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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CONFISSÕES DE UM VIRA LATA / Orígenes Lessa
CONFISSÕES DE UM VIRA LATA / Orígenes Lessa

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

Cachorro! Cachorro ordinário!

Seu cachorro!

Eu não conheço insulto maior.

Não aos homens, aos cães.

Porque os homens, nas suas rivalidades e lutas, em suas brigas constantes (raça muito dividida...), sempre escolhem os piores, entre eles, para chamar de cachorro...

É curioso. Por uma razão que eu desconheço, os homens sempre se comparam aos bichos. Às vezes, tomando o nome deles. Tenho conhecido pessoas sem conta que buscam, entre os animais, o sobre­nome. São inúmeros os Pintos, os Leões, os Lobos, os Coelhos, os Gaios, os Gatos, os Carneiros, os Raposos. Nunca entendi muito essa mania, tão co­mum na humanidade. Que alguém se chame de Lobo ou Leão, eu ainda compreendo. É vontade de se fazer passar por valente ou temível. Mas que ou­tros se chamem de Pintos ou Coelhos (e eu soube de uma família Pinto Coelho), não me entra na cuca.

Esbarrei uma vez com um menino lourinho. A família dele se chamava Formiga. Gente, com cer­teza, que pretendia ter a constância, a operosidade, a teimosia desse bichinho danado. Conheci um cara que se assinava Luís Bezerra. Por que Bezerra e não Bezerro, nunca percebi. Contradições do bicho-homem...

De qualquer maneira, sobrenome de bicho é sempre uma homenagem que o homem presta aos seus irmãos irracionais (é muita pretensão...), o re­conhecimento da superioridade do mundo animal.

Nunca, porém, soube da existência de um An­tônio Cão ou de um João Cachorro. Há sujeitos de sobrenome Gato, por exemplo, o único bicho que eu detesto, por ser egoísta e preguiçoso. Coelho, sobre­nome tão freqüente, é um bicho que não faz orgu­lho a ninguém. Tudo isso ficará, para mim, um mistério inexplicável.

Se existe a família Carneiro (e eu conheci um sujeito de nome engraçado: Carneiro Leão) e existe uma família que não se ofende de chamar-se Ba­rata (eu acho que todo animal merece respeito, não tenho preconceitos de raça) e há gente de sobre­nome Pulga e, se facilitarem, Percevejo, não vejo razão pra ser usado apenas como insulto o nosso nome, logo o nosso, quando muitos proclamam ser o cão o melhor amigo do homem... Pode ser que haja algum caso, por mim desconhecido, de alguém de sobrenome Cão. A ele, o meu latido mais cordial. Há de ser caso raríssimo.

Cachorro e burro são dois animais injustiçados. Burro é ofensa também. (Aqui entre nós, eu justifi­co. Conheci alguns burros mais burros que certos homens da minha carreira.) Entre esses homens, sou comumente conhecido como vira-lata, ou me­lhor, cão sem dono. De vira-lata- me xingam. Mal sabem eles que, para um cachorro, chamar de "sem-dono" é o maior dos elogios. Para o homem seria também...

Vira-lata sou, com orgulho o digo. E adoro os meus irmãos, com ou sem dono. Tenho agüentado muita injustiça pessoal, sem reagir. E vou agüentar ainda, com certeza. Mas à minha raça, na minha frente, não tolero ofensa.

 

 

 

 

 

 

                                                   A Inconsciente Homenagem

Essa mania de chamar de cachorro ao que há de pior no mundo humano foi sempre, para mim, um osso no gogó.

Há cães que não ligam. Uns dão o maior des­prezo. Ouvem com indiferença o baixo insulto. Ou­tros, infelizmente "comprados" pelo íntimo convívio com os homens, preferem não reagir. Fazem-se de­sentendidos. Acham mais negócio manter boas re­lações com exemplares dessa raça que lhes assegu­ram restos de comida e outras concessões que nos aviltam. Por esses, tenho quase nojo. Mereciam ser xingados de "homens". Mas não vou tão longe. Eu compreendo as fraquezas caninas. A luta pelo osso não é sopa...

Comigo, porém, homem não brinca!

Que não se use o sobrenome de Cachorro ou de Cão, pouco me importa. O problema é do homem. Mas que nos usem o nome para qualificar o que há de pior entre os homens, isso eu já disse: não supor­to.

Estou me lembrando agora de uma vez em que perdi a calma, eu, que sou um cachorro, em geral, de boa paz. Não faço questão de ser enxotado quando revolvo uma lata de lixo. Não saio mor­dendo se me perturbam no exercício de funções fisiológicas a que os homens não fogem.

Mas dessa vez eu mandei brasa!

Dois homens brigavam. Gosto de assistir briga entre humanos. É prova do subdesenvolvimento da espécie. Raramente, nessas ocasiões, eles partem para o murro na cara, para a briga leal. Ficam no terreno da provocação e do insulto, num linguajar que eu não vou reproduzir de jeito nenhum, sou um cão de respeito.

Bandido!

Miserável!

Ordinário!

Sem-vergonha!

Acho que qualquer dos dois merecia muito mais. Um deles, pouco antes, já me dera um ponta­pé. O outro me atrapalhara junto ao meu poste pre­ferido. Insultavam-se à grande...

Você é o maior ladrão do mundo!

Ladrão é você, seu pilantra!

Eu me divertia, à distância, vendo o que pensa­vam um do outro, dois sujeitos até pouco antes tão amigos. Só me sentia vagamente envergonhado de ter que ganhar a vida numa rua tão mal freqüenta­da...

É certo que ouvi muito mais. Os dois pareciam enfurecidos, tomados de um ódio mortal. Mas ainda estavam no vago terreno das palavras que eu não vou repetir...

De qualquer modo, era chocante. Cachorro que me latisse a metade daquilo era um cachorro liqui­dado. De repente, um deles bradou:

Quer saber de uma coisa? O que você é, seu canalha, é um grande cachorro! Um cachorro!

Eu já não gostei. Mas o que me fez perder a coleira (maneira de dizer, coleira eu nunca tive), foi ver que o patife que tinha reagido apenas no ter­reno das palavras aos maiores insultos (desses de envolver a família...) dessa vez virou fera. Avançou contra o outro ("cachorro é você"), de faca em pu­nho...

Não chegou a vias de fato, como dizem os ho­mens.

Porque eu comprei a briga.

Avancei contra os dois.

Mordia um, mordia outro. Arrancava pedaços de carne e de calça. Pus a correr os patifes. E ainda alcancei o ofendido (na minha opinião o meu maior ofensor) e, de um golpe só, arranquei-lhe parte da barriga da perna.

Que eu não comi, claro. Tive nojo...

O pessoal ficou sem entender aquele ataque in­tempestivo. A turma do "deixa disso" morria de rir com o final imprevisto da briga.

Mas eu estava de alma lavada. Um quilo de filé mignon (sonho de toda uma vida) não me daria alegria maior.

 

                                           A Inveja dos Nomes

Vira-lata sou. Cão sem dono. Esta condição de cão sem dono foi um dos complexos da minha vida longo tempo. Sem dono e sem nome.

Filho de pai desconhecido (só os colegas de co­leira, arrumadinhos e até perfumados, cachorrinhos de enfeite, têm pai registrado) cresci ao acaso das ruas. Não me lembro muito da primeira infância. Pela contagem dos homens devo ter doze ou qua­torze anos, sou quase um velho. Pelo menos foi isso o que ouvi, não faz muito, de dois caras que me observavam com ar de entendidos. Um deles dizia:

— Esse bicho é velho pra cachorro!

Olhei com desprezo os dois infelizes. Idade não se mede pelo tempo vivido (eu sei que foi muito), mas pelo desgaste deixado. Eu sou o mesmo que era há não sei quanto tempo. A mesma disposição, a mesma alegria, a mesma coragem na luta pela comida difícil, a mesma rapidez no revolver uma lata do que os homens chamam lixo (eles desperdi­çam demais, felizmente), a mesma satisfação em encontrar uma colega eventual, para perpetuar a raça. Tenho a mesma ligeireza no fugir ao fan­tasma das carrocinhas que têm levado tantos dos nossos irmãos para destinos incertos. A mesma ca­pacidade de evitar os colegas atacados pela raiva, que eu tão cedo aprendi, nos dias longínquos da inexperiência, quando ainda me agoniava por não ter nome nem dono.

Mas eu sofri muito nos primeiros tempos, con­fesso. Casa não tinha. Era quase sempre enxotado dos lugares onde me escondia. Os outros moravam em casa de gente (eu descobri depois que a casa era um caixote no quintal ou um buraco embaixo do tanque de lavar roupa e não um quarto especial, como diziam). E tinham esta coisa que me causava a maior inveja: eram "chamados"...

Leão!

(Nome de bicho e de gente, como atrás falei.)

Lobo!

(Um cachorro como os homens de igual sobre­nome. Tinha nada de lobo...)

Valente!

(Foi o cachorro mais covarde que eu conheci...)

Bob!

(Nome de homem, que pra mim não honra ca­chorro nenhum.)

Bolinha!

(Foi a cadela mais metida a gente da minha carreira.)

Peri!

(Conheci vários. Um acabou louco.)

Jaqueline!

(Quase tive um enfarte, quando foi atropelada.)

Tupi!

(Nome de uma estação de TV.)

Princesa!

(Dei-lhe uma ninhada de seis ceguinhos. Todos nós nascemos cegos, com a pressa de vir ao mun­do.)

Veludo!

(Morreu de sarna, o infeliz.)

Lorde!

(Mania de botar nome estrangeiro...)

Sirigaita!

(Não era nome, era um retrato.)

Samanta!

(Fugiu com um vira-lata.)

Tupã!

(A carrocinha levou.)

Mimosa!

(Caminhão...)

Javali!

(Não valia nada...)

Chicão!

(Pertencia a um garoto de nome Chiquinho. Pra diferençar, com certeza.)

Sarapatel!

(Pra buldogue, acho um nome gozado.)

Charuto!

(O dono morreu de câncer no pulmão.)

A mim, nunca ninguém me "chamou".

Ainda inexperiente, aquele privilégio de certos colegas me invocava. Alguns saíam com orgulho, como se fossem mais do que nós. Tinham nome, como os donos.

Confesso, hoje envergonhado, que ao ouvir al­guém chamando alguém, e esse alguém não an­dava pela vizinhança, eu me aproximava, na espe­rança de ser adotado por engano. Felizmente nin­guém se enganou. Mas naquele tempo eu sofria. A coisa me machucava.

Fui observando e aprendendo, porém. E vi que, na maioria das vezes, os Javalis e os Valentes, as Samantas e as Princesas saíam de rabo entre as pernas, de cabeça baixa. E que nem sempre eram tratados com o devido carinho. Eram enxotados pra casa.

— Passa!

Não há resto de comida em lata de goiabada ou em prato desbeiçado que pague essa humilhação. De jeito nenhum!

 

                                                               A Ilusão da Coleira

Outra ilusão da minha juventude foi a coleira.

Eu achava bacana.

Parecia colar em pescoço de mulher.

Só cachorro com dono tem coleira. Mais do que isso, é sinal de cachorro que foi registrado não sei onde, proteção contra a carrocinha, meu terror toda a vida.

Havia cachorros — e ainda há, que a canilidade não muda — de pescoço duro de tanta vaidade.

Julgavam-se de uma raça mais nobre. Olhavam do alto meus irmãos vira-latas.

Mas aos poucos fui percebendo o mau sentido da coleira. Ela estava ligada inicialmente à idéia agradável de uma bóia certa, às vezes não de sim­ples restos de comida, mas de um bom angu ex­pressamente feito para o cara. Comida a hora certa, que é um problema para os cães da rua. O tal cai­xote no quintal, que eu já citei. Muitas vezes, e com certa freqüência, até muito carinho. Porque, de um modo geral, homem gosta de cão. Rara é a casa que não tem cachorro. Para assustar ladrão. Para amigo dos filhos. Muitas vezes com tratamento de filho. Há muito cachorro de vida mole, nesse vasto mundo, humanizado pelo tratamento. Defendendo a fa­mília com uma lealdade e um heroísmo verdadei­ramente caninos. Só um cão é capaz de sentimen­tos tão nobres. Os próprios homens o reconhecem. Passarinho canta e encanta, mas fica de bico fechado, se ladrão aparece. Gato é macio de pegar, mas arranha quando menos se espera e não presta o menor serviço a ninguém. Galinha é útil: bota ovo e acaba na panela, mas na maior inconsciência. Lobo, que homem acha tão bom ao ponto de usá-lo como sobrenome, botem criança perto pra ver o que é bom. Leão, tigre, nem se fala. Peixe é precioso para a humanidade como alimento, mas é sem que­rer. Dedicado, amigo, sincero, serviçal, defensor das crianças, pavor dos bandidos, espontaneamente, por grandeza de alma, só o cão. Mesmo sofrendo even­tuais injustiças. Mesmo com o nome usado como insulto.

E o homem sabe disso. Pode não gostar da lam­bida fria do cachorro do vizinho, mas chega a beijar o seu próprio cachorro. E há cães que têm encon­trado entre os homens seus melhores amigos.

Digo isso com a maior imparcialidade, porque eu, pessoalmente — destino é destino — nunca fui muito feliz no trato com os homens. Sempre fui um marginal. Mas o que é verdade se diz. Certa oca­sião, no 1º ou no 2º Festival dos Vira-Latas em que tomei parte, ao ver a turma latir horrores con­tra a humanidade, eu procurei esclarecer os cole­gas. Cheguei mesmo a dizer que o homem era o maior amigo dos cães. Houve muito protesto* é cla­ro. Eram todos vira-latas.

— Vendido! Vendido!

