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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


COMPROMETIDA / Christina Dodd
COMPROMETIDA / Christina Dodd

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Devon Mathewes, conde de Kerrish e diretor de um dos bancos que administra recursos da Coroa, precisa se encarregar de uma órfã e lhe proporcionar educação mediante uma instrutora para restabelecer sua imagem de honradez e decência ante a rainha Vitória. Alguém cometeu um desfalque no banco e todas as pistas apontam para sua família. Convencida de que ninguém a reconhecerá, pois faz tempo que se retirou da vida social, Pamela Lockhart, proprietária da Distinta Academia de Instrutoras, oculta sua juventude e beleza atrás de um disfarce de severa instrutora, e se translada à casa do conde com Beth, a órfã escolhida para as instruções. Ali comprovará que não está preparada para evitar a indubitável atração que sente por Devon, quem tampouco acaba de acreditar o incansável interesse amoroso que sente pela instrutora de óculos grossos e críticas leituras morais. Um ardente romance começará entre ambos.

 

 

 

 

Aquele era o melhor dia do mês, o dia de pagamento.

A senhorita Pamela Lockhart deu um alegre saltinho em seu caminho para casa. Embora aquela rua residencial de Londres estivesse prematuramente às escuras por causa da chuva, embora ela estivesse gelada e se sentisse mal, e embora precisasse ensinar à pequena Lorraine Dagworth a tocar "Brilha, brilha, estrelinha" no piano, que carecia de ouvido musical, cobrara o pagamento mensal da mãe de Lorraine sem nenhum problema. Também conseguira cobrar da aristocrática lady Phillips, não sem dificuldade. E finalmente, dera a aula de dança ao filho de lorde Haggerty e —ao mesmo tempo que se defendia do manuseio do jovem e da ignominiosa proposição do velho - assegurou o pagamento mensal sem ofender a nenhum dos dois detestáveis cavalheiros.

Sim, o trabalho de instrutora era difícil e em ocasiões aborrecível, mas o dia de pagamento, o glorioso dia de pagamento, compensava tudo, e quando Pamela atravessou o beco sujo e cheio de lixo, ofereceu a cara à chuva, soltou uma gargalhada... e parou em seco com um tropeção.

Algo puxava sua saia. Uma tábua que se sobressaía, possivelmente, ou...

Uma ponta afiada lhe cravou nas costas e uma voz rouca grunhiu:

—Me dê essa bolsa que tem escondida no peito, senhorita, e talvez não a mate.

Pamela ficou paralisada, o coração pulsando com força. Aquele objeto era... uma faca! Um ladrão a ameaçava com uma faca nas costas. Podia apunhalá-la. Ou talvez a matasse.

Queria roubar seu dinheiro.

A faca lhe cravava e o homem grunhia em seu ouvido, lhe lançando seu pestilento fôlego misturado com a genebra e tabaco.

—Eu disse que me dê a bolsa. Não se incomode em negar, senhorita. A vi na loja pagando por esses bonitos morangos.

Pamela apertou com força a bolsa em que levava a compra. Chovia sem parar. Não havia ninguém à vista; qualquer um com dois dedos de fronte teria ido correndo a casa para esquentar os pés frente à lareira.

Só ficava ela, isca perfeita para aquele assaltante que pretendia roubar seu precioso dinheiro, recém-cobrado e ganho com esforço.

A lâmina voltou a cravá-la e o desalmado ladrão apertava seu braço com força suficiente para deixar um machucado.

—É meio idiota ou o que? Eu disse que me dê o dinheiro ou a mato.

A faca cravou um pouco mais. Pamela notou como saltavam os fios cortados do vestido e do espartilho.

—Me deixe pensar - espetou.

A senhorita Hannah Setterington sorriu à nervosa jovenzinha de dezoito anos sentada diante de sua mesa do escritório.

—Posso lhe encontrar emprego - disse Hannah. - É o que fazemos aqui, na Distinta Academia de Instrutoras.

Mas, tendo em conta que proporcionamos unicamente as melhores Instrutoras a casas distintas, e você carece ainda de experiência, terá que passar primeiro por nosso rigoroso mês de aprendizagem.

Nele aprenderá a se desembrulhar nas diferentes situações que possam surgir com os meninos e as pessoas que a contratem.

Molhada ainda pela chuva, a jovem tremeu um pouco e olhou com ânsia as chamas que dançavam na lareira.

—Obrigado, senhorita Setterington, mas... acabo de chegar do campo. Não tenho onde viver e... não posso pagar... umas aulass...

Sua entrecortada consternação esteve a ponto de fazer brotar as lágrimas de Hannah. Também ela fora assim de jovem, insegura, também ela esteve igualmente desesperada... fugindo.

Agora era mais velha, mais sábia, tinha o controle sobre sua vida, mas jamais poderia se desembaraçar daquelas lembranças.

—Vamos ali para falar. Estaremos mais cômodas - disse, se levantando. Dirigiu-se ao grupo de cadeiras que havia frente à lareira e indicou um assento, enquanto esperava que a jovem senhorita Murray serenasse.

—Não terá que pagar nada por nossas aulas de aprendizagem, e poderá ficar aqui, sob nosso teto, enquanto isso.

A senhorita Murray franziu o cenho com desconfiança.

—Por que teriam que ser tão amáveis e não me cobrar nada? Venho do campo, mas não sou estúpida. Sou uma garota decente.

—Me alegro de ouvir isso - disse Hannah com firmeza. - Mas sim esperamos cobrar algo. Em troca de cama, comida e instrução, buscaremos um emprego para você e cobraremos o que nos deve a pessoa que a contrate por lhe garantir uma instrutora eficiente e instruída.

—OH. - A senhorita Murray se recostou no assento e disse: - Suponho... suponho que isso é razoável.

—É obvio. A primeira semana de aprendizagem servirá para que a conheçamos, a fim de decidir se você tem a categoria suficiente como instrutora para que queiramos representá-la e para que você decida se esta é a profissão que deseja desempenhar.

A senhorita Murray assuou o nariz com seu lenço.

—Não tenho alternativa.

—Sempre há uma alternativa. - Hannah não era das que toleravam a auto compaixão. - Representamos a mulheres de diferentes capacidades. Às vezes umas ensinam melhor aos meninos pequenos que aos maiores, às vezes umas são melhores como damas de companhia para pessoas de idade.

—Não pensei nisso - disse a senhorita Murray, se animando. - Eu cuidava de minha avó e eu gostava muito.

—Já o vê - disse Hannah, assentindo. - Temos descoberto a direção que devemos seguir. Também proporcionamos damas de companhia, e também professoras de piano, costura e dança por dias ou por semanas.

Aqui, na Distinta Academia de Instrutoras, nos orgulhamos de nossa habilidade para encontrar à pessoa adequada para cada necessidade.

Hannah ouviu que batiam na porta da rua, o que seguia sendo um acontecimento pouco frequente que a levou a se levantar. É obvio o mordomo abriria a porta, mas tinha instruções de levar imediatamente o possível cliente a sua presença.

—Nossa governanta a espera ao final da escada - disse Hannah. - A senhora Knatchbull lhe mostrará seu quarto, onde poderá desfazer a bagagem, e amanhã se unirá às outras duas alunas que estão aprendendo a ser o tipo de Instrutoras das que nossa escola se orgulha em reconhecer como próprias.

A senhorita Murray reconhecia uma despedida quando a ouvia. Fez uma breve reverencia, recolheu sua mala e se encaminhou à porta. A garota estava bem educada e era cortês, embora insegura, e com um período de aprendizagem resultaria muito valiosa para a escola.

Sorrindo timidamente, a senhorita Murray se fez a um lado para deixar passar Cusheon, o mordomo. Então se deteve em seco. Ficou boquiaberta. E olhou embevecida ao cavalheiro que entrava atrás do mordomo.

Realmente, Hannah considerou como circunstância afortunada que a senhorita Murray tivesse reagido daquela forma, pois do contrário, teria sido ela a aniquilada. O cavalheiro, vestido com a maior elegância, era incrivelmente, languidamente, sedutoramente atraente. Alto e de longas pernas, vestia um traje azul escuro que realçava seus largos ombros. Usava uma bengala com o pomo de ouro e luvas de pele pintada em combinação com o traje. Seus negros cabelos cortados à altura da gola da camisa, caíam livremente em esplêndidos e desordenados cachos a um lado de sua testa.

Seu nariz aristocrático quebrado em outro tempo, certamente por uma queda de pônei, pensou Hannah, pouco caridosa com ele. Seus olhos eram tão suaves e castanhos que uma mulher podia se perder neles, mas uma viva inteligência operava sob suas insondáveis profundidades, pois catalogou à senhorita Murray e a desprezou com um simples olhar. Logo se concentrou em Hannah.

Não esperou que Cusheon o apresentasse, mas sim inclinou a cabeça cortesmente.

—A senhorita Setterington, suponho.

Hannah tomou antipatia no primeiro momento. Era grosseiro e cortante.

—Sim, e você é...?

—Devon Mathewes, conde de Kerrich - proclamou Cusheon, e só alguém que conhecesse bem ao velho mordomo teria notado que a audácia do conde o exasperava.

O conde não se dignou a notar o desagrado de Cusheon, nem tampouco ficou a observar a reverência de Hannah. Pelo contrário, entrou no escritório, confiando em que ela o seguiria.

É obvio ela o seguiu, e Cusheon montou guarda na porta.

—No que posso ajudar, milorde? - Hannah se encaminhou para o outro lado de sua mesa para tomar assento.

Lorde Kerrich se deixou cair em uma cadeira frente à mesa e proclamou:

—Necessito de uma instrutora.

A porta da rua voltou a se abrir e a fechar com suavidade. Hannah esperava que fosse Pamela, pois chovia e já era quase noite. Estava preocupada com sua amiga e co-proprietária da Distinta

Academia de Instrutoras, que passava o dia percorrendo Londres em busca de empregos com os que manter a academia em marcha durante os cruciais primeiros meses.

Mas Hannah não se atreveu a apartar a atenção de seu cliente, um viúvo com filhos, ao que parecia.

—Deseja contratar uma instrutora e veio ao lugar mais adequado. Aqui proporcionamos unicamente as melhores Instrutoras. Quantos filhos tem?

O conde se tornou para trás como ofendido.

—Deus Santo, eu não tenho filhos!

Hannah se deteve no ato de sentar.

—Milorde?

—Não me entendeu, mulher? Também necessito de um menino.

 

Ao ver a confusão de Hannah, lorde Kerrich passou a mão nos cabelos, se despenteando e, por alguma razão inexplicável, ficando assim ainda mais atraente.

—Um menino. Necessito de um menino. É meu grande desejo que me considere res-pei-tá-vel. - Pronunciou respeitável com muito cuidado, como se as mulheres que davam aulas aos meninos não pudessem assimilar facilmente palavras tão longas.

Se sua explicação pretendia conseguir que Hannah compreendesse tudo, não teve êxito, mas ocorreu a ela que ao conde não importava se compreendia ou não seu dilema, a não ser tão só o que queria dela.

E isso seguia sem compreender.

—Se pudesse concretizar um pouco mais, milorde - apontou Hannah.

O conde apertou os dentes - uns dentes brancos e uniformes, conforme observou Hannah - e a fulminou com o olhar como se, de algum jeito, ela tivesse a culpa de seu apuro. Sua voz era zombadora ao se explicar.

—Em nosso país, há pessoas que me consideram... indecoroso. Um caveira. Um mulherengo. Em outras palavras, uma pessoa inadequada para se relacionar com... pessoas decentes.

Pela porta aberta, Hannah viu a silhueta de uma mulher. Pamela retornara, e esperava fora do alcance da vista.

—O interessa que o considerem respeitável? - A Hannah custava acreditar nele. Não lhe parecia o tipo de homem ao que pudesse importar a opinião de outros.

—Um homem que se deixa governar pelas crenças dos ignorantes é a sombra de um homem. De fato, poderia se dizer que esse homem é uma mulher.

—Riu entre dentes como se lhe tivesse feito graça seu próprio comentário.

Hannah não riu.

Ele não pedia nem sequer essa imitação de cortesia.

—Mas sou banqueiro. Meu avô fundou Os bancos Mathewes. Se sentiria extremamente decepcionado se minha reputação fosse em detrimento da instituição pela que tanto tempo lutou e com tanta diligência.

—Tampando a gravata-borboleta com a mão, acrescentou: - De fato, não permitirei que ninguém empane o sobrenome Mathewes.

Seus sentimentos pareciam quase admiráveis, quase uma promessa, mas Hannah se perguntou cinicamente se realmente ao conde lhe preocupava o banco, seu avô e seu sobrenome, ou se eram seus ganhos pessoais sua principal preocupação.

—É triste que na Inglaterra se considere mais respeitável a um homem que tem uma só amante que a um homem que abranja um espectro de fêmeas mais amplo, - mordeu o fino lábio.

—Uma injustiça evidente.

O conde não fez caso do sarcasmo.

—É obvio. Assim quero um órfão. O meterei em minha casa, farei que pareça que me transbordou a bondade humana.

Terei ao enjeitado em minha casa o tempo suficiente para granjear o favor de Sua Majestade uma vez mais, e não pretenderá que eu mesmo cuide dele durante esse tempo!

Hannah compreendia já qual era seu plano e a assombrava a crueldade de seu propósito.

—Você deseja contratar uma instrutora para que vá a um orfanato e lhe consiga um filho temporário com o que enganar à sociedade e à rainha? Milorde, não poderia dormir nem um instante se...

Pamela avançou para a soleira da porta, se aproximando à luz. Parecia um rato afogado, com mechas de cabelo caídos sobre a cara e os olhos lançando faíscas como os de um demônio. Fulminou Hannah com o olhar.

Inclinando a cabeça energicamente, apontou ao sentado lorde Kerrich e logo destacou a si mesma.

Hannah negou com a cabeça.

Lorde Kerrich pensou que o gesto se dirigia a ele, se acomodou na cadeira e sorriu, deixando a descoberto seus dentes brancos e perfeitos.

—Vamos, senhorita Setterington. Escrúpulos? Não pode se permitir. Abriu esta academia faz apenas dois meses, e pelo que eu sei, só colocou uma instrutora a tempo completo.

Ela vai se casar com o visconde Ruskin na próxima quarta-feira, se tiver lido o convite corretamente, e como esposa do visconde, é improvável que proporcione a você mais ganhos.

Você e as outras Instrutoras estão trabalhando aqui e lá como professoras de dança ou algo parecido.

O conde sabia muito, e Hannah repartia sua atenção entre olhar a ele e observar a Pamela, que persistia em sua pequena pantomima.

—Estou a par das fofocas, senhorita Setterington. E circulam muitas intrigas sobre sua academia, poucos amáveis. Necessita de mim. Necessita meu dinheiro.

—O conde tirou a carteira do bolso e colocou um talão sobre a mesa.

Hannah não queria olhar a perfeita caligrafia, mas não pôde evitar fazê-lo. Pôde lê-lo até estando do reverso. Cem libras.

Se alegrou de estar sentada.

Pamela e ela não necessitavam daquele dinheiro. Com o que Pamela cobrara esse dia, poderiam sobreviver um mês mais. Mas... tinham três bocas juvenis que alimentar, três mentes jovens que formar.

Só então poderiam encontrar emprego para elas em casas respeitáveis e cobrar seus honorários. Cusheon e a cozinheira e a senhora Knatchbull também dependiam de Hannah e de Pamela.

Inclusive Hannah adquirira o costume de comer diariamente. Enquanto não se produzisse nenhum reverso durante o mês seguinte, poderiam colocar às novas e garantir o futuro da Distinta Academia de Instrutoras.

Enquanto não se produzisse nenhum reverso...

—Assim é como trabalham aqui, não? Cobram uns honorários por proporcionar uma empregada e garantir uma plena satisfação com seu trabalho. Bom, eu lhe darei cinquenta libras mais agora mesmo por uma instrutora idônea, e cinquenta libras por me proporcionar um órfão adequado. Além disso, pagarei todos os gastos nos que incorra a instrutora para encontrar o órfão. Não sei a que preço compram os órfãos hoje em dia, mas posso me permitir isso. Vinte e cinco libras ao mês pela instrutora enquanto trabalhe para mim, e ao final, quando tiver conseguido convencer à rainha Vitória e a seu terrivelmente formal consorte que sou o homem para... - se conteve quando estava a ponto de cometer uma indiscrição, —bom, quando tiver recuperado o favor de Sua Majestade, pagarei uma gratificação final de duzentas libras.

Hannah mal pôde conter uma exclamação. Pamela não pôde, e lorde Kerrich a ouviu, disso Hannah estava segura. O conde não se voltou, se limitou a sorrir.

—Vê? Inclusive nossa espiã clandestina acredita que é uma soma importante e que vale a pena o esforço.

Ele estava certo. Pamela se removia com impaciência, exigindo silenciosamente a Hannah que aceitasse em seu nome. Mas Hannah tinha que protestar.

—Milorde, você mencionou à rainha. Minha consciência não me permite participar de um engano a nossa soberana!

O conde a fulminou com o olhar.

—Não vou fazer mal a ela, vou ajudar a nossa soberana, como o fiz todos estes anos. É por seu próprio bem.

Hannah acreditou, embora não sabia muito bem por que. Aquele homem de olhos frios e rosto altivo, tinha sua honra. Não era uma honra convencional, nem humano, mas o levava consigo como parte inerente a seu ser.

—Mas seu plano é tão cruel - disse, baixando a voz.

O conde se recostou em sua cadeira, arqueando suas sobrancelhas escuras e perfeitas em uma expressão de assombro.

—Cruel? Por que cruel?

—A menos que pense adotar ao menino.

—Isso é ir muito longe.

—Assim vai mentir e dizer a ele que o adotará e logo o renegará?

—Não vejo outra alternativa. Não posso confiar os detalhes de meu plano a um menino. - Apoiando firmemente a bengala no chão, descansou ambas as mãos sobre o pomo de marfim. - Senhorita Setterington, o menino desfrutará de todas as comodidades enquanto viva comigo, e passará uma temporada fora do orfanato, ao menos. Não me dirá que isso é mau.

Hannah se mostrou de acordo. Não fazia tanto tempo que ela mesma foi dama de companhia, e sua senhora era uma mulher compassiva.

Hannah teve ocasião de visitar vários orfanatos para lhes entregar roupa e comida, e todos eram lugares horríveis.

—Mas depois, se ver obrigado a voltar...

Lorde Kerrich aceitou a recriminação com um gesto de sua longa mão enluvada.

—Aí você tem toda a razão. Sou um homem compassivo.

Obviamente, não o era, e obviamente também, era completamente alheio a este fato.

—Admito que você está certa - acrescentou. - Ajudarei ao menino a seguir um ofício e a encontrar um emprego para ele a meu serviço. É o mínimo que posso fazer. - Olhou para Hannah com seriedade.

—Mas primeiro tem que me ajudar a conseguir o favor da rainha. Bem, quanto a meus requisitos...

—Para o órfão?

—Não. Suspeito que todos os órfãos são iguais. Meus requisitos são para a instrutora.

O conde podia ser o homem mais bonito que Hannah conhecera em sua vida, mas, com suas hipóteses, suas pretensões e sua aborrecível falta de misericórdia, conseguira que sua cabeça desse voltas.

Tratar com ele era como tratar com o demônio; entretanto, o conde tinha um ar implacável que a convenceu de umas mais que seguras e desagradáveis repercussões caso o rechaçasse abertamente.

Sim, conhecia muito bem aos lordes que se acreditavam tão por cima de outros que podiam fazer o que lhes desse vontade, sem pensar nas desgraças que provocavam, e sim, sabia perfeitamente que, a menos que atuasse com tato, tanto ela como a Distinta Academia de Instrutoras teriam muitos problemas.

—Você deseja entrevistar a nosso elenco de Instrutoras? - perguntou.

—Eu lhe direi o que necessito e você me buscará isso.

Hannah se sentiu aliviada, pois seu elenco naquele momento consistia unicamente em Pamela e ela.

—O que necessita?

—Uma mulher feia, que não seja aficionada a fantasiar, que tenha os pés no chão. Uma mulher velha. - Sua boca carnuda se comprimiu até se converter em uma linha fina.

—Uma mulher velha que tenha abandonado toda esperança de se casar, ou inclusive de amar.

Não conheço nenhuma instrutora assim. Hannah morria de vontade de lhe baixar as fumaças!

Mas Pamela agitava então as mãos freneticamente, pedindo o trabalho como se não fosse o equivalente feminino do atraente lorde Kerrich. Ficou louca?

Ao ver que Hannah vacilava, o conde apertou os dentes.

—Vamos, senhorita Setterington, você já conhece o motivo. Estou farto de ser objeto de suspiros de amor. Tenho que suportá-lo em minha própria casa; a governanta me assegurou que as criadas são necessárias.

Mas se tiver que passar tempo com uma instrutora, e assim será, quero estar seguro que não me porá olhos de cordeiro degolado, ou que, Deus me libere, não se meterá às escondidas em meu quarto e se despirá diante de mim. O que precisamente acaba de me ocorrer com a donzela principal, da que cabia esperar um comportamento mais sensato.

—Cabia esperá-lo, sem dúvida. - Hannah poderia ter sentido a tentação de rir, mas o conde se mostrava tão sincero... e tão presunçoso.

Na realidade, não fosse pela exigência que a instrutora fosse feia, Pamela teria sido a candidata perfeita. Não queria saber nada dos homens.

De fato, teve mais de uma proposta de casamento, mas ela as rechaçara todas, e com altivez, além disso.

Mas gostava dos meninos, e eles gostavam de Pamela. Hannah não compreendia por que estava disposta a participar de um plano que acabaria fazendo mal a um menino. Se levantou, pondo fim à entrevista.

—Me ocuparei de procurar uma instrutora que cumpra com seus requisitos, milorde, mas não posso prometer nada.

O conde se levantou também e lhe sorriu de um modo tão encantador que Hannah esteve a ponto de cambalear. E nem sequer gostava!

—Tente - ele sugeriu. - Não estou em situação de ajudá-la a adquirir respeitabilidade; justamente o contrário, temo. Mas o dinheiro a ajudará a sobreviver até que ganhe credibilidade por si mesma.

O que - inclinou a cabeça e a examinou de cima abaixo - fará. Tem o aspecto próprio das pessoas que conseguem tudo que se propõem.

—Obrigado, milorde. - Oxalá tivesse sido sempre certo. - Logo receberá notícias sobre meus progressos.

—Antes da próxima terça-feira - disse ele. Isso dava a ela uma semana. - Para então, espero que se apresente uma instrutora ante minha porta.

Hannah assentiu. O conde saiu pela porta. Pamela se refugiara entre as sombras da entrada para evitar o encontro, e o conde não olhou nem a direita nem a esquerda ao sair.

Hannah ficou atrás de sua mesa e Pamela atrás da escada, até que Cusheon fechou a porta principal atrás de lorde Kerrich.

Então saíram ao encontro uma da outra, e se encararam no vestíbulo como adversários armados.

—A que veio isso de dizer que não podia lhe prometer nada? - perguntou Pamela. - Eu o farei!

—Sua afeição ao dinheiro acabará por te colocar em uma confusão, Pam! Não dirá a sério que pretende seguir o jogo dele. Lorde Kerrich tem um plano desprezível para convencer Sua Majestade de sua decência, quando é óbvio que carece dela.

—Sendo mais jovem... tive ocasião de conhecer sua Majestade.

Hannah ficou boquiaberta. Sabia que Pamela teve uns pais ricos e bem situados em sociedade, mas jamais, jamais, sua amiga revelara até que ponto caíra ao lhe golpear a tragédia.

—Sua Majestade era então - continuou Pamela em voz baixa, - e estou segura de que é agora, uma pessoa de grande discernimento. Obviamente ameaçou lorde Kerrich de algum jeito. E está rodeada pelos mais sábios conselheiros: lorde Melbourne e agora o príncipe Alberto. Acredito que podemos confiar em que estará a salvo das maquinações de lorde Kerrich.

A Hannah custava acreditar que Pamela tivesse lhe ocultado tantos aspectos de seu passado, nem que claramente pensasse seguir fazendo-o, depois de tê-la tentado lhe revelando indícios de glórias passadas.

—Conhece então lorde Kerrich?

Uma sombra obscurecia os azuis olhos de Pamela, normalmente brilhantes, e sua breve gargalhada tinha um deixe de histeria.

—Nos conhecemos faz muito tempo muito levemente. Não se recordará de mim.

—Mas...

—É muito importante para me reconhecer. - Pamela baixou a cabeça como se o peso de suas lembranças a curvasse. - Então eu tinha outro nome.

Pamela decidira adotar o sobrenome de sua mãe, em lugar do de seu pai. Hannah compreendia, mas Pamela esperava muito se acreditava que não ia sentir curiosidade.

—Por favor, me conte...

—Não me pressione.

Hannah percebeu o tom cortante de sua voz e reprimiu as inumeráveis perguntas que pediam a gritos uma resposta.

—Como quiser. Mas embora não corra o perigo de ser identificada, não me negará que tem que pensar também no menino. Sofrerá, diga o que diga lorde Que-bonito-sou.

—Eu protegerei o menino.

—Você adora aos meninos!

—Digo que eu o protegerei! - exclamou Pamela, se voltando para ela feito uma fúria.

Hannah retrocedeu, atônita.

A fúria de Pamela se desvaneceu rapidamente, deixando-a trêmula, entre grandes convulsões.

—Necessitamos o dinheiro.

—Se aproxime do fogo, querida. - Mas Pamela não se movia, e Hannah insistiu. - Não estamos tão desesperadas!

—Sim, estamos - disse Pamela com descarnada confusão. Hannah a pegou pelos ombros e perguntou:

—O que acontece?

Pamela se largou e entrou no escritório caminhando pesadamente, deixando que seu chapéu caísse ao chão.

Hannah a seguiu e recolheu o chapéu, surpreendida que sua amiga, sempre tão formosa, se mostrasse tão descuidada.

—Pamela?

Pamela remexeu os cabelos, arrancando a rede para cabelo branca e umas quantas forquilhas.

Hannah fez uma careta. Isso devia doer, mas Pamela não parecia tê-lo notado, simplesmente se aproximou do fogo e estendeu para ele as mãos, embora ainda levava postos as empapadas luvas de pelica.

Algo tinha ocorrido. Algo horrível. Mas Pamela não gostava de falar de seus problemas.

Perguntando, Hannah não ia conseguir nada, de modo que provou usar a astúcia.

—Como vai passar por uma mulher velha e feia?

Pamela elevou a vista das luvas, que agora soltavam vapor.

—Quando lady Temperly morreu e te deixou esta casa em herança, também deixou suas roupas, não? Vestirei elas.

—Lady Temperly era alta! Era cinco centímetros mais alta que você, e estava muito encurvada.

—Sim, isso servirá. - Pamela tirou as luvas e as jogou sobre o banco de madeira do escritório. - Empoeirarei a cara de branco e porei ruge nas faces, como fazem as mulheres velhas. Servirá. Tem que servir.

—E as famílias para as quais trabalhou? O que dirão quando a virem disfarçada?

—Sou uma instrutora, não frequento a vida social. Ficarei em um segundo plano, como sempre, e em qualquer caso, sempre trabalhei fora de Londres.

As possibilidades de me encontrar com alguém que possa me reconhecer são escassas.

—Pamela, o que acontece?

Pamela esfregou o sobrecenho como se lhe doesse.

—Recorda quando Charlotte, você e eu procurávamos emprego desesperadamente, e decidimos provar com a Distinta Academia de Instrutoras?

Recorda que esperávamos ajudar a outras a encontrar trabalho e fazer fortuna ao mesmo tempo?

—Sim, é obvio. - O desespero tinha impulsionado Hannah a propor aquele plano.

O desespero e a ambição também, pois se as três amigas não descobrissem um modo de ganhar a vida que não dependesse dos caprichos da classe alta, jamais chegariam a controlar seu próprio destino.

Pamela desejava que a Distinta Academia de Instrutoras fosse um êxito, mais inclusive que as outras duas, trabalhara como uma louca para conseguir empregos temporários que permitissem a Hannah achar as candidatas adequadas para começar com o processo de aprendizagem.

—Esta academia é minha única possibilidade para terminar meus dias com certa prosperidade - disse Pamela. - Não penso renunciar a meu sonho. Nosso sonho.

Hannah compreendeu qual devia ser o problema.

—Foi muito para você, não foi? Trabalha muito, indo de casa em casa para dar aulas a esses horríveis meninos. Aceitaria qualquer coisa para não ter que seguir fazendo isso, mas já disse,

Pamela, que estaria encantada de...

—Não! - Pamela respirou fundo e logo pegou a mão de Hannah. Agarrando os dedos, os aproximou do lado esquerdo de suas costas. - Aqui.

Hannah descobriu um corte no molhado vestido de lã. O corte a levou ao espartilho, também furado, e logo à pele.

—O que...? - Hannah retirou a mão e olhou fixamente a mancha vermelha que tinha em um dedo. - Pamela?

—Ocorreu quando voltava para casa.

—Cusheon! - gritou Hannah, logo pegou Pamela pelo braço. - Tem que se sentar. Está ferida.

—Na realidade não. Só é uma espetada. - Mas Pamela se deixou conduzir para a cadeira. - Me rendi assim que notei a ponta na pele.

Cusheon chegou à carreira.

—Senhoras? - Ao ver o rosto pálido de Pamela, chamou a governanta a gritos.

A senhora Knatchbull irrompeu afanosamente no escritório, seguida pelas duas aprendizes de maior idade.

—Necessitamos ataduras - ordenou o mordomo. - E água quente. Agora mesmo.

—Me roubaram. Perdi todo o dinheiro do mês. - O firme queixo de Pamela tremia. - A menos que aceite a oferta de lorde Kerrich, vamos à ruína.

 

O mordomo a anunciou com a circunspeção que correspondia a uma mulher de sua idade e sua situação.

—Lorde Kerrich, a senhorita Pamela Lockhart da Distinta Academia de Instrutoras está aqui.

Kerrich elevou a vista das contas que tinha diante para observar com olhar crítico à senhora que entrava em seu amplo estúdio de paredes cobertas de livros. Havia fogo aceso na lareira, nos candelabros repartidos pela estadia ardiam velas com sua luz vacilante, as pesadas cortinas de veludo estavam abertas para deixar que entrasse a luz pelos janelões, mas o dia era cinza e nublado e resultava difícil avaliar o aspecto da senhora com detalhe. Entretanto, a precedia um aroma de lavanda enquanto se aproximava dele com passo firme. Então entrou no círculo de luz das velas que rodeava a mesa de mogno profusamente esculpida e, pela primeira vez em quinze dias, Kerrich sentiu novos ânimos.

Não cabia a menor duvida: a senhorita Setterington conseguira uma instrutora que se ajustava a suas necessidades. Séria e sem atrativo, mas não tão velha que assustasse aos meninos.

E a senhorita Setterington obrara o milagre um dia antes do prazo fixado. Kerrich não duvidara nunca do poder do dinheiro.

—Senhorita Lockhart - disse, se levantando para se inclinar.

Ela fez uma reverência, logo o examinou como uma professora a um aluno recalcitrante.

Lhe devolveu o favor. A senhorita Lockhart levava uma horrível mala de malha de tapete, muito gasta e de proporções gigantescas, tão grande que a alça ficava à altura da cintura e o baixo golpeava seus joelhos.

Levava também um guarda-chuva negro com o cabo de madeira grosseiramente esculpido. O vestido, próprio de uma solteirona, era púrpura e lhe sentava mal, muito folgado nos ombros, e luzia os pingos da chuva monótona. Entretanto, tinha um generoso peito e uma fina cintura.

Ah, mas ele conhecia muito bem os truques de espartilho que utilizavam as mulheres para ocultar os defeitos da figura e realçar o que era escasso. Sem dúvida a senhorita Lockhart também os conhecia.

Fixou-se em que usava óculos escuros, sinal seguro de uma vista pobre e uma excessiva dedicação ao estudo. Possuía a cútis e os lábios descoloridos.

O cabelo castanho o penteava para trás e tão puxado que reduzia a flacidez que pudesse haver ao redor do queixo e do pescoço: outro truque feminino, que dificilmente enganaria a um perito como ele.

Uma fina rede para cabelo de renda cinza cobria seus cabelos e usava um adorno absurdo que parecia nem mais nem menos que duas agulhas de tecer cravadas em ângulo reto no coque baixo.

Kerrich deixou cair o monóculo e se sentou.

—Talvez sirva - disse.

Ela assentiu e, sem esperar convite, se sentou na antiquada cadeira Hepplewhite diante da mesa. O estilo da cadeira se adaptava a ela perfeitamente.

—O mesmo ia dizer eu.

Kerrich conteve a risada com muita dificuldade. A senhorita Lockhart recordava a seu avô, um cavalheiro que nunca tolerara insolências, Por Deus, de alguém tão indigno como um simples neto de trinta anos.

Seu regozijo se evaporou então. Era por seu avô por quem fazia tudo isto. Por seu avô e pelo banco e pelo sobrenome familiar, que não devia sofrer por culpa da fraqueza de seu primo e... e que não merecia se converter em objeto de brincadeira. Apertou os punhos ao recordar as risadas.

—Haverá trazido referências.

—É obvio. - Afundou a mão na ampla mala, tirou três folhas cheias e as estendeu através dos organizados montões de papéis que o conde tinha sobre a mesa. - Tenho nove anos de experiência com meninos e, como pode ver, trabalhei para famílias absolutamente exemplares de diversos condados próximos a Londres. Lady Byers, em especial, ficou muito agradada com os resultados de meus ensinos.

Sua filha era uma selvagem quando entrei na casa, e quando fui, ficou desolada.

Kerrich leu as cartas por cima. Procediam de boas famílias rurais, a maior parte de condados do sul. Todas afirmavam que a senhorita Lockhart tinha uma habilidade especial para ensinar aos meninos.

Lhe dava igual. Só o preocupava que cumprisse com seus requisitos.

—Suponho que a senhorita Setterington lhe explicou o que necessito.

—Sim. - A senhorita Lockhart deixou a mala a seus pés. - Tenho que comprar um órfão e adestrá-lo como companheiro.

Hum. Dito assim, não soava tão terrível.

—Para que você possa ganhar - a senhorita Lockhart percorreu a magnífica biblioteca com o olhar - uma aposta, ou algo parecido, com o qual lucrará ainda mais.

Isso sim que soava terrível. Muito ofendido pela recriminação implícita no comentário, Kerrich ficou em pé. Mas ela o interrompeu elevando uma mão.

—Economize essa indignação superficial, milorde. Ao contrário das outras mulheres que conheço, eu compreendo perfeitamente que aristocratas jovens e arrumados tenham a mesma afeição às riquezas que os velhos e vetustos mercados. De fato, eu diria que esse atributo forma parte do honorável estilo de vida inglês. - Sorriu com uma espécie de pálida imitação do humor.

—Inclusive as damas desejam sua porção de fortuna. A mesma razão, de fato, me trouxe até aqui.

O conde seguia de pé olhando a irritante mulher. Até desaprovando-a, a condenada senhorita Setterington obtivera que sua missão se fizesse mais evidente que esta velha solteirona com seu beneplácito.

—O advirto que protegerei ao menino de todo dano - disse a senhorita Lockhart.

—O menino? - O que balbuciava aquela mulher sobre o menino?

—Sim. Tenho suposto que sua momentânea vacilação tinha a ver com certa preocupação pelo órfão. Na realidade, você parece bastante pessimista com respeito ao futuro do pequeno.

—A senhorita Lockhart pestanejou atrás de seus óculos escuros.

Pestanejava, ou lhe piscara o olho?

A atitude da senhorita Lockhart recordou a Kerrich seu propósito. Pegou o candelabro que tinha ao lado, rodeou a escrivaninha e iluminou de pleno seu rosto com a luz das velas.

Ela baixou a vista, apertando as finas janelas do nariz em um gesto de desdém, ou possivelmente de consternação. Pois a senhorita Lockhart não era tão velha como ele tinha suposto em um princípio, embora tampouco podia confiar em que a idade a protegesse de insinuações inoportunas. Sua impressão inicial sobre a severidade da instrutora se desvaneceu, lhe deixando a ideia que se tratava simplesmente de uma mulher pouco agraciada, solteirona, e possivelmente desesperada por abandonar seu celibato para cair nos primeiros braços masculinos que tivesse a seu alcance.

Concretamente, em seus braços.

Uma simples prova demonstraria se estava equivocado... ou, por desgraça, certo. Procedeu friamente para se assegurar que podia estar tranquilo. se inclinou sobre ela e desdobrou essa confiança viril que as mulheres parecem encontrar absolutamente irresistível, esperando que ela elevasse a vista.

Finalmente o fez, mas não deu mostras de estar impressionada.

—Poderia baixar o candelabro, milorde? Sua luz é muito intensa e temo que deixe cair a cera sobre meu segundo melhor vestido.

—Seu segundo melhor vestido? É tão bonito - mentiu ele com muita lábia - que pensava que era o melhor.

Ela o olhou como se fosse um candidato perfeito para o Bedlam[1] e afastou a saia para que não ficasse debaixo das vacilantes velas.

—Meu melhor vestido o levo os domingos, milorde. Quando vou à igreja, como todas as mulheres cristãs.

Uma reprimenda, e que apontava à dissipada conduta de Kerrich.

—Então é simplesmente a dama que o leva a que cria a ilusão de uma beleza sem igual.

Fazendo caso omisso da garbosa figura do conde, a senhorita Lockhart colocou a mão na mala que tinha a seus pés e tirou um novelo e uma parte de... algo tecido com lã negra.

—Não me diga!

Hum. Seu tom não parecia especialmente sarcástico, nem tampouco ela parecia fascinada por seus encantos. Fingia desinteresse, ou era realmente a velha ameixa passa que ele necessitava?

Kerrich deixou o candelabro a um lado, apoiou o quadril na escrivaninha e se inclinou mais sobre ela.

—Tal como expressei à senhorita Setterington, acredito que o menino estará melhor servindo a mim que em um orfanato. Era a ideia do engano o que provocava uma pontada de remorso.

As faces da senhorita Lockhart se afundaram como se tivesse franzido a boca.

—Compreendo.

Ele sorriu com um delicioso interesse, embora fingido.

—Entretanto, me pergunto até que ponto lhe remói a consciência, senhorita Lockhart. Uma mulher atraente, na flor da idade, não pode desejar somente cuidar dos filhos de outros.

Sem dúvida você desejará ter filhos próprios.

A senhorita Lockhart explodiu. Não havia outra palavra para definir sua exasperação.

—O que eu deseje não é assunto seu, milorde. A você somente deveria interessar meu caráter e minha capacidade. Bem. - Levou a mão à nuca, tirou as longas agulhas do penteado, trespassou-as na coisa tecida e, ante os olhos atônitos do conde, ficou a fazer ponto de tricô. - A senhorita Setterington me informou de sua generosa oferta de salário. Entretanto, me desculpará que não só confirme a quantidade, mas sim me preocupe com as disposições sobre meu alojamento.

Ao conde lhe faltaram as palavras uns instantes preciosos. Então, a senhorita Lockhart era uma excêntrica, desse tipo de solteironas absurdas que a Inglaterra produzia em abundância.

As agulhas ressoavam sem pausa ao entrechocar.

—Cama e comida, é obvio, lorde Kerrich, e em um quarto decente e bem ventilado. - Olhou em torno, avaliando.

Este estúdio é uma sala agradável, com muitos adornos bonitos e, o que é mais importante, não noto nenhuma corrente. A sala é maior do que preciso, mas imagino que você, igual a mim, detesta as salas pequenas.

As salas pequenas fomentam a má saúde, e uma mulher só tem que cuidar muito de sua saúde. Além disso, terei uma lareira que não fumegue. Terei meio-dia livre cada quinze dias, sem exceções.

Exijo que me permita assistir ao serviço religioso todos os domingos, e levar o menino comigo, além disso. Acredito que um coração reto é necessário para uma boa educação, e...

Ele a interrompeu por pura necessidade e para finalizar sua prova.

—Minha querida senhorita Lockhart. Querida, querida senhorita Lockhart. - Pôs uma mão sobre uma das dela, detendo assim o incessante movimento das agulhas.

—Deve saber que não tem que se preocupar pela escolha de seu quarto. Eu... pessoalmente... aprovo que seu quarto não esteja muito longe do meu.

Ela olhou a mão com frieza e logo olhou a ele. Atrás dos óculos escuros, entreabriu os olhos de espessas pestanas.

—Perdão, como diz?

—Esses detalhes carecem de importância. Terá tudo que deseja, e estou impaciente por trabalhar... estreitamente... com você na educação do órfão. - Kerrich moveu as pestanas, que não desmereciam as dela.

Com mortífera precisão, a senhorita Lockhart utilizou uma agulha de tecer para lhe dar um golpe na mão, o bastante forte como para que a retirasse bruscamente e a esfregasse. Logo elevou a agulha e transpassou com ela o coque que recolhera na nuca. Jogou o trabalho inacabado no interior de sua mala e disse com espantosa severidade:

—Jovem, embora não dou crédito a meus ouvidos, o entendi. Meu esmero tem a culpa de que me assediem com cuidados masculinos, mas me nego a aceitar meu destino sem mais.

Por muito que me regozijasse com seu generoso salário, devo rechaçar seus cuidados e o emprego.

Deus, era perfeita. Imune ao encanto de Kerrich, tão segura de si mesma, de sua moralidade e, por assombroso que parecesse, de seu atrativo, que era impossível afastá-la do caminho reto.

—Não! Por favor, senhorita Lockhart, deixou muito claro quais são seus princípios. Asseguro que nossa relação será estritamente trabalhista.

—Com a senhorita Lockhart, Kerrich sabia que o órfão aprenderia, estaria atendido, e ele estaria sozinho e a salvo em sua cama.

Ela o observou com desconfiança.

—E minhas exigências com respeito ao emprego?

—Todas serão satisfeitas.

—Será capaz de dominar seus impulsos animais?

Ele assentiu com extraordinária gravidade.

—Por difícil que me resulte, sim.

—Desejo expressar minha opinião, milorde, embora não conheci nunca a nenhum homem o bastante razoável para atender a razões.

OH, isto será genial.

—Adiante.

—Seria melhor que se casasse.

—Todas as mulheres pensam o mesmo. Isso é precisamente o que me disse Sua Majestade.

—A união marital, conforme tenho entendido, proporciona ao homem uma válvula de saída para essas incômodas paixões que os afligem. Mas suponho que só dispõe de um breve prazo para cumprir com as exigências da rainha.

—Me deu três meses.

—Três meses para se tornar respeitável? - O olhou e riu com um sardônico grasnido de desdém. - Até me parece injusto.

Sim, não tem mais remédio que trazer um órfão a sua casa, pois nenhuma mulher em seu são julgamento se casaria com você sem um prolongado cortejo e uma promessa de fidelidade escrita e assinada com sangue.

Kerrich abandonou sua enfraquecida postura para se erguer.

—Nenhuma mulher me rechaçaria.

—Brinca, milorde.

—Não há mulher viva que não se deixe seduzir por um belo rosto, um título ou uma fortuna, e posso dizer sem pecar de orgulhoso que possuo as três coisas. Por favor, senhorita Lockhart.

Você se mostrou resistente à sedução, mas e se lhe propor casamento?

—Essa é uma hipótese estúpida. Embora fosse a mulher mais formosa do mundo, não me pediria em casamento.

Todos os homens afirmam que se deixam dominar pelas paixões, mas se isso fosse certo, se casariam segundo seus desejos e não sua conveniência.

—Mas se me dominasse a paixão por você, aceitaria-me por meu rosto e minha figura.

—Os homens não amam com todo o coração, e os homens arrumados são os piores, pois são uns convencidos.

—Então me aceitaria por meu título.

—Procedo de uma nobre linhagem. Sei que um título não confere honra, nem perseverança, nem integridade.

Deliberadamente, Kerrich adotou o papel da serpente no éden, e ofereceu a irresistível maçã.

—Então me aceitaria por minha fortuna.

Ela vacilou.

Como ele sabia que ia ocorrer.

—Arrá! - Agarrando o joelho com as mãos, se tornou para trás e a observou com satisfação. - Eu tinha razão.

Ela o olhou e viu algo em seu rosto - e o que podia ser, maldita seja! - que reforçou sua determinação.

—Se equivoca. Me abstive com êxito de fugir com qualquer dos homens que me têm feito propostas, e não trocaria meus sonhos por uma vida com você.

—Seus sonhos devem ser grandiosos.

—Não, mas são meus. - se levantou e se pendurou a mala no braço com esforço. - E já tenho bastante desta inútil conversa.

—Sim. - Kerrich não podia acreditar que se deixou atrair para semelhantes brincadeiras, e com uma criatura tão feia e desagradável. - Compreendeu o que deve fazer?

—Conseguirei um órfão e o trarei aqui. Dado que suspeito que deseja que o menino tenha um mínimo de maneiras, o ensinarei...

Ele desceu da escrivaninha e se afastou dela.

—Depressa.

—Sim. Depressa. Logo... procederemos como você indique.

—Adquirirá o menino antes que termine o dia.

—Já é tarde, milorde. Hoje me instalarei em meu quarto e fiscalizarei as disposições para nossas aulas. Amanhã procurarei um menino.

Kerrich pegou à senhorita Lockhart pelo braço e a acompanhou com energia até a porta.

—Então, tudo arrumado.

—Quando menos, os detalhes principais. Não quero lhe roubar mais tempo.

—Bem. - Kerrich precisava voltar para seus números, que eram bons, maldita seja. Melhores que bons, e a rainha Vitória era uma estúpida por ter duvidado dele.

—Diga à governanta que a ponha no dormitório contiguo à sala de aula para as aulas. Se não o encontrar satisfatório, faça as melhoras que considere oportunas. Direi à mulher que seus desejos são ordens.

A instrutora se deteve justo antes de chegar à porta.

—A... mulher?

—A governanta. - Kerrich se esforçou por recordar o nome. - Bertha ou Betty ou algo parecido.

A instrutora não se moveu.

—É nova na casa, então?

—Relativamente. Sete anos. Dez. Não sei. - O que queria a condenada instrutora? Por que não se ia de uma vez?

Ela se dispôs a falar e Kerrich reconheceu no ato a faísca que brilhava em seus olhos. Tinha-a aborrecido de algum modo. Estava a ponto de lhe soltar uma repreensão. Falaria claro com ela e a poria em seu lugar.

Mas um golpezinho na porta a salvou de uma reprimenda que pedia a gritos.

—Entre - disse Kerrich com impaciência.

Moulton - o mordomo que era muito mais que um mordomo - entrou e anunciou:

—Milorde, o senhor Lewis Athersmith.

O primo de Kerrich ia por fim a sua convocatória.

Kerrich e Moulton intercambiaram olhares de satisfação; agora poderiam continuar com seu plano.

—Não os incomodarei - disse a senhorita Lockhart com rudeza de mestra.

—Sim. - A visão da instrutora de cara leitosa, boca franzida e vestido púrpura só servia para lhe recordar a pasmosa rajada de desgraças que experimentara. Não compreendia como pôde ocorrer.

Fazia apenas um mês, tudo era como devia ser. Possuía seu título, sua fortuna, seus ganhos, seu atrativo e sua saúde, uma família próspera, uma amante no leito, debutantes com as que paquerar, o respeito e a boa vontade de todas as pessoas distintas, o medo de seus inimigos... tudo era correto em seu mundo.

Então seu cavalo favorito ficou coxo, a donzela principal se apresentou em seu dormitório completamente nua, sua amante se sentira ofendida e o deixara em um ataque de histerismo, passara pela catastrófica entrevista com a rainha Vitória, escapou a Norfolk acreditando que ali, em meio da paz e da beleza de seu imóvel, idearia o modo de apaziguar à rainha e a seu pomposo consorte.

Mas ali teve que procurar proteção durante uma tormenta, e encontrara aquele artefato infernal em uma choça abandonada.

Nem sequer sabia o que era a princípio. E sendo ele banqueiro! Logo se dera conta e ao mesmo tempo compreendera o perigo que corria. Por Deus, se os vilões o pegassem ali!

Saíra fugindo da choça, dera instruções para que ninguém se aproximasse do imóvel por aquela zona, e fora a galope à estação de ferrovia. Uma vez em Londres, apresentou imediatamente aos funcionários indicados para denunciar o delito e exigira que tomassem medidas... mas então descobrira que não era tão fácil.

E isso era culpa de Lewis.

A senhorita Lockhart e ele se encontraram com o primo no vestíbulo.

—Mordomo novo, Kerrich? - Lewis observou Moulton que se afastava. - Pensava que não retiraria nunca ao velho McCutcheon.

—Foi visitar sua filha - mentiu Kerrich.

Ao reparar na senhorita Lockhart, Lewis se inclinou, fazendo que os loiros cabelos lhe caíssem sobre a testa franzida.

—Sinto muito, senhora, não a tinha visto.

A senhorita Lockhart fez uma reverência e Kerrich se disse amargamente que certamente Lewis mereceria sua aprovação. Kerrich e Lewis tinham uma idade parecida, mas enquanto Kerrich sabia sem presunção que estava dotado de um grande atrativo, ao ver Lewis ninguém podia pensar dele mais que era uma boa pessoa. Que era um clérigo, possivelmente, ou um professor. Na família Mathewes,

Lewis ficara com toda a sinceridade, a resolução e a veemência.

Quem poderia imaginar que essas mesmas qualidades o iam conduzir ao desastre?

—Milorde, quem é este jovem encantador? - perguntou a senhorita Lockhart, com um toque de aprovação em sua voz terminante.

—Meu primo, o senhor Lewis Athersmith. Lewis, esta é... a instrutora.

—A instrutora? - Lewis ficou atônito.

—A instrutora. - Que Lewis pensasse o que lhe desse vontade.

Mas a mulher apontou para Kerrich com seu guarda-chuva como uma mestra lendo a cartilha a um aluno.

—Lorde Kerrich, como me chamou?

—O que? O que? - A olhou fixamente. O rosto da senhorita Lockhart estava esquartejado pelas luzes e as sombras do vestíbulo. Parecia quase ameaçadora e, para assombro de Kerrich, seus traços mostravam um indício de beleza. A examinou com maior cuidado. Uma beleza murcha. - É a senhorita Lockhart. Por quê?

—Não volte a esquecer meu nome - ordenou ela, pronunciando as palavras com grande claridade.

Ele a olhou assombrado enquanto ela voltava a fazer uma reverência a Lewis.

Lewis sorriu ao lhe devolver a saudação uma vez mais, pecando de muito entusiasmo.

—Estou impaciente por voltar a vê-la, senhorita Lockhart. Qualquer mulher que se atreve a ler a cartilha a meu primo tem que ser uma pessoa formidável.

A senhorita Lockhart se inflou um pouco. Não havia outra palavra para descrever sua atitude, e se não fosse pela confusão enorme em que se converteu sua vida, Kerrich teria despachado aquela mulher antes que a farsa desse começo a sério. Mas sabia muito bem que seria virtualmente impossível encontrar outra instrutora da idade e caráter adequados, de modo que apertou os dentes ao ver que a senhorita Lockhart aprovava Lewis. Exatamente igual todos na família faziam sempre; inclusive o querido avô de Kerrich tinha posto Lewis como exemplo rotulado a seguir.

—Agora viverei aqui, senhor Athersmith, e será um prazer tratar com você. - A senhorita Lockhart se voltou para o mordomo. - Senhor Moulton, desejo ver a governanta. Agora mesmo.

—E se afastou com passo firme atrás do mordomo.

—É um inseto raro. - Lewis voltou sua atenção para seu primo. - Mas não mais raro que você. Uma instrutora, primo?

Kerrich ensaiou a história que tinha ideado para justificar sua súbita e suspeita filantropia.

—Vou adotar um órfão, um menino que encontrei na rua.

Lewis o olhou como se não estivesse seguro de ter ouvido bem.

—A coragem e a masculinidade do moço me cativaram.

—Coragem e masculinidade. - Lewis baixou a vista com um sorriso reprovador. - É obvio.

Kerrich compreendeu que metera a pata. Desde meninos, ele fora sempre o audaz, o encantado, que herdaria o dinheiro, as propriedades e o título.

Lewis fora o estudioso, que se licenciara em Oxford com honras, para o que todo mundo predizia um futuro brilhante.

Entretanto, que demônios de comportamento era esse ao que se entregou Lewis? E por quê? Na realidade, não importava muito; como cabeça da família, Kerrich não podia permitir que seu sobrenome e sua honorável reputação se vissem arrastados pela lama. Mesmo assim, estava resolvido a averiguar o porquê.

De modo que, com uma consideração que se contradizia totalmente com o que na realidade sentia pelo cabeça de cão de seu primo, guiou-lhe até o cômodo conjunto de poltronas que havia ao redor da lareira.

—Sente-se, Lewis.

Lewis se sentou lentamente em uma poltrona, com uma expressão cautelosa em seus olhos azuis.

E de culpabilidade. Maldita seja! Como não se deu conta antes? disse-se Kerrich.

Respondeu-se ele mesmo que fazia meses que não via Lewis. Deus sabia que não sentira falta dele, e não lhe ocorrera que tivesse que indagar nas atividades de seu primo.

Lewis era filho de um vigário, pelo amor de Deus! supunha-se que tinha um honorável emprego ao serviço de lorde Swearn, preparando seu herdeiro para entrar em Oxford, não que estava comprometido em atividades delitivas!

Quando Kerrich pensava nisso, lhe entravam vontades de sacudir Lewis até o fazer entrar em razão, e enviá-lo logo depois de volta ao imóvel familiar de Norfolk onde o avô sacudiria Lewis até que esquecesse sua loucura. Mas alguém precisava averiguar os detalhes dos delitos de Lewis, se inteirar dos nomes de seus cúmplices e, o que era mais importante, do cérebro criminal, e se ocupar de todo o assunto.

Esse alguém era Kerrich. De modo que se sentou em uma poltrona frente a seu primo com o semblante sério e lhe disse:

—Tenho algo a te propor.

Lewis se voltou ainda mais cauteloso.

—Você, primo?

—Há problemas no banco. - Kerrich sopesava suas palavras com cuidado, escolhendo as que podiam causar o efeito ótimo. - Não posso recorrer a ninguém que não seja da família. Necessito que venha morar comigo.

Que trabalhe para mim. - Lewis quis falar, mas Kerrich elevou uma mão. - Me escute primeiro, por favor. Sei que já tem emprego - despediram Lewis, mas Kerrich fingiu ignorar isso,

—e não será muito honorável por sua parte partir em um momento assim, mas me encontro em uma situação espantosa que terá consequências nefastas.

—Você, primo? - Um leve sorriso bateu as asas ao redor da boca de Lewis.

—Sei que não posso te pedir de boa fé que renuncie a seu trabalho por mim, mas confio em seu afeto pelo avô.

O sorriso de suficiência de Lewis desapareceu.

—Por que seus problemas teriam que afetar lorde Reynard?

—Porque se trata do banco de meu avô. Ele o fundou, ele trabalhou ali inclusive depois de confiar a gerência a meu pai, ele me ensinou a levá-lo depois que meu pai morreu. Sei que detesta os números e as finanças, e sei que jurou que nunca trabalharia no banco, mas espero que seu afeto pelo avô vença sua resistência.

Ali estava de novo. A culpabilidade escrita na cara para que Kerrich a visse. Não ocorrera a Lewis que seu delito seria um duro golpe para lorde Reynard? Ou acaso descartara todo escrúpulo e já não lhe importava?

Ao ver que Lewis não respondia em seguida, Kerrich prosseguiu.

—Já sei que me dirá que o avô só é seu tio avô. Entretanto, acredito que sente um grande afeto por ele, e embora ele não o mencionaria jamais, também lhe deve sua educação.

A resistência de Lewis cedeu sob o peso da culpabilidade que Kerrich empilhava sobre ele.

—Sim - disse. - Devo tudo a seu avô. Se considerar que seu problema no banco é tão grave como diz, o ajudarei, é obvio.

—Não poderia ser mais grave - replicou Kerrich. - Como sabe, nós imprimimos nossos próprios bilhetes para distribuí-los em Norfolk.

Lewis assentiu. Certamente não se atrevia a abrir a boca por medo que lhe escapasse uma confissão.

Assim Kerrich disse a Lewis o que este já sabia.

—Alguém está falsificando nossos bilhetes.

 

Os meninos eram umas criaturas odiosas. Pamela dava voltas a esta ideia enquanto examinava a ávida multidão de órfãos agrupados em torno dela no refeitório. Todos faziam o possível por destacar, tratando de se converter no escolhido que ela levaria do estéril ambiente do orfanato, e o ridículo comportamento dos meninos lhe recordaram o comportamento ridículo do menino grande que pôde observar no dia anterior.

O menino grande era lorde Kerrich e jamais vira outro homem adulto adotar modos mais estúpidos. Sim, era bonito, rico e com título. Sim, com seu sorriso podia atrair aos pássaros. Não, não a impressionava.

Como não a impressionavam os assobios e truques com que os meninos pretendiam chamar sua atenção. Os encantos de Kerrich eram tão óbvios e tediosos como os de seu primo eram refinados e escrupulosos.

Kerrich poderia aprender muito do senhor Athersmith.

Não o faria, é obvio. Pamela recordou ter observado Kerrich em Kensington Palace e tê-lo etiquetado como jovem jactancioso com uma elevada opinião de si mesmo. Não mudara. Se considerava superior a outros nobres.

A Pamela só cabia esperar que algum dia alguém - alguma mulher - o pusesse em seu lugar. E que ela estivesse ali para vê-lo.

Um dos meninos de oito anos começou a cantar com voz doce e aguda. Estava dotado, e com a aprendizagem adequada podia se converter em um grande vocalista, mas embora Kerrich negava ter interesse algum em seu órfão, Pamela suspeitava que sabia o que o conde queria: um menino varonil ao que pudesse bater no ombro.

Uma instrutora responsável e bem paga teria que fazer o possível por conseguir o que seu patrão queria, de modo que, tenazmente, Pamela fez caso omisso do talentoso moço e também das meninas que estavam sentadas na escada com a cara apertada entre os barrotes do corrimão. Uma lástima, porque Pamela sentia fraqueza pelos meninos desprezados, marginalizados, os restantes. Os compreendia muito bem.

—Né! - Um dos meninos mais velhos afastou aos pequenos a empurrões. - Sou Chilton. Sou forte. Vê? - arregaçou e flexionou o músculo. - Posso conduzir seu carvão e posso limpar sua estufa melhor que qualquer destes.

—Não é verdade. - Valente e furioso, um dos meninos pequenos lhe devolveu o empurrão. - É maior, mas é um folgazão.

Chilton apertou o punho.

—Não sou.

Outro menino lhe deu um empurrão por trás, e os três meninos mais duros acabaram rodando pelo chão em uma confusa briga.

—Uns meninos muito batalhadores, não lhe parece? - a senhora Fallowfield, a diretora do orfanato, tratou de pôr boa cara à briga.

Pamela retrocedeu para evitar o torvelinho, sem dizer nada.

Vendo que o desaprovava, a senhora Fallowfield deu umas palmadas e tentou pôr ordem a gritos sem nenhum resultado. Aquela ordinária mulher não tinha o menor controle sobre os meninos, mas só os desesperados ou os corruptos aceitavam um emprego como aquele, e Pamela acreditava que a mulher era ambas as coisas.

Certamente se mostrara mais que disposta a vender um dos meninos a Pamela sem sequer perguntar qual seria seu destino. Só exigira saber o que pensava lhe pagar.

