Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CÓDIGO EXPLOSIVO / Ken Follett
CÓDIGO EXPLOSIVO / Ken Follett

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CÓDIGO EXPLOSIVO

 

5:00

O missil Jupiter C se encontra na plataforma de lançamento do Complexo 26, em Cabo Canaveral. Por motivos de segurança está envolto em imensos mantos de lona que escondem tudo, menos a cauda, que é a do Redstone, o conhecido foguete do Exército. O resto, encoberto sob a capa, é absolutamente único...

Ele acordou assustado.

Pior: aterrorizado. O coração batia com força, a respira­ção vinha aos arrancos e o corpo estava retesado. Era como um pesadelo, só que acordar não lhe deu qualquer sensação de alívio. Sentia que algo terrível acontecera, mas não sabia o que era.

Abriu os olhos. A luz fraca que vinha do outro quarto iluminava timidamente o ambiente, e foi possível distinguir va­gas formas, familiares mas sinistras. Em algum ponto nas pro­ximidades, escorria água em uma cisterna.

Procurou acalmar-se. Engoliu, respirou com regularidade e tentou pensar direito. Deitado em um chão duro, todo o seu corpo doía e a impressão que tinha era de que estava de ressa­ca, com dor de cabeça, boca seca e sensação de náusea.

Sentou direito, tremendo de medo. Sentiu o odor desagra­dável de piso úmido lavado com desinfetante forte. Reconhe­ceu o contorno de uma série de pias.

Estava em um toalete público.

Que nojo... Dormira no chão de um banheiro masculino. O que diabo lhe acontecera? Concentrou-se. Estava totalmente vestido, usando sobretudo e botas pesadas, embora sentisse que as roupas que trajava não eram suas. O pânico foi ceden­do, mas em seu lugar veio um medo mais profundo, menos his­térico, mais racional. O que lhe acontecera era muito ruim.

Precisava de luz.

Levantou-se. Olhou em torno, tentando enxergar através da penumbra e procurou adivinhar onde seria a porta. Levantando os braços à frente do corpo para evitar possíveis obstáculos invisíveis, andou até uma parede. Daí em diante andou de lado, explorando com as mãos. Encontrou uma superfície lisa e fria que devia ser um espelho, depois veio um cabide para toalhas e uma caixa de metal que podia ser uma máquina caça-níqueis. Finalmente seus dedos tocaram num interruptor, que foi acionado.

Uma luz clara inundou as paredes de azulejos brancos, o piso de concreto e a linha de toaletes com as portas dos reser­vados abertas. Em um canto havia o que parecia ser uma pilha de roupas velhas. Perguntou-se como chegara ali. Concentrou-se ao máximo. O que acontecera na noite anterior? Não conse-guiu lembrar.

O medo histérico começou a retomar quando percebeu que não conseguia lembrar-se de coisa alguma.

Cerrou os dentes para impedir-se de gritar. Ontem... ante­ontem... nada. Qual era seu nome? Não sabia.

Virou-se para a fileira de pias. Acima delas havia um espe­lho comprido. No espelho viu um vagabundo sórdido, vestido de farrapos, com o cabelo emaranhado, cara suja e uma expres­são louca nos olhos esbugalhados. Contemplou o vagabundo por um instante e então foi atingido por uma terrível revelação. Recuou um pouco, com um grito de choque, e o homem do espelho fez a mesma coisa. O vagabundo era ele próprio.

Não podia mais conter a onda de pânico. Abriu a boca e, numa voz trêmula de terror, gritou:

— Quem sou eu?

 

A pilha de roupas velhas mexeu-se. Rolou sobre si própria, um rosto apareceu e uma voz resmungou:

— Você parece um vagabundo, Luke, cala a boca.

Seu nome era Luke.

Sentiu-se pateticamente agradecido por saber. Um nome não era muito, mas lhe dava um foco. Fixou os olhos no com­panheiro. O homem usava um paletó de tweed todo rasgado, com barbante na cintura como se fosse um cinto. O rosto jovem e sujo tinha uma expressão astuta. O homem esfregou os olhos e resmungou:

— Minha cabeça dói.

Luke perguntou:

— Quem é você?

— Sou Pete, seu retardado, não está vendo?

— Não consigo — Luke engoliu em seco, contendo o pânico. — Perdi a memória!

— Não me espanto. Bebeu uma garrafa quase inteira ontem. É um milagre que não tenha perdido toda a cabeça.

Ele lambeu os lábios.

— A mim não coube quase nada daquele maldito bourbon.

Bourbon explicaria a ressaca, pensou Luke.

— Mas por que eu iria beber toda uma garrafa?

Pete riu zombeteiramente.

— Esta é a pergunta mais idiota que já ouvi. Para ficar de porre, claro!

Luke ficou estarrecido. Ele era um vagabundo bêbado que dormia em toaletes públicos.

Sentiu uma sede infernal. Debruçou-se numa pia, abriu a água fria e bebeu direto da torneira. Sentiu-se melhor. Esfre­gou as mãos e obrigou-se a olhar de novo para o espelho.

O rosto estava mais calmo agora. A expressão de maluco se fora, substituída por outra, de desorientação e medo. No espelho, seu reflexo era de um homem com mais de trinta anos, cabelos escuros e olhos azuis. Não tinha barba ou bigode, só o pêlo crescido da barba por fazer, densa e escura.

Virou-se para o companheiro.

— Luke de quê? — perguntou. — Qual é meu sobrenome?

— Luke... Luke qualquer coisa, como diabos vou saber?

Luke percebeu que estava com fome. Perguntou-se se teria dinheiro. Revistou os bolsos: capa de chuva, paletó, calças. Tudo vazio. Não tinha dinheiro, carteira, nem mesmo lenço. Nada de valor, e tampouco de indícios.

— Acho que estou duro — falou.

— Não brinca — retrucou Peter, sarcástico. — Vamos.

Tropeçando, saiu porta afora.

Luke o seguiu.

Quando saiu na luz, sofreu outro choque. Estava em um templo imenso, vazio e misteriosamente silencioso. Fileiras de bancos de mogno alinhavam-se sobre o piso de mármore, como bancos de igreja esperando uma congregação fantasma. Em torno do vasto salão, no alto lintel de pedra que encimava as fileiras de colunas, surreais guerreiros de pedra, com capa­cetes e escudos, montavam guarda ao lugar sagrado. Muito acima de suas cabeças, ficava o teto abobadado ricamente decorado com octógonos dourados. Passou pela cabeça de Luke que tinha sido vítima de um sacrifício em um misterioso ritual que o deixara sem memória.

Apavorado, perguntou:

— Que lugar é este aqui?

— Union Station, Washington, D.C. — respondeu Pete.

Um circuito elétrico se fechou dentro da cabeça de Luke e a coisa toda fez sentido. Foi com alívio que ele viu a imundície nas paredes, os chicletes esmagados no piso de mármore e as embalagens de balas e maços de cigarros nos cantos, e se sen­tiu ridículo. Encontrava-se em uma grandiosa estação ferroviá­ria, de manhã bem cedo, antes dela se encher de passageiros. Assustara a si próprio como uma criança imaginando monstros no quarto escuro.

Pete seguiu para um arco triunfal onde estava escrito SAÍ­DA, e Luke apressou-se a acompanhá-lo.

Ouviram uma voz agressiva:

— Ei, vocês! Vocês dois aí!

— Oh-oh — fez Pete, apressando o passo.

Um homem corpulento, vestindo um uniforme apertado da estrada de ferro, lançou-se sobre eles, cheio de justa indignação.

— De onde vieram, seus vagabundos?

— Estamos saindo, estamos saindo — choramingou Pete.

Luke sentiu-se humilhado por estar sendo expulso de uma estação de estrada de ferro por um funcionário gordo.

O homem não ficou satisfeito por se livrar deles.

— Dormiram aqui, não foi? — protestou, seguindo-os praticamente nos seus calcanhares. — Sabem que não é permitido.

Luke enfureceu-se por levar um sermão como um garoto de escola, embora achasse que merecia. Tinha mesmo dormido em um maldito banheiro masculino. Conteve uma resposta e apertou o passo.

— Isto aqui não é uma pensão barata! — continuou o ho­mem. — Malditos vagabundos, sumam!

Ele empurrou Luke pelo ombro.

Luke virou-se subitamente e confrontou o homem.

— Não encosta a mão — disse, surpreso com a ameaça ocul­ta em sua voz. O guarda deteve-se. — Estamos indo embora, de modo que não precisa fazer ou dizer mais nada, está claro?

O homem deu um grande passo para trás, parecendo assustado.

Pete pegou o braço de Luke.

— Vamos.

Luke sentiu-se envergonhado. O sujeito era um idiota intrometido, mas Luke e Pete eram vagabundos e um emprega­do de estrada de ferro tinha o direito de expulsá-los da estação. Luke não tinha nada que intimidá-lo.

Passaram através do arco majestoso para enfrentar o escu­ro do lado de fora. Havia uns poucos carros estacionados em torno da praça circular em frente à estação, mas as ruas esta­vam em silêncio. O frio era cortante e Luke agasalhou-se me­lhor com suas roupas rasgadas. Era inverno, uma frígida ma­nhã em Washington, talvez janeiro ou fevereiro.

Gostaria de saber o ano.

Pete virou para a esquerda, aparentemente sabendo para onde ia. Luke seguiu.

— Para onde estamos indo? — perguntou.

— Conheço um lugar na rua H onde podemos ganhar um ca­fé da manhã de graça, desde que você não se incomode de can­tar um ou dois hinos religiosos.

— Estou morrendo de fome. Canto um hinário inteiro.

Pete seguiu, confiante, uma rota em ziguezague pelo bair­ro pobre. A cidade ainda não tinha acordado. As casas estavam às escuras e as janelas cerradas, os botecos e bancas de jornal ainda fechados. Vendo uma janela de quarto onde havia uma cortina barata, Luke imaginou um homem lá dentro, dormindo profundamente sob uma pilha de cobertores, a mulher bem aquecida ao seu lado, e sentiu uma pontada de inveja. A impressão que tinha era de que seu lugar era do lado de fora, na comunidade dos homens e mulheres que se aventuravam nas ruas glaciais antes do raiar do dia, enquanto a maioria das pes­soas continuava a dormir: o homem em roupas de trabalho que ia pegar a condução para se dirigir ao emprego, o rapaz de bici­cleta embrulhado num xale e luvas; a mulher solitária fuman­do no interior muito iluminado de um ônibus.

Sua cabeça fervilhava de perguntas ansiosas. Há quanto tempo era um bêbado? Já tentara alguma vez deixar de beber? Tinha família que pudesse ajudá-lo? Onde tinha encontrado Pete? Onde conseguia a bebida? Onde bebia? Mas Pete estava taciturno e Luke controlou sua impaciência esperando que o outro se mostrasse mais sociável quando tivesse um pouco de comida dentro da barriga.

Chegaram a uma igrejinha situada desafiadoramente entre um cinema e uma tabacaria. Entraram pela porta lateral e des­ceram um lance de escadas até o porão. Luke viu-se em uma sa­la comprida de teto baixo — uma capela subterrânea, ele diria. Em uma ponta havia um piano de armário e um pequeno púlpi­to. Na outra, um fogão de cozinha. Entre uma e outra, três filei­ras de mesas sustentadas por cavaletes e os respectivos bancos. Havia três vagabundos sentados, um em cada mesa, olhos per­didos no espaço. No lado da cozinha, uma mulher gorda e bai­xa mexia uma panela grande. A seu lado, um homem de colari­nho clerical ergueu os olhos de um bule de café e sorriu:

— Entrem, entrem! — exclamou, animado. — Venham para o quentinho.

Luke dirigiu-lhe um olhar desconfiado, perguntando-se se aquele tipo seria mesmo real.

O fato é que estava quente de verdade, até mesmo abafado depois da temperatura glacial lá fora. Luke desabotoou a capa de chuva imunda.

Foi Pete quem falou:

— Bom dia, pastor Lonegan.

O pastor disse:

— Você já esteve aqui? Esqueci seu nome.

— Sou Pete, ele é Luke.

— Dois apóstolos! — a satisfação pareceu genuína. — É um pouco cedo para comer, mas já temos café fresco.

Luke gostaria de saber como Lonegan mantinha o bom humor tendo que levantar tão cedo para servir café da manhã a uma sala cheia de malandros catatônicos.

O pastor serviu o café em duas canecas de louça grossa.

— Leite e açúcar?

Luke não sabia se queria leite e açúcar no seu café.

— Sim, obrigado — respondeu, tentando adivinhar.

Aceitou a caneca e tomou um gole. O sabor era enjoativamente doce e cremoso. Normalmente devia tomar café preto. Mas o café amenizou sua fome, e ele tomou tudo depressa.

— Teremos uma palavra de oração em poucos minutos — disse o pastor. — Quando tivermos terminado, o famoso mingau de aveia da sra. Lonegan deverá estar cozido à perfeição.

Luke concluiu que sua suspeita fora infundada. O pastor Lonegan era o que parecia ser, um sujeito jovial que gostava de ajudar os outros.

Luke e Pete se sentaram a uma das mesas rústicas de cavalete, e Luke estudou o companheiro. Até agora tinha reparado apenas no rosto sujo e nas roupas rasgadas. Via agora que Pete não tinha as marcas do bêbado antigo: veias rompidas, pele seca descascando, cortes ou contusões. Talvez porque fosse muito jovem — não mais que vinte e cinco anos, no palpite de Luke. Mas era ligeiramente desfigurado. Tinha uma marca vermelha-escura de nascença que ia da orelha direita à linha do queixo. Os dentes eram desiguais e descoloridos. O bigode escuro provavelmente servia para desviar a atenção dos dentes ruins, isto, é claro, quando se preocupava com a aparência. Luke sentiu nele uma certa raiva contida. Pete devia ter ressen­timento contra o mundo, talvez por tê-lo feito feio, talvez por alguma outra razão. Provavelmente tinha uma teoria de que o país estava sendo arruinado por um dos grupos que odiava: imigrantes chineses, negros presunçosos, ou algum clube secreto dos dez homens ricos que controlavam o mercado de ações sem que ninguém soubesse.

— O que está olhando? — indagou Pete.

Luke deu de ombros e não respondeu. Em cima da mesa havia um jornal dobrado aberto nas palavras cruzadas e um toco de lápis. Luke deu uma olhada no que já estava resolvido, pegou o lápis e começou a preencher os brancos.

Mais vagabundos foram aparecendo. A sra. Lonegan trou­xe uma pilha de tigelas pesadas e colheres. Luke acertou todas as palavras cruzadas menos uma — “pequeno lugar na Dina­marca”. O pastor deu uma olhada no desenho praticamente todo preenchido e comentou baixinho com a mulher, “Oh, que nobre mente foi aqui lançada”.

Luke imediatamente descobriu a palavra que faltava — HAMLET — e escreveu.

Desdobrou o jornal e procurou a data na primeira página: quarta-feira, 29 de janeiro de 1958. Seu olhar foi atraído pela manchete: LUA AMERICANA PERMANECE NA TERRA. Con­tinuou lendo:

Cabo Canaveral. Terça-feira: A Marinha dos Estados Unidos abandonou uma segunda tentativa para lançar seu foguete espacial, Vanguard, após múltiplos problemas téc­nicos.

A decisão foi tomada dois meses depois que o primei­ro lançamento do Vanguard terminou em desastre humi­lhante, com o foguete explodindo dois segundos após a ignição.

As esperanças americanas de lançar um satélite espa­cial para rivalizar com o satélite russo Sputnik agora dependem exclusivamente do foguete do Exército, de nome Júpiter.

Do piano veio um acorde estridente e Luke levantou a cabeça. A sra. Lonegan tocava a introdução de um hino conhe­cido. Ela e o marido começaram a cantar, “Oh, que Grande Amigo temos em Jesus” e Luke começou também, satisfeito por conseguir se lembrar da música.

O bourbon teve um efeito estranho, pensou. Era capaz de fazer palavras cruzadas e cantar um hino religioso de memória, mas não sabia como se chamava a própria mãe. Só se estava bebendo durante anos e o álcool lhe danificara o cérebro. Não sabia como podia ter deixado acontecer uma coisa dessas.

Depois do hino o pastor Lonegan leu alguns versículos da Bíblia, quando disse a todos os presentes que podiam ser sal­vos. Ali estava um grupo que realmente precisava ser salvo, pensou Luke. Mesmo assim, não se sentia tentado a arriscar sua fé em Jesus. Precisava descobrir primeiro quem era.

O pastor improvisou uma oração, cantaram graças e em seguida os homens entraram em fila e a sra. Lonegan serviu mingau de aveia com xarope. Luke tomou três tigelas, depois do que se sentiu muito melhor. A ressaca estava cedendo bem depressa.

Impaciente para retomar suas indagações, abordou o pastor.

— O senhor já me viu aqui antes? Perdi a memória.

Lonegan o encarou atentamente.

— Sabe, acredito nunca ter visto você. Mas vejo centenas de pessoas todas as semanas e posso estar enganado. Que idade você tem?

— Não sei — respondeu Luke, sentindo-se bobo.

— Eu diria uns trinta e muitos. Você não vem vivendo com dificuldade há muito tempo. O preço que se paga é muito alto. Mas você ainda tem elasticidade no seu passo, sua pele é clara por baixo da sujeira e ainda está alerta o bastante para resolver um problema de palavras cruzadas. Deixe de beber agora e será capaz de viver uma vida normal novamente.

Luke gostaria de saber quantas vezes o pastor já dissera aquelas palavras.

— Vou tentar — prometeu.

— Se precisar de ajuda, basta pedir.

Um rapaz que parecia ser deficiente mental batia persistentemente no braço de Lonegan, que se virou para ele com um sorriso paciente.

Luke se dirigiu para Pete.

— Há quanto tempo você me conhece?

— Não sei, você já circula por aí há um bocado.

— Onde passamos a noite de anteontem?

— Calma, está bem? Sua memória voltará mais cedo ou mais tarde.

— Tenho que descobrir de onde sou.

Pete hesitou.

— O que precisamos é de uma cerveja. Ajuda a pensar direito.

Ele se virou na direção da porta.

Luke agarrou-lhe o braço.

— Não quero cerveja — disse, decididamente.

Tudo indicava que Pete não queria que ele investigasse o passado. Talvez tivesse medo de perder o companheiro. Bem, azar o dele. Luke tinha coisas mais importantes para fazer do que bancar a babá de Pete.

— Na verdade — disse Luke — acho que eu gostaria de ficar sozinho por uns tempos.

— Quem é você, a Greta Garbo?

— Estou falando sério.

— Você precisa de mim para tomar conta das coisas. Não. Droga, não vai conseguir sozinho. Não consegue sequer se lembrar da idade!

Pete tinha uma expressão de desespero no olhar, mas Luke não se comoveu.

— Agradeço sua preocupação, mas você não está me aju­dando a descobrir quem sou eu.

Após um momento, Pete deu de ombros.

— Você tem o direito — ele virou-se para a porta de novo. — Vejo você por aí, talvez.

— Talvez.

Pete saiu. Luke apertou a mão do pastor Lonegan.

— Muito obrigado por tudo.

— Espero que encontre o que procura — disse o pastor.

Luke subiu a escada e saiu na rua. Pete estava na outra quadra, falando com um homem de capa de chuva verde de gabardine e chapéu igual — esmolando o dinheiro da cerveja, supôs Luke. Andou na direção contrária e virou na primeira esquina.

Ainda estava escuro. Luke sentiu frio nos pés e viu que não usava meias. Ao acelerar o passo, começou a nevar. Após alguns minutos diminuiu o ritmo. Não tinha razão para correr. Não fazia diferença se caminhasse depressa ou devagar. Parou e procurou abrigo em um portal.

Não tinha aonde ir.

 

6:00

O foguete é cercado em três lados pela armação de serviço que o sustenta, com sua estrutura de aço. A armação, na verdade, é uma torre petrolífera convertida e montada sobre dois conjuntos de rodas que rolam sobre trilhos de bitola larga. A estrutura completa de serviço, maior que uma casa, graças a essas rodas será empurrada . para trás 300 vezes antes do lançamento.

Elspeth acordou preocupada com Luke.

Deixou-se ficar deitada na cama por mais alguns instantes, o coração pesado de preocupação com o homem a quem amava. Em seguida acendeu a luz da mesinha-de-cabeceira e sentou.

Seu quarto de motel era decorado com um tema do progra­ma espacial. O abajur de pé tinha a forma de um foguete e os quadros nas paredes mostravam planetas, luas crescentes e tra­jetórias orbitais em um céu noturno loucamente irrealista. O Starlite era um dos novos motéis que tinham brotado entre as dunas na área da praia de Cocoa, na Flórida, a cerca de quinze quilômetros de Cabo Canaveral, para acomodar o fluxo de visitantes. O decorador obviamente achara que o tema espacial seria o mais adequado, mas fazia Elspeth se sentir como se estivesse no quarto de um menino de dez anos de idade.

Pegou o telefone em cima da mesa-de-cabeceira e discou o número do escritório de Anthony Carroll em Washington, D.C. Do outro lado da linha, o telefone tocou sem que ninguém atendesse. Tentou o número da casa dele com o mesmo resul­tado. Teria alguma coisa saído errado? Elspeth sentiu-se doen­te de tanto medo. Procurou convencer-se de que Anthony deveria estar a caminho do escritório. Telefonaria de novo em meia hora. Ele não podia levar mais de trinta minutos no traje­to para o trabalho.

Enquanto tomava banho, pensou em Luke e Anthony quando os conhecera. Eles estudavam em Harvard e ela em Radcliffe, antes da guerra. Os rapazes eram membros do Har­vard Glee Club; Luke tinha uma bela voz de barítono e Antho­ny de tenor. Elspeth funcionava como diretora do coral de Radcliffe e organizara um concerto conjunto com o Glee Club.

Amicíssimos, Luke e Anthony constituíam uma estranha dupla. Ambos eram altos e atléticos, mas a semelhança termi­nava aí. As garotas de Radcliffe os chamavam de o Belo e a Fera. Luke era o Belo, com seu cabelo negro ondulado e rou­pas elegantes. Anthony não era bonito, com seu nariz grande e queixo comprido, e sempre dava a impressão de estar usando o terno de outro, mas as garotas eram atraídas pela sua energia e entusiasmo.

Elspeth tomou um banho rápido de chuveiro e sentou-se de robe diante da penteadeira para se pintar. Pôs o relógio de pul­so ao lado do delineador para saber quando tinham se passado trinta minutos.

Também estava sentada de roupão de banho diante do espelho da penteadeira quando, pela primeira vez na vida, fala­ra com Luke. Foi durante o que chamavam de “incursão de cal­cinhas”. Um grupo de rapazes de Harvard, alguns deles bêba­dos, entrou no dormitório delas, em Radcliffe, uma noite, já bem tarde, pulando uma janela do térreo. Agora, quase vinte anos depois, Elspeth achava incrível que ela e as outras não tivessem receado nada pior que terem a roupa de baixo rouba­da. Será que o mundo era mais inocente naquele tempo?

Por acaso, Luke entrara no seu quarto. Ele estava se especializando em matemática, como a própria Elspeth. Embora usasse máscara, ela reconheceu suas roupas. Um paletó cinza-claro de tweed irlandês, com um lenço de algodão sarapintado de vermelho enfiado na lapela. Uma vez sozinho com ela, Luke pareceu embaraçado, como se só então lhe ocorresse que o que estava fazendo era tolice. Elspeth sorrira, apontara para a cômoda e dissera:

— Gaveta de cima.

Luke pegou duas lindas calcinhas brancas com enfeite de renda e Elspeth sentiu uma dor no coração — eram bastante caras. Mas no dia seguinte ele lhe pediu um encontro.

Tentou concentrar-se na maquiagem. A tarefa era mais difícil que o normal, porque dormira mal. A base alisou-lhe o rosto e o batom cor de salmão alegrou-lhe a boca. Era formada em matemática por Radcliffe, mas ainda esperavam que fosse trabalhar com a aparência de um manequim.

Escovou o cabelo. Era castanho-avermelhado e cortado como a moda mandava, vindo até a altura do queixo e virado para baixo atrás. Enfiou rapidamente um vestido chemisier sem mangas, de algodão, com listras verdes e cor de canela e finalizou com um cinto de couro largo castanho-escuro.

Vinte e nove minutos tinham se passado desde a última vez que ligara para Anthony.

Para passar o último minuto, pensou no número 29. Era primo — ou seja, não podia ser dividido por nenhum outro número, exceto o 1 — mas a não ser por isso não era muito inte­ressante. A única outra coisa pouco usual a respeito dele era que 29 mais 2x2 era um número primo para todos os valores de x até o 28. Calculou a série de cabeça: 29, 31, 37, 47, 61, 79, 101, 127...

Pegou o telefone e discou de novo o número do telefone do escritório de Anthony.

Ninguém atendeu.

 

1941

Elspeth Twomey se apaixonou por Luke na primeira vez que ele a beijou.

A maioria dos rapazes de Harvard não tinha idéia de como beijar. Ou machucavam os lábios da menina com um brutal beijo estalado, ou abriam tanto a boca que você se sentia como na cadeira do dentista. Quando Luke a beijou, faltando cinco minutos para a meia-noite, nas sombras do dormitório, o Radcliffe Dormitory Quad, o beijo foi apaixonado e ainda assim, terno. Os lábios dele moveram-se o tempo todo, não só sobre seus lábios, como também sobre seu rosto, pálpebras e pescoço. A ponta da língua dele sondou, delicada, por entre seus lábios, pedindo, polidamente, permissão para entrar e ela nem sequer se deu ao trabalho de fingir que hesitava. Depois, sentada em seu quarto, olhara no espelho e murmurara para a sua imagem, “Acho que eu o amo”.

Isso fora seis meses atrás e o amor só fizera crescer desde então. Agora via Luke quase que todos os dias. Ambos cursa­vam o último ano. Diariamente se encontravam para o almoço ou estudavam juntos por umas duas horas. Nos fins de semana passavam juntos quase que o tempo todo.

Não era raro que as garotas de Radcliffe ficassem noivas, no último ano, de um rapaz de Harvard ou de um jovem pro­fessor. Casavam-se no verão, saíam em uma longa viagem de lua-de-mel e se mudavam para um apartamento quando voltavam. Começavam a trabalhar e um ou dois anos depois tinham seu primeiro filho.

Mas Luke nunca abrira a boca para falar sobre casamento.

Olhou para ele, sentado em um reservado nos fundos do Flanagan’s Bar, discutindo com Bern Rothsten, um estudante graduado de estatura elevada com um denso bigode preto e uma expressão de teimosia no olhar. O cabelo negro de Luke insistia em cair sobre seus olhos, e ele o empurrava de volta com a mão esquerda, num gesto familiar. Quando ficasse mais velho e tivesse um emprego com responsabilidade, iria passar gel no cabelo para conservá-lo no lugar, e então não seria mais tão sexy.

Bern era comunista, como muitos outros estudantes e professores de Harvard.

— Seu pai é banqueiro — disse ele para Luke, com desdém. — Você também será banqueiro. Claro que tem que achar o capitalismo ótimo.

Elspeth viu o rubor subir ao pescoço de Luke. O pai dele tinha aparecido recentemente em um artigo da revista Time como um dos dez homens que tinham se tornado milionários depois da Depressão. Mas ela adivinhava que ele estaria coran­do não porque fosse um garoto rico, mas porque gostava da família e se ressentia com a crítica implícita ao pai. Sentindo-se furiosa por ele, exclamou, indignada:

— Não julgamos as pessoas pelos seus pais, Bern!

Luke disse:

— De qualquer modo, trabalhar em banco é uma coisa honrada. Os banqueiros ajudam as pessoas a começarem seus próprios negócios e geram empregos.

— Como fizeram em mil novecentos e vinte e nove.

— Eles cometem erros. Às vezes ajudam as pessoas erradas. Soldados cometem erros — atiram nas pessoas erradas — mas não acuso você de ser um assassino.

Foi a vez de Bern acusar o golpe. Ele tinha combatido na guerra civil espanhola — era mais velho uns três ou quatro anos que os demais — e Elspeth imaginou que estivesse agora relem­brando algum erro trágico.

Luke acrescentou:

— De qualquer forma não quero ser banqueiro.

A desleixada namorada de Bern, Peg, inclinou-se para a frente, interessada. Como Bern, era intensa em suas convic­ções, só não tinha a língua sarcástica dele.

— O que, então?

— Um cientista.

— De que tipo?

Luke apontou para cima.

— Quero explorar o espaço sideral.

Bern deu uma risada sarcástica.

— Foguetes espaciais! Uma fantasia de menino de escola.

Elspeth saltou de novo em defesa de Luke.

— Deixa disso, Bern, você não sabe do que está falando.

O assunto de Bern era literatura francesa.

Luke, contudo, não parecia ter sido agredido pelo escárnio de Bern. Talvez estivesse acostumado a que rissem do seu sonho.

— Acho que vai acontecer — disse ele. — E vou lhe dizer mais uma coisa. Acredito que a ciência fará mais que o comu­nismo pela gente comum durante nossas vidas.

Elspeth estremeceu. Amava Luke, mas achava que ele era ingênuo no que dizia respeito à política.

— Muito simples — disse para ele. — Mas os benefícios da ciência são restritos a uma elite privilegiada.

— Isto simplesmente não é verdade. Os navios a vapor tor­nam melhor tanto a vida dos marinheiros quanto dos passagei­ros dos transatlânticos.

— Você já esteve alguma vez na sala de máquinas de um desses transatlânticos?

— Estive, e não vi ninguém morrendo de escorbuto.

Um vulto alto projetou sua sombra em cima da mesa.

— Vocês, garotos, têm idade suficiente para tomar bebida alcoólica em público?

Era Anthony Carroll, envergando um terno azul de sarja com que parecia ter dormido. Com ele estava alguém tão sur­preendente que Elspeth deixou escapar um involuntário murmúrio de surpresa. Era uma garota pequena, do tipo mignon, vestida conforme a moda com uma jaqueta vermelha e uma saia preta folgada, com cachos do cabelo escuro escapando do chapéu vermelho com uma pala.

— Esta aqui é Billie Josephson — disse Anthony.

— Você é judia? — perguntou Bern Rothsten.

Ela ficou assustada com a pergunta tão direta.

— Sou — respondeu.

— Quer dizer então que pode se casar com Anthony, mas não pode ser sócia do country clube dele.

Anthony protestou.

— Não sou sócio de nenhum country clube.

— Será, Anthony. Será — garantiu Bern.

Luke levantou-se para cumprimentar, bateu na mesa com as coxas e derrubou um copo. Não era natural para ele ser desa­jeitado e Elspeth percebeu, com uma pontada de aborrecimen­to, que tinha instantaneamente gostado da srta. Josephson.

— Estou surpreso — disse, dando a ela seu sorriso mais encantador. — Quando Anthony falou que sua namorada se chamava Billie, imaginei alguém com um metro e oitenta de altu­ra e o corpo de um lutador.

Billie riu alegremente e acomodou-se no reservado ao lado de Luke.

— Meu nome é Bilhah — disse. — Da Bíblia. Era a criada de Rachel e mãe de Dan. Mas fui criada em Dallas, onde me cha­mavam de Billie-Jo.

Anthony sentou-se ao lado de Elspeth e disse baixinho:

— Ela não é bonita?

Billie não era exatamente bonita, pensou Elspeth. Tinha o rosto estreito, nariz afilado e olhos castanhos escuros grandes e intensos. O conjunto é que era impressionante: o batom ver­melho, o ângulo do chapéu, o sotaque do Texas e, acima de tudo, sua animação. Enquanto falava com Luke, contando-lhe alguma história de Dallas, sorria, franzia a testa e expressava com gestos todos os tipos de emoção.

— Ela é bonitinha — disse Elspeth a Anthony. — Não sei por que nunca a notei antes.

— Trabalha o tempo todo, não vai a muitas festas.

— Então como foi que a conheceu?

— Reparei nela no museu Fogg. Usava um casaco verde com botões de metal e uma boina. Achei que parecia um solda­dinho de brinquedo recém-saído da caixa.

Billie não era desse tipo de brinquedo, pensou Elspeth. Era mais perigosa que isso. Billie riu de algo que Luke dissera e bateu no braço dele, numa falsa reprimenda. Um gesto sedutor, pensou Elspeth. Irritada, interrompeu-os e perguntou a Billie:

— Você está planejando desobedecer ao toque de recolher hoje à noite?

Esperava-se que as garotas de Radcliffe estivessem de vol­ta a seus dormitórios às dez horas. Podiam conseguir permissão para ficar fora até mais tarde, mas tinham que assinar um livro, com detalhes de onde planejavam ir e da hora em que tencionavam voltar, hora esta que seria verificada. No entanto, eram mulheres inteligentes e as regras complexas a que estavam sub­metidas só serviam para serem engenhosamente burladas.

— Minha previsão é passar a noite com uma tia que está hospedada no Ritz. Qual é a sua história?

— Não tenho história, só uma janela do térreo que fica aber­ta a noite inteira.

Billie abaixou a voz.

— Na verdade, vou ficar com amigos de Anthony em Fenway.

Anthony ficou envergonhado.

— Uns conhecidos de minha mãe, que moram em um apartamento grande — disse para Elspeth. — Não me venha com esse olhar antiquado, eles são terrivelmente respeitáveis.

— Eu certamente esperaria que fossem — disse Elspeth afetadamente, tendo a satisfação de ver Billie corar. Virando-se para Luke, ela perguntou:

— Querido, a que horas é o cinema?

Ele deu uma olhada no relógio de pulso.

— Temos que ir — disse.

Luke tinha pedido emprestado um carro para o fim de semana. Era um Ford de dois lugares, modelo A. Um roadster com dez anos de fabricação cujo formato — carro aberto e mala na parte de trás — parecia antiquado ao lado dos carros aerodi­nâmicos dos primeiros anos da década de 1940.

Luke manejava o carro com habilidade, obviamente deleitando-se. Foram para Boston. Elspeth perguntou-se se não teria sido agressiva com Billie. Talvez, um pouco, decidiu, mas não ia derramar lágrimas.

Foram ver o último filme de Hitchcock, Suspeita, no Loew’s State Theatre. No escuro, Luke passou o braço pelos ombros de Elspeth, e ela encostou a cabeça no seu ombro. Achou uma pena que tivessem ido ver um filme sobre um casa­mento desastroso.

Por volta da meia-noite retornaram a Cambridge e pararam no Memorial Park, diante do rio Charles, ao lado da garagem de barcos. O carro não tinha aquecimento e Elspeth desvirou a go­la de pele do casaco e encostou-se em Luke para se esquentar.

Conversaram sobre o filme. Elspeth achava que na vida real o personagem de Joan Fontaine, uma garota reprimida criada por pais austeros, jamais seria atraído a um irresponsável como o representado por Cary Grant. Ao que Luke retrucou:

— Mas é exatamente por isso que ela se apaixonou por ele — porque era um homem perigoso.

— As pessoas perigosas são atraentes?

— Claro que são!

Elspeth desviou os olhos e contemplou o reflexo da lua na superfície irrequieta da água. Billie Josephson era perigosa, pensou.

Luke sentiu o aborrecimento de Elspeth e mudou de assunto.

— O prof. Davies me disse hoje de tarde que eu posso fazer meu mestrado aqui mesmo em Harvard, se quiser.

— O que o fez dizer isso?

— Eu mencionei minha esperança de ir para Columbia. Ele disse, “Para quê? Fique aqui!” Expliquei que minha família é de Nova York e ele disse, “Família. Hã!” Assim mesmo. Como se eu não pudesse ser um matemático sério se me preocupasse em ver minha irmã mais nova.

Luke era o mais velho de quatro irmãos. Sua mãe era francesa. O pai a conhecera em Paris ao término da Primeira Gran­de Guerra. Elspeth sabia que Luke gostava dos dois irmãos adolescentes e era louco por sua irmã de onze anos.

— O prof. Davies é solteirão — disse ela. — Vive para o trabalho.

— Você pensou em fazer mestrado?

O coração de Elspeth falhou.

— Devo pensar?

Estaria Luke pedindo que fosse para Columbia com ele?

— Você é melhor matemática que a maioria dos homens de Harvard.

— Eu sempre quis trabalhar no Departamento de Estado.

— O que significaria morar em Washington.

Elspeth tinha certeza de que Luke não planejara aquela conversa. Estava apenas pensando em voz alta. Coisa típica de homem, falar sem pensar sobre questões que afetam toda sua vida. Mas parecia alarmado com o fato de eles poderem se mu­dar para cidades diferentes. A solução do dilema devia ser tão óbvia para ele quanto para ela, pensou Elspeth alegremente.

— Você já se apaixonou? — perguntou ele subitamente. Percebendo que tinha sido brusco, acrescentou:

— É uma pergunta muito pessoal. Não tenho o direito de perguntar isso.

— Tudo bem — disse Elspeth. A qualquer hora que ele qui­sesse falar de amor estava ótimo para ela. — Aliás, já me apai­xonei.

Observou o rosto de Luke iluminado pelo luar e ficou sa­tisfeita por ver a sombra do desprazer surgir por um instante em sua expressão.

— Quando eu tinha dezessete anos, houve uma disputa na indústria siderúrgica de Chicago. Eu era muito politizada na­quele tempo. Fui ajudar, como voluntária, carregando mensa­gens e fazendo café. Trabalhei para um jovem organizador chamado Jack Largo e me apaixonei por ele.

— E ele por você?

— Pelo amor de Deus, não! Ele tinha vinte e cinco anos, me achava uma menina. Era bom para mim, e encantador, mas era assim com todo mundo.

Ela hesitou.

— Mas um dia Jack me beijou.

Não sabia se devia contar aquilo para Luke, mas sentiu necessidade de se abrir.

— Estávamos sozinhos no quarto dos fundos, arrumando folhetos em caixas e eu disse qualquer coisa que o fez rir. Não me lembro o que foi. “Você é uma pérola, Ellie”, disse ele — Jack era um desses homens que tratam todo mundo pelo diminutivo. Com certeza teria chamado você de Lou. Depois me beijou. Nos lábios. Quase morri de alegria. Mas ele continuou arrumando folhetos como se nada tivesse acontecido.

— Acho que se apaixonou por você.

— Talvez.

— Ainda tem contato com ele?

Ela sacudiu a cabeça.

— Ele morreu.

— Tão jovem!

— Foi assassinado — ela lutou para conter lágrimas inesperadas. A última coisa que queria era que Luke pensasse que ainda estava apaixonada pela lembrança de Jack. — Dois poli­ciais de folga, contratados por siderúrgicos, pegaram-no em um beco e o mataram de pancada com barras de ferro.

— Jesus Cristo! — Luke olhou espantado para ela.

— Todo mundo na cidade sabia quem tinha feito aquilo, mas ninguém foi preso.

Ele pegou a mão de Elspeth.

— Já li coisas assim nos jornais, mas nunca me pareceram de verdade.

— Mas é verdade. Os altos-fornos precisam continuar acesos.

Quem quer que se meta no caminho tem que desaparecer.

— Você fala de um jeito que parece que a indústria não é melhor que o crime organizado.

— Não vejo muita diferença. Mas não me envolvo mais. Chega.

Luke tinha começado a falar de amor, mas ela, burramente, desviara o assunto para política. Recuou.

— E você? Alguma vez já se apaixonou?

— Não sei ao certo — ele disse, hesitante. — Não tenho certe­za se sei direito o que é o amor.

Uma típica resposta masculina. Em seguida beijou-a e ela relaxou.

Elspeth gostava de tocá-lo com a ponta dos dedos quando se beijavam, acariciando-lhe as orelhas e a linha do queixo, o cabelo e a nuca. De vez em quando ele parava para fitá-la, estudando-a com a sugestão de um sorriso, fazendo-a pensar na Ofélia de Hamlet dizendo: “Ele se queda a estudar meu ros­to, como se fosse desenhá-lo.” E então beijava-a de novo. O que a fazia sentir-se tão bem era a idéia dele gostar tanto dela.

Após algum tempo Luke se afastou e suspirou pesadamente.

— Eu queria saber como as pessoas casadas se entediam — disse. — Nunca têm que parar.

Ela gostou da referência a casamento.

— Os filhos os fazem parar, eu acho — disse, com uma risada.

— Você quer ter filhos, um dia?

Ela sentiu a respiração se acelerar. O que ele estava perguntando?

— Claro que quero.

— Eu gostaria de ter quatro filhos.

O mesmo que os pais dele.

— Meninos ou meninas?

— Misturado.

Houve uma pausa. Elspeth teve medo de falar. O silêncio prolongou-se. Ao cabo de mais algum tempo ele se virou para ela com uma expressão séria.

— Como você se sentiria a esse respeito? Ter quatro filhos?

Era a deixa pela qual tinha esperado.

Ela sorriu alegremente.

— Se fossem seus, eu adoraria — disse.

Ele beijou-a de novo

Em pouco tempo ficou frio demais para permanecerem on­de estavam, e, relutantemente, voltaram para Radcliffe.

Quando passavam pela praça Harvard, um vulto acenou do lado da rua.

— É o Anthony? — perguntou Luke, incrédulo.

Era, Elspeth viu que era. Billie estava com ele.

Luke encostou o carro e Anthony aproximou-se da janela.

— Que bom que eu tenha visto vocês — disse. — Preciso de um favor.

Billie estava atrás de Anthony, tremendo no ar frio da noi­te, parecendo furiosa.

— O que é que vocês estão fazendo aqui? — Elspeth pergun­tou a Anthony.

— Houve uma confusão. Meus amigos de Fenway foram passar o fim de semana fora — devem ter trocado as datas. Billie não tem para onde ir.

Billie mentira sobre onde ia passar a noite, recordou Elspeth. Agora não podia voltar para o dormitório sem revelar a burla.

— Levei-a para a casa — Anthony se referia a Cambridge House, onde ele e Luke moravam. Os dormitórios masculinos de Harvard eram chamados de “casas”. — Pensei que poderia dormir no nosso quarto e que Luke e eu iríamos passar a noite na biblioteca.

Elspeth disse:

— Você está louco.

Luke interveio.

— Já foi feito antes. O que saiu errado?

— Nós fomos vistos.

— Oh, não! — exclamou Elspeth. Para uma garota ser encontrada no quarto de um homem era uma transgressão séria, especialmente à noite. Tanto o homem quanto a mulher podiam ser expulsos da universidade.

— Quem viu? — perguntou Luke.

— Geoff Pigeon e um bando de homens.

— Bem, Geoff não tem problema, mas quem estava com ele?

— Não tenho certeza. Estava escuro e todos tinham bebido muito. Falarei com eles de manhã.

Luke concordou, balançando a cabeça.

— O que vão fazer agora?

— Billie tem um primo que mora em Newport, Rhode Island — respondeu Anthony. — Você a levaria lá?

— O quê? — estranhou Elspeth. — São oitenta quilômetros de distância!

— Levará então uma ou duas horas — disse Anthony, fazen­do pouco da objeção. — O que você diz, Luke?

— Não tem problema — foi a resposta de Luke. — Ou melhor, há um problema. O carro só tem dois lugares.

Elspeth abriu a porta e saltou.

— Fique à vontade — disse, irritada. Mas se sentia envergonhada por ser tão mal-humorada. Luke estava certo ao socorrer um amigo encrencado. Mas ela odiava a idéia de vê-lo passar duas horas naquele carrinho com a sexy Billie Josephson.

Luke percebeu o desprazer dela e disse:

— Elspeth, senta de novo. Eu a levarei em casa primeiro.

Ela tentou ser generosa.

— Não precisa — disse. — Anthony pode andar comigo até a cidade. E Billie parece que vai morrer de frio.

— OK, se você tem certeza — cedeu Luke.

Elspeth gostaria que ele não tivesse concordado tão depressa.

Billie beijou o rosto de Elspeth.

— Não sei como agradecer — disse. Entrou no carro e fechou a porta sem dizer adeus a Anthony.

Luke acenou e seguiu.

Anthony e Elspeth subiram e ficaram observando o carro sumir na escuridão.

— Droga — exclamou Elspeth.

 

6:30

Pintada do lado do foguete branco está a designação “UE”, em imensas letras pretas. Trata-se de um código simples — de modo que UE é o míssil de número 29. O propósito deste código é não dar indicações de quantos mísseis já foram produzidos.

A luz do dia esgueirou-se furtivamente sobre a cidade fria. Homens e mulheres saíram de suas casas estreitando os olhos e contraindo os lábios para se defenderem do vento cortante e caminharam apressadamente pelas ruas cinzentas, ansiando pelo calor e pelas luzes claras dos escritórios e lojas, hotéis e restaurantes onde trabalhavam.

Luke não tinha destino: uma rua era tão boa quanto qual­quer outra, quando nenhuma tinha significado. Talvez, pensa­va ele, virasse a próxima esquina e soubesse, numa revelação súbita, que estava em um lugar conhecido — a rua onde fora criado ou um prédio em que tinha trabalhado. Mas todas as esquinas o desapontavam.

À medida que a luz melhorava, ele começou a estudar as pessoas que passavam. Uma delas podia ser seu pai, sua irmã, até mesmo seu filho. Ficou na esperança de que alguém o en­carasse, abraçando-o, e dissesse, “Luke, que foi que aconteceu com você? Venha para casa comigo, deixe-me ajudá-lo!” Mas talvez um parente o fitasse com frieza e passasse direto. Podia ter feito qualquer coisa que ofendesse a família. Ou os paren­tes podiam morar em outra cidade.

Começou a sentir que não ia ter sorte. Nenhum passante ia abraçá-lo com gritos de alegria e ele não ia subitamente reco­nhecer a rua em que morava. Caminhar por ali, fantasiando um golpe de sorte, não era uma estratégia. Precisava de um plano. Tinha que haver um modo de descobrir sua identidade.

Gostaria de saber se era uma Pessoa Desaparecida. Havia uma lista, tinha certeza, de pessoas desaparecidas, com a des­crição de cada uma delas. Quem tomava conta dessa lista? Só podia ser a polícia.

Tinha a impressão de que passara por uma delegacia havia poucos minutos. Virou-se abruptamente para voltar. Ao fazê-lo, bateu num jovem de capa de chuva de gabardine verde-oliva e chapéu da mesma cor. Teve a sensação de já tê-lo visto antes. Seus olhos se encontraram e por um momento esperan­çoso Luke achou que talvez tivesse sido reconhecido, mas o homem desviou os olhos, embaraçado, e seguiu direto.

Engolindo o desapontamento, Luke tentou retraçar seus passos. Era difícil, porque tinha virado esquinas e atravessado ruas mais ou menos aleatoriamente. Mesmo assim, mais cedo ou mais tarde ia passar diante de outra delegacia.

Enquanto caminhava, tentou deduzir informações a seu próprio respeito. Viu um homem alto, de chapéu de feltro cin­zento, acender um cigarro e puxar uma tragada longa e cheia de satisfação, mas não sentia desejo de fumar. Com certeza não fumava. Olhando para os carros, soube que os modelos espor­tivos e rebaixados que achara atraentes eram novos. Decidiu que gostava de carros rápidos e que sabia dirigir. Sabia tam­bém a marca e o nome do modelo da maioria dos automóveis que via. Era esse o tipo de informação que retivera, juntamen­te com a capacidade de falar inglês.

Quando vislumbrava o reflexo de sua imagem nas vitrinas das lojas, o que via era um vagabundo de idade indeterminada. Mas quando prestava atenção nos transeuntes, era capaz de di­zer se tinham vinte, trinta, quarenta anos ou se eram mais ve­lhos. E também classificava automaticamente as pessoas como mais velhas ou mais jovens do que ele próprio. Podia assegu­rar que as pessoas de vinte anos pareciam mais jovens do que ele e as de quarenta mais velhas. De modo que ele tinha de estar em algum ponto entre vinte e quarenta.

Estas insignificantes vitórias sobre a amnésia lhe deram uma sensação desmedida de triunfo.

Mas perdera por completo seu rumo. Estava agora em uma rua de comércio barato, viu com descontentamento: lojas de roupas com as vitrinas entupidas de ofertas, móveis usados, penhores e mercearias que aceitavam tíquetes de alimentação. Parou subitamente e olhou para trás, imaginando o que fazer. Trinta metros atrás viu um homem metido em uma capa de chuva verde-oliva com chapéu da mesma cor, assistindo à tele­visão numa vitrina.

Luke franziu a testa, pensando:

— Será que esse sujeito está me seguindo?

Um sujeito que segue outro sempre está sozinho, raramen­te carrega uma pasta ou uma sacola de compras e inevitavel­mente parece estar vadiando, ao invés de caminhando com um propósito definido. O homem da capa se ajustava a estas espe­cificações.

Era bastante fácil verificar.

Luke caminhou até o fim do quarteirão, atravessou a rua e voltou pelo outro lado. Quando chegou na ponta, parou no meio-fio e olhou em ambas as direções. A capa verde-oliva estava trinta metros atrás. Luke atravessou de novo. Para afas­tar suspeitas, examinou as portas pelas quais passava, como se procurasse um determinado endereço. Continuou caminhando até voltar ao ponto de partida.

A capa verde-oliva o seguiu.

Luke ficou assombrado, mas seu coração pulou esperanço­so. O homem que o seguia tinha que saber algo a seu respeito — talvez até mesmo sua identidade.

Para ter certeza de que estava sendo seguido, precisava viajar em um veículo, forçando seu seguidor a fazer o mesmo.

A despeito do entusiasmo, um frio observador instalado num canto de sua mente pôs-se a perguntar: “Como é que você sabe exatamente o que fazer para verificar se está ou não sen­do seguido?” O método pipocara na sua cabeça prontamente. Será que tinha algum tipo de trabalho clandestino antes de se tornar um vagabundo?

Pensaria nisso mais tarde. Agora precisava do dinheiro para o ônibus. Não havia nada nos bolsos dos seus trapos; devia ter gastado até o último centavo em bebida. Mas isso não era problema. Havia dinheiro nos bolsos de todo mundo, nas lojas, táxis e casas.

Começou a avaliar as redondezas com olhos diferentes. Viu bancas de jornal prontas para serem roubadas, bolsas que podiam ser arrancadas das mãos de suas donas. Deu uma olha­da em um café onde havia um homem atrás do balcão e uma garçonete servia as mesas. Era um lugar tão bom quanto qualquer outro. Entrou.

Varreu com o olhar as mesas, procurando troco deixado como gorjeta, mas não ia ser tão fácil assim. Aproximou-se do balcão. Um rádio transmitia o noticiário. “Peritos em foguetes afirmam que esta é a última chance que os Estados Unidos têm para alcançar os russos na corrida espacial.” O balconista esta­va fazendo café expresso, o vapor se desprendia de uma máquina reluzente, e a fragrância deliciosa dilatou as narinas de Luke.

O que diria um vagabundo?

— Alguma rosquinha velha? — perguntou.

— Dê o fora — ordenou o homem, rudemente. — E não volte!

Luke avaliou a hipótese de pular o balcão e abrir a caixa registradora, mas lhe pareceu uma medida por demais extrema quando só precisava de uns trocados para o ônibus. Então viu o que precisava. Ao lado da gaveta, ao alcance da mão, havia uma lata com uma fenda em cima. O rótulo tinha o retrato de uma criança e o dístico “Lembre-se dos que não podem ver”. Luke deslocou-se de tal modo que seu corpo escondeu a lata dos fregueses e da garçonete. Agora só tinha que distrair o homem do balcão.

— Me dá uma moeda?

— OK — disse o homem —, você acaba de ganhar o tratamen­to especial para vagabundos.

Ele largou uma caneca ruidosamente em cima do balcão e enxugou as mãos no avental. Teve que mergulhar sob o balcão para poder sair, e por um segundo não pôde ver Luke.

Luke aproveitou o momento para pegar a lata, que enfiou dentro do casaco. Estava desapontadoramente leve, mas como chocalhou um pouco, pelo menos não estava vazia.

O homem do balcão agarrou Luke pelo colarinho e o em­purrou rapidamente através do café. Luke não resistiu até que, na porta, ele lhe deu um doloroso pontapé no rabo. Esquecen­do o papel que representara, Luke girou, pronto para brigar. O sujeito repentinamente ficou com medo e recuou.

Luke perguntou-se que motivo tinha para se zangar. Entrara no café mendigando, e não saíra quando lhe pediram. Tudo bem, o pontapé fora desnecessário, mas ele merecera — roubara o dinheiro das crianças cegas!

Assim mesmo, foi preciso esforço para ele engolir o orgulho, virar-se e fugir como um cachorro com o rabo entre as pernas.

Entrou numa viela, achou uma pedra aguçada e atacou a lata, dando vazão à sua ira. Logo conseguiu abri-la. O dinhei­ro que continha, quase todo em moedas de cinco centavos, somava uns dois ou três dólares, calculou. Pôs o dinheiro no bolso do casaco e retornou à rua. Agradeceu aos céus pela cari­dade e fez uma promessa silenciosa de dar três dólares aos cegos, se um dia conseguisse se acertar.

Está bem, pensou, trinta pratas.

O homem da capa verde-oliva estava ao lado de uma ban­ca, lendo um jornal.

Um ônibus parou a poucos metros de distância. Luke não tinha idéia de qual seria seu destino, mas isso não importava. Embarcou. O motorista olhou feio para ele mas não o lançou porta afora.

— Quero andar três pontos.

— Não importa aonde queira ir, a passagem é dezessete centavos, a menos que você tenha uma ficha.

Luke pagou com o dinheiro que tinha roubado.

Talvez não estivesse sendo seguido. Enquanto se dirigia para a parte de trás do ônibus, olhou ansiosamente pela janela. O homem da capa verde estava se afastando com o jornal enfiado debaixo do braço. Luke franziu a testa. O homem de­veria estar tentando pegar um táxi. Talvez não o estivesse seguindo, pensou Luke, desapontado.

O ônibus saiu e Luke se sentou.

Mais uma vez perguntou-se como saberia de tudo aquilo. Devia ter sido treinado em trabalho clandestino. Mas com que fi­nalidade? Seria um policial? Talvez tivesse ligação com a guer­ra. Sabia que tinha havido uma guerra. Os Estados Unidos com­bateram a Alemanha e a Itália na Europa e os japoneses no Pa­cífico. Mas não conseguia se lembrar se tinha participação nisso.

Na terceira parada saltou do ônibus com um punhado de outros passageiros. Olhou para os dois lados da rua. Não havia táxis à vista nem sinal do homem da capa verde-oliva. Luke hesitou, e nesta hora notou que um dos passageiros que saltara com ele tinha parado na porta de uma loja e procurava qual­quer coisa nos bolsos. Enquanto Luke olhava, ele acendeu um cigarro e deu uma tragada longa e cheia de satisfação.

Era um homem alto, com um chapéu de feltro cinzento.

Luke lembrou que o tinha visto antes.

 

7:00

A plataforma de lançamento é uma simples mesa de aço com quatro pernas e um buraco no meio através do qual passa o jato do foguete. Um defletor cônico mais abaixo difunde o jato horizontalmente.

Anthony Carroll seguia pela Constitution Avenue dirigindo o Cadillac Eldorado de cinco anos que pertencia à sua mãe. Ele o tinha pedido emprestado um ano atrás para ir para Washington, saindo da casa dos seus pais na Virgínia, e nunca conseguira dar um jeito de devolvê-lo. A essa altura sua mãe provavelmente comprara outro carro.

Entrou no estacionamento do Prédio Q do Alphabet Row, uma fileira de estruturas que lembravam barracas e que tinham sido construídas rapidamente durante a guerra, num parque perto do Lincoln Memorial. Tudo muito feio, sem dúvida, mas ele gostava, pois tinha passado grande parte da guerra ali, tra­balhando para o órgão precursor da CIA, o OSS — Office of Strategic Services. Bons tempos aqueles, quando uma agência clandestina podia fazer mais ou menos qualquer coisa e não tinha que prestar contas a ninguém, exceto ao Presidente.

A CIA era a organização burocrática que mais crescia em Washington e um imenso quartel-general de muitos milhões de dólares estava sendo construído do outro lado do rio Potomac, em Langley, Virginia. Quando ficasse pronto, Alphabet Row seria posto abaixo.

Anthony lutara com todas as forças contra a sede nova de Langley, e não apenas porque o Q Building tinha memórias tão agradáveis. A CIA tinha atualmente escritórios em trinta e um prédios no bairro do centro da cidade dominado por órgãos do governo e conhecido como Foggy Bottom. Era assim que de­via ser, Anthony argumentara aos gritos. Era muito difícil para os agentes estrangeiros avaliar o tamanho e poder da Agência quando suas instalações eram espalhadas e misturadas com outros órgãos governamentais. Quando Langley fosse inaugu­rada, qualquer um seria capaz de estimar seus recursos, efetivo e até mesmo orçamento só de passar de carro em frente.

Ele tinha perdido essa discussão. As pessoas em cargos de chefia estavam determinadas a administrar a CIA com mais rigor. Anthony acreditava que o serviço secreto era para loucos e aventureiros. Como tinha sido durante a guerra. Agora era dominado por burocratas e contadores.

