. É um dos melhores rastreadores que há por aqui. Irá procurá-la porque estava sob sua tutela. O Governo vai se levantar em armas para trazer todo o grupo da igreja trazendo medicamentos que os bandidos roubaram. Vão perseguir a todos. Os povos precisam de ajuda e quão último precisam é uma perigosa viagem pelos rios e os arredores do bosque, perseguindo dois turistas. E se houver alguém mais, alguém do exterior, que obrigue o governo a ir depois dos bandidos, vão fazer uma busca a fundo.

–As pessoas se afogam continuamente e nunca se encontram seus corpos. Kim Pang é seu amigo? Se vier me procurar pode convencê-lo para que diga que me afoguei?

–Kim não mente. Se seguir vivo; coisa que vou averiguar o quanto antes; pedirei que desapareça para que não lhe façam perguntas. Tem uma bem merecida reputação e não deve perdê-la por isso.

Rachael afastou o rosto.

–Eu gostava. Eu gostava mais que dos outros. Não acredito que os bandidos queriam nos sequestrar pelo resgate, acredito que lhes pagaram muito dinheiro para me encontrar.

Rio sacudiu a cabeça.

–Não posso acreditar que alguém a odeie tanto.

–Não disse que ele me odiava.

Sentiu o golpe em seu ventre, a extensão escura do ciúme, os perigosos restos de seu lado animal. Não ia deixar que a paixão o cegasse, era muito perigoso. Agora tinha uma vida da qual desfrutava e que podia viver. Rachael não ia causar sua ruína.

O vento mudou, enchendo seus rostos com gotinhas de água. Rio se inclinou imediatamente sobre ela, protegendo-a da chuva até que o vento voltou a mudar.

–Os bandidos são habituais por aqui, tanto rio acima como rio abaixo. E não só aqui se não em todos os países onde há bosques e rios nos quais desaparecer rapidamente. Indochina, Malásia, Filipinas, Tailândia, todos eles. Não é uma situação única nem anormal. Não a advertiram dos perigos? – Manteve o tom de voz baixo. Não ia trair a fúria que ardia em seu interior. Não lhe pertencia. E nunca ia pertencer.

–As probabilidades parecem estar a nosso favor.

–Vejo-o continuamente. Deveria ter ficado em casa, Rachael. Deveria ter ido a policia.

–Nem todos tem essa opção, Rio. Fiz tudo o que pude dadas as circunstâncias. Só ficarei aqui o tempo necessário até que minha perna cure.

–Acha que isso vai acontecer da noite para o dia?

Sua voz era baixa, quase sensual e suave como o veludo, mas ela teve que conter as lágrimas. Levava o perigo com ela, tanto se ele queria acreditá-lo como se não. Queria pensar que podia afastar-se, manter-se a salvo, mas sabia que ele tinha razão. Não queria voltar nunca mais à realidade que era sua vida. Se esteve o bastante desesperada para desafiar o enfurecido rio, ele devia adivinhar que necessitava um pouco de tempo para poder supor que estava a salvo.

O bosque a chamava, um escuro santuário capaz de ocultar todo tipo de segredos. Por que não a ela? A folhagem e as trepadeiras ocultavam sua casa situada entre os ramos de uma árvore. Tinha que haver um modo de desaparecer no bosque pluvial.

–Rio, sei que vive aqui porque se oculta do mundo. Não pode me ensinar a sobreviver neste lugar? Tem que haver algum lugar para mim.

–Nasci aqui. O bosque é minha casa e sempre o será. Não posso viver na cidade. Não tenho nenhum desejo de viver e trabalhar ali. Não quero nem televisão nem filmes. Vou, consigo meus livros e sou um homem feliz. Uma mulher como você não poderia viver aqui.

–Como eu? – Olhou-o com seus poderosos olhos escuros – Uma mulher como eu? E que tipo de mulher sou, Rio? Eu gostaria de saber, porque diz muito isso. Uma mulher como eu.

Rio não voltou a cabeça, estava divertido e inclusive admirado. Na voz dela havia um tom de desafio tipicamente feminino. Estava sentada em seu alpendre dianteiro, envolta em sua camisa, com a coxa nua colada a sua perna, com uma devastadora infecção e a selva espreitando; e seguia atuando como se estivesse em sua própria casa e inclusive se incomodava com ele.

Em casa com ele. A gosto, como se se conhecessem sempre.

Um pássaro gritou uma advertência, por cima da folhagem. Os macacos pareceram dar uma alerta. Todo movimento no bosque, cessou. Produziu-se um repentino e antinatural silêncio. Só se ouvia o som monótono da chuva. Rio ficou instantaneamente de pé, escondendo-se entre as sombras, elevando o rosto ao vento, farejando o ar como se percebesse o aroma dos inimigos. Estalou os dedos, agachando-se, quando os dois leopardos se moveram silenciosamente pela varanda, como se os tivesse convocado. Um deles mostrou os dentes com um silencioso grunhido. Rio se agachou lentamente, com cuidado para não fazer ruído, rodeou os pescoços de ambos os felinos com os braços e os acariciou enquanto lhes sussurrava algo. Quando se afastou, os dois leopardos subiram às árvores.

Rio levantou Rachael em seus braços. Outra vez seus movimentos foram lentos, muito lentos.

–Não faça nem um só ruído. Nem um som, Rachael – Seus lábios estavam pressionados contra seu ouvido, enviando um pequeno estremecimento por sua espinha dorsal. Moveu-se com agilidade para colocá-la de costas em cima da cama. Estando como estava colada a seu corpo, notou-a tremer, algo se moveu sob sua pele empurrando contra a dela. Perturbou-a por um momento. Suas mãos foram suaves quando a agasalhou, mas ela notou algo afiado ao longo de sua pele, como se algo a tivesse arranhado.

Segurando seu rosto entre as mãos, olhou-a fixamente nos olhos.

–Tenho que me assegurar de que sabe o que faz. Estarei aí – Assinalou a porta aberta – será o melhor. Não pode acender nenhuma luz, Rachael, se não querer delatar seu esconderijo. Terá que ajeitar isso às escuras e te darei uma arma, mas tem que permanecer alerta. Poderá fazer isso?

A voz de Rio era tão só um fio. Rachael o olhou e ficou presa em seu feroz olhar. Seus olhos eram, nesse momento, mais amarelos que verdes, tinha as pupilas dilatadas e olhava fixamente. Parecia um misterioso e inesquecível animal selvagem a ponto de sair à caça. Seu coração começou a palpitar.

–Rachael, me responda. Tenho que saber. – Um brilho de preocupação atravessou seus olhos. Sua expressão era sombria – Vem alguém.

Havia algo completamente diferente em seus olhos. Não era uma alucinação. Seus olhos eram enormes, amplos, olhavam fixamente, havia uma misteriosa tranquilidade neles, algo intensamente perigoso. A pupilas eram três vezes maiores às de nenhum outro ser humano, o permitindo ver na escura noite. Umedeceu os lábios com a língua. Rio não piscou, nem afastou o olhar de seu rosto. Seus olhos pareciam de mármore ou de cristal, vendo tudo, oniscientes, terrivelmente estranhos e, ainda assim, formosos.

–Deve ter uma excelente visão de noite.

As palavras soaram como um sussurro. Estúpida.

Rachael parecia uma menina assustada. Tinha um inimigo real. Não podia enfrentar seres sobrenaturais e assustar a si mesma. Endireitou os ombros, decidida a recuperar-se.

–Acredito que me encontraram, Rio. Farão mal a você se ficar comigo, não se importarão que não saiba nada.

–Pode ser que não seja nada, mas definitivamente temos um intruso. Tenho que me assegurar de que vai estar bem, Rachael. Não quero voltar e me encontrar com quem você deu um tiro sem querer. E não quero que tente atirar em mim.

–Vai, estou bem. Não tenho nenhum problema na vista.

E assim era. Nunca tinha tido nenhum problema em ver de noite, mas parecia ser capaz de ver muito mais claramente que antes. Ou possivelmente fosse simplesmente que se acostumou a fraca claridade do bosque. Só tinha uma mão sã que estava tremendo, de modo que a escondeu sob as mantas. Rachael não estava disposta a choramingar pela sensação de náusea ante a dor dilaceradora que produziu o movimento, não quando ele estava a ponto de sair sozinho para enfrentar o intruso.

Ele comprovou a arma, e a depositou na cama, ao lado dela. Pôs a mão na testa. Estava quente.

–Permaneça alerta, Rachael.

Rio estava pouco disposto a abandoná-la. Algo lhe dizia que estava revivendo uma velha cena: recordava havê-la acariciado, o tato de seu cabelo deslizando-se entre seus dedos enquanto entrava na noite para caçar um inimigo. E quando voltara… Algo apertou dolorosamente seu coração.

–Rachael, tem que estar aqui quando retornar. Tem que viver para mim.

Não tinha nem idéia de por que dizia isso. Não sabia por que o sentia, mas teve a urgente necessidade de adverti-la. Algo tinha acontecido ou estava a ponto de acontecer, outra coisa não tinha sentido. Aparentemente seu cérebro guardava uma memória que dizia que Rachael não deveria estar ali.

–Boa caça, Rio. Que toda a magia do bosque o acompanhe e que a fortuna seja sua companheira de viagem – As palavras saíram de sua boca, e a voz era a sua, mas Rachael não tinha nem idéia de onde tinham saído.

Soube instintivamente que tinha pronunciado umas palavras rituais, mas não como as conhecia nem a que ritual pertenciam; quão único sabia era que as havia dito antes.

Passou a mão pelo rosto em um esforço para desterrar as coisas que não entendia.

–Estarei bem. Posso dirigir uma arma, já fiz isso antes. Você tome cuidado.

Rio a olhou fixamente nos olhos durante um longo instante, temendo afastar o olhar dela e de que quando voltasse, tivesse desaparecido… Ou a encontrasse morta, tentando proteger seu filho desesperadamente. Jogou a cabeça para trás; uma raiva feroz e uma dor terrível se conjugaram em uma bola de emoções impossíveis de entender.

–Sobreviva, Rachael. – Repetiu bruscamente. Uma ordem, uma súplica. Obrigou-se a afastar-se dela e sair.

A mudança já estava ocorrendo em seu coração e em sua mente, o perigoso felino que havia em seu interior apareceu; a pele ondulou em seus braços e pernas, dobrou seu corpo, retorceu-se, os musculos se estiraram e alargaram. Abraçou a mudança, o modo de vida que tinha escolhido, aceitando o poder e a força do leopardo, dando rédea solta na segurança de seu território. Rio estirou os braços, os dedos se estenderam enquanto lhe curvavam os nódulos e as garras arranhavam o chão do terraço, retraindo-se depois.

O leopardo era grande. Sentou-se tranquilamente, levantando a cabeça para farejar o vento. Seus bigodes atuavam como um radar, recolhendo todos e cada um dos detalhes do que o rodeava. Os músculos se esticaram, poderosos e fortes enquanto o animal se agachava e saltava até um grande ramo que se elevava, afastando-se da casa. Moveu-se a favor do vento, sob o dossel de folhas. Quando o leopardo olhou para trás comprovou que as trepadeiras e a folhagem protegiam a casa dos olhares curiosos. Na escuridão era quase impossível distingui-la a menos que se conhecesse sua existência.

O bosque transbordava de informação, do zumbido dos insetos até os gritos de advertência de um pássaro. Rio se moveu rápida e silenciosamente pelos longos ramos, mantendo-se agachado, cravando as unhas na madeira enquanto seguia subindo, as retraindo quando andava entre a folhagem com cuidado para não mover as folhas. O menor dos outros dois leopardos surgiu entre a fechada névoa, com o focinho retraído em um grunhido. Rio ficou completamente quieto, agachando-se mais, levantando a cabeça para farejar o vento.

O intruso não era humano. Imediatamente o caráter feroz do leopardo se elevou e se estendeu com a violência de um vulcão. Rio aceitou a raiva e a ferocidade, canalizou-as profundamente no coração da besta. Moveu-se com a maior precaução, sabendo que estava sendo espreitado, sabendo que alguém de sua própria espécie tinha decidido traí-lo. Seu lábio se elevou em um grunhido silencioso, revelando umas enormes presas. Movendo as orelhas, o leopardo começou a mover-se lentamente entre a abundante vegetação que cobria o chão do bosque. O vento trouxe o aroma do traidor, assinalando sua posição a poucos metros de Rio.

Rio se arrastou através de um ramo grande por cima do descoberto leopardo. Era macho e grande. O animal balançou sua cabeça, alerta, olhando com desconfiança para a árvore onde Rio permanecia agachado e imóvel. Imediatamente, Franz, oculto em algum lugar entre os densos arbustos, pisou deliberadamente um pequeno ramo, partindo-o pela metade. O som retumbou no silêncio do bosque.

O leopardo pintalgado se tranquilizou, agachou-se olhando com atenção na direção onde se encontrava o leopardo menor. Rio aproveitou a oportunidade para aproximar-se, em silêncio, cautelosamente. Franz tinha arriscado sua vida. Se o encontrasse, o leopardo maior o mataria facilmente. O leopardo pintalgado, maior, estava definitivamente de caça.

Rio se moveu com agilidade sobre o ramo de árvore, saltou silenciosamente ao ramo de debaixo, ficou quieto quando o leopardo pintalgado levantou a cabeça para cheirar o vento. Fritz, vários centenas de metros mais distante de Franz, emitiu um grunhido baixo que o vento levou ao interior do bosque. O leopardo pintalgado se agachou, jogou para trás os lábios, separou as orelhas e abaixou a cauda em posição de ataque, olhando atentamente para a direção do som.

Rio se lançou, saltando agilmente de cima. O leopardo pintalgado se voltou no último momento tirando suas enormes garras, arranhando Rio no flanco mas sem poder evitar por completo a mortal dentada de Rio quando lhe cravou as presas na garganta.

Imediatamente o bosque voltou para a vida com o ruído da batalha; os macacos gritavam, os pássaros puseram-se a voar, os morcegos saltaram de árvore em árvore enquanto os dois enormes felinos mostravam presas e garras, rodando pelo chão do bosque e tentando matar-se. Onde antes havia silêncio, agora só havia caos, os animais gritavam advertências uns aos outros enquanto a mortal batalha continuava. Um orangotango, recostado em sua cama de folhas entre os ramos das árvores, lançou com chateio um punhado de folhas por volta dos dois felinos, que lutavam e grunhiam em um perigoso baile de afiadas garras e penetrantes dentes.

Os leopardos usavam seu peso, retorciam-se em posições quase impossíveis, curvando a espinha dorsal, dando voltas um ao redor do outro, lançando-se à garganta do contrário. A batalha foi breve, mas feroz, os grunhidos e os ferozes rugidos reverberavam entre as árvores, diretamente à cúpula de ameaçadoras nuvens que cobriam o céu. As nuvens responderam lançando uma chuva torrencial. Embora as gotas mal pudessem transpassar o teto de árvores, foi suficiente para tranqüilizar os macacos que chiavam e faziam que os pássaros corressem para ficarem cobertos.

O leopardo pintalgado começou a rodar para se livrar do agarre de Rio e pôs-se a correr, subindo nos ramos e movendo-se com rapidez para fugir. O furioso felino se dirigiu intencionadamente para o lugar onde estava o leopardo menor. Rio iniciou a perseguição enviando um aviso de advertência, mas o leopardo pintalgado já estava em cima de Fritz, agarrando seu pescoço entre as presas e sacudindo-o de um lado a outro brutalmente. Deixou-o cair no chão e saltou a tempo que Rio se lançava ao ataque. As garras se cravaram nos quartos traseiros do leopardo pintalgado. Seu uivo de dor fez que os pássaros saíssem voando outra vez, mas seguiu fugindo, cravando as garras nos ramos para escapar.

Rio se lançou rapidamente ao chão para avaliar os danos de Fritz. O outro leopardo tinha produzido uma ferida grave, mas estava vivo. Rio vaiou uma advertência carregada de fúria. Teve que lutar contra sua própria natureza que lhe ordenava perseguir à presa que fugia. Conteve o desejo que ardia em seu estômago exigindo vingança.

Não lhe cabia nenhuma dúvida de que tinha enfrentado um de sua espécie, uma inteligente mistura de leopardo e homem. Tinha ido matá-lo. Rio conhecia quase todos os seus; eram poucos os que viviam no bosque. Muitos estavam dispersos por outros países e alguns tinham decidido viver nas cidades como humanos; mas a maioria não se conheciam entre si. Rio não reconheceu o aroma de seu perseguidor, mas se a astúcia de decidir não matar o leopardo nublado em um arranque de ira. O ataque tinha sido feito a sangue frio e tinha aproveitado o momento oportuno. O leopardo pintalgado sabia que Rio jamais abandonaria ao outro mortalmente ferido, para persegui-lo. E isso lhe indicava mais coisas. Seu perseguidor sabia que Rio viajava com dois leopardos nublados.

Olhou cautelosamente a seu redor, farejando o vento. Seu grunhido era uma demanda de informação dirigida aos habitantes das árvores. O grito proveio de um grupo de macacos. Rio recuperou sua forma humana, permitiu que a dor o invadisse quando músculos e tendões se retorceram, contraindo-se e estirando-se. Agachou-se ao lado do leopardo nublado, avaliando os danos. As feridas eram profundas. Tapou os buracos e pressionou, murmurando palavras tranquilizadoras enquanto o fazia e ignorando os profundos arranhões de sua própria pele.

–Franz, permaneça alerta – Ordenou enquanto levantava Fritz em seus braços.

Rio tinha que manter a pressão por volta das duas feridas de presas enquanto corria pelo bosque, abrindo caminho entre as árvores, saltando sobre troncos caídos, vadeando dois pequenos riachos crescidos pela chuva, percorrendo o desigual caminho tão rapidamente quanto podia. Seus músculos eram os de um leopardo, pensados para levar uma presa grande. Não notava o peso do leopardo nublado, mas em sua forma humana, sua pele não era tão resistente como em sua forma animal, e o bosque lhe produzia feridas enquanto corria por ele.

Rio saltou sobre o robusto ramo que conduzia a sua casa com a facilidade que lhe dava a prática, e, mantendo cuidadosamente o equilíbrio, percorreu o labirinto de ramos até chegar ao alpendre. Chamou para avisar Rachael, com a esperança de que não lhe desse um tiro quando empurrou a porta com o quadril para abri-la. Fritz, recostado nele, girou a cabeça para levantar a vista atemorizado. Os flancos do pequeno leopardo subiam e desciam tentando respirar, com a pele coberta de sangue.

Rachael ofegou, empurrando a arma sob o travesseiro.

–O que aconteceu? O que posso fazer?

A cara de Rio era uma máscara perigosa, feroz, parecia um guerreiro, com os olhos brilhantes de cólera. Olhou-a sem piscar, com todo seu poder, comprovando que estava bem. Rachael   enfrentou seu penetrante olhar.

–De verdade, Rio, deixa que te ajude.

Trocou imediatamente de direção e levou a animal ferido à cama.

–Pode segurá-lo?

Rachael não se alterou pela pergunta. Limitou-se a demonstrar-lhe mantendo uma expressão serena embora seu coração palpitasse e a dor a fez enjoar. Tinha bastante prática em esconder o medo. O felino estava gravemente ferido e, portanto era muito mais perigoso que em seu estado habitual. Sua boca secou quando ele pôs o animal no seu colo e colocou primeiro uma mão e logo a outra nas incisões. Rachael se encontrou com um leopardo de cinquenta quilos no colo e as mãos pressionando o pescoço coberto de sangue.

Rio acendeu o abajur e levou o estojo de primeiro socorros à cama, ajoelhando-se ao lado da cabeça do animal.

–Aguenta Fritz – Murmurou – Sei que dói mas vamos cura-lo.

Não olhou para Rachael, mas sim trabalhou sobre o felino com mãos tranquilas, estáveis e muito seguras.

Tinha a cabeça inclinada, o cabelo negro caía ao redor de seu rosto. Na pele tinha suor e sangue, e cheirava a bosque e a pele úmida. Enquanto se esforçava em curar o felino, seu rosto parecia estar esculpido em pedra.

–As feridas são profundas, como as de sua perna. Eu a costurei, mas deixei que as incisões sangrassem. Vou ter que fazer o mesmo com Fritz. O melhor que posso fazer é limpar as feridas a fundo, lhe dar antibióticos e esperar que não se infectem. Se o fazem terei que abri-las.

Enquanto Rio desinfetava as feridas, Fritz abriu a boca, mostrou suas longas presas e soltou um terrível uivo. Rachael suspirou e manteve o olhar fixo em Rio, em seu rosto em vez de em suas mãos, temendo que se visse os dentes do felino também começaria a gritar.

Franz respondeu a Fritz, passeando, agitado, acima e abaixo sem cessar. Saltou sobre a cama sem prévio aviso, quase esmagando as pernas de Rachael. A dor percorreu o corpo, tomou ar, e soltou um grito estrangulado. Por um instante a habitação pareceu dar voltas e obscurecer-se.

–Rachael! – A voz de Rio era penetrante ao chamá-la. Tirou Franz da cama com o braço – Fica no maldito chão – Grunhiu, com voz carregada de ameaça.

Para surpresa de Rachael, suas mãos ainda tocavam a pele de Fritz. Aplicou mais pressão enquanto sacudia a cabeça.

–Sinto muito, não esperava que fosse fazer isso.

–Tem-no feito bem – Disse ele – Pode continuar?

–Se você puder, eu também – Respondeu ela.

Então a olhou com seus vivos olhos verdes, com algo que ela não pôde identificar, nas profundidades de seus olhos. Seu olhar percorreu seu rosto como se quisesse lhe dar força somente olhando-a. Depois voltou sua atenção ao felino.

Rachael soltou o fôlego devagar, contendo a bílis que subia à garganta pela palpitante dor de sua perna. Havia algo em sua expressão. Algo recíproco, uma conexão. Escutou o som de sua voz grave enquanto falava brandamente com o felino, o tranquilizando enquanto costurava sua ferida. Encontrou-se acariciando a pele do leopardo com a mão livre; o animal tremia mas permanecia imóvel sob os cuidados de Rio.

Rachael esperou até que Rio começou a trabalhar na segunda ferida de presas.

–Como aconteceu?

–Havia um leopardo grande, pintalgado, um macho, no bosque. Atacou Fritz. Por sorte o soltou sem partir sua traquéia.

Ela olhou os profundos arranhões de Rio.

–Enfrentou um leopardo que tentava matar o seu mascote?

Um rápido brilho de impaciência cruzou seu rosto.

–Já disse que Fritz e Franz não são mascotes. São meus amigos, não tentava salvar Fritz, ele estava tentando me proteger e recebeu a pior parte.

Rachael se inclinou sobre o animal que tinha no colo, examinando a parte de orelha que faltava.

–Este é Fritz?

Ele assentiu enquanto dava atenção ao que estava fazendo.

–Esta ferida não é tão profunda quanto a outra. Vou lhe dar algo para a infecção. O leopardo fez isto intencionadamente.

–Por que?

Não o olhou ao fazer a pergunta. Rio tinha falado entre dentes, como se estivessem arrancando as palavras, disse-as sem ser consciente, zangado com o leopardo por ter ferido o felino menor. Pressentiu que Rio estava a ponto de lhe dizer algo muito importante.

Rio a olhou.

–Acredito que estava tentando caçar a um de nós. Mas não estou seguro de quem. A princípio pensei que era para mim, mas agora não estou tão seguro.

Ela ouviu o ruído surdo de seu coração e contou os batimentos do coração. Era um truque que usava quando queria saber mais, mas não queria raciocinar muito rápido. Algo em seu interior se endureceu quando a olhou de frente, com seu penetrante olhar. Havia algo em seus olhos que não podia interpretar. Uma perigosa mistura de animal e homem. Rachael sabia que os olhos dos felinos tinham uma capa de malha reflexiva detrás da retina que os permitia concentrar toda a luz possível inclusive durante a noites mais escuras ou no interior de um bosque em penumbra. Chamava-se «tapetum lucidum» a membrana funcionava como um espelho, permitindo que a luz chegasse à retina uma segunda vez, proporcionando uma máxima visão. A membrana também era a responsável pelas iridescentes cores amarela, verde e vermelho que Rachael tinha observado em Rio e nos leopardos nublados.

–Por que ia querer caçar a qualquer um dos dois um leopardo, Rio? – Cravou-lhe– Não tem sentido que ao enorme felino importasse a qual dos dois matasse e se comesse.

Fez-se um longo silêncio quebrado somente pelo som do vento e da incessante chuva; Franz passeava de um lado a outro, agitado e Rachael estava convencida de que Rio podia ouvir os batimentos do seu coração.

–Não acredito que foi um leopardo dos que você conhece. Acredito que era de uma espécie completamente diferente – A voz de Rio se misturava com os segredos da noite, segredos e sombras que não queria examinar.

Rachael não expressou o protesto que estava a ponto de sair. Estava segura de que Rio não estava sendo melodramático. Não acreditava que soubesse como sê-lo.

–Sinto muito, não estou segura de entendê-lo. Diz que há uma nova espécie de leopardo, aqui sob o bosque pluvial, que não foi descoberta? Ou se trata de uma espécie criada geneticamente?

–Uma espécie que existe há vários milhares de anos.

Ela esfregou os ouvidos do leopardo nublado.

–No que são diferentes?

Ele a olhou então, cravando totalmente seus estranhos olhos nela.

–Não são nem animais nem humanos. São ambas as coisas e nenhuma das duas.

Rachael ficou quieta, arrancou o olhar do poder do dele, recordando algo.

–Faz muito tempo, quando era menina, minha mãe me contou uma história sobre uma espécie de leopardos. Bom, não eram leopardos, eram uma espécie capaz de transformar-se em leopardos ou em grandes felinos. Tinham algumas características dos leopardos, mas também dos seres humanos e de sua própria espécie, uma espécie de mistura das três coisas. Nunca mais ouvi que ninguém os mencionasse até agora. É a isso que se refere?

Poucas coisas teriam podido sobressaltar mais a Rio, suas mãos ficaram suspensas no ar enquanto a olhava fixamente.

–Como sua mãe soube dos homens-leopardo? Poucas pessoas, além dos pertencentes à espécie, conhecem sua existência.

–Sabe o que está dizendo, Rio? Existe tal espécie? Pensava que era somente um conto que a minha mãe gostava de me contar pelas noites quando as duas estávamos a sós. Sempre me falava dos homens-leopardo quando eu ia dormir – Franziu o cenho, tentando recordar as velhas histórias de sua infância – Não os chamava homens-leopardo, chamava-os de outra forma.

Rio ficou rígido, seu brilhante olhar açoitando seu rosto.

–Como os chamava?

Não conseguia recordar o nome.

–Eu era uma menina, Rio. Era uma jovenzinha quando ela morreu e fomos viver com… – Se tranquilizou e deu de ombros – Não importa. Diz que há uma possibilidade de que tal espécie exista? E se for assim por que um deles iria querer nos matar? Ou a mim em concreto?

–Formo parte de uma lista negra, Rachael. Provoquei os bandidos algumas vezes, tirando deles o que não lhes pertencia e os fazendo perder muito dinheiro. Eles não gostaram e querem ver-me morto – Deu de ombros com cansaço – Só tenho alguns minutos mais enquanto preparo uma cama.

–E eu piorei as coisas ao vir aqui verdade?

–Uma lista negra é uma lista negra, Rachael. Não acredito que, uma vez que está nela, as coisas possam piorar. Se encontrarem seu rastro, nos moveremos. Não vão nos perseguir pelo bosque, preferem o rio. E conto com gente que pode dar uma mão se for necessário. Conheço todos os membros das tribos que há por aqui e eles me conhecem. Se entrarem no bosque, saberei – Apagou a luz, deixando a estadia sumida na escuridão.

–Mas não se um desses homens-leopardo trabalha para eles – Adivinhou ela, piscando rapidamente para adaptar-se à mudança de luz. A lua tentava corajosamente abrir caminho apesar das nuvens e da espessa vegetação, mas era um simples raio ao longe – E se essa espécie existir por que não foram descobertos ainda? Teriam que ser extremamente inteligentes.

–E frios sob o fogo; ardilosos, prevenidos. Queimam seus mortos a maior temperatura possível. Procurar os restos de algum que morreu acidentalmente. Ter proibido reunir-se para resgatar alguém se esse alguém foi pego por um caçador. A sociedade teria que ser superior, dependendo uns dos outros e extremamente hábil e secreta.

–Como você – Não podia imaginar seu rosto mudando, lançando-se sobre ela com o focinho e os dentes de um leopardo macho adulto substituindo sua cabeça.

Ele voltou para a cama, dominando-a com sua estatura, percorrendo seu rosto com seus vívidos olhos verdes.

–Como eu – Concordou. Inclinou-se e levantou os cinquenta quilos de peso do leopardo nublado, embalando-o contra seu peito.

Os dedos de Rachael apertaram a colcha. Era possível? Era produto de sua enfebrecida imaginação ou Rio era capaz de converter-se em um leopardo? Olhou-o enquanto se agachava junto ao felino, viu os arranhões sanguinolentos que cobriam suas costas, seus flancos e as coxas, e uma lágrima caiu sobre seu pescoço. Não se importava o que fosse. Não tinha importância, não quando estava acariciando o felino ferido e murmurava carinhosas tolices. Rachael engoliu o nó de medo que bloqueava sua garganta.

–Rio, está sangrando. Está ferido gravemente?

Rio se levantou e se voltou para olhá-la. Havia genuína preocupação em sua voz e nas profundidades escuras de seus olhos. Sua compaixão o afetou em algum lugar muito profundo, em um lugar que queria esquecer que existia. O fazia perder o controle e isso era mais perigoso do que podia supor. Rio deu de ombros.

–Não é nada importante, só uns arranhões.

Rachael o estudou como andava pelo chão com os pés nus. Sua forma de andar, normalmente plana de sinuosa graça, era ligeiramente rígida. Os arranhões pareciam profundos e tinham aspecto ruim; pensou que devia haver mais de uma ferida de dentadas.

–Sempre tem que se ocupar de todo o mundo antes que de si mesmo. Lutou com esse leopardo verdade? Não usava armas. Duvido que tivesse uma faca. O que fez? Lutou com ele com as mãos nuas?

Rio pegou o estojo de primeiro socorros e começou a limpar as feridas que queimavam com o anti-séptico. Rachael soltou um suave suspiro, sentindo-se perdida. Parecia cansado e doente, sabia que as feridas tinham que doer. Não respondeu a suas perguntas, mas estava segura de que tinha razão. Tinha que haver-se visto implicado em uma luta de morte com uma espécie de felino e sem armas de nenhuma categoria. E era impossível que se tratasse de um felino pequeno. Mordeu o lábio inferior para manter a boca fechada, decidida a não incomodá-lo com mais perguntas.

Colocou a cabeça na tina que usava a modo de pia e derramou água no cabelo. Era impressionante, ali na escuridão quebrada tão somente por um raio de lua que caía sobre ele. Seu cabelo tinha o brilho da seda. As sombras da folhagem, movida pelo vento, passearam sobre suas costas e suas nádegas em uma rápida sucessão, cobrindo-o rapidamente enquanto se lavava. Quando se levantou e meio se voltou para ela, seus olhos captaram a luz da lua, refletindo-a com uma misteriosa cor vermelha. Os olhos de um predador. Os olhos de um leopardo.

Rachael conteve o fôlego e se esforçou em controlar os selvagens batimentos do seu coração. Não só eram seus olhos os que podiam assustá-la; sempre rodeava um halo de perigo e selvageria. Estava segura de ter razão em que seus olhos eram diferentes, semelhantes aos de um gato. Ele deu um passo para a cama, e pôde vê-lo com maior claridade, distinguindo o cansaço e a dor gravadas em seu rosto. Imediatamente o temor foi substituído pela preocupação.

–Rio, venha para a cama.

Ele estudou sua expressão. Suave. Convidativa. Tentadora. Sua boca era pecaminosa. Tinha muitas fantasias que incluíam essa boca. Seu corpo. Seu corpo exuberante, tão suave e quente, era perfeito para o seu; era um convite que não podia ignorar muito tempo mais. Quanto mais tempo permanecesse em sua casa, mais pertenceria a esse lugar.

–Maldição, Rachael, não sou um santo – Sua voz era áspera e deliberadamente desafiante. Estava tão tenso e mal-humorado que queria discutir com ela. Queria voltar para a selva e descarregar sua fúria longe dela. Se sua obsessão por Rachael continuasse crescendo, não sabia o que ia fazer.

Rachael, como de costume, fez algo inesperado. Inclinou-se para rir com despreocupação e nada assustada.

–Não tem porque preocupar-se, Rio, não vou confundi-lo com um.

–Então por que me olha assim? Não se dá conta de quão vulnerável é agora?

–Acredito que você é o vulnerável, Rio, não eu. Venha para cama e deixa de interpretar o papel de macho. Pode pôr expressão de super homem amanhã e farei todo o possível para fingir medo se isso for o que precisa, mas agora mesmo tem que dormir. Sexo não, dormir.

–Você acha que preciso dormir. – Protestou, mas se deslizou a seu lado na cama, obedientemente.

Era cálida e suave e tudo o que sabia que seria. Rio a rodeou com seus braços, adaptou seu corpo ao dele, acoplando sua ereção contra a união de suas nádegas e apoiou a cabeça sobre a suave curva de seu peito.

–Sei que precisa descansar. Só um momento. Se o que se preocupa é que alguém esteja atrás de você, ficarei vigiando. – Notava a seda de seu cabelo, úmido depois da lavagem, acariciando seu mamilo. Rodeou-lhe a cabeça com os braços, embalando-a contra ela, inundando os dedos no grosso arbusto de cabelo

–Deveria ter comprovado sua perna depois de que esse estúpido gato saltou sobre ela.

Seu fôlego era quente contra seu seio. Sentiu que o desejo a perfurava como uma espada.

–Dorme, Rio, podemos fazer isso pela manhã.

Durante o que ficava da noite fingiria que era dele. Seu próprio guerreiro amável, preparado para a batalha, uma mescla de perigo e ternura que era impossível de resistir

 

Rio despertou antes do amanhecer. Era sua hora favorita do dia. Amava enterrar seu rosto entre os mornos seios de Rachael e permanecer ali simplesmente escutando os suaves gritos dos pássaros matinais e a contínua sinfonia do bosque enquanto a apertava contra ele. Nesses momentos, justo antes do amanhecer, sentia-se mais vivo, mais completo antes que seu hábitat voltasse para a vida e se visse submerso nas exigências do dia. Rachel respirava tão brandamente, inspirava e expirava, calidamente como lhe dando a boa vinda, sua pele era como um convite luxurioso ao paraíso. Conhecia cada linha, cada espaço. Seu corpo estava profundamente gravado em sua memória. Conhecia suas formas melhor que ela mesma, e conhecia todas as formas de agradá-la.

Rio sorriu e enterrou seu rosto no vale que se formava entre seus seios para poder inalar sua essência. Parecia que sempre cheirava a flores. Estava seguro que eram os sabões e o xampu que fabricava com pétalas e ervas do bosque. Sua língua se enroscou ao redor de um de seus mamilos, com um movimento lento e preguiçoso. A vida era perfeita ao amanhecer. Aspirou seu aroma. Sua Rachael. Seu mundo. Ali nesse mundo secreto que compartilhavam, com a luz infiltrando-se através das copas das árvores, Rio encontrou a força, a paixão e tudo o que poderia precisar alguma vez para existir e viver.

Fuçou em seu seio, envolveu seu tentador mamilo com a língua pela segunda vez e o atraiu dentro de sua boca, sugando brandamente. Rachael se removeu, acomodando-se para poder alinhar melhor seu corpo com o dele, arqueando as costas um pouco mais para oferecer seus seios enquanto seus braços subiram por sua cabeça para embalá-la mais perto dela. Amava que reagisse desta forma, essa primeira, sonolenta oferta que fazia de seu corpo. Inclusive antes de introduzir um de seus dedos muito dentro dela para comprovar sua disposição, sabia que a encontraria quente e molhada lhe dando a boa vinda.

Fazer amor com Rachael sempre era uma aventura. Podiam gerar tanta ternura juntos como para que aparecessem lágrimas a seus olhos, ou podiam ser tão rudes e selvagens, mostrando uma total desinibição. Rachael arranharia suas costas, afundando as unhas na sua carne ou o montaria com selvagem abandono. Às vezes passava uma hora somente lhe fazendo amor, dando um festim com ela. Seu corpo era tão familiar, mas igualmente fazia que se sentisse cheio, duro e a ponto de arrebentar pela necessidade de estar dentro dela, tão ansioso que doía o corpo. Como se fosse a primeira vez. Como todas e cada uma das vezes que a tocava.

Moveu as mãos por sobre seu corpo, por essa pele quente e suave, que o provocava e o tentava, um prazer que mal podia acreditar que fosse dele. Levantou o rosto para ela, apertando sua boca contra a sua, um beijo duro, possessivo que lhes roubou o fôlego obrigando-os a trocar o ar enquanto o mundo girava a seu redor. Sua boca estava quente e doce e lhe era dolorosamente familiar.

Por um momento, ali ao amanhecer quando não importava nada, quando não tinha que aparentar uma nervura de civilização, estava acostumado a permitir que aparecesse sua natureza selvagem. Como sempre também se elevaram suas ânsias de possuí-la, o ciúme e uma negra necessidade predatória de reclamar Rachael como dele. A besta, sempre tão próxima à superfície, elevou-se com ele, selvagem e rugindo por ela, querendo-a com cada fibra de seu ser. Sua pele ardia enquanto comprovava sua aceitação, seus músculos se contraíram quando a arrastava mais perto dele, subindo sua perna sobre as coxas dela para se localizá-la debaixo. Nunca incomodava que a besta estivesse tão perto da superfície, embora sentisse o toque da pelagem contra sua sensível pele. Sempre o aceitava, sempre o desejava, sempre lhe dava a boa vinda.

Ela riu brandamente dentro de sua boca enquanto a devorava, alimentava-se dela, beijando-a uma e outra vez sem refrear-se. Desejava-a tanto, queria enterrar-se profundamente em seu interior, pois esse era o lugar onde pertencia, onde o mundo sempre estava bem. Envolveu-a em seus braços enquanto as mãos dela exploravam os músculos de seu peito. Percebia-se um toque de posse em seu tato enquanto deslizava a mão pelo estômago até encontrar o comprimento de sua dura ereção. Fechou firmemente o punho a seu redor, fazendo que se sufocasse devido à mistura de prazer e dor que lhe proporcionava

–Quero te saborear esta manhã – Sussurrou ele – Mal posso esperar para sentir como se retorce dessa forma que costuma fazer, com seu punho puxando meu cabelo, me pedindo mais rápido, mais rápido, mais rápido – Beijou o queixo, a garganta, a suave curva de seu seio.

–Ah sim. – Respondeu ela notando-se em sua voz uma nota zombadora – E eu que pensava que esta manhã ia te deixar louco. Poderia imaginar por um momento que o tomo na boca? Acredito que é minha vez, já que a última vez fomos interrompidos bruscamente.

Seus dedos dançaram por cima dele, dessa forma que só Rachael sabia fazer, provocando, acariciando, pequenas carícias ideadas para deixá-lo louco. Se o tomava em sua boca ia explodir, uma forte, selvagem erupção que a faria rir, e demandar satisfação. Conhecia-a tão bem, embora não de tudo. Rachael, sua dama, sua razão de existir.

Mudou o peso de seu corpo e a arrastou até localizá-la debaixo, deslizando seu joelho entre as pernas com precisão perita, para deixar exposto seu atraente calor. Acomodou-se em cima, sobre ela, pressionando contra seus quadris abrindo-a, antecipando o prazer que lhe proporcionaria. Afastou-se da tentação, deslizando-se para baixo, com a língua percorrendo seu sexy umbigo, seus dentes raspando seu estômago plano. Seu quadril pressionado contra a dela, demandando, correu sua perna para um lado.

Rachael gritou, um brutal grito de dor, afastando-se para enroscar-se até ficar em posição fetal. Seu grito fez com que os macacos nas árvores começassem a tagarelar e os pássaros a resmungar. Afogou o som rapidamente, aspirando profundamente para retomar o controle.

O mundo perfeito de Rio se fez em pedaços.

–Que diabos estou fazendo? Maldição, demônios – Gemendo, rodou longe dela até ficar estendido de costas, cobrindo o rosto com ambas as mãos – Sinto muito, Rachael, demônios, realmente o sinto. Não sei o que aconteceu. Juro, por um minuto, eu era outra pessoa. Ou você era outra pessoa, ou ambos fomos os mesmos mas diferentes de certa forma. Inferno! Nem sequer sei o que estou dizendo – Retirou as mãos de seu rosto e a olhou, com expressão triste – Está bem?

Para seu assombro, Rachael deu a volta, delicadamente, com supremo cuidado, e afundou os dedos no seu cabelo.

–Não me quebro tão facilmente Rio. Podia ter dito não. Por um momento, eu também senti que era outra pessoa. Conhecia-o intimamente, pertencia a você e tinha sido assim por um longo tempo. Senti-me tão cômoda, tão completa. Acredito que teria sido muito feliz de ter sido essa outra pessoa, mas minha perna fez com que eu voltasse para a realidade. Sou eu que deveria desculpar-se.

–Assustei você.

Deu-lhe um puxão em seu cabelo e esse gesto foi estranhamente familiar.

–Pareço assustada? Pensei que tinha cooperado o bastante. Doeu-me a perna quando a movi, de outra forma, teria saltado sobre você.

Ele rodou até ficar de lado, apoiando a cabeça em uma mão.

–Por que Rachael? Tem medo de me dizer não? – Ainda não podia controlar sua respiração totalmente e seu corpo estava duro e desejoso, realmente dolorido. Mais que tudo queria voltar a beijá-la, queria que seu corpo lhe pertencesse. Queria que pertencesse – Sei que deve se sentir vulnerável por estar sozinha comigo desta forma, especialmente estando ferida, mas te juro, que não estou acostumado a me impor às mulheres.

–Rio está sendo tolo. Sentimo-nos atraídos fisicamente um pelo outro. Faz dias que venho observando seu corpo. Como poderia não me sentir atraída? Se tivesse tratado de me forçar e eu não tivesse sido receptiva, teria batido na sua cabeça com alguma coisa – Sorriu – E já sabe que sou muito capaz disso. No momento tenho uma ferida na perna e não pode se dar conta mas, tenho um pouco de treinamento em defesa pessoal. Em certo momento esteve muito vulnerável quando estava… hum… ereto. Tendo ou não a perna ferida, poderia ter aproveitado isso para machucá-lo.

–Quando estou com você… – Rio lutou para encontrar as palavras adequadas – É como se sempre tivesse estado com você, como se a conhecesse de sempre, como se estivesse habituado a fazer amor com você. Juro que às vezes me faz difícil ver a diferença entre o que é real e o que é produto de minha imaginação. É uma loucura.

Inclinou-se para ela, perto, tanto que as pontas de seus seios empurraram contra seu peito. Imediatamente a sensação pareceu familiar, perfeita.

–Como chegar em casa – Suspirou – Não estou acostumado a estar com pessoas por um período contínuo de tempo, faz-me sentir incômodo, mas com você, não posso imaginar estar sem você – Emoldurou seu rosto com as mãos – A desejo tanto que posso sentir seu sabor em minha boca. Sei exatamente o que vai sentir quando te penetrar – As pontas de seus dedos escorregaram para baixo por seu pescoço, sobre seus ombros para terminar riscando o contorno do seio – Conheço sua silhueta, cada curva, como se tivesse um mapa em minha mente.

Rachael sabia que se convertia em uma pessoa sem cérebro quando essas mãos percorriam seu corpo, dando forma a seus seios, seus dedos deslizando-se sobre seus tensos mamilos enviando relâmpagos através de sua corrente sanguínea. Mas não era uma mulher comum a quem era apresentada uma oportunidade para amar. Podia ter uma curta aventura, mas logo tinha que seguir adiante, deixá-lo. Cada momento que passava com ele o punha em perigo.

Tomou cuidado de esconder detrás dos cílios a expressão de seus olhos que denotava o calor e o fogo que despertava seu toque.

–Sinto-me diferente. Desde a primeira vez que cheguei ao bosque pluvial. Sinto-me completamente viva, como se algo dentro de mim tratasse de liberar-se – E se sentia altamente sexual. Desde que tinha chegado a esta casa, este lugar, o estar perto deste homem, apesar da febre ou possivelmente devido à febre, fazia que estivesse em um contínuo estado de excitação. Ardia por ele, pensava nele noite e dia, sonhava com ele.

–Rachael, sabe essa marca de nascimento que tem ali embaixo em seu quadril? Sabia que estava ali antes de vê-la. Sei exatamente como você gosta que a acariciem – Se sentou, passando a mão pelo cabelo agitadamente, deixando-o revolto e selvagem, tão indomável quanto ele mesmo – Como podia saber esse tipo de coisas?

Ela também sabia o que gostava e o que o desgostava intimamente. Às vezes seus dedos ardiam pela necessidade de percorrer seu plano estômago com eles. Provocando e acariciando, seguindo com sua língua atrás do rastro que deixariam seus dedos até que rogasse piedade. Conhecia a nota exata que teria sua voz, a áspera dor em seu tom. Só pensar na necessidade e a fome que denotaria sua voz mandava ondas de fogo através de seu corpo.

Rio suspirou.

–Deixe que dê uma olhada em sua perna. Entre o gato que saltou sobre ela e eu que te fiz mal, provavelmente precise atenção – A olhou, tinha o escuro e encaracolado cabelo alvoroçado ao redor do seu rosto, os lábios entreabertos, quase como um convite. Seus longos cílios se levantaram e se encontrou olhando-a diretamente nos olhos, vendo sua necessidade. Notando nela o mesmo ardente calor que o estava queimando tão intensamente. Soltou uma maldição afogada e procurou debaixo da manta até alcançar seu tornozelo, para descobrir sua perna.

Rachael sentiu esses dedos sobre a pele. Seu agarre tinha um certo ar de proprietário. Com a ponta do polegar lhe percorria o tornozelo para frente e para trás como uma pequena carícia, cada toque enviava chamas que percorriam sua perna até chegar à união de suas coxas. Subiu as mãos até colocá-las sobre seu pé, começando a lhe aplicar uma lenta massagem que a deixou com o coração na boca.

–Vê-se muito melhor esta manhã, Rachael. Sem nenhuma linha avermelhada. Ainda está muito torcida e as duas perfurações estão supurando outra vez. Vou tirar as ataduras e deixarei as feridas ao ar para que se sequem.

Ela pôs cara feia.

–Que agradável. Danificará-se a manta.

–Tenho algumas toalhas que posso pôr debaixo –Seus dedos se apertaram ao redor do pé – Rachael, penso que logo sairemos do bosque e que salve sua perna, mas deixará uma cicatriz. Tratei de reparar o dano, mas… – Recuou, a pressão que exercia ao agarrá-la era o suficientemente forte para revelar sua angústia pela insuficiência de seus cuidados sem dizê-lo com palavras.

Rachael se encolheu.

–Não estava preocupada com as cicatrizes, Rio. Obrigada pelo que fez. A mim não importa.

–Agora não se importa, mas quando voltar a seu mundo, a dançar com um vestido apertado, poderia fazer a diferença – Se forçou a dizê-lo, a pensá-lo. No momento a besta se elevou, brigando para obter o controle, a pelagem ameaçando irromper através da pele. Perversos dentes muito afiados empurrando para fazer-se lugar em sua mandíbula. Até seus dedos se curvaram, insinuando a iminente erupção de garras muito afiadas na ponta dos dedos.

–Não posso voltar nunca mais, Rio – Disse Rachael firmemente – Não quero voltar. Não há nada mais que morte me esperando ali. Nunca fui feliz nesse mundo. Eu gostaria de morar aqui, onde me sinto viva, onde me sinto perto de minha mãe outra vez. Foram suas histórias as que me fizeram vir a este lugar. Quando me falava do bosque pluvial, me fazia sentir como se estivesse nele, sentindo seus ruídos, seus aromas, sua beleza. Sentia como se já tivesse caminhado nele, muito antes de vir aqui.

–Este não é um entretenimento para encher a fantasia de uma mulher rica. –Disse ele, parando abruptamente. Com o mesmo descaramento casual com que vestia um par de jeans – Não há lojas aqui, Rachael. Há cobras e animais selvagens que a caçarão e lhe comerão.

–Alguém engenhou para pôr uma cobra dentro de meu quarto fechado antes que viajasse pelo rio – Disse. Era difícil não ficar olhando-o, não notar o jogo dos músculos debaixo de sua pele. Podia ver as cicatrizes que cobriam seu corpo. Muitas delas tinham sido obviamente infringidas por grandes gatos. Mas havia outras de facas e balas e outras armas que não podia identificar.

Sacudindo bruscamente a cabeça, com as mãos sobre os botões de seus jeans, ele disse.

–Está segura que a coisa não se meteu sozinha em seu quarto, Rachael?

Ela negou com a cabeça.

–Não, o quarto estava bem fechado. Assegurei-me disso. Realmente me preparei para esta viagem, Rio. Sabia das víboras e outras criaturas rasteiras desagradáveis e venenosas. Tomei precauções.

Rio tratou de alcançá-la.

–Deixe-me ajudá-la a chegar ao banheiro.

–Acredito que posso fazer isso só. – Disse Rachael.

Não deu atenção a seu protesto, simplesmente a levantou e a acomodou entre seus braços, indo a passos largos para o pequeno cômodo que se usava para ter um pouco de privacidade. Era um método primitivo, mas ao menos Rachael tinha um pouco de privacidade. Deixou-a a sós enquanto ele esquentava um pouco de água para fazer café.

Rachael se reclinou contra a parede, sustentando-se para evitar cair de cara. Estava surpreendida por sua debilidade. A infecção a tinha deixado tremula. Não estava segura de poder cruzar a habitação saltando até a cama, muito menos ir para fora do corrimão como tinha pensado fazer. Necessitava uma pausa da encantadora masculinidade indomável de Rio. Não tinha forma de combater seu feitiço magnético quando estava tão perto dele. Não podia deixar de olhá-lo, a forma fluída como caminhava, a forma em que ressaltavam seus trabalhados músculos, a tentação que era sua boca, o brilho de seu vívido olhar, que tão frequentemente ardia com fome e necessidade quando pousava sobre ela.

Suspirou enquanto afastava a cortina para encontrá-lo esperando-a. Deveria ter sabido que estaria precisamente ali quando precisasse dele. Não importava o que estivesse fazendo sempre escutava tudo, via tudo, estava consciente de tudo.

Quando se inclinou para levantá-la entre seus braços, seu rosto roçou as mechas de revoltosos cachos. Sentiu a calidez de seu fôlego, o calor de sua pele, o leve toque de seus lábios roçando sua têmpora. Rachael fechou os olhos ante o urgente surgimento do desejo.

–Não pode me fazer isto, Rio. Não sou tão forte.

–Não posso evitá-lo, Rachael – A embalou contra seu peito nu, esfregando seu queixo contra a parte superior de sua cabeça – Quando estou tão perto de você, meu corpo e meu coração me dizem que é minha. Acredito que meu cérebro simplesmente se desconecta.

Ela rodeou seu pescoço com os braços, pensando que seu cérebro poderia estar desconectando-se também.

–Suponho que essa é uma desculpa o suficientemente boa. Estou disposta a usá-la se você estiver – Levantou a boca para a dele, sendo a agressora desta vez, mordendo seu lábio inferior, puxando, até que abriu a boca para ela. Sua língua se enredou com a dele, dançando e provocando, empurrando e acariciando. Uma combinação perfeita.

O resto do mundo se esfumaçou até que só existiu o sedoso calor de sua boca, a força de seus braços, a sensação de seu peito nu pressionado contra ela. Enterrou as mãos em seu cabelo e o sustentou firmemente pela parte de trás de sua cabeça para evitar que se retirasse. Alimentaram-se um do outro, beijo após beijo, tão famintos um do outro que não podiam parar.

Franz uivou. Só uma vez, mas foi suficiente. Rio ficou rígido, levantou a cabeça, escutando os sons do bosque. Xingou baixinho e pressionou sua testa contra a dela, respirando fundo para recuperar o controle.

Os dedos de Rachael se afundaram mais profundamente em seu cabelo.

–O que acontece? O que foi que ouviu? – Não se importava que sua respiração fosse irregular. Não queria deixar de beijá-lo, nem agora, nem nunca. Seu corpo já tinha começado a derreter-se e queria alívio.

–Escuta. Sente-os falar? Os pássaros? Os macacos? Até os insetos estão tratando de nos advertir.

Rachael tratou de acalmar seu acelerado coração, tratou de controlar sua selvagem respiração para poder escutar algo. Tomou alguns minutos separar os sons. Estranhamente, podia escutar notas individuais, podia definir que havia um pingo de informação.

–O que significa?

–Alguém se dirige para aqui.

–O leopardo? – Sua boca se secou. Rio estava sério. Escutou novamente, pondo muita mais atenção desta vez. Para seu assombro, podia sentir a diferença nas notas que cantavam os pássaros, na forma em que os insetos entoavam suas melodias mais rapidamente. E os macacos gritavam um ao outro. Tomou um momento ou dois dar-se conta que os macacos também gritavam para Rio – Estão advertindo, deliberadamente.

Depositou-a na lotada cadeira longe da porta.

–Faço-lhes favores, eles me devolvem isso. Não é um leopardo, é um humano. Alguém a quem conhecem, viram-no antes – Deixou que as mãos se atrasassem sobre seus ombros, sobre sua nuca, quase ausentemente liberando-a da tensão com uma massagem

Rachael puxou as pontas da camisa que estava usando as aproximando, dando-se conta pela primeira vez que todos os botões estavam desabotoados. Estava se tornando tão indecente como Rio. Deixou que sua cabeça caísse para trás até apoiá-la contra a cadeira, arqueando as costas como um gato preguiçoso, movendo-se um pouco para aliviar a pressão que se formou no núcleo de seu corpo. Exposta ao ar da manhã sua pele ardia. Olhou para baixo e por apenas um segundo pensou, que algo corria debaixo da superfície, levantando levemente a pele, apenas o suficiente para ser notado. Logo se tinha ido, fazendo que se perguntasse se estava tão necessitada de um homem ao ponto de ter alucinações.

–Rachael, como sua mãe soube da existência de homem-leopardo neste lugar? –Com relutância, Rio retirou a mão de seu pescoço e se dirigiu para a janela retirando a manta para olhar para fora.

–Não sei. Para mim suas histórias eram somente isso, histórias. Nem sequer sei as lembrança em sua totalidade, Rio. Provavelmente preenchi os espaços em branco com minhas próprias versões. Acaso importa? Realmente pensa que há algo de verdade nessas histórias? À luz do dia parece um pouco tolo acreditar que um homem pode ser um leopardo e um homem de uma vez. Ou uma mistura de ambos. O que, a cabeça e o torso de um homem e o resto do corpo de um leopardo? – Não podia olhá-lo sem levar a impressão de estar olhando a um perigoso gato. Sem recordar a forma em que sua cara tinha mudado para transformar-se de um guerreiro humano a de um perigoso animal.

