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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


COCAINA / Robin Cook
COCAINA / Robin Cook

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

COCAINA

 

A cocaína irrompeu na veia antecubital de Duncan Andrews numa avalancha concentrada, depois de impelida pelo êmbolo de uma seringa. Soaram imediatamente alarmes Químicos. Numerosas células do sangue e enzimas de plasma reconheceram as moléculas de cocaína como pertencentes a uma família de compostos denominados alcalóides, manufacturados por fábricas, que incluem substâncias fisiologicamente activas como cafeína, morfina, estricnina e nicotina.

Numa tentativa desesperada, mas infrutífera, para proteger o corpo da súbita invasão, enzimas de plasma, chamadas colesterases, atacaram a cocaína e separaram algumas das moléculas intrusas em fragmentos fisiologicamente inertes. Mas a dose de cocaína era esmagadora. Em poucos segundos, avançava através do lado direito do coração e propagava-se aos pulmões, para se disseminar por todo o corpo de Duncan.

Os efeitos farmacológicos da droga começaram quase instantaneamente. Algumas moléculas da cocaína tombaram nas artérias coronárias e principiaram a contrai-las e a reduzir ofluxo de sangue ao coração. Ao mesmo tempo, a cocaína iniciava a difusão dos vasos coronários para o fluido extracelular e banhava as atarefadas fibras musculares do coração. Aí, o composto intruso começou a interromper o movimento de iões de sódio, através das membranas das células do coração, parte critica da função contráctil muscular deste último. O resultado consistiu no início da insuficiência da condutividade e contractilidade cardíacas.

Simultaneamente, as moléculas de cocaína espalharam-se pelo cérebro, depois de ascenderem ao crânio através das artérias carótidas. Como faca em manteiga, a cocaína atravessou a barreira do cérebro constituida pelo sangue. Uma vez dentro do cérebro, alagou as células cerebrais indefesas e introduziu-se em espaços chamados sinapses, através dos quais as células nervosas comunicavam. No interior das sinapses, a cocaína principiou a exercer os seus efeitos mais perversos. Tornou-se uma personificadora. Por irónica deformação do destino químico, uma porção exterior da molécula de cocaínafoi reconhecida erradamente pelas células nervosas como um neurotransmissor - epinefrína, norepinefrina ou dopamina. à semelhança de chaves-mestras, as moléculas de cocaína insinuaram-se nas bombas moleculares responsáveis pela absorção desses neurotransmissores, fecharam-nas e obrigaram-nas a parar subitamente.

O resultado era previsível. Como a reabsorção dos neurotransmissores estava bloqueada, o efeito estimulante destes últimos manteve-se. E a estimulação provocou a libertação de mais neurotransmissores numa espiral ascendente de excitação eufórica. Células nervosas, que normalmente regressariam ao repouso e à serenidade, passaram a explodir num autêntico frenesim.

O cérebro aumentou progressivamente de actividade, em particular os centros de prazer embebidos em profundidade abaixo do córtice cerebral, onde a dopamina era o principal neurotransmissor. Com uma predilecção perversa, a cocaína bloqueou as bombas de dopamina, cuja concentração se avolumou.

Circuitos de células nervosas, ligadas divinamente para garantir a sobrevivência da espécie, vibraram de excitação e encheram diferentes passagens de acesso ao córtice de mensagens extáticas.

Mas os centros do prazer não eram as únicas áreas afectadas do cérebro de Duncan - apenas algumas das primeiras. A faceta tenebrosa da cocaína não tardou a encetar os seus efeitos.

Filogeneticamente mais velhos, outros centros caudais do cérebro, que envolviam funções como a coordenação muscular e a regulação da respiração, passaram a ser afectados. A própria área termorreguladora começou a ser estimulada, assim como a parte do cérebro responsável pelos vómitos.

A situação era, por conseguinte, grave. No meio dofluxo de impulsos apraziveis, estava a gerar-se uma condição ominosa.

Formava-se no horizonte uma nuvem negra que augurava uma tempestade neurológica. A cocaína preparava-se para revelar a sua índole traiçoeira: um lacaio da morte disfarçado numa aura de prazer enganador.

 

 

A mente de Duncan Andrews funcionava a toda a velocidade, como um comboio desarvorado. Apenas um momento antes, estivera mergulhado numa letargia titubeante de drogado. Em escassos segundos, as vertigens e A apatia tinham-se evaporado como um gotejamento de água numa caçarola crepitante. Consumia-o um afluxo de euforia e energia que o fazia sentir-se subitamente poderoso. Afigurava-se-lhe que era capaz de tudo. Num fulgor de nova clareza, reconhecia-se infinitamente mais forte e sagaz do que jamais supusera. Mas quando principiava a saborear a cascata de pensamentos eufóricos e a visão iluminada das suas capacidades, passou a sentir-se dominado por intensas vagas de prazer. Teria gritado de alegria se a boca pudesse formar as palavras apropriadas. Mas não conseguia falar. Os pensamentos e as sensações repercutiam-se no espírito demasiado rapidamente para se vocalizarem. Qualquer receio ou desconfiança que tivesse experimentado poucos minutos antes fundia-se no novo deleite e êxtase.

No entanto, à semelhança do torpor, o prazer foi de curta duração. O sorriso de felicidade que se lhe formara no rosto converteu-se num esgar de terror. Uma voz advertiu-o de que as pessoas que temia se aproximavam. Os seus olhos esquadrinharam o aposento, dominados pelo pânico. Não viu ninguém, mas a voz prosseguiu a sua mensagem. Espreitou rapidamente por cima do ombro, para a cozinha. Estava deserta. Tornou a mover a cabeça e observou o corredor até ao quarto. Não viu ninguém, porém a voz persistia. Agora, murmurava uma predição mais terrível: ele ia morrer.

- Quem é você? - gritou, levando as mãos às orelhas, como se quisesse impedir o som de entrar. - Onde está? Como entrou?

- Os olhos voltaram a percorrer a sala com ansiedade.

A voz não respondeu. Ele não sabia que provinha do interior da sua cabeça. Descobriu, surpreendido, que estava deitado no chão da sala. Quando se levantava, o ombro colidiu com a mesa de café. A seringa que se cravara muito recentemente no seu braço rolou para o chão. Duncan olhou-a com um misto de ódio e pesar e estendeu a mão para a esmagar entre os dedos.

Imobilizou-se a curta distância dela. Os olhos arregalaram-se de confusão mesclada com um novo medo. Sentiu imediatamente a comichão inconfundível de centenas de insectos que rastejavam pelos braços. Desinteressou-se da seringa e estendeu as mãos, com as palmas voltadas para cima. Podia notar as pulgas que trepavam pelos membros, mas por mais que procurasse não conseguia vê-las. A pele parecia perfeitamente limpa. De súbito, a comichão propagou-se às pernas.

- Aaahhh! - uivou.

Tentou limpar os braços, imaginando que os insectos eram demasiado pequenos para que os pudesse ver, mas só conseguiu que a comichão se agravasse. Com um estremecimento de medo profundo, acudiu-lhe a ideia de que os organismos tinham de estar sob a pele. Haviam-lhe invadido o corpo. Talvez se encontrassem na seringa. Servindo-se das unhas, começou a coçar os braços, numa tentativa frenética para permitir que se escapassem. Estavam a devorá-lo por dentro. Passou a coçar com mais força, desesperadamente, e cravou as unhas na pele até que começou a sangrar. A dor era intensa, mas a comichão dos insectos muito pior.

Apesar do terror que eles lhe provocavam, parou de se coçar ao aperceber-se de um novo sintoma. Levantou a mão ensanguentada e viu que tremia. Baixou os olhos para o corpo e verificou que o tremor se generalizara e era cada vez mais intenso. Por um breve instante, considerou a possibilidade de marcar 911, para pedir auxílio. Ao mesmo tempo, porém, reparou noutra coisa. Estava quente. Não, estava a escaldar.

- Meu Deus! - conseguiu balbuciar, quando notou que a transpiração rolava pelo rosto.

Pousou a mão trémula na fronte - estava a arder! Tentou desabotoar a camisa, mas o tremor dos dedos não lho permitiu.

Impaciente e desesperado, rasgou-a com um puxão, despiu-a e largou-a no chão. Fez o mesmo às calças. Apesar de ficar apenas com as cuecas vestidas, continuava a sentir um calor sufocante. De repente, pôs-se a tossir, engasgou-se e vomitou num jacto irreprimível, que atingiu a parede por baixo de uma litografia assinada por Dali.

Cambaleou em direcção à casa de banho. Graças a um assomo de força de vontade, arrastou o corpo trémulo para debaixo do chuveiro e abriu a torneira de água fria. Permaneceu sob a cascata quase gelada, ofegante, respirando com dificuldade.

O alívio foi de curta duração. Escapou-se-lhe dos lábios um gemido plangente e a respiração tornou-se penosa, enquanto uma dor excruciante se cravava no lado esquerdo do peito e SE propagava ao longo do braço. Duncan pressentiu intuitivamente que se desencadeara um ataque cardíaco.

Apertou o peito com a mão direita. O sangue dos braços feridos pelas unhas misturava-se com a água do chuveiro e escoava-se pelo ralo. Quase rastejando, abandonou a casa de banho e dirigiu-se para a porta do apartamento. Não se preocupava com o facto de estar desnudo, pois precisava de ar. O cérebro em turbilhão estava prestes a explodir. Recorrendo à derradeira reserva de energia, rodeou o puxador com os dedos e abriu a porta.

- Duncan! - exclamou Sara letherbee, abismada, a mão suspensa no ar a poucos centímetros da porta dele, pois preparava-se para bater, quando esta se abrira de rompante. - Meu Deus! - prosseguiu, ao vê-lo em cuecas. - Que te aconteceu?

Duncan não reconheceu a amante dos últimos dois anos e meio. Precisava era de ar. A dor intensa no peito transmitira-se aos pulmões, e tinha a impressão de que o apunhalavam repetidamente. Precipitou-se para a frente, enquanto estendia o braço para afastar Sara do caminho.

- Duncan! - repetiu ela, perplexa com o que via: a nudez, os arranhões nos braços, o olhar esgazeado e trejeitos de dor no rosto. Recusando desviar-se, pousou-lhe as mãos nos ombros e deteve-o. - Que se passa? Onde vais?

Ele hesitou. Por um breve momento, a voz dela penetrou na sua demência. A boca abriu-se como se fosse dizer alguma coisa. No entanto, não conseguiu proferir uma única palavra. Ao invés, novo gemido, que terminou numa exclamação abafada, enquanto os tremores coagulavam em estremecimentos espasmódicos e os olhos desapareciam no interior da cabeça. Misericordiosamente inconsciente, tombou nos braços de Sara.

A princípio, ela esforçou-se para o manter de pé, mas não conseguiu, em especial porque os tremores convulsivos se tornavam progressivamente mais violentos. Por fim, com a maior suavidade possível, deixou o corpo agitado deslizar para o chão. Quase no mesmo instante em que pousaram no soalho, as costas de Duncan formaram um arco e os tremores cristalizaram rapidamente nas contracções espasmódicas de uma doença grave.

- Acudam! - gritou Sara, olhando em volta.

Como era de prever, não apareceu ninguém. Além do ruído que Duncan produzia, o único som que conseguia ouvir eram os acordes ensurdecedores de um equipamento de alta-fidelidade.

Desesperada por obter ajuda, conseguiu passar por cima do corpo convulsivo de Duncan. O vislumbre da boca ensanguentada e coberta de espuma aterrorizou-a ainda mais. Ansiava por que aparecesse alguém, mas não sabia o que fazer além de chamar uma ambulância. Com o dedo trémulo, premiu os botões do telefone da sala para ligar ao 911. Enquanto aguardava com impaciência que atendessem, ouvia a cabeça dele bater repetidamente no chão. Sara estremecia de pavor ante cada embate e rogava aos céus que o auxílio chegasse sem demora.

 

Ela afastou as mãos do rosto e olhou o relógio. Eram quase três horas da madrugada. Encontrava-se sentada naquela cadeira de fórmica da sala de espera do Hospital Geral de Manhattan havia mais de três horas.

Esquadrinhou pela milésima vez o apinhado aposento, que tresandava a fumo de cigarro, suor, álcool e roupa de lã húmida. Havia um grande letreiro mesmo em frente dela que dizia: NÃO FUMAR, Mas o aviso era totalmente ignorado.

Os doentes misturavam-se com aqueles que os acompanhavam.

Havia bebés e crianças de tenra idade que começavam a andar, ruidosos, ébrios feridos por espancamento ou outras causas similares e alguns pacientes que envolviam um dedo cortado num pedaço de pano ou com uma toalha encostada a um queixo esfaqueado. A maioria fixava o olhar no espaço à sua frente, com indiferença, alheia à espera interminável. Uns estavam obviamente doentes e outros sob o efeito de dores agudas. Um homem trajado de forma irrepreensível tinha o braço em torno da não menos elegante companheira. Poucos momentos antes, travara-se de razões com uma enfermeira de ares intimidativos, que não se mostrara impressionada com a sua ameaça de telefonar ao advogado se a mulher não fosse observada imediatamente. Por fim, resignado, também olhava um ponto indefinido à sua frente.

Sara voltou a fechar os olhos e sentiu o latejar das pulsações nas têmporas. A imagem vívida de Duncan dominado por convulsões à entrada do apartamento não lhe abandonava o espírito. Ela sabia que, independentemente do que acontecesse naquela noite, jamais conseguiria varrer a visão da mente.

Depois de chamar a ambulância e indicar o endereço dele, voltara para o seu lado. Recordara-se vagamente de que devia ser introduzido algo na boca de uma pessoa sob o efeito de convulsões para que não mordesse a língua. No entanto, por mais esforços que fizesse, não conseguira descerrar-lhe os dentes, como que grudados.

Pouco antes da aparição do médico, Duncan parara finalmente de se agitar em estremecimentos espasmódicos. A princípio, Sara ficara aliviada, mas apercebera-se a seguir, com renovado alarme, que ele não respirava. Limpou-lhe a espuma e os vestígios de sangue dos lábios e tentou a respiração boca a boca, mas descobriu que tinha de lutar contra a náusea.

Entretanto, haviam acudido ao corredor vários vizinhos de Duncan e, ante o alívio dela, alguém disse que fora enfermeiro na marinha e, juntamente com outro indivíduo, prestou assistência ao sinistrado até à chegada da ambulância.

Sara não conseguia imaginar o que acontecera. Apenas meia hora antes, ele telefonara-lhe para que o procurasse. Julgara detectar uma ponta de tensão na voz, mas, de qualquer modo, não se achava minimamente preparada para o encontrar em semelhante estado. Estremeceu mais uma vez ao vê-lo estendido na sua frente à entrada do apartamento, com as mãos e braços ensanguentados e o olhar esgazeado. Dir-se-ia que enlouquecera.

Viu-o pela última vez, num instante fugaz, depois de chegarem ao Hospital Geral. Tinham-na autorizado a seguir na ambulância, que efectuou o percurso a uma velocidade alucinante pelo tráfego intenso de Nova Iorque. Eles levaram-no através de um par de portas de vaivém e desapareceram nas entranhas da unidade de emergência. Ela ainda tinha presente o momento em que a maca de rodas as transpusera, com o médico a efectuar compressões no peito.

- Sara - chamou uma voz, que a arrancou das cogitações.

- Sim? - articulou, erguendo os olhos.

Um jovem médico que apresentava uma barba por fazer e trazia uma bata branca algo salpicada de sangue materializara-se diante dela.

- Sou o doutor Murray. Importa-se de vir comigo? Preciso de falar consigo por um momento.

- Com certeza - assentiu Sara, com nervosismo. Levantou-se e ajeitou a correia da carteira a tiracolo, após o que principiou a caminhar atrás do médico, que dera meia volta quase antes que ela tivesse tempo de responder. As mesmas portas que haviam tragado Duncan três horas antes fecharam-se agora atrás de ambos. O doutor Murray deteve-se quase imediatamente e virou-se para a encarar. Sara fitou com ansiedade os seus olhos fatigados, empenhada em divisar uma réstia de esperança, que, no entanto, se achava totalmente ausente.

- É a namorada do senhor Andrews? - começou ele, num tom que denunciava igualmente cansaço. Fez uma pausa, enquanto ela aquiescia com um leve movimento de cabeça. - Em regra, falamos primeiro com a família, mas sei que veio com o paciente e tem estado todo este tempo à espera. Lamento que demorasse tanto, mas chegaram várias vítimas de uma cena de tiros que nos monopolizaram por completo.

- Compreendo - murmurou Sara. - Como está o Duncan? - Tinha de fazer a pergunta, embora não se achasse muito ansiosa por conhecer a resposta.

- Posso garantir-lhe que o pessoal clínico fez tudo o que estava ao seu alcance. Infelizmente, não foi possível salvá-lo. Ele estava DOA. Sinto muito...

Olhou-o com incredulidade, desejosa de notar uma ponta do mesmo pesar que se avolumava no seu íntimo. No entanto, a única coisa de que se apercebia era cansaço. A aparente ausência de sensibilidade dele ajudou-a a manter a serenidade.

- Que aconteceu? - perguntou, quase num murmúrio.

- Estamos noventa por cento convencidos de que a causa imediata foi um enfarte maciço do miocárdio, ou ataque cardíaco - informou ele, obviamente mais à vontade com a sua terminologia profissional. - Mas a principal parece residir numa toxicidade de drogas, ou overdose. Ainda não sabemos qual era o seu nível sanguíneo. É uma coisa que tarda algum tempo.

- Drogas? - repetiu Sara, perplexa. - Refere-se a alguma em especial?

- Cocaína. O médico da ambulância até trouxe a agulha que ele utilizou.

- Nunca me constou que o Duncan consumisse cocaína. Disse mais de uma vez que não queria nada com as drogas.

- As pessoas costumam mentir acerca do sexo e das drogas. E, sobre a cocaína, há casos em que uma vez basta. Pouca gente está ao corrente do perigo que representa. A sua popularidade infundiu uma falsa sensação de segurança. De qualquer modo, precisamos de contactar com a família. Sabe o número do seu telefone?

Aturdida pela morte de Duncan e a revelação do aparente consumo de cocaína, Sara recitou em voz átona o número do telefone dos Andrews. O facto de pensar em drogas permitia-lhe evitar concentrar-se na morte. Ao mesmo tempo, interrogava-se acerca de há quanto tempo ele se injectaria sem o seu conhecimento. Era tão difícil de compreender... E ela convencida de que o conhecia muito bem!

 

6 DE NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA, 6 HORAS E 45 MINUTOS, DE MANHÃ

NOVA IORQUE

A campainha do velho Westclox de corda nunca deixava de arrancar Laurie Montgomery das profundezas de um sono reparador. Embora possuísse o despertador desde o primeiro ano da universidade, ainda não se habituara ao temível retinir.

Acordava-a sempre com um sobressalto, e ela precipitava-se invariavelmente sobre a malfadada maquineta, como se a sua vida dependesse do facto de desligar o alarme tão depressa quanto o humanamente possível.

Aquela manhã chuvosa de Novembro não constituía uma excepção.

Quando pousou o despertador no parapeito da janela, sentia o coração palpitar aceleradamente. Era o jacto de adrenalina que tornava o episódio quotidiano tão eficiente. Mesmo que pudesse voltar para a cama, nunca conseguiria tornar a adormecer. E acontecia o mesmo ao Tom, o gato castanho de dezoito meses, que, ao soar a campainha, se refugiava nas profundezas do armário do quarto.

Resignada com o início de mais um dia, Laurie levantou-se, enfiou os pés nos chinelos de pele de carneiro e ligou o televisor para se inteirar das últimas notícias.

O apartamento compunha-se de uma única assoalhada num prédio de cinco andares da Rua 19, entre a Primeira e a Segunda avenidas. Situava-se no quarto, nas traseiras, e as duas janelas abriam-se para uma coelheira de pátio.

Ligou a máquina de café na minúscula cozinha. Na véspera, antes de se deitar, deixara-a preparada para agora não ter de perder tempo. Em seguida, entrou na casa de banho e observou-se ao espelho.

- Que horror! - murmurou, enquanto esquadrinhava os estragos produzidos por mais uma noite de sono insuficiente.

Tinha os olhos inchados e congestionados. Não gostava de se levantar cedo, era uma ave nocturna inveterada, além de que lhe agradava ler até tarde, apenas pelo prazer que a leitura lhe proporcionava, indiferente ao facto de se tratar de um tratado de patologia ou de um best-seller. No tocante à ficção, os seus interesses eram católicos. As prateleiras da estante estavam cheias de obras díspares que incluíam sagas românticas, romances de suspense, livros de história, ciência geral e até psicologia. Na noite anterior, fora a vez de um enigma policial, que não largara até se inteirar do desfecho. Antes de apagar a luz, não teve coragem de ver as horas. Como de costume, de manhã jurou a si própria não voltar a ficar acordada até tarde.

Debaixo do duche, a mente desanuviou-se o suficiente para que começasse a ponderar os problemas que enfrentaria nesse dia. Decorria o seu quinto mês de patologista no Gabinete da Inspecção Médica Principal da Cidade de Nova Iorque. No fim-de-semana anterior, estivera de serviço, o que significava que tivera de trabalhar sábado e domingo, durante os quais realizara seis autópsias - três em cada dia. Alguns desses casos exigiam exames posteriores antes de poderem seguir os trâmites usuais, e começou a elaborar uma lista mental do que tinha de fazer.

Por fim, abandonou o chuveiro e secou-se apressadamente.

 

Congratulava-se com o facto de se tratar de um dia de expediente, o que significava que não lhe atribuiriam autópsias adicionais. Assim, disporia de tempo para se ocupar dos relatórios das que já efectuara. Aguardava a chegada de material do laboratório, das investigadoras do Gabinete, dos hospitais ou médicos locais ou da polícia sobre vinte casos.

Era essa avalancha de papelada que ameaçava constantemente sufocá-la.

De novo na cozinha, Laurie encheu uma chávena de café e voltou à casa de banho para se maquilhar e secar o cabelo. Esta última operação era sempre a mais demorada.

Orgulhava-se do cabelo que possuía, castanho-alourado, longo e denso. Na realidade, considerava-o o seu melhor atributo. A mãe aconselhava-a constantemente a cortá-lo, porém ela preferia-o assim. Quanto aos retoques no rosto, partilhava do princípio de que uo mínimo é o melhor. Por último, satisfeita com o resultado dos seus esforços, pegou na chávena e encaminhou-se para o quarto.

Entretanto, principiara o programa "Bom Dia, América", que escutou enquanto vestia a roupa que deixara preparada de véspera. Embora a patologia legal constituísse um mundo de predominância masculina, Laurie gostava de acentuar a sua feminidade com a indumentária. Assim, enfiou uma saia verde e camisola de gola alta a condizer. O espelho revelou-lhe um resultado satisfatório, além de que nunca usara aquele conjunto. Fazia-a parecer mais alta do que o seu metro e setenta e até mais esbelta do que os cinquenta e cinco quilogramas permitiam antever.

Depois de tomar o café, tragar um iogurte e deixar comida para o gato no respectivo recipiente, vestiu o impermeável. A seguir, pegou na carteira, no embrulho do almoço, que também preparara na véspera, e na pasta e abandonou o apartamento.

Necessitou de um minuto para fechar a colecção de dispositivos de segurança da porta, um legado do inquilino que a precedera. virou-se para o elevador e premiu o botão de descida. Como que em obediência a um sinal, no momento em que a velha cabina iniciou a ruidosa ascensão, ela ouviu o estalido do fecho da porta de Debra Engler, que se entreabriu, e a corrente de segurança ficou tensa, enquanto um dos olhos congestionados da mulher surgia no estreito espaço. Acima do olho, via-se uma madeixa de cabelo grisalho.

Laurie assumiu uma expressão de desafio. Dir-se-ia que a vizinha assomava à porta ao mínimo som registado no corredor.

A intrusão repetitiva irritava-lhe os nervos. Afigurava-se-lhe uma espécie de violação da privacidade, embora o corredor constituísse uma área comum.

- É melhor levar o guarda-chuva - recomendou Debra, na habitual voz rouca de fumadora.

O facto de ela ter razão contribuiu para intensificar a contrariedade de Laurie. Na verdade, esquecera-se do guarda-chuva e retrocedeu para o ir buscar. Cinco minutos mais tarde, quando se encaminhava de novo para o elevador, viu que o olho congestionado de Debra continuava atentamente vigilante.

A irritação dissipou-se gradualmente, enquanto a cabina descia, e Laurie concentrou as reflexões no caso que mais a preocupara durante o fim-de-semana: o garoto de doze anos atingido no peito por uma bola de softball.

"A vida não é justa"! murmurou para consigo, ao pensar na morte prematura do rapaz. Na verdade, as mortes das crianças eram dificeis de compreender. Acalentara a esperança de a escola médica a imunizar contra semelhantes injustiças da Providência, mas tal não acontecera. E a residência no Departamento de Patologia tão-pouco. Agora que trabalhava na patologia legal, aqueles desenlaces revelavam-se ainda mais dificeis de aceitar. E eram tantos! Até ao momento do acidente, o garoto atingido pela bola fora perfeitamente saudável, exultante de vitalidade. Ela conseguia rever o pequeno corpo na mesa de autópsias - uma imagem de saúde, aparentemente adormecido. Não obstante, fora obrigada a pegar no bisturi para o retalhar como um peixe.

Engoliu com dificuldade no momento em que o ascensor se imobilizou. Os casos como o daquela criança levavam-na a duvidar da carreira que escolhera, e perguntava-se se não teria sido preferível optar pela pediatria, em que só se lhe deparariam garotos vivos. Com efeito, o ramo de medicina que escolhera podia revelar-se sinistro.

Apesar de tudo, estava grata a Debra por lhe fazer lembrar as condições atmosféricas. O vento soprava com rajadas fortes e a chuva desabava com intensidade. O aspecto da sua rua num dia daqueles obrigou-a a pôr em causa a escolha do local para viver, como antes acontecera acerca da profissão. Na realidade, a artéria em que os detritos se amontoavam não constituía um espectáculo atraente. Talvez devesse ter preferido uma cidade menos antiga e mais asseada, como Atlanta, ou de Verão perpétuo, como Miami. Com um leve suspiro de resignação, abriu o guarda-chuva e colocou-o na posição apropriada para enfrentar o vento, enquanto se dirigia para a Primeira Avenida.

Entretanto, pensava numa das ironias da sua carreira.

Escolhera a patologia por várias razões. Antes de mais, considerara que um horário de trabalho relativamente fixo lhe tornaria mais fácil combinar a medicina com a constituição de uma família. Mas o problema consistia em que não tinha família, a menos que considerasse os pais, que, no fundo, não contavam para o efeito. Na verdade, não mantinham um contacto significativo. Laurie nunca imaginara que, aos trinta e dois anos, não teria filhos e muito menos que seria solteira.

O breve trajecto num táxi conduzido por um homem de cuja nacionalidade não fazia a menor ideia levou-a à esquina da Primeira Avenida com a Rua 13. A utilização daquele meio de transporte não era vulgar. Em circunstâncias normais, a combinação de chuva e período de ponta indicava a ausência de táxis. Nessa manhã, porém, alguém se apeara de um no momento em que ela alcançava a Primeira Avenida. Em todo o caso, mesmo que tal não acontecesse, as consequências não seriam catastróficas. Era uma das vantagens de morar a apenas onze quarteirões do local de trabalho. Havia dias em que fazia aquele percurso a pé nos dois sentidos.

Depois de pagar ao motorista, começou a subir os degraus de acesso ao Gabinete da Inspecção Médica Principal da Cidade de Nova Iorque. O edifício, de cinco pisos, era reduzido à sua aparente insignificância pelo resto do Centro Médico da Universidade de Nova Iorque e do complexo do Hospital Bellevue. A sua fachada compunha-se de tijolos azuis e brilhantes, com caixilhos de janelas e portas de alumínio de uma configuração moderna destituída de atractivos.

Normalmente, Laurie não prestava atenção ao edifício, mas naquela segunda-feira chuvosa de Novembro não o poupou ao seu olhar crítico, como acontecera à rua em que vivia. O conjunto era deprimente, como se via forçada a reconhecer. Meneava a cabeça, duvidando de que o arquitecto se sentisse sinceramente satisfeito com a sua obra, quando se apercebeu de que o átrio estava cheio de gente. A porta principal achava-se escancarada, apesar da temperatura e tempo desagradáveis, e o fumo de tabaco irrompia numa nuvem.

Curiosa, abriu caminho por entre a multidão, em direcção ao Departamento de Identificação. Marlene Jilson, a recepcionista habitual, estava obviamente confusa com a avalancha de perguntas que pelo menos dez pessoas postadas em torno da secretária lhe disparavam. Registava-se uma invasão dos media, com câmaras, gravadores, camcorders de TV eflashs.

Era indiscutível que acontecera algo de invulgar.

Após breve pantomima para atrair a atenção de Marlene, Laurie conseguiu transferir-se para a área interior, e experimentou uma sensação de alívio no instante em que a porta se fechou e extinguiu a indesejável mescla de vozes agitadas e fumo acre de cigarro.

Fez uma pausa para dirigir uma olhadela à sala sombria onde membros de famílias se reuniam para identificar os corpos sem vida, e ficou levemente surpreendida ao vê-la deserta. Depois da balbúrdia à entrada, esperara avistar um grupo de pessoas assaz compacto. Por fim, encolheu levemente os ombros e passou ao Departamento de Identificação.

A primeira pessoa que viu foi Vinnie Amendola, um dos técnicos mortuários. Alheio ao pandemónio na área de recepção, tomava café e lia a secção desportiva do New York Post, com os pés pousados na borda de uma das secretárias de metal. Como sempre antes das oito horas da manhã, era a única pessoa na sala, e tinha a seu cargo fazer café na enorme máquina estilo comercial que se encontrava no gabinete contíguo, que cumpria numerosas funções, entre as quais a de área de concentração informal.

- Que se passa? - perguntou Laurie, enquanto pegava na escala de autópsias para o dia, pois, mesmo que não estivesse escalada, tinha sempre curiosidade em saber que casos haviam chegado recentemente.

- Complicações - replicou Vinnie, secamente, baixando o jornal.

- De que espécie?

Ela observou, através da porta de acesso à sala de comunicações, que as duas recepcionistas do turno de dia estavam ocupadas ao telefone, enquanto os quadros à sua frente tinham diversas luzes acesas, indicativas de chamadas que aguardavam atendimento.

- Mais um belo homicídio. Uma adolescente estrangulada aparentemente pelo namorado. Sexo e drogas. Coisas de gente rica. Foi nas proximidades da Taverna Verde. Devido ao rebuliço provocado pelo primeiro caso, há um par de anos, os media não nos desamparam a loja desde a chegada do corpo.

Laurie encheu uma chávena de café e fez estalar a língua.

- Uma tristeza para todos. Uma vida perdida e outra arruinada. - Adicionou leite e açúcar. - Quem se ocupa do caso?

- O doutor Plodgett. Foi chamado pelo médico de serviço e teve de se apresentar no local, cerca das três da madrugada.

Não pôde evitar um suspiro de compaixão por Paul. Um assunto daquela natureza resultaria sem dúvida penoso, devido à sua relativa inexperiência, como se passava consigo própria, depois de exercer as funções de médico associado durante mais de um ano, enquanto ela prestava serviço no hospital havia apenas quatro meses e meio.

- Onde está ele agora? No seu gabinete?

- Não. Ocupa-se da autópsia.

- Já? - estranhou. - Para quê tanta pressa?

- Não faço a menor ideia, mas os tipos que saíam de serviço do "cemitério" disseram-me que o Bingham chegou por volta das seis. Suponho que o Paul os chamou.

- O caso está a tornar-se cada vez mais intrigante - comentou, reflectindo que o doutor Harold Bingham, de cinquenta e oito anos, era o inspector-médico principal de Nova Iorque, cargo que o tornava uma figura poderosa no campo da medicina legal.

- Acho que vou até à cova ver o que se passa.

- No seu lugar, teria cautela - advertiu Vinnie, voltando a concentrar-se no jornal. - Eu próprio tencionava ir até lá, mas ouvi dizer que o Bingham não está nos seus melhores dias.

Não que isso constitua uma excepção...

Laurie inclinou a cabeça e afastou-se. Para evitar a multidão de repórteres na área de recepção, deu uma volta em direcção aos elevadores, através das Comunicações, onde as duas secretárias estavam demasiado atarefadas para a saudar. Acenou a um dos dois detectives de serviço na secção do inspector-médico, sentado no cubículo que servia de escritório, à saída da sala de comunicações, o qual também se encontrava ao telefone.

Depois de transpor nova porta, Laurie assomou à entrada de cada um dos gabinetes das investigadoras de medicina legal para lhes dar os bons-dias, mas ainda não chegara qualquer delas. Uma vez diante dos elevadores principais, premiu o botão de subida e, como de costume, teve de aguardar pacientemente que o velho mecanismo actuasse. à sua direita, avistou a massa de repórteres na área de recepção, através da porta ao fundo do corredor.

Enquanto subia ao seu gabinete no quarto piso, especulava mentalmente sobre o significado de presença tão matutina, não só no edifício mas também na sala de autópsias, ocorrências raras que lhe aguçavam a curiosidade.

Como a sua companheira de trabalho, doutora Riva Mehta, ainda não chegara, permaneceu lá apenas alguns minutos. Guardou a pasta, carteira e almoço no seu ficheiro metálico, que fechou à chave, e vestiu a bata verde de serviço. Como não tinha de fazer qualquer autópsia, considerou desnecessário proteger-se com a habitual segunda camada de roupa impenetrável.

De novo no elevador, desceu ao nível da cave, onde se situava a morgue. Não se tratava propriamente de uma cave, porque, na verdade, se situava à altura da rua do lado do edifício na Rua 13. Os corpos chegavam à morgue e abandonavam-na pela plataforma de carga e descarga dessa secção.

No vestiário, que raramente utilizava, pois preferia mudar de roupa no seu gabinete, Laurie muniu-se de galochas de protecção, um avental, uma máscara e respectivo capuz. Uma vez com a nova indumentária, como se fosse praticar uma intervenção cirúrgica, impeliu a porta da sala de autópsias.

A "cova", como lhe chamavam com ternura, era uma sala de cerca de dezassete metros de comprimento por dez de largura, outrora considerada provida de todos os requisitos modernos.

Mas essa época pertencia a um passado distante. à semelhança de outros lugares oficiais da cidade, a assistência meticulosa e constante e a modernização haviam-se ressentido da falta de fundos. As oito mesas de aço inoxidável estavam velhas e manchadas devido ao número incontável de autópsias nelas efectuadas. Ao longo das paredes, viam-se bacias de lavatório, caixas para visão de radiografias, armários antigos de vidro despolido e secções da canalização expostas. Não havia uma única janela.

Apenas uma mesa se achava em funcionamento: a segunda a contar do fundo, à direita de Laurie. No momento em que a porta se fechou atrás dela, os três médicos de bata, máscara e capuz agrupados em torno da mesa ergueram a cabeça por uns instantes para ver de quem se tratava, antes de reatarem a sinistra tarefa. Estendido na mesa, encontrava-se o corpo desnudo, branco como o marfim, de uma adolescente, iluminado por um único conjunto de tubos fluorescentes azulados directamente por cima. A lúgubre cena era agravada pelo som de sucção produzido pela água que deslizava para o esgoto aos pés da mesa.

Laurie sentiu o impulso quase irresistível de dar meia volta e sair, mas conseguiu dominá-lo. Ao invés, avançou para o trio. Como os conhecia bem, identificou-os, apesar do uniforme de trabalho, que também incluía óculos de lentes largas. No lado oposto da mesa, de frente para Laurie, encontrava-se Bingham, um homem baixo, atarracado, de feições graves e nariz bolboso.

- Com mil demónios, Paul! - vociferou. - É a primeira vez que efectua uma dissecção do pescoço? Tenho marcada uma conferência de imprensa e você está para aí a tentear como um estudante de medicina do primeiro ano! Dê cá o bisturi!

Arrancou o instrumento da mão do interpelado e debruçou-se sobre o corpo. Um raio de luz reflectiu-se na lâmina cortante de aço inoxidável.

Laurie acercou-se mais da mesa e postou-se à direita de Paul.

Este pressentiu a sua presença, voltou a cabeça e, por um momento, os seus olhares cruzaram-se. Ela apercebeu-se de que o colega estava perturbado. Tentou incutir-lhe ânimo com a mirada, porém ele apressou-se a desviar a sua. Laurie dirigiu uma olhadela ao técnico da morgue, que se abstinha de virar a cabeça para aquele lado. A atmosfera era explosiva.

Por fim, ela baixou os olhos para observar o que Bingham fazia. O pescoço da morta fora aberto por meio de uma incisão algo antiquada que se prolongava da extremidade do queixo até ao topo do esterno. A pele tinha sido puxada para o lado, como a gola de uma blusa, e Bingham preparava-se para libertar os músculos em redor da cartilagem tiroideia e do osso hióide.

Laurie viu sinais de trauma pré-mortal, com hemorragia nos tecidos.

- O que ainda não percebi - volveu o cirurgião, sem erguer os olhos - é porque não ensacou as mãos. Quer ter a gentileza de me elucidar?

O olhar dela tornou a cruzar com o de Paul, e compreendeu instantaneamente que ele não tinha qualquer explicação plausível. Gostaria de o ajudar, mas não vislumbrava como.

Assim, embora compartilhasse do desconforto do colega, afastou-se da mesa e, conquanto envergasse a indumentária apropriada, acabou por abandonar a sala de autópsias. A tensão era excessiva para que permanecesse ali, e não queria agravar a situação de Paul fornecendo a Bingham um auditório mais numeroso.

Regressou ao seu gabinete, depois de se desembaraçar da camada exterior de vestuário protector, sentou-se à secretária e começou a trabalhar. A fase inicial consistia em completar o que pudesse sobre as três autópsias a que procedera no domingo. O primeiro dos casos referia-se ao rapaz de doze anos, enquanto o segundo dizia claramente respeito a uma overdose de heroína, apesar do que reviu os factos. Tinham sido encontrados apetrechos relacionados com a droga junto da vítima, um toxicómano conhecido. A autópsia revelara numerosas picadelas de injecções intravenosas, antigas e recentes. No braço direito, via-se uma tatuagem: "Nascido para Perder. " Internamente, existiam os sinais usuais de morte por asfixia, com um edema pulmonar espumoso. Embora ainda se achassem em curso estudos microscópicos no laboratório, Laurie estava razoavelmente convencida de que a causa da morte fora acidental.

O terceiro caso diferia substancialmente dos anteriores. Uma hospedeira de bordo, de vinte e quatro anos, fora descoberta em casa, em roupão de banho, tendo aparentemente caído inanimada no corredor junto da casa de banho, pela jovem com quem vivia. Tratava-se de uma moça saudável, que acabava de regressar de uma viagem a Los Angeles, além de que, que se soubesse, não consumia drogas.

Laurie efectuara a autópsia, mas não encontrara qualquer indício revelador. Tudo o que se lhe deparara podia considerar-se absolutamente normal. Preocupada com o caso, pedira a uma das investigadoras médicas que localizasse o ginecologista da vítima, com o qual mais tarde falara, e obtivera a informação de que a jovem desfrutava de excelente saúde. O último exame datava de há poucos meses.

Como tivera um caso similar recentemente, Laurie indicara à investigadora que visitasse o apartamento da hospedeira de bordo e trouxesse todos os utensílios eléctricos existentes na casa de banho. Agora, em cima da secretária, achava-se uma caixa de cartão com um bilhete da investigadora em que referia que o conteúdo era tudo o que conseguira encontrar.

Com a unha, Laurie retirou a fita gomada que selava a caixa, levantou a tampa e espreitou para dentro. Continha um secador de cabelo e um ferro de frisar. Em seguida, transferiu os dois utensílios para o tampo da secretária, e da gaveta inferior do lado direito extraiu um aparelho chamado ohmímetro.

Começando pelo secador, verificou a resistência eléctrica entre os terminais da ficha e o aparelho. Em ambos os casos, obteve uma leitura extremamente baixa. Suspeitando de que seguia a pista errada, repetiu a experiência com o frisador de cabelo e, surpreendida, viu-se perante um resultado positivo.

Entre um dos terminais e o envoltório, a leitura revelou zero ohms, o que significava a passagem livre de corrente.

Pegou em algumas ferramentas básicas que guardava na secretária, entre as quais uma chave de fendas e um alicate, abriu o frisador e descobriu imediatamente o condutor sem revestimento que contactava com o envoltório. Não restavam dúvidas de que a infortunada hospedeira de bordo fora vítima de electrocussão de baixa tensão. Como acontecia com frequência, a vítima tivera tempo de largar o aparelho e sair da casa de banho antes de sucumbir a uma arritmia cardíaca fatal. Por conseguinte, a causa da morte devera-se a electrocussão e a forma fora acidental.

Com o frisador de cabelo "autopsiado" em cima da secretária, Laurie pegou na sua máquina fotográfica e dispôs as peças para expor a ligação deficiente. Em seguida, levantou-se para lhes apontar a objectiva directamente de cima. Enquanto espreitava pelo visor, sentia-se satisfeita com o caso. Não pôde evitar um sorriso modesto, consciente de como o seu trabalho diferia daquilo que as pessoas pensavam. Não só acabava de esclarecer o mistério da morte prematura da pobre mulher, como salvara potencialmente outras pessoas do mesmo destino.

O telefone tocou antes que pudesse fotografar o frisador, e, devido à concentração em que se encontrava, o som sobressaltou-a. Assim, levantou o auscultador com uma ponta de irritação. Era a telefonista para saber se queria atender a chamada de um médico do Hospital Geral de Manhattan, acrescentando que ele pedira para falar com o chefe.

- Então, porque ligou para aqui? - quis saber Laurie.

- O chefe está ocupado na sala de operações, e não consigo localizar o doutor Washington. Parece que está lá fora a falar com os repórteres. Em face disso, comecei a procurar os outros médicos. A doutora foi a primeira a responder.

- Bem, ligue lá - indicou, com resignação. Reclinou-se na cadeira, com um suspiro. Estava convencida de que seria uma conversa de curta duração. Se alguém pretendia contactar com o chefe, decerto não se satisfaria com o membro mais baixo da hierarquia.

Quando a ligação foi estabelecida, identificou-se e salientou que era uma simples médica que praticava autópsias e não a chefe.

- Sou o doutor Murray, residente do hospital - informou ele. - Preciso de falar com alguém sobre um DOA de toxicidade por overdose que deu entrada aqui esta manhã.

- Que pretende saber?

As mortes por consumo excessivo de drogas constituíam um fenómeno quotidiano no GlMP, e a atenção de Laurie transferiu-se parcialmente para o frisador de cabelo, pois acabava de lhe ocorrer uma ideia melhor para a fotografia.

- A vítima chamava-se Duncan Andrews - volveu o doutor Murray. - De trinta e cinco anos, raça branca. Chegou sem actividade cardíaca nem respiração espontânea e com a temperatura interna de quarenta e dois graus.

- Sim... - articulou ela, em tom neutro, ao mesmo tempo que, com o auscultador apoiado no ombro, dispunha as peças do frisador.

- Havia indícios evidentes de actividade apopléctica, pelo que procedemos a um EEG. Saiu absolutamente liso. O laboratório obteve um nível de soro de cocaína de vinte microgramas por milímetro.

- Ena! - exclamou, com uma breve risada seca de admiração, subitamente interessada. - É um nível elevadíssimo. Qual foi a via de administração: oral? Tratava-se de um daqueles "mulas" que tentam contrabandear a droga engolindo preservativos cheios dela?

- Duvido. - Foi a vez do doutor Murray soltar uma risada seca.

- Era filho de um dos génios de Wall Street. Não, não foi por via oral, mas por injecção.

Ela engoliu em seco, enquanto se esforçava por manter submersas recordações antigas indesejáveis. A garganta ficara repentinamente seca.

- Havia também heroína envolvida? - perguntou, pois, nos anos sessenta, uma mistura de heroína e cocaína, denominada "bola rápida", desfrutava de larga popularidade.

- Não. Apenas cocaína, mas obviamente numa dose gigantesca. Se a temperatura dele era de quarenta e dois graus quando a medimos, só Deus sabe que valor teria atingido.

- Bem, parece um caso bem claro. Qual é a pergunta? Se quer saber se a autópsia se justifica, posso garantir-lhe que sim.

- Não, já estávamos ao corrente disso. O problema não é esse.

Trata-se de algo de mais complicado. O fulano em causa foi encontrado pela namorada, que o acompanhou na ambulância. Mas depois apareceu também a família dele, e posso dizer-lhe que está bem relacionada, se me faço entender. As enfermeiras apuraram que Duncan Andrews tinha na carteira um cartão de dador de órgãos, pelo que contactaram com o respectivo coordenador, o qual, sem saber que o caso justificava a autópsia, perguntou aos familiares se permitiam que procedesse à colheita dos olhos, único tecido além dos ossos que se podia aproveitar. Devo esclarecer que não nos regemos muito pela posse de cartões dessa natureza, a menos que a família do extinto concorde. Ora, esta família concordou e afirmou que desejava respeitar os desejos dele. Cá para mim, creio que se pretende estabelecer a convicção de que o homem morreu de causas naturais. No entanto, quisemos inteirar-nos da vossa opinião antes de tomarmos qualquer iniciativa.

- Os familiares concordaram? - estranhou Laurie.

- Foram mesmo enfáticos a esse respeito. Segundo a namorada, ela e o Duncan tinham trocado impressões sobre o problema da falta de órgãos para transplantes e acabaram por se dirigir ao Banco de órgãos de Manhattan, para se inscreverem, em resposta ao apelo lançado pela TV, o ano passado.

- Ele deve ter injectado uma dose de cocaína muito elevada.

Deixou algum bilhete de suicídio?

- Não, nem se achava deprimido, segundo a namorada.

- A situação parece um pouco fora do comum - admitiu, pensativamente. - Acho que a satisfação do pedido da família não afectará a autópsia. Em todo o caso, não estou autorizada a tomar uma decisão dessa natureza. Posso é indagar junto das altas patentes e dizer imediatamente o resultado para aí.

- Ficava-lhe grato. Se temos de fazer alguma coisa, quanto mais depressa melhor.

Pousou o auscultador e, não sem uma ponta de relutância, deixou as peças do frisador de cabelo na secretária e tornou a visitar a morgue. Prescindindo do equipamento de protecção, assomou à porta e viu que o doutor Bingham já não se achava presente.

- O chefe confiou-te os trabalhos? - perguntou a Paul.

Este virou-se para a entrada e proferiu, num tom abafado parcialmente pela máscara:

- Agradeçamos a Deus os pequenos favores. Por sorte, estava a fazer-se tarde para a conferência de imprensa. Deve ter-se convencido de que eu era capaz de coser o corpo.

- Não te impressiones. Como sabes, para ele todos são incompetentes na mesa de autópsias.

- Tentarei não me esquecer disso - prometeu sem convicção.

Laurie utilizou a escada ao fundo do corredor para se dirigir ao rés-do-chão, decidindo que não merecia a pena esperar pelo elevador para transpor um único piso.

O corredor do rés-do-chão estava repleto de membros dos media, pelo que ela experimentou grande dificuldade para alcançar a porta de acesso à sala de reuniões. Conseguiu descortinar, por cima das cabeças dos repórteres, a calva reluzente de Bingham que reflectia o clarão dos projectores da TV. Apercebeu-se igualmente de que respondia a perguntas e transpirava copiosamente, pelo que concluiu que, de modo algum, conseguiria discutir com ele o problema do Hospital Geral.

Laurie pôs-se em bicos dos pés, para tentar descobrir o doutor Calvin Washington, que figurava logo a seguir a Bingham na escala hierárquica. Em virtude do seu metro e noventa e cinco de altura e cerca de cento e vinte quilos de peso, constituía em regra um alvo fácil de localizar. Ela avistou-o finalmente junto da porta de acesso ao gabinete do chefe.

Enveredando pela área de recepção e atravessando o referido gabinete, conseguiu aproximar-se de Calvin pela retaguarda. No entanto, hesitou, ao recordar-se do seu temperamento tumultuoso. Graças ao aspecto físico e acessos de mau humor, intimidava a maioria das pessoas, e Laurie não era uma excepção.

Por fim, reuniu coragem suficiente e tocou-lhe no braço. Ele voltou-se com prontidão e os olhos negros fixaram-se nela com certa agressividade. Era claramente visível que não atravessava uma fase de boa disposição.

- Que há? - inquiriu num murmúrio forçado.

- Pode conceder-me um momento? Trata-se de uma questão de ética relativa a um caso no Hospital Geral.

Após uma mirada ao transpirante superior, assentiu com um movimento de cabeça e passou ao gabinete, cuja porta fechou, depois de Laurie o seguir.

- Este homicídio já nos está a dar água pela barba - grunhiu, meneando a cabeça. - Detesto os media. Não procuram a "verdade", qualquer que ela seja. Não passam de mastins abelhudos, e o coitado do Harold tenta justificar a razão pela qual as mãos não foram ensacadas no local do crime. Que circo este!

- Porque não foram? - perguntou Laurie.

- Porque o médico que acudiu não se lembrou! - explicou Calvin, indignado. - E quando o Plodgett lá chegou, o corpo já se encontrava na carrinha.

- Mas porque permitiu que o corpo fosse removido antes de o Paul aparecer?

- Eu sei lá! O assunto é uma trafulhice do princípio ao fim.

Erros atrás de erros!

Ela fez uma pausa para aclarar a voz e disse:

- Custa-me falar disto, mas reparei noutro problema potencial, lá em baixo.

- Sim? De que se trata?

- Aquilo que suponho que era a roupa da vítima encontrava-se num saco de plástico em cima de um balcão.

- Raios! - explodiu Calvin.

Levantou o auscultador do telefone de Bingham e marcou o número da extensão na "cova". Assim que atenderam, bradou que alguém iria parar à mesa de autópsias, se a roupa da vítima de homicídio estivesse num saco de plástico.

Sem aguardar resposta, cortou a ligação com um gesto brusco e cravou o olhar ardente em Laurie, como se considerasse a mensageira responsável da má notícia.

- Duvido que um fungo destruísse algum indício importante tão rapidamente - aventurou ela.

- Não é essa a questão. Não estamos num centro de autópsias do Terceiro Mundo. Lapsos desta natureza não podem ser tolerados, sobretudo durante uma fase de publicidade como a actual.

Parece que nos lançaram mau-olhado. Bem, qual é o problema do Hospital Geral? Laurie descreveu o caso de Duncan Andrews o mais sucintamente possível e concluiu com o pedido do médico de serviço, salientando que a família pretendia satisfazer o desejo da vítima para doar os órgãos.

- Se houvesse um patologista decente neste Estado, a dúvida nem sequer se levantaria - observou Calvin. - Penso que devemos respeitar a vontade da família. Diga a esse médico que, neste tipo de circunstâncias, deve recolher os olhos, depois de os fotografar. Convém igualmente que extraia amostras vítreas do interior dos olhos para a Toxicologia.

- Vou comunicar-lho imediatamente - declarou ela. - Obrigada.

Ele acenou distraidamente, enquanto abria a porta da sala de reuniões.

Laurie afastou-se através da área do secretariado do chefe e pediu a Marlene que lhe abrisse a porta que dava para o átrio principal. Entretanto, a conferência de imprensa de Bingham continuava. Acabava de premir o botão de chamada do elevador, quando soltou um grito abafado ao sentir uma espécie de cotovelada nas costas, e voltou-se apressadamente para increpar o autor. Esperava ver um colega, mas equivocava-se.

Com efeito, tinha na sua frente um desconhecido que aparentava pouco mais de trinta anos, de impermeável desabotoado, nó da gravata puxado para o lado, cujo rosto se abria num sorriso quase infantil.

- Laurie?

Ela identificou-o subitamente. Era Bob Talbot, repórter do Daily News, seu antigo colega na universidade. Havia algum tempo que não se encontravam, e agora, fora do contexto, por assim dizer, necessitara de um momento para o reconhecer. Por fim, apesar da irritação, retribuiu o sorriso.

- Onde tens estado? - perguntou ele. - Há que tempo não te via!

- De facto, ultimamente tenho sido um pouco associal - concedeu Laurie. - Muito trabalho, sobretudo depois que resolvi dedicar-me à patologia.

- Muito trabalho e nenhum prazer são contraproducentes.

Assentiu com uma inclinação de cabeça e tentou sorrir. Naquele momento, a cabina do elevador surgiu e ela entrou e conservou a porta aberta com a mão.

- Que pensas deste novo homicídio? - inquiriu ele. - Está a provocar um autêntico rebuliço.

- É natural. Parece reunir todos os ingredientes para atrair os media. De resto, acho quejá metemos água. Creio que possui alguns pontos de contacto com o caso anterior. Demasiados, para os meus colegas.

- A que te referes?

- Para já, as mãos da vítima não foram ensacadas. Não ouviste o que o doutor Bingham dizia?

- Ouvi, mas ele pareceu não lhe atribuir muita importância.

- Garanto-te que é importante. Além disso, a roupa da vítima foi parar a um saco de plástico, o que não se pode admitir. A humidade encoraja a formação de microrganismos susceptíveis de afectar os indícios. Outro deslize, portanto. Infelizmente, quem procedeu ao exame médico é um dos funcionários mais novatos da casa, em vez de alguém com experiência.

- Segundo parece, o namorado já confessou - lembrou Bob. - Tudo isso não será meramente académico?

Laurie encolheu os ombros.

- Quando o julgamento se realizar finalmente, é capaz de ter mudado de atitude. O advogado, pelo menos, há-de pressioná-lo nesse sentido. Depois, tudo dependerá das provas reunidas, a menos que apareça uma testemunha, o que raramente acontece nos casos desta natureza.

- Talvez tenhas razão - reconheceu ele. - Veremos. Entretanto, preciso de voltar para a conferência de imprensa. Que dizes a jantarmos juntos, num dia qualquer desta semana?

- É possível. Não julgues que pretendo fazer-me cara, mas tenho de estudar com afinco para uma eventual promoção. Porque não telefonas, para discutirmos o assunto?

Concordou com um movimento de cabeça, enquanto ela retirava a mão para que a porta do elevador se fechasse. Em seguida, Laurie premiu o botão do quarto piso e, de regresso ao seu gabinete, telefonou ao doutor Murray, do Hospital Geral, para lhe comunicar o que o doutor Washington dissera.

- Obrigado pelo incómodo - agradeceu ele no final.

- É conveniente dispor de directrizes para seguir, neste tipo de circunstâncias.

- Procurem obter boas fotografias - recomendou ela. - De contrário, a situação pode alterar-se.

- Não haverá novidade, por esse lado, pois possuímos um departamento fotográfico competente. Será um trabalho de profissionais.

Depois de desligar, Laurie voltou a concentrar-se no frisador de cabelo, a que tirou várias fotografias de ângulos diferentes. Em seguida, transferiu a atenção para o único caso de domingo que restava, e o mais preocupante para ela: o do rapaz de doze anos.

Levantou-se da secretária, tornou a descer ao rés-do-chão e visitou Cheryl Myers, uma das investigadoras da casa, à qual explicou que necessitava de mais testemunhas oculares do episódio em que o garoto fora atingido pela bola. Dada a ausência de qualquer indício positivo na autópsia, precisava de descrições pessoais para reforçar o seu diagnóstico de commotio cordis, ou morte devida a uma pancada no peito.

Cheryl prometeu iniciar as diligências imediatamente.

Laurie regressou de novo ao quarto piso e dirigiu-se à Histologia, para tentar acelerar a entrega dos slides referentes ao rapaz. Consciente dos momentos de amargura que afamília da vítima atravessava, desejava pôr termo urgente à sua intervenção na tragédia. A experiência ensinara-lhe que, depois de conhecerem a verdade, os familiares pareciam chegar a uma espécie de resignação. A aura de incerteza sobre uma morte devida a causas desconhecidas tornava o pesar mais difícil de suportar.

Aproveitando a visita à Histologia, recolheu os slides que já estavam prontos, referentes a casos que autopsiara na semana anterior, após o que desceu alguns lanços de degraus e muniu-se de relatórios da Toxicologia e da Serologia. Levou tudo para o gabinete e pousou-o na secretária. Principiou então a trabalhar e, à excepção de uma breve pausa para almoçar, passou o resto do dia a examinar os slides da Histologia, a comparar os relatórios do laboratório, a efectuar telefonemas e a completar o maior número possível de fichas.

O que lhe aumentava a ansiedade era o facto de saber que, no dia seguinte, lhe destinariam pelo menos duas e porventura mesmo quatro autópsias e, se não mantivesse a faceta burocrática actualizada, afundar-se-ia num sorvedouro de que difícilmente se libertaria. Nunca havia um momento de ócio no Gabinete da Inspecção Médica Principal de Nova Iorque, que se ocupava de quinze a vinte mil casos por ano, o que se traduzia em aproximadamente oito mil autópsias. O estabelecimento recebia, em média, dois homicídios e outras tantas overdoses de droga por dia.

Cerca das quatro da tarde, ela começou a abrandar o ritmo de trabalho. O volume e a intensidade da acção a que se dedicava principiavam a fazer-se sentir e, quando o telefone tocou pela centésima vez, atendeu com voz fatigada. No entanto, ao inteirar-se de que se tratava da senhora Sanford, secretária do doutor Bingham, empertigou-se instintivamente na cadeira.

Na verdade, não era todos os dias que recebia um telefonema do chefe.

- O doutor Bingham gostava que comparecesse no seu gabinete, se lhe for possível.

- Vou já - disse Laurie, ao mesmo tempo que sorria, devido à expressão empregada pela senhora Sanford: "se lhe for possível". Como conhecia bem o chefe, depreendeu que se tratava da tradução diplomática de "Diga à doutora Montgomery que a quero aqui imediatamente! ". Pelo caminho, tentou em vão imaginar o que ele pretenderia.

- Pode entrar - indicou a senhora Sanford, olhando-a, com um sorriso, por cima dos óculos de leitura.

- Feche a porta! - ordenou Bingham no instante em que Laurie surgiu no gabinete. - Sente-se!

Ela obedeceu em silêncio, reflectindo que o tom irado do chefe constituía o primeiro aviso do que se seguiria, e compreendeu que não fora chamada para escutar um louvor. Aguardou, pois, com certa ansiedade, enquanto ele removia os óculos de aros metálicos e os pousava no tampo da secretária, num movimento surpreendentemente ágil dos dedos grossos.

- Sabia que temos um departamento de relações públicas? - começou, numa inflexão mista de sarcasmo e irritação.

- Com certeza.

- Então, também deve saber que o senhor Donnatello é responsável por qualquer informação transmitida aos media e ao público.

Fez uma pausa, enquanto Laurie assentia com uma inclinação de cabeça.

- E deve achar-se igualmente ciente de que, à excepção da minha pessoa, todo o pessoal tem de guardar para si as suas opiniões relativas aos assuntos profissionais.

Ela permaneceu silenciosa, porque ainda não compreendia o objectivo do preâmbulo.

De súbito, Bingham abandonou a cadeira e iniciou cadenciado vaivém no espaço atrás da secretária.

- Duvido é que esteja ciente de que, na sua qualidade de patologista desta casa, tem responsabilidades sociais e políticas significativas. - Estacou e cravou o olhar na subordinada. - Entende o que digo?

- Creio que sim - admitiu Laurie, embora ainda houvesse uma parte significativa do discurso de Bingham que lhe escapava e não fizesse a menor ideia do que ocasionara aquela diatribe.

- "Creio que sim" não constitui uma resposta satisfatória - persistiu ele, pousando as palmas das mãos na secretária e inclinando-se para a frente.

Ela desejava, acima de tudo, conservar a serenidade. Não queria parecer emocional. Desprezava as situações daquela natureza e a confrontação não constituía um dos seus pontos fortes.

- Demais, não serão toleradas infracções ao regulamento concernente à informação privilegiada! Estou a ser suficientemente claro?

- Está - replicou, esforçando-se por evitar lágrimas indesejadas. Não se sentia amargurada ou indignada; apenas enervada. Com a quantidade de trabalho que efectuara ultimamente, não sejulgava merecedora de semelhante tirada. - Posso saber o fundamento de tudo isto?

- Sem dúvida. Perto do final da minha conferência de imprensa sobre o homicídio no Central Park, um dos repórteres levantou-se e começou a fazer uma pergunta com o comentário de que você afirmara especificamente que o caso não estava a ser tratado da melhor maneira por este departamento. Comunicou isso ou não a um repórter?

Encolheu-se involuntariamente e tentou sustentar o olhar acerado de Bingham, mas teve de desviar o seu. Invadiu-a uma vaga de embaraço, culpa, cólera e ressentimento. Chocava-a o facto de Bob ter cometido aquela insensatez e desrespeitado o grau de confidencialidade das palavras que lhe ouvira. Por último, conseguiu recuperar a voz para admitir:

- Afirmei algo do género.

- Bem me parecia. Ele não teria coragem e arrojo para inventar uma coisa dessas. Bem, considere-se advertida, doutora Montgomery. Pode retirar-se.

Laurie abandonou o gabinete do chefe quase sem se dar conta.

Humilhada, não se atreveu a trocar um olhar com a senhora Sanford, com receio de perder o controlo das lágrimas que até então contivera. Subiu a escada a correr, sem esperar pelo elevador, esperançada em não se cruzar com ninguém.

Congratulou-se por a colega, com a qual partilhava o gabinete, continuar ausente na sala de operações. Fechou a porta atrás de si e sentou-se pesadamente à secretária. Sentia-se esmagada, como se os meses de trabalho árduo tivessem resultado inúteis devido a uma indiscrição irreflectida.

Por fim, levantou o auscultador com um gesto determinado.

Queria telefonar a Bob, para que soubesse o que pensava do acto que cometera. De repente, porém, hesitou e voltou a pousá-lo no descanso. De momento, não dispunha de ânimo para nova confrontação. Encheu os pulmões de ar e expeliu-o com lentidão.

Tentou reatar o trabalho, mas não conseguia concentrar-se e acabou por abrir a pasta e guardar alguns dos relatórios incompletos. Depois de recolher as suas coisas, meteu-se no elevador em direcção à cave e saiu pela porta da morgue na Rua 13. Não queria correr o risco de esbarrar com alguém conhecido na área de recepção.

Em harmonia com o seu estado de espírito, continuava a chover enquanto percorria a Quinta Avenida. A cidade apresentava um aspecto ainda pior que de manhã, com uma cortina de fumo de exaustores suspensa entre os edifícios alinhados ao longo da artéria. Ao mesmo tempo, olhava para o chão, a fim de evitar as poças de água oleosa, detritos e olhares dos que não tinham domicílio.

Até o prédio do seu apartamento parecia mais sujo que usualmente e, ao aguardar que a cabina do elevador aparecesse, notou o odor pungente de cebola frita com carne demasiado gordurosa. Quando atingiu o quarto andar, cravou o olhar na frincha da porta de Debra Engler, desafiando-a a emitir qualquer comentário, e soltou um suspiro de alívio ao ver-se finalmente em casa.

Nem o próprio Tom conseguiu elevar-lhe o moral, quando se roçou nas suas pernas, antes de ela se afundar numa poltrona, após deixar o impermeável e o guarda-chuva no bengaleiro.

No entanto, recusando ser ignorado, o gato subiu para o seu regaço e começou a fazer deslizar a pata pelo seu ombro, com as unhas devidamente recolhidas. Por fim, Laurie reagiu, acariciando-o distraidamente.

Lamentava a sua vida, enquanto a chuva continuava a embater na janela como grãos de areia. Pela segunda vez naquele dia, acudiu-lhe ao pensamento o facto de não ser casada. As críticas da mãe afiguravam-se-lhe mais merecidas que nunca, e perguntou-se mais uma vez se teria optado pela carreira apropriada. Que aconteceria dentro de dez anos? Poderia ver-se imersa no mesmo atoleiro de uma vida quotidiana solitária, esforçando-se por manter a papelada em dia, ou assumiria responsabilidades mais administrativas, como as de Bingham?

Descobriu pela primeira vez, com uma sensação de choque, que não desejava ser chefe. Até àquele momento, tentara sempre distinguir-se pela eficiência, tanto na universidade como na escola médica, e a aspiração a um cargo de chefia adaptar-se-ia a esse molde. A tendência traduzira uma espécie de rebelião, uma tentativa para levar o pai, importante cirurgião de doenças cardíacas, a reconhecer o seu valor. Mas nunca resultara. Ela sabia que, na opinião do progenitor, não conseguiria substituir o irmão que morrera aos dezanove anos.