Mas eu, com a minha lógica, falei (ou lati, se preferem):

— Eu sei. O homem não é perfeito. Nada é per­feito neste mundo. Temos muitas queixas. Tem a carrocinha... Tem o pontapé... Tem o "passa ca­chorro"... Tem aquele negócio de jogarem pedra... Tem os que jogam bolinho envenenado... Tem aquela história de enxotarem a gente no melhor do poste... O verbo enxotar parece que foi inventado especialmente contra nós. Mas nem todos os huma­nos fazem isso. Há bons e maus. Há bandidos. Que matam os outros homens. Que cometem crimes. Que atropelam crianças. Que vendem maconha. Mas, se a gente comparar o homem com os outros animais, aí é que a gente dá valor ao homem. Na minha opinião, devemos perdoar o mal que nos fa­zem, pelo bem que fazem a muitos dos nossos ir­mãos. Comparem o homem com a pulga, por exem­plo. Não é preferível o homem, do qual, pelo menos, podemos fugir? Comparem com os leões... Eu vi um par deles no Zôo, tive a pior impressão... Comparem com os gatos... Comparem com os coelhos... Bem, dos coelhos a carne é gostosa, mas amigos eles nunca foram. Nunca houve um coelho que se apre­sentasse voluntariamente para ser comido... O ho­mem raramente é amigo de todos os cães, mas é sempre amigo de um ou dois. É alguma coisa. Vo­cês conhecem algum animal que tenha esse cari­nho com qualquer de nós?

Minha tese foi latida por vários colegas, acabou sendo aceita. Mas, com isso, eu me afastei do que estava dizendo. Eu falava de coleira...

 

                               O Discutível Amigo

O homem é o maior amigo do cão...

Há um pouco de ironia, é claro, nessa verdade. A coleira que o diga. Poucos animais têm, como o homem, o instinto da propriedade, o sentido de pos­se. Pelo que eu observei, ao longo do meu latir pela vida, a frase devia ser modificada: o homem é o maior amigo do seu cão. Gosta do que c dele, rara mente suporta o dos outros. Mas há milhões de cães pelo mundo a fora com um homem, ou toda uma família, a seu favor. Às vezes tratados como cães. Às vezes reconhecidos como gente. Principalmente quando na família há essa coisa boa que chamam criança. A criança é o homem ainda humano, quase canino. É um irmão que a gente consegue. Na realidade nenhum outro animal se ligou a nós como o homem. Nosso mundo é praticamente o de­le. Convivemos, brigando muitas vezes, mas os homens, entre si, também brigam muito. Uma fata­lidade qualquer aproximou os nossos destinos. Os lobos, os leões, os tigres, os próprios macacos, tão humanos em seus gestos e molecagens, os hipopótamos, os rinocerontes, as águias, sempre viveram na sua e da sua independência. Ai deles quando se aproximam do homem. É a morte ou a escravidão. É só olhar as galinhas, que não me deixam mentir, o boi, a vaca, e outros colegas de duas ou de quatro patas. Quem entra num Zôo vê animais poderosos que escaparam ã morte na sua aproximação com o bicho-homem. Escravos são. Salvam-se os que guardam distância, os que se refugiam nas florestas e nos altos, os que não se misturam.

Nós nos misturamos. A coleira é o resultado. Símbolo de escravidão, embora muitas vezes amá­vel e disfarçada. No dia em que eu compreendi a coleira, eu me libertei daquela mágoa. Vi muito ca­chorro metido a bacana ser agarrado pela coleira e arrastado pra casa. E vi que a coleira estava ligada a outro símbolo de escravidão: a corrente.

Essa infelicidade é mais comum entre os cha­mados cães de raça, pelos quais os homens pagam, por vezes, verdadeiras fortunas.

Vi muitos de coleira e corrente. Coleira, cor­rente e horário certinho. Com o dono, a dona ou a empregada do outro lado da corrente escolhendo a árvore, o poste, o local. Puxando-a, sem piedade, se o infeliz vê na calçada um ossinho inesperado, se encontra um colega ou uma coleguinha do seu gos­to.

Essa dependência foi sempre a minha diferença na vida. Aliás, meu fraco nunca foi cachorro de ra­ça. Muito luxo, muita farolagem, mas não agüen­tam um tranco, mal sabem latir. Eu cheguei a esta idade sem ter visto um veterinário. Remédio meu são algumas ervas que conheço. Me arrumo em qualquer montão de lixo com a maior tranqüilidade. E natural que eu não despreze uma papinha, um ossinho mais rico, uma carne melhor. Mas qualquer comida me diverte. Os palhaços, qualquer mudança de temperatura, qualquer diferença de comida, é febre, é tosse, é Policlínica. Um lixo...

E tome coleira...

E tome corrente...

Que são a desgraça de muito cachorro de ver­dade, igual a mim. O pobre ostenta, com errado or­gulho, os sinais da escravidão. Inconsciência... A prova é que, na hora do angu agarrado pela coleira, eu nunca vi um cachorro ir de boa vontade. Tem que ser arrastado. Ele esperneia e resiste.

Adianta alguma coisa essa dependência? Não é melhor viver "na raça" que ter raça?

Amigos, a liberdade do poste e da lata de lixo é alguma coisa na vida de um cão! Falei, tá falado. Aliás, lati, tá latido...

 

                                             O Velho Tobby

Um dos meus maiores amigos (como eu odeio automóvel!) foi o Tobby. Ele me explicou, na língua latida, a língua mais bela do mundo, que os cachor­ros de raça procuram esquecer, ou esquecem, de tanto que não os deixam latir nos apartamentos e palácios onde vegetam no luxo, que o nome lhes fora imposto pelos homens.

Odeio nome estrangeiro. Me chame de Uau-au, pra lembrar minha infância distante. Era assim que me chamava o filho do dono do circo, naquele tempo pouco mais alto que eu... Infeliz­mente cresceu, foi ficando homem, comia fogo, trabalhava no arame, cabriolava no trapézio, uma vez caiu de mau jeito, se danou...

Você conheceu gente de circo? — perguntei maravilhado.

Fui profissional, meu filho. Trabalhei muitos anos!

Em circo?

Ele sorriu, mostrando os últimos dentes, com aquele sorriso que só os cães percebem nos seus companheiros.

Tive fama internacional, meu caro. Conheci vários países. Viajei muito. Estive numa tal de Eu­ropa. Conheci Buenos Aires, Bolívia, Aracaju, Hamburgo, Lençóis Paulista, Bauru... Vi gente fa­lando toda espécie de língua. Vi o pessoal do circo se atrapalhando pra conversar com os homens dos muitos países.

Quer dizer que você conheceu muito ca­chorro pelo mundo...

De todas as classes. De raça e de rua. De circo e da vida!

E dava pra conversar com todos eles?

Claro. Os homens falavam em cada país uma língua diferente. Havia uma parecida com a língua latida, comum a muitos deles, o inglês. Co­migo nunca houve problema. A língua latida é lín­gua universal. Essa é uma das muitas superioridades da nossa raça.

Mas você trabalhava no picadeiro? O pessoal aplaudia? A única inveja que eu tive foi de ca­chorro de circo...

Saíamos, latindo baixinho, num bate-papo ami­go, percorrendo postes e latas de lixo.

Me late a tua vida — pedi eu uma vez, ma­ravilhado.

Circo é a maior ilusão dos cães independen­tes — ele me explicou. — Eu vi muito cachorro de rua parado em frente ao circo — isso em todos os países que visitei — olhando os cartazes em que a gente aparecia, "Os melhores cães amestrados do mundo"...

Vocês eram os melhores do mundo?

Bobagem... Isso é besteira de homem. Todo homem se julga o maior e mais importante do mundo. Ele e o que é dele. Nosso circo tinha os maiores trapezistas, os maiores mágicos, os maiores domadores, os maiores ventríloquos, os maiores pa­lhaços, os maiores bailarinos (isso eu acredito, era uma troupe de doze elefantes...), os animais mais sabidos do mundo.

Mas eu pergunto: vocês... Eu sempre admi­rei trabalho de circo. Entrei muitas vezes pelo meio do povo, esperando o número canino... Me esbal­dava de gosto... Pra quem viveu na base do "passa, cachorro!", dá gosto ver milhares de pessoas ba­tendo palmas pra colegas da gente...

Ilusão, meu filho. A gente faz todas aquelas coisas, fica em pé como homem, passa pelo meio do arco de fogo, dança de acordo com a música, joga futebol, planta bananeira, faz uma porção de bes­teira, tudo a poder de ameaça e de comida só depois do número, sem liberdade nenhuma. É a pior forma de escravidão que pode existir.

Não diga!

Você pensa que alguma vez cachorro de circo teve liberdade pra dar uma voltinha? Nunca!

Mas não é bom ser aplaudido?

Você nunca notou que quem agradece é o domador? Você viu alguma vez um cachorro agra­decer, mesmo quando o mestre finge transferir os aplausos para a troupe? Nunca! Eles estão é pen­sando na bóia. E sabendo que seu único momento de liberdade aparente é quando estão trabalhando... Saem do picadeiro para a prisão... Eu penei oito anos naquela desgraça. O pessoal até que era ami­go. A bóia era escolhida. A gente recebia muitos agrados. Mas liberdade, que é bom, nunca houve. Nunca tive o prazer de fazer por minha conta um pipi na rua, tá bem? Tinham medo que a gente se misturasse com vocês...

— Ah, cachorrada!

Foi sem querer que eu usei a palavra. Saí com o rabo entre as pernas, com vergonha de mim mes­mo.

 

                                               A Gloriosa Aventura

Felizmente Uau-au (era assim que ele gostava) não percebeu minha gafe. A gente tanto lida com os homens que acaba pegando muitos dos seus vícios.

Ele não tinha esse instinto de luta, esse amor da liberdade, que faz, na minha opinião, a grandeza dos vira-latas.

Aliás, estou sendo injusto. Ele apenas estava empolgado com as recordações, não prestou atenção na rata que eu dei.

Rata será ofensa aos ratos? Se é, que os amiguinhos me perdoem. Acho que a gente deve comer tudo quanto é rato que aparece (é a luta pela vida e toda comida me diverte), mas não tem o direito de ofender uma raça.

Mas, como eu ia dizendo, foi uma injustiça. Porque Uau-au era, exatamente, um caso típico, um exemplo vivo de amor à liberdade.

No seu latido manso, de cachorro que muito vi­veu, ele me contou uma vez o seu caso:

Você tá me olhando, tá me achando velho, não tá?

Não diga uma coisa dessas... Você parece um garoto...


Ele ficou sério, me olhando.

Você tem dono?

Deus me livre!

Já teve?

Nunca!

Mas já lidou muito com gente, pelas ruas do mundo, não lidou?

Confirmei.

Tá explicado. Mas não faça mais isso. Não imite os homens. Seja sincero. Homem é que tem a mania de esconder o que pensa, de mentir. Acho muito feio. Você tá me olhando, tá vendo. Eu não sou nenhum broto. Sou muito mais velho que você. Olha a dentadura... Quase toda já foi. Olha o meu pêlo. Vê se alguma cadelinha nova se interessa por mim... Nem olha... Cachorro que vive entre os ho­mens pega muitos dos defeitos humanos, princi­palmente esse de julgar pela aparência. O que vale é o caráter do cachorro, tá bem? E a experiência. Ninguém pode ter mais experiência do que eu, que fui do circo... Em matéria de cadela, eu tenho que forçar a mão, que essas cadelinhas de hoje só vão em conversa de cachorro novo. (Entre os homens é a mesma coisa...) Mas não é esse o problema. Estou velho (não adianta latir uma nova hipocrisia...), es­tou velho e não me envergonho de estar. Quando eu vejo um cachorro metido à besta me chamar de co­roa, eu só digo uma coisa: "Reza pra ver se chega à minha idade, tá?" E nem te ligo... Mas não pense que eu sou cachorro abandonado. Não pense que eu fui chutado do circo pela idade...

Interrompeu-se bruscamente. Com seu olhar ainda vivo descobriu um osso na sarjeta e voou para ele.

Este é meu. Eu vi primeiro.

Coitado... Os dentes não funcionavam muito. E o osso já fora explorado. Até o tutano se fora. Deu- lhe uma chupadinha desconsolada, voltou ao gogó.

Não pense que eu fui chutado... Aliás, o pes­soal do circo era relativamente legal. Quando al­gum de nós chegava à aposentadoria era internado numa Policlínica. O circo pagava. E dava notícia no jornal, pra fazer propaganda... Coisa muito huma­na...

Experimentou ainda o osso (só era bom pra treinar os dentes), continuou:

A gente vivia numa revolta danada. Nós tí­nhamos uma sociedade secreta, latíamos em se­gredo o nosso protesto. A gente sabotava o possível. De vez em quando um fingia estar doente, chama­vam o veterinário, ele não achava a doença, que não havia, mandava deixar a gente em observação (rancho melhorado). A troupe, às vezes, não se apresentava. Outros tentavam errar os números pra envergonhar o patrão. Não era negócio, a gente apanhava lá dentro. E todos sonhavam com a fuga. Mas cadê coragem? E cadê ocasião? Escravo é es­cravo, meu filho. Batem palmas, pedem bis, mas a escravidão continua. Uma vez nós tínhamos vindo de Buenos Aires, viagem de caminhão (viemos re­presentando por todo o caminho). Chegamos ao Rio. Todo mundo estourado. Artistas racionais e irracio­nais (irracional é o raio que o parta!) estavam na última lona e era preciso trabalhar. Show todos os dias. Dois shows no sábado, dois no domingo...

Que beleza! — exclamei instintivamente.

