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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


COMEI-VOS UNS AOS OUTROS / Antero Afonso
COMEI-VOS UNS AOS OUTROS / Antero Afonso

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

Corria Janeiro no ano de mil novecentos e noventa e oito. Lisboa era uma cidade bonita, com a luz do sol batendo crua nas fachadas dos edifícios.

Firmino segurou o papel com ambas as mãos, pigarreou para fazer silenciar a assistência, colocou os óculos de aros finos e pequeníssima graduação e leu com voz serena as palavras bem pronunciadas:

«Exmos Senhores membros do Governo

Exmas Individualidades

Minhas Senhoras e Meus senhores.

É com um espírito renovado de esperança que tenho a honra de aceitar presidir à Comissão Instaladora para a Modernização Administrativa que hoje conhece existência legal com este acto de posse. A confiança que Suas Excelências o Senhor Ministro e o Senhor Secretário de Estado depositaram em mim é um elemento que reforça a minha responsabilidade, disso estou ciente, mas que se constitui, de igual modo, num lenitivo ao cabal desempenho das funções de que agora sou investido.

A defesa intransigente dos direitos dos cidadãos, no usufruto da coisa pública, será o vector determinante que orientará a minha acção.

Transparência e respeito pelo cidadão deverão ser, mais do que princípios gerais e abstractos, uma forma de estar para quantos trabalham, abnegadamente, como agentes e servidores do Estado.

Sozinho, reconheço que seria incapaz de enfrentar este desafio - o homem só produz como elemento de um grupo. Mas com a colaboração daqueles que constituem, a partir de hoje, esta minha equipa- técnicos e administrativos de reconhecida competência-, tenho a certeza de que conseguirei chegar a bom porto.

Nesta hora, permitam-me Vossas Excelências que deixe uma palavra de reconhecimento e gratidão à minha família, que tanto apoio me tem dispensado e sem a qual o equilíbrio emocional, que tão necessário se torna ao bom desempenho das novas responsabilidades que hoje assumo, não seria o mesmo. Especialmente à minha mulher, agradeço do fundo do meu coração, na certeza de que estou, e peço desculpa pela imodéstia, a contribuir para um melhor futuro para todos.

A assistência coroou o fecho do discurso com um prolongado aplauso. A princípio timidamente, por questões de protocolo, e depois de forma mais emotiva.

Firmino guardou os óculos num estojo de camurça e colocou-os no bolso interior do casaco de linho. Cumprimentou um a um os membros do governo ali presentes bem como cada uma das individualidades convidadas para a cerimónia.

A assessora segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido. De imediato levou a mão ao bolso interior do casaco de onde retirou os óculos e entregou-lhos. O papo pronunciado que se fazia notar desapareceu e o casaco voltou a uma forma apresentável.

Os flashes dos repórteres fotográficos apanhavam-no de vários ângulos e acompanhado de diversas individualidades enquanto a assessora lhe lembrava que tinha uma jornalista à espera a quem ele prometera uma entrevista.

- Preciso de vinte minutos, antes da entrevista - disse-lhe, sorrindo para os fotógrafos. A assessora tomou nota no bloco de apontamentos e afastou-se em direcção à porta de saída.

Firmino olhou à sua volta. Tinha terminado o acto da sua investidura e a sala estava agora vazia e silenciosa. Sentou-se. Levou as mãos à cabeça e acomodou, com os dedos, o cabelo junto às têmporas. Inspirou profundamente e acendeu um cigarro.

Chegara à Administração há dezasseis anos e esta era a quinta vez que presidia a uma Comissão para a Modernização Administrativa.

Levantou-se, deu um toque de aceito no casaco, endireitou o nó da gravata e dirigiu-se para a sala de imprensa onde daria a primeira entrevista no desempenho das suas novas funções.

 

A água caía da torneira até à banca. Ercília lavava um pé de alface esfregando as folhas verde claro uma contra a outra com ambas as mãos. Os gestos eram maquinais e a habituação permitia-lhe pensar noutros assuntos enquanto executava a tarefa. Os olhos mortiços desmaiavam na renda do cortinado curto que ornamentava a janela por onde podia ver os prédios em frente ainda em fase de construção. Um trolha cantarolava uma canção sentimental com voz lânguida e gemidos prolongados. De vez em quando os colegas atiravam-lhe um palavrão ou frases bem humoradas, daquelas que é normal ouvir-se nas obras. A passagem da rapariga, que trabalhava como criada no primeiro andar esquerdo, fez parar a cantoria do trolha e elevar um coro de assobios acompanhados de dichotes brejeiros:   «Ainda dizem que as flores não andam...». Ercília sorriu e pensou que a vida nas obras era dura, mas divertida. A simplicidade daqueles homens de rudes fisionomias residia no comportamento bonacheirão e despreocupado. O fio de azeite regou em círculo as folhas de alface e sumiu no gargalo da garrafa quando a colocou na posição vertical. Rodelas de cebola cortadas em finas fatias estavam salpicadas de sal e umas poucas azeitonas exibiam pequenos lastros de vinagre.

Uma sirene lamuriou-se arrastadamente, anunciando o final do dia para aqueles homens que durante alguns momentos lhe fizeram companhia. Barulhos de motorizadas libertando colunas de fumo e repetindo acelerações ouviam-se ao longe. Algumas correrias tentavam assegurar lugar no próximo autocarro. Poucos eram aqueles que manifestavam não ter pressa. Vislumbrou dois. Um, com as mãos em concha protegendo do vento a chama do isqueiro, tentava manter a chama junto ao rosto do companheiro, enquanto este soltava uma risada, levantando a cabeça para trás.

A noite caía sobre a cidade cobrindo-a com a tonalidade de uma angústia morna. O mês de Abril ainda não tivera autorização para trazer as chuvas. Morria lento aquele trinta e um de Março.

Uma chave rodou na porta da entrada e arrastou o ruído da lingueta. O marido de Ercília colocou o casaco de linho no cabide de metal preso à parede do lado direito, voltou ao tapete onde limpou vigorosamente os sapatos e dirigiu-se a sala. Ligou o aparelho de televisão e deixou-se cair no sofá. com o sapato direito endireitou a carpete que encorrilhara com o seu movimento. Desapertou os atacadores de ambos os sapatos e sintonizou o canal seis onde o Eurosport transmitia uma corrida de camiões. Nunca achara piada àquele desporto, «bom para alemão. Pesquisou sucessivamente todos os canais e fê-lo várias vezes até que Ercília assomou à porta da sala. «Podes vir». Levantou-se, flectiu pelos joelhos e tirou os chinelos que se encontravam do lado esquerdo por baixo do sofá. Encheu um quarto de copo com uísque e foi com ele até à cozinha. Tirou dois pedaços de gelo, meteu-os no uísque e deu três voltas com o líquido em torno do copo. Levou-o à boca e sorveu de um gole. «Aahh». Limpou a boca com as costas da mão. Sentou-se em frente da mulher e serviu-se da salada. Ela levantou-se para colocar na mesa um barro com batatas a murro e lulas estufadas. Ele encheu o copo com vinho branco do Alentejo. -Queres?». Ela disse que sim com a cabeça e ficou a observar o barulho do vinho a ser vertido no copo. Viu-o beber pausadamente e levou também o seu copo à boca.

No andar de cima ouvia-se a televisão sintonizada num canal diferente do deles e alguns berros do pai que chamava o filho para a mesa: «Ó Zé, anda para a mesa, porra!». «Já vou, paizinho... -.

 

Viu como ele limpava meticulosamente os cantos da boca, um gesto de profunda delicadeza que sempre lhe conhecera, e como, em seguida, se levantava da mesa, quase sem arrastar a cadeira. O resto já não precisava de verificar. Haveria de se dirigir à casa de banho, esfregaria com violência e rigor a pasta dentífrica nos dentes imaculados, gargarejaria e cuspiria três vezes no lavatório, libertando-se dos resíduos do dentífrico. Agora estava a calçar os sapatos. Ia pegar o casaco no cabide da entrada e antes de sair comunicar-Lhe-ia que chegaria tarde.

 

-Hoje venho mais tarde-. A porta da entrada bateu uma pancada seca e Firmino saiu na noite já escura.

 

Ercília procurou o ventre com ambas as mãos e acariciou-o com movimentos circulares carregados de afecto. Inclinou a cabeça para trás enquanto pelo rosto lhe desciam copiosas lágrimas. Deixou-se chorar até sentir chegar a vontade de dormir.

 

Na sala da mesa oval onde Firmino estava reunido com Fernando e Fabiano, seus directores de serviços, a assessora Fátima e a secretária Felismina, que vertia em acta as principais questões ali abordadas, sentiu-se que existia uma grande movimentação no exterior. Burburinho de vozes e bater de sapatos seguidos pelo arrastar de cadeiras e o abrir e fechar de portas. «Até amanhã-. Um cartão a ser picado na máquina obliteradora.

«Felisberta, espera por mim». O som de um computador que alguém ddesligava. «Ainda vou comprar o jantar. Hoje vou ter a visita dos meus pais, e o meu marido chega mais tarde”. A voz sumiu-se e ficou no ar o barulho do elevador a descer em direcção ao rés-do-chão.

Firmino olhou para o relógio. Dezassete horas e trinta e três minutos. Meneou a cabeça e fez um trejeito com os lábios.

- É a hora da Administração levantar voo - sussurrou, sibilina, a voz da assessora junto ao rosto de Fernando, que não lhe negou um sorriso de circunstância.

- Espero que cada um de vós elabore um relatório mensal de actividades, destacando os aspectos positivos e negativos mais relevantes. A doutora Fátima dar-vos-á todo o apoio. Vamos desenhar um documento que confira unidade a todos os serviços - esclareceu Firmino, apontando com o olhar na direcção da assessora.

Os presentes olharam para a doutora que dava assentimento às palavras do director com um ligeiro movimento da cabeça. Fernando, que se encontrava do seu lado direito, olhou-a de soslaio e pôde admirar as pernas cruzadas e as coxas visíveis até um palmo acima dos joelhos. Não conseguia discernir se aquela forma de vestir era um imperativo ditado pela moda, se uma maneira de ela se insinuar na organização e junto do director através de atributos femininos.

- A Felismina tome nota e depois avise o doutor Francisco, se faz favor. A doutora Fátima esclareça-o da imprescindibilidade do documento e dê-lhe a colaboração que for precisa - e tomou uma nota no papel que tinha à sua frente.

Felismina abanou a cabeça para a frente e para trás e sorriu para o director.

Nas pausas entre as palavras dele era possível ouvir o silêncio nos corredores. Firmino estava em mangas de camisa e falava com determinação. Acompanhava as suas intervenções com apontamentos que ia registando num caderno de linhas, dividido verticalmente em duas partes desiguais. Era um hábito que repetia em todas as reuniões. Traçava, firme, uma linha de alto a baixo que dividia a folha em duas. O espaço à sua direita correspondia aproximadamente a um quarto da folha e destinava-se a anotações marginais e lembranças a ter em conta. O espaço à esquerda era destinado às questões relativas à ordem de trabalhos.

No início da folha, a seguir à indicação do local e da data «Lisboa, 1 de Abril de 98”-, tinha escrito, com letra ordenada, «ausências: Dr. Francisco». E no lado direito anotara «falar com ele».

Fernando olhou de novo as pernas da assessora e cogitou sobre as razões que justificavam que uma mulher, numa reunião de trabalho, mostrasse as pernas. Não seria estranho à senhora a convergência de olhares nas suas coxas. Tão-pouco desconheceria que os mais diversos comentários eram tecidos a propósito de tamanha ostentação. Corria à boca cheia na organização que tais pernas entravam muito claramente nos olhos do director. Por mais de uma vez se sentira tentado a ter uma conversa com Firmino sobre tais boatos, mas a dúvida subsistia no seu espírito e sempre acabava por sobrepor-se à sua determinação. Firmino não parecia ser «o género de homem capaz de se deixar perder por um par de pernas. Era demasiado inteligente para ceder a apetites sexuais primários”. O discurso da sua tomada de posse reforçara a ideia do homem com valores firmes e um quadro familiar estável. «As palavras dedicadas à esposa fizeram muitos dos presentes corar de vergonha». Qualquer iniciativa que tomasse podia ser mal interpretada e tida por inadequada.

Os olhos de Fátima, castanhos, de pestanas ralas, olhavam fixamente para o director. Tinha completado vinte e cinco anos no mês anterior. As pernas compridas e bem desenhadas apoiavam-se nuns sapatos com pouco tacão. Peitos firmes, mas pequenos, insinuavam-se nas pontas de um lenço que lhe subia até ao pescoço alto e descoberto pelo cabelo curto. Nas orelhas, exíguas, um único brinco, do lado direito.

- Alguma questão? - Firmino fez a pergunta ao mesmo tempo que fechava o seu caderno de apontamentos.

Fabiano levantou o indicador da mão direita.

- Gostava de sugerir que não se fumasse durante as reuniões. Ou que se fizesse um intervalo de vez em quando para quem quisesse fumar. É que fico muito congestionado com o fumo - esclareceu, buscando a compreensão dos presentes.

- Mais alguma coisa? Então ficamos por aqui. Obrigado pela vossa colaboração. Espero que possamos realizar um trabalho de qualidade. A doutora Fátima pode ficar uns minutos mais para acertarmos alguns pormenores. Os restantes podem sair.

Fabiano era baixo de estatura e um pouco barrigudo. Licenciara-se em História e entrara para a Administração Pública por influência de um tio que, à data, era chefe de gabinete de um secretário de Estado. Natural de Macedo de Cavaleiros, nunca chegou a sentir-se verdadeiramente integrado no ambiente citadino. Dirigiu-se a Firmino, estendendo a mão, e cumprimentou-o com um apertado «até amanhã». Curvou deferentemente o tronco um pouco para a frente e desandou com a pasta a roçar perto do chão.

- Só cá faltava este com o tabaco - murmurou, vendo-o afastar-se. - Veja se a porta está fechada, se faz favor - pediu ele à assessora.

Fátima rodou o manípulo, abriu a porta e voltou a fechá-la com um movimento brusco e seco.

- Que lhe pareceu a reunião? - perguntou ele, enquanto se sentava.

- Que me pareceu, como? - respondeu-lhe Fátima, mantendo-se junto à porta.

- As suas impressões... - explicou Firmino, olhando-a de frente.

- Ninguém falou, além de si... - disse ela com ironia

- Não é a isso que me refiro. Acha que fui claro?

- Creio que sim. Sinceramente, não tenho a certeza de que o estivessem a ouvir. A certa altura pareceu-me existir uma certa dispersão... - Não continuou porque ele a interrompeu.

- Antes que me esqueça. Quero que coloque um ponto final em situações como a que ocorreu hoje à hora da saída. Fale com quem quiser, proponha as medidas que julgar mais adequadas, mas não quero que aquela situação se volte a repetir. A hora de saída do pessoal não tem que se parecer com uma feira...

Foi a vez de ela se lhe antecipar: - Espero que não me leve a mal a impertinência, mas já eram dezassete e trinta e três!!

Firmino sorriu pela primeira vez durante aquele dia de trabalho.

- Tem razão. Eram dezassete e trinta e três. Ou, como você costuma dizer, a hora da Administração levantar voo. Era isso que estava a dizer ao doutor Fernando, não era?

Um sorriso enigmático assomou aos lábios de Fátima.

Ele olhou para ela, que se mantinha de pé, e ordenou-lhe, como se lhe pedisse: - Sente-se. Tenho outro assunto para falar consigo.

Sentou-se em frente dele, cruzou as pernas, e preparou-se para ouvir.

 

A igreja de forma octogonal constituía um belo exemplar de arquitectura barroca. Ercília sentiu-se transportada no tempo e desenquadrada do bulício da cidade. A pujança das formas arquitectónicas transmitia-lhe a contradição entre a paixão que sentia dilacerar-lhe o peito e a angústia de não poder suportá-la. Gostava da fantasia das formas com que revestia a sua relação amorosa, mas não conseguia conciliá-la com o fingimento a que estava obrigada.

Lúcia era o refúgio nortenho a que recorria quando precisava de ficar só. A casa minhota estava de portas sempre abertas às suas incursões de fim de semana ou sempre que preciso. Clima húmido e fresco, campos verdejantes e proximidade humana - uma bonita trilogia para quem chegava como forasteira. No isolamento dos prados, Ercília estava tão dividida quanto aquelas propriedades. O coração era um minifúndio dilacerado, compartimentado e improdutivo. Nunca as lágrimas lhe foram tão acessíveis. Sentada numa pedra junto à corrente de um ribeiro sentia-se só. Um abandono físico, um abandono psíquico, um abandono total. Olhou o céu e teve vontade de pedir. Pedir sobretudo discernimento, sobretudo auxílio, pedir protecção. Como pedir-Lhe, se tantas vezes O negara? Como se Lhe dirigir se Nele não acreditava? A força tinha de vir de si. Precisava de colocar as ideias em ordem e tomar a melhor decisão. O choro e o desespero eram o seu pior caminho, a mais desafortunada das soluções.

O interior da igreja era majestoso. Figuras de santos ocupavam, grandiosamente, as paredes e pareciam movimentar-se em seu redor. Uma igreja como se fora um palco. Ela ocupando o centro. Quatro colunas delimitavam-lhe o espaço e estatuetas sobrepostas miravam-na, curiosas. Acusavam-na. Uma acusação urdida em rendas de vidro, pormenorizada.

Uma mulher vestida de negro abandonava o confessionário, curvada, coberta de vergonha.

Ercília avançou sem se lembrar de que não era ouvida em confissão há mais de vinte anos. Genuflectiu e as primeiras palavras brotaram autónomas. «Abençoai-me, senhor padre, que eu pequei’. Ergueu as mãos e fechou os olhos.

- Há quanto tempo não te confessas?

- .. .Há ...mais de vinte anos.

- És católica?

- Não sei, padre. Acho que sim...

- Muito bem. Diz-me lá, então, os teus pecados.

- O meu pecado é um só. É um pecado e um castigo. O que mais me atormenta é o castigo.

com um lenço de papel limpou as lágrimas do rosto e tentou sufocar o choro.

- Chora à vontade, se esse é o teu desejo. Quando estiveres mais calma, poderemos recomeçar. Usa o teu tempo que não estás a perdê-lo.

- Estou grávida, padre. Esse é o meu castigo.

A voz do sacerdote chegou-lhe filtrada pelos orifícios do confessionário.

- Não blasfemes, minha filha. A gravidez nunca foi um castigo.

- Estou grávida de um homem que não é o meu marido. Estou apaixonada, padre... Esse é o meu pecado.

O silêncio era quebrado pelo bulício das figuras barrocas que rodopiavam em torno dela. Os olhos espreitavam pelos frisos abaixo da cornija. As filigranas rasgavam-lhe a carne. A voz do padre devolveu-lhe o diálogo.

- E o teu marido é conhecedor dessa situação?

- Não, padre. O meu marido não sabe de nada... O meu marido sabe da vida dele, dos seus projectos, da sua ambição, do seu desejo de salvar a Humanidade... O meu marido sabe da criada que tem em casa, que lhe serve a comida em silêncio depois de um dia de trabalho, que o chama à hora certa para que ambos possamos ir trabalhar, que o veste antes de me vestir a mim também, que lhe prepara o lugar de passagem que é a sua casa... O meu marido não sabe nada, padre. Sabe o que lhe dizem as mulheres com quem se diverte, aquelas com quem partilha as confidências e o leito, que Deus me perdoe...

- Não deves evocar o nome de Deus em vão. Muito daquilo que dizes tem mais a ver contigo e com o teu marido do que com Deus Nosso Senhor... E o homem de quem dizes estar grávida sabe?

As palavras saíram soluçadas e ela não conseguia evitá-lo.

- O homem de quem estou grávida também não sabe...

- E como foi que deixaste que isso acontecesse, foi uma tentação passageira?

- Não, padre. Não foi tentação. Foi ele quem me ouviu, quem me falou, quem olhou para mim... Foi ele que me tratou bem, que me fez sentir que sou gente... Eu simplesmente lhe dei a única coisa que tinha para lhe oferecer... Entreguei-me sem pecado, por ser essa a minha vontade. A minha gravidez foi o castigo que fez soar em mim a ideia de pecado, o sentimento da culpa, que me fez desesperar, que me fez vir falar consigo, padre...

- O teu pecado é muito grave, como tu própria reconheces. Mas Deus já perdoou pecados maiores que o teu. Não entres em desespero. Fala primeiro com a tua consciência, ouve com atenção o que ela tem para te dizer e depois toma a decisão mais acertada. Conversa muito com Deus, pede-lhe que te ajude a descobrir o caminho certo. Entrega as tuas preces a Nossa Senhora da Conceição. Reza um terço todas as noites antes de dormires e um Padre Nosso quando te levantares. Agora dedica dez Avé-Marias e uma Salvé-Rainha à Nossa Senhora, antes de saíres.

- Obrigada, padre.

- Vai em paz e que o Senhor te acompanhe. Leva também a minha bênção contigo.

Ajoelhou junto ao altar e rezou repetidamente até a ladainha a fazer esquecer os seus pensamentos. Sentiu algum conforto interior após algumas preces ditas com convicção. Podia agora admirar as soberbas figuras que a cercavam. Era o esplendor da religião glorificada pelos homens. Quantas histórias se teriam desenvolvido por detrás daqueles painéis. Quantas lágrimas teriam sido vertidas por cada azulejo assentado. Quantas figuras humildes contribuíram para tamanha opulência. Teve vontade de gritar pela monarquia - «Viva o Rei». Calou-se e sentiu-se incomodada com os seus pensamentos.

Levantou-se, ajoelhou-se, baixou os olhos para o chão e andou assim até voltar a sentir a luminosidade do Minho e o alvoroço daquelas gentes.

 

Sentou-se em frente dele, cruzou as pernas e preparou-se para ouvir.

Firmino estava à sua frente. Teria perto de quarenta e cinco anos, talvez um pouco menos. Os olhos eram claros e brilhantes, as feições do rosto, onde se insinuava um duplo queixo, eram, igualmente, bastante sedutoras. O cabelo estava sempre impecável, penteado para trás e levemente grisalho. Não fora o duplo queixo e faria lembrar Richard Gere. A gravata italiana de tons clássicos era de seda. Quando se levantava era visível uma ligeira barriga que lhe acentuava a sensualidade do cabelo grisalho. Mas o ponto forte do seu director era o sorriso. Uma fileira de dentes muito alvos e alinhados iluminavam-lhe o rosto quando sorria.

- Diga-me uma coisa, a Fátima conhece o doutor Joaquim de Sousa?

O movimento dos olhos e o trejeito do rosto mostraram que ela não esperava a pergunta. Firmino tentou ser mais preciso embora convencido da inutilidade da precisão.

- Aquele Chefe de Gabinete...

- Sim, sim, conheço, mas por que pergunta?

- É que ele falou-me de si.

- E disse bem, ou disse mal? - havia ironia na sua expressão.

- Agora cabe-me a mim perguntar a razão por que quer saber.

- Por nada. Quero dizer, devo ter a expectativa que ele tenha dito bem de mim e por isso pergunto. Por vaidade. Satisfeito?

- Disse bem de si, esteja descansada. Aliás, todas as referências que tenho colhido a seu respeito são altamente elogiosas!

- Está a fazer-me corar...

- Se me permite, a Fátima ainda fica mais bonita com esse tom leve de encarnado...

- Estamos a seduzir alguém? - deu uma gargalhada e ficou a olhar para ele.

- Não, não se trata disso, foi apenas um comentário, eventualmente deslocado e de mau gosto - explicou, algo surpreendido.

Ela acorreu em seu auxílio.

- Por favor, não o encarei como agressão. Acho até que foi um comentário gentil da sua parte.

Ele tirou os óculos do estojo e colocou-os em cima da secretária.

- Voltando ao doutor Joaquim de Sousa...

- Para lhe ser franca, ele é amigo da família, por isso qualquer elogio deverá ser compreendido dentro dessa amizade. Trabalhei apenas uma vez com ele e não me parece que tenha sido suficiente para formar uma opinião sobre as minhas qualidades profissionais.

Firmino baixou os olhos e fixou-lhe as pernas durante breves segundos. Desviou o olhar e segurou os óculos com a haste entalada entre o indicador e o polegar.

- Estou a precisar, urgentemente, de me rodear de gente capaz, que tenha competência e vontade de vencer. Honestamente, digo-Lhe que irei estar atento aos seus desempenhos para um enquadramento futuro, melhor, na organização.

Ela deu um pequeno esticão na saia, em direcção aos joelhos, mas o efeito não foi nenhum.

- O senhor director sabe que não tenho vínculo à Administração Pública... estou em regime de prestação de serviços e por isso...

- O governo está a estudar um modo de resolver esse problema, essa situação que afecta bastante gente, e deve haver decisões muito proximamente. Não... não é esse o problema que me preocupa. É o partido... quer dizer, o que me preocupa é que aceitei o doutor Francisco como director de serviços, por pressão, que não importa agora dizer-lhe de quem, e esse era o lugar certo para si...

Ele colocou os óculos e fingiu procurar informação no meio dos papéis que tinha à sua frente. Os contornos dela surgiam-lhe agora como que sublinhados a tinta. As pernas e o rabo, carregados de volúpia, pudera ele apreciar quando a mandara fechar a porta. Gostava de lhe ver os peitos. Aos vinte e cinco anos seriam certamente dois pequenos limões empertigados.

Ela pensou simplesmente: «Ficam-lhe bem os óculos». Mas não disse nada. Não tinha a certeza sobre as razões daquela conversa sobre o amigo Joaquim de Sousa. Foi através dele que garantiu aquele lugar de assessora.

- Como assessora da Direcção, estou a sentir-me bastante bem.

Desconhecia por que razão o doutor Joaquim de Sousa manifestara interesse naquela rapariga e era complicado se o interesse fosse outro que não o facto de ser simplesmente amigo da família como ela dizia.

- vou colocar-lhe o problema com toda a frontalidade e, por isso, espero que também me responda com igual franqueza e frontalidade. Se lhe propusesse um lugar de directora de serviços, a Fátima aceitava?

- Honestamente, aceitava!

- Ora aqui está uma mulher com ambição! - E, justificando:

- Estou a brincar, gostei da sua rapidez e frontalidade. Por hoje chega. Tem transporte ou quer que a deixe em algum lado?

- Eu... bem... não vale a pena incomodar-se, chamo um táxi...

- Não incomoda nada. Dê-me dez minutos e deixo-a onde quiser.

Ela dirigiu-se à porta. Os olhos de Firmino confirmaram a sensualidade do seu movimento e as carnes firmes debaixo da saia. Pegou no telemóvel e ligou para o motorista que o esperava no rés-do-chão.

- Senhor Floriano, pode ir para casa, eu levo o carro. Até amanhã.

Agarrou na bolsa e colocou as chaves do automóvel num compartimento interior, que fechou em seguida. Estivera quase a criar uma situação complicada. Agora não sabia muito bem o que fazer com o carro. Ou o deixava ali a noite inteira, correndo o risco de lhe quebrarem os vidros para roubarem o rádio, ou voltava de táxi para depois o levar. «O melhor é vir cá depois».

A hipótese de poder vir a ser directora de serviços excitava-a. com tanta gente medíocre na Administração Pública, não tivera dificuldade em dizer que sim, não haveria de fazer pior figura que a maioria dos actuais dirigentes. O director pareceu-lhe sincero quando disse que confiava nela e que depositava grandes expectativas no seu desempenho. Tirou o lápis do interior da bolsa e reforçou a linha sob o contorno dos olhos, passou um toque de baton nos lábios e pulverizou o pescoço com uma água de colónia fresca. ”Estoupronta...”. Olhou-se ao espelho uma última vez, voltando-se de perfil. Gostaria de ter o peito um pouco mais desenvolvido. «Estou a delirar. Patinha, olhe que o senhor é casado...». Fechou a porta da casa de banho e dirigiu-se ao gabinete do director, que a esperava junto ao umbral.

- Vamos?

- Vamos.

Ele chamou o elevador e desceram até à cave.

 

Atenção, senhores passageiros, o comboio estacionado na linha número dois é o comboio intercidades com destino a Lisboa, Santa Apolónia. Parte às dezoito horas e cinquenta minutos. Tem paragens nas estações deFamalicão, Trofa, Porto- Campanhã, Vila Nova de Gaia, Espinho, Aveiro, Coimbra B, Pombal, Entroncamento e Santarém. Só admite passageiros portadores de bilhete de primeira ou segunda classe, com reserva de lugar. A chegada a Lisboa - Santa Apolónia está prevista para as vinte e três horas e trinta minutos”.

Ercília levantou o saco de cabedal com a mão direita e equilibrou o ombro esquerdo para não deixar cair a bolsa a tiracolo. Procurou a carruagem número onze nos letreiros colocados à entrada junto das portas de acesso. Eram pequenos rectângulos azuis, onde se inseriam fundos brancos de modo a que as letras sobressaíssem. Um bagageiro ofereceu-se para lhe transportar o saco, depois de quase a ter atropelado com o seu carro de metal. Recusou com um gesto de cabeça e, por entre muita gente que se movimentava naquela estação, verificou com agrado que a sua carruagem ficava próxima do bar. Atirou o saco para o estribo e segurou-se ao varão cilíndrico, apoiando o peso do corpo sobre a perna direita e impulsionando-se com um movimento vigoroso do braço. Abriu a porta do compartimento e empurrou o saco com o pé. A porta fechou atrás de si, ostentando o letreiro AR CONDICIONADO com soberba e galhardia. O lugar número trinta e sete, destinado a fumadores, era de uma só pessoa, o que lhe agradou. O que lhe desagradou foi descobrir que era um lugar virado a Norte, o que a obrigava a efectuar a viagem às arrecuas. «Estás a ensinar o caminho ao diabo...». Lembranças de infância que a memória lhe empurrava de volta. com algum esforço colocou a bolsa e o saco na prateleira, por cima da janela, tirou o maço de cigarros e atirou-se para o assento. Levantou-se, tirou e pendurou o casaco e descobriu os olhos de um passageiro fixados em si. Sentou-se e deixou de o ver. Podia ser alguém seu conhecido. Alongou o tronco e esticou o pescoço, mas não conseguia enxergá-lo naquela posição. Levantou-se e fez de conta que procurava qualquer coisa no interior do casaco. Voltou a encontrar-lhe o olhar. Era basbaque, miudinho e de provecta idade. Exibia um sorriso pouco natural. Os dentes deviam ser postiços. A prótese conferia-lhe um ar abonecado, de figura de cera. «Diabos levem o velho!». Perguntou-se por que razão estaria ele a olhá-la de uma forma que lhe pareceu lasciva. Acendeu um cigarro e inspirou uma golfada de fumo que lhe encheu os pulmões. Um momento mínimo em que se desligava dos fios que a prendiam à vida. Aquele engolir da fumaça primeiro, e travar depois, até querer expeli-la, longa e demoradamente, contra as costas do banco da frente, onde se diluía, era de puro prazer. Lembrou-se que estava grávida e massacrou o cigarro no interior do cinzeiro incrustado no braço do banco do seu lado direito. Ficou irritada e com vontade de tomar um café. Tabaco e cafeína... ia de mal a pior. Há doze anos passara por igual situação. Quando estava à espera do seu primeiro e até há pouco tempo único filho. O pior de toda a gravidez era o tabaco e o café, não poder fumar nem beber. «António». A lembrança do filho toldou-lhe o olhar. Procurou um jornal. Encontrou uma revista que folheou sem atenção. O comboio começou a deslizar lenta e muito suavemente. Olhou pela janela e viu ficar para trás a figura de um homenzinho com uma bandeira na mão cuja silhueta era pouco nítida porque a luz fluorescente projectava no vidro o interior da carruagem. O filho, António, que nascera era ela estudante da Faculdade de Economia, no Porto. Vivia ela, arrebatadamente, o fulgor dos seus vinte anos. António. Nome de homem numa criança. O quanto ela se opôs. A raiva que sentiu. O choro que chorou. ”O nome do meu filho é Pedro!”. Sempre gostara daquele nome para um menino. «Pedro!Pedro! Pedro!, ouviste?». Ninguém parecia tomar em devida conta a sua reivindicação. «António, porquê?». «Por tradição...’. «Se é por tradição, por que não usas tu a porra do nome de António?». Ele explicou-lhe que se tratava de uma questão de família, do tempo do seu bisavô, devoto de Santo António, e que tinha como primeiro nome António. «Ou já te esqueceste?». O bisavô tinha feito uma encomenda a Santo António e tinha obtido a graça do santo. Ela desatou às risadas com a história da encomenda e ele a pedir-lhe que mantivesse a calma. «Calma, calma, só sabes pedir-me calma. Olha, mete a calma pelo...». Calou-se perante o olhar desaprovador dos sogros. Ele insistia. O menino pode chamar-se Pedro, claro. António Pedro. Havia até um célebre dramaturgo, ou encenador, que tinha esse nome. Por que não? E assim ficou. António Pedro da Silva Ramos, filho de António Firmino da Silva Ramos e de Ercília Boaventura da Silva Ramos. Cedo, os avós paternos lhe levaram o filho. Não fazia sentido deixarem os estudos para cuidarem do menino. «A menina acaba o curso, que ele fica muito bem com os avós...». António Pedro foi crescendo na Covilhã, na companhia dos avós, no meio dos campos, entre as caganitas do gado lanígero e o frio bocejar da Serra da Estrela. Outrora por causa dos estudos, hoje por causa dos empregos, amanhã vai-se lá saber porquê. O António era, cada vez mais, filho dos avós. Ela confundia-se na contradição entre a vontade de ver morrer os sogros e o desejo de preservar-se das obrigações maternas. Já tinha chatices que bastavam. A casa, o emprego, o marido, era um não acabar de tensões. Tudo, naquela cidade em que vivia, era problemático e absorvente. Vivia numa grande solidão, rodeada de gente. Tanto tempo que tinha, sem nunca ter tempo para nada.

