Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CINCO SEMANAS EM UM BALÃO / Julio Verne
CINCO SEMANAS EM UM BALÃO / Julio Verne

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CINCO SEMANAS EM UM BALÃO

 

EXCELSIOR 

A catorze de janeiro de 1862, era grande a afluência na assembléia da Real Sociedade Geográfica de Londres, localizada na Praça Waterloo, 3. O presidente, Francisco M...,  fazia importante comunicação aos seus colegas, através de discurso freqüentemente interrompido por aplausos.

A extraordinária peça deo eloqüência terminava finalmente por algumas frases empoladas e transbordantes de patriotismo:

"A Inglaterra sempre esteve à vanguarda das nações pela  intrepidez de seus viajantes que seguem a trilha dos descobrimentos geográficos. O doutor Fergusson, um dos seus gloriosos filhos, não negará a sua origem. Esta tentativa, se  obtiver êxito, vinculará, completando-as, as nações esparsas da  cartografia africana e, no caso de malograr, pelo menos permanecerá como das mais audaciosas concepções do gênero  humano. “

- Viva! Viva! - berrou a assistência, eletrizada pelas  empolgantes palavras.

- Viva o intrépido Fergusson! - bradou um dos membros mais expansivos da assembléia.

Gritos entusiásticos retumbaram. O nome de Fergusson  estrugiu em todas as bocas. O recinto vibrou.

Entretanto, lá se encontravam numerosos homens envelhecidos e fatigados, viajantes destemidos cujo temperamento inconstante os transportara às cinco partes do mundo. Todos. Afinal, quem era esse doutor e a qual empreendimento  pretendia consagrar-se?

O pai de Fergusson, bravo capitão da marinha inglesa,  familiarizara o filho, desde a mais tenra idade, com os perigos e as aventuras de sua profissão. A criança, que parecia  jamais ter conhecido o temor, revelara imediatamente espírito  vivo, inteligência de pesquisador e propensão invulgar para  os trabalhos científicos. Demonstrara, além disso, habilidade pouco comum para sair-se bem em qualquer circunstância.

Bem cedo sua imaginação inflamara-se à leitura das narrativas das empresas ousadas e das explorações marítimas.  Estudou apaixonadamente as descobertas que assinalaram a primeira parte do século dezenove. Sonhou com a glória dos  grandes exploradores e até mesmo, creio, com a de Selkirk, o Robinson Crusoé, a qual lhe não parecia inferior àquelas. Quantas horas deliciosas passou ele com o herói na sua ilha  de João Fernandes! Muitas vezes aprovou as idéias do marinheiro abandonado, muitas outras discutiu os seus planos e projetos, pensando que teria agido de outro modo em tal  caso, seguramente tão bem como ele ou, talvez, melhor ainda!  Mas o que era ponto pacífico é que não teria abandonado  a ditosa ilha onde se sentia feliz como rei sem súditos, ainda  que o quisessem fazer primeiro lorde do Almirantado!

Sem dúvida, teriam que se desenvolver tais qualidades em  quem passou a mocidade pelas quatro partes do mundo.

O pai, homem instruído, não podia, de resto, deixar de  contribuir para desenvolver sua viva inteligência com estudos  sérios de hidrografia, física e mecânica e com elementos de botânica, medicina e astronomia.

Quando faleceu o digno capitão, Samuel Fergusson, com  vinte e dois anos de idade, já havia feito uma viagem à volta  do globo. Alistou-se no corpo de engenheiros bengaleses, onde  se distinguiu em várias ações. Mas a vida de soldado não  lhe agradava. Assim como não aspirava ao comando, também  não gostava de obedecer. Pediu demissão e, já caçando, já  herborizando, dirigiu-se para o norte da península indica, atravessando-a desde Calcutá até Surate, em simples passeio de  amador.

De Surate passou à Austrália e fez parte, em 1845, da  expedição do capitão Stuart, incumbido de descobrir o mar  Cáspio que se supunha existir no centro da Nova Holanda.

Samuel Fergusson voltou à Inglaterra em 1850 e, tentado  mais do que nunca pelo demônio das descobertas, acompanhou o capitão Mac Clure, até 1853, na expedição que costeou o continente americano desde o estreito de Béringue até o cabo Farewell.

A constituição robusta de Fergusson resistiu maravilhosamente a todo gênero de fadigas e a todos os climas. Nem  as maiores privações o incomodavam. Era o tipo perfeito do viajante, com um estômago que à vontade se dilata ou se  contrai, com pernas que se estendem ou encolhem conforme o leito da ocasião, capaz enfim de adormecer a qualquer hora  do dia e levantar-se a qualquer hora da noite.

Não é de espantar que nosso infatigável viajante visitasse, de 1855 a 1857, todo o oeste do Tibete, resultando dessa  exploração curiosas observações etnográficas.

No transcurso das diversas viagens, Samuel Fergusson fora o correspondente mais ativo e interessante do Daily Telegraph,  jornal de cento e quarenta mil exemplares diários. Era bastante conhecido, embora não fosse membro de nenhuma instituição douta, nem das reais sociedades geográficas de Londres, Paris, Berlim, Viena ou São Petersburgo, do Clube dos viajantes ou sequer do Real Instituto Politécnico, onde pontificava seu amigo, o estatístico Kokburn. Esse sábio, no intuito de lhe ser agradável, chegou mesmo  um dia a propor-lhe resolver o seguinte problema: dado o  número de quilômetros percorridos pelo doutor à volta do mundo, quantos fizera a sua cabeça a mais do que os pés,  considerada a diferença dos raios?

Ou então, conhecido o  número de quilômetros percorridos pelos pés e pela cabeça  do doutor, calcular a sua exata estatura.

Mas Fergusson sempre se manteve afastado das sociedades  eruditas, pertencendo à igreja militante e não à tagarelante;  achava o tempo melhor empregado a pesquisar do que a discutir, a descobrir do que a discorrer.

Conta-se que um inglês foi um dia a Genebra com a intenção de visitar o lago; mandaram-no subir para unia dessas  antigas carruagens onde as pessoas se sentavam de lado, como nos ônibus, e sucedeu por acaso que o nosso inglês ficou colocado de modo a dar as costas para o lago. O veículo fez  pachorrentamente a sua viagem circular sem que ele pensasse em voltar-se uma única vez, tendo regressado a Londres  contentíssimo com o lago de Genebra.

O doutor Fergusson, porém, virara-se muitas vezes nas  suas viagens, e tanto se voltou que viu muitas coisas. Nisso,  aliás, obedecia ao seu temperamento, e temos boas razões para crer que era um tanto fatalista, mas de um fatalismo muito  ortodoxo, contando consigo e com a Providência, dizendo-se  mais impelido do que atraído para as suas viagens, à maneira  de uma locomotiva que não se dirige, antes é dirigida pelos  trilhos.

- Eu não persigo o meu caminho - dizia ele muitas  vezes -, é o meu caminho que me persegue.

Ninguém, portanto, se surpreenderá da serenidade com  que acolheu os aplausos da Real Sociedade; estava acima dessas ninharias, não tendo orgulho e ainda menos vaidade; achava perfeitamente natural a proposta que fizera ao presidente Francisco M... e nem sequer notou o -imenso sucesso  que ela produziu.

Após a sessão, o doutor foi conduzido ao Clube dos Viajantes, onde o aguardava soberbo banquete em sua honra.  Foram erguidos numerosos brindes com vinhos franceses aos célebres viajantes que se haviam destacado em terras africanas.  Bebeu-se, por ordem alfabética, o que é verdadeiramente inglês, à saúde de uns e à memória de outros. Finalmente, foi brindado o doutor Samuel Fergusson, que, com sua incrível  tentativa, iria ligar os trabalhos desses viajantes e completar  a série das descobertas africanas.

 

REPERCUSSÃO

Do projeto no dia seguinte, em sua edição de quinze de janeiro, o Daily Telegraph publicava o seguinte:

"O segredo das vastas solidões da África vai ser enfim  conhecido. Um novo Édipo vai dar-nos a chave do enigma  que os sábios de sessenta séculos não descobriram ainda.  Outrora, descobrir as nascentes do Nilo não passava de tentativa insensata, de irrealizável quimera.

O doutor Barth, o doutor Livingstone e os capitães Burton  e Speke abriram três grandes vias à civilização moderna: o  primeiro, seguindo o caminho traçado por Denham e Clapperton até o Sudão. O segundo, multiplicando as suas investigações desde o cabo da Boa Esperança até a baía do Zalnbeze. Os últimos, finalmente, em virtude da descoberta dos grandes lagos interiores. No ponto de interseção destas três  linhas, onde ainda não pôde chegar viajante algum, fica o  coração da África. É para ele que devem convergir todos os esforços.

Os trabalhos daqueles valentes soldados da milícia cientifica vão conjugar-se com a tentativa audaz do doutor Samuel  Ferguson, cujas descobertas já por muitas vezes os nossos leitores têm apreciado.

Este intrépido descobridor propõe-se atravessar em balão  toda a África, de leste a oeste. Se estamos bem informados,  o ponto de partida desta viagem inaudita deve ser a ilha de Zanzibar, em frente à costa oriental. Só à Providência é lícito  saber qual será o ponto da chegada.

A proposta desta expedição científica foi ontem dirigida  oficialmente à Real Sociedade Geográfica. Votou-se a quantia  de duas mil e quinhentas libras para os gastos da empresa.

Contamos ter os nossos leitores em dia com as notícias  deste cometimento, que não tem precedentes nos fastos geográficos.”

Como é fácil de imaginar, o artigo teve enorme repercussão. Levantaram-se ondas de incredulidade e o doutor Fergusson passou' por ser pessoa puramente quimérica.

Mas todas as dúvidas desapareceram em breve. Iniciava-se em Londres os preparativos para a viagem: fábricas de Lião haviam recebido importante encomenda de tafetá  para a construção do aeróstato e o governo britânico colocava  à disposição do doutor o navio Resoluto, sob o comando do  capitão Pennet.

Surgiram manifestações de estímulo e de felicitações. As  minúcias do empreendimento apareceram com destaque em  diversas publicações. Um jornal alemão, em artigo assinado, procurou demonstrar enfaticamente as possibilidades da viagem, suas probabilidades de êxito, a natureza dos obstáculos  a ser enfrentados e as imensas vantagens da locomoção por  via aérea. Censurou apenas o ponto de partida, julgando  mais acertada a partida de Macuá, pequeno porto da Abissínia, de onde Jaime Bruce, em 1768, partira à procura das nascentes do Nilo.

Os jornais do mundo inteiro e todas as publicações científicas relatavam o fato em todos os seus aspectos.

Apostas consideráveis foram feitas em Londres como em  toda a Inglaterra sobre a existência real ou fictícia do doutor  Fergusson, sobre a própria viagem, que, segundo alguns, não seria realizada e em que outros acreditavam, sobre a questão  do êxito e sobre a probabilidade ou improbabilidade do regresso de Fergusson.

Assim, os olhos de todos, crédulos, incrédulos, ignorantes  e sábios, fixaram-se na pessoa do doutor, que se transformou  no homem do dia. De bom grado, fornecia esclarecimentos preciosos acerca de sua expedição, mostrando-se sempre muito  amável. Foi procurado por vários aventureiros, que desejavam compartilhar da glória e dos perigos de sua façanha, mas a  todos recusou, sem apresentar as razões de sua atitude.

Igualmente foi procurado por numerosos inventores de  mecanismos aplicáveis 'à direção de balões, que não conseguiram faze-lo interessar-se pelos novos sistemas. Aos que lhe  perguntaram se havia descoberto algo nesse sentido, recusava-se a dar explicações. E continuava trabalhando cada vez  com mais atividade nos preparativos da sua viagem.

 

O SEGREDO DO DOUTOR FERGUSSON 

O doutor fergusson tinha um amigo. Não se tratava de  repetição de sua personalidade, de alter ego, pois não pode  existir amizade entre dois seres absolutamente idênticos.

Contudo, se possuíam qualidades, aptidões e temperamentos distintos, em Ricardo Kennedy e Samuel Fergusson  parecia pulsar um só coração, o que, longe de perturbá-los, agradava-os.

Ricardo Kennedy era escocês em toda a extensão da palavra. Franco, resoluto, obstinado. Vivia na pequena cidade de Leith, arrabalde de Edimburgo. Dedicava se algumas vezes  à pesca, mas, na realidade, era consumado caçador. Era tido como excelente atirador. Conseguia acertar na lâmina de uma  faca e dividi-la em duas partes tão espantosamente iguais que,  se fossem a seguir colocadas em balança, mostrariam diferença mínima de peso. Era homem alto, elegante, desembaraçado e parecia dotado de força hercúlea. Tinha a pele bronzeada pelo sol, olhos vivos e negros, natural atrevimento, de  modo que sua figura irradiava bondade, simpatia e solidez.

A amizade iniciara-se na índia, quando ambos integravam  o mesmo regimento. Enquanto Ricardo se dedicava à caça de  tigres e elefantes, Samuel concentrava-se nas plantas e nos insetos. Jamais tiveram ocasião de salvar a vida um do outro,  nem de se auxiliarem em qualquer outra tarefa. Daí a amizade inalterável. Se o destino os separou algumas vezes, reuniu-os sempre a simpatia.

Depois que regressaram à Inglaterra, foram freqüentemente separados pelas longínquas expedições do doutor. Mas  quando este voltava, tratava logo de dedicar parte do seu tempo ao amigo escocês.

Ricardo falava do passado, Samuel preparava o futuro.  Um olhava para diante, outro para trás. O espírito inquieto  de Fergusson estava sempre em contraste com a completa placidez de Kennedy.

Depois da sua viagem ao Tibet, o doutor esteve perto  de dois anos sem falar em novas explorações. Ricardo chegou  a pensar que havia conseguido serenar o instinto de viagens  e as tendências aventureiras do seu amigo.

Receava que as aventuras acabassem mal, mais tarde ou  mais cedo. Não se viaja impunemente entre antropófagos e  feras. Kennedy queria levar Samuel a desistir de novas aventuras, afirmando que, ele já tinha feito bastante para a ciência e demais para a gratidão humana.

O doutor não respondia. Ficava pensativo e passava secretos, ou experimentando, noites entregue a cálculos singulares mecanismos, com que fim ninguém sabia. Pressentia-se que seu cérebro amadurecia grande pensamento. - Que será que anda planejando? - pensou Kennedy, quando o amigo o deixou para voltar a Londres, no mês de janeiro. A resposta chegou-lhe certa manhã, através do artigo do Daily Telegraph.

- Meu Deus! - exclamou ele. O homem está doido!  Querer atravessar a África em balão! Não faltava mais nada!  Aí está no que ele andava a pensar há dois anos!

O bom Kennedy acompanhava as suas exclamações com  outros tantos murros na própria cabeça.

A insinuação de sua criada, de que aquilo poderia não  ser mais que mistificação, respondeu:

- Então eu não o conheço? Viajar pelo ar? Disto só ele  se lembraria. Parece que tem inveja às águias! Mas não pode  ser e eu hei de dissuadi-lo. Se o deixassem, seria capaz de  partir para a lua!

Na tarde daquele mesmo dia, Kennedy, meio inquieto,  meio exasperado, tomou o trem em direção a Londres, onde  chegou no dia seguinte.

Três quartos de hora depois chegava à porta da pequena  habitação do doutor. Subiu as escadas e anunciou-se com  cinco murros vigorosos na porta.

Foi o próprio Fergusson que veio abrir.

- Ricardo! - disse ele, sem se mostrar muito admirado.  - Eu mesmo.

- Você, em Londres, por ocasião das belas caçadas de  inverno?

- Sim, aqui estou.

-- E que o trouxe aqui?

- Vim impedir uma loucura tremenda.

- Uma loucura? - repetiu o doutor.

- E verdade o que diz este jornal? - perguntou Kennedy, mostrando-lhe o exemplar do Daily Telegraph.

- Ah! E disso que estavas falando? Esses jornais são bem indiscretos! Mas vamos sentar, meu caro Ricardo.

- Não quero sentar-me. Pretende mesmo fazer essa viagem?

- Claro que sim. Os preparativos já estão adiantados  e eu...

- Os seus preparativos! Mas onde estão eles, que os quero  esmigalhar, que os quero fazer em pedaços.

O escocês mostrava-se realmente encolerizado.

- Calma, calma, meu caro amigo. Compreendo sua irritação. Tudo porque não lhe participei os meus novos projetos...

- E tem coragem de dizer que são novos projetos!

- Tenho estado ocupadíssimo - explicou Samuel, ignorando a interrupção. Tenho tido um milhão de coisas para  fazer. Mas esteja certo de que eu pretendia escrever-lhe antes  de partir...

- Não interessa...

- Eu pretendia convidá-lo para ir comigo.

O escocês deu um salto que faria inveja a muito cabrito.  - Ah, é? - exclamou. Então quer que nos enviem a ambos para o hospício?

- Pode acreditar que eu contava com sua companhia,  meu caro Ricardo.

Kennedy permanecia estupefato.

- Escute-me durante dez minutos - disse tranqüilamente o doutor - e quando acabar de falar irá agradecer-me.

- Está falando sério mesmo?

- Seríssimo.

- E se eu não quiser ir com você?  - Vai querer, sim.

... chegava a porta da pequena habitação do doutor.

- E se não quiser?

- Nesse caso... eu irei só.

- Vamos sentar - disse o caçador - e conversar calmamente. Já que você está falando sério, vale a pena discutir o assunto.

- Vamos discuti-lo almoçando?

Os dois amigos instalaram-se, um em frente do outro, em  pequena mesa, entre pilhas de sanduíches e enorme bule.

- Meu caro Samuel - disse o caçador -, o seu projeto  é insensato! É absurdo e impraticável!

- Só veremos depois da experiência.  - Nem devia haver experiência.

- E pode dizer-me por quê?

- E os perigos, Samuel? Os obstáculos de toda sorte?

- Os obstáculos - respondeu Fergusson com seriedade  - foram criados para serem vencidos. Quanto aos perigos,  quem poderá evitá-los? Tudo na vida é perigoso. Pode constituir perigo o simples ato de uma pessoa sentar-se à mesa  ou colocar o chapéu na cabeça. Assim, devemos considerar  o que está para chegar como já chegado, encarar o futuro  como presente, pois, afinal de contas, o futuro não passa do  presente um pouco mais adiante.

- É... - disse Kennedy, erguendo os ombros. Você é  sempre fatalista!

- Sim, sempre, mas no bom sentido da palavra. Escute,  não nos preocupemos com o que a sorte nos reserva. Lembre-se do velho ditado: "O homem que nasceu para a forca  jamais morrerá afogado!”

Não havia o que responder, mas Kennedy apresentou uma  série de argumentos que não encontraram ressonância.

- Mas, enfim - disse ele após uma hora de discussão -,  se você deseja mesmo atravessar a África, se isso é imprescindível para sua felicidade, por que não se utiliza das rotas comuns?

- Por quê? - repetiu o doutor, animando-se. Porque até  agora todas as tentativas fracassaram! Desde Mungo-Park, assassinado no Níger, até Vogel, que desapareceu no Vadaí, desde Oudney, morto em Murmur, Clapperton, morto em  Saccatou, até o francês Maizan, cortado em pedaços; desde o  major Laing, assassinado pelos tuaregues, até Roscher, massacrado em princípio de 1860, numerosas vítimas foram inscritas  no martirológio africano! Porque lutar contra os elementos,  contra a fome, a sede, a febre, contra os animais ferozes e  contra tribos ainda mais ferozes é impossível! Porque o que  não se pode fazer de uma forma faz-se de outra! Para terminar, porque, quando não se pode passar pelo meio, o jeito é passar  pelo lado ou por cima)

- O pior é que não é só por cima - replicou Kennedy  -o mas pelo alto!

- E daí? - retrucou o doutor com o maior sangue-frio.  Não tenho nada a temer. Tomei minhas precauções para  evitar a queda do meu balão. No entanto, se surgir algum  defeito, o máximo que poderá acontecer é que eu desça à  terra firme como qualquer outro explorador. Mas tenho certeza de que meu balão não me faltará.

- Terá de contar com essa possibilidade.

- Não, meu caro Kennedy. Não pretendo desfazer-me  dele antes de minha chegada à costa ocidental da África. Com  ele, tudo é possível. Sem ele, estarei sujeito aos perigos e obstáculos naturais das outras expedições. Com ele, nem o  calor, nem as torrentes, as tempestades, o simum, os climas  insalubres ou os animais selvagens me fazem medo! Se fizer  muito calor, subo. Se fizer frio, desço. Ultrapasso montanhas  e transponho precipícios. Atravesso rios e domino tempestades.  Atravesso as torrentes, como pássaro! Caminho sem me cansar,  e paro sem ter necessidade de repouso! Pairo sobre as cidades  novas! Vôo com a rapidez do furacão, tanto nas maiores altitudes, como a trinta metros da terra, e o mapa africano se  desenrolará aos meus olhos no maior Atlas do mundo!

Kennedy começava a sentir-se empolgado, mas o quadro  evocado por Fergusson já lhe dava vertigem. Contemplava  Samuel com misto de admiração e temor. Já se sentia oscilando no espaço.

- Bem, vejamos, meu caro Samuel. - disse ele. Então  você descobriu meio de dirigir balões?

- De maneira alguma. Isso é uma fantasia.

- Mas nesse caso você irá...

- Aonde a Providência quiser levar-me. Mas do oriente para o ocidente.

- Por que isso?

- Porque pretendo utilizar-me das monções, pois a direção é constante.

- É isso mesmo! - exclamou Kennedy, após instante de  reflexão. As monções... sim, claro... na verdade pode-se...  há qualquer coisa de.. .

- Qualquer coisa não, meu amigo - interrompeu Fergusson. Há tudo. O governo inglês colocou um navio à minha  disposição. Ficou também acertado que três ou quatro embarcações irão cruzar a costa ocidental na ocasião presumível de  minha chegada. Em três meses, no máximo, estarei em Zanzibar, onde providenciarei o enchimento do meu balão. De lá, nós nos lançaremos...

- Nós?! - exclamou Ricardo.

- Ainda tem alguma objeção a fazer, meu caro? Pode  falar...

- Alguma objeção? Eu poderia encontrar mil objeções,  mas diga-me uma coisa. Você espera ver o país, subir e descer  quando tiver vontade, mas não poderia fazer nada disso sem perder gás. Até agora não se encontraram outros meios de  proceder e foi justamente isso que sempre impediu as longas  caminhadas pela atmosfera.

- Meu caro amigo, dir-lhe-ei apenas isto: não vou perder uma só molécula de gás, nem mesmo um simples átomo.  - E poderá descer quando bem entender?  - Quando bem entender.

- E como conseguirá isso?

- É segredo, meu amigo. Confie em mim e que meu  emblema seja o seu: Excelsior!

- Vá lá, Excelsior! - repetiu o caçador, que não sabia  uma palavra de latim.

Mas estava firmemente decidido a opor-se, por todos os  meios ao seu alcance, à partida do amigo. Fingiu estar de  acordo e contentou-se em observar. Quanto a Samuel, foi  cuidar dos preparativos.

 

EXPLORAÇÕES AFRICANAS 

A rota aérea que o doutor fergusson pretendia seguir não havia sido escolhida ao acaso. Estudara seriamente o seu  ponto de partida e não foi sem razão que deliberou partir da  ilha de Zanzibar. Esta ilha, situada perto da costa oriental  da África, acha-se a seis graus de latitude austral, quer dizer,  a setecentos e noventa e seis quilômetros abaixo do equador.  De Zanzibar, partira a última expedição enviada aos Grandes Lagos destinada à descoberta das nascentes do Nilo.

Mas é conveniente indicar quais as expedições que o  doutor Fergusson esperava ligar entre si. As principais eram  a do doutor Barth, em 1849, e a dos tenentes Burton e Speke,  em 1858.

O doutor Barth era um hamburguês que obtivera permissão, juntamente com seu compatriota Overweg, para integrar a expedição do inglês Richardson, a qual ia em missão  ao Sudão.

Aquele vasto país está situado entre quinze e dez graus de  latitude norte, o que significa que, para lá chegar, é necessário penetrar mais de dois mil, setecentos e oitenta quilômetros no interior da África. Até então, a região era apenas conhecida pela viagem de Denham, Clapperton e Oudney, de 1822 a  1824. Richardson, Barth e Overweg, sequiosos de levar mais  longe suas investigações, chegaram a Tunis e a Trípoli, como  seus antecessores, e alcançaram Mazurque, capital de Fezânia.

Abandonaram, então, a linha perpendicular e fizeram desvio para oeste, até Gate, guiados pelos tuaregues. Após mil dificuldades, com pilhagens, vexames e ataques a mão armada, sua caravana chegou ao imenso oásis do Asben. O doutor  Earth separou-se dos companheiros, fez excursão à cidade de  Agades e tornou a juntar-se à expedição que novamente se pôs  em marcha a doze de dezembro. Ao chegarem à província de  Damerghou, os três viajantes separaram-se e Barth tomou o  caminho de Cano, onde chegou à custa de muita paciência e  consideráveis tributos.

Embora acometido de forte febre, deixou aquela  cidade a sete de março, acompanhado unicamente de um  criado. A principal finalidade de sua viagem era reconhecer  o lago Chad, do qual ainda estava distante quinhentos e sessenta quilômetros. Avançando pelo leste, atingiu a cidade de  Zuricolo, no Bornu, que é o núcleo do grande império central  da África. Aí tomou conhecimento da morte de Richardson,  abatido por fadiga e privações. Depois, passou a Kouka,  capital do Bornu, às margens do lago. Finalmente, ao cabo  de três semanas, a catorze de abril, doze meses e meio depois  de haver deixado Trípoli, atingiu a cidade de Ngornu.

A vinte e nove de março de 1851, partiu em companhia  de Overweg em visita ao reino de Adamua, ao sul do lago.  Chegou apenas até à cidade de lota, um pouco abaixo do  grau de latitude norte. Foi o limite extremo alcançado ao  sul pelo intrépido viajante.

Em agosto voltou a Kouka, de onde alcançou sucessivamente Mandara, Barghimi, Kanem e o limite extremo ao  leste, a cidade de Masena, situada a dezessete graus e vinte  minutos de longitude oeste pelo meridiano de Greenwich.

A vinte e cinco de novembro de 1852, após a morte de  Overweg, seu último companheiro, internou-se para o oeste,  visitou Socoto, atravessou o Níger e finalmente chegou a Tombuctu, onde definhou durante oito longos meses, em meio  a vexames do xeque, a maus tratos e miséria. Entretanto, a  presença de um cristão não pôde mais ser tolerada na cidade, pois os fulas ameaçavam sitiá-la. Assim, o doutor partiu a  dezessete de março de 1854, refugiando-se na fronteira, onde  permaneceu por trinta e três dias na mais completa privação.  Regressou a Cano em novembro, tornou a entrar em Kouka  e de lá retomou o caminho de Denham, depois de quatro  meses de espera. Após rever Trípoli, em fins de agosto de 1855, chegou a Londres a seis de setembro, sem nenhum de  seus companheiros.

Foi esta a arrojada viagem de Barth.

Fergusson anotou cuidadosamente que ele interrompera  a caminhada a quatro graus de latitude norte e dezessete de  longitude oeste.

Vejamos agora o que fizeram os tenentes Burton e Speke,  na África oriental.

As várias expedições que subiram o Nilo jamais conseguiram atingir as nascentes misteriosas daquele rio. Segundo  o relatório do médico, Fernando Verne, a expedição, tentada  em 1840, sob os auspícios de Mehemet-Ali, interrompeu-se  em Gondocoro, entre os paralelos quatro e cinco, norte. Em  1855, Brun-Rollet, nomeado cônsul da Sardenha, no Sudão oriental, partiu de Cartum e, com a identidade suposta de  Yacoub, negociante de borracha e marfim, chegou a Belênia,  além de quatro graus. Pouco depois regressava enfermo a  Cartum, onde veio a morrer em 1857.

Nem o doutor Peney, chefe do serviço médico egípcio,  que num pequeno vapor alcançou um grau abaixo de Gondocoro, morrendo de esgotamento em Cartum, nem o veneziano Miani, que, contornando as cataratas situadas mais  abaixo de Gondocoro, atingiu o paralelo dois, nem o negociante maltês André Debono, que estendeu ainda mais sua  expedição sobre o Nilo, conseguiram ultrapassar o intransponível limite.

Em 1859, Guilherme Lejean, encarregado de missão pelo  governo francês, foi ter a Cartum pelo Mar Vermelho e tomou  outro navio no Nilo com tripulação de vinte e um homens  e vinte soldados. Todavia, não conseguiu ir além de Gondocoro, correndo ainda os maiores perigos em meio aos negros,  que se achavam em plena revolta. A expedição dirigida por Escayrac de Lauture tentou igualmente sem sucesso chegar às  famosas nascentes.

Aquele marco funesto sempre detivera o avanço dos viajantes. Já outrora os enviados de Nero haviam atingido o  grau nove de latitude. Como vemos, em dezoito séculos, não  se avançaram senão cinco ou seis graus, ou melhor, cerca de  quinhentos quilômetros.

Diversos viajantes tentaram chegar às nascentes do Nilo,  partindo de algum ponto da costa oriental da África. De 1768 a 1772  o escocês Bruce partiu de Maçua, porto de Abissínia, percorreu o Tigre, visitou as ruínas de Axum, viu as  nascentes do Nilo onde elas não se encontravam e não obteve  nenhum resultado real. Em 1844, o doutor Kraph, missionário anglicano, fundou estabelecimento na costa Zanguebar  e descobriu, em companhia do reverendo Rebmann, duas  montanhas a quinhentos quilômetros da costa, que são os  montes Quilimanjaro e Quênia.

Em 1845, o francês Maizan desembarcava sozinho em  Bagamaio, em frente de Zanzibar, chegando a Deja-la-Mhora,  onde pereceu entre cruéis suplícios por ordem do chefe da  localidade.

Em 1859, no mês de agosto, o jovem viajante Roscher,  de Hamburgo, partiu com caravana de mercadores árabes,  atingiu o lago Níassa e ali foi assassinado enquanto dormia.

Finalmente, em 1857, os tenentes Burton e Speke, ambos  oficiais do exército de Bengala, foram enviados pela Sociedade de Geografia de Londres para explorar os Grandes Lagos  africanos. A dezessete de junho, partiram de Zanzibar, dirigindo-se diretamente para o oeste. Após quatro meses de sofrimentos atrozes, quando lhes saquearam a bagagem e espancaram seus carregadores, chegaram a Kazeh, centro de reuniões de traficantes e de caravanas.

Aí colheram documentos preciosos sobre os costumes, o  governo, a religião, a fauna e a flora da região. Em seguida, dirigiram-se ao primeiro dos Grandes Lagos, o Tanganica,  situado entre os graus três e oito de latitude austral, onde chegaram a catorze de fevereiro de 1858 e passaram a visitar  as diversas tribos, na maior parte canibais que habitavam as  margens.

Tornaram a partir a vinte e seis de maio, chegando a  Kazeh no dia vinte de junho. Aí, Burton, exausto, caiu doente por muitos meses. Na mesma ocasião, Speke empreendeu  excursão de mais de quinhentos quilômetros, até chegar ao  lago Ukereué, só conseguindo divisar a sua abertura a três de agosto.

Voltou a Kazeh a vinte e cinco do mesmo mês, retomando  em companhia de Burton o caminho de Zanzibar, onde chegaram no mês de março do ano seguinte. Ao retornarem à  Inglaterra, foram os dois destemidos exploradores agraciados pela Sociedade de Geografia de Paris com o prêmio por ela  outorgado anualmente.

Fergusson observou com atenção que eles não haviam  transposto nem o grau dois de latitude austral, nem o vinte  e nove de longitude leste. Tratava-se, portanto, de reunir as  explorações de Burton e Speke às do doutor Barth, o' que  significava vencer extensão territorial de mais de doze graus.

 

CARTA GEOGRÁFICA AFRICANA 

O doutor fergusson apressava ativamente os preparativos  da partida. Dirigia pessoalmente a construção do aeróstato,  examinando certas modificações sobre as quais guardava silêncio absoluto.

Havia já muito tempo que se dedicava ao estudo do idioma árabe e de vários dialetos sudaneses, conseguindo rápidos progressos graças às suas naturais tendências poliglóticas.  Enquanto esperava, seu amigo caçador não o abandonava um instante. Sem dúvida, temia que o doutor alçasse vôo sem  avisá-lo. Continuava insistindo naquele assunto com os mais persuasivos argumentos, que absolutamente não persuadiam  Samuel Fergusson e sempre terminavam em súplicas patéticas que pouco o impressionavam. Aos poucos, Ricardo foi sentindo que o amigo escapava de suas mãos.

O pobre escocês era digno de compaixão. Não podia mais  contemplar o firmamento sem ficar aterrorizado. Quando dormia, assaltavam-no horríveis pesadelos, em que se via despencando de incomensuráveis alturas. Devemos acrescentar que, durante os pesadelos, caiu da cama algumas vezes. Sua primeira preocupação foi a de mostrar a Fergusson forte contusão  que sofrera na cabeça por ocasião de uma das quedas.

- E note bem - ajuntou com simplicidade -, foi só de  meio metro de altura! Nada mais que meio metro e um galo destes!

Imagine! A insinuação, cheia de melancolia, não conseguiu comover o doutor.

- Nós não vamos cair - limitou-se este a declarar.

- E se cairmos?

- Não vamos cair.

Kennedy não teve o que responder.

O que mais exasperava Ricardo era que o doutor parecia  fazer total abstração da personalidade do amigo. Considerava-o irrevogavelmente destinado a tornar-se seu companheiro  aéreo. Quanto a isso não restava a menor dúvida. Samuel  usava e abusava do pronome da primeira pessoa do plural:

Nós avançaremos..., nós estaremos perto de..., nós partiremos... Fazia o mesmo com o adjetivo possessivo no singular: Nosso balão..., nossa barquinha..., nossa exploração.  E também no plural: Nossos preparativos..., nossas descobertas... nossas subidas...

Ricardo vibrava com aquilo, embora estivesse firmemente  decidido a não partir. Contudo, não desejava contrariar demais o amigo. Sem se aperceber bem, já fizera vir sorrateiramente de Edimburgo algumas roupas variadas e suas melhores espingardas de caça.

Um dia, após ter reconhecido que com muita sorte poderia ter uma oportunidade em mil de ser bem sucedido,  simulou aquiescer à vontade do doutor. Porém, a fim de  evitar a viagem, lançou mão de uma série de pretextos. Criticou a utilidade da expedição, bem como sua oportunidade.  Aquele descobrimento das nascentes do Nilo seria realmente  necessário? Iriam na verdade trabalhar para o bem da humanidade? Quando, afinal, as tribos da África fossem civilizadas, sentir-se-iam elas com isso mais felizes? Quem sabe,  talvez, a civilização tivesse lá chegado antes que à Europa?  Além disso, não se poderia esperar um pouco mais? A travessia da África naturalmente seria realizada algum dia e de  forma menos temerária. Dentro de um mês, de seis meses,  antes de um ano, algum explorador sem dúvida lá chegaria.

Tais insinuações produziram efeito totalmente contrário  no doutor, que respondeu com impaciência:

- Por acaso você queria; desgraçado e pérfido amigo,  que a glória coubesse a outro? Acha que eu seria capaz de  renegar minha origem? De recuar ante obstáculos que nem  ao menos são de grande importância?

- Mas... - gaguejou Kennedy, que usava com grande  assiduidade essa conjunção.

- Mas - repetiu o doutor - não sabe que minha viagem  tem de competir com o sucesso de outros empreendimentos?  Por acaso não sabe que novos exploradores estão avançando  em direção ao centro da África?

- No entanto...

- Olhe para este mapa.

Ricardo obedeceu, resignado.

- Suba o curso do Nilo - prosseguiu Fergusson.

Olhe para este mapa.

- Estou subindo - respondeu o escocês com docilidade.  - Chegue a Gondocoro.

- Já cheguei.

E Kennedy pôs-se a imaginar como era simples uma viagem daquelas... por mapa.

- Tome uma das pontas deste compasso - ordenou o  doutor - e faça centro nesta cidade que os mais corajosos  mal chegaram a transpor.

- Pronto...

- Agora, localize a ilha de Zanzibar, a seis graus de latitude sul.

Já localizei.

- Agora siga este paralelo e chegue a Kazeh.

- Já está.

- Suba pelo grau trinta e três de longitude até à abertura do lago Ukereué, o local onde parou o tenente Speke.

- Aqui estou! Um pouco mais e eu mergulharia no lago.

- Pois bem. Sabe o que se pode deduzir das informações  colhidas entre as tribos que vivem às margens?

- O quê?

- É que este lago, cuja extremidade inferior está a dois  graus e trinta segundos de latitude, deve também estender-se  a dois graus e meio acima do equador.

- É isso mesmo!

- Ora, desta extremidade setentrional corre um rio que por força irá encontrar-se com o Nilo, caso não se trate do  próprio Nilo.

- Interessante.

- Agora, apóie a segunda ponta do compasso sobre esta  extremidade do lago Ukereué.

- Pronto, amigo Fergusson.

- Quantos graus existem entre as duas pontas?

- Dois.

- E sabe a que corresponde isso?

Não faço a mínima idéia.

- Apenas a duzentos e vinte quilômetros, quer dizer,  nada.

- Quase nada, Samuel.

- Muito bem, sabe o que acontece no momento?

Palavra que não!

Então, ouça. A Sociedade de Geografia considerou de  grande importância a exploração deste lago divisado por  Speke. Sob seus auspícios, o tenente, hoje capitão Speke, associou-se ao capitão Grant, do exército hindu, para levar a  rabo uma grande expedição, largamente subvencionada. Sua  missão é voltar ao lago e ir de lá até Gondocoro. Receberam  subsídio de mais de cinco mil libras e o governador do Cabo  colocou soldados à disposição deles. Partiram de Zanzibar em fins de outubro de 1860. Na mesma ocasião, o inglês João  Petherick, cônsul de Sua Majestade em Cartum, recebeu do  governo inglês aproximadamente setecentas libras, para equipar navio a vapor, carregá-lo de provisões suficientes e permanecer em Gondocoro. Lá aguardará a chegada da caravana  do capitão Speke para reabastecê-la.

- Boa idéia - comentou Kennedy.

- Agora você deve compreender que nos precisamos apressar, se quisermos tomar parte nos trabalhos de exploração.  Enquanto se avança com segurança para o descobrimento das  nascentes do Nilo, outros viajantes se dirigem corajosamente  para o coração da África.

- A pé? - indagou Kennedy.

- Sim, a pé - respondeu o doutor, sem atentar para a  a insinuação. O doutor Krapf propõe-se viajar para o oeste,  pelo Djob, rio situado abaixo do equador. O barão de Decken  saiu de Mombaça, reconheceu as montanhas de Quênia e Quilimanjaro e se dirige para o centro.

- Também a pé?

- Também a pé. Ou, então, montado em burro. Finalmente, o senhor de Heuglin, vice-cônsul da Austria em Cartum, acaba de organizar expedição bastante importante, cuja principal finalidade é procurar o viajante Vogel que, em 1853,  foi enviado ao Sudão para associar-se aos trabalhos do doutor  Barth. Em 1856, deixou Bornu e decidiu explorar a região  desconhecida que se estende entre o lago Chade e o Darfour.  Depois, nunca mais apareceu. Algumas cartas chegadas em  junho de 1860 à Alexandria informaram que havia sido assassinado por ordem do rei do Vadaí. Outras cartas, porém,  enviadas pelo doutor Hartmann ao pai do viajante, diziam  que existiam rumores de que Vogel estava aprisionado em  Vara. Em vista disto, foi organizado um comitê sob a presidência do duque regente de Saxe-Coburgo Gora, do qual meu  amigo Petermann é o secretário. Uma subscrição nacional  custeou as despesas da expedição, à qual aderiram numerosos  sábios. O senhor de Heuglin partiu de Macuá no mês de junho e, ao mesmo tempo que procura vestígios de Vogei,  terá de explorar toda a região compreendida entre o Nilo e o Tchad, isto é, ligar as operações do capitão Speke às do  doutor Barth. E, assim, a África terá sido atravessada de  leste -a oeste.

- Muito bem - disse o escocês. Já que tudo está tão bem encaminhado, o que é que nós vamos fazer lá?

O doutor Fergusson não respondeu, limitando-se a erguer  os ombros.

 

UM CRIADO IMPOSSÍVEL 

O doutor tinha um criado que se chamava José. Era excelente rapaz. Possuía ótimo caráter, estava sempre de bom  humor, confiava cegamente no patrão e cumpria suas ordens  com perfeição, às vezes até antes de serem dadas. Se fosse  feito por encomenda o criado não poderia ter saído melhor.  Fergusson tinha-o a par de toda a sua vida e com bastante  razão. José era honesto e excepcional! Decidia seu jantar,  tinha o mesmo gosto do patrão, arrumava as malas, não se  esquecia nem das meias nem das camisas, guardava as chaves  e os segredos e jamais tirava proveito da situação!

Tinha Fergusson na mais alta conta, acolhendo com respeito e confiança toda e qualquer decisão do doutor. Quando  este falava, ninguém deveria ser tolo em contestar. Tudo o  que o patrão pensava era justo. Tudo o que dizia, sensato.  Tudo o que ordenava, praticável. Tudo o que empreendia,  possível. Tudo o que concluía, admirável. Seria mais fácil  picar José em pedaços que faze-lo mudar de opinião a respeito  do doutor.

Quando o doutor concebeu o plano de atravessar a África  pelo ar, para José isto passou a ser fato consumado, sem qualquer obstáculo. No instante em que Fergusson resolvera  partir, para ele era o mesmo que já tivesse chegado, em companhia de seu fiel servidor, pois o notável rapaz, sem que  nada lhe tivesse sido comunicado, sabia perfeitamente que tomaria parte na viagem.

Aliás, iria de fato prestar inestimáveis serviços com sua  inteligência e sua maravilhosa agilidade. Se resolvessem nomear professor de ginástica para os símios do jardim Zoológico,  sem dúvida José obteria o lugar, se assim o entendesse. Saltar, trepar, correr a toda velocidade, executar mil estripulias impossíveis, para ele era brincadeira.

Se Fergusson era a cabeça e Kennedy o braço, José devia  ser a mão. Já acompanhara o patrão em várias outras viagens  e possuía alguns laivos de ciência à sua maneira. Contudo,  distinguia-se sobretudo por uma filosofia agradável, um otimismo encantador. Achava tudo fácil, lógico, natural e, conseqüentemente, jamais se lastimava ou praguejava. Entre  outras qualidades, seu poder e alcance de visão eram surpreendentes. Mas nem por isto era orgulhoso.

Em vista de toda sua confiança no doutor, não é de se  admirar que tivesse inúmeras discussões com Kennedy, naturalmente conservando sempre a devida deferência.

Um duvidava, o outro acreditava. Um era a prudência  clarividente, o outro a confiança cega. O doutor encontrava-se, assim, entre a dúvida e a crença e cabe aqui explicar  que não o preocupava nem uma coisa nem outra.

- E então, senhor Kennedy - dizia o criado.

- O que é que há, José?

- Parece que se está aproximando o momento de embarcarmos para a lua.

- Você quer dizer para a terra da lua, não é? É um pouco  mais perto, mas os perigos não são menores.

- Perigo? Com um homem como o doutor Fergusson?

- Longe de mim tirar suas ilusões, mas o que ele pretende é coisa de doido. Ele não fará a viagem.

- Não fará a viagem! Ainda não viu o balão na oficina  Mittchel?

- Não vou perder meu tempo com isso.

- Pois saiba que perde um belo espetáculo! Que maravilha! Que formato bonito! Precisava ver a barquinha do  balão, que beleza! A gente vai ficar completamente à vontade  dentro dela!

- Você pensa seriamente em ir com o seu patrão?

- Claro que sim - afirmou José com convicção. Com  ele vou a qualquer lugar! Acha que eu iria deixá-lo sozinho,  quando já corremos o mundo juntos? Quem vai cuidar dele - É melhor que perca as esperanças. Além do mais, é  importante que vá conosco. Para um caçador como o senhor,  a África é uma região maravilhosa e, seja como for, não se  arrependerá de ter feito essa viagem.

- Sim, eu sei que não me arrependeria, caso essa tentativa fosse realizada.

- A propósito, sabe que é hoje o dia da pesagem?  - Que pesagem?

- Como é natural, meu patrão, o senhor e eu vamos  pesar-nos.

- Como os jóqueis?

- Sim, como os jóqueis. Só que não vão pedir que o  senhor emagreça se estiver muito pesado. Aceitam da forma  que estiver.

- Não pretendo deixar que ninguém me pese - afirmou  o escocês com determinação.

- Mas, meu senhor, parece que isso é necessário para o  aparelho.

- Ora! O aparelho não se vai incomodar.

- E se, por falta de cálculos exatos, não pudermos subir?  - E dai? É exatamente o que desejo!

- Não diga isso, senhor Kennedy. O meu patrão vem buscar-nos a qualquer momento.

- Eu não vou.

- O senhor não vai fazer uma coisa dessas com ele.  - Você verá.

- Eu sei - disse José, rindo-se. O senhor fala assim  porque ele não está aqui. Mas quando chegar, e disser:  "Ricardo, eu preciso saber o seu peso exato", eu sei que o  senhor não se vai negar.

- Repito que não irei.

Naquele momento, o doutor entrou no seu gabinete de  trabalho, onde se dava a palestra. Olhou bem de frente para  Kennedy, que não se sentia muito à vontade.

- Ricardo - disse o doutor -, venha com José, preciso  saber o peso exato dos dois.

- Mas...

- Pode ficar de chapéu na cabeça. Vamos.  Kennedy acompanhou-o.

Dirigiram-se os três para a oficina dos Mittchel, onde uma  balança romana os aguardava. O doutor necessitava conhecer quando estiver cansado? Quem o ajudará a saltar um precipício? Quem tomará conta dele quando ficar doente? Não, senhor Ricardo, estarei sempre ao lado do doutor Fergusson.

- Você é um rapaz admirável!

- Além do mais, o senhor irá conosco.

- Lógico que irei! - confirmou Kennedy. Quer dizer,  irei com vocês para tentar até o último momento impedir que - Sessenta e nove quilos e meio - disse o doutor. ... o Samuel cometa semelhante loucura! Vou até Zanzibar, para  procurar demovê-lo desse projeto insensato.

- Não conseguirá nada, senhor Kennedy.  Meu patrão  pensa muito antes de fazer alguma coisa, mas quando toma  decisão, nada há que o faça desistir.

- Veremos.

o peso de seus companheiros, a fim de estabelecer o equilíbrio  de seu aeróstato. Fez Ricardo subir à plataforma da balança  e este, sem oferecer resistência, balbuciou a meia-voz:

- Bem, isso não quer dizer que eu esteja comprometido  a coisa alguma.

- Sessenta e nove quilos e meio - disse o doutor, anotando numa caderneta.

- Sou pesado demais?

- Que nada, senhor Kennedy - replicou José. Além disso  eu sou muito leve e tudo fica compensado.

Enquanto falava, José tomou com entusiasmo o lugar do  caçador.

- Cinqüenta e quatro quilos e meio - disse o doutor,  registrando.

- Agora é a minha vez - disse Fergusson.

E anotou na caderneta sessenta e um quilos, à frente  de seu nome.

- Nós três juntos - declarou ele - não pesamos mais  de cento e oitenta quilos.

- Patrão - disse José - se fosse necessário para a sua  expedição, eu trataria de emagrecer vinte quilos, deixando de  comer.

Eu sei, mas não há necessidade disso, meu rapaz -  respondeu o doutor. Pode comer à vontade.

 

O BALÃO 

Havia muito tempo que fergusson vinha preocupando-se com os pormenores de sua expedição. Como é fácil imaginar,  foi o balão, maravilhoso veículo destinado a transportá-los  pelos ares, o objeto de sua constante solicitude.

Logo de início, para não ter de fazer o aeróstato com  grandes dimensões, resolvera enchê-lo com gás hidrogênio, que  é catorze vezes e meia mais leve que o ar. Não só a produção  deste gás era fácil, como era o tipo que já dera os melhores  resultados nas experiências aerostáticas.

O doutor, após cálculos exatos, descobriu que, para levar  os objetos indispensáveis à viagem e seu aparelho, devia carregar peso de mil, oitocentos e catorze quilos. Era necessário  portanto, descobrir qual seria a força ascensional capaz de  erguer este peso e, conseqüentemente, a respectiva capacidade Um peso de mil, oitocentos e catorze quilos é representado por deslocação de ar de mil, seiscentos e sessenta e um  metros cúbicos, o que equivale a dizer que mil, seiscentos e  sessenta e um metros cúbicos pesam aproximadamente mil,  oitocentos e catorze quilos.

Dando ao balão esta capacidade e enchendo-o, em lugar  de ar, com gás hidrogênio, que, catorze vezes e meia mais  leve, pesa apenas cento e vinte e cinco mil, cento e noventa  e um quilos!, resta uma quebra de equilíbrio, ou seja, diferença de quase mil, seiscentos e noventa quilos. É justamente  esta diferença entre o peso do gás contido no balão e o peso do ar circunvizinho que constitui a força ascensional do  aeróstato.

Todavia, se fossem introduzidos no balão os mil, seiscentos e sessenta e um metros cúbicos de gás a que nos referimos, ele ficaria totalmente cheio, o que não deve acontecer,  já que, à medida que o balão atinge as camadas menos densas  de ar, o gás que ele contém tende a dilatar-se, não tardando  assim a romper o envoltório. Por esta razão, só dois terços  dos balões são ocupados pelo gás.

Mas o doutor, em virtude de certo projeto que só ele  conhecia, decidiu encher o aeróstato somente pela metade,  dando-lhe capacidade quase dupla, uma vez que era necessário  carregar mil, seiscentos e catorze metros cúbicos de hidrogênio.

Preparou-o sob a forma alongada, que, como é sabido, é  a mais conveniente. O diâmetro horizontal foi de dezesseis  metros e meio e o vertical, de vinte e quatro metros e setenta e cinco centímetros. Obteve, desta forma, um esferóide cuja capacidade elevava-se em cifras redondas a três mil duzentos e quarenta metros cúbicos.

Se Fergusson tivesse podido utilizar dois balões, suas probabilidades de êxito seriam maiores. Se um se rompesse no  ar, poderia, desfazendo-se do contrapeso, sustentar-se por meio  do outro. Entretanto, a manobra de dois aeróstatos torna-se  imensamente difícil, por ter-se de conservá-los em idêntica  força ascensional.

Após longas reflexões, por disposição engenhosa, reuniu  as vantagens oferecidas por dois balões sem sofrer os inconvenientes que o fato acarretaria. Construiu dois de dimensões  diferentes, colocando um no interior do outro. O balão exterior, com as dimensões atrás citadas, continha outro menor,  da mesma forma, que não media mais que quinze metros de  diâmetro horizontal e vinte e dois de diâmetro vertical. A capacidade do balão interno era, pois, de dois mil, quatrocentos o doze metros cúbicos. Devia flutuar no gás que o cercava.  Uma válvula aberta permitia que os dois balões se comunicassem entre si.

Esta disposição apresentava a vantagem de, caso falhasse  a saída do gás quando quisesse descer, imediatamente deixar  escapar o do balão maior. Mesmo que se esvaziasse por completo, o menor ficaria intacto. Era só desfazer-se do envoltório  externo, como de peso incômodo, e o segundo aeróstato, sozinho, não ofereceria ao vento a pouca resistência dos balões  parcialmente cheios.

Além disto, em caso de acidente, de um furo no balão  externo, o outro estaria capacitado a substituí-lo.

Os dois aeróstatos foram construídos com tafetá trançado  de Lião, revestido de guta-percha. Esta substância gomo-resinosa é de absoluta impermeabilidade e totalmente inatacável  pelos ácidos e pelo gás. O tafetá foi justaposto, dobrado, ao  pólo superior do globo, onde se processa quase todo o esforço.

O envoltório podia reter o fluido por tempo ilimitado.  Pesava oitenta gramas por metro quadrado. Ora, sendo a  superfície do balão externo de aproximadamente três mil, oitocentos e vinte oito metros quadrados, seu envoltório pesava  duzentos e noventa quilos. O envoltório do segundo balão  pesava cerca de duzentos e trinta e um quilos. Assim, o peso  total era de quinhentos e vinte e seis quilos.

A rede destinada a sustentar a barquinha foi confeccionada com corda de cânhamo de enorme resistência e as duas  válvulas foram objeta de meticulosa atenção, como seria feito  com a leme de um navio.

A barquinha, de forma circular e com diâmetro de cinco  metros, era de vime, reforçada por leve armação de ferro e revestida na parte inferior de molas elásticas destinadas a  amortecer os choques. Seu peso, conjuntamente com o da  barquinha, não passava de cento e vinte e sete quilos.

O doutor mandou construir, além disso, quatro caixas  de chapas de ferro de duas linhas de espessura. Eram ligadas  entre si por tubos munidos de torneiras. Aí encontrava-se  uma serpentina de mais ou menos dois dedos de diâmetro  que terminava por duas ramificações de comprimento desigual,  medindo a maior oito metros de altura e a menor, apenas  cinco.

As caixas de chapas de ferro foram colocadas na barquinha de forma a ocupar o menor espaço possível e a serpentina, que somente mais tarde deveria ser ajustada, foi empacotada separadamente, assim como possante pilha elétrica de  Bunsen. Este aparelho fora tão habilmente construído que  não pesava mais de trezentos e dezessete quilos e meio, abrangendo vinte e cinco galões de água contidos em caixa especial.

Os instrumentos destinados à viagem consistiam de dois  barômetros, dois termômetros, duas bússolas, um sextante, dois cronômetros, um horizonte artificial e um altazimute para  levantar a planta dos objetos distantes e inacessíveis. O observatório de Greenwich colocou-se à disposição do doutor, mas  este não se propunha a fazer experiências de física. Desejava tão-somente reconhecer sua direção e poder determinar a posição dos principais rios, montanhas e cidades.

Muniu-se de três âncoras de ferro, submetidas a sérias  experiências, bem como de escada de seda leve e resistente, de dezesseis metros de extensão.

Calculou igualmente o peso exato dos víveres. Consistiam  de café, chá, biscoito e carne-seca. Além de suficiente reserva  de aguardente, colocou duas caixa-d’água, contendo cada uma  quase cem litros.

O consumo destes alimentos deveria pouco a pouco ir  diminuindo o peso levantado pelo aeróstato. O equilíbrio  de um balão na atmosfera é de extrema sensibilidade. A perda  de peso quase insignificante pode ocasionar deslocação bastante apreciável.