O olhar de Pamela se desviou para os que estavam mais longe. Havia um menino de uns dez anos que se mantinha à margem do resto, observando o alvoroço com olhos de cor avelã muito grandes para seu rosto magro e manchado. O cabelo era castanho, estava sujo e lhe chegava justo até os ombros.

Levava uma espécie de blusão e sustentava uma vassoura, e embora o grupo de meninos que brigavam tampava a parte inferior de seu corpo, a Pamela pareceu lastimosamente magro.

Elevou a voz para se fazer ouvir sobre o tumulto e perguntou à senhora Fallowfield:

—E o que tem esse moço?

Surpreendida, a diretora respondeu:

—Mas se não é...

Chilton o tinha ouvido, e antes que acabasse, ficou em pé com dificuldade, limpando com a manga o sangue do nariz.

—Moço? - Caiu de novo ao chão, rolando de risada. Seu regozijo parecia contagioso, pois outros meninos também riram. As garotas assobiaram e chutaram o chão, e inclusive a senhora Fallowfield teve dificuldades para dominar a risada.

Ao moço parecia que lhe tivessem dado uma bofetada, e não pela primeira vez.

Parecia que Pamela o convertera em objeto de brincadeira sem querer. Indicou ao moço que se aproximasse com um gesto e, ao se aproximar ele, compreendeu tudo. O moço era uma garota.

O que parecia um blusão era na realidade um vestido andrajoso. Os pulsos ossudos se sobressaíam das mangas e a prega se foi tirando até não ficar mais, e ainda assim lhe viam os tornozelos embutidos em meias três - quartos. Pamela não sabia por que usava o cabelo curto, mas era evidente que esta circunstância dera pé a outros mal-entendidos, a outras brincadeiras anteriores.

A pobre menina estava à beira das lágrimas, e pugnava por não deixar que outros vissem que se sentia doída.

Pamela compreendeu tudo. Recordava muito bem sua própria infância de patinho feio, quando outros zombavam dela por suas pernas desengonçadas e sua incrível estupidez.

Também ela fora o alvo de muitas brincadeiras, assim como da brincadeira celestial mais conhecida: se converteu em um formoso cisne.

Sentiu desejos de assegurar à menina que muito em breve os meninos dariam algo por um sorriso de seus lábios, mas não podia prometer beleza, nem confiança, nem força de caráter. Não havia modo de crescer em um entorno tão carente de amor, tão duro. De modo que Pamela enlaçou as mãos a suas costas e perguntou:

—Como se chama, querida?

—Elizabeth, senhora. - A menina fez uma reverência. - Elizabeth Hunter.

—Quantos anos tem, Elizabeth?

—Tenho oito anos.

Oito? Tinha oito anos? Apesar de sua lastimosa magreza, a menina era alta e prometia sê-lo mais ainda. Não era de estranhar que se encurvasse.

Pamela ansiava consolá-la, e seus dedos se retorciam enquanto os apertava para reprimir seus impulsos.

—Quanto tempo leva no orfanato, Elizabeth?

A sala ficou em silêncio; todos escutavam a conversação.

Embora fosse óbvio que Elizabeth estava nervosa, devolveu o olhar a Pamela sem pestanejar.

—Pouco mais de um ano, senhora, desde que meus pais morreram pela febre.

—Ah. - Ao contrário dos outros meninos que Pamela encontrara ali, aquela menina falava com claridade e educação, e agora já sabia o porquê. - Você também esteve doente?

—Sim, senhora.

Isso explicava o corte de cabelo, pois todo mundo sabia que o cabelo comprido absorvia a força, e se cortava como tratamento comum para curar uma febre. Pamela lhe sorriu para animá-la.

—Bem, Elizabeth Hunter, peço perdão por tê-la confundido com um menino.

Se separando do matagal de braços e pernas, Chilton se levantou cambaleando, tropeçou com Pamela, e fez uma careta à menina.

—Sim, Beth, com a galinha que é não poderia ser um menino.

—Ah, não? - Rápida como uma serpente, Beth lhe pegou por uma orelha e a retorceu, obrigando ao menino a cair de joelhos. - Ao menos eu não sou uma ladra. Devolveu-lhe.

Pamela a contemplava com assombro.

—Au, au, au. - Chilton cravou as unhas na mão de Beth, mas esta não fez caso da dor.

Chilton tentou bater nela.

Ela se afastou, estirando o braço para ficar fora de seu alcance e voltou a lhe retorcer a orelha.

Finalmente Chilton meteu a mão nas calças e tirou o relógio de prata de Pamela.

Pamela se enfureceu. Ao tropeçar com ela, o menino lhe tirara o relógio - a única herança que conservava de seu pai - do pequeno bolso de sua saia.

Cortara a fita que o segurava, em uma operação tão hábil que nem sequer se deu conta.

Beth soltou Chilton, mas a ira silenciosa de Pamela devia se entrever em sua expressão, porque deixou cair o relógio e retrocedeu engatinhando.

Beth pegou o relógio antes que golpeasse o chão e o limpou com seu avental.

—Se tiver um lenço, senhora, pode guardá-lo entre suas dobras até que possa limpá-lo adequadamente depois que tenha estado em suas calças.

A senhora Fallowfield tentou golpear Chilton na cabeça quando este passou furtivamente por seu lado.

—Pequeno depravado, agora a senhorita Lockhart pensará que o estou educando para ser ladrão!

Acaso Pamela era um bufão? Um vil bandido roubara seu salário de um mês, e logo um menino de orfanato lhe roubava o relógio.

—Senhora? - Beth seguia lhe oferecendo o relógio com a mão estendida.

Lentamente, Pamela estendeu a mão com o lenço para pegar o relógio. Beth deu um sobressalto como se esperasse uma bofetada.

Pamela se deteve e percorreu a silenciosa multidão com o olhar. Odiavam Beth. Era diferente por seu aspecto e sua forma de falar, e agora, ao atuar assim, Beth fazia que todos parecessem ladrões.

Seria castigada por sua boa obra? Pamela olhou de esguelha à enfurecida senhora Fallowfield e compreendeu que jogaria a culpa em Beth por denunciar o delito, em lugar de castigar ao menino por cometê-lo.

Pegou o relógio, o colocou com o lenço em seu bolsinho e logo tirou a luva direita. Umedeceu o polegar com a língua e limpou a mancha que Beth tinha no queixo. Se decidiu então e disse:

—Levarei a esta.

Beth abriu muito os olhos brilhantes.

Entre os órfãos se ouviram sussurros.

—Esta? - disse a senhora Fallowfield sem poder conter seu desprezo. - Se vinha por um menino!

Beth perdeu aquele breve brilho ao olhar à senhora Fallowfield e logo a Pamela.

—Mudei de ideia.

A senhora Fallowfield se comportou como uma dependente frustrada, se negando a ceder.

—Beth não será boa para você. É insolente e... e orgulhosa. Acredita que é melhor que outros.

—Sim. Isso já vejo - disse Pamela bruscamente, abrindo sua carteira. - Acredito que disse três libras esterlinas por um órfão de menos de dez anos.

—Por um menino!

Pamela deveria ter imaginado que a mulher não se daria por vencida facilmente. Transpassou-a com um olhar e disse:

—As garotas valem menos, assim serão duas libras.

Beth apertou as mãos junto a seu peito, como se a esperança começasse a arraigar em seu coração faminto de afeto.

A senhora Fallowfield ficou boquiaberta.

—Vamos - grasnou. - Cinco libras. Cinco libras por esta pequena descarada.

Pamela colocou três libras na mão da senhora Fallowfield e, apesar de seus protestos, a mulher apertou as moedas com avidez.

—Três libras, tal como tínhamos convencionado. - Pamela pegou Beth pela mão e se encaminhou para a porta.

A senhora Fallowfield correu atrás delas.

—Lamentará. Voltará passado um dia se queixando dela.

Beth abriu a porta da rua como se a doce liberdade a aguardasse no ar úmido da manhã.

Quando Pamela saiu aos estreitos degraus, dedicou à senhora Fallowfield seu sorriso mais frio.

—Então terá o indubitável prazer de me dizer que já me advertira disso.

 

Meu Deus, o que tenho feito?

O lacaio sustentava o guarda-chuva enquanto Pamela insistia com Beth para subir os degraus da carruagem de lorde Kerrich. Logo ela subiu e se sentou olhando para frente, assaltada totalmente pelas dúvidas.

Como podia ter se deixado levar por seus impulsos de levar a uma menina do orfanato, quando sabia muito bem que Kerrich queria um menino?

Seu temerário ato de desafio podia ter como consequência que a despedisse, o que nem ela nem a Distinta Academia de Instrutoras podiam se permitir.

Em silêncio, olhou à menina fraca, suja e mal vestida que tinha à frente.

Mas o silêncio durou somente o que o chofer demorou para pôr aos cavalos em movimento e Beth em cair de joelhos naquele reduzido espaço.

Beth se apoderou da mão enluvada de Pamela, beijou-a e, com voz tímida e séria, disse:

—Obrigado, senhorita. Obrigado por sua bondade ao me tirar daquele lugar. Tinha perdido a esperança, mas agora a recuperei e lhe juro, senhorita, juro sobre as tumbas de meus pais, que farei tudo o que me peça.

Serei boa. Não lhe causarei nenhum problema. Não se dará conta sequer de minha presença, de tão boa que serei.

—OH, se levante, por favor! - Consternada pela expressiva gratidão da menina, Pamela retirou os dedos. Uma vez mais, Beth a recordara a si mesma quando era menina, se esforçando por ser tal como seu pai queria, por fazer tudo o que ele queria. Nem sequer as lições que a ensinava constantemente - que nada do que ela fazia podia lhe agradar muito tempo - a impedira de seguir tentando.

Por sua mãe, procurara desesperadamente lhe fazer feliz, e também por si mesma. Vivera com a esperança de ouvir seus elogios e desejando ver seu sorriso.

Não pensava submeter a aquela menina a essa mesma tortura.

—Se soubesse no que a estou colocando, talvez não estivesse tão agradecida.

Torpemente, Beth se sentou de novo em frente a ela. Seus grandes olhos de cor avelã mostravam certo temor.

—Sei. O amo quer um menino.

—Isso também. - O amo não tem intenção de te adotar. Pamela tinha esta confissão na ponta da língua, impulsionada pelo sentimento de culpa que lhe produzia sua participação no engano.

Um sentimento que não experimentara até que teve que se enfrentar cara a cara com a menina. Com seus olhos esperançados, suas finas pestanas. Sua testa ampla e seu suave queixo.

Seus dentes, novos e muito grandes para o rosto infantil. Suas faces, que precisavam ser redondas e cheias, mas estavam abatidas pela fome onipresente.

Mas do que serviria falar com Beth das consequências que poderiam recair sobre ela em um futuro? Teriam sorte se conseguissem acabar o dia sem que Kerrich exigisse que Pamela fosse em busca de outro menino.

—Na realidade - disse Pamela, vigorosamente, - nunca me disse que quisesse um menino. Isso o tinha suposto eu por minha conta.

Suas qualidades a convertem em uma candidata muito melhor que qualquer dos outros meninos para os fins de Sua Senhoria.

—Qualidades, senhorita Lockhart?

Pamela sorriu à menina, que se balançava com o movimento da carruagem enquanto atravessavam as ruas de Londres sob a chuva.

—Sim, certamente. É educada e fala corretamente. Lorde Kerrich poderá te mostrar a seus amigos sem medo a que o deixe em evidência.

Beth retorceu os dedos imundos sobre o colo.

—Quererá me mostrar a seus amigos?

—Lorde Kerrich estará orgulhoso de você - explicou Pamela. - Quererá te apresentar.

—OH. - Beth mordeu o lábio, logo confessou: - Sou bastante tímida. Os outros meninos riam de mim por isso.

Os condenados óculos escuros de Pamela se deslizavam nariz abaixo, e ao subir os recordou que não era a jovem Pamela, a instrutora da que se aproveitavam ladrões e senhores. Era a séria e firme senhorita Lockhart, tão pouco atraente que Kerrich tinha mostrado abertamente seu alívio ao ver que não reagia a suas insinuações. O personagem que Pamela representava era o bastante rígido para dar valor a um orfanato inteiro de meninos vergonhosos, e esse personagem não permitiria que Beth sucumbisse a seus medos.

E menos agora que a menina acabava de escapar do asilo e ainda precisava superar o desafio do exame de Kerrich. Se erguendo para adotar uma rígida severidade, Pamela disse:

—Tolices. Não é tímida. Recorda como se apresentou tranquilamente depois que a tivesse confundido com um menino. E a coragem com que recuperou meu relógio! Não, jovenzinha, não é tímida. É um leão ante a adversidade.

Beth se tornou para trás ante a atitude enérgica de Pamela.

—Sério?

—Certamente. - A carruagem virou para o Hyde Park Gardens e se deteve frente à casa de Kerrich.

—Possivelmente só seja valente quando ocorrem coisas más - disse Beth com cautela.

Pamela assentiu com toda a firmeza de um experimentado mentor.

—Um claro indício de coragem. - O jovem Timothy, o lacaio, abriu a porta. Com uma mão sustentava o guarda-chuva e oferecia a outra, estendendo-a. Pamela a aceitou para apear e se voltou a tempo para ver Beth que a seguia com dificuldade. - Ah. Uma oportunidade para nossa primeira lição. Tem que esperar sempre que o lacaio estenda a mão para descer de uma carruagem.

Beth olhou ao impassível servente com libré.

—Posso baixar sem sua ajuda. - Então, pensando possivelmente que tinha ferido os sentimentos do lacaio, acrescentou: - Mas o agradeço de todas as formas, senhor.

O lacaio conteve a risada.

Mesmo assim, gostou da cortesia da menina. Pamela o notou pela breve inclinação com que a saudou.

Kerrich tinha que ficar com ela. Pamela se sumiu mais ainda no papel da hábil senhorita Lockhart.

—Muito bem. Tem que dar sempre as graças aos serventes, por seu nome, se for possível. Ele é Timothy.

—Timothy - repetiu Beth.

—Agora, erguida, ombros para trás.

Beth se ergueu.

—Veem comigo, e recorda: é um leão.

—Sim, senhorita Lockhart - respondeu Beth com não pouca coragem.

Mas sua mãozinha se pegou a mão de Pamela, e esta a olhou e sorriu para lhe dar ânimos.

—Esse é o espírito! - disse, embora Beth tinha empalidecido tanto que a sujeira de sua cara ressaltava ainda mais.

O lacaio as protegeu com o guarda-chuva quando subiram as escadas que conduziam à maciça porta dupla que dava entrada à casa de Kerrich.

Beth se atrasou um pouco.

—Senhorita Lockhart? Isto é uma pensão ou um hotel... ou o que é este lugar?

Pamela se deteve, enfrentada de repente com a enorme tarefa que se impôs a si mesmo: preparar uma órfã para uma farsa com a que enganar à sociedade. Enganar à rainha, que, pelos comentários casuais de Kerrich, o conhecia e conhecia suas mutretas muito bem. Pamela, acostumada a entrar nas mansões dos poderosos, considerava que o lar de Kerrich e sua pompa se contava entre os mais impressionantes que vira.

Educada por uns pais de classe média, e após viver em um mísero orfanato, Beth não estava preparada para semelhante luxo.

Mas Beth era uma menina. Os meninos se adaptavam facilmente às mudanças, ou ao menos isso disse Pamela a si mesma.

Com um gesto que englobava a ampla escadaria, os arcos romanos que coroavam todas as janelas e as inquietantes águias de pedra esculpida que adornavam a fachada de tijolo, disse:

—Este é o lar de lorde Kerrich.

Beth elevou o queixo e olhou para cima, para o telhado da casa de quatro andares.

—Tem família numerosa? Filhos? - Solicitava informação como se se desse conta do pouco que sabia do homem do qual dependia seu destino.

—Não tema, só tem um primo, ao que conheci e que parece um amável cavalheiro. Conforme me comunicou a senhora Godwin, a governanta, vai passar uma temporada com lorde Kerrich.

Não me consta que tenha mais parentes. - Não lhe constava, em efeito, pensou. Não se interessara pela família de Kerrich, só por si mesmo e pelo dinheiro que ia receber.

E era justo, pensou tenazmente. Lhe importava tanto como importava a ele. Mas parecia que Beth tinha o propósito de se familiarizar com seu mecenas antes de ser apresentada.

—Lorde Kerrich é agradável? - perguntou.

Pamela podia responder a isto sem escrúpulos de consciência.

—Muito agradável, quando decide sê-lo. - Bateu na porta e inclinou a cabeça para saudar Moulton quando este a abriu.

—É esta a órfã? - perguntou Moulton quando Pamela introduziu Beth no vestíbulo.

—É este o amo? - perguntou Beth, intimidada.

Estirado e pretensioso, Moulton se inclinou o bastante para sussurrar:

—Não, senhorita. Sou o novo mordomo.

—Você é o mordomo? - Beth examinou as feições austeras e o magnífico traje, e deixou transparecer sua admiração com palavras reverentes. - Não pode ser.

Pamela sorriu enquanto tirava o alfinete do chapéu e o entregava ao lacaio. Que Moulton estava encantado com Beth era evidente: só lhe faltava ser um pavão para que lhe arrepiassem as plumas do peito.

Mas o que fez foi observar o aspecto andrajoso de Beth sem dissimular seu espanto e aconselhar:

—Lorde Kerrich está no estúdio, senhorita Lockhart. Eu sugeriria sinceramente que lavasse à menina antes de a apresentar ao amo.

Então, também sabia por que uma menina invadia seus elegantes domínios, como sem dúvida sabia o resto dos serventes.

—Sim, necessita um banho.

—Nem pensar - murmurou Beth.

Pamela não prestou atenção a ela. Conduziu à menina pelo vestíbulo, com a intenção de levar-lhe acima.

Mas Beth se deteve quando o interior da casa se ofereceu a sua vista. A entrada grande e alta reluzia com seus polidos chãos de madeira e seus tapetes orientais feitos a mão em intensas cores rosa e azul.

Dois lacaios flanqueavam a porta principal, ambos com libré dourada e azul, e tão imóveis que pareciam parte do mobiliário.

Espelhos com marco dourado decoravam as paredes pintadas de branco, refletindo a luz da aranha de cristal e os vidros da janela em forma de diamante. Havia flores recém cortadas por toda parte.

No centro se elevava uma escada que se dividia no alto para se converter em uma galeria, onde se observavam as idas e vindas dos serventes da casa.

Uma série de portas no vestíbulo conduziam a outras tantas salas. Beth avançou timidamente pelo vestíbulo, aparecendo no gabinete, a sala do café da manhã e a biblioteca, e suas exclamações afogadas ressoavam em meio do silêncio. Pamela a seguia, observando o assombro da menina com fascinação.

Era como contemplar à menina abrindo seu primeiro presente de Natal, e os olhos muito abertos de Beth, trêmula e intimidada, não fizeram mais que reforçar a determinação de Pamela de ficar com a órfã.

Então Beth apareceu no estúdio de Kerrich, que tinha a porta aberta e logo correu a se esconder atrás de Pamela.

Pamela fulminou com o olhar ao cavalheiro que avançava para elas com sua silhueta de largos ombros recortada a tênue luz do estúdio.

—Senhorita Lockhart, é este o órfão?

Beth se pegou à saia de Pamela.

Pamela se transformou sem esforço na estrita senhorita Lockhart, atuando - e reagindo - contra sua egocêntrica senhoria.

—Milorde, assim é, em efeito.

—Traga-o aqui. - Com a confiança de um homem ao que nunca lhe negava nada, Kerrich deu meia volta e retornou a seu refúgio.

Pamela avançou levando Beth a reboque. Transpassou a soleira do estúdio e disse:

—Seria melhor que a permitisse se banhar e trocar de roupa antes de mais nada.

—Não.

A lacônica negativa de Kerrich deu integridade a Pamela.

—Muito bem - disse. Pegou Beth pela mão e a introduziu amavelmente no estúdio, logo a insistiu a se aproximar com uma mão em suas costas.

Kerrich tomara posição apoiando o quadril na escrivaninha, com a mesma elegância e o mesmo atrativo que desdobrara a propósito no dia anterior, mas sem que desta vez fosse deliberado.

Seu olhar posou primeiro em Pamela, logo se desviou lentamente para se fixar em Beth. Seus olhos se entrecerraram e rapidamente se ergueu, abandonando seu elegante abandono.

—Senhorita Lockhart - disse com tom furioso de homem traído, - isso é uma menina.

—Muito ardiloso por sua parte, milorde - replicou Pamela. Céus, que bem lhe dava fingir pedanterismo e circunspeção! - Por assombroso que pareça, no orfanato só se podia escolher entre dois sexos.

—Por que não me trouxe um menino?

—Nenhum deles era adequado.

—O que quer dizer com isso?

—Beth era a única que possuía as qualidades necessárias em todo o orfanato.

—As qualidades necessárias? - Kerrich exigia atenção com sua atitude arrogante e seu tom autoritário. - Mulher, de que demônios está falando?

—Milorde, sua rude linguagem é inaceitável em presença de duas senhoras. Ao contrário de Beth, que não fala o jargão da rua. - Pamela fez uma pausa para deixar que Kerrich assimilasse suas palavras.

Do vestíbulo chegou o som de alguém que batia na porta principal.

Kerrich voltou a examinar Beth.

—Sem dúvida tinha que ter algum menino que...

—Não. - O olhar de Pamela se estrelou contra o dele. - Além disso, as maneiras de Beth são impecáveis. E é honrada. Não comentarei nada sobre o estado de sua honradez, milorde.

Beth soltou um gemido, um sussurro lastimoso que interrompeu aos dois opositores.

Moulton deu uns leves golpes na porta aberta do estúdio.

—Milorde?

Kerrich não prestou a menor atenção a seu mordomo, mas sim se deu conta do desgosto de Beth, pois moderou seu tom.

—O que vou fazer com uma menina? - perguntou.

—O mesmo que faria com um menino, suponho - respondeu Pamela. - Mostre-a. Se converta em um exemplo de bondade e respeitabilidade.

—Isso é uma estupidez!

Pamela desfrutou do lindo com sua réplica:

—É o mesmo que eu pensei desde o começo.

—Senhorita Lockhart - disse Kerrich entrecerrando os olhos, - está se extrapolando!

No vestíbulo se ouviram vozes e uma corrente de ar fresco indicou a Pamela que a porta principal tinha se aberto.

—Me perdoe, milorde. Pensava que à maioria de homens gostavam que as mulheres estivessem sempre de acordo com suas declarações.

Beth puxou a manga de Pamela se inclinou para ouvir o sussurro perfeitamente audível da menina.

—Por favor, senhora. Se supõe que devemos lhe convencer de que sou o pirralho que necessita.

Pamela olhou Kerrich de relance. Ele o tinha ouvido, é obvio, e é obvio não tinha o mínimo reparo em sorrir de deleite vendo a confusão de Pamela.

—Um menino - anunciou Kerrich - iria às corridas de cavalos comigo. E aos combates de boxe. E ao clube.

Por deferência a Beth, Pamela dominou sua impaciência.

—Você tem fama de caveira. Leve Beth aonde levaria a sua própria filha. Ao parque. A ver uma obra de Shakespeare. Aos foguetes.

Moulton deu um passo vacilante para o interior do estúdio.

—Milorde?

—Um momento, Moulton! - exclamou Kerrich, irascível. - Senhorita Lockhart, um itinerário semelhante seria um maldito aborrecimento!

A paciência de Pamela, sempre escassa com os cavalheiros estúpidos, voltou a lhe falhar.

—Pense, milorde! se lamenta de não ter ocasião de se divertir acostumando a um moço a vida dissipada da que está acostumado a desfrutar? A rainha não vai às carreiras de cavalos nem aos combates de boxe.

—O que você sabe dos costumes da rainha?

—Tanto como você, se quisesse... - Pamela se conteve antes de delatar seu passado ao arrogante cavalheiro. - Sei que se casou recentemente e sei que seu consorte é um homem muito sério.

E não se precisa pensar muito para compreender que a rainha, como qualquer mulher sensata, não se sentiria muito impressionada por sua filantropia, se esta consistisse em ensinar a apostar em um moço!

Moulton saiu ao vestíbulo com os olhos muito abertos, logo voltou a entrar, se removendo com inquietação.

Kerrich não gostou de nada a franca e sem dúvida correta valoração que Pamela tinha feito de seu plano, e fez o que fazem todos os homens quando lhes assinalam suas falácias: se zangou.

—Esta menina não me serve para nada.

Era evidente que Beth decidira ter algo a ver em seu próprio destino, pois se dirigiu ao conde abertamente:

—Me perdoe, senhor. Sim que sirvo. Sei fazer montões de coisas, e se deixar que fique, aprenderei a ser o pirralho que você procura. - Sua voz tremia, mas olhava Kerrich aos olhos.

—Mas primeiro terá que deixar que fique. Prometo fazer tudo o que me peça que faça, se me der a oportunidade.

Kerrich olhou para Beth.

Por favor, quis lhe suplicar Pamela. Olhe-a. Veja sua coragem e seu valor sob o acanhamento e a imundície.

Mas Kerrich entrecerrou os olhos e avermelhou.

—Senhorita Lockhart, deve pensar que sou um imbecil brando para tentar me enganar com semelhante artimanha.

Esta é sua irmã, possivelmente, ou uma prima a que encheu que sujeira com a esperança de me tocar a fibra sensível? Não sou tão crédulo!

Beth se soltou da mão de Pamela de um puxão e ficou em jarras.

—A está chamando mentirosa? É uma senhora muito boa que me resgatou!

Durante um terrível momento, Pamela pensou que Beth ia tentar puxar as orelhas do conde. Pegou à menina pelos ombros, a apertou contra si e disse.

—Sério, milorde. Nunca vira Beth até hoje. Não pretendo lhe enganar em modo algum. - Mas sua voz quebrou ao pronunciar esta afirmação, pois seu próprio aspecto era um engano.

Kerrich se deu conta, é obvio, e se ergueu como se estivesse disposto às jogar as duas pessoalmente.

Mas da porta do estúdio chegou a voz cordial de um idoso.

—Né, moço, não abraça a seu avô?

 

—Gardner Mathewes, marquês de Reynard - entoou Moulton, como se qualquer idiota não pudesse ver ao querido avô de Kerrich na porta.

—Avô! - exclamou Kerrich, totalmente desconcertado pela inesperada aparição. - Por que não me avisou que vinha?

—Te avisar? - Lorde Reynard soltou uma gargalhada. - Parece um pirralho ao que pilharam cometendo uma travessura. Por que teria que te avisar, jovem Devon?

—Olhou a seu neto com os mesmos olhos castanhos que Kerrich via em seu espelho ao se barbear pelas manhãs. - Vim em mau momento?

—Absolutamente. - O pior. Não obstante, uma onda de afeto invadiu Kerrich assim que viu o idoso. Recuperou a compostura, se aproximou a passos longos e abraçou a seu avô, e notou o contato dos velhos ossos onde antes havia músculos. Olhou a seu avô, que antes tinha sua mesma estatura, e disse: - Já sabe que sempre é bem-vindo.

—Condenadamente certo. - Lorde Reynard lhe devolveu o abraço, e devia estar olhando por cima do ombro de seu neto, porque acrescentou: - Perdão. Não tinha visto estas encantadoras senhoritas.

—Que encantadoras senhoritas? - Kerrich se voltou para ver a senhorita Lockhart e à ridícula menina que queria lhe obrigar a aceitar.

—Bom, moço, não fique nervoso. Quem são estas encantadoras senhoritas? - perguntou lorde Reynard, e não poderia parecer mais encantado de ver a coibida órfã e sua amargurada instrutora.

Por culpa das obrigações de Kerrich, aquela... mulher onerosa... se colocou em sua vida. Olhou a Pamela com ira, consciente que a aprovara fazia apenas um dia. No que estaria pensando?

No dever. A honra da família. Na rainha Vitória lhe dizendo:

"Lorde Kerrich, se não cessar em seus frívolos devaneios com as mulheres e demonstra ser um cavalheiro sério e responsável, não poderei seguir lhe permitindo que conserve essa parte de minha fortuna pessoal que guarda em seu banco. Deveria se casar, como fiz eu, ter filhos e se tornar respeitável. Do contrário...".

E ele, como um estúpido, sorrira com suficiência e perguntara. "Do contrário o que? O que poderiam me fazer que fosse pior que me tirar a custódia de sua fortuna?"

Bom, pois lhe respondera. Fazia anos que o atormentava aquele assunto com que lhe ameaçava a rainha, e agora descobria que alguém conhecia seu segredo! E era a própria rainha Vitória!

A senhorita Lockhart tomou as rédeas e se apresentou a si mesma.

—Sou a senhorita Pamela Lockhart. - Inclinou a cabeça quando fez uma reverência a lorde Reynard, com a intenção de demonstrar um respeito muito maior para o nobre idoso que para Kerrich.

—Lorde Reynard, é uma honra.

—Senhorita Lockhart. - Lorde Reynard esfregou o queixo pensativamente. - Nos encontramos antes?

—Talvez, milorde, mas faz muitos anos e muito brevemente.

Lorde Reynard a olhou como se pinçasse em umas lembranças longamente em desuso.

—Conhecia os Lockhart de Somerset. Está aparentada com eles?

Surpreso, Kerrich olhou à senhorita Lockhart. Era uma dos Lockhart do Somerset?

Mas a senhorita Lockhart não o olhou, nem tampouco a seu avô. Contemplando o tapete da China e com um tom neutro, respondeu:

—Sim, milorde. Alice Lockhart Ripley era minha mãe.

—Ah. - Lorde Reynard ficou rígido, logo se inclinou ligeiramente. - Não me informara da morte de seu pai até muito recentemente. Me permita que apresente minhas condolências.

—Obrigado, milorde.

Kerrich ficou estupefato. A senhorita Lockhart, a mulher mais antinatural que conhecera em sua vida, não reagia com pesar, mas sim ressentidamente, com desgosto inclusive.

O pai de Kerrich morreu quando ele tinha dez anos, e ainda recordava a dor insuportável de sua perda. Como podia a senhorita Lockhart ser tão fria? E por que seu avô parecia tão consternado?

—O que está fazendo aqui com meu neto? - perguntou lorde Reynard, adotando um falso tom jovial. - É um uva sem semente, sabe? Tenha muito cuidado com ele.

Kerrich conteve com muita dificuldade um bufido, logo se apressou a cumprir com seus deveres diplomáticos.

—É a instrutora.

—A instrutora. - Lorde Reynard franziu seus enrugados lábios.

A senhorita Lockhart parecia cada vez mais pálida e mal-humorada.

—Sim, milorde. Ganho a vida educando a meninos.

—Bem. Bem - disse lorde Reynard enigmaticamente. Apoiando uma mão em sua bengala e a outra no braço de Kerrich, acrescentou: —estive dando tombos na maldita carruagem durante horas, e agora eu gostaria de dar uma volta pelo estúdio.

—Como deseja, senhor - disse Kerrich.

—Senhoritas - disse lorde Reynard, com uma digna e breve inclinação, - nos desculpem um momento. Não se vão.

Deram uma volta pelo estúdio, passando pelo escritório de Kerrich e o grupo de poltronas que havia frente à lareira. Como sempre, a Kerrich angustiava a decadência do alto e orgulhoso mentor de sua juventude.

O encurvamento de lorde Reynard se tornou tão pronunciado que precisava levantar a cabeça para olhar Kerrich ao rosto. Nos três últimos anos, deixara de levar a bengala decorativa pendurada no braço para utilizá-la como apoio em cada passo. Seu reumatismo tinha piorado com cada inverno, e um dia chuvoso como aquele o fazia coxear e grunhir.

Ao chegar ao extremo mais afastado da sala, onde a senhorita Lockhart não podia lhe ouvir, no canto com as prateleiras de livros e o janelão coberto por cortinas, lorde Reynard se deteve e apoiou uma mão no suporte do janelão como se estivesse exausto.

—Se encontra bem, senhor? - perguntou Kerrich, o rodeando com o braço.

—Tão bem como cabe esperar. A maioria dos homens de oitenta e quatro anos estão babando sobre suas taças de prata, em lugar de perseguir a suas enfermeiras ao redor da cama. - deu-se uns leves golpes na testa.

—E o daqui de dentro segue tão afiado como um punção para gelo.

—Por isso agradeço - disse Kerrich. Habitualmente, pensou. Dadas as circunstâncias, a sagacidade de seu avô podia ser motivo de uma grande inquietação.

—Só o trouxe até aqui para avisar... Burgess Ripley era um homem encantador, arrumado, engenhoso, e abandonou sua mulher e sua filha. O muito canalha as deixou sem nada.

—Céu Santo. - Kerrich olhou à senhorita Lockhart. A instrutora estava ajoelhada ante Beth, estirando a roupa da menina e lhe falando em voz baixa. A menina lhe sorria como se fosse uma bela visão, em lugar de uma cáustica solteirona de meia idade, e no fundo de seu coração, Kerrich não podia insinuar sequer que Burgess Ripley tivesse fugido para evitar o azedume de sua filha.

Com a menina e com lorde Reynard, parecia quase... doce. - Por que as abandonou?

—Sempre foi um mulherengo. Foi viver com uma fulana no Continente. A mãe morreu, deixando sozinha a pobre senhorita Ripley, ou Lockhart, como se faz chamar agora. Acredito que a jovem mal tinha dezesseis anos.

—Isso deve ter sido ha vinte e cinco anos. Já deveria tê-lo superado.

—Não faz tanto.

Não fazia tanto segundo os parâmetros de tempo de seu avô, supôs Kerrich, mas era evidente que a ferida infligida à senhorita Lockhart por seu pai a tinha predisposto contra todo o sexo masculino.

—Então não perguntarei mais sobre sua família.

—Os Ripley frequentavam muito a vida social. Me surpreende que não recorde à família.

—Acredito que deve ter sido antes que eu assistisse a festas. - Mas era assim? Uma lembrança pugnava por sair... algo sobre aquela noite em Kensington Palace... rapidamente, Kerrich desviou seus pensamentos.

Convertera em costume não pensar jamais naquela noite em Kensington Palace.

—Para ser um jovem brilhante, algumas vezes é bastante obtuso - comentou lorde Reynard.

—Eu? - Kerrich se orgulhava de sua inteligência. - Nenhum outro no banco sabe avaliar o mercado como eu nem investir com tanto proveito.

Nenhum outro entende os caprichos do comércio, e sou condenadamente bom predizendo os vaivens da moeda. Você já sabe. Foi você quem me ensinou.

—O ensinei a importância de reconhecer os rostos e também de recordar os nomes, moço, mas nunca te pareceu uma habilidade importante, e por isso é um tolo.

—Lembro às pessoas importantes - replicou Kerrich, doído.

Lorde Reynard se deteve de novo e se encarou com ele.

—As pessoas importantes mudam todos os dias. Eu comecei com nada, moço, só tinha o título que você agora ostenta e a forte determinação de conquistar todos os horizontes que me pusessem na frente.

Comecei no banco aos treze anos e me converti no dono antes dos trinta, mas lembro até o último desprezo que recebi de pessoas importantes de minha época. E onde estão agora?

—Mortos?

—Impertinente. - Lorde Reynard sorriu. - Sim, a maioria, mas tiveram que me adular antes de morrer. Eu não quis recordar seus nomes, e não outorguei favores a quem me desprezou em minha juventude.

Em alguma parte de sua organização há um jovem trabalhando para você que se sente doído por seu desinteresse. Suas faltas acabarão te cobrando, e predigo que será muito em breve.

—Procurarei recordar os nomes, avô. - Se encaminharam para a senhorita Lockhart e a menina. - Assim que minha vida recupere a normalidade.

Lorde Reynard desdenhou a promessa com um gesto.

—OH, isso não ocorrerá.

Retornaram ao lugar onde os esperavam a senhorita Lockhart e Beth. Lorde Reynard as olhou inquisitivamente, logo formulou a pergunta que Kerrich esteve esperando.

—Para que necessita uma instrutora, moço?

—Vou adotar a um órfão - respondeu Kerrich, se preparando para as perguntas que iam seguir.

—Esta órfã? - Lorde Reynard inclinou a cabeça e examinou à menina.

Não era a pergunta que Kerrich esperava. Acreditava que lorde Reynard quereria saber por que.

—Esta órfã? - repetiu lorde Reynard.

A indulgência de seu avô o pegou despreparado e Kerrich olhou à senhorita Lockhart. Ela o observava com olhos ávidos e brilhantes, como se estivesse impaciente por ouvir sua decisão sobre Beth, sabendo desde o começo que estava apanhado. Apanhado pela chegada fortuita de seu avô e pela amarga consciência que, de todas as formas, perdera a batalha prévia.

Kerrich capitulou com escassa elegância.

—Sim, esta órfã. Se chama... - Maldita seja, como se chamava a pirralha?

Lorde Reynard lançou a Kerrich um olhar muito significativo.

Kerrich desejou poder recordar aquele nome ao menos.

—Preciso me sentar, moço.

Kerrich se apressou a lhe aproximar uma cadeira das que havia frente a sua escrivaninha.

Lorde Reynard desabou nela. Logo, com um tom de voz que Kerrich não o ouvira empregar nunca, perguntou:

—Menina, como se chama?

—Meu nome é Elizabeth Hunter. Beth. - Beth fez uma reverência sem que o dissessem, mas tremia ao notar a atenção centrada nela.

—Bom, Beth, o que opina de meu neto? É como todas as mulheres e acredita que é um jovem encantador?

Beth abriu muito os olhos como se a assombrasse a pergunta.

—OH, não, milorde. Não acredito que seja jovem.

A senhorita Lockhart tirou o lenço da manga e ocultou a boca atrás de suas amplas dobras. Como se com isso pudesse dissimular o regozijo a custa de Kerrich!

Kerrich a olhou furioso, a obrigando a desviar os olhos para ele, e quando o fez, Kerrich experimentou uma surpresa. Pois embora aquela mulher lhe parecia uma harpia, quando viu brilhar o regozijo em seus olhos, descobriu que também ele encontrava graciosa a situação. Só a mais famosa das sereias podia fazer que um homem risse de si mesmo, mas ele estava a ponto de sorrir. A ponto.

Por Deus, acaso a senhorita Lockhart fora uma mulher fatal no passado?

Lorde Reynard não prestava atenção nem à senhorita Lockhart nem a seu neto.

—E certamente meu neto não é encantador, não é?

—Bom, não sei. - Beth esfregou o tapete com a ponta do pé. Sua tímida atitude fez Kerrich duvidar que fosse a mesma menina que antes se enfureceu defendendo à senhorita Lockhart. - Parece um pouco...

A senhorita Lockhart ganhou o salário do dia, pelo menos, quando interrompeu a revelação de Beth.

—Beth acaba de chegar à casa e mal teve o prazer de contemplar os encantos de lorde Kerrich que conhecemos as demais.

Kerrich se conteve com dificuldade para não passar a mão pela testa.

Imaginava como reagiria seu avô se soubesse que Kerrich acusara de fraude e falta de honradez uma senhorita cuja família se contou entre seus conhecidos.

—Entretanto, Beth acabará conhecendo sua Senhoria, pois lorde Kerrich passará parte do dia com Beth e comigo.

A expressão agradada de Kerrich se desvaneceu.

—O que?

A senhorita Lockhart atraiu Beth para si e lhe sorriu.

—Não sei se lorde Kerrich lhe falou desta menina, milorde, mas seu rápido engenho salvou um relógio muito apreciado por mim das garras de um nefando ladrão.

—Mas não... - Beth tentou protestar. Amavelmente, a senhorita Lockhart lhe tampou a boca com a mão.

—Sei, querida, você não gosta dos louvores, mas merece isso. - A senhorita Lockhart sorriu a Kerrich de orelha a orelha.

—Igual a lorde Kerrich merece ser gabado por aceitar tão honoravelmente a Beth em sua casa.

—Muito certo, moço - disse lorde Reynard, dando a seu neto uma palmada nas costas. - Admirável ação.

O idoso sabia muito bem que estava sendo muito generoso; por que não comentava também que uma simples recompensa ou um trabalho na cozinha bastariam? Sua admiração não pressagiava nada bom. Não, nada bom.

—Bom, Beth, merece a oportunidade de conhecer lorde Kerrich. Ao fim e ao cabo, está em dívida com você. - A senhorita Lockhart retirou a mão da boca de Beth, e ao ver que a menina seguia muda, disse a lorde Reynard:

—Lorde Kerrich insistiu em demonstrar seu agrado por esta pequena heroína fazendo o maior esforço por conhecê-la e levá-la a todos os maravilhosos entretenimentos que oferece Londres.

Kerrich sorriu, mas com os dentes apertados.

—E também expressei minha preocupação de que, como homem de negócios, não poderei passar o dia com a menina.

—Milorde, você quer mostrar uma relação aberta e cordial com esta menina.

Ele a fulminou com o olhar. Na face, um músculo se contraiu.

—Isso é certamente o que desejo.

—Para isso, terá que lhe dedicar seu tempo. Espero lhe ver no quarto da menina todos os dias. - A senhorita Lockhart o olhou aos olhos e repetiu com veemência: - Todos os dias.

Ele sabia que não tinha saída, mas também sabia negociar. Se centrando na mulher com exceção de todos outros, perguntou:

—Quanto tempo?

—Duas horas ao dia.

—A alguma hora em particular?

—Como apontou corretamente, milorde, você é um homem muito ocupado. - A senhorita Lockhart tampouco era maneta negociando. O olhou aos olhos e acrescentou: - Lhe rogo que me relate a hora em que lhe seja mais cômodo vir.

O sangue de Kerrich fervia nas veias.

—Darei-lhe a conhecer minha agenda.

—E eu adaptarei a nossa em consonância.

Satisfeito com o compromisso, Kerrich retrocedeu e descobriu que lorde Reynard os observava com olhos brilhantes, e que Beth se retirou sigilosamente para a porta, como se temesse que ambos fossem explodir.

—Não teme que alguém pense que a menina é sua filha? - perguntou lorde Reynard.

Kerrich se voltou para seu avô horrorizado.

—Minha filha? Impossível! Todo mundo sabe que sou condenadamente precavido no que se refere a... - se interrompeu, consciente que, a instâncias de seu avô, entrou em um terreno proibido na conversação.

Mas era evidente que não tinha por que se preocupar. A senhorita Lockhart parecia confusa. Pobre solteirona. Certamente pensava que o ritmo era algo que tocava uma orquestra e que uma capa francesa era um moedeiro elegante. Pigarreou e seguiu dizendo:

—Não acredito que ninguém pense que coloquei a uma filha ilegítima em minha casa.

Seu avô riu sem recato. Kerrich passou a mão pela testa.

—Sim, claro que pensarão. Não pode um homem fazer um ato caridoso sem se converter em objeto de fofocas?

—Não, quando esse homem é um arrumado mulherengo em idade de merecer - respondeu lorde Reynard.

—Ao longo dos anos - disse Kerrich, justamente indignado, - contribuí a muitos atos de caridade.

—Estender um cheque no estéril entorno de seu escritório, filho, é muito diferente de experimentar as alegrias e tristezas de educar um filho. - Lorde Reynard inclinou a cabeça ante Beth.

—Embora esteja seguro que esta admirável mocinha fará que as alegrias superem em muito às tristezas.

Beth lhe dedicou uma breve reverencia.

É claro que sim, maldita seja, pensou Kerrich. Sobre tudo porque, quando terminar esta farsa, a adestrará para algum ofício útil e não terei nada mais a ver com ela.

Mas não podia permitir o luxo de ser sincero, de modo que disse:

—Desmentirei os rumores rotundamente.

Lorde Reynard soltou uma gargalhada.

—Não, tem razão - replicou Kerrich à brincadeira que levava implícita sua risada. - Isso não faria mais que piorá-los.

Uma vez mais, a senhorita Lockhart se mostrou capaz de ganhar a considerável soma de seu salário e a bonificação.

—Eu manterei os rumores a raia.

Os dois homens a olharam surpreendidos.

—Eu sempre estarei presente. Lá onde vá com Beth, irei eu também. Não só como instrutora, mas também como fonte de fofocas. - Sorrindo friamente, cruzou as mãos à altura da cintura.

—Não neguemos os rumores, milorde, nós o iniciaremos. Os dirigiremos. Eu deixarei cair uma insinuação aqui, confessarei algo lá, e logo toda Londres saberá que lorde Kerrich vai adotar à filha órfã de... - Vacilou.

—Um membro de seu pessoal que morreu por ele, fazendo uma boa ação.

Kerrich não podia acreditar que Beth tivesse pronunciado as palavras. Levantando o monóculo, a olhou. Não parecia diferente de antes. Seguia sendo uma menina suja e tímida, e, se acaso, surpreendida por sua temeridade.

—Não servirá isso? - A voz da menina se fez um pouco mais aguda do que o normal.

—Servirá perfeitamente. - A senhorita Lockhart sorriu com admiração.

—Realista - disse lorde Reynard, com tom de aprovação. - Parece como se Devon o fizesse porque se sente culpado mais que por sua bondade. É uma menina muito inteligente.

Beth sorriu. Em suas magras faces apareceram duas covinhas e seus olhos se iluminaram com deleite.

—Duas mulheres muito inteligentes. - Kerrich não se divertia, e deixou que seu frio olhar posasse na senhorita Lockhart, enquanto considerava as consequências. - Muito inteligentes, certamente.

 

Com o brio de uma mestra de escola, a senhorita Lockhart disse:

—Se isso for tudo, milordes, agora vamos. Nossa pequena órfã necessita um banho.

—Não - murmurou Beth ao sair do estúdio impelida por Pamela.

O silêncio que deixaram atrás persistiu enquanto Kerrich e lorde Reynard as viam se afastar.

Logo lorde Reynard golpeou o chão com sua bengala.

—Excelente caráter em uma mulher. E atraente além disso.

—Sim. - Kerrich não se deu conta até então de que a seu avô tivesse piorado tanto a vista.

Ouviu Lewis no vestíbulo, com uma voz asquerosamente jovial.

—Saudações, senhorita Lockhart. Quem é esta senhorita?

—É Beth. Beth, este é o primo de lorde Kerrich, o senhor Athersmith.

Kerrich ouviu Beth sussurrar uma saudação.

Uma menina. Kerrich imaginava perfeitamente o que Lewis estaria pensando depois da história que ele contara sobre o duro moço da rua que admirava.

Kerrich se dirigiu à porta e, enquanto a instrutora e a menina subiam as escadas, olhou para Lewis com desagrado.

—Pensava que era um menino - disse, e em seu tom desafiava Lewis a contradizê-lo.

E Lewis, o bom Lewis, fingiu que era absolutamente normal que Kerrich tivesse cometido semelhante engano.

—Sim, já vejo como foi. - Usava casaco, botas desgastadas, e um chapéu de aba larga impregnado até as orelhas.

—Vai a alguma parte, primo? - perguntou Kerrich, o olhando de cima abaixo.

Lewis se explicou sem ressentimento aparente.

—Tenho que fazer alguns recados e está chovendo outra vez.

—Leve a carruagem.

—Não me atreveria a...

—Não há atrevimento - disse Kerrich, pensando ao mesmo tempo que Lewis não se atrevia porque não queria que se conhecessem suas atividades. - Não quero que padeça tribulação alguma.

Compreendo que trabalha para mim como um favor pessoal.

—Quem trabalha para você, moço? - A voz de lorde Reynard chegou do estúdio.

—Seu avô está aqui? - perguntou Lewis, empalidecendo.

—Por favor - disse Kerrich em voz baixa. - Não lhe diga nada.

Lewis assentiu com um movimento espasmódico, logo, quando Kerrich se apartou, se dirigiu à biblioteca. Kerrich olhou para o vestíbulo e viu Moulton lhe indicar em silêncio que alguém seguiria Lewis.

Satisfeito, Kerrich voltou a entrar em seu estúdio, onde estavam seu primo e seu avô, e o escritório com seu livro de falsas contas.

Lewis estava frente a lorde Reynard com o chapéu na mão.

—Senhor, como me alegro de lhe ver! Não sabia que ia vir.

—Ninguém sabia. - Lorde Reynard lhe estendeu a mão. - A minha idade, surpreender aos parentes é possivelmente o único prazer que me posso permitir.

Lewis estreitou os dedos que lhe ofereciam, mas sob o olhar crítico de Kerrich, o fez com estupidez, como se sentisse um agudo mal-estar.

—Um prazer inesperado tanto para Kerrich como para mim.

Kerrich abriu o escritório e, com um gesto furtivo cuidadosamente simulado, colocou o livro de contas em uma gaveta.

Logo a fechou com chave, se assegurando que se ouvisse o ruído metálico, e meteu a chave no bolso.

Lewis observava todos seus movimentos.

—Então agora trabalha para Devon - disse lorde Reynard. - Pensava que trabalhava como professor de... para quem trabalhava?

—Lorde Swearn - respondeu Lewis muito sucintamente.

—Pensava que era um bom homem. - Lorde Reynard olhou para Lewis fixamente. - Mas é evidente que você não está de acordo.

Lewis teve a decência de aparentar desconforto.

—Não! Senhor! Lorde Swearn foi absolutamente equânime.

—Sempre digo que as duas únicas maneiras de conhecer uma pessoa são trabalhar para ela ou se casar com ela. A família não o tratou bem?

Lorde Reynard conseguiu que Lewis se apressasse a responder.

—Senhor, foram muito generosos. Sempre amáveis.

—Estava preparando o filho mais velho para entrar em Oxford, acredito.

—Sim, senhor.

—Então o jovem ao que educava era um tolo ou um folgado e culparam a você que não progredisse.

—Não, senhor, o jovem Fotherby era muito responsável.

Lorde Reynard golpeou o chão com movimentos rítmicos e breves de sua bengala.

—Então não entendo. Por que partiu?

Lewis ia se pondo mais rígido com cada nova pergunta incisiva.

—Eu somente... pensei que chegara o momento de ajudar no negócio familiar.

—Deixou de preparar a esse jovem para trabalhar no negócio familiar? - Lorde Reynard se voltou para Kerrich, que permanecera escutando a conversação completamente fascinado.

—Moço, seguimos tendo um banco?

—Sim, senhor - disse Kerrich. Lorde Reynard se voltou de novo para Lewis.

—Você detesta os números. Sempre jurou que não trabalharia no negócio familiar.

—Maturei.

—Hum. - Lorde Reynard lhe dedicou um longo olhar, logo sorriu. - Bem para você, filho. Me alegro que tenha se unido a nós.

Sim, pensou Kerrich. Pareceu odioso o interrogatório, não foi?

—Obrigado, senhor - disse Lewis. - Quanto tempo desfrutaremos do prazer de sua companhia?

—Decidi tomar a palavra de Devon quando me convidou a passar uma temporada com ele em Londres. Pensava ir ao United Service Clube, ver se encontro a algum de meus velhos amigos, conversar sobre o mundo das finanças e como se foi tudo ao inferno desde que ficamos muito velhos para dirigi-lo. - Lorde Reynard sorriu.

Kerrich oscilava entre o deleite e a consternação. Embora fosse absolutamente certo que Kerrich estava sempre encantado de ver seu avô, parecia-lhe suspeito o momento escolhido para sua visita.

Lorde Reynard, além disso, poucas vezes saía de casa. Por que o fazia agora? Teria ouvido algum rumor? Ou, Deus não o queira, se inteirou da verdade?

E se Kerrich receava, podia imaginar a inquietação que experimentava Lewis ao se enfrentar com o homem que lhe tinha pago seus estudos em Oxford, sabendo que estava fazendo todo o possível por arruinar seu banco e levar a desonra à família.

Ou possivelmente chegara tão longe no caminho da condenação que já não lhe importava nada.

—Senhor - disse Lewis. - Estou seguro que a seus amigos alegrará vê-lo e lhe pôr ao dia das últimas intrigas. Espero vê-lo frequentemente, senhor.

—Sim. - Lorde Reynard retirou sua mão e a agitou para se despedir de Lewis. - Reconheço quando alguém quer partir, e sei que tem coisas mais importantes a fazer que saudar um idoso. Vá, falaremos mais tarde.

—Estou impaciente - disse Lewis, se inclinando. - De todas as formas, dado que acabava de chegar, quererá estar com seu neto. - Se inclinou também ante Kerrich e saiu precipitadamente, muito, em opinião de Kerrich.

—Já não me chama "tio". - Os olhos perspicazes de lorde Reynard seguiam fixos no lugar de onde Lewis desaparecera. - Me chama "senhor", e quando fala com você de mim, diz "seu avô".

—Parece muito consciente de ser o neto de sua irmã, senhor. Embora nós o tratemos como a um parente muito querido, para todos outros mal forma parte da família.

—Não há nada mais perigoso em um homem que permitir que as percepções de outros formem seu caráter. Algo não parece bem. Não parece bem absolutamente.

Kerrich desejou que lorde Reynard fizesse essa observação anos antes, quando ele poderia ter impedido de algum jeito a derrota que agora ameaçava suas vidas.

—Estou seguro que não é nada que deva nos preocupar.

Lorde Reynard voltou a cabeça bruscamente e o fulminou com o olhar.

—Não seja condescendente comigo, moço. Sou velho, mas não estúpido.

—Não, senhor. Desculpe. - E isso que queria tranquilizar a seu avô.

—Será melhor que o vigie.

É obvio Kerrich estava de acordo, só que não podia confessá-lo.

Lorde Reynard acariciou o rugoso queixo sulcado de rugas.

—Mas possivelmente seja por isso que o pôs a trabalhar para você, não é?

—Você é muito ardiloso, senhor. - Kerrich depositou um peso de papéis de vidro sobre parte de sua correspondência menos interessante, e logo elevou a vista ao ouvir um gemido que procedia de cima.

—O que foi isso? - perguntou lorde Reynard. - Parecia uma fada de mau agouro.

Desconcertado, Kerrich negou com a cabeça.

—Talvez a menina?

—Só se a estão matando.

O som não se repetiu, de modo que Kerrich sugeriu:

—Nos sentemos frente ao fogo.

Lorde Reynard se levantou de boa vontade da cadeira de duro respaldo pela promessa de uma cadeira mais cômoda.

—É uma potranca com muito temperamento.

—Quem...? Ah. - Todas as conversações tinham que girar em torno delas? - Qual das duas, a menina ou a instrutora?

—A jovem a que está cortejando. - Lorde Reynard apoiou uma mão sobre o braço de Kerrich e a outra em sua bengala, e se encaminhou para a lareira.

—Que jovem? - Kerrich dava voltas a cabeça.

—Sua bonita instrutora!

—A ver, espera um momento, avô...

—Que outra razão poderia ter para adotar uma menina? É um caveira, mas é obvio não tomaria como amante uma senhorita de boa família. Assim é óbvio que quer ter a instrutora em casa para poder cortejá-la a seu prazer.

—Se refere... à senhorita Lockhart? Para me casar com ela? - A especulação de lorde Reynard tinha deixado Kerrich sem fala.

De modo que por esse motivo lorde Reynard não o interrogara sobre seu súbito ataque de filantropia. Acreditava que Kerrich queria se casar com a senhorita Lockhart!

E Kerrich podia negá-lo, mas que outra razão daria a seu avô para justificar a chegada de Beth a sua casa e sua intenção de apresentá-la à sociedade mentindo sobre suas origens?

—Uma mulher como essa não aceitaria a um homem como você sem uma boa dose de persuasão. - Lorde Reynard agitou seu dedo indicador. - Terá que se esforçar para ganha-la.

Kerrich não sabia como sair daquele embrulho e não lhe ocorreu nada melhor que exclamar:

—Mas se não a quero!

Lorde Reynard retrocedeu para a lareira e esfregou o traseiro.

—Então, que demônios faz uma jovem de uma família respeitável vivendo em sua casa?

—Estou... estou estudando-a. - Era uma mentira tão boa como qualquer outra. - Terei que me casar logo, e fiz uma lista do que espero de uma esposa.

—Ah, sim? - Lorde Reynard tossiu... ou estava rindo?. - Me fale dessa lista.

—Mostrarei. - Kerrich se aproximou do escritório e rebuscou entre seus papéis até encontrá-la. - São os requisitos básicos na realidade. É importante dizer que tem que ser de boa família.

—Importante - repetiu lorde Reynard.

—Tem que ter um grande sentido da decência, conhecer as responsabilidades de uma anfitriã, ser inteligente e, é obvio, ser dócil e viver para me agradar.

Lorde Reynard o olhou com fixidez e, por sua expressão, Kerrich suspeitou que não ia elogiar uma lista que lhe parecia de uma mentalidade muito avançada.

—E por que não compra um collie? - perguntou lorde Reynard finalmente.

—Porque um collie não pode me dar um herdeiro - replicou Kerrich. - Mencionei que minha esposa tem que ser fecunda?

—Bom, isso é difícil de saber sem provar antes seus encantos. - Lorde Reynard fechou um olho e inclinou a cabeça.

—Não mencionou a beleza, assim devo supor que é muito inteligente para tomar uma decisão se apoiando no mero esmero.

Sem querer, a Kerrich apareceu a imagem da mulher perfeita.

—Tem que ter longos cabelos castanhos, ondulados ao soltá-los; uma formosa pele com uma leve tintura dourado; curvas que façam desabar um faetón, e olhos do mais angélico dos azuis...

—E o que há do amor? - A pergunta de lorde Reynard dissipou o feitiço.

Kerrich a desprezou com um gesto.

—OH, já me encarregarei de que se apaixone por mim.

—Conseguiria que qualquer mulher se apaixonasse por você, não é?

—Todos os homens têm que ser peritos em algo, avô - disse Kerrich, dando de ombros.

—Inclusive a senhorita Lockhart? Acredita que poderia enfrentar à provocação de fazer que se apaixonasse por você?

—Se o desejasse... embora preferiria que não a informasse sobre minhas intenções.

—É obvio que não! Eu também montei a umas quantas potrancas em meus tempos. O elemento surpresa é essencial. - Com a vista cravada no tapete oriental que tinha sob os pés, lorde Reynard pareceu sumir-se em suas lembranças. Finalmente elevou a cabeça e perguntou: - Segue insistindo nessa estúpida decisão de não se apaixonar?

Kerrich teria gostado de soltar um grunhido. Quando, à idade de onze anos, tinha jurado pela primeira vez não se apaixonar jamais, lorde Reynard se mostrou filosófico, indulgente inclusive.

Mas à medida que os anos passavam e Kerrich se atinha a sua resolução, lorde Reynard tentara lhe dissuadir. Kerrich compreendia os motivos de seu avô. Sabia que queria vê-lo feliz e que também desejava ter bisnetos.

—Não conheci a nenhuma mulher que me tenha feito mudar de opinião.

—Se a conhecesse, sairia fugindo como o covarde que é. - Lorde Reynard soltou um grunhido e se deixou cair de novo na cômoda poltrona. - Estes velhos ossos já não suportam as sacudidas de uma carruagem.

Traz o uísque quando voltar, moço.

—O médico diz que não deveria beber licores - protestou Kerrich, mas foi em busca da garrafa e de dois copos enquanto falava.

—Maldito velho louco - sentenciou lorde Reynard com uma frase sucinta e expressiva que utilizava frequentemente. - Bebi uísque toda minha vida. Por isso sigo aqui, forte como um carvalho, com oitenta e nove anos.

—Já está exagerando outra vez - disse Kerrich aprazivelmente, deixando os copos sobre a mesa que havia entre as duas poltronas. - Só tem oitenta e quatro.

—E estou melhor do que você jamais estará. - Lorde Reynard observou a seu neto enquanto este servia o uísque. - Eu não tive que adotar nenhum menino para ter um herdeiro. O fiz eu mesmo.

—Simplesmente o pegaram com as calças baixadas, isso é tudo. - Kerrich lhe estendeu um dos copos. - E já tinha trinta e quatro anos, assim que eu ainda posso esperar quatro anos mais.