Beleza é a vovozinha! A maior chatura do mundo! Estava todo o mundo por conta. Até a famí­lia do dono do circo (eram todos artistas). Aí, depois de uma porção de reuniões secretas, eu combinei com o pessoal (canino, evidente). Na hora do nosso número (ninguém na casa podia esperar uma coisa daquelas...) no melhor da festa, todo o canil deban­dava. Ia ser aquele susto... Do treinador, dos artis­tas, do público.

Salve-se quem puder!

"A ordem era a gente se meter pelo meio do povo como feras, latindo e correndo. O povo ia ficar no maior alvoroço, pensando que todos nós estáva­mos doidos. Um dos golpes era fingir que estáva­mos com raiva. Mas cada um tinha que buscar o seu caminho. Cada qual que se arrumasse...

"E assim foi feito. A confusão foi incrível. Gente corria, gente gritava, gente desabava com medo, crianças choravam. Infelizmente o pessoal da casa era de circo. Passado o primeiro espanto, artistas, palhaços, charutos, todos eles saíram atrás de nós, feito loucos, e foram agarrando um por um, apesar das mordidas e da incrível confusão.

"Mas eu escapei, meu filho. Eu também era "de circo". Só eu escapei. Ganhei esse mundo velho sem porteira. Velho como estou, não poderia ter fu­gido. Mas eu estava em plena forma, no vigor da juventude. Ninguém me pegou..."

Parou, emocionado, recordando a grande aven­tura, arreganhou os lábios, mostrou-me os últimos dentes:

Uma desgraça, não é? Idade, meu filho... Mas naquele tempo eu tinha uma dentadura que era o fino. Com ela eu podia fazer o cachorro- propaganda na televisão pra qualquer creme dental. Te juro que podia...

 

                                           No Vasto Mundo

Para quem nunca teve dono, para quem nunca teve nome, para quem nunca foi "chamado", como eu, a aventura de Uau-au, após a fuga do circo, era um verdadeiro romance, era fascinante como no­vela de televisão. Confesso que nunca vi novela. Te­levisão que eu conheço é em demonstração de vitri­na. Mas sei pelos colegas de coleira ou de nome.

É a única hora de liberdade que temos — di­zem eles. — A família fica empolgada acompa­nhando a história e a gente abre no pé...

A fuga de Uau-au foi uma autêntica novela.

Dava gosto ouvir o veterano contar, no seu calmo latido.

Só quem atravessou muito arco de fogo, só quem aprendeu a equilibrar e jogar o corpo, como eu, podia ter atravessado, sem se machucar, aquela multidão a gritar, correr, desmaiar e cair. Passei por cima e por baixo de muitos. A casa estava cheiíssima. Nem em Buenos Aires tivemos tanta gente. Varei pelo meio do povo, assisti à prisão de muitos colegas, dei uma dentada num trapezista que quase me apanhou (coitado, era um cara legal!) e saí no cheiro dos caminhos livres. Passei por baixo da lona, peguei o descampado. Nem acreditei. Havia muita gente em volta do circo, vendedores de amendoim, pipoca, pirulito. Alguns me olhavam, sem compreender a confusão e gritaria que se ouvia lá dentro. Nem eu era besta de contar. Finquei pé. Entrei por uma ruazinha estreita, onde havia, aqui ou ali, uns caras conversando, crianças brincando. Quando me viram a correr naquela fúria, alguns pensaram que o papai tinha enlouquecido. Alguém deu o alarme, todo o mundo fugiu. Achei ótimo. Quebrei a primeira esquina, já de língua de fora. Encontrei uma cadela que se agradou do meu tipo. Eu nem te ligo. Tinha lá tempo a perder com cade­la... Ela veio me seguindo, eu falei:

Te güenta, minha filha... Eu sou fugido.

"Ela fez-se de desentendida, continuou.

"Aí eu me lembrei de uma conversa de uns vira-latas, uma tarde, perto da nossa prisão.

A carrocinha vem aí, companheira!

"Não cheguei a latir a frase toda, a bicha tinha desaparecido. Com o tempo compreendi quanto ela tinha razão.

"Quando dei por mim, estava no outro extremo da cidade. Estava na praia. Fiquei mais tranqüilo. E pensei que podia ficar. Naquela noite, a primeira noite livre de toda uma vida, farejei um restauran­te, a fome era muita, fiquei olhando os homens co­mendo. Um garçom farejou, por sua vez, a minha fome. Era um bom camarada. Encheu uma lata com restos dos pratos dos fregueses, veio até à cal­çada, me chamou:

Vem, Bonaparte...

"Eu devia ser parecido com algum cachorro an­tigo da família dele.

"Não fiz cerimônia. Lavei a lata em menos tempo do que o necessário pra atravessar três arcos de fogo. E nunca me regalei tanto. Com o tempo aprendi a identificar. Mas, pela memória, sei que naquela janta eu entrei em feijoada, pescadinha, vatapá, arroz, angu à baiana, bacalhau, sarapatel...

Cara de sorte! — exclamei.

Sorte nada! Apanhei a maior dor de barriga deste mundo! Tudo o que eu comia antes era me­dido e pesado. Quase morri, meu companheiro! Cheguei a pensar em voltar para o circo (pelo rasto era fácil), mas no meio do caminho pensei: antes morrer livre que viver na escravidão. De madru­gada a coisa piorou. De manhã encontrei um co­lega na praia, me queixei, ele disse:

Pena você não ter dono...

Por quê?

Porque ali tem uma Clínica Veterinária...

"Fiquei até envergonhado de não ter visto an­tes. Era falta de traquejo no mundo livre. Pelo olfato eu devia ter percebido. Havia no ar uma con­densação de cheiros de raças caninas. E até o pré­dio eu conhecia. Tinha estado lá uma vez.

Então eu vou até lá — disse eu.

Não seja besta, companheiro. Lá não se atende a cachorro. Só a dono de cachorro... Ca­chorro pode chorar e ganir aqui fora à vontade que eles não dão pelota... Só levando o patrão... Erva, tá me entendendo? Tutu... Grana...

"Com o tempo eu iria entender. Uma das misé­rias da vida...

"Fiquei naquela curtição muitas horas. Mas eu era forte, era jovem — você pode não acreditar, mas eu já tive dez anos... — e no dia seguinte eu já me sentia feliz, olhando o Sol, olhando o mar, olhando a praia. E aprendendo uma grande lição...

Qual foi?

Que a beleza de um animal, principalmente o feminino, não depende do número de patas. Havia muitas ali, de duas patas apenas, que eu vou te contar...

 

                                       Recordações de Uau-au

Uau-au continuava suas memórias. Voltava sempre a suas antigas aventuras.

Mas eu não tive paz por muito tempo. Logo percebi que estava sendo perseguido e procurado por toda a cidade. Sempre que eu encontrava cole­gas ouvia aquela conversa. Curioso, aproximei-me de um grupo.

Vocês souberam? Fugiu um cara que traba­lhava no Gran Circo Internacional... Um artista famoso!

Só podia ser comigo. Me fiz de ingênuo, pergun­tei:

Algum malabarista?

Que malabarista, qual nada! O maior astro do circo! O rádio e a televisão estão descrevendo. Cachorro, meu filho, cachorro!

Via-se que todos estavam entusiasmados. Era o grande assunto dos homens e dos cães. Em pleno skow, na hora em que a troupe canina, que era a grande atração da Companhia apresentava seu número, um tal de Tobby...

Cachorro estrangeiro? — perguntei, me fa­zendo de besta.


Estrangeiro uma pipoca! Brasileirinho da Silva. Mas conhecido no mundo inteiro! Esteve em tudo quanto é terra de gringo, fazendo sucesso... Dizem que em Nova Iorque o circo deu um espetá­culo só pra cachorros acompanhados por uma pes­soa da família...

Dos cachorros?

Dos donos... Só podia entrar uma pessoa para cada cachorro, pra segurar o bicho pela cor­rente, se não eles invadiam o picadeiro, apaixona­dos pela troupe...

Ou pelo Tobby? — perguntei.

Com certeza por ele. Os milionários ofere­ciam fortunas... E ele deve valer uma fortuna. O circo paga não sei quantos milhões pra quem en­contrar o fujão... Tem gente por todo lado pro­curando...

Como é a descrição que eles fazem do cara?

Um dos vira-latas me olhou:

Escute... Não é você?

Ele me olhava com admiração e deslumbra­mento. (Naquele tempo, você pode não acreditar, mas eu era de parar o trânsito.)

Só pode ser ele! — disse um outro, num la­tido respeitoso. — Só pode ser ele!

Fiquei gelado.

Entrei pelo cano. Vão me denunciar...

Mas eu, que sempre tinha vivido longe do grosso da raça canina, ignorava a nobreza dos cães. Homem devia andar me procurando pra ganhar di­nheiro. Homem que me reconhecesse, era ponto fi­nal. Prisão outra vez! Cachorro, não... Eu nem pre­cisei confirmar. Estava na cara. Mas a preocupação daqueles vira-latas era me esconder.

Te manda, meu filho! Cuidado com homem! Entra no primeiro buraco... Não caminha de dia. Foge pra zona norte. Lá é menos perigoso, o pessoal conhece menos cachorro de raça.

Um deles me aconselhou:

Te suja de lama...

Um outro latiu desesperado;

Arranca essa coleira, meu filho. O rádio tá descrevendo exatamente essa coleira. Qualquer pa­tife reconhece...

Levaram-me para uma casa em demolição.

Vamos tirar a coleira dele — um dos caras lembrou.

Todos concordaram.

Agüenta a mão, companheiro.

Avançaram para mim, triturando com os den­tes treinados o selo da minha escravidão. Levou tempo. Eu ficava meio estrangulado, no meio da­queles puxões, meio tonto, mas todos tiveram deli­cadeza bastante para não me enfiar os dentes no pescoço. Depois de muita luta a coleira cedeu. Um dos colegas jogou-a disfarçadamente no bueiro mais próximo.

Pronto! Pela coleira não te reconhecem mais. Agora o que é preciso é disfarçar esse jeito.

Como assim?

Desmancha esse ar de imperador que você tem...

"Não era fácil. Tava no sangue. Mas o remédio era aquele. Meti o rabo entre as pernas, baixei a cabeça, tomei um ar de cachorro vagabundo (sem desfazer do colega...) e saí modestamente à procura de uma lata de lixo, que a dor de barriga tinha pas­sado e a fome apertava..."

 

                                                     A Ingenuidade de Sultão!

Uma das coisas que mais me agradavam no ilustre colega era que ele preferia o nome latido — Uau-au — ao nome de gringo que lhe haviam posto no Circo.

Ficamos amigos ao primeiro latido.

Foi num dia de fome, bem me lembro.

Fome é castigo de vira-lata. É o preço da liber­dade. É por isso que tantos cães que mereciam me­lhor destino se aproximam dos homens e acabam se engajando em famílias que nem sempre recomen­dam um cachorro decente. Mas os cães têm um ve­lho princípio, com o qual às vezes se dão mal, mas respeito, porque é o que mais nos distingue da raça humana: a lealdade.

O cão sabe ser amigo. O homem pode não valer grande coisa. Mas se ele sabe dar valor ao seu cão — mesmo com as deficiências e limitações da ami­zade do homem — ele encontra no seu cão uma fi­delidade canina. Que tolera e perdoa os defeitos humanos, esquece muito pontapé intempestivo do seu dono, e retribui com juros altos os relativos bens que recebe. Ninguém como o cão sabe agradecer uma simples lata de comida, geralmente restos da mesa. Ninguém, na sua frente, ataca o seu do- n0. O cão se transforma. Parece um homem enfu­recido. Vira bicho. E bota pra correr o assaltante.

Vi muito cachorro pequenino arreganhar a mo­desta dentuça e afugentar, espavoridos, homens que são verdadeiros caminhões, na defesa do seu dono, tantas vezes ingrato.

Vi cachorros vigorosos, de apavorar qualquer ladrão, agüentarem com incrível paciência a mal­dade inconsciente de muitas crianças. Pisando, chutando, montando, puxando pelo rabo os gigantes bondosos.

Você não deve permitir uma coisa dessas — disse eu, mais de uma vez, a colegas que se sujei­tavam, sem protesto, à crueldade infantil.

Deixa disso, colega, ele é meu chapa...

Quando muito, cansados, eles se limitavam a fugir.

Fosse uma criança fazer o mesmo com um leãozinho, um filhote de tigre, ou mesmo outra crian­ça...

Muitas vezes o homem faz-se amigo de um cão por mero interesse. Não é por querer bem, é para vigiar a casa. Entreguem uma casa a um cachorro e verão. Assaltante só entra depois de lhe passar pelo cadáver...

Conheci muitos casos de cães que deram a vida pelos seus amigos (ou senhores).

Os ladrões sabem disso. Ladrão-homem, é claro. Antes de assaltar uma casa, primeiro verificam se tem cachorro. Se o bicho é feroz, ou finge ser, a casa está salva. De outras vezes, com essa cruel­dade e covardia de que os homens dão exemplos, eles se aproximam, com urna falsa amizade, fazem festinha de longe, e atiram comida ao infeliz. Com a boa fé das almas nobres, com a boa fé própria dos cães, o coitado vai na onda. Em geral o cão, mesmo o que tem casa, nome, dono e até coleira, vive num regime de fome. Aceita o presente. Engole o bolo de carne. (Nunca um dono deu ao seu cachorro um bolo tão inteiro e tão bonito quanto o de um ladrão ou de um mau vizinho, mas é preciso ser vira-lata pra saber...) E minutos depois lá está o infeliz se retorcendo de dores. O bolo estava envenenado... E aí o homem, que é o lobo do homem, digo, o ladrão, entra na casa e faz miséria...