Voltou a suspirar. Não era seu hábito estar deprimida, e o facto de tal acontecer entristecia-a. Nunca sejulgara tão sensível às críticas. Talvez fosse infeliz sem se aperceber conscientemente, devido ao trabalho constante e avultado.

Reparou que a luz vermelha do atendedor de chamadas piscava. A princípio, ignorou-a, mas, à medida que escurecia, o clarão parecia mais insistente. Depois de o observar durante cerca de dez minutos, a curiosidade acabou por vencer, e decidiu-se a escutar o que fora gravado. A chamada provinha da mãe, Dorothy Montgomery, a qual lhe pedia que telefonasse mal chegasse.

- Só me faltava isto! - exclamou Laurie. Ponderou se o deveria fazer, consciente da capacidade da mãe para a enervar, mesmo nas circunstâncias mais animadoras. Não tinha disposição para suportar mais uma dose de negativismo maternal e conselhos não solicitados.

Escutou a mensagem pela segunda vez e, depois de se convencer de que ela parecia sinceramente apreensiva, resolveu fazer a chamada. Dorothy atendeu logo após o primeiro toque.

- Graças a Deus que ligaste! - proferiu, ofegante. - De contrário, não sei o que faria. Já estava a pensar em enviar um telegrama. Organizamos um jantar, amanhã, e quero que compareças. Virá alguém que desejo apresentar-te.

- Por favor, mãe! - protestou Laurie, exasperada. - Não tenho grande disposição para um jantar formal. Foi um dia horrível, hoje.

- Não digas disparates. Mais uma razão para te ausentares desse horrível apartamento. Verás que passas umas horas agradáveis. A pessoa que te quero apresentar é o doutor Jordan Scheffteld, um oftalmologista maravilhoso, conhecido em todo o mundo, segundo o teu pai me garantiu. E, como se isso não bastasse, acaba de se divorciar de uma mulher horrível.

- Não estou interessada em me encontrar com um desconhecido - replicou, irritada, custando-lhe a acreditar que a mãe não só ignorasse o seu estado mental, como pretendesse impingir-lhe (era o termo adequado) um oftalmologista divorciado...

- É mais que tempo que conheças alguém do teu nível - volveu Dorothy. - Nunca compreendi o que viste naquele Sean Mackenzie, um autêntico rufia desequilibrado de influência nefasta. Ainda bem que cortaste com ele definitivamente.

Laurie fez rolar os olhos. Naquele dia, a mãe achava-se numa forma rara. Mesmo que houvesse alguma verdade no que dizia, de momento não lhe apetecia escutá-la. Costumava encontrar-se com Sean, sem regularidade, desde os tempos da universidade. O relacionamento revelara-se agitado quase a partir do primeiro dia e, conquanto não fosse exactamente um rufia, tinha uma espécie de atractivo de fora-da-lei, com a sua motocicleta e maus modos. Houvera um período em que a sua personalidade "artística" a excitara. Nessa época, mostrara-se suficientemente rebelde para experimentar drogas com ele em várias ocasiões. No entanto, confiava em que a última ruptura tivesse sido a definitiva.

- Tenta estar cá às sete e meia - recomendou Dorothy. - E veste qualquer coisa atraente, como, por exemplo, o fato de lã que te dei em Outubro pelos teus anos. Usa o cabelo puxado para trás. Bem, gostava de continuar a falar contigo, mas tenho muito que fazer. Até amanhã, querida. Adeusinho.

Laurie afastou o auscultador do ouvido e olhou-o com incredulidade na penumbra. A mãe desligara sem lhe dar tempo a responder ao arrazoado. Não sabia se devia praguejar, rir ou chorar. Por fim, pousou o auscultador no descanso e soltou uma gargalhada. Não havia dúvida de que Dorothy Montgomery era um grande "ponto". Ao invocar a conversa que acabavam de manter, custava-lhe a crer que a mesma tivesse ocorrido.

Dir-se-ia que falavam em frequências diferentes.

Com um suspiro de resignação, acendeu a luz e correu os cortinados. Protegida do mundo exterior, soltou o cabelo e despiu-se. Ao mesmo tempo, por razões que não conseguia definir, sentia-se melhor. O diálogo irreal com a mãe sacudira-a para fora da atitude depressiva.

Enquanto entrava na casa de banho e abria a torneira do chuveiro, admitia para consigo que tinha tendência para se tornar mais emocional em situações de serviço do que na verdade preferiria. O reconhecimento do facto irritou-a. Não se importava de trajar femininamente, mas não desejava parecer uma mulher frágil e volúvel. De futuro, tentaria ser mais profissional. Também reconhecia que cometera um erro grave ao confiar em Bob. Precisava de passar a reservar as opiniões para si própria, em particular se a Imprensa estivesse envolvida. Na verdade, podia considerar-se afortunada por Bingham não a ter despedido. Sob o jacto de água reconfortante, decidiu preparar uma salada e em seguida estudar para as provas de Patologia. De súbito, voltou a pensar no jantar do dia seguinte, em casa dos pais. Embora a sua reacção inicial tivesse sido indiscutivelmente negativa, começou a reconsiderar. Talvez constituísse uma solução de continuidade interessante na sua rotina. Por fim, ponderou que o oftalmologista recém-divorciado decerto era um sensaborão insuportável. Ao mesmo tempo, porém, perguntava a si própria que idade teria.

 

SEGUNDA-FEIRA, 21 HORAS E 40 MINUTOS DA TARDE

QUEENS, NOVA IORQUE

- Tenho de fazer alguma coisa - disse Tony Ruggerio, deslizando para o lado do passageiro do banco da frente do Lincoln preto de Angelo Facciolo. - Há quatro noites que estamos sentados frente à mercearia de Agostino. Não aguento isto de não fazer nada, percebes? Preciso de acção, envolver-me em qualquer coisa.

Os olhos percorreram com nervosismo a rua alagada pela chuva à sua volta. O carro encontrava-se estacionado junto de uma boca de incêndio, na Avenida Roosevelt.

A cabeça de Angelo virou-se para o lado com lentidão. Os olhos de pálpebras pesadas observaram o "miúdo" de vinte e quatro anos e expressão juvenil que lhe fora atrelado. O nervosismo e o impulsivismo do companheiro bastavam para lhe pôr a paciência à prova. Considerava que o "miúdo", cuja alcunha era "o Animal", representava um perigo permanente na sua própria actividade, como não deixara de salientar a Cerino. Mas para nada. O efeito não seria diferente se se dirigisse a uma parede. Cerino afirmara que a principal característica do miúdo era a ausência de medo. Arrojado e ambicioso, tinha poucos escrúpulos e ainda menos consciência.

Asseverara mesmo que precisava de mais gente como Tony, porém Angelo não partilhava dessa opinião.

Tony era baixo, com o seu metro e sessenta e cinco, e seco. E o que lhe faltava como intimidação em termos de estatura tentava compensar com a musculatura. Trabalhava com regularidade no Ginásio Americano, em Jackson Heights, e revelara a Angelo que tomava suplementos de proteínas e, ocasionalmente, esteróides.

Tinha fisionomia redonda, étnica, de italiano meridional, com cabelo preto, brilhante e denso. O nariz era levemente abaulado e torcido para o lado direito devido a alguma prática de pugilista amador. Crescera em Woodside e não chegara a completar o curso do liceu, onde brigava com frequência por causa da estatura e da irmã, Mary, que era "espampanante".

Sempre manifestara tendência para a proteger, convencido de que, no tocante ao sexo oposto, todos os homens tinham os mesmos objectivos que ele.

- Não posso continuar aqui metido - grunhiu. - Preciso de arejar. - E estendeu a mão para o fecho da porta.

- Calma! - recomendou Angelo, em tom suficientemente ameaçador para lhe conter os ímpetos, ao mesmo tempo que lhe pousava a mão no braço.

Cerino agira bem, de certo modo, ao juntá-los, pois Angelo, "Janota", constituía um contraste conveniente com o impetuoso Tony. Parecia mais velho que os seus trinta e quatro anos, alto e magro, com feições angulosas, como que talhadas a machado. Se o companheiro se mostrava sensível com a altura, Angelo era-o com a pele. Na verdade, o rosto exibia as marcas profundas da varíola que o atacara aos seis anos e do acne que persistira entre os treze e os vinte e um. Ao contrário do temperamento arrebatado e irreflectido de Tony, revelava-se sereno e calculista - um sociopata aparentemente calmo, cujo carácter fora moldado por uma série interminável de lares adoptivos e um período numa prisão de segurança máxima.

Ambos se mostravam presunçosos no que se referia à indumentária. No entanto, Tony nunca conseguia aparentar a elegância que desejava, pois os fatos, apesar de caros, assentavam sempre mal no seu corpo desproporcionadamente musculado. Por outro lado, Angelo apresentava-se invariavelmente trajado com esmero, graças ao bom gosto, compleição física favorável e roupa de qualidade.

Tony reclinou-se no banco e olhou Angelo de soslaio.

Reconhecia intimamente que era uma das poucas pessoas que respeitava, temia e até invejava. Na verdade, a sua reputação podia considerar-se lendária.

- O Paulie disse-me que o Frankie DePasquale viria a esta mercearia - declarou Angelo. - Por conseguinte, vamos ficar aqui à espera durante um mês, se for preciso.

- Safa! - articulou Tony, entredentes.

Em vez de sair do carro, introduziu a mão no casaco e puxou da sua Beretta Bantam de calibre. 25. Soltou a mola de segurança, extraiu o carregador e contou as balas, como se alguma das oito pudesse ter desaparecido desde que procedera à contagem pela última vez, meia hora antes.

Quando o viu puxar o gatilho da arma descarregada, Angelo fez rolar os olhos e indicou:

- Guarda isso. Que bicho te mordeu?

- Está bem, está bem! - Tony voltou a introduzir o carregador e colocou a pistola no coldre. - Calma, homem. - Olhou-o e, compreendendo que estava irritado, ergueu as mãos num gesto conciliador. - Pronto, já guardei.

O outro não replicou e tornou a concentrar-se na entrada da loja de Agostino, prestando atenção às pessoas que a transpunham nos dois sentidos.

Tony suspirou pesadamente e desabafou:

- Tem sido um mês dos diabos desde que os filhos da mãe atiraram ácido à cara do Paulie. Talvez se separassem e abandonassem a cidade. Pelo menos, é o que eu faria.

Raspava-me no dia seguinte. Ia para a Flórida ou para a Costa.

Podemos estar aqui sentados à espera para nada. Já pensaste nisso?

- O Frankie foi visto - redarguiu Angelo. - Aqui, na loja do Agostino.

- Como aconteceu? Como conseguiram aproximar-se do Cerino?

- Não foi complicado. O Vinnie Dominick convocou a reunião com ele. Ambos desarmados. Eles e os eventuais acompanhantes tinham de deixar a artilharia nos carros. Até utilizámos um detector de metais que o Cerino surripiou do Aeroporto Kennedy. Quando o Terry Manso começou a servir o café, atirou uma chávena de ácido à cara do Paulie. Sabemos que o Frankie estava envolvido, porque apareceu com ele.

- Como se escapuliu o Frankie?

- As luzes apagaram-se nesse momento e estabeleceu-se um autêntico pandemónio, com o Paulie aos gritos e todos à procura de refúgio na escuridão. Eu estava ao pé da janela da frente, que escavaquei com uma cadeira, e saí por ela. Foi então que vi o Manso a fugir pela porta da rua, enquanto o Frankie já subia para um carro. Passou-se tudo tão rapidamente que poucos puderam reagir.

- Como conseguiste apanhar o Manso?

- Foi uma corrida, e ele perdeu. O meu carro estava mesmo em frente do restaurante, com a pistola no banco do condutor, para o caso de as coisas darem para o torto. Disparei duas vezes, quando o Manso tentava entrar para o seu. Não lhe foi possível. As duas balas cravaram-se nas costas.

- Quantas pessoas estavam envolvidas? - quis saber Tony, que ardia de curiosidade acerca do episódio do ácido desde que se inteirara da sua ocorrência, mas receara abordá-lo.

- Segundo os meus cálculos, pelo menos duas, além do Manso e do DePasquale. É para nos certificarmos que pretendemos conversar com o Frankie.

- É incrível! - exclamou, meneando a cabeça. - Quanto seria que a malta do Lucia prometeu pagar por esse tipo de atentado?

- Ninguém sabe ao certo. Consta mesmo que os rufias agiram por sua alta recreação, convencidos de que seriam recompensados pela malta do Lucia. No entanto, na medida em que nos foi possível apurar, eles nem sequer se deram por achados.

- Que falta de respeito... ácido na cara. Gaita!

- A propósito, arranjaste o ácido para a bateria?

- Com certeza. Está na maleta de médico do velho Doc Travino, no banco de trás.

- óptimo - aprovou Angelo. - O Paulie vai ficar contente. É um toque requintado.

Tony espreguiçou-se e conservou-se calado por uns momentos.

Por fim, aclarou a voz e aventurou:

- Que dizes a eu sair por um instante? Gostava de efectuar umas elevações dos braços. Tenho os ombros rígidos.

Angelo mastigou uma imprecação e confidenciou ao companheiro que achar-se com ele no carro era o mesmo que estar trancado num quarto com um miúdo de dois anos.

- Lamento, mas estou acostumado a mais actividade do que esta.

Tony entrelaçou os dedos e executou uma série de exercícios isométricos. A meio de um, parou e arregalou os olhos.

- Com a breca! - proferiu, excitado. - Não é o Frankie DePasquale que vai a passar ao nosso lado?

Angelo inclinou-se para a frente, a fim de olhar na direcção indicada.

- Pelo menos, parece.

- Até que enfim!

Tony estendeu uma das mãos para a janela, enquanto sacava da arma com a outra, porém o companheiro imobilizou-lhe o braço do seu lado e ele fitou-o com perplexidade.

- Ainda não. Temos de nos certificar de que o tipo está só.

Não podemos meter a pata na poça. Talvez seja a nossa última oportunidade, e o Paulie não quer mais complicações.

Como um cão de caça que se continha com dificuldade perante a presa ao seu alcance, Tony viu Frankie desaparecer na concorrida mercearia. E a sua surpresa não foi pequena quando Angelo ligou o motor do carro.

- Que ideia é essa?

- Vou recuar um pouco. Tudo indica que ele se encontra só.

Apanhamo-lo quando sair.

Encostou ao passeio, no espaço destinado à paragem de autocarros, e conservou o motor em movimento.

Vinte minutos mais tarde, Frankie reapareceu com embrulhos em ambos os braços e começou a caminhar na direcção do local em que Angelo e Tony aguardavam.

- Parece um adolescente - disse o primeiro.

- E é. Tem dezoito anos. Era condiscípulo da minha irmã antes de começar a andar com as companhias erradas e abandonar os estudos.

- Agora! - ordenou.

Movendo-se com extraordinária rapidez, apearam-se e enfrentaram o estupefacto Frankie DePasquale, que entreabriu a boca e exibiu uma expressão de incredulidade.

- Olá, Frankie - disse Angelo, calmamente. - Precisamos de conversar.

O interpelado reagiu largando os embrulhos, dos quais rolaram latas de conserva de tomate, deu meia volta e começou a correr.

Tony alcançou-o sem dificuldade, puxou-o pelo braço e atirou-o ao chão. Em seguida, conservando-o dominado, revistou-o rapidamente e retirou de um dos bolsos interiores do casaco uma pequena Saturday Night Special. Apressou-se a guardá-la e obrigou o aterrorizado rapaz a voltar-se. De perto, Frankie parecia nem ter completado dezoito anos. Na verdade, dava a impressão de que ainda não se barbeava.

- Não me faças mal! - gemeu.

- Cala o bico! - retorquiu Tony, quase enojado com a atitude do outro.

Entretanto, Angelo levara o carro para junto deles e desceu sem desligar o motor. Alguns transeuntes tinham-se detido debaixo dos seus guarda-chuvas para contemplar o espectáculo, boquiabertos. Angelo abriu caminho entre eles e vociferou:

Circulem, por favor! Somos da polícia!

E exibiu um velho crachá que conservava sempre na algibeira para situações daquela natureza. O facto de o mesmo se referir à área do Parque Ozone, quando se encontravam na de Woodside, carecia de importância. A configuração e o brilho do metal bastavam para produzir o efeito pretendido, e a pequena multidão começou a dispersar.

- Não são nada da polícia! - gritou Frankie. Tony respondeu ao apelo da presa apontando-lhe a Beretta Bantam à nuca.

- Mais uma palavra e passas à história.

Com Angelo num lado e Tony no outro, levantaram o rapaz do chão e arrastaram-no para o carro, onde o impeliram para o banco de trás. Tony entrou atrás dele e Angelo instalou-se de novo ao volante. Com um guincho agudo dos pneus, seguiram para oeste, para a Avenida Roosevelt.

- Para que é isto? - bradou Frankie. - Que mal lhes fiz eu?

- Caluda! - advertiu Angelo, que olhava com insistência pelo espelho retrovisor. Se notasse algum indício de perseguição, cortaria para o Bulevar de Queens, mas como tal não acontecia continuou em frente. A Avenida Roosevelt cedeu o lugar à Greenpoint, e ele começou a descontrair-se. - Muito bem, traste. Podes começar a falar.

- De quê?

- Do trabalho que tu e o Manso executaram no Paulie Cerino.

Com certeza já depreendeste que trabalhamos para ele.

Os olhos de Frankie moveram-se do rosto de Tony para a arma que lhe apontava, e a seguir para a imagem de Angelo no espelho retrovisor.

- Não fui eu - protestou, aterrorizado. - Estava presente e mais nada. A ideia partiu do Manso e eles obrigaram-me a acompanhá-los. Eu não queria, mas ameaçaram a minha mãe.

- Eles, quem? - inquiriu Angelo.

- Refiro-me ao Terry Manso. Foi o principal responsável.

Num movimento brusco, Tony atingiu-o na face com o cano da pistola. Frankie soltou um grito de dor e pousou a palma da mão no rosto, enquanto um fio de sangue deslizava por entre os dedos.

- Julgas-nos estúpidos?

- Não o maltrates por enquanto - indicou Angelo.

- Talvez queira colaborar.

- Não me batam mais, por favor! - suplicou o rapaz, entre soluços.

Tony soltou uma imprecação com ar desdenhoso e introduziu-lhe o cano da arma entre os dedos, na direcção da boca.

- Os teus miolos vão cobrir o interior do carro se não tomares juízo e parares de nos querer intrujar.

- Quem mais estava envolvido? - insistiu Angelo. Tony retirou o cano da arma para que o interpelado pudesse falar.

- Só o Manso - soluçou Frankie. - E obrigou-me a acompanhá-lo.

- É óbvio que não queres colaborar. - Angelo abanou a cabeça com simulado desalento. - Lembra-te da luz. Apagou-se no mesmo instante em que o Manso atirou o ácido. Não foi coincidência.

Quem o fez? E o carro. Quem o conduzia?

- Não sei nada sobre a luz - balbuciou Frankie. - E não me lembro de quem guiava. Alguém que não conheço, contratado pelo Manso.

Angelo meneou a cabeça mais uma vez. Já nada era fácil como dantes. Detestava aquele tipo de trabalho sujo. Acalentara a vaga esperança de que o rapaz falasse abertamente, a partir do momento em que o trouxessem para o carro. Afinal, tudo indicava que tal não aconteceria.

Volveu o olhar para o espelho retrovisor e vislumbrou o rosto de Tony, o qual exibia um sorriso indicativo de que os acontecimentos se desenrolavam em conformidade com as suas preferências. Na realidade, o companheiro conseguia por vezes provocar-lhe apreensão.

Quando alcançaram a área das docas de Greenpoint, em Brooklyn, Angelo virou à direita, para a Rua Franklin, e depois para a esquerda, para a Java. O local era pouco frequentado, em particular mais próximo da água. Armazéns abandonados alinhavam-se ao longo da artéria. Setenta e cinco a cem anos atrás, o movimento intenso quase nunca se interrompia, mas a situação alterara-se gradualmente, à medida que várias empresas se transferiam para outras paragens, restando apenas um número reduzido, como a fábrica da Pepsi-Cola, para os lados de Newtown Creek.

No beco sem saída onde a Rua Java terminava, no East River, Angelo conduziu o carro através de um portão encimado por uma tabuleta com os dizeres AMERICAN FRESH FRUIT COMPANY e travou um pouco adiante.

- Toca a descer, toda a gente! - ordenou. Achavam-se estacionados à sombra de um vasto armazém, num cais que se internava durante quase cem metros no East River. Do outro lado do rio, erguia-se a massa reluzente dos edifícios de Manhattan. Tony apeou-se, segurando a pequena maleta de Doc Travino, e indicou a Frankie que o imitasse.

Angelo abriu o cadeado da porta do armazém, puxou-a para cima e fez sinal ao rapaz para que entrasse. Este último hesitou e articulou em voz trémula:

- Disse-lhes tudo o que sabia. Que pretendem de mim?

Tony aplicou-lhe um empurrão que o fez cambalear para a frente. O estalido do interruptor da luz ecoou no cavernoso armazém e os tubos de vapor de mercúrio acenderam-se gradualmente, até que iluminaram as volumosas sacas de bananas verdes amontoadas em volta.

- Por favor! - uivou Frankie.

No entanto, os outros dois ignoraram-no e encaminharam-se para a retaguarda, onde abriram outra porta, e Angelo acendeu o tubo suspenso do tecto por um simples arame. A pequena sala continha uma velha secretária de metal sem gavetas, algumas cadeiras e uma larga abertura no chão. No fundo desta, a água do East River tinha mais o aspecto de óleo.

- Garanto-lhes que disse a verdade - tornou Frankie. - Foi tudo obra do Manso, que me obrigou a acompanhá-lo. Não sei mais nada.

- Pois claro, rapaz - retrucou Angelo. Virou-se para Tony e acrescentou: - Amarra-o a uma cadeira.

O "miúdo" pousou a maleta na secretária e abriu-a, para extrair um pedaço de corda de nylon. Em seguida, com um sorriso malicioso, ordenou a Frankie que se sentasse numa das cadeiras. O rapaz obedeceu e, enquanto Tony o atava, Angelo acendeu um cigarro.

Por fim, Tony puxou a corda para se certificar de que os nós estavam sólidos, endireitou-se e acenou a Angelo, que se dirigiu de novo ao prisioneiro.

- Pela última vez, rapaz. Quem mais esteve envolvido no episódio do ácido? Além de ti e do Manso.

- Ninguém - afirmou Frankie, voltando a soluçar. - Estou a dizer a verdade.

Angelo soprou-lhe o fumo para o rosto e voltou-se para o companheiro.

- É altura de lhe aplicar o soro da verdade. Tony muniu-se de um pequeno frasco de vidro e de um conta-gotas da maleta de Doc Travino e entregou-lhos. Angelo desenroscou a cápsula, cheirou o conteúdo e desviou a cabeça repentinamente.

- Safa, que é forte! - Pestanejou várias vezes e limpou as lágrimas dos cantos dos olhos. - Ainda estás a tempo de alterar a tua versão - observou calmamente, depois de se aproximar de Frankie.

- Disse toda a verdade! - reiterou este último. Angelo indicou a Tony:

- Puxa-lhe a cabeça para trás. - Aguardou que a ordem fosse cumprida e debruçou-se sobre o rosto do rapaz, virado para cima. - Conheces a expressão "olho por olho, dente por dente"?

Só então Frankie se apercebeu do que acontecia, mas, apesar das tentativas desesperadas para conservar os olhos fechados Angelo conseguiu esvaziar o conta-gotas na pálpebra inferior direita.

Registou-se um leve crepitar, enquanto o ácido sulfúrico destruía os delicados tecidos da vista. Angelo moveu o olhar para Tony e notou que o sorriso deste se alargara. Não pôde deixar de se perguntar o que se passava com a nova geração. O "miúdo" desfrutava como um califa, ao passo que para ele aquilo não constituía um divertimento, mas apenas ossos do ofício. Nem mais nem menos.

Por fim, pousou o frasco de ácido na secretária e chupou o cigarro por uns momentos. Quando os gritos de Frankie se atenuaram e converteram em soluços estrangulados, inclinou-se para ele e tornou a perguntar serenamente se pretendia alterar a versão.

- Fala! - ordenou, quando pareceu que o outro o ignorava.

- Disse toda a verdade - conseguiu o rapaz proferir mais uma vez.

- Que gaita esta! - grunhiu Angelo, voltando a pegar no frasco, ao mesmo tempo que indicava por cima do ombro: - Torna a puxar-lhe a cabeça para trás.

- Esperem! - gemeu Frankie. - Não me torturem mais. Vou dizer-lhes o que pretendem.

Angelo voltou a pousar o frasco e acercou-se dele, para olhar em silêncio, por um momento, os efeitos produzidos pelo ácido.

- Então, fala. Quem mais esteve envolvido?

- Vão buscar alguma coisa para a vista. As dores são insuportáveis.

- Tratamos disso assim que nos disseres o que queremos saber.

Vá lá, antes que se me esgote a paciência.

- O Bruno Marchese e o Jimmy Lanso.

Angelo consultou Tony com o olhar e este acenou a cabeça afirmativamente.

- Ouvi falar do Bruno. É um tipo de cá.

- Onde os podemos encontrar, se desejarmos conversar com eles?

- Na Rua Cinquenta e Cinco, trinta e oito, vinte e dois, apartamento um - informou Frankie. - A seguir ao Bulevar Norte.

- De quem foi a ideia? - perguntou Angelo, enquanto anotava o endereço num pedaço de papel.

- Do Manso. Disse que, se o fizéssemos, nos tornaríamos todos soldados do Lucia, pertencentes ao círculo íntimo. Mas obrigaram-me a participar, porque eu não queria.

- Não podias ter revelado tudo isto no carro? Poupavas-nos trabalho e maus tratos.

- Tinha medo que os outros me matassem se descobrissem que falara.

- Tens mais receio dos teus amigos que de nós? - estranhou, colocando-se atrás de Frankie. - É curioso. Mas não interessa.

Já não precisas de te preocupar com eles, porque vamos cuidar de ti.

- Arranjem qualquer coisa para aplicar na vista.

- Com certeza.

Num movimento suave e sem a mínima hesitação, puxou da pistola Walther TPH Auto e premiu o gatilho. A bala embebeu-se na nuca de Frankie, cuja cabeça tombou para o peito, segundos antes de o corpo se tornar inerte.

A brusquidão do acto final surpreendeu Tony, que estremeceu e recuou um passo, antevendo abundante derramamento de sangue.

Mas tal não aconteceu e ele acabou por perguntar a meia voz:

- Porque não me deixaste tratar disso?

- Cala-te e desamarra-o. Não estamos aqui para te proporcionar divertimento. Trata-se de uma tarefa da profissão, lembras-te?

Quando o "miúdo" retirou a corda de nylon, Angelo ajudou-o a levar o corpo sem vida para junto da abertura no chão.

Contaram até três em uníssono e lançaram-no ao rio. Ele observou o resultado durante o tempo suficiente para se certificar de que a corrente o arrastava para o largo.

- Voltemos a loodside para uma visita social aos outros.

O endereço que Frankie fornecera correspondia a uma casa de dois pisos, com um único apartamento em cada um. A porta da rua estava fechada. Porém, possuía um mecanismo incapaz de resistir a um cartão de crédito, e os dois homens transpuseram-na em poucos minutos.

Depois de se postarem em cada lado da porta do apartamento um, Angelo bateu. Não obteve resposta, apesar de terem visto da rua que a luz estava acesa.

- Mete-a adentro - indicou.

Tony retrocedeu alguns passos e aplicou um violento pontapé na porta, que cedeu. Num abrir e fechar de olhos, encontraram-se dentro, de pistola em punho. O apartamento estava deserto, com várias garrafas de cerveja meio vazias numa mesinha no centro da sala e o televisor ligado.

- Que te parece? - perguntou Tony.

- Devem ter-se alarmado ao verem que o Frankie não voltava.

Angelo acendeu um cigarro e reflectiu por um momento.

- E agora?

- Sabes onde mora a família do Bruno?

- Não, mas posso averiguá-lo.

- Então, trata disso.

 

TERÇA-FEIRA, 7 HORAS E 55 MIMUTOS, DE MANHÃ

MANHATTAN

Estava uma manhã estupenda quando Laurie Montgomery abandonou o apartamento e seguiu para norte, na Primeira Avenida, em direcção à Rua 13. A própria cidade de Nova Iorque conseguia apresentar um aspecto aprazível, após dois dias consecutivos de chuva intensa. A temperatura baixara e constituía uma advertência desagradável do aproximar do Inverno. Mas fazia sol e soprava vento suficiente para dispersar o fumo dos escapes dos veículos.

Os passos dela aceleravam-se à medida que se aproximava do local de trabalho, e esboçou um sorriso ao pensar em como se sentia diferente naquela manhã, em comparação com a véspera, quando regressara a casa. A reprimenda de Bingham fora contundente, mas merecida, pois ela procedera mal. No lugar dele, não estaria menos irritada.

Quando começava a subir os degraus da entrada, perguntou-se que novidades lhe traria o novo dia. Um dos aspectos do seu trabalho que mais apreciava era a imprevisibilidade. Sabia apenas que estava escalada para "autopsiar". Não fazia a menor ideia da natureza dos casos que lhe caberiam e do género de enigmas intelectuais que se lhe deparariam. Praticamente, cada vez que tinha de fazer uma autópsia surgia algo que nunca vira e até de que jamais ouvira falar. Na verdade, tratava-se de uma profissão que significava descoberta contínua.

Naquela manhã, a área da recepção achava-se relativamente calma, embora ainda estivessem presentes alguns representantes dos media, em busca de mais elementos sobre o homicídio no Central Park, que, na véspera, merecera honras de primeira página nos matutinos locais.

Acabava de transpor a porta interior, quando estacou ao avistar Bob Talbot sentado num sofá a conversar com outro repórter. Após um momento de hesitação, dirigiu-se para lá.

- Preciso de falar contigo, Bob. - Laurie voltou-se para o outro homem. - Desculpe a interrupção.

O interpelado levantou-se com prontidão e afastou-se com ela. Laurie estava intrigada com a atitude dele, pois esperava vê-lo embaraçado.

- Ver-te dois dias seguidos deve ser um recorde. É um prazer a que me habituaria sem dificuldade.

Laurie entrou directamente no assunto:

- Custa-me a crer que não tivesses mais respeito pela minha confiança. O que te disse ontem destinava-se apenas aos teus ouvidos.

- Lastimo profundamente. - Ele parecia, na verdade, abalado com o remoque. - Não sabia que o assunto era confidencial. Pelo menos, não disseste nada.

- Podias ter calculado - volveu ela, dominada por cólera surda. - Não é difícil imaginar o que semelhante revelação contém de pernicioso para a minha posição aqui dentro.

- Desculpa - volveu Bob. - Não torna a acontecer.

- Não tenhas a mínima dúvida a esse respeito.

 

Laurie encaminhou-se para o interior do edifício, ignorando Bob, que a chamava. Não obstante, a irritação atenuara-se. No fundo, dissera a verdade, na véspera, e ponderou que talvez se devesse sentir mais desconfortável com os aspectos social e político mencionados por Bingham do que com Bob. Um dos atractivos da patologia, em geral, e da medicina legal, em particular, consistia em que ela e os colegas tentavam enfrentar a verdade, e a ideia do compromisso, independentemente do motivo, desagradava-lhe. Esperava que nunca lhe fosse necessário ter de optar entre os seus escrúpulos e a politização de uma situação.

Depois de Marlene Wilson lhe abrir a porta por meio do fecho automático, seguiu directamente para o Departamento de Identificação, onde, como habitualmente, Vinnie Amendola tomava café e lia a secção desportiva do jornal. Se a data deste não fosse a do próprio dia, Laurie quase juraria que ele nunca saía dali. Se se apercebeu da presença dela, não o deixou transparecer. Riva Mehta, com a qual partilhava o gabinete, também estava presente. Era uma indiana magra, de tez cor de azeitona e voz suave. Na véspera não se tinham visto uma única vez.

- Parece que hoje é o teu dia de sorte - observou Riva, com uma expressão maliciosa.

- Como assim? - perguntou Laurie, vendo que a colega também tomava café antes de recolher ao gabinete, pois era o seu dia de se ocupar exclusivamente da papelada.

Vinnie soltou uma risada seca, sem levantar os olhos do jornal.

- Tens um flutuador de homicídio - explicou a indiana.

"Flutuador" era um corpo que permanecera na água durante um certo período. Em geral, ninguém desejava esses casos, porque os cadáveres se apresentavam com frequência em avançado estado de decomposição.

Laurie leu a escala que Calvin elaborara naquela manhã, em que figuravam as autópsias do dia e a quem competiam. A seguir ao nome dela, havia duas overdoses de drogas e um homicídio FAF, iniciais que correspondiam a ferimento com arma de fogo.

- O corpo foi pescado do East River, esta manhã - acrescentou Riva. - Um agente da segurança atento viu-o passar diante da doca da Rua Sul.

- Estupendo - articulou Laurie, secamente.

- Podia ser pior - interpôs Vinnie. - Não havia muito tempo que estava na água. Apenas um par de horas.

Ela inclinou a cabeça, aliviada. Aquilo significava que, provavelmente, não teria de se ocupar do caso na sala de decomposição. Em situações daquela natureza, preocupava-a mais o isolamento que o cheiro. Preferia achar-se envolvida nas coisas relacionadas com o outro pessoal. Havia ajuda mútua considerável na sala principal de autópsias e acontecia por vezes aprender tanto com casos dos outros como com os seus.

Leu o nome da vítima e a idade:

- Frank DePasquale e tinha apenas dezoito anos. Coitado... E, à semelhança da maioria desses homicídios, o caso provavelmente nunca será solucionado.

- É o mais certo - concordou Vinnie, voltando a página do jornal.

Laurie deu os bons-dias a Paul Plodgett, quando ele surgiu à entrada, e perguntou-lhe como se desenrolava o seu famoso caso.

- Nem queiras saber - murmurou ele, que apresentava olheiras profundas. - É um autêntico pesadelo.

 

Laurie encheu uma chávena de café e pegou nas três pastas de cartolina referentes aos seus casos do dia. Cada uma continha uma folha de trabalho, uma certidão de óbito parcialmente preenchida, um inventário de registos médico-legais, duas folhas para anotações sobre a autópsia, a transcrição da comunicação da morte como fora recebida pelo respectivo departamento, uma identificação completa, um relatório de investigação, uma folha para o resultado da autópsia e um talão do laboratório sobre a análise de anticorpos.

Quando esquadrinhava todo o material, reparou nos nomes de Louis Herrera e Duncan Andrews e recordou-se deste último, da véspera.

- Esse é o caso de que você me falou ontem - esclareceu uma voz por cima do seu ombro, e ela viu-se perante os olhos negros e perscrutadores de Calvin Washington, que se aproximara em silêncio e pousava o dedo no nome citado. - Quando vi de quem se tratava, calculei que desejaria ficar com ele.

- Não vejo inconveniente.

Cada praticante de autópsias tinha a sua maneira pessoal de proceder. Alguns pegavam no material e seguiam directamente para a "cova". Laurie, porém, tinha um modus operandi diferente. Gostava de levar toda a papelada para o gabinete, a fim de planear o seu dia tão racionalmente quanto possível. Com a chávena numa das mãos, a pasta na outra e os elementos sobre os três casos debaixo do braço, encaminhou-se para o elevador. Passava pela área das comunicações, quando o sargento Murphy, um dos polícias normalmente de serviço no Departamento de Autópsias, a chamou e emergiu do cubículo, destinado às autoridades, com um segundo homem a acompanhá-lo.

- Quero apresentar-lhe o tenente-detective Lou Soldano, doutora Montgomery - disse o primeiro, um irlandês rubicundo e comunicativo. - É um dos ases do Departamento de Homicídios da Central.

- Muito gosto em conhecê-la, doutora.

O detective, um homem moreno, bem-parecido, de estatura mediana e olhos brilhantes, estendeu a mão. O cabelo estava cortado curto, num estilo que parecia apropriado à sua constituição física muscular.

- Igualmente - replicou Laurie. - Não é muito vulgar vermos um polícia nestas paragens - observou, um pouco enervada com o olhar insistente do interlocutor.

- Não nos deixam sair da jaula com frequência - explicou Lou. - Passo a maior parte do tempo grudado à secretária. Apesar disso, gosto de arejar um pouco, de vez em quando, em especial tratando-se de determinados casos.

- Bem, espero que a visita lhe seja proveitosa. - E ela fez menção de se afastar.

- Um momento, por favor. Disseram-me que tinha a seu cargo a autópsia de Frank DePasquale, e gostava de assistir. Já pedi autorização ao doutor Washington.

- Como queira... se conseguir tolerar o ambiente.

- Presenciei algumas, pelo que não prevejo qualquer problema.

- óptimo. - Seguiu-se uma pausa embaraçosa, até que se apercebeu de que o homem aguardava instruções.

- Dirigia-me ao meu gabinete, para analisar previamente a papelada, como faço sempre. Quer vir?

- Com o maior prazer.

 

No elevador, observou Soldano mais atentamente. Era atlético, de expressão inteligente e um ar de certo desmazelo que lhe recordou Colombo, detective da TV celebrizado por Peter Falk. O vinco das calças há muito que desaparecera e, apesar de serem apenas pouco mais das oito horas da manhã, apresentava uma barba a precisar de ser escanhoada.

Como se lhe adivinhasse o pensamento, ele pousou os dedos nas faces e declarou:

- Devo ter um aspecto horrível, mas estou a pé desde as quatro e meia da madrugada, quando o corpo de DePasquale deu à costa, por assim dizer, e não tive oportunidade de me barbear. Espero que o facto não a contrarie muito. De qualquer modo, não pretendo candidatar-me a um segundo Don Johnson, do "Miami Vicen".

- Não tinha reparado - mentiu Laurie. - Mas porque está um tenente-detective tão interessado numa vítima de homicídio de dezoito anos? Existe alguma coisa de especial neste caso que eu deva saber?

- Digamos que se trata mais de uma questão pessoal. Antes de ser promovido a tenente e transferido para a Brigada de Homicídios, trabalhei no Departamento do Crime Organizado durante seis anos. O caso DePasquale abarca as duas áreas. Era um jovem rufia relacionado com a família de criminosos Lucia. Apesar de ter apenas dezoito anos, o seu cadastro é tão longo como o meu braço. - O elevador deteve-se no quarto piso e ela fez sinal para saírem. - Como decerto já deduziu - continuou, enquanto seguiam pelo corredor, - a morte do rapaz foi obviamente uma execução.

- Foi? - estranhou Laurie, para a qual ainda nada era óbvio.

- Em absoluto. Verificará que foi atingido à queima-roupa por uma bala de pequeno calibre na base do crânio. É o método habitual. Assim, o derramamento de sangue fica reduzido ao mínimo.

Entraram no gabinete, onde ela apresentou o detective a Riva, já debruçada intensamente sobre o trabalho. Laurie aproximou uma cadeira da sua secretária para Lou e sentaram-se ambos.

- Suponho que está ao corrente desses casos de execuções entre gangsters?

Não tenho bem a certeza - alegou, evasivamente, pois o treino na escola médica ensinara-a a mostrar-se reticente em face de uma pergunta directa e não desejava incutir a impressão de inexperiência na matéria.

- Costumam resultar de atritos entre organizações rivais - prosseguiu o tenente. - Neste caso, seria entre as famílias Lucia e Vaccarro, os actores mais importantes no cenário da área de Queens, com os respectivos interesses a cargo de patrões de nível médio: Vinnie Dominick e Paul Cerino. Penso que este último contribuiu para o passamento prematuro do infortunado Frank DePasquale e, nessa eventualidade, nada me agradaria mais do que lançar-lhe a luva com provas substanciais. Andei no seu encalço ao longo dos seis anos em que trabalhei no Crime Organizado, mas nunca consegui obter o mínimo elemento comprometedor. Assim, se agora pudesse ligá-lo a um delito capital, como a morte desse rapaz, seria estupendo.

- O que coloca o fardo sobre os nossos ombros - comentou Laurie, abrindo a pasta referente a DePasquale.

- Se a doutora ou o seu laboratório obtivessem alguma coisa de aproveitável, ficar-lhe-ia eternamente grato. Necessitamos de um ponto de partida palpável. O problema com os tipos como o Cerino é que mantêm tantas camadas estanques entre eles e todos os crimes cometidos em seu nome que raramente conseguimos que uma acusação se solidifíque.

- Que maçada! - exclamou subitamente, pois analisava o conteúdo da pasta de DePasquale, ao mesmo tempo que escutava o detective.

- Há alguma novidade?

- Não o radiografaram. - Levantou o auscultador e ligou à morgue. - Precisamos de uma radiografia antes de iniciar a autópsia. Infelizmente, isto vai atrasar as coisas. Tenho de me ocupar primeiro de um dos outros dois casos. Lamento.

Como única resposta, Lou encolheu os ombros com resignação.

Ela indicou ao técnico que atendeu que radiografasse Frank DePasquale o mais depressa possível, e ele prometeu envidar os maiores esforços nesse sentido. No momento em que Laurie desligava, Calvin Washington surgiu à entrada.

- Temos um problema de que se deve inteirar.

- De que se trata? - perguntou Laurie, levantando-se. Vendo que o recém-chegado olhava Lou com curiosidade, acrescentou: - Creio que já conhece o tenente Soldano.

- Sim, com certeza. - Os dois homens apertaram a mão e o detective conservou-se igualmente de pé. - Sentem-se! - Calvin virou-se de novo para Laurie. - Quero preveni-la de que já começámos a ser pressionados pelo gabinete do major sobre o caso de Duncan Andrews. Parece que este tinha ligações políticas poderosas. Por conseguinte, convém que colaboremos. Procure uma causa natural da morte, para que a questão da droga passe para segundo plano. A família prefere essa hipótese.

Laurie olhou-o, na expectativa de o ver sorrir subitamente e declarar que pretendia divertir-se à sua custa, porém a expressão dele não se alterou.

- Receio não estar a compreender - acabou ela por articular.

- Creio que fui bem claro - retorquiu Calvin, com indícios de uma explosão iminente.

- Quer que minta?

- De modo algum, doutora Montgomery! Será necessário que trace um diagrama? Peço-lhe apenas que explore essa possibilidade na medida do possível. Descubra algo do género de uma plaqueta coronária, um aneurisma, seja o que for. E não se mostre tão surpreendida ou chocada. A política desempenha um papel importante neste departamento, e quanto mais depressa se compenetrar disso melhor para si.

Com estas palavras ominosas, rodou nos calcanhares e desapareceu com a brusquidão com que surgira.

Lou assobiou em surdina e sentou-se.

- É dos duros.

Laurie meneava a cabeça, como se não acreditasse no que ouvira, e voltou-se para Riva, que não interrompera o trabalho.

- Ouviste isto?

- Também me aconteceu, uma ocasião - replicou a indiana, sem erguer os olhos. - Só que o meu caso dizia respeito a um suicídio.

Laurie sentou-se com um suspiro de desalento e volveu o olhar para Lou, do outro lado da secretária.

- Não sei se estou disposta a sacrificar a integridade e a ética por causa da política.

- Acho que não foi isso que o doutor Washington lhe pediu para fazer.

- Não? - retorquiu, corando. - Lamento, mas penso o contrário.

- Não pretendo ensinar o padre-nosso ao vigário, mas, segundo a minha interpretação, ele quer que realce qualquer causa natural, potencial da morte, que detectar. O resto pode ficar a cargo da respectiva interpretação. Por razões fora do meu conhecimento, é importante neste caso. No fundo, trata-se do mundo real contra o da simulação.

- Bem, você parece muito blasé no que toca a atamancar os pormenores. Em patologia, devemos lidar com a verdade.

- Ora, ora! Que é a verdade? Há tonalidades cinzentas em quase tudo da vida, e porque não na morte? As linhas mestras do meu trabalho baseiam-se na justiça. É um ideal e eu conservo-o sempre em mente. Mas se pensa que a política não desempenha por vezes um papel predominante no modo como a justiça é aplicada, ilude-se a si própria. Existe sempre um hiato entre ela e a lei. Bem-vinda para o mundo real.

- Seja como for, não me agrada - asseverou, recordando-se das suas preocupações sobre o compromisso, quando chegara ao local de trabalho, meia hora antes.

- Não precisa de gostar. Aliás, são poucos os que gostam.

Abriu a pasta referente a Duncan Andrews e folheou os documentos até que se lhe deparou o relatório da investigadora. Depois de o ler uns momentos, ergueu os olhos e declarou:

Começo a abarcar o panorama. O extinto era uma espécie de mágico da finança, vice-presidente de uma firma bancária de investimento, apenas com trinta e cinco anos. E, como se isso não bastasse, diz aqui que o pai concorre a senador dos Estados Unidos.

- Não pode haver nada de mais político que isso. - Assentiu com um movimento de cabeça e continuou a ler o relatório. Quando chegou à secção sobre quem identificara a vítima, deparou-se-lhe o nome de Sara Wetherbee. No espaço destinado à relação entre ela e a testemunha figurava o termo "namorada".

Abanou a cabeça. A descoberta de uma pessoa amada vitimada por excesso de consumo de drogas evocava-lhe ressonâncias hediondas. Acto contínuo, as suas reflexões recuaram dezassete anos, quando tinha quinze e frequentava a Escola Langley. Recordava-se bem do dia soalheiro como se tivesse sido na véspera. Decorria o Outono, e as árvores do Central Park constituíam um manto de cor. Virara à esquerda na Rua 84 e entrara no maciço edifício de apartamentos dos pais, no lado oeste da Avenida do Parque.

- Cheguei! - anunciou, largando a pasta com os livros em cima da mesa do átrio. Não obteve resposta. O único som consistia no produzido pelo tráfego, em que predominava o inevitável buzinar dos táxis. - Não está ninguém? - volveu, e ouviu a sua própria voz ecoar ao longo dos corredores.

Surpreendida por encontrar o apartamento deserto, impeliu a porta da copa do mordomo para a cozinha. Nem Holly, a empregada, se achava visível. De repente, porém, Laurie lembrou-se de que era sexta-feira, o seu dia de folga.

- Shelly! - bradou.

 

Esperava encontrar em casa o irmão mais velho, que viera da universidade para passar o fim-de-semana prolongado, devido ao Dia de Colombo, com a família. Espreitou para o escritório, igualmente deserto, e viu o televisor ligado, com o som cortado.

Por um momento, Laurie fixou o olhar na transmissão de um acontecimento desportivo qualquer, estranhando que o aparelho não tivesse sido desligado. Convencida de que havia alguém em casa, reatou as pesquisas, sem conseguir explicar a razão pela qual os vários aposentos vazios lhe causavam apreensão. Passou a caminhar mais depressa, com o pressentimento de uma urgência secreta.

Deteve-se diante da porta do quarto de Shelly e hesitou. Por fim, aventurou-se a bater. Não houve resposta, pelo que insistiu. Em seguida, pousou a mão no puxador e abriu-a.

O irmão encontrava-se estendido no chão. Tinha o rosto branco como o marfim e deslizava um fio de sangue do nariz. Em torno do braço, via-se um garrote de borracha e, no solo, a uns quinze centímetros da mão entreaberta, uma seringa de que ela se recordava da véspera. Em cima da pequena secretária, achava-se uma saqueta de plástico. Laurie imaginou o que continha devido ao que ele então lhe revelara. Só podia ser a "bola rápida" que se vangloriara de possuir - uma mistura de cocaína e heroína.

Algumas horas mais tarde, suportou a pior confrontação da sua vida. A poucos centímetros do seu nariz, encontrava-se o rosto irado do pai, de olhos protuberantes e faces rubras, fora de si de indignação. Os polegares afundavam-se-lhe nos braços, que imobilizava, enquanto a mãe, um pouco atrás, chorava convulsivamente.

- Sabias que o teu irmão consumia drogas? - rugiu ele. - Vá! Responde! - A pressão dos dedos acentuou-se.

- Sim - balbuciou Laurie. - Sabia, sabia!

- Porque não nos disseste? Se falasses, ele ainda estaria vivo!

- Não podia.

- Porquê? Explica porquê?

- Porque... - Fez uma pausa e revelou: - Porque me obrigou a prometer que não diria nada.

- Pois foi a tua promessa que o matou. Destruiu-o com tanta eficiência como a maldita droga.

Sentiu uma mão segurar-lhe o braço e estremeceu. O sobressalto fê-la regressar ao presente e pestanejou várias vezes, como se emergisse de um transe.

- Sente-se mal? - perguntou Lou, que se levantara e lhe pegava no braço.

- Não é nada, obrigada - murmurou Laurie, levemente embaraçada, desprendendo-se da mão dele. - Onde íamos?

Baixou os olhos para os documentos na sua frente e tentou determinar o que suscitara as penosas reminiscências. Como se tivesse sido no dia anterior, recordou-se da angústia do conflito de responsabilidade, fraternal ou filial, e da terrível sensação de culpa por ter optado pela primeira.

- Em que pensava? - insistiu o tenente. - Parecia a quilómetros daqui.

- No facto de a vítima ter sido encontrada pela namorada - explicou Laurie, voltando a concentrar-se no nome de Sara Wetherbee, pouco disposta a partilhar o seu passado com o interlocutor. Apesar dos anos decorridos, ainda sentia relutância em evocar o trágico episódio com os amigos e sobretudo com um estranho. - Foi sem dúvida uma experiência horrível para a pobre mulher.

- Infelizmente, as vítimas de homicídio são, na maioria das vezes, encontradas pelos entes mais íntimos.

- Deve ter sido um choque penoso - volveu, compadecida de Sara Wetherbee. - Devo reconhecer que o caso de Duncan Andrews não corresponde aos de overdose usuais.

- Com cocaína - salientou ele, com um encolher de ombros - duvido que haja um cenário usual. Quando a droga registou uma escalada de consumo, nos anos setenta, passaram a ocorrer mortes em todos os níveis da sociedade: de atletas e artistas a executivos, estudantes universitários e rufias em geral. É um flagelo muito democrático. Um grande nivelador, se quiser.

- Aqui, no Departamento de Autópsias, lidamos maioritariamente com o espectro mais baixo do consumidor. No entanto, de um modo geral, creio que tem razão.

- Laurie esboçou um sorriso, impressionada com a forma de raciocinar e reagir do detective. - Quais são os seus dados biográficos, antes de entrar para a polícia?

- Não compreendo.

- Frequentou a universidade?

- Sem dúvida! Que espécie de pergunta é essa?

- Desculpe. Não sabia que se tratava de um tema sensível.

- E eu não pretendi ser impertinente. às vezes, embaraça-me revelar onde estudei. Andei num estabelecimento público e não numa torre de marfim das altas esferas. E você?

- Na Universidade Wesleyan, em Connecticut. Alguma vez a ouviu mencionar?

- Com certeza. Julga que todos os funcionários da polícia são uns ignorantes? Universidade Wesleyan? Eu devia ter calculado. Como diz o outro, "vocês, moças de Nova iorque, vivem num mundo elevado".

- Como soube que eu era de Nova Iorque?

- Pelo sotaque, doutora. É tão indelével como o meu, do Parque Rego, em Long Island.

Compreendo - Laurie detestava admitir que era um livro aberto a esse ponto, e perguntou-se que mais poderia aquele homem determinar a seu respeito, com a prática de investigador que possuía. Considerou, pois, conveniente mudar de assunto. - O local onde uma pessoa estuda interessa menos do que as suas actividades lá. Não deve ser sensível quanto ao que frequentou, pois vê-se claramente que obteve uma boa educação.

- Isso é fácil de dizer - observou Lou. - Mas, em todo o caso, obrigado pelo cumprimento.

Ela tornou a baixar os olhos para os documentos. Acudia-lhe subitamente uma leve sensação de culpa acerca dos seus antecedentes privilegiados: escola secundária particular, Universidade Wesleyan e Escola Médica da Colúmbia. Ao mesmo tempo, acalentava a esperança de não se ter mostrado - ou parecido - paternalista.

- Deixe-me dar uma olhadela ao terceiro caso. Louis Herrera, de vinte e oito anos, desempregado, encontrado numa vala nas traseiras de uma mercearia. - Ergueu os olhos. - Provavelmente, morreu numa casa de consumo de crack, e praticamente deitaram-no fora. É um exemplo típico de overdose. Mais uma vida desperdiçada.

- Em alguns aspectos, talvez mais trágica que a do tipo rico. Suponho que dispunha de muito menos opções na vida.

Laurie inclinou a cabeça em aquiescência. A perspectiva de Lou era reconfortante. Pegou no telefone e ligou à investigadora Cheryl Meyers, para lhe pedir que reunisse todos os registos médicos possíveis sobre Duncan Andrews, esclarecendo que esperava descobrir algum problema médico susceptível de se relacionar com a sua patologia. Em seguida, pousou o auscultador e voltou-se para o detective.

- Não o posso evitar, mas tenho a impressão de que cometo uma irregularidade. – Levantou-se e começou a recolher os documentos.

- Não comete - assegurou-lhe ele. - De qualquer modo, porque não espera até dispor de toda a informação, incluindo a autópsia? Será então a altura de se preocupar. É muito possível que tudo se resolva da melhor maneira.

- É um bom conselho. Vamos lá para baixo começar a trabalhar.

Normalmente, Laurie vestia o equipamento no gabinete, mas a presença de Lou fez com que optasse por utilizar o vestiário. Quando emergiram do elevador na cave, indicou-lhe a secção dos homens e entrou na das mulheres. Cinco minutos mais tarde, reuniam-se no corredor. Ela enfiara a bata vulgar, depois uma camada impermeável e, por cima de tudo, um largo avental e o habitual capuz na cabeça. A máscara pendia-lhe do pescoço. Por seu turno, Lou envergara apenas a bata, com capuz, e já tinha a máscara posta.

- Parece um dos médicos da casa - comentou Laurie, observando-o para se certificar de que usava o equipamento apropriado.

- Tenho a impressão de que vou realizar uma intervenção cirúrgica, em vez de assistir a uma autópsia. Não vesti tudo isto nas ocasiões anteriores. Tem a certeza de que a máscara é indispensável?

- Na sala de autópsias todos a usam por causa da sida e outros problemas infecciosos, que tornaram o regulamento mais rigoroso. Se não a pusesse, o doutor Washington corria consigo.

Atravessaram o corredor principal da morgue, passando diante da larga porta de aço de acesso ao longo banco de compartimentos refrigerados individuais, que formavam um enorme U.

- Não haja dúvida de que impera uma atmosfera sinistra - reconheceu Lou.

- Uma pessoa acaba por se habituar.

- Parece o cenário de um filme de terror. Quem teria escolhido estes azulejos azuis para as paredes? E o chão de cimento? Porque não existe uma cobertura? Repare na quantidade de manchas.

Laurie deteve-se para contemplar o chão. Embora houvesse sinais inequívocos de que merecia cuidados assíduos da brigada de limpeza, as manchas abundavam.

- Há muito que tencionavam revesti-lo de mosaicos, mas o projecto emperrou na máquina burocrática do Município. Pelo menos, foi o que me garantiram.

- E que fazem todos estes caixões aqui? - Lou apontou para uma pilha de caixas de pinho que se prolongava quase até ao tecto. - É um admirável toque de requinte.

- São do Campo de Potter. Há muitos corpos não identificados em Nova Iorque. Após a autópsia, conservamo-los na câmara frigorífica durante algumas semanas. Se ninguém os reclama, são cremados a expensas do município.

- Não os podiam guardar noutro sítio? - argumentou ele. - Parece um armazém de revenda.

- Que eu saiba, não. Acho que nunca pensei nisso, talvez por estar habituada a vê-los aqui.

Laurie entrou na sala de autópsias e manteve a porta aberta para que Lou a seguisse. Ao contrário da manhã anterior, as oito mesas estavam ocupadas por cadáveres, cada um com um rótulo pendente do dedo grande do pé. Em cinco deles, os trabalhos já haviam principiado.

- Ena, ena, a doutora Montgomery vai começar a trabalhar antes do meio-dia! - proferiu um dos médicos.

- Há quem goste de testar a água antes de mergulhar na piscina - replicou Laurie.

- A sua mesa é a seis - indicou um dos técnicos, que lavava um troço do intestino numa bacia.

Ela volveu os olhos para Lou, que se detivera à entrada, e viu-o engolir em seco. Embora tivesse afirmado que assistira a autópsias, suspeitava de que achava a operação tipo "linha de montagem um pouco opressiva". E o odor intenso que predominava também não ajudava nada.

- Pode sair quando quiser - preveniu-o.

- Não, estou bem - asseverou ele, erguendo a mão. - Se você aguenta, eu também.

Laurie dirigiu-se para a mesa seis e Lou seguiu-a. Vinnie Amendola, devidamente equipado, aproximou-se e informou:

- Hoje trabalhamos juntos, doutora Montgomery.

- Muito bem. Se for buscar tudo o que necessitamos, começaremos já.

Assentiu com um movimento de cabeça e encaminhou-se para os armários dos instrumentos.

Ela colocou a papelada num lugar de acesso fácil e olhou o corpo de Duncan Andrews.

- Um exemplar bem-parecido.

- Não sabia que os médicos pensavam nesses termos - observou Lou. - Julgava que colocavam a alavanca em ponto morto, ou algo do género.

- Muito raramente.

O corpo pálido de Duncan jazia em aparente repouso na mesa de aço. Tinha as pálpebras cerradas, e a única coisa que lhe afectava o aspecto geral, à parte a lividez, eram as escoriações nos braços. Laurie apontou-as e explicou:

Estas marcas profundas são provavelmente o resultado daquilo a que se chama formigueiro. Uma alucinação táctil de pulgas ou percevejos na pele ou debaixo dela.

Vêem-se na intoxicação de cocaína ou anfetaminas.

- Não consigo compreender por que motivo as pessoas tomam drogas - declarou o detective, meneando a cabeça. - É uma coisa que excede a minha capacidade de entendimento.

- Fazem-no por prazer. Infelizmente, as drogas como a cocaína atingem partes do cérebro que se desenvolveram durante a evolução. Se quisermos que a guerra aos estupefacientes triunfe, o facto de eles proporcionarem prazer deve ser admitido e não ignorado.

- Porque será que tenho a sensação de que não aprecia muito a campanha do "Limite-se a Dizer Que Não"?

- Porque não a aprecio mesmo. Acho-a estúpida. Ou, pelo menos, de vistas curtas. Duvido que os políticos que conceberam esse esquema façam a menor ideia do que representa crescer na sociedade de hoje, em especial no caso dos jovens urbanos. As drogas assediam-nos e quando as experimentam e descobrem que proporcionam prazer concluem que os altos poderes mentem sobre as suas facetas negativas e perigosas.

- Já experimentou alguma?

- A cocaína, por exemplo.

- A sério?

- Admira-se?

- Talvez, até certo ponto.

- Porquê?

- Não sei. - Encolheu os ombros. - Penso que não tem aspecto disso.

- Acho que, neste momento, o aspecto dele é mais convincente que o meu - disse Laurie, com uma breve risada, apontando para Andrews. - Mas aposto que, quando vivia, também não o tinha. Sim, experimentei drogas, na universidade. Apesar do que aconteceu ao meu irmão, ou, porventura, em virtude disso.

- Que lhe aconteceu?

Dirigiu de novo o olhar para o corpo de Duncan Andrews. Não tencionara introduzir Shelly na conversa. O comentário escapara-lhe, como se falasse com alguém da sua intimidade.

Sucumbiu a uma overdose? - insistiu Lou.

Os olhos dela transferiram-se do corpo sem vida para o detective, consciente de que não podia mentir.

- Exacto - assentiu. - Mas não quero falar disso.

- Compreendo. Não era minha intenção intrometer-me em assuntos privados.

Voltou-se mais uma vez para Andrews e, por um instante, imaginou que era o corpo do irmão quejazia naquela mesa fria. Foi com alívio que viu Vinnie reaparecer, com luvas, frascos de amostras, conservantes, rótulos e uma série de instrumentos. Ela ansiava por começar a trabalhar e ignorar as penosas reminiscências.

- Vamos a isto - disse Vinnie, começando a colar os rótulos nos frascos.

Laurie pegou nas luvas e calçou-as, após o que pôs os óculos protectores e iniciou o meticuloso exame exterior ao corpo de Andrews. Depois de observar a cabeça, fez sinal a Lou para que se colocasse do outro lado da mesa e, afastando o cabelo do cadáver com a mão enluvada, apontou para numerosas escoriações.

- Aposto que teve pelo menos uma convulsão. Vejamos a língua. - Afastou as mandíbulas e expôs lacerações em vários lugares. - É o que eu pensava. Verifiquemos agora a quantidade de cocaína que consumia. - Muniu-se de uma pequena lanterna eléctrica e um espéculo nasal e examinou o nariz. - Não há perfurações. Parece normal. Acho que não snifava muito. - Endireitou-se e notou que a atenção de Lou se concentrava numa mesa próxima, onde serravam o topo do crânio. Os seus olhares cruzaram-se e ela perguntou: - Como se sente?

- Não sei bem. Costuma fazer isto todas as manhãs?

- Em média, três ou quatro vezes por semana. Quer ir lá para fora por uns minutos? Posso avisá-lo, quando nos ocuparmos do DePasquale.

- Não, estou bem. Vamos para a frente com isso. Que se segue?

- Em regra, examino os olhos.

 

Laurie fitou-o com ansiedade, pois a última coisa que desejava era que desmaiasse e batesse com a cabeça no chão de cimento, como acontecera, numa ocasião, a um visitante.

- Continue. Garanto-lhe que estou bem.

Encolheu os ombros e pousou o polegar e o indicador nas órbitas de Duncan, a fim de afastar as pálpebras.

O detective abafou uma exclamação e desviou a vista. Por um momento, ela própria ficou impressionada. Os olhos tinham desaparecido! As cavidades avermelhadas achavam-se preenchidas com uma espécie de buchas de gaze cor-de-rosa, o que proporcionava ao cadáver uma aparência tétrica.

- Está bem! - resmungou Lou. - Armou-me uma ratoeira e apanhou-me. - Virou-se de novo para Laurie, a qual se apercebeu de que a área facial visível entre a máscara e o capuz se tornara lívida. - Deixe-me adivinhar: trata-se de uma espécie de iniciação para o novato nestas andanças.

- Desculpe. - Ela soltou uma breve risada nervosa.

- Tinha-me esquecido de que haviam retirado os olhos. Palavra de honra. A família insistiu em que fosse respeitado o desejo do falecido de ser doador dos órgãos. Se os olhos forem colhidos dentro de doze horas, podem utilizar-se, desde que não existam contra-indicações. Em certos casos, o prazo pode ser mais longo, uma vez que o corpo permaneça na câmara frigorífica.

- Não me importo de ser o alvo de uma brincadeira.

- Não foi qualquer espécie de brincadeira - reiterou.

- Creia que lamento o sucedido. Bem, vejamos se conseguimos descobrir o local da injecção. - Imprimiu uma rotação à mão direita de Duncan, para poder examinar a superfície palmar, enquanto Vinnie fazia o mesmo à outra.

- Cá está! - exclamou, indicando uma minúscula perfuração sobre uma das veias diante da área do cotovelo.

- Não sabia que a cocaína podia ser introduzida directamente no sistema circulatório - observou Lou.

- Pode injectar-se, aspirar-se ou recorrer praticamente a qualquer outro meio concebível.

Ao mesmo tempo, Laurie recordava a noite anterior ao dia em que encontrara Shelly morto no quarto. Ele acabava de chegar de Yale e ela procurara-o, ansiosa por se inteirar do que acontecera na universidade. O estojo Dopp encontrava-se em cima da cama.

- Que é isto? - perguntou, pegando numa embalagem de preservativos.

- Dá cá isso! - bradou o irmão, irritado por vê-la encontrar aquilo no seu estojo de barbear.

Laurie soltou uma gargalhada divertida quando ele lhos arrancou da mão e, enquanto abria a gaveta da cómoda para os guardar, debruçou-se sobre o estojo para ver que mais continha de interessante. No entanto, o que se lhe deparou era mais preocupante do que interessante. Segurando-a com as pontas dos dedos, como se fosse um objecto peçonhento, extraiu uma seringa de dez centímetros cúbicos, cuja agulha tornaria a ver no dia seguinte.

- Que é isto? - voltou a perguntar. Ele aproximou-se e tentou tirar-lha, porém, a irmã esquivou-se. - Obtiveste-a do consultório do pai, hem?

- Dá-ma, ou vês-te em apuros - insistiu Shelly, encostando-a à parede.

 

Laurie segurou a seringa com ambas as mãos atrás das costas. Criara-se na cidade de Nova iorque, pelo que sabia para o que um adolescente queria um objecto daqueles.

- Picas-te?

Por fim, ele dominou-a e recuperou a seringa, que guardou junto dos preservativos. Em seguida, voltou-se para a irmã, que não se movera.