—Sim, sua avó nunca o admitiu, mas acredito que arrumou tudo para que seu pai nos pegasse. Mal penetrara no portal quando...

—Por favor, avô! - exclamou Kerrich, dando um salto. - Não quero saber.

A lorde Reynard fizeram graça os melindres de Kerrich.

—Como acredita que seu pai chegou a este mundo, moço? Não nasceu dos anjos nem o encontramos sob uma folha de alface.

—Se eu prefiro acreditá-lo, acredito que não deveria me desiludir. - Kerrich desabou em sua poltrona.

Lorde Reynard pegou seu copo e o levantou.

—Por sua avó, a mulher mais inteligente que houve sobre a terra e a mulher a que amei.

—Pela avó. - Kerrich se uniu ao brinde pela avó a que recordava como uma mulher severa e disciplinada, embora seu avô parecia ter umas lembranças muito diferentes, das que Kerrich não queria se inteirar.

Lorde Reynard apurou o copo e o estendeu para seu neto para que voltasse a encher-lhe.

Kerrich assim o fez, sabendo que o idoso alongaria o segundo copo durante toda a tarde.

—Um homem de minha idade sobrevive das lembranças - disse lorde Reynard com tom sentimental, mas seu sentimentalismo era sempre suspeito e estava acostumado a praticá-lo a gastos de Kerrich, de modo que este replicou:

—Com a idade que tem, suas lembranças deveriam durar muito tempo.

—Ah, moço, não deveriam te incomodar minhas lembranças, sobre tudo porque você é o único com o que posso compartilhá-las. Todos meus amigos e inimigos morreram, meu único filho também, e sua mãe está em alguma parte com esse gigolô dela.

—Na Itália, segundo minhas últimas notícias, e esse gigolô a faz muito feliz.

—A sua custa.

—Vale o que custa. - Kerrich elevou seu copo para brindar pela condessa viúva de Kerrich. Era sua mãe e a queria, mas com rancor. Cada vez que a via, recordava a seu pai, o homem melhor e mais sábio, o melhor homem que conhecera em sua vida, e sua mãe não esperara sequer a que passasse um ano desde sua morte para procurar a outro, afirmando que tinha o coração quebrado.

Kerrich opinava que tinha um modo muito estranho de curá-lo. Não, sua mãe era do tipo de mulheres complexas e inteligentes que Kerrich se fizera um perito em evitar.

Preferia as mulheres prontas de cabeça de vento que atuavam por agradar sem pensar nas consequências; a vida de Kerrich era mais fácil com sua mãe na Itália.

O resplendor do fogo dançava sobre a cabeça calva de lorde Reynard e dava um brilho dourado à linha de cabelos brancos que ficavam ao redor das orelhas.

—Falando de velhas lembranças e de calças caídas, recorda aquele famoso incidente na festa da duquesa de Kent em Kensington Palace...?

—Não!

O sorriso de lorde Reynard deixou a descoberto um branco brilho.

—Sempre o incomodou por te ter perdido aquela fabulosa exibição estando no palácio aquela noite. Onde estava? Rondando pelos jardins com outros moços?

Kerrich não queria falar do tema, mas sabia melhor que ninguém que era impossível desviar a conversação uma vez iniciada o turno de lembranças de seu avô, especialmente se tratando daquele.

Ao longo dos anos, seu avô recordara o incidente repetidas vezes e não deixara de lhe divertir nunca.

—Sim - respondeu Kerrich. - Estávamos no jardim, planejando o modo de assustar às garotas.

—Ah, sim. - Lorde Reynard assentiu com ar entendido. - O desejo de todos os jovens, assustar às garotas.

—Aos dezessete, em qualquer caso.

Outro chiado transpassou o ar e se prolongou até terminar com uma nota aguda e enferma. Kerrich e seu avô intercambiaram olhadas.

—Moulton - chamou Kerrich, elevando a voz, - o que foi isso?

—Milordes - respondeu Moulton, aparecendo na soleira da porta, - ao que parece a senhorita Beth põe reparos ao ato de se banhar.

—Resiste? - perguntou Kerrich.

—Segundo as donzelas de cima, a senhorita Lockhart também está empapada.

—Pobre senhorita Lockhart. - Kerrich não se incomodou em dissimular seu sorriso.

—Pobre Beth - disse lorde Reynard. - Não vai ganhar para sustos.

—Tolices, um pouco de água fará bem às duas.

Enquanto falava, Moulton fez um gesto a Kerrich em sinal de triunfo. Logo fez uma reverência e se retirou.

Então o mordomo enviara a alguém para seguir Lewis. Kerrich fazia todo o possível para proteger a seu primo da detenção, mas os culpados precisavam se encontrar, e logo, pois embora o Banco

Mathewes podia suportar a perda de ganhos temporalmente, ao Banco da Inglaterra não o fazia nenhuma graça que também se falsificassem bilhetes de libra, e menos ainda que se tivesse feito com seu papel especial marcado à água e sua tinta especial de complexo faturamento. Isso significava que alguém fora ao banco e roubara o necessário diretamente. Se o assunto não se resolvia logo, se informaria ao primeiro-ministro, a rainha Vitória o descobriria, retiraria seu dinheiro e, além disso,

Kerrich não tinha a menor garantia que a rainha não decidisse pô-lo em ridículo diante de toda a sociedade.

—Grande noite aquela - disse lorde Reynard.

Voltando para a realidade com desconcerto, Kerrich perguntou:

—Que noite?

Então lorde Reynard riu como um duende maligno.

—OH. Aquela noite.

—O velho rei Guillermo também estava, contra sua vontade, é obvio, já que detestava Sua Excelência, a duquesa de Kent.

—E quem não? - Kerrich bebeu um gole de uísque. - Nem sequer a rainha Vitória sabe o que fazer com sua mãe.

—Sim, certamente. É um escândalo. Mas não podemos jogar na cara a nossa jovem soberana.

Sua Excelência era... com certeza segue sendo, uma mulher de caráter azedo, e nunca se importou muito com sua filha, salvo como princesa real.

—Recorde o que lhe digo, o príncipe Alberto conseguirá que se reconciliem. O consorte da rainha Vitória é um homem muito estrito que espera certo comportamento da família real, e da própria Vitória.

—O próprio Kerrich tinha provado o amargo gole, e não só da bebida que estava tomando.

—Alberto tem razão. Ficam longe os dias em que um monarca podia obrar a seu desejo. Não é correto que uma jovem esteja tão distanciada de sua mãe. E sejamos francos. Vitória tem a desvantagem de seu sexo.

As mulheres estão sempre sujeitas a caprichos e impulsos. - Lorde Reynard deixou seu copo e cruzou as mãos sobre seu ventre. - Não se pode confiar em uma mulher.

Desejo um longo reinado a Vitória, mas não confio nela.

Kerrich estava mais que disposto a falar sobre a rainha Vitória, sua situação política e outros muitos tema fascinantes, mas, como era de esperar, lorde Reynard não admitia distrações.

—Entretanto, quem teria acreditado essa noite ha doze anos, que reinaria e estaria casada e grávida em tão pouco tempo? - Lorde Reynard jogou a cabeça para trás e fechou os olhos como se ainda pudesse ver aquela cena. - Recorda? O rei Guillermo a um extremo da longa mesa e a duquesa de Kent do outro, e o resto de nós entre eles tratando de impedir que chegassem às mãos.

—Ainda não me permitia jantar com os adultos, avô. - Mas Kerrich o recordava muito bem, pois tanto a ele como ao resto de jovens convidados de Vitória permitiram se mesclar com outros no salão do segundo andar, e quando seus pais se foram para jantar, a origem dos nobres convidados apareceu para ver a mesa com seus finos pratos e seu brilhante faqueiro.

Logo os enviaram a uma sala à parte para jantar e se entreter sozinhos.

Kerrich tinha então dezessete anos e era o mais velho dos três meninos adolescentes. Em sua opinião, era muito superior às garotas, embora uma delas fosse a herdeira ao trono da Inglaterra.

Outra das garotas tinha quinze anos, uma beleza de olhos azuis e longos cabelos da cor do caramelo. Ele tentara ser agradável com ela - demônios, tentara cativá-la, - mas ela se comportou como se acreditasse que ele era um animal com o que devia se mostrar cautelosa, e se retirara a outra sala. Aborrecido, Kerrich se reunira com os outros dois meninos e os levara ao jardim.

Onde, ferido em seu orgulho, passeou de um lado a outro, pensando, e finalmente conspirou para ser tão desprezível como aquela garota parecia considerá-lo. Conspirou para lhe dar um bom susto.

—Sua Excelência tinha disposto que se fizessem foguetes, então os criados deixaram abertos os cortinados. - Lorde Reynard sorriu nostalgicamente.

—Graças a Deus, do contrário não teríamos presenciado aquela magnífica visão.

—Graças a Deus - repetiu Kerrich sem a menor sinceridade. Lorde Reynard se inclinou para ele e lhe deu uma palmada no joelho.

—Está ciumento porque não o viu. E também estava no jardim. Teria que ter olhado para cima, moço!

—Fiquei doente, agarrei um dos cavalos e voltei para casa. - Kerrich se ateve ao conto que levava onze anos contando.

—Não importa. Talvez a névoa não o teria deixado ver isso. Não fazia mais que formar redemoinhos diante das janelas como fogos fátuos, refletindo a luz das velas e se afastando quando ouvia o rei e à duquesa discutindo.

—A umidade cobria tudo - reconheceu Kerrich. O parreiral. O telhado. E o batente da janela que dava à habitação onde uma garota, a formosa garota que ao que parecia era hóspede da casa, se despia para se deitar...

—Aquele jovem nos proporcionou uma diversão que não tinha preço. - Lorde Reynard ria às gargalhadas com aquele ar nostálgico que Kerrich punha dos nervos.

—Pendurado de um parreiral quebrado, diante das janelas da sala de jantar, de barriga para baixo, com as calças tiradas, enganchadas em uma bota... - Lorde Reynard se interrompeu para rir.

Riu tanto que Kerrich cobrou a esperança que o deixasse correr. Mas não.

—Com os braços pendurados. Dando chutes com a perna livre. E à luz das velas, o traseiro branco brilhando como a lua cheia. - Mais risadas.

Kerrich sorriu com um regozijo tão simulado que doía.

—E quando girou em círculo, também vimos as constelações. - Lorde Reynard bateu na coxa, gargalhando de seu próprio engenho.

—Que gracioso - disse Kerrich.

—Sim. Te asseguro, moço, que aquele cometa tinha a cauda bem longa.

Kerrich tinha vontade de tampar a cara.

Lorde Reynard meneou a cabeça sem deixar de rir.

—A velha duquesa chiou escandalizada, mas me precavi, como todo mundo, que não se movia do lugar até ver toda a exibição. E o rei brincou... o rei brincou:

"Esta é a primeira vez que vejo a lua cheia em uma noite com névoa".

—O rei Guillermo sempre foi muito ocorrente - disse Kerrich.

—Na realidade não. Não era um grande rei nem muito engraçado, mas as gazetas reproduziram a frase e desenharam numerosas versões do moço pendurado de barriga para baixo.

—Lorde Reynard apontou Kerrich com seu artrítico dedo curvado. - Sabe que colecionei todas aquelas sátiras e as guardei?

Kerrich tomou um bom gole de uísque.

—Não, isso não sabia.

—Nunca averiguamos quem era aquele jovem.

Kerrich se ergueu um pouco.

—Acreditava que havia dito que sem dúvida se tratava de algum vândalo de baixo estofo.

Lorde Reynard colocou o dedo junto ao nariz e assentiu.

—Sua excelência disse a duquesa e outros o repetiram, mas te digo, moço, que sob as abas da camisa que lhe tampava a cara, fazendo impossível identificá-lo...

Kerrich começou a se sentir mal.

—Vislumbrei uma jaqueta. Antes que o jovem caísse, me fixei muito bem nela. Aquela jaqueta estava feita sob medida por um bom alfaiate. - Lorde Reynard olhou Kerrich aos olhos.

—Se não fosse porque tinha pego um cavalo e te tinha ido a casa, teria pensado que era você.

 

Kerrich cavou o travesseiro de sua cama, se apoiou na cabeceira e, meio dormitado, repassou o verdadeiro livro de contas do banco. Sim, via claramente a sangria, lenta mas incessante, que a falsificação produzia nas finanças do banco. Teria dado uma boa sova em Lewis por aquilo, mas não podia. Não podia, porque o senhor Veare dizia que não.

Fechando os olhos, Kerrich se recostou no travesseiro e pensou nos cavalheiros de expressão lúgubre do pequeno escritório do Banco da Inglaterra. Kerrich tinha ido ali para pedir que encontrassem e prendessem os vilões que falsificavam e distribuíam seus bilhetes, e por sua vez os cavalheiros - designados pelo governo - tinham ameaçado prender Kerrich por permitir que se falsificassem bilhetes do Banco da Inglaterra no seu imóvel.

Aos cavalheiros dava igual que Kerrich proclamasse sua inocência; se limitaram a fulminá-lo com o olhar e a lhe dizer que devia estar mais a par do que ocorria em suas propriedades.

Informaram Kerrich que Lewis formava parte do bando de falsificadores, e ao Kerrich se negar em acreditar, lhe apresentaram como prova a assinatura de Lewis na compra de papel e tinta - ao que parecia a falsificação dos bilhetes do banco de Kerrich fora feita com fornecimentos cuja procedência se podia rastrear facilmente - e, o que terminou de o convencer, em uma imprensa.

Kerrich não entendera, e seguia sem entender, o que empurrara ao delito a seu virtuoso e responsável primo. Lewis fora um estudante exemplar e era titulado em teologia.

Kerrich apertou os dentes. Teologia, pelo amor de Deus. Que ironia.

Depois de obter o título, ofereceram vários empregos a Lewis: como clérigo, como ajudante de professor. Poderia ter obtido uma escola de professores própria em pouco tempo, mas preferira se dedicar a preparar um jovem nobre para entrar em Oxford. Estava procurando sua verdadeira vocação, nas palavras de lorde Reynard. Desperdiçando suas oportunidades, opinava Kerrich. Mas isso era o de menos.

Lorde Reynard atribuíra uma renda anual a Lewis para que o neto de sua querida irmã não passasse apuros econômicos jamais.

Então, o que Lewis havia feito para necessitar mais dinheiro? Se dedicou a jogar? Tinha uma amante clandestina? Era vítima de alguma chantagem?

E o que importava? Podiam enforcar Lewis por falsificador, e os cavalheiros do governo deixaram muito claro que, a menos que Kerrich descobrisse todo o bando de falsificadores, o que ao que parecia incluía ao menos a cinco homens e seu cabeça, Kerrich podia acabar com outra corda no pescoço. A família Mathewes podia acabar aniquilada por culpa da estupidez de Lewis.

Então, obedecendo às instruções daqueles cavalheiros, Kerrich dera trabalho a Lewis, lhe proporcionara informação, dera acesso a um falso livro de contas do banco, pedira seu conselho... e o mantinha sob vigilância.

O governo introduzira a uns quantos homens no serviço doméstico de Kerrich, dos quais Moulton era o chefe. Não trabalhava para o governo, mas sim tinha uma empresa privada de sabujos.

Não só dirigia todas as operações, mas sim cumpria dignamente com seu trabalho de mordomo. Sob a direção de Moulton, um de seus homens ou alguém do governo seguia Lewis a todas partes.

Tudo fora em vão. Lewis os despistava sempre.

Kerrich deslizou para baixo na cama, uma estrutura ampla e maciça com um colchão o bastante longo para poder se estirar por completo e que era o bastante largo para poder cobri-lo com três mulheres, embora isso não o fazia desde a juventude. Em seu dormitório titilavam os reflexos de cor, a intensa cor azul purpúrea dos lírios, tonalidades escarlates, brilhos dourados.

O fogo crepitava alegremente na lareira, embora a noite fosse calorosa. As chamas se elevavam, se enroscando em fantásticas labaredas laranja de dragão.

Adormeci. Estou sonhando, disse-se, agradado pela acuidade de sua dedução.

Um bom sonho, admitiu instantes depois. Um sonho muito bom.

Havia uma mulher diante da lareira, de costas a ele e com a mão apoiada em uma poltrona.

Sua silhueta se recortava sobre o resplendor das chamas e era, naturalmente, o que fazia bom aquele sonho, porque estava totalmente nua.

Mas, ao contrário das outras mulheres nuas que assaltaram seu dormitório não fazia muito, aquela era a perfeição personificada.

Não era a donzela principal. Era a viva encarnação da inocência e beleza juvenis. Seus cabelos de cor mel se amontoavam no alto da cabeça em um coque que desafiava a gravidade, e lançavam brilhos ambarinos e castanhos. Tinha os ombros largos para ser uma mulher, mas suaves e dourados, e a longa linha de sua espinha dorsal conduziu o olhar de Kerrich indevidamente até o início de seu traseiro.

E que traseiro. As nádegas eram cheias, mas altas e escuras, do tipo que englobaria com suas mãos quando aquela mulher o montasse escarranchado durante horas, durante dias. Não se cansaria, não, aquela mulher de encantos tão abundantes. Nem tampouco ele, pois tinha a mesma ereção que quando era um moço e espionava os encantos proibidos de alguma garota.

Como sempre que se sonha, Kerrich não podia se mover, então fez um esforço para gritar: "Veem, você, então. Me dê o que sempre me prometeu".

E ela se voltou, o deixando ver uns seios abundantes, o umbigo na suave pele do ventre, o triângulo de pelo que ocultava as pétalas da rosa mais doce da natureza.

Ele contemplou aquele corpo até que lhe doeram os olhos, igual a na vida real, e lhe ocorreu que ela não se aproximaria, nem o beijaria nos lábios nem apertaria sua figura nua contra ele, até que a olhasse ao rosto.

As mulheres, inclusive as sonhadas, eram assim de estranhas.

De modo que, com um doloroso esforço, Kerrich desviou a vista dos suaves mamilos rosados para olhá-la... e gritou.

Certamente lorde Kerrich olhava à senhorita Lockhart de uma maneira muito rara.

Lorde Kerrich não a olhava assim no dia anterior, e Beth não compreendia por que agora abria tanto os olhos e a olhava com receio. E não se podia dizer que a senhorita Lockhart tivesse alterado seu aspecto.

Levava um vestido franzido nos ombros, de cor marrom. Os óculos escuros lhe escorregavam pelo nariz, e quando lorde Kerrich entrou na sala de aula com a bengala e o monóculo, condenadamente elegante, seguia tendo aquela expressão azeda como se vê-lo produzisse dor de estômago.

—Milorde. - A senhorita Lockhart interrompeu no meio da aula de ortografia e fez uma reverência. - Não o esperávamos tão cedo. Ainda não são onze.

—Não podia dormir - disse lorde Kerrich mal humoradamente.

Beth tinha se posto de pé ao ele entrar, e quando se deteve diante dela, fez uma reverência, se sentindo quase desenvolvida com seu vestido rosa de algodão que só estava um pouco descolorido, mas se tinha engomado, e o avental branco com adornos nos ombros. Ele se limitou a olhá-la e a declarar:

—Está limpa. Segue assim.

—Sim, milorde. - Uma ideia ocorreu a Beth, e gostou tanto que se atreveu a acrescentar: - Se seguir limpa, não terei que tomar mais banhos, não é?

—Ah, não. - Kerrich meneou a cabeça. - Não me vou misturar nessa batalha. Senhorita Lockhart, lhe ensine algo. Tenho coisas nas que pensar. - Kerrich se afastou para o fundo da sala e passeou de um lado a outro, e cada vez que Beth o olhava, o encontrava olhando à senhorita Lockhart como se se assustasse dela.

Beth se removia em seu assento. Já sabia todas aquelas breguices de ler e escrever, mas a senhorita Lockhart dizia que faziam um repasse, assim Beth podia examiná-la livremente e tratar de averiguar por que lorde Kerrich a olhava daquela maneira.

Certamente, aquela manhã, com o sol que entrava através dos janelões, seu rosto tinha um ar fantasmagórico, muito pálido e com as faces de cor rosa, mas em conjunto se conduzia como uma dama, a dama que tirara Beth do orfanato e lhe dera a oportunidade de uma nova vida.

Beth sabia ser agradecida. Faria qualquer coisa pela senhorita Lockhart. Aprenderia todas essas coisas que a senhorita Lockhart dizia que necessitava, como latim e tocar piano e história e literatura e desenho.

Vestiria aquelas estupendas roupas novas que as donzelas encontraram. E obteria, de algum modo, não voltar a sentir medo. Ao fim e ao cabo, a senhorita Lockhart havia dito que era uma leoa.

Assim Beth seria o órfão que lorde Kerrich queria. Dura. Valente. Melhor que um menino.

Por sorte para ela, ser melhor que um menino não era nada difícil.

—Bem. - Lorde Kerrich se aproximou da carteira de Beth e interrompeu à senhorita Lockhart justo no meio das palavras J-O-G-A-R e A-T-R-A-V-E-S-S-A-R, que estava soletrando. - Você não gosta de se banhar.

A pluma caiu da mão de Beth. Colocou-a em seu pé e elevou a vista para o rosto de lorde Kerrich.

—Minha mãe me obrigava a me banhar. Me esfregava bem forte, igual à senhorita Lockhart. - Tentou parecer tão contrariada como um menino, o que não lhe resultou difícil porque realmente não gostava de se lavar.

—Por que às garotas gosta tanto de água?

—Nós, as senhoras - a senhorita Lockhart pôs tanto ênfase na palavra que Beth teve a impressão que não gostava que a chamassem garota, - nós gostamos de ver meninos limpos.

—A visão deve ser melhor que a sensação - replicou Beth. A senhorita Lockhart deu um golpe na carteira com seu ponteiro.

—Não seja descarada.

—Não, senhora. - Beth arrumou as dobras da saia.

Mas lorde Kerrich olhou para Beth, logo à senhorita Lockhart e logo depois de novo a Beth. Em tom conspirador, disse:

—As senhoras armam muito revoo por um pouco de sujeira, não é?

Beth sentiu vontade de ficar de pé de um salto e gritar de júbilo. Havia dito uma coisa típica de meninos e ele estava de acordo!

Kerrich pegou uma das cadeiras grandes, deu-lhe a volta e se sentou escarranchado nela.

—Que outras coisas te dá vontade de gritar? - perguntou, apoiando o queixo no respaldo.

A Beth punha nervosa que a olhasse tão fixamente, mas a senhorita Lockhart assentia com expressão de fôlego por cima do ombro de Kerrich, assim se armou de coragem e tentou pensar. O que o fazia gritar?

—Quando a senhora Fallowfield me encerrou no armário, gritei e chutei a porta.

—Quem é a senhora Fallowfield? - perguntou lorde Kerrich.

—A velha bruxa que dirige o orfanato.

—Beth! - a senhorita Lockhart se ergueu severamente. - Tais expressões não devem sair jamais dos lábios de uma senhora.

—Isso é certo, Beth. - Lorde Kerrich parecia a ponto de explodir e seu rosto faiscava de risada. - A frase correta é: "A velha bruxa que dirige o orfanato".

Os olhos da senhorita Lockhart lançavam tais brilhos que Beth percebia sua ira através dos óculos escuros.

—Sabe muito bem a que expressão me refiro, Beth - disse.

Beth não ousou fazê-la de tola.

—Sim, senhorita Lockhart - disse em um sussurro.

—A senhora Fallowfield é a diretora do orfanato, milorde - disse a senhorita Lockhart, respondendo à pergunta anterior.

—Pelo visto é uma velha... temível - comentou lorde Kerrich. - Por que a trancou em um armário?

—Porque chorava a noite e despertava os outros. - Beth não queria falar disso, assim se apressou a adicionar: - Gritei quando pegou fogo em meu avental.

—Pegou fogo em seu avental - repetiu lorde Kerrich como se não entendesse o que dizia.

—Já sabe. Um avental, como este. - Levantou o avental branco de algodão para mostrar. Não o fiz de propósito. Era muito pequena. Minha mãe estava limpando a lareira e o carvão me pareceu muito bonito, então peguei um pedaço com a pá e meti isso no bolso.

—Valha-me Deus. - A senhorita Lockhart tampou a boca com a mão.

—Não pode ser certo - disse lorde Kerrich.

—É claro que sim. - Beth o olhou com indignação. - Quando saltaram as chamas, minha mãe me pegou, me fez rodar pelo chão e me golpeou com um tapete. E olhe!

—arregaçou e estendeu o braço para mostrar uma cicatriz de cor púrpura. - Me queimei.

Lorde Kerrich se levantou e afastou a cadeira de um chute.

—Senhorita Lockhart, não posso seguir com isto!

—Milorde? - A senhorita Lockhart arqueou suas escuras sobrancelhas.

—Isto é muito duro. E se me afeiçoo com a menina e ela mete outro carvão no bolso? O que passará comigo então?

Por sua expressão, a senhorita Lockhart parecia ter dor de ventre, e não deixava de abrir e fechar a boca, como se não soubesse o que dizer. Beth sim sabia.

—Era muito pequena. Agora já não brinco com o fogo.

—Não me engana - disse lorde Kerrich com glacial precisão. - Os meninos se fazem mal a cada momento.

A senhorita Lockhart devia ter recuperado a fala porque, quando começou a falar, soltou um discurso assombroso.

—Você está certo, milorde. Poderia se fazer mal. De algum modo. Poderia precisar cuidados. E se você, em sua generosidade, se afeiçoasse com ela, poderia lhe fazer mal seu sofrimento.

Assim irei agora mesmo a dizer a lorde Reynard que você não tem intenção de cumprir com seu compromisso. Não?

—Não se atreverá! - Lorde Kerrich a ameaçou apontando com o dedo para ela.

—E acredito que também tem pendente certo assunto com Sua Majestade - disse a senhorita Lockhart com ar desdenhoso.

—Senhorita Lockhart, está se metendo em camisas de onze varas.

—Me limito a lhe recordar o que está em jogo.

—Já sei o que está em jogo.

—Então, mantenha o rumo firme, milorde, e atracará a bom porto. Se fraquejar agora, será um covarde.

—A mim ninguém chama covarde.

—Talvez alguém devesse lhe chamar ilógico por pensar que um menino teria menos possibilidades de ferir a si mesmo e, indiretamente, a você.

Se comportavam como os meninos do orfanato, e Beth obrou igual a ali, tratando de distraí-los. Se pegou a elegante jaqueta negra de lorde Kerrich e lhe deu um puxão.

—Gritava nas corridas de cavalos quando meu pai me levava para vê-las.

Lorde Kerrich deixou de vociferar e de agitar o dedo. Olhou para Beth com expressão de assombro.

—Seu pai a levava às corridas de cavalos?

Beth assentiu.

—OH, não - disse a senhorita Lockhart.

Lorde Kerrich não lhe fez o menor caso e se ajoelhou junto a Beth.

—Você gostava das corridas de cavalos? - ele perguntou com voz melíflua.

—Eu adorava. - Beth não precisava fingir. Se deixou levar pelo entusiasmo. - O aroma da terra e da palha e o modo em que a gente saltava e gritava e às vezes, se pedia com educação, o dono me deixava acariciar ao cavalo...

—Não pode levar a menina às corridas - disse a senhorita Lockhart.

Se apoiando nos calcanhares, Kerrich examinou Beth com a mão no queixo, mas com expressão amável, como se o interessasse. Logo suspirou.

—Não, suponho que não.

—Mas... - protestou Beth.

—Não. - A senhorita Lockhart se manteve firme.

Beth desmoronou em sua cadeira. Não era justo. Seu pai a levava. Por que não podia voltar com lorde Kerrich? Assim gostaria. Precisava explicar mais tarde à senhorita Lockhart.

—Aonde iam ver as corridas de cavalos? - quis saber lorde Kerrich.

—No Hipódromo.

—Não é bom lugar - disse ele. - A terra é tão pesada que os melhores jóqueis não querem montar ali.

Beth deu um chute na perna da carteira.

—E está nos subúrbios de um subúrbio. Seguro que veria os ladrões de carteira e ladrões que frequentam esse lugar.

—Sim. - Beth lhe lançou um olhar de desdém. - Mas meu pai e eu não podíamos ir a Ascot, não acha?

—Suponho que não.

A Beth ocorreu uma ideia que a fez se erguer na cadeira.

—Você tem um cavalo, milorde?

—Não. Não tenho cavalos de corridas - respondeu lorde Kerrich, meneando a cabeça.

—Demos graças a Deus - disse a senhorita Lockhart empurrando os óculos para cima.

—Mas tem um cavalo? Um cavalo de verdade? É alto? - Beth não parava quieta da emoção. - É castanho? Eu acredito que os castanhos são os mais bonitos, mas meu pai gostava dos tordos.

—Tenho um castanho. - Lorde Kerrich sorriu para Beth, cada vez mais parecido à fada madrinha dos contos. - E um tordo. De fato, tenho um par de ambos os tipos.

Em sua alegria, Beth esqueceu que queria agradar à senhorita Lockhart e estabelecer uma afinidade com lorde Kerrich para que a deixasse ficar. Pensou somente nos cavalos, nos formosos cavalos.

Mas então lhe pareceu que era muito bonito para ser certo e perguntou com desconfiança, sem poder evitar:

—Não estará me mentindo, não é?

Kerrich jogou a cabeça para trás e soltou umas gargalhadas estrondosas que fizeram Beth rir.

Mas não à senhorita Lockhart. Se levantou para se aproximar deles e olhou furiosamente por cima de seus óculos a Kerrich, que estava ajoelhado a seus pés.

—Milorde, não é isto o que eu tinha pensado.

—E o que pensou, senhorita Lockhart? - Falava tão devagar, arrastando as palavras, que soava igual a Chilton quando queria parecer educado. - Que desse aulas de costura com Beth?

—Há homens que melhorariam muito com as lições de paciência e refinamento que acompanham à costura.

—Eu não sou um deles. - Kerrich se levantou devagar, se erguendo até que o nariz da senhorita Lockhart ficou justo à altura da clavícula e pôde olhá-la do alto.

Os dois tinham uma expressão de superioridade tão insofrível que a Beth foi difícil não se por a rir.

—Levo a menina para dar um passeio a cavalo pelo parque. - Ofereceu a mão a Beth, que se pegou a ela sem vacilar. - Se pensa nos acompanhar, senhorita Lockhart, será melhor que coloque um traje de montar.

 

Um moço de estábulo puxou a égua de Beth a conduzindo das rédeas. Lorde Kerrich o seguia montando um cavalo castrado castanho, lançando palavras de fôlego e comentários, e Pamela fechava a marcha, de um modo literal além de figurativo, conforme opinava ela mesma. Sabia que devia se alegrar que Kerrich e Beth tivessem achado o que tinham em comum, algo que entusiasmasse aos dois.

Mas passar uma hora nos estábulos para conhecer todos os cavalos não era o que planejara para o primeiro dia de aulas de Beth. E cavalgar pelo parque naquele velho pangaré que mal se aguentava em pé!

Não sabia por que, mas não lhe parecia equitativo.

Em justiça, Pamela devia admitir que parte de seu descontentamento provinha das diversas dores que tinha desde que brigou com Beth pelo banho na noite anterior.

Naquele mesmo momento, no lombo da égua que seguia o atalho radiante de flores avermelhadas e rosas, notava claramente cada um de seus machucados.

Quando Kerrich se adiantou para cavalgar junto a Beth, Pamela o observou com receio. Tal como suspeitava, permitiu que o moço do estábulo entregasse as rédeas à menina.

—Não - gritou Pamela. - É a primeira vez que cavalga!

Mas eles fingiram que ficara muito atrasada para que a ouvissem, e quando ela esporeou o pangaré tentando pô-lo a trote, não recebeu como resposta mais que um bufo de exasperação por parte do cavalo.

Ela, Pamela Lockhart Ripley, estava ficando atrás por culpa de um velho pangaré.

Como se ela fosse um velho pangaré.

Voltando a se ajustar na sela, Pamela decidiu falar com Kerrich assim que retornassem a casa sobre sua abominável indiferença pela segurança de Beth.

Isso, se a menina não caísse, embora Kerrich mantivesse seu cavalo ao passo, não se movia de seu lado e tinha o moço do estábulo seguindo-a pelo outro lado. Então desapareceram ao dobrar uma curva.

Uma parte do temor de Pamela era pura extenuação. Não dormira bem a noite anterior, embora, tal como lorde Kerrich lhe prometera, sua cama era cômoda, seu dormitório bem ventilado e contiguo ao de Beth, e desfrutava de todos os privilégios. Por muito que detestasse admitir isso, Hannah tinha razão. Pamela se sentia culpada. Culpada e desesperadamente temerosa que alguém a descobrisse apesar do disfarce.

Não porque lhe importasse deixar Kerrich em ridículo. Não, era evidente que o galo de briga de antigamente se converteu em um homem autoritário. Mas lorde Reynard era outra história.

Apertou o laço sob o queixo, esperando que a sombra do chapéu de montar que Moulton lhe conseguira ocultasse as linhas onde os pós brancos e o ruge das faces se encontravam com a verdadeira cor de sua pele.

Ao se maquiar pela manhã, não contara com que teria que cavalgar à luz do sol... e a culpabilidade que sentia não lhe deixava quase nem se olhar no espelho.

Sim, lorde Reynard a fazia se sentir culpada. A observara com interesse, e ela teria jurado que estava a ponto de se recordar dela. De recordá-la como uma jovem formosa, não a solteirona de meia idade que seu neto tanto desprezava. Mas não a reconhecera, e cada vez que Pamela pensava nisso, quase desmaiava de alívio, e se sentia culpada - outra vez a palavra! - por enganar um idoso de seus anos.

Logo a preocupava que na realidade sim a tivesse reconhecido e que manteve a boca fechada por alguma razão misteriosa e nefanda. Entretanto, que razão nefanda podia ter um idoso para secundá-la em sua pantomima?

A resposta era... que não tinha nenhum motivo. O próprio fato de que se preocupasse demonstrava que Kerrich influía tanto nela que via conspirações por toda parte. Kerrich era uma ameaça para a honra e o bom senso.

E a segurança. Pamela dobrou a curva e olhou para frente. Diabo, ali estava Beth, caída no chão nos braços de Kerrich!

Pamela experimentou uma pontada de medo inesperado. E se a pobre menina estava ferida? Então Kerrich sim desejaria devolvê-la ao orfanato, e exigiria um menino, mais duro desta vez.

Agora, Pamela não aceitou que o teimoso cavalo a desobedecesse, e o esporeou com força até conseguir que trotasse para a menina... e o homem.

—O que ocorreu? - perguntou com tom agudo.

—Não a levantamos o bastante depressa para evitar sua censura - disse Kerrich a Beth. Sua cartola descansava sobre a erva a seu lado, e o arbusto que havia atrás dele emoldurava sua figura em verde pintalgado de reflexos de sol. Com Beth em seus braços sorrindo para ele, parecia saído de um quadro de Watteau em lugar da caveira indiferente que Pamela sabia muito bem que era.

—Estou bem, senhorita Lockhart - disse Beth, esfregando a cabeça.

O moço de estábulo se aproximou correndo a Pamela para ajudá-la a desmontar, mas ela saltou da cadeira antes que chegasse.

—Bateu a cabeça.

—Isso não é o pior, mas você ficaria a gritar se me esfregasse onde mais me dói. - Com o braço de Kerrich segurando-a pelo cotovelo, Beth se levantou cambaleando.

Pamela correu a seu lado com inquietação maternal, mas Kerrich lhe deu as costas para impedir seu passo.

—Quebrou algo? - Kerrich segurou Beth para que desse uns quantos passos por um lado do caminho. - Torceu algo?

—Não. Posso seguir cavalgando!

Pamela tragou as lágrimas que, surpreendentemente, pugnavam por sair. Sem dúvida não eram mais que uma consequência do medo que sentia de que seu plano se arruinasse se Beth sofria algum dano.

Era impossível que já tivesse se afeiçoado a Beth. E certamente não podia ser que lhe tivesse ofendido a grosseria de Kerrich ao mantê-la à margem. Com esse tom definitivo que tão facilmente adotava, disse:

—Já cavalgou bastante por hoje...

—OH, senhorita Lockhart - choramingou Beth.

—Caminha um pouco mais. Com o exercício passará a dor. - Kerrich soltou Beth e, com os braços cruzados e a cabeça voltada para observar o avanço da menina, acrescentou:

—Bem, senhorita Lockhart, você não assina a teoria de que deveria voltar a montar a cavalo imediatamente?

E sem motivo aparente, Pamela se encontrou com que a magnificência de Kerrich a deixara muda.

Kerrich lhe mostrava seu perfil. Os ossos destacavam claramente sob a pele bronzeada, delatando audazmente sua nobre linhagem. Tinha o queixo adiantado, o nariz proeminente, a testa limpa.

Seus lábios... ah, seus lábios eram suaves e cheios, sensuais e incitantes. Seu elegante traje de montar de lã negra lhe sentava de pérolas, realçando seus largos ombros, seu amplo peito, sua cintura estreita e suas pernas de desconcertante longitude. Era o homem mais arrumado que vira em sua vida, e se dera conta! Ela, que desprezava aos homens por princípio e aos arrumados caveiras em particular, contemplava de repente os atributos físicos daquele homem igual a qualquer adultero olhava lascivamente a uma bonita moça.

Não sabia como reagir, só que devia dissimular seus pensamentos sob uma corrente de palavras.

—Saber montar a cavalo não servirá de grande coisa se decide se livrar dela, milorde.

Por que nesse momento? Por que ele? Possivelmente era porque, quando ele não a olhava, já não sentia a pressão de simular que era uma mulher velha e sem atrativos.

Mas devia recordar que Kerrich era um libertino. Um mentiroso. Um manipulador.

Pela manhã estava tão ocupada em desprezá-lo e em agradá-lo ao mesmo tempo, que seu absoluto encanto sedutor não fizera trinca nela. Mas agora o via, via a ele, e suas emoções habituais sofreram um tombo total, até o ponto que a envergonhava que ele a visse com o traje de montar que improvisara: um dos vestidos de lã negra de lady Temperly. Uma jaqueta de cor verde oliva passada de moda.

E um chapéu de montar esquecido por uma das damas de Kerrich. Como se importasse o que ela usasse!

Com um gesto de impaciência, Kerrich golpeou a bota com a vara.

—Como você mesma apontou esta manhã, a intervenção de meu avô não me deixa mais opção que ficar com a menina.

O interesse inesperado que o aspecto de Kerrich despertava em Pamela a tinha horrorizada. O que era pior, seu interesse também horrorizaria a ele. O espantaria que aparecesse de noite em seu dormitório sem roupa.

E ela não se atrevia a afirmar que não o faria, pois fazia apenas uma hora que teria jurado que era imune aos encantos daquele homem. Sua consciência moral estava sendo atacada; devia combater o assalto de desejos frívolos!

Kerrich a olhou e sua voz mudou de repente para transbordar os meios da persuasão.

—A menina promete, sem dúvida você terá se dado conta, e quem não sofreu um par de quedas quando aprendia a montar? Aprenderá todo o decoroso de você, senhorita Lockhart, isso não me cabe dúvida, mas deixe que eu a ensine a se divertir. Acredito que não teve muitas ocasiões de passá-lo bem em sua curta vida.

—Sim. - Pamela seguia sumida em uma nebulosa, procurando voltar a seu antigo critério e preocupada porque Kerrich não demonstrava somente um interesse fugaz em Beth, a não ser uma autêntica sensibilidade.

Isso é certo, mas...

—Bem, então estamos de acordo. - Seu olhar se fixou em um ponto além de Pamela. - Olhe, aí vem lady Smithwick com duas de suas filhas cavalgando para nós. lhes apresentemos a Beth.

A proposta de Kerrich devolveu um pouco de senso comum a Pamela.

—Não podemos, é muito cedo!

Kerrich não afastou o olhar das três damas que cavalgavam acompanhadas de seu moço de estábulo, e seu sorriso se alargou quando se aproximaram, mas sua voz ressoou com autoridade.

—Senhorita Lockhart, embora saiba que você me considera um homem frívolo, o que faço é importante para mim e também para minha família.

Estou lutando contra o relógio e a queda de Beth tem os reflexos de um acidente afortunado.

Certamente Pamela o considerava um homem frívolo, sabia que lutava contra o relógio e que a queda de Beth tinha os reflexos de um acidente afortunado, pois podiam utilizá-la para estender o rumor sobre a menina.

Não obstante, se sentiu obrigada a protestar.

—Mas, milorde, são da família Fairchild.

—Sim, e umas tolas fofoqueiras, e é o melhor que se pode dizer delas. - A olhou. - Senhorita Lockhart, não temos forma de evitar o encontro com essas senhoras, e reconheço a mão do destino quando a vejo.

Tenha a amabilidade de me trazer Beth para que a apresente, e logo deixemos que elas estendam o rumor de minha filantropia em sociedade.

—Sim, senhor. - Enquanto caminhava para onde Beth aguardava espectadora, Pamela pensava que Kerrich tinha razão. Aquele encontro não podia produzir nenhum dano irreparável.

Só seu orgulho a fazia desejar uma menina perfeitamente educada e só sua compaixão percebia a incipiente ansiedade de Beth.

—Olá. - Kerrich fez uma reverência quando as senhoras se aproximaram. - Um afortunado encontro na verdade!

Pamela se interpôs entre o grupo e Beth para lhe pentear os cabelos rapidamente com os dedos, e desejou que a menina não levasse um vestido velho de alguma criada. Entretanto, transmitiu a Beth uma confiança total.

—Lorde Kerrich deseja que conheça lady Smithwick, à senhorita Fairchild e a sua irmã. Se limpe um pouco depressa para que a leve a conhecer essas agradáveis senhoras.

—Não quero - disse Beth, lançando olhadas furtivas de um lado a outro.

—Tolices - disse Pamela com tom alentador. - Você vai encantá-las, e lorde Kerrich estará a seu lado para te ajudar. Além disso... - se voltou, pôs uma mão sobre o ombro de Beth e a empurrou pouco a pouco para frente, - será uma boa prática para você, e mais tarde, quando retornarmos a casa, poderá me fazer todas as perguntas que lhe ocorram sobre esta experiência.

—E se fizer algo mal? - A voz de Beth se converteu em um sussurro.

—Estamos no parque. Ninguém espera nada mais que um pouco de cortesia, da que você dispõe em abundância.

Era óbvio que Kerrich preparara o terreno, pois ao se aproximar delas, as formosas jovens e a gordinha mãe sorriam à menina com a vivacidade das fofoqueiras empedernidas às que acaba de cair no colo o que poderia ser a intriga mais importante de todo o ano. Pamela ficou atrás quando chegaram junto a Kerrich e observou Beth fazendo uma reverência, sorrindo timidamente e respondendo às perguntas das damas com voz recatada.

—É uma menina encantadora - disse lady Smithwick, dando sua aprovação. - É uma boa obra, lorde Kerrich, e uma clara amostra da bondade de seu caráter e de sua moral irrepreensível...

Pamela se orgulhou de ter sabido refrear um bufido de desdém.

—... tê-la aceito em sua casa sem saber sequer se não procederá de uma má família.

Kerrich rodeou Beth com o braço antes que a menina pudesse se adiantar. Bem feito, pensou Pamela, dado que Beth apertava com força seus punhos pequenos e ossudos.

Projetando sua voz com a serena autoridade da senhorita Lockhart em que se converteu, Pamela interveio.

—O certo é que lorde Kerrich conhece sua família. É filha de uma antiga família do norte menos abastada. Seu pai era um empregado de confiança que faleceu ao realizar um ato heroico a serviço de lorde Kerrich.

As damas pareceram abatidas.

—Então, não é sua filha bastarda? - disse a mais jovem das senhoritas a sua irmã em um sussurro perfeitamente audível.

—É obvio que não! - espetou lady Smithwick. - Jamais teria me ocorrido tal coisa - acrescentou, o que era obviamente uma mentira. Voltando-se para o grupo do chão, disse com voz suave:

—Lorde Kerrich, sem dúvida o Senhor a benzerá por sua bondade.

—Sim, mas será melhor que não volte a sair com ela até que a costureira tenha terminado seu novo vestuário - disse a irmã mais velha, cobrindo depois a boca para soltar uma risada. - Vai vestida como uma criada!

Kerrich seguia segurando Beth, embora agora parecia abraçá-la mais que contê-la.

—Você é muito perspicaz, como sempre, senhorita Fairchild. Seguirei seu conselho, é obvio.

Quando as damas se afastaram, Kerrich sorriu e inclinou a cabeça. Beth e Pamela fizeram uma reverência.

Kerrich olhou para Beth durante um bom momento e logo se voltou para Pamela com gesto irado.

—Senhorita Lockhart, isto é culpa sua. Por que não me disse que Beth necessitava roupa?

 

—Não posso acreditar que tenha me permitido levar a menina ao parque com essa roupa. - Se sentindo decididamente mortificado, Kerrich ocupava um delicado assento no elegante salão de modas cheio de espelhos de madame Beauchard, esperando que Beth saísse com o último vestido escolhido por madame.

—Exagera, milorde. Uma jovem donzela deu a ela a roupa de sua casa que já não servia.

A mais que generosa paciência de Pamela se chocou contra o ânimo de Kerrich, em geral tão equânime.

—A roupa de uma donzela? A mostrei em público levando a roupa de uma criada? Senhorita Lockhart, esta desonra não esquecerei facilmente.

Com um descaramento que poucos tinham ousado utilizar com ele, a senhorita Lockhart respondeu:

—Você tem olhos na cara, milorde. Se a roupa de Beth o desagradava, só precisava dizê-lo.

Que mulher.

Algumas pessoas diziam que os sonhos tinham um significado. Ele não acreditava, claro está. Os sonhos eram absurdos, às vezes agradáveis, às vezes horripilantes, mas não deixavam de ser divagações de uma mente ociosa. Mas o sonho da noite anterior! O tom daquela pele. Aqueles seios altivos. Aquelas pernas bem torneadas.

Aquele rosto. O rosto da senhorita Lockhart!

A olhou de soslaio. Estava sentada a seu lado, movendo tão só as agulhas de tecer. Entretanto, irradiava sua própria irritação, embora ele não atinasse em compreender semelhante ousadia.

—Como se eu fosse me preocupar com a roupa de uma menina - replicou ele. - Isso é tarefa da instrutora!

—A tarefa de uma instrutora, milorde - disse a senhorita Lockhart mal humoradamente, - consiste em guiar um menino através das complexidades da aprendizagem e do comportamento, não em montar um mísero e velho pangaré em uma desafortunada excursão!

—Mísero e velho pangaré? - repetiu ele. Era interessante que a senhorita Lockhart reservasse o desprezo maior para seus arreios. Acaso se considerava uma amazona?

—Diz isso como se desejasse que lhe tivessem dado um cavalo melhor.

—Essa não é a questão. - O tinido das agulhas de tecer adquiriu mais velocidade. - A questão é que não pensara ainda no guarda-roupa de Beth porque não sabia ainda se ficaria com ela ou em qualidade do que.

—Quando ele quis falar, ela o impediu, acrescentando com firmeza:

—Além disso, jamais teria me ocorrido que queria comprar um extenso guarda-roupa para uma menina da que pensa se desembaraçar assim que o ajude a conseguir seus propósitos.

—Acaso me considera um tacanho? - perguntou ele, escandalizado. - Acredita que não lhe compraria uma libré a um lacaio que contratasse somente para uma festa?

As agulhas de tecer tiveram um lapso.

—Um... lacaio.

—Ou algo similar. - Possivelmente comparar uma órfã com um lacaio parecesse um pouco displicente à senhorita Lockhart, mas as dúvidas que expressava sobre sua generosidade o estavam fazendo perder a paciência.

—Lhe asseguro que sou famoso pela justiça e a venerabilidade com que trato meus empregados. Você teve algum motivo de queixa?

—Não, milorde.

—Seus cômodos são tal como os solicitou? Lhe concederam seus meios dias livres tal como lhe prometera? Você tem uma babá atribuída para que a ajude com as tarefas insignificantes que supõe o cuidado de um menino?

—Sim, milorde. Obrigado, milorde.

—Bom. - Satisfeito por ter deixado as coisas claras, colocou a bengala sobre seu colo, apoiou o tornozelo no outro joelho e deixou que o monóculo lhe escorregasse entre os dedos.

—Prometi que à órfã seria ensinado algum ofício e assim será.

—Ninguém esperaria mais de você.

Estava zombando dele?

Teria que olhá-la para averiguar, mas durante todo o dia, à força de olhar somente em direção a ela ou por cima de seu ombro, Kerrich tinha evitado olhá-la diretamente aos olhos.

O que era uma ridicularia e não podia continuar, embora devesse admitir certa covardia.

Era culpa de seu avô, é obvio. O avô felicitara Kerrich por seu bom tino ao cortejar à senhorita Lockhart. O avô deixara implícito que a senhorita Lockhart era uma mulher atraente.

E agora, por culpa de um sonho tolo induzido pelas sugestões de seu avô, Kerrich se sentia violento em presença da senhorita Lockhart. Desejara a aquela bruxa, que além de feia, era velha.

Por desgraça, ou possivelmente felizmente, os espelhos de corpo inteiro e marco dourado que penduravam das paredes a escassa distância uns dos outros refletiam suas imagens desde todos os ângulos.

Assim se arriscou a olhar as mãos atarefadas em fazer ponto de tricô.

Nunca as vira sem luvas, e percebeu agora que eram lisas, sem manchas, com uma pele tão transparente que se observava o percurso das veias azuis e tão delicada que se movia como uma pálida seda.

Que estranho. Como teve ocasião de observar, o primeiro sintoma de envelhecimento das mulheres aparecia sempre nas mãos.

Madame Beauchard o tirou de suas reflexões.

—Milorde, aqui está nossa pequena senhorita. - Abriu caminho para Beth, que saía do vestidor com o último vestido escolhido, um simples vestido amarelo de passeio.

Kerrich se inclinou para examinar o traje da menina com o mesmo concentrado interesse que mostrava ao escolher sua própria roupa.

—O estilo, sim. É apropriado para as aulas. - Com as pontas dos dedos, tocou o braço da senhorita Lockhart e notou uma firmeza que não esperava. - Não está de acordo?

—Muito apropriado, milorde. - A senhorita Lockhart se separou dele uns centímetros.

—Mas a cor! - continuou ele. - Madame Beauchard, no que você estava pensando?

—Como sempre, milorde, você está certo - disse a costureira com seu falso acento francês. - O amarelo não é a cor da jovem senhorita. - Logo, acrescentou com picardia: - Como tampouco é o seu, milorde.

Elevando o monóculo, Kerrich o ajustou no olho e olhou para madame Beauchard com fixidez. Se atrevia a insinuar...?

Com a desenvoltura de uma mentirosa consumada, a senhorita Lockhart voltou a relatar sua história.

—Em efeito, madame Beauchard. Beth se parece com seu pai, um empregado do banco de lorde Kerrich, que morreu realizando um ato heroico a seu serviço.

—Seu pai? - Madame Beauchard olhou para Beth e Kerrich percebeu que desprezava com relutância suas fascinantes especulações.

—Sim - apostilou Beth. - Papai morreu por salvar a vida de lorde Kerrich.

—Beth! - A senhorita Lockhart não conseguiu ocultar sua surpresa ao ouvir aquele acrescentado ao boato.

—Não é certo? - chiou Beth.

Kerrich foi ao resgate da menina e de seu próprio caráter.

—Estarei eternamente agradecido a seu pai.

—Sim, Beth - disse a senhorita Lockhart, se recuperando da surpresa e falando com empacotamento. - Mas o disse como se vangloriando, e estou segura que a madame não interessava.

—Não tema, milorde - disse madame Beauchard. - Todo mundo lhe dirá que sou a mais discreta entre todas as costureiras da boa sociedade.

—Você? - A incredulidade pôde mais que Kerrich.

Madame Beauchard conseguiu parecer ofendida.

—Madame, não seria de meu agrado que você interrogasse à pequena. - Lançou a Beth um olhar revelador. - Fica nervosa quando a recordam as circunstâncias da morte de seu pai.

Beth captou a insinuação e sugou pelo nariz e esfregou os olhos com os nódulos.

Alarmada, madame afastou a mão do ombro de Beth com presteza.

—É obvio, milorde. Não tenho o menor desejo de fazer chorar a petite fille. - Deu uns tapinhas em Beth cautelosamente. - Vamos, cherie, vestiremos um novo vestido para submetê-lo à aprovação de lorde Kerrich.

Ambas desapareceram atrás das cortinas.

A senhorita Lockhart guardou o horrível ponto de tricô em sua bolsa e voltou a cravar as agulhas de tecer no coque.

—Teria que entrar com elas.

—Não.

—Mas, milorde, se madame Beauchard interrogar Beth...

—Não o fará. Detesta aos meninos, salvo quando lhe produzem benefícios, e sabe que se Beth ficar nervosa, iremos sem mais. Estou seguro que agora mesmo estão enchendo Beth de doces e a elogiando sua beleza.

—E além disso, embora foram muitas as ocasiões nas que esteve ali sentado esperando que madame saísse com sua amante da vez para que ele aprovasse os vestidos, jamais passara um momento tão delicioso como aquele.

A não ser pelo maldito sonho, atormentar à senhorita Lockhart teria sido a melhor diversão que havia descoberto em sua vida.

A senhorita Lockhart relaxou, se recostando em seu assento, mas aquelas mãos, aquelas mãos suaves, brancas e esbeltas, tocavam o atroz vestido de lã negra como se não pudessem estar quietas.

Estranho. Lhe dera a impressão que possuía uma imperturbável compostura e um estrito domínio de si mesmo. Por que estava nervosa?

Talvez se sentisse incômoda a seu lado, embora Kerrich não adivinhava o porquê. Talvez devesse cravá-la mais e descobri-lo.

—A história do pai de Beth se volta mais improvável cada vez. Deveríamos tê-la ensaiado bem antes de pôr os pés fora de casa. Você deveria ter pensado nisso.

As mãos da senhorita Lockhart deixaram de vagar pela saia, agarraram uma parte e o retorceram.

—Milorde, lhe aconselhei que hoje não tirasse Beth de casa.

—Mas também me aconselhou que nos conhecêssemos melhor um ao outro e cercássemos uma relação. Acredito que isso eu cumpri. Você não acha assim, senhorita Lockhart?

Os nódulos da senhorita Lockhart se voltaram mais brancos.

—Sim, milorde.

—Assim tinha razão ao sugerir que saíssemos para montar. Bom. - Kerrich fez girar distraidamente a corrente de prata que segurava o monóculo, meditando o melhor modo de perturbá-la. - Sabe montar bem, senhorita Lockhart, ou é uma informação particular que não pode compartilhar com um cavalheiro dissoluto como eu?

—Eu não disse que o considere dissoluto.

—Tampouco me disse se sabe montar. - Enquanto o silêncio se alongava, Kerrich se divertiu apostando sobre o que ela desejava mais: se montar um bom cavalo ou pô-lo em seu lugar.

—Sei montar - admitiu ela finalmente.

—Então a montarei adequadamente. - Se dando conta do que havia dito por engano, Kerrich vacilou entre a risada e o horror.

—Você é o epítome da gentileza, milorde - disse a senhorita Lockhart com seu tom mais enrijecido, ficando rígida.

A risada ganhou. Uma risada suave que proporcionou a Kerrich a coragem que necessitava para olhá-la.

Aquela cara. Em seu sonho, era grotesca, cruel. Na realidade só parecia... antinatural. Naquele entorno feminino com sua luz nítida, seus espelhos dourados e suas teias de cristal, a senhorita

Lockhart parecia torpe e desalinhada com um vestido e uma jaqueta passados de moda.

—Comprarei um vestido para você. - As palavras escaparam de sua boca antes que pudesse se dar conta, mas Kerrich compreendeu imediatamente o que o impulsionava. Aquela mulher não compreendia o papel de seu sexo na civilização. As damas deviam ser afáveis e cativantes. Deviam enrolar os homens, paquerar com eles e seduzi-los, se sair com a suas com artimanhas. Possivelmente, se conseguia tira-la daquelas monstruosidades púrpuras, marrons e negras que usava e vesti-la com uma cor mais agradável, não o atacaria mais com as palavras, ou, ao menos, não lhe importaria tanto que o fizesse.

Mas é obvio a senhorita Lockhart não reagiu como uma mulher comum, com dramalhões e gratidão. Não, parecia uma Gorgona, uma dessas mulheres gregas com serpentes no lugar de cabelos, que acabava de ver a si mesma no espelho e se converteu em pedra. Kerrich se surpreendeu que pudesse mover sequer os lábios para rechaçar seu oferecimento.

—Lorde Kerrich, essa sugestão é inaceitável.

Kerrich não sabia o que o impulsionava a fazê-lo. Possivelmente simplesmente era incorrigível. Certamente era culpa da glacial expressão de aborrecimento que curvava os lábios da senhorita Lockhart.

Certamente queria exorcizar aquele sonho abominável. O caso é que se tornou para trás e a examinou com atenção.

—Um estilo mais simples, igual ao que sugeri para Beth, diminuiria o impacto de seu impressionante busto. - De fato, sob aquele exame minucioso, descobriu que a forma do corpo sob o vestido mau ajustado parecia verdadeira, e não consequência de um truque de espartilho, e quase gótica em seus arcos e contrafortes.

—Talvez não tenha me ouvido, milorde. Não seria correto que eu aceitasse um vestido de você.

—Um bonito azul claro, acredito, contrastaria menos com sua pele extraordinariamente pálida. - Por Deus, se lhe parecia ver um rastro de pós de arroz na ruga de seu pescoço. Não podia acreditar que a senhorita Lockhart se empoeirasse para parecer ainda mais pálida!

—Olhem - cantarolou Beth das cortinas. - Olhem o que tenho que usar!

Antes que Kerrich se voltasse para ver a menina, examinou à senhorita Lockhart cuidadosamente. Era certo. Levava em efeito pós de arroz, e ruge nas faces, se não andava errado, coisa que não ocorria nunca.

Deus, vira muitas mulheres que se afetavam se empoeirando e pintando, mas jamais vira uma mulher tão completamente arrasada sob uma capa de cosméticos.

—Lorde Kerrich, Beth e madame Beauchard desejam que fale sobre sua última escolha. - A senhorita Lockhart falava tranquilamente sob seu escrutínio, mas de novo suas mãos nervosas traíam sua agitação.

A senhorita Lockhart tirou então do bolso de sua jaqueta um relógio de prata com corrente de cavalheiro e o abriu como se tivesse se arruinado seu horário por completo.

Certamente era assim, e certamente jogava a culpa nele.

Beth usava o mesmo tom de azul celeste que Kerrich contemplava para a senhorita Lockhart, em cambraia, com saias até os pés, manga longa e renda branca para pescoço e punhos. Os olhos de Beth brilhavam e tocava a saia com dedos reverentes.

—Não usava um vestido engomado desde que minha mãe morreu, e hoje todos os vestidos estão engomados.

A senhorita Lockhart guardou o relógio e pigarreou como se quisesse tragar um nó na garganta.

—A partir de agora, nos asseguraremos que todos seus vestidos estejam engomados.

—Sim. OH, por favor. - Beth voltou a girar sobre as pontas dos pés. - Em casa de lorde Kerrich, até as criadas usam aventais engomados!

—Inclusive as criadas se banham uma vez por semana.

A incursão da senhorita Lockhart no sentimentalismo não tinha durado muito, Kerrich percebeu.

Beth fez uma careta e logo deu de ombros.

—OH, como você disser. Sempre que puder seguir levando estes trapos tão elegantes.

