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CONSELHOS... / Dalai Lama e Jeffrey Hopkins
CONSELHOS... / Dalai Lama e Jeffrey Hopkins

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CONSELHOS SOBRE A MORTE

E COMO VIVER UMA VIDA MELHOR

 

O Tibete é conhecido pela sua vasta percepção das profundezas da mente. Um repositório dos ensinamentos budistas, o Tibete há muito mantém tradições de prática e instruções voltadas para a manifestação desses profundos estados mentais e para a sua utilização no progresso espiritual. Comecei os meus estudos desses sistemas em um mosteiro tibetano e mongol em Nova Jersey no fim de 1962. Durante os cinco anos que vivi no mosteiro aprendi a língua tibetana, meditei e estudei um vasto leque de temas. Quando voltei ao mosteiro no verão de 1968, esse aprendizado me possibilitou apreciar a magnífica exposição de assuntos — extensos e breves – realizada por um monge idoso, Kensur Ngawang Lekden, que tinha sido o abade de um mosteiro tântrico em Lhasa, a capital do Tibet, quando os comunistas chineses invadiram o país em 1959. Durante os ensinamentos, o Lama mencionou varias vezes um livro muito importante a respeito da morte que ele tinha em seu poder. Explicou que a obra era extremamente útil na abordagem da morte porque descrevia em detalhe os estados mentais cada vez mais profundos pelos quais a pessoa moribunda passa e como preparar-se para eles. Ele acrescentou que atravessamos todos os dias esses estados quando vamos dormir ou terminamos um sonho, bem como quando desmaiamos, espirramos ou temos um orgasmo.

Fiquei fascinado.

A partir das breves referências do Lama ao conteúdo desse livro, pude perceber que o nosso nível de consciência habitual era superficial quando comparado a esses estados mais profundos.

Desejoso de aprender mais, pedi-lhe que me ensinasse o texto, mas ele não quis fazê-lo naquele momento. Finalmente, em 1971, obtive uma bolsa Fullbright e fui estudar alguns meses com um dos alunos do Lama tibetano, que estava lecionando na Universidade de Hamburgo na Alemanha. Lá, morei no que de fato era um grande closet. Dentro dele, em cima da janela, um amigo do erudito tibetano tinha construído uma cama estreita, á qual se tinha acesso por uma pequena escada e, debaixo dela, uma pequena escrivaninha. Certa noite, quando eu estava lá há relativamente pouco tempo, o Lama apareceu para mim em um sonho emocionante no qual ele tinha a forma reluzente do seu eu com seis anos de idade, sem as bexigas que ele tinha no seu rosto de adulto. De pé, sobre o meu peito, ele anunciou: “Eu voltarei.” Eu soube então que ele tinha morrido.

Viajei a seguir para a Índia, onde permaneci por mais de um ano, participando de duas séries de ensinamentos administradas por Sua Santidade o Dalai Lama, conversando longamente com ele em muitas audiências, recebendo ensinamentos particulares, traduzindo um texto que ele havia escrito sobre o tema da origem dependente e o vazio, e atuando como intérprete para um grupo de estudantes que havia solicitado uma audiência. Ao regressar aos Estados Unidos, encaminhei-me diretamente ao mosteiro em Nova Jersey, decidido a examinar os haveres do Lama Kensur Ngawang Lekden para procurar o livro a respeito da morte.

Para minha felicidade, consegui encontrá-lo!

Li o livro e pedi a dois lamas esclarecimentos sobre os ensi­namentos que ele continha. A obra exerceu cm mim uma profunda influência. Ela descreve com tanta clareza os níveis men­tais superficiais e os profundos, que possibilita que nos imagine­mos penetrando cada vez mais na mente, na jornada suprema de transformação. Por saber que o valor desse material seria inesti­mável para um grande número de pessoas, perguntei à Sua Santidade o Dalai Lama se ele faria comentários sobre outro texto que trata do mesmo assunto, um poema escrito no século XVII pelo Primeiro Panchen Lama (que também contém um comentário realizado pelo autor do livro que eu lera sobre a morte). Mencionei ao Dalai Lama que, na minha opinião, dessa maneira, com os comentários dele, um livro mais acessível poderia ser publicado, e ele concordou.

Alguns dias depois, fui chamado ao gabinete interno de Sua Santidade e sentei-me diante dele com um gravador. Sua Santidade explicou o texto a partir de um vasto leque de tradi­ções e experiências, discutindo detalhadamente tanto a estrutu­ra da psicologia profunda do budismo quanto o processo da morte e do período após a morte, que antecede a vida seguinte. Ele descreveu como os iogues competentes manifestam os níveis profundos da mente para a transformação espiritual. Falou apaixonadamente do valor de termos consciência da morte, de como fazer isso, de como vencer o medo tanto no momento da morte quanto no estado intermediário entre as vidas e de como ajudar aqueles que estão morrendo. Os seus ensinamentos formam a essência deste livro.

Vou dar uma idéia do impacto que o Dalai Lama exerceu em mim naquele dia citando algumas notas do meu livro, Cultivating Compassion, nas quais discuto a mediação sobre a natu­reza da realidade:

O Dalai Lama recomenda que meditemos dessa maneira sobre alguém ou algo que valorizemos imensamente, para que a experiência do vazio não seja desvirtuada e interpretada como uma desvalorização do sujeito — o valor permanecerá elevado, mas será percebido de um modo diferente. A minha experiência foi particularmente intensa durante um período em que ele me transmitiu ensinamentos no seu gabinete, na Índia. Certo fim de tarde em que eu estava sentado diante da escrivaninha do Dalai Lama, avistei, através das largas janelas que se abriam atrás dele, o sol que já descia no horizonte no vale do Kangra. O tema que discutíamos eram os estágios da morte — uma pene­trante apresentação dos estágios mais profundos da mente, nos quais apóia-se não apenas a morte como também toda a experiência consciente. O domínio da palavra que o Dalai Lama tem em tibetano é incrível; ele fala ao mesmo tempo muito rápido e com grande clareza, e emprega em cada tema um vasto conjun­to de ensinamentos. A luz do sol no vívido céu laranja tornava a cena brilhante, como o segundo estágio das quatro mentes sutis que experimentamos no processo da morte.