Havia uma vaga reservada para ele, com uma placa na qual se lia “Chefe dos Serviços Técnicos”, mas ele ignorou-a e parou em frente à porta principal. Contemplando o feio edifí­cio, perguntou-se se a iminente demolição significaria o fim de uma era. Estava perdendo a maioria das batalhas burocráticas atualmente, embora ainda fosse uma figura muitíssimo pode­rosa dentro da Agência. “Serviços Técnicos” na verdade era um eufemismo para roubos, grampeamento de telefones, teste de drogas e outras atividades ilegais. O apelido da divisão era Dirty Tricks — Truques Sujos. A posição de Anthony era basea­da em sua folha corrida de herói de guerra e uma série de gol­pes desfechados durante a Guerra Fria. Mas algumas pessoas queriam transformar a CIA naquilo que o público imaginava que fosse: uma simples agência de coleta de informações.

Só se passarem por cima do meu cadáver, pensou ele.

No entanto, ele tinha inimigos: superiores a quem ofende­ra com suas maneiras insolentes, agentes fracos e incompeten­tes a cuja promoção se opusera, burocratas que não gostavam da idéia do governo realizando operações secretas. Estavam prontos para destruí-lo assim que cometesse um engano.

E hoje seu pescoço estava mais fácil de ser atingido do que nunca.

Quando entrou no prédio, pôs deliberadamente de lado suas preocupações gerais e concentrou-se no problema do dia: o dr. Claude Lucas, conhecido como Luke, o homem mais perigoso dos Estados Unidos, o homem que ameaçava tudo aquilo pelo que Anthony vivera.

Ele passara no escritório quase a noite toda e fora para casa apenas fazer a barba e trocar de camisa. O guarda no saguão ficou espantado quando o viu.

— Bom dia, sr. Carroll — já está de volta?

— Um anjo me apareceu em sonhos e disse, “Volte para o trabalho, seu filho da mãe preguiçoso”. Bom dia.

O guarda riu.

— O sr. Maxell está no seu escritório, senhor.

Anthony ficou preocupado. Pete Maxell deveria estar com Luke. Teria alguma coisa saído errado?

Subiu correndo a escada.

Pete estava sentado à mesa de Anthony, ainda vestido de molambos, uma mancha de sujeira cobrindo parcialmente a mancha de nascença que ele tinha no rosto. Quando Anthony entrou, ele deu um pulo, parecendo assustado.

— O que aconteceu? — perguntou Anthony.

— Luke decidiu que queria ficar sozinho.

Aquilo constava dos planos de Anthony.

— Quem assumiu?

— Steve Simons o tem sob vigilância e Betts está lá como reforço.

Anthony balançou a cabeça pensativamente. Luke tinha se livrado de um agente, podia se livrar de outro.

— E a memória de Luke?

— Completamente perdida.

Anthony tirou o paletó e sentou-se à sua mesa. Luke esta­va causando problemas, mas Anthony os esperara e estava pronto.

Olhou para o homem na sua frente. Pete era um bom agen­te, competente e cuidadoso, mas inexperiente. Era, contudo, fanaticamente leal a Anthony. Todos os jovens agentes sabiam que Anthony tinha organizado pessoalmente um assassinato: a morte do líder francês de Vichy, o almirante Darlan, em Argel, na véspera do Natal de 1942. Os agentes da CIA matavam, cla­ro, mas não com freqüência. Pete, contudo, tinha uma dívida especial com Anthony. No formulário com que se candidatara ao emprego ele mentira, dizendo que nunca tivera problemas com a lei, e Anthony mais tarde descobrira que fora multado por abordar uma prostituta nos seus tempos de estudante em San Francisco. Pete devia ter sido despedido por isso, mas An­thony guardara segredo e Pete ficara eternamente grato.

Pete se sentia deprimido e envergonhado, achando que desapontara Anthony.

— Calma — disse Anthony, adotando um tom paternal. — Conte-me exatamente o que aconteceu.

Pete pareceu ficar agradecido e sentou-se de novo.

— Ele acordou malucão — começou. — Gritava “Quem sou eu?” e coisas assim. Consegui que se acalmasse... mas cometi um erro. Chamei-o de Luke.

Anthony dissera a Pete para observar Luke, mas não lhe dar qualquer informação.

— Não faz mal — não é o nome verdadeiro dele.

— Aí ele perguntou quem eu era e eu disse que me chama­va Pete. Saiu sem querer, tão preocupado eu estava em fazer com que ele parasse de gritar.

Pete estava mortificado ao confessar essas tolices, mas na verdade não eram erros tão graves assim e Anthony rejeitou seus pedidos de desculpas com um gesto.

— E depois, o que foi que aconteceu?

— Eu o levei para o pastor, exatamente como tínhamos planejado. Mas ele fez perguntas astutas. Queria saber se o pastor já o tinha visto antes.

Anthony assentiu com um movimento de cabeça.

— Não deveríamos nos surpreender. Na guerra ele foi o me­lhor agente que tivemos. Perdeu a memória, mas não os instintos.

Ele esfregou o rosto com a mão direita, sentindo todo o cansaço da falta de sono.

Tentei desviá-lo de ficar fazendo perguntas sobre o passa­do, mas acho que ele percebeu o que eu estava fazendo e aca­bou por me dizer que queria ficar sozinho.

— Ele conseguiu algum indício? Aconteceu alguma coisa que poderia levá-lo à verdade?

— Não. Ele leu um artigo no jornal sobre o programa espacial, mas não pareceu lhe conferir significado especial.

— Alguém notou qualquer coisa de especial nele?

— O pastor ficou espantado de ver que Luke conseguia fa­zer palavras cruzadas. A maioria dos vagabundos nem sabe ler.

Ia ser difícil, mas manejável, como Anthony antecipara.

— Onde está Luke agora?

— Não sei, senhor. Steve vai ligar assim que tiver uma chance.

— Quando ele ligar, vá até lá e junte-se a ele. Seja o que for que aconteça, Luke não deverá se afastar de nós.

— Está bem.

O telefone branco em cima da mesa de Anthony tocou, sua linha direta. Ficou olhando para ele por um instante. Não era muita gente que tinha aquele número.

Pegou o aparelho.

— Sou eu — disse a voz de Elspeth. — O que aconteceu?

— Relaxe, tudo está sob controle.

 

7:30

O míssil tem 20 metros e 90 centímetros de altura, é mais alto que uma casa, e pesa 29 mil e trinta quilos na plataforma de lançamento — mas a maior parte é combustível. O satélite propriamente dito tem apenas oitenta e seis centímetros de compri­mento e só pesa 8 quilos e 165 gramas.

O sujeito seguiu Luke por uns quinhentos metros quando ele virou para o sul na Eight Street.

O dia raiara por completo, e, embora a rua estivesse movimentada, Luke seguia facilmente o rastro do chapéu de feltro cinza, subindo e descendo entre as demais cabeças nas aglomerações formadas nas esquinas e nos pontos de ônibus. Mas depois que atravessou a Pennsylvania Avenue, desapareceu de vista. Mais uma vez perguntou-se se poderia estar imaginando coisas. Tinha acordado em um mundo desconcertante onde qualquer coisa podia ser verdade. Talvez a própria idéia de que estava sendo seguido fosse apenas uma fantasia. Mas não acre­ditava realmente nisso e, um minuto mais tarde, reconheceu a capa verde-oliva saindo de uma padaria.

— Toi, encore — disse ele, baixinho. — Você, de novo. Por um segundo ficou curioso com o fato de ter falado em francês, mas logo expulsou o pensamento da cabeça. Tinha preocupa­ções mais prementes. Não havia espaço para dúvida: duas pes­soas o estavam seguindo numa operação de revezamento exe­cutada com facilidade. Tinham que ser profissionais.

Tentou imaginar o que aquilo podia significar. Chapéu de Feltro e Capa de Chuva talvez fossem policiais — ele podia ter cometido um crime, matado alguém enquanto bêbado. Podiam ser espiões, KGB ou CIA, embora parecesse pouco provável que um morto de fome como ele pudesse estar envolvido em espionagem. O mais provável era que tivesse uma mulher a quem deixara muitos anos atrás e que, querendo se divorciar agora, contratara detetives particulares para provar que estava vivo. (Talvez fosse francesa.)

Nenhuma das opções era atraente. E, no entanto, sentia-se animado. Aquelas pessoas provavelmente sabiam quem ele era. Qualquer que fosse a razão para o estarem seguindo, deviam saber alguma coisa a seu respeito. No mínimo, sabiam mais que ele.

Decidiu dividir a equipe e confrontar o mais moço dos dois.

Entrou em uma tabacaria e comprou um maço de Pall Mall, pagando com um pouco do troco que roubara. Quando saiu, Chapéu de Feltro tinha desaparecido e Capa de Chuva assumira de novo. Caminhou até o fim do quarteirão e virou a esquina.

Um caminhão da Coca-Cola estava estacionado e o moto­rista descarregava engradados que carregava para um restau­rante. Luke desceu para a rua e caminhou até o lado mais dis­tante do caminhão, posicionando-se onde podia vigiar a rua sem ser visto por quem contornasse a esquina.

Depois de um minuto Chapéu de Feltro apareceu, andando depressa, examinando os portais e as vitrinas, procurando Luke.

Luke abaixou-se e rolou para debaixo do caminhão. Quan­do olhou para a calçada ao nível do chão, logo reconheceu as calças do terno azul e os sapatos marrons do homem que o seguia.

Chapéu de Feltro apertou o passo, presumivelmente preocupado com a possibilidade de Luke ter desaparecido. Depois se virou e voltou. Entrou no restaurante e saiu no minuto seguinte. Contornou o caminhão, voltou para a calçada e con­tinuou a busca. Um momento depois, saiu correndo.

Luke ficou satisfeito. Não sabia como aprendera aquele jo­go, mas parecia ser bom nele. Rastejou até a frente do caminhão e pôs-se de pé. Deu uma olhada em torno protegido pelo pára-lama mais próximo. Chapéu de Feltro ainda estava correndo.

Luke atravessou a calçada e virou a esquina. Parou no portal de uma loja de artigos elétricos. Olhando para um toca-discos de oitenta pratas, abriu o maço de cigarros, tirou um e esperou, de olho na rua.

Capa de Chuva apareceu.

Ele era alto — mais ou menos da altura de Luke — e atlético, mas tinha uns dez anos a menos e era evidente a ansiedade no seu rosto. O instinto de Luke lhe disse que não era um homem experiente.

Capa de Chuva localizou Luke e teve um sobressalto, ner­voso. Luke o encarou diretamente nos olhos. O homem des­viou o rosto e continuou andando, desviando-se para a parte de fora da calçada, como teria feito qualquer pessoa que quisesse evitar contato com um vagabundo.

Luke adiantou-se, colocando-se no caminho dele. Pôs o cigarro na boca e disse:

— Tem fogo aí, companheiro?

Capa de Chuva não soube o que fazer. Hesitou, parecendo preocupado. Por um momento Luke pensou que seguiria em frente sem falar; mas depois tomou uma decisão rápida e parou.

— Claro — disse, tentando parecer natural. Meteu a mão no bolso da capa, tirou uma carteia de fósforos e riscou um.

Luke tirou o cigarro da boca e disse:

— Você sabe quem eu sou, não sabe?

O rapaz pareceu assustado. Seu curso de treinamento não o preparara para quando a pessoa a quem seguia começasse a questioná-lo. Ficou olhando para Luke, chocado, até que o fós­foro se consumiu por completo. Deixou-o cair e disse:

— Não sei de que você está falando, companheiro.

— Você está me seguindo. Você tem que saber quem sou eu.

Capa de Chuva continuou a bancar o inocente.

— Você está vendendo alguma coisa?

— Estou vestido como um vendedor? Deixa disso, seja franco.

— Não estou seguindo ninguém.

— Você andou atrás de mim nesta última hora e eu estou perdido!

Capa de Chuva tomou uma decisão.

— Você está maluco — disse. E tentou seguir em frente.

Luke moveu-se de lado, bloqueando seu caminho.

— Com licença, por favor — disse Capa de Chuva.

Luke não estava querendo deixar o homem ir. Agarrou-o pe­la lapela da capa e o sacudiu de encontro à vitrina da loja, baten­do no vidro. A frustração e a raiva que sentia transbordaram.

— Putain de merde! — gritou.

Capa de Chuva era mais jovem e estava em melhor condi­ção atlética que Luke, mas não ofereceu resistência.

— Tire as mãos de cima de mim — disse ele, sem levantar a voz. — Eu não o estou seguindo.

— Quem sou eu? — Luke berrou com ele. — Vamos, quem sou eu?

— Como é que vou saber?

Ele agarrou Luke pelos pulsos, tentando fazer com que largasse a lapela da capa.

Luke mudou a posição das mãos e agarrou-lhe o pescoço.

— Não vou aceitar suas mentiras — afirmou, a voz áspera. — Vai ter que me dizer o que está acontecendo.

Capa de Chuva perdeu o controle, os olhos arregalados de medo. Lutou para afrouxar a pressão de Luke no seu pescoço. Não conseguindo, pôs-se a socar as costelas de Luke. O pri­meiro golpe doeu, e Luke recuou, mas reteve a pegada e adiantou-se, para que os demais socos perdessem a força. Apertou os polegares na goela do oponente, sufocando-o. O terror da morte apareceu nos olhos do homem quando ficou sem poder respirar.

Atrás de Luke, a voz assustada de um transeunte interveio:

— Ei, o que está acontecendo aqui?

De repente, Luke ficou chocado consigo próprio. Estava matando o sujeito! Relaxou a pegada. O que estava havendo com ele? Será que era um assassino?

Capa de Chuva livrou-se das mãos de Luke, que estava assombrado com sua própria violência. Deixou os braços caí­rem do lado do corpo.

O sujeito recuou.

— Seu filho da mãe maluco — disse. O medo desapareceu dos seus olhos. — Você está maluco. Tentou me matar!

— Só quero a verdade e sei que você pode me contar a ver­dade.

Capa de Chuva esfregou o pescoço.

— Seu panaca! Você está maluco!

Luke teve novo ataque de fúria.

— Você está mentindo! — gritou. E esticou o braço para pegar o homem de novo.

Capa de Chuva virou-se e saiu correndo.

Luke poderia tê-lo perseguido, mas hesitou. De que adian­tava? O que faria se pegasse o sujeito — iria torturá-lo?

Mas aí já era tarde demais. Três passantes tinham parado para observar a briga e se mantinham a uma distância segura, olhos fixos em Luke. Após um momento, saiu andando no rumo oposto a seus dois seguidores.

Sentiu-se pior que nunca, trêmulo após a explosão violen­ta e desapontado com o resultado. Encontrara duas pessoas que provavelmente sabiam quem ele era e não conseguira nenhuma informação.

— Grande trabalho, Luke — disse para si próprio. — Conseguiu precisamente nada.

E ficou sozinho de novo.

 

8:00

O míssil Jupiter C tem quatro estágios. A parte maior é uma versão de alto desempe­nho do míssil balístico Redstone. É o booster, ou primeiro estágio, um motor enormemente poderoso que tem a tarefa colossal de libertar o míssil da força de gravidade terrestre.

A dra. Billie Josephson estava atrasada.

Fez a mãe se levantar, ajudou-a a vestir o roupão acolchoado, conseguiu que pusesse o aparelho de audição e sentou-a na cozinha para o café. Acordou também Larry, o filho de sete anos, elogiou-o por não ter molhado a cama e lhe disse que mes­mo assim tinha que tomar banho. Depois retornou à cozinha.

Sua mãe, uma gorducha de setenta anos conhecida como Becky-Ma, ouvia o rádio em alto volume. Perry Como canta­va “Catch a Falling Star”. Billie pôs fatias de pão na torradei­ra e só então arrumou a mesa com manteiga e geléia de uva para Becky-Ma. Para Larry derramou flocos de milho numa ti­gela, fatiou uma banana por cima do cereal e encheu um cane­co com leite.

Fez um sanduíche de manteiga de amendoim e geléia e colocou-o na lancheira de Larry juntamente com uma maçã, uma barra de chocolate e um frasco pequeno de suco de laranja. Pôs a lancheira dentro da mochila da escola e acrescentou o livro de leitura e a luva de beisebol que ganhara de presente do pai.

No rádio, um repórter entrevistava pessoas que estavam na praia perto de Cabo Canaveral na esperança de verem o lança­mento do foguete.

Larry entrou na cozinha com os cordões dos sapatos desamarrados e os botões da camisa abotoados incorretamente. Ela endireitou os botões, fez com que se sentasse diante da tigela de flocos de milho e começou a preparar ovos mexidos.

Eram oito e quinze e Billie já tinha praticamente recupera­do o atraso. Amava o filho e a mãe, mas uma parte secreta dela se ressentia do trabalho penoso que era tomar conta dos dois.

O repórter agora estava entrevistando um porta-voz do Exército.

— Esses curiosos não estão em perigo? E se o foguete sair do curso e vier cair aqui mesmo na praia?

— Não há perigo de acontecer isso, senhor — veio a respos­ta. — Cada foguete tem um mecanismo de autodestruição. Se ele sair da rota, será explodido em pleno ar.

— Mas como será possível explodi-lo se ele já levantou vôo?

— O mecanismo explosivo é detonado por um sinal de rádio enviado pelo encarregado de segurança da zona de lançamento.

— Isso parece perigoso por si só. Um radioamador qualquer pode acidentalmente detonar o foguete.

— O mecanismo só responde a um sinal complexo, como um código. Esses foguetes são muito caros, não assumimos qualquer risco.

Larry falou:

— Tenho que fazer um foguete espacial hoje. Posso levar o copo de iogurte para a escola?

— Não, não pode. Está meio cheio.

— Mas tenho que levar umas embalagens! A srta. Page vai ficar furiosa se eu não levar.

Ele estava prestes a cair no choro, com a subitaneidade própria dos meninos de sete anos.

— Para que você precisa das embalagens?

— Para fazer um foguete espacial! Ela nos falou na semana passada.

Billie suspirou.

— Larry, se você tivesse me falado na semana passada, eu te­ria guardado um monte desses troços para você. Quantas vezes devo lhe pedir para não deixar tudo para o último minuto?

— Mas mamãe, o que é que eu vou fazer?

— Eu encontro alguma coisa. Poremos o iogurte numa tige­la grande e, que tipo de embalagens você quer?

— Que tenham formato de foguete.

Billie gostaria de saber se as professoras alguma vez pen­savam sobre a quantidade de trabalho que criavam para mães ocupadas quando, alegremente, instruíam as crianças para levarem coisas de casa. Ela serviu torradas com manteiga em três pratos e acrescentou os ovos mexidos, mas não comeu o dela. Deu uma volta pela casa e conseguiu um recipiente de papelão para um detergente, um frasco plástico de sabão líqui­do, uma caixa de sorvete e uma caixa de bombons em forma de coração.

A maior parte das embalagens mostrava famílias usando os produtos — geralmente uma bonita dona-de-casa, duas crian­ças alegres e um pai fumando cachimbo no fundo. Será que as outras mulheres se ressentiam tanto contra aquele estereótipo quanto ela? Nunca tivera uma família daquelas. Seu pai, um pobre alfaiate em Dallas, morrera quando ela era ainda um bebê, e sua mãe criara cinco filhos na mais extrema pobreza. A própria Billie se divorciara quando Larry tinha dois anos. Havia um sem-número de famílias sem homem, em que a mãe era viúva, divorciada ou o que se costumava chamar antiga­mente de mulheres-da-vida. Mas não aparecem famílias desse tipo nas caixas de flocos de milho.

Pôs todas as embalagens dentro de uma sacola de compras para Larry carregar para a escola.

— Puxa vida, aposto como tenho mais que todo mundo! — disse ele. — Obrigado, mamãe.

O café dele esfriou, mas Larry estava feliz.

Uma buzina soou em frente à casa, e Billie rapidamente checou sua aparência no vidro da porta do guarda-comidas. Seu cabelo preto encaracolado fora penteado rapidamente, não tinha maquiagem exceto a pintura dos olhos que não removera na noite anterior e vestira uma suéter cor-de-rosa bem grande... mas o efeito era meio sexy.

A porta dos fundos abriu-se e Roy Brodsky entrou. Roy era o melhor amigo de Larry e os dois se cumprimentaram alegre­mente, como se estivessem afastados há um mês, em vez de poucas horas. Billie notara que atualmente todos os amigos de Larry eram meninos. No jardim de infância fora diferente, com meninos e meninas brincando juntos indiscriminadamente. Gostaria de saber que mudanças psicológicas tinham lugar, por volta dos cinco anos de idade, que faziam as crianças preferi­rem amigos do mesmo sexo.

Roy foi seguido do pai, Harold, um tipo de boa aparência e suaves olhos castanhos. Harold Brodsky era viúvo: a mãe de Roy tinha morrido num desastre de carro. Harold ensinava quí­mica na George Washington University. Billie e Harold namo­ravam. Ele lhe dirigiu um olhar de adoração e disse:

— Meu Deus, você está maravilhosa.

Ela sorriu e beijou-o no rosto.

Como Larry, Roy tinha uma sacola cheia de embalagens de papelão.

Billie perguntou a Harold:

— Você teve que esvaziar metade das caixas da sua cozinha?

— Tive. Tenho poucas tigelas de flocos de sabão, chocola­tes e queijo derretido. E seis rolos de papel higiênico sem o cilindro de papelão no meio.

— Droga, não me lembrei dos rolos de papel!

Ele riu.

— Ei, quer jantar lá em casa hoje?

Ela ficou espantada.

— Você vai cozinhar?

— Não exatamente. Pensei em pedir à sra. Riley para fazer uma cassèrole que eu possa aquecer no forno.

— Certo — concordou Billie. Nunca jantara na casa dele. Geralmente iam ao cinema, a concertos de música clássica ou a coquetéis nas casas de outros professores da universidade. Gostaria de saber o que o fizera convidá-la agora.

— Roy vai à festa de aniversário de um primo e vai dormir lá. Teremos uma chance de conversar sem interrupção.

— OK — disse Billie, pensativa. Podiam conversar sem interrupção num restaurante, é claro. Harold tinha outra razão para convidá-la para sua casa quando o filho passaria a noite fora. Olhou para ele. Sua expressão era franca e cândida — sabia o que ela estava pensando.

— Será ótimo — disse.

— Pego você lá pelas oito. Vamos, garotos!

Ele comboiou as crianças para fora pela porta dos fundos. Larry saiu sem se despedir, o que Billie viera a aprender que se tratava de um sinal de que tudo ia bem. Quando se sentia ansio­so com alguma coisa ou começava a cair doente com uma infecção, ficava para trás e se pendurava na mãe.

— Harold é um bom homem — disse a mãe de Billie. — Você devia se casar com ele antes que mude de idéia.

— Ele não vai mudar de idéia.

— Só não decida nada antes dele abrir o jogo.

Billie sorriu para a mãe.

— Você não deixa passar nada, hem, mamãe?

— Sou velha, mas não sou burra.

Billie tirou a mesa e jogou seu desjejum no lixo. Correndo, tirou a roupa de cama dela, de Larry e da mãe e fez uma trou­xa, que mostrou a Becky-Ma, e disse:

— Lembre-se, tudo o que você tem a fazer é dar esta trouxa ao homem da lavanderia quando ele vier. OK, Ma?

— Acabaram as minhas pílulas do coração — disse a mãe dela.

— Jesus Cristo.

Raramente praguejava na frente da mãe, mas estava no fim da sua paciência.

— Mãe, tenho um dia cheio hoje e não vou ter tempo para ir à maldita farmácia!

— Não posso fazer nada. Elas acabaram.

O que mais irritava em Becky-Ma era como de repente dei­xava de ser uma mãe perspicaz e se transformava em filha desamparada.

— Você podia ter dito ontem que estavam acabando — eu fiz compras ontem! Não posso fazer compras todos os dias, tenho um emprego.

Billie na mesma hora ficou com pena.

— Desculpe, Ma.

Becky-Ma chorava fácil, como Larry. Cinco anos atrás, quando os três foram morar juntos, Ma tinha ajudado a cuidar do menino. Hoje em dia mal conseguia cuidar dele por duas horas, quando chegava da escola. Billie esperava que as coisas melhorassem quando se casasse com Harold.

O telefone tocou. Deu um tapinha no ombro da mãe e aten­deu. Era Bern Rothsten, seu ex-marido. Billie se dava bem com ele, a despeito do divórcio. Aparecia duas ou três vezes por semana para ver Larry, e contribuía de boa vontade com a sua parte nos custos da criação do menino. Billie já tivera seus momentos de raiva dele, mas isso fora há muito tempo.

— Oi, Bern, acordou cedo hoje.

— É. Soube do Luke?

Ela ficou espantada.

— Luke Lucas? Recentemente? Não — algo de errado?

— Não sei, talvez.

Bern e Luke compartilhavam a intimidade de rivais. Quando jovens discutiam interminavelmente. As discussões pareciam ásperas e, no entanto, continuaram amigos íntimos tanto na faculdade quanto durante toda a guerra.

— O que foi que aconteceu? — perguntou Billie.

— Luke me telefonou na segunda-feira. Fiquei meio surpre­so, porque não tenho notícias dele com freqüência.

— Nem eu.

Billie esforçou-se para se lembrar.

— A última vez que o vi já tem uns dois anos, acho eu.

Percebendo quanto tempo se passara, ela perguntou-se por que teria deixado a amizade de Luke esmorecer. Devia ser por­que estava ocupada o tempo todo. Uma pena.

— Recebi um bilhete dele no verão passado — disse Bern. — Andava lendo meus livros para os filhos da sua irmã.

Bern era o autor de Os gêmeos terríveis, uma série de livros infantis que fez muito sucesso.

— Disse que os livros faziam as crianças rirem. Foi uma cartinha legal.

— Por que ele telefonou na segunda-feira?

— Disse que estava vindo a Washington e queria me ver. Acontecera algo.

— Ele lhe disse o quê?

— Na verdade, não. Só disse que era algo como “o que a gente fazia durante a guerra”.

Billie franziu as sobrancelhas, ansiosa. Luke e Bern tinham integrado a OSS durante a guerra, trabalhando atrás das linhas inimigas, ajudando a resistência francesa. Mas tinham se afastado desse mundo desde 1946 — ou não?

— O que você acha que ele estava querendo?

— Não sei. Ele disse que telefonava quando chegasse a Washington. Hospedou-se no Carlton Hotel na segunda de noi­te. Hoje já é quarta e ele ainda não telefonou. E ninguém dor­miu na cama dele na noite passada.

— Como foi que descobriu?

Bern fez um ruído impaciente.

— Billie, você também esteve na OSS. O que teria feito?

— Acho que eu teria dado um dinheirinho a uma arrumadeira.

— Certo. Quer dizer que ele passou toda a noite fora e ain­da não voltou.

— Talvez tenha caído na farra. Mulheres.

— E talvez o reverendo Billy Graham fume haxixe, mas acho que não. E você?

Bern tinha razão. Luke tinha uma poderosa pulsão sexual, mas queria sempre intensidade, não variedade. Billie sabia disso.

— Não, acho que não — disse ela.

— Telefone se tiver notícias dele, sim?

— Sim, claro.

— Até logo.

— Até.

Billie desligou.

Ela se deixou ficar sentada à mesa da cozinha, seus traba­lhos esquecidos, pensando em Luke.

 

1941

A Rota 138 seguia, sinuosa, para o sul, atravessando Massachusetts na direção de Rhode Island. Não havia nuvens, e a luz brilhava nas estradas rurais. O velho Ford não tinha aqueci­mento. Billie estava agasalhada, com casaco, cachecol e luvas, mas tinha os pés dormentes. Na verdade, não se importava. Não era grande sofrimento passar algumas horas em um carro sozinha com Luke Lucas, mesmo que ele fosse namorado de outra garota. Na sua experiência os homens bonitos eram tediosamente vaidosos, mas aquele parecia ser uma exceção.

Era muito demorado o trajeto de carro até Newport, mas Luke parecia estar gostando da longa viagem. Alguns dos homens de Harvard ficavam nervosos com mulheres atraentes, e fumavam sem parar ou tomavam longos goles de bebida em seus frascos portáteis, alisavam o cabelo ou endireitavam as gravatas. Luke era tranqüilo, dirigindo sem esforço aparente e tagarelando. Havia pouco tráfego e ele olhava para ela tanto quanto para a estrada.

Conversaram sobre a guerra. Naquela manhã, em Radcliffe Yard, grupos rivais de estudantes montaram barracas e panfletaram, os Intervencionistas defendendo apaixonadamen­te a idéia de que os Estados Unidos deviam entrar na guerra e os America Firsters (“América em Primeiro Lugar”) se baten­do pela idéia oposta com igual fervor. Reunira-se uma multi­dão, homens e mulheres, estudantes e professores. O conhecimento de que os rapazes de Harvard estariam entre os primei­ros a morrer tornara as discussões altamente emocionais.

— Tenho primos em Paris — disse Luke. — Gostaria de ir lá e salvá-los. Mas isso é o tipo da razão pessoal.

— Também tenho uma razão pessoal — dissera Billie. — Sou judia. — Mas em vez de mandar americanos morrerem na Eu­ropa, eu abriria nossas portas para refugiados. Salvar vidas, ao invés de matar gente.

— É no que Anthony crê.

Billie ainda estava furiosa com o vexame da noite.

— Não tenho como lhe dizer o quanto estou furiosa com Anthony — disse ela. — Ele devia ter se assegurado de que podíamos ficar no apartamento do seu amigo.

Esperava contar com a solidariedade de Luke, mas ele a desapontou.

— Acho que vocês dois foram um tanto negligentes a res­peito da coisa toda.

Ele falou com um sorriso amistoso, mas não havia como não perceber o tom de censura.

Billie ficou mordida. Mas como estava devendo a Luke aquela carona, engoliu o revide que lhe veio aos lábios.

— Você está defendendo seu amigo, o que é ótimo — disse ela, delicadamente. — Mas acho que ele tinha o dever de prote­ger minha reputação.

— Sim, mas foi exatamente isso que você fez.

Billie ficou surpresa por Luke ser tão crítico. Até aquele instante ele tinha sido só charme.

— Você parece pensar que a culpa foi minha!

— Foi, principalmente, falta de sorte. Mas Anthony a colo­cou numa posição onde um pouco de falta de sorte era capaz de lhe causar muitos danos.

— Esta é a verdade.

— E você permitiu.

Ela ficou horrorizada com a desaprovação dele. Queria que fizesse um bom juízo a seu respeito — embora não soubesse por que se importava com isso.

— De qualquer forma nunca farei aquilo de novo, com homem nenhum — garantiu, veemente.

— Anthony é um grande sujeito, muito inteligente, um tan­to excêntrico.

— Faz com que as garotas queiram tomar conta dele, esco­var seu cabelo, passar seu terno e preparar-lhe uma canja de galinha.

Luke riu.

— Posso fazer uma pergunta pessoal, Billie?

— Pode tentar.

Ele a encarou nos olhos por um momento.

— Você está apaixonada por ele?

A pergunta foi feita de chofre, mas ela gostava de homens capazes de surpreendê-la, de modo que respondeu com since­ridade.

— Não, eu gosto dele. Gosto de sua companhia, mas não o amo.

Ela pensou na namorada de Luke. Elspeth era a mais destacada beleza do campus, uma mulher alta com cabelo cor de cobre comprido e o rosto pálido e resoluto de uma rainha nórdica.

— E o que me diz de você? Está apaixonado por Elspeth?

Ele desviou o olhar para a estrada.

— Não creio que eu saiba o que seja o amor.

— Resposta evasiva.

— Tem razão — ele lhe dirigiu um olhar especulativo e pare­ceu chegar à conclusão de que podia confiar nela. — Bem, para ser sincero, isto é o mais perto do amor a que já cheguei, mas ainda não sei se é a coisa verdadeira.

Ela sentiu uma pontada de culpa.

— Só queria saber o que Anthony e Elspeth iam pensar de nós tendo esta conversa.

Luke tossiu, envergonhado, e mudou de assunto.

— Foi uma pena que você tenha encontrado aqueles homens no dormitório masculino.

— Espero que Anthony não venha a ser encontrado. Pode ser expulso.

— Ele não é o único. Você poderia ficar encrencada também.

Ela vinha tentando não pensar nisso.

— Não creio que alguém ali soubesse quem eu era. Ouvi um deles dizer “prostituta”.

Ele lhe dirigiu um olhar de espanto.

Billie adivinhou que Elspeth não diria aquela palavra e desejou que não a tivesse pronunciado.

— Suponho que mereci — acrescentou. — Eu estava num dormitório masculino à meia-noite.

— Acho que nada justifica a falta de modos.

Era uma reprimenda a ela tanto quanto ao homem que a insultara, pensou Billie, aborrecida. Luke tinha um jeito cor­tante. Ele a estava enfurecendo — mas isso o tornava interes­sante. Billie decidiu sair para a briga.

— Você está sendo muito moralista a respeito de Anthony e de mim, não é mesmo? Mas não colocou Elspeth em uma situação vulnerável nesta noite, conservando-a no seu carro até de madrugada?

Para surpresa de Billie, ele deu uma boa risada.

— Tem razão, e eu não passo de um idiota pomposo. Todos nós nos arriscamos.

— É verdade — ela estremeceu. — Não sei o que eu faria se fosse expulsa.

— Estudaria em qualquer outro lugar, acho eu.

Ela sacudiu a cabeça.

— Tenho uma bolsa de estudos. Meu pai já morreu e minha mãe é uma viúva sem um centavo. E se eu fosse expulsa por transgressão moral, teria pouca chance de conseguir outra bol­sa. Por que essa cara de espanto?

— Para ser sincero, tenho que dizer que você não se veste como uma garota que tem os estudos pagos por uma bolsa.

Ela ficou satisfeita ao ver que ele notara suas roupas.

— É a bolsa Leavenworth — explicou.

— Uau!

Tratava-se de uma bolsa muito afamada pela generosidade, e milhares de estudantes destacados competiam na tentativa de conquistá-la.

— Você deve ser um gênio!

— Não sei disso — retrucou Billie, gratificada pelo respeito na voz de Luke. — Não sou inteligente o bastante para garantir um lugar onde possa passar a noite.

— Por outro lado, ser expulsa da faculdade não é a pior coi­sa do mundo. Algumas das pessoas mais inteligentes são — e depois seguem seus caminhos para se tornarem milionárias.

— Para mim seria o fim do mundo. Não quero ser milioná­ria. Quero ajudar a curar as pessoas doentes.

— Vai ser médica?

— Psicóloga. Quero compreender como a mente funciona.

— Por quê?

— É tão misterioso e complicado. Coisas como o raciocínio lógico, o modo como pensamos. Imaginar algo que não esteja na nossa frente — os animais não são capazes disso. A capaci­dade de recordar. Peixes não têm memória, sabia?

Ele aquiesceu.

— E por que quase qualquer pessoa é capaz de reconhecer uma oitava musical? — perguntou. — Duas notas, a freqüência de uma sendo o dobro da outra — como pode o cérebro da gen­te saber isso?

— Você também acha essas coisas interessantes? — ela ficou satisfeita por ver que ele compartilhava de sua curiosidade.

— De que o seu pai morreu?

Billie engoliu em seco. Um pesar imenso de repente a es­magou. Lutou contra as lágrimas. Era sempre assim: uma pala­vra dita ao acaso e vinha, do nada, uma dor tão aguda que mal era capaz de falar.

— Sinto muito, sinceramente. Não tive intenção de perturbá-la.

— A culpa não foi sua — ela conseguiu falar. Respirou fun­do. — Ele ficou maluco. Em uma manhã de domingo, foi tomar banho no rio. A questão é que detestava a água e não sabia nadar. Acho que queria morrer. O legista também achou isso, mas o júri ficou com pena de nós e considerou morte acidental, para que pudéssemos fazer jus ao seguro de vida. Cem dólares. Foi o dinheiro que nos sustentou durante um ano.

Ela respirou fundo.

— Vamos falar de outra coisa. Fale-me sobre matemática.

— Bem — ele pensou por um momento. — Matemática é tão estranha quanto psicologia. Pegue o número pi. Por que a razão da circunferência de um círculo para o seu diâmetro é três vírgula um quatro dois? Por que não seis, ou dois e meio? Quem tomou essa decisão, e por quê?

— Você quer explorar o espaço sideral.

— Acho que será a aventura mais emocionante que a humanidade viverá.

— E eu quero mapear a mente — ela sorriu. A dor da morte do pai começava a desaparecer. — Sabe, temos algo em comum — ambos temos idéias grandiosas.

Ele riu e freou o carro.

— Ei, estamos chegando a uma encruzilhada.

Ela acendeu a lanterna e iluminou o mapa que tinha sobre os joelhos.

— Vire à direita — disse.

Aproximavam-se de Newport. O tempo passara depressa. Billie sentiu pena pela viagem estar terminando.

— Não tenho idéia do que vou dizer ao meu primo.

— Como ele é? — Ele é esquisito.

— Esquisito? De que modo?

— No modo homossexual.

Ele lhe dirigiu um olhar assustado.

— Entendo.

Billie não tinha paciência com homens que esperavam que as mulheres tratassem com muita cautela assuntos relativos ao sexo.

— Choquei você de novo, não foi?

Ele sorriu.

— Como você mesma diria — é verdade.

Ela riu. Aquele era um coloquialismo texano. Ficou satis­feita por ele notar pequenas coisas a seu respeito.

— Uma bifurcação aí adiante — anunciou ele.

Ela consultou o mapa de novo.

— Vai ter que parar. Não consigo encontrar.

Ele parou o carro. E inclinou-se para examinar o mapa à luz da lanterna. Teve que virar o mapa um pouco e o toque de sua mão foi quente na mão fria de Billie.

— Talvez estejamos aqui — disse Luke, apontando.

Em vez de olhar para o mapa, ela se descobriu encarando o rosto dele. Estava muito sombreado, iluminado apenas pela lua e pela claridade indireta da lanterna. O cabelo caía sobre o olho esquerdo. Após um momento ele sentiu o olhar dela e levantou o rosto. Sem pensar, Billie ergueu a mão e acariciou-lhe o ros­to com a parte de fora do dedo mínimo. Ele a encarou também e Billie viu atordoamento e desejo nos seus olhos.

— Que caminho seguimos? — murmurou Billie.

Ele afastou-se subitamente e engrenou a marcha.

— Vamos... — ele pigarreou. — Vamos pela esquerda.

Billie gostaria de saber o que ela estava fazendo. Luke pas­sara a noite se agarrando com a mais bela garota do campus. Billie tinha saído com o companheiro de quarto de Luke. O que é que ela estava pensando?

Seus sentimentos por Anthony não eram fortes, mesmo antes da calamidade daquela noite. Ainda assim, ela o estava namorando, de modo que certamente não deveria estar brin­cando com o melhor amigo dele.

— Por que fez isso? — perguntou Luke, furioso.

— Não sei. Não tive intenção, simplesmente aconteceu. Acalme-se.

Ele fez uma curva rápido demais.

— Não quero me sentir assim a seu respeito! — disse ele.

Subitamente ela perdeu o fôlego.

— Assim como?

— Deixa para lá.

O cheiro do mar invadiu o carro e Billie percebeu que esta­vam perto da casa do primo. Reconheceu a rua.

— Na próxima à esquerda — disse ela. — Se não diminuir a velocidade vai passar direto.

Luke freou e entrou numa rua de terra.

Metade de Billie queria chegar ao destino, saltar do carro e deixar para trás aquela tensão insuportável, e a outra metade queria continuar andando de carro com Luke para sempre.

— Chegamos — disse ela.

Pararam em frente a uma casa de vigamento de madeira, um andar, bem cuidada, calhas vistosas e uma lâmpada perto da porta. Os faróis do Ford iluminaram um gato sentado no peitoril de uma janela, dirigindo a eles um olhar calmo, desde­nhoso do turbilhão das emoções humanas.

— Entre — convidou Billie. — Denny fará um café para mantê-lo acordado na viagem de volta.

— Não, obrigado. Só vou esperar para vê-la em segurança dentro da casa.

— Você foi muito bom para mim. Não creio que eu mereça isso.

Ela estendeu a mão.

— Somos amigos? — ele apertou a mão de Billie.

Ela puxou a mão dele, beijou-a e apertou-a de encontro ao seu rosto, fechando as pálpebras. Após um instante ouviu-o gemer baixinho. Abriu os olhos e viu que ele a estava encaran­do. Luke passou a mão por trás da sua cabeça, puxou-a para junto de si e os dois se beijaram. Foi um beijo delicado, lábios suaves, hálito cálido e as pontas dos dedos de Luke na nuca de Billie. Ela segurou a lapela do seu casaco de tweed e puxou-o mais para perto. Sabia que se Luke a agarrasse agora não ia resistir. O pensamento a fez arder de desejo. Sentindo-se meio louca, pegou a ponta da língua dele entre os dentes e mordeu.

— Quem está aí? — era a voz de Denny, o primo de Billie.

Ela afastou-se de Luke e olhou para fora. Havia luzes na ca­sa e Denny apareceu na porta, usando um robe de seda púrpura.

Billie voltou sua atenção para Luke.

— Eu podia me apaixonar por você em mais dez minutos, mas não penso que pudéssemos vir a ser amigos.

Encarou-o por mais um momento, vendo nos olhos dele o mesmo conflito que sentia em seu coração. Depois desviou os olhos, respirou fundo e saltou do carro.

— Billie? — disse Denny. — Pelo amor de Deus, o que é que você está fazendo aqui?

Ela cruzou o jardim, subiu na varanda e caiu nos braços dele.

— Oh, Denny — murmurou. — Eu amo aquele homem e ele pertence a outra mulher!

Denny deu uma palmadinha delicada nas costas dela.

— Querida, sei exatamente como você se sente.

Ela ouviu o carro saindo e virou-se para ver. Ao fazê-lo, viu o rosto de Luke e o fulgor de algo brilhante em seu rosto.

Luke desapareceu na escuridão.

 

8:30

Empoleirado no topo do nariz do Redstone vê-se aquilo que parece uma grande gaio­la com um telhado muito íngreme e um mastro de bandeira metido no centro. Esta seção, com cerca de 4 metros de comprimento, contém o segundo, terceiro e quarto estágios do míssil — assim como o próprio satélite.

Os agentes secretos nos Estados Unidos nunca tinham sido tão poderosos quanto em janeiro de 1958.

O diretor da CIA, Allen Dulles, era irmão de John Foster Dulles, o secretário de Estado de Eisenhower — de modo que a Agência tinha uma linha direta no governo. Mas esta era ape­nas metade da razão.

Sob as ordens de Allen Dulles funcionavam quatro vice-diretores, dos quais apenas um era importante — o de Planos. A Diretoria de Planos era também conhecida como CS, de Clandestine Services, e foi este departamento que executou os golpes contra os governos de tendência esquerdista no Irã e na Guatemala.

A Casa Branca de Eisenhower ficou impressionada e satis­feita por esses golpes terem sido tão baratos e incruentos, espe­cialmente em comparação com uma guerra de verdade, como a da Coréia. Conseqüentemente, o pessoal que trabalhava em Planos desfrutava de enorme prestígio nos círculos governa­mentais — embora não entre a opinião pública americana, a quem disseram que ambos os golpes foram obra das forças anticomunistas locais.

Fazia parte da Diretoria de Planos a divisão de Serviços Técnicos, chefiada por Anthony Carroll. Ele tinha sido contra­tado quando a CIA foi montada, em 1947. Anthony sempre pla­nejara trabalhar em Washington — em Harvard especializara-se em governo — e fora uma estrela da OSS durante a guerra. Designado para trabalhar em Berlim nos anos 50, organizara a escavação de um túnel que ia do setor americano à zona sovié­tica e grampeara as comunicações da KGB. O túnel permane­ceu sem ser descoberto por seis meses, durante os quais a CIA acumulou uma montanha de informações de valor incalculá­vel. Foi o maior golpe de inteligência da Guerra Fria, pelo qual a recompensa de Anthony fora o cargo principal.

O fato de a CIA ser proibida por lei de operar dentro dos Estados Unidos não passava de uma inconveniência menor.

Serviços Técnicos era, teoricamente, uma divisão de treinamento. Havia uma grande e velha casa de fazenda no interior da Virgínia onde os recrutas aprendiam como invadir residên­cias e plantar microfones escondidos, usar códigos e tinta invi­sível, chantagear diplomatas e intimidar informantes. Mas “treinamento” também servia como disfarce de múltiplos obje­tivos para operações secretas no território dos Estados Unidos. Praticamente tudo que Anthony quisesse fazer, desde gram­pear os telefones dos diretores de um sindicato a testar drogas da verdade em presos condenados, podia ser rotulado como exercício de treinamento.

A vigilância de Luke não foi exceção.

Seis agentes experientes foram reunidos na sala de Anthony. Era uma sala grande, meio desnuda, só com algumas peças de mobília barata do tempo da guerra: uma escrivaninha pequena, um arquivo de aço, uma mesa de cavaletes e um jogo de cadeiras de dobrar. Sem dúvida que o novo quartel-general em Langley seria cheio de sofás confortáveis e lambris de mogno, mas Anthony preferia o estilo espartano.

Pete Maxell distribuiu um retrato de Luke e uma descrição datilografada de suas roupas enquanto Anthony instruía os agentes.

— Nosso alvo hoje é um empregado do Departamento de Estado, categoria intermediária mas com alto nível de acesso a assuntos sigilosos — disse. — Está sofrendo uma espécie de colapso nervoso. Chegou de Paris na segunda-feira, passou a noite no hotel Carlton e caiu na farra na terça-feira. Passou fora a noite de ontem e foi para um abrigo de pessoas sem-lar hoje de manhã. O risco de segurança é óbvio.

Um dos agentes, “Red” Rifenberg, levantou a mão.

— Pergunta.

— Prossiga.

— Por que simplesmente não o puxamos para um lado e perguntamos o que diabo está acontecendo?

— É o que faremos, quando chegar a hora.

A porta da sala de Anthony abriu-se e entrou Carl Hobart. Hobart, gordo e careca e de óculos, era o chefe de Serviços Especializados, órgão que incluía Registros e Decodificação e Serviços Técnicos. Em teoria, era o chefe imediato de Anthony. Anthony gemeu intimamente e rezou para que Hobart não interferisse no que estava fazendo, logo naquele dia, entre tantos.

Anthony continuou a dar suas instruções.

— Mas antes de mostrarmos nossas cartas, queremos ver o que o objeto de nossa operação faz, aonde vai — com quem entra em contato, caso entre. Um caso destes, ele pode apenas estar com um problema em casa. Mas também pode ser que estivesse dando informações para o outro lado, ou por motivos ideológicos ou por o estarem chantageando, e agora a tensão foi demasiada. Se estiver envolvido com algum tipo de traição, precisamos de todas as informações que pudermos conseguir antes de pegá-lo.

Hobart interrompeu.

— O que é isso?

— Um pequeno exercício. Vigilância de um diplomata sus­peito.

— Passe para o FBI — disse Hobart, abruptamente.

Hobart fizera a guerra na Inteligência Naval. Para ele, espionagem era uma simples questão de descobrir a localiza­ção do inimigo e o que estava fazendo nesse lugar. Não gosta­va de veteranos da OSS e de seus truques sujos. A divisão entre um e outro grupo passava pelo meio da Agência. Os homens da OSS eram aventureiros. Aprenderam sua profissão em tem­po de guerra e tinham pouquíssimo respeito por orçamentos e protocolo. Os burocratas se irritavam com seu relaxamento. E Anthony era o arquétipo dos aventureiros: um sujeito audacio­so e arrogante que tinha se safado impune de um assassinato por ser um criminoso eficiente.

Anthony dirigiu um olhar frio a Hobart.

— Por quê?

— Porque é obrigação do FBI e não nossa pegar espiões comunistas neste país — como você sabe perfeitamente bem.

— Precisamos chegar na fonte de tudo. Um caso como este pode gerar um monte de informações se for bem conduzido. Mas os Federais estão apenas interessados em conseguir publi­cidade por enviar comunistas para a cadeira elétrica.

— É a Lei!

— Mas você sabe que não tem o menor sentido.

— Não faz diferença.

Uma coisa compartilhada pelos grupos rivais dentro da CIA era o ódio ao FBI e ao seu megalomaníaco diretor, J. Edgar Hoover. Assim, Anthony perguntou:

— De qualquer modo, quando foi a última vez que o FBI nos deu alguma coisa?

— A última vez foi nunca — retrucou Hobart. — Mas eu tenho outra missão para você hoje.

Anthony começou a se enfurecer. Que arrogância era aque­la? Não competia a Hobart distribuir missões.

— De que você está falando?

— A Casa Branca nos convocou para uma reunião sobre modos de lidar com um grupo rebelde em Cuba. Haverá uma reunião de alto nível mais tarde. Preciso de você e de todos os seus homens experientes para me assessorarem.

— Você está me pedindo informações sobre Fidel Castro?

— Claro que não. Sei tudo sobre Castro. O que preciso de você são idéias práticas para lidar com a insurgência.

Anthony detestava aquele tipo de conversa mole.

— Por que não diz o que quer? Você quer saber como tirá-los de lá.

— Talvez.

Antony deu uma risada sarcástica.

— Bem, o que mais poderíamos fazer — matriculá-los numa classe de catecismo?

— Isso compete à Casa Branca decidir. Nosso trabalho é apresentar alternativas. Você pode me dar algumas sugestões.

Anthony manteve seu espetáculo de indiferença, mas por dentro se preocupava. Não tinha tempo para distrações e preci­sava dos seus melhores agentes para ficar de olho em Luke.

— Vou ver o que posso fazer — disse ele, esperando que Hobart se satisfizesse com uma vaga promessa.

Ele não se satisfez.

— Na minha sala de reuniões, com todos os seus agentes mais experimentados, às dez horas — e sem desculpas.

Ele virou-se. E Anthony tomou uma decisão.

Hobart, já na porta, fez meia-volta.

— Não é uma sugestão — disse. — Esteja lá.

— Leia meus lábios — disse Anthony.

Relutantemente, Hobart encarou Anthony.

Enunciando as sílabas cuidadosamente, Anthony disse:

— Vá se foder.

Um dos agentes conteve uma risada.

A careca de Hobart ficou vermelha.

— Você terá mais notícias a respeito disto — disse ele. — Muitas notícias.

Ele saiu e bateu com a porta.

Todo mundo caiu na gargalhada.

— De volta ao trabalho — comandou Anthony. — Simons e Betts estão com o objeto da vigilância neste momento, mas de­verão ser substituídos em poucos minutos. Quando eles volta­rem, quero Red Rifenberg e Ackie Horwitz assumindo a vigi­lância. Vamos funcionar com quatro turnos de seis horas cada, com uma equipe de reserva sempre disponível. É só por ora.

Os agentes saíram marchando em grupo, menos Pete Maxell. Ele tinha feito a barba e vestido seu terno de trabalho com uma gravata estreita, elegante. Com isso os dentes ruins e a mancha vermelha do rosto se tornaram mais visíveis, como vidros quebrados nas janelas de uma casa nova. Ele era tímido e insociável, talvez por causa da aparência, e devotado aos poucos amigos. Parecia preocupado quando disse para Anthony:

— Você não está se arriscando com Hobart?

— Ele é um panaca.

— Ele é seu chefe.

— Não posso deixar que prejudique uma importante opera­ção de vigilância.

— Mas você mentiu para ele. Hobart pode descobrir facil­mente que Luke não é um diplomata vindo de Paris.

Anthony deu de ombros.

— Eu conto a ele outra história.

Pete pareceu duvidar, mas assentiu e dirigiu-se para a porta.

— Mas você tem razão — disse Anthony. — Estou arriscando meu pescoço. Se alguma coisa sair errada, Hobart não perderá a chance de cortar minha cabeça.

— Foi o que pensei.

— Então é melhor nos assegurarmos de que nada saia errado.

Pete saiu. Anthony ficou olhando para o telefone, obrigando-se a ser calmo e paciente. Política interna no trabalho sem­pre o enfurecia, mas a verdade era que homens como Hobart estavam sempre por perto. Após cinco minutos o telefone tocou e ele atendeu.

— Carroll falando.

— Você esteve aborrecendo Carl Hobart de novo.

Era a voz ofegante de um homem que fumara e bebera entusiasticamente a maior parte da vida.

— Bom dia, George — disse Anthony. George Cooperman era vice-diretor de Operações e companheiro de Anthony da época da guerra. Era o superior imediato de Hobart.

— Hobart devia ficar fora do meu caminho.

— Venha cá, seu chato arrogante! — disse George, amigavelmente.

— Já vou.

Anthony desligou. Abriu uma gaveta e pegou um envelope contendo um maço grosso de cópias Xerox. Em seguida vestiu o paletó e dirigiu-se ao escritório de George, que ficava no Prédio P, ao lado.

Cooperman era um homem alto e magro, de cinqüenta anos, mas com o rosto prematuramente enrugado. Tinha os pés em cima da mesa. Um cigarro no canto da boca e uma enorme caneca de café junto ao cotovelo. Lia o Pravda: tinha se forma­do em literatura russa em Princeton.

George Cooperman abaixou o jornal e rosnou:

— Por que você não consegue ser delicado com o merda daquele gordo?

Ele fez a pergunta sem remover o cigarro da boca.

— Sei que é difícil — acrescentou — mas podia fazer isso em meu benefício.

Anthony sentou-se.

— A culpa é dele mesmo. A esta altura já devia ter percebi­do que só o insulto quando ele se dirige primeiro a mim.

— Qual é a sua desculpa desta vez?

Anthony jogou o envelope em cima da mesa. Cooperman pegou e examinou as folhas xerocadas.

— Um projeto — disse. — De foguete, creio. E daí?

— É um projeto supersecreto. Tirei estas cópias da pessoa que estamos vigiando. É um espião, George.

— E você preferiu não dizer isto a Hobart.

— Quero seguir esse sujeito até que ele revele todos da sua rede — e depois usar a operação dele para contra-informação. Hobart entregaria o caso ao FBI, que pegaria o sujeito e o joga­ria na cadeia. A rede dele simplesmente ia se desvanecer.

— Com os diabos, tem razão quanto a este ponto. Ainda assim, preciso de você na reunião. Sou eu que vou presidi-la. Mas pode deixar sua equipe realizando a vigilância. Se acontecer alguma coisa, eles sempre podem tirar você da sala de reuniões.

— Obrigado, George.

— E escute. Esta manhã você mandou o Hobart se foder na frente de uma sala cheia de agentes, não foi?

— Acho que sim.

— Da próxima vez, tente fazer isso delicadamente, está certo?

Cooperman pegou seu Pravda de novo. Anthony levantou-se para ir embora, pegando as cópias Xerox. Cooperman com­pletou:

— E assegure-se de que essa droga de vigilância saia direi­to. Se ferrar tudo, depois de ter insultado seu chefe, pode ser que eu não consiga protegê-lo.

Anthony saiu.

Mas não retornou ao escritório. A fila de edifícios conde­nados que abrigavam aquela parte da CIA ocupava uma faixa de terra entre a Constitution Avenue e o Mall com o espelho d’água. As entradas para carros ficavam do lado da rua, mas Anthony saiu por um portão dos fundos que dava no parque.

Andou lentamente ao longo da alameda de olmos ingleses, respirando o ar frio, tranqüilizado pelas velhas árvores e pela água parada. Tinha havido alguns maus momentos naquela manhã, mas ele resistira, com um diferente conjunto de menti­ras para cada grupo engajado no jogo.

Chegou ao fim da avenida e parou no ponto que ficava no meio do caminho entre o Lincoln Memorial e o monumento a Washington. A culpa é toda sua, pensou, dirigindo-se aos dois grandes presidentes. Vocês fizeram os homens acreditar que podiam ser livres. Estou lutando pelos seus ideais. Não estou nem sequer seguro de que ainda acredito nesses ideais — mas também me acho por demais teimoso para desistir. Vocês por acaso também se sentem desse jeito?

Lincoln e Jefferson não responderam, e após algum tempo ele retornou ao Prédio Q.

No escritório encontrou Pete com a equipe que estivera seguindo Luke: Simons, com um sobretudo azul-marinho, e Betts, vestindo uma capa de chuva verde. Estava lá também a equipe que devia ter substituído Simons e Betts, ou seja, Rifenberg e Horwitz.

— Que diabo é isto? — exclamou Anthony, tomado de súbi­to medo. — Quem está com Luke?

Simons carregava um chapéu de feltro cinzento e sacudiu-o, com a mão trêmula.

— Ninguém — disse ele.

— O que aconteceu? Que porra foi que aconteceu, seus imbecis?

Após um momento, foi Pete quem respondeu.

— Nós, hmmm... — ele engoliu em seco. — Nós o perdemos.


9:00

O Jupiter C foi construído para o Exército pela Chrysler Corporation. O enorme motor de foguete que propulsiona o primeiro estágio foi fabricado pela North American Aviation, Inc. O segundo, terceiro e quarto estágios foram projetados e testados pelo Jet Propulsion Laboratory, nas proximidades de Pasadena.