A menina sabia negociar. Era uma qualidade que Kerrich admirava.

—Trapos não - disse a senhorita Lockhart. - Diga roupa, ou objetos, ou adorno.

A mulher sabia quando liberar suas batalhas. Isso Kerrich também admirava.

Era algo que ele também sabia fazer, e cercar um conflito com a senhorita Lockhart para que aceitasse um vestido era inútil.

Capitularia no momento, e se a senhorita Lockhart entendia seu caráter, reconheceria o perigo naquela rendição.

Por sorte, a senhorita Lockhart não o entendia absolutamente.

Estiveram em silêncio enquanto Beth voltava a se trocar. Uma vez mais, a senhorita Lockhart tirou seu ponto de tricô, e desta vez Kerrich se perguntou se trabalharia na realidade pela rígida crença de que a ociosidade era a mãe da corrupção, ou só para dissimular seu caráter impetuoso.

—O que você está fazendo, senhorita Lockhart?

—Um xale.

Liso. Fácil. Interessante... O ponto de tricô era um trabalho de camponesas, e podia apostar que a senhorita Lockhart tinha pouca experiência.

—Quanto tempo faz que tece, senhorita Lockhart?

—Anos - respondeu ela, mas sua vacilação inicial a traía.

—Deve ter muitos objetos para mostrar.

—Não, milorde.

Hah! A tinha pego.

—Por que não?

—As dou para a beneficência.

Sua voz tinha o mesmo tom de censura de sempre, mas Kerrich observou que seus dedos se moviam torpemente, que as agulhas brigavam entre si e que se fazia um nó no fio negro.

Sorriu. Que delícia saber que tinha a habilidade de decompor a tão temível mulher.

Então Beth saiu dançando. Usava um vestido branco com rendas e uma faixa de veludo azul.

Kerrich fez girar o dedo para indicar à menina que desse a volta, e depois de examiná-la, comentou:

—Sim, suponho que tem que ter algo parecido para as festas da tarde, mas que seja somente um, de acordo? A sua idade, as rendas são excessivas e desmerecem seu bonito rosto. A simplicidade é a chave.

—Oui, milorde. - Madame Beauchard sorriu com um ávido deleite sempre maior. - Você está certo, como sempre. A partir de agora, nos absteremos de rendas.

—Mas posso vestir este? - perguntou Beth, se apoiando primeiro nas pontas dos pés em um pé e logo no outro, como uma bailarina impaciente por dançar.

—Sim, este sim - respondeu Kerrich.

Beth fez uma reverência e sorriu, se aproximou do espelho, fez uma pirueta e logo voltou a entrar no vestidor.

—Maldita seja, agora suponho que terei que levá-la ao balé. - Kerrich suspirou pesadamente. - Detesto o balé, com todas essas garotas dando voltas nas pontas dos pés. Como diz meu avô, se queriam garotas mais altas, por que não contrataram garotas mais altas?

—Se supõe que isso é uma piada, milorde? - perguntou a senhorita Lockhart.

—Isso pensa meu avô.

—Então rirei quando me contar isso.

Por que o tratava assim? Com todos outros parecia uma mulher amável. De fato, no pouco momento que tinha passado nos estábulos, assanhara os moços de estábulo. Mas não gostava dele, simpático que era, e bom, e considerado.

Kerrich se viu no espelho. Arrumado. Sedutor. Acaso era isso o que lhe jogava na cara? Impossível. Não podia dar é obvio que estava talhado pelo mesmo padrão que seu pai, se apoiando unicamente nisso.

Decidiu perguntar a ela mas quando se voltou para olhá-la seriamente aos olhos, se encontrou unicamente com seu próprio reflexo no vidro escuro de seus óculos. Sentiu desejos de tirar-lhe.

—Me resulta difícil falar com esses óculos - disse com irritação.

—Fale comigo então, se for necessário.

Seu ritmo tecendo era muito mais pausado; ao que parecia a tranquilizava lhe estalar.

—Por que os usa?

—Porque devo - respondeu ela.

—Então, não pode ver sem eles. - Kerrich alargou a mão para os arreios metálicos. - Tão ruim é sua visão?

Ela deu um salto e se protegeu da mão de Kerrich com o braço.

—Vejo bem. Mas a luz me faz mal nos olhos.

—Seguro que só será a luz do sol.

—Todas as luzes.

Kerrich viu que seus olhos se desviavam furtivamente atrás dos vidros escuros. A muito bruxa o estava enganando! Não adivinhava por que, e não necessitava um novo motivo de chateio. Uma menina, uma instrutora, um bando de falsificadores, a rainha com suas feias ameaças...

Precisava cumprir um objetivo que a senhorita Lockhart não sabia valorizar. Assim...

—O último vestido que a menina usava era bonito.

—Muito bonito.

—Pois o levará quando dermos uma festa para apresentá-la a outros meninos.

—Excelente ideia, milorde. - A senhorita Lockhart sorriu para lhe dar seu beneplácito... momentaneamente. - Dentro de um mês mais ou menos...

—Uma semana.

—Não posso prepará-la em uma semana!

—E eu não posso esperar um mês.

—Milorde, isto não é um jogo.

—Começo a suspeitar que você é a que não se deu conta disso, senhorita Lockhart. Uma semana, ou nem você nem ela me serão de utilidade, e jogarei à rua às duas!

 

Pamela despertou e se incorporou na cama com uma sensação de pânico. Alguém estava assustado. Sofria um pesadelo. Gritava. Beth.

Pamela piscou na tênue luz da vela que vacilava em seu suporte da parede.

O quarto da menina. A casa de Kerrich. Beth.

Rapidamente se levantou, se envolveu em sua bata, pegou a vela e entrou apressadamente no dormitório contiguo ao dela. Ali encontrou à menina. Beth já despertara, estava sentada na cama, agarrada às mantas e se tampando até o queixo. Tinha a vista cravada em um ponto fixo, lutando contra os fantasmas noturnos com uma disciplina trêmula que delatava a necessidade frequente de exercitar tal fortaleza.

—Beth. - Pamela colocou a vela na palmatória e se sentou junto à menina, se movendo lentamente para não sobressaltá-la. - Sou a senhorita Lockhart.

Os olhos de Beth se desviaram para ela, tão abertos que lhes via o branco ao redor da íris. A menina assentiu com um movimento convulsivo para indicar que reconhecia a sua instrutora, mas tinha os dentes apertados.

Não podia falar.

Pamela lhe afastou o cabelo da testa com delicadeza.

—Agora está acordada. O que tenha sonhado já se foi.

Beth pugnou por falar com voz lastimosa até que conseguiu dizer.

—Sei. Sonhei com minha mãe.

Beth não era das que se jogaria sobre o peito de Pamela para uivar, mas uma lágrima solitária lhe apareceu na extremidade do olho e rodou por sua face. Pamela a secou com o coração encolhido pela pena.

—Sinto falta dela. - Beth dobrou os joelhos contra seu peito.

—Era sua mãe. Claro que sente falta dela.

—Faz um ano. - aproximou as dobras da manta que segurava à boca. - Já deveria ter esquecido.

Tal ideia não podia ter surgido da menina espontaneamente. Algum adulto falava através dela.

—Quem te disse isso? - perguntou Pamela.

—A senhora Fallowfield - respondeu Beth depois de tragar saliva. - Detestava que um de nós ficasse a chorar porque... então chorávamos todos.

Pamela não sabia o que a impulsionava a confessá-lo. Talvez sentisse que sua responsabilidade como adulta era consolar à menina.

Mas era mais provável que fosse o fato de ouvir sua própria história contada por alguém que chorava sua dor em lugar de reprimi-la.

Ou possivelmente era o eco da ameaça de lorde Kerrich e a consciência de que, se a festa do dia seguinte resultava um fracasso, Beth e ela se encontrariam sozinhas e na rua. Fosse qual fosse o motivo real, disse:

—Minha mãe morreu faz muitos anos. Às vezes ainda sonho com ela.

—E chora? - perguntou Beth, a olhando com fixidez.

—Sempre. Esteve muito doente antes de morrer e eu... eu tentei ajudá-la. - Pamela teve que tragar o nó que formara na sua garganta, como sempre. - Não pude.

—OH, eu tampouco! - Beth soltou as mantas e saiu de sua carapaça. - Quero dizer que não servia nada do que fazia. E meu pai. Também ele estava doente. Ele me levava a muitos lugares enquanto mamãe cozinhava, e me ensinava coisas dos cavalos. Sinto falta dele. E mamãe... sempre estava ali, me abraçava e me fazia me sentir melhor, e agora, quando sonho com ela, sempre está doente, e eu tenho que abraçar a ela, mas ela não se sente melhor. Morre.

—Isso é o pior - sussurrou Pamela. - Todas as boas lembranças ficam escurecidas pela ira e uma tristeza insuportável.

—Se pudesse sonhar que ela me abraça, embora só fosse uma vez...

Pamela não pôde resistir a aquela súplica. Abraçou Beth e a balançou entre seus braços.

Pamela adorava aos meninos. Fossem doces ou incorrigíveis, tímidos ou revoltosos, ela sempre achava o modo de ganha-los e seu segredo era o carinho. Falava com eles, os escutava, brincava com eles, jogava com eles, lhes dava aulas, e eles respondiam lhe devolvendo seu amor centuplicado. Entretanto, como instrutora, sempre tinha procurado proteger seus próprios sentimentos, sem esquecer jamais que não eram seus filhos, pois teria que acabar por se separar deles.

Com Beth, por outro lado, tinha muitas coisas em comum.

Beth se abraçou a ela com mais força, sem chorar, dando e compartilhando.

Nos doze anos transcorridos desde que o pai de Pamela abandonara a ela e a sua mãe, jamais tinha falado a ninguém de seus pesadelos. Ninguém mais teria compreendido. Beth sim.

Beth necessitava amor. Necessitava um lar. Necessitava tudo o que Pamela teve em sua infância e que lhe fora arrebatado pelo abandono de seu pai. Kerrich podia lhe dar Pamela não.

Pamela não podia ficar sequer com Beth por culpa do malfadado disfarce que adotara, mas podia fazer outra coisa.

Arrumaria para enrolar Kerrich e o convencer para que adotasse Beth. E se isso não funcionasse... faria-lhe chantagem.

A vozinha dormitada de Beth interrompeu seus pensamentos.

—Senhorita Lockhart, de noite se vê muito diferente.

Pamela afogou uma exclamação. Com sua própria bata, sem o penteado lastimosamente puxado nem os horríveis pós, era normal que parecesse diferente. Olhou a carinha que Beth elevava para ela. A menina a olhava com encantamento e Pamela lhe fechou as pálpebras com cuidado.

—Tem os olhos cansados.

—Não. - Beth suspirou e se abraçou mais a ela. - Eu gosto, senhorita Lockhart. Aconteça o que acontecer, me prometa que estaremos juntas.

Pamela conteve o fôlego.

—Me prometa... - E Beth dormiu.

Beth sentiu muita, mas muita vontade de golpear ao pequeno Billy, lorde Chiswick, justo por debaixo de seu fofo queixo, quando o menino se apoderou do último pedaço de bolo que ficava no aparador alegremente adornado e o meteu na boca. Ansiava ver como o açúcar cristalizado azul lhe subia pelo nariz e ouvir como os outros meninos zombavam do pestilento e bagunceiro visconde de dez anos de idade.

Mas Beth sabia que a senhorita Lockhart não ia gostar. Não, querida, diria, não importa que a tenha chamado mendiga insolente que não sabe estar em seu lugar. Mesmo assim não pode pôr o joelho em seu peito e o obrigar a comer cogumelos até que se inche como um sapo. E por muito que Beth desejasse dar uma lição ao Menino Valentão, mais ainda desejava agradar à senhorita Lockhart.

Beth deixou de lançar olhares de ira ao Menino Valentão e contemplou o salão belamente mobiliado que se abria atrás das colunas da entrada. Ali os adultos ocupavam as cadeiras reluzentes e os sofás estofados de brocado para escutar à senhorita Fotherby, que cantava acompanhada de uma harpa. Ali estava a senhorita Lockhart, sentada na última fila, com aspecto muito severo e muito pouco atraente, observando frequentemente as atividades infantis do hall. E ali, na fila de trás, mas em uma lateral, estava de pé lorde Kerrich, apoiado contra a parede, olhando fixamente o perfil da instrutora.

Durante a semana anterior de frenéticos preparativos, não havia feito mais que observá-la. Às vezes parecia incômodo, outras, simplesmente perplexo, mas sempre a olhando, e isso dava esperanças a Beth.

Porque ela vira a senhorita Lockhart sem o disfarce. Não sabia por que usava tudo isso na cara, nem por que se vestia com tão pouca graça, mas Beth tinha seus planos. Lorde Kerrich era rico.

A senhorita Lockhart era pobre. Lorde Kerrich era egoísta. A senhorita Lockhart dissera. Lorde Kerrich era bonito... e também a senhorita Lockhart era bonita.

Assim Beth só precisava conseguir que estivessem juntos, falando e brigando, para mostrar a lorde Kerrich o verdadeiro aspecto dela. Então seguro que se gostariam.

—Né. - O Menino Valentão lhe beliscou no braço. - Quero mais bolo.

Beth não fez conta. No orfanato, se tornou uma perita em não fazer caso aos valentões, e tinha um pouco de experiência em brigar com eles.

O que a interessava naquele momento era que lorde Reynard observava a seu neto e à senhorita Lockhart exatamente igual a ela. O velho era muito perspicaz, sem dúvida.

O senhor Athersmith também estava ali, mas só tinha olhos para a senhorita Fotherby, a que olhava com entusiasmo e uma devoção séria e panaca. Vivia ali e trabalhava todos os dias com lorde Kerrich, o que deveria lhe fazer parecer importante, mas não o era.

Não era mais que um dom ninguém, o tipo de homem que se movia com atitude servil, se comportando com modéstia e humildade, quando na realidade se acreditava superior a todos.

A festa familiar de lorde Kerrich era um êxito. O sol brilhava, a brisa havia feito desaparecer o pó de carvão do ar, as janelas estavam abertas, e todo mundo era feliz.

O Menino Valentão voltou a lhe beliscar com mais força.

—Quero bolo. Vá buscar.

Todo mundo era feliz salvo aquele pirralho ao que nada contentava.

Mas Beth tentaria uma última vez. A senhorita Lockhart teria aprovado suas maneiras quando disse:

—Sinto muito. Acabou o bolo. Talvez gostaria de um pastelzinho ou um sorvete.

—Não. - O menino lhe aproximou de repente sua feia cara redonda. - Quero bolo.

Mais atrás as Instrutoras da festa estavam apoiadas na porta que dava ao corredor, contando intrigas umas as outras. Outros convidados de Beth, uns doze meninos de idades compreendidas entre os seis e os nove anos, estavam sentados em fila contra a parede com os pratos em equilíbrio sobre os joelhos e os garfos suspensos no ar, observando Beth com expressão esperançada.

—Eu disse - o Menino Valentão lhe deu um empurrão - que quero mais bolo. Minha mãe diz que não é mais que uma criada. Assim vá à cozinha, criada, e me traga mais bolo.

Beth voltou a olhar aos adultos, que seguiam sentados, lhe oferecendo o perfil, concentrados no canto.

Em uma piscada, Beth deu um chute no Menino Valentão na curva, fazendo que lhe dobrasse a perna, e com um único e veloz movimento se voltou para a parede e se sentou em uma cadeira livre.

O Menino Valentão cambaleou de lado e foi parar contra o aparador cheio de prata, encaixe e maçapão[2]. Se agarrou à toalha e arrastou para si pratos e comida, causando um grande estrépito que interrompeu a música.

O silêncio que provocou a surpresa ele mesmo o rompeu ao soltar um chiado tão agudo que só os cães puderam ouvi-lo.

Sua mãe correu para ele imediatamente, provando assim que era um cão.

A senhorita Lockhart a seguiu de perto, e logo surgiram babás e Instrutoras de todas as partes.

Gelados rosas, limonada amarela e pasteizinhos de amêndoa marrons davam colorido ao traje negro do Menino Valentão, com sua jaqueta curta e seus calções, e sua boca era um círculo vociferante em meio de seu pálido rosto. Beth tinha vontade de rir, mas conseguiu manter uma expressão de horror e assombro similar a que via nos adultos. Ao menos isso esperava. Não queria que a vissem como os outros meninos.

Os muito burros tampavam a boca com a mão ou riam enquanto o Menino Valentão esperneava e chiava como um porco.

Sua mãe estava ajoelhada junto a ele, as babás o limpavam e ele gritava:

—Ela fez isso! Ela me empurrou!

—Sabia - disse sua mãe, olhando a Beth diretamente, fazendo ouvir sua voz apesar do tumulto. - Essa menina não é mais que uma vulgar plebeia que não é digna de se mesclar com as pessoas de bem.

—Mas eu não o empurrei - protestou Beth com uma vozinha inocente. Deu uma cotovelada à menina do lado, que tinha ar de safada, embora vestia mais rendas que o dossel de uma cama. - Você viu que o empurrasse?

A menina não vacilou o mínimo.

—Não. Estava sentada aqui comigo - disse. Logo agachou a cabeça e sussurrou: - Billy é um chato e você lhe deu uma lição.

Por sorte, ninguém a ouviu e Beth manteve sua expressão de inocência com os olhos muito abertos.

A senhorita Lockhart lhe dirigiu um longo olhar e não se deixou enganar, mas não ia traí-la.

Beth sabia, igual a sabia que lorde Kerrich e a senhorita Lockhart se casariam e adotariam a ela, e logo teriam formosos bebês e seriam todos uma autêntica família.

Kerrich se uniu à pequena multidão que observava o desastre com admiração e regozijo. Aquele não era o tipo de festas que ele estava acostumado a dar, ou inclusive assistir. De fato, evitava a toda custa qualquer festa em que houvesse meninos, sobre tudo essas festas de tarde das senhoras, onde se dava oportunidade aos menores de se mesclar com outros meninos de sua idade, enquanto as mães intercambiavam intrigas e os poucos homens presentes escutavam o eterno recital de piano - ou de harpa neste caso - antes de fugir para a sala de jogo para fumar e limpar seus pulmões de perfume.

Para ali se dirigiam naquele mesmo momento lorde Swearn e lorde Colbrook, o senhor Tomlin e lorde Albon, o avô e Lewis, e o pai de Chiswick, lorde Pitchford, escapulindo todos como trapaceiros mortalmente aborrecidos.

Kerrich queria ir com eles, mas estava em sua casa e a festa fora ideia sua. Contemplou o desastre infantil. Precisava ficar, mas ao menos aquela animação o divertia.

A mãe de Chiswick se voltou para ele.

—Por culpa de sua caridade mal-entendida nos vimos obrigados a aceitar em nosso seio a esta víbora.

—A que víbora se refere, milady? - perguntou Kerrich, se inclinando.

—A essa... coisa. - Lady Pitchford apontou para Beth com um dedo trêmulo.

Beth tinha um aspecto tão imaculado como um pulso de porcelana, mas Kerrich a vira derrubar Chiswick com um único e ágil movimento.

—Alguém viu que Beth fizesse mal a Chiswick?

Os meninos e as Instrutoras negaram com a cabeça, as Instrutoras porque não estavam atentas e os meninos porque odiavam Chiswick. Qualquer das duas razões era válida para Kerrich.

—Já o vê, milady - disse. - O jovem Chiswick escorregou.

—Isso não é o que diz Billy! - exclamou a dama, que em outro tempo fora uma das candidatas da lista de esposas adequadas de Kerrich.

—Ah. - Kerrich elevou seu monóculo e olhou para lady Pitchford desdenhosamente. - Mas Beth tem dois anos menos, pesa quinze quilogramas menos e é mulher. Está dizendo que bateu em seu filho?

—Tinha vantagem - disse lady Pitchford. - É uma pirralha do arroio!

A irritação apagou a fachada de bom humor de Kerrich. Não ia permitir que ninguém se metesse com sua maldita órfã.

—Não é nenhuma pirralha do arroio. É a filha de uma família respeitável. Seu pai me salvou a vida, e não é a caridade o que trouxe minha querida Beth a meu lar, a não ser a gratidão pelo espírito valente que pervive nela. - Desafiou ao resto de convidados com o olhar. - Me ofenderia grandemente que qualquer outra pessoa se rebaixasse até o ponto de insultar minha querida menina.

Ninguém aceitou o desafio. Se limitaram a murmurar evasivas e a se dispersar em pequenos grupos para conversar sobre o tempo e as últimas modas. As Instrutoras se aproximaram de seus meninos respectivos e começaram a fazer dramalhões para dissimular sua anterior negligência. E a senhorita Lockhart ajudou Chiswick a se levantar e acabou de lhe limpar o traje.

—Não se há feito nada - Kerrich ouviu que dizia a lady Pitchford. - Embora fosse melhor que o levassem a casa para que lhe lavem o traje.

—É seu traje favorito! - A voz de lady Pitchford tremia.

Kerrich não sentia compaixão pela mulher nem por seu filho. Deixou que o monóculo pendurasse de sua corrente de prata e disse:

—Torpe como é, deve trocar de roupa três vezes ao dia. Será melhor que lhe racione os doces, milady, ou não haverá cavalo que possa levá-lo.

A senhorita Lockhart o levou à parte e o abrasou como uma chama vingadora com suas palavras, sem elevar o tom.

—Milorde, não siga. O moço não é surdo e sem dúvida uns comentários tão grosseiros prejudicarão ainda mais um caráter já mesquinho.

—Mas insultou Beth.

—Sei. Mas um menino ao que se educa com crueldade só aprende crueldade, e não é difícil imaginar a vida que tem que levar esse infeliz.

—Você é muito compassiva, mas acredito que não há motivo para isso. Só é um menino mimado!

—Talvez. - A senhorita Lockhart se aproximou mais a ele. - Mas vi o que Beth fez tão bem como você, assim, por favor, se mostre cortês com lady Pitchford e lorde Chiswick quando se forem.

Kerrich descobriu que receber uma justa reprimenda não lhe produzia mais prazer que ser acusado injustamente. De fato, era pior, posto que significava que se equivocou, e não era uma posição em que se achasse com frequência.

A senhorita Lockhart o deixou ali plantado para se aproximar de Beth.

—Vamos, querida - Kerrich a ouviu dizer. - Devemos nos despedir de seu convidado e lhe expressar a esperança que suas futuras visitas se desenvolvam pacificamente. Kerrich observou com surpresa que a despedida transcorria com placidez sob a mão de ferro da senhorita Lockhart, com Beth se desembrulhando como anfitriã com desenvoltura e Chiswick retirando a mão com um gemido apenas depois do apertão.

E embora Kerrich detestasse dar a impressão de obedecer à senhorita Lockhart, seguiu lady Pitchford e a seu filho até o vestíbulo, lhes oferecendo suas desculpas pela desafortunada cena e expressando seu sincero desejo que voltassem a visitá-los de novo.

O pior chegou quando a porta se fechou atrás deles e a senhorita Lockhart disse com tom agradado:

—Bem feito, milorde! Foi excepcionalmente generoso e bem educado.

Ele ajustou o monóculo, lançou-lhe um olhar furioso e respondeu com fervente sarcasmo:

—Senhorita Lockhart, não sei como me arrumava isso antes sem você.

—Nem eu tampouco, milorde. - A senhorita Lockhart recolheu as saias e seguiu Beth escada acima em direção ao quarto de jogos dos meninos. - Pode me agradecer por meus conselhos mais tarde.

 

Aquela mulher. Kerrich estava que trilava. A senhorita Lockhart havia devolvido seu sarcasmo com desenvoltura, ou pior ainda, acreditava sinceramente que estava em dívida com ela por sua tutela?

Atravessava o salão a passos longos, sorrindo com falsa afabilidade a seus convidados, sem se dar conta que se encolhiam de medo quando falava com eles. Não necessitava que ninguém lhe ensinasse maneiras.

A senhorita Lockhart fora contratada para que o órfão que ele utilizava para seu plano não lhe causasse incômodos, e faria melhor em recordá-lo.

Se dirigiu então para onde os homens se retiraram a beber e jogar a cartas. A sala de jogo. De pé na soleira da porta, contemplou aos cavalheiros que tão alegremente tinham desertado da cena com lady Pitchford.

O avô dirigia a reunião de uma ampla cadeira estofada. Lewis se mantinha timidamente à margem, sem jogar cartas, sem conversar, como o que sempre sobrava, embora Kerrich acreditava que era obra dele mesmo, mais que do esnobismo de seus convidados. E outros, seus convidados, seus compatriotas e amigos... O olhou com ira. Em outro tempo, e disso só fazia um mês, riu daqueles homens.

Passou anos escutando suas queixas e lhes chamando molengas escravizados por suas mulheres.

Se pensava bem nisso, talvez começasse a ver uma similitude entre eles e ele mesmo, sobre tudo quando ainda ressoava em seus ouvidos a voz da senhorita Lockhart. Não podia consentir isso.

—Devon, entra! - gritou-lhe lorde Reynard. - Estes cavalheiros estavam me interrogando agora mesmo sobre suas súbitas inclinações filantrópicas.

—Na realidade, acredito que minhas palavras exatas foram: "Que demônios pretende Kerrich com uma menina e uma instrutora?". - Lorde Swearn estava sentado na mesa de cartas esperando sua vez.

Era um homem de cinquenta anos ao que lhe saíam cabelos das orelhas e estava calvo. Um homem de sua idade já deveria estar ao cabo da rua; entretanto, lady Swearn e ele acabavam de engendrar um filho no ano anterior.

Nem sequer podia alegar a estúpida indulgência de um velho para sua jovem esposa, pois levavam vinte e cinco anos casados e o bebê era o último de sete brotos.

—Sim, homem. Foi uma inspiração para mim. Sem mulher, sem filhos... uma vida pacífica. - Lorde Pitchford sorriu como se brincasse, mas ninguém acreditava na realidade. Ao fim e ao cabo, sua mulher e seu filho se foram, e ele seguia ali, apoiado na mesa, fumando um charuto e com ar de suficiência. Mas lady Pitchford sabia como lhe baixar as fumaças.

Quando ela começava a falar, ele se enrugava e deprimia como um menino castigado.

—Contei-lhes por que acolheu à pequena Beth, mas eles se puseram a grasnar como o rebanho de pavões reais que são.

—Lorde Reynard insultava sem malícia aos homens aos que conhecia desde que - como estava acostumado a dizer - eram uns pirralhos.

—Isso você pode dizer, senhor - disse lorde Colbrook. - Você não tem esposa.

—Não. E a sinto falta de.

—Sinto muito - murmurou Colbrook, se ruborizando ante o tom cortante de lorde Reynard. - Disse sem pensar.

—Não tem o que precisa para pensar - disse Kerrich, dando uma palmada na testa.

Colbrook assentiu com ar taciturno e repartiu cartas. Por sorte obedecia em tudo a sua mulher, pois até ele admitia que o superava muito em engenho e inteligência.

—A questão é, Kerrich, que poderia ter assegurado perfeitamente o futuro da menina sem acolhê-la em sua casa. E essa bruxa que tem por instrutora!

—O senhor Tomlin tragou seu uísque como se a simples lembrança da senhorita Lockhart lhe produzisse espasmos.

Antes de se casar, o senhor Tomlin era unicamente o filho caveira e com dinheiro de um mercado meio nobre. Kerrich recordava muito bem os momentos que passaram na cidade, metidos na bebida, as mulheres e as rixas, embora Tomlin não sabia brigar e tinha o dom da inoportunidade.

E agora? Ora, passava as noites em casa com sua jovem e bonita esposa, ou encadeado a seu lado assistindo a todos os espetáculos decentes, como se quisessem cimentar sua posição na sociedade pelo bem de seus filhos.

E lorde Albon, que recolhia em silêncio as cartas da mesa com a concentração de um jogador contumaz, era igual a outros. Forte e enérgico em sua vida fora do lar, mas, entre suas paredes, se rendia aos desejos de sua esposa, quando qualquer homem verdadeiro sabia que devia levar as rédeas com mão firme. Uns estúpidos eram todos.

—Bom, Tomlin - disse Kerrich, - não foi você o homem que se declarava extasiado e feliz em seu casamento? Quem se não me disse que devia procurar esposa e ter filhos?

Está me dizendo agora que não é tão maravilhoso como queria me fazer acreditar?

—É tão maravilhoso como disse. - Tomlin recolheu suas cartas. - Mas há uma coisa que o faz maravilhoso, e isso você não tem.

—Um pouco de sexo faz que valha a pena? - Kerrich aceitou um brandy do lacaio, e observou que Lewis se servia outro, enchendo o copo até a borda. Lewis não estava acostumado a beber tanto.

Acaso se sentia violento pela presença de Swearn, para quem trabalhava antes?

—Mais que um pouco, se tiver sorte - disse Pitchford.

Os casados riram como se soubessem algo que Kerrich não sabia. Mas Kerrich os fez calar.

—Quantas vezes você tem feito, Pitchford?

O sorriso fátuo de Pitchford se desvaneceu.

—Além disso - prosseguiu Kerrich, - quando me arde, sempre posso pagar a uma mulher para que me arranhe.

—Não, com a menina em casa não pode. - Lorde Reynard tinha umas ideias muito estritas sobre a conduta mais adequada para um cavalheiro, e não vacilava jamais em areja-las.

—O faria fora de casa, senhor - assegurou Kerrich.

—O que tem de mal a instrutora? - perguntou lorde Reynard. É uma mulher condenadamente atraente, basta só que um homem tenha olhos para vê-lo.

Umas quantas tosses e caretas discretas seguiram a sua afirmação.

Lorde Colbrook chegara tarde para ouvir o recital de harpa da senhorita Fotherby, deliberadamente, sem dúvida.

—Sim, o que tem de mal a instrutora? - perguntou.

—Nada, se você gostar das cútis cadavéricas. - Tomlin compreendeu então que tinha posto em tom de julgamento a opinião de lorde Reynard, e o olhou alarmado.

—A senhorita Lockhart tem seus momentos bons. - Lorde Reynard passava a maior parte do tempo no United Service Clube, falando de negócios com seus amigos, mas Kerrich o pegara várias vezes de bate-papo com a senhorita Lockhart.

—Eu diria que teve seus momentos bons - disse Albon. - Bom, vamos jogar a cartas ou falar?

—Lockhart. - Colbrook movia suas cartas sem parar. Era um de seus fastidiosos e repetidos gestos. - Lockhart. Lockhart. Conheço esse sobrenome. Um momento... se trata da filha de Ripley?

Não recordo seu nome de solteira, mas a família era de Somerset.

—Pamela Lockhart Ripley - disse lorde Reynard. - Sim, é ela.

Colbrook soltou uma gargalhada.

—Então todos estão zombando de mim. Grandes bufões! - Deu a Albon um leve murro no braço. - A incomparável Pamela está aqui, nesta mesma casa? Kerrich, vagabundo, não é de estranhar que tenha acolhido à órfã.

Conta, já conquistou a cidadela? Conforme dizem, está muito bem fortificada e não conseguiram jamais abrir brecha, mas se alguém pode fazê-lo, esse é você!

Todos olharam para Colbrook com surpresa. Todos exceto lorde Reynard, que contemplava sua bebida com um sorriso enigmático.

—Colbrook, o que balbuceias? - perguntou Tomlin.

—É famosa. Uma bela mulher. Intocável. - Colbrook moveu várias vezes as sobrancelhas. - Ou o era até agora, não é, Kerrich?

Kerrich bebeu um gole de brandy, tratando de ignorar o desassossego.

—Na realidade é bastante vulgar.

—É muito cortês - comentou Swearn.

—Não. - Colbrook não parecia acreditar. - Vamos, estão zombando de mim.

—Vá procurar à senhorita Lockhart - ordenou Kerrich ao lacaio.

O lacaio saiu depois de uma reverência.

Kerrich se apoiou na parede, de onde gozava de uma perfeita visão de todos os presentes. Os que estavam na mesa jogavam cartas, e o som das cartas depositadas era a única coisa que se ouvia na sala, mas os que viram antes à senhorita Lockhart, sorriam ao pensar na diversão que se aproximava. Lewis se serviu outra taça, e Kerrich pôde predizer com alegria que seu primo teria enxaqueca pela manhã.

Com um grunhido, Pitchford se deixou cair em uma poltrona junto a lorde Reynard.

—Tenho que descansar antes de voltar para casa.

Kerrich sabia que também ele deveria esperar prazerosamente a surpresa de Colbrook, mas não gostava daquele... aquele caso de confusão de identidades. O engano de Colbrook só servia para lhe recordar sua impressão no salão de modas de madame Beauchard: que a senhorita Lockhart não era o que parecia. Mas como podia ser? A contratara através da senhorita Setterington. Vira suas referências.

O que podia ocultar?

A senhorita Lockhart apareceu na soleira. Parecia uma mulher de meia estatura e idade indefinida. Uma mulher que lorde Reynard considerava formosa e digna de se casar com Kerrich.

Os homens interromperam a partida de cartas, repartindo sua atenção entre Colbrook e a instrutora, cujo semblante, se acaso, se fez mais severo. A senhorita Lockhart avançou para Kerrich e fez uma reverência.

—Mandou me chamar, milorde?

—Sim. - Kerrich examinou seu rosto sereno, frio, mas tingido de receio. Não era estranho, disse-se. A maioria das mulheres se mostravam reticentes a se enfrentar com um grupo de homens em sua toca.

Por cima do ombro da instrutora, Kerrich viu Colbrook com os olhos arregalados e a outros tentando dissimular seu regozijo com escasso êxito. O que lhe parecera uma ideia simples ao solicitar a presença da senhorita Lockhart, agora lhe parecia um desprezo cruel. - Agora já pode ir - disse, sem mais explicações.

Ela vacilou, perplexa.

—Agora - repetiu ele.

A senhorita Lockhart fez uma reverência e abandonou a sala com o mesmo passo digno com o que entrara nela.

Se Kerrich tivesse podido, lhe teria economizado as gargalhadas que estalaram assim que ela transpassou a soleira.

—Agora que já o esclarecemos, podemos jogar? - perguntou Albon.

—Já viu a sua beleza, Colbrook? - brincou Tomlin.

—Aqui tem que haver uma confusão - disse Colbrook. - Tem que haver duas senhoritas Lockhart.

Outros se dobravam de risada.

—Seguro!

—Espero que as duas não sejam iguais - disse Swearn.

—É feia. - Tomlin piscou como se a visão lhe tivesse prejudicado os olhos. - Kerrich, como suporta tê-la perto?

—Não está tão mal - respondeu Kerrich, por incrível que lhe parecesse com ele mesmo.

—Não está tão mal, não é? - Lorde Reynard parecia intrigado.

—Não para olhá-la, claro está. Embora não é tão horrível. - Todas as olhadas posavam em Kerrich, e ele se absteve sabiamente de mencionar que nela, ao menos, os óculos ficavam bem. - Eu gosto de falar com ela.

Três dos homens exclamaram ao uníssono:

—Você gosta de falar com ela?

—Quando se converteram em um coro? - zombou Kerrich.

—O que acontece? - perguntou Swearn. - Alguma vez conheceu uma mulher com a que vocês gostem de falar?

—Não.

—Agora que penso nisso - disse Pitchford com ar reflexivo, - tampouco eu.

—Isso é porque não tem conversação - sentenciou Kerrich categoricamente. - Sim, eu gosto de falar com ela. À senhorita Lockhart não importa meu aspecto nem meu dinheiro, me diz sempre a verdade.

—Então é como uma esposa - disse Tomlin, tornando para trás na cadeira.

Albon jogou suas cartas sobre a mesa com expressão desgostada.

—Me rendo. Assim não há maneira de jogar, e com a boa mão que tinha.

Outros jogadores o imitaram.

—Sabem o que me disse hoje? - Kerrich começava a se divertir. - Me admoestou por ser grosseiro.

—Sempre é um maldito grosseiro - disse Swearn.

—Nenhuma mulher me disse isso até agora - replicou Kerrich. - Eu gosto de conversar com uma mulher que não se faz de tímida nem paquera - Kerrich compreendeu que falava a sério.

—Quando nos vimos pela primeira vez, a olhei de cima abaixo e disse: "Servirá", e ela respondeu: "Eu estava pensando o mesmo de você".

Outros homens prorromperam em gargalhadas.

—Se atreveu? - Colbrook tinha os olhos arregalados pelo assombro.

—Se atreveu a muito mais nos últimos dias. Não me admoestaram tanto desde que usava calções.

—Começo a gostar dessa mulher - disse Tomlin.

—Imaginava. - Kerrich intercambiou com ele um sorriso. Ao fim e ao cabo, Tomlin seguia sendo seu melhor amigo.

—Está apaixonado - disse Swearn.

—Não seja ridículo. Não é meu tipo. Eu gosto das mulheres bonitas, esbeltas e tolas, não as harpias pálidas e de língua afiada.

—Por fim se apaixonou - disse lorde Reynard rindo astutamente.

Kerrich se voltou para ele subitamente zangado.

Mas se tratava de seu avô. Embora lorde Reynard tivesse direito a comentar as emoções de Kerrich, poucas vezes aproveitava tal privilégio. Quando o fazia, Kerrich sempre os desprezava entre risadas.

Por que agora ficava furioso?

—Com o devido respeito, senhor, não estou apaixonado por nenhuma mulher. Embora suponha que, se a senhorita Lockhart estivesse aqui, me diria que tenho o dever como anfitrião de atender a minhas convidadas.

—Será melhor que a obedeça, se não quiser que te dê uns açoites no traseiro - zombou Pitchford.

—Isso penso fazer. - Kerrich deixou sua taça sobre a mesa, saudou os presentes com uma inclinação e acrescentou:

—E você, Pitchford, será melhor que volte para casa com sua mulher, se não fará que os criados o impeçam de entrar em sua casa.

Pitchford se afundou mais em sua cadeira e Kerrich se foi em busca das damas com um sorriso. Ao fim e ao cabo, elas eram mais importantes para seus planos que os homens.

No salão, os criados ofereciam um refresco a quem tivesse sede ou apetite, e ali encontrou às senhoras, cochichando com as cabeças juntas. Se separaram rapidamente ao ver que ele se aproximava.

Kerrich ouviu em sua cabeça a voz da senhorita Lockhart, tão clara como se lhe estivesse falando ao ouvido. Dizia: Não podemos obrigar à boa sociedade a aceitar Beth, então devemos nos mostrar desenvolvidos e seguros com a situação e esperar que acabem aceitando-a. Recorde seu objetivo. Sua Majestade tem que receber bons informes sobre você.

A senhorita Lockhart. Estava obcecado com ela.

Fazendo ornamento de seu encanto, Kerrich se aproximou e saudou todas as damas se inclinando ante cada uma delas, e elas o observaram com expressões que iam da cautela à franca desaprovação.

—Lady Albon. Lady Colbrook. Lady Swearn. Senhora Tomlin. E senhorita Fotherby. - Kerrich saudava a filha de lady Swearn, uma viçosa jovem solteira destinada a ser uma das pérolas da temporada seguinte, após sua apresentação na corte. - Me permitam aproveitar a oportunidade para agradecer a todas as mães que tenham trazido seus filhos para lhes apresentar a Beth.

Sou consciente que só aceitaram porque confiavam em meu bom critério.

—A que se refere, lorde Kerrich? - perguntou lady Swearn, fazendo honra a sua fama de mulher franca e direta.

—A que teria um bom motivo para acolher à menina em minha casa. - Kerrich riu com desdém. - É obvio, vocês me conhecem o bastante bem para saber que um solteirão contumaz como eu somente acolheria à menina se procedesse de uma família aceitável e, sobre tudo, se estivesse bem educada.

—A cena que acaba de se produzir... - disse lady Swearn, ficando rígida.

—Sinto muito, mas tenho entendido que o pequeno Chiswick fez algo similar o ano passado... Não recordo os detalhes. Antes prestava tão pouca atenção aos meninos... - Kerrich franziu o cenho e fingiu desconcerto.

—Talvez você pudesse me recordar isso.

Três das quatro caras que tinha ante si se iluminaram. Lady Swearn o olhou com os olhos entrecerrados, e Kerrich compreendeu que tinha a suspeita que não fazia mais que adivinhar.

Com grande êxito, ao que parecia.

Lady Colbrook e lady Swearn eram da mesma idade, mas enquanto lady Swearn era uma mãe obsessiva que se implicava em todas as facetas da vida de seus filhos, lady Colbrook já conseguira casar satisfatoriamente a dois deles. Esbelta, formosa e inteligente, lady Colbrook adorava as intrigas, sabia desfrutar da maioria das situações com senso de humor, e se vestia sempre à última moda, mas era patente que a desagradava a crueldade, quando espetou:

—Você fala de quando empurrou à filha de Althea Sledmore da galeria? Althea não permite que nenhum de seus filhos compareçam a nenhuma função a que ele esteja convidado.

—Certamente lorde Kerrich ouviu falar de quando pegamos à fantasia de diabo lambendo todos os bolos em minha festa de San Miguel - disse a senhora Tomlin.

A senhora Tomlin era muito jovem e desejava se integrar no círculo social no que precisava se mover. Se mostrava tão ofendida pelo vandalismo do Menino Valentão que Kerrich teve que conter a risada.

—Não, certamente disso me lembraria.

—Então, se refere a quando encurralou às meninas em um canto, se voltou, e baixou os calções e lhes mostrou... lhes mostrou... sua nudez! - exclamou lady Albon.

O regozijo de Kerrich se converteu em aborrecimento.

—Por que fez isso?

—Porque é um menino repugnante - respondeu lady Swearn, cuja indignação agitava seu impressionante peito. - E se seu pai não fosse rico, seria um marginalizado.

—É muito dura com ele, mãe - disse a senhorita Fotherby em voz baixa com seus olhos azul porcelana cheios de ingenuidade. - Só é um menino.

—Possivelmente o menino ouvira a velha história do jovem que se pendurou de barriga para baixo nos jardins de Kensington Palace sem roupa de baixo. - Era a voz de Lewis da porta.

A senhorita Fotherby emitiu um gemido afogado e lady Swearn pigarreou, mas as outras senhoras receberam o audaz comentário de Lewis com evidente regozijo, e se afastaram para deixar que se unisse ao grupo.

Kerrich deixou que o lacaio lhe servisse um pouco do horrível ponche de cor rosa.

—Senhor Athersmith! Essa é uma história muito velha, e você faz muito mal em recordá-la - gorjeou lady Colbrook.

—Mas a lembro. - Lewis se inclinou com as faces avermelhadas pela bebida e a massa artisticamente arrumada de cabelos loiros caindo sobre a testa.

A todo mundo gosta de recordá-la, sobre tudo a meu querido tio avô, lorde Reynard. Ele estava ali aquela noite, sabem?

—Não, sério? - A senhora Tomlin se aproximou mais a ele. - Sempre acreditara que era somente uma fábula.

—Você é muito jovem para recordá-lo, querida, mas foi na temporada de minha apresentação e não se falou de nada mais. O passaram em grande nos jornais com aquele incidente, publicando caricaturas satíricas que mostravam à duquesa e sua humilhação e ao rei e suas gargalhadas. - Lady Albon elevou o leque e sussurrou por trás:

—Se especulou inclusive com a possibilidade que o próprio rei tivesse ordenado o espetáculo como gesto de ressentimento para a duquesa.

—Lua cheia em uma noite com névoa. - Lady Colbrook se tocou o aristocrático nariz com o lenço de renda, e a Kerrich chegou uma baforada de exótico perfume. - Foi a fofoca de toda a cidade durante meses.

—Acredito que meu primo também estava ali.

Lewis pôs tanta ênfase no parentesco que Kerrich não pôde evitar perguntar o porquê.

Por que, quando até então havia feito todo o possível por se distanciar de Kerrich e de seu avô, alardeava agora de sua nobre ascendência com tanta ostentação?

Ou acaso suspeitava da verdade?

—Não é certo, primo? - insistiu Lewis.

Kerrich tinha muita experiência em esquivar perguntas sobre o tema.

—Estava ali, mas lamento dizer que não posso acrescentar nada, posto que só os que acompanhavam ao rei observaram o... incidente.

As damas afogaram umas risadas.

Kerrich fez uma reverência, sem deixar de perceber que lady Swearn agarrara sua filha pelo braço e a afastara um pouco do grupo. É obvio. Lorde e lady Swearn despediram Lewis de seu trabalho como tutor do jovem Fotherby, certamente porque Lewis se distraiu de seus deveres por causa de sua imersão no delito. Certamente lady Swearn se sentia violenta em sua presença.

Por outro lado, Lewis parecia resolvido a impressionar todo mundo com seu engenho e suas relações familiares.

—Se chegou a descobrir quem... pendurava no jardim? - perguntou a senhora Tomlin.

—Não, e por favor, recorde a idade e a inocência de minha filha - a admoestou lady Swearn.

—Não pretendia... não pretendia... - A senhora Tomlin se ruborizou.

—Não, é obvio que não. - Lady Swearn franziu o cenho. - A culpa é do senhor Athersmith por trazer à tona este tema diante de uma jovem.

A cáustica reprimenda surpreendeu Kerrich, e viu que seu primo Lewis avermelhava de vergonha. Assim Kerrich estava no certo ao supor que a Lewis o jogaram de má maneira.

—Me perdoem. Desculpem. - Lewis fez uma reverência e saiu.

As senhoras intercambiaram olhares de cumplicidade.

—OH, mãe. - A senhorita Fotherby retorcia as mãos. - Só queria nos divertir.

Lady Swearn segurava ainda a sua filha pelo braço, como se acreditasse que ia escapar.

—Não importa. É hora de recolher a seus irmãos. Seu pai quer que amanhã vamos a nosso imóvel de Suffolk, e ele virá quando puder. Em Londres já não fica quase ninguém.

—Vá, muito obrigado! - Lady Albon, que era condessa e, portanto, a mulher de maior fila entre elas, fingiu se ofender.

—Já sabe ao que me refiro. Os que estamos aqui no verão é porque falta pouco para que vamos, ou porque acabamos de chegar, e desejamos voltar para nossos imóveis rurais, onde não faz um calor tão espantoso.

—Lady Swearn abriu seu leque e se abanou vigorosamente.

Kerrich não comentou que as gotas de suor que porejavam sua testa eram certamente um sintoma de sua idade, mais que do calor. Pelo contrário, tentou distender o ambiente se mostrando de acordo.

—Sim, eu concluí com os negócios que me atavam a Londres - negócios que consistiam na até então inútil vigilância de Lewis e suas amizades - e acredito que voltaremos todos para Norfolk com o avô dentro de uma semana - com a esperança que Lewis se reuniria com seus amigos delinquentes no imóvel. - Talvez nossos caminhos se cruzem.

Lady Swearn pareceu ainda mais consternada ao ouvir o cortês comentário.

—Sim, possivelmente.

Surpreso por tão seca resposta, Kerrich ficou olhando.

—Lilly - disse lady Colbrook, alheia ao que acontecia. - Me alegro muito que vá ao campo. Estava impaciente por fazer uma visita a seu imóvel.

—É obvio. - Lady Swearn piscou. - Sempre é bem recebida, mas eu gostaria de saber a que vem esse súbito interesse pelo campo.

—Desfruto com sua companhia - disse lady Colbrook cordialmente.

—Não pense que me sinto sozinha - replicou lady Swearn. - Meus filhos me fazem muita companhia. Bem, vamos, Penelope.

A senhorita Fotherby saiu atrás de sua mãe com passo reticente, qual beldade morta de calor. Lady Swearn se deteve na soleira.

—Por certo, lorde Kerrich, sua órfã é encantadora.

A partida de mãe e filha deixou atrás de si um breve silêncio, que lady Colbrook rompeu com um enérgico:

—É normal que lady Swearn se comporte assim. Penelope é a filha mais velha, e têm postas suas esperanças nela.

—Sim, é uma beleza - comentou a senhora Tomlin.

—Com sua família e sua fortuna, facilmente poderia pescar um marquês. - Lady Albon lançou um significativo olhar a Kerrich.

A aquela altura, Kerrich estava ao cabo da rua no que se referia aos olhares significativos de damas jovens, mas esta lhe pareceu diferente.

—Confesso - disse, decidido a ficar a sua mercê, - que não entendi grande parte desta conversação.

O silêncio voltou, mais intenso e violento que antes, enquanto as senhoras se olhavam umas a outras.

Então, de um misterioso modo, escolheram lady Colbrook como porta-voz. Sempre o faziam, pois seu enérgico caráter a convertia em uma líder natural.

—Não sabia? O senhor Athersmith perdeu seu emprego com os Swearn porque se apaixonou perdidamente pela senhorita Fotherby do modo mais inconveniente.

 

—Que desastre - disse Kerrich, olhando a seu redor no vestíbulo.

Junto a ele estava o avô, apoiado em sua bengala.

—Não muito, considerando o bem que passaram os meninos.

Kerrich pensou que seu avô devia estar olhando outra casa. Uns quantos meninos não tiveram a educação ou a vigilância necessária para se manter dentro das zonas designadas para eles, e para o final tinham arrasado a casa como uma praga de lagostas, jogando a comida, perdendo chapéus e lenços e quebrando vasos. A biblioteca era a única habitação que ficara a salvo de seus desmandos, e só porque tinha robusta fechadura. Com sorte, seria a última festa infantil que Kerrich pensava dar.

—O asseguro, avô, quando tiver filhos saberão se comportar.

O avô riu.

—Eu dizia o mesmo de seu pai, e seu pai dizia o mesmo de você, e olhe como saiu.

—Eu diria que me comportava muito bem - replicou Kerrich, se indignando rapidamente.

—Por favor.

Kerrich desejou dar rédea solta a sua indignação, mas pensou melhor. Na realidade fora um demônio.

—Não estou acostumado a tanto revoo. Vou a meu quarto. - O avô se dirigiu às escadas. - Quando tiver ido, Moulton poderá deixar de espreitar entre as sombras e deverá falar com você.

Surpreso, Kerrich deu meia volta.

—Boa noite, milordes. - Moulton surgiu do corredor que levava às cozinhas.

—Você tem talento para espreitar - disse o avô. - Deveria criar uma firma de detetives. Acredito que o faria muito bem.

Kerrich e Moulton intercambiaram olhares de alarme, pois isso era exatamente o que fazia Moulton, e com tanto êxito, que o governo o contratava quando necessitava a alguém que passasse como mordomo em uma casa nobre.

—Não se alarmem, cavalheiros - disse o avô, dando a volta com a mão apoiada no corrimão. - Sou velho, mas não sou dado a falar demais. Seu segredo está a salvo comigo. - Logo iniciou a lenta subida pela escada.

Kerrich levou a mão à cabeça brevemente antes de se dirigir à biblioteca seguido de Moulton.

—É muito perspicaz - disse Moulton com admiração.

—Isso é fácil de dizer para você. Não é seu avô. - Mas Kerrich tampouco podia negar que se orgulhava dele. Ao avô não lhe escapava uma. - Moulton, onde está meu primo?

—Disso queria falar com você, senhor - respondeu Moulton, se erguendo. Se foi na metade da festa. Meu ajudante o seguiu, é obvio, e faz mais ou menos uma hora, o viram se encontrar com alguém.

—Então por fim parece que estamos chegando a alguma parte - disse Kerrich, se inclinando para ele com veemência.

—Não, milorde. Se encontrou com uma mulher.

—Uma mulher? - Kerrich pensou rapidamente na senhorita Fotherby. - Uma mulher muito jovem?

—Não, uma de mais idade. - Moulton baixou a voz. - Uma dama distinta, uma de suas convidadas. Parece que em lugar de se dedicar a suas atividades delitivas, o senhor Athersmith esteve dedicado a um assunto amoroso.

—Mas... e a senhorita Fotherby?

—Não sei, senhor.

É obvio que não sabia, e só porque Lewis teve um amor frustrado, não queria dizer que o uva sem semente não pudesse andar enredado com alguma perdida.

—Nosso homem esteve seguindo Lewis a seus encontros ilícitos?

—Pois sim, e acredito que por isso não pudemos descobrir seu contato. Não prestamos atenção às mulheres que entram e saem.

Uma de suas convidadas. Kerrich torceu a boca em uma careta desdenhosa. Igual a sua mãe. Prova que não havia mulheres na boa sociedade que fossem fiéis em seu casamento.

—Quem? - perguntou.

—Meu homem não sabia, senhor. Bonita, ele disse, e bastante mais velha que o senhor Athersmith, mas levava a cabeça coberta e... bom, senhor. A verdade é que em nosso trabalho, o sexo fraco carece de importância.

A vela noturna estava iluminada, a babá dormia do outro lado do quarto, de modo que, depois de comprovar que tudo estava em ordem, Pamela alisou as mantas que tampavam a agradável menina.

—Dorme bem, pequena - sussurrou.

—Está dormida? - perguntou uma voz a suas costas.

Pamela afogou um grito e voltou-se com uma mão no coração.

Kerrich estava ali, com os braços cruzados, olhando para Beth.

—Milorde, o que faz aqui? - sussurrou.

—Pensei em vir ver como está a menina. - Estava sem a jaqueta, o colete e a gola, e estava desabotoada a parte superior da camisa. Seu ar de pirata satisfeito era algo inquietante.

—Foi um dia de muitas emoções para ela. Dormirá bem?

—Se não for assim, eu durmo no quarto contiguo.

Kerrich olhou para a porta.

—Se ela acorda esta noite, a babá a atenderá. A festa saiu bem. Agora compararemos nossas experiências. - Colocou uma mão sobre o ombro de Pamela e a se voltar para a porta. - Temos que planejar nossa estratégia futura.

Assim, embora Pamela estivesse cansada e morria de vontade de tirar o segundo melhor vestido de lady Temperly, um de seda negra, acompanhou Kerrich pelo corredor em sombras, escada abaixo e ao interior da biblioteca. Ele tinha razão. Era preciso que falassem.

Surpreendentemente, Pamela desejava isso. Não sabia por que, mas com ele podia dizer o que desejava muito. Com ele era somente uma mulher feia de meia idade que, ao dizer o que pensava, não era mais que irritante e caprichosa. Experimentava uma maravilhosa sensação de liberdade ao falar com Kerrich, e quando terminasse seu trabalho, sentiria falta dele.

De pé no meio da biblioteca, Pamela olhou a seu redor.

—Esta é sua sala favorita.

—Sim, suponho - disse Kerrich, olhando também a seu redor, como surpreso. - É cômoda.

Era mais que cômoda. Desprendia essa atmosfera caseira, vital e entesourada que adquire uma sala após anos de cuidado e afeto. Se podia gritar de um extremo e receber o eco do outro, mas vãos e assentos de janela preenchiam o espaço. As prateleiras continham finas porcelanas, figuras de cristal e bustos de mármore antiquados, mas sobretudo ostentavam fileiras e fileiras de livros encadernados em pele que convidavam ao leitor a se inundar em suas profundidades. Duas lareiras jogavam luz e calor. O mobiliário era maciço, de madeira de cerejeira e escuro mogno, feito para a comodidade de um homem, com fofo estofo de cor verde escura e avermelhada. A escrivaninha de Kerrich dominava a sala com suas grandes dimensões e seus pesados contornos.

Kerrich trabalhava ali e também passava ali seus momentos de ócio. Pamela se sentia igual a um camundongo cauteloso, duvidando da honra de ser convidada à toca do senhor.

—Sente - lhe indicou Kerrich. - Lhe sirvo um xerez?

Ela detestava o xerez sempre, mas as damas bebiam xerez e ela era uma mulher solteira que tentava não chamar a atenção.

Entretanto, graças ao disfarce e à paciência de Kerrich, estava livre de tais restrições antinaturais. Se afundou em uma amaciada poltrona estofada em brocado perto da janela aberta.

—O que você tomará, milorde? - perguntou.

—Gosto de cerveja.

—Que seja cerveja.

Kerrich se surpreendeu, mas era evidente que tinha adjudicado a Pamela o papel de excêntrica, porque se aproximou da porta e gritou:

—Cerveja e duas jarras. - Logo se dirigiu à janela e se sentou em uma poltrona frente a ela. - Então você gosta da cerveja?

—Não sei, nunca a provei.

Ele sorriu, deixando que o regozijo iluminasse seu semblante. Pamela teria jurado que não era seu típico sorriso calculado para enfeitiçar às mulheres, a não ser um sorriso verdadeiro e agradável, embora detestava usar qualquer de ambos os adjetivos em relação a Kerrich.

—Meu avô diz que alguém tem que provar coisas novas de vez em quando - disse. - Isso mantém a mente aguda. Embora eu diria que a sua já o é o bastante.

Era uma estupidez se sentir adulada pelo elogio; aquele homem semeava seu encanto como um camponês semeava suas sementes, com generosidade e a esperança de recolher algum dia a colheita.

Mas o sorriso a convenceu que realmente Kerrich a considerava uma mulher especial. A atemorizava comprovar que era tão sensível a ele como qualquer outra mulher.

Timothy entrou com uma bandeja de prata, a depositou sobre a mesa que separava Pamela e Kerrich e perguntou:

—Sirvo-lhes, milorde?

Kerrich fez um gesto sem deixar de olhar a Pamela. O jovem lacaio serviu a cerveja, se inclinou, lhes entregou as jarras e voltou a se inclinar.

Pamela sustentou contra o peito a jarra, uma monstruosidade de porcelana de duvidosa origem chinesa.

—Obrigado, Timothy.

—Como? - Kerrich estirou o pescoço para olhar ao lacaio que saía da biblioteca. - Timothy? Sim, obrigado, Timothy.

—Quanto tempo faz que trabalha para você? - perguntou Pamela quando o lacaio já tinha ido.

—Toda sua vida, acredito. - Kerrich suspirou com pesar, compreendendo por onde iam os tiros pelo tom de Pamela. - O que é pior, que não soubesse seu nome ou que não o agradecesse?

—Digo a Beth que a cortesia deveria ser sempre espontânea.

—Hah. - Kerrich elevou sua jarra e bebeu a metade de um só gole.

Quando limpou a boca com a manga, Pamela sorriu; era um gesto tipicamente varonil e quase atrativo por sua natureza instintiva.

Ele viu seu sorriso e possivelmente não gostou, mas se limitou a dizer:

—O que lhe parece a cerveja?

Ela cheirou a bebida e logo deu um gole cauteloso.

—É muito... forte. - Sua língua se cobriu de um sabor de algo amargo que tinham torrado e que a obrigou a fazer uma careta. Kerrich riu ao ver sua expressão.

—Não há nada mais inglês que a cerveja. Como é que nunca a provara?

—Levava uma vida muito retirada quando jovem.

—E após também.

Muito bem. Kerrich acreditava que era uma mulher velha.

—Sim, após também. Como é que você bebe cerveja?

—Apesar de que meu avô proceda de uma família de nobre linhagem, quando menino era pobre, e não tinha outra coisa que beber. - Elevando a jarra, acrescentou: - Bebe. O seguinte gole lhe cairá melhor.

Um dos indícios da grande prosperidade de Kerrich era a abundância de velas que havia por toda a casa, e na biblioteca aquela noite, também se notava.

Mas estavam de cara à janela, as velas ardiam a suas costas e aquele vão estava sumido nas sombras, quase na intimidade.

Pamela tomou um breve gole de cerveja. Oxalá tivesse seu ponto de tricô. O ponto de tricô estabelecia uma barreira entre os dois, embora não acertava a imaginar para que a necessitava.

Um sorriso espontâneo, por encantador que fosse, não podia constituir um motivo de alarme.

—Bem, milorde. De que deseja falar?

O seguinte sorriso de Kerrich não foi tão sedutor, embora Pamela não teria podido determinar onde estava a diferença.

—Acredito que a festa de hoje foi um clamoroso êxito - disse.

—Sim.