Foi assim que perdi um grande amigo, o Sultão. Era um cão rajado, valente como quê! Eu sempre lhe dizia:

Acredite em lata de lixo, meu filho. Não acredite nunca em bolo inteiro... Bolo inteiro, não resto de bolo, jogado a cachorro é como laranja em beira de estrada: ou é azeda ou tá bichada...

Mas ele era um desses cães românticos que acreditam na bondade dos homens.

Eu assisti à tragédia. Era uma noite linda. Al­guns colegas idiotas ladravam à Lua, nos quintais vizinhos. (Tem muito cachorro que envergonha a raça...) Eu tinha passado por baixo da cerca e batia um papo com Sultão. De repente, ele me disse:

Olha que homem tão bom... jogar dois bolos pra nós...

Eu vi aquilo e lati baixinho:

Não seja besta, compadre. Olhe o que eu te­nho lhe dito... Isso é muamba...

Ingênuo, confiante, ele se atirou ao primeiro bo­lo.

Eu avancei, latindo alto:

Não coma essa porcaria, seu tonto!

O coitado pensou que eu queria o bolo dele e fugiu, engolindo-o depressa e dizendo:

O seu tá ali, seu bobo! O mocinho bom deu um pra cada um...

Imediatamente ele cambaleou. Estava mortal­mente envenenado.

Fiquei uma fera. "Eu vou salvar a honra do co­lega. Nesta casa ninguém entra..." E me botei a la­tir como um louco! O ladrão (tá claro que era...) fi­cou apavorado e fugiu. Os donos da casa acorda­ram. Acenderam as luzes. Abriram as janelas. Abriu-se uma porta. Alguém apareceu de revólver na mão. Mas vendo o Sultão a estrebuchar e o meu jeito furioso, a sair pelo buraco da entrada, cor­rendo em perseguição do criminoso, compreende­ram logo. O outro bolinho envenenado estava ali.

O homem saiu de revólver em punho, deu um tiro, várias casas se iluminaram, o bandido estava longe.

Eu podia ter corrido atrás do miserável. Mas a morte de Sultão me doía muito. Era um grande amigo! Voltei para assisti-lo nos últimos momentos. Ele já nem me reconhecia.

A família percebeu tudo. Compreendeu que fora salva por mim. Todos me agradaram. O dono da casa quis me adotar. Mas naquele tempo eu já es­tava liberto dos velhos complexos. Já sabia o que era nome e coleira. Fiquei até o enterro de Sultão, que foi muito decente. A dona da casa chorava. As crianças choravam. Chorei a meu modo.

Depois me ofereceram, com muito carinho, uma lata cheia de comida, com carne sem osso, um ban­quete para a minha vida de cachorro vadio. Fui chegando, dei a primeira bocada, o feijão não des­ceu.

Me desculpe, dona, mas não dá pé... Eu era muito amigo do Sultão...

Falei em língua latida, os infelizes não entende­ram. Eu senti que eles não iam me entender nunca. Embora de barriga vazia, latindo lá dentro, baixei a cabeça, ganhei a rua.

Mas eu me distraí contando tudo isso por asso­ciação de idéias. Foi num dia de fome parecida que eu conheci Uau-au, meu amigo e mestre, que um dia um automóvel matou.

 

                       Eu Também Sou Tri-Campeão

Mas já que eu falei no Sultão, vou falar no as­sassino.

Modéstia à parte, eu sou tricampeão de olfato.

O Centro de Resistência dos Vira-Latas organi­za, periodicamente, esse torneio. Vem cachorro de todos os bairros, de muitas cidades, de vários paí­ses. Tive a satisfação de bater, uma vez, o campeão argentino, um belo buldogue, que falava muito bem a língua latida, mas entendia espanhol e inglês. O dono era inglês e, vindo de Buenos Aires para o Rio, trouxe toda a família, inclusive "El Caretón", que era o citado buldogue. Ele ignorava que "El Care­tón" em Buenos Aires, em suas fugas freqüentes, para confraternizar com vira-latas da terra, partici­pava de vários torneios e tinha, entre os cães argen­tinos, o maior cartaz.

Nós, vira-latas brasileiros, também não faze­mos distinção de raça. O bicho é, antes de tudo, um cão. E nos nossos campeonatos, como em Buenos Aires, não negávamos inscrição a um colega só por ter coleira e país registrados e outras tolices huma­nas.

O vira-lata é o cachorro mais universal e compreensivo. Para nós, todos os cães são irmãos. É verdade que há muito pequinês (há alguns tão bes­tas que se dizem pékinois), muito basset, muito luluzinho — e até muito galgo, que é um dos orgulhos da canilidade — e em geral os cães de luxo dos apartamentos, que nos olham com infinito despre­zo. São uns infelizes, amolecidos pelo convívio do homem, atingidos pelos defeitos humanos.

Nós, não. Eu, pessoalmente, tenho nojo deles. Mas para o vira-lata comum, todos são apenas cães. E recebemos, com simpatia, qualquer pastor, qual­quer doberman, qualquer dinamarquês, qualquer afegã, como se fosse um simples cachorro.

É assim que o Centro de Resistência dos Vira-Latas (é uma questão de luta pela vida, não de luta racial) aceita, com prazer, a adesão de qualquer de­les. Principalmente nos encontros esportivos, quan­do a gente vence, não pela raça, mas "na raça".

Pois bem... O tal buldogue, com todo o seu car­taz, entendendo três línguas humanas (já estava pegando o português), perdeu longe do papai.

Não há como a rua e a necessidade para formar um cachorro de fato! E de faro...

O torneio era simples. Exibia-se uma peça aos concorrentes, permitindo a cada um que lhe sen­tisse bem o cheiro. Às vezes era um osso, outras uma peça de roupa. Depois, os concorrentes fica­vam num matinho esperando a hora da partida, en­quanto uma comissão ia levar a peça, arrastando-a pelo chão, de Cascadura ou Madureira até Ipanema ou Leblon. A comissão tinha o direito de despistar. Tomava diferentes caminhos, voltava, recomeçava, criava a maior confusão. Aí, o presidente dava a largada. Quem trouxesse o objeto de volta era o vencedor. Três vezes ganhei. E teria sido tetra-campeão, se uma vez não tivessem tido a infeliz idéia de usar um pedaço de carne, em vez de um simples osso ou uma peça de roupa. Fui desclassificado, porque a fome apertou na viagem de volta...

 


                                      Vingando Sultão

Tri-campeão de faro, não era dos meus dentes que aquele miserável iria escapar...

Esperei o enterro, como disse. Vi o meu querido Sultão ser sepultado com todas as honras no quintal da casa. Uma das crianças chegou a pôr uma cruz sobre a sepultura. A vovozinha não gostou. Achou falta de respeito. Sepultura de cachorro não tem cruz. A mãe achou que a criança não tinha feito por mal. O pai achou que o Sultão merecia. Era "qua­se" humano. Eu lati protestando. Sultão era grande justamente por ter qualidades caninas exclusiva­mente, inclusive a boa fé. Eles não me entenderam e foi mesmo por sentir que nunca a gente iria se entender que eu caí fora.

Mas ao ganhar a rua, depois da comovente so­lenidade, em que entrevi qualidades "quase" cani­nas naquela boa família, me lembrei que era tri­-campeão e tinha condições de vingar o covarde as­sassinato do meu amigo.

Peguei o rasto. Saí de focinho no chão.

Aquele cheiro maldito me incendiava as nari­nas.

Eu vou pegar esse cara, nem que seja em Nova Iorque! Nem que seja em Cascadura, vou pe­gar esse cara. Eu te vingo, Sultão.

Parece que o patife tinha experiência de ca­chorro. A cada passo eu perdia a pista. O ladrão de­via dar saltos muito grandes, porque toda hora o rasto acabava e eu ficava um tempo enorme, cheira daqui, cheira dali, até esbarrar lá adiante com o rasto outra vez.

Farejei o dia inteiro, com a maior dificuldade. Não parei nem pra comer (e eu tinha a barriga va­zia, a comida não havia descido quando me ofere­ceram).

Ia e voltava. Acertava com o rasto do malandro, logo adiante o perdia. Da cara dele eu me lembra­va, mas confesso que não vi cara de gente o dia to­do, sempre de focinho no chão. Pegava uma rua, dobrava mais além, virava à direita, quebrava à es­querda, entrei num botequim, tornei a sair, entrei numa casa, olhei o pessoal (só havia mulher), pen­sei em esperar, senti o rasto mais além, o rasto saía pelo quintal, de novo me vi na rua outra vez.

Que ladrão sem-vergonha!

Quanto tempo caminhei não sei. Não uso reló­gio. Caminhei durante uma fome infinita e uma raiva maior.

De repente — era tardinha — tive a maior das surpresas. Pensei que ia voltar para a casa onde morara e morrera Sultão, meu velho amigo. Mas, seguindo o rasto com o maior cuidado, vi que es­tava em frente à porta da casa vizinha.

Essa, não!

O bandido morava na casa do lado...

Tive então uma dúvida... Seria ladrão? Talvez não. Talvez um simples assassino. Talvez alguém que implicasse com o honesto latir do bom Sultão. Talvez a pessoa me visse entrar e achasse, tam­bém, que a minha entrada era novo latir na casa do lado. Daí o crime.

Hesitei um pouco.

A porta estava fechada.

O criminoso devia estar dormindo tranqüilo.

Nisso, alguém abriu a porta.

O cheiro hediondo chegou-me às narinas.

É agora, meu povo!

Perdi a cabeça. Entrei de arranco. De pé, no meio da sala, estava o miserável. Era exatamente o "homem bonzinho" que Sultão me tinha mostrado.

Passa, cachorro! — gritou alguém.

O homem me olhou, reconheceu-me, e quis fu­gir. Bastava isso para confirmar o que o rasto dizia.

Bati atrás dele, apesar da gritaria da família. Ele quis pegar num pau, pulei-lhe no braço. Ele se afundou num canto, arranquei-lhe um pedaço. Gri­tou, eu lati e avancei. As mulheres pediam socorro. Ele tentava um pontapé, eu lhe agarrava a perna. E sempre que agarrava, com a raiva, vinha pedaço de gente. O homem estava em sangue. A família tinha fugido, a gritar:

Cachorro louco!

Achei aquilo maravilhoso. Castiguei à vontade. Mas não matei. Quando senti a vingança completa, saí, ainda com restos de homem nos dentes.

Esse nunca mais mata cachorro!

Ouvi novos gritos lá fora. Tratei de fugir. Perto havia um córrego.

Lavei a boca, lavei os dentes, cuspi fora tudo, apesar da fome. Carne de assassino não como. Aliás, de homem nenhum, seja ou não seja assas­sino ou ladrão. Não sou antropófago...

 

Quem me vê contar essas coisas (é o segundo caso que eu recordo de agressão da minha parte) está fazendo mau juízo de mim.

Mas reparem bem.

No primeiro caso o que foi? Uma flagrante ofensa à raça. Um sujeito que agüentara sem re­ação maior os maiores insultos, botou pra quebrar quando o chamaram de cachorro! Fui obrigado a dar uma lição aos dois pilantras.

Neste segundo o que foi? Um caso grave de canicídio. Vi um colega meu ser assassinado no cum­primento do dever, enganado na sua boa fé por um desclassificado. Eu podia ficar de braços cruzados, digo, de língua de fora, diante de uma barbaridade tão grande?

Claro que não. Olhem que o miserável preten­dia me matar também. Não caí, porque sou macaco velho da rua. E quando parti para a vingança, não pra matar, mas castigar, nem uma só vez me pas­sou pela cabeça a lembrança de que o malvado ti­nha um bolinho especial para mim. Só me lembrei do amigo morto, de seu sofrimento, da sua agonia dolorosa...

Tudo isso prova que eu não sou um cachorro de maus bofes. Aliás, diga-se de passagem, nunca tive ninguém que me oferecesse voluntariamente um mísero bofe em toda a minha longa vida.

Esses dois fatos, um contado logo depois do ou­tro, podem fazer muita gente pensar que eu sou de briga. Não sou não. Já vivi um pedaço. Já vivi mui­to. Um tempo e mais um tempo e mais outro tempo e mais muitos outros e mais a metade de outro tempo. Como diziam aqueles caras que eu citei, sou velho pra cachorro! E a não ser alguns outros casos que eu talvez seja levado a contar, todos com justa razão, lutando pelo meu povo e pela justiça, minha vida foi sempre tranqüila. Dura, difícil, mas tran­qüila. Um cachorro de paz.

Uma vez, por exemplo...

Não é que eu já ia contar outra história de bri­ga? Vão fazer mau juízo, eu não quero. Entenda-se, porém, que eu estou preocupado com o juízo dos meus irmãos de quatro patas, não com o juízo dos bípedes humanos. Esses, outra coisa não são que serviçais da violência. Nunca vi bicho mais feroz do que o homem, animal que vive armado. Alguém já viu um cachorro de faca, de metralhadora ou de bomba? O cão, quando luta, sempre em legítima defesa, ou na defesa de seus amigos humanos, é na garra, é no dente. O homem, pouco confiado nos seus braços e dentes (a maior parte usa dentadura) inventou os meios mais terríveis de destruição. Nem gosto de falar. Tive um amiguinho japonês (cachorro, bem entendido) que contava de duas ci­dades de seu país completamente destruídas por uma tal de bomba atômica. Trabalho de america­no... Gente que dizem gostar muito de cachorro... Morreu gente e cachorro, naquelas duas explosões, de dar pena. Os homens se destroem de maneira espantosa e às vezes curiosa. Quando um mata um, é preso. Fazem discursos, falam muito, o assassino, conforme o caso, é condenado. Quando mata uma porção, ganha medalha. Torna-se herói. São as tais de guerras, que duram tempos sem fim. Sempre na base de instrumentos poderosos de destruição. Nós raramente temos guerras, mas é sempre na base leal do corpo a corpo, do dente a dente. É muito mais nobre.

Eu nunca entendi muito as contradições huma­nas, já disse. Nunca percebi muito a diferença en­tre matar e matar, que os homens fazem. Nem vou entender.

Mas o homem não mata só homem. Mata bicho também. Galinha que o diga. E vaca. E boi. E car­neiro. E as mortandades maciças de insetos. E a tal de carrocinha...

Está claro que eu não sou anjinho. Há mortes que eu compreendo. São impostas pela sobrevivên­cia, exigências da luta pela vida.

A dos insetos, por exemplo.

Tou do lado dos homens, sempre que eles fazem massacres incríveis de carrapatos e pulgas.

Isso ajuda a humanidade e a canilidade ao mesmo tempo. Na base da dentada não se acaba com pulga. Conheci um colega que teve uma varejeira na ponta do rabo. As voltas que dava o infeliz a ver se coçava o rabo eram de cortar o coração.

Também entendo a matança de bois e galinhas. Se o homem mata colegas, não é de espantar que mate animais pra comer. Já passou de moda a an­tropofagia. O jeito é comer peixes, vacas e galinhas aos milhões.

O que eu não concordo é que eles condenem a gente por fazer o mesmo.

Só eu sei quanto apanhei por ter matado e co­mido uma galinha, num dia de fome quase huma­na. A pobrezinha estava num quintal entre uma in­finidade de suas irmãs. Eu comi apenas uma. Dei­xei o resto — era uma porção — para a família co­mer.

Foi a conta!

Ser cachorro, entre os homens, é padecer num paraíso, meus amigos. Porque comida, entre eles, é mato! E como eles defendem a sua!

 

                           Papelzinho Pintado ou Metal Redondinho...

Passo em muita porta de açougue. Às vezes nos jogam ossos, carne estragada, restos, inaproveitáveis pela freguesia.

Açougue, pra mim, é galeria de arte.

Como é lindo ver aquelas metades de boi pen­duradas! Davam para alimentar um canil inteiro. E talvez sobrasse!

Como é lindo ver, pendentes de ganchos de uma sóbria elegância, aqueles nacos maravilhosos, ten­tação para os cães mais covardes!

Como cheiram bem os fígados e rins!

Que soberbos ossos tenho visto lá dentro!

E como açougueiro é gente de imprevistos...

Nunca cheguei a compreender bem a alma do açougueiro.

Às vezes chega uma pessoa, fala, fala, o açou­gueiro sacode a cabeça, de cara enfarruscada, e não cede.

De outras vezes, pega os melhores pedaços, pesa numa balança, e dá aquela carne viva e apetitosa em troca de pedacinhos de papel.

Uma comissão de cães andou estudando o pro­blema.

Chegou a gozadas conclusões.

Os tais papeizinhos, que se trocam por carne e outras comidas e objetos de toda sorte, são o cha­mado dinheiro.

Dinheiro move os homens e as mulheres. É um papelzinho pintado e pequeno. Às vezes, um troço redondinho de metal. O homem não faz coisa ne­nhuma sem puxar dinheiro. Dizem que coleira de mulher custa muito. Mulher usa coleira no dedo também. Por vezes, uma porção. Já observei numa loja, de onde me chutaram sem razão — eu estava apenas olhando — que as coleiras, tanto de pescoço como de dedo, custam fortunas.

Coleira, pra mim, nem de graça!

Mas um dia achei na rua um dos tais papeizi­nhos que compram de tudo. Tinha cheiro de não sei quantas pessoas. O mais novo era cheiro de mulher. Tricampeão de faro, tive um bom pensamento, pelo menos do ponto de vista dos bichos humanos.

Vou descobrir esta dona, devolver esta gra­na.

Saí pela calçada, o rasto era fácil. Caminhei dois outros quarteirões, entrei numa loja de coleiras femininas, entrei numa loja de roupas, me soltaram um "passa, cachorro" que não me agradou.

Continuei no meu farejar.

É dona cheirosa!

Entrei numa loja de frutas.

Gritaram comigo de novo.

Me perdi por um momento, achei o rasto logo adiante. Fui atraído por um poste. Vi que a Mimosa andava por perto. Mas nem a Mimosa me tirou do meu pensamento. Continuei farejando. De repente, vi que o cheiro da dona estava mais forte.

Deve estar aqui perto — pensei.

Engano meu. Devia estar era "ali". Porque o cheiro era muito forte e não continuava. Mas ali es­tavam duas donas, nenhuma delas a minha. Tentei em várias direções, nada. O rasto acabava naquele ponto, de onde as duas donas e mais um senhor barrigudo, que cheirava a muita coisa, mas principalmente a falta de banho, me olhavam com a maior desconfiança, digo mais, com medo.

Achei melhor me afastar, sempre de olho.

Nisso, vi parar uma carroçona de gente, um ônibus enorme.

As duas entraram rápido.

O barrigudo entrou, gemendo ao próprio peso, com dificuldade.

Voltei ao lugar.

E compreendi:

Ela entrou num carro igual.

Foi quando notei duas coisas: uma, que eu ainda tinha o tal dinheiro na boca. Outra, que havia um açougue ali pertinho.

Aí eu pensei:

Achar essa cadela (cadela, em linguagem la­tida, sempre foi elogio) achar essa cadela vai ser impossível. O dinheiro é meu... Ficou meu...

E o cheiro do açougue me chamou, então, com uma violência terrível.

Vou comprar um carroção de carne!

Entrei no açougue com a maior pureza de alma, ostentando o dinheiro na boca.

Esperei, ninguém me atendeu.

Dei uma latida baixa, pra chamar atenção.

Olha esse cachorro com dinheiro na boca — disse uma freguesa.

Todos me olharam.

Vou ser atendido, afinal — pensei.

Fui atendido? E o que vocês pensam! O açou­gueiro veio de lá de dentro, me fez um aceno. Eu, com a boa fé de Sultão no dia do bolinho envenena­do, esperei, na maior ingenuidade, que ele me ti­rasse o dinheiro da boca. Devia ter muito valor, porque todos tiveram palavras do maior espanto.

Mas em vez da metade do boi que eu esperava receber, levei o maior pontapé da minha vida!

Já na esquina, ainda ganindo de dor, ouvi duas mulheres que falavam:

Esses açougueiros são todos ladrões!

Eu que o diga — pensei eu.

Limitei-me a pensar, porque língua latida pouca gente entende...

É Latindo que a Gente se Entende

 

Há açougue de carne de vaca.

Existe açougue de galinha defunta.

Tenho visto cadáver de muito bicho pondo água na boca dos homens.

Já vi muito porco (é outro animal que os ho­mens não usam como sobrenome, só como insulto) feito em pedaços, pendurado no açougue.

Peixe, então, nem se fala!

Há açougue de peixe por todos os bairros. As feiras estão cheias de cadáver de peixe, camarão, caranguejo e outros bichos do mar.

Bicho cru eu como. Eu já disse que qualquer comida me diverte. Mas bicho preparado para os homens comerem fica muito melhor.

Eu não sei se no tempo da antropofagia (fase que a humanidade superou, segundo ouvi de uns garotos, numa porta de escola) os homens eram comidos crus ou preparados.

Não é gênero meu. Tive mais de uma oportuni­dade, ao longo da vida, de comer carne humana. Recusei. Mas acredito que frita ou assada, talvez não fosse má. Porque a capacidade que tem o ho­mem (geralmente a mulher) de preparar para a mesa qualquer bicho ou pedaço de bicho é sim­plesmente genial.

Eu acredito, mesmo, que é na cozinha que o homem conseguiu superar, de maneira incontestá­vel, a canilidade. Temos que reconhecer esse fato. Uma carne assada, um bom bife, uma galinha de cabidela, um peixe frito (e olhem que eu só tenho apanhado restos, muitas vezes nas latas de lixo) são, sem dúvida nenhuma, infinitamente mais gos­tosos que o bicho ao natural.

Numa reunião, certa vez, do Centro de Resis­tência dos Vira-Latas, eu defendi essa tese. Foi um escândalo.

— Vendido! Vendido!

É engraçado... Eu, que sou um dos cães mais independentes do mundo, que sempre fui um ca­chorro livre, que nunca tive dono, mais de uma vez tenho sido acusado pelos meus colegas.

Eles não são capazes de compreender minha imparcialidade.

Quando faço uma concessão, quando admito certas qualidades no homem (eu sempre achei que o homem, como qualquer outro animal, tem o seu lado positivo), eles pensam que eu fui subornado, que estou me vendendo.

Lançaram-me essa acusação muitas vezes. Fe­lizmente eu fui, sempre, um cachorro de paz. E uso a cabeça. Acho que a cabeça não é apenas moldura para olhos, orelhas, focinho e boca, órgãos indis­pensáveis na luta pela vida.

Cabeça foi feita pra pensar.

Cabeça foi feita pra raciocinar.

E latido não foi feito apenas pra espantar la­drão, assustar criança, perder tempo com a Lua.

Latido é língua.

Latido é conversa.

Quem não late não se comunica.

É latindo que a gente se entende...

Latindo eu me explico, eles acabam concordan­do. No caso, eles me deram razão.

Eu tenho a impressão de que no dia em que en­sinarem nas escolas a linguagem latida (eles perde­ram muito tempo com uma tal de língua latina, julgando talvez que fosse a nossa...) os homens e os cães se entenderiam melhor. Acabaria essa relação de patrão e de escravo. Não comeríamos mais em lata de lixo ou de quintal. Comeríamos na mesa.

E seria um dia grande para a nossa raça. Por­que o forte dos homens é a panela, a frigideira, a caçarola e o seu prolongamento natural: o prato. De folha, de louça ou de porcelana. Ou mesmo de ma­téria plástica. Mas na mesa e bem cheio.

 

                     Um Manjar de Sonho...

E vão dizer, já vi, que eu só penso em comi­da...

Não vou negar. Penso muito. A bóia foi sempre um suspense em minha vida.

Tudo, na minha longa existência, todas as mi­nhas recordações — e mesmo muitos casos de amor que eu não vou desprezar — estão quase sempre li­gados ã falta ou ã conquista do pão, à luta pelo os­so, com ou sem carne, no bicho morto ou no vivo.

Pra mim, feijão é sonho.

Pra não morrer de fome, eu de qualquer jeito me defendo.

A nossa raça, nesse ponto, atingiu a uma grande superioridade.

Nós simplificamos a vida. Tendo o que comer, temos tudo.

O homem, não. Além de ter a mesma fome que nós temos — e eu já assinalei que eles fazem qual­quer negócio para a satisfação do estômago e che­garam, nesse ponto, a uma criação suprema, a co­zinha — eles se atrapalham com muitas outras coi­sas. Precisam de dinheiro, precisam de casas, precisam de carros, precisam de aviões, precisam de roupas, nunca estão satisfeitos.

Se eles se limitassem como nós à luta pela bóia, tendo nesse ponto chegado aos mais altos requintes, seriam muito mais felizes.

É claro que isto é uma opinião muito pessoal.

Talvez a insatisfação seja muito mais impor­tante do que a fome. Talvez a insatisfação tenha criado, no próprio campo da fome, os requintes da mesa.

Há cães que têm pelos seres humanos a maior admiração. Acham que o homem vive num nível muito mais elevado. Que conseguiu o domínio da Terra. Que está conquistando outros astros. Que é o rei dos animais.

Pode ser verdade. Opinião não se discute. O que eu quero é sossego. Eu fico satisfeito com a fome, que tanto trabalho tem me dado.

Só lamento que o homem, tão dominador e tão guloso, capaz de comer tantos bichos, tenha preconceito contra os ratos.

É pena. O homem come folha, come fruta, come cereais, come tartarugas, pombo, galinhas, vacas, peixe, caranguejo, até caramujo.

Tudo isso, manipulado nas cozinhas pelo ho­mem, fica um manjar maravilhoso.

Toda vez que eu sou obrigado a comer um rato, eu penso comigo:

— Isto cru, já é bom. Imaginem o que não se­ria, preparado por uma boa cozinheira de forno e fogão!

 

                         E se Falássemos de Amor?

E não se fala mais em comida. Ponto final... Falemos de amor.

Ah! Mimosa querida, que um caminhão me ar­rebatou!

Ah! Samanta gentil, toda malhadinha de preto e de branco, de focinho fino, de passinho gracioso, de latido suave, de olhinhos tão vivos!

Nunca houve, sobre a face da Terra, cadelinha mais linda!

Se ela entrasse num concurso de Miss Universo - eu disse a ela muitas vezes no meu quente latir - seria mais uma vitória do Brasil nessa tal de Miami.

Não precisaria de vestidos caros. Não precisaria de maiôs não sei de que marca. Não precisaria sorrir para juiz nenhum, bastava o seu doce latido.

Bastava ser ela, vestida de si mesma, na sim­plicidade que a natureza lhe deu!

Devo-lhe cinco filhos, soltos aí pelo mundo, pre­sos talvez.

Porque Samanta tinha nome (e dono, portanto). Teve três meninas, dois meninos. Era cara de um focinho de outro.

As meninas saíram à mãe.

Os meninos eram o retrato do pai, modéstia à parte.

Como foi resignada na espera, condenada pelos donos!

Como soube defender com furor maternal seus cachorrinhos, nos dias incertos do aleitamento, con­tra grandes e pequenos que lhe atormentavam os filhos!

E como soube olhar, com a superior filosofia das cadelas, a separação, quando a família lhe dis­tribuiu os filhos, já capazes de lutar pelo osso, entre famílias amigas!

Ah! Samanta de focinho fino, toda malhadinha de preto e branco!

Jamais esquecerei a luz de seus olhos tão vivos, quando conseguiu fugir à vigilância da família, que não queria ninhada nova de jeito nenhum!

Quanta pedrada afrontei por causa dela!

Quanta corrida me deram!

E como precisei ser um cachorro de caráter pra compreender a sua fuga!

Talvez o outro fosse mais o seu tipo.

Talvez ela estivesse fugindo, não de mim, mas da escravidão familiar. Meu erro foi aceitar a situa­ção dúbia em que se achava. Não quis arrancá-la às vantagens do caixote noturno e da comida mais fácil. Meu colega foi mais vivo, eu respeitei o cole­ga. Era a melhor maneira de me dar ao respeito.

Mas até hoje eu não posso ver uma cachorrinha de focinho fino, toda malhadinha de preto e de branco. Fico logo apaixonado...

 

                                   Tinha Uma Pinta Amarela...

Eu acho que já falei.

Quase tive um enfarte quando perdi Jaqueline.

Era toda branca, de meia raça com cachorro caro, uma pinta amarela no pescoço.

Com a experiência do caso Samanta, minha primeira idéia foi propor-lhe a fuga.

Mas eu sempre fui um sentimental.

Coração é o meu fraco.

No dia em que me aproximei de Jaqueline, dis­posto a tudo, a fugir com ela, mudar de bairro, tal­vez de país, mesmo tendo que me habituar às pala­vras de uma língua nova (a gente aprende fácil, "El Caretón" entendia inglês, espanhol e português), vi-a na calçada a brincar com um garoto.

Fiquei na boca de espera.

Relógio não tenho, já falei. Não posso dizer quanto tempo. Mas o Sol, quando cheguei, batia em mim e botava sombra de um lado. Quando Jaque­line me viu, a sombra já estava do outro lado.

Foi tempo...

Ela mal deu por mim. A manchinha amarela no pescoço fazia mais vista que certas coleiras que as mulheres usam.

Estava um amor.

Mas Jaqueline parecia ter deixado de ser cade­la. Parecia uma criança, de tão feliz no brincar com o menino.

E ele não parecia gente. Parecia um cachorrinho de raça (eu não tenho preconceito contra cães de raça, alguns são lindos...)

Como os dois se entendiam!

Como rolavam no chão!

Estavam perfeitamente irmanados.

Ela fingia morder.

Ele fingia bater.

Um fugia, o outro corria atrás.

O cachorrinho humano jogava longe um pedaço de pau, uma besteira qualquer, Jaqueline saía cor­rendo, apanhava a bobagem na boca, vinha depor junto dele.

Jaqueline!

Era o garoto chamando. Lá vinha ela...

Jaqueline latia o nome dele.

Foi a primeira vez que eu vi um ser humano entender a língua latida.

Ele corria para Jaqueline, na maior alegria.

Houve uma ocasião em que eu pensei que ele ia esmagá-la. Montou em Jaqueline, soltou-lhe sobre o corpo o tamanho do seu.

Vai matar a coitada.

Coisa nenhuma. Ela estava treinada. Com cer­teza, desde menorzinha, ele tinha acostumado Ja­queline com o crescimento do seu corpo.

Achei lindo.

Upa! Upa! —dizia ele.

Com os olhinhos alegres, a lingüinha de fora, Jaqueline parecia uma égua no galope.

Depois eu percebi que ele não soltava o peso do corpo. Tinha os pés apoiados no chão. Aquela deli­cadeza de sentimentos me comoveu.

Ele não queria maltratar a coitada. Era cava­leiro de brincadeirinha.

Upa, Upa, cavalinho alazão...

Ela mal me tinha notado, eu disfarcei, saí, fi­quei olhando de longe.

Dois cachorrinhos autênticos não brincariam com tamanha festa. E ele beijava e cheirava Jaque­line como se fosse um cachorro de verdade.

Nisso, ouviu-se uma voz:

Eduardinho!

O garoto fingiu não ter ouvido, agarrou-se a Ja­queline e ambos rolaram, rindo e latindo, numa fe­licidade assustada.

Aí a voz cresceu:

Eduardo!

Discreta, Jaqueline se levantou, séria.

Eduardo se ergueu, francamente infeliz.

Você chamou, mamãe?

Está na hora do banho. Você deve estar imundo... Venha...

Porque é que uma criança de três anos precisa de banho, nem ela nem eu entendemos.

Venha, meu filho! — a voz insistiu.

Eduardinho aproximou-se de Jaqueline, acariciou-lhe o pescoço de pinta amarela, Jaqueline lam­beu-lhe a mão, carinhosa.

Eu volto já, tá?

Nos olhos de Jaqueline vi que ela não tinha ilu­sões. Ele ia mudar de roupa, não teria licença de voltar à calçada.

Aí eu me aproximei, de manso.

Oi, Jaqueline.

Oi, companheiro!

Não tive coragem de propor-lhe a fuga.

 

                                   Uma Família Diferente

Hoje eu penso que devia ter proposto. (Como eu odeio automóvel!). Mas destino é destino, tanto de homem quanto de cachorro.

Durante muito tempo acompanhei a alegria de Eduardinho e Jaqueline, sempre interrompida, ao fim de pouco ou de muito, por uma voz imperiosa, que não era má!

Aquela família parecia canina. Era um amor. Das poucas vezes em que me deram bóia, só por ser amigo de Jaqueline e de Eduardinho, que já brin­cava comigo também, foi naquela casa.

Dona Lila (a que chamava para o banho ou para o almoço), Eliana, a filha mais velha, que pa­recia uma cachorrinha de estimação, Renatinho, que já estava na escola (por que é que não ensinam a língua latida às crianças de bom coração?), eram gente da melhor qualidade.

E eu vou mais longe.

Uma tarde em que Eduardinho e Jaqueline brincavam (eu esperava a minha vez com uma pa­ciência de santo) alguém na vizinhança deu o alarme.

Cachorro corria de todos os lados.

A "carrocinha" se aproximava.

Dona Lila percebeu, lá dentro, veio correndo para salvar Jaqueline.

Pra casa, Jaqueline!

Nisso, ela me viu.

E com o mesmo jeito bondoso, me disse:

Entra, meu filho.

Me chamou de filho!

Eu posso viver muitos séculos, nunca vou es­quecer esse momento.

Eu posso levar duzentos mil pontapés. Nunca hei de esquecer que uma pessoa humana, Dona Lila, me chamou de seu filho!

Posso morrer de velho, posso morrer de fome, posso morrer atropelado (como eu odeio automó­vel!), posso ir morar na Inglaterra, em Lençóis Pau­lista, em Freixo de Espada à Cinta, nunca hei de esquecer aquela fala:

Entra, meu filho...

Foi naquela ocasião que o Tupá foi laçado.

 

                                     Linguagem do Coração

Começo a falar em criança, começo a perdoar a humanidade.

Já levei muita pedrada.

Tenho apanhado de pau.

Fome tenho passado.

Carrocinha já correu atrás de mim, muitas ve­zes.

Me atiraram bolinho envenenado.

Não me dão sossego no atormentado pipi.

Nas outras funções, então, nem se fala.

Principalmente no meu ganha-osso.

É duro pra cachorro...

Mas quando eu me lembro de outras crianças — algumas que eu apenas vi, mas eram lindas... — e principalmente quando penso em Eduardinho, eu esqueço tudo.

Eu até não gosto de pensar muito em criança, porque isso me tira um pouco a rijeza necessária às correrias da vida.

Acreditem ou não, coração é o meu fraco. E os sábios da nossa espécie sempre dizem:

— Vira-lata tem que se guiar pela cabeça, nunca pelo coração...

Mas eu tinha entrado pelo capítulo dos amores e foi através de Jaqueline que eu conheci Eduardi­nho e através de Eduardinho que eu comecei a per­doar.

Digo mais... Eu cheguei a enfrentar, por causa dele, a maior vaia latida de todas as vaias da minha carreira. Mas acabei vencendo!

Sim, consegui que o Centro de Resistência dos Vira-Latas desse ao meu doce amiguinho o título de Cachorro Honorário.

Ele nunca soube que havia recebido uma tão rara distinção. Não era possível explicar-lhe. Ele só compreendia o latido de Jaqueline, mas pela intui­ção da amizade. Era mais a linguagem do amor, que dispensa latidos e palavras.

Mas nessa ocasião já não havia Jaqueline pra contar...

 

                     Ah!Se Jaqueline Assistisse...

Há ocasiões em que eu penso que cheguei a ser mais amigo de Eduardinho que de Jaqueline.

Com Jaqueline era, talvez, um problema se­xual. Apenas sexual. Embora fosse boa de latido, companheira amável.

Com Eduardinho era amizade simples, genero­sa, acima das diferenças de cor. Ele era branco, eu sou amarelo, não sei se já contei. Ele era de famí­lia, eu sou de rua. Acima das diferenças sociais... Ele era rico, eu sou pobre. Os irmãos tinham bici­cleta, o pai tinha automóvel (não sei se eu já falei que odeio automóvel), eu sempre andei no pé- quatro. Ele tinha mãe de coleira no pescoço e no dedo (que um dia me chamou de filho), eu não me lembro da minha.

Uma doce amizade nos uniu desde o começo. Amizade desinteressada, sincera, leal.

Bastava ter amizade ao meu amor pra ter um lugar na minha vida.

Mas eu tenho a impressão de que, mesmo sem Jaqueline, teríamos sido amigos, se a vida nos aproximasse.

Dona Lila me salvou uma vez da carrocinha.

Eu salvei-o muitas vezes de enormes perigos, inclu­sive da incompreensão dos meus irmãos da rua.

Uma vez, por exemplo, ele estava na calçada, muito alegre, comendo nem me lembro o quê.

Dois colegas passavam (um, parece que o estou vendo ainda hoje, era o Sarapatel, buldogue da maior carranca) e eu percebi que eles estavam tro­cando latidos sinistros.

Vi logo tudo. Iam atacar o pobrezinho, pegá-lo às dentadas, roubar-lhe a comida.

Pulei na frente dos brutos, latindo bem claro:

Calma no Brasil, seus pilantras! Nesse ga­roto ninguém toca!

Olha ele! —latiu Sarapatel com desprezo. — Quem é que disse que não toco? Toco, mordo e como o que ele tá comendo. Quero ver quem não deixa...

Só depois de passar por cima do meu cadá­ver! — lati eu.

Foi um fuzuê danado. Peguei o Sarapatel pelas ventas, dei uma corrida no outro colega que, se a memória não me engana, era o Valente, o cachorro mais covarde do bairro.

Sarapatel era de briga. Não latia, urrava. (Acho que tinha aprendido língua de leão.) Mas comigo não tinha conversa. Assustado, o garoto fugiu. Foi bom. A briga era de sangue. Pra valer.

Afinal, surgiram as pedras de sempre.

Homem, até pra separar briga de cachorro pro­cura se armar... Nunca vem na raça como nós.

Mas Eduardinho havia escapado à projetada agressão, Valente havia fugido apavorado, Sarapa­tel ia ficar muitas semanas de venta rasgada.

Eu ainda fiquei por ali, um pouco pra saber se Eduardinho estava realmente a salvo, um pouco por vaidade.

Queria saber se Jaqueline assistira... Paguei, com duas pedras adicionais, aquela to­lice...

 

                       Cachorro pra Homem Nenhum Botar Defeito...

Tolice, porque vaidade é um sentimento mais dos homens que dos cães. E porque Jaqueline ja­mais teve dúvidas, conhecia o seu homem, digo, o seu cachorro. Tinha me visto em mais de uma pele­ja. Sabia da minha batalha com o matador de Sul­tão, que já era folclore entre a cachorrada do su­búrbio, latida em versos ao luar, cantada pelos maiores trovadores caninos.

Modéstia à parte, eu sou cachorro pra homem nenhum botar defeito. Nem cachorro, é claro. Muito menos cadela. Nas assembléias do Centro, quem late mais alto sou eu. Tenho levado vaias de invejo­sos disfarçados entre a multidão — quando às vezes procuro reconhecer os aspectos positivos do homem — mas sempre quem late por último sou eu. Late melhor quem late por último, os antigos diziam. Nunca tive uma proposta recusada.

E quando me afastei, de corpo dolorido, não pe­los dentes de Sarapatel, mas pelas pedras dos co­vardes, tive a satisfação de ver que, de trás de uma moita, Jaqueline aparecia.

— Obrigada, meu velho...

Velho é expressão de carinho, não tem nada com a idade do cachorro.

Você viu o que aqueles aprendizes de ho­mem queriam fazer com o teu garoto?

Claro que eu vi. Fiquei gelada. Eu ia latir pra você, quando você apareceu. Fechei os olhos pra não ver. Sarapatel é o terror desta rua.

Já era, meu amor. Tá pra nascer o cachorro que não me ceda o poste que eu exijo ou o osso que eu reclamo... - ...ou a cadelinha do teu gosto, seu Don Juan convencido... — disse ela com um arrepio no peito.

Aquele jeitinho de latir me enfeitiçava.

Acompanhei muito namoro de gente. Observei — é observando que se aprende — muito romance de amor entre casais de dois pés.

Nunca vi mulher nenhuma latir com doçura tão grande.

Nem aquele bater de olhinhos tão leve.

Saímos no cair da tarde, ao longo da rua, digo, da calçada. (Se eu pudesse dar um conselho aos meus irmãos, o meu último conselho, na hora da morte, seria: "Nunca pelo meio da rua! Nunca pelo meio da rua!")

Um pouco adiante, uma menina caminhava com um pão debaixo do braço.

Jaqueline me olhou com evidente malícia. Ti­vera um pensamento mau, que eu apanhei no ar.