Luke sentia raiva de si próprio. Tinha conduzido mal as coisas. Encontrara duas pessoas que provavelmente sabiam quem ele era — e as tinha perdido de novo.

Estava de volta ao bairro pobre perto da igrejinha da rua H onde tomara o café da manhã. A luz do dia de inverno estava mais clara, fazendo com que a rua parecesse mais suja, os pré­dios mais velhos, as pessoas mais malvestidas. Viu dois vaga­bundos na porta de uma loja vazia, passando uma garrafa de cerveja. Estremeceu e passou depressa por eles.

Percebeu então que aquilo era estranho. Um alcoólatra quer beber o tempo todo. Mas, para Luke, a idéia de tomar uma cerveja de manhã tão cedo era nauseante. Assim, sendo, con­cluiu, com enorme alívio, não era um alcoólatra.

Mas se não era um bêbado, o que ele era?

Resumiu o que sabia a seu próprio respeito. Tinha trinta e tantos anos. Não fumava. A despeito das aparências, não era viciado em bebidas alcoólicas. Em algum ponto de sua vida estivera envolvido em trabalho clandestino. E conhecia os ver­sos de “Que amigo temos em Jesus”. Era pateticamente pouco.

Tinha andado pelas calçadas procurando uma delegacia, mas não passara por nenhuma. Decidiu pedir informações. Um minuto mais tarde, quando passou por um lote vago cercado por um pedaço de chapa de aço ondulada, viu um guarda uni­formizado passar por um buraco na cerca e vir para a calçada. Aproveitando a oportunidade, perguntou:

— Como faço para chegar na delegacia mais próxima?

O guarda era um homem corpulento com bigode ruivo. Dirigiu a Luke um olhar de desprezo e disse:

— Na mala do meu carro-patrulha, se não sumir da porra da minha frente.

Luke ficou espantado com a violência da sua linguagem. Qual era o problema do homem? Mas estava cansado de errar pelas ruas e precisava de informações, de modo que persistiu:

— Eu só preciso saber onde é a delegacia.

— Eu não vou lhe dizer, seu cabeça de merda.

Luke ficou aborrecido. Quem ele pensava que era?

— Eu lhe fiz uma pergunta educada, policial — retrucou.

O guarda moveu-se com rapidez surpreendente para um homem tão pesado. Agarrou Luke pelas lapelas do casaco esfarrapado e o jogou pelo buraco da cerca. Luke balanceou e caiu em cima de um piso de concreto áspero, machucando o braço.

Para sua surpresa, não estava sozinho. Logo do lado de dentro do terreno estava uma jovem de cabelo oxigenado e maquiagem pesada. Vestia um casaco comprido sobre um vestido folgado, sapatos de noite de salto alto e meias rasgadas. Estava ajeitando as calcinhas. Luke percebeu que se tratava de uma prostituta que tinha acabado de servir ao patrulheiro.

O guarda veio através da passagem e chutou a barriga de Luke.

Luke ouviu a prostituta dizer:

— Pelo amor de Deus, Sid, o que foi que ele fez? Cuspiu na calçada? Deixe o pobre vagabundo em paz.

— O filho-da-puta tem que aprender a respeitar a autorida­de — disse o policial, com estupidez.

Com o canto do olho Luke viu que ele puxava o cassetete e o levantava. Quando o golpe se aproximou, Luke rolou para um lado. Não foi bastante rápido e o bastão ainda o pegou no ombro esquerdo, deixando momentaneamente o braço dor­mente. O guarda levantou o cassetete de novo.

Fechou-se um circuito no cérebro de Luke.

Em vez de rolar, ele atirou-se na direção do guarda. O impulso dele para frente fez com que caísse no chão, soltando o cassetete. Luke pôs-se de pé agilmente. Quando o guarda se levantou, Luke aproximou-se e ficou dançando a uma distân­cia menor que a extensão dos seus braços, de modo que o homem não conseguia socá-lo. Agarrou as lapelas da túnica do uniforme, puxou o guarda para frente com um safanão e deu-lhe uma cabeçada no rosto. Ouviu-se um estalo quando o nariz do policial quebrou. O homem urrou de dor.

Luke soltou as lapelas da túnica, piruetou num pé só e chu­tou o guarda na lateral do joelho. Os sapatos velhos que usava não eram rígidos o bastante para quebrar ossos, mas o joelho tem pouca resistência a um golpe de lado e o policial caiu.

Uma parte da cabeça de Luke gostaria de saber onde dia­bos aprendera a brigar daquele modo.

O policial sangrava no nariz e na boca, mas levantou-se apoiado no cotovelo esquerdo e sacou da arma com a mão direita.

Antes que a arma saísse do coldre, Luke estava em cima dele. Agarrando seu antebraço direito, bateu com a mão direi­ta no concreto uma vez, com muita força. A pistola caiu ime­diatamente. Puxou o guarda de modo a levantar seu peito e torceu-lhe o braço, obrigando-o a rolar e ficar de bruços. Torcen­do o braço do homem nas costas, soltou o peso do corpo, en­fiando ambos os joelhos na nuca, expulsando todo o ar dos seus pulmões. Finalmente, pegou seu dedo indicador e dobrou-o toda a vida para trás.

O guarda gritou. Luke empurrou ainda mais o dedo. Ouviu um estalo e aí ele desmaiou.

— Você vai passar uma temporada sem bater em vagabun­dos — disse Luke. — Seu cabeça de merda.

Luke levantou-se. Pegou o revólver, ejetou todas as balas e jogou-as no fundo do lote.

A prostituta olhava para ele, espantada.

— Quem diabo você é, Elliot Ness?

Luke olhou para ela. Era magrinha e sob a pintura a pele era ruim.

— Não sei quem eu sou — disse.

— Bem, não é nenhum vagabundo, disso tenho certeza — disse ela. — Nunca vi um cachaceiro capaz de derrubar um filho-da-puta gordo como o Sidney.

— Era o que eu estava pensando.

— É melhor darmos o fora daqui. Ele vai ficar furioso quan­do acordar.

Luke aquiesceu. Não tinha medo de Sidney, nem com raiva nem sem raiva, mas antes que se passasse muito tempo chega­riam mais policiais, e ele precisava estar em outro local. Passou pelo buraco na cerca e foi para a rua, afastando-se rapidamente.

A mulher o seguiu, os saltos agulha estalando na calçada. Ele reduziu o ritmo para permitir que o alcançasse, sentindo que havia entre eles uma espécie de camaradagem. Ambos tinham sido maltratados por Sidney, o patrulheiro.

— Foi legal ver o Sidney dar com alguém que não conse­guiu amedrontar — disse ela. — Acho que devo essa a você.

— De jeito nenhum.

— Bem, da próxima vez em que você se sentir excitado, vai ser por conta da casa.

Luke tentou não deixar transparecer sua náusea.

— Qual é o seu nome?

— Dee-Dee.

Ele levantou uma das sobrancelhas para ela.

— Bem, na verdade é Doris Dobbs — admitiu ela. — Mas que nome é esse para uma garota como eu?

— Eu sou Luke. Não sei o meu sobrenome. Perdi a memória.

— Uau. Você deve se sentir... estranho.

— Desorientado.

— Isso mesmo. É exatamente esta palavra que estava na ponta da minha língua.

Luke a fitou e viu que havia um sorriso irônico no seu ros­to. Percebeu que estava fazendo graça à sua custa e gostou dela por isto.

— Não é justo que eu não saiba meu nome e endereço — explicou. — Não sei ao menos que tipo de pessoa eu sou.

— Como assim?

— Será que sou honesto?

Talvez seja tolice, pensou Luke, abrir seu coração daquela maneira com uma puta de rua, mas ele não tinha outra pessoa.

— Sou um marido leal e um pai amoroso e um companhei­ro de trabalho confiável? Ou sou algum tipo de gângster? Odeio não saber.

— Meu querido, se é isso que o está aborrecendo, eu já sei que tipo de sujeito você é. Um gângster estaria pensando, sou rico, mato as garotas, as pessoas têm medo de mim?

Era um bom argumento. Luke aquiesceu, mas não se deu por satisfeito.

— Uma coisa é querer ser uma boa pessoa — mas talvez eu não viva segundo aquilo em que acredito.

— Seja bem-vindo à raça humana, queridinho — disse ela. — Todos nós nos sentimos desse modo.

Ela parou junto a uma porta.

— Foi uma noite longa. É aqui que eu caio fora.

— Até logo.

Ela hesitou.

— Quer um conselho?

— Claro.

— Se quer que as pessoas parem de tratá-lo como um bosta, é melhor dar um jeito na aparência. Faça a barba, penteie o cabelo, arranje um casaco que não pareça ter saído da boca de um cachorro.

Luke viu que ela estava com a razão. Ninguém prestaria atenção nele e muito menos o ajudaria a descobrir sua identi­dade enquanto parecesse um maluco.

— Acho que você tem razão — disse ele. — Obrigado.

Ela gritou depois que Luke se afastou um pouco.

— E arranje um chapéu!

Ele tocou na cabeça e olhou em torno. Era a única pessoa na rua, homem ou mulher, sem chapéu. Mas como um vaga­bundo podia arranjar uma nova muda de roupas? As moedinhas que tinha no bolso não comprariam muita coisa.

A solução veio inteiramente formada na sua mente. Ou era uma questão fácil ou ele já estivera antes em situação igual. Iria para uma estação de trem. Uma estação geralmente está cheia de pessoas carregando mudas completas de roupa, junto com aparelhos de barba e outros artigos de toalete, tudo linda­mente arrumado em malas.

Foi até a esquina seguinte e verificou sua localização. Es­tava na esquina de A com Seventh. Ao deixar a Union Station de manhã cedo, notara que ficava perto da esquina de F com Second. Dirigiu-se para lá.

 

10:00

O primeiro estágio do míssil é preso ao segundo por parafusos explosivos envoltos por molas de espiral. Quando o primeiro estágio termina de queimar, os parafusos deto­nam e as molas empurram o primeiro estágio — agora desnecessário — para longe.

O Georgetown Mind Hospital era uma mansão vitoriana reves­tida de tijolos vermelhos, com uma moderna extensão de teto plano nos fundos. Billie Josephson deixou seu Ford Thunderbird vermelho no estacionamento e correu para dentro do prédio.

Detestava chegar atrasada. Parecia desrespeito ao seu tra­balho e a seus colegas. O que estavam fazendo era importantís­simo. Lentamente, com todo o cuidado, estavam aprendendo a compreender os mecanismos da mente humana. Era como mapear um planeta distante, cuja superfície só pudesse ser vis­ta através de brechas — frustrantemente curtas — nas camadas de nuvens que o cercavam.

Estava atrasada por causa de sua mãe. Depois que Larry fora para a escola, Billie saíra para comprar as pílulas para o coração e voltara para encontrar Becky-Ma deitada na cama, totalmente vestida, lutando para respirar. O médico atendera prontamente, mas não tinha nada de novo a dizer. Becky-Ma tinha o coração fraco. Se perdesse o fôlego devia deitar. Tinha que se lembrar de tomar suas pílulas. Qualquer estresse era ruim para ela.

Billie gostaria de dizer, “E eu? Estresse também não me faz mal?”, mas, em vez de perguntar qualquer coisa, decidiu voltar a andar em torno da mãe.

Passou pelo escritório de admissões e deu uma olhada no registro da noite. Um novo paciente dera entrada na véspera, depois que ela saíra: Joseph Bellow, esquizofrênico. O nome fez com que se lembrasse de alguma coisa, não saberia preci­sar o quê. Surpreendentemente, o paciente fora mandado embora durante a noite. O que era estranho.

Passou pela sala de recreação a caminho do seu escritório. A TV estava ligada, e um repórter, de pé em uma praia poei­renta, dizia: “Aqui em Cabo Canaveral, a questão na boca de todos é: ‘Quando o Exército tentará lançar seu próprio fogue­te?’ Deve ser nos próximos dias.”

Os objetos da pesquisa de Billie estavam na sala de recrea­ção, uns assistindo à TV, outros jogando ou lendo, uns poucos com o olhar perdido no espaço. Ela acenou para Tom, um rapaz que não conhecia o significado das palavras.

— Como vai, Tommy? — exclamou ela.

Ele sorriu e acenou de volta. Era capaz de ler a linguagem corporal bastante bem e com freqüência respondia como se soubesse o que as pessoas estavam dizendo, de modo que Billie levara meses para descobrir que ele não entendia uma única palavra.

Em um canto, Marlene, uma alcoólatra, flertava com um jovem enfermeiro. Ela passava dos cinqüenta anos de idade, mas não conseguia lembrar de coisa alguma que acontecera desde os seus dezenove. Pensava que ainda era jovem e se re­cusava a crer que o “velho” que a amava e cuidava dela fosse seu marido.

Através da parede de vidro de uma sala de entrevistas, ela viu Ronald, um brilhante arquiteto que sofrera ferimentos na cabeça em um acidente de automóvel. Estava fazendo testes no papel. Seu problema era ter perdido a capacidade de lidar com números. Contava nos dedos com dolorosa lentidão, tentando somar três e quatro.

Muitos pacientes sofriam de diferentes formas de esquizo­frenia, uma incapacidade de relacionamento com o mundo real.

Alguns pacientes podiam ser ajudados, por drogas, trata­mento com choques elétricos ou ambos, mas o trabalho de Billie era traçar o contorno exato de suas incapacidades. Estudando as deficiências mentais menores, ela estava delineando as funções da mente normal. Ronald, o arquiteto, podia ver um grupo de objetos em uma bandeja e dizer se havia três ou quatro, mas se fossem doze e ele tivesse que contá-los, leva­ria longo tempo e podia se enganar. Isto sugeria a Billie que a capacidade de avaliar num relance quantos itens existem em um pequeno grupo é uma capacidade à parte da capacidade de contar.

Desse modo, ela ia lentamente mapeando as profundezas da mente, localizando a memória aqui, a linguagem ali, a mate­mática em alguma outra parte. E se a incapacidade fosse rela­cionada com uma pequena lesão cerebral, Billie podia especu­lar que a capacidade normal estivesse localizada na parte do cérebro que não fora atingida. Um dia, seu quadro conceitual das funções cerebrais seria mapeado em um diagrama físico do cérebro humano.

No atual ritmo do seu progresso, isso tomaria cerca de duzentos anos. No entanto, estava trabalhando sozinha. Com uma equipe de psicólogos, seu progresso seria muito mais rápido. Poderia ver o mapa pronto ainda em dias de sua vida. O que era sua ambição.

Percorrera um longo trajeto desde a depressão suicida do pai. Não havia curas rápidas para a doença mental. Mas a men­te ainda era, em grande parte, um mistério para os cientistas. E seria muito mais bem compreendida se Billie pudesse acelerar seu trabalho. Então, talvez, pessoas como seu pai pudessem ser ajudadas.

Subiu a escada para o andar de cima, pensando no pacien­te misterioso. Joseph Bellow soava como Joe Blow, o tipo do nome que alguém podia ter inventado. E por que teria sido liberado no meio da noite?

Chegou à sua sala e, pela janela, contemplou a nova ala que estava sendo adicionada ao hospital. Com essa ala, ia ser criada uma nova função, a diretoria de Pesquisas. Billie candi­datara-se ao cargo. Mas um dos seus colegas também o fizera, o dr. Leonard Ross. Len era mais velho do que Billie, mas Billie tinha mais experiência e publicara mais artigos e um livro, Uma introdução à psicologia da memória. Tinha certeza de que podia vencer Len, mas não sabia quem mais poderia estar competindo. E queria muito aquele cargo. Como diretora de pesquisa, teria outros cientistas trabalhando sob suas ordens.

No prédio em construção notou, entre os operários, um pequeno grupo de homens trajando roupas de homens de negó­cios — sobretudos de lã e chapéus de feltro no lugar de maca­cões e capacetes. Pareciam estar interessados em uma visita à obra.

Dirigiu-se à sua secretária.

— Quem são aqueles sujeitos comboiados na obra por Leonard Ross?

— São da Fundação Sowerby.

Billie franziu a testa, preocupada. A Fundação Sowerby estava financiando o novo posto de direção. Teria muita influência na escolha do próximo diretor. E lá estava Len ban­cando o bonzinho para eles.

— Nós sabíamos que eles vinham hoje?

— Len disse que lhe enviou um bilhete. Passou aqui hoje cedo para pegá-la, mas você não estava.

Não tinha havido bilhete algum, Billie tinha certeza. Len não a avisara, deliberadamente. E ela se atrasara.

— Droga — disse Billie, sentida. Apressou-se para se juntar ao grupo no local da construção.

Não pensou de novo em Joseph Bellow senão dentro de diversas horas.

 

11:00

Por causa da pressa com que o míssil foi montado, seus estágios superiores usavam um motor de foguete que vinha sendo produzido havia alguns anos, em vez de um projeto novo. Os cientistas escolheram uma versão pequena do mais que testado foguete Sergeant. Os estágios superiores do míssil eram acionados por conjuntos desses pequenos foguetes, conhecidos como Baby Sergeants.

Enquanto avançava pelas escadas que davam na Union Station, Luke verificou que checava, a cada um ou dois minu­tos, se estava sendo seguido.

Livrara-se de seus seguidores havia mais de uma hora, mas a esta altura podiam estar procurando por ele. Só de pensar nis­so sentiu-se temeroso e desnorteado. Quem eram aquelas pes­soas e o que estariam fazendo? Seus instintos lhe diziam que eram do mal. Não fosse por isso, por que vigiá-lo secretamente?

Sacudiu a cabeça para ver se clareava os pensamentos. Especular sem base era algo muito frustrante. Não havia como adivinhar. Precisava descobrir.

Primeiro tinha que se limpar. Seu plano era furtar uma mala de um trem de passageiros. Tinha certeza de que já fizera isso antes, em alguma época de sua vida. Quando tentou se lembrar, vieram-lhe à memória palavras francesas: “La valise d’un type qui descend du train.”

Não seria fácil. Suas roupas sujas e esfarrapadas se destacariam em uma multidão de viajantes respeitáveis. Teria que se deslocar depressa para conseguir. Não tinha alternativa. Dee-Dee, a puta, estava com a razão. Ninguém daria atenção a um vagabundo.

Se fosse preso, a polícia jamais acreditaria que ele fosse outra coisa que não um vagabundo. Terminaria na cadeia — idéia que o fez tremer de medo. Não era a prisão em si que o assustava. A questão maior era a perspectiva de semanas ou meses de ignorância e confusão, sem saber quem era e incapaz de fazer qualquer progresso na descoberta de sua identidade.

À sua frente, na Massachusetts Avenue, viu a arcada de granito branco da Union Station, como uma catedral do tempo dos romanos transplantada da Normandia. Antecipando os acontecimentos, imaginou que depois do furto teria que desa­parecer depressa. Precisava de um carro. O que fazer para fur­tar um carro veio-lhe imediatamente à cabeça.

Perto da estação, a rua estava cheia de carros estacionados. A maioria pertencia a pessoas que tinham tomado um trem. Retardou o passo quando um carro entrou em uma vaga mais adiante. Era um Ford Fairlane de duas cores, branca e azul, novo, mas não ostentoso. Serviria muito bem. A partida do motor teria que ser dada com uma chave e não com um cabo, mas seria fácil puxar uns fios de trás do painel e fazer uma liga­ção direta.

Como saberia disso?

Um homem de sobretudo escuro saltou do Ford, pegou a bagagem na mala do carro, trancou as portas e dirigiu-se para a estação.

Por quanto tempo ficaria fora? Podia ser que tivesse algum negócio para resolver na estação e voltasse em poucos minutos. Participaria o roubo do carro e, se o estivesse dirigindo, Luke correria o perigo de ser preso a qualquer minuto. O que não era nada bom. Tinha que descobrir aonde o homem estava indo.

Seguiu-o. Entrou na estação.

O enorme interior, que de manhã cedo lhe parecera um tem­plo em desuso, agora estava tumultuado. Luke sentiu-se conspícuo. Todas as outras pessoas pareciam limpíssimas e bem vesti­das. A maioria das pessoas evitava seus olhos, mas havia quem o fitasse com nojo ou desprezo. Ocorreu-lhe a possibilidade de esbarrar no homem que o pusera para fora pela manhã. Então haveria uma confusão. O sujeito ia se lembrar, claro.

O proprietário do Fairlane entrou em uma fila e Luke fez o mesmo. Olhando para o chão, sem encarar ninguém, esperan­do não chamar atenção.

A fila andou e seu alvo chegou no guichê.

— Filadélfia, uma ida-e-volta para hoje.

Foi o suficiente para Luke. Filadélfia ficava a algumas horas de distância. O homem estaria fora da cidade o dia intei­ro. O furto do carro só seria participado depois que voltasse. Luke estaria a salvo até a noite.

Abandonou a fila e saiu apressadamente.

Foi um alívio ver-se do lado de fora. Até mesmo os vaga­bundos têm direito de andar pelas ruas. Retornou à Massachusetts Avenue e encontrou o Ford estacionado. Para economizar tempo depois, resolveu destrancá-lo. Olhou para os dois lados da rua. Carros e pedestres não paravam de passar. O problema era que parecia um criminoso. Mas se esperasse até que não houvesse ninguém por perto, podia ficar ali o dia inteiro. Tinha apenas que ser muito rápido.

Desceu para a rua, contornou o carro e parou ao lado da porta do motorista. Apertando a palma da mão no vidro, fez força para baixo. Nada aconteceu. Sentiu a boca seca. Olhou rapidamente para o lado contrário: ninguém estava prestando atenção — ainda. Ficou na ponta dos pés, para acrescentar o peso do corpo à pressão sobre o mecanismo do vidro da jane­la. Felizmente ele cedeu e começou a baixar lentamente.

Quando o vidro estava totalmente aberto, Luke enfiou a mão no interior do carro e destrancou a porta. Abriu-a, subiu o vidro e fechou-a de novo Agora sim, estava pronto para uma fuga rápida.

Pensou em dar a partida agora e deixar o motor funcionan­do, mas podia chamar a atenção de um patrulheiro que passas­se ou mesmo de um transeunte curioso.

Voltou para a estação. Preocupava-se constantemente com a possibilidade de um empregado reparar nele. Não precisava ser o mesmo homem que o pusera para fora algumas horas antes — qualquer funcionário zeloso podia perfeitamente fazer questão de expulsá-lo, como a coisa mais normal do mundo. Fez tudo o que pôde para tornar-se inconspícuo. Caminhou nem depressa nem devagar, tentou conservar-se colado às paredes sempre que pôde. Tomou cuidado para não cruzar o caminho de ninguém e em nenhum momento encarou alguém diretamente nos olhos.

A melhor ocasião para furtar uma mala devia ser imediata­mente após a chegada de um trem grande e cheio de gente, quando o pátio ficava cheio de gente apressada. Estudou o qua­dro de informações. Devia chegar um trem expresso de Nova York em doze minutos. Perfeito.

Enquanto estudava o quadro, verificando os trens espera­dos, seus cabelos da nuca se arrepiaram. Devia ter visto algo com o canto do olho que disparara uma advertência instintiva. O quê? Seu coração bateu mais depressa. Do que tinha medo?

Tentando não chamar a atenção, afastou-se do quadro de avisos e parou junto da banca, examinando os jornais diários. Deteve-se nas manchetes:

Foguete do Exército Prestes A Ser Lançado

Preso Assassino De Dez

Dulles Tranqüiliza Grupo de Bagdá

Última Chance Em Cabo Canaveral

Depois de um momento, olhou por cima do ombro. Umas vinte e tantas pessoas atravessavam a plataforma indo ou vin­do dos trens suburbanos. Um número maior sentava-se nos bancos de mogno ou permanecia pacientemente de pé, paren­tes e motoristas esperando passageiros do trem de Nova York. Um maître, do lado de fora da porta do restaurante, esperava pelos primeiros fregueses do almoço. Havia cinco carregado­res em um grupo, fumando...

E dois agentes.

Tinha certeza absoluta de que eram agentes. Ambos eram jovens, elegantemente vestidos com sobretudo e chapéu, os sapatos sociais bem engraxados. Mas não era tanto pela apa­rência e sim pela atitude que se podia ver que eram agentes. Eram atentos, varriam com os olhos a plataforma da estação, estudavam os rostos das pessoas que passavam, olhavam para toda a parte... exceto para o quadro de avisos. A única coisa em que não estavam interessados era em viajar.

Sentiu-se tentado a falar com eles. E só de pensar nisso, viu-se esmagado pela necessidade de um simples contato humano com gente que o conhecesse. Ansiava por ouvir alguém dizendo, “Oi, Luke, como vai? Que bom ver você de novo!”

Aqueles dois provavelmente diriam: “Nós somos agentes do FBI e você está preso.” Luke achou que seria quase um alívio. Mas seus instintos o alertaram para que não tentasse. Cada vez que pensava em confiar neles, perguntava a si próprio por que o seguiriam disfarçadamente se não tencionavam lhe fazer mal.

Deu-lhes as costas e saiu andando, tentando conservar a banca de jornais entre eles. À sombra de uma grande passagem em arco, arriscou um olhar para trás. Os dois homens estavam cruzando a plataforma aberta, caminhando de leste para oeste, no sentido transversal ao seu campo de visão.

Que diabo seriam?

Saiu da estação, caminhou uns poucos metros ao longo da grande galeria da frente e entrou de novo no saguão principal. Ainda teve tempo de ver as costas dos dois agentes se dirigin­do para a saída oeste.

Checou o relógio. Dez minutos tinham se passado. O ex­presso de Nova York deveria chegar em dois minutos. Adian­tou-se apressadamente até o portão e aguardou, tentando dis­solver-se no fundo da paisagem.

Quando os primeiros passageiros saltaram, uma calma gla­cial se apossou dele. Observou atentamente quem chegava. Era uma quarta-feira, meio da semana, de modo que havia muitos homens de negócios e militares uniformizados mas poucos turistas e apenas um número insignificante de mulheres e crianças. Procurou um homem do seu tamanho e peso.

Quando os passageiros passaram pelo portão, as pessoas que os esperavam se adiantaram e formou-se um engarrafa­mento. A multidão em torno do portão adensou-se, e depois se espalhou, com as pessoas se empurrando, irritadas. Luke viu um rapaz do seu tamanho, mas estava usando um casaco espor­te e gorro de lã, desses que podem cobrir as orelhas: podia não ter um terno extra na mochila. Da mesma forma, Luke deixou passar um senhor de idade que tinha a altura certa mas que era magro demais. Viu um homem que parecia perfeito, mas só carregava uma mala.

A esta altura uns cem passageiros já tinham saído, mas parecia haver muito mais ainda. A plataforma encheu-se de gente impaciente. Então ele viu o homem certo. Da altura de Luke, mesmo peso e mesma idade. O sobretudo cinza desabotoado deixava ver um casaco esporte de tweed e calças de fla­nela — o que significava que provavelmente tinha um terno social na mala de couro marrom que carregava na mão direita. Havia uma expressão de ansiedade no rosto e ele andava depressa, como se estivesse atrasado para um compromisso.

Luke meteu-se dentro da multidão e abriu caminho até colocar-se diretamente atrás do homem.

A multidão era densa e lenta, e o alvo de Luke movia-se com paradas e recomeços nervosos. Depois a multidão rarefez-se um pouco e o homem adiantou-se rapidamente até um vazio.

Foi quando Luke deu uma rasteira nele. Meteu o pé firme­mente em torno do tornozelo à sua frente. Quando o homem adiantou-se, ele deu um chute para cima, dobrando a perna do alvo na altura do joelho.

O homem gritou e caiu para a frente. Soltou tanto a valise quanto a mala e estendeu as duas mãos. Caiu nas costas de uma mulher de casaco de pele que também tropeçou, dando um gritinho e caiu. O homem bateu no piso de mármore com um baque audível, o chapéu rolando para longe. Um segundo depois a mulher desabou em cima dos dois joelhos, largando a bolsa e uma mala chique de couro branco.

Outros passageiros logo se reuniram em torno, tentando ajudar e perguntando se os acidentados estavam bem.

Luke pegou com calma a mala de couro marrom-clara e afastou-se rapidamente, dirigindo-se para o arco de saída mais próximo. Não olhou para trás, mas ficou atento para ouvir gri­tos de acusações ou os sons típicos de uma perseguição. Se ouvisse alguma coisa, estava pronto para sair correndo: não ia desistir com facilidade de suas roupas limpas e sentia que era capaz de correr mais depressa que a maioria das outras pes­soas, mesmo carregando uma mala. Mas sentiu como se tivesse um alvo desenhado nas costas ao se encaminhar em passos bruscos da porta.

Já na saída, olhou por cima do ombro. A multidão se aglomerava em torno do mesmo ponto. Não podia ver o homem a quem derrubara, e tampouco a mulher de casaco de pele. Mas um outro homem — alto e com ar autoritário — examinava cio­samente a plataforma, como se procurasse alguém. A cabeça dele girou subitamente na direção de Luke.

Luke saiu rapidamente porta afora.

Do lado de fora, encaminhou-se para a avenida Massachusetts, e um minuto mais tarde chegava no local onde estava o Ford Fairlane. Foi automaticamente para a parte de trás — mas a mala do carro estava trancada. Lembrou de ter visto o pro­prietário trancando-a. Virou-se de novo para a estação. Lá esta­va o homem alto atravessando correndo a praça circular em frente da estação, desviando-se de carros, vindo na direção de Luke. Quem seria? Um policial de folga? Um detetive? Um bisbilhoteiro qualquer?

Luke deu rapidamente a volta em torno do carro até a por­ta do motorista, abriu-a e jogou a mala no banco de trás. Entrou e bateu a porta.

Enfiou a mão atrás do painel e encontrou os fios de ambos os lados da ignição. Puxou-os e fez o contato. Nada aconteceu. Sentiu a testa coberta de suor, apesar do frio. Por que não esta­va funcionando? A resposta veio logo: fios errados. Enfiou a mão atrás do painel outra vez. Havia outro fio à direita da igni­ção. Puxou-o e encostou no fio da esquerda.

O motor deu a partida.

Apertou o acelerador e o motor roncou.

Colocou a alavanca de mudança em “drive”, soltou o freio de mão, acionou a seta e saiu. O carro estava de frente para a estação, de modo que ele fez uma curva de cento e oitenta graus e saiu.

Um sorriso iluminou-lhe o rosto. A menos que tivesse muito azar, tinha um completo jogo de roupas limpas na mala. Sentiu que começava a assumir o controle de sua vida.

Agora precisava de um lugar para tomar banho e mudar de roupa.

 

Meio-dia

O segundo estágio consiste em onze foguetes Baby Sergeant montados em um anel que fica em torno de um tubo central. O terceiro estágio tem três motores Baby Sergeant mantidos juntos por três anteparos transversais. No topo do terceiro estágio fica o quarto, um foguete único com o satélite no nariz.

A contagem regressiva parou em X menos 630 minutos e Cabo Canaveral ficou alvoroçado.

Os homens que trabalham com foguetes são todos iguais: projetam armas, se é isso o que o governo quer, mas sonham mesmo é com o espaço cósmico.

A equipe do Explorer tinha construído e lançado muitos mísseis, mas este seria o primeiro a se livrar da força de gravi­dade terrestre e voar para além da atmosfera. Para a maior par­te da equipe, o lançamento daquela noite representaria a con­cretização das esperanças de uma vida. Elspeth sentia-se do mesmo modo.

A base deles era no Hangar D e no Hangar R, que ficavam lado a lado. O projeto padrão de hangar para aeronaves fora considerado bem adequado a mísseis: havia um grande espaço central onde era possível trabalhar com os foguetes, com aco­modações de dois andares de cada lado para a equipe e os labo­ratórios de menor porte.

Elspeth trabalhava no Hangar R. Tinha uma máquina de escrever e uma mesa na sala do seu chefe, Willy Frederickson, o coordenador do lançamento, que passava quase que o tempo todo em outro lugar. O trabalho dela era preparar e distribuir o horário do lançamento.

O problema era que esse horário mudava constantemente. Ninguém, nos Estados Unidos, mandara um foguete ao espaço antes. Novos problemas surgiam o tempo todo e os engenhei­ros viviam improvisando meios e modos para julgar um com­ponente ou substituir um sistema. Ali, fita gomada comum era chamada de fita de míssil.

Assim, Elspeth produzia com regularidade atualizações do cronograma. Tinha que permanecer em ligação com cada gru­po da equipe, registrar as mudanças de planos em seu bloco de estenografia, depois transferir as anotações para folhas datilografadas e xerocadas e finalmente distribuí-las. Seu trabalho impunha que fosse a todos os lugares e conhecesse quase tudo. Quando havia uma dificuldade, era informada quase que imediatamente e também estava entre as primeiras pessoas a saber da solução. Seu título era de secretária e o salário que recebia era o de uma secretária. Mas ninguém poderia realizar aquele trabalho sem ser graduada em ciência. Não se ressentia, contu­do, do baixo salário. Gostava de ter um emprego que a desafia­va. Alguns de seus colegas de classe de Radcliffe ainda esta­vam tomando ditado de homens que vestiam ternos cinzentos de flanela.

A atualização do meio-dia estava pronta e ela pegou a pilha de papéis e saiu a distribuir. Tinha que andar depressa, mas isto lhe convinha naquele dia: a impedia de preocupar-se constantemente com Luke. Caso seguisse sua inclinação esta­ria no telefone com Anthony a cada cinco minutos, perguntan­do se não haveria alguma notícia. O que seria uma idiotice. Ele entraria em contato com ela se algo saísse errado, disse a si própria. Até lá, tinha que se concentrar no seu trabalho.

Foi primeiro ao departamento de imprensa, onde os rela­ções públicas trabalhavam nos telefones, contando aos repórte­res de confiança que haveria um lançamento naquela noite. O Exército contava com a presença de jornalistas para testemu­nhar seu triunfo. A informação, contudo, não poderia ser libe­rada senão depois do evento. Lançamentos programados eram freqüentemente adiados, ou mesmo cancelados, quando sur­giam imprevistos. O pessoal que trabalhava com mísseis tinha aprendido, graças à sua amarga experiência, que um adiamen­to de rotina para resolver um problema técnico pode parecer uma falha abjeta quando os jornais publicam a notícia. Assim, tinham um trato com as maiores organizações da imprensa. Avisavam previamente os lançamentos com a condição de que nada fosse publicado enquanto não houvesse “fogo na cauda”. Ou seja, quando o motor do foguete fosse acionado.

Era um escritório onde só trabalhavam homens, e diversos deles a encararam fixamente quando entrou e entregou uma folha com o cronograma novo para o chefe do escritório. Elspeth sabia que era atraente, alta, com seu visual viquingue muito claro e um corpo de estátua, mas havia nela algo que ins­pirava medo — o jeito determinado da boca, talvez, ou o brilho perigoso dos olhos verdes — que fazia os homens inclinados a assobiarem, ou a chamá-la de queridinha, pensar duas vezes.

No Laboratório de Disparo de Mísseis encontrou cinco cientistas de camisas de mangas curtas de pé diante de uma bancada, olhando com preocupação um pedaço de metal que parecia ter pegado fogo. O líder do grupo, dr. Keller, cumpri­mentou-a, “Boa tarde, Elspeth” em um inglês com forte sota­que alemão. Como a maioria dos cientistas, era um alemão capturado no fim da guerra e levado aos Estados Unidos para trabalhar no programa de mísseis.

Passou-lhe uma cópia da atualização, que ele pegou sem ver do que se tratava. Elspeth indicou o objeto em cima da ban­cada e disse:

— Que é isso aí?

— Uma palheta da turbina.

Elspeth sabia que o primeiro estágio era guiado por palhetas instaladas no interior da cauda.

— O que foi que aconteceu com ela?

— O combustível em chamas erode o metal — explicou ele. Seu sotaque alemão acentuou-se mais à medida que se entu­siasmou com o assunto.

— Isto sempre acontece, de alguma forma. No entanto, com o álcool que usamos normalmente como combustível, as palhetas duram o bastante para cumprir sua tarefa. Hoje esta­mos usando um novo combustível, chamado Hydyne, que leva mais tempo queimando e tem maior velocidade de exaustão, mas que pode erodir as palhetas a um ponto tal que elas se tor­nam ineficientes para dirigir o míssil.

Ele levantou as mãos afastadas num gesto de exasperação.

— Não tivemos tempo suficiente para realizar muitos testes.

— Acho que tudo o que preciso saber é se isso vai adiar o lançamento.

Elspeth achava que não conseguiria mais suportar um novo adiamento. O suspense a estava matando.

— É justamente isto que estamos tentando decidir — Keller olhou em torno para os seus colegas. — E acho que a nossa res­posta será: vamos correr o risco.

Os outros aquiesceram melancolicamente e Elspeth sentiu-se aliviada.

— Vou ficar com os dedos cruzados — disse ela, virando-se para ir embora.

— O que será tão útil quanto qualquer coisa que possamos fazer — disse Keller, e os demais riram melancolicamente.

Ela saiu para o tórrido sol da Flórida. Os hangares ficavam em uma clareira arenosa aberta nos arbustos que cobriam o Cabo — palmeiras pequenas, carvalhos mirrados e o agressivo carrapicho, que machuca o pé de quem anda descalço em cima dele. Cruzou uma área cimentada e entrou no Hangar D, onde a sombra bem-vinda caía em cima do seu rosto com o toque de uma brisa fria.

Na sala de telemetria viu Hans Mueller, conhecido como Hank. Ele apontou-lhe um dedo e disse:

— Cento e trinta e cinco.

Era uma brincadeira usual entre eles. Elspeth tinha que dizer o que havia de diferente no número que ele escolhesse.

— Muito fácil — disse ela. — Pegue o primeiro dígito, adicio­ne o quadrado do segundo e some o cubo do terceiro e terá o número em que pensou.

Ela lhe deu a equação:

11 + 32 + 53 = 135

— Está certo — disse ele. — Qual é então o próximo número, de valor maior, que segue o mesmo padrão?

Ela pensou, esforçou-se bastante e disse:

— Cento e setenta e cinco.

11 + 72 + 53 = 175

— Correto! Você ganhou o grande prêmio!

Ele meteu a mão no bolso e puxou uma moeda de dez centavos.

Elspeth pegou a moeda.

— Agora vou lhe dar uma chance de recuperar seu dinheiro. Cento e trinta e seis.

— Ah — ele franziu a testa. — Espera aí. Some o cubo dos dígitos.

13 + 33 + 63 = 244

— Agora repita o processo e você tem o número em que pensou em primeiro lugar!

23 + 43 + 43 =136

Elspeth devolveu a moeda de dez centavos e lhe deu uma cópia da atualização do cronograma.

Quando ia saindo, seu olhar foi atraído por um telegrama preso na parede: JÁ TIVE MEU PEQUENINO SATÉLITE, AGORA É A SUA VEZ.

— É da mulher de Stuhlinger — disse Hank. — Teve um menino.

Elspeth sorriu.

Encontrou Willy Frederickson na sala de comunicações com dois técnicos do Exército, testando a linha do teletipo para o Pentágono. Seu chefe era um homem alto e magro, calvo, com uma franja de cabelo ondulado em torno da cabeça, como um monge medieval. O teletipo não funcionava e Willy estava frustrado, mas quando pegou a atualização e leu, dirigiu a ela um olhar agradecido e disse:

— Elspeth, você é ouro de vinte e dois quilates.

No momento seguinte, duas pessoas se aproximaram de Willy: um jovem oficial do Exército carregando um mapa, e Stimmens, um dos cientistas. Foi o oficial que falou.

— Temos um problema — disse, entregando o mapa a Willy antes de prosseguir. — O jet stream desviou-se para o sul e está soprando a cento e quarenta e seis nós.

Elspeth sentiu o coração confranger-se. Jet stream era um vento de altitude elevada na estratosfera, entre trinta e quaren­ta mil pés. Ou seja, entre nove e doze mil metros. Normalmen­te não se estendia até Cabo Canaveral, mas podia se deslocar. E, se fosse muito forte, podia tirar o míssil da rota.

— Quanto ao sul está? — quis saber Willy.

— Está em toda a Flórida — respondeu o oficial.

Willy virou-se para Stimmens.

— Nós levamos isto em consideração, não levamos?

— Na verdade, não — respondeu Stimmens. — É tudo hipótese, claro, mas imaginamos que o míssil possa agüentar ventos até cento e vinte nós, não mais.

Willy virou-se para o oficial.

— Qual é a previsão para esta noite?

— Até cento e setenta nós, e não há nem sinal do jet stream estar se deslocando para o norte.

— Que diabo!

Willy passou a mão na cabeça. Elspeth sabia no que estava pensando. O lançamento podia ter que ser adiado até o dia seguinte.

— Providencie um balão atmosférico, por favor — ordenou. — Vamos rever a previsão amanhã às cinco horas.

Elspeth tomou nota para acrescentar a nova previsão atmosférica no seu cronograma e foi embora, sentindo-se deprimida. Podiam resolver problemas de engenharia, mas não havia nada que pudessem fazer quanto ao tempo.

Outra vez do lado de fora, pegou um jipe e foi até o Complexo de Lançamento 26. O caminho era uma estrada de terra aberta no meio do mato ralo, e o jipe sacudia ao passar nos sulcos. Assustou um cervo de cauda branca que bebia água em uma vala, fazendo com que ele saísse correndo e se metes­se entre os arbustos. Havia muitos animais selvagens no Cabo, e havia quem dissesse que isso incluía jacarés e panteras da Flórida, mas Elspeth nunca vira nem uns nem outros.

Encostou o jipe e deu uma olhada na plataforma de lançamento 26B, a trezentos metros de distância. A armação de sustentação do foguete era uma torre de petróleo, adaptada para aquela finalidade e pintada com uma tinta resistente à ferru­gem a fim de evitar a corrosão do ar úmido e salgado da Flórida. O elevador que dava acesso à plataforma ficava de um lado. Todo o edifício era brutalmente prático, sem a menor graciosidade, segundo Elspeth: uma estrutura funcional montada sem a menor preocupação com a aparência que teria.

O comprido corpo branco do Jupiter C, em forma de lápis, parecia preso em uma confusão de vigas cor de laranja, como uma libélula em uma teia de aranha. Os homens chamavam o foguete de “ela”, a despeito de sua forma fálica, e Elspeth tam­bém pensava no foguete como uma mulher. Um véu de noiva de cobertas de lona tinha escondido os estágios de nível supe­rior de olhos curiosos desde que o Jupiter ali chegara, mas agora o véu fora removido, revelando o míssil com o sol se refletindo na pintura impecável.

Embora não fossem muito políticos, até mesmo os cientis­tas sabiam que os olhos do mundo estavam voltados para eles. Quatro meses antes a União Soviética assombrara o mundo lançando o primeiro satélite artificial, o Sputnik. Em todos os países onde o cabo-de-guerra entre o capitalismo e o comunis­mo ainda estava sendo disputado, da Itália à Índia, passando pela América Latina, África e Indochina, a mensagem foi ouvida: a ciência comunista era melhor. Um mês depois os soviéticos tinham lançado um segundo satélite, o Sputnik II, com um cachorro a bordo. Os americanos ficaram arrasados. Hoje um cachorro, amanhã um homem.

O presidente Eisenhower prometeu um satélite americano antes do fim do ano. No primeiro dia de dezembro, quinze minutos antes do meio-dia, a Marinha do Estados Unidos dis­parou o foguete Vanguard diante da imprensa mundial. Ele ergueu-se alguns metros no ar, pegou fogo, virou de lado e esmigalhou-se no concreto. É um Fracassonik! — anunciou uma das manchetes.

O Jupiter C era a última esperança. Não havia terceira opção. Se falhasse hoje, os Estados Unidos estariam fora da corrida espacial. A derrota no campo da propaganda era a menor das conseqüências. O programa espacial americano ficaria totalmente desordenado, e a URSS controlaria o espaço cósmico.

Tudo isso, pensou Elspeth, dependia daquele foguete.

Era proibida a entrada de veículos na área de lançamento, exceto para os essenciais como os caminhões de combustível, de modo que ela deixou o carro e atravessou a pé o espaço entre o prédio e a armação que sustentava o foguete, seguindo a linha de um conduto de metal por onde passavam os cabos que conectavam as duas locações. Presa à parte de trás da tor­re, no nível do solo, havia uma cabine de aço comprida, pinta­da na mesma cor de laranja, na qual funcionavam escritórios e maquinaria. Elspeth entrou por uma porta de metal.

Harry Lane, o supervisor, sentado numa cadeira de dobrar, com botas de engenheiro e capacete, estudava um projeto.

— Olá, Harry — cumprimentou ela, alegremente.

A resposta foi um grunhido. Ele não gostava de ver mulhe­res na área de lançamento, e nenhum senso de cortesia iria impedi-lo de deixar que Elspeth soubesse disso.

Ela deixou uma atualização em cima de uma mesa metáli­ca e foi embora. Retornou para o prédio próximo da área de lançamento, uma estrutura feita de concreto fortemente refor­çado e que servia para abrigar e proteger o pessoal, controles eletrônicos e instrumentos auxiliares antes e durante as opera­ções de lançamento. Essa espécie de prédio auxiliar era baixo, pintado de branco e tinha vigias protegidas por grossos vidros verdes. As portas estavam abertas e ela foi entrando. Havia três compartimentos: uma sala de instrumentação, com a mesma largura do prédio, e duas salas de disparo, “A”à esquerda e “B”à direita, dispostas obliquamente em relação às duas plataformas de lançamento de foguetes servidas por aquele prédio auxiliar. Elspeth entrou na Sala de Disparo “B”.

A forte luz do sol passava pelo vidro verde, tornando tudo parecido com o interior de um aquário. Sentados diante da ban­cada de painéis de controle em frente das janelas, cientistas tra­balhavam — todos trajando camisas de manga curta, como se fosse um uniforme. Tinham fones que lhes permitiam falar com os homens na plataforma de lançamento. Podiam olhar por cima dos painéis e ver o foguete pelas vigias, ou, se prefe­rissem, usar as telas de televisão em cores, que mostravam o mesmo quadro. Ao longo da parede dos fundos da sala tinha sido montada uma bateria de gravadores dotados de registro gráfico, um ao lado do outro, acompanhando temperaturas, pressões no sistema de combustível e atividade elétrica. No canto mais afastado havia uma balança mostrando o peso do míssil em cima da plataforma. Havia um ar de serena urgência no ambiente com os homens murmurando nos seus fones de cabeça e mexiam em seus painéis, girando um botão aqui, acionando um interruptor ali, checando constantemente os mostradores e contadores. No alto, acima de suas cabeças, um relógio com a contagem regressiva mostrava quantos minutos faltavam para a ignição. No momento em que Elspeth olhou, o ponteiro passou de 600 para 599.

Entregou a atualização e saiu. Dirigindo de volta ao han­gar, sua mente voltou-se para Luke, e ela convenceu-se de que tinha a desculpa perfeita para ligar para Anthony. Primeiro lhe falava sobre o tal vento forte, o jet stream, e depois perguntava a respeito de Luke.

A decisão animou-a e foi apressadamente que ela entrou no hangar e subiu a escada para sua sala. Ligou para o número direto de Anthony e ele atendeu de primeira.

— O lançamento deve ser adiado até amanhã — disse a ele. — Há ventos fortes na estratosfera.

— Eu não sabia que há ventos na estratosfera.

— Há um, chamado de jet stream. O adiamento não é definitivo, vai haver uma reunião do pessoal do tempo às cinco horas. Como está Luke?

— Bem, temos um problema.

O coração dela falhou uma batida.

— Que tipo de problema?

— Nós o perdemos.

Elspeth gelou.

— O quê?

— Ele escapou dos meus homens.

— Jesus, nos ajude — disse ela. — Agora estamos encrencados.

 

1941

Luke chegou em Boston de madrugada. Estacionou o velho Ford, esgueirou-se pela porta dos fundos da Cambridge House e galgou a escada de serviço para o seu quarto. Anthony dor­mia profundamente. Luke lavou o rosto e caiu na cama com a roupa de baixo.

A próxima coisa de que tomou conhecimento foi Anthony sacudindo-o e gritando:

— Luke! Acorde!

Abriu os olhos. Sabia que algo ruim tinha acontecido, mas não conseguiu se lembrar do que era.

— Que horas são? — resmungou.

— Uma hora, e Elspeth está esperando você lá embaixo.

A menção do nome de Elspeth acionou sua memória e ele lembrou qual era a calamidade. Não mais a amava.

— Oh, meu Deus — murmurou.

— É melhor descer e falar com ela.

Ele tinha se apaixonado por Billie Josephson. O que era terrível. Transformaria em um verdadeiro desastre de trem a vida deles todos: a sua própria, a de Elspeth, de Billie e de Anthony.

— Droga — disse, levantando-se.

Tirou a roupa de baixo e meteu-se no chuveiro frio. Quando fechava os olhos via Billie, seus olhos escuros cintilando, a boca vermelha rindo, o pescoço branco. Vestiu uma calça de flanela, um suéter, um tênis e, atordoado, desceu a escada.

Elspeth esperava no saguão, a única parte do prédio onde era autorizada a presença de garotas, exceto nas Vesperais das Moças especialmente marcadas. Era um salão espaçoso com uma lareira e poltronas confortáveis. Ela estava tão atraente como sempre, de vestido de lã cor de jacintos azuis e um gran­de chapéu. Ainda ontem a visão dela teria alegrado o seu cora­ção; hoje, saber que ela se vestira caprichadamente para ele o fazia sentir-se ainda mais desprezível.

Ela riu ao vê-lo.

— Você parece um garotinho que não conseguiu acordar!

Ele beijou-lhe o rosto e arriou numa poltrona.

— Levou horas a viagem a Newport.

— É evidente que esqueceu que devia me levar para almo­çar! — disse Elspeth alegremente.

Luke fitou-a. Era linda, mas não a amava. Não sabia se a tinha amado antes, mas com certeza não a amava agora. Era um patife da pior espécie. Elspeth lhe aparecia tão alegre naquela manhã e ainda assim ele ia arruinar sua felicidade. Não sabia como lhe dizer. A vergonha que sentia era tanta que chegava a lhe doer no peito.

Tinha que falar alguma coisa.

— Podemos esquecer o almoço? Ainda nem fiz a barba.

Uma sombra cruzou o rosto pálido e orgulhoso de Elspeth e Luke viu que ela sabia perfeitamente bem que havia algo errado. A resposta que deu, contudo, foi despreocupada.

— Claro. Até mesmo cavaleiros de armaduras reluzentes precisam dormir o sono beleza.

Ele disse a si próprio que mais tarde, naquele mesmo dia, teria uma conversa séria com ela e que seria completamente sincero.

— Sinto muito que tenha se arrumado toda para nada — dis­se ele, sem graça.

— Nada, não — eu vi você. E seus companheiros de casa parecem ter gostado da minha roupa.

Ela se levantou.

— De qualquer modo, o professor e a sra. Durkham estão dando um arrasta-pé.

Arrasta-pé era a gíria local para festa.

Luke levantou-se e ajudou-a a vestir o casaco.

— Podíamos nos encontrar mais tarde — tinha que falar com ela ainda naquele dia, seria enganador deixar que se passasse mais tempo sem revelar a verdade.

— Ótimo — disse ela, alegremente. — Pegue-me às seis.

Elspeth soprou-lhe um beijo e saiu andando como uma estrela do cinema. Luke sabia que estava representando, mas foi uma excelente interpretação.

Ele regressou melancolicamente para seu quarto. Anthony lia o jornal de domingo.

— Fiz café — disse ele.

— Obrigado — Luke serviu uma xícara.

— Eu lhe devo uma grande coisa — prosseguiu Anthony. — Você salvou a pele de Billie ontem à noite.

— Você teria feito o mesmo por mim — Luke tomou um gole de café e começou a se sentir melhor. — Parece que consegui­mos nos safar. Alguém lhe disse alguma coisa hoje de manhã?

— Absolutamente nada.

— Billie é uma garota e tanto — disse Luke. Sabia que era perigoso falar a respeito dela, mas não pôde se conter.

— Ela não é maravilhosa?

Luke observou com pavor a expressão de orgulho no rosto do seu companheiro de quarto. Anthony prosseguiu:

— Eu vivia me perguntando por que motivo ela não haveria de querer sair comigo, mas sempre achava que não ia. Não sei por que, talvez porque seja tão elegante e bonita. Quando me disse que sim, não pude acreditar nos meus ouvidos. A vonta­de que me deu foi de pedir que respondesse por escrito.

Declarações extravagantes eram o modo de Anthony fazer graça e Luke forçou um sorriso, mas secretamente ficou apa­vorado. Roubar a namorada de alguém era desprezível em qualquer circunstância, mas o fato de Anthony estar obvia­mente louco por Billie piorava tudo ainda mais.

Luke gemeu e Anthony perguntou:

— O que é que há?

Luke decidiu dizer-lhe a metade da verdade.

— Não estou mais apaixonado por Elspeth. Acho que vou ter que acabar com o namoro.

Anthony pareceu chocado.

— Que pena! Vocês dois formam uma dupla e tanto.

— Eu me sinto como um imbecil.

— Não se crucifique. Acontece. Vocês não eram casados — nem sequer noivos.

— Oficialmente não.

Anthony levantou as sobrancelhas.

— Você a pediu em casamento?

— Não.

— Então não são noivos, oficialmente ou não.

— Conversamos sobre quantos filhos teremos.

— Ainda assim não são noivos.

— Acho que você está certo, mas de qualquer forma me sin­to como um canalha.

Houve uma batida na porta e um homem a quem Luke nun­ca tinha visto entrou.

— Sr. Lucas e sr. Carroll, imagino?

Usava um terno surrado mas tinha um jeito arrogante, e Luke supôs que devia ser um inspetor escolar.

Anthony pôs-se de pé num pulo.

— Somos nós sim — disse. — E você deve ser o dr. Uterus, o famoso ginecologista. Graças a Deus que veio!

Luke não riu. O homem estava carregando dois envelopes brancos e ele teve a impressão pessimista de saber o que eram.

— Sou secretário do Reitor. Ele me pediu para lhes entregar estes documentos pessoalmente.

O homem entregou um envelope para cada um e foi embora.

— Diabos! — disse Anthony quando a porta se fechou. Abriu o envelope, rasgando-o. — Que maldição!

Luke também abriu o seu e leu o bilhete que vinha dentro.

Caro Sr. Lucas

Por favor, tenha a gentileza de vir me ver em minha sala hoje, às três horas da tarde.

Seu, sinceramente

Peter Ryder

Reitor

Cartas como aquelas sempre significavam problemas disciplinares. Alguém havia contado ao reitor que uma garota estivera na Casa. Anthony provavelmente seria expulso.

Luke nunca tinha visto o companheiro de quarto receoso — sua indiferença parecia inabalável — mas agora estava pálido com o choque.

— Não posso ir para casa — murmurou.

Anthony nunca falava muito a respeito dos seus pais, mas Luke tinha uma pálida idéia de um pai intimidador e de uma mãe que sofria havia muito tempo. Adivinhava agora que a realidade podia ser pior do que imaginara. Por um momento, a expressão de Anthony foi uma janela que se abria para um inferno privado.

Houve então uma batida à porta e entrou Geoff Pidgeon, o amável e gorducho ocupante do quarto em frente.

— Será que acabei mesmo de ver o secretário do reitor?

Luke acenou com a carta.

— Acertou miseravelmente em cheio.

— Olha, não falei uma só palavra sobre ter visto vocês com aquela garota.

— Quem falou então? — indagou Anthony. — O único alcagüete aqui na casa é o Jenkins.

Paul Jenkins era um religioso fanático cuja única missão na vida era reformar a moral dos homens de Harvard.

— Só que ele foi passar o fim de semana fora.

— Não, não foi — contestou Pidgeon. — Mudou de planos.

— Então foi ele, maldito seja — concluiu Anthony. — Vou estrangular aquele filho da mãe com minhas próprias mãos.

Se Anthony fosse expulso, Luke percebeu repentinamente, Billie ficaria livre. Sentiu-se envergonhado por ter um pensamento desses na hora em que a vida do seu amigo estava para ser arruinada. Ocorreu-lhe então, que a própria Billie podia estar correndo perigo.

— Gostaria de saber se Elspeth e Billie também receberam cartas — disse Luke.

— E por que teriam recebido? — quis saber Anthony.

— Jenkins provavelmente conhece os nomes de nossas namoradas — ele tem um interesse libidinoso por essas coisas.

— Se ele souber os nomes, podemos ter certeza de que ele as denunciou. Jenkins é assim — sugeriu Pidgeon.

— Elspeth está a salvo — disse Luke. — Ela não estava aqui, e ninguém pode provar que estava. Mas Billie pode ser expul­sa e então perderá a bolsa. Ela me explicou ontem à noite. Não poderá estudar em nenhum outro lugar.

— Não posso me preocupar com Billie agora — disse Anthony. — Tenho que imaginar o que é que vou fazer.