O doutor não se esqueceu nem do toldo que devia recobrir parte da barquinha, nem as cobertas que compunham  toda a roupa de cama da viagem, nem as espingardas do caçador e nem as provisões de pólvora e balas.

 

JANTAR DE DESPEDIDA 

11 dez de fevereiro, os preparativos achavam-se quase concluídos e os aeróstatos, colocados um no interior do outro,  estavam inteiramente terminados. Haviam sido submetidos a  forte pressão pelo ar comprimido em suas partes laterais. Tal  prova evidenciara sua solidez e tornara evidente os desvelos  com sua construção.

José não cabia em si de contente. Sempre atarefado, mas  alegre, contando minúcias do acontecimento a quem nada lhe perguntava, vivia orgulhoso, principalmente por seguir em  companhia do patrão. Creio mesmo que ao mostrar o aeróstato, ao revelar as idéias e os planos do doutor e em muitas  outras ocasiões, o digno rapaz tenha ganho algumas meiascoroas, ainda que a contragosto. Mas a verdade é que tinha  todo o direito de especular um pouco sobre a admiração e a curiosidade de seus contemporâneos.

A dezesseis de fevereiro, o Resoluto lançou âncora à frente  de Greenwich. Era um navio de hélice, de oitocentas toneladas. Seu comandante, o capitão Pennet, era homem amável  e demonstrava particular interesse pela viagem do doutor.

O porão do Resoluto foi disposto de maneira a alojar o  aeróstato, que para lá fora transportado. Foram também embarcadas dez toneladas de ácido sulfúrico e dez de ferragem  velha para a produção de gás hidrogênio. O aparelho destinado a desenvolver o gás foi colocado ao fundo do porão.

Duas confortáveis cabinas aguardavam o doutor Fergusson e seu amigo Kennedy. Este, embora jurando que não partiria, apresentou-se a bordo com autêntico arsenal de caça.  Os três viajantes instalaram-se a bordo no dia dezenove de  fevereiro. Foram recebidos com grande deferência pelo comandante e seus oficiais, o que não impressionou o doutor, sempre frio e preocupado unicamente com a expedição. Ricardo  procurava dissimular a emoção que sentia, enquanto José exultava em explosões cômicas, tornando-se sem demora o gaiato  do navio.

No dia vinte, grande jantar de despedida era oferecido  pela Real Sociedade de Geografia. O comandante Pennet e o doutor ministrava verdadeiros cursos de geografia...

Seus oficiais compareceram à homenagem, que transcorreu  entre grande animação e libações lisonjeiras. Os brindes foram erguidos em número suficiente para assegurar a todos os convivas uma existência de centenários. Ricardo Kennedy teve  boa parte nas felicitações. A sobremesa chegou mensagem da  rainha. Apresentava seus cumprimentos aos dois viajantes e  fazia votos pelo sucesso do empreendimento. A meia-noite, com adeuses emocionados e calorosos apertos de mão, os convivas separaram-se.

No dia seguinte, vinte e um de fevereiro, às três horas  da madrugada, acenderam-se as fornalhas. As cinco, erguia-se  a âncora e, sob o impulso da hélice, o Resoluto deslizou em direção à foz do Tâmisa.

Durante as longas e ociosas horas da viagem, o doutor  ministrava verdadeiros cursos de geografia na sala dos oficiais.  Estes rapazes empolgavam-se com as descobertas realizadas nos  últimos quarenta anos na África. Relatou-lhes ele as explorações de Barth, de Burton, de Speke e de Grant. Descreveu-lhes aquela misteriosa região aberta por todos os lados às pesquisas da ciência. No norte, o jovem Duveyrier explorara o Saara e na sua volta a Paris trouxera consigo os chefes tuaregues. Por sugestão do governo francês, organizaram-se duas  expedições, as quais, descendo do norte em direção ao oeste,  cruzar-se-iam em Tombuctu. Ao sul, o incansável Livingstone  avançava constantemente na direção do equador e, depois de  março de 1861, subia, em companhia de Mackenzie, o rio  Rovoonia. Sem dúvida, o século dezenove não terminaria sem  que a África revelasse os segredos que vinha ocultando por  seis mil anos.

O interesse dos ouvintes de Fergusson foi particularmente  demonstrado quando ele discorreu sobre os preparativos de  sua viagem. Quiseram verificar seus cálculos, discutindo-os e fazendo com que o doutor tomasse partes nos debates.

Surpreenderam-se todos com a quantidade relativamente  reduzida dos mantimentos que ele levava. Um dos oficiais  interrogou-o a esse respeito.

- Isto o surpreende, não é? - ponderou Fergusson.

- Sem dúvida.

- Mas qual a duração que imagina irá ter a minha  viagem? Meses inteiros? Engana-se. Se se prolongasse por  muito tempo, nunca mais voltaríamos. De Zanzibar à costa  do Senegal, a distância é aproximadamente de sete mil quilômetros. Ora, calcule quatrocentos quilômetros por doze horas e verá que, viajando-se dia e noite, não se levará mais que sete dias para atravessar a África.

- Mas nesse caso não poderá ver nada, fazer levantamentos geográficos, ou inspecionar a região.

- Acontece - replicou o doutor - que sou eu quem  dirige o balão e poderei não só subir e descer à vontade,  como parar quando julgar conveniente. Nossos víveres são  suficientes para dois meses. Se viessem a faltar, nosso competente caçador se encarregaria de conseguir boas caças.

- Senhor Kennedy, com certeza irá dar tiros de mestre  -. disse um jovem guarda-marinha, olhando para o escocês  com inveja.

- Sem se falar na glória que juntará aos momentos agradáveis que vai passar - comentou outro.

- Senhores - disse o caçador -, sou grato por seus cumprimentos, mas eles não têm razão de ser.

- Como!! - exclamaram de todos os lados. O senhor não  vai com o doutor Fergusson?

- Não só isto, como estou aqui para tentar demovê-lo  dessa viagem até o último momento.

- Não dêem atenção ao que ele diz - declarou Fergusson, com sua habitual fleuma. É assunto que não se deve  nem discutir. No fundo, ele sabe perfeitamente que partirá  comigo.

- Pelo amor de Deus! - exclamou Kennedy. Garanto  que...

- Não garanta coisa alguma, meu caro Ricardo. Você  foi medido, pesado, e o mesmo aconteceu com sua pólvora,  suas espingardas e as balas, de modo que o melhor é não se  falar mais nisso.

Realmente, depois daquele dia até a chegada a Zanzibar,  Kennedy não mais abriu a boca para falar naquele assunto  ou em outro qualquer.

 

 JOSÉ LECIONA COSMOGRAFIA 

O resoluto navegava com rapidez em direção ao cabo da Boa Esperança. O tempo permanecia bom, embora o mar se  mostrasse mais agitado.

A trinta de março, vinte e sete dias após a partida de  Londres, a montanha da Mesa delineou-se no horizonte. A cidade do Cabo, situada na base de um anfiteatro de colinas,  surgiu na extremidade das lunetas marítimas e pouco depois  o Resoluto baixava a âncora no porto. Mas só permaneceram  lá um dia, para reabastecimento de carvão. Na manhã seguinte, o navio já zarpava para o sul, a fim de dobrar o  ponto meridional da África e entrar no canal de Moçambique.

Não era a primeira viagem por mar que José fazia e,  assim, não tardara a sentir-se em casa. Era querido por todos  pela sua franqueza e por seu bom-humor. Grande parte da  celebridade do patrão refletia-se nele. Escutavam-no como a  um oráculo e ele não se enganava mais que qualquer outro  oráculo.

Assim, enquanto o doutor se entregava às suas descrições  na sala dos oficiais, José reinava no castelo de proa, contando  a história à sua maneira, procedimento, aliás, seguido pelos  grandes historiadores de todos os tempos.

Tratava-se naturalmente da viagem aérea. Conseguira  com dificuldade fazer com que os espíritos recalcitrantes aceitassem o empreendimento. Contudo, após consegui-lo, a imaginação dos marinheiros, estimulada pela narrativa de José,  não achava mais nada impossível.

O esfuziante narrador persuadiu ao seu auditório de que,  realizada aquela viagem, outras se seguiriam. Tratava-se tão somente do inicio de longa série de proezas sobre-humanas.

- Saibam, meus amigos, que quando se experimenta este  meio de locomoção, não se pode mais passar sem ele. Em  nossa próxima expedição, em lugar de voarmos para o lago  iremos para cima, subindo sempre.

- Quer dizer que... irão à lua! - exclamou maravilhado  um dos ouvintes.

- Qual lua, qual nada! - respondeu José. Palavra de  honra, isso está ficando muito comum! Todo mundo planeja ir à lua. Além do mais, lá não existe água e a gente  é obrigado a levar enormes quantidades de provisões. Até ar  engarrafado, por pouco que se necessite respirar. Não, nada  de lua. Iremos e visitar aquelas belas estrelas, aqueles interessantes planetas de que meu patrão me fala tão a miúdo.  Começaremos por conhecer Saturno...

- O tal do anel? - indagou um marinheiro.

- Justamente.

- É verdade que irão àquelas alturas? - perguntou alguém, estupefato. Será que o seu patrão tem parte com o  demônio?

- Não! Ele e bom demais para isso.

- E depois de Saturno? - interpelou-o um dos mais impacientes da turma.

- Depois de Saturno? Bem, faremos uma visita a Júpiter.  É um lugar muito esquisito, onde os dias só têm nove horas  e os anos correspondem a doze dos nossos.

- Então um ano lá equivale a doze da terra? - inquiriu  o grumete.

- Exatamente, menino. Lá, você ainda estaria mamando  em sua mãe e aquele ali, que deve ter cinqüenta anos, seria  um garoto de quatro anos e meio.

- É incrível! - exclamaram todos a uma só voz.

- Mas é a pura verdade. O que é que vocês querem?  Quando a gente insiste em ficar vegetando neste mundo, não  se aprende nada, fica-se ignorante. Agora, dêem um pulo a  Júpiter e verão!

Riram-se todos, acreditando apenas em parte nas histórias. José falou-lhes ainda de Netuno, onde os marujos são otimamente recebidos, e de Marte, onde os militares são figuras importantes. Quanto a Mercúrio, era terra de facínoras,  povoada exclusivamente por ladrões e negociantes, tão semelhantes uns aos outros que se tornava impossível distinguí-los.  E, finalmente, fez-lhes descrição realmente encantadora de Vênus.

- E quando voltarmos desta expedição, seremos condecorados com a Cruz do Sul, que brilha lá em cima presa à  lapela do bom Deus.

- Bem merecido! - disseram os marinheiros.

Assim passavam divertidas as longas noites no castelo de  proa, enquanto em outro ponto do navio realizavam-se as  palestras instrutivas do doutor.

Certa vez, em que foi abordado o assunto da direção dos  balões, solicitaram a Fergusson que desse sua opinião a respeito.

- Não creio - disse ele - que se venha a conseguir  dirigir os balões. Conheço todos os sistemas experimentados.  Nenhum deles é praticável. Como sabem, é questão que me  interessa sobremaneira e estudei-a a fundo. Todavia, cheguei  à conclusão de que não poderia resolvê-la com os meios fornecidos pelos atuais conhecimentos de mecânica. Seria necessário descobrir-se motor de potência extraordinária e ao mesmo  tempo de leveza impossível. Assim mesmo, não se poderiam  vencer as correntes mais fortes.

- Entretanto - ponderou alguém - existe grande afinidade entre um aeróstato e um navio, que se dirige à vontade.

- Discordo - retrucou Fergusson. Existe pouca, se não  nenhuma. O ar e infinitamente menos denso que a água, na  qual só metade do navio está submersa, enquanto o aeróstato  acha-se inteiramente mergulhado na atmosfera e fica imóvel  em relação ao fluido que o cerca.

- Julga então que a ciência aerostática estagnou?

- Não, absolutamente! É preciso procurar outro meio de, no caso de não se conseguir dirigir o balão, pelo menos  mantê-lo nas correntes atmosféricas favoráveis. À medida que  ele se eleva, elas se tornam mais uniformes e são constantes  em sua direção. Não são afetadas pelos vales e montanhas  que sulcam a superfície do globo, causa principal das mudanças dos ventos e da variação de seu rumo. Ora, uma vez  determinadas essas zonas, o balão só terá de colocar-se nas  correntes que lhe convierem.

- Mas, nesse caso - considerou o comandante Pennet -,  para atingi-las seria necessário estar constantemente subindo  ou descendo. Aí está a grande dificuldade.

- Como assim?

- Bem, seria um obstáculo para as viagens de longo curso  e não para os simples passeios aéreos.

- Por que não?

- Porque só se sobe para perder lastro e se desce para  perder gás e, com isso, as provisões de gás e lastro se esgotarão rapidamente.

- Meu caro Pennet, aí é que está a questão. É a única  dificuldade que a ciência terá de vencer. Não se trata de  dirigir balões. Trata-se de movê-lo de cima para baixo, sem  consumir o gás que representa sua força, seu sangue, sua  alma.

- Tem razão. Esse problema ainda não foi solucionado, ainda não se encontrou esse meio.

- Perdão, mas já foi encontrado.  - Por quem?

- Por mim.  - Pelo senhor!

- Sim. Sem isto não iria arriscar-me a atravessar a África em balão. Vinte e quatro horas depois, eu já estaria sem gás.  - Mas o senhor não falou sobre isso na Inglaterra.  - Exato. Julguei desnecessário e inútil discutir este ponto em público. Fiz em segredo as experiências preliminares e fiquei satisfeito. Não havia necessidade de mais nada.  - Pode-se saber o seu segredo?

- Pois não. Senhores, meu expediente é bastante simples.  A atenção do auditório elevou-se ao mais alto grau e o  doutor tomou a palavra.

 

FERGUSSON EXPLICA 

"Já se tentou muitas vezes - começou o doutor - subir e descer à vontade, sem perder gás ou lastro do balão. Um  aeronauta francês, Meunier, procurou conseguir isto comprimindo o ar em recinto fechado. Um belga, o doutor Van  Hecke, chegou a desenvolver, por meio de asas e palhetas,  força vertical, que seria suficiente na maioria dos casos.

Os resultados práticos obtidos por esses meios foram insignificantes. Resolvi então atacar a questão mais diretamente. De início, suprimo completamente o lastro, a não ser  para casos de força maior, como a ruptura do meu aparelho,  ou a necessidade de erguer-se repentinamente para evitar obstáculos imprevistos.

Os meios que emprego para a ascensão ou descida consistem unicamente em dilatar ou comprimir, por temperaturas diversas, o gás contido no interior do aeróstato. E aqui está  como obtenho este resultado.

Naturalmente viram subir com a barquinha do balão  várias caixas cuja utilidade desconhecem. Estas caixas são  cinco.

A primeira contém cento e doze litros de água, á qual  adiciono algumas gotas de ácido sulfúrico para aumentar sua condutibilidade e a decomponho por meio de farte pilha de  Bunsen. A água, como sabem, compôe-se de dois volumes  de gás hidrogênio e um de gás oxigênio.

Este último, sob a ação da pilha, vai, pelo seu pólo positivo, a uma segunda caixa. Uma terceira, colocada sobre  esta, e com o dobro de capacidade, recebe o hidrogênio que  chega pelo pólo negativo.

Duas torneiras, uma das quais com o dobro de abertura  da outra, fazem essas duas caixas comunicarem-se com uma  quarta, chamada caixa de mistura. Aí, realmente, misturam-se  os dois gases resultantes da decomposição da água. A capacidade dessa caixa de mistura e de aproximadamente um  metro e meio quadrados.

Na parte superior desta caixa fica um tubo de platina,  munido de torneira.

A esta altura, já devem ter compreendido, meus senhores.  O aparelhe que acabo de descrever não passa de maçarico de gás oxi-hidrogênio, cujo calor é mais que o do fogo das forjas.  Passarei, assim, à segunda parte do aparelho.

Da parte inferior do balão, que é hermeticamente fechado, saem dois tubos, separados por pequeno intervalo. Um  parte das camadas superiores do gás hidrogênio, outro, das  camadas inferiores.

Esses tubos são providos, em pequenos intervalos, de fortes  articulações de borracha, que lhes permitem sustentar-se às oscilações do aeróstato.

Ambos descem até a barquinha e desaparecem em caixa  de ferro cilíndrica que se chama caixa de calor. Ela é fechada nas duas extremidades por dois fortes discos do mesmo  metal.

O tubo que parte da região inferior do balão penetra  nessa caixa cilíndrica pelo disco de baixo, tomando então a  forma de serpentina helicoidal cujos aros superpostos ocupam  quase toda a altura da caixa. Antes de sair, a serpentina  penetra em pequeno cone, cuja base côncava, em forma de  abóbada esférica, é voltada para baixo.

E pelo vértice desse cone que sai o segundo tubo que  se comunica, como já disse, com as camadas superiores do  balão.

A abóbada esférica do pequeno cone é de platina, a fim  de não se fundir sob a ação do maçarico. Este é instalado ao  fundo da caixa de ferro, no centro da serpentina helicoidal,  e a extremidade de sua chama vai tocar de leve aquela abóbada.

Os senhores sabem o que é um aquecedor destinado a aquecer as habitações. Sabem como funcionam. O ar da habitação é forçado a passar pelos tubos, sendo depois devolvido  com temperatura mais elevada. Ora, o que acabo de descrever  não é mais que um aquecedor.

Senão, vejamos. Uma vez aceso o aquecedor, o hidrogênio  da serpentina e do cone côncavo esquenta-se e sobe rapidamente pelo tubo que o conduz às regiões superiores do aeróstato. Produz-se o vácuo na parte de baixo, que atrai o gás  das regiões inferiores, que se aquece, por sua vez., e é constantemente substituído. Assim se estabelece nos tubos e na serpentina corrente extremamente rápida de gás, que sai do balão  e a ele retorna, aquecendo-se sem cessar.

Ora, o gás aumenta de duzentos e sessenta e sete avos de  seu volume por grau de calor. Portanto, se se forçar a temperatura de dez graus centígrados, o hidrogênio do aeróstato  dilatará de dez vezes duzentos e sessenta e sete avos ou de, aproximadamente, sessenta e dois metros cúbicos, deslocando,  portanto, seis metros cúbicos de ar a mais, o que aumentará a sua força ascensional de setenta e dois quilos e meio. Isso  é o mesmo que jogar fora o mesmo peso em lastro. Se eu aumentar a temperatura de cem graus centígrados, o gás se  dilatará de cem vezes. Deslocará seiscentos e vinte metros cúbicos a mais e sua força ascensional será acrescida de setecentos e vinte e seis quilos.

Como vêem, posso facilmente obter consideráveis quebras  de equilíbrio. O volume do aeróstato foi calculado de maneira a, estando ocupado pela metade, deslocar peso de ar exatamente igual ao do envoltório de gás hidrogênio e da barquinha carregada de viajantes e todos os acessórios. A esse  ponto de enchimento, o balão está em perfeito equilíbrio no  ar e não sobe nem desce.

Para efetuar a ascensão, levo o gás a uma temperatura  superior à temperatura ambiente por meio do meu aquecedor  ou maçarico. Por esse excesso de calor, ele obtém tensão mais  forte e enche mais o balão, que sobe tanto quanto for a dilatação do hidrogênio:

A descida se processa, naturalmente, moderando o calor  do maçarico e deixando a temperatura diminuir. Assim, a  ascensão será em geral muito mais rápida que a descida.  Aliás, essa é uma circunstância até bem vantajosa. Não tenho nenhum interesse em descer rapidamente e, sim, subir, quando  precisar evitar algum obstáculo. Os perigos estão embaixo  e não lá em cima.

Além disso, como já disse, tenho certa quantidade de  lastro que permitirá subir ainda mais depressa, caso se torne necessário. Minha válvula, situada no pólo superior do balão,  não é mais que válvula de segurança. O balão conserva sempre a mesma carga de hidrogênio. As variações de temperatura que produzo nesse centro de gás encerrado provêm apenas de todos os movimentos de subida e descida.

Agora, um pormenor prático. A combustão do hidrogênio  e do oxigênio na ponta do maçarico produz unicamente o  vapor d'água. Assim sendo, provi a parte inferior da caixa  cilíndrica de ferro de tubo de desligamento com válvula, que  funciona a menos de duas atmosferas de pressão. Em conseqüência, já que ela abranda essa pressão, o vapor se escapa  dela própria.

Cento e doze litros de água decompostos em seus elementos constitutivos dão noventa quilos e setecentas gramas  de oxigênio e onze quilos e quatrocentas gramas de hidrogênio.  Isso representa, na tensão atmosférica, setenta metros cúbicos  do primeiro e cento e quarenta metros cúbicos do segundo,  perfazendo o total de duzentos e dez metros cúbicos de mistura.

Ora, a torneira do meu maçarico, quando totalmente  aberta, despende um metro cúbico por hora, com chama pelo  menos seis vezes mais forte que a das grandes lanternas de  iluminação. Portanto, em média, para conservar-me a altura  pouco considerável, não terei de queimar mais de um terço  de metro cúbico por hora. Meus cento e doze litros de água  representam, assim, para mim, seiscentas e trinta horas de navegação aérea, ou um pouco mais de vinte e seis dias.

Pois bem, como posso descer à vontade, e renovar a provisão de água pelo caminho, minha viagem poderá ter duração indefinida.

Aí está meu segredo. É simples e, como tudo que é simples, não pode deixar de dar resultados. A dilatação e a contração do gás do aeróstato são o meio que descobri, que não  exige nem asas embaraçosas, nem motor mecânico. Apenas  aquecedor para produzir minhas mudanças de temperatura e  tubo para ativá-lo, o que não é nem incômodo nem pesado.

Creio dessa forma ter conseguido reunir todas as condições  de sucesso.”

O doutor Fergusson assim terminou seu discurso, sendo  vivamente aplaudido. Não existia objeção que lhe pudesse  ser feita. Tudo fora previsto e resolvido.

- Entretanto - disse o comandante - isso pode ser perigoso.

- Não importa - respondeu o doutor com simplicidade -, desde que seja praticável.

 

O VITÓRIA

Vento constantemente favorável havia acelerado A  marcha do Resoluto. A passagem do canal de Moçambique  foi particularmente calma, e vaticinava boa travessia aérea.  Todos ansiavam pelo momento da chegada, quando teriam  oportunidade de dar a última demão aos preparativos do  doutor Fergusson.

Avistou-se finalmente a cidade de Zanzibar, situada na  ilha do mesmo nome. A quinze de abril, às onze horas da  manhã, o navio ancorava.

A ilha de Zanzibar pertence ao chefe religioso de Mascate, aliado da França e da Inglaterra, e é, indubitavelmente,  sua mais bela colônia. O porto abriga considerável número  de navios provenientes de países vizinhos.

Zanzibar só é separada da costa africana por um canal  cuja maior largura é de cinqüenta e cinco quilômetros. Possui importante comércio de borracha, marfim, ébano e é grande  mercado de escravos. Concentram-se lá todas as pilhagens  conquistadas nas batalhas em que os chefes do interior empenham-se incessantemente. O tráfego estende-se também a  toda a costa oriental.

A chegada do Resoluto, o cônsul inglês em Zanzibar foi  a bordo e colocou seus préstimos à disposição do doutor.

- Para dizer a verdade eu duvidava - confessou ele, estendendo a mão a Samuel Fergusson -, mas agora não duvido  mais do êxito da empresa.

66 67   Ofereceu sua própria residência ao doutor, a Ricardo  Kennedy e, naturalmente, ao valoroso José.

Para sua inquietação, Fergusson tomou conhecimento de  várias cartas que recebera do capitão Speke. O capitão e  seus companheiros haviam sido vítimas da fome e do mau  tempo antes de chegarem à região de Ugogo. Só conseguiram  avançar com grande dificuldade e não imaginavam poder dar  novas noticias suas tão cedo.

- São perigos e privações de que estaremos livres - ponderou o doutor.

A bagagem dos viajantes foi transportada para a residência do cônsul. Pensou-se em desembarcar o balão na praia  de Zanzibar. Existia ali, próximo ao mastro de sinais, local  apropriado, junto a enorme construção que o abrigaria dos  ventos do leste. Entretanto, quando se tratava do desembarque do aeróstato, o cônsul foi advertido de que a população  da ilha estava disposta a empregar a força para impedi-lo.  Não há maior cegueira que as paixões fanatizadas. A noticia  da chegada de um cristão que pretendia elevar-se nos ares  foi recebida com irritação. Os negros, mais exaltados que os  árabes, viram no projeto intenções hostis á sua religião. Imaginavam que o destino dos viajantes seria o sol e a lua. Ora,  sendo os dois astros objeto de veneração por parte das tribos  africanas, resolveram opor-se tenazmente aquela expedição  sacrílega.

O cônsul conferenciou com o doutor Fergusson e o comandante Pennet. Este não desejava recuar ante as ameaças,  mas seu amigo explicou as razões pelas quais não deveriam  ser precipitados.

- Certamente, se quisermos empregar a força, removeremos os obstáculos - disse o cônsul. No entanto, meu caro  comandante, poderia acontecer algum acidente irreparável ao  balão e a viagem estaria perdida. O melhor é agirmos com  a máxima cautela.

- Mas que havemos de fazer?

- É simples - respondeu o cônsul. Vêem aquelas ilhas  que ficam para além do porto? Desembarquem o aeróstato  numa delas, cerquem-se de bom cordão de marinheiros e não  haverá risco algum.

- Ótima idéia! - exclamou o doutor. Assim estaremos  à vontade para terminar os preparativos.

O comandante rendeu-se perante este conselho. O Resoluto aproximou-se da ilha Cumbeni. Durante a manhã de  dezesseis de abril, o balão foi posto em segurança no meio  de clareira cercada de grandes matas.

Ergueram dois mastros de vinte e cinco metros de altura colocados um ao lado do outro. Um jogo de roldanas fixas às suas extremidades permitia alçar o aeróstato por meio de  cabo transversal. Ele estava inteiramente vazio. O balão interno achava-se atado ao cimo do balão externo, de maneira  a ser também levantado.

Os dois tubos de introdução de hidrogênio foram fixados  ao apêndice inferior de cada um dos balões.

Passaram o dia dezessete a preparar o aparelha destinado  a produzir o gás. Compunha-se de trinta anéis, nos quais  era conseguida a decomposição da água por meio da ferragem e do ácido sulfúrico colocado em grande quantidade  de água. O hidrogênio ia ter a vasto tonel central, depois de  ter sido lavado à sua passagem, e de lá introduzia-se nos aeróstatos através dos tubos. Desta forma, podia-se perfeitamente  determinar a quantidade de gás com que cada um deles se  enchia.

A operação teve início às três horas da madrugada, durando cerca de oito horas. No dia seguinte, o aeróstato, já  recoberto com a rede, oscilava graciosamente acima da barquinha, contida por inúmeros sacos de terra. O aparelho de  dilatação foi montado com excepcional cuidado e os tubos que  saíam do aeróstato adaptados à caixa cilíndrica.

As âncoras, as cordas, os instrumentos, as cobertas de  viagem, o toldo e os mantimentos ocupavam na barquinha os  lugares que lhes eram destinados. O abastecimento de água  devia ser feito em Zanzibar. Os noventa quilos e meio de  lastro foram repartidos em cinqüenta sacos colocados ao fundo  da barquinha, mas ao alcance da mão.

Os preparativos terminaram às cinco horas da tarde. Sentinelas velavam incessantemente em volta da ilha, enquanto  as lanchas do Resoluto patrulhavam o canal.

Os negros continuavam a manifestar a sua cólera por  meio de gritos, caretas e gestos. Os feiticeiros percorriam os  grupos exaltados, insuflando ainda mais sua irritação. Alguns  fanáticos chegaram a tentar chegar à ilha a nado, mas foram  facilmente afastados.

Começaram então os sortilégios e as bruxarias. Os fabricantes de chuva, que se gabavam de poder comandar as nuvens, evocaram os furacões e os granizos. Para isso, colheram folhas de toda a variedade de árvores da região. Enquanto as ferviam em fogo brando, matavam um carneiro, introduzindo-lhe longa agulha no coração. Todavia, a despeito de suas  estranhas cerimônias, o céu permaneceu límpido. Os negros  entregaram-se então a furiosas orgias.

Por volta das seis da tarde, último jantar reuniu os viajantes à mesa do comandante e seus oficiais. Kennedy murmurava em voz baixa palavras entrecortadas e não tirava os  olhos do doutor Fergusson.

A refeição foi triste. Com a aproximação do momento supremo, ninguém podia evitar as reflexões preocupadas que  lhes perpassavam pela mente. Que destino estaria reservado àqueles arrojados viajantes? Regressariam algum dia ao convívio dos amigos, ao aconchego de seus lares? Se acaso malograsse aquele meio de transporte, que sorte poderiam esperar  em meio de tribos ferozes, regiões inexploradas, ou desertos  imensos?

Tais idéias, às quais vinham dando até então pouca atenção, eram a causa daquele ambiente constrangedor, que nem  a fleuma do impassível doutor Fergusson conseguia evitar.

Temendo algum ataque à pessoa do doutor e de seus  companheiros, fizeram-nos passar a noite no Resoluto: As  seis horas da manhã, deixaram sua cabina, dirigindo-se para  a ilha de Cumbeni.

O balão balanceava fortemente ao sopro do vento leste,  enquanto o comandante Pennet e seus oficiais presenciavam  os detalhes que precediam o momento da partida.

A certa altura, Kennedy acercou-se do doutor, tomou-lhe  a mão e perguntou:

- Está mesmo decidido a partir, Samuel?

- Certamente, meu caro Ricardo.

- Acha que eu fiz todo o possível para impedir esta  viagem?

- Sim, fez.

- Neste caso, minha consciência está tranqüila e vou  com você.

- Eu tinha certeza disso - declarou o doutor, deixando  transparecer leve emoção em sua fisionomia.

Chegou o instante do adeus. Os oficiais abraçaram com efusão seus intrépidos amigos.

Eram nove horas quando os viajantes subiram à barquinha. O doutor acendeu o maçarico, ativando a chama para  que produzisse calor rápido. O balão, que se mantinha em  perfeito equilíbrio, poucos minutos depois começou a elevar-se, enquanto os marinheiros ainda sustentavam algumas das cordas.

A uns seis metros de altura, o doutor, de pé e agitando  o chapéu, gritou:

- Amigos, vamos dar à nossa embarcação um nome que  lhe traga boa sorte! Eu a batizo como Vitória!

Formidável brado retumbou lá de baixo:

- Viva a rainha! Viva a Inglaterra!

Naquele instante, a força ascensional do aeróstato aumentava prodigiosamente. Fergusson, Kennedy e José deram o último adeus aos amigos.

- Larga! - gritou o doutor.

E o Vitória alçou-se rapidamente nos ares, enquanto quatro peças de artilharia do Resoluto salvavam em sua homenagem.

 

O INFELIZ MAIZAN 

Atmosfera estava límpida e o vento era leve.

O Vitória subiu quase perpendicularmente a uma altura de  quinhentos metros, que foi indicada por depressão de perto  de cinco centímetros na coluna barométrica.

Naquela elevação, corrente mais acentuada carregou o  balão para o sudoeste. Espetáculo maravilhoso desenrolava-se  ante os olhos dos viajantes! A ilha de Zanzibar surgia inteiramente à vista, destacando-se por seu colorido mais escuro,  como se fosse apresentada num planisfério. Os campos tomavam aparência de pedacinhos de amostras de várias cores,  o grande ramalhetes de árvores indicavam os bosques e as  matas. Os habitantes da ilha surgiam como insetos. Os brados o os gritos extinguiam-se pouco a pouco e os tiros de canhão  vibravam na concavidade inferior do aeróstato.

- Como tudo isto é lindo! - exclamou José, rompendo  pela primeira vez o silêncio.

Os outros não responderam. O doutor achava-se atarefado em observar as variações barométricas, anotando os diversos pormenores da ascensão, enquanto Kennedy tudo observava, por demais emocionado para poder falar.

Os raios de sol vinham em auxilio do maçarico, aumentando a pressão do gás. O Vitória atingiu altura de novecentos  metros.

O Resoluto parecia agora simples barquinho e a costa  africana delineava-se a oeste por imensa orla de espuma.

- Perderam a voz? - perguntou José.

- Estamos observando - respondeu o doutor, dirigindo sua luneta para o continente.

- Eu não posso ficar sem falar.

- Fale à vontade, fale quanto quiser.

O José entrou em ação, entregando-se a considerável  abuso de onomatopéias. Os oh!, ah!, ih!, uh! escapavam-se-lhe  dos lábios sem cessar.

Durante a travessia do mar, o doutor julgou conveniente  manter-se naquela elevação. Podia, assim, observar extensão  maior da costa. O termômetro e o barômetro, suspensos no  interior do toldo entreaberto, encontravam-se ao alcance da  sua vista, enquanto segundo barômetro, colocado na parte externa, devia servir durante os quartos noturnos.

Ao cabo de duas horas, o Vitória, impelido com a velocidade de pouco mais de catorze quilômetros, ganhou a costa.  O doutor resolveu aproximar-se de terra. Moderou a chama  do maçarico e logo o balão desceu a cem metros do solo.  Achava-se sobre Mrima, denominação dada a esta parte da  costa oriental da África. Densas orlas de risóforos protegiam  as margens e a maré baixa deixava visíveis suas espessas raízes  carcomidas pelo dente do oceano Índico. As dunas que formavam outrora a linha costeira arredondavam-se no horizonte  e o monte Nguru levantava seu pico para noroeste.

O Vitória passou por uma aldeia que, examinando no  mapa, o doutor verificou tratar-se de Caole. Toda a população emitia urros de cólera e temor. Passaram a arremessar  em vão suas flechas contra aquele monstro dos ares, que deslizava majestosamente a salvo de toda aquela manifestação  de furor.

O vento impelia para o sul, o que não chegou a inquietar o doutor. Pelo contrário, aquela direção permitia-lhe seguir  a rota traçada pelos capitães Burton e Speke. Kennedy acabou  por tornar-se tão loquaz quanto José, passando ambos a trocar  frases de admiração.

- Abaixo as diligências! - dizia um.  - Abaixo os navios! - dizia outro.

- Abaixo os trens! - retornava Kennedy. Neles a gente  atravessa um país sem ver nada!

- Para mim agora é só balão - exclamava José. Nem  se sente a viagem e toda a natureza vai-se desenrolando aos  nossos olhos!

- Que espetáculo! Parece sonho de tão maravilhoso!

- É, mas... que tal se almoçássemos? - indagou José,  a quem as alturas abriam o apetite.

- E uma idéia, rapaz.

- Muito bem. A refeição não demorará a ser preparada.  Teremos biscoito e carne em conserva.

- E café à vontade - aparteou o doutor. Permito que  se sirva do calor do meu aquecedor. É o que ele tem até  demais. Assim não precisamos ter medo de incêndio.

- Seria horrível! - exclamou Kennedy. É como se tivéssemos um barril de pólvora debaixo de nós.

- Absolutamente - respondeu Fergusson. Mas, enfim,  caso o gás se incendiasse, ele se consumiria pouco a pouco e  desceríamos à terra, o que não iria agradar-nos. Mas não se  preocupe, nosso aeróstato é hermeticamente fechado.

- Então, o melhor é comermos agora - disse Kennedy.

- Bem, senhores - interveio José -, agora vou preparar  café.

Instantes depois, três xícaras fumegantes foram servidas,  encerrando almoço substancial, temperado pelo bom-humor  dos convivas, após o que cada qual voltou ao seu posto de  observação.

A região distinguia-se por sua extrema fertilidade. Veredas sinuosas e estreitas desapareciam sob abóbadas verdejantes. Passavam por cima de campos cultivados de tabaco, de milho  e de cevada, em pleno sazonamento. Aqui e ali, vastos arrozais com suas hastes eretas e suas flores vermelhas. Distinguiam-se carneiros e cabras encerrados em grande engradados suspensos sobre estacas, para livrá-los dos dentes dos leopardos.  Vegetação luxuriante florescia naquele solo pródigo. Em numerosas aldeias reproduziam-se as cenas dos gritos e da estupefação à vista do Vitória, e Fergusson conservava-se prudentemente fora do alcance das flechas. Os habitantes, agrupados em torno das cabanas próximas umas das outras, perseguiam por longo tempo os viajantes com suas inúteis imprecações.

Ao meio-dia, o doutor, depois de consultar seu mapa, deduziu que se encontrava sobre a região de Uzaramo. As terras eram cobertas de coqueiros, de mamoeiros e de algodoeiros.  Para José, em se tratando da África, aquela vegetação já  parecia bastante natural. Kennedy divisava lebres e codornizes que pareciam estar pedindo tiro de sua espingarda. Mas  seria desperdiçar pólvora, em vista da impossibilidade de  apanhar a caça.

Os aeronautas caminhavam à velocidade de vinte quilômetros a hora e logo estavam sobre a aldeia de Tunda.

- Foi ali - disse o doutor - que Burton e Speke foram  acometidos de febres violentas e julgaram por algum tempo que sua expedição estivesse perigando. Apesar de se encontrarem a pouca distância da costa, quase não podiam suportar  o cansaço e as privações que vinham sofrendo.

Em verdade, naquela região reina a malária, permanentemente. A fim de evitar que ela os atingisse, o doutor teve  de elevar o balão acima das emanações daquelas terras úmidas,  absorvidas por sol ardente.

Algumas vezes, podiam divisar uma caravana descansando  num kraal à espera da brisa noturna para reencetar sua viagem. São logradouros rodeados de sebe e matas, onde os  mercadores se abrigam não somente das feras como também  das tribos saqueadoras daquelas paragens. Viam-se os nativos  em disparada, dispersando-se ao depararem com o Vitória.  Kennedy desejava examiná-los mais de perto, mas Samuel  opôs-se a tal intento.

- Os chefes estão armados de mosquetes - explicou - e  nosso balão seria ponto de mira certo para uma bala.

- Será que um furo de bala ocasionaria a queda do balão?  - inquiriu José.

- Imediatamente, não. Mas logo o buraco se transformaria em vasto rasgão e nosso gás escaparia todo por ele.

- Nesse caso, o melhor é nos mantermos a boa distância  daqueles infiéis. O que será que eles pensam vendo-nos assim  voando? Talvez tenham vontade de adorar-nos.

- Sim, eles podem adorar-nos se quiserem - ponderou  o doutor -, mas só de longe, que é mais seguro. Vejam, a  região já começa a mudar de aspecto. As aldeias rareando, as  mangueiras e toda a vegetação já desapareceram. O solo torna-se mais acidentado e tudo indica que teremos montanhas  pela frente.

- Tem razão - concordou Kennedy. Parece que já estou  vendo elevações deste lado.

- No oeste... Devem ser as primeiras montanhas de Urizara, na certa o monte Dutumi, atrás do qual espero descer  para passarmos a noite. Vou avivar a chama do maçarico.  Somos obrigados a manter altura de duzentos metros.

- Não resta dúvida que sua idéia foi fantástica, meu  senhor, comentou José. Que facilidade! É só virar uma torneira e pronto.

Assim que o balão ganhou mais elevação, disse o caçador:

e Fergusson conservava-se prudentemente fora elo alcance  das flechas.

- Aqui estamos bem melhor. O reflexo do sol naquela  areia vermelha já se estava tornando insuportável!

- Vejam que árvores formidáveis! - exclamou José. Só  com uma dúzia delas se faria uma florestal - São baobás - elucidou o doutor Fergusson. Olhem  aquele ali. Deve ter no mínimo trinta metros de circunferência. Pode ter sido perto dele que morreu o francês Maizan,  em 1845, pois estamos sobrevoando a aldeia de Deje-la-Mhora,  onde ele se aventurou sozinho. Foi agarrado pelo chefe da  povoação, amarrado ao tronco de uma árvore e o negro feroz  lhe cortou aos poucos as articulações enquanto retumbavam  os cânticos de guerra. Depois, dilacerou-lhe a garganta, parou  para afiar seu facão embotado, e acabou arrancando a cabeça  do infeliz com as mãos. O pobre francês só tinha vinte e  seis anos!

- Por favor, não pare por aqui, patrão - pediu José.  Subamos, subamos.

- Pois não, meu caro, ainda mais que temos à nossa  frente o monte Dutumi. Se meus cálculos não falham, nós  o passaremos antes das sete horas da noite.

- Não vamos viajar a noite? - perguntou o caçador.

- Não, sempre que for possível evitar. Com cuidado e  vigilância, poderíamos fazê-lo sem o menor perigo, mas acontece que não basta atravessar a África, é preciso também vê-la.

- Até agora não podemos queixar-nos patrão. A região  mais cultivada e mais fértil do mundo em lugar de um deserto. Vá a gente acreditar nesses geógrafos!

- Ainda é cedo para tirarmos conclusões. É melhor esperarmos um pouco mais.

Por volta das seis e meia da tarde, o Vitória achava-se em frente ao monte Dutumi. Para transpô-lo, teve de erguer-se  a quase mil metros, o que o doutor conseguiu simplesmente  elevando a temperatura de dez graus centígrados. Na verdade,  ele manobrava o balão sem a menor dificuldade. Kennedy  indicava-lhe os obstáculos a vencer e o Vitória singrava os  ares roçando a montanha.

As oito horas, descia a encosta oposta, cujo declive era  menos acentuado. As ancoras foram lançadas para fora da barquinha e uma delas, esbarrando nos galhos de frondoso  nopal, enganchou-se. Imediatamente, José deslizou pela corda  e fixou-a solidamente. Assim que concluiu a tarefa, atiraram-lhe a escada de seda e ele galgou-a com agilidade. O aeróstato quedou-se quase imóvel, ao abrigo dos ventos leste.

Procedeu-se aos preparativos da refeição noturna. Os viajantes, excitados pela viagem aérea, abriram larga brecha nas  suas provisões.

- Quanto caminhamos hoje? - interrogou Kennedy,  dando largas ao seu apetite voraz.

O doutor consultou o excelente mapa que lhe servia de  guia. Depois respondeu:

- Duzentos e vinte quilômetros para o oeste.

Kennedy observou que o balão se dirigia para o sul, o  que satisfazia ao doutor, que desejava, tanto quanto fosse  possível, seguir o rastro de seus predecessores.

Decidiram que a noite seria dividida em três quartos, a  fim de que cada um pudesse velar pela segurança dos outros  dois. O doutor ficou com o quarto das nove horas, Kennedy  com o de meia-noite e José com o das três horas da madrugada.

Assim, Kennedy e José envolvidos em suas cobertas, estenderam-se sob o toldo e dormiram tranqüilamente, enquanto  o doutor Fergusson ficava de guarda.

 

A DOIS MIL METROS

 Noite transcorreu calma. Todavia, ao acordar, sábado pela manhã, Kennedy queixou-se de cansaço e arrepios de  febre. O tempo mudava. O céu cobrira-se de nuvens espessas,  parecendo abastecer-se para desencadear novo dilúvio. Um melancólico lugar aquele Zungomero, onde chove continuamente,  salvo talvez durante quinze dias do mês de janeiro.

Chuva violenta não tardou a desabar. Lá embaixo, os  caminhos cortados por nullahs, espécie de torrentes momentâneas, tornavam-se impraticáveis atravancados ainda por moitas espinhosas e cipós gigantescos. Percebiam-se distintamente  as emanações de hidrogênio sulfuroso a que se referira o capitão Burton.

- Segundo ele - disse o doutor -, e tinha toda a razão,  parece que atrás de cada espinheiro está escondido um cadáver.

- Que lugar horrível! - exclamou José. E o senhor  Kennedy não se está sentindo bem por ter passado a noite  aqui.

- É verdade, estou com febre bem forte.

- Não é de admirar-se, meu caro Ricardo. Estamos numa  das regiões mais insalubres da África. Mas já vamos sair  daqui.

Graças á habilidade de José, a ancora foi rapidamente  desengatada. Por intermédio da escada, subiu à barquinha.  O doutor avivou o gás e o Vitória retomou seu vôo, impelido  por vento bastante forte.

De quando em quando, viam-se pequenas cabanas por  entre o nevoeiro pestilento. Logo depois alterava-se o aspecto  da região. É freqüente na África que área doentia e de reduzida extensão se confine com outras perfeitamente salubres.

Era visível o precário estado de saúde de Kennedy. A  febre abatera sua natureza vigorosa.

- Não era caso para ficar doente - disse ele, enrolando-se na coberta e deitando-se debaixo do toldo.

- Um pouco de paciência, meu caro - respondeu Fergusson. Logo você estará bom.

- Samuel, se você tiver na sua farmácia de viagem alguma  droga que me ponha de pé, pode aplicá-la em mim, que  suportarei com olhos fechados.

- Tenho algo melhor que isso. Vou acabar com essa  febre e você nem vai sentir.

- Como?

- É muito simples. Vou subir acima das nuvens que nos estão molhando e distanciar-me deste ar pestilento. Só peço dez minutos para dilatar o hidrogênio.

Os dez minutos nem haviam ainda sido completados e eles já se encontravam além da zona úmida.

- Espere mais um pouco e sentirá a influência do ar puro e do sol.

- Que remédio fantástico! - exclamou José - Nada tem de fantástico. É até bem natural.  - Bem, que é natural, e.

- Mando-o tomar ares melhores, como se faz tão comumente na Europa.

- Neste balão, parece que a gente está no paraíso! -  exclamou Kennedy, já um pouco mais 'a vontade.

- Pelo menos nos levará para lá - observou José com  seriedade.

Constituíam espetáculo curioso aquelas massas de nuvens  aglomeradas abaixo da barquinha. Deslizavam umas sobre as outras, confundindo-se em magnífico brilho ao refletirem os  raios de sol. O Vitória atingiu altura de mil e trezentos metros  e o termômetro indicava certa queda de temperatura. Não  se distinguia mais a terra. A oitenta quilômetros para o oeste,  o monte Rubeo erguia seu cume resplandecente. Constituía o  limite da região de Ugogo. O vento soprava com velocidade - Não vá voar e nos deixar aqui, patrão - exclamou José.

de trinta quilômetros horários, mas o viajantes nada sentiam,  tal a estabilidade do balão.

Três horas mais tarde, realizava-se o prognóstico do  doutor. Haviam desaparecido os arrepios de febre de Kennedy  e ele almoçou com apetite.

- Isso desmoraliza o sulfato de quinina_ - declarou com  satisfação.

- Não resta dúvida - disse José -, é aqui que virei  passar minha velhice.

Por volta das duas horas da manhã, a atmosfera aclarou-se. As nuvens dispersaram-se e a terra reapareceu. O  Vitória insensivelmente foi-se aproximando dela. O doutor  Fergusson buscava corrente que o conduzisse mais para o nordeste, encontrando-a a duzentos metros do solo. A região  tornara-se acidentada, montanhosa. O distrito de Zungomero  desaparecia a leste com os últimos coqueiros daquela latitude.

Cimos de montanhas tomaram saliências mais pronunciadas. Aqui e ali elevavam-se alguns picos. A atenção tinha de  ser constante, pois aqueles cones pontiagudos pareciam surgir  inopinadamente.

- Estamos entre recifes - observou Kennedy.

- Não se preocupe, que não vamos bater neles.

- Seja como for, que bela maneira de viajar - replicou  José.

Em verdade, o doutor manobrava seu balão com rara  destreza.

- Se tivéssemos de caminhar por terra neste terreno acidentado, estaríamos perdidos. Desde nossa partida de Zanzibar, todos os nossos animais já teriam morrido de cansaço.  Nós estaríamos como espectros e completamente desesperados.  Seria constante luta com os guias e os carregadores, sempre  sujeitos á sua conhecida brutalidade. Durante o dia, calor  úmido, opressivo, insuportável. A noite, frio muitas vezes intolerável e picadas de certas moscas cujas mandíbulas atravessam o tecido mais espesso, o que torna a vítima louca.  E tudo isso sem falar nas feras e nas tribos ferozes.

- Nem quero imaginar - disse simplesmente José.

- Não estou exagerando - prosseguiu Fergusson. Vocês  seriam capazes de chorar lendo o relato de viajantes que tiveram a audácia de aventurar-se por estas regiões.

Lá pelas onze horas, passaram pela bacia de Imengé. As  tribos esparsas que habitavam as colinas vizinhas ameaçavam  em vão o Vitória com suas armas. Finalmente chegaram às  últimas ondulações de terreno que precediam o Rubeo. Formam a terceira cadeia e a mais elevada das montanhas do  Usogara.

Os viajantes tinham perfeito conhecimento da conformação orográfica da região. Estas três ramificações, das quais o  Dutumi constitui o primeiro escalão, são separadas por vastas  planícies longitudinais. Os pontos mais elevados compõem-se  de picos arredondados, entre os quais o solo é revestido de  blocos irregulares e de seixos. O declive mais abrupto das  montanhas está voltado para a costa Zanzibar. As encostas  ocidentais são planícies inclinadas. As depressões de terreno  são cobertas de terra negra e fértil, onde a vegetação é vigorosa. Vários cursos d'água insinuam-se para o leste e vão  afluir no Quingani, em meio a gigantescos bosques de sicômoros, tamarinheiros, cabaceiros e palmeiras.

- Atenção - disse o doutor Fergusson. Estamos aproximando-nos do Rubeo, cujo nome significa na língua do país  passagem dos ventos. Temos de subir a certa altura para  evitar as arestas agudas. Se meu mapa é exato, atingiremos  elevação de mais de mil e setecentos metros.

- Teremos ocasião de subir muitas vezes assim tão alto?

- Raramente. A altitude das montanhas da África parece ser medíocre em comparação aos picos da Europa e da  Ásia. De qualquer maneira, nosso Vitória as transporia com  a mesma facilidade.

Pouco depois, o gás se dilatava sob a ação do calor e o  balão empreendia caminhada vertical bastante acentuada.  A dilatação do hidrogênio não oferecia qualquer perigo, e o  aeróstato continha apenas três quartos de sua vasta capacidade. O barômetro indicou elevação de dois mil metros.

- Poderíamos viajar muito tempo assim? - perguntou  José.

- A atmosfera terrestre tem altura de doze mil metros -  respondeu o doutor. Com um grande balão, poderíamos ir  longe.

- Ótimo! - exclamou José. Mas prefiro ficar em altura  média, nem muito alto, nem muito baixo. Não se deve ser  ambicioso demais...

A doze mil metros, a densidade do ar diminui consideravelmente. O som propaga-se com dificuldade e a voz quase não é ouvida. A visão dos objetos lá embaixo torna-se confusa. Percebem-se apenas grandes massas indefinidas. Os homens e os animais ficam totalmente invisíveis, enquanto as estradas assemelham-se a fios e os lagos, a simples tanques.

O doutor e seus companheiros sentiam-se em estado normal. Uma corrente atmosférica de extrema velocidade propulsionava-os para além das montanhas áridas, sobre cujos  cumes grandes blocos de neve ofuscavam a vista. O aspecto  do terreno convulsionado demonstrava trabalho netunino dos  primeiros dias do mundo.

O sol brilhava no zênite, lançando atrevidamente seus  raios sobre os picos desertos. O doutor fez desenho minucioso  das montanhas, constituídas de quatro grupos distintos em  linha reta, das quais a mais setentrional é a mais alongada.

Pouco depois o Vitória descia a vertente oposta do Rubeo,  margeando litoral arborizado, de verde bem escuro. Em seguida, surgiam cumes e barrancos, anunciando espécie de deserto que precedia a região de Ugogo. Mais além, estendiam-se planícies amareladas, torrificadas, rachadas, juncadas aqui e  ali de plantas salinas e arbustos espinhosos.

Ao longe, embelezando o horizonte, viam-se as árvores  de uma floresta. O doutor aproximou-se do solo, as âncoras  foram atiradas e uma delas enganchou-se nos galhos de enorme  sicômoro.

José resvalou pelos galhos e fixou a âncora com precaução. O doutor deixou seu aquecedor em atividade para  conservar o aeróstato com certa força ascensional que o mantivesse no ar. O vento acalmara-se.

- Agora - disse Fergusson - apanhe duas carabinas,  amigo Ricardo, uma para você, outra para o José, e tratem  de trazer-me suculentas postas de antílope para o nosso jantar.

- A caça - exclamou Kennedy, tomando a escada e descendo â terra.

José deslizara de galho em galho e aguardava embaixo,  distendendo os membros. O doutor, com o balão aliviado  do peso de seus companheiros, pôde apagar inteiramente o  maçarico.

- Não vá voar e nos deixar aqui, patrão - exclamou  José.

- Fique tranqüilo, rapaz, estou bem firme. Vou por  meus assentamentos em ordem. Boa caça e tenham cuidado.  Daqui do meu posto, posso observar as redondezas e, se notar  algo de estranho, darei um tiro de carabina. Será o sinal de  reunião.

- Combinado - respondeu o caçador.

 

 ASSALTO INESPERADO

A região, áspera, ressequida, constituida de terra argilosa que se fendia sob a ação do calor, parecia totalmente deserta.  Aqui e ali se viam vestígios de cavernas, ossos embranquecidos  de homens e animais, semicorroídos e confundidos na mesma  poeira.

Após meia hora de caminhada, Ricardo e José embrenharam-se numa floresta de árvores gomosas, sempre à espreita  e com o dedo no gatilho da carabina. Não sabiam com que  iriam defrontar-se. Sem ser grande atirador,  José manejava  habilmente arma de fogo.

- Como faz bem andar um pouco, senhor Kennedy, apesar deste terreno não ser dos mais cômodos - observou ele, tropeçando nos fragmentos de quartzo espalhados pelo caminho.

Ricardo fez sinal ao companheiro para calar-se e parar.  Não contavam com cães para aquela caçada e, por maior que  fosse a agilidade de José, não podia ter faro de cão. No leito  de uma torrente, onde ainda se achavam estagnados alguns  charcos, saciavam a sede vários antílopes. Os graciosos animais, pressentindo o perigo, mostraram-se inquietos. Depois  de cada trago, endireitavam a cabeça com vivacidade, sorvendo  com as narinas dilatadas o ar que denunciava a presença dos caçadores.

Kennedy contornou alguns arbustos, enquanto José permanecia imóvel. Pouco depois estacava, apontava a espingarda e atirava. Os bichos desapareceram num abrir e fechar  de olhos. Apenas um antílope macho, atingido na espádua,  tombara fulminado.- Ricardo precipitou-se em direção à sua  presa. Era um magnífico animal de cor azulada-escura, com  o ventre e a parte interna das patas alvos como a neve.

- Belo tiro! - exclamou o caçador. É uma espécie muito  rara de antílope e pretendo preparar sua pele para conservá-la.

- Ora essa! Está mesmo pensando nisso?

- Claro! Veja só que pele maravilhosa.

- Mas o doutor não permitirá sobrecargas.

- Tem razão. Mas dá pena abandonar animal bonito  como este! - Bem, não vamos abandoná-lo inteiro. Vamos tirar dele  todas as propriedades nutritivas que tem e, se me der licença,  garanto que vou sair-me bem.