- A senhora, faz-me o favor...

- Ah? Ah, desculpe.

O revisor colocou um sorriso de circunstância e aguardou que ela lhe mostrasse o bilhete.

A porcaria do bilhete. Nunca conseguia evitar este momento desagradável em que o bilhete se sumia quando ela o procurava. Percorreu todos os bolsos, folheou os livros e revistas, verteu o conteúdo da bolsa e pediu desculpa ao revisor.

- O senhor faça o favor de desculpar... É só um momento...

O homem olhou-a entre divertido e estupefacto.

- A senhora faça o favor de procurar com calma, que eu volto já.

- Muito obrigada... desculpe lá...

Voltou a procurar no casaco e encontrou o bilhete no bolso exterior, do lado esquerdo. «Porra. Ainda agora aqui estive e não vi nada...». Saiu do lugar e foi ter com o funcionário que, naquele momento, obliterava o título do passageiro que tinha dentes postiços. Aguardou que ele acabasse e esticou-lhe o bilhete. O revisor analisou-o como se fosse falso.

- Obrigado - disse ele ao devolvê-lo.

O passageiro com prótese dentária fez uma inflexão que se assemelhava a um cumprimento, o que a deixou confusa. Voltou ao lugar e analisou o bilhete com atenção. Teria o homem suspeitado pelo facto de ser domingo? Não era a primeira vez que viajava em final de semana com bilhete pago por requisição e o mesmo acontecia com muitos dos seus colegas do ministério. Lá estava no canto inferior esquerdo a referência: «Req. 324». Quisera fazer a viagem com o seu próprio orçamento mas Daniel insistira no serviço oficial e assinou-lhe a guia de transporte. Certo e sabido que ia insistir com ela para preencher o boletim itinerário. Não era homem para pactuar com irregularidades, mas entendia que alguns gestos correspondiam às poucas manifestações de que a Administração era capaz para premiar os seus melhores funcionários.

 

O gabinete de trabalho de Fátima Soares era virado a poente e tinha uma janela larga, donde se via o rio e por onde o sol entrava profusamente. No Verão deveria tornar-se insuportável sobretudo depois das três horas da tarde. Em cima da secretária, uma pequena jarra de vidro azul com flores secas, roxas e amareladas, uma moldura com a fotografia dos pais, um tubo cilíndrico cheio de canetas e lápis e cinco volumes empilhados, no canto direito, junto a um pequeno maço de papéis brancos. A moldura mostrava a mãe, em primeiro plano, abraçada pelo pai, que lhe pousava o queixo sobre a cabeça e a enlaçava por trás. A farta cabeleira da mãe deixava perceber um rosto franzino, bonito, o olhar negro e acutilante nos dois olhos expressivos e determinados. O pai era muito alto e magro e os ombros sobravam de cada lado da figura da mãe. Fátima achava o pai particularmente charmoso e atraente. Barba rala, cabelo um pouco comprido e sobrancelhas poderosas sobre o olhar meigo, mas decidido.

Fátima era, normalmente, a primeira pessoa a chegar ao seu local de trabalho. Às terças e quintas-feiras, ainda se cruzava com as funcionárias da limpeza que faziam o turno de manhã.

Impreterivelmente às nove horas e trinta minutos chegava o seu colega de gabinete, Fonseca de Oliveira, a quem todos conheciam Por «o doutor». O doutor Fonseca associava a pontualidade obsessiva ao ritual expressivo com que manuseava os adereços e à organização meticulosa do espaço e do tempo. Usava fato escuro, camisa branca e gravata preta. Tinha, constantemente, óculos de sol. Um odor intenso a naftalina emanava do casaco e instalava-se no gabinete desde a sua chegada até às dezassete horas e trinta minutos, hora de saída. No início, Fátima sentia-se incomodada com o silêncio permanente daquele colega: «bom dia» quando chegava e “Até amanhã» quando saía, eram os monossílabos do diálogo possível. Agora, nove horas e trinta minutos, o doutor Fonseca estava a chegar.

- bom dia - disse-lhe, dirigindo-se à secretária. Tirou o casaco, sacudiu-o duas vezes, pendurou-o nas costas da cadeira e sentou-se.

Era assim todos os dias. Depois foi a uma gaveta de onde tirou um livro grosso que colocou à sua direita. Abriu-o e começou a rabiscar nas folhas que tinha alinhadas junto à caneta e a uma borracha de tinta. Transcrevia o conteúdo do livro até à chegada do Diário da República. Nessa altura fechava o livro, arrumava os papéis ordenadamente e folheava o Diário da primeira à última página. Voltava ao início e começava a transcrever os decretos e despachos que constavam do documento oficial. Às dez horas e trinta e cinco minutos ia à casa de banho e demorava quinze minutos. Às vezes, da parte da tarde, colocava a mão esquerda debaixo do queixo e deixava-se dormir, com a caneta segura na mão direita. Fátima habituara-se a viver com ele. Só ficava furiosa quando ele adormecia no decurso de uma qualquer reunião, com a presença de pessoas estranhas à Administração, e produzia um ressonar rouco e grave. Fátima pedia desculpa, levantava-se e tocava-lhe no ombro. «Doutor Fonseca... por favor...». Ele agitava a cabeça e reiniciava a escrita de forma imediata. Reproduzia literalmente o conteúdo de toda a legislação e acumulava em cima da secretária as folhas de papel com as transcrições. No final do dia colocava-as nas gavetas até as encher completamente. Quando as gavetas ficavam cheias, fazia desaparecer as folhas e o espaço ficava disponível para começar tudo de novo. Às vezes, Fátima tinha vontade de lhe dirigir a palavra, perguntar-lhe sobre as coisas da vida dele, as razões que o conduziram ao isolamento, as aspirações e os anseios que devia ter, mas a figura lúgubre e o olhar preso nos óculos escuros desmobilizavam-na. Ninguém mais parecia questionar-se sobre o doutor Fonseca ou tentar estabelecer com ele qualquer comunicação. Um dia, quando tomava café, ouviu a telefonista comentar com o chefe dos serviços administrativos que o doutor fora colocado no serviço por pedido directo do senhor ministro e que o director não tivera como negar. Uma outra vez ouviu a jurista do contencioso afirmar que o doutor Fonseca era uma pessoa extremamente irascível, «para não dizer malcriado», e que não acatava ordens que não proviessem do senhor director. Fátima considerava intrigante a maneira de ser daquele colega e pensava que devia ser-lhe penoso viver assim, mas não estava disposta a correr o risco de que pudesse ser grosseiro para com ela. As vezes não o via sair para almoçar, mas sabia que saía sempre ao meio-dia e meia hora.

- Doutora Fátima, o senhor director quer falar consigo disse-lhe Felismina, a secretária do director, assomando à entrada do gabinete.

- vou já, Felismina, obrigada. - Levantou-se, pegou na pasta com papéis, passou pela casa de banho, compôs o cabelo, analisou a sua imagem reflectida no espelho e saiu ao encontro do director.

Quando pediu licença para entrar, Fátima viu Firmino sentado no seu cadeirão, mangas da camisa arregaçadas e o fumo do cigarro subindo do cinzeiro. Recordou a figura do doutor Fabiano, no final da última reunião de direcção, com a mão estendida e o tronco flectido numa absoluta subserviência para com Firmino, que o olhava com a superioridade e o desdém de quem está muito longe do alcance daquele cumprimento. O que é que aquele homem, duro e distante, podia sentir por ela, para além da deferência resultante do Pedido do doutor Joaquim de Sousa para que lhe concedesse o lugar de assessora, era o que a intrigava. A imagem inicial de um burocrata perdido na mediocridade de uma qualquer rotina repleta de requerimentos e ordens de serviço tinha-se transmutado na imagem do homem decidido, consciente do poder que exercia, assertivo nas relações com terceiros, admirado e respeitado pelos subalternos e pelos seus iguais, mas igualmente capaz de lhe dedicar, a ela, uma vulgar assessora, o tempo de uma conversa amena e frugal e a concessão de uma boleia até à porta de casa, embora num contexto de mentira que ela, voluntariamente, criara.

- Dá-me licença?

Firmino levantou os olhos da secretária, endireitou os óculos com o polegar da mão esquerda, olhou para a porta e mandou-a entrar, acompanhando com o olhar o movimento ondulante que a forma como se deslocava produzia.

- Entre, entre. Estava à sua espera. Faça o favor de se sentar e apontou-lhe uma cadeira.

Ela sentou-se do lado direito do seu director, cruzou a perna direita, pousou o dossier sobre a mesa, retirou uma caneta da bolsa e preparou-se para ouvir, como habitualmente fazia. Pousou a bolsa junto à perna da cadeira onde se sentava.

- O assunto de que lhe vou falar será objecto de análise na próxima reunião de Direcção que irei convocar para a próxima quinta-feira, dia nove. Trata-se da avaliação de desempenho dos nossos funcionários. Em termos gerais, gostaria que pudéssemos estabelecer critérios que correspondessem a uma avaliação de natureza substantiva...

O telefone amarelo tocou nesse momento. Na pequena mesa, situada do lado esquerdo de Firmino, estavam dois telefones. Um deles tinha muitos botões rectangulares e quadrados e era de cor cinza. O que tocava naquele momento era amarelo-esbranquiçado e correspondia a uma linha directa. O seu número não constava da lista telefónica e era de utilização muito reservada.

- Estou. Ah, és tu, diz... - É que estou a meio de uma reunião, não é assunto que possa esperar? - o tom de voz era baixo. A expressão do rosto tinha mudado. Fátima notou-lhe alguma crispação nas faces e perda de brilho no olhar. Fez intenção de se levantar, mas Firmino apontou-lhe a cadeira com o dedo indicador.

- Olha, é melhor deixar para logo - desligou e pediu desculpa à sua assessora.

Ela achou curioso o facto de ele lhe ter pedido desculpa e prestou atenção à transfiguração do rosto que retomava as expressões iniciais. Ele tinha ficado um pouco embaraçado com o telefonema, mas ela não percebia porquê. Bateram à porta, que se abriu logo de imediato para dar entrada a Felismina, a secretária do senhor director.

- O senhor doutor tem a esposa na linha três.

Era o telefone cinza que tocava. Tinha um timbre diferente do amarelo-esbranquiçado, mais harmonioso e melódico. Fátima levantou-se e dirigiu-se à porta.

- Não precisa de sair... Aguarde um momento - era Firmino com voz muito firme. Olhou para Felismina e ordenou-lhe: - Passe que eu atendo!

Felismina olhou para a doutora Fátima antes de fechar a porta.

Firmino baixou o tom de voz ainda mais que da primeira vez e foi mais monossilábico. A conversa foi curta. Fátima olhava o mapa, que se encontrava fixado à parede, e onde se podia ver a Europa resultante das transformações ocorridas neste estertor do século XX. Os olhos percorreram os novos Estados saídos do desmembramento do Leste europeu enquanto o pensamento seleccionava e isolava os pormenores mais significativos da conversa que mantivera com Firmino no carro, na noite em que ele se oferecera para lhe dar boleia até casa. Uma conversa tranquila, pautada pela lua, nesse dia prenhe de luz, que se avistava como um imenso clarão por entre a ala dos prédios que cresciam junto ao solo. Não eram nem confidências nem recriminações. Era o fluir das pequenas histórias que compunham a história de cada um deles. Ainda na fase do não contar tudo mas do criar vontade de tudo contar, de partilhar. Uma força fantástica empurrou-a para ele quando ele colocou os óculos para se despedir, mas alguma coisa a conteve, que ela não sabe muito bem o quê, uma vez que lhe parecia que ele sentia a mesma força, embora não tivesse a certeza absoluta.

- Vamos continuar? - a voz dele interrompeu-lhe o pensamento.

- Sim, claro. Estávamos na avaliação substantiva! - exclamou ela sem sair de onde estava.

- Sente-se. Quero que me faça um levantamento completo de todas as situações que temos na instituição e uma proposta de enquadramento, com as soluções possíveis para os diferentes casos. Eu analisarei consigo a proposta antes de a levar à reunião de Direcção. Sente-se à altura da tarefa?

- vou tentar não o desiludir. No entanto, gostava que me sinalizasse melhor o problema...

- Por exemplo, não me parece que faça sentido, quando assino as notações do pessoal, que todos eles estejam situados no escalão superior, o dez, que corresponde a níveis de desempenho absolutamente excepcionais, basta que leia os parâmetros... Tem que haver rigor na avaliação. Não sei, talvez envolvendo e responsabilizando os directores de serviços...

- Percebi. De qualquer maneira, assim à primeira vista, vai ser mais importante a sua coragem na tomada de decisão que a minha competência técnica, não lhe parece? - disparou ela, como um desafio.

- A mim, o que me parece é que a doutora Fátima é uma mulher difícil. Tem essa postura em todas as questões da sua vida, ou só é assim no emprego?

- Postura? O doutor Firmino confunde-me. Como já tive oportunidade de lhe dizer, sou portuguesa nascida em França e, nesse contexto, sou uma colonizadora cultural deste país.

Firmino fixou os seus olhos claros nos olhos castanhos dela e achou piada às pestanas ralas, como se um fogo se tivesse incendiado junto ao rosto, e admirou-lhe o pescoço longilíneo, de grande personalidade.

- Quero ver é como vou avaliá-la a si, dado que será a autora da proposta.

O olhar dele parecia despi-la. Ela mirou-lhe o duplo queixo, o cabelo grisalho e os olhos claros por detrás dos óculos que hoje ainda não tirara e rematou:

- É mais uma decisão que aguarda a sua competência!

Nesse momento, Felismina bateu à porta e invadiu o gabinete com um dossier amarelo debaixo do braço e um cinzeiro na outra mão.

- Estão aí os senhores do Conservatório que têm reunião marcada para as dez e meia. Posso mandar entrar? - o olhar dela dirigiu-se para a doutora Fátima.

- Aguarde uns minutos mais. Quando a doutora Fátima sair, mande-os entrar. Estamos a terminar - respondeu Firmino com a seriedade habitual.

Felismina tirou o cinzeiro com as priscas e substituiu-o pelo outro.

Fátima admirou-lhe a camisola verde. Notara que a habitual simpatia e a disponibilidade de Felismina se tinham alterado. Como não conhecia os motivos, atribuiu-os a alguma questão de natureza particular.

Felismina saiu e Firmino deu por finda a reunião.

- Hoje, ficamos por aqui. Deixe que lhe diga, apenas, que gostei muito da conversa que tivemos sexta-feira à noite...

- Eu também. Havemos de a repetir, se achar bem... - disse-o enquanto pegava nas suas coisas e abandonava o gabinete debaixo do olhar bamboleante do doutor Firmino.

O doutor Fonseca estava na casa de banho e ela ficou radiante com a meticulosidade dele. Não lhe apetecia companhia e ele ia lá

ficar pelo menos os dez minutos que faltavam para as dez horas e cinquenta minutos. No gabinete o cheiro a naftalina fez-lhe lembrar as flores da Primavera e a frescura dos pinheiros.

 

Quando ele lhe desligou o telefone, ela praguejou por duas vezes e, de forma automática e irreflectida, discou o número que sabia ser de acesso à secretária do marido.

- Felismina... Olá, bom dia, fala Ercília Ramos, o meu marido está disponível?

- bom dia, doutora Ercília. O senhor director está em reunião com a assessora mas vou informá-lo do seu telefonema. Só um momento, não desligue, por favor...

«Assessora?» - a Quinta Sinfonia de Beethoven interrompeu-lhe o raciocínio.

- Estou. Acabei de te dizer que não me era conveniente falar agora. Logo conversamos... - a voz soou baixa, mas decidida.

- Logo não conversamos, coisa nenhuma. É para te comunicar que não estou em casa... é melhor jantares fora.

- Não te esqueças que...

- É tudo o que tinha para te dizer! - desligou. «Cretino!».

Sem se dar conta, Ercília fora perdendo a admiração que nutrira pelo marido. Costumava dizer-lhe que deixara crescer a cara, referindo-se ao duplo queixo, e que aprendera a ter reacções iguais às do papel selado.

Atrás de Ercília, uma mulher, baixa de estatura, agitava umas moedas, dando-lhe a indicação que pretendia telefonar. Ercília enfiou duas moedas de vinte escudos na ranhura do aparelho e discou o número do seu serviço. A telefonista, Dona Zélia, reconheceu-a e atendeu-a com grande cordialidade. Ercília pensou que ela era a melhor telefonista do mundo e perguntou-lhe se o doutor Daniel já tinha chegado. Ela disse-lhe que já o vira entrar mas que ia ligar à secretária dele, a menina Adélia, para confirmar. Antes, perguntou-Lhe se as férias tinham corrido bem e se pensava voltar ao serviço naquela semana.

- vou voltar muito em breve e a senhora irá ser a primeira a saber. Agora ligue-me com a menina Adélia, se faz favor.

A menina Adélia era uma mulher que já completara os cinquenta e sete anos de idade, solteira por convicção, ao que se dizia por causa do director, e que investia toda a sua energia na eficiência do cargo. Gostava muito do doutor Daniel e tratava-o como um filho ou como um irmão, dada a diferença de idades. Por vezes era ela quem tomava algumas decisões relativas ao serviço, mas sempre com excepcional discrição.

- Olá, doutora Ercília! A senhora doutora já está em Lisboa? Fez boa viagem?...

- Olá, menina Adélia, bom dia. Muito obrigada. Sabe que não há bem que sempre dure...

- ...nem mal que não se acabe, não é verdade, senhora doutora? Pois é bem verdade. Olhe, estimei muito em ouvir a senhora. vou passar ao senhor director, que ele já aguarda a sua chamada. A senhora doutora sabe que a si o senhor director está sempre pronto a recebê-la, não é verdade?

Se Ercília não conhecesse a menina Adélia, como conhecia, poderia ter-se questionado sobre a intencionalidade daquela frase final «...a si o senhor director está sempre pronto a recebê-la», mas como a conhecia bastante bem, tinha a certeza de que era simplesmente uma expressão dita com vontade de agradar.

- Sim... Lia? - perguntou Daniel, utilizando o diminutivo de Ercília.

- Olá, bom dia. É para lhe dizer que começo a trabalhar na próxima segunda-feira... - o coração batia aceleradamente.

- Está tudo bem consigo?... Como correu a viagem?... - perguntou de modo tranquilo.

- Está tudo bem, obrigada... mas... preciso de conversar consigo... não sei... se pudesse jantar comigo hoje... - ficou embaraçada com o atrevimento da sua sugestão.

- Hoje? Dê-me só um momento, se faz favor - e logo após: Olhe, Lia, hoje não vai poder ser. Não tenho possibilidade de cancelar os compromissos. Só tenho livre quinta-feira à noite...

- bom... - exclamou desanimada. - E podemos jantar na quinta-feira?

- Por mim tudo bem, terei muito prazer nisso. Mas não há problema com o seu marido...? - A pergunta de Daniel denunciava alguma perplexidade.

- Não, não. O Firmino está muito ocupado... - respondeu, tentando controlar a ansiedade.

- Então muito bem. Diga-me onde quer que a vá buscar e a que horas - concluiu em tom pausado.

- Não é preciso vir buscar-me. Se estiver de acordo, encontramo-nos no café por baixo da sua casa - propôs Ercília.

- Óptimo. Pode ser ao quarto para as nove? - a pergunta foi associada a movimento, que ela pensou ser a consulta da agenda.

- Sim, pode. Então... até quinta-feira - despediu-se. Lembrou-se que Daniel podia estar em reunião e o telefonema não ser oportuno.

- Até quinta. Um beijo para si - respondeu ele e desligou o telefone. Ela ainda ouviu a ligação a ser cortada antes de pousar o seu auscultador.

O telefone caiu no descanso acompanhado pelo olhar furioso da mulher baixinha que agitava freneticamente as moedas enquanto dava pequenos passos à esquerda e à direita. Ercília não reparou que deixara a bolsa junto ao telefone. A mulher grunhiu uma expressão de recriminação que a fez voltar a cabeça. Viu-lhe a carteira estendida na mão. Atirou-lha como se fosse uma bola e Ercília quase se estatelava porque perdeu o equilíbrio ao tentar agarrá-la. «Estúpida mulher...», disse entredentes e afastou-se.

Ercília definia Daniel como «a ternura». A ternura. Olhar verde-azeitona repleto de candura, quase ultrajante no olhar de um homem. A barba rala no rosto austero, queixo rectilíneo, sem carnes adiposas, um desenho de maxilares na mais absoluta secura. Tinha o rosto projectado para a frente, potente e anguloso. A candura do seu olhar nascia ao fundo, sob a protecção de poderosas sobrancelhas. Candura que contrastava com a decisão, olhar de quem não vacila, de quem está seguro daquilo que quer, de quem não navega em incertezas. Um olhar decidido, mas nublado pelo rasto de uma mágoa. Uma mágoa igual à que ela notava em si mesma, nestas últimas semanas, quando se olhava no espelho. Uma mágoa diluída no verde, estendida nas pupilas, nascida algures onde o olhar se liga ao coração.

Uma atracção súbita por aquele olhar que ela não sabia explicar. Sempre se sentira segura dos seus valores e nunca colocara em questão os votos matrimoniais. A fidelidade era um valor que tinha para ela a força de um desiderato. Era a afirmação suprema do amor entre duas pessoas, a aceitação profunda do compromisso, a transformação do diverso em uno, um estado psicológico de entrega exclusiva ao outro. Nos pensamentos, nos actos, nos compromissos, nos segredos.

Não conseguia situar no tempo, num momento cronológico preciso, o início da ruptura com o marido. Talvez esse momento não exista, e isso incomoda-a, ou provavelmente terão existido muitos momentos. Conheceu Firmino muito nova, naquela idade em que os amores flutuam, quando as pessoas ainda não têm projectos de vida. Mas para ela foi um momento fulminante. Vê-lo naquele palco, seguro, soberbo e garboso como um felino, convincente nas palavras, arrebatado nos gestos, manipulando e excitando a multidão que enchia o recinto desportivo transformado em arena política. Ercília, aluna ainda do ensino secundário, situada junto ao palco, a seus pés, numa simbologia que haveria de conhecer outros contornos, bem menos gratificantes para ela. A multidão ululava de punho erguido, gritando repetidamente as palavras de ordem que ele sugeria com a força de um trovão, quando aconteceu a magia do amor. Um halo de luz isolou-os na multidão e os olhos dela brilharam, incendiando-a de felicidade e colocando em euforia o seu coração de criança tornada mulher. Durante dois anos consumiram-se numa relação avassaladora que devorou e destruiu todos os obstáculos. Era Firmino quem conduzia aquela descoberta total dos sentidos, do corpo, da alma, dos outros, dele e dela. Quando casaram, no ano da graça de 1983, ela declarou com a convicção do crente «Sim» a tudo quanto o padre lhe perguntou e lhe propôs. Tinha a seu lado um jovem funcionário público, a quem o partido propusera um cargo na Administração, no ano anterior, para poderem começar uma vida ameaçada de felicidade. Depois foram para Lisboa no final do ano, os afazeres começaram a levá-lo de casa, os telefonemas permanentes dos sogros dando-lhe indicações sobre o que fazer e o que não fazer, sugerindo, indicando, avaliando, chateando até à canseira e aquela vontade crescente de os «mandar à merda». Em Firmino a decisão e a irreverência foram cedendo perante o silêncio e a conformação. Ela insultava-o, reclamava-o para si, tentava despertá-lo, mas ele afastava-se lenta e silenciosamente, como um barco na linha do horizonte, e tornava-se irascível, agressivo e, muitas vezes, grosseiro. Talvez por isso ela nunca se perdoou o ter-se deixado engravidar. Nenhum filho podia salvar aquele naufrágio, compreender aquela sua dor. A dor da perda. Não a perda definitiva de uma morte sem remédio, mas a perda do corpo presente. Nenhuma criança lhe poderia restituir a paixão pelo marido ou repor a admiração que por ele nutrira. Por isso, o último acto de agressão que Firmino cometeu contra ela foi convencê-la do contrário.

 

Quem saía do secretariado da Direcção via abrir-se um extenso corredor, com inúmeras portas de ambos os lados, normalmente fechadas, exibindo placas com o nome dos ocupantes e, nalguns casos, a designação dos serviços. No primeiro compartimento, à direita de quem saía do secretariado, situava-se a pequena reprografia que reunia unanimidade quanto à inconveniência da sua localização geográfica, quer pelos barulhos que produzia quer pelo aquecimento que provocava o trabalho contínuo das máquinas. Por mais de uma vez o problema fora identificado para discussão mas, como não era considerado prioritário, raramente lhe era concedida agenda.

O rapaz que ali trabalha chama-se Fausto e lida com perícia com as fotocopiadoras, duplicadoras, retroprojectores e computadores gráficos. É muito eficiente no desempenho das suas funções, mas bastante reservado. Entrou para aquele posto de trabalho por intermédio de uma tia, contínua há mais de vinte anos, que moveu influências junto do doutor Fernando, o director de serviços «que por sinal é meu conterrâneo», e que devia alguns favores à família da senhora. Fausto tinha concluído o décimo segundo ano do curso técnico-profissional de Informática e a tia acenara-lhe com o carácter transitório da ocupação porque «o importante é estar lá dentro, depois logo se vê...». E ainda bem que lho disse pois corriam rumores de que o governo se preparava para integrar todos os tarefeiros nos quadros do pessoal. A senhora presenteava o doutor Fernando com alguns presuntos e muitos enchidos como sinal de gratidão. «Oh minha senhora, não vamos estar toda a vida com isto, não é verdade?», dizia ele enquanto lhe estendia a chave do carro. Ela já sabia o lugar dele na garagem e como se abria a mala de trás, que era «só carregar num botão do comando e aquilo era tudo automático». Fausto viera de Aguiar da Beira, com a cabeça povoada de sonhos, e rapidamente se deu conta do quanto era apreciado junto do «belo sexo», como ele costumava denominar as mulheres sempre que tinha oportunidade de falar no assunto, fosse com quem fosse.

Fausto bateu com a porta, rodou a chave, que tirou da fechadura, e colocou-a no bolso. No alto do seu metro e oitenta e cinco, o olhar negro condizia com o gosto dos tons escuros. Camiseta azul-marinho muito forte, calça de ganga preta e sapatos de bico, igualmente pretos e muito brilhantes. Apenas a fivela do cinto destoava no seu tom prateado e polido. Caminhava firme com os ombros a ocuparem o corredor quase pela metade. Espreitou à porta da sala do secretariado e cumprimentou Felismina: - bom dia. vou tomar café, volto já... - Ela não disse nada, mas lançou o rabo do olho para o espreitar. Ele permaneceu de pé, junto à porta até que ela lhe disse: - Okay, podes ir... - Ele admirou-lhe a camisola de algodão verde com decote em bico, onde sobressaíam os peitos. «Grandes mamas tem a cabrona...». Fitou-a demoradamente até ela se sentir importunada: - Podes ir, já te disse. - Olhou aquela figura negra que lhe produziu um arrepio fino junto à barriga. «Aquele está convencido que é Deus no Céu e ele na terra...».

Meteu umas folhas no dossier amarelo e começou a preparar as coisas para a reunião que ia começar dentro de quinze minutos. A doutora Fátima já entrara, mas devia ser por outros motivos, porque ainda era muito cedo. A doutora Fátima, ultimamente, andava com muita frequência no gabinete do senhor director e a verdade é que o director parecia cada vez mais receptivo a aceitar tudo o que viesse da doutora Fátima. Não havia proposta que ela fizesse que não merecesse logo o assentimento dele. Até se falava que ele ia propô-la para directora de serviços e era bem certo que o doutor Francisco estava mesmo a pedi-las, pois cada vez mais aparecia menos e aquilo no sector dele estava um caos, cada um a fazer o que lhe apetecia, quando queria e como queria... Agora, daí a convidar uma rapariguita que nem vínculo tinha... A verdade é que ela metia-se pelos olhos dentro do director e um homem não é de ferro, embora ele fosse casado. Aliás, a doutora Ercília, a mulher dele, da última vez que telefonara, pareceu-lhe bem irritada e ela até lhe disse que a reunião era com a assessora, para que tirasse as conclusões dela, se quisesse, está bem de ver. O doutor Firmino era a pessoa mais excepcional que ela conhecia, sempre muito delicado, sempre atencioso e disponível. O verdadeiro problema, que era uma pena, era ser casado, mas um homem daqueles, também já se sabe, não é?... Não fosse isso e tê-lo-ia eleito como o homem da sua vida. Às vezes aquele olhar dele, clarinho como as manhãs, parecia cercá-la e depois a voz pausada e firme envolvia-a num sonho impossível de concretizar, é certo, mas bonito de sonhar, passe a expressão. Um dia perdeu-se em pensamentos enquanto olhava a fileira de dentes imaculados que tinha à sua frente, misturando beijos dela com as ordens dele e soltando-lhe, com os dedos, os cabelos sempre tão alinhados. Ficou muito embaraçada quando ele lhe perguntou: «A Felismina está a ouvir o que eu lhe digo?». Emudeceu com o susto e ele perguntou-lhe se sentia bem: «Sente-se bem?». Corou imenso, de uma forma que nunca mais parava, pediu desculpa e abandonou a sala. Agora era aquele tal do Fausto que a olhava como se a despisse. Nunca vira ninguém tão descarado. Não que tivesse qualquer prova de indelicadeza da parte dele, mas a maneira de ele a olhar e os monossílabos que pronunciava eram muito enlanguescidos para quem mal se conhecia. Riu-se porque também era verdade que, em alguns momentos, ele até a fazia esquecer o director e, valha a verdade que o diga, era cá um pedaço de um homem!... O melhor é mudar de pensamentos porque o olhar da colega é um olhar interrogativo. Felismina

disfarçou com um sonoro «Se me ponho a falar sozinha, ainda acabo no Júlio de Matos!».

Pediu à colega que a ajudasse e foram buscar umas garrafas de água e copos que colocou numa bandeja conjuntamente com uns círculos de papel onde haveria de os pousar. Bateu à porta e entrou:

- Dá-me licença?... - Distribuiu os copos e as garrafas pelos lugares que correspondiam aos directores de serviços e perguntou ao doutor Firmino se o doutor Francisco vinha à reunião. Ele não deve ter ouvido a pergunta porque não lhe respondeu, o que não era nada habitual. Olhou o par, ao fundo da mesa, e teve a impressão de que era uma estranha num ambiente subitamente estranho e que interrompia alguma coisa. Passou-lhe um grande silêncio pela cabeça, que ficou vazia, e deu-lhe a impressão de ter visto um fio amarrado em torno daqueles dois. Sacudiu a cabeça, fechou os olhos por um instante, e sentiu que tudo voltava à normalidade. A doutora Fátima dá-me licença?

- Faça favor, Felismina. Hoje está muito bonita - disse-lhe Fátima, olhando o verde da camisola que lhe acentuava as formas do peito e as calças com prega e uma dobra junto ao sapato.

- Muito obrigada - respondeu-lhe embaraçada, porque nunca a doutora tivera com ela aquele tipo de comentário.

- E eu sou testemunha disso - acrescentou Firmino, que pareceu olhar Felismina como mulher pela primeira vez.

- com licença... - foi o que conseguiu balbuciar Felismina, saindo com o coração a bater aceleradamente. Teve a impressão de que ia desfalecer. O tom de voz da doutora não era natural. Era uma espécie de desafio, um tipo de agressão que ela não percebia muito bem, mas que sentia. E a maneira dele «e eu sou testemunha», ou lá o que ele dissera, era um prolongamento, como se estivessem conluiados. Sentia-se afogueada. Correu para a casa de banho para colocar um pouco de água nas faces, mas deu de caras com Fausto que regressara do café. Ele rodava a chave da porta quando olhou para ela e fez um movimento com a cabeça enquanto lhe piscava os olhos.

Era um convite claro a que ela entrasse com ele. Alguma coisa de errado se estava a passar com ela hoje. Meteu-se na casa de banho, correu o fecho, abriu a torneira e molhou as mãos, que levou ao rosto. O efeito foi surpreendente. O rubor aumentou de intensidade e a cara parecia querer rebentar. Desapertou as calças, sentou-se na sanita e respirou fundo pelo nariz até se sentir mais calma. Limpou-se a um pedaço de papel higiénico, que estava pousado sobre uma pilha de listas telefónicas, e só saiu quando se sentiu senhora da situação. Consultou o relógio e eram dez horas e trinta e cinco minutos. A reunião estava prestes a começar. Passou pelo doutor Fonseca de Oliveira, que ia em direcção à casa de banho com um jornal desportivo debaixo do braço, e viu, junto à porta de acesso ao seu gabinete, os doutores Fernando e Fabiano à espera que o director os chamasse. O doutor Francisco ia faltar de novo à reunião. Ao passar por eles, disse: - vou perguntar ao senhor director se podemos começar, está bem?