–Parece a você que não? Aqui no bosque, parece que qualquer coisa é possível. Tem que ter uma mente aberta se for estabelecer seu lar aqui – Se manteve de costas a ela perguntando-se como faria para deixá-la ir.

Uma suave nota, parecida com o canto de uma ave, chegou a seus ouvidos. Deu a volta para ela.

–Rachael, Kim Pang está se aproximando da casa.

–Isso não é possível, estava do outro lado do rio. Já estava o suficientemente agitado, e com as tormentas e tanta chuva, não pode ter baixado tão rápido – Um pouco tão simples como isso e seu mundo se fez pedaços, ido, e a fuga começava novamente. As mentiras. Ocultou-lhe o rosto, para que não visse a sombra de lágrimas aparecendo em seus olhos. Sabia que eventualmente chegaria este dia. O fato de que nunca tivesse querido aceitá-lo, que pretendesse que podia encontrar um lar, deixava-a furiosa.

–Kim é capaz de cruzar o rio da mesma maneira em que eu o faço – Procurou as palavras adequadas para fazê-la entender – É o mais próximo que tenho a um amigo fora de minha unidade.

Rachael se encolheu.

–Não importa. Me dê tempo para me vestir e sair daqui. Vá encontrar-se com ele antes que chegue aqui.

Algo perigoso se agitou dentro dele.

–Não acredito, Rachael. Nem sequer pode caminhar com essa perna. Se tentar correr pelo bosque com essas feridas, acredite, pegará outra infecção rapidamente. Só fique aqui sentada e me deixe lidar com isto.

Os olhos de Rio se estreitaram até formar esse olhar fixo, cristalino que ela associava com um predador indo à caçada. Havia um grunhido subjacente na voz que enviava uma vibração gelada a sua coluna e fazia que o cabelo de sua nuca se arrepiasse. Rachael afastou o olhar, mordendo-se forte para evitar arremeter contra ele. Era boa mantendo uma expressão serena em sua cara, inclusive nos piores momentos, mas ainda tinha problemas para controlar sua desbocada língua. Não precisava nem queria que resolvesse seus problemas. As pessoas que cruzavam em sua vida tendia a morrer muito jovem. Não queria carregar a culpa de outra morte ocorrida a seu redor, muito obrigada. Rachael ardia com uma mescla de irritação e medo, sentindo-se vulnerável e inútil por causa da ferida da perna.

Estava surpreendida pela intensidade de suas emoções. Até seus dedos se curvaram como se quisesse arranhar, arranhar e marcar algo. Ou a alguém. A necessidade a queimava, um descobrimento surpreendente do que não se sentia muito orgulhosa. O que estava acontecendo com ela? Às vezes quando jazia na cama com a perna pulsando, havia algo que se comovia dentro dela, um calor e uma necessidade que adjudicava a sua admiração pelo corpo de Rio.

Rachael passou uma mão por seu cabelo. Sempre tinha tido uma normal e saudável energia sexual, mas desde que tinha chegado, e apesar da terrível ferida que tinha sofrido, a necessidade se arrastava por seu corpo, um sempre presente e implacável desejo que se negava a desaparecer. No meio da dor e da luta de vida ou morte, parecia-lhe degradante não poder controlar tal necessidade. Ainda pior eram essas tensas e violentas mudanças de humor, que a faziam passar de querer açoitar a Rio a querer arrancar a roupa.

–Rachael? Aonde foi?

–Evidentemente, a nenhum lugar.

–Vou dizer a Kim que passe.

–O que significa isso?

–É um homem da tribo, Rachael. Sabe que estou na lista dos bandidos. Fez-me saber quem era e está esperando que o sinal de que está tudo livre antes de entrar.

–Tem que lhe dar o sinal?

–Se não o fizer, entrará disposto a brigar, disse isso, é um amigo.

–Em caso de que não o tenha notado, preciso de roupa. Não quero estar aqui sentada vestida somente com sua camisa em frente de seus amigos – Enquanto falava abotoava rapidamente a frente da camisa, ocultando seu generoso busto.

Rio não disse nada sobre o tom brigão de sua voz. Simplesmente tirou a manta da cama e a acomodou ao redor dela.

–O pai da Kim é um homem de medicina, muito bom com as ervas. Ensinou-me o bastante, mas Kim sabe muito mais que eu. Esperemos que possa ajudar a ambos, a você e ao Fritz.

Quando não o olhou, Rio se agachou a seu lado.

–Rachael, me olhe. – Quando não respondeu tomou pelo queixo e a forçou a olhá-lo. Quão último esperava ver era o calor e o fogo brilhando em seus escuros olhos. Olhava-o com uma fome crua, com tal intensidade que o fez grunhir, apoiando a testa na dela disse – Não o faça. Digo-o a sério, Rachael. Não pode me olhar dessa forma e logo esperar que funcione corretamente.

Tinha o mais louco desejo, mas bem necessidade, de retorcer-se e esfregar-se contra ele, como um felino. Era tal a onda de calor que a abraçava que sacudiu sua confiança.

–Se pudesse evitá-lo, acha que estaria fazendo tremendo papel de tola? – Nesse momento arranhar seus olhos parecia uma melhor alternativa que esfregar seu corpo contra o dele. Deixou-lhe ver isso também.

Sua cara estava a só umas polegadas da sua. Estava se acendendo em fogo pelo só feito de tocar sua pele, sentia o crepitar da eletricidade que surgia entre eles. Via em seus olhos um desafio que não pôde resistir. Rio a agarrou pela nuca, cavou as mãos sobre sua cabeça e aproximou sua boca da dele. Ela não opôs nenhuma resistência. Instantaneamente se fundiu com ele. Quente. Eletrizante. Louca por ele. Penetrando em sua pele, envolvendo-se ao redor de seu coração, tão apertadamente que a sentia como uma luva. Devorando-o tão ansiosamente como ele a ela.

Foi somente por causa de que tiveram que parar para inalar um pouco de ar que encontrou a força para levantar a cabeça. Rachael afundou o rosto contra sua garganta.

–Desta vez foi minha culpa. – Seus lábios se moveram contra seu pescoço. Rio fechou os olhos ao sentir o reverberante fogo que agitava seu corpo com fortes quebras de onda devido ao toque de sua suave boca. Teve que fazer um esforço para poder respirar. Duvidava que uma simples baforada de ar pudesse fazer que seu cérebro voltasse a funcionar corretamente.

A suave toada se escutou mais perto desta vez.

–Apagou Kim de minha cabeça, Rachael – Disse esfregando seu rosto na massa de grossos cachos.

–É assombroso quão bem sabe beijar.

Não pôde evitar o tolo sorriso que se esparramou por todo seu rosto.

–É certo isso? Surpreendo a mim mesmo – O sorriso se desvaneceu e voltou a tomá-la pelo queixo – Não estou te entregando nem traindo, Rachael. Conheço Kim. Não porá em perigo sua vida, por nenhum motivo.

–O dinheiro fala, Rio. Quase todo mundo tem um preço.

–Kim vive simplesmente, mas mais que isso, tem um código de honra.

Rachael assentiu. Não havia muito mais que pudesse fazer. Rio tinha razão a respeito de que não podia fugir correndo com sua perna ferida.

–Responda a ele então.

Rio não afastou o olhar, mas entoou uma melodiosa nota que soou exatamente como as dos pássaros que estavam fora se chamando um ao outro justo fora das paredes de seu lar.

Ela colocou seu rebelde e descabelado cabelo detrás da orelha, permitindo que seus dedos vagassem por sua mandíbula, e esfregassem seus lábios.

–Tenho medo.

–Sei. Posso sentir o batimento do seu coração – Ele percorreu seu pulso com o polegar, deslizando-o sobre o pulso – Não tem que temer.

–Ele pagaria muito dinheiro para me ter de volta.

–Seu marido?

Ela negou com a cabeça.

–Meu irmão.

Levou a mão para o coração como se o tivesse apunhalado. Quase ao mesmo tempo pôs uma expressão inacessível. Tomou ar, expulsou-o; havia um olhar vigilante em seus olhos, uma suspeita que não tinha estado ali antes.

–Seu irmão.

–Não tem que acreditar em mim – Rachael se afastou, recostou-se contra a cadeira e ajustou a manta mais apertada a seu redor. A umidade era alta, embora soprasse o vento. Através da janela que Rio tinha tirado a manta podia ver-se uma espessa neblina penetrando entre a folhagem e as trepadeiras que rodeavam a casa – Não deveria ter lhe contado isso.

–Por que seu irmão iria querer mandar matá-la, Rachael?

–Cansa-me. Essas coisas acontecem, Rio. Possivelmente não em seu mundo, mas certamente sim no meu.

Rio estudou seu rosto, tratando de ver através da máscara que tinha elevado, o que estava passando por sua mente, seu cérebro percorrendo as possibilidades. Tinha encontrado seu lar por acidente, ou a tinham mandado para assassiná-lo? Tinha tido um par de oportunidades. Tinha-lhe dado uma arma. Ainda estava ali, debaixo do travesseiro. Possivelmente não se ocupou dele porque o necessitava até que sua perna sanasse.

Endireitou-se lentamente e caminhou para o esconderijo das armas que pendurava na parede. Colocou uma capa com uma faca na perna e a cobriu com suas calças. Tinha uma segunda faca entre as omoplatas. Vestiu a camisa em cima e colocou uma pistola no cinto de suas calças.

–Está esperando problemas? Pensei que disse que Kim Pang era seu amigo.

–Sempre é melhor estar preparado. Eu não gosto das surpresas.

–Dava-me conta – Respondeu seca, preparada para zangar-se com ele pela grosseira reação ante sua admissão. Foi o mesmo que se a tivesse esbofeteado. Tinha-lhe revelado algo que nunca tinha admitido ante ninguém antes e não acreditava nela. Podia assegurá-lo devido a sua imediata retirada.

Rio se ajoelhou ao lado do gato machucado, suas mãos se mostravam incrivelmente gentis ao examinar o leopardo. Seu coração deu um tombo no peito. Tinha a cabeça inclinada para Fritz, com uma expressão quase terna enquanto murmurava brandamente. Teve uma repentina visão dele embalando o seu filho, olhando-o amorosamente, seu dedo polegar preso pela pequena mão do bebê. De repente levantou a cabeça e a olhou sorrindo.

Se fosse possível derreter-se, Rachael estava segura de que o tinha feito. Ele arqueou a sobrancelha.

–O que? Por que me olha assim?

–Estou tratando de descobrir o que acontece com você. – Respondeu Rachael sinceramente. Seu rosto não era a de um rapaz. Seus traços eram duros e afiados. Seus olhos podiam ter a frieza do gelo, inclusive assustavam, ainda assim às vezes quando o olhava Rachael não podia respirar por causa do desejo que despertava nela.

A mão de Rio se imobilizou sobre o pequeno leopardo. Ela era capaz de sacudi-lo com uma simples oração. Era aterrador pensar o poder que já exercia sobre ele, especialmente desde que fazia tanto tempo que tinha aceitado o fato de que sempre viveria sozinho. Sua vida estava aqui, no bosque pluvial. Era aonde pertencia, onde entendia as regras e vivia prendendo-se a elas. Estudou seu rosto. Uma misteriosa mulher com um estúpido nome falso.

A besta rugiu e Rio abraçou o temperamento que se elevava. Não queria ver a expressão de seu rosto, o olhar que dirigia com uma mescla de emoções cruzando-a, feminina e confusa, uma ternura que não podia permitir-se.

–As regras são diferentes aqui no bosque pluvial, Rachael. Tenha muito cuidado.

Como sempre o surpreendeu, sua risada invadiu seus sentidos e espremeu seu coração.

–Se estas tratando de me assustar, Rio, não há nada que possa fazer que já não tenha visto. Não sou fácil de impressionar ou espantar. O dia que minha mãe morreu, quando tinha nove anos, soube que o mundo não era um lugar seguro e que havia pessoas más nele – Ondeou uma mão como despedindo-o, de princesa a camponês – Economize suas táticas aterradoras para Kim Pang, ou para qualquer outro que queira impressionar.

Rio aplaudiu pela última vez ao leopardo, estirou-se casualmente para coçar as orelhas de Franz, antes de levantar-se em toda sua estatura, elevando-se sobre ela, enchendo a habitação com sua extraordinária presença. Via-se muito incivilizado, completamente selvagem e entre a casa nas remotas paragens do bosque. Quando se movia, ostentava uma graça fluída que só tinha observado em animais predadores. Quando estava em repouso, estava francamente, completamente quieto. Era intimidante, mas Rachael nunca o admitiria.

–Surpreenderia-se do que posso fazer – Disse silenciosamente, e havia uma suave, ameaça subjacente em seu tom.

O coração do Rachael salteou um batimento do coração, mas manteve sua expressão serena e logo arqueou uma sobrancelha em resposta, um gesto que tinha trabalhado duro para aperfeiçoar.

–Sabe o que penso, Rio? Acredito que é você o que está assustado comigo. Acredito que não sabe o que fazer comigo.

–Sei o que eu gostaria de fazer. – Desta vez soou brusco.

–O que disse para desgostá-lo?

Rio parou em frente dela sentindo-se como se tivesse caído uma árvore por cima dele. Fazia tanto tempo que tinha fechado essa porta, com suas emoções nuas, machucadas e sangrentas, e não estava disposto a abri-la para ela ou para ninguém mais. Não podia acreditar que ainda o sacudissem, aqueles ocasionais imagens de um passado que não queria recordar. Uma vida diferente. Uma pessoa diferente

Rachael observou como suas mãos se fechavam em punhos, o único sinal de sua agitação. Inadvertidamente havia tocado um nervo e não tinha nem idéia do que tinha feito para provocá-lo. Encolheu-se.

–Tenho um passado, você tem um passado, ambos estamos procurando uma vida diferente. Acaso importa? Não tem que me contar isso Rio. Eu gosto de quem é agora.

–É essa sua maneira sutil de me pedir que me mantenha afastado de seus assuntos?

Ela elevou uma mão para recolher o cabelo detrás de seu pescoço, obviamente acostumada a usá-lo mais largo.

–Estava tratando de te dizer que não importa. Não, não quero que se intrometa em meu passado. Não deveria ter te contado tanto como te contei – Ela sorriu porque não pôde evitar. Estava atuando de uma maneira desacostumada, contando coisas que melhor seria que se calasse. Não deveria ter provocado que se sentisse ferido devido a sua relutância a lhe contar a história de sua vida. Duvidava que se ocultasse no bosque pluvial se não fosse por algo traumático que tivesse acontecido em sua vida. O fazia que desejasse lhe contar todo – Eu sinto se fiz que se sentisse incômodo, Rio. Não voltarei a fazer isso.

–Maldição, Rachael. Como deu um jeito para fazer isso? – Em um instante podia zangar-se e no seguinte o desarmava completamente – E, a propósito, como conseguiu escapar dos mosquitos? Só uso a malha porque me incomoda o ruído quando zumbem ao meu redor, mas você teria que estar coberta de picadas.

– Os mosquitos não me acham apetecível como você. Notei que todos os de meu grupo tinham que usar repelente todo o tempo. Acredito que os mosquitos não gostam de meu sabor. Você se incomoda que me deixem em paz?

Ele assentiu.

–É um estranho fenômeno. Os mosquitos não incomodam às pessoas da tribo. Sua mãe sabe das histórias do povo leopardo. Nasceu aqui? É sua mãe oriunda daqui?

Rachael se pôs a rir novamente.

–Acreditei que tínhamos estado de acordo em não nos intrometer nos assuntos do outro e não pode deixar passar três segundos sem me perguntar algo. Estou começando a pensar que tem um duplo padrão, Rio.

Um lento sorriso curvou seus lábios.

–Pode ser que tenha razão. Nunca pensei nisso dessa maneira.

–E pensar que todo este tempo eu estive convencida que era um moderno de sensível homem da nova era – Brincou ela.

Franz grunhiu, levantando-se. Ao mesmo tempo, Rio deu um salto para ir situar se a um lado da porta, dessa quase impossível forma que tinha de cobrir grandes distâncias. Fez gestos ao gato para que se mantivesse em silêncio, tirou sua pistola e simplesmente ficou esperando.

 

O assobio veio outra vez, duas notas suaves. A arma nunca se moveu, permanecendo estável e apontando à entrada. Rio respondeu, usando uma combinação diferente de sons, mas ficou imóvel, à espera.

–Afaste a arma – Disse Kim Pang e empurrou abrindo a porta. Entrou na casa, suas roupas rasgadas, molhadas e manchadas de sangue, seus traços duros numa máscara de cansaço. Tinha estado, obviamente, viajando rápido e rápido. Não tinha nenhum pacote nem nenhuma arma que Rachael pudesse ver.

De todos os modos Rio permaneceu nas sombras, a um lado da porta.

–Não acredito, Kim – Disse Rio suavemente – não veio sozinho. Quem está com você?  

–Meu irmão, Palha de cereal, e Drake Donovan. Foi lento respondendo e Drake está explorando enquanto Palha de cereal me cobre – Kim permaneceu imóvel, seu olhar se moveu sobre Rachael, mas não fez nenhum sinal de que a reconhecesse.

–Palha de cereal não está fazendo um bom trabalho, Kim – Disse Rio, mas Rachael podia vê-lo relaxar visivelmente, embora não afastasse a arma – Faça o sinal para que entre.

Levantou a cabeça e tossiu, um peculiar grunhido que soava como os animais que Rachael tinha ouvido à distância quando andou pela selva.

Kim chamou forte em outro dialeto, em voz alta e áspera, mas quando se voltou, estava sorrindo para Rachael.

–Senhorita Wilson, é bom ver que teve êxito saindo viva do rio. Seu aparente falecimento causou um verdadeiro alvoroço.

Rachael jogou uma olhada com ar de culpabilidade a Rio. Tinha esquecido que tinha vindo à selva tropical como Rachael Wilson. Rio sorriu abertamente, um sorriso tão insultantemente masculino que deu vontade de usar a violência.

–Encantado de conhecê-la, senhorita Rachael Os-smith-wilson – Disse Rio com uma leve reverência – Que sorte que Kim recorde seu nome para você.

–Ah, cale-se. – Respondeu Rachael grosseiramente – Kim, está ferido. Se trouxer o estojo de primeiro socorros médicos de Rio aqui, verei se posso limpar essas lacerações.

–Você somente sente-se e não se mova, senhorita Wilson – Disse Rio – Kim pode ficar onde está, e quando Palha de cereal e Drake entrarem, arrumarei isso. Não precisa de uma mulher o mimando.

Envergonhou-se da tensão de seu ventre, os nós que apertavam fortemente seu estômago. O escuro ciúmes que os machos de sua espécie podiam experimentar. Reprimiu a inclinação natural, mas não pôde evitar o pequeno, involuntário movimento que o tirou da vantagem das sombras e se colocou ligeiramente diante de Rachael.

Kim estendeu os dedos para mostrar que não sustentava nenhuma arma. Seu irmão entrou no quarto sorrindo timidamente.

–Sinto muito, Kim, escorreguei sobre um ramo úmido e quase caio. Estava tão ocupado salvando minha própria vida, que não podia salvar muito bem a sua – Jogou uma olhada a Rachael e depois a Rio, logo olhou à arma na mão de Rio – Está se tornando um pouco superprotetor, não é?

–Se tornando um pouco velho para escapar de um perfeitamente amplo ramo, não é? – Respondeu Rio, mas estava claramente escutando algo fora da casa.

Com a porta aberta, Rachael podia ouvir facilmente a mudança repentina no ritmo do bosque. Onde antes tinha havido chiados de advertência e chamadas e gritos, agora o bosque uma vez mais vibrava com seus sons naturais. Os bramidos dos cervos, o coaxar das rãs, o zumbido e gorjeio de insetos e cigarras. Havia sempre uma contínua chamada de pássaros, diferentes notas, diferentes canções, mas tudo em harmonia com a agitação do vento e amortecida pelo repico contínuo da chuva.

Franz se levantou e se estirou, aplanou suas orelhas e vaiou, encarando-se à porta. Rio grunhiu outra vez, um som ligeiramente diferente.

–Palha de cereal, atira um par de calças para Drake. Não tem por que entrar e assustar como o inferno à senhorita Wilson.

–Deixa de me chamar assim – Disse Rachael bruscamente – E por que Drake, quem quer que seja, precisa de roupa?

–Não sabia que estaria em companhia de uma mulher – Respondeu Rio, como se isso de algum jeito esclarecesse a pergunta.

Drake Donovan era alto e loiro e se pavoneava, vestido somente com um par das calças de Rio e um sorriso. Seu peito era muito musculoso, seus braços grossos e poderosos, tinha uma constituição como Rio. Seu sorriso se alargou quando viu Rachael.

–Não é surpreendente que não respondesse o rádio, Rio. Apresente-nos.

Rachael foi de repente consciente de seu aspecto, seus cabelos rebeldes despenteados e sem maquiagem, com quatro homens olhando-a fixamente. Levantou uma mão para pôr em ordem seu cabelo. Rio a agarrou pelo pulso a puxou para seu quadril.

–Está bem, Rachael.

Sua voz era brusca. Olhou com raiva para Drake como se tivesse acusado Rachael de estar errada.

–Hey! – Drake estendeu as mãos diante dele com inocência – Acredito que está bem. Sobretudo para uma morta. Kim pensava que você poderia ter se afogado no rio, mas vejo que foi resgatada por nosso homem residente da selva.

–Deixa de tentar ser encantador. – Disse Rio – Não vai.

Rachael sorriu ao loiro.

–Acredito que vai muito bem.

Rio pressionou sua mão fortemente contra seu quadril, como se a estivesse sustentando contra ele.

–O que aconteceu, Kim?

–Fomos capturados por Tomadas Vien e sua gente. Não iam atrás dos medicamentos nem do resgate como pensávamos antes. – Kim olhou para Rachael – Procuravam à senhorita Wilson. Tinham fotos dela.

Quando Rachael se moveu, Rio apertou sua mão, indicando que permanecesse em silêncio.

–Como arrumou isso para escapar?

Drake olhou Rio com dureza, seus estranhos olhos estreitando-se, mas não disse nada.

Kim jogou uma olhada a seu irmão.

–Não me encontrei com meu pai. Era para uma cerimônia especial, minha família sabia que eu não me perderia, isso a menos que algo acontecesse.

Palha de cereal assentiu.

–Meu pai estava muito preocupado. Tinha havido conversa acima e abaixo do rio sobre os bandidos, sobre como estavam procurando alguém e que se alguém a escondia o mataria. Advertiram nosso povo. Quando Kim não voltou, meu pai me enviou para procurá-lo. Enviei uma chamada e Drake estava perto, assim veio para me ajudar a rastrear Kim.

–Chamei você pelo radio – Drake recolheu a história – Sabia que quereria saber que Kim estava desaparecido e nos ajudar a rastreá-lo, mas não respondeu, então me preocupei com você. Obviamente desnecessariamente

–Meu rádio está fora de serviço – Disse Rio concisamente – Recebeu uma bala.

–Fritz está ferido.

Drake se moveu para o pequeno gato, mas Franz passeou para frente e para trás diante do leopardo ferido e mostrou seus dentes parecidos com sabres a modo de advertência.

Drake fez caretas ao leopardo nublado, mas se afastou do inquieto gato.

–Então se deparou com problemas.

Rio deu de ombros.

–Nada que não pudesse dirigir. Ajudou Palha de cereal a tirar Kim do acampamento dos bandidos? – Jogou uma olhada para o gato que grunhia – Franz, se tranqüilize ou vá para fora.

Franz vaiou em advertência, mas se enroscou ao redor de Fritz, com os olhos olhando fixamente os intrusos.

Drake assentiu, todo o momento mantendo um olho cauteloso sobre o leopardo nublado.

–Kim estava em má forma. Eles não acreditaram que ela caiu pela amurada no rio. Golpearam-lhe.

Rachael fez um pequeno e estrangulado som. Rio deslizou o polegar sobre a palma de sua mão em um gesto calmante.

–Golpearam todo mundo, inclusive à mulher – Kim informou com gravidade. Olhou para Rachael – Não vão deixar de procurá-la a menos que encontrem seu corpo. Alguém ofereceu uma recompensa de um milhão de dólares por você.  

Rachael fechou os olhos ante o repentino desespero que se apoderou dela. Não tinha considerado tanto dinheiro. As pessoas matavam por muito menos. O que significaria um milhão de dólares para os homens que estavam em frente a ela?

–Isso explica muito. – Disse Rio. Suspirou brandamente – Drake, ando escasso de medicamentos, mas tenho muitos para limpar Kim e enfaixar suas feridas.

–Conseguirei as plantas que precisamos – Disse Palha de cereal – Não paramos para nada, apressamo-nos para comprovar que estava bem.

Abandonou a casa bruscamente.

–Aprecio isso. – Respondeu Rio. Afundou-se na cadeira ao lado de Rachael, movendo-a devagar, cuidadoso de sua perna sob a manta, colocando-a parcialmente junto a sua coxa, arrumando sua perna e a manta a sua satisfação. Fez gestos com a mão aos outros para que encontrassem assentos.

–O que é isso? – Perguntou Drake enquanto pinçava na bolsa dos remédios – O que explica um milhão de dólares?

–Tive um visitante ontem à noite. Um de nós, um que não reconheci. Um traidor, Drake. Não posso imaginar que induziria a um dos nossos a converter-se em traidor, mas um milhão de dólares pode fazer perder a cabeça de um homem.

Rachael estava muito silenciosa, consciente de que a informação que estava sendo trocada era importante para ela. Esperava que se esquecessem de sua presença e assim falariam mais abertamente.

–Como poderia ter sido um de nós se não reconheceu seu aroma, Rio? – Drake não elevou a vista de onde estava lavando as feridas de Kim.

Rachael não podia suportar olhar a cara torcida e machucada da Kim. Estava estóico enquanto Drake limpava as lacerações, mas quando encolheu os ombros para tirar a camisa rasgada, viu-o estremecer-se. Deu a volta ligeiramente e ela ofegou.

–O que lhe fizeram?

Rio escorregou um braço ao redor dela.

–Essas marcas foram feitas com um cano. Os bandidos são conhecidos por usar um cano sobre suas vítimas. Thomas é famoso por isso. Não acredito que tenhamos libertado a nenhuma vitima de sequestro sem evidências e contos de ter sido golpeados com o cano.

Rachael voltou o rosto sobre o ombro de Rio.

–Sinto muito, Kim, não queria ferir ninguém. Pensava que se me precipitasse no rio, acreditariam que me afoguei.

–Teriam encontrado outra razão para golpeá-lo com o cano – Disse Rio, seus dedos massageando sua nuca – Thomas é um doente. Desfruta com a dor das pessoas.

–O que diz é verdade, senhorita Wilson. – Esteve de acordo Kim.

–Rachael. Me chame de Rachael, por favor.

–Tem problemas com seu sobrenome. – Ofereceu Rio.

Rachael o olhou com raiva.

–É tão engraçado. Deveria ser cômico.

–Nem sequer sabia que Rio tinha senso de humor – Disse Drake, lançando um sorriso infantil sobre seu ombro a Rio.

–Não tenho. – Respondeu Rio sinistramente.

Palha de cereal se apressou, levando várias plantas e raízes.

–Estas lhe curarão rápido, Kim, e possivelmente ao gato também.

–Mandou aviso a seu pai de que encontrou Kim vivo? – Perguntou Rio.

–Em seguida. O vento levou as notícias. Verá a visão em seus sonhos e saberá que Kim está bem – Respondeu Palha de cereal, rasgando afanosamente tiras de uma das plantas e lançando tiras de caules verdes em um pote.

Rachael franziu o cenho enquanto Rio assentia.

–Está dizendo que o pai de Kim sonhará que está vivo e saberá que é verdade?

–Seu pai é um curandeiro poderoso. A verdade, acredito que sabe mais sobre as plantas do bosque, venenos, e visões que qualquer homem vivo. Se lhe enviaram as notícias, as recolherá em uma visão, ou em um sonho, se prefere chamá-lo assim –Explicou Rio.

Rio não soava como se estivesse lhe tirando o sarro, mas ela achava a idéia de enviar notícias via visões um pouco difícil de acreditar.

–Realmente não acha que eles possam fazer isso, não é?

–Sei que podem fazê-lo. Vi-o. Não sou bom enviando visões, mas as recebi. É melhor que o correio aqui no bosque. –disse Rio.

Drake assentiu concordando.

–As visões são coisas arriscadas, Rachael. Tem que ser um perito nas interpretações

–Rachael? –Rio arqueou uma sobrancelha para Drake em advertência.

–Ela pediu que a chamássemos de Rachael. – Indicou Drake, olhando inocente– Estava sendo educado.

Um aroma estranho se elevou do pote onde Palha de cereal pressionava folhas, pétalas, caules e raízes de várias plantas em uma massa espessa. Não era desagradável, cheirava a hortelã e flores, laranja e especiarias. Fascinada, Rachael olhou com cuidado, não fazendo caso do intercâmbio entre os homens.

–O que é isso?

Palha de Cereal sorriu.

–Isto acautelará a infecção. –Inclinou o pote para que pudesse ver a massa verde escura.

–Servirá para Fritz? – Perguntou Rachael – Suas feridas estão supurando e Rio esteve preocupado com ele.

–O leopardo o atacou, quase o mata – Acrescentou Rio – Sabia bastante sobre mim para saber que escolheria salvar Fritz e trataria de rastreá-lo mais tarde.

–Então conhece o modo como caça. – Drake soou preocupado – Não muitas pessoas sabem que os leopardos nublados o acompanham quando tiramos uma vítima dos acampamentos dos bandidos.

Kim elevou a vista de onde seu irmão aplicava a massa espessa sobre a pior das lacerações de seu peito.

–Só sua unidade e um alguns do meu povo, Rio.

–Ninguém em nossa unidade trairia Rio – Disse Drake – Estivemos fazendo isto juntos durante anos. Dependemos um do outro. Sei que se me ferirem Rio vai tirar meu traseiro dali. E se sou capturado, ninguém descansará até que me libertem. Assim é como é, Kim.

–E não vendemos nossos amigos por nenhuma quantidade de dinheiro. – Disse Kim silenciosamente, com grande dignidade.

–Não, seu povo nunca consideraria o dinheiro sobre a amizade, Kim. – Rio esteve de acordo – Não sei de onde veio este traidor, ou como sabe de mim, mas é definitivamente um de nós, não um de vocês.

–É do bosque então. –disse Palha de cereal.

Drake franziu o cenho quando Rio assentiu.

–Seria improvável que não reconhecesse o aroma.

–O fedor está ainda sobre Fritz –lhe desafiou Rio– olhe e veja se pode me dizer quem era.

–Envia Franz para fora – Disse Drake – Parece faminto.

–Tome cuidado – Advertiu Rachael – Me atacou. Brutalmente, poderia acrescentar.

O cenho de Drake se fez mais profundo.

–Atacou você?

Rachael assentiu.

–E me mordeu, assim tome cuidado com ele. Tem dentes como os de um tigre dentes de sabre.

–Esse não era Franz – Assinalou Rio– foi Fritz quem na realidade te mordeu.

–Importa isto? – Exclamou Drake – O animal realmente te atacou? Tem sorte de estar viva.

–Quero que Palha de cereal olhe sua perna depois terminar com Kim – Disse Rio. Olhou atentamente o rosto de Rachael – Está suando. Está se cansando muito. Deitarei-te na cama. Não se levantou de tudo ainda e não quero que se exceda.

–Me deixe ver – Disse Palha de cereal, levantado a vista de onde estava espalhando a massa sobre as costas nua de seu irmão.

Foi Rio quem afastou a manta da perna de Rachael, revelando a massa torcida de espetadas e lacerações. As duas feridas de espetadas supuravam continuamente e não era uma bonita visão. Rachael estava envergonhada.

Drake estremeceu visivelmente.

–Meu Deus, Rio, isso deve doer como o inferno. Tem uma infecção? Temos que levá-la a um hospital.

Rachael sacudiu a cabeça, encolhendo-se por trás da proteção do corpo maior de Rio.

–Não, disse isso, Rio, não posso ir a um hospital.

Kim e Palha de cereal examinaram sua perna com cuidado.

–Tem razão, Rio. Se a levar a um hospital, ainda sob nome falso, um dos espiões de Thomas saberá disso e o avisará. Alguns estão comprados, alguns o temem, outros somente querem a associação, mas a entregarão. Não pode protegê-la naquele ambiente.

–Não quero que ninguém arrisque sua vida tentando me proteger – Protestou Rachael – Minha perna está curando bem. Estou melhor do que estava há uns dias, perguntem a Rio. Assim que puder viajar, partirei. Não terei a ninguém arriscando sua vida por mim.

Rio a alcançou enlaçando seus dedos com os seus.

–Rachael, ninguém vai entregá-la a Thomas, e não vai andar pela selva sozinha. Isto não funciona assim.

Rachael quis discutir com ele que assim era exatamente como funcionava, mas não o faria diante de outros. Apesar de seu aspecto relaxado, Rachael sentia a tensão enroscando-se fortemente em Rio. Conhecia-o, por dentro e por fora. Era um estranho, embora muito familiar. Estava incômodo com a proximidade tão próxima de outros, embora podia dizer que sentia uma camaradagem por eles. Sem um pensamento consciente ela se aproximou mais, mudando seu peso até que esteve recostada sob seu ombro, encaixando em sua forma como se tivesse nascido para estar ali. Foi um movimento de proteção e ele o sentiu.

Rio olhou para baixo ao alto de sua cabeça frisada. Tanto cabelo. Espesso e negro como a asa de um corvo. Cachos que se desviavam em todas as direções. Seus dedos escorregaram na massa espessa, esfregou e acariciou os cachos, olhando como se enrolaram ao redor de seu polegar. O gesto era completamente familiar, algo que fazia automaticamente para confortar, como uma conexão entre eles. Nunca se acostumaria a estar ao redor de pessoas, nem sequer aqueles aos que chamava amigos, mas Rachael era diferente, era uma parte dele. Pertencia-lhe.

–Seu pulso está quebrado? – Perguntou-lhe Palha de cereal, obviamente preocupado – Como aconteceu? No rio?

Rachael olhou à improvisada tabuleta. Sua perna sempre doía tanto, que quase nunca recordava seu pulso.

–Rio pensa que está quebrado. Entalou-o e para ser honesta, apenas o noto.

A emoção brotou, quase afogando Rio. Tomou uns momentos compreender que isto era a felicidade. A calidez da alegria se estendeu por seu corpo. Tinha passado muito tempo desde que tinha experimentado esse sentimento que apenas o reconheceu pelo que era. Rachael não queria contar aos outros que ele tinha sido o responsável por sua ferida. Isto não deveria ter lhe importado, mas o fez.

–Rio – Drake disse seu nome bruscamente – Este traidor, que diz que estava aqui ontem à noite, tinha que estar procurando-a.

–Pensei que tinha sido enviado para me assassinar, que tinha se unido aos bandidos pela recompensa, mas com um milhão de dólares em jogo, duvido que dediquem um pensamento – Disse Rio ironicamente. Inclinou-se sobre Rachael, com um sorriso estirando sua boca – Adivinho que você vale muito mais que eu.

–Ela é mais bonita também – Tirou o sarro Drake – Bem, não precisa estar olhando.

Kim e Palha de cereal se afundaram no chão ao lado da cadeira, afastando a manta da perna de Rachael para examinar as feridas mais de perto. Rachael podia ver as terríveis marcas que se entrecruzavam nas costas de Kim.

–Põe-me doente saber que ele fez isso por minha causa. Sei que não acha que é por minha culpa, mas o sinto assim.

Kim sorriu.

–Todos temos coisas das quais somos responsáveis. Há pouco valor em aceitar as que não pode controlar. Deixa-o ir.

Rachael desejava que fosse fácil. Olhou além dele para contemplar fixamente para fora pela janela a selvagem folhagem verde. As folhas pareciam plumas, as trepadeiras selvagens se retorciam em cordas verdes enquanto as orquídeas competiam com cogumelos de brilhantes cores pelo espaço entre as flores que cresciam sobre os grossos troncos das árvores e os ramos. Era bonito e primitivo e chamava a algo dentro dela. Tinha vontades de desaparecer no bosque profundo, simplesmente converter-se em algo mais, algo intocável, selvagem e livre.

Sentiu-o primeiro no peito, uma tensão que a fazia quase impossível respirar. Então foi um fogo em seu estômago, músculos contraindo-se e estirando-se. O calor chamuscou sua carne, seus ossos, chispou em cada órgão. Picava, uma onda precipitando-se sobre ela de tal maneira que ao olhar para baixo viu algo mover-se sob sua pele como se estivesse vivo. Suas mãos se curvaram involuntariamente, e as pontas dos dedos doeram e picaram. Ofegou e retrocedeu da beira de um grande precipício, seu coração palpitava no peito e seus pulmões lutavam para respirar.

–Não posso respirar, Rio – Levou uma eternidade dizer as palavras – Preciso sair onde possa respirar.

Rio não fez perguntas ou perdeu tempo discutindo, mas sim a levantou imediatamente contra seu peito, levantando-se com ela como se ela fosse uma mera criança em vez de uma mulher totalmente crescida em seus braços. Deu um passo com cuidado ao redor de Kim e Palha de cereal e o pote de massa marrom esverdeada. Rachael vislumbrou a cara de Drake, seus olhos abertos e sobressaltados com um conhecimento que ela não possuía antes que conseguisse apagar a expressão de seu rosto.

Rachael enterrou o rosto no pescoço de Rio, inalando seu aroma consolador, tomando força em seus braços.

–Está bem, Rachael. – Rio a acalmou, uma mão lhe acariciava o cabelo enquanto se sentava em um pequeno sofá sobre a varanda – Escuta o bosque, os macacos e pássaros. Eles fazem que a vida pareça em equilíbrio outra vez. Escuta a chuva. Tem um ritmo calmante.

–O que acontece comigo? Sabe o que aconteceu? Juro que vi algo mover-se sob minha pele, como um parasita ou algo. – A umidade criava a ilusão de uma sauna. O som da chuva era apagado e mudo pelo pesado dossel de folhas do alto. Respirava em ofegos desiguais, como se tivesse se deslocado em uma longa corrida. Sua perna ferida palpitava e ardia, seu pulso palpitava ali em um ritmo frenético – Não tenho uma crise de pânico, não a tenho. Não estou histérica, Rio.

–Eu sei, Rachael. Ninguém pensa que esteja histérica. Somente se acalme e quando estivermos sozinhos, falaremos disto. – Seu coração palpitava tão freneticamente quanto o seu. As possibilidades eram incríveis, quase impossível. Queria tempo para pensar nisso, investigar um pouco antes de dar respostas – Só uma coisa, Rachael. Alguma vez ouviu as palavras Han Vol Dan antes? Alguma vez sua mãe disse essas palavras ou as mencionou em suas histórias? – Segurou seu fôlego, em espera de sua resposta, sentindo como se seu mundo cambaleasse sobre a beira de um abismo.

Rachael pôs as palavras em sua mente. Não eram completamente desconhecidas, mas não tinha nem idéia do queriam dizer e estava completamente segura de que sua mãe nunca as tinha incluído nas aventuras do povo leopardo da selvagem selva tropical.

–Não sei. Minha mãe nunca me disse essas palavras, mas... – Suas palavras se tornaram mais fracas pela confusão.

–Não importa – Disse ele.

–O que significam? Han Vol Dan? As palavras fluem como música.

–Está bem, não pense nisso agora mesmo – Reiterou Rio – Espero que realmente não esteja se culpando pelo que aconteceu com Kim. Estive resgatando vítimas de sequestros há algum tempo a todo o comprimento deste rio e em três países. Minha unidade é contratada para entrar e resgatar vítimas. Às vezes o governo contata conosco porque é uma situação politicamente sensível, outras vezes é a família que nos pede para resgatá-los. E outras vezes entregamos o resgate e nos asseguramos de que nada vá mal para que possamos devolver a vítima a sua casa. Em quase cada incidente onde Thomas e seu grupo estão implicados, as vítimas sofreram surras. É um dos líderes mais sangrentos dos bandidos. A maioria considera a si mesmo como homens de negócios. Se o dinheiro é pago, entregam às pessoas que prenderam com boa saúde.

Rachael sacudiu a cabeça.

–Isto é somente um modo de viver para eles? Sequestrar pessoas? O que sentem suas famílias sobre o que eles fazem?

–A maioria está agradecida pela entrada de dinheiro. Alguns o fazem por motivos políticos, e essas situações são muito mais explosivas e muito mais perigosas para minha equipe. Em qualquer momento que vamos atrás de alguém a quem Thomas tenha sequestrado, sabemos que é perigoso tanto para eles como para nós. Thomas matou reféns ainda depois de que pagassem o resgate. Sua palavra não quer dizer nada absolutamente, a ele ou a alguém mais.  

–Encontrou-se com ele?

Ele assentiu.

–Algumas vezes. Está louco e um pouco ébrio de seu próprio poder. É conhecido por matar a seus próprios homens por pequenos desprezos. Matou mulheres. Acredito que gosta de fazer mal às pessoas.

–Conheci alguém assim. Podia sorrir e pretender ser seu melhor amigo inclusive enquanto conspirava para assassinar a sua família. Gente como essa é muito retorcida – Rachael já tinha começado a sentir-se melhor. A estranha enfermidade que a tinha acometido antes já se foi, deixando-a tentando recordar o que sentiu. Só recordava ter sentido medo. O inexplicável episódio a fazia sentir-se ligeiramente ridícula, o epítome de uma mulher histérica. Não era nada assombroso que Rio não pensasse que ela pertencia à selva – Rio, sinto por atuar como uma idiota diante de seus amigos.

–Não o fez, Rachael. Se se sentir melhor, voltaremos dentro e veremos se Palha de cereal e Kim podem fixar sua perna. Eles são muito melhores curando que eu. Seu pai trabalhou um pouco comigo, mas eles tiveram a vantagem de sua tutela desde que eram pequenos.

Rodeou-lhe o pescoço com os braços, unindo seus dedos na nuca.

–Acredito que estou começando a me acostumar que me leve – Tirou o sarro.

–Remeterei a manta ao seu redor. Não me preocupa que vá sem roupa de baixo diante de mim, mas risco a linha em desfilar nua diante de meus amigos. Provocará um enfarte em Drake.  

–Devo adotar seus maus hábitos – Disse Rachael, puxando manta até que cobriu suas coxas nuas. Ela se aconchegou contra seu peito e envolveu seus braços ao redor de seu pescoço outra vez, girando a cabeça para examinar seus vividos olhos verde.

Ambos riram. Não tinha sentido, mas nenhum se preocupou. Simplesmente se derreteram um no outro. Não teve nem idéia de se ela se moveu primeiro ou se foi ele, mas suas bocas se fundiram juntas e a alegria explodiu através deles. A terra tremeu e se moveu. Os macacos conversaram ruidosamente e um pássaro chiou de prazer. Prismas de cor irradiaram através das gotinhas de água sobre as folhas e o musgo. Pétalas de flores do alto choveram sobre eles enquanto o vento mudava ligeiramente, mas ninguém notou. Nesse momento, só estavam eles dois, presos em seu próprio mundo de puro sentimento.

Foi Rachael quem se separou primeiro, rindo porque não podia evitar.

–Tem uma boca assombrosa.

Tinha ouvido aquelas palavras antes pronunciadas pela mesma voz, no mesmo tom zombador, ligeiramente sobressaltado. Havia sentido a ponta do dedo riscando o contorno de seus lábios antes. Claramente recordava afastar os pratos e deitá-la sobre a mesa, louco pela necessidade, querendo-a tanto que não podia esperar o bastante para levá-la ao quarto.

Os dedos de Rachael se enredaram em seu cabelo, um gesto que sempre fazia que seu coração desse um tombo. Às vezes sentia como se vivesse por seu sorriso. Por seu beijo. Pelo som de sua risada. Inclinou-se até que seus lábios pressionaram contra seu ouvido.

–Oxalá estivéssemos sozinhos agora mesmo.

Sua língua fez uma pequena incursão, aprofundando nos espaços, seus dentes beliscando gentilmente. Os seios empurraram contra seu peito, suaves montículos tentadores, seus mamilos dois picos tensos. Tinha sabido que seu corpo reagiria a menor brincadeira de sua língua.

–Menos mal que não estamos. – Indicou Rachael, tratando de impedir que seu cérebro se derretesse como o resto de seu corpo. Tinha que ser a umidade. Podia declarar que nunca havia se sentido tão sexy e querendo tentar tanto a um homem como fazia com Rio. Olhou-o fixamente em seus olhos, a seus estranhos, sedutores olhos, e sentiu como se estivesse caindo dentro dele.

Um leopardo grunhiu uma advertência, logo deu um suave grunhido de dentro da casa. Rachael e Rio piscaram, tratando de sacudir o feitiço sob o qual pareciam estar.

–Rio, será melhor que diga a seu pequeno amigo que pare ou vai ter uma surpresa – Chamou Drake.

Rachael estava impressionada pela grave ameaça na voz de Drake. Rio ficou rígido, dando bruscamente uma ordem a Franz, para que o leopardo nublado saísse da casa. O leopardo elevou o lábio a Rio, suas orelhas esmagadas, expondo seus dentes, a cauda movendo-se para frente e para trás.

–Parece realmente zangado. – Rachael não podia suprimir a nota de medo de sua voz – É surpreendente como seus olhos e seus dentes são diretamente aterradores.

Rio se afastou para dar espaço ao gato.

–Todos os leopardos têm temperamento, Rachael. Podem estar muito mal-humorados e nervosos, inclusive com seu irmão menor. Franz está incomodado e não tolera a companhia muito bem.

–Ele deveria estar acostumado a mim – Disse bruscamente Drake – O pequeno girino me ameaçou. Se tivesse dado um jeito para me morder, tivesse estendido sua pele entre duas árvores.

Estava de pé na entrada olhando com raiva para o leopardo nublado. Seus olhos estavam brilhantes e concentrados, quase frágeis. Havia uma aura de poder emanando dele. Suas mãos agarraram o corrimão da escada, curvando seus dedos fortemente ao redor da madeira.

Rio colocou devagar Rachael no sofá, nunca afastando seus olhos de Drake. Havia uma tensão repentina no corpo de Rio, embora parecesse tão relaxado como sempre. Seu sorriso não alcançava seus olhos. Rachael podia ver que estava tão concentrado em Drake como este estava sobre o gato. Nenhum homem moveu um músculo, tão quietos que parecia como se fossem parte da selva, misturando-se nas sombras. As nuvens se moveram no alto, obscurecendo o céu. O vento soprou e a folhagem e as trepadeiras se moviam como plumas para frente e para trás. As sombras cresceram e se alargaram. Umas gotas de água conseguiram penetrar pelo pesado dossel das copas das árvores e salpicaram o corrimão da escada. O som de madeira rasgada foi ruidoso e desconcertante. Longas lascas frisadas de madeira caíram no chão do alpendre. Rachael as olhou com surpresa. Franz grunhiu e encarando Drake, retrocedeu enquanto ia sigilosamente e devagar para o ramo mais alto da árvore maior. Como se suas patas fossem molas, o leopardo nublado se impulsionou para a copa das árvores e desapareceu.

Drake permaneceu imóvel, olhando o tremor das folhas, e depois agarrou um profundo fôlego, soltou-o e deu uma olhada a Rio.

–Para, homem, o pequeno girino merecia uma patada.

–Fritz foi atacado por um leopardo, Drake. Franz está um pouco nervoso. Podia ter dado uma pausa.

–Não o entendo – Interrompeu Rachael – Acreditava que vocês fossem amigos.

Rio imediatamente deixou cair a mão em seu ombro.

–Drake e eu entendemos, Rachael.

–Bem, eu não entendo a nenhum de vocês.

Rio riu brandamente.

–Tem algo a ver com gatos mal-humorados. Venha, vamos conseguir cuidados para essa perna.

–Quer dizer pôr essa massa caseira escura sobre ela? – Rachael soava horrorizada – Não acredito. Terei minhas oportunidades com o cuidado que você me deu.

Olhou fixamente o corrimão atrás de Drake. Havia sinais frescos de garras na madeira e não podia recordar que estivessem ali antes.

–Certamente não vai ser uma covarde. – Rio tirou o sarro, recolhendo-a como se nada tivesse acontecido.

Ele não jogou uma olhada aos sinais de garra nem sequer pareceu notá-las. Toda a tensão havia ido embora como se nunca tivesse estado.

–Talvez poderíamos misturar umas pétalas mais e mudar a cor – Sugeriu Drake, precedendo Rio à casa – Palha de cereal, ela não quer sua mistura curativa. Pode mudar a cor a um rosa princesa?

Rachael olhou para Drake.

–Passarei disso, independentemente da cor.

Kim sorriu.

–Isto funciona, senhorita Wilson.

–Rachael. – Corrigiu ela, tratando de parecer solene quando Rio a colocou sobre a cama. Já estava cansada e queria somente deitar-se e dormir um pouco – Como de rápido trabalha isto? Dói?

–Sua perna já dói – Indicou Rio – Não fará que a dor piore.

Rachael se enroscou, puxando sua perna como melhor podia para protegê-la de qualquer mistura vodu que Palha de cereal tinha preparado rapidamente.

–Sou um tipo mulher moderna. Do tipo que vai com a medicina moderna.

–Não ouviu alguma vez a frase, “quando em Roma...”? – Gracejou Rio

–Sim, bem, pois não estamos em Roma e duvido que seus remédios sejam dessa nuance particular de verde – Rachael o olhou com raiva, afastando sua mão quando Rio tratou de tirar a perna para inspecioná-la – Para se não quiser perder essa mão!

–Sempre é assim? – Perguntou Drake.

–É pior. Não ponha uma arma em sua mão.

–Foi um acidente. Eu tinha febre alta. – Empurrou a mão de Rio longe outra vez – Não vou me colocar perto dessa coisa. Torna-se mandão quando seus amigos estão ao redor.

–Deixa de se retorcer. Quero que Kim e Palha de cereal vejam o que podem fazer – Rio se sentou na beirada da cama, apoiando seu peso casualmente através de seus quadris para que ela não pudesse sentar-se – Faça, Palha de cereal, não dê nenhuma atenção.

–A quem deu um tiro? – Perguntou Drake.

–Ao rádio.

Drake riu.

–Por sorte trago o meu. Pode ficar e recolherei outro. Vamos ter que perseguir os benfeitores de Kim e resgatá-los do campo de Thomas. Era a verdadeira razão pela qual viemos, sabe, não para te resgatar, Rio.

–Os benfeitores de Kim? – Repetiu Rachael, fingindo ultraje – Quando me sentir melhor, engolirá isso.

Rio tratou de ignorar o negro ciúme que formou redemoinhos em seu estômago. Podia provir de uma espécie primitiva, mas não tinha que atuar como tal. Podia ser civilizado. Não deveria importar que Rachael sorrisse para Drake. E talvez não o fizesse. Mas não importava que tirasse o sarro. Queria que aquela nota particular de sua voz estivesse reservada exclusivamente para ele. Concentrou-se em seu interior, procurando um centro tranqüilo, um lugar aonde ia freqüentemente para conquistar a parte dele que vivia segundo as regras da selva. O ar se moveu através dos pulmões. Dentro e fora, determinado a não se afastar do caminho escolhido. Era importante para ele estar sob controle.

Sentiu o toque de seus dedos. Leves como plumas. Apenas ali, a menor das conexões. Seus dedos se enroscaram no cinto de suas calças, os nódulos pressionaram contra sua pele nua criando um calor imediato. Era um pequeno gesto, mas reconheceu sua necessidade de conforto, de segurança.

E isto lhe trouxe um alívio imediato.

–Rio, vai perseguir Dom Gregson e os outros? – Rachael tinha planejado sua fuga com cuidado. Tinha planejado viver sua vida sozinha. Nunca tinha tido esse medo, embora agora tudo parecia diferente. Não queria que Rio a abandonasse.

 

–Não podemos deixar nenhuma dessas pessoas com Thomas – Respondeu Rio com um forte bufo – Não acredito que tenhamos opções sobre este assunto.

–Esta não vai ser como das outras vezes – Advertiu Drake – Sempre optamos por golpear e agarrar para conseguir que saiam do país enquanto nos disseminávamos pelo bosque. O dinheiro da recompensa muda tudo.

Rachael podia sentir quatro pares de olhos sobre ela. Mantinha seu rosto afastado. Deveria ter sabido que a recompensa ia ser muito substanciosa para ser ignorada, especialmente em países onde as pessoas tinham muito pouco.

–O dinheiro fala. Esse é o lema de minha família. El dinero pavimenta la manera.

–O dinheiro pavimenta a forma de agir – Traduziu Rio. Tinha escutado a frase antes, mas evitava a origem. Olhou para Drake, arqueando uma sobrancelha a modo de interrogação – Interessante lema para uma família.

Drake deu de ombros e sacudiu a cabeça. Estava seguro de ter lido esse lema antes, possivelmente nos jornais, mas não podia recordar nada a respeito disso.

–Sim, bom, tenho uma família interessante. Cedo ou tarde, enviarão um representante para subornar os oficiais de seu governo, se já não tiverem feito isso.. Terei que deixar o país rapidamente. – Apertou seus dedos ao redor do cinto da calça de Rio. Se ia permanecer estendido sobre ela para mantê-la quieta enquanto Palha de cereal melava sua perna com essa beberagem de mau aspecto, bem poderia servir para algo. Deliberadamente ela deslizou a ponta dos dedos sobre sua pele, esperando que fosse um castigo.

–Não pode deixar o país agora, Missy – Palha de cereal negou com a cabeça –Pergunte a Rio. Os bandidos fecharão as fronteiras. Têm espiões em todo comprimento do rio, ao longo das fronteiras, em todos os lados. A maioria das pessoas os teme e só deseja que os bandidos os deixem em paz. Com uma recompensa tão alta, terão mais ajuda que de costume. Seria melhor esconder-se e esperar até que passe a tormenta.

Kim assentiu com a cabeça mostrando-se de acordo.

–Meu irmão diz a verdade, Miss Rachael. Há boas pessoas ao longo do rio, mas essa quantidade de dinheiro brindaria prosperidade a um povo inteiro. Seria fácil justificar uma coisa tão pequena como sopro um pouco de informação. Melhor que se mantenha fora da vista no bosque e espere até que acreditem que faleceu no rio.

Rachael ficou muito quieta debaixo de Rio. Estudou cuidadosamente os quatro homens.

–Suponho que tem razão Kim. Esse dinheiro faria prosperar a qualquer aldeia. O Governo quererá esse dinheiro. Qualquer de vocês poderia lhe dar uso também.