Luke ficou chocado. Anthony metera Billie em encrenca e pelo seu código Anthony deveria se preocupar mais com ela do que consigo próprio. Mas viu naquilo um pretexto de falar com Billie e não pôde resistir. Suprimindo um sentimento de culpa, ele disse:

— Por que eu não vou ao dormitório das garotas e vejo se Billie já voltou de Newport?

— Você vai? — perguntou Anthony. — Obrigado.

Pidgeon saiu. Anthony sentou-se na cama, melancólico, fumando, enquanto Luke se barbeava rapidamente e trocava de roupa. Embora estivesse com pressa, vestiu-se com cuidado: camisa azul-clara, calças novas de flanela e sua jaqueta favori­ta de tweed cinza.

Eram duas horas quando chegou no quadrilátero do dormi­tório de Radcliffe. As edificações, revestidas de tijolinhos ver­melhos, ficavam em torno de um parque de pequeno tamanho onde os estudantes caminhavam aos pares. Fora ali que ele bei­jara Elspeth, relembrou angustiadamente, na meia-noite de um sábado, ao final do primeiro encontro deles. Detestava homens que mudavam de lealdade com a mesma facilidade com que mudavam de camisa e, no entanto, estava fazendo justamente o que tanto detestava — e não conseguia parar.

Uma criada uniformizada o levou até o saguão do dormitó­rio. Ele perguntou por Billie. Ela se sentou a uma mesa, pegou um tubo igual aos usados em navios, soprou dentro do bocal e disse:

— Visita para a srta. Josephson.

Billie desceu usando um suéter de cashmere cinza-claro e saia xadrez. Estava linda, mas parecia perturbada, e Luke teve ímpetos de envolvê-la nos braços para confortá-la. Também tinha sido convocada ao gabinete de Peter Ryder e contou a Luke que o homem que entregara sua carta entregara uma tam­bém a Elspeth.

Ela o conduziu para a sala de estar, onde as garotas eram autorizadas a receber visitantes do sexo masculino.

— O que é que eu vou fazer? — exclamou, o rosto contraído de agonia. Mais parecia uma viúva chorosa.

Luke achou-a ainda mais atraente que na véspera e teve muita vontade de lhe dizer que daria um jeito para resolver tudo, mas não conseguiu imaginar uma solução.

— Anthony podia dizer que era outra pessoa que estava no quarto. Mas então teria que dizer que pessoa era.

— Não sei o que vou dizer à minha mãe.

— Não sei se Anthony pagaria uma mulher, você sabe, uma mulher da vida, para dizer que era ela.

Billie sacudiu a cabeça.

— Não iam acreditar.

— E Jenkins ia dizer que a garota era outra. Foi ele o alcagüete que denunciou você.

— Minha carreira está liquidada — com um sorriso amargo, ela continuou. — Vou ter que voltar para Dallas e trabalhar de secretária para um daqueles homens do petróleo que usam botas de caubói.

Vinte e quatro horas antes Luke era um homem feliz. Difícil de acreditar agora.

Duas garotas, de chapéu e casaco, irromperam na sala. Tinham os rostos congestionados.

— Souberam da notícia? — perguntou uma delas.

Luke não estava interessado em notícias. Sacudiu a cabe­ça. Billie, meio tonta, ainda conseguiu perguntar:

— O que foi que aconteceu?

— Estamos em guerra!

Luke se assustou.

— O quê?

— É verdade — conformou a segunda garota. — Os japoneses bombardearam o Havaí!

Luke mal conseguia compreender o que ouvia.

— Havaí? Para que diabos eles iam bombardear o Havaí? O que é que tem lá?

— E verdade? — perguntou Billie.

— Na rua todo mundo está falando nisso. As pessoas param os carros.

Billie olhou para Luke.

— Estou com medo — disse.

Ele segurou sua mão. Queria dizer que cuidaria dela, acontecesse o que acontecesse.

Duas outras garotas entraram, falando excitadamente. Alguém trouxe um rádio e ligou na tomada. Houve um silêncio de expectativa enquanto esperavam que esquentasse. Depois veio a voz do locutor:

“O couraçado Arizona foi destruído e o Oklahoma afundou em Pearl Harbor. Os primeiros relatos dizem que mais de cem aviões foram inutilizados em terra na base aeronaval da Ilha Ford e nos campos Wheeler e Hickam. As baixas americanas são estimadas em pelo menos dois mil mortos e mil feridos.”

Luke sentiu uma onda de raiva.

— Duas mil pessoas mortas! — exclamou.

Mais garotas foram entrando na sala de estar, todas falan­do nervosamente, e rudemente lhe ordenaram que calassem a boca. O locutor estava dizendo:

“Nenhuma advertência foi dada antes do ataque japonês, que começou às sete e cinqüenta e cinco da manhã, hora local, pouco antes de uma hora da tarde, hora da costa do Atlântico.”

— É guerra, não é? — perguntou Billie.

— Pode apostar que sim — respondeu Luke, furioso. Sabia que era uma idiotice irracional odiar um país inteiro, mas era o que sentia, assim mesmo. — Eu gostaria de arrasar o Japão.

Ela acariciou a mão dele.

— Não quero que você vá para a guerra — disse, com lágri­mas nos olhos. — Não quero que se machuque.

O coração dele quase explodiu de alegria.

— Fico tão feliz de ver que você se sente assim.

Ele sorriu melancolicamente.

— O mundo desmoronando e eu me sentindo feliz.

Deu uma olhada no relógio.

— Suponho que todos nós ainda tenhamos que ver o reitor, mesmo que estejamos em guerra.

Mas neste ponto ele teve uma idéia e ficou em silêncio.

— O quê? O que é?

— Talvez haja um modo para você e Anthony continuarem em Harvard.

— Como?

— Deixe-me pensar.

 

Elspeth estava nervosa, mas disse a si própria que não precisa­va ter medo. Desobedecera ao toque de recolher na noite ante­rior, mas não fora apanhada. Tinha quase certeza de que aqui­lo não tinha nada a ver com ela e Luke. Anthony e Billie é que se encontravam em perigo. Elspeth mal conhecia Billie, mas se preocupava com Anthony e tinha a sensação horrível de que ele seria expulso.

Os quatro se encontraram diante da sala do reitor. Luke ainda disse que tinha um plano, mas antes que pudesse expli­car, o reitor abriu a porta e mandou que entrassem. Luke só teve tempo para dizer aos demais que deixassem a falação por conta dele.

O reitor Peter Ryder, responsável pelos alunos, era um homem exigente e antiquado, metido num elegante terno de paletó preto, colete e calças cinzentas listradas. Seu laço de gravata era uma perfeita borboleta, os sapatos cintilavam de tão engraxados e o cabelo cheio de óleo parecia tinta preta em um ovo cozido. Com ele estava uma Solteirona de cabelos gri­salhos chamada Iris Rayford, a responsável pelo bem-estar moral das garotas de Radcliffe.

Sentaram-se em um círculo de cadeiras, como se fosse para um seminário. O reitor acendeu um cigarro.

— Agora, rapazes, é melhor que vocês contem a verdade, como cavalheiros — disse ele. — O que aconteceu no seu quarto ontem à noite?

Anthony ignorou a pergunta de Ryder e agiu como se fos­se o encarregado do andamento dos trabalhos.

— Onde está Jenkins? — perguntou, laconicamente. — Foi ele quem nos denunciou, não foi?

— Ninguém mais foi convidado a se juntar a nós — disse o reitor.

— Mas um homem tem o direito de enfrentar seu acusador cara a cara.

— Isto não é um tribunal, sr. Carroll — respondeu o reitor, impaciente. — Pediram que a srta. Rayford e eu estabelecêsse­mos os fatos. Medidas disciplinares, se necessárias, serão to­madas no momento adequado.

— Não estou seguro de que isto seja aceitável — disse Anthony arrogantemente. — Jenkins deveria estar aqui.

Elspeth viu o que Anthony queria. Esperava que Jenkins tivesse medo de repetir as acusações na cara dele. Se isso acontecesse, a escola poderia ter que cancelar o caso. Ela não acha­va que fosse dar certo, mas talvez valesse a tentativa.

Luke, no entanto, interrompeu a discussão abruptamente.

— Chega — disse ele, com um gesto impaciente. Dirigiu-se ao reitor:

— Eu levei uma mulher para dentro da Casa ontem à noite, senhor.

Elspeth engoliu em seco. De que ele estava falando?

O reitor franziu a testa.

— Minha informação é de que foi o sr. Carroll quem convi­dou a tal mulher.

— Lamento, mas o senhor foi mal informado, reitor.

Elspeth não se conteve:

— Isso não é verdade! — exclamou.

Luke dirigiu-lhe um olhar que a congelou.

— A srta. Twomey estava em seu dormitório à meia-noite, é claro, conforme o livro de registro mostrará.

Elspeth o encarou. O livro demonstraria isso, sem dúvida, porque uma amiga forjara sua assinatura. Concluiu que era melhor calar a boca antes que se metesse em encrenca. Mas o que Luke estava querendo?

Anthony fazia a mesma pergunta a si próprio. Olhando para o amigo, assombrado, ele disse:

— Luke, não sei o que você está fazendo, mas...

— Deixe-me contar a história — disse Luke. Anthony pare­ceu ficar na dúvida, mas o outro insistiu:

— Por favor.

Anthony deu de ombros.

O reitor disse, sarcasticamente:

— Continue, por favor, sr. Lucas. Não posso esperar.

— Conheci a garota no Dew Drop Inn — começou Luke.

A srta. Rayford falou pela primeira vez:

— O Dew Drop Inn? — exclamou, incrédula. — É algum trocadilho?

— É.

— Continue.

— Ela é garçonete lá. Seu nome é Angela Carlotti.

O reitor, evidentemente, não acreditou numa única pala­vra. E disse:

— Disseram-me que a pessoa vista em Cambridge House era a srta. Bilhah Josephson, aqui presente.

— Não senhor — contestou Luke, no mesmo tom de certeza inabalável. — A srta. Josephson é nossa amiga, mas estava fora da cidade. Passou a noite passada na casa de um parente em Newport, Rhode Island.

— Seu parente confirmará isto? — perguntou a srta. Rayford à Billie.

Billie, desconcertada, dirigiu um olhar de espanto a Luke antes de responder.

— Sim, srta. Rayford.

Elspeth encarou Luke fixamente. Será que ele realmente tencionava sacrificar a carreira para salvar a de Anthony? Que loucura! Luke era um amigo leal, mas aquilo era levar a ami­zade demasiadamente a sério.

— Você é capaz de apresentar essa... garçonete? — ele pronunciou a palavra com desgosto, como se estivesse falando “prostituta”.

— Posso sim, senhor.

O reitor surpreendeu-se.

— Muito bem, então.

Elspeth ficou atônita. Teria Luke subornado alguém para fingir ser a culpada? Se fosse este o caso, jamais daria certo. Jenkins juraria que não era ela.

Foi quando Luke falou:

— Mas não tenciono trazê-la.

— Ah — fez o reitor. — Neste caso fica difícil aceitar sua história.

Elspeth não sabia o que pensar. Luke contara uma história implausível e não tinha como comprovar sua veracidade. Onde estaria querendo chegar?

— Não penso que o depoimento da srta. Carlotti seja necessário.

— Permita-me discordar.

Foi quando Luke soltou a bomba que tinha preparado.

— Estou deixando a escola hoje à noite, senhor.

— Luke! — exclamou Anthony.

— Não representará nenhuma vantagem para o senhor sair antes de ser desligado. Seja como for, haverá uma investigação.

— Nosso país está em guerra.

— Sei disso, meu rapaz.

— Vou me incorporar ao Exército amanhã de manhã, senhor.

— Não! — Elspeth soltou um grito.

Pela primeira vez o reitor não tinha uma resposta e ficou encarando Luke, boquiaberto.

Elspeth percebeu que Luke tinha sido muito esperto. A escola dificilmente tomaria uma medida disciplinar contra um rapaz que ia arriscar a própria vida pelo seu país. E se não hou­vesse investigação, Billie estaria a salvo.

Uma névoa de dor obscureceu a visão de Elspeth. Luke sacrificara tudo — para salvar Billie.

A srta. Rayford ainda poderia exigir o testemunho do pri­mo de Billie, mas ele deveria mentir por ela. O ponto chave era que Radcliffe dificilmente poderia esperar que Billie, na au­sência de Luke, fosse apresentar a garçonete Angela Carlotti.

Mas nada disso importava para Elspeth naquele instante. A única coisa em que podia pensar era em ter perdido Luke.

Ryder resmungou qualquer coisa sobre fazer um relatório e deixar que os demais decidissem. A srta. Rayford fez uma tem­pestade em copo d’água para anotar o endereço do primo de Billie, mas era tudo camuflagem, tanto da parte dele quanto da parte dela. Tinham sido suplantados e sabiam disso.

Finalmente, os estudantes foram dispensados.

Assim que a porta se fechou, Billie caiu no choro.

— Não vá para a guerra, Luke! — suplicou.

Anthony disse:

— Você salvou minha vida — ele passou os braços em torno do pescoço de Luke e o abraçou. — Jamais me esquecerei disto. Jamais.

Anthony soltou Luke e pegou a mão de Billie.

— Não se preocupe — disse para ela. — Ele é esperto demais para ser morto.

Luke virou-se para Elspeth. Quando seus olhos se encontraram, ele hesitou, e ela percebeu que sua raiva devia estar plenamente visível. Mas não se importou. Encarou-o por um longo momento e por fim levantou a mão e deu-lhe uma bofe­tada com toda a força. Ele deixou escapar um grito involuntá­rio de dor e surpresa.

— Seu filho-da-puta! — disse ela.

E com isto virou-se e foi embora.

 

13:00

Cada motor Baby Sergeant tem 1 metro e vinte de comprimento, 15 centímetros de diâmetro e pesa 27 quilos e queima por apenas 6 segundos e meio.

Luke estava procurando uma rua residencial tranqüila. Washington era totalmente desconhecida para ele, como se nunca tivesse estado ali antes. Ao se afastar da Union Station escolhera uma direção ao acaso, e seguira para oeste. A rua o levara bem para o centro da cidade, um lugar de paisagens impressionantes e grandiosas edificações do governo. Talvez fosse bonito, mas ele achou intimidante. Passou por um prédio com um letreiro que dizia Georgetown Mind Hospital e adivi­nhou que o bairro devia ser chamado Georgetown. Virou em uma rua arborizada de casas modestas. Promissor. Quem morava ali não devia ter como pagar empregados domésticos de tempo integral, de modo que tinha uma boa chance de encontrar uma casa vazia.

A rua fazia uma curva e logo depois terminava num cemi­tério. Luke estacionou o Ford roubado de frente para o cami­nho por onde chegara, para o caso de ter que fugir com rapidez.

Precisava de ferramentas simples, um formão ou uma cha­ve de parafuso e um martelo. Provavelmente havia um jogo na mala do carro — só que estava trancada. Poderia forçá-la, se pudesse encontrar um pedaço de arame... de outro modo, teria que ir de carro até uma loja de ferragens e comprar ou roubar o que precisava.

Pegou no banco de trás a mala roubada. Examinando as roupas, encontrou uma pasta com papéis, de onde retirou um clipe.

Levou trinta segundos para abrir a mala do carro. Como tinha esperado, havia algumas ferramentas em uma lata perto do macaco. Escolheu a maior das chaves de parafuso. Não havia martelo, mas uma chave de roda pesada faria as vezes. Colocou tudo no bolso da capa de chuva esfarrapada e bateu a tampa da mala.

Pegou a mala que roubara na estação dentro do carro, tran­cou a porta e contornou a esquina. Sabia que estava sendo mui­to evidente, um vagabundo esfarrapado andando na rua de um bairro bom, carregando uma mala cara. Se o bisbilhoteiro local chamasse a polícia, e a polícia não tivesse muito que fazer naquela manhã, estaria encrencado em questão de minutos. Por outro lado, se tudo corresse bem, estaria de banho tomado, barbeado e vestido como um homem respeitável em meia hora.

Atingiu a primeira casa da rua, atravessou um pequeno gramado e bateu à porta.

 

Rosemary Sims viu um bonito automóvel azul e branco passar vagarosamente pela sua casa e perguntou-se de quem seria. Os Brownings podiam ter comprado um carro novo, eles tinham um bocado de dinheiro. Ou o sr. Cyrus, que era solteiro e não tinha que economizar. Fora isso, ponderou ela, o carro devia ser de um estranho.

A sra. Sims ainda tinha boa vista e podia ver quase que a rua toda de sua poltrona junto da janela do segundo andar, especialmente no inverno, quando as árvores ficavam sem flo­res. Assim, ela viu o estranho alto quando ele dobrou a esqui­na. E “estranho” era bem a palavra. Não usava chapéu, sua capa de chuva estava rasgada e os sapatos eram amarrados com barbante para não se desconjuntarem. No entanto, carre­gava uma mala com cara de nova.

Ele bateu na porta da casa da sra. Britsky. Viúva e vivendo sozinha, a sra. Britsky não era nenhuma boba e se livraria rapidamente do estranho, a sra. Sims tinha certeza. Sem dúvida, lá estava — a sra. Brisky apareceu na janela e mandou que o homem fosse embora com um gesto categórico.

Ele foi para a casa vizinha, da sra. Loew. Ela atendeu. Era uma mulher alta, de cabelos negros e orgulhosa demais, na opi­nião da sra. Sims. Trocou algumas palavras com o homem e bateu a porta.

O estranho seguiu para a casa ao lado, aparentemente tencionando experimentar todas as casas da rua. A jovem Jeannie Evans atendeu à porta com a filhinha, um bebê lindo chamado Rita, no colo. Ela pescou qualquer coisa no bolso do avental e deu a ele, provavelmente umas moedas. Então o homem era um mendigo.

O velho sr. Clark apareceu na porta de roupão de banho e chinelos de quarto. O estranho não conseguiu nada com ele.

O dono da casa seguinte, o sr. Bonetti, estava trabalhando, e sua mulher Angelina, grávida de sete meses, saíra cinco minutos antes, carregando uma bolsa e indo, evidentemente, para a loja. O estranho não conseguiria nada ali.

 

A essa altura, Luke tivera tempo de estudar as portas, que eram todas iguais. Tinham fechaduras Yale, do tipo com uma lingüeta no lado da porta e um soquete de metal no batente. As fecha­duras eram acionadas pela chave, do lado de fora, e pela maça­neta, do lado de dentro.

Cada porta tinha uma janelinha de vidro à altura da cabeça. O modo mais fácil de entrar seria quebrar esse vidro e enfiar a mão para girar a maçaneta. Mas o vidro quebrado seria visível da rua. Assim, ele decidiu usar a chave de parafuso.

Deu uma espiada em ambos os lados da rua. Não tivera sorte, sendo obrigado a bater em cinco portas para encontrar uma casa vazia. A esta altura já tinha despertado a atenção de algum morador, embora não visse ninguém. De qualquer modo, não tinha escolha. Fora obrigado a se arriscar.

 

A sra. Sims virou as costas para a janela e ergueu o telefone que ficava do lado da sua poltrona. Lenta e cuidadosamente, discou o número da delegacia local de polícia, que sabia de cor.

 

Luke tinha que fazer aquilo depressa.

E inseriu a chave de parafuso entre a porta e o batente no mesmo nível da fechadura. Depois bateu no cabo da chave de parafuso com a parte mais pesada da chave de roda, tentando forçar a ponta da chave para dentro do soquete da fechadura.

O primeiro golpe não teve êxito, porque a chave bateu em cheio na lingüeta. Ele mudou de posição, tentando encontrar um meio de ela entrar no soquete. Bateu de novo, desta vez com mais força. Ainda assim, a chave não entrou. Luke sentiu que a testa ficava molhada de suor, a despeito do frio.

Disse a si próprio para ficar calmo. Já tinha feito aquilo antes. Quando? Não tinha importância. A técnica funcionava, tinha certeza.

Sacudiu a chave de novo. Desta vez sentiu que a ponta pegou num entalhe da lingüeta. Bateu de novo, com toda a for­ça de que foi capaz. A chave de parafuso entrou uns dois cen­tímetros.

Luke puxou a maçaneta de lado, alinhando a lingüeta para que ela pudesse sair do soquete. Para seu profundo alívio, a porta abriu por dentro.

O dano causado à moldura foi muito pequeno para poder ser visto da rua.

Ele entrou rapidamente e fechou a porta.

 

Quando Rosemary Sims terminou de discar o número da polí­cia, olhou pela janela de novo, mas o estranho tinha sumido.

Muito depressa.

A polícia atendeu. Sentindo-se confusa, ela desligou sem falar.

Por que ele tinha parado de repente de bater nas portas? Para onde tinha ido? Quem era?

Rosemary sorriu. Tinha algo com que ocupar seus pensa­mentos o dia inteiro.

 

Quem morava ali era um casal jovem. A casa era mobiliada com uma mistura de presentes de casamento e compras em lojas de segunda. Tinham um sofá novo e um aparelho de TV grande na sala de estar, mas na cozinha ainda usavam engrada­dos de laranja para guardar as coisas. Uma carta fechada em cima do radiador era endereçada ao sr. G. Bonetti.

Não havia indícios de crianças. Muito provavelmente marido e mulher trabalhavam e passavam o dia inteiro fora. Mas Luke não podia contar com isso.

Subiu a escada rapidamente. Havia três quartos de dormir, mas apenas um deles estava mobiliado. Luke jogou a mala em cima da cama cuidadosamente feita. Dentro dela encontrou um terno listrado muito bem dobrado, uma camisa branca e uma gravata de estilo bastante conservador. Havia meias escuras, roupa de baixo limpa e um par de sapatos sociais pretos que pareciam apenas meio ponto maiores que o seu número.

Tirou a roupa imunda e chutou para um canto. Foi uma sensação meio estranha, estar nu na casa de desconhecidos. Pensou em não tomar banho, mas estava fedendo, mesmo para si próprio.

Entrou no banheiro. Era uma maravilha ficar debaixo de uma ducha de água quente e se ensaboar. Quando terminou, ficou parado por um instante, atento. A casa continuava em silêncio.

Secou-se com uma das toalhas cor-de-rosa da sra. Bonetti — outro presente de casamento, supôs — e vestiu a cueca, calças, meias e sapatos tirados da mala roubada. Estando pelo menos meio vestido poderia fugir correndo se saísse algo errado enquanto estivesse se barbeando.

O sr. Bonetti tinha um barbeador elétrico, mas Luke preferia barbear-se com lâmina. Na mala encontrou um aparelho de barbear e um pincel. Espumou o rosto e barbeou-se rapida­mente.

O sr. Bonetti não tinha água-de-colônia, mas talvez hou­vesse na mala. Depois de feder como um porco a manhã intei­ra, Luke gostou da idéia de se perfumar. Achou um estojo de couro de boa qualidade e abriu o zíper. Nada de colônia, mas em compensação havia cem dólares em notas de vinte, cuida­dosamente dobradas: dinheiro de emergência. Embolsou o dinheiro, decidido a pagar ao homem um dia.

Afinal de contas, o sujeito não era um colaborador.

E o que diabos isto significava?

Outro mistério. Ele vestiu a camisa, gravata, paletó. Tudo caía bem. Acertara ao escolher cuidadosamente uma pessoa do seu tamanho e peso. As roupas eram de boa qualidade. A eti­queta na mala dava um endereço no Central Park, lado sul, Nova York. Luke achou que o dono devia ser um figurão de alguma companhia importante que fora a Washington para uns dois dias de reuniões.

Havia um espelho de corpo inteiro na parte de trás da por­ta do quarto. Não via sua imagem desde aquela manhã bem cedo, no banheiro dos homens da Union Station, quando fica­ra chocado por ver a figura de um vagabundo sórdido olhando para ele.

Encaminhou-se para o espelho, preparando-se para o pior.

Mas viu um homem alto, atlético, com uns trinta e cinco anos, cabelo preto e olhos azuis. Uma pessoa normal, parecen­do um pouco atormentada. Uma sensação de alívio e fadiga o invadiu.

Vendo um sujeito como esse aí, pensou ele, o que você diria que ele faz para viver?

Suas mãos eram macias e agora que estavam limpas não pareciam de um trabalhador manual. Tinha o rosto liso, de quem passava a maior parte do tempo dentro de casa e nunca se sujeitara muito ao mau tempo. O cabelo era bem cortado. O sujeito do espelho parecia à vontade com roupas típicas do executivo de uma grande firma.

Não era um policial, definitivamente.

Não havia chapéu ou casaco na mala. Luke sabia que cha­maria a atenção sem um ou outro, num dia frio de janeiro, em pleno inverno. Podia ser que encontrasse na casa. Valia a pena gastar alguns segundos a mais para procurar.

Abriu o armário. Não havia muita coisa. A sra. Bonetti tinha três vestidos. Seu marido tinha um paletó esporte para os fins de semana e um terno preto que provavelmente usava para ir à igreja. Não havia sobretudo — o sr. Bonetti devia estar usan­do um e não tinha dinheiro para ter dois — mas havia uma capa de chuva leve. Luke tirou-a do cabide. Melhor do que nada. Vestiu-a. Era um pouco pequena mas dava para usar.

Não havia chapéu no armário, mas havia um boné de tweed que Bonetti provavelmente usava com o paletó esporte no sábado. Luke experimentou. Pequeno. Teria que comprar um chapéu com o dinheiro da bolsa de toalete. Mas o boné ser­viria para uma ou duas horas.

Luke ouviu um barulho no andar térreo. Ficou imóvel, atento.

Voz de mulher, jovem:

— O que aconteceu com a porta?

Outra voz, similar:

— Parece que alguém tentou arrombar.

Luke praguejou baixinho. Ficara tempo demais.

— Puxa vida! — Acho que você tem razão.

— Talvez você devesse chamar a polícia.

A sra. Bonetti, afinal, não tinha ido trabalhar. Provavel­mente fora às compras. Encontrara uma amiga na loja e a con­vidara para tomar um café em casa.

— Não sei não... parece que os ladrões não chegaram a entrar.

— Como sabe? Melhor ver se não está faltando nada.

Luke viu que tinha que sair dali depressa.

— O que há para roubar? As jóias da família?

— O que me diz da televisão?

Ele abriu a janela e deu uma olhada no gramado que fica­va na frente da casa. Não havia árvore ou cano que pudesse usar na descida.

— Nada foi mexido — ele ouviu à sra. Bonetti dizer. — Não creio que tenham entrado.

— E lá em cima?

Deslocando-se silenciosamente, Luke foi para o banheiro. Na parte dos fundos da casa só havia a chance para uma queda de quebrar perna no pátio cimentado.

— Vou olhar.

— Você não tem medo?

Houve uma risadinha nervosa.

— Tenho. Mas o que mais podemos fazer? Ficaremos com cara de idiotas se chamarmos a polícia e não houver ninguém.

Luke ouviu passos na escada. Escondeu-se atrás da porta do banheiro.

Os passos galgaram a escada, atravessaram o patamar e entraram no quarto. A sra. Bonetti deu um gritinho.

A voz de sua amiga perguntou:

— De quem é aquela mala?

— Nunca vi antes!

Luke esgueirou-se silenciosamente para fora do banheiro. Pôde ver a porta do quarto aberta, mas não as mulheres. Des­ceu a escada na ponta dos pés, grato pela existência do carpete que recobria os degraus.

— Que espécie de ladrão traz bagagem?

— Vou chamar a polícia agora mesmo. Isto está muito estra­nho.

Luke abriu a porta da frente e saiu.

Ele sorriu. Tinha conseguido.

Fechou a porta silenciosamente e afastou-se depressa.

 

A sra. Sims franziu a testa, espantada. O homem saindo da casa dos Bonetti usava a capa de chuva preta do sr. Bonetti e o boné cinza de tweed que ele usava para assistir os jogos dos Redskins, mas era maior que o sr. Bonetti e as roupas não lhe caíam bem. Um minuto mais tarde o carro azul e branco que ela notara antes apareceu e contornou a esquina, acelerado demais. Foi quando ela percebeu que o homem que saíra da casa era o mesmo mendigo que estivera observando. Ele devia ter arrombado a casa e roubado as roupas do sr. Bonetti!

Quando o carro passou pela sua janela, leu a placa e memorizou o número.

 

13:30

Os motores Sergeant foram submetidos a 300 testes estáticos, 50 testes em vôo e 290 acionamentos do sistema de ignição sem uma única falha.

Anthony sentou-se na sala de reuniões, fervendo de impaciên­cia e frustração.

Luke ainda estava solto em alguma parte de Washington. Ninguém sabia o que ele poderia estar querendo fazer, mas Anthony estava preso ali, ouvindo um oportunista do Departamento de Estado a arengar sobre a necessidade de combater os rebeldes reunidos nas montanhas de Cuba. Anthony sabia tudo a respeito de Fidel Castro e Che Guevara. Tinham menos que mil homens sob seu comando. Claro que podiam ser liquidados — mas não havia por quê. Se Castro fos­se morto, um outro assumiria seu lugar.

O que Anthony queria mesmo era dar o fora dali e ir para a rua procurar Luke.

Ele e seu pessoal tinham se ligado com quase todas as delegacias de polícia do Distrito de Colúmbia. Pediram para serem informados de todos os incidentes envolvendo bêbados ou vagabundos, qualquer menção de um criminoso que falasse como um professor universitário e de qualquer coisa que fosse fora do comum. Os policiais ficavam felizes de cooperar com a CIA: gostavam de pensar que podiam estar envolvidos com atividades de espionagem internacional.

O homem do Departamento de Estado terminou sua fala e começou uma discussão tipo mesa-redonda. Anthony sabia que o único meio de impedir alguém como Castro de assumir o poder era os Estados Unidos apoiarem um governo modera­damente reformista. Para sorte do comunismo, não havia peri­go disso acontecer.

A porta abriu-se e Pete Maxell entrou, procurando não chamar atenção. Acenou com a cabeça um pedido de descul­pas para o presidente da mesa, George Cooperman, sentou-se ao lado de Anthony e passou-lhe uma pasta contendo um maço de relatos policiais.

Havia qualquer coisa de não costumeiro praticamente em todas as delegacias. Uma mulher bonita, presa por bater cartei­ras no Jefferson Memorial, na verdade era um homem; alguns beatniks tinham tentado abrir a jaula de uma águia no zoológi­co para libertar a ave; um morador de Wesley Heights tinha tentado sufocar a mulher com uma pizza com cobertura extra de queijo; um caminhão de entregas pertencente a uma editora religiosa tinha deixado cair sua carga em Pertworth e o trânsi­to na Georgia Avenue estava engarrafado por causa de uma avalanche de bíblias.

Era possível que Luke tivesse deixado Washington, mas Anthony considerou esta hipótese improvável. Luke não tinha dinheiro para trem ou ônibus. Podia roubar, claro, mas para que se dar ao trabalho? Não tinha para onde ir. Sua mãe mora­va em Nova York e ele tinha uma irmã em Baltimore, mas ele não sabia disso. Não tinha motivo para viajar.

Enquanto Anthony fazia uma leitura dinâmica dos relatos, meio que ouvia o Chefe, Carl Hobart, falar a respeito do em­baixador dos Estados Unidos em Cuba, Earl Smith, que traba­lhara incansavelmente para solapar os líderes da igreja e outros que queriam reformar Cuba por meios pacíficos. Anthony às vezes se perguntava se Smith seria na verdade um agente do Kremlin, mas o mais provável é que fosse apenas imbecil.

Um dos relatos policiais chamou sua atenção e ele mostrou a Pete.

— É isso mesmo? — murmurou, incrédulo.

Pete balançou a cabeça afirmativamente.

— Um vagabundo atacou e espancou um patrulheiro na esquina das ruas A e Sete.

— Um vagabundo espancou um policial?.

— E não muito longe de onde perdemos Luke.

— Pode ser ele! — exclamou Anthony, excitadamente. Carl Hobart, que estava falando, dirigiu-lhe um olhar irritado. Anthony baixou a voz e voltou a murmurar.

— Mas por que ele atacaria um patrulheiro? Roubou alguma coisa — a arma dele por exemplo?

— Não, mas deu-lhe uma surra e tanto. Teve que ir para o hospital tratar do dedo indicador da mão direita, quebrado.

Um tremor percorreu o corpo de Anthony como um cho­que elétrico.

— É ele! — disse, em voz alta.

— Pelo amor de Deus! — reclamou Carl Hobart.

George Cooperman interveio, bem-humorado:

— Anthony, ou você cala a porra da boca ou vai lá para fora falar, certo?

Anthony levantou-se.

— Desculpe, George, Volto num segundo.

Ele saiu da sala e Pete o seguiu.

— É ele! — repetiu Anthony depois que a porta se fechou. — Era sua marca registrada, durante a guerra. Fazia isso com a Gestapo — quebrava os dedos de acionar os gatilhos.

Pete ficou intrigado.

— Como é que você sabe disso?

Anthony percebeu que tinha cometido um erro palmar. Pete acreditava que Luke era um diplomata tendo um colapso nervoso. Anthony não lhe dissera que conhecia Luke pessoal­mente. Amaldiçoou-se pelo descuido.

— Não contei tudo a você — disse, forçando um tom casual. — Trabalhei com ele na OSS.

Pete franziu as sobrancelhas.

— E tornou-se um diplomata depois da guerra — ele dirigiu a Anthony um olhar astuto. — O cara não está apenas tendo um problema com a esposa, está?

— Não, estou convicto de que a coisa é mais séria.

Pete aceitou essa.

— Parece coisa de um filho da mãe dotado de muito sangue-frio, para quebrar o dedo de um sujeito assim.

— Sangue-frio?

Anthony nunca pensara em Luke como sendo um homem de sangue-frio, embora ele tivesse uma tendência à crueldade.

— Acho que sim, quando em situações desvantajosas.

Tinha conseguido disfarçar seu erro, pensou, aliviado. Mas ainda tinha que achar Luke.

— A que horas aconteceu essa briga?

— Nove e meia.

— Droga! Mais de quatro horas atrás. Pode estar agora em qualquer parte da cidade.

— O que vamos fazer?

— Mandar uma dupla de agentes à rua A para mostrar a foto de Luke para ver se conseguimos alguma pista do destino que ele pode ter tomado. E também falar com o policial agredido.

— Certo.

— E se você conseguir alguma coisa, não hesite em invadir esta reunião idiota.

— Deixa comigo.

Anthony voltou. George Cooperman, seu companheiro do tempo da guerra, estava falando, impacientemente.

— Devíamos mandar um grupo de caras durões das Forças Especiais e acabar com o exército esfarrapado de Castro em trinta e seis horas.

— Poderíamos manter a operação secreta? — perguntou, nervosamente, o homem do Departamento de Estado.

— Não — respondeu George. — Mas poderíamos disfarçá-la de conflito local, como fizemos no Irã e na Guatemala.

Carl Hobart se intrometeu.

— Vocês me desculpem se minha pergunta for burra, mas por que é segredo o que fizemos no Irã e na Guatemala?

Foi o homem do Departamento de Estado que respondeu.

— Não queremos fazer propaganda de nossos métodos, naturalmente.

— Perdoe-me, mas isso é idiotice — retrucou Hobart. — Os russos sabem que fomos nós. Os iranianos e guatemaltecos sabem que fomos nós. Com os diabos, na Europa os jornais disseram abertamente que fomos nós! Ninguém foi enganado, exceto o povo americano. Agora, por que nós queremos men­tir para o povo americano?

George respondeu com irritação crescente.

— Se tudo viesse à luz, haveria uma comissão de inquérito no Congresso. Os filhos-da-puta dos políticos iam perguntar se tínhamos o direito de agir, se era legítimo e o que tínhamos a dizer a respeito dos pobres coitados dos camponeses descalços iranianos ou dos cucarachos colhedores de banana.

— Talvez não fossem perguntas tão ruins assim — persistiu Hobart obstinadamente. — Fizemos realmente algum bem à Guatemala? É difícil dizer a diferença entre o regime de Castillo Armas e o de um bando de gângsteres.

George perdeu a calma.

— Ao inferno com tudo isso! — gritou. — Não estamos aqui para alimentar iranianos mortos de fome ou conceder liberda­des civis aos camponeses sul-americanos, pelo amor de Deus. Nosso trabalho é promover os interesses americanos — e que se foda a democracia!

Houve uma breve pausa e depois Carl Hobart falou.

— Muito obrigado, George. Fico feliz de ver que consegui­mos esclarecer tudo.

 

14:00

Cada motor Sergeant tem um dispositivo de ignição que consiste em dois elementos elétricos ligados em paralelo e um cilindro de metal oxidante encerrado em um esto­jo de plástico. São de tal modo sensíveis esses dispositivos de ignição que precisam ser desconectados em caso de tempestade elétrica a menos de 20 quilômetros de Cabo Canaveral, para evitar que funcionem acidentalmente.

Em uma loja de roupas de homem situada em Georgetown, Lu­ke comprou um chapéu cinzento de feltro macio e um sobretu­do azul-marinho. Saiu da loja de chapéu e sobretudo e sentiu que, finalmente, podia enfrentar o mundo de frente.

Agora estava pronto para atacar seus problemas. Primeiro tinha que aprender alguma coisa sobre memória. Queria saber o que causava amnésia, se havia tipos diferentes e quanto tem­po podia durar. Mais importante, precisava de informações sobre tratamentos e cura.

Onde buscar informações? Em uma biblioteca. Como se achava uma biblioteca? Procurando em um mapa. Comprou um mapa de ruas de Washington na banca de jornal perto da loja de roupas. A Biblioteca Pública Central aparecia com grande destaque, na intercessão de duas avenidas, a Nova York e a Massachusetts, do outro lado da cidade. Luke foi de carro para lá.

Era um grande edifício clássico construído como se fosse um templo grego. No frontão acima da entrada sustentada por colunas, estavam gravadas as seguintes palavras:

Ciência               Poesia               História

Luke hesitou no topo da escadaria, depois se lembrou de que era novamente um cidadão normal, e entrou.

O efeito de sua nova aparência foi evidenciado de imedia­to. Uma bibliotecária de cabelos grisalhos que se encontrava atrás do balcão levantou-se e disse:

— Posso ajudá-lo, senhor?

Luke ficou pateticamente grato por ser tratado de modo tão cortês.

— Quero ver uns livros sobre memória.

— Estão na seção de psicologia. Se quiser me seguir, eu lhe mostro onde é.

Ela o conduziu até o andar superior por uma grande esca­daria e apontou para um canto.

Luke deu uma olhada na prateleira. Havia muitos livros so­bre psicanálise, desenvolvimento infantil e percepção, nenhum dos quais lhe seria útil. Pegou um volume grosso chamado O cérebro humano e o folheou, mas não havia muita coisa sobre memória, e o que havia era altamente técnico. Havia algumas equações e uma certa quantidade de estatísticas que ele achou fácil de entender, mas o restante, em sua maioria, exigia um conhecimento de biologia humana que ele não tinha.

Seu olhar deu com um livro que parecia mais promissor: Uma introdução à psicologia da memória, por Bilhah Josephson. Pegou-o e encontrou um capítulo sobre desordens da memória. Leu:

A condição na qual o paciente “perde a memória” é conhecida como “amnésia global”.

Luke ficou exultante. Ele não era a única pessoa a quem aquilo tinha acontecido.

Esse paciente não conhece a própria identidade e não reconhece seus pais ou filhos. No entanto, recorda muitas outras coisas. Pode ser capaz de dirigir automóveis, falar idiomas estrangeiros, desmontar um motor e dizer o nome do Primeiro-Ministro do Canadá. Sua condição seria mais apro­priadamente chamada de “amnésia autobiográfica”.

Era exatamente aquilo que lhe acontecera. Ainda sabia verificar se estava sendo seguido e era capaz de fazer uma liga­ção direta num carro roubado.

A dra. Josephson prosseguiu esquematizando a sua teoria de que o cérebro continha diversos bancos de memória, como arquivos separados, para diferentes tipos de informação.

A memória autobiográfica registra eventos que experi­mentamos pessoalmente. Eventos esses que são rotulados com a época e o lugar em que aconteceram; geralmente sabemos não apenas o que aconteceu, mas também quando e onde.

A memória semântica de longo prazo guarda conhecimen­tos gerais como, por exemplo, saber qual é a capital da Romê­nia e como resolver equações de segundo grau.

A memória de curto prazo é onde guardamos o número de um telefone durante os poucos segundos que decorrem entre descobrir o número no catálogo e discá-lo no aparelho.

Ela dava exemplos de pacientes que tinham perdido um dos arquivos, mas que haviam conservado os demais, como Luke. Ele sentiu profundo alívio e gratidão à autora do livro, quando percebeu que o que lhe acontecera era um bem estuda­do fenômeno psicológico.

Foi neste ponto que ele teve uma inspiração. Tinha trinta e tantos anos, de modo que devia ter uma determinada atividade havia uma década. Seu conhecimento profissional devia estar ainda em sua cabeça, alojado na memória semântica de longo prazo. Devia ser capaz de usá-lo para descobrir qual era sua linha de trabalho. O que seria o início da descoberta de sua identidade!

Levantando os olhos do livro, tentou pensar no conheci­mento especial que devia ter. Não considerou as habilidades de um agente secreto, pois já decidira, a julgar pela sua pele deli­cada de quem não passava muito tempo ao ar livre, que não era um agente policial de alguma espécie. Que outros conheci­mentos especiais ele tinha?

Tratava-se de algo terrivelmente difícil de dizer. Acessar a memória não era como abrir uma geladeira, onde se pode ver seu conteúdo de um relance. Era mais como usar o catálogo de uma biblioteca — você tem de saber o que está procurando. Sentiu-se frustrado e disse a si próprio para ser paciente e estu­dar o assunto minuciosamente.

Se fosse advogado, seria capaz de se lembrar de milhares de leis? Se fosse médico, seria capaz de olhar para uma pessoa e dizer, “Ela está com apendicite”?

Deste jeito não ia dar certo. Pensando nos últimos minutos, a única pista que notou foi o fato de ter compreendido facil­mente as equações e os dados estatísticos em O cérebro huma­no, muito embora estivesse interessado em outros aspectos da psicologia. Talvez sua profissão tivesse a ver com números: contabilidade ou seguros, talvez. Ou, quem sabe, podia ser um professor de matemática.

Encontrou a seção de matemática e examinou as pratelei­ras. Um livro chamado Teoria dos números chamou sua aten­ção. Folheou-o durante algum tempo. A apresentação era mui­to clara, mas estava defasado alguns anos...

De repente ele levantou a cabeça. Tinha descoberto algo. Entendia a teoria dos números.

Era uma pista importante. Quase todas as páginas do livro que tinha em mãos continham mais equações que texto. Não era algo escrito para um leigo curioso. Era um trabalho acadê­mico. E ele compreendia. Tinha que ser um cientista.

Com otimismo crescente, localizou a prateleira de química e pegou um livro destinado à engenharia de polímeros. Achou compreensível, mas não fácil. Em seguida passou para a física e tentou Um simpósio sobre o comportamento dos gases frios e muito frios. Achou fascinante, como se estivesse lendo um bom romance.

O campo se estreitava. Seu trabalho envolvia matemática e física. Que ramo da física? Gases frios era interessante, mas . não achou que soubesse mais que o autor. Examinou as prate­leiras e parou na parte destinada à geofísica, lembrando da manchete do jornal que lera: LUA AMERICANA PERMANECE NA TERRA. Pegou Princípios dos projetos de foguetes.

Era um texto elementar, mas mesmo assim encontrou um erro na primeira página em que o abriu. Continuando a ler encontrou mais dois.

— Sim! — disse em voz alta, assustando um rapaz que estudava biologia ali perto. Se era capaz de reconhecer erros em um livro didático, tinha que ser um perito. Era um cientista especializado em foguetes.

Perguntou-se quantos cientistas de foguetes haveria nos Estados Unidos. Algumas poucas centenas, era seu palpite. Dirigiu-se apressadamente ao balcão de informações e falou com a bibliotecária de cabelos grisalhos.

— Existe alguma lista de cientistas?

— Claro — respondeu ela. — Você precisa do Dicionário de cientistas americanos, logo ali no início da seção de ciências.

Ele encontrou com facilidade o dicionário. Era um livro pesado, mas mesmo assim não podia conter todos os cientistas americanos. Deviam constar dele somente os cientistas proe­minentes. Ainda assim, valia a pena procurar. Sentou-se à mesa e percorreu o índice, procurando alguém de nome Luke. Teve que controlar a impaciência e obrigou-se a procurar com cuidado.

Encontrou um biólogo chamado Luke Parfitt, um arqueó­logo de nome Lucas Dimittry e um tal Luc Fontainebleau, far­macêutico. Mas nenhum físico.

Como medida de segurança, verificou a lista de geofísicos e astrônomos, mas não encontrou qualquer versão de Luke como prenome. Claro, pensou, desanimado, ele nem mesmo sabia ao certo se Luke era seu nome. Fora apenas como Pete o chamara. Por tudo quanto sabia, seu nome verdadeiro podia ser Percival.

Sentiu-se desapontado, mas não estava disposto a desistir.

Pensou em outra abordagem. Em algum lugar havia pes­soas que o conheciam. O nome Luke podia não ser o seu, mas o rosto era. O Dicionário só tinha os retratos dos cientistas mais proeminentes, como o dr. Wernher von Braun. Mas Luke imaginava que devia ter amigos e colegas que o reconhece­riam, se pudesse encontrá-los. E agora sabia onde começar a procurar — pois alguns de seus conhecidos tinham que ser cien­tistas especializados em foguetes.

Onde se encontram cientistas? Em universidades.

Procurou Washington na enciclopédia. O verbete incluía uma lista das universidades da cidade. Escolheu a Georgetown University porque estivera em Georgetown mais cedo e sabia como voltar lá. Procurou a universidade no seu mapa de ruas e viu que tinha um campus imenso, com cerca de cinqüenta qua­dras. Provavelmente teria um enorme departamento de física, com dezenas de profissionais. E com toda a certeza um deles o conheceria!

Cheio de esperança, saiu da biblioteca e voltou para o carro.

 

14:30

Os dispositivos de ignição não foram originalmente projetados para serem acionados no vácuo. Para o foguete Jupiter foram redesenhados de tal modo que: (i) o motor inteiro ficasse selado em um recipiente impermeável à prova de ar; (ii) no caso des­se recipiente ter de ser arrombado, o dispositivo de ignição em si também ficasse dentro de outro recipiente selado; e (iii), de qualquer modo, o dispositivo de ignição funcionasse no vácuo. Este processo de segurança múltipla se baseia no princípio conhecido como redundância.

A reunião de Cuba teve uma parada para o café e Anthony cor­reu para o Edifício Q a fim de atualizar, rezando para que sua equipe tivesse conseguido alguma coisa, qualquer pista do paradeiro de Luke.

Pete encontrou-o na escada.

— Tem uma coisa estranha aqui — disse ele.

O coração de Anthony deu um pulo, esperançoso.

— Fala!

— Um relatório policial vindo de Georgetown. Uma dona de casa volta das compras e descobre que sua casa foi arrom­bada e o chuveiro usado. O intruso tinha desaparecido, deixan­do para trás uma mala e uma pilha de roupas imundas e velhas.

Anthony ficou eletrizado.

— Até que enfim — uma chance! Passa o endereço.

— Você acha que é o nosso sujeito?

— Tenho certeza! Ele estava farto de parecer que era um vagabundo, de modo que entrou numa casa que não tinha nin­guém, tomou banho, fez a barba e vestiu uma roupa decente. É característico dele, que odeia aparecer malvestido.

Pete ficou pensativo.

— Você o conhece bastante bem, acho eu.

Anthony percebeu que dera outra escorregadela.

— Não, não conheço — retrucou. — É que li a ficha dele.

— Desculpe — disse Pete, que fez uma pequena pausa. — Por que será que ele deixou esses troços?

— Meu palpite é que a dona da casa voltou antes que ele tivesse terminado.

— E a reunião de Cuba?

Anthony deteve uma secretária que passava.

— Por favor, ligue para a sala de reunião no edifício P e diga ao sr. Hobart que fiquei doente com dor de estômago e que o sr. Maxell teve que me levar em casa.

— Dor de estômago — repetiu ela, impassível.

— Certo — confirmou ele, seguindo em frente. Por cima do ombro Anthony exclamou: — A menos que você consiga encontrar uma desculpa melhor.

Ele saiu do prédio seguido por Pete e, juntos, os dois pula­ram no velho Cadillac amarelo de Anthony.

— Pode ser que isso demande uma certa diplomacia — disse ele a Pete enquanto seguiam para Georgetown. — A boa notícia é que Luke nos deixou alguns indícios. O nosso problema é não termos uma centena de homens para seguir pistas. Assim, meu plano é fazer com que o departamento de Polícia de Washington trabalhe para nós.

— Boa sorte — disse Pete, ceticamente. — O que devo fazer?

— Seja bonzinho com os policiais e deixe a falação por minha conta.

— Acho que isso eu consigo fazer.

Anthony dirigiu rapidamente e logo encontrou o endereço constante do relatório da polícia. Era uma casa pequena em uma rua tranqüila. Uma radiopatrulha estava estacionada em frente.

Antes de entrar, Anthony estudou as casas do outro lado da rua e, após um momento, descobriu aquilo que procurava: um rosto em uma das janelas do segundo andar, olhando para ele. Era uma senhora idosa, de cabelos brancos. Ela não recuou quando Anthony a encarou — ao contrário, encarou-o com a mais descarada das curiosidades. Era exatamente o que ele precisava, a bisbilhoteira do bairro. Ele sorriu e fez uma continên­cia, cumprimentando-a. Ela inclinou a cabeça em sinal de agradecimento.

Anthony virou-se e se aproximou da casa arrombada. Dava para ver arranhões e estilhaços no umbral da porta, onde a fechadura fora forçada: um trabalho de profissional, limpo. Sem causar danos desnecessários. Tudo se ajustava bem a Luke.

A porta foi aberta por uma jovem atraente que esperava um bebê — para muito breve, na avaliação de Anthony. Ela levou Anthony e Pete para a sala, onde já havia dois homens senta­dos no sofá, tomando café e fumando. Um deles era o patru­lheiro uniformizado. O outro, um rapaz que trajava um terno barato de tecido brilhante, devia ser o detetive. Em frente a eles havia uma deselegante mesa de centro com tampa de fórmica vermelha. Em cima dela, uma mala aberta.

Anthony apresentou-se e mostrou a identidade aos poli­ciais. Não queria que a sra. Bonetti — e todas as suas amigas e vizinhas — soubessem que a CIA estava interessada no caso, e por isso limitou-se a dizer que ele e Pete eram colegas dos dois policiais ali presentes.

O detetive se chamava Lewis Hite.

— Você sabe alguma coisa a respeito disto? — perguntou ele a Anthony, reservadamente.

— Acho que devemos ter algumas informações que o ajuda­rão. Mas primeiro preciso saber o que você tem.

Hite levantou as duas mãos, desconcertado.

— Temos uma mala pertencente a um sujeito chamado Rowley Anstruther, Jr., de Nova York. Ele arrombou a casa da sra. Bonetti, tomou um banho e foi embora deixando a mala. Vá se entender uma loucura dessas!

Anthony estudou a mala. Era de boa qualidade, de couro claro, cheia apenas pela metade. Examinou seu conteúdo. Tinha camisas e cuecas limpas, mas nada de sapatos, calças ou paletós.

— Parece que o sr. Anstruther chegou de Nova York hoje — disse ele.

Hite balançou a cabeça, concordando, mas a dona da casa disse, em tom de admiração:

— Como sabe disso?

Anthony sorriu.

— O detetive Hite lhe dirá.

Ele não queria ofender Hite roubando-lhe as luzes do palco.

— A mala contém roupa limpa, mas não tem roupa para lavar — explicou Hite. — O sujeito ainda não mudou de roupa, de modo que provavelmente ainda não passou uma noite fora de casa. O que significa que saiu de Nova York esta manhã.

— Parece que também foram deixadas algumas roupas velhas — disse Anthony.

O patrulheiro, cujo nome era Lonnie, disse:

— Estão comigo.

Ele levantou uma caixa de papelão que estava ao lado do sofá.

— Capa de chuva — disse, mexendo no conteúdo da caixa. — Camisa, calça, sapato.

Anthony reconheceu a roupa velha. Eram os trapos que Luke usava.

— Não creio que o sr. Anstruther tenha estado nesta casa — disse ele. — Acho que roubaram a mala dele hoje de manhã, provavelmente na Union Station.

Ele dirigiu-se ao patrulheiro.

— Lonnie, será que você podia ligar para a delegacia mais próxima da estação e perguntar se alguém denunciou algum roubo de mala? Isto é, se a sra. Bonetti permitir que usemos seu telefone.

— Claro — disse ela. — Fica no corredor.

Anthony acrescentou:

— A participação do roubo deve incluir uma lista do que havia dentro da mala. Acredito que você descobrirá que havia um terno e um par de sapatos que não mais se encontram nela — todos ficaram olhando para ele, assombrados. — Por favor, anote cuidadosamente a descrição do terno.

— OK — o patrulheiro saiu na direção do corredor.

Anthony sentiu-se bem. Conseguira assumir o comando da investigação sem ofender a polícia. O detetive Hite olhou para ele como se aguardasse instruções.

— O sr. Anstruther deve ser um homem de um metro e oitenta e cinco de altura, um pouco mais, cerca de noventa qui­los, compleição atlética — disse Anthony. — Lewis, se você verificar o número dessas camisas, provavelmente descobrirá que têm pescoço dezesseis e manga trinta e cinco.

— É isso mesmo — confirmou Hite. — Já verifiquei.

— Eu devia ter visto logo que você tinha passado a minha frente — Anthony o lisonjeou com um sorriso torto. — Temos a foto de um homem que acreditamos tenha sido o que roubou a mala e arrombou esta casa.

Anthony fez um sinal a Pete, que entregou a Hite um maço de fotografias.

— Não temos um nome para ele — mentiu Anthony. — Tem um metro e oitenta e cinco, noventa quilos, é um sujeito atléti­co e pode estar fazendo de conta que perdeu a memória.

— Então, qual é a história? — Hite ficou intrigado. — Esse sujeito queria as roupas de Anstruther e veio aqui para se trocar?

— Algo assim.

— Mas por quê?

Anthony fez uma cara pesarosa.

— Desculpe, mas não posso lhe dizer.

Hite ficou satisfeito.

— Secreto, hem? Não tem problema.

Lonnie voltou.

— Acertou na mosca a respeito do roubo. Union Station, onze e meia da manhã de hoje.

Anthony balançou a cabeça. Ele tinha impressionado demais os dois policiais.

— E o terno?

— Azul-marinho, risca de giz.

Ele virou-se para o detetive.

— Então você já pode soltar uma foto e uma descrição que inclua o terno.

— Você acha que ele ainda está na cidade?

— Acho.

Anthony não estava tão seguro quanto quis dar a perceber, mas não conseguia imaginar uma única razão para que Luke fosse querer sair de Washington.

— Imagino que ele esteja de carro.

— Vamos ver.

Anthony virou-se para a sra. Bonetti.

— Qual o nome da senhora de cabeça branca que mora do outro lado da rua, uma ou duas casas depois?

— Rosemary Sims.

— Ela passa muito tempo na janela?

— Nós a chamamos de Rosa Curiosa.

— Excelente — ele se virou para o detetive. — Vamos dar uma palavrinha com ela?

— Vamos!

Atravessaram a rua e bateram à porta da sra. Sims. Ela abriu instantaneamente — estivera esperando-os no hall.

— Eu o vi! — foi logo dizendo. — Ele entrou parecendo um vagabundo e saiu nos trinques.

Anthony fez um gesto indicando que Hite deveria fazer a pergunta. Hite perguntou:

— Ele tinha um carro, sra. Sims?

— Tinha, um bonito carro azul e branco. Achei que não era de ninguém aqui da rua.

Ela olhou para eles maliciosamente.

— Sei o que vocês vão me perguntar em seguida.

— A senhora, por acaso, reparou no número da placa?

— Sim — respondeu ela, em triunfo. — E tomei nota.

Anthony sorriu.

 

15:00

Os estágios superiores do míssil são encerrados em um tubo de alumínio com base de magnésio fundido. Esse tubo é montado sobre mancai, o que permite que gire duran­te o vôo. Irá fazer cerca de 550 revoluções por minuto a fim de melhorar a precisão.

Na esquina da Trinta e Sete com a rua O os portões de ferro da Universidade de Georgetown estavam abertos. Em torno de três lados de um gramado lamacento havia edifícios góticos de pedra cinzenta e alunos e professores corriam de um para o outro em seus casacos de frio. Luke entrou dirigindo lentamen­te, imaginando que alguém podia reconhecê-lo e dizer, “Ei, Luke! Venha cá!” E então seu pesadelo estaria terminado.

Muitos dos professores usavam colarinhos clericais, e Luke percebeu que aquela devia ser uma universidade católica. Também parecia ser só para rapazes.

Gostaria de saber se era católico.