—O que? - perguntou Kerrich, colocando a mão atrás da orelha.

—Acredito que a festa de hoje foi um êxito - repetiu ela um pouco mais alto.

—Não a ouço bem. Poderia repetir outra vez?

Por fim Pamela compreendeu sua detestável mutreta. Não necessitava o ponto de tricô para levantar uma barreira entre eles, enquanto Kerrich insistisse em sua atitude de "Já tinha dito".

—Milorde - disse, com toda a dignidade de sua condição, - admito que seu estratagema para que Beth fosse aceita resultou eficaz...

—Efi... o que? - brincou ele.

—Mas - prosseguiu ela, sem lhe fazer caso - ao mesmo tempo arriscada... e imprudente. Se Beth fizesse algo inaceitável...

—Sim? - Kerrich soltou uma gargalhada. - A brincadeira que fez ao jovem Chiswick não entra dentro do que eu considero socialmente aceitável. Mas, maldita seja, foi muito divertida.

—Milorde, sua irreverência é desnecessária!

—Você tem razão. Me perdoe. - Mas Kerrich seguia sorrindo quando voltou a encher as duas jarras de cerveja.

Seus ombros se esticaram sob a fina camisa branca de linho, igual a suas coxas contra o tecido das calças negras. Seu cinismo eterno pareceu se suavizar à luz das velas.

Ao que parecia, Pamela admirava sua figura inclusive quando ria dela. Perturbadora sensação, e muito comum. Uma vez mais foi posta a prova e descobrira que era igual a essas mulheres de vontade fraca que caíam na tentação. Não sabia onde olhar. A janela lhe pareceu o mais seguro, assim cravou a vista na rua, onde as luzes de gás piscavam e as carruagens que passavam de vez em quando faziam ressoar as rodas sobre a pavimentação.

—Então - disse Kerrich, voltando a se sentar, - estamos de acordo em que eu tinha razão ao insistir nesta festa e você estava equivocada.

Isto voltou a centrar a atenção de Pamela nele.

—Não estava equivocada - protestou ela com ardor, - eu...

—Estava equivocada. O oposto a ter razão é se equivocar. Então você estava equivocada. - Esboçou um sorriso absolutamente petulante e a Pamela entraram vontades de lhe arrancar os olhos com as unhas, mas antes que pudesse discutir com ele, Kerrich acrescentou: - Tenho que retornar a Norfolk na semana que vem - o que funcionou perfeitamente como distração.

—Retorna ao campo? - Pamela deu um gole para umedecer a boca, que lhe secara de repente. - Abandona seu plano?

—Abandoná-lo? Não, é obvio que não! Talvez fosse melhor dizer que todos voltamos para Norfolk na semana que vem. Você e a menina virão comigo a Brookford House.

—Sério? - A expressão de Pamela era de deleite. - Não acredito que Beth já tenha estado no campo. Estou impaciente por lhe mostrar pela primeira vez todos seus prazeres.

—Sim, ali tenho várias monturas adequadas, e o moço de estábulo é um excelente professor de equitação. De fato, foi ele quem me ensinou a montar.

Pamela sorriu cortesmente. Não eram os cavalos o que a emocionara, a não ser a oportunidade de mostrar Beth no ambiente mais informal do campo.

—Será perfeito para seu plano, milorde.

—Não sei. Beth estaria mais em contato com a sociedade em Londres, mas tenho trabalho em meu banco, e o avô me assegurou que nos acompanhará, e é obvio Lewis também virá.

—Ao pronunciar o nome de seu primo, a voz de Kerrich adquiriu um tom desdenhoso que a Pamela não gostou.

—Seu primo é um homem respeitável.

—Volta a se equivocar - disse ele.

—Por que? - perguntou ela, ardida por sua brincadeira. - Porque é tranquilo e tímido, e não anda com argúcias nem leva uma vida licenciosa?

—Ao contrário que eu, quer dizer? - Kerrich deixou a jarra sobre a mesa, apoiou as mãos nos joelhos e lhe lançou um olhar furioso. - Senhorita Lockhart, você é uma boba.

—Você me contratou. - Pamela elevou a mão antes que ele replicasse. - Com um intercâmbio de insultos não arrumaremos nada, milorde. Devemos nos pôr de acordo em que não estamos de acordo sobre seu primo, minha inteligência e toda uma série de coisas.

—Você é instrutora. Não sabe o que é um homem amadurecido.

—Lorde Kerrich. Sou instrutora, em efeito. Sei que os homens não maturam, simplesmente crescem. - É obvio, era uma tolice replicar com engenho, e esperou a resposta de Kerrich, interessada por ver se se comportaria como o típico libertino, se zangando ou ameaçando. Kerrich a surpreendeu ao assentir com seriedade.

—Sim. Quando alguém olha aos homens com os que se casam algumas mulheres, se compreende o muito que devem odiar a ideia de trabalhar para viver. Entretanto, no referente a meu primo, procure não confiar muito em sua infalibilidade. Não gostaria de ter que me ouvir dizer que já a tinha advertido.

Um Kerrich sincero era mais perigoso ainda que um Kerrich sedutor. Pamela mudou a jarra de mão e, sub-repticiamente, secou as palmas molhadas na saia.

—Tentarei recordar.

—O que me preocupa esta noite é como vai influir o traslado ao campo em nossos planos de aparente reforma de meu caráter.

Em Brookford celebraremos festas e caçadas, e todo o necessário para que Beth e eu sejamos o centro de atenção.

—Farei quanto esteja em minha mão para que seja um êxito, milorde. - Pamela fez uma promessa solene em honra a seu acordo.

—É obvio que sim. Para isso lhe pago.

 

Kerrich viu que dava um sobressalto e imediatamente compreendeu seu engano.

—Me perdoe, senhorita Lockhart. Às vezes esqueço que não todas as mulheres são como minha mãe.

Pamela voltou a elevar sua jarra, e teve que olhá-lo por cima da borda.

—Sua mãe?

Maldita seja! Não deveria ter mencionado sua mãe, mas a conversação com Moulton sobre Lewis e sua querida a tinham recordado irremediavelmente.

Era possível que a senhorita Lockhart não tivesse ouvido uma história que era do domínio público? Ele era o único que nunca a mencionava, para não delatar quão vulnerável se sentia sendo um moço, o muito que tinha chorado ao ver destruídos seus ideais, sua desolação ao se ver traído por quem menos teria esperado.

Agora era mais velho. Sabia se proteger e, de todas as formas, a senhorita Lockhart não era como as demais mulheres. Ela sabia guardar um segredo. Kerrich explicou a história, sopesando cada uma de suas palavras.

—Meus pais se casaram a instâncias de seus pais. Minha mãe era filha do anterior presidente do banco, um incompetente. Meu pai era filho do homem que o tinha arrebatado com sua habilidade.

—Se refere a lorde Reynard?

—Sim, a meu avô. - Voltou a encher a jarra e bebeu. - Meus pais se casaram com a esperança que sua união cimentaria aquela sociedade e que acabariam se amando.

—E aconteceu assim?

—Sim, meu pai amava a minha mãe e minha mãe amava a si mesma.

—OH. - A senhorita Lockhart fez uma dobra em sua saia. - Que desagradável para você.

—Tolice. Até que meu pai morreu, quando eu tinha dez anos, parecíamos uma família feliz. - Não podia acreditar que estivesse confessando tantas coisas e com tanta eloquência, além disso, quando na realidade nem sequer nunca refletira sobre o que estava dizendo. - Depois que meu pai morreu, minha mãe não esperou para abandonar o luto.

—Sinto muito. - Realmente parecia sentir. Tinha o olhar triste e o queixo inclinado.

—Não o sinta - se apressou a dizer Kerrich. - Me alegro que acontecesse. Me abriu os olhos, me preparou para uma vida sem ilusões. Ninguém se aproveita de mim.

—Sim - disse ela. - Compreendo que é benéfico se voltar imune à dor, mas o processo é doloroso, e diga o que diga, sinto pelo moço que foi.

—Seguiu falando, mas emocionada, como se suas lembranças lhe fizessem mal. - Sua mãe está...?

—Na Itália com seu amante atual. - Parecia-lhe importante que a senhorita Lockhart se convencesse de sua insensibilidade. - E aí, querida minha, é onde prefiro que esteja.

—A odeia?

—É obvio que não! - Percorreu a borda de sua jarra com o dedo. - Não é digna de meu ódio.

—Não sei se isso o faz ou não melhor pessoa que eu.

Disse-o em voz tão baixa que Kerrich mal a ouviu, e de repente recordou o que seu avô lhe contara.

—Seu pai se foi.

—Ouviu... ouviu a história? - Sua voz se voltou mais aguda para o final. - Inteira?

Era evidente que a havia posto nervosa com a mera menção de seu pai, embora depois de tanto tempo, sua pena deveria ter se mitigado. Por outro lado, a sua não o tinha feito.

Ah, compreendia à senhorita Lockhart melhor do que pretendia.

—Meu avô me contou - disse, tentando parecer interessado, mas distante. - Um acontecimento difícil e desgraçado para você, sobretudo em sua juventude.

—Para mim? - A senhorita Lockhart o olhou, voltou a olhar, finalmente relaxou os punhos que tinha apertados sobre o colo. - Sim, para mim, mas... - olhou Kerrich uma vez mais, como se quisesse se assegurar

—foi minha mãe a que realmente sofreu. - Colocou a mão no bolso de sua saia e tirou o relógio de prata que Kerrich já teve ocasião de observar. - Era de meu pai. É a única coisa que fica dele.

—O guarda como uma lembrança dele? - sugeriu Kerrich.

A senhorita Lockhart abriu a tampa adornada com motivos e olhou a esfera como se pudesse ver nela os traços de seu pai.

—Não, guardo para recordar a dor que pode provocar um homem frívolo e infiel. Minha mãe amava a meu pai. Morreu amando-o... e sentindo falta dele. - Sorriu sem humor.

—Suponho que você aprovará esse tipo de amor, como a maioria dos homens.

—Me parece uma prova mais de que o amor é uma emboscada. Te atrai com um atraente chamariz e te apanha como uma armadilha a um caçador furtivo, e um fica ali apanhado, sangrando até morrer.

—Kerrich olhou sua jarra, se perguntando como um pouco de cerveja tinha podido lhe afrouxar tanto a língua.

Ela pestanejou e Kerrich se deu conta que parecia diferente aquela noite. Era a primeira vez que a via sem seus óculos escuros. O rosto se suavizava sem a jaula de metal e vidro que protegia seus olhos, uns olhos grandes, azuis, e à luz das velas, a pele ao redor dos olhos era surpreendentemente lisa. Devia ter sido uma mulher bonita em sua juventude, e certamente não fazia tanto tempo como acreditara.

De fato, era muito possível que tivessem a mesma idade. Esteve a ponto de perguntar a ela o que demonstrava que bebera muito, pois nenhuma mulher respondia a essa pergunta com sinceridade.

Mas lhe economizou o incômodo e a mentira.

—Assim, para evitar o casamento, acolhe uma órfã. A questão é, por que a rainha acredita que estaria melhor casado?

—Você não compreende a Vitória, quer dizer, à rainha Vitória. Eu lhe caio bem.

—Mas... por que?

—Por que lhe caio bem? - Kerrich o encontrava divertido. - Porque sempre a tratei bem.

A senhorita Lockhart arqueou as sobrancelhas.

—Com normalidade. A tratei com normalidade. - Bebeu um gole de cerveja, se deleitando com seu intenso sabor. - Quando fomos mais jovens.

—Como é com normalidade?

—Não a adulava porque fosse a futura rainha, a tratava igual à qualquer outra garota.

—Uma garota que gostasse?

—Só uma pesada. Uma menina que seguia a todas as partes, com nove anos menos que eu. Uma menina tola. Nada mais. - Recordou à rainha Vitória quando era menina, e também o afeto inconsciente que sentia por ela.

—Estava sozinha. Sua mãe a tinha separada dos outros, protegida em todo momento, assim, quando eu zombava dela, gostava.

—Sigo sem compreender por que quer que se case.

—É jovem, mas é uma rainha. Acredita que sua maneira de viver é a melhor. - Kerrich percebeu que a senhorita Lockhart finalmente compreendia o que queria dizer. - Se casou, é feliz, está segura, sua maneira de viver é a única maneira. Vai me salvar de mim mesmo.

—Suponho que alguém tem que fazê-lo. Me perdoe, milorde, mas confesso minha irreprimível curiosidade. No que consiste a chantagem que lhe faz Sua Majestade?

Se se inteirasse... Mas não. Guardara seu segredo muitos anos. Aquela conversação desenvolvida com uma mulher inteligente não conseguiria lhe surrupiar. Entretanto, não sentia escrúpulo algum em lhe contar a outra parte.

—Faz muitos anos, meu avô convenceu o rei Guillermo para que ingressasse um dinheiro para a princesa Vitória em seu banco. A quantidade inicial supôs uma sólida base para o banco, e meu avô a investiu com acerto. Eu continuei a tradição, e a quantidade atual é considerável. Uma grande ajuda para Vitória e uma grande ajuda para nós.

—E o ameaçou retirando o capital, o que levaria o banco à quebra.

—É obvio que não - replicou ele, ofendido. - Sou um bom diretor. O banco tem uma sólida base financeira. Mas você tem que compreender que me nego a ser ameaçado por culpa de minha reputação.

A rainha exige que viva de um modo respeitável, o que para ela significa uma esposa e a perspectiva de uma família. Eu acredito que posso convencê-la que a respeitabilidade é responsabilidade.

—Você considera que o casamento é um caminho seguro à infelicidade.

—Na realidade não. - acariciou o queixo, um gesto que adquirira de seu avô. - O truque para o casamento consiste em não se fazer ilusões. Um homem tem que compreender por que as mulheres se casam, isso é tudo.

Os lábios da senhorita Lockhart desenharam sua típica careta de censura.

—E me diga, por que se casam as mulheres?

—Por dinheiro, habitualmente. - Kerrich se deu conta que havia voltado a ofendê-la, mas com a senhorita Lockhart não precisava se preocupar muito por isso. Ao fim e ao cabo, tampouco a preocupava.

Além disso, acreditava que sua afirmação era totalmente certeira. - Elas não têm a culpa. A vida não é justa para as solteironas. Não têm mais recurso que trabalhar ou morrer de fome.

Assim, quando o pedem, se casam.

Era óbvio que ela não acreditava que sua afirmação fosse certeira. Depositou a jarra sobre a mesa com um forte golpe que fez ressoar a louça.

—Você tem ideia de quão insultante é que pense que uma mulher está solteira porque nunca o pediram, ou que está casada porque procurava uma segurança material?

Kerrich descobriu que aquela conversação o divertia e era muito, muito interessante.

—Ah, temo ter tocado a fibra sensível. Você está me dizendo que existe um homem que se atreveu a lhe pedir em casamento?

—Não lhe estou dizendo nada - afirmou ela, mas, levada pela paixão, seguiu falando. - Um homem pode proporcionar segurança material, mas lá onde ele vá, irá ela, e todas essas tolices.

Uma mulher tem que viver onde queira seu marido, permitir que esbanje seu dinheiro, ver como a humilha com outras mulheres e não protestar.

—Os homens não são os únicos que descumprem seus votos.

—Então, você tem a intenção de cumprir com o voto de fidelidade?

É obvio que não tinha tal intenção, quando era um voto que teria que fazer obrigado e que o faria cair na mesma armadilha em que tão limpamente caíra seu pai.

—Mantive a mais mulheres que a melhor lingerie de madame Beauchard. Se pretende que o casamento me detenha, pense nas pobres atrizes que ficarão sem protetor.

A senhorita Lockhart não o encontrou graça.

—Então nada em sua esposa será sacrossanto, nem sequer seu corpo. Sua esposa terá sonhos que você jamais conhecerá, e embora os conhecesse, não seriam para você mais que rajadas de vento.

As mulheres sonhavam? Sobre o que? Um par de sapatos novos? A queda de uma rival? Dançar com um príncipe estrangeiro? Não, a senhorita Lockhart não falava de trivialidades, de modo que Kerrich acabou perguntando:

—E quais são seus sonhos?

—Não lhe importam. Até que eu falei, jamais lhe ocorrera que uma mulher pudesse ter seus sonhos.

—Isso é certo, mas você se dedica a ensinar e agora me ensinou que não era assim. - Kerrich se tornou para trás, a olhou e, com absoluta sinceridade, disse as palavras mais poderosas de todo o universo:

—Me diga o que você quer. Quero conhecê-la.

A senhorita Lockhart não tinha defesas com as que resistir. Se tornou também para trás em sua poltrona e fechou os olhos como se pudesse ver sua fantasia diante dela.

—Quero uma casa no campo. Só uma casinha, com uma cerca e um gato que deite em meu colo e um cão que durma a meus pés. Um pedaço de terra para plantar um jardim com flores e hortaliças, comida na mesa e um pouco de tempo livre para ler os livros que não pude ler ou simplesmente para... me sentar ao sol.

As velas suavizavam o intenso contraste entre a pele branca e aquela horrível cor vermelha de suas faces. Luzes e sombras delineavam seus pálidos lábios, mostrando sua plenitude.

Suas espessas pestanas formavam um semicírculo curvado sobre sua pele. Quando falava assim, imaginando sua vida perfeita, parecia quase... bonita.

—Isso é tudo?

—OH, sim.

—É bem pouca coisa.

—Sim, muito pouca. E minha.

Kerrich depositou com cuidado a jarra junto à dela, procurando não romper seu pensamento.

—Por que quer isso?

—É o que tinha antes de...

Se interrompeu tão de repente que Kerrich adivinhou o que ia dizer. Se aproximou da poltrona dela e se ajoelhou no tapete.

—Antes que seu pai se fosse?

Ao ouvir sua voz, os olhos dela se abriram rapidamente para olhá-lo com consternação. Kerrich compreendeu que realmente estava sonhando, vendo a casa, os mascotes, o jardim, e imaginando os momentos em que se sentaria ao sol. Seu rosto se mostrava aberto e vulnerável, e os instintos de Kerrich eram poderosos. Tocou a face da senhorita Lockhart com a ponta dos dedos, tão suaves como um sussurro.

—Há um sonho que não mencionou, e eu posso convertê-lo em realidade. - Lentamente, dando tempo a ela para voltar o rosto se o desejasse, Kerrich se inclinou... e a beijou.

E teria jurado que, no último momento, ela inclinava a cabeça para receber o beijo.

Certamente fechara os olhos. Também ele os fechou, saboreando seus lábios, suaves e cheios, quentes e generosos, se separando para ele com tão doce facilidade, que Kerrich experimentou uma onda de ternura.

O fôlego dela se acoplou ao dele no ritmo e no sabor. Kerrich quase podia saboreá-la... e então ocorreu. Ele esperava que a senhorita Lockhart se retirasse ao notar o tato de sua língua, mas o gelo que possivelmente a recobria se derreteu. Pouco a pouco Kerrich aumentou a pressão, abrindo mais os lábios dela. Deslizou os dedos para seu cabelo, rodeou-lhe a cabeça, a esfregou com esse movimento suave e sensual que tanto agrada às mulheres formosas.

À senhorita Lockhart também gostou. Se apoiou em sua mão, em uma leve mudança que indicava satisfação e que pedia mais. Antes tinha as mãos sobre o colo; agora se agitavam em alto como pássaros assustados que não sabiam onde posar. Kerrich as capturou, as levantou e as colocou sobre os ombros. As mãos voltaram a revoar e logo posaram com cautela.

A princípio as mãos eram somente um ponto de calor nos músculos de Kerrich. Logo, como se o acanhamento cedesse à curiosidade, baixaram lentamente pelos braços e alisaram a roupa sobre a pele.

Os dedos procuraram os ossos, explorando os pontos proeminentes com pequenos movimentos circulares.

Seus movimentos tímidos e inseguros agradaram tanto Kerrich que lhe entraram desejos de agradá-la mais ainda. Levantando do chão, pôs um joelho no assento junto à saia da senhorita Lockhart e se ergueu sobre ela, a obrigando a jogar a cabeça para trás, pondo a descoberto seu pescoço, dominando-a. Deslizou então a boca pela mandíbula até atrás da orelha.

O sabor e o aroma dos pós de arroz o impregnaram quando a beijou e ouviu que ela gemia e notou que apertava os dedos.

As mãos dela voltaram a subir pouco a pouco, flutuando e apertando, fazendo que Kerrich sentisse desejos de ronronar como um gato gigante em zelo.

Mordiscou brandamente o lóbulo da orelha e, quando ela proferiu uma exclamação de surpresa, o lambeu como se desculpando.

O corpo da senhorita Lockhart sabia a verdade. Não era uma desculpa, a não ser uma provocação. Ela se removeu no assento, como uma ondulação, o que era um incentivo em si mesmo.

E ele, caveira e libertino, nunca resistia à tentação. Seguiu segurando a cabeça da senhorita Lockhart enquanto delineava a orelha com a língua e a investigava e lhe soprava brandamente, mas sua outra mão deslizou para o seio. Kerrich amaldiçoou mentalmente as sedas e as rendas que se interpunham entre seu objetivo e ele, mas apertou com força e encontrou um seio que se apertava a sua vez contra sua mão.

Meu Deus, era perfeita. De seio generoso, redondo, firme. O que notava sua mão o fez desejar vê-lo e saboreá-lo, e a agitação resultante o empurrou da suave sedução a um desejo maior e urgente.

Necessitava possuir a aquela mulher. Não só beijar sua orelha e acariciar seu seio, a não ser penetrá-la e achar prazer em seu corpo arqueado.

As mãos da senhorita Lockhart deslizaram para seu pescoço e ele se deteve contendo a respiração, esperando, esperando...

E ela o aplacou. Afundou a mão sob a camisa e tocou - oh, Deus - a pele nua. Então se deteve.

Por que? Imaginava acaso o muito que ele desejava que pusesse as mãos em outra parte, muito mais abaixo, em um lugar muito mais interessante para ele?

Ou acaso se assustou de sua própria temeridade?

Kerrich queria dirigi-la, lhe dizer que continuasse, mas ainda desejava mais beijá-la. Procurou seus lábios e os encontrou, os abriu e descobriu que era como se não a tivesse beijado antes.

Não satisfizera sua sede, não vencera o desejo. Seus lábios tinham um sabor tão novo e delicioso como antes, e lhe devolvia o beijo com um encantador espetáculo de reserva e avidez.

A curiosidade picou Kerrich. Soltou o seio e explorou mais abaixo, na cintura, presa por um espartilho, mas agradavelmente pequena, e mais abaixo ainda, para atrair os quadris para si... mas, maldita seja, usava anáguas que obstaculizavam seus desejos.

—Senhorita Lockhart - disse, se separando de sua boca. Vagamente compreendeu que era uma estupidez chamá-la assim. - Pamela. Tire estas roupas e me deixe...

Os dois abriram os olhos ao mesmo tempo.

Os dois deram um salto e ela soltou um grito.

A senhorita Lockhart era feia. No que Kerrich estava pensando? Era feia. Sim, gostava de falar com ela. Sim, tinha superado a aversão à cútis excessivamente pálida e os óculos escuros.

Sim, a senhorita Lockhart tinha um corpo magnífico. Sim, a luz das velas suavizara sua horrível palidez, mas... era feia.

E por sua expressão, a opinião dela sobre ele não era melhor.

—Senhorita Lockhart, eu não pretendia...

Ela colocou as mãos sobre seu peito e empurrou.

—Se afaste.

Mas, por alguma condenada razão, Kerrich não queria se afastar. Seu joelho lhe esmagava a saia, sua mão segurava a cabeça, a dominava fisicamente, já que não mentalmente, e gostava. Aquela mulher precisava ser dirigida, precisava obedecer as ordens que a obrigassem a fazer o que era melhor para ela no presente, e não viver em um sonho longínquo que talvez não se faria realidade jamais.

Então Kerrich recuperou o domínio de si mesmo. Quando um homem assumia a autoridade sobre uma mulher, estava apanhado para sempre, o seguinte era o amor, e ele não queria amar. Uma vez mais examinou à senhorita Lockhart.

De fato, ela era uma cura contra o amor.

Se levantou e se afastou, e logo, sem saber por que, se inclinou, como se pudesse utilizar a formalidade como um escudo.

Também ela se levantou, mas com esforço, como uma mulher a que se levou ao desejo e depois se abandonou.

Não. Kerrich não pensava se sentir culpado.

Ela se ergueu com o severo movimento que Kerrich reconhecia como característico da senhorita Lockhart. Mas desta vez, o orgulho só lhe serviu para levá-la até a porta, mas não mais à frente.

—Não sei por que o tem feito, lorde Kerrich, mas acredito que zombar de mim com beijos é uma crueldade que não mereço.

—Não a beijei por crueldade. Foi porque... - Kerrich se esforçou em encontrar uma razão que economizasse aos dois o abafado. - Porque queria me assegurar que não tinha sucumbido a minha beleza e minha elegante figura.

—Caminhou vaidoso para a porta, imitando com realismo a um janota. - Temia que planejasse visitar meu dormitório...

—Seu dormitório? O que eu fiz para lhe fazer pensar tal coisa?

—Nada. Mas já faz mais de uma semana que está aqui, e esse está acostumado a ser o tempo que demoram a maioria das mulheres em se apaixonar por mim.

—Me apaixonar por você! - exclamou ela com tom ambíguo, elevando a voz, e Kerrich o percebeu como uma afronta. - Senhor, você é um presumido.

—Não digo mais que a verdade. - Só era a verdade em parte. - Queria dissuadi-la de suas intenções.

—Me beijando? - perguntou ela, entrecerrando os olhos.

—Posso descobrir muitas coisas com um beijo. Por exemplo, que nunca a beijaram bem até agora, e agora sei que poderia lhe tentar a carne, mas tem uma vontade de ferro e resistirá.

Não podem seduzi-la.

—Certamente que não!

Olharam um ao outro com fixidez. Kerrich estava zangado. Os beijos mentiam, e as palavras ainda mais, mas se haviam dito muitas coisas. Se compreendiam muito bem. Não deveria ter ocorrido nada de tudo aquilo, e ele era o instigador. No que estava pensando? E por que, inclusive quando a olhava e via todos seus defeitos, seguia atormentado pela curiosidade sobre aquela mulher insolente, feia e desgraciosa?

A senhorita Lockhart afastou a vista.

—Se tiver terminado com seu experimento, irei me deitar. Sozinha.

—Sim. Excelente. Que durma bem. - Kerrich falava com as costas da senhorita Lockhart, e quando ela desapareceu, correu a servir uma jarra cheia de cerveja. A apurou de um só gole e logo se serviu a cerveja que restava. Só encheu a jarra até a metade e, se sentindo um pouco tolo, apurou a meia jarra que ela deixara sem beber. Depois do que ocorrera, necessitava isso e mais, e não sentia vontade de ver Moulton ou ao lacaio, se chamasse como se chamasse, ou ao que fosse a sua chamada. Podiam perceber a agitação em seu semblante e isso não poderia suportar.

Se sentou, se ajeitou em sua poltrona e olhou pela janela à rua. Só via o corpo erguido e sinuoso da senhorita Lockhart saindo pela porta, e recordava o que apalpara sob a roupa.

E se perguntava... se perguntava...

Sob aquelas roupagens sem graça, se ocultava um corpo magnífico.

Se ergueu na poltrona. A senhorita Lockhart queria ocultar... sua figura. Queria ocultar sua idade.

Kerrich a tinha olhado aos olhos. Olhos tumultuosos, da cor do céu incubando uma tormenta outonal. Olhos assustados. Furiosos. Esquivos.

Ocultava... que outra coisa ocultava? Descobriria no dia seguinte.

 

Mas no dia seguinte, Pamela tinha meio-dia de folga, e estava impaciente por abandonar a casa de lorde Kerrich para ir ver Hannah.

Pensava contar tudo a sua amiga: o prazer de suas conversações com Kerrich, a confissão de seus sonhos, o estranho comportamento de Kerrich - aquele beijo! - e sua própria fraqueza ao aceitá-lo.

Queria lhe contar que, ao abrir os olhos e ver o rosto de Kerrich, tão arrumado, tão odiosamente seguro de si mesmo, lhe parecera ver o pior pesadelo de sua vida.

Ela, Pamela Lockhart, beijara lorde Kerrich, um homem cujas façanhas sexuais sem dúvida ridicularizavam as de seu pai!

OH, sim, precisava confessar a alguém e que esse alguém lhe explicasse seu próprio comportamento.

Mas quando chegou à Distinta Academia de Instrutoras e Hannah a recebeu com alegres exclamações de boas-vindas, Pamela ficou muda. O afeto de Hannah, seus amáveis olhos castanhos, seu agudo engenho e sua amizade imperecível a convertiam na amiga perfeita, e como contava a uma amiga que ela se tornou louca?

Pamela utilizou os criados como desculpa para ordenar seus pensamentos, os saudando e agradecendo por ter cuidado de Hannah. Se encontrou levada nos braços ao escritório e sentada na poltrona mais cômoda justo diante da lareira. Hannah lhe mostrou uma carta de Charlotte, e ela a leu com a sincera esperança que o marido de Charlotte adquiriria de algum modo a sabedoria para amá-la como merecia.

Custou-lhe deixar a carta e voltou a ler alguns fragmentos, mas no final não pôde demorá-lo mais. Elevou a vista para a Hannah com um sorriso.

—Tire esses pós ridículos e esse abominável ruge. - Hannah estendeu um lenço. - Não posso te olhar com essa pintura.

Pamela riu e se aproximou do espelho. Com uma bacia de água que Cusheon lhe proporcionou, lavou a cara até que emergiu a Pamela que também conhecia.

Mas mudara. Seus olhos tinham uma expressão inquieta, em seus lábios se esboçava um sorriso esperançado. Pamela sabia que só precisava se voltar e dizer:

Lorde Kerrich me beijou, mas o que fez foi voltar a se sentar e dizer:

—Sinto-me muito melhor.

—É tão formosa, e pensar que as irracionais exigências desse homem a obrigam a ocultar sua beleza... - Hannah meneou a cabeça.

—Na realidade, de certo modo estranho é muito divertido. Ninguém nunca se fixa em mim. - Exceto lorde Kerrich, que me beijou.

—Me conte tudo - pediu Hannah, se inclinando para frente.

Lorde Kerrich me beijou.

—O trabalho vai bem. Beth é um encanto, nada tímida e sempre disposta a fazer o que lhe pedimos somente para ficar na casa de Kerrich. - Cusheon entrou com a bandeja de chá e Pamela agradeceu.

Hannah o serviu com o sobrecenho franzido.

—Sofrerá muito se lorde Presumido não fica com ela?

Lorde Presumido me beijou.

—Estou fazendo todo o possível por lhe ensinar tudo o que deve saber e ao mesmo tempo animo a ele a lhe dedicar seu tempo. - Pamela se se pôs a rir, fazendo a ilusão que soava normal. - Acredite ou não, têm muitas coisas em comum. Os dois adoram aos cavalos. - Aceitando o prato que lhe ofereciam, Pamela exclamou: - Cusheon! Minhas massas favoritas para o chá. Obrigado!

—Me alegro de voltar a vê-la, senhorita. - Cusheon se inclinou e iniciou sua lenta retirada para o vestíbulo.

Hannah se recostou em sua poltrona e inclinou a cabeça.

—Você chama ainda tão pouca atenção por acreditar que era uma feia solteirona? - brincou.

Sim, mas me beijou de todas as maneiras.

—É um homem! Os homens não veem além da superfície.

Cusheon só tinha chegado até a porta, e ali pigarreou.

—Exceto você, Cusheon. - Pamela lhe sorriu. - Toda a sabedoria do sexo masculino se concentra em você.

Ele voltou a se inclinar e saiu para montar guarda junto à porta.

—É cruel com você? - perguntou Hannah em voz baixa.

—Kerrich? Não, absolutamente. Na realidade não é tão detestável como tínhamos temido. - Nem sequer quando me beijou. Fez bem. - Me explicou as circunstâncias que o levaram a praticar este engano.

—Que circunstâncias? - perguntou Hannah com curiosidade.

—Já sabe que não posso lhe dizer isso. Terá que confiar em mim. Tem boas razões. - Por que defendia ao homem que a beijara e logo dissera que só era uma prova? Pamela passeou o olhar pelo escritório um pouco desvencilhado e relaxou pouco a pouco. Aquele era seu lar. Estava falando com uma de suas melhores amigas. Podia confessar tudo a ela, e o faria. Mas o que disse foi:

—Não obstante, me alegro muito de estar aqui e poder ser eu mesma.

—Pamela, a conheço. Não olha aos olhos. Está nervosa e agitada. - Hannah agitou um dedo. - Está me ocultando algo.

Me beijou.

—Eu? - A voz lhe saiu muito aguda.

—Não quer me contar isso porque então teria que admitir que estava equivocada. - Hannah tinha a expressão severa de uma instrutora. - Não confia em que se comporte bem com a menina quando terminar o engano.

—Não! Sei que fará algo por ela. Não é um mentiroso, só que... não quer amar. Possivelmente, ou melhor é seguro que não a adote como filha, claro que nunca houve muitas possibilidades que o fizesse, não?

—E Pamela sofria por Beth. - Mas parece que lhe tem carinho, ou ao menos tanto carinho como um homem pode ter a uma mulher. - Salvo que gosta de as beijar e reconheceu que eu sou uma mulher.

E eu quero confessar tudo... mas não o faço. Tenho medo e estou horrorizada comigo mesma. Realmente sou tão fraca como minha mãe?

A ideia era espantosa. Tinha querido muito a sua mãe. Seu pai a tratara de uma forma abominável. Mas sua mãe não deveria ter morrido de amor. Deveria ter vivido por sua filha e por ela mesma.

—Suponho que é normal que esteja cansada tendo que tratar com esse homem. - Hannah lhe deu uns tapinhas na mão. - Está fazendo tudo o que pode em umas circunstâncias difíceis.

—Isso é certo. Tive que preparar uma festa em uma semana, e embora os criados de Kerrich sejam competentes, toda a responsabilidade da organização recaiu sobre mim. Naturalmente - disse Pamela com total falta de modéstia, - a festa foi todo um êxito, e não me surpreenderia que a rainha já estivesse a par da boa obra de Kerrich. Talvez acabemos recebendo o pagamento final antes do que esperávamos.

—Esfregou as mãos em um gesto de fingida cobiça. Logo tirou astutamente o tema que mais apaixonava Hannah. - Mas não vim para falar sobre mim. Tem que me contar como vai a escola.

—Já que ao que parecia não sou capaz de te dizer que lorde Kerrich me beijou.

Os olhos de Hannah brilharam e se lançou a um exaustivo relato sobre a contratação de uma de suas alunas e o benefício obtido.

O êxito incipiente da escola animara Pamela quando, duas horas mais tarde, colocou o singelo xale de lã sobre os ombros e voltou apressadamente para seu trabalho. Sentiu uma vaga inquietação... e um impreciso deleite.

A inquietação podia explicar. Embora mal passava do meio-dia, umas nuvens negras obscureciam a luz do sol, e Pamela não voltara a percorrer sozinha as ruas de Londres desde seu encontro com aquele vil ladrão.

Bom... exceto aquela mesma manhã, quando percorrera o mesmo caminho para ir à escola de Instrutoras.

Mas sentir tal deleite ao ver Hyde Park Gardens! Sentir que o coração lhe dava um tombo ao divisar a mansão de Kerrich! Se sentir cômoda dentro dos limites do disfarce de novo assumido! Ah, isso lhe produzia uma sincera consternação. Kerrich era igual a seu pai. Era! E ela temia reagir a seus encantos de libertino igual a reagira ao caráter similar de seu pai: o desprezando por ser libertino e tratando de lhe agradar para desfrutar de seu encanto. Acaso não mudara absolutamente desde que, sendo uma jovem adolescente, fora conhecer a princesa e passar noite em Kensington Palace?

Tentara com todas suas forças gostar da princesa, e também de sua mãe. E não porque elas lhe importassem, oh, não, mas sim porque seu pai dissera. Porque seu pai decidira que, se sua filha as agradava, desejariam tê-la como dama de companhia para a princesa, e então ele teria suas influências em um entorno majoritariamente feminino.

Pamela fracassara, é obvio. A duquesa de Kent não permitira que ninguém mais que ela influísse em sua filha. A missão de Pamela estava condenada ao fracasso desde o começo.

O desagrado de seu pai era de prever. Mas ela tentara de todas as formas, e tão concentrada estava nisso, que mal se fixou no jovem Kerrich, bonito e sedutor.

Bom, agora sim se fixava nele.

OH, é obvio Kerrich não era de tudo igual a seu pai. Não tinha nenhuma amante, que ela soubesse, e parecia dedicado a seu banco mais que a perseguir mulheres licenciosas. Eram essas fracas virtudes que conseguiram ganha-la até o ponto de tê-lo beijado?

Ao se aproximar da mansão, quadrou os ombros. Devia se desembaraçar da nervosa Pamela. Cada passo que dava para a dupla porta maciça a aproximava mais de Kerrich, de Beth e do desafio com o que se enfrentavam.

Não podia permitir que Kerrich a distraísse com sua necessidade de conquistar a qualquer mulher que lhe pusesse na frente - a única explicação possível para seu inexplicável comportamento, —então recordou a si mesma que devia contribuir com dinheiro à escola de Instrutoras até que pudesse se sustentar por si só. Fortalecida sua resolução, voltou a se converter na senhorita Lockhart, instrutora de ferro.

Precisava ser valente por Beth. Para lorde Kerrich, precisava ser inexpugnável. Jamais voltaria a permitir que a beijasse para satisfazer sua curiosidade.

Pegou a magnífica aldrava de bronze com forma de garra de águia e a deixou cair com força.

Timothy abriu a porta e com tom de surpresa - poderia se dizer quase de horror, - exclamou:

—Senhorita Lockhart!

—O que? - Pamela entrou no enorme vestíbulo e elevou as mãos para tirar o alfinete do chapéu.

Ele a olhou com olhos muito abertos e expressão sobressaltada.

Pamela não imaginava o que havia nela que pudesse causar uma consternação tão grande. olhou-se no espelho e se sobressaltou antes de se dar conta de que a criatura pálida e de faces vermelhas que via refletida era na realidade ela, a senhorita Lockhart que Timothy estava acostumado a ver.

—Chego tarde? - perguntou.

—Não! - Timothy não sabia onde se meter. - Não, de fato esperávamos que chegasse...

—O que? - Pamela arqueou as sobrancelhas.

—Pode se retirar, Timothy - disse Moulton, chegando ao vestíbulo com seu sigilo acostumado. - Eu me encarregarei da senhorita Lockhart.

—S-fui - balbuciou o lacaio. - Obrigado, senhor Moulton.

Pamela entregou seu chapéu a Moulton e esperou que a informasse sobre as atividades de Beth. Deixara uma lista de coisas que a menina devia fazer com Corliss, a babá, embora supunha que só teriam feito uma parte.

Ao fim e ao cabo, ninguém podia substituir a disciplina de uma autêntica instrutora. Mas Moulton perguntou:

—Que tal seu meio-dia livre, senhorita Lockhart?

—Muito agradável - respondeu ela. Realmente devia admitir que desfrutara muito da oportunidade de ver a Hannah e de ser ela mesma durante umas quantas horas. Mas não podia se enganar.

A lembrança de Kerrich e de seus beijos não a abandonara em todo o tempo que passara com Hannah. Talvez a beijara porque sentia lástima por ela, ou porque precisava conquistar a qualquer mulher que formasse parte de sua vida, ou por simples curiosidade, mas ela precisava esquecê-lo!

E também precisava se manter fora de seu alcance.

Então, se alegrava de ter voltado.

—Beth causou algum problema a Corliss?

—Absolutamente. Corliss é muito competente. - Moulton pegou o xale de Pamela. - O que você fez em seu meio-dia livre?

—Visitei minha amiga e companheira da Distinta Academia de Instrutoras, a senhorita Hannah Setterington. - Pamela pôs uma mão sobre o corrimão. - E agora, irei...

—Vai tudo bem no negócio? - a interrompeu Moulton.

Moulton estava acostumado a ser muito digno e distante, um homem que demonstrava sua capacidade em todas as formas possíveis, o que fez que Pamela estranhasse. Não obstante, respondeu:

—Muito bem. A senhorita Setterington colocou a uma de nossas alunas como instrutora em uma boa casa.

—Estupendo. Isso deve tê-la alegrado muito.

Não era imaginação dela. Moulton atuava de um modo estranho. Pamela subiu o primeiro degrau com a intenção de partir educadamente.

—Mas já é hora que volte para o trabalho com Beth. Temos muito a fazer antes de poder aceitar um convite.

Moulton se apoderou da bandeja de prata que havia no vestíbulo e mostrou a Pamela uma coleção de envelopes selados.

—Chegaram esta tarde. Sem dúvida lhe darão a sensação de um dever completo.

—Sim, e provam que lorde Kerrich tinha razão ao pedir que déssemos a festa. - Um fato que ele não vacilara em assinalar... pouco antes de beijá-la.

Mas a seguinte vez que falassem, e a Pamela não preocupava absolutamente ver Kerrich depois daqueles beijos, ela não vacilaria em assinalar que Beth era o tipo de órfão que podia ser aceito entre a gente distinta: cortês, alegre, agradecida e obediente. Só Pamela compreendia a pressão que devia suportar ante semelhantes expectativas, pois ela a sentia também. Em sua seguinte saída, Beth não se atreveria a dar um passo em falso, especialmente para derrubar a outros meninos, fosse qual fosse a provocação. OH, era tanto o que devia ensinar à menina, e tinha tão pouco tempo!

Pamela subiu outro degrau, e uma vez mais Moulton perguntou:

—Que convites vai aceitar?

Pamela tinha na ponta da língua lhe recordar que ele trabalhava para Kerrich, igual a ela, e que Kerrich decidiria que convites se aceitavam. Mas uma vez mais estranhou que Moulton estivesse tão falador, recordou também o desconcerto de Timothy, e de repente se fez a luz.

—Lorde Kerrich levou Beth para montar esta manhã? - quis saber, lançando a pergunta com a mortífera intenção de um caçador.

Moulton retrocedeu.

—Moulton - repetiu Pamela, baixando o degrau-,lorde Kerrich levou Beth para montar esta manhã?

—Sim, senhorita Lockhart - respondeu Moulton afastando a vista.

—Está ferida? - ela perguntou com severidade. Kerrich fora um magnífico professor de equitação para Beth, e nos lombos de um cavalo, eram unha e carne. Falavam sobre tamanhos e passos, raças e cores, e Beth discutia inclusive com Kerrich, citando seu pai com ardor. Mas tanto Kerrich como Beth se sentiam frustrados pelas sensatas restrições que lhes impunha a presença de Pamela.

Ou seja os riscos que teriam deslocado aproveitando sua ausência.

—Não! - Moulton respirou com dificuldade. - A senhorita Beth estava sã e salva quando a vi pela última vez.

A voz do senhor Athersmith chegou da porta do estúdio de Kerrich.

—Tem medo de uma mulher, Moulton?

Pamela sabia que, quando tivesse tempo para pensar nisso, a surpreenderia o olhar venenoso que Moulton tinha dirigido ao senhor Athersmith.

—Não, senhor - disse Moulton.

—Mas tenta ganhar tempo. - O senhor Athersmith falava arrastando as palavras de um modo detestável; devia imaginar um patrício. - Acabe com isso e diga a ela.

Pamela compreendeu que Moulton não desejava ser portador de más notícias. Também ela era uma criada; sabia quão frequentemente era o mensageiro o que sofria as consequências.

—Senhor Athersmith - disse, - me diga você aonde lorde Kerrich levou minha pupila.

Por seu sorriso agradado, se notava que era isso exatamente o que o senhor Athersmith queria.

—A levou a um dos lugares mais impróprios aos que um homem pode levar uma menina. - Seus cabelos loiros caíram sobre sua testa em cachos perfeitamente adestrados e cativantes. - A levou às corridas de cavalos.

 

Pamela ficou no estribo da carruagem inspecionando a área que rodeava o hipódromo com desdém. Um montículo se elevava em meio da planície, e pelos gritos que chegavam do outro lado, supôs que o hipódromo se via dali. Pamela se encontrava onde estavam as carruagens estacionadas em fileiras. Choferes e lacaios montavam guarda ao redor, pois alguns habitantes dos subúrbios próximos rondavam por ali, esperando a oportunidade para levar uma roda ou se apoderar do que encontrassem no interior. Os moços de estábulo passeavam os cavalos que serviram de arreios, e Pamela se fixou em dois em particular, aos que seguira pelo Hyde Park. Não cabia dúvida que Kerrich e Beth estavam no hipódromo, que era, efetivamente, uma monstruosidade, como Pamela ouvira dizer, e embora não sabia por onde começar a procurar a sua pupila e ao calhorda que a levara ali, não permitiria que sua ignorância fosse um impedimento. E quando os encontrasse...

—Me desculpe, senhorita. - Um Timothy curvado e compungido fora designado como acompanhante para a proteger dos elementos mais desagradáveis da multidão. - Parece que vai chover.

Não conheço esta zona, mas se me permite isso, pegarei o guarda-chuva e irei procurar a sua senhoria e à senhorita Beth e...

—E o que? - Pamela o olhou com irritação. - Dará a sua senhoria a admoestação que merece?

—N-não, senhorita Lockhart, mas...

—Eu os encontrarei e os trarei de volta. - Pamela se afastou em direção ao clamor que surgia do alto montículo, abrindo caminho pelo labirinto de carruagens.

Timothy a alcançou, obstinado a seu negro guarda-chuva de lacaio.

Pamela não temia lorde Kerrich. Sim, a noite da véspera lorde Kerrich a beijara, mas isso não a convertia em uma marionete, nem sujeitava seu bom senso das brincadeiras que ele queria fazer a ela.

Kerrich afirmava que a beijara para provar seu caráter moral, pois ia enfrentar a senhorita Lockhart reta e estrita que tinha entrado em seu estúdio pela primeira vez, e não saberia o que fazer.

Na entrada topou com um uva sem semente com ares de entendido que levava uma cartola e um sujo colete dourado, e ao que faltava um e outro dente. Pamela pensou que poderia lhe servir de ajuda... em troca de dinheiro.

—Desculpe, senhor - disse com seu tom mais sério. - Onde se disputam as corridas de cavalos?

A severidade de seu tom não conseguiu impressionar o indivíduo. A olhou de cima abaixo, babou lascivamente e limpou a saliva do queixo com o dorso da mão.

—Os cavalos estão justo atrás dessa colina, e uma dama bonita como você necessitará um cavalheiro como eu para lhe fazer companhia enquanto aposta.

Timothy se adiantou com os punhos apertados.

—Não - disse Pamela. - Certamente que não.

Timothy retrocedeu.

Pamela respirou fundo, e o cheiro de genebra, tabaco e suor que despedia aquele indivíduo quase a afogou.

—A menos que conheça o hipódromo e saiba onde se reúnem os cavalheiros.

O trapaceiro meteu os polegares na cintura da calça.

—É claro que sim.

—Senhorita Lockhart! - exclamou Timothy.

Ela não prestou atenção ao lacaio nem a seu escandalizado protesto. Pelo aspecto das nuvens, se aproximava uma tormenta, e queria acabar com aquilo rapidamente. Então disse ao trapaceiro:

—Quero que encontre lorde Kerrich.

—A lorde Kerrich, diz? E o que tem esse que não tenha eu, heim?

—Limpeza, para começar - disse Pamela, o varrendo com um frio olhar. - Pode encontrá-lo ou não?

—E você pode me pagar? - replicou o trapaceiro, desviando o olhar para sua bolsinha.

—Quando o encontrar.

—Duas libras. A metade agora e a metade depois.

—Uma libra. A metade agora e a metade depois.

O indivíduo estendeu a mão embutida em uma luva negra de lã com os dedos desgastados, e Pamela contou cuidadosamente suas moedas.

—Timothy - disse. - Se assegure que este cavalheiro não sai correndo com meu dinheiro.

Timothy era um bom moço, mas ele ganhava menos de uma libra por semana. Jogou mão ao ombro do trapaceiro e disse:

—Me tomaria muito mal se fugisse.

—Não penso fazê-lo. - O trapaceiro mostrou sua escassa coleção de dentes. - Quero o resto do dinheiro, é claro que sim. - se dirigiu à entrada.

Aparecendo no interior da bilheteria, conversou com a garota que cobrava a entrada e logo fez um gesto a Pamela para que se aproximasse.

—Como um favor pessoal, Mary lhes deixará passar por uma libra. Cada um.

—Qual é o preço normal para entrar em um hipódromo? - perguntou Pamela, se voltando para Timothy.

—Dez xelins - respondeu o lacaio, fulminando com o olhar a Mary, quem a sua vez olhou ao trapaceiro com ira.

—Já não se pode confiar em ninguém - disse com pesar. - Me tem quebrado o coração, Mary, querida. Percebo que quer extorquir a mim e a esta senhora. Ou nos deixa entrar grátis ou terei que informar às autoridades.

Homens, pensou Pamela com ar taciturno, e seguiu ao indivíduo ao interior do hipódromo. Seja qual for sua situação na vida, todos veem as mulheres como pombinhos aos que têm que depenar e logo...

Sorriu depreciativamente à sujas costas do trapaceiro, as beijar. Logo acreditam que não se dará conta quando danificarem todo seu duro trabalho levando uma menina inocente às corridas.

Bom, se esse era o plano de lorde Kerrich desde o começo, ia ter uma decepção.

Pamela e seus dois acompanhantes subiram ao alto da colina. Uma rajada de ar no topo e o aroma da tormenta que chegava do canal os recebeu, mas abaixo viram o hipódromo e à multidão, muito numerosa, de espectadores que observavam contendo o fôlego o ovalóide marcado na erva. Os cavalos passaram ao galope, dobraram a curva em direção a eles, logo dobraram outra curva... e tudo terminou.

—Um prazer muito breve - comentou Pamela, torcendo o gesto como se na verdade fosse a temível senhorita Lockhart.

—Mas certamente um prazer - lhe assegurou o trapaceiro.

A seu redor os espectadores lançavam blasfêmias ou gemiam, dependendo do resultado de suas apostas. Os corretores de apostas iam de um grupo a outro, recolhendo e repartindo dinheiro, e embolsando um pouco.

Cavalheiros bem vestidos se mesclavam com homens como o trapaceiro, e não se viam senhoras por nenhuma parte, salvo por... bom, essas não eram senhoras.

O trapaceiro não deixava de estirar o pescoço como um pintinho esperando sua comida.

—Seguro que lorde Kerrich andará com um grupo de nobres como ele. Cômodo para os ladrões de carteira, sabe? assim os encontram facilmente.

Timothy se pegou a jaqueta justo por cima da cintura. O trapaceiro o olhou.

—Sim, e isso os ajudará a encontrar antes o botim. - Com um salto, se pôs a andar colina abaixo.

Pamela amassou no xale para se proteger melhor do vento e entrou entre a multidão atrás do indivíduo. Timothy a seguiu ofegando.

—Vamos, vamos - disse o tipo. Então, tão subitamente como começara a andar, se deteve.

Pamela olhou a seu redor, esperando ver lorde Kerrich e Beth por ali perto. Mas a seu redor só havia homens olhando para frente, se estirando para ver... o aroma de erva esmagada e uma chuva iminente, a excitação e desespero, se elevava feito ondas. No silêncio cada vez mais profundo, Pamela ouviu o som de cascos do apertado grupo de cavalos a galope.

Quando terminou, voltaram a ouvir as blasfêmias e os lamentos, e o trapaceiro a incitou a se mover, como se tivesse sido ela a causadora da interrupção.

—Vamos, vamos.

Quanto mais desciam, mais abundavam os cavalheiros bem vestidos. A presença de Pamela atraiu umas quantas olhadas severas, mas ela não prestou atenção a elas. Por fim, perto do pé da colina, chegaram a uma barreira de madeira que chegava à altura do peito, onde se apoiavam os cavalheiros para contemplar as corridas. Ali foi onde viu Kerrich e Beth.

—Aí os tem, senhorita - disse o tipo, fazendo um empolado gesto com o braço. - Lorde Kerrich e sua menina e uns cavalheiros... - Entrecerrou os olhos.

Beth estava de pé sobre uma caixa de madeira junto à barreira, com o moço de estábulo a seu lado. Kerrich estava um pouco mais longe, com o monóculo em seu lugar, falando com três homens de traje negro e chapéu marrom cinzento. Inclusive aos olhos inexperientes de Pamela, aqueles cavalheiros pareciam desconjurado entre a escandalosa multidão.

Quando o olhar do trapaceiro ,posou neles, seu sorriso de dentes negros se desvaneceu e deu um passo atrás.

—Espere a que lhe pague - ordenou Pamela.

Mas o trapaceiro seguiu retrocedendo cada vez mais depressa. Finalmente, deu meia volta e se pôs a correr, voltando a cabeça de vez em quando como se tivesse o diabo colados nos calcanhares.

Atônita, Pamela o viu partir sem saber a que se devia seu comportamento, mas convencida que seu medo era real. Voltou a olhar Kerrich e a seus amigos, e se sentiu invadida pela ira.

Kerrich não prestava a menor atenção a Beth, a deixara em mãos do moço de estábulo, que não tinha mais de dezesseis anos. E com a tormenta que se aproximava, além disso! Pamela se encaminhou para os culpados.

—Lorde Kerrich! - exclamou, com uma severidade extrema.

Vendo-a chegar, Kerrich levou a mão ao chapéu para saudar os cavalheiros desconhecidos, meteu o monóculo no bolso e se aproximou dela sem o menor indício de se sentir culpado ou envergonhado.

Sem o menor sinal de afeto. Certamente não parecia o homem que a beijara, depois que confessasse seus sonhos a ele, implantando em sua mente uma fantasia mais delirante.

Bem, dava igual. De todas as formas, não gostava de Kerrich.

—Como pôde? - Pamela seguiu andando para ele até que se encontraram cara a cara. - Como se atreveu?

—Me atrevo a muitas coisas. Entretanto, temo que não sei muito bem por que se zangou agora - disse Kerrich. Em seu aristocrático acento ressoavam com força as consonantes, e seu olhar era de acusado desprezo.

—Trouxe a menina aqui - Pamela apontou para Beth, que lhe sorriu e agitou a mão, - e a abandona para poder falar com esses inúteis que se dedicam a apostar - fez um gesto em direção aos cavalheiros vestidos de negro, - e quando pego em flagrante, o safado não mostra o menor remorso.

—Fofocas! Essa menina sabe mais sobre este hipódromo que eu, nunca me afastei mais de dez metros dela, e esses cavalheiros não são uns inúteis.

—Por isso acabam de escapulir como umas baratas?

Kerrich olhou para onde antes estavam. Os homens desapareceram entre a multidão, mas era fácil detectá-los. Quantos se cruzavam com eles se separavam de um salto como marinheiros fugindo do escorbuto.

—Tinham outros assuntos que atender.

—Palhaçadas.

Kerrich sorriu com os dentes apertados.

—Cuidado com o que diz, mulher. Talvez tenha me beijado, mas isso não lhe dá direito a ser insolente.

Pamela ficou sem respiração. Não teria se escandalizado mais se lhe tivesse dado uma bofetada.

—Baixe a voz - ordenou, e acrescentou em um furioso sussurro: - Eu não o beijei. Você me beijou , e foi uma experiência muito embaraçosa.

—Definitivamente.

Bom. Estava de acordo com ela. Se alegrava. Pamela não queria que Kerrich recordasse aqueles beijos com ternura.

—Não obstante - disse ele, - eu a contratei, sou um aristocrata e um homem, e por essas três razões mereço seu respeito.

Pamela se voltou para Beth, que apoiara o cotovelo no alto da barreira e os olhava como se fossem artistas guias de ruas representando uma função por uns trocados.

Umas quantas pessoas mais observavam a cena que se desenvolvia ante eles, mas a maioria estava mais preocupada com negras nuvens.

Graças a Deus. Pamela não suportava se converter em espetáculo para aqueles apostadores.

—Por essas razões, tem meu respeito - disse, baixando ainda mais a voz.

—Senhorita Lockhart - disse ele, e no silêncio súbito que se produzia ao iniciar uma corrida, sua voz ressoou com força, - vim hoje ao hipódromo porque devia falar com esses cavalheiros que, igual a mim, estão relacionados com o negócio dos bancos e os assuntos financeiros. Tínhamos coisas importantes das que tratar, e não podia lhes dizer que não porque teria que levar a menina comigo.

A corrida terminou, os apostadores expressaram sua clamorosa alegria e seu dramático pesar.

—Então, não deveria ter trazido a menina - afirmou Pamela, elevando a voz.

Com os braços cruzados e as pernas abertas, Kerrich lançou a Pamela um olhar furioso.

—Precisava fazê-lo.

Calhorda.

—Não tente fazer que me sinta culpado por ter descuidado meus deveres. Beth tinha à babá para cuidar dela, e eu deixara tudo para que Moulton tivesse uma alternativa se acontecia algo a Corliss.

—Você não o entendeu bem. Não há nenhum problema em que tenha meio-dia livre, e Corliss estava em seu posto quando a vi pela última vez.

—Estava chorando?

—Corliss? Chorando? - Kerrich retrocedeu como se a só ideia o ofendesse. - Não sei. Como ia eu me fixar nisso?

Sua completa indiferença avivou o ressentimento de Pamela.

—Quando eu a vi, estava chorando porque sabia que eu me zangaria com ela.

—Com ela? Por que você haveria de se zangar com ela? Quando decidi levar Beth, ela não podia fazer nada por me deter.

—Eu lhe disse isso. - Pamela ouviu outro estrondo de cascos de cavalos e, surpreendida de que se celebrasse outra corrida tão rapidamente, olhou para a pista.

Então compreendeu que o que ouvia era o clamor dos trovões. - Mas uma simples babá compreende o que é evidente que você não alcança a compreender.

—Senhorita Lockhart, talvez isto seja uma total surpresa para você, mas sou um caveira. Um homem solteiro muito solicitado, e estou farto que me trate como a um menino que necessita disciplina.

—Kerrich teve a audácia de lhe dar uns leves golpes por cima do peito. - Sei o que está bem. Sei o que é adequado. Não necessito que você me diga, nenhuma babá.

—O que você fez à reputação de Beth é o que qualquer caveira sem escrúpulos faz à reputação de uma mulher solteira: a empanou ao trazê-la a uma atividade indecorosa para ela.

—Pamela quis apontar para Beth e descobriu que a menina tinha se interposto entre eles. - Agora ninguém quererá adotá-la.

—Não importa, senhorita Lockhart - disse Beth com tom tranquilizador. - Lorde Kerrich vai me adotar.

Kerrich ficou boquiaberto. Logo se voltou para Pamela e a olhou com ira.

Pamela não sabia que verdades não teriam saído então à luz, com a combinação da irascibilidade de Kerrich e o receio dela, mas a tormenta estival explodiu por fim com toda sua força.

A chuva caiu sobre eles, impulsionada pelo vento, pegando o vestido empapado ao corpo de Pamela, empanando seus óculos, fazendo que contivesse o fôlego ao notar o frio instantâneo.

Até o mais endurecido dos apostadores saiu correndo, agarrando a cartola e correndo para sua carruagem.

—Deveríamos partir - gritou Pamela, tirando os óculos, e uma rajada de vento lhe lançou a chuva ao rosto.

—Sim, translademos esta briga a um lugar mais cômodo. - Kerrich sorriu a Pamela com crueldade. - Minha biblioteca.

Ela o olhou com o sobrecenho franzido. Pretendia evocar a lembrança daqueles beijos perturbadores? Impossível. Dizia que foram embaraçosos.