- A vontade, amigo, mas saiba que, como caçador, tiro  a pele de uma caça com a mesma facilidade com que a abato.

- Estou certo disso. Agora, vamos construir um fogão  com três pedras. Há lenha e só preciso de alguns minutos  para fazer uso das brasas que irá produzir.

- É para já - respondeu Kennedy, pondo mãos à obra.

Poucos instantes depois ardia pujante labareda.

José retirara do corpo do antílope uma dúzia de costeletas  e as postas mais tenras do filé, que logo se transformaram em  saborosos grelhados.

- O amigo Samuel vai ficar bastante satisfeito - disse o  caçador.

- Sabe em que estou pensando, senhor Ricardo?

- Com certeza no que está fazendo, nos seus bifes.

- Nada disso. Estou pensando no que seria de nós se  não encontrássemos mais o balão quando voltássemos.

- Ora, que idéia! Acha que o doutor iria abandonar-nos  aqui?

- Não, claro, mas... e se a âncora se desprendesse)

- Isso é impossível. Mas se acontecesse, o Samuel não  teria trabalho em fazer o balão descer de novo. Ele é mestre  nisso.

- E se o vento o carregasse e não conseguisse mais voltar?

- Ora, pare com essas suposições. Não são nada agradáveis .

- É, meu senhor, mas tudo pode acontecer. A gente tem  de prever tudo...

Naquele instante, um tiro de espingarda retiniu ao espaço.

- É a minha carabina! Conheço a detonação!  - O sinal!

- Perigo para nós.

- Talvez para ele.

- Vamos, depressa.

Os caçadores apanharam às pressas o produto de sua caçada e retornaram, guiando-se pela trilha de galhos partidos  que Kennedy tomara a precaução de fazer. A espessura dos  arbustos impedia a visão do Vitória, do qual não se haviam  distanciado muito.

Ouviram outro tiro.

- Deve ser urgente - ponderou José.

- Ouça! Mais um - declarou Kennedy. Está-me parecendo defesa pessoal.

Saíram em disparada. Ao chegarem à orla da floresta,  divisaram imediatamente o Vitória no mesmo lugar e o doutor  na barquinha.

- O que será? - indagou Kennedy.  - Meu Deus! - exclamou José.

- O que foi? Viu alguma coisa?

- Veja lá embaixo. Um grupo de negros está cercando  o balão!

Realmente, a cerca de três quilômetros de onde se encontravam, uns trinta indivíduos comprimiam-se, gesticulando,  ululando e pulando ao pé do sicômoro. Alguns, trepados na  árvore, procuravam ganhar os galhos mais elevados. O perigo  era iminente.

- O patrão está perdido!

- Vamos, José, sangue-frio e olhar atento. Estamos armados.

Haviam já transposto metade do caminho com extrema  rapidez, quando da barquinha partiu mais um tiro, que atingiu uma criatura que se içava pela corda da âncora. Um  corpo sem vida resvalou de galho em galho e ficou suspenso  a alguns metros do solo, com os braços e as pernas balançando no ar.

- Que estranho! - disse José, parando. Por onde estará  preso aquele sujeito?

- Não importa - respondeu Kennedy. Vamos! Depressa!

- Ah, senhor Kennedy! - exclamou José, explodindo  numa gargalhada. Ficou preso pela caudal É um macaco!  São todos macacos!

- Melhor do que se fossem homens - observou Kennedy,  avançando para o bando que uivava sem parar.

Era um grupo de temíveis cinocéfalos, ferozes e selvagens,  de aparência terrível, com seus focinhos de cão. Alguns tiros  de carabina puseram-nos em debandada, somente permanecendo alguns tombados ao solo, inanimados.

Imediatamente, Kennedy acercou-se da barquinha, enquanto José subia pelo sicômoro e desprendia a âncora.  Minutos mais tarde, o Vitória elevava-se no espaço, dirigindo-se para o leste sob o impulso de vento moderado.

- Quase houve um assalto! - comentou José.

- Pensamos que estivesse sendo atacado pelos indígenas.

- Felizmente não passavam de macacos! - respondeu o  doutor.

- De longe, a diferença não é grande, meu caro Samuel.

- Assim mesmo, podia ter sido perigoso - declarou Fergusson. Se a âncora se tivesse soltado com as sacudidelas que  eles davam, sabe-se lá para onde o vento me teria levado!

- Não disse, senhor Kennedy?

- Você tinha razão, José. E naquele momento você preparava bifes de antílope que me estavam deixando com água  na boca.

- É muito natural - disse o doutor. A carne de antílope  é deliciosa.

- Já vai poder experimentá-la, senhor. A mesa está servida.

- Então, vamos a ela - disse o caçador -, só o cheiro  já abre o apetite de qualquer pessoa.

- Puxa! Se eu pudesse, só comeria carne de antílope o  resto da vida - exclamou José, com a boca cheia. De preferência com um copo de grogue para facilitar a digestão.

Passando da palavra à ação, apressou-se a preparar a  bebida, que foi provada com tranqüilo prazer.

- Até agora, tudo correu muito bem - observou o bom  rapaz.

- otimamente - concordou Kennedy.

- Então, senhor Ricardo? Está arrependido de ter vindo  conosco?

- Queria ver alguém tentar impedir-me de vir!- respondeu o caçador com ar resoluto.

Eram quatro horas da tarde e o Vitória encontrou corrente mais rápida. O sol elevava-se insensivelmente e a coluna barométrica indicou a altura de quinhentos metros acima  do nível do mar. O doutor viu-se forçado a sustentar seu  aeróstato por acentuada dilatação de gás e o maçarico funcionava sem cessar. Por volta das sete horas, o Vitória pairava sobre a bacia do Caniemé. O doutor logo reconheceu  aquela vasta extensão de terreno desbravado, com suas aldeias  perdidas entre baobás e cabaceiros. Lá ficava a residência de  um dos sultões da região de Ugogo.

Depois de Caniemé, o terreno tornou-se árido e pedregoso. Mas ao cabo de uma hora de viagem, a vegetação ressurgiu em toda a sua plenitude. O vento descambava com o  dia e a atmosfera parecia prestes a adormecer. O doutor fez  baldadas tentativas para encontrar corrente em diferentes altitudes. Em vista da placidez da natureza, decidiu passar a  noite nos ares e por medida de segurança elevou-se a perto  de trezentos metros. O Vitória mantinha-se imóvel e a noite  magnificamente estrelada mergulhou em silêncio absoluto.

Ricardo e José deitaram-se e dormiram profundamente.  A meia-noite foi o doutor substituído na guarda pelo escocês.

- Se perceber o mínimo incidente, acorde-me logo - ordenou. E não perca o barômetro de vista, que ele é a nossa  bússola! A noite foi fria. Com as trevas havia-se desencadeado o  concerto noturno dos animais, que a sede e a fome obrigam  a abandonar suas tocas. As rãs vocalizavam sua voz de soprano, em coro com os uivos dos chacais, enquanto o tom  baixo imponente dos leões sustentava os acordes daquela orquestra animada.

Ao retomar seu posto de manhã, Fergusson consultou a  bússola, verificando que o vento se alterara durante a noite.  O Vitória desviara-se quarenta quilômetros para o noroeste,  passando agora sobre Mabunguru, região pétrea, salpicada de  bloco de sienita reluzente e toda recortada por rochas com a  forma de dorso de jumento. Massas cônicas, semelhantes aos rochedos de Carnaque, guarneciam o solo como os dólmãs dos  druidas. Inúmeras ossadas de búfalos e elefantes resplandeciam aqui e ali. As árvores eram escassas, a não ser para  leste, onde se viam espessos bosques que envolviam algumas aldeias.

Pelas sete horas, uma rocha redonda, de perto de três  quilômetros de extensão, surgiu qual imensa carcaça de tartaruga.

- Estamos em boa trilha - disse Fergusson. Ali está  Jihue-la-Mkoa, onde vamos parar por algum tempo. Preciso  renovar a provisão de água que alimenta meu maçarico. Tratemos de enganchar em algum lugar.

- Há poucas árvores - ponderou o caçador.

- Vamos tentar assim mesmo. José, atire as âncoras.

O balão, perdendo gradualmente sua força ascensional,  aproximou-se da terra. O gancho de uma das âncoras agarrou-se a uma fenda de rocha e o Vitória imobilizou-se.

Como é natural, o doutor não apagava inteiramente o  maçarico durante suas paradas. O equilíbrio do balão fora  calculado com relação ao nível do mar. Ora, o terreno era  em declive e, achando-se a duzentos metros de elevação, o  balão tenderia a descer. Assim, tornava-se necessário sustentá-lo por meio de certa dilatação do gás. Somente no caso  de completa ausência de vento, poderia o doutor deixar a  barquinha pousar inteiramente na terra, quando o aeróstato,  deslastrado de peso considerável, conseguiria manter-se sem o  auxílio do maçarico.

Os mapas indicavam imensos poços sobre a vertente ocidental de Jihue-la-Mkoa. Para lá dirigiu-se José, carregando  barril com capacidade para cinqüenta litros. Encontrou sem  dificuldade o local indicado, a pequena distancia de aldeola desabitada. Fez sua provisão de água, retornando em menos  de três quartos de hora. Nada vira de extraordinário, salvo  imensas armadilhas para elefantes. Chegou mesmo a cair no  interior de uma delas, enquanto examinava a carcaça semicarcomida que lá havia.

Trouxe da excursão uma espécie de nêspera, que os macacos comiam com avidez. O doutor reconheceu o fruto do  mbenbu, árvore muito abundante naquela região. Fergusson  aguardava José com certa impaciência, pois uma parada ainda  que rápida naquele território inóspito inspirava-lhe temor.

Embarcaram a água sem dificuldade, pois a barquinha quase  tocava o solo. José desprendeu a âncora e pulou agilmente  para o lado do patrão. Este reavivou a chama e o Vitória retomou sua rota aérea.

Encontravam-se agora a cento e cinqüenta quilômetros  de Kazeh, importante instituição do interior da África, onde,  graças a uma corrente do sudeste, os viajantes esperavam  chegar em breve, pois seguiam com velocidade de trinta quilômetros horários. A direção do aeróstato tornava-se bastante  difícil. Não era possível ganharem muita altura sem dilatar  grande quantidade de gás, pois a região já se achava a uma  altitude média de quatro mil e trezentos metros. Ora, tanto  quanto possível, o doutor preferia não forçar a dilatação.  Assim seguiu prudentemente as sinuosidades de uma encosta  bastante íngreme e voou baixo sobre as aldeias de Tembo e  Tura-Wels. A última fazia parte de Unyamwezy, fantástica  região onde as árvores atingem dimensões enormes.

Por volta das duas horas, com tempo magnífico, apesar  do sol abrasador que devorava a mais leve corrente de ar, o  Vitória sobrevoou a cidade de Kazeh, situada a quinhentos e cinqüenta quilômetros da costa.

- Partimos de Zanzibar às nove horas da manhã - disse  o doutor Fergusson consultando suas anotações - e depois de  dois dias de travessia já percorremos com nossos desvios perto  de oito mil quilômetros. Os capitães Burton e Speke levaram quatro meses e meio para fazer o mesmo percurso!

 

BEBEDEIRA REAL KAZEH,

Ponto importante da áfrica central, não é propriamente uma cidade. A bem dizer, não há realmente  cidades no interior da África. Kazeh não passa do conjunto  de seis vastas escavações. Ali se acham encerradas as casas  e as choças dos escravos, com pequenos pátios e pequenas  hortas cuidadosamente tratadas. Cebolas, batatas, berinjelas, abóboras e saborosos cogumelos medram com toda a facilidade. O Unyamwezy é a terra da Lua por excelência, o parque fértil e esplêndido da África. No centro acha-se o distrito  de Unyanembé, região deliciosa onde vivem indolentemente algumas famílias de Omanis, árabes de origem pura.

Longo tempo andaram comerciando pelo interior da África  e na Arábia. Negociavam com gomas, marfim, chitas e escravos. Suas caravanas sulcavam essas terras equatoriais. Ainda vão  buscar no litoral objetos de luxo e de prazer para os negociantes enriquecidos, os quais, entre mulheres e escravos, levam nesse país encantador a existência menos agitada e mais horizontal, sempre deitados, rindo, fumando ou dormindo.  Kazeh está em torno dessas escavações com numerosas casas  de indígenas, vastos locais para os mercados, campos de canabíneos e de datura, belas árvores e sombras aprazíveis.

Ali se encontram todas as caravanas. As do sul, com seus  escravos e seus carregamentos de marfim, e as do oeste que exportam o algodão e as miçangas para as tribos dos Grandes  Lagos. Nos mercados reina agitação perpétua, burburinho indefinível, composto dos brados dos carregadores mestiços, do  som de tambores e cornetas, do relinchar das mulas, do zurrar  dos jumentos, dos cantos das mulheres, do choro das crianças o dos golpes de cajado do chefe da caravana que bate o compasso daquela sinfonia pastoral. Ali se exibem sem ordem,  ou antes em desordem encantadora, os vistosos estofos, as miçangas, os marfins,- os dentes de rinoceronte, os de tubarão, o mel, o tabaco e o algodão. Ali se realizam os negócios mais estranhos, onde os objetos só têm valor pelos desejos que  inspiram.

De repente, toda aquela agitação, todo aquele movimento,  todo aquele ruído cessou. O Vitória acabava de surgir nos  ares, planava majestosamente e vinha descendo pouco a pouco,  sem se afastar da vertical. Homens, mulheres crianças, escravos, mercadores, árabes e negros, tudo desapareceu e se  refugiou nos tembés e nas choças.

- Meu caro Samuel - disse Kennedy -, se continuarmos  a produzir impressões semelhantes, teremos dificuldade em  estabelecer relações comerciais com essa gente.

- Contudo - observou - teríamos operação comercial  de grande simplicidade a fazer: era desembarcar tranqüilamente e carregar as mercadorias mais valiosas, sem nos importarmos com os mercadores. Ficaríamos ricos.

- Oh! - replicou o doutor - esses indígenas têm medo  no primeiro momento, mas não tardarão a voltar, por superstição ou curiosidade.

- Acha, meu amo?

- Veremos. Em todo caso, convém não nos aproximarmos muito. O Vitória não é um balão blindado nem couraçado, nem está livre de bala ou de flecha.

- Tenciona, caro Samuel, entrar em conversações com  esses africanos? - disse Ricardo.

- Se for viável, por que não? - respondeu o doutor.  Deve haver em Kazeh mercadores árabes mais instruídos, menos selvagens. Lembro-me de que Burton e Speke só tiveram  louvores quanto á hospitalidade que lhes foi dispensada pelos  habitantes. Podemos tentar a aventura.

O Vitória, que insensivelmente se aproximara da terra,  prendeu uma das âncoras no cimo de uma árvore junto à  piaça do mercado. Toda a população espreitou naquele momento para fora dos seus buracos. As cabeças surgiam timidamente. Alguns waganga, reconhecíveis pelas insígnias de  conchas cônicas, avançaram com destemor. Eram os feiticeiros  do lugar.

Pouco a pouco, a multidão veio juntar-se a eles, as mulheres e as crianças cercaram-nos, os tambores romperam em  vivo rufo, as mãos batiam, estendendo-se para o céu.

- E o seu modo de rezar - explicou o doutor Fergusson.  Se não me engano vamos ser chamados a desempenhar papel  importante.

- Pois então, meu amo, desempenhe-o!

No mesmo instante, um dos feiticeiros fez um gesto e  todo o clamor se mudou em profundo silêncio. Ele dirigiu  algumas palavras aos viajantes, mas em língua inteiramente  desconhecida. O doutor Fergusson, que nada entendera, lançou ao acaso algumas palavras em árabe e imediatamente lhe  responderam na mesma língua. O orador entregou-se a torrencial arenga, muito florida. Por ela soube o doutor que o  Vitória estava sendo muito simplesmente tomado pela própria  Lua e que essa amável deusa se dignara descer na cidade com  seus três filhos, honra que jamais seria esquecida naquela  terra amada do sol. O doutor respondeu com imensa dignidade que a Lua fazia em cada mil anos o seu giro departamental, consentindo em mostrar-se mais de perto aos seus adoradores. Pediu-lhes que se não constrangessem nem receassem  abusar da sua divina presença, dando-lhe a conhecer suas necessidades e desejos.

o feiticeiro respondeu por sua vez que o sultão, doente  havia muitos anos, reclamava os socorros do céu e convidava  os Filhos da Lua a visitá-lo. O doutor transmitiu o convite aos companheiros.

- Vai à presença desse rei negro? - perguntou-lhe o  caçador.

- Sem a menor dúvida. Esta gente parece-me bem disposta, a atmosfera está calma, não há um sopro de vento.  Nada temos a recear pelo Vitória.

- Mas, enfim, que vai fazer?

- Sossega, caro Ricardo; com habilidade hei de sair-me  bem. acrescentou, dirigindo-se à multidão:

- A Lua, apiedando-se do soberano amado dos filhos de  Unyamwezy, confiou-nos o encargo da sua cura. Ele que se  prepare para receber-nos.

Os clamores, os cantos e as demonstrações redobraram,  todo o vasto formigueiro de cabeças negras se pôs em movimento.

- Agora, amigos - disse o doutor Fergusson -, precisamos agir com previdência, pois de um momento para outro poderemos ser forçados a reembarcar à pressa. Ricardo fica  na barquinha e por meio do maçarico manterá força ascensional suficiente. A âncora está bem presa e por esse lado  nada temos a recear. Eu vou descer à terra, José irá comigo,  mas ficará junto da escada.

- O quê! Pretende ir sozinho ver o sultão? - berrou  Kennedy.

- Como, doutor Samuel!  Não quer que o acompanhe até  lá? - acrescentou José espantado.

- Não, irei sozinho. Essa gente está convencida de que  a sua grande deusa, a Lua, veio em visita. Estou protegido  pela superstição, de modo que não tenham medo e fique cada  qual no posto que lhe designei.

- Visto que assim o quer... - concordou o caçador.

- Cuide da dilatação do gás.

- Não se preocupe.

A gritaria dos indígenas aumentava. Parecia que reclamavam energicamente a intervenção celeste.

- Olhe! Olhe! - exclamou José. Acho-os um pouco exigentes com a sua boa Lua e os seus divinos filhos.

O doutor, munido de sua farmácia de viagem, desceu à  terra precedido de José. Este, grave e digno como convinha,  sentou-se ao pé da escada de pernas cruzadas à moda árabe  e parte da multidão envolveu-o em círculo respeitoso.  Enquanto isto, o doutor Fergusson, conduzido ao som de instrumentos, escoltado por danças religiosas, avançou lentamente para o Tembé real, situado bastante fora da cidade.  Eram mais ou menos três horas e o sol resplandecia.

O doutor caminhava com dignidade. Os waganga cercavam-no, contendo a multidão. Em breve, veio ao encontro  de Fergusson o filho natural do sultão, moço airoso e que de  acordo com os hábitos do país era o único herdeiro dos bens  paternos, com exclusão dos filhos legítimos. Prostrou-se diante  do Filho da Lua, que o fez erguer-se com um gesto magnânimo. Três quartos de hora depois, por caminhos cheios de  sombra e em meio a luxuriante vegetação tropical, a procissão entusiasmada chegou ao palácio do sultão, espécie de  edifício quadrado, situado na vertente de uma colina. Cercava-o pelo exterior alpendre com teto de colmo à maneira  de varanda, apoiado em colunas de madeira que tinham a  pretensão de ser esculpidas. Longas listras de argila avermelhada adornavam as paredes, tentando reproduzir figuras de  homens e de serpentes, estas naturalmente com mais êxito que  aquelas. O teto da habitação não se apoiava diretamente sobre  as paredes, permitindo que o ar circulasse com liberdade.  Além disso, nenhuma janela e apenas uma porta.

O doutor Fergusson foi recebido com grandes honras pelos  guardas e favoritos, homens de boa raça, fortes e robustos, ... Um dos feiticeiros fez um gesto e todo o clamor se mudou em profundo silêncio.

Bem feitos e saudáveis. Os cabelos, divididos em grande  número de pequenas tranças, caíam-lhes pelos ombros. Por  meio de incisões pretas ou azuis, listravam as faces desde as  têmporas até à boca. As orelhas, horrendamente distendidas,  sustentavam discos de madeira e placas de goma copal. Vestiam-se de panos fortemente coloridos. Os soldados, armados  de zagaia, de arco e flechas farpadas e envenenadas com o  suco do eufórbio, exibiam ainda longos sabres com dentes de  serra, facalhões e pequenas achas de armas.

O doutor penetrou no palácio e, apesar da doença do  sultão, o alarido, já terrível, redobrou à sua chegada. No  lintel da porta, pôde notar caudas de lebres e crineiras de  zebra suspensas à maneira de talismã. Foi recebido pelo bando de esposas de Sua Majestade, aos acordes harmoniosos do  upatu, espécie de pratos feitos com fundos de caçarolas de  cobre, e ao estrondo do kilindo, tambor de metro e meio de altura, cavado em tronco de árvore. Quase todas as mulheres pareciam lindas e fumavam, rindo, tabaco em grandes cachimbos negros. Mostravam-se bem nos seus trajes graciosos o usavam fibras de cabaceira atadas em redor da cintura.  Seis dentre elas não eram as menos alegres do bando, embora  um pouco à parte e destinadas a cruel suplício. Por morte  do sultão deveriam ser enterradas vivas, juntamente com ele,  a fim de o distraírem durante a eterna solidão.

O doutor Fergusson, depois de ter lançado a vista sobre o conjunto, aproximou-se do leito de madeira do soberano,  onde jazia um homem de quarenta anos, completamente embrutecido por toda a sorte de orgias e com o qual nada mais  havia a fazer. A moléstia, que se prolongava desde anos, não  passava de perpétua bebedeira. O real borracho perdera quase o conhecimento e nem todo o amoníaco do mundo bastaria  para pô-lo de pé.

Os favoritos e as esposas, dobrando o joelho, curvavam-se  durante a solene visita. Empregando algumas gotas de violento cordial o doutor logrou reanimar por instante aquele corpo embrutecido. O sultão esboçou um gesto. Para um  cadáver que há muitas horas não dava sinal de existência, o  sintoma foi acolhido com enorme alvoroço e gritaria, em  honra do médico. Este, já farto daquilo, afastou com rápido movimento os adoradores demasiado expansivos e retirou-se do palácio, encaminhando-se para o Vitória. Eram seis  horas da tarde.

Durante a ausência, José esperou tranqüilamente ao pé  da escada, enquanto a multidão lhe tributava os maiores respeitos. Na sua qualidade de verdadeiro Filho da Lua, ele  deixava-se homenagear. Para divindade, tinha o ar de excelente homem, nada altivo e até familiar com as jovens africanas que não se cansavam de contemplá-lo. Aliás, ele dirigia-lhes palavras muito lisonjeiras.

Levaram-lhe os dons propiciatórios, ordinariamente depostos nos mzimu ou cabanas sagradas. Compunham-se de  espigas de cevada e de pombé. José achou-se na obrigação de  experimentar aquela bebida forte semelhante à cerveja, mas  o seu paladar, embora afeito ao vinho e ao uísque, não pôde  suportar-lhe a violência. Fez uma horrenda careta, que a  assistência tomou por gentil sorriso. Em seguida, as jovens,  misturando as suas vozes em lenta melopéia, executaram dança  grave à sua volta.

- Ah! vocês dançam - comentou ele. Pois não hei de  ficar atrás e vou mostrar-lhes uma dança da minha terra.

Encetou uma jinga atordoante, contorcendo-se, arqueando-se, dançando com os pés, com os joelhos, com as mãos, esticando-se em contorções extravagantes, em atitudes inconcebíveis, em carantonhas pavorosas, dando àquele povo curiosa  idéia do modo como os deuses dançam na Lua. Todos aqueles africanos, imitadores como macacos, começaram logo a  reproduzir-lhe as atitudes, as pernadas e os movimentos, e foi então um alarido, um tumulto e uma agitação de que seria difícil dar idéia, mesmo fraca. No melhor da festa, José avistou o doutor que regressava a toda pressa, entre a populaça ululante e desordenada. Os feiticeiros e os chefes pareciam  muito agitados. Cercavam o doutor, apertavam-no, ameaçavam-no.

Singular reviravolta! Que se teria passado? Acabara o  sultão por sucumbir desastradamente nas mãos do curandeiro celeste? Kennedy, do seu posto, viu o perigo sem lhe compreender a causa. O balão fortemente solicitado pela dilatação do gás, retesava a corda que o prendia, impaciente por  erguer-se nos ares. O doutor chegou junto à escada. Um  receio supersticioso continha ainda a multidão, impedindo-a de exercer violência contra a sua pessoa. Subiu rapidamente  os degraus e José seguiu-o com idêntica agilidade.

- Não temos um instante a perder - disse-lhe o amo.  Nada de soltar a âncora! É preferível cortar a corda. Vamos!

- Mas que sucedeu?

- Que sucedeu? - repetiu Kennedy empunhando a carabina.

- Olhem! - respondeu o doutor apontando para o horizonte.

- E então? - insistiu o caçador.

- Então? É a Lua! Era a Lua que com efeito se erguia, vermelha e magnífica, qual bola de fogo sobre fundo azulado. Era ela! Ela e o  Vitória. Ou existiam duas luas, ou aqueles estrangeiros não  passavam de impostores, intrigantes e falsos deuses! Tais haviam sido as naturais reflexões da multidão e daí a reviravolta. José não pôde conter imensa gargalhada. A população  de Kazeh, percebendo que a presa lhe escapava, rompeu em  prolongados urros. Arcos e mosquetes visaram o balão. Mas  um dos feiticeiros fez aceno e as armas baixaram. Subiu na  árvore, com a intenção de segurar a corda da âncora e puxar  a máquina para terra.

José precipitou-se com pequena machada.

- Corto? - perguntou ele.

- Espera - respondeu o doutor.

- E o negro?

- Talvez seja possível salvar a âncora e assim é melhor.  Sempre haverá tempo de cortar.

O feiticeiro, tendo subido à árvore, arranjou-se de tal  maneira que, quebrando os ramos, logrou desprender a âncora. Esta, violentamente atraída pelo aeróstato, apanhou o  feiticeiro entre as pernas, e o pobre diabo, a cavalo naquele  inesperado hipógrifo, partiu para as regiões aéreas.

Imenso foi o pasmo da multidão vendo um dos seus  waganga lançar-se no espaço.

- Bravo! - gritou José, enquanto o Vitória, graças à  sua potência ascensional, subia com grande rapidez.

- Ele segura-se bem - notou Kennedy. Uma pequena  viagem não lhe fará mal nenhum.

- Vamos jogar fora esse negro? - perguntou José.

- Nada disso - replicou o doutor. Vamos simplesmente  recolocá-lo no chão. Acho que depois de tal aventura o seu  prestígio de mágico crescerá muito na opinião dos seus contemporâneos.

- São capazes de fazer dele um deus! - acrescentou José.

O Vitória alcançou altura de cerca de trezentos metros,  com o preto seguro à corda, com energia terrível. Estava  calado, de olhos fixos. Era um terror misto de espanto. Um  fraco vento de oeste impelia o balão para além da cidade.  Meia hora depois, o doutor, vendo a região deserta, moderou  a chama do maçarico e aproximou-se da terra. A sete metros  do solo, o negro tomou rapidamente a sua resolução: jogou-se,  caiu em pé e largou a correr para Kazeh, enquanto subitamente deslastrado o Vitória retornava aos ares.

 

TEMPORAL 

Aí está para que serve fazer-se passar por filho da  Lua sem sua permissão - observou José. O satélite por pouco  não nos pregou boa peça! Por acaso o meu amo lhe comprometeu a reputação com a sua medicina?

- É verdade - interveio o caçador -, quem é, afinal, o sultão de Kazeh?

- Um velho borracho meio morto - respondeu o doutor  -- cuja morte não será muito sentida. Mas a moral da história é que as honras são efêmeras e convém sempre não  lhes tomarmos o gosto.

- É penal - tornou José - eu até gostava. Ser adorado!  Fazer-me de deus conforme a fantasiai Mas a Lua mostrou-se vermelha, sinal de que não estava satisfeita!

Durante os comentários, nos quais José examinou o astro  noturno de ponto de vista inteiramente novo, o céu cobriu-se  de grossas nuvens para o norte sinistras e carregadas. Vento  rijo, que se formara a cem metros do solo, impelia o Vitória  para nor-nodeste. Por cima, a abóbada azul estava limpa,  mas sentia-se o peso.

Pelas oito horas da noite, os viajantes acharam-se a trinta e dois graus e quarenta minutos de longitude e quatro graus o dezessete minutos de latitude. As correntes atmosféricas, sob  a influência de tempestade próxima, arrastavam-nos com velocidade de cinqüenta e seis quilômetros por hora. Por baixo,  deslizavam-se rapidamente as férteis e onduladas planícies de Mfuto. O espetáculo era admirável e foi admirado.

- Estamos em pleno país da Lua - explicou Fergusson  - pois ele conservou o nome que lhe deu a antiguidade, decerto porque a Lua aí foi adorada em todos os tempos. E uma  região maravilhosa e dificilmente se encontraria vegetação  mais bela.

- Se encontrássemos coisa assim, perto de Londres, não  seria natural - disse José. Por que será que tais maravilhas  são reservadas a países tão bárbaros?

- Mas sabe-se lá se um dia esta região se tornará o centro da civilização? - retrucou o doutor. Os povos do futuro  talvez venham para cá, quando as terras da Europa estiverem  esgotadas e não puderem alimentar seus habitantes.

- Você crê mesmo nisso? - perguntou Kennedy.

- Sem dúvida. Veja a marcha dos acontecimentos. Considere as migrações sucessivas dos povos e chegará à mesma conclusão que eu. A Ásia foi a primeira nutriz do mundo,  não é verdade? Durante quatro mil anos, talvez, ela trabalha,  é fecunda, produz e depois, quando as pedras se desenvolverem lá onde se desenvolviam as searas douradas de Homero,  seus filhos abandonam o seio esgotado e seco. Atiram-se então  sobre a Europa, jovem e pujante, que os nutre há dois mil  anos. Mas já não tem a mesma facilidade. Suas faculdades  produtivas diminuem cada dia que passa. As doenças novas,  que afligem anualmente os produtos da terra, colheitas adulteradas, recursos insuficientes, tudo isso é o sinal insofismável  de vitalidade que se altera, de enfraquecimento próximo.  Também já vemos os povos se precipitarem às nutritivas fontes de riqueza da América, como a uma fonte não inesgotável,  mas ainda não esgotada. Por seu lado, o novo continente  também envelhecerá. Suas florestas virgens cairão sob o machado da indústria. O solo se debilitará por ter produzido  demais o que dele exigiram. De lá, onde duas colheitas desabrocham cada ano, mal sairá uma. Aí, então, a África oferecerá às raças novas os tesouros acumulados há séculos em  seu seio. Estes climas fatais aos estrangeiros se purificarão  por meio de afolhamentos e drenagens. Estas águas esparsas  se reunirão num leito comum para formar artéria navegável.  E esta região sobre a qual estamos voando, mais fértil, mais  rica, mais vital que as outras, se transformará em algum grande reino, onde se realizarão descobertas ainda mais assombrosas que o vapor ou a eletricidade.

- Ah, patrão! - exclamou José. Eu bem que gostaria  de ver isso!

- Você nasceu cedo demais, meu rapaz.

- Entretanto - observou Kennedy - será uma época  aborrecida em que a indústria absorverá tudo em proveito  próprio! Por inventarem as máquinas, os homens serão engolidos por elas! Sempre imagino que o último dia do mundo  será aquele em que imensa caldeira aquentada a três bilhões  de atmosferas fará nosso globo ir pelos ares!

- E acredito - ajuntou José - que não terão sido os  americanos os últimos a lidar com a máquina.

- Realmente - respondeu o doutor - eles são grandes  caldeireiros! Mas, deixando de lado discussões como esta, vamos contentar-nos em admirar esta terra da Lua, já que isso  podemos fazer.

O sol, varando com seus últimos raios a massa das nuvens, ornava com crista de ouro os menores acidentes do terreno. Árvores gigantescas, ervas arborescentes, musgos rasteiros, tudo  recebia a sua parte daquele eflúvio luminoso. O chão, levemente ondulado, ressaltava aqui e ali em pequenas colinas  cônicas. Montanha alguma no horizonte. Imensas estacadas espinhosas, sebes impenetráveis, matagais densos separavam as  clareiras onde se viam numerosas aldeias. Os eufórbios gigantescos compunham-lhes fortificações naturais, entremeando-se  aos ramos coraliformes dos arbustos.

Em breve, o Malagazari, principal afluente do lago Tanganica, apareceu serpenteando sob os maciços de verdura, acolhendo os numerosos cursos de água nascidos das torrentes da  época das chuvas, ou das lagoas abertas na camada argilosa  do solo. Para aqueles observadores que olhavam de cima era  uma rede de cascatas lançada em toda a face ocidental do  país. Animais de grandes corcovas pastavam nas férteis pradarias, desaparecendo sob as altas ervas. As florestas, de onde  se exalava fino aroma, ofereciam-se aos olhos como vastos ramalhetes, mas nesses ramalhetes surgiam por vezes, leões, leopardos, hienas e tigres, refugiando-se para escapar aos derradeiros colores do dia. De quando em quando, um elefante  fazia ondular os cimos das matas, e ouvia-se o estalar das  árvores cedendo aos seus dentes de marfim.

- Que terra de caça! - exclamou Kennedy entusiasmado.  Uma bala atirada ao acaso, em plena floresta, encontraria  peça digna dela! Não se poderá experimentar?

- Não, Ricardo, a noite vem aí, ameaçadora, escoltada  por tempestade. As tempestades são violentíssimas nesta região,  onde o solo está disposto como enorme bateria elétrica.

- Tem razão, meu amo - interveio José. O calor está  sufocante e o vento caiu completamente. Não há dúvida de  que alguma coisa se prepara.

- A atmosfera está carregada de eletricidade - tornou  o doutor. Qualquer ser vivo se ressente do estado do ar  que precede a luta dos elementos e confesso que nunca até  hoje me senti tão impregnado dele.

- Não seria então o caso de descermos? - perguntou o  caçador.

- Pelo contrário, eu preferia subir. O que receio é ser  levado para além da minha rota pelos choques das correntes  atmosféricas.

- Pretendes abandonar a direção que vimos seguindo  desde a costa?

- Se isso me fosse possível - respondeu Fergusson -,  viraria mais diretamente para o norte, durante sete ou oito  graus, para alcançar as latitudes presumíveis das nascentes do  Nilo. Talvez avistássemos alguns vestígios da expedição do capitão Speke. Se os meus cálculos estão certos, encontramo-nos a trinta e dois graus e quarenta minutos de longitude,  e eu desejaria subir direto até além do equador.

- Olha! - exclamou Kennedy interrompendo o companheiro. Olhe aqueles hipopótamos que vêm saindo das lagoas!  Que massas de carne sanguinolenta! E os crocodilos, como  resfolgam ruidosamente!

- Parecem abafados! - interveio José. Ah! que maneira  encantadora de viajar e como podemos desdenhar essa bicharia maléfica! Senhor Samuel! Senhor Kennedy! Vejam aqueles  bandos de animais que marcham tão apertadamente! São pelo menos duzentos. Trata-se de lobos?- Não, são cães selvagens, raça famosa que nem sequer  teme os leões. É o encontro mais terrível que pode ter um  viajante. Num instante o despedaçam.

- Bem! Não serei eu que lhes irei pôr focinheira - volveu o amável rapaz. Em todo o caso, se é esse o natural  deles, não lhes devemos querer mal.

O silêncio foi-se impondo pouco a pouco sob a influência  da tempestade. O ar espesso ia-se tornando impróprio para transmitir os sons. A atmosfera parecia acolchoada e, como  sala forrada de tapetes, perdia toda a sonoridade. As aves aquáticas, o grou coroado, os gaios vermelhos e azuis, os  tordos e as moscarelas escondiam-se nas grandes árvores.  A natureza inteira oferecia os sintomas de cataclismo próximo.

Às nove horas, o Vitória pairava imóvel sobre o Msené,  vasta reunião de aldeias que mal se divisavam na sombra.  Por vezes o reflexo de um raio, perdido na água morna,  indicava fossas regularmente distribuídas e, em última claridade, o olhar distinguia a forma calma e negra das palmeiras, sicômoros e eufórbios gigantescos.

- Sinto-me abafar! - bradou o escocês, aspirando a longos sorvos aquele ar rarefeito. Estamos parados. E se descêssemos?

- E a tempestade? - volveu o doutor inquieto.

- Se receia ser levado pelo vento, não creio que tenha  outro partido a tomar.

- Talvez a tempestade não caia esta noite... - arriscou  José. As nuvens estão muito altas.

- É justamente por isso que hesito em atravessá-las.  Seria preciso subir a grande altura, perder a terra de vista  e ficar toda a noite sem saber se estamos avançando e para  que lado avançamos.

- Pois decida-se, caro Samuel, o tempo urge.

- É pena que o vento tenha caído - tornou José. Ternos-ia levado para longe da tempestade.

- É realmente uma pena, meus amigos, porque as nuvens  constituem perigo para nós. Elas encerram correntes opostas  que nos podem envolver em seus turbilhões e raios capazes  de incendiar-nos. Por outro lado, a força das rajadas pode  atirar-nos ao chão se prendermos a âncora à copa de uma  árvore.

- Que faremos então?

- Conservar o Vitória em zona média entre os perigos  da terra e do céu. Temos água em quantidade suficiente  para o maçarico, os nossos quilos de lastro estão intactos. Em  caso de necessidade eu os utilizarei.

- Então ficaremos vigiando juntos - disse o caçador.

- Não, amigos, guardem bem as provisões e deitem-se.  Eu os acordarei se for preciso.

- Mas, meu amo, não seria melhor o senhor descansar  agora, quando nada nos ameaça ainda?

- Obrigado, meu rapaz, prefiro ficar alerta. Estamos  imóveis e, se as circunstâncias não mudarem, amanhã estaremos exatamente no mesmo lugar.

- Então, boa noite.

- Boa noite, se for possível.

Kennedy e José estenderam-se debaixo das cobertas e o  doutor ficou sozinho na imensidade. Enquanto isto, o teto das nuvens baixava insensivelmente e a escuridão fazia-se profunda. A negra abóbada ia-se arredondando em torno do  globo terrestre como se o quisesse esmagar.

Bruscamente, forte relâmpago, rápido e nítido, rasgou a  sombra. O rasgão não fora ainda fechado quando medonho  trovão abalou as profundezas do céu.

- Alerta! - gritou Fergusson.

Os dois dorminhocos, acordados por aquele horrendo estrépito, puseram-se logo a postos.

- Vamos descer? - perguntou Kennedy.

- Não! o balão não resistiria. Subamos antes que as nuvens se desfaçam em águas e o vento se desencadeie!

E ativou logo a chama do maçarico entre as espirais da serpentina.

As tempestades dos trópicos desenvolvem-se com rapidez  só comparável à sua violência. Um segundo relâmpago fendeu  a noite, seguido de vinte outros consecutivos. O céu estava  sulcado de faíscas elétricas que passavam entre as grossas gotas de chuva.

- Já nos atrasamos - disse o doutor. Agora temos de  atravessar uma zona de fogo com o nosso balão cheio de ar  inflamável.

- Então para a terra! Para a terra! - insistia Kennedy.  - O risco de sermos fulminados é quase o mesmo e não tardaríamos a ser despedaçados pelos ramos das árvores.  - Estamos subindo, senhor Fergusson.  - Mais depressa! mais depressa!

Naquela parte da África, durante as tormentas equatoriais, não é raro contarem-se trinta a quarenta raios por minuto. O céu fica literalmente em fogo e o estampido dos  trovões não se interrompe.

O vento desencadeia-se com pasmosa violência naquela  atmosfera esbraseada, estorcendo as nuvens incandescentes.  Dir-se-ia que o sopro de imenso ventilador atiça aquele incêndio. O doutor Fergusson mantinha o maçarico a todo  calor, o balão dilatava-se e subia. De joelhos, no centro da  barquinha, Kennedy segurava os panos do toldo. O balão  turbilhonava a ponto de causar vertigens, os viajantes sofriam  perigosas oscilações. Abriam-se grandes cavidades no invólucro do aeróstato, que o vento comprimia com violência, e o  tafetá drapejava ruidosamente sob a pressão. Uma espécie de  saraivada, precedida de ruído tumultuoso, sulcava a atmosfera, crepitando sobre o Vitória. Este, entretanto, prosseguia  na sua marcha ascensional. Os raios figuravam tangentes inflamadas na sua circunferência. Estava-se em pleno incêndio.

- Seja o que Deus quiser! - disse Fergusson. Estamos  em Suas mãos e só Ele nos pode salvar. Preparemo-nos para  tudo, mesmo para um incêndio. A nossa queda pode não  ser rápida.

A voz do doutor mal chegava aos ouvidos dos companheiros, mas eles podiam ver-lhe a face calma em meio ao  fuzilar dos raios. O balão redemoinhava, turbilhonava, mas  ia subindo sempre. Ao fim de um quarto de hora tinha ultrapassado a zona das nuvens tormentosas. As emanações elétricas desenvolviam-se abaixo dele como vasta coroa de fogo  de artifício suspensa da barquinha. Era um dos mais belos  espetáculos que a natureza pode oferecer ao homem. Embaixo, a furiosa tormenta, em cima o céu estrelado, tranqüilo, mudo, impassível, com a Lua projetando os seus raios  pacíficos sobre as nuvens irritadas.

O doutor Fergusson consultou o barômetro. Eram onze  horas da noite.

- Graças a Deus, o perigo passou - disse ele. O essencial é mantermo-nos nesta altura.

- Foi medonho! - comentou Kennedy. - E para dar mais colorido à  viagem e não me importo de ter visto uma tempestade das  alturas. É um belo espetáculo!- disse José satisfeito.

 

O ELEFANTE REBOCADOR

Pelas seis horas da manhã de segunda-feira, o sol ergueu-se no horizonte. As nuvens tinham desaparecido e brando sopro refrescava os primeiros alvores matinais. A terra,  toda perfumada, surgiu de novo aos olhos dos viajantes.  O balão, que estivera girando sobre si mesmo entre correntes  opostas, pouco tinha derivado. O doutor, deixando contrair  o gás, desceu com o intuito de tomar direção mais setentrional. Durante muito tempo foram vãs as suas tentativas. Um vento arrastou-o para oeste, até à vista das célebres montanhas da Lua, que se arredondavam em semicírculo à volta  da ponta do lago Tanganica. A cadeia, pouco acidentada,  destacava-se contra o horizonte azulado. Dir-se-ia fortificação  natural, inacessível aos exploradores do centro da África.  Alguns cones isolados tinham a marca das neves eternas.

- Estamos em região inexplorada - explicou o doutor.  O capitão Burton adiantou-se muito para o este, mas não  pôde alcançar estas montanhas célebres, chegando mesmo a  negar-lhes a existência, confirmada por seu companheiro  Speke. Pretende que elas nasceram na imaginação deste último. Para nós já não há dúvida possível.

- Vamos atravessá-las? - perguntou Kennedy.

- Não, se Deus quiser. Espero encontrar vento favorável  que me leve para o equador. Esperarei, se for preciso, e procederei no Vitória como em navio que solta a âncora para  resistir aos ventos contrários.

As previsões do doutor não demorariam a realizar-se.  Depois de haver experimentado diferentes alturas, o Vitória  deslizou para nordeste com velocidade moderada.

- Vamos em boa direção - disse ele, consultando a bússola - e apenas a setenta metros da terra, com todas as circunstâncias favoráveis para reconhecer estes países novos.  O capitão Speke, indo à descoberta do lago Ukereué, subiu mais para leste.

- Iremos muito tempo assim? - perguntou Kennedy.

- É possível. Nossa intenção é insistir para o lado das  nascentes do Nilo e temos mais de mil quilômetros a percorrer até o limite extremo alcançado pelos exploradores vindos do norte.

- E não vamos descer um instante, para desentorpecer  as pernas? - atalhou José.

- Naturalmente. E como necessitamos poupar os nossos  víveres, pelo caminho, meu bravo Ricardo, tu nos conseguirás  uma provisão de carne fresca.

- Sem dúvida, amigo Samuel.

- Teremos também de renovar a nossa provisão de água.  Quem sabe se não seremos levados a terras áridas? As precauções nunca são demasiadas.

Ao meio-dia o Vitória achava-se a vinte e nove graus e  quinze minutos de longitude e a três graus e quinze minutos  de latitude. Ia passando sobre a aldeia de Uiofu, extremo  limite setentrional do Unyamwezy, ao lado oposto do lago de  Ukereué, que ainda não se podia avistar.

Foi decidido entre os três viajantes que a descida se faria  rio primeiro ponto favorável. Seria uma demora prolongada  e o aeróstato sofreria revisão completa. A chama do maçarico foi moderada, as âncoras jogadas para fora da barca logo  roçaram as altas ervas de imenso prado que, de certa altura,  parecia coberto de capim rasteiro, mas, que, na realidade, tinha  dois a dois metros e meio de espessura. O Vitória deslizou  pelo matagal, sem tocá-lo, como gigantesca borboleta. Não  havia obstáculo à vista. Era como um oceano de verdura sem  escolhos.

- Acho que vamos correr muito tempo assim - disse  Kennedy. Não avisto uma só árvore de que nos possamos  aproximar e a caçada parece comprometida.

- Esperemos, caro Ricardo. Nem poderia caçar neste capinzal mais alto do que você. Acabaremos por encontrar  lugar propício.

Era em verdade passeio encantador, verdadeira viagem  marítima sobre aquele oceano de verdura, quase transparente,  com leves ondulações ao sopro do vento. A barquinha justificava perfeitamente o seu nome, parecendo fender as vagas,  apenas sucedendo que daquelas altas ervas surgia de vez em  quando uma revoada de pássaros de cores maravilhosas, por  entre alegres gorjeios. As âncoras mergulhavam naquele lago  florido, traçando um sulco que se fechava logo em seguida,  como a esteira de um navio.

De repente, o balão sofreu forte arranco. A âncora mordera decerto alguma fenda de rocha oculta sob a relva gigantesca.

- Firmou! - gritou José.

- Então lança a escada! - replicou o caçador.

Palavras não eram ditas quando um grito agudo varou  o ar e as seguintes frases cortadas de exclamações escaparam  da boca dos três viajantes.

- Que será isso?

- Um grito esquisito!

- Olhe, continuamos andando!

- A âncora soltou.

-, Não, está ainda firmei - volveu José que segurava a  corda.

- Então é o rochedo que caminhai Produziu-se nas ervas imenso redemoinho e, em breve, forma alongada e sinuosa emergiu delas.  - Uma serpente! - bradou José.

- Uma serpente! - repetiu Kennedy armando a carabina.  - Não! - interveio o doutor. É uma tromba de elefante.  - Um elefante, Samuel!

E assim falando, Kennedy levou a arma ao ombro.  - Espere, Ricardo, espere!

- Não há dúvida! É o animal que nos reboca.

- E para o bom lado, José, para o bom lado!

O elefante avançava com certa rapidez, não tardando a  alcançar clareira, onde foi possível vê-lo todo. Pelo seu tamanho gigantesco, o doutor reconheceu macho de raça magnífica. Tinhas duas presas esbranquiçadas, de admirável curvatura, com mais de dois metros e meio de comprimento. As  garras da âncora haviam-se prendido fortemente entre elas.

O animal tentava em vão, com a tromba, libertar-se da  corda que o ligava à barquinha.

- Avante, meu velho! - gritava José no auge da alegria,  excitando quanto podia aquele singular motor. É nova maneira de viajar, melhor ainda que o cavalo! Nada há como o elefante!

- Mas para onde nos leva ele? - perguntou Kennedy,  agitando a carabina que lhe queimava as mãos.

- Leva-nos aonde queremos ir, meu caro Ricardo. Tenha  paciência!

- Wig a more! wig a more! como dizem os camponeses  da Escócia! - gritava o alegre José. Para frente! Para frente!

O animal empreendeu galope bastante rápido, projetando  a tromba à direita e à esquerda e dando ao saltar violentas  sacudidelas na barquinha. O doutor, de machado em punho,  estava pronto a cortar a corda logo que fosse preciso.

- Em todo caso, só nos separaremos da âncora no último  instante - disse ele.

Aquela corrida atrás do elefante durou perto de hora e  meia. O animal não dava qualquer mostra de cansaço. Tais  enormes paquidermes podem correr distâncias consideráveis  e de um dia para outro são encontrados em pontos afastadíssimos, como as baleias que igualam em massa a rapidez.

- De fato - observou José - é como se tivéssemos arpoado una baleia e o que fazemos é imitar a maneira dos  baleeiros na pesca.

Súbita mudança, porém da natureza do terreno obrigou  o doutor a modificar o seu meio de locomoção. Densa floresta surgiu ao norte da planície, mais ou menos a quatro  quilômetros, tornando-se desde logo necessário que o balão  fosse separado do seu condutor. Kennedy foi encarregado de  fazer parar o elefante e levou a arma à cara, mas a posição  não era favorável para atingir o animal com êxito. A primeira bala, que lhe acertou o crânio, achatou-se como se  batesse contra chapa de ferro e o bruto nem pareceu dar por  isso. Apenas acelerou mais o passo, ao ruído da descarga, passando a correr como cavalo a galope.

- Diabo! - exclamou Kennedy.

- Que cabeça dura! - acudiu José.

- Vamos tentar algumas balas cônicas no ombro - tornou  Ricardo, carregando outra vez a carabina com método e disparando.

O animal soltou rugido terrível, mas prosseguiu mais depressa ainda.

O elefante soltou um rugido de aflição e agonia.

- Tenho de ajudá-lo, senhor Ricardo - disse José apanhando uma das espingardas. Caso contrário nunca acabaremos.

Duas balas foram alojar-se nos flancos do animal. O elefante estacou, ergueu a tromba e recomeçou a toda a pressa a sua desfilada para o bosque. Sacudia a enorme cabeça e  o sangue começava a jorrar-lhe dos ferimentos.

- Continuemos o nosso fogo, senhor Kennedy.

- E fogo nutrido - acrescentou o doutor. Estamos a menos de quarenta metros da florestal Retumbaram mais dois tiros. O elefante deu salto medonho, a barquinha e o balão rangeram de tal modo que parecia irem despedaçar-se. O abalo fez cair o machado das  mãos do doutor e a situação complicou-se enormemente.  A corda da âncora, fortemente amarrada, não podia ser desprendida nem cortada pelas facas dos viajantes. O balão ia-se  aproximando vertiginosamente da floresta, quando o animal  recebeu uma bala no olho, no momento em que ergueu a  cabeça. Estacou, hesitou, dobraram-se-lhe os joelhos e por  fim apresentou o flanco ao caçador.

- Uma bala no coração - disse este, descarregando pela  derradeira vez a carabina.

O elefante soltou um rugido de aflição e agonia. Ainda  se ergueu um instante, fazendo girar a tromba, mas logo tombou com todo o peso sobre um dos dentes, que se quebrou.  Estava morto.

- Quebrou-se o dente! - bradou Kennedy. Marfim que  na Inglaterra valeria trinta e cinco guinéus por quarenta e  cinco quilos!

- Tanto assim? - volveu José, deslizando até ao chão  pela corda da âncora.

- Não adiantam lamúrias, meu caro Ricardo - tornou  o doutor. Nós não somos traficantes de marfim, nem viemos  aqui para fazer fortuna.

José foi examinar a âncora. Estava solidamente presa ao dente intacto.

Samuel e Ricardo pularam para terra, enquanto o aeróstato, meio flácido, oscilava sobre o corpo do paquiderme - Magnífico animal! - exclamou Kennedy. Que massa!  Nunca vi na índia elefante deste tamanho!

- Isso não é de admirar. Os elefantes do centro da  África são os mais belos. Os Anderson e os Cumming caçaram tantos nos arredores do cabo que eles emigraram para o  equador, onde os encontraremos em bandos numerosos.

- Mas enquanto não chega a oportunidade - atalhou  José - espero que possamos provar um pouco deste. Eu me  encarrego de preparar suculenta refeição à custa deste animal.  O senhor Kennedy vai caçar durante uma hora ou duas, o  doutor Samuel vai inspecionar o Vitória e, enquanto isso, eu  vou cuidar da cozinha.

- Bem pensado - respondeu o doutor. Faça o que quiser.

- Pois eu - disse o caçador - vou tomar as duas horas  de folga que José se dignou conceder-me.

- Vá, mas nada de imprudências. Não se afaste muito.

- Fique tranqüilo.

E Ricardo, armado com seu fuzil, mergulhou na floresta.  José assumiu então as suas funções. Primeiro, abriu no chão buraco da altura de setenta centímetros, cobrindo-o de  galhos secos que alastravam o local, provenientes das picadas  abertas na floresta pelos elefantes, cujas pegadas se viam ainda.  Uma vez cheio o buraco, amontoou-lhe por cima outra pilha  de cavacos da mesma altura e pôs-lhe fogo.

Em seguida, voltou ao cadáver do elefante, caído apenas  a vinte metros do arvoredo. Cortou-lhe habilmente a tromba,  que media cerca de setenta centímetros de grossura e juntou-lhe uma das esponjosas patas do animal. São estes, com efeito,  os melhores bocados, como a corcova do bisonte, a pata do  urso e a cabeça do javali.

Quando a lenha acabou inteiramente de arder, tanto no  interior como no exterior, o buraco, desobstruído das cinzas  e carvões, oferecia temperatura muito elevada. Os pedaços  do elefante, envolvidos em folhas aromáticas, foram depositados no fundo daquele forno improvisado e recoberto de cinzas quentes. Depois, José ergueu sobre ele nova fogueira  e, uma vez consumida a lenha, a carne estava convenientemente assada.

José tirou o jantar do forno, colocou a apetitosa carne  em novas folhas verdes e dispôs o banquete no meio de um  relvado magnífico. Foi buscar biscoitos, aguardente e café e  trouxe água fresca e límpida de regato próximo. A mesa assim disposta dava gosto de ver e José pensava, não com  excessiva vaidade, que talvez desse ainda mais gosto de comer.

- Uma viagem sem canseiras e sem perigos! - pensava  ele. Comida à hora, liteira perpétua, que mais se pode desejar? E o senhor Kennedy que não queria vir!

Por seu lado, o doutor Fergusson entregava-se a exame  meticuloso do aeróstato, que, aliás, não parecia ter sofrido  com o incidente. O tafetá e a guta-percha tinham resistido maravilhosamente. Tomando a altura real do solo e calculando a força ascensional do balão, concluiu que o hidrogênio  se mantinha na mesma quantidade. O invólucro mostrara-se  até aí perfeitamente impermeável.