Estacionou em frente à entrada principal, um pórtico com arco triplo onde se podia ler Healy Hall. Do lado de dentro encontrou um balcão de recepção e a primeira mulher que via ali. Ela lhe disse que o departamento de física ficava direta­mente embaixo do ponto onde se encontravam e o orientou para que saísse, fosse até o pórtico e descesse um lance de escadas. A impressão que Luke teve foi de que estava se apro­ximando do coração do mistério, como um caçador de tesouros penetrando na câmara secreta de uma pirâmide egípcia.

Seguindo as instruções, Luke encontrou um enorme laboratório com bancadas no centro e portas laterais que condu­ziam a laboratórios menores. Em uma das bancadas um grupo de homens trabalhava com os componentes de um espectrógrafo de microondas. Todos usavam óculos. A julgar por suas ida­des, Luke achou que deviam ser professores e alunos de pós-graduação. Alguns podiam facilmente ser conhecidos seus. Aproximou-se com um olhar esperançoso.

Um dos homens mais velhos o viu, mas não houve sinal de reconhecimento.

— Posso ajudá-lo?

— Espero que sim — respondeu Luke. — Há um departamen­to de geofísica aqui?

— Meu Deus do céu, não — foi a resposta. — Nesta universidade até mesmo a física é considerada uma disciplina secundária.

Os outros riram.

Luke deu-lhes uma chance para o examinarem, mas nin­guém parecia conhecê-lo. Escolhera mal, pensou, desanimado; talvez devesse ter ido à George Washington University.

— E astronomia?

— Oh, sim. Nós estudamos o céu. O nosso observatório é famoso.

Ele se animou.

— Onde fica?

O homem apontou para uma porta nos fundos do laboratório.

— Vá até o final deste prédio e verá o observatório depois do campo de beisebol.

O homem voltou a concentrar-se no seu trabalho.

Luke seguiu por um corredor comprido, escuro e sujo que acompanhava toda a extensão do comprimento do prédio. Ao ver um homem meio recurvado vestindo um casaco de tweed típico de professores vindo na direção contrária, Luke enca­rou-o nos olhos, pronto a abrir um sorriso caso o reconhecesse. Mas surgiu uma expressão nervosa no rosto do professor, que apertou o passo.

Intrépido, Luke seguiu em frente, dando o mesmo olhar a todo mundo que passava e que podia ser cientista, mas não houve um só que demonstrasse reconhecê-lo. Ao deixar o pré­dio a visão que teve foi do rio Potomac e quadras de tênis. Para o lado oeste, depois do campo de beisebol, uma cúpula branca.

Aproximou-se, com crescente expectativa. No teto plano de uma casa pequena de dois andares havia um grande obser­vatório giratório, em cuja cúpula havia uma seção deslizante. Era uma instalação dispendiosa que indicava a seriedade do departamento de astronomia. Luke entrou.

Os cômodos ficavam em torno de um pilar central maciço, que suportava o enorme peso da cúpula. Luke abriu uma porta e viu uma biblioteca vazia. Tentou outra e encontrou uma mulher atraente, mais ou menos da sua idade, sentada atrás de uma máquina de escrever.

— Bom dia — disse ele. — O professor está?

— O padre Heyden?

— Hmm, sim, ele.

— E o senhor é...?

— Hmm...

Estupidamente, Luke não previra que ia ter que dar um nome. Sua hesitação fez com que a secretária levantasse as sobrancelhas, desconfiada.

— Ele não vai me conhecer — disse Luke. — Quer dizer, espero que ele me conheça, mas não pelo nome.

A desconfiança dela aumentou.

— Ainda assim, o senhor tem um nome.

— Luke. Professor Luke.

— E em que universidade o senhor trabalha, professor Luke?

— Hmm... Nova York.

— Alguma instituição de ensino superior em particular, entre as de Nova York?

O coração de Luke confrangeu-se. Em seu entusiasmo ele não tinha feito um plano para aquele encontro e via agora que estava estragando tudo. Quando se está num buraco, o melhor é parar de cavar, pensou ele. Desligou seu sorriso cordial e falou friamente.

— Não vim aqui para ser interrogado — disse. — Basta dizer ao padre Heyden que o professor Luke, o físico especializado em foguetes, passou aqui e gostaria de dar uma palavrinha com ele, sim?

— Lamento, mas não será possível — retorquiu ela com firmeza.

Luke saiu, batendo a porta. Estava mais furioso consigo próprio do que com a secretária, que apenas procurava prote­ger o chefe de ser amolado por um biruta qualquer. Decidiu ir abrindo portas até alguém o reconhecer ou ele ser atirado para fora. Subiu a escada. O prédio parecia deserto. Galgou uma escada de madeira sem corrimão e entrou no observatório. Vazio, também. Ficou admirando o grande telescópio girató­rio, com seu complexo sistema de engrenagens, uma verdadei­ra obra-prima da engenharia, e perguntou-se que diabo ia fazer em seguida.

A secretária subiu a escada. Ele preparou-se para uma bri­ga, mas ao contrário, ela falou compreensivamente.

— O senhor está com algum problema, não está?

A bondade dela fez com que ele sentisse um nó na garganta.

— É muito embaraçoso — disse. — Perdi a memória. Sei que trabalho no campo de foguetes e estava esperando esbarrar em alguém que me conhecesse.

— Não há ninguém aqui agora. O professor Larkley está fazendo uma palestra sobre combustíveis para foguetes na Fun­dação Smithsonian, como parte do Ano Geofísico Internacio­nal, e todo o corpo docente está lá.

Luke sentiu esperança. No lugar de um especialista em geofísica ele podia encontrar uma sala cheia deles.

— Onde fica a Fundação Smithsonian?

— No centro da cidade, bem no Mall, lá pela rua Dez.

Ele dirigira em Washington o bastante naquele dia para saber que não ficava longe.

— A que horas é a palestra?

— Começou às três.

Luke consultou o relógio. Três e meia. Se se apressasse, podia chegar lá por volta de quatro horas.

— A Smithsonian — repetiu ele.

— Na verdade, é no prédio das aeronaves, nos fundos.

— Quantas pessoas estarão presentes, você sabe?

— Umas cento e vinte.

Certamente que uma delas haveria de conhecê-lo!

— Muito obrigado! — agradeceu Luke, antes de descer correndo a escada e sair do prédio.

 

15:30

Girando, o tubo do segundo estágio estabiliza a trajetória do vôo pela média das variações existentes entre os onze pequenos motores.

Billie ficou furiosa com Len Ross por tentar cair nas graças do pessoal da Fundação. O posto de Diretor de Pesquisa devia ir para o melhor cientista — e não para o mais pegajoso. Ainda estava aborrecida de tarde, quando a secretária do diretor do hospital telefonou e pediu que fosse até a sala dele.

Charles Silverton era contador, mas conhecia as necessida­des dos cientistas. O hospital pertencia a uma fundação cujos objetivos eram compreender e aliviar a doença mental. Via como objetivo da sua função assegurar-se de que problemas administrativos e financeiros não desviassem médicos e cien­tistas do seu trabalho. Billie gostava dele.

A sala do diretor fora a sala de jantar da mansão vitoriana original, e ainda exibia a lareira e as sancas no teto. Ele indicou uma cadeira a Billie.

— Você falou com o pessoal da Fundação hoje de manhã? — perguntou ele.

— Falei. Len estava mostrando as obras a eles e me juntei ao grupo. Por quê?

Ele não respondeu.

— Acha que pode ter dito alguma coisa que os ofendesse?

Ela ficou perplexa.

— Acho que não. Só falamos a respeito da nova ala.

— Sabe, eu realmente queria que você ficasse com o cargo de Diretor de Pesquisa.

Billie ficou alarmada.

— Não gosto do seu uso do passado!

Ele prosseguiu.

— Len Ross é um cientista competente, mas você é excepcional. Realizou mais do que ele e é dez anos mais moça.

— A Fundação está querendo Len para o cargo?

Charles Silverton hesitou, meio sem graça.

— Lamento, mas acho que eles insistem nisso, como condi­ção para continuarem com suas doações.

— Eles que vão para o diabo! — Billie estava atônita.

— Você conhece alguém relacionado com a Fundação?

— Conheço. Um dos meus amigos mais antigos é membro do conselho diretor. Chama-se Anthony Carroll e é padrinho do meu filho.

— Por que ele faz parte do conselho? O que faz para viver?

— Anthony trabalha para o Departamento de Estado, mas sua mãe é muito rica e ele está envolvido com diversas obras de caridade.

— Ele tem alguma mágoa de você?

Por um momento, Billie voltou ao passado. Tinha ficado com raiva de Anthony depois da catástrofe que obrigara Luke a deixar Harvard e rompera o namoro. Mas o perdoara por cau­sa do modo como se comportou em relação a Elspeth. Elspeth entrara em declínio, largando de mão o trabalho acadêmico e chegou inclusive a correr o perigo de não conseguir se formar. Andava pelos corredores atordoada, um fantasma muito bran­co de compridos cabelos ruivos, cada dia mais magra e faltan­do a muitas aulas. Foi Anthony que a salvou. Eles se tornaram íntimos, embora o relacionamento fosse uma amizade, e não um romance. Estudavam juntos e ela conseguiu se recuperar o suficiente para ser aprovada. Anthony recuperou assim o res­peito de Billie e desde então tinham sido amigos.

— Fiquei furiosa com ele, lá pelos idos de mil novecentos e quarenta um, mas fizemos as pazes há muito, muito tempo.

— Talvez alguém no conselho admire o trabalho de Len.

Billie avaliou as palavras do seu chefe.

— A abordagem de Len é diferente da minha. Ele é freudiano, procura sempre explicações psicanalíticas. Se um paciente, de uma hora para outra, perder a capacidade de ler, ele irá pre­sumir a existência de um medo inconsciente da literatura. Já eu sempre iria procurar um dano qualquer causado ao cérebro como causa mais provável.

— Então pode ser que haja um freudiano entusiasmado no conselho da fundação que seja contra você.

— Pode ser — suspirou Billie. — Eles podem fazer isso? Pa­rece tão injusto.

— Certamente que é incomum — respondeu Charles. — As fundações normalmente fazem questão de não interferir em decisões que demandem uma opinião profissional. Mas não há uma lei contra isso.

— Bem, não vou aceitar isso passivamente. Que razão eles deram?

— Recebi um telefonema informal do presidente do conse­lho. Ele me disse que o conselho considera Len mais bem qua­lificado.

Billie sacudiu a cabeça.

— Tem que haver outra explicação.

— Por que não pergunta ao seu amigo?

— É exatamente o que vou fazer.

 

15:45

Um estroboscópio era usado para determinar exatamente onde deviam ser colocados pesos para que o tubo giratório ficasse perfeitamente equilibrado — de outro modo a estrutura interna vibraria dentro da externa, fazendo com que toda a montagem se desintegrasse.

Luke consultou o mapa de ruas da cidade antes de deixar o campus da universidade de Georgetown. A Smithsonian Institution ficava em um parque chamado de Mall. Deu uma olhada no relógio enquanto seguia pela rua K. Chegaria na ins­tituição em cerca de dez minutos. Presumindo que fosse preci­sar de mais cinco para encontrar o auditório onde a palestra estava sendo realizada, chegaria no final. E então teria que des­cobrir sua identidade.

Quase onze horas tinham se passado desde que acordara para aquele quadro de horror. E, no entanto, como não era capaz de se lembrar de nada que ocorrera antes das cinco horas daquela manhã, aquilo parecia estar acontecendo durante toda a sua vida.

Virou à direita na rua Nove, rumando para o sul na direção do Mall com altas esperanças. Pouco depois ouviu uma sirene da polícia e seu coração falhou uma batida.

Deu uma olhada no retrovisor. Uma radiopatrulha o seguia, as luzes piscando. Havia dois policiais no banco da frente. Um deles apontou para o meio-fio da direita e ordenou:

— Encosta!

Luke sentiu-se devastado. Quase chegara lá.

Será que tinha cometido alguma violação menor do código de trânsito e eles só queriam multá-lo? Mesmo que fosse apenas isso, iam querer ver a carteira de motorista e ele não tinha nenhum tipo de identificação. De qualquer forma, não era uma transgressão qualquer. Ele estava dirigindo um carro roubado. Calculara que o roubo só seria participado depois que o dono voltasse da Filadélfia tarde da noite, mas alguma coisa saíra errado. Os policiais tencionavam prendê-lo.

Mas teriam que pegá-lo primeiro.

Luke acionou o modo de fuga. À sua frente, na rua de mão única, havia um caminhão comprido. Sem mais delongas, meteu o pé no acelerador e contornou o caminhão.

Os policiais ligaram a sirene a saíram atrás dele.

Luke entrou na frente do caminhão em alta velocidade. Agindo na base do puro instinto, puxou o freio de mão e girou o volante para a direita.

O Ford derrapou longamente, ao mesmo tempo em que virou. O motorista do caminhão teve que dar um golpe de dire­ção para a esquerda a fim de evitá-lo e com isso forçou a radio-patrulha a desviar para o lado esquerdo da rua.

Luke passou para ponto morto a fim de impedir o motor do carro de apagar e parou virado ao contrário. Engrenou a mar­cha de novo e pisou no acelerador, seguindo na contramão.

Os carros se desviavam loucamente para a direita e a esquerda, querendo evitar uma colisão. Luke deu uma guinada para a direita, evitando um ônibus, e depois cortou uma camionete, mas seguiu em frente, em meio a um coro de buzinas indignadas. Um Lincoln velho, de antes da guerra, subiu na calçada e bateu num poste. Um motociclista perdeu o controle e caiu da moto. Luke esperou que não tivesse se ferido seria­mente.

Conseguiu chegar no primeiro cruzamento e virou à direi­ta na avenida larga. Correu dois quarteirões, ultrapassando sinais vermelhos, e depois olhou no espelho. Nem sinal do car­ro da polícia.

Virou de novo, desta vez rumando para o sul. Estava perdi­do, mas sabia que o Mall ficava ao sul da posição onde se encontrava. Agora que a radiopatrulha não estava à vista, seria mais seguro dirigir normalmente. Eram, no entanto, quatro horas, e ele estava mais longe do instituto do que cinco minutos atrás. Se chegasse atrasado, a audiência teria ido embora. Pisou no acelerador.

A rua que seguia para o sul não tinha saída e ele se viu for­çado a virar à direita. Tentou ver se lia os nomes das ruas enquanto prosseguia velozmente, ultrapassando os carros mais lentos. Estava na rua D. Após um minuto entrou na Sétima e virou para o sul.

Sua sorte mudou. Todos os sinais estavam verdes. Cruzou a Constitution Avenue a mais de cem quilômetros por hora e viu-se no parque.

Atrás do gramado à direita, viu um grande prédio verme­lho escuro que mais parecia um castelo de fadas. Ficava exata­mente onde o mapa dissera que a Smithsonian estaria. Luke parou o carro e consultou o relógio. Passavam cinco minutos das quatro horas. A audiência estaria indo embora. Com uma praga, saltou do carro.

Atravessou o gramado correndo. A secretária lhe dissera que a palestra seria realizada no prédio das aeronaves, nos fun­dos. Aquilo seria a parte da frente ou a de trás? Parecia a fren­te. Ao lado da construção havia um caminho que atravessava um pequeno jardim. Seguiu por ali e foi dar em uma avenida larga, de duas pistas. Sempre correndo, encontrou um portão de ferro rebuscado, guardando a entrada dos fundos do museu. À sua direita, ao lado de um gramado, havia uma construção que parecia um hangar antigo, onde ele entrou.

Olhou em torno. Havia todos os tipos de aeronaves suspen­sos do teto: velhos biplanos, um jato do tempo da guerra e até mesmo um balão esférico de ar quente. Ao nível do solo havia vitrinas com insígnias de aeronaves, uniformes de combate, câmeras aéreas e fotografias. Luke dirigiu-se a um guarda uni­formizado.

— Vim para a palestra sobre combustíveis de foguetes.

— Tarde demais — respondeu o homem, olhando para o relógio. — São quatro e dez, a palestra terminou.

— Onde foi realizada? Pode ser que eu ainda consiga pegar o palestrante.

— Acho que ele já foi embora.

Luke lançou um olhar duro para o homem e falou devagar.

— Limite-se a responder à porra da pergunta que fiz. Onde?

O guarda pareceu assustar-se.

— Lá no fim — apressou-se a dizer.

Luke atravessou correndo a extensão do prédio no sentido do comprimento. Bem no final havia sido improvisado um auditório, com um púlpito, quadro de giz e várias filas de ca­deiras. Quase toda a platéia já tinha ido embora e os emprega­dos do museu começavam a empilhar as cadeiras a um canto do salão. Mas um grupinho de uns oito ou nove homens per­manecia a um canto, absortos em uma discussão, em volta de um homem de cabelo branco que podia muito bem ser a pessoa que fizera a palestra.

Luke desanimou. Poucos minutos atrás teria encontrado reunida ali mais de uma centena de cientistas do seu campo. Agora havia apenas um punhado e era bem possível que nenhum deles o conhecesse.

O homem de cabelo branco levantou os olhos para ele e voltou a se concentrar no grupo que o cercava. Impossível saber se o tinha reconhecido ou não. Estava falando e seguiu em frente sem uma pausa.

— O nitrometano é quase impossível de se manejar. Você não pode ignorar os fatores de segurança.

— Mas é possível aumentar a segurança dos processos, se o combustível for bastante bom — disse um rapaz de terno de tweed.

A discussão era familiar a Luke. Uma desconcertante varie­dade de combustíveis para foguetes tinha sido testada, e muitos eram mais poderosos que a combinação padronizada de álcool e oxigênio líquido, mas todos tinham suas desvantagens.

Um homem de sotaque sulista perguntou:

— E o que acham da dimetilidrazina assimétrica? Eu soube que a estão testando no Laboratório de Propulsão a Jato de Pasadena.

— Funciona, mas é um veneno mortal — disse Luke, subitamente.

Todos se viraram para ele. O homem de cabelo branco fechou a cara, ligeiramente aborrecido com aquela interrupção vinda de um estranho.

Foi quando o rapaz de terno de tweed, chocado, disse:

— Meu Deus do céu, o que é que você está fazendo aqui em Washington, Luke?

Luke ficou tão feliz que teve vontade de chorar.

 

16:15

Um programador em fita no tubo varia a velocidade de rotação dos estágios superio­res de 450 a 750 rpm, para evitar vibrações de ressonância que poderiam fazer com que o míssil se partisse no espaço.

Luke não conseguiu falar. A emoção do alívio foi tão forte que pareceu constringir sua garganta. O dia todo ele se obrigara a ser calmo e racional, mas agora estava prestes a ter um colapso.

Os outros cientistas retomaram a conversa, indiferentes à sua agonia, a não ser pelo rapaz de terno de tweed, que pareceu preocupado e perguntou:

— Ei, você está bem?

Luke balançou a cabeça. Após um momento, conseguiu falar:

— Podemos conversar?

— Claro, claro. Há uma salinha atrás da exposição dos Irmãos Wright. O professor Larkley usou-a antes.

Os dois se dirigiram para uma porta lateral.

— A propósito, fui eu que organizei esta palestra.

Ele levou Luke para uma sala pequena, espartana, com duas cadeiras, uma mesa e um telefone. Os dois se sentaram.

— O que está havendo?

— Perdi a memória.

— Meu Deus!

— Amnésia autobiográfica. Ainda lembro da minha ciência — e foi por isso que consegui encontrar vocês — mas não sei nada a meu respeito.

Parecendo chocado, o rapaz perguntou:

— Você sabe quem eu sou?

Luke sacudiu a cabeça.

— Droga, não tenho certeza nem do meu próprio nome.

— Puxa vida — o interlocutor de Luke ficou desconcertado. — Nunca vi uma coisa dessas na vida real.

— Preciso que você me diga o que sabe a meu respeito.

— Acho que precisa mesmo. Bem... por onde devo começar?

— Você me chamou de Luke.

— Todo mundo chama você de Luke. Você se chama Claude Lucas, mas acho que nunca gostou de “Claude”. Eu sou Will McDermott.

Luke fechou os olhos, sufocado de alívio e gratidão. Sabia o seu nome.

— Muito obrigado, Will.

— Não sei nada a respeito de sua família. Só me encontrei com você umas duas vezes, em conferências científicas.

— Sabe onde moro?

— Huntsville, Alabama, acho eu. Você trabalha para a Agên­cia de Mísseis Balísticos do Exército, que fica no Redstone Arsenal, em Huntsville. Mas é civil, não é oficial do Exército. Seu chefe é Wernher von Braun.

— Não posso dizer a você como é bom saber essas coisas.

— Fiquei espantado por vê-lo aqui porque a sua equipe está prestes a lançar um foguete que porá um satélite americano em órbita pela primeira vez. Estão todos em Cabo Canaveral e o que se diz é que o lançamento será hoje à noite.

— Li uma notícia a respeito no jornal, hoje de manhã — meu Deus, eu trabalhei mesmo naquele foguete?

— Claro. É o Explorer. O mais importante lançamento na história do programa espacial americano — especialmente depois do sucesso do Sputnik russo e o fracasso do Vanguard da Marinha.

Luke ficou entusiasmado. Apenas algumas horas atrás ele se imaginara um vagabundo bêbado. Via agora que era um cientista no topo da carreira.

— Mas eu devia estar lá para o lançamento!

— Exatamente... E então, você tem alguma idéia do motivo pelo qual não está?

Luke sacudiu a cabeça.

— Acordei hoje de manhã deitado no chão do banheiro masculino da Union Station. Não tenho a menor idéia de como fui parar lá.

Will dirigiu-lhe um sorriso de homem para homem.

— Parece que você foi a uma festa e tanto ontem à noite!

— Deixa eu lhe perguntar uma coisa a sério — é o tipo de coisa que eu faria? Ficar bêbado a ponto de perder os sentidos?

— Não conheço você suficientemente para responder — Will franziu a testa. — Mas ficaria espantado. Você sabe como nós, cientistas, somos. Nossa idéia de festa é ficar tomando café e falando sobre nosso trabalho.

Luke concordou com aquilo.

— Ficar bêbado simplesmente não parece ser interessante.

Mas não tinha outra explicação de como entrara naquela complicação. Quem era Pete? Por que havia gente o seguindo? E quem eram aqueles dois homens que o procuravam na Union Station?

Pensou em falar com Will a respeito de tudo isso e decidiu que parecia estranho demais. Will podia começar a pensar que estava louco.

— Vou telefonar para Cabo Canaveral.

— Grande idéia.

Will pegou o telefone em cima da mesa e discou zero.

— Will McDermott falando. Posso fazer uma ligação interurbana deste telefone? Obrigado.

Ele passou o aparelho para Luke.

Luke pediu o número na seção de Informações e discou.

— Aqui é o dr. Lucas.

Sentiu-se extraordinariamente feliz em poder dar seu nome: jamais imaginara que isso podia ser tão agradável.

— Eu gostaria de falar com alguém da equipe de lançamen­to do Explorer.

Todos estão nos hangares D e R — disse o telefonista. — Por favor, espere um pouco.

Um momento depois ele ouviu uma voz.

— Segurança do Exército, coronel Hide falando.

— Aqui é o dr. Lucas.

— Luke! Finalmente! Onde diabos você está?

— Em Washington.

— O que está fazendo aí, em nome de Deus? Estávamos ficando malucos! Temos a segurança do Exército procurando você, o FBI e até a CIA!

O que explicava os dois agentes procurando a Union Station, pensou Luke.

— Olha só, aconteceu uma coisa estranha. Perdi a memória. Estava perambulando pela cidade tentando descobrir quem eu era. Finalmente encontrei uns físicos que me conheciam.

— Mas que extraordinário! Como foi que isso aconteceu, pelo amor de Deus?

— Eu estava esperando que o senhor me contasse, coronel.

— Você sempre me chamou de Bill.

— Bill.

— OK, então vou lhe contar tudo quanto sei. Na manhã de segunda-feira você pegou um avião, dizendo que tinha que ir a Washington. Saiu de Patrick.

— Patrick?

— A base da Força Aérea que fica perto de Cabo Canaveral. Marigold fez as reservas...

— Quem é Marigold?

— Sua secretária em Huntsville. Ela também reservou a suí­te onde você sempre fica no Carlton Hotel de Washington.

Havia um toque de inveja na voz do coronel, e Luke pen­sou por um segundo naquela coisa da suíte onde ficava sempre, mas tinha perguntas mais importantes a fazer.

— Eu disse para alguém o objetivo da viagem?

— Marigold marcou uma entrevista para você com o gene­ral Sherwood no Pentágono às dez horas da manhã de ontem — mas você não apareceu.

— Eu dei alguma razão para querer falar com o general?

— Tudo indica que não.

— Qual é a área de responsabilidade dele?

— Segurança — mas como também é amigo de sua família, o encontro podia ser sobre qualquer coisa.

Devia ter sido mesmo algo muito importante, ponderou Luke, para afastá-lo de Cabo Canaveral pouco antes do seu foguete ser lançado.

— O lançamento vai ser mesmo hoje?

— Não, estamos com problemas de condições atmosféricas. Foi adiado para amanhã às dez da noite.

Luke gostaria de saber que diabos teria feito.

— Eu tenho amigos aqui em Washington?

— Sem dúvidas. Um deles me tem ligado de hora em hora. Bern Rothsten.

Hide leu um número de telefone.

Luke rabiscou o número num bloco.

— Vou telefonar para ele agora mesmo.

— Primeiro você devia ligar para a sua mulher.

Luke ficou chocado. Não conseguiu respirar. Mulher. Eu sou casado. Perguntou-se como seria.

— Alô?

Luke começou a respirar de novo.

— Ei,Bill...

— Sim?

— Qual é o nome dela?

— Elspeth. O nome da sua mulher é Elspeth. Vou transferir você para o telefone dela. Espera um pouco.

Luke sentiu um frio na boca do estômago. Aquilo era uma bobagem, pensou. Tratava-se da sua mulher.

— Elspeth falando. É você, Luke?

A voz era cálida e baixa, com uma dicção precisa e nenhum sotaque. Imaginou uma mulher alta e confiante.

— Sim, aqui é o Luke. Perdi a memória.

— Fiquei tão preocupada. Você está bem?

Luke sentiu-se pateticamente grato por haver alguém que se importasse com ele.

— Acho que agora estou.

— Mas afinal, o que foi que aconteceu?

— Na verdade eu não sei. Acordei hoje de manhã no banheiro masculino da Union Station e passei o dia tentando descobrir minha identidade.

— Todo mundo está procurando você. Onde está agora?

— Na Smithsonian, edifício das aeronaves.

— Alguém está cuidando de você?

Luke sorriu para Will McDermott.

— Um outro cientista me ajudou muito. E estou com o número do telefone de Bern Rothsten. Mas eu realmente não preciso de que tomem conta de mim. Estou ótimo. Só perdi a memória.

Will McDermott levantou-se, parecendo envergonhado e cochichou:

— Vou lhe dar um pouco de privacidade. Espero aí fora.

Luke balançou a cabeça, em agradecimento.

Elspeth estava falando.

— Então você não se lembra de ter viajado para Washington tão apressadamente.

— Não. É óbvio que não disse a você a razão.

— Você falou que era melhor que eu não soubesse. Mas fiquei maluca. Telefonei para um velho amigo nosso em Washington. Anthony Carroll, que trabalha na CIA.

— Ele fez alguma coisa?

— Telefonou para você no Carlton na noite de segunda-feira e você combinou ir tomar café com ele na manhã de terça. Só que não apareceu. Anthony procurou você o dia inteiro. Vou ligar para ele agora e dizer que está tudo bem.

— É evidente que me aconteceu alguma coisa entre a noite de segunda e a manhã de terça.

— Você devia procurar um médico, fazer uns exames.

— Sinto-me bem. Mas há um monte de coisas que quero saber. Nós temos filhos?

— Não.

Luke sentiu uma tristeza que lhe pareceu familiar, como a dor meio enfraquecida de um antigo machucado.

Elspeth continuou.

— Estamos tentando ter um filho desde que nos casamos, ou seja, há quatro anos, mas ainda não conseguimos.

— Meus pais estão vivos?

— Sua mãe está. Mora em Nova York. Seu pai morreu há cinco anos.

Luke sentiu uma súbita onda de dor vinda, ao que parecia, do nada. Perdera a lembrança do pai e nunca mais o veria de novo. Era intoleravelmente triste.

Elspeth prosseguiu.

— Você tem dois irmãos e uma irmã, todos mais moços. Sua irmã Emily é a sua favorita. Tem menos dez anos que você e mora em Baltimore.

— Você tem os telefones deles?

— Claro. Espera aí enquanto eu pego.

— Gostaria de falar com eles, não sei por quê.

Ele ouviu um soluço abafado do outro lado da linha.

— Você está chorando?

Elspeth, fungando, garantiu que estava bem. Ele a imagi­nou pegando um lenço na bolsa.

— De repente senti pena de você — disse ela, chorosa. — Deve ter sido horrível.

— Houve alguns momentos ruins.

— Deixa eu lhe dar aqueles telefones — ela leu os números pausadamente.

— Nós somos ricos? — perguntou Luke depois de escrever os telefones.

— Seu pai foi um banqueiro muito bem-sucedido. Deixou muito dinheiro. Por quê?

— Bill Hide me disse que eu me hospedei em minha suíte costumeira no Carlton.

— Antes da guerra seu pai foi assessor da administração Roosevelt e gostava de levar a família quando ia a Washington. Vocês ficavam sempre numa suíte de esquina no Carlton. Acho que você está mantendo a tradição.

— Então você e eu não vivemos do que o exército me paga.

— Não, embora em Huntsville nós tentemos não viver mui­to acima dos seus colegas.

— Eu podia continuar interrogando você o dia inteiro. Mas tudo o que quero na verdade é descobrir o que me aconteceu. Quer pegar um avião e vir para cá?

Houve um momento de silêncio.

— Meu Deus, por quê?

— Para resolver este mistério. Um pouco de ajuda me faria bem. E companhia.

— Você devia esquecer o que houve e vir para cá.

Impensável.

— Não posso esquecer isto. Tenho que saber de que se tra­ta. É estranho demais para ignorar.

— Luke, eu não posso deixar Cabo Canaveral agora. Estamos prestes a lançar o primeiro satélite americano, pelo amor de Deus! Não posso desapontar a equipe num momento desses.

— Acho que não.

Ele compreendeu, mas ao mesmo tempo ficou magoado com a recusa.

— Quem é Bern Rothsten?

— Estudou em Harvard com você e Anthony Carroll. Agora é escritor.

— Parece que vem tentando me encontrar. Talvez saiba do que se trata.

— Telefone para mim depois, sim? Estarei no Starlite Motel de noite.

— Está bem.

— Tome cuidado, Luke, por favor — disse ela, muito séria.

— Vou tomar, prometo.

Ele desligou e ficou em silêncio por um momento. Sentia-se emocionalmente esgotado. Tinha vontade de voltar para o hotel e deitar, mas estava curioso demais. Pegou o telefone de novo e discou o número que Bern Rothsten deixara.

— Aqui é Luke Lucas — disse, quando o telefone foi atendido.

Bern tinha a voz grave e um resquício de sotaque nova-iorquino.

— Luke! Graças a Deus! O que foi que aconteceu com você?

— Todo o mundo pergunta a mesma coisa. A resposta é que realmente não sei de nada, exceto que perdi minha memória.

— Você perdeu a memória?

— Isso.

— Que merda. Você sabe como aconteceu?

— Não. Eu estava esperando que você pudesse ter uma pista.

— Pode ser que eu tenha.

— Por que estava querendo me encontrar?

— Eu estava preocupado. Você me telefonou na segunda-feira. Disse que estava a caminho e que queria me ver. Ia me telefonar do Carlton. Mas nunca telefonou.

— Alguma coisa me aconteceu na noite de segunda-feira.

— Claro. Olha, você tem que telefonar para uma pessoa. A dra. Billie Josephson é uma perita em memória de fama mundial.

O nome era conhecido.

— Acho que vi um livro dela na biblioteca.

— Ela é minha ex-mulher e uma velha amiga sua.

Bern deu um número de telefone a Luke.

— Vou telefonar para ela agora mesmo, Bern...

— Certo.

— Perdi a memória e acontece que uma velha amiga minha é uma autoridade mundial em memória. Não é uma coincidên­cia e tanto?

— O pior é que você está certo — concordou Bern.

 

16:45

O estágio final, contendo o satélite, tem quase dois metros de comprimento de 80 polegadas e somente 6 polegadas de largura e pesa apenas quinze quilos. Tem a for­ma de um tubo de aquecimento.

Billie tinha marcado uma entrevista de uma hora com um paciente, um jogador de futebol que sofrera uma concussão cerebral em um choque com um oponente. Era um caso inte­ressante, porque ele era capaz de se lembrar de tudo até uma hora antes do jogo mas depois disso não conseguia se lembrar de nada até o momento em que se viu à margem do campo, de costas para o jogo, perguntando-se como fora parar ali.

Durante a entrevista ela ficou distraída, pensando na Fundação Sowerby e em Anthony Carroll. Quando terminou com o jogador de futebol e ligou para Anthony, estava se sen­tindo frustrada e impaciente. Teve sorte e ele atendeu no pri­meiro toque.

— Anthony — disse, abruptamente —, o que diabos está acontecendo?

— Muita coisa — foi a resposta dele. — Egito e Síria resolve­ram se unir, as saias estão ficando mais curtas e Roy Campanella quebrou o pescoço em um acidente de carro e tal­vez nunca mais jogue de novo pelos Dodgers.

Billie controlou o impulso de gritar com ele.

— Fui passada para trás na corrida para o posto de Diretor de Pesquisa aqui do hospital — disse, com calma forçada. — Len Ross conseguiu o lugar. Você sabia disso?

— Sim, acho que eu sabia.

— Não entendo. Eu achava que podia perder para alguém de fora que fosse altamente qualificado — Sol Weiberg, de Princeton, ou alguém desse tope. Mas todo mundo sabe que sou melhor que Len.

— Sabe mesmo?

— Ora, Anthony, deixa disso! Você mesmo sabe. Com os diabos, você me encorajou a seguir a linha da pesquisa, anos atrás, no fim da guerra, quando nós...

— Está bem, está bem, eu me lembro! — ele interrompeu. — Mas esse troço ainda é reservado, você sabe.

Ela não acreditava que as coisas que eles tinham feito durante a guerra ainda pudessem ser segredos importantes. Mas não fazia mal.

— Então, por que não consegui o lugar?

— Eu devo saber?

Aquilo era humilhante, ela sabia, mas sua necessidade de compreender o que se passara sobrepôs-se ao seu embaraço.

— A Fundação está insistindo em Len.

— Acho que é um direito que a Fundação tem.

— Anthony, fale comigo!

— Estou falando.

— Você trabalha na Fundação. É muito raro esse tipo de interferência. A escolha normalmente cabe a peritos. Você deve saber a razão pela qual a Fundação tomou uma decisão excepcional como esta.

— Bem, eu não sei. E meu palpite é que o passo ainda não foi dado. Certamente não houve uma reunião a respeito — eu teria sido avisado.

— Charles foi muito definitivo.

— Não duvido que seja errado, lamentavelmente para você. Mas não é o tipo de coisa decidida abertamente. O mais prová­vel é que o diretor e mais um ou dois membros da junta direto­ra tenham batido um papo tomando um drinque no Cosmos Club. Um deles ligou para Charles e falou. Como Charles não pode se dar ao luxo de afrontar a Fundação, baixou a cabeça. E assim que essas coisas funcionam. Só me espanta ver como Charles pôde ter se aberto a esse ponto com você.

— Acredito que tenha sido porque ele ficou chocado. Não consegue entender por que a Fundação faria uma coisa dessas. Achei que você podia saber.

— Provavelmente é uma coisa bem idiota. Ross tem famí­lia?

— Casado com quatro filhos.

— O Diretor na verdade não aprova que mulheres ganhem bons salários enquanto há homens por aí lutando para susten­tar suas famílias.

— Pelo amor de Deus! Eu tenho um filho e uma mãe idosa para cuidar!

— Eu não falei que era lógico. Olha só, Billie, tenho que desligar. Desculpe. Telefono para você mais tarde.

— OK.

Quando desligou, Billie ficou olhando para o telefone, ten­tando avaliar seus sentimentos. A conversa lhe soara falsa e gostaria de saber o motivo. Era perfeitamente plausível que Anthony pudesse não ter conhecimento das maquinações dos outros membros da junta que dirigia a Fundação. Por que então não acreditar nele? Pensando bem, via agora que sem dúvida nenhuma ele fora evasivo — o que não era do seu feitio. No fim ele lhe contara o pouco que sabia, mesmo que relutantemente. A soma de tudo a levava a ter uma impressão muito clara.

Anthony estava mentindo.

 

17:00

O quarto estágio é feito de titânio em vez de aço inoxidável. A redução no peso per­mite que o míssil carregue um quilo extra de importantíssimo equipamento científico.

Quando Anthony desligou o telefone tocou de novo imediata­mente. Ele atendeu e ouviu Elspeth, parecendo assustada.

— Pelo amor de Deus, fiquei esperando você desligar du­rante quinze minutos!

— Eu estava falando com a Billie, ela...

— Deixa para lá. Acabo de falar com o Luke.

— Jesus, como é que pode?

— Cala a boca e escuta! Ele estava no Smithsonian, no pré­dio das Aeronaves, com um bando de físicos.

— Estou saindo.

Anthony largou o telefone e correu para a porta. Pete o viu e correu atrás. Foram juntos para o estacionamento e pularam dentro do carro de Anthony.

O fato de Luke ter falado com Elspeth apavorou Anthony. Teve a impressão de que tudo estava se desfazendo. Mas podia ser que, se chegasse perto de Luke antes de todo mundo, con­seguisse ainda dar um jeito de segurar as pontas. Gastaram quatro minutos para ir da Independence Avenue até a rua Dez. Deixaram o carro do lado de fora da entrada dos fundos do museu e entraram correndo no velho hangar que era o prédio das Aeronaves.

Havia um telefone público perto da entrada, mas nem sinal de Luke.

— Vamos nos separar — disse Anthony. — Vou para a direita e você para a esquerda.

Ele seguiu por entre as vitrinas, examinando os rostos dos homens que contemplavam os objetos expostos ou admiravam as aeronaves suspensas do teto. No final se encontrou com Pe­te, que levantou as mãos vazias indicando que não tivera êxito.

Havia alguns toaletes e escritórios de um lado, Pete verifi­cou o toalete masculino e Anthony olhou os escritórios. Luke devia ter falado de um daqueles telefones, mas não estava ali agora.

Pete saiu do toalete masculino.

— Nada.

— Isto é uma catástrofe — disse Anthony.

Pete estranhou.

— É mesmo? Uma catástrofe? O homem é mais importante do que você me falou?

— É — confirmou Anthony. — Ele pode ser o homem mais perigoso neste país.

— Cristo.

Encostados na parede dos fundos, Anthony viu cadeiras empilhadas e um púlpito movediço. Um rapaz de terno de tweed conversava com dois homens de macacão. Anthony lembrou que Elspeth dissera que Luke estava com um bando de físicos. Talvez ainda pudesse levantar o seu rastro.

Aproximou-se do homem de terno de tweed e disse:

— Com licença, houve alguma reunião aqui?

— Houve sim. O professor Larkley fez uma palestra sobre combustíveis para foguetes — informou o rapaz. — Eu sou Will McDermott. Organizei essa palestra como parte do Ano Geofísico Internacional.

— O dr. Claude Lucas compareceu?

— Sim. Ele é seu amigo?

— É.

— Sabia que ele perdeu a memória?

— Sabia.

— Nem sequer sabia o próprio nome, até que eu lhe disse.

Anthony conteve uma praga. Estava com medo de que tivesse acontecido isso desde o momento em que Elspeth disse que tinha falado com Luke. Ele sabia quem era.

— Preciso localizar o dr. Lucas urgentemente.

— Que pena, ele acabou de sair.

— Ele disse para onde estava indo?

— Não. Tentei encorajá-lo a procurar um médico, a fazer um exame, mas ele garantiu que estava bem. Achei que pare­cia muito chocado.

— Sim, sim, muito obrigado. Agradeço a sua ajuda.

Anthony virou-se e saiu rapidamente. Estava furioso.

Ao sair, viu um carro da polícia parado na Independence Avenue. Dois guardas examinavam um automóvel estacionado do outro lado da avenida. Anthony aproximou-se e viu que o carro era um Ford Fiesta azul e branco.

— Olha só isso aí — disse para Pete.

Checou a licença. Era a mesma que Rosa Curiosa tinha vis­to de sua janela em Georgetown.

Ele mostrou sua identidade da CIA aos patrulheiros.

— Vocês acabaram de ver este carro estacionado ilegalmen­te? — perguntou.

Foi o mais velho dos dois patrulheiros que respondeu.

— Não, nós vimos um homem dirigindo esse carro ali na rua Nove. Mas ele fugiu.

— Vocês o deixaram escapar? — perguntou Anthony, incrédulo.

— Ele fez a volta e se meteu na contramão do trânsito — dis­se o policial mais moço. — Um motorista e tanto, quem quer que seja.

— Poucos minutos depois nós vimos o carro estacionado aqui, mas ele tinha ido embora.

Anthony teve vontade de bater as cabeças de pau dos dois guardas uma contra a outra. Mas conteve-se.

— Este fugitivo pode ter roubado outro carro aqui pela vizinhança e fugido — disse, pegando um cartão na carteira. — Se forem informados de um carro roubado nas proximidades, será que poderiam fazer o favor de me avisar neste número aqui?

O guarda mais velho leu o cartão e respondeu:

— Eu me responsabilizo por isso, sr. Carroll.

Anthony e Pete voltaram para o Cadillac amarelo e foram embora.

— O que você acha que ele vai fazer agora? — perguntou Pete.

— Não sei. Pode ter ido direto para o aeroporto a fim de tomar um avião para a Flórida, para o Pentágono ou para o seu hotel. Droga, pode ser que ele tenha metido na cabeça que devia visitar a mãe em Nova York. Pode ser que tenhamos que nos espalhar.

Ele ficou em silêncio, pensando, enquanto estacionou e entrou no prédio Q. Só falou quando chegou na sua sala.

— Quero dois homens no aeroporto, dois na Union Station, dois na estação rodoviária. Quero dois homens telefonando para todos os membros conhecidos da família de Luke, amigos e conhecidos, perguntando se estão esperando vê-lo ou se tive­ram notícias dele. Quero que você vá com dois homens para o Carlton Hotel. Consigam um quarto e depois desçam para vigiar o saguão. Irei me juntar a você mais tarde.

Pete saiu e Anthony fechou a porta.

Pela primeira vez naquele dia, Anthony sentiu medo. Ago­ra que Luke sabia quem era, não havia como prever o que mais ele poderia descobrir. Esse projeto poderia ter sido o maior triunfo de Anthony, mas estava se transformando num fracas­so que poderia pôr fim na sua carreira.

Poderia pôr fim na sua vida.

Se conseguisse encontrar Luke, ainda daria para remendar as falhas. Mas seria obrigado a tomar medidas drásticas. Não seria mais somente uma questão de vigiar Luke. Tinha que resolver o problema de uma vez por todas.

Angustiado, foi até onde havia uma foto do presidente Eisenhower pendurada na parede. Puxou um dos lados da mol­dura e o quadro girou nas dobradiças, revelando um cofre. Dis­cou a combinação, abriu a porta e pegou sua arma.

Era uma Walther P38 automática, a pistola que fora usada pelo Exército Alemão na Segunda Guerra Mundial. Anthony a recebera antes de seguir para a África do Norte. Também tinha um silenciador projetado especialmente pela OSS para aquela arma.

A primeira vez que matara um homem fora com aquela pistola.

Albin Moulier era um sujeito desleal que traíra membros da resistência francesa, entregando-os à polícia. Ele merecia morrer — os cinco homens integrantes da célula tinham concor­dado quanto a isso. Tinham tirado a sorte, em um estábulo abandonado, tarde da noite, com uma lâmpada a projetar som­bras dançantes sobre as rústicas paredes de pedra. Anthony podia ter sido dispensado, por ser o único estrangeiro, mas assim teria perdido o respeito dos demais, de modo que insis­tiu em tirar a sorte junto com eles. E foi justamente quem tirou a palha mais curta.

Albin foi amarrado à roda enferrujada de um arado quebra­do, sem ter sido sequer vendado, ouvindo a discussão e assis­tindo ao sorteio. Sujou-se todo quando pronunciaram a senten­ça de morte e gritou quando viu Anthony sacar a Walther. O grito ajudou: fez Anthony querer matá-lo depressa só para aca­bar com aquele barulho.

Atirou em Albin à queima-roupa, entre os olhos, uma só bala. Depois os outros disseram que ele tinha se saído bem, sem hesitação ou arrependimentos, como um homem.

Ainda via Albin em seus sonhos.

Pegou o silenciador no cofre, ajustou-o no cano da pistola e apertou bem. Vestiu o sobretudo. Era um casaco de inverno, comprido, de pêlo de camelo, com uma fileira de botões e grandes bolsos do lado de dentro. Colocou a pistola, cabo para baixo, no bolso do lado direito, com o silenciador para cima. Deixando o sobretudo desabotoado, estendeu a mão esquerda, levantou a arma pelo silenciador e transferiu-a para a mão direita. Em seguida acionou com o polegar a alavanca de segu­rança do lado esquerdo para a posição de tiro. O processo todo durou cerca de um segundo. O silenciador tornava a arma difí­cil de ser manejada. Seria mais fácil tratar das duas partes separadamente. No entanto, podia ser que ele não tivesse tem­po de ajustar o silenciador antes de atirar. Assim era melhor.

Anthony Carroll abotoou o casaco e saiu.

 

18:00

O satélite tem mais a forma de uma bala que a de uma esfera. Em teoria, uma esfe­ra deveria ser mais estável, mas, na prática, o satélite precisa ter antenas para as comunicações via rádio e essas antenas estragariam a forma esférica.

Luke tomou um táxi para o Georgetown Mind Hospital e deu seu nome na mesa de recepção, dizendo que tinha hora marca­da com a dra. Josephson.

Ela fora encantadora ao telefone: preocupada com ele, feliz por ouvir sua voz, intrigada ao saber que perdera a memó­ria, ansiosa por vê-lo assim que fosse possível. Falava com sotaque do sul e parecia que estava sempre prestes a dar uma risada.

A dra. Josephson desceu correndo a escada, uma mulher de baixa estatura, grandes olhos castanhos e o rosto corado de excitação, envergando um avental branco de laboratório.

Luke não pôde deixar de sorrir ao vê-la.

— É tão bom ver você! — disse ela, lançando os braços em torno dele num forte abraço.

Luke sentiu vontade de reagir à sua exuberância e abraçá-la fortemente também. Mas com medo de fazer qualquer coisa que pudesse ofendê-la, levantou as duas mãos como se estives­se sendo assaltado.

Ela riu.

— Você não se lembra de como eu sou — disse. — Calma, sou quase inofensiva.

Ele deixou os braços caírem sobre os ombros dela. O corpinho pequeno era macio sob o avental.

— Venha, vou lhe mostrar minha sala.

Ela o conduziu para o andar de cima e, quando cruzaram um corredor amplo, uma mulher de cabelos brancos que vestia um roupão de banho disse:

— Doutora! Gosto do seu namorado!

Billie sorriu e disse:

— Pode ficar com ele depois, Marlene.

A sala era pequena, com uma mesa comum e um arquivo de aço, mas Billie a embelezara com flores e um quadro abstra­to em cores vivas. Deu um café a Luke, abriu um pacote de bis­coitos e depois lhe fez perguntas sobre a amnésia.

Enquanto ouvia as respostas, ela ia fazendo anotações. Luke não comia havia doze horas e devorou todos os biscoitos. Ela sorriu e disse:

— Quer mais? Tem outro pacote aí.

Ele sacudiu a cabeça.

— Bem, o quadro, como vejo agora, é bastante claro — disse ela por fim. — Você está com uma amnésia global, mas a não ser por isso me parece mentalmente saudável. Não posso ava­liar seu estado físico, porque não sou habilitada, mas meu dever é aconselhá-lo a se submeter a um exame físico tão cedo quanto for possível.

Ela fez uma pausa e sorriu.

— Mas parece bem, só um pouco chocado — completou.

— Há cura para este tipo de amnésia?

— Não, não há. O processo geralmente é irreversível.

A revelação foi um golpe para ele. As esperanças de Luke eram de que tudo voltasse de repente.

— Cristo — resmungou.

— Não fica desanimado — disse Billie, bondosamente. — Os pacientes desse tipo de amnésia têm todas as suas faculdades e ainda são capazes de reaprender o que tiverem esquecido, de modo que geralmente podem retomar o fio de suas vidas e seguir adiante normalmente. Você vai ficar bem.

Mesmo tomando conhecimento de informações tão horrí­veis, ele descobriu-se fitando-a fascinado, concentrando a atenção primeiro nos olhos, que pareciam brilhar com solidariedade, depois na boca expressiva e por fim no modo como a luz que vinha da lâmpada em sua mesa caía sobre os cachos escuros. Queria que ela continuasse falando para sempre.

— O que pode ter causado esta amnésia? — perguntou ele.

— Uma concussão cerebral seria a primeira possibilidade a considerar. Não há, contudo, sinal de ferimento e você me dis­se que não sente dor de cabeça.

— Tudo bem. O que mais?

— Há diversas alternativas — explicou ela pacientemente. A amnésia global pode ser causada por estresse prolongado, cho­que súbito, ou drogas. É também uma seqüela de alguns trata­mentos contra a esquizofrenia, envolvendo uma combinação de choques elétricos e drogas.

— Alguma maneira de dizer qual dessas foi a causa do meu problema?

— Não de forma conclusiva. Você disse que teve uma espécie de ressaca hoje de manhã. Se não foi álcool, pode ter sido o efei­to residual de alguma droga. Mas você não vai conseguir uma resposta final falando com médicos. Precisa descobrir o que lhe aconteceu entre a noite de segunda-feira e a manhã de hoje.

— Bem, pelo menos sabemos o que estou procurando: cho­que, drogas ou tratamento de esquizofrenia.

— Você não é esquizofrênico. Tem uma excelente noção de realidade. Qual será seu próximo passo?

Luke levantou-se. Sentia-se relutante em deixar a compa­nhia daquela mulher tão sedutora, mas ela lhe havia dito tudo quanto fora capaz.

— Vou ver Bern Rothsten. Acho que pode ter algumas idéias.

— Tem carro?

— Pedi ao táxi para esperar.

— Vou acompanhá-lo.

Enquanto desciam a escada, Billie pegou o braço dele afetuosamente.

— Há quanto tempo você está divorciada de Bern? — perguntou Luke.

— Cinco anos. Tempo suficiente para nos tornarmos amigos.

— Agora, uma pergunta estranha, mas tenho que fazê-la. Você e eu já namoramos?

— Puxa vida — disse Billie. — E como!


1943

No dia em que a Itália se rendeu, Billie esbarrou em Luke no saguão do Prédio Q.

A princípio ela não o reconheceu. Viu um homem magro, aparentemente com uns trinta anos, em um terno que era gran­de demais, e seus olhos passaram por ele sem reconhecê-lo. Então ele falou, “Billie? Não se lembra de mim”?

Ela conheceu a voz, claro, o que fez com que seu coração batesse mais depressa. Mas quando olhou de novo para o homem muito magro que pronunciara aquelas palavras, deu um gritinho de horror. A cabeça dele mais parecia uma cavei­ra. Seu cabelo negro, antigamente tão brilhante, estava opaco. O colarinho da camisa era grande demais e o paletó dava a impressão de estar pendurado num cabide de arame. Os olhos eram os olhos de um velho.

— Luke! — exclamou. — Você está péssimo!

— Muito obrigado — disse ele, com um sorriso fatigado.

— Desculpe — ela apressou-se a dizer.

— Não se preocupe. Sei que perdi peso. Não há muita comi­da no local de onde venho.

Ela teve ímpetos de abraçá-lo, mas se conteve, sem saber se ele ia gostar.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou Luke.

Ela respirou fundo.

— Um estágio de treinamento — mapas, rádio, armas de fogo, lutas marciais.

Ele sorriu.

— Você não está vestida para jiu-jitsu.

Billie ainda gostava de se vestir com elegância, a despeito da guerra. Naquele dia estava com um conjunto amarelo-claro, com um bolero curto, uma ousada saia à altura dos joelhos e um chapéu que lembrava um prato de comida de cabeça para baixo. Não podia se dar ao luxo de comprar os últimos lança­mentos da moda com o salário que o Exército lhe pagava, é claro, de modo que ela própria fizera tudo aquilo usando uma máquina de costura emprestada. Seu pai ensinara todos os filhos a costurar.

— Vou aceitar isso como um cumprimento — disse ela com um sorriso, começando a se recuperar do choque inicial. — Onde tem estado?

— Você tem um minuto?

— Claro.

Ela deveria estar numa aula de criptografia, mas ao inferno com a aula.

— Vamos lá para fora.

Era uma tarde quente de setembro. Luke tirou o paletó e pendurou-o no ombro enquanto caminhavam ao longo do lago.

— Como você entrou para a OSS?

— Anthony Carroll foi quem arrumou — respondeu ela.

A OSS — Office of Strategic Service — era considerada uma missão glamourosa e qualquer posição ali era muito invejada.

— Anthony usou influência da sua família para chegar aqui. É agora assistente pessoal de Bill Donovan.

O general “Wild Bill” Donovan era o chefe da OSS.

— Eu estava trabalhando há quase um ano como motorista de um general em Washington, de modo que fiquei muito feliz de ter sido designada aqui para a OSS. Anthony usou sua posi­ção para nomear todos os seus amigos de Harvard. Elspeth está em Londres, Peg no Cairo, e eu imagino que você e Bern esti­veram em algum lugar atrás das linhas do inimigo.

— França — disse Luke.

— E que tal foi lá?

Ele acendeu um cigarro. Era um novo hábito — ele não fu­mava em Harvard, mas agora encheu os pulmões de fumaça como se fosse a essência da vida.

— O primeiro homem que matei foi um francês — disse ele, de súbito.

Era dolorosamente óbvio que ele precisava falar sobre aquilo.

— Conte-me o que aconteceu — disse ela.

— Era um policial, um gendarme. Claude, o mesmo nome que eu. Não era realmente um mau sujeito — anti-semita, mas não mais que a média dos franceses, ou, para falar a verdade, que um monte de americanos. Ele entrou em uma casa de fazenda onde meu grupo estava reunido. Não havia dúvida quanto ao que estávamos fazendo — tínhamos mapas em cima da mesa e fuzis encostados a um canto. Bern mostrava aos franceses como montar uma bomba de tempo.

Luke deu uma risada, um riso estranho, sem humor.

— O maldito idiota tentou nos prender. Não que fizesse diferença. Ele tinha que ser morto de qualquer maneira.

— O que foi que você fez?

— Levei-o para fora e dei-lhe um tiro na nuca.

— Oh, meu Deus.

— Ele não morreu logo. Levou cerca de um minuto para morrer.

Ela pegou a mão dele e apertou. Luke deixou e, assim, os dois saíram caminhando de mãos dadas em torno do lago com­prido e estreito. Ele lhe contou uma história sobre uma mulher da Resistência que fora capturada e torturada e Billie chorou, as lágrimas rolando pelo seu rosto ao sol de setembro. A tarde esfriou e detalhes amargos continuaram a jorrar: carros explo­didos, oficiais alemães assassinados, camaradas da Resistência mortos em tiroteios e famílias judias sendo levadas para desti­nos desconhecidos, segurando as mãos dos filhos confiantes.

Tinham caminhado durante duas horas quando ele trope­çou e ela teve que ampará-lo para que não caísse.

— Jesus Cristo, estou tão cansado! — ele exclamou. — Tenho dormido muito mal.

Ela chamou um táxi que passava e o levou para o hotel.

Luke estava hospedado no Carlton. O Exército geralmente não proporcionava tanto luxo, mas Billie se lembrava que a família dele era muito rica. Luke tinha uma suíte de esquina, com janelas para duas ruas. Havia um piano na sala de estar e — algo que ela nunca vira antes — uma extensão do telefone no banheiro.

Billie ligou para o serviço de quarto e pediu canja de gali­nha, ovos mexidos, pãezinhos quentes e leite gelado. Luke sentou-se no sofá e começou a contar outra história, esta engra­çada, sobre uma ação destinada a sabotar uma indústria que fabricava panelas para o exército alemão.

— Entrei naquela grande oficina metalúrgica e lá estavam cinqüenta mulheres enormes e musculosas, alimentando o for­no com carvão e modelando as matrizes a marteladas. Gritei para que saíssem, avisando que íamos explodir o prédio, mas as mulheres riram de mim! Não queriam ir embora e continua­ram trabalhando. Não acreditaram em mim.

Antes que ele pudesse terminar, a comida chegou.