Timothy se colocou atrás delas, as protegendo do vento o melhor que podia, as tampando com o guarda-chuva. A tormenta o voltou do reverso imediatamente, fazendo que Timothy cambaleasse.

—Lorde Kerrich - gritou Beth, - diga à senhorita Lockhart por que me trouxe ao hipódromo.

Ele olhou à menina com zanga através do aguaceiro.

—Porque você me pediu isso.

—Mas no princípio você não queria me trazer. - Beth agachou a cabeça para se proteger da chuva.

Pamela tirou o xale e envolveu com ele a cabeça e os braços de Beth.

—Já falaremos disso mais tarde - disse, mas Beth teimou.

—Diga-lhe lorde Kerrich.

—Agora não! - Kerrich pôs a mão nas costas de Beth e a conduziu para o alto da colina e a calma eventual do interior da carruagem.

—De todas as formas, a senhorita Lockhart sabe o que mais convém em qualquer circunstância. Não vou gostar dela mais por ter cedido a sua chantagem. Lacaio, leve a menina à carruagem!

Timothy pegou Beth nos braços, que protestou ruidosamente, e a levou a carruagem.

Kerrich e Pamela ficaram sozinhos. Ele a pegou pelo braço e a levou para frente. Os olhos de Pamela ardiam e os esfregou. Quando chegaram ao alto da colina, o vento e a chuva os açoitaram totalmente.

Muito à frente deles, Timothy corria com Beth para o lugar de onde rapidamente foram desaparecendo as carruagens, o chofer estava atando os cavalos nos que chegaram Kerrich e Beth à parte posterior da carruagem.

—Que condenado embrulho - disse Kerrich.

—É sua culpa - murmurou Pamela, embora sabia que não devia seguir lhe provocando. Então, uma rajada pareceu se vingar dela deslizando sob a aba de seu chapéu, que saiu da sua cabeça e ficou pendurado à costas, seguro tão só pela fita atada sob o queixo. Pamela tratou de devolvê-lo a seu lugar.

—Tire-lhe ordenou Kerrich ao ouvido. Por seu tom, parecia mais ofendido ainda que antes.

Pamela teve que gritar para se fazer-ouvir em meio do clamor da tormenta.

—Uma dama não tem que ser vista jamais em público sem...

—OH, pelo amor de Deus! - Kerrich se deteve, a obrigou a se voltar para ele, desatou as fitas molhadas, tirou-lhe o chapéu e uivou: - Não é o momento de se preocupar pela conveniência de levar este feio chapéu.

A chuva deslizou diretamente pela cabeça descoberta de Pamela, que arrebatou o chapéu de Kerrich.

—Não é feio - espetou.

—Tem razão. - Kerrich lhe esfregou a face e logo olhou os dedos. - É horroroso!

—É perfeito para uma velha solteirona como eu. - Pamela inclinou a cabeça em um gesto de recriminação final, se dando conta do estranho olhar que lhe dirigia, logo se voltou e seguiu andando.

Seu cabelo caía pelo rosto e o jogou para trás.

Pamela demorou um momento em se dar conta de que ele não a seguia. Por alguma misteriosa razão, seguia plantado no mesmo lugar, em meio do barro, do vento e da chuva.

Justo quando Pamela acreditava que as coisas já não podiam ser pior, Kerrich ia ficar teimoso. O olhou ao mesmo tempo que ele se punha a andar para ela. Pamela se deteve; Kerrich se equilibrou sobre ela com tal ímpeto que a fez acreditar que ia enrola-la. Tentou esquivá-lo, mas ele a pegou pelos braços e a apertou contra seu corpo. Pamela elevou a vista para ele.

Kerrich soltou uma maldição, uma das que se ouviam nos estábulos quando um cavalo pisava a alguém.

—Milorde - exclamou, incômoda pela proximidade, confusa pela ira de Kerrich. - Lhe rogo que recorde com quem está falando!

—Com quem estou falando? - perguntou ele.

—C-como? - disse Pamela, sem compreender.

—Senhorita Lockhart. - Kerrich a sacudiu, mas a tinha tão apertada contra seu corpo, que o castigo não foi mais que um incômodo. - Senhorita Mentirosa!

A Pamela deu um tombo ao estômago.

Kerrich deslizou uma mão ao redor de sua cintura e logo, com a outra, limpou a face dela e lhe mostrou os dedos.

—Olhe isto, senhorita Lockhart. A água levou seu disfarce.

 

Quando a carruagem se deteve ante sua mansão e Timothy saltou ao chão da parte posterior e correu para o edifício, Kerrich abriu a portinhola de par em par e gritou:

—Não se incomode em ir procurar outro guarda-chuva. Agora já vi tudo.

—Milorde? - Empapado, confuso e consternado, Timothy se deteve ante a porta aberta da casa e ficou boquiaberto.

Kerrich saltou ao chão justo em meio de um atoleiro, baixou o estribo pessoalmente, alargou a mão para o interior da carruagem, pegou Pamela pelo pulso e a arrastou para fora. A chuva açoitou o rosto de Pamela, que teria querido rodear o corpo com os braços para mitigar o frio, mas ele a arrastou atrás de si como um estivador conduz sua carga.

Semelhante trato não lhe granjeou precisamente o carinho de Pamela, que resistiu a avançar com todas suas forças.

—E Beth?

—Estou aqui - respondeu a voz suave de Beth.

—Vem atrás de nós. - Kerrich voltou a cabeça bruscamente e fulminou Pamela com o olhar. - Ela pode usar o guarda-chuva. Ela não fez nada mau.

Timothy saiu correndo da casa com um guarda-chuva e se apressou a tampar Beth com ele, que subia as escadas.

Kerrich entrou na casa sem mais cerimônia, ainda segurando Pamela pelo pulso.

—Suponho que você também sabia, Moulton.

—Milorde? O que sabia...? - Moulton viu Pamela e a olhou com assombro. O único som articulado que pareceu capaz de pronunciar foi uma larga exalação: - Oooh.

No vestíbulo ardiam as velas por toda parte: altas e finas, grossas colunas, todas de cera e todas soltavam uma luz brilhante. Quando Kerrich voltou a vista para Pamela, se deteve em seco.

Pamela conseguiu não tropeçar com ele com muita dificuldade. Furioso que estava Kerrich, suspeitava que esse tipo de contato podia ser perigoso. Pamela pensou que, se Kerrich precisava a rodear com o braço para segurá-la, talvez se aproximasse muito e a precária hostilidade que havia entre eles se fizesse pedaços, se transformando em... bom, não sabia no que, mas seria algo muito desagradável. Como seus beijos.

Kerrich examinou seu rosto a descoberto.

—Você tem este aspecto... - Deixou a frase inconclusa, como se a ira o impedisse de se expressar com coerência.

—Duvido, milorde, que agora tenha muito bom aspecto.

Kerrich se abateu sobre ela como uma presença escura e colérica.

—Comparado com o que tinha antes...

Pamela deveria ter se preocupado, mas na realidade tinha vontade de brigar.

—Todo este assunto é culpa sua, não minha - disse sem vacilar.

Moulton chiou entre dentes.

—Como se atreve?

Ela se ergueu e o olhou com seu cenho mais severo de senhorita Lockhart, mas já não funcionava.

—Beth - ordenou ele com tom autoritário, - vá para cima com sua babá, como se chame.

—Corliss - disse Pamela.

—Sim, senhor. - Beth fez uma reverência.

Pamela se voltou a tempo para ver a menina subindo as escadas saltitando, sem que ao que parecia lhe perturbasse ao mínimo que um lorde hostil levasse a rastros a sua instrutora.

—Troque de roupa imediatamente, ou pegará uma pneumonia - lhe disse Pamela.

Beth saudou com a mão e sorriu.

Pamela começava a encontrar suspeito o inquebrável bom humor de Beth.

Kerrich se encaminhou para seu estúdio, puxando Pamela, e esta duvidava que tivesse podido detê-lo força alguma da natureza.

O deteve seu avô.

Lorde Reynard saiu do estúdio, se apoiando em sua bengala, e de uma só olhada se encarregou da situação.

—Vá, vá, que bom aspecto têm, meus filhos. - Estendendo os braços para Pamela, disse: - É tão encantada como recordava.

—Obrigado - disse ela fracamente. Quanto fazia que lorde Reynard sabia tudo?

—Quando se conheceram? - perguntou Kerrich, voltando a cabeça avidamente.

—Durante uma de minhas visitas a Kensington Palace, filho.

—Sério? - Kerrich olhou para Pamela fixamente, tratando de recordá-la.

Não, por favor, não recorde isso.

—Entre aí e deixe que meu neto lhe grite - disse lorde Reynard, lhe dando uns tapinhas nas costas. - Mas tampouco se deixe avassalar.

Pamela entreviu uma possibilidade de fuga.

—Deveria ir me trocar primeiro.

Kerrich estendeu a mão rapidamente, e embora Pamela retrocedesse, voltou a segurá-la pelo pulso.

—Não - disse.

—Isso, moço - comentou lorde Reynard, sorrindo com afeto. - Não a deixe escapar. - E se afastou coxeando.

Kerrich empurrou Pamela para a porta do estúdio e soltou um:

—Fora.

Por um maravilhoso instante, Pamela acreditou que falava com ela. Mas então ouviu o rangido de uma cadeira e viu Lewis, com a pluma em riste sobre os papéis jogados pela escrivaninha de Kerrich, e uma expressão de surpresa e incredulidade.

—Devon - perguntou, - quem é esta senhorita?

—Você quem acredita que é? - perguntou Kerrich.

—Se parece com... parece...

—Por amor de Deus, homem, diga de uma vez. É a senhorita Lockhart!

—Céus. - Lewis se levantou empurrando a cadeira para trás com tanta força que deu contra a parede. - Céus.

—Sim, meu órfão é uma menina e minha velha e feia instrutora é uma formosa jovem. Ao que parece aqui todo mundo é um farsante. - Kerrich apontou Lewis com um gesto empolado.

—Tem você algum segredo que queira confessar? Estou de bom humor para ser indulgente com você. Toda minha ira recairá sobre a senhorita Lockhart.

—Vou - murmurou Lewis, recolhendo seus papéis em uma pilha. - Irei trabalhar em outra parte. - Rodeou a escrivaninha. - Eu... hum... - Olhou para Pamela como se a compadecesse. - Boa sorte, senhorita Lockhart.

—Maldito idiota - resmungou Kerrich quando seu primo saiu. Logo fechou a porta de um chute.

Pamela puxou o pulso apanhado e deu meia volta para se encarar com ele.

—Não somos artistas de circo, milorde. Somos seres humanos racionais e não há razão para fazer uma cena como a que acaba de fazer.

—Não há razão? - Com as mãos sobre os ombros de Pamela, Kerrich a impulsionou para frente para que se visse em um dos espelhos da parede. Pegou um candelabro da mesa que havia sob o espelho e sustentou a meia dúzia de velas que ardiam com luz vacilante tão perto de sua cara, que pôs a descoberto até a última curva. - Olhe-se e se atreva a repetir que não há nenhuma razão.

Embora Pamela ainda tivesse um pouco de ruge nas maçãs do rosto, a maior parte dos pós de arroz desaparecera. A metade do cabelo se soltara, e o tinha caído sobre os ombros molhados.

Seu aspecto era o de uma jovem em apuros, mas uma jovem no fim das contas.

Kerrich a olhava com consternação renovada, lançando brilhos furiosos nos seus olhos castanhos, com uma expressão terminante de desagrado nas sobrancelhas, e o cabelo tão negro e molhado que tinha quase um brilho purpúreo.

—Isto é incrível - disse, logo gritou: - Moulton! - se dirigiu à porta. - Moulton!

A porta se abriu quase em seu nariz.

—Senhor? - Moulton ainda parecia confuso... e regozijado.

—Me traga uma bacia com água quente. Sabão. Um pano. Uma toalha.

—Em seguida, milorde - disse Moulton, se inclinando.

—Jamais o vira se mover tão depressa. - Pamela se apoiou na mesa e examinou sua imagem no espelho.

—Duvido que tenha sentido antes tanta curiosidade como agora. - Kerrich contemplou o vestíbulo como se todas as respostas estivessem ali. - Como lhe pôde ocorrer embarcar em semelhante engano?

—É sua culpa - repetiu ela. - Acredita que teria feito isto se você não o tivesse exigido?

Kerrich a encarou com escrupulosa paciência.

—Eu o exigi? Eu exigi que usasse roupas como... essas? Eu exigi que cravasse agulhas de tecer no cabelo? Eu exigi que se pintasse de branco e vermelho como uma espécie de porcelana oriental?

—Seus lábios se torceram em uma careta. - E é verdade que faz ponto de tricô? - perguntou, apontando para ela.

Pamela se pegou ao bordo da mesa, enfrentou o olhar de Kerrich no espelho, e imitou com ironia a voz profunda e cortante de Kerrich.

—OH, senhorita Setterington, quero uma mulher velha, uma mulher feia, uma mulher que tenha renunciado a toda esperança de se casar. Senhorita Setterington, lhe darei muito dinheiro se me conseguir uma mulher que seja indiferente a minha espetacular beleza. Estou farto que as mulheres me acossem. - Pamela se voltou e o olhou com expressão desdenhosa. - E sim, sei fazer ponto de tricô!

—Mulher-macho!

Moulton apareceu na porta a tempo para ouvir o insulto de Kerrich, e se deteve com um pé no ar. Kerrich pegou a bacia e as toalhas.

—Bem. Agora pegue umas mantas e uma bata. Duas batas.

—Milorde? - Moulton o olhou com os olhos arregalados.

—Batas. Vá pega-las. - Kerrich deu um passo para trás e fechou de um chute.

Pamela o olhou enquanto caminhava para ela com passo resolvido. Estava mais que familiarizada com aqueles longos passos, com a lábia que utilizava para obter informação, provas... uma confissão.

Jamais admitiria que cometera um engano. Mais ainda, jamais acreditaria que pudesse cometer um engano. Uma mulher com recursos trataria de aplacá-lo.

—Não fiz mais que cumprir com suas exigências - disse. - Não posso fazer nada se se você é mais que um solteiro presumido.

Kerrich colocou a bacia sobre a mesa, molhou o pano e o escorreu. Pela primeira vez, Pamela compreendeu o que pretendia fazer. Tentou lhe tirar o pano úmido, mas ele afastou suas mãos e se aproximou tanto a ela que a mesa se cravou na parte posterior das coxas enquanto ele as apertava na frente. O vestido empapado e as anáguas não bastavam para a proteger daquela intimidade, e tentou escapulir.

Mas ele segurou com força seu queixo e lhe limpou a cara como se fosse uma menina: a testa, as faces, o nariz, a boca...

Pamela poderia ter se debatido, mas suspeitava que Kerrich a teria submetido sem reparar nos meios, que desfrutaria fazendo-o.

Kerrich lhe desabotoou o colarinho e o jogou no chão, logo lhe lavou o pescoço. A pele de Pamela ardia; não sabia se era pelo desgosto ou porque Kerrich se empregava a fundo esfregando-a.

—Isto é desnecessário - disse, agarrando os pulsos de Kerrich.

—Eu diria que era extremamente necessário - replicou ele, retrocedendo para olhá-la. Sua voz desceu uma oitava. - Bom, se olhe agora. Ele a estava olhando e Pamela reconheceu sua expressão.

A vira em outros homens; a vira nele: um olhar acariciador, as janelas do nariz se agitando, o lábio inferior adiantado, como considerando a possibilidade de um beijo.

—Estou molhada e manchada de barro - espetou. - Me doem os pés do frio e tenho o cabelo jorrando. Não sou o tipo de mulher que atraia um perito como você.

Kerrich se inclinou até aproximar o rosto a uns centímetros do de Pamela e seu fôlego lhe acariciou a pele.

—Menos mal, senhorita Lockhart, que de vez em quando você me recorda sua profissão.

—A que se refere? - perguntou ela, voltando atrás quanto pôde.

—Acaba de me informar sobre meus sentimentos. - Kerrich baixou as pálpebras, contemplou os lábios de Pamela. - Graças a Deus, do contrário, teria tomado esta sensação por desejo.

—Não. - Alarmada, Pamela se fez para um lado para se afastar dele. - Não, não o é.

Ele não a perseguiu, como quase esperava Pamela. Claro que estavam na formosa biblioteca de Kerrich em sua bem protegida casa. Não tinha por que persegui-la.

Ficaram em silêncio, se olhando fixamente. Ele, porque parecia obter satisfação em olhá-la. Ela, porque não ousava afastar a vista dele.

Quando alguém bateu na porta, Pamela deu um salto e afogou uma exclamação.

—É Moulton - disse Kerrich com indiferença. Se dirigiu à porta sem passar perto de Pamela.

De todas as formas, ela se afastou um pouco mais.

—Traz as mantas e as batas. - Desta vez, Kerrich só abriu uma fresta, sem permitir que Moulton a visse sequer de relance, pegou o montão de lã e veludo, e voltou a fechar de um chute.

Batas. Duas. Pamela ouvira que as pedia, mas a injustiça da inoportuna revelação de seu segredo a ofuscara até o ponto de não compreender para que Kerrich as queria.

Ainda seguia sem compreender, e em qualquer caso não pensava fazer o que ele quisesse.

—Tome. - Kerrich lhe jogou uma manta e uma elegante bata de cor verde escura. - Fique atrás desse biombo e se dispa para se secar.

—Não penso fazê-lo.

—Fará, se não quiser pegar uma pneumonia. - Kerrich lhe sorriu como se tivesse a cara dura de estar se divertindo. - É o que disse a Beth.

Então, o sorriso desapareceu e ela compreendeu que possivelmente estivesse se divertindo, mas uma tormenta se agitava sob a superfície.

—Faça o que lhe digo, ou o farei eu por você.

Aquilo era pior do que Pámela acreditava. Estava na casa de Kerrich. Podia gritar até ficar afônica e ninguém iria em seu resgate. E possivelmente estava sendo muito melodramática, mas... não havia um só servente masculino na casa que fosse objetar se ele a estrangulasse, e muito menos se a despia à força. Os homens apoiavam uns aos outros. Vira provas disso mais que suficientes em sua vida.

—Não vou ficar no mesmo lugar com você sem vestir nada mais que uma bata.

Kerrich alargou a mão para o vulto de roupa que Pamela tinha nos braços.

—Então a guardarei eu.

Pamela teve o senso comum de retroceder.

—Está se comportando como um porco.

—Me comporto como um homem ao que se deixou em ridículo. - Apontou a porta. - Os criados estão na cozinha agora mesmo rindo a gargalhadas. Lewis deve estar se dobrando de risada por me ver humilhado.

E meu avô sabia, não é?

—Não!

—Sim! Não fez mais que soltar indiretas sobre sua idade e sua beleza desde que chegou.

—Se isso for certo, não será porque eu o tenha dito.

—É porque sabia. Recordava de você. Quem mais a recorda?

—Você não, é evidente.

—Tínhamos nos visto antes? - perguntou ele, subitamente atento.

Ela amaldiçoou sua língua impetuosa. Recordar seu primeiro encontro seria, naquele instante, o cúmulo da estupidez.

—Se assim fosse, significou tão pouco para mim como significou para você. Além disso, lhe dá igual o que pensem outros. Recorda? - Uma vez mais, baixou a voz.

—"Um homem que se deixa governar pelas crenças dos ignorantes é a sombra de um homem. De fato, poderia se dizer que esse homem é uma mulher." - Pamela sorriu em uma odiosa imitação de um homem odioso.

—Deixe de repetir minhas frases.

Pamela riu agora de boa vontade. Se cotado um tanto pela primeira vez no dia.

—Irei acima vestir uma roupa seca.

—Ficará aqui e colocará minha bata.

—Devo pensar em minha reputação.

—Senhora, se não se tirar essa roupa agora mesmo, prometo que deixarei sua reputação em farrapos.

Ao vê-lo com a cabeça agachada e ouvir sua veloz réplica, Pamela compreendeu que Kerrich perdera a paciência, e desta vez optou por agir com sensatez.

—Me beijou antes. - Pamela elevou as mãos com as palmas para cima. - Deve me prometer que se me despir, não tentará voltar a me beijar.

—Senhorita Lockhart, a única coisa que lhe prometo é que lhe tirarei a verdade seja como for. - Apontou o biombo. - Agora vá aí atrás e se dispa.

Pamela não conseguira nada, mas Kerrich estava a ponto de acelerar as coisas por sua conta, de modo que se apressou a obedecer. Kerrich tinha razão, o muito canalha, não queria que lhe tirasse as roupas molhadas, e especialmente os empapados sapatos de pele. E se precisava obedecer a ele e a seu próprio coração, seria melhor que o fizesse o mais depressa possível. Não gostaria de jeito nenhum impulsionar Kerrich a agir por sua conta.

Se retorcendo no pequeno vão que havia atrás do biombo, Pamela desabotoou os botões das costas. Depois de uma rápida olhada para comprovar que não a observava, o tirou pela cabeça.

—Deveria ter imaginado que acabariam descobrindo-a - disse ele.

—Por que? - Por sua voz, Pamela calculou que Kerrich devia estar perto da lareira, assim relaxou um pouco a vigilância. Desatou as anáguas, as deixou cair ao chão e tirou os pés.

—Uma vez que se assegurou que era a mulher idônea para a tarefa, não voltou a me olhar.

—Eu... claro que a olhei.

Pamela fez caso omisso de sua indignação. Não havia cadeira, de modo que se sentou no chão e lentamente, com esforço, conseguiu desabotoar os botões de seus sapatos.

—Queria que o trabalho se fizesse o antes possível, assim sabia que não teria que fingir durante muito tempo.

—A vi. Sabia que havia algo estranho em você. - Kerrich fez uma pausa e logo, com absoluto deleite, acrescentou: - A beijei.

—Necessitava o dinheiro.

—E pensava obtê-lo me beijando? - Por seu tom, parecia que estava rindo.

—Não, milorde o brincalhão. Fazendo que seu plano tivesse êxito. - Colocando a mão sob as meias, desabotoou as ligas e tirou as meias.

Um calafrio percorreu seu corpo quando o ar bateu na pele úmida, e se envolveu na manta. - Como você teve a amabilidade de assinalar, milorde, as mulheres fariam qualquer coisa por dinheiro.

Kerrich respirou fundo e logo exalou o ar em um lento e comprido suspiro.

—Exceto você. - A fúria com a que rapidamente replicava antes se converteu em preguiçosa reflexão. - Você não se casará por dinheiro.

Ela não se tranquilizou. Não entrara em razão. Seguia tão furiosa como no hipódromo.

—Não me casarei nunca - chiou. Então ouviu si mesma, gritando como uma das amantes de seu pai. Olhou as mãos trêmulas, dominou sua voz e disse, mais acalmada: - Mas não é isso o que quer, não?

—OH, não sei. Talvez fosse a resposta a meus problemas. Você é inteligente, de boa família, e se for tão preciosa como assegura Colbrook, teria me feito com uma esposa a que inclusive a rainha Vitória aceitaria.

 

Pamela saiu disparada de trás do biombo, disposta a pôr Kerrich em seu lugar.

Mas o encontrou diante do fogo, absolutamente nu.

Nu. De perfil. Com os braços levantados, fazendo ressaltar os músculos. Uma toalha na cabeça enquanto se secava o cabelo.

Um fino pelo negro cobria ligeiramente sua pele limpa e resplandecente, sobretudo do peito até o púbis. Especialmente ao redor do vulto que...

Pamela fechou os olhos, mas voltaram a se abrir sem que ela quisesse.

As pernas de Kerrich. Pernas também musculosas, longas e atléticas, e o resplendor dourado do fogo acariciava toda sua pele de um modo encantador.

Não deveria olhar. Deveria voltar a ficar atrás do biombo. Para que tinha saído?

Seu silêncio deve ter parecido suspeito para Kerrich, porque afastou a toalha e a encarou.

Pamela teria dito que a curiosidade, uma vulgar curiosidade, a impeliria a contemplar de novo seu corpo, ou que a mortificação a faria sair correndo. Mas a força de vontade de Kerrich a impulsionou a lhe olhar o semblante. A olhar seu sorriso lento e matreiro, o cabelo arrepiado em ponta depois de secar-se, o nariz reto e a sombra de barba no queixo. E seus olhos... marrons era um adjetivo muito comum, mas eram marrons. De cor marrom escura. Entretanto, uns fios avermelhados entreteciam matizes cativantes, e suas pestanas negras recalcavam a autoridade daquele olhar admirável e persuasivo.

Se se pudesse dar a uma cor o nome de pecado, seus olhos eram dessa cor.

—Senhorita Lockhart. - Kerrich abriu os braços. - Gosta do que vê?

—Lorde Kerrich, você não tem vergonha. - Pamela utilizou seu tom mais implacável, mas seu olhar deslizou para baixo, enquanto apertava a manta ao redor do corpo. Tinha visto um e outro menino nu.

Ao fim e ao cabo era instrutora. Mas isto era completamente diferente. Kerrich tinha os ombros largos, os quadris estreitos, as proporções perfeitas para levar a roupa com elegância... ou não levá-la.

Supôs que sua excelente figura se devia a tê-la exercitado muito montando a cavalo e no salão de boxe. Mas que exercício praticara para adquirir tamanha... dimensão viril?

A maioria dos homens não parecia avultar em excesso as calças.

A verdade era que tampouco ele o parecia. Era esse tronco em suas partes íntimas o sinal de que ela devia sair correndo, embora estivesse em trajes íntimos?

—Não, não tenho vergonha - disse ele. - Não há motivo algum para que a tenha, e como futuro marido...

Agora Pamela recordava por que saíra de trás do biombo como uma fúria, e as palavras de Kerrich reacenderam sua ira.

—O casamento não é coisa de risada.

—É claro que sim que não.

—Nem tampouco uma frivolidade que possa se decidir se apoiando na forma dos olhos de uma mulher.

Kerrich paquerou com ela do outro extremo do estúdio: um leve sorriso, uma lenta piscada, um olhar lânguido.

—Eu não estava pensando na forma de seus olhos.

Exasperante!

—Sabe muito bem que não me casaria jamais com um homem como você.

Ele jogou a toalha a um lado e caminhou para ela. Era tão... grande. Moreno. Grande. Pamela se debatia na dúvida de se seria melhor o golpear com os punhos, ou seguir segurando a manta. Então ele passou por seu lado, foi atrás do biombo e saiu com uma das toalhas secas.

Não tendo a menor ideia de quais eram suas intenções, Pamela não soube como esquivá-lo. A toalha lhe caiu sobre a cabeça antes que pudesse se afastar, e a seguir notou as mãos de Kerrich lhe esfregando o cabelo sem piedade.

—O que tem de mau um homem como eu?

Estava atrás dela, muito perto para se sentir cômoda, tão perto, que a Pamela chegava o aroma fresco que deixara a chuva em seu corpo e captava indícios ocasionais de seu calor envolvente.

—Você é um caveira - disse, utilizando uma mão para tentar o afastar dela. - Está orgulhoso de sê-lo.

—Melhor será que segure essa manta, se não quiser que caia - aconselhou. - Sim, eu gosto das mulheres.

—Muitas mulheres. - Pamela decidiu que aquela maneira de lhe esfregar o couro cabeludo não podia se considerar em modo algum um método de sedução, e seguiu o conselho de Kerrich. Segurou a manta.

—Quantas são muitas?

—Mais de uma. - Pamela disse audazmente o que sempre esteve em seu pensamento: - Se um homem estivesse destinado a ter mais de uma amante, teria mais de um órgão.

Ele rompeu a rir com umas gargalhadas entusiastas e generosas, que a fizeram se sentir engenhosa e faiscante de uma vez. Mas suas seguintes palavras lhe roubaram esse prazer.

—De uma vez - disse. - Mais de uma de uma vez.

—Assim, se algum dia se casar...

—Com você.

Por que seguia insistindo nisso? Para atormentá-la, supunha Pamela, por o ter posto em ridículo diante de todos quantos conheciam sua situação. Mas a ideia de se casar com qualquer homem a assustava, e a ideia de se casar com ele fazia que os dedos e o peito se apertassem e ficasse sem ar. Um caveira bonito, dotado para a sedução e sem o menor respeito pela fidelidade? Kerrich era seu pior pesadelo.

—Se algum dia se casa - repetiu Pamela com teima, - seguindo a filosofia que acaba de expor, teria que reservar a consumação para sua esposa. E isso já disse que não pensa fazê-lo.

A toalha deslizou por sua cara Quando Kerrich a usou para lhe esfregar as longas mechas de cabelo entre as mãos.

—Não. Uma mulher a que lhe dá esse tipo de fidelidade, desperdiça o presente, ignorando por completo seu valor.

—E esse valor é maior que o da fidelidade que uma mulher dá ao marido?

—Um homem é mais capaz de apreciar a raridade desse favor.

—Não faz mais que inventar desculpas. - Pamela tratou de examinar o estúdio, mas só viu as sombras e não a luz. - É igual a meu pai.

—Vá, esse sim que é um insulto raro - disse ele, mas não o desmentiu. - Tenho que me casar com você. Não poderei seguir tendo-a pela casa se não o fizer, e detestaria que perdesse o dinheiro que tanto cobiça.

—Se me casasse com você, não receberia nenhum salário... embora isso tampouco me parece justo - disse ela reflexivamente. - Mereceria algum tipo de compensação por meu sofrimento.

A toalha caiu a seus pés e as mãos de Kerrich posaram sobre seus ombros.

—Não sofreria, salvo possivelmente a primeira vez, e estou seguro que inclusive então poderia lhe dar prazer.

Ela voltou-se, se soltando, para se encarar com ele. Pamela compreendeu que chegara a conhecer o homem que acreditava que era, pois percebia a falta de respeito.

—Então me fará pagar pelo privilégio de trabalhar para você me colocando em sua cama à força?

Kerrich a olhou pensativamente e logo a rodeou como se fosse um obstáculo em seu caminho.

—Me parece uma maneira exagerada de expressá-lo.

—Mas o ouvi muitas vezes. - Pamela o seguiu com o olhar. - Sabe o que é ter que vigiar cada uma de suas palavras, manter os olhos baixos, tentar se mostrar o mais feia possível, e que ainda assim a agarrem, toquem e beijem?

Ao chegar à lareira, Kerrich se agachou, justo diante de Pamela, para recolher sua bata, esticando as costas e as nádegas.

—Posso dizer sinceramente que jamais me encontrei nessa situação. - se dirigiu a sua escrivaninha, colocando a bata sobre os ombros, deixando Pamela com a vista cravada no lugar onde vira

—não vislumbrado, a não ser visto - suas escuras nádegas nuas.

—Senhorita Lockhart?

Aturdida, Pamela elevou os olhos e o viu fazer o mesmo que aquele dia desgraçado em que ela se apresentou para uma entrevista.

Kerrich se sentou na escrivaninha de frente a ela. Sobre a escrivaninha havia uns quantos papéis soltos, dispersados. Diante da cadeira havia umas quantas pastas grossas, cuidadosamente empilhadas.

Se sentou na beira, com os pés descalços pendurado, a bata solta ao redor do corpo e o olhar intenso.

—Dizia que os homens lhe causam problemas?

—OH. Sim. - Uma parte nua do corpo não significava nada. Seu ressentimento era imenso. Pamela se aproximou, se plantou diante dele, o enfrentou. - Homens.

Te agarram, te tocam e então, quando protesta, te chamam coquete. Dizem que os provoca. Que não é sua culpa - acrescentou, recalcando as palavras.

Ele esteve a ponto de lhe tocar o queixo, mas Pamela afastou a cabeça bruscamente.

Kerrich assentiu como se compreendesse sua feroz reação.

—Isso é o pior. Os muito toscos sempre culpam a você.

—Quando o certo é que não quero saber nada de nenhum deles. - Pamela se ergueu em toda sua estatura, tratando de se agarrar a sua dignidade, envolta em uma vulgar manta de lã.

—Não posso lhe dizer que o compreenda. Ninguém tenta me agarrar jamais.

Pamela o fez. Não soube de onde tirou a coragem, mas o pegou pela lapela da bata e lhe deu um puxão tão bruscamente que lhe arranhou a pele com a unha do polegar.

—Au - disse ele, e bateu na mão dela.

—Se supõe que tem que lhe gostar disso. Algo que faça um homem, tem que se gostar, porque é pobre, jovem e, o pior de tudo, bonita.

—Eu sou bonito, não sou? - Kerrich lhe esfregou os nódulos.

Ela não queria seu consolo. Se largou, aproximou a cabeça da de Kerrich o olhou aos olhos.

—Querem te babar.

—Eu não babo quando beijo.

—Sei. - Pamela segurou a cabeça dele com a mão e apertou sua boca contra a dele. A manta caiu ao chão, mas não importava porque... porque lhe estava dando uma lição, lhe explicando sua vida com uma demonstração.

Ainda vestia o espartilho, a regata e as meias. Além disso, já se beijaram antes.

Além disso, sabia o que pretendia o muito canalha. Estava deixando que ela o beijasse, a incitando a obter prazer daquela intimidade e da suavidade de seus lábios, com a esperança de atraí-la para sua cama.

Kerrich lhe rodeou os pulsos com os dedos e se separou dela.

—Detenha.

Contenção? Senso comum? Pamela olhou aqueles olhos marrons com reflexos dourados, e aqueles novos traços de seu caráter não lhe pareceram absolutamente admiráveis. Se debateu para se soltar.

—Isso. Proteste.

—Lamentará se não se detém. - Kerrich insistia em ser sensato.

Mas Pamela estava empenhada em lhe dar seu castigo; se tratava na realidade de se vingar de todos os homens que tentaram se aproveitar de sua situação para seduzi-la. A ira que sentia contra ele, contra os outros, contra aquela estúpida farsa e seu desagradável descobrimento, seguia pulsando sob a superfície, mas ao que parece, uma judiciosa aplicação de luxúria transformava essa ira em pura paixão, turbulenta e dominante.

—Você não pode me dizer o que eu sinto - disse.

—Estou lhe dando uma oportunidade.

—Não se dá conta? - Pamela esfregou a palma da mão ao longo dos músculos e os tendões de seu ombro. - Lhe estou demonstrando o que se sente ao ser tratada como uma mulher.

—Eu sou um homem. - A voz de Kerrich ficara mais profunda.

—Sim. - Pamela lhe abriu o outro lado da bata. - Já vi.

Pamela ouviu Kerrich contendo a respiração, afogando um gemido de excitação enquanto ela o olhava e afogava por sua vez um gemido. As coisas mudaram. O corpo dele mudara.

—Os homens sonham com que uma mulher os trate exatamente assim - disse Kerrich com voz tensa.

As jovens se contavam histórias sobre os homens e essa parte de seu corpo que mudava de tamanho, mas Pamela nunca acreditara que tais histórias fossem certas. Nem tampouco sonhara, exceto em seus piores pesadelos, com que tivesse ocasião de ver a prova. Mas agora o encontrava muito curioso, muito gratificante... muito perverso.

Seu membro estava mais longo, se levantou, crescera em todos os aspectos, se erguendo desde seu ninho de pelo negro e encaracolado do púbis.

Pamela o olhou fixamente. Kerrich a desejava. Ali estava a prova, das dimensões do membro até a gota de líquido espesso que brotava da rosada ponta. Podia lhe fazer sofrer, se o desejasse.

Ou podia utilizar a aquele caveira, aquele homem com dotes de sedutor, para satisfazer a curiosidade que persistia desde a adolescência. Ela não se sentira tentada até então, mas Kerrich sim a tentava, e ao contemplá-lo, o encontrava perfeito. Com ele teria o prazer garantido, e logo se desfaria dela, como qualquer caveira. Kerrich não lhe falaria de seguir para sempre. Ao menos não a sério.

Nem sequer aquela sugestão de casamento era séria.

Entretanto, podia ficar grávida.

Entretanto, não voltaria a ter outra oportunidade tão deliciosa.

Que escolha.

—Está realizando meus sonhos - Kerrich a advertiu.

Uma escolha que devia fazer imediatamente, sem tempo para ser judiciosa nem refletir previamente.

Talvez fosse melhor assim. Porque, com tempo e a cabeça fria, a tentação podia se vencer. Agora não existia essa possibilidade.

Com a ponta do dedo, Pamela tocou a gota de líquido que brotava de seu membro, brincou com ela, a lubrificou sobre a pele acetinada.

—Todos os sonhos que tive em minha vida - disse ele, mas com voz mal audível. - Muito bem. Tentei.

Brotou uma nova gota. Pamela acariciou brandamente a glande, deslizando a mão sobre o líquido, explorando o sulco, a glande, as bordas.

—Em geral - disse ele com voz rouca, - uma mulher primeiro toca a um homem em um membro menos incendiário.

Pamela acreditava que só sentia curiosidade, mas ao falar, sua voz era mais provocadora.

—É uma norma?

—Não, se não quiser que seja. - Kerrich tirou a bata e a deixou cair.

—Nunca vi nada parecido - disse ela.

Kerrich deixou escapar um gemido.

Pamela não lhe fizera dano; sabia, e não compreendia o que causara aquela expressão de sofrimento.

—Lorde Kerrich?

—Siga... me tocando.

Ah... agora compreendia. O estava atormentando.

Que satisfação. Pamela colocou a palma da mão com cuidado sobre a coxa coberta de pelo, e quando viu que seus músculos se esticavam, começou a esfregá-lo. Com a outra mão, pegou o membro, segurando-o com firmeza, se maravilhando da suavidade da pele, com a que ela não se podia comparar.

—Como chama a isto?

—Agora mesmo... o chamo dono e senhor.

Pamela riu.

Ele não.

O acariciou então com ambas as mãos, uma sobre cada membro. Que peculiar ter duas texturas tão diferentes em um mesmo corpo!

As mãos de Kerrich se apoiaram na escrivaninha, logo com um veloz movimento, pegou Pamela pela cintura. Surpreendida, ela se agarrou a seus ombros quando notou que a levantava e a arrastava para ele.

Os joelhos de Pamela aterrissaram junto aos quadris de Kerrich, entre as dobras de sua bata. Pamela acabou deitada sobre Kerrich em confuso montão. As partes íntimas viris se incrustaram em seu estômago.

—Lorde Kerrich, isto não...

Kerrich segurou sua cabeça com ambas as mãos e a beijou. Não foi um beijo como o dela, nem como os beijos da noite anterior, a não ser um beijo que possuía e enrolava. Colocou a língua em sua boca, a saboreou como um homem morto de fome, fazendo-a gemer e se avivar. Como podia fazer isso com os lábios, com as mãos? Como podia fazer que se apertasse contra ele, tratando de chegar mais perto ainda que de seu coração? Pamela lhe devolveu o beijo, misturando sua língua, seu fôlego e suas paixões.

—Deixe que eu... - disse Kerrich, apartando a boca. E puxou as fitas de seu espartilho.

Pamela não acreditava que nenhum homem pudesse fazer outra coisa que grunhir ao ver aquelas fitas, mas Kerrich as desatou com uma velocidade invejável para qualquer criada. É obvio.

Pamela não contara com a ampla experiência dele.

Então o mordeu no pescoço.

Ele deu um salto.

—Selvagem - murmurou.

Pamela lhe deu um beijo na dentada para aliviá-lo.

Ele tirou seu espartilho e o deixou cair ao chão na beira da escrivaninha. Pamela ficara tão só com sua fina regata de algodão.

Pamela agachou a cabeça e o beijou no peito.

Ele levantou seus seios com o vão das mãos...

E ela gemeu de puro êxtase. Se ergueu, jogou a cabeça para trás e fechou os olhos.

—Sabia... - sussurrou Kerrich. - Sensível por toda parte. - Com os polegares, esfregou languidamente a delicada pele e os deslizou para os mamilos.

O prazer fez que Pamela rodeasse Kerrich com as pernas e se balançasse para aliviar a excitação. Em seu interior notou a tensão da espera. Esperava a ele.

Como podia saber tanto? Que instinto selvagem a possuíra?

Quando Kerrich posou os lábios sobre seu seio, Pamela gemeu de prazer. Kerrich chupou a roupa com o mamilo, logo a alisou e olhou.

—Que bonito - disse. Então voltou a chupá-lo outra vez através da roupa.

O que Pamela experimentara até então não tinha nada a ver com esta experiência sublime, divina, com esta felicidade pura que lhe proporcionava aquele homem tocando-a. Se apertou contra ele, passou-lhe as unhas pelo cabelo. Ele soprou sobre a regata úmida e os mamilos se endureceram e apontaram, exigindo.

Ele se rendeu a suas exigências. Desatou a fita do pescoço da regata e a deslizou para baixo. Tirou um seio e o contemplou, e Pamela viu adoração em seu olhar. Kerrich inclinou a cabeça, começou a beijar a suave pele dos seios... e o empurrou para afastá-lo.

—Deixe que lhe ensine o que quero que faça.

—O que quer que faça? - repetiu ele, desconcertado.

—Sim. - Pamela apoiou a palma da mão sobre sua clavícula e o jogou sobre a escrivaninha.

Kerrich tinha a bata sob o traseiro, mas as costas nuas tocaram a dura madeira e ele assobiou entre dentes ao notar a fria superfície em contato com a pele quente.

—Não vou deixar que me atormente - disse.

—Sim, fará. Deixará que me vingue de você, e de todos outros machos frívolos que se inclinam ante o altar da beleza e ignoram...

Kerrich ajustou seus quadris debaixo de Pamela, fazendo que perdesse o fio do que dizia momentaneamente. Ao ver o sorriso zombador de Kerrich, recordou.

—Todos outros machos frívolos aos que só lhes importa a beleza e não a mulher.

—Mas eu posso guiá-la até o prazer mais absoluto.

Pamela não queria ser guiada. Queria mandar. Então, com a ideia meio intuída que ele reagiria e se submeteria a seus desejos, elevou os braços e lentamente tirou a regata pela cabeça.

Assim que pôde abrir de novo os olhos, o viu. O olhar intenso que Kerrich fixara em um seio dobrou sua intensidade. Tinha os lábios entreabertos, mas respirava com dificuldade.

Era um homem escravizado, e Pamela notou o membro viril que aumentava de tamanho entre suas pernas.

Não podia se fazer maior... não? Graças a Deus, Pamela ainda vestia as meias. Suas simples meias, brancas e limpas, símbolo de pureza, que serviam para se ocultar de uvas sem semente libertinos como ele.

A previsão e a cautela começaram a atormentá-la. Onde pararia tudo aquilo? Quando tivesse exorcizado a ira e a paixão se consumasse, se converteria na criatura patética que tanto temia?

—Senhorita Lockhart. - Kerrich se recuperou de seu atordoamento e se incorporou, se apoiando nos cotovelos.

Pamela voltou então para a realidade. Não queria que ele tomasse as rédeas, Não queria pensar com sensatez. Só queria voltar Kerrich louco. Então levantou os seios com as mãos.

Kerrich escorregou o cotovelo e caiu para trás.

Com o sorriso enganosamente afável que herdara de alguma antepassada sedutora, Pamela se inclinou para ele, se aproximando da sua boca.

—Me prove - sussurrou.

A resistência de Kerrich se derrubou. Porque o que Pamela queria também era o que ele queria, é obvio. Porque não podia acreditar em sua sorte nem na credulidade de Pamela. Claro que a Pamela dava igual.

Kerrich obedeceu, e quando chupou um mamilo e acariciou o outro, Pamela se sumiu em uma agonia de prazer. Começou a mover os quadris, descobrindo que aquele movimento que a apertava contra ele era uma voluptuosa libertinagem. Já não era consciente de que estava na biblioteca, na sala que tanto gostava. Seu entorno se constrangeu a uma só área, a larga e ampla superfície da escrivaninha.

Era consciente de Kerrich. Nu e ilicitamente bonito, de sua boca, que procurava outros lugares que lhe proporcionassem prazer, de sua mão, que percorria o corpo como se o mero tato de Pamela se procurasse prazer.

Pela tensão que sentia nos rins, Pamela sabia que a ela estava dando prazer.

Pamela apertou as palmas das mãos contra o peito de Kerrich, notando o pelo, os músculos tensos, o batimento de seu coração. Estava vivo, e ela despertava à vida com ele, à risada, à ira, ao rancor, à exasperação.

Com ele, Pamela sentia o que não pudera sentir em anos, e agora o desejava. Embora lhe fizesse mal. Embora não fosse decente. Embora se comportasse de um modo tão estúpido como qualquer outra mulher apaixonada.

Aquela noite ia ser para ela.

 

Quando Pamela desatou a cintura das meias, não foi tão eficiente como teria sido Kerrich. Apesar de sua valentia, seus dedos tremiam.

Então Kerrich a ajudou. Quando Pamela recuperasse o bom senso, a feriria que Kerrich fosse tão destro com a roupa de baixo feminina, mas naquele momento não lhe importava.

Kerrich a despojou das meias e Pamela não experimentou o menor embaraço.

Até que teve que se colocar em cima dele outra vez. Suas coxas nuas os quadris nus dele, e se posava sobre ele com todo seu peso, estariam quase...

—Por que fica olhando ao vazio e movendo os lábios? - ele perguntou.

Ela o olhou; olhou o rosto elegante e o corpo esbelto, musculoso, nu, que lhe servia de cadeira de montar.

—Estou pensando.

A mão de Kerrich se moveu para o seio de Pamela, e com a mesma suavidade que a primeira folha caída do outono, desceu para o ventre.

—Preferiria que não o fizesse.

—Se permitir que isto chegue a sua conclusão natural, qual será?

Desta vez foi Kerrich quem moveu os lábios sem que saísse nenhum som de sua boca.

—Quer dizer - explicou ela, - o que ocorrerá depois entre você e eu?

—O que queira - respondeu ele com prontidão. Muita.

Estava mentindo, mas Pamela se tranquilizou porque havia dito o que ela queria ouvir.

—De acordo. - Pamela se esmagou contra ele. Seio contra peito, os ventres se tocando, a fanfarrona ereção palpitando contra ela... a pele de Pamela experimentava a alegria de tocá-lo, e se apertou mais contra ele, relaxando, tocando todo seu corpo com o dela e desejando poder tocar mais. De acordo - repetiu, tão perto de seus lábios que seu fôlego lhe roçou a cara. Logo o beijou como ele a tinha beijado: exigindo, coagindo, o conduzindo aonde ela desejava ir. Pamela adorava aquilo, desejava-o. - Kerrich, por favor - sussurrou.

O que Kerrich viu em seu rosto pareceu lhe produzir uma imensa satisfação, pois sorriu brevemente, mas com intenção selvagem.

Logo moveu o corpo como se quisesse escapar.

—Não! - Furiosa imediatamente, Pamela se ergueu e lhe cravou as unhas no peito. - Não pode me deixar.

—Não o farei. - Kerrich riu entre dentes. - Não posso. - Tomou ar e disse: - Se mova para aqui.

Pamela se moveu com ele sem compreender o que pretendia, quando Kerrich deslizou sobre a escrivaninha ajudado pela bata. Uns quantos papéis caíram ao chão quando conseguiu se deslocar até alcançar uma das gavetas. A madeira deslizou ruidosamente na silenciosa sala, e o frasco repicou quando o tirou da gaveta.

Pamela contemplou o frasco carmesim com seu delicado corte e suas filigranas.

—O que é? - perguntou.

—Se deite. - Kerrich pegou uma das pastas cheias de documentos e a colocou debaixo de sua cabeça como travesseiro, logo desarrolhou o frasco.

Ela estremeceu. Desejava aquilo, sim, mas não pensara em como seria. Acaso podia fazê-lo? Não conhecia todos os detalhes. Mas se arriscar a que a olhasse e visse o de... ali abaixo...

—É azeite. - Kerrich verteu um fino fio de líquido platina na palma cavada de sua mão e o agitou frente a ela. - Azeite de rosas. Cheira-o?

Sim, o perfume era intenso e sensual, cheirava a flores e a opulência.

Kerrich voltou a tampar o frasco e o apartou a um lado sem deixar de olhar a Pamela um só momento.

—Quando se deite, o lubrificarei. Primeiro no ventre... já disse quão formoso é seu ventre? Liso e de cor cremosa, com o umbigo justo onde o polegar de Deus apertou.

—Não... não me viu o ventre.

O maldito voltou a sorrir, esboçando lentamente esse sorriso erótico, de cumplicidade, que ela admirava desde... desde fazia muito tempo.

—Não há nada em você que não tenha visto. - Kerrich verteu a metade do azeite na outra mão e esfregou as palmas uma contra outra, deixando o brilho da tentação. - É formosa, e eu quero lhe tocar o ventre e as coxas.

Com o azeite, queria dizer. Tão explícita intimidade escandalizou Pamela, e ao mesmo tempo sentiu que de seu corpo fluía certa umidade. O mesmo que a ele, pensou. Devia estar excitada, pois reagia exatamente igual a ele.

Mesmo assim, toda uma vida de educação na castidade não podia se deixar a um lado tão facilmente, de modo que disse:

—Pensava que isto não duraria muito tempo.

Kerrich soltou uma gargalhada.

—Estou destruindo seus esquemas, professora?

—Sim. - Estava destruindo tudo... mas já se preocuparia disso no dia seguinte. Nada de consequências agora. - Que mais vai tocar?

—Exatamente onde está pensando que vou tocar. - Em seus olhos da cor do pecado brilhava uma promessa. - Deite.

Lentamente Pamela se deitou o bastante para arquear as costas.

—Mais. Ponha as mãos aos lados sobre a escrivaninha.

Pamela se estirou até que seus olhos viram o teto e todo seu corpo ficou a mercê dos olhares de Kerrich. Não lhe cabia a menor duvida que a estava olhando. Kerrich era incorrigível e muito, muito bom no que fazia.

A primeira e suave carícia deslizou por seu quadril, e logo para o umbigo, onde deu voltas e se inundou. Logo Kerrich, com a outra mão, tinha que ser a outra, acariciou a parte interior da sua coxa e subiu por ela com indolência infinita...

—Shh... - sussurrou ele. - Não se mova. Fecha os olhos. Me deixe fazer...

Sua mão se enredou no triângulo de pelo, crispando todos seus nervos. Quando lhe abriu as pernas, Pamela conteve a respiração. Agora. Agora vai me penetrar com o dedo. Fechou os olhos com força.

Podia suportá-lo. Podia suportar o ocorrido. Sem dúvida sofreria certos incômodos. Mas ao menos saberia se Kerrich merecia sua fama.

Entretanto, Kerrich se limitou a lhe lubrificar de azeite a delicada pele de suas partes íntimas. Era... agradável. Mais que agradável.

—O que está fazendo? - sussurrou Pamela.

Ele não respondeu.

A vacilação de Pamela se converteu em desejo quando a mão de Kerrich riscou círculos cada vez mais estreitos para a minúscula protuberância.

Pamela sabia que era uma parte muito sensível, mas ele não chegava a tocá-la. Ainda não. Ainda não.

Pamela se encontrou de repente tremendo, tratando de lhe incitar com pequenos movimentos rítmicos dos quadris, tratando de conseguir que a acariciasse nesse ponto.

Não o fez, o maldito.

Kerrich seguiu com aquela perturbadora dança da pele contra a pele e todas as precauções de Pamela se dissiparam.

—Por favor. - Cores diferentes brilhavam frente a seus olhos fechados. - Por favor, lorde Kerrich.

—Devon - disse ele.

Ela vacilou. Copular era uma coisa, romper a barreira social que os separava outra muito diferente. Ela mesma era uma dama da boa sociedade, reprimida por um montão de normas, mas...

Deliberadamente, Kerrich deixou de tocá-la.

—Devon - repetiu.

—Devon. Por favor, Devon - disse ela, se rendendo imediatamente.

Os dedos de Kerrich voltaram a rodear os lugares que antes rodeavam, logo, com delicioso cuidado, beliscou a protuberância que tantas ânsias lhe produzia, as acalmando e aumentando seu desejo de uma vez.

As mãos de Pamela procuraram onde se agarrar, encontraram as coxas de Kerrich e os esfregaram.

—Kerrich... Devon... não. Por favor. Está me fazendo... - Sentir muito. Não era assim como se supunha que devia ser, não?

Não podia ser aquele desejo irresistível, urgente, mais agudo ainda pela surpresa da novidade.

Se aquilo era a luxúria, por que passara a vida evitando-a?

Cega de paixão, Pamela se balançou com todo seu corpo cativado pelo prazer de ter a ele, Kerrich... Devon, a excitando com as mãos de um perito. Cada músculo de seu corpo tremia de desejo, cada roce a sobressaltava e a fazia desejar mais. Queria lhe suplicar que fizesse... que fizesse o que tivesse que se fazer a seguir. Já não podia articular nenhum som, mas se concentrou tanto em suas ânsias, que ele deve ter ouvido seus pensamentos, pois deslizou os dedos para trás... e a penetrou.

Ela se arqueou, ávida, frenética, desesperada. O dedo de Kerrich entrava e saía, sua palma a esfregava, e Pamela estava preparada. Muito. Se Kerrich não se detinha, ela...

Se deteve.

Pamela emitiu um agudo som de protesto.

Ele a fez calar.

—Agora se jogue para frente.

As mãos de Pamela aterrissaram sobre seu peito instintivamente, procurando o modo de lhe dar prazer. Evidentemente o mero contato bastava, pois a pele cálida de Kerrich se arrepiou.

—É uma preciosidade - disse ele, e com as mãos em suas nádegas, a colocou sobre si.

Ela compreendeu vagamente o que estava fazendo: ia penetrá-la, possuí-la, vencer sua inocência. Se tivesse podido falar, o teria insistido a se apressar.

Kerrich conseguiu que seus corpos se acoplassem sem a menor hesitação, é obvio.

—Pamela - disse então. - Me olhe.

Seu tom autoritário transpassou o maravilhoso atordoamento em que estava sumida e Pamela abriu os olhos.

O olhar pecador de Kerrich estava fixo nela, tão fervente e sério que não cabia a menor duvida que tomava o assunto do defloramento com grande seriedade.

—Me escute. Você tem que fazê-lo.

O que queria dizer? Pamela negou com a cabeça.

—Sim, você. Você está em cima. Está preparada. Por favor. Me aceite em seu interior.

Pamela recuperou a razão o suficiente para compreender seu estratagema. Não era justo. Se o faziam daquela maneira, logo não poderia jogar a culpa nele.

Não poderia afirmar que a dominara com sua experiência, nem que a seduzira.

—É a única maneira - disse ele. - Se me desejar...

Desejava. Desejava muitíssimo. Tomara uma decisão, independentemente do que ocorresse depois, e sempre teria aquela noite na lembrança.

Assim começou a descer sobre ele lentamente, com precaução. A princípio deslizou; compreendeu que o azeite o facilitava.

—Isto é... fantástico.

Surpreendida por seu tom rouco, Pamela o olhou. Viu como se sobressaíam os tendões de seu pescoço e suas faces se tingiam de cor, e viu seus olhos entrecerrados. Kerrich gemia como se sofresse uma agonia... mas não era isso. Era a paixão. Pamela a reconheceu, sem saber como, mas o caso era que estava levando Kerrich além de seus sentidos. Era seu corpo o que o transportava a aquele reino mágico, mas como, isso era o que ela queria saber. Dominara ao homem que tinha debaixo. E como gostava daquele domínio!

Seguiu descendo, mas o mal-estar a fez se deter.

Ele soltou um gemido ardente e desesperado.

—Por favor.

—Está muito grande - disse ela.

Kerrich moveu os quadris, conseguindo assim penetrá-la mais profundamente, fazendo que Pamela gemesse ao notar uma pontada de dor.

Kerrich se deteve com evidente reticência e um olhar de adoração.

—É a mulher mais formosa que vi em minha vida.

Pamela se levantou um pouco e a pontada se desvaneceu.

Kerrich deve ter tomado como um castigo, porque acrescentou:

—Quero dizer, mais que formosa. É inteligente e engenhosa... por favor Pamela, se acabar, farei por você tudo o que queira.

—Seja o que for? - Pamela permaneceu imóvel se preparando para a dor que ia sentir.

—Escalar montanhas. Nadar... - Kerrich pegou seus quadris e a olhou com expressão suplicante.

—Oceanos?

Ele assentiu.

—Não é isso o que quero. Só quero isto. - Agarrando a mão de Kerrich, a colocou entre suas pernas.

O sorriso que Kerrich esboçou lhe pareceu mais uma careta dolorosa, mas começou a acariciá-la como havia feito antes. Tal como ela desejava.

E então Pamela desceu de vez. OH, Deus, se fazia mal. Doía, mas ele não deixava de acariciá-la e a dor se mesclava com a paixão, e Pamela não sabia o que fazer além de se levantar e descer outra vez.

Kerrich a ajudava movendo os quadris para que captasse o ritmo primário. Os dedos de Pamela se agarraram a ele, seus ofegos ficaram sem ar, seu coração se desbocou e Pamela alcançou o êxtase.

O movimento, o tumulto, o prazer, eram comparáveis a cavalgar o semental mais fogoso em meio de uma noite tormentosa. Era um momento de calor, de suor, de crueldade, e lhe encantava.

Também devia o encantar, porque emitia sons de fôlego inarticulados, ao mesmo tempo que se retorcia sob ela. Tudo se constrangeu ao retângulo da superfície do escritório, e esse retângulo englobava todo o universo.

Estava ali, vivendo, consciente de tudo, mas levada ao frenesi. Doíam suas coxas por causa do esforço, doíam seus joelhos pelo roce contra a dura madeira, sentia uma pontada no flanco, mas

Kerrich estava dentro dela, no mais profundo de seu ser, provocando uma resposta, e ela desejava tanto aquela resposta, a esperava com tanto desespero que nada mais lhe importava.

Quando os espasmos a atenderam, gritou de prazer. Queria se apertar contra ele, saborear o clímax daquela cavalgada selvagem, mas Kerrich não podia parar.

A incitou a seguir, e ela o fez de boa vontade, esporeado seu desejo pelo dele.

Se moveram ao uníssono, cada vez mais depressa, até que Kerrich soltou um grito e segurou seus quadris fortemente contra si, e alcançou o clímax enquanto ela... bom, ela não deixara de senti-lo.

 

Lentamente, a paixão que consumira os sentidos de Pamela se dissipou, e ela voltou a sentir. Uma vez mais cheirou o perfume do azeite de rosas, e pensou que as flores deviam arder nos fogos do desejo.

Sentiu um arrepio quando seu suor secou. Notava uma sensação de plenitude entre as pernas; estava úmida, dolorida e satisfeita. Suas coxas e os joelhos doíam, e quando olhou a seu redor... céu santo, estava nua, sentada sobre um nu lorde Kerrich, sobre sua escrivaninha, no meio de sua biblioteca, enquanto as velas de cera de abelha lançavam sua brilhante luz branca e as chamas dançavam na lareira.

Estava completamente a descoberto. Não poderia fingir absolutamente que aquilo não ocorrera. Ela aceitara... não, insistira na consumação sem esperar uma negativa. Um intenso rubor lhe subiu do peito até a testa.

Não sabia onde olhar com tal de não olhar Kerrich.

—Não o faça - ordenou ele.

Ela o olhou um momento, convexo ali debaixo, e logo afastou a vista.

—Que não faça o que?

—Não me venha com remorsos. Não foi um cartão de visita o que me deu, a não ser sua virgindade. E agora não consentirei que diga que se arrepende.

Ela voltou a olhá-lo; o semblante de Kerrich lhe exigia tanto como seu corpo exigira antes.

—Então, não lhe direi isso.

Kerrich lhe dedicou um sorriso encantador.

—Tampouco se arrependa.

—Não... não. - Não se arrependeria. Racional ou não, tomara a decisão de ter trato carnal com ele, era uma mulher adulta e aceitaria as consequências que se derivassem.