Eu nunca tinha me sentido tão à vontade em toda a minha vida. Ao sair do gabinete dele, fiquei impressionado com o pico coberto de neve acima de Dharmsala. Comecei a descer para o meu quarto situado mais abaixo na montanha, passando por um lugar onde eu também descortinava, do outro lado, uma montanha; o espa­ço entre as duas montanhas estava tomado por um arco-íris que formava um circulo completo. Era impressionante! Dois dias depois, tive a última aula com o Dalai Lama, pois ia voltar para os Estados Unidos. Quando a sessão terminou e comecei a me dirigir para a porta, ele disse: Parece um sonho. Eu perguntei:

“O quê?” “Parece um sonho”, replicou ele. Até mesmo nesse período extremamente intenso e importante da minha vida, ele me fez refletir sobre o vazio dessa valiosa experiência. O vazio não cancela os fenômenos; pelo contrário, ele é bastante com­patível com a efetividade e com o valor.

                                                                                                            Jeffrey Hopkins

 

                       O IMPACTO DOS ENSINAMENTOS

Os ensinamentos do Dalai Lama estão repletos não apenas de detalhes sobre o verdadeiro processo da morte como também de conselhos práticos. Obtive um grande número de conhecimen­tos a respeito do colapso gradual da consciência e aprendi muitas coisas que mais tarde se revelaram extremamente úteis.

Enquanto meus pais passavam férias na sua pequena casa de inverno na Flórida, meu pai, que tinha 81 anos, teve um derra­me. Eu estava muito longe, em Vancouver, lecionando na Universidade de British Columbia, de modo que permaneci no Canadá enquanto meus três irmãos foram visitar nosso pai enfermo na Flórida. Ficamos aliviados quando ele saiu do esta­do de coma e voltou para casa. No entanto, quando cheguei aos Estados Unidos algumas semanas mais tarde, depois que meus irmãos haviam partido, meu pai voltou para o hospital e, uma vez mais, entrou em coma.

Certo dia, meu pai estava deitado de costas e abriu os olhos. Ele se virou para mim e começamos a conversar suavemente.

Em um determinado momento, ele disse o seguinte, com um brilho divertido no olhar: “Você não acreditaria se eu lhe con­tasse o que está acontecendo neste hospital.” Perguntando-me o que ele estaria querendo dizer com aquilo, olhei por acaso para a televisão ao pé da sua cama. Ela exibia um episódio de uma série cômico-erótica passada em um hospital, e percebi que a equipe da clínica tinha posto um pequeno alto-falante no seu travesseiro. Enquanto estava em coma, ele tinha escutado todos aqueles programas! Após algum tempo, eu lhe disse de onde estavam vindo as suas idéias e mais tarde desliguei o alto-falante, recordando o ensinamento do Dalai Lama de que quando a morte se aproxima é extremamente importante ter por perto alguém que nos faça ter pensamentos virtuosos.

Alguns dias depois, o quadro do meu pai piorou e ele entrou em coma profundo. Certa noite, durante uma visita, des­cobri que o hospital o tinha transferido para outro quarto. Desta vez, a televisão gritava um programa de perguntas e respostas. Tentei desligar o aparelho, mas a enfermeira me disse que era o programa favorito do homem praticamente surdo que ocupava o outro leito. Desconcertado, sentei-me ao pé da cama do meu pai pensando no que fazer. A televisão rugiu uma pergunta a respei­to de um navio que afundara no mar, de modo que imaginei que pelo menos eu poderia distrair o outro paciente. “Você sabe o nome do navio?”, perguntei, gritando. Como ele não moveu um único músculo, percebi que ele também estava em coma. Mas meu pai sentou-se na cama e disse: “E Andrea Doria.” Ele estava lúcido e ouvira o programa inteiro!

Desliguei a televisão e batemos um papo muito agradável. Como de costume, ele estava contente. Pediu biscoitos com leite e a enfermeira os providenciou de uma maneira particularmente carinhosa. Conversamos durante algum tempo e, quan­do ia saindo, perguntei: “Quer que eu diga olá para a mamãe?” “Claro”, replicou ele, animadamente.

O hospital telefonou para a minha mãe bem cedo no dia seguinte para dizer que o meu pai tinha morrido durante a noite. Senti um enorme alívio porque, antes de morrer, ele recobrara a consciência com o espírito renovado. E também porque a televisão estava desligada.

O hospital tinha deixado o corpo do meu pai sozinho no quarto. Fui até lá e, lembrando-me que não deveria perturbar o corpo, sentei-me e fiquei em silêncio por não conhecer o voca­bulário particular da sua religião. Senti que pelo simples fato de estar presente eu poderia apoiá-lo na sua jornada.

Um ano depois, minha mãe sofreu o que foi provavelmen­te um derrame. Ela ligou para a casa do meu irmão Jack. Ele não estava, e Judy, a mulher dele, atendeu o telefone. Mamãe disse que estava se sentindo muito mal, que estava com dor de cabeça e falava de um modo desconexo. Ela disse também que estava se sentindo fraca e que talvez fosse vomitar. A seguir a sua voz sumiu. Como a minha mãe não tinha desligado o telefone, Judy correu para a casa vizinha e telefonou para a equipe de socorro. Posteriormente, por três vezes, o hospital a trouxe de volta do portal da morte, e em todas elas a minha mãe ficou ten­tando se comunicar. Ao perceber o seu esforço desconexo, lembrei-me de que o Dalai Lama tinha mencionado a necessida­de do conselho amigo capaz de evocar uma atitude virtuosa e aproximei-me da cama onde ela estava deitada. Eu sabia que a palavra especial da minha mãe era “espírito”, de modo que eu disse: “Mamãe, é o jeff. Chegou a hora do espírito:” Ela imedia­tamente se acalmou e parou de lutar. Repeti suavemente: “Chegou a hora do espírito:” Alguns dias depois, ela morreu em paz.

Quando o meu primo Bobby foi diagnosticado com câncer no cérebro, ele conversou longamente sobre a doença com o meu irmão Jack, que lhe perguntou se havia algo que ele gosta­ria de fazer enquanto estivesse em atividade. “Gostaria que os primos se reunissem e contassem histórias sobre o vovô”, disse ele. Meu avô paterno era um homem poderoso que protegia a família, a fazenda, a igreja, e todos os seus negócios e interesses de um jeito vigoroso e até mesmo engraçado. Assim sendo, Jack nos reuniu; éramos 14 ao todo. Sabíamos que Bobby ia morrer e não fingimos pensar de um modo diferente, mas tampouco exibimos um comportamento sombrio. Quase todos tínhamos histórias hilariantes para contar, e eu as gravei em vídeo.