- Tentei uma ou duas vezes - admitiu. - Chama-se "bola rápida". Muitos colegas o fazem. Não tem nada de especial, mas não digas aos nossos pais, de contrário nunca mais te falo. Entendes? Nunca mais.

O breve devaneio de Laurie foi interrompido pela voz retumbante de Calvin Washington.

- Que raio se está a passar aqui? Porque é que nem sequer principiou? Venho indagar se descobriu alguma coisa em que possamos pendurar os nossos chapéus e ainda não foi além da estaca zero. Ande-me para a frente com isso!

Ela entrou imediatamente em actividade e completou o exame externo, notando apenas, além do que já descobrira, algumas escoriações equimóticas nos braços de Duncan. Em seguida, pegou num bisturi e praticou com eficiência a tradicional incisão em forma de Y desde as extremidades dos ombros até à região púbica. Auxiliada por Vinnie, actuava rápida e silenciosamente, removendo o esterno e expondo os órgãos internos.

Lou, que se esforçava por não estorvar as operações, aproveitou uma pausa, durante a qual Vinnie se ocupava da organização dos frascos de amostras, para dizer:

- Desculpe se lhe atrasei os trabalhos.

- Não se preocupe com isso. Quando passarmos ao corpo do DePasquale, fornecerei explicações mais pormenorizadas. Para já, quero livrar-me do Andrews, pois se o doutor Calvin se enfurece, então é que estamos feitos.

- Compreendo. Quer que eu saia?

- De modo algum. Basta que não se melindre, se o ignorar por alguns minutos.

Depois de inspeccionar todos os órgãos internos, Laurie utilizou várias seringas para recolher diferentes fluidos destinados a testes toxicológicos. Ela e Vinnie actuavam com meticulosidade e particular atenção, para que cada amostra fosse introduzida no frasco apropriado. Depois, começou a retirar os órgãos, um a um. Consagrou a mais parte do tempo ao coração, até que conseguiu finalmente extraí-lo.

Enquanto Vinnie levava o estômago e os intestinos para a bacia de lavagem, Laurie concentrou-se no coração, do qual retirou numerosas amostras para exame microscópico posterior. A seguir, procedeu do mesmo modo em relação a alguns outros órgãos. Entretanto, Vinnie reapareceu e, sem necessitar que lho indicassem, começou a afastar o couro cabeludo. Depois de inspeccionar o crânio, Laurie fez-lhe sinal para que se servisse do serrote vibratório para o cortar de forma circular acima das orelhas.

Lou conservou-se a uma distância prudente, quando ela extraiu o cérebro e o depositou num recipiente que Vinnie segurava, após o que se muniu de uma faca de lâmina alongada, similar à dos talhantes, e principiou a cortá-lo, como se não passasse de uma peça de carne. Tratava-se de um dueto eficiente e bem ensaiado que exigia poucas palavras.

 

Meia hora mais tarde, Laurie conduziu Lou para fora da sala de autópsias e, depois de se desembaraçarem dos aventais e batas, dirigiram-se ao refeitório no primeiro piso, para tomarem café. Dispunham de cerca de quinze minutos, enquanto Vinnie retirava os restos mortais de Duncan e "montava" o caso seguinte: Frank DePasquale.

- Obrigado, mas acho que não comerei nada nos dias mais próximos - disse o detective quando ela apontou para uma das várias máquinas de venda de sanduíches.

Sentaram-se a uma mesa de fórmica perto do forno de microndas, no meio de umas quinze pessoas, que conversavam animadamente.

Vendo que algumas fumavam, Lou puxou de um maço de Marlboro e de uma carteira de fósforos e acendeu um cigarro. No entanto, retirou-o da boca ao ver a expressão de Laurie.

- Posso fumar?

- Se lhe apetece muito...

- É só um.

- Bem, o exame geral ao Duncan Andrews não revelou qualquer patologia. E, aqui para nós, duvido que tenha mais sorte com a histologia.

- Não pode inventar sintomas. Em último caso, deposite o problema nas mãos do doutor Calvin e ele que decida o que há a fazer. É o seu dever, como uma das altas patentes da casa.

- Quem efectua a autópsia tem de assinar a certidão de óbito. Veremos o que consigo.

- Fiquei impressionado com o modo como utilizou a faca...

- Obrigada pelo encómio - agradeceu ela, secamente. - Porque será que antevejo um "mas" iminente?

- Estou apenas surpreendido por ver que uma mulher atraente como você escolheu este tipo de trabalho.

Fechou os olhos e exalou um suspiro de exasperação.

- É uma observação assaz machista - replicou, olhando-o com intensidade. - Infelizmente, corrói o elogio anterior. ààQue faz uma moça jeitosa como você num antro destes? é o que quer dizer na sua?

- Alto lá - protestou Lou. - Não era essa a minha intenção.

- Aludir à minha aparência e capacidade profissional e relacionar uma com a outra faz com que resulte um comentário negativo acerca de ambas. - Laurie levou a chávena aos lábios, consciente de que o interlocutor se achava embaraçado. - Não pretendo repreendê-lo, mas acredite que estou farta de defender a escolha da minha carreira. E também de ouvir dizer que os meus atributos físicos e sexo têm pouca relação com as funções que exerço.

- O melhor é eu não tornar a abrir a boca.

Olhou o relógio de parede e disse:

- É melhor voltarmos lá para baixo. O Vinnie já deve ter o DePasquale preparado. - Esvaziou a chávena e levantou-se.

Lou apagou o cigarro e seguiu-a. Cinco minutos mais tarde, tornavam a vestir as batas e encontravam-se diante do visor de radiografias, na sala de autópsias, para observarem as de Frank DePasquale. A posição da bala achava-se bem nítida na base do crânio.

- Acertou quanto à localização - disse Laurie. - Alojou-se na parte inferior do cérebro.

- As execuções entre gangsters são muito eficientes.

- Acredito. E isto porque uma bala nesse lugar afecta os centros vitais, como a respiração e o palpitar do coração.

- Acho que seria a minha maneira preferida de ir desta para melhor - admitiu o detective.

Ela olhou-o por um momento.

- É uma perspectiva agradável.

Lou encolheu os ombros.

- Na minha profissão, pensa-se nisso com frequência.

Laurie voltou a concentrar-se nas radiografias.

- Também não se enganou quanto ao pequeno calibre da arma. Vinte e dois ou vinte e cinco, no máximo.

- É o que eles costumam preferir. As de calibre superior provocam muita sujidade.

Encaminharam-se para a mesa seis, onde se encontravam os restos mortais de Frankie. O corpo estava ligeiramente inchado, com o olho direito mais protuberante que o esquerdo.

- Parece ter menos de dezoito anos - comentou ela.

- Eu não lhe dava mais de quinze - concordou Lou. Laurie pediu a Vinnie que rolasse o corpo, para poderem examinar a nuca. Em seguida, com a mão enluvada, afastou o cabelo molhado e expôs um orifício circular rodeado por uma larga área de abrasão. Depois de tirar algumas medidas e fotografias, rapou o espaço em volta, a fim de deixar o ferimento bem visível.

- Foi obviamente um tiro à queima-roupa - afirmou, apontando para o círculo de pólvora em torno da abertura.

- De que distância?

Reflectiu por um momento.

- Oito a dez centímetros.

- Típico - murmurou Lou.

Laurie tirou mais uma série de medidas e fotografias. Depois, com um bisturi limpo, removeu cautelosamente fragmentos de resíduos de pólvora das profundezas do ferimento e transferiu-os para um dos frascos de amostras, com destino ao exame laboratorial.

- Nunca se sabe o que os químicos nos podem revelar - observou, entregando os frascos a Vinnie.

- Precisamos de um indício útil - disse Lou. - Venha de onde vier.

Quando Vinnie acabou de rotular os frascos, Laurie indicou-lhe que a ajudasse a deitar de novo Frank de costas.

- Que tem o olho direito? - perguntou Lou.

- Não sei. A radiografia não revela que a bala atingiu a órbita, mas nunca se sabe. - A pálpebra tinha uma cor arroxeada. A conjuntiva inchada erguia-se através da fissura palpebral. - E ela levantou a pálpebra com suavidade.

- Safa, que tem mau aspecto - articulou o detective.

- O corpo anterior não tinha olhos e o deste parece que foi atropelado por um camião. Pode dever-se à longa permanência no rio?

- Foi antes da morte - disse Laurie, meneando a cabeça. - Repare nas hemorragias sob a membrana mucosa. Isso significa que o coração funcionava. Ele vivia quando isto ocorreu.

Debruçou-se sobre o cadáver e examinou a córnea. Pela observação do reflexo das luzes do tecto na sua superfície, podia determinar que era irregular, além de que apresentava uma contextura branco-leitosa. Levantou a pálpebra esquerda e verificou que, em comparação com a outra, a córnea era clara - o olho fixava-se, sem vida, no tecto.

- Pode ter sido a bala que fez isso? - perguntou Lou.

- Não creio. Parece mais uma queimadura química, pela maneira como afectou a córnea. Vamos retirar uma amostra para a Toxicologia. Examiná-la-ei minuciosamente, por secções, ao microscópio. Devo confessar que nunca tinha visto nada assim. - Laurie prosseguiu o exame externo e quando chegou aos pulsos apontou-os com o dedo.

- Vê estas escoriações e depressões.

- Vejo. Que significam?

- Penso que o pobre diabo foi atado. Talvez a lesão na vista se deva a alguma forma de tortura.

- Não me admirava, com gente daquela. O que me revolta é que se refugiam no suposto código de ética, quando, na realidade, não passa de um mundo em que os cães se devoram mutuamente. Em resultado disso, todos os ítalo-americanos adquiriram uma reputação indesejável.

Enquanto examinava as mãos e as pernas de Frankie, Laurie perguntou ao detective o motivo da vendetta permanente entre as famílias Vaccarro e Lucia.

Lutam pelo território. Têm de dormir todos na mesma cama: Queens e comarca de Nassau. Guerreiam-se constantemente para conquistar mais espaço de manobra. Estão em competição directa pelo tráfico de drogas, empréstimos a juros elevadíssimos, clubes de jogo, receptação, redes de extorsão, carros roubados, etc. Passam a vida a brigar e a matar-se uns aos outros, mas, ao mesmo tempo, têm de se suportar. É um mundo difícil de compreender.

- Toda essa actividade ilegal continua ainda hoje?

- Sem dúvida. E o que sabemos a seu respeito não passa da ponta do icebergue.

- Como se explica que a polícia não faça nada para lhe pôr termo?

- Tentamos, mas não é fácil - declarou Lou, com um suspiro de resignação. - Precisamos de provas, as quais, como referi antes, são difíceis de conseguir. Os patrões estão isolados e os assassinos são profissionais. Mesmo nos casos em que os encurralamos, têm de ir a tribunal e não existem garantias de uma condenação. Nós, Americanos, preocupamo-nos sempre tanto com a tirania das autoridades que proporcionamos uma situação vantajosa aos vilões da fita.

- Custa a crer que se possa fazer tão pouco.

- Só se consegue alguma coisa com provas irrefutáveis. Tomemos por exemplo aqui o Frank DePasquale. Estou noventa por cento convencido de que o Cerino e o seu bando são os responsáveis pela morte, mas não posso fazer nada sem elementos sólidos.

- Pensava que a polícia tinha informadores.

- Temos, de facto, mas nenhum ao corrente de assuntos comprometedores. As pessoas que, na realidade, nos poderiam ser úteis têm mais medo umas das outras que de nós.

- Bem, esperemos que eu consiga alguma coisa com este caso - proferiu Laurie, voltando a concentrar-se no corpo de DePasquale. - O pior é que os cadáveres imersos na água tendem a ser lavados de indícios úteis. Resta-nos a bala, no entanto.

- Aceitarei tudo o que puder fornecer-me - declarou Lou.

 

Laurie e Vinnie iniciaram a autópsia, e ela ia explicando ao detective o que faziam. A única diferença entre a de Frank e a de Duncan consistia na maneira como se ocupava do cérebro, mostrando-se agora particularmente interessada em acompanhar a trajectória da bala. Verificou que não se aproximara da vista inchada. Também tinha o cuidado de não tocar no projéctil com um instrumento metálico. Assim que o extraiu, depositou-o numa saqueta de plástico, para evitar que se riscasse. Mais tarde, depois de o secar, marcou-o na base e fotografou-o antes de o selar num pequeno sobrescrito, juntamente com um recibo de propriedade, pronto para ser entregue à polícia - ao sargento Murphy ou aos seus colegas de serviço no estabelecimento.

- Foi uma manhã em cheio - admitiu Lou quando abandonavam a sala de autópsias. - Achei-a muito instrutiva, mas creio que vou prescindir do seu terceiro caso.

- Surpreende-me que tolerasse dois - disse Laurie. Detiveram-se à entrada do vestiário e ela acrescentou: - Vou estudar o material microscópico sobre o Frank DePasquale, e se obtiver algum elemento de interesse previno-o. Para já, a única coisa que me parece aproveitável é o olho. Em todo o caso, nunca se sabe...

- Bem, foi divertido - reconheceu ele, transferindo o peso do corpo de um pé para o outro.

Laurie olhou-o com certa curiosidade. Tinha a impressão de que ele desejava falar-lhe de algo mais, mas não conseguia decidir-se a fazê-lo.

- Acho que vou tomar mais um café. Quer fazer-me companhia, antes de se retirar?

- É uma boa ideia - assentiu o detective, sem hesitar. Entraram no refeitório e instalaram-se na mesma mesa da visita anterior. Entretanto, Laurie não compreendia a razão pela qual o confiante Lou se tornara tão hesitante e até embaraçado. Viu-o puxar de um cigarro e acendê-lo, e acabou por perguntar:

- Há muito tempo que fuma?

- Desde os doze anos. No meu bairro era a idade usual.

- Alguma vez pensou em abandonar o vício?

- Com certeza. - Ele soprou o fumo para o lado. - É facílimo. Há um ano que o faço todas as semanas. Mas, a sério, gostava de parar de vez. Só que é difícil lá na Central, porque quase toda a gente fuma.

- Lamento que não se nos deparasse um indício útil no corpo do DePasquale.

- É possível que a bala revele alguma coisa. - Deixou o cigarro resvalar para dentro do cinzeiro, quando tentava equilibrá-lo na borda. - O pessoal da Balística dispÕe de muitos recursos. Apre! - Retirou a mão repentinamente, pois acabava de queimar o dedo com o cigarro.

- Passa-se alguma coisa? - quis saber ela.

- Não, estou bem - replicou Lou com demasiada prontidão. Efectuou nova tentativa, e desta vez conseguiu retirar o cigarro do cinzeiro.

- Parece preocupado.

- É que tenho a cabeça cheia de problemas. Em todo o caso, gostava de lhe fazer uma pergunta. É casada?

Laurie não pôde evitar um sorriso, ao mesmo tempo que abanava a cabeça.

- Isso não vem nada a propósito.

- Concordo.

- E, em face das circunstâncias, não se pode considerar uma pergunta muito profissional.

- Também estou de acordo com isso.

Conservou-se silenciosa por um momento, como se sustentasse uma mini-argumentação consigo própria.

- Não, sou solteira.

- Bem, nesse caso... - Ele fez uma pausa, como se procurasse as palavras adequadas. - Talvez pudéssemos almoçar juntos, um dia destes.

- Sinto-me lisonjeada, tenente Soldano - articulou Laurie, com uma ponta de embaraço. - Mas não costumo misturar a minha vida privada com o trabalho.

- Nem eu.

- E se lhe disser talvez, que vou pensar nisso?

- Aceito essa resposta. - Lou levantou-se com brusquidão e, vendo que ela o imitava, fez-lhe sinal para que voltasse a sentar-se. - Acabe de tomar o café, pois precisa de uns minutos de descontracção. Vou lá abaixo despir a bata e raspar-me daqui. Depois, diga qualquer coisa. - Encaminhou-se para a porta e, antes de a transpor, voltou-se e acenou em despedida.

Laurie retribuiu o gesto e imergiu em reflexões. Ele era de facto um pouco como Colombo; inteligente, mas algo desajeitado e desorganizado. Ao mesmo tempo, irradiava um certo encanto e despretensiosismo que lhe agradavam. E também parecia solitário.

Por fim, esvaziou a chávena, levantou-se e espreguiçou-se discretamente. Quando abandonava o refeitório, apercebeu-se de que Lou também lhe recordava um pouco o seu amigo Sean Mackenzie. Tinha a certeza de que a mãe o consideraria inapropriado para ela, e Laurie perguntou-se se parte do motivo por que se sentia atraída por esse tipo de homens residia no facto de saber que os pais não o aprovavam. Se isso correspondia à verdade, ansiava por fazer uma ideia de quando varreria definitivamente do seu sistema aquela rebeldia.

Premiu o botão de descida do elevador e ocorreu-lhe naquele momento que não aproveitara a pergunta de Lou para se inteirar igualmente do seu estado civil. Prometeu a si própria elucidar-se, se ele lhe telefonasse. Consultou o relógio e verificou que os trabalhos estavam a decorrer de modo satisfatório: faltava-lhe apenas uma autópsia e ainda não era meio-dia.

 

Laurie consultou o endereço que inscrevera num pedaço de papel e olhou o impressionante prédio de apartamentos na Quinta Avenida. Situava-se nas proximidades do Central Park, e à entrada havia um toldo azul que se prolongava até à beira do passeio. Um porteiro uniformizado mantinha-se na expectativa atrás da porta envidraçada, de ferro forjado.

Ao vê-la acercar-se, o homem abriu a porta e perguntou polidamente se lhe podia ser útil.

- Desejava falar com o administrador do prédio.

Ela desabotoou o casaco, enquanto o porteiro se servia de um intercomunicador antiquado. Sentou-se numa poltrona de couro e olhou em volta. O átrio estava decorado com gosto e discrição e havia uma profusão de flores num canteiro revestido de alumínio.

Não lhe era difícil imaginar Duncan Andrews a transpor a entrada com passos firmes, recolher a correspondência do seu receptáculo e dirigir-se para o elevador.

- Perguntou por mim?

Levantou-se e viu-se perante um hispânico de bigode abundante. Cosido à camisa, um pouco acima do bolso do peito, achava-se o nome "Juan".

- Sou a doutora Montgomery, do Departamento de Patologia Legal.

Com estas palavras, abriu a carteira para revelar o reluzente crachá profissional, parecido com os da polícia.

- Em que a posso servir?

- Gostava de visitar o apartamento de Duncan Andrews. Fui incumbida de o autopsiar e pretendia observar o ambiente em que ele vivia.

Mantinha a linguagem deliberadamente oficial. Na realidade, não se sentia à vontade com o que tencionava fazer. Embora muitas jurisdições exigissem que os técnicos de medicina legal visitassem o cenário da morte, não era o caso da de Nova iorque, que atribuía a missão aos investigadores médicos. No entanto, durante o seu tirocínio em Miami, Laurie adquirira vasta experiência na matéria. Agora, no ambiente nova-iorquino, tinha saudades da informação adicional que essas diligências proporcionavam. Não visitava o apartamento de Duncan por esse motivo, pois não contava descobrir nada de útil. Fazia-o por razões de natureza pessoal. A ideia de um jovem privilegiado pôr termo à vida devido a uns momentos de prazer induzido pela droga recordava-lhe o irmão. Aquela morte reavivara sentimentos que reprimira ao longo de dezassete anos.

- Encontra-se lá a namorada dele - informou Juan. - Pelo menos, vi-a subir há cerca de meia hora. - Voltou-se para o porteiro e perguntou-lhe se a vira sair, obtendo resposta negativa, pelo que se dirigiu de novo a Laurie. - É o apartamento 7-C. Vou acompanhá-la.

Ela hesitou, pois não esperara que estivesse lá alguém. Não desejava falar com qualquer membro da família de Andrews e muito menos com a namorada. Mas Juan já premia o botão do elevador, que surgiu pouco depois, e abriu a porta para que Laurie o precedesse. Como se apresentara com carácter oficial, ela reconhecia que não podia mudar repentinamente de atitude.

Juan bateu à porta do 7-C e, como não se abrisse imediatamente, puxou de um chaveiro das dimensões de uma bola de basebol e procurou a chave que lhe interessava. Porém, acudiu alguém quando se preparava para a introduzir na fechadura.

Surgiu uma mulher de estatura aproximada à de Laurie, de cabelo louro anelado, que usava uma camisa folgada por cima de calças tipojeans manchadas de lixívia. As faces húmidas sugeriam derramamento recente de lágrimas.

Juan apresentou Laurie, com as funções que desempenhava no hospital, e afastou-se.

- Não me lembro de a ver lá - disse Sara.

- Trabalho no departamento de autópsias - esclareceu Laurie.

- Vai autopsiar o Duncan?

- Já o fiz. Queria apenas observar o local onde morreu.

- Com certeza. - Sara desviou-se. - Entre.

Laurie sentia-se extremamente embaraçada, consciente de que perturbava a dor da infortunada mulher, e aguardou que ela fechasse a porta. O apartamento era espaçoso. Do próprio vestíbulo avistava-se uma grande parte do Central Park. Meneou involuntariamente a cabeça ante a insensatez do consumo de drogas por parte de Duncan. Pelo menos, à primeira vista, a sua vida parecia perfeita.

 

- Ele caiu aqui à entrada. - Sara apontou para o chão, junto da porta, e as lágrimas voltaram a rolar. - Abriu-a no momento em que me preparava para bater. Parecia que tinha enlouquecido. Pretendia sair praticamente nu.

- Lamento profundamente - murmurou Laurie. - As drogas produzem esse efeito nas pessoas. A cocaína provoca a sensação de calor ardente.

- Eu nem sequer sabia que ele a consumia - soluçou a outra. - Se tivesse chegado mais cedo, quando me chamou, talvez nada disso acontecesse. Se eu ficasse na noite de domingo...

- As drogas são um flagelo. Ninguém virá a saber porque ele as tomava. A escolha foi sua. Você não se deve julgar responsável. - Laurie fez uma pausa. - Compreendo como se sente - acabou por acrescentar. - Encontrei o meu irmão em circunstâncias similares.

- Sim? - balbuciou Sara, através das lágrimas.

Laurie aquiesceu com um movimento de cabeça. Era a segunda vez no mesmo dia que divulgava um segredo que não partilhava com ninguém havia dezassete anos. O caso de Duncan Andrews afectara-a de uma maneira que não acontecera com qualquer dos anteriores.

 

TERÇA-FEIRA, 18 HORAS E 51 MINUTOS DA TARDE

MANHATTAN

- Gaita! - exclamou Tony. - Cá estamos à espera, mais uma vez.

Esperamos todas as noites. Pensei que ontem, quando finalmente apanhámos o puto, o DePasquale, as coisas começariam a andar para a frente. Mas isso sim! Continuamos à espera, como se não tivesse acontecido nada.

Angelo inclinou-se para a frente, sacudiu a cinza do cigarro no cinzeiro e tornou a endireitar-se, sem se pronunciar.

Prometera a si próprio, naquela tarde, ignorar o companheiro.

Preferia contemplar a concorrida rua, com pessoas que regressavam do trabalho, levavam os cães a passear ou voltavam da mercearia. O carro achava-se estacionado numa área de carga da Avenida do Parque, entre as ruas 81 e 82, virado ao norte.

Ambos os lados da artéria continham longas filas de elevados prédios de apartamentos, em cujos baixos funcionavam escritórios.

- Vou sair para fazer umas elevações - anunciou Tony.

- Cala o raio da boca! - retorquiu Angelo, apesar da intenção de não lhe dirigir uma única palavra. - Estudámos a situação ontem à noite. Não sais para fazer elevações quando estamos à espera de acção. Queres acender um dístico de néon para indicar aos chuis que nos encontramos aqui? Temos de passar despercebidos. Vê se metes isto no bestunto.

- Está bem, não te chateies. Não saio, pronto!

Dominando a frustração, soprou o fumo por entre os lábios tensos e passou a tamborilar com nervosismo no volante. Tony conseguia abalar-lhe a serenidade ensinada pela prática.

- Se queremos invadir o gabinete do médico, porque não avançamos de uma vez? - volveu o "miúdo", após uma pausa. - Não faz sentido estarmos para aqui a perder tempo.

- Aguardamos que a recepcionista apareça, além de que precisamos de nos certificar de que o local fica deserto. De resto, ela pode deixar-nos entrar e não queremos arrombar portas.

- Se nos deixar entrar é porque estará presente, e o local ocupado por alguém e não deserto. Isto não tem pés nem cabeça.

- Confia em mim. É a melhor maneira de fazer o que pretendemos.

- Ninguém me diz nada. Esta operação é esquisita. A intrusão no gabinete de um médico não faz sentido e reveste-se de grande perigo. Ainda mais do que quando nos introduzimos no Banco de órgãos de Manhattan. Aí, ao menos, arrecadámos algumas centenas de dólares. Que diabo encontraremos num consultório?

- Se não demorar muito, podemos ver se há dinheiro à nossa disposição - prometeu Angelo. - Talvez até possamos procurar Percodan ou outras drogas similares, se isso te tornar mais contente.

- Parece-me uma forma complicada de obter um punhado de comprimidos.

Soltou uma gargalhada, apesar da irritação que sentia.

- Que pensas do velho Doc Travino? - tornou Tony.

- Achas que faz alguma ideia do que está a dizer?

- Confesso que tenho as minhas dúvidas. Em todo o caso, o Cerino confia nele, que é o que interessa.

- Vá lá. Diz-me porque vamos entrar ali. O Cerino não está feito com o médico.

- Adora-o. Julga que é o melhor do mundo. Por sinal, reside aí o motivo por que vamos entrar.

- Mas para quê? Explica-me isso, e não volto a abrir a boca.

- Por causa de uns registos do tipo.

- Calculava que era uma insensatez, mas não desse tamanho.

Para que queremos os registos do fulano?

- Disseste que te calavas se eu explicasse o que procuramos.

Portanto, cala-te! De qualquer modo, não deves fazer tantas perguntas.

- É precisamente disso que me queixo. Ninguém me conta o que se passa. Se estivesse ao corrente, podia fazer mais, ser mais útil. - Vendo que o companheiro tornava a rir, acrescentou: - Talvez não acredites, mas é verdade. PÕe-me à prova! Tenho a certeza de que podia apresentar algumas sugestões, mesmo para este trabalho.

- Está tudo a correr bem - assegurou-lhe Angelo. - O planeamento não é um dos teus pontos fortes, como, por exemplo, sovar pessoas.

- Isso é verdade - admitiu Tony. - Não há nada que me agrade tanto. Um golpe bem aplicado, e fica o assunto arrumado. Nada de complicações, como isto de agora.

- Nas próximas semanas haverá espancamentos em número suficiente para te satisfazer.

- Oxalá que sim. Talvez me compensem desta expectativa enervante.

- Aí vem ela. - Angelo apontou para uma mulher robusta que emergia de um dos prédios de apartamentos, entretida a abotoar o casaco vermelho com uma das mãos e a segurar o chapéu na cabeça com a outra. - Vamos a isto. Mas mantém a artilharia oculta e deixa o paleio a meu cargo.

Os dois homens desceram do carro e abordaram a mulher no momento em que se incorporava na fila de uma praça de táxis.

- Senhora Schulman! - chamou Angelo.

Ela voltou-se, porém a expressão desconfiada dissipou-se ao reconhecer quem a chamava.

- Olá, senhor?... - começou, tentando recordar-se do nome dele.

- Facciolo.

- Claro. Como está o senhor Cerino?

- O melhor possível. Vai-se habituando à bengala, mas pediu-me que a procurasse. DispÕe de um minuto?

- Acho que sim. De que se trata?

- Bem, é confidencial. Preferia que viesse até ao carro, por um momento. - Angelo gesticulou para o local onde o veículo estava estacionado.

Visivelmente contrariada com o pedido, a senhora Schulman grunhiu algo sobre a necessidade de se encontrar algures sem demora.

Ele introduziu a mão na algibeira exterior do casaco e puxou a pistola automática Walther o suficiente para que ela pudesse ver a coronha.

- Receio ver-me obrigado a insistir. Mas não lhe tomaremos muito tempo e depois deixá-la-emos onde desejar.

A senhora Schulman transferiu o olhar para Tony, que sorriu, e declarou com nervosismo:

- Está bem, desde que não demore muito.

- Isso depende de si - advertiu Angelo, voltando a apontar para o carro.

Ela deslizou para o banco da frente, quando Tony abriu a porta com uma mesura cortês antes de se instalar no da retaguarda, enquanto Angelo se sentava atrás do volante.

- Isto tem alguma coisa a ver com o meu marido, o Danny? - quis saber a senhora Sehulman.

- O Danny Schulman, de Bayside? - replicou Angelo. - É o seu velhote?

- É.

- Quem é Danny Sehulman? - perguntou Tony.

- O dono de uma espelunca chamada Palácio de Cristal, em Bayside - explicou Angelo. - Muitos sicários do Lucia costumam ir para lá.

- Está muito bem relacionado - asseverou a senhora Schulman. - Talvez prefiram conversar com ele.

- Isto não tem nada a ver com o seu marido. Só nos interessa saber se o consultório do médico está deserto.

- Sim, já saíram todos. Fui eu que tranquei a porta, como sempre.

- Óptimo, porque queremos que volte lá. Estamos interessados nuns registos do doutor.

- Que registos?

- Quando estivermos lá dentro, informo-a. Antes, porém, quero preveni-la de que, se decidir cometer alguma imprudência, será a sua última neste mundo. Estou a exprimir-me com clareza suficiente?

- Está - retorquiu ela, recuperando parte da presença de espírito.

- Não se trata de nada de especial - esclareceu Angelo. - Por outras palavras, somos pessoas civilizadas.

- Compreendo.

- Então, vamos. - E abriu a porta do carro.

 

- Olá, menina Montgomery! - saudou George, um dos porteiros do prédio de apartamentos onde os pais de Laurie viviam.

Conhecia-o naquele lugar desde sempre. Aparentava sessenta anos, mas na realidade tinha setenta e dois e gostava de lhe dizer que fora ele que abrira a porta do táxi no dia em que a mãe regressara do hospital onde a trouxera ao mundo.

Depois de trocar breves palavras com o homem, Laurie subiu ao apartamento. Tantas recordações!... Até o ambiente lhe era familiar. No entanto, o apartamento recordava-lhe sobretudo aquele dia horrível em que encontrara o irmão sem vida, e quase desejava que os pais se tivessem mudado, após a tragédia, para não ter de a evocar constantemente.

- Olá, querida! - quase cantarolou a mãe no momento em que lhe abriu a porta e se inclinou para a frente, a fim de oferecer a face.

Cheirava a perfume caro e o cabelo azul-grisalho estava cortado curto, numa variação do estilo pajem que ultimamente aparecia nas capas das revistas femininas com certa frequência. Dorothy Montgomery era uma mulher vibrante, de pequena estatura, que parecia mais jovem do que os seus sessenta e cinco anos, graças a uma segunda operação plástica.

- Vejo que não trazes o vestido de lã que te ofereci - observou, com um olhar crítico, ao aceitar o casaco da filha.

- Pois não. - E Laurie fechou os olhos, esperançada em que a mãe não começasse já a implicar.

- Podias ao menos usar um vestido.

Fez um esforço para não replicar. Escolhera uma blusa de caxemira embelezada com jóias de fantasia e um par de calças de lã, que adquirira através de um catálogo de artigos enviados pelo correio. Uma hora atrás, considerara que se tratava de um dos seus melhores conjuntos. Agora, porém, principiava a acalentar dúvidas.

- Bem, não interessa - prosseguiu Dorothy, depois de pendurar o casaco no cabide. - Vem, para que te apresente aos outros e, em particular, ao doutor Scheffield, o nosso convidado de honra.

Conduziu a filha à sala, formal, reservada exclusivamente para as recepções daquela natureza, onde se encontravam oito pessoas, cada uma com uma bebida numa das mãos e um canapé na outra. Laurie reconheceu a maioria - quatro casais amigos dos pais desde longa data. Três dos homens eram médicos e o quarto banqueiro. à semelhança da sua própria mãe, as esposas não exerciam qualquer profissão e dedicavam o tempo livre a obras de caridade, tal como Dorothy.

Após breve troca de palavras, esta última levou a filha, através do longo corredor, à biblioteca, onde Sheldon Montgomery mostrava alguns tratados de medicina raros a Jordan Scheffield.

- Apresenta a tua filha ao doutor Scheffield, Sheldon - ordenou Dorothy, interrompendo o marido a meio de uma frase.

Os dois homens ergueram os olhos do livro que Montgomery tinha nas mãos. O olhar de Laurie desviou-se do rosto aristocrático e algo grave do pai para o de Jordan Scheffield e ficou agradavelmente surpreendida, pois esperara que este se parecesse mais com um oftalmologista mais velho, pesado e muito menos atraente. De facto, o homem na sua frente era francamente bem-parecido, de cabelo louro-claro, pele bronzeada, olhos azuis e brilhantes, e feições angulosas. Não só não parecia oftalmologista como nem sequer médico, mas antes um atleta profissional, ainda mais alto que Sheldon Montgomery, o qual media um metro e oitenta e cinco. E, ao contrário deste último, que envergava fato formal de xadrez, usava calça castanha, blazer azul e camisa branca sem gravata.

Enquanto o pai procedia às apresentações, Laurie apertou-lhe a mão, e sentiu-a envolvida por dedos fortes e firmes, ao mesmo tempo que ele a olhava sem pestanejar e exibia um sorriso agradável.

O facto de que Sheldon simpatizava particularmente com Jordan tornou-se em seguida evidente a Laurie, ao vê-lo dar-lhe uma palmada nas costas e insistir em lhe servir mais scotch especial, que normalmente costumava esconder quando tinha visitas, após o que se dirigiu ao aposento contíguo e a deixou só com Jordan.

- Os seus pais são extremamente hospitaleiros - disse ele.

- Sim, sim, eles gostam de receber. Aguardavam com ansiedade a sua presença esta noite.

- Ainda bem que vim. O seu pai não se cansou de lhe tecer elogios, ao ponto de eu estar empenhadíssimo em conhecê-la.

- Obrigada - agradeceu Laurie, algo surpreendida ao inteirar-se de que o progenitor falara dela e, ainda por cima, em termos encomiásticos. - Devo confessar que você não corresponde ao que eu esperara.

- Não me diga! E pode saber-se o que era?

- Bem... - Fez uma pausa, levemente embaraçada.

- Julgava que parecia um oftalmologista.

Jordan inclinou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada divertida.

- Que parece um oftalmologista?

Ela experimentou uma sensação de alívio quando o pai regressou com a bebida para Jordan, evitando-lhe o incómodo de uma explicação. Sheldon referiu a este último que desejava mostrar-lhe uns instrumentos cirúrgicos antigos que tinha no escritório e, enquanto o seguia obedientemente, o outro dirigiu um sorriso conspiratório a Laurie.

Jordan tomou a seu cargo a tarefa de aligeirar a atmosfera do jantar. Conseguiu mesmo que os amigos dos pais de Laurie mais reservados se tornassem incondicionalmente comunicativos, e as risadas ecoavam na sala pela primeira vez desde longa data.

Sheldon encorajou-o a contar determinados episódios divertidos sobre pacientes famosos. Jordan não se fez rogado e provocou mais algumas saudáveis gargalhadas. Até o dia emocional de Laurie retrocedeu para segundo plano, enquanto escutava peripécias ocorridas com clientes que desfrutavam de popularidade.

A especialidade de Jordan era a parte interior da vista, em particular a córnea, embora também se dedicasse à cirurgia plástica e mesmo ao ramo da cosmética, tendo tratado celebridades, que variavam desde artistas de cinema a importantes figuras políticas. Salientou que se ocupara de várias entidades estrangeiras e de um ou outro mafioso ocasional.

- Refere-se a membros da Mafia? - perguntou Dorothy, incrédula.

- Exacto. Gangsters de gema. Por sinal, ainda não há um mês que me apareceu um tal Paul Cerino, sem dúvida ligado ao submundo de Queens.

Laurie, que levara o copo de vinho branco aos lábios, quase se engasgou ao ouvir o nome. O facto de tal coisa acontecer pela segunda vez no mesmo dia sobressaltou-a. Estabeleceu-se silêncio e todos a olharam com apreensão, porém ela conseguiu recompor-se com prontidão e garantir que se sentia perfeitamente. Em seguida, perguntou a Jordan a natureza do mal de Paul Cerino.

- Queimaduras de ácido nos olhos. Acho que alguém lho arremessou à cara. Por sorte, teve a inspiração de os banhar imediatamente com água.

- ácido? - exclamou Dorothy. - Que horror!

- Não é tão perigoso como um alcali, que pode corroer a córnea.

- Mesmo assim, acho-o horroroso.

- Como estão os olhos a reagir ao tratamento? - perguntou Laurie, que pensava na vista direita de Frank DePasquale e meditava se se trataria do indício pelo qual Lou ansiava.

- O ácido tornou as córneas opacas, mas o facto de ele ter lavado os olhos imediatamente salvou a conjuntiva de danos profundos. Por conseguinte, deve recuperar com os transplantes de córnea que principiarão em breve.

- Não o assusta envolver-se com gente dessa? - inquiriu um dos convidados.

- De modo algum. Precisam de mim e eu posso ser-lhes úteis.

Não acredito que me molestassem. Na realidade, acho tudo um pouco cómico.

- Como sabe que esse Cerino é um ganster? - quis saber outro.

- Torna-se bem claro. - Jordan esboçou um sorriso. - Vai ao consultório com vários guarda-costas, cujos casacos exibem volumes elucidativos.

- O Paul Cerino é um ganster muito conhecido - interpôs Laurie. - Trata-se de um dos patrões de nível médio da família Vaccarro, permanentemente em guerra com a organização do Lucia.

- Como sabes tudo isso? - estranhou Dorothy.

- Esta manhã, autopsiei uma vítima de execução de gangsters.

As autoridades crêem que o homicídio foi o resultado directo dessa vendetta e agradar-lhes-ia relacionar a morte com o Paul Cerino.

- Valha-nos Deus! - exclamou, com uma expressão de desdém. - Pára com isso, Laurie! Falemos de outra coisa.

- Não é o tema mais apropriado para abordar durante o jantar - concordou Sheldon. Virando-se para Jordan, acrescentou:

- Desculpe a minha filha, mas desde que abandonou a educação médica e ingressou na patologia perdeu parte da noção de etiqueta.

- Patologia? - repetiu Jordan, voltando-se para Laurie. - Não se referiu a essa sua especialidade.

- Não me perguntou. - Ela sorriu para si própria, consciente de que ele estivera demasiado preocupado em falar dos seus assuntos para se apoquentar com os dos outros. - Na verdade, pertenço ao Departamento de Patologia Legal da Inspecção Médica Principal de Nova Iorque.

- E se falássemos da época corrente no Lincoln Center? - sugeriu Dorothy.

- Não sou muito versado em patologia legal - admitiu Jordan. - Só tivemos duas aulas da matéria na escola médica e, ainda por cima, preveniram-nos de que não figuraria no exame. Adivinhem, pois, o que fiz. - Fingiu que dormia, roncando e deixando a cabeça tombar para o peito.

Sheldon soltou uma gargalhada e disse:

- Nós só tivemos uma e faltei.

- Acho que devíamos mudar de assunto - insistiu Dorothy.

- O problema da Laurie - continuou Sheldon - é não ter enveredado pela cirurgia, onde conviveria com os vivos. Temos uma moça no programa torácico que se pode considerar incrível, tão eficiente e competente como um homem. Ela poderia ter-se saído igualmente bem.

Laurie teve de recorrer a toda a força de vontade para não replicar às palavras machistas e insensatas do pai. Ao invés, defendeu calmamente a sua especialidade:

- A patologia legal ocupa-se muito dos vivos, e fá-lo ao falar em nome dos mortos.

Descreveu o episódio do frisador de cabelo e como o conhecimento da causa dessa fatalidade podia salvar potencialmente a vida de outras pessoas.

Quando terminou, registou-se uma pausa desconfortável. Todos baixavam os olhos para os pratos e moviam os dedos sobre os talheres. O próprio Jordan parecia singularmente apreensivo.

Por fim, Dorothy quebrou o silêncio anunciando que a sobremesa e o conhaque seriam servidos na sala.

 

Quando se reuniram no outro compartimento, Laurie sentia-se suficientemente irritada para considerar a hipótese de se retirar. No entanto, antes que pudesse decidir-se, uma empregada que a mãe contratara expressamente para a ocasião aproximou-se com uma bandeja de cálices de conhaque. Ela aceitou um, voltou as costas ao grupo e, com a bebida na mão, encaminhou-se para o escritório.

- Posso fazer-lhe companhia? - perguntou Jordan, que a seguira.

- Com certeza - assentiu Laurie, levemente sobressaltada, pois supunha que ninguém reparara no seu afastamento.

Tentou sorrir e sentou-se numa poltrona, enquanto ele se encostava a um móvel.

- Não pretendi divertir-me à custa da sua especialidade. Na verdade, considero a patologia fascinante.

- Sim?

- Gostei da história do frisador de cabelo. Não sabia que uma pessoa podia ser electrocutada com um utensílio desses, a menos que o deixasse cair na banheira quando tomava banho.

- Podia ter dito isso na altura. - Ela sabia que não estava a ser delicada, mas de momento não se sentia particularmente hospitaleira.

- Tem razão. - Jordan inclinou a cabeça. - Desculpe. Suponho que estava um pouco inibido pelos seus pais. É óbvio que a especialidade que escolheu não goza da sua predilecção.

- É assim tão óbvio?

- Penso que sim. Julguei que tinha ouvido mal quando o seu pai emitiu aquele comentário acerca da mulher no programa torácico. E a sua mãe não parava de querer que mudássemos de assunto.

- Gostava que a tivesse ouvido no dia em que lhe anunciei que ia para a patologia legal. Disse mais ou menos o seguinte:

"Que responderei às minhas amigas do clube quando me perguntarem o que fazes?" Isto proporciona-lhe, sem dúvida, uma ideia muito aproximada do que ela pensa. E o meu pai, o cirurgião cardíaco quinta-essência! Considera que qualquer outro tipo de cirurgia se destina aos fracos, tímidos e atrasados.

- Não é um casal fácil de comprazer. As coisas não devem ter sido fáceis para si.

- Para lhe dizer a verdade, causei-lhes alguns desgostos ao longo dos anos. Fui uma adolescente rebelde, que saía com jovens duros, andava de motocicleta, recolhia a casa tarde, etc. Talvez treinasse os meus pais a desconfiar de tudo o que faço. Nunca me apoiaram muito. Na realidade, quase me têm ignorado, em especial ele.

- No entanto, actualmente tece-lhe encómios. Praticamente sempre que nos cruzamos nos corredores da cirurgia.

- Essa é nova para mim.

- Alguém quer mais conhaque? - perguntou Sheldon, que acabava de assomar à porta com a garrafa na mão.

Jordan disse que não e Laurie limitou-se a abaixar a cabeça.

Sheldon indicou-lhes que "dessem um berro se mudassem de ideias" e desapareceu.

- Basta - articulou ela. - Esta conversa é demasiado séria.

Não pretendi estragar o serão.

Com efeito, arrependia-se de lhe ter revelado tantos pormenores, sobretudo porque não costumava fazer confidências a pessoas quase estranhas. Todavia, sentira-se vulnerável ao longo do dia, desde que se ocupara do caso de Duncan Andrews.

- Não estragou nada - assegurou-lhe Jordan. Em seguida, olhou o relógio e continuou:

- Está a fazer-se tarde e tenho cirurgia logo pela manhã. O meu primeiro caso, às sete e meia, é um barão inglês membro da Câmara dos Lordes.

- Sim? - murmurou Laurie, sem interesse especial.

- Acho que vou recolher à base. Teria o maior prazer em lhe dar boleia. Isto, claro, se tenciona retirar-se.

- De facto, a boleia convinha-me. Estou a pensar em sair desde que nos levantámos da mesa.

Após as despedidas apropriadas, durante as quais Dorothy observou à filha que o seu casaco era demasiado leve para a época do ano, Jordan e Laurie retiraram-se e aguardaram o elevador.

- Mães! - desabafou ela, quando a porta se fechou atrás deles.

Enquanto a cabina descia, Jordan começou a referir-se ao desfile de celebridades que ocorreria no seu consultório no dia seguinte, e Laurie não conseguiu determinar se pretendia impressioná-la ou meramente desanuviar-lhe o espírito.

Quando emergiram do prédio para o ar frio de Novembro, ele passou a aludir ao aspecto cirúrgico da sua actividade, enquanto ela inclinava ocasionalmente a cabeça, como se lhe prestasse atenção. Na realidade, aguardava que lhe indicasse se tinha o carro estacionado a norte ou a sul. Detiveram-se por um momento diante do edifício, enquanto Jordan explicava de quantos casos cirúrgicos se ocupava por ano.

- Não deve ficar com muito tempo livre - observou Laurie.

- Podia ser pior. No entanto, por minha vontade, trabalharia o dobro. A cirurgia é a minha ocupação favorita, aquilo em que sou melhor.

- Onde tem o carro? - acabou por perguntar, trémula de frio.

- Ah, desculpe. É aquele. - Ele apontou para uma longa limusine preta, a curta distância do local onde se encontravam, da qual, como em obediência a uma deixa, se apeou um motorista uniformizado, que se apressou a abrir a porta de trás.

- Este é o Thomas - informou Jordan.

Laurie saudou o homem com uma inclinação de cabeça e entrou. O interior do veículo era quase luxuoso, com um telefone celular, ditafone e fax.

- Parece preparado para os negócios ou o prazer.

Ele sorriu, claramente encantado com o seu estilo de vida, e perguntou:

- Para onde?

Laurie indicou o seu endereço, na Rua 19, e o motorista pôs o carro em movimento.

- Nunca imaginei que você tivesse uma limusina - observou ela. Não será um pouco uma extravagância?

- Talvez, um pouco. - Os dentes brancos irrepreensíveis brilharam na penumbra. - Mas esta ostentação tem uma faceta prática. Executo todo o trabalho de expediente de casa para o consultório e vice-versa, assim como entre este último e o hospital. Portanto, até certo ponto, este tipo de viatura produz dividendos.

- É uma maneira interessante de encarar o assunto.

- Não se trata apenas de uma racionalização.

E descreveu outras formas de organização da sua prática profissional para incrementar a produtividade. Enquanto escutava, Laurie não podia deixar de o comparar com Lou Soldano. Na realidade, difícilmente representariam pólos mais opostos. Um era modesto e o outro de um narcisismo quase arrogante; um proviciano e o outro sofisticado; um reservado, quase tímido, e o outro de um desembaraço algo agressivo. Mas, apesar das divergências, considerava-os atraentes à sua maneira.

Quando a limusina entrou na Rua 19, Jordan pôs termo abrupto ao monólogo e declarou:

- Estou a aborrecê-la com a minha logorreia.

- Vê-se que está profundamente empenhado no que faz. É uma coisa que me agrada.

Arqueou as sobrancelhas e os olhos adquiriram um clarão repentino.

- Gostei muito de a conhecer e lamento não dispormos de mais tempo para conversar. Que diz a jantarmos juntos amanhã?

Ela sorriu. Fora um dia de surpresas, e desde que cortara definitivamente com Sean Mackenzie raramente saía com um homem. Não obstante, achava Jordan interessante, a despeito da sua natureza aparentemente dominadora. Decidiu impulsivamente que resultaria divertido conviver um pouco mais com ele, mesmo que os pais o aprovassem.

- É uma ôptima ideia.

- Estupendo. Que acha do Le Cirque? Conheço o gerente, que nos dará uma boa mesa. às oito está bem?

- Perfeitamente - assentiu, embora começasse a hesitar, a partir do momento em que o ouviu mencionar Le Cirque, pois para a primeira saída juntos teria preferido um ambiente menos formal.

 

- Que raio de horas são? - perguntou Tony. - A pilha do meu relógio deve ter-se esgotado - acrescentou, sacudindo o pulso e em seguida batendo com os dedos no mostrador.

Angelo estendeu o braço e consultou o seu Piaget.

- Onze e onze.

- Não acredito que o Bruno saia. Porque não entramos, para ver se está lá?

- Porque não queremos que a senhora Marchese nos veja. Se tal acontecesse, tínhamos também de a liquidar, o que não seria justo. O pessoal do Lucia talvez não se preocupasse com isso, mas nós não trabalhamos assim. De resto, olha. Aí vem o rufia. - E apontou para a entrada do pequeno prédio de dois pisos.

Bruno Marchese imergiu na noite trajando um casaco de cabedal preto, jeans acabadas de engomar e óculos escuros. Deteve-se um momento no topo da meia dúzia de degraus para acender um cigarro, após o que atirou o fósforo para um vaso e desceu em direcção ao passeio.

- Olha para aqueles óculos - murmurou Angelo. - Deve julgar que é o Jack Nicholson. Palpita-me que vai encontrar-se com alguma tipa. Não devia ter saído de casa. O mal de vocês, jovens, é terem os miolos nos tomates.

- Vamos a ele - urgiu Tony.

- Calma. Deixa-o dobrar a esquina. Apanhamo-lo quando passar debaixo da via férrea.

Cinco minutos mais tarde, tinham Bruno encolhido a um canto do banco de trás, ante o rosto sorridente de Tony. A captura resultara ainda mais fácil do que no caso de Frankie. A única baixa registada consistira nos óculos escuros do rapaz, que foram parar à sarjeta.

- Surpreendido? - inquiriu Angelo, depois de rolarem durante alguns minutos, olhando Bruno pelo espelho retrovisor.

- Que significa isto?

- Hum, é dos duros. - Tony soltou uma gargalhada. - Duro e bronco. E se lhe aplicasse uns sopapos, para sacudir o pó?

- Trata-se do incidente com o Cerino - explicou Angelo. - Queremos ouvir a tua versão.

- Não sei de nada - retorquiu Bruno. - É a primeira vez que oiço falar disso.

- É curioso. Um teu amigo disse-nos que estiveste envolvido.

- Quem?

- O Frankie DePasquale. - Angelo viu a expressão do outro alterar-se de terror, e com fortes motivos.

- O Frankie não sabia nada. Desconheço em absoluto o incidente com o Cerino.

- Então, porque te refugiaste em casa da tua mãe?

- Não me refugiei. Fui despejado do meu apartamento e instalei-me lá provisoriamente. - Meneou a cabeça, com uma expressão de resignação simulada.

Prosseguiram em direcção às instalações da American Fresh Fruit Company sem ulteriores palavras. Uma vez aí, Angelo e Tony conduziram Bruno para o mesmo local onde Frankie fora torturado e morto.

Assim que viu a abertura no chão, Bruno perdeu todo o ar de dureza e balbuciou:

- Está bem, amigos. Que pretendem saber?

- Assim é melhor - disse Angelo. - Primeiro, senta-te. - Fez uma pausa, enquanto o outro obedecia. Em seguida, inclinou-se para ele e indicou:

- Então, conta lá. - Acendeu um cigarro e soprou o fumo para o tecto.

- Não sei grande coisa. Limitei-me a conduzir o carro. Não entrei. Além disso, fui obrigado.

- Por quem? E tem cautela, porque se tentas intrujar-nos vês-te em sérios apuros.

- O Terry Manso. A ideia foi dele. Eu nem sequer suspeitava do que se tratava, até que tudo terminou.

- Além de ti, o Manso e o DePasquale, quem esteve envolvido?

- O Jimmy Lanso.

- E mais?

- Só esses.

- Que fez o Jimmy?

- Entrou mais cedo para localizar o quadro eléctrico e poder apagar a luz no momento apropriado.

- Quem ordenou o golpe?

- Já expliquei. Foi tudo ideia do Manso.

Angelo chupou demoradamente o cigarro e inclinou a cabeça para trás, enquanto expelia o fumo e tentava decidir se necessitava de perguntar mais alguma coisa àquele rufia de meia-tigela.

Quando chegou à conclusão de que não, volveu o olhar para Tony e acenou afirmativamente.

- Queria pedir-te um favor, Bruno. Preciso que transmitas um recado ao Vinnie Dominick. Posso contar com isso?

- Sem dúvida - assentiu o interpelado, recuperando parte da dureza inicial.

- É o seguinte...

Angelo não completou a frase. O estampido da Bantam de Tony obrigou-o a estremecer. As armas dos outros pareciam sempre mais ruidosas.

Como não tinham atado Bruno à cadeira, o corpo dobrou-se para a frente e deslizou para o chão. Angelo aproximou-se e abanou a cabeça.

- Acho que o Vinnie receberá o recado.

Tony olhou a arma com um misto de admiração e prazer, puxou do lenço e limpou a fuligem do cano.

- Isto é cada vez mais fácil - observou ao companheiro.

Este não replicou. Ao invés, agachou-sejunto do cadáver e extraiu-lhe a carteira do bolso interior do casaco de cabedal.

Continha várias notas de cem dólares e algumas de valor mais baixo. Entregou uma das primeiras a Tony e guardou as outras, após o que voltou a colocar a carteira no bolso de Bruno.

- Dá-me uma ajuda - ordenou ao outro. Arrastaram o corpo para a abertura e lançaram-no ao rio. à semelhança do que se passara com o de Frankie, foi levado rapidamente pela corrente, apenas com uma pausa momentânea quando embateu numa das colunas do cais.

- Apetece-te comer? - perguntou Angelo.

- Estou faminto - admitiu Tony.

- Então, vamos ao Valentinos, na Rua Steinway. Há muito que não como uma pizza.

Minutos depois, Angelo manobrava o carro para inverter a direcção e conduzia-o para a saída do cais. No cruzamento da Rua Java com a Avenida Manhattan, virou à esquerda e acelerou.

- É curiosa a facilidade com que se apaga uma pessoa- comentou Tony. - Lembro-me de, em criança, imaginar que era uma coisa do outro mundo. Eu e outros miúdos costumávamos esperar que um vizinho saísse de casa só para o admirarmos, pois constava que tinha matado alguém. Considerávamo-lo o nosso herói.

- Que espécie de pizza queres? - perguntou Angelo, ignorando as reminiscências.

- Pepperoni. A primeira vez que liquidei um fulano fiquei tão excitado que perdi o apetite. Até tive pesadelos. Mas agora é um gozo.

- É trabalho - corrigiu secamente. - Quando te convencerás disso?

- Que lista vamos seguir quando acabarmos de comer: a antiga ou a nova?

- A antiga. Primeiro, quero mostrar a nova ao Cerino, para me certificar. Não faria sentido trabalharmos por nossa própria conta.

 

QUARTA-FEIRA, 6 HORAS E 45 MIMUTOS, DE MANHÃ

MANHATTAN

Do ponto em que se encontrava, Laurie via o irmão encaminhar-se para o lago. Movia-se apressadamente, e ela receava que começasse a correr. Calculava que ele estivesse ao corrente do lodo e da sua perigosa profundidade, mas prosseguia em frente como se lhe fosse indiferente.

- Shelly! - chamou. Ou a ignorou ou era-lhe impossível ouvi-la. Tornou a gritar a plenos pulmões, mas continuou a não obter resposta, pelo que começou a correr para lá. Entretanto, o irmão encontrava-se apenas a dois passos do perigoso lodaçal. - Pára, Shelly! Não te aproximes da água! Afasta-te!

Mas ele prosseguia em frente. Quando Laurie alcançou a margem já o irmão estava imerso no lodo até à cintura. Virando-se para trás, exclamou:

- Acode-me!

Ela estacou na periferia da área perigosa e estendeu os braços, porém as mãos não conseguiam tocar no irmão. Voltou-se por sua vez e gritou a pedir socorro, mas não havia ninguém à vista. Tornou a olhar Shelly, que se afundara até ao pescoço.

Com os olhos dominados pelo terror, abriu a boca e principiou a gritar.

Os gritos converteram-se num retinir persistente, que a arrancou do sono. Ainda desesperada por acudir ao irmão, estendeu o braço e derrubou o despertador do peitoril da janela. O mesmo movimento atingiu um copo cheio de água, que se verteu sobre o livro que ela lera antes de adormecer. O despertador, o copo e o livro reuniram-se no chão.

O incidente assustou de tal modo o Tom, que saltou em primeiro lugar para cima do toucador, onde fez cair a maior parte dos cosméticos de Laurie, e depois para a cómoda.

Com o ruído e a confusão, ela abandonou a cama antes de se aperceber concretamente do que fazia. Transcorreram alguns segundos antes de o som persistente do despertador conseguir acordá-la por completo. Abaixou-se para o apanhar do chão e desligar o alarme.

Por um momento, conservou-se imóvel no meio dos estragos, para recobrar o alento. Havia anos que não tinha aquele pesadelo, provavelmente desde a universidade, e o efeito resultava mais preocupante que os destroços à sua volta. Tinha a fronte perlada de transpiração, e as palpitações do coração atingiam um ritmo invulgar.

Quando, por fim, se recompôs suficientemente, foi buscar a pá e a vassoura para recolher os fragmentos de vidro dos frascos.

A seguir, apanhou os intactos e alinhou-os no toucador, deixando o resto da arrumação para mais tarde.

Encontrou o Tom refugiado debaixo do sofá da sala. Depois de o atrair com palavras ternas, conservou-o nos braços por uns momentos, até que o ouviu ronronar.

Cerca de dez minutos mais tarde, preparava-se ela para abrir a torneira do chuveiro, soou a campainha da porta.

- Quem será a esta hora? - proferiu entredentes.

Envolveu-se numa toalha, dirigiu-se ao intercomunicador do vestíbulo e perguntou quem era.

- O Thomas - anunciou uma voz em tom algo deferente.

- Qual Thomas?

- O motorista do doutor Scheffield. Venho entregar uma coisa enviada por ele, que não o pode fazer por estar de serviço na cirurgia.

- Desço já.

Enfiou apressadamente uma camisa de meia manga e calças de ganga e saiu para o corredor.

- Madrugou, hoje - observou Debra Engler, atrás da porta entreaberta, como de costume.

Laurie emitiu um suspiro de alívio ao ver a cabina do elevador surgir finalmente.

Thomas levou dois dedos ao boné quando a viu e disse que esperava não a ter acordado. O que trazia para lhe entregar era uma caixa alongada, branca, atada com uma fita vermelha.

Ela agradeceu e voltou imediatamente para cima.

Pousou a caixa na mesa da cozinha, retirou a fita, abriu-a e afastou o papel de seda. Depararam-se-lhe várias dúzias de rosas vermelhas, encimadas por um bilhete com os dizeres:

"Até logo à noite. Jordan. " Abafou uma exclamação de assombro. Como nunca fora destinatária de um gesto tão pouco vulgar, não sabia como reagir. Nem sequer sabia se devia ou não aceitar as flores.

Mas que podia fazer? Achava-se impossibilitada de as devolver.

Pegou numa e cheirou-a, ao mesmo tempo que admirava a intensidade da cor. Embora a oferta a confundisse e fizesse sentir-se desconfortável, via-se forçada a reconhecer que era lisonjeira e romântica.

Foi buscar a jarra maior que possuía, colocou metade das rosas em água e levou-as para a sala. Entretanto, reflectia que não lhe custaria habituar-se à presença de flores no apartamento, pois produziam um efeito extremamente aprazível.

Voltou à cozinha, pôs a tampa na caixa e atou-a com a fita vermelha. Se uma dúzia de rosas transmitiam tanta vida ao apartamento, era imprevisível o efeito no seu gabinete de trabalho.

- Meu Deus! - exclamou, quando viu as horas; e, dominada pelo pânico, despiu-se e correu para o chuveiro. Eram oito e meia quando chegou ao edifício da Inspecção Médica Principal, meia hora mais tarde do que o habitual. Com uma sensação de culpa, encaminhou-se directamente para o Departamento de Identificação, embora, em virtude das rosas, tivesse preferido passar primeiro pelo seu gabinete.

- O doutor Bingham quer falar consigo - comunicou Calvin Washington assim que a viu. - Mas depois volte para aqui a trote, porque temos trabalho até às orelhas.

Laurie pousou a pasta e a caixa das rosas numa secretária desocupada. Sentia-se algo embaraçada por causa das flores, mas se ele se apercebeu de algo não o deixou transparecer. Por conseguinte, retrocedeu e apresentou-se à senhora Sanford.

Tendo bem presente na memória a última visita aos domínios do chefe, achava-se no mínimo apreensiva e, por mais que se esforçasse, não conseguia imaginar o que ele pretenderia.

- De momento, está ao telefone - informou a secretária. - É melhor sentar-se. Creio que não terá de esperar muito.

Laurie dirigiu-se para um sofá, mas antes que pudesse sentar-se, a senhora Sanford atendia o intercomunicador. O doutor Bingham ia recebê-la.

 

Encheu os pulmões de ar e entrou no gabinete do chefe, que conservava a cabeça inclinada para a frente. Estava a escrever e não a convidou para se sentar. Por fim, ergueu os olhos.

Por uns instantes, observou-a com a expressão acerada do olhar, até que meneou a cabeça e suspirou.

- Depois de meses de trabalho irrepreensível, você parece ter criado a tendência imparável para os problemas. Desagrada-lhe a actividade que executa, doutora?

- De modo algum, doutor Bingham. Muito pelo contrário.

- Sente-se.

Uniu as mãos e pousou-as no tampo da secretária, enquanto Laurie se instalava na borda da cadeira em frente.

- Nesse caso, talvez não goste de trabalhar neste departamento - volveu ele, numa inflexão mista de pergunta e afirmação.

- Adoro trabalhar aqui. Porque pensa o contrário?

- Apenas por ser a única explicação que me ocorre para o seu comportamento.

- Não faço a menor ideia da natureza do comportamento a que se refere - replicou ela com firmeza.

- Trata-se da sua visita de ontem à tarde ao apartamento do falecido Duncan Andrews, ao qual, segundo parece, teve acesso mostrando as credenciais oficiais. Esteve lá, ou fui mal informado?

- Estive.

- O doutor Calvin não lhe disse que nos têm pressionado do gabinete do mayor acerca desse caso?

- Ele falou de facto no assunto, mas a única coisa que abordou relacionada com a pressão dizia respeito à causa oficial da morte.

- Isso não foi suficiente para a levar a concluir que se tratava de um caso sensível e devia revelar a maior discrição possível em todos os aspectos?

Laurie tentava determinar quem se queixara da sua visita. E porquê. Sara letherbee decerto não fora. Enquanto reflectia, apercebeu-se de que o doutor Bingham aguardava a sua resposta.

- Não pensei que a minha presença no local pudesse contrariar alguém - acabou por declarar.

- Não pensou, na verdade - retorquiu ele. - Isso é penosamente óbvio. Pode explicar-me porque o fez? O corpo já lá não estava. De resto, você tinha terminado a autópsia. E, para cúmulo, dispomos de investigadores médicos para essas tarefas.

Investigadores médicos aos quais recomendámos que não se envolvessem no assunto. Volto, pois, à minha pergunta. Porque o fez?

Ela procurou encontrar uma explicação, sem entrar no campo pessoal, pois não desejava discutir a overdose do irmão com o chefe. Pelo menos, naquele momento.

- Fiz-lhe uma pergunta, doutora Montgomery - lembrou Bingham.

- Não tinha encontrado nada na autópsia - exclamou Laurie, finalmente. - Não havia qualquer patologia. Creio que fui lá impelida pelo desespero, a fim de ver se o lugar em que ele vivia revelava uma alternativa plausível às drogas que obviamente consumia.

- Além de pedir a Cheryl Myers que lhe fornecesse os dados clínicos do homem?

- Exacto.

- Em circunstâncias normais, uma iniciativa dessa natureza seria recomendável. No entanto, em virtude das actuais, só serviu para aumentar os problemas deste departamento. O pai, que dispõe de conhecimentos de peso nos círculos políticos, inteirou-se da sua visita ao apartamento e barafustou como se estivéssemos empenhados em comprometer-lhe a campanha para o cargo de senador. E tudo isto por cima do homicídio no Central Park, que já nos deu água pela barba com o gabinete do rimym. Não precisamos de mais imbróglios, compreende?

- Sim, senhor.

- Acalentemos ao menos essa esperança. - Bingham tornou a baixar os olhos para os documentos na sua frente.

- Nada mais, doutora Montgomery.

Laurie abandonou o gabinete do chefe e respirou fundo.

Nunca estivera tão perto de ser despedida. Duas convocações desagradáveis aos domínios do temível doutor Bingham noutros tantos dias.

- Limpou a ardósia perante o chefe? - perguntou o doutor Calvin.

- Espero que sim.