O doutor Fabiano levantou a cabeça para olhar para ela porque era um palmo mais baixo: - Não tenha pressa. Veja mas é se consegue que hoje não se fume na reunião...

Felismina sorriu para ele: - O doutor bem sabe que isso não é comigo.

Fabiano devolveu-lhe o sorriso e acrescentou: - Pelo menos, abra uma janela, já não se perde tudo...

Ela afastou-se e ele ficou a lamuriar-se com o doutor Fernando sobre os inconvenientes do tabaco e as suas implicações: - Segundo o que li, o fumo faz muito mal aos fumadores passivos e não me parece certo...

Felismina estava tão agitada que atirou um monte de papéis para o chão. Abriu a porta e perguntou se podia entrar. Firmino acenou afirmativamente com a cabeça e perguntou-lhe se tinha distribuído a ordem de trabalhos. Ela mandou entrar os dois directores de serviços e sentou-se no seu lugar, para tomar notas das principais conclusões a que se chegasse na reunião.

- Vamos lá a ver se hoje não se fuma! - disse Firmino, levantando-se para cumprimentar o doutor Fabiano e depois o doutor Fernando.

Fabiano pensou que o director estava de bom humor e aproveitou o ensejo:

- Oh senhor director, não é preciso tanto! Bastará uma janela aberta ou então fazermos um pequeno intervalo... Eu aproveito e tomo um cafezinho e os fumadores, um cigarrozito...

- Eu, por mim, é como quiserem - disse o doutor Fernando, que olhava de alto a baixo a doutora Fátima.

 

Firmino verificou que o doutor Fernando olhava com intensidade e de maneira quase provocatória a doutora Fátima. Veio-lhe à memória uma das últimas reuniões, que por sinal até julgava ter sido a última, em que os ouvira partilhar segredos e sentiu crescer uma fúria em relação ao director de serviços -- «afinal de contas, o cabrão é rabeta, ou o que é que é?» - mas controlou-se por sentir que estava a proceder como um idiota.

- Então fazem o favor de tomar os vossos lugares, que vamos dar início à reunião. - Tirou um cigarro, puxou o cinzeiro mais para junto de si, acendeu o isqueiro e disse, por entre uma nuvem de fumo: - Como sabem, pela ordem de trabalhos, vamos discutir o mecanismo da avaliação. Há um documento de suporte à nossa discussão, elaborado pela doutora Fátima, a quem agradeço o trabalho efectuado e que, julgo, merecerá de todos uma apreciação positiva, pela sua qualidade.

O doutor Fabiano tossiu e ficou congestionado, não pelo fumo, que ainda não houvera tempo para tal, mas pela atitude do director. «Pois se, ainda não há cinco minutos, tínhamos combinado fazer uma pausa para quem quisesse fumar, e ele ja estava a desrespeitar o acordo-. Era por essas e por outras que não o levava muito a sério e que mantinha reservas sobre as suas qualidades de chefia. Era ver a maneira como era todo mesuras para a assessora, coisa que nunca acontecera em relação a nenhum dos directores de serviços, bem pelo contrário. Agora compreendia melhor o doutor Francisco, que se estava nas tintas para aquelas reuniões e, que sempre que podia, que era a maioria das vezes, arranjava forma de estar ausente.

- A questão essencial é a de tentarmos efectuar a avaliação dos nossos funcionários e colaboradores com o máximo rigor possível, de modo a evitar que, independentemente da qualidade do seu desempenho, tenham todos a mesma avaliação. Não é razoável nem sustentável que um funcionário ou funcionária que chegue sistematicamente tarde, que não responda ao solicitado nos prazos estabelecidos, que não demonstre envolvimento profissional e afectivo com a causa pública, que seja desleixado nas suas obrigações, que proceda com sobranceria e desrespeito para com as pessoas que tem de atender, e nós sabemos que há funcionários assim neste nosso departamento, não é razoável, dizia, nem sustentável que venha a ter propostas de notação, avalizadas pelos senhores directores de serviços, em que estes funcionários são avaliados com dez a todos os parâmetros ou a todos menos um. A pergunta é: como proceder para introduzir rigor e justiça nas avaliações? - falou de supetão, mas com convicção e em tom que parecia não admitir réplica.

O doutor Fernando compôs o nó da gravata o melhor que pôde no colarinho da camisa aberto, dada a grossura e a altura do pescoço. O cabelo era curto mas um pouco encaracolado, o que lhe acentuava o ar de menino de aldeia em dia de festa na escola. Pelo menos era assim que Fátima o estava a observar, agora que ele se prestava para tomar a palavra. Ela olhou-lhe para as mãos pequenas e os dedos papudos onde enrolava, num movimento contínuo, uma caneta. «Deve estar nervoso», pensou.

- Senhor director, se me dá licença, gostaria de dizer algumas palavras. - Firmino efectuou um movimento ascendente com a cabeça, para que ele falasse. - Eu li, com toda a atenção, o documento da doutora Fátima e, tal como o senhor director, também acho que estamos perante um bom documento, é verdade. No entanto, a juventude da doutora Fátima - e virando-se para ela - ...espero que a senhora doutora entenda este meu comentário como um elogio... não lhe permite equacionar a globalidade do problema nem atender às questões específicas que a Administração coloca...

- O doutor Fernando quer fazer o favor de ir direito ao assunto? - interrompeu, com impaciência, o doutor Firmino.

- Se o senhor director quiser fazer o favor de me ouvir, certamente perceberá as razões deste enquadramento. Mas se o problema é para abreviar, deixe-me que lhe pergunte, com todo o respeito fez uma pausa e disparou: - Como devo avaliar o doutor Fonseca de Oliveira à luz dos novos considerandos? - o olhar de Fernando era triunfante e vingativo. - Dou-lhe dois a tudo, excepto à pontualidade, ou menos que dois?

Todos os presentes sabiam que o doutor Fonseca de Oliveira tinha sido colocado nos serviços por pedido directo do ministro da tutela e todos conheciam, igualmente, o tipo de trabalho que fazia.

Firmino tinha os olhos no cinzeiro. A assessora olhava firmemente o orador e o doutor Fabiano estava radiante, mas contido. Felismina rabiscava as folhas que tinha à sua frente e parecia pouco interessada na discussão. Firmino, vendo que se fazia um silêncio à espera da sua resposta, retorquiu:

- Nós estamos aqui para equacionar um problema em termos gerais, e não me parece que cheguemos a lado nenhum se nos virarmos para casos pontuais. Reconheço que podemos ter aí um problema, mas vamos enquadrar os casos particulares na solução que for encontrada - falou pausadamente, de modo a mostrar controlo da situação.

O doutor Fabiano pediu a palavra: - Eu - disse o doutor Fabiano, que se mexia muito na cadeira, quer porque o incomodava o fumo dos cigarros (e agora aquela assessora juntara-se ao director e era como uma chaminé) quer porque os pés mal tocavam no chão, que a cadeira era pouco adequada à sua estatura - ...embora perceba a questão colocada pelo senhor director, e também gostava de dizer que apreciei o documento da doutora Fátima, também acho que há problemas que tornam a questão numa questão complexa. Por exemplo, e isto para ir directamente ao assunto, como pediu o senhor director: como é que nós vamos lidar com o passado, quero dizer, as pessoas estão habituadas a uma certa forma de avaliação, aqui e nos locais onde já estiveram, e aquilo a que estão habituadas é a ter dez a todos os parâmetros, desde que não cometam ilegalidades ou prejudiquem o serviço. Então agora vamos mudar tudo isso? E como é que as pessoas vão reagir? Se me é permitido antecipar, vão reclamar, vão sentir-se revoltadas e desmotivadas, e então o que fica? com o respeito devido, senhor director, fica um problema a acrescentar a outro. Por agora é tudo o que se me oferece dizer os olhos brilhavam-lhe e o coração estava um pouco acelerado. Olhou de soslaio para o colega doutor Fernando, que lhe piscou um olho em sinal de concordância, preparando-se para questionar de novo o director.

- É claro, senhor director, que, em termos gerais, eu concordo com a necessidade de fazer alguma coisa, e devemos tentar encontrar uma solução, mas creio que ainda há outra questão que nos deve preocupar, isto é, vamos efectuar uma avaliação rigorosa e justa, mas o que é que se passa aqui com os nossos vizinhos ao lado? - E sem esperar resposta: - O que se passa é que vão continuar a avaliar os seus funcionários como sempre fizeram, isto é, com dez a todos os parâmetros ou a tudo, ou excepto a um ou dois) O que significa que o nosso melhor funcionário, que numa avaliação rigorosa poderá ter um dez, três noves e o resto oitos, vai ser considerado, para efeitos de progressão na carreira, como pior que o pior funcionário dos nossos vizinhos que, na pior das hipóteses, terá dois noves e o resto dez. - E, em tom de vencedor: - Não sei se me faço compreender... - sentiu-se feliz com a argumentação lógica que acabava de introduzir no discurso.

Firmino sentiu o embaraço de estar num beco sem saída, numa situação que lhe fora equacionada pela assessora quando lhe lembrou que, mais que a competência dela no plano técnico, era a coragem da decisão dele que estava em apreciação.

- E a doutora Fátima, qual é a apreciação que faz às questões enunciadas pelos senhores directores de serviços? - perguntou à assessora, que parecia muito calma.

Firmino precisava de tempo para readquirir o controlo da situação; mas, sobretudo, carecia de uma pista que lhe permitisse virar o curso das argumentações. Não deixava de reconhecer como válidas as questões colocadas, embora soubesse que estava perante falsos problemas cujo objectivo era a inacção.

Fátima olhou para o director antes de responder. Paradoxalmente, sentia alguma euforia por ver Firmino naquela situação, embora não fosse uma sensação consciente nem assumida. Os directores de serviços estavam ansiosos e felizes.

- A minha opinião é simples. Os senhores directores equacionaram muito bem as dificuldades que se podem encontrar na resolução deste problema da avaliação. Aliás, no diagnóstico estamos todos de acordo. Estou de acordo eu e estará de acordo o senhor director, porque, caso contrário, não traria o problema a uma reunião de pirecção. O que aqui se coloca é o problema das soluções. E, sobre isso, nenhum dos senhores directores de serviços se pronunciou. O que se espera é que quer o doutor Fernando quer o doutor Fabiano se pronunciem sobre as soluções possíveis para o problema. Não é verdade? - interrogando directamente Firmino, que lhe sorriu, encostando-se no cadeirão e expelindo o fumo do cigarro para o tecto.

Fernando e Fabiano trocaram sinais nervosos como se a argumentação os tivesse pegado de surpresa. Ainda por cima, o director acentuava a situação com uma concordância total com a assessora.

- Então, meus senhores?... - questionou Firmino, sem se dar conta de que Fátima falara como se tivesse mandato para falar por ele, colocando na sua boca os pensamentos dela.

«É uma mulher despudorada!», pensou Fabiano, enquanto se preparava para retomar a palavra. Preferia estar na terra, em Macedo de Cavaleiros, numa qualquer Repartição de Finanças, «que aturar aquele olhar triunfante da fedelha-.

- Oh doutora Fátima, não se trata aqui de estarmos contra qualquer solução, à partida. O que aqui se trata é de medirmos as consequências dos nossos actos e não criarmos ao senhor director e à organização problemas cujo impacto pode ser muito nefasto. Eu lembro que não somos uma ilha isolada na Administração e que esta medida pode representar uma injustiça maior que aquela que queremos consertar. De qualquer maneira, o senhor director é que terá a última palavra e, se a decisão for no sentido da alteração, eu estarei imediatamente disponível para colaborar o melhor que sei e posso com essa solução. Só não quero é que, mais tarde, venham a acusar-me de ter consentido numa solução que penso não ser a mais ajustada, sem ter manifestado a minha discordância - e dirigindo-se para Felismina - que gostaria que constasse da acta... - concluiu.

A assessora fora muito inteligente, mas aqueles dois eram ratos muito velhos para desistirem à primeira investida. Lá estava o doutor Fernando a mexer no colarinho da camisa e a manusear o nó daquela gravata, que tanto parecia incomodá-lo, para a sua nova intervenção.

- Eu aprecio muito as capacidades da doutora Fátima e a última coisa que desejaria era ser mal interpretado, mas deixe-me, senhor director, colocar outra questão. Admitamos que vamos proceder à implementação de novos critérios na avaliação. Admitamos isso, como ponto de partida. E agora, eu pergunto: para quê?, qual é a eficácia que se pretende atingir?, quais os objectivos a alcançar? E para estas duas questões eu retomaria o documento da doutora Fátima - começou a percorrer com o dedo indicador uma das folhas do documento enquanto falava - e, ponto número um, temos aqui o pessoal do quadro e, ponto número dois, temos o pessoal em recibo verde, isto a título de exemplo. Pois muito bem, com a nova avaliação o que se pretende será facilitar a progressão na carreira do pessoal do quadro? E eu digo já que não, e todos sabemos porquê, todos conhecemos os mecanismos de progressão e as suas limitações e já hoje foram aduzidos argumentos que mostram a perversão que este mecanismo ajudaria a reforçar. Então esta avaliação serviria sobretudo para aquilo que aqui ainda não foi dito, serviria para melhorar a situação de uns quantos, que se encontram na situação de avençados e que, na generalidade dos casos, já ganham mais que pessoas com dez, doze, quinze anos de carreira. E isto não é nenhuma questão pessoal com a doutora Fátima, que por acaso está nessa situação, é um problema com o qual nós, directores de serviços, temos que lidar todos os dias... - procurou a cumplicidade junto de Fabiano, que estava com os olhos avermelhados pelo fumo e pelo rumo da discussão, e olhou depois para a assessora para avaliar o impacto da sua intervenção. Ela olhava-o com aparente tranquilidade, mas ele notou-lhe um leve tremer no lábio superior. -Julgavas que era só mostrar as pernas ao director e caso arrumado, mas comigo estás muito enganada...», e viu Firmino colocar a caneta sobre o caderno onde tomava apontamentos, inspirar e dizer muito pausadamente:

- Ouvi com atenção o que todos quiseram dizer e creio que, apesar da falta de conclusões consensuais, foi uma boa discussão. Gostaria de lembrar aos meus directores de serviços que, embora sejam pertinentes e até relevantes as questões enunciadas, há um dado que não deveriam esquecer, que é o facto de sermos a Comissão para a Modernização Administrativa e que, por isso, mais que constatar os problemas e as dificuldades, são esperadas de nós políticas de alteração da praxis da Administração. Se é preciso mudar em todos os serviços, é simples: equacionem e proponham e eu terei muito gosto em fazer chegar as vossas propostas junto do senhor ministro. Se entendem que a alteração deve ser geral e completa, não fiquem à espera de terceiros; avancem e eu farei com que o Conselho de Ministros assuma o ónus da decisão. Uma coisa quero deixar claro, é que não podemos atribuir senão a nós próprios a causa desta inércia. É por isso que gostaria que o espírito da minha equipa fosse pautado pelo inconformismo demonstrado pela doutora Fátima, pela sua capacidade de análise e de propositura de soluções - concluiu, olhando firmemente cada um dos presentes.

Fátima teve vontade de dar um grito de prazer. Aquilo era mais do que esperava dele, era uma declaração, disso não tinha dúvida. Podia não ser uma declaração de amor, mas de que outra declaração se trataria se era no coração que ela a recebera? Decidiu sair de novo em defesa dele e tentar acabar com aquela lengalenga que não levava a lado nenhum.

 

- Senhor director, se me dá licença, eu gostaria de fazer uma proposta - e, perante o assentimento dele, continuou: - Creio que, como disse, foi muito útil esta discussão e os argumentos produzidos quer pelo doutor Fernando quer pelo doutor Fabiano constituem bons motivos de reflexão para todos nós e levantam problemas que, reconheço, não tive presentes quando redigi o documento de trabalho. Nesse sentido, e dado que o governo está a estudar a integração dos tarefeiros e avençados nos quadros da Administração, proponho que continuemos a reflectir sobre a questão e agendemos uma tomada de posição para depois de conhecida a decisão do governo sobre a integração do pessoal no quadro - o efeito surpresa, que a inflexão de posição provocara, apanhou desprevenidos os directores de serviços.

Gerou-se alguma perplexidade entre os presentes, subitamente confrontados com uma proposta não esperada, a que se seguiu um assentimento geral de concordância. Firmino retomou a palavra:

- Meus senhores, por hoje é tudo. Um bom dia de trabalho levantou-se, cumprimentou cada director de serviços, que acompanhou à porta, e despediu-se de Felismina, pedindo-lhe que, logo que tivesse o esboço da acta, lho mostrasse. Fechou a porta e encostou-se a ela, olhando para Fátima, que tinha um sorriso triunfante. Eram onze horas e trinta e cinco minutos.

- Não lhe quero elevar o ego, mas você foi espectacular. Como já lhe disse uma vez, você surpreende-me e isso é coisa rara... - ia continuar, mas ela interrompeu-o com o gesto de se levantar e, colocando a mão na maçaneta da porta, fitou-o nos olhos e disparou:

   - Vai levar a vida toda até dizer que quer fazer amor comigo?

- e, sem esperar resposta, saiu batendo com a porta na cara do surpreendido Firmino.

 

Firmino pediu a Felismina que informasse a doutora Fátima de que precisava de lhe falar. Ela que não saísse sem passar pelo gabinete.   Felismina olhou para ele e disse que estava bem, só ia terminar de dactilografar a acta. Ele fechou a porta e Felismina ficou envolvida com o computador e as folhas onde tomara as notas da reunião.

Sentou-se, puxou de um cigarro, cruzou as pernas, tirou, com esforço, o isqueiro do bolso, acendeu o cigarro e colocou os pés na pequena mesa dos telefones. Olhou para a janela e ficou a observar o aparelho de ar condicionado, que sempre se recusava a utilizar por causa das alergias e constipações. A figura de Fátima surgiu-lhe com nitidez e ele foi lembrando cada um dos atributos que lhe causavam aquela vontade de a querer, de a possuir, de a comer. Não percebia por que razão tinha aquela necessidade, quase obsessiva, de agradar às mulheres e de se sentir agradado por elas. Era uma espécie de consolo nunca satisfeito, uma insatisfação sempre por realizar. Gostava de observar as mulheres no acto de fazer amor, de comparar as expressões no prazer com a máscara da rotina do dia-a-dia, da seriedade funcional. Cinco Comissões, cinco mulheres. A Filipa, que cerrava os olhos e deixava escapar leves suspiros, acelerando até se libertarem num espasmo corporal, uma dança frenética de pés e mãos... A Fabiana, olhos e boca na busca de absorção espasmódica, os gemidos guturais, a contracção na zona pélvica, atitude antropófaga que lhe espremia os órgãos genitais, dor e prazer... A Pedra, suave e oferecida, um corpo aberto, húmido e gelatinoso, a boca misturando beijos e saliva, esperando atenta e perdida, o momento certo para uma explosão partilhada,.. A Flávia, ninfomaníaca...

- Dá-me licença...?

Firmino olhou a porta. Felismina observava-o parada. Endireitou-se na cadeira, olhou-a de novo com surpresa e com os restos do desejo que os pensamentos lhe deixaram. «Curioso como esta miúda me parece bem mais mulher”.

- Diga, diga - prosseguiu. - «Nunca a tinha olhado por este prisma. Belos peitos.., um rosto muito engraçado-.

- É para dizer que já informei a doutora Fátima e para lhe lembrar que tem almoço marcado com o senhor presidente da Câmara... - ia continuar mas ele não parecia estar a prestar-lhe atenção. «Está esquisito! Tem os olhos esbugalhados e tinha as pernas em cima da mesa do telefone...». Não se lembrava de o ter visto em pose tão informal e, sobretudo, nunca o vira tão absorto.

- Diga, Felismina, diga - repetiu Firmino. Estava excitado e as calças de linho denunciavam-no. Por isso, manteve-se sentado.

- É tudo... se precisar de mim... - respondeu-lhe ela, lisonjeada pela maneira como ele a olhava, mas intrigada pela insistência.

- Muito bem... se precisar, chamo - disse. «Vamos esquecer este assunto. Se há princípio que mantenho, é não me imiscuir com secretárias”.

Marcou um número no telefone cinza e ouviu-se um toque prolongado de chamada. Felismina atendeu e a voz ecoou no gabinete.

- Sim!

- Veja-me se amanhã de manhã estou com agenda - ordenou, na esperança de ter a manhã livre.

- Amanhã é dia de Comissão... - esclareceu Felismina, que não chegou a concluir a frase.

- Ah, tem razão! Arranje-me o dossier e traga-me a ordem de trabalhos - e desligou.

A Comissão era das tais reuniões a que não queria faltar. Embora questionasse a utilidade do trabalho que lá se realizava, a presença nas reuniões dava direito a uma gratificação de trinta mil escudos. Como eram em média duas por mês, tinha interesse em não faltar. Para além da Comissão, tinha ainda assento em dois organismos de natureza similar que lhe conferiam iguais regalias. A única chatice é que ocupavam muitas manhãs. No início achara alguma piada ao empenho com que intervinha nas reuniões, o que causava algum espanto nos restantes parceiros, mas depressa compreendeu que havia um jogo de expectativas que era preciso respeitar e que era igualmente necessário que ele próprio criasse a sua imagem de marca. Depois, era um jogo de actores. Sabia sempre, sobre cada assunto em concreto, o que diriam os representantes dos sindicatos, a forma como o diriam e mesmo os momentos em que falariam mais alto. Igualmente, não lhe era difícil saber quando, como e de que forma se pronunciariam os representantes das entidades patronais, que em circunstância alguma levantariam a voz. Conhecia de cor as tricas e os ciúmes entre os diferentes representantes da Administração e descortinava com facilidade os momentos em que ele próprio ia ser objecto de ataques e a quais desses ataques devia responder e o quê. De início preparava cuidadosamente as reuniões, o que motivava alguma estranheza nos demais elementos da Comissão, mas acabou também por ceder no jogo das expectativas e assumiu o seu papel social. Agora bastava-lhe ler, atentamente, a ordem de trabalhos e inserir uma ou outra declaração, de carácter geral, de modo a garantir uma transcrição para o livro de actas e justificar assim a gratificação.

Felismina anunciou a presença da doutora Fátima e entregou-Lhe um pequeno dossier onde incluíra a ordem de trabalhos da reunião agendada para o dia seguinte. Olhou para ele e pareceu-lhe, pela primeira vez, que andava a alimentar uma ideia errada sobre o seu director. Teve a clara impressão de que jamais retribuiria o sentimento que ela nutria por ele. Teve consciência de que o limite a que Podia aceder era o sonho. E isso não a estimulava, não a seduzia, simplesmente a deixava indiferente. Firmino parecia-lhe, hoje, um homem diferente. Tentou descobrir a causa daquela estranha sensação, mas apenas lhe parecia que, simplesmente, era menor o brilho que dele emanava.

Saiu, dando passagem à doutora Fátima, e bateu delicadamente com a porta. No seu pensamento a figura de Firmino ia ganhando os contornos de um outro homem que ela reconheceu como aquele rapaz insolente, o das fotocópias.

Fátima parou junto à porta e esperou que o olhar dele a chamasse, a acompanhasse no seu andar até junto à secretária, a iluminasse com o olhar míope corrigido pelos óculos.

Firmino olhou-lhe primeiro para o pescoço. Um olhar vago, projectado um metro para lá dos contornos de fino recorte da sua pele sedosa. Demorou-se na linha elevada dos ombros. Deslizou em direcção aos peitos firmes, astutamente pequenos. Mergulhou até aos joelhos, fixou-os e prendeu-se nas pernas esguias e torneadas. Alongou-se nas ancas onde conferiu maior precisão ao olhar. Sorriu-lhe nos olhos de pestanas ralas, envolvido naquele fogo que lhe devorara os cílios do rosto. A voz emergiu-lhe das profundezas do desejo e vinha quente, acabada de nascer.

- Quero fazer amor consigo e quero dizer-lho hoje, para não demorar mais tempo!

Ela recebeu aquelas palavras com labaredas nos olhos e com desejo nos lábios e guardou as palavras para quando fossem precisas. A respiração ofegante dilatou-lhe o peito e libertou-a de outros pensamentos que não fossem aquele de o querer já, ali, naquela secretária. Morder-lhe os dentes e conhecer-lhe o sexo. Os homens definem-se no amor. Fora do amor são enganos, são criações pensadas e construídas para responder a imperativos sociais. No amor o homem denuncia-se. Este deve ser feroz. Feroz e criativo. Era isso que preconizavam as feições do rosto e o lastro do olhar.

Ele quis cancelar o almoço com o presidente da Câmara, convidá-la a ela e servir-lhe uma laranja espremida no ventre enquanto se saciassem da carne. Notou-lhe o frémito nos lábios e sentiu-se preso neles, baloiçando no peito ofegante de minúsculos frutos.

A distância que os separava era um caudal de ondas sensoriais, intensas, inebriantes, vibrantes, que se podiam ouvir, como o martelar do selo branco quando o senhor Faria, chefe de repartição, autenticava dezenas de documentos ou reconhecia assinaturas.

Quando se levantou, Firmino tinha a certeza de estar a ser sugado por uma corrente de ar, que o aspirava, poderosa e determinada, na direcção da sua assessora.

Os lábios explodiram uns contra os outros e a língua dele invadiu-lhe a boca, impelindo-a a um grito, que a custo abafou. Ela segurou-lhe a palma da mão aberta e devolveu-lhe o gesto, introduzindo agora a língua na boca dele, um gesto intuitivo e repentino. Firmino chupou-lhe o músculo como se pretendesse engoli-lo, provocando-lhe dor. Ela levantou-se no bico dos pés, seguindo o sentido daquela aspiração, e teve medo de desaparecer dentro dele... Sentiu-lhe as mãos viajar nas mamas como se afagassem citrinos, tal era a delicadeza do gesto. Soltou-se e levou a mão à boca, certificando-se de que ele lhe devolvera a língua por inteiro.

Firmino puxou-a, segurou-lhe nas ancas, flectiu os joelhos o suficiente para que juntassem, na zona pélvica, os sexos e, com um movimento seco, ascendente, bateu contra ela a agitação que o inflamava. Ela recebeu a pancada com prazer, que demorou a saborear, porque susteve a respiração, fechou os olhos, cerrou os dentes, entreabriu os lábios e suspirou numa expressão de abandono que ele fixaria pela carga erótica que lhe devolvia. O corpo de Fátima, projectado pelo gesto de Firmino, colidiu com a porta e produziu um ruído seco, mas poderoso. Ele tentou controlar a situação colocando a mão no puxador e falando alto, enquanto alongava o pescoço, tentando perceber se o barulho atraíra a atenção de Felismina. Abriu a porta, espreitou disposto a pedir um dossier e suspirou quando verificou que ninguém se encontrava na sala contígua ao seu gabinete.

- Temos de nos encontrar fora daqui - disse-lhe, contornando-lhe os lábios com o dedo indicador da mão direita.

Ela mordeu-lhe levemente o dedo e acariciou-lhe, com a mão esquerda, o sexo, nas calças disformes, junto à braguilha. O efeito da carícia piorou o estado febril em que ele se encontrava, que não lhe deixava tomar consciência sobre a eventual entrada de Felismina.

- Você tem um lugar onde nos possamos encontrar hoje à noite? - a pergunta foi feita como súplica.

Ela puxou a saia, que lhe subira muito nas coxas, arranjou o lenço no pescoço e respondeu enigmática, mas pesarosamente:

- Hoje, não sei se posso... - E após uma pausa: - Logo digo-Lhe... tenho que fazer uns telefonemas...

Firmino tentou dissimular o seu desânimo.

- Desde que não seja do serviço... - E com medo de a melindrar: - Estou a brincar...

- Espero que me deixe inteira! - sorriu ela, abrindo a porta e abandonando Firmino na solidão do seu gabinete.

Sentou-se, puxou de um cigarro, e pensou que aquele caso não se assemelhava a nenhum dos anteriores.

O fumo do cigarro diluía-se no ar e os olhos de Firmino tentavam adivinhar-lhe os contornos na imprecisão da sua miopia. Relembrou Flávia, a última mulher com quem se envolvera durante a quarta Comissão a que presidira no âmbito da reforma administrativa. Um caso que se revelou complicado, porque Flávia era, simultaneamente, ninfomaníaca e alcoólica. Ele esgotara o corpo naquele desejo permanente, que não acautelava a chegada dos quarenta anos, que não lhe dava tréguas, que o reclamava impulsivo, potente e disponível. Cometeu demasiadas imprudências. Muitas vezes correu o risco, sem nunca o medir, de se ver descoberto e exposto numa relação adúltera nos serviços públicos de que era o responsável máximo. O sentido do perigo tornava-o num adolescente de consciência ditada pelas circunstâncias, excitava-o, alimentava-o do desejo, empurrava-o para as fronteiras do inverosímil, expulsava-o

da racionalidade. Flávia era um sufoco de carnes secas, uma anémona selvagem e colorida, cáustica e urticante como a medusa, esponjosa como boca de cherne. Matava-o lentamente. Impregnava-o com aquela humidade doentia, que se pega por osmose. Uma morte lenta, que ele apreciava, que o colocava na intemporalidade da vida. Mas Flávia era também alcoólica e, por isso, ele abandonou-a. De súbito, sem deixar palavra; simplesmente, sem dizer porquê; definitivamente, sem remorso. Bastou-lhe olhar, um dia, os olhos dela, de cherne, a deslizarem no álcool, amortecidos e sem brilho, um humor aquoso que lhe saía em forma de lágrima, vítreo e sem expressão, perdidos na garrafa que ela emborcara sem motivo, nem razão. Tarde de mais, quando soube da filha que morrera num fogo inocente e purificador como só o fogo sabe ser. Um fogo que Flávia precisava de apagar todos os dias, com a paciência de quem mete o mar numa concha, de quem foge para se esconder. Copo a copo, dia a dia. Engolindo os homens para fazer renascer a filha, esgotando o corpo deles no castigo que o seu próprio corpo reclamava. Firmino transferiu-a de serviço e afastou-se definitivamente. Procurava sexo e encontrou um problema. Problemas tinha ele que sobrassem. Por isso buscava a fêmea, não a mulher. Mulher tinha uma e chegava-lhe. Casara com ela e servia-se dela para fazer discursos, para buscar o equilíbrio, quando dele precisava. Um mal necessário. Uma vez cometido, um mal para toda a vida. Ercília apareceu-lhe na lembrança de um tempo que era outro, quando era dirigente partidário e a conhecera num daqueles comícios que ele animava com a força das suas convicções, com a determinação de quem acredita num acto tão circunstancial, quanto improvável. No anonimato da multidão, na impessoalidade dos presentes, descobriu-lhe o rosto, um olhar que lhe encandeceu a arte de falar, que lhe arrebatou os gestos e as palavras, que o incendiou no orgulho e no prazer.

Firmino levou os dedos à boca. A lembrança desse momento fê-lo ter vontade da mulher.

 

Felismina pediu licença para entrar. Firmino disse que sim com a cabeça e olhou para ela porque achou estranho o facto de ela ficar a aguardar a sua resposta. Normalmente, entrava após bater à porta. O rosto denotava uma expressão de constrangimento.

- Diga, Felismina - e continuou a fazer a busca na sua agenda.

- O senhor director vai-me desculpar, mas preciso de lhe falar alguns momentos - a voz estava ligeiramente agitada.

- Algum problema? - perguntou ele, afastando a agenda, com um estranho pressentimento.

- Não é nada de grave - tranquilizou-o. - O senhor director sabe que eu não sou pessoa de queixas ou de falar dos outros - e como ele não dissesse nada - mas há um problema que tenho que lhe colocar e pedir a sua intervenção - e aproximou-se da secretária dele.

- Vá lá, sem rodeios, sabe que entre nós não há segredos... sobre matérias de serviço. Por alguma razão é minha secretária, não é verdade? - e abriu os braços, numa demonstração de confiança.

- Muito obrigada. Trata-se do senhor Faria, o chefe de repartição. Não sei se o senhor director sabe, ele anda a fazer uma casa e perante o olhar surpreendido dele - e agora está na fase dos acabamentos...

Firmino estava a achar a conversa absolutamente disparatada, mas decidiu não a interromper para ver se o assunto terminava depressa.

- ...e ...o senhor Faria está a fazer, como se diz... empreitada directa, ou assim... e, por isso, tem que estar sempre em cima da coisa... que é para controlar...

- Oh Felismina, você desculpe, mas a que propósito é que vem esse assunto? O que é que eu tenho a ver com isso... é capaz de me explicar? - interrompeu impaciente.

- O problema, senhor director, é que o senhor Faria passa a vida a ocupar a linha directa para fazer as chamadas. Como não quer que o pessoal dele veja que está a tratar de assuntos pessoais e também não quer pedir à telefonista, porque ela já o descompôs, vem para o nosso telefone e ocupa-me a linha o tempo todo - esclareceu ela, um pouco ofegante.