Nancy, a irmã de Bobby, telefonou-me e pediu conselhos sobre o que fazer quando a hora da morte se aproximasse. “Tome providências para que ninguém chore ou se lamente ao redor dele”, disse eu. “Simplifique as coisas”. Desligue a televisão. Faça com que as pessoas venham se despedir antes de o fim começar.

Na véspera do último dia de vida de Bobby, a família assis­tiu ao vídeo da reunião dos primos e a seguir o guardou. No dia seguinte, tudo foi mantido muito simples e tranqüilo, e ele morreu.

O Dalai Lama aconselha que quando nos aproximamos do fim, é preciso que nos lembremos da nossa prática, independen­temente de qual ela for. Não podemos impor aos outros as nos­sas opiniões nem um nível mais elevado de prática do que aque­le com o qual eles conseguem lidar. Quando meu amigo Raymond soube que ia morrer de AIDS, ele e o seu parceiro me perguntaram o que deveriam fazer. Recordando a morte dos meus pais e a paralisia que tomou conta de mim por eu ter contraído a doença de Lyme e que quase me levou à morte, eu tinha conhecimento de que muito tempo depois de ficarmos impossibilitados de interagir com os outros, podemos ter uma vida interior intensa e lúcida. Durante minha grave doença, repeti interiormente um mantra que eu recitara por quase trin­ta anos. Descobri que apesar de ser incapaz de me comunicar com os outros, eu conseguia repetir o mantra com uma lucidez incomum. De vez em quando, eu tentava falar, porém sem su­cesso. Apesar disso, eu não ficava preocupado. Isso teria sido um grande erro. Apenas continuava a repetir o mantra, o que me deixava tranqüilo.

Pensando nessa experiência, sugeri a Raymond que esco­lhesse um ditado que pudesse repetir continuamente. Ele esco­lheu uma estrofe de Joseph Goldstein:

“Que eu seja permeado pela bondade-amorosa”.

Que eu fique bem.

Que eu me sinta tranqüilo e em paz.

Que eu seja feliz.

Achei que a escolha pudesse ser longa demais, mas sabia que era a opção correta para Raymond, pois era a que ele queria.

Raymond praticou o mantra. O seu parceiro o colocou em uma moldura de plástico ao lado da cama de Raymond, para que este o visse quando virasse a cabeça e se lembrasse de repeti-lo. Mais tarde, quando Raymond saiu do hospital e voltou para casa para morrer, pouco a pouco ele foi se recolhendo, perdendo a faculdade de falar, depois a de apontar com o dedo, até que ficou completamente impossibilitado de se mover. No entanto, quando eu entrava no seu quarto, sentava-me no chão e dizia suavemente: “Que eu seja permeado pela bondade amorosa”, seu rosto se iluminava e seus olhos se moviam debaixo das pálpebras cerradas. Tinha funcionado!

 

                   O PRIMEIRO PANCHEN LAMA

Neste livro, Sua Santidade o Dalai Lama recorre a uma vasta coleção de tradições textuais e orais da Índia e do Tibete para explicar um poema de 17 estrofes de autoria do Primeiro Panchen Lama. O Dalai Lama revela, um por um, o significado das estrofes, fornecendo uma apresentação detalhada dos está­gios da morte, do estado intermediário entre as vidas e do renascimento, ao mesmo tempo em que descreve sua aplicação prá­tica de uma forma comovente.

O poema que serve de base para este estudo foi escrito no século XVII. Sua importância e relevância têm sido transmitidas por monges e leigos no Tibete, e agora em todo o mundo. No entanto, ter como certa a habilidade de estudar e praticar signi­fica desconhecer o atual estado da religião no Tibete, a situação do Panchen Lama e a tensão constante entre o Tibete e a China.

Por conseguinte, gostaria de discutir a história dos títulos Dalai Lama e Panchen Lama, bem como a linhagem de encar­nações do autor do poema, o Primeiro Panchen Lama. Desejo também esclarecer vários equívocos sobre a situação do Tibete e discutir a encarnação atual do Panchen Lama, que está preso na China.

Em meados do século XIII e no início do século XIV, Tsongkhapa Losang Drakpa fundou uma tradição espiritual no Tibete chamada Geluk, também conhecida como a Escola do Chapéu Amarelo. Cerca de 1445, um aluno de Tsongkhapa, Gendun Drup, construiu um grande mosteiro, chamado Tashi Lhunpo (Montanha da Sorte), em Shigatse, uma província a oeste de Lhasa, a capital do Tibete. Gendun Drup veio retroati­vamente a ser chamado o Primeiro Dalai Lama quando a tercei­ra encarnação da sua linhagem, Sonam Gyatso (1543-1588), recebeu o nome “Dalai” (uma tradução mongol de Gyatsø, que significa “oceano”) do seu patrono e seguidor mongol, Altan Khan, em 1578.

Gendun Drup também recebeu o nome “Panchen” de um erudito tibetano contemporâneo, Bodong Choklay Namgyel, quando respondeu a todas as perguntas deste último. “Panchen” significa “grande erudito”, e deriva da palavra sanscrítica pan di-íd, que significa “erudito”, e da palavra tibetana chen po, que sigmiica “grande”. Sucessivos abades do mosteiro Tashi Lhunpu que foram eleitos e exerceram o cargo por períodos limitados, também eram chamados de “Panchen”.

No século XVII, o Quinto Dalai Lama deu o mosteiro Tashi Lhunpo para o seu mestre, Losang Chokyi Gyeltsen (1567-1662), o décimo quinto abade do mosteiro. Nessa última condição, ele foi chamado “Panchen”. No entanto, quando Losang Chokyi Gyeltsen morreu, o Quinto Dalai Lama anun­ciou que o seu mestre iria reaparecer como uma criança-sucessora reconhecível, de modo que sua linhagem de encarna­ções reteve o título “Panchen Lama” e seus membros tornaram-se os abades do mosteiro Tashi Lhunpo. O título “Panchen Lama” deixou de se aplicar a uma pessoa eleita por um período determinado e passou a referir-se a uma linhagem de reencar­nações.

Desde aquela época, tornou-se uma convenção no Tibete o Dalai Lama e o Panchen Lama envolverem-se em graus variados no reconhecimento dos seus respectivos sucessores. O Dalai Lama é o líder espiritual e temporal do Tibete como um todo, ao passo que o Panchen Lama é o líder da região particular ao redor de Shigatse.