- Eu também, porque preciso de si em plena forma. - Estendeu-lhe um maço de pastas de cartolina. Tem quatro casos hoje. Mais duas overdoses como a de Duncan Andrews e dois flutuadores. Flutuadores recentes, devo salientar. Calculei que, como executou o mesmo género de operação ontem, se desembaraçaria mais depressa. Há trabalho que chega e sobeja para toda a gente. Tive de distribuir cinco casos a alguns dos seus colegas, pelo que se deve considerar afortunada.

Laurie folheou o conteúdo das pastas, para se certificar de que não faltava nada. Em seguida, levou-as para o seu gabinete, juntamente com a caixa de rosas e a sua própria pasta. Antes de qualquer outra coisa, dirigiu-se ao laboratório e muniu-se da maior proveta que encontrou, na qual dispôs as flores e adicionou água. Por último, colocou-as numa prateleira e retrocedeu alguns passos para admirar o efeito. Foi obrigada a esboçar um sorriso ao reconhecer que se achavam pungentemente deslocadas.

Finalmente, sentou-se à secretária e debruçou-se sobre a primeira pasta, mas não foi longe. Acabava de a abrir, quando bateram à porta, que se abriu devagar para revelar Lou Soldano.

- Espero não vir incomodá-la muito. Aposto que não estava a contar com a minha visita.

Tinha aspecto de quem passara a noite a pé. Usava o mesmo fato folgado com necessidade urgente de ser engomado e o rosto por barbear.

- Não incomoda nada - assegurou-lhe ela. - Entre.

- Como lhe estão a correr as coisas hoje? - perguntou ele, depois de se sentar e pousar o chapéu nos joelhos.

- Bem, à parte uma escaramuça com o chefe.

- Espero que não fosse por causa da minha vinda de ontem...

- Não gostou de uma diligência a que procedi.

- Vim, porque soube que apareceram mais casos como os do infortunado Frankie, descobertos no mesmo local e pelo mesmo guarda de segurança. Por conseguinte, encontrava-me no cais da Rua Sul, às cinco da manhã. Ena! - exclamou subitamente, ao ver a proveta com as rosas. - Aquelas flores não estavam aí ontem.

- Agradam-lhe?

- Muito impressionantes. De um admirador?

- Acho que se lhe pode dar esse nome - admitiu Laurie, após breve hesitação.

- Sim, são bonitas. - Lou baixou os olhos para o chapéu e começou a endireitar a aba. - O doutor Washington disse que lhe distribuiu esses casos, e aqui me tem.

Importa-se que volte a assistir às autópsias?

- De modo algum, se lhe parece que consegue suportá-las.

Tenho muito gosto com a sua companhia.

- Estou quase certo de que uma das mortes se relaciona com a do Frankie - prosseguiu, inclinando-se um pouco para a frente. - Chama-se Bruno Marchese. É da mesma idade e ocupava uma função similar na organização. Inteirámo-nos de tantos pormenores rapidamente porque conservava a carteira no bolso, como aconteceu no outro caso. Tudo indica que o assassino queria que a morte se tornasse conhecida imediatamente, como um spot publicitário da televisão. Quando isso se verificou com o Frankie, atribuímo-lo a uma casualidade afortunada. Agora, ao repetir-se, estamos seguros de que foi um gesto deliberado. E preocupa-nos. Deve estar iminente algo de importante, como, por exemplo, uma guerra total entre duas organizações. Se for esse o caso, temos de o impedir, pois morrem muitos inocentes em qualquer conflito dessa natureza.

- Este foi morto da mesma maneira? - perguntou ela, enquanto consultava as pastas de cartolina, até chegar à de Bruno.

- Exactamente a mesma. Uma execução típica de gangsters. Uma bala na nuca disparada à queima-roupa.

- E com uma arma de pequeno calibre - acrescentou ela, depois de esquadrinhar superficialmente os documentos. Levantou o auscultador e ligou à morgue. Quando atenderam, perguntou por Vinnie e aguardou um momento. - Voltamos a trabalhar juntos?

- Não a largo em toda a semana.

- Temos dois flutuadores. Bruno Marchese e... - Volveu o olhar para Lou. - Como se chama o outro?

- Não sabemos - informou o detective. - Ainda não foi identificado.

- Não tinha a carteira?

- Pior do que isso. Faltam a cabeça e as mãos. Esse, não queriam que fosse identificado.

- Estupendo! - proferiu ela, com sarcasmo. - Sem a cabeça, o corpo terá um valor muito limitado. - Tornou a falar para o bocal. - Providencie para que o Bruno Marchese e o homem decapitado sejam radiografados.

- Já se está a tratar disso - referiu Vinnie. - Mas vai demorar um pouco, porque há bicha. É uma manhã particularmente agitada. Parece que houve uma espécie de guerra de bandos em Harlem, esta noite, pelo que estamos enterrados em ferimentos de balas até ao pescoço. Outra coisa: o corpo sem cabeça é de uma mulher e não de um homem. Quando aparece cá em baixo?

- Daqui a pouco. Arranje um estojo de pesquisa de violação para a mulher. - Ela cortou a ligação e virou-se de novo para Lou. - Não me tinha dito que um dos flutuadores é uma mulher.

- Não tive oportunidade.

- Bem, não tem importância. Infelizmente, os casos que lhe interessam não serão os primeiros. Lamento.

- Não faz mal. Gosto de a ver trabalhar.

 

Deu uma olhadela à pasta da decapitada e, em seguida, a uma das referentes a overdoses, mas o que se lhe deparou nesta última fê-la consultar igualmente a última.

- É curioso - murmurou, erguendo os olhos. - O doutor Washington disse que estes casos eram idênticos ao de Duncan Andrews, mas não me passou pela cabeça que falasse tão literalmente. Que coincidência...

- São overdoses de cocaína?

- Exacto. Mas a coincidência não reside aí. Um é um banqueiro e o outro um editor.

- Que há de extraordinário nisso?

- Refiro-me ao aspecto demográfico. Os três eram profissionais prósperos, jovens e solteiros. Não correspondem minimamente à fauna que costumamos associar às overdoses.

- Tenho de repetir a pergunta: que há de extraordinário nisso? Não são esses indivíduos o género de yuppies que popularizaram a coca? Onde está a invulgaridade?

- O facto de consumirem cocaína não constitui o aspecto surpreendente - explicou Laurie, pausadamente. - Não sou ingénua. Por detrás do verniz do êxito material pode existir um vício profundamente enraizado. Mas os casos de overdose que nos passam pelas mãos costumam dizer respeito a desiludidos da vida. Nos do crac, os viciados pertencem mesmo às camadas mais baixas. Aparecem por vezes indivíduos mais prósperos, mas quando as drogas os matam já perderam tudo: emprego, família, dinheiro, etc. Estes casos recentes não me parecem overdoses típicas. Levam-me a ponderar se a droga não continha algum veneno adicional. - Começou a procurar entre a papelada em cima da secretária. - Onde teria posto aquele artigo do American Journal of Medicine?... - Ah, ei-lo! - Pegou na fotocópia de uma folha de Jornal e estendeu-a a Lou. - A cocaína adquirida na rua costuma ter alguma coisa misturada, em geral açúcar ou estimulantes comuns, mas também, por vezes, substâncias estranhas. Está aí indicada uma série de envenenamentos resultantes de um quilo de cocaína a que juntaram estricnina.

- Safa... - Ele assobiou em surdina. - Deve proporcionar uma viagem e peras.

- Diga antes uma viagem rápida para a morgue - salientou Laurie. - O facto de ver três casos de overdose atípicos em dois dias faz-me pensar se terão obtido o produto da mesma fonte contaminada.

- É uma possibilidade muito remota - objectou o detective. - Em especial, dispondo apenas de três casos. E, francamente, mesmo que a sua teoria corresponda à realidade, não estou interessado.

- Como assim? - estranhou ela, quase duvidando do que ouvira.

- Com todos os problemas que afligem a cidade, toda a violência e crimes que ocorrem nas ruas, custa-me sentir particular simpatia por um trio de janotas endinheirados, que não descobrem uma ocupação menos letal para os seus tempos livres do que consumir drogas ilegais. Confesso que me preocupo mais com os pobres diabos que aparecem a flutuar no rio, como essa mulher decapitada.

Antes que pudesse replicar com veemência, o telefone tocou, e surpreendeu-se ao ouvir a voz de Jordan no outro extremo do fio.

- Já estou despachado do primeiro. Correu tudo perfeitamente.

Tenho a certeza de que o barão ficará satisfeito.

- Alegra-me sabê-lo - disse Laurie, com um olhar embaraçado a Lou.

- Recebeu as flores?

- Recebi e não me canso de as admirar. Obrigada. São exactamente o que o médico recomendou.

- Boa saída. - Jordan soltou uma risada. - Pensei que constituiriam a maneira apropriada de lhe dar a entender que aguardo com ansiedade o nosso encontro de logo à noite.

- Podem figurar na mesma categoria que a limusina. Um pouco para o extravagante. Em todo o caso, aprecio o facto de pensar em mim.

- Bem, queria apenas certificar-me. Tenho de voltar para a cirurgia. Até logo às oito.

- Desculpe - disse Lou, quando Laurie pousou o auscultador. - Podia ter dito que era uma chamada pessoal e eu aguardaria no corredor.

- É raro receber telefonemas pessoais aqui. Apanhou-me desprevenida.

- Uma dúzia de rosas. Uma limusina. Deve ser um fulano interessante.

- E é. Por sinal disse uma coisa, ontem à noite, que talvez lhe interesse.

- Custa-me a crer - advertiu ele. - Mas sou todo ouvidos.

- Ele é médico e chama-se Jordan Scheffield. Talvez tenha ouvido mencioná-lo, pois desfruta de grande popularidade.

Disse-me que figura na sua clientela o homem pelo qual você está tão interessado: Paul Cerino.

- A sério? - Na verdade, não só deixava transparecer interesse como incredulidade.

- Jordan Scheffield é oftalmologista.

- Um momento. - Ergueu uma das mãos, ao mesmo tempo que introduzia a outra na algibeira do casaco para puxar de uma folha de papel dobrado e uma esferográfica. - Deixe-me tomar nota. - Escreveu o nome do médico e pediu a Laurie que soletrasse "oftalmologista".

- É a mesma coisa que optometrista?

- Não. Oftalmologista ocupa-se de cirurgia, assim como de cuidados médicos da vista, enquanto o optometrista se dedica de preferência à correcção de problemas de visão, por meio de óculos e lentes de contacto.

- E os oculistas? Fiz sempre uma certa confusão com esses tipos de especialistas.

- Satisfazem as receitas relativas à vista - explicou Laurie.

- Tanto dos oftalmologistas como dos optometristas.

- Agora compreendi. Fale-me disso do doutor Scheffield e do Paul Cerino.

- É a parte mais interessante. O Jordan disse que tratava Cerino de queimaduras de ácido nos olhos. Alguém lho atirou à cara, com a intenção óbvia de o cegar.

- Interessante, de facto, pois pode esclarecer muitas coisas.

Como, por exemplo, as execuções estilo gangster de membros do bando do Lucia. E o caso do Frankie? Poderia tratar-se também de ácido?

- Sem dúvida. Embora seja difícil de determinar, devida à imersão do corpo no rio, os estragos observados na vista podem perfeitamente dever-se a queimaduras de ácido.

- Pode tentar obter uma declaração formal do laboratório nesse sentido? Seria o início da pista por que ansiamos.

- Far-se-á o possível. No entanto, como referi, a permanência mais ou menos prolongada do corpo na água pode dificultar a tarefa. Também examinaremos a bala deste último caso. Talvez seja igual à que vitimou o Frankie.

- Há meses que não estava tão entusiasmado - reconheceu Lou.

- Vamos ver o que se consegue.

Desceram ao laboratório, onde Laurie procurou o director, um toxicólogo chamado John DeVries, alto, magro, de faces encovadas e palidez de académico, o qual usava uma bata, coberta de nódoas, duas medidas abaixo da sua.

Ela procedeu às apresentações e perguntou se os resultados dos exames dos casos da véspera se achavam disponíveis.

- Alguns - assentiu o doutor DeVries. - Tem os números de acesso?

- Com certeza.

- Então, vamos para o meu gabinete. - Uma vez num aposento pouco maior que um cubículo, cheio de livros científicos e montes de jornais médicos, debruçou-se sobre a secretária e premiu algumas teclas de um computador. - Quais são eles?

Laurie indicou-os e ele marcou-os no teclado. O ecrã, iluminou-se quase imediatamente.

- Havia cocaína no sangue e na urina. E, ao que parece, em concentração elevada. Mas tratava-se apenas de uma cromatografia de camada pouco espessa.

- Alguma substância contaminadora ou outras drogas? - perguntou ela.

- Até agora, não se encontrou nada do género. - O toxicólogo endireitou-se. - Mas utilizaremos a cromatografia gasosa e a espectrometria maciça, assim que houver tempo. O trabalho tem apertado constantemente.

- Trata-se de um caso de overdose de cocaína, mas um pouco atípica, porque o falecido não parecia ser um utente habitual.

E se consumia drogas... embora a família garanta que tal não acontecia... isso não interferia na sua vida normal. Era um indivíduo bem lançado nos negócios e cidadão exemplar, ingredientes que não ligam com a ideia de uma overdose. Por conseguinte, apesar de porventura invulgar, não foi nada de extraordinário. A cocaína pode provocar reacções imprevistas.

Mas agora apareceram mais dois casos de perfis similares, com o intervalo de um dia do anterior, e acudiu-me a suspeita de que uma porção de cocaína esteja envenenada com alguma espécie de contaminador. Pode acontecer ser a causa da morte desses consumidores aparentemente ocasionais. Agradecia, pois, que procedessem a análises mais profundas com a brevidade possível. Talvez consigamos salvar algumas vidas.

- Farei o que puder - reiterou. - No entanto, como referi, o trabalho aperta. Há algum outro caso de que deseje elucidar-se?

Laurie indicou o número de acesso de Frank DePasquale, e o doutor DeVries tornou a recorrer ao computador.

- Somente resíduos de canabina na urina.

- Havia uma amostra de tecido da vista - observou Laurie. - Alguma coisa aí?

- Ainda não foi analisada.

- Essa vista parecia queimada, e suspeitamos da presença de ácido. Importa-se de investigar nesse sentido? É importante.

- Conte comigo e com o meu pessoal.

Ela agradeceu as informações e fez sinal a Lou para que a seguisse em direcção ao elevador, ao mesmo tempo que meneava a cabeça.

- Tentar arrancar-lhe elementos é como querer espremer água de uma pedra.

- Pareceu-me exausto - disse o detective. - Ou talvez deteste a profissão. Uma das duas coisas.

- Alega, na defensiva, que o trabalho abunda. à semelhança de tudo o resto nesta casa, dispÕe de fundos limitados, que cada vez dão para menos. Em todo o caso, acalento a esperança de que arranje tempo suficiente para procurar um contaminador nas overdoses que nos interessam. Estou firmemente convencida de que existe. - Laurie consultou o relógio e acrescentou:

- Tenho de me despachar. Não me posso dar ao luxo de ter também o doutor Washington à perna. Já basta o doutor Bingham. Se não me acautelo, ainda vou parar às filas de desempregados.

- De facto, acho-a muito preocupada com essas overdoses - comentou ele, olhando-a com curiosidade.

- Não se engana.

Ela calou-se bruscamente e fixou o olhar no ponteiro indicador dos pisos. As palavras do detective recordavam-lhe o pesadelo daquela manhã e esperava que ele não aludisse a Shelly. A cabina imobilizou-se diante deles naquele momento e entraram.

Quando chegaram à "cova", vestiram a bata e passaram à sala de autópsias, que constituía uma colmeia de actividade, com todas as mesas ocupadas. Laurie apercebeu-se de que o próprio Calvin Washington trabalhava, na número um. Devia existir um motivo especial para tal, pois não costumava ocupar-se de casos de rotina.

O primeiro trabalho dela já se achava na mesa. Vinnie tomara a liberdade de reunir todos os apetrechos que antevira que necessitaria. O corpo pertencia a um certo Robert Evans, de vinte e nove anos.

Laurie pousou a papelada de que se fizera acompanhar e iniciou o exame externo. Estava quase a meio, quando reparou que Lou não se encontrava do outro lado da mesa, mas um pouco afastado.

- Desculpe se me esqueci da sua presença.

- Compreendo perfeitamente. Continue a trabalhar e não se preocupe comigo. Vejo que têm todos muito que fazer e não quero estorvar.

- Não estorva. Como pretendia assistir, aproxime-se e conserve os olhos bem abertos.

Ele contornou a mesa, tendo o cuidado de ver onde punha os pés, as mãos crispadas atrás das costas. Por fim, baixou os olhos para o corpo de Robert Evans e perguntou:

- Descobriu alguma coisa de interessante?

- O pobre homem entrou em convulsões como o Duncan Andrews. Há as escoriações habituais e graves mordeduras na língua a prová-lo. E existe algo mais. Vê esta marca de picada na fossa antecubital? Recorda-se disto no corpo do Duncan Andrews?

- Muito bem. Era o ponto intravenoso de inoculação da cocaína.

- Exacto. Por outras palavras, o senhor Evans consumia-a da mesma maneira que o senhor Andrews.

- E daí?

- Como lhe expliquei ontem, a cocaína pode tomar-se de muitas formas. Snifando, ou, se quisermos empregar a terminologia médica, por meio da insuflação, constitui a via recreativa usual.

- E fumando-a? - argumentou Lou.

- Está a pensar no crack. O hidrocloreto de cocaína, um sal, é pouco volátil, pelo que se não pode fumar. Para tal, tem de se converter em crack. A questão reside em que, embora a forma corrente da cocaína possa ser injectada, em regra não o é. O facto de se ter utilizado desse modo em ambos os casos revela-se curioso, embora não me ocorra qualquer explicação interessante.

- Não era habitual nos anos sessenta injectá-la?

- Só quando combinada com heroína, sob a forma daquilo a que chamam "bola rápida".

Laurie fechou os olhos por um momento, respirou fundo e expeliu o ar com um suspiro.

- Não se sente bem?

- Sinto-me.

- Talvez estejamos a assistir ao início de uma nova moda.

- Esperemos que não. Mas se for o caso, é demasiado mortífera para durar muito tempo.

Quinze minutos mais tarde, Lou estremeceu quando a viu cravar o bisturi no peito do corpo de Robert Evans. Apesar de estar morto e não brotar sangue, não conseguia ignorar a circunstância de a aguçada lâmina retalhar tecido humano como se fosse a sua própria pele.

Sem qualquer patologia aparente, Laurie completou rapidamente o aspecto interno da autópsia e, enquanto Vinnie levava o corpo de Evans e trazia o de Bruno Marchese, ela e o detective foram observar as radiografias deste último e da mulher decapitada.

- A bala tem aproximadamente a mesma localização - disse Laurie, apontando para o ponto brilhante dentro dos contornos do crânio.

- Parece de calibre ligeiramente maior - salientou Lou. - Posso estar enganado, mas não creio que proviesse da mesma arma.

- Se tiver razão ficarei impressionada - volveu ela. Actuou nos comandos da unidade para surgir a radiografia de todo o corpo, não notou qualquer anormalidade e substituiu-a pela da decapitada. - Ainda bem que tirámos esta radiografia - acabou por declarar.

- Porque diz isso? - quis saber ele, com o olhar fixo naquilo que, na sua opinião de leigo, não passava de uma série de sombras desfocadas.

- Não vê a anormalidade?

- Confesso que não, e não compreendo como vocês, médicos, conseguem distinguir algum pormenor especial. Uma bala dá bem nas vistas, mas o resto resume-se a uma espécie de série de manchas.

- Não acredito que não se aperceba.

Está bem, sou pitosga. Por conseguinte, elucide-me.

- A cabeça e as mãos desapareceram!

- Sua espertalhona! - O detective abafou a gargalhada que lhe acudira, para não atrair as atenções dos que trabalhavam na mesa mais próxima.

É uma anormalidade, de qualquer modo.

Examinadas as radiografias, regressaram à mesa a tempo de ajudar Vinnie a transferir o corpo de Bruno da mesinha de rodas para a outra.

Lou pretendeu colaborar, porém Laurie não o permitiu, porque não calçava luvas. Em seguida, para poupar tempo, principiou a trabalhar com o corpo de bruços.

A entrada da bala não diferia muito da de Frankie, embora o diâmetro desta fosse um pouco maior, o que sugeria que a arma estivesse menos próxima. Após a obtenção de todas as fotografias e amostras apropriadas, ela e Vinnie voltaram o corpo de costas para baixo.

A primeira coisa que Laurie fez foi examinar os olhos, mas não apresentavam nada de anormal.

- Depois do que você referiu lá em cima, esperava que nos revelassem alguma coisa - observou Lou.

- Também tinha essa esperança - admitiu ela. - Adorava proporcionar-lhe o indício pelo qual anseia.

- Ainda não está tudo perdido. Se lançaram ácido aos olhos do Paul Cerino e os do Frank DePasquale sofreram a mesma sorte, dispomos pelo menos de um factor comum. Acho que merece a pena deslocar-me a Queens, para trocar impressões com o Paul.

Terminado o exame externo, Laurie aceitou a faca que Vinnie lhe estendia e iniciou o interno. Dada a ausência de patologia, mais uma vez, desenrolou-se com notável rapidez.

Em seguida, Vinnie levou o corpo e reapareceu com o do segundo flutuador. Naquele momento, alguém de uma mesa ao lado perguntou:

- De onde veio isso, Laurie? Da Caverna Adormecida?

Quando as risadas se extinguiram, Lou acercou-se de Laurie e murmurou-lhe ao ouvido:

- Foi um comentário grosseiro. Quer que esmurre o fulano?

- HUmor negro - observou ela, rindo igualmente. - Está sempre presente na patologia. - Examinou os membros seccionados e o pescoço da mulher e informou:

- A mutilação foi efectuada após a morte.

- É uma conclusão reconfortante - concedeu o detective, sentindo que a sua percentagem de tolerância se esgotava gradualmente. Tinha mais dificuldade em combater a náusea perante aquele corpo desmembrado do que no caso dos anteriores.

- A decapitação e corte das mãos efectuaram-se de uma forma rudimentar - revelou Laurie. - Repare nas marcas irregulares de um serrote nos ossos expostos. É claro que parte deste tecido parece ter sido roído por peixes ou crustáceos.

Lou conseguiu manter a compostura, embora preferisse encontrar-se a quilómetros dali, e entretanto a náusea acentuava-se.

- O resto do tronco parece normal - acrescentou ela. - Não há indícios de mordeduras humanas.

- Esperava que houvesse? - perguntou Lou, engolindo em seco.

- No caso de violação, são frequentes. Convém tê-las presentes na mente, de contrário podem passar despercebidas.

- Tentarei não me esquecer disso.

Laurie inspeccionou o peito e o abdómen minuciosamente, e a única descoberta digna de menção foi Uma cicatriz do lado direito que acompanhava a linha das costelas.

- Isto pode revelar-se importante para a identificação - indicou, apontando-a. - Penso que se deve à extracção da vesícula.

- E se o corpo não for identificado?

- Ficará na câmara frigorífica de entrada durante algumas semanas. Se no final desse período continuarmos sem saber quem é, terminará num dos caixões de pinho que viu no corredor. - Abriu o estojo de pesquisa de violações e dispôs o conteúdo ao lado. - A maior parte disto será provavelmente meramente académico, depois de o corpo ter estado imerso no rio, mas merece a pena tentar.

Enquanto extraía as amostras apropriadas, perguntou a Lou se lhe parecia que o caso se relacionava com o de Frank ou Bruno.

- Não estou certo disso, mas tenho as minhas suspeitas. Há várias pessoas, entre as quais mergulhadores da polícia, à procura de cabeças e mãos. Posso, no entanto, garantir-lhe uma coisa: quem liquidou esta mulher não a queria identificada.

Atendendo à corrente do rio, o facto de ter sido encontrada nas proximidades do Frankie e do Bruno sugere que a atiraram do mesmo lugar. Por conseguinte, sim, acho que existe uma relação.

- Que probabilidades de encontrar a cabeça e as mãos supÕe que existem?

- Poucas. Podem ter ido para o fundo, onde largaram o corpo, ou levadas para outro local.

Laurie concentrou-se na porção interna da autópsia e notou que a vítima sofrera duas intervenções cirúrgicas para extracção da vesícula, como supusera, e uma histerectomia.

Com três dos seus casos concluídos antes do meio-dia, sentia-se suficientemente satisfeita com o ritmo do trabalho para sugerir a Lou uma visita rápida ao refeitório, para tomarem café. Ele assentiu com prontidão, consciente de que lhe convinha uma bebida fortificante depois da provação daquela manhã. Além disso, não tardaria a ter de regressar ao seu gabinete na polícia, e comunicou jocosamente a Laurie que teria de se ocupar do segundo caso de overdose sem a sua ajuda.

Afinal, em vez de visitarem o refeitório, ela levou o detective ao Departamento de Identificação, onde havia uma máquina de café. Como se situava no piso imediatamente superior, utilizaram a escada. Laurie sentou-se atrás de uma secretária, enquanto ele se apoiava no canto do móvel. À semelhança da véspera, a atitude de Lou alterou-se subitamente ao preparar-se para sair, tornando-se embaraçado e desajeitado e acabando por verter parte do conteúdo da chávena no peitilho da bata.

- Que maçada... - resmungou, aplicando um guardanapo de papel. - Oxalá não manche.

- Não se preocupe com isso. Estas batas já ostentaram nódoas muito piores que as de café.

- Sim, acho que tem razão.

- Apoquenta-o alguma coisa?

- Por acaso, apoquenta-me - admitiu, fixando o olhar na chávena. - Queria saber se lhe interessa ir trincar qualquer coisa comigo esta noite. Conheço um restaurante estupendo na Little Italy, na Rua Mulberry.

- Gostava de lhe fazer uma pergunta. Ontem, quis saber se eu era casada, mas não me elucidou a seu respeito.

- Não sou casado.

- Alguma vez o foi?

- Sim, uma. Estou divorciado há cerca de dois anos e tenho dois filhos: uma rapariga de sete e um rapaz de cinco.

- Costuma ver os seus filhos?

- Com certeza. Por quem me toma? Pensou que não queria ver os meus próprios filhos? Recebo-os todos os fins-de-semana.

- Não precisa de se pôr na defensiva. Foi apenas curiosidade minha. - Laurie fez uma pausa. - Aconteceu simplesmente que ontem, depois de nos separarmos, reparei que quisera informar-se do meu estado civil sem me revelar o seu.

- Foi mero descuido - asseverou Lou. - E a respeito de jantarmos juntos?

- Lamento, mas já tenho um compromisso para esta noite.

- Bonito! Interroga-me sobre a minha condição marital e paternal e a seguir dá-me sopa. Imagino que vai encontrar-se com o médico sofisticado das rosas e da limusina. É óbvio que não pertenço à mesma liga. - Endireitou-se quase com brusquidão. - Bem, vou andando.

- Está a ser insensato e pateta. Limitei-me a dizer que, tinha um compromisso para esta noite.

- Com que então, insensato e pateta, hem? Não me esquecerei disso. Foi mais uma manhã iluminante. Muito obrigado por tudo.

Se descobrir algo de interessante acerca dos flutuadores, dê-me uma apitadela, por favor. - Com estas palavras, atirou o copo de cartolina para um cesto de papéis próximo e abandonou a sala.

Laurie continuou sentada por uns momentos, enquanto ingeria o café. Sabia que o melindrara, o que lhe suscitava certo desconforto. Ao mesmo tempo, considerava que ele se revelara imaturo.

Por fim, regressou à sala de autópsias e concentrou-se no seu quarto caso do dia: Marion Overstreet, de vinte e oito anos, directora de uma importante editora de Nova iorque.

- Deseja alguma coisa em especial para este trabalho? - perguntou Vinnie, ansioso por começar.

Ela abanou a cabeça, enquanto contemplava a jovem na mesa e se perguntava se a mesma teria consumido drogas se pudesse antever aquele terrível preço.

A autópsia desenrolou-se rapidamente. Eles trabalhavam em conjunto como uma equipa e mantinham a troca de palavras no mínimo. O caso era notavelmente similar aos de Duncan Andrews e Robert Evans, ao ponto de Marion Overstreet ter injectado a cocaína em vez de a aspirar. Havia apenas algumas pequenas surpresas que Cheryl Myers ou outro investigador examinaria.

Eram 12 horas e 45 quando Laurie se retirou da sala de autópsias.

Depois de se vestir para sair, quis incumbir-se pessoalmente de levar as amostras de cada um dos casos do dia à Toxicologia, esperançada em voltar a conversar com o toxicólogo residente, John DeVries, que almoçava no seu gabinete. A um lado da secretária, via-se uma lancheira térmica aberta.

- Terminei as duas overdoses - anunciou Laurie - e trago as respectivas amostras de toxicologia.

- Deixe-as na recepção do laboratório - indicou ele, segurando uma sanduíche com ambas as mãos.

- Descobriram algum contaminador no caso Andrews?

- Passaram poucas horas desde a sua última visita a estas paragens. Se aparecer alguma coisa, telefono-lhe.

- O mais depressa possível - recomendou Laurie. - Não quero aborrecê-lo com a minha insistência, mas cada vez estou mais convencida de que há qualquer tipo de contaminador envolvido.

Se tal acontecer, quero inteirar-me.

- Se houver, não deixaremos de o detectar. Mas conceda-nos algum tempo, por amor de Deus.

- Obrigada. Tentarei ser paciente. Só que...

- Eu sei, eu sei - cortou o doutor DeVries. - Já abarquei o cenário.

De novo no seu gabinete, ela comeu parte do almoço que trouxera, ditou as autópsias da manhã e tentou pôr em dia algum expediente. Descobriu, porém, que não conseguia desviar o pensamento dos casos de overdose.

O que a preocupava era o espectro de aparecerem sinais. Se existia uma fonte de cocaína contaminada na cidade, haveria inevitavelmente outras mortes. Naquele momento, a bola encontrava-se no campo de John DeVries. Ela nada mais podia fazer.

Ou podia? De que maneira conseguiria prevenir novos casos fatais? A chave consistia numa advertência ao público.

Porventura Bingham não acabara de lhe dirigir uma prelecção sobre o facto de que eles tinham responsabilidades sociais e políticas?

Com essa ideia em mente, Laurie pegou no telefone e ligou ao gabinete do chefe, a fim de perguntar à senhora Sanford se ele dispunha de um momento livre para a receber.

Creio que a posso encaixar entre duas entrevistas - admitiu a recepcionista - mas tem de vir imediatamente.

Quando entrou no gabinete de Bingham, Laurie depreendeu que ele não estava disposto a conceder-lhe mais de um minuto do seu tempo. Perguntou o que pretendia, e ela descreveu em linhas gerais os factos relacionados com os três casos de overdose. Incutiu particular ênfase ao número crescente, à circunstância de nenhuma das vítimas parecer encontrar-se nas profundezas da habituação e ao pormenor comum de injectarem a droga.

- Estou a vislumbrar o panorama - assentiu Bingham. - Que ponto pretende vincar?

- Receio que se nos esteja a deparar o início de uma série.

Preocupa-me uma substância contaminadora tóxica numa fonte abastecedora de cocaína.

- Só com três casos? Não lhe parece pouco?

- A questão consiste em que eu gostava que não passassem de três.

- Um objectivo admirável. Mas tem a certeza acerca dessa suposta substância contaminadora? Que diz o doutor DeVries?

- Investiga.

- Não descobriu nada?

- Por ora, não - admitiu Laurie. - No entanto, ainda só recorreu à cromatografia de camada fina.

- Então, vamos ter de aguardar os seus resultados - decidiu Bingham, levantando-se.

Todavia, ela conservou-se sentada. Depois de ter ido tão longe, ainda não se achava disposta a renunciar.

- Pensei que talvez devêssemos fazer uma declaração à Imprensa. Uma espécie de advertência.

- Nem pensar. Não estou disposto a pôr em jogo a integridade deste departamento por causa de uma suposição baseada em três casos. Não acha que me procurou um pouco prematuramente?

Porque não espera para ver o que o doutor DeVries consegue? De resto, uma declaração dessa natureza exigiria nomes, e a organização Andrews punha-me o mayor à perna num abrir e fechar de olhos.

- Bem, não passava de uma sugestão.

- Obrigada, doutora. E agora, se me dá licença, tenho um encontro importante.

Laurie sentia-se desolada por o chefe não atribuir mais crédito às suas palavras, mas sem provas mais concludentes não podia insistir. Assim, limitava-se a desejar que lhe fosse possível fazer algo de positivo, antes que surgissem mais overdoses da mesma natureza entre os seus casos.

De súbito, acudiu-lhe uma ideia. O seu treino em Miami incluíra a investigação no local da ocorrência. Por conseguinte, se visitasse cenários futuros, talvez se lhe deparasse algum indício crítico.

Dirigiu-se ao Departamento de Patologia Legal, e foi encontrar o chefe dos investigadores, Bart Arnold, sentado à secretária do seu gabinete. Entre dois dos seus inúmeros telefonemas, comunicou-lhe que desejava ser informada se surgissem mais overdoses similares às três de que ela se ocupara. Ele prometeu prevenir o pessoal, sem esquecer os médicos volantes, como lhes chamavam, que se encarregavam das chamadas nocturnas.

Laurie preparava-se para regressar ao seu gabinete, quando se lembrou de que também devia pedir que lhe fossem atribuídas as autópsias de qualquer overdose similar, o que implicava avistar-se com Calvin Washington.

- Sempre que um peão me procura começo a tremer... - grunhiu ele quando a viu assomar à entrada do seu gabinete. - De que se trata, doutora Montgomery? Espero que não pretenda marcar a data das férias, porque, com a carga de trabalho que nos assoberba, decidimos cancelar as deste ano.

- Nada disso - replicou ela com um sorriso. Apesar daqueles modos algo bruscos, simpatizava e respeitava o seu superior. - Queria agradecer-lhe a atribuição dos dois casos de overdose desta manhã.

- É a primeira vez - declarou ele, arqueando as sobrancelhas.

- Nunca me tinham agradecido uma coisa dessas. Porque será que me palpita que isso traz água no bico?

- Porque é naturalmente desconfiado. Achei de facto os casos interessantes. Mais do que interessantes, mesmo. Na verdade, gostava de lhe pedir que me atribua outros do género que porventura apareçam.

- Um peão à procura de trabalho! É suficiente para alegrar o coração de um pobre administrador. Com certeza. Pode ficar com todos os que quiser. Mas, para não cometer algum erro na atribuição, que entende pela expressão "do género"? Se aceitasse todos os casos de overdose, teria de trabalhar vinte e quatro horas por dia.

- Overdose extrema ou casos de toxicidade - explicou, ela. - Como os dois que me atribuiu esta manhã. Pessoas entre os vinte e os trinta anos, cultas e em boa condição física.

- Providenciarei pessoalmente para que fique com todos - prometeu o doutor Calvin com um largo sorriso.

- Mas quero esclarecer um ponto. Se meter horas extraordinárias, não as processarei.

- Espero não necessitar delas.

Laurie voltou finalmente para o gabinete e sentou-se para trabalhar. O encontro positivo com Calvin Washington compensara-a da breve entrevista com Bingham e, com certa paz de espírito, pôde concentrar-se no que fazia e ainda ficar com algum tempo livre para se descontrair.

O único problema que se lhe deparou ao princípio da tarde foi um telefonema de Cheryl Myers, a qual anunciou que não conseguira encontrar quaisquer referências médicas no passado de Duncan Andrews. O seu único contacto com um hospital ocorrera cerca de quinze anos atrás, quando fracturara um braço durante um encontro de râguebi na universidade.

- Quer que continue a procurar? - perguntou, após uma pausa.

- Não se perde nada com isso. Tente investigar a infância.

Laurie sabia que acalentava a esperança de que acontecesse nada menos que um milagre, mas desejava explorar todas as possibilidades. Depois, poderia entregar todo o problema a Calvin Washington. Decidiu que Lou acertara: se as altas esferas pretendessem viciar o relatório por conveniência política, ocupar-se-iam disso elas próprias. Ao entardecer, voltou a meditar sobre os casos de droga e, obedecendo a um impulso, resolveu averiguar onde viviam Evans e Overstreet. Por fim, meteu-se num táxi na Primeira Avenida e indicou ao motorista que seguisse para o Central Park, pois o endereço do primeiro situava-se perto de Columbus Circle.

Uma vez chegados, ela pediu ao homem que esperasse e apeou-se para observar bem o edifício, ao mesmo tempo que tentava recordar-se de quem vivia naquela área. Tinha a certeza de que era alguém do cinema. Talvez morasse aí mais de uma dezena de actores.

Tentou imaginar Robert Evans a percorrer a rua com passos firmes e a entrar no prédio onde vivia, de pasta na mão, entusiasmado com a perspectiva de um serão social em Nova iorque. Era difícil conciliar semelhante imagem com uma morte tão prematura.

Tornou a subir para o táxi e, uma vez diante da morada de Marion Overstreet, a um quarteirão do Central Park, julgou desnecessário sair do veículo. Limitou-se a olhar a atraente residência e a tentar imaginar em vida a jovem directora de uma editora. Por último, satisfeita, disse ao confuso motorista que a levasse ao ponto de partida.

Após a confrontação com Bingham naquela manhã por ter visitado o apartamento de Duncan Andrews, não se aventurara a entrar nos prédios das duas novas vítimas. Contentara-se com observá-los de fora. Não sabia explicar o impulso que a levara a fazê-lo e começava a perguntar-se se fora uma boa ideia. Na realidade, a digressão entristecera-a, porque tornara mais vívidas as vítimas e as suas tragédias.

De regresso ao seu gabinete, deparou-se-lhe Riva, que enalteceu as rosas. Laurie agradeceu-lhe e fixou o olhar nas flores. Devido ao seu próprio estado de espírito, a sua presença alterara o ambiente. Embora sugerissem uma celebração nessa manhã, agora pareciam mais um símbolo de pesar, quase de aspecto fúnebre.

 

Lou Soldano ainda estava irritado enquanto rolava na Ponte de Queensboro, de Manhattan para Queens. Considerava-se imbecil por se ter exposto à rejeição. Que podia esperar, de qualquer modo? Tratava-se de uma médica, que se criara no East Side de Manhattan. De que teriam falado se saíssem juntos? Do campeonato de basebol? Decerto que não.

Ele era o primeiro a reconhecer que não se podia considerar o indivíduo mais culto da cidade e, à parte os assuntos relacionados com a sua profissão e desportos, pouco ou nada sabia sobre outros temas. "Costuma ver os seus filhos?", grunhiu, recordando-se da pergunta que Laurie lhe fizera. Com uma exclamação de frustração, desferiu uma palmada no volante e premiu involuntariamente a buzina do seu Chevrolet Caprice, o que fez com que o condutor à sua frente se voltasse e levasse o indicador à fronte, num gesto elucidativo. "Vai bugiar!", articulou entredentes, contendo o impulso de embater nele.

No entanto, não era aquela a sua maneira habitual de proceder.

Não abusava da sua autoridade, embora o fizesse com regularidade em momentos de devaneio.

"Devia ter ido pela Ponte de Triboro", murmurou, ao ver que o tráfego seguia a passo.

Em todo o caso, a morosidade com que tinha de se deslocar concedia-lhe tempo para recordar a última vez que vira Paul Cerino. Fora três anos atrás, quando Lou acabava de ascender ao cargo de sargento-detective. Ainda trabalhava no Departamento do Crime Organizado e havia uns bons quatro anos que andava no encalço de Cerino. Ficou, pois, surpreendido quando a telefonista lhe comunicou que um certo Paul Cerino pretendia falar-lhe. Intrigado pelo facto de o homem que perseguia lhe telefonar, levantou o auscultador com profunda curiosidade.

- Como vai isso? - perguntou Cerino, como se fossem amigos íntimos. - Queria pedir-lhe um favor. Importa-se de passar por minha casa, esta tarde, quando sair de serviço?

O convite para visitar o domicílio de um gangster constituía uma ocorrência tão singular que Lou sentiu relutância em o divulgar. Não obstante, revelou-o ao seu companheiro de equipa, Brian OShea, que ficou boquiaberto quando se inteirou de que o aceitara.

- SupÕe que pretende liquidar-te...

- Que ideia! Não ia ligar para aqui se tivesse essa ideia em mente. De qualquer modo, não o faria nas proximidades do local onde vive. Talvez pretenda propor um acordo ou denunciar algum rival. Seja o que for, comparecerei. Quem sabe se não resultará vantajoso para nós?

Por conseguinte, Lou acudiu à chamada, esperançado em que se registassem desenvolvimentos susceptíveis de lhe merecer um louvor do chefe. No entanto, Brian continuava a discordar e insistiu em o acompanhar no carro. Ficou combinado que, se Lou não reaparecesse passada meia hora, chamaria reforços.

Foi dominado por profunda ansiedade que Lou transpôs os degraus de acesso à modesta casa de Cerino na Rua Clintonville, em Whitestone, cujo aspecto contribuiu para lhe acentuar o desconforto. Havia algo de errado no meio de tudo aquilo. Com a fortuna que o homem decerto acumulara devido às suas numerosas actividades ilegais e aos lucros da única legal a que se dedicava, a American Fresh Fruit Company, custava a crer que residisse num local tão despretensioso.

Por fim, com um derradeiro olhar a Brian, ao mesmo tempo que pousava a mão na área do casaco sob a qual se encontrava a Smith and Wesson Detective Special no respectivo coldre, tocou à campainha. Foi a senhora Cerino que atendeu, e ele entrou, não sem primeiro respirar fundo.

Ainda agora tinha vontade de rir ao evocar o que acontecera a seguir. Com efeito, em vez de uma cilada, deparou-se-lhe um surprise party em sua honra pela recente promoção a sargento-detective.

Como se separara recentemente da esposa, a promoção passara despercebida, excepto no local de trabalho. Não obstante, Cerino inteirara-se e decidira promover a festa, à qual se achavam presentes os donos da casa e os dois filhos, Gregory e Steven. Em face disso, Lou foi chamar Brian para que participasse igualmente.

A ironia da situação consistia em que ele e Cerino eram inimigos de tão longa data que quase se tinham tornado amigos.

Agora, necessitou de cerca de uma hora para chegar ao domicílio do gangster, e quando subiu os degraus de acesso era quase a mesma hora do dia do surprise party.

Viu, através das janelas, que a luz da sala estava acesa, pois escurecia apesar de serem apenas cinco e meia, num prenúncio do Inverno próximo.

Premiu o botão da porta e ouviu o carrilhão no interior. Desta vez, foi o filho mais velho, Gregory, quem acudiu a abrir.

Tinha dez anos e reconheceu-o imediatamente, saudando-o com cordialidade e convidando-o a entrar.

- O pai está?

Acabava Lou de fazer a pergunta quando Cerino apareceu vindo da sala, apoiado a uma bengala. Ao fundo, ouvia-se uma telefonia.

- Quem é? - perguntou a Gregory.

- O detective Soldano.

- Lou! - exclamou, avançando directamente para ele, de mão estendida.

O detective apertou-lha e tentou ver os olhos por detrás dos óculos escuros. Cerino era um indivíduo alto, moderadamente pesado e nutrido, pelo que as feições pareciam afundadas no rosto adiposo. Tinha cabelo preto cortado curto e orelhas grandes. Em ambas as faces viam-se áreas avermelhadas de pele recentemente cicatrizada, e Lou calculou que se tratava dos efeitos do ácido.

- Que diz a um café - propôs o dono da casa. - Ou um copo de vinho? - Sem aguardar resposta, chamou a esposa, Gloria, enquanto Gregory ia buscar o irmão, Steven, de oito anos. - Entre, sente-se e conte-me o que lhe tem acontecido.

Lou seguiu-o até à sala, apercebendo-se de que se adaptara bem à reduzida acuidade visual; pelo menos dentro de casa. Não utilizou a bengala para ir desligar a telefonia, nem para localizar a sua poltrona favorita, na qual se afundou com um suspiro.

- Lamento o problema que lhe aconteceu - disse o detective.

- Coisas da vida - replicou o outro, filosoficamente.

Gloria apareceu naquele momento e cumprimentou Lou com afabilidade. à semelhança do marido, era pesada, de busto volumoso e semblante agradável. Se estava ao corrente da natureza do modo de vida de Cerino, nunca o deixava transparecer. Procedia como a dona de casa suburbana típica que necessitava de desenvolver constantes habilidades financeiras para que a verba mensal não se esgotasse prematuramente, e Lou perguntava a si próprio que destino daria ele ao dinheiro que acumulara ao longo dos anos.

 

A mulher recolheu pouco depois à cozinha, e o detective virou-se de novo para o anfitrião.

- Só hoje tomei conhecimento do seu acidente.

- Não o revelei a todos os meus amigos - explicou Cerino com um sorriso.

- Envolveu o pessoal do Lucia? Foi o Vinnie Dominick?

- De modo algum! Não passou de um acidente. Eu tentava reparar uma avaria no motor do carro e a bateria explodiu. O ácido atingiu-me a cara.

- Deixe-se de histórias. Vim propositadamente para me compadecer da sua sorte. Como retribuição, pode ao menos dizer-me a verdade. Já sei que lhe atiraram ácido à cara.

Trata-se apenas de determinar quem foi o responsável.

- Como sabe?

- Através de alguém que está ao corrente da situação. Na realidade, trata-se de uma fonte totalmente fidedigna. Você!

- Eu? - articulou, sinceramente surpreendido.

Gloria reapareceu com um espresso para Lou e retirou-se definitivamente, assim como os rapazes.

- Aguçou-me a curiosidade - admitiu Cerino. - Explique lá como fui a fonte desse boato acerca dos meus olhos.

- Você revelou-o ao seu médico, Jordan Scheffeld, que informou por sua vez uma funcionária da patologia Legal chamada Laurie Montgomery, a qual mo comunicou. E falei com ela porque passei por lá para assistir a umas autópsias a vítimas de homicídio. Os seus nomes talvez não lhe sejam estranhos: Frankie DePasquale e Bruno Marehese.

- Não conheço.

- Pertenciam aos quadros do Lucia. Por curiosa coincidência, um deles apresentava queimaduras de ácido num dos olhos.

- Horrível - reconheceu, meneando a cabeça. - As baterias já não são o que eram...

- Insiste, pois, em que foi ácido de bateria que lhe atingiu os olhos?

- Decerto, porque foi o que aconteceu.

- Como estão?

- Menos mal, atendendo às circunstâncias.

- Refere-se ao que podia ter acontecido?

- O médico garante que ficarão bons, depois das operações indispensáveis. Primeiro, tenho de deixar passar algum tempo, mas suponho que está ao corrente disso.

- Que conversa é essa? - estranhou Lou. - Dos seus olhos, só sei que são dois.

- Eu também sabia pouco. Pelo menos até isto acontecer. Mas tenho aprendido muito. Julgava que transplantavam todo o olho, assim como quem substituiu uma válvula avariada de uma telefonia. Bastava colocá-la, com os pernos nos orifícios apropriados. Afinal, o transplante é só da córnea.

- Isso é novidade para mim.

- Quer ver o aspecto dos meus olhos?

- Bem... - Fez uma pausa, enquanto o interlocutor tirava os óculos escuros. - Safa... - murmurou. - Lastimo o sucedido, Paul. Parece que tem dois berlindes brancos nas órbitas.

Cerino exibia um sorriso, enquanto voltava a pôr os óculos.

- Sempre pensei que um detective empedernido como você veria com satisfação um velho inimigo inferiorizado.

- Que ideia, homem! Não o quero inferiorizado, mas na cadeia.

- Nunca desiste, hem?

- Colocá-lo à sombra continua a ser um dos meus alvos supremos na vida - declarou Lou em tom cordial. - E a descoberta de queimaduras de ácido na vista do Frankie DePasquale dá-me algumas esperanças. De momento, existem na minha mente fortes suspeitas de que teve algo a ver com a morte do miúdo.

- Ora Lou, - disse Paul. - Fico magoado, porque após todos estes anos, pensa uma coisa tão desagradável a meu respeito.

 

QUARTA-FEIRA, 20 HORAS E 40 MINUTOS DA TARDE

MANHATTAN

A princípio, Laurie considerava que a experiência era suficientemente rara para resultar tolerável, mas à medida que as oito horas e quarenta e cinco da noite se aproximavam começava a impacientar-se. O motorista de Jordan, Thomas, apresentara-se pontualmente às vinte horas, porém quando ela descera e entrara no carro descobrira que o médico não se achava visível. Continuava na cirurgia, a contas com uma intervenção de emergência.

- Recebi instruções para a conduzir ao restaurante - explicou Thomas. - O doutor Scheffield irá ter consigo.

Apanhada desprevenida, ela assentira. Experimentara um certo embaraço ao entrar sozinha num restaurante desconhecido.

Porém, o gerente, que a esperava, pusera-a rapidamente à vontade e escoltara-a até uma mesa num recanto discreto, junto da qual se via uma espécie de banco esguio, com um recipiente metálico de gelo que continha uma garrafa de Meursault.

O escanção surgira imediatamente e apressara-se a mostrar-lhe o rótulo. Depois de Laurie inclinar levemente a cabeça, desrolhara a garrafa, vertera um pouco de vinho num copo, aguardara que ela manifestasse aprovação, após levá-lo aos lábios, e enchera-o. Tudo isto se desenrolara em silêncio absoluto.

Jordan chegou, finalmente, às nove menos cinco. i Ao transpor a entrada, acenou a Laurie, mas não se lhe reuniu em seguida. Ao invés, circulou pela sala assaz concorrida, com várias paragens para saudar pessoas conhecidas, com breves palavras e sorrisos.

- Desculpe - rogou por último, ao sentar-se. - Tive um caso de emergência, mas suponho que o Thomas já lho disse.

- É verdade. Que espécie de emergência era?

- Bem, na realidade não se lhe pode dar esse nome - esclareceu, com uma ponta de nervosismo. - No entanto, a afluência de doentes tem aumentado tanto nos últimos tempos que aproveito a oportunidade sempre que a sala de operações está disponível. Que tal é o vinho?

O escanção acabava de reaparecer, para lhe encher o copo.

- óptimo - informou Laurie. - Parece que é muito conhecido aqui.

Jordan provou o vinho e, por um momento, mostrou-se pensativo, enquanto o revolvia na boca. Inclinou a cabeça de satisfação, depois de finalmente o engolir, e concentrou-se em Laurie.

- É costume encontrar um ou outro dos meus doentes. Como lhe correu o dia? Melhor que o meu, espero.

- Porque diz isso?

- Os problemas não faltaram. Primeiro, a minha secretária, que trabalha comigo há quase dez anos, não apareceu. Até hoje, nunca tinha faltado sem prevenir. Tentámos contactar com ela, mas não obtivemos resposta. Por conseguinte, a minha agenda sofreu várias alterações e atrasos. Como se isso não bastasse, descobrimos que alguém se introduziu no departamento durante a noite e levou todos os trocos e os Percodans que conservamos para as emergências.

- Que aborrecido... - observou Laurie, consciente do que sentia uma pessoa quando vítima de roubo, pois o seu quarto na universidade fora, um dia, assaltado e praticamente arrasado.

- Algum vandalismo?

- Isso não, felizmente. Mas, curiosamente, o intruso vasculhou o ficheiro e serviu-se da fotocopiadora.

- Dá a impressão de algo mais do que um simples assalto.

- É o que me preocupa. Os trocos e os Percodans carecem de importância especial. Mas não gosto que remexam nos registos, com as contas recebíveis elevadas que tenho. Informei o meu contabilista, para proceder a uma inspecção. - Jordan fez uma pausa. - Já consultou a ementa?

- Não - respondeu ela, enquanto sentia a irritação dissipar-se, agora que ele chegara.

Em resposta ao gesto de Jordan, o chefe de mesa aproximou-se com dois cardápios, e Laurie escolheu em conformidade com os conselhos do companheiro.

A comida era excelente, embora ela achasse que o ambiente mais ou menos frenético lhe dificultava a descontracção. Em contrapartida, Jordan parecia encontrar-se no seu elemento.

i Enquanto aguardavam a sobremesa e o café, Laurie perguntou-lhe quais eram os efeitos do ácido nos olhos. Ele entusiasmou-se imediatamente com o pedido e alongou-se em considerações sobre as reacções da córnea e da conjuntiva a semelhantes agressões. Ela desinteressou-se a meio da arenga, porém conservou uma expressão atenta.

Via-se forçada a reconhecer que era um homem atraente e perguntava a si própria como conseguiria ele manter aquele admirável bronzeado.

Ante o seu alívio, a chegada da sobremesa e café interrompeu a prelecção e, começando a comer a fatia de bolo de chocolate, Jordan mudou de assunto.

- No fundo, devo congratular-me por não terem levado nada de valor, como os Picassos da sala de espera.

- Tem Picassos na sala de espera? - balbuciou Laurie, abismada.

- Gravuras assinadas - assentiu ele com desprendimento. - Cerca de duas dezenas. Acho que a existência de ornamentos banais nesses lugares só serve para deprimir as pessoas. De resto, é a sala onde os doentes permanecem, mais tempo. - E soltou uma risada pela primeira vez desde que se sentara.

- Isso ainda é mais extravagante que a limusina - comentou ela, intimamente revoltada com a ideia de ostentação na sala de espera de um consultório, sobretudo em virtude dos elevados preços dos cuidados médicos.

- É um consultório admirável - volveu Jordan, com visível orgulho. - A característica minha preferida consiste em que os pacientes é que se movem. Vão ter comigo e não eu com eles.

- Receio não estar a compreender.

- Cada uma das salas de exame está montada num mecanismo rotativo. Decerto já viu aqueles restaurantes giratórios no topo de alguns edifícios. É uma espécie disso. Quando carrego num botão no meu gabinete, o conjunto move-se e a sala que me interessa fica diante da minha secretária. Outro botão faz subir a parede. Resulta tão funcional como uma visita à Disneylândia.

- Parece muito impressionante. Dispendioso, mas impressionante. Imagino que as suas despesas gerais atingem cifras elevadíssimas.

- Astronómicas. A tal ponto que me custa tirar férias. Sai muito caro! Não as férias em si, mas deixar o consultório parado. Também disponho de duas salas de operações para os doentes externos.

- Gostava de um dia ver tudo isso.

- E eu adorava mostrar-lho. Na verdade, porque não esta noite?

Fica na esquina da Avenida do Parque.

Laurie declarou que se lhe afigurava uma boa ideia, pelo que, depois de paga a conta, seguiram directamente para lá.

O primeiro aposento em que entraram era o gabinete privado dele. As paredes e o mobiliário eram inteiramente de teca polida e os estofos das poltronas de couro negro. Havia equipamento oftalmológico sofisticado em quantidade suficiente para apetrechar um pequeno hospital.

Em seguida, passaram à sala de espera, forrada a mogno. Como Jordan dissera, havia numerosas gravuras de Picasso penduradas nas paredes. Ao fundo de um curto corredor, situava-se uma sala circular, com cinco portas no seu perímetro. Ele abriu uma e indicou a Laurie que se sentasse na cadeira de exame.

- Agora, não se mexa - recomendou.

No instante imediato, ela teve a impressão de que a sala girava, todavia os olhos revelavam-lhe que permanecia imóvel.

O movimento - real ou imaginário - deteve-se com brusquidão e a luz começou a baixar de intensidade, ao mesmo tempo que a parede mais distante se erguia. O seu desaparecimento fez com que a sala de exame se achasse diante do gabinete de Jordan, o qual se encontrava sentado à secretária, reclinado na cadeira rotativa, com iluminação de trás.

- Como é aquilo de Maomé não vir à montanha, mas vice-versa?

Aplica-se aqui o mesmo princípio. Gosto que os meus doentes fiquem com a impressão de que se encontram em mãos poderosas.

Estou mesmo convencido de que isso contribui para que se curem mais depressa.

- Estou impressionada - admitiu Laurie. - Onde guarda as fichas e registos da casa?

Ele conduziu-a a outra sala, esta sem janelas, ao fundo de um longo corredor, em que se via um banco de ficheiros, uma fotocopiadora e um terminal de computador.

- Todos os registos estão aí dentro - explicou, indicando os ficheiros. - No entanto, a maioria encontra-se duplicada no computador.

- Foram esses que os assaltantes vasculharam, para usar a sua expressão?

- Exacto. E esta é a fotocopiadora de que também lhe falei.

Sou muito meticuloso com os meus registos. Pela mínima alteração na sua ordem, posso determinar se um estranho lhes tocou. Sei que utilizaram a fotocopiadora, porque a minha secretária toma nota do número no final de cada dia de trabalho.

- Mexeram na ficha de Paul Cerino?

- Não sei - confessou. - Mas é uma boa pergunta. - Abriu a gaveta correspondente à letra "C" e puxou de uma pasta de cartolina.

- Parece que sim - declarou, depois de a consultar. - Vê esta folha de informação? Devia estar em cima e não em baixo.

- Há alguma maneira de determinar se a fotocopiaram?

Reflectiu por um momento e abanou a cabeça.

- Que me ocorra de momento, não. Em que está a pensar?

- Não tenho bem a certeza, mas, de qualquer modo, a intrusão talvez o convença a ser mais cauteloso. Convém não esquecer que o Paul Cerino, por mais cuidados profissionais que lhe mereça, não é boa rês. E... o que porventura se reveste ainda de mais importância... tem inimigos perigosos.

- Acha-o responsável do assalto?

- Não o posso afirmar, mas é uma possibilidade. Talvez os seus inimigos não queiram que o cure. Só posso garantir que essa gente não brinca. Nos dois últimos dias, autopsiei dois jovens assassinados no estilo dos gangsters, e um deles apresentava queimaduras num dos olhos que podem ter sido produzidas por ácido.

- Não me diga...

- Não pretendo assustá-lo gratuitamente. Limito-me a dizer-lhe isto para ficar a saber como que se arrisca ao cuidar de gente dessa. Constou-me que as duas maiores famílias do crime, os Vaccarro e os Lucia, mantêm guerra aberta. Foi por isso que atingiram o Cerino com ácido no rosto. É um dos patrões dos Vaccarro.

- Caramba! - exclamou Jordan, impressionado. Isso projecta uma luz diferente na situação. Por sorte, operarei o Cerino em breve, pelo que não tardarei a desligar-me dele.

- Já tem data marcada?

- Não, porque aguardo a chegada de material.

- Penso que o deve operar o mais depressa possível. No seu lugar, eu não divulgaria a data nem a hora.

Voltou a guardar a ficha de Cerino no respectivo lugar e fechou a gaveta.

- Quer ver o resto das instalações?

- Com certeza.

Transferiram-se para as entranhas do edifício e visitaram diversas salas destinadas a testes oftalmológicos especiais. O que mais impressionou Laurie foram os lugares das operações, com todo o equipamento necessário.

- Tem uma fortuna investida aqui - observou, quando chegaram à última dependência, um laboratório de fotografia.

- Sem a menor dúvida. Mas os dividendos são largamente compensadores. Em números redondos, arrecado qualquer coisa como um milhão e meio a dois milhões de dólares por ano.

Laurie engoliu em seco, ante a enormidade dos números.

Embora soubesse que o pai, cirurgião cardíaco, necessitava de um rendimento elevado para financiar o estilo de vida que levava, nunca se lhe deparara uma quantia tão astronómica. Conhecedora das dificuldades experimentadas pela medicina americana e mesmo das verbas apertadas com que a patologia legal tinha de funcionar, aquilo parecia-lhe um desperdício de recursos verdadeiramente obsceno.

- Já agora, porque não vem ver o meu apartamento? - propôs Jordan. - Se gostou disto, há-de adorá-lo, pois foi concebido pela mesma gente.

- Pois sim - acedeu Laurie, quase obedecendo a um reflexo, ainda empenhada em absorver a revelação do companheiro.

Quando retrocediam para a entrada, perguntou:

- Soube alguma coisa da sua secretária?

- Não - replicou ele, obviamente ainda contrariado com o facto. - Não telefonou e de casa não respondem. Suponho que a sua atitude se relaciona com o inútil do marido. Se não fosse uma mulher tão eficiente, já me tinha livrado dela por causa do homem. Ele possui um restaurante em Bayside, mas também está envolvido em actividades obscuras. Ela revelou-mo para que lhe emprestasse dinheiro para pagar a sua fiança, em diversas ocasiões.

Nunca foi condenado, mas permaneceu muito tempo na ilha Rikers.

- Dá a impressão de se tratar de um fora-da-lei.

Quando subiram para a limusina, Laurie quis saber o nome da secretária desaparecida.

- Marsha Schulman. Porque pergunta?

- Mera curiosidade.

Thomas não necessitou de muito tempo para alcançar a entrada do edifício denominado Trump Tower. O porteiro abriu a porta do carro para que Laurie saísse, porém ela conservou-se sentada.

- Importa-se que adie a minha visita ao seu apartamento? Acabo de ver as horas e tenho de me levantar cedo para ir trabalhar.

- Como queira - assentiu Jordan. - Compreendo perfeitamente.

Também tenho uma intervenção para o romper do dia. Mas com uma condição.

- Qual?

- Voltamos a jantar juntos, amanhã.

- Consegue suportar-me duas noites seguidas? - estranhou ela, que não era "assediada" daquela maneira desde os tempos do liceu. Além disso, sentia-se lisonjeada, mas também algo desconfiada.

- Com o maior prazer - asseverou ele.

- Muito bem, mas escolhamos um lugar menos formal.

- Combinado. Aprecia a cozinha italiana?

- Muito.

- Então, iremos ao Palio - decidiu. - às oito.

 

Vinnie Dominick deteve-se diante do Restaurante Vesúvio, na Avenida Corona, em Elmhurst, e aproveitou a sua imagem na vidraça da montra para alisar o cabelo e endireitar o nó da gravata Gucci. Em seguida, satisfeito com o resultado, fez sinal a Freddie Capuso para que abrisse a porta.

A alcunha de Vinnie desde o liceu era "o Príncipe".

Consideravam-no bem-parecido, e o sector feminino admitia mesmo que o adjectivo "atraente" não se achava deslocado.

Recorria a produtos químicos para acentuar a cor do cabelo preto, penteado para trás, parecia consideravelmente mais jovem do que os seus quarenta anos e, ao contrário da maioria dos seus contemporâneos, orgulhava-se dos atributos físicos.

Antiga estrela do basquetebol liceal, continuara a praticá-lo ao longo dos anos e participava em encontros no Ginásio de St. Mary, três vezes por semana.

Quando entrou na sala do restaurante, a primeira coisa que fez foi inspeccioná-la com a vista. Freddie e Richie seguiam-no de perto, e Vinnie avistou imediatamente quem procurava: Paul Cerino. Ainda havia alguns clientes, pois a cozinha conservava-se aberta até às onze, mas o período de maior movimento já terminara. Na verdade, era um local conveniente para um encontro discreto, sobretudo àquela hora.

Ele encaminhou-se para a mesa de Cerino com a confiança de quem se vai encontrar com um velho amigo, enquanto Freddie e Richie se mantinham a alguns passos de distância. Quando chegou lá, os dois homens sentados com Cerino levantaram-se.

Vinnie reconheceu-os como sendo Angelo Facciolo e Tony Ruggerio.

- Como vai isso, Paul?

- Não me posso queixar - replicou Cerino, estendendo a mão. - Senta-te, Vinnie, e toma um copo connosco. Serve-lhe vinho, Angelo.

Este último pegou na garrafa de Brunello que estava em cima da mesa e encheu o copo diante do qual o recém-chegado se sentou.

- Em primeiro lugar, quero agradecer-te por acederes em te encontrares comigo - começou Vinnie. - Considero-o um favor.

- Quando disseste que era importante e dizia respeito à Família, não pude recusar.

- Antes de mais, devo salientar a minha repulsa pelo que te aconteceu. Foi uma tragédia horrível e absolutamente escusada.

Aproveito a oportunidade para jurar perante testemunhas que não tive nada a ver com o assunto. Os tipos agiram por sua alta recreação e com a minha ignorância total.

Seguiu-se uma pausa. Por um momento, ninguém proferiu uma única palavra. Finalmente, Cerino perguntou:

- Que mais tens em mente?

- Sei que o teu pessoal liquidou o Frankie e o Bruno - volveu Vinnie. - Apesar disso, não retaliámos. Nem o faremos.

- Porquê?

- Porque tiveram o castigo que mereciam. Actuaram por sua própria iniciativa. Sem a mínima justificação plausível. E também não retaliámos porque necessitamos de trabalhar em conjunto. Não quero entrar em guerras. Só servem para que as autoridades peguem em armas, o que se torna prejudicial para os nossos negócios.

- Como posso saber que devo confiar nesse gesto de paz?

- Através da minha boa fé. Eu porventura proporia um encontro desta natureza, num lugar da tua escolha, se não fosse sincero? Como se isso não bastasse, estou disposto a revelar-te o esconderijo de Jimmy Lanso, o quarto e último interveniente no... chamemos-lhe acidente.