Havia apenas cinco dias que os viajantes tinham deixado  Zanzibar. A carne ensacada não fora ainda tocada e as provisões de biscoitos e conservas bastavam para longa viagem.  Só a reserva de água necessitava ser renovada. Os tubos e a  serpentina pareciam em perfeito estado. Graças às articulações de borracha, tinham-se prestado a todas as oscilações do  aeróstato. Terminado o exame, o doutor cuidou de pôr as  suas notas em ordem. Fez esboço muito aceitável da campina  circundante, com o longo prado a perder de vista, a floresta  de camaldores e o balão imóvel sobre o monstruoso corpo  do elefante.

Ao cabo das suas duas horas, Kennedy regressou com  numerosas perdizes.

- O jantar está na mesa! - gritou José.

E os três viajantes não fizeram mais do que sentar-se  sobre aquele verde relvado. A pata e a tromba do elefante  foram declaradas preciosas. Bebeu-se como sempre em honra  da Inglaterra e pela primeira vez deliciosos havanas perfumaram aquela terra encantadora. Kennedy comia, bebia e  conversava por quatro. Estava eufórico e chegou a propor  com toda a seriedade ao seu amigo Fergusson instalaram-se  naquela floresta, construírem uma cabana de folhagem e iniciarem a dinastia dos Robinsons africanos.

A proposta não teve maiores conseqüências, embora José se houvesse oferecido para desempenhar o papel de Sexta-Feira.

O lugar parecia tão sossegado e deserto que o doutor re solveu passar a noite em terra. José fez um círculo de fogueiras, barricada indispensável contra os animais ferozes.  As hienas, os cuguardos, os chacais, atraídos pelo cheiro da  carne de elefante, andaram rondando pelas proximidades.  Kennedy viu-se obrigado a descarregar várias vezes a carabina  contra os visitantes mais audaciosos, mas, enfim, a noite decorreu sem incidente desagradável.

 

AS FONTES DO NILO 

No dia seguinte, logo às cinco horas, começaram os  preparativos da partida. José, com o machado que, felizmente,  tornara a encontrar, cortou os dentes do elefante. O Vitória,  outra vez livre, levou os viajantes para nordeste a uma velocidade de trinta e cinco quilômetros.

O doutor estabelecera cuidadosamente a sua posição pela  altura das estrelas, durante a noite anterior, que era de dois  graus e quarenta minutos de latitude abaixo do equador.  Transpôs as rampas de Rubembé e encontrou mais tarde, em  Tenga, os primeiros contrafortes da cadeia de Karagwah  que, na sua opinião, deriva necessariamente das montanhas  da lua. Ora, a antiga lenda que considerava aquelas montanhas o berço do Nilo, não andava longe da verdade, pois  elas confinam com o lago Ukereué, pretenso reservatório das  águas do grande rio.

De Cafuro, grande distrito de mercadores do país, avistou  por fim no horizonte aquele tão desejado lago que o capitão Speke entreviu a três de agosto de 1858. Samuel Fergusson  comoveu-se. Estava quase alcançando um dos pontos principais da sua exploração e, de luneta em punho, não perdia  um recanto daquela misteriosa região que o seu olhar assim  detalhava: por baixo, um solo geralmente estéril, à exceção  de algumas ravinas cultivadas; o terreno, semeado de cones  de altura média, tendia a achatar-se nas proximidades do lago e campos de cevada substituíam os arrozais. A reunião de  cinqüenta cubatas circulares, recobertas de colmo florido,  constituíam a capital de Karagwah.

Ao meio-dia, o Vitória encontrava-se a um grau e quarenta e cinco minutos de latitude austral e, à uma hora, o  vento impelia-o para o lago.

Este lago foi denominado Vitória pelo capitão Speke.  Naquele ponto, devia medir noventa milhas de largura. Na  sua extremidade meridional, o capitão encontrou um grupo de ilhas a que chamou o arquipélago de Bengala. Levou o  seu reconhecimento até Muanza, na costa leste, onde foi bem  recebido pelo sultão.

O Vitória ia abordando o lago mais ao norte, com grande  pesar do doutor que desejaria determinar-lhe os contornos  inferiores. As margens, cobertas de vegetação espinhosa e de  matagais inextrincáveis, desapareciam literalmente sob miríades de mosquitos de cor castanho-clara. Devia ser região inabitável e desabitada. Bandos de hipopótamos chafurdavam  entre as florestas de caniços ou mergulhavam nas águas claras  do lago. Este, visto de cima, oferecia, para oeste, horizonte  tão largo que se diria um mar. A distância entre ambas as  margens é tão grande, que não se podem estabelecer comunicações. Além disto, as tempestades são ali muito fortes e freqüentes, com ventos que se desencadeiam naquela bacia elevada e descoberta.

O doutor teve dificuldade de orientação, temendo ser  arrastado para leste. Mas por sorte uma corrente levou-o para  o norte, e às seis horas da tarde o Vitória pairava sobre pequena ilha deserta, a mais de trinta quilômetros da costa. Os  viajantes lançaram âncora numa árvore e o vento acalmou-se  ao cair da noite. Puderam manter-se tranqüilos. Não  puderam, porém, nem pensar em descer à terra. Como nas  margens do lago Vitória, legiões de mosquitos cobriam o chão  com nuvem espessa. O próprio José regressou da árvore coberto de mordeduras, mas não se irritou, tão natural lhe parecia aquilo da parte dos mosquitos.

Em todo o caso, o doutor, menos otimista, soltou o máximo de corda que pôde, a fim de escapar aos implacáveis  insetos que já subiam com zumbido inquietador.

- Estamos numa ilha! - disse José, coçando-se a ponto  de fazer sangue.

- Não levaríamos muito tempo a dar uma volta por ela  - respondeu o caçador - e a não serem esses amáveis insetos  não se percebe outro ser vivo.

- As ilhas de que este lago está semeado - interveio o  doutor Fergusson - não são a bem dizer senão picos de colinas imersas. Mas tivemos sorte de encontrar aqui um abrigo,  porque as margens do lago são habitadas por tribos ferozes.  Durmam, portanto, visto que o céu nos promete uma noite  tranqüila.

- Não vai fazer o mesmo, Samuel?

- Não, eu não poderia pregar olho. Amanhã, amigos,  se o vento for favorável, marcharemos para o norte a descobrir talvez as nascentes do Nilo, esse segredo até agora impenetrável. Tão perto das origens do grande rio eu não conseguiria dormir.

Kennedy e José, que as preocupações científicas não inquietavam a tal ponto, não tardaram a adormecer profundamente.

Na quarta-feira, vinte e três de abril, o Vitória aparelhou-se às quatro horas da manha, com céu pardacento.  A treva custava a deixar as águas do lago, que denso nevoeiro envolvia. Logo, porém, rude vento dissipou toda a  bruma. O Vitória balançou durante alguns minutos em sentidos diversos e por fim encaminhou-se diretamente para o  norte.

O doutor Fergusson esfregava as mãos de contente.

- Estamos em bom caminho! - disse ele. Veremos o  Nilo hoje ou nunca mais. Estamos entrando em nosso hemisfério!

- Ah! - exclamou José. O senhor acha que o equador  passa por aqui?

- Justamente por aqui, meu rapaz!

- Nesse caso, com sua licença, parece-me conveniente fazer-lhe um brinde.

- Pois seja - concordou o doutor rindo. Tomemos alguma coisa. Afinal, é um modo de entender a cosmografia  que não deixa de ter seu cabimento.

E assim foi celebrada a passagem da linha do equador, a  bordo do Vitória. O balão deslizava rapidamente. Avistava-se  a oeste a costa baixa e pouco acidentada. Ao fundo, os planaltos de Uganda e de Usoga. A velocidade do vento ia-se tornando excessiva. As águas do lago erguidas com violência,  espumavam como ondas do mar.

- Este lago - tornou o doutor - é sem dúvida, pela  sua posição elevada, o reservatório natural dos rios da parte A bacia do rio alargava-se, salpicada de ilhas...

oriental da África. O céu devolve-lhe em chuva o que rouba  em vapores aos seus afluentes. Parece-me certo que o Nilo  tem aqui a sua origem - Havemos de certificar-nos - replicou Kennedy.

Pelas nove horas, a costa de oeste aproximou-se. Parecia  deserta e coberta de matas. O vento levantou-se um pouco  para leste e foi possível entrever a outra margem do lago.  Curvava-se de modo a terminar por ângulo muito aberto, a  dois graus e quarenta minutos de latitude setentrional.

Altas montanhas erguiam os seus cumes áridos naquela  extremidade do lago, mas, entre elas, garganta funda e sinuosa dava passagem a um rio fervilhante. Manobrando o  aeróstato, o doutor Fergusson examinava a região com olho  ávido.

- Olhem! - berrou ele. As narrativas dos árabes eram  exatas! Eles falavam de um rio pelo qual o lago Ukereué se  descarregava ao norte, e esse rio existe. Vemo-lo descendo e  correndo com uma velocidade comparável à nossa! Essa gota  de água que foge debaixo de nós vai com certeza misturar-se  às vagas do Mediterrâneo. É o Nilo.

- É o Nilo! - respondeu Kennedy, deixando-se contagiar  pelo entusiasmo de Samuel Fergusson.

- Viva o Nilo! - gritou José, que de bom grado aplaudia qualquer coisa quando estava de bom-humor.

Enormes rochedos embaraçavam aqui e ali o curso do  misterioso rio. A água refervia, em rápidos e cataratas que confirmavam o doutor nas suas suposições. Das montanhas  circundantes afluíam numerosas torrentes, que espumavam na queda. Podiam-se contar por centenas. Viam-se surgir do chão  numerosos filetes de água, dispersos, cruzando-se e confundindo-se, competindo em rapidez e todos correndo para aquele  ribeiro nascente que se mudava em rio depois de havê-los  absorvido.

- É o Nilo - repetia o doutor com convicção. A origem  do seu nome apaixonou os sábios, tanto quanto a origem das  suas águas. Fizeram-no derivar do grego, do copta, do sânscrito. Afinal, isso pouco importa, visto que ele nos entregou  enfim o segredo das suas nascentes!

- Mas - atalhou o caçador - como iremos certificar-nos  de que este rio é o mesmo reconhecido pelos viajantes do  norte?

- Obteremos provas incontestáveis, irrecusáveis, infalíveis  - volveu Fergusson -, se o vento favorecer-nos por mais uma  hora.

As montanhas separavam-se, abrindo lugar a aldeias numerosas e campos cultivados de sésamo e cana-de-açúcar. As  tribos da região mostravam-se inquietas e hostis, parecendo  mais próximas da cólera que da adoração. Pressentiam estrangeiros e não deuses. Dir-se-ia que quem subisse às nascentes do Nilo ia roubar-lhes alguma coisa. O Vitória precisou manter-se fora do alcance dos mosquetes.

- Abordar aqui será difícil - disse o escocês.

- Tanto pior para os indígenas - replicou José. Ficarão  privados do encanto da nossa palavra.

- Contudo, preciso descer - declarou o doutor Fergusson, - ainda que seja por um quarto de hora. Sem isso não  posso confirmar os resultados da nossa exploração.

- É indispensável, Samuel?

- Indispensável. Desceremos ainda que seja preciso defender-nos a tiro!

- A coisa não me desagrada - tornou Kennedy, afagando  a carabina.

- Quando quiser, meu amo - acrescentou José, preparando-se para o combate. É para já?

- Ainda não. Vamos até subir mais um pouco para  observar a configuração exata do país.

o hidrogênio dilatou-se e em menos de dez minutos o Vitória planava à altura de oitocentos metros acima do solo.  Avistava-se dali uma inextrincável rede de riachos que o rio  acolhia em seu leito. Vinham mais numerosos do oeste, entre  as colinas e pelo meio dos campos férteis.

- Estamos a menos de cento e cinqüenta quilômetros de Gondocoro - disse o doutor apontando no mapa - e a  menos de dez do ponto alcançado pelos exploradores vindos  do norte. Agora vamos aproximar-nos de terra com precaução.

O Vitória desceu mais de seiscentos metros.

- Atenção, amigos! preparem-se para o que der e vier!

- Estamos prontos - responderam Ricardo e José.

- Muito bem!

O balão não tardou a acompanhar o leito do rio, a menos  de trinta metros. O rio media setenta metros naquele ponto  e os indígenas agitavam-se tumultuosamente nas aldeias que  orlavam as duas margens. Formavam ali uma cascata a pique de cerca de trinta metros de altura, intransponível por conseqüência.

 - Lá está a cascata a que se referiu Debonol - gritou  o doutor.

A bacia do rio alargava-se, salpicada de ilhas que o doutor  ia devorando com os olhos, parecendo procurar ponto de referência que ainda não avistara. Alguns negros tinham avançado num barco para debaixo do balão e Kennedy saudou-os  com um tiro de espingarda que, sem atingi-los, obrigou-os a  regressar à margem.

- Boa viagem! - desejou-lhes José. No lugar deles não  me arriscaria a voltar, com medo deste monstro que despede  raios à vontade.

Mas eis que o doutor Fergusson apanhou de repente o óculo, apontando-o para uma ilha reclinada em meio do rio.

- Quatro árvores! - exclamou ele. Vejam, lá adiante! Com efeito, erguiam-se na ilha quatro árvores isoladas.  - É a ilha de Bengala! É ela! - tornou Fergusson.

- E então? - perguntou Ricardo.

- É lá que vamos descer, se Deus quiser.  - Mas parece habitada, senhor Samuel!

- José tem razão. Se não me engano, estou vendo um grupo de vinte indígenas.

- Havemos de pô-los em fuga, não será difícil - replicou  Fergusson.

- Seja como diz - volveu o caçador.

O sol estava no zênite. O Vitória aproximou-se da ilha.

Os negros, pertencentes à tribo de Macado, romperam  em gritos enérgicos e um deles agitava no ar o seu chapéu  de casca de árvore. Kennedy tomou-o por ponto de mira, fez  fogo e o chapéu voou em pedaços. Foi uma debandada geral,  Os indígenas precipitaram-se para o rio e atravessaram-no a  nado. De ambas as margens veio uma saraivada de balas e  uma chuva de flechas, mas sem perigo para o aeróstato, cuja  âncora mordera fenda de uma rocha. José escorregou para  terra.

- A escada! - gritou o doutor. Venha comigo, Kennedy!  - Que vai fazer?

- Desçamos. Necessito de testemunha.  - Aqui vou.

- José, trate de vigiar bem!

- Fique sossegado, meu amo, respondo por tudo.

- Vamos, Ricardo - tornou o doutor, pondo pé em terra.

Levou o companheiro para um grupo de rochedos que se erguiam na ponta da ilha e andou procurando por algum tempo. Esquadrinhou o mato até ficar com as mãos em sangue.

De repente, segurou com força o braço do caçador.  – Olhe! - berrou.

- Letras! - exclamou Kennedy.

Com efeito, duas letras gravadas na rocha apareciam com toda a nitidez. Liam-se perfeitamente: A. D.

- A. D. - continuou o doutor Fergusson. Andréia Debono! A própria assinatura do explorador que mais longe alcançou o curso do Nilo! - Não pode haver a menor dúvida, amigo Samuel.  - Está convencido agora?  - É o Nilo, não há que ver!

O doutor olhou pela derradeira vez aquelas preciosas iniciais e tomou-lhes exatamente a forma e as dimensões.

- Agora - tornou ele - para o balão!

- E vamos depressa, porque alguns indígenas parecem dispostos a atravessar de novo o rio.

- Já não importa! Se o vento nos levar para o norte durante algumas horas, alcançaremos Gondocoro e poderemos apertar a mão aos nossos compatriotas!

Dez minutos depois, o Vitória subia majestosamente, enquanto o doutor Fergusson, em sinal de bom êxito, desfraldava o pavilhão com as armas da Inglaterra.

 

A SENHORA BLANCHARD

 - Em que direção vamos? - perguntou kennedy vendo o amigo consultar a bússola.

- Nor-noroeste.

- Que diabo! mas então não é o norte!

- Com efeito, Ricardo, e parece-me que teremos dificuldade em alcançar Gondocoro. Lamento, mas enfim já ligamos  as explorações de leste com as do norte e não nos podemos  queixar.

O Vitória afastava-se pouco a pouco do Nilo.

- Um último olhar - acrescentou o doutor - a esta latitude inacessível que os mais intrépidos viajantes nunca ultrapassaram! Aí estão as intratáveis tribos assinaladas por Petherick, d'Arnaud e Miani, e pelo jovem viajante Lejean, a quem  devemos os melhores trabalhos sobre o alto Nilo.

- De modo - perguntou Kennedy - que as nossas descobertas concordam com as previsões da ciência?

- Inteiramente. As nascentes do Rio Branco, do Bahr-elAbiad, mergulham num lago que pelo seu tamanho pode ser  considerado mar. É lá que ele nasce. A poesia talvez perca  com isso, pois gostava-se de atribuir a esse rei dos rios origem  celeste. Os antigos davam-lhe o nome de Oceano e não andavam muito longe de acreditar que ele emanava diretamente  do sol. Mas temos de submeter-nos e aceitar, de vez em  quando, o que a ciência nos demonstra. Nem sempre haverá  sábios, mas poetas sempre há de haver!

- Ainda se vêem as cataratas - observou José .

- São as cataratas de Maquedo, a três graus de latitude.  Nada há mais certo) Que pena não podermos acompanhar  durante algumas horas o curso do Nilo1 - E lá longe, à nossa frente? - perguntou o caçador.  Parece-me avistar cume de montanha!

- É o monte Logwek, a Montanha Oscilante dos árabes.  Toda a região foi visitada por Debono, que a percorreu sob  o nome de Latif Effendi. As tribos vizinhas do Nilo são inimigas e andam em permanente guerra de extermínio. Imaginem os perigos que deve ter enfrentado!

O vento levava então o Vitória para noroeste. A fim de  evitar o monte Logwek, era necessário procurar corrente mais  inclinada.

- Amigos - disse o doutor aos companheiros -, agora é  que verdadeiramente iniciamos a nossa travessia africana. Até  aqui seguimos as pegadas dos nossos predecessores. Doravante,  entramos no desconhecido. Não nos irá faltar coragem?

- Nunca! - gritaram ao mesmo tempo Ricardo e José.

- Então, a caminho e que o céu nos proteja!

As dez horas da noite, por sobre barrancos, florestas e  aldeias espalhadas, os viajantes chegaram ao flanco da Montanha Oscilante, cujas rampas suaves afloravam. Naquele memorável dia vinte e três de abril, num percurso de quinze  horas, impelidos por vento rápido, haviam percorrido distância de mais de trezentas e quinze milhas.

Mas esta última parte da viagem deixara-lhes triste impressão. Completo silêncio reinava na barquinha. Estaria o doutor Fergusson absorto nas suas descobertas? Seus dois companheiros meditariam acaso naquela travessia por entre regiões desconhecidas? Era um pouco de tudo isso, sem dúvida,  unido às mais vivas recordações da Inglaterra e dos amigos  distantes. Apenas José mostrava despreocupada filosofia, achando muito natural que a pátria não estivesse ali, uma  vez que estava ausente. Contudo, respeitou o silêncio de  Samuel Fergusson e Ricardo Kennedy. Às dez horas da noite, o Vitória ancorava em frente da Montanha Oscilante. Fez-se  refeição substancial e cada qual adormeceu sucessivamente sob a guarda dos outros.

No dia seguinte, ao acordar, as idéias estavam mais serenas.  Fazia lindo tempo e o vento soprava do lado favorável. Bom almoço, alegrado por José, acabou dispondo bem os espíritos.  A região naquele momento percorrida é imensa, confinando  com as montanhas da Lua e as do Farfur. Qualquer coisa do  tamanho da Europa.

- Estamos atravessando, sem dúvida - disse o doutor -,  o que se imagina ser o reino de Usoga. Alguns geógrafos têm  afirmado existir no centro da África vasta depressão, imenso  lago central. Veremos se há alguma aparência de verdade.

- Esta região será toda habitada? - perguntou José.

- Decerto, e mal habitada.

- Logo vi.

- As tribos que por aí vivem espalhadas estão compreendidas na denominação geral de Niam-Niam. Este nome outra  coisa não é que uma onomatopéia. Reproduz o ruído da mastigação.

- É mesmo! - concordou José – niam! Niam! - Meu caro José, se você fosse a causa imediata dessa  onomatopéia, não a acharia tão apropriada.  - Que quer o senhor dizer?

- Que estas tribos são consideradas antropófagas.  - Isso é certo?

- Certíssimo. Houve mesmo quem pretendesse que estes indígenas eram providos de cauda, como simples quadrúpedes,  mas logo se identificou tal apêndice com peles dos animais com que eles se cobriam.

À tarde, o céu cobria-se de nevoeiro quente que subia  do chão, mal permitindo distinguir os objetos terrestres, de  modo que o doutor, temendo esbarrar com algum pico imprevisto, pelas cinco horas deu sinal de parada.

A noite passou sem novidade, mas fora preciso redobrar  de vigilância naquela profunda escuridão.

A monção soprou com extrema violência durante a manhã do dia seguinte. O vento engolfava-se nas cavidades inferiores do balão, agitando violentamente o apêndice pelo qual  penetravam os tubos de dilatação. Foi preciso segurá-los com  cordas, manobra que José executou muito habilmente.

Ficou ao mesmo tempo verificado que o orifício do aeróstato permanecia hermeticamente fechado.

- Isto tem dupla importância para nós - berrou o doutor  Fergusson. Em primeiro lugar, evitamos o desperdício de gás  precioso. Depois, não deixamos em redor de nós rastro inflamável, ao qual mais tarde ou mais cedo acabaríamos deitando  fogo.

- Seria desagradável incidente de viagem - disse José.

- E cairíamos ao chão? - perguntou Ricardo.

- Cair, não! O gás por-se-ia a arder vagarosamente e  nós iríamos descendo aos poucos. Acidente igual aconteceu  a uma aeronauta francesa, a senhora Blanchard, que incendiou o balão ao lançar alguns fogos de artifício, mas não  caiu, nem decerto teria morrido se a barquinha não fosse  contra uma chaminé, de onde resultou ser atirada ao chão.

- Esperemos que nada de semelhante nos aconteça -  volveu o caçador. Até aqui a nossa travessia não me pareceu  perigosa, nem vejo motivos que nos impeçam de alcançar  nosso fim.

- Eu também não vejo, caro Ricardo. Os incidentes  sempre foram causados pela imprudência dos aeronautas ou  pela má construção dos aparelhos. Apesar disso, sobre vários milhares de ascensões aeronáuticas não se contam vinte quedas que causassem a morte. Em geral, as chegadas e as partidas é que oferecem os maiores perigos. Portanto, também  nesses casos não devemos negligenciar nenhuma precaução.

- Estamos na hora do almoço - interveio José. Teremos  de contentar-nos com carne de conserva e café, até que o  senhor Kennedy encontre meio de presentear-nos com boa  peça de caça.

 

INTERVENÇÃO DIVINA 

O vento ia-se tornando violento e irregular. O vitória dava autênticas reviravoltas nos ares. Arrojado às vezes para  o norte, outras para o sul, não havia meio de encontrar sopro constante.

- Andamos muito depressa, mas sem avançar muito, observou Kennedy, reparando nas freqüentes oscilações da agulha magnética.

- O Vitória corre com velocidade de pelo menos sessenta quilômetros à hora - esclareceu Samuel Fergusson. Debruce-se  e veja como a terra foge rapidamente debaixo dos nossos pés.  Olhe! Até parece que a floresta vai precipitar-se contra nós!

- A floresta já se mudou em clareira - respondeu o  caçador.

- E a clareira em aldeia - acrescentou José, instantes depois. Vejam as caras espantadas daqueles negros!

- É natural - tornou o doutor. Os camponeses de  França quando, pela primeira vez, viram balões, dispararam  as suas armas contra ele, tomando-os por monstros aéreos, não sendo, portanto, demais que um negro do Sudão arregale os olhos.

- Por Deus! - acudiu José, quando o Vitória passava  sobre uma aldeia a trinta metros do chão. Com sua licença,  vou-lhes atirar uma garrafa vazia, meu amo! Se ela chegar  inteira, vão adorá-la. Se se quebrar, farão amuletos com os  cacos! Assim dizendo, jogou uma garrafa, que, como era de esperar, se quebrou em mil pedaços, enquanto os indígenas  corriam para as suas redondas cubatas, soltando grandes  brados. Pouco mais adiante, Kennedy exclamou:

- Reparem que estranha árvore aquela! A parte de cima  é de uma espécie e a de baixo, de outra! - Essa é boa - comentou José. Por aqui as árvores crescem uma sobre as outras.

- É simplesmente um tronco de figueira - explicou o  doutor - sobre a qual se depositou um pouco de terra vegetal. Um belo dia, o vento atirou lá um grão de palmeira,  que se desenvolveu como em pleno campo.

- É um método interessante - disse José - que eu vou  introduzir na Inglaterra. Dará muita vida aos parques de  Londres. Sem se falar que é meio de multiplicar as árvores  frutíferas e construir jardins suspensos. Os pequenos proprietários iriam achar a idéia ótima. Naquele momento foi necessário dar maior altura ao  Vitória para que ele pudesse transpor floresta de árvores com  mais de dez metros, espécie de banianas seculares.

- Que árvores formidáveis! - exclamou Kennedy. Nunca vi coisa tão bonita como esta floresta! Repare só, Samuel.

- A altura das árvores é uma coisa maravilhosa, meu  caro Ricardo. No entanto, não seria nada de extraordinário  nas florestas do Novo Mundo.

- Como? Existem árvores mais altas?

- Claro que sim, entre as que chamamos de árvores mamutes. Na Califórnia, por exemplo, encontrou-se um cedro  com cento e cinqüenta metros de altura, mais alta que a  torre do Parlamento inglês e até que a grande pirâmide do  Egito. A base tinha quarenta metros de circunferência e as  camadas concêntricas do bosque onde estava localizada indicavam mais de quatro mil anos de existência.

- Então, não há nada demais, meu senhor. Quando se  vive quatro mil anos, a coisa mais natural do mundo é ter  belo desenvolvimento.

Pouco depois, a floresta já cedera lugar a extensa reunião  de choupanas dispostas em círculo em volta de urna praça.  Ao centro, erguia-se uma única árvore. Examinando-a, disse  José:

- Bem! Se há quatro mil anos aquela árvore produz  flores assim, não hei de ser eu que lhe dou os parabéns.

E apontava monstruoso sicômoro, cujo tronco desaparecia  todo sob um montão de ossadas humanas. As flores de que falava José eram as cabeças recentemente cortadas, suspensas  de punhais cravados na casca.

- É a árvore de guerra dos canibais! - disse o doutor.  Os índios arrancam o couro cabeludo e os africanos a cabeça  inteira.

- Questão de modo! - replicou José.

Mas já a aldeia de sanguinolentas cabeças desaparecia no  horizonte, substituída por outra, mais além, oferecendo espetáculo não menos repugnante. Eram os cadáveres meio devorados, esqueletos desfazendo-se em pé, membros humanos espalhados, tudo abandonado para servir de pasto às hienas e  aos chacais.

- São decerto corpos de criminosos, que, tal como se faz  na Abissínia, são deixados aos animais ferozes, os quais, depois de os terem estraçalhado a dentada, acabam de devorá-los  em sossego.

José, com a excelente vista de que tão bem se servia, notou alguns bandos de aves de rapina que pairavam no horizonte.

- São decerto corpos de criminosos, que, tal como se faz  conhecido com o óculo. Aves magníficas cujo vôo é tão rápido quanto o nosso.

- Deus nos livre dos seus ataques! - acudiu o doutor.  São mais perigosas para nós que as feras ou as tribos selvagens.

- Ora! - volveu o caçador - nós as escorraçaríamos a  tiro.

- Prefiro não ter de recorrer à sua perícia. O tafetá do  nosso balão não resistiria a uma das suas bicadas. Felizmente,  acho essas temíveis aves mais assustadas do que atraídas pela  nossa máquina.

- Tive uma idéia! - exclamou José. Aliás, hoje estou  cheio delas. Se conseguíssemos uma parelha de águias vivas,  nós poderíamos atrelá-la à barquinha para nos carregarem  pelo ar! - A idéia foi apresentada com seriedade - disse o doutor  -, mas acho pouco viável com animais tão insubmissos.

- Ah! Mas a gente daria um jeito - replicou José. Em  lugar de freio, elas seriam guiadas por antolhos para limitar  a sua vista. Com um olho tapado, iriam para a direita ou  para a esquerda: com os dois tapados, parariam.

- Desculpe, meu rapaz, mas ainda prefiro vento favorável às suas águias atreladas. Dá menos despesas com alimentação e é um pouco mais seguro.

- Está bem, patrão, mas que a idéia é boa, isso é.

Era meio-dia. Havia algum tempo que o Vitória se mantinha em marcha mais moderada. O chão caminhava-lhe por  baixo, já não fugia.

Bruscamente, gritos e silvos feriram os ouvidos dos viajantes, que se debruçaram, avistando, em planície aberta, um espetáculo emocionante. Duas tribos em luta batiam-se encarniçadamente, fazendo voar aos ares nuvens de flechas. Os combatentes, ávidos de se matarem uns aos outros, nem se  aperceberam da chegada do Vitória. Eram mais ou menos trezentos, chocando-se em inextrincável confusão. A maioria  deles, vermelhos do sangue dos feridos em que se chafurdavam, compunha um amontoado horrível de ver. A aparição do aeróstato houve uma pausa. Os rugidos aumentaram, algumas flechas foram disparadas contra a barquinha e uma  delas passou tão perto que José a segurou com a mão.

- Subamos para fora de alcance deles! - exclamou o  doutor Fergusson. Nada de imprudências!

A carnificina prosseguia de parte a parte, a golpes de  machado e de zagaia. Quando um inimigo caía ao chão, o  adversário apressava-se a cortar-lhe a cabeça. As mulheres,  misturadas àquela barafunda, apanhavam as cabeças ensangüentadas e iam empilhá-las em ambas as extremidades do campo de batalha. Freqüentemente batiam-se também para conquistar um dos horrendos troféus.

- Cena pavorosa! - declarou Kennedy com intensa repugnância.

- São uns pobres-diabos! - acrescentou José.

- Estou com vontade furiosa de intervir na batalha -  tornou o caçador, brandindo a carabina.

- Não! - disse vivamente o doutor - nada de nos metermos na vida alheia! Sabes acaso de que lado está a razão  para que representes o papel de Providência? Fujamos quanto antes a este medonho espetáculo!

O chefe de um daqueles bandos selvagens fazia-se notar  por envergadura atlética, unida a força hercúlea. Com uma  das mãos mergulhava a lança nas compactas fileiras inimigas  e com a outra abria grandes clareiras a golpes de machado.  Em dado momento, jogou para longe de si a zagaia coberta de sangue, correu para um ferido cujo braço decepou de um  só golpe, apanhou-o e, levando-o à boca, rompeu em furiosas  dentadas.

- Ah! - berrou Kennedy - horrível fera! não me agüento mais!

E o guerreiro, atingido por uma bala na fronte, caiu para  trás.

A sua queda produziu enorme assombro entre os guerreiros. Aquela morte sobrenatural apavorou-os, reanimando por outro lado o ardor dos contrários. Num segundo, o campo  de batalha foi abandonado pela metade dos combatentes.

- Vamos procurar mais acima uma corrente que nos  leve - disse o doutor. Estou farto do espetáculo.

Mas não partiu tão depressa que não chegasse a ver a  tribo vitoriosa precipitando-se sobre os mortos e os feridos,  a fim de disputar aquela carne ainda quente e repastar-se  nela com avidez.

- Puf! - acudiu José - isto é revoltante!

O Vitória subia dilatando-se e os urros daquela horda  em delírio perseguiram-no ainda alguns instantes. Por fim,  levado para o sul, o balão afastou-se daquela cena de carnagem e canibalismo.

O terreno oferecia agora acidentes variados, com numerosos cursos de água derivando para leste. Iam, decerto, lançar-se nos afluentes do lago Nu ou no rio das Gazelas.

Ao cair da noite, o Vitória lançou ferro após travessia de  trezentos quilômetros.

 

ASSALTO NOTURNO 

A noite ia-se fazendo escura e o doutor não pôde reconhecer a região. Prendeu a âncora a uma árvore muito  alta, cuja massa confusa mal distinguia na sombra. Conforme  o seu hábito, escolheu o quarto das nove horas e, à meia-noite, Ricardo veio substituí-lo.

- Vigie bem, Ricardo! Vigie com toda a cautela.  - Há alguma novidade?

- Não, mas pareceu-me ouvir uns vagos rumores por  baixo de nós. Não sei onde o vento nos trouxe e um acréscimo de prudência não nos pode prejudicar.

- Ouviu por acaso o rugido de alguma fera?

- Não, pareceu-me coisa bem diferente. Enfim, ao menor  alarma não deixe de acordar-nos.

- Fique descansado.

Depois de ter aplicado atentamente o ouvido uma derradeira vez, o doutor, não percebendo nada, jogou-se sobre a  manta e não tardou a adormecer.

O céu estava forrado de espessas nuvens, mas nem um  sopro agitava o ar. O Vitória, seguro apenas por uma âncora,  não experimentava a menor oscilação. Kennedy, acotovelado  ao rebordo da barca de modo a espreitar o maçarico em atividade, considerava a calma escuridão. Interrogou o horizonte e, como sucede aos espíritos inquietos ou prevenidos,  julgava por vezes surpreender indecisas claridades. Houve  um momento em que julgou mesmo avistar uma a duzentos passos de distância. Mas foi apenas um relâmpago, depois do  qual não viu mais nada. Era talvez uma dessas sensações luminosas que o olhar experimenta nas profundas escuridões.

Kennedy sossegou e ia voltando a sua indecisa contemplação, quando agudo silvo atravessou os ares. Seria o grito de  um animal, ou de uma ave noturna? Viria de lábios humanos?

Ricardo, consciente da gravidade da situação, esteve a  ponto de acordar os companheiros, mas refletiu que, fossem  homens ou animais, estavam fora de alcance. Lançou um  olhar às suas armas e com o óculo de noite mergulhou outra  vez no espaço.

Em breve, pareceu-lhe entrever por baixo do balão formas  vagas que corriam furtivamente para a árvore. Um raio de  luar que se filtrou de repente entre duas nuvens revelou-lhe  distintamente um grupo de vultos que se agitavam no escuro.  Ocorreu-lhe à lembrança a aventura dos cinocéfalos e ele  pousou a mão no ombro do doutor que logo acordou.

- Cuidado! - murmurou Kennedy - falemos em voz baixa.

- Há alguma coisa?  -Sim, acordemos José.

Quando José se levantou, o caçador contou o que tinha visto.

- Outra vez esses malditos macacos! - disse o rapaz.  - Talvez, mas precisamos ter cautela.

- José e eu - propôs Kennedy - vamos descer até à árvore pela escada.

- E enquanto isso - acrescentou o doutor - eu tomarei medidas para podermos subir rapidamente.

Certo.

- Desçamos - tornou José.

- Só recorram às armas em caso extremo - acudiu ainda o doutor - não há vantagem em revelarmos a nossa presença nestas paragens.

Os dois responderam com um aceno e deixaram-se escorregar em silêncio até à árvore, onde tomaram posição no garfo  de fortes ramos em que se encravara a âncora. Ficaram alguns  minutos escutando, mudos e imóveis entre a folhagem. Percebendo ligeiro roçar na casca da árvore, José tocou o braço do escocês:

- Não está ouvindo?

- Estou, a coisa aproxima-se.

- E se for uma serpente? O silvo que o senhor ouviu....  – Não!  Tinha qualquer coisa de humano.  - Por mim prefiro os selvagens. Esses répteis enjoam-me.  - O ruído parece aumentar - tornou Kennedy alguns instantes depois.

- Sim! Estão subindo...

- Espreita desse lado que eu me encarrego deste.  -- Está bem.

Achavam-se ambos isolados num galho dominante, sobranceiro à altura da floresta, que se chama baobá. A escuridão, aumentada pela espessura da folhagem, era impenetrável.  Contudo, José, inclinando-se para o ouvido de Kennedy e indicando-lhe a parte inferior da árvore, disse:

- São negros.

Alguns sons trocados em voz baixa chegaram mesmo até  aos viajantes. José apontou a espingarda.  - Esperei - acudiu Kennedy.

Alguns selvagens tinham, com efeito, escalado o baobá e surgiam de todos os lados colando-se aos ramos como répteis, trepando com lentidão e segurança. Denunciavam-se já pelas emanações dos corpos, untados de um óleo infecto. Duas cabeças não tardaram a surgir aos olhos de Kennedy, justamente à altura do ramo que ocupavam.

- Atenção! - disse Kennedy. Fogo!

O duplo tiro ressoou como trovão, perdendo-se entre gritos de dor. Num momento a horda inteira desapareceu.

Mas, em meio aos uivos, percebera-se um grito singular,  inesperado, impossível! Uma voz humana proferia claramente  estas palavras em francês:

- Socorro! Socorro!

Kennedy e José, estupefatos, regressaram à barca o mais  depressa que puderam.

- Vocês ouviram? - perguntou o doutor.  - Com toda a certeza!

- Um francês nas mãos destes bárbaros?  - Algum viajante!

- Um missionário, talvez!

- Algum desgraçado que estão assassinando ou martirizando - acrescentou o caçador.

Fergusson debalde tentava disfarçar a emoção.

Não pode haver dúvida - disse ele. Um desventurado  francês caiu nas garras destes selvagens. Mas não sairemos  daqui sem ter feito o que for humanamente possível para  salvá-lo. Pelos nossos tiros ele decerto adivinhou socorro inesperado, intervenção providencial. Não desanimaremos dessa derradeira esperança. Estão de acordo?

- Inteiramente, Samuel, e prontos a obedecê-lo.

- Combinemos então a manobra e ao amanhecer tentaremos livrá-lo.

- Mas como vamos afugentar esses miseráveis negros? -  perguntou Kennedy.

- É evidente para mim - volveu o doutor -, pelo modo como eles fugiram, que não conhecem as armas de fogo. Devemos, pois, tirar proveito desse pavor, mas esperar que amanheça para agir, quando então traçaremos o nosso plano de  ataque de acordo com a disposição do lugar.

- O pobre infeliz não deve estar longe - interveio José  - porque...

- Socorro! Socorro! - tornou a voz mais enfraquecida.

- Que bárbaros! - exclamou José nervoso. E se o matarem durante a noite?

- É verdade, Samuel - interveio Kennedy, por sua vez,  segurando a mão do doutor -, e se eles o matarem durante  a noite?

- Não é provável, amigos. Em geral os selvagens matam  os prisioneiros à luz do dia, necessitam do sol!

- E se eu aproveitasse a escuridão para esgueirar-me até esse desgraçado? - insistiu o escocês.

- Eu vou com você, senhor Ricardo.

- Devagar, amigos, devagar! Esse intuito faz-lhes honra  ao coração e à coragem, mas desse modo todos seríamos  prejudicados,  inclusive aquele que desejamos salvar.

- Como assim? - volveu Kennedy. Esses brutos fugiram,  espalharam-se, não voltarão mais.

- Ricardo, peço-lhe que me obedeça. Eu trabalho para  a salvação comum. Se por um acaso se deixasse surpreender,  tudo estaria perdido!

- Mas o infeliz que aguarda, que tem esperança, não  receberá nenhuma resposta? Ninguém irá socorrê-lo? Ele vai  pensar que os sentidos o enganaram, que nada ouviu!...

- Podemos tranqüilizá-lo - disse o doutor Fergusson.

E de pé, em meio à escuridão, fazendo das mãos um  porta-voz, gritou, com energia, na língua do desconhecido:

- Quem quer que esteja aí, tenha confiança! Três amigos  cuidam dos meios de salvá-lo.

Respondeu-lhe terrível clamor, abafando decerto a resposta do prisioneiro.

- Estão matando-o! Vão matá-lo! - gritou Kennedy.  A nossa intervenção só serviu para apressar-lhe o suplício!  Precisamos agir!

- Mas como, Ricardo? Que pretende fazer nesta escuridão?  - Oh! se fosse dia! - exclamou José.

- Sim, e se fosse dia? - interrogou o doutor em tom singular.

- Nada mais simples, Samuel - respondeu o caçador.  Desceria à terra e dispersaria essa canalha a tiro.  - E você, José? - tornou a perguntar o doutor.

- Eu, meu amo, agiria com mais prudência, sugerindo  ao prisioneiro que fugisse em determinada direção.  - E como lhe daria o aviso?

- Por meio desta flecha que apanhei no ar e à qual  prenderia um bilhete, ou mais simplesmente falando-lhe em  voz alta, visto que essa pretalhada não compreende a nossa  língua.

- Todos esses planos são impraticáveis, amigos. A maior  dificuldade para o infeliz seria salvar-se, mesmo admitindo  que conseguisse iludir a vigilância dos seus carrascos. O seu  projeto, caro Ricardo, com muita audácia e aproveitando o  terror produzido pelas nossas armas de fogo, talvez desse algum resultado. Mas se falhasse, estaria perdido e ficariam  duas pessoas a salvar, em vez de uma. Não! Devemos colocar do nosso lado todas as probabilidades de êxito e agir de forma  diferente.

- Mas agir sem perda de tempo - replicou o caçador.  - Talvez! - respondeu Fergusson, sublinhando a palavra.  - Meu amo será capaz de dissipar estas trevas?  - Quem sabe?

- Ah! Se fizesse isso, eu o proclamaria o primeiro sábio  do mundo.

O doutor calou-se durante alguns instantes, refletindo.  Seus dois companheiros observavam-no com emoção, excitados pela extraordinária ocorrência. Fergusson não demorou a retomar a palavra:

- Aqui está o meu plano - disse ele. Dispomos de  cem quilos de lastro, visto que os sacos que trouxemos ainda  estão intactos. Admitindo que esse prisioneiro, sem dúvida  esgotado pelos sofrimentos, pese tanto quanto um de nós,  ainda nos restam trinta quilos a jogar fora para subirmos  mais depressa.

- E como pretende manobrar? - perguntou Kennedy.

- Vejamos: decerto admite que se eu conseguir chegar  até ao prisioneiro e jogar fora quantidade de lastro igual ao  seu peso, em nada altero o equilíbrio do balão. Mas nessa  altura, se desejo obter ascensão mais rápida para escapar à  horda de negros, necessito empregar meios mais enérgicos que  o maçarico. Ora, libertando-me desse excedente de lastro no  momento preciso, tenho a certeza de que subiremos com grande rapidez.

- Não há dúvida.

- Mas por outro lado há um inconveniente: é que, para  descer mais tarde, precisarei perder uma quantidade de gás  proporcional ao excedente de lastro que tiver jogado fora e o  gás é coisa preciosa. De qualquer modo, não podemos lastimar tal perda quando se trata da salvação de um homem.

- Tem razão, Samuel, devemos sacrificar tudo para  salvá-lo.

- Nesse caso, mãos à obra e tragam os sacos para borda  da barquinha, a fim de que eles possam ser jogados fora imediatamente.

- E a escuridão?

- Oculta os nossos preparativos e não se dissipará senão quando eles estiverem terminados. Tratem de pôr as armas  ao alcance da mão, pois talvez sejam necessários alguns tiros.  A carabina dispara um, mais quatro das duas espingardas,  mais doze dos dois revólveres, ao todo dezessete tiros que  podem ser disparados num quarto de minuto. Talvez nem  precisemos recorrer a tanto estrondo. Estão prontos?

- Prontíssimos - respondeu José.

Os sacos estavam dispostos, as armas carregadas.

- Bem - disse o doutor - olho em tudo. José fica encarregado de jogar o lastro e Ricardo de raptar o prisioneiro, mas não façam nada sem esperar minhas ordens. José, comece  por soltar a âncora e suba imediatamente para a barca.

José deixou-se escorregar pelo cabo, tornando a aparecer  decorridos alguns instantes. O Vitória, liberto, flutuava no ar, quase imóvel.

Enquanto isso, o doutor certificou-se da presença de quantidade suficiente de gás na câmara de mistura para alimentar,  em caso de necessidade, o maçarico, sem que houvesse necessidade de recorrer durante algum tempo à ação da pilha de Bunsen. Retirou os dois fios condutores perfeitamente isolados que serviam para a decomposição da água e em seguida, procurando no seu saco de viagem, encontrou dois pedaços de carvão talhados em ponta que fixou na extremidade de cada fio.

Os dois amigos olhavam-no sem compreender, mas nada  diziam. Quando o doutor acabou o trabalho, foi para o meio  da barca e, tomando em cada mão um dos carvões, aproximou-lhes as pontas. Uma intensa e deslumbrante claridade  se produziu com insustentável fulgor entre as duas pontas de  carvão, um jato imenso de luz elétrica varou literalmente a  escuridão noturna.

- Oh! Meu amo! - bradou José.

- Silencio! - acudiu o doutor.

 

O MISSIONARIO 

Fergusson assestou para os diversos pontos do espaço o seu potente raio de luz, demorando-o num lugar onde estalaram gritos de pavor. Os dois companheiros olharam com  avidez. O baobá sobre o qual se mantinha o Vitória quase imóvel erguia-se ao centro de uma clareira. Entre duas plantações de gergelim e de cana-de-açúcar avistavam-se cerca de  cinqüenta cabanas baixas e cônicas, em redor das quais formigava tribo numerosa.

Cinqüenta metros abaixo do balão, estava cravado um  poste e, junto a ele, uma criatura humana, homem de trinta  anos quando muito, de longos cabelos negros, meio nu, magro,  ensangüentado, coberto deferimentos, a cabeça pendida sobre  o peito, como Cristo na cruz. Alguns cabelos mais curtos  no alto do crânio indicavam ainda o lugar de uma tonsura  meio apagada.

- Um missionário! Um sacerdote! - exclamou José.

- Pobre desgraçado! - acrescentou o caçador.

- Havemos de salvá-lo, Ricardo - interveio Fergusson -,  havemos de salvá-lo.

A multidão de pretos, ao avistar o balão semelhante a  um cometa enorme com cauda de incomparável esplendor, foi assaltada de pavor fácil de conceber. Ouvindo os gritos, o  preso ergueu a cabeça, brilhou-lhe no olhar um raio de esperança e sem compreender bem o que se passava estendeu as  mãos para os seus inesperados salvadores.

- Está vivo! Está vivo! - gritou Fergusson. Deus seja  louvado! Os selvagens estão convenientemente apavorados, havemos de salvá-lo! Estão prontos, amigos?

- Estamos prontos, Samuel.

- José, apaga o maçarico.

A ordem do doutor foi cumprida. Uma brisa apenas perceptível impelia brandamente o Vitória para cima do prisioneiro, ao mesmo tempo em que ia baixando aos poucos por efeito da contração do gás. Por uns dez minutos ficou balançando em meio às ondas luminosas. Fergusson projetava  sabre a turba o luminoso facho, que espalhava aqui e além  bruscas e vivas placas de luz. A tribo, dominada por indescritível terror, foi-se refugiando nas cubatas e a solidão não  tardou a fazer-se em redor do poste. O doutor tivera razão  em contar com a fantástica aparição do Vitória, despejando  raios de sol naquela densa treva. A barquinha aproximou-se  do chão, enquanto alguns negros mais atrevidos, compreendendo que a vítima ia escapar-lhes, voltaram com grandes brados. Kennedy apanhou o fuzil, mas o doutor ordenou-lhe  que não atirasse.

O padre, ajoelhado, não tendo já força para manter-se  de pé, nem sequer estava amarrado ao poste porque a sua  fraqueza tornava inútil qualquer sujeição. No instante em  que a barca chegou ao solo, o caçador, largando a arma, agarrou o sacerdote pela cintura e meteu-o para dentro, justamente quando José atirava fora às pressas os cem quilos de  lastro. O doutor esperava subir com extrema rapidez, mas  ao contrário das suas previsões, o balão, depois de elevar-se um  pouco, imobilizou-se - Que é que nos retém? - gritou ele assustado.

Alguns selvagens corriam, lançando gritos ferozes.

-Oh! - exclamou José, debruçando-se para fora. Um desses malditos pretos agarrou-se ao fundo da barca!

- Ricardo! Ricardo! - berrou o doutor - a caixa-d’água.

Kennedy compreendeu a idéia do amigo, e, erguendo uma  das caixas-d’água, que pesava mais de cinqüenta quilos, jogou-a por cima da borda. O Vitória, subitamente aliviado,  deu um salto de cem metros nos ares em meio aos rugidos  da tribo, à qual o preso escapava entre fulgurantes raios de  luz.

- Hurra! - gritaram os dois companheiros do doutor.

De repente, o balão deu novo pulo que o levou a mais  de trezentos metros de altura.

- Que é isso? -- perguntou Kennedy que quase perdera  o equilíbrio.

- Não é nada! Deve ser esse patife que nos deixa - respondeu tranqüilamente Samuel Fergusson.

José, debruçando-se rapidamente, pôde ainda avistar o  selvagem, de mãos estendidas, rolando no espaço e logo espedaçando-se no chão. O doutor afastou então os dois fios elétricos e de novo se fez treva. Era uma hora da manhã.

O francês, que desmaiara, abriu os olhos.

- O senhor está salvo - disse-lhe o doutor.

- Salvo - murmurou o outro em inglês com triste sorriso - sim, salvo de morte cruel! Obrigado, meus irmãos.  Meus dias, porém, estão contados, até minhas horas; não me  resta muito tempo para viver!

E o missionário, esgotado, recaiu em seu torpor.

- Vai morrer! - exclamou Ricardo.

- Não, não - respondeu Fergusson, debruçando-se sobre  ele -, mas está muito fraco. Deitemo-lo debaixo do toldo.

Estenderam devagar por cima das mantas aquele pobre  corpo emagrecido, coberto de cicatrizes e de feridas ainda sangrentas, onde o ferro e o fogo haviam deixado em vários  lugares os seus dolorosos vestígios. O doutor fez com o auxílio de um lenço uma espécie de gaze que estendeu sobre as  chagas depois de as ter lavado, procedendo habilmente e com  os cuidados de um médico. Em seguida, tomando um cordial  da sua farmácia portátil, derramou algumas gotas entre os lábios do paciente.

Este franziu levemente os compassivos lábios e mal teve  fôrças para dizer:

- Obrigado! Obrigado!

O doutor compreendeu que necessitava deixá-lo em absoluto repouso e, correndo os panos do toldo, regressou ao governo do balão.

Este, tomando em conta o peso do novo hóspede, fora  deslastrado de quase noventa quilos, podendo manter-se sem  a ajuda do maçarico. Aos primeiros alvores do dia uma corrente impeliu-o brandamente para nor-noroeste. Fergusson foi  observar por alguns instantes o padre adormecido.

- Oxalá, possamos conservar este companheiro que o céu  nos enviai - disse o caçador. Tem esperança?  - Tenho, Ricardo. Com alguns cuidados e este ar puro...

- Como este homem deve ter sofrido! - acudiu José emocionado. Fez uma façanha muito maior que a nossa, vindo  sozinho para o meio destas tribos.

- Certamente - respondeu o caçador.

Durante todo aquele dia, o doutor não consentiu que o  sono do enfermo fosse interrompido. Era uma longa modorra, entrecortada de murmúrios de dor que não deixavam de preocupar Fergusson. A noite, o Vitória estacionou em meio à escuridão e, durante todo o tempo em que José e Kennedy  se revezaram à cabeceira do doente, Fergusson velou pela  segurança de todos.

No outro dia de manhã, o Vitória mal derivara para  oeste. O dia anunciava-se puro e maravilhoso e o doente já  pôde chamar os seus novos amigos com voz mais clara. Correram-se os panos do toldo e ele aspirou com delícia o ar puro  da manhã.

- Como está passando? - perguntou-lhe Fergusson.

- Creio que melhor - respondeu ele. Mas, meus amigos,  apenas os vi como num sonho! Mal posso compreender o que  se passou. Como se chamam, para que os seus nomes não  sejam esquecidos na minha derradeira prece?

- Nós somos viajantes ingleses - respondeu Fergusson.  Estamos tentando a travessia da África em balão e, de passagem, tivemos a sorte de salvá-lo.

- A ciência tem os seus heróis - disse o missionário.

- Mas a religião tem os seus mártires - redargüiu o  escocês.

- O senhor é missionário? - perguntou o doutor.

- Sou padre da missão dos lazaristas. Deus enviou-me  os senhores, Deus seja louvado por isso. O sacrifício da minha vida estava feito! Mas os senhores vêm da Europa! Falem-me da Europa, da França! Não recebo notícias há cinco anos!

- Cinco anos, sozinho, entre estes selvagens! - exclamou  Kennedy.

- São almas que é preciso resgatar - continuou o jovem  sacerdote -, nossos irmãos ignorantes e bárbaros que só a  religião pode instruir e civilizar.

Samuel Fergusson, atendendo ao desejo do missionário,  falou largamente da França. O padre ouvia-o avidamente,  com as lágrimas a escorrer dos olhos. O pobre moço tomou  devagar as mãos de Kennedy e de José entre as suas, que  ardiam em febre. O doutor preparou-lhe algumas chávenas de chá que ele bebeu com satisfação. Pôde então erguer-se um  pouco e sorrir, vendo-se arrebatado naquele céu tão puro.

- São uns intrépidos viajantes - disse ele - e hão de  vencer nessa arrojada empresa. Tornarão a ver parentes e  amigos, a amada pátria!...

A debilidade do jovem sacerdote mostrou-se tão grande  que foi preciso tornar a deitá-lo. Uma prostração de algumas  horas deixou-o como morto nos braços de Fergusson, que mal  podia conter a emoção, sentindo fugir aquela vida. Iriam  perder tão depressa aquele que haviam arrancado ao suplício? Pensou de novo as horríveis chagas do mártir e necessitou  sacrificar a maior parte da sua provisão de água para refrescar-lhe os membros ardentes. Cercou-o dos cuidados mais ternos e inteligentes. O doente renasceu-lhe pouco a pouco nos  braços, recuperando, se não a vida, pelo menos o sentimento.  O doutor ouviu-lhe a história em frases entrecortadas.

- Fale na sua língua materna - disse-lhe ele. Eu compreendo-a muito bem e isso o fatigará menos.