Não, meu bem. A coitadinha é vira-lata dos homens. Não tem nem sapato. Vai fazer falta...

Lati com simplicidade, sem a menor intenção de bancar o bonzinho.

Mas Jaqueline, que era sensível, me olhou como se eu fosse o mais maravilhoso cachorro do Brasil e do mundo.

Sabe o que eu mais admiro em você, meu querido?

Armei o focinho de briga usado contra o assas­sino de Sultão, e ainda há pouco, na recente luta com Sarapatel.

Os olhos dela se enterneceram. E latiu baixi­nho, com doçura: — É o coração... Que hoje está velho e cansado. Que quase estourou com um enfarte, semanas depois...

 

Os dois eram tão meus amigos que eu só não entrei para a família por uma questão de princípio.

E só não passei a viver à custa de Dona Lila, tão bondosa, porque acho que um cachorro que sempre lutou pelo osso de cada dia não deve se desfibrar em moleza.

Primeiro ganhava o meu, depois chegava.

— Não quero ser pesado a mulher nem a ca­dela nenhuma...

Por gosto meu, levaria a própria comida de Ja­queline.

Mas ela era uma cadelinha delicada, mal acos­tumada com papinhas humanas. Nem sequer se daria bem com o rude osso das minhas sortidas, com a barra pesada do meu comer ao acaso.

Algumas vezes, porém, cedi.

Não queria desfeitear a boa senhora.

Não queria desapontar Eduardinho, que me chamava de Uau-au, o mesmo nome do ilustre co­lega que pouco depois seria o grande amigo das mi­nhas jornadas.

E queria ter mais tempo ao lado da amada, que um latido interior me dizia ser curto.

Foi uma terrível tentação.

Quanto mais eu vivo, maior é a admiração que tenho por mim.

Porque não era fácil resistir.

O gênero humano tem aquele dom sublime de manipular a panela.

Comer aquilo em primeira mão, sem estar mis­turado com os detritos mais vis, e não ao natural, como no ataque a bípedes e quadrúpedes de menor porte, é um privilégio que tem corrompido os cães mais valentes.

Por isso eu perdôo ou compreendo os colegas, nem sempre mais belos, nem sempre mais fortes, raramente os mais inteligentes, nos quais os ho­mens, por critérios puramente humanos, imaginam ver animais de raça nobre ou superior. Quando eles se acomodam ao convívio dos homens, há uma certa razão. A escravidão tem seu lado amável, ninguém pode negar...

E foi para não lhe cair nas malhas que eu quase sempre recusava.

Confesso, que, com a pressa de rever Eduardi­nho e Jaqueline, muita vez cheguei de barriga va­zia.

E saí de barriga vazia, acreditem ou não!

Ao voltar ao meu mundo, depois daquelas horas de convívio querido, com a barriga urrando e zurrando de fome, uma fúria selvagem se apossava de mim. Eu sou humano... Quase humano, pelo me­nos...

A fome não tem lei.

E naquelas horas de fome e desespero, só eu sei a que extremos desci.

Felizmente Eduardinho não viu.

Felizmente Jaqueline tinha ficado, não me acompanhava.

O bom amigo de Eduardo, o doce Don Juan de Jaqueline se transformava em lobo mau.

Invadia galinheiros.

Assaltava açougues.

Dava pulos de um metro de altura, roubando lingüiça.

Um dia, levado pelo faro terrível (eu era bi-campeão nesse tempo), avancei contra um garoto des­calço, tomei-lhe o pacote.

Devorei como um bárbaro os alimentos que le­vava, tão poucos.

Depois, me lembrei de Jaqueline alguns dias ante§, na calçada, e chorei.

Há momentos na vida de um cachorro iguais a certos momentos na vida de um homem: são de en­vergonhar uma cadela decente...

 

                                       O Relógio da Fome

Eu sei que não durou muito tempo.

Não temos instrumento de medir a passagem dos dias. É muito ou é pouco. E basta. No mais, nós nos guiamos pelos homens. Ou melhor, pela fome. A fome vem, a gente come (quando calha), a fome passa. A fome volta, a gente come (quando calha), a fome passa.

Em torno da fome, antes e depois, há sol, há chuva, há noite, há dia, há pedradas, há corridas, há carrocinhas, o cachorrinho fugindo, os ratos fu­gindo ao cachorro. E os gatos enchendo...

Tenho amigos que industrializaram esse negó­cio de rato. Empregam-se em casas muito assoladas pelo roedor sem caráter. São tratados como amigos, ganham nome. E às vezes renome.

Mas não é profissão que se cheire.

Tem inconvenientes muito sérios.

Por vezes querem que o cachorro se limite a trabalhar. Não dão comida. O bicho que se arrume sozinho. E há o perigo de apanhar um rato que já comeu trigo roxo ou qualquer outro veneno. Quem não tem experiência se dá mal...

Rato que não foge, que fica bestando, meio mo­le, que não sabe correr, eu passo! Pra mim é rato furado, não me arrisco.

A propósito, o tempo foge como rato. Às vezes como automóvel na rua. A diferença é que o rato a gente pega ou pode pegar. O automóvel...

Vamos mudar de assunto...

Vamos pensar em futebol...

Vamos latir contra a Lua...

Vamos descer na Lua como os homens têm feito nos últimos anos...

Vamos realizar o 1º Festival Sul-Americano de Latidos...

Vamos nos convencer de que a vida é boa pra cachorro...

 

                              Coisas do Amor

Eu não tenho é coragem de lembrar.

Saudade é um osso duro de roer.

Já faz muito tempo... Os anos passaram, os pos­tes passaram, carrocinhas passaram, passei pelos anos, passei pelos postes, passei pelas carrocinhas, passei pelos homens. Corri, comi, lutei, mordi, levei pau na cacunda.

Conheci homens bons que tinham a alma de ca­chorro. Conheci muito cachorro de alma humana, sem-vergonha.

Conheci bons e maus, fortes e fracos, errados e certos. Conheci muita certinha, entre mulheres e cadelas. Por tudo passei. Antes e depois. Coisas que davam para eu ficar aqui, a vida inteira, latindo pra vocês minha longa jornada.

Perguntem, que eu conto. Podem latir, que eu não me acanho. Indaguem, inclusive, o lado mau da minha vida. Tou pronto pra falar. Do que me honra. Do que me envergonha. Do que me comove.

Mas me falta o gogó, meu latido se afoga, mi­nha cuca se funde, meu coração quase pára. É como se o homem me atirasse o laço e eu, de repen­te, ficasse quase duro e de pata de estátua, sem po­der fugir.

Mas preciso ir em frente.

É melhor contar logo.

O que eu devia é não ter começado. Eu entrei no açougue, não vou sair de queixada vazia.

Pois é... Eu acho até que a Jaqueline estava "esperando", coitadinha. Estava mesmo... Andava lento, mansa, pesadinha de criança no ventre. Inda não tinha contado, mas eu conhecia essas coisas. Tenho muito filho por esse mundo. Deus permita que sejam todos vira-latas, que nenhum tenha co­leira. Nem nome, que é besteira inventada pelos "donos".

Jaqueline se chegava, terna, me dava um chei­rinho, sorria num meio latido.

Eduardinho, na sua inconsciência tão própria dos homens, sem querer a machucava. Montava em Jaqueline, ela erguia o focinho, os olhinhos bri­lhando, sem muita vontade de brincar.

Parecia dizer:

— Tem paciência, meu filho. Daqui a pouco você vai ter muita criança pra "reinar", tudo com a cara do pai...

E me encarava com doçura, querendo imprimir nos filhos em formação meu jeito de macho.

"Prefiro que eles se pareçam com a mãe", pen­sava eu, sem latir, respeitando o seu jeito discreto.

Já com muito de cachorro pelo bom convívio, Eduardinho não insistia. Beijava Jaqueline, brin­cava comigo.

E eu, que nunca fui de brincadeira, me fazia de manso, virava cavalo, rolava com ele, ia buscar as pedras que ele jogava no outro lado da rua, meio constrangido, com medo que algum colega me sur­preendesse naquela moleza.

Tranqüila (não vou esquecer nunca os olhinhos tão bons...). Jaqueline acompanhava, agradecida, o esforço no brincar daquele canzarrão de modos ru­des.

Tão sem jeito, meu velho...

Faz-se o que se pode — eu latia feliz. E fin­gia morder e me deixava bater. Só o que me invo­cava era fazer de cavalo...

No melhor da festa, com Eduardinho no lombo (eu era bem mais alto que Jaqueline, ele estava montado mesmo...) Valente apareceu, com o riso mais gaiato no focinho. Me abaixei para Eduardi­nho não cair, avancei para aquele safado, pêlo cor de galinha carijó.

Você tem amor à vida? — perguntei de cara amarrada.

La vita è bella — disse Valente risonho. (O dono dele era italiano.)

Pois, meu caro, se você quer continuar la­tindo em italiano e comendo polenta... não vai dizer, dar nenhuma latidinha do que viu a cachorro nenhum deste mundo, tá?

Ele se encolheu assustado, orelhas caídas, o rabo entre as pernas.

Eu estou latindo muito sério, tá bem?

Tá...

Tenho a certeza de que ele guardou segredo di- reitinho... Nunca vi cachorro mais covarde...

Pior, só o cara que matou Sultão. Aliás, acho que não contei. Pouco depois da nossa briga foi preso em flagrante, roubando galinha.

 

                               O Difícil Lembrar...

Eu estava na calçada fronteira. Tinha um cachorrinho na boca. Vermelho. De matéria plástica... Nem sei como Eduardinho achou forças pra jogá-lo tão longe.

Apertei a bobagem nos dentes.

Ia voltar. O garoto nos esperava.

Nesse minuto, pertinho, a buzina de um carro vibrou. Parei, que eu não sou de automóvel. O bi­cho lá vinha, da cor do cachorrinho que eu tinha na boca. Não vinha, voava...

Nisso, olhei para o outro lado e pressenti o drama. Não sei que idéia infeliz tinha entrado, ao mesmo tempo, na cabeça de Eduardinho e Jaqueli­ne: atravessar a rua, vir até mim.

Ainda lati, desesperado, procurando avisá-los.

Não havia mais tempo.

O carro pegou Jaqueline, por milagre Eduardi­nho escapou. Coisa de anjo da guarda, que as crianças têm...

Jaqueline fora apanhada em cheio.

Nem se movia.

O carro, de rodas manchadas do crime, conti­nuava correndo.

Até hoje não sei descrever. Foi uma dor por dentro, que me subiu do coração à cabeça. Não sei se era sufocação passageira ou um jeito novo de morrer. Cheguei a pensar, num relâmpago, ter mor­rido também. Latir não conseguia. Compreender, muito menos. Ouvi um grito. Eduardinho estava agarrado a Jaqueline e chorava.

Ainda fiquei um pouco preso à calçada, aquela besteira de matéria plástica nos dentes.

Uau-au! Uau-au!

Era Eduardinho me chamando.

Uau-au!

Era sem-fim seu desespero. Todo manchado de sangue, coitadinho, sangue de Jaqueline e dos meus filhos!

Não sei como, fui chegando.

Novo carro passou, tive a impressão de que al­guém exclamava lá dentro:

A criança foi atropelada!

E o carro fugiu.

Gente vinha aparecendo, apavorada.

Sem entender bem o que fazia, agarrei Eduar­dinho com os dentes, arrastando-o até a calçada de sua casa, onde já chegavam, gritando, do interior, Dona Lila e a empregada.

O menino não sofreu nada — afirmou al­guém, procurando acalmá-las. — O carro só pegou a cachorra.

"Só...", tinha dito a pessoa.

Dona Lila beijou o filho, tranqüilizando-se, veio, tomou Jaqueline em seus braços.

Chorava.

Como foi? Quem foi? — perguntou na maior aflição.

Mil pessoas falavam.

Novos carros passavam.

Uau-au! — gritou Eduardinho atirando-se a mim.

Uau-au, Uau-au! Jaqueline morreu!

Não consigo entender como uma criança tão pequena, ainda há pouco tão alegre, pudesse ter uma idéia tão dolorida e tão viva do inconsertável da morte. Ou era eu quem estava tendo aquela idéia e pensava ser ela.

Coitadinho do menino! — disse uma vizinha. — Vai sentir muita falta...

Alguém veio, deu-lhe um copo d'água.

Outro alguém surgiu e limpou-lhe, com um len­ço, as manchas de sangue que ainda tinha no rosto, onde as lágrimas rolavam.

Cachorrinha tão mansa — disse uma voz.

Parecia gente — outra voz ajuntou.

Dona Lila continuava, toda em sangue, com Jaqueline nos braços.

Graças a Deus o menino escapou — uma gorda falou.

Deus é grande — informou um senhor.

Novo susto causado, um caminhão pesado rolou pelo meio do povo.      

É melhor a gente entrar — disse Luísa, a empregada, muito amiga minha. — Se não, pode acontecer uma desgraça maior.

Eu estava ali, arrasado, coração no tuco-tuco, ouvindo e vendo, sem forças para um simples lati­do.

Sem largai' Jaqueline (há seres humanos mara­vilhosos, embora muito cachorro bom não acredi­te...) mesmo sabendo que o filho poderia ter caído também, Dona Lila se encaminhou para casa.

Venha, meu filho, você precisa trocar essa roupa.

Os outros se afastaram, falando contra os au­tomóveis, se regozijando por Eduardinho haver escapado ao perigo.

Fiquei só na calçada, ainda um tempo e um pe­daço de tempo, sem conseguir entender toda a ex­tensão daquele golpe na maior solidão da minha vi­da.

De repente, vi que Eduardinho aparecia à porta, ainda de lágrimas nos olhos.

Uau-au, vem... Vem com a gente...

Pareceu que eu despertava de um longo, incrí­vel pesadelo.

Vi, comovido, sua mãozinha chamando, seus olhos molhados.

Precisei recorrer a toda a minha energia de ve­lho cão de rua, sem nome e sem dono, pra não fra­quejar.

Felizmente alguém, lá dentro, apareceu pra me ajudar. Recolheu Eduardinho, tão desamparado em sua tristeza.

Me espera — disse ele. — Eu volto já.

Foi duro, foi.

Lutei comigo.

Mas não esperei.

Parti para sempre.

Nunca mais pisei na rua sinistra.

Mas naquela noite, depois de latidos acalorados, Eduardinho foi proclamado Cachorro Honorário Mi­rim pelo Centro de Resistência dos Vira-Latas, a maior organização canina do Rio, talvez do Brasil.

Pouca gente tem merecido honraria tão grande.

 

                           Curtição de Vira-lata

Passar fome, depois disso, era até distração.

Pontapé me divertia.

Era um regresso à vida.

Açougue não me tentava.

Acompanhei com desprezo uma lingüiça dando sopa na cesta de uma velha senhora.

Colegas se engalfinhavam por um osso na rua, eu bancava o juiz, indiferente:

Quem viu primeiro foi aquele escurinho...

Vi uma vez todo o mundo a correr, pânico infi­nito no bairro infeliz:

Cachorro louco!

Crianças fugiam.

Mulheres gritavam.

Fechavam-se portas.

Cachorrada abria o pé no vasto mundo.

Lá vinha o colega, de cabeça baixa, o olhar sombrio, gritavam que já havia mordido não sei quem, criança ou cachorro, nunca soube.

Eu nem dei pelota.

Perdido por um, perdido por mil.

Uma pessoa apareceu numa janela, o revólver na mão.


É esse amarelo?

Só me lembro que pensei:

Que bom! Tiveram pena de mim. Vou des­cansar...

Mas sempre aparece um espírito-de-porco.

Não! Esse é cachorro bom. Danado é aquele de pêlo ruço, lá na esquina.

O homem corajoso, de arma em punho (eu que­ria ver um homem corajoso que brigasse às denta­das, sem faca ou revólver), abriu a porta, passou por mim. Ia enfrentar o cão sofredor.

Ainda tentei uma apelação.

Comecei a latir.

Grosso. Forte. Urrado.

Ele nem ligou.

Foi à esquina, correndo, apontou o revólver, três tiros soaram, meu colega tombou, estrebuchando, morreu logo.

Gente aplaudia, batia palmas, dava graças a Deus, abraçava o herói.

Os cães sadios foram aparecendo, mais tranqüi­los. Cachorro louco era ameaça comum. Um deles me falou:

Você não fugiu, camarada?

Olhei-o desinteressado.

Faz não sei quantas luas que não durmo.

Não disse, não lati, apenas pensei.

Ele era capaz de pensar que eu estava ficando biruta.

Curtição de vira-lata é coisa muito pessoal. Nem gente nem cachorro tem nada com isso...

 

                               Voltemos ao Mestre

Eu fisgava aqui, fisgava ali, numa grande, in­finita indiferença. Nem punha reparo. Mas um dia senti fome. Enorme. Bruta. Brutal. Dessas que os homens chamam canina. Que eu dizia humana. De vida voltando, com certeza.

Renasci. Recomecei.

Nesse dia, fuçando um monte de lixo, conheci Tobby, que preferia ser chamado Uau-au, como na sua infância pelo filho do dono do circo, o mesmo nome que Eduardinho me dava.

Amizade nasceu, desse tipo de amizade leal, só possível entre os cães.

Aos poucos latimos nossas confidências, seu passado conheci, aventuras e andanças dele fui sa­bendo.

E minha admiração foi crescendo.

Almas irmãs, certamente.

Ele, de origem ilustre, cão de cartaz e de circo. Eu, vira-lata de longo lutar.

Mas duas coisas nos uniam.

A primeira, o nome. Nele, antigo e abandonado, guardado apenas entre as saudades da infância. Em mim, recente e passageiro, ligado também a uma infância querida.

A segunda — e maior — aquele apego feroz à liberdade, que o tinha feito abandonar, muitos anos antes, as glórias do picadeiro, e que me fizera re­nunciar, ainda há pouco, ao apelo daquele cachorrinho honorário tão do meu coração (como odeio au­tomóvel!).

Foi uma entregação total. Ou integração, como os homens preferem dizer.

Eu tinha sido sempre um cão solitário.

Minha solidão parecia maior nas assembléias do Centro de Resistência, freqüentado por um dever de canilidade que eu sabia sagrado.

Os imperativos da perpetuação da espécie me aproximavam, muitas vezes, da mulher. Uso a pa­lavra como um símbolo, não quero ofender, de modo algum, as cadelas que amei. Mas junto às que mais amei, eu sempre fui um cachorro zeloso de sua liberdade, temeroso de perdê-la. Por isso, talvez, perdi todas elas. (Ah, Samanta! Ah, Jaque­line! Ah, tantas outras só de nome latido!)

Faltava encontrar a alma prolongamento da minha, juntação de almas paralelas. Encontrei-a num cão. Nunca me abastardei na amizade dos homens. Nunca me vendi por um prato de lenti­lhas. Era amizade de luta peito a peito, pata a pata, garra a garra. De conquistar o osso com bravura. De compartir o osso lealmente.

E de latido franco e legal.

Desde então marchamos juntos. A cadela even­tual era um detalhe do caminho. Pela qual nunca brigamos. Cada qual a sua, a raça que se prolon­gasse. Era preciso. Pode ser que um dia o cão ocupe o lugar a que tem direito sobre a face da Terra. Não de dependência. Não de comando. De compreensão e de fraternidade com as outras raças, inclusive a humana, que é das mais bem dotadas, ninguém vai negar.

 

                                  Uma Sessão no Centro...

Um dia, já no fim, depois de ter defendido o seu ponto de vista, no Centro, citando experiências do seu tempo de circo, um colega pôs em dúvida os latidos do velho.

Esse negócio de circo é papo furado, compa­nheiro.

O quê? — latiu Uau au, enfurecido.

Você trabalhou tanto em circo quanto eu trabalhei na construção da Ponte Rio—Niterói.

Mais respeito, seu palhaço!

Armou-se o banzé.

A sessão foi suspensa.

Mostre que foi de circo — disse um deles. — Faz aí uma magiquinha, come fogo, engole espa­da...

Paciente, o bom velho explicou:

Não seja ignorante. Cachorro de circo não come fogo, não engole espada. Isso é burrice que só o homem pratica...

Então cachorro faz o quê? — disse, incrédu­lo, o cara. Ou melhor, o focinho.

Uau-au já estava no fim da carreira. Nunca mais praticara. Eu próprio nunca o vira fazer qualquer demonstração. Apenas acreditava. Pra mim, ele latia, estava latido.

De modo que a surpresa foi geral e minha.

Ah! Vocês querem ver? É pra já.

Afastou os colegas.

Serve esta?

Equilibrou-se sobre as patas dianteiras, ele­vando o corpo acima em linha reta, pôs-se a cami­nhar de bananeira com a maior desenvoltura.

O assombro foi geral.

Querem que eu caminhe como gente?

Não esperou resposta.

Ergueu-se sobre as patas traseiras, ficou direitinho um homem qualquer, a lingüinha de fora.

Oba!

Havia perto uma lata de banha.

Uau-au sentou-se, do jeito mais sentadinho que eu já vi um cachorro fazer.

Me dá aquela latinha vermelha.

Alguém a trouxe nos dentes.

Uau-au pegou, com as patinhas de cima, a lata, como se fosse um copo, e levou-a à boca, exata­mente como todos nós, mais de uma vez, tínhamos visto os homens fazerem nos botequins e restauran­tes. (Poucos de nós tínhamos experiência de interior de casa de homem.)

Bacana! — latiram todos.

O vice-presidente do Centro perguntou:

Em que circo você trabalhou?

Gran Circo Internacional — disse ele.

Fez alguma burrada? Foi expulso por quê?

Fugi.

Mas por quê? — perguntaram vários.

Vê se descobre... — respondeu Uau-au, com desprezo.

Nesse momento, alguém lembrou que era pre­ciso recomeçar a sessão. E logo a seguir sugeriu que o Centro criasse uma Universidade Canino- Circense, sob a direção "do ilustre confrade", para ensino e treinamento de vira-latas.

Uau-au se recusou de maneira terminante. Ape­laram para o seu sentimento de raça. Para o seu amor aos cães.

Eu não amo os cães — disse Uau-au. — Amo a liberdade. A minha e a dos outros cães. E não vou entregar a vocês uma arma voltada contra o peito...

Como assim?

Cada vira-lata que aprender estas bobagens é um vira-lata liquidado.

Ninguém entendeu. Ele explicou.

No dia em que qualquer de vocês aprender a andar sobre as patas traseiras ou a plantar bana­neira, e fizer essa besteira na frente de um homem, vai perder a liberdade, vai ter dono... Vocês que­rem?

Houve um silêncio de cemitério à noite, sem cachorro perto. Ninguém respondeu. Porque no fundo, no fundo, infelizmente, muitos deles que­riam.

A canilidade é fraca.

 

                                     Osso é Duro, Automóvel Muito Mais...

Confesso que, em segredo, quando não havia gente nem cachorro à vista, Uau-au acabou me en­sinando vários números do seu antigo repertório.

No princípio foi duro.

Eu tinha os músculos enrijecidos pela rude lu­ta. Faltava a elasticidade de cachorrinho novo, co­mum entre os meninos também.

Mas Uau-au era, acima de tudo, um professor. Tinha prazer em transmitir, em comunicar, palavra que eu tenho visto muito os homens usarem nos úl­timos tempos. Homem resolve tudo com palavras novas. Ou pensa resolver, que é a mesma coisa. Depois, quando as palavras se cansam, inventam outras e tudo recomeça outra vez.

Os cães viveram sempre na mesma ilusão. Es­tão sempre inventando novos latidos, embora transmitam sempre as mesmas coisas.

Uau-au era muito cioso do que aprendera entre os homens. Me tinha feito jurar que não o transmi­tiria a ninguém.

— Cão ensinado é cão prisioneiro — me dizia sempre. — Planta bananeira em frente de um des­ses pilantras, pra ver se ele não te agarra, não te bota coleira, não te puxa por uma corrente ou cor­reia.. É "fuego", como dizia um malabarista espa­nhol que havia no circo.

Mas quando havia só criança e nenhum adulto nem cachorro perto, velho ou novo, o antigo vício do show, que lhe tinha ficado no sangue, despertava.

Planta uma bananeira — me dizia ele.

Os garotos ficavam maravilhados. Eram garo­tos que nunca tinham entrado num circo, de pezinho descalço.

Uau-au sorria feliz, vendo o espanto infantil.

Daí a pouco saía ele com passo de gente, as pa­tinhas dianteiras feito mãos lá no alto.

Olha o cachorro ensinado!

O show prosseguia.

Esse cachorro só falta falar — disse um de­les certa vez.

Ignorantes como os homens em geral em maté­ria de cães, eles desconheciam os segredos da lín­gua latida.

Mas quando ao longe apontava um colega ou os pais de algum menino, nós nos refugiávamos no uso normal das quatro patas e desaparecíamos do local por muito tempo. Até que nos esquecessem os feitos.

Pena a gente não poder se entender com a raça humana — me dizia sempre. — Homem, ainda os mais amigos, não é capaz de compreender a canilidade. Entender é o problema.

E, com o seu ar pensativo e cansado de ca­chorro velho, acrescentava:

Se eu fosse mais novo ia tentar uma escola de língua latida.

Por quê? — perguntei. — Pra quem? Todo cachorro, no mundo inteiro, late a mesma língua, até os famosos cães são-bernardo, salvadores de homens. Instintivamente o cachorro aprende a la­tir...

— Para os cães, não, meu filho, para os ho­mens... No dia em que eles nos entenderem como nós a eles (há muitos de nós que aprenderam qua­tro, cinco línguas humanas, é questão de traquejo) talvez as coisas mudassem...

Essas e muitas coisas mais enchiam as horas e os dias da solidão a dois da nossa vida.

Até que uma tarde...

Bem... Eu já disse que odeio automóvel...

 

                         Um Sonho de Pôr do Sol...

Estou velho, velho, velho.

Cansado, cansado, cansado.

Já cachorro não me entende, já não entendo cachorro.

Cachorro novo que aparece vem metido a besta, se julga o maior. Sonho deles é aparecer na televi­são, entrar no cinema. Ou fazer como aquela cachorrinha que saiu no jornal. Foi bater na Lua, não sei bem, presa, presa, presa, latindo sozinha.

Homem sempre diz que cadeia não foi feita pra cachorro. Mas não faz outra coisa senão aprisionar quem chega perto.

Falta de compreensão entre as raças...

Incompreensão, principalmente do lado dos homens.

Afinal, quem tinha razão (eu só queria saber quem inventou o automóvel...) era o velho Uau-au, meu amigo e meu mestre.

Ah, se fosse possível ensinar aos homens a lín­gua latida!

Ah, se o homem fosse capaz de entender a lín­gua latida!

Tenho visto muito homem imitando cachorro, latindo com fabulosa perfeição. Alguns são artistas, se fazem famosos. Observam a gente, latem de en­ganar qualquer cachorro. Mas latem como papa­gaios. Repetem frase por frase, o que latimos. E fa­zem um papelão... Os analfabetos nem sequer des­confiam que, na maioria das vezes, estão latindo coisas horrorosas contra os próprios homens...

 

 

                                                                                Orígenes Lessa 

 

 

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