- Sim? - Cerino mostrava-se sinceramente surpreendido pela primeira vez. - E onde se situa?

- Na Agência Funerária Spoletto, no Parque Ozone, pertencente ao primo.

- Aprecio devidamente a tua atitude aberta. Em todo o caso, tenho o pressentimento de que há mais alguma coisa.

- Queria pedir-te um favor - admitiu Vinnie. - Desejo solicitar-te, como colega, que demonstres alguma boa fé.

Gostava que poupasses o Jimmy Lanso. É um membro da minha família: sobrinho do marido da irmã de minha mulher.

Providenciarei para que sofra a devida punição, mas rogo-te, como amigo, que o poupes.

- Vou pensar seriamente no assunto.

- Obrigado. No fundo, somos pessoas civilizadas. Tivemos as nossas divergências, mas respeitamo-nos e compreendemos os nossos interesses comuns. Estou certo de que tomarás tudo isto em consideração - concluiu Vinnie, levantando-se.

- Tomarei tudo em consideração - assentiu Cerino. Quando o outro se afastou com os sicários, pegou no copo e levou-o aos lábios, antes de perguntar:

- Ele tocou no vinho, Angelo?

- Não.

- É o que eu calculava. E considera-se civilizado...

- E a respeito do Jimmy Lanso?

- Abatam-no. Levem-me a casa e depois dêem cabo dele.

- E se for uma cilada?

Cerino tornou a servir-se do copo antes de replicar:

- Duvido fortemente. O Vinnie não mentiria acerca de um membro da família.

Angelo não estava minimamente satisfeito com a situação. A ideia de uma agência funerária provocava-lhe arrepios. De resto, não confiava em Vinnie Dominick. Na sua opinião, havia grandes probabilidades de se tratar, na verdade, de uma cilada. E, nessa eventualidade, a invasão à Agência Funerária Spoletto poderia resultar perigosa. Por fim, decidiu que era uma boa oportunidade para deixar Tony tomar a iniciativa das operações. A ansiedade que o "miúdo" manifestava constantemente por que tal acontecesse justificava-o sem reservas.

- Que te parece o cenário? - perguntou Angelo quando estacionaram o carro diante da agência funerária, uma construção de dois pisos, com colunas gregas a suportar a espécie de alpendre à entrada.

- Acho-o perfeito - disse Tony, cujos olhos brilhavam de antecipação.

- Não sentes, assim, como que uns arrepios?

- Qual história! O primo do meu tio tem um negócio destes. Cheguei a trabalhar lá num Verão em que precisava de um emprego, quando me encontrava em liberdade condicional. Bem, vamos a isto. Vejo luz nas traseiras. Deve ser a sala de embalsamamento. Aposto que é aí que o Lanso está escondido.

- Dizes que trabalhaste numa agência funerária? - perguntou Angelo enquanto esquadrinhava as imediações com o olhar.

- Durante cerca de dois meses.

- Então, como estás familiarizado com o ambiente, ` podes entrar em primeiro lugar. - Achava-se esperançado em que parecesse que a ideia acabava de lhe ocorrer. - Quando tiveres o tipo entre a espada e a parede, apagas e acendes a luz. Entretanto, fico aqui de olhos bem abertos, para me certificar de que não se trata de uma cilada.

- Fixe. - E Tony abandonou imediatamente o carro.

 

Jimmy Lanso levantou-se do beliche, aproximou-se do pequeno televisor e baixou o som. Parecia-lhe ter ouvido um ruído, como acontecera nas duas últimas noites. Apurou os ouvidos, mas não detectou nada, à parte o intenso palpitar do coração e um leve latejar nas orelhas devido à abundância de aspirinas que tomara. Como havia mais de sessenta horas que não dormia profundamente, estava exausto e tinha os nervos em franja.

Encontrava-se refugiado na agência funerária desde que, juntamente com Bruno, abandonara o quarto em loodside, depois de Frankie desaparecer.

Os últimos trinta dias tinham constituído um autêntico pesadelo. Vivia num pavor constante desde aquele estúpido episódio do ácido. Antes de se consumar, convencera-se de que proporcionaria um impulso decisivo à sua carreira. Ao invés, parecia que lhe assegurara a morte prematura. O primeiro abalo terrível ocorrera quando Terry Manso fora abatido a tiro, ao tentar subir para o carro. E agora inteirara-se de que os corpos de Frankie e Bruno tinham aparecido a flutuar no East River. Por conseguinte, não tardariam a eliminá-lo igualmente.

A sua única esperança consistia em que o tio tivesse falado com Vinnie Dominick, seu cunhado, e este prometesse resolver o problema. Mas enquanto não lhe assegurassem que estava tudo solucionado, não conheceria o sossego por um único segundo.

Ouviu um som abafado na sala de embalsamamento, e não se tratava de produto da sua imaginação. Com o som da televisão reduzido ao mínimo, fora tão claro como o dia. Prestou atenção, para verificar se se repetia, enquanto volumosas gotas de transpiração lhe sulcavam a fronte. Como o silêncio se prolongasse, reuniu coragem suficiente para se aproximar da porta da arrecadação, que lhe servia de esconderijo. Abriu-a o mais silenciosamente possível e percorreu com o olhar a sala de embalsamamento imersa na penumbra. Havia uma série dejanelas altas, ao longo de uma das paredes, que permitiam a entrada de alguma luz de um candeeiro público, porém imperavam as sombras. Ele conseguiu divisar os dois corpos amortalhados que o primo embalsamara naquela tarde e que se achavam em mesas de rodas no lado oposto às janelas. No centro, encontrava-se a mesa de embalsamamento propriamente dita e, junto da parede mais distante, um armário de portas de vidro, enquanto do lado das janelas se alinhavam diversas bacias de porcelana.

Jimmy estendeu os dedos trémulos e acendeu a luz. Descobriu imediatamente a causa do ruído: uma ratazana em cima da mesa de embalsamamento, que o fitou com apreensão. Em seguida, saltou para o chão e desapareceu pela abertura do esgoto.

Sentiu-se simultaneamente enojado e aliviado. Detestava os ratos, mas ainda mais ter de se ocultar numa agência funerária, que lhe recordava certas histórias de banda desenhada lidas quando era criança. A sua imaginação conjurara todos os tipos de explicações para os ruídos que ouvira.

Portanto, deparar-se-lhe um roedor, independentemente do tamanho, era preferível a ver um dos corpos embalsamados libertar-se da mortalha e percorrer a sala, como em Histórias da Cripta.

Encaminhou-se rapidamente para uma caixa metálica com as dimensões de uma pequena arca, arrastou-a no chão e colocou-a sobre a abertura do esgoto pela qual o rato desaparecera, após o que seguiu para a porta do esconderijo.

Mas não tardou a imobilizar-se ao detectar novo som abafado do lado de um aposento contíguo.

Supondo que o rato reaparecera aí, pegou na vassoura que costumava utilizar nas suas operações de limpeza e abriu a porta com brusquidão. Chegou mesmo a avançar, um passo antes de estacar, aterrorizado. Encontrava-se na sua frente um vulto cujas feições se perdiam na sombra. Soltou um grito abafado e retrocedeu, ao mesmo tempo que largava a vassoura, que caiu no chão ruidosamente. Os seus piores temores tinham-se concretizado. Um dos cadáveres voltara à vida!

- Olá, Jimmy - articulou o vulto.

O pânico não conseguiu sobrepor-se à paralisia do seu cérebro.

Conservava-se grudado ao chão, enquanto o vulto emergia da escuridão.

- Estás um pouco pálido - observou Tony, que empunhava a pistola, mas apontada para baixo. - Talvez seja melhor subires para aquela mesa de mármore e deitares-te - acrescentou, apontando para a mesa de embalsamamento com a mão livre.

- Eles obrigaram-me - balbuciou Jimmy, quando compreendeu que não enfrentava uma criatura sobrenatural, mas um ser vivo obviamente associado à organização de Cerino.

- Pois, eu sei - volveu Tony, com simulada compreensão. - Mas trepa à mesa, em todo o caso. - Estendeu a mão para o interruptor e apagou e acendeu a luz várias vezes. - Para a mesa! - vociferou, ao ver que o outro hesitava. Por fim, quando verificou que estava na posição indicada, aproximou-se e olhou-o. - Que grande esconderijo este, hem?

- Foi tudo ideia do Manso! - exclamou Jimmy. - Limitei-me a apagar a luz. Nem sequer sabia o que se passava.

- Todos dizem que a ideia foi do Manso - deplorou Tony. - Não sei se isso se deverá ao facto de ter sido o único que deixou o canastro no local. É pena que não tivesse sobrevivido, para se defender.

Um som abafado na sala contígua indicou a entrada de Angelo, que apareceu com ar desconfiado, como um animal enjaulado.

Decididamente, o ambiente da agência funerária não figurava entre os seus preferidos.

- Que cheiro horrível!

- É do formol - explicou Tony. - Uma pessoa acaba por se habituar. Apresento-te o Jimmy Lanso.

Angelo aproximou-se da mesa de embalsamamento e olhou o prisioneiro com desdém.

- Um mero puto - grunhiu.

- A ideia foi do Manso! - voltou a protestar Jimmy. - Eu não fiz nada.

- Quem mais participou? - inquiriu Angelo, para se certificar.

- O Manso, DePasquale e Marchese. Obrigaram-me a acompanhá-los.

- Ninguém quer assumir a responsabilidade - comentou, com uma expressão de repulsa. - Lamento, mas vais ter de efectuar um pequeno passeio.

- Não, por favor!...

Tony murmurou algo ao ouvido do companheiro, que desviou os olhos para o equipamento de embalsamar e depois para o corpo que tremia na mesa de mármore.

- Parece-me apropriado - declarou com um movimento de cabeça.

- Em especial para um monte de excrementos como este.

- Então, segura-o bem.

Com uma expressão de prazer sádico, Tony precipitou-se para o equipamento e ligou uma bomba, após o que observou o mostrador, até que o ponteiro indicou a produção de sucção suficiente. Em seguida, impeliu a máquina num suporte de rodas para junto da mesa.

Entretanto, Jimmy assistia aos preparativos com alarme crescente. Como nunca vira o primo a trabalhar, não fazia a menor ideia das intenções de Tony. No entanto, estava plenamente convencido de que não lhe agradariam.

Angelo imobilizou-o com eficiência e Tony apressou-se a aplicar o aguçado trocarte de embalsamar no abdómen de Jimmy e começar a imprimir-lhe um movimento de rotação, num círculo irregular.

O depósito do aspirador encheu-se imediatamente de sangue, fragmentos de pele e carne e comida parcialmente digerida.

Um pouco incomodado, Angelo largou o rapaz e voltou-lhe as costas. Por um instante, as mãos deste último tentaram arrancar o trocarte das de Tony, mas em breve ficaram inertes, enquanto ele mergulhava na inconsciência.

- Que achas? - perguntou Tony, retrocedendo um passo para admirar a sua obra. - Nada mau, hem?

- Raspemo-nos - proferiu Angelo, em voz trémula. - Limpa as impressões digitais deixadas na máquina.

Cinco minutos mais tarde, abandonavam a agência funerária pela janela. Não utilizaram a porta, com receio de que existisse algum sistema de alarme.

Uma vez no carro, Angelo começou a recompor-se. Cerino tinha razão. Dominick não mentira. Não se tratava de uma cilada.

- Bem, eliminámos o último rapaz do ácido - disse, conduzindo o veículo para a faixa de rodagem. - Agora, temos de voltar ao trabalho a valer.

- Chegaste a mostrar a segunda lista ao Cerino?

- Cheguei, mas principiaremos pela primeira. A segunda será mais fácil.

- Para mim, tanto faz - declarou Tony. - Mas que dizes a trincarmos alguma coisa antes disso? Que dizes a outra pizza?

- Penso que primeiro devemos executar um dos trabalhos - decidiu Angelo, empenhado em colocar uma certa distância temporal entre a sinistra cena na agência funerária e a sua refeição seguinte.

 

Imersa no pesadelo repetitivo sobre a situação crítica do irmão no lodaçal, Laurie congratulou-se quando a campainha do despertador a arrancou do sono profundo. Acabava de a reduzir ao silêncio, quando o retinir recomeçou, mas agora do telefone.

- Fala o doutor Ted Ackerman, doutora Montgomery. Desculpe incomodá-la tão cedo, mas sou o interno de serviço e recebi o recado de que a devia prevenir se surgisse um caso de determinada natureza.

Ela achava-se demasiado estremunhada para replicar e, baixando os olhos para o despertador, viu que eram apenas duas e meia da madrugada e compreendeu que a campainha fora sempre a do telefone.

- Acabo de receber um telefonema nesse sentido - acrescentou o doutor Ackerman. - O caso obedece aos requisitos que mencionou e parece tratar-se também de cocaína. O extinto é um banqueiro de trinta e um anos, chamado Stuart Morgan.

- Onde?

- Quinta Avenida, nove setenta. Aceita a chamada ou prefere que vá eu? É-me indiferente em qualquer dos casos.

- Eu vou. Obrigada.

Laurie cortou a ligação, vestiu-se, pegou numa máquina fotográfica e vários pares de luvas de borracha e abandonou o apartamento disposta a regressar o mais depressa possível para reatar o sono.

Ao transpor a saída do prédio, deparou-se-lhe a rua deserta, mas havia tráfego na Quinta Avenida. Cinco minutos mais tarde, encontrava-se sentada num táxi, conduzido por um emigrado do Afeganistão, de que se apeou decorrido um quarto de hora diante do número 970, onde já se achavam uma viatura da polícia e uma ambulância, cujas luzes de emergência piscavam com impaciência.

No átrio, exibiu o crachá de médica do Hospital Geral de Manhattan e indicaram-lhe a Mansarda B.

- É a examinadora médica? - perguntou um polícia uniformizado, claramente perplexo, quando ela entrou no apartamento e voltou a mostrar o crachá. Segundo o cartão de identificação preso ao peito, chamava-se Ron Moore. Fez uma pausa enquanto a interpelada assentia com um movimento de cabeça. - Não se parece nada com os examinadores médicos que vi até hoje.

- Mas sou.

- Pete! - chamou, virando-se para dentro. - Queres ver o que acaba de aparecer? Uma examinadora médica que lembra uma coelhinha da Playboy!

Outro agente uniformizado, embora mais jovem que o anterior, o qual aparentava cerca de quarenta anos, assomou a uma porta interior e arqueou as sobrancelhas quando viu Laurie. Tinha um maço de correspondência em cada mão.

- Ena, pá!

- Quem é o responsável? - inquiriu ela, imperturbável.

- Eu mesmo, querida - informou Ron.

- Sou a doutora Montgomery - retrucou em tom glacial - e não a sua querida.

- Com certeza, doutora.

- Quem me pode mostrar o cenário?

- Eu. Aqui é a sala, obviamente. Repare nos apetrechos de droga em cima da mesinha. Tudo indica que a vítima se injectou aí e passou à cozinha, onde se encontra o corpo. O acesso é através do escritório.

Laurie deu uma olhadela rápida ao apartamento, pequeno, mas decorado com gosto. Do local onde se encontrava no vestíbulo, podia abarcar a sala e parte do escritório. Na primeira, duas janelas panorâmicas proporcionavam uma vista extraordinária.

No entanto, mais do que a vista, interessava-lhe a confusão no chão. Dir-se-ia que o apartamento fora assaltado.

- Houve roubo?

- Não - respondeu Ron. - Isto fomos nós, como parte da habitual inspecção minuciosa, se é que me faço entender.

- Receio bem que não.

- Somos sempre exaustivos nas pesquisas.

- Para quê?

- Para uma identificação apropriada.

- Não viram os diplomas nas paredes do vestíbulo? - insistiu ela, com um gesto largo. - O nome parece-me bem evidente.

- De facto, não nos apercebemos.

- Onde está o corpo?

- Já lhe disse. Na cozinha. - O polícia apontou para lá, do outro lado do escritório.

Laurie encaminhou-se na direcção indicada, evitando pisar os objectos no chão, e entrou no escritório. Todas as gavetas da secretária estavam abertas, com sinais inequívocos de terem sido revistadas sem o mínimo cuidado.

- Suponho que também procuravam elementos de identificação aqui... - comentou, com uma ponta de sarcasmo.

- Exacto, doutora - aquiesceu Ron.

Ela assomou à porta da cozinha e deteve-se. A desordem que imperava não ficava atrás dos outros aposentos. O frigorífico fora totalmente esvaziado, com a porta entreaberta.

- Não me diga que os procuraram igualmente aí?

- É claro que não. Foi a vítima que fez isto.

- Onde está o corpo?

- No frigorífico.

Aproximou-se e puxou a porta. Ron não mentira. Stuart Morgan encontrava-se dentro do frigorífico. Estava quase totalmente despido, apenas com calção curto, um cinto de dinheiro e peúgas. O rosto apresentava-se branco como um lençol. Tinha o braço direito erguido e o punho cerrado com firmeza.

- Não consigo compreender porque se meteu aí dentro - disse Ron. - É a coisa mais exótica que vejo desde que entrei para a polícia.

- Chama-se hiperpirexia - explicou Laurie, sem desviar os olhos de Stuart Morgan. - A cocaína pode elevar a temperatura do corpo a extremos incríveis. Os utentes ficam semiloucos, dispostos a tudo para a fazer baixar. Mas é o primeiro que vejo num frigorífico.

- Se se considera satisfeita, podemos dizer aos rapazes da ambulância que o levem.

- Tocaram no corpo? - perguntou subitamente.

- Que está para aí a dizer? - articulou ele, com certo nervosismo.

- Exactamente o que ouviu. Você ou o Pete tocaram-lhe?

- Bem - interrompeu-se, pouco inclinado a responder.

- É uma pergunta muito simples.

- Tivemos de verificar se tinha morrido. Mas foi fácil, porque estava tão frio como um desses pepinos no chão.

- Por conseguinte, limitaram-se a introduzir a mão e procurar pulsações?

- Isso mesmo.

- Onde?

- No pulso.

- O direito?

- Isso já é pormenorizar muito. Não me lembro qual foi.

- Deixe-me mostrar-lhe uma coisa - persistiu Laurie, apontando a máquina e começando a fotografar o corpo no frigorífico. - Vê o braço direito levantado?

- Vejo.

- Mantém-se nessa posição devido ao rigor mortis.

- Ouvi falar disso.

- Mas o rigor mortis estabelece-se depois de o braço ter estado flácido por algum tempo. Isso não lhe sugere nada acerca deste corpo?

- Não percebo aonde pretende chegar.

- Sugere que o corpo foi movido depois da morte - volveu, sem parar de tirar fotografias. - Como, por exemplo, para fora e a seguir de novo para dentro do frigorífico. E tinha de ser várias horas após a morte, porque são necessárias duas para o rigor mortis se estabelecer.

- Isso que me diz é muito curioso. Talvez convenha que o Pete também se inteire.

Ron dirigiu-se à porta do escritório e chamou o colega. Quando lhe repetiu o que acabava de ouvir, Pete alvitrou:

- Quem sabe se a garota dele o puxou para fora?

- Foi a namorada que o encontrou? - quis saber Laurie, reflectindo que os consumidores de droga manifestavam a deplorável tendência para expor os entes amados a situações horríveis.

- Exacto - confirmou Pete. - Como ligou para o novecentos e onze, talvez o puxasse para fora do frigorífico.

- E depois voltou a colocá-lo dentro? - Ela meneou a cabeça, com uma expressão de cepticismo. - Acho improvável.

- Nesse caso, que lhe parece que aconteceu? - indagou Ron.

Por um momento, Laurie olhou os dois polícias e tentou determinar a atitude que devia assumir.

- Não sei o que pensar - admitiu finalmente, calçando as luvas de borracha. - Para já, quero examinar o corpo, entregá-lo ao pessoal do hospital e ir para casa.

Estendeu a mão e pousou-a no corpo de Stuart Morgan. Estava frio e rígido, devido ao rigor mortis. à medida que o examinava, tornava-se-lhe óbvio que os outros membros se encontravam em posições forçadas, tal como o braço direito.

Notou uma cicatriz na fossa antecubital do braço esquerdo. à parte o pormenor do frigorífico, o caso parecia singularmente similar aos de Duncan Andrews, Robert Evans e Marion Overstreet.

Por último, endireitou-se e virou-se para Ron:

- Importa-se de me ajudar a retirá-lo do frigorífico?

- Ajuda-a tu, Pete.

Este contraiu as faces num trejeito de contrariedade, mas aceitou as luvas de borracha que Laurie lhe estendia e calçou-as. Em seguida, ergueram o corpo de Stuart Morgan e depositaram-no no chão.

Laurie tirou mais algumas fotografias. Ao seu olhar experiente, era inequívoco, pela posição, que o rigor mortis se estabelecera quando o corpo se encontrava no frigorífico. Mas tornava-se igualmente claro que a posição em que foi encontrado não era a mesma em que estivera inicialmente.

Enquanto continuava a utilizar a máquina, reparou que o cinto de dinheiro se achava parcialmente aberto. O fecho de correr prendera-se numa nota de banco, e ela aproximou-se para obter um grande plano.

A seguir, pousou a máquina e agachou-se para o examinar mais minuciosamente. Não sem alguma dificuldade, conseguiu desprender o fecho e abrir a bolsa. Esta continha três notas de dólar com as pontas rasgadas por terem ficado presas no fecho.

Endireitou-se e entregou-as a Ron.

- Prova.

- Prova de quê?

- Ouvi falar de casos em que a polícia rouba de cenários de acidentes ou homicídios, mas nunca esperei que se deparasse um exemplo tão óbvio.

- Que conversa é essa? - inquiriu ele.

- Podem levar o corpo, sargento Moore. Tenho o dever de o convidar a assistir à autópsia. Sinceramente, espero não voltar a ver nenhum dos dois na minha frente.

Com estas palavras, Laurie descalçou as luvas, atirou-as para o recipiente do lixo, pegou na máquina fotográfica e abandonou o apartamento.

- Não consigo comer mais nada - declarou Tony, desviando para o lado o prato com o que restava da pizza, após o que retirou o guardanapo do pescoço e limpou os resíduos de tomate dos lábios. - Que se passa? Não gostas de pepperoni? Estás a debicar a comida como um passarinho.

Angelo levou à boca o copo com água de San Pellegrino, cujo gás contribuía para lhe serenar o estômago, ainda revoltado com o que ocorrera na Agência Funerária Spoletto. Tentara tragar algumas dentadas de pizza, mas acabara por renunciar.

Na realidade, provocava-lhe náuseas e aguardara com impaciência que Tony acabasse de comer.

- Acabaste?

- Acabei - assentiu o outro, produzindo um ruído desagradável com os dentes e a língua. - Mas não dispenso o café.

Encontravam-se numa pequena pizzaria italiana em Elmhurst, onde havia um punhado de clientes sentados a mesas de fórmica largamente espaçadas, apesar de serem três e meia da madrugada. Uma máquina de discos antiquada tocava composições populares dos anos cinquenta e sessenta.

Angelo pediu nova garrafa de água mineral, enquanto Tony optava por um espresso.

- Pronto? - acabou o primeiro por perguntar.

- Pronto.

Levantaram-se, depositaram algumas notas de banco na mesa e emergiram na noite fria de Novembro, a fim de regressarem ao carro.

Com o motor ligado para aquecer antes de arrancar, Angelo puxou da segunda lista do porta-luvas.

- Há aqui um em Kew Garden Hills. É um lugar sossegado, e creio que nos despacharemos com rapidez e facilidade.

- Vai ser divertido. - Tony arrotou. - As pizzas de pepperoni são uma maravilha.

Angelo voltou a guardar a lista, pôs o carro em movimento e disse:

- Trabalhar à noite permite a uma pessoa deslocar-se na cidade com menos problemas de trânsito.

- A única dificuldade consiste em dormir durante o dia. - Tony extraiu a Beretta Bantam do coldre e aplicou o silenciador ao cano.

- Guarda isso até chegarmos. Enervas-me.

- Estou a preparar-me. - Tentou introduzir a arma no coldre, mas o volume do silenciador dificultava-lhe a tarefa e a coronha ficava visível. - Anseio por esta parte da operação, porque não precisamos de estar com tantas cautelas.

- Mesmo assim, temos de conservar os olhos bem abertos. Na verdade, precisamos de ser sempre cautelosos.

- Calma. Sabes o que pretendo dizer. Não temos de nos apoquentar com requintes de prudência. Agora, vai ser "pumn", e pronto.

Perderam algum tempo primeiro que localizassem a casa - uma construção modesta de dois pisos, feita de pedra, estuque e um telhado vulgar, situada numa rua sossegada que terminava num cemitério.

- Não tem mau aspecto - comentou Tony. - Esta gente deve possuir uns cobres.

- E possivelmente um sistema de alarme - lembrou Angelo, encostando ao passeio e travando. - Esperemos que não seja nada de complicado.

- Quem vai ser abatido?

- Já não me lembro. - Estendeu a mão para o porta-luvas e puxou da segunda lista. - A mulher - informou, depois de localizar o nome, voltando a guardar a folha de papel. - Vamos assentar numa coisa, para não haver confusões.

- Quem a abate sou eu. Como eles devem estar deitados, tu concentras-te no homem. Se acordar, liquida-lo. Entendido?

- Perfeitamente. Tomas-me por atrasado mental? No entanto, sabes como gosto disto. Portanto, porque não a abato eu e tu vigias o homem?

- Santo Deus! - grunhiu, puxando da pistola e aplicando-lhe o silenciador. - Isto é trabalho e não um passatempo. Não estamos aqui para nos divertir.

- Que diferença faz se és tu ou eu a abatê-la?

- Em última análise, absolutamente nenhuma. Mas sou o chefe da equipa e, portanto, quem se ocupa dela. Quero certificar-me de que morreu. O responsável perante o Cerino sou eu.

- Pensas, pois, que consegues liquidar alguém melhor do que eu? - Tony parecia melindrado.

- Podes encarregar-te do caso seguinte, que diabo! Olha, vamos revezar-nos.

- É uma boa ideia. Distribuímos os alvos irmãmente.

- Alegra-me que concordes. Bem, vamos a isto. Apearam-se, cruzaram a rua e imergiram na densa e molhada - principiara a chover - vegetação que rodeava a casa que lhes interessava.

Uma vez junto da porta das traseiras, Angelo observou-a minuciosamente, passando a mão pela arquitrave, espreitando pelas frinchas com uma pequena lanterna e inspeccionando as ferragens. Por fim, endireitou-se e, com uma ponta de perplexidade, anunciou:

- Não têm alarme, a menos que seja alguma coisa que me passou despercebida.

- Queres entrar por uma janela ou pela porta?

- Pela porta deve ser mais fácil.

Tony puxou de um canivete e raspou a massa em torno de uma das vidraças que ladeavam a porta. A seguir, com um pequeno alicate, arrancou os pregos e retirou o vidro. Por fim, introduziu a mão na abertura, fez rodar a chave na fechadura e depois o puxador.

A porta abriu-se com um leve estalido de protesto. Não soou qualquer alarme, nem latidos de cães. Angelo entrou em silêncio, conservando a automática à altura da cabeça, apontada para cima, e inspeccionou o aposento com uma rápida mirada. Parecia tratar-se de uma sala de estar, com algumas poltronas, um sofá e um televisor de ecrã grande. Escutou por um momento e baixou a arma, ao mesmo tempo que começava a descontrair-se. Tudo indicava que poderiam actuar sem contratempos.

Fez sinal a Tony para que o seguisse e cruzou o vestíbulo, após o que subiram uma larga escada circular de acesso a um corredor com meia dúzia de portas ligeiramente entreabertas, com uma excepção. Confiando no instinto, Angelo encaminhou-se para essa e, após certificar-se de que Tony se achava imediatamente atrás dele, abriu-a cautelosamente.

Da cama, nas proximidades da parede oposta, provinham roncos intensos. Angelo não tinha a certeza de qual deles ressonava, mas, a partir do momento em que se convenceu de que ambos dormiam profundamente, indicou ao companheiro que o seguisse e avançaram para a cama.

Ocupavam-na um homem e uma mulher de meia-idade, prestes a terem direito à denominação de anciãos. Dormiam de costas, com os braços estendidos ao lado do corpo.

Angelo moveu-se para a direita, a fim de ficar do lado da mulher, e Tony para a esquerda. As vítimas continuaram imóveis. O primeiro chamou a atenção do companheiro e apontou para a sua Walther, a fim de indicar que se preparava para matar a mulher e ele devia estar pronto para dominar o homem, em caso de necessidade.

Em seguida, apontou a arma à cabeça da mulher adormecida e Tony imitou-o em relação ao homem. Interessava-lhe atingir a região temporal esquerda, um pouco acima da orelha, para que a bala penetrasse na base do crânio, aproximadamente no ponto em que aconteceria se conseguisse alvejá-la pelas costas.

O estampido foi elevado comparativamente com o silêncio que imperava no quarto, mas em relação ao ruído normal não passava de uma espécie de baque surdo, como o produzido por um punho numa almofada.

Angelo ainda não se recompusera do estremecimento que lhe acudiu após puxar o gatilho quando se registou uma detonação similar e, pelo canto do olho, viu a cabeça do homem agitar-se e ficar imóvel, como que petrificada, ao mesmo tempo que brotava um fio de sangue.

- Não o pude evitar - alegou Tony. - Ouvi-te disparar e um acto reflexo obrigou-me a fazer o mesmo. Gosto disto.

Produz-me uma profunda euforia.

- És um psicopata imundo - grunhiu Angelo, irritado. - Só o devias abater se se mexesse. Era o que tínhamos combinado.

- Que raio de diferença faz?

- A diferença é que tens de aprender a obedecer às ordens.

- Pronto, está bem. Foi mais forte do que eu. Na próxima vez, farei exactamente o que disseres.

- Saiamos daqui. - Começou a encaminhar-se para a porta.

- Não procuramos dinheiro ou objectos de valor? Já que estamos aqui...

- Não quero perder tempo. - Deteve-se antes de transpor a porta do quarto e virou-se para trás. - Vá, mexe-te! Não viemos para obter lucros monetários. O que o Cerino nos paga é mais do que suficiente.

- Mas o que ele não souber não o poderá contrariar. Tony pegou numa carteira de cima da mesa-de-cabeceira e no relógio Rolex que se encontrava ao lado. - Ao menos, uma recordação.

- Está bem. E agora, toca a andar.

Três minutos depois, rolavam a grande velocidade, quando ele exclamou:

- Ena, pá!

- Que foi?

- Há aqui mais de quinhentos dólares - informou, agitando as notas no ar, ao mesmo tempo que exibia o Rolex já colocado no pulso. - Se lhes juntarmos o que o Cerino nos paga, não temos razões de queixa.

- Não te esqueças de fazer desaparecer a carteira. Podia comprometer-nos.

- Meto-a no incinerador. - Vendo que o companheiro encostava subitamente ao passeio, perguntou:

- Que foi?

Angelo inclinou-se para o lado, a fim de extrair a lista do porta-luvas.

- Quero ver se há mais alguém nesta área. - Fez uma pausa e acrescentou:

- Bingo! Temos dois em Forest Hills, que é praticamente ao virar da esquina. Podemos ocupar-nos deles com facilidade antes de amanhecer. Será uma noite em cheio.

- Diz antes uma noite fabulosa. Nunca ganhei tanto dinheiro em tão pouco tempo.

- Ora bem... - Pôs-se a estudar o mapa da cidade. - Sei onde se situam as respectivas casas. Na parte mais selecta. - Em seguida colocou-o, juntamente com a lista, na consola central, e pôs o carro em movimento.

Menos de meia hora mais tarde, passavam diante da primeira casa, na realidade uma mansão, precedida de um espaçoso jardim.

- Qual é, desta vez? - perguntou Tony.

- O homem.

Angelo tentou decidir onde deixar o carro. Naquela área elegante da cidade, havia poucas viaturas estacionadas na via pública. Por fim, optou por enveredar pelo caminho que ladeava a casa e travou num local pouco iluminado, após o que se apressou a apagar os faróis.

- Não te esqueças - advertiu Tony, quando se preparavam para entrar. - Agora, é a minha vez.

Angelo ergueu os olhos ao céu, como se pretendesse dizer "Isto, só a mim acontece!", mas acabou por aquiescer com um movimento de cabeça.

A intrusão revelou-se mais difícil que a anterior, pois havia vários sistemas de alarme, cuja neutralização lhes consumiu minutos preciosos. Transcorreu meia hora primeiro que pudessem penetrar por uma janela da sala, aparentemente destinada à lavandaria.

Angelo entrou em primeiro lugar, para se certificar de que não havia detectores de raios infravermelhos ou laser, após o que fez sinal a Tony para que o seguisse.

Conservando-se juntos, cruzaram lentamente a cozinha, onde se ouvia um televisor a funcionar no aposento contíguo.

Moveram-se na direcção do som com a maior prudência possível.

Angelo adiantou-se um pouco e espreitou.

Tratava-se de uma saleta, com um bar incorporado a uma das paredes e um enorme ecrã de projecção de TV na outra. Diante do televisor havia um largo divã e, adormecido no centro, um homem de forte compleição física envolto num roupão de banho azul. As pernas, surpreendentemente magras, emergiam da parte inferior do rotundo abdómen e achavam-se pousadas num escabelo.

Angelo retrocedeu, a fim de trocar impressões com Tony.

- O tipo está a dormir. Temos de partir do princípio de que a esposa, se existe, se encontra lá em cima.

- Que vamos fazer?

- Já que o querias abater, entra e abate-o. Mas como deve ser, ouviste? Depois, indagaremos acerca da mulher.

Tony sorriu, empunhou a automática com o silenciador no cano e entrou na saleta. Encaminhou-se directamente para o homem reclinado no divã, apontou-lhe a arma à região temporal esquerda acima da orelha e tocou-lhe nas pernas com o pé.

O homem grunhiu, sacudiu a cabeça e abriu os olhos.

- Gloria?

- Não, querido, sou eu... o Tony.

A bala embebida na cabeça fez a vítima cair para o lado direito do divã. Tony debruçou-se sobre ele, pousou o cano na base do crânio e voltou a disparar.

Em seguida, endireitou-se e olhou para trás. Angelo indicou-lhe que o seguisse e subiram ao primeiro andar, onde tiveram de assomar a vários aposentos antes de encontrar Gloria, que dormia profundamente com a luz acesa, protecções para os olhos e tampões nos ouvidos.

- Deve julgar-se uma artista de cinema - comentou Tony. - Vai ser canja.

- Anda. - Angelo puxou-o pelo braço.

- Não podemos perder uma oportunidade destas.

- Não quero discutir contigo. Raspemo-nos daqui.

De novo no carro, Tony exibia uma expressão de amuo, enquanto Angelo consultava o mapa em busca do caminho mais rápido para a casa seguinte. O estado de espírito do companheiro era-lhe indiferente, além de que tinha a vantagem de o manter calado.

- Homem ou mulher? - quis saber Tony, quando avistaram a residência, precedida igualmente de um jardim em que se achavam duas estatuetas de flamingos.

- Mulher - informou Angelo. - E podes ocupar-te dela, se quiseres. - Sentia-se magnânimo à medida que o trabalho daquela noite se aproximava do fim.

A entrada tornou-se mais fácil do que previam, e descobriram, surpreendidos, que o marido dormia num sofá, com um copo vazio no chão a seu lado.

Angelo indicou a Tony que subisse ao primeiro andar, enquanto ele ficava de vigilância ao homem.

Alguns minutos mais tarde, embora conservasse os ouvidos apurados, quase não conseguiu detectar o estampido abafado da automática do companheiro, seguido imediatamente de outro. O "miúdo" era, ao menos, meticuloso nas tarefas que executava.

Tony reapareceu pouco depois e perguntou:

- O tipo não se mexeu? - Fez uma pausa, enquanto Angelo meneava a cabeça e apontava para a saída. - Que pena... - murmurou, seguindo-o, após um olhar de pesar na direcção do homem adormecido.

Quando transpuseram a porta das traseiras, pela qual haviam entrado, Angelo espreguiçou-se e ergueu os olhos para o céu, que começava a empalidecer.

- O sol não tarda aí. E se fôssemos ao pequeno-almoço?

- Boa ideia. Que noite, amigo! Melhor que isto é impossível.

Tony desenroscou o silenciador da automática, enquanto se encaminhavam para o carro.

 

QUINTA-FEIRA, 7 HORAS E 45 MINUTOS, DE MANHÃ

MANHATTAN

Embora tivesse dormido pouco, devido à chamada a meio da noite, Laurie esforçou-se por se apresentar no local de trabalho mais cedo, para compensar o atraso da véspera. Por conseguinte, eram apenas sete e quarenta e cinco quando transpôs a entrada.

Seguiu directamente para o Departamento de Identificação e detectou uma leve carga eléctrica na atmosfera. Alguns colegas mais antigos na casa, que só costumavam chegar depois das oito e meia, já se achavam presentes. Dois deles, Kevin Southgate e Arnold Besserman, com copos de café nas mãos, sustentavam acalorado debate. O primeiro, um liberal, e o segundo, um conservador irredutível, nunca estavam de acordo em nada.

- Garanto-te que, se houvesse mais polícias na rua, estas coisas não sucederiam - asseverava Arnold, no momento em que Laurie se aproximou, a fim de encher igualmente um copo.

- Discordo - volveu Kevin. - Este tipo de tragédia...

- Que aconteceu? - quis saber ela, enquanto misturava o açúcar no café.

- Uma série de homicídios em Queens - explicou Arnold. - Com balas na cabeça disparadas à queima-roupa.

- De pequeno calibre?

Ele consultou o colega com o olhar e declarou:

- Ainda não sabemos.

- Foram pescados do rio?

- Não - disse Arnold. - Dormiam em suas casas. Por isso afirmo que, se houvesse mais policiamento nas ruas...

- Não digas disparates! - cortou Kevin.

Laurie deixou-os imersos em controvérsia e foi consultar a escala das autópsias, para verificar quem mais estava escalado e a natureza dos casos atribuídos. à frente do nome dela figuravam três, entre os quais o de Stuart Morgan, o que lhe agradou e indicava que o doutor Washington estava disposto a cumprir o prometido.

Depois de se inteirar de que os outros dois casos eram de overdose/toxicidade de drogas, folheou os relatórios dos investigadores. Descobriu imediatamente que os perfis das vítimas se assemelhavam aos que autopsiara anteriormente:

Randall Thatcher, de trinta e oito anos, era advogado e Valerie Abrams, de trinta e três, corretora da Bolsa.

Na véspera temera que surgissem mais casos idênticos, embora esperançada em que tal não acontecesse. Obviamente, não seria assim, pois já havia mais três. De um dia para o outro, a modesta série aumentara em cem por cento.

Cruzou o Departamento de Comunicações a caminho do de Patologia Legal e, ao avistar o gabinete de ligação da polícia, perguntou-se o que devia fazer acerca da suspeita de roubo no apartamento de Morgan. Por fim, decidiu guardar segredo, para já. Se Lou aparecesse, discutiria o assunto com ele.

Foi encontrar Cheryl Myers no pequeno gabinete sem janelas e, antes que pudesse abrir a boca para interrogar, ela comunicou:

- Por enquanto, nada de novo no caso de Duncan Andrews.

- Não é por causa disso que a procuro - esclareceu Laurie. - Pedi ontem ao Bart que me informasse se aparecessem mais casos críticos de overdose similares ao de Duncan Andrews ou Marion Overstreet e fui chamada por causa de um. Mas acabo de descobrir que surgiram outros dois e ninguém me disse nada. Faz alguma ideia do motivo?

- Não. Quem esteve de serviço esta noite foi o Ted. Teremos de lhe perguntar mais tarde. Houve algum problema?

- Não, mas fiquei com a curiosidade aguçada. Na realidade, talvez não pudesse ocupar-me dos três. De qualquer modo, as respectivas autópsias foram-me atribuídas. Outra coisa:

contactou com o hospital a respeito do caso de Marion Overstreet?

- Com certeza. Falei com o doutor Murray, o qual explicou que cumpriam ordens suas, doutora Montgomery.

- É o que eu calculava. No entanto, merece a pena confirmar.

Queria fazer-lhe mais um pedido, Cheryl. Importa-se de reunir os elementos que puder, em particular cirúrgicos, sobre uma mulher chamada Marsha Schulman? Se houver radiografias, ainda melhor. Creio que vive em Bayside, Queens. Não tenho a certeza da idade, mas deve rondar os quarenta.

A partir do momento em que Jordan lhe falara das actividades escuras do marido da sua secretária, Laurie fora invadida por um pressentimento tenebroso acerca do desaparecimento da mulher, sobretudo em virtude do assalto ao consultório.

Cheryl anotou os elementos que ela pretendia e prometeu:

- Vou tratar disso imediatamente.

A seguir, Laurie procurou John DeVries, o qual, como temia, não se mostrou nem remotamente cordial.

- Eu disse que lhe telefonava - lembrou com brusquidão quando lhe falou da substância contaminadora. - Tenho centenas de casos entre mãos. Não é só o seu, como deve supor.

- Eu sei que está sobrecarregado, mas tenho mais três overdoses para autopsiar, idênticas aos três casos anteriores, o que eleva o número de corpos para seis pessoas jovens, prósperas e cultas. Tem de haver alguma mistura na cocaína que consumiram, e precisamos de descobrir o que é.

- Pode vir proceder aos testes, se quiser, mas quero que me deixe em paz. De contrário, terei de falar com o doutor Bingham.

- Porque reage assim? Tenho tentado agir com a maior amabilidade.

- É pior que uma pontada nas costas.

- Estupendo - articulou ela, secamente. - É agradável saber que nesta casa existe uma excelente atmosfera de colaboração.

Abandonou o laboratório exasperada e resmungando entre dentes.

Quando sentiu que lhe seguravam o braço, deu meia volta, preparada para esbofetear DeVries por se atrever a tocar-lhe, mas era um dos seus jovens assistentes, Peter Letterman.

- Pode conceder-me um momento? - perguntou este último, olhando por cima do ombro com desconfiança.

- Sem dúvida.

- Venha ao meu cubículo.

Entraram num espaço inicialmente previsto para arrecadação, onde a secretária, terminal de computador, ficheiro e duas cadeiras cabiam com dificuldade, e Peter fechou a porta atrás deles.

Era magro e louro, com feições delicadas. Parecia a Laurie a quinta-essência do estudante que acaba de completar o curso.

Os olhos e a atitude deixavam transparecer determinação e, por baixo da bata branca de laboratório, havia uma camisa de flanela de gola aberta.

- às vezes, o DeVries chega a ser intratável - começou.

- Isso é ficar muito aquém da verdade.

- Muitos artistas são assim, e ele pode incluir-se de certo modo nessa espécie. No que se refere à química e toxicologia, em particular, é mesmo extraordinário. Mas não pude deixar de ouvir as suas conversas com ele. Creio que a principal razão pela qual levanta dificuldades é para fazer ver à administração que precisa de mais fundos. Atrasa propositadamente muitos relatórios e, na maioria dos casos, isso não faz muita diferença. Refiro-me ao facto de as pessoas envolvidas já terem morrido. No entanto, se as suas suspeitas se confirmarem, doutora, dá a impressão de que nos podíamos dedicar a salvar vidas, para variar. Por conseguinte, gostava de a ajudar. Veremos até onde posso ir, ainda que tenha de fazer horas extraordinárias.

- Fico-lhe muito grata, Peter - agradeceu Laurie. - E tem toda a razão.

- Frequentámos o mesmo estabelecimento - salientou ele, com uma ponta de embaraço.

- Sim? Qual?

- A Wesleyan. Eu estava dois anos atrasado, mas partilhávamos a aula de Química.

- Lamento, mas não me recordo.

- Eu passava despercebido na altura. Bem, comunicar-lhe-ei o que apurar.

Laurie entrou no seu gabinete consideravelmente mais optimista acerca da espécie humana, em virtude da oferta generosa de Peter para a ajudar. Estudou as pastas referentes às autópsias do dia, e depararam-se-lhe apenas algumas dúvidas em relação a dois dos casos similares à que lhe acudira sobre Marion Overstreet. De qualquer modo, para não omitir nada, ligou a Cheryl, a fim de lhe pedir que as aprofundasse.

Depois de mudar de roupa no gabinete, desceu à sala de autópsias, onde Vinnie tinha Stuart Morgan "a postos", e começaram a trabalhar imediatamente.

A autópsia desenrolou-se de modo satisfatório. Quando terminavam a porção interna, Cheryl Myers entrou, com o rosto protegido por uma máscara. Laurie olhou em volta para se certificar de que Calvin Washington não se achava presente, para se insurgir com o facto de a recém-chegada não envergar o equipamento apropriado. Em seguida, prestou atenção a Cheryl, a qual segurava um conjunto de radiografias e anunciou:

- Tive alguma sorte com Marsha Schulman. Foi tratada no Geral de Manhattan porque trabalhava para um médico de lá. Assim, possuíam filmes recentes do peito, que enviaram. Quer vê-los?

- Com certeza.

Laurie limpou as mãos ao avental de borracha e seguiu a outra ao canto onde se encontrava o visor de radiografias.

- Eles pediram que devolvesse o material imediatamente - frisou Cheryl, colocando as radiografias no suporte e desviando-se. - O técnico sublinhou que me fazia um favor ao deixá-lo sair sem autorização superior.

Laurie examinou-as atentamente. Os campos pulmonares eram límpidos e normais, assim como a silhueta do coração.

Desapontada, preparava-se para as retirar da unidade, quando se concentrou nas clavículas. A direita apresentava uma leve inclinação ao longo de dois terços do seu comprimento, associada a um ligeiro aumento da radiopacidade, o que indicava que sofrera uma fractura algures, no passado. Apesar de a soldadura do osso poder considerar-se perfeita, o facto era irrefutável.

- Vinnie! - chamou. - Peça a alguém que vá buscar a radiografia que tirámos à flutuadora decapitada.

- Descobriu alguma coisa? - quis saber Cheryl.

Laurie apontou para a fractura e explicou a anomalia bem nítida. Vinnie reapareceu prontamente com a radiografia pedida e colocou-a no visor ao lado da de Marsha Schulman.

- Repare! - exclamou Laurie, indicando a clavícula fracturada, idêntica em ambas. - Creio que se trata da mesma pessoa.

- Quem? - perguntou ele.

- Chama-se Marsha Schulman.

Ela retirou as radiografias do Geral de Manhattan e entregou-as a Cheryl, à qual pediu que averiguasse se Marsha Schulman fora submetida a uma colecistectomia e uma histerectomia. Salientou que era importante e rogou que o fizesse imediatamente.

Encantada com a descoberta, iniciou a sua segunda autópsia do dia: Randall Thatcher. à semelhança do anterior, não havia qualquer indício de patologia, e os trabalhos desenrolaram-se com rapidez. Ela pôde, mais uma vez, estabelecer com uma certeza razoável que a cocaína fora administrada de forma IV. Quando cosiam o corpo, Cheryl reapareceu com a informação de que Marsha Schulman fora na verdade submetida às duas intervenções referidas, ambas efectuadas no Geral de Manhattan.

Entusiasmada com a informação adicional, Laurie subiu ao seu gabinete, a fim de ditar os elementos respeitantes aos dois primeiros casos e fazer várias chamadas telefónicas. Começou pelo consultório de Jordan, mas comunicaram-lhe que se achava na sala de operações.

- Outra vez? - suspirou, desapontada por não poder contactar com ele imediatamente.

- Tinha muitos transplantes marcados para hoje - explicou a recepcionista. - Apesar de, normalmente, realizar um número apreciável de intervenções, nos últimos tempos aumentou consideravelmente.

Laurie deixou recado para que ele lhe telefonasse assim que pudesse e ligou à Central da Polícia, a fim de perguntar por Lou.

Inteirou-se, desolada, de que o tenente não se achava disponível e pediu igualmente que contactasse com ela assim que lhe fosse possível.

Algo frustrada, ditou os elementos relativos às autópsias daquela manhã e voltou a descer à "cova", para se ocupar do terceiro e último caso do dia. Enquanto aguardava o elevador, perguntou a si própria se Bingham estaria disposto a mudar de ideias quanto a prestar declarações aos media, agora que o número de overdoses idênticas ascendia a seis.

Quando a porta da cabina se abriu, colidiu literalmente com Lou e, por um momento, olharam-se embaraçados.

- Desculpe - acabou ela por murmurar.

- Não, a culpa foi minha. Estava distraído.

- Eu é que estava.

De súbito, soltaram uma gargalhada em uníssono.

- Veio para falar comigo? - perguntou Laurie.

- Não, tenho audiência marcada com o papa. Ouvi dizer que se encontrava aqui, no quarto andar.

- Que engraçado... - comentou, conduzindo-o ao seu gabinete.

- Tentei falar consigo, há poucos minutos.

- Imagino.

- A sério. - Sentou-se atrás da secretária e ele na cadeira que ocupara na visita anterior. - Identifiquei a flutuadora decapitada, encontrada com Bruno Marchese. Chama-se Marsha Schulman, secretária de Jordan Scheffield.

- Refere-se ao "doutor Rosas?" Era secretária dele? - O detective apontou para as flores, que conservavam a mesma frescura.

- Esse mesmo. Disse-me ontem à noite que ela não se apresentara ao trabalho e de caminho mencionou o facto de o marido, que não é nenhum escuteiro, estar ligado ao crime organizado.

- Como se chama ele?

- Danny Schulman.

- Será o Danny Schulman proprietário de um restaurante em Bayside?

- Exacto. Segundo parece, já teve várias escaramuças com a lei.

- Se teve! Está associado à família Lucia. Pelo menos, a organização utiliza o estabelecimento para algumas das suas operações, como a receptação de bens roubados, jogo e coisas do género. Detivemos o homem esperançados de que denunciasse algumas das figuras gradas, mas não se descoseu.

- Parece-lhe possível que a mulher tenha sido assassinada devido à natureza das actividades dele?

- Não me surpreenderia muito. Podiam ter sido feitas ameaças não escutadas. No entanto, tratarei de aprofundar o assunto.

- Que história tão desagradável.

- Pode dizê-lo. A propósito de histórias desagradáveis, obteve algum resultado interessante no exame aos olhos do Frankie DePasquale? Podem ter sido atingidos por ácido?

- Ainda não conheço as conclusões dos testes. O doutor DeVries não se tem mostrado muito receptivo aos meus pedidos de urgência. Creio que ainda não examinou a amostra. No entanto, há uma boa notícia: um jovem assistente dele vai ajudar-me.

Acho que começarei finalmente a obter material útil.

- Oxalá. - Lou fez uma pausa. - Palpita-me que está para acontecer algo de importante no mundo do crime, em Queens. A noite passada, houve quatro homicídios típicos de gangsters naquela área. Pessoas mortas a tiro em suas próprias casas. E, para culminar tudo isso, um amigo do Frankie e do Bruno foi liquidado cruelmente numa agência funerária no Parque Ozone.

As tensões latentes aproximam-se do ponto de explosão final.

- Constou-me que houve alguns crimes em Queens - admitiu Laurie.

- Um casal foi assassinado na cama, durante o sono. As outras duas vítimas, um homem e uma mulher, também estavam a dormir.

Até onde foi possível determinar, nenhuma dessas pessoas tinha qualquer ligação com o crime organizado.

- Não parece muito convencido disso.

- Não estou, de facto. A maneira como todos foram mortos é quase uma acusação. Tenho três equipas de detectives a trabalhar nos três casos, além do Departamento do Crime Organizado.

- Dá a impressão de que as famílias Vaccarro e Lucia se encaminham para um ajuste de contas final. Mas quer saber uma coisa? As querelas entre gangsters não me preocupam muito.

Pelo menos, não tanto como as mortes das pessoas bem lançadas na vida, vitimadas por essa epidemia de overdoses de cocaína.

Apareceram mais três, hoje, o que totaliza seis.

- Suponho que encaramos as coisas de ângulos diferentes, porque penso precisamente o contrário. Pela parte que me toca, não sinto compaixão especial por indivíduos endinheirados e privilegiados que se matam nas tentativas para "viajar". Na verdade, são eles que criam a larga procura de drogas, responsável pelo seu tráfico crescente. Considero-os mais recrimináveis do que os camponeses famintos do Peru ou da Colômbia que cultivam a coca. Se os toxicómanos se autoliquidam, tanto melhor. Com cada morte é menos uma fonte de procura.

- Não acredito que o esteja a ouvir correctamente. São elementos produtivos da sociedade que perdemos. Pessoas com as quais essa mesma sociedade gastou tempo e dinheiro na sua educação. E porque morrem? Porque um malvado qualquer adicionou uma substância contaminadora à droga ou lhe misturou algo de letal. Pôr termo a essas mortes desnecessárias é muito mais importante do que impedir dois bandos de gangsters de se matarem uns aos outros. Vendo bem as coisas, são eles que prestam um serviço à sociedade.

- Mas não morrem apenas gangsters nessas guerras. De resto, o crime organizado afecta as vidas de todos. Numa cidade como Nova Iorque, rodeia-nos a cada momento. Tomemos, por exemplo, a recolha do lixo...

- Quero lá saber da recolha do lixo! - bradou Laurie. - É o comentário mais estúpido que... - Interrompeu-se, corando, ao compreender que se deixara arrastar pelo entusiasmo com que defendia o seu ponto de vista. - Desculpe ter levantado a voz.

Parecia zangada consigo, mas não estou. Sinto-me apenas frustrada. Não consigo que alguém partilhe da minha preocupação acerca dessas mortes por overdose de cocaína, apesar de estar convencida de que são evitáveis baixas futuras. No entanto, à velocidade com que progrido nas pesquisas, talvez se registem mais quarenta óbitos antes de alguém decidir debruçar-se sobre o assunto.

- Também levantei a voz - reconheceu Lou. - Devo sentir-me igualmente frustrado. Preciso que surja um indício prometedor.

Além disso, tenho o comissário a expelir o bafo autoritário na minha nuca. Há apenas um ano que fui promovido a tenente da Brigada de Homicídios. Quero salvar vidas, mas não menos o emprego. Gosto da minha profissão. Não consigo imaginar-me a fazer outra coisa.

- Por falar da polícia... - observou ela, disposta a mudar de assunto. - Sofri um pequeno abalo, ontem à noite, que quero partilhar consigo. Gostava de ouvir a sua opinião.

Descreveu a experiência que tivera no apartamento de Stuart Morgan, esforçando-se por ser tão objectiva quanto possível, pois não houvera provas concretas. No entanto, à medida que o fazia, em particular ao referir o pormenor dos três dólares que restavam no cinto do dinheiro, convencia-se ainda mais de que os polícias uniformizados se tinham apoderado de outras coisas.

- É lamentável - proferiu Lou, com uma expressão de desdém.

Seguiu-se uma pausa, enquanto Laurie o olhava na expectativa.

- É tudo o que se lhe oferece comentar? - acabou por perguntar.

- Que mais posso dizer? Custa-me ouvir histórias dessas, mas acontecem. Não está ao meu alcance evitá-las.

- Pensei que me pediria os nomes dos guardas envolvidos, para os repreender e...

- E quê? Mandar despedi-los? Não posso fazer uma coisa dessas.

Há que contar com alguns furtos ocasionais, sobretudo se nos lembrarmos do nível dos salários dos polícias típicos. Alguns dólares aqui e ali. É uma espécie de prémio-incentivo. Não esqueçamos que o trabalho dos guardas tem tanto de frustrante como de perigoso. Por conseguinte, não considero isso surpreendente, embora não o aprove.

- As suas palavras tresandam a uma moralidade de conveniência.

Quando se permite que "os bons" infrinjam a lei, onde iremos parar? E esse tipo de roubo não só é moralmente condenável, como também uma calamidade, do ponto de vista médico-legal.

Esses guardas alteraram e destruíram elementos possivelmente importantes.

- É lamentável e errado, mas não me sinto tentado a denunciar esse tipo de comportamento ilícito num cenário de overdose de drogas. Pensaria de outro modo se se tratasse de um homicídio. E tenho a certeza de que eles também.

- Não consigo acreditar no seu duplo ponto de vista. Pela parte que lhe toca, qualquer toxicómano pode cair morto, e, se os polícias roubam a vítima antes da chegada do patologista, tanto melhor.

- Lastimo desapontá-la, mas é exactamente o que penso.

Pediu-me a opinião e revelei-lha. Se pretende aprofundar o assunto, sugiro que telefone aos Assuntos Internos da Polícia e conte o que viu. Quanto a mim, prefiro concentrar-me nos "maus".

- Mais uma vez tenho dificuldade em acreditar no que ouço.

Estou abismada. Serei demasiado ingénua?

- Apego-me ao quinto mandamento - disse ele, tentando incutir uma nota desanuviadora na atmosfera. - Mas vou apresentar-lhe uma proposta. Porque não discutimos o assunto mais demoradamente durante o jantar? Que diz a esta noite?

- Já tenho planos.

- Claro. Que parvoíce a minha supor que estaria livre! Calculo que se trata do "doutor Rosas", mais uma vez. Mas não me diga. O que resta do meu ego não resistiria. Com a sua limusina e outros numerosos adereços, é natural que a leve a lugares onde eu nem teria dinheiro para deixar o chapéu no bengaleiro. Como lhe recomendei ontem, se o seu laboratório decidir efectuar algum dos testes susceptíveis de revelar alguma coisa de aproveitável, informe-me.

Com estas palavras, levantou-se e abandonou o gabinete. Foi com profundo alívio que Laurie o viu sair. Na verdade, se se esforçava, ele sabia tornar-se particularmente irritante.

Quereria porventura que cancelasse todos os seus compromissos para o acompanhar?

Preparava-se para ligar aos Assuntos Internos, como Lou sugerira. Porém, antes que fizesse esta chamada ligou para Jordan.

- Espero que não telefone para cancelar o encontro desta noite!

- De modo algum. Era por causa da sua secretária, Marsha Schulman.

- A minha ex-secretária, quer você dizer. Como hoje também não apareceu, vou substituí-la e já tenho uma candidata.

- Morreu - informou Laurie, mais secamente do que tencionava.

- Não me diga! Tem a certeza?

Explicou como procedera à identificação do cadáver sem cabeça, graças às radiografias e às duas intervenções cirúrgicas.

- Os nossos investigadores médicos procedem a diligências suplementares para tornarem a identificação ainda mais irrefutável - acrescentou - mas aquilo de que dispomos basta para não subsistir qualquer dúvida.

- Quem sabe se o bastardo do marido estará envolvido?

- Julgo que a polícia analisará a possibilidade. Enfim, achei que devia informá-lo.

- Que notícia horrível!

- Lamento.

- No entanto, reconheço que necessitava de saber. Bem, calculo que os nossos projectos para esta noite se mantêm...

- Com certeza.

Laurie desligou e em seguida marcou o número dos Assuntos Internos e descreveu os pormenores da sua história a uma secretária desinteressada, que prometeu transmiti-los ao chefe.

Pousou o auscultador e conservou-se sentada para coordenar as ideias antes de regressar à sala das autópsias. Começava a sentir-se esmagada pela sucessão dos acontecimentos.

Afigurava-se-lhe que todos os aspectos da sua vida - profissional, pessoal, ética - escapavam ao seu domínio.

- Sou o tenente Lou Soldano - anunciou, mostrando as credenciais à recepcionista, de olhos vivos, atrás da secretária.

- Brigada de Homicídios?

- Exacto. Gostava de falar com o doutor. Basta que me conceda meia dúzia de minutos.

- Queira aguardar na sala de espera, enquanto o previno da sua pretensão.

Lou sentou-se e folheou distraidamente uma edição recente de The New Yorer. Em seguida, observou as gravuras na parede, em particular uma notoriamente pornográfica, e perguntou-se se alguém as escolhera ou fariam parte da decoração de origem. Em qualquer dos casos, admitiu para consigo que os gostos não se discutem.

Além das gravuras, estava igualmente impressionado com a sala.

As paredes eram forradas de mogno e uma alcatifa com pelo menos, dois centímetros de espessura cobria o chão. No entanto, já sabia que o sofisticado médico auferia um rendimento avultado.

Observou os rostos dos pacientes que pagavam aquela opulência, além das rosas e outras pequenas coisas. Eram uma dezena, alguns com palas e outros de aspecto totalmente saudável, entre os quais figurava uma mulher de meia-idade carregada de jóias. Lou tinha vontade de lhe perguntar o que fazia ali, só para ficar com uma ideia, mas não se atreveu.

 

O tempo escoava-se com lentidão, enquanto, um a um, os pacientes desapareciam nas profundezas do consultório. Ele tentava conter a impaciência, mas decorridos quarenta e cinco minutos começou a enervar-se e a suspeitar de que se tratava de pirraça propositada de Jordan Scheffield. Embora não tivesse marcado hora, Lou esperara ser recebido com relativa prontidão ou porventura calendarizar uma futura visita, em caso de necessidade. Com efeito, não era vulgar um tenente-detective aparecer inesperadamente num consultório médico. De resto, não tencionava tomar-lhe muito tempo.

Havia um duplo motivo para se encontrar ali. Queria obter mais elementos sobre Marsha Schulman e trocar impressões a respeito de Paul Cerino. Tratava-se de uma espécie de diligência experimental: o médico talvez fornecesse pormenores novos. Lou resistia com dificuldade a admitir uma intenção em segundo plano. Já que viera, observaria com curiosidade o indivíduo que jantava todas as noites com a doutora Montgomery.

- Senhor Soldano - chamou finalmente a recepcionista. - O doutor Scheffield vai atendê-lo.

- Não era sem tempo - resmungou ele para consigo, levantando-se e pousando a revista.

Encaminhou-se para a porta que ela conservava aberta, enquanto se apercebia de que não era a mesma pela qual os pacientes haviam entrado.

Depois de atravessar um pequeno corredor, foi introduzido num gabinete, e viu-se perante a cabeça loura de Jordan, que escrevia algo numa ficha médica.

- Sente-se - indicou, sem erguer os olhos. Lou ponderou o que queria fazer. A ideia de ignorar aquilo que parecia mais uma ordem que um convite atraía-o, pelo que permaneceu de pé, enquanto os olhos esquadrinhavam o que o rodeava. Ficou impressionado e não pôde deixar de o comparar com a extrema modéstia do cubículo onde trabalhava.

Voltou a concentrar-se no médico, mas só conseguiu determinar que se tratava de um indivíduo de aparência impecável. No anelar da mão direita usava um anel de ouro com sinete, provavelmente de algum estabelecimento de ensino sofisticado.

Por fim, Jordan acabou de escrever e organizou meticulosamente as folhas antes de fechar a pasta de cartolina e levantar a cabeça. Pareceu surpreendido por Lou se conservar de pé no meio do gabinete, com o chapéu na mão.

- Por favor. - Pôs-se igualmente de pé e apontou para uma das duas cadeiras diante da secretária. - Desculpe fazê-lo esperar, mas tenho estado esgotantemente ocupado. Intervenções cirúrgicas sucessivas. Em que lhe posso ser útil? Suponho que se trata do que aconteceu à minha secretária, Marsha Schulman.

Uma situação trágica, na verdade. Espero que vocês indaguem a possibilidade de o rufia do marido estar envolvido.

Os olhos do detective ergueram-se para o rosto do interlocutor. Consternava-o ver que era tão alto, o que o tornava comparativamente baixo, apesar do seu metro e oitenta.

- Que sabe acerca de Schulman? - perguntou, sentando-se finalmente, após convite mais cordial.

Jordan imitou-o e referiu tudo o que era do seu conhecimento sobre o marido de Marsha. Como Lou sabia consideravelmente mais do que ele, entreteve-se a observar o "bondoso" doutor e detectou pequenas coisas, como o leve e porventura falso sotaque britânico. Ainda antes de acabar de falar de Danny Schulman, concluiu que se tratava de um indivíduo pretensioso, afectado e arrogante, e não compreendia o que uma moça terra-a-terra como Laurie via de especial nele.

Por último, decidiu que era altura de mudar de assunto e perguntou:

- E quanto a Paul Cerino?

Jordan hesitou por um momento, surpreendido com a alusão ao cliente.

- Desculpe a curiosidade, mas que tem o senhor Cerino a ver com o outro caso?

- Agradecia que me revelasse tudo o que sabe sobre ele - redarguiu Lou, congratulando-se intimamente por vê-lo algo intrigado.

- É um paciente - lembrou o médico, secamente.

- Isso já eu sabia. Gostava que me explicasse como está a decorrer o tratamento.

- Não costumo discutir a situação da minha clientela - volveu em tom glacial.