O missionário era um pobre moço da aldeia de Aradon,  na Bretanha, em pleno Morbihan. Seus primeiros instintos levaram-no para a carreira eclesiástica. A vida de abnegação  quis ainda acrescentar uma vida de perigos, entrando para a  ordem dos padres da Missão de que São Vicente de Paula  foi o glorioso fundador, e aos vinte anos trocava o seu país  pelas inóspitas plagas da África. De lá, pouco a pouco, transpondo obstáculos, enfrentando privações, caminhando e rezando, avançou até ao meio das tribos que habitam os afluentes do Nilo superior. Durante dois anos, sua religião foi repelida, seu zelo ignorado, sua caridade mal compreendida. Ficou prisioneiro de uma das mais cruéis tribos do Niambara alvo de toda a sorte de maus tratos. Mas continuava ensinando, instruindo, rezando. Dispersa a tribo que o deixou  por morto após um desses combates tão freqüentes entre as populações africanas, em vez de voltar prosseguiu na peregrinação evangélica. Seu tempo mais feliz foi aquele em que o tomaram por louco. Familiarizou-se com os idiomas dessas  terras e entrou a catequizar. Enfim, durante mais dois longos anos percorreu aquelas regiões bravias, levado pela energia  sobre-humana que vem de Deus. Havia um ano que estava residindo com a tribo dos Niam-Niam, chamada Barafi, uma das mais selvagens. Como o chefe tivesse morrido dias antes, a ele atribuíam essa morte inesperada, resolvendo imolá-lo.  Seu suplício durava já cerca de quarenta e oito horas e, como adivinhara o doutor, iria morrer ao sol do meio-dia. Ao ouvir os disparos das armas de fogo, não se conteve e gritou por socorro, acreditando ter sonhado quando uma voz vinda do  céu enviou-lhe palavras de conforto.

- Não lastimo esta vida que me foge - acrescentou ele.  Minha vida pertence a Deus! - Não perca a esperança - tornou-lhe o doutor -, nós  estamos aqui e havemos de salvá-lo da morte como já o salvamos do suplicio.

- Não peço tanto a Deus - volveu o sacerdote resignado. Bendito seja Ele por me haver dado, antes de morrer, alegria  de apertar mãos amigas e de ouvir a língua da minha pátria! O missionário tornou a enfraquecer e o dia passou assim  entre a esperança e o temor, com Kennedy e José emocionados, enxugando os olhos às escondidas.

O Vitória andava pouco, o vento parecia querer poupar  o seu precioso fardo. José assinalou à tardinha enorme clarão  para oeste. Nas latitudes mais elevadas acredita-se às vezes  em grande aurora boreal. O céu parecia em chamas. O doutor  foi observar atentamente o fenômeno.

- Só pode ser um vulcão em atividade - disse.

Mas o vento leva-nos para cima dele - acudiu o outro.

- Não faz mal. Passamos-lhe por cima a uma altura suficiente.

Três horas depois, o Vitória achava-se em plena montanha. Diante dele uma cratera esbraseada golfava torrentes  de lava em fusão, projetando blocos de pedra a enorme altura. Havia rios de fogo líquido caindo em cascatas deslumbrantes. Espetáculo magnífico e perigoso, porque o vento,  com fixidez constante, arrastava o balão para aquela atmosfera incendiada.

Era necessário transpor aquele obstáculo que não se podia ladear. O maçarico teve a sua chama aberta até ao máximo e o Vitória passou a quase mil e oitocentos metros de  altura, deixando entre si e o vulcão um espaço de mais de  seiscentos metros.

Do seu leito de dor, o padre moribundo pôde contemplar a cratera em fogo donde fugiam com estrépito mil deslumbrantes girândolas.

- Como é belo - disse ele - e como é infinito o poder  de Deus mesmo nas suas manifestações mais terríveis!

Aquele derrame de lavas ígneas revestia os flancos da  montanha de verdadeiro tapete de chamas. O hemisfério inferior do balão resplandecia na treva e calor tórrido subia  até à barquinha, onde o doutor Fergusson cuidava de fugir  àquela perigosa situação.

Às dez horas da noite, a montanha já não era mais que  um ponto rubro no horizonte e o Vitória prosseguia tranqüilamente a sua viagem em zona menos elevada.

 

A MORTE DE UM JUSTO 

Estendia-se sobre a terra noite magnífica. O sacerdote dormia em serena prostração.

- Não escapará - observou José. Pobre homem, apenas trinta anos!

- Vai-nos morrer nos braços! - disse o doutor desanimado. Sua respiração já tão débil enfraqueceu ainda mais.  Nada posso fazer para salvá-lo.

- Infames! - volveu José. E pensar que este digno padre ainda encontrou palavras para lastimá-los e perdoá-los.

- O céu dá-lhe uma noite bem linda, talvez a sua última  noite. De agora em diante, pouco mais sofrerá, a morte será  para ele um quieto sono.

O moribundo sussurrou algumas palavras entrecortadas.  O doutor aproximou-se. A respiração do doente ia-se tornando difícil. Correram-se todos os panos das cortinas e ele respirou  deliciado os brandos sopros daquela noite transparente. As estrelas dirigiam-lhe a sua luz vacilante e a lua envolvia-o no brando lençol do seu luar.

- Amigos - disse ele num fio de voz -, dentro em pouco terei partido! Que Deus os recompense e conduza aonde desejam, pagando-lhes por mim a minha dívida de gratidão!

- Tenha esperança - tornou-lhe Kennedy. É uma fraqueza passageira. O senhor não vai morrer, não é possível  morrer com uma noite destas!

- A morte está aqui - volveu o missionário -, bem a  pressinto. Deixem-me olhá-la de frente. A morte, começo da  vida eterna, é apenas o fim dos trabalhos deste mundo. Peço-lhes, meus irmãos, que me ajudem a ficar de joelhos!

Kennedy soergueu-o. Dava pena ver dobrarem-se aqueles  membros exaustos.

- Meus Deus! meu Deus! - clamava o apóstolo moribundo - tende piedade de mim! Sua face resplandecia. Longe daquela terra, onde jamais conhecera alegrias, em meio à noite que o envolvia com suas  mais brandas claridades, a caminho do céu para o qual se  erguia como em ascensão miraculosa, parecia já reviver da  existência nova. Seu derradeiro gesto foi uma bênção suprema àqueles amigos de um dia - e caiu nos braços de Kennedy  por cuja face corriam grossas lágrimas.

- Morto! - acudiu o doutor debruçando-se sobre ele.

Morto! E os três amigos ajoelharam ao mesmo tempo para rezar em silêncio.

- Amanhã de manhã - disse Fergusson dali a pouco -  sepultá-lo-emos nesta terra de África regada pelo seu sangue.

Durante o resto da noite, o corpo foi velado sucessivamente pelos três navegantes, sem que uma palavra perturbasse o religioso silêncio. Todos choravam. No dia seguinte, o vento soprava do sul e o Vitória marchava com certa ligeireza sobre vasto planalto de montanha. Aqui, crateras extintas, ali barrancos incultos, nem uma gota de água naquelas  cristas ressequidas. Rochedos amontoados, blocos irregulares, caangueiras esbranquiçadas, tudo denotava profunda esterilidade. Ao meio-dia, o doutor, a fim de proceder ao sepultamento do corpo, resolveu baixar num barranco, entre rochas plutônicas de formação primitiva. As montanhas circundantes iriam abrigá-lo e permitir-lhe trazer a barca até ao chão, pois não existia nenhuma árvore que pudesse oferecer-lhe ponto de amarra.

Mas, como ele fizera compreender a Kennedy, em conseqüência de perda de lastro por ocasião do rapto do padre,  não podia descer agora sacrificando quantidade proporcional de  gás. Abriu, pois, a válvula do balão externo, o hidrogênio  vazou e o Vitória baixou serenamente para o barranco.

Quando a barca tocou em terra, o doutor fechou a válvula. José saltou para o chão, segurando-se com uma das mãos  à borda exterior, - enquanto com a outra apanhava certo número de pedras destinadas a substituir o seu próprio peso.  Depois disto, pôde utilizar as duas mãos, não tardando a  amontoar na barquinha quase trezentos quilos de pedregulhos.

O doutor e Kennedy puderam então descer por sua vez.

O Vitória encontrava-se equilibrado e a força ascensional era  impotente para levantá-lo.

Não havia sido preciso empregar grande número de pedras, porque os blocos apanhados por José eram extremamente pesados, o que chamou um momento a atenção de Fergusson.

O solo estava semeado de quartzo e de rochas porfíricas.

"Eis uma singular descoberta!" - pensou consigo o doutor.

Enquanto isto, Kennedy e José afastaram-se alguns passos a fim de escolher lugar para a cova. Fazia calor tremendo  naquela ravina encaixada como espécie de fornalha. O sol o meio-dia atirava-lhe, a prumo, os seus raios ardentes. Primeiro, foi preciso limpar o terreno dos fragmentos de rocha  que o entulhavam. Depois, abriu-se uma fossa bastante profunda para que as feras não pudessem desenterrar o cadáver  e o corpo do mártir foi ali depositado com respeito. A terra  recobriu os despojos mortais e por cima foram dispostos grossos blocos de pedra, à maneira de túmulo.

Durante esse tempo, o doutor ficou imóvel e imerso nas  suas reflexões, sem mesmo ouvir o chamado dos companheiros que o convidavam a buscar abrigo contra o calor do dia.

- Em que pensa, Samuel? - perguntou-lhe Kennedy.

Num singular contraste da natureza, num curioso  efeito do acaso. Sabem em que terra este homem abnegado,  este pobre coração foi sepultado?

- Não compreendo o que quer dizer - volveu o escocês.  - Pois este apóstolo, que fizera voto de pobreza, repousa agora em mina de ouro.

- Mina de ouro! - exclamaram Kennedy e José.

- Mina de ouro - repetiu serenamente o doutor. Estes blocos que estamos calcando com os pés, como se fossem pedras sem valor, são mineral de grande pureza.

Não é possível! Não é possível! - dizia José.

- Se procurarmos nestas fendas de xisto cor da ardósia, encontraremos pepitas importantes.

José correu como um louco para aqueles fragmentos esparsos e pouco faltou para que Kennedy o imitasse.  - Acalma-te - disse o amo.

- O senhor pode falar à vontade...

- Como! Então um filósofo da sua têmpera!

- Ah! Senhor Fergusson, não há filosofia que me impeça.  - Reflita um pouco, rapaz. De que nos servirá toda essa riqueza se a não podemos levar conosco?

- Não a podemos levar conosco? Ora essa!

...O doutor ficou imóvel e imerso nas suas reflexões...

 - É um pouco pesada para a nossa barca. Até hesitei  em comunicar-lhe essa descoberta, com receio de excitar sua  cobiça.

- Mas, então! - tornou José - abandonar estes tesouros? Deixar uma fortuna que é nossa e bem nossa?

- Tenha cuidado, amigo. Será que o atacou a febre do  ouro? Então o morto que acaba de enterrar não lhe ensinou  sobre a vaidade das coisas humanas?

- Tudo isso é verdade, mas, enfim, trata-se de ouro!  Senhor Kennedy, não quer ajudar-me a apanhar alguns destes  milhões?

- E que faremos com eles, meu pobre José? - volveu o  caçador, não podendo deixar de sorrir. Não vimos aqui buscar fortuna, nem a devemos levar.

- São um tanto pesados, os milhões - interveio o doutor  - e não é fácil mete-los no bolso.

- Enfim - insistiu José, reduzido aos argumentos finais,  - não será possível, em vez de areia, levar este mineral como  lastro?

- Está bem, concordo! - respondeu Fergusson - mas com a condição de não fazer caretas quando tivermos de jogar pela borda alguns milhares de libras.

- Milhares de libras! - tornou José. Será possível que  tudo isto seja ouro?

- Sim, amigo, é uma espécie de cofre onde a natureza  há muitos séculos vem acumulando os seus tesouros. Há aí  com que enriquecer países inteiros! Uma Austrália e uma  Califórnia reunidas no fundo de um deserto!

- E tudo isto ficará inútil?

- Talvez! Em todo caso, aqui está o que farei para consolá-lo.

- Será difícil - replicou José com ar contrito.

- Escute. Vou levantar a planta exata desta jazida, que  lhe darei. No seu regresso à Inglaterra poderá fazer comunicação aos seus concidadãos, se acredita que tanto ouro pode dar-lhes felicidade.

- Está bem, meu amo, vejo que tem razão. Resigno-me,  porque não posso fazer outra coisa. Enchamos a nossa barquinha deste precioso mineral. O que restar no fim da viagem será sempre lucro.

E José pôs mãos à obra com a melhor vontade, não tardando a recolher cerca de quinhentos quilos de fragmentos  de quartzo, no qual o ouro se achava encerrado como ganga de  extraordinária pureza.

O doutor observava-o sorrindo. Durante o trabalho, anotou a posição da tumba do missionário, localizada a vinte e  dois graus e vinte e três minutos de longitude e quatro graus  e cinqüenta e cinco minutos de latitude setentrional. Lançando depois derradeiro olhar à intumescência do solo sob a qual repousava o corpo do jovem francês, regressou á barquinha.

Gostaria de plantar uma cruz modesta e rude sobre aquele  túmulo abandonado em meio aos desertos da África, mas não  se avistava nenhuma árvore nos arredores.

- Deus se lembrará - disse ele.

Uma preocupação bastante séria ia-se insinuando no espírito de Fergusson que teria dado muito daquele ouro para  encontrar um pouco de água. Queria substituir a que lançara  fora com a caixa, por causa do negro que se agarrara à barca,  mas isso era impossível naqueles terrenos áridos. O problema não cessava de preocupá-lo. Obrigado a alimentar constantemente o maçarico, começava a achar-se à míngua de recursos  para satisfazer às necessidades da sede. Prometeu a si mesmo  não desprezar nenhuma ocasião de renovar a reserva.

De volta à barca, achou-a atravancada com as pedras do  cobiçoso rapaz e subiu sem dizer nada. Kennedy tomou o  seu lugar costumeiro e José seguiu-os, não sem atirar olhar  lamentoso aos tesouros que ficavam no barranco. O doutor  acendeu o maçarico. A serpentina aqueceu, a corrente de  hidrogênio formou-se, ao cabo de alguns minutos, o gás dilatou-se, mas o balão não se mexeu.

José observava-o com inquietação, mas em silêncio.  - José - chamou o doutor.

Ele não respondeu.

- José, não me ouve?

O criado acenou que ouvia, mas que não queria compreender.

- Vai fazer-me o favor - continuou o doutor Fergusson - de jogar fora uma parte desse mineral.

- Mas, meu amo, o senhor concordou...

- Concordei que substituísse o lastro, nada mais.  - Todavia

- Quer que fiquemos eternamente neste deserto?

José atirou um olhar desesperado a Kennedy, mas o caçador encolheu os ombros como quem nada pode fazer.  - Então, José?

- O seu maçarico não funciona mais? - insistiu o cabeçudo.

- O meu maçarico está aceso, como vê, mas o balão não  se levantará enquanto não o deslastrarmos um pouco.

José coçou a orelha, apanhou um fragmento de quartzo, o menor de todos, sopesou-o, repesou-o, fê-lo saltar nas mãos.

Teria de quilo e meio a dois. Jogou-o fora, mas o Vitória não se moveu.

- Como! - exclamou ele - então ainda não subimos?  - Ainda não - respondeu o doutor. Continue.  Kennedy ria. José atirou fora mais cinco quilos e o balão continuou imóvel. José empalideceu.

- Meu pobre amigo - disse-lhe Fergusson -, nós três pesamos, se não estou enganado, cerca de duzentos quilos.

E preciso, portanto, aliviar o balão, desembaraçá-lo de peso pelo menos igual ao nosso visto que ele nos estava substituindo.  - Lançar fora duzentos quilos de ouro! - exclamou José lastimosamente.

-E alguma coisa a mais, para subirmos. Vá, coragem!  O pobre moço, soltando profundos suspiros, pôs-se a deslastrar o balão. De vez em quando parava.

- Ainda não estamos subindo? - inquiria.

- Ainda não estamos subindo - era-lhe invariavelmente respondido.

- Agora parece que se mexeu - disse ele por fim.  - Continue - repetiu Fergusson.  - Está subindo, tenho a certeza!  - Continue, sempre - tornou Kennedy.

Então José, apanhando com desespero mais um bloco, jogou-o por cima da borda da barquinha. O Vitória elevou-se alguns metros e com a ajuda do maçarico não tardou a dominar os picos circundantes.

- Agora, José - disse o doutor -, ainda lhe resta uma bela fortuna se conseguirmos conservar o resto até o fim da viagem. Ficará rico para o resto dos seus dias.

José não respondeu e foi estender-se cautelosamente no seu leito de mineral.

- Veja, meu caro Ricardo - tornou o doutor -, a influencia que esse metal exerce no ânimo do melhor rapaz do mundo! Quantas paixões, quanta cobiça, quantos crimes desencadearia o conhecimento de tal mina! E para entristecer!  À tarde, o Vitória tinha avançado cento e setenta quilômetros para oeste. Achava-se então, em linha reta, a dois mil e seiscentos quilômetros de Zanzibar.

 

PREOCUPAÇÕES DE FERGUSSON 

O Vitória, amarrado a uma árvore solitária e quase seca passou a noite em perfeita tranqüilidade. Os viajantes  puderam usufruir um pouco de sono de que andavam necessitados. As emoções dos dias anteriores tinham-lhes deixado penosas recordações.

De manhã, o céu retomou a sua lustrosa limpidez e o  seu calor. O balão ergueu-se nos ares e, após várias tentativas malogradas, encontrou corrente, embora pouco rápida, que o  levou para noroeste.

- Não estamos avançando mais - observou o doutor -,  e se não me engano realizamos metade da nossa viagem em  cerca de dez dias, mas na velocidade em que vamos necessitaremos meses para concluí-la. Isso é tanto mais desagradável quanto estamos ameaçados de ficar sem água.

- Havemos de encontrá-la - respondeu Ricardo. É impossível não descobrirmos algum rio, algum riacho, uma poça  nesta enorme extensão de terra.

- Deus o queira!

- Não será o carregamento de José que atrasa a nossa  marcha?

Kennedy falava assim para divertir-se com o excelente  rapaz e fazia-o de tanto melhor vontade quanto ele mesmo experimentara, por instante, as alucinações de José. Como nada deixara transparecer, alardeava espírito forte, sempre sorridente. Pensava agora, não sem secretos terrores, nas vastas solidões do Saara, onde se passam semanas sem que as  caravanas encontrem um poço onde matar a sede. Passou a  observar com minuciosa atenção as mais insignificantes depressões do solo.

Essas precauções e os últimos incidentes tinham sensivelmente modificado a disposição de espírito dos três viajantes,  que falavam menos e se absorviam mais em seus próprios pensamentos.

O bom José não era já o mesmo desde que os seus olhos tinham mergulhado naquele oceano de ouro. Calava-se, olhando com avidez as pedras amontoadas no fundo da barca, então sem valor mas depois inapreciáveis.

O aspecto daquela parte da África era realmente inquietador. O deserto ia surgindo pouco a pouco. Nenhuma aldeia  mais, sequer uma reunião de cubatas. A vegetação tornava-se  escassa, apenas algumas plantas definhadas como nos terrenos arenosos da Escócia, um começo de areias alvacentas e de pedras calcinadas, alguns lentiscos e moitas espinhosas. Em meio  a essa esterilidade, a carcaça sedimentar do globo surgia em  arestas de rochas vivas e cortantes. Aqueles sintomas de aridez davam que pensar ao doutor Fergusson, mas agora não era  possível recuar. Tinham de ir para diante e o doutor não desejava outra coisa. O que poderia desejar ainda era que  uma tempestade o levasse para longe daquela região. E nem  uma nuvem no céu! No fim do dia o Vitória não tinha progredido cinqüenta quilômetros.

Se ao menos não faltasse água! Mas restavam ao todo quinze litros! Fergusson separou cinco litros destinados a mitigar a sede ardente que um calor de cinqüenta graus centígrados tornava intolerável. Restavam ainda dez litros para  alimentar o maçarico, que produziriam dezessete mil litros de  gás, enquanto o maçarico gastava mais ou menos trezentos  litros por hora; tinham, portanto, pela frente, cinqüenta e  quatro horas de marcha. Todos os cálculos eram rigorosamente matemáticos.

- Cinqüenta e quatro horas! - disse ele aos companheiros. Ora, como eu estou bem decidido a não viajar de  noite, com receio de que me escape algum regato, uma fonte  ou uma poça, dispomos de três dias e meio de viagem, no decorrer dos quais precisamos encontrar água a qualquer preço. Julgo dever preveni-los desta grave situação, caros amigos, porque apenas reservei cinco litros para a nossa sede e  devemos sujeitar-nos a severo racionamento.

- Pois racione - respondeu o caçador -, mas ainda não  é caso para desesperar. Temos três dias à nossa frente?

- Justamente, meu caro Ricardo.

- Como nada adiantaríamos com lamentações, haverá tempo de tomar uma resolução durante esses três dias. O essencial é redobrarmos de vigilância.

Na refeição da noite, a água foi rigorosamente distribuída. A quantidade de aguardente aumentou nos grogues,  mas convinha desconfiar da bebida, mais própria a dar sede  do que a matá-la.

A barca pousou, à noite, em imenso platô que apresentava forma de depressão, a uma altura de duzentos e sessenta  metros acima do nível do mar. Essa circunstância devolveu  alguma esperança ao doutor, lembrando-lhe as presunções dos geógrafos acerca da existência de vasto lençol de água no centro da África. Se o lago existia, era indispensável alcançá-lo, mas nenhuma mudança se produzia no céu sereno.

A noite tranqüila, à sua estrelada magnificência, sucederam o dia inalterável e os ardentes raios do sol. Logo aos  primeiros alvores, a temperatura foi-se fazendo escaldante.  Às cinco horas da manhã, o doutor deu o sinal de partida e  durante largo espaço de tempo o Vitória permaneceu sem  movimento em atmosfera plúmbea. O doutor poderia escapar  ao calor intenso, refugiando-se nas zonas superiores, mas seria  preciso consumir maior quantidade de água, coisa impossível  na ocasião. Contentou-se, pois, em manter o aeróstato a trinta  metros do solo, sob leve corrente que o impelia para o horizonte ocidental. O almoço compôs-se de um pouco de carne seca e alguma conserva. Ao meio-dia, o Vitória escassamente  percorrera alguns quilômetros.

- Não podemos andar mais depressa - esclareceu o doutor. Aqui não comandamos, obedecemos.

- Ah! Meu caro Samuel - acudiu o caçador -, nesta  ocasião um propulsor viria mesmo a propósito!

- Realmente, mas desde que ele não precisasse de água  para pôr-se em movimento, porque, então, a situação seria  a mesma. Aliás, até hoje não se inventou nada praticável.

Os balões estão ainda no ponto em que se encontravam os  navios antes da invenção do vapor. Foram precisos seis mil  anos para inventar as pás e as hélices, de modo que temos  ainda muito que esperar.

- Maldito calor! - disse José, enxugando a testa molhada de suor.

O solo, entretanto, ia-se deprimindo cada vez mais.

- Se houvesse água, este calor nos prestaria certo serviço, porque dilataria o hidrogênio do aeróstato, podendo ser  mais fraca a chama da serpentina. Mas também e verdade  que se não estivéssemos à míngua de líquido não precisaríamos economizá-lo. Ah! Maldito selvagem que nos custou  aquela preciosa caixa.

- Não se arrepende do que fez, Samuel?

- Não, Ricardo, visto que pudemos salvar aquele infeliz  de morte horrível. Em todo caso, a água que jogamos fora  bem útil nos seria nesta ocasião. Seriam mais doze ou treze dias de marcha garantidos, com certeza o suficiente para atravessar este deserto.

- De qualquer modo já fizemos metade da viagem? -  perguntou José.

- Como distância creio que sim, mas não como duração se o vento abandonar-nos. E a verdade é que ele está com  tendência a diminuir.

- Vamos, meu amo - tornou José -, não há razão para  queixas. Até aqui temo-nos saído bem, e, seja como for, não  consigo perder as esperanças. Havemos de encontrar água,  é o que lhe digo.

O solo, entretanto, ia-se deprimindo cada vez mais. As  ondulações das montanhas auríferas vinham morrer na planície, como os derradeiros esforços de uma natureza exausta.  As ervas esparsas substituíam as belas árvores do leste e algumas faixas de verdura ressequida lutavam ainda contra a  invasão das areias. Os enormes pedregulhos caídos dos cimos  distantes, e esmagados na queda, tinham-se esboroado em seixos agudos que logo seriam saibro grosso e mais além poeira  impalpável.

- Eis a África tal como a imaginava, José. Razão tinha eu para recomendar paciência!

- Então, meu amo, isto pelo menos é natural: calor e  areia! Absurdo seria procurar outra coisa em semelhante terra.  Eu nunca acreditei muito nos prados e florestas de que o  senhor me falava - acrescentou ele. Era um contra-senso!  Não valia a pena vir de tão longe para encontrar os mesmos  campos de Inglaterra! Agora é que eu verdadeiramente me sinto na África e não me importo de lhe sofrer um pouco os  inconvenientes.

À tarde, o doutor verificou que o Vitória não progredira  trinta quilômetros naquela jornada ardente. Treva abafada  envolveu-os logo que o sol desapareceu no horizonte, que aparecia com nitidez de linha reta.

O dia seguinte era quinta-feira, primeiro de maio, mas os dias sucediam-se com desesperadora monotonia. Cada manhã era igual à manhã que a precedera, o meio-dia lançava em profusão os mesmos raios sempre inesgotáveis e a noite  condensava em sua treva o calor esparso que o dia seguinte  com toda a certeza transmitiria à noite seguinte. O vento,  apenas perceptível, ia-se tornando mais expiração do que sopro e podia-se pressentir o momento em que até esse mesmo  hálito se extinguiria.

O doutor reagia contra a tristeza daquela situação, conservando a calma e o sangue-frio de um coração intrépido.  De óculo em punho ia esquadrinhando todos os pontos do  horizonte, vendo decrescer insensivelmente as derradeiras colinas, apagar-se a última vegetação e surgir à sua frente a  imensidade do deserto. A responsabilidade que lhe pesava  afetava-o muito, embora não o deixasse transparecer. Tinha  arrastado aqueles dois homens, Ricardo e José, ambos amigos,  para tão longe, quase pela força da amizade ou do dever.  Fizera bem? Não estaria tentando caminhos proibidos? Não  andaria tentando, naquela viagem, transpor os limites do impossível? Não teria Deus reservado para séculos futuros o conhecimento do ingrato continente?

Todas estas idéias, como sucede nas horas de desalento,  se lhe multiplicavam na cabeça e por irresistível associação delas Samuel deixava-se arrastar para além da lógica e do raciocínio.  Depois de haver analisado o que não deveria ter feito, perguntava-se o que deveria fazer agora. Seria impossível voltar  atrás? Não existiriam correntes superiores que o levassem a regiões menos áridas? Conhecedor das terras por que já passara, ignorava as que estavam para vir e, como a consciência principiasse a falar-lhe alto, resolveu explicar-se francamente  com os dois companheiros. Expôs-lhes a situação com clareza, mostrou-lhes o que fora feito e o que restava fazer. A rigor,  podia-se recuar ou pelo menos tentá-lo. Qual era a opinião deles?

- Eu não tenho outra opinião a não ser a de meu amo  - respondeu José. O que ele enfrentar também eu poderei  fazê-lo e até melhor. Para onde ele for, irei também.

- E você, Kennedy?

- Eu, meu caro Samuel, não sou homem para desanimar. Ninguém conhecia melhor do que eu os perigos da empresa, mas resolvi ignorá-los inteiramente desde que o vi disposto a enfrentá-los. Pertenço-lhe, pois, de corpo e alma. Na presente situação acho que devemos perseverar e ir até ao fim,  tanto mais que os perigos do regresso me não parecem muito menores. Portanto, avante, e pode contar conosco!

- Obrigado, meus dignos camaradas! - respondeu o doutor sinceramente comovido. Estava precisando dessas palavras encorajadoras. Mais uma vez, obrigado!

E os três homens apertaram-se as mãos com amizade.

- Escutem-me - tornou Fergusson. De acordo com as  minhas anotações não estamos a mais de quinhentos quilômetros do golfo de Guiné. O deserto não pode, pois, estender-se indefinidamente, visto a costa ser habitada e reconhecida a certa profundidade pela terra adentro. Se for necessário, dirigir-nos-emos para a costa, e é impossível que não encontremos algum oásis, algum poço onde renovemos a nossa  provisão de água. O que nos falta é o vento e sem ele ficaremos em calma inócua no meio dos ares.

- Esperemos com resignação - volveu o caçador.

E cada um deles ficou por sua vez a interrogar baldadamente o espaço durante aquele interminável dia, sem que  nada surgisse capaz de alentar uma esperança. Os últimos acidentes do terreno desapareceram ao pôr do sol, cujos raios horizontais se estenderam em longas linhas ígneas por sobre  aquela plana imensidade. Era o deserto.

Os viajantes não haviam transposto sequer vinte e cinco quilômetros, tendo gasto, contudo, como no dia anterior, cinco  mil litros de gás para alimentar o maçarico e dois litros de  água sobre oito foram sacrificados para estancar a sede ardente.

A noite decorreu tranqüila, muito tranqüila. O doutor  não dormira.

 

O DIA SEGUINTE

A mesma limpidez de céu, a mesma imobilidade da atmosfera. O Vitória subiu a uma altura de  duzentos metros, porém mal se deslocou para oeste.

- Estamos em pleno deserto - comentou o doutor. Que  imenso areal! Que estranho espetáculo! Que singular disposição da natureza! Por que lá longe aquela vegetação luxuriante e aqui esta excessiva aridez, na mesma latitude, sob os  mesmos raios de sol?

- O porquê, meu caro Samuel, interessa-me pouco -  respondeu Kennedy. A razão preocupa-me menos que o fato.  É assim e isto é o importante.

- Mas podemos filosofar um pouco, meu caro Ricardo.  Não nos fará mal nenhum.

- Pois filosofemos, tanto mais que há tempo bastante para isso. Acho que não estamos andando. O vento tem  medo de soprar, parece adormecido.

- Isto não vai durar muito. Creio avistar faixas de  nuvens a leste.

- José tem razão - respondeu o doutor.

- Seria excelente encontrarmos uma nuvem com boa chuvarada e bom vento que nos fustigasse o rosto!

- Veremos, Ricardo, veremos.

- Não teme o efeito deste sol ardente sobre o nosso balão?  - perguntou Kennedy ao doutor.

- Não, a guta-percha de que o tafetá está embebido suporta temperaturas muito elevadas. Aquela a que eu a submeto interiormente por meio da serpentina alcançou, por vezes,  setenta graus centígrados e o invólucro não parece ter-se ressentido.

 

O POÇO DO DESERTO 

- Uma nuvem! Uma autêntica nuvem! - gritou José,  cuja vista penetrante desafiava qualquer luneta.

Na verdade, uma faixa espessa e agora mais distinta se  erguia lentamente no horizonte, parecendo profunda e como intumescida. Era um amontoado de pequenas nuvens que conservavam, invariavelmente, a sua forma primitiva, de onde o doutor concluiu não existir nenhuma corrente de ar entre aquela aglomeração.

A massa compacta surgiu pelas oito horas da manhã e só às onze atingiu o sol, que desapareceu atrás da espessa cortina. Justamente naquele instante a parte inferior da nuvem  se desprendia da linha do horizonte que brilhou em plena luz.

- É uma nuvem isolada - observou o doutor. Não devemos contar muito com ela. Repare, Ricardo, a sua forma continua sendo a mesma da manhã.

- Com efeito, Samuel, ela não traz chuva nem vento,  pelo menos para nós.

- Assim o receio, visto que se conserva a grande altura.  - E se fôssemos ao encontro daquela nuvem que não  quer precipitar para nós?

- Não creio que nos adiante grande coisa - respondeu o doutor. Significará dispêndio de gás e, portanto, de água, o que é ainda pior. Mas na situação em que estamos, nada devemos desdenhar, de modo que vamos subir.

O doutor abriu toda a alta chama do maçarico nas espirais da serpentina. Desenvolveu-se calor violento e o balão  não tardou a erguer-se sob a ação do hidrogênio dilatado. A cerca de quinhentos metros do chão encontrou a massa  opaca da nuvem e entrou em denso nevoeiro, mantendo-se nessa altura. Mas não encontrou o menor sopro de vento, o  nevoeiro parecia mesmo desprovido de qualquer umidade e  os objetos expostos ao seu contacto mal se umedeceram.  O Vitória, rodeado daquele vapor, alcançou talvez marcha  mais sensível, mas foi tudo. O doutor verificou com melancolia o resultado obtido pela manobra e, de repente, José gritou em tom da mais viva surpresa:

- Ora essa!  - Que foi, José?

- Meu amo! senhor Kennedy! que coisa estranha! - Mas que foi?

Não havia indícios de umidade.

- Não somos os únicos aqui! Alguém roubou a nossa invenção!

- Estará louco? - pensou Kennedy, olhando José que parecia a estátua do espanto, tal a sua imobilidade.

- Será que o sol desarranjou a cabeça do pobre rapaz? pensou, igualmente, o doutor voltando-se para ele.  - Não me dirá que...

- Veja, meu amo - disse José, indicando ponto no espaço.

- Por São Patrício! - berrou Kennedy por sua vez -  não é possível! Samuel! Samuel, venha ver!  - Já estou vendo - respondeu tranqüilamente o doutor.

- É outro balão! Outros viajantes como nós!

Realmente, a setenta metros, um aeróstato flutuava no ar com a sua barquinha e os seus viajantes, seguindo exatamente a mesma rota do Vitória.

- Bem! - acrescentou o doutor - não nos resta senão  fazer-lhes sinais. Tome a bandeira, Kennedy, e mostre-lhes as  nossas cores.

Dir-se-ia que os viajantes do outro aeróstato tiveram no  mesmo instante a mesma idéia, pois a mesma bandeira repetiu de modo idêntico a mesma saudação num braço que a  agitava do mesmo modo.

- Que significa isso? - perguntou o caçador.

- Devem ser macacos! - interveio José. Parecem escarnecer de nós!

- Isso significa - explicou Fergusson rindo - que é você que faz a si próprio o sinal, meu caro Ricardo! Quer dizer  que somos nós mesmos que estamos na segunda barca! Aquele  balão é muito simplesmente o nosso Vitória.

- Ah! Meu amo, salvo o respeito que lhe devo, nunca  poderei acreditar em semelhante coisa!

- Suba à borda da nossa barca, levante os braços e verá.  José obedeceu e viu os seus gestos perfeita e instantaneamente reproduzidos.

- É apenas efeito de miragem e não outra coisa - esclareceu o doutor. Simples fenômeno de óptica, devido a rarefação desigual das camadas de ar e nada mais.

- É maravilhoso! - repetia José, sem poder convencer-se  e multiplicando as experiências à força de braços.

- Que singular espetáculo! - disse Kennedy. Mas dá  gosto ver o nosso valente Vitória! Sabem que ele possui bela  aparência e se mantém majestosamente?

- O senhor pode dar a explicação que quiser - tornou  José - mas o caso é que o efeito é extraordinário!

Enquanto isto, a imagem foi-se gradualmente apagando.  As nuvens subiram a grande altura, abandonando o Vitória, que desistiu de segui-las, e, ao fim de uma hora, desapareceram em pleno céu.

O vento, já quase imperceptível, diminuiu ainda mais.  O doutor, desesperado, aproximou-se do solo.

Pelas quatro horas, José notou qualquer coisa em relevo  na imensa planície de areia e, daí a pouco, afirmava que duas palmeiras se erguiam a pequena distância.

- Palmeiras! - exclamou Fergusson. Então deve haver  alguma nascente ou algum poço.

Apanhou a luneta e convenceu-se de que os olhos de José  não o enganavam.

- Enfim! - repetia ele - água! água! e estamos salvos,  porque apesar de andarmos muito pouco estamos contudo andando e acabaremos por chegar.

- Então, meu amo - propôs José -, se bebêssemos um  pouco desde já? O calor está sufocante!

- Pois bebamos, meu rapaz!

Ninguém se fez de rogado. Um litro inteiro desapareceu,  reduzindo a provisão apenas a três litros e meio.

- Ah! como isto regala! - exclamou José. Como é bom!

- São as vantagens da necessidade - observou o doutor.

- Tristes vantagens, sem dúvida - volveu o caçador.  E ainda que eu não gostasse de beber água haveria de bebê-la  com a condição de nunca mais ver-me privado dela.

As seis horas, o Vitória planava acima das palmeiras.  Eram duas magras árvores, raquíticas, ressequidas, dois espetros de árvores quase sem folhas, mais mortas que vivas.  Fergusson olhou-as com terror.

Junto delas avistavam-se as pedras meio roídas de um  poço que, calcinadas pelos ardores do sol, pareciam ser apenas formadas de poeira impalpável. Não havia vestígio de umidade. O coração de Samuel oprimiu-se e ia já participar os  seus temores aos companheiros, quando as exclamações destes  lhe chamaram a atenção.

Para o oeste, a perder de vista, estendia-se longa linha  de ossadas brancas. Pedaços de esqueletos rodeavam a fonte. Alguma caravana chegara até ali, marcando sua passagem com  aquele grande ossário. Os mais fracos tinham caído pouco a pouco na areia e os mais fortes, logrando alcançar a tão desejada fonte, haviam encontrado ao pé dela morte horrível.

Os viajantes encararam-se, empalidecendo.

- Não vale a pena descer - disse Kennedy. Fujamos  quanto antes deste medonho espetáculo! Não há aí uma gota  de água a recolher.

- Não, ainda que seja só por descargo de consciência.  Tanto vale passar a noite aqui como além. Esquadrinharemos o poço até ao fundo. Houve aí uma nascente e é possível que ainda reste qualquer coisa.

O Vitória desceu. José e Kennedy introduziram na barca peso de areia equivalente ao deles e saltaram, correndo para  o poço onde penetraram por escada quase desfeita em pó.  A nascente parecia extinta há longos anos. Romperam a cavar  na areia seca e esboroável, a mais árida que se possa imaginar. Não havia indícios de umidade. O doutor viu-os regressar à superfície do deserto, suados e esfalfados, cobertos  de fina poeira, abatidos, desanimados, desesperados.

Compreendeu a inutilidade das buscas. Era o que esperava e, portanto nada disse. Sentiu que a partir daquele instante necessitava ter coragem e energia por três. José trazia  pedaços de outra pele endurecida, que jogou fora com raiva  para o meio das ossadas dispersas pelo chão.

Durante a ceia, os viajantes não trocaram palavras e parecia comerem com repugnância.

Contudo, não haviam ainda sofrido verdadeiramente as  torturas da sede. Apenas receavam pelo futuro.

 

PESQUISAS DESESPERADAS

 O caminho percorrido pelo Vitória no dia precedente não excedera quinze quilômetros e haviam sido consumidos  cinco mil e oitocentos litros de gás. No sábado pela manhã  o doutor deu o sinal de partida.

- O maçarico não poderá funcionar mais de seis horas  - informou ele. Se nesse espaço de tempo não descobrirmos  poço ou nascente, só Deus sabe o que será de nós.

- Há pouco vento esta manhã, meu amo! - observou  José. Mas talvez ele ainda se levante - acrescentou, vendo  a tristeza mal disfarçada de Fergusson.

Baldada esperança! Fazia no ar, calma completa. O calor  tornava-se intolerável e o termômetro à sombra, debaixo do  toldo, marcava quarenta e cinco graus.

José e Kennedy, estendidos lado a lado, buscavam, se não no sono pelo menos no torpor, esquecer a situação.

As torturas da sede começaram a manifestar-se cruelmente.  A aguardente, longe de atenuar a imperiosa necessidade, aumentava-a, merecendo bem o nome de leite de tigres que lhe  dão os naturais da África. Restavam apenas dois litros de  um líquido morno. Todos cobiçavam com os olhos aquelas poucas gotas preciosas, nenhum ousando mergulhar nelas os  lábios. Dois litros de água, no meio do deserto!

Então, o doutor Fergusson, imerso em suas reflexões, perguntou a si mesmo se porventura agira com prudência. Não  teria agido melhor conservando aquela água decomposta em  pura perda para se manter na atmosfera? Decerto progredira  no caminho. Mas que adiantava isso? Ainda que se achasse  a oitenta quilômetros atrás, naquela latitude, que importava  se a água lhe faltava ali? O vento, se enfim se levantasse,  tanto sopraria lá como aqui, talvez aqui ainda menos rápido  se viesse de leste! Mas a esperança não abandonou Fergusson,  apesar de que aqueles nove litros de água consumidos em  vão bastariam para nove dias de parada no deserto. Talvez  mesmo, se conservasse a água, tivesse podido subir mais, jogando fora lastro, perdendo depois gás para tornar a descer.  Mas o gás do balão era o seu sangue e a sua vida!

Estas e outras mil reflexões tumultuavam-lhe a cabeça,  que segurou entre as mãos sem a erguer durante horas inteiras.

- É preciso fazer derradeiro esforço! - disse consigo às  dez horas da manhã. Tentaremos mais uma vez encontrar  corrente atmosférica que nos arraste! Temos de arriscar os  últimos recursos!

E, enquanto os companheiros dormitavam, elevou a alta  temperatura o hidrogênio do aeróstato, que se arredondou  pela dilatação do gás e subiu entre os raios perpendiculares  do sol. Em vão o doutor buscou um sopro de vento desde  trinta até nove mil metros; o ponto de partida continuava  obstinadamente em baixo dele. Parecia reinar calmaria absoluta até aos derradeiros limites do ar respirável. Por fim, a  água esgotou-se. O maçarico extinguiu-se por falta de gás,  a pilha de Bunsen deixou de funcionar e o Vitória, contraindo-se, desceu vagarosamente sobre a areia, no próprio lugar  que antes tinham cavado.

Era meio-dia. A tomada de posição revelou dezenove  graus e trinta e cinco minutos de longitude e seis graus e  cinqüenta e um minutos de latitude, a cerca de novecentos  quilômetros do lago Tchad, a mais de oitocentos das costas  ocidentais da África. Ao chegarem à terra, Ricardo e José  saíram do seu pesado torpor.

- Paramos aqui? - perguntou o escocês.

- Não há outro remédio - respondeu Samuel em tom  grave.

Os companheiros compreenderam. O solo achava-se então  ao nível do mar, em virtude da sua constante depressão, de modo que o balão se manteve em perfeito equilíbrio e absoluta imobilidade.

O peso dos viajantes foi substituído por carga equivalente de areia e todos desceram. Cada qual se mergulhou nas  suas preocupações e durante várias horas ninguém falou. José  preparou a ceia, composta de biscoito e carne de conserva,  em que mal tocaram. Um gole de água quente completou a  triste -refeição.

Durante a noite, ninguém velou, mas também ninguém dormiu. O calor era sufocante. No dia seguinte, apenas restava meio litro de água, que o doutor pôs de lado, decidido  a não tocar senão em recurso extremo.

- Sinto-me abafar - disse José pouco depois. O calor  aumenta! Mas não é de admirar - acrescentou depois de ter  consultado o termômetro. Sessenta graus!

- A areia queima! - acudiu o caçador com a sensação  de estar dentro de um forno. E nem uma nuvem neste céu  implacável! É de ficar louco!

- Não desanimemos - volveu o doutor. A estes grandes  calores sucedem invariavelmente tempestades nestas latitudes,  que chegam com a rapidez dos relâmpagos. Apesar da acabrunhadora serenidade do céu, poderão sobrevir grandes mudanças em menos de uma hora.

- Mas de qualquer modo haveria indício! - tornou  Kennedy.

- Bem! - respondeu o doutor - parece-me que o barômetro tem ligeira tendência para baixar.

- Deus o ouça, Samuel, pois estamos colados neste chão  como aves de asas quebradas.

- Apenas com a diferença de que as nossas asas estão  intactas e espero que elas ainda nos possam servir.

- Ah! Quem me dera um pouco de vento que nos levasse  a um riacho ou a um poço! - exclamou José. Então, nada  nos faltaria. Nossos víveres são suficientes e com água poderemos esperar um mês sem dificuldade! Mas a sede é coisa  terrível.

A sede e também a contemplação incessante do deserto cansavam o espírito. Não havia nenhum acidente de terreno,  nenhum montículo de areia, ou um calhau onde se detivesse  o olhar. Aquela uniformidade desanimava, causando aquilo  que se chama o mal do deserto. A impassibilidade do árido azul do céu e da infindável amarelidão da areia terminava  por horrorizar. Naquela atmosfera incandescente o calor parecia vibrar como por sobre fogueira em chamas. O espírito  cansava-se de ver aquela imensa calma, sem entrever motivo algum que fizesse cessar tal estado de coisas, pois a imensidão  é uma espécie de eternidade. Os infelizes, privados de água  sob aquela temperatura tórrida, começaram experimentando  sintomas de alucinação. Os olhos arregalavam-se, turvavasse-lhes a vista. Chegada a noite, o doutor decidiu combater a  inquietadora predisposição por meio de caminhada rápida,  propondo correrem a planície arenosa durante algumas horas,  não em busca de qualquer coisa mas simplesmente para andar.

- Venham - disse ele aos companheiros. Acreditem que  isso nos fará bem.

- Impossível - respondeu Kennedy - não conseguiria  dar um passo.

- Quanto a mim, prefiro dormir - declarou José.

- Mas o sono ou o repouso vão ser-lhes funestos, amigos.  Reajam contra esse torpor. Vamos, venham comigo! Todavia, não pôde convence-los e afastou-se sozinho em  meio à estrelada transparência da noite. Os primeiros passos  foram difíceis como os de um homem debilitado e desacostumado de andar. Mas não tardou a reconhecer que aquele exercício lhe seria benéfico. Andou vários quilômetros para oeste  e seu ânimo já se recuperava quando, de repente, o tomou  urna vertigem. Pareceu-lhe debruçar-se num abismo, os joelhos  -vergavam-lhe, a vasta solidão aterrou-o. Sentia-se como o  ponto matemático, o centro de circunferência infinita, nada,  enfim! O Vitória diluía-se inteiramente nas trevas. O doutor  sentiu-se prêsa de invencível pavor, ele tão impassível, tão  ousado viajante! Quis voltar, mas em vão. Chamou! Sequer  um eco lhe respondeu e a sua voz caiu no espaço como pedra  em abismo sem fundo. Caiu desfalecido na areia, só, em meio  ao grande silêncio do deserto.

A meia-noite, recobrou os sentidos nos braços do fiel  José que, inquieto da prolongada ausência do amo, lhe seguira as pegadas claramente estampadas na areia, onde o  encontrou desmaiado.

- Que tem, meu amo? - perguntou-lhe.

- Não é nada, apenas um momento de fraqueza.

- Não há de ser nada, com efeito, senhor, mas levante-sê.  Encoste-se em mim e regressemos ao Vitória.

o doutor, pelo braço de José, repercorreu o caminho  feito. Podia ter sido assaltado e roubado - acrescentou ele  rindo. Agora falemos seriamente.

- Estou ouvindo, pode dizer.

- Precisamos absolutamente tomar resolução. Esta situação poderá quando muito prolongar-se alguns dias e se não  houver vento estaremos perdidos.

O doutor não respondeu.

- É portanto indispensável que alguém se sacrifique à  sorte comum e naturalmente serei eu.

- Que quer dizer com isso? Tem algum projeto?

- Um projeto muito simples: apanhar alguns víveres e  caminhar sempre em frente, até chegar a alguma parte, o  que não pode deixar de suceder. Enquanto isso, se Deus lhes  enviar vento favorável, o senhor deverá partir sem esperar-me.  Por meu lado, se eu encontrar alguma aldeia, arranjar-me-ei  com algumas palavras árabes que o senhor me dará por escrito e, ou lhes levarei socorros, ou deixarei por aí a minha  pele. Que lhe parece a minha idéia?

- Insensata, mas digna do seu valente coração. Isso é  impossível, não consinto que nos deixe.

- Mas, enfim, meu amo, precisamos tentar alguma coisa.  Isto em nada o prejudicará porque, como já lhe disse, não  precisa esperar-me e é provável que eu consiga alguma coisa! - Não, José, não! Não nos separemos. Seria mais um  desgosto acrescentado aos que já nos atormentam. Estava escrito que assim havia de ser e também provavelmente estará  escrito que as coisas mudarão no futuro. O que nos cumpre  é esperar com resignação.

- Pois seja assim, meu amo, mas previno-o de uma coisa:  dou-lhe apenas um dia e não esperarei mais. Hoje é domingo  ou, antes, segunda-feira, pois já passa da meia-noite. Se terça-feira não partirmos, tentarei a aventura. É uma determinação  irrevogável.

O doutor não respondeu. Não tardaram a alcançar a  barca e ele foi acomodar-se junto de Kennedy, mergulhado  em silêncio absoluto que não devia ser efeito do sono.

 

O OASIS

 No dia seguinte, o primeiro cuidado do doutor foi  consultar o barômetro. A coluna de mercúrio mal acusava  pequena depressão.

- Nada! - exclamou ele. Nadai Saiu da barca e foi examinar o tempo. O mesmo calor,  a mesma limpidez, a mesma implacabilidade  - Teremos de desanimar? - bradou ele.

José nada disse, absorto na sua idéia e meditando em  seu projeto de exploração.

Kennedy levantou-se doente e presa de excitação inquietadora. Sofria horrivelmente de sede. A língua e os lábios  inchados mal conseguiam articular um som. Restavam ainda  umas gotas de água. Todos o sabiam, todos pensavam nela  e se sentiam atraídos para ela, mas nenhum ousava dar um  passa.

Aqueles três companheiros, três amigos, olhavam-se com  olhos esgazeados, num sentimento de bestial avidez que, sobretudo se manifestava em Kennedy. Sua robusta organização sucumbia mais depressa àquelas intoleráveis privações. Durante todo o dia se manteve em delírio andando de um lado  para outro, soltando urros, mordendo os punhos, pronto a  abrir as veias para beber o próprio sangue.

- Ah! Terra da sede! - exclamou ele. Seria melhor que  te chamassem terra do desespero!

Em seguida, caiu em profunda prostração. Apenas se lhe ouvia o silvo da respiração entre os lábios ressequidos. A noite, José foi por sua vez atacado de começo de loucura. Aquele  vasto deserto de areia afigurava-se-lhe como lago imenso, de  águas claras e límpidas. Mais de uma vez jogou-se ao chão  ardente para beber, levantando-se com a boca cheia de poeira.

- Maldição! - gritava ele furioso. É água salgada!

Então, vendo Fergusson e Kennedy estendidos imóveis,  entregou-se à idéia irresistível de esgotar as poucas gotas de  água deixadas em reserva.

Era uma coisa mais forte que ele. Avançou para a barquinha, arrastando-se sobre os joelhos, procurou com os olhos  a garrafa onde se continha o líquido, atirou-lhe olhar esgazeado, agarrou-a e levou-a aos lábios.

Naquele momento as palavras: "De beber! de beber!" foram pronunciadas num tom confrangedor.

Era Kennedy que se arrastava para junto dele. O infeliz  dava dó, suplicava de joelhos, chorava.

José, chorando também, estendeu-lhe a garrafa, cujo conteúdo o outro esvaziou até à derradeira gota.

- Obrigado! - disse Kennedy.

Mas José não o ouviu, de novo tombando como ele na  areia.

O que se passou durante aquela noite pavorosa ninguém  o saberia dizer. Mas na terça-feira de manhã, sob os jatos de  fogo com que os vergastava o sol, os desventurados sentiam os  membros secarem-se pouco a pouco. Quando José quis erguesse não o conseguiu, nem pôde pôr em execução o seu projeto.

Lançou os olhos em redor. Na barca, o doutor, acabrunhado, com os braços cruzados no peito, olhava no espaço  um ponto imaginário com fixidez idiota. Kennedy estava aterrador. Balançava a cabeça para a direita e para a esquerda,  como fera enjaulada. De repente, os olhos do caçador deram com a carabina, cuja coronha ultrapassava a borda da barca.

- Ah! - gritou ele erguendo-se com esforço sobre-humano. E correndo para a arma, desvairado, louco, levou-lhe  o cano à boca.

- Senhor Kennedy! Senhor Kennedy! - acudiu José, lançando-se atrás dele.

- Deixe-me! Vá embora! - rugiu o escocês.

Ambos lutaram com furor.

- Saia daqui, ou o matarei! - repetia Kennedy.

Mas José agarrara-se a ele com todas as fôrças. Lutaram,  sem que o doutor parecesse dar por isso, durante cerca de um minuto. Subitamente, durante a luta, a carabina disparou e  ao estrondo da detonação o doutor ergueu-se como espetro, olhando em redor.

O olhar animou-se-lhe de repente, estendeu a mão para  o horizonte e, com voz que nada tinha de humana, gritou:  - Ali! Ali! Olhem!...

Havia tal energia no seu gesto que José e Kennedy se separaram e ambos se puseram a olhar.

O areal agitava-se como oceano em fúria, em dia de  tempestade. Ondas de areia rebentavam umas sobre as outras  em meio à poeira intensa. Enorme coluna vinha de sudeste redemoinhando com extrema rapidez. O sol desapareceu atrás  da nuvem opaca, cuja sombra desmedida se estendia até ao  Vitória. Grãos de areia fina fustigavam com a mobilidade de  moléculas líquidas e a maré montante subia pouco a pouco.  Firme raio de esperança brilhou nos olhos de Fergusson.

- O simuml - bradou ele.

- O simuml - repetiu José sem compreender bem.

- Tanto melhor! - exclamou Kennedy com intenso ódio  - tanto melhor! vamos morrer!

- Tanto melhor! - replicou o doutor - vamos viver, pelo  contrário!

Começou a deitar fora a areia que lastrava a barquinha  e os companheiros, compreendendo-o enfim, correram a  ajudá-lo.

- E agora, José - disse o doutor -, jogue fora também  trinta quilos do seu mineral.

José não hesitou, embora experimentasse qualquer coisa  como rápido pesar. O balão ergueu-se.

- Já era tempo! - disse o doutor.

O simum chegava com efeito com a velocidade de relâmpago. Um pouco mais e o Vitória seria esmagado, despedaçado, aniquilado. A imensa tromba ia alcançá-lo e cobriu-o  com nuvem de areia.

- Mais lastro fora! - gritou o doutor a José.

- Pronto! - respondeu este, atirando enorme bloco de  quartzo. O Vitória saltou rapidamente acima da tromba mas,  atingido pela forte deslocação de ar, foi arrastado com velocidade incalculável acima daquele mar espumante. Samuel,  Ricardo e José emudeceram, olhando e esperando, refrescados  pelo vento daquele turbilhão. Às três horas a tormenta cessou.  A areia, ao cair, formara inumerável quantidade de montículos e o -céu recobrara a sua primitiva tranqüilidade.

O Vitória, volvendo à imobilidade, planava diante de um  oásis, ilha coberta de verdes árvores que subiram à superfície daquele oceano.

- Água! ali existe água! - gritou o doutor.