A história de como o Dalai Lama e o Panchen Lama receberam seus nomes frustra as afirmações absurdas feitas pelo atual governo da China de que de algum modo esses títulos indicam a subserviência à autoridade chine­sa. A origem dos títulos é completamente local. Para amparar ainda mais as suas alegações de legitimidade, Pequim aponta para o fato de que o Panchen Lama se chama “Erdini”. No entanto, esta é uma palavra mongol que significa “jóia preciosa” e é um título de cortesia compartilhado com muitos lamas mongóis. No caso do Panchen Lama, o título lhe foi conferido em 1731 pelo imperador Kiang-shi, um manchu que na época controlava a China.

Precisamos ter em mente que, em diferentes períodos da sua história, a China foi governada por forasteiros mongóis e manchus, bem como pelos chineses da dinastia Han. No início do século XX, o Dr. Sun Yat-sen, o pai da China moderna, promo­veu a criação de um Reino do Meio que abrangia a Manchúria, a Mongólia, o Turquestão Oriental, o Tibete e a China. No entanto, em 1911, até mesmo ele declarou que quando a revo­lução nacionalista derrotou a dinastia Manchu, a China tinha sido ocupada duas vezes por potências estrangeiras — primeiro pelos mongóis e depois pelos manchus. Os mongóis, os man­chus e os chineses da dinastia Han consideravam o Tibete uma terra estrangeira quando, na qualidade de um vizinho poderoso, seus impérios ocasionalmente interferiam no Tibete. Também precisamos estar conscientes de que no século VIII o Império tibetano chegou inclusive à capital da China, Ch’ang-an, conhecida hoje como Xian. Assim, se incursões eventuais em um país significam que o agressor é dono desse pais, poderíamos argumentar que o Tibete é dono da China.

Pequim procura legitimar o seu domínio no Tibete demonstrando que desempenha um papel crucial na identificação dos lamas importantes da região, dos quais os mais proeminen­tes são o Dalai Lama e o Panchen Lama. As tentativas desespe­radas de Pequim de aparentar ser relevante nos assuntos religio­sos do Tibete se refletem na série de eventos que cercam a recente identificação do Décimo Primeiro Panchen Lama.

Para que tudo seja compreendido com a maior clareza, vou apresen­tar uma explicação breve do processo da busca de uma reencar­nação elevada.

 

1 - É feita uma investigação em todo o país que visa desco­brir sinais especiais ocorridos no nascimento das crian­ças, mães que tiveram sonhos fora do comum e crianças que possuem um conhecimento especial que não lhes tenha sido diretamente transmitido.

2 - Presságios são analisados. Por exemplo, quando o Dalai Lama anterior morreu, um arco-íris apontou para o leste, indicando o renascimento na região oriental do país. Depois, dois objetos semelhantes a presas surgiram no lado oriental do relicário do falecido Dalai Lama. Quando uma equipe de busca encontrou a encarnação seguinte, flores medraram no inverno em um anfiteatro ao ar livre onde o Dalai Lama fazia preleções, e a população de Lhasa começou espontaneamente a cantar uma música que continha o nome dos pais dele. (Muitos presságios têm lugar sem serem percebidos na ocasião e só mais tarde são compreendidos.).

3 - Fontes supranormais de conhecimento são consultadas. Um grupo é enviado a um lago situado no sudeste de Lhasa que evoca visões proféticas. No caso do atual Dalai Lama, o grupo viu no lago imagens do mosteiro próxi­mo ao local onde ele nasceu e da casa onde ele morava. Também viram as letras “A, Ka, Ma”, que indicavam a província (“A” equivalia à província Amdo), o mosteiro (“Ka” representava o mosteiro Kumbum) e o nome do Dalai Lama (“Ma”, que significava “mulher”, pois o Dalai Lama, quando criança, tinha um nome feminino, Deusa da Longa Vida).

4 – Realiza-se uma adivinhação fazendo-se girar uma tigela com bolas de massa contendo o nome dos candidatos finais até que uma delas salta para fora.

5 - Equipes de busca disfarçadas são enviadas para testar os conhecimentos especiais dos candidatos e para verificar se eles conseguem identificar objetos que pertenceram ao lama anterior. No caso do atual Dalai Lama, ele iden­tificou um funcionário monástico e um monge do mos­teiro bem disfarçados entre os membros da equipe. Os objetos entre os quais ele teve de escolher foram dois rosários, dois pequenos tambores rituais e duas bengalas.

 

A idéia de um governo comunista materialista envolver-se nesse processo religioso é cômica, mas foi exatamente o que aconteceu como indicam os seguintes eventos relacionados com a identificação do atual Panchen Lama.

 

                     CRONOLOGIA DA IDENTIFICAÇÃO

                     DO DÉCIMO PRIMEIRO PANCHEN LAMA

1984: O governo comunista chinês, que invadiu o Tibete Oriental em 1950 e completou a ocupação de todas as seções em 1959, anuncia que permitirá que os tibetanos procurem as encarnações dos lamas elevados.

1987: O governo chinês estabelece uma escola especial em Pequim para lamas reencarnados com o objetivo de produ­zir “lamas patriotas, que cultivem a unidade da terra natal”.

28 de janeiro de 1989: O Décimo Panchen Lama morre aos 51 anos de idade no mosteiro Tashi Lhunpo em Shigatse, no Tibete, quatro dias depois de transmitir uma mensagem cri­ticando o governo chinês na qual ele diz: “O custo do domínio chinês no Tibete foi mais elevado do que os seus benefícios.” Ele permanecera no Tibete depois de o Dalai Lama ter fugido do país em março de 1959 e fora preso e torturado por nove anos e oito meses durante a Revolução Cultural, depois de ter elaborado um relatório no qual cri­ticara fortemente a política chinesa no Tibete, (Depois da sua morte correram rumores repetidos e persistentes de que ele teria sido envenenado.) No mesmo dia, o Dalai Lama propõe enviar uma delegação com dez religiosos ao Tibete para dizer orações no mosteiro do Panchen Lama.

Fevereiro de 1989: Li Peng, primeiro-ministro da China anun­cia que não seria permitido que forasteiros, querendo referir-se a tibetanos no exílio, “interferissem no processo de seleção”.

Agosto de 1989: O governo chinês anuncia um plano de cinco pontos para a busca, a seleção e o reconhecimento do Panchen Lama. O plano é um compromisso com as autori­dades do mosteiro do Panchen Lama e inclui a insistência do governo chinês de que uma loteria seja incluída no pro­cesso, e que eles organizem a confirmação pública final. Uma comissão de busca é nomeada por Pequim, dirigida por Chadrel Rinpochav, abade do mosteiro do Panchen Lama, que reconhecidamente coopera com os chineses.

21 de março de 1991: O Dalai Lama informa ao governo chi­nês, por intermédio da sua embaixada em Nova Déli que deseja tomar parte na busca da reencarnação do Panchen Lama, enviando uma delegação ao lago de visões proféticas, situado ao sudeste de Lhasa.

Junho de 1991: Três meses depois o governo chinês responde que a interferência não é necessária.

17 de julho de 1993: O chefe da equipe constituída pelo gover­no chinês, Chadrel Rinpochay, envia oferendas e uma carta ao Dalai Lama relacionada com a reencarnação do Panchen Lama. Ele explica que um grupo visitou dois lagos e rece­beu a confirmação de que o Panchen Lama reencarnou.

5 de agosto de 1993: O Dalai Lama envia uma resposta a Chadrel Rinpochay por intermédio da embaixada da China em Nova Déli convidando a delegação a visitá-lo na Índia para discutir a busca de uma reencarnação. Não há resposta.

17 e 18 de outubro de 1994: O Dalai Lama, em um encontro privado com um chinês que tem vínculos estreitos com o governo chinês, diz que está aguardando uma resposta à car­ta que enviou a Chadrel Rinpochay em 5 de agosto de 1993. Ele enfatiza a importância de que a busca da reencar­nação siga os procedimentos religiosos tradicionais.

Janeiro de 1995: Esse chinês é procurado mais duas vezes sobre o mesmo assunto.

Abril de 1995: O governo chinês anuncia que implementou uma nova legislação relacionada com a busca, a seleção e a aprovação das encarnações de lamas elevados.

14 de maio de 1995: Depois de analisar extensamente mais de trinta crianças, receber quatro profecias de oráculos e reali­zar cinco adivinhações, inclusive o ritual da bola de massa, o Dalai Lama reconhece formalmente um menino de seis anos, Gedhun Choekyi Nyima, nascido em 25 de abril de 1989, no distrito de Nagchu em Lhari, no Tibete, como o Décimo Primeiro Panchen Lama. A ocasião corresponde a uma data auspiciosa no calendário dos ensinamentos da Roda do Tempo que têm uma ligação especial com o Pan­chen Lama. O Dalai Lama e a delegação de Chadrel Rin­pochay (indicado por Pequim) estão de acordo.

15 de maio de 1995: Uma agência oficial de notícias chinesa ataca a declaração do Dalai Lama.

17 de maio de 1995: O governo de Pequim mantém incomu­nicáveis em Chengdu, durante 12 dias, Chadrel Rinpochay e Jampa, seu secretário de cinqüenta anos. O lama menino é detido pelas autoridades chinesas. Aos seis anos de idade, ele é o mais jovem prisioneiro político do mundo.

19 de maio de 1995: Cartazes começam a aparecer nas cidades tibetanas condenando a interferência do governo chinês na seleção do Panchen Lama.

21 de maio de 1995: As autoridades chinesas no Tibete convo­cam reuniões em Lhasa, Shigatse e Nagchu para anunciar que reuniões de mais de três pessoas, bem como a discussão em público da reencarnação do Panchen Lama, estão proi­bidas. Funcionários qualificados do partido instalam-se no mosteiro Tashi Lhunpo para conduzir sessões de reeduca­ção, quando monges são convidados a criticar Chadrel Rinpochay. O Lama menino e a sua família, bem como duas outras crianças que estavam entre os principais candidatos, desaparecem, e consta que foram levados para Pe­quim.

Em Lhasa, é ordenado a todas as principais figuras do governo e da hierarquia religiosa que participem de reuniões destinadas a condenar a declaração do Dalai Lama.

24 de maio de 1995: Uma sessão de emergência de três dias da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês publica um documento que descreve a declaração do Dalai Lama como “ilegal e inválida”.

Maio de 1995: O principal dissidente do Tibete e ex-prisio­neiro político, Yulu Dawa Tsering, recebe ordens de se apresentar à polícia em dias alternados.

11 de junho de 1995: O administrador dos negócios de Cha­drel Rinpochay, Gyara Tsenring Samdrup, é detido pelas autoridades chinesas sob suspeita de se comunicar com o Dalai Lama.

12-13 de julho de 1995: Turistas estrangeiros são expulsos de Shigatse, a sede do mosteiro do Panchen Lama, para que não possam assistir a demonstrações. Os tibetanos são impe­didos de executar atividades religiosas no mosteiro do Panchen Lama e até mesmo de circundar os templos e os locais religiosos.

Até hoje não se conhece o paradeiro do menino reconhecido como o Panchen Lama pela equipe de busca do seu mosteiro e pelo Dalai Lama. Em 2002, ele e os seus pais já estavam presos havia sete anos pelo governo chinês, que se recusa a permitir que observadores internacionais tenham acesso ao menino para avaliar o seu bem-estar. O chefe da equipe de busca, Chadrel Rinpochay, foi libertado em 2002 após passar sete anos na prisão.

No que só pode ser considerado uma ocorrência surrealista, o governo comunista chinês central nomeou o seu próprio grupo de busca e declarou ter encontrado o verdadeiro Panchen Lama.

O presidente da China, Jiang Zemin, demonstrou um profundo interesse pelo processo. O substituto aprovado pelo governo, hoje com 13 anos de idade, tem aparecido com destaque nos jornais chineses como um patriota erudito capaz de inspirar devoção. Em 2001, em uma turnê pelo próspero litoral oriental, o pseudo­ Panchen Lama que tem o apoio de Pequim fez o seguinte pronunciamento: “Compreendo hoje, profundamente, a grandeza do Partido Comunista da China e sinto o calor da família socia­lista sob a gloriosa política do Partido Comunista Chinês”

 

                     SUGESTÕES

Por que o governo comunista de Pequim está tão interessado nessa questão? Ele está tentando legitimar a invasão do Tibete, mostrando ao mundo que desempenha um papel vital na vida espiritual da nação. Talvez esteja também procurando anunciar a descoberta do novo Panchen Lama exatamente 13 anos depois de a China ter chamado de “Região Autônoma Tibetana” o que na verdade é parte do Tibete. No entanto, o Dalai Lama e a delegação do mosteiro do Panchen Lama que foi originalmente nomeada por Pequim chegaram a um acordo com rela­ção ao mesmo candidato, e o Dalai Lama anunciou a identificação, sem dúvida para antecipar-se à intervenção chinesa.

Pequim também faz a afirmação completamente infundada de que o governo chinês anterior, o Guornintang, esteve envolvido na identificação do atual Dalai Lama, No entanto, essa declaração contraria uma ampla evidência histórica. Quando o Dalai Lama foi entronizado no dia 22 de fevereiro de 1940, o emissário chinês, Wu Zhongxin, foi tratado como os outros enviados de Bhutan, Sikkim, do Nepal e da Índia britânica, não tendo desempenhado nenhum papel especial. O Guomintang fez declarações absurdas, dizendo que o menino curvou-se diante de Pequim e que o emissário chinês colocou o menino no trono. Até mesmo um funcionário tibetano, Ngabo Nawang Jigme, vice-presidente da Comissão Permanente do Congresso do Povo, que esteve presente à cerimônia e que havia cooperado com o governo chinês, declarou em 31 de julho de 1989: “Nós, o Partido Comunista, não precisamos contar mentiras baseadas nas inverdades do Guomintang”.

Naquela época, o camarada Chang Feng do Ministério da Frente Unida disse o seguinte: “No futuro, não diremos que Wu Zhongxin presidiu a entronização do Décimo Quarto Dalai Lama.” Hoje, desespe­rado, o governo de Pequim reverteu à maquinação do Guomin­tang. É notável que apesar do fato de o Tibete possuir grandes universidades monásticas que investigam todos os tipos de ques­tões filosóficas, nunca houve uma palavra na língua tibetana para um país que abranja o Tibete e a China.

A política do atual governo chinês com relação ao Tibete baseia-se na desconsideração e negligência das necessidades e desejos do povo tibetano. O mundo precisa reverter essa atitude indicando claramente a Pequim que leva esse assunto a serio. Organizações governamentais e não-governamentais devem instar com as autoridades chinesas para que libertem o Panchen Lama e as pessoas relacionadas com a sua descoberta, para que ele possa ser educado no seu mosteiro e viajar livremente. As Nações Unidas devem amparar os esforços do Dalai Lama de negociar um acordo concernente à condição do Tibete.

A cultura tibetana se estende bem além do Tibete, alastran­do-se a partir das regiões Kaimuck da Mongólia perto do rio Vol­ga (na Europa, onde o Volga deságua no mar Cáspio), da Mon­gólia exterior e da interior, da República Buriat da Sibéria, de Bhutan, Sikkim, Ladakh e partes do Nepal. Em todas essas áreas, o ritual budista e estudos escolásticos são realizados em tibetano. Jovens oriundos dessas vastas regiões vinham estudar no Tibete, especialmente na capital, Lhasa, e nas suas cercanias, regressando em gera à sua terra natal após concluir os estudos (até que os co­munistas tomaram o poder em muitos desses países). Desse modo, a cultura tibetana é crucial para uma vasta região da Ásia Central, e o seu desaparecimento tem implicações muito importantes.

Este livro deve nos fazer lembrar os tesouros do Tibete.

 

JEFFREY H0PKIN5, Ph D. - Professor de Estudos Tibetanos - Universidade de Virginia.

 

                       CONSELHOS SOBRE A MORTE

 

               1 - A Consciência da morte.

 

“A vida dos seres humanos é como o processo de tecedura. Terminamos o trabalho com delicados fios tecidos do início ao fim”.

                           BUDA

 

É fundamental ficar atento à morte, refletir no fato de que não permaneceremos um longo tempo nesta vida. Se vocês não estiverem conscientes da morte, deixarão de tirar proveito desta vida humana especial que já alcançaram. Ela é significativa porque, baseados nela, efeitos importantes podem ser obtidos.

Não analisamos a morte para sentir medo e sim para apreciar esta vida preciosa durante a qual podemos realizar muitas práticas importantes. Em vez de ficarem assustados vocês precisam refletir que, quando a morte chegar, perderão esta oportunidade de praticar. Dessa maneira, a contemplação da morte inserirá mais energia na sua prática.

Vocês precisam aceitar a idéia de que a morte tem lugar no decurso natural da vida. Buda disse o seguinte:

“Não existe o lugar intocado pela morte.

Ele não está contido no espaço, não está contido no oceano.

Vocês não irão encontrá-lo nem mesmo no meio de uma montanha”.

 

Se aceitarem que a morte é parte da vida, quando ela efetivamente chegar poderão enfrentá-la com mais facilidade.

 

A atitude de algumas pessoas que sabem bem no fundo que a morte chegará, mas deliberadamente evitam pensar nela, não se encaixa na situação e é contraproducente. Igualmente é ver­dade quando a velhice não é aceita como parte da vida, é con­siderada indesejável e os pensamentos a respeito dela são propositadamente evadidos. Esse comportamento torna a pessoa des­preparada e as coisas ficam muito difíceis quando a velhice inevitavelmente chega.

Muitas pessoas são fisicamente idosas, mas fingem ser jo­vens. Às vezes, quando encontro amigos antigos, como certos senadores em países como os Estados Unidos, cumprimento-os com a saudação: “Meu velho amigo”, querendo dizer que nos conhecemos há muito tempo e não que ele esteja fisicamente velho. No entanto, quando enuncio essas palavras, alguns deles me corrigem enfaticamente, dizendo: “Não somos velhos! Somos amigos há muito tempo.” De fato, eles são efetivamente velhos – têm pelos nas orelhas o que é um indício da velhice – mas não se sentem à vontade com a idéia de serem idosos. Isso é uma bobagem.

Penso geralmente na duração máxima da vida humana como sendo de cem anos, o que é um período muito curto, quando comparado ao tempo de vida do planeta. Essa breve existência deve ser usada de uma maneira que não cause dor aos outros. Ela deve ser dedicada a atividades construtivas e não a um trabalho destrutivo, como fazer mal aos outros ou criar problemas para eles. Se adotarmos esse comportamento, o breve período que passamos como turista neste planeta será significa­tivo. É tolo da parte de um turista visitar um determinado lugar por um curto período e criar mais problemas. No entanto, vocês agem com sabedoria se, como turistas, fazem outras pes­soas felizes durante a sua curta permanência; e quando vão embora, sentem-se felizes. Se criarem problemas, mesmo que não tenham dificuldades durante a sua estada, vocês se perguntarão qual terá sido o beneficio da sua visita.

Passamos a primeira parte dos cem anos da vida como crianças e a parte final como idosos, muitas vezes como um ani­mal que só se alimenta e dorme. No intervalo, talvez haja sessenta ou setenta anos que podem ser usados de um modo signi­ficativo.

 

Buda disse as seguintes palavras: Gastamos a metade da vida dormindo. Passamos dez anos na infância. Perdemos vinte anos na velhice. Dos vinte anos res­tantes, a tristeza, as queixas, a dor e a agitação eliminam mui­to tempo, e centenas de doenças físicas destroem muito mais.

 

Para que a vida se torne significativa, é fundamental aceitar a velhice e a morte como parte da nossa existência. Sentir que a morte é quase impossível só cria mais ganância e problemas, causando até mesmo, às vezes, um mal deliberado aos outros. Quando damos uma boa olhada na maneira como personagens supostamente ilustres, como imperadores, monarcas e outros, construíam grandes residências e muros, percebemos que bem no fundo da mente deles jazia a idéia de que poderiam perma­necer para sempre nesta vida. Para muitas pessoas, esse auto-engano resulta em mais dor e problemas.

Até mesmo no caso daqueles que não acreditam em vidas futuras, contemplar a realidade é produtivo, útil e científico. Como as pessoas, as mentes e todos os outros fenômenos que têm uma causa mudam a cada momento, essa contemplação abre a possibilidade de um posterior desenvolvimento positivo. Se as situações não sofressem uma transformação, elas reteriam para sempre a natureza do sofrimento. Quando sabemos que as coisas estão sempre se modificando, mesmo que estejamos pas­sando por um período difícil, podemos encontrar consolo no conhecimento de que a situação não permanecerá como está para sempre. Por conseguinte, não há por que sentir frustração.

A sorte também não é permanente, de modo que não é proveitoso nos apegarmos às coisas quando elas estiverem indo bem. A perspectiva de permanência nos destrói: mesmo que vocês aceitem a existência de vidas futuras, o presente torna-se sua preocupação e o futuro deixa de ser importante. Essa atitu­de arruina uma boa oportunidade quando sua vida é contem­plada com o tempo disponível e os recursos necessários para que vocês se dediquem a práticas produtivas. Uma perspectiva de impermanência é bastante proveitosa.

 

A consciência da impermanência exige disciplina — o domínio da mente —, mas não significa punição ou controle externo. Disciplina tampouco quer dizer proibição; na verdade, significa que, quando existe uma contradição entre os interesses a longo e a curto prazo, sacrificamos a gratificação imediata em prol de um beneficio futuro. Isso se chama autodisciplina, que deriva de determinar a causa e o efeito do carma. Por exemplo, com o objetivo de fazer meu estômago voltar ao normal depois de uma doença recente, estou evitando alimentos ácidos e bebidas gela­das que, de outra maneira, parecem saborosos e apetitosos. Esse tipo de disciplina significa proteção. Analogamente, refletir sobre a morte não requer punição e sim autodisciplina e auto­proteção.

Os seres humanos possuem o potencial completo para criar boas coisas, mas a sua utilização plena exige liberdade. O totali­tarismo sufoca esse crescimento. De uma forma complementar, individualismo não significa que vocês não esperem nada que venha de fora ou que estejam esperando ordens; em vez disso, são vocês que criam a iniciativa. Por conseguinte, Buda freqüentemente exigia a “libertação individual”, querendo se refe­rir à autolibertação e não àquela que tem lugar através de uma organização. Cada pessoa precisa criar o seu futuro positivo. A liberdade e o individualismo requerem autodisciplina. Se forem explorados por causa de emoções perturbadoras, conseqüências negativas terão lugar. A liberdade e a autodisciplina precisam trabalhar juntas.

 

                   AMPLIANDO SUA PERSPECTIVA

A partir de uma perspectiva budista, a mais elevada das metas é alcançar o estado de Buda para ser capaz de ajudar um grande número de seres sencientes; no entanto, um nível médio de rea­lização pode libertá-lo do doloroso ciclo de nascimento, velhice, doença e morte; um nível de realização mais baixo, mas mesmo assim valioso, é o aperfeiçoamento das vidas futuras. A partir da melhora gradual das suas vidas, vocês podem alcançar a libertação e, apoiados nesse aperfeiçoamento, finalmente atingir o Estado de Buda.

 

Primeiro, sua perspectiva se expande e passa a incluir vidas futuras; a seguir, quando vocês compreendem totalmente sua situação difícil, sua perspectiva se aprofunda e passa a abranger a totalidade do ciclo de sofrimento de uma vida para outra, denominado existência cíclica ou samsara. Finalmente, essa percepção pode ser expandida para outros, por meio do desejo compassivo de que todos os seres sencientes se liber­tem de sofrimento e das causas desse sofrimento. Essa compai­xão leva vocês a se elevarem ao estado de Buda.

Vocês têm que estar preocupados com os aspectos mais pro­fundos da vida que afetam as vidas futuras, antes da percepção da totalidade da natureza do sofrimento e do ciclo da existência. Essa percepção do sofrimento, por sua vez, é necessária para o pleno desenvolvimento da compaixão. Analogamente, nós, tibetanos, estamos procurando alcançar certo grau de auto­nomia no Tibet para podermos ser úteis às pessoas na nossa terra natal, mas também estamos nos esforçando para consolidar nossa posição de refugiados na Índia. A consecução da primeira meta, que é o propósito principal, depende da realização do segundo objetivo, que é temporário.

 

                   AS DESVANTAGENS DE NÃO ESTAR ATENTO À MORTE

É vantajoso ter consciência de que vocês vão morrer. Por quê? Se não estiverem conscientes da morte, não ficarão atentos à sua prática e levarão uma vida inexpressiva, sem examinar que tipos de atitude e ação perpetuam o sofrimento e quais trazem a feli­cidade.

Se não tiverem consciência de que poderão morrer em breve, serão dominados por uma falsa sensação de permanência que lhes diz: “Vou morrer um dia, mais tarde”. Então, quando chega a hora, mesmo que tentem realizar algo meritório, não terão a energia necessária. Muitos tibetanos entram muito jovens para um mosteiro e estudam textos sobre a prática espiritual, mas quando chega o momento de realmente praticar care­cem da capacidade de efetivamente fazê-lo. Isso acontece porque eles não entendem realmente o que é a impermanência.