- O senhor Faria? - perguntou Firmino, para ganhar tempo.

- Por isso é que me custa estar a falar nisto. Mas mesmo em relação a faxes que ele envia, não me parece certo que o faça em papel timbrado dos serviços. Ainda há dias, telefonou para aqui um homem dos azulejos e foi uma grande confusão porque pôs-se a protestar com a menina Francisca, que não entendia nada do que se estava a passar, mas como o senhor director mandou atender toda a gente com cortesia, ela passou um mau bocado porque o fulano era muito grosseiro. Ora, não acho bem que... - não concluiu.

- Diga ao senhor Faria que preciso de falar com ele - rematou, decidido a colocar ponto final naquela conversa.

- Se puder não mencionar o meu nome... - solicitou Felismina.

- Esteja descansada. Fez muito bem em vir falar comigo. - E noutro tom de voz: - Bem, mudando de assunto, eu estava a tentar descobrir, na minha agenda, quando tenho de ir a Paris à reunião da OCDE... - disse com a voz controlada - .. .mas não encontro.

- Deve ser a vinte e oito do mês que vem - esclareceu ela, deixando a hipótese de erro salvaguardada.

- Veja-me isso e, já agora, contacte a agência de viagens e peça uma reserva em viagem normal - pigarreou, para aclarar a garganta. ~- Fale com aquela funcionária, a que a Felismina conhece, e troque o bilhete normal por dois, em classe turística, com ida e volta marcadas, tarifa pax, a apanhar um fim de semana, que o preço deve cobrir... - custava-lhe colocar o problema à secretária, mas não tinha outro remédio.

- E quer que reserve hotel? - a voz dela era normal, o que o tranquilizou.

- Sim, sim, depois digo-lhe com exactidão os dias que fico...

- Se a doutora Ercília vai, reservo quarto duplo, certo? - ia tomando notas, no pequeno bloco de apontamentos que sempre a acompanhava.

- Ah... não. Vai marcar single, só para mim e depois, se for preciso, falo de novo consigo. Preciso ver... de qualquer maneira, deixe-me ficar também o contacto telefónico do hotel, posso ter que alterar alguma coisa de última hora - a eficiência da secretária também podia ser uma chatice.

- Desculpe, mas faço as reservas do avião em nome de quem?

- perguntou ela, com alguma indecisão.

- O problema é esse. Ainda não posso dizer, ou seja, devo querer que vá comigo alguém do serviço, mas ainda não decidi. Preciso de esclarecer alguns pormenores - e sorriu para ela.

Felismina ruborizou. Não era possível que o director fosse convidá-la para o acompanhar a Paris. Ficou embaraçada e rematou a custo:

- Então vou certificar a data e... depois o senhor director diz-me alguma coisa - concluiu, disposta a sair.

- Muito bem. Depois falo consigo - respondeu ele, enquanto retomava a agenda.

Puxou uma fumaça, arranjou o cabelo com cuidado e a seguir esfregou o rosto entre as mãos. Estivera quase a disparatar com a rapariga. Mas, objectivamente, fazia todo o sentido que ela lhe tivesse feito aquelas perguntas. Era a única forma de dar cumprimento ao seu dever de secretária. Ainda por cima aquela história do chefe de repartição e os telefonemas não dava jeito nenhum. O senhor Faria

era uma peça absolutamente imprescindível na organização. Embora fosse um típico burocrata, era ele quem lhe garantia confiança na gestão do orçamento e nos mecanismos labirínticos em que a Administração era pródiga. Tinha de tratar do assunto com todo o cuidado. Afinal de contas, meia dúzia de telefonemas, era disso que se tratava. Apagou o cigarro com violência e discou um número interno.

- Estou? - era uma voz agreste, primária e rude.

- Fala o director. A doutora Fátima está? - perguntou, secamente.

- Ah, bom dia. Só um momento, que eu acho que ela está ali fora. - O doutor Fonseca de Oliveira levantou-se do lugar onde dormitava, chegou ao corredor e, vendo a doutora Fátima, disse: É para si...

Fátima olhou para ele, para se certificar de que era a ela que ele se dirigia, sorriu ao ter a certeza e dirigiu-se à secretária onde estava pousado o auscultador.

- Sim, quem fala? - perguntou.

- No dia vinte e oito de Maio vou a Paris. Aceita acompanhar-me? - perguntou-lhe Firmino sem qualquer introdução.

Ela olhou o doutor Fonseca de Oliveira que copiava o Diário da República e tossiu.

- Não precisa de me dar resposta já, mas gostaria que fosse um sim - esclareceu-lhe Firmino do outro lado da linha, percebendo que ela não podia falar.

- Acho que sim... e qual é o objectivo? - perguntou, com a naturalidade que lhe era possível.

- Preciso de lhe responder? - E após um riso breve: - É uma reunião no âmbito da OCDE. A sua assessoria pode ser muito importante - emendou com a convicção que pôde.

- Está bem, depois falamos - respondeu Fátima, olhando para o doutor Fonseca de Oliveira, que parecia absorto naquela sua tarefa sempre igual.

- E quanto a hoje à noite? Já fez os telefonemas que tinha que fazer? - perguntou, alterando o tom de voz.

- Hoje não me parece que seja possível - tossiu. - Se puder ser, falo consigo, de acordo?

- Veja se pode...

Fátima pousou o auscultador. Agradeceu ao doutor Fonseca de Oliveira.

- Muito obrigada... e desculpe.

Ele tirou os olhos do papel, onde fazia a cópia, e, vendo-a sair de novo, disse como se declamasse:

- Comei-vos uns aos outros!

 

Eram dezassete horas e trinta minutos. O doutor Fonseca de Oliveira levantou-se, segurou o casaco com ambas as mãos, sacudiu-o e enfiou cada braço na manga respectiva, meticulosamente. Olhou para a sua secretária e, certificando-se de que tudo estava arrumado e em ordem, ajeitou os óculos de sol e saiu. No corredor passou pela doutora Fátima, impregnando-a com o cheiro da naftalina.

O olhar dela acompanhou o andar dele, até vê-lo desaparecer no elevador. A sua expressão era de incredulidade.

«Comei-vos uns aos outros?», repetiu para si mesma, como se não acreditasse.

O convite do director era inesperado. Ela provocara-o, mas pensava que a reacção dele fosse mais lenta. Há um tempo de absorção para as questões mais inesperadas. Firmino fora muito rápido a agir e fazia-lhe o convite no dia em que ela convidara Michel e Dominique, um casal amigo que viera de França, para três dias de férias em Portugal. Podia convidar Firmino, mas a simples ideia de o fazer foi, em si mesma, dissuasória. Não fazia sentido uma partilha, não havendo uma consciência mínima sobre o que partilhar. Firmino era uma atracção que ela ainda não sabia explicar. Gostou de vê-lo na relação com os seus directores de serviços, porque viu nele autoridade e determinação. Também fora sensível às pequenas atenções com que ele a cumulara, desde a sua entrada para a Comissão, e não lhe fora indiferente o convite que ele lhe fizera para o cargo de directora de serviços. Nada disso, no entanto, lhe parecia suficientemente forte para decidir envolver-se numa relação que haveria de a fazer sentir-se mal, disso tinha ela a certeza absoluta. Firmino era casado e tinha ar de quem jamais trocaria o certo pelo incerto. Um homem público cimenta a imagem social de estabilidade, porque depende dela. No homem público os vícios são privados, recatados e temporários. Alguma coisa, apesar disso, a atraía nele. Alguma coisa que a fazia não ter a certeza absoluta que, com ele, tudo fosse assim como imaginava. Havia alguma loucura na maneira como ele a agarrara, uma impulsividade desconexa naquele gabinete de acesso livre à secretária, que batia e entrava. A loucura daquele beijo, que quase lhe arrancara a língua, que denunciava que ele a queria, a desejava. A dúvida dela era o até quando, embora isso não fosse o mais importante. Ela sabia-se uma mulher de relações breves. Nenhum homem fora suficientemente importante na sua vida ao ponto de, por ele, se dizer disposta a tudo. Depois da regulação sexual, um homem era um estorvo, um intruso, um empecilho. Nos homens apreciava a virilidade. Atraía-a a força e a postura fálica do homem excitado. Dava-lhe prazer o contacto com a morfologia sexual masculina e inebriava-se com o sabor agridoce das suas entranhas. Fora disso, não precisava de um homem para nada. Os melhores confidentes eram, curiosamente, homossexuais. A sua vida era um espaço separado por biombo, com homens diferentes de cada lado cumprindo diferentes funções.

O jantar com Michel e Dominique impediria que se encontrasse com Firmino, mas seria um reencontro com a memória de lugares e aromas de que se sentia precisada. Um acto de intimidade a que Firmino era estranho e, por isso, onde não cabia. A Firmino, haveria de querê-lo no carro, na praia, num quarto de hotel, em qualquer lugar, mas nunca na sua casa.

Observou a fotografia dos pais, em cima da secretária, abraçados, e sorriu para eles. Primeiro para o pai, na sua expressão doce e meiga de homem diferente. Depois, a profundidade negra dos olhos da mãe. Fora assim que guardara a recordação deles, fora assim que crescera, com os pais como modelo. Mas ela era cada dia mais diferente. Alimentara, durante anos, a ilusão e o desejo de repetir a relação dos pais, aquela cumplicidade amorosa de que tantas vezes fora testemunha, mas o tempo foi apagando essa vontade e ensinando-Lhe a virtude de depender apenas de si.

Fitou a secretária vazia do doutor Fonseca de Oliveira, levantou-se e cumpriu um desejo, misturando os objectos, alterando a ordem das folhas, onde ele reproduzira o Diário da República daquele dia, espalhando agrafos e clipes por toda a parte, até sentir que nada estava em ordem. Depois dirigiu-se para o corredor, onde já não se encontrava ninguém, e foi andando até que encontrou Felismina.

- Diga ao senhor director que eu precisei de sair. Amanhã falo com ele.

E, sem esperar resposta, desceu no elevador, para a garagem, onde tinha deixado o carro estacionado.

 

Firmino ouviu Felismina despedir-se, depois de lhe ter dito que a doutora Fátima saíra e que falaria com ele no dia seguinte. Respondeu-lhe um «até amanhã» qualquer, e disse-lhe que não precisava de mais nada, que podia ir-se embora. Tirou os óculos de aros finos, pousou-os sobre o dossier que tinha à sua frente e, com o polegar e o indicador, percorreu a cana do nariz, um dedo de cada lado, espalhando o desânimo e a desilusão que a informação que acabara de receber lhe provocava. Fizera planos, imaginara situações, criara um estado de euforia, pouco ajustáveis a um homem da sua idade, que ela, no gesto tão simples de uma recusa em forma de recado, acabara por fazer ruir. Tentou justificá-la, incriminá-la, compreendê-la, acusá-la, mas só lhe restava a tormenta da dúvida. Por que razão tomara ela aquela atitude, ela que lhe fornecera todas as indicações de que o queria, que lhe retribuíra o desejo da sua presença, que o envolvera na boca, profunda e deliciosamente, que lhe fizera esquecer os dezoito anos que lhe levava de desvantagem, que o erguera como um mancebo? Tinha a certeza de que o fizera premeditadamente; adivinhava nela uma mulher diferente e começava a conhecer os contornos dessa diferença. Alimentava-lhe a vontade para fazê-lo correr atrás dela, esgueirar-se depois, mostrar-se e fugir de novo, um jogo que haveria de cansá-lo até à rendição de torná-lo dependente dela, que lhe tiraria o sono pela perplexidade e a agitação, que o perseguiria pela indeterminação. Mas era um jogo perigoso para ela também. Fátima não o conhecia e estava a apreciá-lo pela medida-padrão, onde ele não cabia, o que poderia vir a constituir-se numa surpresa. «Vamos dar tempo ao tempo», exclamou como se tivesse à sua frente um interlocutor. Colocou os óculos e tentou reiniciar a leitura do dossier, mas não tinha a concentração que o trabalho requeria e empurrou o volume de papel para o seu lado direito, arrastando para a sua frente um conjunto de outros papéis que apenas reclamavam a sua assinatura. Esteve, assim, a assinar cheques, autorizações de deslocação dos funcionários e boletins itinerários, até que a pilha de papéis se desfez de um lado e aumentou do outro, acrescida da sua rubrica. O seu relógio de quartzo, Citizen, marcava vinte minutos depois das vinte e um silêncio seco pairava no edifício. Discou o número do telefone de casa e, ao quinto toque, lembrou-se que a mulher lhe dissera que não jantava com ele e que chegava tarde. Ligou para o motorista e disse-lhe para se preparar, que ia sair.

 

Agora haveria de se fazer bonita. Ia ter com Daniel. Segurou os cabelos com um elástico e passou várias vezes a água fria pelo rosto até senti-lo fresco e enxuto da vontade de chorar. Escolheu uma sombra para os olhos, seleccionou o relógio prateado, de design muito elegante, e colocou um bonito colar, todo composto de pequenas margaridas, cada uma com uma pedra cor-de-rosa. O vestido de malha com decote quadrado projectou-a no espelho onde o sorriso ia bem com o tom azul escuro da silhueta. Tapou os braços e as formas com um casaco de malha da mesma cor do vestido. Os sapatos azul escuro elevaram-lhe um pouco a estatura. O telefone tocou. Eram vinte depois das oito. Não atendeu. Desceu, apanhou um táxi e foi ter com Daniel. Ansiava vê-lo. Apetecia-lhe a serenidade do seu olhar, a transparência das suas palavras. Sobretudo, não queria que a conversa descambasse para assuntos de trabalho. Não era muito provável que tal acontecesse, a não ser que houvesse mais alguma história de um qualquer concurso público com vício de forma. Daniel ficava furioso com isso e, nessas alturas, não falava de mais nada.

 

A mesa do café era de marmorite e tinha um resguardo de metal a toda a volta, um tubo preto igual ao que compunha os espaldares das cadeiras. O ambiente era discreto e a televisão, embora ligada, tinha o volume do som tão baixo que era praticamente inaudível. Daniel folheava uma revista francesa, dedicada ao cinema. Interessava-se pela sétima arte, nomeadamente pela cinematografia francófona e oriental. Tinha as costas muito direitas enquanto lia. Envergava um casaco cinzento claro onde se vislumbravam três botões e calças azul-marinho com camisa azul claro. Chegara às vinte para as nove e pediu uma água sem gás, natural, que tinha bebido até metade. O motorista levara-o a casa, ao quarto para as oito, e ele tivera tempo de tomar um banho e mudar de roupa. O tempo andava incerto, com alguns cirros matinais a anunciar borrasca, mas há mais de um mês que não chovia. Escolhera aquela roupa sem grande convicção e sem ter absoluta certeza de ser adequada. Habitualmente era a filha quem lhe sugeria o que vestir, muitas vezes pelo telefone, e fora ela quem lhe fornecera algumas «regras elementares sobre como combinar as cores, de modo a não ficar piroso», como ela costumava dizer. Aprendera a distinguir as cores quentes das cores frias, as primárias das secundárias e os tons intermédios que era possível construir a partir daquelas cores-base. Como o seu cargo o obrigava à utilização de fato, o essencial resumia-se ao acerto na escolha das três peças: camisa, gravata e meias. Os sapatos, que, segundo a filha, «definem a personalidade de quem os usa», eram a parte mais difícil da escolha e a que lhe causava maior transtorno. Não aceitava pacificamente o princípio enunciado pela filha, mas reconhecia que quando olhava para si, a partir dos sapatos, tinha sensações de conforto ou desconforto de acordo com as escolhas efectuadas. Na capa da revista, o rosto de um homem novo, com um brinco colocado na orelha esquerda e barba por fazer, parecia possuído por uma auréola de marginalidade e inconformismo.

- Posso? - Ercília estava de pé junto dele, os olhos brilhantes.

Levantou-se, deu-lhe um beijo na face e deixou que ela se sentasse, para se sentar também. Reparou no colar de margaridas que lhe enfeitava o pescoço e disse-lhe que estava muito bonita e que aquela cor do vestido, «azul-marinho, não é?», lhe ficava bem ao rosto. Ela fitou-o nos olhos e admirou-lhe as sobrancelhas fartas. A cor dos olhos mudava de tonalidade conforme a hora do dia e a luz que neles reflectia; naquele momento, era de um verde-acastanhado, mais castanho que verde. Ercília disse-lhe que tinha tido saudades dele e que estava feliz por se encontrarem de novo. Ele retorquiu que também pensara nela durante a sua ausência. Tinha ficado preocupado com o telefonema de terça-feira e que lamentava não ter conseguido cancelar os compromissos. Perguntou-lhe se era alguma coisa grave. Ela disse que, naquele momento, ainda não lhe apetecia falar no assunto, que preferia falar sobre o tempo que estiveram longe um do outro. Ele deu o assentimento com um largo sorriso. Durante um breve instante ficaram sem saber exactamente sobre o que falar até que ele encetou uma abordagem ao tema que estava a ler quando ela chegou. Ela reparou que a revista se chamava Première, que era francesa, mas tinha data de Abril de 1993 e não compreendia a razão pela qual ele estava a ler uma revista com cinco anos de atraso. Disse-lho, o que lhe provocou um sorriso que ela achou muito agradável. Perguntou-lhe se ele, quando era mais novo, se parecia com aquele rapaz da capa, um tal Cyrill Collard; ele apontou para a parte inferior da revista onde se lia «mort d’un ciné-fils» e explicou-lhe que se tratava de uma promessa do cinema francês, que fora vítima da Sida, e que o último acto da sua criação tinha sido um apelo às novas gerações para o cuidado em lidar com esse problema, consagrado na forma de um filme autobiográfico intitulado «Nuits fauves» onde, além de argumentista e realizador, Cyrill Collard era também actor. Ela emocionou-se ao saber que aquele jovem morrera um mês antes de ver galardoada, internacionalmente, a sua obra. Ercília gostava de ouvir Daniel por causa da voz pausada, tranquila e gutural, que a seduzia e, por isso, olhava para ele como se o olhar fosse o caminho que a conduzia ao interior daquele homem que a tratava tão bem com deferimento e cortesia, que só por isso lhe era grata bastante. E havia mistério naquela figura de barba rala, cabelo ligeiramente comprido e olhos profundos, onde habitavam histórias e segredos que ela queria arrancar-lhe, não pela curiosidade mas pela partilha. Conhecia-o ainda insuficientemente, mas estava tomada pela certeza de quem acredita. Por aquele homem faria tudo, tudo o que lhe pedisse, embora nada lhe tivesse pedido. Estava disposta a contar-lhe toda a sua vida, embora ele nada lhe tivesse perguntado. E tinha-se entregue a ele, embora nada denunciasse que tal pudesse acontecer. Ali, como estava, ao lado dele, naquela mesa de café, parecia-lhe inverosímil que já tivessem feito amor, que tivesse partilhado com ele a sua intimidade e, sobretudo, que o tivesse feito sem o sobressalto de se sentir culpada. Tudo fora simples e excessivo, como se toda a vida tivessem vivido juntos, como se se conhecessem desde sempre. Desde o momento do primeiro beijo, ao suave perder da roupa, à partilha gloriosa do corpo, ao cigarro fumado a meias, até ao encostar da sua cabeça no peito largo que era o dele. Tudo tão natural e espontâneo que nunca se lembrou que podia engravidar. Agora sentia o constrangimento de ter de lho dizer, embora não tivesse vontade. Não porque não quisesse ter um filho dele, nada disso. Pelo contrário. Nunca como agora o desejara. Mas parecia-lhe traição, depois de uma primeira e única relação sexual, apontar-lhe a gravidez como consequência. Receava ainda a forma como ele pudesse reagir. E se deitasse tudo a perder? Gostaria que Deus, ou alguém, lhe desse uma súbita e clara indicação. Lá vinha de novo Deus. Tinha mencionado o Seu nome mais vezes nesta última semana que nos últimos vinte anos.

- A Lia não está a viver aqui, pois não? - o olhar interrogativo de Daniel era também contemplativo.

- Desculpe... tem razão... fui assaltada por um pensamento que me distraiu...

- E ainda não sente que seja o tempo de falarmos, não é assim?

- E sem esperar resposta: - Estava a perguntar-lhe se deseja ir jantar e se tem alguma ideia onde...

- Posso fazer-lhe uma inconfidência?... quero dizer, talvez inconfidência não seja o termo apropriado... olhe, deixe lá... foi uma ideia estúpida que me passou pela cabeça - o rosto ruborizou levemente e ela ficou frágil.

- Já uma vez lhe disse que todas as ideias são estúpidas se as quisermos ver dessa maneira. Vá lá, deixe ser eu a julgar da qualidade dessa sua ideia - os olhos dele não permitiam alternativa.

- Estava a lembrar-me que gostava de cozinhar para si. Vê como é estupidez da minha parte, pareço uma adolescente, meia idiota... - disse muito embaraçada e com ar infeliz.

- A única condição que coloco é que me deixe coadjuvá-la. A cozinha exerce sobre mim um grande fascínio... e, se é isso que quer, estamos a meia dúzia de passos do nosso objectivo. Tem a certeza que não quer tomar nada, aqui? - perguntou-lhe, levantando-se.

Ela respondeu que não com a cabeça e ele foi ao balcão para pagar a água. Saíram lado a lado e entraram no prédio anexo onde se situava o apartamento de Daniel. Subiram até ao segundo andar pelo elevador onde ele lhe beijou a testa. A vontade dela foi puxá-lo contra si e retribuir o afecto, mas limitou-se a fechar os olhos e a sentir a carícia carnuda que a transformou num frémito da cabeça aos pés.

A sala era muito ampla, com janelas grandes, quase à dimensão das paredes e que, ao longe, deixavam avistar o Tejo. Daniel pediu-Lhe licença e saiu da sala onde ela ficou a observar a decoração, o mobiliário e a perguntar-se como se arranjava ele para ter tudo tão limpo e ordenado. Sobre a lareira estavam colocadas três molduras. Em duas delas estavam fotografias de mulheres e na outra a fotografia de um rapaz. O rapaz era a cara chapada de Daniel e ela deduziu que era o filho: a mesma configuração das sobrancelhas, a figura esquelética mas bem constituída e sobretudo aquele olhar... Daniel falara-lhe do filho que estudava na Sorbonne e com quem trocava inúmera correspondência. Achou piada quando Daniel, um pouco acabrunhado, lhe anunciou, meio em confidência, que quase todos os dias lhe telefonava, com o contributo da Administração, que era quem pagava a conta do telefone - uma prerrogativa do pessoal dirigente, de que não era fácil prescindir. E a cara dele, quando ela lhe explicou que toda a gente fazia o mesmo, ainda que não tivesse tal prerrogativa, como ele dizia, bastava ligar do serviço! «Toda a gente sabe que é mais fácil ligar da Administração para qualquer lugar no estrangeiro, que de qualquer lugar do país para a Administração». Ele ficou um pouco atónito e prometeu-lhe que ia investigar. As duas mulheres das fotografias eram igualmente bonitas e Ercília tinha dificuldade em determinar qual era a mãe e qual era a filha. Talvez as fotografias tivessem sido tiradas com intervalo de anos tal que as idades de ambas se aproximavam. A da esquerda tinha uma enorme cabeleira aos caracóis, um rosto frágil e muito bonito, onde sobressaía a expressão negra do olhar. Percebia-se nela uma mulher determinada. A outra, do seu lado direito, tinha cabelo muito curto e os olhos eram castanhos. O mais saliente nela era o pescoço que lhe conferia um ar altivo. Os olhos pareciam poisados à flor do rosto, tal era a debilidade das pestanas. Talvez não fossem mãe e filha...

- Essa é a minha filha, a Fátima - disse Daniel, que entrara

nesse momento.

- Estava a tentar tirar-lhe as feições, mas não me parece muito saída a si, ao contrário do rapaz, cujo rosto parece decalcado... - e olhou para ele como a certificar-se.

- O Artur desde sempre foi parecido comigo, é verdade. Pelo menos é aquilo que toda a gente me diz - retorquiu ele com uma ponta de alegria.

- E esta - perguntou Ercília, apontando o retrato da esquerda onde estava a mulher de cabeleira farta - é a sua mulher?

Daniel segurou a moldura com ambas as mãos e ficou a olhar o rosto que Ercília apontava. Ela viu aproximar-se aquela mágoa que o habitava e a maneira como os olhos dele iam perdendo o brilho e ficando baços.

- Esta é Sara. Era a minha mulher, sim - disse ele, colocando a moldura, com suavidade, no seu lugar.

- Fale-me dela - pediu-lhe Ercília, pegando-lhe na mão e beijando-lhe os dedos.

Ela sentou-se no sofá mas Daniel não se sentou a seu lado, preferindo a cadeira de baloiço. Acendeu um cigarro e ofereceu-lho, mas ela recusou com um «não, obrigada... talvez daqui a pouco». Daniel puxou uma fumaça e com o fumo instalado nos pulmões disse-lhe o quanto lhe era penoso falar de Sara. Sara fora a sua metade mais importante, a criatividade que agora lhe faltava, a alegria, a dor de que não podia falar, porque era a dor indizível, um sentimento sofrido, sem palavras. - Sara é, sobretudo, aquilo que me falta. Não sei dizer-lhe claramente se sinto a sua falta porque ela não está, se essa falta resulta da sua presença... quase obsessiva... no meu dia-a-dia. - Levantou-se, aspirou de novo o cigarro como se o quisesse engolir e deslocou-se para a janela de onde se via o Tejo manchado de luzes ao fundo e continuou a falar, de costas para ela:

- Conheci-a em Paris, em Maio de sessenta e nove, num local onde se pode conhecer toda a gente, chamado Montmartre, e pedi-lhe que rne fizesse o retrato, um daqueles momentos que acontecem todos os minutos, todas as horas, todos os dias, nas ruas de Montmartre. Não sabia sequer que ela era portuguesa. Lembro-me apenas de ficar com os olhos fixos nos olhos dela desde o momento em que ela começou a desenhar até que parou para se dirigir a mim e beijar-me de forma tão desconcertante que só recordo o medo que senti da censura dos mirones. Mas, não sei se por força da vontade que me invadiu, se por perceber que ninguém reparava em nós, entreguei-me com tal volúpia àquela mulher... - e após um breve silêncio - ...que percebi que o mundo já era só o que nós quiséssemos.

- Fez de novo uma pausa durante a qual se instalou um silêncio sem contornos. Disse depois como tinha sido difícil conciliar aquele amor com a conclusão do curso de Direito que frequentava em Coimbra e com as lutas estudantis contra o regime de Salazar e Caetano, de que ele era animador, como tantas figuras conhecidas da nossa política actual. Parou de falar e olhou para ela, com olhos inexpressivos, como se fosse outro, diferente daquele que ela conhecia. Estalou os dedos das mãos e encheu um copo com uísque, que bebeu sem gelo. Ercília disse-lhe que não bebia em jejum, mas acabou por perguntar-lhe se podia dar um golinho do copo dele. O líquido queimou-lhe na garganta e ela fez um esgar de sofrimento que tentou ocultar, virando-se na direcção da lareira. A sala era quase toda branca, o que conferia ao espaço a tranquilidade e a solidão do cerco com que a noite, sobretudo a noite, nos costuma cobrir de angústia. Não sabia se pedir-lhe que continuasse, se apenas permanecer calada para que ele fizesse o que julgasse melhor. Vê-lo beber, como se ela não estivesse presente, devolvia-lhe a dimensão do abandono que a assaltara nas últimas semanas. O melhor era dizer-Lhe já que estava grávida. Talvez a perspectiva de uma relação séria o animasse, mas um receio maior que a vontade fê-la desistir.

- Ainda que mal lhe pergunte... como pôde acabar um amor, assim... tão arrebatado? - perguntou-lhe, porque desconhecia o destino de Sara.

Ele parecia ter readquirido o controlo emocional porque os olhos estavam de novo a cintilar como se alguém, de repente, tivesse entrado nele e ligasse a corrente.

- com a morte, minha querida, com a morte. Eu e Sara, como nos grandes romances, fomos separados pela morte. Simplesmente o autor não encontrou em mim o grande herói e, só por isso, por cobardia do personagem, sobrevivi - havia alguma ironia nas palavras dele.

- Não diga isso... morreu, morreu como...? - insistiu Ercília, que ficara incomodada com a resposta.

- Morreu, morrendo, Lia - disse isto com um sorriso, como se estivesse a gozar com ela. Ela pensou que não devia ter feito uma pergunta tão estúpida. Se fosse o marido tinha-lhe atirado com o copo do uísque, chamado estúpida, ou coisa pior, e dito que devia estar drogado quando casou com ela. Os olhos ficaram húmidos.

- Desculpe... - disse, baixinho.

- Não tem nada que me pedir desculpa, Lia. A sua pergunta é bastante pertinente, eu é que parece que estou permanentemente bloqueado e indisponível para aceitar este acto tão simples da natureza. Sabe, Lia, a Sara morreu de uma gravidez ectópica, sabe o que é isso?

Um fio de suor descia pela têmpora de Ercília.

- Não - disse, timidamente.

- Não serei eu a pessoa mais indicada para lho explicar, mas, em termos gerais, trata-se de uma gravidez complicada em que o feto se desenvolve em lugar errado; em vez de se alojar no útero, aloja-se numa das trompas. No caso de Sara a ruptura da trompa foi... fatal.

Ela levantou-se, dirigiu-se a ele e, com ambas as mãos, segurou-Lhe o pescoço.

- Deixe-me abraçá-lo, Daniel, por favor - e apertou-o contra si cobrindo-lhe o pescoço com beijos porque não conseguia alcançar-lhe

o rosto.

- Amo-o Daniel, amo-o, amo-o, amo-o - e desatou a chorar ao ouvir a sua voz e a sua declaração.

- Então, Lia, por favor, não vamos transformar a noite num psicodrama... por favor, acalme-se... peço-lhe que não chore. - Levou-a para o sofá e sentou-se junto dela, encostando-lhe a cabeça no peito e afagando-lhe o cabelo. com os dedos foi percorrendo cada uma das margaridas que compunham o colar que lhe envolvia o pescoço e em cada uma das pedras cor-de-rosa traçava um pequeno círculo com os dedos e ia repetindo «você é uma mulher muito bonita» até sentir que ela estava mais calma e controlada.

- Sabe, Daniel - disse ela mais calma -, acho que você me surpreende, surpreende-me sempre que estou consigo...

- Isso é porque estamos poucas vezes... - respondeu Daniel, com um sorriso.

- Não, não é isso. Acho que você tem uma vida muito intensa, muito profunda, coisas que eu não chegarei a viver, nem pela metade. - E, tomando um segundo para respirar, disparou: - Há quantos anos morreu a Sara? - arrependeu-se no momento seguinte a ter perguntado. «É preciso ser burra, para insistir num assunto que o faz sofrer». O marido ter-lhe-ia respondido: «foi no dia em que a tua mãe fez o favor de te parir...».

- Sara morreu... há... catorze anos, tinha a minha filha onze e o miúdo seis anos. Não se pode dizer que tenha sido o momento ideal para me deixar, não lhe parece? - Dirigiu-lhe um sorriso: - E se mudássemos de assunto?

- Acho bem, claro. Peço desculpa...

- Oh Lia, que raio de virtude é essa de estar continuamente a pedir desculpa, como se estivesse em falta... olhe que às vezes nem sei de que me pede desculpa, acredita? - perguntou Daniel, tentando reforçar-lhe a auto-estima.

Ela riu-se com vontade e quase lhe pedia desculpa de novo. Levantou-se e disse que ele tinha razão. Se estivesse de acordo, podiam ir cozinhar, que era o motivo que os levara ali. Ele anuiu.

- Cozinhar e explicar-me o que tanto a preocupava quando me telefonou - Daniel não tinha esquecido a agitação dela, dois dias antes.

Ercília não respondeu de imediato. Ele estava junto dela e ela colocou-se em bicos de pés, beijou-lhe os lábios com fervor e segredou-lhe que havia uma coisa que gostaria de fazer, mais do que cozinhar, e que esse era o motivo que a fizera telefonar e ter aquele ar preocupado, com medo que ele não quisesse.

- Era essa a minha preocupação, meu capitão - mentiu Ercília com convicção e com desejo dele.

   Foi trocando beijos com ela em direcção ao quarto e quando a sua mão tocou a pele macia de Ercília, sentiu uma belíssima excitação,

 

Firmino indicou-lhe o nome de um snack-bare deixou-se conduzir pelas ruas da cidade. O carro deslizou por elas, assistindo à despedida dos que viviam fora, de todos os que partiam para voltar no dia seguinte. Era um adeus de silvos, de choro de pneus, de carros à procura de um destino. Um adeus a que Firmino era alheio, atirado para o banco de trás pela recusa de uma mulher, no dia em que a sua própria esposa saíra para jantar fora. Pela segunda vez nesta semana.