E imediatamente, abrindo á. válvula superior, deu passagem ao hidrogênio e desceu brandamente a duzentos passos do oásis. Em quatro horas, os viajantes haviam transposto  distância de trezentos e oitenta quilômetros.

A barquinha foi equilibrada e Kennedy, seguido de José,  saltou para o chão.

- As espingardas! - berrou o doutor - as espingardas,  e sejam prudentes!

Ricardo correu para a carabina e José apoderou-se de  uma das armas. Avançaram depois apressadamente até às árvores e penetraram sob aquela fresca verdura que lhes anunciava abundantes nascentes. Nem deram pelas enormes pegadas, vestígios recentes que marcavam aqui e ali o solo úmido.

Subitamente, um rugido soou a vinte passos.

- É o rugido de um leão! - disse José.

- Paciência! - replicou o caçador desesperado - lutaremos. Sempre se é forte quando não há outro remédio!

- Cautela, senhor Ricardo, cautela! Da vida de um depende a vida de todos.

Mas Kennedy não o escutava. Avançou, de olhar chamejante, a carabina armada, terrível na sua audácia. Debaixo  de uma palmeira, enorme leão de negra juba mantinha-se em  postura de ataque. Tão depressa avistou o caçador deu o  salto, mas não tinha ainda tocado terra quando uma bala no  coração o fulminou e estendeu-o morto.

- Hurra! hurra! - bradou José.

Kennedy correu para o poço, escorregou pelos degraus  úmidos e estatelou-se diante de fresca fonte na qual mergulhou os lábios com avidez. José imitou-o e logo não se ouviu  mais nada a não ser aqueles cicios de língua de animal que  mata a sede.

- Cuidado - interrompeu José respirando - não devemos abusar!

Mas Ricardo, sem responder, continuava bebendo, mergulhando a cabeça e as mãos naquela água bendita. Inebriava-se.

- E o doutor Fergusson? - perguntou José.

Só esta pergunta conseguiu devolver Kennedy a si mesmo.  Encheu uma garrafa que trouxera e pôs-se a subir os degraus do poço. Mas qual não foi a sua estupefação quando viu um  corpo enorme e opaco que lhe fechava a saída. José, que o  seguia, recuou com ele.

- Estamos presos!

- Impossível! que será isso?

Ricardo ainda não acabara, quando rugido terrível lhe  deu a entender que tinha de enfrentar novo inimigo.

- Outro leão! - exclamou José.

- Não, é uma leoa! Ah! maldito animal, espere um  pouco - disse Kennedy, tornando a carregar à pressa a carabina.

Um momento depois disparou, mas a fera tinha desaparecido.

- Adiante! - gritou ele.

- Não, senhor Ricardo, não, o tiro não a matou, caso  contrário o corpo rolaria até aqui. Ela continua lá, pronta  a saltar sobre o primeiro de nós que apareça. E esse não  terá salvação!

- Mas que havemos de fazer? Precisamos sair. Samuel  está à nossa esperai - Vamos atrair o animal. Tome a minha espingarda e  passe-me a sua carabina.

- Qual é o seu intento?

- Já vai ver.

José, despindo a jaqueta de lona, pendurou-a na ponta  da arma e apresentou-a como isca por cima da abertura. A fera atirou-se e Kennedy, que lhe esperava a passagem, espedaçou-lhe a espádua com uma bala. A leoa rolou pela escada rugindo e derrubou José. Este já imaginava sentir sobre si as  imensas patas do animal, quando se ouviu segunda detonação  e o doutor Fergusson surgiu à entrada do poço, de espingarda  na mão ainda fumegante.

José ergueu-se logo, saltou por cima da fera e estendeu  ao amo a garrafa cheia de água.

Levá-la aos lábios e deixá-la pela metade foi para Fergusson negócio de um instante e os três amigos agradeceram  de todo o coração à Providência que tão milagrosamente os  salvara.

 

OS SONHOS DE JOSE

Depois de uma ceia reconfortante, passaram os viajantes  noitada deliciosa sob a ramagem fresca das mimosas.

Kennedy percorreu em todos os sentidos a pequena área  em que se achavam, dando batida nas matas ao redor. Eram  eles os únicos seres animados daquele paraíso terrestre. Estenderam as cobertas e ali passaram noite sossegada que os fez esquecer as atribulações anteriores.

No dia seguinte, sete de maio, o sol brilhava em todo o  seu esplendor, mas não podiam seus raios atravessar a espessa cortina de sombra. Como havia mantimentos em quantidade  suficiente, resolveu o doutor esperar vento favorável.

José trouxera o seu fogão portátil. Dava tratos à bola  para inventar iguarias e gastava água com imensa prodigalidade.

- Que estranha sucessão de sofrimentos e de prazeres! -  exclamou Kennedy. Esta abundância depois daquela privação!  Este luxo em seguida à miséria! Ah, meus amigos! Andei bem  perto da loucura!...

- Meu caro Ricardo - ponderou o doutor -, sem o José,  você não estaria aí a discorrer sobre a instabilidade das coisas  humanas.

- Obrigado, meu bom amigo! - disse Kennedy ao apertar a mão de José.

- Não há de quê - respondeu este. Prefiro, porém, que  não tenha ocasião de retribuir-me o favor.

- Como é fraca a nossa natureza! - retrucou Fergusson.  Deixar-nos abater por tão pouco!

- Por tão pouca água, é o que o senhor quer dizer,  patrão! Como a água é necessária à vida!

- Não resta dúvida. Resiste-se mais tempo sem comer  do que sem beber.

- Acredito. Em caso de necessidade, a gente come qualquer coisa que encontra, até mesmo o próprio semelhante, se  bem que não deixe de ser indigesta a refeição!

- Os selvagens não se importam com isso - disse  Kennedy.

- Sim, mas são selvagens. Estão habituados a comer  carne crua. Eu ficaria com o estômago embrulhado!

- De fato, isso é tão repugnante - retrucou o doutor -  que ninguém deu crédito às histórias dos primeiros exploradores que voltaram da África. Contaram que várias tribos  se alimentavam de carne crua e ninguém admitiu o fato. Foi  nessas circunstâncias que Jaime Bruce se meteu em estranha  aventura.

- Conte como foi, patrão temos tempo de sobra - disse  José estendendo-se preguiçosamente na relva fresca.

- Pois não. Jaime Bruce era um escocês do condado de Stirling, que, entre 1768 e 1772, percorreu toda a Abissínia  até o lago Tiana, à procura das nascentes do Nilo. Em seguida, voltou à Inglaterra, onde só em 1790 publicou relato  de suas viagens. Não acreditaram em absoluto em suas histórias, incredulidade que é comum entre nós. Os hábitos dos  abissínios pareciam tão diferentes dos usos e costumes ingleses que ninguém queria dar crédito àquelas histórias. Entre  outros pormenores, Jaime Bruce ousava afirmar que os povos  da África oriental comiam carne crua. Revoltaram-se todos  contra isso. Que tolice! Ninguém poderia provar o contrário... Bruce era homem muito destemido e genioso. Aquelas  dúvidas deixavam-no irritado ao extremo. Um dia, num salão  de Edimburgo, um escocês retomou em sua presença o tema  das zombarias cotidianas e declarou peremptoriamente que  em relação ao caso da carne crua a coisa não era possível,  nem verdadeira. Bruce não deu resposta e retirou-se. Daí a momentos voltou trazendo um bife, temperado com sal e pimenta à moda africana. "Senhor - disse ele ao escocês -, o  senhor me ofendeu ao duvidar do fato que eu afirmei, dizendo-o impraticável. Enganou-se redondamente. E para  prová-lo a todos, o senhor ou vai comer imediatamente este bife cru ou terá de dar-me satisfação de suas palavras."

O escocês teve medo e engoliu o bife, fazendo caretas horríveis.  Então, com o maior sangue-frio, Jaime Bruce acrescentou:  "Ainda que admitindo que a coisa não seja verdadeira, o  senhor pelo menos não irá mais afirmar que é impossível,”

- Boa resposta - disse José. Se o escocês teve indigestão, foi bem feito. E se, quando voltarmos à Inglaterra, puserem em dúvida a nossa viagem...  - Que fará você?

- Os que não acreditarem terão que engolir os pedaços  do Vitória, sem sal e sem pimenta! Passou-se assim o dia em convívio agradável. Com as fôrças voltava a esperança e com a esperança, a audácia. O passado apagava-se com providencial rapidez.

José não queria mais deixar aquele refúgio encantador.  Era o reino dos seus sonhos, sentia-se ali como em sua casa.  O doutor teve de dar-lhe a posição exata do oásis e foi com  a maior seriedade que ele anotou na sua caderneta de viagem:  quinze graus e quarenta e três minutos de longitude e oitenta  graus e trinta e dois minutos de latitude. Kennedy lamentava  apenas uma coisa: não poder caçar naquela floresta em miniatura. Em sua opinião, aquele éden carecia um tanto de  feras.

- Entretanto, meu caro Ricardo, parece-me que está esquecendo com demasiada pressa - objetou o doutor. Então,  o leão e a leoa?

- Ora! - volveu o outro com o desdém de verdadeiro  caçador pelo animal abatido. Mas, com efeito, a sua presença  neste oásis leva a supor que não devemos estar muito afastados de regiões mais férteis.

- Prova medíocre. Estes animais, premidos pela fome  ou pela sede, percorrem muitas vezes distâncias consideráveis.  Durante a próxima noite devemos ficar de atalaia e acender  fogueiras.

- Com esta temperatura? - exclamou José. Enfim, se  for necessário, assim faremos. Mas terei pena de queimar estas  lindas árvores, que tão úteis nos foram.

- Teremos justamente o maior cuidado em não as incendiar - tornou o doutor - a fim de que outros aqui possam encontrar algum dia refúgio no meio do deserto! José foi arranjar lenha para as fogueiras noturnas, fazendo-as as mais pequenas que pôde. As precauções foram  felizmente inúteis e todos dormiram alternadamente em profundo sono.

No outro dia, o tempo ainda não mudara, mantendo-se  obstinadamente calmo. O balão permanecia imóvel, sem que nenhuma oscilação denunciasse o mais leve sopro de vento.  O doutor recomeçou a inquietar-se. Se a viagem fosse se prolongando daquele modo, os víveres tornar-se-iam insuficientes.  Depois de quase terem morrido de sede, estariam fadados a  morrer de fome? Mas em breve se tranqüilizou vendo o mercúrio baixar muito sensivelmente no barômetro. Havia indícios evidentes de próxima mudança na atmosfera e, então,  resolveu cuidar dos preparativos para a partida, a fim de  aproveitar a primeira ocasião. A caixa de alimentação e a  caixa-d’água foram ambas inteiramente cheias.

Fergusson teve depois de restabelecer o equilíbrio do  aeróstato e José viu-se obrigado a sacrificar parte do seu precioso mineral. Com a saúde tinham-lhe voltado às idéias de ambição, de modo que fez mais de uma careta antes de obedecer ao amo. Mas este demonstrou-lhe a impossibilidade de  levantar peso tão considerável, dando-lhe a escolher entre a  água e o ouro. José não hesitou mais e lançou à areia forte  quantidade dos seus preciosos pedregulhos.

- Deixo-os aí para os que vierem depois de nós - disse  ele. Ficarão bem admirados de encontrar a fortuna em semelhante lugar.

- Oh! - exclamou Kennedy - e se algum sábio viajante  vier a encontrar aqui estas pedras?

- Não tenha dúvida, meu caro Ricardo, de que há de  ficar muito surpreendido e publicará a sua surpresa em numerosos volumes! Ainda ouviremos falar algum dia de uma jazida de quartzo aurífero no meio dos areais da África.

A idéia de mistificar talvez algum sábio consolou o excelente moço, fazendo-o sorrir.

Durante o resto do dia, em vão o doutor esperou mu dança na atmosfera. A temperatura elevou-se e, se não fossem as sombras do oásis, teria sido insuportável. O termômetro marcou ao sol sessenta graus. Autêntica chuva de fogo cruzava o ar. Foi o mais intenso calor que tinham suportado. José dispôs como na véspera o acampamento da noite e durante os quartos do doutor e de Kennedy nenhum novo incidente se produziu. Mas pelas três horas da manhã, quando José estava de vigia, a temperatura baixou subitamente, o céu  cobriu-se de nuvens e a escuridão aumentou.

- Alerta! - gritou José acordando os dois companheiros  - alerta! Aí está o vento!

- Enfim! - desabafou o doutor contemplando o céu - é uma tempestade! Ao Vitória! Ao Vitória!

Foi o tempo de chegarem. O Vitória curvava-se já sob  a violência do furacão e arrastava a barquinha, que sulcava  a areia. Se por acaso parte do lastro tivesse caído ao chão, o          balão teria partido e, com ele, para sempre, a esperança  de o tornarem a encontrar.

Mas o lesto José correu a toda pressa e segurou a barquinha, enquanto o aeróstato se deitava na areia com risco de rasgar-se. O doutor tomou o seu lugar habitual, acendeu o maçarico e lançou fora o excesso de peso.

Os viajantes lançaram derradeiro olhar ás árvores do  oásis, que vergavam sob a tempestade e, em breve, apanhando o vento leste a setenta metros do solo, desapareceram na escuridão.

 

UMA PAISAGEM MAGNÍFICA

Desde o instante da partida, os viajantes marcharam  com grande rapidez. Apressavam-se em deixar aquele deserto que por pouco não lhes fora fatal.

As nove e um quarto da manhã foram avistados alguns  sintomas de vegetação, ervas flutuando sobre aquele mar de  areia, que lhes anunciavam, como a Cristóvão Colombo, a  proximidade da terra: tufos verdes apontavam, timidamente,  entre pedregulhos que se diriam os rochedos daquele oceano.  Colinas ainda baixas ondulavam no horizonte, de vagos contornos esfumados em vasto nevoeiro. A monotonia ia desaparecendo. O doutor saudou com alegria a nova região e como  marinheiro de vigia esteve a ponto de gritar:

- Terra! Terra!

Uma hora depois, o continente desdobrava-se a seus olhos,  com aspecto ainda selvagem, porém menos árido e nu. Algumas árvores perfilavam-se contra o céu pardacento.

- Será que estamos em país civilizado? - ponderou  Kennedy.

- Civilizado, senhor Ricardo? Duvido. Não vimos gente  até agora. Ainda estamos na região dos negros, doutor Fergusson?

- Ainda, José, até chegarmos à terra dos árabes.

- Árabes, patrão? Árabes de fato, com camelo e tudo?

- Camelos. Não, meu amigo. São raros e quase ninguém  os conhece por estas bandas. Para encontrá-los será preciso  subir um pouco para o norte.

Que pena! - Por que, José?

- Porque, se o vento nos fosse contrário, poderiam ajudar-nos muito.

- Como?

- Foi uma idéia que me veio, patrão. Poderíamos atrelá-los à barquinha para sermos rebocados por eles. O que  acha disto?

- Alguém já teve essa idéia antes de você, meu caro  José. Um escritor francês de muito espírito, se bem que...  num romance. Na história, os viajantes com o respectivo balão, fazem-se arrastar por camelos. Aí chega um leão que  engole o reboque, devora os camelos, toma o lugar destes e  assim por diante. Está vendo que tudo isso é fantasia e nada  tem a ver com o nosso gênero de locomoção.

José, um tanto encabulado ao verificar que sua idéia não era inédita, começou a dar tratos à bola para imaginar quem poderia devorar o leão. Como não o conseguisse pôs-se de  novo a observar a região.

Um lago, não muito grande, estendia-se diante dele, com  anfiteatro de colinas que não chegavam a merecer o nome de montanhas. Ao longe, serpenteavam vales numerosos e fecundos e árvores de toda espécie erguiam para o céu as ramagens entrelaçadas. Predominavam as palmeiras, com folhas de  cinco metros de comprimento e caules eriçados de agudos espinhos. O bômbax lançava ao vento que passava a fina penugem das suas sementes. O perfume ativo do pendanus, que  os árabes chamam de kenda, embalsamavam os ares até a zona  que o Vitória atravessava. O mamoeiro de folhas espalmadas,  a estercúlia que produz as nozes do Sudão, os baobás e as  bananeiras completavam a flora luxuriante das regiões intertropicais.

- Soberba região - exclamou o doutor.

- Já se vêem animais - acrescentou José. Os homens  não devem andar longe.

- Oh! que magníficos elefantes! - bradou Kennedy por  sua vez. Não haveria meio de caçar um pouco?

- E como vamos parar, meu caro Ricardo, com uma corrente desta força? Não, agüenta um pouco o suplício de  Tântalo! Mais tarde se desforrará.

Havia, com efeito, muito que excitar a imaginação de um  caçador. O coração de Ricardo saltava-lhe no peito, os dedos crispavam-se-lhe na coronha da carabina.

A fauna do país não valia menos que a flora. O boi  selvagem espojava-se em matagal denso sob o qual desaparecia inteiro. Elefantes pardos, pretos e amarelos, de vasta  corpulência, passavam como trombas de vento pelo meio da  floresta, quebrando, roendo, devastando, marcando a sua passagem com o sulco da destruição. Nas vertentes esmaltadas  pelo verde das colinas, transpareciam cascatas e riachos correndo para o norte, onde hipopótamos chafurdavam com  enorme ruído e lanlantins de quatro metros de comprimento o corpo pisciforme se estendiam nas margens, erguendo para o céu as grossas tetas redondas, túmidas de leite. Era todo  um raro viveiro em estufa maravilhosa, onde aves inumeráveis e de mil cores gorjeavam por entre as plantas arborescentes.

Pela prodigalidade da natureza o doutor reconheceu o  reino soberbo de Amadova.

-Penetramos de novo - disse ele - nas descobertas modernas. Retomamos a pista interrompida dos viajantes. É uma  feliz oportunidade, amigos. Vamos poder ligar os trabalhos  dos capitães Burton e Speke às explorações do doutor Barth.  Deixamos os ingleses para vir ao encontro de um hamburgués e em breve chegaremos ao ponto extremo alcançado por  aquele audacioso sábio.

- Parece-me - observou Kennedy - que entre essas duas  explorações há larga extensão de terra, a julgar pelo caminho  que percorremos.

- É fácil de calcular. Pegue o mapa e veja qual é a  longitude da ponta meridional do lago Ukerueué atingida por  Speke.

- Acha-se pouco mais ou menos a trinta e sete graus.

- E a cidade de Tola, que avistaremos esta tarde, e à  qual chegou Barth, como está situada?

- Mais ou menos a doze graus de longitude.

- São portanto vinte e cinco graus. A cem quilômetros  cada um, são dois mil e quinhentos quilômetros.

- Um belo trecho de passeio para quem andasse a pé -  interveio José.

- Passeio que se há de fazer. Livingstone e Moffat continuam caminhando para o interior. O Niassa, que descobriram, não fica muito longe do lago Tanganica, reconhecido  por Burton. Antes de acabar o século essas imensas regiões  estarão com certeza exploradas. Mas - acrescentou o doutor consultando a bússola - lastimo que o vento nos leve tanto  para oeste. Preferia subir para o norte.

Após doze horas de marcha, o Vitória achou-se nos confins da Nigrícia. Os primeiros habitantes dessa terra, os árabes chuas, apascentavam os seus rebanhos nômades. Os vastos  cumes dos montes Atlântica ultrapassavam o horizonte. Nenhum pé europeu ainda os escalara e sua altitude é calculada  em cerca de dois mil e quinhentos metros. A sua vertente  ocidental determina o escoamento de todas as águas daquela  parte da África para o oceano. São as montanhas da Lua da  região. Enfim, verdadeiro rio surgiu aos olhos dos viajantes  e pelos imensos formigueiros que se vizinhavam o doutor reconheceu o Benué, um dos grandes afluentes do Níger, que  os indígenas cognominaram Fontes das Águas.

- Este rio - explicou o doutor aos companheiros - será  um dia o meio de comunicação natural com o interior da  Nigrícia. Sob o comando de um dos nossos bravos capitães,  a vapor Plêiade já o percorreu de baixo para cima até a aldeia de lola. Estamos, portanto, em terras conhecidas.

Inúmeros escravos trabalham nos campos cultivando o  sorgo, espécie de milho que constitui a base da alimentação  daquele povo. Olhavam todos estupidificados para o Vitória,  que passava como meteoro. À tardinha, pararam os viajantes  a sessenta e cinco quilômetros de lola, e à sua frente, porém  distantes, erguiam-se os dois cones pontiagudos do monte  Mendif.

O doutor mandou lançar as âncoras, que se prenderam à  copa de uma árvore elevada. Mas, vento muito rijo balançava o Vitória até quase deitá-lo horizontalmente, tornando  por vezes a posição da barquinha extremamente perigosa.  Fergusson não fechou olho durante a noite e muitas vezes esteve a ponto de cortar a amarra e fugir diante da tormenta.  Por fim, a tempestade acalmou e as oscilações do aeróstato  deixaram de ser inquietadoras.

No dia seguinte, o vento apresentou-se mais moderado,  mas afastou os viajantes da povoação de Tola que, novamente reconstruída pelos fulanas, excitava a curiosidade de Fergusson. Em todo caso não houve remédio senão elevar-se para  o norte e mesmo um pouco para leste.

Kennedy propôs descida naquele país de caça. José pretendia que a necessidade de carne fresca se ia fazendo sentir,  mas os costumes selvagens da região, a atitude dos habitantes,  alguns tiros de espingardas disparados na direção do Vitória determinaram o doutor a prosseguir viagem. Atravessavam,  então, uma terra de chacinas e de incêndios, onde as lutas  dos guerreiros são incessantes e nas quais os sultões governam  os seus reinos em meio às mais atrozes carnificinas. Aldeias  numerosas, muito povoadas, de compridas cabanas, estendiam-se entre férteis pastagens cuja erva espessa era esmaltada de  flores violáceas. Cabanas semelhando vastas colméias abrigavam-se atrás de sebes eriçadas.

A despeito dos seus esforços, o doutor marchava para nordeste, para o monte Mendif, que desaparecia entre nuvens.  Os altos picos do sistema separam o vale do Níger do vale  do lago Tchad.

Pelas três horas, o Vitória achava-se diante do monte  Mendif. O doutor, elevando a temperatura a cem graus, deu  ao balão nova força ascensional de perto de oitocentos quilos, erguendo-o a mais de três mil metros. Foi a maior elevação obtida durante a viagem e a temperatura baixou de tal modo  que o doutor e seus companheiros tiveram de recorrer às  mantas.

Fergusson apressou-se em descer, porque o invólucro do  aeróstato ameaçava romper-se. Contudo, pôde ainda verificar  a origem vulcânica da montanha, cujas crateras extintas não  passam de profundos abismos. Grande aglomerações de excrementos de aves dão aos flancos do Mendif a aparência de  rochas calcárias, havendo ali com que fertilizar as terras de  todo o Reino Unido.

Ás cinco horas, o Vitória, abrigado dos ventos do sul,  percorria, suavemente, os declives da montanha, acabando  por deter-se em vasta clareira longe de qualquer habitação.  Ao tocar o solo, foram tomadas todas as precauções para  retê-lo fortemente e Kennedy, de espingarda em punho, desapareceu na planície inclinada, não tardando a regressar com  meia dúzia de patos selvagens e uma espécie de narceja, que  José preparou do melhor modo possível. A refeição foi agradável e a noite decorreu em perfeito sossego.

 

OS POMBOS INCENDIARIOS 

No dia seguinte, onze de maio, o Vitória prosseguiu na sua jornada. Os viajantes tinham nele a confiança que um  marinheiro tem no seu navio.

De furiosas tempestades, calores tropicais, decolagens perigosas e descidas mais perigosas ainda, de tudo em toda a  parte ele escapara com felicidade. Pode-se dizer que Fergusson  o guiava com um gesto. Por isso, embora ignorando o ponto  de chegada, o doutor já não alimentava dúvida sobre o êxito da viagem. Apenas, naquelas terras de bárbaros e fanáticos  a prudência obrigava-o a tomar as mais severas precauções,  de modo que recomendou aos companheiros que ficassem de  olho à espreita, em tudo e a toda a hora.

O vento levou-os um pouco mais para o norte e pelas  nove horas avistaram a grande aldeia de Mosfeia, erguida  em eminência por sua vez encaixada entre duas altas montanhas. Gozava de posição inexpugnável, para a qual estreita  vereda, entre um pantanal e um bosque, servia de único  acesso.

Naquele momento um xeque, acompanhado de escolta a  cavalo, em trajes de vivas cores e precedido de tocadores de trombetas e batedores que afastavam a ramaria à sua passagem, ia entrando na aldeia.

O doutor desceu, a fim de contemplar aqueles indígenas  de mais perto, mas à medida que o balão crescia aos seus olhos houve manifestação de profundo terror e aqueles valentes não tardaram a desenvolver toda a agilidade das suas pernas ou das dos seus cavalos.

Apenas o xeque ficou e, tomando o seu comprido mosquete, armou-o e esperou com altivez. O doutor aproximou-se  à distância de cinco metros e na sua mais bela voz dirigiu-lhe saudações em árabe.

Aquelas palavras descidas do céu o xeque desmontou,  prosternou-se na poeira do caminho e o doutor não pôde  desviá-lo da sua adoração.

- É impossível - disse ele - que esses homens não nos  tomem por seres sobrenaturais, visto que ao verem chegar os  primeiros europeus os consideraram de raça sobre-humana.  E quando esse xeque referir o encontro há de certamente  exagerá-lo com todos os recursos de imaginação árabe. Calculem agora o que as lendas farão de nós algum dia.

- Não me parece vantajoso - respondeu o caçador. Do  ponto de vista da civilização, seria preferível passarmos por  simples homens. Isto daria a eles idéia bem diferente do poderio europeu.

- De acordo, meu caro Ricardo, mas que podemos fazer?  Ainda que explique minuciosamente aos sábios desta nação  o mecanismo de um aeróstato, eles não saberão compreendê-lo  e admitirão sempre qualquer intervenção sobrenatural.

- Meu amo - interveio José -, o senhor falou dos primeiros europeus que exploraram estas terras. Quais foram  eles?

- Meu rapaz, estamos justamente na rota do major DeIlham. Foi na própria Mosfeia que o recebeu o sultão de  Mandara. Tinha deixado o Bornu e acompanhava o xeque  em expedição contra os felatas, quando assistiu ao ataque à  aldeia, que resistiu valentemente com suas flechas às balas  árabes e pôs em fuga as tropas do xeque. Eram tudo pretextos para massacres, pilhagens e saques. O major foi completamente despojado, deixado nu, e se não fosse um cavalo  sob cujo ventre pôde escapar aos vencedores, em desenfreado  galope, talvez nunca mais regressasse a Cuca, capital do Bornu.

- Mas quem era esse major Denham?

- Um intrépido inglês que, de 1822 a 1824, comandou  expedição do Bornu em companhia do capitão Clapperton e do doutor Oudney. Eles partiram de Trípoli no mês de março,  alcançaram Murzuk, capital do Fezzan e, seguido o caminho  que mais tarde devia tomar o doutor Barth para regressar  à Europa, chegaram em dezesseis de fevereiro de 1823 a Cuca,  perto do lago Tchad. Denham fez diversas explorações no  Bornu, no Mandara e nas margens orientais do lago. Enquanto isso, a quinze de dezembro de 1823, o capitão Clapperton e o doutor Oudney mergulhavam no Sudão até Saccatu., e Oudney acabou morrendo de canseira e esgotamento na  aldeia de Murmur.

Mosfeia desaparecera havia muito do horizonte. O Mandara estendia aos olhos dos viajantes a sua surpreendente fertilidade, com florestas de acácias, locustas de flores vermelhas  e plantas herbáceas dos campos de algodoeiros e das plantações de anil. O Sari, que vai lançar-se cento e vinte quilômetros adiante do lago Tchad, rolava a sua corrente impetuosa. Algumas canoas de dezesseis metros desciam o curso  do rio e o Vitória a mais de trezentos metros do solo atraía  a atenção dos indígenas. Mas o vento, que até então soprara  com certa força, tendia a diminuir.

- Será que outra vez nos espera alguma calmaria? - interrogou o doutor.

- Pelo menos, meu amo, não teremos falta de água nem deserto a recear.

- Sim, mas em compensação gente mais temível ainda.

- Aí está uma coisa que se parece com povoação.

- É Quernaque. Para lá nos levam os últimos sopros do vento e se nos convier poderemos levantar-lhe a planta exata.

- Não vamos aproximar-nos? - perguntou Kennedy.

- Nada mais fácil; estamos justamente por cima da aldeia. Deixe-me girar um pouco a torneira do maçarico e não  tardaremos a descer.

Meia hora depois o Vitória estacionava imóvel a setenta  metros do chão.

- Cá estamos mais perto de Quernaque - disse o doutor  - do que o estaria de Londres um homem agarrado à cúpula  de São Paulo. Assim podemos ver tudo à vontade.

A capital de Logum patenteava-se em todo o seu conjunto  como num mapa desdobrado. Era verdadeira cidade, com  casas alinhadas e ruas bastantes largas. No meio de vasta  praça, via-se mercado de escravos, com grande afluência de compradores, porque as mandarinas de pés e mãos de extrema pequenez são muito procuradas e colocam-se vantajosamente. A presença do Vitória causou o efeito esperado.  A princípio, gritos, depois profundo espanto. Os negócios  foram abandonados, os trabalhos suspensos e todo o ruído  cessou. Os viajantes continuavam em perfeita imobilidade,  não perdendo um só pormenor da populosa cidade. Chegaram mesmo a vinte metros do solo.

Então, o governador de Logum saiu da sua morada, desdobrando o seu estandarte verde, acompanhado dos seus músicos, que sopravam a toda a força dos pulmões em roucos  chifres de búfalo. A multidão reuniu-se à sua volta. O doutor Fergusson tentou fazer-se ouvir, mas não o conseguiu.

Aquela gente de testa alta e cabelos de carapinha, nariz  quase aquilino, parecia altiva e inteligente, mas a presença  do Vitória inquietava-a. Viam-se cavaleiros correr em todas  as direções e em breve se tornou evidente que as tropas do  governador se reuniam para dar combate ao inimigo extraordinário. Debalde José desfraldou lenços de todas as cores sem obter qualquer resultado.

Entretanto, o xeque, cercado da sua corte, reclamou silêncio e pronunciou um discurso de que o doutor nada logrou compreender. Era árabe misturado a baguirmi. Reconheceu,  apenas, pela linguagem universal dos gestos, expresso convite  para se afastarem. Bem o desejariam, mas a falta de vento  tornava impossível. A sua imobilidade exasperou o governador e os cortesãos romperam num urro imenso para obrigar o monstro a fugir.

Eram indivíduos singulares aqueles cortesãos, com as suas  cinco ou seis camisas de vivas cores. Tinham ventres enormes, alguns dos quais até parecendo postiços. O doutor surpreendeu os companheiros informando-os de que era essa a maneira de fazerem a corte ao sultão. A rotundidade do abdômen era  indício de ambição entre as pessoas. Aqueles gordos homens gesticulavam e gritavam, sobretudo um deles, que devia ser  primeiro-ministro caso lhe recompensassem a proeminência.  A turba dos pretos unia os seus rugidos aos gritos da côrte,  repetindo-lhe os gestos à maneira dos macacos, o que produzia movimento único e instantâneo de milhares de braços.

A esses meios de intimidação que foram julgados insuficientes, juntaram-se outros mais enérgicos. Soldados armados  de arco e flecha foram dispostos em ordem de batalha, mas  já o Vitória se dilatava e erguia tranqüilamente para fora  do seu alcance. O governador, apanhando então um mosquete,  apontou-o para o balão, mas Kennedy, que vigiava, com uma  bala da sua carabina despedaçou a arma nas mãos do xeque.

Aquele tiro inesperado produziu debandada geral. Cada  qual entrou quanto antes na sua cubata e por todo o resto  do dia a cidade ficou absolutamente deserta.

Chegou a noite, o vento deixou de soprar e tiveram de  permanecer imóveis a cem metros do chão. Nenhuma fogueira brilhava no escuro, reinava silêncio de morte. O doutor redobrou de cautela. Semelhante calma poderia esconder alguma cilada. E Fergusson tinha razão de estar alerta. Pela  meia-noite, toda a povoação surgiu como abrasada. Centenas  de raios de luz cruzavam-se como foguetes, formando redes de linhas ígneas.

- Extraordinário! - exclamou o doutor.

- Deus me perdoe! - acrescentou Kennedy - dir-se-ia  que o incêndio sobe e se aproxima de nós.

Com efeito, ao ruído de medonhos brados e detonações de mosquetes, aquela massa de fogo erguia-se para o Vitória.  José preparava-se para jogar lastro fora, mas Fergusson não  tardou a ter a explicação do fenômeno.

Milhares de pombos, de caudas guarnecidas de matérias  combustíveis, haviam sido lançados contra o Vitória e, assustados, subiam traçando na atmosfera os seus luminosos ziguezagues. Kennedy iniciou descarga geral de todas as armas em  meio àquela massa, mas que podia ele contra o exército inumerável? Já os pombos cercavam a barca e o balão, cujas paredes,  refletindo a luz, pareciam cercados por rede de fogo. O doutor não hesitou e jogando fora um bloco de quartzo colocou-se  longe do alcance das perigosas aves. Durante duas horas não  cessaram de avistá-las, de um lado e outro, na escuridão, mas  pouco a pouco o seu número foi diminuindo, até que por  fim desapareceram de todo.

- Agora podemos dormir sossegados - disse o doutor.  - Para selvagens, não foi mal concebido! - observou  José.

- Sim, eles empregam muito comumente esses pombos para incendiar as cabanas das povoações. Mas desta vez a povoação voava mais alto ainda que os seus voláteis incendiários!

Os viajantes estavam então seguindo diretamente o curso  do Sari. As encantadoras margens desse rio desapareciam sob  as umbrosas árvores de variados matizes. Lianas e plantas  trepadeiras enroscavam-se por todos os lados, produzindo estranhas superposições de cores. Os crocodilos brincavam ao  sol ou mergulhavam nas águas com vivacidade de lagartos.

Foi assim, através de natureza rica e verdejante, que se  passou o distrito de Mafatai e, às nove horas da manhã, o doutor Fergusson e seus amigos alcançaram enfim a margem meridional do lago Tchad,  pelas três horas da manha, José, estando de quarto, viu enfim a aldeia deslocar-se a seus pés. O Vitória recomeçava  a marcha. Kennedy e o doutor acordaram.

Fergusson consultou a bússola e observou com satisfação  que o vento os levava para nor-nordeste.

- Estamos com sorte - disse ele -, tudo nos corre bem.  Ainda hoje avistaremos o lago Tchad.

- É uma grande extensão de água? - perguntou Kennedy.

- Considerável, meu caro Ricardo. No seu maior comprimento e na sua maior largura, o lago pode medir cento e  noventa quilômetros.

- Sempre dará um pouco de colorido à viagem passear  sobre superfície líquida.

- Parece-me que não temos razão de queixa. Ela tem  sido bem variada e, sobretudo decorre nas melhores condições  possíveis.

- Não há dúvida, Samuel. Excetuadas as privações do  deserto, não corremos nenhum perigo sério.

- O nosso valente Vitória tem-se comportado maravilhosamente. Hoje são doze de maio, partimos a dezoito de  abril, temos pois vinte e cinco dias de marcha. Mais dez dias  e chegaremos ao termo.

- Onde?

- Isso não sei.  Mas também que nos importa?

Ali estava o Cáspio da África, cuja  existência durante tanto tempo foi relegada para a categoria  das fábulas, aquele mar interior que somente fora atingido  pelas expedições de Denham e de Barth.

O doutor experimentou fixar-lhe a configuração atual,  muito diferente já da de 1847, mas na verdade a planta do  lago é impossível de traçar. Está cercado de pântanos lodosos e -quase intransponíveis, nos quais Barth esteve a ponto de  morrer. De um ano para outro, os pântanos, cobertos de  caniços e de papiros de cinco metros, incorporam-se ao próprio  lago, não sendo raro também que aldeias erguidas nas suas  bordas sejam submersas, como sucedeu a Ngornu em 1856.  Ainda agora, os hipopótamos e crocodilos mergulham nos lugares onde se viam as habitações de Bornu.

O sol derramava os seus raios ardentes sobre aquela água tranqüila, e ao norte os dois elementos confundiam-se no  mesmo horizonte.

O doutor desejou verificar a natureza da água, que por  muito tempo se julgou salgada, e como não houvesse o menor  perigo em aproximar-se da superfície do lago, a barca veio  aflorá-lo, como ave, a dois metros de distância.

José mergulhou uma garrafa e retirou-a cheia pela metade. Acharam a água pouco potável e com certo gosto de  carbonato de sódio.

Enquanto o doutor anotava o resultado da experiência,  um tiro de espingarda estalou a seu lado. Kennedy não pudera resistir ao desejo de enviar uma bala a monstruoso hipopótamo. O animal, que respirava tranqüilamente, desapareceu ao ruído da detonação e a bala cônica do caçador não  pareceu causar-lhe outro inconveniente.

- Teria sido melhor arpoá-lo - comentou José.  - E como?

- Com uma de nossas âncoras, um arpão à altura do  animal.

- Não é que o José teve uma boa idéia?

- Que eu peço por favor não seja posta em prática! -  replicou o doutor. O animal nos arrastaria sabe Deus para  onde.

- Ainda mais agora que sabemos que a água do Tchad  é de má qualidade. Será que se come tal peixe, senhor Fergusson?

- Esse peixe é simplesmente um mamífero do gênero dos  paquidermes. Dizem que sua carne é excelente e é muito  apreciada pelas. tribos ribeirinhas do lago, que dela fazem  objeto de comércio.

- E pena que o tiro do senhor Ricardo tenha falhado.  - aquele animal só é vulnerável no ventre e entre as coxas. A bala deve ter resvalado. Se, porém, o terreno me  parecer propício, vamos parar na extremidade setentrional do  lago. Lá o Kennedy vai encontrar boa coleção e poderá tirar  a desforra à vontade.

- Que ótimo! - exclamou José. Tomara que o senhor  Kennedy apanhe um hipopótamo! Não seria mau provar. a  carne do bicho! Não tem cabimento a gente chegar ao centro  da África para continuar comendo galinholas e perdizes como  na Inglaterra.

 

SACRIFICIO SUBLIME 

A sua chegada ao lago Tchad, o Vitória encontrara corrente que se inclinava mais para oeste. Algumas nuvens  atenuavam o calor do dia e sentia-se vibração ligeira naquele  vasto lençol de água. Lá pelas treze horas, o balão, tendo cortado em diagonal aquela parte do lago, avançou outra vez  pelas terras, por extensão de doze quilômetros.

O doutor, um pouco contrariado a princípio com a direção, não pensou mais em queixar-se quando avistou a cidade  de Cuca, a célebre capital do Bornu. Pôde entrevê-la por  instante, rodeada das suas muralhas de argila branca. Algumas grosseiras mesquitas erguiam-se pesadamente acima daquela multidão de dados de jogar com que se parecem  as casas árabes. Nos pátios das moradas e nas praças públicas avultavam palmeiras e seringueiras, coroadas por zimbório de folhagem com mais de trinta metros de largura. José observou que aqueles imensos guarda-sóis estavam em relação com  o ardor dos raios solares, daí extraindo conclusões muito lisonjeiras para a Providência.

Cuca compõe-se, realmente, de duas cidades distintas, separadas pelo dental, largo bulevar de seiscentos metros, então atulhado de peões e cavaleiros. De um lado, coloca-se a cidade rica, com suas casas altas e arejadas. Do outro, comprime-se a cidade pobre, triste amontoado de cabanas baixas e cônicas onde vegeta população indigente, pois Cuca não é  comercial nem industrial. Kennedy achou-lhe alguma semelhança com uma Edimburgo que se estendesse em planície  com suas duas cidades perfeitamente determinadas.

Mas os viajantes mal puderam dar a tudo aquilo um  relance de olhos, porque, com a mobilidade que caracteriza  as correntes da região, um vento contrário desviou-os bruscamente, levando-os por cerca de setenta e cinco quilômetros  sobre o lago Tchad.

Era novo espetáculo. Podiam-se contar as numerosas  ilhas do lago, habitadas pelos biddiomahs, piratas sanguinários  muito temidos e cuja vizinhança é tanto para temer quanto  a dos tuaregues do Saara. Os selvagens preparavam-se para  receber corajosamente o Vitória a golpes de flecha e a pedradas, mas este não tardou a passar pelas ilhas sobre as quais  adejava como gigantesco escaravelho.

José olhava o horizonte e, dirigindo-se a Kennedy, disse-lhe:

- Com a brecai o senhor que anda sempre pensando em  caça tem ali com que se distrair.  - Que é, José?

- E desta vez meu amo não se há de opor aos seus tiros.  - Mas que há, afinal?

- Não vê além aquele enorme bando de aves que se dirige para nós?

- Aves! - acudiu o doutor apanhando a luneta.

- Agora as vejo - respondeu Kennedy. São pelo menos uma dúzia.

- Catorze, se me dá licença! - emendou José.

- Deus permita que elas sejam de alguma espécie bem maligna, para que o sensível Fergusson nada tenha a objetar-me!

- Nada objetarei - interveio o doutor -, mas preferia  bastante ver aquelas aves longe de nós.

- Está com medo delas? - perguntou José.

- São variedade de abutres e dos maiores. Se nos atacarem. , .

- Ora essa! Pois defendamo-nos, Samuel! Temos bom arsenal para recebe-los. Não me parece que sejam assim tão temíveis!

- Quem sabe? - respondeu o doutor.

Dez minutos depois o bando estava ao alcance do tiro de  espingarda. As catorze avantesmas enchiam o ar com os seus gritos roucos, avançando para o Vitória, mais irritadas que  assustadas com a sua presença.

- Como grasnam! - exclamou José - que barulho! Decerto não concordam que lhes invadam os domínios ou se atrevam a voar como eles.

- José! José! - bradou Fergusson atordoado.

- Com efeito - observou o doutor - têm ar bastante  façanhudo e parecer-me-iam em verdade temíveis se estivessem armadas de carabinas.

- Não precisam disso - volveu Fergusson, com um ar  muito sério.

Os abutres voavam traçando imensos círculos que se iam  contraindo pouco a pouco em redor do Vitória. Sulcavam  o ar com velocidade fantástica, precipitando-se às vezes com  rapidez de bala e quebrando a sua linha de projeção por  ângulo brusco e ousado. O doutor, preocupado, resolveu elevar-se na atmosfera para escapar à perigosa vizinhança e dilatou o hidrogênio do balão que não demorou a subir. Os  abutres subiram com ele, pouco dispostos a abandoná-lo.

- Não parecem ter boas intenções! - disse o caçador  armando a carabina.

Na verdade as aves aproximavam-se e mais de uma, chegando apenas a quinze metros, pareciam desafiar as armas de  Kennedy.

- Estou com imensa vontade de mandar-lhes uma bala  - acrescentou.

- Não, Ricardo, não! Vamos enfurece-los sem motivo.  Seria o mesmo que convidá-los a atacar-nos.

- Ah! Eu logo daria cabo deles!

- Engana-se, Ricardo.

- Temos uma bala para cada um.

- E se eles se lançarem contra a parte superior do balão, como vai atingi-los? Precisa agir como se se encontrasse  em presença de um bando de leões em terra, ou de tubarões  em pleno oceano! Para aeronautas, a situação não é menos  perigosa.

- Fala sério, Samuel?

Com a maior seriedade.

- Neste caso, esperemos.

- Espere. Apronte-se para o caso de ataque, mas não  faça fogo sem minha ordem.

As aves amontoavam-se então a pequena distância. Distinguiam-se perfeitamente os pescoços pelados tensos por  efeito dos gritos, e as cristas cartilaginosas, guarnecidas de  papilas violetas, que se erguiam com furor. Eram de enorme  envergadura. O corpo tinha mais de metro de comprimento  e a parte inferior das asas brancas resplandecia ao sol.  Dir-se-iam tubarões alados, com os quais de resto muito se  assemelhavam.

- Estão-nos seguindo - disse o doutor vendo-os erguer-se  com ele - e não adianta subirmos mais porque eles sempre  nos acompanhariam.

- Que fazer, então? - perguntou Kennedy.

O doutor não respondeu.

- Escute, Samuel - tornou o caçador -, esses abutres  são catorze, nós temos dezessete tiros à nossa disposição, fazendo fogo com todas as armas. Não haverá meio de destruí-los ou dispersá-los? Eu por mim encarrego-me de bom número.

- Não duvido da sua perícia, Ricardo. De bom grado considero mortos os que passarem ao alcance da sua carabina.  Mas, repito, por pouco que eles ataquem o hemisfério superior do balão, não conseguirá vê-los. Se eles romperem o invólucro que nos sustenta, não se esqueça de que estamos a dez  mil metros de altura!

Naquele instante, uma ave mais feroz veio direta ao  Vitória, de bico e garras abertas, pronta a despedaçá-lo.  - Fogo! fogo! - gritou o doutor.

Mal acabava de falar e já a ave, ferida de morte, caía  rolando no espaço. Kennedy apanhou logo uma das espingardas de dois canos e José levou outra à cara.

Assustados com a detonação, os abutres afastaram-se um  momento, mas voltaram quase imediatamente à carga com  redobrada fúria. Kennedy ao primeiro disparo cortou o pescoço do mais próximo e José despedaçou a asa de outro.

- Apenas onze - disse ele.

Mas então as aves mudaram de tática e de comum acordo  elevaram-se acima do Vitória. Kennedy olhou Fergusson.

Apesar da sua energia e impassibilidade, este empalideceu o        houve um momento de silêncio aterrador. Em seguida, ouviu-se um dilacerar estridente como o de seda que se rasga o a barca fugiu sob os pés dos viajantes.

- Estamos perdidos! - gritou Fergusson levando os olhos  ao barômetro, que subia com rapidez.

Depois acrescentou:

- Fora o lastro, fora! Em alguns segundos todos os fragmentos de quartzo tinham  desaparecido.

- Continuamos caindo! Esvazie as caixa-d’água, José!  Está ouvindo? Vamos cair no lago!

José obedeceu e o doutor debruçou-se. O lago parecia vir ar seu encontro como a maré quando sobe. Os objetos cresciam a olhos vistos, a barca não estava a mais de setenta metros da superfície do Tchad.

- As provisões! As provisões! - tornou a gritar o doutor.

A caixa que as continha foi jogada no espaço. A queda tornou-se menos rápida, mas os desventurados caíam sempre.  – Mais! Joguem tudo fora!- gritou o doutor pela última vez.

- Não há mais nada - respondeu Kennedy.

- Há, sim! - interveio laconicamente José, persignando-se  com mão rápida.

E atirou-se pela borda da barca.

- José! José! - bradou Fergusson aterrado.

Mas José já não o podia ouvir. O Vitória deslastrado retomou a sua marcha ascensional, subiu a trezentos metros nos  ares e o vento engolfando-se no invólucro murcho arrastou-o  para as bandas setentrionais do lago.

- Perdido! - gritou o caçador com gesto de desespero.

- Perdido para salvar-nos! - acrescentou Fergusson.

o aqueles homens tão intrépidos sentiram duas grossas lágrimas escorrer-lhes dos olhos. Debruçaram-se com o intuito  de avistar ainda o infeliz José, mas já estavam longe.

- Que iremos fazer? - perguntou Kennedy.

- Descer à terra logo que isso seja possível, Ricardo, e  depois esperar.

Após travessia de mais de cem quilômetros, o Vitória  pousou numa costa deserta, ao norte do lago. As âncoras  prenderam-se a uma árvore de pequena altura e o caçador  foi segurá-las bem.

Caiu a noite, mas nem Fergusson nem Kennedy puderam  adormecer por um momento.

 

EXPLORAÇÃO DO LAGO TCHAD 

No dia seguinte, treze de maio, os viajantes começaram  por reconhecer a parte da costa que ocupavam. Era uma espécie de ilha de terra firme em meio de imenso pântano.  A volta daquele pedaço de terreno sólido erguiam-se canaviais  altos como as árvores da Europa e que se estendiam a perder  de vista. Aqueles pantanais inacessíveis tornavam segura a  posição do Vitória, devendo-se apenas vigiar do lado do lago.  O vasto lençol de água ia-se alargando, sobretudo, para leste  e nada aparecia no horizonte, continente ou ilhas.

Os dois amigos não haviam tido coragem de falar do desventurado companheiro. Kennedy foi o primeiro a participar  as suas conjeturas ao doutor.

- José talvez não esteja perdido - disse ele. É um rapaz  esperto e um nadador como existem poucos. Ainda o havemos  de tornar a ver. Quando e como não sei, mas do nosso lado  nada esqueceremos para dar-lhe ocasião de vir ter conosco.

- Deus o ouça, Ricardo! - volveu o doutor emocionado.  Faremos tudo o que for possível para tornar a encontrar o  nosso amigo. Comecemos por orientar-nos, mas antes de mais  nada desembaracemos o Vitória desse invólucro exterior que  não tem mais utilidade. Simplesmente nos libertamos de peso  considerável, de trezentos e vinte quilos, o que vale bem a  pena.

O doutor e Kennedy puseram mãos à obra. Tiveram  grandes dificuldades, pois foi necessário arrancar pedaço a  pedaço o tafetá muito resistente e cortá-lo em pequenas tiras  para desprende-lo das malhas da rede. O rasgão produzido  pelo bico das aves de rapina estendia-se por vários centímetros.

A operação levou pelo menos quatro horas, mas, por fim,  o balão interno, completamente livre, parecia nada ter sofrido. O Vitória ficou diminuído de um quinto, diferença  sensível bastante para surpreender Kennedy.

- Será que chega? - perguntou ele ao doutor.

- Quanto a isso não se preocupe. Eu restabelecerei o  equilíbrio e, se o nosso pobre José voltar, retomaremos com  ele a costumada rota.

- Quando se iniciou a nossa queda, Samuel, se a memória não me falha, devíamos estar perto de uma ilha.

- Também me recordo, mas tal ilha, como em geral as  do Tchad, é com toda a certeza habitada por alguma raça  de piratas e assassinos. Os selvagens foram talvez testemunhas da nossa catástrofe e se José lhes caiu nas mãos não vejo o que será dele a menos que a superstição o proteja.

- Repito que ele é homem para livrar-se de apertos.  Tenho confiança na sua habilidade e inteligência.

- Assim o espero. Agora vá caçar nos arredores, mas  sem se afastar muito. Precisamos renovar os víveres cuja maior  parte foi sacrificada.

- Está bem, Samuel, não ficarei muito tempo ausente.

Kennedy apanhou uma espingarda de dois canos e avançou através das altas ervas para um matagal próximo. Freqüentes detonações logo informaram o doutor de que a caçada estava sendo proveitosa.

Enquanto isso, Fergusson ocupou-se em fazer levantamento dos objetos conservados na barca e procurar o equilíbrio do segundo aeróstato. Restavam quinze quilos de carne  de conserva, alguns pacotes de chá e café, cerca de seis litros  de aguardente e uma caixa-d'água completamente vazia.  A carne-seca desaparecera toda.

Sabia o doutor que com a perda do hidrogênio do primeiro balão a sua força ascensional se encontrava reduzida  de mais ou menos quinhentos quilos, e teve de basear-se nesta diferença para reconstituir o equilíbrio. O novo Vitória tinha  a cubagem de dois mil, quatrocentos e doze metros cúbicos e  encerrava mil, trezentos e cinco metros cúbicos de gás. O aparelho de dilatação parecia em bom estado e tanto a pilha  como a serpentina nada haviam sofrido. A força ascensional  do novo balão era pois de mil e quinhentos quilos aproximadamente. Somando-se o peso do aparelho, dos viajantes,  da provisão de água, da barquinha e seus acessórios, e embarcando cinqüenta galões de água e cem quilos de carne  fresca, chegava-se ao total de mil, quatrocentos e vinte quilos.  Era portanto possível conduzir oitenta e cinco quilos de lastro para os casos imprevistos e o aeróstato encontrar-se-ia equilibrado no ar ambiente.

Foram tomadas disposições adequadas e o peso de José  foi substituído por acréscimo de lastro. O dia inteiro foi  gasto nos diversos preparativos, que só terminaram com o regresso de Kennedy. O caçador lograra boa colheita: vinha  carregado de gansos, patos selvagens, narcejas, cércetas e tarambolas, caça que tratou de preparar e secar. Cada peça,  enfiada em delgado espeto, foi suspensa sobre fogueira de lenha verde. Quando Kennedy, que entendia do assunto, julgou  o preparo conveniente, armazenou tudo na barquinha. No  dia seguinte completaria as suas provisões.

A noite surpreendeu os viajantes em meio daquele trabalho. Cearam carne de conserva, biscoito e chá. A fadiga,  que começara por dar-lhes apetite, trouxe-lhes também o sono.  Cada qual durante o seu quarto de vigia interrogou as trevas, imaginando por vezes ter ouvido a voz de José, mas estava  bem longe essa voz que tanto desejariam ouvir!

Aos primeiros raios do sol o doutor acordou Kennedy.

- Pensei muito - disse ele - no que devemos fazer para  encontrar o nosso companheiro.

- Seja qual for o seu projeto, Samuel, aprovo-o de antemão. Fale.

- Antes de tudo, é imprescindível que José tenha notícias nossas.

- Evidentemente! De outro modo o digno rapaz iria julgar que o abandonamos.

- Não! Ele conhece-nos muito bem. Nunca semelhante  idéia lhe ocorreria, mas precisa saber onde estamos.

 - De que maneira?

- Vamos entrar na barquinha e subir.

- E se o vento levar-nos para longe?

- Tal não acontecerá, felizmente. Observe, Ricardo, o  vento nos levará para o lago e esta circunstância que ontem  era prejudicial, é hoje propícia. Nossos esforços tenderão a  manter-nos sobre aquela vasta extensão de água durante todo o dia. José não poderá deixar de ver-nos nas alturas, para onde incessantemente volverá os olhos. Talvez até consiga  informar-nos do lugar onde se encontra.

- Se estiver sozinho e livre, não há dúvida de que o  fará.

- E se estiver prisioneiro - continuou o doutor -, como  não é costume dos indígenas trancar os seus cativos, ele há  de ver-nos e compreenderá o fim das nossas buscas.

- Mas enfim - tornou Kennedy -, como é natural prevermos todas as hipóteses, se não encontrarmos nenhum indício, se ele não tiver deixado nenhum vestígio da sua passagem, que faremos?

- Tentaremos alcançar de novo a parte setentrional do  lago, mantendo-nos o mais em evidência possível. Lá esperaremos, percorrendo e esquadrinhando as margens, às quais  José sem dúvida tentará chegar, e não sairemos dali sem esgotar todos os meios de encontrá-lo.

- Vamos então - respondeu o caçador.