Billie assinou a conta, deu a gorjeta do garçom e pôs os pratos na mesa de refeições. Quando se virou, ele estava dor­mindo.

Acordou-o apenas o tempo necessário para levá-lo para o quarto e fazer com que se deitasse.

— Não vá embora — murmurou ele, fechando os olhos novamente.

Ela tirou seus sapatos e, delicadamente, afrouxou-lhe a gravata. Uma brisa suave entrava pela janela: Luke não preci­sava de cobertas.

Billie sentou-se na beira da cama observando-o durante algum tempo, lembrando daquele longo trajeto de carro de Cambridge a Newport, quase dois anos atrás. Acariciou-lhe o rosto com a parte externa do dedo mínimo, tal como fizera naquela noite. Ele não se mexeu.

Billie tirou o casaco e os sapatos, pensou um instante e livrou-se também do casaco e da saia. Depois passou os braços em torno dos seus ombros ossudos, pôs a cabeça no seu peito e abraçou-o.

— Está tudo bem agora — disse. — Dorme, Luke. Quando acordar, estarei aqui.

 

A noite caiu. A temperatura desceu. Billie fechou a janela e puxou uma colcha para cima deles. Logo após a meia-noite, com os braços em torno do corpo quente de Luke, ela adorme­ceu.

De madrugada, depois de ter dormido doze horas seguidas, ele levantou-se de repente e foi ao banheiro. Voltou minutos depois e se deitou de novo. Tinha tirado o terno e a camisa e só estava com a roupa de baixo. Passou os braços em torno dela e a abraçou.

— Tem uma coisa que esqueci de lhe contar, uma coisa mui­to importante — disse.

— O quê?

— Na França pensei em você todos os dias.

— Pensou mesmo? É verdade?

Ele não respondeu. Caíra no sono de novo.

Billie deixou-se ficar ali protegida pelo seu abraço, pen­sando nele na França, arriscando a vida e se lembrando dela e se sentiu tão feliz que achou que seu coração fosse explodir.

Às oito horas da manhã, foi até a sala de estar da suíte, telefonou para o prédio Q e disse que estava doente. Era a primei­ra vez que fazia isso em mais de um ano no Exército. Tomou um banho e lavou o cabelo e depois se vestiu. Pediu café e flo­cos de milho ao serviço de quarto. O garçom chamou-a de sra. Lucas. Billie ficou contente por não ser uma garçonete, pois uma mulher teria notado que não estava de aliança de casada.

Achou que o cheiro de café podia acordar Luke, mas não. Leu o Washington Post de cabo a rabo, inclusive a seção de esportes. Estava escrevendo uma carta para sua mãe em Dallas quando ele veio tropeçando do quarto, só de camiseta e cueca, o cabelo escuro despenteado, o queixo azulado com a barba crescida. Billie sorriu, feliz por ele estar de pé.

Luke pareceu confuso.

— Quanto tempo dormi?

Ela consultou o relógio de pulso. Quase meio-dia.

— Cerca de dezoito horas — respondeu. Não seria capaz de dizer o que ele estava pensando. Estaria satisfeito por vê-la? Envergonhado? Querendo que fosse embora?

— Meu Deus! Já faz um ano que não durmo assim.

Ele esfregou os olhos.

— Você ficou aqui o tempo todo? Parece tão fresca quanto uma margarida.

— Cochilei um pouco.

— Ficou a noite toda?

— Você pediu.

Luke franziu a testa.

— Acho que me lembro... — ele sacudiu a cabeça. — Puxa, como sonhei!

Praticamente sem uma pausa ele foi para o telefone.

— Serviço de quarto? Mande um t-bone steak, malpassado, com três ovos estrelados, gema mole. Mande também suco de laranja, torradas e café.

Billie ficou preocupada. Nunca passara a noite com um homem, de modo que não sabia o que esperar pela manhã, mas aquilo a desapontou. Foi tão pouco romântico que ela quase se sentiu insultada. Lembrou-se de como os irmãos acordavam — também saltavam da cama com a barba por fazer, mal-humorados e famintos. Mas ela se lembrava que todos melho­ravam muito depois de comer.

— Espera aí — ele tapou o telefone e olhou para Billie. — Você vai querer alguma coisa?

— Um pouco de chá gelado.

— Ele repetiu o pedido dela e desligou.

Luke sentou-se ao lado de Billie no sofá.

— Falei à beça ontem.

— É verdade.

— Quanto tempo?

— Quase cinco horas sem parar.

— Desculpe.

— Não se desculpe. Seja o que for que você faça, não se desculpe — os olhos dela encheram-se de lágrimas. — Nunca me esquecerei enquanto viver.

Ele segurou suas mãos.

— Estou tão feliz por termos nos encontrado de novo...

O coração de Billie deu um pulo.

— Eu também — aquilo era muito mais do que tinha esperado.

— Eu gostaria de beijá-la, mas estou com a mesma roupa há vinte e quatro horas.

Billie sentiu uma sensação repentina, algo como uma mola quebrando e teve consciência de que tinha ficado molhada. Ficou chocada consigo própria, porque antes nunca acontecera com tanta rapidez.

Mas se conteve. Ainda não tinha decidido onde queria que aquilo fosse parar. Tivera a noite inteira para tomar uma deci­são, mas nem sequer pensara no assunto. Agora tinha medo de que quando ele a tocasse viesse a perder o controle. E depois?

A guerra provocara uma frouxidão moral em Washington, mas ela não fazia parte disso. Cruzou as mãos no colo e disse:

— Eu certamente não quero beijar você enquanto não se vestir.

Ele lhe dirigiu um olhar cético.

— Está com medo de se comprometer?

Ela recuou ante a ironia evidente na sua voz.

— O que significa exatamente isso?

Ele deu de ombros.

— Nós passamos a noite juntos.

Ela sentiu-se furiosa e magoada.

— Fiquei porque você me suplicou para eu ficar — protestou.

— Está bem, não fique zangada.

Mas o desejo que sentia por ele transformou-se, de repen­te, em uma raiva igualmente poderosa.

— Você estava caindo de exaustão e eu o pus na cama — dis­se, irada. — Depois me pediu para não deixá-lo só e eu fiquei.

— Eu agradeço.

— Então não fale comigo como se eu tivesse agido como uma... prostituta!

— Não foi o que eu quis dizer.

— Foi sim! Você quis dizer que eu já tinha me comprometi­do tanto que nada mais faria diferença.

Ele deu um grande suspiro.

— Bem, eu não tive intenção de dar a entender nada! Jesus, você está fazendo uma verdadeira tempestade por causa de uma observação casual!

— Casual demais.

O problema era que Billie tinha mesmo se comprometido.

Bateram à porta.

Os dois se olharam e Luke falou:

— Serviço de quarto, acho eu.

Ela não queria que um garçom a visse com um homem despido.

— Entre no quarto.

— OK.

— Mas antes me dê seu anel.

Ele olhou para a mão esquerda. Usava um anel dourado de sinete no dedo mínimo. — Por quê?

— Para que o garçom pense que somos casados.

— Mas eu nunca o tiro.

Isto a enfureceu ainda mais.

— Suma daqui — murmurou.

Ele foi para o quarto. Billie abriu a porta da suíte e uma garçonete entrou, empurrando o carrinho do serviço de quarto.

— Aí está, senhorita.

Billie corou, envergonhada. Era claro o insulto naquele “senhorita”. Assinou a conta, mas não deu gorjeta.

— Aí está — disse ela. Repetindo as palavras da moça e dando-lhe as costas.

A garçonete foi embora. Billie ouviu a água do chuveiro caindo. Sentia-se exausta. Passara horas nas garras de uma profunda paixão romântica e em poucos minutos tudo azedara.

Luke, embora sendo normalmente tão amável, se transformara em um urso. Como é que coisas assim podiam acontecer? Era uma boa pergunta.

Pôs o chapéu. Era melhor sair com o resto de dignidade que ainda lhe restava.

Pensou em escrever um bilhete. O barulho do chuveiro cessou. Ele estava prestes a reaparecer, recendendo a sabonete, usando um roupão, cabelo molhado e descalço, uma verdadei­ra tentação. Não havia tempo para bilhetes.

Billie foi embora, fechando silenciosamente a porta da suíte.

 

Ela o viu quase que diariamente nas quatro semanas seguintes.

A princípio Luke esteve no Prédio Q para sessões diárias de interrogatório. Ele a procurava na hora do almoço e os dois comiam juntos na lanchonete ou compravam sanduíches que iam comer no parque. Seu modo de ser retornou à cortesia característica de antigamente, fazendo com que ela se sentisse respeitada e alvo de sua atenção. A mágoa causada pelo com­portamento dele no Carlton passou. Talvez, pensou Billie, ele também nunca tivesse passado uma noite com uma amante e não tivesse certeza de qual deveria ser a etiqueta a seguir. Ele a tratara casualmente, como podia ter tratado a irmã — e talvez sua irmã fosse a única garota que o tivesse visto de roupa de baixo.

No final da semana ele a convidou para sair e foram ver Jane Eyre na noite de sábado. No domingo foram andar de bar­co no Potomac. Havia um espírito de aventura no ar de Washington. A cidade estava cheia de rapazes a caminho da linha de frente ou de volta para casa, em licença, homens para os quais a morte violenta era um fato do cotidiano. Queriam jogar, beber, dançar e fazer amor, porque talvez nunca mais tivessem outra oportunidade. Os bares viviam lotados e uma garota nunca se via obrigada a passar mais que uma noite sem companhia. Os Aliados estavam ganhando a guerra, mas as borbulhas da alegria exuberante eram explodidas diariamente pelas notícias de parentes, vizinhos e antigos colegas de facul­dade mortos ou feridos na linha de frente.

Luke recuperou um pouco do peso e começou a dormir melhor. A expressão de quem vivia perseguido por fantasmas sumiu dos seus olhos. Comprou roupas adequadas ao seu novo tamanho, camisas de manga curta, calças brancas e um terno de flanela azul-marinho que usava quando saíam de noite. Um pouco da sua juventude voltou.

Falavam sem cessar. Ela explicava como o estudo da psico­logia humana viria a eliminar a doença mental e ele lhe disse como os homens poderiam voar até a Lua. Reviveram o fatídi­co fim de semana em Harvard que mudara suas vidas. Dis­cutiam a guerra e como podia terminar: Billie achava que a Ale­manha não podia durar muito mais tempo, agora que a Itália caíra, mas Luke acreditava que seriam precisos alguns anos para tirar os japoneses do Pacífico. Às vezes saíam com An­thony e Bern e discutiam política nos bares, exatamente como faziam no tempo de faculdade, quando pertenciam a um mundo diferente. Num fim de semana Luke tomou um avião e foi a Nova York ver sua família e Billie sentiu tanto a falta dele que ficou doente. Nunca se cansava dele, nunca se aproximava dele para se entediar. Luke era atencioso, inteligente e elegante.

Tinham uma briga grande cerca de duas vezes por semana. Todas seguiam o padrão da primeira, na suíte de hotel onde Luke se hospedava. Ele dizia algo arrogante, ou tomava uma decisão sobre seus planos de saída à noite sem consultá-la, ou partia do pressuposto de que sabia mais que ela algum assunto, rádio, automóvel ou tênis. Billie protestava acaloradamente e ele a acusava de reagir com exagero. Billie ficava mais e mais irada enquanto tentava fazê-lo compreender o que estava erra­do com aquela atitude e Luke começava a se sentir como uma testemunha hostil sob interrogatório. No calor da discussão ela exagerava, ou afirmava algo meio louco ou dizia uma coisa que sabia ser falsa. Ele a acusava de insinceridade e dizia que não valia a pena discutirem porque ela estava sempre disposta a dizer qualquer coisa a fim de ganhar a discussão. Luke saía, mais convencido que nunca de que tinha razão. Em minutos Billie ficava perturbada, ia procurá-lo e implorava que esque­cesse e que voltassem a ser amigos. A princípio Luke fingia que nem era com ele; depois ela dizia algo que o fazia rir e então ele cedia, enternecido.

Mas em todo esse tempo não foi ao hotel dele, e quando o beijava era um casto roçar de lábios e sempre em lugar públi­co. Mesmo assim, sentia derreter-se por dentro e sabia que não podia ir adiante sem levar tudo até o fim.

O setembro ensolarado transformou-se em um outubro frio, e Luke recebeu sua nova missão.

Ele recebeu a notícia numa tarde de sexta-feira. Esperava no saguão do prédio quando Billie saiu no final do expediente. Ela pôde ver pelo seu rosto que algo de ruim tinha acontecido.

— Qual é o problema? — perguntou ela, assim que o viu.

— Vou voltar para a França.

Ela ficou apavorada.

— Quando?

— Saio de Washington na segunda-feira de manhã, bem cedo. Bern também.

— Pelo amor de Deus, vocês já não fizeram a sua parte?

— Não me importo com o perigo. Só não quero deixar você.

Os olhos de Billie encheram-se de lágrimas. Ela engoliu

em seco.

— Só dois dias...

— Tenho que fazer as malas.

— Eu ajudo você.

Foram para o hotel de Luke.

Assim que passaram para o lado de dentro, ela o agarrou pelo suéter, puxou-o para junto de si e levantou o rosto para ser beijada. Só que desta vez não havia nada de casto no seu beijo. Billie passou a ponta da língua ao longo dos lábios dele, supe­rior e inferior, e abriu a boca para a sua língua.

Ela tirou o casaco. Seu vestido tinha listras verticais azuis e vermelhas e uma gola branca.

— Segure os meus seios — pediu.

Ele ficou espantado.

— Por favor — ela implorou.

As mãos de Luke fecharam-se em torno de seus pequenos seios. Billie fechou os olhos e concentrou-se na sensação.

Afastaram-se, e ela o encarou avidamente, memorizando-lhe o rosto. Queria não esquecer nunca aquele azul especial dos seus olhos, o cacho do cabelo escuro que vivia caindo na testa, a curva do seu queixo e o contorno suave dos seus lábios.

— Quero uma foto sua, Luke. Você tem?

— Não ando por aí com fotos — disse ele, com um sorriso cansado. Com o sotaque de Nova York, acrescentou:

— O que é que você pensa que sou, Frank Sinatra?

— Você deve ter uma foto sua em algum lugar.

— É possível, num álbum de família, deixa eu dar uma olhada.

Luke entrou no quarto.

Billie seguiu-o.

Sua velha valise de couro marrom estava no estrado para malas onde, Billie adivinhou, já estava havia quatro semanas. Ele pegou um estojo que abria como um livrinho. Dentro havia dois retratos, um de cada lado. Luke pegou uma foto, tirou dali e passou para ela.

Fora tirada há uns três ou quatro anos e mostrava um Luke mais jovem e mais gordo, envergando uma camisa pólo. Com ele havia um casal mais idoso, presumivelmente seus pais, dois garotos gêmeos com cerca de quinze anos e uma menininha. Todos estavam vestidos de roupa de praia.

— Não posso aceitar, é a foto da sua família — disse ela, embora ansiasse por aquilo com todo o seu coração.

— Quero que guarde isso. Sou eu. Sou parte de minha família.

Era exatamente o que ela amava naquela foto.

— Você levou isso para a França?

— Levei.

Era tão importante para ele que Billie não podia privá-lo dela — e, no entanto, isso ainda a tornava mais importante.

— Mostre-me a outra — disse ela.

— O quê?

— Há duas fotos aí nesse estojo.

Embora parecendo relutante, ele abriu o estojo e mostrou a segundo foto. Tinha sido recortada do álbum de formatura de Radcliffe. Era uma foto de Billie.

— Você levou isso para a França também?

Ela não podia respirar direito e sentiu um nó na garganta.

— Levei.

Billie caiu no choro. Não dava para agüentar. Luke recor­tara seu retrato do álbum de formatura e o levara, junto da foto de sua família, todo aquele tempo em que sua vida estivera em perigo. Billie não tinha idéia de que significava tanto para Luke.

— Por que está chorando? — quis saber ele.

— Porque você me ama.

— É verdade. Eu tinha medo de lhe dizer. Eu a amo desde aquele fim de semana de Pearl Harbor.

A paixão dela transformou-se em raiva.

— Como diz uma coisa dessas, seu filho da mãe? Você me deixou!

— Se você e eu tivéssemos nos tornado amantes, teria sido o fim de Anthony.

— Ao inferno com Anthony!

Ela socou o peito dele, mas Luke não pareceu sentir.

— Como pôde pôr a felicidade de Anthony acima da minha, seu filho-da-puta?

— Teria sido desonroso.

— Mas você não vê que poderíamos ter desfrutado um ao outro durante dois anos? — as lágrimas escorreram pelo rosto dela. — Agora só temos dois dias — dois miseráveis dias!

— Então pára de chorar e me beija de novo.

Billie passou os braços pelo seu pescoço e puxou a cabeça dele para baixo. As lágrimas escorreram entre os lábios dos dois e entraram em suas bocas. Luke começou a desabotoar seu vestido. Impaciente, ela pediu que rasgasse. Ele puxou com força e os botões, até a cintura, voaram. Outro arranco e o vestido abriu-se por completo. Billie livrou-se dele e ficou só de anágua e meias.

— Tem certeza de que quer? — perguntou ele, ar solene.

Billie tinha medo de que as preocupações morais a paralisassem.

— Tenho, tenho, por favor, não pare!

Delicadamente, ele a empurrou para a cama. Deitou de costas e ele ficou por cima, apoiado nos cotovelos. Encarou-a, olhos nos olhos.

— Nunca fiz isso antes, Billie.

— Não faz mal — disse ela. — Eu também não.

 

A primeira vez acabou muito depressa, mas uma hora mais tar­de eles quiseram de novo e desta vez a coisa se estendeu por mais tempo. Ela lhe disse que queria fazer tudo, que queria lhe proporcionar todos os prazeres com que ele já sonhara, realizar todo ato possível de intimidade sexual. Fizeram amor o fim de semana inteiro, frenéticos de desejo e aflição, sabendo que podiam nunca mais se ver.

Depois que Luke partiu na manhã de segunda-feira, Billie chorou durante dois dias.

Oito semanas mais tarde descobriu que estava grávida.

 

18:30

Os cientistas são capazes apenas de supor os extremos de calor e frio que o satélite sofrerá no espaço enquanto se deslocar da profunda escuridão da sombra da Terra para o brilho ofuscante da luz direta do Sol. A fim de mitigar os efeitos disto, o cilin­dro é parcialmente revestido de reluzente óxido de alumínio em tiras de 31 milíme­tros de largura, que refletem os abrasadores raios do sol; e isolado com fibra de vidro, que mantém do lado de fora o extremo frio da espaço sideral.

— Sim, nós namoramos — disse Billie, quando desceram a escada.

Luke sentiu a boca seca. Imaginou-se segurando a mão de Billie, fitando-a por cima de uma mesa iluminada por velas, beijando-a, observando-a tirar a roupa. Sentiu-se culpado, sabendo que tinha mulher, mas não era capaz de se lembrar dela e Billie estava logo ali ao seu lado, falando animadamen­te; sorrindo e cheirando levemente a perfume de sabonete.

Chegaram à porta do prédio e pararam.

— Nós nos amamos? — perguntou Luke. Fixou os olhos nela, estudando sua expressão. Até aquele instante seu rosto tinha sido fácil de ler, mas de repente o livro fora fechado e tudo o que ele pôde ver foi uma capa em branco.

— Oh, claro — respondeu ela, e embora seu tom de voz fos­se leve, havia um travo em sua voz. — Eu achava que você era o único homem do mundo.

Como ele podia ter perdido uma mulher daquelas? Parecia-lhe agora uma tragédia maior do que a perda de todas as suas recordações.

— Mas você descobriu que não era verdade.

— Já tenho idade suficiente para saber que não há Príncipe Encantado, só um bando de homens com mais ou menos falhas. Às vezes usam armaduras reluzentes, mas elas sempre têm pontos de ferrugem.

Ele queria saber tudo, em cada detalhe, mas havia um número muito grande de perguntas por fazer.

— Então você se casou com Bern.

— Casei.

— Como ele é?

— Inteligente. Todos os meus homens têm que ser inteli­gentes. Caso contrário eu me entedio. Fortes também. Fortes o bastante para me desafiarem — ela sorriu o sorriso de alguém que tinha um coração grande.

— O que saiu errado?

— Valores conflitantes. Parece abstrato, mas Bern arriscou a vida pela liberdade em duas guerras: a Guerra Civil espanho­la e a Segunda Guerra Mundial — e para ele a política vinha aci­ma de tudo.

Havia uma pergunta que Luke queria fazer acima de qual­quer outra. Como não pôde imaginar um modo delicado, indi­reto, para fazê-la, deixou que escapasse abruptamente.

— Você tem alguém agora?

— Claro. Seu nome é Harold Brodsky.

Luke sentiu que fizera papel de bobo. Claro que Billie tinha alguém, era uma bela divorciada de seus trinta anos, os homens deviam fazer fila para saírem com ela. Ele sorriu melancolicamente.

— Ele é o Príncipe Encantado?

— Não, mas é inteligente, me faz rir e me adora.

A inveja apunhalou o coração de Luke. O tal de Harold era um felizardo.

— E acho que ele compartilha seus valores.

— Sim. A coisa mais importante na vida para ele é o filho — ele é viúvo — e depois o trabalho acadêmico.

— Que é?

— Química do iodo. Eu sinto a mesma coisa a respeito do meu trabalho — ela sorriu. — Posso não ser visionária no que diz respeito aos homens, mas acho que ainda sou idealista no que diz respeito a desvendar os mistérios da mente humana.

Aquilo o trouxe de volta à sua crise. O lembrete foi como um golpe inesperado, chocante e doloroso.

— Eu gostaria que você pudesse solucionar o mistério da minha mente.

A despeito do peso dos seus problemas, ele notou como Billie ficava bonita quando franzia o nariz, perplexa.

— Estranho — disse ela. — Talvez você tenha sofrido um traumatismo craniano que não tenha deixado traços visíveis, mas neste caso é surpreendente que não tenha dor de cabeça.

— Nem um pouco.

— Você não é alcoólatra nem viciado em drogas. Basta olhar para você que a gente vê. Se tivesse sofrido um choque terrível ou se encontrasse sob estresse prolongado, eu prova­velmente teria ouvido falar disso, por seu próprio intermédio ou por algum de nossos amigos comuns.

— O que deixa...?

Ela sacudiu a cabeça.

— Você certamente não é esquizofrênico, e assim não há como pudessem lhe ter dado a combinação de tratamento de choques com droga que podia ter causado...

Ela parou, parecendo sedutoramente assustada, boca aber­ta, olhos arregalados.

— O que foi? — perguntou Luke.

— Acabei de me lembrar de Joe Blow.

— Quem é?

— Joseph Bellow. O nome me chamou a atenção porque achei com jeito de ter sido inventado.

— E?

— Ele foi admitido na tarde de ontem, depois que eu tinha ido para casa. Depois teve alta durante a noite — o que foi real­mente estranho.

— O que havia de errado nele?

— Era esquizofrênico — ela empalideceu. — Oh, que merda.

Luke começou a perceber o que ela estava pensando.

— Quer dizer então que esse paciente...

— Vamos verificar o registro dele.

Ela virou-se e subiu correndo a escada. Percorreram o cor­redor em passos rápidos e entraram numa sala com a placa Arquivo. Não havia ninguém dentro. Billie acendeu a luz.

Ela abriu uma gaveta marcada “A — D”, folheou as pastas e puxou uma delas. Leu em voz alta:

— “Sexo masculino, branco, um metro e oitenta e cinco de altura. Trinta e sete anos de idade.”

O palpite de Luke foi confirmado.

— Você pensa que era eu — disse ele.

Ela balançou a cabeça.

— Deram ao paciente o tratamento que causa amnésia global.

— Meu Deus.

Luke ficou amedrontado e curioso ao mesmo tempo. Se ela estava certa, aquilo lhe fora feito deliberadamente. E explicava o motivo pelo qual ele tinha sido seguido — presumivelmente por alguém que queria certificar-se de que o tratamento funcio­nara.

— Quem diz isso?

— Foi um colega meu, o dr. Leonard Ross, que admitiu o paciente. Len é psiquiatra. Eu gostaria de saber em que ele se baseou para autorizar o tratamento. O paciente deve normal­mente ficar em observação durante algum tempo, geralmente diversos dias, antes de receber qualquer tipo de tratamento. E não consigo imaginar uma justificativa médica para dar alta a esse paciente logo depois, mesmo com o consentimento de parentes. Isso é muito irregular.

— Parece que esse Ross está metido em encrenca.

Billie suspirou.

— Provavelmente não. Se eu reclamar, as pessoas vão me acusar de uvas verdes. Todos vão achar que estou amargurada porque Len conseguiu o lugar que eu queria, Diretor de Pesquisa aqui no Hospital.

— Quando isso aconteceu?

— Hoje.

Luke ficou espantado.

— Ross foi promovido hoje?

— Foi. Acho que não é coincidência.

— Com os diabos, claro que não! Ele foi subornado. Prometeram-lhe a promoção em troca desse tratamento irregular.

— Não posso acreditar nisso. Não, posso sim. Ele é um sujeito muito fraco.

— Mas está servindo de ferramenta para alguém. Um supe­rior na hierarquia do hospital deve tê-lo obrigado a fazer isso.

— Não — Billie sacudiu a cabeça. — A Fundação que man­tém o hospital e que se responsabilizará pelo ônus da nova posição, a Sowerby, insistiu para que Ross fosse nomeado. Meu chefe me contou. Não conseguimos descobrir a razão. Agora eu sei.

— Tudo se ajusta, mas o quadro agora é quase tão desconcertante quanto antes. Alguém na Fundação queria que eu per­desse a memória?

— Posso adivinhar quem, Anthony Carroll. Ele integra a junta diretora.

O nome fez soar uma campainha. Luke se lembrou que Anthony era o homem da CIA mencionado por Elspeth.

— Isto ainda deixa em aberto o motivo.

— Mas agora temos a quem fazer perguntas — disse Billie, e pegou o telefone.

Enquanto ela discava, Luke tentou organizar seus pensa­mentos. Tinha sofrido na última hora uma série de choques. Disseram-lhe que não ia recuperar a memória. Descobrira que amara Billie e a perdera e não era capaz de compreender como pudera ser tão idiota. Agora, vinha a saber que sua amnésia fora deliberadamente infligida e que alguém da CIA era o res­ponsável. E, no entanto, ainda não tinha nenhuma pista que apontasse para o motivo pelo qual tudo aquilo fora feito.

— Quero falar com Anthony Carroll — disse Billie ao telefo­ne. — Aqui é a dra. Josephson.

O tom de voz dela era peremptório.

— OK, então diga a ele que preciso lhe falar com urgência.

Ela olhou o relógio.

— Faça com que ele telefone para a minha casa em exata­mente uma hora — seu rosto de repente ficou congestionado. — Não me faça de idiota, cara. Sei que pode fazer com que uma mensagem chegue a ele a qualquer hora do dia ou da noite, onde quer que esteja.

Ela bateu com o telefone, percebeu o olhar de Luke e ficou envergonhada.

— Desculpe. O sujeito disse que ia ver o que podia fazer, como se estivesse fazendo um maldito favor.

Luke lembrou que Elspeth dissera que Anthony Carroll era um velho amigo que estudara em Harvard com Luke e Bern.

— Este Anthony — disse. — Pensei que fosse amigo.

— É — aquiesceu Billie, o rosto expressivo revelando sua preocupação. — Eu também pensava.

 

19:30

O problema da temperatura é crucial nos vôos espaciais tripulados. Para aferir a efi­cácia do isolamento, o Explorer carrega quatro termômetros: três no casco, para medir a temperatura da camada externa, e um dentro do compartimento dos instru­mentos, para dar a temperatura do interior. O objetivo é manter o nível entre 5 e 22 graus centígrados — uma variação confortável para a sobrevivência humana.

Bern morava na avenida Massachusetts, com vista para a pito­resca garganta do riacho Rock, em um bairro de casas grandes e embaixadas. A temática da decoração do seu apartamento era ibérica, com mobília espanhola colonial, de madeira escura. As paredes absolutamente brancas exibiam pinturas de paisa­gens banhadas de sol. Luke lembrou que Billie dissera que Bern havia lutado na Guerra Civil espanhola.

Era fácil imaginá-lo como um combatente. Embora o cabe­lo negro já começasse a escassear e a cintura caísse um pouco sobre o cinto, havia uma expressão dura no rosto dele e um bri­lho glacial em seus olhos cinzentos. Luke perguntou-se se um homem tão prático e realista acreditaria na história estranha que tinha para lhe contar.

Bern apertou a mão de Luke calorosamente e serviu café forte em xícara pequena. Em cima do console do gramofone havia uma fotografia de um homem de meia-idade vestindo uma camisa rasgada e segurando um rifle. Luke pegou-a.

— Largo Benito — explicou Bern. — O maior homem que já vi. Lutei com ele na Espanha. Meu filho se chama Largo, mas Billie o chama de Larry.

Bern provavelmente se lembrava da guerra na Espanha co­mo o melhor tempo de sua vida. Luke perguntou-se, com uma ponta de inveja, qual teria sido o melhor tempo da sua vida.

— Acho que eu devo ter tido grandes lembranças de alguma coisa — disse, abatido.

Bern dirigiu-lhe um olhar penetrante.

— O que diabo está havendo, amigo velho?

Luke sentou-se e relatou o que ele e Billie tinham desco­berto no hospital. E terminou:

— Vou lhe dizer o que acho que me aconteceu. Não sei se vai acreditar, mas vou falar assim mesmo, porque realmente tenho esperança que você consiga lançar alguma luz nesse mistério.

— Farei o que puder.

— Vim para Washington na segunda-feira pouco antes do lançamento do foguete, para ver um general. O motivo pelo qual vim era tão misterioso que não contei a ninguém. Minha mulher ficou preocupada comigo e telefonou para Anthony e pediu a ele que ficasse de olho em mim. Anthony combinou comigo um encontro no café da manhã da terça-feira.

— Faz sentido. Anthony é seu amigo mais antigo. Ele já era seu companheiro de quarto quando conheci você.

— O que se segue é mais especulativo. Encontrei-me com Anthony para o café da manhã, antes de ir para o Pentágono. Ele colocou qualquer coisa no café para me fazer dormir, depois me pôs no seu carro e me levou para o Georgetown Mind Hospital. Deve ter dado um jeito para tirar Billie do caminho, ou talvez esperado que ela saísse no final do expediente. De qualquer for­ma, ajeitou as coisas para que ela não me visse e me internou sob nome falso. Em seguida, recorreu ao dr. Len Ross, que ele sabia que podia ser subornado e, usando sua posição de membro da junta da Fundação Sowerby, persuadiu-o a me aplicar o trata­mento que destruiria a minha memória.

Luke fez uma pausa, esperando que Bern fosse dizer que aquilo tudo era ridículo, impossível, fruto de uma imaginação febril. Bern, contudo, nada comentou. Para surpresa de Luke limitou-se a dizer:

— Mas pelo amor de Deus, Luke, por quê?

Luke começou a se sentir melhor. Se Bern acreditava, podia ajudar. E disse:

— Por enquanto concentremo-nos no como, em vez de no quê.

— Está certo.

— Para não deixar pistas, ele me tirou do hospital, vestiu em mim uma roupa esfarrapada de mendigo, presumivelmente enquanto eu estava inconsciente — e me largou na Union Station, juntamente com um auxiliar cuja missão era não só me persuadir que eu vivia daquele jeito como também ficar de olho em mim e se assegurar que o tratamento para provocar a amnésia funcionara.

Neste ponto Bern pareceu incrédulo.

— Mas ele devia saber que você descobriria a verdade mais cedo ou mais tarde.

— Não obrigatoriamente — pelo menos não toda a verdade. Claro, ele tinha de calcular que após uns poucos dias ou sema­nas eu ia imaginar quem era. Mas pensou que eu iria continuar acreditando que tinha tomado uma bebedeira. As pessoas real­mente perdem a memória depois de ingerirem muito álcool, pelo menos de acordo com a lenda. Se eu achasse isso difícil de acreditar e fizesse perguntas, o rastro do que ele fizera já teria esfriado. Billie provavelmente teria esquecido o tal paciente misterioso — e no caso de lembrar, Ross já teria destruído os registros.

Bern balançou a cabeça pensativamente.

— Um plano arriscado, mas com boas chances de sucesso. Em operações clandestinas, é geralmente o melhor que se pode esperar.

— Estou surpreso por não vê-lo mais cético.

Bern deu de ombros.

Luke pressionou.

— Tem algum motivo para aceitar minha história tão prontamente?

— Todos nós trabalhamos em serviço secreto. Essas coisas acontecem.

Luke tinha certeza de que Bern estava ocultando alguma coisa. Não havia nada a fazer senão suplicar.

— Bern, se você sabe mais alguma coisa, pelo amor de Deus, me conte. Preciso de toda a ajuda que for possível obter.

Bern pareceu angustiado.

— Há algo mais sim — mas é secreto e não quero complicar a vida de ninguém.

O coração de Luke pulou, esperançoso.

— Conte-me, por favor. Estou desesperado.

Bern fitou-o intensamente.

— Acho que está, sim.

Ele respirou fundo.

— Está bem, aqui vai. Já quase no fim da guerra, Billie e Anthony trabalharam em um projeto especial do OSS, o Comitê da Droga da Verdade. Você e eu não soubemos de nada na época, mas descobri quando me casei com Billie. A pesqui­sa estudava drogas que pudessem afetar prisioneiros submeti­dos a interrogatório. Tentaram mescalina, barbitúricos, escopolamina e Canabis. As cobaias eram soldados suspeitos de simpatizarem com o comunismo. Billie e Anthony foram às bases militares de Atlanta, Mênfis e Nova Orleans. Ganhavam a confiança do suspeito, davam-lhe um baseado e viam se ele traía algum segredo.

Luke deu uma risada.

— E assim os pés-de-poeira conseguiram curtir um barato de graça!

Bern balançou a cabeça. Concordando.

— Naquela altura, a coisa toda era meio cômica. Depois da guerra Billie voltou para a faculdade e defendeu tese de douto­rado sobre os efeitos de várias drogas legais, como a nicotina, sobre os estados mentais. Quando finalmente tornou-se profes­sora, continuou a trabalhar na mesma área, concentrando-se no efeito causado pelas drogas e outros fatores sobre a memória.

— Mas não para a CIA.

— Foi o que pensei. Mas estava errado.

— Meu Deus!

— Em 1950, quando Roscoe Hillenkoetter era o diretor, a Agência deu início a um projeto chamado Bluebird. Hillen­koetter autorizou o uso de fundos especiais, sem destinação consignada em orçamento, de forma que não havia rastros burocráticos. Bluebird era sobre controle da mente. Financiou toda uma série de projetos legítimos de pesquisa em universidades, canalizando o dinheiro através de fundações, a fim de encobrir sua verdadeira origem. Assim foi financiado o traba­lho de Billie.

— E qual foi a reação dela a isso?

— Brigamos a este respeito. Falei que era errado, que a CIA planejava fazer lavagem cerebral nas pessoas. Ela afirmou que todo e qualquer conhecimento científico pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal, que estava fazendo uma pesqui­sa de valor inestimável e que não se importava com quem pagasse a conta.

— Foi por isso que vocês se divorciaram?

— Mais ou menos. Eu escrevia um programa de rádio cha­mado Histórias de detetive, mas queria entrar no cinema. Em 1952 escrevi um roteiro sobre uma agência secreta do governo que fazia lavagens cerebrais em cidadãos inocentes. Jack Warner comprou meu roteiro, mas não contei a Billie.

— Por quê?

— Eu sabia que a CIA não deixaria meu filme ser rodado.

— Eles podem fazer uma coisa dessas?

— Pode apostar sua vida que sim.

— E o que aconteceu?

— O filme foi exibido em 1953. Frank Sinatra fez o papel do cantor que testemunha um crime político e que depois tem a memória apagada por um processo secreto. Joan Crawford fazia o papel de agente dele. Foi um êxito imenso. Eu estava feito — fui esmagado pelas inúmeras ofertas milionárias dos estúdios.

— E Billie?

— Levei-a à pré-estréia.

— Deve ter ficado furiosa.

Ele sorriu melancolicamente.

— Teve um ataque. Disse que eu usara informações confidenciais que conseguira por intermédio dela. Tinha certeza de que a CIA não mais custearia o projeto em que trabalhava, que sua pesquisa estava arruinada. Foi o fim do nosso casamento.

— Foi o que Billie quis dizer quando falou em conflito de valores.

— Ela tem razão. Billie devia ter se casado com você — nun­ca entendi realmente por que não o fez.

O coração de Luke falhou uma batida. Queria saber por que Bern dissera aquilo. Mas adiou a pergunta.

— De qualquer forma, voltando a 1953, presumo que a CIA não tenha cortado o dinheiro do projeto de Billie.

— Não — Bern pareceu amargamente furioso. — Eles preferiram destruir minha carreira.

— Como?

— Fui submetido a uma investigação de lealdade. Claro, eu tinha sido comunista até o fim da guerra, de modo que era um alvo fácil. Puseram-me na lista negra de Hollywood e não con­segui nem voltar a meu antigo emprego na rádio.

— Qual foi o papel de Anthony nisso tudo?

— Esforçou-se ao máximo para me proteger, segundo Billie, mas passaram por cima dele.

Bern franziu a testa.

— Depois do que você acaba de me contar, eu não sei se isso foi verdade.

— E você, fez o quê?

— Tive uns anos péssimos, depois concebi Os gêmeos ter­ríveis.

Luke alçou uma sobrancelha.

— É uma série de livros infantis — ele apontou para uma estante. As cores muito vivas das capas eram uma festa para os olhos. — Você, por exemplo, foi um dos que leram esses livros — no seu caso, para o filho de sua irmã.

Luke ficou satisfeito por saber que era tio. Podia ser que tivesse vários sobrinhos. Achou formidável a idéia de ler em voz alta para eles.

Havia muito que aprender a seu próprio respeito.

Indicou com um gesto da mão o apartamento caro.

— Os livros devem ter feito muito sucesso.

Bern concordou.

— Escrevi o primeiro usando um pseudônimo e arranjei um agente literário simpático às vítimas da caça às bruxas de McCarthy. O livro foi um campeão de vendagem e desde então venho escrevendo dois por ano.

Luke levantou-se e pegou um livro na estante.

O que é mais grudento, mel ou chocolate quente? Os gêmeos tinham de saber. Foi por isto que fizeram aquela expe­riência que deixou mamãe tão furiosa.

Ele sorriu. Dava para imaginar que as crianças adorassem aquele tipo de texto. Sentiu-se triste.

— Elspeth e eu não temos filhos.

— Não sei por quê — retrucou Bern. — Vocês sempre foram loucos para ter filhos.

— Tentamos, mas não aconteceu — Luke fechou o livro. — Sou feliz no casamento?

Bern suspirou.

— Já que pergunta, não.

— Por quê?

— Aconteceu algo de errado, mas você não sabia definir o que era. Ligou para mim uma vez, para pedir conselho, mas não fui capaz de ajudá-lo.

— Poucos minutos atrás você disse que Billie devia ter se casado comigo.

— Vocês eram loucos um pelo outro.

— E o que aconteceu?

— Na verdade eu não sei. Depois da guerra vocês tiveram uma briga muito séria. O resto da turma não conseguiu desco­brir o motivo.

— Terei que perguntar a Billie.

— Acho que sim.

Luke pôs o livro de novo na estante.

— De qualquer forma, agora compreendo por que você não reagiu com total incredulidade à minha história.

— Sim — concordou Bern. — Creio que foi Anthony quem fez isso.

— Mas você pode imaginar a razão?

— Não tenho a menor idéia.

 

20:00

Se as variações de temperatura forem maiores que as esperadas, é possível que os transistores de germânio sofram superaquecimento, as baterias de mercúrio conge­lem e o satélite não consiga transmitir os dados para a Terra.

Billie sentou-se à penteadeira para retocar a pintura. Consi­derava que os olhos eram seu ponto forte e sempre os pintava cuidadosamente com delineador preto, sombra cinzenta e um pouco de rímel. Deixou a porta do quarto aberta e continuou ouvindo o tiroteio na televisão lá embaixo: Larry e Becky-Ma estavam assistindo a Wagon Train. Não se sentia disposta a sair naquela noite. Os eventos do dia haviam despertado fortes pai­xões. Estava furiosa por não ter conseguido a posição que desejava, desnorteada com o que Anthony fizera e confusa e ameaçada por sentir que a velha química entre ela própria e Luke ainda era forte e perigosa como sempre fora. De repente ela viu-se revendo seu relacionamento com Anthony, Luke, Bern e Harold, perguntando-se se teria tomado as decisões cor­retas na vida. Depois de tudo o que acontecera, a perspectiva de passar a noite assistindo ao Teatro Kraft na televisão ao lado de Harold parecia insípida, por mais que gostasse dele.

O telefone tocou.

Ela deu um pulo do banco e atravessou o quarto para pegar a extensão ao lado da cama, mas Larry já atendera no corredor. Ouviu a voz de Anthony dizer, “Aqui é a CIA. Washington está prestes a ser invadida por um exército de repolhos saltadores”.

Larry deu uma risadinha.

— Tio Anthony, é você!

— Se for procurado por um repolho não, repito, NÃO tente discutir com ele.

— Repolhos não falam!

— A única maneira de lidar com eles é espancá-los até a morte com pão fatiado.

— Você está inventando tudo isso! — Larry riu.

— Anthony — disse Billie —, estou na extensão.

— Vista seu pijama, Larry. OK?

— OK — concordou o garoto, desligando.

A voz de Anthony mudou.

— Billie?

— Pronto.

— Você queria falar comigo — com urgência. Pelo visto arrancou a pele do oficial de serviço.

— É, arranquei. Anthony, o que diabos você está querendo?

— Vai ter que fazer uma pergunta mais específica.

— Não enche o saco, Anthony, pelo amor de Deus. Eu podia dizer que você estava mentindo na última vez em que falamos, mas naquela hora eu não sabia qual era a verdade. Agora eu sei. Sei o que você fez com Luke no meu hospital ontem à noite.

Silêncio.

— Quero uma explicação — disse Billie.

— Não posso falar essas coisas pelo telefone. Se pudésse­mos nos encontrar um desses dias...

— Ao inferno com isso — ela não ia deixar que ele ganhasse tempo. — Quero saber a sua história agora, neste instante.

— Você sabe que não posso.

— Você pode fazer qualquer coisa que lhe dê na telha, de modo que não precisa fingir que as coisas se passam de outro modo.

Anthony protestou.

— Você devia confiar em mim. Somos amigos há duas décadas.

— Somos, e você me encrencou na primeira vez em que saímos.

Havia um sorriso na voz de Anthony quando ele perguntou:

— Você ainda está zangada por causa daquilo?

Billie abrandou.

— Com os diabos, Anthony, claro que não. Eu quero confiar em você. Afinal, você é o padrinho do meu filho.

— Explicarei tudo se você se encontrar comigo amanhã.

Ela quase concordou, mas lembrou-se do que ele fizera.

— Você não confiou em mim ontem à noite, confiou? Agiu pelas minhas costas, no meu próprio hospital.

— Já falei que posso explicar.

— Devia ter explicado antes de me enganar. Conte-me a verdade ou irei procurar o FBI assim que desligar. Você escolhe.

Era perigoso ameaçar homens — quase sempre os deixava mais obstinados. Mas ela sabia como a CIA odiava e temia a interferência do FBI, especialmente quando a Agência traba­lhava quase à margem da legalidade, o que acontecia pratica­mente o tempo todo. Os Federais, que prezavam ciumentamente seu direito exclusivo de caçar espiões dentro dos Estados Unidos, iam delirar com a chance de investigar atos ilegítimos da CIA em território americano. Se o que Anthony estava fa­zendo fosse estritamente correto, a ameaça de Billie era vazia. Mas se ele estivesse ultrapassando os limites da Lei, ficaria assustado.

Ele suspirou.

— Tudo bem, estou num telefone público e acho pouco provável que a linha esteja grampeada.

Ele fez uma pausa.

— Você talvez ache difícil de acreditar.

— Experimente.

— Pois bem, aqui vai. Luke é um espião, Billie.

Por um momento ela ficou abismada.

— Não seja ridículo.

— Ele é comunista, agente de Moscou.

— Pelo amor de Deus, Anthony! Se acha que vou acreditar nisso...

— Estou pouco me incomodando que você acredite ou não — o tom de voz de Anthony passou de repente a ser áspero, — Há anos que ele vem passando segredos para os soviéticos. Como é que você pensa que eles conseguiram pôr o Sputnik em órbita antes que o nosso satélite estivesse no laboratório? Eles não estão na nossa frente no campo científico, pelo amor de Deus! O que acontece é que se beneficiam de toda a nossa pesquisa juntamente com a deles. E Luke é o responsável.

— Anthony, tanto você quanto eu conhecemos Luke há vin­te anos. Ele nunca se interessou por política!

— É o melhor disfarce de todos.

Billie hesitou. Seria verdade? Sem dúvida que um espião sério iria fingir não ter interesse em política, ou até mesmo ser partidário dos Republicanos.

— Mas Luke não trairia seu país.

— Há quem traia. Lembre-se de que quando esteve com a Resistência Francesa, ele trabalhava com comunistas. Claro que naquele tempo eles estavam do nosso lado, mas é eviden­te que ele continuou depois da guerra. Pessoalmente acho que o motivo pelo qual Luke não se casou com você foi porque o casamento entraria em conflito com o trabalho dele para os Vermelhos.

— Ele se casou com Elspeth.

— É, mas nunca tiveram filhos.

Ela se sentou na escada, atônita.

— Você tem indícios?

— Eu tenho provas — planos ultra-secretos que ele deu a um conhecido elemento do KGB.

Billie estava desconcertada agora, sem saber em que acre­ditar.

— Mas mesmo que seja verdade — por que você apagou a memória de Luke?

— Para salvar a vida dele.

Agora é que ela ficou totalmente confusa.

— Não estou entendendo.

— Billie, nós íamos matá-lo.

— Quem ia matá-lo?

— Nós, a CIA. Você sabe que o Exército está para colocar em órbita o nosso primeiro satélite. Se este foguete falhar, os russos dominarão a corrida espacial pelo futuro previsível, da mesma forma que os britânicos dominaram a América por duzentos anos. Você tem que compreender que Luke era a pior ameaça ao poder e prestígio dos Estados Unidos desde o fim da guerra. A decisão de liquidá-lo foi tomada menos de uma hora depois de descobrirmos a verdade a seu respeito.

— Por que não levá-lo simplesmente a julgamento, como espião?

— E deixar que o mundo todo saiba que a nossa segurança é de tão má qualidade que os soviéticos vêm recebendo os segredos dos nossos foguetes há anos? Pense no que isso faria à influência americana, especialmente nos países subdesenvol­vidos que flertam com Moscou. Essa opção nem sequer foi cogitada.

— E o que aconteceu?

— Eu os persuadi a tentar isto. Fui direto ao topo. Ninguém sabe o que estou fazendo, exceto o Diretor da CIA e o Presidente. E teria funcionado, se Luke não tivesse sido um filho da mãe tão cheio de expedientes. Eu podia ter salvado Luke e mantido tudo em segredo. Se ao menos ele tivesse acre­ditado que perdera a memória após uma noite de bebedeira e vivesse por algum tempo a vida de um vagabundo, eu poderia ter mantido a coisa sem que ninguém soubesse. Nem ele mes­mo saberia que segredos entregou aos russos.

Billie cedeu a um momento de egoísmo.

— Você não hesitou em destruir minha carreira.

— Para salvar a vida de Luke? Achei que você não ia que­rer que eu sequer hesitasse.

— Não seja tão arrogante, este sempre foi o seu pior defeito.

— De qualquer modo, Luke estragou meu plano — com sua ajuda. Ele está com você agora?

— Não — Billie sentiu os pêlos da nuca se arrepiarem.

— Preciso falar com ele antes que se prejudique ainda mais. Onde ele está?

Agindo por instinto, ela mentiu.

— Não sei.

— Você não esconderia nada de mim, esconderia?

— Claro que sim. Você já disse que a sua organização quer matar Luke. Seria uma idiotice da minha parte lhe dizer onde ele está, se eu soubesse. Mas não sei.

— Billie, me escuta. Eu sou a única esperança dele. Diga-lhe para me ligar, se você quer salvar a vida dele.

— Vou pensar — disse Billie, mas Anthony já tinha desligado.

 

20:30

O compartimento onde ficam os instrumentos não tem portas ou janelas de acesso. Para trabalhar no equipamento em seu interior, os engenheiros de Cabo Canaveral têm de levantar toda a tampa. É complicado, mas economiza peso, um fator critico na luta para vencer a gravidade da Terra.

Luke descansou o telefone com a mão trêmula.

— Pelo amor de Deus, o que foi que ela falou? — perguntou Bern, aflito. — Você parece um fantasma.

— Anthony diz que sou um agente soviético — respondeu Luke.

Bern estreitou os olhos.

— E...?

— Quando a CIA descobriu, a decisão tomada foi de me matar, mas Anthony persuadiu-os que o resultado seria igual­mente efetivo se ele apagasse minha memória.

— Uma história vagamente plausível — disse Bern, com frieza.

Luke estava devastado.

— Jesus Cristo, seria possível uma coisa dessas?

— Com os diabos, não!

— Você não pode ter tanta certeza disso.

— Claro que posso.

Luke arriscou sentir um pouco de esperança.

— Como?

— Porque eu fui um agente soviético.

Luke olhou espantado para Bern. E agora?

— Poderíamos ter sido agentes, sem saber a respeito um do outro — disse.

Bern sacudiu a cabeça.

— Não. Você terminou minha carreira.

— Como assim?

— Quer mais um pouco de café?

— Não, obrigado, está me fazendo ficar tonto.

— Você está com uma aparência péssima. Quando comeu pela última vez?

— Billie me deu uns biscoitos. Esqueça isso, sim? Conte-me o que sabe.

Bern levantou-se.

— Vou fazer um sanduíche antes que você desmaie.

Luke deu-se conta de que estava dolorosamente faminto.

— É uma grande idéia.

Os dois homens foram para a cozinha. Bern abriu a gela­deira e pegou um pão de forma de centeio, um tablete de man­teiga, um pouco de carne de boi enlatada e uma cebola. A boca de Luke começou a aguar.

— Foi na guerra — disse Bern, enquanto passava manteiga em quatro fatias de pão. — A Resistência Francesa era dividida em gaullistas e comunistas e seus membros manobravam de olho em uma posição no pós-guerra. Roosevelt e Churchill queriam assegurar-se de que os comunistas não poderiam ven­cer uma eleição. Assim, os gaullistas recebiam todas as armas e munições.

— Como eu me sentia a esse respeito?

Bern arrumou em camadas a carne, a mostarda e os anéis de cebola no pão.

— Você não tinha sentimentos fortes a respeito da política francesa, só queria vencer os nazistas e voltar para casa. Mas eu tinha outras ações a realizar. Queria equilibrar o jogo.

— Como?

— Informei os comunistas de um lançamento por pára-quedas que estávamos esperando, de modo que eles pudessem nos emboscar e ficar com o nosso material bélico.

Ele sacudiu a cabeça melancolicamente.

— Eles meteram os pés pelas mãos em grande estilo. De­viam ter nos encontrado quando estivéssemos voltando para a base, aparentemente por acaso e aí então exigir uma divisão amigável. Em vez disso, nos atacaram no ponto de lançamen­to, assim que os fardos bateram no chão. Claro que você soube que tínhamos sido traídos. E eu era o suspeito óbvio.

— O que foi que eu fiz?

— Propôs um trato. Eu tinha que parar de trabalhar para Moscou, imediatamente, e você ficaria quieto a respeito do que eu fizera, para sempre.

— E...?

Bern deu de ombros.

— Nós dois cumprimos nossas promessas. Mas não penso que você tenha me perdoado. De qualquer modo, nossa amiza­de nunca mais foi a mesma.

Um gato cinzento apareceu do nada e miou. Bern jogou uma fatia de carne no chão. O gato comeu delicadamente e lambeu as patas.

— Se eu fosse comunista teria protegido você — disse Luke.

— Sem dúvida nenhuma.

Luke começou a acreditar na própria inocência.

— Mas eu posso ter me tornado comunista depois da guerra.

— De jeito nenhum. O comunismo é algo que acontece quando você é jovem ou não acontece mais.

Fazia sentido.

— Mas eu posso ter espionado por dinheiro.

— Você não precisa de dinheiro. Sua família é rica.

Estava certo. Elspeth já lhe dissera isso.

— Então Anthony está enganado.

— Ou mentindo — Bern cortou os sanduíches e os arrumou em dois pratos que não combinavam. — Refrigerante?

— Claro.

Bern pegou duas garrafas de Coca-Cola na geladeira e abriu. Entregou a Luke um prato e uma garrafa, pegou a sua e liderou o trajeto de volta para a sala.

Luke sentia-se como um lobo faminto e terminou o sanduí­che com poucas mordidas. Bern observou, divertido.

— Toma aqui o meu — disse.

Luke sacudiu a cabeça.

— Não, obrigado.

— Vá em frente, pegue. Estou mesmo precisando fazer uma dieta.

Luke pegou o sanduíche de Bern e atacou.

— Se Anthony está mentindo — perguntou Bern — qual é a verdadeira razão dele para fazer você perder a memória?

Luke engoliu uma bocada do sanduíche.

— Tem que ter ligação com a minha súbita partida de Cabo Canaveral.

Bern concordou.

— De outra forma seria uma coincidência excepcional.

— Devo ter descoberto alguma coisa muito importante, tão importante que tive que ir correndo contar no Pentágono.

Bern franziu a testa, preocupado.

— Por que você não contou ao pessoal do Cabo Canaveral o que tinha descoberto?

Luke pensou um pouco.

— Deve ter sido porque eu não confiava em nenhum deles.

— OK. E então, antes de você chegar no Pentágono, Antho­ny o interceptou.

— Exato. E acho que confiei nele e lhe contei o que desco­brira.

— E aí?

— Aí ele achou que era tão importante que teve de apagar da minha memória para se assegurar de que o segredo jamais seria contado.

— Gostaria de saber que diabo de segredo era esse.

— Quando eu souber, vou entender o que me aconteceu.

— Onde você vai começar?

— Acho que meu primeiro passo será ir ao meu quarto de hotel e examinar minhas coisas. Talvez encontre uma pista.

— Se Anthony apagou sua memória, é bem possível que tenha agido também nas suas coisas.

— Ele teria destruído as pistas óbvias, mas pode ser que tenha ficado algo que ele não tenha reconhecido como relevan­te. De qualquer modo, tenho que verificar.

— E depois?

— O único outro lugar seria Cabo Canaveral. Pegarei um avião hoje à noite... — ele consultou o relógio. — Ou amanhã de manhã.

— Passe a noite aqui — disse Bern.

— Por quê?

— Não sei, não gosto da idéia de você passando a noite sozinho. Vá ao Carlton, pegue suas coisas e volte para cá. Eu o levarei ao aeroporto de manhã.

Luke aquiesceu. Sentindo-se um pouco sem graça, disse:

— Você tem sido um baita amigão neste caso.

Bern encolheu os ombros.

— Temos muito tempo de estrada.

Luke não se satisfez com isso.

— Mas você acabou de me dizer que depois do incidente na França a nossa amizade nunca mais foi a mesma.

— É verdade — Bern encarou Luke com total franqueza. — Sua idéia era que um homem que o traiu uma vez seria capaz de traí-lo duas vezes.

— Posso acreditar nisso — comentou Luke, pensativo. — Eu estava errado, não estava?

— Sim — respondeu Bern. — Estava errado.

 

21:30

O compartimento que contém os instrumentos tende a superaquecer antes da decolagem. A solução deste problema é típica do estilo de engenharia sem refinamento, mas efetivo, responsável pelo projeto Explorer. Um recipiente com gelo seco é preso eletromagneticamente à superfície externa do foguete. Um termostato liga um ven­tilador sempre que o compartimento fica quente. Pouco antes do lançamento, o ímã é desligado e o mecanismo de resfriamento cai no solo.

O Cadillac Eldorado amarelo de Anthony estava estacionado na rua K entre a Quinze e a Dezesseis, atrás da fila dos táxis que esperavam ser chamados pelo porteiro do Carlton Hotel. Sentado no carro, Anthony tinha uma clara visão da pista de acesso de automóveis, e da entrada coberta, intensamente ilu­minada, onde saltavam ou embarcavam os hóspedes. Pete esta­va no hotel, no quarto que alugara, esperando um telefonema de um dos agentes que procuravam Luke em toda a cidade.

Uma parte de Anthony esperava que ninguém ligasse, que Luke, de algum modo, conseguisse escapar. Assim não preci­saria tomar a mais dolorosa decisão de sua vida. A outra parte de Anthony estava desesperada para descobrir onde se encon­trava Luke e resolver logo o caso com ele.

Luke era um velho amigo, um homem decente, um marido leal e um cientista fantástico. No fim, não fazia diferença. Durante a guerra todos eles tinham matado homens bons que por acaso estavam do lado errado. Luke estava do lado errado na Guerra Fria. A coisa só ficava tão difícil porque o conhecia.

Pete saiu correndo do hotel. Anthony abaixou o vidro da janela do Cadillac.

— Ackie telefonou — disse Pete. — Luke está no apartamen­to da avenida Massachusetts, casa de Bernard Rothsten.

— Até que enfim — disse Anthony. Ele tinha colocado agentes nas proximidades do prédio de Bern e da casa de Billie, antecipando que Luke poderia procurar seus velhos amigos em busca de socorro, e a notícia lhe trouxe a duvidosa satisfação de ter acertado.

— Quando ele sair — acrescentou Pete — Ackie o seguirá de moto.

— Ótimo.

— Acha que ele virá para cá?

— É possível. Temos que esperar.

Havia mais dois agentes no saguão do hotel que alertariam Anthony no caso de Luke usar uma entrada diferente.

— A outra grande possibilidade é o aeroporto.

— Temos quatro homens lá.

— Tudo bem. Acho que temos todas as possibilidades cobertas.

Pete balançou a cabeça.

— Voltarei para o telefone.

Anthony ponderou sobre a cena que se desenrolaria a seguir. Luke se mostraria confuso e incerto, cauteloso, mas ansioso para interrogar Anthony. Anthony tentaria levar Luke para um lugar qualquer onde ficassem sozinhos e então basta­riam poucos segundos para que ele tivesse uma oportunidade de sacar a arma com silenciador que carregava no bolso de dentro do sobretudo.

Luke faria uma tentativa de último segundo para viver. Não era de sua natureza aceitar a derrota. Saltaria sobre Anthony, pularia pela janela ou correria para a porta. Anthony se manteria frio; já tinha matado antes, conservaria a calma. Empunharia a arma firmemente e puxaria o gatilho, mirando no peito de Luke, disparando diversas vezes, confiante em detê-lo. Luke cairia. Anthony se aproximaria dele, verificaria seu pulso e, se necessário, administraria o golpe de misericór­dia. E assim, seu mais antigo amigo estaria morto.

Não haveria problema quanto a isso. Anthony tinha a pro­va dramática da traição de Luke, as cópias fotográficas das plantas com a letra dele. Não podia provar que tivessem realmente sido tiradas de um agente soviético, mas sua palavra era boa o bastante para a CIA.

Largaria o corpo em algum lugar. Seria encontrado, claro, e haveria uma investigação. Mais cedo ou mais tarde a polícia descobriria que a CIA estivera interessada na vítima e começa­ria a fazer perguntas, mas a Agência tinha experiência em evi­tar investigações. Diriam à polícia que o vínculo da CIA com a vítima era uma questão de segurança nacional e por isso mes­mo secreta, mas que nada tinha a ver com o assassinato.

Quem quer que questionasse isso — policial, jornalista, político — seria submetido a uma investigação de lealdade. Teria seus amigos, vizinhos e parentes entrevistados por agen­tes que fariam referências sombrias a suspeitas ligações comu­nistas. A investigação não chegaria a qualquer conclusão, mas destruiria a credibilidade da pessoa.

Uma agência secreta pode tudo, pensou ele, com sinistra confiança.

Um táxi parou na entrada para carros do hotel e Luke sal­tou. Estava usando um sobretudo azul-marinho e um chapéu cinzento que devia ter comprado ou roubado naquele dia. Do outro lado da rua Ackie Horwitz parou sua motocicleta. Anthony saltou e dirigiu-se para a porta principal do hotel.

Tinha um ar tenso, mas sua expressão era de furiosa determinação. Ao pagar, deu uma espiada em Anthony, mas não o reconheceu. Disse para o motorista guardar o troco e entrou no hotel. Anthony o seguiu.

Eram da mesma idade, trinta e sete anos. Tinham se conhe­cido em Harvard, com dezoito anos, meia vida atrás.

Que viria a terminar nisto, pensou Anthony, amargamente. Que viria a terminar nisto.

 

Luke sabia que tinha sido seguido desde o apartamento de Bern por um homem de motocicleta e estava muito tenso, com todos os sentidos em alerta.

O saguão do Carlton parecia uma grande sala de visitas com inúmeras reproduções de mobiliário francês. Do lado oposto à entrada, as mesas da recepção e do gerente ficavam em um espaço recuado, de maneira a não estragar a forma retangular do saguão. Duas mulheres de casacos de pele con­versavam com um grupo de homens de smoking, perto da entrada do bar. Mensageiros de libré e funcionários de fraque trabalhavam com silenciosa eficiência. Era um lugar de luxo, destinado a tranqüilizar os nervos dos viajantes estressados. Nada fez por Luke.

Examinando o salão, ele identificou rapidamente dois homens que tinham ar de agentes secretos. Um estava sentado em um sofá elegante, lendo um jornal, e o outro, de pé junto do elevador, fumava um cigarro. Nenhum dos dois parecia se ajustar àquele ambiente. Estavam vestidos para trabalhar, de terno e capa de chuva, e suas camisas e gravatas tinham uma aparência mais apropriada à luz do dia. Definitivamente não tinham saído para uma noitada em restaurantes e bares caros.

Pensou em sair de novo — mas aonde isto o levaria? Aproximou-se da recepção, deu o nome e pediu a chave do quarto. Quando se virou para sair, um estranho falou com ele:

— Ei, Luke!

Era o homem que entrara no hotel atrás dele. Não parecia um agente, mas Luke reparara vagamente em sua aparência: alto, mais ou menos da sua altura, e poderia ter um ar distinto, se estivesse vestido com mais cuidado. O sobretudo de pêlo de camelo, embora caro, era velho e puído, os sapatos pareciam nunca ter sido engraxados e o cabelo precisava de um corte. No entanto, falava com autoridade.

— Lamento, mas não sei quem você é — disse Luke. — Perdi a memória.

— Anthony Carroll. Que bom que finalmente consegui encontrá-lo!

Ele estendeu a mão para Luke.

Luke ficou tenso. Ainda não sabia se Anthony era inimigo ou amigo. Apertou a mão dele e disse:

— Tenho uma porção de perguntas para lhe fazer.

— E eu estou pronto para respondê-las.

Luke fez uma pausa, encarando fixamente o outro homem, sem saber por onde começar. Anthony não parecia ser do tipo capaz de trair um velho amigo. Tinha um rosto franco e inteli­gente, não bonito, mas atraente. No final, Luke se decidiu.

— Como diabos você pôde fazer uma coisa dessas comigo?

— Fui obrigado — pelo seu próprio bem. Eu estava tentando salvar sua vida.

— Eu não sou espião.

— Não é tão simples assim.

Luke examinou Anthony, tentando adivinhar o que se pas­sava em sua mente. Não foi capaz de concluir se estava ou não falando a verdade. Anthony parecia sério. Não parecia dissi­mulado. Mesmo assim, Luke sentiu que estava ocultando algu­ma coisa.

— Ninguém acredita na sua história de que eu trabalhava para Moscou.

— Quem é ninguém?

— Nem Bern nem Billie.

— Eles não sabem de nada.

— Eles me conhecem.

— Eu também.

— O que você sabe que eles não sabem?

— Vou lhe dizer. Mas não posso falar aqui. O que tenho a di­zer é secreto. Vamos ao meu escritório? Fica a cinco minutos.

Luke não ia ao escritório de Anthony, não antes de muitas perguntas serem respondidas de forma a satisfazê-lo. Mas dava para ver que o saguão do Carlton não era um bom lugar para uma conversa secreta.

— Vamos para a minha suíte — disse. Assim se afastaria dos demais agentes, permanecendo no controle. Anthony sozinho não parecia capaz de dominá-lo.

Anthony hesitou e depois pareceu decidir-se.

— Claro — disse, concordando.

Atravessaram o saguão e entraram no elevador. Luke che­cou o número na chave do seu apartamento: 530.

— Quinto andar — disse para o ascensorista.

O homem fechou a porta do elevador e acionou a alavanca de comando.

Os dois não falaram durante a subida. Luke examinou os trajes de Anthony: o casaco velho, o terno amarrotado, a gra­vata medíocre. Surpreendentemente, ele ainda conseguia usar aquelas roupas desleixadas com uma certa arrogância.

De repente, Luke viu que o tecido fino do casaco cedia ligeiramente do lado direito. Havia um objeto pesado no bolso.

Luke gelou de medo. Tinha cometido um sério erro. Não imaginara que Anthony pudesse estar armado.

Tentando conservar o rosto inexpressivo, Luke pôs-se a pensar furiosamente. Poderia Anthony matá-lo ali mesmo no hotel? Se esperasse até que estivessem na suíte, ninguém veria. E o barulho do tiro? A arma podia ter um silenciador.

Quando o elevador parou no quinto andar, Anthony desabotoou o casaco.

Para sacar mais rápido, pensou Luke.

Saltaram. Luke não sabia para onde ir, mas Anthony, confiantemente, virou à direita. Já devia ter estado no quarto de Luke.

Luke suava debaixo do sobretudo. Tinha a impressão de que aquele tipo de coisa já tinha lhe acontecido, mais de uma vez, mas muito tempo atrás. Devia ter ficado com a arma do policial cujo dedo quebrara. Mas não tinha idéia, às nove horas da manhã, daquilo em que estava envolvido: pensava que sim­plesmente havia perdido a memória.

Tentou manter-se calmo. Ainda era um contra o outro. Anthony tinha a arma, mas Luke adivinhara suas intenções. Quase elas por elas.

Caminhando ao longo do corredor, o coração disparado, Luke procurou alguma coisa pesada com que pudesse atingir Anthony: uma jarra, um cinzeiro de vidro, um quadro com moldura sólida. Nada.

Tinha que fazer algo antes que entrassem.

Devia tentar desarmar Anthony? Podia conseguir, mas era arriscado. A arma podia disparar durante a luta e não era possível adivinhar para qual dos dois estaria apontada no momen­to crucial.

Chegaram na porta e Luke pegou sua chave. Uma gota de suor escorreu pelo seu rosto. Se entrasse, estava morto.

Destrancou a porta e abriu-a.

— Entre — disse. Chegou para o lado e abriu caminho.

Anthony hesitou, mas passou por Luke e entrou.

Luke meteu o pé em torno do tornozelo direito de Anthony, colocou ambas as mãos nas suas costas e empurrou com força. Anthony saiu voando e bateu numa mesinha estilo regência, derrubando um grande jarro cheio de narcisos. Em desespero, agarrou-se na base de um abajur de pé com a cúpula cor-de-rosa, mas o abajur caiu com ele.

Luke abriu a porta e correu para salvar a vida. Precipitou-se corredor afora, mas o elevador já tinha ido. Passou pela por­ta de incêndio, pegou a escada e desceu correndo. No andar seguinte esbarrou numa criada carregando uma pilha de toa­lhas. Pediu desculpas enquanto ela gritava e as toalhas voavam por toda a parte.

Poucos segundos mais tarde chegava no pé da escada, num corredor estreito. Dali era possível ver o saguão, através de um pequeno arco que encimava um curto lanço de escadas.

 

Anthony sabia que errara entrando no quarto em primeiro lugar, mas Luke não lhe deixara alternativa. Por sorte não tinha ficado ferido seriamente. Após um momento atônito, ele se recuperou. Virou-se, dirigiu-se à porta e abriu-a. Ainda teve tempo de ver Luke correndo. Quando saiu atrás dele, Luke virou-se e desapareceu, presumivelmente pela porta da escada.

Anthony seguiu-o, correndo tão depressa quanto era capaz, mas com medo de que talvez não conseguisse pegar Luke, que no mínimo estava tão em forma quanto ele. Será que Curtis e Malone, no saguão, teriam o bom senso de prendê-lo?

No andar seguinte Anthony foi momentaneamente retido por uma criada de joelhos no chão, pegando toalhas. Anthony imaginou que Luke devia ter esbarrado nela. Praguejou e reduziu o passo para contorná-la. Ao fazê-lo, ouviu o elevador che­gando. Seu coração deu um pulo: talvez estivesse com sorte.

Quem saiu do elevador foi um casal muito bem vestido, obviamente tanto ele quanto ela meio altos por causa de algu­ma festa no restaurante. Anthony precipitou-se dentro do ele­vador e disse:

— Térreo e bem depressa.

O homem fechou as portas bruscamente e acionou a ala­vanca. Anthony ficou olhando, impotente, a sucessão dos números que iam se iluminando em ordem decrescente no visor. Finalmente o elevador chegou no térreo. A porta desli­zou para um lado e Anthony saltou.

 

A escada que Luke desceu atingia o saguão ao lado dos eleva­dores. O coração dele ficou pequeno. Os dois agentes que reconhecera antes agora estavam de pé diante da entrada prin­cipal, bloqueando a saída. Um momento mais tarde, a porta do elevador se abriu e Anthony saltou.

Tinha que tomar uma decisão imediata: lutar ou fugir.

Não queria lutar com três homens. Quase certamente o subjugariam. A segurança do hotel ia se meter. Anthony mos­traria sua identidade da CIA e todo mundo cederia. Luke ter­minaria preso.

Virou-se e saiu correndo pelo corredor, entrando nas profundezas do hotel. Às suas costas, ouvia os passos de Anthony, perseguindo-o. Tinha que haver uma porta nos fundos — suprimentos não podem ser entregues na entrada principal.

Passou por uma cortina e viu-se num pequeno pátio deco­rado como um café ao ar livre da região do Mediterrâneo. Alguns casais dançavam na minúscula pista de dança. Evoluindo por entre as mesas, lançou-se na direção da porta de saída e seguiu correndo pelo estreito corredor à esquerda. Imaginou que já devia estar perto dos fundos do hotel, mas ain­da não via uma saída.

Saiu em uma espécie de despensa, onde eram aplicados os toques finais em pratos preparados em outros lugares. Meia dúzia de garçons uniformizados aqueciam comida em réchauds e arrumavam bandejas. No meio do aposento havia uma escada que descia. Luke empurrou os garçons e desceu pela escada, ignorando a voz que exclamou:

— Desculpe, senhor! Não pode descer por aí!

Quando Anthony apareceu correndo atrás de Luke, a mes­ma voz fez-se ouvir, indignada:

— O que estão pensando que é isso aqui — a Union Station?

No porão ficava a cozinha principal, um purgatório de suor onde dezenas de chefs cozinhavam para centenas de pessoas. Jatos de gás chamejavam, nuvens de vapor se agitavam, panelões borbulhavam. Garçons gritavam com cozinheiros e cozi­nheiros gritavam com auxiliares. Todos estavam ocupados demais para prestar atenção em Luke enquanto ele ia se des­viando das geladeiras e fogões, das pilhas de pratos e dos imensos depósitos de legumes.

Na parte de trás da cozinha encontrou uma escada que subia. Devia levar para a entrada de serviço. Caso contrário, estaria encurralado. Resolveu correr o risco e subiu correndo a escada. Lá em cima, passou por uma porta e viu-se respirando o ar frio da noite.

Estava num pátio escuro. Uma lâmpada mortiça em cima da porta mostrou-lhe gigantescos depósitos de lixo e pilhas de engradados que pareciam conter frutas. A cinqüenta metros à sua direita havia uma cerca de arame alta com um portão fechado e, do outro lado, uma rua que seu senso de direção lhe dizia ser a Quinze.

Correu para o portão. Ouviu a porta às suas costas bater e adivinhou que seria Anthony atingindo também o pátio. E ago­ra os dois estavam sozinhos.

Quando chegou no portão viu que estava fechado e tranca­do com um enorme cadeado de aço. Se ao menos passasse um pedestre por ali, Anthony teria medo de atirar. Mas não havia ninguém.

O coração batendo com força, Luke galgou a cerca. Quando atingiu o topo, ouviu o discreto tossir de uma pistola dotada de silenciador. Mas não sentiu nada. Era um tiro difícil, o alvo se movendo a cinqüenta metros de distância, no escuro. Mas não chegava a ser um tiro impossível. Ele passou por cima da cerca e a pistola tossiu de novo. Ele cambaleou e caiu no chão. Ouviu um terceiro tiro abafado. Pôs-se de pé num pulo e saiu correndo. A pistola não se fez ouvir de novo.

Olhou para trás quando chegou na esquina. Anthony não era visível em parte alguma.

Tinha conseguido fugir.

 

Anthony sentiu a perna bamba. Apoiou-se na parede fria para se firmar. O pátio cheirava a verduras podres. Era como se esti­vesse cheirando a corrupção.

Foi a coisa mais difícil que já fizera. Por comparação, matar Albin Moulier tinha sido fácil. Ao apontar a arma para o vulto de Luke galgando uma cerca de arame, sentira-se quase incapaz de puxar o gatilho.

Aquele fora o pior desfecho possível. Luke ainda estava vivo, e, tendo sido alvo de tiros, estava totalmente alerta, deter­minado a descobrir a verdade.

A porta da cozinha abriu-se de repente e Malone e Curtis apareceram. Anthony enfiou discretamente a pistola no bolso de dentro. E disse, arquejante:

— Por cima da cerca. Vão atrás dele.

Sabia que não iam conseguir pegar Luke.

Quando os dois desapareceram, começou a procurar os cartuchos das balas.

 

22:30

O projeto do foguete é baseado na bomba V2 usada contra Londres durante a guer­ra. O motor, inclusive, parece o mesmo. Os medidores de aceleração, relés e giroscópios são todos da V2. A bomba dos propelentes usa peróxido de hidrogênio passado sobre um agente canalizador de cádmio, liberando a energia que impulsiona uma turbina — e isto também vem da V2.

Harold Brodsky preparou um bom martíni seco e o empadão de atum da sra. Riley provou ser tão gostoso quanto o prome­tido. Como sobremesa, Harold serviu torta de cereja e sorvete. Billie sentiu-se culpada. Ele se esforçava tanto para agradá-la, mas o tempo todo a cabeça dela estava em Luke e Anthony, o passado que tinham em comum e seu intrigante enredo novo.

Enquanto Harold fazia o café, ela telefonou para casa e verificou se estava tudo bem com Larry e Becky-Ma. Depois Harold sugeriu que passassem para a sala de estar e assistissem à televisão. Ele pegou uma garrafa de conhaque francês carís­simo e serviu doses fartas em dois cálices apropriados e exageradamente grandes. Estaria tentando reforçar sua coragem, perguntou-se Billie, ou reduzir a resistência dela? Inalou os vapores do conhaque, mas não bebeu nada.

Assistiram a um filme de aventuras chamado Run, Joe, Run! em que Jan Sterling fazia uma garçonete envolvida com o ex-gângster Alex Nichol. Billie não conseguiu se interessar pelos perigos imaginários da tela. Seu cérebro insistia em desviar-se para o mistério do que Anthony fizera com Luke. Na OSS eles tinham violado todos os tipos de leis, e Anthony ain­da estava metido com trabalhos clandestinos, mas assim mes­mo Billie ficara chocada por ele ter ido tão longe. Não seria o caso de serem aplicadas regras diferentes em tempo de paz?

E qual seria o motivo? Bern telefonara para contar a confissão que fizera a Luke e com isso confirmara o que todos os instintos de Billie lhe afirmavam, que Luke não podia ser espião. Mas Luke acreditava nisso? Caso contrário, qual seria a verdadeira razão para ele ter feito o que fizera?

Harold desligou a televisão e serviu-se de outro conhaque.

— Tenho pensado no nosso futuro — disse.

Billie sentiu o coração ficar pequenino. Ele ia propor casamento. Se o tivesse feito na véspera, teria aceitado. Mas hoje mal podia pensar nisso.

Harold segurou sua mão.

— Eu a amo — disse. — Nós nos damos bem, temos os mesmos interesses e cada um de nós tem um filho — mas não é por isso. Acredito que eu ia querer me casar com você mesmo que você fosse uma garçonete que mascasse chiclete e gostasse do Elvis Presley.

Billie deu uma risada.

Ele continuou.

— Eu simplesmente adoro você, por nenhuma outra razão além de você ser você. Sei que é um sentimento real porque me aconteceu antes, uma única vez, com Lesley. Eu a amei com todo meu coração até que ela me foi tirada. Assim sendo, não tenho a menor dúvida. Amo você e quero que sejamos felizes para sempre.

Ele fez uma pausa, encarou-a e perguntou:

— Como se sente quanto a isso?

Ela suspirou.

— Gosto de você. Gosto de ir para a cama com você. Acho que seria ótimo.

Ele ergueu uma sobrancelha ao ouvir aquilo, mas não a interrompeu.

— E não posso deixar de pensar em como a vida seria mui­to mais fácil se eu tivesse alguém com quem compartilhar minhas aflições.

— Essa parte é boa.

— Ontem teria sido ótimo. Eu teria dito sim, amo você, va­mos nos casar. Mas hoje eu encontrei alguém do meu passado e me lembrei como era estar apaixonada aos vinte e um anos.

Ela lhe dirigiu um olhar muito franco.

— Não me sinto assim a respeito de você, Harold.

Ele não ficou totalmente desencorajado.

— Quem se sente, na nossa idade?

— Talvez você tenha razão.

Ela gostaria de se sentir loucamente apaixonada de novo. Mas era um desejo tolo para uma divorciada com um filho de sete anos. Para ganhar um pouco de tempo, levou o cálice de conhaque aos lábios.

A campainha da porta soou.

O coração de Billie disparou.

— Quem diabo será? — perguntou Harold, furioso. — Espero que Sidney Bowman não queira me pedir o macaco do meu carro emprestado a esta hora da noite.

Ele se levantou e foi atender a porta.

Billie sabia quem era. Descansou o cálice de conhaque intocado e se levantou.

Ouviu a voz de Luke na porta.

— Preciso falar com a Billie.

Ela gostaria de saber por que se sentiu tão feliz.

— Não sei se ela quer ser perturbada a uma hora destas — Billie ouviu a voz de Harold dizendo.

— É importante.

— Como sabia que ela estava aqui?

— A mãe dela me falou. Desculpe, Harold, mas não tenho tempo a perder.

Billie ouviu uma batida, seguida por um protesto de Ha­rold e adivinhou que Luke forçara a entrada. Ela dirigiu-se até a porta e deu uma olhada no hall.

— Vamos com calma, Luke — disse. — Esta casa é de Harold.

Luke rasgara o casaco, perdera o chapéu e parecia muito abalado.

— O que foi que aconteceu agora? — perguntou ela.

— Anthony atirou em mim.

Billie ficou chocada.

— Anthony? Meu Deus, o que foi que deu nele? Anthony atirou em você?

Harold pareceu ficar assustado.

— Que negócio é esse de atirar?

Luke ignorou-o.

— Está na hora de contar a alguém que tenha autoridade o que está acontecendo — disse a Billie. — Vou ao Pentágono. Mas estou preocupado com a possibilidade de não acreditarem em mim. Você quer ir comigo para me ajudar?

— Claro — respondeu ela, pegando o casaco no cabide do hall.

— Billie! — exclamou Harold. — Pelo amor de Deus — nós estávamos no meio de uma conversa muito importante.

— Eu realmente preciso de você — insistiu Luke.

Billie hesitou. Era muito duro para Harold. Ele obviamen­te vinha planejando aquele momento já havia algum tempo. Mas a vida de Luke estava em perigo.

— Sinto muito — disse para Harold. — Mas eu tenho que ir.

Ela ergueu o rosto para ser beijada, mas ele virou a cara.

— Não fica assim — disse Billie. — Vejo você amanhã.

— Fora da minha casa, vocês dois! — exclamou ele, furioso.

Billie saiu, com Luke atrás dela, e Harold bateu a porta.

 

23:00

O programa Jupiter custou 40 milhões de dólares em 1956 e 140 em 1957. Em 1958 a expectativa é que os gastos sejam superiores a 300 milhões.

Anthony achou papel de carta do hotel na escrivaninha do quar­to que Pete alugara. Pegou um envelope, tirou do bolso três balas amassadas e três cartuchos, correspondentes aos tiros que dera em Luke, e colocou no envelope, que fechou e colocou no bolso. Iria se livrar daquilo na primeira oportunidade.

O que estava fazendo era controle de danos. Tinha muito pouco tempo, mas era preciso ser meticuloso. Precisava apagar todos os vestígios daquele incidente. O trabalho o ajudou a esquecer o asco de si próprio que causava um gosto tão amar­go em sua boca.

O gerente de serviço entrou no quarto com um ar furioso. Era um homem pequeno, elegante e careca.

— Sente-se, por favor, sr. Suchard — disse Anthony, mostrando ao homem sua identidade da CIA.

— CIA! — exclamou Suchard, sua indignação começando a murchar.

Anthony puxou um cartão da carteira.

— Aqui diz Departamento de Estado, mas sempre poderá me encontrar neste telefone, se precisar de mim.

Suchard pegou o cartão cuidadosamente, como se achasse que podia explodir a qualquer momento.

— O que posso fazer pelo senhor, sr. Carroll?

Ele tinha um ligeiro sotaque, e Anthony achou que talvez fosse suíço.

— Primeiro quero me desculpar pela pequena briga baru­lhenta que tivemos algum tempo antes.

Suchard balançou a cabeça formalmente. Ele não ia dizer que estava bem.

— Por sorte, foram poucos os hóspedes que notaram algu­ma coisa. Apenas o pessoal da cozinha e uns poucos garçons viram o senhor perseguindo aquele cavalheiro.

— Fico satisfeito de não termos perturbado muito seu exce­lente hotel, mesmo que a causa tenha sido uma questão de segurança nacional.

Suchard ergueu ambas as sobrancelhas em sinal de surpresa.

— Segurança nacional?

— Naturalmente que não posso lhe dar os detalhes...

— Naturalmente.

— Mas espero poder contar com a sua discrição.

Os profissionais da hotelaria orgulham-se particularmente de serem pessoas discretas e Suchard balançou com vigor a cabeça.

— Realmente, pode contar.

— Pode não ser necessário relatar o incidente para o seu chefe imediato, o gerente-geral.

— Possivelmente...

Anthony puxou um rolo de notas.

— O Departamento de Estado tem um pequeno fundo para compensar casos como este.

Ele tirou uma nota de vinte, que Suchard aceitou.

— E se outros membros do quadro funcional do hotel se sentirem descontentes, talvez...

Ele contou devagar quatro notas de vinte que passou às mãos de Suchard.

Era uma gorjeta imensa para um gerente auxiliar.

— Muito obrigado, senhor. Tenho certeza de que podemos satisfazer suas necessidades.

— Se alguém lhe fizer perguntas, talvez o melhor seja dizer que não viu nada.

— Naturalmente.

Suchard levantou-se.

— Se houver mais alguma coisa...

— Entrarei em contato — Anthony fez um gesto com a cabeça dispensando-o, e Suchard foi embora.

Pete entrou.

— O chefe da segurança em Cabo Canaveral é o coronel Bill Hide — disse ele. — Está hospedado no Starlite Motel.

Ele entregou a Anthony um pedaço de papel com um número de telefone e saiu de novo.

Anthony discou o número e conseguiu a ligação para o quarto de Hide.

— Aqui é Anthony Carroll, CIA, Divisão de Serviços Técnicos — disse ele.

Hide falou devagar e com um jeito não caracteristicamente militar, dando a impressão de já ter tomado uns drinques.

— Bem, o que posso fazer pelo senhor, sr. Carroll?

— Estou ligando por causa do dr. Lucas.

— Oh, sim?

Ele pareceu ligeiramente hostil e Anthony decidiu amaciá-lo.

— Gostaria muito de um conselho seu, se pudesse me ceder um minuto nessa hora tão tardia, coronel.

Hide entusiasmou-se.

— Claro, o que estiver a meu alcance.

Assim era melhor.

— Acho que o senhor sabe que o dr. Lucas tem se compor­tado estranhamente, o que é preocupante em um cientista de posse de informações secretas.

— Com certeza que sim.

Anthony queria que Hide se sentisse no comando.

— Como o senhor definiria o estado mental dele?

— Parecia normal na última vez em que o vi, mas falei com ele poucas horas atrás e me disse que perdeu a memória.

— Há mais. Ele roubou um carro, assaltou uma casa, agre­diu um policial, coisas assim.

— Meu Deus, ele está em pior estado do que eu pensei.

Hide estava acreditando, pensou Anthony, aliviado. Conti­nuou pressionando.

— Achamos que ele não está tendo um comportamento racional, mas o senhor saberia avaliar melhor. O que diria que está acontecendo?

Anthony prendeu a respiração, esperando ansioso a res­posta certa.

— Bem, penso que ele deve estar sofrendo um colapso ner­voso.

Aquilo era exatamente o que Anthony queria que ele acreditasse, só que agora Hide pensava que era uma idéia sua. E passou a querer convencer Anthony.

— Olha só, sr. Carroll, o Exército não iria empregar um maluco para trabalhar num projeto secretíssimo. Normalmente Luke é tão sadio quanto eu ou o senhor. Obviamente alguma coisa o desestabilizou.

— O dr. Lucas parece pensar que há uma conspiração montada contra ele, mas o senhor está dizendo que não devemos acreditar nisso.

— Nem por um minuto.

— De modo que temos que tratar deste assunto com muito cuidado. Quer dizer, não devemos alertar o Pentágono.

— Puxa vida, não — concordou Hide, preocupado. — Na verdade, é melhor que eu telefone para lá e avise ao pessoal que Luke parece não estar bom da cabeça.

— Como queira.

Pete entrou e Anthony levantou um dedo para que esperas­se. Em seguida abrandou a voz e falou no bocal.

— Por acaso, sou velho amigo do dr. e da sra. Lucas. Vou tentar persuadir Luke a procurar ajuda psiquiátrica.

— Parece uma boa idéia.

— Bem, muito obrigado, coronel. O senhor me deixou tran­qüilo e nós agiremos segundo as linhas que sugeriu.

— Não seja por isso. Se houver alguma coisa que queira me perguntar ou discutir comigo, telefone a qualquer hora.

— Fique certo que eu ligo — Anthony desligou.

Pete indagou:

— Ajuda psiquiátrica?

— Isso foi só para os ouvidos do coronel Hide.

Anthony examinou a situação. Não havia indícios ali no hotel. Tinha manobrado para o Pentágono se colocar contra qualquer relatório que Luke pudesse fazer. Só restava então o hospital de Billie.

Ele se levantou.

— Voltarei em uma hora — disse. — Quero que fique aqui. Mas não lá embaixo no saguão. Pegue Malone e Curtis e su­borne um garçom do serviço de quarto para deixar vocês entra­rem na suíte. Tenho o pressentimento de que ele voltará.

— E se voltar?

— Não o deixe fugir de novo — não importa como.

 

Meia-noite

O Jupiter C usa Hydyne, um combustível secreto altamente energético, que é 12% mais potente que o álcool usado nos mísseis padronizados Redstone. É uma substân­cia tóxica e corrosiva e constitui-se em uma mistura de UDMH — dimetilidrazina assi­métrica — e triamine dietilene.

Billie parou o Thunderbird vermelho na área de estacionamen­to do Georgetown Mind Hospital e desligou o motor. O coro­nel Lopez, do Pentágono, parou a seu lado o Ford Fairlane pin­tado de verde-oliva.

— Ele não acredita numa só palavra do que digo — reclamou Luke, furioso.

— Não se pode culpá-lo — ponderou Billie. — O auxiliar de gerente do Carlton diz que ninguém foi perseguido através das cozinhas do hotel e não foram encontrados cartuchos de balas na área de carga e descarga.

— Anthony recolheu os indícios.

— Eu sei disso, mas o coronel Lopez não sabe.

— Graças a Deus levei você para confirmar minhas palavras.

Eles saltaram do carro e entraram no prédio com o coronel, um paciente hispânico com uma expressão inteligente no ros­to. Billie cumprimentou a recepcionista com um gesto de cabe­ça e levou os dois homens escadas acima e pelo corredor até a sala de registros.

— Vou lhe mostrar a ficha de um homem chamado Joseph Bellow, cujas características físicas são idênticas às de Luke — explicou ela.

O coronel balançou a cabeça, concordando.

Billie prosseguiu.

— O senhor verá que ele foi admitido na terça-feira, tratado e liberado às quatro da madrugada de quarta-feira. Há de compreender que é muito pouco usual para um paciente com esquizofrenia receber tratamento sem ser colocado primeiro em observação. E dificilmente será preciso que eu lhe diga o quan­to é insólito um paciente receber alta de um hospital mental às quatro horas da manhã.

— Eu compreendo — disse Lopez, sem se comprometer.

Billie abriu a gaveta, pegou a pasta de Bellow, colocou em cima da mesa e abriu. Estava vazia.

— Oh, meu Deus — disse ela.

Luke contemplou a pasta de cartolina sem querer acreditar.

— Eu mesmo vi o papel aí há menos de seis horas.

Lopez fez um ar de cansado.

— Bem, acho que é isso.

Luke teve a impressão de viver um pesadelo num mundo surrealista no qual as pessoas podiam fazer o que bem quises­sem, dar tiros nele e alterar suas funções mentais e nem sequer podia provar que isso acontecera.

— Talvez eu seja esquizofrênico — disse, deprimido.

— Pois bem, mas eu não sou — contrapôs Billie. — E também vi essa pasta.

— Mas não está aqui agora — lembrou Lopez.

— Espere — disse Billie. — O registro diário mostrará a admissão do paciente Joseph Bellow. O registro fica na mesa da recepção.

Ela fechou a gaveta da mesa com uma batida.

Os três desceram até o saguão e Billie falou com o recepcionista.

— Deixa-me ver o registro, Charlie, por favor.

— Agora mesmo, dra. Josephson.

O jovem negro atrás do balcão levou um momento procu­rando o registro.

— Puxa vida, onde é que aquela droga de livro foi parar?

— Jesus Cristo — resmungou Luke.

O rosto do recepcionista traduziu toda a sua vergonha.

— Sei que estava aqui duas horas atrás.

Billie estava a ponto de explodir.

— Diga-me uma coisa, Charlie. O dr. Ross esteve aqui hoje à noite?

— Esteve, sim senhora. Saiu há poucos minutos.

Ela balançou a cabeça.

— Na próxima vez que você vir o dr. Ross, pergunte a ele onde o registro foi parar. Ele sabe.

— Pode deixar que vou perguntar.

Billie afastou-se.

— Permita-me perguntar-lhe uma coisa, coronel — disse Luke, furioso. — Antes de nós estarmos com o senhor, alguém tinha lhe falado a meu respeito?

Lopez hesitou.

— Sim, tinha.

— Quem?

Ele hesitou de novo.

— Acho que você tem o direito de saber. Tivemos uma liga­ção de um tal coronel Hide, lá de Cabo Canaveral. Ele disse que a CIA estava atrás do senhor e que informara que o senhor estava se comportando irracionalmente.

Luke balançou a cabeça melancolicamente.

— Anthony de novo.

Billie dirigiu-se a Lopez.

— Olha, não posso imaginar mais nada que possamos fazer a fim de convencer o senhor. E realmente não o culpo por não acreditar em nós, já que não temos indícios.

— Eu não disse que não acreditava em vocês.

Luke espantou-se e olhou para o coronel com nova espe­rança.

Lopez prosseguiu.

— Eu podia achar que o senhor tivesse imaginado que um homem da CIA o perseguiu no interior do hotel Carlton, dispa­rando três tiros na sua direção no beco dos fundos do hotel. Eu podia inclusive acreditar que o senhor e a doutora tivessem conspirado para fingir que houve um arquivo que desapareceu. Mas não acredito que esse rapaz, o Charlie, fizesse parte dessa conspiração. É óbvio que tem que haver um registro diário de entrada e saída de pacientes no hospital e esse arquivo desapa­receu. Não penso que foi o senhor que sumiu com ele — por que faria isso? Mas então, quem foi? Alguém tem alguma coisa a esconder.

— Então o senhor acredita em mim? — indagou Luke.

— O que há para acreditar? O senhor não sabe do que se tra­ta. Tampouco eu sei o que é. Mas há alguma coisa, com toda a certeza, acontecendo por aqui. E eu acredito que tenha a ver com o foguete que estamos prestes a lançar.

— O que o senhor vai fazer?

— Vou expedir uma ordem de alerta total em Cabo Cana­veral. Já estive lá, sei como são relaxados. Amanhã de manhã não saberão o que foi que os atingiu.

— Mas e quanto a Anthony?

— Eu tenho um amigo na CIA. Vou contar a ele a sua histó­ria e dizer que não sei se é verdade ou não, mas que estou preo­cupado.

— Mas isso não vai nos levar a parte alguma! — protestou Luke. — Precisamos saber o que está acontecendo, por que apagaram a minha memória!

— Concordo — disse Lopez. — Mas não posso fazer mais nada. O resto é por sua conta.

— Cristo — disse Luke. — Então eu estou sozinho.

— Não, não está — contrapôs Billie. — Você não está sozinho.

 

1:00

O novo combustível é baseado em um gás que causa desequilíbrio no sistema nervo­so e é muito perigoso. Este gás é enviado a Cabo Canaveral em um trem especial equipado com nitrogênio para ser usado como uma espécie de coberta química desti­nada a impedir que o gás combustível fuja. Uma gota desse gás na pele será absor­vida instantaneamente pela corrente sanguínea e terá conseqüências fatais. Os técni­cos dizem que se “você sentir cheiro de peixe, fuja a toda velocidade”.

Billie dirigiu com rapidez, conduzindo o Thunderbird de mudança manual com bastante confiança. Luke observou-a com admiração. Cruzaram velozmente as ruas silenciosas de Georgetown, alcançaram o centro da cidade de Washington e rumaram para o Carlton.

Luke sentiu-se energizado. Sabia quem era seu inimigo, tinha uma amiga que o apoiava e compreendia o que tinha de fazer. Se por um lado estava perplexo com o que lhe acontece­ra, por outro sentia-se determinado e impaciente para solucio­nar o mistério.

Billie estacionou depois da esquina a uma certa distância da entrada.

— Eu vou primeiro — disse ela. — Se houver alguma coisa de suspeito no saguão, saio na mesma hora. Se você me vir tiran­do o casaco, saberá que a barra está limpa.

Luke não se sentiu à vontade com o plano.

— E se o Anthony estiver lá?

— Ele não irá atirar em mim — Billie saltou do carro.

Luke pensou em discutir com Billie, mas desistiu. Provavelmente estava certa. Anthony devia ter esquadrinhado o seu quarto e destruíra tudo que pudesse ser uma pista para o segredo que tanto queria guardar. Mas era preciso também conservar um aspecto de normalidade para apoiar a história da perda da memória dele, Luke, após uma tremenda bebedeira. Assim sendo, devia encontrar praticamente todas as suas coi­sas. O que o ajudaria a reorientar-se. E também podia ser que encontrasse alguma pista que houvesse passado despercebida de Anthony.

Aproximaram-se do hotel separadamente, com Luke permanecendo na calçada oposta. Observou Billie entrar, apre­ciando seu caminhar desenvolto e o balanço do seu casaco. Continuou podendo vê-la através das portas de vidro. Um dos empregados da recepção, um carregador, aproximou-se ime­diatamente, suspeitando de uma mulher glamourosa que che­gava sozinha no hotel tarde da noite. Viu-a falando com ele e adivinhou o que dizia, “Sou a sra. Lucas, meu marido chegará num instante”, e tirou o casaco.

Luke atravessou a rua e entrou no hotel.

Para que o carregador ouvisse, ele disse:

— Quero dar um telefonema antes de subirmos, querida.

Havia um telefone interno na mesa da recepção, mas ele não queria que o carregador o ouvisse. Logo ao lado havia uma saleta que tinha um telefone público dentro de uma cabine dotada de cadeira. Luke entrou e Billie o seguiu, fechando a porta. Os dois ficaram bem juntinhos. Ele colocou uma moeda de dez centavos no aparelho e telefonou para o próprio hotel onde tinham acabado de chegar. Inclinou o aparelho para que ela pudesse ouvir. Embora muito tenso, achou deliciosamente excitante estar tão perto dela.

— Sheraton-Carlton, bom dia.

Era uma hora da manhã! Quinta-feira de madrugada. Estava acordado havia vinte horas. Mas não sentia sono, de tão ansioso.

— Quarto quinhentos e trinta, por favor.

O telefonista hesitou.

— Senhor, já passa de uma hora — trata-se de uma emergência?

— O dr. Lucas me pediu para telefonar por mais tarde que fosse.

— Muito bem.

Houve uma pausa, depois a campainha tocou. Luke sentiu-se muito consciente do corpo quente de Billie dentro de um vestido de seda vermelho. Teve que resistir ao impulso de pas­sar os braços em torno de seus ombros pequenos e lindos e puxá-la para junto de si.

Depois de quatro toques ele já ia acreditar que o quarto estivesse vazio, mas atenderam, o que significava que Antho­ny, ou um de seus homens, estava à sua espera. Era um aborre­cimento a mais, só que Luke sentiu-se melhor por saber onde o inimigo estava instalado.

Uma voz disse “Alô”. O tom era incerto. Não era Anthony, mas podia ser Pete.

Luke fingiu-se de bêbado.

— Ei, Ronnie, aqui é o Tim. Estamos todos esperando você!

O homem que atendera, gemeu, irritado.

— Um bêbado — ele murmurou, como se estivesse falando com outra pessoa. — Ligou para o quarto errado, companheiro.

— Puxa vida, desculpe. Espero que não tenha acordado...

Luke interrompeu-se quando o telefone foi desligado.

— Tem alguém lá — disse Billie.

— Talvez mais de um.

— Sei como tirá-los de lá — ela sorriu. — Fiz isso em Lisboa, durante a guerra. Vamos.

Saíram da cabine telefônica. Luke percebeu que Billie pegava discretamente uma caixa de fósforos no cinzeiro ao lado dos elevadores. O carregador, funcionando como ascen­sorista, conduziu-os no elevador ao quinto andar.

Eles saltaram, acharam o quarto 530 e prosseguiram, sem fazer barulho. Billie abriu uma porta sem marcas. Era um ar­mário de roupa de cama e banho.

— Perfeito — disse, baixinho. — Tem algum alarme de incên­dio aqui perto?

Luke procurou em torno e viu um alarme do tipo que pode ser acionado quebrando-se uma porta de vidro com um marte­lo de pequeno tamanho.

— Bem aqui — disse ele.

— Ótimo.

No armário, havia colchas e cobertores meticulosamente empilhados nas prateleiras de madeira. Billie desdobrou um cobertor e largou-o no chão. Fez o mesmo com diversos outros até que formou uma pilha de bom tamanho. Luke adivinhou o que pretendia e sua conjetura foi confirmada quando ela pegou um pedido de café da manhã que estava pendurado em uma maçaneta em que ateou fogo com um fósforo. Com o pedido em chamas, incendiou a pilha de cobertores.

— É por isso que nunca se deve fumar deitado — disse ela.

Quando as chamas começaram a subir, Billie foi colocan­do mais roupa de cama. Seu rosto ficou congestionado com o calor e com o seu entusiasmo, tornando-a mais atraente que nunca. Em pouco tempo havia uma fogueira barulhenta. A fumaça escapou de dentro do armário e começou a encher o corredor.

— Hora de soar o alarme — disse ela. — Não queremos que ninguém se machuque.

— Certo — concordou Luke e mais uma vez a frase veio à sua cabeça —, eles não são colaboradores. — Mas agora ele a compreendia. Na Resistência, explodindo fábricas e depósitos, ele devia se preocupar o tempo todo em não ferir franceses ino­centes.

Luke pegou o martelo que ficava pendurado por uma cor­rente ao lado do alarme de incêndio, quebrou o vidro com uma batida leve e apertou o enorme botão vermelho do lado de den­tro. Um momento mais tarde uma campainha, tocando bem alto, rompeu o silêncio do corredor.

Luke e Billie foram para o corredor e recuaram, afastando-se do elevador, até que apenas podiam ver a porta da suíte de Luke por entre a fumaça.

A porta mais perto deles abriu-se e apareceu uma mulher de camisola. Ela viu a fumaça, gritou e saiu correndo para a escada. De outra porta surgiu um homem que obviamente esti­vera trabalhando até tarde, em mangas de camisa e com um lápis na mão; depois foi a vez de um jovem casal, que deu a impressão de ter sido interrompido fazendo amor; logo em seguida surgiu um homem de olhos injetados e pijama cor-de-rosa amassado. Poucos momentos mais tarde o corredor estava cheio de gente tossindo e tateando por entre a fumaça na dire­ção da escada.

A porta do quarto 530 abriu-se lentamente.

Luke viu um homem alto pisar no corredor. Não obstante a fumaça e o escuro, teve a impressão de reconhecer uma gran­de marca cor de vinho no rosto dele: Pete. Recuou para não ser reconhecido. O vulto hesitou, depois pareceu tomar uma deci­são e juntou-se aos hóspedes que corriam na direção da escada. Dois outros homens saíram também e o seguiram.

— Tudo limpo — disse Luke.

Luke e Billie entraram na suíte e Luke fechou a porta para a fumaça não entrar. Tirou o casaco.

— Oh, meu Deus! — disse Billie. — É o mesmo quarto!

 

Billie a tudo examinava, olhos arregalados.

— Não posso acreditar — disse ela, num fio de voz que ele mal conseguiu ouvir. — É esta mesma suíte.

Luke permaneceu de pé, olhando, nas garras de uma emo­ção violenta.

— O que foi que aconteceu aqui? — perguntou ele, por fim.

Billie sacudiu a cabeça, assombrada.

— É difícil acreditar que você não se lembra — ela andou um pouco pelo quarto. — Havia um piano aqui neste canto — disse. — Imagine — um piano num quarto de hotel!

Ela deu uma olhada no banheiro.

— E um telefone aqui dentro. Eu nunca tinha visto um tele­fone em um banheiro!

Luke aguardou. Seu rosto exprimia tristeza e uma outra coisa que ela não conseguiu interpretar.

— Você ficou aqui durante a guerra — disse ela por fim, apressando-se a acrescentar, de um só fôlego:

— Fizemos amor aqui.

Ele examinou o quarto.

— Na cama, com certeza.

— Não só na cama — ela deu uma risadinha mas logo voltou a ficar solene. — Como éramos jovens!

A idéia de fazer amor com aquela mulher encantadora era intoleravelmente excitante.

— Meu Deus, eu quisera poder me lembrar — disse ele, e sua voz soou cheia de desejo.

Para surpresa de Luke, Billie corou.

Luke virou-se de lado e pegou o telefone. Discou o núme­ro da telefonista. Queria se assegurar de que o fogo não teria chance de se espalhar. Após longa espera, finalmente atende­ram.

— Quem fala aqui é o sr. Davies. Fui eu que disparei o alar­me — disse Luke rapidamente. — É um incêndio em um depósi­to de roupas de cama perto do quarto quinhentos e quarenta.

Desligou sem esperar resposta.

Billie examinava o quarto, o momento emocional passado.

— Suas roupas estão aqui — disse.

Ele entrou no quarto. Em cima da cama havia um casaco esporte de tweed cinza-claro e uma calça de flanela preta. Certamente tinham voltado do tintureiro. Devia ter mandado passar aquela roupa depois de tê-la vestido no avião. No chão havia um par de sapatos sociais marrom-escuros. Um cinto de crocodilo tinha sido enrolado cuidadosamente dentro de um dos pés do sapato.

Luke abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e encontrou uma carteira, um talão de cheques e uma caneta tinteiro. Mais interessante que tudo foi uma agenda com uma lista de telefo­nes na parte de trás. Deu uma espiada rápida e achou a semana corrente.

Domingo 26

Telefonar para Alice (1928)

Segunda 27

Comprar calção de banho

8:30: reunião Ápice, Vanguard Mtl

Terça 28

8:00: café da manhã com AC, coffee shop do Hay Adams

Billie colocou-se ao lado dele para ver o que estava lendo e pôs a mão no seu ombro. Foi um gesto casual, mas o toque da mão dela deu-lhe um arrepio de prazer.

— Alguma idéia de quem possa ser essa Alice? — perguntou ele.

— Sua irmã mais moça.

— Quantos anos?

— Sete anos mais moça que você, o que significa que ela tem trinta.

— Então ela nasceu em 1928. Acho que falei com ela no dia do seu aniversário. Podia telefonar agora, perguntar se falei alguma coisa diferente.

— Boa idéia.

Luke sentiu-se bem. Estava reconstruindo sua vida.

— Eu devo ter ido para a Flórida sem meu calção de banho.

— Quem pensa em nadar em janeiro?

— Por isso escrevi um lembrete para comprar um na segun­da-feira. Naquela manhã fui ao Vanguard Motel às oito e meia.

— O que é essa “reunião Ápice”?

— Acho que deve ter a ver com a curva seguida pelo míssil em vôo. Não me lembro de tratar disso, claro, mas sei que há um cálculo importante e difícil que tem de ser feito. O segun­do estágio precisa ser disparado exatamente no ápice a fim de colocar o satélite em órbita permanente.

— Você podia descobrir quem mais esteve nessa reunião e conversar com outras pessoas.

— Vou descobrir.

— Depois, na terça-feira, você teve o café da manhã com Anthony no coffee shop do Hay Adams Hotel.

— Depois disso não há mais compromissos marcados nesta agenda.

Luke passou para as páginas finais. Havia os telefones de Anthony, Billie, Bern, Mãe e Alice e vinte ou trinta outros que nada significavam para ele.

— Alguma coisa que chame a sua atenção? — perguntou a Billie.

Ela sacudiu a cabeça.

Havia algumas dicas que valia a pena seguir, mas nada de pistas óbvias. Era o que tinha esperado, mas assim mesmo sen­tiu-se esvaziado. Pôs a agenda no bolso e deu uma olhada no quarto. Uma pasta de couro preto bem usada estava aberta em cima de um estrado. Examinou-a, e encontrou camisas e roupa de baixo limpas, um caderno de notas cheios de cálculos mate­máticos e uma brochura chamada O velho e o mar com uma folha virada na página 143.

Billie examinou o banheiro.

— Aparelho de barbear, estojo de toalete, escova de dentes e mais nada.

Luke abriu todos os armários e gavetas do quarto e Billie fez o mesmo na sala. Ele encontrou um sobretudo preto de lã e um chapéu de feltro também preto em um armário, mas foi só.

— Zero — exclamou ele. — E você?

— Seus recados telefônicos estão aqui em cima da escrivaninha. De Bern, de um tal coronel Hide e de alguém chamado Marigold.

Luke imaginou que Anthony lera as mensagens, as consi­derara inofensivas e decidira que não valia a pena criar suspei­tas destruindo-as.

— Quem é Marigold, você sabe? — perguntou Billie.

Luke pensou por um momento. Tinha ouvido aquele nome em algum momento daquele dia. Lembrou.

— É a minha secretária em Huntsville — disse. — O coronel Hide me falou que ela fez as reservas do vôo.

— Será que você lhe disse o objetivo da viagem?

— Duvido. Não contei a ninguém em Cabo Canaveral.

— Ela não está em Cabo Canaveral. E pode ser que você con­fie em sua secretária mais do que em qualquer outra pessoa.

Luke balançou a cabeça, concordando.

— Tudo é possível. Vou verificar. Até este ponto é a pista mais promissora.

Ele tirou a agenda do bolso e examinou de novo os telefones.

— Bingo — disse. — Marigold. — Casa.

Luke sentou-se à escrivaninha e discou o número. Gostaria de saber quanto tempo mais teria antes que Pete e os outros agentes voltassem.

Billie pareceu ler seu pensamento, e começou a colocar as coisas dele dentro da pasta de couro preto.

O telefone foi atendido por uma mulher sonolenta com um arrastado sotaque do Alabama. Pela voz Luke adivinhou que era preta.

— Desculpe por estar ligando tão tarde — disse ele. — Quem fala, é Marigold?

— Dr. Lucas! Graças a Deus que ligou! Como vai?

— Estou bem, acho eu, obrigado.

— Bem, o que foi que aconteceu com o senhor? Ninguém era capaz de dizer onde estava, e agora eu soube que perdeu a memória. É verdade?

— É.

— Bem, como foi que isso aconteceu?

— Não sei, mas espero que você possa me ajudar a descobrir.

— Se eu puder...

— Gostaria de saber por que decidi subitamente ir a Washington. Eu lhe contei?

— De jeito nenhum, e olha que eu estava curiosa.

Era a resposta que Luke esperava, mas assim mesmo sen­tiu-se desapontado.

— Eu falei alguma coisa que pudesse ter servido de pista para você?

— Não.

— O que foi que eu falei?

— Disse que precisava ir a Washington via Huntsville e me pediu para fazer uma reserva nos vôos do MATS.

MATS era o transporte aéreo militar e Luke adivinhou que tinha direito a ele quando a serviço do Exército. Mas havia algo que ele não entendeu.

— Eu viajei via Huntsville? — ninguém mais tinha mencio­nado isso.

— Disse que queria passar umas duas horas em Huntsville.

— Gostaria de saber por quê.

— O senhor me disse uma coisa meio estranha. Pediu para eu não contar a ninguém que estava indo a Huntsville.

— Ah — Luke teve certeza de que aquela era uma pista importante. — Quer dizer então que foi uma visita secreta?

— Foi. E eu a mantive secreta. Fui interrogada tanto pela segurança do exército quanto pelo FBI e não contei nada, por­que o senhor me disse para não contar. Não sabia se estava agindo certo ou não quando me disseram que o senhor tinha desaparecido, mas achei melhor prender-me ao que me disse­ra. Fiz bem?

— Puxa vida, Marigold, não sei. Mas agradeço a sua lealdade.

O alarme de incêndio cessou de tocar. Luke viu que não tinha mais tempo.

— Tenho que ir agora. Obrigado pela ajuda.

— Por nada. Agora, vê se se cuida, certo?

Ela desligou.

— Arrumei todas as suas coisas — disse Billie.

— Obrigado.

Ele pegou o chapéu e o casaco preto no armário e vestiu.

— Vamos dar o fora daqui antes que os demônios voltem.

 

Foram para um vagão-restaurante situado perto do prédio do FBI, nas proximidades do bairro chinês e que ficava aberto a noite toda. Pediram café.

— Quando será que sai o primeiro vôo para Huntsville de manhã? — exclamou Luke.

— Temos que ver no Guia Oficial das Linhas Aéreas — dis­se Billie.

Luke deu uma olhada em torno. Viu dois policiais comen­do donuts, quatro estudantes embriagados pedindo hambúrgueres e duas mulheres pouco vestidas que poderiam ser pros­titutas.

— Não creio que eles tenham um guia desses aqui atrás do balcão.

— Aposto como Bern tem um. É o tipo de coisa que escrito­res sempre têm. Eles vivem procurando esse tipo de informação.

— Ele provavelmente está dormindo.

Billie levantou-se.

— Eu o acordo. Tem aí uma moeda?

— Claro.

Luke ainda estava com o bolso cheio das moedas que rou­bara na véspera.

Billie dirigiu-se ao telefone público do lado dos toaletes. Luke tomou um gole de café, olhando para ela. Quando falou ao telefone sorriu e inclinou a cabeça, sendo encantadora com alguém a quem acabara de despertar. Era cativante e ele ardeu de desejo por ela.

Billie voltou para a mesa.

— Bern vem se juntar a nós e trará o Guia.

Luke checou o relógio. Duas da manhã.

— Devo sair daqui diretamente para o aeroporto. Espero que haja um vôo bem cedo.

Billie estranhou.

— Há algum prazo final?

— Pode ser que haja. Fico perguntando a mim mesmo: o que poderia me ter obrigado a largar tudo e ir voando para Washington? Tinha que ser algo relacionado com o foguete. E o que poderia ser se não uma ameaça ao lançamento?

— Sabotagem?

— Sim. E só poderei comprovar se estou certo até as dez e meia da noite.

— Quer que eu vá a Huntsville com você?

— Você tem que cuidar de Larry.

— Posso deixá-lo com Bern.

Luke sacudiu a cabeça.

— Acho que não... obrigado.

— Você sempre foi um filho da mãe danado de independente.

— Não é isso — ele queria que ela entendesse. — Eu adoraria que você fosse comigo. É justamente este o problema — eu gos­taria demais de sua companhia.

Billie esticou o braço por cima da toalha de plástico e segu­rou a mão dele.

— Tudo bem — disse ela.

— É uma coisa confusa, sabe? Sou casado, mas não sei como me sinto a respeito de minha mulher. Como ela é?

Billie sacudiu a cabeça.

— Não posso lhe falar a respeito de Elspeth. Você vai ter que redescobrir sozinho.

— Acho que sim.

Billie levou a mão dele aos seus lábios e beijou-a delicadamente.

Luke engoliu em seco.

— Eu sempre gostei tanto assim de você, ou isto é novo?

— Não é nada novo.

— Parece que nós nos damos realmente bem.

— Não. Nós brigamos como cão e gato. Mas nos adoramos.

— Você disse que fomos amantes, uma vez — na suíte do hotel.

— Pára!

— Foi bom?

Ela o fitou com os olhos marejados de lágrimas.

— Maravilhoso.

— Então como foi que não me casei com você?

Billie começou a chorar, e os soluços sacudiram seu corpo delicado.

— Porque...

Ela enxugou o rosto e respirou fundo, mas começou a cho­rar de novo. Até que por fim conseguiu falar.

— Você ficou com tanta raiva de mim que não falou comi­go durante cinco anos.

 

1945

Os pais de Anthony tinham um haras perto de Charlottesville, Virgínia, a cerca de duas horas de Washington. Era uma gran­de casa branca de madeira, com aproximadamente dez quartos em duas alas. Na propriedade havia estábulos e quadras de tênis, um lago e um riacho, pastagens cercadas e bosques. A mãe de Anthony herdara tudo aquilo do pai, juntamente com cinco milhões de dólares.

Luke chegou lá na sexta-feira seguinte à rendição do Japão. A sra. Carroll recebeu-o à porta. Era uma loura nervosa que dava a impressão de ter sido bonita. Conduziu-o a um quarto pequeno e imaculadamente limpo com assoalho de tábuas muito polido e uma cama alta e antiga.

Ele tirou o uniforme — agora era major — e vestiu um casa­co esporte de casimira preta e calças de flanela cinzentas. Quando dava o nó na gravata, Anthony apareceu.

— Coquetéis na sala de visitas quando você estiver pronto — disse.

— Já vou — disse Luke. — Qual é o quarto de Billie?

Uma expressão de preocupação cruzou o semblante de Anthony.

— Lamento, mas as garotas estão na outra ala. O almirante é antiquado quanto a esse tipo de coisa.

O pai de Anthony passara a vida na Marinha.

— Sem problema — disse Luke, dando de ombros. Passara os últimos três anos deslocando-se por toda a Europa ocupada à noi­te: seria capaz de encontrar o quarto de sua amante no escuro.

Quando desceu, às seis horas, encontrou todos os velhos amigos à espera. Assim como Anthony e Billie, lá estavam Elspeth, Bern e Peg, a namorada de Bern. Luke passara grande parte da guerra com Bern e Anthony e todas as licenças com Billie, mas não via Elspeth ou Peg desde 1941.

O almirante entregou-lhe um martíni e ele tomou um gole, satisfeito. Se havia uma hora para celebrar, era aquela. A con­versa era animada e barulhenta. A mãe de Anthony tinha uma expressão vagamente satisfeita e o pai bebia coquetéis mais depressa que qualquer outra pessoa.

Luke examinou todos eles durante o jantar, lembrando do tempo em que, alegres exemplares da juventude dourada ame­ricana, estavam tão preocupados em não serem expulsos de Harvard. Elspeth estava dolorosamente magra depois de três anos de racionamento duro na Londres da época da guerra. Até mesmo seus magníficos seios pareciam menores. Peg, que era uma garota desalinhada com o coração grande, agora estava elegantemente vestida, mas seu rosto habilmente maquilado parecia insensível e cínico. Bern, aos vinte e sete anos, parecia mais velho. Aquela fora a sua segunda guerra. Tinha sido feri­do três vezes e o rosto macilento era de um homem que conhe­cera muito sofrimento, seu próprio e dos outros.

Anthony melhorara. Vira alguma ação, mas tinha passado a maior parte da guerra em Washington. Sua confiança, seu oti­mismo e seu humor excêntrico haviam sobrevivido intactos.

Billie, também, parecia ter mudado pouco. Passara dificuldades e privações na infância e talvez por isso a guerra não a tivesse atingido. Passara dois anos trabalhando como agente secreto em Lisboa, e Luke sabia — embora os outros não tives­sem tomado conhecimento — que matara um homem, cortando seu pescoço com silenciosa eficiência no pátio atrás do café onde ele estivera prestes a vender segredos ao inimigo. Mas ainda era um pequeno feixe de energia radiante, alegre num instante e feroz no momento seguinte, o rosto em mudança constante, uma visão da qual Luke jamais se cansava.

Era uma sorte fantástica que todos estivessem vivos. A maioria de grupos como os deles teria perdido no mínimo um membro.

— Deveríamos fazer um brinde — disse Luke, levantando o copo de vinho. — Aos que sobreviveram — e aos que não conseguiram sobreviver.

Todos beberam e Bern rompeu o silêncio.

— Aos homens que derrotaram a máquina de guerra nazista — O Exército Vermelho.

Todos beberam de novo, mas o almirante pareceu descon­tente e disse:

— Acho que chega de brindes.

O comunismo de Bern ainda era forte, mas Luke tinha cer­teza de que ele não mais trabalhava para Moscou. Tinham fei­to um trato e Luke achava que Bern cumprira sua parte. Mes­mo assim, o relacionamento deles não voltara a ser afetuoso como antes. Confiar em alguém era muito parecido com levar água com as mãos em concha — muito fácil de derramar e im­possível de recuperar. Luke ficava triste sempre que relembra­va a camaradagem que existira entre ele e Bern, mas sentia-se impotente para restaurá-la.

O café foi servido na sala de visitas. Luke foi passando as xícaras. Quando ofereceu açúcar e creme a Billie, ela disse, baixinho:

— Ala leste, segundo andar, última porta à esquerda.

— Creme?

Ela levantou uma sobrancelha.

Luke conteve uma risada e seguiu em frente.

Às dez e meia o almirante insistiu em que os homens passassem para o salão de bilhar. Bebida forte e charutos cubanos tinham sido colocados em um aparador. Luke não quis beber mais. Estava ansioso por meter-se por entre as cobertas junto do corpo quente e ávido de Billie e a última coisa que queria era cair no sono.

O almirante serviu-se de bourbon num copo grande e levou Luke para o outro lado a fim de lhe mostrar suas armas, em exposição num armário fechado. A família de Luke não era de caçadores, de modo que armas para ele não eram para matar animais e sim gente, e ele não sentia o menor prazer com elas. Também acreditava fortemente que armas e álcool eram uma péssima combinação. Mesmo assim, fingiu interesse para parecer polido.

— Conheço e respeito sua família, Luke — disse o almirante enquanto examinavam um rifle Enfield. — Seu pai é um grande homem.

— Muito obrigado.

Aquilo soava como o preâmbulo de um discurso ensaiado. Seu pai passara a guerra ajudando a gerir o Office of Price Administration, uma agência do governo criada pelo presiden­te para administrar preços e evitar a inflação típica de tempo de guerra, mas o almirante provavelmente ainda o via como um banqueiro.

— Você terá que pensar em sua família quando escolher uma esposa, meu filho — prosseguiu o almirante.

— Sim, senhor, eu pensarei — Luke perguntou-se o que o velho teria em mente.

— Quem quer que venha a ser a sra. Lucas terá um lugar à sua espera nas camadas mais elevadas da sociedade americana. Você tem que escolher uma garota à altura.

Luke começou a perceber onde aquilo ia parar. Aborreci­do, pôs abruptamente o rifle de volta no armário.

— Vou pensar nisso, almirante — exclamou, virando-se de costas.

O almirante pôs a mão no seu braço, detendo-o.

— O que quer que faça, não vá desperdiçar o que você tem de melhor.

Luke olhou furiosamente para ele. Estava determinado a não lhe perguntar onde queria chegar, porque achava que sabia a resposta e seria melhor se ela não fosse dita.

Mas o almirante estava determinado.

— Não vá se prender àquela judiazinha — ela não está à sua altura.

Luke cerrou os dentes.

— O senhor me desculpe, mas isto é algo que eu prefiro discutir com o meu pai.

— Só que seu pai não sabe a respeito dela, sabe?

Luke ficou ruborizado. O almirante marcara um ponto. Ele e Billie não conheciam os pais um do outro.

Praticamente não houvera tempo. O caso de amor deles fora conduzido em momentos roubados durante uma guerra. Mas não era esta a única razão. Lá no fundo do coração de Luke, uma voz mesquinha lhe dizia que uma garota de uma família judia paupérrima não era a idéia que seus pais faziam da mulher mais adequada para seu filho. Eles a aceitariam, tinha certeza — na verdade, chegariam inclusive a amá-la, por todas as razões pelas quais ele a amava. Mas a princípio fica­riam um pouco desapontados. Por conseqüência, queria apre­sentá-la nas circunstâncias corretas, em uma ocasião descon­traída, quando eles tivessem tempo de vir a conhecê-la.

O fato de haver um grão de verdade na insinuação do almirante deixou Luke ainda mais furioso. Com agressividade evidente, ele disse:

— Desculpe-me se eu o advirto de que essas observações são pessoalmente ofensivas a mim.

Fez-se silêncio na sala, mas a ameaça velada de Luke pas­sou direto por cima da cabeça do almirante bêbado.

— Eu compreendo, filho, mas já vivi mais tempo que você e sei o que estou falando.

— Lamento, mas o senhor não conhece as pessoas envolvidas.

— Oh, mas eu penso que posso conhecer mais sobre a dama em questão do que você.

Alguma coisa no tom de voz do almirante soou como uma advertência, mas Luke estava tão furioso que ignorou.

— Uma ova que conhece — disse, com deliberada rudeza.

Bern tentou intervir.

— Ei, caras, vamos aliviar a barra, sim? Podíamos jogar um pouco de bilhar.

Mas nada podia segurar o almirante agora. Ele passou o braço pelos ombros de Luke.

— Escuta aqui, filho, eu sou homem, eu compreendo essas coisas — ele falou com um ar de intimidade de que Luke se ressentiu. — Desde que não se leve tudo muito a sério, não há peri­go em comer uma putinha, nós todos.

Ele não chegou a terminar a frase. Luke virou-se na dire­ção dele, pôs ambas as mãos no seu peito e o empurrou. O almirante cambaleou, com os braços girando, e o copo de bourbon voou de sua mão. Tentou recobrar o equilíbrio, falhou e caiu sentado pesadamente no tapete. Luke gritou com ele:

— Agora chega antes que eu feche essa boca imunda com um soco!

Anthony, muito branco, agarrou o braço de Luke dizendo:

— Luke, pelo amor de Deus, o que é que você pensa que está fazendo?

Bern se meteu entre eles e o almirante caído.

— Calma, vocês dois.

— Ao inferno com essa história de calma — retrucou Luke. — Que tipo de homem convida você para a casa dele e depois insulta a sua namorada? Já é hora de alguém ensinar a esse velho tonto uma lição de boas maneiras!

— Ela é uma prostituta — disse o almirante, sentado como estava. — Eu devo saber, droga — a voz dele subiu e se transfor­mou num rugido. — Eu paguei o aborto que ela fez!

Luke ficou atônito.

— Aborto?

— Aborto, sim — ele lutou para se levantar. — Anthony a engravidou e eu paguei mil dólares para ela se livrar do peque­no filho da mãe.

A boca do pai de Anthony contorceu-se em riso maligno de triunfo.

— Agora me diga que não sei de que estou falando.

— O senhor está mentindo.

— Pergunte a Anthony.

Luke olhou para Anthony.

Anthony sacudiu a cabeça.

— O filho não era meu. Eu disse que era para o pai me dar os mil dólares. Mas o filho era seu, Luke.

Luke corou até as raízes do cabelo. O velho almirante fizera dele um idiota completo. Era ele, Luke, o ignorante. Achava que conhecia Billie e, no entanto, ela lhe escondera um segre­do tão importante. Fizera um filho em Billie, Billie abortara esse filho, e o pai de Anthony e Anthony sabiam e ele não. Sentiu-se totalmente humilhado.

Saiu da sala de bilhar pisando duro, atravessou o hall e irrompeu na sala de visitas. Somente a mãe de Anthony estava lá — as garotas deviam ter se recolhido. A sra. Carroll viu a cara dele e perguntou:

— Luke, meu querido, há algo de errado?

Ele ignorou-a e saiu de novo, batendo a porta.

Subiu correndo a escada e dirigiu-se para a ala leste. Encontrou o quarto de Billie e foi entrando sem bater.

Ela estava deitada nua na cama, lendo, a cabeça apoiada na mão, o cabelo escuro ondulado caindo para a frente. Por um momento, aquela visão o deixou sem fôlego. A luz de um aba­jur pintava uma linha dourada no contorno do corpo dela, do ombro pequeno e perfeito ao quadril e descendo pela perna delgada até as unhas vermelhas do pé. Mas a beleza de Billie serviu apenas para enfurecê-lo ainda mais.

Ela levantou o rosto para ele com um sorriso alegre, mas ficou chocada ao ver sua expressão.

Ele gritou:

— Alguma vez você me enganou?

Ela sentou-se na cama, assustada.

— Não, nunca!

— O filho-da-puta daquele almirante disse que pagou um aborto seu.

Billie ficou lívida.

— Oh, não.

— É verdade? — gritou Luke. — Responda!

Ela balançou a cabeça afirmativamente, começou a chorar e enterrou o rosto nas mãos.

— Então você me enganou.

— Desculpe — ela soluçou. — Eu queria ter o seu filho — queria de todo o coração. Mas não conseguia falar com você. Você estava na França e eu não sabia se você ia voltar ou não. Tive que decidir tudo sozinha — ela levantou a voz. — Foi a pior épo­ca de minha vida!

Luke estava confuso.

— Eu fiz um filho em você — disse ele.

O estado de espírito dela mudou subitamente.

— Não vá chorar agora — disse, sarcástica. — Você não se mostrou sentimental a respeito do seu esperma quando trepou comigo, de modo que é melhor não começar agora — é tarde demais.

As palavras de Billie o magoaram.

— Você devia ter me contado. Mesmo que não tivesse con­seguido falar comigo naquela ocasião, devia ter me contado na primeira oportunidade, na vez seguinte que eu tivesse vindo de licença.

Ela suspirou.

— Sim, eu sei. Mas Anthony achou que eu não devia contar a ninguém e não é difícil persuadir uma garota a conservar em segredo uma coisa dessas. Ninguém precisava ter sabido, se não fosse pelo maldito almirante Carroll.

Luke ficou enfurecido pelo modo calmo com que ela falou a respeito de sua traição, como se a única coisa que tivesse fei­to de errado fosse ter sido apanhada.

— Não posso conviver com isso.

Ela falou agora em tom mais sereno.

— Como assim?

— Depois que você me enganou — e a respeito de um assun­to tão importante — como posso voltar a confiar em você?

Ela pareceu angustiada.

— Você vai me dizer que está acabado.

Ele nada disse. Ela continuou.

— Posso afirmar com certeza, conheço você bem demais. Estou certa, não estou?

— Sim.

Ela começou a gritar de novo.

— Seu idiota! — exclamou, por entre as lágrimas. — Não sabe de nada, a despeito da guerra!

— A guerra me ensinou que nada é tão importante quanto a lealdade.

— Mentira. Você ainda não aprendeu que, sob pressão, todos nós estamos dispostos a mentir.

— Mesmo para pessoas a quem amamos?

— Nós mentimos mais para as pessoas a quem amamos justamente por nos preocuparmos muito mais com elas. Por que você pensa que dizemos a verdade para os padres e psicanalis­tas ou completos estranhos que encontramos num trem? É por­que não os amamos, porque não nos importamos com o que pensem.

Os argumentos de Billie eram irritantemente razoáveis. Mas ele não queria saber de desculpas tão cômodas.

— Esta não é a minha filosofia de vida.

— Sorte sua — retrucou ela, amargamente. — Você vem de um lar feliz, nunca conheceu privações ou rejeição, tem bata­lhões de amigos. Teve uma guerra dura, mas não foi ferido nem torturado e não tem imaginação suficiente para ser covar­de. Nada de ruim jamais lhe aconteceu. Claro, você não diz mentiras — pela mesma razão que a sra. Carroll não rouba latas de sopa.

Incrível! Ela se convencera de que ele é que estava errado. Impossível conversar com alguém que podia enganar-se de modo tão completo. Enojado, ele se virou para sair.

— Se é isso o que você pensa de mim, deve estar contente com o fim do nosso relacionamento.

— Não, não estou contente — as lágrimas escorriam pelo seu rosto. — Eu amo você, nunca amei outro homem. Sinto muito por tê-lo decepcionado, mas não vou me prostrar cheia de cul­pa por ter feito uma coisa errada em um momento de crise.

Ele não queria que Billie se prostrasse, não queria que fizesse nada. Só queria afastar-se dela e de seus amigos e do almirante Carroll e daquela casa nojenta.

Em algum canto de sua mente uma voz lhe disse que ele estava jogando fora a coisa mais preciosa que jamais tivera e o avisou que aquela conversa lhe causaria um arrependimento tão grande que ficaria enterrado em sua alma por anos e anos.

Mas ele se sentia demasiadamente furioso, demasiadamente humilhado e demasiadamente magoado para ouvir.

Dirigiu-se para a porta.

— Não vá! — suplicou Billie.

— Vá para o inferno — disse ele, e saiu.

 

2:30

O novo combustível e um tanque maior aumentaram o empuxo do Jupiter para uma força de 83.000 libras e ampliaram o tempo de combustão de 121 para 155 segundos.

— Anthony foi um amigo de verdade para mim naquela ocasião — disse Billie. — Eu estava desesperada. Mil dólares! Não havia nenhum outro lugar onde eu pudesse conseguir tanto dinheiro. Anthony pediu ao pai e para isso assumiu a culpa. Ele foi um homem decente. Por isso é tão difícil compreender o que está fazendo agora.

— Não posso acreditar que desisti de você — disse Luke. — Eu não compreendi aquilo pelo que você passou?

— A culpa não foi toda sua — disse Billie, fatigada. — Na época eu pensei que fosse, mas hoje posso ver o papel que desempenhei em toda a confusão.

Ela parecia exausta depois de ter contado aquela história.

Ficaram em silêncio por algum tempo, calados pelo arrependimento. Luke perguntou-se quanto tempo Bern levaria para vir de Georgetown até ali e depois seus pensamentos vol­taram a se ocupar da história que Billie contara.

— Não gosto muito do que estou aprendendo a meu respei­to — disse ele, após uns momentos. — Eu realmente perdi meus dois melhores amigos, você e Bern, apenas por ter sido inflexí­vel e teimoso?

Billie hesitou e depois riu.

— Por que remoer as palavras? Sim, foi exatamente isso que você fez.

— E assim você se casou com Bern.

Ela riu de novo.

— Meu Deus, como você pode ser egocêntrico! — disse, amavelmente. — Não me casei com Bern porque você me deixou. Casei com Bern porque ele é um dos melhores homens do mun­do. É inteligente, é bondoso e é bom de cama. Levei anos para me livrar de você e, quando consegui, apaixonei-me por Bern.

— E você e eu voltamos a ser amigos?

— Devagar. Nós sempre amamos você, Luke, todos nós, mesmo que você não passe de um filho da mãe teimoso como o diabo. Escrevi comunicando o nascimento de Larry e você veio me ver. Depois, no ano seguinte, Anthony deu a maior festa nos trinta anos dele e você também apareceu. Você tinha voltado para Harvard, a fim de fazer seu doutorado, e o resto de nós morava em Washington — Anthony, Elspeth e Peg traba­lhando para a CIA, eu fazendo pesquisa para a George Washington University e Bern escrevendo programas de rádio. Mas você aparecia duas vezes por ano e a gente se reunia.

— Quando foi que me casei com Elspeth?

— Mil novecentos e cinqüenta e quatro — o ano em que me divorciei de Bern.

— Você sabe por que me casei com ela?

Billie hesitou. A resposta devia ter sido fácil, pensou Luke. Ela devia ter dito, “Porque você a amava — claro!” Mas não.

— Sou a pessoa errada para falar a esse respeito — disse ela, finalmente.

— Perguntarei a Elspeth.

— Gostaria que perguntasse.

Luke olhou para ela. Havia um toque cortante na sua últi­ma observação. Ele estava imaginando como fazer para desco­brir seu significado, quando um Lincoln Continental branco parou na calçada, Bern saltou e foi se juntar a eles.

— Desculpe ter acordado você — disse Luke.

— Esquece — respondeu Bern. — Billie não subscreve a cren­ça popular de que quando um homem está dormindo deve-se deixar que continue dormindo. Se ela estiver acordada, todo mundo deve estar. Você saberia disso, se não tivesse perdido a memória. Olha aqui.

Ele largou um folheto volumoso em cima da mesa. A capa dizia — GUIA AÉREO OFICIAL — PUBLICADO MENSALMENTE.

— Procure a Capital Airlines — disse Billie. — Tem vôos para o sul.

Luke encontrou a página certa.

— Tem um avião que sai às seis e cinqüenta e cinco — ou seja, daqui apenas a quatro horas.

Ele examinou mais detidamente.

— Que bosta, esse vôo pára em tudo quanto é cidadezinha e vai chegar a Huntsville só às duas e vinte e três da tarde, hora local.

Bern pôs os óculos e leu por cima do ombro de Luke.

— O avião seguinte só sai às nove horas, mas tem menos paradas e é um Viscount, de modo que deixa você em Hunts­ville mais cedo, poucos minutos antes do meio-dia.

— Eu pegaria o segundo avião, mas não me agrada muito ficar aqui em Washington mais tempo do que já fiquei.

— E você tem mais dois problemas — disse Bern. — Número um, acho que Anthony terá homens no aeroporto.

Luke franziu a testa, preocupado.

— Talvez eu possa sair de carro e tomar o avião em algum ponto no meio do caminho.

Ele consultou de novo o horário.

— A primeira parada do primeiro vôo é em um lugar cha­mado Newport News. Onde diabos fica isso?

— Perto de Norfolk, Virgínia — respondeu Billie.

— Ele pousa lá dois minutos depois das oito. Será que con­sigo chegar a tempo?

— São trezentos e vinte quilômetros — respondeu Billie. — Digamos que leve umas quatro horas. Você chegaria com uma hora de antecedência.

— Mais ainda, se for no meu carro. A velocidade máxima dele é cento e oitenta.

— Você me emprestaria seu carro?

Bern sorriu.

— Já salvamos a vida um do outro. Um carro não é nada.

Luke balançou a cabeça.

— Obrigado.

— Mas você tem um segundo problema — disse Bern.

— E qual é?

— Fui seguido até aqui.

 

3:00

O tanque de combustível contém defletores para impedir que o líquido se agite. Sem os defletores, o movimento do líquido é tão violento que já fez com que um míssil de prova, o Jupiter 1B, se desintegrasse após 93 segundos de vôo.

Anthony ficou sentado ao volante do seu Cadillac amarelo a um quarteirão do restaurante. Tinha parado bem atrás da trasei­ra de um caminhão para que seu automóvel tão chamativo ficasse escondido, mas podia ver claramente o restaurante e o trecho de calçada iluminado pela luz das janelas. Parecia ser um ponto de encontro de policiais: havia duas radiopatrulhas estacionadas do lado de fora, juntamente com o Thunderbird vermelho de Billie e o Continental branco de Bern.

Ackie Horwitz tinha parado diante da casa de Bern Rothsten com instruções de lá ficar até que Luke reaparecesse, mas quando Bern saíra de casa no meio da noite, teve o bom senso de desobedecer as ordens e segui-lo. Assim que Bern chegara no restaurante, Ackie ligara para o prédio Q e alertara Anthony.

Ackie saiu do restaurante em sua roupa de couro de motociclista, carregando um recipiente de café em uma das mãos e uma barra de chocolate na outra. Parou ao lado da janela de Anthony.

— Lucas está lá dentro — disse ele.

— Eu sabia — disse Anthony, com malévola satisfação.

— Mas ele mudou de roupa. Agora está de chapéu e casaco pretos.

— Ele perdeu o outro chapéu no Carlton.

— Rothsten está com ele, e a garota.

— Quem mais?

— Quatro policiais contando piadas sujas, um insone lendo a edição do Washington Post de amanhã e o cozinheiro.

Anthony balançou a cabeça. Não podia fazer nada a Luke com os policiais presentes.

— Esperamos aqui até que Luke saia e o seguimos. Nós dois. Desta vez não vamos perdê-lo.

— Deixa comigo.

Ackie foi para sua motocicleta, atrás do carro de Anthony, e sentou no selim para tomar o café.

Anthony planejou os próximos acontecimentos. Pegariam Luke em uma rua deserta, o subjugariam e o levariam para uma casa segura da CIA no bairro chinês. Nesse ponto Antho­ny se livraria de Ackie. E em seguida mataria Luke.

Ele se sentia friamente determinado. Sofrera um momento de fraqueza emocional no Carlton, mas depois endurecera o coração, decidindo não pensar em amizade e traição até que aquilo tudo tivesse acabado. Sabia que estava fazendo a coisa certa. Lidaria com arrependimentos depois de ter cumprido seu dever.

A porta do restaurante abriu-se.

Billie saiu primeiro. As luzes fortes ficaram por trás dela, de modo que Anthony não pôde ver seu rosto, mas reconheceu o corpo pequeno e o jeito característico de andar. A seguir veio um homem de casaco e chapéu pretos: Luke. Eles foram para o Thunderbird vermelho. O vulto de capa de chuva que saiu em último lugar entrou no Lincoln branco.

Anthony ligou o motor.

O T-bird afastou-se, seguido pelo Lincoln. Anthony espe­rou uns segundos e saiu também. Ackie veio atrás, na motoci­cleta.

Billie virou para oeste e o pequeno comboio seguiu. An­thony permaneceu um quarteirão e meio atrás, mas as ruas estavam desertas e com certeza eles veriam que estavam sendo seguidos. Anthony sentiu-se fatalista quanto a isto. Não havia mais o que ganhar com disfarces: chegara a hora do confronto final.

Chegaram à rua catorze e pararam em um sinal vermelho, com Anthony atrás do Lincoln de Bern. Quando o sinal abriu, o Thunderbird de Billie deu subitamente um pulo para a frente enquanto o Lincoln permaneceu parado.

Praguejando, Anthony deu marcha a ré alguns metros, engrenou de novo a primeira e meteu o pé no acelerador. O grande carro deu um pulo, contornou o Lincoln e voou atrás do Thunderbird.

Billie ziguezagueou pela região aos fundos da Casa Branca, ultrapassando sinais vermelhos, desafiando proibições de retorno e seguindo pela contramão em ruas de mão única. Anthony fez a mesma coisa, tentando desesperadamente man­ter-se perto dela. Mas o Cadillac não chegava aos pés do T-bird em manobrabilidade e ela desapareceu.

Ackie passou Anthony e ficou colado no carro de Billie. No entanto, à medida que ela aumentava a vantagem sobre Anthony, ele adivinhou que seu plano fosse primeiro se livrar do Cadillac e depois pegar uma auto-estrada e deixar a motoci­cleta para trás, já que esta não conseguiria sobrepujar os 200 quilômetros por hora de velocidade máxima do T-bird.

— Droga! — exclamou Ackie.

Nesse ponto, então, a sorte interveio. Ao virar numa esqui­na cantando os pneus, Billie deu com uma inundação. Jorrava água de um cano na beira da calçada, alagando toda a extensão da rua. Ela perdeu o controle do carro e a traseira do Thunderbird girou num arco amplo. Ackie procurou desviar-se, mas a moto deslizou e ele caiu e rolou na água, embora tenha se levantado imediatamente. Anthony meteu o pé no freio do Cadillac e derrapou até parar na interseção. O Thun­derbird ficou na transversal, com a mala a um centímetro de um carro estacionado. Anthony adiantou um pouco o Cadillac, de modo a bloquear o carro de Billie. Ela não poderia fugir.

Ackie já estava do lado da porta do motorista. Anthony correu para a porta do carona.

— Saia do carro! — gritou, sacando a arma.

A porta abriu-se e o vulto de preto saltou.

Anthony viu imediatamente que não era Luke, e sim Bern.

Virou-se e olhou para o caminho de onde viera. Não havia sinal do Lincoln branco.

Uma onda de ódio o invadiu. Tinham trocado de casaco e Luke fugira no carro de Bern.

— Seu filho-da-puta idiota! — gritou com Bern. Teve ímpe­tos de matá-lo ali mesmo. — Você não sabe o que fez!

Bern conservou-se irritantemente calmo.

— Então me diga, Anthony. O que foi que eu fiz?

Anthony deu-lhe as costas e enfiou a pistola no bolso.

— Espere um minuto — disse Bern. — Você tem uma explicação a dar. O que fez com Luke é ilegal.

— Não tenho que explicar porra nenhuma a você — retrucou Anthony, cuspindo as palavras.

— Luke não é espião.

— Como é que você pode saber uma coisa dessas?

— Eu sei.

— Eu não acredito em você.

Bern encarou Anthony com um olhar duro.

— Claro que acredita — disse. — Você sabe perfeitamente bem que Luke não é agente soviético. Então por que diabo está fazendo de conta que é?

— Vá à merda — disse Anthony, e foi embora.

 

Billie morava em Arlington, um bairro bastante arborizado à margem do rio Potomac, do lado do estado da Virgínia. Anthony seguiu pela rua dela e ao passar pela casa de Billie viu do outro lado um sedã Chevrolet escuro pertencente à CIA. Virou uma esquina e estacionou.

Billie viria para casa em duas horas. Ela sabia para onde Luke fora. Mas não contaria a Anthony. Ele perdera sua con­fiança. Ela permaneceria leal a Luke — a menos que Anthony a submetesse a uma pressão extraordinária.

Exatamente o que ele faria.

Estaria maluco? Uma voz na sua cabeça não parava de perguntar se a corrida valia o prêmio. Haveria alguma justificativa para o que estava prestes a fazer? Afastou as dúvidas. Escolhera seu destino havia muito tempo e não seria desviado dele, nem mesmo por Luke.

Abriu a mala do carro e tirou uma bolsa de couro negro do tamanho de um livro de capa dura e uma lanterna pequena. Em seguida dirigiu-se ao Chevrolet, acomodou-se no banco do carona ao lado de Pete e deixou-se ficar sentado olhando para as janelas escuras da casa de Billie. Pensou: “Isto vai ser a pior coisa que já fiz.”

Olhou para Pete.

— Você confia em mim?

O rosto desfigurado de Pete contorceu-se em um sorriso envergonhado.

— Que tipo de pergunta é essa? Sim, confio em você.

A maior parte dos agentes jovens idolatrava Anthony, mas Pete tinha uma razão extra para ser leal. Anthony descobrira algo a respeito dele que poderia ter resultado na sua demissão — o fato de uma vez ter sido preso por abordar uma prostituta na rua —, mas guardara segredo. Agora, para lembrar Pete des­sa dívida, insistiu:

— Se eu fizesse algo que lhe parecesse errado, você ainda assim ficaria do meu lado?

Pete hesitou, e quando falou sua voz estava embargada de emoção.

— Deixe eu lhe dizer uma coisa — ele olhou em frente, atra­vés do pára-brisa, para a rua iluminada pelas luzes dos postes. — Você tem sido como um pai para mim, é isso.

— Vou fazer algo que você não vai gostar. Preciso que con­fie em mim e que acredite que é a coisa certa a ser feita.

— Estou lhe dizendo — vá em frente.

— Vou entrar na casa. Buzine se chegar alguém.

Ele subiu silenciosamente a entrada de carros, contornou a garagem e foi para a porta dos fundos. Acionou a lanterna atra­vés da janela da cozinha. A mesa e as cadeiras que ele conhe­cia tão bem estavam no escuro.

Vivera toda uma vida de falsidade e traição, mas aquilo, ele pensou com uma onda de asco de si próprio, era o ponto mais baixo a que tinha descido.

Anthony sabia encontrar seus caminhos naquela casa. Verificou primeiro a sala de estar, depois o quarto de Billie. Ambos estavam vazios. Em seguida foi ver o de Becky-Ma. Ela dormia a sono solto, o aparelho de audição na mesinha-de-cabeceira. Em último lugar foi ao quarto de Larry.

Iluminou com a lanterna a criança adormecida. A culpa que sentia era tanta que o deixou nauseado.

Sentou na beira da cama e acendeu a luz.

— Ei, Larry, acorde — disse. — Vamos.

O menino abriu os olhos e, após um momento desorienta­do, sorriu.

— Tio Anthony! — disse, e sorriu.

— Hora de levantar — disse Anthony.

— Que horas são?

— É cedo.

— O que é que nós vamos fazer?

— É surpresa — disse Anthony.

 

4:30

O combustível é lançado na câmara de combustão de um motor de foguete a uma velocidade de mais de 100 km/h. A combustão tem inicio no instante em que os flui­dos se encontram. O calor da chama logo faz evaporar os líquidos. A pressão se ele­va a diversas centenas de libras por polegada quadrada e a temperatura atinge qua­se 3 mil graus centígrados.

Bern dirigiu-se a Billie.

— Você está apaixonada por Luke, não está?

Estavam sentados no Thunderbird dela, em frente ao pré­dio de Bern. Billie não queria entrar porque estava impaciente para chegar em casa e ver Larry e Becky-Ma.

— Apaixonada? — repetiu, evasivamente. — Será que estou?

Não sabia ao certo o que queria compartilhar com o ex-marido. Eram amigos, mas não íntimos.

— Tudo bem — disse ele. — Muito tempo atrás me convenci que você devia ter se casado com Luke. Não penso que tenha deixado de gostar dele. Você me amou também, mas de um modo diferente.

Era verdade. Seu amor por Bern fora um sentimento calmo e gentil. Com ele jamais sentira o furacão de paixão que a engolfava quando estava com Luke. E quando se perguntava o que sentia por Harold — se a afeição tranqüila ou o vendaval da excitação — a resposta era deprimentemente óbvia. Pensar em Harold lhe dava uma agradável, mas moderada, sensação de prazer. Billie tinha pouca experiência com homens — os únicos com quem dormira tinham sido Luke e Bern — mas o instinto lhe dizia que com Harold jamais sentiria a paixão que tinha por Luke e que a deixava fraca e paralisada de tanto desejo.

— Luke está casado — disse ela. — Com uma mulher linda.

Ela pensou por um momento.

— Elspeth é sexy?

Bern fez uma careta.

— Difícil dizer. Talvez seja, com o sujeito certo. Para mim dava a impressão de ser fria, mas ela nunca teve olhos para nin­guém, a não ser Luke.

— Não que isto tenha importância. Luke é do tipo fiel. Ficaria com ela mesmo que fosse um iceberg, só por causa do seu senso de dever.

Billie fez uma pausa.

— Tem uma coisa que preciso falar com você.

— Pois não.

— Tenho que lhe agradecer por não ter dito “eu não falei”. Fico muito grata por ter-se contido.

Bern deu uma risada.

— Você está pensando na nossa grande briga.

Ela concordou.

— Você disse que meu trabalho seria usado para fazer lava­gens cerebrais nas pessoas. Sua previsão concretizou-se.

— Mesmo assim, eu estava errado. Seu trabalho tinha que ser feito. Nós precisamos compreender o cérebro humano. As pessoas podem usar esse conhecimento para fazer o mal, mas não podemos conter o progresso científico. Mas olha, você tem alguma teoria sobre o que o Anthony está querendo?

— A melhor coisa que pude imaginar foi o seguinte: Luke teria descoberto um espião lá em Cabo Canaveral e foi a Washington contar ao Pentágono. Mas o espião na verdade é um agente duplo, trabalhando para nós, de modo que Anthony está desesperado para salvar o sujeito.

Bern sacudiu a cabeça.

— Não está bastante bom. Anthony podia ter resolvido isso simplesmente dizendo a Luke que o cara era agente duplo. Não teria que apagar a memória dele.

— Acho que você tem razão. Mais ainda: Anthony atirou em Luke poucas horas atrás. Sei que esse trabalho de agente secreto tende a subir à cabeça das pessoas, mas não posso crer que a CIA fosse matar um cidadão americano só para proteger um agente duplo.

— Claro que mataria — contrapôs Bern. — Mas não teria sido necessário. Anthony podia ter simplesmente confiado em Luke.

— Você tem uma teoria melhor?

— Não.

Billie deu de ombros.

— Não sei se isso interessa — disse ela. — Anthony tem traí­do e enganado seus amigos — quem se importa com a causa? Qualquer que seja o motivo pelo qual ele tem agido desse modo, nós o perdemos. E ele era um bom amigo.

— A vida é um saco — disse Bern. Ele beijou-a no rosto e saltou do carro. — Se tiver notícias de Luke amanhã, liga para mim.

— OK.

Bern entrou no prédio e Billie saiu com o carro.

Atravessou a Memorial Bridge, contornou o Cemitério Nacional e ziguezagueou pelas ruas do bairro até chegar na sua casa. Fez a manobra para entrar de ré na garagem, hábito que desenvolvera porque geralmente estava com pressa na hora de sair. Entrou, pendurou o casaco no cabide do hall e subiu dire­to, desabotoando o vestido e tirando-o pela cabeça, ao mesmo tempo que galgava a escada. Jogou-o em cima de uma cadeira, livrou-se dos sapatos e foi ver Larry.

Ao dar com a cama vazia, soltou um grito.

Deu uma espiada no banheiro e depois no quarto de Becky-Ma.

— Larry! — gritou, com toda a força dos pulmões. — Cadê você?

Desceu correndo e entrou em todos os aposentos. Saiu da casa como estava, de roupa de baixo, e examinou a garagem e o quintal. Voltou e examinou novamente cada aposento, abrindo armários e verificando debaixo das camas, examinando todos os espaços onde pudesse caber um menino de sete anos de idade.

Ele tinha sumido.

Becky-Ma saiu do seu quarto, o medo estampado no rosto enrugado.

— O que está acontecendo? — perguntou, com a voz trêmula.

— Onde está Larry? — gritou Billie.

— Na cama, eu acho — a voz dela reduziu-se a um gemido de desespero quando percebeu o que acontecera.

Billie ficou imóvel por um momento, respirando fundo, lutando contra o pânico. Até que voltou ao quarto de Larry e o examinou.

O quarto estava arrumado, sem sinais de luta. Examinando o armário, achou o pijama azul de ursinho que ele usara para dormir naquela noite dobrado cuidadosamente numa pratelei­ra. As roupas que ela separara para a escola tinham sumido. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, ele se vestira antes de sair. Parecia ter saído com uma pessoa em quem confiava.

Anthony.

A princípio ela sentiu alívio. Anthony não ia ferir Larry. Mas pensou de novo. Não ia? Teria dito o mesmo a respeito dele em relação a Luke, mas Anthony atirara em Luke. Não havia mais como prever o que Anthony faria. No mínimo, Larry devia ter se assustado por ter sido acordado tão cedo e ter que se vestir e sair de casa sem ver a mãe.

Tinha que trazê-lo de volta logo.

Desceu correndo a escada para telefonar para Anthony. Antes de pegar o aparelho, ele tocou.

— Sim?

— Aqui é Anthony.

— Como foi capaz? — ela gritou. — Como pôde ser tão cruel?

— Tenho que saber onde está Luke — disse ele, friamente. — É inimaginavelmente importante.

— Ele foi — ela calou-se. Se lhe desse a informação, não teria mais nenhuma arma.

— Foi para onde?

Billie respirou fundo.

— Onde está Larry?

— Comigo. Está bem, não se preocupe.

As palavras dele a enfureceram.

— Como é que eu posso não me preocupar, seu imbecil!

— Basta me dizer o que preciso saber e tudo ficará bem. Ela queria acreditar, dizer logo o que queria e confiar que ele levasse Larry para casa, mas resistiu à tentação com todas as suas forças.

— Preste atenção. Quando eu vir meu filho lhe direi onde está Luke.

— Você não confia em mim?

— É alguma piada?

Ele suspirou.

— OK. Encontre-me no Jefferson Memorial.

Ela experimentou uma pequena sensação de triunfo.

— Quando?

— Sete horas.

Ela consultou o relógio. Passava das seis.

— Estarei lá.

— Billie...

— O quê?

— Venha sozinha.

— Pode deixar — ela desligou.

Becky-Ma estava ao seu lado, de pé, parecendo frágil e velha.

— O que é isso? — perguntou. — O que está acontecendo?

Billie tentou dar uma impressão de calma.

— Larry está com Anthony. Ele deve ter vindo enquanto você estava dormindo. Vou pegá-lo agora. Podemos deixar de nos preocupar.

Ela subiu a escada e se vestiu. Depois pegou a cadeira da penteadeira e a colocou em frente ao guarda-roupa. De pé na cadeira, pegou uma pasta pequena em cima do armário. Colocou a pasta em cima da cama e abriu.

Abriu um embrulho feito com um pano e apareceu uma pistola Colt 45 automática.

Todos tinham recebido Colts durante a guerra. Billie guar­dara a sua como lembrança, mas algum instinto fizera com que a limpasse e lubrificasse regularmente. Depois que atiram na gente, não dá para se sentir confortável a menos que se tenha por perto uma arma de fogo.

Comprimiu com o polegar o botão à esquerda, embaixo do gatilho, e puxou o pente de dentro do punho da arma. Havia uma caixa de balas na pasta. Carregou sete balas no pente empurrando uma por uma de encontro à mola e recolocou o pente no lugar. Finalmente, carregou uma bala na câmara.

Ao virar-se, viu Becky-Ma de pé na porta, olhando fixa­mente para a pistola.

Encarou a mãe em silêncio por um momento, saiu corren­do da casa e entrou no carro.

 

6:30

O primeiro estágio contém aproximadamente 25 toneladas de combustível. Todo este combustível será usado em dois minutos e trinta e cinco segundos.

O Lincoln Continental de Bern era uma delícia para dirigir, um carro elegante e silencioso, fazendo cento e sessenta em velo­cidade de cruzeiro, voando sem esforço pelas estradas desertas da Virgínia adormecida. Ao sair de Washington, a impressão de Luke era de que deixava o pesadelo para trás. Sua fuga nas primeiras horas do dia teve o ar estimulante de uma fuga.

Estava ainda escuro quando chegou a Newport News e entrou no pequeno estacionamento ao lado do prédio fechado do aeroporto. Não havia luzes acesas, exceto pela lâmpada solitária de uma cabine telefônica ao lado da entrada. Desligou o motor e ficou ouvindo o silêncio. A noite estava clara e a pis­ta do aeroporto iluminada pelas estrelas. Os aviões estaciona­dos pareciam peculiarmente imóveis, como cavalos de pé, adormecidos. Estava acordado havia mais de vinte e quatro horas e se sentia desesperadamente cansado, mas sua mente funcionava a toda velocidade. Estava apaixonado por Billie. Agora que se afastara dela mais de trezentos quilômetros, podia admitir para si próprio. Mas que significado tinha isso? Ele a teria amado sempre? Ou era uma paixonite de um dia, uma repetição do que acontecera em 1941? E Elspeth? Por que tinha se casado com ela? Perguntara isso a Billie e ela se recu­sara a responder. “Perguntarei a Elspeth”, dissera então.

Verificou o relógio. Tinha mais de uma hora até a decolagem. Tempo de sobra. Saltou do carro e foi até a cabine telefônica.

Ela atendeu rapidamente, como se já estivesse acordada. A telefonista do hotel avisara que a despesa do telefonema seria lançada na sua conta e ela dissera:

— Sim, claro, claro, pode fazer a ligação.

De repente ele se sentiu meio sem graça.

— Bom dia, Elspeth.

— Que bom que você ligou — disse ela. — Eu já estava fican­do maluca de preocupação. O que está acontecendo?

— Não sei por onde começar.

— Você está legal?

— Sim, estou bem, agora. Basicamente, o que houve foi que Anthony fez com que eu perdesse a memória com uma combi­nação de choques elétricos e drogas.

— Meu Deus. E por que ele faria uma coisa dessas?

— Diz que sou um espião soviético.

— Isso é um absurdo.

— Foi o que ele disse a Billie.

— Então você esteve com a Billie?

Luke percebeu o tom de hostilidade na voz de Elspeth.

— Ela foi gentil — disse, defensivamente. Lembrou que pedira a Elspeth que fosse a Washington para ajudá-lo, mas ela se recusara.

Elspeth mudou de assunto.

— De onde você está telefonando?

Ele hesitou. Seus inimigos podiam facilmente ter gram­peado o telefone de Elspeth.

— Eu realmente não quero dizer, para o caso de haver alguém na escuta.

— Tudo bem, eu entendo. O que vai fazer agora?

— Prefiro não dizer pelo telefone.

A voz dela denunciou sua exasperação.

— Bem, sinto muito que você não possa me dizer nada.

— Para falar a verdade, telefonei para lhe fazer umas perguntas.

— OK, vá em frente.

— Por que não podemos ter filhos?

— Não sabemos. No ano passado você foi a um especialista em fertilidade, mas ele não encontrou nada de errado. Poucas semanas atrás fui ver uma médica em Atlanta. Ela fez alguns exames. Estamos aguardando os resultados.

— Você me contaria por que nós nos casamos?

— Eu seduzi você.

— Como?

— Fingi que tinha caído sabão no meu olho, a fim de fazer com que você me beijasse. O truque mais velho do mundo, e me envergonho por você ter caído.

Ele não foi capaz de dizer se ela estava fazendo graça, sen­do cínica ou ambos.

— Conte-me quais foram as circunstâncias, como foi que a pedi em casamento.

— Bem, fiquei sem vê-lo por alguns anos, depois nos encontramos de novo em 1954, em Washington. Eu ainda tra­balhava na CIA. Você trabalhava no Jet Propulsion Laboratory, em Pasadena, mas tomou um avião e foi ao casamento de Peg. Nós nos sentamos juntos no café da manhã.

Elspeth fez uma pausa, recordando, e ele aguardou pacien­temente. Quando falou de novo, a voz dela tinha abrandado.

— Conversamos durante muito tempo — era como se aque­les treze anos não tivessem decorrido e ainda fôssemos um casal universitário com todo o futuro pela frente. Era preciso sair cedo — eu ia reger a Orquestra da Juventude da Rua Dezesseis, e tínhamos um ensaio. Você foi comigo...

 

1954

As crianças da orquestra eram todas pobres e, em sua maior parte, negras. O ensaio teve lugar no hall de uma igreja. Os ins­trumentos tinham sido pedidos, emprestados e comprados em lojas de penhores. Estavam ensaiando a abertura de uma ópera de Mozart, As núpcias de Fígaro. Contra todas as expectativas, tocaram bem.

Elspeth era a razão. Elspeth era uma professora exigente, reparando em cada nota desafinada, em cada falha rítmica, mas que corrigia os alunos com paciência infinita. Uma figura alta envergando um vestido amarelo, ela conduzia a orquestra com enorme entusiasmo, o cabelo vermelho voando, as mãos lon­gas e elegantes extraindo a música dos músicos com gestos apaixonados.

O ensaio durou duas horas e Luke permaneceu sentado o tempo todo, assistindo fascinado a tudo. Podia ver que todos os rapazes estavam apaixonados por Elspeth e que todas as garo­tas queriam ser iguais a ela.

— Essas crianças têm tanta música dentro delas quanto qualquer garoto rico com um Steinway na sala de visitas — dis­se ela depois, dentro do carro. — Mas isso me mete em montes de encrencas.

— Por que, pelo amor de Deus?

— Sou chamada de amante de negros — disse ela. — O que, praticamente, terminou minha carreira na CIA.

— Não entendo.

— Quem quer que trate os negros como seres humanos é suspeito de ser comunista. Assim, nunca serei mais que uma secretária. Não que seja uma grande perda. As mulheres, de qualquer forma, nunca sobem mesmo na hierarquia das firmas onde trabalham.

Ela o levou à sua casa, um apartamento pequeno e arruma­do, com umas poucas peças de mobiliário moderno. Luke pre­parou martínis e Elspeth começou a fazer um espaguete na cozinha minúscula. Luke falou a respeito do seu trabalho.

— Fico tão feliz por você — disse ela, com generoso entusiasmo. — Você sempre quis explorar o espaço. Em Harvard, no tempo em que nós dois saíamos, você já falava sobre isso.

— E naquele tempo — disse ele, com um sorriso — a maioria das pessoas achava que a exploração espacial não passava de um sonho bobo de autores de ficção científica.

— Acho que ainda não podemos ter certeza de que ela acontecerá.

— Acho que podemos ter certeza, Elspeth — disse ele, mui­to sério. — Os grandes problemas foram todos resolvidos pelos cientistas alemães durante a guerra. Os alemães construíram foguetes que podiam ser disparados na Holanda e atingir Londres.

— Eu estava lá, eu me lembro — nós os chamávamos de bombas voadoras — ela estremeceu. — Uma quase me matou. Eu ia para o meu trabalho no meio de um ataque aéreo, porque precisava dar instruções para um agente que ia ser lançado na Bélgica poucas horas depois. Ouvi uma bomba explodir atrás de mim. Fez um barulho horrível, crump, depois houve um barulho de vidro estilhaçando, de material de construção des­moronando e um vento cheio de poeira e pedacinhos de pedra. Eu sabia que, se me virasse para olhar, entraria em pânico e me jogaria no chão e ia terminar encolhida como uma bola, de olhos fechados. Assim, olhei em frente e continuei andando.

Luke ficou comovido com o quadro da jovem Elspeth caminhando nas ruas escuras de Londres enquanto as bombas caíam à sua volta, e sentiu-se grato por ela ter sobrevivido.

— Mulher corajosa — murmurou ele.

Ela deu de ombros.

— Não me senti corajosa, só apavorada.

— O que foi que pensou?

— Não adivinha?

Ele lembrou que sempre que ela não tinha o que fazer pen­sava em matemática.

— Números primos? — arriscou.

Ela riu.

— Números de Fibonacci.

Luke balançou a cabeça. O matemático Fibonacci imagi­nou um par de coelhos que tem duas crias a cada mês, crias essas que começam por sua vez a dar crias no mesmo ritmo um mês após o nascimento, e perguntou quantos pares de coelhos haveria após um ano. A resposta é 144, mas o número de pares de coelhos a cada mês é a mais famosa seqüência de números na matemática: 1,1,2,3,5,8,13,21,34,55,89,144. O novo núme­ro sempre é a soma dos dois anteriores.

Elspeth disse:

— Quando cheguei na minha sala, já tinha conseguido cal­cular o décimo quarto número da série.

— Lembra qual é?

— Claro: cento e dois milhões, trezentos e trinta e quatro mil, cento e cinco. Quer dizer então que nossos mísseis são baseados nas bombas voadoras alemãs?

— Sim, na V2, para ser mais exato.

Luke não devia falar sobre seu trabalho, mas Elspeth era Elspeth, e provavelmente tinha acesso a assuntos mais sigilosos que ele.

— Estamos construindo um foguete que pode ser lançado no Arizona e explodir em Moscou. E, se podemos fazer isso, podemos ir à Lua.

— Quer dizer então que é a mesma coisa, só que numa esca­la maior?

Ela mostrava mais interesse em foguetes do que qualquer outra mulher que conhecia.

— Sim. Precisamos de motores maiores, combustível mais eficiente, melhores sistemas de direção, esse tipo de coisa. Nenhum desses problemas é insuperável. Além disso, os cien­tistas alemães estão trabalhando para nós agora.

— Acho que ouvi falar nisso — ela mudou de assunto. — E sobre a vida em geral? Está namorando alguém?

— Não agora — Luke tinha namorado diversas garotas des­de o rompimento com Billie, nove anos atrás, e dormira com várias delas, mas na verdade — que não queria contar a Elspeth — nenhuma significara nada de importante para ele.

Tinha havido uma mulher que ele podia ter amado, uma garota alta, de olhos castanhos e cabelo rebelde. Possuía o tipo de energia e joie de vivre que ele amava em Billie. Ele a conhe­cera em Harvard enquanto fazia seu doutorado. Uma noite, já bem tarde, quando atravessavam juntos o pátio, ela tomara as mãos dele nas suas e dissera:

— Eu tenho um marido.

Então ela o beijara e fora embora. Esta vez foi o mais per­to que estivera de dar seu coração.

— E você? — ele perguntara a Elspeth. — Peg se casou, Billie já está se divorciando — você tem que se esforçar para alcançá-las.

— Oh, você sabe como somos, nós, as garotas que traba­lham para o governo.

A frase era um clichê dos jornais. Tantas mulheres jovens trabalhavam para o governo em Washington que ultrapassa­vam os homens na proporção de cinco para um. Como conse­qüência, eram estereotipadas como sendo sexualmente frustra­das e desesperadas por namorados. Luke não acreditava que Elspeth fosse assim, mas se ela queria fugir da pergunta, era um direito que tinha.

Pediu para ele tomar conta do fogão enquanto ia lavar o rosto. Havia uma panela grande com espaguete e outra peque­na com molho de tomate borbulhante. Ele tirou o paletó e a gravata e pôs-se a mexer o molho com uma colher de pau. O martíni o deixara ligeiramente alto, a comida cheirava bem e ele estava com uma mulher de quem realmente gostava. Sentia-se feliz.

Ouviu Elspeth chamar, com um tom pouco característico de impotência:

— Luke, podia dar um pulinho aqui, por favor?

Ele entrou no banheiro. O vestido de Elspeth estava pendu­rado na porta, pelo lado de dentro. Ela vestia sutiã sem alças cor de pêssego e anágua da mesma cor, meias e sapatos. Embora vestisse mais roupa do que se estivesse na praia, Luke achou muitíssimo sexy vê-la de roupa de baixo. Elspeth tinha a mão no rosto.

— Estou com sabão no olho, droga — disse ela. — Quer ten­tar lavar?

Luke abriu a torneira de água fria no lavatório.

— Abaixe a cabeça, coloque o rosto perto da pia — disse ele, encorajando-a com a mão esquerda nas costas. A pele clara das costas dela era macia e quente ao toque de sua mão. Ele juntou água na mão em concha e levou ao olho machucado.

— Isso ajuda — disse Elspeth.

Luke enxaguou o olho repetidas vezes até que ela disse que não ardia mais. Em seguida ele fez com que se endireitasse e secou-lhe o rosto com uma toalha.

— Seu olho está um pouco congestionado, mas acho que está bem.

— Devo estar horrível.

— Não.

Ele a fitou com firmeza. O olho dela estava vermelho e o cabelo daquele lado tinha ficado molhado aos chumaços. Mesmo assim, estava tão maravilhosa como no primeiro dia em que a vira, mais de uma década atrás.

— Você é absolutamente linda.

A cabeça dela ainda estava inclinada para cima, embora ele não estivesse mais secando seu rosto. Tinha os lábios entreabertos num sorriso. Foi a coisa mais fácil do mundo bei­já-la. Ela o beijou também, hesitantemente a princípio, depois passou a mão pela sua nuca, puxou o rosto dele para junto do seu e o beijou apaixonadamente.

O sutiã de Elspeth comprimiu o peito dele. Devia ter sido sexy, mas a armação de arame era tão dura que o arranhou através do algodão fino da camisa. Após um momento ele se afas­tou, sentindo-se tolo.

— O que foi? — perguntou ela.

Ele tocou de leve no sutiã e disse, com um sorriso:

— Dói.

— Pobrezinho — disse ela, com irônica piedade.

Elspeth levou as mãos às costas e desabotoou o sutiã com um movimento rápido. O sutiã caiu no chão.

Ele tocara nos seus seios algumas vezes, tanto tempo atrás, mas jamais os tinha visto. Eram brancos e redondos e os mamilos claros estavam franzidos de excitação. Ela passou os bra­ços pelo seu pescoço e comprimiu o corpo no dele. Seus seios eram suaves e quentes.

— Pronto — disse Elspeth —, assim é melhor.

Após um instante ele a pegou no colo, foi para o quarto e colocou-a em cima da cama. Ela se livrou dos sapatos. Ele tocou no cós da anágua e perguntou:

— Posso?

Ela deu uma risadinha.

— Puxa, Luke, você é tão educado!

Ele sorriu. Era bobagem, mas não sabia ser de outra forma. Elspeth ergueu os quadris e ele puxou a anágua. As calcinhas cor-de-rosa combinavam com o resto da roupa de baixo.

— Não pergunte — disse ela. — Simplesmente tire.

Quando fizeram amor foi lento e intenso. Elspeth ficou puxando a cabeça dele para junto da sua e beijando-lhe o ros­to, enquanto Luke entrava e saía de dentro dela.

— Eu desejava isso há tanto tempo — murmurou Elspeth no ouvido dele, e logo gritou de prazer, uma, duas, diversas vezes, e deixou-se ficar deitada de costas, exausta.

Em pouco tempo Elspeth caía em sono profundo, mas Luke permanecia acordado, pensando em sua vida.

Ele sempre quis ter uma família. Para Luke, felicidade era uma casa grande cheia de crianças e amigos e animais de esti­mação. E, no entanto, ali estava ele, trinta e três anos e ainda solteiro, com o tempo parecendo andar cada vez mais depres­sa. Desde a guerra que a carreira tinha sido sua prioridade, disse a si próprio. Voltara a estudar, recuperando os anos perdi­dos. Mas esta não era a verdadeira razão pela qual não se casa­ra. A verdade é que apenas duas mulheres tinham tocado seu coração — Billie e Elspeth. Billie o enganara, mas Elspeth esta­va ali, a seu lado. Contemplou seu corpo voluptuoso à luz débil do Dupont Circle lá fora. Poderia haver algo melhor do que passar todas as noites com uma garota que era inteligente, corajosa como uma leoa, maravilhosa com crianças e — acima de tudo — estonteantemente linda?

Quando nasceu o dia ele se levan