A luz vermelha obrigou o carro a arrepiar velocidade até parar completamente com os pneus dianteiros a morderem o risco branco-leitoso da passadeira. Uma velha atravessou arrastadamente, com um saco de plástico na mão e os olhos prescrutando o vidro da frente em busca de novidades. Tinha o rostoazedo, de muitas dificuldades. Floriano era um motorista habituado a rostos assim e, por isso, não estranhou. Esperou sabiamente a mudança de sinal e arrancou, perguntando então ao seu director se confirmava o local de destino, ao que ele respondeu que sim.

Estacionou em frente ao snack-bar-retauranle da Avenida da República sob o olhar atento do polícia. Firmino ordenou ao senhor Floriano que voltasse para o buscar dentro de meia hora. Saiu. Dirigiu-se às portas, que se afastaram uma da outra para o deixar passar, e escolheu um dos poucos bancos livres que circundavam o balcão, serpenteando de clientes àquela hora. Faltavam dez para as nove e, se se despachasse, ainda podia ir ao cinema. Não lhe apetecia regressar a casa, sabendo-a vazia, sem ter quem lhe enchesse um copo de uísque. Comeu sem dar por isso, pagou e voltou a entrar no carro que já se encontrava à sua espera.

- Leve-me ao King Triplex e depois pode ir embora - disse ao entrar na viatura.

- O senhor director não quer que volte no final do filme? - a voz de Floriano era inexpressiva, como se se tratasse de gravação.

- Posso apanhar um táxi para casa... mas se não lhe faz diferença, é uma questão de ver a que horas termina a sessão... que eu ainda nem sei muito bem o que vou ver - respondeu-lhe Firmino, como se, de facto, lhe fosse absolutamente indiferente.

- Eu posso esperar - concluiu Floriano, para quem as horas extraordinárias eram o complemento sério de um salário sem sentido, de tão minguado.

Firmino apeou-se sem esperar que o motorista lhe abrisse a porta e dirigiu-se à senhora que se escondia detrás do vidro da bilheteira a quem comprou o bilhete e dirigiu uma pergunta. Olhou Floriano encostado à porta e disse-lhe, simplesmente: «meia noite e meia». Desceu as escadas e preparou-se para percorrer, num vaivém estafante, o pequeno corredor, até à abertura da sala.

Sentou-se no lugar que uma rapariga, gentilmente, lhe indicou a troco de uma moeda de cinquenta escudos e abandonou-se aos seus pensamentos de homem habituado a decisões, mas hoje cansado de servir a causa pública. Não se recordava do nome do filme, nem isso era particularmente importante. A cuidar pela meia dúzia de pessoas que ali estava, era capaz de não ter feito grande escolha. Ia ao cinema para divagar, para resolver um problema para o qual procurava solução, para um namoro circunstancial que reclamasse algum romantismo. Fora assim com Filipa, o seu primeiro caso, na primeira Comissão. Convidara-a para o cinema e, no escuro mágico que envolve as salas, esperou, astutamente, que ela lhe desse a mão. Depois foi a loucura de uma paixão, uma mulher de entrega total, que durou até ao estertor da Comissão, em oitenta e oito, dois anos depois de ter nascido o seu filho, António, e ter começado a ter problemas com a sua mulher. Era um tempo em que colocou muitas questões sobre a possibilidade de repartir-se entre duas mulheres, tentando preservar a sua relação com Ercília, extravasando as tensões na sedução a Filipa, que dançava, frenética, sob o efeito do seu desempenho sexual, e lhe transmitia confiança e auto-estima. Às vezes tinha dúvidas. Perguntava-se se era a si que ela queria, se aos benefícios que podia recolher atendendo ao cargo que ele desempenhava. A verdade é que, de forma muito velada, quer tivesse ou não a ver com isso, ele arranjara emprego para um irmão, para uma prima, com quem ela co-habitava, e na avaliação de desempenho subiu todos os patamares possíveis. Tudo isto nos apenas dois anos que durou a primeira Comissão. O início da segunda Comissão originou algumas mudanças no pessoal e Filipa foi transferida para os Negócios Estrangeiros e ele deixou de a ver. Em seu lugar surgiu Fabiana, uma mulher gutural, que o ia matando por asfixia. Corria o ano de noventa, quando o encerramento da segunda Comissão colocou um ponto final naquela relação em que emagreceu sete quilos e participou nas custas e no arranjo de um aborto, que ia dando para o torto, e que o fez reflectir sobre a sua vida e prometer a si mesmo que, saindo daquela sem problemas, não se voltava a meter noutra. Fabiana, que lhe contou sobre a falsificação dos boletins itinerários que o pessoal, com a cumplicidade dos motoristas, tornara prática corrente, prolongando as horas de chegada e antecipando as de partida nas declarações, «isto, quando não é tudo inventado», acrescentara para sua aflição. A paga que a rapariga teve foi a gravidez indesejada e um lugar de motorista para um conterrâneo de Viseu, sua terra natal, em substituição daquele que foi castigado na sequência do inquérito. Acabou a relação com ela, justificando-se com as consequências psicológicas do aborto.

 

Estavam sentados na cama, com as costas encostadas à cabeceira, o lençol cobrindo-os pela cintura. Partilhavam um cigarro, em silêncio, enquanto os corpos repousavam depois do amor. Ela pensava que o melhor era não lhe falar na gravidez, sobretudo depois de o ter ouvido contar a história de Sara que morreu daquela «gravidez ectópica, parece que foi esse o termo que ele empregou». Nunca ouvira falar desse tipo de gravidez, mas, fosse como fosse, não era apropriado contar-lhe agora que estava grávida. Esperaria uma melhor altura, embora a inquietação a começasse a preocupar e a angústia se fosse apoderar dela quando se separassem. Sentia-se segura perto dele, parecia-lhe que ele tinha uma calma contagiante, uma postura de certezas que funcionavam nela como um narcotizante. Fez-lhe uma carícia nos pêlos brancos do peito e desceu a mão, até lhe tocar no sexo que estava tão adormecido como eles. Ele disse-lhe que o guerreiro estava a descansar porque os tempos já não se coadunavam com batalhas umas atrás das outras, mas permitiu que ela lhe percorresse com os dedos, primeiro o pénis e depois o escroto. Sentiu uma leve pressão nos testículos e perguntou-lhe se mexer no sexo lhe dava prazer. Ela disse que raramente fazia aquilo mas que com ele tudo lhe parecia diferente e que achava muito esquisito o sexo masculino porque devia dar uma enorme incomodidade andar com tudo aquilo dependurado, todos os dias. Depois sorriu-lhe, beijou-o nos lábios e disse-lhe que também era misterioso como aquilo subia e descia e que isso sempre a impressionara; que quando era miúda supusera que se tratava de um osso, porque era a única justificação que tinha para o ver erecto. Daniel perguntou-lhe se tinha fome e ela disse que sim, mas que não lhe apetecia sair dali.

- A que horas é que precisa de estar em casa? - perguntou-Lhe, enquanto procurava o relógio na mesa de cabeceira.

- Não sei que horas são - respondeu Ercília, como se as horas fossem a sua última preocupação.

- São quase dez e meia. Se quiser, preparo-lhe uma refeição ligeira, tipo uma sanduíche de queijo ou de fiambre e uma bebida quente - levantou-se e colocou um robe de seda magenta escuro sobre o corpo, apertando-o com o cinto -, a não ser que ainda mantenha a ideia de cozinhar, mas já é um pouco tarde, não é?

- Eu vou ajudá-lo - espreguiçou-se, abrindo os braços e alongando as pernas.

- Pode ficar aí que eu trato do assunto - a voz de Daniel estava quente e rouca e ela achou-o muito atraente com o robe e com os chinelos.

«Não posso acreditar que ele me vá servir o jantar na cama!». Ia fazer quinze anos que estava casada e nunca o marido tivera uma atitude assim. Mesmo nos primeiros anos, quando ela era ainda adolescente e a força do seu amor quebrava todas as barreiras e eles viviam avassaladoramente a sua paixão, ou quando ele lhe povoava a cabeça com discursos inflamados sobre questões políticas que tanto o entusiasmavam, em nenhum momento ele tivera um gesto assim. Ele era sempre o homem, com H maiúsculo, como costumava dizer, e ela nunca se questionara sobre isso, até conhecer Daniel. Em alguns momentos, quando preparava as refeições do marido, naquela rotina que só os homens das obras ajudavam a vencer, sentia uma vontade estranha de atirar tudo pelo ar, de dizer «Basta! Se queres uma criada vai para casa dos teus pais, vai lá para a Covilhã para o meio das cabras e das ovelhas», mas temia pela reacção que ele pudesse ter, que ele mudara muito desde o nascimento do filho e da ida deles para Lisboa, e ela temia que ele, num acesso de fúria, lhe batesse. Ercília suportava tudo, os insultos, a rudeza, a falta de delicadeza, tudo. Mas não era capaz de suportar a violência. Às vezes imaginava que era presa por motivos políticos e que desatava logo a falar, a denunciar tudo e todos com medo que lhe batessem. Era um medo que se acentuara depois do nascimento do filho. A lembrança do filho sacudiu-a como se o pensamento fosse matéria alojada na cabeça. Olhou em volta e viu-se no quarto de um homem que não era o seu, viu-se reincidindo na prática do adultério, mas não sentia remorsos. «Que se passa comigo, que não me consigo entender?». Olhou o corpo e perguntou-se o que é que nela excitava Daniel. Não era a rapariguinha que fora, com os encantos que tinham seduzido o marido. Os seios já não tinham a elasticidade e o vigor de então, embora ela continuasse a gostar deles, no tamanho e na forma. O facto de nunca ter amamentado o filho contribuíra para os manter mais firmes. Algumas estrias ameaçavam denunciar a sua falta de juventude, mas a lembrança de Daniel flutuando sobre ela, as carícias dos seus dedos compridos e estreitos, a língua carnuda explorando-a e murmurando-lhe estranhos sons, que ela nem precisava de compreender claramente, relegaram-lhe as preocupações para segundo plano.

Gostava que ele lhe dissesse que a amava. Não tinha a certeza absoluta de que nunca o tivesse dito, sobretudo porque o podia ter dito num daqueles momentos em que ela se passava para o lado de lá, e em que não entendia nada daquilo que ele dizia porque nem era preciso. Talvez num desses momentos ele lho tenha dito, mas ela estava mais próximo de acreditar que ele ainda não lho dissera. Dizia-lhe que era uma mulher muito bonita, que gostava de fazer amor com ela, que os olhos dela eram muito expressivos e coisas assim, ditas com verdade, mas nunca dissera: «Amo-te!». Ela, às vezes, tentava provocar-lhe essa declaração, repetindo e enfatizando amo-te, amo-te, amo-te... mas ele sorria e dizia-lhe que ela era muito bela, que merecia toda a sorte do mundo, que o fazia muito feliz naquele momento.

- Quer fazer o favor de se colocar de modo a eu poder servi-la?

- Daniel trazia uma bandeja grande, tão bem arranjada e composta que ela sentiu fome só de olhar. Sentou-se na cama e colocou o soutien antes de lhe dizer «estou pronta». Comeram as fatias de pão torrado com os nacos de queijo e as talhadas de carne e beberam café com leite. «Para mim é um manjar de deuses», pensou ela a sorrir, demonstrando uma enorme felicidade.

- Você foi a coisa mais bonita que me aconteceu, Daniel!

- Ora, não seja tonta. Fico contente de a saber feliz! Quando achar que são horas, diga-me que eu deixo-a em casa. Desculpe insistir, não é por mim, mas não quero que tenha problemas por minha causa - respondeu com a serenidade que lhe era peculiar.

Ercília pensou que se ele lhe pedisse para ficar, ela ficava e estava-se nas tintas para as consequências.

- É capaz de ter razão. Que horas são? Desculpe estar sempre a perguntar...

- São vinte e três e trinta e cinco - replicou, consultando e voltando a pousar o relógio.

- Ah, temos tempo. Só preciso de estar em casa por volta da uma. Mas posso apanhar um táxi - redarguiu ela, que não queria incomodar.

- Não, não, eu levo-a e até conversamos um pouco mais pelo caminho - disse ele, colocando o tabuleiro junto aos pés da cama. Tirou o robe e vestiu a roupa que tinha ficado espalhada pelo chão.

- Fiz alguma coisa de errado? Desculpe, Daniel, você mudou a expressão... - notara-lhe um movimento brusco e alteração na expressão do rosto.

- Não, Lia, não é nada consigo. Estou apenas com vontade de sentir o ar da noite.

Ela viu-o vestir-se e, embora lhe apetecesse continuar deitada e que ele se deitasse ao lado dela a partilhar um cigarro e a deixar correr uma conversa, levantou-se também, pegou na roupa e foi vestir-se para o quarto de banho. «Coitado. Nunca me passou pela cabeça que a mulher tivesse morrido daquela maneira. Agora percebo aquele olhar triste que ele tem. A verdade é que tudo isto só vem reforçar a ideia que tenho dele, como um homem excepcional». Procurou na bolsa um pente, arranjou os cabelos e observou o espelho que lhe devolvia o azul do seu olhar. «Gosto quando ele me diz que sou uma mulher bonita. Acho que ele tem prazer em beijar-me nos lábios». com o dedo médio da mão direita contornou os lábios que lhe pareceram mais carnudos e sensuais. Preparou-se para sair e a sua imagem apareceu, agora por inteiro, no espelho a toda a altura da porta. Colocou a mão no ventre, sobre o vestido azul, e voltou a ficar preocupada. (Não sei que faça! Tenho tanta vontade de lhe contar como medo de lho dizer... Oh meu Deus, permite que seja apenas um atraso no período... juro que procuro um sentido para a minha vida...». Reprimiu, a custo, a vontade de chorar e disse de si para si: «Vendo bem, tudo é muito relativo. A morte da mulher dele foi bem mais grave, que Deus me perdoe...». Riu-se, porque se lembrou do padre que a confessara e que lhe dissera «Não evoques o nome de Deus em vão» ou qualquer coisa de parecido.

Daniel estava sentado na cadeira de baloiço a fumar um cigarro e voltou a sorrir-lhe quando ela entrou na sala.

- A Lia pegou-me de surpresa! Olhe que cheguei a pensar que tinha algo de grave para me dizer - era a quarta vez que fazia a tentativa de abordar a questão.

Ela olhou a sala em redor e verificou que o branco era a cor dominante e quase exclusiva, quebrado apenas pelas plantas naturais e pelas flores que a salpicavam de tonalidades diversas.

- Quem lhe trata da casa, Daniel? - a pergunta foi formulada como se ela não tivesse ouvido a observação que ele tinha feito. Está tudo tão no seu lugar, tão bonito. Olhe para isto! - continuou, apontando com a mão direita para vários tipos de flores e plantas que ia tocando ao de leve. - Azáleas, petúnias, orquídeas, margaridas - e após uma inspecção infrutífera - e estas são o quê... íris?

- Não. Se verificar pelo cheiro, talvez seja mais fácil - sugeriu Daniel, que a acompanhava com o olhar.

- Este cheiro não me é nada estranho... - Ercília tinha o nariz planando sobre as pequenas flores, muito aromáticas, brancas e amarelas. - Não quero arriscar; se falho, o Daniel vai pensar que sou uma principiante... - concluiu a sorrir.

- Vá lá, diga - ele esperava que ela falhasse.

- É jasmim, seu tonto. De todas, são as mais fácil de distinguir!

- e soltou uma risada de adolescente. - Alguém trata de as escolher por si, não é verdade?

Ele não disse nada. Olhava para ela como quem contempla um quadro. A serenidade expressa no rosto, a suavidade do olhar, a descontracção do corpo, denunciavam que a observação lhe era grata. Ela sentiu esse efeito e ficou embaraçada, com vontade de voltar a ele e perder-se nos seus braços, nos abraços, nos beijos, porque há anos que não sentia esta doce sensação de ser admirada como mulher, desejada por um homem a quem desejava. Teve medo do que ele pudesse pensar se ela fosse de novo em busca do amor, e ficou junto dos ramos de jasmim, afagando-os com as palmas das mãos.

- Então, não me respondeu! - insistiu ela.

- Quer mesmo que eu denuncie a minha inaptidão para a ordem e a arrumação, então sempre lhe digo que tenho uma senhora que vem cá todas as manhãs zelar por esta ordem e por esta limpeza e tenho ainda a minha filha, que é assim uma espécie de conselheira técnica. Satisfeita? - questionou-a como se a acariciasse.

- E a sua filha vive consigo? - E logo de seguida: - Desculpe a curiosidade, mas esta casa tem algo de culto, de sagrado, como se fosse habitada por uma única pessoa.

Ele continuou a olhá-la e achou curiosa a observação.

- Nunca tinha visto isto dessa maneira, quero dizer, a minha casa como um lugar de culto, mas concordo, acho que está bem observado - levantou-se e foi buscar um copo. - A minha filha vem cá com regularidade, mas não vive comigo. Desde os dezanove anos que fez a opção de criar o seu espaço próprio, um espaço só para ela - verteu uísque no copo e ofereceu-o a Ercília que recusou com um abanar de cabeça - ...mas vemo-nos muitas vezes e ajudamo-nos mutuamente. - E sem deixar que ela interrompesse: Ultimamente vemo-nos menos, depois que entrou para a Comissão, não tenho a designação bem precisa, mas creio que é Comissão para a Modernização, ou Reforma, da Administração - sorveu um gole de uísque, e olhou para ela, que lhe pareceu um pouco diferente.

Ercília ficou realmente mais agitada porque o facto de a filha dele trabalhar no departamento do marido podia constituir uma exposição para ela.

- Mas essa Comissão é onde está o António! - tentou que a voz não traísse a sua agitação. - Ela seguramente que o conhece pegou no copo dele e bebeu um pouco. A garganta deve ter-se habituado porque o efeito produzido não foi tão devastador como da primeira vez. - Como é que disse que ela se chama? Fátima, não é? Não me lembro de ele ter alguma vez falado nela - corou porque o marido raramente falava sobre questões de serviço. - Daniel, vou pedir-lhe um favor - sorveu um segundo gole de uísque. - Acho que era escusado pedir-lhe isto, mas, por favor, não conte à sua filha sobre a nossa relação, pelo menos por enquanto, até as coisas estarem mais esclarecidas - ruborizou ainda mais porque não sabia muito bem o que queria dizer com «até as coisas estarem mais esclarecidas» e porque se sentira muito insegura com o facto de a filha dele trabalhar com o marido.

Daniel percebeu-lhe a inquietação e tentou tranquilizá-la.

- Claro. Não tenho intenção de me confessar à minha filha; vendo que ela lhe ficara com o copo, pega noutro e enche-o até metade. - Não me recordo de ela falar em nenhum António - aproximou-se e beijou-lhe os cabelos.

- O António não é conhecido por António - disse excitada e aflita. - Quer dizer, o António só é António para a família. Na Comissão é conhecido por Firmino - olhou para Daniel mas não lhe notou nenhuma reacção -, a família é que o trata por António

- disse pensativa e mais furiosa. - É uma história medieval, que envolve a promessa a um santo - continuou, com algum cinismo. Ele olhou-a surpreendido e ela desatou a rir. O uísque estava a surtir efeito; sentia-se leve, mas com muito calor no rosto. O riso contagiou Daniel e começaram a rir só de olhar um para o outro. Ele pensou que ela já estava a ficar tocada do uísque e achou-lhe graça. Parecia-lhe mais descontraída.

Lembrou-se que estava grávida e desatou a chorar, misturando o riso com o choro, porque para uma mulher grávida não se admitia aquela bebedeira, embora fosse só um copo que ela tivesse bebido.

Quando ele reparou que algo de estranho se estava a passar, teve dificuldade em distinguir se ela chorava ou se ria. Olhou para o relógio, aproximou-se dela, envolveu-a com os braços, pelos ombros, e sussurrou-lhe ao ouvido:

- Venha, que eu vou levá-la a casa.

Ela abraçou-se a ele e deixou que a conduzisse. O ar da noite fez-lhe bem. Limpou os olhos e o nariz ao lenço de papel que ele lhe estendia e voltou a procurar-lhe o corpo para se enroscar.

 

Na tela viu o rosto de um actor conhecido, com a cabeça coberta por um boné. Era um rosto familiar cujo nome não lhe ocorria. Tentou acompanhar o enredo, mas desistiu. Era uma competição entre pianistas, em que um dos participantes ensaiava completamente nu. Não lhe pareceu entusiasmante.

Na tomada de posse da terceira Comissão, Fabiana já não esteve presente. Desse dia lembra apenas os olhos de Fedra, quase tão grandes como o corpo, quase tão azuis como a aguarela que pinta o céu. com Fedra tudo foi simples. Olharam-se, agarraram-se e amaram-se sempre de maneira pouco usual e com muito pouca ortodoxia. Passeava com ela, nua, grudada ao seu corpo, igualmente nu, por todos os cantos onde era imaginável que passassem e aprendeu com ela que o sexo não tem limites, nem resguardos, nem sentidos. Foi a relação mais duradoira porque começou no dia da sua tomada de posse e só terminou quatro anos mais tarde. A terceira Comissão foi a mais longa e Firmino está convencido de que a longevidade tinha que ver com a criatividade de Fedra. Correu tantos riscos e, no entanto, nunca teve grandes sobressaltos. A única excepção foi singular e também definitiva. O gabinete envolvia-os na penumbra da luz coada de um candeeiro de halogéneo. Fedra percorria-lhe o corpo com a humidade gelatinosa de uma boca ávida, ajoelhou no chão enquanto ele levantava a cabeça para o céu, não para ver, que tinha os olhos fechados, mas para sentir, que os sentidos estavam despertos e

apetentes. Firmino preparava-se para uma explosão, de costas para a porta, mal seguro pela ponta da secretária, quando Florência, uma cabo-verdiana que fazia limpeza naquele dia, espreitou um ”está alguém?” e ele explodiu um «n-ãã-oo... A que assustou a pobre mulher, que o associou a coisa do outro mundo. Ele assomou à porta, o rosto lívido como os panos quando levam lixívia, e disse-lhe que «nem ao presidente dos Estados Unidos autorizo a meter o focinho no gabinete, sem bater e esperar à porta». A mulher não deve ter visto Fedra, dada a posição agachada e porque estava encoberta pelo corpo dele. Mas não tinha a certeza de que ela o não tivesse visto descomposto. Mesmo que o medo a tivesse cegado. As consequências deste facto foram duas: as suas secretárias passaram a poder entrar no gabinete, após bater, sem esperar resposta, para não alimentar especulações; Fedra foi convidada a fazer um estudo, em Itália, como bolseira. Ele ainda a visitou uma vez, antes de ela decidir ficar por lá apaixonada por um italiano de quem Firmino às vezes sentiu ciúmes.

Firmino afastou também Flávia, a de boca de cherne, cuja morte da filha consumia os homens que a ela se chegassem. O afastamento que menos lhe custara, porque o libertara de um pesado fardo.

O som de Prokofiev fê-lo voltar a olhar o ecrã e veio-lhe à memória o nome de Richard Dreyfus. Era dele que se tratava. Era dele o rosto conhecido de que agora se lembrara.

Quatro meses depois iniciava-se esta quinta Comissão e Fátima parecia decidida a criar-lhe um novo cenário, com novas regras de jogo.

Abandonou o cinema arrastando os restos da luz que se extinguira no final da projecção.

Floriano abriu-lhe a porta e perguntou-lhe se ia para casa. Disse-Lhe que não, que o levasse ao Príncipe Real. Havia lá um boteco «onde as raparigas jogam bilhar- e a ele apetecia-lhe ver mulheres a jogarem bilhar. Floriano riu-se, controladamente, e pensou que o director, apesar de mau carácter, não era mau diabo. Alguma se passara para ele não ter ido a casa. Habitualmente levava-o a jantar a casa, que era hábito que ele tinha, e só depois o ia buscar para se perder na noite. Por isso, quando acontecia ele jantar fora, ou havia rabo de saia, ou problema, mas isso não era nada com ele, nem se queria meter. -Agora esta de mulheres a jogar bilhar.,.-, só se fosse outra coisa... mas nunca o director tivera tal liberdade de linguagem. Não, seria mesmo bilhar.

Deixou-o ali, defronte de uma pastelaria, no passeio. Recebera indicação para o ir buscar às oito da manhã, no dia seguinte, à porta de casa, como de costume. Não entendia como ele aguentava. A noite ia prolongar-se por muitas bebidas e ele haveria de querer regressar de táxi para o evitar a ele, Floriano. «Não seria a primeira vez que o arrastava até casa, a cair de bêbado..,» e, no dia seguinte, lá estava ele, como novo, como se nada se tivesse passado. Acelerou ainda a tempo de o ver puxar de um cigarro e acendê-lo, desenhando uma mancha à frente do rosto, que se desfez em menos de trinta segundos.

 

A noite envolveu-os e Daniel pegou-lhe na mão enquanto se dirigiam para o carro. Ercília percebia que o efeito do uísque começava a dissipar-se porque tudo parecia ganhar os contornos habituais e porque voltava a tomar consciência de si própria. Estava sob o efeito de um turbilhão de ideias e sentimentos complementares e contraditórios e por isso não era capaz de seleccionar um pensamento e isolá-lo dos restantes. Sentia o calor da mão de Daniel pegando na sua e tinha tanta vontade de dançar que só lhe apetecia pensar nisso. Mas o pensamento deslizava por entre as fímbrias dos seus diversos problemas, mostrava-lhe a gravidez como ameaça, o filho como abandono, o marido como obstáculo. Apertou a mão de Daniel e chegou-se um pouco mais para junto dele. «E se fôssemos vistos, assim, de mãos dadas, por alguém conhecido? E se o marido passasse, casualmente, por ali e a visse assim com Daniel?-. Sem se dar conta, acelerou a passada, ficando um metro à frente dele, que a puxou com delicadeza: - O carro está aqui! - Abriu-lhe a porta e, quando ela se preparava para entrar, beijou-a nos lábios, com a suavidade do lusco-fusco, naquela noite de lua cheia. ”Este homem dá cabo de mim!”, e saboreou o gosto dos lábios dele, enquanto esquecia o cenário das eventualidades, que começara a construir. ”Será que ele me lê os pensamentos?”. Porque ela estava a precisar daquele beijo, naquele momento, e ele deu-lho!; porque ela carecia daquele gesto que a pacificava, e ele ofereceu-lho! Daniel parecia saber que era assim que ela queria que fosse. Nele não havia ansiedade, nem dramatismo. Apenas mistério. Ela entrou no automóvel e apreciou o (conforto. Era a única coisa que sabia apreciar num automóvel, porque ou se sentia bem ou se sentia mal. Num automóvel, nada mais que isso. Uns números, digitalizados a vermelho, assinalavam a meia-noite e quarenta e ela perguntou a Daniel se podiam ir ver o Tejo, antes de a levar a casa. Ele olhou-a surpreendido e respondeu claro» e ela encostou a cabeça ao ombro dele. Quando o carro começou a deslizar, observou as luzes que se cruzavam com eles na |noite lisboeta. A memória transportou-a ao seu primeiro encontro com Daniel, ao seu dia-a-dia no departamento, à figura dele no «papel de director. Nunca lhe passara pela cabeça vir a ter qualquer relação com ele porque era uma figura distante e inacessível, com quem era difícil chegar à fala. As colegas teciam comentários bem dispostos sobre a sua figura; às vezes apreciações bem atrevidas sobre o seu aspecto, a sua personalidade, a fama de mulherengo, o mistério da sua vida pessoal, a paixão secreta que por ele nutria a menina Adélia, que se esforçava por negá-la com -o senhor director, para mim, é como um filho, ou como um irmão». Ercília estivera, contudo, sempre muito distante desses comentários. Não só ele lhe parecia muito mais velho como, sobretudo, possuidor de um estatuto que nada tinha que ver com o tipo de comentários que sobre ele se faziam. Além disso, a vida dela em casa era demasiado problemática para que se pudesse preocupar com o director. Tudo aconteceu de repente. Um colega de Ercília - que devia integrar uma pequena delegação conjuntamente com o director, dois directores adjuntos e três técnicos - adoeceu e ela foi convidada a substituí-lo. Eram três noites fora de casa, num calendário que a obrigava a um investimento pessoal significativo, mas era também um desafio e ela resolveu aceitar. Na primeira noite, viu-o sentado no bar do hotel e achou-o diferente, porque substituíra o fato e a gravata por um pullover sobre a camisa aberta no colarinho e calça de ganga. Pareceu-lhe que era outra pessoa. Ele reparou nela e dirigiu-se-lhe, perguntando se

desejava tomar alguma coisa. Tinha um cheiro muito agradável e distinto. Ela agradeceu mas recusou, e juntos aguardaram a chegada dos restantes elementos do grupo. Tinham decidido jantar todos no restaurante do hotel porque ainda tinham que preparar a reunião do dia seguinte. Durante o jantar, ele dirigiu-lhe muitas vezes a palavra e, de cada vez, ela sentia um grande desconforto e sorria forçada, aflita, porque não tinha grande afinidade com nenhum dos presentes e porque o director também a olhava com curiosidade e insistência. Um olhar que lhe causou uma impressão muito forte, como se emergisse dele uma luz que se reflectia na superfície da íris e que a envolvia. Quando chegou a hora de irem deitar-se, ela ficou a sós com Daniel no elevador porque o quarto dela situava-se no quinto andar e o dele no sexto e os restantes tinham ficado no segundo e terceiro pisos. O espaço do elevador pareceu-lhe muito pequeno e sentiu-se nervosa, como se sentia quando era adolescente. Ele incomodava-a, mas, paradoxalmente, atraía-a. No quinto andar a porta abriu-se e ele desejou-lhe «boa noite». Ela já tinha saído, quando a voz gutural lhe perguntou: «a doutora chama-se... como?». Ela virou-se para trás e disse «Ercília» e, sem perceber, como: «mas prefiro que me trate por Lia!». E ele, segurando no botão de abertura da porta: «Muito bem. Então, Lia, amanhã, se quiser, está convidada para jantar comigo. Boa noite-.

A porta do elevador fechou-se atrás de Ercília e ela procurou o quarto a saltitar de euforia. O convite colocou-a num grande alvoroço. Uma estranha inquietação impediu-a de dormir. Construía justificações, relativamente contraditórias, sobre a importância daquele convite; era já tarde quando, por fim, adormeceu. Sobre o dia seguinte, lembra-se apenas dos momentos que antecederam o encontro. A dificuldade de escolha, numa indumentária reduzida, a importância que para ela assumia cada pequeno pormenor, a sensação de insegurança que há tantos anos não experimentava, a excitação que lhe acelerava o ritmo cardíaco e a noção imprecisa de que estava a fazer algo que não devia, acompanhada de uma imediata certeza sobre a naturalidade de um acto tão simples como é um convite para jantar. O colar de pérolas, única recordação que a mãe lhe deixara, cintilou quando ela o colocou entre as mãos e o Oriente emergiu, como um bálsamo de luz, e ela esqueceu todos os detalhes da roupa e admirou, sempre fascinada, o brilho nacarado e o lustro das pérolas que lhe lembravam a distância, o mar, as lágrimas vertidas por um grande amor. Como se sentia distinta! O centro de gravidade passara a situar-se em torno do seu pescoço e ela saiu protegida pela essência daquele artefacto.

Os olhos de Daniel cintilaram, e na íris reflectiu-se a gema preciosa e a pureza da cor do colar de Ercília.

- Sabe que, para os Gregos, as pérolas significavam a preservação da juventude? - foram as palavras que ele lhe dirigiu, fixando o seu olhar profundo nos olhos dela. Ela sentiu-se atraída pelo olhar dele, mas não ficou embaraçada com o cumprimento.