O doutor levantou a planta exata daquela região de terra  firme que ia deixar. Calculou, de acordo com seu mapa, que  se encontrava ao norte do Tchad entre a povoação de Lari o a aldeia de Ingemini, ambas visitadas pelo major Denham. Enquanto isso, Kennedy completou as suas provisões de carne  fresca. Embora os pântanos circunvizinhos apresentassem indícios da existência de rinocerontes, lamantins e hipopótamos,  não se encontrou um único desses enormes animais.

Às sete horas da manhã, não sem grandes dificuldades que o pobre José venceria facilmente, a âncora foi desprendida  da árvore. O gás dilatou-se e outra vez o Vitória subiu a setenta metros. A princípio hesitou girando sobre si mesmo,  mas por fim, levado por corrente bastante viva, avançou para o lago, não tardando a correr com velocidade de quarenta  quilômetros à hora.

O doutor mantinha-se constantemente a uma altura que  variava de sessenta a duzentos metros. Kennedy descarregou  várias vezes a carabina. Por cima das ilhas, os viajantes  aproximavam-se até com alguma imprudência, esquadrinhando com a vista os bosques, as matas, as balseiras, por toda a  parte onde alguma sombra, alguma anfractuosidade de rocha  pudesse abrigar o companheiro perdido. Desciam perto das  longas pirogas que sulcavam o lago e os pescadores ao vê-los  jogavam-se à água e nadavam até às ilhas com evidentes demonstrações de terror.

- Não conseguimos ver nada - disse Kennedy após duas  horas de buscas.

- Esperemos, Ricardo, não convém desanimar. Devemos  estar perto do lugar do acidente.

As onze horas, o Vitória tinha avançado cento e setenta  quilômetros, encontrando então nova corrente que, quase em  ângulo reto, levou-o para leste durante cerca de doze quilômetros. Planava sobre uma ilha muito grande e muito povoada, que o doutor julgou ser Farram, onde se encontra a  capital dos biddiomahs. Esperava ver José surgir de alguma  moita, fugindo e chamando-o. Livre, poderiam recolhê-lo  sem dificuldade. Prisioneiro, renovando-se a manobra empregada com o missionário, logo estaria entre os seus amigos.  Mas nada apareceu, nada aconteceu. Era para desesperar!

O Vitória chegou às duas horas e meia à vista de Tangália, cidade situada na margem oriental do Tchad, e que  marcava o ponto extremo alcançado por Denham na época  da sua exploração.

O doutor preocupou-se com a persistente direção do vento  percebendo-se levado para leste, impelido para o centro dá  África, onde se estendem os desertos intermináveis.

- Precisamos urgentemente parar - disse ele -, e até  mesmo descer em terra. Sobretudo no interesse de José devemos regressar ao lago. Mas antes, cuidemos de achar corrente oposta.

Durante mais de uma hora procurou em diferentes zonas.  O Vitória continuava derivando para a terra firme mas, felizmente, a trezentos metros, vento bem forte levou-o para  noroeste.

Não era possível que José tivesse ficado retido numa das  ilhas do lago, pois, em caso afirmativo, teria achado meio de indicar a sua presença. Decerto, haviam-no transportado  para terra. Assim cogitava o doutor quando tornou a avistar a margem setentrional do Tchad. Pensar que José se tivesse  afogado era inadmissível. Uma idéia pavorosa atravessou o  espírito de Fergusson e Kennedy: os crocodilos são numerosos  naquelas paragens! Mas nenhum deles teve coragem de formular tal apreensão. Contudo ela ocorreu tão manifestamente  a ambos, que o doutor disse sem outros preâmbulos.

- Só há crocodilos nas margens das ilhas ou do lago.  José seria bastante hábil para evitá-los. De resto, eles são  pouco perigosos e os africanos banham-se impunemente sem  receio de ataques.

Kennedy não respondeu, preferindo calar-se a discutir a  terrível possibilidade.

O doutor assinalou a povoação de Lari às cinco horas  da tarde. Os habitantes ocupavam-se da colheita do algodão diante das cabanas de caniços entrelaçados, dentro de cercados  limpos e cuidadosamente mantidos. Aquele aglomerado de cinqüenta cabanas ocupava leve depressão do terreno num  vale estendido entre montanhas baixas. A violência do vento  levava o doutor para mais longe do que pretendia, mas ele  mudou outra vez e conseguiu voltar ao ponto de partida,  justamente àquela espécie de ilha firme onde passara a noite  anterior.

A âncora, não tendo encontrado ramos de árvores, prendeu-se a um bloco de caniços seguros ao lado espesso do  pântano e de considerável resistência. Fergusson teve bastante  dificuldade em conter o aeróstato, mas por fim o vento cedeu  com a noite e os dois amigos ficaram ambos de vigia, quase  desesperados.       

 

O FURACÃO 

Às três horas da manhã, o vento rugia e soprava com tal violência que o Vitória não poderia ficar perto de terra  sem grande perigo. Os caniços fustigavam-lhe o invólucro,  ameaçando rasgá-lo.

- Precisamos partir - disse o doutor. Não podemos ficar nesta situação.

E José, Samuel?

- De modo algum penso abandoná-lo! Ainda que o furação me levasse duzentos quilômetros para o norte, eu voltaria. Mas aqui, estamos comprometendo a segurança de  todos!

- Partir sem ele! - tornou o escocês, em tom de profunda mágoa.

- Imagina então - volveu Fergusson - que o meu coração não sangra como o seu? Obedeço apenas a imperiosa  necessidade!

- Estou a seu dispor - respondeu Kennedy. Vamos lá1 Mas a saída apresentava grandes dificuldades. A âncora,  profundamente encravada, resistiu a todos os esforços, e o balão, puxando em sentido inverso, mais ainda aumentava a  resistência. Kennedy não conseguiu arrancá-la. Além disso, naquela posição a manobra tornava-se muito perigosa, pois o Vitória podia elevar-se antes que eles lograssem embarcar.

O doutor, não desejando correr semelhante risco, obrigou  o escocês a entrar na barquinha e resignou-se a cortar a corda  da âncora. O Vitória deu um salto de cem metros para o  ar e rompeu em direção ao norte.

Fergusson, impossibilitado de resistir à tormenta, cruzou  os braços e mergulhou em profundas reflexões.

Após alguns instantes de completo silêncio, voltou-se para  Kennedy não menos taciturno.

- Estou-me convencendo de que tentamos a Deus - disse  ele. Não compete a simples homens empreender semelhante  viagem!

Um suspiro de tristeza escapou-lhe do peito.

- Ainda há poucos dias - acrescentou o caçador - nos  Felicitávamos de ter escapado a grandes perigos, apertando-nos  a mão todos três!

- Pobre José! Bela e boa alma! Bravo e leal coração!  Um momento deslumbrado pelas riquezas, logo se prontificou  a sacrificar os seus tesouros! Agora está longe de nós, e o vento arrasta-nos com invencível rapidez!

- Vejamos, Samuel, admitindo que ele tenha achado asilo entre as tribos do lago, não lhe poderá suceder o mesmo que  aos viajantes que aqui estiveram antes de nós, a Denham e a Barth? Esses tornaram a ver a pátria!

- Ah! meu pobre Ricardo, José não sabe uma palavra dessa língua! Está sozinho e sem recursos. Os viajantes de  que falas só avançaram mandando aos chefes numerosos presentes, entre escoltas, armados e preparados para tais expedições. E ainda assim não puderam evitar sofrimentos e tribulações da pior espécie! Que queres tu que suceda ao nosso desventurado companheiro? É horrível pensar nisso, e este é  um dos maiores desgostos que até hoje tenho experimentado!

- Mas nós voltaremos, Samuel!

- Sim, havemos de voltar, ainda que para tanto devamos  abandonar o Vitória, ainda que tenhamos de alcançar a pé  o lago Tchad e travar relações com o sultão de Bornu! Os  árabes não guardam talvez má impressão dos primeiros europeus.

- Irei também Samuel - respondeu o caçador com energia. Podes contar comigo! Ainda que tenhamos de renunciar  ao fim da viagem! José sacrificou-se por nós, devemos sacrificar-nos por ele! Essa resolução levantou um pouco o ânimo dos dois homens que se sentiram fortes da mesma idéia. Fergusson empregou todos os meios para se lançar numa corrente contrária  que os aproximasse do Tchad; mas foi impossível, e a mesma  descida se tornava impraticável num terreno despido e com  um furacão daquela violência.

O Vitória atravessou então o país dos tibues, transpôs o Belad el Djérid, região inóspita que forma a orla do Sudão,  e penetrou no deserto de areia sulcado de longas pegadas de  caravanas. A derradeira linha de vegetação logo se confundiu  com o céu no horizonte meridional, não longe do principal  oásis daquela parte da África, cujos cinqüenta poços ficam  à sombra de árvores maravilhosas. Mas foi impossível parar.  Um acampamento árabe, com tendas de panos raiados, e alguns  camelos que estendiam na areia as suas cabeças de víbora  animavam aquela solidão, O Vitória passou como estrela candente, percorrendo distância de cento e quinze quilômetros  em três horas, sem que Fergusson lograsse orientar-lhe a corrida.

- Não podemos parar! - disse ele - nem podemos descer! Não há uma árvore, um relevo de terreno. Iremos atravessar o Saara? Positivamente, Deus está contra nós!

Falava assim com intenso desespero, quando viu ao norte  as areias do deserto erguerem-se em densa nuvem, revolvendo-se sob o impulso de correntes opostas.

Em meio ao turbilhão, quebrada, dispersa, desordenada, uma caravana inteira desaparecia sob a avalancha de areia.  Os camelos em confusão soltavam gemidos surdos e lastimosos. Gritos e rugidos rompiam daquele nevoeiro sufocante. Por vezes, alguma veste de pano colorido cortava o caos com as suas vivas cores, enquanto o mugido da tormenta  dominava a cena de destruição. A areia não tardou a acumular-se em massas compactas e ali onde momentos antes se  desdobrava planície lisa, erguia-se agora colina ainda movediça, túmulo gigantesco de uma caravana sepultada.

O doutor e Kennedy, pálidos, contemplavam o terrível  espetáculo, sem poderem manobrar o balão que redemoinhava  entre correntes contrárias, não obedecendo mais às diferentes dilatações do gás. Envolvida naqueles desencontros do ar, a  barca turbilhonava com vertiginosa rapidez, descrevendo vastas oscilações. Os instrumentos suspensos sob o toldo ameaçavam quebrar-se nos choques, os tubos da serpentina dobravam-se até a ruptura, as caixas-d’água deslocavam-se com estrépito. A setenta centímetros de distância, os viajantes não  conseguiam ouvir-se e, com as mãos crispadas seguras ao cordame, tentavam equilibrar-se no furor da tormenta. Kennedy,  de cabelos revoltos, olhava sem nada dizer. O doutor recuperara toda a sua audácia no meio do perigo e nada transparecia em seu rosto das violentas emoções que sentia, mesmo  quando após derradeiro giro o Vitória se encontrou subitamente detido em calma inesperada: o vento norte apanhara-o  por baixo e impelia-o em sentido inverso para a rota da manhã com velocidade não inferior.

- Para onde vamos? - gritou Kennedy.

- Para onde a Providência quiser, meu caro Ricardo.  Fiz mal em duvidar dela. Ela sabe melhor do que nós o que convém e aqui estamos voltando a lugares que não mais  esperávamos ver.

O chão, tão plano e igual durante a ida, estava agora  revolvido como mar depois da tempestade. Infinidade de pequenos montículos mal firmes pontilhava o deserto, o vento soprava com violência e o Vitória corria pelo espaço. A direção seguida pelos viajantes pouco diferia da que tinham seguido de manhã, de modo que pelas nove horas, em vez de  encontrarem as margens do Tchad, viam ainda o deserto estender-se diante deles.

Kennedy fez uma observação nesse sentido.

- Isso não importa - respondeu o doutor - o que interessa é voltar ao sul. Encontraremos as aldeias de Bornu,  Wuddia ou Cuca e não hesitarei em parar.

- Se assim o entende, também eu - volveu o caçador.  Mas queira Deus não sejamos obrigados a atravessar o deserto  como aqueles infelizes árabes! O que vimos é horrível.

- E repete-se com muita freqüência, Ricardo. As travessias do deserto não são menos perigosas que as do oceano.  O deserto esconde todos os perigos do mar, até o afogamento,  e, além disso, canseiras e privações insuportáveis.

- Parece-me - atalhou Kennedy - que o vento tende a  acalmar. A poeira das areias é menos compacta, o revoluteio  diminui e o horizonte clareia.

- Tanto melhor! Precisamos examinar atentamente com  a luneta, de modo que nenhum ponto nos escape.

- Eu me encarrego disso, Samuel, e não passará uma  árvore sem que seja avisado.

E o caçador, empunhando a luneta, instalou-se à frente  da barquinha.

 

A HISTORIA DE JOSÉ 

Que fora feito de José durante as buscas inúteis do amo?

Ao precipitar-se no lago, o seu primeiro movimento à  superfície foi olhar para cima. Viu o Vitória, já muito alto,  subir com enorme rapidez, que em seguida decresceu pouco  a pouco e, logo depois, levado por forte corrente, desaparecer  para o norte. Seu amo, seus amigos estavam salvos.

- Foi uma sorte - pensou - eu ter tido esta idéia de  atirar-me ao Tchad. Ela não deixaria de ocorrer ao senhor  Kennedy e sem dúvida ele não hesitaria em fazer o mesmo  que eu, pois é muito natural que um homem se sacrifique  para salvar outros dois. Isto é infalível.

Tranqüilo a esse respeito, José cuidou de pensar em si.  Estava no meio de lago imenso, cercado de tribos desconhecidas e provavelmente ferozes. Mais uma razão para tentar  sair do apuro, contando apenas consigo, e nem por isso se  assustou mais.

Antes do ataque das aves de rapina, que na sua opinião  se tinham conduzido como verdadeiros abutres, ele avistara  uma ilha no horizonte. Resolveu dirigir-se para ela e pôs-se  a desenvolver todos os seus recursos em matéria de natação,  depois de haver-se desembaraçado da parte mais incômoda  das roupas. Um passeio de nove ou dez quilômetros não o preocupava muito, de modo que ao ver-se em pleno lago só pensou em nadar vigorosamente. Ao cabo de hora e meia,  a distância que o separava da ilha já era pequena.

A medida, porém, que se ia aproximando da terra, uma  idéia, a princípio vaga e logo persistente, apoderou-se de seu  espírito. Sabia que as margens do lago estavam coalhadas de enormes crocodilos e conhecia a voracidade de tais feras.

Embora fosse hábito seu achar tudo muito natural neste  mundo, o digno moço sentiu-se invencivelmente perturbado.  Receava que a carne branca fosse especialmente do agrado dos crocodilos e avançou com as maiores precauções, de olho  à espreita. Não distava mais de uma centena de braços de  uma das praias sombreadas de árvores verdes, quando uma  lufada de ar, carregada de penetrante aroma de almíscar, o  envolveu.

- Bem! - disse ele - eis aí o que eu temia. O crocodilo  não anda longe!

E mergulhou rapidamente, mas não tanto que lhe permitisse evitar o contacto de um corpo enorme cuja epiderme  escamosa o arranhou de passagem. Julgou-se perdido e saiu  a nadar com desesperada velocidade. Voltou à tona, respirou  e tornou a desaparecer. Teve ali um quarto de hora de indizível angústia que nem toda a sua filosofia pôde vencer, julgando sempre ouvir atrás de si o ruído daquela vasta mandíbula pronta e devorá-lo. Ia deslizando entre duas águas, o  mais devagar possível, quando se sentiu seguro por um braço  e, depois, pelo meio do corpo. Pobre José! Depois de último  pensamento ao amo, rompeu a lutar com desespero, sentindo-se atraído não para o fundo do lago, como é costume fazerem os crocodilos para devorar a presa, mas para a superfície. Mal pôde respirar e abrir os olhos, viu-se entre dois  negros cor de ébano. Os africanos seguravam-no fortemente,  soltando estranhos gritos.

- Que diabo! - não pôde José impedir-se de exclamar  - negros em vez de crocodilos? Bolas! Prefiro isto! Mas  como é que estes velhacos ousam banhar-se nestas paragens?

José ignorava que os habitantes das ilhas do Tchad, como  muitos outros pretos, mergulham impunemente nas águas infestadas de crocodilos, despreocupados da sua presença. Os anfíbios daquele lago gozam da merecida reputação de sáurios inofensivos.

Mas não teria José evitado um perigo justamente para  cair noutro? Foi o que deixou aos acontecimentos decidirem  e como nada podia-fazer consentiu que o levassem para a  margem sem mostrar o menor temor.

"Sem dúvida - disse consigo - esta gente viu o Vitória  passar sobre as águas do lago como monstro dos ares. Testemunhou de longe a minha queda e não pode deixar de ter deferências com um homem caído do céu! Vamos a ver o que  acontece!”

Assim refletia José no momento de chegar a terra, em  meio a uma turba ululante, de todos os sexos, de todas as  idades, mas não de todas as cores. Achava-se numa tribo de biddiomahs de esplêndida negrura. Nem sequer teve de corar  pela sua roupa sumária, pois encontrava-se despido segundo  a moda do país .

Antes, porém, de ter tempo de pensar na sua situação,  notou as adorações de que era objeto, o que não deixou de  agradá-lo, embora lhe voltasse à memória o episódio de Kazeh.

"Pressinto que vou tornar-me um deus, um filho da lua!  Pois bem! Tanto vale este ofício como outro, visto não haver  por onde escolher. O essencial é ganhar tempo. Se o Vitória tornar a passar, aproveitarei a minha nova posição para dar  aos meus adoradores o espetáculo de uma ascensão miraculosa."  Enquanto refletia desse modo, a turba comprimia-se em  redor dele. Prosternava-se, uivava, apalpava-o, ia-se familiarizando, mas ainda assim teve a idéia de oferecer-lhe festim  magnífico, composto de leite azedo com arroz moído e mel. O digno moço, tirando partido de tudo, fez então uma das  melhores refeições da sua vida e deu ao seu povo uma alta  idéia do modo como os deuses devoram nas grandes ocasiões.

Ao cair da noite, os feiticeiros da ilha tomaram-no, respeitosamente, pela mão e conduziram-no a uma espécie de  casa cercada de talismãs. Antes de entrar, José lançou olhar bastante inquieto aos montes de ossos que se erguiam à volta  do santuário, ficando-lhe muito tempo para meditar na sua  situação depois de ser fechado na cabana.

Durante uma parte da noite ouviu cantos festivos, os rufos  de uma espécie de tambor e tinir de ferros, decerto bem suaves para ouvidos africanos. Coros de uivos acompanharam danças intermináveis que envolviam a sagrada cabana em suas  contorções e caretas.

José pôde observar o conjunto atordoante através das paredes de barro e bambu da cabana. Talvez em qualquer outra  circunstância experimentasse vivo prazer em contemplar aquelas estranhas cerimônias, mas não tardou a atormentá-lo uma  idéia bastante desagradável. Mesmo tomando as coisas pelo pouco.

Seu lado melhor, achou idiota e muito triste estar perdido naquela terra selvagem, entre semelhante gente. Poucos viajantes haviam tornado a ver a pátria depois de se terem aventurado até aquelas paragens. Podia, além disso, confiar na  adoração de que se via objeto? Boas razões tinha para acreditar na vaidade das grandezas humanas! E perguntava a si mesmo se naquela terra a adoração não iria até ao extremo  de comer o adorado.

A despeito da perspectiva, após algumas horas de meditação, a fadiga prevaleceu sobre as idéias sombrias, e José caiu em sono bem profundo, que decerto se prolongaria até  ao romper do dia seguinte se inesperada umidade não acordasse o dorminhoco.

A umidade não tardou a fazer-se água e a água subiu  tanto que lhe chegou à cintura.

"Que diabo será isto? - perguntou-se. Inundação?  Tromba? Ou algum novo suplício destes :pretos? Por Deus! não esperarei que ela me suba ao pescoço!”

Assim dizendo, derrubou a parede com um encontrão.  E onde pensa o leitor que ele se encontrou? Em pleno lago!  Da ilha não restava mais nada, ficara submersa durante a  noite! Em seu lugar estava a imensidade do Tchad.

- Triste país para os proprietários! - disse José, retomando logo as suas faculdades natatórias.

Fenômeno bastante freqüente no lago Tchad libertara o  animoso rapaz. Mais de uma ilha assim têm desaparecido,  embora parecesse ter a solidez da rocha. Muitas vezes as populações ribeirinhas têm de recolher os infelizes que escapam  a essas terríveis catástrofes.

José ignorava tal particularidade, mas nem por isso deixou de aproveitar. Avistou um barco errante do qual logo  se aproximou. Era uma espécie de tronco de árvore grosseiramente cavado. Continha felizmente um par de pagaias e  José, servindo-se de corrente bastante rápida, deixou-se derivar.

"Orientemo-nos - pensou ele. A estrela polar, que desempenha honradamente o seu ofício de apontar a rota do norte  a todo o mundo, não recusará vir em meu auxílio.”

Percebeu com satisfação que a corrente o levava para a  margem setentrional do Tchad e deixou-se ir. Pelas duas horas da manhã desembarcava num promontório coberto de espinhosas plantas, excessivamente importunas mesmo para um  filósofo. Mas uma árvore crescia ali, expressamente para oferecer-lhe leito em seus ramos. José escalou-a para maior segurança e, embora sem propriamente dormir, esperou o raiar do dia.

Já a despeito dos maiores esforços e de desesperada resistência sentia-se aftendar pouco a 

A manhã chegou com a rapidez das regiões equatoriais  e José, lançando um olhar à árvore que o abrigara durante  a noite, ficou aterrado à vista do espetáculo que se lhe oferecia: os ramos da árvore estavam literalmente cobertos de  serpentes e camaleões, a folhagem quase desaparecia sob os  seus entrelaçamentos. Dir-se-ia uma árvore de nova espécie,  que produzia répteis. Aos primeiros raios do sol tudo aquilo  deslizava e se estorcia. José experimentou vivo sentimento  de terror e repugnância e pulou para o chão entre o silvar  daquela companhia.

- Aqui está uma coisa em que ninguém jamais acreditaria! - exclamou ele.

Depois do que acabava de ver resolveu ser mais cauteloso  no futuro e, orientando-se pelo sol, pôs-se a caminho em direção ao nordeste, evitando com o maior cuidado cabanas,  casas, choças, covis, numa palavra: tudo o que pudesse servir  de asilo à raça humana.

Quantas vezes, olhou para o céu! Esperava avistar o  Vitória, mas embora o buscasse inutilmente durante aquele  dia, isso não diminuiu a sua confiança no amo. É necessária  uma grande energia de caráter para encarar tão filosoficamente tal situação. A fome juntava-se à fadiga, porque a  nutrição de raízes, miolo de arbustos, frutos de palmeira não  sustenta um homem. Apesar disso, conforme o seu cálculo,  avançou para oeste cerca de cinqüenta quilômetros. Seu corpo  guardava em muitos pontos os vestígios que milhares de espinhos dos arbustos do lago, das acácias e das mimosas tinham  deixado, e os pés ensangüentados tornavam-lhe a marcha extremamente dolorosa. Mas, enfim, conseguiu reagir contra as dores e ao entardecer resolveu passar a noite nas margens do  Tchad.

Teve de suportar as atrozes picadas de miríades de insetos, moscas, mosquitos, formigas de meia polegada que cobrem literalmente o chão. Ao cabo de duas horas não restava  a José uma tira da pouca roupa que o cobria. Os insetos  haviam devorado tudo! Foi uma noite horrível, que, irão deu  ao cansado viajante uma hora de sono. Durante todo aquele  tempo os javalis, os búfalos selvagens e o ajub, espécie de  lamantim bastante perigoso, faziam terrível barulho na mata  ou sob as águas do lago. O concerto das feras retumbava no silêncio da noite. José não ousava mexer-se. Sua resignação  e paciência foram difíceis de conter em semelhante situação.

Enfim o dia chegou. José levantou-se precipitadamente,  e avaliem a repugnância que sentiu ao ver o animal imundo  que partilhara a sua cama: um sapo! mas um sapo de cinco polegadas de grossura, um sapo monstruoso, nojento, que o  fitava com grandes olhos redondos. José sentiu engulhos, mas  tirando um resto de força da sua repugnância correu a mergulhar nas águas do lago. O banho acalmou um pouco as  comichões que o torturavam e, depois de ter mastigado algumas folhas, retomou a marcha com obstinação e teimosia que nem estava em condições de avaliar. Dir-se-ia ter perdido a  consciência dos seus atos e contudo sentia em si força superior  ao desespero. Uma fome terrível torturava-o e o estômago,  menos resignado que ele, reclamava. Foi obrigado a apertar  fortemente um cipó em redor da cintura. Felizmente a sede  podia ser mitigada a cada passo e recordando-se dos sofrimentos do deserto experimentou relativo conforto em não ter  de sentir os tormentos daquela imperiosa necessidade.

"Onde estará o Vitória? - perguntava-se. O vento sopra  do norte, ele deveria voltar ao lago! Decerto o doutor Fergusson procedeu a uma nova instalação para restabelecer o  equilíbrio, mas o dia de ontem devia ter bastado para esse  trabalho. Talvez não seja impossível que hoje... Em todo  caso é melhor agir como se eu nunca mais devesse tornar a  vê-los. Por fim, se eu conseguir alcançar uma dessas grandes  cidades do lago, encontrar-me-ei na situação dos viajantes de  que meu amo nos falou. Por que não hei de sair de apuros  como eles? Outros lograram salvar-se, que diabo! ... Vamos,  coragem!”

Assim monologando e caminhando sempre, o intrépido  José caiu em plena floresta, no meio de um grupo de selvagens. Parou a tempo de não ser visto. Os pretos ocupavam-se em envenenar as suas flechas com suco de eufórbio,  grande preocupação das tribos dessas terras e que se leva a  efeito com uma espécie de cerimônia solene. José, imóvel,  contendo a respiração, ia esconder-se numa brecha, quando  ao erguer os olhos, por um intervalo da folhagem, avistou o  Vitória, o próprio Vitória que se dirigia para o lago, apenas  a trinta metros acima dele. Era impossível fazer-se ver!

Veio-lhe uma lágrima aos olhos, não de desespero, mas  de gratidão. O amo andava a sua procura! O amo não o  abandonava! Necessitou esperar a partida dos negros, quando  então pôde deixar o esconderijo e correr para as margens do  Tchad. Mas o Vitória já se perdia ao longe, no céu. José  resolveu esperar: ele passaria outra vez, com certeza! E passou,  com efeito, porém mais a leste. José correu, gesticulou... Em  vão! Forte vento arrastava o balão com excessiva pressa.

Pela primeira vez a energia e a esperança abandonavam  o coração do infeliz. Viu-se perdido. Imaginou que o amo  partia para não mais voltar. Deixou de pensar, não queria  refletir. Como louco, com os pés em sangue e o coração ferido, marchou durante todo aquele dia e uma parte da noite.  Arrastava-se, umas vezes de joelhos, outras com as mãos. Via  chegar o momento em que as fôrças lhe faltariam e acabaria  por morrer.

Prosseguindo disse modo foi dar a um pântano ou, antes,  a um lugar que só depois veio a saber que era um pântano,  porque a noite já descera havia algumas horas. Inesperadamente, caiu num lamaçal compacto e a despeito dos maiores  esforços e de desesperada resistência sentia-se afundar pouco  a pouco no lodo movediço. Minutos depois estava enterrado  até à cintura.

"Chegou a morte - pensou ele -, e que morte!”

Debatia-se com fúria, mas os movimentos só serviam para  o enterrar cada vez mais no túmulo que para si mesmo ia  cavando. Nem um pedaço de madeira a que apegar-se, nem  um caniço para agarrar! Compreendeu que nada mais lhe  restava... fecharam-se-lhe os olhos.

- Meu amo! Meu amo! Socorro!... - gritou.

E sua voz desesperada, isolada, já rouca, perdeu-se na  escuridão.

 

OS ÁRABES PERSEGUEM JOSÉ

Depois que Kennedy retomou o seu posto de observação  na frente da barquinha, não cessou de investigar o horizonte  com a maior atenção.

Ao fim de certo tempo, voltou-se para o doutor e disse:

- Se não me engano há lá embaixo uma tropa em movimento, de homens ou animais. Ainda é impossível distingui-los. Em todo caso vão em grande alvoroço, porque levantam enorme nuvem de poeira.

- Não será mais algum vento contrário - volveu Samuel -, uma tromba que nos repila para o norte?

E ergueu-se para observar o horizonte.

- Não creio, Samuel - tornou Kennedy. Deve ser um  bando de gazelas ou de bois selvagens.

- Talvez, Ricardo. Mas o grupo está pelo menos a vinte  quilômetros de nós e mesmo com a luneta nada posso ainda  perceber.

- Não o perderei de vista. Há ali qualquer coisa de extraordinário que me intriga. Às vezes parece manobra de  cavalaria. Ah! Não me enganei, são cavaleiros! Olhe!

O doutor examinou com atenção o grupo indicado.

- Acho que tem razão - disse ele. É um destacamento  de árabes ou de tibbus, fugindo na mesma direção que nós.  Mas como temos maior velocidade, depressa os alcançaremos.

Daqui a meia hora estaremos em situação de ver e julgar se  é conveniente intervir.

Kennedy retomara o óculo e assestara-o atentamente.  A massa dos cavaleiros ia-se tornando mais visível, alguns  dentre eles isolavam-se.

- Não há dúvida de que se trata de manobra ou de  caçada - tornou Kennedy. Parece que estão perseguindo alguma coisa. Gostaria bem de saber o que é.

- Tenha paciência, Ricardo. Dentro em pouco os alcançaremos e até lhes passaremos adiante se continuarem naquela  direção. Marchamos com velocidade de trinta e oito quilômetros à hora e não há cavalo que acompanhe semelhante  corrida.

Kennedy voltou a observar e minutos depois acrescentou:

- São árabes correndo a toda velocidade. Distingo-os  perfeitamente. Serão uns cinqüenta. Vejo-lhe os albornozes  encherem-se de vento. É um exercício de cavalaria. O chefe  vai cem passos à frente e eles correm-lhe no encalço.

- Quem quer que seja, nada temos a temer, Ricardo,  porque se for necessário subirei um pouco mais.

- Espere, espere um pouco, Samuel! É curioso! - acrescentou ele após novo exame - há qualquer coisa que não  entendo. Pelos seus esforços e pela irregularidade da linha  que seguem, aqueles árabes têm antes o ar de perseguir do  que de seguir alguém.

- Tem certeza, Ricardo?

- Sem dúvida. Não me posso enganar! É uma caçada,  e uma caçada a um homem! Não é um chefe que os precede,  mas um fugitivo.

- Um fugitivo! - exclamou Samuel emocionado.

- Com certeza!

- Então não os perca de vista e esperemos.

Três ou quatro milhas foram prontamente ganhas sobre os cavaleiros que avançavam com prodigiosa velocidade.

- Samuel! Samuel! - gritou Kennedy com voz trêmula.  - Que foi, Ricardo?

- Será uma alucinação? Não é possível!  - Que quer dizer?

- Espere.

O caçador limpou rapidamente as lentes do óculo e tornou a olhar.

- Então? - perguntou o doutor.  - É ele, Samuel!  - Ele! - acudiu este último.

Ele dizia tudo. Não havia necessidade de nomear.

- É ele, a cavalo, apenas a cem passos dos inimigos!

Está fugindo!

- É, com efeito, José - tornou o doutor empalidecendo.  - Naquela corrida não pode ver-nos!

- Há de ver-nos - respondeu Fergusson, abrandando a chama do maçarico.

- De que modo?

- Daqui a cinco minutos estaremos a quinze metros do chão, dentro de quinze planaremos sobre ele.

- Precisamos avisá-lo com um tiro!- Não, ele não pode voltar, está impedido.  - Que faremos, então?  - Esperar.

- Esperar! E os árabes?

- Vamos alcançá-los! Vamos passar-lhes à frente! Estamos apenas a quatro quilômetros de distância. O essencial é que o cavalo de José agüente.

- Santo Deus! - bradou Kennedy.  - Que há?

Kennedy lançara tal brado de desespero ao ver José cair ao chão. Seu cavalo, evidentemente esfalfado, rolara na areia.  - Ele viu-nos! - gritou o doutor. Ao levantar-se fêz-nos sinal! - Os árabes vão agarrá-lo! Que espera ele? Ah! Valente rapaz! Hurra! - berrou o caçador não se contendo.

José, erguendo-se logo após a queda, no instante em que um dos mais velozes cavaleiros ia saltar sobre ele, pulou como pantera, evitou-o com um desvio, atirou-se-lhe à garupa, segurou o árabe pelo pescoço com as suas mãos nervosas e seus dedos de ferro, estrangulou-o, derrubou-o na areia e prosseguiu a sua fuga terrível.

Retumbou nos ares imenso brado dos árabes, os quais estavam tão empenhados na perseguição que nem viram o Vitória quinhentos passos atrás deles e apenas a dez metro do solo. Eles mesmos não distavam do fugitivo cinqüenta corpos  de cavalo. Um dos perseguidores aproximou-se sensivelmente  de José e ia vará-lo com a sua lança, quando Kennedy, com olho fixo e mão firme, deteve-o com uma bala jogando-o ao  chão. José nem se voltou ao ouvir o tiro.

Uma parte do bando suspendeu a corrida e tombou de  face na poeira ao avistar o Vitória. Os outros continuaram  a perseguição.

- Mas que está fazendo José? - gritou Kennedy. Ele  não pára!

- Faz melhor do que isso, Ricardo, já o entendi: mantém-se na direção do aeróstato. Confia na nossa inteligência!  Ah! Valente moço! Vamos arrebatá-lo nas barbas desses árabes!  Não estamos a mais de duzentos passos.

- Que devo fazer? - perguntou Kennedy.

- Põe a espingarda de lado.

- Pronto! - volveu o caçador, pousando a arma.

- Poderá suportar nos braços setenta quilos de lastro?  - Até mais.

- Não, isso basta.

O doutor empilhou alguns sacos de areia entre os braços  de Kennedy.

- Fique na parte traseira da barca, pronto a jogar o lastro fora de uma só vez. Mas, pela sua vida, não o faça  sem minha ordem!

- Fique sossegado.

- Caso contrário falharemos e José estará perdido!  - Não se preocupe.

O Vitória quase dominava então o grupo dos cavaleiros  que corriam a toda brida no encalço de José. O doutor, na  frente da barquinha, segurava a escada de corda, pronto a  lançá-la no momento requerido. José conservara a distância  que o separava dos perseguidores, mais ou menos vinte metros.  O Vitória passou-lhes à frente.

- Atenção! - gritou Samuel a Kennedy.  - Estou preparado.

- José! Atenção! - berrou o doutor na sua voz retumbante, desdobrando a escada, cujos primeiros degraus arrastaram-se pela poeira do chão.

Ao apelo do doutor, sem parar o cavalo, José voltara-se.  A escada passava junto dele e, no instante em que ele se agarrou, o doutor gritou a Kennedy.

- Jogue fora! - Pronto!

O Vitória, aliviado de peso superior ao de José, deu para  os ares um salto de cinqüenta metros.

José segurou-se fortemente à escada durante as violentas oscilações que ela descreveu. Depois, fazendo aos árabes um  gesto indescritível e trepando com agilidade de palhaço, chegou até aos companheiros que o receberam de braços abertos.

Os árabes soltaram um brado de surpresa e de raiva.  O fugitivo acabava de ser-lhes arrebatado em vôo e o Vitória  afastava-se rapidamente.

- Meu amo! Senhor Ricardo! - exclamou José.

E sucumbindo à emoção e à fadiga desmaiou, enquanto  Kennedy, quase em delírio, gritava:

- Salvo! Está salvo!

- Com a breca! - desabafou o doutor, recuperando a sua  impassível tranqüilidade.

José estava quase nu. Os braços ensangüentados, o corpo  coberto de contusões, tudo indicava os sofrimentos por que  passara. O doutor pensou-lhe as feridas e deitou-o sob o toldo. José, recuperando os sentidos, pediu um trago de aguardente,  que o doutor entendeu não recusar, convencido de que ele  não devia ser tratado como qualquer outro. Depois de ter bebido, José apertou a mão dos dois companheiros e declarou-se pronto a contar a sua história.

Mas não consentiram que falasse e o moço recaiu em profundo sono, do qual parecia estar bastante necessitado. O  Vitória seguia então linha oblíqua para oeste. Empurrado por vento excessivo tornou a avistar a orla do espinhoso deserto,  sobre palmeiras curvadas ou arrancadas pela tempestade.  Depois de ter feito caminhada de cerca de quarenta quilômetros desde o rapto de José, passou ao entardecer o décimo  grau de longitude.

 

UMA NOITE PERTO DE AGADÉS 

O vento repousou durante a noite dos violentos esforços do dia e o Vitória permaneceu quietamente sobre a copa  de alto sicômoro. O doutor e Kennedy ficaram de vigia alternadamente e José aproveitou para dormir de um sono só  vinte e quatro horas.

- É o remédio de que ele precisa - observou Fergusson.  A natureza se encarregará de curá-lo.

No outro dia, o vento voltou com força, mas caprichoso.  Virava repentinamente do norte para o sul, mas por fim o  Vitória foi levado para oeste.

O doutor, com o mapa na mão, identificou o reino do  Damerghu, terreno onduloso de grande fertilidade, com as  choças das aldeias feitas de grandes caniços entremeados de ramos de asclepiádeas. As moendas de grãos erguiam-se nos  campos cultivados, sobre pequenos andaimes destinados a preservá-las da invasão dos ratos e formigas brancas.

Em breve alcançaram a aldeia de Zinder, reconhecível pela  sua vasta praça de execuções. No centro, levanta-se a árvore  da morte, junto à qual vigia o carrasco. Quem pisar a sua sombra é imediatamente enforcado. Consultando a bússola,  Kennedy não pôde deixar de dizer:

- Cá estamos outra vez a caminho do norte!

- Não tem importância. Se formos dar a Tombuctu não  teremos de que nos queixar! Nunca se fará mais bela viagem  em melhores circunstâncias!

- Nem com melhor saúde - respondeu José, passando a  boa face risonha através dos panos do toldo.

- Ora, aí temos o nosso valente amigo! - bradou o  caçador. O nosso salvador! Então, como vai isso?

- Muito naturalmente, senhor Kennedy, muito naturalmente! Nunca me senti tão bem. Não há nada para fortalecer um homem como uma viagenzinha de recreio iniciada  por um mergulho no Tchad! Hein, meu amo?

- Excelente alma! - respondeu Fergusson, apertando-lhe  a mão. Quantas angústias e preocupações nos causou!

- E os senhores, então? Imaginam que eu estava tranqüilo quanto à sorte do Vitória? Podem gabar-se de haver-me  pregado um bom susto!

- Nunca nos entenderemos, José, se continua a tomar as  coisas por esse lado.

- Vejo que a queda não o modificou Kennedy.

- A sua dedicação foi sublime, meu rapaz. Salvou-nos,  porque o Vitória ia cair no lago e assim ninguém se salvaria.

- Mas se tal dedicação, como o senhor prefere chamar  ao meu tombo, salvou-os, não é verdade que me salvou também a mim, visto que aqui estamos todos três de perfeita  saúde? Creio que em vista disto nada há a censurar!

- Nunca nos entenderemos com este rapaz - volveu o  caçador.

- O melhor meio de nos entendermos - replicou José  - é não falarmos mais do caso. O que passou, passou, bom  ou mau já não se pode remediar.

- Teimoso! - tornou o doutor rindo. Pelo menos vai  contar-nos as suas peripécias.

- Se fazem questão! Mas antes vou preparar este gordo pato para o comermos, pois pelo visto o senhor Ricardo não  perdeu tempo.

- Parece que sim, José.

- Vamos então ver como é que uma caça de África se  comporta em estômagos europeus. - acrescentou 

O pato foi logo submetido à chama do maçarico e depois  lentamente saboreado. José devorou-lhe uma boa parte, como  pessoa que não come há vários dias. Depois da chá e dos grogues, pôs os companheiros ao corrente das suas aventuras.

Falava com certa emoção, encarando os acontecimentos com a sua habitual filosofia. O doutor não pôde impedir-se de apertar-lhe várias vezes a mão, sempre que sentia o dignoservidor mais preocupado com a salvação do amo do que com a sua própria. A propósito da submersão da ilha dos biddiomahs, explicou-lhe a freqüência do fenômeno no lago Tchad.

Enfim, José, continuando o seu relato, chegou ao momento em que, atolado no pântano, soltara derradeiro grito de desespero.

- Considerei-me perdido, meu amo - disse ele -, e meus  pensamentos eram para o senhor. Rompi a debater-me. Como?  Não sei dizer. O certo é que estava resolvido a não me  deixar engolir sem discussão, quando a dois passos de mim  avisto uma ponta de corda recentemente cortada. Consegui  fazer um derradeiro esforço e de qualquer modo agarrei o  cabo. Puxei, ele resistiu. Icei-me e finalmente pus pé em terra firme. No extremo da corda, encontrei uma âncora...  Ah! meu amo! ela bem merece o nome de âncora da salvação, se o senhor não vê inconveniente nisto. Reconheci-a,  era uma âncora do Vitória. O senhor tinha baixado naquele  ponto! Segui a direção da corda, que por sua vez me apontou  a direção do balão e depois de novos esforços consegui sair  do pântano. Com a coragem recuperei as fôrças e caminhei  grande parte da noite, afastando-me do lago. Cheguei, enfim,  à orla de floresta imensa. Ali, dentro de um cercado, alguns  cavalos pastavam pacificamente. Há ocasiões na vida em que  todo o mundo sabe montar a cavalo, não é? Não perdi um  minuto a refletir, saltei para o lombo de um deles e eis-nos  correndo à desfilada em direção ao norte. Não lhes falarei  das cidades que não vi, nem das aldeias que evitei. Não.  Atravessei campos lavrados, pulei sebes, saltei paliçadas, fustigando o animal, excitando-o. Alcancei o limite das terras  cultivadas. Bem, o deserto! Nada mau. Pelo menos verei  melhor à minha frente, e de mais longe. Esperava sempre  avistar o Vitória, correndo ao mesmo rumo. Nada. Ao cabo  de três horas fui cair como idiota num acampamento de  árabes! Ah! que caçada! ... Olhe, senhor Kennedy, um caçador não pode saber o que é uma caçada, se por sua vez  não foi objeto de caça! Em todo caso, se me permite, aconselho-o a não experimentar. Meu cavalo caía de canseira,  estavam-me seguindo de perto. Tombo e salto para a garupa de um árabe. Eu não lhe queria mal nenhum e até espero  que ele não me guarde rancor por havê-lo esganado! Mas eu  tinha-os visto! ... O resto já os senhores sabem. O Vitória chegou perto de mim e fui arrebatado do chão, como cavaleiro que atravessa uma argola com a lança. Razão tinha eu  de contar com os senhores! Como vê, doutor Fergusson, é tudo muito simples. Não há nada mais natural no mundo, e estou  pronto a recomeçar se isto lhe puder ser de alguma utilidade.  De resto, como já lhe disse, meu amo, não vale a pena tornar  a falar disto.

- Meu bravo José! - respondeu o doutor comovido. Tínhamos razão em confiar na sua inteligência e destreza!

- Ora, senhor! basta seguir os acontecimentos para fugirmos às dificuldades. O mais certo, como vê, ainda é aceitar  as coisas como elas se apresentam.

Durante o relato de José, o balão atravessara com rapidez  grande extensão do país. Kennedy não tardou a avistar no  horizonte um amontoado de casas que tinha a aparência de aldeia. O doutor consultou o mapa e identificou a povoação  de Tagelel no Damerghu.

- Retomamos aqui - disse ele - a rota de Barth. Foi  aqui que ele se separou dos dois companheiros, Richardson  e Oveweg. O primeiro devia tomar a direção de Zinder, o  segundo a de Maradi. Como devem lembrar-se, dos três viajantes, Barth foi o único que tornou a ver a Europa.

- Quer então dizer - interveio o caçador, acompanhando  no mapa a direção do Vitória - que estamos subindo para o norte?

- Diretamente para o norte, meu caro Ricardo.  - E isso não o inquieta um pouco?  - Por quê?

- E que este caminho nos leva a Trípoli, por sobre o  grande deserto.

- Ah! Não iremos tão longe, amigos! Pelo menos assim  o espero.

- Mas onde tenciona parar?

- Vamos ver, Ricardo, não tem curiosidade de conhecer  Tombuctu?

- Tombuctu?

- Naturalmente - interveio José. Não é possível fazer  uma viagem à África sem visitar Tombuctul - Será o quinto ou sexto europeu que já viu aquela cidade misteriosa!

- Pois toca para Tombuctul - Neste caso, quando chegarmos a dezessete ou dezoito  graus de latitude, buscaremos vento favorável que nos leve  para oeste.

- Bem - tornou o caçador -, temos ainda muito que  andar para o norte?

- Pelo menos trezentos quilômetros.  - Então vou dormir um pouco.

- Durma, senhor Kennedy - aconselhou José. E o senhor, meu amo, faça o mesmo. Devem estar precisando de  repouso, porque eu os obriguei a ficar de vigia de modo realmente excessivo.

O caçador estendeu-se sob o toldo, mas Fergusson, que a  fadiga nunca vencia, permaneceu no seu posto de observação.

Ao fim de três horas, o Vitória ia atravessando com extrema velocidade terreno pedregoso, com filas de altas montanhas nuas de base granítica, onde certos picos isolados chegavam a atingir mais de trezentos metros de altura. Girafas, antílopes e avestruzes pulavam com maravilhosa agilidade entre florestas de acácias, mimosas, suahs e tamareiras. Após a aridez do deserto, a vegetação retomava o seu império. Era  o país dos cailuas, que escondem a face com uma tira de  algodão, como os seus vizinhos tuaregues.

Às dez horas da noite, após esplêndida travessia de quinhentos quilômetros, o Vitória parou sobre importante povoado, uma parte do qual, arruinada, se podia entrever ao  luar. Algumas flechas de mesquita apontavam aqui e além,  tocadas de branco raio de luz. O doutor tomou a altura das  estrelas e concluiu achar-se na latitude de Agadés.

O Vitória, não tendo sido avistado no escuro, desceu à  terra três quilômetros além da cidade, em vasto milharal.  A noite foi bastante sossegada e desvaneceu-se pelas cinco  horas da manhã, quando vento ligeiro solicitava o balão para  oeste e mesmo um pouco para o sul. Fergusson apressou-se  em aproveitar a boa oportunidade e, subindo rapidamente, desapareceu em longa esteira de raios de sol.

 

O NIGER 

A jornada de dezessete de maio foi tranqüila e sem  qualquer novidade. O deserto recomeçou. Vento regular levava o Vitória para sudoeste, sem desviá-lo para a direita ou  para a esquerda. A sua sombra traçava na areia linha rigorosamente reta.

Antes da partida, o doutor mandara renovar prudentemente a provisão de água, temendo não poder descer nas  terras infestadas de tuaregues aueliminianos. A planície, colocada a seiscentos metros acima do nível do mar, deprimia-se  para o sul. Os viajantes, tendo percorrido a rota de Agadés  a Murzuk, tantas vezes batida dos pés dos camelos, alcançaram ao entardecer dezesseis graus de latitude e quatro graus  e cinqüenta e cinco minutos de longitude, após terem transposto trezentos e cinqüenta quilômetros de grande monotonia.

Durante o dia, José aprontou as derradeiras peças de  caça que apenas tinham recebido preparo sumário e, à ceia,  foi servido um assado de narcejas muito apetitoso. Como o  vento estivesse de feição, o doutor resolveu prosseguir a viagem durante a noite, que a lua ainda quase cheia tornava  resplandecente.

O Vitória ergueu-se à altura de cento e sessenta metros  e, no decorrer da travessia noturna de cerca de cento e vinte  quilômetros, nem o leve sono de uma criança teria sido perturbado.

No domingo de manhã, nova mudança na direção do  vento, que soprava para noroeste. Algumas aves sulcavam  os ares e, no horizonte, bando de abutres que felizmente se manteve afastado.

A vista daquelas aves levou José a cumprimentar o amo  pela idéia dos dois balões.

- Onde estaríamos nós - disse ele - com um único invólucro? O segundo balão é como a chalupa de um navio.  Em caso de naufrágio sempre há possibilidade de salvamento.

- Tem razão, amigo. Apenas com a diferença de que a  chalupa preocupa um pouco, pois não vale o navio.

- Que quer dizer com isso? - perguntou Kennedy.

- Quero dizer que o novo Vitória não vale o antigo.  Ou porque o tecido já está muito gasto, ou porque a gutapercha se derreteu ao calor da serpentina, observo certo desperdício de gás. Até aqui não é grande coisa, mas enfim não  se pode desdenhar. Estamos com tendência para baixar e para  manter-me sou obrigado a dilatar mais o hidrogênio.

- Diabo! - exclamou Kennedy - para isso não vejo remédio.

- Realmente não existe, caro Ricardo. Por isto, faríamos  melhor apressando-nos e evitando mesmo as paradas noturnas.

- Estamos ainda longe da costa? - perguntou José.

- Que costa, rapaz? Podemos saber onde o acaso nos  levará? Tudo o que posso dizer é que Tombuctu se acha  ainda a oitocentos quilômetros a oeste.

- Quanto tempo levaremos a chegar lá?

- Se o vento não nos desviar muito, conto avistar a cidade terça-feira à tarde.

- Então - acrescentou José, apontando longa fila de animais e homens que serpenteavam em pleno deserto -, sempre  chegaremos antes daquela caravana.

Fergusson e Kennedy debruçaram-se e avistaram enorme  aglomeração de seres de toda espécie. Eram mais de cento e  cinqüenta camelos, desses que por doze mutkals de ouro vão de Tombuctu a Tafilalet com carga de duzentos e cinqüenta quilos no lombo. Todos levavam sob a cauda pequeno  saco destinado a receber-lhes os excrementos, único combustível com o qual se pode contar no deserto. Os camelos dos  tuaregues são da melhor raça, podendo ficar de três a sete dias sem beber e dois sem comer. Sua marcha é superior à  dos cavalos e eles obedecem com inteligência à voz do khabir,  o guia da caravana. São conhecidos no país pelo nome de  inchari.

Tais foram as informações dadas pelo doutor, enquanto  os companheiros contemplavam aquela multidão de homens,  de mulheres e de crianças, que andava com dificuldade em areia meio movediça que alguns cardos, uma relva emurchecida e espinheiros sustinham com dificuldade. O vento apagava-lhe as pegadas quase instantaneamente.

José indagou como conseguiam os árabes orientar-se no  deserto e chegar aos poços espalhados naquela imensa solidão.

- A natureza deu aos árabes - explicou Fergusson -  um maravilhoso instinto de orientação. Qualquer pedra insignificante, cascalho, moita de relva, até mesmo a cor diferente das areias, lhes servem de indício. Um europeu se sentiria perdido, mas eles caminham com segurança e à noite  se guiam pela estrela polar. Só andam quatro quilômetros  por hora e descansam durante os grandes calores do meio-dia.  Por aí podem imaginar quanto tempo levam para atravessar  o Saara que tem mil e quinhentos quilômetros.

Mas o Vitória já desaparecera diante dos olhos espantados dos árabes, que invejaram certamente a sua rapidez.  À tarde passaram a dois graus e vinte minutos de longitude (zero do meridiano de Paris) e andaram mais de um grau  durante a noite.

Na segunda-feira, o tempo mudou completamente e a  chuva começou a cair com violência. Foi preciso resistir  àquele dilúvio e ao aumento de peso que influía sobre o balão  e sobre a barquinha. O aguaceiro contínuo era a razão dos  pântanos e dos brejos que cobriam quase toda a superfície  daquela região. A vegetação começava a reaparecer. Aqui e  ali surgiam mimosas, baobás, tamarineiras.

Ali estava o Sonrav, com suas aldeias cobertas de telhados  que se inclinavam como bonés armênios. A parte montanhosa parecia insignificante, apenas um número pequeno de  colinas, justamente o necessário para a formação de barrancos  de reservatórios, sobre os quais voavam narcejas e galinhas-d’angola. As vezes uma torrente impetuosa cortava os caminhos  que os indígenas atravessavam agarrando-se aos cipós estendidos entre uma árvore e outra. As florestas substituíam a  mata espessa onde se movimentavam jacarés, hipopótamos e  rinocerontes.

- Não tardaremos a ver o Níger - declarou o doutor.  A região se transforma nas proximidades dos grandes rios.  Aquelas estradas que, por assim dizer, caminham, segundo  feliz conceito, trouxeram com elas a vegetação, como vão trazer mais tarde a civilização. O Níger, por exemplo, em seu  percurso de quase cinco mil quilômetros, semeou nas suas  margens as cidades mais importantes da África.

- Ah! - exclamou José. Isto me lembra a história daquele grande admirador da Providência que a louvava pelo cuidado que tivera de fazer com que os rios atravessassem  as grandes cidades!

Ao meio-dia, o Vitória passava por cima de pequena povoação, composta de grupo de choças miseráveis, Gao, que foi  outrora grande capital.

- Foi ali que Barth atravessou o Níger ao voltar de Tombuctu. Lá está o rio famoso na antiguidade, o rival do  Nilo, ao qual a superstição pagã deu origem celeste. Preocupou sempre a atenção dos geógrafos de todos os tempos a  sua exploração que, como a do Nilo, causou numerosas vitimas.

O Níger corria entre duas margens largamente separadas.

Suas águas rolavam com certa violência, para o sul, mas os  viajantes, levados pelo vento, mal puderam apreciar-lhe os  curiosos contornos.

- Vou-lhes falar sobre este rio que já se afasta de nós -  declarou Fergusson. Sob os nomes de Dhiouleba, de Maio, de  Eggkirreou, de Quorra e outros ainda, ele percorre extensão  imensa de terra e quase rivaliza em comprimento com o Nilo.  Esses nomes significam simplesmente o rio, conforme as regiões que atravessa.

- Terá o doutor Barth seguido este caminho? - perguntou Kennedy.

- Não, Ricardo. Deixando o lago Tchad, atravessou as  cidades principais do Bornu e veio cortar o Níger em Sai,  quatro graus acima de Gao. Penetrou depois no seio das regiões inexploradas na parte em que o Níger forma espécie de cotovelo e, depois de oito meses de novas fadigas, conseguiu chegar a Tombuctu, o mesmo percurso que agora faremos em  três dias apenas, se o vento for favorável.

- As nascentes do Níger foram descobertas? - indagou  José.