A mão de Rio foi para sua nuca, seus dedos começaram uma lenta massagem para confortá-la quando ambos sabiam que não havia nenhum consolo. Não com a quantidade de dinheiro que estava sendo oferecida para que a traíssem.

–Não tem nada a temer da minha gente, Miss Rachael – Disse Kim.

Sorriu sem olhá-lo diretamente.

–Segue dizendo isso Kim para si mesmo, e cedo ou tarde se sentirá desiludido. As pessoas que o amam o trairá por menos que isso. O dinheiro compra tudo desde comida, medicamentos e educação até a liberdade e o poder. As pessoas matam uma à outra por cinqüenta dólares. Ainda por menos disso. Qualquer um nesta sala pode desejar esse dinheiro, e quem poderia culpá-los? Sou uma estranha para todos vocês.

Rio se sentou, ajustando os travesseiros dela em uma posição mais cômoda.

–Ninguém nesta sala trairá você Rachael. Drake e eu temos preço sobre nossas cabeças. Se tentássemos traí-la a qualquer um dos bandidos, matariam-nos ao nos ver. Kim e Palha de cereal não precisam de dinheiro.

Os escuros olhos de Rachael encontraram o olhar de Rio em aberto desafio.

–Estou disposta a apostar que não teria que enfrentar a nenhum dos bandidos. Se entregar um Oficial do Governo, provavelmente obtenha sua recompensa.

Rio não ia continuar discutindo com ela. E não ia admitir, nem sequer ante si mesmo, que suas suspeitas o incomodavam. Manteve seu olhar firmemente.

–Estou seguro que tem razão, Rachael, mas pelo que sabe poderia estar requerido pelo Governo também. Você mesma disse isso, que devia estar fugindo de algo, ou não me encontraria aqui.

Rachael não podia afastar o olhar do de Rio. Sempre era direto e focado. Sempre intenso. Sentia como se fosse cair nas profundezas de seus brilhantes olhos verdes. Era pura magia negra, um produto do vodu e das poções de amor. Era uma mulher adulta com um preço por sua cabeça. Não tinha vôos de grandeza e não se tornava louca por um homem só porque tivesse um grande corpo matador.

Inesperadamente Rio se inclinou muito perto dela, lhe pondo os lábios sobre a orelha

– Está fazendo isso novamente. Não pode me olhar dessa forma. Um dia desses vai se meter em problemas.

Drake clareou a garganta.

–Por que demônios alguém ofereceria um milhão de dólares recuperá-la?

Rachael continuou olhando para Rio. Só via Rio. Seu rosto preocupado, as linhas impressas ali por muitas missões levadas a cabo, muitas decisões que não tinha querido tomar. Olhos que se mantinham enfocados com tanta intensidade. Olhos que podiam ser tão frios como o gelo ou tão ardentes com um calor tão intenso que ela pegava fogo. Olhos que eram de um intenso verde em vez do verde amarelado que tinha visto tão frequentemente.

–Bom, essa é a questão, não? – Murmurou Rachael – O que foi o que fiz? O que foi que roubei? Porque ninguém poria uma recompensa tão desmesurada sem uma poderosa razão.

–Se esquece do mais importante. O que é o que sabe? – Corrigiu-a Rio.

Rachael aspirou fundo, afastando-se desse olhar que via tudo.

–Pensei que todos vocês tinham que ir resgatar os outros.

–Não é tão fácil. Thomas muda continuamente seu acampamento e os prisioneiros. Tem túneis nos campos onde se detém. Os campos de cano podem esconder um labirinto de túneis que se estendem por milhas. - Explicou Rio.

–Buracos de rato – Disse Drake – Tem tantos esconderijos que leva tempo encontrara todos para determinar sua localização.

–E justo quando os temos localizados, os prisioneiros são mudados novamente. –Adicionou Rio – Temos que nos mover com cuidado, especialmente com Thomas. Drake e Palha de cereal puderam tirar Kim porque ninguém esperava uma intenção de resgate tão cedo. Esta série de tormentas são uma das piores que experimentamos em anos. A última coisa que lhes tivesse ocorrido era que a família de Kim saberia que algo tinha lhe acontecido e que iria atrás dele usando um de nosso povo para ajudá-los.

Rachael estava muito esgotada para fazer algo mais que deitar contra os travesseiros e pensar. Odiava admiti-lo, mas a beberagem com tão estranha cor que Kim e Palha de Cereal tinham esfregado contra sua perna definitivamente levou a maior parte da dor. Olhou abaixo para sua perna e quase põe-se a rir. Sua panturrilha e seu tornozelo estavam ainda muito inchados, quase ao dobro de seu tamanho habitual e agora parecia como se estivesse usando uma meia verde amarrada. As duas feridas agudas supuravam continuamente, o que se acrescentava ao efeito geral.

–Lindo. – Murmurou.

–Isso acredito eu. – Disse Drake, sorrindo com seu encanto juvenil.

Rio esperou que aparecesse o nefasto arranque de ciúmes que parecia ser uma maldição que pendia sobre os de sua espécie, mas surpreendentemente não chegou. Podia sentir como Rachael deslizava os dedos ao longo de suas costas, a forma em que inconscientemente se agarrava ao cinto de suas calças. Era uma coisa tão pequena, mas a sentia familiar e confortante. Sentia-se seguro e a salvo na relação que mantinham. Rio sorriu e sacudiu sua cabeça. Tinha que recordar continuamente a si mesmo que não tinha uma relação com ela. Estirou-se para capturar uma de suas mãos.

–Juro, Rachael, que tenho reminiscências do passado quando estou com você.

Olharam-se um ao outro, completamente sintonizados nesse momento. Seus sorrisos foram lentos e genuínos, sorrisos que completavam seu entendimento, enchendo de calidez aos dois.

Drake clareou a garganta para chamar a atenção de Rio.

–E você sempre pensou que era um mito. Rachael, querida, não acredito que tenha que preocupar-se a respeito de que alguém a entregue para cobrar o dinheiro ou por nenhuma outra coisa. Chegou em casa, aonde pertence.

–Tem idéia a respeito do que está falando? – Perguntou Rachael. Mas podia vê-lo no rosto de Rio. Sabia exatamente do que estava falando Drake. E viu algo mais. Só durante o menor dos momentos viu esperança e alegria nos olhos de Rio. Faiscou ali por um momento e foi rapidamente coberto – Sim, sabe.

–Drake tem uma fixação com as antigas lendas. Acredita em contos de fadas. Eu não. – Respondeu Rio com secura.

Drake o acotovelou.

–Mas está começando a fazer isso. O que há a respeito de Maggie e Brandt? São eles um mito? É só que não quer admitir quando se engana. – Voltou sua atenção para Rachael – Rio é obstinado. Ninguém nunca pôde fazer nada a respeito disto. Boa sorte é a única coisa que vou te dizer.

Rio grunhiu.

–Não acredite nele, Rachael. Sempre tem algo a mais para dizer. Se tivermos sorte nesta ocasião se calará, mas não acredito que vá ocorrer assim.

Kim e Palha de cereal assentiram com a cabeça mostrando que estavam de acordo, rindo sem dissimulação enquanto o faziam.

Rachael era muito consciente do polegar de Rio que se deslizava intimamente sobre seu pulso.

–É isso certo, Drake?

–Mentiras, todas mentiras. – Negou, agarrando o coração – Eles mesmo se chamam de meus amigos. Arrisco minha vida por eles e assim é como me pagam.

–Pobrezinho – Se comiserou, tentando não rir. Drake e Rio eram tão poderosos, tinham o aspecto de machos dominantes, e ainda assim nesse momento pareciam dois rapazes rindo de uma tola brincadeira juntos. Rachael tinha toda classe de perguntas, mas as deixou de lado até que pudesse estar a sós com Rio.

–Rachael está cansada – Disse Rio – Deveríamos deixá-la descansar enquanto decidimos o que vamos fazer para encontrar o grupo de benfeitores que desapareceu. – Viu que ela subitamente franzia o cenho e se corrigiu apressadamente – Vítimas raptadas.

Drake pôs-se a rir novamente.

–Sempre me perguntei o que poderia fazer para que agisse corretamente. Agora me dou conta que não era o “que” e sim “quem”.

Rachael observou os quatro homens saindo,dirigindo-se ao alpendre, deixando-a com Fritz. Fecharam a porta, mas podia ouvir o suave som de suas vozes. De alguma forma era reconfortante ouvi-los enquanto passava da vigília ao sono. A chuva caía intermitentemente. Podia-se escutar o murmúrio do vento entre as árvores, o ondear das folhas e o contínuo som dos insetos e os pássaros, da manada de macacos conversando entre eles enquanto se deslocavam pelos ramos. Os sons se metiam dentro de seus sonhos, familiares e tranquilizadores. A umidade nunca era opressiva, mas intensificava seus sentidos, fazendo que fosse consciente das curvas de seu corpo, de suas terminações nervosas, de sua sexualidade. Sentia gotas de suor correndo pelo vale entre seus seios.

Rachael fechou os olhos e se imaginou que Rio estava ali, inclinando a escura cabeça sobre seu corpo, a língua percorrendo seus inchados seios, enviando um calafrio a sua espinha dorsal. Seu corpo se estremecia com antecipação. Quando a olhava o ar obstruía sua garganta. Havia tanto amor ali. Tanta devoção. Sentia que as lágrimas subiam a seus olhos. Conhecia-o tão bem, cada expressão, cada linha. Podia dizer quando estava cansado ou contente ou zangado. Envolveu os braços ao redor dele, abraçando-o contra ela enquanto escutavam o vento e a chuva golpeando suavemente a janela.

Rio deu um golpezinho na janela, desejando ter deslocado o lençol para poder observar Rachael. Estava seguro de que ficou dormindo em seguida. Sua perna estava se curando, mas muito lentamente. Considerava que tinham sido afortunados de que não tivesse perdido a perna.

–Palha de Cereal, obrigado por misturar as ervas para curar a perna de Rachael. Estava preocupado de não ser capaz de salva-la. Houve um momento onde esteve muito doente.

–Conhece a maioria das plantas curativas. – Respondeu Palha de cereal – Esta é uma mistura que meu pai usa quando devemos curar rapidamente sem provocar muita dor para poder viajar através do bosque e o rio. O rio pode ser perigoso para as feridas abertas. Isto põe um selador sobre a ferida para acautelar que os parasitas ou as bactérias se instalem debaixo da pele.

–Não se preocupe Rio, assegurei-me de deixar as feridas abertas livres para que pudessem supurar – Adicionou Kim – Vai nos contar como aconteceu isto?

–Para não mencionar, que você também se vê bastante mal – Apontou Drake

Rio pôs sua mão sobre a janela, separando seus dedos como se pudesse tocá-la. Sentiu que o chamava. Não houve nenhum som, mas sabia que ela estava em sua mente, possivelmente em sua pele, tentando alcançá-lo, separados somente por uma fina parede.

–Recebi um par de golpes menores quando resgatávamos a nossa última vítima, nada importante. E tive um pequeno encontro com o leopardo. Se se toparem com alguém prejudicado por um grande gato, façam-me saber. Tem que ter ido a algum lugar para fazer-se curar.

–Pensa que estava atrás de você ou atrás da mulher?

–Ao princípio pensei que tinha sido enviado por mim. Definitivamente estava seguindo um rastro, mas agora penso que talvez sempre esteve atrás de Rachael.

–Pela recompensa?

Rio tamborilou seus dedos contra a janela.

–Não acredito que tentasse tirá-la daqui. Penso que estava tentando matá-la.

Drake fez uma careta de dor.

–Um dos nossos? Não matamos mulheres, Rio, especialmente uma de nossas mulheres e ela o é. Sabe que é uma das nossas.

–Neste momento não estou seguro de nada – Rio se recostou contra o corrimão e olhou para seus amigos – Desde que chegou estou em um perpétuo estado de confusão – Sorriu um pouco envergonhado.

–Quem é ela Rio? De onde veio? – Perguntou Drake

Rio deu de ombros.

–Não sei. Não fala muito a respeito dela mesma – Esfregou as mãos e olhou para fora ao escuro interior do bosque – A lembrança. Recordo tudo a respeito dela. Às vezes quando estamos juntos, não posso distinguir a diferença entre o passado e o presente.

–Ela lembra de você?

–Acredito que às vezes o faz. Vejo-o em seus olhos. E admite estar tão confusa quanto eu – Rio passou ambas as mãos pelo cabelo – O que descobriu, Kim? Alguém no acampamento te deu alguma informação a respeito dela?

–Sinto muito, Rio. Querem esse dinheiro e darão a volta no bosque para encontrá-la. Quem quer que seja que está oferecendo a recompensa está desesperado por encontrá-la.

–Disse que a queriam morta – Admitiu Rio – Mas nada mais. Não disse por que e obviamente acredita que continuarão vindo.

–Qualquer pessoa que ofereça um milhão de dólares está falando a sério. –Concluiu Drake.

Kim negou com a cabeça.

–Morta não, Rio. Não estão tentando matá-la. Se a ferirem de qualquer maneira não poderão cobrar a recompensa. Escutei Thomas falando com seus homens. Repetiu isso muitas vezes. Não devem machucá-la.

O vento soprava constantemente através das folhas, fazendo que passassem de um verde escuro a um prateado escuro quando os difusos raios de sol abriam caminho através do dossel de folhas. Rio se endireitou de onde tinha estado reclinado contra o corrimão, passeou despreocupadamente ao longo do alpendre antes de retornar a parar em frente a Kim.

–Está seguro disso?

Kim assentiu.

–Thomas disse que não deviam machucá-la porque senão, não cobrariam o dinheiro. Foi firme a respeito.

–Rachael disse que estavam tentando matá-la. Poderia estar equivocada? Disse que tinham introduzido uma cobra em seu quarto justo antes que fosse rio acima. E deixou os Estados Unidos com documentos falsos para poder desaparecer devido a alguém que a queria morta.

–Pensa que está mentindo para você? – Perguntou Drake

Rio passeou pela segunda vez, as idéias dando volta em sua mente. Finalmente negou com a cabeça.

–Acredito que está convencida de que alguém está tentando matá-la. E não entra em pânico facilmente, assim não é por causa da histeria. Se Rachael disser que alguém a quer morta, tenho que acreditar nela. É possível que estejamos tratando com duas facções diferentes. Uma pessoa que está disposta a pagar uma enorme quantidade de dinheiro para mantê-la a salvo. Está Armando um escândalo público, indo ao Governo para demandar que a encontrem, e alguém mais. Alguém muito mais discreto que está trabalhando para silenciá-la. Essa outra pessoa está contratando assassinos para assegurar-se de que não fale.

–Isso são conjecturas, Rio – Disse Drake.

–Sei que são, mas é possível. Acredito nela quando me diz que estão tentando matá-la. Por que uma mulher como Rachael quereria desaparecer no bosque pluvial?

–Está perto do Han Vol Dan, Rio. Sentiu-o tão profundamente quanto eu. Está muito perto. Possivelmente atrai o nosso povo de volta ao bosque.

–Talvez. Perguntei-lhe se tinha ouvido essas palavras antes e não podia recordá-lo. Disse que não eram desconhecidas, embora não tinha um conhecimento concreto das mesmas.

–Isso complica as coisas. – Disse Drake – São tempos perigosos para todos. Vou embora daqui esta noite. Não me atrevo a ficar por aqui quando ela está tão perto.

–Sentiu-o, Kim? Palha de Cereal? – Perguntou Rio com curiosidade – Estiveram perto de nosso povo por muitos anos. Virtualmente cresci com vocês.

–Nunca estive perto de ninguém no transcurso do Han Vol Dan – Admitiu Kim – Escutei sobre isso, é obvio. Nossos mais velhos falam desse tipo de coisas, mas que eu saiba, ninguém além de sua gente foi testemunha de um evento semelhante. Olhou para seu irmão procurando confirmação.

–Não conheço ninguém. – Disse Palha de cereal – Mas senti o puxão na mulher. Pensei que era por estar tão próximo a ela. É muito sensual.

Rio fez uma careta, mas estava acostumado à maneira aberta, à natureza direta de seus amigos. Sentiu que lhe revolvia o estômago, um seguro sinal de perigo.

–Se o for, ao menos a mim me parece isso. É melhor se todos vocês se forem até que o momento passe. Drake tem razão. É perigoso para todos nós.

–Deixarei o rádio, Rio. Podemos fazer guarda ao redor, pegar o rastro, e quando tivermos algo, o faremos saber isso. Não será capaz de deixá-la a não ser que isto passe.

–Seguiremos com a missão da mesma forma que o fazemos sempre – Objetou Rio – Se começarmos a mudar as coisas, alguém vai acabar morto. Nem bem descubram algo me façam saber e estarei ali.

Kim e Palha de cereal se levantaram o mesmo tempo como se puseram de acordo silenciosamente. Drake passou do alpendre para um ramo largo.

–Dê minhas saudações a seu pai, Kim – Disse Rio – Que toda a magia deste bosque vá com vocês e que a fortuna seja sua companheira enquanto dure a viagem.

–Boa caça para você sempre – Respondeu Palha de Cereal.

–Mantenha-se alerta, Rio – Acrescentou Drake enquanto os dois homens da tribo desciam cuidadosamente ao chão do bosque – Farei transcender a notícia sobre o leopardo, mas sabe que voltará se estiver sob contrato. Está enraizado em nós o nunca nos deter. Terá que matá-lo.

–Maldição, Drake, acha que não sei?

–Conheço você. Só queria que cuidasse de suas costas.

Rio assentiu.

–Não tem que preocupar-se por mim. Saúda os outros de minha parte.

–Trará logo Rachael para que conheça todo mundo?

–Quero lhe dar tempo para que se adapte. Tempo para que os dois nos adaptemos. – Rio hesitou – Não estou acostumado a estar rodeado de gente por mais de duas horas de cada vez. Inclusive dentro da unidade, trabalho sozinho. Não sei se posso fazer entrar alguém em minha vida e fazer que funcione.

Drake sorriu, mas não havia humor tocando seus olhos.

–Seria o último homem em te dizer como fazer isso, mas te desejo a melhor das sortes – Começou a descer pelo ramo da árvore, logo deu a volta – Não deixe passar a ocasião, Rio. Não quando te brinda desta forma. A maioria de nós jamais terá uma oportunidade assim.

Rio assentiu e observou os três homens desaparecer nas sombras do bosque. Ficou de pé ali por um longo momento respirando o ar fresco e limpo, a fragrância das flores e a chuva. Por hábito levantou a cabeça e farejou o ar, percebendo o aroma do vento. Confiava em suas próprias habilidades para obter advertências adiantado da possível existência de um perigo iminente, mas os animais de seu território sempre o ajudavam.

Tossiu, uma série de grunhidos, enviando um aviso para que fosse transportado perto e longe, da menor criatura do chão do bosque até as abelhas que construíam seus favos gigantes no alto da coberta florestal. Sentiu asas batendo-se sobre sua cabeça, um orangotango movendo-se lentamente através dos ramos procurando as folhas que melhor sabiam e mariposas que revoavam sobre a aglomeração de flores sobre os troncos das árvores. Cada um se ocupava de seus próprios assuntos, despreocupadamente quando não havia intrusos em seu domínio.

Rio abriu a porta. Imediatamente o vento invadiu sua casa, formando um redemoinho e fazendo dançar a malha mosquiteiro. Rachael jazia dormindo, seu cabelo negro esparramado sobre o travesseiro. O vento puxava e brincava com seus sedosos fios fazendo que seu cabelo se movesse, chamando-o. Fechou a porta e resistiu à tentação de deitar-se ao lado dela. Se tinha que voltar a ficar em ação novamente tão cedo, tinha que limpar suas armas e assegurar-se de ter o equipamento de emergência disposta em cada rota de fuga.

Rachael comeu muito pouco e ficou calada, acariciando a pele de Fritz enquanto observava Rio trabalhar. Tinha mais arma e mais facas que alguém que já tivesse conhecido antes, e estava familiarizada com as armas. Limpava-as com o mesmo tipo de cuidado com o qual curava uma ferida, meticulosamente e com determinação, sem omitir nem um pequeno detalhe. Observou-o enquanto tomava vários jogos de roupa e pequenas equipes médicas junto com algumas das armas e colocava tudo em pacotes impermeáveis

–O que está fazendo com isso? – Finalmente a curiosidade a havia vencido. Rachael se sentia cômoda com os silêncios e estando a sós, mas não tanto quanto Rio. Parecia que ele estava perfeitamente bem passando horas sem dizer uma só palavra.

Rio olhou para cima e piscou, como se desse conta de que estava ali. Mas para falar a verdade tinha sido consciente de cada movimento que tinha feito. Estava quase hipnotizado pela visão de seus dedos acariciando a pele do gato.

–Distribuo os pacotes ao longo de minhas vias de fuga para o caso de ficar sem munições, armas ou precisar de fornecimentos médicos. Pode ser muito útil.

–E a roupa?

–Vem-me bem se preciso me trocar – Respondeu eloquentemente.

–Já vejo. Vai me dizer por que seu amigo Drake age tão estranhamente com os gatos e por que não se incomodou? Por um momento, temi, que repentinamente fosse ter um estalo violento. Pareceu-me que você estava esperando o mesmo.

–Drake viveu a maior parte de sua vida no bosque. Somos muito primitivos aqui. Reagimos à natureza; soa um pouco estranho, mas se passar aqui o tempo suficiente, entenderá isso. – Suas mãos se detiveram sobre a faca que estava afiando – Desejo que fique por muito tempo, Rachael.

Seu olhar era direto como sempre. Rachael não poderia ter afastado o seu embora sua vida tivesse dependido disso. Sua voz era tão baixa que apenas o ouvia. Por um momento não pôde respirar, seu peito estava oprimido com uma mistura de esperança e medo. Quase solta a primeira coisa que lhe veio à mente. Queria ficar… Precisava ficar. Nunca tinha desejado um homem da maneira que o desejava. Mas a morte estava pronta para saltar na sua cabeça e não ia se fixar em quem se encontrava na mesma vizinhança.

–Comigo, Rachael. Quero que fique aqui comigo.

–Sabe que não posso, Rio. Sabe porquê – Seus dedos se curvaram tão apertadamente sobre a pele do leopardo nublado, que Fritz levantou a cabeça e a olhou curvando os lábios.

–Então ao menos quer ficar aqui comigo. Se pudesse, quereria estar comigo? – Pertencia a ele. Sabia com cada fôlego que tomava. Sabia com cada fibra de seu ser. Como poderia ela não saber disso? Não senti-lo? Estava tão claro para ele.

Rachael retirou a mão que tinha sobre o gato e arrastou a manta até seu queixo. Era uma pequena proteção, mas a fazia se sentir mais controlada. Rio parou dessa forma preguiçosa e lânguida com que estava acostumado a mover-se, a que sempre recordava a um felino. Sem hesitar, deitou-se ao lado dela, acomodando seu corpo ao redor do dela, com cuidado de não tocar a perna.

A manta estava entre os dois, mas Rachael sentia bem seu corpo através da fina malha. Quando tomou ar, recolheu seu aroma nos pulmões.

–Não me conhece mais do que eu conheço você. Não podemos simplesmente pretender que não temos passado, Rio, por mais que nós gostássemos de fazer dessa forma. Não sou a mulher que parece recordar de seus sonhos, e você não pode ser o homem que eu recordo. Essas coisas nunca são reais.

Os dedos dele se enredaram em seu cabelo.

–Como sabe que não são reais? Como sabe que não estivemos juntos em uma vida passada? Seu cabelo se parecia exatamente assim, mas o deixava mais longo, até a cintura. Quando o trançava, a trança era tão grosa como meu antebraço. Conheço o som de sua risada, Rachael, mas mais importante ainda, sei o que te fazer rir. Sei o que te provoca tristeza. Sei que sente aversão pelos macacos. Como poderia saber disso? – Envolveu seus cachos ao redor dos dedos e enterrou o rosto contra a sedosa massa.

–Devo ter dito algo, possivelmente quando tinha essa febre tão alta. Provavelmente divagava como uma louca.

–Justamente o oposto. A maior parte do tempo, estava tão calada, que me assustava. Às vezes mal respirava.

Ela riu silenciosamente.

–Tinha medo que tivesse me dando o soro da verdade.

–Para poder conduzir meu interrogatório – Levantou a cabeça, seus olhos verdes ardendo nos dela – Tem medo de mim, Rachael? Tem medo de que a trairia por dinheiro?

Ela estudou seu rosto traço por traço e se encontrou sacudindo a cabeça antes de poder evitar.

–Não, não tenho medo disso.

–Então fala comigo. Me diga quem é.

Levantou uma mão para seu rosto, riscou as pequenas linhas ao redor de sua boca.

–Me diga você quem é, Rio. Deixe-me conhecê-lo antes que me faça perguntas a respeito de mim. Vejo sofrimento em seu rosto. Viu a traição, conhece o que é. E veio aqui por uma razão. Me diga qual é. Por que tem que viver neste lugar?

–Escolhi viver aqui, Rachael, não tenho que fazê-lo. Há uma diferença.

–Estive aqui por algum tempo. Kim e Palha de Cereal vivem longe de outras pessoas? Drake faz isso?

–Não, Kim e Palha de Cereal vivem na aldeia. A maior parte do tempo se seu povo se mudar, a aldeia inteira se muda. Ainda têm moradas quando viajam. Drake vive perto de uma aldeia para nosso povo.

–Quem é seu povo, Rio? Por que não quer estar perto deles?

–Sempre me sinto mais feliz quando estou sozinho. Não me preocupa levar uma vida solitária.

Rachael sorriu e se aconchegou mais contra o travesseiro.

–Não está disposto a me contar nada a respeito de si mesmo. Inclusive na amizade se trata de dar e receber, tem que haver confiança entre duas pessoas. Não existe isso entre nós.

–Então o que temos? – Rio sabia que ela tinha razão, mas não queria escutá-la dizendo isso. Queria que as coisas fossem diferentes, mas se lhe dizia o que ela queria saber não haveria possibilidades para eles.

–Estou tão cansada, Rio – Disse Rachael suavemente – Podemos fazer isto amanhã? Parece que não posso permanecer acordada sem importar quanto o tente. Acredito que está pondo algo dentro dessa bebida que sempre me diz que é tão saudável.

Queria deixar o assunto. Reconhecia os sinais. Estava habituado a evadir assuntos que não queria discutir. E qual era o ponto?

Rio deitou ali escutando-a respirar, seu corpo tão duro que estava seguro que um só um toque mais contra seu corpo poderia ser a gota que encheria o copo. Quebraria-se em um milhão de pedaços. Dormir no piso longe dela não o evitaria. As duchas frias não estavam ajudando. A casa era muito pequena para que os dois compartilhassem, a não ser que estivessem juntos, e dormir na cama ao lado dela sem tocá-la era definitivamente impossível.

Intelectualmente sabia que era porque estava perto do Han Vol Dan e isso o estava afetando devido a sua essência de maturidade. Queria lhe jogar a culpa disso, a chamada da maturidade de uma fêmea a um macho, mas para dizer a verdade, desejava-a de tantas outras formas diferentes. O fazia feliz e nem sequer sabia o porquê. Não importava o porquê. Queria-a em sua casa. A seu lado. Com ele. Era assim simples.

Mulheres. Sempre davam um jeito para complicar até a mais simples das questões. Sentou-se, com cuidado de não incomodá-la. Não poderia dormir se não saía a correr na noite. Quanto mais longe e mais rápido melhor.

Rachael esperava estar sonhando. Não era um pesadelo que a assustasse, mas era inquietante. Nem tanto as imagens, mas a idéia em si mesma. Podia-se ver ela mesma, estirando o corpo, arqueando as costas, na agonia da necessidade sexual. Não só um desejo… Uma ânsia, uma obsessão. A necessidade era tão forte que não podia pensar em outra coisa que não fosse em encontrar Rio. Estar com Rio. As mãos de Rio tocando-a, deslizando-se por seu corpo, percorrendo-a com selvagem abandono. Havia calor e fogo e ainda assim ela não estava satisfeita. Podia ver seu corpo ondeando de prazer, reluzente e úmido. Rio rodando com ela, puxando-a até pô-la em cima dele, e Rachael atirando a cabeça para trás, empurrando seus seios em convite enquanto o montava freneticamente. Girou a cabeça para olhar para trás à adormecida Rachael, com o rosto contorsionado enquanto a pele ondeava sobre seu corpo.

Rachael sacudiu a cabeça, removeu-se sonolenta, meneou-se um pouco para encontrar a calidez e segurança do corpo de Rio. Não estava ali. Deu a volta, cuidando de não mover sua perna machucada. Definitivamente estava sozinha na cama. A casa estava escura, o que não era incomum já que Rio nunca acendia um abajur, preferindo caminhar silenciosamente pela casa, descalço, nu. Parecia ter uma grande afinidade com a noite, preferindo essa hora sobre qualquer outra. Nada nas sombras o afetava ou o assustava. Parecia que nunca dormia profundamente. As poucas vezes que ela despertou na escuridão, ele já estava alerta, sendo a mudança de sua respiração suficiente para despertá-lo.

Levantou a cabeça e estudou a habitação. O mosquiteiro que pendurava sobre a porta se balançava como um fantasma dançando com o vento. A porta estava aberta. Rio tinha partido para uma de suas muitas aventuras de meia-noite. Sempre voltava mais relaxado, desaparecida a tensão de seu corpo. Usualmente voltava coberto de suor e se dirigia para o lavabo para lavar-se. Rachael adorava olhá-lo. Deveria haver-se sentido culpado, uma olheira, mas não era assim. Simplesmente recreava seus olhos admirando seu corpo, observando o jogo de seus jogos de músculos e apreciando o fato de que fosse tão intensamente masculino.

Algo empurrou contra o mosquiteiro. Uma grande cabeça escura forçou seu caminho dentro da casa. Rachael se congelou, com o coração na boca. Fritz grunhiu, rosnou e se elevou para dirigir-se com passo instável para Rachael. Estirou a mão para o pequeno leopardo nublado, tocou sua pele enquanto se movia sigilosamente perto da cama, ainda rosnando. Rachael não afastava o olhar do enorme, fortemente musculoso animal que abria caminho através da frágil malha de mosquiteiro dentro da casa.

O leopardo era o maior animal selvagem que já encontrou. Era um macho, pesando quase perto de duzentos quilos, puro músculo, exótica pele negra da cabeça até a ponta da cauda, seus olhos de um vívido verde amarelado. O leopardo sacudiu a cabeça de um lado a outro, procurando com o olhar ao redor da habitação, ignorando o grunhido do pequeno gato como se estivesse abaixo de seu nível. Entrou completamente na casa, balançando a cauda de um lado a outro. Esfregou seu ombro contra a cadeira e o lavabo, todo o tempo olhando Rachael com um olhar muito inteligente em seus olhos.

Moveu a mão muito lentamente, dentro da cama, deslizando-a debaixo do travesseiro para encontrar o reconfortante metal da arma. Envolvendo seus dedos ao redor da culatra a puxou para ela com um movimento lento. Debaixo da cama, Fritz grunhiu mais forte.

–Hush – Sussurrou, tentando manter a voz o mais baixa possível para que não provocar o ataque do leopardo.

Para seu assombro, o pequeno gato se calou. O leopardo negro continuou esfregando seu corpo contra o mobiliário, olhando-a todo o tempo. Ela deitou quieta, incapaz de olhar para outro lado. Enquanto o animal se aproximava, Rachael se esqueceu de apontar a arma. O animal não a espreitava, simplesmente se aproximava lentamente, esfregando toda a extensão de seu corpo ao longo da cama. Esfregou a cabeça em seu braço, a pele tão suave e incrivelmente luxuosa. Com o fôlego preso em sua garganta, teve que combater o impulso de enterrar seus dedos nessa pele, de esfregar seu rosto contra o pescoço e ombros do animal.

O leopardo começou a esfregar seu corpo lenta e sistematicamente com a cabeça, queixo e bochechas, esfregando-se contra seu ombro e seus seios. Estirou-se sobre a cama para esfregar seu estômago e a conjunção entre suas pernas, tomou seu tempo para esfregar-se contra sua perna boa e depois de cheirar sua perna ferida, tomou cuidado quando se esfregava de volta para cima pela perna até sua cabeça.

O fôlego do leopardo era quente contra sua pele enquanto lhe tocava o ombro, dando a impressão de que o animal queria que o acariciasse. A arma escorregou da mão para repousar na manta quando ela afundou os dedos na espessa pele. Era atrevido e quase entristecedor, um selvagem e louco impulso que não pôde controlar. Percorreu com a ponta dos dedos a sombra mais escura das manchas enterradas no denso negrume da pele. Tentativamente, começou a arranhar as orelhas e o pescoço do leopardo, deixando-o suficientemente audaz para arranhar o amplo peito. Podia ver várias cicatrizes na pele, indicando que o gato tinha participado de mais de uma briga, mas o animal era um magnífico espécime de sua classe. Os músculos corriam como aço debaixo da pele, envolvendo seu corpo em todas as direções. Deveria ter estado aterrada de estar tão perto, mas a noite tinha adquirido uma qualidade surrealista.

Estava tão perto que podia apreciar que seus bigodes eram muito compridos, e se achavam em seu lábio superior, bochechas, queixo, sobre os olhos e inclusive na parte de dentro das patas dianteiras. Os cabelos estavam incrustados em tecido com terminações nervosas que transmitiam informação tangível continuamente, muito parecido a um sistema de radar. Durante um ataque, o leopardo podia estender seus bigodes de forma parecida com uma rede em frente de sua boca para ajudá-lo a avaliar a posição do corpo da presa para poder lhe administrar uma mordida letal. Rachael tinha esperanças de que o fato de que se esfregasse continuamente contra ela fosse um sinal para que o arranhasse com mais força e não de que o animal estava se pondo agressivo.

Fritz apareceu o nariz fora de debaixo da cama e o coração dela começou a pulsar com mais força, a causa do temor pelo pequeno gato ferido. O leopardo maior apenas o tocou com o nariz, e esfregou a parte de cima da cabeça do leopardo nublado com a sua própria. Depois se estirou languidamente, arranhou o piso ao redor da cama e repetiu a ação de esfregar a cabeça contra o corpo do Rachael antes de cruzar a habitação lentamente para a área da cozinha. Parou sobre seus quartos traseiros e arranhou com suas garras a parede, deixando compridos, e fundos sulcos sobre a madeira. Exatamente iguais aos outros sulcos. Deixou-se cair novamente ao piso, voltou a cabeça para olhá-la uma vez mais com seu olhar fixo, logo, sem pressas, foi caminhando lentamente saindo da casa para a escuridão.

 

Rachael limpou o suor dos olhos e olhou fixamente as marcas de garras na parede. Não tinha estado sonhando. Um leopardo enorme tinha estado na casa, caminhando como se esta fosse dele. Tinha observado Rachael com um olhar fixo e misterioso. O animal se esfregou contra a cama, contra sua pele, contra todo seu corpo, não uma vez, mas duas, contra os móveis, e tinha acabado estirando-se em toda sua longitude para marcar com suas garras a parede da cozinha, deixando para trás sulcos profundos na madeira. Não teria podido imaginar uma besta como essa mais do que podia imaginar as marcas de garras.

–Justo quando parece que é seguro voltar para a selva – Sussurrou em voz alta, temerosa de falar muito alto se por acaso o gato voltasse – Rio? Rio, onde está?

A porta estava aberta de noite, o mosquiteiro se balançava suavemente na leve brisa. A chuva era uma queda suave na distância. Rachael se levantou, tomando cuidado de não bater sua perna. Sentia-se mais forte, mas a perna estava torcida, e doía inclusive com o movimento mais leve. Arrastando a camisa de Rio, resmungou quando se enganchou em seu pulso quebrado e lançou a manta para trás. A arma caiu ao piso com um estrondo, o som ruidoso na quietude da noite.

Com um pequeno suspiro, Rachael ficou a procurá-la, estendendo as pontas de seus dedos, tentando não forçar sua perna até que fosse necessário mover-se. Não se ouvia nada, mas ela sentia o impacto de seus olhos. Em seguida pôde respirar melhor. Rachael levantou a vista, encontrando os largos ombros de Rio enchendo a soleira da porta. Acostumou-se ao fato que raramente usasse roupa em casa. E que seu corpo fosse duro como uma rocha. E que havia algo perigoso e diferente sobre ele que não podia identificar. Mas nunca poderia repor o poder seguro de seus olhos.

–Além de deixar a porta aberta e um leopardo decidiu visitar a casa, tem que deixar de sair para passear a meia-noite. Alguma vez lhe disseram que o bosque pode ser perigoso de noite? – Rachael fechou os dedos sobre a manta, fazendo um punho, desejando poder colocá-lo em sua boca e calar-se por uma vez em sua vida. Poderia soar mais ridícula, soltando uma rixa sobre os perigos do bosque quando ele sabia muito melhor que ela? Era só que tinha tido tanto medo, e o alívio de tê-lo de volta seguro e ileso era entristecedor.

Rio entrou tranquilamente no quarto, totalmente nu mas tão seguro como se levasse um traje de três peças.

–Não vou deixar que aconteça nada com você, Rachael. Deveria ter fechado a porta quando estava sozinha na casa, mas estava justo aí fora – Seu olhar se moveu sobre seu rosto, fazendo uma inspeção tensa e mal-humorada – Estava tentando sair da cama?

Ela forçou uma risada suave.

–Rachael ao resgate. Ia me pendurar no pescoço do leopardo se ele o atacasse.

Olhou-a longa e fixamente antes que um sorriso lento se estendesse por seu rosto. O coração de Rachael deu um pequeno tombo.

–Que idéia, Rachael. Estou tendo sua imagem lutando com um leopardo e é suficiente para deixar meu cabelo cinza.

Seu cabelo a encantava. Desgrenhado e indomável, mas brilhante e limpo, como a seda.

–Rio, ponha um pouco de roupa. De verdade, está fazendo minha vida muito difícil.

–Porque sempre que estou perto de você tenho uma ereção? – Suas palavras soaram graves, como veludo suave. O impacto foi físico. Seu corpo simplesmente se dissolveu em calor líquido.

Rachael não pôde evitar olhá-lo, desavergonhado, natural, solitário. Parecia tão solitário ali quieto como um deus grego, uma estátua do varão perfeito, com músculos flexíveis, olhos penetrantes e boca pecaminosa. Desejou sentir luxúria absoluta. Nada mais, simplesmente a típica luxúria. Uma aventura quente que queimasse e se apagasse deixando só as cinzas e os bons desejos, e liberdade para trás. Não ajudou que tivesse tido sonhos estranhos e apaixonados nos quais faziam grosseiramente amor.

Como sabia que o podia deixar louco simplesmente percorrendo com as pontas de seus dedos sua masculina coxa? Como sabia que seus olhos mudariam, cintilariam como esmeraldas brilhantes, quentes e brilhantes, consumindo-a de desejo? Tinha visto lágrimas em seus olhos. Tinha ouvido sua voz rouca pela paixão. Rachael sacudiu a cabeça para clarear seus pensamentos, para liberar-se das estranhas memórias que eram delas... Mas que de uma vez não o eram.

–Embora admita que é tremendamente tentador e distrativo, não estou me sentindo muito sexy, Rio – Era uma mentira descarada. Rachael nunca havia se sentido mais sexy em sua vida. Suspirou pesadamente – Me assusta quando sai dessa forma. Realmente tenho medo de que aconteça algo com você. Não é como se estivesse em forma para poder ir ao resgate.

Quão único pôde fazer Rio foi olhá-la fixamente em silêncio. Sua confissão o fez sentir indefeso e vulnerável. Ninguém se preocupava com ele. A ninguém preocupava até esse ponto se não chegava a salvo em casa de noite. Esperava morrer definitivamente algum dia em uma briga, e duvidava que mais de um punhado de homens lamentassem sua perda, e isso seria um breve reconhecimento a sua habilidade como atirador. Rachael o olhava com o mundo brilhando em seus olhos. Um presente. Um tesouro. E estava seguro de que ela não se dava conta.

–Perdoa se te assustei, Rachael – Murmurou suavemente e fechou a porta de noite, fechando a porta para sua liberdade – Tinha algumas coisas nas quais pensar. Saí para correr um pouco.

–Sim, bem, enquanto foi, tivemos uma pequena visita de um amistoso leopardo da área. Por sorte estava em seu melhor comportamento assim não atirei nele. Terá notado que estou escolhendo humor e jogo mais que a clássica histeria. Embora estive pensando longamente na histeria.

Rio podia sentir um enorme sorriso formando-se. Começou em seu ventre e estendeu calor por seu corpo.

–Aprecio o sacrifício. Não estou seguro do que faria com histeria. Pode ser que estivesse além de minhas capacidades para lhe fazer frente.

–Duvido seriamente que algo esteja além de suas capacidades. Perturbei-o antes? É por isso que não podia dormir?

Rio cruzou o lavabo como fazia sempre que voltava de seus desaparecimentos noturnos. Seus músculos fluíam como a água enquanto se movia pela casa sem fazer ruído. Lembrou-se de acender uma vela, sabendo que ele gostava de seu aroma. A chama oscilou e criou sombras que dançavam na parede.

–Pensei muito no que disse antes, que não estava disposta a te contar coisas sobre mim. Possivelmente tinha razão. Eu gosto da maneira como me olha. Nunca ninguém me olhou como a forma que você o faz. É duro pensar em renunciar isso, ou me arriscar a não voltar a vê-lo, porque não me olhará da mesma maneira depois de que te falar sobre quem e o que sou realmente.

Ela sempre fazia o inesperado. Rachael riu suavemente.

–E você deve ter esquecido com quem está falando, Rio. A mulher com o milhão de dólares de preço sobre sua cabeça. Ocorreu a você pensar que na sociedade sou uma pária?

–Sei perfeitamente com quem estou falando – Disse Rio.

Rachael estirou sua perna para frente, com cuidado de não batê-la. Teve que utilizar ambas as mãos, inclusive a quebrada, para mover sua perna completamente da cama. O sangue desceu de repente, fazendo que sentisse alfinetes e agulhas acompanhando à dor palpitante. Isso atraiu imediatamente a atenção do homem. Rio deu meia volta, com um pequeno cenho em seu rosto.

–Vai a alguma parte?

–Só estou estirando. Pensei que podia me preparar uma dessas bebidas. Estou me tornando viciada nelas. Por certo, o que coloca neles? Só para sabê-lo para o futuro, já sabe – Endireitou sua camisa, puxando as pontas para tentar cobrir suas coxas nuas. As beiras da camisa estavam abertas sobre seus seios, por isso torpemente tentou abotoá-la com uma mão.

Rio vestiu uma calça jeans antes de cruzar para a cama.

–A bebida se faz de néctar de frutas, de qualquer fruta que pegue essa manhã –Se ajoelhou ao lado dela e alcançou as beiras da camisa, sua camisa. Parecia totalmente diferente nela. Seus nódulos roçaram seus seios plenos. Poderia sentir calor e a carne suave e aveludada. Seus nódulos se atrasaram, esfregando deliberadamente com suavidade. Não tinha planejado aproveitar-se, simplesmente tinha acontecido. Não era capaz de resistir à tentação. Levantou o olhar para o rosto da mulher e seus dedos se fecharam nas beiras de sua camisa.

Imediatamente Rachael se viu presa na vívida intensidade de seu olhar. Caiu, tropeçou, deslizou-se em seu olhar, inclinando-se em convite. A boca de Rio tomou posse da sua, fundindo-se juntas, de forma selvagem e tumultuada, nenhum dos dois em controle. Os dedos do homem se moveram entre seus seios, desabotoando um botão para poder tomar o suave peso com as mãos. Ela ofegou, arqueando-se em sua palma, empurrando para aproximar-se mais, com o corpo tão sensível como em seu sonho felino. Necessitava seu contato, doía-se por ele, sonhava com ele. Ele o fazia familiar. Sua boca era pura masculinidade, eliminando todo pensamento de sua cabeça, de modo que simplesmente fechou os braços ao redor de seu pescoço e o abraçou contra ela.

Os lábios do homem deixaram um rastro do fogo de sua boca a seu queixo. Seus dentes mordiscaram, moveram-se para sua garganta, sua língua formando redemoinhos sobre a pele feminina para prová-la. Rachael gritou quando sua boca se colocou sobre seu seio, quando seus dedos se enredaram em seu cabelo, quando ele propagou um fogo ardente por todo seu corpo.

–Por que desta vez teve que pôr as calças? – Queixou-se Rachael, sua voz sem fôlego – Só desta vez, não seria melhor esquecer-se de tudo e simplesmente estar juntos – A dor e a necessidade eram cruas. Ouviu-o e sabia que também o sentia.

–Maldição, Rachael – Sua língua formou redemoinhos sobre um tenso mamilo. Rio descansou a testa contra seu esterno, sua respiração quente sobre os seios de Rachel – Teve que me fazer pensar? Se me aproveitar de você quando está ferida e não pode partir, como vai se sentir amanhã quando escutar tudo o que tenho que dizer a você?

Suas mãos abarcaram seus seios, seus polegares acariciando, sua boca quente e úmida e cheia de paixão enquanto chupava, só uma vez mais. Seu corpo estava tão rígido e dolorido que Rio soltou um gemido, protestando involuntariamente contra o material apertado que cobria sua ereção.

Rachael puxou seu zíper, agradecida de que as calças não tivessem botões.

–Tira isso Rio.

A inapetência o homem abandonou o refúgio de seus seios para levantar-se, e assim tirar as calças e chutá-las com o pé a um lado. Rio estava parado entre as pernas da mulher, por isso Rachael simplesmente se inclinou para ele, suas mãos agarrando seu testículo e sua boca deslizando-se sobre sua ereção. A seda quente o rodeou, agarrou-o, a língua dançando e atormentando. A precipitação o golpeou como uma bola de fogo, quase lhe arrancando a cabeça. Ela estava fazendo algo com as pontas de seus dedos, esfregando e acariciando até que pensou que perderia a cabeça. Ouviu um som escapando de sua garganta, uma mistura de grunhido e gemido, que não foi capaz de parar.

–Rachael, está me matando – Não queria que parasse, mas se não o fazia ia envergonhar se. Não haveria oportunidade de satisfazê-la. Rio pôs as mãos em seus ombros para afastá-la – Se formos fazer isto, vamos fazer bem – Inclusive enquanto o dizia, totalmente convencido, sua língua seguia incursionando e dançando sobre a ponta de seu membro, atormentando-o e deixando-o louco. Sua respiração se tornou fechada. Rio introduziu as mãos em seu cabelo, empurrando desesperadamente com os quadris.

Essa era Rachael. Atormentando e rindo, com seu fôlego quente pela paixão enquanto o conduzia fora de sua mente. Ela adorava sua vida sexual, era tão aventureira quanto ele. Só olhando-a se tornava louco e quando agia assim... Rio gemeu outra vez e sacudiu sua cabeça para eliminar qualquer pensamento. Queria que isto fosse o aqui e agora. Esta Rachael, este Rio não os outros de outro tempo e lugar.

Rio puxou seu cabelo e ela levantou sua cabeça, seus olhos cor chocolate escuro rindo alegres. Seu coração saltou várias vezes. Colocou-a de novo na cama, levantando sua perna cuidadosamente e arrastando as mantas, cobertores e tudo que pôde encontrar para apoiá-la .A camisa se abriu lhe permitindo ver seu delicioso corpo. Sua pele era um milagre, suave e convidativo.

–Está segura, Rachael? Tem que está-lo, sestrilla. Uma vez que façamos isto, não há volta atrás - Seu olhar acalorado percorreu possessivamente seu corpo, bebendo dela, inclusive quando quis assegurar-se que estivesse segura do que fazia. Qualquer vida passada que tivessem tido juntos estava impulsionando uma união apaixonada e quente – Quero que nós sejamos. Você e eu e ninguém mais. Nem passado nem futuro, só os dois no presente.

Rachael elevou seus braços para ele, juntando as mãos atrás de seu pescoço enquanto Rio descia cuidadosamente para colocar-se entre seus quadris. O corpo da mulher lhe dava a mesma boa vinda que seu olhar. Como a maravilha e a alegria em seus olhos. Rio enterrou a cara no calor de sua garganta, fechando os olhos para absorver a sensação e a textura de sua pele. De seu calor.

–Sei o que significa sestrilla, Rio. Está me chamando de amada. Não conheço o idioma, mas sei a palavra – Sustentou a cabeça de Rio contra a sua, sentindo o tremor em seu corpo. Ele era enormemente forte, com músculos flexíveis, e ainda assim tremia em seus braços. Surpreendia-a e a fazia sentir humilde. Rachael acariciou suas costas com as mãos, com cuidado de não esfregar a tabuleta provisória contra sua pele. Conhecia suas costas, mas as cicatrizes não eram familiares. Riscou cada uma, as guardando na memória.

Sua ereção era pesada e grossa, e pressionava contra sua entrada úmida, mas Rio simplesmente ficou entre seus braços, abraçando-a enquanto ela explorava seu corpo. Sentiu sua boca movendo-se sobre sua garganta e seu coração começou a golpear em antecipação. Sua língua deixava uma esteira de chamas em seu corpo, e Rachael não pôde evitar mover-se. Rio a adorava, tomando seu tempo quando ambos estavam já à beira da loucura. Suas mãos e boca tocando e provando, até que as lágrimas apareceram em seus olhos, e seus quadris se levantaram em urgente necessidade. Rio era incrivelmente gentil, inclusive terno, tão cuidadoso com sua perna machucada. E ainda assim não houve um ponto de seu corpo que passasse por cima, dando um lento festim nela como se tivessem todo o tempo do mundo. Sua respiração era quente em seu estômago enquanto depositava pequenos beliscões até o arbusto de cachos escuros.

–Rio, é muito.

–Nunca é muito – Rio suspirou as palavras contra ela, com seu dedo empurrando profundamente. Seus músculos se apertaram a seu redor e Rachael gritou - Deste prazer somos os dois, Rachael. Como estávamos destinados a estar – Inclinou sua cabeça e substituiu o dedo por sua língua.

Rachael agarrou os lençóis como se fossem uma âncora. Seu corpo explodiu, ondulando com vida, com prazer, quase enviando-a fora da cama. A boca de Rio se fundiu com a sua e levantou seus quadris, entrando nela. Era grosso e cheio, e a levou ao orgasmo, enviando ondas de fogo através de seu corpo.

–Mais, Rachael, tome mais profundo, tome por inteiro – Sua voz era rouca. Rio inclinou seus quadris, empurrando mais profundo, desejando enterrar-se dentro de seu corpo, dentro de seu santuário. Desejou compartilhar sua pele, seu coração, sua alma – Assim sestrilla, mais, tome por completo – Rio teria podido chorar de alegria. Tudo nele recordou, soube que tinha chegado em casa. Sentiu que ela se movia, apenas um pouco, e a sentiu tomá-lo mais profundamente em sua apertada capa. Seus músculos agarraram e se aferraram, e realizaram um tango assombroso de calor e fogo em seu corpo. Rio encontrou um ritmo perfeito, entrando profundamente, penetrando com força, inundando-se, perdendo-se em um paraíso que acreditava perdido para ele.

Rio sabia por instinto, ou possivelmente por uma vida anterior juntos, como satisfazê-la exatamente. Sabia o que ela desejava, o que a fazia ofegar e gemer e agarrar-se a ele. Queria que sua primeira vez juntos fosse uma lembrança para os dois. Rio forçou seu corpo a uma aparência de controle para lhe dar satisfação completa, conduzindo-a até o topo e por cima dela repetidas vezes até que Rachael pediu clemência. Queria lhe dar a alegria perfeita que dava.

Rachael cravou suas unhas nas costas de Rio, desesperada para aguentar, por levá-lo com ela aonde voava tão alto. Luzes explodiam atrás de seus olhos. Seu corpo se estremeceu com prazer. Sentiu-o inchando-se ainda mais, fazendo-se mais longo, mais duro, explodindo com vida e alegria, seu grunhido de imenso prazer misturando-se com seu próprio grito.

Permaneceram tombados no calor da noite, misturando seus aromas, seus corações galopando. Rachael riscou uma longa cicatriz com a ponta do dedo, justo sobre seu ombro esquerdo, enquanto onda após onda a seguia estremecendo.

–Como se fez esta?

Não poderia mover-se, seu corpo cheio de suor. Colocou-se nela, mudando levemente de posição para lhe tirar um pouco de peso.

–Esta foi com uma faca. Estava tirando um rapaz de dezesseis anos do acampamento de Thomas, quando o menino se assustou e escapou de mim antes que pudesse pará-lo. Um guarda o alcançou e balançou um facão contra ele – Colocou seu rosto mais perto do calor de seu seio – É de onde veio esta cicatriz – mostrou seu braço e a profunda cicatriz que percorria seu antebraço – Pude salvar o rapaz, mas um segundo guarda me esfaqueou por trás durante a luta. Não foi meu momento mais brilhante.

Rachael levantou a cabeça o suficiente para pousar a boca em seu antebraço, sua língua formando redemoinhos sobre a longa cicatriz. Saboreava como se acabassem de fazer amor.

–E esta outra? – Seguiu mais baixo, deslizando deliberadamente as pontas de seus dedos sobre suas firmes nádegas, para parar na pequena e branca concavidade sobre seu quadril esquerdo – Como te fez esta?

–Uma bala – Disse com um sorriso, seu fôlego atormentando seu mamilo até convertê-lo em um botão duro – Estava correndo evidentemente.

–Bom, pelo menos demonstrou ter bom sentido.

–Eram muitos mais que eu. Aquela vez me meti em um vespeiro. Somente estava explorando, procurando indícios, e caminhei direito para eles. Pareceu-me que o mais correto era ir, já que não tinha convite – Se inclinou em seu seio e sugou, só por um momento já que ela não se opôs à idéia. Sua risada foi amortecida – melhorei meus tempos em corrida depois.

O simples puxão de sua boca em seu sensibilizado seio enviou seu corpo a outro orgasmo. Seguia profundamente enterrado em seu interior e os músculos suaves como veludo o agarravam e apertavam firmemente, somando a seu próprio prazer.

As pontas de seus dedos evitaram a crua ferida em seu quadril e foram à miríade de marcas profundas em suas costas.

–E estas?

Rio ficou completamente imóvel. Inclusive lhe cortou a respiração. Esperou um batimento do coração, escutado o ar que se movia dentro e fora dos pulmões de Rachael. Lentamente levantou a cabeça para olhá-la.

–Essas cicatrizes vem de algumas briga que tive com um gato grande.

Seus olhos escuros se moveram sobre seu rosto. Podia vê-la assumindo-o, aceitando-o.

–Um gato como o da outra noite. Um leopardo grande. Não Fritz ou Franz.

–Não Fritz ou Franz – Confirmou. Rio se separou muito brandamente dela, afastando seu corpo do dele, rodando para libertá-la totalmente de seu peso. Permaneceu deitado olhando fixamente o teto – Um leopardo macho muito grande, completamente adulto.