   Ele comia pouco e, sobretudo, muito devagar. Falava pausadamente e a voz cava transmitia uma grande serenidade. Durante uma hora, falou de assuntos triviais, como a importância que atribuía às contas telefónicas nos serviços, que assumiam valores excessivos porque deveria haver chamadas de valor acrescentado, o que o preocupava, não tanto por causa dos montantes, mas pelas implicações em termos de imagem. Sobretudo se, como ele desconfiava, fossem telefonemas para as linhas eróticas. O assunto acabou por fazê-los rir a ambos, e ela sugeriu-lhe que solicitasse à Telecom uma factura detalhada, pelo menos para tentar detectar a origem das chamadas e para ver se se confirmava que eram dirigidas às linhas eróticas. Ele achou que era uma ideia excepcional e recrirninou-se por não ter pensado nisso. A conversa derivou para questões ligadas ao património e ele disse-lhe que ia fazer-lhe uma confidência sobre um outro assunto que também o preocupava. Um director de serviços, que ela conhecia, e que tinha sido substituído no ano anterior, levara um telemóvel e continuava a fazer uso dele, com a factura dos telefonemas a ser paga pelos serviços. Por um acaso, tinha sido detectado o problema e ele queria resolvê-lo. Mas tratava-se de um caso melindroso, até no plano das relações pessoais. Ela disse-lhe que era lamentável, mas que o marido também lhe contara algumas histórias incríveis que se passavam na Administração. Ela não podia dizer, com rigor, o nome da instituição, porque não se lembrava, mas era uma instituição que tinha um património considerável, e que era do Estado, de que constavam, entre outras coisas, um barco de recreio e aparelhos de ar condicionado e que, quando foi para fazer a passagem de titularidade para uma outra instituição, os serviços declinaram os direitos sobre a propriedade, só para evitar chatices com o comprador do edifício, ou coisa assim. Daniel pareceu-lhe ficar mais tranquilo em relação ao problema dos telefones e sugeriu que «o melhor é deixarmos os assuntos de trabalho» e, de forma desconcertante, atirou-lhe com um «fale-me de si-, que a deixou sem graça. Ela tartamudeou umas frases desconexas, que não havia muito para dizer, que era uma maçada para ele, e ele fê-la corar quando lhe pediu «fale-me do seu filho...». Demorou a compreender que o pedido não correspondia a nenhuma preocupação em particular, «...ou do seu dia a dia, sei lá... gostava de saber um pouco mais de si”. A voz, a serenidade, o olhar profundo, as sobrancelhas poderosas, as feições graves do rosto, mas sobretudo a segurança que sentia junto dele, conduziram Ercília para uma conversa que, certamente, não constava dos seus propósitos. Levou o copo de vinho à boca e saboreou-lhe o gosto. ”Uhm, é bom...-. Ele devia ser um bom apreciador. Tinham iniciado a refeição com um vinho branco, mais macio, e depois ele pediu aquele tinto que era muito agradável. Tinha um sabor final, depois de engolir, que ela não era capaz de referenciar, mas que ele disse que era um travo a qualquer coisa que lhe escapou. •Estou a ficar tonta...-. O efeito do álcool tornava-a disponível para conversar. «É curioso que me pergunte sobre o meu filho», disse ela, ao que ele respondeu: «Não. Desculpe se... quero dizer, foi só a título de exemplo, não quero que...», mas ela interrompeu-o levando o dedo indicador à ponta do nariz e emitindo um prolongado «SchiiuuU». Ele pareceu achar o gesto muito engraçado e deixou-a continuar. Ercília não tinha controlo perfeito sobre o que lhe parecia conveniente dizer. Foi de forma um pouco teatral que começou a falar. «Digo que é curioso, porque é um assunto sobre o qual nunca falo com ninguém... com quase ninguém.., e sobre o qual tenho necessidade de falar, percebe? O meu filho chama-se António e eu queria que fosse Pedro! Tudo começa aí. Eles cismaram que tinha de ser António e foi António que ficou». Bebeu um pouco mais de vinho e ficou a olhar para o copo que acariciava entre as duas mãos. «Depois roubaram-me o miúdo... quero dizer... roubaram em sentido figurado. Levaram-no para a terra dos avós, logo que ele nasceu. Até aí tudo bem, que para mim não era fácil concluir o curso e cuidar do miúdo... mas depois era porque não era fácil trabalhar e tomar conta dele...». Fez outra pausa. Bebeu um gole de vinho, pousou o copo, e olhou para Daniel. «Se calhar estou a maçá-lo com esta minha história...». Ele tocou-lhe pela primeira vez. Pousou ao de leve a mão sobre a dela e disse: «Não maça absolutamente nada. Fui eu que lhe pedi para me falar de si, lembra-se?», e retirou a mão. Esteve quase a pedir-lhe que a deixasse ficar, que gostava do calor dela, mas conteve-se e continuou a falar: «O meu filho... isto pode parecer, e se calhar até é, violento... mas o meu filho é um estranho para mim». Uma lágrima rolou nos olhos e ela engoliu em seco, tentando controlar a vontade de chorar. Ele deve ter compreendido o seu estado emocional porque lhe perguntou de que terra eram os sogros. «Da Covilhã», respondeu ela, tirando um lenço da mala e enxugando os olhos. «Você acredita que, quando estou sozinha com o meu filho, não trocamos palavra? Acredita que eu não sei o que lhe hei-de dizer?». Daniel parecia preocupado, mas muito atento. Perguntou-lhe que idade tinha o filho e ela disse-lhe «Onze». Ele bebeu um pouco de vinho, depois de aproximar o copo dele do dela e fazer ecoar o som do vidro com um toque suave entre as taças. Como uma carícia no corpo dela, um gesto de proximidade e de cumplicidade. Disse-lhe que não percebia como era possível ter dificuldade em conversar com uma criança e perguntou-lhe se era assim com as crianças em geral. Ela explicou que não, que gostava muito de miúdos, que a dificuldade era unicamente com o filho. «Isto acontece quando estamos só os dois. Sempre que chega um terceiro, falamos com naturalidade». Daniel olhou-a, transbordante de ternura, e pediu-lhe que não o levasse a mal mas se já tinha pensado em recorrer à ajuda de alguém, a um psicólogo ou a um psiquiatra, e acrescentou que, hoje em dia, existem muitos casos complicados e que as pessoas sozinhas nem sempre tinham as melhores condições para as superarem. Ercília mudou de humor e os olhos brilhavam quando sorriu para ele: «Psiquiatra? Quer que eu lhe conte a minha história com a psiquiatria?”. Ele disse que gostava mais de a ver assim a sorrir do que com aquele olhar triste de há pouco. ”Mas diga, diga...-. Ercília esperou que ele a servisse de mais vinho, agradeceu com um sorriso e bebeu um pouco mais, antes de continuar. «Desisti das consultas porque não tinha dinheiro para lá continuar. O Daniel conhece algum psiquiatra?». E sem esperar resposta: «Aquilo é uma coisa muito esquisita. Olhe, vou-lhe ser franca... eu acho que já bebi um pouco de mais e só estou a dizer disparates... adiante... No início, senti-me fortemente atraída pelo meu psiquiatra .,. acho que estou a corar... ai meu Deus!... que estupidez, o que estou para aqui a dizer!... Ele olhou-a daquela forma agradável que tinha de a olhar e explicou-lhe que era normal, numa certa corrente da psiquiatria clássica, acontecer essa aproximação entre a paciente e o médico. «Se é normal, não sei... Sei que o homem não era nada o estilo de pessoa que eu aprecio, era assim baixote e forte e eu fiquei fascinada por ele. A princípio ainda achei piada porque eu falava muito e ele ouvia-me com toda a atenção, embora não dissesse quase nada. Depois, à medida que o tempo passava, saía de lá com uma enorme sensação de frustração... •».

Duas manchas agitavam-se à frente dos olhos de Ercília, como corvos esvoaçando, lenta e silenciosamente, e uma voz conhecida flutuava com eles.

 

- Não a interrompi porque o seu estado era de divagação profunda, contemplativo. Creio, sinceramente, que não usufruiu da vista do Tejo, que estava demasiado calmo para a perturbar, nem terá notado que estamos defronte de sua casa...

- Desculpe, Daniel. Estava absorta, sim. Pensava no nosso primeiro encontro, por isso era por um bom motivo. Lembra-se daquela cena patética do psiquiatra? Pois era nesse ponto em que me encontrava.

- Então, declaro que lamento que o seu pensamento não produzisse as ondas que os meus olhos pudessem captar porque não me importaria de rever todas as cenas que se lhe seguiram e que, na minha opinião, foram singulares e de uma grande beleza.

Ela envolveu-lhe o pescoço com os braços e procurou-lhe os lábios. A mão direita dele empurrou-a delicadamente em sentido contrário, impedindo a consumação do beijo.

- Estamos mesmo defronte da sua porta de entrada...

- Boa noite - disse-lhe Ercília. - Na vida, não se pode ter tudo, não é? Abriu a porta do carro e dirigiu-se para casa sob o olhar atento de Daniel.

 

Firmino sentou-se a uma mesa baixinha como os chineses, os joelhos correndo risco de colisão e ficou voltado para o espaço aberto onde os candeeiros se seguravam ao tecto para não estorvar, vomitando luz sobre os panos verdes. Alguns casais e grupos de raparigas bordejavam os bilhares, as mãos agarrando, ambas, os tacos, ou uma segurando um cigarro e a outra o taco. As pernas cruzadas, uma em frente da outra, aguardando vez. Então dobravam-se, os olhos puxados pela extremidade do taco onde a ponta de giz azul reclamava o contacto com a superfície surpreendentemente polida da bola branca. Observou, repetidamente, aquele ritual, agora uma, agora outra, com o reflexo do uísque a invadir-lhe os olhos e os efeitos a tardarem, até ter vontade de encontrar alguém com quem pudesse conversar. Queria partilhar histórias, contar as suas incertezas quanto a Fátima, desvendar pormenores escabrosos, pelo prazer simples de o fazer, e descobriu-se como um homem só. «Os merdas dos meus directores de serviços não me servem nem para a mediocridade do dia-a-dia. Trabalham comigo como se trabalhassem com um computador. Só que a mim, fazem vénia...-. O empregado mudou o cinzeiro e olhou a garrafa que ainda não estava vazia. Perguntou-lhe se queria gelo e ele disse que para beber água não precisava de gastar tanto dinheiro. - Lá isso é verdade... - respondeu-lhe o empregado, que se afastou como um soldadinho com corda nas costas. •Uns merdas... Eu coloco um problema, eles arranjam logo outro como solução!-. Puxou uma fumaça e expirou, levantando no fumo o corpo das raparigas que dançavam na íris da sua miopia. «Vivo rodeado de burocratas e transformei-me num burocrata! Estou prenho da lógica da Administração. Vivo-a, como respiro. Já não me consigo distanciar. E a merda toda é que era suposto ser eu a reformá-la! Uma merda!». Sentia-se atado pela ineficácia. Ele próprio criara aquilo a que chamava «arquivo seis, barra, noventa-, para onde enviava os processos para os quais não encontrava solução. Só em circunstâncias excepcionais é que de lá saíam, «quando um desgraçado se lembra de reclamar”. Olhou a silhueta da rapariga que se debruçava no bilhar. ”O meu refúgio é o sexo. É nele que encontro a clarividência, onde readquiro a minha personalidade... as mulheres são todas umas...». Reprimiu-se e bebeu um gole de uísque. A actividade sexual era para Firmino o reencontro com o rapaz da sua juventude. O problema é que, em vez de um meio, transformara-a num fim em si mesma. -Fátima tem essa vantagem, de ser nova. Utiliza o corpo deforma apropriada, mas nota-se que ainda não foi possuída pela engrenagem, por essa máquina de pedidos de orçamento para inglês ver, de cadernos de encargos, de rituais conspurcados, viciados, que não servem para merda nenhuma, senão para sossegar consciências de burocratas...». Fitava o copo. «O importante é a forma. Mesmo que a forma só sirva para obstruir, protelar, tolher... não importa.... Tem é que servir para justificar, convencer, garantir. Uma perversidade intelectual. Um merdas que não faça nada, absolutamente nada, corre o risco de ter melhor avaliação que um desgraçado que fez mil merdas de grande qualidade mas que meteu a pata na poça num pormenor administrativo sem importância nenhuma».

Não tendo ninguém com quem conversar, Firmino falava consigo.

 

O empregado chamou um táxi e recebeu os quinhentos escudos, como gorjeta, que regularizavam o frete. Firmino entrou no banco de trás e deixou que o casaco de linho se amarrotasse nos quinze minutos que demorou a chegar a casa. Pediu uma factura, com um valor que incluía os cem escudos de gratificação ao motorista e meteu-a no bolso da camisa, para no dia seguinte apresentar nos serviços. Despediu-se dele, na certeza de que a partir daquela hora seriam prostitutas e paneleiros os que se sentariam no lugar que ele deixava vago.

 

Ercília certificou-se que o marido ainda não chegara e reprimiu a custo a vontade de beber um uísque e fumar um cigarro. Tinha tomado a decisão de, primeiro, assumir a gravidez junto do marido, só depois conversar com Daniel e, mesmo que ele se mostrasse indisponível para aceitar o facto, ela queria ter aquele filho, por várias razões, até por não ter coragem para efectuar um aborto. Não sabia muito bem como começar a conversa com o marido e receava a sua reacção, mas estava decidida a correr todos os riscos. Abriu a torneira da água quente e preparou um banho de imersão, embora já fosse muito tarde e Firmino pudesse chegar a qualquer momento. Queria que a conversa decorresse com a serenidade possível e tinha a impressão de que do seu corpo exalava o aroma do adultério que a denunciava pelo estado de graça, pelo relaxamento, o que, a verificar-se, tornaria a conversa muito difícil. Entrou na água, com os cabelos protegidos pela touca, uma figura de Renoir, e deixou-se tonificar, num banho macio da espuma que lhe envolvia as pernas, lhe cobria o sexo, a abraçava delicadamente, como Daniel fizera naquela primeira noite, quando subiram ao quarto e ela tardou em tomar consciência de si, só muitas horas depois de ter perdido a cabeça, ter dispersado e misturado os sentidos, ter deixado sumir o juízo, quando a música deixou de se ouvir e ela se descobriu a partilhar um cigarro com ele, numa atitude displicente, como se o que acabara de fazer o fizesse muitas vezes, como se aquele acto único, desde que conhecera Firmino, fosse um gesto regular, de mulher habituada a promiscuir-se com outros homens. Nunca pensara ser infiel ao marido. Para ela, o sexo não fazia sentido desligado do amor. Era uma maneira de duas pessoas explicitarem um sentimento, não uma entrega física para saciar pulsões e desejos básicos. Nisso se distinguia a natureza humana dos restantes animais, na capacidade de ter pudor perante os instintos mais elementares e a sua satisfação. Para ela, Firmino foi, durante muito tempo, mesmo depois das primeiras desilusões, o seu homem, aquele a quem podia entregar-se, com quem podia partilhar o corpo e o espírito. Foi também no acto de entrega que o amor reclama, que ela começou a descobrir que ele já não era o mesmo homem; cada dia que passava descobria um desconhecido de contornos mais precisos naquele ser humano que consigo habitava, que se parecia cada vez menos com o homem que ela amou, por quem se apaixonou e com quem decidira viver a sua vida. Por isso, não era mais a mesma quando faziam amor. Deixara de ter condições para se entregar como outrora porque tinha reservas e as reservas são condicionantes muito poderosas no amor. Tudo começava a ser diferente, numa espiral de destruição que a cegueira vai tentando ocultar, que o dia-a-dia vai tentando remediar, mas que o coração denuncia, porque não aceita um errante pela casa, partilhando mesa e cama como se a elas tivesse direito uma vez por todas. Firmino tornara-se no hóspede que Ercília detestava, previsível e rotineiro, incapaz de um gesto surpreendente, ansiando os chinelos e consumindo horas de televisão, sem o esforço de uma conversa, sem a vontade de uma loucura. Preocupado com o serviço, igual ao serviço.

Saiu do banho com a espuma deslizando numa corrida lenta em direcção aos pés e enxugou-se no toalhão felpudo e macio. Vestiu uma túnica comprida, em viscose azul-marinho, sem nada por baixo, desprendeu os cabelos e sentou-se, procurando, com as mãos, os sinais impossíveis que o ventre não lhe podia transmitir.

Lembrou-se de Daniel, à porta de sua casa, depois de ter percorrido com ela as ruas da cidade, tentando ser simpático e ela divagando, sem se dar conta de que estava com ele, pensando nele, relembrando o primeiro encontro, quando lhe contava a cena da sua relação com o psiquiatra baixinho que a tratava a propósito da relação difícil que mantinha com o filho. A tentativa de Daniel para enquadrar a acção do psiquiatra, quando ela reduzia a sua eficácia a menos que zero, quando lhe dizia da angústia de ter que pagar uma consulta que, invariavelmente, lhe reclamava uma visita à infância, num percurso tortuoso, difícil e demorado, onde cada hora lhe consumia nove mil escudos, contadas a quarenta e cinco minutos cada, quer sim quer não, nem um minuto mais. O ar dele, espantado, quando lhe disse que a maioria das vezes entrara muda e saíra calada e que, na penumbra, onde o psiquiatra escondera o olhar, apenas se ouvia o silêncio de quem não tem nada para dizer, de quem tem a paciência toda para aguardar o estertor dos quarenta e cinco minutos, ponto final parágrafo, «volte depois de amanhã...” e traga mais nove mil, que Freud para aqui, Freud para ali. Contou-lhe da alegria que sentiu por ter tido a coragem para quebrar, para partir, para colocar um não no sítio certo. Disse-lhe que, pelo meio, ficou uma relação destruída com os pais, a quem, sem saber o como e o porquê, atribuiu todas as culpas da sua relação com o filho, a quem culpou e a quem nunca mais quis ver, coisa que, verdadeiramente, lamentava. Daniel a explicar-lhe que o problema não estava na psicanálise mas, eventualmente, no psicanalista, que isto das profissões «é como em tudo, há os bons e há os maus e que «uma andorinha não faz a Primavera...” e ela a olhá-lo, aquele mimetismo labial que a fez levantar, tropeçar sem cair e beijar sem saber como. Depois, na subida ao quarto, o vinho diluiu-se no suor e ela voltou a si, lúcida e serena como uma deusa, naquele quarto de hotel onde descobriu que não tinha vergonha da sua nudez, que a sua vida estava pronta para mudar.

A única coisa que, verdadeiramente, a deixava inquieta era o facto de Daniel ser seu superior hierárquico e isso poder ser interpretado como a razão que a levou a aproximar-se dele. Ideia que ela não aceitava e, por isso, decidira que jamais, em circunstância alguma, beneficiaria do que quer que fosse na sua carreira, enquanto estivesse apaixonada por ele. Salvo no amor. Aí queria tudo e a tudo estava disposta.

A chave rodou na porta da rua e ela percebeu que o marido chegava. Correu para a cama e deixou-se cair sobre os cobertores, como se estivesse adormecida, mas a respiração tinha acelerado e ela sentia-se inquieta, sem ter capacidade para se controlar.

 

Fátima cedera o quarto a Michel e Dominique e deitara-se no sofá-cama da sala. A música caía, baixinho, pelo amarelo-torrado das paredes, cobrindo os sons que o casal produzia, encantado, na noite portuguesa. O livro mordia-lhe o dedo indicador da mão esquerda, enquanto ela se concentrava nos acordes da soprano Julia Kaufman - Como posso estar feliz-, um clássico barroco de Beethoven. Esperava que a noite escurecesse bem, para que o dia não tardasse.

Michel e Dominique eram das poucas pessoas a penetrar no seu espaço, na sua intimidade de referências físicas. Cedia-lhes a casa e a cama, sabendo que cedia muito. Naquele caso não se tratava propriamente de cedência, mas partilha. com aqueles dois, Fátima vivera experiências de comunhão absoluta. Se lhe apetecesse, dirigir-se-ia ao quarto e partilharia com eles o espaço e a festa. Sabia que qualquer um deles teria nisso prazer e ficaria feliz. Sabia que a admiravam, que eram seus amigos, que nutriam a tremenda cumplicidade de quem se ama. Qualquer um deles aceitava a sua ausência como aceitaria a sua presença. Isso tornava-os diferentes. Ela não gostava de cárceres. Não gostava de se sentir presa, nem a pessoas nem a coisas. Nenhum homem fora autorizado a visitar a sua casa, pisar o seu chão, encher o seu espelho, ocupar a sua cama, conspurcar a sua latrina, retirar-lhe o silêncio ou roubar-lhe as palavras. Michel e Dominique eram diferentes, porque eram ela dividida em duas partes, uma desfocagem que ela regularizaria ao final do terceiro dia, quando partissem e ela voltasse a ficar una e indivisível. Uma visão desfocada no túnel do tempo, um percurso que a transportava a França, ao cheiro do casse-crôutes, ao som dos flippers, às manifestações de rua, ao frio das margens do Sena, ao inqualificável Bois de Bologne...

Na sua terra, no seu Portugal, queria, sobretudo, exercitar a sua ambição. Um exercício sem confusões.

Alguma coisa se passara de errado para que aquele homenzinho, bolorento de naftalina, se tivesse permitido aquela expressão: «Comei-vos uns aos outros”. Era um sinal De que não estava a conseguir o necessário afastamento ou o distanciamento necessário. Precisava de percepcionar essa distância para poder exercê-la. À margem daquele nível baixo a que corria a Administração. Fora da corrente, para poder subir na montanha. Evitar imiscuir-se no mexerico geral. Evitá-lo era impossível porque dele se alimentavam famílias inteiras de zelosos funcionários. Mas contorná-lo, sim. Manter distância e não ceder à facilidade. Aquele doutor, Fonseca de Oliveira, disse aquilo do modo como ela sabia que as coisas deviam ser ditas. Carregado de força, sem crítica, nem cinismo. Apenas certeza na afirmação. Uma ofensa no infinitivo, com ponto de exclamação.

Firmino era o homem ideal para ela estabelecer uma relação naquele momento. Atraía-a o aspecto grisalho, a experiência dos cabelos, a sabedoria da barriga, ligeira e proeminente, o branco dos sentidos, a impulsividade do comedimento, a vontade do queixo duplo, a barreira do sorriso. No fim daquela Comissão ele ia promovê-la, mas ela esperava que ele o fizesse antes disso. Ficara baralhado com a recusa para o jantar, mas ainda não era tempo para lhe explicitar as razões dessa recusa. Guardaria a explicação para o momento do convite.

A música caiu no silêncio e ela poisou os pés descalços no chão da sala. Um ruído de cama chamou por ela no quarto ao lado, que era o seu. Colocou música e voltou ao sofá-cama. Teve um impulso para telefonar ao seu director, mas conteve-se. Eram quase duas da madrugada. Deitou-se no Canto da Sereia de Haydn e adormeceu.

 

Ele sentou-se para descalçar os sapatos e tirar as meias e viu-a, de borco, estendida na cama, mostrando a carne das pernas, cuja cor era de carne branca, e o desenho apetitoso da nádega que desaparecia no contorno da túnica na respiração agitada.

Ela. Que resistia à pressão da Administração, como ele nunca soubera. Comportando-se sempre com a postura adequada. Não lhe conhecia os frémitos da ambição nem a desordem das recriminações. Trabalhava na Administração com a serenidade impossível, com a distância inconcretizável.

Fixou-lhe os pés e pensou que não era digno dela. Uma mulher que era sua. Literalmente, sua. Uma lua-de-água, só para si, que ele maltratava, mas subsistia na sua qualidade de nenúfar branco. Uma mulher que nunca o traíra, na qual ele tinha a confiança absoluta. Um corpo que respirava inocência, ali a dois metros do seu olhar. Deitou-se ao lado dela e a frescura da perna, o sabor da carne, transtornaram-no. Subiu-lhe nas costas e procurou-lhe o sexo com precisão. Beijou-lhe o canto da boca, abafando a recusa que ela lhe pedia.

Não disse uma única palavra. Apenas uma espécie de queixume Aah... aah... aah e uma visão fugaz da boca de Fátima ferrada nos seus olhos. Aah... aah... aah. Uma, duas, três vezes. Depois, Aaaaah!... Aaaaaah! E um silêncio súbito, húmido, pairando junto ao rosto.

 

Encheu o copo de uísque até metade e voltou a deitar-se nu, com um cigarro aceso. Aliviara a tensão ejaculando, mas fizera-o desajeitadamente, à pressa e sem reparar na mulher. Aquela assessora perseguia-o como sombra e poisava nos corpos e nos objectos que ele olhava, tornando-lhes a forma. Ercília, que regressava do banho, parecia-lhe agora menos fresca e com menos virtudes.

- Da próxima vez, vê se te mexes. Nem que seja para fazer de conta - disse, atribuindo-lhe a culpa da qualidade do acto.

 

Ercília foi surpreendida pelo bafo de uísque que lhe alagou o rosto e invadiu as narinas, antes de compreender que o marido se grudara nas suas costas e metia o sexo na largueza das pernas que ela, incautamente, deixara afastadas e desprotegidas de roupa. Tentou pedir-lhe que a deixasse dormir, mas foi sufocada por um beijo bêbado no canto da boca. A perna elevou-se no ar, empurrada pela mão fina, e o rosto congestionado do marido passou-lhe pelos olhos, mergulhando no pescoço até ela sentir que ele a fornicava desreguladamente.

Ela não compreendia: o peso tão leve de Daniel; aquele álcool tão pesado do marido. Um animal aliviando-se como borracha. Uma náusea. As entranhas conspurcadas. Uma corrida ao chuveiro para expulsar a sujidade, até se sentir purificada de novo, como depois de ter feito amor com Daniel, sem precisar de se lavar. Esfregou, vigorosamente, a escova contra os dentes, enxaguando abundantemente, até voltar-lhe o gosto macio dos beijos de Daniel.

O marido estava deitado com o copo de uísque cobrindo-lhe a nudez. Vociferou-lhe uma acusação: «Da próxima vez, vê se te mexes. Nem que seja para fazer de conta». Olhou-o e o seu olhar transportava um assomo de vingança.

 

- Não tomei contraceptivo. Espero não ter ficado grávida... e deitou-se, de costas para ele.

A noite surgiu no desligar do candeeiro. O cigarro aceso queimava os restos de noite que os envolvia, numa acção desesperada. Firmino fumou outro cigarro no silêncio escuro do quarto porque não lhe chegava a vontade de dormir. «Era só o que me faltava!», murmurou, quando se deitava para aproveitar o que lhe sobrava da noite.

Ercília, que se mantinha nervosa, mas acordada, pensou que se tinha precipitado.

 

Quando Firmino limpava cuidadosamente os cantos da boca e se preparava para se levantar da mesa, Ercília disse-lhe, controladamente, que estava grávida. Ele segurou a garrafa pelo gargalo, gesto que não lhe era habitual, e ia perguntar-lhe se queria, mas acrescentou: - Dadas as circunstâncias, é melhor que não bebas.

Os barulhos provenientes do andar de cima preencheram o silêncio que se instalou entre os goles de vinho que Firmino sorvia, olhando a mulher como se a visse pela primeira vez. «Ó Zé, não te volto a avisar...». «Ópaizinho, tenho o dedo entalado, porra!». Ouviu-se o ruído da água expulsa pelo autoclismo e, de imediato, o som de uma torneira que se saciava autonomamente.

- Tens a certeza? - perguntou-lhe Firmino depois de esvaziar o copo, enquanto voltava a enchê-lo.

- Tenho... - retorquiu Ercília, sem explicar como.

- E estás disposta a ter o filho? - a voz parida de Firmino acompanhava os olhos na direcção do rosto dela. Procurava os sinais de culpabilização da mulher, mas só descortinou a tranquilidade inquietante do seu olhar. Nem por um momento se lembrou de a questionar sobre a certeza da gravidez.

- Sim, quero ter este filho - respondeu-lhe, segurando nos pratos para os levar à banca.

- Deixa-te estar aqui... para conversarmos um pouco suplicou-lhe Firmino, de modo imperativo.

- Não há muito para conversar. O que está feito, não tem possibilidade de ser emendado - e levantou-se, seguida pela incompreensão do marido.

- Não é disso que quero falar. É do filho, de nós... de como podemos recompor as coisas... Se for rapaz, poderá chamar-se Pedro, como sempre quiseste. E haverá de viver connosco se for essa a tua vontade. Será uma boa altura para o António regressar a casa, constituirmos uma família, acompanhar o crescimento do irmão, usufruir da nossa companhia que nunca teve... - E após uma pausa: - É disso que te quero falar. Que este nosso filho ajude a dar uma volta à nossa vida, de modo a fazê-lo feliz... de modo a sermos felizes também.

As lágrimas de Ercília naufragaram-lhe as palavras. Preferia que ele não lhe dissesse nada. Que fosse à casa de banho, como era seu hábito, esfregasse violentamente os dentes imaculados, cuspisse três vezes, depois de gargarejar, e a deixasse em paz. Nas lágrimas de Ercília podia ler-se que o filho não era dele, que ela não cabia naqueles seus planos, que era um filho de Daniel, o homem que a redescobrira, que lhe colocara o fruto no ventre, o homem que ela amava por si e pelo seu filho.

Firmino não sabia ler as lágrimas de Ercília. Via no choro dela uma reacção emocionada às suas palavras, à metamorfose que o tomara de súbito, surpreendendo-o a ele também, àquela sensação estranha de querer ser pai de novo, ele que nunca pensara nisso. Lágrimas que o fizeram levantar, passar a mão pelos cabelos esquecidos da mulher e abraçá-la, ternamente, como há tanto tempo não fazia.

  • •Ó Zé, anda para a mesa, porra!». «Já vou, paizinho». Vozes repetidas, no andar de cima, onde só o silêncio da mãe era permanente como se escutasse o sentido das lágrimas da vizinha de baixo.

Ercília libertou-se do abraço do marido e fungou duas vezes, arrumando o choro num lenço de papel que enviou para o saco do lixo. Refugiou-se na casa de banho e libertou um vómito seco, de expressão agreste, que lhe ardeu ao passar na boca. Lavou a cara e os dentes. Olhou-se no espelho e voltou a lavar a cara e voltou a lavar os dentes. Sentou-se na sanita e pediu desculpa a Deus porque causara mal a toda a gente e muito mal a si mesma. Dissera ao marido da gravidez como vingança e ele ouvira-a como uma recompensa. O seu pecado começara por ser um, mas ela transformara-o em dois. Duplicara o pecado. A sua consciência, conduzida por Deus, levara-a ao caminho errado e ela não sabia o que fazer. Precisava de falar com Daniel, ouvir a sua voz, dizer-lhe que esperava um filho seu, que o marido julgava ser dele. O marido que a esperava do lado de fora, ansioso por partilhar com ela um filho que não lhe pertencia, um filho que ele julgava ter resultado de uma fornicação embriagada e desesperada, mas que era o resultado de um acto de amor sublime entre ela e Daniel.

Pediu-lhe que a deixasse em paz, que precisava de se isolar para pensar na sua vida, que ia regressar, por uns dias, a casa de Lúcia, no Norte, para colocar em ordem os seus pensamentos.

- Mas ainda há tão pouco tempo lá estiveste! - disse-lhe Firmino, como se não fosse lógico que ela o abandonasse, agora que tudo mudava nele, como se a gravidez os tivesse pegado a ambos. - Mas se achas que é muito importante... eu posso ir contigo.

- Não quero! - gritou-lhe, até se fazer silêncio e ela pedir-lhe desculpa. - Mas apetece-me estar sozinha.

Ele foi colocar os chinelos no lugar, debaixo do sofá da sala, e calçou os sapatos. Pegou no casaco e disse-lhe «não venho tarde» antes de bater a porta com uma pancada seca. O motorista estava à sua espera e tinha no rosto a perplexidade daquela hora de atraso em relação ao horário previsto. E ficou muito embaraçado quando Firmino lhe disse:

- O senhor Floriano, hoje, vai beber um copo comigo. vou fazer um telefonema e depois é tudo por minha conta - explicou-lhe enquanto pegava no telemóvel e discava o número que Fátima lhe escrevera num post-it amarelo.

- Ainda que mal pergunte, o senhor director vai-me desculpar. .. mas aconteceu alguma coisa?

- vou ser pai, homem de Deus, não acha que isso merece uma celebração?

Floriano acelerou o carro, como se o assunto fosse consigo, e nem prestou atenção a Firmino que dizia à doutora Fátima que hoje não se podia encontrar com ela, mas que a convidava a almoçar, terça-feira próxima. «Sim, dia catorze-.

 

A janela ampla descobria o Tejo e permitia uma refeição visualmente rica. Um prato de ostras gelava, enquanto Daniel olhava o empregado que servia um vinho Cartuxa branco. Ercília levantou a mão direita para lhe indicar que era suficiente e ele contornou Daniel para o servir também. Daniel percebeu o embaraço de Ercília em relacionar-se com as ostras. Olhou-lhe para o pescoço que se encontrava desprovido de qualquer ornato, mas muito macio, e disse-Lhe:

- Lembro-me que a Lia trazia um colar de pérolas, muito bonito, na primeira vez que jantámos sozinhos - ela levou a mão aberta ao pescoço como reacção e verificou que não colocara colar - e eu, na altura, referi a importância de que as pérolas se revestiam para os Gregos, lembra-se? - E tomando o ligeiro movimento da cabeça como anuência: - Estes moluscos que aqui vê são criados em viveiros, denominados ostreiras, e destinam-se a ser comidos. As que contribuem para evidenciar a beleza das mulheres, são as ostras perlíferas. Pode comer sem receio - e levou uma ostra à boca, depois de a cobrir com limão.

 

O gesto fez-lhe uma grande impressão e Ercília não conseguiu evitar um vómito. Pediu licença para se levantar, que não demorava, que desculpasse. Segurou-se ao corrimão de madeira que acompanhava as escadas, controlou a tontura que quase a fez cair e dirigiu-se à casa de banho que ficava no andar de baixo. Deixou correr a água fresca da torneira sobre os pulsos até sentir-se um pouco melhor.

Subiu as escadas, com o corpo muito direito, e viu Daniel de pé, conversando com um casal. Dirigiu-se a ela e colocou-lhe a mão no braço, junto ao cotovelo. Perguntou-lhe se estava bem e acompanhou-a à mesa. À medida que se aproximava, reconheceu o marido que, ao vê-la, mostrou surpresa e preocupação.

- Então, Ercília, que se passa... estás bem? - perguntou, segurando-a pelos ombros, enquanto Daniel se afastava um pouco.

Apesar do embaraço, Ercília ficou-lhe agradecida porque evitara que ela caísse, tal foi a falta de forças que a acometeu. Sentou-se e olhou, aflita, para Daniel. Pelo modo como falava com a rapariga, deduziu que aquela era a sua filha, Fátima, a que trabalhava com Firmino. Daniel reparou no seu olhar e apresentou-lhe a filha.