- Não? - Lou arqueou as sobrancelhas. - Isso difere do que me constou. Com efeito, soube de fonte fidedigna que discutiu pormenorizadamente o caso de Paul Cerino. - Fez uma pausa, ao mesmo tempo que o interlocutor comprimia os lábios. - Mas deixemos isso, para já. Interessa-me também saber se alguém do seu pessoal foi vítima de tentativa de extorsão.

- Nem por sombras. -Jordan soltou uma risada de nervosismo. - Porque pergunta?

- Quando uma pessoa se envolve com gente como o Cerino, ocorrências como a extorsão manifestam tendência para acontecer. Não teriam, por exemplo, ameaçado a sua secretária?

- De quê?

- Não sei. Que lhe parece?

- O senhor Cerino não pretenderia submeter-me a extorsão ou a qualquer dos meus empregados. Aliás, estou a cuidar dele, ajudá-lo a recuperar a vista normal.

- Esses membros do crime organizado não raciocinam como as pessoas vulgares. Consideram-se especiais e acima da lei; na verdade, acima de tudo. Se não obtêm exactamente o que pretendem, recorrem ao homicídio. Se o obtêm, mas decidem que a personagem em causa lhes embaraça os movimentos, liquidam-na igualmente.

- Bem, ele obtém o que pretende comigo.

- O senhor é que sabe. Procuro apenas explorar todas as possibilidades. Parajá, temos que lhe assassinaram a secretária, e com particulares requintes de brutalidade. Quem o fez não desejava que a identificássemos imediatamente.

Quero descobrir porquê.

- Bem, a única coisa de que estou certo é que o desaparecimento e a morte de Marsha não têm nada de comum com o senhor Cerino. E agora, se me dá licença, preciso de atender o resto dos pacientes que aguardam. Na eventualidade de lhe ocorrerem mais perguntas, agradeço que contacte comigo através do meu advogado.

- Com certeza, doutor. Saio já. Permita-me, no entanto, uma palavra de advertência. No seu lugar, eu seria extremamente prudente no que se refere a Paul Cerino. A Mafia pode parecer excitante quando se vê actuar nos filmes, mas creio que o senhor adoptaria uma posição diferente, se tivesse oportunidade de observar o aspecto de Marsha Sehulman neste momento. E mais uma coisa: pense duas vezes antes de enviar a conta a Cerino. Obrigado pelo tempo concedido.

O detective abandonou o consultório, algo embaraçado por ter vindo. Fora um encontro infrutuoso, que só servira para o aborrecer. Não suportava os janotas pretensiosos como Jordan Scheffield. Se se envolvesse em apuros com Paul Cerino, seria por sua culpa exclusiva. Dominava-o uma arrogância tão ofuscante que não conseguia descortinar o perigo.

Meia hora mais tarde, chegava à Central da Polícia e deteve-se por uns instantes à entrada do seu gabinete para contemplar o cenário, diametralmente oposto ao ambiente sofisticado que imperava no consultório de Jordan. Nunca atribuíra importância especial ao local onde trabalhava, porém, nesse dia, parecia-lhe opressivamente desolador. Reconhecia que se tratava de uma reacção irracional, mas a simples recordação do impecável médico bastava para o irritar.

Naquele momento, Harvey Lawson, outro tenente-detective da corporação, interrompeu-lhe as reflexões.

- Lembras-te daquela tipa da Patologia Legal de que falaste ontem?

- Lembro. Porquê?

- Acabo de saber que apresentou queixa nos Assuntos Internos contra dois guardas por roubo no apartamento de uma overdose.

Quem diria, hem?

 

Tony e Angelo encontravam-se de novo no carro deste último, estacionado do outro lado da rua do Pavilhão Greenblatt, do Hospital Geral de Manhattan. Tratava-se da área mais selecta do estabelecimento, cujos pacientesabastados e habituados a todos os confortos - podiam escolher as refeições de ementas especiais, que incluíam pequenos luxos como o vinho, desde que os respectivos médicos o permitissem.

Eram 14 horas e 28, e Tony e Angelo estavam exaustos. Com efeito, em vez de poderem ir dormir após a noite agitada, Paul Cerino explicara-lhes que traçara planos diferentes para os dois.

- A que horas disse o Doc Travino que devíamos levar isto a cabo? - perguntou Tony.

- às três - informou Angelo. - Parece que é a altura do dia em que há mais confusão no hospital, com a rendição das enfermeiras.

- Se ele disse isso, deve ser verdade.

- Em todo o caso, não me agrada. Acho muito arriscado.

Observava a área com uma expressão de cansaço. Havia muita actividade e numerosos polícias. Nos dez minutos decorridos desde que se encontravam ali, vira passar três carros-patrulhas.

- Encara-o como um desafio - sugeriu Tony. - E pensa no dinheiro que vamos receber.

- Prefiro trabalhar à noite. E, nesta altura da vida, dispenso os desafios. De resto, neste momento devia era estar a dormir.

Detesto trabalhar dominado pelo cansaço. Posso cometer algum erro.

- Anima-te, que isto até vai ser divertido.

- Tenho um mau pressentimento. Talvez fosse melhor deixá-lo para outra ocasião. Além disso, aguarda-nos mais uma noite em cheio.

- Então, fica aqui à espera, que eu trato de tudo. Depois, divido o dinheiro contigo.

Angelo mordeu o lábio inferior. A ideia de deixar o "miúdo" entrar no hospital sozinho era tentadora, mas se algo corresse mal Cerino ficaria fulo. E mesmo nas melhores circunstâncias, se Tony actuasse sem apoio, subsistiam possibilidades de as coisas darem para o torto. Chegou, pois, com relutância, à conclusão de que não se lhe deparava qualquer alternativa.

- Obrigado pela oferta - replicou, voltando a esquadrinhar as imediações com a vista - mas acho que devemos actuar em conjunto. - Em seguida, voltou-se para o companheiro e viu, horrorizado, que puxara da automática e inspeccionava o carregador. - Com mil diabos! Guarda já isso! Imagina que alguém se lembra de olhar cá para dentro? Isto está infestado de chuis.

- Pronto, está bem! - exclamou Tony, obedecendo. - Nunca te vi tão maldisposto. Olhei em volta antes de rapar da arma.

Julgas-me um cretino inexperiente? Não há ninguém perto do carro.

Angelo fechou os olhos e tentou acalmar-se. A dor de cabeça acentuava-se e tinha os nervos em franja. Desagradava-lhe estar tão cansado.

- São quase três horas - advertiu Tony.

- Lembras-te de tudo o que faremos quando entrarmos no hospital?

- Perfeitamente. Não haverá qualquer problema.

- Muito bem. Vamos a isto.

Desceram do carro e Angelo olhou em volta mais uma vez.

Satisfeito, precedeu o companheiro em direcção ao movimentado átrio do Hospital Geral de Manhattan.

O primeiro ponto de escala era a loja de hospitalidade, onde ele comprou dois ramos de flores, um dos quais entregou a Tony, para em seguida se incorporarem na fila formada diante do balcão das informações.

- Mary OConnor - declarou educadamente quando chegou a sua vez.

- Cinco zero sete - indicou a funcionária, depois de consultar o ecrã do computador.

Seguiram para os elevadores, diante dos quais aguardavam várias pessoas, sobretudo enfermeiras, e Tony inclinou-se para Angelo e murmurou:

- Até aqui, sem problemas.

O outro dirigiu-lhe um olhar incisivo, mas não replicou. O local não era o mais apropriado para reprimendas. No quarto andar, abandonaram a cabina juntamente com três enfermeiras.

Angelo aguardou que elas se afastassem, para ver o rumo que tomavam, e optou pelo sentido contrário. Verificou imediatamente que o quarto 507 se situava no lado oposto, mas aguardou que alcançassem o posto do pessoal para retroceder.

Ele procedia como se estivesse plenamente seguro do que pretendia e passou diante do posto sem olhar para lá.

Não foi difícil localizar o 507, e abrandou o passo e espreitou. Depois de se certificar de que não havia qualquer médico ou enfermeira dentro, aproximou-se da cama e observou a mulher deitada, que fixava o olhar no televisor montado num braço mecânico aplicado à armação da cama.

A paciente tinha uma das vistas coberta por um penso, e o olho exposto desviou-se do aparelho para o recém-chegado.

- Boa tarde, senhora OConnor - proferiu este último, com afabilidade. - Tem visitas. - E fez sinal a Tony para que entrasse.

- Quem é o senhor?

O interpelado acercou-se, sorridente, com o ramo de flores na sua frente. Por fim, ela olhou os dois homens e acabou também por sorrir.

- Devem ter-se enganado no quarto. Talvez se trate de outra pessoa com o mesmo nome.

- Parece-lhe? - replicou Angelo. - Não é a senhora que tem operação marcada para esta tarde?

- Sou, mas não os conheço, pois não?

- Acho que não. - Assomou ao corredor e olhou nos dois sentidos. O posto do pessoal continuava a ser um foco de actividade, mas ninguém se aproximava do quarto.

- Creio que são horas do tratamento da senhora Oconnor. O sorriso de Tony alargou-se, enquanto pousava as flores na mesa-de-cabeceira.

- Qual tratamento? - quis saber ela.

- Terapia de relaxamento - explicou Tony. - Deixe-me tirar a almofada.

- Foi o doutor Scheffield que o prescreveu?

Embora desconfiada, a senhora Oconnor não resistiu quando ele lhe retirou a almofada de baixo da cabeça. Não estava acostumada a procurar motivos para os actos dos seus médicos.

- Não exactamente - admitiu Tony.

A revelação acentuou as suspeitas da paciente, que começou a dizer:

- Quero falar com a enfermeira Lang...

Não teve possibilidades de completar a frase, porque Tony abafou o resto com a almofada e sentou-se em cima do peito dela.

Seguiram-se alguns sons abafados, todavia não se debateu por muito tempo. Agitou as pernas várias vezes, mas os movimentos pareciam menos defensivos do que uma reacção incontrolável ao facto de estar impossibilitada de respirar.

Angelo conservava-se à entrada, o olhar cravado no posto do pessoal, porém as enfermeiras pareciam imersas em animada conversa. Em dado momento, volveu os olhos para o outro lado do corredor e estremeceu ao avistar uma mulher de meia-idade que impelia um carrinho cheio de jarros com água em direcção ao quarto 507, do qual distava apenas uns cinco metros.

Angelo retrocedeu para dentro e fechou a porta. Tony ainda não completara o "tratamento" e continuava sentado em cima da senhora Oconnor.

- Vem aí alguém! - advertiu-o a meia voz, puxando da automática e aplicando o silenciador.

Tony permaneceu sentado, e no instante imediato soou uma pancada na porta.

Angelo encaminhou-se para a casa de banho contígua e indicou ao outro que o imitasse. A almofada deslizou para o lado e expôs o rosto violáceo da paciente, com o olho sem vida voltado para o tecto.

Eles desapareceram finalmente na casa de banho, cuja porta deixaram entreaberta escassos milímetros.

Angelo empunhava a arma com firmeza. Embora a ideia de a utilizar lhe desagradasse, receava não ter qualquer alternativa. Através da frincha da porta, viu a mulher entrar com o carrinho, pegar num jarro de água e pousá-lo na mesa-de-cabeceira em substituição do que lá se encontrava. Ele continha a respiração, disposto a aguardar que ela se apercebesse do estado da senhora Oconnor antes de entrar em acção. No entanto, ante a sua profunda admiração, a empregada abandonou o quarto sem uma simples olhadela à paciente.

Depois de deixar transcorrer mais de um minuto, ordenou a Tony que espreitasse. Este último abriu a porta o suficiente para poder introduzir a cabeça e anunciou:

- Já saiu.

- Então, ponhamo-nos também a andar.

Quando abandonavam a casa de banho, Tony fez uma pausa junto da cama.

- Estará mesmo morta?

- Duvido que uma pessoa possa ficar tão azulada e continuar com vida - retrucou Angelo. - Pega nas flores e vamos embora.

Quero estar longe quando a descobrirem.

Regressaram ao carro sem qualquer incidente, enquanto ele se congratulava por ter entrado. De contrário, o seu entusiasta companheiro teria deixado um rasto de cadáveres.

Quando ligava o motor, Tony confidenciou:

- A asfixia também não é má, embora eu prefira a pistola, um método mais seguro, rápido e satisfatório.

Lou puxou de um cigarro do maço e acendeu-o. Não lhe apetecia particularmente fumar, apenas interessado em matar o tempo. A reunião devia ter principiado meia hora antes, mas ainda estavam a entrar agentes. O tema consistia nas três execuções estilo gangster perpetradas de um dia para o outro. Ele esperara que a gravidade dos casos inspirasse uma sensação de urgência no departamento, mas ainda faltavam três detectives.

- Que se lixem! - acabou por decidir.

Fez sinal a Norman Carver, úm sargento-detective, para que iniciasse os trabalhos. Estava nominalmente encarregado de coordenar as investigações, embora, na realidade, as três unidades que se ocupavam dos casos actuassem independentemente.

- Receio que não disponhamos de grande coisa - começou. - O único elo comum que estabelecemos entre os três casos, além do método do crime, é que cada uma das vítimas estava envolvida no negócio de restaurantes, de uma maneira ou de outra, como proprietário, sócio ou fornecedor.

- De facto, não é grande coisa - comentou Lou. - Recapitulemos cada caso.

- O primeiro diz respeito aos Goldburg, em Kew Gardens - continuou Norman. - Harry e Martha Goldburg foram assassinados enquanto dormiam. O relatório preliminar sugere o emprego de duas armas de fogo.

- Ocupação do Harry?

- Possuía um restaurante muito concorrido aqui, em Manhattan, chamado La Dolce Vita, no East Side, cinquenta e quatro. Havia um sócio, Anthony DeBartollo. Até agora, não descobrimos qualquer problema, financeiro ou pessoal, relacionado com a sociedade.

- A seguir?

- Steven Vivonetto, de Forest Hills, dono de uma rede de lojas de refeições rápidas na comarca de Nassau, chamada Pasta Pronto. Também não se nos depararam problemas financeiros, mas ainda não aprofundámos o assunto.

- E, finalmente?...

- Janice Singleton, também de Forest Hills, casada com Chester Singleton, fornecedor de restaurantes, absorvido recentemente pela rede Vivonetto. Tão-pouco existem problemas financeiros.

Pelo contrário, os negócios prosperaram desde que passou a abastecer a Pasta Pronto.

- Quem a abastecia antes dele?

- Ainda não sabemos.

- Acho que devemos indagar. Os Singleton e os Vivonetto conheciam-se pessoalmente?

- Também ainda não o averiguámos.

- E quanto a associações com o crime organizado? - perguntou Lou.

- A forma como foram assassinados parece apontar nesse sentido.

- Foi o que pensámos ao princípio. - Norman olhou em volta para os outros cinco homens, que assentiram com movimentos de cabeça. - Mas não apurámos praticamente nada. Dois dos restaurantes que o Singleton abastecia têm contactos ocasionais com essa gente, embora não seja nada de espectacular.

- Tem de haver algum factor comum aos três.

- Concordo. As balas que a Patologia Legal nos enviou, extraídas dos corpos, sugerem que Harry Goldburg, Steven Vivonetto e janice Singleton foram mortos com a mesma arma, e Martha Goldburg com outra. Mas trata-se apenas de uma análise preliminar. Veremos o que a Balística nos revela. No entanto, os projécteis são todos do mesmo calibre, pelo que suspeitamos de que por detrás dos três homicídios estão as mesmas pessoas.

- E quanto a roubo?

- Familiares dos Goldburg dizem que o Harry possuía um Rolex de ouro, mas não o encontrámos. Também não conseguimos localizar a carteira. Em todo o caso, nos outros cenários do crime, não parece faltar nada.

- Tudo indica, portanto, que a resposta deve situar-se ao nível dos restaurantes. Obtenham elementos pormenorizados sobre todas as operações. Indaguem igualmente se as vítimas eram sujeitas a extorsão ou outras ameaças. E consigam-no o mais depressa possível, porque o comissário não me larga a braguilha.

- Temos pessoal em campo durante as vinte e quatro horas do dia - asseverou Norman.

- Muito bem.

- Está aqui o sumário do que acabo de lhe revelar. - Entregou uma folha de papel a Lou.

Este leu as informações rapidamente, enquanto chupava o cigarro pensativamente. Algo de grande e grave estava a desenrolar-se em Queens. Não subsistia a menor dúvida. Ao mesmo tempo, perguntava-se se aqueles homicídios teriam alguma relação com Paul Cerino, embora se lhe afigurasse pouco provável. De súbito, recordou-se de Marsha Schulman e ponderou se alguma das vítimas teria conhecido o marido, Danny. Era uma hipótese remota, mas existia uma possibilidade de ele ser o elo comum.

 

QUINTA-FEIRA, 15 HORAS DA TARDE

MANHATTAN

Depois de encher um copo de cartolina com um café de sabor inclassificável, no Departamento de Identificação, Laurie entrou na sala, onde se realizava a habitual reunião das quintas-feiras, adjacente ao gabinete de Bingham. Era a única oportunidade que todos os patologistas da cidade tinham de se juntar e trocar impressões sobre os seus casos e problemas de diagnóstico. Embora a sede da Patologia Legal se ocupasse das mortes ocorridas no Bronx e Manhattan, os bairros de Queens, Brooklyn e Staten Island dispunham das suas próprias instalações. A comparência à reunião não constituía uma opção.

Pelo que dizia respeito a Bingham, tratava-se de uma obrigação.

Como sempre, Laurie sentou-se nas proximidades da porta.

Quando as discussões se tornavam demasiado administrativas ou políticas para o seu gosto, podia retirar-se sem dar nas vistas.

A parte mais interessante DAQUELAS reuniões semanais costumava ocorrer antes da ordem do dia. Era durante as conversas informais preliminares que ela conseguia recolher fragmentos úteis sobre os casos mais complexos. Nesse aspecto, a presente reunião não se revelou diferente.

- Eu a julgar que já tinha visto tudo...

Estas palavras foram proferidas por Dick Katzenburg a Paul Plodgett e Kevin Southgate. Tratava-se de um patologista do departamento de Queens, e Laurie apurou imediatamente os ouvidos.

- Foi o homicídio mais tétrico que jamais se me deparou - prosseguiu ele. - E Deus é testemunha de que vi alguns bem singulares.

- Vais elucidar-nos ou temos de te pedir de joelhos? - perguntou Kevin.

- Era um tipo jovem - explicou Dick. - Liquidaram-no numa agência funerária com o aspirador utilizado para embalsamar.

- Queres dizer que foi aspirado até morrer? - comentou o outro, pouco impressionado.

- Não! Aplicaram-lhe o trocarte. O aspirador estava ligado.

Foi mais ou menos como se o embalsamassem vivo.

- Safa... - articulou Paul, visivelmente abalado. - É de facto tétrico. Lembra-me o caso...

- Doutora Montgomery!

Laurie voltou-se e viu o doutor Bingham na sua frente.

- Receio ver-me obrigado a discutir mais uma coisa consigo - acrescentou o chefe. - Fui procurado pelo doutor DeVries, que se queixou de que você não pára de o incomodar por causa de determinados testes. Eu sei que anseia por conhecer os resultados, mas não é a única pessoa na fila de espera. Ele está sobrecarregado de trabalho. Por conseguinte, vai ter de aguardar a sua vez e abster-se de voltar a causticá-lo com a sua presença. Fui suficientemente claro?

Ela sentia-se tentada a comentar que DeVries tinha uma maneira inadmissível de angariar fundos para o seu departamento, mas Bingham voltara-lhe as costas e afastava-se, para dar início à sessão.

Os trabalhos principiaram, como habitualmente, com a enumeração dos dados estatísticos da semana transacta, após o que procedeu a uma breve exposição do andamento do homicídio no Central Park, que tanta popularidade adquirira entre os media, e recomendou que não lhes fossem fornecidas opiniões pessoais sobre o assunto.

Laurie tinha a certeza de que as últimas palavras se lhe destinavam especialmente. Com efeito, quem mais, de entre o corpo médico da casa, fizera confidências a um profissional da Imprensa?

Em seguida, Calvin Washington falou de assuntos administrativos, em particular da forma como as modestas contribuições do Município afectavam as operações. Quase todas as semanas, um serviço ou fonte de abastecimento era reduzido ou eliminado.

Quando terminou, cada representante dos outros departamentos forneceu um resumo da sua actividade e necessidades. Alguns dos presentes começaram a bocejar, enquanto outros cabeceavam irresistivelmente.

Por último, passou-se à discussão generalizada, e Dick Katzenburg descreveu alguns casos, entre os quais o respeitante à agência funerária de Queens.

Quando ele chegou ao fim, Laurie aclarou a voz e principiou a dirigir-se ao grupo. Expôs os seus seis casos de overdose o mais sucintamente possível, tendo o cuidado de salientar os pormenores que os distinguiam dos correntes. Classificou as vítimas como sendo yuppies solteiros, cujo consumo de droga surpreendera os amigos e a própria família.

- A minha preocupação consiste em que estejamos a assistir ao início de uma série de mortes por overdose fora do comum - acrescentou, evitando olhar para Bingham.

- Suspeito da presença de uma substância contaminadora na droga, embora ainda não fosse detectada nenhuma. Queria pedir a quem encontrasse uma situação similar que ma transmitisse.

- Apareceram-me quatro casos desses nas últimas semanas - declarou Dick, quando ela acabou de falar. - Como nos surgem tantos exemplos de overdose/toxicidade, não prestei atenção à sua repetitividade. Com efeito, duas das vítimas eram profissionais e três consumiam a cocaína por via intravenosa, enquanto a quarta o fazia oralmente.

- Oralmente? - ecoou alguém, com admiração. - É muito pouco vulgar.

- Nunca fico surpreendido com os drogados - replicou Dick. - Um dos casos que me coube foi encontrado dentro do frigorífico do seu domicílio. Aparentemente, a temperatura do corpo ter-se-á elevado a tal ponto que procurou esse meio para a baixar.

- Um dos meus também se meteu no frigorífico - interpôs Laurie.

- E um dos meus - acudiu Jim Bennect, chefe do departamento de Brooklyn. - Agora me lembro de que outro se precipitou para a rua completamente despido antes do ataque fulminante e fatal.

Tinha tomado a droga por via oral, mas só depois de tentar fazê-lo por IV.

- E a respeito das suas ocupações? - inquiriu ela.

- O que fugiu para a rua era um advogado próspero, e as famílias de ambos juram a pés juntos que eles não se drogavam.

Voltou-se para Margaret Hauptman, responsável pelo departamento de Staten Island, e perguntou:

- Tiveste algum caso similar?

Todavia, a interpelada abanou a cabeça.

Pediu a Dick e Jim que lhe enviassem por fax os elementos referentes aos casos que haviam mencionado, e eles acederam com prontidão, após o que o primeiro informou:

- Esquecia-me de mencionar um pormenor. Em três dos casos, fui pressionado pelas famílias envolvidas para considerar as mortes devidas a causas naturais.

- Esse é um ponto que quero frisar. - Bingham intervinha pela primeira vez desde o início da troca de impressões. - Com mortes resultantes de overdoses tão fulminantes, é natural que as famílias envolvidas pretendam o máximo sigilo, e penso que devemos colaborar nesse sentido.

- Não sei como explicar o aspecto do frigorífico, embora me faça debruçar de novo sobre a ideia da substância contaminadora - persistiu Laurie. - Talvez exista na cocaína algum produto químico possuidor de um efeito sinérgico para causar hiperpirexia. De qualquer modo, preocupa-me o facto de todas essas mortes se deverem à mesma fonte da droga. Agora que dispomos de todos esses casos, poderemos porventura prová-lo comparando as suas percentagens de hidrolisatos. É claro que, para tal, precisaremos da colaboração do laboratório.

Olhou Bingham com ansiedade, para verificar se a expressão se lhe alterava ante a alusão ao laboratório, mas permaneceu impassível.

- Não creio que a substância contaminadora se ache forçosamente presente - opinou Dick. - A cocaína, só por si, pode provocar todas essas mortes. Nos quatro casos que se me depararam, o nível do soro era elevado. Muito mesmo. Eles tomaram doses enormes. Talvez se tratasse de cocaína pura, sem qualquer aditivo. Todos nós assistimos a mortes similares com a heroína.

- Continuo na minha da substância contaminadora - insistiu ela. - Dada a inteligência geral desse grupo de vítimas, custa-me aceitar que cometessem semelhante imprudência se fosse droga pura.

- Talvez tenhas razão - concedeu ele, com um encolher de ombros. - Recomendo apenas que não tracemos conclusões precipitadas.

Quando abandonou a sala de reuniões, Laurie experimentava um misto estranho e perturbador de excitação, frustração e ansiedade renovadas. Em poucas horas, a sua "série" passara de seis casos para o dobro, o que se lhe afigurava ominoso.

Agora, ainda mais do que anteriormente, considerava que o público tinha de ser informado, em particular aquele grupo de yuppies típicos. O problema consistia em como fazê-lo. Embora não se atrevesse a recorrer de novo a Bingham, reconhecia que não podia permanecer alheia à situação.

De repente, pensou em Lou. A polícia dispunha de toda uma divisão dedicada à droga e ao vício. Era possível que possuísse um meio de fazer constar que determinada droga era particularmente perigosa. Assim, com resolução crescente, entrou no seu gabinete e marcou o número do tenente-detective, experimentando um profundo alívio quando lhe ouviu a voz.

- Não imagina como me alegra tê-lo apanhado aí - confessou, com um suspiro de alívio.

- Sim? - replicou ele, sem entusiasmo.

- Preciso vê-lo para conversarmos.

- Sim? - volveu no mesmo tom.

- Promete esperar por mim?

- Com certeza. Pode vir.

Laurie cortou a ligação, pegou na pasta, abriu-a, guardou alguns relatórios incompletos, vestiu o casaco e quase correu em direcção ao elevador.

Chuviscava quando imergiu na Primeira Avenida, o que quase a fez desesperar de encontrar um táxi livre, mas quis a sua boa estrela que um se detivesse a menos de três metros, para largar um passageiro. Ela subiu antes que o homem tivesse tempo de fechar a porta.

Como nunca visitara a Central da Polícia de Nova Iorque, verificou com admiração que se tratava de uma estrutura de tijolo vermelho relativamente moderna. Uma vez na recepção, teve de declinar a identidade e aguardar que um membro da segurança ligasse a Lou, a fim de se certificar de que a esperava. A seguir, revistaram-lhe a pasta e, munida de um passe de visitante e instruções sobre o rumo, localizou o gabinete do detective, o qual, à semelhança de todo o edifício, tresandava a fumo de cigarro.

- Quer despir o casaco? - perguntou ele, que se apressou a fechar a porta, ao ver que Harvey Lawson lhe dirigia um olhar malicioso. - Pelo telefone, parecia excitada - observou, contornando a secretária e sentando-se, depois de indicar uma cadeira a Laurie.

- Preciso da sua ajuda - declarou ela, entrelaçando os dedos com nervosismo sobre o regaço.

- Sim? Estava esperançado de que a excitação se relacionasse com a possibilidade de jantarmos juntos hoje - redarguiu Lou, não sem uma ponta de sarcasmo, destinado sobretudo a encobrir o desapontamento.

- A minha "série" duplicou. De seis, os casos passaram para doze.

- Muito interessante - comentou ele secamente.

- Supus que talvez soubesse de uma maneira para prevenir o público. Receio que se siga uma autêntica avalancha, a menos que se faça alguma coisa, e sem demora.

- Que pretende de mim? Sugere que mande publicar um anúncio no Wall Streetjournal mais ou menos nos seguintes termos: "Atenção, yuppies! Digam não à droga!"?

- Falo a sério, Lou. Creia que estou muito preocupada com a situação. - Laurie fez uma pausa, enquanto ele suspirava e acendia um cigarro. - Tem mesmo de fumar? Só estarei aqui breves minutos.

- Encontro-me no meu gabinete, com a breca!

- Então, tente soprar o fumo para o outro lado, por favor.

- Vou repetir a pergunta. Que pretende de mim? Deve ter alguma sugestão em mente, para se deslocar aqui.

- Não, nada de específico. Supus apenas que a Brigada de Narcóticos tivesse alguma maneira especial de informar a Imprensa, em casos desta natureza.

- Porque não o faz o Departamento de Patologia? A polícia criou-se para deter as pessoas com droga em seu poder e não para as ajudar.

- O meu chefe recusa-se a assumir uma posição pública. Estou certa de que acabará por mudar de atitude, mas, entretanto, perdem-se mais vidas.

- E os outros patologistas? - Lou chupou o cigarro e expeliu o fumo por cima do ombro. - Estão tão convencidos como você da razia organizada de yuppies?

- Não mandei proceder a uma sondagem da sua opinião.

- Quem sabe se a sua sensibilidade acerca do assunto se deve às circunstâncias da morte do seu irmão?

- Não vim para assistir à sua representação de psicólogo amador - retorquiu ela, começando a impacientar-se - mas já que falou nisso, sim, sou sensível ao assunto, porque sei o que representa perder um ente amado vitimado pela droga. No entanto, esse tipo de empatia constitui um impulso adicional ao meu empenho em esclarecer a situação. Se mais alguns polícias enfastiados como você tivessem um pouco mais de empatia, nós, funcionários públicos, talvez nos pudéssemos concentrar na salvação de vidas, em lugar de revistarmos os bolsos de cadáveres.

- Francamente, doutora Montgomery, eu adorava dedicar-me à actividade da salvação de vidas - tornou o detective, esforçando-se por conservar a serenidade. - Na verdade, já me considero envolvido nela. Mas, a menos que me apresente elementos mais concretos do que essa sua teoria da substância contaminadora, a Brigada de Narcóticos limitar-se-á a encarar as minhas diligências com indiferença.

- Não pode mesmo fazer nada?

- Eu, um tenente-detective da Brigada de Homicídios? - Abanou a cabeça com veemência e pesar. - Porque não se dirige aos media?

- Impossível. Se o fizesse sem o conhecimento prévio do doutor Bingham, ficava desempregada. Não tenho a mínima dúvida a esse respeito. Aliás, já houve uma escaramuça nesse sentido. E você?

- Eu, um tenente-detective preocupado com overdoses de drogas?

Exigiriam nomes e respectiva proveniência, e ver-me-ia obrigado a revelá-lo. Além disso, os meus superiores estranhariam que perdesse tempo com drogados em vez de solucionar o mistério dos homicídios em série no mundo dos gangsters. E se me dirigisse aos media, provavelmente seria igualmente despedido.

- Não quer ao menos avistar-se com alguém da Brigada de Narcóticos?

- Tenho uma ideia melhor. E o seu amigo médico? É natural que um profissional se interesse por esse tipo de problemas. De resto, deve ser uma pessoa influente, a avaliar pela limusina e consultório elegante.

- O Jordan não é um meu amigo. Apenas conhecido. E como se inteirou do aspecto do consultório?

- Visitei-o, esta tarde.

- Para quê?

- Interessa-lhe a verdade ou o que eu disse para comigo?

- As duas coisas.

- Queria interrogá-lo sobre um doente, Paul Cerino, assim como a sua secretária, agora que se tornou vítima de homicídio. No entanto, também estava interessado em conhecê-lo pessoalmente. E se quer saber a minha opinião, não passa de um cabotino.

- Dispenso-a.

- Só não percebo o seu interesse por um cretino tão pretensioso, arrogante e ostentoso. Na verdade, eu nunca tinha visto um consultório assim. E quanto à limusina... por amor de Deus! O tipo deve roubar os pacientes até à medula. O que a atrai nele: o dinheiro?

- Não! - vociferou Laurie, indignada. - E já que falou de dinheiro, telefonei ao Departamento de Assuntos Internos...

- Fui informado - cortou Lou. - Espero que passe a dormir mais descansada, agora que provalvelmente deixou um guarda sem trabalho, quando se esforçava para mandar os filhos para a universidade. As minhas felicitações pela rigorosa moralidade. - Apagou o cigarro no cinzeiro e levantou-se. - E agora, se me permite, tenho de seguir para Forest Hills, a fim de tentar esclarecer um crime.

- Está, pois, decidido a não contactar com a Brigada de Narcóticos? - insistiu ela mais uma vez.

- Não acho que não. Prefiro que vocês, ricaços, resolvam os vossos próprios problemas.

- Muito agradecida, tenente - articulou em tom glacial, pondo-se igualmente de pé, para pegar no casaco e na pasta e abandonar o gabinete. Na recepção, atirou o passe de visitante para cima da secretária da segurança e transpôs a saída.

Foi fácil encontrar um táxi livre, pois a maioria provinha da Ponte de Brooklyn, e chegou a casa sem demora, salvo um pequeno troço mais moroso na Primeira Avenida. Quando emergiu do elevador no andar do seu apartamento, dirigiu uma mirada acerada a Debra Engler, no habitual posto de observação, e introduziu a chave na fechadura.

- E cheguei a achá-lo simpático! - proferiu em voz alta, enquanto se despia na casa de banho.

Decididamente, a visita ao gabinete de Lou Soldano constituíra uma experiência degradante.

Minutos mais tarde, envolta no roupão de veludo frisado, branco, ligou o gravador de chamadas para escutar as que havia recebido na sua ausência, enquanto o Tom, faminto, se lhe roçava nas pernas e ronronava. Um dos telefonemas era da mãe e o outro de Jordan, e ambos pediam que ligasse para lá quando chegasse a casa. Ele deixara um número diferente do do seu apartamento, com a indicação de uma extensão.

Quando Laurie o marcou, obteve a informação de que o oftalmologista se encontrava na sala de operações, mas não tardaria a atender.

- Desculpe - foi a primeira coisa que ele disse, pouco depois.

- Ainda não terminei, mas recomendei que me prevenissem quando você ligasse.

- Está a meio de uma intervenção? - perguntou Laurie, incrédula.

- Não tem importância. Posso ausentar-me por uns minutos. Era para lhe perguntar se o nosso jantar pode ficar para um pouco mais tarde. Não queria voltar a fazê-la esperar, mas tenho ainda outra operação.

- Talvez fosse melhor deixá-lo para outro dia.

- Não, por favor! Foi um dia infernal e anseio por tornar a vê-la. Lembre-se de que a nossa noite de ontem não foi completa. A seu pedido.

- Não estará cansado? Em especial se ainda o aguarda outra intervenção.

Na realidade, ela própria sentia-se esgotada, e a ideia de ir directamente para a cama atraía-a particularmente.

- Até lá, criarei um segundo alento. E despedir-nos-emos cedo.

- A que horas conta estar despachado?

Por volta das nove. Mandarei o Thomas buscá-la.

Assentiu com relutância e a seguir ligou à residência de Calvin Washington.

- Que se passa, Montgomery? - inquiriu ele quando a esposa o foi chamar.

- Desculpe incomodá-lo em casa, mas agora que existem doze casos na minha série, gostava de ficar com outros que possam aparecer amanhã.

- Amanhã não está escalada para autopsiar. É o seu dia de expediente.

- Eu sei, e foi por isso que telefonei. Como não estou de serviço este fim-de-semana, porei então a papelada em dia.

- Acho que devia dominar os ímpetos, Montgomery. Está a envolver-se emocionalmente em tudo isto, o que a pode fazer perder a objectividade. Lamento, mas amanhã é dia de expediente para si, independentemente do que nos entrar pela porta com os pés para a frente.

Laurie pousou o auscultador, consideravelmente deprimida. Ao mesmo tempo, reconhecia que havia uma certa margem de verdade no que ele dissera. Estava, de facto, a envolver-se emocionalmente.

Conservou-se sentada diante do telefone por um momento, enquanto ponderava se devia telefonar à mãe. Nada lhe apetecia menos do que sujeitar-se a um interrogatório cerrado sobre as suas relações com Jordan Scheffield. De qualquer modo, ainda não decidira totalmente o que pensava dele. Por fim, resolveu protelar o telefonema para melhor oportunidade.

Enquanto conduzia o carro através do Túnel Midtown e abandonava a via rápida de Long Island, Lou perguntava-se porque persistia em bater com a cabeça numa parede de tijolos.

Não havia a mínima possibilidade de uma pessoa como Laurie Montgomery considerar um homem como ele algo de diferente de um funcionário público. Porque se empenhava em alimentar uma ilusão em que ela acabaria por dizer "Oh, Lou, sempre desejei conhecer um tenente-detective que frequentou uma universidade comunitária!"? Desferiu uma palmada de frustração no volante.

Quando lhe telefonara e insistira em o procurar, supusera que a animavam motivos de natureza pessoal e não para divulgar ao público um surto epidémico de yuppies vitimados por overdoses de cocaína.

Enveredou pelo Bulevar loodhaven, rumo a Forest Hills, pois decidira ausentar-se do ambiente cada vez mais opressivo da Central para visitar as esposas sobreviventes. De resto, era preferível, a regressar ao seu modesto apartamento na Rua Príncipe, no Soho, e entreter-se com o programa da televisão.

Quando travou à entrada da residência dos Vivonetto, não pôde deixar de entreabrir a boca de assombro. Com efeito, a casa era uma autêntica mansão de colunas brancas. Acto contínuo, acenderam-se-lhe luzes na cabeça. Aquele tipo de opulência sugeria dinheiro limpo. E ele tinha grande dificuldade em acreditar que um simples proprietário de estabelecimentos de venda de refeições rápidas pudesse possuir recursos materiais tão avultados, a menos que existissem ligações com o crime organizado.

Lou telefonara previamente, pelo que a senhora Vivonetto o esperava. Quando tocou à campainha, surgiu uma mulher com uma tonelada de maquilhagem, que usava um vestido de algodão branco largamente decotado e escassas indicações de que enviuvara pouco antes.

- Suponho que é o tenente Soldano - articulou com amabilidade.

- Sou Gloria Vivonetto. Entre. Posso oferecer-lhe uma bebida?

Ele explicou que se contentava com água e acrescentou, em jeito de desculpa:

- Venho em serviço.

Ela serviu-lhe um copo de água gelada do bar da sala e preparou um gimíletl para si própria.

- Lamento o sucedido ao seu marido - volveu Lou, recorrendo à sua introdução habitual em semelhantes situações.

- Eu fartava-me de lhe dizer que não ficasse a ver televisão até às tantas. Agora, deixou-se matar. Não percebo nada do negócio, para o dirigir, e tenho a certeza de que me vão roubar pela medida grande.

- Sabe de alguém que o desejasse morto? - Era a primeira pergunta do protocolo-padrão.

- Já respondi a tudo isso aos outros detectives. Temos de revolver o assunto mais uma vez?

- É possível que não. Vou-lhe ser franco, senhora Vivonetto. A forma como mataram o seu marido sugere envolvimento no crime organizado. Compreende o que estou a dizer?

- Refere-se à Mafia?

- Bem, o crime organizado não engloba apenas a Mafia. No entanto, é essa a ideia geral. Ocorre-lhe algum motivo pelo qual essa organização o quisesse ver morto?

- Ora! - Gloria soltou uma risada. - Ele nunca se envolveu em nada de tão pitoresco como a Mafia.

- E no campo dos negócios? A Pasta Pronto tinha alguma ligação, ainda que remota, com o crime organizado?

- Não.

- Tem a certeza?

- Bem, eu não iria a esse ponto. Aliás, não estava ao corrente dos meandros das actividades comerciais do meu marido. Em todo o caso, duvido que tivesse algo a ver com a Mafia. Por outro lado, não era um homem saudável e pouco mais tempo permaneceria entre nós. Se alguém o quisesse ver morto, para usar a sua expressão, decerto esperaria que expirasse naturalmente.

- De que sofria?

- Pergunte antes do que não sofria. Estava tudo a desconjuntar-se. Tinha problemas cardíacos e fora submetido a duas operações delicadas, os rins não funcionavam bem, havia necessidade de lhe extrair a vesícula, mas os médicos não se atreviam, com receio de que o coração não resistisse; ia sujeitar-se em breve a uma intervenção cirúrgica à vista e a próstata achava-se em estado lastimoso.

- Lamento - voltou a dizer Lou, para não estar calado. - Imagino que tinha muitas dores.

Ela encolheu os ombros.

- Nunca cuidou de si. Tinha excesso de peso, bebia às toneladas e fumava como uma chaminé. Os médicos garantiram-me que não duraria um ano, a menos que mudasse de hábitos, coisa que ele não estava disposto a fazer.

O detective chegou à conclusão de que nada mais poderia saber da não muito inconsolável viúva.

- Agradeço o tempo que me concedeu - declarou, levantando-se.

- Se lhe ocorrer mais alguma coisa que lhe pareça importante, ligue para este número, por favor - acrescentou, entregando-lhe um cartão de visita.

A seguir, dirigiu-se à residência dos Singleton, uma construção simples de dois pisos, com um flamingo de pedra implantado no meio do relvado que precedia a entrada.

Foi o próprio Chester Singleton que abriu a porta. Um homem corpulento, de meia-idade e pouco cabelo. Os olhos apresentavam-se avermelhados e congestionados. No instante em que o viu, Lou compreendeu que se achava perante o pesar sincero.

- Detective Soldano?

Este assentiu com uma inclinação de cabeça e foi convidado a entrar.

O mobiliário era simples mas sólido, e dezenas de fotografias emolduradas alinhavam-se nas paredes, na sua maioria a preto e branco.

- Lamento o sucedido à sua esposa. - Lou fez uma pausa, enquanto Chester inclinava a cabeça, enchia os pulmões de ar e mordia o lábio inferior. - Sei quejá cá estiveram colegas meus. - Decidiu entrar directamente no assunto. - Para evitar rodeios e preâmbulos inúteis, gostava que me explicasse a razão pela qual um pistoleiro profissional assassinou a sua esposa.

- Não faço a menor ideia - articulou o interpelado, em voz trémula de emoção.

- O seu serviço de abastecimento de restaurantes contacta com estabelecimentos relacionados com o crime organizado. Algum deles lhe apresentou reclamações de qualquer natureza?

- Não. E não sei absolutamente nada sobre o crime organizado a que se refere. É certo que me chegaram aos ouvidos certos rumores sobre o assunto, mas nunca contactei com ninguém a quem se pudesse atribuir a classificação de gangster.

- E sobre a Pasta Pronto? Constou-me que negociava com essa firma, desde há pouco tempo.

- É verdade que temos relações de negócios, mas nada de definitivo, por enquanto. Espero, porém, passar a uma fase mais firme.

- Conhecia Steven Vivonetto?

- Mal. Era um homem abastado.

- Sabia que também o assassinaram, a noite passada?

- Li no jornal.

- Recebeu alguma ameaça recentemente? Alguma tentativa de extorsão? Bateu-lhe à porta o representante de alguma organização de protecção?

- Não.

- Ocorre-lhe algum motivo pelo qual a sua esposa e Steven Vivonetto tivessem sido assassinados na mesma noite, possivelmente pela mesma pessoa?

- Não faço a menor ideia da razão que levaria alguém a matar a Janice. Todos gostavam dela. Era a pessoa mais afável e terna do mundo. E doente, também.

- De que padecia?

- Cancro. Infelizmente, já se propagara quando os médicos se aperceberam. Ela raramente ia à consulta, de contrário talvez se salvasse. Assim, só teve quimioterapia. Pareceu melhorar por uma temporada, mas depois surgiu-lhe aquela fogagem na cara. Chamaram-lhe zona. Até atingiu uma das vistas, ao ponto de necessitar de intervenção cirúrgica.

- Os médicos acalentavam alguma esperança de recuperação?

- Receio bem que não. Disseram-me que, embora não tivessem a certeza absoluta, viveria pouco mais de um ano, ou menos, se o processo cancerígeno se agravasse.

- Sinto profundamente - murmurou Lou.

- No fundo, talvez fosse melhor assim e lhe poupasse um sofrimento mais prolongado. Mas sinto imenso a sua falta.

Estávamos casados há trinta e um anos.

Por fim, reiterou as condolências, entregou o cartão de visita ao homem e retirou-se. Durante o percurso de re gresso a Manhattan, recapitulou o que obtivera. A ligação do crime organizado com qualquer dos casos podia considerar-se, na melhor das hipóteses, ténue. Surpreendia-o o facto de ambas as vítimas sofrerem de doenças incuráveis e perguntou a si próprio se os assassinos estariam ao corrente.

Distraidamente, puxou de um cigarro, mas quando se preparava para o acender lembrou-se de Laurie e atirou-o pela janela.

Exalou um suspiro e ponderou onde o pretensioso Jordan Scheffield a levaria para jantar.

Vinnie Dominick entrou no vestiário do St. Mary e sentou-se pesadamente no banco. Transpirava copiosamente e sangrava um pouco de um pequeno corte na face.

- Está a deitar sangue, chefe - informou Freddie Capuso.

- Não me chateies, que já sabia. O que me irrita é que o cretino do Jeff Young disse que não me tocou e uivou durante dez minutos quando reclamei uma falta.

Vinnie acabava de jogar basquetebol durante cerca de uma hora e achava-se mal-humorado porque a sua equipa perdera. E o mau humor agravou-se, quando viu entrar o seu lugar-tenente de confiança, Franco Ponti, com uma expressão sombria.

- Não me digas que é verdade?

O interpelado aproximou-se do banco, no qual pousou um pé, para se apoiar ao joelho. Adquirira a alcunha de "o Falcão" na escola, sobretudo em virtude do rosto - de nariz aquilino, lábios finos e olhos minúsculos, como os de uma ave de rapina.

- Sim, é verdade - confirmou, numa inflexão monótona. - O Jimmy Lanso foi liquidado esta noite na agência funerária do primo.

Vinnie ergueu-se do banco num salto e desferiu um murro num dos cacifos metálicos. O som ecoou no pequeno vestiário como um trovão e todos estremeceram, excepto Franco.

- Gaita! - vociferou Vinnie, começando a mover-se em vaivém, enquanto Freddie Capuso se desviava. - Que vou dizer à minha mulher? Irra, que lhe vou dizer? Prometi-lhe que resolveria o assunto.

- Diga-lhe que cometeu um erro ao confiar no Cerino - sugeriu Franco.

- E não é mentira. - Vinnie estacou, rangendo os dentes. - Julgava-o um homem civilizado. Reconheço que me enganei redondamente.

- E há mais - volveu Franco. - Os homens dele entretiveram-se a liquidar toda a espécie de gente, além do Jimmy Lanso. A noite passada, abateram duas pessoas em Kew Gardens e outras tantas em Forest Hills.

- Eu vi no jornal - declarou Vinnie, impressionado. - Foi obra de capangas do Cerino?

- Exacto.

- Mas para quê? Não reconheci nenhum dos nomes.

- Ninguém sabe - disse Franco, com um encolher de ombros.

- Tem de haver um motivo.

- Com certeza. Só que não sei qual é.

- Havemos de o descobrir! Uma coisa é ter de suportar o Cerino e os seus sicários como rivais de negócios, e outra, muito diferente, vê-lo estragar a vida a toda a gente.

- Há polícias aos montes em Queens - admitiu.

- É uma coisa que dispensávamos de boa vontade. Com as autoridades em pé de guerra, vamos ter de suspender uma parte significativa das nossas operações. Quero que averigúes as verdadeiras intenções do tipo. Lembra-te de que confio em ti.

- Farei o que puder - prometeu.

- Está a comer pouco - observou Jordan. Laurie ergueu os olhos do prato. Encontravam-se num restaurante chamado Palio e, embora a comida fosse italiana, a decoração constituía uma mescla repousante de oriental e moderno. Na sua frente achava-se uma dose de delicioso risotto de marisco e o copo continha um tonificante Pinot Grigio. No entanto, ele tinha razão: quase não tocara na comida.

- Não lhe agrada? - insistiu Jordan. - Pareceu-me ouvir-lhe dizer que apreciava a cozinha italiana.

A logística funcionara muito melhor naquela noite. Como prometera, telefonara pouco antes das nove, quando se preparava para abandonar o hospital, a informá-la que Thomas ia a caminho a fim de a recolher, enquanto ele fazia escala pelo apartamento para mudar de roupa. Quando o motorista e Laurie chegaram à Trump Tower, aguardava no passeio, a poucos minutos de distância da Rua 51 Oeste.

- E aprecio - asseverou Laurie - mas tive um dia esgotante, e o cansaço tirou-me o apetite.

- Eu estava a evitar referir-me às actividades do dia. Como lhe disse pelo telefone, quase não tive tempo para respirar. E a sua revelação acerca de Marsha Schulman não contribuiu para me aliviar o espírito. Eu irritado, quase indignado pelo seu silêncio, e afinal o seu corpo flutuava no rio... e decapitado! Santo Deus!...

Jordan não pôde continuar. Ocultou o rosto nas mãos e abanou a cabeça com lentidão. Laurie estendeu a mão e pousou-lha no braço. Até àquele momento, sentira-se incapaz de semelhante demonstração de afecto, mas agora, perante a reacção à morte da secretária que lhe observava, dir-se-ia mais humano.

Por fim, ele recompôs-se e prosseguiu:

- Mas há mais. Perdi uma doente, hoje. Uma das razões que me levaram a enveredar pela oftalmologia foi a convicção de que passaria momentos maus a lutar contra a morte e persisti em me especializar em cirurgia. A paciente em causa chamava-se Mary Oconnor.

- Lamento e compreendo como se deve sentir. Lidar com doentes moribundos também foi difícil para mim. Creio que contribuiu para que optasse pela patologia legal. Assim, eles já estão mortos.

- A Mary era uma mulher maravilhosa e uma doente extremamente compreensiva. Já lhe tinha operado um dos olhos e preparava-me para fazer o mesmo ao outro, esta tarde. Apesar de ser uma pessoa saudável, sem problemas cardíacos conhecidos, encontraram-na morta na cama. Morreu a ver televisão.

- Deve ter sido uma experiência terrível para você. No entanto, recorde-se de que surgem sempre problemas ocultos no paciente que menos se esperam. Suponho que a senhora Oconnor será autopsiada amanhã, e não me esquecerei de lhe comunicar a causa que a vitimou. às vezes, se se conhece a patologia, torna-se mais fácil lidar com a morte.

- Agradeço a atenção.

- Julgo que o meu dia não foi tão mau como o seu - admitiu Laurie.

- Em todo o caso, começo a compreender o que Cassandra sentiu quando Apolo providenciou para que não o incomodasse.

Descreveu as séries de overdoses e a sua convicção de que surgiriam mais casos se não fossem difundidos avisos apropriados. Salientou igualmente que se sentira frustrada por não conseguir convencer o chefe a informar o público e, mais tarde, por ser igualmente mal sucedida nas tentativas junto da polícia.

- Sim, é deprimente - reconheceu ele. - Houve, porém, uma coisa boa no meu dia - acrescentou, mudando de assunto. - Procedi a várias intervenções, o que me satisfez a mim e ao meu contabilista. Nas duas últimas semanas, o seu número duplicou.

- Ainda bem - proferiu Laurie, não podendo deixar de notar a propensão do interlocutor para focar a conversa nos seus êxitos.

- Espero que a tendência se mantenha, pois há sempre flutuações.

Pouco depois, o empregado apareceu com uma variedade de sobremesas numa mesinha de rodas, e Jordan escolheu bolo de chocolate, enquanto ela preferia morangos. Em seguida, ele pediu um espresso e Laurie um descafeinado. Apercebendo-se de que ela olhava o relógio dissimuladamente, Jordan observou:

- Sim, está a fazer-se tarde. Vou deixá-la em casa dentro de meia hora, se pudermos estabelecer o mesmo acordo de ontem.

Voltemos a jantar juntos, amanhã.

- Outra vez? Acabará por se fartar da minha presença.

- Que ideia! Muito pelo contrário. Oxalá amanhã não esteja com tanta pressa, além de que é sexta-feira, início do fim-de-semana. De caminho, talvez me possa fornecer informações sobre Mary Oconnor. Por favor, Laurie...

Ela tinha dificuldade em acreditar que a convidavam para jantar pela terceira noite consecutiva. Na verdade, era a todos os títulos lisonjeiro.

- Muito bem - acabou por aceder. - Fica combinado.

- óptimo. Quer apresentar alguma sugestão quanto ao local?

- As suas escolhas têm sido excelentes. Pode continuar.

- Entendido. Marca-se de novo para as nove?

Concordou com uma inclinação de cabeça. Enquanto fitava o companheiro nos olhos, recordava-se da descrição negativa dele efectuada por Lou. Por um instante fugaz, apeteceu-lhe perguntar como decorrera o encontro com o tenente-detective, mas não o fez. Havia coisas que era preferível não abordar.

 

QUINTA-FEIRA, 23 HORAS E 50 MINUTOS DA TARDE

MANHATTAN

- Podia ser pior - admitiu Tony quando abandonava, com Angelo, uma pizzaria aberta toda a noite na Rua 42, perto de Times Square. - Confesso que fiquei surpreendido, porque isto parecia um antro de morte lenta.

O outro conservou-se silencioso, concentrado no trabalho seguinte. Quando chegaram ao parque de estacionamento subterrâneo, inclinou a cabeça na direcção do seu carro. O proprietário, Lenny Helman, pagava protecção a Cerino e, como costumava ser Angelo quem procedia à cobrança, guardava-lhe a viatura gratuitamente.

Antes de subir para o assento do condutor, procedeu a um exame exterior minucioso, para se certificar de que não havia qualquer risco na pintura. Em seguida, instalou-se ao volante e Tony sentou-se à sua direita.

- Que se segue? - perguntou este último, colocando-se de lado para poder olhar directamente o companheiro, cujo rosto rígido lembrava o de uma múmia num museu.

- Vamos passar à lista de "procura".

- Porreiro - declarou, entusiasmado. - Começava a cansar-me da outra. Para onde vamos?

- Para a oitenta e seis - informou Angelo. - Perto do Museu Metropolitano.

- Uma boa vizinhança. Aposto que haverá recordações ao nosso dispor.

- É uma perspectiva que me preocupa. Um bairro selecto significa alarmes sofisticados.

- Ora, tu neutraliza-los com uma perna às costas.

- As coisas têm estado a correr bem de mais. Confesso que começo a ficar inquieto.

- Estás sempre com macaquinhos no sótão - comentou Tony, com uma gargalhada. - Corre tudo bem porque sabemos o que fazemos. E quanto mais o fazemos, mais eficientes nos tornamos. Assim em tudo.

- Mas o imprevisto acontece - argumentou Angelo. - Por muito bem que uma pessoa prepare o golpe, tem de contar com ele. E estar em condições de o enfrentar.

- Isso é pessimismo e nada mais.

Imersos no vaivém de palavras, não se deram conta de um Cadillac preto que os seguia a uma distância prudente, após dois carros intermédios. Ao volante, Franco Ponti deleitava-se, descontraído, com uma gravação das árias mais populares da ópera Aída. Graças à informação de um contacto na Times Square, vigiava os movimentos de Angelo e Tony desde a visita destes à pizzaria.

- Quem vai ser desta vez? - perguntou Tony.

- A mulher.

- A quem compete? - acrescentou, embora soubesse que a execução devia estar a cargo de Angelo, acalentava a esperança de que se tivesse esquecido.

- Estou-me nas tintas. Podes tratar tu do assunto, se quiseres. Eu encarrego-me de vigiar o homem.

Angelo passou várias vezes diante do prédio de tijolo castanho antes de estacionar. Tinha cinco pisos, com uma porta dupla no topo de meia dúzia de degraus de granito. A seguir a uma pequena plataforma, ao nível do chão, havia outra.

- O caminho mais conveniente deve ser pela entrada de serviço

- conjecturou Angelo. - Ficamos um pouco protegidos pela plataforma. Já vi que existe um alarme, mas se é do tipo que penso, não constituirá problema.

- Quem manda és tu - declarou Tony, puxando da automática e aplicando-lhe o silenciador.

Desceram do carro, estacionado a cerca de um quarteirão de distância, e voltaram para trás a pé. Angelo fazia-se acompanhar de um pequeno saco de lona cheio de ferramentas e indicou ao companheiro que aguardasse no passeio e o prevenisse, se se aproximasse alguém, após o que desceu os degraus de acesso à entrada de serviço.

Tony mantinha os olhos bem abertos, porém a rua achava-se deserta. Não se apercebeu, todavia, de Franco Ponti, estacionado algumas portas abaixo, onde bloqueava a entrada de um prédio.

- Pronto - murmurou Angelo, das sombras da entrada de serviço.

- Podes vir.

Penetraram numa longa passagem e avançaram rapidamente para a escada. Havia um elevador, mas sabiam que a prudência não aconselhava a sua utilização. Transpondo dois degraus de cada vez, subiram ao rés-do-chão e escutaram. à parte o tiquetaque de um grande relógio de parede, na escuridão, a casa estava imersa em silêncio.

- Consegues imaginar-te a viver num lugar destes? - sussurrou Tony. - É um autêntico palácio.

- Está mas é calado - retorquiu Angelo.

Continuaram a subir, enveredando por uma larga escada circular que contornava parcialmente um lustre, ao qual Tony atribuiu o mínimo de um metro e oitenta de diâmetro. No primeiro andar, deparou-se-lhes uma série de salas, uma biblioteca e um escritório. No segundo, encontrava-se aquilo que procuravam: o quarto principal.

Angelo colocou-se a um lado das portas duplas, que decerto conduziam à suite, enquanto Tony o imitava no outro, ambos de armas em punho, com os silenciadores aplicados.

O primeiro fez rodar o puxador devagar e impeliu a porta. O quarto era mais espaçoso do que qualquer dos que vira até então. Junto da parede oposta - que lhe parecia a uma distância enorme - encontrava-se uma larga cama, com dossel.

Transpôs a entrada e fez sinal a Tony para que o seguisse, encaminhando-se para a direita da cama, onde o homem dormia, ao mesmo tempo que o "miúdo" se postava do lado esquerdo.

Após breve pausa, Angelo inclinou a cabeça e ambos apontaram as automáticas.

A de Tony explodiu com o habitual estampido abafado e o corpo da mulher estremeceu. O homem devia ter o sono leve, porque se soergueu imediatamente, de olhos arregalados. No entanto, Angelo abateu-o antes que pudesse pronunciar uma única palavra, e tombou sobre o corpo da mulher.

- Com mil diabos! - bradou o gangster.

- Que foi? - quis saber Tony.

Servindo-se da ponta do silenciador, o outro inclinou-se para a frente e separou os dedos do moribundo, entre os quais se encontrava um pequeno dispositivo de plástico com um botão.

- Ele tinha o raio de um alarme.

- Que significa?

- Que temos de nos raspar sem demora.

Movendo-se com a rapidez possível na semiescuridão, desceram a escada e, no rés-do-chão, esbarraram praticamente numa governanta que vinha a subir.

A mulher soltou um grito, deu meia volta e desceu com o maior desembaraço que as circunstâncias lhe permitiam. Tony premiu o gatilho da sua Bantam, mas a uma distância superior a dois metros a pontaria não merecia confiança. A bala errou o alvo e estilhaçou um largo espelho de moldura dourada.

- Temos de a liquidar! - vociferou Angelo, consciente de que ela os vira com clareza.

Precipitou-se para os degraus descendentes e, em baixo, escorregou no solo de mármore cheio de fragmentos do espelho.

Fez uma pausa para recuperar o equilíbrio e seguiu velozmente pelo corredor do rés-do-chão, em direcção às traseiras.

No entanto, antes que conseguisse alcançá-la, ela transpôs a porta, que fechou atrás de si, com escassos segundos de avanço sobre o perseguidor. Quando se acharam no pátio das traseiras, mais parecido com um parque público, os dois homens detiveram-se, perplexos. Havia uma piscina rectangular no centro, à direita um belveder coberto por plantas trepadeiras e, à esquerda, um frondoso carvalho com um baloiço suspenso de um ramo nodoso.

- Onde se meteu ela? - murmurou Tony.

- Se eu soubesse, achas que estava aqui a olhar para ontem? - grunhiu Angelo. - Vou procurar neste lado e tu naquele - indicou, apontando para ambos os espaços que flanqueavam a piscina.

Após alguns minutos de pesquisas, Tony exclamou:

- Está ali! - E estendeu o braço na direcção da casa. Angelo fez fogo duas vezes consecutivas. O primeiro projéctil destruiu a vidraça de uma janela, mas o segundo atingiu a fugitiva.

- Acertaste-lhe! - gritou Tony.

- Safemo-nos daqui - ordenou o companheiro, que começara a ouvir sirenas à distância.

Como não queriam correr o risco de sair pela porta principal, enveredaram por uma longa passagem interior, que quase contornava o edifício, e emergiram finalmente na Rua 85.

- Agora, caminhemos com confiança e descontracção - recomendou Angelo, dirigindo-se para o carro.

As sirenas soavam cada vez mais próximas, e eles viram três carros-patrulhas com as luzes de emergência a piscar repetidamente, que não tardaram a bloquear a área da rua em que se situava a casa que acabavam de abandonar.

Angelo abriu as portas do veículo com o telecomando e entraram rapidamente.

- Foi um suspense altamente emocionante! - exultou Tony, quando se encontravam a meia dúzia de quarteirões do local. - O golpe mais limpo a que jamais assisti.

- Foi um desastre - contrapôs Angelo, enrugando a fronte.

- Como assim? Safámo-nos sem problemas. E liquidaste a governanta, que nos podia identificar.

- Mas não a examinámos. Quem me garante que não me limitei a atingi-la superficialmente? Devíamos ter-nos certificado. Não esqueças que olhou directamente para ambos.

- Caiu imediatamente - argumentou Tony. - Estou convencido de que a liquidaste.

- Era a isto que me referia antes. O imprevisto acontece. Quem podia adivinhar que o tipo dormia com um botão de alarme de emergência na mão? - Ao mesmo tempo que falava, Angelo congratulava-se por ter de segurar o volante, pois as mãos tremiam.

- Sim, mas conseguimos eliminar esse imprevisto. Quem se segue?

- Bem, não sei. Talvez fosse preferível ficarmos hoje por aqui.

- Porquê? A noite ainda é uma criança. Ao menos, mais um. Não podemos desprezar dinheiro ganho tão facilmente.

Reflectiu por um momento. O instinto segredava-lhe que deviam pôr termo à actividade daquela noite, mas o "miúdo" tinha razão. Não podiam voltar as costas ao dinheiro. De resto, eles assemelhavam-se a cavalos de corrida. Se caíam, deviam levantar-se imediatamente e retomar a prova. De contrário, arriscar-se-iam a não voltarem a pisar um hipódromo.

- Seja - capitulou finalmente. - Mas só mais um.

- Assim é que gosto de te ouvir falar. Onde?

- Na Village. Outra residência.

Ficaram silenciosos por alguns minutos, enquanto rolavam pela Rua 97, transversal ao Central Park, e depois pela Henry Hudson Parkway. Cada um estava se recompondo de extremos opostos no espectro emocional: Angelo do medo e da ansiedade e Tony de puro êxtasi.

Nenum dos dois, reparou no cadillac preto, que os seguia à distância.

- É algures no lado esquerdo - revelou Angelo, quando desembocaram na Rua Bleecker. - Ali - acrescentou, apontando pouco depois para uma casa de três pisos, com uma aldraba em forma de cabeça de leão na porta principal. - Desta vez, é o homem. O mesmo plano de há pouco. Tu mata-lo e eu vigio a mulher.

- Fixe - assentiu Tony, entusiasmado por poder voltar a actuar.

Desta vez, Angelo arrumou o carro mais longe do que o habitual, após o que caminharam em silêncio, apenas cortado pelo ocasional embater de ferramentas dentro do saco de lona.

Cruzaram-se com alguns transeuntes, porque as ruas não estavam desertas como as anteriores. Com efeito, durante a noite havia sempre mais movimento na Village do que no East Side.

O alarme da casa visada constituiu um brinquedo de criança para Angelo e, transcorridos poucos minutos, subiam em bicos dos pés os degraus rangentes de uma escada.

Afortunadamente para eles, havia uma lâmpada de fraca intensidade no patamar do primeiro piso. A primeira porta no corredor era de um quarto de hóspedes vago e, como havia apenas outra, Angelo depreendeu que era a dos aposentos principais.

Voltaram a colocar-se em cada lado, as automáticas à altura das cabeças, apontadas para cima, e ele fez rodar o puxador e impeliu a porta.

Apenas conseguira avançar um passo quando o cão se lhe lançou em cima, na penumbra. As patas atingiram-no no peito e fizeram-no cambalear através da porta em direcção à parede oposta do corredor. Disposto a prosseguir a obra tão auspiciosamente iniciada, o animal cravou-lhe no braço os dentes, que perfuraram o tecido, assim como a camisa e um pouco da pele, reduzindo-o quase à impotência ditada pelo terror.

Tony actuou com prontidão. Deu um passo para o lado e puxou o gatilho, atingindo o cão à queima-roupa no peito. Embora quase pudesse jurar que não errara o alvo, viu, com assombro, que o animal nem estremecia. Com uma rosnadela, arrancou um pedaço de tecido do casaco de Angelo e cuspiu-o, após o que reatou a investida.