Rachael pôde sentir a calma que o invadia. A espera. Havia algo que precisava lhe dizer, mas era extremamente resistente a isso. Procurou sua mão, entrelaçando seus dedos.

–Alguma vez notou que é muito mais fácil contar as coisas que tem que dizer, embora não queira, na escuridão? – Seus dedos se apertaram ao redor dos de Rio – Sabe que vai me contar isso, assim adiante – Esperou com o coração acelerado. Teve um flash-back de seu rosto mudando, de pelagem e dentes e olhos misteriosos brilhando intensamente. Quanto mais tempo passava sem que ele falasse, mais assustada se sentia.

–Assassinei um homem – Disse Rio suavemente, sua voz tão baixa que mal era audível. Ela ouviu dor, rígido e cru na desagradável confissão.

Por um momento Rachael não pôde respirar. Era a última coisa que esperava que dissesse. O que menos podia esperar de um homem como Rio. Não se enquadrava com o homem que se preocupava primeiro por seus leopardos. Não encaixava com o homem que a colocava sempre à frente.

–Rio, defendendo-se ou tendo que defender outros tirando-os das mãos de um homem como Thomas não é assassinato.

–Não foi em defesa própria. Não teve oportunidade contra minhas habilidades. Persegui-o e o executei. Não foi aprovado pelo governo e as leis de meu povo não aprovam tal ato. Desejaria poder te dizer que sinto que esteja morto, mas não é assim – Rio girou a cabeça para olhá-la – Possivelmente por isso não posso me perdoar. E é por isso que vivo afastado de outros de minha espécie.

Um peso parecia esmagar seu peito.

–Foi detido e acusado?

–Apresentei-me diante do conselho de anciões para o julgamento, sim. Temos nossas próprias leis e cortes. Fui acusado de assassinato. Não o neguei. Como poderia?

Rachael fechou os olhos, tentando bloquear suas palavras. Assassinato. Assassinato. Persegui-o e o executei. As palavras se repetiam em sua mente. Cintilavam nela como luzes de néon.

–Mas não tem sentido – Murmurou em voz alta – O assassinato não combina com sua personalidade. Não o fez, Rio.

–Não? – Havia diversão em sua voz, uma brincadeira torcida, sem humor e sarcástica que a fez retroceder – Se surpreenderia com o que sou capaz de fazer, Rachael.

–Foi a prisão?

–De certa forma. Fui banido. Não me permitem viver entre meu povo. Não tenho a vantagem da sabedoria dos anciões. Estou sozinho, mas não na realidade. Estou perto deles, mas contudo sempre à parte. Meu povo não pode sobreviver na prisão. Somente há morte ou exílio para um crime tão grave como o meu. Fui banido. Meu povo não me vê, ou reconhece minha existência. Bom, com exceção da unidade com quem ando.

Ela escutou sua voz. Não havia nota de lástima por si mesmo. Nenhuma súplica por compaixão. Rio apresentou um fato. Tinha cometido um crime e aceito o castigo que vinha com ele. Deixou sair o ar lentamente, lutando para não julgar com muita rapidez. Mas ainda seguia sem ter sentido.

–Vai me contar por que o matou?

–Quaisquer que fossem minhas razões, não eram o suficientemente boas para tomar outra vida. A vingança está errada, Rachael. Sei. Ensinaram-me isso. Sabia quando o procurei. Inclusive não lhe dei oportunidade para tirar uma arma para alegar que foi em defesa própria. Foi uma execução, pura e dura.

–É o que estava pensando quando o matou? – Houve silêncio. O polegar de Rio se deslizou sobre a parte posterior de sua mão.

–Ninguém me perguntou nunca isso. Não, é obvio que não. Não o vi dessa maneira, mas sabia que o conselho decidiria me matar ou me exilar quando voltasse e lhes dissesse o que fiz.

Rachael sacudiu sua cabeça, mais confusa que antes.

–Perseguiu esse homem, matou-o e depois voltou a seu povo e confessou o que tinha feito?

–É obvio. Não tentaria ocultar algo como isso.

–Por que não continuou seu caminho, não se dirigiu a outro país?

–Vivi além do bosque, além de minha gente. Não quero fazê-lo outra vez. Escolhi esta vida. É onde pertenço. Quando escolhi este caminho sabia que teria que ir ante o conselho, e ainda assim permaneci nele. Não pude evitá-lo. Ainda não me arrependo de sua morte.

–O que é que ele te fez?

–Matou a minha mãe – Sua voz se tornou áspera. Rio clareou garganta – Ela corria, como eu faço de noite, e ele a espreitou e a matou. Ouvi o tiro e soube. Estava um pouco longe, e quando a alcancei era muito tarde – Abruptamente soltou sua mão e ficou de pé, movendo-se do quarto à cozinha como se o movimento fosse a única coisa que poderia evitar que explodisse – Não estou dando desculpas. Sabia que não podia tomar sua vida.

–Por Deus, Rio, matou a sua mãe. Deve te deixar louco de dor.

Deu-se a volta para olhá-la, apoiando o quadril contra a pia.

–Há mais na história, é obvio, sempre há. Nunca me perguntou a respeito de meu povo. Nem uma vez me perguntou por que nossas leis são diferentes às humanas.

Rachael se sentou lentamente, juntou as beiras da camisa e começou a abotoá-la torpemente. De repente se sentia vulnerável deitada em sua cama sem roupa e apenas com seu aroma impregnando seu corpo.

–Estou bastante segura de que Palha de Cereal e Kim seguem as leis de sua tribo. Todos estamos sujeitos a quaisquer leis que governam nosso país, mas por aqui, duvido que o governo saiba exatamente o que acontece. Provavelmente as tribos se ocupam da maioria de seus assuntos. – Falou com voz calma, com expressão serena. Não viria bem a nenhum dos dois que mostrasse que repentinamente estava muito assustada.

Rio se moveu. Foi um movimento pequeno e sutil, mas claramente felino. Uma mudança ágil de seu corpo, de modo que pareceu fluir como a água, e logo ficar completamente quieto. Seus olhos se dilataram de par em par, a cor mudando de verde vivo a um verde-amarelo. Imediatamente seu olhar era como o mármore, vidroso, um olhar fixo, misterioso, enfocado, sem pestanejar. Uma sombra avermelhada deu a seus olhos uma característica malvada, animal. Girou sua cabeça, como se escutasse algo.

–Posso ouvir seu coração pulsando muito rápido, Rachael. Não pode ocultar o medo. Tem um som. Um aroma. Está em cada fôlego que toma. Em cada pulsar de seu coração.

E o estava matando. Tinha permitido que lhe colocasse debaixo da pele. Tinha sabido em todo momento que teria que lhe dizer a verdade. Algo tinha traumatizado Rachael em sua vida. Tinha visto e vivido com violência, e suspeitou que tinha tentado escapar. Teve que dizer a verdade, acostumá-la... Não poderia viver consigo mesmo se não o tivesse feito. Mas seu coração estava sendo arrancado de seu peito e a raiva que nunca estava longe da superfície brotou para afogá-lo.

Tinha levado tempo dar-se conta de que o fazia rir, chorar, sentir. Havia lhe trazido a vida.

Quase desde o começo o fez se sentir vivo outra vez. Não poderia imaginar voltar para uma casa vazia. Forçou-se a dizer a verdade, embora tivesse sido aterrador. Ao longo de sua vida Rio nunca tinha estado verdadeiramente assustado, e, entretanto agora estava a ponto de perder algo que nunca pensou que teria. O medo alimentou a cólera que formava redemoinhos em seu ventre, o que o fez querer brigar com ela.

Rachael assentiu, engolindo o apertado nó de medo que ameaçava sufocá-la.

–É verdade, Rio. Mas se engana em relação ao que tenho medo. Não é de você. Não é ao que disse. Acha que é tudo novo para mim? Que ia ficar muito transtornada por sua confissão? Não tenho medo de você. Teve suficientes oportunidades para se aproveitar de mim. Para me matar, ou me violentar, ou me usar de qualquer maneira. Facilmente poderia ter me levado às autoridades para cobrar a recompensa. Não tenho medo de você. Não de Rio, o homem.

Ele se aproximou, enchendo o quarto de energia perigosa. Esta emanou de cada poro. Não se ouviu nem um som quando caminhou para ela. Moveu-se com a elegância fluída de um animal grande da selva. Cordas de músculo ondularam sob sua pele. Aproximou-se ainda mais. Ela podia ouvir a respiração em seus pulmões, o grunhido baixo e ameaçador retumbando em sua garganta. Rachael se negou a deixar-se intimidar, rejeitou olhar a outro lado. Olhou-o fixamente com uma sobrancelha levantada, desafiando-o.

Os músculos se retorceram, ataram-se, sua enorme compleição se dobrou e caiu ao chão a quatro patas, ainda olhando-a, sem pestanejar, sem olhar a outra parte, mantendo o olhar da mulher capturada na intensidade ardente do seu. Viu levantar-se sua pele, como se algo vivo a percorresse por debaixo.

–E se Rio não for um homem? – Sua voz saiu torcida, áspera. Tossiu, um grunhido estranho que ela tinha ouvido antes.

Um calafrio percorreu sua espinha dorsal. Rachael olhou em horrorizada fascinação como seu corpo se estirou e alongou, como a pelagem ondulou sobre sua pele, como se alargou sua mandíbula formando um focinho e como os dentes irromperam em sua boca. O leopardo era negro com espirais de manchas escuros enterrados profundamente na luxuosa pele. Não era a primeira vez que ela se encontrava cara a cara com a besta.

Rachael se deu conta de que respirava muito rápido. O leopardo estava a centímetros dela, com seu olhar verde-amarelo fixa no seu. Esperando. Havia nobreza, dignidade no animal enquanto esperava. Sua mão tremeu quando a estendeu para tocar a pelagem. O animal grunhiu, mostrar suas malvadas presas, mas o tocou. Conectou-se com ele. Foi algo instintivo e a única coisa que lhe ocorreu fazer nessas circunstâncias.

–Desmaiar é inadmissível. – Murmurou suavemente – O tentei, mas parece que não funciona comigo. Nunca soube como as outras mulheres conseguem. Se tentou me assustar, acredite, teve êxito além de suas fantasias mais selvagens.

Inclusive enquanto pronunciava as palavras, não estava completamente segura de que fossem verdadeiras. Tinha havido indícios. Não tinha querido acreditar neles. Parecia muito inverossímil. Os cientistas teriam que tê-los descoberto já, e ainda assim ele estava parado ali, olhando-a fixamente com seus olhos selvagens, seu fôlego quente em sua cara. Sem dúvida era um leopardo. Um mutante. A coisa do mito e da lenda.

–Por que quer eu tenha medo de você, Rio? – Baixou a cabeça para a sua, ignorando seu grunhido de advertência, e esfregou seu rosto sobre a pele escura – É a única pessoa que me olhou pelo que sou. Aceitou-me inclusive quando não o merecia. Por que é tão terrível o que é? Conheço pessoas muito mais terríveis. – As lágrimas queimavam por trás das pálpebras. Não é como se pudesse ficar com ele – Suponho que isto responde à pergunta de porquê se move nu no bosque. De noite você gosta de sair como leopardo, não é?

Era inútil ocultar-se dela na forma animal. Quando a olhava nos olhos não havia horror por suas revelações. Mas podia ler tristeza ali. Rio voltou novamente para sua forma humana e se sentou no chão ao lado da cama.

–Não sou nem humano nem animal, e sim uma mistura de ambos. Temos traços de ambas as espécies e alguns próprios.

–Podem assumir outra forma?

Ele sacudiu sua cabeça.

–Somos leopardo e ser humano ao mesmo tempo e tomamos somente uma forma ou a outra. É quem sou, Rachael. Não me envergonho disso. Minha gente é pouca, mas desempenhamos um papel importante aqui, na selva tropical. Temos honra e compromisso, e nossos anciões são sábios em coisas além da ciência moderna. Embora seja verdade que temos que ser cautelosos para que não nos descubram, contribuímos à sociedade de muitas maneiras.

Havia orgulho em sua voz, mas podia ver cautela em seus olhos.

–Me diga o que aconteceu a sua mãe, Rio – Poderia viver, ser amiga e amante de um mutante, mas não podia viver com um homem que assassinava pessoas. Já o tinha feito uma vez, e não o repetiria sob nenhuma circunstância.

Ele passou os dedos por seu cabelo, fazendo estragos em sua juba de modo que seu revolto cabelo estivesse mais desordenado que nunca. Mechas de cabelo caíam persistentemente sobre sua testa, desviando a atenção do brilho de seus olhos.

–Supus que iria assim que soubesse o que sou.

O sorriso de Rachael foi lento e mais sensual do que ela pensou. Quase parou o coração de Rio

–Poderia havê-lo feito, mas não é como se pudesse ganhar alguma corrida neste momento.

Seu sorriso foi contagioso, inclusive nesse momento, quando podia lhe arrancar o coração do peito e mudar sua vida para sempre. Encontrou-se formando um sorriso como resposta.

–Admitirei que pensei nisso quando decidi lhe contar isso. Pôs a balança um pouco para meu lado.

–Homem inteligente. – Rachael afastou para trás as mechas de cabelo que caíam por sua testa – Conte-me Rio. Me diga a forma como aconteceu, não como o povo o viu.

Rio sentiu a familiar dor, a angústia subindo como acontecia sempre que pensava nesse dia. Esfregou as têmporas, que de repente pulsavam.

–Amava a água. Somos tão parecidos. Todos os problemas do dia desaparecem quando tomamos a forma de leopardo. Suponho que é uma forma de escapar, correr ao longo dos ramos e brincar no rio. Nosso povo ama a água e todos somos bons nadadores. Saiu sozinha essa noite porque eu estava trabalhando em casa.

–Onde estava seu pai?

–Tinha morrido uns anos antes. Estávamos sozinho nós dois. Estava acostumada a ficar sozinha. Eu estive indo e vindo durante alguns anos, recebendo uma educação, assim que nenhum deu muita importância. Primeiro ouvi o aviso, os animais, o vento. Já o ouviu, sabe do que falo. Imediatamente soube que era um intruso. Um humano, não um dos nossos. Poucas pessoas entram tanto para o interior, exceto que sejam membros de tribos. Pelos animais pude sentir que era alguém diferente, alguém perigoso para nós.

Rachael apoiou sua perna no chão, precisando estirá-la. Rio a ajudou imediatamente, suas mãos gentis ao baixar cuidadosamente seu pé da cama. Para assombro de Rachael, suas mãos tremiam.

–Obrigado, assim estou melhor. Sinto muito, continue por favor.

Rio encolheu os ombros.

–Corri atrás dela, mas era muito tarde. Ouvi o tiro. De noite o som chega a uma grande distancia. Quando a alcancei, já estava morta e esfolada. Levou sua pele e a tinha deixado na terra como tanto outro lixo – Rio fechou os olhos, mas a memória estava ali. Os insetos e a carniça já se aproximaram - Nunca esqueceria essa imagem enquanto vivesse – Não podemos correr riscos com os corpos. Os queimamos e dispersamos os restos bastante longe. Fiz o que tinha que fazer, mas todo o momento podia sentir a raiva negra em meu interior transformando-se em gelo frio. Soube o que ia fazer. Planejei-o cuidadosamente enquanto me ocupava dela. Não podia suportar pensar no que estava fazendo, queimando seu corpo, assim fui planejando cada passo enquanto trabalhava.

–Rio, era sua mãe, o que esperava sentir? – Perguntou Rachael com suavidade.

–Dor. Não loucura. Não matou uma mulher, matou um animal. É aceitável na sociedade. Não é legal, mas segue sendo aceitável. Não matou deliberadamente a um ser humano e em certo sentido, não o fez. Ensinam-nos que podem ocorrer enganos e temos que estar preparados para eles. Cada vez que tomamos nossa forma alternativa, estamos correndo um risco ao correr livremente. Já sabia que os caçadores clandestinos frequentemente entram em nosso território. É algo que me ensinaram. Também a minha mãe. Arriscou-se, como eu faço quase a cada noite. Foi sua decisão e seu risco. É o que nos ensinam os anciões, e têm razão. Não podemos olhá-lo como se fosse um assassinato. Ensinam-nos a vê-lo como um acidente.

–Não acredito que seja inteiramente possível, Rio. Admirável talvez, mas não muito provável quando sua família está envolvida.

Tocou sua boca. Essa boca bonita e tentadora, tão preparada para defendê-lo. Aqueles anos atrás ninguém o tinha defendido. Tinha sido impetuoso, deixando-se levar pela cólera. Sua única arma tinha sido o desafio.

–Não acredito no olho por olho – Baixou o olhar para suas mãos – Nem sequer então. Sei que o assassinato não fez nada. Não me devolveu isso. Não fez que me sentisse melhor. Certamente mudou minha vida, mas ainda assim não me arrependo de que esteja morto. Desejaria não havê-lo feito? Sim. Faria-o outra vez? Não sei. Provavelmente. Era como uma enfermidade dentro de mim, Rachael, um buraco que me queimava o ventre. Rastreei-o e encontrei seu acampamento de caça. A pele de minha mãe pendurava em uma parede para secar-se. Havia sangue, seu sangue, nas roupas do homem. Aprendi como odiar. Juro que nunca senti uma emoção igual. Estava bebendo, celebrando. Não lhe dei nenhuma oportunidade. Não disse nada, nem sequer lhe expliquei a razão. – Rio levantou a vista até encontrar os olhos de Rachael, querendo que ela soubesse a verdade sobre o que era. O que tinha feito.

–Acredito que tinha medo de dizer, medo de ver remorso ou que se lamentasse. Queria vê-lo morto e simplesmente lhe rasguei a garganta. A pele de minha mãe pendurada na parede atrás dele.

A bílis subiu por sua garganta, como tinha acontecido todos esses anos antes. Tinha estado fisicamente doente, continuamente, e ainda assim tinha baixado a pele da parede e a tinha queimado como lhe tinham ensinado, antes de voltar para os anciões para lhes contar o que tinha feito.

–Condena-se por ir atrás do homem que matou a sua mãe, e contudo ganha a vida tirando as pessoas de situações perigosas, usando suas habilidades de atirador para libertá-los.

–Não é o mesmo que defender minha vida ou a de algum outro, Rachael – Disse – Se me enviam para trazer alguém para casa, de novo a sua família, acredito que qualquer um no alcance de meu rifle ficou ali sequestrando e ameaçando a vida de outra pessoa. Ao final, não é o mesmo.

Rachael mudou de posição, inclinando-se para rodear seu pescoço com seus braços, em um esforço por consolá-lo. Algo passou zumbindo por sua orelha com rapidez, chocando-se contra a parede com um ruído surdo e enviando lascas em todas as direções.

 

Rio reagiu imediatamente, rodeando-a com seus braços e arrastando-a ao chão, cobrindo o corpo de Rachael com o seu. O movimento sacudiu sua perna, enviando dor ao longo da coxa e através do estômago, dando vontades de gritar. Foi então quando escutou o estrondo de um rifle longínquo que os alcançava. Imediatamente uma rajada de balas crivaram o quarto, destroçando a parede e cobrindo tudo com lascas de madeira. Rachael meteu a mão boa na boca para evitar gritar. Sua perna ardia e palpitava. Sentia como se acabasse de abri-la, mas com o peso de Rio em cima de seu corpo, não podia mover-se.

–Fica deitada – Sussurrou – O digo a sério, totalmente esmagada contra o piso, Rachael. Não se mova, por nenhuma razão – Suas mãos se moviam sobre ela, examinando os danos – Não te alcançou não é? Diga-me isso. - Estava tremendo de raiva. Rodou como uma chaminé, escura, retorcida e feroz. As balas não estavam dirigidas a ele, o franco-atirador tinha ido por Rachael. Não havia luzes acesas na casa e a manta estava sobre a janela. A única luz era a da vela, mas tinha sido suficiente para que o franco-atirador apontasse. Isto disse a Rio que se tratava de um profissional.

–É somente minha perna, Rio. – Rachael fez o possível para parecer calma. O fato de gritar não a ajudaria com a dor e o peso de Rio a tinha esmagada como um crepe contra o piso – Desta forma não posso respirar muito bem.

Fritz tinha estado debaixo da cama. Com as balas passando tão perto emergiu, grunhindo e rugindo. Rachael arriscou sua pele ao agarrar o gato para evitar que se expusesse ao fogo. A cabeça do gato girou, seus dentes como sabres precipitando-se para ela. Rio foi mais rápido, sujeitando o animal e vaiando uma ordem. Fritz se tranquilizou e se deitou ao lado de Rachael.

–Canalha ingrato. – Disse ela agradavelmente. Rio ignorou seu comentário, deslizando sua mão pela cama até encontrar a arma. Automaticamente comprovou a carga.

–O carregador está cheio e há outro na antecâmara – Pôs a arma na sua mão – Permanece deitada e atrás da cama – Deu a volta, encontrou suas calças jeans e as pôs.

Rio impulsionou seu corpo para frente com os cotovelos, permanecendo estirado sobre o chão enquanto percorria a habitação para acessar as armas. Cuidadosamente levantou a mão para puxar as armas para ele. Nesse momento as balas perfuraram a parede que tinha detrás. Deu a volta, colocando uma faca em sua perna.

–Tenho que sair aí fora, Rachael – Sua seguinte parada foi a pia, onde estava a vela. Qualquer profissional se daria conta de que tentaria apagar essa pequena luz. Usou uma das garrafas de água da mochila que tinha no chão, apontando cuidadosamente e orvalhando a vela até que se apagou a chama, deixando atrás um pequeno rastro de fumaça. Outra rajada de balas perfurou a parede e a pia.

–Sei. Há outra via além da porta?

–Sim, tenho várias. Usarei a que está na parte de trás, a mais afastada de sua linha de visão. Não se mova de onde está. Provavelmente usa óculos de visão noturna e saiba a disposição da casa.

–E como pode sabê-lo?

Rio não sabia a resposta. Nesse momento não importava. Voltou junto a ela e pôs uma das facas no chão ao lado dos dedos de Rachael.

–Vai ter que usá-lo se aproximar-se de você.

–Quer que o lance e o distraia para que possa sair sem que o veja? – Ofereceu Rachael.

Sua voz tremeu e ele pôde ouvir a nota da dor que ela tentava esconder com dificuldade. Com seu agudo olfato percebeu o aroma do sangue. A queda ao chão lhe tinha causado um machucado na perna e soube que estaria doendo. Inclinou-se para ela, agarrou seu queixo e atraiu sua boca a de Rachael. Rio pôs tudo o que tinha nesse beijo. A cólera e o medo, mas sobre tudo sua paixão e esperança. Negou-se a admitir amor, apenas a conhecia, mas havia doçura e algo que tinha sabor de amor.

–Não tente me ajudar, Rachael. É ao que me dedico, e trabalho melhor sozinho. Quero que esteja a salvo, aqui no chão, até que volte. Se entrar, usa a pistola. Não deixe de disparar embora caia. E se segue vindo e fica sem munição, utiliza a faca. Mantenha abaixo, próximo a você, e lança-o para cima às partes brandas de seu corpo quando estiver perto.

Ela devolveu o beijo.

–Avaliação a lição 101 em manejo de armas. Volta para mim, Rio. Zangarei-me muito se não o fizer. – Apesar de que estava aterrorizada e tremia sem parar, forçou um sorriso – Estarei justo aqui, no chão, com a pistola na mão, assim assobia para que saiba que é você que entra pela porta.

Beijou-a outra vez. Com lentidão. Profundamente. Saboreando-a, apreciando que a tinha.

–Que a sorte esteja com você, Rachael – Rio começou a arrastar-se, com o ventre colado ao chão, rodando os últimos metros. A parede da despensa parecia bastante sólida, mas uma seção pequena quase a nível do piso, com o espaço justo para arrastar-se, era desprendível. Afrouxou as pranchas e se deslizou através do espaço, parando para recolocar a seção em caso de que o inimigo mudasse de forma.

A noite era cálida. A chuva tinha parado momentaneamente, deixando as árvores gotejando e intensamente verdes, inclusive na escuridão. Meteu-se entre a vegetação, ignorando uma grande píton enroscada em um grosso ramo próximo à casa e se moveu rapidamente ao longo da rede de ramos, por cima do chão do bosque. Com frequência tinha que permitir que a forma do leopardo emergisse parcialmente, de modo que seus pés se pudessem agarrar na madeira escorregadia e pudesse saltar de ramo em ramo com facilidade.

Rio sabia a área em que estava o inimigo, mas era uma área grande. Em sua forma humana não tinha os sentidos tão desenvolvidos para localizar o lugar exato, mas sua forma de leopardo era altamente vulnerável ao rifle de longo alcance. Estava seguro que o intruso estaria esperando o leopardo. Rio tinha a vantagem de conhecer cada ramo, cada árvore. Os animais estavam acostumados a sua presença e nunca revelariam sua posição, algo que fariam com a do intruso. O vento não o traiu, lhe trazendo o rastro de seu inimigo, tomando o seu e levando-o longe.

Reconheceu o aroma do assassino. Não importou que tivesse tomado forma humana, não havia dúvida na mente de Rio que o atacante era o mesmo que tinha machucado Fritz. Obviamente tinha treinado como franco-atirador e era bom adivinhando a posição de seu alvo. Rio avançou com lentidão, sacrificando velocidade por sigilo.

A folhagem abaixo e a sua esquerda se moveu levemente contra o vento. Seu inimigo avançava cada vez mais perto da casa, trocando de posição para evitar entrar na linha de fogo de Rio. Este passeava por cima dele, nos ramos altos, esperando pacientemente ver uma olhada do homem. Colocou o rifle em posição, observando pela mira. Seu adversário nunca mostrou mais que parte de um braço, permanecendo entre a densa flora, permitindo que os arbustos, as flores e as folhas o mantivessem invisível.

Várias árvores à direita da casa, Rio descobriu um par de olhos que brilhavam intensamente através da folhagem. Soube imediatamente que os disparos haviam trazido Franz de volta. O pequeno leopardo nebuloso estava voltando para casa através da rede de ramos altos. As folhas se sacudiram. Rio amaldiçoou de forma eloquente, colocando o rifle em seu ombro e efetuando uma série de disparos nos maciços de arbustos, onde estava seguro que o intruso se colocou esperando a ocasião de efetuar o seguinte tiro. Rio tossiu ruidosamente, com um grunhido de advertência, mantendo o intruso agachado com uma rajada de disparos para evitar que pudesse disparar em Franz.

O pequeno gato saltou para trás, desaparecendo completamente, desvanecendo-se na densa vegetação com a facilidade dos de sua espécie. Rio colocou o rifle aos ombros e se afastou depressa entre as árvores, trocando direções rapidamente, subindo a um nível mais alto de vegetação, com cuidado de não sacudir os arbustos.

Tinha delatado que estava fora da casa, eliminando qualquer vantagem que pudesse ter tido. Agora estavam brincando de gato e rato, a menos que tivesse acertado a um alvo que não podia ver, algo que duvidava. Rio ficou absolutamente quieto, deitado em uma árvore, com os olhos varrendo continuamente a área. O intruso teria se movido. Ninguém teria podido permanecer no mesmo local sem receber um disparo, mas era um profissional e não tinha delatado sua direção.

Rio estava preocupado com Rachael, só na casa com o leopardo nebuloso ferido. Não sabia se teria a paciência para a espera que um franco-atirador tinha que aguentar com frequência. Poderia demorar horas em descobrir o intruso. Teria que ter comprovado o estado de sua perna antes de deixá-la. Agora tinha visões de Rachael morrendo sangrando no piso enquanto o esperava.

Seus olhos não pararam de mover-se nervosos, varrendo o bosque em um padrão contínuo. Nada se moveu. Inclusive o vento pareceu acalmar-se. Começou a chover, com um tamborilar suave sobre o dossel de folhas que tinha por cima. Foram passando os minutos. Meia hora. Uma serpente se arrastou preguiçosa por um ramo a alguns metros de distância, desviando sua atenção. Várias folhas caíram do refúgio de um orangotango ao mudar de posição para aconchegar-se mais profundamente nos ramos de uma árvore. Um movimento, a vários metros dele, atraiu sua atenção.

Quase no momento Rio notou que os ramos de um pequeno arbusto, justo sob a árvore onde estava o orangotango, tinham começado a tremer. Estava muito perto do chão, uma escolha incomum para um de sua espécie. Rio olhou cuidadosamente e viu os arbustos mover uma segunda vez, apenas um tremor leve, como se tivesse soprado o vento. Colocou o rifle em posição, com cuidado de não cometer o mesmo engano. Mais à frente, entre samambaias e arbustos, pôde ver as pétalas de uma orquídea danificada e rasgada, dispersada em cima de um tronco putrefato.

Rio seguiu sem mover-se, vigiando a área com persistência. Passou o tempo. A chuva caía em um ritmo constante. Não houve mais movimento entre os arbustos, mas estava seguro de que o franco-atirador estava esperando ali. Vários esquilos noturnos voadoras saltaram pelo ar, abandonando uma árvore justa diante de Rio. Ao aterrissar tagarelaram e se arreganharam umas a outras, agarrando-se aos ramos de uma árvore vizinha. Raminhos e pétalas caíam como uma pequena cascata sobre os troncos podres e os arbustos situados mais abaixo. Rio sorriu.

–Bom Franz – Sussurrou – Boa caça, moço.

Seus olhos não abandonaram o chão do bosque.

O calcanhar de uma bota deixou um pequeno sulco na vegetação, quando o franco-atirador trocou de posição para poder ver as copas das árvores sobre sua cabeça. Rio disparou três vezes em rápida sucessão, espaçando cada bala por cima do intruso quando este se deu conta que o tinha descoberto. O franco-atirador gritou ao rodar sobre um pequeno aterro, e abruptamente se fez o silêncio.

Rio já estava correndo pelo caminho de ramos, mudando de posição, aproximando-se de seu objetivo. Tossiu duas vezes, esmagando-se contra o chão para distorcer o som, indicando a Franz que desse voltas ao redor e permanecesse coberto. Então se levantou e voltou a correr, cobrindo toda a distância possível antes de que o franco-atirador pudesse se recuperar.

Para Rio era mais cômodo espreitar a suas presas das copas das árvores, mas ainda assim começou a descer a níveis mais baixos, usando ramos grossos para mover-se com rapidez de árvore em árvore, cuidadoso de seguir coberto. Caiu ao chão, aterrissando agachado e permanecendo totalmente imóvel, misturando-se entre as profundas sombras do bosque.

Permaneceu em silêncio, farejando o vento. O sangue era um aroma distintivo, inequívoco no ar. As gotas de chuva penetravam no dossel de folhas e salpicavam a podre vegetação. Um lagarto de cor verde intensa correu pelo tronco de uma árvore, distraindo sua atenção. Uma salpicadura vermelha manchou uma samambaia encaixada na casca. Rio permanecia quieto, seu olhar fixo varria o terreno em busca de qualquer movimento, de qualquer sinal do intruso.

Uma série de curtos latidos indicou uma manada de cervos adultos nas cercanias. Algo os tinha perturbado o suficiente para dar o alarme. Rio saltou sobre um ramo baixo e emitiu o grunhido de sua espécie para alertar Franz. O inimigo estava ferido e fugindo. Havia mais sangue nas grossas agulhas e nas folhas do chão onde o franco-atirador tinha rodado, mas não era sangue de uma artéria.

Rio voltou a olhar cuidadosamente os ramos por cima e a seu redor. Suspirou ao agachar-se a recolher uma bota. O homem tinha tido o tempo justo para envolver a ferida e estancar o fluxo de sangue, e deixar cair seu rifle e roupas. Logo tinha passado às árvores, usando a forma de leopardo para escapar. Era muito mais rápido e eficiente atravessar os ramos que tentar correr ferido, atrasado pelo peso das roupas, as armas e a munição. Menosprezar um leopardo ferido de noite era uma loucura. Especialmente a um de sua espécie que era ardiloso e inteligente e tinha um treinamento especial.

Rio explorou a fundo, sabendo que os leopardos com frequência retrocediam e espreitavam a sua presa. Primeiro encontrou sangue manchando o ramo de uma árvore, e depois uma folha machucada e torcida, os únicos dois sinais que indicavam o passo de um gato grande. Franz se uniu a ele, farejando o ar, grunhindo, impaciente pela perseguição. Rio era muito mais cauteloso. Perseguiam um profissional, um homem capaz de mudar de forma. Como Rio, teria planejado várias rotas de fuga. Teria escondido armas e roupas ao longo delas e teria fixado armadilhas com tempo ante a possibilidade de uma perseguição.

Rio queria assegurar-se de que o franco-atirador não houvesse tornado sobre seus passos, mas não quis deixar sozinha Rachael muito tempo enquanto não sabia o alcance das feridas de sua perna. Colocou uma mão na cabeça de Franz, um gesto de contenção.

–Sei. Já veio duas vezes por nós. O procuraremos mais tarde. Temos que mover os nossos feridos, rapaz.

Acariciou atrás das orelhas e com resolução e deu a volta para agarrar as roupas e as armas que o franco-atirador tinha deixado para trás. Não acreditava que fosse encontrar uma identificação, mas poderia aprender algo delas.

Rio se encaminhou de volta à casa, com Franz atrás, tomando-se tempo para fazer uma inspeção mais cuidadosa do chão e as árvores de seu território. Encontrou o lugar onde o franco-atirador tinha esperado uma oportunidade como a que Rio lhe deu ao acender a vela. O movimento mutante das sombras contra a fina manta tecida era suficiente para lhe permitir ao franco-atirador fazer alvo. Parou a uns passos do terraço, respirando profundamente, absorvendo a idéia de que Rachael poderia ter morrido.

Sentiu-se doente, com o estômago revolto. O suor que empapou seu corpo não tinha nada a ver com o calor. O vento raramente tocava o chão do bosque. Ali sempre estava tudo extraordinariamente tranquilo, o denso dossel de folhas fazendo de escudo, e entretanto nas taças as árvores, o vento sussurrava, brincava e dançava através das folhas. O som o acalmava, o ritmo da natureza.

Rio podia entender as leis do bosque. Podia inclusive entender a necessidade de violência em seu mundo, mas não podia imaginar o que tinha feito Rachael para merecer uma sentença de morte. Se um de seu povo tinha contratado para matar a uma mulher a sangue frio, sabia que o assassino não pararia até que o encargo fosse realizado. Sua espécie era resolvida, e agora o ego do homem estaria prejudicado. A cólera lenta e ardente daria caminho a um ódio escuro e retorcido que se estenderia até converter-se em uma enfermidade. O macho tinha falhado duas vezes e em ambas, Rio e seus leopardos nebulosos, dois seres inferiores, tinham interferido. Agora seria algo pessoal.

Rio subiu o terraço.

–Rachael, estou entrando. – Esperou um som, um sinal. Não se deu conta que estava prendendo a respiração até que ouviu sua voz. Tensa. Assustada. Resolvida. Tão Rachael. Estava viva.

Rachael seguia na mesma posição sobre o chão como quando ele se foi. O fato de que ela confiasse em sua mestria elevou ainda mais seu espírito. Levantou a cabeça e o olhou, deitada, com a camisa mal cobrindo seu traseiro, as pernas meio estiradas sob a cama, seu cabelo revolto e selvagem, derramando-se por seu rosto, e com um enorme sorriso.

–Que bom que tenha tornado. Dormi um pouco, mas comecei a sentir fome. –Seu olhar se moveu ansioso sobre ele, obviamente procurando danos. Seu sorriso se alargou – E sede. Poderia tomar uma dessas bebidas que tanto você gosta de preparar.

–E possivelmente um pouco de ajuda para se levantar? – Se deu conta de que sua voz soava áspera, quase rouca, uma emoção que o agarrou despreparado. Fritz estava enroscado a seu lado e a arma e a faca estavam no piso ao lado de sua mão.

–Isso também. Ouvi tiros – Houve uma pequena pausa em sua voz, mas conseguiu manter o sorriso em seu rosto.

Rio soube que a amava. Era esse sorriso atrevido. A alegria em seus olhos. A ansiedade por sua segurança. Nunca esqueceria esse momento. Como se via deitada no chão, com a perna sangrando, a camisa torcida ao redor de sua cintura mostrando seu delicioso traseiro nu e seu sorriso. Estava tão bonita que o deixou sem respiração.

Rio se ajoelhou a seu lado, examinando cuidadosamente o dano de sua perna.

–Desta vez tivemos sorte, Rachael. Sei que dói, mas não tem mal aspecto. Agora vou levantá-la e te vai sacudir um pouco. Deixa que eu faça tudo.

Sempre a surpreendia seu enorme força. Inclusive depois de saber o que era, ainda a assombrou a facilidade com a que a levantou e a colocou de novo na cama. Não pôde evitá-lo. Teve que tocá-lo, traçar seu rosto, passar as pontas dos dedos por seu peito, só para sentir que estava vivo.

–Ouvi tiros – Repetiu, exigindo uma explicação.

–Feri-o ligeiramente. É um dos meus, mas não reconheço seu rastro. Nunca o conheci. Não somos os únicos. Alguns dos nossos vivem na África, outros na Sudamérica. Alguém pôde ter importado... – Sua voz se apagou.

–Um capanga? – Proveu ela.

–Ia dizer franco-atirador, mas isso serve. É possível. Contratamos outros para resgatar a vítimas de sequestros. Seguimos a norma se for possível de não nos misturar em política, mas às vezes é inevitável. Nossas leis são bastante estritas; têm que sê-lo. Nossos temperamentos não servem para tudo e sempre temos que ter isso presente. O controle é tudo para nossa espécie. Temos inteligência e astúcia, mas nem sempre o controle necessário para controlar essas coisas.

–Veio por mim, não é? – Perguntou Rachael.

Rio assentiu.

–Kim deixou medicina para sua perna e vou reaplicá-la. Temos que partir daqui. Vou levá-la para os anciões. Ali a protegerão melhor do que eu posso fazer aqui.

–Não – Disse Rachael com decisão – Não irei pra lá, Rio. Falo sério. Não irei… Nunca. Por nenhuma razão.

–Rachael, não fique obstinada. Este homem é um profissional e sabe onde está. Provavelmente sabe que a feriram. Esteve muito perto de matá-la como para que esteja tranquilo.

–Partirei se quiser que o faça, mas não vou com seus anciões – Pela primeira vez ele ouviu mordacidade em sua voz. Não era tensa ou mal-humorada, era puro gênio. Seus olhos escuros cintilavam fogo, quase lançando faíscas.

–Rachael – Se sentou na beira da cama e afastou o arbusto de cachos que caía em todas as direções – Não estou te abandonando. É mais seguro para você. Vai voltar.

–Sim, sei que o fará. E você estará aqui, verdade? Sozinho. Totalmente sozinho, sem ajuda. Porque os idiotas de seus anciões ficam contentes tomando o dinheiro que ganha arriscando a vida no que seja que faz com sua pequena unidade. O dá, não é? – Olhou-o raivosamente – Vi como vive, e não vejo que tenha uma enorme conta bancária escondida em alguma parte. O dá aos outros, não?

Rio encolheu os ombros. Estava furiosa, irradiando cólera que sacudia seu corpo. Os dedos de Rio se introduziram em seu espesso cabelo. Não soube a razão, possivelmente para sustentá-la quando parecia capaz de voar até os anciões.

–Parte dele. Eu não preciso disso. O dinheiro é utilizado para ajudar a proteger nosso ambiente. Nossa gente precisa dele, eu não. Vivo modestamente, Rachael, e eu gosto de minha vida. O que fico uso para armas, alimento ou remédios. É que não tenho muitas necessidades.

–Não me importa, Rio. São uns hipócritas. Exilaram você. Não é o bastante bom para viver perto deles, mas tomam seu dinheiro e o deixam arriscar a vida para proteger a seus outros homens enquanto trabalham. Isso fede e não quero nada deles. E se necessitar outra razão, ali terão que me seguir, assim que lhes causarei mais problemas. Não vou. Partirei, o assassino me seguirá e você estará a salvo.

A risada surgiu de nenhuma parte. Rio simplesmente se inclinou e tomou posse de sua boca. Essa boca formosa, perfeita, pecaminosamente deliciosa. Rachael se afundou nele, derreteu-se, seu corpo pressionou contra o seu, tirando todo pensamento de sua mente. Rio a envolveu com seus braços, devorando-a faminto, beijando-a repetidamente porque estava viva e o olhava dessa forma. Porque a encolerizou que os anciões o exilaram e estava tão pronta para defendê-lo inclusive quando não o necessitava. Porque fazia cantar seu sangue e punha seu corpo duro como uma rocha.

Uma série de raios atravessaram sua corrente sanguínea. As chamas dançavam sobre sua pele. Havia um rugido em sua cabeça e soube que de novo estava totalmente vivo. Não importou que não soubesse o passado de Rachael. Sabia do que era feita, sua força, sua feroz natureza protetora. Importavam-lhe sua coragem e seu fogo. Tinha-o aceito, enquanto sua própria gente não podia aceitar o que tinha feito.

A mão de Rachael rodeou seu pescoço. Levantou a cabeça e o olhou.

–Não posso ficar com você, Rio, e isso parte meu coração. Por que tive que encontrar alguém tão bom e gentil?

–Só você me descreveria como bom e gentil, Rachael – A beijou outra vez – E podemos resolver nossas pequenas diferenças.

–Quer dizer que pode procurar este capanga e matá-lo – Sacudiu sua cabeça – Não vou deixar que o faça. Odeia o que fez, matar o homem que levou a vida de sua mãe. Pensa que está tão mal porque não pode estar pesaroso que esteja morto. Rio sente pena por havê-lo matado. Sei que o faz. Pode ser que não lamente que esteja morto, mas sim lamenta o modo como sua vida foi tomada. Não vai voltar a repetir tudo isso por mim.

–Não é por você.

Ela sorriu e afastou o cabelo que lhe caía pela testa.

–Seja o que for. Não importa que desculpa invente para ambos, sempre saberei que foi por mim e você também saberá. Meus problemas não têm nada a ver com você e nem sequer teria que ter formado parte deles.

–Derrotei-o duas vezes. Teve que escapar e acabou ferido. Terá que vir por mim. Esteja aqui ou não, acabará vindo por mim.

–Não o pagam para que venha por você. Os assassinos a salário trabalham por dinheiro. Não se deixam levar pelos sentimentos, Rio, ao menos não os que vi. Se os pagamos, fazem o trabalho. Para eles é simplesmente um negócio.

–Está falando de seres humanos – Assinalou – Farei alguma coisa para você comer enquanto discutimos isso. Falo sério, Rachael, virá aqui para me matar antes de fazer outro intento contra você.

Rachael o olhou enquanto se dirigia aos armários. Em sua voz havia uma total convicção.

–Não ia falar de nós, mas agora que o menciona... Considerei um dos dois problemas que pode ter uma relação. Está todo o tema do cruzamento de espécies. Não me perguntou se estava tomando algo, Rio. Te ocorreu que se ficasse grávida poderíamos ter um problema?

Concentrado em fazer a sopa, não se girou.

–Não haveria nenhum problema, mas sabia que não podia conceber. Não da forma que fizemos o amor.

–Ah sim? E por que não?

–Porque é uma dos nossos.

Rachael levantou uma sobrancelha e olhou a ampla extensão de suas costas.

–Que interessante. Por que não sei nada disto? Seria lógico pensar que meus pais teriam me informado. Não é que me incomode correr livremente pelo bosque, seria divertido.

Agora sim girou e em sua cara não havia uma resposta divertida. Sua expressão era severa.

–Não, não irá correr pelo bosque, Rachael. Nem agora, nem nunca – A cólera ardente estava de volta, uma turbulência negra e feroz que o transpassava como um escuro tornado.

A sobrancelha de Rachael se elevou mais.

–Está bem saber com tempo que parece haver um duplo padrão em sua sociedade para as mulheres. Já venho de uma dessas sociedades, Rio, onde as mulheres são cidadãos de segunda categoria, e não desfrutei dela. Não penso me unir a outra.

–Minha mãe não era de segunda classe, Rachael. Para qualquer pessoa o bastante afortunada de conhecê-la era um milagre. E correr livre no bosque lhe custou a vida.

–Foi um risco que correu, Rio. Você o faz todo o tempo. Corri um risco quando deixei ir de barco e me deslizei no rio cheio. Foi minha decisão. Em qualquer caso não serve de nada discutir, eu nunca terei outra forma mais que esta. Bom, às vezes meu peso sobe ou desce um pouco e ao me fazer mais velha acredito que está redistribuindo e possivelmente mudando minha forma, mas acredito que não se referia a isso.

–É um dos nossos, Rachael. Drake sabia e também Kim e Palha de Cereal. Está perto do Han Vol Dan. É por isso que está tensa e mal-humorada.

–Tensa? Mal-humorada? Sinto muito! Não estou nem tensa nem mal-humorada. E se o faço, é somente porque estou condenada a esta cama.

–Possivelmente não foi uma descrição muito acertada. Estou tentando ser discreto.

–Bem, se esqueça de ser discreto e diga-o.

–Tem razão. Mas não se zangue comigo. Está perto da mudança e com ele está experimentando um impulso sexual muito poderoso, como uma gata no cio.

Lançou-lhe o travesseiro.

–Não acredito que esteja agindo como uma gata no cio. Não fui atrás de todos os homens da casa.

–Não, mas eles queriam ir até você. Pode ser um tempo perigoso. Está dando sinais, tanto de olfato como gestos corporais.

–Está louco – Rachael o atravessou com o olhar – Tenta me dizer que fez amor comigo porque estou enviando um certo aroma? – Rio lhe voltava a dar as costas, mas viu seus ombros sacudir-se – Se atrever a rir, vou fazer saber exatamente o que supõe uma mulher que se esquenta.

–Não me ocorreria rir – Às vezes a mentira era a melhor parte da coragem e a única maneira de salvar o traseiro de um homem – Fiz amor com você porque cada vez que a olho te desejo. Demônios, agora a desejo. Não posso pensar com claridade quando estou a seu redor, mas já sabe.

Rachael tentou não sentir-se apaziguada pelo que disse, mas foi impossível não sentir-se contente. Gostava da idéia de que ele não pudesse pensar com claridade quando estava perto.

–Agora a sério, Rio, por que chegaria a considerar que pertenço a outra espécie diferente da humana?

–Estou sendo sério. Estou seguro que seus pais eram iguais a mim. Acredito que as histórias que contou sua mãe eram as que se contavam a nossas crianças para lhes ensinar sua herança. Tem que ter ouvido seu pai chamar sestrilla a sua mãe, e por isso sabia o que significava. A língua é antiga e somente a utiliza nossa gente, mas é universal para todos nós sem importar em que parte do mundo residamos. Inclusive se seus pais nasceram e cresceram na Sudamérica como suspeito, seu pai teria chamado assim a sua mãe em algum momento.

–Não posso recordar meu pai. Era muito jovem quando morreu.

–Tem lembranças da selva tropical?

–Sonhos, não lembranças.

–A umidade não te incomoda e os mosquitos não se aproximam. Não está assustada nos silêncios ou na calma. Demônios, Rachael, entrei aqui como um leopardo e nem sequer recuou.

–Afastei-me. Definitivamente o fiz. Teve muita sorte de que não morresse do puro susto.

–Esteve acariciando o leopardo. Não devia estar tão assustada.

–A sopa está começando a ferver – Esboçou uma careta a suas costas. Possivelmente não tinha estado tão assustada do leopardo como deveria – Quem não acariciaria um leopardo dada a ocasião? Foi uma coisa perfeitamente natural. Pensei em desmaiar, mas não sou muito boa nisso assim pensei em tirar o melhor da situação. E... – Continuou antes de que a pudesse interromper – ...Tem dois leopardos como mascotes, quem sabe se o animal grande era parte da família. Entrou como se a casa fosse dele.

Ele sorriu amplamente.

–E é.

–Bem, não estou no cio. – Tentou não lhe devolver o sorriso. Era difícil quando estava ali parado, apoiando prazerosamente um quadril contra a pia e parecendo incrivelmente atrativo.

–Um homem sempre pode sonhar.

Conseguiu fazer um elegante gesto de indignação, aceitando a xícara de sopa que lhe deu.      

–Quanto tempo há antes de que volte o assassino? – Era um assunto muito mais seguro.

–Poderia estar escondido a um alguns quilômetros daqui. Depende da gravidade de suas feridas. Movia-se rapidamente e pensando todo o tempo.

–O que significa que não estava tão mal.

–É o que penso. Franz está explorando e enviei outro par de amigos, não humanos em caso de que perguntasse isso. Darão o alarme se apresentar em um rádio de dois quilômetros. Se for preparado, permanecerá quieto esperando que nos relaxemos.

O coração de Rachael saltou.

–Está me dizendo que acha que voltará esta noite? Por que não estamos nos preparando para sair daqui? Posso fazê-lo. É estúpido sentar-se aqui e esperar que nos dispare.

–Não estamos simplesmente esperando-o, Rachael. Estamos nos fortificando e se preparando para a batalha.

–Não quero lutar contra ninguém. Conhece o velho ditado de luta ou foge? Acredito que fugir é o mais inteligente. Tem que haver alguma choça dos nativos sobre as quais li aonde possamos ir.

–É como um sistema de radar que caminha, Rachael. Pode nos rastrear, sem importar aonde vamos. Se não quiser proteção com os anciões na aldeia então temos que lhe fazer frente.

Rachael sacudiu a cabeça tristemente.

–A qualquer lugar que vou, levo a morte – Desviou o olhar da porta – O sinto, Rio. De verdade, sinto ter trazido este homem para sua vida. Pensei que poderia escapar.

–Foi sua decisão aceitar este trabalho. Tome a sopa.

Rachael sorveu o caldo com cuidado. Estava muito quente, mas de repente se encontrou muito faminta.

–Ainda estou tentando assumir a idéia de que os homens leopardo são realmente verdadeiros, não um mito, e você quer que acredite que sou uma mulher leopardo – Riu suavemente – Não pode ser verdade, mas o vi com meus próprios olhos.

–Estarei encantado de lhe demonstrar isso - Rio queria levá-la a seu refúgio o antes possível. Não estaria contente com a mudança, e estava seguro que machucaria sua perna, mas sentia que não tinham opção. O franco-atirador não esperaria muito. Se Rio fosse o caçador, já estaria voltando lentamente, com paciência, de novo em posição de matar.

Rio tirou sua mochila. Mantinha-a cheia de artigos necessários para uma partida rápida. Acrescentou mais faixa e calmantes para Rachael e cortou as pernas de um par de jeans velhos até o joelho.

–Tenho que te pedir que ponha estes.

–Encantadores. Eu gosto de seu aspecto. Vamos caminhar sob a luz da lua? –Deixou a sopa na pequena mesa do extremo e estirou sua mão para pedir os jeans. Seu olhar encontrou o de Rio com resolução, mas a viu engolir com força. A perspectiva de tentar caminhar com a lesão que tinha era desalentadora.

–Sim. Deixe-me ajudá-la – Deslizou o material sobre seu inchado tornozelo e sua panturrilha. Sua coragem o sacudiu. Esperava um protesto, mas como de costume, Rachael estava animada.

Explodiu em suor enquanto a vestia.

–Não estou em forma.

–Não vamos falar de formas outra vez, certo? – Brincou Rio, precisando encontrar uma maneira de tirar a dor dos olhos de Rachael. Deslizou os dedos por seu cabelo. As mechas sedosas estavam úmidas – Vai ser capaz de fazer isto?

–É obvio. Posso fazer qualquer coisa – Rachael não tinha nem idéia de como ia levanta-se e pôr peso em sua perna. Inclusive com a beberagem marrom esverdeada de Kim e Palha de Cereal espalhado sobre sua panturrilha, a perna palpitava. Estava segura de que quando baixasse o olhar para examinar o dano veria flechas perfurando sua carne. Rachael passou a xícara de sopa.

–Estou preparada, tanto como o posso estar.

Deu-lhe uma faca com sua capa e a pistola pequena.

–Está posto o seguro. – Pendurou a mochila nos ombros e se agachou para o leopardo nebuloso de vinte e três quilos – Não podemos te deixar para trás, Fritz. Tenho a sensação de que nosso amigo vai se sentir vingativo. Terá que permanecer fora da casa.

O gato bocejou, mas permaneceu erguido quando Rio o pôs na terraço.

–Vá, pequeno, encontra um lugar onde se ocultar até que volte – Olhou o pequeno leopardo sair coxeando por um ramo e desaparecer entre a folhagem. Rio olhou para trás e viu Rachael tentando manter-se em pé.

–Que demônios acha que está fazendo, mulher?

–Acredito que se chama estar de pé, mas pareço ter esquecido como se faz –Respondeu ela, sentando-se na beira da cama – É a massa verde que pôs na minha perna. Está me sobrecarregando.

–Rachael, eu vou levá-la. Não espero que caminhe.

–Isso é uma tolice. Mais que nada estou fraca. Não é tão doloroso. Bom, é doloroso porque o inchaço ainda não baixou.

Agarrou-a entre seus braços.

–Passei todos estes anos sozinho. Nunca ninguém discutiu comigo.

–E agora me tem – Disse ela com evidente satisfação, acomodando-se contra seu corpo – Tem idéia para onde vamos? Pareceu-me entender que poderia nos rastrear.

–Disse isso, não foi? – Já se movia através da rede de ramos, com muito mais rapidez do que Rachael considerava seguro.

Apesar da pesada mochila e o peso adicional de Rachael, Rio nem sequer respirava rápido quando aterrissou no chão e começou a correr, serpenteando entre as árvores de volta para o rio. Ela enterrou o rosto contra seu pescoço, tentando não gritar com cada passo que a sacudia.

O rugido começou suavemente, um som amortecido, distante que rapidamente começou a ganhar força. Rachael levantou sua cabeça em alarme, repentinamente assustada do lugar para onde pretendia levá-la.

 

O bosque aparecia majestoso, com árvores imponentes elevando-se como grandes pilares de catedral ao redor deles. Havia árvores menores por toda parte, criando um mosaico de folhas prateadas, explosões de cor e manchas escuras de casca. As samambaias como hastes de cervo penduravam das árvores, o vento leve fazia crepitar os vivos dentes verdes, enquanto eles se apressavam. A luz da lua se infiltrava através das aberturas do dossel de folhas, projetando reflexos de luz pelo úmido chão do bosque. Rachael vislumbrou folhas de todos os tons de vermelho, verdes e azuis iridescentes, tudo para aumentar a refração e a absorção de luz no pigmento da folha.

Rachael se agarrou a Rio enquanto este corria ligeiramente pelo bosque. A escuridão nunca parecia incomodá-lo. Movia-se a um passo seguro, constante. Ela ouviu grunhidos de cervos, o sinal para alertar de predadores na zona enquanto passavam, fazendo Rio amaldiçoar baixo. Dois cervos muito pequenos saíram dos arbustos que tinham diante e correram para os arbustos.