- Há muito tempo - respondeu o doutor. O reconhecimento do Níger e dos seus afluentes atraiu inúmeras explorações, e posso indicar-lhes as principais. De 1749 a 1758,  Adamson descobre o rio e visita Goréa. De 1785 a 1788, Golberry e Geoffroy percorrem os desertos da Senegambia e sobem até à região dos mouros, que assassinaram Saugnier,  Brisson, Adam, Riley, Cochelet e tantos outros desventurados.  Surge então o ilustre Mungo-Park, o amigo de Válter Scott,  escocês como ele. Enviado em 1795 pela Sociedade Africana  de Londres, chega a Bambarra, vê o Níger, percorre mil quilômetros em companhia de um mercador de escravos, descobre o rio de Gambia e volta para a Inglaterra em 1797.  Torna a partir a trinta de janeiro de 1805 com o cunhado  de nome Anderson, com o desenhista Scott e com um grupo  de operários. Chegando à Goréa, a eles se associa um destacamento de trinta e cinco soldados. Revê o Níger no dia dezenove de agosto, mas, então, devido ao cansaço, aos maus tratos, às inclemências do céu e à insalubridade da região, só restavam onze vivos dentre os quarenta europeus da expedição.  Chegaram as últimas cartas de Mungo-Park para a esposa no dia dezesseis de novembro e, um ano mais tarde, soube-se  por comerciante daquela região que, ao chegar a Boussa, sobre o Níger, no dia vinte e três de dezembro, viu o infeliz viajante que as cataratas do rio lhe tinham destruído a barca e acrescentou que os indígenas acabaram por massacrá-lo.

- E esse fim terrível não deteve os exploradores?

- Pelo contrário, Ricardo, porque então eram obrigados  não só a fazer o reconhecimento do rio como a encontrar os  documentos dos viajantes. Já em 1816 se organiza expedição  em Londres e dela faz parte o major Gray. Tal grupo chega  ao Senegal, penetra no Fouta-Djallon, visita as populações  fulahs e mandingues e volta à Inglaterra sem qualquer resultado. Em 1822, o major Laing explora toda a parte da África  ocidental vizinha das possessões inglesas e foi ele que chegou  às fontes do Níger. Segundo os documentos desse explorador não chega a setenta centímetros de largura a nascente do rio  imenso.

- Fácil de saltar - observou José.

- Pois sim! Fácil! - replicou o doutor. Segundo a tradição, quem tentar saltar a nascente é imediatamente tragado.  Quem quer que se aventure a apanhar ali um pouco de água  sente-se repelido por mão invisível.

- E é permitido não se acreditar em nada disso? - perguntou José.

- De certo. Cinco anos mais tarde, o major Laing lançou-se através do deserto, chegou até Tombuctu e morreu  estrangulado, alguns quilômetros acima, pelos oulad shiman,  que queriam obrigá-lo a tornar-se muçulmano.

- Mais uma vítima! - comentou o caçador.

- Foi então que um moço corajoso realizou por conta  própria a mais extraordinária das viagens modernas. Refiro-me  ao francês Renato Caillié. Depois de diversas tentativas, em 1819  c em 1824, ele partiu novamente a dezenove de abril de 1827,  do rio Nunez. No dia três de agosto, chegou tão exausto e  doente a Timé, que só em janeiro de 1828, seis meses depois,  prosseguiu a viagem. Juntou-se então a uma caravana, protegido por sua vestimenta oriental, atingiu o Níger a dez de  março, penetrou na cidade de Jenné, tomou embarcação no  rio e desceu até Tombuctu, onde chegou a dez de abril.  Outro francês, Imbert, em 1670, e um inglês, Roberto Adams,  em 1810, talvez tenham visto a curiosa cidade, mas Renato  Caillié foi o primeiro europeu que dela trouxe dados exatos.  No dia quatro de maio deixou aquela rainha do deserto. No  dia nove fez o reconhecimento do próprio lugar onde foi assassinado o major Laing. A dezenove chegou a El-Araouan, o deixou essa cidade de próspero comércio para transpor, através de mil perigos, as vastas solidões que se estendem entre o Sudão e as regiões setentrionais da África. Finalmente, entrou em Tânger e no dia vinte e oito de maio embarcou para  Tulono. Em dezenove meses, a despeito de cento e oitenta  dias de enfermidade, havia atravessado a África do oeste para o norte. Ah! Se Caillié tivesse nascido na Inglaterra, seria  considerado como o mais intrépido viajante dos tempos modernos e colocado na mesma altura que Mungo-Park. Mas  na França não lhe dão o devido valor.

- Era homem de fibra - opinou o caçador. E que fim  teve?

- Morreu aos trinta e nove anos, em virtude de grandes  esforços despendidos. O cansaço matou-o. Acharam que era  bastante conceder-lhe o prêmio da Sociedade de Geografia  em 1828. As maiores homenagens lhe teriam sido prestadas  na Inglaterra! Aliás, enquanto ele realizava sua maravilhosa  viagem, um inglês idealizava o mesmo empreendimento e o tentava com a mesma coragem e a mesma felicidade. Foi o  capitão Clapperton, companheiro de Denham. Em 1829, voltou à África pela costa oeste do golfo de Benin. Retomou  as pistas de Mungo-Park e de Laing, encontrou em Boussa  os documentos relativos à morte do primeiro, chegou a vinte  de agosto a Sacatu, onde foi feito prisioneiro e lançou o último suspiro nos braços de Ricardo Lander, seu fiel empregado.

- E que aconteceu com esse Lander? - perguntou José  no auge do interesse.

- Conseguiu chegar à costa e voltou a Londres, trazendo  os documentos do capitão e um relatório exato de sua própria  viagem. Ofereceu, então, seus serviços ao governo para completar o reconhecimento do Níger. Juntou-se a ele o irmão  João e ambos, entre 1829 e 1831, tornaram a descer o rio  desde Boussa até à embocadura, descrevendo-o aldeia por  aldeia, quilômetro por quilômetro.

- Então esses dois irmãos escaparam à má sorte dos  outros? - indagou Kennedy.

- Sim, pelo menos durante essa exploração, pois em 1833  Ricardo realizou terceira viagem ao Níger. Uma bala perdida matou-o perto da foz do rio. Como vêem, meus amigos,  esta região que estamos atravessando foi testemunha de nobres dedicações que, na maior parte das vezes, só tiveram a  morte por recompensa.

 

 OS MONTES HOMBORI 

Durante o dia enfadonho de segunda-feira, o doutor Fergusson entreteve-se a dar aos companheiros mil pormenores  sobre a região que iam atravessando. O solo bastante plano não oferecia qualquer obstáculo à marcha. A única preocupação do doutor provinha do maldito vento do nordeste que  soprava com violência e o afastava da latitude de Tombuctu.

O Níger, depois de subir ao norte até àquela cidade,  arredonda-se como imenso jato de água e vai lançar-se no  oceano Atlântico, como feixe que se desatasse. Nesse cotovelo, o terreno é muito variado, às vezes de luxuriante fertilidade, outras de extrema aridez. As planícies incultas sucedem-se aos milhares, por sua vez seguidas de vastas extensões cobertas de giestas. Todas as espécies de aves aquáticas, pelicanos, cercetas, pica-peixes e outras, vivem em numerosos  bandos, à borda das torrentes e dos lamaçais.

Surgiam, de vez em quando, acampamentos de tuaregues.  Abrigavam-se debaixo de tendas de couro, enquanto as mulheres se ocupavam dos trabalhos exteriores, ordenhando as camelas e fumando compridos cachimbos.

Pelas oito horas da noite, o Vitória andara mais de trezentos  quilômetros na direção do oeste, e os viajantes foram então  testemunhas de magnífico espetáculo.

Raios de luar abriram caminho por uma fissura das  nuvens e, deslizando entre as riscas de chuva, caíram sobre  a cadeia dos montes Hombori. Nada mais estranho do que  aqueles píncaros de aparência basáltica. Perfilavam-se como  silhuetas fantásticas no céu que escurecia. Dir-se-ia que eram  ruínas lendárias de imensa cidade da Idade Média, espetáculo igual ao que oferecem em noites sombrias, ao olhar deslumbrado do viajante, as enormes massas de gelo dos mares  glaciais.

- Não parece paisagem dos Mistérios de Udolfo? - perguntou o doutor. Ana Radcliff não teria desenhado estas  montanhas com aspecto mais aterrador.

- Credo! - exclamou José. Eu não gostaria de andar  sozinho à noite nesta região de fantasmas. Quer saber de  uma coisa, patrão? Se não fosse tão difícil, levaria esta paisagem para a Escócia. Ficaria ótima nas margens do lago Lamond e tudo que é turista havia de querer vê-Ia.

- Nosso balão não é tão grande assim para que você  possa fazer uma coisa dessas, José. Parece, porém, que estamos mudando de direção. Ainda bem! Os duendes do lugar  são muito amáveis. Estão soprando um ventinho sudeste que  nos vai fazer voltar ao caminho certo.

Efetivamente, o Vitória retomou direção mais para o norte  e no dia vinte, de manhã, passou por cima de intrincada  rede de canais, de torrentes e de rios: o emaranhamento completo dos afluentes do Níger. Alguns desses canais, cobertos  de relva espessa, tinham a aparência de viçosos prados. Foi  aí que o doutor encontrou o caminho de Barth, quando este embarcou no rio para descer até Tombuctu. Com a largura  de mil e seiscentos metros, o Níger corria entre duas margens  abundantes em crucíferos e tamarindos. Rebanhos saltitantes  de gazelas, com chifres espiralados, metiam-se pela relva crescida, onde crocodilos silenciosos estavam à espreita.

Longas filas de jumentos e camelos, carregados de mercadorias de Jenné, mergulhavam sob aquelas árvores magníficas. Depois surgiu um anfiteatro de casas baixas numa volta  do rio. Nos terraços e nos tetos estava amontoada toda a forragem colhida nos arredores.

- É Cabral - bradou alegremente o doutor. É o porto de Tombuctu. A cidade não dista dez quilômetros daqui!  - Está tão contente, meu amo? - perguntou José, Encantado, meu rapaz.

- Bem, tanto melhor assim.

Com efeito, daí a duas horas a rainha do deserto, a misteriosa Tombuctu, que teve, como Atenas e Roma, as suas  escolas de sábios e as suas cátedras de filosofia, patenteou-se  aos olhos dos viajantes. Fergusson seguia-lhes todos os pormenores no plano traçado pelo próprio Barth, comprovando-lhe a extrema exatidão.

A cidade forma vasto triângulo, em enorme planície de  areia branca. A ponta dirige-se para o norte e corta uma orla  do deserto. Nada nos arredores, a não ser algumas gramíneas, mimosas anãs e arbustos raquíticos. Quanto ao aspecto de Dir-se-ia que eram ruínas lendárias de imensa cidade da Idade Média...

Tombuctu, imagine-se um amontoado de dados e bolas de  bilhar. É o efeito que produz vista de cima. As ruas, bastante estreitas, são ladeadas de casas de um só pavimento, construídas de tijolos cozidos ao sol e de choças de palha  e caniços, estas cônicas e aquelas quadradas. Nos terraços,  vêem-se indolentemente estendidos alguns habitantes com as  suas roupas coloridas, de lança ou mosquete na mão. Mulheres não há, a essa hora do dia.

- Mas dizem que são bonitas - acrescentou o doutor.  Lá estão as três torres das três mesquitas, únicas que restam  de um grande número. A cidade perdeu muito do seu antigo esplendor! No vértice do triângulo, ergue-se a mesquita de  Sancore, com as suas galerias mantidas por arcadas de desenho bastante puro. Mais além, perto do bairro de SaneGungu, a mesquita de Sidi-Yahia e algumas casas de dois  andares. Não busqueis palácios ou monumentos. O xeque é  simples traficante e a sua morada real um balcão.

- Parece-me que estou vendo muralhas meio demolidas  - disse Kennedy.

- Foram destruídas pelos fulanas em 1825. A cidade era  então três vezes maior, pois Tombuctu, desde o século XI  objeto de cobiça geral, pertenceu sucessivamente aos tuaregues, aos sonraianos, aos marroquinos e aos fulanas. E esse  grande centro de civilização, onde um sábio como AkmedBaba possuía, no século XVI, biblioteca de mil e seiscentos manuscritos, não passa hoje de entreposto de comércio da África  Central.

A cidade parecia, efetivamente, abandonada. Revelava  o descuido epidêmico das cidades que decaem. Imensas ruínas se amontoavam nos subúrbios e formavam com a colina do mercado os únicos acidentes do terreno. A passagem do  Vitória, houve certo alvoroço e batidas de tambor. Contudo,  foi tão rápida que mal deu tempo para que o último sábio  da cidade corresse para observar o novo fenômeno. Os viajantes, impelidos pelo vento do deserto, retomaram o curso  sinuoso do rio e dentro em pouco Tombuctu era apenas mais uma das rápidas lembranças daquela viagem.

- E agora - disse o doutor - que Deus nos leve para  onde melhor entender.

- Contanto que seja para oeste! - replicou Kennedy.

- Oral - interveio José - ainda que fosse preciso voltar  a Zanzibar pelo mesmo caminho, ou atravessar o oceano até  à América, isso não me assustaria!

- Em primeiro lugar era preciso que fosse possível, José.

- E que nos falta para isso?

- Gás, meu amigo. A força ascensional do balão diminui  sensivelmente, e teremos de fazer grandes economias para que  ele nos leve até à costa. Serei mesmo obrigado a jogar lastro fora. Estamos pesando demais.

- Eis aí o resultado de não fazer coisa alguma, meu  amo! Ficando o dia inteiro estendido como ociosos na rede,  a gente engorda e torna-se mais pesada. A nossa é uma viagem de preguiçosos e no regresso estaremos horrorosamente  gordos e flácidos.

- São reflexões bem dignas de José - volveu o caçador.  Mas espere até ao fim. Sabe porventura o que o céu nos reserva? Estamos ainda longe do termo da viagem. Onde imagina ir encontrar a costa de África, Samuel?

- Teria grande dificuldade em responder-lhe, Ricardo.  Estamos à mercê de ventos muito variáveis, mas enfim ficaria contente se chegasse entre Serra-Leoa e Portendique. Há ali certo ponto onde encontraríamos amigos.

- Seria um prazer apertar-lhes a mão. Mas seguimos pelo  menos a direção desejada?

- Não muito, Ricardo. Observe a agulha magnética.  Estamos indo para o sul e subindo de novo para as nascentes  do Níger.

- Seria uma excelente ocasião de descobri-las - disse  José -, se elas não estivessem já descobertas. Não seria possível encontrar-lhe outras?

- Não, José, mas sossegue, espero não ter de ir até lá.

Ao cair da noite, o doutor jogou fora os últimos sacos  de lastro e o Vitória elevou-se. O maçarico, embora funcionando com toda a chama, mal conseguia mantê-lo. Achavam-se então a cento e vinte quilômetros ao sul do Tombuctu e, no dia seguinte, acordaram nas margens do Níger,  não longe do lago Debo.

Até mesmo searas, para impedir o vôo desses insetos, mas as  primeiras vagas atiram-se às chamas, extinguem-nas pela sua  massa, e o resto da nuvem passa irresistivelmente. Por felicidade, nestas terras há uma espécie de compensação para os  seus estragos: os indígenas recolhem os insetos aos milhares  e comem-nos com grande prazer.

- São os melhores camarões do ar - observou José, lamentando não os ter provado, para informar-se a respeito.

Ao cair da tarde, o terreno tornou-se mais pantanoso.  Grupos isolados de árvores substituíam as florestas. Viam-se  nas margens do rio algumas plantações de tabaco e brejos  de plantas para forragem. Numa grande ilha apareceu então  a cidade de Jenné, com as duas torres de sua mesquita de  terra e o cheiro infecto que partia de milhões de ninhos de  andorinhas que se acumulavam nas paredes.

Algumas copas de baobás, de mimosas e de tamareiras  irrompiam entre as casas. A atividade parecia muito grande,  mesmo à noite. Jenné é com efeito cidade de muito comércio. Acode a todas as necessidades de Tombuctu. As barcas no  rio e as caravanas através dos caminhos sombreados transportam as diversas produções de sua indústria.

- Se nossa viagem não atrasasse - disse o doutor -, eu  teria tentado descer na cidade. Talvez encontrássemos algum  árabe habituado a viagens à França e à Inglaterra e já conhecedor do nosso gênero de locomoção. Mas não seria prudente.

- Nossa visita ficará para a próxima excursão - disse  José, rindo.

- Aliás, se não me engano, meus amigos, o vento está  começando a soprar do leste. Não vamos perder esta oportunidade.

O doutor lançou fora alguns objetos inúteis, garrafas  vazias e uma caixa de carne que já não serviam para nada,  logrando manter o Vitória em zona favorável aos seus intuitos.  As quatro horas da manhã, os primeiros raios de sol iluminaram Sego, capital de Bambarra, perfeitamente reconhecível  pelos quatro bairros que a compõem, as mesquitas mouriscas  e o vaivém incessante das barcaças que transportam os viajantes para os diversos pontos. Mas os viajantes não foram avistados, nem puderam ver, levados, rapidamente, em direção  ao noroeste, o que .tranqüilizou um pouco o doutor.

- Mais dois dias nesta direção - disse ele - e na marcha  em que vamos alcançaremos o rio Senegal.

- E estaremos em país amigo? - perguntou o caçador.

- Não inteiramente, mas se o Vitória viesse a falhar poderíamos chegar a possessões francesas! Se ele se mantiver por  mais algumas centenas de quilômetros, chegaremos sem canseiras, sem temores e sem perigos à costa ocidental.

- E tudo acaba! - exclamou José. Tanto pior! Se não  fosse pelo gosto de contar a viagem, não desejaria mais pôr  pé em terra. O senhor acha que irão acreditar nas nossas  aventuras, meu amo?

- Quem sabe, bravo José! Em todo o caso há um fato  incontestável: mil testemunhas nos viram partir de uma costa  da África, algumas hão de ver-nos chegar do outro lado.

- Neste caso - interveio Kennedy -, parece-me difícil  dizer que não fizemos a travessia.

- Ah! Senhor Samuel! - tornou José com um fundo suspiro - nunca me conformarei com a perda dos meus pedregulhos de ouro maciço! É uma coisa que daria autoridade  à nossa história e verossimilhança aos nossos relatos. A um  grama de ouro por ouvinte, arranjaria uma bela multidão  para ouvir-me e até para admirar-me! 

 

PARADA ACIMA DE UM BOSQUE 

A vinte e sete de maio, pelas dez horas da manhã, A região apresentou-se com novo aspecto. As extensas rampas mudavam-se em colinas fazendo prever montanhas próximas. Tinham de transpor a cadeia que separa o vale do Niger do  vale do Senegal e determina o escoamento das águas tanto  para o golfo de Guiné como para a baía de Cabo Verde.  Até ao Senegal, essa parte da África é tida como perigosa.  O doutor Fergusson sabia-o pelos relatos dos seus antecessores,  que haviam sofrido mil privações e corrido mil perigos entre os negros bárbaros. O clima funesto devorou a maior parte  dos companheiros de Mungo-Park. Fergusson estava, portanto,  mais do que decidido a não descer naquela terra inóspita.

Mas não teve um momento de descanso. O Vitória baixava de maneira sensível e foi preciso desfazer-se de outra  porção de objetos mais ou menos inúteis, sobretudo quando tiveram de passar uma crista. E foi assim durante mais duzentos quilômetros. Cansaram-se de subir e de descer. O balão, novo rochedo de Sísifo, recaía incessantemente, e as forIrias do aeróstato, já um pouco murcho, distendiam-se mais.  O vento cavava-lhe extensas depressões no invólucro meio flácido.

Kennedy não pôde deixar de fazer uma observação:  - Terá o balão alguma ruptura?

- Não - respondeu o doutor. Mas a guta-percha evidentemente amoleceu ou derreteu-se com o calor e o hidrogênio escapa através do tafetá.

- Não haverá meio de impedir a fuga?

- É impossível. Aliviar-nos é o único meio. Lancemos  fora tudo o que for dispensável.

- Mas o quê? - tornou o caçador, olhando a barca já  bem desguarnecida.

- Desembaracemo-nos do toldo, cujo peso é bastante considerável.

José, a quem a ordem dizia respeito, subiu ao círculo  onde se enfeixavam as cordas da rede e facilmente desprendeu  os pesados panos do toldo, jogando-os fora.

- Isto vai fazer a felicidade de toda uma tribo de negros  - disse ele. Há aí com que vestir um milheiro de indígenas,  que são bastante econômicos em matéria de pano.

O balão ergueu-se um pouco, mas logo se tornou claro  que voltava a aproximar-se do solo.

- Desçamos - propôs Kennedy - a ver o que se pode  fazer com o invólucro.

- Asseguro-lhe, Ricardo, que não temos meio algum de  consertá-lo.

Mas então que faremos?

- Sacrifiquemos tudo o que não for absolutamente indispensável. Quero a qualquer preço evitar descida nestas paragens. As florestas que estamos sobrevoando não oferecem  a menor segurança.

- Haverá leões, hienas? - atalhou José com desdém.

- Pior do que isso, meu rapaz: homens, e os mais cruéis  de toda a África.

- Como é que se sabe?

- Pelos viajantes que nos antecederam. Não estamos  muito longe do rio Senegal - acrescentou o doutor -, mas  prevejo que o nosso balão não nos levará até à outra margem.

- Se chegarmos à margem de cá - replicou o caçador -  já será vantagem.

- É o que estou tentando - volveu o doutor. Apenas  uma coisa me inquieta.

Qual?

 - Precisamos atravessar montanhas, e vai ser difícil porque não posso aumentar a força ascensional do aeróstato,  mesmo produzindo o maior calor possível.

- Esperemos, então, para ver o que sucede! - disse  Kennedy.

- Pobre Vitória! - exclamou José. Afeiçoei-me a ele  como marinheiro ao seu navio. Já não é o que era à partida,  concordo, mas não devemos desprezá-lo. Prestou-nos reais serviços e será para mim uma dor no coração abandoná-lo! - Sossegue, José. Se o abandonarmos será a contragosto  de todos. Há de servir-nos até ao extremo das suas fôrças.  Só lhe peço mais vinte e quatro horas.

- Está nas últimas! - tornou José, considerando-o.  Emagreceu, a vida foge-lhe. Pobre balão.

- Se não me engano - interveio Kennedy -, lá estão  no horizonte as montanhas de que falava, Samuel.

- São elas - respondeu o doutor depois de tê-las examinado com o óculo. Parecem-me muito altas e não vai ser  fácil transpô-las.

- Não poderíamos evitá-las?

- Creio que não, Ricardo. Repare a enorme extensão  que ocupam: quase metade do horizonte!

- Parece até que se apertam à volta de nós - disse José.  Avançam pela direita e pela esquerda.

- Necessitamos absolutamente passar-lhes por cima.

Os perigosos obstáculos pareciam aproximar-se com extrema rapidez ou, para melhor dizer, o vento muito forte  atirava o Vitória contra as agudos píncaros. Era preciso erguê-lo a todo o custo, sob pena de choque desastroso.

- Despeje a caixa-d'água - ordenou Fergusson. Guardemos apenas o necessário para um dia.

- Pronto! - respondeu José.

- Ergueu-se o balão? - perguntou Kennedy.

- Um pouco, talvez quinze metros - respondeu o doutor, que não tirava os olhos do barômetro. Mas ainda não  é bastante.

Com efeito, os altos picos aproximavam-se, dando a impressão de que os viajantes iam chocar-se com eles. Faltava  muito para sobrevoá-los, pelo menos duzentos metros. A reserva de água do maçarico foi igualmente jogada fora, conservando-se apenas alguns metros, mas isso também se revelou  insuficiente.

- Temos de passar - continuou o doutor.

- Lancemos fora as caixas, visto que já as esvaziamos -  sugeriu Kennedy.

- Pois seja.

- Pronto! - disse José. É triste irmo-nos assim desfazendo aos pedaços.

- Veja lá, José, não vá repetir a façanha do outro dia!  Suceda o que suceder, jure-me que não nos deixará!

- Fique tranqüilo, meu amo, não nos separaremos mais.

O Vitória conseguira subir cerca de quarenta metros, mas  a crista da montanha continuava sobranceira. Era uma aresta  a pique, elevando-se a mais de setenta metros acima dos viajantes.

- Dentro de dez minutos a nossa barca se despedaçará  contra aqueles rochedos, se não conseguirmos sobrevoá-los -  declarou o doutor.

- E então, senhor Samuel? - perguntou José.

- Guarde só a carne de conserva e jogue fora todo o  resto que pesa.

O balão foi deslastrado de mais vinte e cinco quilos,  erguendo-se razoavelmente, mas pouco adiantou visto isso não  lhe permitir ultrapassar a linha das montanhas. A situação  era medonha. O Vitória corria com grande velocidade e percebia-se que ia ficar reduzido a pedaços. O choque seria terrível.

O doutor olhou em redor de si na barca quase vazia.

Ah ! Samuel, Samuel!

Suas armas, suas reservas de pólvora e chumbo podem  custar-nos a vida!

- Estamos perto! - gritou José. Estamos perto!

Vinte metros! A montanha passava acima do Vitória  ainda vinte metros. José pegou as mantas e atirou-as fora.

Se for necessário, Ricardo, terá de sacrificar as suas  armas.

- As minha armas! - volveu o caçador emocionado.

 

Meu amigo, se eu pedir, é porque não há outro recurso. Sem dizer palavra, Kennedy lançou também vários saquinhos  de balas e de chumbo.

O balão subiu, venceu a perigosa crista e o seu pólo superior iluminou-se com os raios do sol. Mas a barquinha  achava-se ainda um pouco abaixo dos blocos de rocha, contra  os quais ia inevitavelmente despedaçar-se.

- Kennedy! Kennedy! - gritou o doutor. Jogue fora as  armas ou estamos perdidos.

- Espere um momento, senhor Ricardo - atalhou José -,  esperei E Kennedy, voltando-se, viu-o lançar-se fora da barca.  – José! - gritou ele – José! - Desgraçado! - exclamou o doutor.

A crista da montanha devia ter naquele ponto sete metros  de largura e do outro o declive era mais suave. A barca  chegou justamente ao nível daquele platô muito liso, raspando por um chão feito de calhaus agudos que pareciam  estalar a sua passagem.

- Estamos passando! Estamos passando! Passamos! - gritou uma voz que fez estremecer o coração de Fergusson.

O intrépido rapaz segurava-se com as mãos ao rebordo  inferior da barquinha, corria a pé sobre a crista, libertando  desse modo o balão da totalidade do seu peso. Via-se mesmo  obrigado a retê-lo fortemente, pois ele tendia a escapar-lhe.  Ao chegar à vertente oposta e quando o abismo se lhe apresentou debaixo dos pés, José, por vigoroso esforço dos braços,  tornou a erguer-se e, agarrando-se às cordas, saltou de novo  para junto dos companheiros.

- Nada há mais fácil - disse ele.

- Meu valente José! Meu amigo! - bradou o doutor  emocionado.

- Ora! O que eu fiz não foi pelo senhor e, sim, pela carabina do senhor Ricardo - redargüiu ele. Estava em débito com ele desde o caso do árabe! Gosto de pagar as minhas dividas e agora estamos quites - acrescentou, estendendo ao caçador a sua arma predileta. Lamentaria vê-los separarem-se.

Kennedy apertou-lhe fortemente a mão sem dizer palavra.

O Vitória só tinha agora que descer, o que não lhe era difícil, não demorando a encontrar-se a setenta metros do solo, onde ficou em equilíbrio. O terreno parecia convulsionado,  apresentando numerosos acidentes muito difíceis de evitar durante a noite, com um balão que já não obedecia. À noite  desceu de repente e apesar da sua contrariedade o doutor  não pôde deixar de parar.

- Vamos procurar lugar favorável - disse ele.

- Ah! - interveio Kennedy - sempre resolveu!

- Com efeito. Meditei longamente sobre o projeto que vamos pôr em prática. São apenas seis horas da tarde, teremos tempo. Lance as âncoras, José.

José obedeceu e as duas âncoras ficaram pendendo por  fora da barca.

- Vejo grandes florestas - disse o doutor. Vamos correr-lhe por cima até nos prendermos a alguma árvore. Por nada  deste mundo consentirei em passar a noite em terra.

- Então não vamos descer? - perguntou Kennedy.

- Para quê? Repito-lhe que seria perigoso separarmo-nos.  De resto, preciso de ambos para tarefa difícil.

O Vitória, que raspava os cimos da floresta imensa, não  tardou a parar de súbito, com as âncoras retidas. Como o  vento cedera ao entardecer, quase se imobilizou sobre aquele vasto campo de verdura formado pelas copas de uma floresta  de sicômoros.

 

O INCÊNDIO 

O doutor fergusson começou por levantar a sita posição, servindo-se da altura das estrelas e achou-se apenas a quarenta  quilômetros do Senegal.

- Tudo o que podemos fazer, amigos - disse ele depois  de haver anotado o seu mapa -, é passar o rio. Mas como  não há ponte nem barca, torna-se indispensável atravessá-lo  em balão, e para isso temos de alijar mais carga ainda.

- Não sei como o havemos de conseguir - respondeu  o caçador, temendo pelas suas armas - a não ser que um de  nós resolva sacrificar-se, ficando para trás... e agora cabe-me  esta honra.

- Ora essa! - atalhou José - eu já estou acostumado...

- Não quero dizer que qualquer um de nós se jogue  da barca, mas que alcance a pé a costa de África. Eu sou  bom andarilho, bom caçador...

- Não concordarei jamais! - replicou José.

- Essa luta de generosidade não adianta - tornou Fergusson. Espero que não cheguemos a tanto. Se isso fosse preciso, não iríamos separar-nos, antes ficaríamos juntos para atravessar este país.

- Bem, isso sim - volveu José. Um passeiozinho não nos  faria mal nenhum.

- Mas antes disso - continuou o doutor - vamos empregar o último recurso para aliviar o nosso Vitória.

- Qual? perguntou Kennedy. Estou bem curioso de  sabê-lo.

- Temos de desembaraçar-nos das caixas do maçarico, da  pilha de Bunsen e da serpentina. São quase quatrocentos e  cinqüenta quilos bem pesados a arrastar pelos ares.

- Mas, Samuel, como obterá depois a dilatação do gás?

- Não a obterei. Passaremos sem ela.

- Mas enfim...

- Ouçam, amigos, já calculei com toda a exatidão a força  ascensional que nos resta e encontrei-a suficiente para transportar-nos com os poucos objetos que nos restam. Totalizaremos apenas duzentos e cinqüenta quilos, incluídas as duas âncoras que pretendo conservar.

- Meu caro Samuel - tornou o caçador - você é mais  competente do que nós nessa matéria e o único juiz da situação. Diga o que devemos fazer e nós obedeceremos.

- Estou às suas ordens, meu amo.

- Repito-lhes, amigos, por muito grave que seja esta determinação, precisamos sacrificar o nosso aparelho.

- Pois sacrifiquemo-lo! - disse Kennedy.

- Mãos à obra! - gritou José.

O trabalho não era fácil. Precisaram desmontar o aparelho peça por peça. Tiraram primeiro a ânfora de mistura,  depois a caixa do maçarico e por fim o dispositivo onde se  operava a decomposição da água. Para arrancar os recipientes  do fundo da barca, onde estavam solidamente encravados, os  três viajantes tiveram de empregar as suas fôrças conjuntas.  Mas Kennedy era tão vigoroso, José tão hábil e Samuel tão  engenhoso que tudo saiu bem. As diversas peças foram sucessivamente jogadas fora, desaparecendo através de largos buracos abertos na folhagem dos sicômoros.

Em seguida, passaram a ocupar-se dos tubos instalados no  balão e que se ligavam à serpentina. José conseguiu cortar alguns centímetros acima da barca as articulações de borracha, mas, no que se refere propriamente aos tubos, foi mais difícil,  pois estavam seguros pela extremidade superior e presos por  fios de latão ao círculo da válvula.

Foi então que José mostrou a sua extraordinária agilidade. Descalço, para não prejudicar o invólucro, logrou, com  o auxílio da rede e apesar das oscilações, subir até ao cume exterior do aeróstato, e lá, após mil dificuldades, seguro com  uma das mãos na superfície escorregadia, desprendeu as porcas externas que retinham os tubos. Estes deslocaram-se então facilmente e foram retirados pelo apêndice inferior, hermeticamente fechado por meio de forte ligadura.

Um circulo de fogo envolvia o Vitória...

O Vitória, aliviado daquele peso considerável, ergueu-se  no ar esticando fortemente a corda da âncora.

A meia-noite, os trabalhos estavam felizmente terminados,  embora à custa de grandes fadigas. Fizeram à pressa ligeira  refeição de conservas e grogue frio, pois Fergusson já não dispunha de calor para colocar à disposição de José.

Aliás, tanto ele como Kennedy estavam a cair de cansaço.

- Deitem-se e durmam, amigos - disse-lhe Fergusson.

Eu farei o primeiro quarto. Às duas horas acordarei Kennedy o às quatro Kennedy acordará José. Às seis horas partiremos, o que Deus vele por nós durante esta última jornada!

Sem se fazerem rogar, os dois companheiros do doutor  estenderam-se no fundo da barca e adormeceram de um sono  tão rápido quanto profundo.

A noite era serena. Algumas nuvens destacavam-se contra o último quarto da lua, cujos raios débeis mal rompiam  a escuridão. Fergusson, acotovelado à borda da barca, passeava os olhos em redor. Vigiava com atenção a negra cortina de folhagem estendida a seus pés e que lhe impedia  a vista do chão. O menor ruído parecia-lhe suspeito e ele  procurava interpretar até o mais ligeiro frêmito da ramaria.

Em verdade, aquela situação nada oferecia de tranqüilizadora, numa região bárbara e com meio de transporte que  no fim de contas podia falhar de um momento para outro.  O doutor já não podia contar, inteiramente, com o seu balão.  Já se fora o tempo em que o manobrava com audácia, certo  da sua obediência.

Dominado por estas impressões, imaginava por vezes surpreender rumores indeterminados na vasta floresta. Pareceu-lhe, mesmo, ver brilhar entre as árvores rápido clarão e,  olhando vivamente, assestou o seu óculo noturno. Mas nada  avistou e até se fez silêncio mais profundo.

Fora decerto alucinação. Aplicou o ouvido sem perceber o  menor barulho e, como o tempo do seu quarto tivesse passado, acordou Kennedy, recomendou-lhe a maior vigilância o foi estender-se ao lado de José, que dormia profundamente.

Kennedy acendeu o cachimbo com pachorra, esfregando  os olhos que mal podia conservar abertos, acomodou-se a um  canto e pôs-se a fumar com energia para expulsar o sono.

Reinava à sua volta o mais completo silêncio. Um vento  leve agitava as copas das árvores e balançava docemente a  barca, convidando o caçador a um sono que a seu pesar o dominava. Ainda quis resistir-lhe, abriu várias vezes as pálpebras, enviou à escuridão alguns desses olhares que já nada  vêem e, por fim, sucumbindo à fadiga, adormeceu.

Quanto tempo ficou mergulhado naquele estado de inércia? Não o podia saber ao acordar subitamente, estremunhado  por crepitação inexplicável.

Esfregou os olhos e levantou-se com forte calor no rosto.  A floresta estava em chamas.

- Fogo! Fogo! - gritou ele sem compreender ainda bem  o que se passava.

Os dois companheiros levantaram-se.  - Que há? - perguntou Samuel.

- Um incêndio! - bradou José. Mas quem pôde...  Naquele momento explodiram uivos sob a folhagem violentamente iluminada.

- Ah! Foram os selvagens! - gritou José. Incendiaram  a floresta para queimar-nos com mais segurança!

- Devem ser os Talibas! - disse o doutor.

Um círculo de fogo envolvia o Vitória. O crepitar da  madeira seca misturava-se ao ranger dos ramos verdes. As  lianas e as folhas, toda a parte viva da vegetação se estorcia  em meio ao elemento destruidor. O olhar contemplava aperias um oceano de chamas. As árvores destacavam-se em preto  naquela fornalha, com a ramaria bordada de carvões incandescentes e o conjunto ígneo, o imenso braseiro refletia-se nas  nuvens, envolvendo os viajantes como em esfera de fogo.

- Fujamos! - berrou Kennedy - para terra! Mas Fergusson deteve-o com mão firme e correndo para  a corda da âncora cortou-a com um golpe de machado. As  labaredas estendiam-se para o balão, lambendo-lhe já as paredes iluminadas, mas o Vitória livre das amarras subiu nos  ares mais de trezentos metros. Gritos espantosos ressoaram na  floresta, seguidos de numerosas detonações de armas de fogo.  O balão, levado por corrente que soprava com o romper do  dia, afastou-se para oeste.

Eram quatro horas da manhã.

 

O RIO SENEGAL

 Se não tivéssemos tido a precaução de nos aliviarmos  ontem à noite - comentou o doutor, estaríamos agora perdidos sem remédio!

- É o resultado de se fazerem as coisas a tempo - replicou José. Acabamos salvando-nos e não há nada mais natural.

- Ainda não estamos fora de perigo - volveu Fergusson.  - Que receia mais? - perguntou Ricardo. O Vitória não pode descer sem sua licença. E se descesse?  - Se descesse, Ricardo? Olhe!

Acabavam de passar a orla da floresta e os viajantes puderam avistar cerca de trinta cavaleiros de largas calças e  albornozes ondeantes. Estavam todos armados, uns com lanças e outros com longos mosquetes, seguindo ao ligeiro galope dos seus cavalos fogosos na esteira do Vitória, que avançava em marcha moderada. Ao verem os viajantes, soltaram  gritos selvagens, brandindo raivosamente as armas. A cólera  e as ameaças transpareciam nos rostos morenos, tornados mais  ferozes por uma barbicha rala, mas eriçada, e atravessavam sem dificuldades as planuras e brandos declives que descem  para o Senegal.

- São realmente os ferozes talibas! - tornou o doutor.  Antes queria estar em plena floresta, no meio de um círculo  de feras, do que cair nas mãos desses bandidos!

- Não parecem muito tratáveis! - interveio Kennedy -  e são uns latagões de causar respeito!

- Felizmente essas feras não voam - observou José.  Sempre é alguma coisa.

- Vejam - tornou Fergusson -, aldeias em ruínas, cabanas incendiadas! Tudo isso é obra deles! - Enfim, não nos podem alcançar - teimou Kennedy -,  e se conseguirmos meter o rio de permeio estaremos em segurança.

- Com efeito, Ricardo, mas para isso é indispensável não cairmos - respondeu o doutor, lançando os olhos ao barômetro.

- De qualquer modo, José - volveu Kennedy -, não será mau irmos preparando as nossas armas.

- Não há dúvida, senhor Ricardo, e agora aparece a  vantagem de as não termos jogado fora no caminho.

- Ah! Minha carabina! - bradou o caçador - espero  nunca me separar de ti! E Kennedy pôs-se a carregá-la com todo amor. Tinha  ainda pólvora e balas em quantidade suficiente.

- A que altura estamos? - perguntou ele a Fergusson.

- Mais ou menos a duzentos e cinqüenta metros, mas  já não temos a faculdade de procurar correntes favoráveis,  subindo ou descendo. Estamos à mercê do balão.

- É pena - volveu Kennedy. O vento é bem fraco, e se  encontrássemos um furacão igual ao de dias passados há muito  esses bandidos nos teriam perdido de vista.

- Os malditos nos vêm seguindo facilmente a pequeno  trote - disse José. Como se fosse num passeio.

- Se os tivesse ao meu alcance, havia de divertir-me a  desmontá-los um após outro - acrescentou o caçador.

- Que está dizendo! - exclamou Fergusson. Nesse caso  também nós ficaríamos ao alcance deles e -o nosso Vitória seria  alvo excelente para as balas dos seus compridos mosquetes. E  se conseguissem vará-lo, bem pode calcular a nossa situação!

A perseguição dos talibas continuou toda a manhã. Pelas onze horas, os viajantes mal tinham feito trinta quilômetros  para oeste.

O doutor espreitava as menores nuvens no horizonte, temendo sempre mudança atmosférica. Se fosse repelido para o Níger, que seria dele? Por outro lado, verificava que o balão tendia a baixar assustadoramente. Depois da saída já haviam  perdido mais de cem metros, e o Senegal devia distar vinte e  cinco quilômetros. Na velocidade em que iam, precisavam ainda de três longas horas de viagem.

Naquele momento, novo alarido chamou-lhe a atenção.  Os talibas apressavam-se, esporeando os cavalos. O doutor  consultou o barômetro e percebeu a causa daquela agitação.

- Estamos descendo? - perguntou Kennedy.

- Estamos - respondeu Fergusson.

- Diabo! - pensou José.

Um quarto de hora depois, a barca não estava a mais de cinqüenta metros do solo, mas o vento soprava com mais  força. Os talibas fustigaram os cavalos e não demorou que  uma descarga de mosquetes explodisse nos ares.

- Ainda estão muito longe, idiotas! - gritou José. Mas  acho bom ir mantendo esses patifes à distância.

E visando um dos mais avançados cavaleiros, disparou.  O taliba rolou no chão, os companheiros estacaram e o Vitória  pede adiantar-se.

- São prudentes! - notou Kennedy.

- Porque estão certos de apanhar-nos - volveu o doutor -, e vão consegui-lo se continuarmos a descer. Precisamos absolutamente subir!

- Que mais havemos de jogar fora? - perguntou José.

- Tudo o que resta de carne em conserva. São mais  quinze quilos de que nos desembaraçamos.

- Pronto, senhor! - disse José, obedecendo às ordens  do amo.

A barquinha, que quase raspava o chão, elevou-se em  meio aos gritos dos talibas, mas daí a meia hora o balão tornava a descer velozmente com o gás escapando pelos poros do  invólucro. A barca não tardou a tocar no chão. Os negros  Al-Hadji correram, mas, como sempre acontece em casos desses, o Vitória, mal tocou em terra, deu um pulo e foi cair outra vez dois quilômetros adiante.

- Não conseguiremos escapar! - disse Kennedy furioso.

- Lance fora à reserva de aguardente, José - gritou o  doutor -, os instrumentos e tudo quanto representa algum  peso, até a âncora, visto que assim é preciso!

José arrancou os barômetros e os termômetros, mas isso  era pouco, e o balão, que subira um momento, logo voltou  a cair. Os talibas voavam-lhe no encalço, não distantes mais  de duzentos passos.

- Jogue fora as espingardas! - gritou o doutor.

- Não pelo menos antes de as ter descarregado - respondeu o caçador.

E quatro tiros sucessivos fenderam a massa dos cavaleiros, onde quatro talibas tombaram em meio aos gritos frenéticos do bando.

O Vitória tornou a erguer-se. Dava saltos enormes como  imensa bala elástica ricocheteando no chão. Singular espetáculo o daqueles desventurados tentando fugir em gigantescas passadas e que, à maneira de Anteu, pareciam readquirir  novas fôrças cada vez que tocavam terral Mas uma tal situação não podia prolongar-se. Era quase meio-dia. O Vitória esgotava-se, esvaziava-se, adelgaçava-se, o invólucro ia-se tornando flácido e flutuante, as pregas do tafetá já se esfregavam umas nas outras.

O céu abandona-nos! - disse Kennedy.  José não respondeu, observando o amo.

- Não - volveu este. Temos ainda setenta e cinco quilos a jogar fora.

- O quê? perguntou Kennedy, julgando que o doutor  enlouquecera.

- A barca - respondeu este. Agarremo-nos à rede! Podemos pendurar-nos nas malhas e alcançar o rio. Depressa,  depressa!

E aqueles homens corajosos não hesitaram em tentar semelhante meio de salvação. Seguraram-se às malhas da rede,  como ensinara o doutor, e José, agüentando-se com uma só mão, cortou as cordas da barquinha, a qual tombou no justo  momento em que o aeróstato ia definitivamente abater-se.

- Hurra! hurra! - gritou ele, enquanto o balão deslastrado subia cem metros no ar.

Os talibas fustigavam cada vez mais os cavalos, correndo  em desfilada, mas o Vitória, achando vento mais ativo, ultrapassou-os de muito e rompeu em direção a uma colina que barrava o horizonte a oeste. Foi uma circunstância favorável  para os viajantes, que puderam transpô-la enquanto a horda  de Al-Hadjis era forçada a contornar pelo norte o derradeiro  obstáculo.

Os três amigos mantinham-se agarrados à rede, que haviam conseguido amarrar por baixo e formava agora uma espécie de bolsa flutuante. Bruscamente, uma vez transposta  a colina o doutor gritou:

- O rio! O rio! O Senegal!

Com efeito, quatro quilômetros adiante, rolava extensa  massa de água. A margem oposta, baixa e fértil, oferecia retiro seguro e ponto favorável para operar a descida.

- Mais um quarto de hora - acrescentou Fergusson - e  estaremos salvos!

Mas não havia de ser assim. O balão vazio caía pouco  a pouco em terreno quase inteiramente desprovido de vegetação. Eram grandes declives e planos pedregosos. Apenas algumas moitas e erva densa e ressequida pelos ardores do sol.

Várias vezes o Vitória tocou o chão e ergueu-se. Seus  pulos diminuíam de altura e extensão. Por fim, prendeu-se  pela parte de cima da rede aos ramos de um baobá, única árvore isolada em meio àquela região desértica.  - É o fim - disse o caçador.

- E a cem passos do rio! - lamentou José.

Os três infelizes desceram e o doutor arrastou os dois  companheiros para o Senegal. Naquele ponto o rio fazia ouvir  mugido prolongado, e, ao chegar à margem, Fergusson reconheceu as quedas de Gouinal. Nenhum barco no rio, nenhum  ser animado! Numa largura de setecentos metros o Senegal  precipitava-se de altura de cinqüenta, com ruído ensurdecedor.  Corria de leste para o este, e a linha de rochedos que lhe  barrava o curso estendia-se de norte para sul. No meio da  queda erguiam-se penedos de forma estranha, como imensos  animais antediluvianos petrificados no meio das águas.

A impossibilidade de atravessar aquele abismo era evidente. Kennedy não pôde conter um gesto de desespero, mas  o doutor Fergusson, com tom de audácia na voz, gritou:

- Nem tudo está perdido!

- Eu bem sabia! - respondeu José, com aquela confiança no amo que jamais o abandonava.

A vista daquela erva ressequida inspirara ao doutor ousada idéia, que era a única esperança de salvação. Arrastou  outra vez os companheiros para o invólucro do aeróstato.

- Temos pelo menos uma hora de avanço sobre aqueles  bandidos - disse ele - e, portanto, amigos, não podemos  perder tempo. Apanhem grande quantidade de ramos secos, necessito de pelo menos cinqüenta quilos dela. Não tenho  mais gás? Pois bem1 atravessarei o rio com ar quente!

- Ah! Meu valente Samuel! - exclamou Kennedy - você  é verdadeiramente um grande homem!

José e Kennedy lançaram-se ao trabalho e em breve um  monte enorme foi empilhado junto ao baobá.

Enquanto isso o doutor aumentara o orifício do aeróstato, cortando-o na sua parte inferior, tendo o cuidado prévio  de fazer sair pela válvula tudo o que lá restava de hidrogênio.  Em seguida, amontoou certa quantidade de galhos secos sob  o invólucro e pôs-lhe fogo. Pouco tempo se necessita para  encher um balão com ar quente. Uma temperatura de cem  graus centígrados basta para reduzir de metade o peso de ar  que ele encerra, rarificando-o. O Vitória começou assim a retomar notoriamente a sua forma arredondada. Não faltavam ramos, o lume ativava-se pelos cuidados do doutor e o  aeróstato crescia . olhos vistos. Era então uma hora menos  um quarto.

Naquele momento, quatro quilômetros ao norte surgiu o  bando dos talibas cujos gritos se ouviam, bem como o galope dos cavalos lançados a toda brida.

- Dentro de vinte minutos estarão aqui - disse Kennedy.

- Lenha! Lenha, José! daqui a dez minutos estaremos  em pleno ar! - Pronto, meu amo!

O Vitória estava com dois terços do seu volume.

- Amigos, agarremo-nos outra vez à rede!

- Cá estamos! - respondeu o caçador.

Ao fim de dez minutos, algumas sacudidelas do balão  indicaram a sua tendência para subir. Os talibas aproximavam-se, vinham apenas a quinhentos passos.

- Segurem-se bem! - gritou Fergusson.

- Não tenha receio, meu amo! não tenha receio!

E com o pé o doutor empurrou para a fogueira novo  monte de galhos.

O balão, completamente dilatado pelo aumento de temperatura, elevou-se raspando pela ramaria do baobá.

- A caminho! - bradou José.

Respondeu-lhe descarga de mosquetes, uma bala aflorou-lhe mesmo o ombro. Mas Kennedy, inclinando-se e disparando a sua carabina, jogou por terra mais um inimigo.  Gritos de ódio impossíveis de descrever acolheram a fuga do  aeróstato, que subiu a cerca de duzentos e cinqüenta metros.  Um vento rápido apanhou-o, forçando-o a algumas inquietadoras oscilações, enquanto o intrépido doutor e seus companheiros contemplavam o abismo das cataratas que se lhes  abria sob os olhos. Dez minutos depois, sem haverem trocado uma palavra, os valentes aeronautas desciam lentamente para  a outra margem do rio.

Ali, surpreendido, maravilhado, espantado, via-se um  grupo de dez homens, envergando o uniforme francês. Imagine-se a admiração deles quando viram o balão erguer-se na margem direita do rio. Não estavam longe de acreditar em  fenômeno celeste. Mas os chefes, um tenente de marinha e um guarda-marinha, conheciam pelos jornais da Europa a audaciosa tentativa do doutor Fergusson e imediatamente compreenderam o que se passava.

O balão, desinflando-se pouco a pouco, caía com os ousados passageiros agarrados à rede e parecia duvidoso que pudessem alcançar a terra. Imediatamente os franceses correram  para o rio, recebendo os três ingleses nos braços no momento  em que o Vitória tombava a alguns metros da margem esquerda do Senegal.

- O doutor Fergusson? - berrou o tenente.

- Ele mesmo - respondeu pacatamente o doutor - e os  seus dois companheiros.

Os franceses conduziram os viajantes para além do rio,  enquanto o balão, quase vazio, levado por corrente rápida,  foi como uma bola imensa precipitar-se, com as águas do Senegal, nas cataratas de Gouina.

- Pobre Vitória! - exclamou José.

O doutor não pôde conter uma lágrima, abriu os braços  e seus dois amigos correram para ele, sob o império de forte  emoção.

 

CONCLUSÃO 

A expedição que se encontrava ás margens do rio fora  enviada pelo governador do Senegal. Compunha-se de dois  oficiais, senhor Dufraisse, tenente de infantaria naval, e Rodamel, guarda-marinha, e de mais um sargento e sete soldados.  Havia dois dias que se ocupavam na escolha do lugar mais  propicio para o estabelecimento de posto em Gouina, quando  foram testemunhas da chegada do doutor Fergusson.

Pode-se facilmente fazer idéia das felicitações e dos abraços que foram prodigalizados aos três viajantes. Os franceses,  que tinham podido controlar pessoalmente a realização do audacioso projeto, tornavam-se as testemunhas naturais de Samuel Fergusson. O doutor solicitou antes de tudo que atestassem oficialmente a sua chegada às cataratas de Gouina.

- Têm alguma objeção em assinar um relatório? - perguntou ele ao tenente Dufraisse.

- Absolutamente. Estamos às suas ordens - respondeu  este.

Os ingleses foram levados a um posto provisório estabelecido nas margens do rio. Foram alvo das maiores atenções  e puderam alimentar-se lautamente. Foi redigido, então, nos seguintes termos, o relatório que figura hoje nos arquivos  da Sociedade Geográfica de Londres.

"Nós, abaixo assinados, declaramos que nesta data vimos chegar, suspensos à rede de um balão, o doutor Fergusson e seus companheiros, Ricardo Kennedy e José Uílson, balão este que caiu a alguns passos de distância, no leito do rio, e foi  levado pela correnteza para as cataratas de Gouina. Em testemunho de verdade, assinamos o presente, juntamente com  os acima mencionados, para fins de direito. Redigido nas  cataratas de Gouina, em vinte e quatro de maio de 1862.

Samuel Fergusson; Ricardo Kennedy; José Uílson; Dufraisse, tenente de infantaria naval; Rodamel, guarda-marinha; Dufays, sargento Flippeau, Mayor, Pélissier, Lorois, Rascagnet, Guillon, Lebel, soldados.”

Aqui termina a assombrosa viagem do doutor Fergusson  e de seus corajosos companheiros, comprovada por testemunhas incontestáveis. Achavam-se eles agora entre amigos, no meio de tribos hospitaleiras, cujas relações são freqüentes com  estabelecimentos franceses.

Haviam chegado ao Senegal no sábado, vinte e quatro  de maio, e a vinte e sete do mesmo mês atingiram o posto  de Medina, situado um pouco mais ao norte na margem do rio.

Os oficiais franceses os receberam como hóspedes insignes,  dispensando-lhes toda sorte de atenções e delicadezas. O doutor e os companheiros puderam embarcar quase imediatamente no pequeno navio a vapor, o Basilic, que descia até  a foz do Senegal.

Catorze dias depois, chegaram a São Luís, onde o governador os acolheu magnificamente. Achavam-se então já completamente restabelecidos das emoções e do cansaço. Aliás,  José dizia a quem quisesse ouvi-lo:

- Afinal de contas, foi uma viagem sem grandes sensações. Não a aconselho a quem ama emoções. No final,  tornou-se até fastidiosa. Se não fossem as aventuras do lago Tchad e do Senegal, teríamos morrido de tédio! Uma fragata inglesa estava prestes a partir e os três viajantes tomaram passagem a bordo. A vinte e cinco de junho  chegaram a Portsmouth e no dia seguinte a Londres.

Não descreveremos o acolhimento que lhes fez a Sociedade Real de Geografia, nem as homenagens a eles tributadas.  Kennedy partiu imediatamente para Edimburgo com a sua famosa carabina. Tinha pressa de tranqüilizar a sua velha  governanta.

O doutor Fergusson e seu fiel José continuaram a ser os  mesmos homens que conhecemos. Uma mudança, entretanto,  se operara neles, sem que o percebessem.

Tinham-se tornado amigos.

Os jornais da Europa inteira não pouparam elogios aos  audazes exploradores e o Daily Telegraph fez tiragem de novecentos e setenta e sete mil exemplares no dia em que publicou o resumo da viagem.

O doutor Fergusson, em sessão pública, na Sociedade  Real de Geografia, fez o relato de sua expedição aeronáutica  e obteve, para ele e os dois companheiros, a medalha de ouro destinada a galardoar a mais notável exploração do ano de  1662.

 

                                                                                            Julio Verne

 

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades