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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


COMANDO TRIBULAÇÃO / Tim Lahaye & Jerry B. Jenkins
COMANDO TRIBULAÇÃO / Tim Lahaye & Jerry B. Jenkins

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

COMANDO TRIBULAÇÃO

 

Em um instante cataclísmico, milhões de pessoas de todas as partes do mundo desapareceram. Simplesmente sumiram, deixando para trás tudo o que era material: roupas, óculos, lentes de contato, cabelos postiços, aparelhos de surdez, próteses, jóias, sapatos e até mesmo marcapassos e pinos cirúrgicos.

Milhões de pessoas sumiram. Mas outros milhões ficaram—adultos, porém não crianças, e apenas alguns adolescentes. Todos os bebês, inclusive os que estavam para nascer, desapareceram—alguns durante o parto.

Instalou-se o caos no mundo inteiro. Aviões, trens, ônibus e carros colidiram, navios afundaram, casas incendiaram, sobreviventes acometidos de angústia suicidaram-se. Um congestionamento de transportes e linhas de comunicação, somado ao desaparecimento de inúmeros funcionários, deixou a maioria das pessoas lutando sozinhas para sobreviverem até que a situação começasse a se normalizar.

Alguns disseram que o mundo tinha sido invadido por seres extraterrestres. Outros disseram que os desaparecimentos tinham sido causados por um ataque inimigo. Não obstante, todos os países do mundo sofreram perdas em razão dos desaparecimentos.

O capitão-aviador Rayford Steele e sua filha Chloe de vinte anos foram deixados para trás. A esposa de Rayford e o filho de doze anos do casal sumiram. Rayford, que pilotava um 747 sobre o Atlântico a caminho de Londres, disse à chefe do serviço de bordo, Hattie Durham, que não sabia explicar o que acontecera. A terrível verdade era que ele sabia muito bem. Sua esposa o advertira a respeito desse acontecimento. Cristo retornara para levar os escolhidos, e o restante havia sido deixado para trás, inclusive Rayford e Chloe.

Rayford passou a ocupar-se em descobrir a verdade e assegurar-se de que ele e Chloe não perderiam uma segunda oportunidade, se porventura houvesse. Ele se sentia responsável pelo ceticismo da filha e pela atitude dela em "acreditar só no que é possível ver e sentir".

Essa busca levou-o a freqüentar a igreja da esposa, onde um punhado de pessoas, inclusive um membro da equipe pastoral, havia sido deixado para trás. O pastor visitador Bruce Barnes perdera a esposa e os filhos. Ele, mais que todos os outros, compreendeu imediatamente que sua fé artificial e fraca o abandonara no momento mais crítico de sua vida. Em um piscar de olhos, passou a ser a pessoa mais convincente da terra—um evangelista entusiasta e não-apologético.

Sob a tutela de Bruce e a influência de um videoteipe que o pastor titular deixara para essa ocasião, primeiro Rayford e depois Chloe passaram a crer em Cristo. Junto com o novo pastor, formaram a Força Tribulação, um grupo determinado a desafiar as forças do mal durante o período de Tribulação predito na Bíblia.

Nesse ínterim, Cameron— “Buck” —Williams, articulista sênior do prestigioso Semanário Global, buscava por conta própria as respostas para os desaparecimentos. Buck estava a bordo da aeronave pilotada por Rayford Steele quando aconteceu o Arrebatamento, e ele foi designado para encontrar uma explicação para os desaparecimentos em todas as partes do mundo. Suas entrevistas levaram-no a entrar em contato com uma das mais poderosas e carismáticas personalidades já existentes no mundo, o misterioso Nicolae Carpathia. Duas semanas após os desaparecimentos, Carpathia foi levado a ocupar uma posição de poder internacional como chefe da Organização das Nações Unidas, prometendo unir o mundo devastado, em uma pacífica aldeia global.

Buck apresentou a chefe do serviço de bordo Hattie Durham a Carpathia, que imediatamente a nomeou sua assistente pessoal. Após ter aceitado a Cristo por influência de Rayford, Chloe e Bruce, Buck sentiu-se responsável por Hattie e passou a lutar desesperadamente para tirá-la das garras de Carpathia.

Rebaixado de cargo por ter supostamente recusado uma incumbência importante, Buck foi transferido de Nova York para Chicago, onde se uniu a Rayford, Chloe e Bruce como quarto membro da Força Tribulação. Juntos, os quatro decidiram permanecer firmes e lutar contra todas as disparidades, e jamais desistir. Representando milhões de pessoas que perderam a oportunidade de ter um encontro com Cristo no firmamento, resolveram não abrir mão de sua fé recentemente encontrada, sem se importar com o que teriam de enfrentar no futuro.

Buck Williams testemunhou o poder sanguinário e maligno de Nicolae Carpathia, e Bruce Barnes sabe, por ter estudado a Bíblia, que dias sombrios ainda estão por vir. Por mais estranho que possa parecer, apenas um dos quatro membros da Força Tribulação sobreviverá nos próximos sete anos.

Mas apenas Bruce conhece o horror que está por acontecer. Se os outros soubessem, talvez não se aventurassem de maneira tão corajosa rumo ao futuro.

 

 

Era a vez de Rayford Steele ter uma pausa para descanso. Pendurou os audiofones no pescoço e vasculhou sua maleta à procura da Bíblia de sua esposa, admirado diante da rapidez com que sua vida mudara. Quantas horas ele perdera durante momentos ociosos iguais a este, dedicando toda a atenção a jornais e revistas que não tinham nada a dizer? Depois de tudo o que acontecera, só um livro poderia despertar seu interesse.

O Boeing 747 estava ligado no piloto automático, tendo partido de Baltimore rumo ao aeroporto O'Hare de Chicago, onde deveria pousar às dezesseis horas de sexta-feira, mas Nick, o novo co-piloto de Rayford, olhava firme para a frente, como se estivesse pilotando a aeronave. Não quer mais conversar comigo, pensou Rayford. Sabia o que estava por vir e me mandou ficar quieto antes de eu abrir a boca.

"Você não vai se ofender se eu ficar aqui lendo por alguns instantes?" perguntou Rayford.

O jovem co-piloto virou-se e retirou o audiofone do ouvido. "O que você disse?"

Rayford repetiu, apontando para a Bíblia. Pertencera à sua esposa que ele não via há mais de duas semanas e que provavelmente não veria nos próximos sete anos.

— "Desde que eu não tenha de ouvir sua leitura."

— "Já disse em alto e bom som, Nick. Você acha que não me preocupo com o que pensa a meu respeito, não é isso?”

— "Como?"

Inclinando-se, Rayford aproximou-se dele e falou mais alto. — "O que você pensa de mim teria sido imensamente importante algumas semanas atrás", ele disse. "Mas...”

— "Ah, sim, eu sei, e daí? Entendi, Steele, está bem? Você e muitas outras pessoas pensam que foi Jesus. Não entro nessa. Iluda-se sozinho, mas me deixe fora disso."

Rayford ergueu as sobrancelhas e deu de ombros. — "Você não me respeitaria se eu não tivesse tentado."

— "Não tenha tanta certeza disso."

Mas quando Rayford se virou para se dedicar à leitura, foi o Chicago Tribune despontando de dentro de sua maleta que lhe chamou a atenção.

O Tribune, como todos os jornais do mundo, estampava na primeira página: “Durante uma reunião particular na Organização das Nações Unidas, pouco antes da entrevista coletiva à imprensa de Nicolae Carpathia, aconteceu um terrível assassinato/suicídio. O novo secretário-geral da ONU Nicolae Carpathia acaba de dar posse aos dez novos membros do novo Conselho de Segurança, parecendo ter cometido um erro ao empossar dois homens para a mesma posição de embaixador dos Grandes Estados Britânicos na ONU.”

De acordo com testemunhas, o bilionário Jonathan Stonagal, amigo e consultor financeiro de Carpathia, dominou de surpresa um guarda de segurança, apoderou-se de sua arma e atirou em sua própria cabeça, tendo o projétil

Atravessado e atingido mortalmente um dos novos embaixadores britânicos.

A Organização das Nações Unidas permaneceu fechada durante o dia, e Carpathia lamentou a perda trágica de seus dois caros amigos e fiéis conselheiros.

Por mais bizarro que pudesse parecer, Rayford Steele era uma das únicas quatro pessoas do planeta que sabia a verdade acerca de Nicolae Carpathia — que ele mentia, fazia lavagem cerebral por hipnose e era o próprio Anticristo. Outras pessoas poderiam suspeitar que Carpathia fosse um enganador, mas só Rayford, sua filha, seu pastor e seu novo amigo jornalista Buck Williams tinham certeza disto.

Buck tinha sido um dos dezessete presentes naquela sala de reunião da ONU. E ele testemunhara algo totalmente diferente — não um assassinato/suicídio, mas um duplo assassinato. De acordo com Buck, o próprio Carpathia apossou-se da arma do guarda de segurança, obrigou seu velho amigo Jonathan Stonagal a ajoelhar-se e, em seguida, assassinou Stonagal e o embaixador britânico com um único tiro.

Carpathia promoveu os assassinatos e depois, enquanto as testemunhas permaneciam sentadas e paralisadas pelo horror da cena, contou-lhes calmamente o que elas tinham visto — a mesma história que os jornais estavam relatando. Todas as testemunhas naquela sala, menos uma, confirmaram a história. A maioria sentiu um arrepio, mas acreditou. Até mesmo Steve Plank, ex-chefe de Buck, e agora secretário de imprensa de Carpathia. Até mesmo Hattie Durham, ex-chefe do serviço de bordo de Rayford, que se tornara assistente pessoal de Carpathia. Todas, exceto Buck Williams.

Rayford duvidou quando Buck contou sua versão no escritório de Bruce Barnes duas noites antes. — "Você foi o único da sala que presenciou o fato desta maneira?" indagou, pondo à prova o articulista.

— "Capitão Steele", respondeu Buck, "todos nós presenciamos o fato da mesma maneira. Mas a seguir Carpathia descreveu calmamente o que ele desejava que tivéssemos visto, e todos, menos eu, imediatamente aceitaram-no como verdadeiro. Não entendo como ele consegue explicar que o sucessor do homem morto estava presente quando aconteceu o assassinato e chegou a prestar juramento de posse. Mas agora não há evidências de que estive lá. É como se Carpathia me tivesse apagado da memória dos presentes. Pessoas que conheço juram que eu não estava lá, e elas não estão brincando.”

Chloe e Bruce Barnes olharam-se mutuamente e depois para Buck. Buck finalmente tornara-se crente, pouco antes de entrar na reunião da ONU. — "Estou absolutamente convencido de que se tivesse entrado naquela sala sem Deus", disse Buck, "também teria sido submetido a uma lavagem cerebral."

"E se agora você contar ao mundo a verdade..."

— "Senhor, fui removido para Chicago porque meu chefe acredita que não compareci à reunião. Steve Plank perguntou-me por que não aceitei seu convite. Ainda não conversei com Hattie, mas o senhor sabe que ela não se lembrará de que estive lá."

— "A dúvida maior", disse Bruce Barnes, "é o que Carpathia pensa sobre o que se passa em sua cabeça, Buck. Será que ele imagina ter apagado a história verdadeira de sua mente? Se ele souber que não, você corre grande perigo".

Agora, enquanto Rayford lia a notícia bizarra no jornal, notou que Nick estava mudando o piloto automático para manual. "Início da descida", disse Nick. "Quer assumir o comando?"

"Claro", respondeu Rayford. Nick poderia aterrissar a aeronave, mas Rayford sentia-se responsável. Ele era o capitão. Teria de dar conta dos passageiros. E apesar de a aeronave poder aterrissar sozinha, ele não queria perder a emoção de pilotá-la. Poucas coisas faziam-no lembrar da vida como ela fora algumas semanas antes; aterrissar um 747 era uma delas.

 

Buck Williams passou o dia à procura de um apartamento para morar e de um carro para comprar. Em Manhattan nunca sentira necessidade de ter veículo próprio. Encontrou um lindo condomínio, onde se anunciavam apartamentos com telefone, localizado no meio do caminho entre a sucursal do Semanário Global de Chicago e a Igreja Nova Esperança de Mount Prospect. Buck tentou convencer-se de que o motivo principal que o levara a procurar moradia na zona oeste da cidade foi por causa da igreja, e não por causa de Chloe, a filha de Rayford Steele. Por ser dez anos mais velho do que ela, Buck sabia que, por maior que fosse sua atração por Chloe, ela apenas o considerava uma espécie de conselheiro bem mais velho e experiente.

Buck protelou sua ida ao escritório. A bem da verdade, só deveria comparecer na segunda-feira, e não lhe agradava a idéia de enfrentar Verna Zee. Quando foi incumbido de encontrar uma substituta para a experiente Lucinda Washington, chefe da sucursal de Chicago que havia desaparecido, informaram-lhe que a destemida Verna se antecipara, mudando-se imediatamente para a sala de sua ex-chefe. Agora Buck tinha sido rebaixado de cargo e Verna, promovida. De repente ela passou a ser sua chefe.

Porém, Buck não queria passar o fim de semana amofinando-se com a reunião, nem desejava parecer ansioso demais para ter um novo encontro com Chloe. Resolveu, então, dar uma chegada até o escritório pouco antes do encerramento do expediente. Será que Verna o faria pagar por seus anos de glória que o levaram a conquistar prêmio como articulista de reportagem de capa? Ou faria pior ainda, destruindo-o com ares de bondade?

Ao atravessar o corredor em direção ao escritório, Buck percebeu os olhares e sorrisos dos subalternos. Evidentemente todos já sabiam o que acontecera. Solidarizavam-se com ele, atônitos em razão de sua falta de bom senso. Como Buck Williams poderia ter deixado de comparecer a uma reunião que certamente seria a mais importante da história contemporânea, apesar do fim trágico que resultou em duas mortes? Mas todos também estavam cientes da capacidade de Buck. Muitos, sem dúvida, ainda consideravam um privilégio trabalhar com ele.

Sem causar surpresa a ninguém, Verna já se mudara para a sala principal. Buck piscou para Alice, uma jovem de cabelos espetados, secretária de Verna, e espiou dentro da sala. Dava a impressão que Verna trabalhava ali havia anos. Já mudara os móveis de lugar e pendurara seus próprios quadros e placas de homenagem, demonstrando claramente que ocupava um cargo importante e adorava desempenhá-lo.

Uma pilha de papéis entulhava a mesa de Verna, e a tela do computador estava acesa, mas ela lançava um olhar perdido em direção à janela. Buck enfiou a cabeça no vão da porta e pigarreou. Viu que ela o reconheceu e se recompôs rapidamente. "Cameron", disse em tom de voz seco, ainda sentada. "Esperava que você só viesse na segunda-feira."

"Estou apenas fazendo um reconhecimento do local", ele disse. "Pode me chamar de Buck."

"Vou chamá-lo de Cameron, se você não se importar, e..."

"Eu me importo. Por favor, pode me chamar de..."

"Vou chamá-lo de Cameron mesmo que você não queira. Você informou a alguém que viria?"

"Como assim?"

"Você marcou horário?"

"Horário?"

"Comigo. Tenho uma agenda lotada, você sabe."

"E não há nenhum espaço para mim?"

"Então você está pedindo para que eu marque um horário?"

"Se não for incômodo. Gostaria de saber onde vou aportar e que tipo de incumbências você tem em mente para mim, que tipo de..."

"Esses assuntos poderão ser discutidos quando nos reunirmos", disse Verna. "Alice! Veja se tenho um horário livre em vinte minutos, por favor!"

"Tem", gritou Alice. "E terei satisfação em mostrar o cubículo do Sr. Williams enquanto ele aguarda, se você..."

"Prefiro eu mesma fazer isso, Alice. Obrigada. Você poderia fechar a porta de minha sala?"

Alice olhou para Buck com ar de desculpa enquanto se levantava para fechar a porta. Ele achou que ela revirou os olhos em sinal de enfado. "Você pode me chamar de Buck", cochichou.

"Obrigada", respondeu ela timidamente, indicando uma cadeira perto de sua mesa.

"Vou ter de esperar aqui, como se estivesse aguardando o diretor?"

Ela assentiu com a cabeça. "Alguém procurou por você pouco antes de sua chegada. Ela não disse quem era. Informei que você só estaria aqui na segunda-feira."

"Não deixou recado?"

"Não."

"Então, onde fica meu cubículo?"

Alice olhou de relance para a porta fechada, como se temesse que Verna pudesse vê-la. Levantou-se e apontou por cima de várias divisórias em direção a um canto no fundo, sem janelas.

"Era ali que ficava o bule de café na última vez em que estive aqui", disse Buck.

"E continua lá", disse Alice com uma risadinha. O interfone tocou. "Pois não, senhora."

"Se vocês precisam conversar, poderiam falar mais baixo enquanto estou trabalhando?"

"Desculpe!" Desta vez Alice revirou os olhos de verdade.

"Vou dar uma espiada", cochichou Buck, levantando-se.

"Por favor, não faça isso. Vai me criar problemas com a manda-chuva."

Buck balançou a cabeça e voltou a sentar-se. Pensou nos lugares por onde andara, nas pessoas com quem se encontrara, nos perigos que enfrentara em sua carreira. E agora estava cochichando com uma secretária para que ela não tivesse problemas com uma pretensa chefe que nunca foi capaz sequer de escrever uma comunicação interna.

Buck suspirou. Pelo menos estava em Chicago, cercado de pessoas que se importavam com ele de verdade.

 

Apesar de Rayford Steele e Chloe partilharem de uma nova fé, ele ainda estava sujeito a profundas alterações de humor. Enquanto atravessava o aeroporto de O'Hare, passou abruptamente e em silêncio por Nick e sentiu uma grande tristeza. Como sentia falta de Irene e Raymie! Não tinha dúvida nenhuma de que ambos estavam no céu. Talvez estivessem pranteando por ele. O mundo mudara de forma tão dramática desde os desaparecimentos que poucas pessoas haviam readquirido o senso de equilíbrio. Sentia-se agradecido por ter Bruce dando-lhe assistência, por Chloe, e agora por Buck estar a seu lado trabalhando firme na missão que se propuseram levar adiante, mas às vezes a simples idéia de enfrentar o futuro parecia um fardo muito grande.

Foi por isso que sentiu um grande alívio ao ver o rosto sorridente de Chloe aguardando por ele no fim do corredor. Em duas décadas de trabalho como piloto, adquirira o hábito de misturar-se aos passageiros que recebiam as boas-vindas no terminal. Quase todos os pilotos simplesmente desembarcavam da aeronave e dirigiam-se sozinhos para casa.

Chloe e Rayford passaram a entender um ao outro como nunca acontecera antes. Rapidamente tornaram-se amigos e confidentes. Apesar de não concordarem em tudo, permaneciam juntos nos momentos de tristeza e dor, unidos pela nova fé e companheiros na missão à qual deram o nome de Força Tribulação.

Rayford abraçou a filha. "Há algo errado?"

"Não, mas Bruce esteve à sua procura; Convocou uma reunião de emergência do núcleo para o início desta noite. Não sei do que se trata, mas Bruce gostaria que levássemos Buck à reunião."

"Como você veio até aqui?"

"De táxi. Sabia que você tinha deixado seu carro aqui."

"Onde Buck poderia estar?"

"Ele saiu hoje à procura de um carro e de um apartamento. É difícil saber onde ele está."

"Você telefonou para o Semanário"

"Falei com Alice, a secretária, no início da tarde. Bruce só deverá comparecer na segunda-feira, mas poderemos ligar novamente pelo telefone do carro. Isto é, você pode. Você é quem deve telefonar para ele, não acha? Não é melhor?"

Rayford conteve um sorriso.

 

Sentada à sua mesa, Alice inclinou-se para frente com a cabeça erguida, fitando Buck e segurando-se para não cair na gargalhada enquanto ele lhe contava algumas anedotas em voz baixa. Ele se perguntava o tempo todo como poderia encaixar todos os seus pertences que estavam em sua sala espaçosa no escritório de Manhattan naquele cubículo onde o pessoal se servia de café. O telefone tocou e Buck ouviu a conversa dos dois lados da linha por meio do viva-voz. Da outra extremidade do corredor, a recepcionista disse: "Alice, Buck Williams ainda está aí?"

"Bem na minha frente."

"Ligação para ele."

Era Rayford Steele, telefonando do carro. "Às sete e meia da noite?" disse Buck. "Claro, estarei lá. O quê? Ah, sim, diga a ela que retribuo o abraço. Nos encontraremos na igreja hoje à noite."

Buck estava desligando quando Verna apareceu na porta e olhou-o com expressão de desagrado.

"Algum problema?" ele indagou.

"Em breve você terá um telefone", ela disse. "Vamos, entre."

Assim que Buck se acomodou na cadeira, Verna informou-lhe suavemente que ele não mais viajaria para o exterior trabalhando em reportagens de capa ou em matérias de impacto para o Semanário Global. "Aqui em Chicago exercemos um papel importante na revista, porém limitado", ela disse. "Interpretamos as notícias nacionais e internacionais a partir de um ponto de vista local e regional, e submetemos nossas reportagens a Nova York."

Buck empertigou-se na cadeira. "Quer dizer que estou sendo designado para a Bolsa de Mercadorias de Chicago?”

"Não me venha com gozações, Cameron. Nunca vai conseguir. Você trabalhará em qualquer matéria que necessite de cobertura no decorrer da semana. Sua tarefa será canalizar o assunto ao editor-chefe e a mim, e eu decidirei se a matéria tem conteúdo e qualidade para ser transmitida a Nova York."

Buck suspirou. "Não perguntei ao chefão o que eu deveria fazer com meus trabalhos em andamento; Acho que nem você sabe."

"De agora em diante seu contato com Stanton Bailey será também por meu intermédio. Entendido?"

"Você está me perguntando se entendo ou se concordo?"

"Nem uma coisa nem outra. Estou perguntando se aceita."

"Acho que não", respondeu Buck, sentindo uma onda de calor subindo pelo pescoço e o pulso acelerando. Não queria entrar em discussão acalorada com Verna. Mas também não pretendia permanecer calado diante de alguém que não pertencia ao ramo jornalístico e que jamais deveria sentar-se na cadeira de Lucinda Washington e exercer liderança sobre ele.

"Discutirei o assunto com o Sr. Bailey", ela disse. "Como você pode imaginar, tenho todos os tipos de recursos à minha disposição para lidar com empregados insubordinados."

"Posso imaginar. Por que você não liga agora para ele?"

"Para quê?"

"Para esclarecer qual é a minha função. Aceitei ser rebaixado de cargo e transferido. Você sabe tanto quanto eu que se meu trabalho for restrito a matérias de natureza regional, meus contatos e experiência irão por água abaixo."

"E seu talento também, você gostaria de dizer."

"Deduza o que quiser. Mas antes de você liquidar-me de vez, saiba que trabalhei dezenas de horas em minha reportagem de capa sobre a teoria dos desaparecimentos... ora, por que estou lhe falando disso?"

"Porque sou sua chefe e porque dificilmente um articulista da sucursal de Chicago trabalharia em uma reportagem de capa."

"Nem mesmo um articulista que já trabalhou em muitas? Desafio você a ligar para Bailey. A última vez que ele comentou algo sobre meu trabalho foi para dizer que seria um sucesso."

"Ah, é? Na última vez que conversei com ele, tomei conhecimento da última conversa entre vocês."

"Aquilo foi um mal-entendido."

"Foi uma mentira. Você disse que esteve em um lugar, mas todo mundo jurou que você não esteve. Se eu fosse ele, teria demitido você."

"Se você tivesse autoridade para me demitir, eu pediria demissão."

"Quer demitir-se?"

"Vou lhe dizer o que quero, Verna. Quero..."

"Exijo que todos os meus subordinados me chamem de Srta. Zee."

"Você não tem subordinados neste escritório", disse Buck. "E você não..."

"Você está se aproximando muito da linha de fogo, Cameron."

"Você não receia que Srta. Zee seja um tratamento muito juvenil?"

Ela levantou-se. "Acompanhe-me." Irritada, passou por ele, saiu abruptamente da sala e caminhou pelo longo corredor com passos firmes.

Buck parou diante da mesa de Alice. "Obrigado por tudo, Alice", disse rapidamente. "Tenho uma boa quantidade de bugigangas que estão sendo despachadas para cá e gostaria que você as enviasse para meu novo apartamento."

Alice começou a assentir com a cabeça, mas seu sorriso gelou quando Verna gritou no final do corredor. "Rápido, Cameron!"

Buck virou-se lentamente. "Voltarei a falar com você, Alice." Caminhou devagar propositadamente só para irritar Verna. Algumas pessoas dentro de seus cubículos observaram a cena, fingindo não ter visto nada, mas sorrindo furtivamente.

Verna marchou até o canto destinado a servir café e apontou para uma pequena mesa, um telefone e um arquivo. Buck sorriu com desdém.

"Você terá um computador dentro de uma semana ou pouco mais", ela disse.

"Peça que o entreguem em meu apartamento."

"Isso está fora de cogitação."

"Não, Verna, o que está fora de cogitação é você tentar desabafar toda a sua frustração em alguém que conhece as coisas em um piscar de olhos. Você sabe tanto quanto eu que ninguém com um mínimo de dignidade suportaria isto. Se eu tiver de trabalhar na região de Chicago, vou trabalhar em casa com um computador, um modem e um fax. Se você está pretendendo me ver neste escritório novamente por uma razão ou outra, é melhor telefonar para Stanton Bailey imediatamente."

Verna parecia preparada para não arredar pé, portanto Buck tomou a iniciativa de dirigir-se para a sala dela. Verna o seguiu. Ele passou por Alice, que parecia tomada pelo pânico, e aguardou diante da mesa de Verna até ela chegar. "Você mesma vai discar ou quer que eu disque?" ele ordenou.

 

Rayford e Chloe lancharam a caminho de casa e encontraram um recado telefônico urgente do comandante de Rayford. "Ligue para mim assim que chegar." Com o quepe debaixo do braço e trajando ainda sua capa impermeável de uniforme, Rayford discou o número que sabia de cor. "O que houve, Earl?"

"Obrigado por retornar minha ligação imediatamente, Ray. Você e eu nos conhecemos há muito tempo."

"Tempo suficiente para que você vá direto ao assunto, Earl. O que foi que eu fiz?"

"Este não é um telefonema oficial, está bem? Não se trata de uma reprimenda, nem de uma admoestação, nem de outra coisa qualquer. Trata-se de uma conversa de amigo para amigo."

"Se é de amigo para amigo, Earl, devo me tranqüilizar?"

"Não, mas deixe-me dizer-lhe uma coisa, rapaz, você andou fazendo proselitismo."

"Fazendo o quê?"

"Falando de Deus no trabalho, homem."

"Earl, eu paro de falar quando alguém retruca, e você sabe que não deixo esse assunto interferir no trabalho. A propósito, qual é sua opinião a respeito dos desaparecimentos?"

"Já esgotamos esse assunto, Ray. Estou apenas lhe dizendo que Nicky Edwards vai fazer um relatório sobre você, e eu gostaria de dizer a ele que já conversamos sobre isso e que você concordou em parar de falar no assunto."

"Fazer um relatório sobre mim? Por acaso transgredi alguma regra, infringi um regulamento ou cometi um crime?"

"Não sei que nome ele dará a isso, mas você já foi advertido, certo?"

"Entendi que esse telefonema não era oficial."

"E não é, Ray. Você quer que seja? Quer que eu lhe telefone amanhã e o arraste até aqui para uma reunião e redija um memorando para seu prontuário, ou prefere que eu contorne a situação, que lhes diga que foi um mal-entendido, que você já esfriou a cabeça e que o assunto não voltará à baila novamente?"

Rayford permaneceu calado.

"Vamos, Ray, isto não é um bicho-de-sete-cabeças. Não quero que você pense muito no assunto."

"Mas terei de pensar, Earl. Gostei de você ter-me alertado, mas ainda não me sinto preparado para fazer concessões."

"Não faça isso comigo, Ray."

"Não tem nada a ver com você, Earl. Tem a ver comigo."

"Ah, sim, mas eu é que terei de encontrar um substituto qualificado para pilotar o 747 e o 757."

"Você não está falando sério! Eu poderia perder o emprego por causa disso?"

"Aposto que sim."

"Ainda preciso pensar mais um pouco."

"Você está piorando as coisas, Ray. Preste atenção, mesmo que você recupere o bom senso e o assunto seja esquecido, será necessário reinscrever-se logo para pilotar o 757. A empresa estará adquirindo mais seis aeronaves dentro um mês ou pouco mais, e haverá falta de pilotos aqui. Você vai querer fazer parte da lista. Mais dinheiro, você sabe."

"Isso já não é o mais importante para mim, Earl."

"Eu sei."

"Mas a idéia de pilotar o 757 é atraente. Voltarei a falar com você."

"Não me faça esperar muito, Ray."

 

"Telefonarei para o Sr. Bailey se eu quiser", disse Verna, "mas você deve saber que já é tarde para ligar para Nova York."

"Ele está sempre lá, você sabe disso. Disque para sua linha direta que fica ligada após o expediente."

"Não tenho o número."

"Vou escrevê-lo para você. Provavelmente ele está entrevistando um substituto para mim."

"Vou ligar para o Sr. Bailey, Cameron, e permitirei que você lhe diga o que pensa. Antes, porém, preciso conversar com ele, e me reservo o direito de lhe contar o quanto você tem sido insubordinado e desrespeitoso. Por favor, espere lá fora."

Alice estava juntando suas coisas para encerrar o expediente quando Buck surgiu com um olhar travesso. Os outros funcionários já estavam saindo do escritório em direção ao estacionamento ou à estação do metrô. "Você ouviu tudo?" cochichou Buck.

"Eu ouço tudo", ela disse em voz baixa. "Você conhece estes novos aparelhos viva-voz, esses que a pessoa não precisa aguardar até que a outra termine de falar?"

Ele assentiu com a cabeça.

"Esses aparelhos também não acusam se alguém estiver ouvindo. Basta desligar a tecla de comunicação, deste jeito, e se algo bater sem querer no botão viva-voz — epa! — você poderá ouvir a conversa sem que ninguém saiba. Não é uma boa?"

Do aparelho viva-voz na mesa dela ouviu-se o som do telefone tocando em Nova York.

"Stanton. Quem é?"

"Lamento, senhor, precisar aborrecê-lo a esta hora..."

"Se você sabe o número é porque tem algo importante a me dizer. Vamos, quem é?"

"Verna Zee, de Chicago."

"Ah, sim, Verna, o que houve?"

"Tenho um problema aqui. Cameron Williams."

"Ah, sim, eu pretendia dizer a você para deixá-lo em paz. Williams está trabalhando em duas grandes matérias para mim. Você arrumou um belo lugar onde ele possa trabalhar, ou devemos deixá-lo trabalhar em seu próprio apartamento?"

"Temos um lugar para ele aqui, senhor, mas Cameron foi grosseiro e insubordinado comigo hoje e..."

"Ouça, Verna, não quero que você se preocupe com Williams. Ele está determinado a buscar explicação para algo que nem imagino, mas deixe que vá em frente. Ele ainda é uma estrela aqui e vai fazer mais ou menos a mesma coisa que tem feito. Receberá menos dinheiro, terá um cargo com menos prestígio e não voltará a trabalhar em Nova York, mas suas tarefas partirão daqui. Você não precisa preocupar-se com ele, está certo? Na verdade, acho que seria melhor para ambos se ele não trabalhasse no escritório."

"Mas, senhor..."

"Tem algo mais a dizer, Verna?"

"Bem, gostaria que o senhor me tivesse dito isso antes. Preciso de seu apoio. Ele agiu de maneira imprópria comigo e..."

"E daí? Ele avançou sobre você, chegou a atacá-la ou fez algo parecido?"

Buck e Alice cobriram a boca com as mãos para não caírem na gargalhada. "Não, senhor, mas deixou claro que não vai subordinar-se a mim."

"Sinto muito, Verna, mas ele não vai mesmo, está bem? Não vou desperdiçar Cameron Williams em trabalhos regionais. Com isso não estou dizendo que não aprecie cada linha de texto que vem de seu escritório, entenda bem."

"Mas, senhor...”

"Lamento muito, Verna, há mais alguma coisa? Não estou sendo claro ou temos outro problema? Diga-lhe apenas para pedir o equipamento necessário, debitar as despesas na conta da sucursal de Chicago e receber as ordens diretamente daqui. Entendido?"

"Mas ele deveria pedir desc..."

"Verna, você realmente precisa que eu atue como mediador de um conflito de personalidades, estando a quilômetros de distância? Se você não pode resolver a questão sozinha..."

"Posso, senhor, e resolverei. Obrigada. Lamento tê-lo aborrecido."

O interfone tocou. "Alice, mande-o entrar."

"Sim, senhora, e depois posso..."

"Sim, pode ir embora."

Buck percebeu que Alice arrumava suas coisas lentamente, como quem quer continuar ouvindo a conversa. Entrou rapidamente na sala de Verna, esperando poder conversar por telefone com Stanton Bailey.

"Ele não precisa falar com você. Deixou claro que não devo envolver-me em suas embromações. Estou ordenando que você trabalhe em seu apartamento."

Buck sentiu vontade de dizer que seria difícil deixar passar em branco os comentários sarcásticos que ela proferira a seu respeito, mas já estava se sentindo culpado por ter escutado sua conversa às escondidas. Um sentimento novo. Culpa.

"Tentarei ficar fora de seu caminho", ele disse.

"Será um prazer."

Quando Buck chegou ao estacionamento, Alice estava à sua espera. "Aquilo foi ótimo", ela disse.

"Você deveria envergonhar-se." Ele deu um largo sorriso.

"Você também escutou."

"Escutei sim. Tchau."

"Vou perder o trem das seis e meia", ela disse, "mas valeu a pena."

"Posso levá-la até a estação. Mostre-me onde fica a estação."

Alice aguardou enquanto ele abria a porta do carro. "Belo carro."

"Novinho em folha", ele respondeu. Era exatamente como se sentia.

 

Rayford e Chloe chegaram adiantados à Igreja Nova Esperança. Bruce estava lá, terminando de comer um sanduíche. Ele aparentava ter bem mais do que seus trinta e poucos anos. Depois de cumprimentá-los, ajeitou os óculos no lugar e recostou-se na cadeira. "Vocês localizaram Buck?" indagou.

"Ele disse que viria", respondeu Rayford. "Qual é o assunto urgente?"

"Você ouviu as notícias hoje?"

"Por alto. É algo significativo?"

"Acho que sim. Vamos aguardar a chegada de Buck."

"Enquanto isso, deixe-me contar o que aconteceu comigo hoje", disse Rayford.

Quando ele terminou, Bruce estava sorrindo. "Aposto que isso nunca constou de seu prontuário antes."

Rayford balançou a cabeça e mudou de assunto. "Parece" muito estranho Buck fazer parte do núcleo, principalmente por ele ser tão novato no assunto.

"Somos todos novatos, não?" disse Chloe.

"Verdade."

Bruce levantou a cabeça e sorriu. Rayford e Chloe viraram-se e avistaram Buck na porta de entrada.

 

Buck não sabia como reagir quando Rayford Steele o cumprimentou efusivamente. Gostava do calor humano e da franqueza de seus três novos amigos, mas algo o aborrecia e ele mantinha uma certa distância. Ainda não se sentia à vontade com esse tipo de afeição. E qual seria o tema da reunião? A Força Tribulação estava programada para reunir-se regularmente, portanto uma reunião especialmente convocada deveria ter um significado importante.

Chloe olhava para ele com ar esperançoso quando o cumprimentou. Mesmo assim, não o abraçou como Steele e Bruce Barnes haviam feito. A conduta discreta de Chloe era por sua causa, naturalmente. Eles mal se conheciam, mas houvera uma reação da parte de ambos. Já tinham deixado transparecer os sinais do início de um relacionamento. Em um bilhete a Chloe, Buck admitira que sentia atração por ela. Mas ele precisava agir com cautela. Ambos eram novos na fé e somente agora estavam aprendendo o que o futuro lhes traria. Só um tolo iniciaria um relacionamento em tempos como este.

E ele não era exatamente isso—um tolo? Como pôde ter levado tanto tempo para conhecer Cristo apesar de ter sido um aluno brilhante, um jornalista internacional e um pretenso intelectual?

E o que estava acontecendo com ele agora? Sentia-se culpado por ter ouvido seus chefes discutindo a seu respeito por telefone. No passado, jamais teria dado a mínima importância a um fato como esse. As artimanhas, os esquemas e as mentiras que ele preparara e contara para conseguir uma reportagem dariam para escrever um livro. E agora, seria ele tão bom jornalista como sempre foi, tendo Deus em sua vida parecendo alfinetar sua consciência mesmo diante de coisas insignificantes?

Rayford percebeu o desconforto de Buck e a hesitação de Chloe. Porém o que mais o impressionou foi a mudança quase instantânea no semblante de Bruce. Bruce sorrira diante da história contada por Rayford a respeito de seu problema no emprego, e sorriu quando Buck chegou. De repente, contudo, o rosto de Bruce anuviou-se. Seu sorriso desapareceu e ele estava tendo dificuldade de recompor-se.

Rayford era inexperiente nesse tipo de sensibilidade. Antes do desaparecimento da esposa e do filho, fazia anos que não chorava. Sempre considerou que as emoções eram sinal de fraqueza e falta de virilidade. No entanto, após os desaparecimentos, viu muitos homens chorar. Estava convencido de que os sumiços por todo o mundo tinham sido ocasionados por Cristo ao arrebatar sua igreja, mas para aqueles que foram deixados para trás o evento foi catastrófico.

Mesmo para ele e Chloe, que se tornaram crentes em razão disso, o horror de perder os membros da família foi terrível. Houve dias em que Rayford se sentiu tão angustiado e saudoso da esposa e do filho que teve dúvidas se conseguiria prosseguir. Como pôde ser tão cego? Que fracasso ele havia sido como marido e como pai!

Bruce, porém, era um sábio conselheiro. Também perdeu esposa e filhos, e ele, acima de tudo, deveria estar preparado para a vinda de Cristo. Com o apoio de Bruce e a ajuda das duas outras pessoas presentes naquela sala, Rayford sabia que poderia prosseguir. Contudo, havia algo mais na mente de Rayford do que uma simples luta pela sobrevivência. Estava começando a acreditar que ele — e todos os presentes — precisariam tomar uma atitude, talvez arriscando suas próprias vidas.

Se houve um momento de dúvida ou hesitação quanto a isso, elas desapareceram quando Bruce Barnes finalmente conseguiu falar. O jovem pastor cerrou os lábios para evitar que tremessem. Seus olhos estavam marejados de lágrimas.

"Eu, hã, preciso falar com vocês", ele começou, inclinando-se para frente e parando para se recompor. "Diante de todas as notícias vindas de Nova York nestes últimos dias, resolvi deixar a televisão ligada na CNN o tempo todo. Rayford, você disse que não ouviu a última. E você, Chloe?" Ela balançou a cabeça negativamente. "Buck, suponho que você tenha acesso imediato a todos os pronunciamentos de Carpathia."

"Não o de hoje", disse Buck. "Só fui ao escritório no fim do dia, e não ouvi nada."

O rosto de Bruce pareceu anuviar-se novamente, e ele deu um sorriso apologético. "As notícias são devastadoras, mas este não é o problema principal", ele disse. "Estou sentindo uma enorme responsabilidade por vocês. Estou tentando dirigir esta igreja, vocês sabem, mas isso parece muito insignificante quando comparado a meu estudo a respeito da profecia. Tenho passado a maior parte de meus dias e noites debruçado sobre a Bíblia e comentários correlatos, e sinto a pressão de Deus sobre mim."

"A pressão de Deus?" repetiu Rayford. Bruce rompeu em prantos. Chloe estendeu o braço sobre a mesa e colocou sua mão sobre a dele. Rayford e Buck também tocaram em Bruce.

"É difícil demais", disse Bruce, lutando para se fazer compreendido. "E sei que isso não acontece só comigo. Acontece com vocês e com todos os que freqüentam esta igreja. Todos nós estamos sofrendo muito, todos nós perdemos entes queridos, e todos nós não enxergamos a verdade."

"Mas agora a encontramos", disse Chloe, "e Deus usou o senhor para isso."

"Sei. É que sinto tantas emoções conflitantes que passo a me perguntar o que virá a seguir. Minha casa é tão grande e está tão fria e solitária sem minha família que às vezes nem vou para lá à noite. Há ocasiões em que estudo até cair de sono, e vou para casa de manhã só para tomar uma ducha, trocar de roupa e voltar para cá."

Pouco à vontade, Rayford olhava para um ponto distante. Por ter sido ele quem tentara aproximar seus amigos, gostaria agora que alguém mudasse o rumo da conversa, derivasse o assunto para o tema principal da reunião. Mas Bruce era uma pessoa diferente. Tinha seus próprios métodos de comunicação e momento apropriado para falar.

Bruce pegou um lenço de papel enquanto os outros três permaneciam em silêncio. Quando falou novamente, sua voz ainda estava rouca. "Sinto um peso enorme sobre mim", disse. "Uma das coisas que nunca foram meu ponto forte era ler a Bíblia diariamente. Eu fingia ser um crente, um pretenso obreiro cristão dedicado, mas não dava muita importância à Bíblia. Agora não consigo extrair o máximo que ela tem a me oferecer.”

Buck identificava-se com Bruce. Desejava saber cada coisa que Deus havia tentado comunicar-lhe durante anos. Esse foi um dos motivos, além de Chloe, de não ter se importado ao ser transferido para Chicago. Desejava freqüentar esta igreja e ouvir Bruce explicar a Bíblia sempre que as portas estivessem abertas. Desejava mergulhar nos conhecimentos e ensinamentos de Bruce como membro deste pequenino núcleo.

Buck ainda tinha o emprego e estava escrevendo uma matéria importante, mas sua principal ocupação era conhecer a Deus e ouvir sua mensagem. O resto não passava de um meio para atingir um fim.

Bruce ergueu a cabeça. "Agora entendo o que o povo queria dizer com a expressão “regozijar-se na Palavra”. Às vezes, passo horas sorvendo-a, chorando e orando. Perco a noção do tempo e esqueço até de me alimentar. Outras, dobro os joelhos, clamando a Deus por mais esclarecimento. E o que mais me espanta é que Ele está fazendo exatamente isso."

Buck percebeu que Rayford e Chloe movimentavam a cabeça afirmativamente. Era mais novato que ambos no assunto, mas sentia o mesmo interesse ardente pela Bíblia. Mas aonde Bruce estaria querendo chegar? Estaria dizendo que Deus lhe revelara algo?

Bruce deu um longo suspiro e levantou-se. Caminhou até um dos cantos da mesa e sentou-se ali, olhando firme para os três. "Necessito de suas orações", disse. "Deus está me mostrando coisas, incutindo verdades dentro de mim que mal consigo refreá-las. E se as tornar públicas, serei ridicularizado e possivelmente estarei em perigo."

"Claro que oraremos", disse Rayford. "Mas o que isso tem a ver com as notícias de hoje?"

"Tem tudo a ver com as notícias, Rayford." Bruce balançou a cabeça. "Você não enxerga? Sabemos que Nicolae Carpathia é o Anticristo. Digamos que por uma questão de argumentação a história de Buck sobre o poder hipnótico sobrenatural de Carpathia e o assassinato desses dois homens seja ridícula. Mesmo assim, há plenas evidências de que Carpathia se encaixa nas descrições proféticas. Ele é enganador. É sedutor. O povo está se unindo para apoiá-lo. Foi levado ao poder aparentemente contra sua vontade. Ele está forçando a idéia de um governo mundial único, uma moeda única, um tratado com Israel, transferir a sede da ONU para Babilônia. Isso basta como prova. Como pode um homem fomentar todas essas coisas e não ser o Anticristo?"

"Sabíamos que isso aconteceria", disse Buck. "Ele tornou público todos os seus planos?"

"Todos hoje."

Buck deu um leve assobio. "O que Carpathia disse?"

"Deu a notícia por intermédio do secretário de imprensa, seu ex-chefe, Buck. Como é o nome dele?"

"Plank."

"Correto. Steve Plank. Organizaram uma entrevista coletiva à imprensa para que ele informasse aos meios de comunicação que Carpathia estaria fora de circulação durante alguns dias, dirigindo reuniões estratégicas de alto nível."

"E ele disse do que se tratavam as reuniões?"

"Disse que Carpathia, apesar de não estar almejando a posição de líder, sentiu-se na obrigação de tomar rápidas providências para unir o mundo em direção à paz. Organizou equipes de trabalho para implementar o desarmamento das nações do mundo e para confirmar que isso foi feito. Ordenou que os 10 por cento da produção armamentista de cada país que não estão sendo destruídos sejam embarcados para Babilônia, à qual ele deu o novo nome de Nova Babilônia. A comunidade financeira internacional, cujos representantes já estão em Nova York para as reuniões, foi encarregada de estabelecer uma única moeda."

"Eu jamais teria acreditado nisso." Buck franziu as sobrancelhas. "Tempos atrás um amigo tentou me alertar."

"E isso não é tudo", prosseguiu Bruce. "Vocês acham que foi coincidência o fato de os líderes das principais religiões estarem em Nova York quando Carpathia chegou na semana passada? Como isso poderia ter acontecido, a não ser para que a profecia fosse cumprida? Carpathia está persuadindo esses líderes a se unirem, concordarem em um tipo de esforço em conjunto quanto à tolerância, respeitando suas crenças em comum."

"Crenças em comum?" estranhou Chloe. "Algumas dessas religiões têm tantas diferenças que jamais chegariam a um acordo."

"Mas eles estão concordando", disse Bruce. "Aparentemente Carpathia está negociando. Não sei o que está oferecendo, mas espera-se um pronunciamento dos líderes religiosos até o fim da semana. Acho que teremos uma religião mundial única."

"Quem se deixaria seduzir por isso?"

"A Bíblia menciona que muitos."

A mente de Rayford girava. Sentia dificuldade em concentrar-se desde o dia dos desaparecimentos. Em certas ocasiões ele ainda se perguntava se tudo aquilo não havia sido um terrível pesadelo, do qual acordaria para em seguida mudar a sua maneira de viver. Seria ele o Scrooge (personagem do livro Canção de Natal, de Charles Dickens, n.t.), que precisou ter um sonho tão horrível para ver o mal que havia praticado? Ou seria George Bailey, personagem interpretado por James Stewart no filme It's a Wonderful Life, que conseguiu ter seus desejos realizados e depois se arrependeu?

Rayford sabia de duas pessoas — Buck e Hattie — que conheceram pessoalmente o Anticristo! O quanto isso era bizarro! Quando ele se permitiu refletir sobre o assunto, sentiu um calafrio de terror dentro de si. A batalha cósmica entre Deus e Satanás abatera-se sobre sua própria vida. Em um piscar de olhos, ele, que sempre fora um pai cético e negligente, um marido lascivo e galanteador, passou a ser um crente fanático em Cristo.

"Por que as notícias de hoje o transtornaram tanto, Bruce?" indagou Rayford. "Penso que nenhum de nós duvidou da história de Buck nem perdeu tempo em questionar se Carpathia era o Anticristo."

"Não sei, Rayford." Bruce voltou a sentar-se na cadeira. "Tudo o que sei é que quanto mais me aproximo de Deus, quanto mais me aprofundo no estudo da Bíblia, mais pesada fica a carga sobre meus ombros. O mundo precisa saber que está sendo enganado. Sinto urgência em falar de Cristo em qualquer lugar, não apenas aqui. O povo desta igreja está assustado e sedento de Deus. Estamos tentando satisfazer suas necessidades, porém vejo mais sofrimentos pela frente.”

"A notícia que chegou a meus ouvidos hoje foi o comunicado que o próximo principal objetivo de Carpathia é o que ele chama de 'um entendimento' entre a comunidade global e Israel, bem como o que ele chama de 'um acordo especial' entre a ONU e os Estados Unidos."

Buck endireitou-se na cadeira. "O que você deduz disso?"

"Não sei qual é o papel dos Estados Unidos porque, por mais que eu estude, não vejo a América envolvida neste período da história. Porém todos nós sabemos que haverá o 'entendimento' com Israel. Não sei de que forma acontecerá ou que benefícios trará à Terra Santa, mas este é claramente o tratado dos sete anos."

Chloe ergueu a cabeça. "E isso sinaliza o início do período de sete anos de tribulação."

"Exatamente." Bruce olhou para o grupo. "Se esse comunicado disser qualquer coisa sobre uma promessa de Carpathia de que Israel será protegido ao longo dos próximos sete anos, isso oficialmente anuncia a Tribulação."

Buck fazia anotações. "Então os desaparecimentos, o Arrebatamento, não deram início ao período de sete anos?"

"Não", respondeu Bruce. "Parte de mim esperava que acontecesse algo para retardar o tratado com Israel. A Bíblia não menciona que isso venha a acontecer imediatamente. Mas assim que acontecer, o cronômetro começará a funcionar."

"Começará a funcionar marcando o tempo em que Cristo estabelecerá seu reino na terra, certo?" perguntou Buck. Rayford estava impressionado por Buck ter aprendido tanto em tão curto espaço de tempo.

Bruce assentiu. "Certo. E esse é o motivo desta reunião. Preciso dizer-lhes uma coisa. Vou realizar uma reunião de duas horas, aqui neste escritório, uma vez por semana, das vinte às vinte e duas horas. Só para nós."

"Estarei viajando um bocado", disse Buck

"Eu também", complementou Rayford.

Bruce levantou a mão. "Não posso obrigá-los a comparecer, mas devo insistir. Sempre que estiverem na cidade, venham aqui. Em nossos estudos vamos descrever em linhas gerais o que Deus revelou nas Escrituras. Alguns fatos vocês já conhecem por meu intermédio. Mas se o tratado com Israel acontecer nos próximos dias, não teremos tempo a perder. Precisamos organizar novas igrejas, novos grupos de crentes. Quero viajar para Israel e ouvir as duas testemunhas no Muro das Lamentações. A Bíblia fala do surgimento de 144.000 judeus que viajarão ao redor do mundo. Haverá um grande número de almas que aceitarão a Cristo, talvez mais de um bilhão."

"Isso parece fantástico", disse Chloe. "Devemos ficar emocionados."

"Eu estou emocionado", disse Bruce. "Porém haverá pouco tempo para regozijo ou descanso. Lembra-se do que o livro de Apocalipse fala dos sete Julgamentos Selados?" Ela concordou com um movimento de cabeça. "Começarão imediatamente, se estou certo. Haverá um período de dezoito meses de paz, mas nos três meses seguintes, o restante dos Julgamentos Selados cairá sobre a terra. Um quarto da população mundial será extinta. Não quero parecer piegas, mas olhem ao redor desta sala e digam-me o que esse fato significa para vocês."

Rayford não precisou olhar ao redor da sala. Estava sentado ao lado das três pessoas mais próximas a ele no mundo. Será que em menos de dois anos perderia outro ente querido?

Buck fechou seu livro de anotações. Não ia deixar registrado que alguém naquela sala poderia morrer brevemente. Lembrou-se de seu primeiro dia de aula na faculdade quando o professor lhe pediu para olhar para a direita e depois para a esquerda. "Um de vocês três não estará aqui depois de um ano." Aquilo foi quase engraçado quando comparado à situação atual.

"Não queremos simplesmente sobreviver", disse Buck. "Queremos agir."

"Eu sei", disse Bruce. "Acho que estou sofrendo por antecipação. Vai ser uma caminhada longa e difícil. Estaremos todos atarefados e assoberbados, mas devemos traçar nossos planos."

"Eu estava pensando em voltar para a faculdade", disse Chloe pensativa. "Não para Stanford, mas para uma outra aqui por perto. Agora me pergunto, valerá a pena?"

"Você poderá freqüentar uma faculdade aqui neste lugar", disse Bruce. "Todas as noites às oito horas. E há mais uma coisa."

"Eu sabia", disse Buck.

"Precisaremos de um abrigo."

"Um abrigo?" indagou Chloe.

"No subsolo", respondeu Bruce. "Durante o período de paz poderemos construir um sem levantar suspeitas. Quando acontecer o Julgamento, não teremos condição de levar esse plano adiante."

"Do que você está falando?" perguntou Buck.

"Estou falando de conseguir uma escavadeira e preparar um lugar para nos refugiar. A guerra está chegando — fome, pragas e morte."

Rayford levantou a mão. "Achei que não íamos fugir e nos esconder."

"E não vamos", disse Bruce. "Mas se não traçarmos planos, se não tivermos um lugar para nos abrigar, reorganizar os grupos, escapar da irradiação e de doenças, morreremos tentando provar que somos corajosos."

Buck estava impressionado pelo fato de Bruce ter um plano, um plano real. Bruce disse que encomendaria um enorme tanque d’água para ser entregue ali. Ficaria instalado ao lado do estacionamento durante semanas, e as pessoas pensariam que se tratava apenas de um tanque para armazenar água. Depois, ele providenciaria uma escavadeira para abrir uma cratera com tamanho suficiente para alojar o tanque.

Nesse ínterim, os quatro componentes do grupo perfurariam as paredes do tanque, passariam fios elétricos e condutores de água pelos buracos e preparariam o local para servir de esconderijo. Depois de algum tempo, Bruce mandaria retirar o tanque dali. Se alguém visse o tanque ser retirado imaginaria que ele não tinha o tamanho ideal ou estava com defeito. Quem não viu imaginaria que foi originalmente instalado debaixo da terra.

A Força Tribulação faria uma conexão entre o abrigo no subsolo e a igreja por meio de uma passagem secreta, mas só a usariam em caso de necessidade. Todas as reuniões seriam realizadas no escritório de Bruce.

A reunião daquela noite terminou com uma oração. Os três novos crentes oraram por Bruce e por sua responsabilidade como líder.

Buck insistiu para que Bruce fosse para casa e dormisse um pouco. Na saída, Buck virou-se para Chloe. "Vou lhe mostrar meu carro novo, mas agora já não parece ter sido um bom negócio."

"Entendo o que você quer dizer." Ela sorriu. "É bonito. Você gostaria de jantar conosco?"

"Não estou com fome. Na verdade, estou precisando começar a me instalar no novo apartamento."

"Já está mobiliado?" ela perguntou. "Caso contrário, você poderia ficar conosco até comprar alguns móveis. Temos muito espaço em casa."

Ele pensou na ironia do convite. "Obrigado. O apartamento está mobiliado."

Rayford apareceu, vindo do fundo da sala. "Onde você vai morar, Buck?"

Buck descreveu o condomínio que ficava na metade do caminho entre a igreja e o Semanário.

"Não é muito longe."

"Não. Convidarei vocês para me visitarem assim que estiver instalado."

Rayford abriu a porta do carro, do lado do motorista, e Chloe esperou que ele abrisse a outra porta. Os três permaneceram de pé em silêncio e pouco à vontade sob a parca iluminação das lâmpadas da rua. "Bem", disse Buck, "é melhor eu seguir meu caminho." Rayford entrou no carro. Chloe permaneceu fora. "Até logo."

Chloe fez um leve aceno e Buck foi embora. Ele se sentia um idiota. Como deveria ter agido? Sabia que ela estava aguardando, esperando algum sinal de que ele estava interessado. E ele estava. Só que tinha dificuldade em demonstrar. Não sabia se era por causa do pai dela ou por causa das muitas coisas que estavam acontecendo na vida de todos eles.

Buck pensou no comentário de Chloe ao dizer que não valeria a pena cursar a faculdade. Aquilo também se aplicava a um caso amoroso, ele pensou. Por certo, ele estava sozinho. Por certo, tinham muitas coisas em comum. Por certo, sentia atração por ela, e estava claro que essa atração era recíproca. Mas o fato de demonstrar interesse por uma mulher naquele momento não pareceria um pouco trivial, considerando tudo o que Bruce acabara de dizer?

Buck já aprendera a amar a Deus. Essa deveria ser sua paixão até a volta de Cristo. Seria certo, ou pelo menos prudente, concentrar sua atenção em Chloe Steele ao mesmo tempo? Tentaria afastá-la de seus pensamentos.

As chances eram poucas.

"Você gosta dele, não?" perguntou Rayford ao saírem do estacionamento.

"Ele é uma boa pessoa."

"Estou falando de Buck."

"Sei de quem você está falando. Ele é uma boa pessoa, porém mal toma conhecimento de minha existência."

"Ele está com a cabeça cheia."

"Recebo mais atenção da parte de Bruce, e ele tem a cabeça mais cheia do que qualquer um de nós."

"Depois que Buck se instalar em seu apartamento ele nos telefonará."

"Telefonará?" disse Chloe. "Você parece o personagem Pa [pai] de Little House on the Prairie [seriado da TV sobre uma família de colonos]."

"Desculpe-me."

"De qualquer forma, penso que Buck Williams não quer mais saber de telefonemas."

O apartamento de Buck parecia vazio sem seus pertences ali. Desvencilhou-se dos sapatos e ligou para seu voice mail (sistema eletrônico de comunicação com mensagens gravadas) em Nova York. Queria deixar um recado para Marge Potter, sua ex-secretária, perguntando quando chegariam as caixas despachadas de Nova York. Marge se adiantara a ele. O primeiro dos três recados era dela. "Não sabia para onde despachar suas coisas, portanto enviei-as ontem à noite para a sucursal de Chicago. Devem chegar na segunda-feira de manhã."

O segundo recado era do chefão, Stanton Bailey. "Ligue para mim na segunda-feira, Cameron. Quero receber sua matéria até o final da próxima semana e precisamos conversar."

O terceiro era de seu antigo editor-executivo, Steve Plank, agora porta-voz de Nicolae Carpathia. "Buck, ligue para mim assim que puder. Carpathia deseja conversar com você."

Buck fungou, deu uma risadinha e apagou os recados. Deixou gravado um agradecimento para Marge e uma confirmação de recebimento de recado para Bailey. Anotou o número do telefone de Steve e decidiu esperar para retornar sua ligação. Carpathia deseja conversar com você. Uma maneira casual de dizer O inimigo de Deus está à sua procura. Buck não tinha certeza se Carpathia sabia que a lavagem cerebral não surtira efeito em relação a ele. O que aquele homem faria, ou tentaria fazer, se soubesse que a memória de Buck estava perfeita? E se imaginasse que Buck sabia que ele era um assassino, um mentiroso, uma besta?

 

Sentado diante do aparelho de TV, Rayford ouvia as análises dos comentaristas a respeito dos comunicados vindos da Organização das Nações Unidas. A maioria apoiava a transferência da ONU para as ruínas da Babilônia, localizada ao sul de Bagdá. Um dos comentaristas disse: "Se Carpathia estiver sendo sincero quanto ao desarmamento mundial e armazenar os 10 por cento restantes do equipamento bélico, prefiro que o local escolhido seja no Oriente Médio, nas cercanias de Teerã, e não em uma ilha perto de Nova York. Gostaria também que o edifício da ONU, depois de desativado, fosse transformado em museu, por ser o edifício mais horroroso que este país já construiu."

Os mais experientes prenunciaram frustração e fracasso nos resultados das negociações entre os líderes religiosos e os especialistas financeiros. Um deles disse: "Não é possível haver uma única religião mundial, por mais sedutora que possa parecer, e uma moeda única mundial, mesmo que seja destinada a facilitar seu manuseio. Estes serão os primeiros problemas principais de Carpathia, e talvez, a partir de então, as massas abrirão os olhos em relação a ele. A lua-de-mel terminará logo."

"Aceita uma xícara de chá, papai?" gritou Chloe da cozinha. Ele recusou com um agradecimento e ela apareceu logo em seguida trazendo uma para si mesma. Sentou-se do outro lado do sofá e ajeitou os pés por baixo do roupão, sem tirar os chinelos. Seus cabelos recém-lavados estavam envoltos em uma toalha.

"Marcou algum encontro para este fim de semana?" indagou Rayford no intervalo para os comerciais.

"Não seja engraçadinho".

"Não foi essa a minha intenção. O que haveria de estranho em alguém convidá-la para sair?"

"A única pessoa que eu gostaria que me convidasse parece ter mudado de idéia a meu respeito."

"Bobagem! Não posso nem imaginar quanta coisa se passa na mente de Buck."

"Pensei que eu estivesse presente na mente dele, papai. Agora fico aqui sentada como uma colegial, cheia de dúvidas e esperançosa. É uma situação insuportável. Mas por que eu deveria me importar? Mal o conheço. Apenas o admiro, e é só."

"Você o admira?"

"Claro! Quem não o admiraria? Ele é inteligente, desembaraçado, talentoso."

"Famoso."

"Ah, sim, um pouco". Mas não vou me atirar nos braços dele. Apenas pensei que estivesse interessado, é tudo. Em “seu bilhete, disse que sentia atração por mim."

"Como você reagiu a isso?"

"A ele, você quer dizer?"

Rayford assentiu.

"Não fiz nada. O que deveria ter feito? Também senti atração por ele, mas não quis afugentá-lo."

"Talvez ele pense que afugentou você. Talvez pense que foi muito impetuoso, rápido demais. Mas você não sentiu o mesmo impulso?"

"De certa forma sim, mas só intimamente. Achei que se eu fosse sincera e me tornasse amiga dele, as coisas aconteceriam naturalmente."

Rayford deu de ombros. "Talvez ele necessite de mais incentivo."

"Ele não receberá nenhum incentivo de minha parte. Não é meu estilo. Você sabe disso."

"Sei, querida", disse Rayford, "mas você mudou muito nestes últimos tempos."

"Sim, mas meu estilo não mudou." Ao dizer isso, ela sorriu. "Papai, o que devo fazer? Não quero desistir dele, mas você não percebeu que a situação mudou? Ele deveria ter-me convidado para jantar fora, mas nem sequer aceitou nosso convite."

"Nosso convite? Eu fiz algum convite?"

"Bem, achei que não seria certo convidá-lo para sair comigo."

"Eu sei. Mas talvez ele não desejasse a minha companhia."

"Se Buck sentisse por mim o mesmo que sinto por ele, teria aceito. Na verdade, ele é quem deveria ter feito o convite e deixado você fora disso. Quero dizer... não me interprete mal, papai."

"Sei o que você quis dizer. Acho que está tirando conclusões muito precipitadas. Espere mais um dia. Você verá que diferença faz uma boa noite de sono."

O intervalo para os comerciais terminou e Chloe passou a bebericar seu chá. Rayford sentia-se privilegiado por Chloe conversar com ele sobre assuntos como esse. Ao que se lembrava, ela não chegou a conversar muito com Irene sobre rapazes. Ele sabia que era o único porto seguro para a filha nesse período tempestuoso e apreciava ouvir suas confidencias. "Se você quiser conversar mais, posso desligar a TV", ele disse. "Não há nenhum fato novo além dos que Bruce nos contou."

"Não", ela disse, levantando-se. "Francamente, estou farta de mim mesma. Ficar sentada aqui falando sobre minha vida amorosa, ou carência de amor, parece muito infantil nesta época em que estamos vivendo, você não acha? Parece que só há uma coisa para preencher meu tempo se eu não voltar para a faculdade. De início, quero memorizar os livros de Ezequiel, Daniel e Apocalipse."

Rayford riu. "Você está brincando!"

"Claro! Mas sabe o que quero dizer, papai? Nunca imaginei que a Bíblia viesse a despertar algum interesse em mim, mas agora passei a estudá-la como se não houvesse amanhã."

Rayford permaneceu em silêncio e percebeu que Chloe estava surpresa diante de sua própria ironia não-intencional. "Eu também", ele disse. "Já aprendi sobre a profecia do final dos tempos muito mais do que pensei que pudesse aprender. Estamos vivendo esse momento, aqui, agora. E não haverá muitos amanhãs, não é mesmo?"

"Certamente não muitos para perder tempo lamentando a respeito de um homem."

"Ele é um homem muito interessante, Chio."

"Você está querendo dar uma ajuda. Vamos esquecê-lo, está bem?"

Rayford sorriu. "Se eu não mencionar o nome dele, você o esquecerá? Devemos dispensá-lo da Força Tribulação?"

Chloe balançou a cabeça. "A propósito, há quanto tempo você não me chama de Chio?”

"Você gostava quando eu a chamava assim."

"É verdade. Quando eu tinha nove anos. Boa-noite, papai."

"Boa-noite, querida. Eu amo você."

Chloe começou a se dirigir para a cozinha, mas parou e virou-se rapidamente, curvando-se para abraçá-lo e tomando cuidado para não derramar o chá da xícara. "Eu também amo você, papai. Mais do que nunca e de todo o meu coração."

 

Buck Williams deitou-se de bruços em sua nova cama pela primeira vez. Era uma sensação estranha. O belo apartamento fazia parte de um ótimo edifício, mas a pacata Chicago não se assemelhava em nada a Nova York. Tudo era muito quieto. Ele havia comprado algumas frutas frescas, mas deixou-as de lado. Viu as notícias na TV e depois ouviu um pouco de música suave. Decidiu ler o Novo Testamento até pegar no sono.

Buck absorveu tudo o que pôde de Bruce Barnes acerca dos próximos acontecimentos, porém achou mais interessante ler os Evangelhos do que o Velho Testamento ou as profecias do Apocalipse. Jesus havia sido um revolucionário. Buck sentia-se fascinado com seu caráter, sua personalidade, sua missão como homem. O Jesus que ele sempre imaginou ou pensou conhecer era um impostor. O Jesus da Bíblia era radical, um homem de paradoxos.

Buck colocou a Bíblia na mesa de cabeceira e deitou-se de costas, protegendo os olhos da luz com o braço. Se você quiser ser rico, desfaça-se de seu dinheiro, ele disse a si mesmo. Este é ponto mais importante. Se você quiser ser exaltado, humilhe-se. A vingança parece lógica, mas é errada. Ame seus inimigos, ore por quem o despreza. Estranho.

Seus pensamentos desviaram-se para Chloe. O que ele estava fazendo. Ela não era cega. Era jovem, mas não tola. Ele não poderia seduzi-la e depois mudar de idéia, sem ser grosseiro. Será que estava mudando de idéia? Queria realmente esquecê-la? Claro que não. Ela era uma pessoa maravilhosa, divertida. Era uma colega crente e sua compatriota. Poderia ser uma boa amiga, independentemente de qualquer coisa.

Então a situação havia chegado a esse ponto? Diria a ela que seriam apenas bons amigos? Era isso o que ele queria? Deus, o que devo fazer? ele orou silenciosamente. Para ser franco, estou adorando estar apaixonado. Adoraria iniciar um relacionamento com Chloe. Será que ela é muito jovem? A época não é apropriada para pensar nisso? Sei que tu tens muito trabalho destinado a nós. E o que acontecerá se estivermos apaixonados? Devemos nos casar? E deveríamos ter filhos, se tu estarás voltando em sete anos? Se já existiu uma época em que deveríamos pensar muito a respeito de trazer filhos ao mundo, essa época é agora.

Buck afastou o braço dos olhos e desviou-os da luz. E agora? Deus responderia à sua oração em voz alta? Por certo que não. Sentou-se à beira da cama, segurando a cabeça com as mãos.

O que estaria acontecendo com ele? Tudo o que queria saber era se deveria continuar a cortejar Chloe. Começou orando por isso, e de repente estava pensando em casamento e filhos. Loucura. Talvez Deus trabalhe dessa maneira, ele pensou. Conduz a pessoa a tirar conclusões lógicas ou ilógicas.

Baseado nisso, achou que seria melhor não dar esperanças a Chloe. Ela estava interessada, ele sabia. Se ele demonstras-se o mesmo interesse, a situação derivaria para uma única direção. No mundo caótico em que estavam vivendo, acabariam trazendo aflição um ao outro. Seria justo?

Isso não fazia sentido. Como ele poderia permitir que alguma coisa se intrometesse em sua devoção a Deus?

Apesar disso, ele não conseguia esquecê-la, tratá-la apenas como uma irmã. Não, ele deveria fazer a coisa certa. Conversaria com Chloe sobre o assunto. Por certo, ela merecia uma explicação. Marcariam um encontro informal e conversariam. Ele seria franco com ela. Se omitisse seus próprios sentimentos, poderia conhecê-la melhor. Isso a faria sentir-se bem, não? Mas será que teria coragem de dizer-lhe o que realmente pensava? Que nenhum dos dois deveria levar adiante um relacionamento amoroso em uma época como aquela?

Ele não sabia. Porém estava certo de uma coisa: se não resolvesse a situação imediatamente, talvez nunca mais o fizesse. Olhou para o relógio. Passava um pouco das dez e meia. Será que ela ainda estava acordada? Discou para a casa dos Steeles.

Rayford estava subindo a escada quando o telefone tocou. Ouviu Chloe se mexer na cama, mas a luz de seu quarto estava apagada. "Vou atender, querida", ele disse. Correu até a sua mesa de cabeceira e atendeu.

"Sr. Steele, é Buck."

"Oi, Buck, pare de me chamar de senhor. Você está me fazendo sentir um velho."

"E você não é?"

"Engraçadinho. Pode me chamar de Ray. O que posso fazer por você?"

"Gostaria de saber se Chloe ainda está acordada."

"Acho que não, mas vou verificar."

"Não, está tudo bem", disse Buck. "Só diga a ela para me ligar quando puder, está bem?" Ele informou seu novo número a Rayford.

"Papai!" disse Chloe alguns minutos depois. "Você sabia que eu estava acordada!"

"Você não disse nada quando falei que ia atender. Eu não tinha certeza. Você não acha que foi melhor assim? Deixar que ele aguarde até amanhã?"

"Oh, papai!" ela disse. "Não sei. Você imagina o que ele queria?"

"Não tenho a mínima idéia."

"Oh, detesto isso!"

"Estou adorando."

"Claro!"

 

No sábado de manhã Buck foi de carro até a Igreja Nova Esperança, na expectativa de encontrar Bruce Barnes em seu escritório. A secretária lhe disse que Bruce estava terminando de preparar um sermão, mas iria recebê-lo. "Você faz parte do grupo de amigos de Bruce, não?" indagou ela.

Buck assentiu. Achava que sim. Isso deveria ser honra? Sentia-se muito inexperiente como novo seguidor de Cristo, parecendo um bebê. Quem poderia prever tal transformação nele? E quem teria imaginado que haveria o Arrebatamento? Buck balançou a cabeça. Só os milhões de pessoas que estavam preparados, concluiu ele.

Ao saber que Buck o aguardava, Bruce imediatamente abriu a porta e cumprimentou-o com um abraço. Aquele gesto também era novidade para Buck — abraços efusivos, principalmente entre homens. Bruce parecia perturbado. "Outra noite longa?" indagou Buck.

Bruce concordou com um movimento de cabeça. "Mas deleitando-me no estudo da Palavra. Estou recuperando o tempo perdido, você sabe. Tive esses recursos na mão durante anos e nunca os utilizei. Estou me preparando para dizer à congregação, provavelmente na próxima semana, que recebi um chamado de Deus para viajar. Os crentes desta igreja vão precisar se unir para suprir a falta de um líder.”

"Você acha que eles se sentirão abandonados?"

"Exatamente. Mas não vou deixar a igreja. Estarei presente sempre que possível. Conforme contei ontem a você e aos Steeles, trata-se de um peso que Deus colocou sobre meus ombros. Sinto-me feliz por isso, estou aprendendo muito. Mas também estou assustado. Sei que não estarei à altura se não contar com o poder do Espírito Santo. Talvez seja outro preço que devo pagar por ter ignorado a verdade. Mas você não veio até aqui para ouvir minhas lamúrias."

"Tenho apenas dois assuntos breves, e depois você poderá voltar aos seus estudos. Primeiro, tenho tentado afastar esses pensamentos de minha mente nos últimos dias, mas estou com remorso pelo que fiz a Hattie Durham. Lembra-se dela? A comissária de vôo de Rayford..."

"A mulher que você apresentou a Carpathia? Claro. Aquela com quem Rayford quase teve um caso."

"Sim. Penso que ele também sente remorso."

"Quanto a ele, não sei, Buck, mas lembro que você tentou alertar Hattie sobre Carpathia."

"Eu disse que ela poderia se transformar em um joguete de Carpathia, mas ao mesmo tempo não tinha idéia de quem ele era."

"Hattie foi para Nova York porque quis. A escolha foi dela."

"Mas, Bruce, se eu não tivesse feito as apresentações, ele não teria pedido para vê-la novamente."

Bruce encostou-se no espaldar da cadeira e cruzou os braços. "Você quer salvá-la das garras de Carpathia, é isso?"

"Claro."

"Não vejo como você pode fazer isso sem arriscar sua vida. Sem dúvida, ela já se encantou com a nova posição. Passou de comissária de bordo para assistente pessoal do homem mais poderoso do mundo."

"Assistente pessoal e talvez algo mais."

Bruce movimentou a cabeça afirmativamente. "É bem provável. Não posso imaginar que ele a tenha escolhido só por causa de seu talento profissional. E daí, o que você pretende fazer? Telefonar a Hattie e dizer-lhe que seu novo chefe é o Anticristo e que ela deve abandoná-lo?"

"É por isso que estou aqui. Não sei o que fazer", disse Buck.

"E você acha que eu sei?"

"Pensei que sim."

Bruce deu um sorriso desanimado. "Agora entendo o que o meu ex-pastor, Vem Billings, sentia ao dizer que as pessoas acham que o pastor da igreja deve ter respostas para tudo."

"Não vou receber nenhum conselho?"

"Minha resposta poderá parecer banal, Buck, mas você tem de fazer o que acha que deve ser feito."

"Sério?"

"Se você já orou e sente realmente que Deus deseja que converse com Hattie, vá em frente. Mas você pode imaginar as conseqüências. A próxima pessoa a saber disso será Carpathia. Lembre-se do que ele já fez a você."

"Esta é a questão", disse Buck. Preciso arrumar um jeito de descobrir o que Carpathia sabe quanto a isso. Será que ele pensa que conseguiu apagar de minha memória que estive presente naquela reunião, como fez com as outras pessoas? Ou será que ele sabe que me lembro de tudo e foi por isso que tentou prejudicar-me, depreciando-me, transferindo-me para outro local de trabalho, etc. etc?

"E você sabe qual é a minha maior preocupação?" perguntou Bruce. "Minha intuição diz que, se Carpathia souber que agora você é crente e que não foi atingido pela lavagem cerebral, ele vai matá-lo. Se ele souber que ainda exerce domínio sobre você, como faz com todas as pessoas que não têm Cristo no coração, tentará usá-lo."

Buck recostou-se na cadeira e olhou para o teto. "Achei interessante o que você disse. Isso me leva ao segundo assunto que desejo conversar com você.”

 

Rayford passou a manhã ao telefone finalizando os trâmites para habilitar-se a pilotar o Boeing 757. Na segunda-feira de manhã voaria de O'Hare a Dallas, como simples passageiro, para treinar decolagens e aterrissagens em pistas militares a alguns quilômetros de distância do aeroporto Dallas-Fort Worth.

"Sinto muito, Chloe", ele disse quando finalmente desligou o telefone. "Esqueci que você queria retornar a ligação de Buck hoje de manhã."

"Apenas uma correção", ela disse. "Eu queria retornar a ligação dele ontem à noite. Ou melhor, queria falar com Buck quando ele ligou."

Rayford levantou as duas mãos em sinal de resignação. "O erro foi meu. A culpa foi minha. O telefone é todo seu."

"Não, obrigada."

Rayford olhou para a filha com a testa franzida. "O quê? Agora você vai punir Buck por minha causa? Ligue para ele!"

"Não, penso que foi melhor assim. Eu queria conversar com ele ontem à noite, mas provavelmente você estava certo. Eu teria aparentado muita ansiedade, muita precipitação. E ele disse que eu deveria retornar sua ligação de acordo com minha conveniência. Bem, ligar para ele logo cedo não seria conveniente. É melhor eu me encontrar com ele na igreja amanhã, certo?"

Rayford balançou a cabeça. "Agora você resolveu fazer jogo com ele? Você estava preocupada em parecer uma colegial correndo atrás dele e agora está agindo como tal."

Chloe pareceu magoada. "Oh, obrigada, papai. Lembre-se de que a idéia de fazê-lo esperar foi sua."

"Eu disse esperar apenas uma noite. Não me envolva nisso para que a situação não fique desagradável."

 

"Bem, Buck, esta é a sua oportunidade de pôr Hattie à prova", disse Bruce Barnes. "O que você acha que Carpathia deseja?"

Buck balançou a cabeça. "Não tenho idéia."

"Você confia nesse tal de Steve Plank?"

"Ah, sim, confio. Trabalhei muitos anos com Steve. O que mais me assusta é que ele me deu as boas-vindas na reunião que precedeu a entrevista coletiva de Carpathia à imprensa, indicou-me um lugar para sentar e mencionou o nome de várias pessoas presentes. E, mais tarde, perguntou-me por que não compareci à reunião. Contou-me que Carpathia ficou um pouco irritado com minha ausência."

"E você o conhece tão bem a ponto de saber se ele está sendo sincero?"

"Francamente, Bruce, ele é o principal motivo para eu acreditar que Carpathia seja o cumprimento das profecias que estamos estudando. Steve é um jornalista inflexível da faculdade dos velhos tempos. O fato de ele se deixar convencer a abandonar o jornalismo legítimo para ser o porta-voz de um político de fama mundial mostra o poder de persuasão de Carpathia. Até eu abandonei aquela função. Mas chegar ao ponto de assistir àquela carnificina e depois esquecer-se de que estive presente, é um tanto..."

"Estranho."

"Exatamente. Apesar disso, vou lhe contar um fato mais extraordinário ainda. Havia algo em mim forçando-me a acreditar em Carpathia quando ele explicou o que acontecera. Em minha mente começaram a formar cenas de Stonagal atirando em si mesmo e assassinando Todd-Cothran em seguida."

Bruce balançou a cabeça. "Confesso que quando ouvi sua história pela primeira vez, pensei que você estivesse maluco."

"Eu teria concordado com você, se não fosse um detalhe."

"Que detalhe?"

"Todas as pessoas da sala que presenciaram o fato e lembram-se da cena de uma só maneira. Eu me lembro de uma maneira completamente diferente. Se Steve me tivesse dito que não vi o que aconteceu realmente, talvez eu tivesse pensado que havia ficado maluco e me rendesse. Mas ele me disse que não estive lá! Bruce, ninguém se lembra de que estive lá! Bem, você pode achar que estou sendo contraditório, mas isso é tolice. Voltei para meu escritório e registrei todos os detalhes no computador antes que o pessoal da imprensa ouvisse a versão de Carpathia. Se não estive lá, como poderia saber que os corpos de Stonagal e Todd-Cothran foram retirados dentro de sacos?"

"Você não precisa me persuadir, Buck. Estou do seu lado. A questão agora é a seguinte: O que Carpathia deseja? Será que ao conversar em particular com você, ele vai lhe revelar a verdade sobre si mesmo? ou vai ameaçar você? ou vai lhe dizer que sabe que você conhece a verdade?"

"Com que finalidade?"

"Para intimidar você. Para usar você."

"Talvez. Talvez ele queira descobrir a verdade, tentar saber se conseguiu fazer uma lavagem cerebral em mim."

"É uma situação muito perigosa, e isso é tudo o que tenho a lhe dizer."

"Espero que isso não seja tudo o que você tem a me dizer, Bruce. Gostaria de ser aconselhado um pouco mais."

"Orarei em seu favor", disse Bruce. "Mas no momento não sei o que lhe dizer."

"Bem, pelo menos preciso retornar a ligação de Steve. Não sei se Carpathia quer conversar comigo por telefone ou pessoalmente."

"Você não pode aguardar até segunda-feira?"

"Claro. Posso dizer a ele que entendi que deveria lhe telefonar durante o horário de expediente, mas não posso garantir que ele não me ligue nesse meio tempo."

"Ele tem seu novo número?"

"Não. Steve costuma ligar para meu voice mail em Nova York."

"Assim será possível retardar mais um pouco."

Buck deu de ombros e assentiu com a cabeça. "Se é isso o que você acha que devo fazer."

"Desde quando passei a ser seu conselheiro?"

"Desde que se tornou meu pastor."

 

Depois de terminar seus afazeres naquela manhã, Rayford percebeu o quanto havia magoado Chloe em razão dos gestos e respostas sucintas da filha. "Vamos conversar", ele disse.

"Sobre o quê?"

"Sobre como você me pegou de calças curtas. Nunca fui muito bom nessa questão de ser pai, e agora estou tendo problemas em tratá-la como uma pessoa adulta. Lamento ter chamado você de colegial. Trate Buck como você acha que é o correto, e não faça caso de mim, certo?"

Chloe sorriu. "Eu já estava fazendo isso. Não preciso mais de sua permissão."

"Então estou perdoado?"

"Não se preocupe comigo, papai. Não posso ficar zangada com você por muito tempo. Acho que precisamos um do outro. A propósito, já liguei para Buck."

"Verdade?"

Ela assentiu com a cabeça. "Ninguém atendeu. Acho que ele não estava esperando minha ligação ao lado do telefone."

"Você deixou recado?"

"A secretária eletrônica ainda não está ligada, acho. Vou vê-lo na igreja amanhã."

"Vai dizer a ele que telefonou?"

Chloe sorriu com ar brincalhão. "Provavelmente não."

 

Buck passou o restante do dia trabalhando em sua reportagem de capa para o Semanário Global acerca das teorias existentes sobre os desaparecimentos. Estava gostando desse trabalho, apostando que seria sua melhor matéria até então. As explicações variavam desde um ataque em estilo sensacionalista feito pelo fantasma de Hitler, OVNIs e seres extraterrestres até a idéia de que houve uma espécie de purificação evolucionária cósmica, uma redução na população mundial, permanecendo apenas os melhores.

No meio da matéria, Buck incluiu o que acreditava ser a verdade, mas não em forma de editorial. Como sempre, a matéria seria uma análise direta do assunto, escrita por um terceiro. Ninguém, a não ser seus novos amigos, saberia que ele concordava com a história do piloto, do pastor e de diversas outras pessoas que entrevistou, ou seja, que os desaparecimentos aconteceram porque Cristo arrebatou sua igreja.

O mais interessante para Buck foi a interpretação do evento por parte de outros líderes religiosos. Uma grande parte dos católicos estava confusa porque, apesar de muitos terem ficado para trás, alguns desapareceram — inclusive o novo papa que havia sido investido poucos meses antes dos desaparecimentos. Ele criara polêmica na igreja com uma nova doutrina que mais parecia coincidir com a "heresia" de Martinho Lutero do que com a ortodoxia histórica à qual os católicos estavam acostumados. Quando o papa desapareceu, alguns estudiosos católicos concluíram que o evento foi verdadeiramente um ato de Deus. "Aqueles que se opuseram às doutrinas ortodoxas da Igreja Mãe foram separados de todos nós", dissera a Buck Peter Cardinal Mathews, um importante arcebispo de Cincinnati. "A Bíblia relata que os últimos dias serão semelhantes aos da época de Noé. E você há de se lembrar que na época de Noé as pessoas boas ficaram e as más pereceram."

"Então", concluiu Buck, "o fato de ainda estarmos aqui prova que somos bons?"

"Eu não generalizaria a esse ponto", respondeu o arcebispo Mathews, "mas diria que sim, e esta é a minha posição."

"E o que dizer de todas as pessoas maravilhosas que desapareceram?"

"Talvez não tenham sido tão maravilhosas assim."

"E quanto às crianças e bebês?"

O arcebispo demonstrou um certo desconforto. "Isso eu deixo para Deus", ele disse. "Devo acreditar que talvez ele estivesse protegendo os inocentes."

"Do quê?"

"Não tenho certeza. Não aceito os livros apócrifos ao pé da letra, mas existem profecias lúgubres do que ainda está por vir."

"Então o senhor não afasta a idéia de que as crianças e os bebês que desapareceram foram separados do mal?"

"Não. Muitos dos pequeninos que desapareceram foram batizados por mim, portanto sei que estão em Cristo e com Deus."

"E mesmo assim desapareceram."

"Desapareceram."

"E nós ficamos."

"Devemos encontrar consolo nisso."

"Poucas pessoas encontram consolo nisso, Excelência."

"Entendo seu ponto de vista. Estamos atravessando um tempo muito difícil. Eu mesmo estou lamentando a perda de uma irmã e de uma tia. Mas elas abandonaram a igreja.”

"Abandonaram?"

"Opuseram-se à doutrina. Mulheres maravilhosas, muito bondosas. E fervorosas, devo acrescentar. Mas temo que tenham sido separadas como o joio do trigo. Apesar disso, nós, os que ficamos, devemos estar confiantes em nossa posição em relação a Deus como nunca estivemos."

Buck foi bastante corajoso para pedir ao arcebispo que comentasse certas passagens da Bíblia, principalmente Efésios 2.8-9: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie."

"Agora você vê", disse o arcebispo, "este é precisamente o meu ponto de vista. Ao longo dos séculos, as pessoas têm extraído versículos como esse do contexto, tentando estabelecer doutrinas em cima deles."

"Mas há outras passagens iguais a essa", disse Buck.

"Entendo que sim, mas diga-me uma coisa, você não é católico, é?”

"Não, senhor."

"Bem, então veja, você não entende a amplitude da igreja histórica."

"Desculpe-me, mas se sua hipótese estiver correta, por que tantos não-católicos ainda permanecem aqui?"

"Só Deus sabe", respondeu o arcebispo Mathews. "Ele conhece os corações das pessoas. Ele conhece muito mais do que nós."

"Com certeza", disse Buck.

Evidentemente Buck deixou seus comentários e opiniões pessoais fora do artigo, mas conseguiu aprofundar-se no estudo da Bíblia e na tentativa do arcebispo de explicar a doutrina da graça. Buck planejava enviar o artigo aos escritórios do Semanário Global em Nova York na segunda-feira.

Enquanto trabalhava, Buck mantinha-se alerta ao telefone. Poucas pessoas conheciam seu novo número. Apenas os Steeles, Bruce e Alice, a secretária de Verna Zee. Ainda estava aguardando a secretária eletrônica, o computador, o fax e os demais equipamentos de escritório, juntamente com os arquivos, que deveriam chegar à sucursal de Chicago na segunda-feira. Então ele se sentiria mais à vontade e equipado para trabalhar no outro quarto.

Buck aguardava notícias de Chloe. Pensou ter deixado um recado com Rayford para que ela ligasse quando achasse conveniente. Talvez ela fosse do tipo que não telefona para rapazes, mesmo quando lhe deixavam recados. Por outro lado, Chloe ainda não chegara aos vinte e um anos, e ele reconhecia não ter nenhuma idéia a respeito dos costumes dessa geração. Talvez ela o considerasse um irmão mais velho ou até mesmo um pai, e rejeitasse a idéia de que ele pudesse estar interessado nela. Isso não combinava com a maneira como ela se comportara na noite anterior, mas ele também não havia incentivado nada.

Simplesmente queria agir corretamente, conversar com ela para esclarecer que a época não era apropriada para ambos e que poderiam tornar-se bons amigos e compatriotas por uma causa comum. Mas percebeu que seria tolice. E se ela não tivesse imaginado nada mais além disso? Ele teria de dar explicações para algo que não existia.

Talvez Chloe tivesse ligado enquanto ele esteve com Bruce naquela manhã. Resolveu telefonar para ela, convidá-la para conhecer seu novo apartamento quando tivesse um tempo disponível. Então, poderiam conversar. Ele improvisaria uma situação na tentativa de saber quais seriam suas expectativas. Ela poderia recusá-lo com delicadeza ou ignorar um assunto que não precisava ser levantado.

Rayford atendeu o telefone. "Chloe!" gritou. "Buck Williams para você!"

Buck ouviu a voz dela ao fundo. "Por favor, diga que ligarei para ele em seguida. Ou melhor, diga que nos veremos na igreja amanhã."

"Já ouvi", disse Buck. "Ótimo. Vejo vocês amanhã."

Aparentemente ela não quer gastar tempo e energia preocupando-se conosco, concluiu Buck. Discou para seu voice mail em Nova York. O único recado era de Steve Plank.

"Buck, qual é o problema? De quanto tempo você precisa para se instalar? Devo ligar para a sucursal de Chicago? Deixei recados, mas o velho Bailey me disse que você está trabalhando em casa.”

"Você recebeu meu recado de que Carpathia quer vê-lo? As pessoas não têm o hábito de fazê-lo esperar, meu amigo. Estou embromando o homem, dizendo que você está em trânsito, cuidando da mudança, essas coisas. Mas ele espera poder vê-lo neste fim de semana. Sinceramente não sei o que ele quer, a não ser que esteja empolgado com você. Não está zangado por você ter recusado seu convite para aquela reunião, se é isso que o preocupa.”

"Para lhe dizer a verdade, Buck, o jornalista que existe dentro de você gostaria e deveria ter estado lá. Mas você deve ter ficado tão confuso quanto eu. Um suicídio violento diante de nossos olhos não é coisa fácil de esquecer.”

"Ligue para mim para que eu possa marcar a reunião entre vocês. Bailey me disse que você está dando os toques finais no artigo sobre as teorias dos desaparecimentos. Se você puder encontrar-se logo com Carpathia, poderá incluir suas idéias. Ele não faz segredo disso, mas uma ou duas citações exclusivas não fariam mal a ninguém, certo? Você sabe onde me localizar a qualquer hora do dia ou da noite."

Buck gravou o recado. O que deveria fazer? Parecia que Carpathia desejava ter uma reunião particular com ele. Alguns dias antes, Buck teria pulado para agarrar essa oportunidade. Não seria ótimo entrevistar uma personalidade de projeção mundial na véspera de divulgar sua mais importante reportagem de capa? Todavia, Buck era um novo crente, convencido de que Carpathia era o Anticristo. Buck presenciara o poder daquele homem. E estava apenas iniciando em sua nova fé. Não tinha muitos conhecimentos acerca do Anticristo. Seria ele onisciente como Deus? Poderia ler os pensamentos de Buck?

Carpathia obviamente podia manipular as pessoas e fazer lavagens cerebrais. Mas isso significava que ele também conhecia o que se passava na mente humana? Buck seria capaz de resistir a Carpathia só pelo fato de ter o Espírito de Cristo dentro de si? Buck gostaria que houvesse uma explicação mais pormenorizada na Bíblia quanto aos poderes do Anticristo. Então saberia como lidar com o assunto.

No mínimo, Carpathia deveria estar curioso a respeito de Buck. Quando Buck saiu furtivamente da sala de reuniões onde foram cometidos os assassinatos, deve ter perguntado a si mesmo se houve alguma falha em seus próprios controles sobre a mente. Caso contrário, por que apagar da memória de todas as outras pessoas não apenas os assassinatos, substituindo-os pela cena de um suicídio estranho, mas também apagar a lembrança de que Buck esteve presente?

Claramente Nicolae tentara proteger-se fazendo com que todos esquecessem que Buck compareceu à reunião. Se esse artifício teve a finalidade de fazer Buck duvidar de sua própria sanidade, não funcionou. Deus esteve com Buck naquele dia. Buck tinha certeza do que viu, e nada poderia fazê-lo mudar de idéia. Não havia nada mais a conjeturar, nenhum remorso por imaginar que pudesse estar enganado. De uma coisa ele estava certo; não contaria a Carpathia o que sabia. Se Carpathia constatasse que Buck não havia sido ludibriado, não teria outro recurso a não ser eliminá-lo. Se Buck conseguisse fazer Carpathia pensar que teve êxito, isso daria a ele ou à Força Tribulação uma pequena vantagem na guerra contra as forças do mal. O que eles fariam com essa vantagem, Buck não podia imaginar.

Porém, uma coisa ele sabia. Não retornaria a ligação de Steve Plank até segunda-feira.

 

Rayford estava feliz porque ele e Chloe haviam decidido ir logo cedo para a igreja. O templo lotava todas as semanas. Rayford sorriu ao ver a filha. Chloe estava com uma aparência linda, a melhor que ele vira desde que ela retornara da faculdade. Pensou em brincar com ela, perguntar se estava vestida para agradar a Buck Williams ou a Deus, mas desistiu.

Rayford conseguiu uma das últimas vagas no estacionamento e viu fileiras de carros ao redor do quarteirão, aguardando lugar para estacionar na rua. As pessoas estavam aflitas, apavoradas. Andavam à procura de esperança, de respostas, de Deus. Estavam sentindo a presença de Deus naquela igreja, e aos poucos a notícia se espalhava.

Quase todas as pessoas que ouviam as palavras sinceras e comovidas de Bruce Barnes deixavam o templo com a certeza de que os desaparecimentos haviam sido obra de Deus. A igreja fora arrebatada e todas elas foram deixadas para trás. A mensagem de Bruce centralizava-se no que a Bíblia chama de "glorioso aparecimento", ou seja, a volta de Jesus sete anos após o início da Tribulação. Até então, ele dizia, três quartos do restante da população mundial seriam extintos, na maioria os crentes em Cristo. A exortação de Bruce não se dirigia aos tímidos. Era um desafio aos crentes, àqueles que acreditavam na maior e mais dramática invasão de Deus na vida do homem desde a encarnação de Jesus Cristo como um ser mortal.

Bruce já havia dito aos Steeles e a Buck que um quarto da população da terra morreria durante o segundo, o terceiro e o quarto julgamentos do Livro Selado com Sete Selos. Ele citou Apocalipse 6.8, onde o apóstolo João escreveu: "E olhei, e eis um cavalo amarelo e o seu cavaleiro, sendo este chamado Morte: e o Inferno o estava seguindo, e foi-lhes dada autoridade sobre a quarta parte da terra para matar à espada, pela fome, com a mortandade e por meio das feras da terra."

Contudo, o que viria a seguir seria ainda pior.

Um minuto ou dois depois que Rayford e Chloe estavam acomodados em seus lugares, ele sentiu um leve tapa no ombro. Ambos viraram-se para trás. Buck Williams estava sentado bem atrás deles na quarta fileira de bancos e batera no ombro de ambos ao mesmo tempo. "Oi, fujões", ele disse. Rayford levantou-se e abraçou Buck. Com aquele gesto, Rayford compreendeu o quanto havia mudado em questão de semanas. Chloe foi cordial e apertou a mão de Buck.

Quando se sentaram novamente, Buck inclinou-se para frente e cochichou: "Chloe, liguei para você porque gostaria de saber..."

Mas a música já havia começado.

Buck levantou-se para cantar junto com os demais fiéis. Muitos pareciam conhecer as músicas e a letras. Ele acompanhava as palavras projetadas na parede e tentava captar as melodias. Os corinhos eram simples e fáceis de memorizar, mas Buck ainda não os conhecia. Muitas daquelas pessoas, ele pensou, haviam sido freqüentadoras assíduas da igreja — muito mais do que ele. Por que não compreenderam a verdade?

Depois de alguns corinhos, um Bruce Barnes desajeitado dirigiu-se apressado ao púlpito — não ao púlpito principal da plataforma, mas a um menor no mesmo nível da congregação. Carregava uma Bíblia, dois livros grandes e um maço de papéis que ele tinha dificuldade em manusear. Bruce deu um sorriso tímido.

"Bom dia", ele principiou. "Penso que seria apropriado dar-lhes uma pequena explicação. Geralmente cantamos mais corinhos, mas hoje não temos tempo para isso. Geralmente apresento-me com a gravata alinhada, a camisa bem vestida e o paletó abotoado. Isso parece não ter muita importância nesta manhã. Geralmente recolhemos as ofertas. Estejam certos de que ainda necessitamos das ofertas, e os senhores poderão deixá-las nos cestos colocados perto da porta quando saírem do templo ao meio-dia, se é que sairão daqui tão cedo.”

"Quero aproveitar o tempo desta manhã porque tenho urgência em falar com os senhores, muito mais do que nas últimas semanas. Não quero que se preocupem comigo. Não me tornei um velho maluco, nem um cultista nem outra coisa qualquer além do que tenho sido a partir do momento em que me dei conta de que não fui incluído no Arrebatamento.”

"Contei a meus conselheiros mais próximos que a mão de Deus pesou sobre mim nesta semana, e eles estão orando comigo para que eu seja prudente e perspicaz e para que eu não aja precipitadamente disparando fogo contra alguma nova e estranha doutrina. Nesta semana tenho lido, orado e estudado mais do que nunca, e estou ansioso para lhes contar o que Deus me disse.”

"Deus falou comigo de forma audível? Não. Gostaria que tivesse sido assim. Se isso tivesse acontecido, provavelmente eu não estaria aqui hoje. Porém, Deus quis que eu o aceitasse pela fé, sem que Ele precisasse provar sua existência de alguma maneira mais dramática do que simplesmente enviar seu Filho para morrer por mim. Ele nos deixou a sua Palavra e ela contém tudo o que necessitamos saber."

Buck sentiu um nó na garganta ao observar a maneira como seu novo amigo pedia, suplicava e persuadia sua platéia a ouvir, compreender e se entregar a Deus e acatar o propósito que Ele tinha para cada um ali presente. Bruce contou sua história mais uma vez, descrevendo a falsa vida piedosa que levara durante anos e como se sentira miserável e deixado para trás, sem a esposa e os filhos queridos, quando Deus veio buscar seu povo. Buck ouvira essa história mais de uma vez e, mesmo assim, sempre se comovia. Algumas pessoas soluçavam alto. Aquelas que ainda não conheciam a história de Bruce, ouviram uma versão abreviada. "Não quero nunca parar de contar o que Cristo fez por mim", ele disse. "Contem suas histórias. As pessoas poderão identificar-se com seu sofrimento, suas perdas, sua solidão. Jamais me envergonharei do evangelho de Cristo. A Bíblia diz que a Cruz escandaliza. Se os senhores estão escandalizados, estou fazendo meu trabalho. Se os senhores se sentem atraídos a Cristo, o Espírito Santo está fazendo sua obra.”

"Não fomos incluídos no Arrebatamento, e agora vivemos uma época que em breve passará a ser o período mais perigoso da história. Os evangelistas costumavam advertir seus ouvintes que eles poderiam ser atropelados por um carro ou morrer queimados e que, portanto, deveriam aceitar a Cristo imediatamente. Eu estou dizendo que se os senhores forem atropelados por um carro ou morrerem queimados, essas poderão ser as maneiras mais misericordiosas de morrer. Estejam preparados para o tempo que se aproxima. Estejam preparados. Vou lhes dizer como deverão se preparar.”

"O tema de meu sermão de hoje é “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, e quero concentrar-me no primeiro, o cavaleiro do cavalo branco. Se os senhores sempre pensaram que os Quatro Cavaleiros do Apocalipse faziam parte da linha de defesa dos brutamontes da Notre Dame, Deus tem uma lição para lhes ensinar hoje."

Buck nunca vira Bruce demonstrar tanta sinceridade, tanta inspiração. Enquanto falava, ele consultava suas anotações, os livros de referência, a Bíblia. Começou a transpirar e enxugava constantemente o suor da testa com um lenço. Interrompeu o sermão para admitir que considerava esse gesto uma gafe. Parecia a Buck que os todos congregados sorriam para Bruce procurando incentivá-lo a prosseguir. A maioria fazia anotações. Quase todos acompanhavam o sermão, lendo os trechos em suas Bíblias ou nas que estavam à disposição nos bancos.

Bruce explicou que o livro de Apocalipse, o relato de João a respeito do que Deus lhe revelou sobre os últimos dias, fala sobre o que acontecerá depois que Cristo arrebatar sua igreja. "Alguém aqui duvida que estes são os últimos dias?" ele bradou. "Milhões desapareceram, e o que virá em seguida? O que virá?"

Bruce explicou que a Bíblia prediz em primeiro lugar um tratado entre um líder mundial e Israel. "Alguns acreditam que o período de sete anos de tribulação já começou, e que começou com o Arrebatamento. Já estamos passando por provações e tribulações desde o desaparecimento de milhões de pessoas, inclusive de nossos amigos e entes queridos, não? Mas isso não é nada comparado à tribulação que virá.”

"Durante estes sete anos, Deus efetuará três julgamentos consecutivos: o livro selado com sete selos, ao qual damos o nome de Julgamentos Selados; as sete trombetas; e as sete taças". Esses julgamentos, creio eu, têm a finalidade de nos soltar de qualquer fio de segurança que porventura tenhamos deixado para trás. Se o Arrebatamento não chegou a chamar nossa atenção, os julgamentos chamarão. E se os julgamentos não chamarem, morreremos apartados de Deus. Por mais horríveis que esses julgamentos venham a ser, exorto os senhores para que os considerem como advertências finais vindas de um Deus amoroso que não deseja que nenhuma alma pereça.

"Quando o livro for aberto e os selos dilacerados, revelando os julgamentos, os primeiros quatro serão representados pelos cavaleiros — os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Se os senhores já leram sobre isso, provavelmente consideraram-no apenas simbólico, como eu também. Será que ainda há alguém aqui que considere a doutrina profética da Bíblia um mero simbolismo?"

Bruce fez uma pausa dramática. "Acho que não. Prestem atenção a esta doutrina. Os Julgamentos Selados durarão vinte e um meses a partir da assinatura do tratado com Israel. Nas próximas semanas falarei sobre os quatorze julgamentos restantes que durarão até o final do período dos sete anos, mas por ora vamos nos concentrar nos primeiros quatro dos sete selos."

Enquanto Bruce prosseguia, Buck sentia-se estarrecido porque o último orador que ele ouvira falar de modo tão fascinante foi Nicolae Carpathia. Mas a marca deixada por Carpathia fora coreografada, manipulada. Bruce só estava tentando impressionar as pessoas com a verdade da Palavra de Deus. Será que ele diria à congregação que sabia quem era o Anticristo? De certa maneira, Buck esperava que sim. Mas aquilo poderia ser considerado uma calúnia, apontar publicamente alguém como o arquiinimigo do Deus Todo-Poderoso.

Ou será que Bruce simplesmente repetiria as palavras da Bíblia e deixaria que as pessoas tirassem suas próprias conclusões? Já existiam fortes rumores sobre um iminente acordo entre Carpathia — ou pelo menos entre a ONU sob a liderança de Carpathia — e Israel. Se Bruce vaticinasse um pacto que seria confirmado nos próximos dias, quem poderia duvidar dele?

 

Rayford estava mais do que fascinado. Estava extasiado. Parecia que Bruce conseguia ler sua mente. Pouco tempo atrás ele teria zombado de tal doutrina, de uma interpretação literal sobre uma passagem tão claramente poética e metafórica. Mas o que Bruce disse fazia sentido. Havia poucas semanas que aquele jovem começara a pregar. Não era vocacionado nem treinado para isso. Porém, tratava-se mais de uma aula do que de uma pregação, e o entusiasmo de Bruce, a forma pela qual ele mergulhava de corpo e alma no assunto, atraía a atenção de todos.

"Nesta manhã não tenho tempo para falar do segundo, do terceiro e do quarto cavaleiros", disse Bruce, "a não ser para dizer que o cavaleiro do cavalo vermelho significa guerra, o do cavalo preto significa fome, e o do cavalo amarelo significa morte. Não temos coisas boas pela frente", ele disse com uma expressão de desagrado, e algumas pessoas deram uma risadinha nervosa. "Mas eu preveni os senhores de que estas palavras não seriam dirigidas aos fracos de coração."

Apressando-se para atingir o ponto que desejava e concluir o sermão, Bruce leu Apocalipse 6.1-2: "Vi quando o Cordeiro abriu um dos sete selos, e ouvi um dos quatro seres viventes, dizendo, como se fosse voz de trovão: Vem. Vi, então, e eis um cavalo branco e o seu cavaleiro com um arco; foi-lhe dada uma coroa; e ele saiu vencendo e para vencer."

Bruce deu um passo para trás de forma dramática e começou a arrumar suas coisas. "Não se preocupem", ele disse, "ainda não concluí." Para surpresa de Rayford, as pessoas começaram a aplaudir. Bruce disse: "Vocês estão batendo palmas porque querem que eu conclua ou porque querem que eu prossiga o estudo todas as tardes?"

A congregação aplaudia cada vez mais. Rayford não entendeu o que estava acontecendo. Aplaudiu também enquanto Chloe e Buck faziam o mesmo. Eles estavam sorvendo aqueles ensinamentos e queriam mais. Bruce claramente mantinha-se em sintonia com o que Deus estava lhe mostrando. Disse reiteradas vezes que essa verdade não era novidade, que os comentários por ele citados existiam havia décadas e que a doutrina do final dos tempos era muito, muito mais antiga que isso. Aqueles que relegaram esse tipo de ensinamento aos intelectuais, aos fundamentalistas e aos evangélicos de mente tacanha, foram deixados para trás. Em um piscar de olhos concluiu-se que era correto levar a Bíblia a sério! Se nada mais servisse para convencer o povo, a perda de tantas pessoas por ocasião do Arrebatamento serviria.

Bruce permaneceu de pé apenas com a Bíblia na mão. "Agora quero dizer-lhes que acredito no que a Bíblia menciona a respeito do cavaleiro do cavalo branco, o primeiro cavaleiro do Apocalipse. Não vou apresentar minha opinião. Não vou tirar nenhuma conclusão. Simplesmente deixarei que Deus os ajude a traçar quaisquer paralelos que necessitem ser traçados. Vou lhes dizer apenas uma coisa antecipadamente: Para mim, este relato escrito há milênios parece tão recente como o jornal de amanhã."

 

Sentado no banco atrás de Rayford e Chloe Steele, Buck olhou de relance para seu relógio. Passara-se mais de uma hora desde que ele olhou a última vez para o relógio. Seu estômago dizia que ele estava com fome, ou pelo menos que já era hora de comer alguma coisa. Sua mente dizia que ele poderia permanecer ali o dia inteiro ouvindo Bruce Barnes explicar, com base na Bíblia, o que estava acontecendo hoje e o que aconteceria amanhã. Seu coração dizia que ele estava à beira de um precipício. Buck sabia aonde Bruce queria chegar com seus ensinamentos, com sua imagem retórica do livro de Apocalipse. Além de saber quem era o cavaleiro do cavalo branco, Buck o conhecia pessoalmente. Já experimentara o poder do Anticristo.

Buck havia passado tempo suficiente com Bruce e os Steeles, analisando as passagens bíblicas, para ter a plena certeza de que Nicolae Carpathia personalizava o inimigo de Deus. Mesmo assim, não poderia precipitar-se e fortalecer a mensagem de Bruce, contando sua própria história. Nem Bruce poderia revelar que Buck sabia quem era o Anticristo ou que alguém daquela igreja o conhecera.

Durante anos Buck sempre gostou de citar nomes de pessoas famosas para dar a entender que era íntimo delas. Freqüentou a alta-roda por tanto tempo que era comum ouvi-lo dizer: "Encontrei-me com ele", "Entrevistei-a", "Conheço-o bem", "Estive com ela em Paris", "Hospedei-me na casa deles".

Porém aqueles modos egocêntricos deixaram de existir após os desaparecimentos e suas experiências ao deparar-se frente a frente com eventos sobrenaturais. Em outros tempos, Buck Williams teria tido satisfação em poder dizer que conhecia pessoalmente não só a personalidade líder do mundo, mas também o próprio Anticristo profetizado nas Escrituras. Agora, ele simplesmente permanecia atento e concentrado no que seu amigo pregava.

"Permitam-me um esclarecimento", Bruce estava dizendo. "Acredito que, com as imagens retóricas desses cavaleiros, Deus não tenha tido o propósito de caracterizar um indivíduo, mas sim as condições do mundo. Sabemos que essas imagens não se referem a povos específicos, porque, por exemplo, o quarto cavaleiro é chamado Morte. "Ah, mas e o primeiro cavaleiro? Observem que é o Cordeiro quem abre o primeiro selo e revela esse cavaleiro. O Cordeiro é Jesus Cristo, o Filho de Deus, que morreu por nossos pecados, ressuscitou e recentemente arrebatou sua igreja.”

"Na Bíblia, o primeiro de uma série é sempre importante — o primogênito, o primeiro dia da semana, o primeiro mandamento. O primeiro cavaleiro, o primeiro dos quatro cavalos dos primeiros sete julgamentos, é importante! Ele puxa a fila. Ele é o elemento principal para compreendermos o restante dos cavaleiros, o restante dos Julgamentos Selados, ou seja, o restante de todos os julgamentos.”

"Quem é o primeiro cavaleiro? Evidentemente representa o Anticristo e seu reino. Seu propósito é 'vencer o vencedor'. Ele tem um arco na mão, símbolo de combate agressivo, mas não há menção de uma flecha. Então, como ele vencerá? Outras passagens bíblicas indicam que ele é um 'rei voluntarioso' e que triunfará por meio de diplomacia. Ele anunciará uma falsa paz, prometendo a união mundial. Será vitorioso? Sim! Ele tem uma coroa."

 

Tudo isso era novidade tanto para Rayford como para Chloe. Porém, desde que aceitaram a Cristo, eles haviam mergulhado tanto nesse estudo junto com Bruce que Rayford já previa todos detalhes. Parecia que estava se tornando um especialista na matéria, e não se lembrava de ter captado um assunto com tanta rapidez. Sempre foi um bom aluno, principalmente em ciências e matemática. Aprendeu rapidamente suas funções na aviação. Mas o assunto atual referia-se ao universo. Referia-se à vida. Referia-se ao mundo real. Explicava o que acontecera à sua esposa e filho, o que ele e sua filha sofreriam e o que aconteceria no dia seguinte e nos anos subseqüentes.

Rayford admirava Bruce. Esse jovem compreendera instantaneamente que sua maneira falsa de agir como cristão o fez fracassar no momento mais importante da história da humanidade. Arrependeu-se imediatamente e passou a dedicar-se à tarefa de salvar o maior número possível de pessoas. Bruce Barnes entregara-se de corpo e alma à causa.

Em outras circunstâncias, Rayford teria se preocupado com Bruce, temendo que ele estivesse se desgastando, exaurindo suas forças. Mas Bruce parecia estar energizado, satisfeito. Com certeza precisaria dormir mais, porém no momento a verdade da Palavra de Deus transbordava e ele estava ansioso por compartilhá-la. Se as demais pessoas fossem como Rayford, não poderiam pensar em outra coisa a não ser ficar ali e aprender.

"Nas próximas semanas falaremos dos outros três cavaleiros do Apocalipse", Bruce estava dizendo, "mas antes vou dizer algo em que os senhores devem refletir. O cavaleiro do cavalo branco é o Anticristo, que vem como um impostor prometendo paz e união ao mundo. O livro de Daniel no Velho Testamento — capítulo 9, versículos 24 a 27 — diz que ele assinará um tratado com Israel.”

"Ele parecerá amigo e protetor desse povo, mas no final o vencerá e o destruirá. Devo encerrar o estudo desta semana, mas depois explicaremos mais por que isso acontece e quais serão os efeitos posteriores. Vou encerrar dizendo por que os senhores podem estar certos de que eu não sou o Anticristo."

Esta frase chamou a atenção dos congregados, inclusive a de Rayford. Todos riram constrangidos.

"Não estou insinuando que os senhores suspeitem de mim", disse Bruce, provocando mais risadas. "No entanto, devemos partir do ponto de que todo líder é suspeito. Lembrem-se, contudo, que os senhores nunca ouvirão promessas de paz partindo deste púlpito. A Bíblia diz claramente que teremos talvez um ano e meio de paz após o pacto com Israel. Porém, ao longo do tempo, prevejo o oposto da paz. Os outros três cavaleiros estão chegando e trarão guerra, fome, pragas e morte. Esta não é uma mensagem agradável de ouvir nem algo aconchegante no qual vocês possam se apegar nesta semana. Nossa única esperança está em Cristo e, mesmo assim, sofreremos. Até a próxima semana."

Rayford percebeu uma sensação de desassossego entre os presentes enquanto Bruce encerrava com uma oração. Parecia que todos sentiam o mesmo que Rayford sentia. Ele queria ouvir mais e tinha mil perguntas. Normalmente a organista começava a tocar perto do final da oração de Bruce, e ele imediatamente dirigia-se para os fundos da igreja onde cumprimentava as pessoas que saíam. Mas nesse dia enquanto Bruce começava a atravessar o corredor foi parado por pessoas que o abraçavam, agradeciam e faziam perguntas.

Rayford e Chloe estavam sentados em uma das fileiras da frente. Ele percebeu que Buck estava conversando com Chloe e, ao mesmo tempo, ouviu as perguntas que as pessoas faziam a Bruce.

"Você está dizendo que Nicolae Carpathia é o Anticristo?" perguntou alguém.

"Você me ouviu dizer isso?" disse Bruce.

"Não, mas ficou claro. Já estão divulgando notícias sobre seus planos e uma espécie de acordo com Israel."

"Continue lendo e estudando", disse Bruce.

"Mas não pode ser Carpathia, não? Você acha que ele é um mentiroso?"

"O que você acha que ele é?" perguntou Bruce.

"Um salvador."

"Quase um messias?" pressionou Bruce.

"Sim!"

"Há apenas um Salvador, um Messias."

"Sei disso espiritualmente, mas estou dizendo politicamente. Não me diga que Carpathia não é o que parece ser."

"Só posso lhe dizer o que está nas Escrituras", disse Bruce, "e insisto para que você ouça as notícias com atenção. Devemos ser espertos como serpentes e simples como pombas."

"É assim que eu descreveria Carpathia", disse uma mulher.

"Tome cuidado", disse Bruce, "ao conferir atributos de Cristo a alguém que não se assemelha a Ele."

No final do culto Buck segurou o braço de Chloe, mas ela não reagiu como ele esperava. Virou-se lentamente para saber o que ele queria, sem demonstrar aquele ar de expectativa de sexta-feira à noite. Ele a magoara de alguma maneira. "Tenho certeza de que você gostaria de saber por que lhe telefonei", ele começou.

"Achei que você me contaria quando tivesse oportunidade."

"Eu só queria saber se você gostaria de conhecer meu novo apartamento." Ele informou o endereço. "Que tal você passar por lá amanhã perto da hora do almoço para conhecê-lo? Poderemos almoçar juntos."

"Não sei", disse Chloe. "Acho que não poderei almoçar, mas se passar por perto, chegarei até lá."

"Está bem." Buck estava desolado. Aparentemente não era difícil desapontá-la. O difícil seria amolecer seu coração.

Enquanto Chloe se misturava aos congregados, Rayford cumprimentou Buck com um aperto de mão. "Como vai, meu amigo?"

"Tudo bem", respondeu Buck. "Ainda tentando me organizar."

Uma pergunta martelava a mente de Rayford. Ele olhou para o teto e depois para Buck. Nesse ângulo de visão, avistou centenas de pessoas andando de um lado para o outro, aguardando um momento para conversar a sós com Bruce Barnes. "Buck, preciso lhe perguntar algo. Você está arrependido de ter apresentado Hattie Durham a Carpathia?"

Buck cerrou os lábios e fechou os olhos, passando o dedo na testa. "Todos os dias", ele sussurrou. "Estive conversando com Bruce sobre isso."

Rayford fez um movimento com a cabeça e ajoelhou-se em um dos bancos, de frente para Buck. Buck sentou-se. "Foi o que pensei", disse Rayford. "Tenho muito dó dela. Fomos amigos, você sabe. Colegas de trabalho, mas amigos também."

"Imagino", disse Buck.

"Nunca tivemos um caso ou qualquer coisa parecida", Rayford assegurou. "Mas me preocupo com o que possa acontecer a ela."

"Ouvi dizer que ela tirou uma licença de trinta dias da Pan-Con."

"Ah, sim", disse Rayford, "mas foi só para disfarçar. Você sabe que Carpathia vai querer tê-la por perto e ele arrumará dinheiro para pagar muito mais do que ela ganha na empresa aérea."

"Sem dúvida."

"Ela se apaixonou pelo trabalho, para não dizer que se apaixonou por ele. E quem sabe até onde irá esse relacionamento?"

"Como Bruce diz, não penso que ele a contratou por causa de sua capacidade intelectual", disse Buck.

Rayford assentiu com a cabeça. Ambos concordavam. Hattie Durham passaria a ser um dos passatempos de Carpathia. Se um dia houve alguma esperança de sua alma ser salva, agora seria remota, uma vez que ela estava diariamente na companhia dele.

"Lamento por ela", prosseguiu Rayford, "e apesar de nossa amizade não me sinto à vontade para adverti-la. Ela foi a primeira pessoa a quem tentei falar de Cristo. Não se interessou. Antes disso demonstrei mais interesse por ela do que devia, e naturalmente ela agora não tem um conceito positivo a meu respeito."

Buck inclinou-se para frente. "Talvez eu tenha uma oportunidade de conversar em breve com Hattie."

"E o que você vai lhe dizer?" indagou Rayford. "Pelo que sabemos os dois já são íntimos. Ela vai contar tudo a ele. Se ela lhe disser que você se tornou crente e que vai tentar salvá-la, ele constatará que a lavagem cerebral coletiva não surtiu efeito em sua mente."

Buck concordou com a cabeça. "Tenho pensado nisso. Mas sinto-me responsável por Hattie estar lá. Eu sou o responsável por ela estar lá. Podemos orar por ela, mas vou me sentir um inútil se não fizer algo concreto para tirá-la de lá. Precisaremos trazê-la para cá, onde poderá conhecer a verdade."

"Tenho dúvidas se ela já não se mudou para Nova York", disse Rayford. "Talvez possamos descobrir um motivo para Chloe telefonar para seu apartamento em Des Plaines."

Depois que eles despediram um do outro e caminharam para fora do templo, Rayford começou a se perguntar até que ponto deveria incentivar o relacionamento entre Chloe e Buck. Gostava muito de Buck, mas conhecia muito pouco a seu respeito. Acreditava e confiava nele, considerava-o um irmão. Ele era um jovem inteligente e perspicaz. Porém, a idéia de que sua filha começasse a namorar ou viesse a se apaixonar por um homem que conhecia pessoalmente o Anticristo... ia além de sua compreensão. Rayford teria de ser franco com ambos, se o relacionamento entre eles fosse adiante.

Contudo, ao se encontrar com Chloe no carro, ele se deu conta de que não havia motivos para preocupações, pelo menos por ora.

"Não me diga que você convidou Buck para almoçar conosco", ela disse.

"Nem pensei nisso. Por quê?"

"Ele está me tratando como uma irmã, e mesmo assim quer que eu vá conhecer seu apartamento amanhã."

Rayford teve vontade de dizer "E daí?" e perguntar à filha se ela não estaria exagerando ao interpretar as palavras e ações de um homem que mal conhecia. Na opinião de Chloe, Buck deveria estar loucamente apaixonado por ela e sem saber como se expressar. Rayford não disse nada.

"Você tem razão", ela disse. "Estou com idéia fixa."

"Eu não disse uma só palavra."

"Posso ler seus pensamentos", ela disse. "De qualquer forma, estou furiosa comigo mesma. Não dou a menor atenção a um recado deixado para mim, e depois fico pensando o tempo todo em um sujeito que deixei escapar por entre os dedos. Não tem importância. Quem vai se preocupar com isso?"

"Pelo jeito, você."

"Mas eu não deveria. As coisas antigas já passaram e tudo se fez novo", ela disse. "Preocupar-se com rapazes definitivamente deve ser uma coisa antiga. Por ora não há tempo para banalidades."

"Aja de acordo com seu coração."

"É exatamente o que não quero fazer. Se eu agir de acordo com meu coração, vou visitar Buck hoje à tarde para esclarecer nossa situação."

"E você não vai?"

Ela balançou a cabeça negativamente.

"Então você me faria um favor? Tentaria localizar Hattie Durham para mim?"

"Por quê?"

"Na verdade, estou curioso para saber se ela já se mudou para Nova York."

"E por que ela não teria se mudado ainda? Carpathia a contratou, não é verdade?"

"Não sei. Ela tirou trinta dias de licença. Gostaria que você ligasse para o apartamento dela. Se a secretária eletrônica estiver ligada, é sinal que ela ainda não se decidiu."

"E por que você não liga para ela?"

"Acho que já me intrometi demais em sua vida."

 

A caminho de casa, Buck parou para comprar comida pronta em uma lanchonete chinesa e almoçou sozinho, olhando pela janela. Ligou a TV em um jogo de beisebol mas não prestou atenção, deixando o volume baixo. Tinha a mente confusa. Aprontara o artigo para ser transmitido a Nova York e estava ansioso para saber a reação de Stanton Bailey. Também aguardava seus arquivos e equipamentos de escritório, que deveriam chegar na sucursal de Chicago na manhã do dia seguinte. Seria bom ter tudo na mão para organizar-se.

Também não conseguia parar de pensar na mensagem de Bruce. Não tanto no conteúdo da mensagem, mas no sofrimento de Bruce. Precisava conhecer Bruce melhor. Talvez isso fosse a cura para a sua solidão — e a de Bruce. Se Buck se sentia tão sozinho, a solidão deveria ser muito maior para um homem que teve mulher e filhos. Buck estava acostumado a uma vida solitária, mas tinha uma roda de amigos em Nova York. Em Chicago, a não ser que alguém do escritório ou da Força Tribulação ligasse, o telefone permanecia mudo.

Com certeza ele não estava sabendo lidar com Chloe. Quando foi removido, pensou que a mudança de Nova York para Chicago seria positiva — teria condições de se encontrar mais vezes com Chloe, freqüentaria uma boa igreja, receberia um bom treinamento, teria um grupo de amigos. Pensou também que estava agindo certo por não ter se apressado em correr atrás dela. A época não era apropriada. Quem se preocuparia em ter um caso amoroso no final dos tempos?

Buck sabia — ou pelo menos acreditava — que Chloe não estava brincando com ele. Ela estava se esforçando para continuar a atrair sua atenção. Fosse de propósito ou não, estava funcionando, e ele sentiu-se um tolo por dar tanta importância a isso.

Apesar de qualquer coisa que tivesse acontecido, por mais que ela estivesse fingindo, e qualquer que fosse o motivo, ele lhe devia uma explicação. Poderia vir a se arrepender por continuar a tratá-la como uma amiga, mas não enxergava outra saída. Para o bem de ambos, deveriam continuar amigos e aguardar um tempo para ver o que aconteceria. Na opinião dele, Chloe também pensava assim.

Buck tirou o fone do gancho, mas quando o colocou no ouvido, escutou um som estranho e, em seguida, uma gravação. "Há um recado para você. Aperte o botão dois para ouvi-lo."

Um recado? Não requisitei um voice mail. Buck apertou o botão. Era Steve Plank.

"Buck, onde você se meteu, homem? Se você não está querendo retornar as ligações de seu voice mail, vou parar de deixar recados lá. Sei que você não tem registro lá, mas se pensa que Nicolae Carpathia é alguém com quem se pode brincar, pergunte a si mesmo como consegui seu número de telefone. Como jornalista, você vai querer ter esses recursos. Agora, Buck, de amigo para amigo, sei que costuma verificar seus recados com freqüência e sabe que Carpathia deseja conversar com você. Por que não me ligou? Você está me prejudicando. Eu disse a ele que consegui localizá-lo e que você viria até aqui para vê-lo. Disse a ele que não entendi por que você não aceitou seu convite para a reunião de posse, mas que o conheço como a um irmão e que você não se rebelaria contra ele.”

"Agora ele quer ver você. Não sei do que se trata nem mesmo se vou participar. Não sei se faz parte do protocolo, mas com certeza você poderá pedir-lhe algumas citações para seu artigo. É só vir até aqui. Você poderá entregar pessoalmente seu artigo ao Semanário, cumprimentar sua velha amiga Srta. Durham e descobrir o que Nicolae deseja. Há uma passagem de primeira classe aguardando por você em O'Hare sob o nome de McGillicuddy para o vôo das nove horas de amanhã. Haverá uma limusine à sua disposição no aeroporto e você almoçará com Carpathia. Faça isso, Buck. Talvez ele queira agradecer o fato de você ter-lhe apresentado Hattie. Parece que estão se dando bem.

"Agora, Buck, se você não me ligar, vou achar que você virá. Não me decepcione."

 

"E então, o que você conseguiu?" perguntou Rayford.

Chloe imitou a voz da gravação. "'O número para o qual você ligou está desativado. O novo número é...'"

"É qual?"

Ela entregou-lhe um pedaço de papel. O código de área era de Nova York. Rayford suspirou. "Você tem o novo número de Buck?"

"Está preso na parede perto do telefone."

 

Buck ligou para Bruce Barnes. "Detesto ter de lhe perguntar isto, Bruce, mas poderíamos marcar uma reunião para esta noite?"

"Estou tentando dormir um pouco", respondeu Bruce.

"Você está precisando de um bom sono. Marcaremos a reunião para outra hora."

"Não, não vou dormir tanto assim. Você quer marcar uma reunião para nós quatro ou só para nós dois?"

"Só nós dois."

"Que tal eu ir ao seu apartamento? Estou cansado do escritório e da casa vazia."

Eles marcaram para as dezenove horas, e Buck decidiu que tiraria o fone do gancho depois de fazer mais uma ligação. Não queria correr o risco de conversar com Plank, ou pior, com Carpathia, até ter conversado e orado sobre esse assunto com Bruce. Steve havia dito que achava que Buck voaria para Nova York a não ser que houvesse algo em contrário, mas com certeza ligaria novamente para confirmar. E Carpathia era totalmente imprevisível.

Buck telefonou para Alice, a secretária da sucursal de Chicago. "Preciso de um favor".

"Às ordens", ela disse.

Ele contou que voaria para Nova York na manhã seguinte, mas não queria que Verna Zee soubesse. "Também não quero aguardar minhas coisas por muito tempo, portanto gostaria de deixar uma cópia da chave de meu apartamento com você antes de seguir para o aeroporto. Se você não se importar, poderia trazer tudo para cá e trancar a porta. Eu lhe ficaria muito agradecido."

"Sem problemas. De qualquer maneira, terei de passar aí por perto por volta da hora do almoço. Vou buscar meu noivo no aeroporto. Verna não precisa saber que estarei levando suas coisas."

 

"Você gostaria de ir até Dallas comigo amanhã cedo, Chio?" perguntou Rayford.

"Acho que não. Você vai ficar o dia todo dentro do 757, certo?"

Rayford assentiu com a cabeça.

"Vou ficar por aqui. Talvez aceite o convite de Buck para conhecer seu apartamento."

Rayford balançou a cabeça. "Não consigo acompanhar seu raciocínio. Agora você quer ir até lá para ver o sujeito que a trata como uma irmã?"

"Não vou até lá para vê-lo", ela disse. "Vou conhecer seu apartamento."

"Ah", disse Rayford. "Falha minha."

 

"Você está com fome?" perguntou Buck antes de Bruce atravessar a porta naquela noite.

"Um pouco", respondeu Bruce.

"Vamos jantar fora", sugeriu Buck. "Você poderá conhecer o apartamento quando voltarmos."

Escolheram um canto mais tranqüilo de uma pizzaria barulhenta, e Buck pôs Bruce a par das últimas novidades de Steve Plank. "Você está pensando em ir?" indagou Bruce.

"Não sei o que pensar e, se você me conhecesse melhor, saberia o quanto isso é esquisito para mim. Evidentemente, meus instintos como jornalista dizem sim — vá, sem fazer perguntas. Quem não iria? Mas eu sei quem esse sujeito é, e a última vez que o vi ele baleou dois homens."

"Eu gostaria muito que você também pedisse a opinião de Rayford e Chloe."

"Sei disso", disse Buck, "mas quero pedir-lhe que não conte nada a ninguém sobre esse assunto. Se eu resolver ir, prefiro que eles não saibam."

"Buck, se você for, vai precisar de muitas orações."

"Você poderá contar-lhes depois que eu partir. Devo almoçar com Carpathia ao meio-dia ou um pouco mais tarde, horário de Nova York. Diga-lhes que estou em uma viagem importante."

"Se é isso que você quer, tudo bem. Mas você precisa se dar conta de que não é assim que vejo a atuação do grupo."

"Eu sei e concordo. Mas eles poderão considerar a minha ida como algo temerário, e talvez seja. Se eu for, não quero desapontá-los até ter uma oportunidade de me explicar."

"E por que não fazer isso antes?"

Buck empinou a cabeça e deu de ombros. "Porque ainda não consegui explicar a mim mesmo."

"Parece que você está resolvido a ir."

"Acho que devo."

"Você quer que eu apóie sua decisão?"

"Na verdade, não. Você apoiaria?"

"Estou tão perdido quanto você, Buck. Não consigo enxergar nada positivo nisso. Ele é um homem perigoso e um assassino. Poderá fazê-lo desaparecer sem deixar provas. Já fez isso diante de uma sala cheia de testemunhas. Por outro lado, por quanto tempo você poderá evitar esse encontro? Dois dias depois de você ter-se mudado, ele consegue ter acesso ao seu número que ainda não consta da lista. Ele pode encontrá-lo e, se você se esquivar, poderá deixá-lo furioso."

"Eu sei. Poderei dizer-lhe que estive ocupado com a mudança e a arrumação do novo apartamento..."

"E você esteve."

"Estive, e depois me apresento no dia marcado, usando sua passagem e imaginando o que ele deseja."

"Ele tentará ler seus pensamentos, descobrir o que você se lembra daquele dia."

"Não sei o que vou dizer. Também não sabia o que fazer na reunião de posse. Percebi a presença do Maligno naquela sala, mas tinha a certeza de que Deus estava comigo. Eu não sabia o que dizer ou como reagir, mas, quando penso nisso, Deus me conduziu perfeitamente para permanecer em silêncio e deixar que Carpathia tirasse suas próprias conclusões."

"Agora você também poderá depender de Deus, Buck. Mas deve elaborar algum tipo de plano, o que falar ou o que não falar, esse tipo de coisa."

"Em outras palavras, ficar sem dormir esta noite?"

Bruce sorriu. "Não sei se existem muitas probabilidades para isso."

"Nem eu."

Buck levou Bruce para conhecer seu apartamento. Naquele momento, decidiu ir para Nova York na manhã seguinte.

"Por que você não telefona para seu amigo...", Bruce começou a dizer.

"Plank?"

"Sim, Plank, e diga-lhe que você irá. Assim poderá parar de se preocupar com a ligação dele e deixar a linha aberta para mim ou qualquer outra pessoa que queira conversar com você."

Buck assentiu com a cabeça. "Boa idéia."

Depois de deixar um recado para Steve, Buck não recebeu mais nenhuma ligação naquela noite. Pensou em telefonar para Chloe dizendo para ela não vir na manhã seguinte, mas não queria ter de contar-lhe o motivo nem inventar uma história. De qualquer forma, ele estava convencido de que ela não viria. Com certeza, ela não parecera interessada naquela manhã.

Buck teve um sono agitado. Na manhã seguinte, entregou a chave de seu apartamento a Alice. Felizmente, ao sair do estacionamento, não viu Verna que estava chegando. Ela também não chegou a vê-lo.

Buck não tinha nenhum documento de identidade com o nome de McGillicuddy. Ao pegar um envelope em O'Hare sobrescritado com esse nome, constatou que nem mesmo a jovem do balcão sabia que havia uma passagem dentro.

Apresentou-se para o check-in uma hora e meia antes do embarque. "Sr. McGillicuddy", disse o homem de meia-idade que o atendeu, "o senhor poderá ser o primeiro a embarcar, se quiser."

"Obrigado", disse Buck.

Ele sabia que os passageiros de primeira classe, os que voavam com freqüência, os idosos e as pessoas com crianças pequenas tinham prioridade para embarcar. Mas quando Buck dirigiu-se para a sala de espera, o homem perguntou: "O senhor não deseja embarcar imediatamente?"

"Como assim?" perguntou Buck. "Agora?"

"Sim, senhor."

Buck olhou ao redor, perguntando a si mesmo se não ouvira o chamado para embarcar. Havia ainda poucas pessoas na fila, e ninguém estava se dirigindo para a aeronave.

"O senhor tem o privilégio de embarcar no momento em que desejar, mas não se sinta obrigado a isso. A escolha é sua."

Buck deu de ombros. "Claro. Vou embarcar imediatamente."

Somente a comissária de vôo estava na aeronave. O compartimento da classe econômica ainda estava sendo limpo. Não obstante, a comissária ofereceu-lhe champanhe, suco ou refrigerante e entregou-lhe o cardápio do desjejum.

Buck nunca foi apreciador de bebida alcoólica, portanto recusou o champanhe. Também não estava disposto a comer nada. A comissária disse: "O senhor tem certeza? Há uma garrafa a seu lado." Ela olhou para a prancheta que tinha nas mãos. "'Cortesia de N.C"

"De qualquer maneira, obrigado." Buck balançou a cabeça. Será que não havia um paradeiro para tudo o que Carpathia podia — ou queria — fazer?

"Não vai querer levar a garrafa?"

"Não, senhora. Obrigado. "A senhora gostaria de ficar com ela?"

A comissária lançou-lhe um olhar de perplexidade. "O senhor está brincando? É Dom Pérignon!"

"Sinta-se à vontade para levá-la."

"Sério?"

"Claro."

"Bem, o senhor assinaria esta papeleta indicando que aceitou o champanhe para que eu não tenha problemas por tê-lo levado?" Buck assinou. O que aconteceria em seguida?

"Senhor?" disse a comissária. "Qual é o seu nome?"

"Desculpe-me", disse Buck. "Estava distraído." Pegou a papeleta, anulou sua assinatura verdadeira e rabiscou "B. McGillicuddy."

Normalmente os passageiros da classe econômica lançavam olhares furtivos para os da primeira classe, mas agora até mesmo os da primeira classe fizeram o mesmo em relação a ele. Buck tentou não demonstrar ostentação, mas evidentemente estava recebendo tratamento preferencial. Já estava acomodado a bordo quando os demais passageiros chegaram. Durante o vôo, as comissárias rodearam-no o tempo todo, completando seu copo e perguntando se ele precisava de mais alguma coisa. A quem Carpathia pagara por esse tratamento, e quanto?

No aeroporto Kennedy, Buck não precisou procurar por alguém carregando um cartaz com seu nome. Um motorista uniformizado caminhou em sua direção assim que ele apareceu no terminal, pegou sua maleta e perguntou se havia outras malas.

"Não."

"Ótimo, senhor. Acompanhe-me até o carro, por favor."

Buck era um homem acostumado a viajar pelo mundo todo e já havia sido tratado como rei e como pobretão ao longo dos anos. Mesmo assim, sentiu-se desconfortável diante do atual tratamento. Atravessou o aeroporto acompanhando submissamente o motorista até avistar uma enorme limusine preta na beira da calçada. O motorista abriu a porta e Buck entrou, saindo da luz do sol para a escuridão no interior da limusine.

Ele não havia mencionado seu nome ao motorista e este também não perguntou. Buck entendeu que tudo fazia parte da hospitalidade de Carpathia. E se ele tivesse sido confundido com outra pessoa? E se isso fosse um tremendo engano?

Enquanto acostumava sua vista ao ambiente escuro de vidro fume, Buck notou um homem de terno escuro olhando para ele, sentado de costas para o motorista. "Você é funcionário da ONU", perguntou Buck, "ou trabalha diretamente para o Sr. Carpathia?"

O homem não respondeu. Nem se moveu. Buck inclinou-se para frente. "Desculpe-me a insistência", ele disse. "Você..."

O homem colocou o dedo nos lábios em sinal de silêncio. Tudo bem, pensou Buck. Não preciso saber. Porém, ele estava curioso para saber se a reunião com Carpathia seria na ONU ou em um restaurante. E seria muito bom saber também se Steve Plank estaria presente.

"Eu poderia falar com o motorista?" perguntou Buck. Nenhuma resposta. "Por favor, motorista."

No entanto, havia uma divisória de vidro transparente entre o assento da frente e o restante do chassi. O homem que parecia um guarda-costas continuava olhando e Buck perguntou a si mesmo se esta seria sua última viagem de carro. Estranhamente, ele não sentiu a mesma apreensão que o dominara na última vez. Não sabia se tudo isso procedia de Deus, ou se ele estava sendo ingênuo. Pelo que entendia, poderia estar a caminho de sua própria execução. O único registro de sua viagem era uma assinatura que ele mesmo havia anulado na papeleta da comissária de bordo.

 

Rayford Steele sentou-se na cabina de um Boeing 757 na pista militar escura de Dallas — Fort Worth. Um examinador autorizado, sentado no banco do primeiro-piloto, já havia esclarecido que estava ali só para tomar notas. Rayford deveria fazer a conferência preliminar de todos os itens do vôo, comunicar-se com a torre, aguardar ordens, decolar, seguir as instruções da torre sobre a rota e aterrissar. Não lhe disseram quantas vezes deveria repetir a seqüência toda nem se haveria necessidade de algo mais.

"Lembre-se", disse o examinador, "não estou aqui para lhe ensinar nada nem para tirá-lo de alguma enrascada. Não respondo a perguntas nem mexo nos controles."

A conferência preliminar ocorreu sem nenhum problema. Taxiar o 757 era diferente do pesado e desajeitado 747, mas Rayford conseguiu. Depois de receber autorização da torre, ele acelerou para poder levantar vôo e sentiu a propulsão violenta da maravilha da aerodinâmica. Quando a aeronave movimentou-se ruidosamente pela pista como um cavalo de corridas, Rayford disse ao examinador: "Este é um Porsche em matéria de aeronaves, não?"

O examinador nem se dignou a olhar para ele, quanto menos responder à sua pergunta.

A decolagem foi enérgica e verdadeira, e Rayford lembrou-se de seus tempos de militar quando pilotou aeronaves de guerra potentes, porém muito menores. "Ou quem sabe um Jaguar?" perguntou ao examinador, que desta vez se dignou a dar um leve sorriso e um movimento afirmativo com a cabeça.

A aterrissagem de Rayford foi perfeita. O examinador aguardou até que ele taxiasse na posição correta e desligasse os motores. Então disse: "Vamos repetir mais duas vezes e você poderá pilotar por conta própria."

 

A limusine em que Buck Williams viajava ficou presa no trânsito congestionado. Buck gostaria de ter trazido algo para ler. Por que tanto mistério? Ele não compreendia o motivo desse tratamento nem antes nem depois do vôo. A única vez que alguém lhe sugeriu para usar um pseudônimo foi quando uma revista concorrente lhe fez uma oferta considerada irrecusável por seus proprietários, e eles não queriam que o Semanário Global soubesse que Buck sequer estaria considerando a idéia de mudar de emprego.

Buck avistou a sede da Organização das Nações Unidas à distância, mas só soube que este não seria seu destino quando o motorista passou à toda velocidade pela frente do edifício. Ele esperava ser conduzido a um belo local para o almoço. Apesar de ter recusado o desjejum, gostava mais da idéia de almoçar do que morrer.

 

Quando Rayford foi conduzido à caminhonete de cortesia da Pan-Con de volta ao aeroporto Dallas — Fort Worth, o examinador entregou-lhe um envelope comercial. "Então, passei no exame?" perguntou Rayford.

"Você só saberá daqui mais ou menos uma semana", respondeu o examinador.

E agora, o que seria isto? perguntou Rayford a si mesmo, entrando na caminhonete e abrindo o envelope. Dentro havia uma única folha de papel com o timbre da Organização das

Nações Unidas e escrito em alto relevo: Hattie Durham, Assistente Pessoal do Secretário-Geral. A mensagem escrita à mão dizia simplesmente:

Capitão Steele,

Suponho que você saiba que o Air Force One novinho em folha é um 757.

Sua amiga,

Hattie Durham

 

Buck começou a sentir-se mais confiante por não estar em perigo mortal. Havia muitas pessoas envolvidas em sua viagem de Chicago a Nova York e agora para o centro da cidade. Por outro lado, se Nicolae Carpathia conseguira esconder um assassinato diante de mais uma dezena de testemunhas, certamente poderia eliminar um articulista de revista.

A limusine seguiu em direção às docas, onde parou em um estacionamento circular diante do exclusivo Manhattan Harbor Yacht Club. Quando o porteiro se aproximou, o motorista abaixou o vidro da porta dianteira direita e fez um sinal com o dedo para ele, como se o estivesse advertindo a permanecer afastado do carro. Em seguida, o segurança desceu, segurou a porta aberta e Buck também desceu do carro. "Siga-me, por favor", disse o segurança.

Buck teria se sentido à vontade no Yacht Club se não estivesse acompanhando um homem de terno e que visivelmente o fazia passar por uma longa fila de clientes à espera de uma mesa vaga. O maitre olhou de relance e fez um movimento afirmativo com a cabeça enquanto Buck

acompanhava o homem até a entrada do restaurante. Ali o homem parou e cochichou: "O senhor almoçará com o cavalheiro que está no reservado perto da janela."

Buck olhou. Alguém acenava energicamente para ele, atraindo a atenção dos presentes. Como o sol batia nas costas da pessoa, Buck avistou apenas a silhueta de um homem de estatura pequena, ombros curvados para frente e cabelos ralos despenteados. "Voltarei para buscá-lo à uma e meia em ponto", disse o segurança. "Não saia do restaurante sem mim."

"Mas..."

O segurança afastou-se rapidamente e Buck olhou para o maitre, que não lhe deu atenção. Sem perder o autocontrole, Buck passou pelas inúmeras mesas e caminhou em direção ao reservado perto da janela, onde foi cumprimentado efusivamente por seu velho amigo Chaim Rosenzweig. O homem conhecia as boas maneiras de falar baixo em público, mas seu entusiasmo foi imenso.

"Cameron!" o israelense gritou com um forte sotaque. "Que bom ver você! Sente-se, sente-se! Este não é um lugar lindo? Só para os melhores amigos do secretário-geral."

"Ele nos fará companhia, senhor?"

Rosenzweig pareceu surpreso. "Não, não! Muito ocupado. Sem tempo para isso. Hospedando chefes de estado, embaixadores, todos querem estar perto dele. Eu mesmo mal consigo conversar com ele mais do que cinco minutos por dia!"

"Quanto tempo o senhor ficará em Nova York?" perguntou Buck, pegando o cardápio que lhe fora oferecido e permitindo que o garçom estendesse o guardanapo em seu colo.

"Pouco tempo. No final desta semana Nicolae e eu vamos finalizar os preparativos para sua visita a Israel. Será um dia glorioso!"

"Fale-me sobre isso, doutor."

"Vou falar! Vou falar! Mas antes precisamos esclarecer algo!" De repente o homem ficou sério e falou em tom de voz sombrio. Estendeu o braço sobre a mesa e cobriu a mão de Buck com a sua. "Cameron, sou seu amigo. Você precisa ser franco comigo. Por que não compareceu a uma reunião tão importante? Sou um cientista, sim, mas também considero-me uma espécie de diplomata. Esforcei-me bastante por trás dos bastidores com Nicolae e com seu amigo, o Sr. Plank, para que você fosse convidado. Não entendi."

"Nem eu", disse Buck. O que mais poderia dizer? Rosenzweig, idealizador da fórmula que fez os desertos de Israel florescerem como um jardim, era seu amigo desde que Buck o enquadrou na categoria de "Fazedor da Notícia do Ano" no Semanário Global pouco mais de um ano atrás. Rosenzweig foi um dos primeiros a mencionar o nome de Nicolae Carpathia a Buck. Carpathia era um político de baixo escalão da Romênia que solicitara uma reunião particular com Rosenzweig após a fórmula ter adquirido fama.

Chefes de estado de todo o mundo haviam tentado aproximar-se servilmente de Israel para ter acesso à fórmula. Inúmeros países enviaram diplomatas com a finalidade de bajular Rosenzweig depois de não terem obtido sucesso com o primeiro-ministro de Israel. Curiosamente, Carpathia foi um dos que mais impressionou Rosenzweig. Carpathia organizou a visita e viajou por conta própria, e na ocasião parecia não ter poderes para fazer acordos, apesar de Rosenzweig estar disposto a isso. Carpathia só precisava da boa vontade de Rosenzweig. E conseguiu. Agora, Buck entendeu, estava tudo acertado.

"Onde você estava?" indagou o Dr. Rosenzweig.

"Esta é uma pergunta de natureza existencial", respondeu Buck. "Onde cada um de nós está?"

Rosenzweig piscou os olhos sem entender nada, e Buck sentiu-se um tolo. Estava usando uma linguagem incoerente, mas não sabia mais o que falar. Não poderia dizer ao homem: Eu estava lá! Vi o mesmo que o senhor viu, mas Carpathia fez uma lavagem cerebral em todos vocês porque ele é o Anticristo!

Rosenzweig era um homem inteligente, esperto e adorava uma intriga. "Então, você não quer me contar. Tudo bem. Quem perdeu foi você por não ter comparecido. Evidentemente, foi poupado de uma cena de horror, mas foi sem dúvida uma reunião histórica. Peça o salmão. Você vai achar delicioso."

Buck sempre teve o hábito de não aceitar a recomendação de pratos em restaurantes. Provavelmente essa era uma das razões de seu apelido. Percebeu o quanto estava confuso ao pedir o prato sugerido por Rosenzweig. Mas estava realmente delicioso.

"Agora permita que eu lhe faça uma pergunta, Dr. Rosenzweig."

"Por favor! Por favor, Chaim."

"Como poderei me dirigir dessa maneira a um ganhador do Prêmio Nobel?"

"Por favor, será uma honra para mim. Por favor!"

"Está bem, Chaim", disse Buck, sentindo-se um tanto desconfortável. "Por que estou aqui? Qual é a finalidade?"

O velho homem pegou o guardanapo, limpou toda a barba com ele, enrolou-o em formato de bola e atirou-o no prato. Empurrou o prato de lado, endireitou-se na cadeira e cruzou as pernas. Buck já vira muita gente demonstrar profundo interesse por um determinado assunto, mas não com a avidez de Chaim Rosenzweig.

"Então, o jornalista que existe dentro de você veio à tona, heim? Vou começar dizendo que hoje é o seu dia de sorte. Nicolae tem em mente conceder-lhe uma honra tão grande que não posso lhe contar."

"Mas o senhor vai me contar, não?"

"Vou lhe contar só o que estou autorizado, e nada mais. O resto ficará por conta de Nicolae." Rosenzweig olhou para seu relógio de vinte dólares, de pulseira de plástico, que não combinava com seu status internacional. "Ótimo. Temos tempo. Ele destinou trinta minutos para sua visita, portanto não se esqueça disso. Sei que são amigos e que você talvez queira desculpar-se por não ter comparecido à reunião, porém lembre-se de que Nicolae tem muito a lhe oferecer e pouco tempo para conversar. Ele viaja no final da tarde para Washington onde terá uma reunião com o presidente. A propósito, o presidente ofereceu-se para se reunirem em Nova York, mas Nicolae, em sua humildade, não aceitou de jeito nenhum."

"Você considera Carpathia uma pessoa humilde?"

"Talvez tão humilde quanto qualquer líder que já conheci, Cameron. Evidentemente, conheço muitos homens públicos e também de vida privada que são humildes e têm o direito de ser! Mas os políticos, chefes de estado e líderes mundiais, em sua maioria, são todos cheios de si. Grande parte deles tem muito do que orgulhar-se e, de certa forma, suas realizações são movidas por seus próprios egos. Mas nunca vi um homem como Nicolae."

"Ele tem personalidade marcante", admitiu Buck.

"Isso é o mínimo que se pode falar dele", insistiu o Dr. Rosenzweig. "Pense um pouco, Cameron. Ele não procurou essas posições. Começou em cargo de baixo escalão no governo da Romênia e tornou-se presidente daquele país quando não havia sequer uma eleição programada. E passou incólume por isso!"

Aposto que sim, pensou Buck.

"E quando foi convidado a falar na Organização das Nações Unidas pouco menos de um mês atrás, sentiu-se temeroso e tão despreparado que quase recusou. Mas você esteve lá! Ouviu o discurso. Eu o teria nomeado primeiro-ministro de Israel se soubesse que ele aceitaria o cargo. Logo em seguida, o secretário-geral afastou-se do cargo e insistiu para que Nicolae o substituísse. E ele foi eleito por unanimidade, entusiasticamente, e contou com o apoio dos chefes de estado de quase todos os países.”

"Cameron, ele tem uma idéia atrás da outra! É um diplomata por excelência. Fala tantos idiomas que raramente necessita de intérpretes, mesmo quando conversa com líderes políticos de algumas das distantes tribos da América do Sul e África! Outro dia ele pronunciou algumas frases compreensíveis apenas por um aborígine da Austrália!"

"Permita-me interrompê-lo por alguns instantes, Chaim", disse Buck. "Evidentemente, você sabe que em troca de ter-se afastado do cargo de secretário-geral da ONU, Mwangati Ngumo recebeu a promessa de que teria acesso à sua fórmula para ser usada em Botsuana. Essa não foi uma atitude tão altruísta como pareceu, e..."

"É claro. Nicolae me contou. Mas isso não fez parte de nenhum acordo. Foi um gesto de sua gratidão pessoal pelo que o presidente Ngumo fez pela Organização das Nações Unidas ao longo dos anos”.

"Mas como ele pode demonstrar gratidão pessoal cedendo a fórmula que pertence ao senhor! Ninguém mais teve acesso a ela, e..."

"Eu fiquei muito feliz por oferecê-la."

"Ficou?" A mente de Buck girava rapidamente. Haveria limites para o poder persuasivo de Carpathia?

O velho homem descruzou as pernas e inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa. "Cameron, todas as peças se encaixam. Este é um dos motivos de sua presença aqui. O acordo com o ex-secretário-geral foi uma experiência, um exemplo."

"Estou ouvindo, doutor."

"Ainda é muito cedo para dizer, é claro, mas se a fórmula funcionar tão bem quanto funcionou em Israel, Botsuana imediatamente se transformará em um dos países mais férteis da África, talvez do mundo. O presidente Ngumo já viu seu prestígio crescer dentro de seu país. Todos concordam que ele foi afastado de suas funções na ONU e que o mundo melhorou após a posse do novo líder."

Buck deu de ombros, mas aparentemente Rosenzweig não percebeu. "E então Carpathia planeja fazer isso mais vezes, ceder sua fórmula por conveniência?"

"Não, não! Você não está entendendo. Sim, eu convenci o governo de Israel a ceder o uso da fórmula ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas."

"Ora, Chaim! Para quê? Para conseguir os bilhões de dólares que Israel não mais necessita? Não faz sentido! A fórmula transformou vocês em uma das nações mais ricas do mundo em razão de sua magnitude e solucionou inúmeros problemas, mas só deu certo em razão da exclusividade! Por que você acha que os russos atacaram seu país? Eles não precisam de suas terras! Lá não há petróleo a ser explorado! Eles queriam a fórmula! Imagine se todos os recantos daquela imensa nação fossem férteis!"

O Dr. Rosenzweig ergueu a mão. "Entendo, Cameron. Mas o dinheiro não tem nada a ver com isso. Não necessito de dinheiro. Israel não necessita de dinheiro."

"Então, o que Carpathia podia oferecer que valesse a pena comercializar?"

"Você sabe quais têm sido as orações de Israel desde o início de sua existência, Cameron? Não estou falando de seu renascimento em 1948. Desde o início dos tempos como o povo escolhido de Deus, pelo que temos orado?"

O sangue de Buck gelou nas veias, e ele não conseguia sair do lugar, apesar de não concordar com isso. Rosenzweig respondeu a sua pergunta. "Shalom”. Paz. “Ore pela paz de Israel”. Somos um país frágil, vulnerável. Sabemos que o Deus Todo-Poderoso nos protegeu de maneira sobrenatural do ataque violento dos russos. Você sabia que houve tantas mortes em suas tropas que os corpos precisaram ser enterrados em uma vala comum, uma cratera aberta em nosso solo precioso por uma de suas bombas, e que Deus não permitiu que nada nos acontecesse? Tivemos de enterrar alguns corpos e ossos dos russos. E os escombros de suas armas de destruição eram tão volumosos que foram utilizados por nós como matéria prima e transformados em mercadorias negociáveis. Cameron," complementou ele em tom de voz agourento, "grande parte dos aviões deles espatifou-se — bem, todos, é claro. Esses aviões ainda tinham tanto combustível que, de acordo com nossos cálculos, poderemos utilizá-lo por mais cinco a oito anos. Agora você entende por que a paz é tão importante para nós?"

"Chaim, você mesmo disse que o Deus Todo-Poderoso protegeu seu povo. Não poderia haver outra explicação para o que aconteceu na noite daquela invasão. Com Deus ao lado, por que vocês precisam permutar proteção com Carpathia?"

"Cameron, Cameron", respondeu Rosenzweig melancolicamente, "a história tem provado que Deus é caprichoso quando se trata de nosso bem-estar. Desde a época em que os filhos de Israel vaguearam quarenta anos pelo deserto até a Guerra dos Seis Dias e até a recente invasão russa, não conseguimos compreendê-lo. Ele nos favorece quando a situação convém ao seu plano eterno, o que não conseguimos compreender. Oramos, buscamos a presença de Deus, tentamos agradá-lo. Mas, ao mesmo tempo, acreditamos que ele ajuda aqueles que se ajudam. E você sabe, é claro, que é esse o motivo de você estar aqui."

"Não sei de nada", disse Buck.

"Bem, este é em parte o motivo de sua presença aqui. Você compreende que tal acordo precisa ser muito bem elaborado..."

"De que acordo estamos falando?"

"Lamento, Cameron, pensei que você estivesse acompanhando meu raciocínio. Não pense que foi fácil para mim, apesar do prestígio que gozo em meu país, convencer as autoridades a concederem licença para a fórmula, mesmo para um homem tão sedutor quanto Nicolae."

"Claro que não."

"E você tem razão. Algumas reuniões atravessaram a noite, e cada vez que eu imaginava ter convencido alguém, surgia outro. Precisei convencer um a um. Muitas vezes desanimei e quase desisti. Mas finalmente, finalmente, após muitas condições, fui autorizado a fazer um acordo com a Organização das Nações Unidas."

"Com Carpathia, você quer dizer.”

"Claro. Foi o que eu disse. Ele agora é a Organização das Nações Unidas."

"Você disse bem."

"Parte do acordo diz que passo a ser membro de seu grupo principal de colaboradores, um conselheiro. Vou assessorar o comitê que decide onde a fórmula será licenciada."

"Não haverá dinheiro mudando de mãos?"

"Nenhum."

"E Israel receberá proteção da Organização das Nações Unidas contra seus países vizinhos?"

"Oh, o assunto é muito mais complexo, Cameron. Veja, agora a fórmula está ligada à política de desarmamento global de Nicolae. Qualquer nação suspeita de resistir à destruição de 90 por cento de seu armamento ou suspeita de não entregar os 10 por cento restantes a Nicolae—ou melhor, à ONU—jamais receberá permissão sequer para ser considerada candidata à licença de uso. Nicolae garantiu que ele — e estarei presente para me certificar disso — será muito criterioso ao conceder autorizações para nossos vizinhos mais próximos e inimigos em potencial."

"Deve haver mais do que isso."

"Oh, sim, mas o ponto crucial é este, Cameron. Assim que o mundo estiver desarmado, Israel não terá de se preocupar em proteger suas fronteiras."

"Isso é ingênuo."

"Não tão ingênuo quanto possa parecer, porque de uma coisa eu tenho certeza—Nicolae não é nem um pouco ingênuo. Prevendo que algumas nações possam ajuntar, esconder ou produzir novos armamentos, o acordo entre o estado soberano de Israel e o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas — com o aval de Nicolae Carpathia — faz uma promessa solene. Qualquer nação que ameaçar Israel será extinta imediatamente, usando-se para isso o armamento acumulado pela ONU. Cada país doando 10 por cento, você poderá imaginar o potencial de fogo."

"O que não posso imaginar, Chaim, é o fato de um reconhecido pacifista, um convicto proponente do desarmamento global durante toda a sua carreira política, ameaçar extinguir países da face da terra."

"Isso é apenas de uma questão de semântica, Cameron", disse Rosenzweig. "Nicolae é um homem pragmático. Evidentemente, ele possui uma boa dose de idealismo, mas sabe que a melhor maneira de manter a paz é ter os recursos para implementá-la."

"E esse acordo durará por...?"

"Pelo tempo que desejarmos. Propusemos dez anos, mas Nicolae disse que não precisará da licença de uso da fórmula por tanto tempo. Disse que pedirá apenas sete anos, e depois todos os direitos da fórmula retornarão para nós. Quanta generosidade! E se quisermos renovar o acordo a cada sete anos, teremos liberdade para isso."

Você não vai precisar de nenhum tratado de paz daqui a sete anos, pensou Buck. "E então, o que isso tem a ver comigo?" perguntou.

"Esta é a melhor parte", disse Rosenzweig. "Pelo menos para mim, porque lhe favorece. Não é segredo que Nicolae está ciente de sua posição como o jornalista mais talentoso do mundo. E para provar que não guarda nenhum rancor por você ter desdenhado seu convite, ele lhe pedirá que vá a Israel para a assinatura do tratado."

Buck balançou a cabeça.

"Sei que isso é demais para você", disse Rosenzweig.

 

A aeronave de Rayford pousou no solo de O'Hare à uma hora da tarde, horário de Chicago. Ele telefonou para casa e a secretária eletrônica estava ligada. "Oi, Chloe", ele disse, "voltei antes do que imaginei. Só queria que você soubesse que estarei em casa dentro de uma hora e..."

Chloe pegou o telefone. Ela parecia mal-humorada. "Oi, papai", resmungou.

"Você está indisposta?"

"Não. Apenas aborrecida. Papai, você sabia que Buck Williams está morando com uma moça?"

"O quê!?"

"É verdade. E estão comprometidos! Eu a vi. Ela estava levando caixas para seu apartamento. Uma moça magrinha, de cabelos espetados e saia curta."

"Talvez você tenha errado o número do apartamento."

"O número estava certo.”

"Você está tirando conclusões precipitadas."

"Papai, ouça-me. Fiquei tão furiosa que rodei uma volta de carro, depois sentei-me em um estacionamento e chorei. Por volta do meio-dia, resolvi visitá-lo no escritório do Semanário Global, e ela estava lá, descendo do carro. Eu perguntei 'Você trabalha aqui?' e ela respondeu 'Sim, posso ajudá-la?' Então eu disse 'Acho que a vi hoje cedo', e ela disse 'Talvez. Estive com meu noivo. Há alguém aqui que você deseja ver?' Virei as costas e fui embora, papai."

"E depois você falou com Buck?"

"Você está brincando? Talvez nunca mais fale com ele. Espere um minuto. Alguém está batendo na porta."

Instantes depois, Chloe voltou a falar com o pai. "Não posso acreditar. Se ele acha que isso fará alguma diferença..."

"O quê?"

"Flores! E, é claro, vindas de um anônimo. Ele deve ter-me visto no carro por ali e percebeu como me senti. Se você quiser estas flores, vai encontrá-las na lata do lixo quando chegar."

 

Poucos minutos depois das duas horas da tarde em Nova York, Buck e Chaim Rosenzweig aguardavam na suntuosa sala de espera do secretário-geral da Organização das Nações Unidas. Chaim discorria alegremente sobre um assunto qualquer, e Buck fingia prestar atenção. Ele orava silenciosamente, sem saber se o mau pressentimento que sentia era psicológico por saber que Nicolae Carpathia estava por perto ou se aquele homem realmente emitia alguma espécie de aura demoníaca, perceptível aos seguidores de Cristo. Buck sentia-se fortalecido por saber que Bruce estava orando por ele naquele momento e refletia sobre o fato de não ter avisado Rayford e Chloe a respeito de sua viagem. Sua passagem de volta estava marcada para as cinco horas da tarde, portanto ele chegaria a tempo de assistir à primeira parte dos estudos das oito horas que Bruce planejara, os quais Buck aguardava com ansiedade. Antes do início dos estudos, poderia convidar Chloe para um jantar a dois, depois de encerradas as atividades na igreja. "Então, o que você acha disso?" perguntou o Dr. Rosenzweig.

"Desculpe-me, doutor", respondeu Buck. "Minha mente estava em outro lugar."

"Não há motivos para nervosismo, Cameron. Nicolae ficou aborrecido, sim, mas ele só reservou coisas boas para você."

Buck deu de ombros e assentiu com a cabeça.

"Eu estava dizendo que meu caro amigo, o rabino Tsion Ben-Judá, concluiu seu estudo de três anos e não me surpreenderei se ele ganhar o Prêmio Nobel.”

"Por seu estudo de três anos?"

"Você não estava prestando atenção, não é mesmo, meu amigo?"

"Desculpe-me."

"Você deverá ser mais atento quando falar com Nicolae, prometa-me."

"Prometo. Perdoe-me."

"Tudo bem. Mas ouça, o rabino Ben-Judá foi designado pelo Instituto Hebraico de Pesquisas Bíblicas para fazer um estudo de três anos."

"Estudo sobre o quê?"

"Algo relacionado com as profecias a respeito do Messias para que nós, os judeus, o reconheçamos quando ele vier."

Buck estava perplexo. O Messias já viera, e os judeus que foram deixados para trás não o identificaram. Quando ele veio pela primeira vez, a maioria não o reconheceu. O que Buck deveria dizer a seu amigo? Se ele se declarasse um "santo da Tribulação", como Bruce gostava de se referir aos novos crentes após o Arrebatamento, quais seriam as conseqüências em relação a si mesmo? Rosenzweig era confidente de Carpathia. Buck gostaria de dizer que um estudo autêntico das profecias messiânicas só poderia conduzir a Jesus. Porém, disse apenas: "Quais são as principais profecias que apontam para o Messias?"

"Para lhe dizer a verdade", disse o Dr. Rosenzweig, "não sei. Só passei a ser um judeu praticante depois que Deus destruiu a Força Aérea Russa, e não posso afirmar se agora sou um devoto. Sempre considerei as profecias messiânicas da mesma forma que considero o restante do Torá. Simbólicas. O rabino do templo que eu freqüentava de vez em quando em Tel-Aviv dizia que não era importante saber se Deus era um ser literal ou apenas um conceito. Isso condiz com meu ponto de vista humanístico do mundo. Os religiosos, judeus ou não, raramente me impressionaram mais do que um ateu de bom coração.”

"O Dr. Ben-Judá foi meu aluno vinte e cinco anos atrás. Ele sempre foi um judeu destemido, um ortodoxo sem idéias fundamentalistas. Tornou-se rabino, mas não em razão do que lhe ensinei, disso tenho certeza. Sempre gostei dele. Recentemente ele me contou que terminou o estudo, mencionando que foi a coisa mais satisfatória e gratificante que já fez." Rosenzweig fez uma pausa. "Imagino que você está curioso para saber por que estou lhe contando isto."

"Francamente, sim."

"Estou trabalhando por trás dos bastidores para que o rabino Ben-Judá seja incluído no grupo de assessores de Carpathia."

"Como o quê?"

"Como conselheiro espiritual." "Ele está procurando um?"

"Nem ele sabe disso!" Rosenzweig soltou uma gargalhada e deu uma palmada no joelho. "Mas até agora ele tem confiado em meu julgamento. É por isso que você está aqui." Buck ergueu uma sobrancelha. "Imaginei que fosse porque Carpathia pensa que sou o melhor jornalista do mundo." O Dr. Rosenzweig inclinou-se para frente e sussurrou em tom de conspiração: "E por que você acha que ele acredita nisso?"

 

Rayford teve dificuldade em localizar Chloe pelo telefone do carro, mas finalmente conseguiu. "Queria saber se você está disposta a jantar fora com seu velho pai", ele sugeriu, imaginando que a filha precisava divertir-se um pouco.

"Não sei", ela disse. "Obrigada pelo convite, papai, mas você não acha que devemos ir à reunião das oito horas de Bruce?"

"Eu gostaria muito."

"É melhor jantarmos em casa. Eu estou bem. Acabei de falar com Bruce por telefone. Queria saber se Buck vai chegar hoje à noite."

"E?"

"Ele não tem certeza. Espera que sim. Eu espero que não."

"Chloe!"

"Estou com medo do que vou dizer, papai. Não é de admirar que ele tenha sido tão frio comigo por causa daquela, daquela, sei lá o que ela é dele. Mas as flores! Com que finalidade?"

"Você nem sabe se foi ele quem mandou."

"Ora, papai! Se não foram enviadas por você, foram enviadas por Buck."

Rayford riu. "Por que não tive essa idéia?"

"Eu teria preferido."

 

Hattie Durham aproximou-se de Buck e Chaim Rosenzweig, e ambos levantaram-se. "Sr. Williams!" ela disse, abraçando-o. "Não o vejo desde que comecei a trabalhar aqui."

Sim, você me viu, pensou Buck. Apenas não se lembra.

"O secretário-geral e o Sr. Plank vão atendê-lo agora", ela disse a Buck e virou-se para o Dr. Rosenzweig. "Doutor, o secretário-geral pede que o senhor esteja preparado para participar da reunião daqui a vinte e cinco minutos."

"Pois não", disse o Dr. Rosenzweig. Piscando para Buck, ele deu um leve aperto em seu ombro.

Buck acompanhou Hattie, passando por várias mesas e um corredor em declive revestido de mogno. Percebeu que nunca a vira sem uniforme. Nesse dia, ela trajava um elegante conjunto que lhe dava a aparência de mulher fina, rica e sofisticada, realçando sua extraordinária beleza. Até sua linguagem parecia mais erudita. Aparentemente, a companhia de Carpathia ajudou a melhorar sua presença.

Hattie deu uma leve batida na porta da sala, entreabriu-a e enfiou a cabeça pela fresta. "Sr. Secretário-Geral e Sr. Plank", anunciou, "Cameron Williams do Semanário Global. Escancarou a porta e saiu discretamente, enquanto Nicolae Carpathia adiantava-se para cumprimentar Buck com as duas mãos. Buck pareceu estranhamente calmo diante do sorriso daquele homem. "Buck!" ele disse. Posso chamá-lo assim?"

"O senhor sempre me chamou de Buck."

"Vamos! Vamos! Sente-se! Você e Steve já se conhecem, é claro."

Buck impressionou-se mais com a aparência de Steve do que com a de Carpathia. Nicolae sempre se vestiu formalmente, combinando muito bem os acessórios, paletó abotoado, tudo no lugar. Mas Steve, apesar de sua posição de editor-executivo de uma das revistas mais famosas do mundo, nem sempre se vestiu da maneira adequada a um jornalista. Sempre usou os obrigatórios suspensórios surrados e camisas de mangas compridas, é claro, mas geralmente com o laço da gravata afrouxado e as mangas da camisa enroladas, parecendo um hippie de meia-idade ou um aluno das escolas da Ivy League.

Nesse dia, contudo, Steve parecia um clone de Carpathia. Segurava uma pasta fina de couro preto e, no todo, parecia ter saído da capa da edição 500 da revista Fortune. Até mesmo seu cabelo tinha um leve estilo europeu — cortado a navalha e muito bem penteado e engomado, escova e secador. Usava óculos de armação moderna, terno escuro quase preto, camisa branca com as pontas da gola presas por um pino e gravata que provavelmente custou mais do que ele costumava pagar por um paletó esporte. Os sapatos eram de couro macio, talvez italianos, e se Buck não estava enganado, havia um novo anel de brilhante na mão direita de Steve.

Carpathia pegou uma das cadeiras da mesa de reunião, colocou-a ao lado das duas que estavam diante de sua mesa e sentou-se perto de Buck e de Steve. Extraído de um manual do bom administrador, pensou Buck. Derrube a barreira entre o superior e o subordinado.

Não obstante, apesar dessa tentativa, ficou claro que a reunião tinha a finalidade de impressionar Buck. E impressionou. Hattie e Steve já haviam mudado o suficiente para se tornarem praticamente irreconhecíveis. Ao olhar para as feições firmes, ossudas e penetrantes de Carpathia, sorriso aparentemente sincero e apaziguador, Buck desejou de todo o coração que aquele homem fosse o que aparentava ser e não o que era realmente.

Em nenhum momento Buck se esqueceu ou perdeu de vista o fato de que estava na presença da personalidade mais sagaz, mais matreira da história. Ele só queria conhecer alguém tão sedutor quanto Carpathia, mas que fosse autêntico.

Buck sentia pena de Steve, porém não foi consultado antes de ele sair do Semanário Global para trabalhar com Carpathia. Agora, por mais que Buck desejasse falar ao amigo sobre sua nova fé, não podia confiar em ninguém. A menos que Carpathia tivesse poderes sobrenaturais para conhecer todas as coisas, Buck esperava e orava para que aquele homem não percebesse que ele era um agente inimigo dentro de seu território. "Vou começar com uma expressão idiomática engraçada", disse Carpathia, "e depois pediremos que Steve saia da sala para termos uma conversa franca, só entre você e mim, que tal?"

Buck assentiu.

"Há uma expressão que só ouvi dizer depois de ter chegado a este país: 'o elefante na sala'. Você já ouviu esta expressão, Buck?"

"O senhor se refere a pessoas que se encontram e evitam falar do assunto do momento, como, por exemplo, o fato de uma delas ter acabado de saber que está com uma doença terminal?"

"Exatamente. Então, vamos começar falando do elefante na sala e encerrar este assunto. Depois poderemos discutir outras questões. Tudo bem?"

Buck assentiu novamente, sentindo sua pulsação acelerar.

"Confesso que fiquei confuso e um pouco magoado por você não ter comparecido à reunião de posse dos novos embaixadores. No entanto, da maneira como tudo terminou, o episódio teria sido tão traumático para você quanto foi para todos nós que lá estávamos."

Buck não queria de maneira nenhuma ser sarcástico naquele momento. Também não queria e não ia desculpar-se. Como poderia dizer que lamentava o fato de não ter comparecido a uma reunião em que esteve?

"Gostaria de ter comparecido e não queria perder a reunião de jeito nenhum", disse Buck. Carpathia o fitava com olhar penetrante, e permaneceu em silêncio como se estivesse aguardando o restante da história. "Francamente", prosseguiu Buck, "aquele dia foi nebuloso para mim e quase não me lembro de nada." Nebuloso com detalhes tão vividos que ele jamais esqueceria.

Carpathia pareceu descontrair-se. Abandonou sua postura formal, inclinou-se para frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos, e desviou o olhar de Buck para Steve e depois para Buck novamente, demonstrando irritação. "Tudo bem", disse, "aparentemente não há nenhuma desculpa, nenhuma explicação."

Buck olhou de relance para Steve, que parecia estar tentando se comunicar com os olhos e fazer um sinal com a cabeça, como se estivesse dizendo: Fale alguma coisa, Buck! Peça desculpas! Explique-se!

"O que posso dizer? Aquele foi um dia horrível para mim", disse Buck. Esta breve explicação foi a que mais se aproximou do que os dois interlocutores queriam ouvir. Buck sabia que Steve era inocente. Steve acreditava piamente que Buck não esteve na reunião. Carpathia, evidentemente, tinha planejado e coreografado a charada toda. Agia com perfeição ao mostrar-se aborrecido por não ter recebido uma desculpa ou uma explicação, pensou Buck. Carpathia estava claramente tentando captar alguma evidência de que Buck sabia o que acontecera. Tudo o que Buck podia fazer era fingir-se de bobo, ser evasivo e orar para que Deus impedisse que Carpathia enxergasse a verdade, ou seja, que Buck era um homem crente e que estava protegido do poder de Carpathia.

"Tudo bem", disse Carpathia, endireitando-se na cadeira e se recompondo. "O dia foi horrível para todos nós. Lamento a perda de dois compatriotas, um deles amigo de muitos anos." Buck sentiu o estômago revirar. "Agora quero conversar com Buck, o jornalista, e pediremos ao amigo Steve que tenha a bondade de retirar-se."

Steve levantou-se e bateu de leve no ombro de Buck, saindo da sala em silêncio. Buck compreendeu dolorosamente que a partir daquele momento só ele e Deus estariam sentados lado a lado com Carpathia.

Mas o "lado a lado" não durou muito. De repente, Nicolae levantou-se e dirigiu-se para a cadeira de espaldar alto atrás de sua mesa. Pouco antes de sentar-se, apertou o botão do interfone. Buck ouviu a porta abrir atrás de si.

"Com licença", sussurrou Hattie Durham, pegando a terceira cadeira que estava diante da mesa e colocando-a de volta no lugar. Antes de sair, ajeitou a cadeira que Steve usara. Sem nenhum ruído, saiu discretamente da sala. Buck achou aquilo muito estranho. A reunião toda parecia ter sido cuidadosamente planejada, desde o anúncio formal de sua presença até a encenação de quem participaria e onde se sentaria. Agora que a sala voltara a ser o que era antes de Buck entrar, e com Carpathia protegido atrás de sua imensa mesa, toda a simulação de igualdade de poder havia desaparecido.

Não obstante, Carpathia ainda mantinha todo o seu poder de sedução. Cruzou as mãos e fitou Buck, sorrindo. "Cameron Williams", ele disse vagarosamente. "Qual é a sensação de ser o jornalista mais famoso da época?"

Que tipo de pergunta era aquela? Exatamente por não fazer perguntas é que Buck era um jornalista respeitado. "Neste momento sou apenas um reles jornalista rebaixado de cargo", ele disse.

"E despretensioso", disse Carpathia, com um sorriso. "Em poucos instantes vou lhe mostrar que, apesar de seu prestígio ter caído no Semanário Global, não caiu perante o restante do mundo nem perante mim, com certeza. Eu deveria estar mais aborrecido do que seu editor pelo fato de você não ter comparecido à reunião, mas, mesmo assim, ele se irritou. Vamos deixar tudo para trás e prosseguir. Um erro não anula uma vida inteira de sucessos."

Carpathia fez uma pausa como se esperasse que Buck reagisse. Buck estava preferindo cada vez mais permanecer em silêncio. Parecia ser a maneira certa de lidar com Carpathia, e certamente foi a maneira pela qual Deus o guiara na fatídica reunião quando Carpathia perguntou a cada um o que tinha visto. Buck acreditava que o silêncio salvou sua vida.

"A propósito", prosseguiu Carpathia quando ficou claro que Buck não tinha nada a dizer, "você trouxe sua reportagem de capa sobre as teorias por trás dos desaparecimentos?"

Buck não conseguiu esconder sua surpresa. "Para ser franco, sim."

Carpathia deu de ombros. "Steve me falou sobre a reportagem. Adoraria vê-la."

"Receio não poder mostrá-la a ninguém antes de entregar a matéria final ao Semanário Global."

"Com certeza eles já viram o rascunho."

"Claro."

"Steve disse que você gostaria de incluir uma ou duas citações minhas."

"Francamente, a menos que o senhor tenha alguma novidade, acho que suas opiniões já foram tão amplamente divulgadas que não despertariam mais interesse em nossos leitores."

Carpathia pareceu magoado.

"Quero dizer", prosseguiu Buck, "o senhor ainda se apega à idéia de uma reação nuclear acompanhada de forças naturais, certo? Aquele relâmpago deve ter acionado uma espécie de interação espontânea entre todo o estoque de armas nucleares, e..."

"Você sabe que seu amigo, o Dr. Rosenzweig, também aceita esta teoria."

"Entendo que sim, senhor."

"Mas não será mencionada em seu artigo?"

"Claro que sim. Achei que estávamos discutindo se eu precisava de uma nova citação sua. A não ser que seu ponto de vista tenha mudado, eu não preciso."

Carpathia olhou para seu relógio. "Como você sabe, tenho uma agenda lotada. Correu tudo bem com sua viagem? Foi bem tratado? Almoço bom? O Dr. Rosenzweig adiantou-lhe parte do assunto?"

Buck assentiu após cada pergunta.

"Presumindo que ele lhe tenha falado a respeito do tratado da ONU com Israel e que a assinatura será daqui a uma semana em Jerusalém, gostaria de fazer-lhe um convite pessoal para estar lá."

"Duvido que o Semanário enviaria um simples articulista da sucursal de Chicago para um evento internacional de tal magnitude."

"Não estou convidando você para fazer parte do grupo de milhares de jornalistas do mundo inteiro que solicitarão credenciais assim que a notícia for divulgada. Meu convite é para que você faça parte de minha delegação, sente-se à mesa comigo. Será um privilégio que nenhuma outra pessoa dos meios de comunicação do mundo inteiro terá."

"A política do Semanário Global diz que seus jornalistas não podem aceitar favores que venham..."

"Buck, Buck", disse Carpathia. "Lamento cortá-lo, mas ficarei muito surpreso se você continuar a ser funcionário do Semanário Global daqui a uma semana. Muito surpreso."

Buck levantou as sobrancelhas e olhou para Carpathia com ceticismo. "O senhor tem conhecimento de algo que não sei?" Assim que proferiu essas palavras Buck se deu conta de que havia perguntado involuntariamente o motivo principal daquela reunião.

Carpathia riu. "Não sei de nenhum plano do Semanário para despedi-lo. Acho que o castigo para seu malfadado novo cargo já foi o suficiente. E, apesar de você ter recusado minha oferta de emprego anterior, creio que tenho uma oportunidade a lhe oferecer que mudará sua cabeça."

Não conte com isso, pensou Buck, e disse: "Estou ouvindo."

 

"Antes de falar sobre isso", disse Carpathia, procurando ganhar tempo, uma péssima característica de sua personalidade que sempre irritou Buck, "deixe-me pensar um pouco. Você se lembra de quando eu lhe assegurei que poderia livrá-lo de um problema?"

Será que Buck se lembrava? Até o dia dos assassinatos, aquele tinha sido seu olhar mais assustado a Carpathia. O informante de Buck, um galés colega dos tempos de faculdade, morreu depois de aproximar-se muito de um esquema internacional de transações bancárias envolvendo seu chefe, Joshua Todd-Cothran, presidente da Bolsa de Valores de Londres.

Buck voara para a Inglaterra a fim de fazer uma investigação junto com um amigo, agente da Scotland Yard. Quase morreu quando o agente foi exterminado por uma bomba deixada no carro. Buck concluiu que o suicídio de seu amigo galés tinha sido, na verdade, um homicídio. Diante disso, precisou fugir da Inglaterra usando um nome falso. Quando regressou a Nova York, o próprio Nicolae Carpathia prometeu-lhe que tomaria conta do assunto, se Todd-Cothran estivesse envolvido em qualquer atividade ilícita. Pouco tempo depois, Todd-Cothran morreu pelas mãos de Carpathia diante dos olhos de Buck em um duplo assassinato do qual apenas Buck parecia recordar.

"Eu me lembro", disse Buck categoricamente.

"Deixei claro que não toleraria falsidade ou desonestidade em minha administração na ONU. E a situação de Todd-Cothran resolveu-se sozinha, não foi?”

Resolveu-se sozinha? Buck permaneceu em silêncio.

"Você acredita em sorte, Sr. Williams?"

"Não."

"Você não acredita em sorte para aqueles que agem corretamente?"

"Não."

"Eu acredito. Sempre tive sorte. Os fanfarrões e até mesmo os criminosos têm sorte uma vez na vida. Porém, geralmente, quanto melhor uma pessoa executa seu trabalho, mais sorte parece ter. Você está entendendo?”

"Não."

"Deixe-me simplificar. Você correu grande perigo. Viu pessoas morrerem ao seu redor. Eu lhe disse que tomaria conta do assunto, apesar de não ter nada a ver com aquilo. Confesso que quando lhe assegurei com tanta ênfase que o livraria de problemas, não estava certo de como faria isso. Por não ser uma pessoa religiosa, devo dizer que estive acompanhado de um bom carma. Você não concorda?

"Para ser franco, não tenho a menor idéia do que o senhor está falando."

"E está curioso para saber por que gosto tanto de você?" Carpathia deu um largo sorriso. "Você é a pessoa de que preciso! O que estou dizendo é que você e eu temos um problema. Você estava na mira de alguém e eu tive duas pessoas de minha confiança que se envolveram em graves crimes. Ao matar Todd-Cothran e em seguida suicidar-se, meu velho amigo Jonathan Stonagal resolveu os problemas que nós dois tínhamos. Este é o bom carma, se é que entendo meus amigos orientais."

"Então, quando o senhor diz que lamenta a morte de seus amigos, na verdade está feliz porque ambos estão mortos."

Carpathia endireitou-se na cadeira, parecendo estar impressionado. "Exatamente. Feliz por você. Lamento a morte deles. Eram meus velhos amigos e conselheiros de confiança, até mesmo mentores. Mas quando procederam mal, eu tinha de fazer algo a respeito. Se tivesse feito, não teria cometido erro. Mas Jonathan fez isso por mim."

"Posso imaginar", disse Buck. Carpathia fixou atentamente os olhos em Buck como se quisesse ler seus pensamentos.

"Estou sempre me surpreendendo", prosseguiu Carpathia, "com a velocidade com que as coisas mudam."

"Não posso contestar isso."

"Há menos de um mês eu era senador da Romênia. No minuto seguinte, fui presidente daquele país e uma hora depois, passei a ser secretário-geral da Organização das Nações Unidas.”

"Buck sorriu diante da hipérbole de Carpathia, mas mesmo assim, sua ascensão ao poder tinha sido muito rápida. O sorriso de Buck desapareceu quando Carpathia complementou: "É quase o suficiente para fazer um ateu acreditarem Deus."

"Mas o senhor atribui o sucesso a um bom carma", disse Buck.

"Francamente", disse Carpathia, "isso me dá uma lição de humildade. De certa maneira esse parece ter sido meu destino, mas nunca sonhei com tal coisa, nem imaginei e muito menos planejei. Não procurei ocupar nenhum cargo público desde que me candidatei a senador da Romênia, e mesmo assim cheguei até onde estou. Não posso fazer nada a não ser dedicar-me de corpo e alma e esperar que seja merecedor da confiança que foi depositada em mim."

Um mês antes, Buck teria amaldiçoado aquele homem em voz alta. Perguntou a si mesmo se demonstrou essa reação. Aparentemente não.

"Buck", prosseguiu Carpathia, "preciso de você. E desta vez não vou aceitar um não como resposta."

 

Rayford desligou o telefone do carro depois de falar com Bruce Barnes. Rayford tinha perguntado a Bruce se poderia chegar um pouco antes do início da reunião daquela noite para mostrar-lhe algo, mas não contou o que era. Pegou o bilhete de Hattie no bolso da camisa e abriu-o diante do volante. O que aquilo significava? Como Hattie, ou melhor, o chefe dela, sabia onde localizá-lo?

O telefone do carro tocou. Rayford apertou um botão e pegou o fone embutido no espelho retrovisor. "Ray Steele", ele disse.

"Papai, você estava usando o telefone?"

"Sim, por quê?"

"Earl está tentando falar com você."

"O que houve?"

"Não sei. Parece ser assunto sério. Eu lhe disse que você estava a caminho de casa e ele ficou surpreso. Resmungou dizendo que ninguém o mantém informado sobre nada. Pensou que você voltaria de Dallas mais tarde e..."

"Eu também pensei."

"De qualquer forma, ele tinha esperança de encontrá-lo em O'Hare antes de você sair de lá."

"Vou ligar para ele. Vejo você mais tarde. Vou sair de casa um pouco mais cedo para conversar com Bruce. Você poderá ir comigo e aguardar na ante-sala ou, então, iremos com dois carros."

"Está bem, papai. Não sei se quero aguardar na ante-sala e ter de encarar Buck. Acho que não. Vá na frente, papai. Chegarei um pouco depois."

"Oh, Chloe."

"Não comece, papai."

 

Buck sentiu-se confiante. Curioso, mas confiante. Certamente queria ouvir o que Carpathia tinha em mente, mas pareceu que aquele homem ficou mais impressionado quando Buck usou de franqueza. Buck não estava preparado para dizer tudo o que sabia e o que de fato pensava, e provavelmente não faria isso, mas sentiu que devia falar, para seu próprio bem.

"Talvez eu não devesse ter vindo sem saber o que o senhor desejava", disse Buck. "E quase não vim. Passei um bom tempo dando explicações a Steve."

"Ora, vamos falar com franqueza e seriedade", disse Carpathia. "Sou diplomata e sou sincero. Agora você já me conhece o suficiente para saber disso." Ele fez uma pausa como se estivesse aguardando uma confirmação. Buck nem sequer assentiu com a cabeça. "Vamos, vamos. Você não se desculpou nem explicou o motivo de ter feito pouco caso de meu convite, e mesmo assim não guardo nenhum rancor. Você não pode desapontar-me novamente."

"Não posso? O que me aconteceria?"

"Talvez teria de explicar-se novamente com Stanton Bailey, e você seria rebaixado ainda mais. Ou demitido. De qualquer maneira, seria uma lástima. Não sou ingênuo, Buck. Conheço a origem de seu apelido [potro], e este é um dos motivos por que o admiro tanto. Mas você não pode continuar a me jogar no chão. Não que eu me considere uma pessoa especial, mas o mundo e os meios de comunicação me consideram. As pessoas que me desprezam correm perigo."

"Então devo ter medo do senhor, e é por isso que devo aceitar qualquer papel que venha a me oferecer?"

"Oh, não! Medo de fazer pouco caso de mim, sim, mas só pelos motivos óbvios e práticos que acabei de expor. Mas esse medo devia motivá-lo apenas a estar presente quando peço e quando tenho uma proposta para você. O medo nunca deverá ser o motivo principal para você decidir se deve trabalhar comigo. Não é necessário impor medo para persuadi-lo." Buck desejava perguntar o que seria necessário, mas estava claro que Nicolae aguardava essa pergunta, portando não disse nada.

"Qual é mesmo a antiga expressão que vocês, americanos, gostam muito de usar? 'Uma oferta irrecusável'? É isso o que tenho para lhe oferecer."

 

"Rayford, detesto agir assim com você, mas precisamos conversar pessoalmente hoje à tarde."

"Earl, já estou a caminho de casa."

"Lamento muito. Eu não faria isso se não fosse importante.”

"O que houve?"

"Se eu pudesse falar por telefone, não estaria insistindo para uma conversa pessoal, certo?"

"Você quer que eu dê meia-volta imediatamente?"

"Sim, e lamento muito."

 

"Existem leis e existem regras", Carpathia estava dizendo. "Leis às quais obedeço. Regras que não me importo de desprezar, se puder justificá-las. Por exemplo, em seu país não é permitido levar lanches a um campo esportivo. A administração quer arrecadar sozinha todo o dinheiro da concessão. Ótimo. Entendo por que essas regras são estabelecidas e, se eu fosse o proprietário, provavelmente tentaria fazer com que fossem cumpridas. Mas não consideraria crime o fato de entrar no campo com meu lanche escondido. Você me entende?" "Acho que sim."

"Há uma regra que é pertinente aos chefes de estado e aos órgãos oficiais, como a Organização das Nações Unidas. Entendo que somente em um regime repressivo ditatorial o líder tenha domínio ou interesse financeiro na divulgação de uma notícia importante pelos meios de comunicação." "Concordo plenamente." "Mas é uma lei?" "Nos Estados Unidos, sim." "E na esfera internacional?" "Não existe uniformidade." "Aí está o ponto."

Carpathia queria induzir Buck a perguntar aonde ele queria chegar, mas não obteve sucesso. "Vocês gostam muito de usar a expressão a verdade é que", disse Nicolae. "Já ouvi você usá-la. Sei o que significa. A verdade aqui é que vou adquirir os principais órgãos de comunicação e quero que você faça parte."

"Parte do quê?"

"Parte do corpo administrativo. Serei o único proprietário dos grandes jornais do mundo, das redes de TV e dos serviços de comunicação. Você poderá dirigir para mim qualquer um que escolher."

"O secretário-geral da ONU proprietário dos principais órgãos de comunicação? Como o senhor explicaria isso?"

"Se as leis precisarem ser mudadas, elas mudarão. A época é mais do que apropriada para exercer influência positiva nos meios de comunicação, Buck. Você não concorda?"

"Não concordo."

"Milhões de pessoas desapareceram. O povo está assustado. Tem medo de guerra, está cansado de derramamento de sangue, cansado do caos. O povo precisa saber que temos condição de propiciar a paz. A reação ao meu plano de desarmamento mundial foi favorável por quase unanimidade."

"Não pelo movimento da milícia norte-americana."

"Que se dane a milícia", disse Carpathia, sorrindo. "Se levarmos a cabo minha proposta, você acha realmente que um bando de fanáticos que perambulam pelas matas usando fardas surradas e dando tiros de espingarda serão considerados ameaça à comunidade global? Buck, estou simplesmente atendendo aos anseios dos cidadãos decentes do mundo. É claro que as maçãs podres não serão erradicadas, e jamais proibirei os órgãos de comunicação de lhes dar uma cobertura razoável, mas faço isso com a mais sincera das intenções. Não preciso de dinheiro. Tenho um mar de dinheiro."

"A ONU tem tanto dinheiro assim?"

"Buck, vou lhe contar uma coisa que poucas pessoas sabem e, como confio em você, sei que guardará segredo. Jonathan Stonagal nomeou-me o único herdeiro de todos os seus bens."

Buck não conseguiu esconder sua surpresa. Se o multibilionário tivesse nomeado Carpathia para receber parte de sua fortuna, ninguém se surpreenderia, mas ser o único herdeiro? Significava que agora Carpathia era proprietário dos principais bancos e instituições financeiras do mundo.

"Mas, mas, a família dele...", Buck balbuciou.

"Já fiz um acordo judicial com eles. Comprometeram-se a manter silêncio e jamais contestar a vontade de Jonathan. Cada um receberá 100 milhões de dólares."

"Isso me faz calar a boca", disse Buck. Mas quanto se sacrificaram por não receber a parte justa que lhes cabe?"

Carpathia sorriu. "E você ainda quer saber por que o admiro? Você sabe que Jonathan era o homem mais rico do mundo. Para ele, dinheiro era simplesmente uma comodidade. Nem sequer carregava carteira. A parcimônia fazia parte de seu charme. Permitia que um homem de poucas posses lhe pagasse um jantar e, em seguida, comprava uma empresa por centenas de milhões de dólares. Para ele, o dinheiro era apenas uma questão de números."

"E o que será para o senhor?"

"Buck, digo isso do fundo do coração. Esse estupendo recurso me dá a oportunidade de concretizar um sonho acalentado há muito tempo. Quero a paz. Quero o desarmamento global. Quero unificar os povos do mundo. O mundo devia ter-se transformado em uma aldeia global décadas atrás quando fomos unidos por meio dos transportes aéreos e das comunicações via satélite. Mas foram os desaparecimentos — talvez a melhor coisa que já aconteceu a este planeta — que conseguiram nos unir. Quando falo, sou ouvido em quase todos os cantos do mundo.”

"Não estou interessado em riqueza pessoal", prosseguiu Nicolae. "Minha história prova isso. Conheço o valor do dinheiro. Não me importo de usá-lo como forma de persuasão, se servir para motivar uma pessoa. Porém toda a minha preocupação está voltada para a humanidade." Buck sentia-se enojado, e sua mente estava invadida por imagens. Carpathia encenara o "suicídio" de Stonagal e conseguira mais testemunhas do que qualquer tribunal necessitaria. Agora, estaria aquele homem tentando impressioná-lo com seu altruísmo, sua generosidade?

A mente de Buck foi transportada para Chicago e, de repente, ele sentiu falta de Chloe. O que seria isso? Algo dentro dele o fazia desejar conversar com ela. O fato de serem "apenas bons amigos" nunca o agradou, mas desta vez a sensação foi pior. Teria sido meramente a confissão chocante de Carpathia o motivo para fazer Buck sentir falta de alguma coisa ou de alguém que lhe proporcionasse conforto e segurança? Havia pureza e frescor em Chloe. Como ele pôde confundir seus sentimentos com fascinação por uma mulher mais jovem?

Carpathia olhava firme para ele. "Buck, você jamais deverá comentar com quem quer que seja o que eu lhe disse hoje. Ninguém poderá saber. Você trabalhará para mim e terá privilégios e oportunidades que nem pode imaginar. Você vai pensar nisso, mas no final das contas aceitará."

Buck lutava para manter sua mente focalizada em Chloe. Admirava o pai dela e estava começando a sentir uma grande amizade por Bruce Barnes, uma pessoa com quem nunca teria nada em comum se não tivesse se tornado seguidor de Cristo. Mas o objeto de sua atenção era Chloe, e Buck se deu conta de que Deus havia fixado esses pensamentos em sua mente para ajudá-lo a resistir ao poder hipnótico e persuasivo de Nicolae Carpathia.

Será que amava Chloe Steele? Não sabia dizer. Mal a conhecia. Sentia atração por ela? Claro. Queria sair com ela, iniciar um relacionamento? Com certeza.

"Buck, se você pudesse escolher um lugar para morar no mundo, onde seria?"

Buck ouviu a pergunta e procurou ganhar tempo. Cerrou os lábios como se estivesse pensando na resposta. Mas ele só pensava em Chloe. O que ela diria se soubesse disso? Sentado diante do homem mais falado do mundo que lhe oferecia um cheque em branco, Buck não conseguia desviar o pensamento de uma moça de vinte anos que abandonara os estudos e vivia em Chicago.

"Onde seria, Buck?"

"Já estou morando nesse lugar", respondeu Buck.

"Chicago?"

"Chicago."

De repente, Buck percebeu que não podia viver longe de Chloe. O comportamento e as atitudes dela nos dois últimos dias evidenciavam que ele não lhe dera a atenção devida, mas Buck acreditava que haveria tempo de reverter a situação. Quando ele demonstrou interesse, ela fez o mesmo. Quando demonstrou incerteza, ela fez o mesmo. Ele teria de deixar claro seu interesse e esperar pelo melhor. Havia ainda graves questões a considerar, mas, no momento, ele só sabia que sentia muita falta de Chloe.

"Por que razão alguém desejaria morar em Chicago?" indagou Carpathia. "A cidade tem um aeroporto central, porém o que mais oferece? Estou lhe pedindo que amplie seus horizontes, Buck. Pense em Washington, Londres, Paris, Roma, Nova Babilônia. Você morou aqui durante anos e sabe que esta cidade é a capital do mundo — pelo menos até transferirmos nossa sede."

"O senhor me perguntou onde eu gostaria de morar se pudesse escolher", disse Buck. "Francamente, eu poderia morar em qualquer lugar. Com a Internet e os aparelhos de fax, posso enviar uma reportagem mesmo estando no Pólo Norte. Eu não escolhi Chicago, mas agora não gostaria de sair de lá."

"E se eu lhe oferecesse milhões de dólares para você ser transferido?"

Buck encolheu os ombros e deu uma risadinha. "O senhor é o dono da maior fortuna do mundo e diz que não é motivado por dinheiro. Bem, eu tenho pouco dinheiro, e com certeza não sou motivado por ele."

"Então você é motivado pelo quê?"

Buck orou rápida e silenciosamente. Deus, Cristo, a salvação, a Tribulação, o amor, os amigos, as almas perdidas, a Bíblia, o aprendizado, a preparação para o Glorioso Aparecimento, a Igreja Nova Esperança, Chloe. Eram esses os motivos principais de sua vida, mas como Buck poderia dizer isso? Deveria dizer? Deus, coloca as palavras na minha boca!

"Sou motivado pela verdade e pela justiça", disse Buck secamente.

"Ah, a característica dos norte-americanos!" disse Carpathia. "Exatamente como o Superman!"

"Mais do tipo Clark Kent", disse Buck. "Sou um simples repórter de um grande semanário metropolitano."

"Está certo, você quer morar em Chicago. Então, o que gostaria de fazer, se pudesse escolher?"

De repente, Buck voltou à realidade. Gostaria de refugiar-se em seus pensamentos secretos a respeito de Chloe, mas sentiu-se pressionado pelo relógio. Sua viagem, por mais estranha que tenha sido, valera a pena só por aquela informação que Carpathia deixara escapar sobre a herança de Stonagal. Buck não queria discutir com Nicolae, e preocupava-se com a bomba que sua última pergunta representava.

"Se eu pudesse escolher? Sempre acalentei o sonho de ser editor quando estiver velho demais para viajar pelo mundo correndo atrás de notícias. Seria muito divertido ter uma grande equipe de gente talentosa para treinar, e conseguir uma publicação que mostrasse suas habilidades. Mas eu sentiria falta de bater pernas, pesquisar, entrevistar e escrever."

"E se você pudesse fazer as duas coisas? Ser editor com funcionários para chefiar e, ao mesmo tempo, ter o privilégio de escolher os trabalhos que mais aprecia?" "Creio que seria o máximo." "Buck, antes de contar-lhe como posso fazer isso acontecer, diga-me por que usa o verbo no condicional quando fala de seus sonhos, como se os considerasse difíceis de ser concretizados."

Buck não havia sido cuidadoso. Quando confiou em Deus para ter uma resposta, recebeu-a. Quando se aventurou a emitir uma por conta própria, escorregou. Ele sabia que o mundo duraria apenas sete anos a partir da assinatura do tratado entre Carpathia e Israel.

"Acho que falo assim porque não sei quanto tempo este mundo vai durar", disse Buck. "Ainda estamos apurando os fatos da devastação causada pelos desaparecimentos e..."

"Buck! Assim você me ofende! Estamos mais perto de alcançar a paz mundial do que estivemos em cem anos! Minhas humildes propostas encontraram muita receptividade e acho que estamos perto de anunciar uma sociedade global quase utópica! Confie em mim! Fique comigo! Junte-se a mim! Você poderá concretizar todos os seus sonhos! Você não é motivado por dinheiro? Ótimo! Nem eu. Deixe-me oferecer-lhe os recursos para que você nunca mais tenha de pensar ou se preocupar com dinheiro.”

"Posso oferecer-lhe uma posição, uma publicação, um grupo de colaboradores, um escritório e até mesmo um refúgio onde você poderá fazer o que sempre quis, mesmo morando em Chicago."

Como sempre, Carpathia fez uma pausa, aguardando Buck morder a isca. E ele mordeu.

"Isso eu preciso ouvir", ele disse.

"Desculpe-me um instante, Buck", disse Carpathia, apertando o botão do interfone para chamar Hattie. Aparentemente ele deu um sinal diferente do que o usual, porque ao invés de atender o interfone ela surgiu na porta atrás de Buck. Ele virou-se para ver quem era, e ela piscou para ele.

"Srta. Durham", disse Carpathia, "por favor, avise o Dr. Rosenzweig, o Sr. Plank e o presidente Fitzhugh que estou um pouco atrasado em minha programação. Devo gastar mais dez minutos aqui e outros dez com Chaim e Steve. Estaremos em Washington por volta das cinco horas." "Perfeitamente, senhor."

 

Rayford estacionou o carro em O'Hare e atravessou rapidamente o terminal em direção ao centro de controle no subsolo e à sala de Earl Halliday. O comandante Earl era seu chefe havia anos e acompanhou sua carreira desde quando ele era um de seus jovens pilotos mais eficientes até tornar-se um de seus brilhantes e experientes pilotos. Agora, Rayford sentia-se feliz por estar em uma posição na qual podia conversar francamente com Earl, eliminando as formalidades e entrando direto no assunto.

Earl o aguardava do lado de fora da sala e olhou para seu relógio quando Rayford se aproximou. "Ótimo", disse Earl. "Entre."

"Prazer em vê-lo", disse Rayford colocando o quepe debaixo do braço e sentando-se.

Earl sentou-se na única outra cadeira daquela sala atravancada, a que estava atrás de sua mesa. "Temos um problema", principiou.

"Obrigado por ir direto ao assunto", disse Rayford. "Será que Edwards escreveu um relatório a meu respeito por eu estar fazendo, como é mesmo o nome que você dá a isso, proselitismo?"

"Essa é apenas uma parte do problema. Se não fosse isso, eu estaria aqui para dar-lhe uma notícia extraordinária."

"Que notícia?"

"Antes de tudo, diga-me se entendi bem o que você disse. Quando o repreendi por estar falando de Deus no trabalho, você me disse que precisava pensar no assunto. Eu lhe disse que se você me garantisse que pararia de falar nisso, eu convenceria Edwards a desistir do relatório. Certo?"

"Certo."

"E quando você concordou em ir a Dallas hoje para se reinscrever, eu não deveria supor que poderia contar com sua boa vontade?"

"Não inteiramente. E entendo que você gostaria de saber como transcorreu minha reinscrição."

"Já sei como transcorreu sua reinscrição, Ray!" vociferou Earl. "Agora responda à minha pergunta! Você está querendo dizer que foi até lá para conseguir autorização para pilotar o 757 e que em nenhum momento teve a intenção de parar de falar de religião no trabalho?"

"Eu não disse isso."

"Então seja claro, Ray! Você nunca foi desleal comigo, e estou muito velho para isso. Você me ofendeu com toda aquela história de igreja e Arrebatamento, e eu fui atencioso, não fui?"

"Mais ou menos."

"Mas ouvi como amigo, da mesma forma que você me ouve quando enalteço meus filhos, certo?"

"Eu não estava enaltecendo nada."

"Não, mas estava empolgado. Você encontrou algo que lhe deu conforto e o ajudou a explicar as perdas que sofreu. E eu me sinto feliz por isso, seja qual for o motivo que o empurre para frente. Você começou a pressionar-me para ir à igreja e ler a Bíblia. Eu lhe disse, tentando ser gentil, que considerava isso um assunto de natureza pessoal e pedi que você não insistisse."

"Foi o que fiz. Apesar disso, continuo orando por você."

"Oh, muito obrigado. Eu também lhe disse para tomar cuidado no trabalho, mas você não me obedeceu. Estava achando tudo uma novidade e sentindo-se como um sujeito que acabou de encontrar a fórmula de enriquecer rapidamente. Então, o que fez? Entre todos, preferiu doutrinar Nick Edwards. Ele é novato aqui, Ray, e os chefes gostam dele."

"Eu também gosto dele. É por isso que me preocupo com ele e com seu futuro."

"Ah, sim, tudo bem, mas ele deixou claro que não quer mais ouvir isso, da mesma forma que eu. Você parou de pressionar-me, então por que não pára também de pressioná-lo?"

"Pensei que tinha parado."

"Só pensou." Earl pegou uma pasta na gaveta e folheou-a até encontrar uma determinada página. "Então você nega ter-lhe dito 'eu não me importo com o que você pensa de mim'?"

"Essa frase está um pouco fora do contexto, mas não nego o espírito da coisa. Eu só estava dizendo que..."

"Eu sei o que você estava dizendo, Ray, tudo bem, porque você também me disse! Eu o alertei que não queria vê-lo transformar-se em um daqueles fanáticos de olhar furioso que se acha melhor do que todos os outros e tenta salvá-los. Você disse que se preocupava comigo, o que muito aprecio, e eu retruquei que você estava próximo de perder meu respeito."

"E eu disse que não me importava."

"Bem, você não vê que está me insultando?"

"Earl, como posso insultá-lo quando me preocupo tanto com sua alma a ponto de pôr em risco nossa amizade? Eu disse a Nick a mesma coisa, que não me importo mais com o que as pessoas pensam de mim. Parte de mim ainda se preocupa, é claro. Ninguém quer ser visto como um tolo. Mas se eu não lhe falar de Cristo só por estar preocupado com o que você vai pensar de mim, que tipo de amigo eu sou?"

Earl suspirou e balançou a cabeça, olhando fixo para a pasta. "Então, você sustenta que Nick extraiu uma frase do contexto, mas tudo o que acabou de dizer está aqui no relatório."

"Está?"

"Está."

Rayford empinou a cabeça. "O que você sabe sobre isso? Ele me ouviu. Entendeu o ponto principal."

"Tenho certeza de que ele não entendeu. Caso contrário, qual a razão de tudo isso?" Earl fechou a pasta e empurrou-a com força.

"Earl, eu estava exatamente onde você e Nick estavam na noite anterior aos desaparecimentos. Eu..."

"Já ouvi tudo isso", disse Earl.

"Estou apenas dizendo que entendo sua posição. Eu estava quase me indispondo com minha mulher por pensar que ela se tornara fanática."

"Você me contou."

"Mas agora digo que ela se tornou fanática. Ela estava certa! Provou que estava certa!"

"Rayford, se você quer pregar, por que não cai fora da aviação e vai ser ministro?"

"Você está me despedindo?"

"Espero não precisar fazer isso."

"Então você quer que eu me desculpe com Nick, diga-lhe que compreendi que o pressionei muito mas que minhas intenções eram boas?"

"Gostaria que fosse tão fácil assim."

"E não é o que você me propôs no outro dia?"

"Sim! E eu cumpri minha palavra. Não enviei cópia deste relatório para o Departamento Pessoal nem para meus superiores, e contei isso a Nick. Disse-lhe que o guardaria e que ele passaria a fazer parte permanente de meu arquivo pessoal sobre você como meu subordinado..."

"O que não significa nada."

"Evidentemente, você e eu sabemos disso, e Nick também não é nada bobo. Mas aparentemente ficou satisfeito.”

Entendi que ao ir a Dallas para se reinscrever você estava tentando me dizer que ouviu meus conselhos e que estávamos cooperando um com o outro."

Rayford assentiu. "Eu tinha planejado ser mais sensato e não lhe criar problemas por você defender minhas atitudes."

"Não me importei de fazer isso, Ray. Você é merecedor. Mas, de repente, hoje de manhã você me deu outro golpe igual. O que estava pensando?"

Rayford sobressaltou-se e endireitou-se na cadeira. Colocou o quepe sobre a mesa e ergueu as mãos, com as palmas para cima. "Hoje de manhã? Do que você está falando? Pensei que tudo correu bem, perfeito. Fui reprovado?"

Earl curvou-se sobre a mesa e lançou um olhar zangado a Rayford. "Então, você não fez com o examinador a mesma coisa que fez comigo, com Nick e com todos os outros colegas com quem trabalhou nas últimas semanas?" "Falar a respeito de Deus, você quer dizer?" "Sim!"

"Não! Na verdade, senti-me um pouco culpado por isso. Não conversamos quase nada. Ele foi muito severo e veio com uma conversa fiada sobre o que ia e o que não ia fazer."

"Você não pregou para ele?"

Rayford balançou a cabeça, tentando lembrar-se do que havia feito ou dito que pudesse ter sido mal interpretado. "Não. Só não escondi minha Bíblia. Geralmente guardo-a dentro de minha maleta de vôo, mas ela estava fora quando nos encontramos porque eu a estava lendo no furgão. Ei, você tem certeza de que a queixa não partiu do motorista do furgão? Ele me viu lendo e fez perguntas. Conversamos sobre o que havia acontecido."

"Como sempre."

Rayford assentiu. "Mas não percebi nenhuma reação negativa da parte dele."

"Nem eu. A queixa partiu de seu examinador."

"Não entendo", disse Rayford. "Você acredita em mim, não, Earl?"

"Gostaria de acreditar", respondeu Earl. "Não me olhe desse jeito. Sei que somos amigos há muito tempo, e nunca imaginei que você pudesse mentir para mim. Lembra-se daquela vez em que você reteve a aeronave no solo propositadamente por ter tomado alguns drinques?"

"Cheguei a me oferecer para pagar outro piloto."

"Eu sei. Mas o que devo pensar agora, Ray? Você diz que não discutiu com aquele sujeito. Quero acreditar. Mas você fez o mesmo comigo, com Nick e com outros. Sou obrigado a pensar que agiu da mesma forma hoje de manhã."

"Vou ter uma conversa com esse sujeito."

"Não, não vai."

"O quê? Não posso enfrentar meu acusador? Earl, eu não disse uma só palavra a respeito de Deus àquele indivíduo. Gostaria de ter dito, principalmente se vou ser prejudicado. Quero saber por que ele disse isso. Deve ter sido um mal-entendido, alguma queixa indireta do motorista do furgão, mas como estou dizendo, não percebi nenhuma resistência da parte dele. No entanto, ele deve ter dito algo ao examinador. Do contrário, como o examinador sabia que já fiz isso antes? Será que foi por causa da Bíblia?"

"Não posso imaginar que o motorista do furgão tenha tido algum contato com o examinador. Por que teria, Ray?"

"Estou confuso, Earl. Não tenho certeza se deveria desculpar-me por essas acusações, mas tenho certeza de que não posso desculpar-me por algo que não fiz."

 

Buck lembrou-se de Rosenzweig ter-lhe dito que o presidente se oferecera para ir a Nova York a fim de encontrar-se com Carpathia, mas em sua imensa humildade, Nicolae insistira em ir até Washington. Agora Carpathia pede casualmente que sua assistente pessoal avise o presidente que está um pouco atrasado? Teria planejado isso? Seria essa a maneira de Carpathia informar a todos o quanto era poderoso?

Poucos minutos depois, Hattie bateu na porta e entrou.

"Sr. Secretário-Geral", ela disse. "O presidente Fitzhugh está enviando o Air Force One para buscá-lo."

"Oh, diga-lhe que não será necessário", disse Carpathia.

"Ele disse que a aeronave já decolou e que o senhor poderá embarcar quando desejar. O piloto informará a Casa Branca quando o senhor estiver a caminho."

"Obrigado, Srta. Durham", disse Carpathia, virando-se para Buck. "Que homem bondoso! Você o conhece pessoalmente?"

Buck assentiu. "Ele foi o primeiro 'Fazedor da Notícia do Ano' indicado por mim."

"Foi a primeira ou a segunda vez que ele recebeu esse título?"

"A segunda." Mais uma vez, Buck admirava a memória enciclopédica daquele homem. Haveria alguma dúvida sobre quem seria o próximo "Fazedor da Notícia do Ano"? Era uma tarefa que Buck não apreciava nem um pouco.

 

Earl ajeitou-se na cadeira com nervosismo. "Bem, deixe-me dizer-lhe uma coisa, isso aconteceu no pior momento possível. O novo Air Force One, que está programado para voar na próxima semana, é um 757.”

Rayford ficou atordoado. O bilhete de Hattie Durham, dizendo a mesma coisa, ainda estava em seu bolso.

Rayford ajeitou-se na cadeira e observou o rosto de seu chefe. "Eu já tinha ouvido falar", disse, procurando ganhar tempo. "Existe alguém nos Estados Unidos que não tenha ouvido falar do novo avião? Pelo que dizem dele, eu gostaria muito de conhecê-lo."

"É o máximo, com certeza", disse Earl. "A última palavra em tecnologia, comunicação, segurança e acomodações."

"Você é a segunda pessoa que fala desse avião hoje. O que há de tão importante?"

"O importante é que a Casa Branca entrou em contato com nossa diretoria. Aparentemente o pessoal da Casa Branca acha que já é tempo de despedir seu atual piloto. Querem que recomendemos um para substituí-lo. O pessoal de Dallas reduziu a lista a meia dúzia de pilotos veteranos, e ela veio parar em minhas mãos porque inclui seu nome."

"Não estou interessado."

"Não seja precipitado! Como pode falar assim? Quem não gostaria de pilotar um dos aviões mais modernos do mundo, com todos aqueles equipamentos, para o homem mais poderoso da terra? Ou talvez eu deva dizer o segundo mais poderoso, agora que temos Carpathia na direção da ONU."

"Simples. Eu teria de mudar-me para Washington."

"O que o mantém aqui? Chloe vai voltar para a faculdade?"

"Não."

"Então ela também não sabe o que quer. Ou conseguiu um emprego."

"Está procurando?"

"Então que procure um em Washington. Você ganhará o dobro do que ganha agora, e já está na lista dos cinco por cento mais bem remunerados da Pan-Con.”

"O dinheiro não significa tanto para mim", disse Rayford.

"Pare com isso!" vociferou Earl. "Quem é o primeiro a me telefonar quando há uma notícia de aumento de salário à vista?"

"Agora não é mais assim, Earl. E você sabe por quê."

"Ah, sim, poupe-me de um sermão. Ray, pense na independência financeira para conseguir uma casa maior e mais bonita, freqüentar outros lugares..."

"É o lugar que estou freqüentando que me prende em Chicago. Minha igreja."

"Ray, o salário..."

"Não me importo com dinheiro. Agora somos apenas dois, Chloe e eu, lembra-se?"

"Desculpe-me."

"Talvez seja até necessário mudarmos para um lugar menor. A casa ficou muito grande para nós e temos mais dinheiro do que podemos gastar."

"Então aceite a função como desafio! Não haverá rotas comuns, não haverá um grupo de comandantes e navegadores. Você viajará pelo mundo inteiro, conhecerá um lugar diferente de cada vez. É a realização de um piloto, Ray."

"Você disse que havia outros cinco nomes na lista."

"Ah, e são todos bons. Mas se eu interferir a seu favor, você ganhará a posição. O problema é que não posso interferir a seu favor com este relatório de Nick Edwards na pasta."

"Você disse que está apenas em seu arquivo."

"Está, mas depois da confusão desta manhã não posso correr o risco de escondê-lo. Imagine se eu conseguir o cargo na Casa Branca para você, e o examinador puser a boca no mundo? Assim que a notícia se espalhar, Edwards tomará conhecimento e confirmará a história. O cargo não será seu e eu parecerei um idiota por ter acobertado a queixa e defendido você. Fim da história."

"De qualquer forma, é o fim da história", disse Rayford. "Não posso mudar-me para Washington."

Earl levantou-se. "Rayford", ele disse vagarosamente, "tenha calma e ouça-me. Abra um pouco a sua mente. Deixe-me dizer-lhe o que tenho ouvido, e depois dê-me uma oportunidade de persuadi-lo."

Rayford começou a protestar, mas Earl o interrompeu. "Por favor! Não posso tomar uma decisão por você, e não vou tentar. Mas deixe-me terminar. Mesmo que eu não concorde com sua opinião sobre os desaparecimentos, estou satisfeito por você ter encontrado algum conforto na religião."

"Não é..."

"Ray, eu sei. Eu sei. Você já me falou e eu ouvi com atenção. Para você, o importante não é a religião, é Jesus Cristo. Será que entendi bem, ou o quê? Admiro o fato de você ter se dedicado a isso. Você é um homem piedoso. Não duvido. Mas não vire as costas a um cargo que milhares de pilotos dariam tudo para conseguir. Francamente, não estou absolutamente certo se você precisará mudar de cidade. Com que freqüência o presidente dos Estados Unidos viaja nos domingos? Com certeza, menos vezes do que você tem voado nos domingos."

"Por ser um piloto veterano, raras vezes trabalho nos domingos."

"Você poderá designar outro piloto para voar em seu lugar nos domingos. Você será o comandante, o mais experiente, o responsável, o chefe. Não reportará mais a mim."

"Se é assim, aceito!", disse Rayford sorrindo. "Estou brincando."

"Claro! Para você, faria mais sentido morar em Washington, mas aposto que se sua única condição for morar em Chicago, talvez eles aceitem."

"Não posso, de jeito nenhum."

"Por quê?"

"Porque minha igreja não tem trabalhos apenas nos domingos. Temos reuniões freqüentes. Trabalho ao lado do pastor. Reunimo-nos quase todos os dias."

"E você não pode abrir mão disso?"

"Não posso."

"Ray, e se essa for apenas uma fase de sua vida? E se você vier a deixar de lado o fanatismo? Não estou dizendo que você é um impostor ou que dará as costas ao que encontrou. Estou apenas dizendo que a novidade poderá acabar, e talvez você tenha condição de trabalhar em outro lugar se puder estar em Chicago nos fins de semana."

"Por que isso é tão importante para você, Earl?"

"Você não sabe?"

"Não."

"Porque é uma coisa com a qual sonhei a vida inteira", disse Earl. "Depois que assumi esta posição, acompanhei de perto todos os últimos concursos e inscrevi-me como piloto de cada presidente eleito."

"Eu nunca soube disso."

"Claro que não. Quem admitiria ser perdedor e contar a todo mundo que se remoía por dentro a cada quatro ou oito anos por ver outros pilotos conseguirem a vaga? Se você consegui-la, será uma maravilha. Eu ficarei imensamente feliz por você.”

"Só por esse motivo, eu gostaria muito de estar livre para aceitar o cargo."

Earl voltou a sentar-se. "Obrigado por conceder-me essa migalha."

"Eu não quis que você entendesse assim, Earl. Estou falando sério."

"Sei que está. A verdade é que conheço dois bobocas da lista, e não permitiria sequer que dirigissem meu carro."

"Pensei ter ouvido você dizer que eram bons pilotos."

"Estou apenas tentando dizer-lhe que se você não aceitar, alguém aceitará.”

"Earl, eu realmente não acho..."

Earl levantou a mão. "Ray, você me faria um favor? Não tome uma decisão agora. Quero dizer, sei que você já se decidiu, mas será que poderia contar-me isso oficialmente só depois de consultar o travesseiro?"

"Vou orar nesse sentido", consentiu Rayford.

"Já sabia disso."

"Você está me proibindo de falar com o examinador?"

"Absolutamente. Se quiser fazer uma queixa, faça-a por escrito, por meio dos canais competentes, da maneira certa."

"Você tem certeza de que deseja recomendar um sujeito como eu, em quem não acredita, para ocupar uma função como essa?"

"Se você me disser que não pressionou o indivíduo, serei obrigado a acreditar."

"Eu nem sequer puxei o assunto, Earl."

"Isso é uma loucura." Earl balançou a cabeça.

"Quem recebeu a queixa?"

"Minha secretária."

"Partindo de quem?"

"Da secretária dele, acho."

"Posso ver a queixa?"

"Eu não deveria mostrá-la."

"Deixe-me vê-la, Earl. O que você está pensando? Que vou prejudicá-lo?"

Earl chamou a secretária pelo interfone. "Francine, traga-me suas anotações sobre a queixa que recebeu de Dallas esta manhã." Ela trouxe uma única folha de papel datilografada. Earl leu-a e colocou-a sobre a mesa diante de Rayford. Dizia o seguinte:

Recebi um telefonema às 11:37 da manhã de uma mulher que se identificou como Jean Garfield, secretária do examinador Jim Long, da Pan-Con de Dallas. Perguntou-me como poderia protocolar uma queixa contra Rayford Steele por ter molestado Long com assunto de natureza religiosa durante seu teste esta manhã. Eu disse que voltaria a ligar para ela mais tarde. Ela não deixou o número do telefone, mas disse que ligaria novamente.

Rayford levantou o papel. "Earl, você costuma ser melhor detetive do que está sendo."

"Como assim?"

"Isso não está me cheirando bem."

"Você acha que é trambique?"

"Em primeiro lugar, o sobrenome de meu examinador tinha duas sílabas, de acordo com seu crachá. E desde quando um examinador tem secretária?"

Earl fez uma careta. "Boa pista."

"E por falar em pista", disse Rayford, "gostaria de saber de onde partiu esse telefonema. É difícil constatar?" "Não. Francine! Chame alguém da segurança para mim, por favor."

"Você poderia pedir que ela verifique mais uma coisa para mim?" perguntou Rayford. "Peça-lhe que telefone para o Departamento Pessoal e veja se existe um Jim Long ou uma Jean Garfield trabalhando na Pan-Con."

 

"Se você não se importar", disse Carpathia, "gostaria de convidar seus amigos para se reunirem conosco."

Agora, já? perguntou Buck a si mesmo. Na hora exata da grande notícia, seja ela qual for?

"O espetáculo é seu", disse Buck, surpreso diante da expressão magoada de Carpathia. "Quero dizer, a reunião é sua. Claro! Peça-lhes que entrem."

Buck não sabia se era fruto de sua imaginação, mas parecia que Steve Plank e Chaim Rosenzweig estavam confusos, trocando olhares quando entraram, seguidos de Hattie. Ela pegou uma cadeira da mesa de reunião e colocou-a do outro lado de Buck. Os dois homens sentaram-se. Hattie saiu da sala.

"O Sr. Williams tem um pré-requisito", anunciou Carpathia, provocando um murmúrio de Plank e Rosenzweig. "Ele precisa ficar sediado em Chicago."

"Isso reduz as possibilidades", disse o Dr. Rosenzweig. "Não é mesmo?"

"É verdade", disse Carpathia. Buck olhou de relance para Steve que estava balançando a cabeça afirmativamente. O secretário-geral virou-se para Buck. "Minha proposta é a seguinte: Você passa a ser presidente e editor do Chicago Tribune, que eu vou adquirir da família Wrigley dentro dos próximos dois meses. O nome do jornal será mudado para The Midwest Tribune e publicado sob o patrocínio das Empresas Comunidade Global. A sede permanecerá na Tribune Tower em Chicago. Você terá uma limusine com motorista, um criado pessoal, funcionários que julgar necessários, uma casa em North Shore com empregados domésticos e uma casa de lazer no Lago Genebra, ao sul de Wisconsin. Não vou intrometer-me em suas decisões, a não ser mudar o nome do jornal e a editora. Você terá inteira liberdade para dirigir o jornal como desejar." A voz de Carpathia adquiriu um tom sarcástico. "Com suas duas torres, a da verdade e da justiça, circundando cada palavra."

Buck sentiu vontade de rir alto. Sem dúvida, Carpathia tinha condição de fazer tal aquisição, mas não seria possível a um homem de tanta notoriedade esconder-se atrás do nome de uma editora e romper com todas as regras da ética jornalística, sendo proprietário de um órgão de imprensa tão importante e, ao mesmo tempo, atuando como secretário-geral da Organização das Nações Unidas.

"O senhor jamais conseguirá isso", disse Buck, sem expressar a verdadeira questão: que Carpathia jamais daria liberdade total a alguém sob seu comando, a menos que acreditasse ter domínio completo sobre sua mente.

"Será problema meu", disse Carpathia.

"Se eu tiver liberdade total", disse Buck, "também serei problema seu. Parto do princípio que o público tem o direito de ser bem informado. Portanto, a primeira matéria de investigação que eu atribuir a um funcionário, ou escrever por conta própria, será sobre a aquisição do jornal."

"E eu gostaria da publicidade", disse Carpathia. "Que mal haveria se a Organização das Nações Unidas fosse proprietária de um jornal dedicado a publicar notícias da comunidade global?"

"O proprietário não será o senhor?"

"Trata-se de uma questão de semântica. Se for mais apropriado que a ONU seja a proprietária, e não eu, doarei o dinheiro ou comprarei a empresa e a doarei à ONU."

"O Tribune se transformaria, então, em um órgão de publicação interna, promovendo os interesses da ONU."

"O que está de acordo com a lei."

"Mas o jornal também não teria forças como um arauto independente."

"Isso será problema seu."

"O senhor está falando sério? Permitiria que seu próprio jornal o criticasse? Discordasse da ONU?"

"Aplaudo sua responsabilidade. Meus motivos são puros, meus objetivos são pacíficos e meu público é global."

Buck lançou um olhar de frustração para Steve Plank, mesmo sabendo que seu antigo chefe era um dos que provaram ser suscetíveis ao poder de Carpathia. "Steve, você é seu conselheiro para assuntos de comunicação! Diga-lhe que tal empreendimento não teria credibilidade! Não seria levado a sério."

"A princípio, não seria levado a sério pelos outros meios de comunicação, Buck", admitiu Steve. "Mas em breve a Editora Comunidade Global também será dona de seus próprios meios de comunicação."

"Então, o senhor monopoliza o ramo editorial, elimina a concorrência e o público não percebe?"

Carpathia assentiu com a cabeça. "Esta é uma das formas de expressar isso. E se meus motivos forem movidos só por idealismo, também terei problemas. Porém, que mal há em controlar os noticiários mundiais quando estamos nos esforçando para conseguir a paz, a harmonia e a união dos povos?"

"E como ficará o poder de formação de opinião? E como ficará o fórum de diversificação de idéias? O que acontecerá com o tribunal de opinião pública?"

"O tribunal de opinião pública", disse Steve, "está exigindo mais do que o secretário-geral tem a oferecer."

Buck sentiu-se derrotado, e sabia disso. Não podia esperar que Chaim Rosenzweig entendesse a ética do jornalismo, mas quando um veterano como Steve Plank era capaz de defender um blefe jornalístico para um ditador caridoso, que esperança havia?"

"Não posso sequer imaginar envolver-me em tal aventura", disse Buck.

"Eu adoro esse sujeito!" exclamou Carpathia, entusiasmado. Plank e Rosenzweig sorriram e concordaram com um movimento de cabeça. "Pense no assunto. Medite sobre ele. Darei um jeito de legalizá-lo de forma que seja aceito até mesmo por você, e então não admitirei um não como resposta. Quero adquirir o jornal, e vou conseguir. Quero que você o dirija, e vou conseguir. Liberdade, Buck Williams. Liberdade total. O dia em que você achar que estou me intrometendo, poderá demitir-se recebendo indenização total.”

 

Depois de agradecer a confiança de Earl Halliday e prometer pensar no assunto — embora a idéia de aceitar o cargo nem lhe passasse pela cabeça — Rayford permaneceu de pé no terminal diante de uma fileira de telefones desocupados. Francine, a secretária de Earl, confirmara que não havia nenhuma Jean Garfield trabalhando na Pan-Con. E, dos seis funcionários com o nome de James Long, quatro eram carregadores de malas e os outros dois, burocratas de nível médio. Nenhum trabalhava em Dallas, nenhum era examinador e nenhum tinha secretária.

"Quem estaria perseguindo você?" perguntara Earl.

"Não consigo imaginar."

Francine informou que a chamada recebida naquela manhã partira de Nova York. "Ainda vai levar algum tempo para sabermos o número exato do telefone", ela disse, mas Rayford descobriu em um piscar de olhos quem estava por trás disso. Ele não tinha certeza do motivo, mas apenas Hattie Durham seria capaz de realizar tal façanha. Somente ela tinha acesso ao pessoal da Pan-Con que sabia onde ele estava e o que fazia naquela manhã. E o que tudo aquilo tinha a ver com o Air Force One7.

Rayford chamou o serviço de informações e conseguiu o número do telefone da ONU. Depois de passar pela telefonista e pelo setor administrativo, finalmente chegou até Hattie, a quarta pessoa com quem falou.

"Aqui fala Rayford Steele", ele disse secamente.

"Oi, capitão Steele!" A vivacidade em sua voz fê-lo retrair-se.

"Eu desisto", disse Rayford. "Seja lá o que for que está fazendo, você venceu."

"Não estou entendendo."

"Vamos, Hattie, não se faça de tola."

"Ah! Meu bilhete! Achei engraçado, porque há alguns dias, quando eu estava conversando com uma amiga do setor de tráfego da Pan-Con, ela mencionou que meu velho amigo estava se reinscrevendo para pilotar o 757 em Dallas hoje cedo. Você não achou divertido receber um bilhete meu? Não foi mesmo divertido?"

"Ah, sim, divertido demais. O que significa?"

"O bilhete? Ora, nada. Com certeza você já sabia, não? Todo mundo já sabe que o novo Air Force One é um 757, não é verdade?"

"Sim, e qual a razão de você me lembrar disso?"

"Foi uma brincadeira, Rayford. Quando eu soube de sua reinscrição, fiz uma brincadeira achando que você ia ser o novo piloto do presidente. Você não entendeu?"

Como era possível? Seria ela assim tão ingênua e inocente? Será que aquela brincadeira sem graça teria sido uma coincidência? Rayford queria perguntar a Hattie como ela soube que a posição foi oferecida a ele, mas se ela não soubesse, ele certamente não gostaria de lhe contar.

"Entendi. Muito engraçado. Então, qual foi o motivo daquela falsa queixa?"

"Falsa queixa?"

"Não me faça perder tempo, Hattie. Você é a única pessoa que sabia onde eu estava e o que fazia. E então sou acusado falsamente de ter molestado alguém com assuntos religiosos."

"Oh, entendi!" Ela riu. "Foi apenas uma suposição. Você teve um examinador a seu lado, não teve?"

"Sim, mas eu não..."

"E precisou jogar aquela conversa fiada em cima dele, certo?"

"Não."

"Ora, Rayford. Você fez isso comigo, com sua filha, com Cameron Williams, com Earl Halliday, com qualquer pessoa com quem trabalhou recentemente. Não é verdade? Você não pregou para o examinador?"

"Não, com certeza."

"Está bem, acho que me enganei. Mas continua a ser engraçado, você não acha? E as probabilidades estão do meu lado. Eu quis saber o que você pensaria se tivesse falado de religião ao examinador e recebesse uma queixa. Você teria de pedir-lhe desculpas e ele negaria. Adoro passar trotes! Vamos, dê-me um pouco de crédito."

"Hattie, se você está tentando vingar-se de mim pela maneira como a tratei, acho que mereço."

"Não, Rayford, não se trata disso! Não tenho nada contra você. O assunto está superado. Se tivéssemos tido um relacionamento, eu jamais estaria onde estou hoje e, creia-me, este é o melhor lugar do mundo. Não foi uma vingança. Eu só quis fazer uma brincadeira. Se você não gostou, lamento muito."

"Você me criou um problema."

"Ora, vamos! Quanto tempo vai demorar para essa história ser esquecida?"

"Tudo bem, você venceu. Há mais surpresas reservadas para mim?"

"Acho que não, mas fique alerta.”

Rayford não engoliu nenhuma palavra de Hattie. Carpathia devia saber do oferecimento da Casa Branca. O bilhete de Hattie e aquela proposta, e a pequena brincadeira dela que quase estragou o negócio eram coincidência demais para serem considerados uma simples tentativa de trote. Rayford estava mal-humorado quando retornou ao estacionamento. Esperava que Chloe não continuasse aborrecida. Se estivesse, talvez ambos devessem acalmar-se um pouco antes da reunião daquela noite.

 

Chaim Rosenzweig colocou a mão enrugada no joelho de Buck. "Insisto que você aceite esta posição de tanto prestígio. Se não aceitá-la, alguém aceitará, e não será interessante."

Buck não estava disposto a discutir com Chaim. "Obrigado", disse. "Preciso pensar muito." Mas ele não pretendia considerar a idéia de aceitar a proposta. Gostaria muito de conversar sobre o assunto, primeiro com Chloe e depois com Bruce e Rayford.

Quando Hattie Durham se desculpou por interromper e aproximou-se da mesa para falar ao ouvido de Carpathia, Steve começou a cochichar algo para Buck. Porém, Buck estava agraciado com o poder de discernir o que valia a pena ouvir e o que valia a pena ignorar. Naquele momento, decidiu que seria mais conveniente prestar atenção em Hattie e Nicolae do que escutar o que Steve estava lhe dizendo. Inclinou-se em direção ao amigo, fingindo ouvir. Buck sabia que Steve tentaria convencê-lo a aceitar o cargo, assegurando-lhe que exercera pressão sobre Carpathia, admitindo que como jornalista a história lhe parecera meio maluca no início, mas que o mundo havia mudado, blá, blá, blá. Buck concordava com a cabeça e fitava o amigo nos olhos enquanto prestava atenção em Hattie Durham e Carpathia.

"Acabei de receber uma ligação do alvo", ela disse.

"Sim, e daí?"

"Ele não demorou muito tempo para decifrar."

"E o Air Force One?”

"Acho que ele não tem nenhuma pista."

"Bom trabalho. E o outro?"

"Nenhuma resposta ainda."

"Obrigado, querida."

O alvo. Aquilo não parecia boa coisa. O restante da conversa aparentemente estava relacionado com a viagem de Carpathia naquela tarde no avião do presidente.

Carpathia voltou a atenção para seu convidado. "No mínimo, Buck, converse sobre o assunto com as pessoas que lhe dizem respeito. E se pensar em sonhos mais específicos que você gostaria de realizar, se o problema não fosse dinheiro, lembre-se de que neste momento você está no assento do motorista. Está na posição de vendedor. Eu sou o comprador e vou conseguir o homem que quero."

"O senhor me obriga a recusar sua oferta só para mostrar-lhe que não estou à venda."

"Conforme eu lhe disse inúmeras vezes, esse é o verdadeiro motivo por que você é o homem talhado para o cargo. Não cometa o erro de perder a oportunidade de uma vida toda só para provar um ponto de vista insignificante."

Buck sentiu-se preso em uma armadilha. De um lado estava o homem que ele admirara e com quem trabalhara durante anos, um jornalista de princípios. Do outro lado estava o homem a quem ele amava como um pai, um brilhante cientista que, de muitas maneiras, era ingênuo o suficiente para ser um perfeito peão no jogo de xadrez do fim do mundo. Do lado de fora estava alguém que ele conheceu no avião quando Deus tomou conta do mundo. Foi o próprio Buck que a apresentou a Carpathia só para se mostrar, e vejam onde eles estavam agora.

Bem em sua frente, exibindo um sorriso belo e conciliatório, estava Carpathia. Das quatro pessoas com quem Buck estava conversando naquela tarde, Carpathia era quem ele mais entendia. Sabia também que Carpathia era a pessoa com quem tinha menos prestígio. Seria tarde demais para conversar com Steve, adverti-lo sobre a situação em que ele se metera? Tarde demais para salvar Hattie pela estupidez de tê-la apresentado a Carpathia? Estaria Chaim apaixonado demais pelas possibilidades geopolíticas, deixando de dar ouvidos à razão e à verdade?

E se confiasse em qualquer um deles, seria o fim de qualquer esperança de impedir que a verdade viesse à tona, ou seja, que Deus o protegia do poder de Carpathia?

Buck não via a hora de retornar a Chicago. Seu apartamento era novo e ainda lhe parecia um pouco estranho. Seus amigos também eram novos, mas não havia ninguém mais no mundo em quem ele confiasse tanto. Bruce ouviria com atenção, analisaria o assunto, oraria e o aconselharia. Rayford, com sua mentalidade científica, analítica e pragmática, daria sugestões sem jamais impingir opiniões.

Mas era de Chloe que ele mais sentia falta. Seria um plano de Deus? Teria sido Deus quem havia derivado os pensamentos de Buck para Chloe naquele momento mais vulnerável diante de Carpathia? Buck mal conhecia aquela mulher. Mulher? Ela era pouco mais que uma garota, mas parecia... o quê? Adulta? Mais que adulta. Atraente. Quando ele falava, o olhar de Chloe o absorvia. Ela demonstrava compreensão, empatia. Aconselhava e orientava sem dizer uma única palavra.

A presença dela lhe trazia uma sensação de conforto e segurança. Ele a tocara apenas duas vezes. Uma vez para tirar um pedaço de chocolate que grudara perto de sua boca, e a outra na igreja, na manhã do dia anterior, para que ela notasse sua presença. E agora, a uma distância de duas horas de vôo, Buck sentia uma necessidade premente de abraçá-la.

Evidentemente, não podia fazer isso. Mal a conhecia e não desejava afugentá-la. Não obstante, em sua mente, Buck aguardava com ansiedade o momento de poder segurar as mãos dela e abraçá-la. Visualizava os dois juntos, sentados lado a lado em um lugar qualquer, desfrutando a companhia um do outro — ela com a cabeça apoiada em seu peito, ele com os braços ao redor dela.

Foi então que Buck se deu conta do homem solitário no qual se transformara.

 

Ao chegar em casa, Rayford encontrou Chloe completamente desolada. Decidiu não lhe contar os acontecimentos daquele dia, por enquanto. Tudo foi muito estranho, e aparentemente o dia não havia sido muito diferente para ela. Rayford abraçou a filha e ela rompeu em prantos. Na lata do lixo, havia um enorme buquê de flores. "As flores só serviram para piorar a situação, papai. Pelo menos essa minha reação mostrou-me uma coisa — que Buck é muito importante para mim."

"Parece uma reação muito racional de sua parte", disse Rayford, arrependendo-se imediatamente de suas palavras.

"Então não posso ser racional só porque sou mulher, não é mesmo?"

"Desculpe-me! Eu não deveria ter dito isso."

"Se estou sentada aqui chorando é porque minha reação é emocional, certo? Não se esqueça, papai, cinco semestres na lista do reitor. Isso não é emocional; é racional. Sou mais parecida com você do que com a mamãe, lembra-se?"

"Claro. E justamente por sermos assim é que ainda estamos aqui."

"Bem, estou feliz por termos um ao outro. Pelo menos estava até você acusar-me de ser uma típica mulher."

"Eu não disse isso."

"É o que você estava pensando."

"Agora você passou também a ler pensamentos?"

"Sim, sou uma adivinha emocional."

"Eu me rendo", disse Rayford.

"Ora, vamos, papai. Não desista tão cedo. Ninguém gosta de um perdedor que desiste facilmente."

 

No avião, novamente agraciado com uma viagem de primeira classe, Buck continha-se para não dar uma gargalhada. Editor do Tribune. Dentro de vinte anos, talvez, se não for adquirido por Carpathia e se Cristo não tiver retornado antes. Buck sentia-se como se tivesse ganho um prêmio de loteria em uma sociedade na qual o dinheiro não valia nada.

Depois de jantar, ele reclinou-se na poltrona e contemplou o pôr-do-sol. Fazia anos, muitos anos desde a última que ele foi atraído a uma cidade por causa de alguém. Será que chegaria a tempo de vê-la antes da reunião? Se o trânsito não estivesse muito congestionado, haveria tempo para conversarem da maneira como ele tanto desejava.

Buck não queria afugentar Chloe por ser muito detalhista, mas queria desculpar-se por ter sido evasivo. Não desejava pressioná-la. Mas talvez ela não tivesse nenhum interesse. Ele estava certo apenas de uma coisa – não fecharia a porta a qualquer possibilidade. Talvez fosse melhor ligar para ela do avião.

"Bruce ofereceu-me um emprego hoje", disse Chloe.

"Você está brincando", disse Rayford. "Que tipo de emprego?"

"Algo que tem muito a ver comigo. Estudo, pesquisa, preparo, ensino."

"Onde? Como?"

"Na igreja. Ele quer 'multiplicar seu ministério."

"Uma função remunerada?"

"Sim. Tempo integral. Poderei trabalhar em casa ou na igreja. Ele me passará as tarefas, ajudará a ampliar meu currículo, essas coisas. Quer que eu vá devagar na parte de ensino porque ainda sou muito novata nessa área. Muitas pessoas a quem estarei lecionando passaram a vida freqüentando igreja e escola dominical."

"O que você vai lecionar?"

"As mesmas coisas que ele. Minha pesquisa também o ajudará no preparo das aulas. Posteriormente passarei a dar aulas em classes da escola dominical e a pequenos grupos. Bruce vai pedir a você e a Buck que façam o mesmo, mas evidentemente ele ainda não sabe do caso de Buck com sua noivinha."

"E você foi bastante prudente para não lhe contar."

"Por enquanto", disse Chloe. "Se Buck achar que não está errado — e talvez pense assim — alguém precisa contar a Bruce."

"E você está se candidatando a essa tarefa."

"Sim, se não houver ninguém que queira contar-lhe. Sou a única pessoa que soube desde o início."

"Mas você não acha que existe um leve conflito de interesses?"

"Papai, desejei muito que algo acontecesse entre mim e Buck. Agora, não o quero mais, mesmo que ele se atire em meus braços."

O telefone tocou. Rayford atendeu e, em seguida, cobriu o fone com a mão. "Aqui está a oportunidade de provar o que acaba de dizer. Buck está ligando do avião."

Chloe semicerrou os olhos como se estivesse decidindo se devia atender ou não. "Dê-me o telefone", ela disse.

Buck tinha certeza de que Rayford dissera à filha de quem era a ligação. Mas o alô de Chloe foi seco, e ela fingiu não saber quem era, portanto Buck foi obrigado a identificar-se.

"Chloe, sou eu, Buck! Como vai?"

"Já estive melhor."

"O que houve. Você está doente?"

"Estou bem. Você deseja alguma coisa?"

"Bem, sim, acho que gostaria de vê-la esta noite."

"Acha que gostaria?"

"Sim, isto é, claro que gostaria. Posso?"

"Vou vê-lo na reunião das oito, certo?"

"Ah, sim, mas pensei que poderíamos conversar um pouco, antes da reunião."

"Não sei. O que você deseja?"

"Só conversar com você."

"Estou ouvindo."

"Chloe, há algo errado? Houve alguma falha minha? Você parece aborrecida."

"As flores estão na lata do lixo, se isto lhe diz alguma coisa."

As flores estão na lata do lixo, Buck repetiu para si mesmo. Era uma expressão que ele nunca tinha ouvido. Devia ter algo a ver com gente da geração de Chloe. Ele era um articulista famoso, mas com certeza nunca ouvira essa expressão.

"Sinto muito", disse Buck.

"É um pouco tarde para isso", ela retrucou.

"Quero dizer, sinto muito não ter entendido o que você estava dizendo."

"Você não me ouviu?"

"Ouvi, mas não entendi."

"Como não entendeu? Eu disse que 'as flores estão na lata do lixo'."

Buck tinha estado um pouco distante dela na sexta-feira à noite, mas o que seria isso? Bem, valia a pena prosseguir. "Vamos começar pelas flores", ele disse.

"Sim, vamos."

"De que flores estamos falando?"

Rayford gesticulou com as duas mãos para que Chloe se acalmasse. Ele receava que a filha explodisse, e mesmo sem saber o que se passava do outro lado da linha, tinha certeza de que ela não estava dando a Buck uma oportunidade de se explicar. Se houvesse um pingo de verdade no que Chloe estava alegando, ela não ajudava em nada agindo daquela maneira. Talvez Buck não tivesse se livrado de todos os problemas de sua vida pregressa. Talvez houvesse algumas situações que precisariam ser enfrentadas imediatamente. Mas não acontecia o mesmo com todos eles, os quatro membros da Força Tribulação?

"É melhor conversarmos hoje à noite, está bem?" concluiu Chloe. "Não, antes da reunião, não. Não se terei tempo depois... Bem, dependerá da hora em que a reunião terminar, acho... Sim, ele disse das oito às dez, Buck, mas você ainda não entendeu que não quero conversar nada agora? E também não sei se vou querer conversar mais tarde... Sim, até à noite."

Ela desligou o telefone. "Ufa, que homem insistente! Estou conhecendo um lado dele que nunca imaginei."

"Ainda gostaria que algo acontecesse?" perguntou Rayford.

Ela balançou a cabeça negativamente. "Se houve alguma coisa, agora acabou de vez."

"Mas ainda dói."

"Claro! Só não imaginei quantas esperanças depositei nisso."

"Lamento muito, querida."

Ela afundou-se no sofá e apoiou o rosto nas mãos. "Papai, sei que não devemos explicações um ao outro, mas você não acha que ele e eu conversamos e nos conhecemos o suficiente para que eu viesse a saber que havia alguém mais na vida dele?"

"Parece que sim."

"Será que eu o interpretei mal? Será que ele acha certo dizer que sente atração por mim sem me contar que existe outra pessoa em sua vida?"

"Não posso imaginar."

Rayford não sabia mais o que falar. Se houvesse alguma verdade no que Chloe dizia, ele também estava começando a perder o respeito por Buck. Parecia um ótimo sujeito. Rayford só esperava poder ajudá-lo.

 

Buck estava magoado. Ainda desejava ver Chloe, mas já não seria da maneira como ele sonhara. Tinha feito algo, ou deixara de fazer, e seria necessário mais do que uma simples desculpa ou alguns gestos para atingir o âmago da questão.

As flores estão na lata do lixo, ele pensou. Qual seria o significado disso?

 

Quando Buck entrou no apartamento, a porta bateu em uma pilha de caixas. Ele teria de mandar um bilhete de agradecimento a Alice. Gostaria de ter tido tempo para começar a organizar seu escritório em casa, mas tinha de se apressar se quisesse ver Chloe antes da reunião.

Ele chegou à Igreja Nova Esperança cerca de meia hora antes e viu o carro de Rayford estacionado próximo ao de Bruce. Ótimo, pensou, todos já chegaram. Olhou para o relógio. Teria se esquecido da mudança de fuso horário? Estaria atrasado? Caminhou apressadamente até a sala de Bruce e bateu na porta ao entrar. Bruce e Rayford levantaram os olhos surpresos. Ali só estavam os dois. "Sinto muito, acho que cheguei um pouco adiantado." "Ah, sim, Buck", disse Bruce. "Estamos conversando um pouco e nos encontraremos às oito, certo?" "Claro. Vou falar com Chloe. Ela já chegou?" "Chegará um pouco mais tarde", respondeu Rayford. "Está bem, ficarei aguardando por ela lá fora."

"Antes de tudo", disse Bruce a Rayford, "meus parabéns. Independentemente do que você decidir, é uma honra imensa e uma realização. Imagino que poucos pilotos recusariam uma oferta como essa."

Rayford endireitou-se na cadeira. "Na verdade, não estava pensando dessa maneira. Acho que deveria estar agradecido."

Bruce assentiu. "Acho que sim. Você queria um conselho ou apenas alguém para escutá-lo. Naturalmente, orarei junto com você sobre isso."

"Gostaria de ouvir um conselho."

"Não me sinto em condições de aconselhá-lo, Rayford. Gosto de saber que você prefere ficar aqui em Chicago, mas primeiro é preciso saber se essa oportunidade procede de Deus. Também quero ficar por aqui, mas sinto que Ele está me encaminhando para viajar, organizar outros pequenos grupos, visitar Israel. Sei que você não vai permanecer aqui só por minha causa, mas..."

"Isso também faz parte, Bruce."

"Agradeço, mas quem sabe por quanto tempo mais permanecerei aqui?"

"Precisamos de você, Bruce. Penso que Deus o mantém aqui por um motivo."

"Acho que Chloe lhe contou que estou à procura de mais professores."

"Ela me contou. E está empolgada com a possibilidade. E eu estou querendo aprender."

"Normalmente a igreja não coloca crentes recém-convertidos na posição de líderes ou professores, mas agora não existe alternativa. Eu mesmo sou um novo crente. Sei que você seria um bom professor, Rayford. O problema é que não posso deixar de pensar que esta oportunidade de trabalhar com o presidente é a única que você deveria levar a sério. Imagine a influência que você poderia ter sobre o presidente dos Estados Unidos."

"Oh, não posso imaginar que o presidente e seu piloto conversem muito entre si, se é que conversam."

"Ele não entrevista um novo piloto?"

"Duvido."

"Você não acha que ele vai querer conhecer o homem que tem a sua vida nas mãos todas as vezes que o avião levanta vôo?"

"Estou certo de que ele confia nas pessoas que tomam tal decisão."

"Porém, com certeza, haverá ocasiões em que vocês conversarão."

Rayford deu de ombros. "Talvez."

"O presidente Fitzhugh, firme e independente como é, deve estar assustado e procurando explicações como qualquer cidadão comum. Pense no privilégio de falar de Cristo ao líder do mundo livre."

"E depois perder o emprego", disse Rayford.

"Certamente você terá de escolher o momento certo. O presidente perdeu vários parentes no Arrebatamento. O que ele disse quando foi indagado sobre o assunto? Disse algo como estar certo de que não foi obra de Deus, porque ele sempre acreditou em Deus."

"Você está falando desse assunto com tanta naturalidade como se eu fosse aceitar o emprego."

"Rayford, não posso tomar decisões em seu lugar, mas você precisa lembrar-se do seguinte: Agora sua lealdade não mais deve ser com esta igreja, com a Força Tribulação ou comigo. Você deve ser leal a Cristo. Se você decidir não aceitar esta oportunidade, precisa ter certeza absoluta de que ela não procede de Deus."

Era típico de Bruce, pensou Rayford, acrescentar um novo argumento na conversa. "Você acha que devo contar a Chloe ou a Buck?"

"Estamos todos juntos nessa história", disse Bruce.

"Nesse meio tempo", disse Rayford, "deixe-me extrair algo mais de você. O que você acha de um caso amoroso durante este período da história?"

De repente, Bruce demonstrou um certo desconforto. "Boa pergunta", ele disse. "Francamente, sei por que você está me perguntando." Rayford duvidou dessa afirmação. "Sei o quanto você se sente solitário. Pelo menos tem a companhia de Chloe, mas deve sentir o mesmo vazio doído que sinto depois de perder minha mulher. Tenho pensado se conseguirei viver sozinho durante os próximos prováveis sete anos. Não gosto da idéia, mas estarei muito atarefado. Para ser franco com você, gostaria de acalentar alguma esperança de que Deus venha a me proporcionar uma companheira. Evidentemente, ainda é cedo demais. Vou chorar a perda de minha mulher por muito tempo, como se ela estivesse morta. Sei que ela está no céu, mas está morta para mim. Há dias em que me sinto tão só que mal consigo respirar."

Essa foi a história mais reveladora de Bruce desde que ele contou o motivo de não ter sido arrebatado, e Rayford estava admirado por ser ele quem o instigara. A pergunta tinha sido em relação a Chloe. Ela se apaixonara por Buck e, se o caso não fosse adiante, haveria de encontrar outra pessoa, ou isso seria impróprio em razão dos poucos anos que ainda faltavam até a volta de Cristo?

"Sinto uma certa curiosidade em relação à questão de logística", explicou Rayford. "Se duas pessoas se apaixonarem, como deverão proceder? A Bíblia diz alguma coisa sobre o casamento durante este período?"

"Não especificamente", respondeu Bruce, "até onde sei. Mas também não proíbe."

"E os filhos? Seria prudente a um casal pôr filhos no mundo nesta época?"

"Não pensei nisso", disse Bruce. "Você gostaria de ter outro filho nessa idade?"

"Bruce! Eu não estou pretendendo me casar novamente. Estou pensando em Chloe. Não estou dizendo que ela tenha alguém em vista, mas se tiver..."

Bruce mexeu-se na cadeira. "Imagine ter um bebê agora", ele disse. "Não precisaríamos pensar sequer em uma educação primária, e muito menos em educação secundária ou faculdade. Teríamos de criar essa criança, preparando-a para a volta de Cristo dentro de poucos anos."

"Estaríamos também proporcionando a essa criança uma vida de medo e perigo e 75 por cento de probabilidade de ela morrer durante o julgamento que virá."

Bruce segurou o queixo com a mão, firmando o cotovelo na mesa. "É verdade", ele disse. "Antes de alguém pensar nisso, eu aconselharia muita cautela, oração e exame de consciência."

 

Buck nunca gostou muito de esperar. Passou os olhos pela estante na ante-sala do escritório de Bruce. Aparentemente era esse o lugar em que o ex-pastor guardava os livros e as obras de referência consultados com menos freqüência. Havia dezenas de livros sobre o Velho Testamento. Buck folheou alguns deles, sem encontrar nada interessante.

De repente, viu um álbum de fotografias dos crentes daquela igreja datado de dois anos antes. Ali, sob a letra B, havia a foto de um jovem Bruce Barnes, de cabelos bem mais longos. Tinha o rosto um pouco mais cheio, sorriso forçado e estava cercado pela mulher e filhos. Que tesouro Bruce havia perdido! Sua mulher era simpática e roliça, e tinha um sorriso triste, porém autêntico.

Na página seguinte havia a fotografia do Dr. Vernon Billings, o pastor titular que desaparecera. Parecia ter pouco mais de sessenta anos e estava rodeado de sua pequenina esposa e de três filhos acompanhados dos respectivos cônjuges. O pastor Billings assemelhava-se a Henry Fonda, com profundos pés-de-galinha e rosto enrugado ao sorrir. Parecia um homem que Buck gostaria de ter conhecido.

Buck folheou a parte final do álbum e encontrou os Steeles. Lá estava Rayford com seu uniforme de piloto, parecendo tão bem-apessoado como agora, talvez com menos fios de cabelo branco e feições um pouco mais definidas. E Irene. Ele estava vendo sua fotografia pela primeira vez. Ela parecia inteligente e animada, e se alguém acreditasse nos excêntricos estudiosos da psicologia das fotos, notaria que ela era mais dedicada ao marido do que vice-versa. Seu corpo inclinava-se em direção do marido. Ele estava sentado com o corpo reto.

Rayford Júnior também aparecia na fotografia, identificado na legenda como "Raymie, 10 anos". Ele e a mãe tinham asteriscos ao lado de seus nomes. Rayford não tinha. Nem Chloe, que estava relacionada como “18 anos, caloura da Universidade Stanford, Paio Alto, Califórnia (não fotografada)".

Buck procurou encontrar o significado dos asteriscos, que indicavam quem era membro da igreja. Os outros, ele imaginou, eram meros freqüentadores.

Buck olhou para seu relógio. Dez para as oito. Olhou pela janela em direção ao estacionamento. O outro carro dos Steeles estava lá, perto dos carros de Rayford, de Buck e de Bruce. Buck colocou a mão na vidraça para enxergar melhor e avistou Chloe sentada ao volante. Dez minutos não seriam suficientes para conversarem, mas ele poderia pelo menos cumprimentá-la e acompanhá-la até o escritório da igreja.

Assim que Buck apareceu na porta, Chloe saiu do carro e caminhou apressada em direção ao templo. "Ei!" ele gritou.

"Oi, Buck", ela disse, sem demonstrar nenhum entusiasmo.

"As flores ainda estão na lata do lixo?" ele tentou iniciar a conversa, em busca de uma pista para saber o que se passava com ela.

"Para dizer a verdade, estão", ela disse, passando rente a ele e abrindo sozinha a porta. Ele subiu a escada atrás dela, passando pelo vestíbulo até chegar ao escritório da igreja.

"Acho que eles ainda não terminaram a conversa", disse Buck, enquanto ela se dirigia à sala de Bruce e batia na porta.

Aparentemente Bruce disse a mesma coisa a Chloe, e ela fechou a porta, desculpando-se. Era evidente que Chloe gostaria de estar em qualquer lugar, menos ali, e de olhar para qualquer coisa, menos para ele. Notava-se que ela havia chorado. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Ele desejava ansiosamente conversar com ela. Algo lhe dizia que não se tratava apenas de simples melancolia, um aspecto de sua personalidade com o qual ele já se habituara. Havia algo errado e Buck estava no meio. Tudo o que ele desejava naquele momento era ir a fundo no assunto. Porém, teria de esperar.

Chloe sentou-se com os braços e as pernas cruzados, balançando a perna de cima.

"Veja só o que encontrei", disse Buck, colocando o álbum da igreja diante de seus olhos. Ela nem sequer estendeu a mão para pegá-lo.

"Hum, hum", ela disse.

Buck abriu o álbum na letra B e apontou as famílias de Bruce e do Dr. Billings. De repente ela abrandou a expressão, pegou o álbum e analisou-o. "A mulher de Bruce", ela disse suavemente. "E veja estas crianças!"

"Sua família também está aí", disse Buck.

Chloe folheou o álbum lentamente até a letra S, analisando página por página como se estivesse procurando alguém mais que conhecera. "Cursei o segundo grau com ele", disse, sem expressão. "Ela e eu estudamos na mesma classe na quarta série. A Sra. Schultz foi minha primeira professora de educação física."

Quando finalmente chegou à página de sua família, ela se emocionou. Com o rosto contorcido, olhou fixamente para a fotografia, lágrimas rolando pelo rosto. "Raymie aos dez anos de idade", ela conseguiu dizer. Buck pousou a mão instintivamente sobre seu ombro, e ela retesou o corpo. "Por favor, não faça isso." "Desculpe-me", ele disse, e a porta da sala de Bruce abriu-se.

"Pronto", disse Rayford, percebendo que Buck parecia embaraçado e que Chloe tinha um aspecto desolador. Ele esperava que a filha ainda não tivesse começado a discutir com Buck.

"Papai, olhe", ela disse, levantando-se e mostrando-lhe o álbum.

Rayford sentiu um aperto na garganta e inspirou profundamente quando viu a fotografia. O suspiro foi dolorido. Era difícil demais.

Fechou o álbum e entregou-o a Buck, e ao mesmo tempo ouviu a cadeira de Bruce ranger. "O que vocês estão vendo?"

"Isto", disse Buck, exibindo a capa e tentando colocar o álbum de volta na prateleira. Porém, Bruce pegou-o. "Já faz dois anos", complementou Buck.

"Cerca de um mês depois que passamos a freqüentar esta igreja", disse Rayford.

Bruce abriu o álbum direto na fotografia de sua família, analisou-a por alguns segundos e perguntou: "Você também está aqui, Rayford?"

"Sim", respondeu Rayford, e Buck notou que ele tentava conduzir Chloe até o escritório.

Bruce virou as páginas até encontrar a fotografia dos Steeles e fez um movimento afirmativo com a cabeça, sorrindo. Levou o álbum consigo até o escritório, colocou-o sob sua Bíblia e o caderno de anotações, e começou a reunião com uma oração.

A princípio Bruce estava um pouco emocionado, porém passou logo ao assunto principal. Folheava a Bíblia de Apocalipse a Ezequiel, depois a Daniel e retomava a seqüência, comparando as passagens proféticas com o que estava acontecendo em Nova York e no restante do mundo.

"Algum de vocês ouviu o noticiário de hoje sobre as duas testemunhas em Jerusalém?"

Buck balançou negativamente a cabeça, e Rayford fez o mesmo. Chloe não esboçou reação. Também não estava anotando nem fazendo perguntas. "Um repórter disse que um grupo de meia dúzia de assassinos tentou acusar os dois, mas foram todos queimados até morrer."

"Queimados?" disse Buck.

"Ninguém sabe de onde veio o fogo", disse Bruce, "mas nós sabemos, não é mesmo?"

"Sabemos?"

"Leia Apocalipse 11. O anjo diz ao apóstolo João: 'Darei às minhas duas testemunhas que profetizem por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de pano de saco. São estas as duas oliveiras e os dois candeeiros que se acham em pé diante do Senhor da terra. Se alguém pretende causar-lhes dano, sai fogo das suas bocas e devora os inimigos; sim, se alguém pretender causar-lhes dano, certamente deve morrer'."

"E saiu fogo da boca deles como se fossem dragões?"

"Está escrito aqui", disse Bruce.

"Gostaria de ver essa notícia na CNN", disse Buck.

"Continue acompanhando", disse Bruce. "Veremos mais do que isto."

Rayford perguntou a si mesmo se chegaria a acostumar-se com o que Deus lhe estava revelando. Mal conseguia compreender até onde havia chegado e quanta coisa aceitara em menos de um mês. Havia algo acerca da dramática invasão de Deus na vida da humanidade e especificamente dentro dele próprio que mudara seu modo de pensar. Buck sempre foi um homem que precisava ter tudo documentado e, de repente, passou a crer, sem questionar, nos fatos mais absurdos possíveis, desde que comprovados nas Escrituras Sagradas. E o oposto também era verdadeiro: ele acreditava na Bíblia de capa a capa. Mais cedo ou mais tarde os noticiários transmitiriam a mesma história.

Bruce virou-se para Buck. "Como foi o seu dia?" Para Rayford, pareceu uma pergunta de natureza pessoal.

"Aconteceu tanta coisa que não dá para lhe contar aqui", disse Buck.

"Não brinque", disse Chloe asperamente. Foi a primeira vez que ela se manifestou.

Buck olhou de relance para ela e disse: "Vou lhe contar tudo amanhã, Bruce, e à noite discutiremos o assunto aqui." "Oh, é melhor você falar agora", disse Chloe. "Somos todos amigos."

Rayford gostaria de poder mandar a filha calar a boca, mas ela já era adulta. Se Chloe desejasse exigir uma explicação, qualquer que fosse, a prerrogativa era dela.

"Você nem sequer sabe onde estive hoje", disse Buck dirigindo-se a ela e demonstrando espanto. "Mas sei com quem você esteve." Rayford notou o olhar de Buck em direção a Bruce, mas não entendeu. Evidentemente, algo transpirara entre ambos que não era do conhecimento de todos. Teria ele contado a Chloe que Buck esteve com Carpathia? "Você..." Bruce balançou a cabeça.

"Acho que você não sabe, Chloe", disse Buck. "Vou discutir o assunto com Bruce amanhã, e à noite contarei a vocês e oraremos juntos."

"Ah, sim, claro", disse Chloe. "Mas eu tenho uma pergunta e um pedido de oração para esta noite."

Bruce olhou para seu relógio. "Está bem, diga."

"Gostaria de saber o que você pensa a respeito de um relacionamento amoroso nesta época."

"Você é a segunda pessoa que me faz a mesma pergunta hoje", disse Bruce.

"Devemos viver sozinhos." Chloe riu com desdém e olhou zangada para Buck.

Ela deve estar pensando que foi Buck quem fez essa pergunta antes a Bruce, Rayford pensou.

"É melhor deixar este assunto para ser discutido especificamente em uma de nossas reuniões", disse Bruce.

"Que tal na próxima reunião?" pressionou Chloe.

"Tudo bem. Conversaremos sobre esse assunto amanhã à noite."

"E você poderia acrescentar quais são as regras para a conduta moral dos novos crentes?" perguntou Chloe.

"Como assim?"

"Fale de como deve ser a nossa vida, agora que somos seguidores de Cristo. Você sabe, assuntos relacionados à moral, sexo, essas coisas."

Buck estremeceu. Chloe não parecia a mesma. "Está certo", disse Bruce. "Poderemos abranger tudo isso. Mas não haverá grandes novidades, porque as mesmas regras que se aplicavam antes do Arrebatamento continuam a prevalecer. Não terei muito mais a acrescentar. Somos chamados a levar uma vida pura, e estou certo de que vocês não se surpreenderão..."

"Talvez não seja tão óbvio para todos nós", disse Chloe.

"Trataremos do assunto amanhã à noite", disse Bruce. "Alguma coisa mais para hoje?"

Antes que alguém respondesse ou se oferecesse para encerrar a reunião com uma oração, Chloe disse: "Não. Até amanhã." E saiu.

Os três homens oraram e a reunião terminou de maneira estranha. Conforme Carpathia dissera, ninguém quis falar sobre o elefante na sala.

 

Buck voltou para casa frustrado. Não estava acostumado a deixar assuntos sem resolver, e o que mais o enfurecia era não saber sequer o que estava errado. Trocou a roupa de viagem por calça caqui, camisa de brim, botas de passeio e jaqueta de couro. Telefonou para os Steeles. Rayford atendeu e depois de alguns minutos retornou dizendo que Chloe estava ocupada. Buck estava apenas adivinhando, mas pareceu que Rayford se sentia tão frustrado com Chloe quanto ele.

"Rayford, ela está aí perto?"

"Correto."

"Você tem idéia de qual é o problema dela?"

"Não totalmente."

"Quero ir até o fim", disse Buck.

"Concordo."

"Ainda esta noite."

"Positivo. Com certeza. Você poderá tentar falar com ela amanhã."

"Rayford, você está me dizendo que posso ir até aí agora?"

"Sim, você está certo. Não posso prometer que ela estará aqui, mas tente novamente amanhã."

"Então se eu for até aí agora, não haverá problema?"

"Absolutamente. Aguardaremos sua ligação amanhã."

"Estou a caminho."

"Está bem, Buck. Conversaremos amanhã."

 

Rayford não gostava de enganar Chloe. Foi quase uma mentira. Mas divertiu-se com a brincadeira entre ele e Buck. Lembrou-se de um pequeno desentendimento que teve no passado com Irene a respeito de um encontro. Ela ficou muito aborrecida por alguma coisa insignificante e pediu-lhe que não a procurasse até segunda ordem. Ele obedeceu, e ela se zangou. Rayford não sabia o que fazer, mas sua mãe lhe deu um conselho. "Vá atrás dela e agrade-a. Ela o repeliu uma vez, mas se fizer o mesmo depois que você a procurar novamente, então o assunto é sério. Talvez ela esteja confusa, mas no fundo, se conheço bem as mulheres, ela vai gostar que você a procure e demonstre que não quer abandoná-la."

E assim, de certa maneira, ele estimulara Buck a fazer o mesmo com Chloe. Ainda não havia um relacionamento sério entre eles, mas Rayford imaginou que ambos gostariam que houvesse. Ele não tinha idéia do que aquela outra mulher representava na vida de Buck, porém estava certo de que, se o amigo forçasse uma explicação, Chloe o encurralaria até descobrir a verdade. Se Buck estivesse morando com alguém, isso seria um problema para Rayford, para Bruce e também para Chloe. Contudo, Chloe não tinha provas suficientes.

"Então ele vai tentar me ligar amanhã?" indagou Chloe.

"Foi o que lhe recomendei."

"Como ele reagiu?"

"Estava à procura de uma explicação."

"Você foi bem claro."

"Tentei ser."

"Vou dormir".

"Não seria melhor conversarmos um pouco?"

"Estou cansada, papai. Já esgotei o assunto", ela disse, dirigindo-se para a escada.

Rayford deteve-a. "Então, você vai atender a ligação dele amanhã, certo?"

"É improvável. Antes quero ver qual será a reação dele diante do que Bruce vai falar amanhã à noite."

"Como você acha que ele reagirá?"

"Papai! Como posso saber? Só sei é o que vi hoje cedo. Agora deixe-me dormir."

"Eu queria apenas ouvir mais sobre isso, querida. Converse comigo."

"Conversaremos amanhã."

"Bem, você gostaria de conversar comigo agora se eu falasse de mim e de minha situação no emprego ao invés de falar sobre você e Buck?"

"Uma coisa não tem nada a ver com outra, papai. Minha resposta é não. Prefiro conversar outra hora, a menos que você esteja sendo despedido ou mudando de emprego ou outra coisa parecida."

Rayford sabia que poderia prender a atenção da filha contando o que lhe acontecera naquele dia, desde o bilhete de Hattie, o vexame de ter sido acusado falsamente até a reunião com Earl Halliday. Rayford estava propenso a falar sobre o assunto, mas a filha não demonstrava disposição de ouvir. "Você me ajudaria a arrumar a cozinha?"

"Papai, a cozinha está perfeitamente em ordem. Qualquer coisa que você queira que eu faça, será feita amanhã, certo?"

"O marcador de tempo da cafeteira já está programado para amanhã cedo?"

"Está programado há muito tempo, papai. O que há com você?"

"Estou apenas me sentindo um pouco solitário. Ainda não estou disposto a dormir."

"Se você preferir que eu fique aqui um pouco mais, ficarei, papai. Mas por que você não liga a TV para relaxar um pouco?"

Rayford não tinha mais argumentos para deter a filha. "Está bem. Ficarei aqui na sala de estar com a TV ligada, está bem?”

Ela dirigiu-lhe um olhar astuto e respondeu no mesmo tom. "E eu ficarei lá em cima no meu quarto com a luz apagada, tá?"

Ele assentiu.

Ela balançou a cabeça. "Agora que já dissemos tudo um ao outro e sabemos onde cada um de nós estará e o que vai fazer, você me dá licença?"

"Sinta-se à vontade."

Rayford aguardou Chloe começar a subir a escada e acendeu a lâmpada da varanda. Buck conhecia a região e o endereço, mas não havia estado ali antes.

O noticiário na TV estava terminando e havia apenas alguns programas de entrevista, mas Rayford não prestou muita atenção. Estava sentado ali apenas para passar o tempo. Olhou através das cortinas, procurando avistar o carro de Buck. "Papai!" gritou Chloe do alto da escada. "Você poderia abaixar um pouco o som? Ou então ver o programa em seu quarto?"

"Vou abaixar o som", ele disse, enquanto um carro subia a rampa com os faróis acesos iluminando a sala. Antes de abaixar o som, ele correu até a porta e interceptou Buck antes que ele tocasse a campainha. "Vou subir a escada para me deitar", ele cochichou. "Aguarde alguns instantes antes de tocar a campainha. Estarei debaixo do chuveiro, e ela vai precisar atender a porta."

Rayford trancou a porta, desligou a TV e subiu a escada.

Ao passar pelo quarto de Chloe, ela disse: "Papai, você não precisava ter desligado a TV. Bastava ter reduzido o volume."

"Está tudo bem", ele disse. "Vou tomar uma ducha e me deitar."

"Boa noite, papai."

"Boa noite, Chio."

Rayford entrou no boxe do banheiro da suíte, sem ligar o chuveiro, deixando a porta aberta. Assim que ouviu o toque da campainha, abriu a torneira. Ouviu Chloe gritar: "Papai! Há alguém batendo à porta!"

"Estou debaixo do chuveiro!" "Oh, papai!"

 

Foi uma grande idéia! pensou Buck, impressionado por Rayford ter confiado nele a ponto de deixá-lo conversar com Chloe apesar de ela ter demonstrado estar aborrecida com ele. Aguardou alguns instantes e tocou novamente a campainha. Ela gritou: "Um momento, estou indo!"

O rosto de Chloe apareceu na janelinha no meio da porta. Ela revirou os olhos. "Buck!" ela disse, com a porta fechada. "Ligue para mim amanhã, está bem? Eu já estava deitada!"

"Preciso conversar com você!" disse Buck.

"Não agora."

"Sim, agora", ele disse. "Não vou sair daqui até você conversar comigo."

"Não vai sair?"

"Não, não vou."

Chloe não levou essas palavras em consideração. A luz da varanda apagou-se e ele ouviu os passos dela subindo a escada. Não podia acreditar. Ela era mais durona do que ele imaginara. Mas depois de dizer que não ia sair dali, ele não podia voltar atrás. Buck era um homem de palavra. Talvez a palavra obstinado fosse mais adequada. E foi isso que o levou a ser o jornalista que era.

Ele ainda não se livrara da saudade que sentiu de Chloe naquela tarde em Nova York. Decidiu que esperaria por ela ali fora. Ficaria na varanda até ela se levantar na manhã seguinte, se fosse necessário.

Buck sentou-se no último degrau da escada da varanda com as costas para a porta, encostando-se em um dos imponentes pilares. Chloe poderia vê-lo sentado ali se voltasse para verificar. Provavelmente ela ficaria atenta para ouvir o barulho do motor do carro, mas não ouviria nada.

"Papai!" gritou Chloe da porta do quarto de Rayford. "Você já terminou seu banho?"

"Ainda não! O que houve?"

"Buck Williams está lá fora, e disse que não vai embora!"

"O que você quer que eu faça?"

"Livre-se dele!"

"Livre-se você dele! O problema é seu!"

"Você é meu pai! É dever seu!"

"Ele molestou você? Ameaçou você?"

"Não! Vá agora até lá, papai."

"Eu não quero que ele vá embora, Chloe! Se você quiser, dispense-o."

"Vou dormir!" ela disse.

"Eu também!"

Rayford desligou o chuveiro e ouviu Chloe bater a porta do quarto dele. E depois a do quarto dela. Será que ela ia dormir deixando Buck na varanda? Buck ficaria ali? Rayford foi até a porta do quarto na ponta dos pés e abriu-a o suficiente para poder observar a filha. A porta do quarto dela permanecia fechada. Rayford deitou-se e ficou imóvel, ouvindo e contendo-se para não dar uma gargalhada. Havia sido incluído na lista dos candidatos a piloto do presidente dos Estados Unidos, e agora lá estava ele, espreitando a própria filha. Fazia semanas que não se divertia tanto.

 

Buck não se deu conta do frio da noite até ficar encostado durante alguns minutos naquele pilar gelado. Sua jaqueta de couro fez um ruído quando ele se movimentou, levantando a gola para proteger o pescoço. O cheiro do couro o fez lembrar de vários lugares no mundo, onde ele arrastara sua velha jaqueta, fugindo de bombardeios. Por diversas vezes ele pensou que morreria dentro dela. Buck esticou as pernas e colocou um pé sobre o outro, percebendo o quanto estava cansado. Se tivesse de dormir na varanda, dormiria.

De repente, no silêncio da noite, ele ouviu um leve rangido nos degraus da escada interna. Chloe estava descendo devagar para ver se ele ainda continuava ali. Se fosse Rayford, os passos seriam mais firmes e mais barulhentos. Rayford provavelmente lhe diria para desistir e voltar para casa, que seria melhor lidar com o problema no dia seguinte. Buck ouviu o piso de madeira ranger perto da porta. Para impressionar Chloe, encostou a cabeça no pilar e ajeitou o corpo como se estivesse cochilando.

O som dos passos na escada interna aumentou de intensidade. E agora?

Rayford ouvira Chloe abrir a porta do quarto e dirigir-se para a escada no escuro. Agora, ela estava voltando. Abriu a porta do quarto com força e deu um tapa no interruptor de luz. Rayford inclinou um pouco o corpo e, minutos depois, viu a filha apagar a luz e sair do quarto. Tinha o cabelo preso no alto da cabeça e usava um roupão longo de veludo. Depois de acender a luz no alto da escada, ela desceu com determinação. Se Rayford tivesse o poder de adivinhar, diria que ela não despacharia Buck.

Buck viu sua própria sombra no gramado e percebeu que havia uma luz atrás de si, mas não quis parecer nem muito confiante nem muito ansioso. Permaneceu imóvel, como se estivesse dormindo. A porta foi destravada e aberta, porém ele não ouviu mais nenhum outro som. Movimentou os olhos sorrateiramente. Aparentemente ela o estava convidando para entrar. Já que cheguei até este ponto, pensou Buck, não vou parar. Continuou na posição anterior, de costas para a porta.

Instantes depois, ele ouviu Chloe caminhando firme novamente até a porta de entrada da casa. Abriu apenas a porta de proteção contra chuva e frio e disse: "O que você deseja, um convite impresso em alto relevo?"

"O que...?" disse Buck, fingindo ter levado um susto e virando-se para ela. "Já amanheceu?"

"Engraçadinho. Venha até aqui. Você tem dez minutos."

Ele se levantou para entrar na casa, mas Chloe soltou com força a porta de proteção e sentou-se na ponta do sofá na sala de estar. Buck empurrou a porta e entrou. "Está tudo bem", ele disse. "Não vou demorar."

"A visita foi idéia sua, não minha", ela disse. "Perdoe-me por não tratá-lo como um convidado."

Chloe sentou-se em cima dos pés e com os braços cruzados, como se estivesse concedendo com relutância alguns minutos de seu tempo a Buck. Ele colocou sua jaqueta em cima de uma espreguiçadeira e arrastou o banquinho, sentando-se diante de Chloe. Permaneceu ali olhando firme para ela, como se estivesse pensando por onde começar.

"Não estou vestida de modo adequado para receber visitas", ela disse.

"Você é linda, não importa a roupa que esteja usando."

"Poupe-me desses comentários", ela disse. "O que você quer?"

"Na verdade, gostaria de ter-lhe trazido flores quando soube que as suas estão na lata do lixo."

"Você acha que eu estava brincando?" perguntou ela, apontando para um canto da sala. Ele virou-se e olhou. De fato, havia ali um enorme buquê que mal cabia na lata do lixo.

"Não achei que era brincadeira", disse Buck. "Só achei que você estava usando uma linguagem figurada que não consegui entender."

"Do que você está falando?"

"Quando você me disse que as flores estavam na lata do lixo, pensei que fosse um tipo de expressão que eu nunca tinha ouvido antes, mais ou menos como 'o gato está escondido com o rabo de fora' ou 'águas passadas não movem moinho'."

"Eu disse que as flores estavam na lata do lixo, e estão. Eu disse exatamente o que aconteceu, Buck."

Buck sentiu-se perdido. Os dois pareciam estar representando papéis diferentes, e ele nem sequer sabia se os papéis se referiam ao mesmo texto. "Hã, você poderia me dizer por que as flores estão na lata do lixo? Talvez isso ajude a esclarecer as coisas para mim."

"Porque eu não quis as flores."

"Oh, que tolo eu sou. Faz sentido. E você não quis as flores porque..." Ele parou e balançou a cabeça, esperando que ela concluísse a frase.

"Fiquei ofendida por saber de onde vieram."

"E de onde vieram?"

"Está bem, por saber de quem vieram."

"E vieram de quem?"

"Oh, Buck, francamente! Não tenho tempo nem disposição para isso."

Chloe fez um movimento para levantar-se e, de repente, Buck ficou zangado. "Chloe, espere um pouco." Ela voltou a sentar-se com os braços cruzados, demonstrando desassossego. "Você me deve uma explicação."

"Não, você me deve uma explicação."

Buck suspirou. "Explicarei o que você quiser, Chloe, mas chega de brincadeira. Ficou claro que estávamos sentindo atração um pelo outro, e sei que não demonstrei tanto interesse por você na sexta-feira à noite, mas hoje percebi..."

"Hoje cedo", ela interrompeu, lutando contra as lágrimas, "eu descobri por que você pareceu perder o interesse por mim de repente. Você estava se sentindo culpado por não ter me contado tudo, e se acha que essas flores serviram para reparar alguma coisa..."

"Chloe! Vamos falar sério! Eu não tenho nada a ver com essas flores."

Desta vez, Chloe não soube o que dizer.

Chloe permaneceu sentada, olhando com ceticismo para Buck. "Não foi você?" ela disse finalmente.

Ele balançou a cabeça. "Talvez você tenha outro admirador."

"Ah, sim", ela disse. "Outro? Então tenho dois?"

Buck estendeu as mãos na direção dela. "Chloe, com certeza houve um mal-entendido."

"Com certeza."

"Você pode me chamar de presunçoso, mas tive a impressão de que houve uma espécie de atração entre nós a partir do momento em que nos conhecemos." Ele fez uma pausa, aguardando uma reação.

Ela assentiu. "Nada sério, mas achei que gostamos um do outro."

"E eu estava a seu lado no avião quando você orou com seu pai", ele disse.

Ela fez um leve movimento afirmativo com a cabeça.

"Foi um momento especial", prosseguiu Buck.

"Foi", ela concordou.

"Em seguida, passei por sérias provações e não via a hora de voltar para cá e lhe contar tudo."

A boca de Chloe tremeu levemente. "Foi a história mais incrível que já ouvi, Buck, e não duvidei de você em nem um momento sequer. Eu sabia que você estava sofrendo muito, mas achei que existia um vínculo entre nós."

"Eu não sabia que nome dar a isso", disse Buck, "mas, conforme lhe contei em meu bilhete naquele domingo, senti atração por você."

"Aparentemente, não só por mim."

Buck não sabia o que dizer. "Não só por você?" repetiu.

"Prossiga com seu discurso."

Discurso? Então ela pensa que é um discurso? E pensa que existe alguém mais? Fazia anos que não havia nenhuma pessoa especial! Buck sentiu um vazio dentro de si e pensou em desistir, mas decidiu que valia a pena lutar por ela. Desorientada, tirando conclusões precipitadas por algum motivo; mesmo assim valia a pena lutar por ela.

"Entre domingo e sexta-feira à noite pensei muito em nós dois."

"Mais essa agora", disse Chloe, arrasada novamente. O que ela achava? Que ele estava disposto a dormir na varanda só para lhe jogar na cara, depois que ela o deixasse entrar, que havia outra pessoa em sua vida?

"Acho que não me fiz entender bem na sexta-feira à noite", ele disse. "Não foi bem isso. Eu estava me afastando."

"Não havia muito do que se afastar."

"Mas estávamos começando a nos envolver, não é mesmo?" disse Buck. "Você não achou que a situação ia progredir?"

"Claro. Até sexta-feira à noite."

"Fico um pouco constrangido por admitir isso...", ele disse com hesitação.

"E deveria estar".

"...mas percebi que estava sendo muito arrojado, tendo em vista o pouco tempo que nos conhecemos, sua idade e..."

"Então é isso. O problema não é a sua idade, é a minha."

"Sinto muito, Chloe. O problema não é a sua idade nem a minha. O problema é a diferença de idades. Quando me dei conta de que teremos só sete anos pela frente, a diferença de idades deixou de ser problema. Mas continuei confuso. Pensei em nosso futuro, como ficaria nosso relacionamento, apesar de não termos ainda um relacionamento."

"E não vamos ter, Buck. Não quero reparti-lo com outra pessoa. Se existe um futuro para nós, precisa haver exclusividade e... ora, não faça caso. Aqui estou eu falando de coisas que nenhum de nós sequer chegou a considerar antes."

"Aparentemente consideramos", disse Buck. "Acabei de dizer isso e parece que você também andou pensando um pouco para frente."

"Não, desde hoje cedo."

"Chloe, vou ter de perguntar-lhe uma coisa e não quero ser mal interpretado. Talvez eu possa parecer um pouco condescendente, até mesmo paternal, e não quero que seja assim." Ela empertigou-se no sofá, como se esperasse ser repreendida. "Vou lhe pedir que não diga nada por alguns instantes, está bem?"

"Como assim?" ela indagou, surpresa. "Não terei permissão para falar?"

"Não foi o que eu disse."

"Foi o que você acabou de dizer."

Buck não conseguia controlar a voz. Sabia que seu olhar e tom de voz eram ásperos, mas tinha de fazer alguma coisa. "Chloe, você não está me ouvindo com atenção. Não está me deixando dizer tudo o que penso. Existe algum equívoco e não sei do que se trata. Não tenho condições de me defender contra mistérios e fantasias. Você continua a dizer que não quer me repartir com ninguém. Existe algo que você queira me perguntar ou me acusar antes que eu possa prosseguir?"

 

Rayford, que estava deitado quieto e quase prendendo a respiração para tentar ouvir a conversa, entendeu muito pouco do que eles diziam até Buck levantar a voz. Rayford gostou do que ouviu. Chloe também levantou a voz. "Quero saber se existe outra pessoa em sua vida antes que eu comece a pensar... oh, Buck, do que estamos falando? Será que não existem muitas outras coisas mais importantes para pensarmos neste momento?"

Rayford não entendeu a resposta sussurrada de Buck e desistiu. Foi até a porta do quarto e gritou: "Será que dá para vocês falarem mais alto ou então só cochicharem? Se eu não , ...conseguir ouvir, vou dormir!"

"Vá dormir, papai!" disse Chloe.

Buck sorriu. Chloe também estava contendo o riso.

"Chloe, passei o fim de semana inteiro pensando em todas as 'coisas mais importantes' que precisamos pensar. Quase decidi propor-lhe que continuássemos bons amigos... até o momento em que eu estava sentado naquele escritório hoje à tarde e senti sua presença a meu lado."

"Sentiu minha presença? Você me viu no escritório do Semanário Global?"

"Escritório do Semanário Global. Do que você está falando?"

Chloe hesitou. "Bem, de qual escritório você estava falando?"

Buck fez um trejeito com a boca. Não tinha planejado falar de sua reunião com Carpathia. "Vamos falar disso depois de terminarmos este assunto. Eu estava dizendo que de repente senti um desejo enorme de ver você, conversar com você, voltar para você."

"Voltar de onde? Ou voltar de quem, eu deveria perguntar."

"Bem, prefiro não falar desse assunto até que você esteja preparada para ouvi-lo."

"Estou preparada, Buck, porque já sei de tudo."

"Como você soube?"

"Porque estive lá!"

"Chloe, se você foi até a sucursal de Chicago, então sabe que não estive lá o dia todo, isto é, a não ser logo cedo."

"Então você esteve lá."

"Só passei por lá para deixar as chaves com Alice."

"Alice? É este o nome dela?"

Buck assentiu, completamente perdido.

"Qual é o sobrenome dela, Buck?"

"O sobrenome? Não sei. Sempre a chamei de Alice. Ela é nova na empresa. Substituiu a secretária de Lucinda, que desapareceu."

"Você quer que eu acredite que não sabe o sobrenome dela?"

"Que motivos eu teria para mentir? Você a conhece?"

Os olhos de Chloe perscrutaram os dele. Buck finalmente percebeu que ela estava tentando chegar a um ponto qualquer, mas ele ainda não descobrira qual era. "Não posso afirmar que a conheço", disse Chloe. "Apenas conversei com ela, só isso."

"Você conversou com Alice", ele repetiu, tentando juntar as peças.

"Ela me disse que vocês estão noivos."

"Oh, ela não disse!" gritou Buck, acalmando-se em seguida e olhando em direção à escada. "Do que você está falando?"

"Estamos falando da mesma Alice, não estamos?"

perguntou Chloe. "Magra, cabelos escuros espetados, saia curta, funcionária do Semanário Global, não é mesmo?"

"É ela", respondeu Buck, balançando a cabeça afirmativamente. "Mas você não acha que eu deveria saber o sobrenome dela se estivéssemos noivos? E mais, isso seria uma grande novidade para o noivo dela."

"Então ela está noiva, mas não de você?" disse Chloe, demonstrando um ar de dúvida.

"Alice me contou por alto que ia buscar seu noivo hoje, não sei onde", ele disse. Chloe parecia abalada. "Você se importaria de me dizer o que aconteceu enquanto esteve no Semanário e conversou com ela? Estava à minha procura?"

"Para ser franca, estava", respondeu Chloe. "Eu a tinha visto antes e fiquei surpresa ao vê-la no Semanário."

"Conforme eu já lhe disse, Chloe, não estive lá hoje."

"Onde você esteve?"

"Eu perguntei primeiro. Onde você viu Alice pela primeira vez?"

Chloe respondeu em tom de voz tão baixo que Buck precisou inclinar a cabeça para ouvir. "Em seu apartamento."

Buck endireitou-se na cadeira. Agora estava tudo explicado. Sentiu vontade de rir, mas pobre Chloe! Lutou para permanecer sério. "Foi culpa minha", ele disse. "Eu convidei você para me visitar, meus planos mudaram e eu não lhe contei."

"Ela tinha as chaves do apartamento", sussurrou Chloe.

Buck balançou a cabeça, demonstrando compreensão. "Eu entreguei as chaves a Alice para ela levar para meu apartamento alguns equipamentos que chegaram no escritório. Precisei viajar para Nova York hoje."

A frustração de Buck em relação a Chloe transformou-se em compaixão. Ela não conseguia fitá-lo nos olhos, e estava prestes a romper em prantos. "Então não foi você quem enviou as flores", ela disse em voz baixa.

"Se eu achasse que deveria fazer isso, teria feito."

Chloe descruzou os braços e cobriu o rosto com as mãos. "Buck, estou tão envergonhada", ela lamentou, soluçando em seguida. "Não tenho como me desculpar. Fiquei aborrecida depois da sexta-feira à noite e fiz um cavalo de batalha por nada."

"Eu não sabia que você se importava tanto comigo", disse Buck.

"Claro que me importava. Mas agora não posso esperar que você compreenda ou me perdoe por eu ter sido tão, tão... oh, se você não quiser me procurar mais, vou entender." Ela ainda escondia o rosto. "É melhor você ir embora", complementou. "Eu não estava com boa aparência quando você chegou, e com certeza não estou agora."

"Você concorda que eu durma na varanda? Eu gostaria de estar aqui quando sua aparência estiver melhor."

Ainda com as mãos no rosto banhado em lágrimas, ela olhou para ele por entre os dedos e sorriu. "Você não precisa fazer isso, Buck."

"Chloe, lamento muito. Causei todo esse mal-entendido por não tê-la avisado sobre minha viagem."

"Não, Buck. A culpa foi toda minha, e peço-lhe desculpas."

"Está bem", ele disse. "Você me pediu desculpas e está desculpada. Podemos encerrar o assunto?"

"Isso só vai me fazer chorar ainda mais."

"O que eu deveria fazer?"

"Você está sendo tão compreensivo!"

"Eu não posso vencer sozinho!"

"Você me daria um minuto? " Chloe pulou do sofá e subiu correndo a escada.

 

Depois de pedir que os dois falassem mais alto ou apenas cochichassem, Rayford sentou-se no alto da escada, fora do ângulo de visão de ambos. Quando tentou sair dali para esgueirar-se até seu quarto, deu de encontro com Chloe.

"Papai!" ela cochichou. "O que você está fazendo?!"

"Ouvindo às escondidas. O que você acha disso?"

"Que comportamento horrível!"

"O meu, horrível? Veja o que você fez a Buck! Mandando o indivíduo para a forca antes de ser julgado."

"Papai, fui uma tola."

"Foi apenas um equívoco engraçado, querida. Conforme Buck disse, só serviu para mostrar o quanto você se importa com ele."

"Você sabia que ele viria?"

Rayford assentiu com a cabeça.

"Esta noite? Você sabia que ele viria esta noite?"

"Reconheço minha culpa."

"E você me fez abrir a porta."

"Pode me matar."

"É o que eu deveria fazer."

"Não, você deveria me agradecer."

"Claro. Agora você pode ir dormir. Vou trocar de roupa e ver se Buck me convida para um passeio."

"Então, você está dizendo que não posso ir junto? Nem mesmo acompanhar à distância?"

 

Buck ouviu cochichos no pavimento superior, e depois o barulho de água correndo e do abrir e fechar de gavetas. Chloe desceu a escada trajando calça jeans, camiseta, jaqueta com capuz e tênis. "Você quer ir embora ou dar um passeio?" ela perguntou.

"Você não vai me dar um pontapé depois de tudo o que aconteceu?"

"Precisamos conversar em outro lugar para que papai possa dormir."

"Ele ficou acordado por nossa causa?"

"Mais ou menos."

 

Depois de ouvir a porta da frente fechar-se, Rayford ajoelhou-se ao lado da cama. Orou para que Chloe e Buck se dessem bem, independentemente do que o futuro lhes reservava. Mesmo que viessem a ser apenas bons amigos, ele seria grato. Ajeitou-se na cama e dormiu um sono leve e agitado, aguardando a volta de Chloe e orando a respeito da oportunidade que lhe fora oferecida naquele dia.

 

A noite estava fria, porém clara por volta da meia-noite. "Buck", disse Chloe assim que viraram a esquina e atravessaram a elegante subdivisão de Arlington Heights, "gostaria apenas dizer novamente como..."

Buck parou e tocou na manga da jaqueta de Chloe. "Chloe, não faça isso. Temos só sete anos. Não podemos viver no passado. Nós dois erramos neste fim de semana e já nos desculpamos, portanto vamos encerrar o assunto."

"Sério?"

"Com certeza." Continuaram a caminhar. "Claro que vou precisar descobrir quem lhe enviou as flores."

"Já pensei nisso, e desconfio de uma pessoa."

"Quem?"

"É um pouco constrangedor, porque a culpa também deve ter sido minha."

"Seu ex-namorado?"

"Não! Eu já lhe contei antes, Buck. Namoramos quando eu era caloura e ele estava no último ano. Ele se formou e nunca mais o vi. Ele se casou."

"Então não deve ter sido ele. Há outros rapazes em Stanford que gostariam que você voltasse a estudar lá?"

"Ninguém que tenha o hábito de enviar flores."

"Seu pai?"

"Ele já negou."

"Quem resta?"

"Pense um pouco", disse Chloe.

Buck semicerrou os olhos e pensou. "Bruce!? Oh, não, você não está pensando...?"

"Quem mais poderia ser?"

"Você lhe deu algumas esperanças?"

"Não sei. Gosto muito dele e o admiro. Sua integridade me comove, e ele é muito fervoroso e sincero."

"Eu sei, e ele se sente sozinho. Porém, faz apenas algumas semanas que perdeu a família. Não posso imaginar que tenha sido ele."

"Eu costumo dizer-lhe que gosto de suas mensagens", disse Chloe. "Talvez eu tenha demonstrado mais amizade do que deveria. Só que nunca pensei nele dessa maneira, você entende?"

"E por que não? Ele é um sujeito jovem e inteligente."

"Buck! Ele é mais velho que você!"

"Não muito.

"Sim, mas você está chegando bem perto da idade máxima que considero adequada para mim."

"Muito obrigado! Quanto tempo ainda resta até você me despachar?"

"Ora, Buck, que situação constrangedora! Necessito de Bruce como amigo e como mestre!"

"Você tem certeza de que não existe algo mais?"

Ela balançou a cabeça negativamente. "Nunca pensei nisso. Não que ele não seja atraente, mas não posso sequer imaginar que existe algo mais. Bruce me convidou para trabalhar com ele, tempo integral. Jamais imaginei que pudesse haver outro motivo."

"Não tire conclusões precipitadas, Chloe."

"Sou exímia nisso, não sou?"

"Você está perguntando para a pessoa errada."

"O que devo fazer, Buck? Não quero magoar Bruce. Não posso dizer essas coisas a ele. Você sabe que tudo isso deve ser uma reação por causa das perdas que ele sofreu. Talvez uma reação emocional."

"Não posso imaginar o que significa perder uma esposa", disse Buck.

"E os filhos."

"Ah, sim."

"Você me disse certa vez que nunca teve um caso sério com ninguém."

"Correto. Quero dizer, duas vezes pensei que isso tivesse acontecido, mas agi com precipitação. Uma garota, que estava um ano na minha frente no curso de pós-graduação, me deu o fora porque eu era muito lerdo para me aproximar dela."

"Não!"

"Acho que sou um pouco antigo nessas coisas."

"Isso é animador."

"Perdi logo o interesse por ela."

"Posso imaginar. Então você não foi um típico aluno de faculdade?"

"Quer saber a verdade?"

"Não sei. Devo?"

"Depende. Você prefere ouvir que eu tive todos os tipos de experiência porque sou um cara legal, ou que sou virgem?"

"Você vai me dizer só o que eu quero ouvir?"

"Vou lhe dizer a verdade. Eu só quero saber antecipadamente o que você gostaria de ouvir."

"Experiente ou virgem", repetiu Chloe. "Isso é fácil. Definitivamente o último."

"Acertou", disse Buck suavemente, mais por constrangimento do que por desejo de contar vantagem.

"O quê!" exclamou Chloe. "Isso é motivo de orgulho hoje em dia."

"Devo dizer que sinto mais gratidão do que orgulho. Meus motivos não foram tão puros como podem parecer hoje. Isto é, sei que teria sido errado andar por aí dormindo de cama em cama, mas não foi por moralidade que me abstive disso. Quando surgiram oportunidades, eu não estava interessado. Estava tão concentrado nos estudos e em meu futuro que foram poucas as oportunidades. A verdade é que as pessoas sempre pensaram que eu viajava de um lado para outro porque tinha um caso em cada lugar. Mas eu era um tímido quando se tratava dessas coisas. Uma espécie de conservador."

"Você está arrumando desculpas."

"Talvez. Não foi minha intenção. É um pouco constrangedor chegar a essa idade totalmente inexperiente. Em outros assuntos, sempre estive adiante de minha geração."

"Essa é uma forma atenuada de se expressar", disse Chloe. Você acha que Deus o protegia, mesmo antes de sua conversão?"

"Nunca pensei no assunto dessa maneira, mas pode ter sido. Nunca precisei preocupar-me com problemas de natureza emocional que acompanham os relacionamentos amorosos entre duas pessoas."

Buck esfregou a nuca, consciente de seu gesto.

"Isso o constrange, não?" perguntou Chloe.

"Sim, um pouco."

"Então suponho que você prefere ignorar se tenho ou não experiência sexual."

Buck fez trejeito com a boca. "Sim, se você não se importar. Veja, tenho apenas trinta anos e me sinto um homem ultrapassado quando você usa a palavra... sexo. Portanto, talvez seja melhor você me poupar disso."

"Mas Buck, e se nosso relacionamento for adiante? Você não vai ficar curioso?"

"Talvez eu lhe faça essa pergunta na ocasião."

"E se então você já estiver loucamente apaixonado por mim e vier a descobrir algo que não consegue aceitar?"

Buck sentiu vergonha de si mesmo. Era difícil admitir sua virgindade a uma mulher, uma vez que isso o enquadrava dentro de uma pequena minoria no mundo. Mas Chloe era muito direta, muito franca. Buck não queria falar sobre o assunto, ouvir explicações, principalmente se ela fosse mais "experiente" do que ele. E, mesmo assim, ela era objetiva. Parecia se sentir mais à vontade ao falar do futuro de ambos, mas havia sido ele quem decidira levar adiante o relacionamento. Em lugar de responder à pergunta de Chloe, ele simplesmente deu de ombros.

"Vou desvendar o mistério", disse Chloe. "Meus namoricos durante curso secundário e, especificamente, meu namoro nos tempos de caloura na Stanford, nunca foram exemplos de decoro. Era assim que minha mãe se referia a essas coisas. Mas tenho a satisfação de dizer que nunca fizemos sexo. Talvez tenha sido por esse motivo que meus namoros nunca foram adiante."

"Chloe, gostei do que você disse, mas poderíamos falar sobre um outro assunto?"

"Você é um cara esquisito, não?"

"Acho que sim." Buck corou. "Sou capaz de entrevistar chefes de estado, mas esse tipo de conversa franca é novidade para mim."

"Vamos, Buck, você costuma ouvir isso e coisas muito piores todos os dias nos programas de entrevistas."

"Mas você não está incluída na categoria de uma convidada a um programa de entrevistas."

"Sou muito grosseira?"

"Apenas não estou acostumado a esse tipo de conversa e não me saio bem."

Chloe deu uma risadinha. "Existe a probabilidade de haver duas pessoas solteiras nos Estados Unidos passeando à meia-noite, sendo ambas virgens?"

"Principalmente depois que os cristãos foram arrebatados."

"Surpreendente", ela disse. "Mas você queria conversar sobre outro assunto."

"Queria!"

"Diga-me por que precisou viajar para Nova York."

Passava de uma hora da manhã quando Rayford se mexeu na cama ao ouvir um barulho na porta da frente. A porta foi aberta, mas não foi fechada. Ele ouviu Chloe e Buck conversando na soleira. "Eu preciso ir embora", disse Buck. "Estou aguardando uma resposta de Nova York amanhã cedo sobre meu artigo e quero estar bem acordado para argumentar."

Depois que Buck partiu, Rayford ouviu Chloe fechar a porta. Seus passos na escada pareciam mais leves do que no início da noite. Ela caminhou na ponta dos pés até o quarto dele e espiou. "Estou acordado, querida", ele disse. "Está tudo bem?"

"Melhor impossível", ela respondeu, aproximando-se e sentando-se na beira da cama de Rayford. "Obrigada, papai", ela disse na escuridão do quarto.

"A conversa foi boa?"

"Sim. Buck é uma pessoa incrível."

"Ele a beijou?"

"Não! Papai!"

"Segurou a sua mão?"

"Não! Pare com isso! Só conversamos. Você não vai acreditar na oferta que ele recebeu hoje."

"Oferta?"

"Não tenho tempo para explicar os detalhes esta noite. Você vai voar amanhã?"

"Não."

"Então conversaremos amanhã cedo."

"Quero lhe contar sobre a oferta que também recebi hoje", disse Rayford.

"Do que se trata?"

"Muito complicada para falar dela agora. De qualquer forma, não vou aceitá-la. Conversaremos amanhã cedo."

"Papai, diga mais uma vez que não foi você quem mandou aquelas flores só para me tranqüilizar. Se foi você, vou me sentir muito mal por tê-las atirado na lata do lixo."

"Não fui eu, Chio."

"Isso é bom, acho. Mas também não foram enviadas por Buck."

"Tem certeza?"

"Agora, sim."

"Xi!"

"Você está pensando o mesmo que eu, papai?"

"Passei a pensar em Bruce desde o momento em que ouvi Buck dizer a você que não foi ele quem enviou as flores."

"O que devo fazer, papai?"

"Se você vai trabalhar com Bruce, precisará ter uma conversa com ele."

"Por que sou eu a responsável? Não comecei isso! Não incentivei — pelo menos não tive a intenção.”

"Bem, você pode deixar as coisas como estão. Quero dizer, ele enviou as flores anonimamente. Como você poderia saber de quem partiram?"

"Sim! De fato, eu não sei, não é mesmo?"

"Claro que não."

"Devo encontrar-me com ele amanhã à tarde", ela disse, "para conversarmos sobre o emprego."

"Então converse sobre o emprego."

"E não tomo conhecimento das flores?"

"De certo modo você já fez isso, não fez?"

Chloe riu. "Se ele tiver coragem de confessar que mandou as flores, então poderemos conversar sobre o que elas significam."

"Parece uma boa idéia."

"Mas, papai, se Buck e eu continuarmos a nos encontrar, o nosso relacionamento vai se tornar evidente."

"Você não quer que as pessoas saibam?"

"Não quero atirar isso na cara de Bruce, sabendo o que ele sente em relação a mim."

"Mas você não sabe."

"É verdade. Se ele não disser, eu não sei."

"Boa noite, Chloe."

"Vai ser esquisito trabalhar para ele ou com ele, não é mesmo, papai?

"Boa noite, Chloe."

"Eu só não queria..."

"Chloe! Daqui a pouco o dia vai amanhecer!"

"Boa noite, papai."

 

Buck foi despertado no meio da manhã de terça-feira por uma ligação de Stanton Bailey. "Cameron!" gritou ele. "Você já acordou?"

"Sim, senhor."

"Não parece!"

"Meio acordado, senhor."

"Dormiu tarde?"

"Sim, mas agora estou acordado, Sr. ..."

"Você sempre foi muito honesto, Cam. É por isso que não entendo por que insiste em dizer que esteve naquela reunião quando... ah, é melhor deixar esse assunto para trás. Você está muito isolado. Gostaria que fosse o substituto de Plank aqui, mas o que está feito, está feito, não é mesmo?"

"Sim, senhor."

"Mas você ainda tem credibilidade."

"Como assim?"

"Ainda tem prestígio. Como você se sente por ter escrito um artigo merecedor de mais um prêmio?"

"Fico satisfeito em saber que o senhor gostou do artigo, mas não o escrevi para receber prêmio."

"Nunca escrevemos para receber prêmio, não é mesmo? Você já viu algum colega de profissão escrever um artigo só para disputar um prêmio? Eu também não. No entanto, tenho visto alguns sujeitos tentar. Não funciona. Eles poderão aprender com você. Perfeito, abrangente mas conciso, incluindo todas as citações, cobrindo todos os ângulos, imparcial diante de todas as opiniões. Gostei muito de você não ter feito aqueles alienígenas excêntricos e religiosos fanáticos parecerem imbecis. Todos têm direito a dar opinião, certo? E todos representam o grande potencial econômico dos Estados Unidos, não importando se acreditam que o responsável foi alguma criatura verde vinda de Marte ou Jesus montado em um cavalo."

"Continuo não entendendo."

"Ou outra coisa qualquer, fruto da imaginação de alguém. Você sabe o que quero dizer. De qualquer forma, o artigo é uma obra-prima e, como sempre, apreciei seu excelente trabalho e o fato de você não ter permitido que aquele outro assunto o abatesse. Você vai continuar a fazer um bom trabalho e permanecer aí em Chicago pelo tempo que for necessário, portanto sinto que ainda tenho algum controle sobre meu famoso articulista. Você estará de volta a Nova York antes do que imagina. Quando termina seu contrato?"

"Em um ano, mas gosto daqui e..."

"Muito engraçado. Se eles começarem a pressioná-lo sobre esse contrato, Cameron, fale comigo e traremos você de volta para cá. Não sei se poderei reservar-lhe a vaga de editor-executivo porque precisamos preenchê-la antes disso, e provavelmente não faria sentido você passar de comandado a comandante. Mas pelo menos faremos com que seu salário torne a ser condizente com as suas qualificações e você voltará para cá para fazer o que sempre fez com perfeição."

"Obrigado."

"Ei, tire o dia de folga! Esse assunto chegará nas bancas de jornais daqui a uma semana e você será notícia na cidade durante alguns dias."

"Vou aceitar sua idéia."

"E ouça, Cameron, fique longe daquela fulaninha. Qual é o nome dela?"

"Verna Zee?"

"Sim, Verna. Ela trabalha bem, mas deixe-a em paz. Você não vai precisar ir até lá, a menos que exista um bom motivo. Você tem outro assunto a tratar comigo?"

"Steve quer que eu vá até Israel na próxima semana para a assinatura do tratado entre Israel e a ONU."

"Temos um bando de pessoas indo para lá, Cameron. Eu ia designar a reportagem de capa ao editor de religião."

"Jimmy Borland?"

"Algum problema?"

"Bem, em primeiro lugar não vejo essa reportagem como um assunto de natureza religiosa, principalmente com a reunião da religião única mundial acontecendo em Nova York ao mesmo tempo, os judeus falando sobre a reconstrução do templo e os católicos escolhendo um novo papa. E, em segundo lugar, isso vai parecer um trabalho em causa própria. Você acha realmente que Jimmy é capaz de assumir a responsabilidade de uma reportagem de capa?"

"Provavelmente não. Achei que seria conveniente. Ele esteve lá tantas vezes, e qualquer coisa que Israel faça pode ser considerada de natureza religiosa, certo?"

"Não necessariamente."

"Sempre gostei de sua franqueza quando fala comigo, Cameron. Há muitas pessoas subservientes aqui. E você não vê essa reportagem como um assunto de natureza religiosa só por estar acontecendo na chamada Terra Santa."

"Qualquer coisa em que Carpathia esteja envolvido é geopolítica, mesmo que tenha algumas ramificações religiosas. O grande assunto religioso de lá, além do templo, são aqueles dois pregadores no Muro das Lamentações."

"Ah, sim, o que acontece com aqueles malucos? Eles disseram que não ia chover em Israel durante três anos e meio, e até agora não choveu! É uma terra seca como sempre foi, mas se ficar muito tempo sem chover, tudo vai definhar e desaparecer. Será que vão depender da fórmula daquele cientista... hã, Rosenzweig... sobre a chuva?"

"Não tenho certeza. Sei que essa fórmula requer menos quantidade de chuva do que tentar viver sem ela, mas acho que, para dar certo, é necessário que a água venha de algum lugar."

"Eu gostaria que Jimmy conseguisse uma entrevista exclusiva com aqueles dois", disse Bailey, "mas eles são perigosos, não são?"

"Como assim?"

"Bem, dois sujeitos tentaram matá-los e caíram mortos no chão. E aquilo que aconteceu no outro dia? Um grupo de gente foi queimado. O povo disse que os dois invocaram fogo do céu!"

"Outros disseram que eles sopraram fogo no grupo."

"Também ouvi isso!" disse Bailey. "Esse deve ser um problema de mau hálito, não?"

Bailey estava rindo, mas Buck não conseguia disfarçar. Acreditava na história do sopro de fogo porque constava da Bíblia. Ele também não enquadrava as pessoas que acreditavam no Arrebatamento na mesma categoria dos que acreditavam em OVNIs.

"De qualquer forma", prosseguiu Bailey, "eu não disse a Borland que ele vai fazer a reportagem de capa, mas há rumores de que será ele. Eu podia atribuir essa tarefa a você, e preferia, porém alguém teria de ser excluído da viagem porque extrapolamos o orçamento. Talvez eu exclua um fotógrafo."

Buck estava ansioso para que um fotógrafo captasse alguma cena sobrenatural. "Não, não faça isso", ele disse. "Plank está me propondo viajar como parte da comitiva da ONU." Houve um longo silêncio. "Senhor?"

"Não sei disso, Cameron. Estou impressionado por eles o terem perdoado depois do que aconteceu, mas como você poderá manter a objetividade se estiver por conta deles?"

"O senhor precisa confiar em mim. Nunca negociei favores."

"Sei disso, e Plank também sabe. Mas será que Carpathia entende o que é jornalismo?"

"Não tenho certeza."

"Nem eu. Você sabe do que tenho medo."

"Do quê?"

"Que ele o faça desaparecer."

"Não há muitas chances de eu ir para qualquer lugar", disse Buck.

"Pensei que Carpathia estivesse mais aborrecido com você do que eu, e agora ele quer que o acompanhe na assinatura do tratado?"

"Ele só quer que eu esteja presente à assinatura do tratado como parte de sua delegação."

"Isso seria totalmente impróprio."

"Eu sei."

"A menos que você deixe claro que não faz parte da delegação. Que situação complicada! A única pessoa da imprensa sentada à mesa!"

"Sim, como eu poderia fazer isso?"

"Talvez seja simples. Use alguma identificação qualquer no paletó que mostre que você faz parte do Semanário.”"

"Isso eu posso fazer."

"Você poderia carregar essa identificação consigo e exibi-la só depois que todos estiverem sentados em seus lugares."

"Acho um pouco desonesto."

"Ora, não seja tolo, filho. Carpathia é o político dos políticos e tem todos os motivos do mundo para querer você ao lado dele. O mínimo que poderá acontecer é que sejam criadas situações para que você deixe o Semanário Global."

"Não tenho tais planos, senhor."

"Sei que não tem. Ouça, você acha que poderia participar da assinatura do tratado, isto é, estar presente ao lado das partes envolvidas e não junto com o pessoal da imprensa, mesmo sem viajar com a delegação da ONU?"

"Não sei. Posso perguntar."

"Então pergunte. Vou conseguir uma passagem extra em um vôo comercial para que você não viaje por conta da ONU. Não quero que deva nenhum favor a Carpathia, mas gostaria demais de ver você espiando por cima de seu ombro quando ele assinar aquele tratado."

 

Buck gostou da idéia de tirar o dia de folga, apesar de não ter planejado nada importante para aproveitá-lo. Arrumou com calma o quarto vago, instalando ali seu escritório. Depois de ligar todos os equipamentos e testá-los, verificou seu e-mail e encontrou uma longa mensagem de James Borland, o editor de religião do Semanário Global. Vejam só, ele pensou.

Pensei em ligar para você e conversarmos por telefone. Porém achei melhor colocar tudo por escrito porque quero desabafar um pouco antes de receber suas desculpas de sempre. Você sabe muito bem que eu estava cotado para fazer a reportagem de capa sobre a assinatura do tratado. A coisa estará acontecendo na capital religiosa do mundo, Cameron. Quem você acha que ia cuidar disso?

Só porque não sou um articulista experiente em reportagens de capa e não fiz nada no gênero antes, não significa que sou incapaz de cuidar do assunto. Eu deveria ter pedido seus conselhos, mas provavelmente você ia querer dividir a autoria da matéria comigo, com seu nome aparecendo em primeiro lugar.

O velho me disse que a idéia de lhe passar essa matéria foi dele, mas não posso imaginar ver você escrevendo o que bem entender, e eu fora disso. Vou para Israel também. Ficarei longe de você, desde que fique longe de mim.

Buck ligou imediatamente para Borland. "Jimmy", ele disse, "é Buck."

"Você recebeu meu e-mail"

"Recebi."

"Não tenho mais nada a dizer."

"Imagino que não", disse Buck. "Você foi bem claro."

"Então, o que você quer?"

"Só esclarecer alguns pontos."

"Ah, sim, vai me dizer o mesmo que Bailey, convencer-me de que você nem sequer lhe pediu essa reportagem."

"Para ser franco, Jim, eu disse a Bailey que considerava essa matéria mais de natureza política do que religiosa, e cheguei a mencionar que não tinha certeza se você estava à altura."

"E isso por acaso não significa tirar-me da frente para você ser o autor da reportagem?"

"Talvez, Jim, mas não foi minha intenção. Lamento muito, e se ela significa tanto para você, vou insistir para que lhe dêem essa responsabilidade."

"Certo. Qual é a condição?"

"Que eu fique com suas reportagens, e uma inédita."

"Você quer ocupar o meu lugar?"

"Só por algumas semanas. Para mim, você conseguiu o cargo mais invejado do Semanário."

"Por que devo confiar em você, Buck? Você parece o Tom Sawyer (personagem do livro As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, n.t.) tentando me fazer pintar sua cerca."

"Estou falando sério, Jim. Se você deixar por minha conta as reportagens sobre a religião mundial, a reconstrução do templo, os dois pregadores diante do Muro das Lamentações, a votação para o novo papa, e uma outra que faz parte de sua especialidade mas que ainda não contei a ninguém, vou fazer o possível para que lhe dêem a reportagem de capa sobre o tratado."

"Vou morder a isca. O que há de tão importante no meu cargo que deixei escapar?"

"Você não deixou escapar. Acontece que tenho um amigo que estava no lugar certo na hora certa."

"Quem? O quê?"

"Não vou revelar minha fonte, mas fiquei sabendo que o rabino Tsion Ben-Judá..."

"Eu o conheço."

"Conhece?"

"Bem, ouvi falar dele. Todo mundo ouviu. Um ótimo sujeito."

"Você sabe o que ele está engendrando?"

"Um projeto de pesquisas, não? Algo tipicamente antiquado."

"Então essa é outra coisa que não lhe interessa. Parece que estou pedindo o Báltico e o Mediterrâneo e oferecendo em troca o Boardwalk e o Park Place [logradouros populares em Atlantic City].”

"É exatamente o que parece, Buck. Você me considera um idiota?"

"Claro que não, Jimmy. Você não está entendendo. Não sou seu inimigo."

"Apenas meu concorrente, reservando as reportagens de capa só para você."

"Acabei de oferecer-lhe uma!"

"Essa conversa não cola, Buck. A reunião da religião mundial está seca como pó, e nunca vai dar certo. Nada vai impedir os judeus de reconstruírem seu templo porque ninguém mais, a não ser eles, se importa com isso. Garanto a você que aqueles dois indivíduos diante do Muro das Lamentações dariam uma grande reportagem, porém mais de meia dúzia de pessoas que tentaram aproximar-se deles caíram mortos. Acho que todos os jornalistas do mundo receberam a incumbência de fazer uma entrevista exclusiva com os dois, mas nenhum teve a coragem de se aproximar deles. Todos já sabem quem vai ser o novo papa. E quem no mundo vai se importar com a pesquisa do rabino?"

"Opa, espere um pouco, Jim", disse Buck. "Agora você me passou a perna sobre o assunto do novo papa porque não tenho idéia de quem vai ser."

"Ora, vamos, Buck. Por onde você andou? Todos apostam no arcebispo Mathews de..."

"Cincinnati? Sério? Eu o entrevistei para o..."

"Eu sei, Buck. Eu vi. Todos aqui viram seu próximo Pulitzer."

Buck calou-se. A dimensão da inveja não teria limites?"

Borland deve ter percebido que foi longe demais. "Sinceramente, Buck, eu precisava lhe contar isso. Vai ser uma boa leitura. Mas você não tinha idéia de que ele está na mira de ser nomeado papa?"

"Nenhuma."

"Ele é um indivíduo muito astuto. Recebeu apoio de todos os lados, e penso que será eleito. Muita gente pensa o mesmo."

"Então, já que o conheço e acho que ele confia em mim, você não deveria se importar que essa reportagem faça parte do negócio."

"Oh, agora você acha que estamos fazendo um negócio, não é mesmo?" disse Jimmy.

"Por que não? Você não está louco para conseguir a reportagem de capa?"

"Buck, pensa que não sei que você vai fazer parte da delegação da ONU na assinatura do tratado e que vai usar um distintivo qualquer do Semanário Global no paletó ou no chapéu para nos dar uma colher de chá?"

"Então inclua isso em sua reportagem. 'Substituto do Editor de Religião Coloca-se ao lado do Secretário-Geral'."

"Não achei graça. Não acredito de jeito nenhum que Plank lhe dê essa oportunidade maravilhosa e depois indique outra pessoa para escrever a matéria."

"Estou lhe dizendo, Jim, que vou insistir nisso."

"Você não devia ter mais nenhum poder de barganha depois de deixar de comparecer àquela reunião de Carpathia. O que faz você pensar que Bailey lhe dará ouvidos? Agora você é apenas um articulista da sucursal de Chicago."

Buck sentiu um pontapé em seu ego, e as palavras brotaram antes que ele pudesse medi-las. "Ah, sim, apenas um articulista da sucursal de Chicago que escreveu a reportagem de capa da próxima edição e que foi designado para escrever a da semana seguinte."

"Touché!"

"Sinto muito, Jim. Desviei o assunto. Mas falo sério. Não estou blefando para fazer você pensar que seu cargo é mais importante para mim do que uma reportagem de capa. Estou convencido de que as notícias sobre religião darão reportagens mais interessantes do que a assinatura do tratado."

"Espere um pouco, Buck. Você não é um daqueles trouxas que acreditam em todas aquelas teorias proféticas e apocalípticas da Bíblia, não?"

É exatamente o que eu sou, pensou Buck, mas ele ainda não podia tornar isso público. "Você sabe se essa idéia está sendo muito divulgada?" indagou Buck.

"Você devia saber. Foi você quem escreveu a reportagem."

"Minha reportagem reproduz todas as opiniões."

"Ah, sim, mas você foi fundo na tolice do Arrebatamento. Eles adorariam ver um pouco de invencionice em todas essas histórias para enquadrá-las no plano de Deus."

"Você é o editor de religião, Jim. Eles têm uma opinião a respeito?"

"Não me parece algo que Deus teria feito."

"Você está admitindo que existe um Deus."

"É só maneira de falar."

"Que maneira?"

"Deus está em todos nós, Buck. Você conhece minha opinião."

"Sua opinião não mudou depois dos desaparecimentos?"

"Não."

"Deus estava nas pessoas que desapareceram?"

"Claro."

"Então uma parte de Deus foi embora?"

"Tem uma maneira de falar muito literal, Buck. Em seguida vai me dizer que o tratado prova que Carpathia é o Anticristo."

Como eu gostaria de convencê-lo, pensou Buck. E um dia vou tentar. "Sei que o tratado é um assunto muito importante", ele disse. "Provavelmente maior do que muita gente imagina, mas a assinatura é apenas o espetáculo. O acordo faz parte da história, e essa história foi contada."

"A assinatura talvez seja apenas o espetáculo, mas vale uma reportagem de capa, Buck. Por que você acha que não sou capaz de escrevê-la?"

"Diga-me que conseguirei as outras, e farei força para que você consiga essa."

"Negócio fechado."

"Sério?"

"Claro. Tenho certeza de que você acha que conseguiu me iludir, mas não sou mais criança, Buck. Não me importo em que grau essa reportagem de capa será classificada, depois de todas as que você já fez. Quero a reportagem para fazer parte de meu arquivo, para meus netos, essas coisas."

"Entendo."

"Ah, sim, você entende. Você tem a vida inteira pela frente e fará o dobro de reportagens de capa que já fez até agora."

 

"Chloe! Venha até aqui!"

Rayford estava de pé na sala de estar, surpreso demais para sentar-se. Tinha acabado de ligar a TV e ouviu o boletim de notícias extraordinárias.

Chloe desceu correndo a escada. "Tenho de ir à igreja", ela disse. "O que houve?"

Rayford pediu que ela se calasse e ambos passaram a prestar atenção às notícias. Um correspondente da CNN na Casa Branca estava falando. "Aparentemente esse gesto raro foi resultado de uma reunião ocorrida no início da noite de ontem entre o secretário-geral da ONU Nicolae Carpathia e o presidente Gerald Fitzhugh. Fitzhugh já assumiu a liderança entre os chefes de estado em razão de seu firme apoio à administração do novo secretário-geral, mas ao lhe ceder o novo avião presidencial, ele estabelece uma conduta totalmente nova.”

"A Casa Branca enviou o atual Air Force One para Nova York no final da tarde de ontem a fim de buscar Carpathia, e hoje foi anunciado que o vôo inaugural do novo Air Force One transportará Carpathia e não o presidente."

"O quê?" perguntou Chloe.

"A assinatura do tratado em Israel", disse Rayford.

"Mas o presidente também vai, não?"

"Sim, mas no avião antigo."

"Não entendi."

"Nem eu."

O repórter da CNN prosseguiu. "Os céticos suspeitam de um acordo por trás dos bastidores, mas foi o próprio presidente quem fez o pronunciamento na Casa Branca poucos momentos atrás."

A CNN rodou um teipe. O presidente Fitzhugh parecia perturbado. "A oposição e os cretinos que só fazem política vão ter muito o que falar sobre este gesto", disse o presidente, "mas os norte-americanos que amam a paz e todos os que estão cansados da politicagem de sempre vão comemorar. O novo avião é lindo. Já o vi. Estou orgulhoso dele. O espaço interior é suficiente para acomodar as delegações inteiras dos Estados Unidos e da ONU, mas decidi que só a delegação da ONU tem o direito de usar o avião em seu vôo inaugural.

"Até que nosso atual Air Force One passe a ser Air Force Two, batizaremos o novo 757 de 'Global Community One' (Comunidade Global Um) e o ofereceremos ao secretário-geral Carpathia com nossos votos de sucesso. Já é hora de o mundo se unir em torno deste homem apaixonado pela paz, e estou orgulhoso por ser o autor deste pequeno gesto.”

"Também exorto meus colegas do mundo inteiro a estudarem seriamente o desarmamento proposto por Carpathia. A firme defesa de nosso país tem sido elogiada por várias gerações, mas estou certo de que todos nós concordamos que a hora da verdade, do desarmamento em favor da paz, já deveria ter acontecido há muito tempo. Espero fazer um pronunciamento em breve sobre nossas decisões a este respeito."

"Papai, isso significa que você...?"

Rayford novamente pediu silêncio à filha com um gesto enquanto a CNN passava a transmitir de Nova York para uma resposta ao vivo de Carpathia.

Com os olhos fixos na câmera, Nicolae parecia estar penetrando nos olhos de cada telespectador. Sua voz era tranqüila e comovida. "Eu gostaria de expressar minha gratidão ao presidente Fitzhugh por este gesto de tanta generosidade. Nós da Organização das Nações Unidas estamos profundamente sensibilizados, agradecidos e nos consideramos indignos de tal honra. Aguardamos ansiosamente a magnífica cerimônia a realizar-se em Jerusalém na próxima segunda-feira."

"Homem, ele é engenhoso." Rayford balançou a cabeça.

"Esse é o emprego que você me contou. Você vai pilotar aquele avião?"

"Não sei. Suponho. Eu não me dei conta de que o velho Air Force One passaria a ser Air Force Two, o avião do vice-presidente. Gostaria de saber se eles vão realmente aposentar o atual piloto. Parece a dança das cadeiras. Se o atual piloto permanecer com o 747 quando ele se transformar em AF2, o que vai acontecer com o atual piloto do AF2?"

Chloe deu de ombros. "Você tem certeza de que não quer ser piloto do novo avião?"

"Mais do que nunca. Não quero nada que tenha relação com Carpathia."

 

Buck recebeu um telefonema de Alice, da sucursal de Chicago. "É melhor você ter duas linhas de telefone", ela disse, "se quiser continuar trabalhando em casa."

"Tenho duas linhas", disse Buck, "mas uma delas está ligada no computador."

"O Sr. Bailey está tentando falar com você, mas o telefone está sempre ocupado."

"Por que ele ligou para a sucursal? Ele sabe que estou em casa."

"Ele não ligou para cá. Marge Potter estava falando por telefone com Verna sobre um outro assunto e lhe contou."

"Aposto que Verna adorou saber disso."

"Claro que sim. Ela quase pulou de alegria. Acha que você está novamente com problemas com o chefe."

"Duvido."

"Sabe o que ela está imaginando?"

"Diga logo."

"Que Bailey não gostou de sua reportagem de capa e vai despedi-lo."

Buck riu.

"Não é verdade?" perguntou Alice.

"Exatamente o oposto", respondeu Buck. "Mas, por favor, não conte a Verna."

Buck agradeceu-lhe a entrega dos equipamentos no dia anterior, poupando-a da história de Chloe ter pensado que Alice era sua noiva, e desligou a fim de telefonar para Bailey. Quem atendeu foi Marge Potter.

"Buck, já estou com saudade de você", ela disse. "O que aconteceu?"

"Qualquer dia eu lhe conto tudo", ele disse. "Soube que o chefe está tentando falar comigo."

"Bem, ele me pediu que fizesse a ligação. No momento ele está com Jim Borland na sala e ouço vozes alteradas. Nunca ouvi Jim levantar a voz antes."

"Você tem ouvido Bailey levantar a voz?"

Marge riu. "Talvez duas vezes por dia. De qualquer forma, vou pedir para ele retornar sua ligação."

"É melhor você interrompê-los, Marge. Ele deve estar tentando falar comigo por causa dessa reunião."

Stanton Bailey entrou na linha quase que imediatamente. "Williams, você me faz perder a paciência agindo como se fosse um editor-executivo."

"Como assim?"

"Não é da sua conta designar reportagens de capa. Você disse a Borland que eu tinha em mente passar a ele a matéria sobre o tratado. Em seguida começou a bajulá-lo oferecendo-se para ficar com aquelas porcarias de histórias e depois passou a ele sua reportagem de capa."

"Eu não fiz isso!"

"Ele não fez isso!" gritou Borland.

"Não agüento vocês dois", disse Bailey. "Então, qual é acordo?"

 

Depois que Chloe saiu para tratar de seu novo emprego na igreja, Rayford pensou em ligar para seu chefe. Earl Halliday aguardava uma resposta o mais breve possível e provavelmente ligaria para Rayford, se ele não se pronunciasse logo.

As notícias do dia foram determinantes para selar a decisão de Rayford. Ele não podia negar o prestígio que acompanharia sua função como piloto do presidente. E ser o piloto de Carpathia provocaria mais repercussão ainda. Contudo, os motivos e sonhos de Rayford haviam dado uma guinada de 180 graus. Ser conhecido como o piloto do Air Force One — ou até mesmo do Global Community One — durante sete anos simplesmente não fazia parte de seus planos.

O tamanho da casa às vezes confundia Rayford, mesmo quando havia quatro pessoas morando ali. Em outras ocasiões ele sentiu orgulho dela. Evidenciava sua posição social, condição de vida, grau de realizações. Agora era um lugar solitário. Rayford estava muito agradecido por ter a companhia de Chloe em casa. Apesar de ter resolvido não interferir em sua decisão caso ela desejasse retornar à faculdade, não fazia idéia de como seria sua vida durante as horas de folga. Uma coisa é ocupar a mente, cuidando de tudo o que é necessário para transportar com segurança centenas de pessoas pelo ar. Outra coisa bem diferente é não ter nada para fazer em casa a não ser comer e dormir. O lugar se tornaria insuportável.

Cada cômodo, cada bugiganga, cada toque feminino o fazia recordar-se de Irene. De vez em quando, uma coisa qualquer povoava sua mente com as lembranças de Raymie. Rayford havia encontrado um pedaço do doce favorito de Raymie debaixo da almofada do sofá. Também encontrara seus livros. Havia um brinquedo escondido atrás de um vaso de planta.

Rayford estava se transformando em um homem emotivo, mas já não se preocupava muito com isso. Agora sua tristeza provocava-lhe mais uma sensação de melancolia do que de sofrimento. Quanto mais ele se aproximava de Deus, mais ansiava pelo momento de estar na presença dele, junto com Irene e com Raymie, após o Glorioso Aparecimento.

As lembranças traziam seus entes queridos mais para perto de si, tanto no pensamento como no coração. Agora, depois de convertido, ele os compreendia e os amava mais ainda. Quando o sentimento de culpa se abatia sobre Rayford, quando ele se sentia envergonhado de sua atuação como marido e como pai, ele simplesmente orava suplicando perdão por ter sido tão cego.

Naquela noite, Rayford decidiu cozinhar para Chloe. Prepararia um dos pratos favoritos da filha — camarão acompanhado de massa e outros alimentos decorativos. Ele sorriu. Apesar de todos as características negativas que a filha herdara dele, ela era uma pessoa maravilhosa. Se havia alguém que servisse de exemplo para mostrar como Cristo pode mudar a vida de um ser humano, esse alguém era Chloe. Rayford gostaria de lhe dizer isso, e o jantar era uma forma de expressar seus sentimentos. Teria sido mais fácil comprar alguma coisa para ela ou convidá-la para jantar fora, mas Rayford queria oferecer-lhe algo feito por ele.

Passou uma hora na mercearia e mais uma hora e meia na cozinha para deixar tudo pronto antes da chegada da filha. Sentiu uma certa identificação com Irene, lembrando-se de sua expressão de expectativa quase todas as noites antes de servir o jantar. Talvez ele tivesse agradecido e elogiado a esposa o suficiente. Mas somente agora compreendia que ela se esforçava para agradá-lo com o mesmo amor e devoção que ele sentia por Chloe.

Rayford nunca se dera conta disso, e suas insignificantes tentativas de elogiá-la devem ter sido feitas com muita negligência. Agora não havia mais condições de se explicar com Irene, a não ser no reino eterno, tendo Chloe a seu lado.

 

Buck desligou o telefone depois de conversar com Stanton Bailey e Jim Borland, perguntando a si mesmo por que não aceitava a proposta de Carpathia para dirigir o Chicago Tribune e encerrava o assunto. Tinha convencido ambos de que estava sendo sincero e finalmente conseguiu uma aprovação de má vontade da parte do velho, porém estava em dúvida se valia a pena ficar em situação inferiorizada novamente. Seu objetivo era compilar as reportagens religiosas da melhor maneira possível de modo que Borland aprendesse como deveria realizar seu trabalho e Bailey tivesse uma noção do que era um editor-executivo.

Buck não queria aquele cargo e mantinha a mesma opinião quando ele lhe foi oferecido por ocasião da saída de Steve Plank. Porém, esperava que Bailey encontrasse alguém que gostasse de trabalhar ali.

Digitou algumas anotações em seu computador, fazendo um resumo das incumbências que assumira na negociação com Jimmy Borland. Ele havia feito as mesmas suposições iniciais que Borland fizera sobre todas as notícias que estavam pipocando. Mas isso aconteceu antes de ter estudado as profecias, antes de saber em que lugar Nicolae Carpathia se enquadrava na história.

Agora Buck esperava que todos esses fatos acontecessem ao mesmo tempo. Naquele momento, era provável que ele estivesse trabalhando diretamente nos acontecimentos relativos ao cumprimento das profecias de séculos e séculos atrás. Quer fossem reportagens de capa ou não, esses acontecimentos causariam tanto impacto no curto período que ainda restava na história da humanidade quanto o tratado com Israel.

Buck telefonou para Steve Plank. "Você já tem uma resposta?" indagou Steve. "Alguma notícia que eu possa dar ao secretário-geral?"

"É assim que você o chama?" perguntou Buck, atônito. "Não pode chamá-lo pelo nome?"

"Preferi assim. É uma questão de respeito, Buck. Até Hattie chama-o de 'Sr. Secretário-Geral' e, segundo sei, os dois estão sempre juntos tanto no trabalho como fora dele."

"Não seja fofoqueiro. Fui eu que apresentei um ao outro."

"Você se arrepende? Apresentou ao líder mundial uma pessoa a quem ele adora e mudou a vida de Hattie para sempre."

"É disso que receio", disse Buck, percebendo que estava muito perto de revelar seus verdadeiros sentimentos a um confidente de Carpathia.

"Ela era uma pessoa totalmente desconhecida, Buck, e agora está em evidência na história." Aquilo não era o que Buck desejava ouvir, mas ele também não estava planejando dizer a Steve o que desejava ouvir. "Então, qual é o assunto, Buck?"

"Ainda não me decidi", respondeu Buck. "Você sabe qual é a minha posição."

"Não compreendo você, Buck. Onde está o problema? O que poderá não dar certo? É tudo o que você sempre quis."

"Sou um jornalista, Steve, e não um relações-públicas."

"É assim que você se refere a mim?"

"É o que você é, Steve. Não o culpo por isso, mas não finja ser o que não é."

Steve sentiu-se claramente ofendido por Buck. "Ah, sim, bem, que assim seja", disse ele. "Você me telefonou, o que deseja?"

Buck contou-lhe a respeito do acordo feito com Borland.

"Foi um grande erro", disse Steve, ainda zangado. "Você há de se lembrar que nunca o escalei para uma reportagem de capa."

"Esta não deveria ser uma reportagem de capa. As outras matérias, as que ele está me passando, essas sim são importantes."

Steve levantou a voz. "Esta seria a reportagem de capa mais importante que você teve nas mãos! Será o evento de maior cobertura jornalística da história."

"Você me diz isso e fala que não é um relações-públicas?"

"Por quê? O quê?"

"A ONU assina um tratado de paz com Israel e você acha que esse evento é mais importante do que os desaparecimentos de bilhões de pessoas no mundo inteiro?"

"Bem, sim, acho. Claro."

"'Bem, sim, acho. Claro'", arremedou Buck. "Pelo amor de Deus, Steve. A notícia é o tratado, não a cerimônia. Você sabe disso."

"Então você não irá?"

"Claro que irei, mas não junto com vocês."

"Você não quer viajar no novo Air Force One1."

"O quê?"

"Vamos, Senhor Jornalista Internacional. Mantenha-se informado, homem."

 

Rayford aguardava ansiosamente a chegada de Chloe da mesma forma que aguardava a reunião do núcleo naquela noite. Chloe lhe havia dito que Buck não queria aceitar o emprego oferecido por Carpathia tanto quando ele, Rayford, não queria aceitar o emprego na Casa Branca. Mas ninguém ouvira ainda a opinião de Bruce. Às vezes ele tinha um modo diferente de analisar a situação e quase sempre suas opiniões eram sensatas. Rayford não conseguia imaginar de que maneira essas mudanças poderiam enquadrar-se em suas vidas de recém-convertidos, mas estava ansioso para conversar e orar sobre o assunto. Olhou para seu relógio. O jantar estaria pronto em meia hora, exatamente quando Chloe disse que chegaria.

 

"Não", disse Buck, "não quero viajar até lá no Air Force One, seja ele novo ou velho. Agradeço o convite para fazer parte da delegação. Mantenho minha palavra de sentar à mesa na ocasião da assinatura, mas até mesmo Bailey concorda que devo viajar por conta do Semanário Global."

"Você contou a Bailey sobre nossa proposta?!"

"Não sobre a proposta de emprego, evidentemente. Mas sobre viajar com a delegação, sim."

"Por que você acha que sua viagem a Nova York foi tão sigilosa, Buck? Acha que queríamos que o Semanário soubesse?"

"Imaginei que vocês não queriam que ele soubesse que me ofereceram um emprego, e não lhe contei isso. Mas como eu lhe explicaria o fato de estar em Israel por ocasião da assinatura?"

"Esperávamos que você não se importasse que o seu então ex-chefe soubesse."

"Não faça suposições, Steve", disse Buck.

"Nem você, Buck."

"Como assim?"

"Não pense que essa excelente proposta vai ficar à sua disposição sobre a mesa se você fizer pouco caso como fez da última vez."

"Então o emprego está ligado à minha viagem como relações públicas?"

"Se é assim que você entende."

"A idéia não me agrada, Steve."

"Sabe, Buck, não tenho certeza se nesta altura dos acontecimentos você é o homem talhado para política e jornalismo."

"Concordo que isso é querer me rebaixar mais ainda."

"Não foi minha intenção. De qualquer forma, você se lembra das previsões de seu chefão sobre a nova moeda mundial? Que tal coisa nunca aconteceria? Assista ao noticiário de amanhã, companheiro. E lembre-se que foi obra de Nicolau Carpathia, diplomacia nos bastidores."

Buck já conhecia a suposta diplomacia de Carpathia. Com essa mesma diplomacia ele conseguira que o presidente dos Estados Unidos lhe cedesse um 757 novinho em folha, isso sem mencionar as testemunhas de um assassinato que acreditaram ser suicídio.

Estava na hora de falar de sua viagem a Bruce.

 

"Rayford, você pode vir até aqui?" "Quando, Earl?"

"Já. Grandes novidades sobre o novo Air Force One. Você ouviu?"

"Sim, estão em todos os noticiários."

"É só me dar a sua palavra e estará voando naquele avião para Israel tendo Nicolae Carpathia a bordo."

"Ainda não estou preparado para me decidir."

"Ray, preciso de você aqui. Você vem ou não?"

"Hoje não, Earl. Estou no meio de uma tarefa neste momento e pretendo encontrar com você amanhã."

"O que há de tão importante nessa tarefa?"

"É assunto pessoal."

"O quê! Não me diga que arrumou um emprego de cozinheiro!"

"Estou cozinhando, mas não é um emprego. Estou preparando o jantar para minha filha."

Rayford não ouviu mais nenhuma palavra do outro lado da linha durante alguns instantes. Finalmente: "Rayford, sou totalmente a favor de dar prioridade à família. Só Deus sabe quantos dos nossos pilotos são mal casados e têm problemas com os filhos. Mas sua filha..."

"Chloe."

"Certo, ela tem idade para estar na faculdade, certo? Ela compreenderia, não é mesmo? Não poderia retardar o jantar com o papai por algumas horas, sabendo que ele está prestes a conseguir o melhor emprego de piloto do mundo?"

"Conversaremos amanhã, Earl. Vou para Baltimore no final da manhã e retornarei no final da tarde. Poderei me encontrar com você antes de partir."

"Nove horas?"

"Ótimo."

"Rayford, preciso alertá-lo: os outros sujeitos daquela pequena lista devem estar babando por causa desse emprego. Aposto que estão recorrendo aos seus conhecidos, pedindo apoio, tentando descobrir quem tem mais influência, essas coisas."

"Ótimo. Talvez um deles consiga e não vou ter de me preocupar mais com isso."

Earl Halliday parecia agitado. "Agora, Rayford...", ele começou a falar, mas Rayford o interrompeu.

"Earl, é melhor você e eu não perdermos tempo agora. Vamos conversar amanhã cedo. Você já sabe minha resposta e só não lhe confirmei ainda porque você me pediu para aguardar até amanhã em nome de nossa amizade. Estou pensando no assunto, orando por ele e conversando com pessoas que me dizem respeito. Não vou me atormentar nem me envergonhar de minha atitude. Se eu recusar um emprego que todos querem, e depois vier a me arrepender, será problema meu."

 

Buck estava entrando no estacionamento da Igreja Nova Esperança no momento em que Chloe saía. Eles emparelharam os carros e baixaram os vidros. "Oi, garotinha", disse Buck, "você sabe alguma coisa sobre esta igreja?"

Chloe sorriu. "Só sei que lota todos os domingos."

"Ótimo, vou começar a freqüentá-la. Então, aceitou o emprego?"

"Eu deveria lhe fazer a mesma pergunta."

"Eu já tenho um emprego."

"Parece que também já tenho um", ela disse. "Aprendi mais hoje do que durante um ano inteiro na faculdade."

"Como você agiu com Bruce? Quero dizer, contou-lhe que já sabe que foi ele quem enviou as flores?"

Chloe olhou por cima dos ombros, receando que Bruce pudesse ouvir. "Vou contar tudo a você", ela disse. "Quando tivermos tempo."

 

"Pelo cheiro, é o que estou pensando?" disse Chloe entusiasmada, vindo da garagem. "Camarões ao molho?" Entrou na cozinha e deu um beijo no pai. "Meu prato predileto! Quem são os convidados?"

"A convidada de honra acaba de chegar", ele disse. "Você prefere fazer a refeição na sala de jantar? Poderemos levar tudo para lá rapidamente."

"Não, aqui está ótimo. Qual é o motivo?"

"Seu novo emprego. Fale-me dele."

"Papai! O que deu em você?"

"Liberei o meu lado feminino", ele disse.

"Ora, por favor!" ela suspirou. "Tudo menos isso!"

Durante o jantar ela contou ao pai o serviço que Bruce lhe passara e todas as pesquisas e estudos que já havia feito.

"Então, é isso que você vai fazer?"

"Aprender, estudar e ganhar dinheiro? Acho que é uma tarefa fácil, papai."

"E sobre Bruce?"

Ela fez um movimento afirmativo com a cabeça. "E sobre Bruce?"

Enquanto Rayford e Chloe lavavam a louça do jantar, ele ouviu o relato da filha sobre seu embaraçoso encontro com Bruce. "Então quer dizer que ele não confessou ter enviado as flores?"

"Foi muito estranho, papai", ela disse. "Tentei várias vezes puxar o assunto da solidão e do quanto nós quatro necessitávamos um do outro, mas ele pareceu não captar a mensagem. Depois de concordar que todos nós estávamos carentes, ele sempre voltava ao assunto do estudo ou de outra coisa que desejava que eu examinasse. Finalmente eu falei que estava curiosa acerca dos relacionamentos amorosos durante este período da história, e ele disse que abordaria o assunto hoje à noite. Disse também que outras pessoas o haviam procurado recentemente para falar deste mesmo assunto e, como ele também tinha algumas dúvidas, resolveu aprofundar-se no estudo."

"Talvez ele esclareça tudo esta noite."

"Não é uma questão de esclarecer, papai. Não acho que Bruce vai confessar diante de você e de Buck que foi ele quem enviou as flores. Talvez possamos ler nas entrelinhas e descobrir por que ele fez isso."

Buck ainda estava no escritório de Bruce quando Rayford e Chloe chegaram. Bruce iniciou a reunião da Força Tribulação naquela noite, pedindo a permissão do grupo para contar o que estava acontecendo na vida de cada um deles. Todos concordaram.

Depois de resumir as propostas recebidas por Buck e Rayford, Bruce disse que precisava confessar que não se sentia à altura de ser o pastor de uma igreja de crentes recém-convertidos. "Eu ainda me sinto envergonhado todos os dias. Sei que fui perdoado e redimido, porém viver uma vida de mentiras durante trinta anos é desgastante demais para qualquer pessoa. Apesar de Deus ter dito que nossos pecados estão afastados dele assim como o Oriente está distante do Ocidente, para mim é difícil esquecer." Bruce também admitiu sua solidão e fadiga. "Principalmente", prosseguiu ele, "quando penso nessa tarefa de viajar para tentar unir os pequenos focos que a Bíblia chama de 'santos da tribulação'."

Buck desejava ir direto ao assunto e perguntar por que ele não havia assinado o cartão das flores de Chloe, mas achou que não seria conveniente. Bruce passou, então, a falar das novas oportunidades de trabalho recebidas por Rayford e Buck. "Talvez minha opinião escandalize a todos vocês por eu não ter-me manifestado até o momento, mas acho que vocês dois, Buck e Rayford, deveriam pensar seriamente em aceitar essas propostas."

Essas palavras causaram grande alvoroço nos participantes da reunião. Foi a primeira vez que os quatro falaram com tanta firmeza sobre seus assuntos pessoais. Buck mantinha a opinião de que jamais seria capaz de viver em paz consigo mesmo se abrisse mão de seus princípios jornalísticos, passando a manipular as notícias e ser manipulado por Carpathia. Ele tinha a impressão de que Rayford ainda não se deixara influenciar pela proposta, mas concordava com Bruce que o amigo deveria estudá-la.

"Rayford", disse Buck, "o fato de você não estar ansioso por aceitar é um bom sinal. Se estivesse ansioso depois de saber tudo o que sabe agora, estaríamos todos preocupados com você. Mas pense na oportunidade de ficar perto dos corredores do poder."

"Qual seria a vantagem?" perguntou Rayford.

"Talvez pouca no âmbito pessoal", respondeu Buck, "a não ser pela remuneração. Mas será que essa aproximação com o presidente não seria uma grande vantagem para todos nós?"

Rayford disse a Buck que considerava um erro pensar que o piloto oficial da Casa Branca tem a oportunidade de estar mais bem informado sobre a vida do presidente do que qualquer outra pessoa que leia os jornais diariamente.

"Talvez isso se aplique à situação do momento", disse Buck. "Mas se Carpathia adquirir os principais órgãos de imprensa, alguém que trabalhe próximo do presidente será um dos poucos a saber o que realmente acontece."

"Uma razão a mais para você trabalhar para Carpathia", disse Rayford.

"Talvez eu devesse aceitar o seu emprego e você o meu", disse Buck, provocando risos.

"Vejam só o que está acontecendo aqui", disse Bruce. "Nós quatro enxergamos a situação alheia com mais clareza e mais objetividade do que enxergamos a nossa própria situação.”

Rayford deu uma risadinha. "Você está dizendo que Buck e eu estamos sendo contraditórios."

Bruce sorriu. "Talvez. É possível que Deus tenha colocado essas coisas no caminho de vocês só para testar seus objetivos e o quanto são leais a ele, mas elas parecem grandes demais para serem desprezadas."

Buck perguntou a si mesmo se Rayford se sentia tão indeciso quanto ele. Antes, estava plenamente convicto de que jamais aceitaria a proposta de Carpathia. Agora, não sabia o que pensar. Chloe rompeu o silêncio. "Acho que vocês dois deveriam aceitar os empregos."

Buck achou estranho Chloe ter aguardado os quatro se reunirem para se pronunciar, e era evidente que seu pai pensava o mesmo. "Você disse antes que eu deveria pensar no assunto, Chio", disse Rayford, "e agora tem certeza de que devo aceitar?"

Chloe assentiu com a cabeça. "Não por causa do presidente. Por causa de Carpathia. Se Carpathia for o que estamos pensando, e isso nós quatro já sabemos, em breve ele será mais poderoso do que o presidente dos Estados Unidos. Pelo menos um de vocês deverá estar perto dele sempre que possível."

"Eu estive perto dele uma vez", disse Buck, "e foi o suficiente."

"Acho que vocês dois estão preocupados com sua própria segurança e equilíbrio mental", pressionou Chloe. "Sei o quanto aquela cena foi horrível para você, Buck. Mas se não houver alguém firme por perto, Carpathia vai ludibriar todo mundo."

"Mas assim que eu abrir a boca para dizer o que realmente está acontecendo", disse Buck, "serei eliminado."

"Talvez. Mas talvez Deus o proteja. Talvez vocês dois venham a ter condições de nos dizer o que está acontecendo para que possamos transmitir aos crentes."

"Eu teria de abandonar todos os meus princípios jornalísticos."

"E esses princípios são mais sagrados do que suas responsabilidades para com seus irmãos e irmãs em Cristo?"

Buck não sabia como responder. Essa era uma das características da personalidade de Chloe que ele tanto admirava. Porém, a independência e a integridade sempre estiveram tão enraizadas dentro de si desde o início de sua carreira jornalística que Buck não conseguia sequer pensar em fingir ser o que não era. A idéia de ocupar o cargo de editor e, ao mesmo tempo, fazer parte da folha de pagamento de Carpathia não lhe passava pela cabeça.

Bruce virou-se subitamente e passou a concentrar-se em Rayford. Buck ficou satisfeito por deixar de ser o foco das atenções, mas entendia como Rayford se sentia. "Acho que sua decisão é mais fácil de ser tomada, Rayford", disse Bruce. "Basta impor algumas condições, como, por exemplo, morar aqui desde que isso seja importante para você, e pôr à prova a seriedade deles."

Rayford estava confuso. Olhou para Buck. "Se colocássemos o assunto em votação, seriam três contra um?"

"Eu poderia perguntar o mesmo", disse Buck. "Aparentemente somos os únicos a achar que não devemos aceitar esses empregos."

"Talvez você deva", disse Rayford, em tom de brincadeira.

Buck riu. "Estou propenso a pensar que devo ter sido cego, ou pelo menos míope."

Rayford disse que também não sabia o que ele próprio estava propenso a pensar. Bruce sugeriu que todos se ajoelhassem para orar... algo que eles costumavam fazer reservadamente, mas não em grupo. Bruce empurrou sua cadeira para o outro lado da escrivaninha e os quatro ajoelharam-se. Rayford sempre se comoveu ao ouvir outras pessoas orando. Desejava que Deus lhe dissesse de forma audível o que deveria ser feito, mas quando ele orou, simplesmente pediu a Deus que esclarecesse a mente de todos.

Enquanto permanecia ajoelhado, Rayford se deu conta de que precisava submeter-se à vontade de Deus... novamente. Aparentemente essa deveria ser uma atitude diária, despojar-se de todas as coisas pessoais, racionais e mesquinhas às quais ele se apegava.

Rayford sentia-se tão insignificante, tão imperfeito diante de Deus que desejava render-se a ele de maneira mais submissa ainda. Curvou-se mais um pouco, apoiou as mãos no chão, encostou o queixo no peito, e mesmo assim continuava a sentir-se arrogante, em evidência. Bruce estava orando em voz alta, mas parou repentinamente. Ao perceber que ele chorava em silêncio, Rayford sentiu um nó na garganta. Apesar de sentir falta de Irene e Raymie, ele estava profundamente grato por Chloe, por sua própria salvação e por seus amigos.

Ajoelhado diante de sua cadeira, com o rosto enterrado nas mãos, Rayford orava silenciosamente. Obedeceria à vontade de Deus, mesmo que não fizesse sentido do ponto de vista humano. A sensação opressiva de ser uma criatura indigna parecia aniquilá-lo e ele prostrou-se no chão sobre o carpete. Por um breve instante veio-lhe à mente a posição ridícula em que se encontrava, mas afastou rapidamente esse pensamento. Ninguém estava olhando nem prestando atenção. E se alguém viesse a pensar que aquele orgulhoso piloto havia perdido o juízo, estaria certo.

Rayford esticou seu longo corpo no chão, enterrando o rosto nas palmas das mãos sobre o áspero carpete. De vez em quando um deles orava alto por alguns instantes, e

Rayford percebeu que todos estavam com o rosto encostado no chão.

Rayford perdeu a noção do tempo. Sabia apenas vagamente que haviam se passado alguns minutos sem que ninguém dissesse nada. Ele nunca sentira antes a presença de Deus de forma tão real. Essa era a verdadeira sensação de pisar em solo sagrado, a mesma que Moisés deve ter sentido quando Deus lhe pediu que tirasse as sandálias dos pés. Rayford desejava afundar-se ainda mais no carpete, poder cavar um buraco no chão e ocultar-se da pureza e poder infinito de Deus.

Ele não tinha certeza de quanto tempo permaneceu ali orando, ouvindo. Depois de alguns instantes, ouviu Bruce levantar-se e sentar-se, cantarolando um hino. Em seguida, os outros três começaram a cantar em voz baixa e voltaram a sentar-se. Todos tinham os olhos banhados em lágrimas. Finalmente Bruce falou.

"Tivemos uma experiência muito rara", ele disse. "Acho que precisamos selar esse acontecimento com uma renovação de compromisso com Deus e com cada um de nós. Se houver algo entre nós que necessite ser confessado ou perdoado, não devemos sair daqui sem fazer isso. Chloe, ontem à noite você abordou alguns assuntos importantes, sem deixar claro o que pretendia."

Rayford olhou de relance para Chloe. "Peço desculpas", ela disse. "Foi um mal-entendido. Já está esclarecido."

"Não vamos precisar de uma reunião para discutir a pureza sexual durante a Tribulação?"

Ela sorriu. "Não, acho que o assunto está bastante claro para todos nós. No entanto, há uma coisa que eu gostaria de esclarecer e lamento fazer esta pergunta diante de todos..."

"Não há problema", disse Bruce. "Faça."

"Bem, recebi flores de um anônimo e gostaria de saber se esse gesto partiu de alguém desta sala."

Bruce olhou ao redor. "Buck?"

"Não", respondeu ele, com um leve sorriso. "Já fui castigado por ser considerado suspeito."

Em seguida, Bruce olhou para Rayford, que apenas sorriu balançando negativamente a cabeça.

"Então só restei eu", disse Bruce.

"Você?" perguntou Chloe.

"Você limitou suas suspeitas às pessoas que estão aqui nesta sala, não foi?"

Chloe fez um movimento afirmativo com a cabeça.

"Acho que você deverá ampliar a lista de suspeitos", disse Bruce, corando. "Não fui eu, mas sinto-me lisonjeado por ser um deles. Gostaria de ter tido essa idéia."

A surpresa de Rayford e Chloe deve ter-se evidenciado, porque Bruce imediatamente passou a dar explicações. "Oh, não é o que vocês estão pensando", disse Bruce. "Acontece que... bem, acho que enviar flores é um gesto maravilhoso e espero que você tenha gostado de recebê-las, Chloe, não importa de quem tenham partido."

Bruce pareceu aliviado ao mudar de assunto e voltar ao tema principal da reunião. Pediu que Chloe falasse de suas pesquisas naquele dia. Às dez horas, quando todos já estavam prontos para partir, Buck virou-se para Rayford. "Por mais maravilhosos que tenham sido estes momentos de oração, não recebi nenhuma orientação direta sobre o que fazer."

"Nem eu."

"Só vocês não receberam", disse Bruce olhando de relance para Chloe, que concordou com um movimento de cabeça. "Ficou claro para nós o que vocês devem fazer. E ficou claro para cada um de vocês o que o outro deve fazer. Mas ninguém poderá tomar decisões por vocês."

Buck acompanhou Chloe até a saída da igreja.

"Foi uma maravilha", ela disse.

Ele assentiu. "Não sei o que seria de mim sem aqueles dois."

"Aqueles dois?" Ela sorriu. "Você não deveria ter dito sem vocês?"

"Como eu poderia dizer isso a alguém que tem um admirador secreto?"

Ela piscou para ele. "Talvez você saiba melhor que eu."

"Falando sério, quem você acha que é?"

"Nem sei por onde começar."

"Há tantas possibilidades assim?"

"Poucas. Para falar a verdade, nenhuma."

 

Rayford estava começando a imaginar que Hattie Durham tinha algo a ver com as flores de Chloe, mas não queria mencionar essa desconfiança à filha. Que espécie de idéia maluca teria passado pela mente de Hattie para maquinar tal coisa? Seria outro de seus trotes?

Na manhã de quarta-feira, Rayford teve a surpresa de ver o presidente da Pan-Con, Leonard Gustafson, no escritório de Earl em O'Hare. Já se encontrara com ele duas vezes. Quando desceu do elevador no piso inferior, Rayford deveria ter imaginado que havia algo anormal. O lugar parecia diferente. Mesas bem arrumadas, funcionários atarefados, gravatas com laços impecáveis e nenhum sinal de desorganização. As pessoas lançavam olhares inquiridores enquanto Rayford caminhava em direção ao escritório de Earl.

Gustafson, um ex-militar, era mais baixo que Rayford e mais magro que Earl, mas sua presença ali parecia tomar conta do pequeno escritório de Earl. Havia uma cadeira extra na sala. Quando Rayford entrou, Gustafson levantou-se rapidamente, com a capa de uniforme ainda pendurada no braço, e cumprimentou-o efusivamente.

"Steele, como vai você, homem?" ele disse, apontando uma cadeira como se estivesse em seu próprio escritório. "Precisei vir a Chicago hoje para tratar de outro assunto, e quando soube que você tinha um encontro com Earl, bem... quis passar por aqui para felicitá-lo e liberá-lo e desejar-lhe muito sucesso."

"Liberar-me?"

"Bem, não para demiti-lo, é claro, mas para deixá-lo à vontade. Fique tranqüilo porque não haverá nenhum ressentimento de nossa parte. Você teve uma carreira extraordinária, ou melhor, brilhante na Pan-Con. Sentiremos sua falta e estamos orgulhosos de você."

"A notícia já foi liberada oficialmente?" indagou Rayford.

Gustafson deu uma sonora gargalhada. "A notícia poderá ser liberada imediatamente e fazemos questão de divulgá-la. Isso será motivo de orgulho para você tanto quanto para nós. Você é dos nossos e a partir de agora será dele. Você nem está acreditando, não?"

"Os outros candidatos foram eliminados?"

"Não, mas temos informações confidenciais de que o emprego é seu, se você quiser."

"Como foi possível? Houve troca de favores?"

"Não, Rayford, trata-se de uma coisa meio maluca. Você deve ter amigos influentes."

"Para ser franco, não. Não tive nenhum contato com o presidente e não conheço nenhum de seus assessores."

"Aparentemente você foi recomendado pelo pessoal de Carpathia. Você o conhece?"

"Nunca o vi."

"Conhece alguém que o conheça?"

"A bem da verdade, conheço", murmurou Rayford.

"Você deu a cartada na hora certa", disse Gustafson, dando uma leve palmada no ombro de Rayford. "Você é perfeito para a função, Steele. Estaremos torcendo por você."

"Então não posso recusar, se quiser?"

Gustafson sentou-se, com o corpo inclinado para frente e os cotovelos apoiados nos joelhos. "Earl me contou que você estava apreensivo. Não cometa o maior erro de sua vida, Rayford. Você quer esse emprego. Sabe que quer. Ele está em suas mãos. Agarre-o. Eu o agarraria. Earl o agarraria. Qualquer outra pessoa da lista daria tudo por ele."

"E tarde demais para eu cometer o maior erro de minha vida", disse Rayford.

"Como é que é?" perguntou Gustafson, mas Rayford viu Earl tocar no braço dele, como se o estivesse lembrando de que estava lidando com um fanático religioso que acreditava ter perdido a oportunidade de ir para o céu. "Ah, sim, entendi. Eu quis perguntar desde quando é tarde demais", emendou Gustafson.

"Sr. Gustafson, como é possível Nicolae Carpathia determinar ao presidente quem deve ser o piloto de seu avião?"

"Não sei! E daí? Política é política, seja ela da parte dos democratas ou republicanos, como acontece neste país, ou da parte dos trabalhistas ou bolcheviques em outro lugar qualquer."

Rayford não gostou muito da analogia, mas não podia discutir sua lógica. "Então alguém está fazendo negociatas e eu sou apenas o instrumento."

"Não é o que acontece com todos nós?" disse Gustafson. "Mas todos amam Carpathia. Ele parece estar acima da política. Se eu tivesse o poder de adivinhar, diria que o presidente está lhe cedendo o novo 757 só porque gosta dele."

Ah, sim, pensou Rayford, e eu sou o coelhinho da Páscoa.

"Então, vai aceitar o emprego?"

"Nunca fui pressionado a aceitar um emprego."

"Você não está sendo pressionado, Rayford. Gostamos muito de você. Apenas não teríamos como justificar por que um de nossos melhores pilotos recusou o melhor emprego do mundo."

"E sobre meu prontuário? Houve o registro de uma queixa contra mim."

Gustafson deu um sorriso de compreensão. "Uma queixa? Não ouvi falar de queixa nenhuma. Você ouviu, Earl?"

"Nada chegou à minha mesa, senhor", ele disse. "E se tivesse chegado, teria sido encaminhada imediatamente."

"A propósito, Rayford", disse Gustafson, "você conhece bem Nicholas Edwards?"

Rayford fez um movimento afirmativo com a cabeça.

"Ele é seu amigo?"

"Foi meu primeiro-piloto duas vezes. Gostaria de pensar que somos amigos."

"Você soube que ele foi promovido a capitão?"

Rayford balançou negativamente a cabeça. Política, ele pensou, carrancudo.

"Bom, não?" disse Gustafson.

"Muito bom", disse Rayford, com a cabeça rodando.

"Há outra coisa atrapalhando seu caminho?" perguntou Gustafson.

Rayford percebeu que suas desculpas estavam acabando. "No mínimo eu teria de permanecer aqui em Chicago, e mesmo assim não estou afirmando que vou aceitar o emprego."

Gustafson fez um trejeito com a boca e balançou a cabeça. "Earl já me contou isso. Não compreendo. Achei que você gostaria de estar longe daqui, longe das lembranças de sua mulher e de sua filha."

"Filho."

"Sim, o que estava na faculdade."

Rayford não o corrigiu, mas viu Earl estremecer levemente.

"De qualquer forma", disse Gustafson, "você poderia afastar sua filha de quem a esteja perseguindo e..."

"Como?"

"...e arrumar um bom lugar para morar nos arredores de Washington."

"Perseguindo?"

"Bem, talvez isso não seja tão evidente ainda, Rayford, mas com certeza eu não ia gostar que minha filha recebesse presentes anônimos de quem quer que fosse."

"Mas como o senhor...?"

"Rayford, você nunca se perdoaria se algo acontecesse à sua filha se tivesse a oportunidade de afastá-la de quem a esteja ameaçando."

"Minha filha não está sendo perseguida nem ameaçada! Do que o senhor está falando?"

"Estou falando das rosas ou de um buquê de flores. O que está por trás disso?"

"É o que eu gostaria de saber. Até onde sei, apenas três pessoas, além da que enviou as flores, sabe disso. Como o senhor descobriu?"

"Não me lembro. Alguém já mencionou que às vezes uma pessoa tem um bom motivo para sair de onde está da mesma forma que tem um bom motivo para aceitar uma nova oportunidade."

"Mas se o senhor não estiver me pressionando, não terei nenhum motivo para sair de onde estou."

"Nem mesmo se sua filha estiver sendo seguida por alguém?"

"Qualquer um que queira seguir minha filha poderá encontrá-la tanto em Washington quanto aqui com a mesma facilidade", disse Rayford.

"Mas ainda..."

"Não me agrada a idéia de que o senhor esteja sabendo disso."

"Não recuse um emprego que vale uma vida inteira só por causa de um mistério insignificante."

"Não é insignificante para mim."

"Gustafson levantou-se. "Não estou acostumado a implorar para que façam o que peço."

"Então, se eu não aceitar o emprego, estarei liquidado na Pan-Con?"

"Deveria estar, mas acho que teríamos de enfrentar um processo de sua parte depois de termos incentivado você a aceitar o emprego de piloto do presidente."

Rayford não tinha nenhuma intenção de dar entrada em um processo, mas permaneceu calado.

Gustafson sentou-se novamente. "Faça-me um favor", ele disse. "Vá até Washington. Converse com algumas pessoas, principalmente com os assessores do presidente. Diga-lhes que concorda em pilotar o avião que voará até Israel para a assinatura do tratado de paz. Depois decida o que fazer. Você me faria esse favor?"

Rayford sabia que Gustafson jamais lhe diria quem o informou a respeito das flores de Chloe e achou que o melhor seria perguntar a Hattie. "Sim", respondeu ele. "Farei isso."

"Ótimo!" disse Gustafson, cumprimentando Rayford e Earl. "Penso que já percorremos metade do caminho. Earl, providencie para que o vôo de hoje de Rayford para Baltimore seja o último antes de sua viagem a Israel. Ou melhor, como Rayford estará bem perto de Washington, arrume outro piloto para trazer o avião de volta de modo que ele possa encontrar-se com o pessoal da Casa Branca ainda hoje. Você pode providenciar isso?"

"Já está providenciado, senhor."

"Earl", disse Gustafson, "se você fosse dez anos mais novo, seria o homem ideal para esse emprego."

Rayford percebeu uma expressão de mágoa no rosto de Earl. Gustafson não sabia o quanto Halliday havia desejado aquela posição. No caminho para tomar o avião, Rayford verificou sua caixa de correspondência. Entre outros pacotes e memorandos internos havia um bilhete. Dizia simplesmente o seguinte: "Obrigado por seu aval à minha recente promoção. Agradeço muito. E boa sorte a você. Capitão Nicholas Edwards."

Algumas horas depois, quando saía da cabina de piloto de seu 747 em Baltimore, Rayford deparou com um funcionário da Pan-Con que lhe entregou as credenciais para entrar na Casa Branca. Assim que lá chegou, passou com facilidade pelo portão. Um segurança cumprimentou-o pelo nome e desejou-lhe boa sorte. Quando finalmente chegou ao escritório de um assistente do chefe de gabinete, Rayford deixou claro que concordava apenas em ser o piloto do avião que voaria para Israel na segunda-feira da semana seguinte.

"Muito bem", disse o assistente. "Já começamos a providenciar a checagem de suas referências e atestado de idoneidade, a investigação no FBI e a entrevista com o Serviço Secreto. Como esse processo é um pouco demorado, por ora o senhor poderá demonstrar suas aptidões para nós e para o presidente, sem ser responsável por ele, até que as investigações sobre sua vida sejam finalizadas.”

"Então, os senhores estão me autorizando a transportar o secretário-geral da ONU com menos burocracia do que necessitam para o presidente?"

"Exatamente. De qualquer forma, o senhor já foi aprovado pela ONU."

"Fui?"

"Foi."

"Por quem?"

"Pelo próprio secretário-geral.”.

 

Buck estava falando ao telefone com Marge Potter, do Semanário Global em Nova York, quando tomou conhecimento da notícia. O mundo inteiro passaria a usar o dólar como moeda corrente dentro de um ano. O plano seria iniciado e dirigido pela Organização das Nações Unidas, sendo que um décimo do imposto de um por cento sobre cada dólar seria revertido à ONU.

"Parece razoável, não?" perguntou Marge.

"Pergunte ao editor financeiro, Marge", disse Buck. "A arrecadação será de montanhas de dinheiro por ano."

"E o que representa isto?"

"Mais do você e eu somos capazes de contar", disse Buck, com um suspiro. "Você ficou de fazer alguns contatos, Marge, a respeito de encontrar alguém que pudesse ajudar a organizar as entrevistas sobre religião."

Ele percebeu que Marge mexia em papéis sobre a mesa. "O pessoal ligado à religião universal está aqui em Nova York", ela disse. "Eles irão embora na sexta-feira, mas poucos seguirão para Israel. Tentaremos entrar em contato com aqueles dois malucos do Muro das Lamentações, mas os entendidos daqui aconselham a não contarmos com isso."

"Vou aproveitar as oportunidades."

"E para onde você quer que seus restos mortais sejam enviados?"

"Vou sobreviver."

"Ninguém conseguiu."

"Não vou ameaçá-los, Marge. Vou ajudá-los a divulgar a mensagem deles."

"Se é que eles têm."

"Você entende por que precisamos fazer uma reportagem sobre eles."

"A vida é sua, Buck."

"Obrigado."

"E quando você estiver por aqui, será conveniente ter um encontro com o cardeal Mathews. Ele está viajando constantemente de Nova York até a arquidiocese de Cincinnati para participar das reuniões da religião universal. Em seguida, irá para o Vaticano para a eleição do papa, logo após a assinatura do tratado na próxima segunda-feira."

"Ele estará em Jerusalém?"

"Ah, sim. Se o cardeal Mathews for eleito o novo papa, há rumores de que ele fará alguns contatos em Jerusalém para erigir ali um santuário ou coisa parecida. Mas os católicos jamais deixarão o Vaticano, não?"

"Nunca se sabe, Marge."

"Bem, isso é verdade. Mal tenho tempo para pensar nessas coisas porque estou sempre trabalhando para você e para todo o pessoal daqui que não consegue andar com as próprias pernas."

"Você é excelente, Marge."

"A bajulação vai atrapalhar você."

"Atrapalhar no quê?"

"Sei lá, vai atrapalhar."

"E quanto ao assunto do rabino?"

"O rabino recusa-se a dar qualquer entrevista antes de apresentar os resultados de sua pesquisa."

"E quando vai ser isso?"

"Fiquei sabendo hoje que a CNN lhe está concedendo uma hora ininterrupta em sua comunicação internacional via satélite. Os judeus do mundo inteiro poderão ver o programa ao mesmo tempo, mas evidentemente alguns terão de acordar no meio da noite."

"E esse programa, quando será?"

"Na segunda-feira à tarde, após a assinatura do tratado, que será às dez da manhã, horário de Jerusalém. O pronunciamento do rabino Ben-Judá irá ao ar durante uma hora, a partir das duas da tarde."

"Um plano muito astuto. O programa irá ao ar exatamente quando a nata da imprensa mundial estiver em Jerusalém."

"Todos aqueles religiosos são astutos, Buck. O indivíduo que provavelmente será o novo papa estará presente por ocasião da assinatura do tratado, fazendo média com os israelitas. O rabino se considera tão importante que a assinatura do tratado terá um brilho muito maior em razão da leitura de sua pesquisa. Com certeza, naquele momento estarei assistindo ao meu programa favorito de TV. Não quero ver de maneira nenhuma essa baboseira."

"Ora, vamos, Marge. Ele vai contar como você poderá encontrar o Messias."

"Não sou judia."

"Também não sou judeu, mas eu gostaria muito de poder reconhecer o Messias. E você?"

"Você está querendo me tirar do sério para que eu lhe diga a verdade pelo menos uma vez, Buck? Acho que já vi o Messias. Acho que o conheço. Se é que existe realmente alguém enviado por Deus para salvar o mundo, acho que esse alguém é o novo secretário-geral da ONU."

Buck sentiu um calafrio.

 

O nome de Rayford constava da lista de prioridade como passageiro de primeira classe para o próximo vôo de Baltimore para Chicago. Ele telefonou para Chloe do aeroporto informando que chegaria um pouco mais tarde.

"Hattie Durham está à sua procura."

"O que ela quer?"

"Está tentando marcar uma entrevista entre você e Carpathia antes que você seja seu piloto."

"Serei seu piloto na viagem de ida e volta a Tel-Aviv. Por que deveria encontrar-me com ele?"

"Talvez seja por esse motivo que ele queira ver você antes. Hattie lhe contou que você é cristão."

"Que maravilha! Ele jamais vai confiar em mim."

"Talvez ele queira vigiá-lo."

"De qualquer forma, preciso conversar com Hattie pessoalmente. Quando Carpathia quer me ver?"

"Amanhã."

"De repente, minha vida passou a ser muito agitada. Você tem alguma novidade?"

"Hoje recebi mais um presente de meu admirador secreto", ela disse. "Bombons, desta vez."

"Bombons!" exclamou Rayford, assustado depois do que ouviu de Leonard Gustafson. "Você não comeu nenhum, não?"

"Ainda não. Por quê?"

"Não toque nessa coisa antes de saber quem mandou."

"Ora, papai!"

"Nunca se sabe, querida. Por favor, não corra riscos."

"Está bem, mas são meus bombons prediletos! Parecem apetitosos.”

"Não tente abri-los até sabermos de onde vieram, está bem?"

"Está bem, mas você vai querer experimentar um. São iguais aos que você sempre me traz de Nova York, daquela pequena rede de lojas de departamentos."

"Bombons Windmill com recheio de hortelã, da Holman Meadows?"

"Exatamente."

Aquilo era o maior dos insultos. Quantas vezes Rayford havia mencionado a Hattie que precisava comprar bombons com recheio de hortelã naquela loja durante suas escalas em Nova York! Ela chegou a acompanhá-lo mais de uma vez. Então Hattie não estava tentando esconder que partiam dela os misteriosos presentes. Qual seria o objetivo? Não poderia ser uma vingança uma vez que ele sempre a tratara como cavalheiro. O que isso tinha a ver com Chloe? Será que Carpathia tinha conhecimento — ou estava por trás — de uma coisa tão banal?

Rayford descobriria, disso ele tinha certeza.

 

Buck sentia-se animado novamente. Depois dos desaparecimentos, sua vida esteve tão tumultuada que ele pensava consigo mesmo se conseguiria voltar à rotina agitada da qual tanto gostava. Sua jornada espiritual não tinha nada a ver com seu rebaixamento de cargo e transferência. Mas agora ele parecia ter voltado a cair nas graças da diretoria do Semanário Global, e usara sua sensibilidade para fazer a troca das reportagens consideradas por ele as mais sensacionais do mundo inteiro.

Sentou-se em seu escritório doméstico improvisado e voltou a fazer suas tarefas costumeiras, tais como enviar fax e e-mails, trabalhar com Marge e com os repórteres do Semanário e fazer contatos telefônicos. Ele precisava entrevistar muitas pessoas em curto espaço de tempo e todos os acontecimentos pareciam estar pipocando na mesma hora.

Embora estivesse horrorizado com o que acontecera, Buck gostava de seu trabalho agitado. Desejava muito convencer sua família a respeito da verdade. Contudo, seu pai e seu irmão, não lhe dariam ouvidos, e se ele não estivesse tão atarefado com seu trabalho empolgante e polêmico, aquele fato em si teria sido suficiente para deixá-lo completamente desnorteado.

Buck tinha apenas poucos dias, antes e depois da assinatura do tratado, para aprontar seu trabalho. Parecia que sua vida inteira estava agora girando em alta velocidade, e ele procurava aproveitar ao máximo esse período de sete anos. Ele não sabia como seria o reino celestial na terra, embora Bruce estivesse tentando explicar isso a ele, a Rayford e a Chloe. Buck aguardava com ansiedade o Glorioso Aparecimento e o reinado de Cristo na terra durante mil anos. Porém, pelo que aprendera até aquele momento, qualquer coisa normal que ele desejasse fazer — como, por exemplo, reportagens e artigos sobre fatos a serem investigados, paixão por uma mulher, casamento e talvez filhos — teria de ser feita em breve.

Chloe era o que Buck tinha de melhor em sua nova vida. Mas será que haveria tempo para aprender a lidar com um relacionamento que prometia ir além das experiências que ele já tivera? Ela era diferente de qualquer mulher que ele conhecera e, mesmo assim, não sabia distinguir essa diferença. A nova fé de Chloe a enriquecera e transformara em outra pessoa, mas ele sentiu atração por ela antes de ambos aceitarem a Cristo.

A idéia de que o encontro de ambos foi obra de um plano divino deixava Buck maravilhado. Como ele gostaria de tê-la conhecido alguns anos antes e serem arrebatados juntos! Se ele quisesse passar algum tempo ao lado dela antes de sua viagem a Israel, teria de ser naquele mesmo dia.

Buck olhou para o relógio. Havia tempo para mais um telefonema antes de falar com Chloe.

 

Rayford cochilava na primeira classe, com os fones de ouvido ligados. As imagens do noticiário povoavam a tela à sua frente, mas ele perdera o interesse por reportagens sobre os índices de criminalidade nos Estados Unidos. Ao ouvir o nome de Carpathia, despertou. O Conselho de Segurança das Nações Unidas estava se reunindo várias horas por dia com o objetivo de finalizar os planos para a moeda universal e o desarmamento em massa que o secretário-geral havia estabelecido. Originalmente, a idéia era destruir 90 por cento das armas e doar à ONU os 10 por cento restantes. Agora, os países aliados teriam de alistar seus soldados na força militar da ONU em prol da paz.

Carpathia pedira ao presidente dos Estados Unidos que encabeçasse o comitê de inspeção, uma atitude altamente controvertida. Os países inimigos dos Estados Unidos chamaram Fitzhugh de tendencioso e desleal, considerando-se prejudicados porque estariam destruindo suas armas ao passo que os Estados Unidos estariam aumentando seu potencial bélico.

Carpathia estava abordando esses assuntos, como sempre de maneira direta e simpática. Rayford deu de ombros enquanto ouvia. Se não tivesse se tornado cristão, com certeza ele teria defendido esse homem e confiado nele.

"Os Estados Unidos têm sido um país mantenedor da paz desde muito tempo", disse Carpathia. "Este país dará o exemplo, destruindo seus armamentos e enviando os 10 por cento restantes para a Nova Babilônia. Os povos do mundo inteiro poderão vir até aqui e inspecionar o trabalho feito pelos Estados Unidos, para verem com seus próprios olhos o cumprimento desta determinação e seguirem o exemplo.”

"Permitam-me fazer um adendo", disse o secretário-geral. "Esta é uma tarefa importante e grandiosa que talvez levasse anos para ser concluída. Cada país poderia retardar mês após mês o processo de remessa, mas não devemos permitir que isso aconteça. Os Estados Unidos da América do Norte darão o exemplo e nenhum outro país deverá demorar mais do que eles para destruir suas armas e doar o restante. Quando a nova sede da Organização das Nações Unidas estiver instalada na Nova Babilônia, as armas estarão em seu devido lugar.”

"A era da paz está próxima, e o mundo finalmente estará no limiar de tornar-se uma comunidade global."

O pronunciamento de Carpathia foi seguido de aplausos ensurdecedores, até mesmo por parte da imprensa.

Mais tarde, no mesmo noticiário, Rayford assistiu a uma breve edição especial sobre o novo Air Force One, um 757 que pousaria no Aeroporto Dulles, em Washington, e em seguida voaria para Nova York a fim de aguardar seu vôo inaugural sob a direção de "um novo capitão a ser anunciado em breve. Esse homem foi selecionado de uma lista dos melhores pilotos das principais empresas aéreas".

Um outro noticiário mencionava que Carpathia havia dito que ele e o conselho ecumênico dos líderes religiosos do mundo inteiro fariam um importante pronunciamento na tarde do dia seguinte.

 

Buck conseguiu falar por telefone com o assistente do cardeal arcebispo Peter Mathews em Cincinnati. "Sim, ele está aqui, descansando. Partirá amanhã cedo para Nova York para estar presente na reunião de encerramento do conselho ecumênico. De lá seguirá para Israel e depois para o Vaticano."

"Eu estou às ordens para ir a qualquer lugar, a qualquer hora, como ele preferir.", disse Buck.

"Ligarei para o senhor de volta dentro de trinta minutos, dando-lhe uma resposta."

Buck telefonou para Chloe. "Meu tempo está muito escasso", ele disse, "mas será que poderíamos nos encontrar, só nós dois, antes da reunião desta noite?"

"Claro, o que houve?"

"Nada específico", ele respondeu. "Eu só gostaria de passar alguns momentos com você, agora que sabe que sou um homem livre."

"Livre? É isso que você é?"

"Sim, madame! E você?"

"Acho que também sou livre. Isso significa que temos algo em comum."

"Você tinha algum plano para hoje à noite?"

"Não. Papai chegará mais tarde. Ele foi entrevistado na Casa Branca hoje."

"Então ele vai aceitar o emprego?"

"Ele vai fazer a vôo inaugural e decidir depois."

"Eu poderia estar naquele vôo."

"Eu sei."

"Então, posso buscá-la às seis?" perguntou Buck.

"Eu adoraria."

Conforme prometeu, o assistente do cardeal Mathews telefonou para Buck, dando boas notícias. Por ter gostado muito da entrevista que concedera anteriormente a Buck, a qual seria brevemente publicada como reportagem de capa, o cardeal mandou o assistente dizer que o convidava para viajar junto com ele para Nova York na manhã seguinte.

Buck reservou lugar no último vôo daquela noite, de O'Hare para Cincinnati. Surpreendeu Chloe ao aparecer em sua casa às seis horas da tarde levando comida chinesa. Contou a ela sobre seus planos de viajar ainda naquela noite e complementou: "Eu não quis perder nosso precioso tempo tentando descobrir um lugar para jantarmos."

"Meu pai ficará com inveja quando chegar", ela disse. "Ele adora comida chinesa."

Enfiando a mão dentro de uma grande sacola, Buck retirou um prato extra e disse sorrindo. "É preciso deixar o papai feliz."

Buck e Chloe sentaram-se na cozinha para comer e conversaram por mais de uma hora. A conversa girou em torno dos mais variados assuntos — a infância de ambos,

suas famílias, principais acontecimentos, esperanças, temores e sonhos. Buck gostava muito de ouvir Chloe falar, não só pelo que ela dizia, mas pelo som de sua voz. Ele não sabia se ela era a melhor pessoa com quem já conversara ou se simplesmente estava apaixonado. Provavelmente as duas coisas, ele concluiu.

 

Quando Rayford chegou, encontrou Buck e Chloe diante do computador de Raymie, que não havia sido ligado desde a semana dos desaparecimentos. Em poucos minutos Buck havia estabelecido conexão entre Chloe e a Internet e conseguido um endereço eletrônico para ela. "Agora você poderá localizar-me em qualquer lugar do mundo", ele disse.

Rayford deixou Buck e Chloe sozinhos diante do computador e examinou os bombons da Holman Meadows. Ainda estavam embalados em papel celofane e tinham sido entregues por uma empresa conceituada. Estavam endereçados a Chloe, mas não havia nenhum cartão. Rayford notou que não havia sinal de violação na embalagem. Decidiu que, mesmo que tivessem sido enviados por Hattie Durham por algum motivo inexplicável, não faria sentido deixar de saboreá-los.

"Seja lá quem for que esteja apaixonado por sua filha, com certeza tem bom gosto", disse Buck.

"Obrigada", disse Chloe.

"Eu quis dizer bom gosto para escolher bombons com recheio de hortelã."

Chloe corou. "Entendi o que você quis dizer."

Por insistência de Rayford, Buck concordou em deixar seu carro na garagem da casa dos Steeles durante sua viagem. Buck e Chloe saíram mais cedo da reunião da Força

Tribulação direto para o aeroporto. O trânsito estava menos congestionado do que o normal e eles chegaram ao aeroporto com mais de uma hora de antecedência. "Poderíamos ter ficado mais tempo na igreja", disse Buck.

"É melhor chegar com antecedência, você não acha?" ela disse. "Detesto chegar em cima da hora."

"Eu também", ele disse, "mas é o que sempre acontece comigo. Você poderá deixar-me no meio-fio."

"Eu posso até a hora do vôo, se você não se importar de pagar o estacionamento."

"Você não tem medo de voltar sozinha para pegar o carro a esta hora da noite?"

"Já fiz isso muitas vezes", ela disse. "Há muitos seguranças por aqui."

Ela estacionou o carro e ambos atravessaram juntos o enorme terminal. Ele levava sua sacola de couro a tiracolo, contendo tudo o que havia de mais precioso em sua vida. Chloe parecia embaraçada, mas não havia outra sacola para ela carregar. Como eles ainda não haviam chegado à fase de andar de mãos dadas, continuaram a caminhar lado a lado. Todas as vezes que Buck virava-se para que ela pudesse ouvi-lo, sua sacola saía do lugar e a tira escorregava do ombro, portanto resolveram seguir em silêncio até o portão.

Ao fazer o check-in, Buck constatou que havia poucos passageiros em seu vôo. "Gostaria que você fosse comigo", ele disse suavemente.

"Eu gostaria...", ela começou a falar, mas aparentemente arrependeu-se.

"Do quê?"

Ela balançou a cabeça.

"Você também gostaria de ir comigo?"

Ela assentiu. "Mas não posso e não vou, portanto não há o que discutir."

"E o que eu faria com você?" perguntou ele. "Colocaria você dentro da sacola?"

Ela riu.

Ambos permaneceram diante das paredes envidraçadas, observando os carregadores de malas e os controladores do tráfego de terra. Buck fingia olhar através do vidro, mas fixava-se no reflexo de Chloe a pouca distância dele. Por duas vezes Buck percebeu que Chloe desviou o olhar da pista para o vidro, e imaginou que deveria estar atraindo o olhar dela. Assim fosse verdade, ele pensou.

"O vôo atrasará vinte minutos", avisou a funcionária do balcão.

"Não se sinta obrigada a aguardar, Chloe", disse Buck. "Quer que eu a acompanhe até o carro?"

Ela riu novamente. "Você é paranóico quanto a estacionamentos grandes e antigos, não é mesmo? Combinamos que eu o traria até aqui, ficaria a seu lado para você não sentir-se sozinho e aguardaria até você entrar no avião. No momento da decolagem vou acenar para você, fingir que não consigo sair do lugar e só voltarei para o estacionamento quando o avião desaparecer de vista."

"O quê? Você sempre faz isso quando acompanha alguém?"

"Claro. Agora sente-se, relaxe e finja que está acostumado a viajar pelo mundo inteiro."

"Gostaria de fingir pelo menos uma vez que não estou acostumado."

"Então você ficaria nervoso e precisaria de minha companhia?"

"Preciso de você em qualquer circunstância."

Ela desviou o olhar. Vá devagar, ele disse a si mesmo. Essa era a parte mais divertida, a fase de defesa mútua, mas também era extremamente incerta. Ele não queria dizer coisas a ela que não teria dito se não fosse pelo fato de permanecer longe durante alguns dias.

"Preciso de você aqui", ela disse suavemente, "mas você está me abandonando." "Eu jamais faria isso." "O quê? Abandonar-me?"

"Jamais", ele disse em tom de brincadeira para não afugentá-la. "Isso é animador. Não gosto dessa história de abandonar."

 

Rayford aguardava a chegada de Chloe enquanto arrumava as coisas para sua rápida viagem a Nova York na tarde do dia seguinte. Earl telefonara querendo saber se Rayford recebera algum telefonema do escritório de Carpathia.

"Essa tal de Hattie Durham é a mesma que trabalhou conosco?" perguntou Earl.

"Exatamente a mesma."

"Ela é secretária de Carpathia?"

"Mais ou menos isso.

"Que mundo pequeno!"

 

"Acho que seria tolice de minha parte dizer-lhe para tomar cuidado em Cincinnati, Nova York e Israel, considerando tudo o que você já passou", disse Chloe.

Buck sorriu. "Não comece com suas despedidas antes de estar pronta para ir embora."

"Vou ficar aqui até seu avião desaparecer de vista. Eu já disse isso."

"Temos tempo para comer um doce", ele disse, apontando para um balcão no corredor.

"Já comemos a sobremesa", ela disse. "Chocolates e doces."

"Biscoitinhos da sorte não valem", ele disse. "Vamos. Você se lembra do nosso primeiro doce?"

No dia em que se conheceram, Chloe havia comido um doce e ele retirara com o polegar um pedacinho de chocolate que ficou grudado no canto de sua boca. Em seguida, sem saber o que fazer, ele havia lambido o polegar.

"Eu fui uma tola", ela disse. "E você tentou levar na brincadeira."

"Você gostaria de comer um doce?" perguntou Buck, iniciando a mesma brincadeira que ela fizera com ele no dia em que se conheceram em Nova York.

"Por quê? Eu pareço um?"

Buck riu, não porque a brincadeira foi mais engraçada do que na primeira vez, mas porque foi um fato tolo acontecido entre eles.

"Não estou com fome", ela disse enquanto ambos observavam através do vidro um jovem atendente aguardando o pedido com ar de tédio.

"Eu também não", disse Buck. "É para comermos mais tarde."

"Mais tarde ainda hoje ou mais tarde amanhã?" ela perguntou.

"Quando nossos relógios estiverem sincronizados."

"Vamos comer os doces juntos? Quero dizer, na mesma hora?"

"Não seria ótimo?"

"Sua imaginação não tem fim."

Buck pediu dois doces, em pacotes separados.

"Não posso fazer isso", disse o jovem.

"Então quero um só", disse Buck, com o dinheiro na mão e entregando algumas moedas a Chloe.

"E eu também quero um", ela disse, mostrando as moedas.

O jovem fez uma careta, resolvendo atender ao pedido inicial de Buck, e fez o troco.

"Um jeito a mais de convencer alguém", disse Buck.

Eles caminharam lentamente de volta ao portão. Havia mais alguns passageiros à espera e a funcionária do balcão avisou que o avião deles finalmente tinha chegado. Buck e Chloe sentaram-se observando os passageiros que caminhavam em fila, parecendo cansados.

Buck embrulhou cuidadosamente seu doce e colocou-o na sacola. "Estarei voando para Nova York amanhã cedo, às oito horas", ele disse. "Vou comer este doce na hora do café, pensando em você."

"Aqui serão sete horas", disse Chloe. "Ainda estarei na cama, pensando em meu doce e sonhando com você."

Ainda estamos nos testando, pensou Buck. Nenhum de nós quer falar sério.

"Então vou esperar você se levantar", ele disse. "Diga-me quando vai comer seu doce."

"Chloe olhou para cima. "Hummm, ela brincou. "A que horas você estará em sua reunião mais importante, mais formal?"

"Provavelmente no final da manhã em um dos grandes hotéis de Nova York. Carpathia estará lá para fazer um pronunciamento em conjunto com o cardeal Mathews e outros líderes religiosos."

"Então vou comer meu doce nessa hora", disse Chloe. "E duvido que você também coma o seu nessa hora."

"Você vai aprender a não duvidar de mim." Buck sorriu, mas não estava brincando. "Não sei o que é medo."

"Pois sim!" ela disse. "Você tem medo do estacionamento daqui e não é capaz de atravessá-lo sozinho!"

Buck pegou o pacote de doce da mão dela.

"O que você está fazendo?" ela perguntou. "Não estamos com fome, lembra-se?"

"Quero só cheirá-lo", ele disse. "O aroma ajuda a memória."

Buck abriu o pacote do doce de Chloe e aproximou-o do nariz. "Que cheiro bom! Não sei se é da massa, do chocolate, das nozes ou da manteiga."

Ele aproximou o doce do nariz de Chloe. "Adoro esse cheiro", ela disse.

Com a outra mão, Buck segurou o queixo de Chloe. Ela não se retraiu e fixou os olhos nos dele. "Lembre-se deste momento", ele disse. "Estarei pensando em você enquanto estiver longe."

"Eu também", ela disse. "Agora feche o pacote. O doce precisa permanecer fresco para que o cheiro me faça lembrar de você."

 

Rayford despertou mais cedo que Chloe e dirigiu-se para a cozinha. Pegou o pacote de doce que estava no balcão. Sobrou um, ele pensou, e teve vontade de comê-lo. Em vez disso, escreveu o seguinte bilhete a Chloe: "Espero que você não se importe. Não pude resistir." No verso ele escreveu: "Foi brincadeira", e colocou o bilhete em cima do pacote. Tomou café e suco. Depois, trocou de roupa e saiu para sua corrida matinal.

 

Buck sentou-se na primeira classe com o cardeal Mathews no vôo da manhã de Cincinnati para Nova York. Mathews tinha pouco menos de 60 anos e era um homem forte de rosto redondo e cabelos bem aparados, cuja cor parecia natural. Sua posição eclesiástica era evidenciada apenas por seu colete clerical. Carregava uma fina maleta e um computador portátil. Buck notou que ele havia embarcado quatro malas.

Mathews tinha um acompanhante, que simplesmente desviava a atenção das pessoas e falava pouco. O acompanhante mudou-se para a poltrona da frente de modo que Buck pudesse sentar-se ao lado do arcebispo. "Por que o senhor não me contou que era candidato a sucessor do papa?" indagou Buck.

"É melhor não entrarmos desde já neste assunto", disse Mathews. "Você gosta de tomar champanhe de manhã?"

"Não, obrigado."

"Bem, se você não se importar, preciso tomar algo estimulante."

"Esteja à vontade. Avise-me quando o senhor estiver disposto a conversar."

O acompanhante de Mathews ouviu a conversa e fez um sinal para a comissária de bordo, que imediatamente trouxe uma taça de champanhe ao cardeal. "O de sempre, não é mesmo?" ela perguntou.

"Obrigado, Caryn", ele disse, como se a comissária fosse uma velha amiga. Aparentemente era. Depois que ela foi embora, ele sussurrou: "Ela é da família Litewski, de minha primeira paróquia. Foi batizada por mim. Trabalha neste vôo há anos. Mas sobre o que estávamos falando?"

Buck não respondeu. Sabia que o cardeal ouvira o que ele disse e se lembrava da pergunta. Se quisesse que fosse repetida para satisfazer seu próprio ego, ele que a repetisse.

"Ah, sim, você queria saber por que não mencionei que era candidato a sucessor do papa. Pensei que todos soubessem. Carpathia sabia."

Aposto que sim, pensou Buck. Provavelmente maquinou isso. "Carpathia espera que o senhor seja o próximo papa?"

"Trata-se de um assunto confidencial", sussurrou Mathews. "Já está tudo acertado. "Nós temos os votos."

"Nós?"

"É uma forma de dizer. Nós, eu. Eu tenho os votos, você entende?"

"Como o senhor pode ter tanta certeza assim?"

"Fui membro do Sacro Colégio por mais de dez anos. O fato de vir a ser papa não me surpreende. Você sabe como Nicolae me chama? Ele me chama de P.M."

Buck deu de ombros. "Ele o chama por suas iniciais? Existe algum significado?"

O acompanhante de Mathews olhou para trás por entre as poltronas e balançou a cabeça. Eu devia saber, conjeturou Buck. Mas ele nunca receou fazer perguntas tolas.

"Pontifex Maximus", disse Mathews, radiante. "Supremo Papa."

"Parabéns", disse Buck.

"Obrigado, mas espero que você saiba que Nicolae tem outros planos em mente para meu pontificado do que meramente ser o líder da Santa Madre Igreja Católica Romana."

"Diga-me quais são."

"Serão anunciados no final desta manhã, e se você não mencionar que fui eu quem disse, vou lhe dar a notícia em primeira mão."

"Por que o senhor faria isso?"

"Porque gosto de você."

"O senhor mal me conhece."

"Mas conheço Nicolae."

Buck afundou-se na poltrona. "E Nicolae gosta de mim."

"Exatamente."

"Então esta viagem em sua companhia não aconteceu por causa de meu trabalho."

"Ah, não", disse Mathews. "Carpathia deu boas referências suas. Quer que eu lhe conte tudo. Só não me julgue um homem mau nem pense que estou fazendo autopromoção ao lhe contar isso."

"O pronunciamento dará essa idéia do senhor?"

"Não, porque o próprio Carpathia fará o pronunciamento."

"Estou ouvindo."

 

"Escritório do secretário-geral Carpathia. Quem fala é a Srta. Durham."

"Aqui é Rayford Steele."

"Rayford! Como vai..."

"Deixe-me ir direto ao assunto, Hattie. Quero chegar um pouco mais cedo esta tarde para poder conversar com você em particular por alguns minutos."

"Seria maravilhoso, capitão Steele. Porém, devo dizer-lhe antecipadamente que já tenho alguém em vista."

"Não achei graça."

"Eu não quis fazer graça."

"Você terá um tempo disponível?"

"Com certeza. Sua reunião com o secretário-geral Carpathia está marcada para as quatro horas. Posso esperá-lo às três e meia?"

Rayford desligou o telefone enquanto Chloe entrava na cozinha, vestida para trabalhar na igreja. Ela leu o bilhete. "Oh, papai! Não acredito que você tenha feito isso!" Rayford achou que a filha estava prestes a romper em prantos. Ela pegou o pacote e chacoalhou-o. Assim que virou o bilhete do outro lado, fez uma expressão de alívio e riu. "Seja adulto, papai. Pelo menos uma vez na vida, aja de acordo com sua idade."

Ele estava se aprontando para dirigir-se para o aeroporto, e ela para o trabalho, quando a CNN mostrou ao vivo uma entrevista coletiva à imprensa diretamente da reunião dos líderes religiosos em Nova York. "Veja isto, papai", ela disse. "Buck está lá."

Rayford colocou sua bagagem de mão no chão e postou-se ao lado de Chloe, que segurava uma caneca de café com as duas mãos. O correspondente da CNN explicava o que estava acontecendo. "Estamos aguardando um pronunciamento em conjunto da coalizão dos líderes religiosos e da Organização das Nações Unidas, representada pelo novo secretário-geral Nicolae Carpathia. Ele parece ser a personalidade do momento. Ajudou a elaborar as proposições e a reunir os representantes de uma ampla gama de crenças. Desde que ele assumiu o cargo, não passou um dia sequer sem que houvesse um importante acontecimento.”

"Especula-se por aqui que as religiões do mundo vão fazer uma nova tentativa no sentido de lidar com as questões de natureza global de uma forma mais coesiva e tolerante como nunca fizeram. O ecumenismo fracassou no passado, mas em breve veremos que desta vez existe uma nova maneira de fazer com que finalmente ele seja posto em prática. Neste momento está subindo à tribuna o cardeal arcebispo Peter Mathews, prelado da arquidiocese da Igreja Católica Romana em Cincinnati e considerado por muitos como um forte candidato a sucessor do Papa João XXIV, cuja atuação polêmica durou apenas cinco meses até ser incluído na lista dos que desapareceram algumas semanas atrás."

A TV exibiu uma imagem panorâmica da plataforma diante dos jornalistas, onde mais de duas dúzias de religiosos do mundo inteiro, todos vestidos com trajes de seus países de origem, dirigiam-se para seus respectivos lugares. Assim que o arcebispo Mathews abriu caminho até o lugar destinado aos microfones, Rayford ouviu Chloe dar um grito.

"Lá está Buck, papai! Olhe! Bem ali!"

Ela apontava para um repórter que não se encontrava no meio da multidão de jornalistas, mas que parecia estar balançando na beira da plataforma. Era Buck, tentando manter o equilíbrio. Por duas vezes ele desceu e subiu novamente na plataforma.

Enquanto Mathews discorria em tom monótono a respeito da cooperação internacional, Rayford e Chloe fixavam os olhos em um canto no fundo da plataforma onde estava Buck. Ninguém mais teria notado sua presença. "O que ele tem nas mãos?" perguntou Rayford. "Parece um bloco de anotações ou um gravador."

Chloe aproximou-se do aparelho de TV e respirou fundo. Correu até a cozinha e voltou com o pacote de doce. "E o doce dele!" ela disse. "Vamos comer nossos doces na mesma hora!"

Rayford não entendeu nada, mas com certeza gostou de não ter comido aquele doce. "O quê...?" ele começou a falar, mas Chloe pediu-lhe silêncio.

"Tem o mesmo cheiro de ontem à noite!" ela disse.

Rayford deu uma risada de desdém. "O que tem o mesmo cheiro de ontem à noite?"

"Silêncio!"

Enquanto ambos fitavam a tela da TV, Buck enfiou rapidamente a mão dentro do pacote e, de modo disfarçado e quase invisível pegou o doce, colocou-o na boca e deu uma mordida. Chloe acompanhou os gestos dele e Rayford notou que ela ria e chorava ao mesmo tempo.

"Você não deve estar regulando bem", ele disse, e saiu para o aeroporto.

 

Buck não fazia idéia se sua pequena artimanha tinha sido notada por alguém, muito menos por Chloe Steele. O que aquela moça estava fazendo com ele? Algo estranho havia acontecido. Ele, que era um famoso jornalista internacional, de repente passara a ser um homem romântico cometendo tolices para chamar a atenção. Não muita atenção, assim ele esperava. Poucas pessoas costumam notar o que se passa nos cantos de uma tela de TV. Chloe poderia estar assistindo ao noticiário sem tê-lo visto.

Mais importante do que seus esforços para chamar a atenção foi um acontecimento maior ainda que, em outra ocasião, poderia ter sido rotulado de típica confabulação internacional. Quer fosse pelo fato de prometer apoio ao pontificado de Mathews quer fosse por sua sinistra habilidade em cativar as pessoas, Nicolae Carpathia tinha conseguido que aqueles líderes religiosos elaborassem uma proposição de um incrível significado.

Além de anunciarem seus esforços e cooperação no sentido de serem mais tolerantes uns com os outros, eles também estavam anunciando a formação de uma religião totalmente nova, que incorporaria os dogmas de todas as já existentes.

"E para que isso não pareça impossível aos seguidores de cada uma das religiões que aqui representamos", disse Mathews, "houve unanimidade de nossa parte, de todos nós. Nossas religiões têm sido a causa de muitas divisões e derramamento de sangue no mundo inteiro como acontece com qualquer governo, exército ou armamento. A partir de hoje nos uniremos sob a bandeira da Fé da Comunidade Global. Nosso emblema terá os símbolos sagrados de todas as religiões, e daqui em diante abrangerá todos esses símbolos. Quer acreditemos em Deus como um ser real ou simplesmente como um conceito, Deus está em tudo, acima de tudo e ao redor de tudo. Deus está em nós. Deus é igual a nós. Nós somos Deus."

Quando a sessão foi aberta para perguntas, muitos astutos editores religiosos dispararam suas flechas. "O que vai acontecer com a liderança do, digamos, catolicismo romano? Haverá necessidade de um papa?"

"Elegeremos um papa", respondeu Mathews. "E esperamos que as outras principais religiões continuem a nomear seus líderes. Porém esses líderes prestarão contas à Fé da Comunidade Global e esperamos que preservem a lealdade e a devoção de seus paroquianos à causa maior."

"Existe um dogma principal que tenha a concordância de todos vocês?"

Esta pergunta provocou gargalhadas nos participantes. Mathews convocou um rastafariano (membro de uma seita da Jamaica que considera os negros como o povo escolhido por Deus para a salvação, n.t.) para responder. Por meio de um intérprete, ele disse: "Acreditamos de fato em duas coisas. Em primeiro lugar acreditamos na bondade fundamental do ser humano. Em segundo lugar acreditamos que os desaparecimentos foram uma purificação de natureza religiosa. Em algumas religiões, muitas pessoas desapareceram. Em outras, poucas. Em diversas, nenhuma. Porém o fato de muitas pessoas terem sido deixadas para trás, independentemente da religião que professam, prova que nenhuma é melhor que a outra. Seremos tolerantes com todas as pessoas, acreditando que as melhores ficaram."

Buck postou-se diante dos líderes religiosos e levantou a mão. "Cameron Williams, do Semanário Global", ele disse. "Esta pergunta é dirigida ao cavalheiro que está diante do microfone, ao cardeal Mathews ou outro líder religioso. Como esse dogma da bondade fundamental do ser humano se coaduna com a idéia de que as pessoas más foram separadas de nós? Elas não possuíam a bondade fundamental do ser humano?"

Nenhum deles se movimentou para responder. O rastafariano olhou para Mathews, que fitava Buck de maneira inexpressiva, deixando claro que não desejava demonstrar aborrecimento mas desejando também dar a entender que se sentia traído.

Finalmente Mathews pegou o microfone. "Não estamos aqui para debater teologia", ele disse. "Sou um daqueles que acredita que os desaparecimentos constituíram uma purificação e que a bondade fundamental do ser humano é o denominador comum dos que ficaram. E grande parte dessa bondade fundamental é encontrada no secretário-geral da Organização das Nações Unidas Nicolae Carpathia. Vamos saudá-lo, por favor!"

Os líderes religiosos levantaram as mãos para saudar Carpathia. Alguns jornalistas aplaudiram. Pela primeira vez Buck notou o enorme público que se aglomerava atrás do pessoal da imprensa. Em razão dos holofotes, ele não conseguira enxergar o público e não ouvira sua manifestação até Carpathia aparecer.

Carpathia, com seu típico jeito dominador, dava todo crédito à liderança do corpo ecumênico e apoiava aquela "idéia histórica e perfeita, que há muito tempo deveria ter sido implantada".

Ele respondeu a algumas perguntas, inclusive sobre o que aconteceria com a reconstrução do templo judeu em Jerusalém. "Tenho a satisfação de dizer que a reconstrução continuará. Conforme a maioria de vocês já sabe, uma grande soma de dinheiro tem sido doada para esta causa durante décadas, e há alguns anos estão sendo preparados blocos pré-moldados em outros lugares do mundo para a reconstrução do templo. Assim que a reconstrução for iniciada, terminará rapidamente."

"E o que acontecerá com a Cúpula Islâmica do Rochedo?"

"Fico muito satisfeito por você ter feito esta pergunta", disse Carpathia, enquanto Buck indagava a si mesmo se o próprio Carpathia não a teria planejado. "Nossos irmãos muçulmanos concordaram em mudar o santuário e a parte sagrada do rochedo para a Nova Babilônia, deixando os judeus à vontade para reconstruírem seu templo onde acreditam ser o seu lugar primitivo.’”

“E agora, peço a permissão dos senhores para alongar-me um pouco mais. Eu gostaria de dizer que estamos vivendo o momento mais decisivo da história mundial. Com a consolidação da moeda universal, com a cooperação e tolerância de muitos líderes religiosos, com o desarmamento mundial e o compromisso rumo à paz, o mundo será verdadeiramente unificado.”

"Muitos de vocês ouviram-me pronunciar a expressão Comunidade Global. Trata-se de um nome digno para a nossa nova causa. Podemos nos comunicar uns com os outros, professar nossa fé uns com os outros, comercializar uns com os outros. Em razão dos avanços nas comunicações e nas viagens, não somos mais um conglomerado de países e nações, mas uma comunidade global completa, uma aldeia composta de cidadãos iguais. Agradeço aos líderes aqui presentes que compuseram esta linda peça de mosaico, e gostaria de fazer um pronunciamento em homenagem a eles.”

"Com a mudança da sede da ONU para a Nova Babilônia nossa grande organização receberá um nome novo. Seremos conhecidos como Comunidade Global!" Depois que os aplausos cessaram, Carpathia concluiu: "Portanto, o nome da nova religião universal, Fé da Comunidade Global, aplica-se com precisão."

Carpathia estava sendo conduzido para fora enquanto as equipes de TV e som começavam a deixar o local da entrevista. Nicolae avistou Buck e parou, avisando seus guarda-costas que queria conversar com alguém. Eles formaram uma barreira humana enquanto Carpathia abraçava Buck. Sem poder recuar, Buck só conseguiu sussurrar o seguinte no ouvido de Carpathia: "Tome cuidado com o que o senhor está fazendo com minha independência jornalística."

"Alguma notícia boa para mim?" perguntou Carpathia, segurando no braço de Buck e lançando-lhe um olhar penetrante.

"Ainda não, senhor.

"Nós nos encontraremos em Jerusalém?"

"Claro."

"Você manterá contato com Steve?"

"Sim."

"Diga-lhe o que você vai precisar e será feito. É uma promessa."

Buck desviou-se para um pequeno grupo onde Peter Mathews estava rodeado de admiradores. Quando o arcebispo notou sua presença, Buck inclinou-se para frente e' sussurrou: "O que eu deixei de ver?"

"Como assim? Você esteve presente."

"O senhor disse que Carpathia faria um pronunciamento a respeito de uma função mais abrangente para o novo papa, algo maior e mais importante até mesmo que a Igreja Católica."

Mathews balançou a cabeça. "Talvez eu tenha supervalorizado sua capacidade, amigo. Ainda não sou papa, mas pela declaração do secretário-geral você deveria ter deduzido que haverá necessidade de um chefe para a nova religião. E qual o melhor lugar para sua sede a não ser o Vaticano? E quem estaria mais apto a dirigi-la do que o novo papa?" "Então o senhor será o papa dos papas."

Mathews sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. "P.M.", ele disse.

 

Duas horas mais tarde, Rayford chegou à sede da Organização das Nações Unidas. Continuava a orar em silêncio depois de ter telefonado a Bruce Barnes pouco antes de embarcar. "Parece que vou encontrar-me com o demônio", dissera Rayford. "Não que exista algo nesta vida que me assuste, Bruce. Sempre me orgulhei disso. Mas preciso lhe dizer que isto é horrível."

"Em primeiro lugar, Rayford, se você fosse encontrar-se com o Anticristo na segunda metade da Tribulação, aí é que estaria lidando com o próprio Satanás."

"Então, o que Carpathia é? Um demônio de segundo escalão?"

"Não, você necessita de orações. Sabe o que aconteceu diante dos olhos de Buck."

"Buck é dez anos mais novo que eu e está em melhor forma física", disse Rayford. "Achou que vou desmoronar lá."

"Não vai. Permaneça firme. Deus sabe onde você está, e o tempo dele é perfeito. Estarei orando e você sabe que Chloe e Buck também estarão."

Essa conversa foi muito confortadora para Rayford, e ele se sentia particularmente animado por saber que Buck estava em Nova York. O fato de saber que ele estava próximo fez Rayford sentir-se menos solitário. Mesmo assim, em sua ansiedade por ter de encarar Carpathia, não queria deixar passar a provação de enfrentar Hattie Durham.

Hattie estava aguardando quando ele desceu do elevador. Ele esperava ter alguns momentos para fazer o reconhecimento do terreno, refrescar-se, respirar fundo. Mas lá estava ela, jovem e linda, mais deslumbrante do que nunca em razão de uma tez bronzeada e roupas caras confeccionadas sob medida para um corpo escultural. Rayford não esperava vê-la tão linda e teve a sensação de estar pecando quando um lampejo de saudade dela invadiu sua mente.

A velha índole de Rayford imediatamente fê-lo lembrar-se do motivo de ter sentido atração por ela durante um período crítico de seu casamento. Orou em silêncio, agradecendo a Deus por não ter permitido que ele tivesse feito algo do qual viesse a arrepender-se para sempre. Assim que Hattie abriu a boca, ele voltou à realidade. Sua dicção e articulação eram mais refinadas, mas ela ainda era uma mulher misteriosa, e ele percebeu isso em seu tom de voz.

"Capitão Steele", disse efusivamente. "Que maravilha vê-lo novamente! Como vão todos os outros?"

"Todos os outros?"

"Você sabe. Chloe, Buck e todos os outros."

Chloe e Buck são todos, ele pensou, mas não disse.

"Todos estão bem."

"Ah, que ótimo."

"Existe um lugar reservado onde possamos conversar?"

Ela o conduziu para seu local de trabalho que era demasiadamente exposto. Não havia ninguém por perto para ouvi-los, mas o teto tinha uma altura de no mínimo seis metros. A escrivaninha, as mesas e os arquivos dela estavam instalados em uma local que fazia lembrar uma estação ferroviária, sem paredes ao redor. Os passos de ambos ecoavam e Rayford teve a nítida impressão de que eles estavam muito distantes do escritório do secretário-geral.

"Então, quais são as novidades depois da última vez que nos encontramos, capitão Steele?"

"Hattie, não quero ser indelicado, mas peço que você pare com esse 'capitão Steele' e deixe de fingir que não sabe das novidades. A novidade é que você e seu novo chefe invadiram meu trabalho e minha família, e parece que estou sem forças para tomar uma atitude."

 

Stanton Bailey segurou firme nos braços de sua enorme poltrona e encostou-se no espaldar, analisando Buck Williams.

"Cameron", ele disse, "nunca vou conseguir entender você. Qual o significado daquele pacote?"

"Era apenas um doce. Eu estava com fome."

"Eu também sinto fome", vociferou Bailey, "mas não costumo comer diante das câmeras de TV!"

"Achei que não seria visto por ninguém."

"Bem, agora você já sabe que foi visto. E se Carpathia e Plank ainda quiserem que você esteja presente durante a assinatura do tratado em Jerusalém, nada de lanches."

"Era só um doce."

"Nada de doces também."

 

Depois de anos como capitão de Hattie Durham, agora Rayford sentia-se como se fosse seu subordinado, sentado do outro lado daquela imensa mesa. De repente ela ficou séria, talvez por ele ter abordado o assunto de forma tão direta.

"Ouça, Rayford", ela disse, "continuo a gostar de você apesar de ter-me desprezado, está certo? Não quero magoá-lo por nada deste mundo."

"Tentar protocolar uma queixa contra mim na empresa em que trabalho não é uma forma de me magoar?"

"Foi só uma brincadeira. Você sabe disso."

"Causou-me muita dor de cabeça. E quanto ao bilhete enviado para mim em Dallas, mencionando que o novo Air Force One era um 757?"

"Foi a mesma coisa, eu já lhe disse. Uma brincadeira."

"Não achei graça. Foi muita coincidência."

"Bem, Rayford, se você não gosta de brincadeiras, tudo bem, não vou ficar aborrecida. Como somos amigos, achei que um pouco de divertimento não faria mal a ninguém."

"Vamos, Hattie. Você acha que acredito nessa história? Não é de seu feitio. Você não costuma passar trotes em seus amigos. Não faz parte de seu modo de ser."

"Está bem, sinto muito."

"Isso não basta."

"Perdoe-me, mas lembre-se que não me reporto mais a você."

Hattie tinha a capacidade de confundir Rayford mais do que qualquer outra pessoa. Ele deu um suspiro profundo e lutou para controlar-se. "Hattie, quero que você me conte a história das flores e dos bombons."

Hattie não tinha o mínimo talento para blefar. "Flores e bombons?" ela repetiu após uma pausa, demonstrando culpa.

"Pare com esse jogo", disse Rayford. "Admita que foi você e explique-se."

"Só faço o que me pedem, Rayford."

"Viu? Não consigo compreender. Será que eu deveria perguntar ao homem mais poderoso do mundo por que ele enviou flores e bombons para minha filha, se nem ao menos a conhece? Ele a está perseguindo? E se estiver, por que não se identifica?"

"Ele não a está perseguindo, Rayford! Ele tem alguém em vista."

"Como assim?"

"Ele tem interesse em alguém."

"Alguém que conhecemos?" Rayford lançou-lhe um olhar de desagrado.

Hattie parecia conter o riso. "Só posso dizer que temos uma novidade, mas a imprensa ainda não sabe, portanto gostaríamos..."

"Vamos fazer um trato. Você pára de mandar presentes anônimos a Chloe, me explica os motivos e eu guardo seu pequeno segredo, que tal?"

Hattie inclinou-se para frente, como se estivesse conspirando. "Está bem. Vou dizer o que penso, certo? Quero dizer, não sei. Conforme já lhe disse, faço o que me pedem. Mas existe uma mente brilhante por trás disso."

Rayford não tinha dúvidas. Só gostaria de saber por que Carpathia estava gastando tempo com uma coisa tão banal.

"Prossiga."

"Ele deseja realmente que você seja seu piloto."

"Está bem", disse Rayford, tentando fazê-la prosseguir.

"Você vai aceitar?"

"Aceitar o quê? Eu só mencionei que estava entendendo o que você dizia, apesar de não ter certeza disso. Ele quer que eu seja seu piloto, e...?"

"Mas ele sabe que você se sente feliz onde está."

"Continuo tentando entender."

"Ele quer oferecer-lhe um emprego sedutor e, ao mesmo tempo, forçá-lo a sair do lugar onde você vive."

"Ele persegue minha filha e eu vou trabalhar com ele por causa disso?"

"Não, seu bobo. Para todos os efeitos, você não sabe que foi ele!"

"Entendo. Eu ficaria preocupado com alguém de Chicago e tentaria procurar outro emprego longe de lá." "Agora você entendeu." "Tenho muitas perguntas a fazer, Hattie." "Pergunte."

"Por que eu iria embora de lá só pelo fato de alguém estar perseguindo minha filha? Ela já tem quase vinte e um anos. É normal que tenha admiradores."

"Mas nós agimos anonimamente. Deveria ter dado a impressão de algo um pouco perigoso, um pouco preocupante."

"E foi."

"Então conseguimos o que queríamos."

"Hattie, você não imaginou que eu descobriria tudo quando enviou os bombons favoritos de Chloe, vendidos só na Holman Meadows em Nova York?"

"Opa!", ela disse. "Parece que não fui muito esperta."

"Está bem, digamos que funcionou. Acho que minha filha está sendo perseguida por alguém que parece sinistro. Se Carpathia está tão íntimo do presidente, ele não sabia que a Casa Branca me quer como piloto do Air Force One!"

"Rayford! Entenda! "É esse o emprego que ele deseja para você."

Rayford afundou-se na cadeira e suspirou. "Hattie, por tudo o que há de mais sagrado no mundo, diga-me o que está acontecendo. Recebo informações da Casa Branca e da Pan-Con que Carpathia quer que eu seja piloto do presidente. Sou aprovado sem burocracia para conduzir a delegação da ONU até Israel. Carpathia me quer como seu piloto mas primeiro quer que eu seja o capitão do Air Force One, é isso?"

Hattie dirigiu um sorriso tolerante e condescendente a Rayford, o que o deixou furioso. "Rayford Steele", ela disse em tom de voz professoral, "você ainda não entendeu nada, não? Você não sabe quem Carpathia realmente é."

Rayford ficou desorientado por alguns instantes. Ele sabia mais do que ela quem Carpathia realmente era. A dúvida era se ela suspeitava disso. "Então me conte quem ele é", disse Rayford. "Ajude-me a entender."

Hattie olhou para trás, como se estivesse aguardando a chegada de Carpathia a qualquer momento. Rayford sabia que ninguém conseguiria entrar sorrateiramente naquele enorme edifício com piso de mármore sem que o eco de seus passos fossem ouvidos. "Nicolae não vai devolver o avião."

"Como?"

"Você ouviu. O avião já está em Nova York. Você vai vê-lo hoje. Está sendo pintado."

"Pintado?"

"Você verá."

A mente de Rayford girava. O avião tinha sido pintado em Seattle antes de seguir para Washington, D.C. Por que seria pintado novamente?

"Como ele vai fazer para não devolvê-lo?"

"Ele vai agradecer ao presidente o presente que recebeu e..."

"Ele já agradeceu. Eu ouvi."

"Mas desta vez ele deixará claro que está agradecendo um presente e não um empréstimo. Você vai ser contratado pela Casa Branca e vai trazer o avião, recebendo seu salário como funcionário do presidente. O que o presidente poderá fazer? Dizer que foi traído? Dizer que Nicolae está mentindo? Ele apenas vai desejar ser tão generoso quanto Nicolae diz que ele é. Você não acha uma idéia brilhante?"

"Trata-se de uma grosseria, de um roubo. Por que eu deveria querer trabalhar para um homem como esse? E você? Por quê?"

"Vou trabalhar para Nicolae pelo tempo que ele me quiser aqui, Rayford. Nunca aprendi tanto em tão pouco tempo. Não se trata de roubo nenhum. Nicolae diz que os Estados Unidos estão tentando encontrar uma forma de ajudar a ONU, e a forma é esta. Você sabe que o mundo está se unificando e alguém vai precisar ser o líder desse novo governo universal. A doação do avião é uma prova de que o presidente Fitzhugh tem o secretário-geral Carpathia em alta consideração."

Hattie falava como um papagaio. Carpathia a doutrinara bem, talvez não para entender, mas pelo menos para acreditar.

"Está bem", resumiu Rayford. "Carpathia consegue de uma maneira ou outra que a Pan-Con e a Casa Branca coloquem meu nome em primeiro lugar na lista dos candidatos a piloto do Air Force One. Ele faz com que você me perturbe a ponto de eu querer mudar de cidade. Eu aceito o emprego, ele pega o avião e nunca mais o devolve. Eu sou o piloto, mas quem me paga é o governo dos Estados Unidos. E tudo isso tem relação com o fato de Carpathia finalmente tornar-se o líder do mundo."

Hattie apoiou o queixo nos dedos cruzados, com os cotovelos sobre a mesa, empinando a cabeça. "Não foi tão complicado assim, foi?"

"Eu só não entendo por que sou tão importante para ele."

"Ele me perguntou qual foi o melhor piloto com quem trabalhei e por quê."

"E eu venci", disse Rayford.

"Venceu."

"Você lhe contou que quase tivemos um caso?"

"Tivemos?"

"Não importa."

"Claro que não lhe contei e nem você vai querer lhe contar, se quiser preservar um bom emprego."

"Mas você contou-lhe que sou cristão."

"Sim, por que não? Você conta a todo mundo. Eu acho que ele também é cristão."

"Nicolae Carpathia?"

"Claro! Pelo menos ele vive de acordo com os princípios cristãos. Está sempre preocupado em fazer o bem. Esta é uma de suas frases prediletas. Assim como o assunto do avião. Ele sabe que os Estados Unidos querem presenteá-lo com o avião, mesmo que não estejam pensando nisso. Talvez eles se sintam um pouco confusos a princípio, mas como é para o bem do mundo, ficarão satisfeitos com este gesto. Parecerão heróis generosos aos olhos de todos, por causa de Carpathia. Não é uma atitude cristã?"

 

Buck estava escrevendo à mão rapidamente. Havia deixado seu gravador no hotel, dentro da mala, na esperança de apanhá-lo quando retornasse do escritório do Semanário Global para entrevistar o rabino Marc Feinberg, um dos principais defensores da reconstrução do templo judaico. Porém, assim que entrou no saguão do hotel, quase esbarrou em Feinberg, que arrastava um enorme baú, com rodas na base. "Lamento muito, meu amigo. Consegui lugar em um vôo mais cedo e estou de saída. Acompanhe-me."

Buck tirou o caderno de anotações de um dos bolsos e uma caneta do outro. "O que o senhor tem a dizer sobre os pronunciamentos?" perguntou Buck.

"Tenho a dizer o seguinte: Hoje eu me transformei em uma espécie de político. Se acredito que Deus é um conceito? Não! Acredito que Deus é uma pessoa! Se acredito que todas as religiões do mundo podem unir-se e tornar-se uma só? Não, provavelmente não. Meu Deus é um Deus cioso de seus direitos e não compartilhará sua glória com ninguém. Se temos condição de tolerar uns aos outros? Com certeza.

"Você talvez vai me perguntar por que estou dizendo que me tornei um político. Porque vou me empenhar na reconstrução do templo. Vou tolerar e cooperar com qualquer pessoa que tenha um bom coração, desde que minha fé no verdadeiro Deus de Abraão, Isaque e Jacó não venha a ser sacrificada. Não concordo com as idéias e os métodos de grande parte dessa gente, mas se eles quiserem prosseguir, vou fazer o mesmo. Acima de tudo, quero que o templo seja reconstruído em seu local primitivo. E essa idéia será levada adiante a partir de hoje. Tome nota de minhas palavras. O templo será reconstruído dentro de um ano."

O rabino atravessou rapidamente a porta de saída e pediu ao porteiro que chamasse um táxi. "Mas, senhor", disse Buck, "se o dirigente da nova religião universal considera-se um cristão..."

Feinberg fez um gesto de irritação com a mão. "Ora! Todos nós sabemos que o chefe da nova religião será Mathews e que ele provavelmente também será o novo papa! Considera-se um cristão? Ele é um cristão do princípio ao fim! Ele acredita que Jesus foi o Messias. Logo, logo vou acreditar que Carpathia é o Messias."

"O senhor está falando sério?"

"Creia-me, já pensei nisso. A missão do Messias é trazer justiça e paz duradoura. Veja o que Carpathia fez em questão de semanas! Ele não preenche todos os requisitos? Constataremos isso na segunda-feira. Você sabia que meu colega, o rabino Tsion Ben-Judá, está..."

"Sim, e vou continuar atento." Havia inúmeras outras questões que Buck poderia levantar acerca de Carpathia, mas antes ele precisava conversar pessoalmente com Ben-Judá. De Feinberg, ele só queria extrair a história do templo, portanto redirecionou o assunto. "O que há de tão importante a respeito da reconstrução do templo?"

O rabino Feinberg deu um passo à frente e virou o corpo, observando a fila de táxis, visivelmente preocupado com o pouco tempo de que dispunha. Apesar de não fitar Buck nos olhos, ele continuou sua explanação. Fez uma breve preleção, como se estivesse lecionando a um grupo de gentios interessados na história dos judeus.

"O rei Davi desejava construir um templo ao Senhor", ele disse. "Deus, porém, achou que Davi havia provocado muito derramamento de sangue por ser um guerreiro. Portanto, quem construiu o templo foi Salomão, o filho de Davi. O templo era magnífico. Jerusalém era a cidade onde Deus estabeleceria seu nome e onde seu povo se reuniria para adorá-lo. A glória de Deus tornou-se visível no templo e ele passou a ser um símbolo da mão de Deus protegendo a nação. O povo sentia-se tão protegido que, mesmo quando se voltava contra Deus, acreditava que Jerusalém era uma cidade intocável, enquanto o templo permanecesse ali."

Um táxi aproximou-se e o porteiro colocou a maleta dentro do baú. "Pague o porteiro e acompanhe-me", disse Feinberg. Buck sorriu, tirou uma nota do bolso e colocou-a na mão do porteiro. Mesmo que tivesse de pagar a corrida de táxi, a entrevista em si valeria a pena.

"Kennedy", disse Feinberg ao motorista.

"Este carro tem telefone?" perguntou Buck ao motorista.

O motorista entregou-lhe um telefone celular. "Só para chamadas com cartão de crédito."

Buck pediu a Feinberg que lhe mostrasse a conta do hotel onde constava o número do telefone. Chamou a chefe da administração e disse-lhe que sua mala deveria ficar guardada ali por mais tempo do que ele esperava. "Alguém já pegou a mala para o senhor."

"Alguém o quê?"

"Pegou a mala para o senhor. Disse que era seu amigo e que a entregaria ao senhor."

Buck estava perplexo. "A senhora deixou minha mala ser levada por um estranho que disse ser meu amigo?"

"Senhor, o caso não é tão grave assim. Acho que o homem poderá ser localizado facilmente, se for necessário. Ele aparece todas as noites nos noticiários."

"O Sr. Carpathia?"

"Sim, senhor. Um de seus assessores, um tal de Sr. Plank, prometeu entregar a mala ao senhor."

Feinberg demonstrou um ar de satisfação quando Buck desligou o telefone. "Vamos voltar ao templo!" ele gritou e o motorista tirou o pé do acelerador. "Você não!" disse Feinberg. "Nós!"

Buck perguntou a si mesmo o que um homem com tanta energia e entusiasmo faria em outra profissão. "O senhor seria um exímio racquetball player [jogador de um tipo semelhante ao squash]."

"Eu sou um exímio jogador de squash!" retrucou Feinberg. "Categoria 'menos A. E você?"

"Aposentado."

"Tão jovem!"

"Tão atarefado."

"Ninguém é atarefado demais para praticar exercícios físicos", disse o rabino, batendo de leve em seu estômago firme e rijo. "Ah, o templo", ele disse. O trânsito estava congestionado e Buck continuou a fazer anotações.

 

Quando Hattie se desculpou para atender ao telefone, Rayford tirou do bolso seu Novo Testamento que incluía o livro dos Salmos, dos quais ele havia memorizado alguns versículos. À medida que sua ansiedade sobre a reunião com Carpathia começou a intensificar-se, ele passou a tentar localizar seus versículos favoritos.

Encontrou o Salmo 91 e leu os versículos que ele havia sublinhado. "O que habita no esconderijo do Altíssimo, e descansa à sombra do Onipotente, diz ao Senhor: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu em quem confio. Caiam mil ao teu lado, e dez mil à tua direita; tu não serás atingido. Nenhum mal te sucederá, praga nenhuma chegará à tua tenda. Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos."

Quando Rayford levantou os olhos, Hattie já tinha desligado o telefone e olhava para ele com ar de expectativa. "Desculpe-me", ele disse, fechando a Bíblia.

"Está tudo bem", ela disse. "O secretário-geral já pode recebê-lo."

 

Diante da afirmativa do motorista de que chegariam ao aeroporto a tempo, Feinberg voltou ao assunto. "O templo e a cidade de Jerusalém foram destruídos pelo rei Nabucodonozor. Setenta anos depois, foi emitido um decreto para que a cidade fosse reconstruída e, em seguida, o templo. O novo templo, sob a direção de Zorobabel e Josué, o sumo sacerdote, era tão inferior ao templo de Salomão que alguns anciãos choraram quando viram seus alicerces.”

"Mesmo assim, o templo serviu ao povo de Israel até ser profanado por Antíoco Epífanes, um legislador greco-romano. Por volta do ano 40 a.C, Herodes, o Grande, derrubou peça por peça do templo e reconstruiu-o. O templo passou a ser conhecido como Templo de Herodes. E você sabe o que aconteceu depois."

"Sinto muito, não sei."

"Você escreve sobre religião e não sabe o que aconteceu com o Templo de Herodes?"

"Na verdade, nesta reportagem sou um reserva do articulista religioso."

"Um reserva?"

Buck sorriu. "O senhor é um jogador de raquetball — categoria 'menos A' — e não sabe o que é reserva?"

"Não é uma palavra usada em squash", disse o rabino. "E com exceção do futebol americano, não me interesso por outros esportes. Deixe-me contar-lhe o que aconteceu com o Templo de Herodes. Tito, um general romano, sitiou Jerusalém e, apesar de ter dado ordens para que o templo não fosse destruído, os judeus não confiaram nele. Resolveram queimar o templo para impedir que caísse nas mãos dos pagãos. Hoje o Monte do Templo, local do antigo templo judaico, está ocupado pelos maometanos e abriga a mesquita muçulmana chamada Cúpula do Rochedo."

Buck estava curioso. "Como os muçulmanos foram persuadidos a transferir a Cúpula do Rochedo de lugar?"

"É uma prova da grandeza de Carpathia", disse Feinberg. "Quem, a não ser o Messias, poderia pedir aos devotos muçulmanos que mudassem o santuário que, na religião deles, é o segundo em importância depois de Meca, o local de nascimento de Maomé? Mas veja, a Cúpula do Rochedo no Monte do Templo está construída bem em cima do Monte Moriá, onde acreditamos que Abraão tenha mostrado sua submissão a Deus, dispondo-se a sacrificar seu filho Isaque. Evidentemente não cremos que Maomé seja divino, portanto acreditamos que nosso local sagrado está sendo profanado, enquanto a mesquita muçulmana estiver ocupando o Monte do Templo."

"Então hoje é um grande dia para Israel."

"Um grande dia! Desde que nossa nação foi estabelecida, temos reunido milhões de pessoas do mundo inteiro para a reconstrução do templo. A obra já começou. Muitas paredes pré-fabricadas estão terminadas e, em breve, serão enviadas para o local. Quero viver para assistir à reconstrução do templo. Ele será mais espetacular do que o templo da época de Salomão!"

 

"Finalmente nos conhecemos", disse Nicolae Carpathia, levantando-se e caminhando ao redor da mesa para apertar a mão de Rayford Steele. "Obrigado, Srta. Durham. Vamos nos sentar aqui mesmo."

Hattie saiu e fechou a porta. Nicolae apontou para uma cadeira e sentou-se na outra, diante de Rayford. "E assim fechamos nosso pequeno círculo."

Rayford sentia-se estranhamente calmo. Tinha orado por isso e sua mente estava repleta das promessas dos Salmos. "Como assim, senhor?"

"Acho interessante notar como o mundo é pequeno. Talvez seja por isso que acredito tanto que em breve seremos uma verdadeira comunidade global. Você acredita que vim a conhecê-lo por intermédio de um botânico israelense chamado Chaim Rosenzweig?"

"Ouvi falar de seu nome, evidentemente, mas não o conheço pessoalmente."

"Claro que não. Mas você o conhecerá. Se não for hoje, enquanto estiver aqui, será no sábado, no vôo para Israel. Chaim me apresentou a um jovem jornalista que escreveu uma reportagem sobre ele. O jornalista conheceu sua comissária de bordo, a Srta. Durham, no avião que você pilotava e depois apresentou-a a mim. Agora ela é minha assistente e apresentou você a mim. Que mundo pequeno!"

Earl Halliday dissera a mesma coisa quando ouviu falar que Hattie Durham, uma ex-funcionária da Pan-Con, estava trabalhando para o homem que queria Rayford como piloto do Air Force One. Rayford não disse nada a Carpathia. Não acreditava que o encontro entre eles havia sido coincidência. O mundo não era tão pequeno assim. Talvez todos eles tinham sido encaminhados para o lugar onde Deus queria que estivessem, e por esse motivo Rayford estava ali naquele dia. Não era uma situação que ele tinha almejado ou procurado, mas estava disposto a ouvir.

"Então, você quer ser o piloto do Air Force One."

"Não, senhor, não era esse o meu desejo. Estou disposto a pilotá-lo até Jerusalém com sua delegação, a pedido da Casa Branca, e depois vou decidir se aceito ou não o convite para o cargo de piloto."

"Você não procurou ocupar essa posição?"

"Não, senhor."

"Mas está disposto."

"Vou fazer uma tentativa."

"Sr. Steele, vou fazer um prognóstico. Presumo que depois de ver o avião, experimentar sua tecnologia de última geração, jamais desejará pilotar outro mais simples."

"Acredito que sim." Mas não por esse motivo, pensou Rayford. Só se for da vontade de Deus.

"Quero também contar-lhe um pequeno segredo, algo que ainda não foi divulgado. A Srta. Durham assegurou-me que você é um homem confiável, um homem de palavra e que recentemente tornou-se um homem religioso."

Rayford assentiu, não desejando dialogar.

"Vou confiar que você guardará segredo até a notícia ser divulgada. O Air Force One está sendo emprestado à Organização das Nações Unidas pelo presidente dos Estados Unidos como um gesto de apoio ao nosso trabalho."

"Os noticiários já divulgaram isso, senhor."

"Claro, mas ainda não divulgaram que, depois, o avião será doado a nós, junto com a tripulação, para nosso uso exclusivo."

"Quanta amabilidade da parte do presidente Fitzhugh."

"Quanta amabilidade", repetiu Carpathia. "E quanta generosidade."

Rayford compreendeu por que as pessoas eram atraídas pelo charme de Carpathia, mas, sentado diante daquele homem e sabendo que ele estava mentindo, era fácil resistir.

"Para quando está marcado seu vôo de volta?" perguntou Carpathia.

"Deixei-o em aberto. Estou à sua disposição. No entanto, preciso estar em casa antes de partirmos no sábado."

"Gosto de seu estilo", disse Carpathia. "Você está à minha disposição. Isso é ótimo. Evidentemente você deve entender que, se aceitar este emprego — e sei que vai aceitá-lo — não deverá fazer dele uma plataforma para proselitismos."

"Não entendi."

"Estou dizendo que a Organização das Nações Unidas, que passará a ser conhecida como Comunidade Global, e eu em particular, somos contra o sectarismo."

"Sou um crente em Cristo", disse Rayford. "Freqüento igreja. Leio minha Bíblia. Digo às pessoas o que acredito."

"Mas não no trabalho."

"Se o senhor vier a ser meu superior e der essa ordem, serei obrigado a obedecer."

"Serei seu superior, darei essa ordem e você obedecerá", disse Carpathia. "Creio que estamos entendidos."

"Certamente."

"Gosto de você e acredito que podemos trabalhar juntos."

"Eu não conheço o senhor, mas acredito que posso trabalhar com qualquer pessoa." De onde partira essa frase? Rayford quase sorriu. Se ele podia trabalhar com o Anticristo, com quem mais não poderia?

 

Assim que o táxi encostou no meio-fio do Aeroporto Internacional Kennedy, o rabino Marc Feinberg disse: "Estou certo de que você não se importará de incluir esta corrida de táxi em sua conta, uma vez que me entrevistou."

"Certamente", disse Buck. "O Semanário Global tem a satisfação de proporcionar-lhe uma corrida de táxi até o aeroporto, desde que não seja necessário levá-lo de avião para Israel."

"Já que você mencionou isso...", disse o rabino com um piscar de olhos, porém não completou a frase. Limitou-se a fazer um aceno, pegou sua bagagem e entrou apressadamente no terminal.

"Só chamadas com cartão..."

"Eu sei, só chamadas com cartão de crédito." Buck ligou para Steve Plank na ONU. "Qual o motivo para você surripiar minha mala?"

"Eu só estava tentando fazer-lhe um favor, velho companheiro. Você está no Plaza? Levarei a mala para você."

"Estou no Plaza, mas vou até aí. Não era isso que você pretendia?"

"Que assim seja."

"Estarei aí em uma hora."

"Carpathia talvez não esteja aqui."

"Não vou até aí para ver Carpathia. Vou até aí para ver você."

 

Nicolae Carpathia apertou o botão do interfone. "Srta. Durham, já providenciou o carro para nos levar até o hangar?"

"Sim, senhor. Está na entrada dos fundos."

"Estamos prontos."

"Darei um toque quando o pessoal da segurança chegar."

"Obrigado." Nicolae virou-se para Rayford. "Quero que você veja o avião."

"Certamente", disse Rayford, embora preferisse voltar para casa. Por que cargas d'água havia dito que estava à disposição de Carpathia?

 

"Vamos voltar para o hotel, senhor?"

"Não", respondeu Buck. "Para o edifício da ONU, por favor. Eu gostaria de usar novamente seu telefone celular. Posso?"

Quando Hattie deu o toque, Carpathia levantou-se e sua porta foi aberta. Dois seguranças postaram-se ao lado de Nicolae e Rayford enquanto eles se dirigiam para os corredores até o elevador de serviço. Desceram até o subsolo e caminharam em direção ao estacionamento onde havia uma limusine aguardando. O motorista levantou-se rapidamente e abriu a porta para Carpathia. Rayford foi encaminhado para o outro lado do carro, onde a porta já estava aberta.

Rayford notou algo estranho. Carpathia não lhe oferecera nada para beber enquanto estiveram em seu escritório e agora insistia em mostrar-lhe tudo o que havia na limusine em matéria de bebidas, desde uísque e vinho até cerveja e refrigerantes. Rayford aceitou um refrigerante.

"Você não bebe?"

"Não bebo mais."

"Costumava beber?"

"Nunca fui um beberrão, mas abusava de vez em quando. Não bebi mais nada desde que perdi minha família."

"Lamento muito a perda de sua família."

"Obrigado, mas já superei essa fase. Sinto imensamente a falta deles..."

"Claro."

"Mas sinto-me em paz."

"Sua religião acredita que Jesus Cristo os levou para o céu, não é isso?"

"Isso mesmo."

"Não vou fingir que aceito essa crença, mas respeito em razão do conforto que ela lhe trouxe."

Rayford gostaria de argumentar, mas lembrou-se do conselho prudente de Bruce Barnes quanto ao fato de 'testemunhar' ao Anticristo.

"Também não sou um beberrão", disse Carpathia, tomando um gole de água mineral gasosa.

 

"Por que você não quis que eu levasse sua mala ao hotel?" perguntou Steve Plank. "Eu teria ido até lá."

"Necessito de um favor."

"Podemos fazer uma troca de favores, Buck. Diga sim à proposta de Carpathia e jamais precisará pedir favores nesta vida."

"Para lhe dizer a verdade, Steve, neste momento tenho tantas reportagens excelentes nas mãos que não há tempo sequer para pensar em mudar de emprego."

"Escreva-as para nós."

"De jeito nenhum. Mas ajude-me, se você puder. Quero encontrar-me com aqueles dois indivíduos que estão no Muro das Lamentações."

"Nicolae odeia aqueles dois. Acha que são malucos. E é evidente que são."

"Então ele não teria problemas em me ajudar a entrevistá-los."

"Vou ver o que posso fazer. Hoje ele está ocupado, falando com um candidato a piloto.”

"Não diga!"

 

Carpathia e Rayford desceram da limusine em um imenso hangar do aeroporto Kennedy. Carpathia disse ao motorista: "Diga a Frederick para preparar a apresentação de sempre."

Quando as portas do hangar se abriram, o avião foi magnificamente iluminado por holofotes. No lado diante de Rayford viam-se as palavras Air Force One e o brasão da presidência dos Estados Unidos. No entanto, quando se dirigiram para o outro lado, Rayford viu um grupo de homens em cima de um andaime, pintando o avião. O brasão e o nome tinham sido eliminados. Em seu lugar, havia o antigo logotipo da Organização das Nações Unidas mas com as palavras Comunidade Global pintadas por cima do nome atual. E no lugar do nome da aeronave os homens estavam terminando de pintar as palavras Global Community One (Comunidade Global Um).

"Quanto tempo vai demorar para vocês terminarem de pintar os dois lados?" perguntou Carpathia ao chefe da equipe.

"A tinta estará seca em ambos os lados por volta da meia-noite!" foi a resposta. "Levamos seis horas para pintar este lado. A pintura do outro lado será mais rápida. Estará em perfeitas condições para voar no sábado!"

Carpathia fez um sinal de positivo com o polegar e os funcionários do hangar aplaudiram. "Gostaríamos de subir a bordo", disse Carpathia em voz baixa. Em poucos minutos os homens instalaram um elevador improvisado para permitir que os dois entrassem pela porta traseira daquele avião cintilante.

Rayford já havia conhecido inúmeros aviões novos e geralmente ficava impressionado, mas nenhum era semelhante ao que ele via naquele momento.

Cada detalhe foi luxuosamente instalado e todos eram funcionais e maravilhosos. Na parte traseira havia banheiros completos com chuveiros. Depois via-se a área reservada à imprensa, com tamanho suficiente para instalar divisórias. Cada poltrona tinha um telefone, tomada para modem, videocassete e TV. O restaurante ficava na parte central, completamente abastecido e com espaço para os passageiros movimentarem-se e respirarem.

Perto da parte frontal estavam os aposentos presidenciais e a sala de reuniões. Um dos cômodos continha sofisticados equipamentos de segurança e vigilância, serviço de comunicação de alta tecnologia, permitindo que o avião se comunicasse com qualquer parte do mundo.

Logo atrás da cabina do piloto viam-se os aposentos da tripulação, incluindo um apartamento privativo para o piloto. "Talvez você não queira permanecer dentro do avião quando pousarmos em algum lugar durante alguns dias", disse Nicolae, "mas com certeza vai ser difícil encontrar acomodações semelhantes fora daqui."

 

Enquanto Buck se encontrava na sala de Steve, Hattie entrou para avisar que Nicolae saíra por alguns minutos. "Oh, Sr. Williams!" ela disse. "Não me canso de agradecer-lhe por ter-me apresentado ao Sr. Carpathia."

Buck não sabia o que falar. Não queria dizer que foi uma satisfação. Na verdade, sentia-se arrependido. Fez apenas um sinal afirmativo com a cabeça.

"Você sabe com quem ele está hoje?" ela perguntou.

Ele sabia, mas fingiu ignorar. "Com quem?"

Buck entendeu que deveria estar sempre alerta diante dela, de Steve e principalmente de Carpathia. Eles não poderiam saber de sua amizade com Rayford, e se tivesse condições de impedir que os três tomassem conhecimento de seu caso com Chloe, seria melhor ainda.

"Rayford Steele. Ele era o piloto do avião em que conheci você."

"Eu me lembro", disse Buck.

"Você sabia que ele está sendo avaliado para ser o piloto do Air Force One!"

"Seria uma honra para ele, não?"

"Ele merece. É o melhor piloto com quem já trabalhei."

Buck sentia-se embaraçado por falar sobre seu novo amigo e irmão em Cristo como se mal o conhecesse. "O que faz dele um bom piloto?" perguntou Buck.

"Decolagens e aterrissagens suaves. Ele se comunica muito com os passageiros. Trata a tripulação como colegas e não como escravos."

"Impressionante", disse Buck.

"Você gostaria de conhecer o avião?" perguntou Steve.

"Posso?"

"Ele está no hangar suplementar do aeroporto Kennedy."

"Acabei de vir de lá."

"Gostaria de voltar?"

Buck deu de ombros. "Já designaram outra pessoa para fazer a reportagem sobre o novo avião, sobre o piloto e outros assuntos relacionados, mas com certeza eu adoraria conhecer o avião."

"Você poderá voar nele até Israel." "Não, não posso", disse Buck. "Meu chefe foi muito claro quanto a esta questão."

 

Quando Rayford voltou para casa naquela noite, sabia que Chloe seria capaz de adivinhar que ele estava pensativo. "Bruce cancelou a reunião desta noite", ela disse.

"Ótimo. Estou exausto."

"Então fale-me sobre Carpathia."

Rayford tentou. O que havia para ser dito? O homem era amistoso, charmoso, sereno e, se não tivesse mentido, Rayford teria pensado que eles o haviam julgado mal. "Acho que não há mais dúvidas quanto à sua identidade, você concorda?" ele deduziu.

"Em minha mente, não", ela disse. "Mas ainda não o conheço pessoalmente."

"Sabendo quem você é, acho que ele não a enganaria nem por um segundo."

"Assim espero", ela disse. "Mas Buck admite que ele é um assombro."

"Você teve notícias de Buck?"

"Ele ficou de ligar hoje à meia-noite, horário de Nova York."

"Será que vou precisar ficar acordado para ter a certeza de que você não vai cair no sono?"

"É difícil. Ele ainda não sabe que comemos nossos doces na mesma hora. Eu não poderia deixar de contar-lhe isso por nada deste mundo."

 

Buck Williams estava tirando proveito de todas as suas habilidades jornalísticas. No sábado, depois de tentar dormir um pouco no Hotel Rei Davi para recuperar o cansaço da viagem, deixou recados para Chaim Rosenzweig, Marc Feinberg e até mesmo para Peter Mathews. De acordo com Steve Plank, Nicolae Carpathia recusara o pedido de Buck para ajudá-lo a aproximar-se dos dois pregadores diante do Muro das Lamentações.

“Eu já contei a você, disse Steve. Ele acha que aqueles indivíduos são loucos e está desapontado por você pensar que merecem uma reportagem.”

“E ele não conhece ninguém que possa me ajudar a chegar lá?”

“É uma área restrita.”

“Exatamente o meu ponto forte. Será que finalmente descobrimos algo que Nicolae, o Grande, não pode fazer?”

Steve zangou-se. “Você sabe tanto quanto eu que Carpathia pode comprar o Muro das Lamentações – disse em tom irado. Mas você não chegará perto daquele lugar sem sua ajuda. Ele não quer você lá, Buck. Pelo menos uma vez na vida, procure entender e não se meta.”

“Ah! Até parece que sou assim.”

“Buck, deixe-me perguntar-lhe uma coisa. Se você afrontar Carpathia e depois recusar sua proposta ou deixá-lo tão irritado a ponto de ele desistir de contratá-lo, onde vai trabalhar?”

“Vou trabalhar.”

“Onde? Você não vê que ele exerce influência em qualquer lugar? O povo o adora! Fará qualquer coisa por ele. As pessoas saem de uma reunião com ele e passam a fazer coisas que jamais sonharam fazer.”

Não me diga! pensou Buck.

“Tenho muito trabalho a fazer — disse Buck. — De qualquer maneira, obrigado.”

“Neste momento você tem trabalho. Mas nada é permanente.”

Steve jamais proferira palavras tão verdadeiras, apesar de não saber.

A segunda batalha de Buck foi com Peter Mathews, que estava escondido em uma suíte de cobertura em um hotel cinco estrelas de Tel-Aviv. Apesar de ter recebido o recado de Buck, não dera a devida atenção. “Admiro você, Williams — ele disse — mas acho que já lhe passei as melhores informações que sei, tanto confidenciais como não-confidenciais. Não tenho nenhuma ligação com os indivíduos do Muro, mas vou-lhe dar uma opinião, se é isso que você quer.”

“Só quero encontrar alguém que tenha condições de me aproximar dos dois, a fim de que eu possa conversar com eles. Se quiserem me matar, me queimar ou ignorar minha presença, é prerrogativa deles.”

“Tenho permissão para aproximar-me do Muro das Lamentações por causa de minha posição, mas não estou interessado em ajudá-lo a chegar lá. Sinto muito. Acho que esses indivíduos são dois anciãos estudiosos do Torá, fingindo ser Moisés e Elias reencarnados. Seus trajes são horríveis e suas pregações, piores ainda. Não tenho idéia por que as pessoas morreram quando tentaram ofendê-los. Talvez esses dois bobocas tenham compatriotas escondidos no meio das massas que tiram da frente quem os ameaça. Agora preciso ir. Você estará presente por ocasião da assinatura do tratado na segunda-feira?”

“Estou aqui por esse motivo, senhor.”

“Então nos encontraremos lá. Faça um favor a si mesmo e não manche sua reputação escrevendo uma reportagem sobre esses dois. Se você quiser uma reportagem, acompanhe-me num passeio hoje à tarde, quando visitarei os possíveis locais para a instalação do Vaticano em Jerusalém.”

“Mas como o senhor explica o fato de não ter chovido em Jerusalém desde que esses dois começaram a pregar?’”

“Eu não dou a mínima atenção a isso. Talvez até as nuvens não queiram ouvir o que eles têm a dizer. De qualquer forma, é raro chover por aqui.”

 

Rayford conheceu a tripulação do Global Community One apenas poucas horas antes da decolagem. Nenhum dos tripulantes trabalhara na Pan-Continental. Durante uma rápida conversa preliminar com eles, Rayford enfatizara que a segurança era um requisito de suma importância. “É por isso que cada um de nós está aqui. Os procedimentos corretos e o protocolo vêm depois. Devemos fazer tudo de acordo com o regulamento e manter em dia nosso diário de bordo e a conferência de todos os itens da aeronave. Devemos estar vigilantes, com os pés no chão e servir a nossos patrões e passageiros. Embora tenhamos de dar tratamento diferenciado às autoridades e servi-las, devemos ter em mente que a segurança dessas pessoas é a nossa maior preocupação. A tripulação mais eficiente é a tripulação invisível. Os passageiros sentem conforto e segurança quando vêem uniformes e bom atendimento, mas não nos vêem individualmente.”

O primeiro co-piloto de Rayford era mais velho que ele e provavelmente gostaria de ocupar a posição de piloto. No entanto, era simpático e eficiente. O navegador era um jovem que Rayford não teria escolhido, mas que dava conta do recado. Os comissários de bordo tinham trabalhado junto no Air Force One e pareciam estar muito impressionados com a nova aeronave. Rayford não poderia culpá-los por isso. Tratava-se de uma maravilha da tecnologia, porém em breve eles já estariam acostumados e não mais haveria motivos para espanto.

Pilotar o 757 era, conforme Rayford comentara com o examinador em Dallas, a mesma coisa que sentar-se ao volante de um Jaguar. Contudo, a empolgação foi desaparecendo durante o vôo. Logo depois da decolagem, Rayford deixou a aeronave por conta do co-piloto e dirigiu-se a seus aposentos particulares. Esticou-se na cama e, de repente, se deu conta de sua solidão. Como Irene ficaria orgulhosa naquele momento, quando ele tinha alcançado a posição máxima na aviação mundial. Para ele, no entanto, isso significava muito pouco, apesar de sentir dentro de si que estava cumprindo a vontade de Deus. Por que motivo, ele não fazia idéia. Porém, no fundo Rayford tinha a certeza de que não mais voaria pela Pan-Con.

Telefonou a Chloe, acordando-a. “Sinto muito, Chio”, ele disse.

“Não se preocupe, papai. Como você está? Empolgado?”

“Ah, sim. Não posso negar isso.”

Eles já haviam conversado que as comunicações entre o ar e a terra provavelmente seriam vigiadas, portanto não deveria haver palavras depreciativas a respeito de Carpathia nem de qualquer outra pessoa ao redor dele. Também não mencionariam o nome de Buck.

“ Você conhece alguém daí?”

“Somente Hattie. Estou me sentindo muito só.”

“Eu também. Não conversei com ninguém mais. Devo receber um telefonema na segunda-feira de manhã, seu horário. Quando você chegará a Jerusalém?”

“Dentro de mais ou menos três horas pousaremos em Tel-Aviv e seremos transportados para Jerusalém em carros de luxo.”

“Você não vai pousar em Jerusalém?”

“Não. Um 757 não tem condições de pousar lá. Tel-Aviv fica apenas a cinqüenta e poucos quilômetros de Jerusalém.”

“Quando você vai voltar?”

“Estamos programados para sair de Telavive na terça-feira de manhã, mas agora estão dizendo que voaremos para Bagdá na segunda à tarde e sairemos de lá na terça de manhã. Isto aumenta o percurso total em seiscentas milhas aéreas, cerca de mais uma hora.”

“Por que Bagdá?”

“É o único aeroporto perto da Babilônia que comporta uma aeronave deste tamanho. Carpathia quer dar uma chegada até a Babilônia para contar seus planos ao povo de lá.”

“Você vai junto com ele?”

“Imagino que sim. Babilônia fica cerca de oitenta quilômetros ao sul de Bagdá, de ônibus. Se eu aceitar este emprego, imagino que vou conhecer uma grande parte do Oriente Médio nos próximos anos.”

“Eu já estou com saudade de você. Gostaria de estar aí.”

“Sei de quem você está com saudade, Chloe.”

“Minha saudade inclui você, papai.”

“Ah, dentro de um mês serei apenas um zero à esquerda para você. Então, vou poder ver de perto aonde você e esse tal de quem está com saudade vão chegar.”

“Bruce ligou. Ele recebeu um telefonema estranho de uma senhora chamada Amanda White, que diz ter conhecido a mamãe. Ela contou a Bruce que viu a mamãe apenas uma vez num dos grupos de estudos bíblicos da igreja e que não se lembra exatamente do nome dela. Ela só se lembra que o nome da mamãe soava como ferro e aço.”

“Hum — disse Rayford — Irene Steele. Nunca pensei nela dessa maneira. O que aquela senhora queria?”

“Ela contou que se tornou cristã em grande parte por lembrar-se do que a mamãe disse naquele estudo bíblico, e agora está procurando uma igreja. Ela queria saber se a Igreja Nova Esperança ainda estava de pé e funcionando.”

“Por onde ela tem andado?”

“Chorando a perda do marido e de duas filhas adultas. Ela os perdeu no Arrebatamento.”

“Se sua mãe foi tão importante em sua vida, como essa senhora não consegue lembrar-se do nome dela?”

“Sei lá — disse Chloe.”

 

Buck deu um cochilo de uma hora e meia antes de receber uma ligação de Chaim Rosenzweig, que acabara de chegar.

“Até eu vou precisar adaptar-me ao fuso horário, Cameron, disse Rosenzweig. — Já fiz tantas vezes esta viagem e, no entanto, ainda sinto os efeitos da mudança de horário. Há quanto tempo você está em nosso país?”

“Cheguei ontem de manhã. Preciso de sua ajuda. — Buck contou a Rosenzweig que gostaria de aproximar-se do Muro das Lamentações. — Já tentei — ele disse — mas devo ter ficado a quase cem metros de distância. Os dois homens estavam pregando, e a multidão era muito maior do que vi pela CNN.”

“Oh, a multidão é bem maior agora que estamos perto da assinatura do acordo. Em vista disso, talvez os dois intensifiquem suas atividades. Mais e mais pessoas estão chegando para ouvi-los, e aparentemente eles estão vendo judeus ortodoxos convertendo-se ao Cristianismo. Muito estranho. No caminho, Nicolae perguntou sobre os dois e os viu nos noticiários da TV. Ele ficou tão zangado como nunca vi.”

“O que ele disse?”

“Esse é o problema. Ele não disse nada. Seu rosto ficou vermelho e ele cerrou a mandíbula. Só o conheço um pouco, você sabe, mas sei quando ele está perturbado.”

“Chaim, preciso de sua ajuda.”

“Cameron, não sou ortodoxo. Não posso ir até o Muro, e mesmo que pudesse, provavelmente não me arriscaria. Também não o aconselho a ir. O fato mais importante aqui é a assinatura do acordo na segunda-feira de manhã. Nicolae, a delegação israelense e eu finalizamos os preparativos em Nova York na sexta-feira. Nicolae foi brilhante. Ele é magnífico, Cameron. Aguardo com ansiedade o dia em que nós dois estaremos trabalhando para ele.”

“Chaim, por favor. Sei que qualquer jornalista do mundo gostaria muito de ter uma entrevista exclusiva com os dois pregadores, mas sou o único que não vai desistir até conseguir ou morrer tentando.”

“Não faça isso.”

“Doutor, nunca lhe pedi nada a não ser um pouco de seu tempo, e o senhor sempre demonstrou generosidade.”

“Não sei o que posso fazer por você, Cameron. Eu mesmo o levaria até lá, se pudesse. Mas, de qualquer forma, você não vai conseguir.”

“Mas o senhor conhece alguém que tenha acesso.”

“Claro que conheço! Conheço muitos judeus ortodoxos, muitos rabinos, mas...”

“E quanto a Ben-Judá?”

“Ora, Cameron! Ele está muito atarefado. Sua apresentação ao vivo sobre o projeto de pesquisa irá ao ar na segunda-feira à tarde. Ele deve estar se preparando como um estudante antes das provas de fim de ano.”

“Talvez não, Chaim. Talvez ele já tenha feito tantas pesquisas que poderia falar sobre esta última durante uma hora, sem ter nenhuma anotação em mãos. Talvez ele já esteja pronto e aguardando algo com que se ocupar, a fim de não exagerar nos preparativos ou não ficar estressado enquanto aguarda o grande momento.”

Houve silêncio do outro lado da linha, e Buck orou para que Rosenzweig capitulasse.

“Não sei, Cameron. Eu não gostaria de ser incomodado numa ocasião tão próxima a um grande momento.”

“Você me faria apenas um favor, Chaim? Só peço que ligue para ele, deseje-lhe boa sorte e sinta como está sua programação neste fim de semana. Eu irei a qualquer lugar, a qualquer hora, se ele puder me fazer chegar perto do Muro.”

“Só se ele estiver à procura de uma diversão — disse Rosenzweig.. — Se eu perceber que ele está mergulhado em seu trabalho, não vou nem abordar o assunto.”

“Obrigado! O senhor me dará um retorno?”

“De uma forma ou outra. Cameron, por favor não fique muito esperançoso nem me culpe se ele não tiver tempo.”

“Eu jamais faria isso.”

“Eu sei. Percebo o quanto isso é importante para você.”

Buck estava desligado do mundo e não tinha idéia de quanto tempo o telefone estava tocando. Sentou-se na cama e viu o sol da tarde de domingo adquirir uma tonalidade alaranjada. Pela janela entrava uma réstia de luz, formando um belo desenho sobre a cama. Quando esticou o braço para atender o telefone, Buck viu sua imagem de relance no espelho. Suas faces estavam vermelhas e vincadas, o cabelo completamente despenteado. Sentia um gosto horrível na boca, e dormira sem trocar de roupa.

“Alô!”

“Aí ês Chamerown Weeleeums? — soou a voz grossa do outro lado da linha com sotaque hebraico.”

“Sim, senhor.”

“Aqui ês Dochtor Tsion Ben-Judah.”

Buck levantou-se imediatamente, como se estivesse diante de um mestre na sala de aula. — Sim, Dr. Ben-Judá. É um privilégio falar com o senhor!

“Obrigado, disse com dificuldade o Dr. Ben-Judá. — Estou ligando de perto de seu hotel.”

Buck esforçou-se para compreender. “Sim?”

“ Tenho um carro e um motorista.”

“Um carro e um motorista, entendi, sim, senhor.”

“Você está pronto para ir?”

“Ir?”

“Ao Muro.”

“Oh, sim, senhor... quero dizer, não, senhor. Vou precisar de dez minutos. O senhor pode aguardar dez minutos?”

“Eu devia ter telefonado antes. Nosso amigo disse que era um caso de certa urgência para você.”

Buck analisou rapidamente aquele estranho modo de falar.

“Um caso de urgência, sim! Só preciso de dez minutos! Obrigado, senhor!”

Buck tirou as roupas apressadamente e entrou debaixo do chuveiro. Não esperou a água esquentar. Ensaboou o enxaguou o corpo e, em seguida, barbeou-se o mais rápido que pôde.

Como não tinha tempo a perder procurando o adaptador elétrico para o secador de cabelos, pegou uma toalha e esfregou com tanta força seus cabelos compridos que pensou estar arrancando metade do couro cabeludo.

Passou um pente nos cabelos e escovou os dentes. Que roupa deveria usar para ir ao Muro das Lamentações? Ele sabia que não teria permissão para entrar, mas será que ofenderia seu anfitrião se não usasse paletó e gravata? Ele não tinha trazido terno. Não tinha planejado o que vestir mesmo por ocasião da assinatura do tratado na manhã seguinte.

Escolheu uma camisa comum de algodão grosso, calça jeans, botas de cano curto e jaqueta de couro. Jogou seu gravador e sua câmera dentro de uma pequena sacola de couro e desceu correndo três lances de escada. Quando atravessou rapidamente a porta de saída, parou. Não tinha idéia da fisionomia do rabino. Será que ele era parecido com Rosenzweig, com Feinberg ou com nenhum dos dois?

Não se parecia com nenhum dos dois. Tsion Ben-Judá, trajando terno preto e chapéu de feltro preto, desceu do banco de passageiros de um Mercedes branco e acenou timidamente. Buck correu em sua direção.

— Dr. Ben-Judá? — ele disse, apertando sua mão. O rabino era um homem de meia-idade, magro, de fisionomia jovem, forte e traços pronunciados, e com apenas alguns fios grisalhos em seu cabelo castanho escuro.

Em seu inglês com sotaque, o rabino disse: “Em seu dialeto, meu primeiro nome soa mais ou menos como a cidade, Zion [Sião]. Você pode me chamar assim.”

“Zion? O senhor tem certeza?”

“Certeza de meu nome?. O rabino sorriu. — Tenho certeza.”

“Não, quero dizer, o senhor tem certeza de que posso chamá-lo...”

“Sei o que o você quer dizer, Sr. Williams. Pode me chamar de Zion.”

Para Buck, Zion não soava muito diferente de Tsion no modo de falar do Dr. Ben-Judá. “Por favor, chame-me de Buck.”

“Buck? — O rabino segurou a porta aberta enquanto Buck entrava e sentava-se ao lado do motorista.”

“É um apelido.”

“Está certo, Buck. O motorista não entende nenhuma palavra de inglês.”

Buck virou-se e viu o motorista com a mão estendida. Apertou a mão dele e o homem disse algo totalmente indecifrável. Buck limitou-se a sorrir e movimentar a cabeça afirmativamente. O Dr. Ben-Judá dirigiu-se ao motorista em hebraico, e o carro começou a rodar.

“Agora, Buck – disse o rabino enquanto Buck virava-se no banco para ver o rosto dele — o Dr. Rosenzweig disse que você quer ter acesso ao Muro das Lamentações, o que é impossível, você deve compreender. Só posso levar você até perto das duas testemunhas para que possa chamar a atenção deles, se tiver coragem.”

“As duas testemunhas? O senhor chama os dois de testemunhas? É assim que meus amigos e eu...”

O Dr. Ben-Judá levantou as duas mãos e virou a cabeça, indicando que não responderia nem comentaria aquela pergunta. — A pergunta é: você tem coragem?

“Tenho.”

“E não vai me responsabilizar por qualquer coisa que possa acontecer a você?”

“Claro que não, mas eu também gostaria de entrevistar o senhor.”

O rabino levantou as mãos novamente. — Deixei claro à imprensa e ao Dr. Rosenzweig que não estou concedendo entrevistas.

“Só quero algumas informações pessoais. Não vou perguntar-lhe sobre a pesquisa, porque estou certo de que após ter resumido três anos de estudos em uma hora de apresentação, o senhor explicará todas as suas conclusões amanhã à tarde.”

“Exatamente. Quanto a informações pessoais, tenho quarenta e dois anos. Cresci em Haifa, filho de rabino ortodoxo. Tenho dois doutorados, um em história judaica e um em línguas antigas. Estudei e lecionei durante a vida inteira e me considero mais um erudito e historiador do que um educador, embora meus alunos sejam generosos quando me avaliam. Penso, oro e leio a maior parte do tempo em hebraico, e fico embaraçado por falar tão mal o inglês, principalmente num país igualitário como este. Conheço a gramática e a sintaxe inglesas melhor do que muitos ingleses e muitos americanos — você está fora disso, é claro — mas nunca tive tempo de praticar e muito menos de aperfeiçoar minha dicção. Sou casado há apenas seis anos e tenho dois filhos pequenos, um menino e uma menina. Há pouco mais de três anos, fui comissionado por um órgão estatal para conduzir um estudo completo das passagens messiânicas a fim de que os judeus reconheçam o Messias quando ele vier. Foi o trabalho mais gratificante da minha vida. No processo, incluí o grego e o aramaico na lista dos idiomas antigos que domino, que agora chegam a vinte e dois. Estou empolgado por ter completado o trabalho e ansioso para revelar minhas descobertas ao mundo, via TV. Não pretendo que o estudo vá competir com qualquer outro que inclua sexo, violência ou humor, mas espero que gere controvérsias.

“Não sei o que mais perguntar — admitiu Buck.”

“Então é melhor terminarmos a entrevista e passarmos para o assunto do momento.”

“Tenho curiosidade de saber por que o senhor está investindo seu tempo nisto.”

“O Dr. Rosenzweig é um mentor e um dos colegas que mais prezo. Um amigo dele é amigo meu.’”

“Obrigado.”

“Admiro o trabalho seu. Li os artigos que você escreveu sobre o Dr. Rosenzweig e muitos outros. Além disso, os homens do Muro também me intrigam. Talvez a minha versatilidade em línguas ajude a nos comunicar com eles. Até agora, só sei que eles se comunicam com as massas que se reúnem ao seu redor. Eles falam com as pessoas que os ameaçam, mas, por outro lado, não conheço ninguém que tenha conversado com eles.”

O Mercedes estacionou perto de alguns ônibus de turismo, e o motorista aguardou enquanto o Dr. Ben-Judá e Buck subiam numa escada para avistar o Muro das Lamentações, a Colina do Tempo e tudo o que havia entre um e outro. — Nunca vi uma multidão tão grande como esta — disse o rabino.

“Mas todos estão em silêncio — cochichou Buck.”

“Os dois pregadores não usam microfones — explicou o Dr. Ben-Judá. — As pessoas que fazem barulho se arriscam. Há tanta gente querendo ouvir o que os dois homens têm a dizer que sempre existe alguém para ameaçar os arruaceiros.”

“Os dois nunca fazem uma pausa para descansar?”

“Ah, sim, fazem. De vez em quando um deles caminha ao redor daquele pequeno edifício ali e deita-se no chão, perto da cerca. Geralmente os dois se revezam para descansar e falar. Os homens que há pouco tempo foram consumidos pelo fogo tentaram atacar os dois pelo lado de fora da cerca enquanto eles descansavam. É por isso que ninguém se aproxima dos dois quando eles estão ali.”

“Talvez esta seja a minha melhor oportunidade — disse Buck.”

“É o que estou pensando.”

“O senhor vai comigo?”

“Só se deixarmos claro aos dois que não queremos lhes fazer nenhum mal. Eles mataram pelo menos seis pessoas e ameaçaram muitas outras. Um amigo meu esteve presente no dia em que eles queimaram quatro agressores, e ele jura que o fogo saiu da boca dos dois.”

“O senhor acredita nisso?”

“Não tenho motivos para duvidar de meu amigo, apesar de estarmos bem distantes dos dois.”

“Será que existe um momento apropriado para nos aproximarmos deles, ou devemos sondar o ambiente?”

“Acho melhor nos misturarmos à multidão, antes de mais nada.”

Eles desceram a escada e caminharam em direção ao Muro. Buck estava impressionado com a demonstração de respeito da parte do povo. A uma distância de doze ou quinze metros dos pregadores havia rabinos ortodoxos, curvando-se, orando e introduzindo papéis contendo orações nas fendas das pedras do Muro. De vez em quando, um dos rabinos virava-se para as testemunhas e levantava o braço com a mão fechada, gritando palavras em hebraico. A multidão pedia que se calasse. Às vezes, um dos pregadores respondia diretamente.

Quando Buck e o Dr. Ben-Judá se aproximaram da multidão, um rabino que estava diante do Muro ajoelhou-se, olhou para o céu e proferiu, aos berros, uma oração de angústia.

“Silêncio! — gritou um dos pregadores, e o rabino caiu num choro convulsivo. O pregador virou-se para a multidão.”

Ele implora ao Deus Todo-poderoso que nos destrua por estarmos blasfemando seu nome! Mas ele é igual aos fariseus de antigamente! Ele não reconhece aquele que foi Deus, que é Deus e que será Deus eternamente! Viemos para testemunhar a divindade de Jesus Cristo de Nazaré!”

Com isso, o rabino que chorava prostrou-se e escondeu o rosto, tremendo de humilhação diante das palavras cruéis que ouvira.

“Você gostaria que eu traduzisse? — cochichou o Dr. Ben-Judá a Buck.”

“Traduzir o quê? A oração do rabino?”

“E a resposta do pregador.”

“Entendi o que o pregador disse.”

O Dr. Ben-Judá parecia perplexo. — Se eu soubesse que você fala hebraico fluentemente, teria sido muito mais fácil eu me comunicar com você.

“Eu não sei falar hebraico. Não entendi a oração do rabino, mas o pregador falou à multidão em inglês.”

Ben-Judá balançou a cabeça. – Eu me enganei. Às vezes esqueço em que língua estou falando ou ouvindo. Mas veja! Agora! Ele está falando em hebraico novamente. Está dizendo...

“Perdão por interromper o senhor, mas ele está falando em inglês. Existe um sotaque hebraico, mas ele está dizendo:”

"E Ele tem o poder de impedir que você caia..."

“Você está entendendo?!”

“Claro.”

O rabino demonstrou estar confuso e cochichou a Buck em tom de voz sinistro. “Ele está falando em hebraico.”

Buck virou-se e fixou o olhar nos dois pregadores. Eles revezavam-se para falar, frase por frase. Buck entendia cada palavra em inglês. Ben-Judá tocou de leve no ombro de Buck, e ambos entraram no meio da multidão. — Inglês? — perguntou Ben-Judá a um homem de características hispânicas que estava de pé ao lado da mulher e dos filhos.

— Espanhol — respondeu o homem, como se estivesse se desculpando.

O Dr. Ben-Judá imediatamente passou a conversar com ele em espanhol. O homem assentia com a cabeça e respondia afirmativamente. O rabino agradeceu-lhe e continuou a caminhar. Encontrou um norueguês e conversou com ele na língua nativa daquele homem, e depois conversou com alguns asiáticos. Ele segurou firme no braço de Buck e afastou-o da multidão, aproximando-se dos pregadores. Pararam a cerca de dez metros dos dois homens, separados por uma grade de ferro.

“Estas pessoas estão ouvindo os pregadores, cada uma em sua própria língua! — disse Ben-Judá com a voz estremecida. — Com certeza isto procede de Deus!”

“O senhor tem certeza?”

“Absoluta. Eu ouço os dois falando em hebraico. Você ouve os dois falando em inglês. A família do México conhece apenas um pouco de inglês e nada de hebraico. O homem da Noruega conhece um pouco de alemão e de inglês, mas nada de hebraico. Ele ouve os dois falando em norueguês. Oh Deus, oh Deus — complementou o rabino, e Buck percebeu que seu tom era de reverência. Estava com medo de que Ben-Judá desfalecesse.”

Iuuuuh! Gritou um jovem de botas surradas, calça caqui e camiseta branca, abrindo caminho por entre a multidão. As pessoas deitaram-se imediatamente no chão quando viram sua arma automática. Ele usava uma corrente dourada e tinha barba e cabelos pretos desgrenhados. Seus olhos escuros estavam injetados e ele rodava uma espécie de pandeiro no ar, para abrir caminho até os pregadores.

O jovem gritava algumas palavras num dialeto oriental que Buck não conseguia entender. Porém, enquanto Buck estava deitado no chão olhando por baixo do braço, o rabino Ben-Judá cochichou: — Ele diz que está em missão de Alá.

Buck estendeu o braço para pegar sua sacola e ligou o gravador enquanto o jovem corria para a frente da multidão. As duas testemunhas pararam de pregar e permaneceram lado a lado, fitando o jovem armado, enquanto ele se aproximava, correndo a toda velocidade e disparando tiros. Os pregadores continuaram firmes como uma rocha, sem falar, sem se mover, com os braços cruzados sobre seus trajes longos e esfarrapados. Quando o jovem chegou a uma distância de um metro e meio dos dois, pareceu chocar-se contra uma parede invisível. Ele caiu e rolou, e sua arma voou para longe. Sua cabeça bateu no chão ele começou a gemer.

De repente, um dos pregadores gritou: — Você está proibido de aproximar-se dos servos do Deus Altíssimo! Estamos sob sua proteção até o momento devido e causamos desgraça a qualquer um que se aproxime sem a proteção do próprio Jeová. — Enquanto ele terminava de falar, o outro soprou uma coluna de fogo da boca que reduziu a cinzas as roupas do jovem, consumiu seu corpo e órgãos e, em segundos, deixou no chão um esqueleto carbonizado, de onde saía fumaça. A arma derreteu-se e fundiu-se com o cimento, e o ouro derretido da corrente do jovem penetrou na cavidade de seu peito.

Deitado de bruços e boquiaberto, Buck pôs a mão nas costas do rabino, que tremia incontrolavelmente. As famílias correram gritando em direção a seus carros e ônibus, enquanto os soldados israelenses se aproximavam lentamente do Muro, com as armas engatilhadas.

Um dos pregadores falou. — Ninguém deve nos temer, se vier aqui para ouvir nosso testemunho a respeito do Deus vivo! Muitos creram e ouviram o que dissemos. Somente aqueles que nos querem agredir morrerão! Não temais!

Buck acreditou nele. Não tinha certeza se o rabino também acreditou. Ambos levantaram-se e começaram a afastar-se, porém os olhos das testemunhas estavam fixos neles.

Os soldados israelenses gritavam da calçada da praça pública. — Os soldados dizem que devemos sair daqui lentamente — traduziu o Dr. Ben-Judá.

“Quero ficar. — disse Buck. — Quero conversar com esses dois.”

“Você não viu o que acabou de acontecer?”

“Claro, mas ouvi também que eles não fazem nenhum mal aos ouvintes sinceros.”

“Você é um ouvinte sincero ou é um jornalista à procura de um furo de reportagem?”

“Sou as duas coisas — admitiu Buck.”

“Deus o abençoe — disse o rabino, virando-se e falando em hebraico com as duas testemunhas enquanto os soldados gritavam para que ele, Buck e as outras pessoas se afastassem dali. Buck e Ben-Judá olharam para os dois, que agora permaneciam em silêncio.”

“Eu lhes disse que voltaremos para encontrá-los às dez horas desta noite atrás do edifício onde eles descansam de vez em quando. Você tem condições de vir comigo?”

“Não rejeitaria este convite por nada deste mundo — disse Buck.”

 

Depois de terminar um jantar tranqüilo com parte de sua nova tripulação, Rayford recebeu um recado urgente de Chloe. A ligação de retorno demorou alguns minutos para ser completada, e Rayford desejou que ela lhe tivesse dado alguma indicação do que havia acontecido. Chloe não tinha o hábito de dizer que alguma coisa era urgente, se realmente não fosse. Ela atendeu após o primeiro toque.

“Alô! — ela disse. — Buck? Papai?”

“Sim, o que houve?”

“Como está Buck?”

“Não sei. Ainda não o vi.”

“Você vai vê-lo?”

“Com certeza, isto é, suponho.”

“Você sabe em que hospital ele está?”

“O quê?”

“Você não viu?”

“Vi o quê?”

“Papai, a notícia foi divulgada aqui hoje de manhã. As duas testemunhas diante do Muro das Lamentações queimaram um indivíduo até morrer, e todos os que estavam perto caíram no chão. Um dos dois últimos que ficaram estendidos ali era Buck.”

“Você tem certeza?”

“Absoluta.”

“Você sabe com certeza se ele foi ferido?”

“Não! Só pensei. Ele estava deitado no chão ao lado de um homem de terno preto, cujo chapéu caiu-lhe da cabeça.”

“Onde ele está hospedado?”

“No Hotel Rei Davi. Deixei um recado para ele. Disseram que a chave estava na portaria, mas que ele saíra. O que isso significa?”

“Algumas pessoas costumam deixar a chave na portaria sempre que saem do hotel. Não há nada de especial nisso. Tenho certeza de que ele vai telefonar para você.”

“Existe algum jeito de você descobrir se ele foi ferido?”

“Vou tentar. Vamos fazer o seguinte: se souber de alguma coisa, telefono para você, quer a notícia seja boa ou má.”

 

Os joelhos de Buck tremiam como gelatina. — O senhor está bem, rabino?

“Estou bem — respondeu o Dr. Ben-Judá — mas ainda não me recuperei do susto.”

“Sei o que está sentindo.”

“Quero acreditar que aqueles homens são de Deus.”

“Eu acredito que são — disse Buck.”

“Você acredita? Você é um estudioso da Bíblia?”

“Passei a estudá-la recentemente.”

“Venha. Quero mostrar-lhe uma coisa.”

Quando eles retornaram ao carro, o motorista do rabino estava de pé com a porta de seu lado aberta e o rosto pálido. Tsion Ben-Judá conversou com ele em hebraico, tranqüilizando-o. O motorista olhou firme para o rabino e depois para Buck, o qual forçou um sorriso.

Buck entrou no carro e sentou-se ao lado do motorista. Ben-Judá orientou o motorista em voz baixa para que estacionasse o mais perto possível do Golden Gate (Portão de Ouro), a leste da Colina do Templo. Convidou Buck para caminharem juntos até o portão de modo que ele pudesse interpretar as palavras rabiscadas em hebraico. — Veja. Aqui diz o seguinte: "Venha, Messias". E aqui: "Liberte-nos". E ali: "Venha em triunfo". Meu povo tem almejado, orado, observado e aguardado a chegada do Messias há séculos. Porém, uma parte do Judaísmo, até mesmo na Terra Santa, tornou-se secular e menos orientado biblicamente falando. Minha pesquisa foi solicitada quase como um fato inevitável. As pessoas perderam a noção exata do que ou de quem estão procurando, e muitas desistiram. E para que você comprove a intensa animosidade entre os muçulmanos e os judeus, veja este cemitério que muçulmanos construíram junto desta cerca aqui, do lado de fora.

“Qual é o significado?”

“A tradição judaica diz que no final dos tempos, o Messias e Elias conduzirão os judeus ao templo em triunfo através do portão do lado leste. Mas Elias é um sacerdote e, se atravessar um cemitério, será maculado, portanto os muçulmanos construíram um aqui para tornar impossível a entrada triunfal.”

Buck pegou seu gravador e ia pedir ao rabino que repetisse aquele pequeno trecho da história, mas percebeu que ainda estava ligado. — Veja isto — disse Buck. — Gravei toda a investida daquele jovem.

Ele voltou a fita até o ponto em que ouviram o tiroteio e os gritos. Depois ouviram o som do jovem caindo e a arma sendo atirada para longe. Em sua mente, Buck reteve a imagem do fogo saindo da boca de um dos pregadores. Na fita, o som foi semelhante ao de uma forte rajada de vento. Mais gritos. Em seguida, os pregadores gritaram numa língua que Buck não conseguiu entender.

“É hebraico! — disse o rabino Ben-Judá. — Com certeza você ouviu as palavras em hebraico!”

“Eles falaram em hebraico — admitiu Buck — e o gravador captou as palavras em hebraico. Mas eu as ouvi em inglês e tenho absoluta certeza.”

“Você disse que ouviu os dois prometerem que não causariam mal àquele que estivesse ali para ouvir o testemunho deles.”

“Entendi palavra por palavra.”

O rabino fechou os olhos. — O momento em que isto aconteceu é muito importante para minha apresentação.

Buck caminhou ao lado dele de volta para o carro. — Preciso dizer-lhe uma coisa. Acredito que seu Messias já veio.

“Sei disso, meu jovem. Estarei interessado no que os pregadores vão dizer quando você lhes contar isso.”

 

Rayford conversou com Steve Plank para constatar se algum de seus funcionários tinha notícia de mais uma morte no Muro das Lamentações. Não falou especificamente de Buck, pois não queria que Plank soubesse da amizade entre ambos.

“Sabemos de tudo o que aconteceu — disse Plank zangado. — O secretário-geral acredita que aqueles dois devem ser presos e julgados por assassinato. Ele só não entende por que o exército israelense parece tão impotente.”

“Talvez eles tenham medo de ser queimados.”

“Que chance teriam os dois contra uma arma de precisão de alta potência? Alguém cerca o local, tira fora os inocentes e mata aqueles dois. Pode ser uma granada ou um míssil.”

“Essa é a idéia de Carpathia?”

“Ouvi de sua própria boca.”

“Palavras de um verdadeiro pacifista.”

 

Rayford viu o noticiário e estava certo de que Chloe tinha razão. Era Buck Williams o homem que naquele momento estava deitado no chão, aparentemente com o corpo completamente chamuscado, a uma distância de pouco menos de dez metros das testemunhas e bem próximo do atirador. Porém, a TV de Israel continuou a reproduzir as imagens e, após observar a cena por mais alguns instantes, Rayford conseguiu tirar os olhos da testemunha que soprava fogo e observar as margens da tela. Buck estava se levantando rapidamente e ajudando o homem de terno preto a levantar-se também. Nenhum dos dois parecia estar ferido. Rayford ligou para o Hotel Rei Davi. Como Buck ainda não havia retornado, Rayford foi de táxi até o hotel e sentou-se no saguão para aguardar sua chegada. Sabendo que não deveria ser visto na companhia de Buck, Rayford planejava esgueirar-se até uma cabina telefônica assim que o avistasse.

“Na longa história do Judaísmo — estava dizendo o rabino Ben-Judá — existem claras evidências da mão protetora de Deus. Mais durante os tempos bíblicos, é claro, porém a proteção de Israel contra todas as guerras modernas, mesmo lutando em condição de inferioridade, é outro exemplo. A destruição da Força Aérea Russa, deixando a Terra Santa incólume, com certeza foi um ato de Deus.”

Buck virou-se para trás no banco do carro. — Eu estava aqui quando isso aconteceu.

“Li sua reportagem — disse Ben-Judá. — Mas pelo mesmo motivo os judeus aprenderam a ser céticos em relação ao que aparenta ser uma intervenção divina em suas vidas. Os que conhecem as Escrituras sabem que, apesar de Moisés ter tido o poder de transformar uma vara em serpente, os mágicos do Faraó também fizeram o mesmo. Eles transformaram a água em sangue, imitando Moisés. Daniel não foi o único interpretador de sonhos na corte do rei. Estou lhe contando isto só para explicar por que esses dois pregadores estão sendo vistos com tantas suspeitas. Seus atos são poderosos e terríveis, mas sua mensagem é um anátema no modo de pensar dos judeus.”

“Mas eles estão falando sobre o Messias! — disse Buck.”

“E parecem ter o poder de sustentar suas afirmações — disse Ben-Judá. — Porém a idéia de Jesus ter sido o Messias judeu é arcaica, tem milhares de anos. O nome de Jesus é tão profano aos judeus como o racismo e os epítetos são para outras minorias.”

“Algumas pessoas converteram-se aqui — disse Buck. — Eu vi isso nos noticiários, gente curvando-se e ajoelhando-se diante da cerca, tornando-se seguidores de Cristo.”

“A duras penas — disse o rabino. — E eles são uma grande minoria. Por mais boa impressão que essas testemunhas de Cristo possam causar, você não verá um número significativo de judeus converter-se ao Cristianismo.”

“Esta é a segunda vez que o senhor chama os pregadores de testemunhas — disse Buck. — O senhor sabe que isso é o que a Bíblia...”

“ Sr. Williams — interrompeu o rabino Ben-Judá — não se engane ao pensar que sou apenas um estudioso do Torá. Você deve entender que meus estudos incluíram as obras sagradas de todas as principais religiões do mundo.”

“Então como o senhor o explica o Novo Testamento, uma vez que o conhece?”

“Em primeiro lugar, você talvez esteja exagerando ao dizer que eu "conheço" o Novo Testamento. Não posso afirmar que o conheço tanto quanto minha Bíblia. Só passei a aprofundar-me no estudo do Novo Testamento nos últimos três anos. Em segundo lugar, você está extrapolando a ética jornalística.”

“Não estou perguntando como jornalista! — disse Buck. — Estou perguntando como cristão!”

“Não confunda gentio com cristão — disse o rabino. — Muitas, muitas pessoas se consideram cristãs só porque não são judias.”

“Eu sei qual é a diferença — disse Buck. — De amigo para amigo, ou pelo menos de conhecido para conhecido, o senhor, com todo o seu estudo, deve ter chegado a algumas conclusões a respeito de Jesus como o Messias.”.

O rabino escolheu cuidadosamente as palavras. “Jovem, em três anos eu não divulguei a ninguém uma letra sequer dos resultados de minhas pesquisas. Mesmo aqueles que me encarregaram deste estudo e o patrocinaram não sabem a que conclusões eu cheguei. Respeito você. Admiro sua coragem. Vou levá-lo novamente até as duas testemunhas hoje à noite, conforme prometi. Porém, não vou revelar nada a você do que vou dizer na TV amanhã.”

“Entendo, disse Buck. — Haverá mais pessoas vendo do que o senhor imagina.”

“Talvez. E talvez eu estivesse usando de falsa modéstia quando disse que minha apresentação provavelmente não competiria com a programação normal. A CNN e o órgão estatal que me incumbiu do estudo têm cooperado em âmbito internacional para comunicar a transmissão do programa aos judeus de todos os continentes. Disseram-me que o índice de audiência em Israel será apenas uma fração dos telespectadores judeus do mundo inteiro.”

 

Rayford estava lendo o International Tribune quando Buck passou apressado por ele dirigindo-se à recepção, onde pegou a chave e um recado. Rayford provocou um ruído com as folhas do jornal e, quando Buck olhou em sua direção, fez um sinal que telefonaria para ele. Buck movimentou a cabeça afirmativamente e subiu a escada.

“É melhor você ligar para Chloe — disse Rayford quando ligou da cabina telefônica para Buck alguns minutos depois. — Você está bem?”

“Sim. Rayford, eu estava lá!”

“Eu vi você.”

“O rabino com quem eu estava é amigo de Rosenzweig. É o tal que falará na TV amanhã à tarde. Avise a quem você puder para que vejam o programa. Ele é uma pessoa muito interessante.”

“Vou avisar. Prometi a Chloe que um de nós ligaria para ela assim que eu tivesse alguma notícia.”

“Ela viu?”

“Sim, no noticiário da manhã.”

“Vou ligar para ela agora mesmo.”

 

Buck pediu à telefonista do hotel que fizesse a ligação e desligou, aguardando a chamada. Nesse ínterim, sentou-se na beira da cama com a cabeça baixa. Sentiu um arrepio ao pensar no que vira. Depois de ter visto a mesma coisa, ouvido a mesma coisa, como o rabino podia insinuar que os dois se faziam passar por mágicos ou videntes e que não eram homens de Deus? O telefone tocou. — Sim!

“Buck!”

“Sou eu, Chloe, e estou bem.”

“Oh, graças a Deus.”

“Obrigado!”

Chloe parecia emocionada. “Buck, aquelas testemunhas conhecem a diferença entre quem é crente e quem é inimigo, não é mesmo?”

“Espero que sim. Vou saber disso hoje à noite. O rabino vai me levar de novo até lá para eu vê-los.”

“Quem é o rabino?”

Buck contou-lhe a história do rabino.

“Você tem certeza que isso é prudente?”

“Chloe, é a chance de toda a minha vida! Ninguém conseguiu falar com eles particularmente.”

“Qual é a posição do rabino?”

“Ele é ortodoxo, mas conhece o Novo Testamento, pelo menos intelectualmente. Você e Bruce precisam ver o programa amanhã à tarde... bem, estamos seis horas na frente de vocês. Peça a todos na igreja que vejam. Seria interessante. Se você quiser ver a assinatura do pacto antes, vai precisar levantar bem cedo.”

“Buck, estou com saudade de você.”

“Eu também. Mais do que você pensa.”

 

Rayford retornou ao hotel em que estava hospedado e encontrou um envelope de Hattie Durham. Dentro havia o seguinte bilhete:

Capitão Steele, isto não é um trote. O secretário-geral está lhe enviando a passagem anexa para a solenidade de amanhã cedo e manifestando sua ótima impressão sobre o seu serviço no Global Community One. Como ele não sabe se terá condições de conversar pessoalmente com você até amanhã à tarde, a caminho de Bagdá, está desde já agradecendo o seu serviço. E eu também. Hattie D.

Rayford colocou a passagem junto com seu passaporte e jogou o bilhete no lixo.

 

Buck, sofrendo ainda as conseqüências do fuso horário e do trauma da manhã, tentou dormir algumas horas antes do jantar. Jantou sozinho uma comida leve. Enquanto isso, pensava consigo se haveria algum protocolo para encontrar-se com os homens de Deus. Seriam eles humanos? Seriam espíritos? Seriam, como Bruce acreditava, Elias e Moisés? Eles chamavam um ao outro de Eli e Moisés. Poderiam ter milhares de anos? Buck estava mais ansioso por conversar com eles do que esteve quando entrevistou um chefe de estado ou até mesmo Nicolae Carpathia.

Fazia muito frio à noite. Buck vestiu um paletó de lã esporte com forro grosso e bolsos grandes para não precisar carregar uma sacola. Pegou apenas uma caneta, um bloco e um gravador, e lembrou-se de falar com Jim Borland e outros funcionários do Semanário para saber se os fotógrafos estavam conseguindo tirar fotografias dos dois enquanto pregavam, mesmo que fosse a longa distância.

 

Às 9:45 Rayford sentou-se na cama. Cochilara diante da TV, com a roupa do corpo, mas algo lhe chamara a atenção. Ele ouvira a palavra Chicago, talvez Chicago Tribune, e isso o fez despertar. Começou a vestir o pijama enquanto ouvia. O jornalista estava resumindo uma reportagem importante diretamente dos Estados Unidos.

"O secretário-geral está fora do país este fim de semana e sem condições para comentar, mas os principais meios de comunicação do mundo inteiro estão confirmando esta notícia. A surpreendente legislação concede a uma autoridade não-eleita e a uma organização internacional sem fins lucrativos o domínio irrestrito de todas as formas de veiculação de notícias e abre as portas para a Organização das Nações Unidas, que em breve será conhecida como Comunidade Global, para que ela adquira e controle as comunicações via jornais, revistas, rádio, televisão, cabo e satélite. A única limitação será o valor do capital disponível à Comunidade Global, mas os seguintes meios de comunicação estão entre os mais visados pelo grupo da Comunidade Global encarregado dessa transação: New York Times, Long Island News Day, USA Today, Boston Globe, Baltimore Sun, Washington Post, Atlanta Journal and Constitution, Tampa Tribune, Orlando Sentinel, Houston..."

Sentado na beira da cama, Rayford parecia não acreditar no que ouvia. Nicolae Carpathia conseguira colocara-se em posição de controlar as notícias e, portanto, controlar as mentes da maioria das pessoas dentro de sua esfera de influência.

O jornalista continuava a ler a lista em tom monótono: Turner Network News, the Cable News Network, the Entertainment and Sports Network, the Columbia Broadcast System, the American Broadcasting Corporation, the Fox Television Network, the National Broadcasting Corporation, the Christian Broadcasting Network, The Family Radio Network, Trinity Broadcasting Network, Time-Warner, Disney, U.S. News and World Report, Global Weekly [Semanário Global], Newsweek, Readefs Digest e uma relação de outras cadeias de noticiários e publicações periódicas e grupos de revistas.

"Mais surpreendente ainda foram as primeiras reações dos atuais proprietários. Quase todos parecem saudar o novo capital e dizem que acata a palavra do líder da Comunidade Global, Nicolae Carpathia, quando ele pede que não haja interferências.

Rayford pensou em telefonar para Buck. Mas com certeza ele já devia saber da notícia antes de ser divulgada pela TV. Alguém do Semanário Global o teria informado ou, pelo menos, Buck teria ouvido a notícia de um das centenas de jornalistas que estavam presentes em Israel para a assinatura * do tratado. Mas talvez todos estivessem pensando o mesmo que ele. Rayford não queria que Buck fosse o último a saber.

Pegou o telefone e ligou, porém não houve resposta do quarto de Buck.

 

Uma pequena aglomeração movia-se lentamente na escuridão, a pouco menos de cinqüenta metros do Muro das Lamentações. O corpo do pretenso assassino tinha sido removido, e o comandante militar da região disse ao pessoal da imprensa que o jovem e seu grupo não foram capazes de agir "contra duas pessoas que não portavam armas, não tocaram em ninguém e tinham sido atacadas".

Aparentemente ninguém que ali estava parecia disposto a aproximar-se dos pregadores, embora ambos pudessem ser vistos de pé, sob uma iluminação fraca, perto de uma das extremidades do Muro. Eles não se aproximavam das pessoas nem falavam.

Assim que o motorista do rabino Tsion Ben-Judá entrou com o carro num estacionamento quase vazio, Buck foi tentado a perguntar se o rabino acreditava em oração. Sabia que o rabino diria que sim, mas gostaria de orar em voz alta pedindo a proteção de Cristo, e orar a Cristo era algo que ele não deveria pedir a um rabino. Resolveu orar silenciosamente.

Buck e Tsion desceram do carro e caminharam com passos lentos e com cuidado, bem distantes da aglomeração. O rabino caminhava com as mãos cruzadas diante de si. Ao perceber isso de relance, Buck olhou pela segunda vez para confirmar. Parecia um gesto piedoso inusitado e quase ostensivo... principalmente porque Ben-Judá demonstrara muita humildade para alguém que ocupava uma posição tão elevada no meio religioso.

“Estou caminhando na posição tradicional de respeito e conciliação — explicou o rabino. — Não quero erros nem mal-entendidos. Para nossa segurança, é importante que esses homens saibam que viemos até aqui com espírito de humildade e curiosidade. Devemos deixar claro que não vamos atacá-los.”

Buck fitou o rabino nos olhos. “A verdade é que estamos morrendo de medo e não queremos dar a eles nenhum motivo para que nos matem.”

Buck notou um leve sorriso nos lábios do rabino. “Você tem um jeito especial de falar uma verdade — disse Ben-Judá. — Estou orando para que nós dois voltemos sãos e salvos e que possamos contar aos outros a experiência que tivemos aqui.”

Eu também, pensou Buck, sem dizer nada.

Três soldados israelenses interceptaram o caminho de Buck e do rabino, e um deles falou asperamente em hebraico. Buck começou a procurar sua credencial de jornalista, mas percebeu que ela não teria nenhuma serventia ali. Tsion Ben-Judá deu um passo à frente e conversou também em hebraico, em tom de voz firme e baixo, com o líder dos três soldados. O soldado fez algumas perguntas, parecendo agora menos hostil e curioso. Finalmente, ele fez um sinal afirmativo com a cabeça, e os dois foram autorizados a passar.

Buck olhou de relance para trás. Os soldados permaneciam no mesmo lugar. — O que aconteceu? — ele perguntou.

“Eles disseram que apenas os ortodoxos têm permissão para passar de um determinado ponto. Assegurei-lhes que você estava comigo. Acho sempre divertido quando o exército secular tenta fazer cumprir as leis religiosas. Ele me advertiu sobre o que aconteceu antes, mas eu lhe disse que tínhamos um encontro marcado e que estávamos dispostos a assumir o risco.”

“E estamos? — perguntou Buck, sem pensar.”

O rabino deu de ombros. “ Talvez não. Mas, de qualquer forma, vamos até o fim, não é mesmo? Dissemos que iríamos, e nenhum de nós perderia esta oportunidade.”

Enquanto Buck e Ben-Judá prosseguiam, as duas testemunhas mantinham os olhos fixos neles, da extremidade do Muro onde estavam, a uma distância de cerca de quinze metros. “— Estamos caminhando em direção àquela cerca — disse Ben-Judá, apontando para o outro lado do pequeno edifício. — Se eles estiverem dispostos a falar conosco, virão até aqui e haverá uma cerca entre nós.”

“Depois do que aconteceu ao assassino hoje, a cerca não ajudaria muito.”

“Não estamos armados.”

“Como eles podem saber?”

“Eles não sabem.”

Quando Buck e Ben-Judá chegaram a menos de cinco metros da cerca, uma das testemunhas levantou a mão, e os dois pararam. — Vamos nos aproximar e nos apresentar — falou a testemunha, não em tom de voz alto como Buck já ouvira antes, mas audível. Os dois homens caminharam lentamente e ficaram atrás das barras de ferro. — Podeis me chamar de Eli — ele disse. — Este é Moisés.

“Em inglês? — sussurrou Buck.”

“Hebraico — respondeu Ben-Judá.”

“Silêncio! — disse Eli em voz baixa e rouca.”

Buck teve um sobressalto. Naquele mesmo dia um dos dois havia gritado pedindo silêncio ao rabino. Poucos minutos depois o jovem caíra morto e carbonizado.

Eli fez um gesto para que Buck e Tsion se aproximassem. Eles avançaram, ficando a menos de um metro da cerca. Buck surpreendeu-se com seus trajes esfarrapados. Um odor de cinzas, como se tivesse havido um incêndio recente, pairava sobre eles. Na penumbra, os braços compridos e fortes dos dois pareciam musculosos e de pele rija. Suas mãos eram grandes e ossudas, e ambos estavam descalços.

Eli disse: “ Não responderemos a nenhuma pergunta sobre nossa origem e identidade. Deus as revelará ao mundo no tempo devido.”

Tsion Ben-Judá fez um movimento afirmativo com a cabeça e curvou levemente o tronco para frente. Buck enfiou a mão no bolso e ligou o gravador. De repente, Moisés aproximou-se da cerca e pôs o rosto barbado entre as barras.

Fitou o rabino com os olhos semicerrados. O suor corria por seu rosto.

Ele falou mansamente com voz firme e lenta, mas Buck entendeu cada palavra. Queria perguntar a Tsion se ele ouvira Moisés falar em inglês ou em hebraico.

Moisés falou como se tivesse acabado de pensar em uma história muito interessante, mas suas palavras eram familiares a Buck.

“Há muitos anos, houve um homem fariseu chamado Nicodemos, uma autoridade entre o povo judeu. Assim como vós, esse homem foi falar com Jesus à noite.”

O rabino Ben-Judá sussurrou: “Eli e Moisés, sabemos que sois homens de Deus, porque ninguém é capaz de fazer os sinais que fazeis sem que Deus esteja com ele.”

Eli falou: “Em verdade te digo que, se uma pessoa não nascer de novo, não poderá ver o Reino de Deus... — Como um homem pode nascer, sendo velho? — perguntou o rabino Ben-Judá, e Buck percebeu que ele estava citando o Novo Testamento. — Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer pela segunda vez?”

Moisés respondeu: “Em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus. O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito. Não te admires de eu te dizer: Importa-vos nascer de novo.”

Eli falou novamente: “O vento sopra para onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito.”

Aproveitando a deixa, o rabino disse: “Como pode suceder isto?”

Moisés ergueu a cabeça. “Tu és mestre em Israel, e não compreendes estas coisas? Em verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testificamos o que temos visto, contudo não aceitais o nosso testemunho. Se tratando de coisas terrenas não me credes, como crereis, se vos falar das celestiais?”

Eli fez um movimento afirmativo com a cabeça. “Ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem que está no céu. E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.”

Buck estava empolgado. Sentiu como se tivesse voltado no tempo e fosse o espectador da mais famosa conversa noturna. Em nenhum momento ele se esqueceu de que seu acompanhante não era Nicodemos nem que os outros dois homens não eram Jesus. Buck conhecia a Bíblia e essa verdade há pouco tempo, mas sabia o que estava acontecendo quando Moisés concluiu: “ Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.”

Repentinamente o rabino pareceu animar-se. Abriu os braços e levantou as mãos, afastando uma da outra. Como se estivesse assistindo a uma peça ou a um recital, ele provocou as testemunhas para mais uma resposta. “E o que é julgamento?”

Os dois responderam em uníssono. “Que a luz veio ao mundo.”

“E como os homens não a viram?”

“Os homens amaram mais as trevas do que a luz.”

“Por quê?”

“Porque as suas obras eram más.”

“Que Deus nos perdoe — disse o rabino.”

“Deus vos perdoa — disseram as duas testemunhas. — E aqui se encerra a nossa mensagem.”

“Não falareis mais conosco? — perguntou Ben-Judá.”

“Não — respondeu Eli, porém Buck não viu seus lábios se moverem. Pensou que tivesse se enganado, que talvez tivesse sido Moisés quem respondeu. Contudo, Eli prosseguiu, falando claramente, mas não em voz alta. — Moisés e eu não falaremos novamente até o alvorecer quando continuaremos a testificar a respeito da vinda do Senhor.”

“Mas eu ainda tenho muitas perguntas a fazer— disse Buck.”

“Nem mais uma pergunta — disseram em uníssono, sem que nenhum deles abrisse a boca. — Que a bênção de Deus, a paz de Jesus Cristo e a presença do Espírito Santo se derramem sobre vós. Amém.”

Quando os homens se afastaram, Buck sentiu os joelhos tremerem. Enquanto ele e o rabino permaneceram parados e olhando, Eli e Moisés simplesmente dirigiram-se para o edifício, sentaram-se e encostaram-se na parede. “Adeus e obrigado — disse Buck, sentindo-se um tolo.”

O rabino Ben-Judá entoou uma linda canção, uma espécie de bênção que Buck não compreendeu. Eli e Moisés pareciam estar orando ou dormindo sentados.

Buck estava sem fala. Acompanhou Ben-Judá, que se voltou e caminhou na direção de um obstáculo feito de correntes. Pulou o obstáculo começou a afastar-se do Monte da Colina, atravessando a estrada rumo a um pequeno bosque. Buck pensou que talvez o rabino quisesse ficar sozinho, mas Ben-Judá deu a entender que desejava sua companhia.

Quando chegaram à beira do bosque, o rabino passou a olhar fixamente para o céu. Cobriu o rosto com as mãos e chorou. Seu choro transformou-se em fortes soluços. Buck também estava emocionado e não conseguiu conter as lágrimas. Ambos haviam estado em solo sagrado, disso ele sabia. Ele só não sabia como o rabino interpretava tudo aquilo. Será que o rabino não entendera a mensagem da conversa entre Nicodemos e Jesus, quando a leu na Bíblia, e não entendera novamente ao ouvir sua reprodução?

Buck certamente entendera. O Comando Tribulação não acreditaria no privilégio que lhe fora concedido. Ele não o guardaria para si, não teria receio de divulgá-lo. Na verdade, desejava que todos pudessem ter estado ali junto com ele.

Como se estivesse sentindo que Buck desejava conversar, Ben-Judá o preveniu. “Não devemos aviltar a experiência reduzindo-a a simples palavras — ele disse. — Pelo menos até amanhã, meu amigo.”

O rabino virou-se e avistou seu carro e o motorista na beira da estrada. Caminhou até a porta da frente, do outro lado do motorista, e abriu-a para Buck. Buck entrou e murmurou um agradecimento. O rabino deu a volta pela frente do carro e cochichou com o motorista, que deu partida e acelerou, deixando Ben-Judá na beira da estrada.

“O que está acontecendo? — perguntou Buck, esticando o pescoço e vendo o homem de terno preto desaparecer na escuridão. — Ele vai saber voltar?”

O motorista não disse nada.

“Espero não ter ofendido o rabino.”

O motorista lançou um olhar de desculpa a Buck e deu de ombros. “Não entender inglês — ele disse, levando Buck de volta para o Hotel Rei Davi.”

O recepcionista do hotel entregou a Buck um recado de Rayford, porém como não estava marcado urgente, Buck resolveu deixar o telefonema para a manhã seguinte. Se desencontrasse de Rayford, procuraria por ele na solenidade da assinatura do tratado.

Buck apagou a luz do quarto e atravessou a porta de vidro que dava para um pequeno terraço no meio das árvores. Por entre dos galhos ele avistou a lua cheia no céu sem nuvens. O vento estava brando, mas a noite começava a esfriar. Ele levantou a gola do casaco e admirou a beleza da noite. Sentia-se o homem mais privilegiado do mundo. Além de sua charmosa vida profissional e de seu aprimorado talento, ele havia sido testemunha ocular de uma das obras mais extraordinárias de Deus na história do mundo.

Ele havia estado em Israel por ocasião do ataque russo menos de um ano e meio antes. Deus havia destruído a ameaça a seu povo escolhido. Buck estava em pleno vôo quando aconteceu o Arrebatamento, num avião pilotado por um homem que ele não conhecia. Foi atendido por uma comissária de bordo cujo futuro aparentemente passou a ser responsabilidade dele. E a filha do piloto? Buck acreditava que estava apaixonado por ela, se soubesse o que era amor.

Buck curvou os ombros, deixou as mangas do casaco cobrirem suas mãos e cruzou os braços. Fora poupado de uma explosão de carro em Londres, aceitara a Cristo no ápice do fim do mundo e fora protegido de forma sobrenatural ao testemunhar dois assassinatos cometidos pelo Anticristo. Naquele mesmo dia, ele assistira ao cumprimento das Escrituras quando um assassino foi atingido pelo fogo que saiu da boca de uma das testemunhas. E, logo depois, ouviu uma delas recitar as palavras de Jesus a Nicodemos! Buck sentia que devia humilhar-se, dizer a seu Criador e Salvador o quanto era indigno, o quanto estava agradecido. “Tudo o que posso fazer — ele sussurrou com voz rouca na noite fria — é entregar-me inteiramente a Ti pelo tempo que ainda me restar. Farei o que quiseres, irei aonde me mandares, obedecer-te-ei em tudo.”

Em seguida, tirou o gravador do bolso e rebobinou a fita. Ao reproduzir a conversa que teve com as testemunhas naquela noite, ele surpreendeu-se por não ouvir nenhuma

palavra em inglês. Não deveria ser surpresa, ele pensou. Fazia parte dos acontecimentos do dia. Buck ouviu pelo menos três idiomas. Identificou o hebraico, embora não o compreendesse. Identificou o grego, que também não compreendia. O outro idioma, que Buck estava certo de nunca ter ouvido antes, foi usado quando as testemunhas recitaram as palavras de Jesus. Tinha de ser aramaico.

No final da fita, Buck ouviu o Dr. Ben-Judá perguntar algo em hebraico, que ele se lembrava ter ouvido em inglês. "Não falareis mais conosco?" Porém, não ouviu nenhuma resposta.

Em seguida, ouviu sua própria voz: "Mas eu ainda tenho muitas perguntas a fazer." E depois, após uma pausa: "Adeus e obrigado." O que os homens falaram diretamente ao seu coração não havia sido gravado.

Com uma caneta, Buck quebrou pequenas lingüetas da fita. Ninguém mais poderia gravar por cima daquela fita de valor incalculável.

A única coisa que ele poderia fazer para tornar tudo mais perfeito seria compartilhar sua experiência com Chloe. Olhou para ao relógio. Passava da meia-noite em Israel, o que significava pouco mais de seis horas da tarde em Chicago. Porém, quando Buck ligou para Chloe, ele mal conseguiu falar. Contou chorando o que se passara naquela noite, e Chloe chorou com ele. “Buck — ela disse finalmente — desperdiçamos tantos anos de nossas vidas sem Cristo. Vou orar pelo rabino.”

 

Alguns minutos depois, Rayford foi despertado pela campainha do telefone. Estava certo de que era Buck e esperava que ele não tivesse ouvido de outra pessoa a notícia dos planos de Carpathia a respeito da imprensa.

“Papai, é Chloe. Acabei de conversar com Buck, mas não tive coragem de falar sobre o assunto de Carpathia a respeito da imprensa. Você ouviu?”

Rayford confirmou que tinha ouvido e perguntou se ela tinha certeza de que Buck não sabia de nada. Chloe relatou o que Buck lhe contara sobre sua experiência naquela noite. “Vou tentar localizá-lo de manhã — disse Rayford. — Se eu não falar com Buck logo cedo, com certeza ele vai ouvir a notícia da boca de alguém.”

“Ele estava muito emocionado, papai. A hora não é boa para lhe dar essa notícia. Não sei como ele reagirá. O que você acha que vai acontecer com ele?”

“Buck vai superar. Terá de engolir uma grande parte de seu orgulho, tendo de trabalhar para Carpathia aonde quer que ele vá. Mas vai dar tudo certo. Sei quem ele é. Vai encontrar um jeito de levar a verdade às massas, camuflando-a nas publicações de Carpathia ou trabalhando por baixo dos panos em publicações vendidas clandestinamente.”

“Parece que Carpathia vai controlar tudo.”

“Com certeza vai.”

Rayford ligou para Buck às seis e meia da manhã seguinte, mas ele já havia saído do hotel.

 

Fazia séculos que Buck não via Steve Plank tão aflito. “Este trabalho foi divertido e interessante até hoje — disse Steve enquanto um grupo hospedado no mesmo hotel começava a aglomerar-se para uma curta excursão até a Cidade Velha. — Carpathia arruma confusão e joga o problema pra cima de mim.”

“O que houve?”

“Ora, nada de especial. Tudo precisa ser perfeito, só isso.”

“E você ainda está tentando convencer-me a trabalhar para ele? De jeito nenhum.”

“Bem, de qualquer maneira esse assunto vai ser muito discutido nas próximas semanas, não vai?”

“Claro que vai. — Buck sorriu intimamente. Já decidira recusar a oferta do Tribune e continuar no Semanário Global.”

“Você vai conosco para Bagdá?”

“Estou tentando arrumar uma maneira de ir, mas não com vocês.”

“Buck, não vai haver muitas maneiras de chegar lá. Temos lugar e, para todos os efeitos, você trabalha para Carpathia. Vá conosco. Você vai adorar o que ele tem em mente para a Nova Babilônia e, se as notícias forem levadas a sério, a coisa já começou a acontecer.”

“Eu, trabalhar para Carpathia? Achei que o assunto estava encerrado.”

“É apenas uma questão de tempo, meu rapaz.”

“Você está sonhando — disse Buck, assustando-se com o olhar perplexo de Plank.”

Buck viu Jim Borland organizando suas anotações. “Oi, Jim — ele disse. — Já entrevistou Carpathia? — Borland mal levantou os olhos.”

“Sim — respondeu Borland. — Nada de tão especial. No momento ele só está preocupado com a transferência do local da assinatura.”

“Transferência?”

“Ele está com receio daqueles malucos diante do Muro das Lamentações. Os soldados têm condições de manter o local livre de turistas, mas os dois contarão com a presença da multidão que vai assistir à assinatura do tratado.”

“Uma grande multidão — disse Buck.”

“Não brinque. Não sei por que eles não mantêm aqueles dois esfarrapados longe daqui.”

“Você não sabe?”

“O quê? Buck, você acha que aqueles velhos bobocas vão soprar fogo no exército? Seja franco. Você acredita na história do fogo?”

“Eu vi o cara, Jimmy. Ele ficou torrado.”

“Aposto um milhão contra um que ele pôs fogo em si mesmo.”

“Não foi um ato de imolação, Jim. Ele caiu ao chão, e um daqueles dois o queimou completamente.”

“Com o fogo que saiu de sua boca.”

“Foi o que eu vi.”

“Ainda bem que você está fora da reportagem de capa, Buck. Você está perdendo a parada. E daí, você conseguiu uma entrevista exclusiva com os dois?”

“Não foi inteiramente exclusiva nem exatamente uma entrevista.”

“Em outras palavras, você só tentou, certo?”

“Não. Estive com eles ontem, tarde da noite. Não foi um diálogo, é tudo o que posso dizer.”

“Eu diria que você vai escrever uma ficção, você devia entrar para o ramo de novelas e seguir em frente. Você ainda vai trabalhar no ramo editorial com Carpathia, mas precisa ter um pouco mais de visão.”

“Não vou trabalhar para Carpathia — disse Buck.”

“Então vai ficar fora dos meios de comunicação.”

“Do que você está falando?”

Borland contou-lhe sobre o comunicado.

Buck empalideceu. — “O Semanário Global está incluído?”

“Incluído? Se você me perguntar, vou dizer que ele é um dos principais.”

Buck balançou a cabeça. Nesse caso, ele estaria escrevendo suas reportagens para Carpathia, no final das contas. “Não é de admirar que todos pareçam tão neuróticos. Então, se a assinatura do tratado não for perto do Muro, onde será?”

“No Knesset.”

“Dentro?”

“Acho que não.”

“A parte de fora é viável?”

“Não acho.”

“Ouça, Jim, você vai ver a apresentação do rabino Ben-Judá hoje à tarde?”

“Só se for no avião para Bagdá.”

“Você conseguiu lugar?”

“Vou no Global Community One.”

“Você se vendeu?”

“Ninguém pode se vender a seu próprio chefe, Buck.”

“Ele ainda não é seu chefe.”

“É só uma questão de tempo, companheiro.”

Chaim Rosenzweig caminhava apressadamente e parou de repente. “Cameron! — ele disse — Venha, venha! — Buck acompanhou aquele homem idoso e de ombros curvados até um canto. — Fique comigo, por favor! Nicolae está aborrecido esta manhã. Vamos transferir a assinatura para o Knesset, tudo está num rebuliço, ele quer que todo mundo vá até Babilônia e alguns estão resistindo. Para lhe dizer a verdade, acho que ele próprio mataria aqueles dois do Muro das Lamentações, se tivesse oportunidade. A manhã toda eles gritaram contra a injustiça da assinatura, dizendo que o tratado sinaliza uma aliança profana entre um povo que não aceitou o Messias da primeira vez e um líder que nega a existência de Deus. Mas, Cameron, Nicolae não é ateu. Pode ser um agnóstico... mas eu também sou!”

“O senhor deixou de ser agnóstico desde a invasão russa!”

“Bem, talvez não, mas aqueles dois falam palavras duras contra Nicolae.”

“Pensei que não fosse permitida a presença de ninguém na área em frente ao Muro esta manhã. O que estão dizendo sobre isso?”

“ A imprensa está lá com seus microfones de longo alcance, e aqueles homens têm bons pulmões! Nicolae conversou por telefone com a CNN a manhã toda, insistindo para que eles não dêem nenhuma cobertura aos dois, principalmente hoje. A CNN não aceitou, é claro. Mas ai quando ele passar a ser o proprietário da CNN, eles vão cumprir as ordens de Nicolae. Vai ser um alívio.