- Esta é Fátima, a minha filha. - E estranhando-lhe o ar lívido:

- Sente-se melhor?

- Estou bem, obrigada. Muito prazer - estendeu a mão a Fátima, que lhe devolveu o cumprimento com um olhar subtil.

- Sentes-te bem? - repetiu-se Firmino, que não esperava encontrar a mulher num restaurante de luxo.

- Eu estou bem. Foi apenas uma crise passageira. Por favor, não se preocupem comigo - procurou um lenço na carteira, sem ter necessidade de o encontrar.

- Se a doutora Ercília não vir inconveniente, podemos almoçar em conjunto - a voz de Daniel era circunstancial e a atitude de grande formalidade.

- O que é que acha? - perguntou Fátima a Firmino, surpreendido com a situação.

- A única reserva que coloco é que me deixem ser eu a convidar. - E olhando para Ercília: - Por mim, aceito adiar o motivo que aqui nos trouxe - continuou com um sorriso dirigido a Fátima -, atendendo à companhia - e apontou para Ercília e Daniel.

- Pois façam o favor... - rematou Daniel, preparando uma cadeira para a filha.

Ercília achou que era falta de gosto e teve vontade de sair, mas não teve forças que lho permitissem. Era uma situação bastante constrangedora, embora ela parecesse ser a única que, verdadeiramente, se sentia desenquadrada. O olhar suplicante a Daniel, para que não os convidasse, perdeu-se na incompreensão de quem não tinha o hábito de assim comunicar e ela não insistiu com receio de ser compreendida pelo marido que a conhecia melhor.

A filha dele era muito elegante. Notou como se parecia com a fotografia da moldura que vira em casa de Daniel, por sobre a lareira. Os olhos castanhos, determinados, poisados na pele, sobressaindo na debilidade das pestanas e, sobretudo, a altivez do pescoço, um acréscimo de personalidade, um sinal de forte presença. Quando os olhos dela poisaram nos seus, Ercília descobriu que ela tinha um caso com o seu marido. Uma mulher percebe essas coisas como distingue um perfume. Custou-lhe segurar o olhar, receando que a rapariga descobrisse a sua relação com o pai, que se encontrava em animada conversa com Firmino, mas não podia deixar de o fazer.

Fátima olhou a mulher sentada à sua frente. Tinha um azul escuro no olhar que se mostrava intranquilo e as feições do rosto revelavam mais uma doméstica que uma executiva. Seria pouco provável que fosse amante do seu pai porque parecia-lhe inocente nas palavras e virtuosa nos gestos. Talvez doente, dada a debilidade do seu sorriso e o volume da voz que se sumia como fio de seda. Tivera uma reacção muito desengonçada quando os vira e o pai parecia-lhe mais agitado do que era habitual, o que podia configurar um caso entre os dois. Não. Conhecia os pruridos do pai com as mulheres. Sobretudo depois da morte da mãe. Quanto mais casadas!

Quando verificou o olhar firme segurando o seu, percebeu, por debaixo da firmeza aparente, um fragmento de dúvida. E modificou a sua opinião. Havia qualquer coisa entre aquela mulher e o seu pai. Só lhe faltava saber até que ponto.

Firmino e Daniel conversavam sobre questões relacionadas com o quotidiano das organizações que dirigiam e ambos concordavam que era imperioso proceder a profundas alterações nos aspectos organizacionais e funcionais. Sobretudo, era preciso criar uma nova atitude que colocasse a Administração ao serviço dos cidadãos, o que não era fácil, na opinião de ambos. Preconizaram a necessidade de acções de formação, a financiar pelos fundos comunitários, e ficaram tranquilos quando reconheceram que nenhum deles julgava o outro em situação censurável, com a mulher que convidara para almoçar e, por isso, prepararam-se para comer.

O empregado trouxera mais um prato de ostras e, durante alguns segundos, Ercília observou em silêncio o ritual de gestos com que os três contribuíam para o seu mal-estar e tentou pensar noutra coisa de modo a evitar o regresso do enjoo.

Estava a ser difícil dizer a Daniel essa coisa singularmente simples: «Estou grávida, de si, Daniel». Hoje, que fora decidida a contar-Lhe tudo, quando não lhe restava qualquer dúvida nem reservas, o surgimento do marido colocara um ponto final nas suas intenções.

Firmino sorriu para a sua mulher pela sétima vez. Um diabo de uma coincidência, no momento mais inoportuno. Fizera um exercício de contrição e estava entusiasmado com a perspectiva de voltar a ser pai, com a emoção redobrada em relação à primeira vez, e decidira colocar um ponto final, uma pausa naquela tentativa de conquistar a assessora. Por isso a convidara para almoçar em troca do convite que ela lhe dirigira para um jantar. Era sua intenção colocar as coisas de modo claro, dizendo-lhe que ia ser pai, que isso não obstava a que continuasse a sentir por ela uma forte atracção, mas que uma novidade em cima de outra lhe provocava incerteza. Tomara uma decisão. Mas estava claro que isso não diminuía a vontade que tinha dela. Se ela concordasse, poderiam encontrar-se uma primeira e última vez, sem exemplo, mas gostaria que ela estivesse de posse do conhecimento de toda a situação.

O director da mulher era pai da Fátima, coisa que ele esquecera, mas que bem podia ter-se lembrado porque o Joaquim de Sousa, quando lhe falou para a aceitar como assessora, fez referência a uma data de gente importante e ia jurar que falara no doutor Daniel Soares, o viúvo. Na altura não relacionou a bota com aperdigota, quer dizer, que era pai dela, mas, vendo melhor, lá estava o apelido a confirmá-lo. O viúvo! Que era director de Ercília. Que, por um azar dos diabos, encontraram-se no mesmo dia, à mesma hora, no mesmo restaurante. Ainda chegou a pensar que estava perante um duplo flagrante, ele e a assessora de um lado e a mulher e o director de outro, o diabo seja surdo, mas pensar isso de Ercília até lhe dava vontade de rir, para além de ser ofensivo. Ela estava com um ar tão frágil, devia ter que ver com a gravidez. Firmino afastou estes maus pensamentos com a concordância, em resposta a Daniel, sobre um entrecosto na brasa. Só não deu anuência ao Cartuxa tinto que ele sugeriu para acompanhamento.

- Hoje é um dia muito especial para mim. Como são meus convidados, espero que me deixem escolher um vinho de acordo com a ocasião - e pronunciou claro em direcção ao empregado que esperava a ordem: - Traga um Barca Velha de oitenta e cinco.

O empregado perguntou-lhe, agradecido:

- Levemente chambreado?

- Se estiver à temperatura ambiente, basta que o decante respondeu-lhe, vendo-o afastar-se, depois de uma vénia pouco pronunciada, mas sincera.

Firmino voltou-se de novo para os comensais e, poisando a sua mão na mão descuidada de Ercília, abandonada em cima da mesa, explicou as razões da celebração:

- Ercília está grávida. E eu vou ser pai!

 

Durante um mês, Ercília tentou, sem sucesso, contactar Daniel. A sua gravidez ia crescendo à medida da sua angústia. Firmino tornara-se insuportavelmente disponível, enquanto crescia nela uma vontade, de igual grau, de o querer ver longe de si. Andava sofrida com a imagem que Daniel devia fazer dela e pensava frequentemente na crueldade das circunstâncias. Aquele almoço tinha sido o momento mais delicado e complexo da sua vida. Firmino, estava certa, tinha perdido a amante no momento em que anunciou a alegria de ser pai. Daniel passara a odiá-lo por dois motivos: descobrira que mantinha uma relação com a filha; supunha que engravidara a mulher que ele amava. Fátima enfurecera-se com a desfaçatez do seu director, que a tratara como capricho circunstancial, embora se congratulasse com o erro de previsão que a fizera supor existir uma relação entre o pai e Ercília. E ela construíra um momento de vingança à custa do que lhe era mais querido: Daniel. O pior é que a melhor razão de que se podia socorrer para se separar do marido, a relação dele com Fátima, deixara de existir pela metamorfose idiota a que só um ser masculino podia estar sujeito.

Subiu no elevador que a levava ao seu local de trabalho com o presságio de que, finalmente, encontraria Daniel e colocaria um ponto final no imbróglio em que, apesar da sua vontade, se foi metendo. Um ar de chumbo abafou-a quando a porta se abriu e ela penetrou no pequeno espaço da recepção. Ercília sentiu um calafrio que lhe produziu um esgar no rosto, um visgo de transpiração, e sentou-se numa das cadeiras destinadas aos que costumavam esperar que os atendessem. A menina Adélia, vestida de corvo, impregnou-lhe o rosto com a mão húmida e besuntou-lhe a alma com lágrimas profusas, misturadas de pronunciados soluços e espasmos corporais.

Ercília foi transportada para um gabinete pelos braços poderosos do contínuo e pelos gritos lancinantes de Adélia, que tinham sido a causa do seu desmaio. Quando a cor branca do tecto lhe agitou a retina, não compreendeu de imediato o que lhe acontecera. Percebeu que estava rodeada de gente e ouviu o ciciar lamurioso à sua volta, segredista e comprometido. Manteve os olhos fechados para controlar as pancadas ansiosas e preocupadas do seu coração e escutou com mais clareza as vozes de pessoas, que já conseguia identificar. A mais conspícua era a da menina Adélia, quer pelo timbre quer pela frequência. Um manto de água bateu-lhe, inesperado, na testa e um bloco de notas agitava-se freneticamente junto ao nariz, abanando um lastro de fresco com o que pretendiam reanimá-la. -O melhor será telefonar ao marido...”, sugeria uma voz que não conseguiu reconhecer. -Ó dona Ofélia, já telefonou para o cento e quinze?», logo seguido de: -Isto hoje é só desgraças!-. A chegada de um novo personagem provocou uma nova agitação e Ercília ouvia mulheres a chorar, sem compreender a razão, sem saber se eram destinadas ao seu estado. Uma conversa insidiosa, hostil e devastadora rompeu-lhe os tímpanos até fazê-la enlouquecer de mentira e de raiva. -E morreu de quê?» - perguntava uma voz de homem, efeminada. ”Dizem que de tristeza!” - respondeu uma voz de mulher, feminina. ”Era um homem marcado pelo destino» - chorou Adélia. «Um homem sem sorte, uma jóia de pessoa. A senhora doutora, que o conhecia bem, não aguentou a comoção, deu-lhe uma coisa e está neste estado desde que chegou e se agarrou a mim a chorar».

Pelo rosto de Ercília deslizavam pesadas lágrimas secas, a raiva ignorante e incrédula, os resíduos do presságio que a alimentara, de modo enganoso, a recusa em acreditar na partida que lhe pregavam, a vontade de permanecer desfalecida até perecer.

 

Firmino acabara de falar com o chefe de repartição. O senhor Faria viera muito alvoroçado reclamar «umapunição exemplar contra a menina Felismina, sua secretária, e aquele rapaz das fotocópias, o que entrou para os serviços com uma cunha do doutor Fernando, um tal Fausto, que eu apanhei descompostos, numa cena de grande pouca vergonha, na reprografia. Ela com a saia toda subida, que Deus lhe perdoe que se lhe via a passarinha, e ele ainda todo empertigado, quero dizer... não sei se o senhor director me está a acompanhar.,. pois ainda se virou para mim, cheio de arrogância, a perguntar se eu não sabia bater à porta. O senhor director tem que tomar medidas, isto é inadmissível». Firmino perguntou-lhe se mais alguém tinha presenciado a cena, ao que ele redarguiu: «O senhor director não está a desconfiar de mim, pois não?-. Explicou-lhe que não se tratava de nada disso. Claro que acreditava nele, isso estava fora de causa. Mas uma coisa era só ele, que era uma pessoa idónea e com grande sentido de serviço, ter presenciado a cena; outra era ter comentado com mais alguém, que aí nunca se sabe. «O senhor director, pela minha boca, foi o primeiro a saber...». Ora isso é que era importante.

- Eu vou chamar os dois, aqui à minha presença, e vou ter a atitude mais adequada. Agradeço a sua preocupação em falar primeiro comigo; o senhor sabe que eu não sou homem para elogio fácil.

O senhor Faria saíra havia menos de dez minutos. Firmino pensava na melhor maneira de colocar o problema à secretária. Estava perante uma questão melindrosa e precisava de actuar com discernimento. Bateram à porta. Como não entraram, soube que não se tratava de Felismina. - Entre. - A cara do senhor Faria tinha deslizado em direcção ao queixo e os olhos deslizaram também. Era uma máscara do homem que ainda há minutos a tinha redonda e vermeIhusca de raiva, içada e inchada.

- Senhor director... - tartamudeou.

- Diga, homem, que lhe aconteceu? - esperava, ansioso.

- Trata-se da sua esposa. Desmaiou no serviço! - silvou o senhor Faria.

Firmino levantou-se de um salto e agitou o chefe de repartição como quem vira um casaco em busca de moedas.

- E o bebé?... Teve problemas com o meu filho?... Homem, desembuche! - era evidente o desespero do director.

   O senhor Faria pediu-lhe que mantivesse a calma, que não haveria de ser nada, o pior era com o pai da doutora Fátima, «que esse, já não tem solução» - e preocupado: - «Quem é que vai dizer à pobre senhora?».

- Não estou a entender nada do que me está a dizer. Ó senhor Faria, explique-se!

Ele acabou por dizer que estava uma senhora ao telefone mas que era só para saber se queria que passasse a chamada. Firmino correu para o telefone e ouviu entre choro e rejeição as informações trágicas da menina Adélia: - Mas não se preocupe que a senhora doutora já veio a si e está a ser vista por um médico dos serviços sociais. - Firmino ficou um pouco menos agitado e perguntou-lhe se tinha sido acidente a causa do falecimento do senhor director. Ela fez um silêncio e respondeu com convicção: - Ao que consta, morreu de tristeza. Sabe, senhor doutor, mal de amor, foi o que foi, que aquilo é que era uma jóia de criatura, sem desprimor...

Firmino despediu-se, dizendo que ia para lá, a mulher que não saísse antes de ele chegar. «Morreu de tristeza! Não há pior que a estupidez do povo, no meio da desgraça-. Mandou chamar a doutora Fátima, mas ela já tinha saído.

 

O doutor Fonseca de Oliveira não sabia o que fazer quando a viu chorar com tanta dignidade, com profunda tristeza, um choro de criança. Pensou na sua mãezinha, com quem vivia há quarenta e três anos, e no sofrimento que ela tivera quando aquele que teria sido o seu pai anunciou que se ia embora, de vez. Ele tinha seis anos à data, mas recorda claramente a mãe a preparar-se para a despedida, como faziam as mulheres dos emigrantes. Levou-lhe, numa mão, a mala até à estação dos caminhos de ferro e, na outra, o filho, Oliveirinha, como ternamente lhe chamava. Manteve uma pose altiva no corpo, embora a cabeça se inclinasse para o chão. Entregou-Lhe a mala e pediu-lhe que desse a bênção ao filho. O pai beijou-Lhe a cabeça de raspão junto à testa e disse à mulher: «Continuas estúpida, como da primeira vez em que te vi, mas tens dignidade e, por isso, evitaste levar no focinho em muitas ocasiões. Vou-me de vez, que a paciência é uma coisa que se gasta...». Virou-se para o filho e falou-Lhe como se não lhe pertencesse: «Estás fodido, meu filho, mas o destino prega-nos partidas a todos. Ainda hás-de chegar a funcionário público, tão certo como eu nunca mais te pôr a vista em cima». Partiu, diluído na nuvem de fumo que, naquele tempo, os comboios ainda largavam. A mãe esperou que o comboio desaparecesse, segurou nele pela mão e foi para casa. Quando fechou a porta, chorou da mesma forma que chorava a doutora Fátima ali à sua frente. Ele passou a chamá-la pelo diminutivo de mãezinha e não descansou enquanto não cumpriu a profecia do pai.

Em quarenta e três anos era a segunda mulher que lhe provocava excitação. A outra era a mãe. Uma reacção casta, imaculada, que ele guardava para si e para os linhos da cama. Conhecia os lençóis pelo toque e distinguia-os a todos de olhos fechados. O choro da doutora avivara-lhe a memória e despertara-lhe o desejo. Interrogava-se a qual dos lençóis se assemelharia a pele dela, de que sulcos seria formada e como se distinguiriam da de sua mãe, quando colocou os óculos, esticou as mãos e lhe tocou nos braços. O corpo foi atrás dele porque não podia ficar sentado.

Fátima sentiu a luva pegajosa que lhe tocava na pele e explodiu: -Tire essas patas nojentas de cima de mim», olhando-o de frente, com raiva preta. Descobriu um rosto contraído, múltiplos esgares num focinho de cão abandonado, óculos de olhos moribundos, a voz encarcerada, -os meus sentimentos”, e agarrou-se a ele para chorar, molhando o cheiro da naftalina, sem outra paga que a saudade da mãe.

A dor de Fátima era profunda, porque o pai era demasiado importante para ela. A figura discreta e imprescindível que se habituara a dispensar porque o sabia sempre presente. Como chamar ao vazio incalculável, incomensurável, indizível, insustentável, imperecível, que procurava afogar com lágrimas e desespero, que lhe anunciava a solidão da sua existência? A incredulidade perante a morte. Um rasgo de dor que crescia, se tornava em fenda, em sulco, no abismo onde nasce o silêncio, na memória visível do pai, presente e concreto como só quem morre pode ser.

Os doutores Fernando e Fabiano retiraram-na dos braços do doutor Fonseca de Oliveira e manifestaram-lhe «sentidas condolências”. Tentaram dizer qualquer coisa mais, mas a atitude distante de Fátima aconselhou o silêncio e impeliu ao recolhimento. Viram-na pegar na bolsa, dirigir-lhe um -obrigada” escasso de sonoridade e abandonar o edifício para o seu último encontro com o pai. Deixaram o doutor Fonseca de Oliveira, abatido à dor de uma morte que o fizera descobrir que não há uma mãe única, e refugiaram-se no gabinete de Fabiano com a porta fechada à chave.

Fabiano coçou o lado direito da barriga, olhou o letreiro sobre a secretária onde estava inscrito NÃO FUMAR e disse a Fernando que se encostara a um dos cadeirões:

- A morte, meu querido, é a coisa mais definitiva. Fernando mirou aquele licenciado em História e desapertou o colarinho que tinha composto para dar os pêsames à assessora do director.

- Espero que sirva para compreenderes como é ridícula essa tua obsessão pelo tabaco. - E aproximando-se dele: - Para morrer, basta estar vivo, nunca ouviste dizer?

Fabiano olhou para ele, levantando o pescoço. A sua estatura diferia da de Fernando perto de vinte centímetros. Arranjou-lhe um caracol do cabelo que se levantara.

- A morte fragiliza-me. Tenho uma relação com ela muito estranha. Dá-me vontade de fazer amor, não achas esquisito?

Fernando colocou o casaco no espaldar da cadeira, dirigiu-se a ele e beijou-o na boca.

- Eu estou aqui. Sabes que podes contar comigo. Hoje vamos esquecer as nossas divergências com aquela mulher. Pareceram-me sinceras as suas lágrimas. Devia gostar muito do pai.

Fabiano correspondeu ao abraço e colocou a mão nas nádegas do amigo.

- Pelo menos na morte a gente encontra a paz.

Um silêncio pesado pairava no edifício até que se ouviu uma agitação exterior de alguém que perguntava pela doutora Fátima.

 

A casa onde passara os momentos mais fascinantes desta sua nova vida não tinha azáleas nem petúnias, tão pouco margaridas ou jasmim. Apenas orquídeas nas suas diferentes formas brancas, dissimulando a dor no branco mais forte das paredes. Uma serenidade mórbida, plasmada na sala à espera de quem chegava para se manifestar, prestimosa, denunciava as orquídeas como unguento de Daniel, o cheiro preferido que decidira transportar com ele naquela morte de tristeza sem sentido, sem despedida, sem possibilidade do perdão. Um espaço sagrado onde repousava o corpo inabitado do seu amor. Um espaço cujas janelas permitiam que ele a olhasse do lado de fora, feito brisa ou expressão das tágides que se podiam ver dali, dois passos mais adiante, e talvez compreendesse o equívoco da sua morte na dor que a mortificava.

Agitou-se-lhe o corpo quando Leontyne Price inundou a sala com sua potência suplicante, implorando aos Céus que lhe explicassem a indiferença de Deus que, apesar das preces de Tosca, permitiu a tortura do seu amado. Alguém seleccionara a ópera de Puccini na despedida do seu amor. Ercília chorou como a diva romana e acompanhou os seus gritos, dilacerando-se sem controlo, excessiva, como nunca chegara a sê-lo quando devia.

Procurou com os olhos húmidos, inchados, sem remédio, a moldura sobre a lareira para recordar o homem da sua vida e abafou um grito no desespero daqueles olhos, das sobrancelhas poderosas daquele homem que não era moldura, que a fitava como Daniel, de tão parecido, embora bastante mais novo.

Equilibrou-se, frágil como o sussurro das orquídeas, e aproximou-se dele a menos de um metro. «O Artur, desde sempre foi parecido comigo...”, dissera-lhe Daniel. Olhou-o, como se lhe pertencesse, e abraçou-o, sussurrando: «Meu filho, meu filho!”.

Artur, filho de Daniel, associava a prostração daquela mulher ao desespero de Tosca, a diva de que Roma mais se orgulhava. Chorava a morte de seu pai que o surpreendera, aos vinte anos, na Sorbonne. Aceitou o abraço e reagiu ao pranto, abandonando a cabeça no seu regaço. Como se as palavras viessem não da boca, mas de dentro dela, do ventre, uma voz em tudo semelhante à que lhe ficara da memória do pai. Um apelo irresistível que o obrigava a ceder ao afecto de uma desconhecida.

Artur puxou o braço de Lia e pousou-lhe os lábios na testa. Um beijo de agradecimento pela quietude daquele instante, pelo mistério do seu olhar, pela voz que nascia nela, clara e cristalina, uma voz de criança, com a memória de seu pai, que ela chorava sofridamente a seu lado.

Ela segurou-lhe as mãos e beijou-as, submissa e agradecida. Aquele rapaz era a reencarnação de Daniel no tempo e no modo. Teria vinte anos, não mais, e era em tudo semelhante, excepto no cabelo, liso e comprido. Deixou que a conduzisse até junto do caixão, serena e tranquila como ainda não estivera antes. Que bonito era o rosto de Daniel fotografado pela morte! Que sofrida era a sua expressão! Avançou até à fria película que lhe embrulhava a pele e poisou as mãos abertas nas suas faces estioladas. Juntou o rosto ao dele e segredou-lhe a maldade de a ter abandonado, grávida, de não ter compreendido a sua indecisão em lho comunicar, de ter trocado a certeza do seu amor pela dúvida de um desaforo que o marido enunciara sob a forma embriagante da ignorância, de não lhe ter concedido, ou exigido, o direito a uma explicação, de ter sucumbido ao equívoco, de a ter deixado prenhe e só!

; Artur ajudou-a a endireitar o tronco, retirando-a do abraço frio do esquife. Aquela era a mulher de que o pai lhe falava ao telefone, já não lhe restavam dúvidas. Responsável pela mudança na prosa que notara nas cartas que recebia na Sorbonne. Que encantara seu pai com a argúcia, o espírito crítico - «Diz-me que é mais fácil telefonar da Administração para qualquer país estrangeiro do que de qualquer lugar do país para a Administração,..--, a beleza do seu tergiversar - «conhece, melhor que ninguém, as cores e os aromas das flores e fala delas como de pessoas...»-, a candura dos modos e das feições

- «é uma mulher de beleza tranquila... - -, que ele recusava ser um caso de amor - «Tem juízo, Artur. Não tenho querer para um envolvimento emocional, se é isso que desejas saber...»-, na expressão enganosa do seu dizer. Uma estranha mudança na natureza do pai, circunspecto, reservado e solitário. Talvez, também, a causa da sua morte. Uma causa de amor, pois era muito sofrida a despedida que dele fazia. Uma causa que ele não conhecia, mas que motivara uma profunda consternação em seu pai, há menos de um mês, que lhe colocara gravidade no timbre das palavras, parcimónia na prosa e melancolia na expressão, que lhe chegava a França na tristeza de nada poder fazer. Pela primeira vez, desde que chegara à secular universidade de Paris, o pai decidira «não lhe telefonar durante um período curto de tempo...» e comunicara-lhe uma emoção vazia que pudera ouvir para além do desligar do aparelho. Voltou a ligar-lhe na véspera da morte com a serenidade de quem tomou a grande decisão: «Não vou a Paris porque nos encontraremos muito em breve. Amo-te e sei que não preciso de dizê-lo para que disso tenhas a certeza. Se encontrares a tua irmã antes de mim, explica-lhe que esta conversa contigo é uma forma de reequilibrar a proximidade que eu e ela tivemos e que te faltou nestes quase dois anos que levas de França’. O coração acelerou no peito de Artur pela incompreensão daquele telefonema, pelo medo de estar a comprendê-lo. Tentou prolongar a conversa: ”Que se passa contigo, papá?”, que se esgotou numa resposta final: «Estou com saudade de Sara, tua mãe».

 

Fátima viu o irmão abraçado à mulher de Firmino. A auréola que os envolvia surpreendeu-a pois desconhecia que Artur soubesse da existência de Ercília e não podia compreender a proximidade cúmplice que o halo lhe revelava. Foi até junto deles e passou a mão pelos cabelos dela, que agradeceu, segurando mais contra si o filho de Daniel.

Algumas pessoas começaram a chegar. Cumprimentavam Ercília com pesar e com a gravidade com que se lamenta a morte às viúvas. Ela assumiu o papel e reforçou o equívoco porque na cara estava reflectida a dor. Artur segurou-lhe o braço e aproximou-se dela para dividirem as condolências.

Um toque lento e afectuoso no ombro de Fátima fê-la voltar a cabeça. A figura de Firmino estava ali, inesperada e reconfortante. Aceitou o abraço de condolências e ofereceu-lhe a dor para que prolongasse o gesto de que se sentia precisada. Emocionou-se ao vê-lo e descobriu como valorizava a sua presença, agora que ele se encontrava junto de si. Teve vontade de lhe pedir que tomasse conta dela, que não estava preparada para viver sem o pai, que acreditava nele, nos beijos, nas palavras, mas as lágrimas naufragaram-lhe a intenção e alastraram, numa mancha, na camisa cinza a que encostara o rosto. Precisava de compreender as razões da mudança súbita que ocorrera com ele, que parecia evitá-la sem razão nem motivo de um momento para o outro, como se toda a carga emotiva se tivesse esfumado naquela rapidez característica com que se desfazem os nevoeiros. Deixou, simplesmente, que o calor do corpo dele a aquecesse do frio com que a morte se envolve.

O abraço dela era comovido e sincero e Firmino sentiu-se bem por isso. A notícia do nascimento do filho tornara-se, inusitadamente, determinante. A mulher, que ele assumia como um mal necessário, que ele maltratava pela dispensabilidade, com quem ele se aliviava no intervalo das amantes, que ele achava cada vez menos suportável e mais desinteressante, readquirira as virtudes de quando a conhecera, tornara-se distinta e frágil, no simples anúncio de uma gravidez. Fátima, que ele tanto quisera, estava ali, nos seus braços, disponível e fragilizada, emanando o calor do corpo da desgraça, da perda, do sofrimento. Dela, ainda não tinha vontade de se afastar, como tivera com Filipa, com Fabiana, com Fedra e com Flávia. Tinha, sim, vontade de a compensar, queria sentir a sua presença junto de si, já nem sabia porquê, se por desejo se por simples comiseração.

Ercília, apoiada na mão firme de Artur, olhou o marido molhado nas lágrimas de Fátima.

 

Muitos funcionários públicos faziam parte da multidão que acompanhava Daniel à sua última morada. Conversas desencontradas entre atitudes circunspectas e outras mais descontraídas e pouco apropriadas ao acto de celebração de uma despedida. Os funcionários de Daniel comentavam sobretudo o seu carácter, a maneira delicada com que se lhes dirigia, mas também o isolamento, a dificuldade em ter acesso ao seu gabinete, em colocar as questões de viva voz. A única a quem concedera um estatuto especial fora à doutora Ercília, que entrara nos serviços ia para três anos, requisitada a uma escola onde leccionava Francês e Português e que tinha sabido aproximar-se dele a ponto de, diz-se, ter sido sua confidente, o que, a avaliar pelo comportamento perante o falecimento do director, nem custava a acreditar. A maioria inclinava-se para uma relação de família, o director seria muito amigo do marido dela e teriam cada um feito um favor ao outro. A entrada da doutora Ercília, pela entrada da filha dele, nos serviços de que o marido dela era director. Uma tal Fátima que não o largava desde o início das cerimónias. Constava-se que tinham um caso, mas não existia unanimidade de opiniões, dadas as diferenças de idade e as relações entre as famílias. O filho do director é que parece que estudava em França e viera de véspera porque, ao que constava, tivera uma premonição sobre o falecimento do progenitor, uma coisa que poucos sabiam explicar. Um grupo de colegas de Fátima também se deslocara ao enterro oferecendo uma palma de dimensões significativas. De entre eles salientava-se o doutor Francisco, chefe de serviços, que raramente aparecia no local de trabalho, mas não faltava a nenhuma destas cerimónias de carácter mais ou menos social. Talvez por isso, era o tema privilegiado das conversas. Outro assunto muito badalado era a incontinência verbal do doutor Fonseca de Oliveira, que dissera aquilo que parecia evidente a todos mas que poucos ousavam enunciar, qualquer coisa como «andam-se a comer uns aos outros», isto não se sabe se a propósito das preferências do senhor director pela doutora Fátima, se pelos casos que o senhor Faria tinha denunciado ao doutor Firmino, que já eram dois seguidos, ambos a respeito do Fausto que as ia aviando na reprografia, sem dó nem piedade, coisa que toda a gente sabia, mas que para o senhor Faria tinha sido um choque.

A presença do senhor ministro era talvez o facto mais saliente da cerimónia. O homem era simultaneamente pessoa de grande influência no governo e no partido que apoiava o governo, o que fazia dele uma figura poderosa. Estava acompanhado pelo doutor Firmino, que viu reforçado o seu peso junto dos funcionários, dada a informalidade com que o senhor ministro o tratava. Perto deles estava a doutora Fátima, coberta de negro, numa saia justa quase pelo joelho e um casaco antracite que a cobria no tronco. Tinha também meias de nylon pretas e sapato de tacão, brilhante e imaculado. Estava muito elegante, embora o rosto muito marcado pelo sofrimento. Firmino segurou o braço do ministro com a palma da mão aberta para não lhe amarrotar o casaco e, distanciando-se um metro de Fátima, sussurrou-lhe ao ouvido:

 

- Temos que estudar uma forma de recompensar esta jovem. Ela é minha assessora e testemunho-lhe as qualidades. Agora com o lugar vago pela morte do pai... - o ministro interrompeu-o.

- Cuidado, que para essa função não serve qualquer pessoa. Tem que existir confiança política, o que equivale a dizer que a opinião do partido vai pesar na decisão... - arrematou, colocando a mão junto à boca para segurar o curso das palavras.

- Sim, por isso mesmo. Convém não esquecer que o pai era uma pessoa com influência no aparelho... - lembrou Firmino.

- De acordo. Mas creio que haverá uma solução intermédia mais consensual. Você tem lá um fulano que o partido gostaria de ver ocupar este cargo, o que deixaria uma vaga para a sua assessora

- retorquiu o ministro, que parecia bem informado dos diferentes cenários.

- No meu serviço? Quem? - perguntou Firmino com sinceridade.

- O doutor Francisco. O homem é um membro do aparelho, tirou um mestrado em Boston, acho que foi em Boston, e tem um percurso académico que auxilia a escolha... - respondeu-lhe perante o seu ar de espanto.

- Mas... esse fulano é um... sei lá, não sei se diga oportunista se medíocre... - balbuciou Firmino, perturbado pela revelação.

- Deixe lá, homem. Não é o primeiro nem será o último! Vamos atribuir-lhe um mandato claro. O que é preciso é que ele o saiba realizar. Não precisamos de um cérebro nem de uma grande inteligência. Basta-nos que seja ambicioso e de uma grande fidelidade partidária, entende? - e cumprimentou o doutor Fabiano que entretanto se chegara junto deles e murmurara qualquer coisa que nenhum entendeu.

- Bem, vocês é que sabem, mas não me parece minimamente aceitável - comentou Firmino, afastando-se de Fabiano para dar sequência à conversa.

- Ouça. O que lhe importa a si é a possibilidade com que fica de colocar a senhora no lugar que ele vai deixar vago - explicou o ministro, referindo-se a Fátima, sugerindo o lugar de directora de serviços.

- Muito bem, como queiram. Isso é decisão que possa ser comunicada? - perguntou enquanto procurava a assessora com o olhar. ,.

- Homem, não morra de véspera. Aguarde uns dias. Seguramente ser-lhe-á comunicado em primeira mão. - E olhando para Fátima: - A não ser que o meu amigo queira a rapariga fora da sua alçada... - rematou com ironia.