Tony aguardou um momento, para lhe visar a cabeça sem margem para dúvidas, e fez fogo novamente. O animal caiu pesadamente, com um som surdo.

Os gritos agudos de uma mulher provocaram novos calafrios ao longo da medula espinhal de Angelo. Ela acordara no instante em que o cão era abatido e achava-sejunto dos pés da cama, o rosto alterado pelo terror.

Tony voltou a apontar a automática e soou o habitual estampido abafado. A mulher levou a mão ao peito, retirou-a e olhou o sangue com uma expressão de incredulidade, como se lhe custasse a crer que fora atingida por um tiro.

Tony avançou para a entrada do quarto e atingiu-a à queima-roupa no centro da fronte. à semelhança do cão, ela caiu instantaneamente no chão.

Angelo fez menção de dizer algo, mas naquele momento registou-se uma espécie de urro no rés-do-chão, e o marido da vítima começou a subir a escada velozmente, acompanhado de uma caçadeira de dois canos, que segurava à altura do peito com ambas as mãos.

Pressentindo o que ia acontecer, Angelo lançou-se ao chão uma fracção de segundo antes de a espingarda fazer fogo com uma explosão quase ensurdecedora. A carga concentrada de bagos de chumbo abriu um buraco de trinta centímetros na parede à qual ele se apoiara.

O próprio Tony teve de agir por reflexos e saltar para o lado.

O segundo disparo da caçadeira fez a carga penetrar pela porta aberta do quarto e pulverizar a vidraça de uma das janelas.

Sem se levantar do chão, Angelo premiu duas vezes o gatilho da Walther em rápida sucessão e atingiu o homem no peito e no queixo. O impacto das balas interrompeu-lhe o movimento para a frente. Em seguida, como em câmara lenta, cambaleou para trás, resvalou na escada e foi pousar ruidosamente no patamar do rés-do-chão.

Tony correu para lá, a fim de embeber um projéctil adicional na cabeça dele, enquanto Angelo se erguia e recolhia o saco de lona. Tremia irresistivelmente, pois nunca estivera tão perto da morte. A seguir, desceu a escada com pouca firmeza e disse ao companheiro que tinham de se afastar dali o mais depressa possível.

Uma vez na porta da rua, espreitou cautelosamente, e o que viu não lhe agradou. Formara-se um grupo de curiosos, que fixavam os olhos na fachada. Decerto tinham ouvido o estilhaçar de vidros, senão também os estampidos da caçadeira.

- Pelas traseiras! - indicou com prontidão, por reconhecer que não se podiam expor a uma confrontação com a pequena multidão.

Transpuseram com facilidade a vedação do pátio das traseiras, atravessaram outro de menores dimensões e desembocaram numa rua estreita. Angelo congratulava-se por ter deixado o carro longe e alcançaram-no sem problemas.

- Que raio de cão era aquele? - perguntou Tony quando cruzavam a Sexta Avenida.

- Um doberman, salvo erro. Confesso que me pregou um susto de todo o tamanho.

- E a mim. Para não falar da caçadeira. Safa, que escapámos por pouco!

- Pouquíssimo. Devíamo-nos ter ficado pelo primeiro trabalho. - Angelo abanou a cabeça, exasperado. - Talvez esteja a ficar velho para estas andanças.

- Qual história! És o maior.

- Dantes também pensava assim.

Por força do hábito, dirigiu o olhar para o espelho retrovisor, mas não descortinou nada de preocupante. É claro que procurava viaturas da polícia e não o sedan de Franco Ponti, que os seguia a uma distância prudente.

 

SEXTA-FEIRA, 6HORAS E 45MINUTOS, DE MANHÃ

MANHATTAN

Em circunstâncias normais, Laurie estaria encantada por ter dormido de um único sono. Embora não lhe tivessem telefonado do Departamento de Patologia para comunicar a aparição de novos casos de overdose para a sua série, perguntava-se se isso significaria que não houvera nenhum ou, como a intuição lhe sugeria, que acontecera o contrário e não a tinham informado. Por conseguinte, vestiu-se o mais rapidamente possível e nem sequer perdeu tempo com o café, devido à ansiedade para chegar ao local de trabalho e inteirar-se.

Assim que entrou, apercebeu-se de que acontecera algo de anormal, pois havia mais uma vez um grupo de repórteres na área de recepção. Sentiu o nó no estômago apertar-se ao abarcar o eventual significado da sua presença.

Encaminhou-se directamente para o Departamento de Identificação e tomou um café antes de mais nada. Como de costume, Vinnie concentrava-se na secção desportiva do jornal.

Segundo parecia, ainda não chegara qualquer dos outros patologistas, e Laurie pegou na folha em cima da secretária, a fim de verificar que casos estavam escalados para esse dia.

à medida que os olhos percorriam a lista, observou quatro overdoses de drogas. Duas destinavam-se a Riva e as restantes a George Fontworth, que prestava serviço no departamento há quatro anos. Consultou os processos da primeira e leu o relatório da investigadora. A avaliar pelos endereços em Harlem, devia tratar-se de vulgares mortes em casas de crac, pelo que pousou a pasta de cartolina, aliviada. Em seguida, debruçou-se sobre os dois casos destinados a George. Segundo o relatório da investigadora relativo ao primeiro, o falecido chamava-se Wendell Morrison, de trinta e seis anos, médico!

Foi com mão trémula que abriu a pasta referente ao último:

Julia Myerholtz, de vinte e nove anos, historiadora!

Expeliu o ar dos pulmões subitamente, sem se ter dado conta de que o retivera. A sua intuição fora correcta: tinham-se registado mais dois casos de overdose de cocaína com elementos similares aos anteriores. Experimentava um misto de emoções, que incluíam a irritação por não a terem prevenido, como pedira, e a confirmação dos seus receios. Ao mesmo tempo, deplorava que houvessem ocorrido mais duas mortes potencialmente evitáveis.

Dirigiu-se imediatamente ao departamento dos investigadores de patologia e entrou no gabinete de Bart Arnold, sem aguardar resposta à breve pancada na porta.

- Porque não me informaram? Recomendei-te expressamente que o fizesses. Queria estar ao corrente de novos casos de overdose de cocaína que obedecessem a determinados parâmetros. Esta noite, registaram-se dois. Porque não me telefonaram?

- Recebi instruções para não o fazer.

- Porquê?

- Não explicaram o motivo. Transmiti-as aos médicos de serviço quando chegaram.

- De quem foi a recomendação?

- Do Calvin Washington. Lamento, Laurie. Eu próprio te teria informado, mas já não estavas no hospital.

Ela rodou nos calcanhares e retirou-se com brusquidão, mais indignada do que melindrada. Os seus piores receios tinham-se confirmado: não fora mero esquecimento. Existia um esforço deliberado para a afastar do caminho. à entrada do gabinete de ligação com a polícia, avistou Lou Soldano, que lhe perguntou:

- Pode conceder-me um momento?

Olhou-o com intensidade. Dar-se-ia o caso de o homem nunca dormir? Tinha mais uma vez o aspecto de que passara a noite em claro - o rosto por barbear, olhos congestionados e uma madeixa colada à fronte.

- Estou muito ocupada, tenente.

- Apenas um minuto. Por favor.

- Muito bem - acedeu. - De que se trata?

- Esta noite, dispus de algum tempo para reflectir. Quero pedir-lhe desculpa pela minha atitude de ontem. Exagerei a veemência com que defendi o meu ponto de vista.

A última coisa que esperava dele era um pedido de desculpas e agora que o apresentava sentia-se gratificada.

- Há uma espécie de explicação - prosseguiu Lou - devo referir que o comissário não pára de me pressionar por causa da série de homicídios perpetrados por gangsters. Acha que, como me dedico à investigação do crime organizado, tenho de os esclarecer.

Ainda por cima, não é um homem paciente.

- Acho que estamos ambos sobre forte tensão - admitiu ela. - Mas aceito as suas desculpas.

- Obrigado. Em todo o caso, é menos um peso nos meus ombros.

- Que o traz por cá, logo de manhã?

- Não sabe dos homicídios?

- Quais? Há homicídios todos os dias.

- Como estes, não. Mais proezas de gangsters. Trabalho de profissionais. Dois casais, aqui, em Manhattan.

- A flutuar no rio?

- Não. Liquidados em suas próprias casas. Ambos abastados, em particular um deles. E esse com ligações ao mundo da política.

- Mau... - murmurou Laurie. - Mais pressão.

- Não tenha a menor dúvida. O mayor está desvairado. Já apostrofou o comissário, e adivinhe quem este decidiu crucificar. Um seu humilde servidor...

- Tem alguma ideia?

- Quem me dera poder dizer que sim. Está a passar-se algo de importante, mas nem em sonhos vislumbro o que possa ser. Na noite de anteontem, houve três assassínios similares em Queens. Agora, estes dois em Manhattan. E parece não existir qualquer relação com o crime organizado. No entanto, o modus operandi dos criminosos indica com clareza que se trata do estilo gangland.

- Nesse caso, veio por causa das autópsias?

- Exacto. Passo quase tanto tempo aqui como na Central da Polícia, pelo que talvez me dêem trabalho quando for despedido.

- Quem se ocupa delas?

- Os doutores Southgate e Besserman. Que tal são?

- Excelentes e muito experientes.

- Estava esperançado em que fosse você. Começava a convencer-me de que trabalhávamos bem juntos.

- Com o Southgate e o Besserman, encontram-se em boas mãos.

- Comunicar-lhe-ei o que apurarmos - prometeu Lou, fazendo girar o chapéu nas mãos.

- Agradeço-lhe.

De súbito, acudiu a Laurie a mesma sensação dos últimos dias.

O detective parecia penosamente embaraçado, como se desejasse dizer alguma coisa e não conseguisse.

- Enfim... ainda bem que a encontrei - articulou ele, evitando olhá-la. - Até breve. - Deu meia volta e começou a afastar-se.

Durante uns segundos, ela acompanhou-o com a vista, e impressionou-a mais uma vez a solidão que ele exalava. Ao mesmo tempo, perguntava-se se tencionara - e não se atrevera - a convidá-la de novo para jantarem juntos.

Por um momento, esqueceu-se do rumo que tinha em mente quando se haviam encontrado. Contudo, a indignação reapareceu ao recordar a tentativa de Calvin Washington para a afastar da sua série de overdoses. Assim, com renovada deliberação, encaminhou-se para o gabinete dele e bateu à porta, aberta, entrando sem lhe dar tempo a reagir.

O médico achava-se sentado atrás de uma montanha de expediente para despachar e não pareceu particularmente encantado quando a viu.

- Esta noite, houve mais duas overdoses similares às que me interessam - começou Laurie.

- Não me está a transmitir novidade nenhuma.

- Apesar de o dia de hoje se destinar ao expediente, ficava-lhe grata se me atribuísse as autópsias. Algo me diz que estes casos se relacionam com os anteriores. Assim, talvez possa descobrir algum elemento confirmativo.

- Já discutimos isso pelo telefone. Repito que se está a envolver emocionalmente no assunto, o que lhe dificulta a objectividade.

- Por favor, doutor Washington - articulou, constrangida por se ver obrigada a implorar.

- Não, com mil diabos! - explodiu ele, desferindo uma palmada no tampo da secretária que fez voar vários papéis. - O George Fontworth encarrega-se das overdoses e você vai concentrar-se no expediente, que, aliás, está atrasado. Ponto final em tudo isto.

Laurie inclinou a cabeça em silêncio e abandonou o gabinete.

Se não estivesse tão revoltada, talvez não conseguisse conter as lágrimas. Seguiu para os domínios de Bingham, bateu à porta, e desta vez aguardou que ele a mandasse entrar, o que se verificou com prontidão, apesar de estar ao telefone.

Ela supôs que falava com alguém do Município, pois as palavras que pronunciava recordavam-lhe as suas conversas com a mãe. As expressões "sim", "com certeza" e "sem dúvida" brotavam-lhe dos lábios com insistência.

Quando finalmente pousou o auscultador e se concentrou em Laurie, esta pressentiu que estava exasperado, estado de espírito pouco propício para a sua visita. Não obstante, resolveu abrir as hostilidades.

- Estou a ser deliberadamente impedida de continuar envolvida nos casos de overdose - declarou, procurando exprimir-se com firmeza; porém, a voz tremia de emoção.

- O doutor Washington não me deixa efectuar as autópsias relevantes dos corpos chegados hoje. Não creio que o meu afastamento sirva os melhores interesses do departamento.

Bingham pousou as mãos no rosto e esfregou os olhos. Quando as retirou, estes achavam-se congestionados.

- Enfrentamos forte pressão acerca do modo como nos ocupámos de um caso de homicídio no Central Park, regista-se uma vaga de crimes praticados por profissionais que excedem o âmbito das mortes violentas ocorridas normalmente em Nova iorque e, como se tudo isso não bastasse, você vem enxofrar-me com mais problemas. Custa-me a crer. Palavra de honra que me parece impossível.

- Quero que me autorizem a autopsiar esses corpos - persistiu ela, com firmeza. - Os casos já são pelo menos catorze. Alguém precisa de analisar o cenário global, e julgo-me a pessoa indicada para o fazer. Estou convencida de que nos encontramos na iminência de uma calamidade generalizada. Se existe uma substância contaminadora, como penso, temos de emitir um aviso ao público!

Bingham assumiu uma expressão de incredulidade. Por fim, ergueu os olhos para o tecto, agitou as mãos para os lados e grunhiu para consigo:

- Faz parte dos quadros há cerca de cinco meses e já pretende ensinar-me a dirigir o departamento! - Sacudiu a cabeça e cravou o olhar nela. - O doutor Washington é um administrador competente. Mais do que competente: excelente. O que ele diz deve cumprir-se. Está a ouvir? Fim da audiência. - E baixou os olhos para a papelada na sua frente.

Laurie seguiu directamente para o laboratório, convencida de que se devia manter em movimento. Se se detivesse a ponderar as duas últimas entrevistas, poderia cometer algum acto irreflectido de que mais tarde se arrependeria.

Procurava Peter Letterman, mas quem encontrou foi John DeVries.

- Obrigada por ter intercedido por mimjunto do chefe - proferiu ela, com sarcasmo.

- Eu preveni-a de que não gostava que me moessem a paciência.

- Não era essa a minha intenção. Limitei-me a pedir-lhe que cumprisse o seu dever. Descobriu uma substância contaminadora?

- Não - replicou ele, secamente, e voltou-lhe as costas.

Laurie meneou a cabeça e admitiu a possibilidade de ter os dias contados no Departamento de Patologia Legal do Hospital Geral de Nova Iorque.

Foi encontrar Peter a um canto do laboratório, debruçado sobre o maior e mais recente dos cromatógrafos de gás.

- Não pude deixar de os ouvir - murmurou ele. - Acho que devia evitar o John.

- Não o procurei.

- Também não descobri qualquer substância contaminadora, mas examinei amostras neste cromatógrafo de gás, que contém aquilo a que chamam "ratoeira". Se queremos apurar alguma coisa, este é o aparelho indicado para o conseguir.

- Oxalá que sim, porque os casos já vão em catorze.

- Detectei algo, no entanto. Como sabe, a cocaína hidrolisa-se perante a benzoilecgonina, o éster met7ico de ecgonina e a ecgonina.

- Sim. Continue.

- Cada porção de cocaína produzida contém uma percentagem única desses hidrolisados. Por conseguinte, analisando as concentrações, pode conjecturar-se razoavelmente a origem das amostras.

E?

- Todas as que recuperei das seringas têm as mesmas percentagens - salientou ele. - O que significa que toda a cocaína proveio da mesma porção.

- Ou, por outras palavras, da mesma fonte?

- Exacto.

- É o que eu suspeitava. Congratulo-me por vê-lo documentado.

- Se encontrar alguma substância contaminadora com esta máquina, previno-a.

- Obrigada, Peter. Se dispusesse de provas da sua presença, creio que o doutor Bingham emitiria uma declaração nesse sentido.

No entanto, a caminho do seu gabinete, Laurie perguntava-se se podia ter a certeza de alguma coisa.

- Não me pegues no braço! - bradou Cerino, quando Angelo tentava guiá-lo através da entrada do consultório de Jordan Scheffield. - Vejo melhor do que pensas.

Na verdade, fazia-se acompanhar da bengala, mas não a utilizava. Tony, que os seguia, fechou a porta atrás de si.

Uma das enfermeiras do oftalmologista escoltou-os ao longo do corredor e indicou uma poltrona confortável a Cerino. Quando este comparecia à consulta, não utilizava a entrada habitual e evitava a sala de espera, em obediência aos preceitos destinados aos doentes VIP de Jordan.

- Meu Deus! - exclamou ela, ao reparar no extenso arranhão no rosto de Tony, que se prolongava desde junto da orelha esquerda ao canto da boca. - Como fez isso?

- Foi um gato - informou ele, levando instintivamente a mão ao rosto.

- Espero que lhe tenham administrado uma injecção antitetânica. Quer que o desinfectemos?

- Não merece a pena.

- Se mudar de ideias, previna-me - advertiu a mulher, encaminhando-se para a porta.

- Dêem-me lume - pediu Cerino, quando ficaram sós. Angelo apressou-se a acender-lhe o cigarro e puxar de um para si, enquanto Tony se sentava numa cadeira próxima. Ele e o companheiro estavam exaustos, pois tinham sido arrancados da cama, em virtude da inesperada visita de Cerino ao médico. Na verdade, ainda se ressentiam dos efeitos das experiências resultantes das duas últimas "execuções", em particular Angelo.

- Eis-nos na Disneylândia, mais uma vez - disse Cerino.

A sala parou de girar e a parede ergueu-se, para revelar Jordan, de pé junto da secretária, com a ficha do doente na mão. Assim que avançou um passo, detectou o cheiro de tabaco e advertiu:

- Lamento, mas não é permitido fumar aqui.

Angelo olhou em volta com nervosismo, em busca de um lugar para depositar o cigarro aceso, porém Cerino segurou-lhe o braço e fez sinal para que não se movesse.

- Se quisermos fumar, fumamos - proclamou. - Como referi pelo telefone, doutor, estou um pouco desapontado consigo e não me importo de o repetir.

- Mas há que ter em conta os instrumentos. O fumo é-lhes prejudicial.

- Que se lixem os instrumentos. Concentremo-nos antes no facto de andar a badalar a minha condição por toda a cidade.

- Que história é essa?

Jordan pressentira que o paciente estava enfurecido com alguma coisa desde que lhe telefonara, mas supusera que se devia à expectativa da aparição de córnea apropriada para o transplante. Por conseguinte, as palavras que acabava de ouvir surpreendiam-no profundamente.

- Refiro-me concretamente a um detective chamado Lou Soldano e a uma tipa que dá pelo nome de Laurie Montgomery e é médica. O doutor falou com ela, que por sua vez conversou com o detective, o que o levou a procurar-me. E deixe-me dizer-lhe uma coisa. Fui aos arames, porque pretendia que os pormenores do meu pequeno acidente se mantivessem secretos. Para conveniência dos meus negócios, entenda-se.

- Nós, médicos, por vezes trocamos impressões sobre determinados casos - esclareceu Jordan, subitamente cordial.

- Não brinque comigo, por favor. Sei que essa sua colega trabalha na Patologia Legal e ocupa-se, portanto, de autópsias. E, se porventura ainda não reparou, continuo bem vivo. Ora, se vocês trocassem impressões em mera obediência a um hábito, ela não daria com a língua nos dentes a um detective da Brigada de Homicídios. Tem de procurar uma explicação mais convincente, doutor.

Este último tentava dissimular o embaraço, pois não lhe ocorria qualquer justificação plausível.

- O fulcro da questão é que não respeitou a confidencialidade

- prosseguiu Cerino. - Na minha maneira de ver as coisas, eu podia recorrer a um advogado para lhe mover um processo por desrespeito pela ética profissional. Engano-me?

- Não sei se... - Jordan não conseguiu completar a frase, instantaneamente consciente da sua vulnerabilidade legal.

- No entanto, não quero ouvir um arrazoado de termos técnicos para refutar a minha acusação. Talvez até nem procure o advogado. Sabe porquê? Porque tenho vários amigos que saem mais baratos que os advogados e são muitíssimo mais eficientes. Podem considerar-se, até certo ponto, especialistas como o doutor, sobretudo de rótulas, ossos das pernas, articulações, etc. Imagine as repercussões na sua prática se ficasse com a mão esquerda esmagada, por mera casualidade, na porta do carro.

- Senhor Cerino... - começou em tom conciliador, porém, o outro interrompeu-o.

- Creio que fui suficientemente claro. Espero que não volte a badalar. Posso contar com isso?

- Com certeza - assentiu, esforçando-se por ignorar o tremor das mãos.

- Não é minha intenção enervá-lo, doutor. Na realidade, interessa-me que esteja em plena forma. Fiquei particularmente contente, esta manhã, quando a sua funcionária me telefonou para que viesse submeter-me à operação.

- Também estou satisfeito com isso - asseverou, tentando recuperar parte da atitude profissional. - Teve sorte em a sua oportunidade surgir tão cedo. O período de espera foi muito mais breve do que usualmente.

- Mas não o suficiente para mim - replicou Cerino. - Na minha actividade, uma pessoa precisa de dispor de todos os sentidos, e, às vezes, não chegam. Há vários tubarões que adorariam enviar-me para a prateleira, ou pior. Por conseguinte, vamos a isto.

- Muito bem - acedeu Jordan, com nervosismo.

Indicou ao paciente que se instalasse na cadeira apropriada e principiou a examinar-lhe os olhos, ao mesmo tempo que notava uma intensa baforada a alho.

- Ouvi dizer que, nos últimos tempos, tem efectuado mais intervenções do que habitualmente - observou Cerino.

- É verdade.

- Suponho que isso lhe aumenta substancialmente os rendimentos.

- Também é exacto - confirmou Jordan, concentrado na córnea gravemente afectada.

- Talvez consiga arranjar-lhe um número apreciável de clientes. Está interessado?

- Decerto.

- Primeiro, conserte-me a vista. Se o fizer, continuaremos amigos. Depois, talvez consigamos estabelecer um acordo de negócios.

O médico não sentia entusiasmo especial ante a perspectiva de manter relações de amizade com aquele indivíduo mas desejava muito menos tê-lo como inimigo. Na realidade, suspeitava de que os inimigos de Paul Cerino não morriam de velhos. Assim, achava-se disposto a desenvolver os maiores esforços para o comprazer. E já tomara uma decisão nesse sentido: não lhe enviaria a conta.

Laurie pousou a esferográfica e reclinou-se na cadeira atrás da secretária. Empenhava-se em concentrar-se no expediente, mas os progressos eram escassos. O pensamento persistia em se fixar nas overdoses. Tinha dificuldade em admitir que não se encontrava na "cova" a autopsiar os dois corpos chegados durante a noite.

Resistiu à tentação de ir lá, a fim de assistir ao trabalho de Fontworth, pois Calvin Washington explodiria de indignação ao vê-la.

Consultou o relógio e decidiu inteirar-se se o colega descobrira alguma coisa de interessante. Acabava de se levantar quando Lou entrou.

- Ia sair?

- Talvez seja preferível ficar - redarguiu ela, com um suspiro de resignação.

- Acha?

Calculou que ele não fazia a menor ideia daquilo a que se referia e disse:

- Contos largos. Como vão as coisas do seu lado? Parece exausto.

- E estou - concedeu Lou. - Levantei-me às três da madrugada e ainda não parei. E assistir a autópsias com alguém que não seja você implica mesmo trabalhar.

- Já terminaram?

- Isso, sim! Eu é que terminei. Não aguentava mais. Creio que os seus dois colegas levarão todo o dia a examinar os quatro casos e o cão.

- Qual cão?

- Numa das casas dos homicídios, o assassino abateu um cão, além do homem e da mulher. Mas estava a brincar. Eles não o autopsiam.

- Encontraram algo de aproveitável?

- Não sei. O calibre das balas parece similar aos dos casos de Queens, mas teremos de aguardar o exame da Balística para formar um juízo definitivo. E, como deve calcular, a Balística tem o serviço atrasado várias semanas.

- Então, nenhuma ideia por enquanto?

- Receio bem que não. Os homicídios de Queens sugeriam uma ligação com o mundo dos restaurantes, mas os de agora não têm nada de comum com essa actividade. Uma das vítimas era um importante banqueiro que contribuiu pesadamente para a campanha do mayor, e a outra um executivo de uma conhecida empresa leiloeira.

- Continua a não existir qualquer associação visível com o crime organizado?

- Nenhuma, mas não desistimos de investigar essa possibilidade. Não subsiste a menor dúvida de que se trata de obra de assassinos profissionais. Tenho tantos homens envolvidos nas diligências que luto com falta de pessoal para as outras ocorrências. O único elemento positivo, até agora, é a governanta de uma das residências. Se sobreviver, disporemos da primeira testemunha.

- Gostava que surgisse também um indício na minha série. Se, ao menos, um dos overdoses não tivesse morrido... Quem me dera dispor de pessoal para descobrir a fonte da cocaína que está a matar tanta gente.

- Pensa que tem toda a mesma origem?

- Tenho mesmo a certeza - asseverou Laurie, e explicou como Peter o determinara cientificamente.

Naquele momento, o beeper do detective emitiu um som intermitente e ele verificou o número.

- Estávamos a falar de pessoal e eis um dos meus rapazes.

Posso servir-me do telefone? - Ela assentiu com uma inclinação de cabeça e Lou levantou o auscultador.

- Que se passa, Norman? - perguntou, depois de obtida a ligação. Ao mesmo tempo, Laurie congratulava-se por ele não ter desligado o pequeno altifalante para que escutasse a conversa.

- Provavelmente, não é nada de importante - disse Norman. - Em todo o caso, julguei conveniente informá-lo. Descobri um factor comum nestes três casos: um médico.

- Sim? - Lou fez rolar os olhos, pois não se tratava do género de indício que procurava. - Duvido que nos sirva de muito.

- De acordo, mas foi a única singularidade que surgiu.

Recorda-se de me dizer que os casos do Steven Vivonetto e Janice Singleton eram terminais?

- Perfeitamente. Algum dos Kaufman estava em idênticas condições?

- Não, mas Henriette Kaufman recebia tratamento do mesmo médico daqueles dois. Bem sei que o Steven e a Janice consultavam uma dezena de especialistas, mas havia um que se ocupava dos três.

- Especialista de quê?

- Oftalmologia. Chama-se Jordan Scheffield.

Desta vez, pestanejou de espanto e incredulidade, e notou que Laurie não se mostrava menos perplexa.

- Como o descobriste? - acabou Lou por perguntar.

- Por mero acaso - explicou Norman. - Quando me falou da situação terminal do Steven e da Janice, investiguei a condição de saúde de todas as vítimas. No entanto, só me apercebi da relação quando regressei à Central e examinei todo o material que tem chegado às nossas mãos. Parece-lhe importante?

- Não sei - admitiu o tenente. - Estranho, porém, é de certeza.

- Quer que explore a pista?

- Não sei como é possível, por enquanto. Vou estudar o assunto e depois previno-te. Entretanto, continuem com as investigações.

Cortou a ligação e voltou-se para Laurie.

- O mundo é na verdade pequeno. Isso, ou o seu amiguinho desfruta de grande procura.

- Já lhe disse que ele não é o meu amiguinho - retorquiu ela, irritada.

- Desculpe, tinha-me esquecido. O seu conhecido que goza da sua amizade. Está melhor assim?

- O Jordan disse-me que, no dia do desaparecimento de Marsha Schulman, o consultório tinha sido assaltado e o ficheiro vasculhado.

- Roubaram alguma coisa?

- Não. Aparentemente, fotocopiaram algo. Pedi-lhe que verificasse a ficha de Paul Cerino, e era de facto uma das que revelavam ter sido mexidas.

- Essa agora! - Lou manteve-se silencioso por um momento, imerso em cogitações. - Não faz muito sentido - reconheceu, por fim. - A família Lucia teria sido envolvida porque o Cerino visitava o consultório do Scheffield? Procuro situar o rival do Paul, Vinnie Dominick, no cenário, mas não consigo.

- Podíamos inteirar-nos de pormenores sobre as vítimas de homicídio tipo gangland que entraram hoje. Averiguar se alguma era doente do Jordan, por exemplo.

- É uma óptima ideia.

Cinco minutos mais tarde, devidamente equipados, entravam na sala de autópsias. Por sorte, Calvin Washington não se achava presente...

Southgate e Besserman ocupavam-se naquele momento dos seus segundos casos. Aquele estava prestes a terminar, pois os Kaufman não ofereciam problemas especiais, por apresentarem apenas ferimentos, embora mortais, na cabeça. Os de Besserman revestiam-se de maior dificuldade. Primeiro, autopsiara Dwight Sorenson, que tinha três trajectórias de bala para examinar. O trabalho fora laborioso e demorado, pelo que acabava de iniciar o exame do corpo de Amy Sorenson quando Lou e Laurie entraram.

Autorizados pelos respectivos médicos, os recém-chegados leram as pastas que acompanhavam cada caso. Infelizmente, o historial médico era pouco extenso.

- Tive uma ideia melhor - declarou finalmente Laurie. E dirigiu-se para o telefone, a fim de contactar com Cheryl Myers. - Queria pedir-lhe um favor.

- De que se trata? - quis saber a outra, com afabilidade.

- Diz respeito aos quatro homicídios em Manhattan, que deram entrada hoje. Gostava que me dissesse se algum deles consultava um oftalmologista chamado Jordan Schef field.

- Fixe. Telefono-lhe dentro de minutos. Onde está?

- Cá em baixo, na "cova".

Laurie informou Lou de que não tardariam a ser elucidados e voltou a aproximar-se de George Fontworth, que concluía o seu segundo caso de overdose: Julia Myerholtz.

- O Calvin proibiu-me de falar contigo, hoje - advertiu ele. - Não o quero contrariar.

- Apenas uma informação. A cocaína foi inoculada por via intravenosa?

- Foi - assentiu, com um olhar em redor, como se receasse que o doutor Washington lhe caísse fisicamente em cima.

- à parte os sinais de overdose e toxicidade, foram autópsias normais?

- Em absoluto, mas não me compliques a vida.

- Uma última pergunta. Houve alguma surpresa?

- Apenas uma, embora já a conheças. Só que eu não sabia que constituía um preceito-padrão, neste tipo de caso, pois penso que devia ter sido abordado na reunião de quinta-feira.

- A que te referes?

- Não te faças de novas. O Calvin disse que foi obra tua.

- Cada vez percebo menos - confessou Laurie.

- Oh, diabo! Ele vem aí! Afasta-te.

Ela voltou-se a tempo de ver a figura possante do doutor Washington transpor a porta de vaivém. O corpo era inconfundível, apesar da bata e da máscara. Laurie tratou de se afastar da mesa de George e encaminhou-se discretamente para o local onde estava afixada a escala das autópsias, disposta a munir-se de um pretexto para justificar a sua presença, se fosse interrogada. Procurou apressadamente o nome de Mary Oconnor e viu que o corpo fora atribuído a Paul Plodgett, o qual se encontrava na mesa mais distante, junto da parede. Quando se aproximou, o colega, em resposta à sua pergunta, revelou:

- Encontrei muita coisa.

Laurie olhou por cima do ombro e certificou-se de que o doutor Washington se dirigira para a mesa de Besserman, pelo que insistiu:

- Qual é a tua impressão sobre a causa da morte?

- Indiscutivelmente cardiovascular - afirmou o interpelado, baixando os olhos para o corpo de Mary Oconnor, cujo rosto e cabeça apresentavam uma tonalidade violácea, quase roxa.

- Muita patologia?

- Bastante. Para já, rigidez moderada das coronárias. A válvula mitral também estava em péssimas condições e o coração igualmente. Por conseguinte, existem muitos candidatos à causa determinante.

- Está quase roxa.

- É verdade. Alguma congestão na cabeça e nos pulmões. Deve ter havido um grande esforço terminal. Não queria morrer, pobre senhora. Parece que até mordeu o lábio.

- Sim? - estranhou Laurie. - Tratar-se-ia de algum tipo de ataque?

- É possível. No entanto, dá mais a impressão de uma escoriação, como se pretendesse chupá-lo.

- Vejamos. - Aguardou que ele puxasse o lábio superior de Mary Oconnor para trás. - Tens razão. E quanto à língua?

- Normal. É por isso que duvido que houvesse um ataque. Talvez tivesse muitas dores terminais. Bem, existe a possibilidade de, ao microscópio, o coração revelar algo de patognomónico, mas aposto que este caso pertence à categoria de um coup de grâce desconhecido. Pelo menos, não especificamente. Em termos gerais, sei que foi cardiovascular.

Assentiu com uma inclinação de cabeça, mas conservou o olhar fixo no corpo sem vida. Alguma coisa indefinida a preocupava e activava uma recordação que não lograva identificar.

- E estas petéquias nas faces? - acabou por perguntar.

- Adaptam-se à teoria da afecção cardíaca terminal.

- Em tão grande quantidade?

- Como referi, deve ter havido um esforço profundo durante a agonia.

- Importas-te de me comunicar o que descobrires ao microscópio? Ela era paciente de um amigo meu, que decerto se interessará pelo que apurares.

- Combinado - prometeu Paul.

Laurie viu que Calvin Washington se transferira da mesa de Besserman para a de Fontworth, enquanto Lou se encontrava nas proximidades da de Southgate, e encaminhou-se para este último.

- Desculpe a ausência.

- Não tem importância - disse o detective. - Começo a adaptar-me ao ambiente.

- Telefone para si, Laurie! - gritou uma voz ao fundo da sala.

Ela acudiu, contrariada por a sua presença ter sido tão intempestivamente divulgada. Sem se atrever a olhar na direcção do doutor Washington, pegou no auscultador e identificou-se.

- Quem me dera que todos os pedidos fossem tão fáceis de satisfazer - declarou Cheryl. - Liguei ao consultório do doutor Scheffield, e a recepcionista não podia ter sido mais atenciosa. Henriette Kaufman e Dwight Sorenson eram seus doentes. A informação serve-lhe para alguma coisa?

- Não sei bem. Em todo o caso, é interessante. Obrigada.

Laurie procurou Lou e revelou-lhe o que acabava de escutar.

- Ena! - articulou ele a meia voz. - Temos de começar a pôr de parte a hipótese de mera coincidência. Pelo menos, tudo aponta nesse sentido.

- As possibilidades de tal acontecer por simples casualidade são extremamente reduzidas.

- Mas qual é o seu significado? Afigura-se-me uma maneira muito esquisita de chegar até Cerino, se porventura se trata disso. Na verdade, não faz sentido.

- Concordo.

- De uma maneira ou de outra, tenho de investigar o assunto.

Depois digo qualquer coisa.

O detective afastou-se apressadamente e ela aventurou mais uma olhadela na direcção de Calvin Washington, porém este continuava a conversar com George, sem parecer minimamente preocupado com a presença de Laurie.

De novo no seu gabinete, ela marcou o número de Jordan, o qual, como de costume, se encontrava na sala de operações.

Depois de deixar recado para que lhe telefonasse quando estivesse disponível, tentou concentrar-se no expediente, sem melhor resultado que anteriormente. Tinha o espírito em efervescência devido à precariedade do lugar que ocupava, depois de se antagonizar com tantas pessoas por causa da sua série de casos de overdose, e à estranha coincidência de Jordan contar na sua clientela com cinco pessoas que haviam sido vítimas de assassínio por métodos de gangland.

As cogitações acabaram por se desviar para Mary Oconnor, e recordou-se subitamente daquilo que lhe escapara antes. As escoriações nos lábios, as petéquias rosadas e a profunda descoloração arroxeada sugeriam sufocação pela compressão do peito e obstrução da boca.

Com essa ideia em mente, ligou à sala de autópsias e perguntou por Paul.

- Lembrei-me de uma coisa - começou Laurie, quando ouviu a voz dele do outro lado do fio.

- Dispara.

- Que achas da sufocação como possível causa da morte de Mary Oconnor? - Fez uma pausa, mas obteve o silêncio como única reacção. - Então?

- A vítima estava internada num quarto particular da ala Goldblatt do Geral de Manhattan.

- Tentemos esquecer-nos de onde se encontrava. Concentremo-nos apenas nos factos.

- Mas a nossa qualidade de patologistas legais obriga-nos a tomar o cenário em consideração. De contrário, erraríamos o diagnóstico de montes de casos.

- Eu sei, mas por vezes o cenário pode ser enganador.

Pensemos, por exemplo, nos homicídios montados para parecerem suicídios.

- Isso é diferente.

- Será, mesmo? De qualquer modo, eu pretendia apenas que considerasses a possibilidade de sufocação. Lembra-te da escoriação no lábio, das petéquias e do volume do congestionamento no rosto e na cabeça.

Laurie acabava de pousar o auscultador quando a campainha retiniu. Desta vez era Jordan.

- Ainda bem que a apanho aí - disse ele. - Estou a meio de uma operação e só disponho de um momento. Aguardam-me ainda várias intervenções, entre as quais, imagine, a do Paul Cerino.

- Sim?...

- Preciso de lhe pedir um favor. Com a aparição inesperada do Cerino, vou despachar-me muito tarde. Importa-se de protelarmos os nossos planos? Para amanhã, se não vir inconveniente.

- Acho bem - acedeu Laurie. - Mas queria falar-lhe de uma ou duas coisas.

- Então tem de ser depressa.

- Em primeiro lugar, de Mary Oconnor. Tinha problemas cardíacos.

- É uma informação reconfortante.

- Sabe alguma coisa da vida pessoal dela?

- Pouco.

- Imagine que foi assassinada.

- Assassinada! - bradou Jordan. - Fala a sério?

- Não sei... - admitiu ela. - Mas se me disser que possuía vinte milhões de dólares e se preparava para eliminar o malvado do neto do testamento, a hipótese do homicídio figurará no meu raciocínio.

- Possuía alguns recursos, mas não era o que se pode dizer abastada. E devo recordar-lhe que devia animar-me por causa da sua morte em vez de me aumentar o peso na consciência.

- O médico que a autopsiou está convencido de que sucumbiu a paragem cardíaca.

- Assim já é melhor. De onde surgiu essa suspeita de homicídio?

- Da minha fértil imaginação - confessou. - E de algumas informações surpreendentes. Está sentado?

- Deixe-se de enigmas, por favor. Já devia encontrar-me na sala de operações, há dez minutos.

- Os nomes de Henriette Kaufman e Dwight Sorenson significam alguma coisa para si?

- São doentes meus. Porquê?

- Eram doentes seus. Foram assassinados esta noite, juntamente com as esposas. As suas autópsias estão a desenrolar-se neste momento.

- Meu Deus! - exclamou ele.

- E não é tudo. Na noite anterior, três outros doentes seus tiveram o mesmo fim. Todos eles mortos a tiro de um modo que sugere participação do crime organizado. Pelo menos, foi o que me disseram.

- É incrível... E o Paul Cerino veio ao meu consultório ameaçar-me, esta manhã. Isto parece cada vez mais um pesadelo.

- Que género de ameaças lhe fez?

- Prefiro não tocar no assunto. No entanto, está fulo comigo e, custa-me dizê-lo, por sua causa, Laurie.

- Por minha causa?

- Não tencionava tocar no assunto até que nos encontrássemos, mas já que aconteceu...

- O quê?

- Porque revelou ao detective Soldano que eu tratava o Cerino?

- Não pensei que fosse segredo. Aliás, você mencionou-o durante o jantar em casa de meus pais.

- De facto tem razão - concordou Jordan. - Mas porque o foi dizer nada menos que a um detective de homicídios?

- Apareceu para assistir a umas autópsias e o nome do Cerino veio à baila em relação com determinados assassínios. Uns corpos encontrados a flutuar no East River, vítimas de execuções do tipo do gangland.

- Jesus...

- Lamento ser a mensageira de tantas notícias más.

- A culpa não é sua. De resto, mais vale que eu saiba. Vou operar o Cerino esta noite, felizmente. Do modo como as coisas estão, quanto mais depressa me desembaraçar dele melhor.

- Tenha cautela - recomendou Laurie. - Anda algo de estranho no ar, embora não faça uma ideia exacta de que se trata.

Jordan não necessitava que Laurie lhe recordasse que devia ser cauteloso, sobretudo depois das ameaças de Cerino de lhe esmagar as mãos. E agora a notícia de que cinco dos seus doentes tinham sido assassinados e a outra morrera, possivelmente, também por intervenção alheia! De facto, era de mais.

Preocupado com o conjunto estranho, porém aterrador, de circunstâncias, levantou-se da cadeira na antecâmara da sala de operações do Geral de Manhattan e entrou nesta última, perguntando a si próprio se devia contactar com a polícia e revelar-lhe a ameaça do gangster. No entanto, que fariam as autoridades? Provavelmente, nada. E Cerino? Naturalmente, o que ameaçara fazer. Jordan estremeceu de pavor ao encarar semelhante perspectiva, e lamentou o dia em que o homem se lembrara de recorrer aos seus +préstimos profissionais.

Enquanto se preparava para reatar os trabalhos na mesa de operações, ponderava o possível motivo pelo qual cinco ou mesmo seis dos seus doentes tinham sido assassinados. E no caso de Marsha? Todavia, por mais tratos à imaginação que desse, não lhe acudia a mais remota explicação.

A cirurgia constituía, para ele, uma experiência catártica, e agora sentia-se aliviado por mergulhar na absorvente tarefa de um transplante de córnea. Durante as horas seguintes, esqueceu por completo as ameaças, crimes de gangsters, Marsha Schulman e homicídios misteriosos.

- Excelente trabalho - comentou um médico residente mais jovem quando Jordan terminou.

- Obrigado. - Ele exibiu um largo sorriso e voltou-se para a enfermeira. - Se precisarem de mim, estou na sala de cirurgia.

O caso seguinte é um dos meus VIP.

- Perfeitamente, alteza - gracejou ela.

Jordan congratulava-se por Cerino figurar a seguir na lista, e só deplorava não haver já terminado com ele. Embora as complicações fossem raras, às vezes aconteciam, e não pôde evitar um arrepio de alarme ao pensar nas consequências de uma infecção pós-operatória - não para o paciente, mas para si próprio.

Dominado pelas reflexões tenebrosas, alheara-se do que o rodeava, e quando se afundou numa das poltronas da sala e fechou os olhos, não se apercebera do homem sentado na sua frente.

- Boa tarde, doutor!

Descerrou as pálpebras e viu-se perante Lou Soldano, que prosseguiu:

- A sua secretária disse-me que se encontrava aqui, depois de eu lhe assegurar que necessitava de falar urgentemente consigo. Espero que não veja inconveniente.

O oftalmologista empertigou-se na poltrona e os olhos percorreram as cadeiras em volta, com nervosismo. Sabia que Cerino não devia estar longe, provavelmente na sala de preparação, naquele momento. E isso significava que o indivíduo alto, de expressão sinistra, também se achava algures nas proximidades. O gangster insistira nisso e a administração concordara. Jordan não encarava com satisfação a ideia de o sicário de Cerino o ver a conversar com o detective, pois dificilmente encontraria uma explicação plausível.

- Surgiram determinados factos - volveu Lou - e vim na esperança de que me forneça alguns esclarecimentos.

- Tenho outra operação dentro de momentos - disse Jordan, fazendo menção de se levantar.

- Sente-se, doutor. Apenas pretendo uns breves minutos do seu tempo. Temos estado intrigados com cinco homicídios recentes que supomos serem da autoria da mesma pessoa ou pessoas, e o único elo comum que detectámos consiste no facto de fazerem parte da sua clientela. Como compreenderá, desejamos perguntar-lhe se faz alguma ideia da razão por que foram perpetrados.

- Fui informado há apenas uma hora - respondeu, com nervosismo. - Desconheço por completo o motivo por que ocorreram. Em todo o caso, posso garantir-lhe que não têm nada a ver comigo.

- Podemos, pois, depreender que todos pagaram as suas contas?

- Dadas as circunstâncias, tenente, não creio que o seu comentário seja de muito bom gosto.

- Desculpe o meu humor negro, mas tomando em consideração o que o seu sofisticado consultório deve ter custado e sabendo que possui uma limusina...

- Não sou obrigado a escutá-lo - cortou, voltando a fazer menção de se levantar.

- De facto, não é... agora. Mas como terá de conversar comigo, mais cedo ou mais tarde, pode ao menos tentar colaborar. De resto, achamo-nos perante uma situação grave.

- Que pretende de mim? - perguntou, tornando a reclinar-se na poltrona. - Não tenho nada a acrescentar ao que já revelei.

Aliás, suponho que sabe mais do que eu.

- Fale-me de Martha Goldburg, Steven Vivonetto, Janice Singleton, Henriette Kaufman e Dwight Sorenson.

- Eram meus doentes.

- E a natureza dos seus diagnósticos? - inquiriu Lou puxando da agenda e lápis.

- Não a posso divulgar. Trata-se de informação confidencial. E não cite como precedente a circunstância de ter mencionado o Paul Cerino à doutora Montgomery. Cometi um erro ao fazê-lo.

- Posso obter esses elementos das respectivas famílias. Porque não me facilita a vida?

- Elas que o informem, se decidirem que o devem fazer. Eu é que não posso.

- Está bem. Nesse caso, falemos de generalidades. O diagnóstico era o mesmo para todos?

- Não.

- Não? - ecoou, visivelmente decepcionado. - Tem a certeza?

- Sem dúvida.

Baixou os olhos para a agenda aberta e reflectiu por um momento. Por fim, ergueu-os e perguntou:

- Havia algum factor comum entre eles? Por exemplo, costumavam comparecer à consulta no mesmo dia ou algo do género?

- Não.

- As suas fichas estariam arquivadas juntas por algum motivo?

- Não, arrumo-as por ordem alfabética.

- Algum deles teria vindo no mesmo dia que o Cerino?

- Isso é que já não sei - declarou Jordan. - Mas posso assegurar-lhe uma coisa. Quando ele vinha à consulta, não via outros doentes, ou vice-versa.

- De certeza?

- Absoluta.

Soou o besouro do intercomunicador e uma das enfermeiras anunciou que o doente se encontrava preparado para a intervenção. Jordan levantou-se e Lou imitou-o.

- Tenho de ir operar - disse o primeiro.

- Muito bem. Voltaremos a conversar.

O detective pôs o chapéu e saiu para o corredor. Jordan seguiu-o até à porta e aguardou que desaparecesse no elevador.

Em seguida, assomou à sala de espera e verificou que o guarda-costas de Cerino não se achava visível.

Enquanto se encaminhava para a sala de operações, sentia-se aliviado por Lou se ter retirado. A breve conversa deixara-o mais perturbado que nunca, e não se tratava apenas de medo de que o sicário do gangster os visse juntos. Com efeito, Jordan pressentia que não desfrutava da simpatia do detective, o que poderia agravar a situação. De qualquer modo, receava ter de lhe suportar a presença várias vezes no futuro.

Entrou no vestiário dos homens e passou água fria pelo rosto.

Necessitava de se acalmar antes de se dirigir à sala de operações para se ocupar de Cerino. Mas não era fácil. Os acontecimentos precipitavam-se e ele tinha o espírito imerso num turbilhão.

Um dos pensamentos que o preocupavam particularmente consistia na compreensão de que havia uma maneira de os cinco homicídios estarem relacionados, inclusive o de Mary Oconnor. Tivera plena consciência disso durante a conversa com Lou Soldano, embora se abstivesse de o mencionar. E o facto de ter decidido assumir essa atitude deixava-o confuso. Não sabia com exactidão se o silêncio se devia a não estar seguro do seu significado ou ao terror que a situação lhe infundia. Acima de tudo, queria evitar que o seu nome viesse a figurar ao lado dos das vítimas.

Reconheceu que a atitude mais conveniente residia em não fazer nada. Quando atravessava o corredor que antecedia a sala de operações, apercebeu-se de outra coisa e deteve-se.

Não obstante todos aqueles problemas, efectuava mais intervenções cirúrgicas que nunca. Tinha de haver outro aspecto da invulgar situação. Recomeçou a caminhar, ao mesmo tempo que tudo começava a fazer uma espécie de sentido grotesco no seu espírito. Na verdade, devia assumir uma posição de absoluto alheamento. De qualquer modo, era a mais segura, além de que a cirurgia sempre constituíra a sua actividade preferida.

Impeliu a porta de vaivém da sala de operações e aproximou-se de Cerino, já sob o efeito parcial da anestesia.

- Vamos despachar isto num instante - proferiu com voz firme.

- Tente descontrair-se.

Deu-lhe uma leve palmada no ombro e olhou em volta. De repente, estremeceu. Um dos enfermeiros não pertencia aos quadros do hospital. Apesar da máscara, Jordan identificou-o pela expressão do olhar. Era o guarda-costas de Cerino.

 

SEXTA-FEIRA, 16 HORAS E 30 MINUTOS DA TARDE

MANHATTAN

Laurie hesitava em tornar a visitar o laboratório, pois não queria arriscar-se a novo encontro com John DeVries. Mas, no estado em que se encontrava, tentar concentrar-se no expediente afigurava-se-lhe ridículo. Por fim, decidiu procurar Peter, que decerto já disporia de mais elementos.

- Bem sei que prometeu informar-me se descobrisse alguma coisa, mas a impaciência obrigou-me a visitá-lo - explicou quando o localizou.

- Ainda não detectei qualquer substância contaminadora - informou ele, - mas fiz uma descoberta que talvez seja significativa. A cocaína é metabolizada no corpo numa variedade de maneiras diferentes que produzem uma diversidade de metabolias, uma das quais se chama benzoilecgonina. Quando determinei a percentagem de cocaína e benzoilecgonina no sangue, urina e cérebro das vítimas, pude calcular o lapso de tempo decorrido entre a injecção e a morte.

- E que apurou?

- É Um valor muito consistente. Cerca de uma hora em treze dos catorze casos. Num, porém, a situação era diferente. O corpo de Robert Evans não apresentava praticamente nenhuma benzoilecgonina.

- E daí? - inquiriu Laurie.

- Daí que ele morreu muito rapidamente. Porventura em vinte minutos. Ou mesmo menos, não o posso dizer ao certo.

- Qual lhe parece ser o significado?

- Não faço a menor ideia - disse Peter. - A detective médica é a doutora.

Acho que podia ter sofrido uma arritmia cardíaca instantânea.

- É possível - admitiu, com um encolher de ombros. - Ainda não desesperei de descobrir uma substância contaminadora. Mas se tal acontecer, será em nanomoles.

Ela abandonou o Departamento de Toxicologia desencorajada. Mau grado todos os seus esforços, não se considerava muito mais adiantada na investigação do que quando principiara. Disposta a falar de novo com George Fontworth, para que lhe explicasse o que o surpreendera nas autópsias, desceu à "cova" e espreitou na sala. Não o viu, mas avistou Vinnie e perguntou-lhe pelo colega.

- Saiu há coisa de meia hora.

Laurie dirigiu-se para o gabinete de George, que se encontrava deserto. Como se situava contíguo ao laboratório de serologia, entrou, a fim de se inteirar se alguém o vira.

- Tinha consulta no dentista - informou um dos técnicos. - Disse que voltaria, mas não sabia quando.

Ela retirou-se e, de novo diante do gabinete de George, cuja porta se encontrava aberta, viu em cima da secretária as pastas de cartolina referentes às duas overdoses que autopsiara naquela tarde.

Olhou por cima do ombro para se certificar de que não havia ninguém nas proximidades, entrou e abriu a de cima. Era a de Julia Myerholtz, o caso de que George se ocupava quando ela se aproximara da mesa. Leu as anotações rapidamente e compreendeu com prontidão ao que ele se referia com o termo "surpresa". Era óbvio que reagira do mesmo modo que a própria Laurie perante Duncan Andrews.

Consultou o relatório da investigadora médica e verificou que a vítima fora identificada no local da morte pelo "namorado, Robert Nussman".

Arrancou uma folha do bloco-notas de George e escreveu o endereço de Julia. Preparava-se para abrir a segunda pasta, quando ouviu passos no corredor. Apressou-se a guardar a folha de papel e a abandonar o gabinete, inclinando a cabeça e exibindo um sorriso de embaraço ao cruzar-se com um técnico de histologia.

Embora Bingham a tivesse admoestado por visitar o apartamento de Duncan Andrews, decidiu deslocar-se ao domicílio de Julia Myerholtz. Assim, meteu-se num táxi e tentou convencer-se de que a atitude do chefe se baseava, em particular, no facto de o caso ter ressonâncias políticas. Ele não objectara ao exame no local da morte... ou, pelo menos, Laurie tentava apegar-se a essa ideia.

O apartamento situava-se num elegante edifício na Rua 75 Este, e ela ficou surpreendida quando viu o porteiro aproximar-se para abrir a porta do táxi. Não havia dúvida de que o ambiente circundante se distinguia profundamente do da área em que vivia, em Kips Bay.

- Em que lhe posso ser útil, minha senhora? - perguntou o homem, com nítido sotaque irlandês.

Laurie mostrou-lhe o crachá de patologísta legal e pediu para falar com o administrador do prédio, o qual se apresentou no átrio passados escassos minutos.

- Gostava de visitar o apartamento de Julia Myerholtz - informou ela. - Mas primeiro queria certificar-me de que não se encontra lá ninguém.

O administrador interrogou o porteiro, que declarou:

- Está desocupado. Os pais dela só chegam amanhã. - Em seguida, retirou a chave de um pequeno armário na parede e entregou-a a Laurie.

- Devolva-a ao Patrick, quando descer - recomendou o administrador.

- Preferia que o senhor me acompanhasse.

- Tenho uma fuga de água quente na cave - explicou ele. - Mas é fácil de localizar. Apartamento 9-C, à direita do elevador.

Este deteve-se no nono andar e ela tomou a precaução de tocar à campainha antes de introduzir a chave na fechadura. Desta vez, não queria esbarrar em qualquer ente amado da vítima.

A primeira coisa que lhe despertou a atenção foram fragmentos de uma estatueta espalhados no vestíbulo, pertencentes a uma réplica de David, de Miguel Ângelo, a avaliar pelos de maiores dimensões.

O confortável apartamento achava-se decorado no estilo rústico, e, sem estar segura do que procurava, Laurie começou a percorrer os aposentos.

Na cozinha, abriu o Frigorífico, que se apresentava bem abastecido de iogurtes, vegetais e leite.

Na sala de estar, em cima da mesinha de café, viam-se numerosos livros de arte e revistas: American Health, Runner’s World, Triathlon e Prevention. Nas estantes das paredes, encontravam-se mais volumes de arte e havia uma pequena placa na prateleira da chaminé. Ela aproximou-se e leu: «Central Park Triathlon, Terceiro Lugar, 30-34».

No quarto, deparou-se-lhe uma bicicleta de exercício e numerosas fotografias emolduradas, a maioria das quais representava uma mulher atraente e um jovem bem-parecido em vários cenários ao ar livre: de bicicleta, num ambiente montanhoso, acampados num bosque ou a terminar uma corrida.

Enquanto regressava à sala, tentava imaginar a razão pela qual uma atleta amadora como Julia Myerholtz se dedicara aparentemente ao consumo de drogas. Na realidade, não fazia sentido. Os alimentos dietéticos, as revistas e provas de outras actividades não se harmonizavam com a cocaína.

Viu as cogitações interrompidas subitamente pelo ruído de uma chave introduzida na fechadura. Por um segundo de pânico absoluto, considerou a possibilidade de se ocultar, como se receasse ver surgir Bingham.

Quando a porta se abriu, o jovem que entrou pareceu tão surpreendido como ela por encontrar alguém no apartamento. Laurie reconheceu-o imediatamente de muitas das fotografias no quarto.

- Sou a doutora Laurie Montgomery, do Departamento de Patologia Legal.

Robert Nussman.

- Não quero incomodar - acrescentou ela, começando a encaminhar-se para a porta, desejosa de que Bingham não viesse a tomar conhecimento da sua visita. - Posso voltar noutra ocasião.

- Não, deixe-se estar. - Ele ergueu a mão para reforçar as suas palavras. - Aliás, não me vou demorar.

- Uma tragédia horrível.

- A quem o diz - murmurou, mostrando-se repentinamente amargurado.

- Sabia que ela se drogava?

- Não se drogava - retorquiu, com uma ponta de irritação. - Sei o que vocês, médicos, dizem, mas garanto-lhe que a Julia nunca o fez. Não se adaptava à sua maneira de ser. Tinha uma preocupação constante pela saúde. Habituou-me a fazer corridas e outros desportos. - Sorriu ante a recordação. - Nem sequer tomava bebidas alcoólicas.

- Desculpe se me precipitei.

- Era muito voluntariosa e generosa. Preocupava-se com os outros e envolvia-se em quase todas as campanhas de auxílio humanitário.

- Sei que foi você que a identificou aqui.

- É verdade - conseguiu articular, num tom embargado pela emoção.

- Deve ter sido uma experiência muito dolorosa. - Imagens do que acontecera ao irmão acudiram involuntariamente ao espírito de Laurie. - Onde estava ela quando entrou? - Fez uma pausa, enquanto ele apontava na direcção do quarto. - Ainda vivia? - perguntou com suavidade.

- De certo modo. Respirava com grande dificuldade. Administrei-lhe a respiração boca a boca até à chegada da ambulância.

- Como aconteceu ter vindo?

- Ela tinha-me telefonado, para que a procurasse.

- Era costume fazê-lo?

Robert enrugou a fronte para reflectir, algo perplexo.

Não sei... Acho que sim.

Pareceu-lhe que se exprimia no tom normal? Conseguiu determinar se já estava drogada?

- Creio que não tinha tomado nada, pois não deixava transparecer euforia. No entanto, também não me pareceu normal. Um pouco tensa. Realmente, eu receava que me quisesse fazer alguma revelação, como se tencionasse romper comigo, por exemplo.

- Havia algum problema no vosso relacionamento?

- Não, corria tudo pelo melhor. Isto é, eu estava convencido disso. Só que tinha a voz um pouco esquisita.

- E a respeito da estatueta quebrada, no vestíbulo?

- Reparei nela mal entrei, ontem à noite. Era o seu objecto preferido. Tinha cerca de duzentos anos de existência. Quando a vi destruída, pressenti que se passava algo de anormal.

Laurie contemplou os fragmentos e perguntou-se se Julia poderia tê-la quebrado durante um acesso apopléctico. Nessa eventualidade, como se transferira do vestíbulo para o quarto?

- Agradeço-lhe a colaboração - declarou por fim. - Espero que as minhas perguntas não o tenham angustiado muito.

- Não - asseverou ele. - Mas porque estão com todo este trabalho? Eu pensava que os patologistas legais se dedicavam exclusivamente às autópsias e só se envolviam nos homicídios, como o Quincy.

- Esforçamo-nos também por acudir aos vivos. É a nossa missão. Interessa-nos sobretudo prevenir tragédias futuras, como a da Julia. Quanto mais soubermos sobre o assunto, maiores as possibilidades de sermos bem sucedidos.

- Se tiver mais alguma pergunta para me fazer, telefone-me - indicou, puxando de um cartão de visita. - Assim como se descobrirem que não foi vitimada por drogas. Seria importante para mim, porque... - Desta vez, não conseguiu dominar as lágrimas.

Laurie entregou-lhe igualmente o seu e advertiu:

- Se lhe ocorrer mais alguma coisa que eu deva saber, contacte comigo. Pode ligar a qualquer hora, para o local de trabalho ou para o meu apartamento.

Quando descia no elevador, recordou-se de Sara Wetherbee ter dito que Duncan a chamara na noite da overdose, e reconheceu que se tratava de uma coincidência curiosa. Se Duncan e Julia estavam tão empenhados em ocultar o consumo de drogas, porque teriam convidado alguém na noite em que o faziam?

Entregou a chave ao porteiro, Patrick, e começava a afastar-se, quando se voltou e retrocedeu.

- Estava de serviço a noite passada?

- Sim, das três às onze.

- Viu Julia Myerholtz, nesse período?

- Vi, como quase todas as noites.

- Suponho que sabe o que lhe aconteceu - acrescentou Laurie, com prudência, pois não estava interessada em o informar para além do que já conhecia.

- Decerto. Drogava-se, como muitos jovens. É lamentável.

- Pareceu-lhe deprimida quando entrou?

- Eu não diria "deprimida" - observou ele. - Mas não parecia no seu estado normal.

- Em que sentido?

- Não me cumprimentou, ao contrário do que fazia sempre. Mas talvez fosse porque estava acompanhada.

- Recorda-se de quem se tratava?

- Perfeitamente. Em geral, não reparo nesses pormenores, porque há sempre muita gente a entrar e a sair. Mas o facto de a menina Myerholtz não me ter cumprimentado, levou-me a observar os companheiros.

- Reconheceu-os? Já cá tinham estado?

- Não sei de quem se tratava e duvido que alguma vez tivessem vindo. Um era alto, magro e bem vestido e o outro mais encorpado, do tipo atarracado.

- Viu-os sair?

- Não. Devem ter-se retirado durante o meu intervalo do café.

- A que horas chegaram?

- Ao princípio da noite. Por volta das sete.

Laurie agradeceu ao homem e chamou um táxi para regressar ao seu gabinete. Quase anoitecera. Os arranha-céus já apresentavam as luzes acesas e as pessoas percorriam as ruas apressadamente, após mais um dia de trabalho. Ela recapitulou os diálogos com o namorado de Julia e o porteiro do prédio e ponderou quem poderiam ser os dois companheiros da jovem. Embora se tratasse provavelmente de colegas ou amigos, o facto de terem visitado o apartamento na noite da overdose fazia com que se revestisse de importância. Lamentou não dispor de meios para averiguar a sua identidade, a fim de os poder interrogar. Cruzou-lhe mesmo ao espírito a possibilidade de serem passadores de droga. Dar-se-ia o caso de Julia Myerholtz ter uma vida secreta que o namorado desconhecia?

De regresso ao edifício da Patologia Legal, dirigiu-se em primeiro lugar ao gabinete de George, para saber se já voltara do dentista. Depreendeu que na verdade voltara e partira definitivamente, pois a sala achava-se imersa na escuridão. Desapontada, tentou abrir a porta, mas estava trancada. Como não conseguira contactar com ele, acudira-lhe a ideia repentina de obter o endereço da outra vítima de overdose: Wendell Morrison.

Em seguida, encaminhou-se para o seu gabinete, despiu o casaco, muniu-se de um par de luvas de borracha e desceu à morgue, onde encontrou o técnico de serviço, Bruce Pomowski, no respectivo cubículo.

Há alguma coisa sobre a entrega dos restos mortais de Julia Myerholtz? Vieram buscá-los?

- É algum dos casos de hoje?

- Exacto.

Bruce abriu um livro pesado e fez deslizar o dedo ao longo dos registos do dia. Quando chegou ao nome mencionado, o dedo passou a mover-se para o lado.

- Ainda não - anunciou, por último. - Esperamos que uma agência funerária de fora da cidade os venha reclamar.

- Estão na secção de entradas?

- Sim. É a terceira mesa de rodas a contar da frente. - Ela agradeceu-lhe e dirigiu-se à câmara frigorífica de entradas, ao fundo do corredor. À noite, o ambiente da morgue modificava-se consideravelmente. Em contraste com a actividade quase frenética do dia, os ecos dos saltos dos seus sapatos pareciam repercutir-se em todas as paredes. Ao mesmo tempo, não pôde deixar de evocar a reacção de Lou, na sua primeira visita, terça-feira de manhã, quando lhe chamara, se a memória não a atraiçoava, «cenário tétrico».

Deteve-se e baixou os olhos para o chão de cimento cheio de manchas, que ele mencionara, e a seguir ergueu-os para as pilhas de caixões de pinho destinados ao Campo de Potter, com os restos mortais sem identificação que ninguém reclamava. Recomeçou a caminhar, reflectindo que era estranho que o seu estado mental normal lhe isolasse do consciente a faceta sinistra da morgue. Fora necessário um estranho como Lou e uma altura em que o local se achava deserto para se dar conta disso.

Chegada ao seu destino, calçou as luvas de borracha e abriu a pesada porta. Uma ténue nuvem de névoa glacial envolveu-lhe imediatamente os pés, enquanto estendia a mão para acender a luz.

Reagindo ao estado de espírito de momentos antes, contemplou o interior da câmara frigorífica da perspectiva de uma pessoa não profissional, em vez de patologista. Era indiscutivelmente arrepiante. Nas numerosas prateleiras, que se alinhavam ao longo das paredes, havia uma colecção sinistra de corpos e órgãos separados, que, depois de autopsiados e examinados, aguardavam que alguém os reclamasse. Na sua maioria, encontravam-se expostos, embora alguns estivessem cobertos com lençóis manchados de sangue e outros fluidos corporais. Constituíam uma visão terrestre do Inferno.