O rugido do rio aumentou. O coaxar contínuo das rãs se somou ao barulho. O estômago de Rachael se sacudiu loucamente.

–Rio, temos que parar, só um minuto. Vou ficar doente se continuarmos.

–Não podemos, sestrilla, temos que alcançar o rio. Não pode rastrear nosso aroma na água. – Rio continuou movendo-se sobre a molhada e grossa vegetação do chão.

Estava escuro e úmido com pequenos charcos de água aqui e ali. Estas e os lamaçais do bosque não o atrasavam. Rio se esquivou de uma pilha artificial de folhas e raminhas que assinalavam o refúgio de um javali. Estes ninhos apresentavam frequentemente carrapatos que podiam levar desde febre a tifo, por isso Rio cuidou de evitá-las.

Rachael se concentrou no bosque mais que em seu mal-estar. Duas vezes vislumbrou grandes cervos com chifres grossos, o sambar comum, o maior do bosque. Era vertiginoso ir apurados de noite pelo bosque. Havia uma sensação misteriosa sobre a forma em que o dossel de folhas se sacudia sobre eles, continuamente trocando os patrões de luz através das árvores. As plantas e os cogumelos cobriam os troncos das árvores de modo que as plantas pareciam montar umas sobre as outras, criando um ambiente exuberante. Cada certo tempo Rio emitia um grunhido suave, alertando os animais de sua presença, com a esperança de que os animais não levantassem o alarme enquanto saíam disparados para caçar insetos ao vôo.

O rugido aumentou de volume. Rachael se deu conta de que tinham viajado de ângulo rio acima para chegar às alagadas bordas. Aproximou a boca do ouvido de Rio.

–Não está me levando para seus anciões, não?

Ele ouviu a pausa em sua voz.

–Quero que o franco-atirador pense isso. – Rachael não respondeu, tranquila de que não a abandonaria.

Foram caminhando através dos pântanos, subindo com cuidado sobre a miríade de raízes que saíam da base dos troncos e criavam pequenas jaulas. A água roçou os joelhos de Rio. O aspecto do bosque mudou quando foram se aproximando da beira do rio. Mais luz podia penetrar o dossel de folhas, e a maioria das árvores eram menores, com troncos e ramos torcidos que penduravam sobre a água.

–Não há crocodilos e outros répteis por aqui? – Perguntou Rachael.

O rugido do rio era ensurdecedor. O calor úmido encrespou mais seu cabelo, criando uma massa de cachos elásticos. Tinha evitado os mangues e pântanos na medida do possível, como o resto dos membros do grupo que trazia ajuda médica. As bordas do rio podiam ser tão perigosas quanto formosas.

Rio vadeou através da água rápida.

–Vamos nadar, Rachael. Esperemos que a mistura de Palha de Cereal proteja sua perna de mais infecções. Vou prendê-la a mim, se por acaso a corrente te arraste.

–Está louco? Não podemos nadar nisto. – Estava horrorizada.

Na escuridão, o rio parecia mais rápido e espantoso que pelo dia. Ou possivelmente sem os bandidos que saíam do bosque parecia mais perigoso.

–Não temos outra opção se formos levá-la a um lugar seguro, Rachael. Enquanto ele souber onde está, estamos condicionados. Move-se com facilidade e nós não. Juro-lhe isso, não deixarei que te aconteça nada.

Ela olhou fixamente seu rosto. Seus olhos. Estudou sua mandíbula firme, as minúsculas linhas gravadas nos traços duros de seu rosto. Rachael levantou a mão e traçou uma cicatriz pequena perto do queixo.

–Por sorte, sou muito boa nadadora. – Sorriu, confiando nele quando até então nunca tinha acreditado em ninguém – Meu nome é Rachael Lospostos, Rio. Em realidade não é Smith.

–De alguma forma já sabia. – Beijou com suavidade sua boca levantada –Obrigado. Sei que não foi fácil para você.

–É o mínimo que posso fazer por te colocar nesta confusão. – Seus olhos escuros brilharam com diversão – Mas pode voltar a me beijar. Se me afogar, quero levar o sabor de sua perfeita e preciosa boca.

–Sabe que está me distraindo. Se um crocodilo nos comer, será sua culpa.

–Ouvi que não gostam da água rápida – Disse e colou sua boca a de Rio. Fundiram-se ao momento como faziam sempre, afundando-se um no outro e partindo longe do mundo.

Rio lutou para recordar onde estavam e o perigo que os rodeava. Ela conseguia varrer seus pensamentos normais e substituí-los imediatamente por fome e necessidade urgentes. Com cuidado baixou seus pés à corrente, levantando a cabeça a contra gosto. Era a única forma de respirar e conservar sua prudência e engenho.

–Tenho você, Rachael – Passou um braço ao redor de sua cintura para estabilizá-la. Colocou-lhe uma corda ao redor e a assegurou rodeando sua própria cintura – Não vou perder você. Vamos nadar até onde a água vai mais rápida, depois levantaremos os pés e viajaremos rio abaixo com a corrente. Não queremos que nada lhe indique a direção que seguimos. Uma folha, o fundo do rio removido perto da borda, algo pode ser uma pista. Iremos rio abaixo durante um tempo.

–Vamos lá então. – Não queria perder a coragem. Sorriu-lhe amplamente – Pelo menos sei que não o atraio por quão maravilhosa estou. – Passou uma mão pelo cabelo e deu o primeiro passo. Sua perna machucada, inclusive com a ajuda da água, não queria suportar seu peso, assim se estirou por completo e começou a nadar.

Rio foi depois dela, transbordando orgulho por sua coragem. A luz da lua iluminou o rosto de Rachael enquanto nadava, e ele olhou as gotas de água que salpicava. Nadava com movimentos seguros, fortes, atravessando limpamente a água, quase tão silenciosa quanto ele. Ali estava outra vez, essa estranha e desorientadora sensação de familiaridade. Tinha nadado antes com ela. Tinha visto uma imagem exata, sabia o momento em que ela giraria a cabeça e tomaria uma baforada de ar.

A corrente era mais forte no centro do rio e os arrastou sem qualquer esforço, levando-os rio abaixo. Rio agarrou sua mão e a sustentou firmemente quando dobraram os joelhos e levantaram os pés para evitar as rochas e ganchos enquanto eram arrastados. Era uma experiência vertiginosa, o observar o céu noturno depois de tantos dias vendo só o dossel de folhas. As estrelas, dispersas pelo escuro fundo, brilhavam como gemas apesar das nuvens. A chuva caía ligeiramente, uma névoa fina, mais que uma ducha, de modo que Rachael girou a cabeça para senti-la.

O rio não estava tão feroz como quando corria a tormenta. Não havia correntes subterrâneas tentando puxá-la para baixo. Rachael se deu conta de que estava desfrutando da experiência depois de estar de cama tanto tempo. Rio permanecia muito perto dela, rondando protetor, o que a fez sentir-se valorada, algo que nunca tinha experimentado. Era como um sonho. Ninguem falou, já que de noite o som percorria grandes distância no rio.

Foram arrastados em uma curva e desceram por uma pequena cascata. Abruptamente, Rio a agarrou ao redor da cintura e baixou os pés. Lutou contra a corrente, caminhando com a água até a cintura, arrastando-a com ele. Rachael só podia ajudá-lo tentando bracejar com força na direção que queria ir. Inclusive com a incrível força de Rio, foi uma batalha alcançar a cascata pequena. Ele aproximou a boca do seu ouvido.

–Espera um momento, vou submergir.

Aguentou a respiração quando ele desapareceu. Sentiu o puxão da corda ao redor da sua cintura, mas pôde manter-se contra o puxão da água. Pareceu que passaram minutos até que Rio emergiu. Suspirou aliviada e jogou os braços ao seu pescoço.

Ele voltou a aproximar a boca do seu ouvido.

–Tem que aguentar a respiração e se inundar sob a água. Vamos nadar através de um tubo.

Ela assentiu para lhe mostrar que entendia e foi com ele, permitindo que a água que formava redemoinhos se fechasse sobre sua cabeça. Era impossível ver alguma coisa e ela nem sequer o tentou, agarrando-se a Rio com todas as suas forças. A fez avançar por um pequeno canal, um tubo sob a água. Ela sentia as paredes roçando seus ombros e quando tocou por cima pôde sentir o teto a centímetros de sua cabeça. Rachael lutou contra a claustrofobia, concentrando-se nos inesperados sentimentos que sentia por Rio. Detestava os lugares fechados e pequenos, e nadar em águas escuras através de um túnel que nunca tinha visto era uma verdadeira prova de sua confiança em Rio.

Como tinha chegado a sentir tanta fé nele em tão pouco tempo? Não parecia que tivesse passado tão pouco tempo. Rachael notou o puxão em seu corpo indicando que podia levantar-se. Rio lhe rodeou a cintura com seu braço ao redor para ajudá-la a sair da água. Sua cabeça apareceu à superfície e ela abriu os olhos. Estava totalmente escuro. A cascata era um eco ruidoso que se emparelhava com o som contínuo da corrente.

–Onde estamos?

–Em uma caverna. Tem que nadar através da água e manter a cabeça baixa durante uma distância curta e então estará instalada. Fiz o tubo e escavei grande parte da entrada à câmara. A câmara foi um grande achado. Pareceu-me um bom lugar para escapar se me feriam seriamente.

Ela notou a pequena nota de orgulho em seu tom e sorriu.

–Soa encantador. Sempre pensei que ser a amante de um troll é incrivelmente romântico.

Houve um curto silêncio e então ele riu brandamente.

–Chamaram-me muitas coisas na vida, mas de troll é novo. – A agarrou nos seus braços – Vou levar te através da soleira.

–Não se leva as amantes nos braços. – Recordou Rachael. A orelha de Rio estava tão perto de seu rosto que se inclinou e a mordiscou – Somente às noivas.

–Muito bem, então se considere casada. E para de fazer essa coisa com os dentes porque estou tendo uma condenada reação a ela.

–Isso soa... Possibilidade. Mas estive pensando. E se algum réptil horrível descobriu seu trabalho e se fez um pequeno ninho dentro de sua caverna? Se eu fosse um crocodilo eu gostaria de utilizar seu refúgio. E se viesse de visita, ainda melhor. Às vezes é difícil chegar comida.

Ele riu.

–Não tem nenhuma fé, mulher. Pus uma fechadura para deixar as criaturas fora. Abri as fechaduras e a porta, por isso estivemos tanto tempo no tubo.

–Não fechou a porta.

–Estou levando você a um nível mais alto primeiro. É o cavalheiro que levo dentro.

Ela esfregou seu pescoço com suavidade.

–Aprecio isso, Rio, seriamente, mas neste caso, serei feliz ficando aqui enquanto vai atrás e assegura o tubo. Ainda não estou pronta para visitantes, especialmente os de tipo réptil.

Rio notou o pequeno tremor em sua voz.

–Farei isso imediatamente, Rachael. Já estamos na caverna. Felizmente nos afastamos o suficiente e a caverna se abre aqui a uma câmara ampla, assim podemos acender uma lâmpada. Durante um tempo estive trazendo muitos coisas – A depositou em uma superfície plana.

Rachael esperou ansiosamente enquanto acendia uma das lâmpadas e a enganchava sobre suas cabeças para iluminar ao máximo. Ela olhou a seu redor. A câmara era bastante grande. Sobressaíam-se raízes e gotejava água continuamente de várias paredes. Não havia nem rastro de crocodilos. Rio tinha um bom número de fornecimentos na caverna.

Dentro de uma jaula de raízes havia uma bolsa plástica grande, que supôs impermeável. Pôde ver que havia várias mantas e uma de suas muitas equipes médicas. Rachael estava sentada em uma laje plana de pedra. Era a única rocha que podia ver em toda a caverna. O piso ao redor das paredes estava úmido, mas a maior parte da água voltava para o rio. Rio tinha escavado um buraco para evitar que a água umedecesse o piso da caverna.

–Bem, o que te parece? – Rio voltou, totalmente empapado, empurrando o cabelo para trás com os dedos – Não muito mal espero.

–Penso que é maravilhosa. – Disse Rachael. Estava empapada e incômoda. Desceu os olhos a sua camisa e se deu conta de que não lhe servia muito. Estava tão molhada que parecia quase transparente – Se não se importar, eu gostaria de tirar estas roupas. Deveria fazer o mesmo, Rio.

–Tenho algumas coisas para nós embaladas em bolsas impermeáveis. – Disse ele. Abriu a bolsa e revolveu pelos fornecimentos até encontrar uma toalha.

Rio se ajoelhou a seu lado e lhe desabotoou a camisa, arrastando-a por sua pele molhada e sacudindo-a a um lado.

–Venha, sestrilla, se levante para que possa tirar seus jeans.

Sua voz era gentil, inclusive terna. Rachael permitiu que a ajudasse a levantar-se, apoiando-se em seu corpo enquanto lhe baixava o material de seus quadris. Envolveu-a com a toalha e começou a secar as gotas de água de sua pele. Balançou-se com cautela, o que a fez envergonhar-se. Era ele quem tinha deslocado quilômetros de bosque com ela em braços. Tinha sido o que usou sua força para impedir que os arrastasse a corrente. E estava tão empapado quanto ela.

–Nunca conheci alguém como você – Disse Rachael – As vezes não estou segura de que seja real.

Rio a envolveu em uma camisa seca.

–Tenho meu lado bom – Brincou – Infelizmente, não sai muito frequentemente –Estirou uma esteira sobre a laje de rocha e a cobriu com um grosso saco de dormir antes de ajudá-la a sentar-se. Esfregando o grosso arbusto de cachos, Rio estudou sua perna.

–Parece que a massa verde aguentou. É melhor que a tiremos das feridas se por acaso ainda precisam drenar-se.

–Sente-se melhor – Disse Rachael – Terei que me lembrar de dizer a Palha de Cereal que fez um trabalho milagroso.

Rio se assegurou de que estivesse cômoda antes de tirar suas próprias roupas e esfregar a toalha por seu corpo.

–Quanto tempo acha que teremos que permanecer aqui? – Perguntou Rachael.

–Vou passar o resto da noite procurando o franco-atirador. Está deixando seu próprio rastro e vai ferido. Será mais fácil encontrá-lo. Além disso saberei que está segura, assim não terei que me preocupar que volte e se encontre sozinha em casa. Franz já está explorando para mim. Agarrará o rastro, e sabe permanecer fora de vista.

Os olhos de Rachael se abriram transtornados.

–Não pode fazer isso, Rio. Não depois do que me contou.

–Está nos caçando. A única maneira de pará-lo é ir atrás dele. Achou que íamos viver em uma caverna o resto de nossas vidas?

–Não. – Rachael desejou cobrir-se com as mantas. Não havia maneira de defender Rio de seu passado – Mas antes de que saia e arrisque a vida talvez é melhor que saiba por quem está jogando isso.

–Sei quem é.

–Não, não sabe. Não tem nem idéia de quem é minha família.

–Não preciso saber sobre sua família, Rachael. Falaremos disso quando voltar. Espera aqui pelo menos quarenta e oito horas. Se algo sair errado, segue rio acima para a aldeia de Kim e Palha de Cereal. Peça que a levem para os anciões. O Han Vol Dan é sua primeira mudança. Não pode permitir que aconteça até que sua perna esteja o bastante forte para aguentá-lo. Terá problemas com as sensações sexuais. As emoções continuarão aumentando, o calor, a necessidade, todas as sensações mutantes que mal pode controlar. Tem que permanecer em controle, especialmente se não tiver acontecido o Han Vol Dan. A combinação dos dois passos pode ser explosiva.

–Sabe o totalmente ridículo que isso soa? Se estivesse vendo um filme, explodiria de risada.

–Exceto que sabe que o que te estou contando é verdade. Tem sentido o animal rugindo para sair. Vi como se aproximava da mudança.

–Por que minha mãe não teria me dito isso? Em todas as histórias que me contou, nunca mencionou que pudesse assumir outra forma.

–Não sei, Rachael, mas estou seguro que é uma de nós.

–E se não for? – Seus olhos escuros se moveram sobre a face masculina – Se está equivocado, significa que não podemos estar juntos? Permitem-lhe estar com alguém que não pertence a sua gente?

A palma de Rio sujeitou seu rosto, seu polegar acariciando sua pele.

–Exilaram-me, sestrilla, ninguém pode me dizer o que posso ou não posso fazer – Se inclinou para beijá-la – Voltarei para você.

–Mais vale voltar por mim. Não desejo lutar sozinha contra os crocodilos. – Tentou não agarrar-se a ele, embora desejou abraçá-lo contra ela – Não havia nada que pudesse dizer ou fazer para detê-lo. Rachael sabia quão obstinado podia ser. Era impossível discutir com ele quando estava decidido a fazer algo. Sacudiu a cabeça para clarear seus pensamentos. Qualquer passado que pudessem ter tido parecia irromper nos piores momentos. Conhecia-o. Sabia como era – Pois vai, agora, enquanto está escuro. Recorda, se tiver razão e ele nos seguiu, já poderia estar procurando nas bordas do rio para ver por onde saímos.

–Está perturbada.

–É obvio que estou perturbada. Tenho que ficar aqui com esta perna estúpida e você vai arriscar a vida para parar este assassino – Empurrou sua mão pelo cabelo, zangada e à beira das lágrimas – Não se dá conta de que enviará outro? E um depois desse? E outro e outro mais? Nunca parará.

Rio assentiu.

–Já pensei nisso. Não importa, Rachael. Nos libertaremos de cada um por vez e se for necessário, terei um pequeno bate-papo com ele.

Sua cara perdeu toda a cor.

–Não. Não, prometa-me isso Rio. Nem sequer pode tentar se aproximar dele. Por nenhuma razão. Não pode machucá-lo. E não pode tentar vê-lo.

A ansiedade no rosto de Rachael retorceu suas vísceras.

–Rachael, vou voltar.

–Sei que o fará – Tinha que fazê-lo. Não poderia permanecer em uma caverna sob o rio para sempre… A menos que ele estivesse com ela. Poderia ser capaz de viver com ele em qualquer lugar. O pensamento era alarmante. Nunca tinha considerado que poderia querer passar sua vida com alguém. Uma vida inteira parecia muito tempo para querer passá-la com alguém, e contudo, se ela pudesse tê-lo, desejaria passar mais de uma vida com Rio.

Rio se forçou a afastar-se dela, do olhar em seu rosto, tão sozinha, tão vulnerável, tanto dor em seus olhos. Não se atreveu a aproximar-se ou nunca a deixaria ir. Nadou para longe dela.

–Que toda a magia do bosque esteja contigo e que a boa fortuna seja sua companheira de viagem. – Sua voz soou áspera pela crua dor – Boa caça, Rio.

Ele parou, mantendo-se de costas para Rachael. Antes tinha vislumbrada dor nela. Reconheceu os sinais do trauma e da traição. Estava familiarizado com a raiva nascida do desamparo. A angústia era profunda e deixava cicatrizes. Não poderia olhá-la. O sofrimento de Rachael era mais duro de levar que o seu próprio.

–Não sei nada sobre o amor, Rachael. Conhecê-la foi algo inesperado, mas tudo sobre você me faz feliz. Vou voltar para você.

Continuou avançando na água. Ela estava chorando. Suas lágrimas seriam o fim de Rio. Antes faria frente ao acampamento de bandidos ao completo que a suas lágrimas. Não havia maneira de mudar o que tinha que fazer. Não podia consolá-la. Tinha havido violência na vida de Rachael. Tinha reconhecido os sinais. Só podia esperar que por fazer o necessário, não perdesse sua chance com ela.

Rio submergiu, nadando através do estreito túnel que com muito trabalho tinha cavado e reforçado com um tubo artificial. Tinha levado vários anos encontrar a câmara e assegurar uma entrada. Tinha muitos lugares que podia utilizar em caso de necessidade, repartidos pelo rio e o bosque. Sua gente era uma espécie reservada e cautelosa, e com os anos tinha aprendido o valor da preparação.

Ao chegar às cataratas pequenas, mergulhou até o centro do rio e permitiu que o arrastasse mais longe rio abaixo. Não queria deixar pistas ou aromas para o caçador, depois de ter tomado tantas precauções para manter Rachael segura. Era um risco deixá-la ferida na câmara. Tinha as armas e luz e alimento para vários dias, mas ainda assim podia aterrar-se com facilidade por estar presa. Eles eram arbóreos, preferindo os ramos altas das árvores à terra.

Rio passava muitas horas deitado perfeitamente quieto, fazendo de reforço para seus homens. Os outros entravam nos acampamentos para resgatar às vítimas. Ele permanecia fora em uma posição vantajosa, um franco-atirador que poucos poderiam ultrapassar, a última linha de defesa para sua unidade. Estava acostumado à vida solitária, vivendo sozinho a sua maneira e realizando seu trabalho, mas a diferença do leopardo, sua espécie não tinha sido feita para estar sozinha. Emparelhavam-se para toda a vida e mais à frente. Certamente Rachael passaria um mau momento sozinha.

Rio saiu da água a uma milha rio abaixo da cascata, mudando à forma animal, feliz de sentir toda a força e a energia de sua espécie. Levantou o focinho e farejou o vento. Imediatamente se viu alagado de informação. Estirou-se languidamente antes de saltar com facilidade um tronco caído. Começava a amanhecer no bosque.

A névoa espessa e inquietante que cobria o bosque começou a levantar-se, evaporando-se lentamente quando o calor do sol transpassou as nuvens. Começou um coro de pássaros, cada um tentando superar o outro enquanto a estranha música soava através das árvores. Os sons eram desde melodiosos a ásperos, inclusive dissonantes, já que se chamavam uns aos outros revoando de ramo em ramo. Quando os pássaros se elevaram, uma explosão de cores assinalou a chegada da manhã ao bosque. Os gibones se uniram, reclamando o território com gorjeios e enormes chiados.

O leopardo não fez caso do ruidoso bater de asas e os assobios dos pássaros de grandes asas, enquanto saltava os ramos mais baixos de uma árvore próxima, para usar o caminho de cima. O bosque se despertou e Rio utilizou o ruidoso bate-papo, apressando-se pelas árvores de volta para casa com a esperança de distinguir o aroma do caçador. Moveu-se com rapidez rio acima, atento as chamadas de advertência ou a silêncios repentinos que indicassem que um intruso espreitava o território do mico de cauda de porco. Tímido e assustado, frequentemente o mico saltava ao chão do bosque e corria quando o incomodavam, outro aviso de problemas.

Foi o grunhido dos cervos o que o alertou primeiro. As chamadas curtas e ásperas se utilizavam para advertir aos membros da manada que estavam entre as árvores, já que o movimento dos penetras não se poderia ver através dos densos arbustos e dos grossos troncos de árvore. Rio grunhiu e se afundou contra o ramo, ficando totalmente imóvel à maneira de sua terra. O caçador acabava de se transformar na presa.

Como não estava a muita altura do dossel de folhas, as folhas da árvore onde permanecia agachado estavam quietas, sem que o vento as afetasse. A luz do sol se infiltrou pelas ranhuras da folhagem elevada, para salpicar as folhas e o chão do bosque. Isto o permitiu ocultar-se melhor, uma camuflagem natural. Os insetos zumbiam a seu redor; um lagarto verde se situou em um ramo próximo, trocando sua cor de verde intenso a marrom escuro.

Um javali grunhiu e se chocou nos arbustos que tinha debaixo, assustado por algo. Os músculos elásticos se contraíram em antecipação. A ponta de sua cauda se desviou ocasionalmente, o único movimento. Os agudos olhos verde-amarelos arderam com fogo e inteligência. O leopardo esperou, congelado em seu lugar. O leopardo manchado, um macho adulto, emergiu cautelosamente, empurrando uma multidão de samambaias com a cabeça. O animal coxeou ao avançar pelo chão do bosque, grunhindo ao grupo de gibones que lhe gritavam coisas sujas da segurança do dossel de folhas. As raminhas e as folhas caíam como chuva enquanto os macacos lançavam coisas em desafio. O leopardo manchado manteve sua dignidade por alguns momentos, então da maneira mercurial de sua classe saltou aos ramos mais baixos com as orelhas esmagadas e mostrando os dentes. Os gibones irromperam em um frenesi selvagem e aterrorizado, apressando-se através das árvores em qualquer direção tentando escapar.

Rio não se moveu em nenhum momento, nem sequer quando um par de olhos maliciosos, duas manchas perdidas em um padrão de pontos, pareciam olhá-lo diretamente. Rio se concentrou em sua presa. Seu olhar verde-amarelo fixo se enfocou, com toda a tensão acumulada nos olhos. Com grande paciência, esperou e observou, totalmente imóvel. O intruso saltou de novo ao chão do bosque, elevando o lábio para indicar seu desprezo pelos gibones. Os pés amaciados lhe permitiram mover-se em silencio sobre a grossa vegetação.

Rio se estirou sobre o ramo, uma espreita lenta, deitado sobre o ventre, usando um controle incrível sobre os músculos. Arrastou-se alguns centímetros para frente, parou e repetiu o arrasto, indo principio a fim… Ganhando centímetros, depois metros, movendo-se sobre o leopardo manchado. Alcançou o extremo do ramo. O leopardo manchado se moveu silenciosamente justo debaixo dele, sem saber que Rio o espreitava de cima.

O intruso deu um passo. Outro. Vacilou, abrindo a boca de par em par. Rio saltou de acima, golpeando-o com força, afundando as presas profundamente, cravando a garganta coberta de pelagem, enquanto cravava as garras afiadas profundamente para tentar rasgar e destroçar. Rio quis acabar a briga o antes possível. As lutas entre leopardos eram extraordinariamente perigosas.

O leopardo manchado era bom, torcendo sua flexível espinha dorsal, rastelando com as garras estendidas, se revolvendo para tentar desfazer do gato maior. Rio se agarrou sem afrouxar, determinado a acabar com isso. Os rugidos e grunhidos se ouviram através do bosque, uma batalha viciosa entre dois inimigos perigosos. Por acima os pássaros elevaram o vôo, advertindo em todas as linguagens que podiam. Os esquilos e os lêmures tagarelavam e se queixavam. Os macacos gritaram em pânico. A raposa voadora se elevou no ar junto aos pássaros fazendo que o céu parecesse vivo com as asas.

O leopardo manchado se sacudiu, retorceu-se e grunhiu, atacando Rio, tentando estripá-lo ou aleijá-lo. Não podia sacudir o leopardo negro; as presas seguiam enterradas em sua nuca, a pressão de sua mandíbula era suficiente para lhe romper um osso. Acabou rapidamente graças ao ataque surpresa, dando a Rio a vantagem que necessitava na luta. O leopardo manchado ofegou, sufocado, com a garganta amassada. O leopardo negro o sustentou mais tempo, assegurando-se de que tudo tinha acabado antes de deixar cair o gato em terra.

Rio mudou à forma humana, olhando o leopardo com pesar. Precisavam de cada membro de sua espécie vivo. Cada leopardo que perdiam era um golpe para sua sobrevivência. Não havia etiquetas na roupa que o franco-atirador tinha deixado, nenhum meio de identificação. Rio não tinha nem idéia do país de procedência de seu inimigo, ou porquê um de sua espécie escolheria trair a sua gente com semelhante ato, mas estava seguro que este não tinha nascido em nenhum lugar próximo a sua aldeia.

Isso queria dizer que o povo de Rachael sabia o que era e que estava sob sentença de morte? Tinham regras estritas sob as quais todos viviam. As leis do bosque estavam para o bem comum de suas espécies. Se ela tivesse cometido algum crime contra sua gente, era possível que tivessem enviado caçadores atrás dela.

Rio esfregou a cara com a mão. Se esse era o caso, os anciões dela poderiam apelar aos da aldeia de Rio para que executassem a sentença em seu lugar. Rio já estava sob exilo. Duvidava que os anciões estivessem de parte de sua companheira, sobre tudo se não a conheciam e ela estava sob uma sentença legítima de morte. Rio amaldiçoou enquanto voltava para a forma de leopardo para arrastar os restos aos ramos altos de uma árvore. Não tinha mais opção que queimar o leopardo para preservar os segredos de suas espécies. Teve que procurar com rapidez o saco de provisões mais próximo. Deixar o corpo de um leopardo era extremamente perigoso, assim não pôde fazer outra coisa que esconder o corpo até que voltasse.

Sua mente pensou na possibilidade de que o povo de Rachael a condenasse. Ela tinha admitido que seu próprio irmão tinha feito um convênio por sua vida. Tinha sentido, embora não podia imaginar o que tinha podido fazer Rachael para ganhar uma sentença de morte. Rio se moveu rapidamente pelo bosque, ignorando os gritos de advertência dos gibones, ainda com pânico pela feroz luta que tinha tido lugar. Os pássaros revoavam por cima, entrando e saindo das árvores. Os cervos chocavam diante dele, dispersando-se quando saltava de ramo em ramo, de vez em quando baixando ao chão e saltando sobre troncos em decomposição.

O vento mudou levemente, uma brisa minúscula onde ordinariamente a calma no ar não revelava nada. Rio parou precipitadamente. Havia outro no bosque, perto. Reconheceu o aroma do leopardo. Os pássaros e os gibones e inclusive os cervos o tinham estado avisando, mas tinha estado tão angustiado pensando que Rachel estava sob pena de morte, que não se deu conta.

Felizmente, estava perto de sua mochila. A caixa estava enterrada perto, na jaula criada pela base de um grande dipterocarp. Tinha marcado a árvore frutífera com um pequeno símbolo. Usando suas garras, desenterrou a caixa rapidamente, escutando agora as notícias do bosque. O segundo leopardo se aproximava rapidamente, obviamente tendo encontrado seu aroma.

Rio trocou a forma humana, colocando as armas o mais rápido possível, com expressão inexorável. Somente depois de comprovar as pistolas e as facas escondidas vestiu as roupas e colocou a pequena equipe médica em seu cinturão. Sentindo o impacto do olhar fixo do leopardo, girou-se com o rifle colocado e preparado, o dedo no gatilho.

–Chega logo, Drake. – Sua voz era agradável, relaxada, inclusive casual, mas o canhão não deixou de apontar diretamente ao cérebro do gato e não tirou seu dedo do gatilho.

Olharam-se fixamente durante um momento comprido. A forma de Drake mudou, alargando-se, os músculos reestruturando-se para formar o homem. Olhou irado para Rio.

–Quer me explicar por que segue me apontando com essa coisa?

–Quer me dizer o que está fazendo aqui?

–Passei a maior parte da noite seguindo você e a esse leopardo solitário. Perdi você, ele não era tão bom. Feriu-o e isso fez que fosse mais fácil rastreá-lo.

–Por que?

Drake franziu o cenho.

–Será carrapato, sou filho de javali. Decidi voltar e salvar seu traseiro preocupado por seu bem-estar. Quando cheguei a sua casa, Rachael e você não estavam e tive que te rastrear pelo bosque. Ia devagar quando me dava conta de que o franco-atirador também o seguia. Perdeu-te algumas vezes e fiquei atrás dele, querendo saber o que fazia – De repente parou e o olhou irado –. Maldição, Rio, abaixa o rifle. Não é somente insultante, mas também incômodo – Rio passou o rifle sobre seu ombro. Deixou a mão livre, preparado para agarrar a faca inclusive enquanto sorria abertamente para Drake – Não sou um carrapato.

–Isso depende a quem lhe pergunte. Onde está Rachael?

O sorriso se apagou do rosto de Rio.

–Os anciões o enviaram, Drake?

–O que acontece com você? Por que os anciões me enviariam para proteger seu asqueroso traseiro, Rio?

Rio não sorriu. Seus olhos cintilavam com aguda inteligência, ardiam com perigo.

–O enviaram por Rachael?

Drake franziu o cenho.

–Não voltei para a aldeia. Fui rio acima com Kim e Palha de Cereal para sua aldeia, mas mudei de idéia e dei a volta. Até onde eu sei, os anciões nunca ouviram falar de Rachael. E se o têm feito, certamente que não sabem que está contigo. Palha de Cereal e Kim nunca diriam nada. Sabe. Sabe que poderiam ser torturados e nunca diriam nada. Do que vai tudo isto?

Rio deu de ombros.

–Ele era um dos nossos. Não de nossa aldeia, inclusive duvido que nasceu neste país, mas era um de nós. Por que aceitaria um trabalho para matar a um de sua própria espécie? Ainda por cima uma mulher?

–Não somos uma espécie perfeita, Rio, você deveria saber disso – No momento que escaparam as palavras, Drake sacudiu sua cabeça – O sinto, não o dizia nesse sentido. Houve alguns rumores ao longo dos anos. Alguns indo atrás de dinheiro, mulheres, poder. Não somos imunes a essas coisas, sabe.

–Suponho que não. Aprecio que cubra minhas costas, Drake. Sinto a recepção.

–A lamentável recepção. Suponho que o agarrou.

–Está morto. Ontem de noite deixou as roupas para trás e não havia nada nelas, nem sequer uma etiqueta. Precisarei de fósforos.

–Não me disse onde está Rachael. Não a deixou sozinha, não é? – Drake soava ansioso.

–Está bem. Tem um par de pistolas e algumas facas. Também é hábil com uma vara. Direi-lhe que mostrou sua preocupação.

Um lento sorriso se estendeu pelo rosto de Drake.

–Está ciumento, Rio. O monstro de olhos verdes o mordeu. Nunca pensei que aconteceria, mas caiu como uma árvore no bosque.

–Sou cauteloso, Drake. Há uma diferença.

–Acredito que acaba de tentar me insultar, mas estou rindo muito para que me importe. Onde está este homem misterioso? Vá procurar a sua garota que eu me encarrego da limpeza. Logo voltarei para a aldeia para avisar à unidade. Vamos atrás desse grupo da igreja.

–Quem cobrirá seus inúteis traseiros, Drake?

Drake deu de ombros.

–Conner é um bom franco-atirador. Não é você, mas o levará bem – Estendeu sua mão para os fósforos.

–Eu não gosto, Drake. Romper a unidade é uma má idéia.

–Qual é a alternativa? Não pode deixar Rachael sozinha. A não ser que a traga para a aldeia. Sabe que isso seria arriscado. Vocês dois se pertencem. Não sei como isso vai lhe cair bem.

Rio lhe passou os fósforos.

–Volto para casa, Drake, me chame pelo rádio quando forem.

 

Rachael se apoiou contra a parede da caverna para diminuir o peso sobre sua perna ferida. Surpreendentemente, a dor esperada não alagou seu corpo. As feridas tinham deixado de supurar. Sentia-se estranha, com picores. Algo avançava lentamente sob sua pele. Seu corpo parecia estranho… sexual, extremamente feminino. Mal podia suportar o toque da camisa contra sua pele, desabotoou-a, queria estar livre de seu leve peso. A teria arrancado de seu corpo, mas conservava o aroma de Rio.

Inalou bruscamente seu aroma, introduzindo-se em seus pulmões, em seu corpo, e sustentando-o ali. Seus seios doeram, os mamilos se esticaram e sua vagina chorava por ele. Ardia. Não havia nenhum outro modo de que pudesse descrever o que acontecia, sua pele se queimava de necessidade, seu corpo era incapaz de ficar quieto. Deu a volta na parede da caverna e colocou suas mãos sobre sua cabeça, curvou seus dedos na suja parede e rastelou para baixo, deixando detrás profundos sulcos.

Rachael sentiu seu fôlego no dorso do pescoço e ficou rígida, mas não girou. Seus braços escorregaram ao redor de seu corpo, suas mãos tomaram o peso suave de seus seios, os polegares se deslizaram sobre seus doloridos mamilos. O corpo dele, molhado e nu, pressionou contra o seu. Reconheceu a sensação imediatamente, a forma dura, a ereção grossa, rígida pressionando contra suas nádegas nuas. Rachael fechou os olhos e respirou seu nome com alívio.

–Rio – Esfregou seu traseiro para frente e para trás contra ele, quase ronronando como um gato contente –. Estou tão contente de que esteja a salvo.

Rio a beijou na nuca, seus dentes beliscando sua pele, excitando seus sentidos. Suas mãos acariciavam seus seios, enquanto sua boca afastava o pescoço da camisa a um lado. Permitiu que a camisa escorregasse por seus braços, arqueando-se para ele, inclinando-se para empurrar forte contra ele. Suas mãos abandonaram seus seios para explorar o corpo e ela quase soluçou pela intensidade do prazer. Um só som arrancou de sua garganta quando sua mão a excitou nos cachos da união de suas pernas, pressionando em seu calor.

Havia um rugido estranho em seus ouvidos, ansiedade, fome e necessidade. Um dedo escorregou dentro dela e imediatamente seus músculos se apertaram e o agarraram. Não podia evitar empurrar para trás, montando sua mão na beira de seu controle. Queria-o dentro dela, queria-o profundamente, empurrando com golpes duros e urgentes.

Empurrou-a para que as mãos dela descansassem contra uma prateleira. Mal podia respirar pelo desejo dele, necessitando-o dentro dela. Ele apertou fortemente contra a entrada, suas mãos sobre seus quadris. Rachael não podia esperar, querendo tomá-lo profundamente, empurrando para trás enquanto ele se levantava adiante. Seu alegre grito de alívio e boa vinda formou ecos pela caverna.

Rio apertou seu agarre, jogando sua cabeça para trás, desesperado por manter o controle. Ela era veludo quente, agarrando-o tão forte como um punho, a fricção ardente, enviando chamas a todas suas terminações nervosas. O tango foi selvagem e rápido, uma chegada juntos tão rápida e forte que era selvagem, uma união feroz que nenhum poderia parar.

Rachael empurrava para trás uma e outra vez, querendo mais, sempre mais, vorazmente faminta de seu corpo, um voraz apetite sexual que só podia ser aliviado por seus profundos e fortes impulsos, criando fogo. Criando o céu. Ela chorou pela beleza do ato, pela perfeição absoluta de sua união. Enchia-a como nenhum outro poderia, seu corpo completando o seu. Compartilhando o seu. Montou-a duramente, empurrando mais e mais profundamente, mas ainda queria mais. Ansiava mais. Sentiu seu corpo apertando-se, o calor apressando-se, reunindo-se em uma terrível força. Ele parecia inchar-se dentro dela, fazendo-se mais grosso até que explodiu, condensando-se, fragmentando-se em um milhão de pedaços, e seu corpo ondulava nas ondas do prazer. Ouviu sua voz, a voz dele, os grunhidos roucos de êxtase rasgando pela garganta em um tom que não era o seu, nunca poderia ser o seu, embora tampouco era o dele. Misturaram-se juntos, unidos.

Rio mordeu seu ombro, uma mordida de brincadeira que não pôde evitar, beijando sua pele, a linha de suas costas. Tudo o que podia alcançar. Envolveu-a em seus braços, sustentou-a contra ele enquanto tratava de recuperar sua capacidade de respirar. Cada momento que estava com ela fazia que se sentisse vivo. Pensava que correr no bosque era a maior sensação de liberdade, mas estar com Rachael lhe dava algo mais, algo ao que não podia pôr nome. Devagar, a contra gosto, liberou seu corpo da proteção dela, com um amplo sorriso sobre sua cara.

Rachael se afundou no chão da caverna como se suas pernas simplesmente se paralisassem. Rio a colocou com cuidado no saco de dormir. Para seu horror ela pôs-se a chorar e cobriu o rosto com suas mãos. Olhou-a fixa e desesperadamente, assombrado de que soluçasse como se lhe tivesse quebrado o coração.

–Rachael. Maldição. Nem sequer gritou quando Fritz quase te arranca a perna. O que está errado com você? – Sentou-se ao lado dela e torpemente lhe pôs o braço ao redor de seus trêmulos ombros – Me conte.

Era o primeiro movimento torpe que Rachael o tinha visto fazer alguma vez e isto a consolou quando pensava que não podia haver nenhum consolo.

–Não me conheço. Isto me assusta, o modo como me sinto com você. A maneira como penso em você. Nem sequer conheço meu próprio corpo. Eu gosto do sexo, Rio, mas não me impulsiona. Sou uma pessoa racional. Eu gosto de pensar as coisas de todos os ângulos. Quando estou contigo, como agora, desapareço completamente e só existe o que sinto. O que você sente.

Atraiu-a para si, apoiando sua cabeça em seu ombro quando ela quis sustentar-se rigidamente longe.

–Como nos sentimos juntos, Rachael. É como ser uma pessoa, na mesma pele, nossas mentes no mesmo lugar. É como estamos juntos. Por que teria que ter medo disto?

–Não posso me apaixonar por você, Rio, e não pode me amar. Se somente queríamos ter sexo, e fosse agradável ou inclusive foguetes, estaria bem, mas isto é diferente. É muito mais. É como um vício. Não o sexo, isso é só uma pequena parte disso. Sinto-me como se tivesse que estar com você. Que é, de algum modo, essencial para minha vida, para minha razão de existir – Passou uma mão por seu cabelo, levantou sua cabeça de seu ombro e o olhou com raiva – Oxalá fosse uma vida passada o que me faz te querer tanto, mas nem sequer posso lhe jogar a culpa a isso. O amor não deveria consumir tudo. Não sou uma pessoa obsessiva. Não sou.

–Está tentando convencer a você ou a mim? Nunca pensei em amar alguém, Rachael. Oxalá pudesse te dizer como sei que estamos destinados a estar juntos, soa estúpido inclusive quando digo isso a mim mesmo, mas sei que estamos preparados para ser homem e mulher. Não posso imaginar despertar pela manhã e não tê-la ao meu lado. Inferno, nem sequer tenho muito que te oferecer. Tenho um trabalho arriscado, as pessoas não me darão a boa vinda a seu povo, muito menos em suas vidas, e isto certamente se estenderá a você e a nossos filhos, mas não importa. Sei que tenho que encontrar uma maneira para que mereça a pena de ficar comigo.

–Está me escutando? Tem sentido pra você alguma coisa disso? Porque para mim não tem nenhuma pingo. O que você sabe sobre mim é que os outros puseram preço a minha cabeça, um milhão de dólares? E algum homem leopardo está brincando de correr tratando de me matar. E posso ou não ser parte de uma espécie, a qual nem sequer sabia que existia até faz alguns dias. Isso. Isso é o que sabe, e ainda está disposto a passar sua vida comigo. É isto normal, Rio? Pensa que as pessoas realmente reagem assim?

–O que é normal, sestrilla, e por que realmente tem que ser normal para nós? Se não for uma de minha gente ainda quererei compartilhar sua vida – Tocou sua face molhada de lágrimas – Isso nunca passaria, não porque pensa que está apaixonada por mim.

–Não soa feliz, Rio. Pensa que isto vai terminar bem? Como pode? Eles não pararão com um assassinato. Enviarão a outro e a outro até que um deles o mate ou a mim ou aos dois.

Beijou-a. Foi a única coisa que lhe ocorreu, provando suas lágrimas, sentindo seu terror. Não por ela, mas sim por ele. Derreteu-se da maneira que ele estava começando a conhecer, cada parte tão faminta como ele. Alimentando-se de sua boca. Comunicando com seu corpo quando não estava preparada para fazê-lo com palavras. E isso estava bem para ele. Saboreou a completa aceitação. Sentiu sua resposta. Ela simplesmente rendeu tudo o que era a seu cuidado tal e como o tinha feito com suas próprias demandas.

Rachael apoiou sua cabeça contra seu peito com um pequeno suspiro.

–Não vou pensar mais nisto, Rio. Vamos somente ver aonde nos leva – Esfregou sua mandíbula com a palma da mão – O encontrou?

–Não é de nossa área. Acho que é da América do Sul. Era definitivamente um de nossa espécie. Esteve alguma vez na América do Sul, Rachael?

–Não é muito bom perguntando casualmente quando realmente quer saber algo, Rio – O repreendeu – Nasci na América do Sul. Passei os primeiros quatro anos de minha vida ali. Emigramos aos Estados Unidos. Meu pai, bem, ele não é realmente meu pai biológico, mas para mim foi meu pai, nasceu na América do Sul e viveu ali a maior parte de sua vida, igual a minha mãe, mas ele tinha muita família nos Estados Unidos.

–Tem um padrasto?

–Tinha. Está morto. Ele e minha mãe foram assassinados. Ele foi meu pai desde que lembro. O queria muitíssimo e me tratou como se eu fosse de sua própria carne e sangue. A meu irmão também. Não pôde ter sido melhor conosco.

Havia desafio em sua voz. Revolveu-se como se quisesse afastar-se dele. Rio começou a embalar de novo as caixas com cuidado, tratando de não olhá-la assim seria mais fácil quando lhe perguntasse.

–Rachael, é possível que fizesse algo para zangar os anciões de seu povo? Talvez inadvertidamente, cometendo um crime contra seu povo que poderia te conduzir o exilo ou a pena de morte?

Elevou a vista bruscamente, os olhos lançando fogo, mas Rio só lhe jogou uma olhada e logo se afastou, deliberadamente não encetando-se em um combate de olhares fixos.

–Não tenho povo. Não sou de uma espécie diferente.

–Como explica sua capacidade para ver na escuridão? O fato como os mosquitos a evitam? Sua aumentada consciência sexual e as diferentes emoções que esteve experimentando? – Perguntou com cuidado enquanto fechava a tampa da caixa e a colocava na jaula de raízes.

–Há explicações perfeitamente aceitáveis. Minha dieta poderia explicar minha visão e a carência de picadas de mosquito. E você é responsável por minha aumentada consciência sexual e meus caprichos. O que espera se está a metade do tempo ao redor de mim nu, alardeando?  

Ele sorriu abertamente.

–Derrubando um pouco de mau humor sobre mim agora, verdade? – Ofereceu-lhe sua mão – Vamos daqui.

–Aonde vamos?

–Para casa. Vamos para casa. Vou ensiná-la como viver aqui, Rachael, e independentemente do que acontecer, ocuparemo-nos disso.

Ela agarrou sua mão, enredando seus dedos.

–Deu-se conta de não tenho nada posto.

Ele se inclinou para pressionar seus lábios contra seu peito, sua língua provocando seu mamilo.

–Dava-me conta, sim. Tenho roupa em uma bolsa impermeável assim podemos sair do rio e estar secos.

–Não é de dia? Alguém poderia nos ver.

–A maioria das pessoas ao longo do rio não vai preocupar se por acaso temos posta a roupa ou não – Colocou seu seio no calor de sua boca, suas mãos movendo-se sobre seu corpo com posse, com desejo pressionou um beijo contra a garganta, o queixo, o canto de sua boca – Vamos, a levarei para casa. Tenho uma banheira.

Apagou o abajur, inundando a caverna na escuridão.

–Não, não tem. Procurei uma banheira. – Encontrou sua mão – Está tentando me subornar e não vai funcionar.

–Não olhou nos lugares corretos. Tenho uma tina que encho de água quente quando quero empapar uma ferida. A maior parte do tempo uso duchas frias, mas tenho uma tina.

A água formou redemoinhos ao redor dos tornozelos, elevando-se até suas panturrilhas.

–Meu irmão faz coisas, coisas más, Rio – Ali na escuridão, onde ninguém pudesse ouvi-los por acaso, confessou – Não posso ir à polícia porque o prenderiam. Nunca lhe faria isso. O amo. Assim não tinha outra opção que partir.

Ele reconheceu a enormidade de sua confiança nele. Escorregou um braço ao redor de sua cintura.

–Que tipo de coisas más, Rachael?

Negou com a cabeça, seus cachos sedosos esfregando-se contra sua pele nua.

–Não me pergunte nada mais sobre ele. Se não fosse por ele, teria morrido faz muito tempo. Devo-lhe muito. Não tem nem idéia do que passamos. Não vou traí-lo. Não posso. – Tomou fôlego – Não estou mentindo sobre os anciões, Rio. Não sei de nenhum ancião, vivo ou morto, que tenha emitido uma pena de morte por uma indiscrição imaginária. Diria-lhe isso se houvesse.

–Acredito em você, sestrilla – A tocou para avisá-la que tinham que submergir e nadar pelo estreito tubo. Ele foi primeiro, tratando de entender o que ela poderia ter feito para que seu irmão a quisesse morta. Especialmente quando obviamente gostava dele. Tinha-o ouvido em sua voz. A cólera ardente dos de sua espécie, sempre tão perigosa e imprevisível, formou redemoinhos em seu ventre enquanto nadava. Não tinha sentido que ele não a quisesse. Quem não amaria Rachael?

Saíram à superfície juntos, justo embaixo das cascatas, esperando que a água os ocultasse da vista de qualquer que estivesse perto. Rio voltou para baixo para assegurar a pesada rede sobre o tubo. Rachael esperou, olhando fixamente à beira em frente através das águas das cascatas, inconscientemente contando para si até que Rio emergiu ao lado dela. Pôs os braços ao redor de seu pescoço e pressionou seu corpo perto dele.

–Nunca deveria ter lhe dito isso.

–Pode me contar tudo. Contei a você sobre minha mãe.

Ela beijou sua garganta, riscando pequenos beijos por cima de sua mandíbula.

–E ainda penso que seus anciões fedem. Não reconheceram quão valente foi ir ante eles e admitir o que tinha feito.

–Não foi coragem. Foi somente o que ela me ensinou. Escolhi fazer algo e tive que aceitar as consequências. Era sua regra, uma que eu respeitava – A alegria explodiu através dele como um arco íris de cores. Rachael tinha um modo de fazê-lo se sentir valioso. Sentir-se como alguém especial e assombroso. Atou a corda ao redor de sua cintura e vadeou para fora na corrente rápida –. Temos que nadar até a borda. A corrente nos levará um pouco rio abaixo, mas temos ângulo para o outro lado do rio.

Assentiu para lhe mostrar que tinha entendido. Desta vez quando deixou seu pé sob a água, pôde descansar seu peso brevemente sobre ele. Isto era um bom sinal de que finalmente estava se curando. Tinha conseguido jogar uma olhada na caverna e definitivamente teria cicatrizes, mas ao menos teria a perna.

Foram arrastados rio abaixo inclusive enquanto nadavam fortemente para a borda. Rio a atraiu perto dele e encarou seu caminho à borda, arrastando-a com ele. Conseguiu agarrar um ramo que pendurava baixa e facilmente se impulsionou em cima, levantando-a da água com sua força incrível. Rachael se aderiu ao ramo de árvore, seus pés ainda pendendo na água. A casca era áspera sobre sua pele nua e por alguma razão foi de repente consciente de sua nudez. Olhou ao redor e só viu macacos olhando-a fixamente.

–Se tiver alguma sanguessuga sobre mim, só uma, vou me alterar – Prometeu – E faz com que esses macacos deixem de me olhar fixamente. Fazem me sentir nua.

–Está nua – Riu quando a tirou completamente da água, sustentando-a perto de seu corpo, seus seios esmagados contra seu peito – Já está arruinando o ambiente romântico.

A sobrancelha quase alcançou a linha do cabelo.

–Ambiente romântico? Do que está falando?

–Mal penso que as sanguessugas deveriam mencionar-se em um romântico passeio pelo bosque, especialmente quando seu corpo é incrivelmente sexy e esta nu neste momento – A embalou em seus braços e saltou para terra, aterrissando suavemente.

Ela rodeou seu pescoço com seus braços e elevou o olhar às árvores. Parecia como se milhares de olhos os olhassem fixamente.

–Rio. Os macacos realmente estão olhando.

Sobre a borda estavam muito mais expostos. Tinha passado as duas últimas semanas em uma pequena casa no bosque, sob um pesado dossel de folhas. Seu único alívio tinha sido uma caverna subterrânea. A chuva começou, uma garoa suave e estável que lavou a água do rio de suas peles enquanto a levava através de pântanos e pântanos até a beira do bosque. O vento tocava suas faces, revoava brincalhonamente entre as folhas das árvores. Todo o momento os gibones, micos, um orangotango e várias espécies de pássaros os olhavam.

–Não suporto isso. Estão olhando.

–Deveriam olhar fixamente. Estou a ponto de mostrar como são boas certas coisas na vida.

Havia uma malvada diversão em sua voz. E algo mais… Uma nota que arranhava sobre sua pele e enviava calor movendo-se em espiral através de seu corpo.

–Não acredito, pervertido. Não vamos organizar um espetáculo para estes olheiros – Somente sua voz podia derreter seu corpo. O olhar em seus olhos a desfazia. Seus olhos ardiam com desejo, com fome, inclusive podia ver o desafio de brincadeira em sua expressão.

–Depois vai me contar alguma história estranha sobre como faz arder de calor e necessidade às mulheres.

Mudou-a, deslizando suas pernas ao redor de sua cintura de modo que seu canal molhado estivesse colocado sobre a cabeça de seu pênis.

–Não qualquer mulher, Rachael, você.

Apertou-se ao redor de seu pescoço, levantou o corpo de maneira que ele pudesse sugar seu seio. Já estava quente, molhada e necessitada. Ele fazia coisas com a língua, acariciando e provocando até que não pôde suportá-lo e começou a colocar-se devagar sobre sua grossa ereção.

–OH, sim, isto é o que quero – Disse, seu fôlego vaiava em seus pulmões – Se arqueie para trás e me monte, lento, tome seu tempo.

Ela se inclinou para trás, girando seu rosto para o céu, à chuva quente e devagar deslizou seu corpo acima e abaixo. A chuva caía sobre seu rosto, as gotinhas gotejavam entre seus seios, abaixo a seu estômago para chispar no calor de sua união. Sorriu a sua audiência, lhes desejando todo o prazer do mundo. Desejando a alegria e liberdade de uma relação sensual.

–É tão formosa – Ofegou as palavras, assombrado de como a luz caía através do rosto de Rachael, revelando a intensidade de seu prazer. Isto aumentava sua beleza natural. Era tão desinibida com ele. Tão carinhosa que podia ver quanto o queria, quanto desfrutava de seu corpo.

Ela riu brandamente.

–Só sou formosa porque você me faz sentir assim – O relâmpago chispou em suas veias. Fogo correndo sobre sua pele. Ela controlava o ritmo, deliberadamente movendo-se lentamente, tomando-o profundamente, agarrando-o apertadamente com seus músculos.

Rachael não tinha nem idéia de como Rio conseguia fazer do mundo um lugar de luz do sol e paraíso quando ela tinha vivido nas sombras durante tanto muito tempo. A chuva caía suavemente, realçando a cor brilhante em todas as direções, dispersando prismas de arco íris através do céu. Ou talvez era por trás de seus olhos. Não importava. Só existia Rio em seu mundo e ele era tudo o que importava.

Sentiu seu corpo reunindo poder e força, esticava-se com antecipação. Então giraram fora de controle em um rodeio vertiginoso, aderindo-se um ao outro. As folhas no alto giraram em um caleidoscópio de cores e formas. Formas de luz e escuridão manchavam a terra. Era necessário compartilhar a respiração enquanto se beijavam, as mãos movendo-se sobre a pele sensibilizada em uma espécie de adoração.

Rachael pôs a cabeça sobre seu ombro, segurando-o perto dela. Seus corações golpeavam com um ritmo selvagem, frenético enquanto a chuva continuava caindo brandamente.

–Eu gosto disto, Rio – Murmurou, seus lábios contra sua garganta –. Amo tudo deste lugar.

–Veio para casa – Respondeu ele, baixando devagar seus pés ao chão do bosque.

O pacote estava escondido no alto de uma árvore em caso de inundações. Rio subiu o tronco rapidamente e atirou sua roupa, sapatos e uma toalha. Rachael se encontrou rindo.

–Isto é uma maneira louca de viver. Alguma vez os macacos lhe roubaram o pacote?

–Ainda não. São muito respeitosos com minhas coisas. –Jogou uma olhada para cima aos animais enquanto os gibones se moviam através das árvores rebuscando comida antes de cair ao lado dela.

Rachael se vestiu rapidamente no refúgio de uma árvore grande.

–Isto está muito mais tranquilo.

–Os pássaros estão ocupados procurando alimento. Fruta, néctar, insetos, não têm muito tempo para chamar uns aos outros, embora os ouça de vez em quando. Durante o meio-dia, há frequentemente um pouco de calma no bate-papo – Abotoou os jeans e se estirou para endireitar as abas da camisa que ela usava –.Parece sempre tão graciosa com minha roupa.

Sua sobrancelha se elevou.

–Nunca me chamaram de graciosa. Elegante, mas não graciosa.

–Está bem. É uma dama rica. Usa roupa de grife.

–Como sabe que há roupa de grife, menino da selva?

Ele sorriu abertamente.

–Me as conheço. Surpreenderia-se de onde esteve este menino da selva – A olhou com lascívia deliberadamente.

Rachael riu, Depois já séria, seu olhar vagou sobre seu rosto.

–Nada sobre você me surpreenderia, Rio.

Só isso e ela deu um jeito para pôr um nó em sua garganta.

–Venha aqui e me deixe levá-la – Ofereceu a mão.

–Eu gostaria de tentar andar, inclusive uma curta distância. Seria tão bom ser capaz de fazer algo por mim mesma – Seus dedos se encontraram com os seus e os agarrou.

Rio trouxe sua mão ao calor de sua boca e pressionou um beijo na palma.

–Somente uma curta distância. Não foi capaz de suportar nenhum peso sobre a perna e não quero sobrecarregá-la. A poção de Palha de Cereal só ajudará um pouco.

–Sei – Seu tornozelo e panturrilha estavam palpitando, mas nunca ia admitir diante dele, não se queria andar por si mesma. Ele tinha uma mandíbula obstinada, e seus olhos podiam ir do brilho do fogo ao frio do gelo em um batimento de coração. Rio era um homem que podia fazer o mandão muito rapidamente lhe dando as condições necessárias. Sorriu para ele e deu o primeiro passo, puxando sua mão.

–Não posso esperar por um banho quente, vamos.

Franziu o cenho, mas foi com ela, vigiando como andava.

–Aqui fora, Rachael, tem sempre que estar alerta aos arredores. Os pássaros vão chiar uma advertência e tem que notá-lo, tem que ouvir as diferentes notas. A chamarão, e dependendo do que lhes assuste pode recolher o que está se introduzindo em nossa vizinhança.

–Agarrei-o um par de vezes – Tratou de não coxear. Andar se por acaso mesma lhe parecia um milagre. Olhava ao redor às árvores carregadas de fruta. Por toda parte olhava a cor explodir. Os maciços troncos das árvores eram de todas as cores e estavam cobertas por formas de vida. Líquenes, cogumelos, samambaias por toda parte. Ao princípio havia bastante luz, as árvores mais baixas ao longo do rio permitiam passar o resplendor do sol, mas como eles foram ao mais profundo, no interior, as árvores mais altas os abrigaram com o denso dossel de folhas.

–Olhe estes rastros, Rachael – Rio se agachou para estudar a miríade de rastros perto de um poço pouco profundo. Ele tocou uma impressão de uma pata maior com quatro dedos do pé distintos – Isto é um leopardo nublado. Provavelmente Franz vigiando nosso rastro. Começaram a me seguir quando ia trabalhar, inclusive quando cruzava fronteiras, assim foi mais seguro treiná-los. Não podia evitar as coisas tolas de me seguir a todas as partes.

–Está preocupado por Fritz?

–Não, ele teve feridas antes. Sabe esconder-se no bosque. Voltará quando for seguro. Não o queria na casa sozinho. Se o leopardo manchado o encontrasse, mataria-o somente por maldade. Olhe esta outra. – Assinalou um muito pequeno rastro muito parecido com a do leopardo nublado – É um gato leopardo. São mais ou menos do tamanho de um gato doméstico, geralmente com a pele avermelhada ou amarelada com manchas negras. Foi um lugar ocupado esta manhã.

–Que rastro mais estranho? Parece que tem uma membrana nos pés.

–É uma civeta mascarada. São noturnas – Elevou a vista para ela – Está preparada para que te leve? – Endireitou-se devagar – Ou tenho que abusar de minha autoridade e ordená-lo? Coxeia.

–Não me dava conta de que estávamos no exército.

–Em qualquer momento está sob ameaça de morte, estamos sob regras militares.

Sua risada se elevou ao dossel de folhas, misturado com a chamada contínua do barbo, um pássaro que parecia gostar do som de sua própria voz.

–Está improvisando estes contos sobre a marcha?

–Sou rápido pensando minha parte. Não está impressionada? – Balançou-a em seus braços – Quero saber um pouco mais sobre a família de sua mãe. Conheceu-os?

–Não recordo ter ouvido nada sobre os pais de minha mãe. Meu irmão falou dos pais de nosso pai biológico. Disse que fomos visitá-los na selva profunda uma vez. Eles lhe deram presentes e minha avó me balançou. Mas morreram em torno da mesma época que meu pai. Saiu de viagem e nunca voltou.

–E logo sua mãe a tirou dali?

–Francamente não o recordo, eu era tão jovem. A maior parte do que sei é o que meu irmão me contou. Depois que meu pai morreu, minha mãe nos levou a outro pequeno povoado nos cofins do bosque. Ali conheceu meu padrasto. Sua família era muito rica e tinham muita terra, muito poder onde vivíamos. Estivemos ali durante algum tempo e depois mudamos aos Estados Unidos.

Rachael olhou ao redor dela, bebendo dos aromas e da visão da selva tropical. Era realmente bonito com milhares de variedades de plantas de todas as cores. Havia borboletas em abundância, às vezes cobrindo os troncos de árvores frutíferas, somando-se à explosão de cor por toda parte onde olhasse. O bosque parecia vivo, as folhas balançando-se, lagartos e insetos continuamente em movimento, pássaros revoando de árvore em árvore. Trabalhando em equipe com a vida. As térmites e formigas competiam pelo território perto de uma árvore grande caída.

–Vivemos na Flórida, um estado enorme. Era um país tão formoso e selvagem com os mangues e os pântanos. Tínhamos umidade e muitos jacarés – Se inclinou para trás o cabelo –. Ninguém se convertia em leopardo.

–Não havia gatos grandes na área? Nenhum sinal de gatos grandes?

Rachael franziu o cenho.

–Bem certamente havia rumores de panteras, a pantera da Florida dos pântanos, mas nunca vi uma. Há rumores de um Bigfoot nas Cascatas, mas em realidade, ninguém tem uma prova do Bigfoot. Não há nenhum gato em minha família.

–Seu irmão passou muito tempo no pântano?  

Rachael ficou rígida. Foi mais uma mudança de seu corpo, mas era bastante para que Rio sentisse sua leve retirada.

Afastou o rosto e olhou para cima à folhagem emplumada, aos cogumelos vermelho brilhante e à fruta que cobria pesadamente a árvore. Cogumelos parecidos com chifres e taças de brilhantes cores cobriam os troncos. Cogumelos grandes cresciam ao redor das bases e faziam campos de gorros grandes dentro das raízes.

–A umidade na Florida não é tão intensa, mas pode ser opressiva para algumas pessoas. Não chove tanto tampouco.

–Entrou no pântano, Rachael? – Manteve seu tom baixo, aprazível. Rachael não era uma mulher para ser empurrada. Confiava nele com sua vida, mas não confiava nele com a vida de seu irmão. Não podia empurrá-la muito forte. Afastaria-se antes.

–Meu irmão está muito longe daqui, Rio. Não quero nenhuma parte dele aqui, nem sequer seu espírito. Não o traga para este lugar.

O mau humor o montou com força e esteve silencioso enquanto andava rapidamente pelos emplastros de luz e sombra, entrando mais profundo no bosque. Levou uns poucos minutos entendê-lo.

–Não o quer em nosso lugar. Meu lugar. Não o quer em nenhum lugar perto de mim.

–Não pertence aqui, Rio. Para nada, não conosco – Rachael olhou abaixo à tabuleta sobre seu pulso. Ela provavelmente tampouco pertencia a Rio. Tinha sido bastante afortunada encontrando-o, mas não o queria no perigo.

–Às vezes, sestrilla me sinto como se estivesse tentando manter água em minhas mãos. Escorre-se entre meus dedos.

Rachael o olhou com seus olhos escuros, líquidos. Olhos tristes.

–Não posso te dar o que quer.

–Antes de meu pai morrer, Rachael, pediu a minha mãe que lhe prometesse que tomaria e deixaria o povo. Queria que encontrasse outro homem, assim não teria que me educar sozinha. Um homem ou uma mulher que perde o seu companheiro nunca escolheria outro marido ou esposa entre nossa gente. Meu pai falou com minha mãe mais de uma vez, mas ela não queria viver com outro homem. Ficou perto do povo.

–Por que não quereriam outros para cuidar dela e de você também? Se não há muitos de vocês, certamente quereriam assegurar-se de que estava bem cuidado? –Soava ultrajada uma vez mais – Não acredito que eu goste muito de seus anciões.

–Os mais velhos quereriam ocupar-se das viúvas e os meninos, mas haveria problemas. A maioria se vai se querem encontrar companhia para passar o resto de sua vida. Podemos viver e amar fora da selva tropical, e muitos o fazem. É possível que seu pai pedisse a sua mãe que levassem você e a seu irmão e encontrasse outro homem.

–Como morreu seu pai?

–Entrou com uma equipe para tirar um diplomático de uma força de rebeldes. Atiraram nele. Isso acontece.

Rachael descansou a cabeça contra seu ombro.

–Sinto muito. Deve ter sido tão difícil para sua mãe saber que decidiu continuar o trabalho de seu pai.

–Não gostou. Minha mãe não fez o que meu pai quis que fizesse. Ficou na selva tropical no limite do povoado. Isto causou alguns problemas de vez em quando. Era uma mulher bonita e era bastante fácil apaixonar-se por ela. Você se parece com sua mãe?

Ela sorriu e se relaxou em seus braços, afundando-se nele sem ser consciente disso.

–Realmente me pareço um pouco em suas fotos. Temos os mesmos olhos e a forma de meu rosto é como o seu. E tenho seu sorriso. Ela não era tão alta ou tão pesada.

Rio se deteve sob uma alta árvore de casca prateada e centenas de orquídeas que caíam em cascata pelo tronco.

–Pesada? Tem curvas, Rachael. Eu gosto muito de suas curvas – Inclinou a cabeça para sua garganta, seu fôlego sussurrava fogo contra sua pele – Não diga nada mau sobre você ou me verei forçado a te demonstrar que está errada.

Rachael riu feliz. Ele a fazia sentir-se brilhante e viva quando tinha estado tão perto da penumbra.

–Não acredito que isso seja uma ameaça, Rio. E obrigado por fazer recordar a minha mãe. Tudo o que tinha era uma pálida imagem mental sobre ela. Quando me perguntou sobre ela, comecei a pensar em todos os pequenos detalhes e posso vê-la outra vez claramente. Tinha o cabelo espesso. Muito encaracolado – Tocou seu cabelo – Eu sempre mantinha meu cabelo comprido porque ela usava o seu assim. Quando quis desaparecer, cortei-o à altura de meus ombros porque pensava que ao chegar até meu traseiro era muito reconhecível. Chorei ao dormir cada noite durante uma semana.

–Use seu cabelo de qualquer maneira em que queira usá-lo, Rachael. Já lhe encontraram aqui – Começou a andar outra vez, voltando para o caminho, querendo retornar à casa e instalá-la outra vez. Ela estava se cansando e tentava ocultar-lhe

–Mas não sabem que estou ainda viva. Poderíamos ser capazes de lhes fazer acreditar que me afoguei no rio. Lancei meus sapatos, para que algo aparecesse se realmente olhassem.

–Rachael, a única maneira de poder vivermos nossas vidas normais é tirando a ameaça completamente. Não queremos estar olhando sobre nossos ombros o resto de nossas vidas.

Rachael estava silenciosa, suas palavras dando voltas uma e outra vez em sua mente. Rio estava pensando em uma relação permanente, ela ainda estava tomando um dia de uma vez. Olhou estreitamente a sua cara. O correto seria deixá-lo tão rápido quanto fosse possível, afastar todas as ameaças dele. Tomou fôlego e o soltou devagar.

–Estou me dando conta de que tenho uma veia incrivelmente egoísta. Sempre pensava que era desinteressada, mas não quero te deixar. Este não é o melhor momento na vida de alguém para descobrir quão completamente egocêntrico realmente é.

–Este poderia ser meu melhor momento, descobrir que quer me manter.

–Me diga que em um par de semanas poderia acreditar em você. Isto é tão inesperado. E sobre normalidade, é como vive aqui na selva tropical sua definição de normal?

–Eu poucas vezes vivo de outra maneira – A risada se desvaneceu de sua cara – Duvido que nos permitam viver no povoado. Não é cômodo para algumas pessoas. Como supostamente, estou morto para eles, as compras são difíceis. Olham através de mim, não posso fazer perguntas, deixo o dinheiro sobre o balcão.

Os olhos escuros de Rachael cintilaram.

–Sei o que eu gostaria de lhes dizer. Não quero viver no povoado. Não agora. Nem em outro momento. E terei que pensar sobre comprar ali. Não me importaria incomodá-lo, mas por outro lado, odiaria lhes dar uma mão apoiando-os.

Rio fez um esforço por reprimir a risada. Rachael não precisa ser animada para que o defendesse, mas ele não podia evitar secretamente querê-lo.

–Poderia querer o amparo do povo quando tivermos filhos.

–Vamos ter filhos?

–Não pareça tão assustada. Eu gosto de crianças… Acredito – Franziu o cenho – Na realidade não estive ao redor de nenhuma criança, mas penso que eu gostaria.

Rachael jogou a cabeça para trás e riu mais, abraçando-o enquanto se aproximavam da casa.

 

Sentia-se no paraíso. Rachael se inundou na água para molhar a cabeça. Há semanas que não se sentia tão limpa, sobretudo, depois de só tomar insatisfatórios banhos de esponja, obrigada pela infecção que tinha minado seu corpo. Emergiu e procurou Rio, tentando ocultar sua alegria. Sua experiência, ao brigar com o leopardo foi tão penosa que não tinham falado muito sobre isso. Parecia ter envelhecido, agora as linhas em seu rosto eram mais profundas, e seus olhos estavam rodeados por escuras sombras.

Ele passou xampu pelo seu cabelo.

–Parece contente.

–Nunca acreditei que um banho fosse tão bom. Seja o que for que Palha de Cereal tenha ungido em minha perna resultou ser milagroso. Não posso acreditar como diminuiu o inchaço e estou segura que também ajudou que as dolorosas feridas se curassem. Estavam supurando muito, mas agora já não. Sinto-me muito melhor.

–Bem. – Com a ponta dos dedos esfregou sua cabeça em uma lenta massagem – Fritz retornou. Entrou quando estava esquentando a água. Observei-o meter-se debaixo da cama.

–E o que há a respeito de Franz? – Queria gemer de êxtase. As massagens que lhe estava proporcionando eram mágicas – Estou preocupada de que não o tenhamos visto.

–Seguiu-nos através do bosque. Estava na folhagem. Virá quando estiver preparado.

–Deveria ter me informado isso. Tenho que me manter mais alerta – Sorriu para ele através do xampu – Vê, se fosse um leopardo, teria me dado conta.

–Esperava-o, e nós viajamos juntos todo o tempo. Estou familiarizado com seu comportamento. Os leopardos inclusive não costumam usar mais de uma vez o mesmo esconderijo para a comida, facilitando para os caçadores clandestinos a tarefa de destruí-los. Temos que lutar contra o instinto de estabelecer pautas de comportamento. Todos temos essa tendência e em um negócio como o nosso, pode significar um suicídio. Trato de não usar o mesmo caminho duas vezes. Nunca uso a mesma rota de fuga mais de uma vez. Não volto para minha casa pelo mesmo caminho. Tenho que me assegurar de ter isso presente todo o tempo.

Rachael se inundou debaixo da água para lavar o cabelo. Não se sentia felina nesse momento, adorava a água, quanto mais quente melhor. Queria permanecer no banheiro o maior tempo possível. Estava começando a dar-se conta de que tomar um banho era um luxo. Quando emergiu, enxugando os olhos, sentiu crepitar o rádio.

–Pensei que estava quebrado. Não atirei nele?

–Drake me deixou o seu. – Tomou o pequeno rádio portátil e escutou o gorjeio de vozes distorcidas – Pensam que encontraram o acampamento correto. Vão entrar logo, provavelmente depois de meia-noite.

Pôde ler a ansiedade em sua voz.

–Ficou atrasado por minha causa, não foi? Rio, se precisa ir com eles, então vá. Estou perfeitamente bem sozinha. Tenho armas aqui. Sabe que sei usá-las.

–É mais que isso, Rachael. Sempre está assumindo responsabilidades que não lhe correspondem. Eu tomo minhas próprias decisões, o mesmo que você. Queria ficar com você.

–Porque não confia de todo neles.

Encolheu-se.

–Talvez no momento não o faça, não no que se refere a você. Se os anciões de sua aldeia contatam com os da minha e lhes pedem ajuda para levar a cabo uma sentença de morte, é possível que o anciões daqui aceitem. Não a conhecem e nossas leis são muito estritas. Alguns podem ser muito severos.

–Você realmente acha que tenho uma espécie de habilidade para mudar meu corpo, verdade? Não posso mudar de forma. Pensei nisso e tentei fazê-lo, só para ver se estava certo, mas não aconteceu nada. Ainda sigo sendo eu.

–Só me escute por um momento, Rachael. Suponho que sua mãe afastou você e seu irmão da aldeia. Não queria alterar o balanço da aldeia, mas decidiu que era muito jovem para viver o resto de sua vida só, assim escolheu renunciar a sua herança e viver inteiramente com seu lado humano.

Rachael descansou a cabeça contra o fundo da pequena tina que tinha conduzido do abrigo fechado contiguo e a tinha enchido meticulosamente com água que ele tinha esquentado. A escuridão caía lentamente sobre o bosque. As criaturas da noite estavam voltando para a vida.

–Suponho que pode ter acontecido dessa forma.

–Conheceu seu padrasto.

–Antonio.

–Conheceu o Antonio. Era atraente, rico e muito agradável. Cortejou-a, apaixonou-se por ele e se casaram. Seu Estado estava localizado nos limites do bosque. Cada noite a chamava. Noite após noite. O Han Vol Dan, a maneira da mudança, sussurrava-lhe e a tentava. Finalmente começou a escapar para correr livre no bosque da forma em que nossa esta espécie está acostumada a fazer. Ao despertar Antonio cada noite via que sua esposa não estava, que estava só na cama. O que supõe que esse bom homem pensaria? – Rio a ajudou a parar e a envolveu em uma toalha. Levantando-a da tina, inclinou-se sobre ela, apanhando um fio de água que corria para baixo por seu pescoço, lambendo-o – Pensaria o que qualquer outro homem suporia. Sua esposa escapava dele. E a seguiria.

Rachael estremeceu com o tom de sua voz.

–OK, não tem por que acrescentar o toque dramático. É um homem aterrador quando quer.

–Só estava pensando em como me sentiria se pensasse que estava escapando de nossa cama para se encontrar com outro homem.

–Bom deixa de pensar nisso. Obviamente tem uma imaginação muito desenvolvida, no caso de não ter notado suas garras estão aflorando através da ponta de seus dedos.

Olhou com certa surpresa para baixo para comprovar que ela tinha razão. De suas mãos emergiam curvadas e afiadas navalhas-grossas, curvas e perigosas tinham aparecido por suas fortes emoções. Suas garras podiam estender-se rapidamente através de músculos, ligamentos e tendões quando era necessário ou ser retraídas quando não estavam em uso. Seu cenho deixou lugar a um seco sorriso.

–Não sou muito civilizado, verdade?

–Suponho que não podemos afastar a selva do homem

–Mas não está assustada de mim, sestrilla, isso em si mesmo deve significar algo. Qualquer mulher normal estaria aterrada de ver garras em um homem.

Ela se sentou no extremo da cama, com um sorriso aparecendo em seus olhos.

–Está dizendo que não sou normal? Acredito que já deu um jeito para mencionar esse fato em algumas ocasiões. É similar ao velho ditado, “a frigideira disse à chaleira, afaste-se que me suja”. Em comparação, sou perfeitamente normal.

–Eu penso que o que sou é perfeitamente normal, Rachael, e estou cada vez mais convencido que você é como eu. Acredito que seu padrasto viu como sua mãe mudava de forma. Como a amava não se importou. Até pode ter pensado que era extraordinário. Mas se os anciões de sua aldeia se deram conta de que ele sabia, que um humano sabia, poderiam tê-la feito desaparecer ou pior, sentenciá-lo a morte.

–Kim e Palha de Cereal sabem.

–Eles são homens da tribo. Vivem no bosque e tem um profundo respeito pela natureza e as outras espécies. Nem todos os homens pensam da mesma forma.

–Assim meu padrasto nos tirou dali clandestinamente para a cidade e emigramos aos Estados Unidos.

Obviamente não se dava conta do verdadeiro significado dessa frase. Seu padrasto se preocupou por sua família, ao tentar tirá-los desse lugar e levá-los aos Estados Unidos.

–Onde tinha família e terras na Florida ao final das Everglades. E onde sua mãe podia continuar com suas corridas noturnas sem temer represálias. Penso que se mudou para proteger a sua família – A observou de perto, com uma aguda e penetrante inteligência brilhando em seus olhos.

Ela afastou o rosto, deixou cair a toalha e alcançou uma camisa.

–Bom não fez um bom trabalho nos protegendo. Ou a si mesmo. Sua única família não foi muito acolhedora. Não no bosque pluvial e definitivamente não nos Estados Unidos. São provavelmente tão rígidos ou ainda mais que seus anciões. Está atrás da pista errada, Rio.

–Talvez, é possível. Sua família não os aceitou, a seu irmão e a você?

Ela deu de ombros casualmente… Muito casualmente.

–Ao princípio pretenderam fazê-lo.

–Vinha de uma família enriquecida – Conjeturou Rio.

–Tinha dinheiro. Muito. Ao menos sua família o tinha.

–Que família? Era dono das terras perto do bosque, ou este pertencia a sua família?

–Era dele e de seu irmão – Falou com uma voz sem inflexões, mas podia sentir seu desgosto. Até repugnância. Era quase tangível entre eles na sala – Compartilhavam todas suas casas, inclusive as que tinham nos Estados Unidos.

O radar de Rio se apagou imediatamente.

–Então eram muito ricos. Realmente podiam permitir-se oferecer uma recompensa de um milhão de dólares. Rachael, ocorreu a você pensar que a recompensa só será paga se você retornar com vida? O franco-atirador a queria morta. Poderia ser que houvesse duas facções trabalhando aqui?

Voltou a cabeça para olhá-lo, com alguma emoção vibrando na profundidade de seus olhos.

–Isso não tinha me ocorrido.

–Assim é possível.

Rachael assentiu relutantemente.

–Sim. E ambos os bandos tem uma grande quantidade de dinheiro. Meu irmão e eu herdamos a parte de meu padrasto das terras e sua parte do negócio.

–Como morreram seu padrasto e sua mãe?

–Foram executados. A prova litográfica oficial da polícia dizia que tinham sido assassinados.

–Então se levaram a cabo autópsias.

Ela sacudiu a cabeça.

–Os corpos desapareceram do necrotério. Foram roubados. Houve um grande escândalo. Ainda era jovem e foi aterrador para mim.

–Então aonde foram seu irmão e você quando morreram seus pais?

Seus ombros estavam rígidos.

–Com nosso tio, o irmão de meu padrasto. Compartilhava as fazendas e os negócios e nos acolheu.

–Então deve ser seu tio o que está pagando para mantê-la a salvo ou o que a quer morta.

–Nunca pagaria para me manter a salvo – Lutou para que a amargura não roubasse a voz – Por que estamos falando disto, Rio? Só pensar nele faz que me arrepie a pele. Abandonei esse lugar. Deixei essas pessoas. Não as quero aqui nesta casa conosco.

–Seu irmão é uma parte de você, Rachael. Posso ver que o ama. Nota-se em sua voz quando fala dele. Cedo ou tarde tem que resolver este assunto.

–Obviamente se preocupa dos anciões de sua aldeia, mas eles o fizeram desaparecer de suas vidas. Posso amar meu irmão e saber que represento uma responsabilidade para ele e que é melhor que não ande perto dele. É melhor para os dois.

Ele tamborilou a parede com um dedo.

–Por que? O que tem feito que faça que ele esteja melhor sem você

Subitamente seu olhar se tornou frio quando o olhou.

–Não falo de meu irmão com ninguém, Rio. Não é seguro para você, para mim ou para ele. Se não pode aceitar isso…

–Não fique tensa comigo outra vez. Fiz uma pergunta perfeitamente razoável.

Observou o calor brilhando em seus olhos.

–Não acredito que ninguém com um temperamento como o seu possa dizer que eu estou tensa. Estou faminta, não tensa.

Suas sobrancelhas se dispararam para cima.

–Sabe cozinhar?

Ela o olhou.

–Sou uma excelente cozinheira. Quis agir educadamente e não me colocar em seu caminho. Dava-me conta que tem certa tendência a ser muito territorial.

Antes de que pudesse responder, a rádio voltou a crepitar. Rio se girou e se apurou a cruzar o quarto para agarrá-lo. Houve um momento de silêncio.

–É uma fuga. Temos uma fuga.

Houve mais estática e mais palavras que Rachael não pôde entender.

–O que estão dizendo?

–Estou escutando-os falar entre eles. Vão entrar para tirar as vítimas. Têm que entrar como fantasmas. Comum, é agarrá-lo e sair, mas estamos falando de várias vítimas. É seguro que algum entre em pânico e isso é o que o faz tão perigoso.

–O que acontece quando alguém entra em pânico? – Podia sentir a tensão aumentando no quarto. Rio passeava pra frente e para trás inquieto dando passos rápidos. Ela o observava da segurança da cama. Parecia flutuar através do chão do quarto, cada passo tão gracioso e fluido como um gato da selva. E era como se estivesse enjaulado ali na casa com ela.

Rio fez uma pausa ao lado de seu rifle, passou uma mão sobre o cano.

–Aqui é onde pode ficar feio. Será melhor que Conner esteja cuidando deles. –disse com um tom baixo, quase falando para si mesmo.

–Este Conner está fazendo seu trabalho, é isso? O que é que acostuma a fazer exatamente?

–Protejo-os. Posso acertar um pássaro na asa com o vento em contrário. Assim me estendo por cima deles onde possa divisar o campo inteiro e mantenho os bandidos afastados deles. Provejo-os de disparos de cobertura e intensifico o fogo quando estão se retirando. Disseminamo-nos, cada homem tem uma tarefa atribuída, levando às vítimas para o bosque. Drake usualmente os conduz ao helicóptero enquanto o resto da equipe se dispersa em diferentes direções. Eu atraio os bandidos para mim. Abro fogo pesado e os mantenho ocupados me seguindo até que tenho notícias de que cada membro da equipe está a salvo e que podemos deixar nossas posições.

–Os bandidos o perseguem através do bosque?

Sorriu, um pequeno, travesso sorriso de moço.

–Vários bosques. Não há coisas tais como limites ou rios ou lugares aos quais não possamos ir. Temos que ser um pouco cuidadosos em seus territórios. São como ratos, podem meter-se clandestinamente em seu labirinto de túneis nos campos. É por isso que os guiamos para o bosque. Dispersamo-nos, os homens trocam de forma e eu me converto na única esperança para os bandidos de tomar revanche.

Ela estava furiosa outra vez com os anciões. Tanto que fez uma bola com o travesseiro entre suas mãos e a jogou contra a parede em uma pequena amostra de temperamento.

–Aproveitam-se de você, Rio. Está arriscando sua vida para ajudá-los a escapar.

–Sestrilla, não é assim. Os outros arriscam suas vidas introduzindo-se no acampamento enquanto que eu permaneço a salvo a uma milha de distância. Todos assumimos riscos. Todos estamos em perigo quando os caçadores clandestinos entram em nosso território e tratam de matar a espécies em extinção. É o que fazemos, o que somos. Desejo fazer o que faço.

–E os anciões se sentam a contar o dinheiro que levam. Aposto que não há risco para eles. Simplesmente o enviam ali fora, enchendo sua cabeça a respeito de realizar boas obras e cobrir necessidades e se sentem afortunados de que esteja disposto a arriscar sua vida pela causa.

–Realmente está zangada – Ela estava. Podia ver que seu corpo estava tremendo. Mais que isso, ela estava perto outra vez. Podia sentir a súbita tensão, o selvagem poder no quarto, enjaulado, mas procurando a liberação. Exsudava uma forte chamada sensual.

–Detesto esse tipo de gente. Ditam regras para todo o resto do mundo e logo se sentam tranquilos e a salvo dirigindo tudo, tomando decisões de vida ou morte sobre as pessoas e colhendo as recompensas monetárias.

Não estava falando dos anciões da aldeia. Rio permaneceu em silêncio, esperando para ver se podia continuar, mas se levantou da cama e se aproximou da porta abrindo-a para olhar para fora ao bosque que a chamava.

Tudo o bate-papo sobre o mítico Han Vol Dan, de sua mãe fugindo para ser livre, a fez ansiar a mesma liberdade. Poder ser alguém mais, embora fosse por uns poucos minutos, algo diferente, com mais controle, mais liberdade. Possuir a habilidade para correr pelos ramos das árvores. Estendeu os braços para abraçar a idéia. Muito dentro dela se sentia cheia de poder. Algo indomável. Selvagem. Algo que desejava que o liberassem. O fogo correu por sua corrente sanguínea e algo vivo se moveu por debaixo de sua pele. Seus dedos se curvaram. Doeu-lhe a face. Os ossos se racharam e estalaram.

–Não! – Disse Rio bruscamente, tomou pelo ombro e a separou de um puxão afastando-a da porta, de retorno à segurança da casa. Envolveu os braços ao redor de sua cintura como se quisesse ancorá-la a ele – O que acha que está fazendo?

–Não sei – Não o olhou no rosto. Só podia olhar à tentação que supunham as árvores, a folhagem ondulante e o grosso dossel de folhas. Até a chuva parecia chamá-la com seu ritmo regular – O que estou fazendo, Rio?

–Sua perna ainda não está o suficientemente curada para isto. Nunca sobreviveria a mudança sem machucar-se ainda mais. Não pode se deixar levar por isso ainda.

–É possível parar? Se estiver em mim, não sairá à luz como acontece com você? – Aparentemente, estava calma, mas por dentro estava começando a sentir uma mistura de excitação e medo. Cheirou o vento e pôde entender a mensagem que transportava. Pôde ouvir as notas que se elevavam da folhagem e conhecia a canção. Podia ver pequenos lagartos, insetos, uma mantis religiosa, escondidos entre as folhas das árvores como se fossem brilhantes imagens.

O rádio que Rio tinha na mão crepitou, seguida de uma rajada de estática.

–Estamos dentro. Estamos dentro. – A voz era apenas um sussurro.

Rachael sabia que o rádio era importante. Podia ouvir a tensão na voz. Podia senti-la em Rio, mas a selvageria nela estava florescendo, estendendo-se como um calor selvagem através de seu corpo. Com ele veio a visão como se nunca o tivesse sabido. Imagens termais ondas de vermelhos e amarelos enquanto olhava para fora à escuridão. A noite tinha caído por completo, a fantasmal névoa alagava o bosque uma vez mais. Brancas extensões foram à deriva deslizando-se entre as árvores. Pareciam laços brancos. Inalou fortemente e atraindo o aroma da noite para seus pulmões.

–Maldição, Rachael, vou fechar a porta – Rio se inclinou para ver seu rosto - Seus olhos estão mudando, suas pupilas estão se dilatando. Deve lutar contra isso.

Rachael piscou para ele. A voz de Rio tinha um toque de urgência, preocupado. Sorriu para assegurar que não estava assustada. Bom, possivelmente um pouco, mas era uma boa classe de medo. Queria alcançar essa outra parte de si mesma. Sentia-a forte agora, decidida, crescendo dentro dela. Podia sacudir a angústia e a dor e sentir a pura alegria de viver livre. Sem responsabilidades. Sem ataduras. Não existiria nada mais que estar viva e aberta aos sons e essências da natureza.

A tentação era tão forte que se desfez de Rio para dirigir-se para a porta novamente. As mãos de Rio quase esmagaram seus ombros.

–Rachael, me olhe. – A atraiu para seus braços, sustentando-a fortemente contra seu peito. Podia sentir o descontrole crescendo nela, via como o olhava com olhos que já não eram inteiramente humanos – Luta contra isso. Fica comigo, agora. Não pode se arriscar a mudar com sua perna em tão mal estado. Não a primeira vez.

Beijou-a. Foi a única coisa que pôde pensar em fazer quando ela estava escorrendo longe dele. Via-se tão atrativa, uma tentação do bosque pluvial. No momento que sua boca se ajustou a dela, passou-lhe os braços pelo pescoço, e pressionou seu corpo contra o dele para que simplesmente se fundiram juntos. No calor do bosque sua pele se parecia como veludo quente, deslizando-se e esfregando-se contra ele fazendo que a fricção trouxesse seu próprio calor e excitação. Os dedos se perderam em seu cabelo, apertando-se ali em um punho para segurá-la enquanto a beijava vorazmente. Devorando-a. Esquecendo de tudo exceto a sensação de sua boca, seu sabor

Rachael sentia que tinha passado de um sonho a outro. A selvageria em seu interior se acalmou para dar espaço a outro tipo de frenesi. Uma paixão desenfreada, indomável a alagou e se derramou para este homem. O único homem. Tinha pensado em deixá-lo ir. Tinha pensado em protegê-lo e deixá-lo atrás. Nunca passaria. Era parte dela como sua própria cabeça. Quando estavam juntos havia magia, amor contente. Era um ideal tolo e simplista, mas com Rio funcionava.

Rachael levantou a cabeça para olhá-lo, para memorizar seu rosto, traço por traço. Os olhos se encheram de lágrimas e teve que pestanejar para afastá-las.

–É tão bonito, Rio – Doía a garganta e seus olhos arderam com o amor brotando deles como se fora uma fonte.

–Sempre me diz que sou bonito. Não se supõe que os homens sejam formosos.

–Talvez não se supõe que o seja, mas é. Nunca estive com um homem como você antes. – Riscou as linhas de seu rosto com a ponta dos dedos, acariciando sua boca. Olhou-o nos olhos e sorriu – Não é só por causa de seu corpo perfeito, Rio, é um homem muito bom.

Como podia uma mulher desarmar um homem com umas poucas palavras? Talvez fosse a honestidade de sua expressão ou o amor em seus olhos.

–Rachael – Seu nome saiu em um áspero sussurro. Não podia controlar sua própria voz.

O rádio zumbiu à vida. Podia escutar o som de disparos em curtas rajadas. Alguém gritou. Desatou-se o inferno.

–Joshua está ferido. Conner está tentando cobrir Drake e a seus competidores. Maldição. Maldição. – Mais estática.

Rachael estava observando atentamente o rosto de Rio. Toda expressão desapareceu permutando-se em uma máscara severo.

–Quão longe estão eles? A quantas milhas?

Olhou-a, piscando, beijou-a forte na boca e deu a volta para alcançar o rifle. Rachael lhe estendeu as duas facas que estavam sobre a mesa.

–Rachael – Hesitou na porta, com a rádio na mão.

–Só vá. Se apresse. Isto é ao que se dedica. Estarei bem aqui com o Fritz.

Rio deu a volta e partiu. Não o sentiu no alpendre. Não escutou absolutamente nada. Era tão silencioso em sua forma humana como o era em sua forma de gato. Rachael coxeou até a pequena mesa. Fritz tirou a cabeça de debaixo da cama e a observou. Sorriu ao pequeno leopardo.

–Bem poderia tentar descobrir como funciona tudo isto.

Rio podia ouvir Rachael murmurar brandamente ao gato. Encolheu-se para colocar os arnês e antes de saltar para o seguinte ramo onde localizou as armas de forma de ter um fácil acesso a elas. Utilizava lianas para balançar-se para os ramos das árvores mais próximas, e quando tocou o chão do bosque continuou com sua corrida. Correu através de riachos e leitos de rios, impulsionando a si mesmo sobre as molas usando lianas e novamente voltou a subir às árvores para deslocar-se por eles.

–Estou chegando do sul – Se reportou ao rádio.

–Vá por Joshua, está fugindo e foi ferido, por isso está deixando um rastro. Conner está vigiando os competidores. A equipe esta se dispersando para deixar rastros – A voz de Drake chegou através de um montão de estática e respiração agitada.

–Eu interceptarei. Quem está com Josh?

–Está sozinho. Se apresse, Rio.

–diga a ele que se dirija para mim. Eu o encontrarei.

Mantinham as transmissões breves e falavam em seu próprio dialeto, que seria virtualmente impossível de traduzir a qualquer um que pudesse estar escutando. Só os membros de sua espécie falavam a gutural mescla de tons e palavras. Era uma de suas grandes vantagens quando estavam em uma missão.

Rio cobriu várias milhas em tempo recorde, aproveitando as curtas emissões de estática de Drake para guiar-se. Tinha que chegar a Joshua antes que Tomas ou um de seus homens. Joshua estava com problemas, ferido e sozinho. Precisavam de todos os outros membros da equipe para tirar a maior quantidade de vitima e levá-las a um lugar seguro.

Sentiu o som de disparos ecoando nas árvores. Branca neblina rodeava a folhagem enquanto impulsionava a si mesmo através dos ramos. Viu-se forçado a diminuir a marcha para cruzar o rio, usando uma rota precária, dois ramos baixos e uma liana. Quando passava de uma árvore a outro, quase perde o pé, vendo-se obrigado a transformar suas mãos em garras para poder agarrar-se à casca. O tronco era largo com multidão de plantas crescendo por ele, que cobriam a casca. Os ramos se elevavam para o céu, procurando a luz do sol, mas a pesada folhagem das árvores mais altas que se achavam ao redor o bloqueavam da preciosa fonte causando que as extremidades da árvore se curvassem e as folhas se debilitassem. Achatou-se contra o tronco, com as garras enganchadas precariamente na casca ao mesmo tempo que escutava dois bandidos que se encontravam debaixo dele sussurrando-se um ao outro audivelmente.

Os dois homens estavam resfolegando por terem se deslocado para adiantar-se ao tumulto com a esperança de preparar uma emboscada. Concebiam planos em sua língua nativa, fazendo frenéticos gestos, olhando todo o tempo para trás, ao lugar de onde provinham os sons de disparos.

Rio soltou o fôlego lentamente enquanto media com o pé procurando o ramo mais próximo. Desejando que não olhassem para cima. À altura que se encontrava, podia sentir o vento lhe roçando a cara, mas abaixo, no chão do bosque, o ar estava completamente quieto e o som se transladava facilmente. Utilizando os dedos dos pés se os utilizou para encontrar um lugar para apoiar-se e se abaixou, mantendo suas garras enganchadas como uma âncora enquanto ganhava um ponto de apoio mais firme. Enquanto estava no ramo, inclinou-se sobre o tronco e deslizou o rifle a uma posição adequada, tomando cuidado de não fazer ranger as folhas. Logo ficou muito quieto, cada músculo travado em posição de alerta como se só sua espécie podia fazê-lo. Esperando. Observando. Marcando a sua presa.

Os bandidos não eram conscientes de sua presença. Separaram-se, afastando-se do caminho, um deles se agachou atrás da frondosa folhagem dos arbustos. O homem sacudiu com impaciência uma larva que se achava sobre uma folha fazendo-a cair sobre o tênue rastro. Rio não seguiu o percurso que tomou a larva. Seu olhar estava fixo sobre sua presa. Deslizou uma mão para seu pescoço para alcançar a comprida faca da capa. O rifle permaneceu completamente imóvel, o canhão sempre apontando ao alvo, o dedo permaneceu sobre o gatilho em todo momento. Rio tirou a faca. Cuidando de não perder de vista o primeiro homem, seguiu o progresso do segundo, que tinha se movido para frente e longe do caminho para subir aos ramos baixas de uma árvore frutífera. Enquanto subia, sua bota arranhou o líquen do tronco e o peso de seu corpo, e enquanto içava a si mesmo, fez cair alguns frutos ao chão.

O vento mudou levemente, brincando com as folhas. Começou a chover novamente, uma queda contínua, que fez que os dois bandidos amaldiçoassem quando as gotas empaparam suas roupas. Rio permaneceu imóvel, alto nos ramos sobre eles. Chegou-lhe o aroma de sangue fresco. Sentiu o sussurro de roupa roçando um arbusto. Isso mais que nada foi o que indicou, que Joshua estava mal e ferido. Se tivesse podido, teria mudado de forma, a efeitos de aproveitar a força e a rapidez do leopardo para poder ir para a casa. Em troca, esta arrastando a si mesmo através do bosque, usando as passagens mais fáceis e os caminhos mais abertos.

Rio não esperou para ver Joshua aproximar-se. Manteve seus olhos nos dois bandidos escondidos para preparar a emboscada para o que estava debaixo dele sob o rifle duas vezes. Atou sua bota. Removeu-se inquieto. Que estava na árvore sustentava sua arma e observava o caminho. Rio manteve seu rifle apontando o bandido da árvore. No momento que viu que o homem levantava a arma para seu ombro, disparou.

Rio não esperou para ver o resultado de sua pontaria; jogou a faca para o homem que estava debaixo dele. Foi feio escutar o som de gorgojeio, mas lhe indicou o que precisava saber enquanto trocava de posição, saltando para outro ramo e olhando ao primeiro bandido outra vez.

–Esta caído – Disse Joshua. Inclinando-se esgotado contra o tronco da árvore. O sangue empapava seu lado direito–. Obrigado Rio, é um prazer vê-lo. Teriam me matado. Não ficando muita força para brigar deslizou pela árvore para baixo e se afundou no chão do bosque, suas pernas se sobressaindo debaixo dele.

Rio se deixou cair ao chão e inspecionou os dois bandidos antes de ir para Joshua. O homem tinha perdido muito sangue.

–Deveria ter colocado uma vendagem de campo sobre isto.

–Tentei. Mas não havia tempo. Estavam por toda parte. Tiramos todos os que estavam ali. Um dos homens desapareceu e ninguém sabia o que tinha acontecido com ele. A equipe se separou, cada um levando um competidor, e Conner devia cobri-los. – Olhou para cima a Rio – Feriram Drake. Não sei o quanto é grave.

Rio ficou rígido, forçando-se a ser suave enquanto trabalhava rapidamente sobre a ferida.

–Mandou-me para você.

–Sei, escutei-o na rádio. Isso é típico dele. Três se reportaram a salvo. Você tinha o rádio desligado. Tentei avisá-lo. – Joshua começou a inclinar-se para um lado.

–Maldição, Josh, não morra. Zangarei-me muito se o fizer – Rio jurou sob seu fôlego enquanto trabalhava rapidamente na ferida para conter o fluxo de sangue. O buraco de entrada era pequeno e limpo mas o buraco de saída tinha feito um destroço, uma sangrenta confusão.

O vento o golpeou no ombro, lhe trazendo o aroma dos caçadores. Um grupo deles, perseguindo o sangue, que ainda estava quente no rastro de Joshua. Ficariam furiosos quando encontrassem mortos os seus, estendidos no meio dos arbustos.

–Josh, tenho que subir às árvores. Não tenho escolha. Não quero te dar morfina, já está em choque.

–Faça o que tiver que fazer – Murmurou Joshua. Suas pálpebras bateram as asas, mas não foi capaz de encontrar a energia para abrir os olhos – Se tiver que me deixar, Rio, me dê uma arma. Não quero que Thomas ponha suas mãos sobre mim.

–Cale-se – Disse Rio bruscamente. Recuperou sua faca, e limpou o fio nas folhas das árvores antes de devolvê-lo a sua capa – Vamos, os sabujos estão se aproximando.

Joshua não emitiu som quando Rio o carregou sobre seu ombro como levando a um homem morto. Rio desejava que perdesse a consciência. Os músculos de aço que corriam debaixo de sua pele seriam necessários, assim como a enorme força dos de sua espécie. Subiu à árvore, subindo mais alto do que ele teria gostado mas mais acima acharia melhor cobertura. Não teria a velocidade necessária se viajasse através dos ramos levando o peso de Joshua, por isso necessitaria sigilo e coberta.

A chuva contínua se acrescentava às complicações, fazendo que os ramos estivessem escorregadios. Em seu caminho perturbou a pássaros e lêmures que lhe dedicaram distintas toadas. Os esquilos o arreganharam e uma grossa serpente se desenroscou quando acidentalmente a agarrou para ancorar-se quando se abria caminho ao longo de um ramo alto com Joshua.

Estava aproximando-se do rio quando, sem prévio aviso, os pássaros se lançaram ao vôo. Joshua se removeu, mas a suave ordem de Rio impediu que se movesse. Rio acomodou Joshua na conjunção de um grosso ramo, entupindo-o da forma como um leopardo faria com seu jantar. Era a única árvore com suficiente folhagem para ocultá-los. Tinha tido a esperança de estar do outro lado do rio antes que os bandidos os alcançassem. Guardados ali tinha uma roldana e um tipóia que poderiam ser de utilidade, mas teria que deixar Joshua para prepará-los. Assegurou-se de que não gotejava sangue que pudesse delatar sua posição. O rugido do rio afogava quase qualquer som, mas não podia dissimular os outros sinais que lhe indicariam se alguém se aproximasse.

–Thomas e seu grupo se aproximam, Josh. Deve permanecer em silêncio e ficar justo aqui, sem se mover.

Joshua assentiu para fazê-lo ver que o entendia.

–Acredito que posso sustentar uma arma.

Rio negou com a cabeça.

–Não há necessidade. – Se agachou ao lado de Joshua e controlou seu pulso. O homem precisava de atenção médica o mais breve possível. Empapados pela chuva, com a roupa pendurando de seus corpos, as botas friccionando as bolhas de sua pele. As condições eram miseráveis, mas Rio tinha estado em piores situações – O levaremos para casa – Assegurou a Joshua.

Rio não perdeu tempo vacilando. Deixando o rifle, foi pelas árvores o mais rapidamente que pôde, apurando-se para chegar antes que os bandidos. Deixou-se cair em um claro sobre um ramo baixo e se mergulhou no rio. Movendo os braços com fortes e precisas braçadas, abrindo-se caminho pelo rio inclusive com a corrente em contrário puxando-o rio abaixo. Quando chegou ao outro lado, arrastou-se para o mole, rodou sob um matagal de raízes que serviam de contraforte e recolheu o pacote que tinha escondido em um buraco do tronco.

Os bandidos tinham saído do bosque ao outro lado. Dispersaram-se, examinando o terreno em busca de rastros. As pessoas estavam muito perto da árvore onde tinha acomodado Joshua. Josh estava apenas consciente que um mau movimento atrairia instantaneamente a atenção dos bandidos para ele. Rio lenta e cuidadosamente tirou o rifle do refúgio da árvore e o estendeu sobre um ramo para afirmar a mão. Encontrava-se em um pântano e se não se movesse imediatamente, o calor de seu corpo atrairia às sanguessugas em turba.

Fez três disparos em rápida sucessão, tentando ferir seus alvos em vez de matá-los. Thomas se veria forçado a levar seus homens a cobri-lo em vez de seguir a perseguição. Rio se arrastou rapidamente para trás sobre seu estômago, procurando uma maior cobertura entre os arbustos, tentando manter as árvores maiores entre ele e o rio.

Os bandidos devolveram o fogo, uma rápida rajada de balas que morderam a casca das árvores e cuspiram folhas e agulhas perto dele. Ficou muito quieto, para não revelar sua posição enquanto marcava novos alvos.

Thomas não era tolo. Sabia a quem enfrentava. Enfrentou a pontaria de Rio muitas vezes e não queria perder mais homens. Fez gestos para que seus homens se agrupassem atrás da linha das árvores. Desapareceram atrás dela levando seus feridos. Muitos descarregaram suas armas em uma última demonstração de fúria, mas optaram por mover-se em retirada antes de arriscar-se a cruzar o rio ao descoberto para persegui-lo. Poderiam tratar de fazê-lo mais adiante rio acima, onde poderiam fazê-lo mais resguardados, mas para esse então Rio esperava estar com o Joshua no profundo do bosque e nas mãos de sua gente.

Preocupado pela possibilidade de que tivessem deixado um franco-atirador o esperando, Rio tomou seu tempo para sair do pântano. Enquanto se arrastava para o bosque, sentiu a picada de um par de sanguessugas. Tomou vários minutos remover as criaturas com a faca. Ao tempo que recuperava a roldana e o tipóia do pacote e se levantava, uma bala passou assobiando perto de sua cabeça. Rio se atirou para um lado, examinando a área que o rodeava. Pensou que estava bem escondido, mas seu inimigo tinha adivinhado para onde se dirigiu para evitar o terreno infectado de sanguessugas.

A bala tinha falhado por uns centimetros, evidentemente tinha maiores problemas além das sanguessugas. Tinha que caçar. O bandido seria paciente, deteria-se ali e o esperaria, sabendo que logo teria que mover-se. O rio os separava e Joshua estava pendurado em uma árvore, ferido e com uma urgente necessidade de atenção médica.

Sob o refúgio de várias grossas árvores, Rio acomodou sua roupa, dobrando-a ordenadamente e fazendo uma pilha com ela para pô-la sobre o ramo de uma árvore junto com suas botas. Mudou á sua outra forma, dando a boa vinda ao poder dentro dele. A força bruta. A perfeita máquina de caça. Audaz e engenhoso, altamente inteligente e ardiloso, o leopardo começou sua espreita. Mantendo-se na sombra das árvores, o grande gato se dirigiu rio abaixo, caminhando sem fazer ruído, rapidamente através da vegetação. Enquanto saltava para os ramos baixas de uma árvore que se achava na borda do rio, o leopardo cheirou sangue e pólvora. O gato grunhiu quando o franco-atirador fez fogo várias vezes, varrendo a área onde tinha estado Rio.

O leopardo se precipitou dentro de uma corrente rápida de água, usando seus poderosos músculos para cruzar o rio a nado para a outra borda. O gato subiu ao mole, andando sigilosamente através do espaço aberto, avançando e detendo-se, achatando-se contra o chão e ocultando-se atrás da cobertura que lhe brindavam os arbustos. Avançou jardas, até que esteve a uma curta distância do bandido.

O homem se apressava caminhando rapidamente através das árvores, com toda sua atenção posta do outro lado do rio. Nunca viu o leopardo agachado a só uns pés dele. Nunca notou seu rápido avanço, só sentiu o golpe, tão forte como o de um trem de carga, atirando-o para trás com suas poderosas pernas e músculos. Golpeou-o tão violentamente que nunca chegou a sentir o esmagante peso das mandíbulas que terminaram com sua vida.

Rio lutou contra a natureza selvagem da besta, separou-se do embriagador aroma da matança e rapidamente trocou de forma. Ainda tinha que cruzar a água com Joshua. Levaria muito tempo preparar a roldana e o tipóia. Apressou-se de retorno ao homem, agradecido de encontrá-lo ainda com vida.

–Meteremo-nos no rio, Josh; levarei-o de retorno à aldeia.

–Não tem que fazer isso, Rio. Não se coloque nessa posição.

Rio o carregou sobre seu ombro.

–Não me importa um pingo o que pensem sobre mim, Josh. Necessita ajuda o mais breve possível.

–Perdeu sua roupa?

Rio sorriu, toda uma amostra de dentes.

–Deixei-as do outro lado do rio em uma árvore.

–Sempre foi um louco, Rio.

Rio sentiu o absoluto cansaço de sua voz. Joshua pendurava como um peso morto, nem sequer fazia o intento de agarrar-se a ele. Preocupado, Rio se precipitou dentro do rio; usando cada resto de força para lutar contra a corrente para levar os dois até o outro lado. Logo começou a trotar.

Foi uma jornada infernal, de pesadelo. O corpo de Joshua golpeava contra Rio. Seu toque rasgava sua pele. A chuva empapava os dois enquanto transcorriam as milhas. Rio começou a cansar-se, sentia as pernas de borracha, seus pulmões ardiam pela necessidade de ar. Seus pés, embora curtidos e acostumados a viajar, estavam destroçados e sangrando. Levou várias horas e teve que deter-se três vezes para descansar, dar água a Joshua e apertar a vendagem para que exercesse pressão sobre as feridas. Rio cambaleou dentro da aldeia justo antes do amanhecer, cansado, acalorado e empapado pela chuva. Ninguém saiu das casas, embora soubessem que estava ali. O sangue de Joshua empapava a pele de Rio nos lugares onde entravam em contato seus corpos. A chuva continuava caindo, o fazia em uma contínua cascata que provocava que se formasse uma neblina que se estendia entre Rio e as casas. Começou a avançar para a casa do único médico dali. Um movimento captou sua atenção. Os anciões saíram aos alpendres, observando-o através do aguaceiro.

Rio se deteve por um momento, cambaleando-se pelo cansaço, sentindo a irritação derramar-se sobre ele. A vergonha. Voltava a ter vinte e dois anos e se encontrava parado ante o conselho com o sangue de sua mãe e a do assassino desta em suas mãos. Levantou a cabeça e apertou a mandíbula. Nunca o aceitariam. Nunca quereriam que a mancha de sua vida poluísse a deles. Podia proteger a sua gente, lhes dar sua parte do dinheiro, mas sempre teria sangue nas mãos e eles nunca o perdoariam. Sua boca se endureceu e quadrou os ombros. Seus olhos mostravam um feroz orgulho, sua mandíbula forte e obstinada. Não importava se não era bem-vindo em sua aldeia. Não queria estar ali. Recusava-se a acreditar que podia sentir saudades da interação com outros de sua espécie.

Dentro das casas começariam a sussurrar. Sempre acontecia o mesmo se durante uma de suas viagens se via obrigado a intrometer-se em seu espaço. Em cada uma dessas ocasiões pensava que ia ser diferente, melhor… Que o aceitariam. Mas seus rostos se mostravam duros, ou os afastavam ou simplesmente o olhavam passar como se não existisse. Apelou a seus últimos restos de força para forçar a seu cansado corpo a ficar em movimento e levar Joshua direito à casa do médico. Nunca lhe permitiriam entrar, nem lhe falariam. Embora pensassem que o sangue em seu corpo lhe pertencia, não lhe fariam perguntas nem tentariam ajudá-lo. Estava morto para eles.

Deliberadamente Rio subiu as escadas para o alpendre e depositou o corpo de Joshua sobre uma cadeira que havia ali. Quando se voltava para partir, Joshua o tomou pelo braço. Seu agarre era fraco, mas o manteve. Rio deu a volta, inclinou-se sobre ele.

–Está em casa agora, está a salvo.

–Obrigado, Rio. Obrigado pelo que fez.

Rio lhe agarrou a mão por um momento, cobrindo o gesto com seu corpo para que não repreendessem Joshua em frente do conselho.

–Boa sorte, Josh.

Voltou-se, reto como uma vara, desceu os degraus e fez uma pausa para permitir que seu olhar se deslizasse com desdém e arrogância pela aldeia. Para encher do familiar cenário. Algo se rasgou em seu coração, algo profundo e terrível. Seu temperamento era um afiado espinho, enterrando-se em seu estômago e ardendo ali. Resolutamente deu as costas a todos e caminhou para o bosque onde pertencia. Por um momento tudo esteve impreciso ao redor dele. Pensou que era por causa da chuva, mas quando pestanejou, sua visão se clareou e seus olhos ardiam. Rio forçou o ar a entrar em seus pulmões e disse a si mesmo que estava vivo e em caminho de volta para Rachael e que isso era tudo o que importava.

 

Rio entrou na casa silenciosamente, deixando a porta aberta para poder captar inclusive até a mais leve brisa. A chuva caía a um ritmo contínuo, envolvendo o alpendre e a casa com uma densa névoa branca. O mosquiteiro realizava uma dança fantasmal, mas tinha o olhar fixo no rosto de Rachael. Nem sequer recordava ter deslocado de retorno a casa para ela. Doíam-lhe os pés, sentia o corpo cansado e dolorido e a fúria ardia como uma tormenta de fogo profundamente em seu interior. Deteve-se para banhar-se antes de ir até ela, esperando que a ira e a dor diminuíssem debaixo da ducha de purificante água. Não tinha sido assim.

Ergueu-se sobre ela, meditando, observando-a, a fúria apoderando-se dele com força. A dor corroendo seu interior. Saboreava a solidão pela primeira vez. Rachael fazia isso, voltá-lo para a vida. Ela o fascinava, tentava-o. O fazia sentir feliz, triste, zangado… Tudo ao mesmo tempo. E era viciado no aroma e no tato dela. A luxúria se elevou, um ânsia tão escura como a fúria formando redemoinhos como uma negra e tempestuosa nuvem dentro dele.

Rachael jazia adormecida na cama. Sua cama. Tinha uma mão jogada sobre o travesseiro, através do lugar vazio onde deveria ter estado ele. A magra manta estava no piso deixando suas longas pernas descobertas estendidas por sobre o lençol. Só levava posta sua camisa, desabotoada e aberta, expondo a cremosa curva de seus seios. O cabelo, tão negro como a meia-noite, esparramado no branco travesseiro formava redemoinhos e espirais, rogando ser tocado. Via-se jovem em seu sono, seus longos cílios formando duas meias luas contra a pele. Seu corpo jazia aberto a ele, suave e quente, oferecendo aplacar a terrível fome que o queimava.

Não se sentia gentil nem amante. Sentia-se selvagem e inflamado, as urgentes demanda de seu corpo o afligiam. Sabia que era parte de sua herança, mas o intelecto não contava enquanto se encontrava de pé em seu lar, quando Rachael jazia nua em sua cama, o corpo exposto e esperando pelo seu. Rio se aproximou, deixou as armas a um lado, sem deixar de olhá-la ardentemente em nenhum momento. Suave pele, luxuriosas curvas, seus seios um convite tentador.

Rio já estava duro como uma pedra, mas ao vê-la enquanto dormia tão pacificamente, tão inconsciente de sua vulnerabilidade, engrossou-se e endureceu ainda mais. Tocou sua ereção, para aliviar-se, envolveu o punho ao redor de sua palpitante demanda enquanto tentava cruzar o quarto para ela. Caminhar era doloroso com o corpo tão cheio e apertado. Havia um rugido em sua cabeça. Seu corpo destilava luxúria, o estômago ardia por ela.

Rachael se removeu inquieta como se instintivamente soubesse que estava sendo observada. Abriu os olhos e viu sua face, escura pela paixão, gravada com luxúria. Com propósito. Com algo mais que simples desejo. Seu olhar fez que seu coração retumbasse no peito. Fez sua boca secar. Converteu seu corpo em uma piscina de quente líquido. Seu olhar queimava sobre ela, chamas famintas que enviavam faíscas de eletricidade a sua pele em cada lugar onde pousava.

Golpeou velozmente, seus dedos rodearam seu braço, proferindo um grunhido gutural, que envio calafrios ao longo da coluna vertebral, levantou-a de um puxão para poder fundir sua boca com a dela, uma de suas mãos na parte de atrás da cabeça sustentando-a imóvel para poder beijá-la. Não um beijo, uma fera posse. O calor se estendeu por ela como lava fundida, floresceu e explodiu em chamas vulcânicas. Arrastou-a mais perto, incrustou-a contra ele, com uma força enorme, querendo sentir pele contra pele, querendo sentir seu corpo impresso contra o calor do dele. O ar escapou dos pulmões para os dele. Seu beijo era faminto, selvagem, devorava-a, tomando mais que pedindo, como se sua fome não conhecesse limites.

Encerrou-a entre seus braços, tão forte que pôde sentir cada um de seus músculos, cada pulsado de seu coração, cada fôlego que tomava. Saboreou a luxúria. Saboreou o desejo. Saboreou o feroz orgulho e algo mais. Dor. Sabia o que era a angústia que se impregnava até os ossos e a reconhecia nele. Sabia o que estava fazendo embora nem ele mesmo soubesse. Sua boca era veludo quente, sua língua batendo-se a duelo com a dela, um tango de respirações e úmido calor. Não lhe dava oportunidade de respirar, de fazer nada exceto aceitar a tormenta de fogo que havia nele. Deixar que a banhasse para que ela também se prendesse no fogo, que a arrastasse para o vórtice de um torvelinho, um voltado de puro desejo.

Rachael lhe devolveu o beijo, igualmente selvagem, permitindo que a ambiciosa luxúria se apoderasse dela, para igualar o feroz inferno ardendo nele. Entregou-se, rodeou-lhe o pescoço com os braços, segurando-o contra ela. Roubou seu fôlego do corpo usando-o como seu próprio ar. Deslizou os dentes por seu queixo, sua garganta, dando pequenas dentadas ávidas como se fosse devorá-la viva. Rachael boqueou pela inundação de sensações, afundou profundamente as unhas nos braços quando arqueou o corpo. Esperando. Desejando. Querendo mais.

Sua boca, quente e insistente em suas demandas, seguiu descendo, para fechar-se sobre o seio e chupar fortemente. Ela gritou, incapaz de conter as chamas que percorriam o corpo. Arremeteu contra sua boca, os dedos encontrando seu cabelo, fechando-se em dois punhos, arrastando-o mais perto. Não o queria gentil e considerado, queria-o exatamente da forma que era, selvagem, indomável, conduzido além de seu controle, em chamas com urgente necessidade e apetite voraz. Por ela. Por seu corpo.

Sua boca tirou a prudência e a substituiu por sentimentos. Abruptamente levantou a cabeça, os olhos brilhantes e empurrou os travesseiros e mantas para as colocar debaixo de seus quadris. Podia ver seu corpo, duro e perfeito, cada músculo definido e esculpido em pedra. O rosto gravado com fome escura. Quando dirigiu o olhar para baixo ao triângulo de pequenos cachos negros seu coração começou a pulsar grosseiramente. Havia uma ordem silenciosa em seu olhar. Uma demanda.

Uma onda de calor a varreu. Sentiu que o corpo se tornava líquido em seu mais profundo centro. Muito devagar obedeceu essa ordem silenciosa, movendo as pernas, as abrindo para ele. Sentir o ar em sua resbalosa e úmida entrada a inflamou ainda mais. Os dedos dele se envolveram ao redor do tornozelo são. Dobrou sua perna pelo joelho. Havia uma sensação de pertencer em sentir sua mão sobre a perna. Foi muito mais gentil ajudando-a com a perna ferida. Suas mãos foram para as coxas, agarrando-as, abrindo-as mais, pondo o joelho na cama entre suas pernas. Nem uma vez levantou o olhar para seu rosto. Parecia fascinado com seu brilhante corpo.

Esperou, mal atrevendo-se a respirar, o coração golpeando fortemente com antecipação. Queria rogar, chorar pela escura paixão que a dominava tão fortemente. Não havia uma polegada de seu corpo que não desejasse seu toque. Ele umedeceu o lábio inferior com a língua e ela se retorceu de prazer. Não a havia tocado, mas a força de seu olhar o tinha feito. E a tinha deixado necessitada… Ofegante.

Os polegares morderam as coxas enquanto cunhava os ombros entre suas pernas, abrindo-a completamente para ele. Sabia o que estava fazendo. Reclamando-a. Marcando-a. Fazendo-a sua para que ninguém mais pudesse nunca fazê-lo. Soprou calor em seu ardente charco de fogo. Ela gritou, afastou-se de um salto, mas a segurava quieta, sem piedade, para sua invasão. Sua língua a apunhalou profundamente, uma arma de perverso prazer, envolvendo, lambendo, acariciando enquanto ela gritava atravessada por um selvagem, interminável orgasmo.

–Mais. – Grunhiu ele sem piedade – Quero mais.

Afundou o dedo profundamente em seu interior, pressionando intensamente enquanto ela empurrava contra sua palma, seu corpo aferrando-se ao redor dele, apertando na agonia da paixão. Ele levou o dedo à boca, depois se elevou por cima dela, assegurando o corpo com os braços. Agachou a cabeça, inclinando-se para frente para amamentar-se de seu seio. Ela sentiu o corpo a ponto de explodir. Agarrou-se a seus braços, tentando sustentar-se já que o mundo parecia girar fora de controle.

Deitou sobre ela, os quadris embalando os seus, a cabeça de seu pênis contra a úmida e vibrante entrada. Tratou de tomá-lo em seu interior, mas a manteve quieta, esperando, incrementando seu desejo, a sensação de urgência os consumia a ambos. Depois arremeteu com força, enterrou-se profundamente, impulsionando-se dentro de sua vagina de veludo de tal forma que seus dobras se separaram como as suaves pétalas de uma flor e se abriu para ele. Atacou contra seus quadris, urgindo-a a tomá-lo todo, cada polegada, fundindo-os em um frenesi de fúria e escura paixão.

Sussurrou na Antiga Língua de seu povo, admitindo que a amava, que precisava dela, mas as palavras pulsavam mais em sua cabeça que em sua garganta. Levou-a mais e mais alto, levando a ambos ao limite, um selvagem e tumultuoso rodeio. Rangeram os dentes contra a onda de sensações, contra os martelos pneumáticos que bombardeavam a cabeça, contra a tensão que varria seu corpo e a inevitável explosão que começou na ponta dos pés e explodiu para cima.

Uma agitação percorreu Rachael, levando-a cada vez mais alto até que não houve aonde ir e se derrubou em uma queda livre, implodindo, fragmentando-se. Até que não houve nenhuma só parte dela que não fosse consumida por um ardente prazer. Derramava-se por sua pele e por trás de suas pálpebras. Chamas percorriam o estômago e ardiam em seu mais profundo centro. O corpo se estremecia com tremores, uma maré de sensações que seguiam e seguiam. Se se movia, se ele se movia, o efeito ondeante começava novamente.

Rio deitou sobre ela, seu coração descansando sobre o dela, respirando profundamente, lutando para recuperar o controle. A maior parte da fúria consumida entre seus braços. Rachael. Só Rachael podia ter aceitado semelhante união. Só Rachael podia olhá-lo com o coração nos olhos. Não importava quão estreitamente se agarrasse a ela, nunca o rejeitaria. Nunca dizia basta. Havia perguntas em seus olhos, mas não as formulava, nem sequer quando ele se afastou. Simplesmente o abraçou, lhe dando espaço, sua cabeça descansando sobre o suave travesseiro que eram seus seios.

–Precisa dormir, Rio. Está exausto.

Não disse nada, só se estendeu perto dela, aspirando a essência combinada de ambos, escutando a interminável chuva. Achava-o reconfortante. O bosque se elevou à vida, os animais se chamavam, os insetos zumbiam, os pássaros cantavam. A música de fundo, sempre presente.

Rio permaneceu acordado um longo momento depois de Rachael dormir. O temor o afogava, quase sufocando-o. Quando ela tinha se convertido em algo tão condenadamente essencial inclusive até para respirar? Como tinha dado um jeito para invadir sua vida e envolver-se ao redor de seu coração? Não podia imaginar a vida sem ela. Era tão cálida, suave e perfeita. Tinha lembranças de calidez, suavidade e perfeição e essas lembranças se transformaram em pesadelos de sangue, morte e fúria.

Queria que esta fosse sua vida. Rachael… Sua risada, sua coragem, seus estados de ânimo e mudanças de humor. Fazer amor tão doce e meigamente como pudesse ou com uma necessidade feroz que só podia ser acalmada com uma cópula selvagem.

Seus seios eram uma tentação que não podia ignorar. Revoou com a língua sobre o mamilo, e depois absorveu o cremoso montículo dentro da boca. Parecia um milagre ele poder deitar com ela, chupar seu seio quando quisesse, deslizar a mão sobre seu corpo para afundar o dedo profundamente em seu interior. Ainda adormecida lhe respondia. Apertando os músculos a seu redor, arqueando-se para que a pudesse tomar mais profundamente na boca. Ela sorriu, murmurou algo incoerente e afundou os dedos no seu cabelo. Dormia assim com o corpo úmido de desejo, a boca dele sobre seu seio e a mão cavando os apertados cachos possessivamente, enquanto afundava os dedos no cabelo.

Rio despertou sentindo a língua de Rachael lambendo sua ereção matutina. Sua boca era quente e brincalhona, a língua brincando sobre ele, os dentes deslizando-se gentilmente, travessamente. Em um momento o sugou profundamente dentro da garganta e ele grunhiu, levantando os quadris, impotentemente ante sua solicitude. Nem sequer tinha aberto os olhos e ela já estava cavando seu testículo com a mão; já estava duro como uma rocha devido a seus cuidados. Levantou as pestanas para olhá-la. Parecia um gato satisfeito, agradado e estimulado, seu sedoso cabelo caindo em cachos ao redor de sua face. Ajoelhou-se entre suas pernas, com seu formoso traseiro levantado e seguindo o ritmo das carícias que proporcionava com a língua. Seus seios estavam cheios e tinha os mamilos eretos. Observou como seu corpo se deslizava dentro e fora da boca dela, brilhando pela umidade, ficando cada vez mais grosso e duro quando começou a menear-se para frente e para trás.

–É a coisa mais linda que já vi em minha vida – Tinha a intenção de dizê-lo, mas as palavras saíram entre um grunhido e um rouco murmúrio. Ela fazia coisas com a língua, os dentes e essa pecaminosa boca que o deixavam louco.

Ela retirou sua quente boca substituindo-a com algo frio, úmido e pegajoso. Rachael sorriu enquanto o importunava com uma amadurecida fruta de manga, deslizando-a por sobre e ao redor dele, fazendo jorrar o néctar conscienciosamente sobre sua avultada ereção. Pensava que não podia ficar mais duro ou grosso, mas ela deu um jeito para obter isso.

–Bom dia. Pensei que você gostaria de tomar o café da manhã – Deu a fruta e voltou a lambê-lo, desta vez brincando com a língua enquanto tratava de recuperar cada gota de suco.

Rio a olhou sem poder pronunciar palavra, transtornado de encontrar a manga em sua palma. Recostou-se para trás e deu uma dentada à exótica e suculenta fruta. O suco correu pelo queixo, mas estava muito distraído observando como se divertia Rachael. Não podia haver outra mulher como ela na face da terra. Encontrava tudo nela sexy, especialmente a maneira que desfrutava de seu corpo. Apropriou-se dele, como se lhe pertencesse e pudesse fazer o que quisesse. E nesse momento queria sentar-se escarranchado sobre ele.

Rachael não esperou. Rio tinha chupado seus seios uma e outra vez enquanto dormitava, tinha introduzido os dedos profundamente em seu interior, mantendo-a úmida, excitada e necessitada. Agora que estava acordado podia fazer algo sobre isso. Já tinha tido suficiente paciência. Ajoelhou-se sobre ele e desceu sobre seu erguido membro.

Ele ofegou quando sentiu que seu corpo abria caminho dentro do dela. Estava apertada, quente e molhada, tudo ao mesmo tempo. Queria o controle e ele o dava, dedicou-se a comer a manga que tinha dado enquanto ela começava a montá-lo lenta e sensualmente. Ao pegar o ritmo, enquanto se deslizava para cima e para baixo com óbvio gozo, seus seios se balançavam como que convidando-o. Derramou suco sobre os seios, olhou como corria por seu contorno até a ponta do mamilo. Inclinou-se para frente e o apanhou prazerosamente com a língua. Seu corpo estava ardendo docemente, e se ela queria jogar, podia agradá-la.

Abriu a boca. Rio lhe deu um bocado, olhou-a mastigar enquanto o corpo se deslizava sobre o seu. Esfregava o seu com calor e fogo. Lambeu seu dedo, a língua curvando-se ao redor de uma maneira sexy e explícita. Ele fechou os olhos e gemeu. Não poderia aguentar muito mais. Parecia que ela não tinha nenhuma pressa, simplesmente estava dando prazer a si mesma e a ele lentamente. A pressão começou devagar, nem sequer se deu conta ao princípio, mas logo começou a derramar-se por sua pele, fazendo que seus músculos se esticassem e que cada célula de seu corpo ficasse em alerta.

Tratou de empurrar para cima para encontrar seu corpo, mas ela deu um olhar e ele se deteve. Um rubor se estendeu por todo seu corpo até que brilhou. Sua respiração saía em curtos ofegos e seus mamilos se esticaram. Estendeu-se quase cegamente para tomar as mãos de Rio. Teve o suficiente sentido para dar a última dentada à manga e agarrá-la, abraçando-a enquanto, começou a montá-lo duramente, golpeando contra ele, levando seus corpos a um ponto febril. Encontrou o ritmo de suas investidas, cravando-se nela, fazendo-os chegar a esse último delicioso topo. Acabaram juntos, um redemoinho de sangue fluindo e foguetes.

Rachael riu alegremente e se inclinou para frente para lamber o suco de sua bochecha.

–É um desastre pegajoso. Por sorte temos a banheira ainda aqui.

–Com água fria – Se sentiu compelido a assinalar.

Seu sorriso se alargou para formar um malicioso.

–Bom, esquentei-a um pouco enquanto dormia. Não foi tão difícil.

–Esquentou a água do banho para mim? E dormi todo o tempo enquanto o fazia? Nunca faço isso. Me acordo com o mais leve dos sons. Está me arruinando, mulher –Nunca ninguém tinha esquentado a água para um banho. Era uma tarefa tediosa. Se o lar não tinha acesso, devia fazer-se na estufa de gás. Certamente tinha levado muito tempo para completar a tarefa. A alegria o atravessou como um sol nascente.

–Espero estar te arruinando. Que maravilhoso conceito – Caiu, estendendo-se parte em cima dele, com os suaves seios apertados contra seu peito. Podia sentir uma parte dele, apoderando-se de seu coração e seus pulmões, até de sua vida, até que não podia respirar sem ela – Vai me dizer o que aconteceu, Rio? – Deslizava a ponta dos dedos pelo cabelo, pelo rosto, fazendo que cada músculo de seu estômago se contraísse fortemente. Sua voz era muito suave. Seus olhos muito compassivos.

Rio tentou um encolhimento casual.

–Era uma missão, como qualquer outra – Não queria falar a respeito disso. Não queria que ela o visse como o viam os mais velhos. Desprovido de todo orgulho. Vulnerável. Com a vida em suas mãos. Sua traição… Ou talvez fosse a dele. Honestamente não sabia.

–Não como todas as demais – Insistiu Rachael – O que tinha de diferente nesta?

Queria afastá-la. Queria mudar de forma e correr livre no bosque. Sentia essa necessidade selvagem e forte, uma afluência de pele ondeou quando seus músculos se contraíram, rangeram e estalaram.

–Ah não, não o fará – Rachael jogou os braços ao seu redor – Fica comigo. Não vou deixá-lo escapar. Isto é muito importante.

Era ridículo pensar que podia segurá-lo. Sua força era enorme, mas o estava olhando com seus grandes, líquidos olhos e não podia suportar quebrar seu coração. Melhor o dele que o dela. Tratou de encolher-se casualmente, o qual era difícil quando estava agarrando-se a ele como um macaco.

–Joshua me disse que Dave estava ferido. Tentei conseguir informação, mas não podia localizar ninguém pelo rádio. Dois homens tentaram emboscar Joshua e não tive outra opção que acabar com eles – Afastou o olhar. Ela via muito com esses olhos – Os matei.

Ela permaneceu em silêncio, mas deslizou a mão para a dele.

–Tive que levar Joshua através do rio e de retorno ao povoado onde podia encontrar ajuda médica. Cobri-lhe as feridas o melhor que pude, mas perdeu muito sangue e precisava de atenção imediata.

–O que aconteceu? – Sabia que havia muito mais nessa história que os ossos não estavam oferecendo.

–Thomas e seus homens nos alcançaram no rio. Deixei Josh em uma árvore, com a esperança de poder cruzá-lo antes que Thomas nos alcançasse. Não queria correr o risco de cruzar o rio com suas feridas abertas. Se eu tropeçasse podia pegar uma infecção importante – Um intento de sorriso cruzou sua face – Infelizmente, não tinha nada do famoso unguento verde de Palha de Cereal para pôr.

–Então o deixou na árvore e o que foi fazer?

–Tenho uma roldana e um tipóia que às vezes uso com os gatos, especialmente se a corrente é forte. Fui recolhê-los, mas apareceu Thomas. Feri alguns de seus homens, forçando-o a buscar ajuda médica.

–Mas deixou alguém para trás.

Rio se sentou e passou as mãos pelo escuro cabelo.

–Um banho soa bem.

Tomou a mão e puxou.

–Vamos então. Se coloque e te lavo, como fazia você comigo. Parecia delicioso.

Rio se estirou e caminhou descalço através do pequeno armário que se comunicava com o banheiro. Não ia dizer a Rachael que preferia a selva. Depois de sua atuação do amanhecer, poderia pensar que era totalmente incivilizado. Quando retornou, Rachael estava fazendo café.

–Está me acostumando mal.

–Isso espero. – Ela franziu o cenho ante as marcas de seu corpo – Sanguessugas? Acaso essas pequenas coisas desagradáveis deram um jeito de apanhá-lo novamente?

–Estava estendido no pântano, me lamentando pelo disparo. Vêem-se atraídas pelo calor corporal.

Ela sorriu para ele e o empurro para a banheira.

–Bom, ambos sabemos que tem calor de sobra.

Afundou-se na fumegante água. As mãos ensaboadas dela pousaram em seus ombros, deslizando-se enquanto o massageava aliviando-o das dores.

–Rio, me diga o que aconteceu, o que te desgostou.

Estava de pé atrás dele, as mãos fazendo magia em seus doloridos músculos. Era muito mais fácil falar sobre isso quando não estava de frente a ela.

–Levei-o de retorno ao povoado. Foi uma longa e difícil jornada, levando Josh nos ombros. A metade do tempo temia que estivesse morto e a outra metade sabia que estava lhe fazendo mal. Não tinha tempo de trocar de roupa assim tive que andar nu entre os arbustos.

–Disso aí provêm todos os arranhões e cortes. Por que mudou de forma? –Manteve um tom de curiosidade em sua voz, cuidando de não soar como se o julgasse ou acusasse.

–Para poder cruzar o rio antes que o homem que tinham deixado para trás descobrisse Joshua.

Rachael continuou amassando os apertados músculos de seus ombros. Tinha matado um terceiro homem e ferido a outros. Tinha sido uma má noite. Permaneceu em silêncio, inclinando-se para baixo para depositar um beijo na parte de acima de sua cabeça.

–Não sei o que aconteceu, Rachael. Acredito que estava cansado. Não me importa o que os mais velhos pensem de mim. Rompi nossas regras sabendo. Aceitei as consequências. Vivo no exilo e nunca me tem feito sentir menos humano.

As mãos se detiveram sobre os ombros. Algo atemorizador borbulhou no fundo de seu estômago.

–Levou Josh a sua casa e lhe disseram algo mesquinho?

–Não falam comigo. Não me olham. Estou morto para eles. Se de casualidade olham em minha direção, olham através de mim. Se tivesse falado, se tivesse tentado lhes dizer o que aconteceu com Joshua, não teriam me escutado.

–Esses malditos bastardos – Sussurrou.

Seu xingamento o surpreendeu. Não só porque amaldiçoara, mas sim por sua escolha de exclamações.

–Isso não me soa sul-americano – Girou a cabeça para olhá-la, com um pequeno sorriso no rosto devido a que ela era capaz de aliviar o aguilhão da rejeição dos mais velhos com umas poucas palavras adequadas.

–Fui para a escola um ano na Inglaterra. Surpreenderia-se das coisas que se aprende – Disse e esfregou xampu no cabelo um pouco muito vigorosamente – Queria ter a oportunidade de conhecer estes sábios mais velhos seus. Ambiciosos pequenos abutres que mantêm suas mãos limpas enquanto você faz todo o trabalho de risco. Qual o problema com os homens com os quais trabalha?

Se o esfregasse um pouco mais forte ia arrancar seu couro cabeludo.

–A maioria vive longe do povoado e é obvio que falamos. Viu Drake. É melhor para eles se não se derem conta de que somos amigos porque tecnicamente estão rompendo as regras. Suponho que se os mais velhos não podem vê-lo, não podem incomodar-se.

–Bastardos santarrões.

Tomou gentilmente seu pulso.

–Está me deixando descascado, Sestrilla. Não posso me dar o luxo de perder o cabelo. Tenho uma mulher agora e é muito exigente a respeito de certos aspectos.

Ela deu um tapa na parte de acima da cabeça com a palma da mão. Borbulhas de sabão voaram por todos lados, fazendo-a rir.

–Não sou nada exigente. É só que estes idiotas mais velhos…

–Sábios mais Velhos. – A corrigiu e rapidamente se afundou debaixo da água antes de que pudesse bater nele outra vez. Ficou submerso enquanto lavava o xampu do cabelo. Quando saiu, ela fez um som de completo desgosto.

–Não sei quem lhes deu esse título. O mais provável é que o dessem eles mesmos. Em qualquer caso está me dizendo que carregou esse homem através de milhas de bosque e esses homens nem sequer lhe deram obrigado?

–Normalmente não me incomoda. Realmente. Mas estar ali parado com o sangue de Joshua sobre mim e os pés me doendo como a puta mãe, fez-me sentir como uma criança outra vez. Senti-me envergonhado de minhas ações, minha falta de controle, a terrível coisa que habita dentro de mim não perdoará aos que mataram a minha mãe. E não estava seguro de que eu pudesse perdoá-los e ainda não o estou. Nenhum deles jamais me disse que lamentava sua morte. Senti-me como se a chorasse sozinho. Senti raiva e senti vergonha. Maldição, Rachael, odiei isso.

–São eles os que deveriam sentir-se envergonhados por não perdoar – Havia um feroz instinto protetor brotando dela – Não sabem a diferença entre o bem o mal. Não são muito sábios.

–E você é? – Arqueou uma sobrancelha para ela.

Lá fora os pássaros chiaram e vários macacos gritaram uma advertência. Rio ficou de pé, jorrando água. Girou a cabeça para a porta em estado de alerta, tomando a toalha que ela estendia.

–Precisa vestir a roupa, Rachael – Disse Rio – vêm visitas e vêm rápido.

–Pensei que havia dito que não precisava de roupa e que devia superar meus inibidos costumes civilizados.

Sua voz brincava com os sentidos, sussurrava-lhe sobre a pele como uma luva de seda. Ela fazia que viver a vida valesse a pena. Agarrou-a pelo cabelo suavemente, puxou sua cabeça e apertou a boca contra a sua. Instantaneamente voltou a sentir-se vorazmente faminto.

–Está me matando, Sestrilla. Não vou conseguir sobreviver. Não acredito ter tanta vitalidade.

Ela riu brandamente e o abraçou, sustentando-o contra ela como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Dispersou-lhe beijos por todo o rosto.

–Faz isso bem. Preciso começar a cozinhar para você, para te dar forças.

Ele não pôde evitar que suas errantes mãos se deslizassem para baixo por suas costas, moldando a curva de seus quadris, cavando seu traseiro nu. Rio se permitiu a si mesmo o luxo de enterrar a cara contra o suave pescoço. O amor o encheu, floresceu nele, uma maré que não podia conter, mas não pôde encontrar as palavras para dizê-lo sem afogar-se. Sustentou-a, sentindo-a viva, cálida e real em seus braços.

–Maldição, Rachael – A voz saiu áspera enquanto a afastava, segurando-a à distância de um braço – Está me transformando em um poodle.

Todo seu rosto se iluminou, seus escuros olhos rindo, sua sinuosa boca suave e bela. Desejava beijá-la outra vez, mas em troca lhe jogou um par de jeans.

–Deixa de rir de mim e vista-se.

–Um poodle? Alguma vez viu um poodle? – Penteou-se com os dedos sorrindo –. Eu tenho o cabelo como um, talvez possamos formar um casal – A luz do sol se derramava a seu redor, suaves raios que apenas se filtravam através da canopia mas conseguiam encontrá-la, eram atraídos por ela da mesma forma que ele. Via-se radiante, cheia de alegria.

A noite anterior tinha estado tão cheio de dor, vergonha e fúria. Com umas poucas horas de felicidade, ela tinha sacudido seu mundo, tinha-o mudado para que só pudesse sentir regozijo, risada e um prazer paradisíaco.

–Está me tentando, mulher, e vou jogá-la novamente na cama.

Ela arqueou uma sobrancelha.

–Duvido estar em nenhum perigo quando recentemente estava se queixando a respeito de sua vitalidade. Macho covarde.

Dei-lhe uma rasteira, atirando-a novamente sobre o colchão, e jogou-se em cima. Ela estava rindo tanto que mal podia respirar. Pressionou sua ereção contra ela, esfregando-se para trás e para frente para lhe mostrar o que significava a vitalidade. Rachael não pareceu muito impressionada, seguiu rindo até que a deteve com seus beijos.

O whoop, whoop de advertência dos pássaros justo fora no corrimão do alpendre o forçou a deixar a tentação de seu corpo. Ela ficou estendida na cama, a risada desvanecendo-se a um sorriso enquanto o olhava. Algo nesse misterioso, feminino sorriso fez que o coração retumbasse no peito.

Deliberadamente ela começou a subir os jeans lentamente sobre as pernas nuas, rebolando para subi-los pelos quadris e o traseiro nu. Os deixou abertos expondo o triângulo de pequenos cachos negros. Ficou de pé ali com os seios nus erguendo-os em um convite.

–Não posso encontrar minha camisa.

Ele tinha a boca seca.

–Você, desavergonhada buscadora. Está me provocando deliberadamente –Espremeu com os dedos o tecido da camisa, bebendo-a com o olhar.

–Está funcionando?

–Maldição, claro que sim. Vista a camisa antes de que escandalizemos ao pobre Kim.

Rachael pareceu alarmada.

–Kim? O guia? – Estirou a mão para tomar a camisa.

Reteve-a contra seu peito.

–Vem procurá-la.

Rachael foi ao seu encontro, deslizou um braço ao redor de seu pescoço, pressionando os seios contra o peito dele enquanto colocava a outra mão entre as pernas e começava a acariciá-lo, dançando e tocando justo através do tecido dos jeans. Tinha os lábios em seu pescoço, a língua rodando em uma pequena e deliberada carícia. Rio se esfregou contra a mão, desejando-a outra vez com tal urgência que era como se nunca tivesse feito amor. Ou como se seu corpo recordasse cada mágico momento e estivesse obcecado.

Franz grunhiu uma advertência. Rio gemeu e a envolveu na camisa, abotoando-a rapidamente. Era a única coisa sensata que podia fazer. Descalço, levou-a com ele para o alpendre para esperar o seu convidado.

Rachael olhou para baixo para ver Kim subindo à árvore. Não era tão rápido nem eficiente como Rio, mas era seguro e firme. Encarapitou-se aos ramos mais baixos e subiu até onde estavam eles.

–O que te traz tão longe de casa? – Saudou-o Rio.

–meu pai me envia com notícias e queria lhes contar sobre o homem do grupo da igreja que estava desaparecido – Kim sorriu para Rachael – Se vê muito melhor, Miss Rachael. Como esta sua perna?

–Está muito melhor, Kim. Vejo que você está bem. Odeio admitir isso, e que seu irmão não saiba, mas seu unguento verde funcionou.

Kim assentiu seriamente, desejando ser um conspirador.

–Palha de Cereal é famoso por suas habilidades curativas. Embora tenha uma má aparência, verdade? – Trocou um olhar de entendimento com ela.

–Que homem conseguiu escapar dos bandidos? – Perguntou Rachael.

–O chamado Duncan Powell.

Recordava bem Duncan. Era muito reservado, mas sempre muito correto.

–Espero que tenha podido escapar a salvo.

–É o que ambos precisam saber. O homem que escapou por sua conta de Thomas era um de sua espécie, Rio. Mudou à forma de um gato e esmurrou um guarda, escapando para o bosque. Nenhum dos homens de Thomas fala disso, mas dois dos do grupo da igreja viram a sombra do leopardo nas rochas. Disseram que viram o guarda esmigalhado e que era por causa de um grande gato.

–Os homens são muito supersticiosos. – Explicou Rio a Rachael – Acreditam que os gatos maiores são divindades. Os leopardos são estranhos nestes bosques, assim ver um, especialmente atacando um guarda de noite significa muitas coisas para eles. Infelizmente, também atrairá os caçadores clandestinos. O mais seguro é que se fale do ataque e o incidente crescerá até converter-se em múltiplos incidentes e a fofoca será que temos um assassino de homens em nossas mãos – Rio suspirou e passou as mãos pelo cabelo – Entretanto maldito seja esse idiota. Poderia ter saído do acampamento sem ter sido visto e ninguém teria tido notícia.

–O guarda o tinha golpeado. – Disse Kim

Um sorriso sem humor curvou a boca de Rio.

–Nunca esquecemos, esse é um traço do nosso povo.

–O mais provável é que venha por aqui – Assinalou Kim.

–Está morto. – Disse Rio abruptamente – Tentou nos matar algumas noites atrás, levei Rachael a um lugar seguro e o rastreei. Está morto. Drake destruiu o corpo. Ouviu algo sobre a incursão de ontem à noite? Entendi que Drake foi ferido. Não ouvi nada no rádio. Quão mal está?

–Perdeu muito sangue e tinha a perna quebrada. Mandaram-no voando a um hospital para que o operassem. Um dos doutores de seu povo estava tentando reparar o dano. Viverá, mas não sei se poderão salvar sua perna.

Rachael colocou uma mão no ombro de Rio quando o escutou xingar em voz baixa.

–É forte, Rio.

–Nenhum homem quer perder a perna.

Passou os dedos pela nuca em uma suave massagem.

–Não, não querem. Tenhamos esperanças que não ocorra.

Esfregou seu rosto contra o braço de Rio, de forma similar a um gato demonstrando afeto.

–Kim, Rio me disse que um homem chamado Joshua foi ferido ontem à noite também. Ouviu algo a respeito dele?

–Vai estar em repouso um longo tempo, mas irá se recuperar.

–Por que seu pai o mandou até nós? – Perguntou Rio abruptamente.

–Há um grande grupo movendo-se através do bosque, Rio – A face de Kim era aberta e amistosa, mas havia um indício de sombras em seus olhos – Um homem veio a nosso povoado procurando o conselho de meu pai. Disse que precisava de ajuda, que fazia investigações médicas e estava procurando uma variedade de planta para seu trabalho. Conhecia todas as antigas tradições. Era muito respeitoso e deu de presente um arpão a meu pai.

Rio levantou a cabeça. Rachael podia ver seu cenho.

–Ele deu um arpão a seu pai?

–Era velho, muito velho. E era um dos nossos. Afirmou que o arpão tinha pertencido a sua família por duas gerações. Que foi dado em honra a seu avô por salvar a vida de um menino, e que se era devolvido, a dívida de honra seria saldada.

–Esse homem é um doutor?

Kim negou com a cabeça.

–Não acredito. Acredito que não está dizendo a verdade. Solicitou um guia e meu pai mandou Palha de Cereal com ele e depois me mandou te encontrar. Meu pai acredita que este homem está procurando Miss Rachael.

–Por que pensaria isso? – Perguntou Rachael – Perguntou por mim?

–Meu pai teve uma visão. Viu este homem parado ao seu lado com uma arma na mão. Mandou-me advertir Rio – Kim olhou para Rachael – Vejo dúvida em seus olhos, Miss Rachael. Não desmereça as visões de meu pai por não ter experimentado tais coisas. Manteve nosso povo a salvo por muitos anos.

–É um poderoso homem de medicina – Acrescentou Rio – Não deixarei que aconteça nada a Rachael, Kim. Obrigado por nos advertir. Andou um longo caminho. Entra e bebe algo. Posso preparar algo para comer.

Kim entrou na casa e olhou através da habitação para a cama desarrumada. Rachael notou que se ruborizava. Rio entrelaçou os dedos com os dela e atraiu sua mão para a boca, mordendo-a gentilmente com os dentes antes de depositar um beijo em seus nódulos.

–Este doutor tem um grande grupo com ele?

Kim assentiu.

–Muitos homens. Todos armados. Para que precisam de armas um grupo de investigação? Onde conseguiriam esse tipo de armas recém chegados ao país? Deve ter havido um intercâmbio de dinheiro, muito dinheiro, para que este homem pudesse ter estas armas ao seu dispor. Têm suficientes fornecimentos para várias semanas. A bagagem é do melhor. Quem quer que seja, tem dinheiro e não se importa gastá-lo. Não há mulheres com eles, e isso é um mau sinal. Todos os homens de seu grupo são guerreiros.

Rio levou a mão de Rachael ao coração. Ela não o olhou. Estava olhando o bosque através da porta. Havia saudade e tristeza em seu rosto. Captou o brilho de lágrimas em seus olhos. Rio pressionou a mão mais forte contra o peito.

–Isto não muda nada, Rachael.

–Muda tudo. Sabe que é assim. Sabe quem é ele. Nunca pensei que chegaria tão longe – Sua voz afogada pelas lágrimas.

–Rachael, este é meu mundo. Se tiver que…

–Não! Não se atreva a tocá-lo. Não se aproxime dele – Havia uma nota ferozmente protetora em sua voz – Não tem idéia do que sacrificou por mim. Com o que teve que lutar toda sua vida. Não se atreva a julgá-lo – Rachael se afastou e foi para a porta para parar-se no bordo do alpendre, olhando para o bosque.

 

Não havia nenhum modo de fazer que Rio a entendesse. Ninguém podia entendê-la. Rachael não estava segura de entendê-lo tampouco. O desespero a golpeou em fortes ondas. Sabia que não podia ficar com Rio. Tinha-o querido, tinha desejado compartilhar sua vida quase do primeiro instante que lhe falou. Não havia querido que acontecesse, mas tinha acontecido. Com Rio tinha vislumbrado o que poderia ser ter um verdadeiro companheiro com o qual compartilhar a vida. O companheiro de sua alma.

Fechou os olhos e permaneceu de pé na beira do terraço, escutando a cadência tranquilizadora da chuva. Aspirou o aroma do bosque. O bosque a chamava. Tentava-a com sussurros de liberdade. Não podia ter Rio. Aceitava isso. Não estava disposta a fazer que o matassem. Ninguém entendia o milagre que ele representava. Era um homem bom que se preocupava com os seus, pelo bosque, pelo lugar onde vivia. Era amável, nobre e compassivo. Para ela tinha sido um tesouro inesperado em meio desse belo lugar.

Quão único tinha dado em troca era perigo. Suspirou e fechou os dedos em torno do corrimão desejando expressar sua profunda dor. Não se atrevia a fazê-lo. Se começasse a chorar não ia poder parar nunca de fazê-lo.

A chamada chegou outra vez, e algo profundamente dentro dela respondeu, crescendo em poder. Até que o vento lhe acariciou a pele, não o compreendeu. A vida selvagem a chamava cada vez com mais força, rugindo-se em seu interior, insistindo para que a escutasse. Sua visão mudou, esclareceu-se, quebras de onda de dor alagaram sua visão. Raias de cor vermelha, amarelo e azul. Os aromas explodiram como borbulhas de informação. Distinguia o aroma de cada uma das flores e frutas, inclusive podia distinguir as criaturas nas árvores pelo olfato.

Sua pele começou a picar e a roupa a incomodava. Tirou a camisa e a jogou. Seus músculos já estavam se estirando. Sua coluna vertebral se encurvou e caiu ao chão do terraço. Encontrou-se estendida sobre o estômago olhando as pranchas de madeira do chão enquanto seu corpo parecia ter vida própria. O tecido arranhava sua pele. Desesperada, arrancou os botões. Só demorou um instante para tirar os jeans e desfazer-se deles. A dor em sua perna ferida se fez insuportável enquanto os músculos se contraíam, estiravam-se e se retorciam. Os ligamentos saltaram. Verdadeiramente podia ouvir o som que produzia seu corpo ao mudar.

A dor era esmagante. Sofria pelo que não podia ter. Mas tinha isto; seu outro eu. Lutando por ajudá-la, para liberá-la, por protegê-la da dor em um mundo que não podia controlar nem possuir. Picava-lhe a pele e os dedos se curvaram. A pele pareceu rasgar-se, o focinho se estendeu para dar capacidade aos dentes. As pernas se dobraram e estiraram, as panturrilhas doeram e os tornozelos ardiam. Umas garras curvadas saltaram de entre seus dedos, permitindo-lhe segurar-se ao chão de madeira.

Deveria ter estado assustada. Não era uma sensação agradável estar estirada no chão, com todos os músculos e tendões estalando e rangendo. Não se importou, deu boa vinda à mudança, à oportunidade de ser alguém diferente. Ter a oportunidade de ser algo mais. O bosque surgia com renovado vigor, um mundo novo quando ela carecia de nenhum outro. Quando não pertencia a nenhum lugar; o leopardo levantou a cabeça pela primeira vez e inspecionou seu reino. Os sons vinham de todas as partes. Informação que era transmitida pelos cabelos do focinho. Aromas e rangidos intrigantes. Em realidade discernia as distâncias entre um objeto e outro. Era apaixonante, emocionante inclusive.

Rachael se levantou cambaleante, voltou a cair e o tentou de novo. Estirou-se com frouxidão, sentindo a enorme força que recobria seu corpo como se fosse aço. Só tinha demorado um breve minuto, mas apreciou que tinha demorado toda uma vida em desfazer-se de seu outro eu. Deu uns cautelosos passos, assombrada, e caiu. Ouviu o murmúrio de umas vozes a suas costas e o aroma da gente alagou seus pulmões. O impulso de chamar Rio era forte, inclusive esmagante, e isso a fez vacilar. A tristeza a alagou, aguda e negra, consumindo tudo. Separou-o de sua mente. Não podia tê-lo. Com o coração palpitando saltou ao ramo de baixo. Sua perna ferida protestou, mas se manteve firme. Não podia fazer caso da aguda dor e se agarrou ao que o leopardo lhe oferecia.

As garras se cravaram na casca da árvore quando vacilou perigosamente, e logo sentiu o ritmo. O ritmo perfeito da natureza. A chuva, os pássaros, o rangido contínuo das folhas, o sussurro de seus músculos. Os batimentos de seu coração. Percebeu a força que fluía por ela como um presente. A alegria a alagou, substituindo o desespero e à angústia. Saltou do ramo que se bifurcava, notando como crescia o poder em seu interior. E logo estava sobre o chão do bosque, correndo com uma enorme alegria. Correndo para sentir seus músculos estirando-se e suas patas respondendo como se fossem molas quando saltava sem esforço sobre os troncos caídos das árvores. Mergulhou-se em atoleiros e riachos e saltou por cima de aterros que de outra forma teriam sido impossíveis de subir.

A luz do sol salpicava o piso em lugares e se tornou em cima dos raios, pegando com suas patas em folhas e agulhas de pinheiro, fazendo-os subir em uma ducha de vegetação. Perseguiu os cervos, subiu às árvores e correu por entre os ramos, incomodando os pássaros e enervando os gibones de propósito. Soltou uma borbulhante risada de alegria. Deu-se a volta para dizer a Rio. Recordava-o. Recordava a alegria de ter esta forma e estar correndo com ele. Compartilhando os caminhos florestais com ele. Esfregando seu focinho carinhosamente por sua enorme cabeça. Tinham compartilhado uma vida juntos, um amor intenso e a conseguinte atração sexual. Conhecia-o nesta forma do mesmo modo que o conhecia na forma humana.

Rachael se deteve de repente com o coração palpitando de terror. Estava sozinha. Rio não formava parte de sua vida e jamais poderia fazê-lo. Sem importar a vida que tivessem compartilhado em outro tempo e lugar, neste, não era possível. Ele não podia adotar a forma do animal abandonando seu lado humano como tinha decidido fazer ela. Tinha responsabilidades. Conhecia o bastante bem para saber que nunca defraudaria seu povo. A dor era uma pesada carga e ela o sentia da mesma maneira em ambas as formas. Saltou aos ramos de uma árvore alta, afastado de sua casa, apoiou a cabeça nas patas e chorou.

Rio escutou educadamente Kim, olhando de esguelha de vez em quando para a janela. Rachael tinha se afastado da porta aberta e ele já não podia vê-la. Parecia tão derrotada, não parecia Rachael. Quis ir com ela, pressentia que tinha que ir, mas Kim queria lhe falar da visão de seu pai, insistindo em sua importância, advertindo Rio de que algo não se encaixava no grupo que procurava plantas medicinais no bosque.

–Sabia todos os nomes de todas as plantas e suas propriedades – Explicou Kim com sua forma lenta e pensativa de falar – Meu pai não sabe por que teve essa visão quando está claro que o homem conhece bem os caminhos do bosque.

Rio deu um passo para a porta, movendo-se ligeiramente em um esforço por tentar ver Rachael.

–Muitos homens entram no bosque, conhecem os caminhos, mas não os respeitam, Kim. É possível que esse homem seja um deles. Pode ser um caçador clandestino que anda atrás da pele de algum animal ou dos elefantes?

Se tivesse mais informação poderia analisar melhor se algum problema se apresentasse.

Kim também avançou um passo.

–Pode. Tinha muitas armas.

–Palha de Cereal nunca o conduziria até aqui, sobretudo se a partida é um grupo de caçadores clandestinos. A dívida de honra não o permitiria.

–Não, mas se for algo mais que um clandestino, se sua aposta for maior, se tratar-se da mulher ou de você, Palha de Cereal não saberá até que seja muito tarde.

–Havia algo na visão de seu pai que indicasse que qualquer um de nós está em perigo? Se havia algo mais tem que me dizer isso Kim – Rio deu outro passo para a porta. Seu coração começou a palpitar e sua boca secou.

– Meu pai se inquietou tanto com o que viu que me enviou aqui. Não conseguiu interpretar de todo a visão. Pressentia que havia muito perigo, mas não sabia se era pelo homem, por você ou pela mulher. Disse que devia vir a te avisar.

–Obrigado, Kim, diga a seu pai que o felicito, que aprecio sua advertência e que lhe darei atenção.

Na terraço tudo estava muito tranquilo. No bosque se fez um repentino silêncio e logo as criaturas começaram a avisar-se desesperadamente. Rio ficou rígido, xingou baixo, eloquentemente e repetidamente.

–Foi embora – Pronunciou essas duas palavras para prová-las. Para acreditar. Uma cólera tormentosa se apoderou dele, transtornando-o, destrutiva e irracional. O esperava – Rachael – Pronunciou seu nome como se fosse um talismã, para que o ajudasse a pensar, a devolver o engenho agora que precisava manter a mente fria.

–O que acontece, Rio? – Perguntou Kim, recuando um passo. Reconhecia o perigo quando o via, quando o sentia. A cara de Rio era uma máscara, o brilho dos olhos e o perigo emanava de cada poro de sua pele.

–É Han Vol Dan. Maldição, foi direto para o Han Vol Dan. Sua perna ainda não está curada. Disse-lhe que não o fizesse, mas tem que fazer o que dá vontade, tanto se for lógico como se não – Estava furioso. Completamente furioso. Não tinha nada a ver com o medo dela, era por sua segurança, por sua perna ferida ou porque podia tê-la perdido. Ou podia ser que o tivesse abandonado. Apertou os punhos com força, tentando afastar o rugido de sua cabeça – Não está segura no bosque.

Kim simplesmente o olhou.

–Tem descoberto seu verdadeiro eu. Saberá cuidar de si mesma.

–Não é tão simples. Não podemos permanecer na mesma forma muito tempo –Rio se desprendeu dos jeans a toda velocidade – Obrigado pelo aviso. Permanece longe desse homem. Se for quem acredito que é, é muito perigoso. Agradeça a seu pai. Boa sorte, Kim – Estava sendo descortês como um homem educado na tradição, o ritual e sobretudo a cortesia, por não se importou. Quão único importava era encontrar Rachael e trazê-la de volta sã e salva.

–Boa caça – Kim olhou para outro lado, com educação, enquanto Rio saltava aos ramos mudando de forma ao mesmo tempo, tirando as garras para segurar-se.

Começou a seguir os sons e os silêncios do bosque. Conhecia cada árvore de seu reino. Ia encontrá-la. Tinha que encontrá-la. O mau humor do leopardo formou redemoinhos, o fazendo duplamente perigoso, de modo que os animais se separavam de seu caminho imediatamente, ao perceber seu estado de ânimo.

Quase voou através das árvores, saltando ramos e arbustos. Só se permitiu levantar a cara e farejar o vento. Não havia sinais de pessoas em seu território, mas isto não significava que não viessem. Thomas estava obrigado a enviar um grupo atrás dele. O fazia de vez em quando, esperando encontrar sua casa. Os caçadores clandestinos frequentemente vinham à área, penteando os bosques da Malásia, Borneo e Indochina em busca de ursos malaios, leopardos, elefantes e inclusive rinocerontes, o mais protegido de seus animais. E também vinham equipes de investigação. Ecologistas. Veterinários que rastreavam os elefantes e os contavam. E a última partida de investigadores provavelmente não eram tais. Moveu-se furtivamente pelo bosque, sabendo pela linguagem das árvores e do céu, que ela não estava muito longe, diante dele.

Saltou sobre os mesmos troncos caídos, inalando seu aroma, chapinhou pelos mesmos riachos. Viu as marcas nas folhas. Sabia o que estava sentindo ela, a alegria indescritível de liberdade para os sentidos, dando liberdade à natureza selvagem e dominante. Era uma tentação viver selvagem e sem responsabilidades. Cada um deles tinha que enfrentar o chamariz do bosque e aceitar o que eram. Nem um nem o outro, se não ambas as coisas. Uma espécie capaz de trocar de forma, com obrigações e responsabilidades.

Pisou suavemente pelas árvores, sabendo que estava cortando a distância que o separava dela. Seu aroma era embriagador, provocador, muito de Rachael. O bosque foi ficando em silêncio enquanto as sombras se alargavam. Tinham dormido boa parte do dia e agora estava caindo o crepúsculo. Queria encontrá-la antes que a sedução da noite pudesse tocá-la.

Rio sentiu sua presença muito antes de vê-la. Estava na forquilha formada por dois ramos, relaxada e elegante e tão atraente em sua forma de leopardo como o era na humana. Ela se sentou em silêncio, evitando olhá-lo, com os olhos perdidos, mas soube que estava concentrada. Tinha as orelhas erguidas, alertas e seu corpo estava tenso. Ele abriu bem os olhos e jogou as orelhas para frente, arqueando as costas enquanto se atirava em cima de um montão de folhas e raminhas, as dispersando em todas as direções. Para atraí-la levantou a cauda enquanto saltava para ela, caindo em cima e mantendo a cauda em posição de gancho.

Um instinto por muito tempo enterrado recordou o brincalhão convite. Rachael se levantou devagar e, sem fazer caso do batimento do coração de advertência de sua pata, saltou ao chão. Imediatamente o grande leopardo macho se aproximou o focinho esfregando seu corpo menor, com o seu. Ela colou seu nariz com o seu e lambeu sua pele. As sensações pareceram assombrosas, inclusive a rugosa língua lhe proporcionava informação.

Deu a volta e pôs-se a correr, olhando por cima de seu ombro em um óbvio convite para que a perseguisse. Ele o fez rapidamente, convertendo-se em um borrão em movimento, quase chocando-se contra ela quando ficou a seu lado, obrigando-a a correr em outra direção. Rachael, metida no corpo do leopardo, Rio e passou por debaixo de uma árvore caída, esperou que se reunisse com ela, ele a investiu. Rodaram sobre a suave vegetação, voltaram a levantar-se e puseram-se a correr outra vez. O macho a golpeou com os ombros várias vezes, para que corresse na direção escolhida por ele.

Meteram-se os dois em atoleiros, fazendo saltar gotas de água. Fuçaram-se um ao outro junto a um enorme frutífero com cem morcegos os olhando de acima. Os dois leopardos chegaram à sombra das altas árvores e perseguiram uma manada de cervos. Ele esfregava continuamente seu corpo com o dela, fuçando e lambendo sua pele, obrigando-a a seguir movendo-se quando ela tivesse desejado deitar-se.

A perna ardia e ofegava por tanta diversão e brincadeiras. Tentou deitar-se sobre a terra duas vezes, para indicar seu desejo de algo mais. As duas vezes o ombro mais forte do macho, golpeou o seu. Grunhiu, devolveu o grunhido e a empurrou até quase derrubá-la. Era muito forte. Rachael começou a sentir desconfiança. Estava coxeando e fazendo todo o possível por não apoiar-se na pata ferida. Apesar de tudo, ele seguiu empurrando-a. Olhou a seu redor e se deu conta de que conhecia a área. Rio a tinha levado para casa.

Começou a dar voltas, grunhindo, separando as orelhas, golpeando-o com a pata. Ele se afastava veloz como um raio, dançando longe dela e depois separando-se, golpeando-a com as patas até que ela se deitou tentando recuperar o fôlego. Imediatamente ele esteve em cima, sujeitando-a, com os dentes em seu ombro. Continuou mantendo-a quieta e esperou.

Rachael sabia o que queria. O que exigia dela. Queria que voltasse para sua forma anterior. Grunhiu com teimosia, mostrando a ele os dentes para demonstrar sua irritação. Essa posição submissa a incomodava, mas além disso a fazia sentir-se vulnerável e temerosa. Tentou aguentar mas sabia que ele não ia desistir. Mordeu-a no ombro com maior força, seu quente fôlego lhe acariciou o pescoço.

Furiosa, Rachel procurou sua inteligência, seu cérebro humano, seu corpo humano. Podia ser que Rio fosse superior a ela na forma de leopardo macho, mas não podia dominá-la sendo ela uma mulher. Deveria ter se dado conta de que estava voltando para casa. Deveria ter sabido o que estava pensando e deveria ter tomado medidas para detê-lo.

Já podia sentir o princípio da mudança. Não o desejava. Não queria voltar para a forma humana e enfrentar o que ia ser seu futuro, não depois de ter se deslocado livre pelo bosque; mas já era muito tarde. Notou-o primeiro na cabeça. A necessidade de ter seu corpo humano. Notou como contraíam os músculos e a repentina queimação na perna. Ouviu que um grito escapava de sua garganta, meio humano, meio animal, enquanto a dor de seu ombro ia aumentando.

Rio a liberou imediatamente, mas não cometeu o engano de afastar-se. O enorme leopardo permaneceu sobre ela até que ela terminou com o milagre da mudança e ficou deitada debaixo dele em forma humana. Estava de barriga para baixo na terra, com os ombros tremendo ligeiramente, e ele soube que estava chorando. Tocou-a com o focinho para tranquilizá-la.

Rachael se afastou, fuzilando-o com o olhar, com os olhos lançando brilhos de fúria. Golpeou o leopardo macho, sem se importar que este pudesse arrancar a garganta. Sem se importar que os leopardos fossem famosos por seu mau caráter. Rio se separou dela de um salto, trocando de forma ao mesmo tempo e segurando seus braços quando foi por ele. Caíram os dois ao chão, imobilizando-a de modo que seu corpo, maior, apertasse o dela contra o grosso tapete de vegetação.

–Acalme-se, Rachael – Conteve uma risada. Os últimos raios de sol atingiam seu rosto, fazendo brilhar suavemente o suor de seu corpo. Folhas e ramos decoravam os revoltos cachos e estava rodeada de uma brilhante aura. Irradiava força e sensualidade. Não podia evitar vê-la assim. O fazia feliz inclusive agora, que era evidente que desejava lhe arrancar os olhos – De verdade pensou que ia me esconder em um buraco e viver uma vida miserável sem você? Que tipo de homem acha que sou?

–Um idiota, isso é o que é – Cuspiu, embora suas palavras provinham de sua ira. Odiava-o, odiava que pudesse fazer desaparecer sua cólera com algumas palavras doces, uns olhos brilhantes, tão famintos quando a olhava, e sua boca pecaminosamente ardente – Maldito seja, Rio – Rodeou o pescoço com os braços e o beijou.

Um relâmpago atravessou suas veias, percorreu sua corrente sanguínea. Estava vivo de novo, seu coração pulsava e funcionavam os pulmões. Levantou a cabeça, seus olhos verdes ardiam em sua cara.

–Maldita seja você, Rachael. Abandonou-me. Fez-me sentir e depois me deixou. Nem sequer teve a coragem de discutir isso comigo primeiro. Maldita seja por isso – Segurou sua cabeça e a devorou. Um beijo atrás de outro.

Ela degustou sua cólera. Era quente, picante e feroz. Degustou seu amor. Tenro, faminto e intenso. E queria tê-lo. Sempre. Para sempre. Todo o tempo que pudesse.

Rachael se deitou sobre as agulhas de pinheiro olhando seu adorado rosto.

–Sinto-o Rio. Não queria te fazer mal. Deveria ter tido a coragem de falar com você. Pensei que poderia viver aqui, no bosque, com minha outra forma. Apreciou-me que eles não poderiam me encontrar se estava na forma de leopardo. Ao menos poderia seguir estando perto de você.

Ele sacudiu a cabeça.

–Se você for uma de nós, seu irmão também é. O franco-atirador que se chamava Duncan, deve ter sido ele quem pôs a cobra em seu quarto antes que seguisse o rio. E deve ter sido ele quem tentou matá-la há algumas noites. Transformou-se em leopardo. Só alguns de nós em todo mundo podemos fazer algo assim. Tinha que saber que você podia. Foram trazer caçadores que finalmente a matariam. Não podemos fugir assustados. Se há algo que aprendi nesta vida é que temos que ser mais inteligentes.

As agulhas cravavam na pele nua. Levantou-se com cuidado. Era mais fácil andar pelo bosque em forma de leopardo que em forma humana.

–Não quero que sofra.

–E acha que seu irmão tentará me fazer mal? – Segurou-a pela mão, puxando-a até que o acompanhou até a casa. Tirou-lhe raminhos e folhas do cabelo e os jogou.

Deu a ele um pequeno sorriso.

–Sinto-me um pouco como Adão e Eva.

Sua mão apertou as suas.

–Tem que se dirigir a mim antes que a ele. Não quero fazer mal, mas tem que me dar algo com o que trabalhar, Rachael. Ou confia em mim ou não.

Ela estava de pé junto ao tronco da grande árvore, olhando a taça entre a qual se ocultava sua casa.

–Acha que é um assunto de confiança?

Ele apoiou a palma de sua mão sobre seu traseiro, ajudando-a a subir os ramos inferiores. Ela escalou usando as plantas trepadeiras que penduravam como lianas. Rio se manteve afastado, olhando seu corpo, os músculos, as curvas e os espaços. Tinha um lindo traseiro. Sorriu abertamente enquanto saltava com agilidade ao ramo inferior, agarrou a planta trepadeira pondo as mãos por cima das dela e encaixotando seu corpo entre o seu próprio e o tronco da árvore. Apertou-se contra ela, imitando a atitude de um felino dominante, beliscando o ombro com os dentes e lançando o fôlego à nuca.

–Sei que é um assunto de confiança.

Em vez de afastar-se ou ficar rígida como ele esperava que fizesse, Rachael se recostou contra ele, esfregando seu traseiro contra sua excitação.

–Confio em você, de verdade. Confio até a vida a você. Estou aqui contigo. Escolhi-o. Sempre o escolhi.

E o tinha feito. Sabia. Sempre tinha escolhido a ele e sempre o escolheria.

–Você não o sente Rio? Sempre estivemos juntos. Sei. Em outra parte, em um lugar melhor.

Ele moveu a cabeça, empurrando-a até a casa.

–O lugar não era diferente Rachael. Sempre houve sangue e balas e coisas às quais temer. Mas enfrentamos juntos a elas. Isso é o que fazemos. Vivemos nossa vida o melhor que podemos, unidos, enfrentando ao que se interpõe em nosso caminho.

Ela subiu até a varanda. Sua roupa estava em um montão no lugar onde se despiu. Recolheu a camisa, a entregou.

–Quero-o, Rio. Sei que tem feito coisas horríveis. As pessoas pensam que é um monstro e que eu devo ajudá-los a destruí-lo. Mas não posso. Não o farei. Sei o que o fez ser como é – Vestiu a camisa muito devagar. Rio a fechou. Ao parecer tudo levava a Rio – De verdade pensa que estivemos juntos em outro tempo?

Seus verdes e brilhantes olhos a olharam.

–Você não?

Ela se apoiou contra a cadeira e sorriu.

–Acredito que é lindo, Rio. Também então o pensava, fosse onde estivermos. Recordo-o muito bem.

Aproximou-se até colar seu corpo com o dela. Largos e musculosos ombros e uma força incrível. Segurou-a pelo queixo e inclinou seu rosto sobre o dela. Em seus olhos não se via nenhum sorriso.

–Não volte a fazer isso. Não me abandone. Foi como se me arrancasse o coração com as mãos – Se sentiu estúpido ao dizê-lo. Não escrevia poesia e não conhecia nada sobre o amor, mas tinha que encontrar a forma de obrigá-la a entender a enormidade do que tinha feito.

Ela levantou a mão para acariciar seu rosto, com ternura.

–Não o farei, Rio. Se você estiver disposto a se arriscar, ficarei aqui, com você –Se afastou quando ele estendeu uma mão para ela – Quero que saiba tudo antes de decidir.

–Rachael – Pronunciou seu nome com reverência – Já decidi. A desejaria em minha vida em qualquer circunstância. Deito a seu lado pelas noites e me pergunto se a amaria embora não pudéssemos voltar a fazer sexo. Tenho que te confessar que o sexo com você é assombroso. Eu adoro e penso muito nisso.

–Pequena surpresa! – Esboçou um pequeno sorriso.

–O assunto é que a quero em minha vida e em minha cama. Quero suas risadas e seu caráter. É você, não seu passado; nem sequer seu corpo por mais fascinante que seja – Sua mão roçou a curva do seu seio – E não é que o queira diferente.

–Meu irmão e eu herdamos um império da droga.

Seu olhar permaneceu fixo em seu rosto. Sentiu como se tivessem dado um murro no estômago, mas não se estremeceu. Não mudou de expressão. Ela o esperava. Esperava a rejeição. Que se rebelasse. Ele nem sequer piscou.

Ela esperou em silêncio sua reação. Sua repugnância. Sua boca secou pelo medo de perdê-lo mas continuou falando. Tinha que sabê-lo. Merecia a verdade. Rachael estendeu as mãos ante ela.

–A realidade é pior do que se vêem nos filmes, Rio. Estão nos campos, os trabalhadores e os laboratórios. A provisão de cocaína é infinita. Há armas, assassinatos e traição. Vivemos em uma casa que tem tudo o que o dinheiro pode comprar. Usamos a melhor roupa e temos as melhores jóias. Os carros são rápidos e potentes e o modo de viver é decadente. Podemos ter tudo o que desejamos. Sobretudo se você esquece dos guarda-costas e os guardas nas portas. Se passar por cima a corrupção dos funcionários e a vigilância nos apartamentos e os assassinatos quando algum pobre tenta roubar para alimentar a sua família. Quando pode ignorar aos viciados e às mulheres que vendem seus corpos e a seus filhos. Se puder fazer isso, então suponho que é uma vida maravilhosa.

Separou-se dele, incapaz de sustentar seu olhar. Não podia nem olhar a si mesma.

–Essa é minha herança, Rio. É o que acabou com meus pais – Rachael mediu procurando a cadeira que estava a suas costas. Sua perna ardia e doía por ter abusado dela, mas não era isso o que fazia que suas pernas tremessem - Meu irmão me disse que nosso pai se apaixonou por nossa mãe e que quis se retirar do negócio. Quando ela soubesse, abandonaria-o, de modo que queria ser legal. Não tenho nem idéia de porque saímos da América do Sul, mas permanecemos tendo propriedades ali e na Flórida. – Se afundou na cadeira, agradecida por poder descansar a perna – Suponho que pensou que as coisas podiam ser diferentes na Florida, mas o negócio também estava ali. Fizesse o que fizesse, não podia mudar nada.

Rio preparou uma xícara de suco. Podia ver a dor que a consumia. Duas crianças pequenas lançadas em meio de um mundo cheio de violência. Conhecia as estritas regras da sociedade em que sua mãe tinha crescido. Deve ter tentado educar seus filhos sua ética, sua honra e sua integridade. Entregou-lhe a bebida e sentou no chão, tomando a perna ferida entre suas mãos.

Rachael olhou seu rosto. Não viu que a estivesse condenando. Na expressão de seu rosto só havia aceitação. Seus olhos estavam cheios de compaixão e teve que afastar a vista deles. As lágrimas queimavam, desejando sair. Não se atrevia a começar a chorar. Temia que se o fizesse não fosse capaz de deter-se nunca.

Bebeu uns goles do frio néctar, tentando pensar como dizer o que ia dizer. Nunca tinha contado a ninguém. Aas pessoas morriam por ter a classe de informação que tinha. Os dedos de Rio eram suaves enquanto lhe acariciava a perna, levantando-a para examinar as feridas de presas. Suas mãos eram seguras e não tremiam, e o coração deu um pequeno tombo. Acariciou-lhe a parte de cima da cabeça, o grosso cabelo.

–É um bom homem, Rio. Não permita que nem os anciões nem ninguém te diga o contrário.

Dizia isso de todo coração. Rio se inclinou para pressionar seus lábios na cicatriz maior.

–O que te aconteceu Rachael? O que aconteceu a seu irmão?

–Os negócios o controlavam, A meu pai e meu tio Armando. Eram gêmeos, sabe? Pensávamos que eram muito unidos. Passávamos muito tempo com ele e devia jantar conosco continuamente. Tratava Elijah como se fosse seu próprio filho. Inclusive o levava às partidas e aos Everglades. Acreditávamos que gostava de nós. Certamente agia como se assim fosse. Nunca ouvi que Armando e Antonio brigassem. Nenhuma só vez. Sempre estavam se abraçando, e pareciam fazer isso de coração.

Rio elevou a vista quando ela guardou silêncio outra vez, olhando a xícara com o cenho franzido. Esperou. Fosse qual fosse o trauma que ela tivesse sofrido, tinha paciência suficiente para esperar o final da história. Estava confiando a ele coisas que ninguém mais sabia.

Rachael suspirou, jogou uma olhada para a porta. As janelas.

–Está seguro de que ninguém pode ouvir-nos? – Perguntou em voz baixa, com um sussurro fantasmal e em um tom ligeiramente infantil – Em nossa casa sempre fazem varreduras para eliminar os dispositivos eletrônicos. Às vezes inclusive duas e três vezes no mesmo dia. E Elijah os obrigava a fazer varreduras em todos os carros para evitar que estalem quando nos metermos neles.

Rodeou-lhe o tornozelo com os dedos, querendo tocá-la. Desejando proporcionar segurança.

–Deve ser terrível viver assim, pensando sempre que alguém quer vê-lo morto.

–Tinha nove anos quando entrei em uma sala e vi que estava assassinando meus pais. Armando apunhalava seu irmão uma e outra vez. Minha mãe já estava morta. Tinha cortado sua garganta. Não havia nem um só lugar na sala onde não houvesse sangue.

Rio pôde notar que já não estava com ele, voltava a ser uma menina, entrando inocentemente em um quarto, possivelmente de volta da escola e desejando mostrar algo a seus pais. Apertou os dedos para apoiá-la.

–Levantou a vista e me viu. Gritei. Lembro que não podia deixar de gritar. Por muito que o tentasse não podia deixar de fazê-lo. Aproximou-se de mim com a faca. Tinha sangue por toda parte, no corpo e nas mãos. Foi então quando deixei de gritar. Sei que teria me matado. Não podia fazer outra coisa. Eu era uma testemunha. Tinha visto como os assassinava.

–Por que não o fez?

Parecia como se estivessem arrancando os dentes. Revelava algo e logo se calava. O trauma era profundo e não ia desaparecer nunca. Sabia que não podia ter sido melhor nos anos posteriores com a promessa de um milhão de dólares por sua cabeça.

Rio a levantou, sentou-se na poltrona e a embalou em seu colo. Rachael se aconchegou contra ele, procurando a segurança e a comodidade de seus braços. Escondeu o rosto em sua garganta.

–Entrou Elijah. Ele desejava mais Elijah vivo que a mim morta. Armando não tinha família, ninguém que pudesse se encarregar de seu império e que continuasse com seu trabalho. Ganhou Elijah com pequenas coisas, lhe deixando ver quão importante era para ele. Permaneceu ali de pé, com o sangue de meus pais formando um atoleiro a seus pés, apoiando a faca em minha garganta, e disse a Elijah que a escolha era dele. Ou lhe jurava lealdade e se transformava em seu filho, ou me matava ali mesmo.

–E Elijah decidiu mantê-la viva.

Ela não podia olhá-lo.

–Nossas vidas eram um inferno, sobretudo a de Elijah. Armando quis que Elijah sujasse as mãos com tanto sangue que nenhum dos dois se atreveria a ir a policia –seus olhos estavam cheios de lágrimas – Eu sabia que Elijah o estava fazendo isso por mim, para me manter com vida, mas não estava bem. Não o estava. Deveria ter me deixado morrer. Eu deveria ter tido a coragem de salvá-lo.

–Fazendo o que? Morrer? – Voltou suas mãos para passar o polegar por cima das cicatrizes de seus pulsos, umas cicatrizes que ele nunca tinha mencionado – Não podia permitir isso. De maneira que se uniu ao homem que assassinou os seus pais.

–E aprendeu com ele. E se tornou mais forte, mais poderoso, mais frio e mais distante cada dia.

Rio notou que as lágrimas molhavam a pele. Rachael estremeceu.

–Sempre estivemos muito unidos, mas de repente começamos a ter umas discussões terríveis. Elijah se tornou muito reservado. Não me permitia deixar o complexo. Sempre para que alguém estivesse comigo e todos meus amigos desapareceram.

–Estava se separando de seu tio. Começando uma guerra.

–Eu tive um amigo, Tony, o irmão de uma amiga. Apenas conhecíamos um ao outro. Conheci-o em sua casa. Tinha retornado à cidade fazia pouco. Fiquei com ele algumas vezes e sempre terminou mau. A primeira vez resultou ser uma emboscada, e a outra soube que o homem com o que tinha ficado tinha sido pago por Elijah para me levar para sair – A humilhação a impedia de falar – Não acredito recordar a nenhum homem que se interessasse em mim como mulher. A policia queria ter informação para apanhar Elijah, e me parece que lhes ocorreu enviar um agente secreto para que eu me apaixonasse. Armando queria voltar a aproximar-se de Elijah para poder matá-lo. Estava furioso, muito furioso com Elijah. Fez tudo o que pôde para tentar assassiná-lo.

–Me fale sobre desse homem.

Evitava olhá-lo. Agora Rio já a conhecia, distinguia o mais leve sintoma de agitação e angústia. Se aconchegou mais contra seu corpo, tremendo, ofegando com desespero.

–Não falei de Tony para Elijah porque sabia que nunca me permitiria sair sozinha com ele. Não podia ir a nenhuma parte sozinha. Parecia um homem agradável. Sua irmã Marcia e eu, fomos boas amigas. Foi viver com ela e quando fui visitá-la, estava ali. Ao princípio só falávamos, jogávamos Scrabble, esse tipo de coisas. Somente queria ser normal umas horas, ter um lugar onde não era a irmã de Elijah Lospostos. Onde ninguém levasse armas e conspirasse para matar a alguém.

Passou as mãos pelo cabelo.

–Não estava apaixonada por Tony. Não dormia com ele nem contava nenhum segredo. Nunca teria traído Elijah. Nunca ia abandoná-lo. Estive com ele todos esses anos enquanto o obrigavam a fazer coisas terríveis. Não posso nem contar as vezes que Armando me ameaçou. As vezes em que me colocava uma arma na boca e gritava para Elijah, a quantidade de vezes que desejei que apertasse o gatilho só para deixar de ver a dor e a raiva no rosto de Elijah. Foi uma vida horrível até que Elijah foi o bastante forte para rebelar-se contra ele. Mas Armando escapou. E depois começou a guerra e tudo voltou a ser um inferno.

–Por que ia se opor Elijah ao irmão de sua amiga?

–Não sei, mas não quis que Tony conhecesse essa parte de minha vida. Marcia não sabia. Conhecemo-nos um dia na biblioteca, terminamos tomando café e nos fizemos boas amigas. Ela não sabia quem era eu e não quis dizer. Era uma mulher agradável com uma família agradável.

–O que fazia?

–Graças a Deus é professora de escola. Dá aulas de ciências no sexto grau. Ia vê-la tão freqüentemente como podia. Sua casa era como um santuário para mim. Elijah sempre mandava alguém comigo, mas ficava esperando fora, no carro. Marcia pensava que eram meus choferes. Brincou sobre isso alguma vez. E logo seu irmão foi viver em sua casa. Cheguei a conhecê-lo e era agradável como ela. Um dia me perguntou se queria ir ver uma exposição em um museu de arte. Gostava de muito de arte. – Inclinou a cabeça – Eu disse que sim.

Uma repentina frieza atravessou o corpo de Rio. Sabia o que vinha agora. A morte era como uma sensação, uma presença. Estava na casa. Estava em seus olhos. A angústia de seu olhar não tinha desaparecido. Apertou-a mais e a balançou tentando lhe transmitir uma sensação de paz e consolo. Haviam sido traídos.

–E seu irmão a descobriu.

 

Rachael inspirou profundamente e exalou devagar.

–Fui à casa de Marcia e havia guardas no exterior. Tony e eu subimos no carro de Marcia e fomos. Inclinei-me como se estivesse procurando algo quando passamos diante dos guardas para que não me vissem. Durante umas poucas milhas pensei que estava a salvo. Quão seguinte soube, é que estávamos em meio de uma perseguição com carros em ambos os lados. Eram homens de Elijah, não de Armando. Reconheci a todos. Obrigaram-nos a sair da estrada. Elijah abriu a porta e me tirou para fora. Gritavam por toda parte e de repente Elijah esvaziou a arma em Tony – Cobriu a cara com as mãos.

Seus soluços eram dilaceradores, e provindo de uma mulher com uma tremenda coragem e controle, eram ainda mais terríveis. Rio permanecia com a cabeça contra a sua como balançando-a, com a mente trabalhando a toda pressa, tentando entender porque seu irmão a queria morta depois de trocar sua honra para mantê-la viva.

–Não podia acreditar o que tinha feito. Havia tanto sangue. Tudo ao monte. Tudo o que Elijah fazia era por mim. Estava tão zangado. Sacudiu-me repetidas vezes me dizendo que deveria ter posto a arma em minha cabeça.

Tantas emoções o devoravam que Rio não sabia que estava sentindo. Parte dele queria chorar por ela. Parte dele estava tão zangado que queria perseguir seu irmão e a seu tio.

–Rachael, sestrilla. Fez bem vir até aqui, a mim, a sua casa onde pertence. –Tomou seus pulsos e levou as cicatrizes para sua boca – Aqui, comigo. Cada manhã os pássaros cantarão para você. A chuva tem belas canções e as tocará para nós. Este é seu mundo – Se sentiu como um maldito tolo pronunciando estas palavras, ainda tão humilhado que teria aceitado seu violento passado. Ela podia expô-lo que tinha feito e não julgá-lo duramente depois de tudo o que tinha passado. Teria recitado um poema se tivesse sabido algum, só para aliviar seu sofrimento.

–Elijah nunca deixará de me procurar. – Tomou seu rosto entre as mãos – Teria que saber disso depois de todos estes anos. Brigou duro trabalhando às costas de Armando para nos liberar. Era uma vida tão terrível, sempre ao fio da morte. Caminhava por essa fina linha todos os dias. Sussurrando juntos, nos passando notas que queimávamos para que ninguém soubesse o que planejávamos. Estava sempre entre meu tio e eu.

–Teve que ser difícil.

–Não tivemos vida. Ainda estávamos na escola, mas não podíamos levar amigos para casa. Não podíamos ter amigos. Não podíamos confiar em ninguém, só em nós. Não houve encontros nem bailes. Vivíamos com um medo constante. Às vezes, se Armando acreditasse que Elijah não se encarregava dos negócios, ele e seus homens irrompiam em nossos quartos no meio da noite. Arrastavam-me ao quarto de Elijah colocando uma faca na minha garganta ou uma pistola na minha cabeça. Elijah era tão tranquilo. Nunca chorou. Nunca se aterrorizou. Olhava para eles e a mim e então dizia a Armando: O que quer que faça? – Isso era tudo. E fazia o que fosse.

–Por que se envergonha?

–Vendeu drogas. Estou segura que assassinou. Era tão lindo, tão cheio de risadas. Nunca sorri. Não tem nada na vida. Tudo por mim. Tudo em pagamento de minha vida. Teria estado melhor se tivessem me matado também. Seria livre. Poderia escapar. Tem a destreza de um camaleão. Nunca o encontrariam se estivesse só.

–Deve ser extraordinário, inclusive de adolescente. Eu gostaria de conhecê-lo. Possivelmente poderíamos resolver isso.

–Mas não vê por que não quero que se aproxime dele? Já não é meu Elijah. Tornou-se alguém a quem não conheço. Alguém sinistro, perigoso e retorcido. Não posso dizer que seja malvado. Sei que está tentando sair do negócio da droga e vender as companhias ilegais. Prometeu-me que o faria. Nossos nomes estão nessas companhias. Possuímos tudo conjuntamente.

–Então se morrer, tudo passa a ser dele.

Rachael assentiu.

–Não me mataria por dinheiro, Rio, se for isso o que está pensando. Sei que não o faria. Nunca olhei os livros. Inclusive não tenho carro. Não me preocupa o dinheiro e ele sabe.

–É possível que Elijah pague uma recompensa para mantê-la viva e seu tio é o que tem os assassinos a salário para matá-la? Isso teria mais sentido. Teve uma briga com Elijah e te disse coisas bastante duras, mas por que quereria, de repente, seu tio mantê-la viva? Não vale grande coisa para ele se não puder utilizá-la para ameaçar Elijah.

Guardou silêncio por muito tempo, mas sentiu como se relaxava um pouco.

–Não posso pensar nisso. Não posso acreditar enquanto Elijah acaba de disparar em Tony justo diante de mim. Estava tão zangado. Nunca o tinha visto assim. Sempre sob controle, sempre tão calmo na linha de fogo.

–Então não agia assim sempre?

–Agora parecia perigoso. Realmente ele é. Não posso descrever isso mas nunca me tinha parecido isso. Estávamos tão unidos e então começou a me afastar. Não queria falar sobre os negócios. Não queria responder a minhas perguntas sobre Armando. Insistia que ficasse em casa, dentro, longe das janelas.

–Possivelmente temia por sua vida.

Suspirou e alcançou a bebida da pequena mesa onde a tinha deixado. O suco parecia frio e refrescante em sua dolorida garganta.

–Sempre temíamos por minha vida. Vivíamos com medo, era nossa forma de vida.

–Pensou que me contando quem era você e sua família, que não quereria saber nada de você? Rachael, como pôde pensar isso? – Segurou sua face na mão, deslizando o polegar sobre sua alta maçã do rosto.

–Se tivesse tratado de ir à polícia…

–Por que não o fez?

–Por duas razões. Armando tem policiais trabalhando para ele e não sabemos quem são, e é óbvio, Elijah está muito envolvido em seus negócios. Assim é como Armando conseguiu apanhá-lo. Se sujar Elijah bastante, nunca conseguirá escapar e eles se necessitariam mutuamente. Armando esteve disposto a matar seu irmão, mas sinceramente quer ao filho de seu irmão. Não tem nenhum sentido para mim. Nunca o entendi. Não trairia Elijah por nenhum motivo.

–E acha que não a perdoaria por isso? Não há nada que perdoar, Rachael – Rio levantou a cabeça tomando fôlego – Sabe. Seu tio sabe que sua mãe era uma mutante e teve conhecimento sobre seu irmão.

–Não acredito que meu irmão...

–Disse-me que estavam muito unidos, Rachael. Antonio e Armando. Se Antonio descobriu que sua esposa era uma desalojada e se mudaram para América do Sul para protegê-la dos anciões, possivelmente confiou em seu irmão. Por que não? Antonio poderia haver contado a seu irmão gêmeo por que tinha que mudar a sua família da Florida tão rápido, especialmente se precisava de ajuda ou se deixava a gestão das plantações ao Armando ou contratou alguém.

–Suponho que sim. Mas não sei se meu irmão pode mudar de forma. Por que não me disse isso? Falávamos muito sobre mamãe e papai. Não era isso uma grande parte de informação para omitir?

–Não se era para te proteger. Diz que seu tio saía com ele a sós. Passavam grande quantidade de tempo nos Everglades. O que faziam ali?

Ela se encolheu de ombros.

–Honestamente não sei. Era pequena. Pensava que estavam pescando, mergulhando ou observando jacarés. Nunca retornou aborrecido.

- Se fosse um menino e pudesse correr livre nos Glades, mudando de forma e se transformando em algo tão poderoso como um leopardo, não o faria? E se fizesse coisas para seu tio, como recolher pacotes, não mereceria a pena? Armando teria se dado conta do potencial de semelhante dom. Teria um assassino adestrado, tão silencioso e mortífero que quando fosse ninguém o veria. Podemos nadar largas distâncias e entrar em lugares onde os humanos não podem. Ao princípio Elijah teria dado a boa vinda às viagens. Haveria sentido a liberdade de correr e converter-se como algo tão poderoso. Pode ver isso?

Rachael pensou em como se sentiria na forma de tão poderosa criatura. Um adolescente encontraria a experiência extremamente excitante, embriagadora e aditiva. Se acrescentarmos a emoção do segredo, teria sido muito para um menino deixar escapar a oportunidade.

–Recordo-o vindo para casa tão excitado depois de suas viagens com Armando que mal podia conter-se. Encerrava-se em seu quarto e tocava desenfreadamente durante horas.

–Provavelmente seu tio o estava treinando, mas Elijah não sabia que era o que levava, ou fazia. Era só um jogo. Amava e confiava em seu tio. Encontrar seus pais assassinados deve ter sido um terrível golpe para ele. Amava Armando e ao final teve que dar-se conta do que era e fazia seu tio. A culpa teve que ser insuportável.

Isto trouxe um novo fluxo de lágrimas. Rachael se grudou a ele, chorando por seu irmão perdido, por sua infância, por todas as coisas que tinham feito e não podiam mudar. Rio a segurou entre seus braços, oferecendo conforto e aceitação. Balançava-a gentilmente, cantando docemente coisas sem sentido para consolá-la. Tinham passado anos desde que se deu o luxo das lágrimas. Tinha trabalhado duramente para ser como seu irmão, sem dar ao Armando a satisfação de vê-la com medo.

Esfregou-lhe a dura mandíbula.

–Obrigado por não nos condenar. Provavelmente fizemos tudo mal, e errôneo, mas eu era uma criança e ele tinha treze anos. Não tínhamos aonde ir, ninguém a quem contar. Certamente que Armando tinha nossa custódia, e no momento fomos viver com ele, só nos tínhamos um ao outro. Não acredito que pudesse suportar que o desprezasse.

–Rachael, amor de minha vida, como pode pensar que eu, entre todo mundo, atreveria-me a julgar a outro? Tudo o que posso fazer nesta vida é tentar fazer o melhor em cada caso.

Levantou a cabeça e o olhou fixamente à cara, aos olhos.

–Não o mereço, Rio.

Reprimiu um estranho nó na garganta. Seu povo não queria vê-lo nem pensar nele, e ela pensava que não o merecia. Sua mão foi da nuca a seu pescoço, segurando-a quieta para um beijo. Pôs cada parte de ternura que pôde encontrar nesse beijo, saboreando suas lágrimas, sua dor, saboreando seu amor.

–Penso que é uma mulher assombrosa – Murmurou quando levantou a cabeça.

Ele deu um jeito para sorrir.

–É uma fodida boa coisa já que poderia ser difícil desfazer-se de mim – Rachael lentamente enroscou seu corpo, tinha chorado tanto que seus olhos ardiam e sua garganta doía. Estava resolvida a atirar abaixo a grade – Sabe essas pequenas sanguessugas que tanto você gosta? Afundam fortemente seus dentes e se agarram, pois bem, isso farei eu com você.

Fez uma careta e a contra gosto afrouxou seus braços quando ela se estirou e coxeou através da casa para abrir a porta.

–Não é estranho como a casa pode parecer às vezes tão pequena?

Sorriu-lhe, sabendo que tentava recuperar um pouco de controle.

–Por que pensa que às vezes deixo a porta aberta? – Seu corpo era flexível e forte com generosas curvas femininas, um corpo no qual um homem poderia perder-se. Gostava de vê-la mover-se por sua casa. Tocando uma vela, deslizando os dedos graciosamente por ela. Recolhendo suas roupas e as jogando em uma pequena caixa para a roupa suja que ele nunca usava – Sou desordenado.

Uma sombra de sorriso curvou sua boca.

–Pensa que isso é novo para mim?

–Esperava que não tivesse se dado conta.

Seu sorriso se ampliou.

–É impossível não dar-se conta. Você gosta de deixar os pratos em molho na pia. Deixa-me louca. Por que os deixa em molho? Por que não os lava? Se incomodar-se em esfregá-los e enxaguá-los poderia também acabar a tarefa.

–Há uma explicação perfeitamente lógica – Disse – Para lavar os pratos com água quente, tenho que usar gás ou madeira. É mais econômico esperar e lavá-los todos juntos. Carregar com o gás é pesado. Uso-o com moderação.

Ela fez uma careta.

–Suponho que tem razão.

Ao levantar-se, encheu completamente a habitação com seus amplos ombros e sua poderosa presença.

–Quer se mudar, Rachael? – Tinha passado anos construindo a casa e o armazém subterrâneo escondido embaixo dela. O sistema de água tinha sido difícil de ocultar. Tinha tudo o que queria. Mas se queria as coisas necessárias para uma vida moderna, tinha que construir a casa mais perto da proteção do povoado onde havia um gerador. Mas longe de ser uma proteção, o ruído e o aroma de um gerador eram muito perigosos, completamente delatores para Thomas e qualquer que o estivesse perseguindo.

–Me mudar? – Rachael agarrou o bordo da porta e se voltou para olhá-lo com seus enormes olhos – Por que quer sair desta linda casa? As esculturas são extraordinárias. Amo esta casa. Não acredito que haja nenhuma razão para mudar-se.

–A maioria das vezes não têm um refrigerador decente. Transportar gelo é quase impossível, a menos que o obtenhamos no povoado, e raramente compro ali.

–Seu sistema é bastante bom. Não acredito que morramos de fome.

–Não pensará isto quando começarem a vir as crianças.

Rachael recuou uns passos, rindo dele.

–Crianças? De todas as formas vão começar a chegar não?

Seguiu-a pelo terraço aprisionando-a contra o corrimão e sussurrou.

–Acredito que estamos obrigados a ter muitos filhos – Suas mãos cavaram o leve peso de seus seios. Roçou a escurecida mandíbula sobre sua sensitiva pele, gentilmente sobre a ponta de seus mamilos – Case-se comigo, Rachael. Não podemos usar a cerimônia ritual de nosso povo, mas o pai da Kim pode nos casar.

–Não é necessário. Acredito que já estamos casados.

–Eu também acredito que não é necessário, mas quero me casar com você. Quero sentir meus filhos crescendo em seu interior algum dia. Quero tudo com você –Subiu sua boca para seus seios, sugou-os gentilmente, até que ela se arqueou empurrando para ele, segurando sua cabeça enquanto se deleitava. Começou a garoar e o vento soprava interminavelmente forte, em seu mundo, tudo parecia perfeito.

Elevou o rosto para a suave chuva que caía sobre a pele.

–Quantos filhos são muitos? – Seus dedos se enredaram em seu cabelo – Quantos acha, dois, três? Me dê um numero – Tentou escutar as canções da chuva como ele tinha ensinado. Era tal mistura de sons, nunca os mesmos, sempre mutantes, tudo isso penetrando em suas veias como uma droga. Como o fogo que ele produzia com a seda quente de sua boca com o calor do bosque pressionando neles.

Rio se endireitou e a segurou entre seus braços. Simplesmente abraçando-a.

–Uma casa cheia, Rachael. Garotinhas parecidas com você. Com sua risada e coragem.

Estreitando-o entre seus braços, amoldou-se a seu corpo.

–E com todos esses pequenos correndo por aqui, como nos arrumaremos para ter momentos como estes?

Viver com Rio seria uma sensual aventura. Seu corpo estava sempre a ponto, nunca satisfeito por muito tempo não importava quão freqüentemente a tocasse. Desejava mais. Desejava-o um milhão de vezes de um milhão de formas. Abraçou sua cintura com a perna, pressionando seu corpo quente e escorregadio contra ele sugestivamente. Os dedos enredados em seu cabelo, seus dentes mordiscando a orelha, o ombro e algo que pudesse alcançar.

–Encontraremos a forma. Encontraremos um milhão de formas.

Rio a elevou, para que pudesse agarrá-lo com ambas as pernas, e acomodar-se em seu corpo, tão ajustados como uma espada em sua capa. Apoiou-a contra o corrimão e se olharam, travados conjuntamente. Rachael se inclinou para frente enterrando o rosto em seu pescoço. Obstinados e abraçados fortemente.

Sussurrou-lhe palavras de amor em sua língua. Sestrilla. Minha amada. Hafelina. Gatinha. Qui amoura sestrilla. A quero para sempre. Anwoy Qui selaviena em patre Qui. Eternamente.

Ouviu as palavras, reconhecia-as mas não podia responder. A vocalização era uma mistura de notas felinas. Sabia, reconhecia-as e as achava lindas, mas não podia as reproduzir exatamente, Rachael levantou a cabeça e o olhou. À face. Aos olhos. A sua boca.

–Eu também o amo, Rio.

Tão feroz como podia ser sua forma de fazer amor, tão selvagem e rude como era ele às vezes, era imensamente terno. Beijando-a com tanta ternura que fluíram lágrimas. Seu corpo se movia no seu com golpes seguros e profundos, esforçando-se para dar prazer. Suas mãos a adoraram, moldando cada curva, deslizando-se por sua pele como se memorizasse cada detalhe.

Tomou seu tempo, longos e lentos golpes planejados para cavar profundamente, para enchê-la de seu amor. Quando a febre aumentou, escalaram juntos, a branca bruma formava redemoinhos a seu redor, como se a tivessem criado com a intensidade de seu calor. Cravou-lhe as unhas nas costas e jogou a cabeça para trás, movendo seus quadris em resposta a seu ritmo, uma dança de amor, ali na terraço com o perfume das orquídeas envolvendo-os e com a brisa acariciando seus corpos. Chovendo constantemente, gotinhas de prata quando se assentou a noite.

Rachael ficou sem fôlego quando se sentiu cheia de sorte, com o puro prazer de sua união, e apertou os músculos a seu redor levando-os até a borda. Sua voz se misturou com a sua, um grito de alegria na escuridão. Agarraram-se um ao outro relutantes em soltar-se.

Uma leve rajada de folhas e uma fusão de pétalas de orquídeas caíram como chuva de um ramo sobre eles e Franz saltou ao terraço, a seus pés. Levantaram-se repentinamente, Rio alerta e preparado, pressionando seu corpo contra o corrimão em um esforço para protegê-la. Um vulto de pele se estendeu ricocheteando nas panturrilhas de Rio. O pequeno leopardo nublado cravava as garras no chão com as garras enganchadas profundamente na madeira.

–Vi marcas de garras nas árvores – Disse Rachael, inclinando-se para afundar seus dedos na pelagem do felino – Mas nunca vi nenhum. Por que marca a casa?

–É mais que marcar o território. Está afiando as unhas e desfazendo-se das capas velhas. É realmente necessário, mas ensinaram a não marcar nosso passo pelo bosque porque chama a atenção dos caçadores. Deixe-os acreditar que vamos, que não estamos aqui e deixarão de nos disparar. Escolhemos afiar e marcar dentro onde não seremos descobertos – Sorriu para ela com um sorriso infantil – Fritz e Franz aprenderam comigo.

–Assim é uma figura maternal.

–Ouça! – Tocou com a ponta de seu pé nu ao felino que se esfregava em suas pernas. Sente-se sozinho sem o Fritz. Normalmente vão juntos a todas as partes. Esperava que encontrassem par e me trouxessem um filhotinho ou dois mas não parecem interessados.

–Sua vida é muito mais interessante – Apontou – Eles se gabam aos outros gatinhos sobre suas aventuras.

Enroscaram-se no pequeno sofá um nos braços do outro, no terraço, passando a noite fora, escutando a interminável chuva. Observando a branca névoa que os envolvia como se estivessem entre as nuvens. Rio a segurou entre seus braços.

–Amo você, Rachael. Trouxe algo para minha vida do que não quero perder.

Descansou a cabeça em seu peito.

–Sinto o mesmo.

Franz saltou ao sofá, farejou-os e se fez um lugar entre seus corpos. Rio grunhiu ao leopardo.

–Pesa muito, Franz, desce. Não precisa estar aqui em cima.

Rachael riu. Rio não afastou o leopardo, em troca, abraçou-o pelo pescoço. Quase em seguida, Fritz coxeou ao chão, uivou baixinho e se esfregou contra suas pernas.

–Alguém é um pouco ciumento – Apontou Rachael e se aproximou tanto como pôde a Rio para deixar o felino espaço para subir com eles.

–Não console o pequeno demônio. Não se lembra que foi ele que tomou um pedaço de sua perna? – Queixou-se Rio.

–Pobre coitado, está sozinho e não se encontra bem – Ajudou o felino a subir enquanto se estendia parcialmente sobre seu colo – Se tivéssemos uma casa cheia de crianças, também estariam em cima de nós.

Rio gemia movendo-se enquanto encontrava uma posição cômoda.

–Não quero pensar nisso agora. Vamos dormir.

–Vamos dormir aqui fora? – Adorou a idéia. O vento fazia sussurrar as folhas das árvores enquanto que revoavam graciosamente a seu redor.

–Um pouquinho – Rio beijou a parte superior da inclinada cabeça, satisfeito de tê-la, sentado em seu alpendre com Rachael, os leopardos perto dele e a chuva caindo suavemente no chão adormecendo-os.

Despertou perto do amanhecer, sobressaltado, sua mente e sentidos instantaneamente alerta. Em algum lugar profundo do bosque um bacurau (ave) gritou. Um cervo ladrou. Um coro de gibones avisou a pleno pulmão. Fechou os olhos um momento, saboreando o despertar a seu lado, como gatinhos abraçados perto. Odiava incomodá-la, odiava prepará-la para a seguinte crise. Sempre parecia haver alguma e Rachael já tinha tido muitas. Queria protegê-la, fazer sua vida mais fácil e feliz.

Arrependendo-se com cada linha de seu corpo, fez o que tinha que fazer.

–Desperta, sestrilla – Beijando-a no rosto, pálpebras e nos cantos de sua boca – Os vizinhos chegam ruidosamente.

Rachael escutou um momento depois apertou seus braços fortemente ao redor do pescoço de Rio.

–Está aqui – Com puro terror em sua voz.

Inalando profundamente, Rio acariciou seu cabelo, um toque prolongado contra sua pele.

–Não é seu irmão – Seu tom foi sombrio. Fez gestos ao pequeno leopardo que descesse do sofá.

–Então quem?

–Alguém a quem conhecem. Alguém familiar para eles. Um de meu povo, mas um que não percorre meus domínios. Ninguém da minha unidade.

Rachael a contra gosto se espreguiçou, ficando em pé e bocejando adormecida. Respirou devagar.

–Quão longe está?

–Uns minutos – Sua mão se deslizou em sua face estremecendo-a.

Rachael apanhou sua mão e a pôs em seu peito sobre seu coração.

–Estamos juntos nisto, Rio. Me diga o que fazer.

–Entraremos na casa e olharei essa perna. Usou-a muito e agora se vê inchada outra vez. Depois nos vestiremos e arrumaremos nossa casa esperando ver o que quer – A alcançou por trás para abrir a porta cortesmente.

–Então sabe quem é.

Aspirou de novo.

–Sim, conheço-o. É Peter Delgrotto. É do alto conselho. E sua palavra é lei para nossa gente.

Seus escuros olhos percorreram seu rosto. Vendo muito. Vendo em seu interior.

–Acha que possivelmente me diga que vá.

Rio deu de ombros.

–Escutarei-o antes de provocá-lo.

Abotoou a camisa, precavendo-se pela primeira vez que ainda a levava posta.

–O ancião vem aqui? Realmente precisa de muita coragem – Arrebatou os jeans das suas mãos e coxeou rapidamente para a cama – Seus vizinhos parecem vir regularmente sem convite.

–Não há muito açúcar na vizinhança e sou conhecido por minha doçura. –Brincou.

Resmungou revirando os olhos.

–Seu pequeno e ancião amigo vai pensar que é doce uma vez que me conheça. Por que viria aqui?

–Os anciões fazem o que querem e vão onde querem.

–Rebanho de insetos. Ninguém o convidou.

Ali estava outra vez... Esse pequeno puxão em seu coração. Ela podia fazê-lo sorrir na pior circunstância. Não sabia como reagiria se os anciões tentassem tirá-la dele, mas sabia que não o consentiria. Seguiu-a agachando-se a seu lado para examinar a perna. Estava seguro que Rachael nunca reconheceria a autoridade dos anciões. Não tinha crescido com suas regras e já se comprometeu com ele. Tentaria moderá-la, mas nunca funcionaria.

–Parece um presunçoso.

–Presunçoso? Não o sou. – Mas se sentia assim. Os anciões iam levar uma bronca se tentassem forçar Rachael a aceitar seu exílio.

Rachael tocou seu escuro cabelo, puxando os sedosos fios até que a olhou.

–Se acreditarem que vão mudar sua sentença de exilo pela de morte, vão ter uma briga nas mãos.

Parecia uma guerreira, sorriu quando lavou sua panturrilha suavemente e aplicou mais poção curativa mágica de Palha de Cereal.

–Uma vez ditada a sentença, não podem mudá-la. Minhas habilidades são valoradas pela comunidade, duvido que me peçam que deixe esta área.

Seus dedos eram suaves sobre sua perna, mas o comentário crispou os nervos.

–Deixa-os perguntar que vamos. Não são os donos do bosque. Bombardeia-os. Odeio os valentões – Puxou o jeans sobre a perna e começou a fazer a cama com rápidos e entrecortados movimentos. Quase chutou Fritz com seu pé nu, esquecendo que havia se refugiado sob a cama.

Rachael parecia uma louca furiosa. Inclusive o cabelo se encrespou. Sorria enquanto se vestia. A casa voltava rapidamente para sua forma embora coxeava cada vez mais.

–Sente-se, sestrilla – Mantendo suave a voz – Todos esses saltos não são bons para a perna. Agarrou as armas e comprovou as antecâmaras, deixando cada uma delas cuidadosamente sobre a mesa.

–Temos uma tina no meio do chão – Assinalou, soltando faíscas pelos olhos – Poderia fazer algo a respeito em vez de folgar cuidando de suas armas.

Saiu-lhe a sobrancelha disparada para cima.

–Folgar cuidando de minhas armas? – Repetiu.

–Exatamente. Que intenção tem? Atirar no homem? Ao querido ancião que tudo sabe? Não é que me importe, mas ao menos me avise.

–Tem outro faniquito, não? Acredito que teria que me dar algum tipo de sinal antes de explodir, ajudaria enormemente.

Endireitou-se e lentamente se deu a volta até ficar frente a ele.

–Faniquito?

Tinha um tic na boca. Forçava os traços para manter-se inexpressivo. Parecia um vulcão a ponto de explodir. Seu sorriso definitivamente provocaria a detonação.

–Pode ser que não fique mais remédio que atirar nele. Pense, Rachael. Por que teria que vir aqui quando não está permitido o saber que existo? Essa é a questão – A tina de água a incomodava, o justo para se reprimir de lançar o esponjoso travesseiro, tirou alguns baldes de água e os jogou na pia.

Rachael guardou silêncio durante muito tempo observando-o. Acomodou-se em uma cadeira.

–Não são esses anciões os legisladores? São Santos? O que são exatamente? A parte de imbecis, quero dizer.

–Não pode chamá-los imbecis na cara, Rachael – Assinalou.

–Se pode atirar neles, eu posso insultá-los – O olhou enfurecida, por atrever-se a contradizê-la – Chamam de anciões, anciões porque são velhos? Anciões? Enganadores?

–Nunca viu o homem e já está agressiva.

Uns olhos escuros o percorreram com reprimida fúria.

–Nunca sou agressiva.

Recolheu a tina, puxando-a para o terraço. Ainda estava meio cheia e pesava. A água se derramou quando a inclinou sobre o corrimão.

–Suponho que é razoável que possa insultá-los se eu possa atirar neles – A apaziguou.

Não se incomodou em levar a tina à pequena cabana escondida entre as árvores um pouco mais à frente. Deixou-a um lado, fora do caminho se por acaso precisasse sair rapidamente para as árvores. Fora, escutou às criaturas da noite chamando-se entre elas, informando sobre a posição do intruso que se aproximava da casa.

Se não tivesse estado banido teria ido, por respeito, a seu encontro, em lugar de o fazer andar toda a ascensão de árvores até ele. O ancião estava nos oitenta e, embora em boa forma, sentiria os efeitos do longo trecho. Entrou para pentear-se em alguma biografia de ordem.

Rachael o observou, viu o leve cenho franzido, linhas de preocupação ao redor de seus olhos. Sobretudo viu que Rio mudou sua despreocupada aparência, e isso queria dizer algo. Seguiu seu conselho, penteando seu matagal de cabelo, inspecionando se sua pele estiva limpa e escovou os dentes. Desde que chegou, não tinha usado o pequeno contrabando de artigos de beleza que pôs na mala, mas agora os tirou.

–O que é isso?

–Maquiagem. Pensei que eu gostaria de estar apresentável para seu ancião. –Vacilou fazendo outro intento – O sábio. A eminência.

–Ancião é suficiente – A seguiu através da habitação e tomou o brilho de lábios de suas mãos – Está linda, Rachael, e não tem porque estar tão perfeita para ele.

Pela primeira vez em um momento uma sombra de sorriso curvou sua boca. Falava como alguém de mau humor!

–Realmente, habitante das árvores, queria luzir perfeita para você, não para seu descerebrado ancião – Estendeu sua mão para o brilho de lábios.

O colocou em sua palma.

–Ao menos deveria conseguir algum ponto pelo belo cumprimento.

Ampliando o sorriso.

–Contive-me pelo belo cumprimento. Teria sido muito pior para um habitante das árvores.

–Aterroriza-me – Rio se inclinou e beijou sua boca arrebitada. Como tinha conseguido viver tanto tempo sem ela pensando que estava vivo? Havia só passado pela vida todos estes anos? Amá-la o aterrorizou. Era muito forte, um maremoto fluía em seu interior, consumindo-o, havia vezes que inclusive não a podia olhar.

–Por isso me preocupa se isso é bom – Rachael aplicou o brilho de lábios e um pouquinho de rímel. Estava temerosa e lutou por escondê-lo. Olhou para Rio por debaixo de seus longos cílios. Definitivamente estava em alerta apesar de que brincavam entre eles. Estendeu a mão através da mesa, desencapando uma faca e deslizando-o sob a almofada de sua cadeira. Os assassinos tinham qualquer forma, tamanho e gênero. A idade não parecia ser importante.

 

Peter Delgrotto era alto e magro, embora vigoroso com profundas linhas gravadas em sua face. Seus olhos eram de uma estranha cor âmbar, brilhando intensamente por algum fulgor escondido, um olhar fixo e penetrante que conduzia grande grau de ameaça. Rachael tinha esperado um murcho e cambaleante ancião, entrado em anos, mas Delgrotto exsudava poder e perigo em seus penetrantes olhos. Endireitou-se, completamente vestido. O único sinal de seu comprido e árdua viagem era o brilho do suor em sua pele, não podia ocultar o ar entrando e saindo trabalhosamente de seus pulmões.

–Nos honra com sua presença, Sábio – Disse Rio cerimoniosamente.

Rachael fez um pequeno ruído estrangulado em sua garganta e depois cobriu seu desagrado tossindo quando Rio lhe lançou um rápido olhar de advertência.

Rio deu um passo atrás para permitir a entrada do ancião.

–Se deseja entrar, por favor faça-o - Se sentia tolo, inseguro de como agir ou o que dizer. Por lei, o ancião não deveria aproximar-se dele, reconhecê-lo ou lhe falar, e muito menos entrar em seu lar. Rio não sabia se estava sendo descortês por convidá-lo a entrar.

Delgrotto se inclinou devagar.

–Devo te pedir um copo de água. Não viajei tão rápido nem tão longe em anos. Meus pulmões não são os que costumavam ser. Me perdoe se o incomodo, quando não o saudei corretamente em vários anos – Seu olhar se deteve em Rachael.

Houve um pequeno silêncio. Rio ficou muito quieto. Rachael elevou seu queixo, seus escuros olhos vivos de desagrado.

–Obviamente é sua mulher. A encontrou. Deve me apresentar.

–Sinto muito, Ancião, perdoa minha falta de maneiras. Estou tão surpreso com sua visita que esqueci as normas básicas de cortesia – Rio deu ao homem um copo com água – Esta é Rachael. Rachael, Peter Delgrotto, um ancião de nosso povo.

Rachael forçou um sorriso, mas não murmurou nenhuma cortesia. Agradou-a que Rio pensasse em protegê-la, que não tivesse dado seu infame sobrenome. Ao sentir a Rio tão nervoso, ficou de pé e com indiferença cruzou a sala para ficar atrás dele, esperando estar perto em caso de que a necessitasse.

Delgrotto inclinou sua cabeça, lhe devolvendo o sorriso, mas este não chegou a seus olhos.

–Prazer em conhecê-la, Rachael – Retornou o olhar a Rio e o sorriso se desvaneceu.

Rio sentiu o impacto do olhar do ancião. Tinham passado vários anos desde que outro membro tivesse dirigido o olhar e falado com ele. Rachael deslizou sua mão na sua. Uma amostra de solidariedade e apoio.

–O que o traz aqui, Ancião? O que é tão importante que queira romper a lei de nossa gente? – Não era tempo de andar-se com rodeios.

–Não tenho direito a vir até você, Rio. Não depois da sentença ditada pelo conselho – Delgrotto se encontrou com seu olhar fixo – Por mim. Abdiquei participar como um membro do conselho e estou preparado para pagar as consequências de minhas ações. Contei à Sede do Poder o que pretendia e lhes perguntei se o ocultariam até que aparecesse. Estiveram de acordo.

Rachael podia ver o orgulho na cara do ancião. Rio estendeu a mão e tocou seu braço, guiando-o para a cadeira mais confortável e o sentando.

–O que ocorre? – De repente Delgrotto parecia ter todos e cada um de seus oitenta anos e mais.

–Meu neto jaz a borda da morte. Ninguém pode salvá-lo exceto seu sangue. Ninguém leva seu pouco frequente tipo de sangue. Sem você morrerá. Perdi a meu primogênito nas mãos dos clandestinos. Não tinha filhos. Perdi a meu outro filho e sua companheira em um acidente. Não tenho mais família. Não quero perdê-lo. Não por orgulho ou obstinação. Não por alguma lei antiquada. Peço-te que o salve.

–Onde está?

–Jaz no povoado no pequeno hospital.

–Partirei agora, Ancião. Irei mais rápido sozinho. Aceitarão minha ajuda?

–Joshua disse que iria – Delgrotto afirmou com a cabeça – O estão esperando, mantendo-o com vida com fluídos. Utilizamos o sangue que tinha armazenado –Desceu o olhar para suas mãos tremulas, lágrimas brilhavam em seus olhos – Foi minha decisão roubá-lo e de ninguém mais. Sem ele, teria morrido. Mas não é suficiente, só para mantê-lo com vida até que chegue.