Firmino compreendeu a intenção do ministro que, em vezes anteriores, fora inexcedível nos préstimos e apressou-se a corrigir.

- Pelo amor de Deus! Não nota em mim que vou ser pai? - e quase criavam uma situação embaraçosa para um momento que se queria de recolhimento.

Ao lado deles, uma funcionária que Firmino não reconhecia, mas ia jurar que trabalhava no seu departamento, dizia à menina Adélia que a ouvia com o olhar incrédulo: - Só foi pena calhar no dia em que tenho piscina. vou sempre às terças e quintas das dez às onze, que o Health Clube é mesmo ao lado do serviço e, não é por uma hora...

Adélia respondeu-lhe apropriadamente: - Antes fosse a menina ao banho e morresse afogada para não estar a conspurcar a memória do senhor doutor!

 

O ruído das obras era ininterrupto. Durante alguns meses a serenidade caía por volta das seis da tarde, altura em que os operários desligavam as máquinas e regressavam a casa no barulho das suas motorizadas. Porém, no último mês, o horário de trabalho prolongava-se por toda a noite porque havia prazos a cumprir. Um calendário, situado mesmo defronte da janela da cozinha de Ercília, anunciava o tempo que faltava para a sua conclusão. Era assim por toda a cidade. O motivo era a Exposição Universal 98 que decorria em Lisboa naquele ano, a última do milénio, na qual Portugal hipotecava a imagem de um país moderno, como diziam os políticos e as pessoas ligadas ao poder. Os homens das obras andavam mais preocupados e já nem se ouviam os habituais dichotes dirigidos à criada do primeiro andar esquerdo, que engravidara e passeava com a sua enorme barriga de trás para a frente, com o olhar perdido nas paredes dos prédios que se concluíam ali à sua frente.

Ercília ouviu o esfregar furioso dos sapatos de Firmino no tapete junto à porta de entrada e esperou que ele se deixasse cair no sofá. Ofereceu-lhe um uísque com dois pedaços de gelo e quando ele mostrou o sorriso disse-lhe:

- Preciso de falar contigo. - E perante o seu olhar surpreendido: - Espero que possamos ter uma conversa tranquila, racional e amiga. Em memória do homem que foste, da importância que tiveste na minha vida, pelo direito ao respeito que cada um de nós deve merecer do outro, pelo direito à felicidade... - um leve tom teatral e algo afectado carregava as suas palavras.

- Onde diabo queres tu chegar com tudo isto, és capaz de me dizer? - interrompeu de modo brusco.

- Não adianta ficares furioso. Aquilo que tenho para te dizer é fruto de uma reflexão sem retorno, por isso não é digno, para nenhum de nós, que te precipites em atitudes de que nos possamos vir a arrepender - acompanhava a calma do discurso com o olhar firme dirigido ao marido.

- E que merda de pensamento é que foste parir, és capaz de fazeres o favor de me dizeres antes de te pores a filosofar? - reagiu irritado, com o incómodo provocado pela atitude resoluta da mulher.

- O que tenho para te dizer é simples e diz-se numa frase: a nossa viagem chegou ao fim!

- Que é que tu queres dizer com essa? - E emendando: Que é que queres dizer com isso, que já me está a irritar? - perguntou, tentando controlar-se.

- Quero dizer que, de hoje em diante, não fazes parte do meu projecto de vida. Quero dizer que estou disponível para chegar a acordo contigo, sobre a melhor forma de o conseguir. Quero dizer que não estou disponível para questionar esta minha decisão! acrescentou, decidida.

- E quem é o filho da puta que te anda a meter essas coisas na cabeça? - exasperou-se, congestionado no olhar.

- Para tua tranquilidade, não te troco por ninguém, se é isso que queres saber. vou viver sozinha, com o filho que trago comigo.

- Isso é que era doce! Uma coisa é o delírio por que estás a passar, outra coisa é teres a certeza que, com os meus filhos, podes deixar de ter ilusões. Eu... se não fosse o caso de estares grávida, levavas uma chapada nesse focinho que perdias a vontade de me fazer perder a paciência. Tu, de facto, nunca primaste pela inteligência. Num momento em que as coisas se estão a recompor, que eu faço um esforço para reconstruirmos a nossa relação, agora que vamos ter um filho... tu vens com essa merda duma vida independente? - praguejou Firmino.

- Preferia que a nossa conversa ficasse por aqui. Nem te peço explicações nem quero dar-te explicações. Não exijo de ti coisa nenhuma. Deixo-te os bens, os certificados de aforro, ou lá o que é, tudo. Só quero ter a tranquilidade para refazer a minha vida.

O modo como ela se lhe dirigia obrigou-o a questionar-se. Tentou adequar o seu comportamento, preenchendo de autocompaixão as palavras que lhe dirigiu.

- Mas tu és doida, mulher. Diz-me uma razão, uma, que justifique esta tua atitude. - E num acto de contrição: - Eu devo estar a ficar burro!

- Uma razão? Se queres uma razão, então eu digo: Não te amo. Já não te amo. Esta é uma razão - afirmou, peremptória.

- Não me amas? Mas tu não vês como é patético uma fulana como tu, na tua idade, mãe de um filho e à espera de outro, vires para cima de mim com uma história de «não te amo»? Não me amas e depois? Qual é a novidade disso, desde há pelo menos doze anos que foi quando nasceu o António? E depois, Ercília, estás convencida que eu te amo? Crês, sinceramente, que eu espero que me ames dessa forma como pronunciaste a palavra? Deixa de ser criança, cai na real, como agora se diz. Ouve, estás a passar um mau bocado, é isso. Deixa-me ajudar-te, estou disposto a mudar, vamos... - suplicou-lhe, admitindo para si que o estado de gravidez afecta a natureza emotiva das mulheres. Convencido de que se tratava de uma crise passageira.

- Não, Firmino. Como te disse, a minha decisão é irreversível, quer tu me digas que é de criança quer seja de velha caquéctica. Para mim, chegou ao fim. Ficas com a custódia do António, fazes da tua vida o que quiseres. Eu já me decidi. Não tenho mais nada para discutir. Assino o que for preciso, e não exijo nada de ti.

Inabalável nos seus propósitos, Ercília descobria um homem frágil e surpreendia-se pela força que demonstrava.

- E vais viver como, posso saber? - uma pergunta que ele fez, resignado, quase vencido.

- Não é coisa que te interesse. Mas posso dizer-te que, no início de Outubro, regressarei à minha escola e abandono a função pública. E nestes dias mais próximos espero pedir as férias a que tenho direito e vou pensar em tudo o que me falta pensar... - concedeu-Lhe como resposta.

Firmino, transtornado com a tranquilidade que ela, pelo menos, aparentava, ensaiou uma mudança de atitude.

- Em primeiro lugar, não te permito que tomes decisões de adolescente, com consequências para um filho meu, um filho que trazes na barriga e que não tem culpa da estupidez da mãe e, em segundo lugar, não aceito repartir filhos como quem divide livros. Se insistires nessa leviandade, eu fico com os filhos - martelou as palavras, sublinhando a decisão de requerer a custódia dos filhos.

- O teu filho chama-se António. É com ele que podes ficar, porque te reconheço esse direito - o falar reflectido dela era preciso.

- Não entendi - admitiu ele, desordenado nos pensamentos e cansado da conversa.

- Eu disse que tenho um filho teu. Chama-se António e reconheço-te o direito de ficares com ele. Como te deixo ficar com tudo que foi de nós os dois. Sobre isso, não reclamo absolutamente nada, salvo o direito a refazer a minha vida. Tenho trinta e três anos. Tenho direito a ser feliz.

- Não me faças fazer figura de estúpido, Ercília. Quando tu nasceste, estava eu a fazer a comunhão solene, lembras-te? O filho que trazes no ventre, não vou abdicar dele. Não fales como se não existisse, como se fosse uma coisa que pudesses ocultar dentro da roupa, como as fotocópias dos livros que os meus funcionários tiram à socapa no serviço, julgando que me enganam.

- Não vulgarizes a discussão nem mistures o teu serviço com o nosso assunto. Eu creio que fui clara. Temos um filho que se chama António. Tudo o mais, e estou disposta a fazer-te as provas de que falo verdade, é ilusão tua.

- Tu estás a fazer com que eu perca a cabeça e isso é uma coisa de que te podes arrepender... Estás a insinuar que não estás grávida?

- Não, Firmino. Estou a tentar fazer-te ouvir que este filho não é teu - explodiu, colocando um ponto final na conversa.

Ele levantou-se, olhou para ela como se a desconhecesse e, sem se dirigir à casa de banho para esfregar os dentes imaculados e gargarejar, pegou no casaco. A porta de entrada bateu uma pancada seca quando saiu. Um tremendo vazio povoava-lhe a cabeça.

Ela bebeu o resto de uísque que ficara adormecido no copo. Não se sentia nem vitoriosa nem eufórica. Sentia-se decidida. Dirigiu-se ao quarto e fez uma mala com as roupas que considerava indispensáveis.

 

Um problema nunca se apresenta sozinho. Aquele era um desses dias em que se acumulam problemas, em que a cabeça parece não ter capacidade para encontrar uma única solução, quanto mais as necessárias à dimensão dos problemas. Nestas situações, Firmino costumava parar, sair do ambiente de trabalho, dirigir-se a um café e tomar uma bica. Andava alguns metros a pé e pensava em coisas tão diversas como cinema, boates, mendigos e filhos, ou em condições climatéricas, viagens, desastres e investimentos. No final desses percursos deambulantes encontrava um par de soluções, que só lhe exigiam capacidade de escolha. Hoje, ainda mal refeito da decisão que a mulher tomara, incrédulo face à dúvida que ela lhe suscitara sobre a paternidade do feto, decidira mandar regressar o seu filho António, da terra dos pais. A chegada do miúdo ficou aprazada para o próximo fim de semana. Devia ter calculado, mas não o fez, que os pais iam querer vir junto, sobretudo depois da notícia humilhante sobre a partida de Ercília. Neste mesmo dia, surgiu o raio de uma complicação com um concurso para adjudicação de material administrativo. Um problema que o colocava numa situação delicada. Era curioso porque Fátima tinha-lhe falado vagamente sobre a existência de um autodenominado engenheiro, um tipo que andava pelos serviços como visgo pelas paredes, que tinha uma habilidade extraordinária para ultrapassar as teias de burocracia com que o Tribunal de Contas costumava chatear os seus clientes, mas que lhe parecia um sujeito sem escrúpulos. Ele, Firmino, numa necessidade ditada pela falta de tempo, aceitou a sugestão do doutor Fernando, «um funcionário exemplar!”, e encarregou o indivíduo de dar sequência ao concurso. Agora estava a braços com uma impugnação dos resultados da adjudicação! O engenheiro fez o favor de encontrar um conjunto de empresas todas do mesmo grupo, desdobrou os orçamentos em função de montantes de conveniência e o resultado foi que um concorrente colocado fora do esquema reclamou e denunciou a tramóia. Para agravar a situação, descobriu-se que o engenheiro é avençado das empresas vencedoras. Um caso exemplar numa Comissão para a Modernização Administrativa! Um dia para esquecer.

Esquecera-se da reunião em Bruxelas, para a qual tinha convidado a sua assessora, marcara bilhetes, reservara hotel e agora não tinha certeza nenhuma sobre o que lhe apetecia fazer.

Recebeu um telefonema do doutor Joaquim de Sousa, o chefe de gabinete que meteu a cunha para colocar a doutora Fátima como sua assessora, a perguntar qual o destino que ia ser dado à rapariga. Tanto interesse já lhe parecia excessivo e desconfiava, embora não pudesse ter a certeza, que o doutor não era alheio à recusa de Fátima para jantar com ele naquela noite em que engravidara a mulher. Outra vez a mulher! «Não consigo tirar esta ideia da cabeça. Por mais voltas que dê, por mais assuntos que pense, vou sempre parar à noite em que... mas a... diz que não sou o pai.,. bem, que se...! com aquela, se não fui eu, foi um anjo. Que seja feliz e não me chateie. Não nasci para decifrar charadas».

O chefe de gabinete estava certo numa coisa: Fátima devia inscrever-se no partido, o quanto antes. A boa notícia do dia foi quando lhe comunicou que o processo dela para ingresso nos quadros estava concluído. «Pense bem no melhor lugar para a rapariga, que eu tenho dívida de gratidão para com a memória do pai. E não esquecerei o que o meu amigo fizer por ela».

Felismina entrou para anunciar que a doutora Fátima precisava de lhe falar. Tinha os olhos baixos e a expressão contida. Fora uma

grande vergonha que passara com a denúncia do senhor Faria e não conseguia naturalidade na relação com o seu director, embora ele nunca lhe tivesse dito uma única palavra sobre o assunto.

- Ela que entre - disse Firmino, levantando-se para a receber. Fátima entrou no gabinete e ofereceu-lhe ambas as mãos para

ele as segurar. Tinha amadurecido com a morte do pai, reforçando toda a sensualidade do rosto e do corpo.

- Temos um problema para resolver. - E para surpresa dele:

- Adivinhe quem teve acesso a assessor principal nos resultados do concurso do mês passado!

- Estou sem vontade para jogar às adivinhas. O meu dia, hoje, está mais para esquecer que para brincar. Diga lá, que já nada me surpreende - pediu-lhe, abatido pelo acumular de acontecidos.

- Então prepare-se, que o caso não é para menos. - E após pausa teatral: - O doutor Fonseca de Oliveira!

Firmino deixou sair uma gargalhada inesperada e riu com gosto e descompressão.

- Só você, com uma dessas, é que me fazia rir. Explique lá, qual é a piada? - perguntou, com a certeza de que havia algo mais que ela ocultava.

- Não é piada nenhuma. O que lhe digo corresponde à mais rigorosa verdade. Que é para rir, não tenho dúvidas, mas que é verdade, é! - atirou ela sem deixar margem para outras interpretações.

- Ó minha... - ia dizer querida, mas emendou: - Ó doutora Fátima, isso é um absurdo, há engano com toda a certeza. Já falou com o doutor Fernando? - inquiriu-a na esperança de que o superior hierárquico do promovido pudesse ter detectado o erro.

- A informação que obtive já foi confirmada pelo doutor Fernando, sim, que, como deve calcular, está numa situação aflitiva. Em primeiro lugar porque fez parte do júri do concurso e depois porque vai promover o funcionário da equipa que... ninguém entende... - acrescentou, na falta de um qualificativo apropriado.

- Mas como é possível acontecer uma situação dessas? O júri estava bêbado? São atrasados mentais? Alguém me poderá explicar onde termina o direito à estupidez? - berrou ele, com as marcas da indignação a transparecer no rosto.

- Pelo que sei, o júri definiu critérios que têm que ver com antiguidade na função, assiduidade e pontualidade. Os critérios de valorização de competências, desempenho profissional e formação pessoal foram apenas subsidiários. Como resultado, entrou o doutor Fonseca de Oliveira... - concluiu irónica.

Firmino desatou a rir, nervoso e descontrolado como Fátima nunca o vira. Ela sentiu-se contagiada, mas reprimiu a vontade de gargalhar com ele. Manteve-se de pé e os olhos denunciaram um brilho de satisfação por vê-lo assim a ele, que passava um mau período com a separação da mulher.

- Sabe o que lhe digo? Há males que vêm por bem. Deixe que eu haverei de arranjar uma solução para esse caso - levou o lenço aos olhos, secando as lágrimas que se espalhavam, em mancha. Mudemos de assunto. Esqueci-me, completamente, que é já no final da próxima semana que vou a Bruxelas. Na altura, tinha-lhe falado para vir comigo. Está disposta a acompanhar-me?

- Sim, claro. Acho que é o melhor que me poderia acontecer, neste momento. Preciso de espairecer e Bruxelas pode ser uma boa opção. - E num aparte: - E, também, porque é bom ir consigo!

- vou dizer à minha secretária que trate de confirmar tudo não disfarçava a alegria pela decisão que ela tomara.

- Eu trato disso. É a Felismina que tem as indicações, não é? e piscou-lhe o olho, cúmplice, antes de sair.

Firmino pediu uma ligação para a Covilhã. Ia pedir aos pais que atrasassem a vinda para Lisboa. A deles e a do filho.

 

Artur conseguiu convencer Ercília a viajar com ele até Paris. Guardou a viagem aérea para outra altura e adquiriu dois bilhetes de comboio, apesar dos protestos dela que insistia em pagar a sua viagem. Ele cedia-lhe o quarto, na casa onde morava, e mudava-se para o sofá-cama, na sala, coisa a que estava habituado porque recebia gente vinda de outras paragens, sempre que necessário.

Quando colocou o pé no estribo do comboio, Ercília chorou de alegria. Não conseguia descrever nem ordenar os seus sentimentos, mas ia partir por um mês, numa viagem de encontro consigo mesma, percorrendo os lugares de que Daniel lhe falara, dos restaurantes em que ele estivera com Sara, iria deixar-se retratar em Montmarte e haveria de beijar um homem, em plena rua, em Paris, desrespeitando as suas próprias regras, violentando a sua moral, na busca das memórias que haviam de devolver-lhe Daniel, inteiro e íntegro, até que ele perceba o equívoco da sua morte, a perdoe pela fraqueza com que estava habituada a enfrentar os seus problemas, a autorize a viver no conforto da sua memória, lhe conceda o gozo permanente do seu corpo, dos seus sentidos, da fugacidade das suas palavras, a perenidade dos movimentos com que a envolvera, a seduzira e a abandonara. Viveria o nascimento do filho com a certeza da sua companhia, e Sara podia ser madrinha porque, de um homem como Daniel, só uma mulher de grande nobreza podia ser companheira.

No compartimento amplo, não fumadores, Artur perscrutou o azul que lhe inundava os olhos, e deixou que ela divagasse no movimento ondulante do comboio. Por detrás do azul feminino dos seus pensamentos haveria uma história que ele desejava ardentemente conhecer. Uma história de amor que envolvia a morte do pai, inebriava de tristeza a meiguice do rosto dela, que ela transportava como um tesouro. Uma história que ele imaginava como um conto fantástico, pleno de mistério, beleza e sofrimento. Uma história para lhe revelar a natureza da voz que o chamava, proveniente das entranhas daquela desconhecida que ele parecia conhecer desde sempre. Uma mulher por quem esperava desde o momento em que sua mãe partira, deliciosamente misteriosa.

Ela surpreendeu-o a observá-la e sorriu-lhe, agradecida por lhe fazer lembrar o pai que a olhava assim, devolvendo-a inteira e honrada por assim ele a olhar.

- Posso chamar-lhe Lia?

Ela ofereceu-lhe as mãos em assentimento e pediu-lhe que a perdoasse se chorava, que era de felicidade que o fazia. Ele continuou:

- As pessoas adaptam-se ao nome que lhe atribuem. Não sei se já reparou que, ao fim de algum tempo, depois de convivermos com uma pessoa, ficamos com a impressão que ela só se podia chamar pelo nome que tem. Raramente não é assim - e perante o olhar atento dela -, que é o seu caso. Não sei se está de acordo comigo, mas Ercília é um nome que não diz consigo. Um nome que evoca uma história diferente da sua. Associo-o a uma mulher casada, dona de casa, no sentido tradicional do termo, conservadora. Um nome que é a marca de um destino que não pode ser o seu. Lia - pronunciou o dissílabo de modo prolongado, musical, impregnado de mistério. - Lia é o seu nome, aquele que se lhe adequa, como se alguém lho tivesse dissimulado na sonoridade agreste e esdrúxula de Ercília para lhe dar a incumbência da procura.

- É extraordinário, aquilo que me diz. Sabe porquê? A primeira vez que me ocorreu esse diminutivo foi quando conheci o seu pai. Ele perguntou-me como é que eu me chamava, numa noite em que nos encontrámos no elevador depois de uma sessão de trabalho, e eu respondi-lhe que era Ercília. Mas, no instante seguinte, como se alguém falasse por mim, disse que preferia que me tratasse por Lia. Assim, sem pensar. Eu, que sempre fora Ercília, ou Cila, como me chamavam meus pais... - surpreendeu-se com a sua revelação.

- Durante muitos anos desejei que o meu pai refizesse a sua vida, um desejo que misturava verdade e medo. Medo de perder a sua proximidade afectiva e intelectual com a qual me habituei a conviver. Medo de o ver sofrer numa relação, depois de anos dependente da memória de minha mãe, com a qual, presumo, foi feliz. Medo de ver uma mulher tomar o seu lugar, ele, que foi pai e mãe, severo e terno, decidido e vacilante, heróico e patético. Verdade, porque um homem precisa de uma mulher. Verdade, porque o desejava feliz de novo. E estou certo de que o meu pai descobriu essa felicidade junto de si. Foi por si que ele voltou a pensar na possibilidade de reconstruir a sua vida, em refazer percurso. Foi por si que ele voltou a entusiasmar-se e a duvidar como um adolescente. E não acredito que o meu pai se apaixonasse por alguém a quem tivesse que chamar Ercília. Desculpe dizê-lo, mas era demasiado violento para ele, se bem o conheço...

Um silêncio fugaz, ousado, intransferível, assobiou no caminhar rápido da carruagem e o silvo de um comboio dividiu as palavras em fragmentos de uma memória recente. Artur calou-se. O nome dela flutuava no silêncio à espera que ele o pronunciasse.

- Lia... Lia... Lia... um nome que o meu pai não compreendeu. Desvendou o segredo da sua existência, mas não penetrou na essência da sua contradição. A origem de Lia tem algo que ver com elevação, conspicuidade, algo que é eminente, nobre e profundo, mas evoca, igualmente, ligação, união, conjunto. - E olhando-a determinado: - vou precisar de si, Lia. vou precisar que me conte os caminhos que conduziram o meu pai à morte. Preciso de conhecer a cor da tristeza com que se deixou morrer.

Ela serenou-o com um aceno de cabeça que reclamava troca, partilha, cumplicidade. Falou com o encantamento que as palavras provocam, quando existe o desejo de ser encantado.

- E eu preciso que me ajude a descobrir as cores da alegria com que ele viveu. Preciso de mergulhar em todos os locais que ele percorreu, visitar o seu passado, respirar ambientes que lhe fossem gratos, desvendar as ilusões com que se alimentou para que possa descobrir o meu próprio caminhar. Daniel desvendou muito mais que o segredo do meu nome. Descobriu-me como mulher, devolveu-me o sentido da vida, depositou em mim a semente da vida com que haverei de me alimentar.

- De acordo, Lia. Buscamos diferentes coisas. Cada um de nós parece sedento do saber do outro. Eu pertenço-lhe, Lia. Indique-me apenas o caminho a seguir.

Uma luz esbranquiçada e o ruído do ar condicionado foram testemunhas de uma noite habitada por palavras, sobressaltada por descobertas, silenciada por segredos, cúmplice de confidências e irmanada de olhares que iam de um lado ao outro, num átomo de tempo.

- De acordo, Júnior! Porque Artur também não é nome que lhe caiba...

 

Paris acordou sem que qualquer um deles tivesse dormido. Um cheiro a croissants lembrou-lhe a gravidez. Ela pediu-lhe que ficasse junto dela enquanto se deitava, no quarto que era dele, por entre azáleas, margaridas, orquídeas e jasmim cujas cores quebravam a tonalidade branca que prevalecia.

 

António estava sentado junto à secretária de Felismina. Muitos funcionários vinham ver o filho do senhor director, «uma gracinha», e aproveitavam a ocasião para tecer os mais variados comentários sobre a fuga da mãe da criança: «Não se admite. Um homem com a categoria do doutor Firmino e foi logo ter este azar, com a mulher que lhe coube em sorte...-. O miúdo olhava, atónito, todo aquele movimento, onde as mulheres eram novas e bem vestidas e onde os senhores andavam de fato e gravata e lhe perguntavam: «Então, como vai isso?-, mas não esperavam resposta porque, sempre que ele ia responder, apertavam-lhe a cara e viravam as costas. As senhoras eram mais simpáticas e riam sempre, qualquer que fosse a resposta que ele lhes desse e diziam-lhe: «Meupobre menino. Coitadinho...». Por isso, decidiu não dizer mais nada até que o pai fosse para junto dele.

Firmino deixara o filho com Felismina e estava reunido com a doutora Fátima desde as nove horas da manhã. A visita a Bruxelas revelara-lhe uma assessora com predicados inusitados. Estava-lhe, sobretudo, agradecido porque ocorrera num momento em que a sua auto-estima estava maltratada e ela ajudara-o a reconquistá-la.

O consenso sobre a proposta de nomeação para o cargo de directora adjunta nascera de uma sugestão muito apropriada do doutor Joaquim de Sousa. Fizera um estudo da lei orgânica e descortinara essa possibilidade, com a ajuda dos serviços jurídicos do senhor ministro. Era uma maneira de reconhecer não só os seus méritos como ainda de ultrapassar as eventuais críticas da oposição pela falta de concurso público.

Directora adjunta era um cargo de nomeação, um lugar de confiança política e, por isso, não estava sujeito a concurso. Uma razão que reclamava que ela se inscrevesse no partido, porque, «nestas situações, vão levantar-se muitas vozes de dentro do próprio partido contra o facto de se estarem a preterir militantes em favor de independentes”. Ela mostrou receptividade à sugestão e pediu-lhe colaboração para proceder à inscrição. Firmino estava radiante. Considerava a anuência dela uma prova de confiança pessoal.

Para lhe demonstrar a sua satisfação, acrescentou:

- vou enviar, hoje mesmo, um fax ao chefe de gabinete do senhor ministro para que a Fátima me substitua numa Comissão interministerial para a Modernização Administrativa... - tinha olhos de menino que aprecia dar prendas.

- Não acha melhor esperar algum tempo, até que eu me inteire um pouco mais dos assuntos? - apelava ao bom senso que a caracterizava e que sabia que ele apreciava.

- Você acha que eu ia indicar o seu nome para uma Comissão, para me deixar ficar mal? - olhou para ela como a repreendê-la pela dúvida manifestada. - Trata-se de uma Comissão que discute, em... termos gerais. É uma estrutura a nível de directores gerais, mas a maioria que lá tem assento, são directores adjuntos - acrescentou, para a tranquilizar.

- E qual é a periodicidade das reuniões? - formulou a pergunta com atitude de trabalho, como se tivesse decidido aceitar a proposta.

- É esse espírito que eu aprecio em si. Reúne duas vezes por mês e... dá direito a uma gratificação de setenta mil escudos ficou a olhar para ela, medindo os efeitos da revelação monetária.

- Começa a seduzir-me a ideia da substituição poder ser... já!

- exclamou, sem se incomodar com o que ele pudesse pensar.

Ele riu com vontade e deu-lhe um beijo nos lábios, enquanto lhe acariciava um seio. Ela apenas murmurou: «Respeitinho, sim?», mas retribuiu o beijo e fez-lhe uma carícia, junto à barriga.

 

- Agora a sério: não acha que posso passar um mau bocado numa estrutura com essa composição? - voltou ao assunto porque se sentia insegura.

- vou ensinar-lhe dois princípios universais nesta dura arte de ser funcionário público: em primeiro lugar, admita sempre que conhece os assuntos e, se for necessário emitir opinião, diga uma generalidade e passe a palavra; em segundo lugar, sempre que cometer um erro, e alguém a denunciar em flagrante, transfira a responsabilidade para um superior hierárquico. Explique que a decisão foi tomada sem o seu conhecimento e, se necessário, explicite que foi mesmo contra a sua vontade.

Ela parecia realmente surpreendida. Abanava a cabeça com um sorriso.

Olhou para o relógio. O momento da sua tomada de posse estava marcado para dali a uma hora e, embora fosse uma cerimónia protocolar, sentia-se nervosa, o que não passou despercebido a Firmino.

- Não precisa de ficar nervosa. Trata-se simplesmente de um acto de natureza protocolar. Não queira fazer uma figura igual à daquele ministro, como é que ele se chamava?... bem, não importa, que telefonou para casa, cheio de euforia: «Paizinho, já sou ministro!»... - Mas, no mesmo momento, compreendeu que não tinha sido feliz no exemplo encontrado e abraçou-a: - Desculpe, não associei... - E, num ápice, mudou de assunto: - Sabe que acabei por convencer o doutor Francisco a levar o doutor Fonseca de Oliveira com ele?

- Estou condenada a que todas as conversas conduzam ao falecimento do meu pai. O melhor é assumir de uma vez, ou como diz um amigo meu, que é psicólogo, fazer exposição. O doutor Francisco foi substituir o meu pai no cargo de director geral. - E olhando-o firmemente, nos olhos: - Sinceramente, acha que ele é a pessoa indicada?

- Gosto de a ver assim. Se quer que lhe diga, sinceramente, acho que não. - E explicou: - Foi uma decisão política. A capacidade dele viu-se quando lhe ofereci o doutor Fonseca de Oliveira como assessor principal e ele julgou que era uma manifestação de simpatia da minha parte. - E rematou, irónico: - Vai ficar com o Diário da República em dia e não sei se chega a descobrir o presente que lhe enviei!...

- Você, às vezes, não é como se pinta! - E lembrando-se da cena: - Eu cheguei a contar-lhe quando ele, a propósito duma conversa telefónica que eu tive consigo, me disse: «Comei-vos uns aos outros!»? - E verificando a reacção de Firmino: - Eu ia caindo redonda!...

Felismina bateu à porta, esperou que ele lhe dissesse «Entre» e disse que estava tudo pronto. O filho dele estava junto dela e correu a agarrar-se às pernas do pai, os olhos levantados para a doutora Fátima que lhe fez uma festa na cabeça: - Então, como vai isso? A criança olhou-a surpreendida. Firmino segurou-lhe na mão e deu passagem à doutora Fátima para se dirigirem ao edifício onde ia decorrer a tomada de posse.

 

Entre a assistência viam-se, sobretudo, funcionários dos serviços da modernização administrativa, que praticamente ficaram desertos, com excepção da telefonista e do rapaz das fotocópias, que não gostava de «cenas dessas».

 

O doutor Fernando olhou para as pernas compridas e bem desenhadas da doutora Fátima e pensou como eram justas as suas cogitações sobre a ostentação da senhora em relação às ditas e, inclinando-se um pouco, comentou com Fabiano, que se encontrava ao seu lado direito: - Eu não disse que ela se lhe metia pelos olhos dentro? Já é directora adjunta! - E, num tom mais baixo: - E consta-se que ele a queria colocar no lugar do pai, o que faleceu... Ouve, de prestadora de serviço a directora geral! - E perguntou-lhe, sarcástico: - Que te parece?

O doutor Fabiano olhou a silhueta de Fátima e fixou-lhe sobretudo o pescoço, que tinha forma fálica, potente e determinado.

- Eu não acho coisa nenhuma. O que sei é que ela já chegou a adjunta. E depois vêm falar no lobby dos homossexuais. Até me dá vontade de rir... - segredou ele, esforçando-se por chegar junto à orelha de Fernando, que entretanto endireitara o corpo.

Enquanto conversavam, decorreram as palavras de circunstância, a que eles não prestaram atenção porque se tratava de uma repetição do que fora dito noutras tomadas de posse. Aguardavam com ansiedade o discurso que ela iria produzir. Viram Firmino dirigir-se para junto deles e o espaço amplo ser completamente ocupado pela figura feminina da doutora Fátima.

Ela olhou a assistência com firmeza. O bruuáá que se ouvia foi-se desvanecendo à medida que os presentes tomavam consciência de que ela aguardava que se fizesse silêncio e quedou-se por completo quando tossiu para começar a falar. Leu, com voz serena e palavras bem pronunciadas:

Exmo Senhor representante do Governo Exmo Senhor Director Geral

 

Exmos Senhores Directores de Serviços Minhas Senhoras e Meus Senhores

A confiança que V. Exas depositam em mim é um indício de responsabilidade, a que espero responder com empenho e determinação. Não foi baixo o preço que tive que pagar para aceder a este lugar!

Houve um comentário geral dos presentes, que associaram aquela alusão ao falecimento do pai. A menina Adélia, comentou, esclarecida e pesarosa: - A morte é um preço muito elevado. Fabiano deu um beliscão no braço de Fernando, insinuando uma outra leitura para o conceito de preço. O doutor Fernando reprimiu a custo um grito agudo, tal foi a dor do beliscão.

A cerimónia da tomada de posse estava quase concluída. António olhava aquela senhora que se encontrava a falar e puxou a manga do pai.

- Paizinho, posso fazer-te uma pergunta?

Firmino fez-lhe uma festa na cabeça e inclinou-se para junto dele, de modo a evitar que a criança gritasse.

- O que é, filho? - perguntou apressado.

- Paizinho, quando um homem e uma mulher estão a fazer sexo, como é que eles sabem que têm de parar?

Fátima terminava o seu discurso:

- Especialmente ao meu pai, agradeço do fundo do coração, na certeza de que estarei, e peço desculpa pela imodéstia, a contribuir para um melhor futuro para todos e para engrandecer a sua memória.

Depois dos aplausos, Firmino chegou junto dela e disse-lhe que se preparasse para ir à sala de imprensa, onde daria a sua primeira entrevista no desempenho das novas funções.

 

                                                                               Antero Afonso 

 

 

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