O centro da sala estava repleto de mesas de rodas, cada uma com um corpo. Mais uma vez, havia uns cobertos e outros expostos, com os olhos vítreos cravados no tecto, como se se encontrassem num dormitório macabro.

Sentindo-se invulgarmente indisposta, transpôs a entrada, enquanto o olhar apreensivo tentava localizar o corpo de Julia Myerholtz. Quase imediatamente, a porta fechou-se atrás dela, com um sonoro estalido metálico.

Numa reacção quase irracional, Laurie deu meia volta e correu para lá, receosa de ter ficado fechada na câmara frigorífica. No entanto, o puxador cedeu à pressão e a porta rodou nos volumosos gonzos.

Envergonhada com a reacção, concentrou-se de novo no interior e começou a inspeccionar metodicamente os corpos nas mesas. Para efeitos de identificação, cada um tinha uma etiqueta suspensa do dedo grande do pé direito. Descobriu o de Julia perto da entrada, e era um dos que se encontravam cobertos.

Aproximou-se da cabeceira e levantou o lençol, para contemplar a tez pálida e as feições delicadas da mulher. Se não fosse a palidez, dir-se-ia que dormia. Contudo, a profunda incisão com a forma de um Y destruía qualquer esperança de ainda viver.

Examinou-a mais minuciosamente e distinguiu numerosas áreas com escoriações na cabeça, indicação da provável actividade do acesso que a acometera. Imaginou-a a colidir com a estatueta e a derrubá-la. Em seguida, abriu-lhe a boca e observou a língua, que não tinha sido removida. Fora mordida profundamente, em mais uma prova da actividade do acesso.

Depois, procurou a localização da IV onde se injectara e encontrou-a facilmente. Notou também que coçara os braços com violência, à semelhança de Duncan Andrews. Provavelmente, experimentara alucinações similares. Apercebeu-se, contudo, de que os arranhões dela eram mais profundos, quase como se se devessem à lâmina de uma faca ou canivete.

As unhas, cuidadosamente tratadas, forneceram-lhe a explicação, mas algo mais. Laurie descortinou um fragmento de tecido epidérmico sob a do dedo médio direito.

Depois de se certificar de que não havia indícios idênticos nas outras, foi buscar dois frascos de amostras e um bisturi à sala de autópsias, voltou para junto do corpo de Julia, recolheu o fragmento de tecido num deles e, servindo-se do bisturi, retirou uma amostra de pele da margem do corte da autópsia, que guardou no outro.

Depois de voltar a cobrir o corpo de Julia com o lençol, levou os dois frascos para o laboratório, onde os rotulou, e, na folha de pedido, solicitou uma comparação das amostras. Embora fosse óbvio que a mulher se arranhara a si própria, merecia a pena confirmá-lo. Ao mesmo tempo, congratulava-se com o facto de, àquela hora, o laboratório se achar deserto, pois não lhe agradaria ter de explicar a razão pela qual necessitava do teste.

Seguiu para o seu gabinete, decidida a aproveitar o sossego que imperava para se concentrar no expediente que até então descurara.

No entanto, ainda tensa devido à estranha reacção quando a porta da câmara frigorífica se fechara atrás dela, não estava minimamente preparada para o que a aguardava. No momento em que transpôs a entrada, imersa em reflexões, um vulto soltou um grito e surgiu na sua frente.

Laurie gritou igualmente, embora de terror, enquanto se lhe afigurava que o coração se preparava para irromper da boca. Todavia, o ataque que temia não se concretizou. Ao invés, o seu cérebro alterou freneticamente a mensagem e revelou-lhe que o vulto assustador gritara "Buuu!", de modo algum o que um violador potencial ou demónio sobrenatural utilizaria para reforçar a investida. Ao mesmo tempo, as circunvoluções cerebrais apropriadas identificaram o rosto como pertencente a Lou Soldano.

Passou-se tudo num literal abrir e fechar de olhos, e quando Laurie se encontrou em estado de replicar, o medo convertera-se em indignação.

Porque fez isso, Lou? - vociferou.

Assustei-a? - estranhou ele, embaraçado.

Se me assustou! Fiquei aterrada, e detesto que me impressionem assim. Não o torne a fazer!

- Desculpe. Foi uma criancice, na verdade. Mas esta casa tem-me impressionado de tal modo que decidi retaliar um pouco.

- Apetece-me amachucar-lhe o nariz - declarou ela, erguendo o punho cerrado, embora a revolta se tivesse atenuado, em face do arrependimento aparentemente sincero do detective. Mas que faz aqui a estas horas?

- Ia a passar e, como precisava de falar consigo, estacionei o carro no parque da morgue, esperançado em que estivesse aí. O fulano de serviço disse que a vira pouco antes.

- De que me quer falar?

- Do seu amiguinho Jordan.

- Quantas vezes terei de lhe repetir que ele não é?... - Fez uma pausa para respirar fundo. - Se persiste com isso, ainda acabo por me irritar a valer.

- Qual é o problema? - inquiriu Lou. - Parece-me um termo relativamente apropriado. Aliás, saem juntos todas as noites.

- A minha vida social só a mim diz respeito. No entanto, para sua informação, não "saímos" juntos todas as noites. Como hoje, por exemplo.

- Bem, três vezes em quatro, não é uma média nada má. Mas vamos ao que interessa. Queria comunicar-lhe que conversei com ele sobre os seus doentes assassinados.

- Que lhe revelou?

- Pouca coisa. Recusou mencionar pormenores de natureza pessoal.

- Procedeu como lhe competia.

- Em todo o caso, mais importante do que o que disse foi a maneira como reagiu. Estava sob forte tensão nervosa, o que me intrigou.

- Suponho que não o julga envolvido nessas mortes...

- Claro que não. Esmifrar os doentes ainda se compreende, agora liquidá-los nem pensar. Seria o mesmo que matar a galinha dos ovos de ouro. Mas não subsistem dúvidas quanto ao nervosismo. Há algo que o preocupa. Creio que sabe alguma coisa.

- Acho que tem fortes motivos para estar enervado - disse Laurie. - Ele falou-lhe das ameaças do Cerino?

- Não. De que natureza?

- Não me quis elucidar. Mas se o Cerino é o género de pessoa que você diz, o estado do Jordan compreende-se perfeitamente.

- Porque seria que mo ocultou?

- Provavelmente por supor que não o poderia proteger. Engano-me?

- Talvez não - concedeu Lou. - Pelo menos, permanentemente e tratando-se de uma individualidade tão importante como Jordan Scheffield.

- A conversa com ele proporcionou-lhe algum elemento útil?

- Inteirei-me de que as vítimas de homicídio não tinham o mesmo diagnóstico, assim como de que o relacionamento delas com o seu oftalmologista era puramente pessoal. Por conseguinte, pode dizer-se que não obtive revelações sensacionais.

- Que tenciona fazer a seguir?

- Acalentar esperanças! Mandarei as minhas equipas de investigadores elucidar-se sobre os diagnósticos individuais. Talvez isso nos forneça algum indício. No meio de tudo isto tem de haver qualquer aspecto que me escapa.

- É o que eu penso quanto aos meus casos de overdose.

- A propósito, que faz aqui a uma hora destas?

- Esperava pôr o expediente em dia. Agora, com as palpitações do coração ainda alteradas, graças à sua brilhante brincadeira, talvez o leve para casa.

- E se fôssemos jantar juntos? À Little Italy, por exemplo. Gosta de pasta?

- Adoro.

- Então, porque hesita? Já confessou que não ia sair com o nosso comum amigo oftalmologista, que é a sua desculpa favorita.

- Não há dúvida de que é persistente.

- Admira-se? Descendo de italianos.

Quinze minutos mais tarde, Laurie encontrava-se no Caprice dele, rumo ao centro da cidade. Ainda não decidira se jantar com o homem constituía uma boa ideia, mas não lhe ocorrera qualquer pretexto razoável para recusar o convite.

E conquanto Lou se tivesse mostrado algo impertinente nas ocasiões anteriores, agora cumulava-a de atenções e descrevia fases da sua juventude em Queens.

Apesar de ter crescido em Manhattan, ela nunca visitara a Little Italy, e, quando rolavam na Rua Mulberry, Laurie sentiu-se encantada com o ambiente. Havia uma infinidade de restaurantes e transeuntes e, à semelhança da própria Itália, o local parecia palpitar de vida.

- É uma atmosfera realmente italiana - admitiu, com um largo sorriso apreciativo.

- Sou da mesma opinião. Em todo o caso, vou revelar-lhe um pequeno segredo. A maior parte dos terrenos pertence a chineses.

- Que estranho... - articulou, algo desapontada, embora não soubesse explicar o motivo.

- Em tempos, foi de facto um bairro italiano, mas os habitantes mudaram-se quase todos para os subúrbios, em particular para Queens. E os chineses, com o habitual faro apurado para os negócios, aproveitaram a oportunidade para entrar em cena.

O detective arrumou o carro num pequeno parque privado e Laurie apontou para o respectivo aviso.

- Por favor! - protestou ele, colocando um pequeno cartão no interior do pára-brisas. - De vez em quando, assiste-me o direito de tirar partido do facto de ser um dos melhores profissionais de Nova Iorque.

Em seguida, enveredaram por uma rua estreita e entraram num dos restaurantes notáveis.

- Não tem nome - observou ela.

- Nem precisa.

O interior constituía uma mescla de mesas com toalhas de xadrez e gelosias ornamentadas com trepadeiras artificiais e latadas de plástico. Em cada mesa havia uma vela fixada num pequeno recipiente de barro, e gravuras que representavam cenas quotidianas de Veneza ocupavam as paredes. Empregados pressurosos esforçavam-se por atender a clientela com prontidão. Todos pareciam conhecer-se pelos nomes de baptismo. Pairava na atmosfera um contínuo murmúrio de vozes e o odor pungente de comida bem condimentada.

Laurie descobriu de súbito que tinha fome.

- Devíamos ter reservado mesa - observou, olhando em volta.

Ele recomendou-lhe um pouco de paciência. com efeito, passados alguns minutos, uma italiana de larga corpulência aproximou-se e abraçou-o. Quando conseguiu libertar-se, Lou apresentou-a a Laurie, dizendo que se chamava Maria.

Como por artes mágicas, materializou-se imediatamente uma mesa disponível, e a mulher sentou-se com eles.

- Tenho a sensação de que é muito conhecido - disse Laurie.

- Depois de comer cá tantas vezes, não admira. Só as minhas contas devem ter financiado os estudos de um dos filhos dos donos.

Laurie Descobriu com pesar que não havia cardápios, pelo que teve de escutar a variedade de iguarias à sua disposição dos lábios do empregado. Assim que o arrazoado chegou ao fim, Lou encorajou-a a optar por ravioli ou manicoti, e ela escolheu o primeiro.

E Depois de decidirem o que comeriam e beberiam, ele desapontou-a ao acender um cigarro.

- Estabeleçamos um meio termo - propôs Laurie. - Porque não se contenta com um único?

- De acordo.

Após um copo de excelente vinho branco, ela começou a adaptar-se à caótica atmosfera. Quando serviram as entradas, o chefe de mesa-proprietário, Giuseppe, apareceu para os cumprimentar.

Ela considerou a refeição estupenda. Depois das últimas noites em ambientes formais, a trepidante sala constituía um contraste agradável. Parecia que todos conheciam e estimavam Lou, o qual era alvo de comentários maliciosos por se encontrar acompanhado de Laurie. Aparentemente, costumava comer sozinho.

Para sobremesa, o detective insistiu em que se deslocassem A um bar italiano das proximidades, onde lhes serviram café espresso e gelados.

Quando os tinham na sua frente, Laurie olhou o companheiro e declarou:

- Queria perguntar-lhe uma coisa.

- E eu convencido de que evitaríamos os tópicos potencialmente delicados! Não volte a pedir-me que fale com os colegas da Brigada de Narcóticos, por favor.

- Pretendo apenas ouvir a sua opinião.

- bom, isso é diferente.

- Mas prometa não fazer troça de mim.

- O assunto começa a tornar-se interessante.

- Não tenho qualquer motivo sólido para pensar isto. Há somente alguns pequenos factos que me intrigam.

- Por esse andar, vai levar toda a noite com rodeios.

- Trata-se das overdoses. Gostava que me dissesse o que pensa da possibilidade de serem homicídios e não mortes acidentais.

- Continue - indicou ele, puxando distraidamente de novo cigarro e acendendo-o.

- Uma doente morreu subitamente, no hospital. Apesar de sofrer de diversos problemas cardíacos, um exame minucioso indica a hipótese de ter sido sufocada. O caso foi classificado como «natural», em virtude dos outros pormenores; o lugar onde se encontrava, excesso de peso e história clínica. No entanto, se tivesse acontecido noutro sítio, talvez a considerassem vítima de homicídio.

- Que relação tem isso com as suas overdoses?

- Comecei a encará-las à mesma luz. Ignorar o facto de essas pessoas terem sido descobertas sozinhas no seu apartamento, com uma seringa ao alcance da mão. Nesse contexto, é difícil não conceber a ideia de homicídio. Suponhamos que a cocaína não foi auto-inoculada...

- É uma teoria quase revolucionária. - Empertigou-se no banco e retirou o cigarro da boca. - Decerto que foram cometidos homicídios com drogas, mas o motivo costuma ser mais evidente: roubo, sexo, retribuição, herança. Muitos passadores de pouca importância são mortos assim por clientes descontentes. Os casos da sua série não se adaptam a esse molde. Eu pensava que a característica notável neles consistia no facto de se tratar de cidadãos bem situados na vida, sem quaisquer antecedentes ligados à droga ou problemas com as autoridades.

- É verdade - admitiu Laurie.

- Quer dizer que imagina que esses yuppies foram inoculados à força? Encare a realidade, por favor. com utentes dispostos a pagar quantias elevadas pelo produto, que razão levaria alguém a empreender uma cruzada pessoal destinada a livrar a cidade dos habitantes mais prósperos e úteis? Que lucraria com isso? Não lhe parece mais provável que se drogavam desde longa data, embora o fizessem pela calada?

- Não.

- De resto, não disse que esses indivíduos injectavam a coca, em vez de a snifar?

- É exacto.

- Então, explique-me como consegue alguém cravar uma agulha numa pessoa que não colabore. As enfermeiras dos hospitais não experimentam dificuldades em picar um número apreciável de doentes? Quer convencer-me de que uma vítima que se debate pode ser inoculada contra a sua vontade? Não brinque comigo.

Ela fechou os olhos, consciente de que Lou acabava de salientar o ponto mais vulnerável da sua teoria de homicídio.

- Se essas pessoas tivessem sido injectadas à força, haveria sinais de luta - acrescentou ele. - Apareceu algum?

- Não - reconheceu Laurie. - Pelo menos, que eu saiba - murmurou, lembrando-se subitamente da estátua quebrada, no apartamento de Julia.

- A única outra maneira que posso conceber de tal acontecer é se tivessem sido prévia e fortemente drogadas. Nessa eventualidade, vocês não deixariam de descobrir vestígios do facto. Engano-me?

- Não - repetiu, a meia voz.

- Aí tem, portanto. Não a censuro por considerar a hipótese de homicídio, mas acho que se trata de uma possibilidade muito remota.

- As suspeitas devem-se a determinados elementos que descobri. Visitei o apartamento de uma das vítimas mais recentes, e o porteiro revelou-me que, na noite em que ela morreu, chegou a casa com dois homens que ele nunca tinha visto.

- Não me diga que a sua surpreendente teoria se baseia na simples circunstância de uma mulher entrar em casa com dois homens, que o porteiro nunca tinha visto!

- Pronto, está bem! - replicou Laurie, desalentada. - Duvide à sua vontade. No entanto, há pormenores que me incomodam com persistência, como uma dor de dentes.

- Ouçamo-los.

- Em dois dos casos, o namorado, ou namorada, foi chamado telefonicamente pela vítima, cerca de uma hora antes.

- E depois?

- Nada. Aí é que está o busílis. Pareceu-me curioso que duas pessoas que encobriam a sua toxicodependência convidassem testemunhas inocentes para assistir a uma noite de devassidão originada pela droga.

- Podem ter telefonado por uma infinidade de razões diferentes. Duvido que as vítimas previssem que a "viagem" terminaria de um modo tão trágico. Quando muito, isso reforça a hipótese da auto-inoculação. Talvez acreditassem no popularizado mito dos poderes afrodisíacos da cocaína e desejassem que os namorados estivessem perto no auge da excitação.

- Deve julgar-me louca.

- De modo algum - asseverou Lou. - É útil acalentar suspeitas, em particular na nossa profissão.

- Obrigada pela consulta. Aprecio devidamente a sua paciência.

- Sempre às ordens. Quando quiser ventilar uma teoria comigo, não hesite em me procurar.

- Gostei muito do jantar, mas acho que são horas de recolher a casa. Preciso de adiantar um pouco mais do expediente atrasado.

- Se gostou do restaurante, adoraria um em especial, em Queens. Situa-se mesmo no meio de uma área habitada por italianos, com cozinha típica do seu país. Que diz a irmos lá amanhã?

- Agradeço-lhe o convite, mas tenho outros planos.

- Claro - articulou, com sarcasmo. - Esquecia-me do «doutor Limusina».

- Por favor, Lou!

- Vou levá-la a casa - grunhiu, levantando-se. - Isto, se consegue suportar mais uma tirada no meu decrépito Caprice.

Laurie ergueu os olhos ao céu e emitiu um suspiro de resignação.

Franco Ponti estacionou o Cadillac preto defronte do Restaurante Napolitano, na Avenida Corona, e apeou-se. O porteiro reconheceu-o e apressou-se a tomar providências para que alguém cuidasse do carro. Franco entregou-lhe uma nota de dez dólares e transpôs a entrada.

Àquela hora da noite de sexta-feira, o estabelecimento registava particular animação. Um acordeonista movia-se de                         mesa para mesa, enquanto interpretava composições napolitanas típicas. Franco deteve-se, por um momento, a seguir ao reposteiro de veludo vermelho que separava o átrio da sala de jantar e localizou Vinnie Dominick, Freddie Capuso e Richie Herns sem dificuldade num dos reservados, acompanhados de duas mulheres de bustos generosos e minissaia.

Encaminhou-se directamente para a mesa, e, quando o avistou, Vinnie indicou às duas jovens que fossem ao toucador retocar a maquilhagem.

- Que tomas? - perguntou em seguida ao recém-chegado.

- Um copo de vinho calhava bem.

Fez estalar os dedos e um empregado acudiu imediatamente para receber instruções. Instantes depois, Franco tinha a bebida na sua frente.

- Conseguiste alguma coisa? - inquiriu Vinnie.

O interpelado ingeriu um sorvo e declarou:

- O Angelo Facciolo e o Tony Ruggerio encontram-se esta noite com o Cerino. Por conseguinte, não trabalham. Mas ontem desenvolveram grande actividade. Não sei o que fizeram ao princípio do serão, porque os perdi. No entanto, após uma pizza à meia-noite, voltei a descobrir-lhes o rasto, e garanto-lhe que trabalharam a valer. Leu o que os jornais publicam sobre os homicídios de ontem em Manhattan?

- Do importante banqueiro e do dono de uma grande empresa leiloeira?

- Exacto. O Angelo e o Tony liquidaram ambos. E com requintes de crueldade. Iam sendo apanhados, das duas vezes. Na verdade, eu próprio tive de me acautelar para não ser detido para interrogatório, em particular no caso do banqueiro, pois encontrava-me estacionado em frente quando os chuis apareceram.

- Mas por que carga de água os abateram? - inquiriu Vinnie, cujas faces se tinham avermelhado, ao mesmo tempo que os olhos pareciam na iminência de se destacar das órbitas.

- Ainda não sei.

- Os chuis estão cada vez mais agitados! E quanto maior for a sua agitação, pior para o negócio. Já tivemos de encerrar temporariamente a maioria dos nossos clubes de jogo. Tens de descobrir o que se encontra por detrás disso!

- Já pus em campo os meus informadores. Alguém deve estar ao corrente.

- Tenho de fazer alguma coisa. Não posso ficar de braços cruzados eternamente enquanto eles destroem tudo.

- Dê-me mais um par de dias - solicitou Franco. - Se não chegar a uma conclusão concreta, posso eliminar o Angelo e o Tony.

Mas isso implicaria a guerra, e não sei se estamos preparados. De resto, ainda seria pior para o negócio.

Sabe uma coisa, doutor? - disse Cerino. - Acho que a coisa correu muito bem. Estava um pouco preocupado, mas não senti absolutamente nada. Como,foi?

- Como um sonho - assegurou-lhe Jordan. - E parece tudo em ordem. A córnea está clara como o cristal e a câmara é profunda.

- Se está contente, eu também.

O gangster encontrava-se num quarto particular da ala Goldblatt do Hospital Geral de Manhattan e Jordan dedicava-se a uma visita pós-operatória, pois terminara a última intervenção apenas meia hora antes. Efectuara quatro só nesse dia. Em segundo plano, Angelo encostava-se à parede, enquanto Tony dormia pesadamente numa poltrona junto da porta.

- Vamos aguardar uns dias - decidiu o oftalmologista, endireitando-se, após o exame. - Depois, se tudo correr bem... como não deixará de acontecer - apressou-se a acrescentar - passaremos ao outro olho.

- Quer dizer que vou ter de esperar para a outra operação? - retorquiu Cerino. - Não se referiu a nada. Ao princípio, limitou-se a explicar que era necessário aguardar para a primeira.

- Calma! - recomendou Jordan. - Não convinha nada que a tensão arterial se elevasse. Tem de haver um intervalo entre duas intervenções, para que o olho se recomponha, por assim dizer, antes de operar o outro. De qualquer modo, não precisará de esperar muito tempo.

- Não gosto de surpresas dos médicos - advertiu o outro. - Confesso que não percebo este segundo período de espera. Tem a certeza de que a operação correu bem?

- O melhor possível, pode crer.

- Se não acreditasse em si, não estaria aqui deitado. Mas se correu assim tão bem, que faço neste deprimente quarto? Quero ir para casa.

- Acho preferível ficar aqui. O olho operado precisa de medicação. Se se declarasse uma infecção...

- Qualquer pessoa me pode aplicar duas ou três gotas. Graças a este acidente, a minha mulher, Gloria, tornou-se perita nisso. Quero sair daqui!

- Se está assim tão empenhado, não o posso impedir - admitiu Jordan, com uma ponta de nervosismo. - Mas ao menos repouse o mais possível e evite excitar-se.

Quarenta e cinco minutos mais tarde, um enfermeiro impelia Cerino em direcção ao carro de Angelo, numa cadeira de rodas. Tony levara previamente o veículo para a entrada do hospital e deixara o motor ligado.

Cerino pagara a conta em dinheiro, facto que deixara o funcionário da tesouraria abismado. A um mero estalar de dedos do chefe, Angelo separara notas de cem dólares de um volumoso maço que extraíra da algibeira, até que excedera a quantia indicada, o que contribuíra para acentuar a surpresa do homem.

- Quietinho! - ordenou Cerino, quando Angelo tentou ajudá-lo a abandonar a cadeira de rodas. - Posso mover-me sem ajuda. Julgas-me paralítico?

Transferiu-se lentamente para o lugar do passageiro do banco da frente, Angelo fechou a porta e sentou-se no da retaguarda e Tony pôs o carro em movimento, mas na curva calculou mal a distância e a roda embateu no passeio, o que provocou um forte solavanco.

- Que é isso, aselha? - bradou Cerino.

O "miúdo" encolheu-se instintivamente, porém o incidente não teve ulteriores consequências.

Seguiram pelo Túnel Midtown e em seguida enveredaram pela via rápida de Long Island, e Cerino tornou-se gradualmente mais comunicativo.

- Sabem uma coisa, rapazes! Sinto-me porreiríssimo! Depois de tantas preocupações e planeamento, aconteceu finalmente. E, como observei ao médico, não foi tão difícil como pensava, embora sentisse a primeira picada da agulha.

Angelo agitou-se involuntariamente. Desde o princípio que experimentara relutância em entrar na sala de operações e, quando vira Jordan cravar a longa agulha na face de Cerino, um pouco abaixo do olho, quase desmaiara. com efeito, sempre detestara as agulhas.

- Mas depois não notei nada - continuava Cerino.

- Até adormeci. Quem diria, hem? Esperavas uma coisa destas, Tony?

- Eu? - O interpelado apressou-se a abanar a cabeça. - Nem por sombras.

- Quando acordei, estava tudo acabado. O Jordan talvez seja um cretino, mas em cirurgia ninguém lhe leva a palma. Além disso, sabe aproveitar as oportunidades. Ainda podemos vir a fazer negócios juntos. Que te parece, Angelo?

- É uma ideia interessante - admitiu este último sem entusiasmo especial.

 

SÁBADO, 7 HORAS E 45 MINUTOS, DE MANHÃ

MANHATTAN

Como era sábado, Laurie não ligara o alarme do despertador, mas acordou antes das oito, uma vez mais assolada pelo pesadelo de Shelly. O facto levou-a a ponderar se não seria conveniente consultar um especialista.

Decidiu dirigir-se ao hospital, apesar de não estar de serviço. Mau grado as suas boas intenções, não se revelara muito produtiva na véspera, depois de se despedir de Lou. O vinho e o trabalho não eram ingredientes compatíveis.

Quando transpôs a porta do prédio, verificou, agradavelmente surpreendida, que fazia um dia soalheiro, embora frio. Por ser sábado, o tráfego e fumo dos tubos de escape eram mínimos na Primeira Avenida, pelo que apreciou devidamente o trajecto a pé pela Rua 13.

Quando chegou ao hospital, seguiu directamente para o Departamento de Identificação, a fim de se inteirar da natureza dos casos do dia, e ficou aliviada ao ver que não havia qualquer novo candidato à sua série de overdoses. Apenas os habituais homicídios e acidentes mortais das noites de sextas-feiras, que reflectiam as actividades nocturnas normais de Nova Iorque.

A seguir, passou pelo laboratório de toxicologia e descobriu com satisfação que John DeVries não se achava presente. Na realidade, ele raramente comparecia ao sábado. Avistou Peter sentado diante do cromatógrafo de gás adquirido recentemente e aproximou-se.

- Ainda nada, em termos de substância contaminadora

- informou ele. - No entanto, com a amostra volumosa que recebi ontem, talvez tenha mais sorte.

- De que espécie? - quis saber ela. - Sangue?

- Não, cocaína pura extraída do intestino.

- De quem?

Peter consultou o rótulo da amostra a seu lado.

- Wendell Morrison. Um dos casos do Fontworth de ontem.

- Como conseguiu uma amostra do intestino?

- Isso é que já não sei. No entanto, ao proporcionar-me uma porção tão grande, facilitou-me consideravelmente o trabalho.

- Ainda bem. - Laurie estava intrigada com o inesperado desenvolvimento. - Gostava de conhecer o resultado.

Por fim, abandonou o laboratório e subiu ao seu gabinete. Depois de procurar o número na lista interna, telefonou a George Fontworth, que se encontrava em casa. Atendeu ao segundo toque e Laurie congratulou-se por não o ter arrancado da cama.

- Não me digas que estás no hospital - proferiu, depois de ela se identificar.

- Então não digo.

- Não deves trabalhar tanto. Crias-nos má fama.

- Não receies que impressione alguém daqui. - Laurie soltou uma risada seca. - O Calvin proibiu-te de falar comigo, como me revelaste ontem.

- Foi uma estupidez - concordou ele. - Que pretendias de mim?

- Estou um pouco intrigada com um dos teus casos de ontem. Wendell Morrison.

- Que queres saber?

- Apurei na Toxicologia que ofereceste uma amostra de cocaína extraída do intestino da vítima. Como se explica uma coisa dessas?

- O doutor Morrison tomou a droga por via oral.

Pareceu-me ter-te ouvido dizer que ambos os casos eram de inoculação intravenosa.

- Só o segundo. Quando me perguntaste o modo de administração, supus que apenas te referias a esse.

- Todos os meus casos a tomavam por IV, à excepção de Dick Katzenburg, embora primeiro tentasse fazê-lo por esse método.

- O mesmo se aplica ao doutor Morrison. As suas fossas antecubitais pareciam pregadeiras. O tipo era gordo e as veias muito profundas, mas sempre pensei que um médico tivesse mais perícia na venipunctura.

- Ainda havia muita cocaína no intestino?

- Montes dela. Não consigo conceber a quantidade que ele teria tomado. Parte do intestino estava infartada, onde a droga isolou a irrigação de sangue. Lembrava um desses casos de "mula" de cocaína, em que os preservativos se rasgam pelo caminho.

- Havia mais alguma coisa digna de realce?

- A marca de um pequeno aneurisma. Provavelmente, rebentou durante o acesso apopléctico.

Antes de desligar, Laurie mencionou o pequeno fragmento de tecido epidérmico que recolhera de baixo da unha de Julia Myerholtz e deixara no laboratório.

- Espero que não leves a mal que me intrometesse no teu caso - acrescentou.

- Que ideia! Lamento é que me tivesse escapado. Devido ao modo como ela se escoriou, devia procurar por baixo das unhas.

Pousou finalmente o auscultador e tentou concentrar-se no expediente. Mas, como de costume ultimamente, não conseguia afastar do pensamento os aspectos preocupantes da sua série de overdoses. Apesar da conversa com Lou, alguns pormenores do caso Myerholtz continuavam a intrigá-la.

Pegou nas pastas referentes aos três casos que arquivara na quinta-feira Stuart Morgan, Randall Thatcher e Valerie Abrams e anotou os respectivos endereços numa folha à parte.

Em seguida, vestiu o casaco e abandonou o edifício, para se meter num táxi, a fim de visitar os três locais.

Conversou com o porteiro de cada residência e, depois de se identificar, obteve os nomes e número de telefone dos colegas que se encontravam de serviço na noite de quarta-feira.

De novo no gabinete, iniciou os telefonemas, o primeiro dos quais se destinava a um certo Julio Chavez.

- Conhecia Valerie Adams? - perguntou, após explicar quem era.

- com certeza.

- Viu-a na quarta-feira à noite?

- Não. Pelo menos, não me lembro.

Cortou a ligação depois de agradecer a informação, ao mesmo tempo que reflectia que Lou talvez tivesse razão e ela se limitava a perder tempo. Apesar disso, não resistiu a marcar o número seguinte da lista: Angel Mendez, porteiro nocturno do prédio em que Stuart Morgan vivera.

Quando perguntou se o conhecia, a resposta foi a mesma:

- com certeza!

- Viu-o na noite de quarta-feira?

- com certeza - repetiu o homem. - Aliás, via-o sempre, pois ele costumava praticar jogging depois do trabalho.

- Nessa noite também o fez?

- Como sempre.

Laurie reflectiu mais uma vez na incoerência de um indivíduo cuidadoso com a forma física, ao ponto de praticar jogging todas as noites, e consumir drogas. Na verdade, não fazia sentido.

- Pareceu-lhe no estado normal? - insistiu. - Ou porventura deprimido?

- Achei-o com o aspecto de sempre - asseverou Angel. - Mas não se demorou tanto como habitualmente. Recordo-me, porque notei que não transpirava e lhe chamei a atenção para o facto.

- Que respondeu?

- Nada.

- Era costume não dizer nada?

- Só quando estava acompanhado.

- Vinha alguém com ele quando voltou do jogging?

- Vinha. Dois desconhecidos. Pelo menos, para mim.

- É capaz de os descrever?

- Não creio. Vejo tanta gente ao cabo do dia, sabe... Lembro-me de que estava acompanhado apenas porque não me falou.

Laurie agradeceu a informação e desligou. Já era alguma coisa. Aquela notável similaridade com o caso Myerholtz podia constituir o início de uma pista importante.

Marcou finalmente o último número da lista pertencente a David Wong. Infelizmente, não se recordava de ter visto Randall Thatcher, na noite de quarta-feira.

Decidiu investigar mais um caso, antes de voltar a debruçar-se sobre o expediente. Assim, dirigiu-se à Histologia e pediu os diapositivos relativos a Mary O’Connor. Uma vez mais no seu gabinete, examinou os do coração ao microscópio, para estudar a extensão da arteriosclerose. Era moderada, como Paul referira, e também não descortinou qualquer miopatia cardíaca.

Concluída mais essa diligência, não encontrou outros pretextos para evitar o expediente e, afastando-se do microscópio, concentrou-se no trabalho.

- Só isto? - estranhou Lou, agitando no ar uma folha de papel dactilografada.

- É o que conseguimos apurar - confirmou Norman.

- Não passa de uma algaraviada médica. Que raio é um "ceratocone"? Ou uma "ceratopatia bulosa pseudofáquica"? Importas-te de me elucidar?

- Pediu a cópia dos diagnósticos das vítimas que consultavam o doutor Jordan Scheffield - lembrou. - Os rapazes obtiveram estes elementos.

Lou tornou a ler a página. Martha Goldburg, ceratopatia bulosa pseudofáquica; Steven Vivonetto, ceratite intersticial; Janice Singleton, zona herpes; Henriette Kaufman, distrofia endotelial; Dwight Sorenson, ceratocone.

- Estava esperançado em que tivessem todos a mesma condição patológica - admitiu entre dentes. - E, de caminho, surpreender o nosso pretensioso doutor Scheffield a mentir.

- Lamento - articulou Norman, com um encolher de ombros. - Posso pedir a um especialista que traduza essas expressões em inglês corrente... se existe algum vocabulário compreensível que lhes corresponda.

- Que pensas de tudo isto? - inquiriu Lou, reclinando-se na cadeira.

- Não me acode nenhuma ideia brilhante. Quando vi o nome do médico emergir dos dados, supus que talvez dispuséssemos de um elemento útil, mas agora já não dá essa impressão.

- Algum dos doentes manifestava insatisfação com a terapia?

- O único dado positivo nesse sentido são os Goldburg. com efeito, Harry Goldburg tinha interposto um processo por negligência profissional ao doutor Scheffield, depois de remover as cataratas à esposa. Parece que sobrevieram complicações e ela quase não via de um dos olhos.

- Que é esta tralha? - perguntou, pegando numa volumosa pasta de cartolina cheia de páginas dactilografadas.

- O resto do material reunido pelas equipas de investigação.

- com mil diabos! Devem ser mais de quinhentas folhas.

Inclino-me mais para quatrocentas. Não detectei nada de prometedor, mas achei conveniente submetê-las também à sua apreciação. E não perca tempo em começar, pois hão-de surgir mais à medida que interrogarmos outras pessoas.

- E a respeito da Balística?

- Ainda não deu notícias. Está a despachar os homicídios do mês passado. No entanto, segundo um parecer preliminar, tudo indica que houve apenas duas armas envolvidas: uma de calibre vinte e dois e a outra de vinte e cinco.

- Que há sobre a governanta?

- Continua viva, mas ainda não recuperou o conhecimento. Foi atingida na cabeça e mantém-se em coma.

- Mandaste protegê-la?

Sem dúvida. Vinte e quatro horas por dia.

Depois de conseguir finalmente adiantar o expediente atrasado, de um modo assaz satisfatório, Laurie concentrou-se nos registos dos casos de overdoses e separou os três que lhe interessavam de momento Duncan Andrews, Robert Evans e Marion Overstreet, que autopsiara na terça e na quarta-feira. Em seguida, copiou os endereços e vestiu de novo o casaco.

Efectuou o mesmo tipo de digressão daquela manhã, com a diferença de que desta vez os porteiros que procurava estavam de serviço.

Ficou desapontada com os resultados obtidos nas residências de Evans e Overstreet, pois os homens pouco lhe puderam revelar acerca das noites em causa. Na de Duncan Andrews, porém, tudo se passou de modo muito diferente.

Quando desceu do táxi, recordou imediatamente o aspecto do prédio e até o rosto do porteiro de serviço na indesejável visita anterior. Apesar de admitir uma ténue possibilidade de a sua nova presença no local chegar aos ouvidos de Bingham, dispôs-se a correr o risco.

- Em que lhe posso ser útil? - perguntou o porteiro. Ela tentou detectar-lhe sinais de reconhecimento, mas não os descortinou e anunciou:

- Sou da Patologia Legal. Doutora Montgomery. Recorda-se de me ver cá na terça-feira passada?

- Creio que sim. A propósito, chamo-me Oliver. Em que a posso servir? Pretende visitar novamente o apartamento de Duncan Andrews?

- Não quero incomodar ninguém. Apenas desejo falar consigo. Estava de serviço na noite de domingo?

- Estava. Folgo à segunda e à quinta.

- Lembra-se de ver o senhor Andrews na noite em que morreu?

- Julgo que sim - declarou o porteiro, depois de reflectir por um momento. - Costumava vê-lo quase todas as noites.

- Encontrava-se só?

- Isso é que já não lhe sei dizer. com tanta gente a entrar e a sair, não posso reparar em pormenores desses, em especial quase uma semana depois. Se fosse no mesmo dia ou tivesse acontecido alguma coisa de extraordinário... Espere! - exclamou subitamente. - Afinal, talvez me lembre. Houve uma ocasião em que apareceu acompanhado. Recordo-me porque me tratou por um nome errado. Empregou o do administrador.

- Ele sabia o seu, Oliver?

- com certeza. Trabalho na casa desde antes de ele se mudar para cá.

- Quantas pessoas o acompanhavam?

- Duas, salvo erro. Ou mesmo três.

- Mas não está certo da noite em que foi?

- Pois não, embora me lembre de que me chamou Juan, o que me deixou confuso. Sabia perfeitamente que o meu nome é Oliver.

Laurie agradeceu-lhe e seguiu para casa. Que devia deduzir daquela série de similaridades? Quem eram aqueles homens, e tratar-se-ia sempre dos mesmos? E qual o significado da confusão de nomes por parte de um jovem inteligente e dinâmico? Provavelmente nenhum.

Ao entrar no prédio em que vivia, dirigiu um olhar sombrio ao que a rodeava, apercebendo-se dos mosaicos rachados do chão e da pintura escamada das paredes. Em comparação com as residências que visitara, constituía um pardieiro. O mais deprimente de tudo era que as vítimas de overdose tinham idade aproximada à sua, embora muito mais bem situadas em termos financeiros.

O tom melhorou-lhe o estado de espírito quando abriu a porta do apartamento. Depois de dormir durante toda a noite e grande parte do dia, o gato era uma bola de energia, e apressou-se a demonstrá-lo com correrias por cima dos móveis.

Pouco habituada a dispor de tempo livre, Laurie aproveitou as horas imediatas para recuperar parte do sono em atraso e depois tomou um longo banho de chuveiro. Como não recebera qualquer comunicação de Jordan em contrário, depreendeu que os planos para jantarem juntos às nove se mantinham de pé.

Após consagrar cerca de meia hora à decisão do que devia usar, o que envolveu provar vários conjuntos, estava preparada cinco minutos antes da hora combinada. Desta vez, foi o próprio Jordan que se apresentou.

- Os vizinhos vão começar a falar - advertiu ela. - Até agora, deviam pensar que saía com o Thomas.

Ele reservara mesa no Four Seasons, onde, à semelhança do que se passara com os restaurantes precedentes, Laurie nunca entrara. E, embora a comida fosse excelente, o serviço impecável e o vinho delicioso, não pôde deixar de o comparar desfavoravelmente com o estabelecimento sem nome a que Lou a levara na véspera. Como os únicos sons consistiam no tilintar dos cubos de gelo nos copos de água ou de um ou outro talher manuseado com distracção momentânea, sentia-se na obrigação de sussurrar. Quase se engasgou no instante em que lhe acudiu uma dúvida inquietante: e se, em vez do ambiente, fosse a companhia que preferia?

Por seu turno, Jordan mostrava-se descontraído e comunicativo sobre os seus assuntos.

- As coisas não podiam correr melhor. A substituta de Marsha é dez vezes mais eficiente, e confesso que não compreendo porque hesitei tanto em contratar outra secretária. Quanto à cirurgia, desliza sobre esferas. Nunca tinha efectuado tantas intervenções em tão pouco tempo. Oxalá o ritmo se mantenha. Segundo informações do meu contabilista, vai ser um mês recorde.

- Alegra-me que seja assim - disse ela, que se preparava para revelar como passara o dia, mas ele não lhe concedeu a oportunidade.

- Estou a encarar seriamente a ideia de abrir mais uma sala de exames preliminares. Talvez até aceite um sócio para se ocupar dos pacientes correntes.

- Que são pacientes correntes?

- Os que não requerem cirurgia. - Ele avistou um empregado nas proximidades e pediu uma segunda garrafa de vinho.

- Esta tarde examinei os diapositivos de Mary O’Connor.

- Preferia manter o diálogo num clima menos sombrio.

- Não lhe interessa saber o que descobri?

- Nem por isso, a menos que se trate de algo de surpreendente. Não me posso deter a deplorar esse caso. Tenho de seguir em frente. De resto, a sua condição médica era da responsabilidade do interno e não minha. É diferente do que se morresse durante uma intervenção cirúrgica.

- E acerca dos seus outros doentes que foram assassinados? - persistiu Laurie. - Quer falar deles?

- Para quê? Já não lhes podemos valer.

- Pensei que sentiria a necessidade de discutir o assunto. Pelo menos, é como eu reagiria no seu lugar.

- Deprime-me - admitiu Jordan, - mas falar disso não adianta nada. Prefiro concentrar-me nas coisas positivas da minha vida.

Ela olhou-o pensativamente. Lou dissera que lhe parecera enervado quando abordara as mortes dos pacientes, todavia, agora, não notava o menor nervosismo. Apenas uma recusa deliberada: não queria abordar temas desagradáveis.

- Coisas positivas como a operação de Paul Cerino, hoje? - acabou por aventurar.

- Isso mesmo. - Se ele se apercebeu da ponta de sarcasmo na pergunta, não o deixou transparecer. - Estou ansioso por lhe operar o outro olho, para não o tornar a ver na minha frente.

- Quando será?

Dentro de cerca de uma semana. Quero certificar-me primeiro de que a intervenção de hoje não tem sequelas indesejáveis. Tremo da cabeça aos pés cada vez que penso na possibilidade de complicações, embora não as espere, pois desenrolou-se tudo o melhor possível. Mas como recusou passar a noite no hospital, não posso ter a certeza absoluta de que recebe a medicação de que necessita.

- Se não receber, a culpa não será sua, Jordan.

Duvido que ele encarasse a situação desse modo.

No final da refeição, Laurie concordou em visitar o apartamento dele na Trump Tower. Ficou impressionada no instante em que entrou. Directamente em frente, quase à mesma altura, situava-se o topo iluminado do Crown Building. Quando avançou na sala de estar, avistou a Quinta Avenida até ao Empire State e uma larga extensão da cidade.

- É maravilhoso - declarou, com sinceridade, consciente de que Jordan se encontrava mesmo atrás dela.

- Laurie... - articulou num murmúrio.

Ela deu meia volta e viu-se rodeada pelos seus braços musculosos, o rosto iluminado pela luz que se filtrava pelas janelas. com os lábios levemente entreabertos, inclinou a cabeça para a beijar.

- Que diz a uma bebida pós-jantar? - propôs Laurie, desprendendo-se.

- Os seus desejos são ordens - asseverou ele, com um sorriso algo embaraçado.

Entretanto, ela estava um pouco surpreendida consigo própria. Não era ingénua ao ponto de considerar o gesto de Jordan inesperado. Aliás, haviam saído juntos três noites consecutivas e achava-o na verdade atraente. Não obstante, por qualquer razão indefinida, começava a pensar de forma diferente.

- Então? - perguntou Tony quando Angelo regressou à mesa, depois de utilizar o telefone à entrada das instalações sanitárias.

O "miúdo" tinha a boca cheia, depois de lhe introduzir uma generosa garfada de tortellini con panna, e pegou no guardanapo para limpar as marcas de tomate e queijo-creme dos lábios. Encontravam-se num pequeno restaurante de serviço permanente. A ideia de entrar fora dele, porém Angelo não se opusera porque precisava de telefonar a Cerino.

- Então? - repetiu, depois de tragar a massa, que impeliu com água mineral.

Estou farto de te recomendar que não fales com a boca cheia - replicou Angelo, sentando-se. - Enojas-me.

- Desculpa - murmurou o outro, que manipulava o garfo habilmente para tragar mais uma dose.

- Ele quer que voltemos a trabalhar, esta noite.

- Bestial! - exclamou, de novo com a boca cheia. Sem uma palavra, Angelo pegou na garrafa de água mineral e despejou-a no prato do companheiro, que observou o resultado com uma expressão de desespero.

- Porque fizeste isto? - gemeu.

- Preveni-te de que não falasses com a boca cheia. Tento conversar contigo, e não paras de comer.

- Pronto, desculpa.

- Além disso, estou chateado por o Cerino nos mandar trabalhar. Julgava que essa porcaria já tinha acabado.

- Ao menos rende mais uns bons cobres. De que se trata desta vez?

- Quer que nos cinjamos à linha de oferta. Talvez tenhamos acabado com a da procura, o que não deixa de ser um grande alívio. Foi aí que tivemos problemas.

- Quando?

Assim que transferires o rabo para o carro.

Quinze minutos mais tarde, quando se aproximavam da Ponte de Queensboro, Angelo informou:

- Há outra coisa que me chateia. Não gosto do momento escolhido. A altas horas de uma noite de sábado, não é altura mais conveniente. Talvez tenhamos de alterar o cenário e ser criativos.

- Porque não nos servimos do telefone? - sugeriu Tony. - Podemos verificar se as coisas estão em ordem antes de actuar.

O outro dirigiu-lhe um olhar turvo. Às vezes, o "miúdo" surpreendia-o. Não era estúpido a tempo inteiro.

 

DOMINGO, 9 HORAS E 15 MINUTOS, DE MANHÃ

MANHATTAN

Laurie inclinava-se para a frente e tentava apontar o guarda-chuva ao vento enquanto avançava lentamente pela Rua 19. Custava-lhe a crer que o tempo pudesse mudar tanto de um dia para o outro. Não só chovia com intensidade e soprava vento forte, como a temperatura descera espectacularmente, o que a levara a retirar o casaco de Inverno do invólucro de protecção.

Alcançou a esquina e acenou em vão aos poucos táxis que passavam, pois achavam-se todos ocupados. Estava quase resignada a seguir a pé para o hospital, quando um acudiu ao seu sinal, não sem a obrigar a dar um salto para trás, a fim de evitar a água e a lama que as rodas levantaram.

Como adiantara satisfatoriamente o expediente, não tencionava trabalhar naquele domingo, embora se sentisse impelida para o seu gabinete por uma sensação supersticiosa.

Inculcara-se-lhe na cabeça a ideia de que, se efectuasse o esforço de o visitar, não haveria mais casos da sua série.

Uma vez na área de recepção, desabotoou o casaco e encaminhou-se para o Departamento de Identificação. Achava-se deserto e não havia a escala dos casos do dia. No entanto, a máquina de café estava ligada e ela encheu uma chávena.

Despiu o casaco, desceu à morgue e passou daí à sala de autópsias cujas luzes se encontravam acesas, o que indicava que alguém a utilizava.

Impeliu a porta e verificou que apenas duas das oito mesas estavam ocupadas. Tentou identificar quem eram os colegas, mas tornava-se difícil, em virtude dos óculos largos, máscaras e capuzes. Quando se preparava para entrar no vestiário, a fim de envergar o equipamento apropriado, alguém se apercebeu da sua presença e interrompeu a autópsia para se lhe dirigir. Era um dos técnicos, Sal D’Ambrosio.

- Que diabo faz aqui?

- Moro cá. - Laurie soltou uma risada. - Qual é o médico que está de serviço?

- O Plodgett. Há algum problema?

- Não. Quem está na outra mesa?

- O doutor Besserman. O Paul chamou-o, porque temos hoje muitos casos. Mais do que habitualmente.

Acercou-se do outro e perguntou:

- Alguma coisa interessante, Paul?

- Sem a menor dúvida. Ia telefonar-te mais tarde. Temos mais duas overdoses que se podem incluir na tua série.

Sentiu o coração contrair-se. A sensação supersticiosa desmoronava-se.

- Volto já.

Enfiou rapidamente o equipamento e regressou à sala de autópsias, observando então que Paul se ocupava de uma mulher muito jovem.

- Que idade?

- Vinte. Estudante universitária na Columbia.

- Que horrível! - murmurou, consciente de que devia tratar-se da vítima mais jovem da sua série.

- E não é o pior.

- Como assim?

- O doutor Besserman ocupa-se do namorado dela, um banqueiro de trinta e um anos. É por isso que acho que estarás interessada. Tudo indica que se injectaram simultaneamente.

- Não me digas!

Laurie sentia-se quase aturdida como tragédia dupla, o incidente era duplamente pungente. Aproximou-se da mesa do doutor Besserman, que naquele momento examinava os órgãos internos do corpo. Ela olhou o rosto do homem e notou uma larga escoriação descolorida na fronte.

- Teve convulsões - informou o doutor Besserman ao observar a curiosidade da colega. - Deve ter batido com a cara no chão. Ou talvez acontecesse no frigorífico.

- Foi encontrado no frigorífico? - estranhou Laurie.

- Pelo menos, assim nos revelou o médico de turno.

- Então, é o terceiro. E a rapariga?

- No chão do quarto.

- Descobriste algo de interessante, até agora?

Não, tudo dentro da rotina de uma overdose.

Transferiu-se para junto da mesa de Paul e viu-o cortar várias amostras de fígado.

- Que tipos de amostras tens estado a enviar para a Toxicologia, nestes casos? - perguntou ele.

- Do fígado, rins e cérebro - explicou Laurie. - Além das habituais amostras de fluidos.

- É o que eu pensava.

- Encontraste alguma coisa de especial neste?

- Até aqui, não. Está tudo de harmonia com uma overdose de cocaína. Nenhuma surpresa. Mas ainda falta a cabeça.

- Sei que têm muitos casos hoje. Já que vim, posso ajudar.

- Não é necessário. Sobretudo, porque podemos contar com o doutor Besserman.

- Tens a certeza?

- Absoluta, mas obrigado pela oferta.

Ela consultou a documentação sobre os casos e anotou os nomes das vítimas, assim como o endereço do banqueiro, pois os corpos tinham sido encontrados no seu apartamento. Em seguida, voltou a entrar no vestiário para se desembaraçar do equipamento, extremamente desencorajada. Havia algo de particularmente trágico no facto de dois jovens apaixonados perderem a vida de uma forma tão estúpida. Tornou a deplorar a persistência de Bingham em não querer informar o público do perigo que a droga contaminada representava. Se tivesse acedido à sua recomendação, aqueles dois talvez ainda vivessem.

Dominada por um impulso irresistível, decidiu telefonar-lhe. Se aquela tragédia estilo Romeu e Julieta não o despertasse para a realidade de que enfrentavam potencialmente uma importante crise da saúde pública, nada o conseguiria.

Subiu ao seu gabinete, procurou o número do telefone que lhe interessava na lista, respirou fundo e marcou-o.

Foi o próprio Bingham que atendeu.

- É domingo - anunciou secamente quando se inteirou de quem estava do outro lado do fio.

Laurie apressou-se a aludir aos dois novos casos de overdose e seguiu-se um longo silêncio. Por último, Bingham declarou, com aspereza:

- Não compreendo porque sentiu a necessidade de mo revelar a um domingo.

- Se tivéssemos emitido um aviso ao público, estes dois jovens talvez ainda vivessem. É possível que estejamos a tempo de evitar outras mortes. A minha série conta já com dezasseis casos.

- Escute, Montgomery. Não estou sequer convencido de que dispõe de uma série bonajide, pelo que não adianta bombardear-me com o termo como se fosse um dado adquirido. Talvez se trate de uma série ou talvez não. Apesar de todas as suas boas intenções, descobriu alguma prova? O laboratório detectou uma substância contaminadora?

- Até agora, não - admitiu ela.

- Então, pela parte que me toca, esta conversa não passa de mais uma versão da que tivemos no outro dia.

- Mas estou convencida de que podemos salvar vidas...

- Eu sei que está. Só que eu também me convenci de que os interesses do hospital recomendam que não levantemos alarmes injustificados. Os media desejariam nomes, e não nos achamos em condições de lhos fornecer, sobretudo devido à pressão exercida pelas altas esferas, e não me refiro apenas à família de Duncan Andrews. Em todo o caso, tenho reunião marcada com o comissário da Saúde esta semana e apresentar-lhe-ei o assunto. Depois, ele que decida.

- Mas...

- Fiquemos por aqui. bom dia!

Laurie fixou o olhar no telefone, frustrada. Bingham desligara-lhe o aparelho na cara. A promessa de que mencionaria o assunto ao comissário da Saúde constituía fraca consolação. Estava convencida de que ele se limitava a transferir o problema de uma alavanca política para outra.

Por fim, decidiu telefonar a Jordan. Como não trabalhava para o Município nem dependia de qualquer grupo ou interesse especial, talvez se pudesse exprimir abertamente. E, embora ela não tivesse a certeza de que quisesse envolver-se no assunto, resolveu tentar a sorte. Ele atendeu ao segundo toque, mas parecia ofegante.

- Estava na bicicleta de exercício - explicou. - Alegra-me voltar a ouvi-la tão cedo. Espero que tenha passado um serão agradável. Eu, pelo menos, gostei muito.

- Foi adorável, e agradeço-lhe mais uma vez. - Tinham sido, na verdade, umas horas aprazíveis, e Laurie ficara aliviada ao ver que Jordan não insistira após o beijo abortado.

Aludiu aos últimos desenvolvimentos da sua série de overdoses e verificou com satisfação que ele parecia sinceramente apreensivo.

- Queria fazer-lhe uma pergunta e pedir um favor - prosseguiu ela. - O meu chefe não quer emitir um aviso público sobre o assunto. Sou de opinião contrária, porque penso que salvaríamos vidas. Sabe de alguma outra maneira de fazer chegar a informação ao seu destino e estaria disposto a colaborar para o efeito?

- Espere aí. Sou um oftalmologista e isso não pertence à minha área de actividade. Pretende que faça uma declaração sobre uma série de mortes causadas pela droga? Nem pensar. Não seria apropriado.

- Se reflectisse um pouco...

- Não preciso de reflectir. Isso é uma daquelas coisas de que me devo demarcar. Lembre-se de que você e eu enveredámos pela medicina provenientes de extremos opostos do espectro. Pertenço ao sector clínico e disponho de uma clientela selecta, que não gostaria de me ver envolvido em problemas da droga, independentemente do lado da lei em que me encontre. Não tardaria a voltar-me as costas e procurar especialistas menos relacionados com a lei. A oftalmologia é extremamente competitiva nos tempos que correm.

Ela nem tentou argumentar. Compreendia mais claramente que nunca: Jordan Scheffíeld não a ajudaria. Assim, com um leve suspiro de resignação, agradeceu-lhe o tempo concedido e desligou.

Havia apenas outra pessoa à qual podia recorrer e, embora pouco optimista quanto ao tipo de recepção que a aguardava, engoliu o amor-próprio e telefonou a Lou. Como ignorava o número do domicílio, ligou à Central da Polícia para que lhe transmitissem o recado. Foi com certa surpresa que viu o pedido satisfeito imediatamente.

- Como está? - Ele parecia contente por lhe ouvir a voz. - Eu devia ter-lhe dado o meu número de casa. Tome nota, antes que me esqueça.

Laurie foi buscar papel e lápis e anotou-o, após o que o detective acrescentou:

- Ainda bem que telefonou, pois tenho os miúdos comigo. Quer vir até ao Soho, para almoçarmos juntos?

- Fica para outra vez. Estou a contas com um problema.

- Ouçamo-lo.

Ela mencionou o caso da dupla overdose daquela manhã e o teor das suas conversas com Bingham e Jordan.

- É agradável saber que figuro no fundo da sua lista - comentou ele.

- Não se faça melindrado, por favor. Estou desesperada.

- Porque se porta assim comigo? Gostava de poder ajudá-la, mas não se trata de um assunto de polícia, como lhe referi na última vez que o abordou. Compreendo perfeitamente o seu problema, e não me acode qualquer sugestão para lhe oferecer. E, se quer ouvir a minha opinião, não é a você que compete resolvê-lo. Fez o que podia e informou os seus superiores. A isso se resume o que pode esperar de si.

- A consciência não me deixa ficar por aqui. Em particular, enquanto pessoas continuam a morrer.

- Que disse o inefável Jordan?

- Receia que a sua clientela não compreendesse e, por conseguinte, não me pode valer.

- É uma desculpa muito débil. Surpreende-me que não desenvolva esforços desesperados para demonstrar que deseja ajudar a sua donzela em perigo.

- Não sou a donzela dele.

- Não é sempre encantado o seu príncipe, hem?

Laurie pousou o auscultador com brusquidão. O homem conseguia por vezes tornar-se insuportável. Recolheu as suas coisas, sem esquecer o endereço do local das duas últimas overdoses, e preparava-se para sair quando o telefone tocou. No entanto, convencida de que era Lou, não atendeu. A campainha retiniu vinte vezes antes de parar, quando ela alcançava o elevador.

Em baixo, chamou um táxi e seguiu para o endereço na Sutton Place South, onde mostrou o crachá profissional ao porteiro e pediu para falar com o administrador do prédio. O homem utilizou o telefone interno e depois informou:

- Ele vem já.

com efeito, não tardou a aparecer um indivíduo de pequena estatura, que declarou chamar-se Carl Bethany e que perguntou:

- Vem por causa do que aconteceu ao George VanDeusen?

Laurie assentiu com uma inclinação de cabeça.

- Se não desse muito incómodo, gostava de visitar o local onde os corpos foram encontrados. O apartamento está desocupado?

- Sim, levaram os corpos ontem à noite.

- Não é a isso que me refiro. Quero ter a certeza de que não há ninguém da família, para não perturbar a dor do momento.

O administrador declarou que precisava de se certificar. Trocou algumas palavras com o porteiro e voltou para junto dela, a fim de anunciar que o apartamento se encontrava deserto. A seguir, conduziu-a ao nono andar e abriu a porta, após o que se desviou para que Laurie o precedesse.

- Ainda não vieram fazer a limpeza - informou, consciente do odor a mofo particularmente intenso.

Ela olhou em volta atentamente. Uma mesinha de café de estilo antigo, com apenas três pés, tombara numa posição estranha. O quarto pé achava-se a seu lado. Havia revistas e livros espalhados na carpete, como se tivessem caído da mesinha. Um candeeiro de cristal tombara e fragmentara-se entre outra mesa e o sofá. Uma tela de um velho mestre da pintura pendia da parede com uma inclinação irregular.

- Houve muitos estragos - acabou por comentar, ao mesmo tempo que tentava imaginar o tipo de convulsões responsáveis por tudo aquilo.

- Continua tudo com o aspecto de quando entrei, ontem à noite.

- Quem encontrou os corpos? - perguntou, dirigindo-se para a cozinha.

- Eu.

- O que o levou a vir cá? - insistiu, surpreendida.

- Fui chamado pelo porteiro.

- Porquê?

- Disse que um locatário lhe tinha telefonado a queixar-se de ruídos estranhos no 10-F e recear que se devessem a algum acidente.

- E o senhor que fez?

- Acudi imediatamente e toquei à campainha - explicou o administrador. - Como não obtive resposta após várias tentativas, utilizei a minha chave-mestra. Foi então que se me depararam os corpos.

Laurie pestanejou, imersa em reflexões. Quanto mais observava o cenário, maior era a sua convicção de que havia algo que não fazia sentido. Recordava-se de ter lido no relatório do investigador médico que os dois corpos apresentavam um rigor mortis significativo. Ora, isso queria dizer que deviam estar mortos havia várias horas.

- Diz o senhor que um locatário telefonou ao porteiro para se queixar de que ouvia ruídos estranhos. Sabe se continuavam enquanto falava?

- Creio que sim.

Evocou as circunstâncias em que as outras vítimas tinham sido encontradas. Nos casos de Duncan Andrews e Julia Myerholtz, foram os respectivos namorados. Mas quanto às restantes? A dúvida acudia-lhe pela primeira vez, e saltava-lhe imediatamente à vista um pormenor estranho e comum: todas haviam sido encontradas com relativa prontidão, numa questão de escassas horas, enquanto, na maioria das vezes, as pessoas que viviam sozinhas morriam inesperadamente e levavam dias a ser descobertas, e algumas apenas depois de o cheiro pungente característico alertar os vizinhos.

O aspecto da cozinha era familiar. O conteúdo do frigorífico achava-se espalhado pelo chão e a porta entreaberta. Laurie notou que o odor de alimentos podres e leite entornado pairava na atmosfera.

- Alguém vai ter de limpar isto - disse o administrador.

Ela inclinou a cabeça distraidamente e passou ao quarto. Assolou-a de novo profunda tristeza. Era mais fácil permanecer desapaixonada no seu gabinete de trabalho do que no lar de uma vítima de overdose.

- Posso fazer mais alguma coisa para a ajudar? - quis saber ele.

- Gostava de falar com o porteiro nocturno - indicou Laurie, dominando as lágrimas iminentes.

- Isso é fácil. Que mais?

- Talvez seja preferível não mandar proceder à limpeza, por enquanto. Deixe-me primeiro contactar com a polícia.

- Também esteve cá, ontem à noite.

- Eu sei, mas estou a pensar em alguém mais elevado na hierarquia do Departamento de Homicídios.

No átrio, Carl, o administrador, foi inteirar-se do número de telefone do porteiro nocturno e revelou-o a Laurie, juntamente com o nome, Scott Maybrie. Levou mesmo a amabilidade ao ponto de sugerir que se servisse do seu próprio telefone.

- Não estará a dormir a esta hora? - alegou ela.

- Se se trata de uma emergência...

O pequeno apartamento de Carl situava-se no rés-do-chão, do lado da rua, em contraste com o de VanDeusen, sobranceiro ao East River. Ele permitiu a Laurie que se sentasse à secretária, entre facturas de canalizadores e electricistas, e prontificou-se a marcar o número. Como ela temia, a voz do homem do outro lado do fio deixava transparecer que fora arrancado da cama. Identificou-se, explicou que o administrador sugerira que efectuasse a chamada e acrescentou:

- Queria fazer-lhe algumas perguntas sobre o caso VanDeusen. Viu-o a ele ou à namorada, ontem à noite?

- Não.

- O administrador diz que outro locatário lhe telefonou a queixar-se de ruídos estranhos no apartamento de VanDeusen. Lembra-se que horas eram?

- Umas duas e meia, três horas.

- Qual locatário foi?

- Não se identificou.

- Seria um dos vizinhos imediatos?

- Confesso que não sei. Não reconheci a voz, mas isso não é invulgar.

- Recorda-se exactamente do que ele disse?

- Que havia ruídos estranhos no 10-F e receava que alguém estivesse ferido.

- Referiu se continuavam no momento em que falava consigo ou os ouvira antes?

- Acho que disse que continuavam.

- Viu dois homens abandonarem o prédio durante a noite? - persistiu ela. - Alguém que nunca estivera lá?

- Não me posso pronunciar nesse aspecto, pois entra e sai gente durante toda a noite. Para ser franco, não presto muita atenção a quem sai. Preocupo-me mais com quem entra.

Agradeceu ao porteiro e pediu desculpa por tê-lo incomodado. A seguir, virou-se para o administrador e perguntou se podia falar com o que estivera de serviço anteriormente.

- com certeza - assentiu Carl. - Deve ter sido o Clark Davenport. - Marcou novo número e passou o auscultador a Laurie.

Quando o homem atendeu, ela repetiu a explicação que dera ao colega e perguntou:

- Viu George VanDeusen entrar no apartamento ontem à noite?

- Decerto. Chegou por volta das dez e meia, com a namorada.

- Pareceu-lhe com o aspecto normal?

- Bem, normal para uma noite de sábado. Estava algo «alegre». Ela tinha de o amparar um pouco. Mas mostravam-se bem-dispostos e até divertidos.

- Vinham sós?

- Exacto. Os convidados só chegaram meia hora mais tarde.

- Houve festa? - inquiriu Laurie, admirada.

- Eu não lhe daria esse nome disse Clark. Eram só dois homens. Um alto e magro e o outro mais encorpado, como que atarracado.

- Recorda-se de mais algum pormenor a seu respeito? - Seguiu-se um breve silêncio, como se o porteiro estivesse a reflectir.

- O alto tinha problemas de pele, como se tivesse sofrido de acne na juventude.

- Identificaram-se? - persistiu ela, sentindo as pulsações acelerarem-se.

- Sem dúvida, de contrário como poderia anunciar ao senhor VanDeusen de quem se tratava e indagar se os esperava?

- Que nomes deram? - perguntou, puxando de papel e lápis.

- Não me lembro. Num sábado à noite, está sempre a entrar e a sair gente.

Ficou desapontada, em particular por se ter encontrado tão perto de uma revela&cc