Além disso, lhe ocorreu que, tendo a ocasião, qualquer mulher do mundo civilizado que estivesse em seu juízo perfeito teria escolhido experimentar a amoralidade com Kerrich;

Pamela teria que guardar o segredo, se não queria que chovessem ofertas a Kerrich.

—Não posso guardar isso em segredo para sempre!

Perplexo, Kerrich meneou a cabeça.

—Como?

—Todo mundo já sabe - acrescentou ela com ar taciturno, recordando sua fama.

—Sabe... o que?

—Que é um perito nisto. Que pode levar uma mulher ao êxtase.

Kerrich estirou os braços para trás e enlaçou as mãos sob a cabeça, em uma atitude de irresistível descaramento.

—A levei ao êxtase?

—Conhece muito bem suas habilidades - respondeu ela, se erguendo um pouco. - Não necessita que eu lhe diga isso.

—Sim, necessito. - Kerrich deixou que seu olhar passeasse por seu corpo antes de voltar para seu rosto. - É um fato pouco conhecido, mas os homens necessitam que os animem para funcionar bem.

Deveria me elogiar a cada momento, e se o faz, garanto pessoalmente o êxtase cada noite de nossa vida matrimonial.

—Por que segue insistindo? - perguntou ela, perplexa e desesperada. - Já disse que não me casarei com você.

—Planejara me casar, embora não tão cedo, mas você é... - Kerrich vacilou durante um momento revelador.

—Adequada? Sem parentes incômodos? O bastante bonita?

—Bom... - Kerrich vacilou visivelmente sobressaltado, - sim, tudo isso. E eu gosto, desfruto conversando com você, me casando cumpriria os desejos da rainha, e você não esperaria de mim mais do que eu estivesse disposto a dar.

—Por que danifica um momento maravilhoso? - perguntou ela, de novo com desespero. - É um caveira, e os caveiras estão a salvo. Um caveira não quer se casar.

—Não quero, mas se tiver que fazê-lo...

—Não sei como conseguiu essa reputação de lisonjeador. Suas palavras são insultantes. - Kerrich abriu a boca para protestar, mas Pamela não lhe permitiu soltar a fala. - Não posso me casar com ninguém.

E menos ainda com você. Não entende? Quero o que minha mãe jamais teve. Quero um homem inteiro. Ou isso, ou nada.

—Que partes acredita você que me faltam? - perguntou ele, fazendo uma careta irônica.

Em um vão tento por recuperar sua anterior sintonia, Pamela se inclinou até que seus mamilos roçaram o peito de Kerrich e suas bocas quase se juntaram.

—Se te faltasse alguma parte, eu não me daria conta, não acha?

—Tampouco eu lhe diria isso. Por que não quer se casar comigo?

Pamela apoiou os braços em seu peito antes de responder.

—Quero um marido completo. Não quero compartilhá-lo com outras mulheres. Nem sequer com uma só mulher. Quero estar segura que levará a sério os votos do casamento e que me amará para sempre.

—Possivelmente...

—Não. - Pamela cobriu os lábios de Kerrich com os dedos. - Nem sequer o insinue. Você quer coisas completamente irracionais, como uma esposa que ame somente a você e que confie em você sem reservas.

Kerrich compreendeu que ela tinha razão. Nem sequer ele mesmo entendia. Aquela mesma manhã, o casamento não era para ele mais que uma indesejável obrigação futura. E devia ser amado como não amaram a seu pai, ou não se casaria. O avô diria que Pamela e Kerrich compartilhavam uma decepção que estabelecia uma base comum para o casamento. Entretanto, Quando Kerrich considerava a ideia com lógica, se dava conta que aquelas esperanças traídas os separavam igual ao maior dos abismos, pois seria necessário um milagre para que mantivessem a confiança um no outro nas adversidades e na convivência.

Por outro lado, se sentia capaz de passar o resto de sua vida ali, dentro da senhorita Lockhart. dentro de Pamela.

Então, Pamela teria que aprender a confiar nele, a amá-lo incondicionalmente, e logo teria que se casar com ele, porque isso era o que ele queria.

Lentamente se ergueu, se apoiando nos cotovelos e logo nas mãos, e a olhou aos olhos.

—Ainda não terminamos. Não até que a tenha convencido.

Pamela abriu a boca para discutir, mas ele apertou os lábios contra os seus. Ela resistiu durante um bom momento, mas logo se deixou levar, se rendendo a ele, feminina, dócil, cálida, tenra.

Rodeou o pescoço de Kerrich com os braços e se apertou contra ele, e em seu interior, o membro de Kerrich voltou a despertar.

Maldita seja, era impossível. Tão cedo não.

Kerrich deslizou para a borda da escrivaninha, colocou as mãos sob as nádegas de Pamela e a levantou ao mesmo tempo que ele ficava em pé.

Ela não fez objeção alguma; de fato, se agarrou a ele tal como ele pretendia, lhe rodeando os quadris com suas firmes pernas e o pescoço com seus esbeltos braços.

Onde queria possuí-la? Já a havia possuído sobre a escrivaninha, e jamais voltaria a trabalhar nela sem recordar o ritmo de descer e subir, o calor e a excitação, o suor e os gemidos.

Possuir Pamela era tudo o quanto ele sonhara em suas mais loucas fantasias de adolescente, e agora voltaria a viver seu sonho.

Em que outro lugar desejava deixar uma lembrança?

Sobre o tapete. Apertando as coxas de Pamela fortemente contra si, se deixou cair no chão frente à lareira. O grosso tapete oriental amorteceu sua queda, ele amorteceu a de Pamela e seguiram enlaçados.

Por alguma razão, este fato lhe importava mais do que devia.

—Está bem? - Kerrich a deixou tombada no chão e, ajoelhado entre suas pernas, manteve seus quadris em alto sem tirar o membro de seu interior. - Fiz mal a você?

—Afastou os cabelos de Pamela que tampavam o rosto, tratando de ver se lhe doía algo, se devia recordar sua educação de cavalheiro e soltá-la.

Ela devolveu o favor, lhe apartando uma mecha da testa.

—Não me tem feito dano. Só um pouco, e o prazer compensou a dor com acréscimo.

—Então, posso fazer isto? - Kerrich moveu um pouco os quadris, provando-a ao mesmo tempo que observava seu rosto.

—Isso é muito intenso. - Pamela fechou as pálpebras.

—Intenso? - Kerrich repetiu o movimento. As úmidas dobras de Pamela seguiam inchadas pela excitação e tensas pela virgindade, e se agarravam ao membro de Kerrich como um punho.

O seio de Pamela subiu e baixou quando respirou fundo.

—Sim, agora estou muito sensível e isso... - Pegou Kerrich pelos ombros quando ele voltou a se mover, e lhe cravou as unhas.

Ele mal notou a dor. Seu membro acabou de se endurecer no interior de Pamela. Ela elevou os quadris para ir a seu encontro e Kerrich sussurrou:

—Pamela, para. Se agora não ficar muito quieta, não respondo por mim mesmo.

Pamela voltou a elevar os quadris, desta vez acrescentando um pequeno giro.

Kerrich não acreditava que soubesse o que fazia; Pamela tinha os olhos fechados e sua expressão era a de uma mulher descobrindo a luxúria e se deleitando com ela. Mas ele precisava apertar os dentes para se dominar.

Precisava fazê-lo. Era seu dever. Precisava... a penetrou até o fundo, logo se levantou até quase tirar o membro de todo e a ouviu gemer. Precisava deixar que Pamela obtivesse seu prazer dele.

Voltou a se retirar, tomando seu tempo, permitindo que Pamela adaptasse seu corpo ao dele.

Envolveu suas nádegas com os braços, o puxou com força para ela, arqueou as costas e chegou ao orgasmo, tão subitamente que pegou Kerrich de surpresa. Pamela o reteve onde o queria, se apertando contra ele, sacudida pelos espasmos, se incrustando nele, o usando como... como uma mulher usa a um homem.

Se tivesse podido, Kerrich teria rido. Mas a paixão se apropriou dele e o fez perder o miolo, o fez esquecer toda decência e até o último átomo de disciplina que tinha demorado anos em desenvolver.

Começou a entrar e sair dela uma e outra vez, obtendo prazer de Pamela como se fosse só uma amante e não a mulher que amava.

Não. Não era!

Mas não pôde parar. Seu corpo o escravizara. Kerrich derramou sua semente no interior de Pamela sem pensar nas consequências. Era dele e devia deixar nela a marca da posse.

Quando terminou, se derrubou sobre ela, quase sem sentido e completamente vazio. Pamela o espremera de quanto podia dar. Se, por um golpe de fortuna, ela voltasse a exigir seus serviços aquela noite, teria que recorrer ao método francês... e se seus lábios tivessem podido sorrir, triam feito ao pensar no prazer que isso lhe proporcionaria.

Lentamente se deu conta que a estava esmagando contra o tapete, que Pamela acariciava suas costas e que seus curtos gemidos incoerentes se converteram em palavras.

—Foi maravilhoso. - Pamela lhe alisou o cabelo por trás das orelhas. - É tão bom. Me faz feliz. Não deixarei nunca de te desejar.

Exausto, mas satisfeito, Kerrich se ergueu para lhe tirar peso de cima.

—Te fiz mal desta vez?

—Sim. - Pamela lhe dedicou um sorriso cansado que certamente se parecia com o seu. - Mas não durou muito.

—Durou o bastante, não foi? - Kerrich a olhou com os olhos entrecerrados.

—Curioso. Pensava que você recordaria. - Pamela deixou de sorrir. - Não podemos voltar a fazê-lo nunca mais. Há uma menina na casa. Seu avô está aqui. Seu primo...

—Não esqueçamos os criados - disse ele com sarcasmo.

—Sim, os criados - replicou ela, completamente a sério. - Talvez você não tenha que pensar neles, mas eu sim.

—Não é certo! - exclamou ele, deitando de lado.

—Sou a instrutora. - Pamela se levantou com cautela, se movendo como se lhe doessem todos os músculos. - Também sou uma dama e trabalho para ganhar o sustento. Não estou acima nem tampouco abaixo, e os criados me deixarão muito claro o que pensam de mim.

—Se se atreverem a fazê-lo, me diga e eu...

—Não pode despedir a todos. - Pamela recolheu seus objetos.

Observando os músculos tensos sob a pele reluzente, Kerrich sentiu o instinto primitivo do lucro. Ela era dele.

—Todos sabem - prosseguiu Pamela. - Certamente agora mesmo estarão com a orelha pega à porta.

Kerrich olhou a porta com expressão feroz. Se a abrisse de repente, quantos criados cairiam na sala? A quantos poderia aterrorizar com um grito?

Recordando os sons incoerentes e inequívocos que emitiram antes os dois, disse:

—Poderíamos ter sido mais silenciosos.

Pamela cobriu a boca, com a consternação estampada nos olhos muito abertos.

Não! Kerrich desejou retirar suas palavras. Adorava aqueles suaves gemidos de excitação, os gemidos mais fortes do orgasmo, os leves gemidos do esgotamento. Se aproximou para abraçá-la.

—Você não. Eu sou o que gritou. Eu fiz muito ruído. Você se comportou como uma dama.

—Jamais ouvi uma dama emitir esses sons - replicou ela com o tom cortante que ele tanto chegara a gostar. Kerrich riu.

—Não, não os ouvira, não é? Mas você não foi muito ruidosa. - Kerrich não queria que estivesse coibida e envergonhada da próxima vez. Embora, maldita seja, tinha razão em uma coisa.

Não podia tratá-la como a uma amante se queria se casar com ela. Seu avô leria a cartilha para ele. Diabos, até Beth leria a cartilha para ele. Teria que convencer Pamela de outra forma. Mas dispunha de encanto mais que suficiente, e ela demonstrara ser sensível a ele. Com paciência e sedução, conseguiria mudar sua mentalidade.

Soltou Pamela e foi atrás do biombo para recolher a bata de veludo verde. Voltou com ela e a contra gosto ajudou Pamela a vesti-la. A curva dos quadris até a cintura, as longas pernas, os seios... não podia acreditar que estivesse vestindo a aquela mulher, quando tudo o que queria era leva-la a seu quarto, colocá-la em sua cama e admirar sua perfeição.

—A acompanharei a seu dormitório e, se nos encontrarmos com alguém, deixarei muito claro que tivemos uma inocente discussão aqui dentro.

—Durante quantas horas? - Pamela deslizou os braços nas mangas. - De bata? Ou melhor dizendo... sua bata?

—E que devem te tratar com o máximo respeito, se não quiserem que os jogue à rua eu mesmo. - A obrigando a se voltar para ele, enrolou suas mangas muito longas e franziu o cenho ao ver que a borda da bata se enredava em seus pés.

—Toma muito a sério seu papel em minha queda.

—Isto não foi uma queda - espetou ele, indignado. - Como se atreve a chamá-lo queda?

A boca de Pamela, cheia e acesa por seus beijos, se torceu em um sorriso.

—A palavra era inexata. Na realidade foi mais como um deslize.

—Um deslize? - Tampouco isto o agradara.

—Um... prazenteiro parêntese?

—Sim. - Kerrich assentiu. Com isso estava de acordo. - Muito prazenteiro. Além disso, queria apontar o evidente.

Qualquer sombra de desonra se dissiparia rapidamente com uma judiciosa aplicação da cerimônia matrimonial.

A boca cheia e acesa de Pamela se converteu em uma linha.

—Não.

—Todas as mulheres têm direito a se negar. - Kerrich se inclinou. - Do mesmo modo que todos os homens têm direito a insistir.

—Não - repetiu ela com um toque de desespero.

—Entretanto, no momento concordarei com seus desejos e me manterei afastado de você no sentido carnal.

—Estou, muito agradecida - replicou ela causticamente.

—Deveria. - Kerrich vestiu sua bata.

Logo abriu a porta com cautela. Não viu ninguém. Moulton não andava por ali. Os lacaios abandonaram seus postos. Fez um gesto a Pamela, que se aproximou, e juntos subiram pela escada sigilosamente.

No corredor superior não havia ninguém. O silêncio era aterrador.

—Estão nos evitando - disse Kerrich.

—Que amáveis. - Por seu tom, Pamela parecia falar a sério.

Kerrich supôs que tinha razão. Embora ele sufocasse com firmeza qualquer pretensão, a mera presença dos criados seria embaraçosa para Pamela.

Aquele passeio solitário pelo corredor até seu dormitório era muito melhor.

Se detiveram, ante a porta para se separar, sabendo que no dia seguinte teriam que fingir ante outros que não ocorrera nada, vacilando sobre o modo de dizer adeus.

—Obrigado - disse Pamela ao fim. - Fez que fosse tão... - Elevou a vista com acanhamento.

Kerrich nunca a vira assim, e ficou encantado.

—Você também esteve maravilhosa - disse, e logo amaldiçoou a si mesmo por uma expressão tão prosaica. - Quero dizer que nunca tive uma experiência assim. Desejaria...

—Apoiou uma mão na porta do dormitório de Pamela.

—Sim, eu desejaria... - Pamela olhou a um lado e a outro e comprovou que estavam sozinhos. - Acredita que possivelmente...?

O membro de Kerrich se removeu sob a bata, valente e incorrigível.

—Acaba de me dizer que não. Acabamos de decidir que...

—Tem razão, é obvio, mas só esta vez...

—Sim! De acordo. - Kerrich girou a maçaneta e abriu a porta antes que ela pudesse dizer nada mais. Entraram no quarto a tropicões e, ao fechar a porta, Kerrich acrescentou: - Hoje será toda a noite. Mais oui[3].

À alvorada, Kerrich se levantou e contemplou Pamela, que dormia profundamente, exausta depois de sua primeira noite de amor. Era como um farol que o atraía quando já deveria ter partido.

Então, por que se atrasava, quando, se esperasse um pouco mais, os criados começariam a se mover pela casa, despertaria seu avô, encontraria Lewis no corredor, e a reputação de Pamela ficaria arruinada para sempre?

Só porque ela se negou a se casar com ele, não tinha direito a tratá-la tão mal, e se forçava o casamento pondo a descoberto sua relação, sua vida conjugal se iniciaria com acidez.

Não havia razão para recorrer a tais medidas... ainda.

Kerrich riu baixinho. Tinha todo o poder naquela união desemparelha, e assim devia ser. Uma esposa agradecida, uma esposa apaixonada, fazia todo o possível por agradar a seu marido.

Uma esposa assim não poderia ser jamais como sua mãe. E, ao fim e ao cabo, que dificuldade podia haver em se casar e ser feliz? Os idiotas de seus amigos o faziam.

Atou a bata firmemente ao redor da cintura, abriu a porta e saiu ao corredor.

—Milorde.

O sussurro sobressaltou Kerrich, que apertou os punhos automaticamente. Então viu uma figura entre as sombras.

—Moulton - grunhiu. - Que demônios faz aqui?

—Não queria lhe incomodar por nada do mundo, senhor, mas se produziu um acontecimento. - Moulton fez gestos a Kerrich em direção à escada.

Recordando a missão conjunta que levavam a cabo, Kerrich o seguiu até a biblioteca. A porta estava fechada, mas um fraco resplendor aparecia por debaixo. Moulton a abriu e apontou o interior.

Kerrich entrou. Se deteve em seco. A biblioteca estava de pernas para o ar. As cortinas caídas, as cadeiras derrubadas e rachadas, as fechaduras de seu escritório quebradas e todos seus documentos dispersados.

Furioso, Kerrich se voltou para Moulton, que elevou as mãos.

—Eu estava seguindo o senhor Athersmith esta noite, milorde, no que era sem dúvida uma aventura amorosa. Isto foi obra de profissionais.

—Mas... por que? Demos a Lewis todas as facilidades para que procurasse informação sobre as finanças do banco, e lhe proporcionamos material abundante, além disso.

—Parece que os falsificadores têm descoberto que você trabalha para o governo, e isto é uma mensagem para que desista.

—Desistir? E deixar que falsifiquem meus bilhetes? Você está louco?

—Bem. - Moulton esboçou um sorriso glacial que jamais deixava ver em seu personagem de mordomo. - Se não o fizer, poderiam matá-lo.

 

Pamela saiu de seu dormitório, tarde para as aulas matinais, vagamente dolorida em certas partes inomináveis e nervosa pelo que podia trazer o novo dia. Sem dúvida sua reputação estava em pedacinhos entre os serviçais, e temia as represálias. Vira como ocorria a outras garotas; os criados soltariam risadas de dissimulação, sorririam maliciosamente, piscariam o olho e fariam insinuações em voz alta sobre lorde Kerrich e ela.

E já não usava o disfarce, então sentia falta de seu amparo.

No corredor encontrou uma das criadas arrumando um grande ramo de rosas vermelhas no vaso de uma mesinha. A criada olhou Pamela boquiaberta quando caminhou para ela.

—Bom dia, Becky - disse Pamela.

—Bom dia, senhorita. - Becky fez uma breve reverencia. - Por favor, senhorita...

Pamela se deteve e se preparou para o pior, ao mesmo tempo que as rosas a envolviam em lembranças.

—Sim, Becky?

—Se não a incomodar que o diga, está muito bonita esta manhã.

—O-obrigado. - Pamela respirou fundo. Um aroma maravilhoso. E a criada fora cortês.

Pamela seguiu andando.

Uma criada. Talvez o rumor não se estendeu a toda a casa. Ou talvez a Becky caía tão bem que preferia não fazer conta.

Dava igual. Pamela não era uma jovenzinha necessitada como as garotas cuja reputação se arruinou com uma noite ilícita.

Aquelas jovens abaixavam a cabeça e piscavam com olhos chorosos, olhando com angustia a seus sedutores, que fingiam não as ver.

Pamela não seria nunca como elas. Tinha muito orgulho. Rechaçara a proposta de casamento de Kerrich!

É obvio, aquela proposta era o que quase fizera que ela baixasse a cabeça e se pusesse a chorar.

Aquela loucura temporária de Kerrich lhe dera um susto de morte, e só com raciocínios conseguira que a retirasse. E por que se assustou? Detestava a resposta até antes de expressá-la.

Porque queria aceitá-la. Queria esquecer toda prudência, se arriscar com um caveira... e passar o resto de sua vida chorando, enquanto ele se ia de farra todas as noites.

Não, essa não era vida para ela. Fazia o correto, e sem dúvida agora também ele o agradeceria e a envergonharia sequer ter se declarado.

Pamela se dirigiu à sala de aula, passando junto a uma criada que limpava um espelho, o mesmo espelho, uma e outra vez, olhando Pamela às escondidas. Se esforçando por aparentar normalidade, Pamela a saudou.

—Bom dia, Sheila.

Sheila deu um salto como se a tivessem pego fazendo algo que não devia, fez uma reverência e escapuliu rapidamente. Então, antes de desaparecer pela esquina, exclamou atropeladamente:

—Senhorita Lockhart? Está muito bonita.

—Obrigado, Sheila. - Aquilo não era tão mau como temia. Os criados não pareciam conhecer os acontecimentos privados da noite anterior. Tinha Moulton conseguido manter a discrição?

Os criados ignoravam então o acontecido? Parecia muito bom para ser verdade, mas...

—Como você está esta manhã, senhorita? - disse uma voz alegre a suas costas.

Pamela olhou para Dorothy quando passou por seu lado com os braços cheios de roupa branca.

—Bom dia.

—Você tem um aspecto muito agradável, senhorita.

Pamela relaxou. Talvez fosse certo. Talvez não pensaram nada das portas fechadas, as batas, o longo silencio. Por estranho que parecesse, talvez sua transformação era tudo o que percebiam.

Ao fim e ao cabo, nenhum dos criados a vira antes com seu verdadeiro aspecto. Sem pós. Sem ruge. E seca.

Seu próprio reflexo em um dos espelhos da parede captou sua atenção, e se deteve para se olhar. Verdadeiramente seu aspecto era agradável aquela manhã. Descartara os incômodos óculos escuros, sua cútis tinha sua resplandecente cor natural, levava ainda as agulhas de tecer no coque, mas mais soltas, e seu vestido era... feio. Só pegara os vestidos de lady Temperly para se mudar à casa de Kerrich.

Não podia se queixar de ter que usar os vestidos de lã da viúva. Ao menos a cor púrpura dava um intenso tom violeta a simples cor azul de seus olhos.

Estaria muito atraente se tropeçava com... bom... com qualquer que estivesse interessado.

Então, com uma pose que já não lhe parecia fingida, entrou na sala de aula... e todo seu empacotamento se foi ao traste.

Kerrich estava ali. Kerrich e Beth, com as cabeças juntas, rindo. Kerrich... céu santo, com a luz matinal criando um halo em torno de sua cabeça e um casaco de viagem azul escura, era audivelmente bonito.

Kerrich se levantou devagar, sorrindo para ela com uma intimidade que fez Pamela ruborizar. Como se comportava alguém com o homem que a vira nua, ofegante e frenética?

Como podia se comportar com normalidade quando recordava perfeitamente a imagem de Kerrich nu, com os braços elevados, com sua figura resplandecente à luz do fogo?

Dando graças à disciplina inculcada por anos de cortesia, Pamela fez uma reverência.

—Milorde.

Ele se inclinou sem deixar de olhá-la, nem de sorrir.

—Senhorita Lockhart.

Não disse nada mais, mas seu tom profundo e meloso evocou em Pamela a lembrança de sua voz dizendo seu nome, rogando, exigindo...

Kerrich a observava como se sua visão lhe produzisse tanto prazer como seu corpo.

De repente, Pamela não recordava se abotoara o vestido, ou o colarinho, ou se penteara. Sua mão subiu pelos botões até a garganta, logo a levou ao coque... sim, estava abotoada e penteada.

Só o olhar de Kerrich sugeria que estava nua, e só porque era um caveira e vagabundo confesso.

A voz assombrada de Beth irrompeu na desordem de ideias de Pamela.

—Senhorita Lockhart, que bonita está.

—Que bonita - repetiu Kerrich.

—A verdadeira beleza está no interior - disse Pamela delicadamente.

—Isso dizem os sábios. - Kerrich deu uns passos para ela, a afligindo com sua presença física. - Mas eu digo que um pouco de beleza no exterior não faz mal a ninguém.

O mero fato de estar perto dele, de respirar seu aroma e olhar aqueles olhos da cor do pecado, bastava para lhe fazer perder a cabeça. Pamela esteve a ponto de assentir a sua absurda afirmação.

Vagabundo e caveira, recordou a si mesma. Sabia muito bem o que devia pensar de ambos os atributos. Só precisava recordar a seu pai, que se foi sem dizer uma só palavra.

Tirou o relógio do bolso de sua saia e contemplou os arabescos da tampa de prata. Só precisava recordar a sua mãe, sofrendo o abandono.

Mas... aquelas lembranças determinaram toda a vida de Pamela e todas suas respostas, e agora, aqueles momentos pareciam longínquos e carentes de importância.

Deixou cair o relógio no bolso como se lhe queimasse as mãos.

Talvez Kerrich não fosse tão parecido a seu pai. Não havia mais que ver o afeto sincero que sentia por Beth.

Olhou com acanhamento à menina, que os observava. Seu afeto era sincero, ou não?

Beth estava sentada em sua carteira com as mãos dobradas sobre o colo.

—Estou pronta para começar as aulas, senhorita Lockhart.

Parecia inocente como um bebê, mas Pamela recordou sua imprudente escapada da véspera.

—Tem os livros e o quadro-negro?

—Sim, senhorita Lockhart - respondeu Beth com tom suave.

—Justamente me dizia que estava preparada - interveio Kerrich.

Os dois tinham um ar muito satisfeito.

—Enquanto não dissesse quanto desejava voltar para hipódromo - disse Pamela com aspereza, e observou com incredulidade que intercambiavam olhadas culpadas. - Não aprenderam ontem a lição? - perguntou.

—Lorde Kerrich sim. - Beth esfregou o bolso do avental. - Aprendeu a não apostar contra mim.

—Não voltarei a levá-la ao hipódromo - Kerrich se apressou a dizer para tranquilizar Pamela.

—É um mau perdedor - lhe confiou Beth. - Senhorita Lockhart, lhe contou por que me levou?

—Não deveria chamar lorde Kerrich mau perdedor. Não é cortês - disse Pamela. - E não, não me informou que motivo pelo que a levou a esse lugar terrivelmente inadequado. - Fulminou Kerrich com o olhar.

Ele não se deu conta; fulminava Beth com o olhar.

—Entrei na classe esta manhã por outra razão.

—Só pensava que a senhorita Lockhart entenderia por que me levou se você explicasse...

Kerrich a interrompeu sem remorsos.

—Tenho notícias tristes e alegres de uma vez. No final não poderemos ir a meu imóvel de Norfolk.

—OH, vá. - Pamela esperava com impaciência o momento de estar ali e de mostrar a vida do campo a Beth.

—As notícias alegres são que não podemos ir porque recebemos um convite que não podemos rechaçar. - Com um floreio, Kerrich tirou do bolso um rígido papel dobrado e lhes mostrou o selo.

—Porque procede de Sua Majestade em pessoa!

Pamela sentiu um tombo e arrebatou o convite de Kerrich.

Ele riu entre dentes contemplando-a, tomando sem dúvida seu alarme por emoção, e recitou o convite enquanto ela o lia.

—"Sua Majestade a rainha Vitória, soberana e monarca das Ilhas Britânicas, ordena a Devon Mathewes, conde de Kerrich, e sua pupila, a senhorita Elizabeth Hunter, que vá à recepção que se celebrará em Buckingham Palace daqui a três dias às quatro da tarde."

Pamela suspirou aliviada. Não estava convidada.

—Sim, não é verdade que é uma notícia estupenda? - exclamou Kerrich.

Beth não parecia achar assim. Ficou petrificada, e Pamela sentiu que a invadia um sentimento de culpabilidade. Se ela assistisse, poderia animá-la e lhe dar instruções.

—Sabia que assim que mostrássemos Beth em sociedade, a rainha se inteiraria - disse Kerrich. - Uma daquelas boas damas teria ido correndo a vê-la com a intriga.

Pamela se ajoelhou junto a Beth e meteu uns quantos cabelos soltos na curta trança da menina.

A alegrava ter sido excluída, mas como penitência se aplicaria com mais rigor que nunca em adestrar Beth durante os três dias que faltavam para a recepção.

—Vitória deve estar ardendo de curiosidade para nos ter incluído na lista de convidados tão cedo - comentou Kerrich. - Esta recepção levava meses se preparando.

—Fez tudo o que te pedia - disse Pamela a Beth em voz baixa. - Provou seu valor além de toda dúvida.

Sem se dar conta de nada, Kerrich prosseguia com seu discurso.

—Antes não me convidavam porque é uma dessas celebrações familiares às que o príncipe Alberto é tão aficionado, e não me consideravam o bastante respeitável para me mesclar com pais e filhos.

—Vestirá seu vestido mais bonito - dizia Pamela a Beth, - o de rendas que tão impaciente estava por usar.

—Claro está que eu não teria ido de todas as formas, mas agora tudo mudou. Tudo graças a Beth. Olhem, está escrito aqui, à margem.

"A senhorita Elizabeth Hunter será apresentada a Sua Majestade a rainha Vitória às seis em ponto."

—Kerrich olhou para baixo e se deu conta por fim de que ocorria algo sob seus próprios narizes. - Por que não estão contentes?

—Milorde - espetou Pamela, incômoda por sua falta de sensibilidade, - você se comporta como o galo que acredita que o sol sai somente para o ouvir cantar.

Kerrich se surpreendeu, mas ao que parecia nem sequer sua insolência bastava aquele dia para danificar seu bom humor.

—Não fazia mais que tagarelar. Bom, estou contente. As duas fizeram muito bem. - Examinou o pálido semblante de Beth. - O que ocorre?

—Nunca viu à rainha - explicou Pamela.

—É obvio que não. Por isso terei que apresentá-la.

—Está nervosa.

—Sim - disse Beth com uma vozinha.

—Você? Nervosa? - Era evidente que Kerrich não podia imaginar tal possibilidade. - Não me tem medo. Por que te tem que dar medo ela?

—Porque é a rainha. É importante - declarou Beth.

Pamela tirou o lenço que levava na manga e tampou a boca com ele, mas nada pôde dissimular sua risada afogada.

O cenho de Kerrich ameaçava com represálias. Se ajoelhou diante de Beth.

—Faz anos que conheço sua Majestade e a asseguro que é muito boa, muito jovem e muito bonita. Se deixa cativar facilmente pelo encanto das pessoas e você é encantadora. Ganhará seu coração imediatamente.

—De verdade? - perguntou Beth, se animando.

Pamela poderia ter se sentido ofendida ao ver que Kerrich podia tranquilizar à menina tão facilmente, quando a ela não fora possível. Mas o que viu foi o bom uso que Kerrich fazia de sua lábia e se sentiu agradecida.

—Tenho meus defeitos, mas não sou um mentiroso - disse ele a Beth. - Tenho plena confiança em você.

No rosto de Beth se desenhou um sorriso cauteloso.

—Eu tampouco sou uma mentirosa - disse. - Antes tinha medo de você. Agora... - Jogou os braços ao pescoço dele.

Ele devolveu o abraço com evidente surpresa, logo depositou Beth no chão e se levantou.

—Entretanto, o resultado desta boa notícia é que tenho que ir a Norfolk para fiscalizar o banco. Tinha pensado fazê-lo quando estivéssemos em Brookford, mas será impossível. Os criados estão procurando agora o senhor Athersmith para que me acompanhe, e a carruagem me espera. Então... - Deu um tapinha nas costas de Beth. - Estou preparado para partir, mas esqueci minhas luvas de pelica de cor bege.

Poderia se encarregar que fossem procurar meu ajudante de quarto e as pedisse?

Beth sorriu de orelha a orelha e fez uma reverência.

—Com muito prazer, lorde Kerrich.

A menina saiu correndo da sala de aula seguida pelo olhar de orgulhoso carinho de Pamela.

—Foi muito amável com ela, milorde.

—O que volta a demonstrar que não há mulher alguma a que não cative com meus encantos.

Desconcertada por sua despreocupada declaração, Pamela voltou a vista para ele e viu que se aproximava com uma expressão de absoluta luxúria estampada no rosto.

—Ao fim e ao cabo, cativei a você, senhorita Pamela Lockhart, não é certo?

Ela retrocedeu e tentou não se deixar cativar outra vez.

—Milorde, seus encantos não concernem a ninguém mais que a você.

—Quando começou a me chamar "milorde" outra vez? - A pegou pelos ombros e a segurou frente a ele.

—Tínhamos acordado que me chamaria Devon.

—Não tínhamos acordado nada - replicou ela com indignação. - Cedi a sua demanda ao ser submetida à maior das chantagens.

—É claro que sim. - Kerrich a olhou com aquele sorriso arrebatador que fez Pamela recordar precisamente a forma que adotara sua chantagem. - Poderia fazer que voltasse a ceder.

—É uma loucura, senhor uma loucura! - O coração pulsava desbocado em seu peito, confirmando a excitação que Pamela pretendia negar com a cabeça.

—Estarei fora dois dias inteiros.

—Adeus. - Pamela lhe estendeu a mão para estreitá-la. Que tenha uma boa viagem.

Ele afastou a mão, se aproximou tanto que lhe esmagou as anáguas, e deslizou as mãos pelas costas até chegar às nádegas.

—Deveríamos compartilhar um último beijo antes que vá.

O pegou pelos braços e protestou.

—Certamente que não!

—Ao fim e ao cabo - Kerrich inclinou a cabeça e a levantou para aproximá-la mais a ele, - com a carruagem esperando fora e a menina a ponto de voltar, não podemos ir mais longe.

De algum jeito, os lábios de Pamela encontraram o caminho para os lábios de Kerrich. As bocas se juntaram e Kerrich a saboreou como um homem faminto. Dava igual que se amaram várias vezes na noite anterior; quando o beijou, Pamela sentiu que despertava sua voracidade de uma maneira prodigiosa. Ele afastou a boca para beijá-la nas faces, na testa, no queixo, enquanto Pamela se agarrava a ele, desejando que estivessem sozinhos, que fosse de noite... e todos os prós e os contra da situação se desvaneceram.

Quando Kerrich deslizou a mão para seu seio, Pamela acreditou que ia estalar em chamas. E uma instrutora fogosa não lhe pareceu a mestra mais adequada.

—Beth voltará em seguida.

Ele a acariciou uma última vez antes de admitir:

—Sei. - Apoiou a testa na de Pamela e a olhou aos olhos. - Sei. Se casasse comigo, a cobriria de beijos todos os dias.

Ela tremia ainda com a respiração agitada, mas replicou:

—Me prometeu isso!

—O que prometi?

—Que... aceitou não insistir mais me pedir em casamento.

—Não. Ontem à noite. Mas pensei melhor. Deveria me aceitar. Sou um bom homem. Nunca saberia nada de minhas amantes.

Pamela aspirou uma grande baforada de ar.

—Confunde a bondade com a discrição, milorde. Me solte, por favor.

Kerrich a soltou, com bastante brutalidade.

—Não quer dinheiro e despreza, nem discrição - disse, elevando a voz. - O que necessita para se casar comigo?

Agora atuava tal como Pamela esperava que atuasse um homem frustrado. Como um menino caprichoso.

—Não quero me casar, e isso não pode ser uma surpresa para você. Eu disse que não me casaria. Já conhece a história de meu pai. - Pamela apalpou o relógio através do bolso.

—Eu não sou seu pai.

—Nem é o homem que eu teria escolhido na vida.

Com os punhos apoiados nos quadris, Kerrich entrecerrou os olhos e a olhou.

—Toda a vida é muito tempo. - Seu sorriso apareceu tão de repente que Pamela piscou. - Então lhe pedirei isso todos os dias.

Acaso fingira se zangar para pôr a prova sua decisão? pensou Pamela.

—Sigo sem compreender por que quer se casar comigo.

—Porque seu corpo me pede que o encha.

—Milorde, estamos em uma sala de aula onde se dá aula uma menina inocente!

—Porque estou possuído por um violento desejo que nem sequer uma noite inteira com você me saciou.

—Shhh! - Pamela olhou para a porta aberta e rogou para que nenhum dos serventes o tivesse ouvido.

—Porque posso suportar a ideia de sua companhia durante os próximos cinquenta anos com serenidade.

Preparada para tentar de novo o fazer calar, Pamela se encontrou em troca dizendo com cansaço:

—Bonito elogio, verdadeiramente.

—Não sou do tipo de homens que dizem tolices à mulher com a que planejam passar sua vida, e não acredito, Pamela, que você seja do tipo de mulher que as deseja ouvir.

—Não. - Sim. - Não. - Não podia suportar mais. Um homem não era mais que uma criatura primitiva que desprezava seu coração, amava com o cérebro, e pensava com o membro. Sem dúvida, os atrativos eram os piores.

Pamela vira sua mãe morrer de pena por um homem.

Aqui estava Kerrich agora, e como era na realidade?

E por que importava a ela?

Procurou com impaciência algum tema de conversação inofensivo, mas acabou expressando uma de suas inquietações.

—Espero que não tenha tido problemas com a biblioteca.

—A biblioteca - repetiu ele, ficando rígido. - O que acontece com a biblioteca?

—A deixamos um pouco desordenada ontem à noite, quando... quando fomos.

Ele a olhou como se acabasse de pegá-la roubando a prata, e logo soltou um suspiro que parecia de alívio.

—Não se preocupe. Moulton a fechou com chave e se ocupou dela.

—Bem. - Só terei que me envergonhar ante Moulton. Mas não, não fazia sentido Kerrich notar. Nem sequer conhecia o nome da maior parte de seus criados.

Certamente não compreenderia que pudesse lhe envergonhar a perspicácia de um ajudante. Pegou seu lápis e o fez girar entre as mãos, evitando olhá-lo à cara em todo momento.

Uma parte do problema com Kerrich era que ele não se ofendia com suas réplicas, nem sequer agora que se desprendeu da máscara da amargurada senhorita Lockhart para se converter na jovem Pamela.

Era bonito, rico, nobre, e tão indiferente aos sentimentos que estava utilizando uma menina para conservar uma fortuna de seu próspero banco. Entretanto, dedicava parte de seu tempo a Beth, aparentemente pelo mero prazer de sua companhia. E conseguira seduzir a ela, mas insistia em se casar, quando deveria estar secando o suor da testa, de puro alívio por ter sido rechaçado!

Beth entrou correndo na sala.

—Lorde Kerrich, seu ajudante de quarto diz que tem as luvas em seu sobretudo.

—Ah, que tolo sou. - Kerrich lhe tocou a ponta do nariz com o dedo. - Obrigado por me ajudar.

Beth ouviu seu elogio com um sorriso radiante.

Quando Beth fosse apresentada à rainha e o plano de Kerrich tivesse chegado a bom término, Kerrich se mostraria tal qual era na realidade.

Exigiria a Pamela que o respeitasse, quando ela não sentiria nenhum respeito por ele. Se desfaria de Beth friamente. Pagaria seu dinheiro a Pamela, a despediria e procuraria uma nova amante.

Então a terra seria redonda, o céu seria azul, o sol sairia pelo este, tudo no que Pamela acreditava seria certo, e sua vida voltaria para a normalidade.

 

—Que tal a viagem, milorde? - perguntou Moulton no dia seguinte pela tarde, enquanto ajudava Kerrich a tirar o casaco.

—Tão mal como podia ir. - Com um gesto imperioso, Kerrich despediu dos lacaios que formavam redemoinhos em torno dele. - Tenho descoberto o paradeiro do misteriosamente desaparecido senhor Athersmith.

—Estava em seu imóvel de Norfolk? - perguntou Moulton, baixando a voz.

—Não, em Brookford não, mas fora ao banco. - Kerrich tirou as luvas e as meteu no chapéu. - Por meu encargo, disse aos empregados.

—E eles acreditaram nele?

—E por que não iam acreditar? - Kerrich entregou o chapéu ao lacaio ao passar junto a ele. - Não falei a ninguém mais de meus problemas.

Moulton o seguiu até uma mesa onde destacava um vaso cheio de rosas.

—É obvio, tem você razão, milorde. O que o senhor Athersmith fez no banco?

Kerrich se agachou para cheirar um casulo de rosa especialmente bonito e pensou em Pamela.

—Roubou uma grande quantidade do papel especial com filigrana que usamos para imprimir nossos bilhetes. Pensando que era minha ordem, meus empregados o ajudaram a tirá-lo, muito agradados consigo mesmos.

—Que guelra tem esse homem! - exclamou Moulton, o olhando fixamente com estupefação.

—Não imaginava que pudesse chegar a tanto - disse Kerrich com tom lento. - Algum acontecimento por aqui?

—O senhor Athersmith desapareceu de Londres, embora agora já sei por que, e sem ele não temos possibilidade alguma de descobrir o cérebro desta maquinação.

—Tampouco com ele pareciam ter muitas.

—Não é necessário que se mostre tão crítico, milorde - disse Moulton, e logo prosseguiu, agindo exatamente igual. - Embora os funcionários do Banco da Inglaterra são as pessoas mais torpes com as que já trabalhei.

Insistem em usar a sua própria gente, quando deveríamos ser nós, os profissionais, quem nos encarregasse de tudo, e este é o resultado. Não temos mais que um rastro que não leva a nenhuma parte.

Kerrich arrancou uma rosa do ramo e a fez girar entre os dedos.

—Talvez o bando de Lewis volte para meu imóvel para fazer a impressão.

—O lugar está vigiado, ou ao menos isso asseguram os funcionários do banco, mas seguro que os muito canalhas sabem que você está a par, do contrário, não teriam registrado seu estúdio. E, para lhe ser franco, não teriam problemas em prescindir daquela imprensa agora que se podem permitir uma nova. - Moulton apertou os dentes em um gesto de frustração. - Se conseguimos encontrar seu primo, milorde, o prenderemos, diga você o que quiser.

Kerrich assentiu. Fez tudo o humanamente possível para salvar Lewis. O nome da família Mathewes se ressentiria, mas Kerrich estava farto de se preocupar por seu primo, quando tinha uma rainha a que aplacar e uns esponsais que impor.

—Sempre que não me enforquem com ele.

—É isso o que lhe disseram? - Moulton meneou a cabeça. - Não se preocupe, milorde.

Kerrich tinha pensado que os funcionários do banco só estavam marcando um farol; o alegrou saber que não se equivocava.

—Bom. Penso me casar, e o cárcere seria um impedimento.

Moulton esboçou um sorriso de suficiência.

—Se me permitir isso, queria lhe felicitar e dizer que escolheu a uma dama encantadora.

Impertinente, é obvio, mas Moulton era o mordomo no momento, e um bom mordomo sempre sabia o que ocorria na casa.

—Não diga a ela que percebeu. - Lhe dará um sermão sobre a superficialidade da beleza externa.

—Certamente. - Os dois homens intercambiaram um sorriso.

—Como está o assunto? - perguntou Kerrich, apontando a porta fechada da biblioteca.

—Contei a meus homens o que ocorreu, e falamos com os lacaios de mais confiança. Dissemos a eles que foi um roubo, mas que você não desejava alarmar a ninguém. Ordenamos tudo sem armar animação.

Agora tem um aspecto aceitável, embora algo nu. Mantive a porta fechada com chave, porque algumas das criadas são incrivelmente curiosas.

Finalmente Kerrich formulou a pergunta que queria fazer desde que entrara pela porta.

—Onde está a senhorita Lockhart?

Moulton demonstrou que não só era um dos sabujos mais eficientes do mundo, mas também uma fonte de informação inesgotável.

—Está acima com a menina - respondeu. - Envio a procurá-la?

—Que venha ao salão.

Quando Kerrich entrou no salão, se perguntou por que não pedira que fosse à sala de jogo ou à sala de estar ou ao salão de baile. Ali não podia relaxar. Nem sequer podia sentar.

Sua mãe decorara o salão e ele o deixara tal como estava de propósito para que lhe recordasse sempre o dia em que encontrara sua mãe abraçando a um desconhecido, depois da morte de seu pai.

Por que agora escolhia a mesma sala para se encontrar com Pamela?

Acaso seu subconsciente lhe insinuava que devia reconsiderar sua decisão de se casar com uma mulher que despertava umas emoções que ele protegera durante toda sua vida?

Sempre pensara que se casaria com uma mulher de escasso intelecto e uma beleza comum, uma mulher que deixasse para ele a carga de pensar e que não constituísse uma tentação para outros homens, nem para ele.

Pamela não era o que ele pensara, e sabia que, se retirava sua proposta de casamento, seria um alívio para ela. Então, por que não...?

—Milorde, queria me ver?

O som de sua voz enérgica interrompeu seus caprichosos pensamentos. Ali estava: a franca, faiscante e severa senhorita Lockhart, e a formosa, apaixonada e resolvida Pamela. Duas mulheres unidas naquela mulher única e perfeita. A mulher que ele queria. Cada vez que a via, se convencia mais e mais. Precisava ser dele.

Simplesmente precisava se assegurar que ela não descobrisse jamais a profundidade de seus sentimentos.

Pamela seguia usando um vestido de viúva, folgado nos ombros e largo de cintura. Tinha o cabelo penteado para trás em um coque tão esticado como sempre, e voltara a colocar as agulhas de tecer em posição, como se isso pudesse conter a paixão de Kerrich... e dissimular a dela. Estava carrancuda, com esse sobrecenho feroz que usava com tanto êxito quando representava o papel de velha instrutora amargurada. Por desgraça para ela, o vestido e o penteado não conseguiam camuflar nem seu encanto nem sua figura, sem a maquiagem que desfigurava seu rosto, o cenho dava um ar interessante a suas belas feições, e fazia Kerrich desejar apagar-lhe com um beijo.

É obvio, certamente quereria apagar qualquer de suas expressões, salvo a do desejo.

—Senti sua falta - disse, estendendo uma rosa para ela.

Ela fechou os olhos, e era óbvio que não se alegrava precisamente.

—Milorde, ontem convimos em que era uma aberração que não devia se repetir, e devo lhe rogar que não me diga tais coisas.

Pamela era muito inteligente, muito insolente e segura de si mesma, e inclusive com aquele ridículo traje era uma mulher muito formosa. Aproveitando que tinha os olhos fechados, Kerrich foi até ela de um passo longo.

—Eu adoro te ouvir suplicar.

Pamela abriu os olhos e deu um salto.

Ah, não era nem muito menos tão impassível como gostaria de lhe fazer acreditar. Certamente a maneira de olhá-lo delatava certa emoção, embora não fosse mais que alarme.

—Sentimento e paixão se ocultam na fragrância da rosa. - Elevou a flor até seu nariz. - Não está de acordo?

—Muito terei que viajar para encontrar a uma pessoa que não gostasse do aroma das rosas.

Kerrich a acariciou por debaixo do queixo com a flor.

—Seu aroma me recorda uma noite transcendental que passou a dama com a que vou me casar.

Ela tratou de conter a respiração. Viu que Kerrich a tentava, mas não podia. Não se queria falar com mesmo tom.

—Eu não quero que me recorde isso, e não vou me casar com você. - Ao tomar ar, seus pulmões se encheram com o aroma da rosa e sua expressão se suavizou ostensivamente. - Mandou me chamar, milorde?

—Quero um beijo. - antes que Pamela pudesse se negar, Kerrich acrescentou rapidamente: - A viagem foi horrível. Tenho problemas no banco, e não só pela ameaça da rainha Vitória. Também tenho descoberto uma traição - esfregou a testa; sua cabeça doía, - que além disso me afetou pessoalmente. Só me consolava a ideia que você estava em casa e que, quando retornasse, poderia...

—se interrompeu. O que o impulsionara a tagarelar daquela maneira? Às damas se teria que proteger das dificuldades da vida. Com seu sorriso mais irresistível, disse:

—É incrivelmente paciente com minhas queixas.

Ela o olhou como se estivesse louco.

—Não. Me parecia que me falava como se fosse... - Desta vez ela se interrompeu.

—Minha esposa?

Pamela estava turvada; Kerrich via em sua cara. Mas sua própria confusão não era menor.

As conversações calmas, ocasionais, que imaginara para seu casamento não incluíam uma intimidade do pensamento e a experiência vital.

Pamela se aproximou dele e lhe rodeou o pescoço com os braços.

—Só um beijo.

Sua esposa precisava ser um mero adorno que se pendurasse de seu braço, a anfitriã de sua casa, a mãe dos filhos sem rosto e sem nome que cresceriam como meninos bem educados.

Pamela enredou os dedos entre seus cabelos.

Kerrich não queria uma esposa que acreditasse ter direito a conhecer seus assuntos ou a compartilhar suas preocupações.

Pamela apertou os lábios contra os seus.

Kerrich não queria uma esposa que pensasse.

Mas então foi ele quem deixou de pensar. Deixou cair a rosa e estreitou Pamela entre seus braços, a levantando até pô-la nas pontas dos pés. Seu aroma, o tato de seu corpo, seu sabor, só isso necessitava para apagar a dor da traição de seu primo, a preocupação pela ameaça da rainha e a recepção cada vez mais próxima. Se beijaram como se fossem amantes que voltavam a se ver depois de uma longa e dolorosa ausência. Como se juntos fossem uma só pessoa. Como se estivessem apaixonados.

Os lábios de Pamela se abriram para aceitar com gosto a língua de Kerrich, que chupou brandamente.

O erotismo desta ação despertou a imaginação de Kerrich, o fazendo sonhar se deitando de costas e deixando que ela usasse a boca para lhe dar prazer.

Precisavam estar mais tempo juntos. Kerrich necessitava intimidade para tentá-la como sabia que podia ser tentada.

Queria possuí-la uma e outra vez, até que Pamela desejasse tanto que estivesse disposta a lhe chamar amo de boa vontade.

Conhecendo Pamela, teria que fazer amor com ela intensamente e, com sorte, conseguiria retê-la durante muito, muito tempo.

O aroma da rosa os rodeou. Kerrich olhou para baixo e viu que tinham esmagado a flor com os pés, e Pamela... Pamela se derretia entre seus braços.

—Não podemos seguir assim - disse, com seu tom mais persuasivo. - Temos que estar juntos.

Ele se referia ao casamento, mas Pamela respondeu:

—Sim. Agora. Fecha a porta. - Sua petição pegou Kerrich de surpresa, mas não era idiota. Se o desejo de Pamela era tão inexorável, ele não tinha nada que objetar.

—Aqui não - disse. Não com o fantasma de sua mãe e do amante zombando dele.

Pegou Pamela pelo braço e se dirigiu precipitadamente à biblioteca. Moulton os viu e, sem deixar que seus pensamentos transparecessem de nenhum modo, se adiantou a eles com a chave disposta.

Mas quando a meteu na fechadura, a porta girou brandamente sobre suas dobradiças.

Ambos os homens se detiveram. A porta estava aberta. Kerrich levou um dedo aos lábios para assinalar a necessidade de silêncio, e logo indicou a Pamela que ficasse atrás.

Moulton abriu a porta de repente e entrou na biblioteca como uma carga da brigada ligeira, seguido de perto por Kerrich.

Ali encontraram lorde Reynard, sentado na escrivaninha com todos os livros de contas à vista e um copo de uísque ao alcance da mão. O idoso cavalheiro franzia os lábios e esfregava o queixo, quando viu o horrorizado Moulton e logo Kerrich.

—Interessante o que tem aqui, Devon. Um absurdo, é obvio.

Kerrich intercambiou um olhar com Moulton.

—Senhor, eu...

—Ah, senhorita Lockhart - disse lorde Reynard, olhando à porta, - você também faz parte desta conspiração?

Kerrich viu Pamela os observando do outro lado da porta e se apressou a responder por ela.

—Não, senhor.

—Então, por muito que me incomode interromper seu cortejo, talvez fosse melhor que se vá.

Kerrich se aproximou de Pamela, mas ela retrocedeu como se fosse portador de alguma temível enfermidade.

—Deixei Beth com Corliss - disse, sem o olhar ao rosto. Não olhou a ninguém. Tinha as faces acesas e as costas tão rígidas como sempre a teve a senhorita Lockhart instrutora. - Devo voltar com ela.

Se me desculparem, milordes. - Fez uma reverência e se foi rapidamente.

—A envergonhei. - Lorde Reynard fez estalar a língua. - E justo quando tudo ia tão bem.

—Sim - murmurou Kerrich, vendo-a partir. - Oxalá não tivesse...

—Deixa os oxalás por agora. Já terá tempo para isso quando se casarem. Então desejará não ter dito isto ou o outro, e jurará não ter feito aquilo ou o de mais à frente... porque vai se casar com a senhorita Lockhart, não vai? - Lorde Reynard fixou nele um olhar severo.

—Já pedi, senhor.

—Suplique. Às mulheres gostam dos homens que se humilham.

—Não cheguei a tanto, senhor.

—Sério? - No rosto de lorde Reynard se desenhou esse sorriso de suficiência dos avós.

—Se me desculparem, milordes. - Moulton tratou de escapulir resmungando umas palavras e fazendo uma reverência.

—Fecha a porta, Moulton, e fique - ordenou lorde Reynard. - Já o disse, reconheço a um homem do entorno da Bow Street assim que o vejo. - Apontou as cadeiras que havia diante da escrivaninha.

Kerrich e Moulton se sentaram, o primeiro com resignação e o segundo com grande desassossego.

Lorde Reynard juntou as mãos sobre a escrivaninha e se inclinou para eles. O idoso cavalheiro afável desapareceu. Se enfrentavam agora com o homem nascido na pobreza, que assumira a direção de um banco e amealhara uma fortuna com uma mente sagaz e um ânimo implacável.

—Bem. Alguns de meus velhos amigos seguem tendo contatos no Banco da Inglaterra, e me contaram que começaram a se pulverizar rumores sobre uma falsificação. Estes livros - lorde Reynard afastou os livros de contas falsos - são fraudulentos. Assim chegou o momento que explique a seu velho avô o que está acontecendo aqui.

O tom cordial de lorde Reynard não enganou Kerrich.

—Verá, senhor, Lewis conheceu uma jovem...

Quando Kerrich concluiu com seu relato, o idoso voltou a franzir os lábios.

—Não sabia que Lewis tivesse arrestos para fazer algo assim.

—Tampouco eu - disse Kerrich, se recostando em seu assento, - mas tem uma confusão com uma dama distinta, está apaixonado pela senhorita Fotherby, e se envolveu em um plano para roubar o Banco

Mathewes e o Banco da Inglaterra.

—Um menino muito ocupado - comentou o avô. - Mas não importa. Conheço Lewis desde que andava em fraldas e sei que esse moço não tem cérebro suficiente para tramar um complexo plano para falsificar bilhetes.

—Não, milorde - apontou Moulton. - Sabemos que trabalha para outra pessoa, mas não conseguimos descobrir quem é.

—Sabia que o moço andava metido em confusões, mas não tinha a menor ideia que a coisa fosse tão grave. - Lorde Reynard se voltou para Moulton. - O enforcarão?

Moulton assentiu com o semblante lúgubre.

—O melhor que pode esperar é que o deportem.

—Maldito seja. Não me faria nem um pingo de graça. É o neto de minha irmã. - Lorde Reynard bebeu um gole de uísque. - Mas primeiro têm que apanhá-lo. Já sabem como o vão fazer?

—Não, senhor - respondeu Moulton.

Lorde Reynard deixou o copo sobre a mesa com um golpe seco.

—Então o direi eu.

 

Pamela enrugou a nota. A desfaçatez de Kerrich era incrível. A chamava agora, quando faltavam menos de quatro horas para a recepção da rainha e ela fiscalizava às donzelas que preparavam Beth.

De todas as formas, as donzelas na realidade não necessitavam supervisão. Por uma vez, Beth se banhara sem protestar. A aguardava o vestido branco com rendas e faixa de veludo azul.

O dormitório estava lotado de donzelas alegres e serviçais, até o ponto que Pamela não tinha nem onde se sentar, mas... queria estar com a pequena Beth. A doce menina necessitava sua presença confortadora.

Pamela se aproximou de Beth e se ajoelhou junto a ela.

—Carinho, lorde Kerrich quer me ver.

—Muito bem - disse Beth alegremente, voltando a cabeça para permitir que Corliss lhe tirasse outra fita de frisar o cabelo.

—Mas não irei se você preferir que fique aqui com você.

Beth assentiu sem deixar de se olhar no espelho o cabelo que caía em cachos.

—Pode ir.

—Sua felicidade é mais importante para mim que a chamada de lorde Kerrich.

—Sou feliz. Vá. - Tocando os cachos recém feitos, disse: - Corliss, quero levar o cabelo para sempre assim.

As donzelas riram com indulgência.

—De verdade, senhorita Lockhart - disse Corliss, - não é necessário que fique. Beth estará pronta para se apresentar ante Sua Majestade quando chegar a hora de ir, e já sabe que não pode dar uma negativa ao amo.

Pamela sentiu uma onda de pânico. Todo mundo sabia que não podia rechaçar Kerrich?

Então compreendeu que Corliss se referia a sua chamada.

—Não, suponho que não. - Pamela se levantou a contra gosto, se dirigiu à porta lentamente e saiu ao corredor.

—Senhorita Lockhart - disse Moulton em voz baixa das sombras, - por aqui.

Sobressaltada, Pamela conteve um grito.

—Desculpe, senhorita. Lorde Kerrich me ordenou que a acompanhe. - Moulton conduziu Pamela pelo longo corredor iluminado por velas e com um vaso cheio de rosas em cada mesinha. Quando chegaram à galeria, seus passos ressoaram claramente no brilhante chão de madeira polida. Passaram pela frente de quartos de convidados com a porta aberta que deixava ver seu rico colorido, pela frente de uma sala de jogo com sua mesa de bilhar, e por fim dobraram a esquina para entrar em outra ala do edifício. A ala da família, com os dormitórios da família.

As cores subiram à cara de Pamela. Não pretenderia Kerrich que fosse a seu dormitório... não? Só porque no dia anterior lançara um convite do mais indecoroso, e só porque seu avô estivesse na biblioteca, frustrando assim suas intenções, não era motivo suficiente para que Kerrich acreditasse que podia chamá-la sempre que tivesse vontade de pular. Não a tinham humilhado bastante diante de lorde Reynard?

Moulton se deteve frente à porta dupla que conduzia ao quarto do amo e a abriu. Se fez a um lado e se inclinou.

Com as faces ardendo, os lábios muito apertados e os dedos fortemente enlaçados, Pamela olhou ao mordomo.

—Não, senhorita! - Moulton se apressou a dizer. - Não se preocupe, por favor. Ninguém sabe onde está além de mim... e eu sou a discrição personificada.

Disso não cabia a menor duvida. Moulton era na verdade a discrição personificada, do contrário, toda Londres já teria se informado de sua queda. Mesmo assim, Pamela vacilou até que Kerrich apareceu na soleira da porta. Ainda não se trocara; usava uma simples camisa branca arregaçada e calças sem botas, e luzia um sorriso impudico.

—Entre - ordenou, com um gesto. - Não temos muito tempo.

As palavras eram imperiosas. Sua expressão não.

—Não me olhe dessa forma - disse. - Tenho uma surpresa para você.

Ainda com reticência e se armando de coragem para uma briga, Pamela entrou no quarto timidamente.

—Não do tipo que obviamente você está imaginando. - Kerrich se colocou a suas costas e pôs as mãos sobre seus ombros. - Senhorita Lockhart, deveria vigiar esses pensamentos obscenos.

Kerrich parecia feliz e ela desejou que a terra a tragasse, pois lhe atormentava a terrível suspeita que Kerrich pensava que ela também iria à recepção da rainha.

Uma suspeita que imediatamente resultou ser certa.

—Queria pegá-la antes que começasse a se preparar.

Moulton fechou a porta, a deixando encerrada no quarto luxuosamente decorado, a sós com Kerrich. Um fogo ardia na lareira, havia velas acesas por toda parte, e um vaso com flores adornava uma mesinha colocada junto a uma cômoda poltrona. Pamela olhou com angustia para a porta.

—Tenho algo para você. - Kerrich a pegou pela mão e a beijou, tomando seu tempo, logo a puxou para levá-la até a cama.

Aquele antigo monstro de madeira maciça esculpida estava envolto em cortinados de intensa cor púrpura com tonalidades em escarlate e ouro.

Ali, sobre a colcha, viu um vestido. Um formoso vestido. Um vestido muito adequado. Um vestido perfeito de reluzente tafetá cinza com o modesto decote adornado com tecido de voile negra sobre tafetá rosa.

As mangas eram cavadas e os punhos tinham o mesmo adorno de voile negro e tafetá rosa, e também a borda das amplas saias tinha uma franja de voile e tafetá rosa. Se tivessem dado a Pamela escolher um vestido para a recepção da rainha, teria sido esse... mas a alma caiu aos pés dela.

—Este era meu favorito - disse Kerrich, - mas pedi a madame Beauchard que nos enviasse vários.

Pamela viu delicados objetos interiores de seu tamanho empilhados junto ao vestido. Uma regata de renda com meias combinando. Um espartilho da mais fina seda. Brancas anáguas. Finas meias e uns sapatos cinzas.

Kerrich tinha pensado em tudo.

Teria sido muito melhor que Kerrich não tivesse jogado a vista em cima dela até depois que ela se despedisse de Beth e fosse muito tarde para um enfrentamento. Assim não teria tido que inventar desculpas e teria podido postergar as explicações. Ficou, pois, olhando fixamente o delicioso vestido e disse.

—É precioso, mas...

—Já sei o que vai dizer - interrompeu ele, elevando uma mão. - Não pode aceitar um presente como este de um homem. Nem sequer de mim. Mas na realidade sim pode. Descontarei o preço de seu salário.

—O que? - exclamou ela, voltando-se.

—Agora me olha. - Kerrich lhe acariciou o lábio inferior com o polegar. Em seus lábios se desenhava uma careta e parecia insuportavelmente satisfeito de si mesmo. - Me permita te dar este presente.

Me faria muito feliz e, se o desejar, pode considerá-lo como uma gratificação pelo êxito de nosso projeto.

Pamela detestava a ideia de apagar aquela expressão de sua cara. Detestava de verdade, mas ao pensar na recepção de Buckingham Palace, sentia um medo quase insuperável.

—Obrigado, mas - tragou saliva - quando poderia vestir isso.

Kerrich permaneceu imóvel durante um bom momento. Passeou seu olhar por Pamela, se fixando pela primeira vez em que não se preparou absolutamente, e Pamela viu claramente como trabalhava seu cérebro calculador até dar com a resposta correta.

—Disse que podia usar outro vestido? - perguntou arqueando as sobrancelhas com picardia. - Mudei que ideia. Usará este vestido, e o usará para a recepção de Sua Majestade esta mesma tarde.

A Pamela aborrecia aquele medo que a deixava sem respiração e com as mãos geladas.

—Não posso.

Ela teria se explicado, mas Kerrich sorriu, se aproximando, a encurralando contra a cama.

—Querida, não há nada que não possa fazer. - Tirou suas agulhas de tecer do coque. Tirou o colarinho da blusa, que caiu ao chão. Desabotoou os botões de Pamela e desatou seu espartilho antes que ela tivesse acreditado possível, e as anáguas caíram a seus pés como uma nuvem de espuma É obvio. A estava despindo. Sem dúvida planejava embuti-la no vestido e arrastá-la até a recepção da rainha.

—Não posso ir. Não estava incluída no convite, e ninguém se apresenta improvisadamente ante a rainha.

—Não se apresenta improvisadamente. - Kerrich lhe baixou tudo de um puxão, a deixando de regata e meias.

Aquele homem podia dar aulas sobre como despir uma mulher. Os aspirantes a caveiras fariam quilômetros de cauda.

—Quando respondi a Sua Majestade, respondi em nome do avô e de você. Do avô, porque está convidado em minha casa e é um dos amigos prediletos da rainha, e ela é muito leal a seus amigos. De você, porque é a instrutora de Beth e ninguém, nem sequer a própria Vitória, espera que eu me arrume sozinho com uma menina. - Kerrich sorriu a Pamela a olhando aos olhos.

Ela viu uma resolução de ferro atrás de sua cortesia.

—Não é tão fácil. Me apresentaram a Sua Majestade. - Pamela caminhava sobre uma linha muito fina. Não queria que Kerrich recordasse, só que compreendesse suas razões, que a deixasse partir.

—Faz anos, quando ela era uma menina.

—Vá. - Kerrich tirou a colcha e a deixou no chão junto com o vestido e os complementos. - Oxalá tivesse sabido. O teria mencionado em minha nota à rainha.

—Não! - Presa de grande agitação, Pamela o viu afastar as mantas da cama e deixar os lençóis a descoberto.

—Mas me contou tão poucas coisas de seu passado que é quase uma desconhecida em quase todas as coisas importantes. - Kerrich rodeou a cintura dela com as mãos e a levantou até o colchão. - Entretanto, em uma coisa nos comunicamos muito bem. Quer que lhe recorde isso?

Pamela compreendeu, sobressaltada, que fora uma idiota. Kerrich não a despia para obrigá-la a colocar o vestido. Tinha-a despido para... para...

—Não pode fazer isto! - protestou.

—Sim. - Kerrich pegou as meias pela cintura e puxou para baixo com tanta força que Pamela cambaleou sobre a cama. - Posso. Você me utilizou para emendar as ofensas que cometeram com você.

Agora eu a usarei para curar minha frustração, mas como, ao menos, é justo.

Pamela tratou de se erguer se agarrando aos lençóis.

—Não, não é!

—Você se vingava nos homens. Nos indivíduos incultos que a tratavam mau. - Abriu as pernas dela. - A mim a frustração me causas você.

—Não. Não temos tempo. Não. Kerrich, não.

Kerrich se encarapitou na cama, segurou os pulsos dela para que deixassem de se agitar, e imitou seus protestos.

—Sim. Sim. Pamela, sim.

O coração de Pamela começou a pulsar com força Quando Kerrich segurou ambas as mãos por cima da cabeça.

—É a mulher mais obstinada que conheci em minha vida. - Subiu-lhe a regata até o pescoço. - Faço por você algo tão considerado que até me assombra. Algo que a qualquer das demais mulheres que conheço provocaria paroxismos de prazer. - Ajoelhado entre as pernas de Pamela, passeou o olhar por todo seu corpo.

Os seios, a cintura, o triângulo de escuro pelo púbico. Afundando a cabeça, rodeou um mamilo com a boca e começou a chupá-lo. Logo o lambeu repetidamente até que Pamela se retorceu contra os lençóis.

Precisava lhe dar um chute, pensou ela. Precisava... Levantou o pé.

—Nem te ocorra - disse ele. - Me deve uma cura por minha frustração.

—Não te devo...

Kerrich lhe mordeu o mamilo. Não muito forte, só o bastante para fazer que se arqueasse sobre o colchão.

Logo tirou as calças com uma mão.

—Temia que pusesse empecilho ao fato de ter comprado um vestido para você. Pode acreditar? Imaginava que seria tão convencional para se preocupar pelo decoro, tendo em conta que um homem te comprava algo tão pessoal não sendo seu marido. Mas não. Você não. Você tem que ser diferente.

—Isto não está bem - disse ela, desesperada.

—Certamente que não. - Seu comprido dedo a penetrou, deslizando brandamente. - Por isso a excita.

—Não. - Pamela se retorceu para espremer as sensações de sua mão. - Não deveria. - Que tipo de mulher era, quando a excitava o aroma de Kerrich e o calor de seu corpo, quando a excitava que a segurasse pelos pulsos e ameaçasse possuí-la? Que tipo de mulher era para se excitar, quando deveria se indignar por ser utilizada daquela maneira?

—Tenta ser sincera em uma coisa ao menos. - A beijou no pescoço. Mordiscou sua orelha e logo passou a língua lentamente pela borda. - Diga que me deseja.

De algum lugar oculto, Pamela conseguiu tirar o orgulho suficiente para dizer:

—Não.

Kerrich se sentou com um sorriso. Aquela boca malévola e luxuriosa zombava de sua débil negativa.

—Quando estiver dentro de você, vou te penetrar até o fundo - seu dedo subiu um pouco, não o bastante, mas subiu, - e vai me desejar tanto que enlaçará as pernas ao redor de meus quadris e se levantará para mim.

Vou entrar e sair devagar - imitou o movimento com que a ameaçava, - logo o farei mais rápido, e todo o tempo você estará a beira do orgasmo. Me suplicará. Não imagina sua própria voz gritando:

"Por favor, Devon, por favor"? e será melhor que isto, porque o farei com o pênis, te alargando cada vez mais, te penetrando até o máximo possível.

—Por favor, Devon.

Kerrich riu. O maldito se pôs a rir.

Mas rapidamente mudou de posição e se colocou à entrada de seu corpo, para penetrá-la languidamente, tal como prometera.

O paraíso. Era o paraíso. Era puro prazer. Pamela ofegou, tratando de respirar, de encher os pulmões de ar para poder gritar de... de um prazer tão intenso que quase era dor.

—Ainda é virginal - disse Kerrich ao ouvido. - O canal ainda está muito estreito. Tenho que me mover muito devagar para que não te faça mal. Não te faz mal, não é?

Ele sabia já que não. Seu tom era desafiador. Quando lhe soltasse os pulsos, Pamela o ensinaria... a pélvis de Kerrich roçava com a sua e seu calor esquentava todo seu corpo. Pamela agitava as pernas sem cessar, acariciando os lençóis com os pés. O movimento de vaivém estreitava seus corpos uma e outra vez, mas sempre ao ritmo lento que ele marcava.

Pamela gemeu e tratou de o obrigar a ir mais depressa, mas ele não se deixava. Os músculos de seu interior tremiam com cada ataque. Queriam se contrair. Pamela queria... que o diabo levasse Kerrich, só com que se movesse mais depressa em lugar de manter aquela lentidão, poderia acabar de uma vez.

Então recordou que ele tinha predito que lhe rodearia os quadris com as pernas. O muito libertino. Se abrir assim a ele. Não, desta vez não era ela quem se oferecia. Era ele quem tomava.

Mas não o fazia bem. Pamela elevou os quadris tratando de encontrar esse ponto perfeito da paixão que a levaria até o orgasmo.

—É muito impaciente. Tem que aprender a prolongar o desejo.

O muito porco a admoestava! Ela estava pronta para se derreter e lhe dava lições. Se abria totalmente as pernas, se se esfregava contra ele, talvez Kerrich compreenderia... e a penetraria mais profundamente.

Até o fundo, tal como prometera. Enlaçou então as pernas em torno de seus quadris e deliberadamente contraiu seus músculos internos, que se fecharam sobre o membro de Kerrich.

Kerrich se deteve. A olhou. Não ficava o menor rastro de brincadeira em seu semblante. Tinha os olhos debruados de vermelho, as janelas do nariz dilatadas, a pele puxada e de um tom febril.

—Pamela, o que quer? - perguntou.

Ela moveu a cabeça, de um lado a outro, tratando de se negar a ele, mas finalmente respondeu:

—A você. Quero a você. Até o fundo. Agora.

Kerrich se deu a ela. Em uma explosão de movimento e calor, se lançou para dentro, a enchendo absolutamente, saciando uma necessidade ao mesmo tempo que criava outra. O colchão se balançava e corria.

Ela gemeu, Kerrich grunhiu. Quando soltou as mãos dela, Pamela se pegou a seus cabelos, a seus ombros, a seu pescoço. Tentava se salvar da paixão devastadora que a arrastava. Que arrastava aos dois.

O orgasmo a golpeou como um raio, se iniciando no mais profundo de suas vísceras e irradiando para o exterior, consumindo todo seu corpo, sacudindo sua alma. Kerrich enredou a mão entre seus cabelos; assim a manteve quieta e a olhou fixamente aos olhos. Enquanto ela seguia sacudida pelos tremores do orgasmo e ele empurrava e empurrava para alcançar o seu, Pamela ouviu a firme exigência do corpo e da mente de Kerrich.

Minha, declarava sem palavras. É minha.

Então Pamela fechou os olhos para não vê-lo e saborear até o último espasmo, tanto dela como dele.

Tinham acabado. Sobre eles caiu um silêncio absoluto. O coração de Pamela voltou a pulsar com normalidade. Conseguiu recuperar o fôlego. Conseguiu recuperar o domínio sobre si mesma.

Mas não teve coragem para abrir os olhos até que o ouviu falar com ela.

—Já me sinto melhor. O que me diz de você? - Kerrich se ergueu antes que ela tivesse tempo de lhe olhar, de responder. - Certamente, procurarei não pensar nisto quando estiver falando com Sua Majestade, e sugiro que você também procure controlar seus rebeldes pensamentos.

Falava com a mesma naturalidade de um homem que vivesse frequentemente experiências demolidoras e para o que aquela não tivesse sido mais que uma de tantas.

O colchão rangeu quando ele desceu da cama.

Pamela se ergueu com indolência, se apoiando no cotovelo, para olhá-lo enquanto ele colocava as calças.

—Não vou.

Kerrich recolheu o vestido novo do chão e o jogou sobre a cama.

—Deixa de resmungos e se vista agora mesmo.

Não estava discutindo. Se limitava a dar ordens. Colocou a roupa de baixo junto ao vestido sem a menor simpatia pela situação de apuro de Pamela. E ela ainda se sentia débil. Suas pernas ainda tremiam.

Tinha as coxas úmidas e os cabelos enredados sobre os ombros. Se sentia... bom, se sentia como se ele tivesse triunfado. Como se a tivesse usado.

Ou como se... como se tivesse se dado mais do que ela, apanhada nos restos de seus medos infantis, se atreveu a aceitar.

—Se levante - disse ele.

Pamela puxou a regata enrugada e dobrou os joelhos contra seu corpo para se tampar até onde pudesse.

—Essa recepção é a culminação de seus planos, milorde. Quando levar Beth para apresentar à rainha, o declararão como respeitável e todos seus problemas terão terminado.

—Não compreendo sua queixa - disse ele, a olhando com os olhos entrecerrados. - Acredita que te negaria o mérito de tudo o que fez pela menina?

Ela elevou o queixo, ocultando a profundidade de seu medo com um tom sardônico.

—O mundo se divide nas pessoas que fazem as coisas e as pessoas que levam o mérito. Eu faço coisas.

Não preciso ir a essa recepção para demonstrar a mim mesma que sou um súdito de Sua Majestade respeitável e trabalhador.

—Deveria te dar umas palmadas - disse ele com voz enganosamente afável. - Mas não tenho tempo.

Naquele arranque de gênio, Pamela vislumbrou o verdadeiro Kerrich e se assustou.

—Por favor, não posso. - Se pegou a um dos pilares da cama. - Essa gente me conhece.

—Que gente?

—Os nobres. A boa sociedade. A gente que conhecia meu pai. - Se pudesse se ocultar da glacial indiferença de Kerrich!. - Me olharão e sentirão lástima por mim. Não irei.

—Essa gente não importa.

—Não importa a você! - exclamou ela, o olhando com fúria. - Você é o conde de Kerrich! Ninguém se atreve a rir de você, nem a fazer comentários condescendentes sobre o baixo que tem caído, nem a te oferecer uma falsa simpatia pelo que perdeu.

—Ah? Quando meu pai morreu e minha mãe iniciou suas incursões entre a população masculina, eu tinha dez anos. Sabe em quantas brigas me coloquei por defender seu bom nome?

Que é muito mais do que ela fez por mim! - Kerrich estava lívido de ira e vociferava. - Sabe quantas vezes me romperam o nariz por essa mulher?

Pamela retrocedeu, se esmagando contra o pilar da cama, e negou com a cabeça.

—Duas vezes. - Mostrou dois dedos. - Logo me abandonou. Me deixou com o avô e se foi ao continente com o primeiro de seus amantes viajantes. Ainda segue deixando cair por aqui de vez em quando e não compreende por que não sou mais carinhoso com ela. Quando traiu a memória de meu pai do modo mais vil e se abandonou às brincadeiras dos idiotas.

—Lentamente apertou o punho, e logo apontou a Pamela com um dedo ameaçador. - Você não vai nos abandonar da mesma maneira.

—Não pretendo te abandonar.

—Beth merece algo melhor, embora ache que eu não.

A Pamela enfureceu sua cruel indiferença e sua atitude, como se tudo afetasse somente a ele.

—Será que não o entende? Não quero ser humilhada.

—Terá que se enfrentar com eles cedo ou tarde - replicou ele. - Bem pode ser agora.

Pamela se pegou à regata com ambos os punhos e fez todo o possível por transmitir seu desprezo.

—Depois de ter passado por tudo isso, caberia esperar que fosse mais pormenorizado.

—Mais pormenorizado com o fato que me abandonem? - Pegou Pamela por um tornozelo e a puxou. - Ou mais pormenorizado com os caprichos femininos?

Pamela tentou lhe dar um chute, mas ele a obrigou a ficar em pé junto à cama, tirou a regata das mãos dela e a puxou, passando-lhe pela cabeça de um puxão.

Kerrich retrocedeu para olhá-la. E a olhou outra vez. De repente deteve sua frenética atividade. Lambeu os lábios ao contemplar o corpo de Pamela, mas ela já aprendera a reconhecer os sintomas de sua excitação, e não era excitação o que via. Era mais como o horror e o desespero de uma revelação súbita.

Pamela começou a pensar, a suspeitar...

—Não - disse ele, contendo o fôlego. - Se equilibrou sobre Pamela e ela elevou as mãos para se defender, mas ele se limitou a tirar-lhe tudo, inclusive as meias, sem que aparentemente percebesse sua perplexa resistência. Logo a fez dar a volta para que encarasse o fogo da lareira e retrocedeu de novo para examiná-la. - Não se mova - ordenou.

Coibida ante aquela inspeção incrédula, Pamela se cobriu com as mãos.

—Maldita seja, mulher, baixa essas mãos.

Pamela o olhou com ar desafiante, com plena consciência de sua nudez, desesperada por fugir daquela cena.

—Você - disse ele, e sua voz tremia. - Sabe quem sou?

Recordara aquela noite há tantos anos? Sim, estava segura que sim.

—É lorde Kerrich.

—Tinha te visto antes, não é? Faz anos, na festa do rei Guillermo para a pequena princesa Vitória. Em Kensington Palace. Era a garota da janela.

Pamela acreditava que suplicar que lhe permitisse não ir à recepção era a pior humilhação que podia suportar, mas não era nada comparado com isto.

—Estava zangado - prosseguiu ele. - Levei aos outros meninos ao jardim. Disse a eles que ia dar um susto nas garotas, e quando comecei a subir pela grade, eles saíram correndo.

Pamela se sentia como em um sonho, como se estivesse na rua parada, vendo uma carruagem que se equilibrava sobre ela, e fosse incapaz de se mover. Incapaz de gritar.

—A vi, só em um dormitório, trocando de roupa. - Apontou seu corpo com um gesto da mão aberta. - A vi nua.

Qualquer mulher sensata teria fingido ignorância, em lugar de ficar quieta com os punhos apertados, presa do pânico, enquanto ele rememorava um tempo que ela procurara esquecer por todos os meios.

—Pequena puta mentirosa. - Os olhos de Kerrich lançavam faíscas de fúria. - Me viu. Me conhecia! Sempre soube que fui eu quem caiu... - Fez uma pausa.

—Na ignomínia? - perguntou ela docemente. Era muito tarde, era muito tarde. A reconhecera. - Sim, lorde Kerrich.

O reconheci imediatamente como o famoso jovem que apareceu pendurado de barriga para baixo, com tudo aparecendo no ar, ante os nobres da época. - Pamela se ergueu orgulhosamente. - E agora, posso me vestir?

 

Pamela estava completamente nua ante Kerrich, e demonstrava tanto aprumo como aquela noite de névoa há tantos anos, quando se fixara nela pela primeira vez... e a desejara.

Maldita mulher, não se alterava por nada?

—Não, não pode se vestir - respondeu com aspereza.

—Já então era um porco presunçoso. - Pamela emitiu seu julgamento com frio desdém.

—Não posso acreditar que tenha me mentido tanto tempo sobre algo tão importante.

—Não menti.

—Por omissão... uma vez mais. - segurou a cabeça com as mãos em um gesto de incredulidade. - Igual a fez com seu aspecto.

—Então você me contou tudo sobre você?

—Não estamos falando de meus pecados. - Kerrich passeou pelo quarto. Era um homem. Os homens não tinham por que ser sinceros sobre certas coisas... como as emoções. - Isso não tem nada a ver. Quando recordou?

—Sempre. - Pamela deu de ombros. - Nunca. Que mais dá? Só nos vimos aquela vez. Não teve importância.

—Como não teve importância? Como se atreve a dizer isso? Aquela noite me atormentou em meus pesadelos durante anos. Ainda sigo as tendo.

—Não era de estranhar que tivesse sonhado com o corpo de Pamela e a horrível cara da senhorita Lockhart colada a ele! - Mas agora já sei por que.

—Tudo isso passou faz muitos anos - disse ela, - e meu pai nos abandonou ao cabo de duas semanas. Não pensei jamais nisso. Mal o recordo. Quero me vestir.

—Levo toda a tarde tentando que se vista, e se tivesse aceito a maldita roupa desde o começo, nem sequer teria me informado disto. - Aquele rosto. Aquele corpo. Kerrich se apaixonara pela primeira vez aquela noite. Não lhe importava; seu pai a levara ao palácio para que fosse a companheira da princesa menina, e Kerrich lhe dera a entender que ela temia fracassar em sua missão.

Pensando nisso agora, Kerrich compreendeu que a Pamela só importava ser a filha perfeita, como se isso servisse para, de algum modo, conseguir o pai perfeito.

Kerrich e suas torpes chamadas de atenção eram um tema secundário que só tinham despertado o desprezo de Pamela.

—Aceito agora - disse ela.

—É claro que sim, maldita seja. - Kerrich recolheu a roupa interior e a jogou sem olhar.

Ela a apanhou no ar e deixou tudo sobre a poltrona, exceto sua regata, que colocou o mais depressa possível.

—Eu também o vi. Bom, na realidade no princípio o ouvi gritar. Logo vi sua cara um segundo antes que escorregasse e caísse de meu batente. Quando me aproximei da janela e a abri, voltei a te ver pendurado de uma perna da calça, que se enganchara na grade. Com a famosa lua cheia dando voltas no ar.

—Quer que falemos do que vimos aquela noite? - disse Kerrich. A Pamela a regata chegava até os joelhos, mas a fina malha transluzia à luz do fogo. - Vi você. Com esse corpo magnífico, os seios altos e abundantes, a curva de seus quadris e suas longuíssimas pernas. E você me olhou com olhos tristes e eu somente queria te consolar. - Kerrich elevou a voz. - Justo antes de me afundar no escândalo!

Pamela se sentou na poltrona, esmagando as anáguas engomadas, e colocou as finas meias novas com suas correspondentes ligas.

—Já sei que me viu, igual a sei o de sua queda. Temos que tirar a luz histórias passadas agora que temos que nos preparar para a recepção?

—Passei meses morto de vergonha e preocupação. Estava seguro que minha misteriosa deusa da janela me delataria. Ou que alguém que tenha me visto me conhecesse. Mas ninguém disse nada.

—Kerrich passeou pelo quarto. - Mas sabia que alguém me liberara das calças. Ouvi a voz de duas garotas falando da janela aberta, notei o atiçador pinçando na perna da calça e quando se rompeu...

—Está se queixando de que o liberei?

—Sabia. - Kerrich se voltou para ela. - Sabia que foi você!

—Porque devo te dizer que fiz o melhor possível, tendo em conta que certamente quereria que me apressasse. Além disso, a princesa chegou bem a tempo de me ver agarrar o atiçador.

Só tinha nove anos, mas já se comportava como toda uma rainha e não parou de me dar conselhos todo o tempo. - Pamela ficara em pé e fazia esforços inúteis para fechar o espartilho.

—Dê a volta - ordenou Kerrich.

Lhe lançou um olhar desafiadora, mas finalmente prevaleceu o senso comum e obedeceu. Ao fim e ao cabo, ela não podia se vestir sozinha, e Kerrich duvidava que quisesse chamar uma donzela para que visse toda aquela desordem.

Falando com a parede em seu tom áspero e firme, Pamela disse:

—Não posso acreditar que siga preocupado por aquilo. Foi uma travessura de adolescente. Fracassou do modo mais terminante e se colocou em uma situação embaraçosa.

Mas o conhecendo, suponho que se preocupa que eu vá contando por aí. Não o farei. Se não o fiz então, não sei para que ia fazer agora. Ninguém sabe e não acredito que a ninguém já importe.

—A rainha o está utilizando para me fazer chantagem.

—O que? - Pamela tentou dar a volta.

Ele a obrigou a seguir de costas puxando as fitas do espartilho.

—Sua Majestade tem as calças, tem o atiçador, e ameaça revelar a identidade do homem misterioso que mostrou a lua cheia na noite de névoa. Se não, como acredita que me obrigou a adotar à menina?

—Não ameaçou tirar seu dinheiro de seu banco? Mas não, disse que não necessitava o dinheiro.

—E eu não cederia a uma chantagem financeira. Coisa que ela sabia. Assim ideou um plano alternativo.

—Quer dizer que... tudo isto, Beth, eu, as aulas, a festa, montou tudo para impedir que se saiba uma tola intriga de doze anos?

—Todo mundo riria! - bramou ele.

—É o conde de Kerrich. O que importa a você que riam?

Com certa satisfação, Kerrich apertou as fitas do espartilho o bastante para que Pamela luzisse uma figura perfeita... e sofrer certo desconforto ao mesmo tempo.

—Não acredita que deva me importar que riam, não é? Mas sua sensibilidade é muito delicada para se encarar com a gente que poderia recordar o escândalo do abandono de seu pai.

—Se atreve a comparar a insignificância de um traseiro nu com a autêntica tragédia da desintegração e a desonra de uma família?

—Como teve a amabilidade de me assinalar, tudo ocorreu faz doze anos. - Kerrich terminou de atar as fitas do espartilho e fez que Pamela se voltasse para o encarar. - Ninguém recordará isso.

—Talvez não o recordassem, mas meu pai morreu faz menos de um ano na França, nos braços de uma de suas amantes. Ao que parece caíra rendida a seus pés. - Pamela pigarreou. - O marido os descobriu.

—Deus santo.

—Seu marido os pegou em flagrante delito. Não matou por pouco a sua esposa nua quando disparou em meu pai. - Pamela piscou e olhou Kerrich, mas em seguida afastou a vista.

—Acredito que isso fez reviver o escândalo em todo seu esplendor e lhe deu um novo brilho que não pode se negar.

—Sinto muitíssimo - disse Kerrich. Não se referia ao escândalo, a não ser à morte de seu pai. Por sua voz, Pamela parecia inquebrável, mas Kerrich vira o brilho das lágrimas em seus olhos.

A abraçou, estreitando-a contra si. - Deve ter sido como voltar a perdê-lo.

Lhe deu um golpe no estômago, e ao ver que não a soltava, o beliscou.

—Economize o pêsames. Não o considero uma grande perda.

Kerrich a soltou. Estava claro que Pamela não queria seu consolo, mas ele percebia o matagal de sentimentos nos que estava enredada. Ou talvez a compreendia porque também ele fora um menino triste e solitário.

—Era seu pai. Terá chorado sua morte.

—Chorado? - Pamela olhou para Kerrich com o sobrecenho franzido, se perguntando como explicar tais coisas a um homem tão obtuso.

Detestava aquela situação, mas estava disposta a falar de seu pai com tal de se ver livre de assistir à recepção do Buckingham Palace. - Não o chorei. Chorei por minha mãe.

—É obvio. - Kerrich falava muito devagar, como se se dirigisse a uma aluna obtusa. - Sua mãe morreu em estado de graça, sem arruinar seus sonhos juvenis de perfeição materna.

—Eu não acreditava que fosse perfeita - disse Pamela rapidamente. Até a morte de sua mãe, desprezara sua dócil resignação ante a desgraça. Depois... bom, talvez a idealizara muito.

—Mas os defeitos de seu pai descobriu muito cedo. Não chorou quando morreu?

—Sabe como era meu pai? Era encantador quando se propunha conseguir algo, mas se não o conseguia, só havia mau humor. Sempre andava à caça de alguma nova conquista e sempre acabava se aborrecendo uma vez conseguida.

Sempre gastava mais dinheiro do que tínhamos para coisas que não necessitava porque acreditava que com isso seria feliz. Minha mãe sempre deixava a um lado suas próprias necessidades para lhe dar tudo o que ele queria, porque desejava contentá-lo. - Pamela apertou a testa com a mão; a lembrança lhe dava dor de cabeça. Ou talvez fosse o esforço por conter as lágrimas.

—Como se pudesse se contentar com algo. Foi quando eu tinha quinze anos, quando era o bastante velha para saber o que era: um homem que fugia de sua esposa doente e da censura de sua filha.

—Mas mesmo assim o amava.

—Não! - Pamela tomou ar com fúria, e o deixou escapar em meio de um suspiro trêmulo. - Sim. Não sei.

—Pois claro que o amava. Me teme muito.

—Do que está falando? - Pamela tinha um nó na garganta que quase não a deixava respirar, e a esfregou com a palma da mão. - Não o temo!

—Não quer se casar comigo - disse Kerrich em voz baixa, quase como se falasse consigo mesmo. - E não se permite me amar.

—Nem todas as mulheres do mundo vão te amar.

—Mas você sim quer.

Pamela não teria jamais relação alguma com um homem que entendesse às mulheres. Não voltaria a ter relação alguma com nenhum homem.

—Sou o primeiro homem ao que permitiu que se aproximasse de você - disse ele. - Não foi?

O que Kerrich tentava fazer? Pamela pegou as anáguas de um tapa, as pôs e se voltou de costas.

—Já sabe que foi o primeiro.

—O primeiro o que? O primeiro amante? - Kerrich se aproximou para a olhar cara à cara. - Nem sequer pode dizer essa palavra. Sou seu amante. Faço amor com você. Desfrutamos nos tocando, nos beijando, fornicando e amando. Você admite tudo, exceto o amor. Agora já sei o que me falta quando estou com você, os sussurros na escuridão depois de consumar a paixão. Os sussurros dizendo "Te amo".

—Seria mentira. Sim, seria. - Pamela atou as anáguas e estendeu a mão para pegar o vestido. - Você tampouco me sussurra!

Ele prosseguiu, implacável.

—Finge estar adormecida ou... - apontou a cama revolta, - finge não olhar.

Ela queria negar tudo, mas depois de ter visto seu pai conquistando a donzelas com mentiras, sua decisão de ser sempre sincera era férrea.

—Não quero te amar.

—Sei. - Kerrich lhe arrebatou o vestido, o colocou pela cabeça e a ajudou com as mangas. - Me embreaste e emplumou com a mesma broxa que empregou com seu pai, desde o dia em que me conheceu, e não permitiu que nenhuma prova a fizesse mudar de opinião. Quando me olha, só vê a caveira e nunca ao homem.

Estava certo? Kerrich abotoou os botões de porcelana das costas do vestido. Pamela acreditava que sofria por sua frívola fraqueza por um homem igual a seu pai.

Sofria acaso porque não permitia que surgisse o amor pelo herói de seus sonhos?

—Pode se afastar de mim, se quiser, mas te digo que amava a seu pai, tanto se era um autêntico canalha como se não. E não poderá amar a nenhum homem até que o admita.

Então, chorará a morte de seu pai, ou morrerá sendo uma velha solteirona?

Pamela o encarou, desafiante até o final.

—Há coisas piores que ser uma solteirona.

—Solitária. Amargurada. Ressentida com qualquer um que pretenda se aproximar de você. Conservando sempre o relógio de seu pai como advertência que as demais pessoas podem te fazer mal e deve as afastar de você.

—Alguém bateu na porta. Kerrich se dirigiu para ali e se deteve com a mão na maçaneta. - Sim, há coisas piores que ser uma solteirona. - Abriu apenas uma fresta.

—Milorde - disse Moulton, - se produziu um incidente no Banco da Inglaterra.

Pamela observou que Kerrich deixava de pensar nela, que sua atenção abandonava o dormitório, a casa.

—Então meu avô tinha razão. - Kerrich parecia surpreso e satisfeito.

—Lorde Reynard interpretou a situação corretamente, milorde.

—Que preparem meu cavalo. Desço em seguida.

—Sem se incomodar em fechar a porta de todo, Kerrich se encaminhou ao armário e tirou umas botas negras e lustrosas, uma camisa limpa e engomada, um colete azul e uma jaqueta negra.

Pamela se aproximou dele, enquanto Kerrich tirava a camisa que vestia.

—O que quer dizer que vai em seguida? Tem que estar em Buckingham Palace dentro de duas horas.

—Ocorreu algo muito importante. - Colocou a camisa limpa e a meteu nas calças.

—Algo muito importante? - Pamela pegou rapidamente o colete, tomando-o como refém. - Então o que diria que é a apresentação de Beth à rainha?

—Menos importante. Desculpe. - Kerrich tratou de lhe arrebatar o colete, mas vendo que não o dava, voltou para o armário, tirou outro de brocado em tom verde escuro e o pôs.

Pamela o seguiu quando se dirigiu para a jaqueta. - Não pode fazer isto. Não pode abandonar Beth.

—A menina estará perfeitamente atendida sem mim. - Kerrich se deteve para olhar a Pamela. - Caso tenha acabado com a palhaçada e a acompanhe, cumprindo seu dever como instrutora.

Meu avô ocupará meu lugar e eu irei assim que possa.

—Este é exatamente o tipo de comportamento que cabe esperar de um libertino. Se compromete com um plano e logo não é capaz de levá-lo a cabo.

—Tendo em conta seu comportamento de hoje, eu diria que as pessoas que vivem em casas de vidro não deveriam jogar pedras na dos outros.

Seu frio sarcasmo avivou a indignação de Pamela.

—Muito ao contrário. Eu vou à recepção. Você não. Você se mostra frio e indiferente.

Kerrich colocou as mãos nas mangas da jaqueta sem lhe fazer caso.

—Me pediu que te conseguisse uma menina, quando na realidade não tinha a menor intenção de ficar com ela...

—Menino. Eu queria um menino, recorda? - Kerrich abriu uma gaveta da cômoda e tirou uma gravata-borboleta de seda negra e um colarinho.

—Não pensa adotar Beth, não é?

—Sabe desde o começo.

—Sim, e sou uma idiota por ter participado de seu desprezível plano. Eu sabia que não devia fazê-lo, mas...

—Queria o dinheiro. - Kerrich pegou as botas, a gravata-borboleta e o colarinho e os mostrou a Pamela. - Irei procurar meu ajudante de quarto para que me ajude a pôr isto.

Pediria isso a você, mas seu ressentimento é muito grande para se aproximar de mim.

Kerrich se encaminhou à porta, deixando-a ali plantada, enquanto ela tragava saliva tratando de não chorar.

Kerrich abriu a porta de par em par.

—Maldição! - exclamou. Saiu ao corredor e ficou olhando para o outro extremo.

—O que? - perguntou ela.

—Beth - disse ele.

Pamela demorou uns instantes em compreender que a porta ficara entreaberta ao Moulton partir. Esqueceu seus próprios problemas. Voltou a tragar saliva.

Deus bendito, Beth queria que a animassem, ou lhes mostrar o vestido, ou simplesmente lhes dizer que chegara a hora de partir, devia ter perguntado a algum criado para encontrá-los... e os ouvira falar sobre suas esperanças, descobrindo assim que nunca foram mais que uma loucura.

Correu para a porta, examinou o corredor deserto e logo olhou Kerrich, doente de horror e preocupação.

—Compreenderá - disse Kerrich com teimosa indiferença. - Estará bem. A que hora será apresentada a Sua Majestade?

—Às seis. Quer dizer que não pensa ir procura-la? Fez mal a ela!

—Eu diria que os dois temos feito mal a ela. - Colocou a mão no bolso, procurando seu relógio, até que finalmente foi até o joalheiro, tirou-o com brusco gesto e o olhou.

—Farei todo o possível por chegar ao palácio a tempo, mas agora tenho que ir.

A decepção de Pamela era tão grande que mal podia respirar.

—Como pode se olhar ao espelho? É igual a meu pai.

Ele a olhou fixamente como se não a conhecesse, logo a pegou pelo braço e inexoravelmente a atraiu para si.

—E você é como minha mãe - disse, a olhando aos olhos. - Não reconhece um diamante quando o tem na palma da mão.

 

—Não imaginávamos que esse jovem pudesse ser tão violento, milorde.

Kerrich cravou o olhar no senhor Gordon, agente do governo, com absoluta incredulidade.

—E deixaram que Athersmith se fosse?

—Tinha uma pistola! Não estávamos preparados! Quem teria pensado que poderia dar um roubo tão ousado e em pleno dia? - Enquanto tivesse quem o escutasse, aquele guardião provisório seguiria dando desculpas durante horas. - Simplesmente entrou. Se fez com o papel para imprimir bilhetes de banco. Pegou nossa tinta! E quando tentamos detê-lo, nos disparou.

—Com uma pistola de uma só bala?

—Sim!

—Quando a esvaziou, que dano podia lhes fazer ainda?

—Empunhava outra! Além disso, havia gente no vestíbulo! Clientes nos guichês. A bala fez saltar uma parte da venerável estátua que há ao fundo do vestíbulo! - Estava claro que aquilo era o que mais o indignava.

Por sorte, Moulton entrou no vestíbulo do Banco da Inglaterra, agora vazio, antes que Kerrich cedesse ao impulso de estrangular ao senhor Gordon. Kerrich foi se desculpar, e falando com Moulton em voz baixa, zombou da débil defesa de Gordon.

—Sim. Quem ia pensar que queriam roubar em um lugar onde guardam dinheiro?

—Já o adverti, milorde, da patética incompetência dos homens do governo - disse Moulton. - Se tivessem pensado em avisar aos guardas habituais, nada de tudo isto teria ocorrido.

—Não avisaram aos guardas do banco?

—É o governo, senhor - disse Moulton, com uma careta de exasperação.

Kerrich saiu do edifício do banco, situado na rua Threadneedle, acompanhado de Moulton. Apoiou a mão em uma das impressionantes colunas da entrada e respirou uma baforada de ar fresco.

—Que informação pôde recolher?

—Segundo os homens do governo, e já deixamos claro que são uns incompetentes, não se produziu distração de nenhum tipo. Entretanto, de algum jeito o senhor Athersmith conseguiu entrar no armazém que há na parte de trás do edifício e pegou cinquenta pacotes de papel marcado à água e várias caixas da tinta negra especial com a que imprimem os bilhetes. Colocou tudo em um carrinho de mão e se dirigia à porta principal do banco quando foi descoberto... pelos guardas do banco.

—Hurra por eles! Mas se não tinha nenhum cúmplice, como explicam os homens do governo que Lewis estivesse a ponto de conseguir seu propósito? - perguntou Kerrich, cheio de frustração.

—Por desgraça, nem sequer os guardas do banco estão muito seguros de como chegou tão longe, e o único homem que eu tinha apostado aqui, voltou do jantar justo quando se ouviam gritos de "Alto, ladrão", os clientes chiavam e corriam de um lado a outro, e ele empunhava essa maldita pistola. - Moulton moveu a cabeça com pesar.

—Sinto muito, senhor, mas nem sequer meus homens ficariam a discutir com um lunático que empunha uma pistola.

—Assim Lewis conseguiu escapar - disse Kerrich.

—Desapareceu.

—Não há rastro algum que tivesse cúmplices. Não se produziu nenhuma distração.

—Segundo os homens do governo e os guardas do banco, assim é.

—Mentem ou são uns idiotas?

—Quanto aos agentes do governo, eu me decantaria pelo último, milorde. Mas os guardas do banco teriam visto algo, e asseguram que não ocorreu nada.

—Siga os interrogando. Veja se consegue extrair deles a verdade. - Da porta do banco, Kerrich contemplou a rua à luz do sol. Por embrulhado, confuso e frustrante que fosse aquele incidente, não era nada comparado com o que deixara em casa. Pensou em Beth e em seu inoportuno descobrimento, e em Pamela e a desagradável cena que representaram.

Agora teria que ir ao Buckingham Palace, onde a rainha guardava suas calças como objeto e Beth e Pamela percorriam os salões, furiosas com ele.

Teria que suplicar de joelhos às três. A confusa mescla de afeto e sentimentos feridos era precisamente a razão pela que evitava as relações emocionais. Sim, preferia as mulheres superficiais, insossas e tolas.

Por desgraça, nem a rainha Vitória nem Pamela, nem sequer Beth, cumpriam com esse requisito. A noitada ia ser uma experiência execrável.

Tirou o relógio do bolso e olhou a hora.

—Se me apressar, chegarei à apresentação de Beth a Sua Majestade bem a tempo.

—Estará no Buckingham Palace, milorde?

Kerrich se voltou para Moulton com um olhar de ira, como se o fizesse responsável pelo maldito embrulho em que se converteu sua vida.

—É obvio. Tenho que ir me divertir.

Duas horas antes, Pamela não imaginava que poderia ir ao Buckingham Palace, a nova residência real, e que não a preocupasse absolutamente sua tortura pessoal ante a perspectiva de ver a rainha e a tantas pessoas da boa sociedade que conheciam sua família.

Mas enquanto a carruagem de Kerrich avançava lentamente na fila que os deixaria frente à ampla escadaria de pedra, só pensava em Beth. Beth, que estava sentada diante dela e de lorde Reynard no assento mais próximo ao chofer. Beth, embelezada com seu vestido de rendas, meias brancas e sapatos negros de pele.

Beth, dotada dessa mescla de sensibilidade e sabedoria dos meninos de rua, desdenhava toda tentativa de Pamela por explicar o inexplicável.

—Lorde Kerrich queria um órfão para dar uma impressão de respeitabilidade - dizia Pamela.

—Sei. - Beth apertava a cara contra o guichê e contemplava o redemoinho de choferes e lacaios do exterior.

—Eu aceitei lhe conseguir um.

—Conseguiu - disse Beth sem inflexão na voz.

Pamela vacilou antes de confessar o pior.

—Os dois soubemos sempre que o órfão não seria adotado. - Rapidamente acrescentou: - Mas eu queria que a adotasse. O animei a passar tempo com você porque sabia que acabaria te amando.

O sol da tarde brilhou através dos guichês e Pamela viu claramente Beth pondo os olhos em branco.

O que era pior, lorde Reynard soprou.

Se Pamela não conseguira justificar suas ações aos olhos daquele agradável e idoso cavalheiro, não tinha a menor possibilidade de convencer a ninguém. Sobretudo a Beth, que era a única que realmente importava.

—Lorde Kerrich estaria aqui com você - disse Pamela, - mas precisava fazer algo muito importante.

—Ah, sim? - Beth voltou a apertar a cara contra o vidro. A carruagem avançou um trecho mais. - Com certeza você não sabe sequer o que é.

—Não, não sei. - Pamela não sabia sequer por que defendia Kerrich, só que sua ausência machucava ainda mais a Beth e a menina não merecia. - Mas sei que não teria ido se não fosse algo realmente importante.

—Se trata da falsificação, não é? - perguntou Beth olhando a lorde Reynard.

—Não - corrigiu Pamela automaticamente. - Que falsificação? Do que está falando? - Os outros dois ocupantes da carruagem não lhe fizeram o menor caso.

Lorde Reynard parecia surpreso, e o rosto habitualmente afável adquiriu uma expressão séria.

—Jovenzinha, o que você sabe da falsificação?

—Ouvi senhor Athersmith falando sobre isso em minha festa.

—Estava escutando às escondidas? - perguntou Pamela com tom de censura, mas pela nula atenção que eles lhe emprestavam, parecia que falava em outro idioma.

Lorde Reynard se inclinou para Beth para colocar seu rosto ao mesmo nível que o dela.

—Entende o importante que é isso?

—Sim. - Beth deu de ombros. - Não, na realidade não.

—A falsificação é um grande delito - explicou lorde Reynard. - Como roubar sem ter a coragem de encarar a vítima.

—Certamente o senhor Athersmith estava metido em uma confusão.

—Não o entendo. Lorde Kerrich e o senhor Athersmith estão investigando uma falsificação? - Pamela fazia esforços por se inteirar de tudo.

—Beth - disse lorde Reynard, - necessito que me diga isso, com quem falava o senhor Athersmith e o que dizia?

—Falava com uma senhora. Iam, em um lugar onde não deviam estar.

—Uma senhora? Se refere a uma mulher?

—Uma senhora - insistiu Beth. - Não a vi, porque tratava muito mal ao senhor Athersmith e compreendi que não quereriam que eu estivesse ali. - Beth tinha um ar encantador, feminino e infantil, e balançava o pé, o fazendo ricochetear no assento acolchoado de pele.

Mas seu olhar era sagaz e Pamela percebia claramente que lorde Reynard levava a sério o que Beth dizia.

—Falava como uma dama da nobreza? - perguntou ele. - Então não era uma criada. Era a senhorita Fotherby?

—Não! Porque essa senhora dizia que se o senhor Athersmith queria à senhorita Fotherby, precisava ser inteligente e rico. Precisava deixar de ser um bobão e de beber, e lhe tirou a garrafa das mãos.

—Beth enrugou o nariz. - Além disso, ouvi falar com a senhorita Fotherby. Tem uma vozinha gritante. A senhora tinha uma voz mais profunda e zangada, como a senhora Fallowfield quando os órfãos davam de comer aos ratos.

A cabeça de Pamela dava voltas. Jamais experimentara tal confusão. Esteve se cometendo um delito ante seus próprios narizes e todo mundo sabia menos ela.

Precisamente essa era a razão pela que sempre aconselhava às jovens Instrutoras que não cercassem relações com seus patronos.

—O senhor Athersmith tratava de conseguir dinheiro... apanhando a um falsificador?

—Oooh, não acredito que o senhor Athersmith seja bom - disse Beth.

Pamela pensou no jovem e afável cavalheiro loiro que parecia tão judicioso e, comparado com seu primo, o epítome da virtude.

—O senhor Athersmith está envolto na falsificação? - perguntou, elevando a voz.

Beth julgou o senhor Athersmith com a ardilosa percepção dos meninos.

—Não é importante. É pobre e é um desses tipos que quer tudo o que outros têm, mas o quer pelo método mais fácil. - Ao ver o semblante horrorizado de Pamela, se apressou a acrescentar:

—Embora poderia me equivocar.

—É obvio que sim. O senhor Athersmith é... reto e bom. - Pamela olhou a lorde Reynard esperando que defendesse seu sobrinho neto, mas ele olhava pelo guichê. Tratando ainda de entender a situação, Pamela perguntou:

—Embora o do senhor Athersmith seja certo, por que teria que interessar uma senhora na falsificação?

Lorde Reynard a olhou pela primeira vez e atuou como se houvesse dito algo profundo. Esfregando o queixo, disse com tom caviloso:

—Isso é precisamente o que eu me pergunto.

 

Kerrich se arrumou o melhor que pôde no hall do Buckingham Palace, mas não havia nada que fazer com o cabelo revolto pelo vento e a gravata-borboleta enrugada.

Ninguém se apresentava à recepção da rainha Vitória naquele estado, mas tampouco se podia ignorar o convite, sobretudo quando alguém se encontrava em um bom apuro com sua órfã e sua futura prometida.

Já era bastante mau que as tivesse deixado sozinhas com lorde Reynard como único acompanhante. Se Kerrich perdia a apresentação de Beth, tremia ao pensar no castigo que sofreria à mãos das três fêmeas.

Certamente não era a primeira vez que precisava enfrentar uma mulher irada, mas duvidava muito que desta vez bastasse a habitual cascata de ninharias a modo de desagravo para emendar a ruptura.

Lorde Albon descia pela escada quando ele subia e a alma caiu aos pés de Kerrich.

—Me diga que a recepção não terminou ainda.

—Não, claro que não. Mas depois de fazer ato de presença, vou me encontrar com meu amorzinho.

Kerrich levou uma mão ao peito. Podia respirar de novo.

—A rainha está no salão azul - disse Albon. - Mas tem mau aspecto. Você caiu de alguma janela?

Albon passou junto a Kerrich com uma gargalhada estrondosa e lhe dando um murro no braço, e Kerrich cambaleou ao se voltar para olhá-lo. O que Albon tinha querido dizer?

Esperava que fosse um comentário ao azar sobre seu aspecto e não o que ele temia.

Mas ao passar junto a um grupo de matronas que havia no patamar, sorriram-lhe com um regozijo muito pouco decoroso e uma delas chegou inclusive a lhe piscar um olho. Quando começou a subir o segundo lance de escadas, notou uma fria sensação no pescoço e se voltou. Viu então que o observavam, ou melhor observavam seu traseiro, com o que só podia se descrever como uma expressão lasciva.

Aquilo não pressagiava nada bom. Nada bom absolutamente. A indignação começou a se mesclar com o desassossego, mas tinha ainda a esperança que tudo fossem imaginações delas.

Ao chegar ao corredor do alto da escada, onde se ouvia uma multidão de vozes, se deteve diante de um espelho, se penteou passando a mão pelo cabelo e alisou a jaqueta.

Logo suspirou para se tranquilizar e entrou no salão azul.

Tudo lhe pareceu normal. As colunas de mármore marrom se elevavam até o teto dourado. Murais esculpidos com motivos clássicos luziam sobre as portas, totalmente abertas para conectar o salão azul com o salão de audiências. Damas e cavalheiros formavam carriolas nas quais conversavam e sorriam. Os meninos não se viam por nenhuma parte; sem dúvida sua festa se celebrava em outra sala.

Kerrich entrou no salão tranquilamente, procurando Pamela e lorde Reynard entre a multidão com o olhar. Ao mesmo tempo, atendia com inquietação a qualquer retalho de conversação que chegasse a seus ouvidos.

A princípio, os discursos lhe pareceram inofensivos. Ouviu uma queixa sobre as dimensões do salão, muito pequeno. Para algumas pessoas era a primeira vez que iam ao Buckingham Palace, pois a rainha Vitória era primeira a usá-lo como residência real, e conforme afirmavam as últimas intrigas, a rainha se encontrou com tubulações defeituosas, janelas que não se abriam e sinos que não soavam.

Buckingham Palace era uma vergonha e um espantoso esbanjamento.

Mas Quando Kerrich seguiu entrando no salão, algumas risadas assaltaram seus ouvidos. Ao olhar a seu redor, viu sorrisos dirigidos a ele. E as damas seguiam se comportando de um modo estranho: cada vez que ele dava a volta, descobria a uma delas no mínimo olhando seu traseiro. Maldita seja. Maldita seja. Não podia estar ocorrendo precisamente aquele dia, quando tantas coisas saíram mal.

Quando havia tantas coisas em jogo.

Ao encontrar com Tomlin, o aliviou ver seu amigo, mas a sensação só durou até que Tomlin o pegou pelo braço.

—Velha raposa ardilosa - rugiu Tomlin. - Lua cheia em uma noite de névoa!

Aquela única frase confirmou as suspeitas de Kerrich. A raiva se apoderou dele. A raiva e o instinto de sossegar Tomlin, de dissimular, esperando que ninguém mais o tivesse ouvido. Mas já não importava.

Sua hipótese era certa. Aquela era a vingança escolhida por Pamela. Enquanto ele estava no Banco da Inglaterra, salvando o país da ruína, Pamela fora à recepção da rainha e contara seu segredo a todo mundo.

Todo mundo sabia. Todos riam dele. O momento que temia há tantos anos chegara por fim. Kerrich queria uivar de raiva. Não podia fazê-lo.

—Você foi a famosa lua cheia em uma noite de névoa? - seguia balbuciando Tomlin. - Em todos estes anos não me contara isso, seu melhor amigo?

Kerrich pensou em várias estratégias e as descartou todas em rápida sucessão.

Todas elas implicavam a negação, e ele sabia condenadamente bem que a negação não teria o menor êxito com aquele escândalo, com aquela verdade.

Kerrich teve a presença de ânimo suficiente para esboçar um sorriso irônico e seguir caminhando.

—Não queria alardear. Me pareceu que poderia se sentir... - Olhou o meio das pernas de Tomlin sem dissimulação - inferior.

Tomlin jogou a cabeça para trás e riu de boa vontade. Se mostrava tão afável como sempre, tão torpe e propenso a tropeçar consigo mesmo, enquanto caminhava junto de Kerrich.

—É famoso, amigo!

—Eu diria que tristemente famoso. - Kerrich olhou de um lado a outro, evitando cuidadosamente os olhares de outros. - Todo mundo sabe?

—Ouvi comentar assim que entrei pela porta.

—Suponho então que me acossarão a cada momento com o mesmo.

Tomlin riu de novo e assentiu.

—Com certeza tem um álbum de recortes escondido em alguma parte com todas as caricaturas e sátiras que publicaram nas gazetas.

—Não, e por muito que goste de falar com você de tudo isto, agora mesmo tenho algo mais urgente na cabeça. Viu à senhorita Lockhart e a minha pupila?

Se supõe que tenho que apresentá-la oficialmente a Sua Majestade às seis em ponto e já é quase a hora.

—Vi à senhorita Lockhart passeando entre o salão azul e o salão de audiências. - Tomlin inclinou a cabeça como se não compreendesse a atitude de Kerrich. - Está tomando isso com muita calma.

—O que tomo com calma? - perguntou Kerrich, tirando o relógio do bolso para comprovar a hora.

—A revelação sobre a lua cheia em uma noite de névoa.

—Não foi uma revelação para mim - disse Kerrich, aparentando surpresa. - Eu sempre soube. Agora, se me desculpar, seria uma falta de protocolo fazer Sua Majestade esperar.

Kerrich se afastou, se felicitando por sua boa atuação. O rubor das faces podia se atribuir ao calor, seu sorriso desdenhoso era o mesmo que luzia sempre em ocasiões como aquela, e podia se apreciar de ter um aspecto completamente normal. Lhe vendo, ninguém adivinharia a ira que o sacudia a cada passo. Ninguém descobriria que se via mentalmente retorcendo o pescoço da senhorita Lockhart.

Enquanto a estrangulava, bramaria seu descontentamento até que ela não se atrevesse a o tirar de gonzo nunca mais. Logo retiraria sua proposta de casamento com o sarcasmo mais fervoroso de que fosse capaz, e depois não voltaria a vê-la jamais. Jamais. A menos que dispusesse da feliz ocasião de lhe jogar uma moeda quando fosse mendigar a sua porta porque estivesse tão destroçada que não pudesse voltar a trabalhar.

Sim, era isso. Imaginava vestida de farrapos, com o belo rosto manchado e os cabelos prematuramente grisalhos, lhe suplicando que...

Pamela o puxou pela manga antes que se desse conta de sua presença.

—Milorde, esperava que viesse.

Arrancado de seu pensamento, Kerrich a olhou. Não era uma mulher esfarrapada, envelhecida e gasta o que tinha ante si. O precioso vestido que tinha escolhido para ela flutuava a seu redor como uma nuvem prateada.

Os olhos azuis de Pamela refletiam as tonalidades cinzas e brilhavam com uma mescla semelhante a um banco de nuvens em um dia ensolarado. Seus cabelos, dispostos em cachos etéreos, suavizavam seu semblante o convertendo em uma paródia de doçura. Pamela parecia a encarnação de seu mais doce sonho... quando na realidade levara a prática seu mais terrível pesadelo.

Pamela o levou para um canto desocupado e lhe disse em voz baixa:

—Ocorreu algo terrível.

Os últimos vestígios de disciplina de Kerrich se desvaneceram. Estava absolutamente lívido e mal conseguiu manter a presença de ânimo suficiente para não elevar a voz.

—Acreditava que não me inteiraria assim que entrasse pela porta?

—Já... sabe? - Pamela olhou ao redor com o rosto pálido, se atrevendo a fingir inocência quando o tinha traído assim que tinha posto o pé no Buckingham Palace. - Outras pessoas sabem?

—Se sabem? Todo mundo sabe, e não fizeram outra coisa que insinuar isso de um modo ou outro desde que cheguei.

Pamela franziu a testa e o olhou com olhos muito abertos.

—Sabe onde está Beth?

—Com meu avô, suponho.

—Lorde Reynard a encontrou? Foi procura-la. Os dois a estivemos procurando sem êxito, mas se diz que...

—Do que está falando?

—De... Beth. - Pamela o olhou com mais atenção. - Do que fala você?

Kerrich a pegou pelo braço e a levou a um canto mais afastado. Se ergueu sobre ela e a olhou aos olhos com ira.

—Estou falando de que contou meu segredo a todo mundo.

—Seu segredo? - A pequena harpia não se acovardava como devia, e pestanejava fingindo sem dúvida seu desconcerto. - Tem um segredo?

Eu somente conheço essa bobagem que ocorreu em Kensington Palace e não vai me dizer que o preocupa isso em um momento como este!

—Todo mundo ri de mim!

Pamela elevou uma mão para o fazer calar.

—Acredito que estamos falando de coisas diferentes, milorde. Vejamos. Você está zangado porque, de algum modo, saiu à luz a verdade sobre sua indiscrição juvenil e as pessoas falam de seu traseiro.

—Entre outras coisas, e não utilize esse tom condescendente comigo.

—Eu, pelo contrário, enfrento um verdadeiro problema.

Era evidente que a ordem não produzia o menor efeito nela. Kerrich não vira aquela expressão em seu rosto desde que Pamela deixara de ser a solteirona senhorita Lockhart para se converter na jovem Pamela, mas não deixou de reconhecê-la. Era a expressão da mestra desejosa de lhe dar palmadas nos nódulos... ou algo pior.

Pamela seguiu falando com tom firme e seco.

—Beth chegou ao palácio com lorde Reynard e comigo, mas desapareceu após entrar. Estava terrivelmente angustiada. Temo que tenha fugido.

—Essa é a coisa tão terrível que ocorreu? - Kerrich tratava de assimilar a informação recebida sem conseguir muito bem. - Se desapareceu em seguida, quando teve tempo para me trair?

Ela o olhou como se estivesse louco ou algo pior.

—Eu não o traí. Para que ia fazer isso? A única coisa que me preocupa é essa menina, sozinha no palácio, vagando pelos salões. Talvez tenha se perdido.

—Tolices. Como ia se perder aqui?

—Vivia em um pequeno orfanato, e antes em uma casa pequena - replicou Pamela. - Já me dirá.

Kerrich passeou o olhar pelo amplo salão, viu os convidados que conversavam sorridentes, pensou nas dimensões do palácio e, pela primeira vez desde que se encontrou com Pamela, compreendeu a gravidade de sua situação. O enigma do gênio da falsificação seguia sem resolver, seu primo fugira, a rainha Vitória esperava recebê-lo com a menina em suas mãos em uns instantes,

Beth desaparecera, e ele acabava de demonstrar à mulher com a que queria se casar que não só era um idiota egoísta, mas também que não tinha a menor fé nela e em sua discrição.

Caso Pamela estivesse dizendo a verdade e não fora ela a que divulgara a história de sua infausta apresentação em sociedade - e agora que era muito tarde compreendia que não tinha motivos para duvidar dela, teria que esperar para descobrir quem fora o matreiro intrometido que o delatara, porque primeiro precisava encontrar Beth, e emendar ofensas e... o dia não podia piorar.

—Me diga por onde procurou.

—Percorri todos os salões nos que tinha convidados. Não a vi, mas é miúda e certamente quer se esconder de mim porque... a decepcionei.