Se, depois de refletir, vocês chegarem à conclusão de que para praticar é absolutamente necessário que se recolham duran­te vários meses ou até mesmo muitos anos, terão tomado essa decisão motivados pelo seu conhecimento da impermanência. No entanto, se essa necessidade não for sustentada por meio da repetida contemplação dos conflitos da impermanência, sua prática pouco a pouco se extinguirá. É por esse motivo que algumas pessoas fazem retiro durante anos, mas não sentem posteriormente que esse período tenha influenciado sua vida. Contemplar a impermanência não apenas motiva a prática como também a alimenta.

Se tiverem um forte sentimento da certeza da morte e da incerteza da chegada dela, estarão motivados a partir do interior. Será como se um amigo lhes estivesse avisando: “Cuidado, fique atento, outro dia está passando.”.

Vocês poderiam até sair de casa e dedicar-se à vida monásti­ca. Se fizessem isso, receberiam outro nome e novas roupas. Suas atividades seriam menos movimentadas e vocês precisariam mudar de atitude, voltando a atenção para objetivos mais profundos. No entanto, ao sair do mosteiro, se continuassem a se envolver com os assuntos superficiais do momento — alimentos saborosos, roupas de qualidade, uma casa melhor, conversas agradáveis, muitos amigos e conhecidos, tornando-se inimigos de uma pessoa que os contrariasse e chegando até a discutir e brigar com ela —, estariam talvez em pior situação do que estavam antes de entrar para o mosteiro. Lembrem-se de que não basta afastar-se dessas atividades superficiais por constrangimen­to ou medo do que possam pensar os seus amigos que também estão no caminho; a mudança precisa vir de dentro. Esse fato é verdadeiro tanto para os monges quanto para os leigos que se dedicam à prática.

Talvez vocês estejam atormentados por um sentimento de permanência, achando que não vão morrer em breve e que enquanto estiverem vivos precisam de alimentos, roupas e conversas da mais alta qualidade.

 

Devido ao desejo de possuir os maravilhosos objetos do presente, mesmo que eles pouco signi­fiquem a longo prazo, vocês estão prontos a empregar os mais diversos tipos de exageros e estratagemas desavergonhados para conseguir o que querem — contratando empréstimos a juros ele­vados, menosprezando os amigos e entrando com ações na justiça —, tudo para obter provisões mais do que adequadas.

Como vocês dedicaram a vida a essas atividades, o dinheiro torna-se mais atraente do que o estudo, e mesmo que tentem praticar, não prestarão muita atenção ao que estão fazendo. Se uma página se soltar de um livro, talvez hesitem em pegá-la, mas se algum dinheiro cair no chão, não vacilarão em se abaixar. Se encontrarem pessoas que realmente dedicaram a vida a investi­gações mais profundas, talvez admirem essa dedicação, mas isso é tudo, ao passo que se virem alguém vestindo trajes finos, exi­bindo a riqueza que possui, vocês a desejarão, cobiçarão, terão a esperança de obtê-la, com um apego cada vez maior. Enfim, farão tudo para consegui-la.

Quando vocês estão decididos a obter as coisas boas desta vida, suas emoções perturbadoras se intensificam, o que por sua vez necessariamente acarreta mais ações nocivas. Essas emoções contraproducentes só causam problemas, fazendo com que vocês e os que os cercam sintam-se pouco à vontade. Mesmo que aprendam momentaneamente a praticar os estágios do caminho para a iluminação, vocês adquirem um número cada vez maior de coisas materiais e se envolvem com um número crescente de pessoas até o ponto em que vocês, por assim dizer, praticam as superficialidades desta vida, cultivam meditativamente o desejo de ter amigos e o ódio pelos inimigos, e tentam imaginar maneiras de satisfazer essas emoções perturbadoras. Nesse ponto, mesmo que ouçam falar na prática verdadeira e benéfica, terão a tendência de sentir: “É verdade, as coisas são assim, mas...” Um “mas” depois do outro. Na verdade, vocês se acostumaram as emoções perturbadoras no decorrer da sua exis­tência cíclica imemorial, mas agora acrescentaram a prática da superficialidade, o que torna a situação ainda pior, afastando-os do que realmente poderá ajudá-los.

 

Impelidos pela cobiça, não encontrarão conforto. Vocês não estão fazendo os outros felizes e certamente não estão causando a própria felicidade. À medida que se tornam mais egocêntricos, dizendo “meu isso, meu aquilo”, “meu corpo, minha saúde” qualquer pessoa que possa interferir na sua vida torna-se ime­diatamente objeto da sua raiva. Embora vocês tratem muito bem “meus amigos” e meus parentes, eles não podem ajudá-los quando vocês nascem e quando morrem; vocês chegam sozi­nhos à Terra e têm de partir sozinhos. Se no dia de sua morte um amigo pudesse acompanhá-los, o apego seria proveitoso, mas isso não é possível. Se o seu amigo da vida anterior pudes­se lhes ser útil de alguma forma quando vocês renascem em uma situação totalmente desconhecida, o apego a ele também seria algo a ser considerado, mas essa possibilidade também é inexis­tente. No entanto, no intervalo entre o nascimento e a morte, durante várias décadas, vocês dizem “meu amigo” e “meu irmão”. Essa ênfase inadequada não é nem um pouco útil e só serve para criar mais confusão, cobiça e ódio.

Quando os amigos são excessivamente enfatizados, os ini­migos também são. Quando vocês nascem, não conhecem ninguém e ninguém os conhece. Embora todas as pessoas desejem igualmente ser felizes e evitar o sofrimento, vocês gostam do rosto de algumas delas e pensam: “Estes são meus amigos”, e não gostam da face de outras e pensam: “Estes são meus inimi­gos”. Associam a elas identidades e apelidos, e acabam gerando o desejo pelas primeiras e o ódio pelas últimas. Que valor isso tem? Nenhum. O problema é que uma grande quantidade de energia está sendo despendida em preocupações com um nível que não vai além das questões superficiais desta vida. O profun­do perde para o trivial.

Se não tiverem praticado e no dia de sua morte se virem cercados por amigos chorosos e outras pessoas envolvidas nos seus assuntos, em vez de ter perto de si alguém que os faça lem­brar da prática virtuosa, surgirão problemas que vocês mesmos terão causado. Onde está o erro? No fato de vocês não estarem conscientes da impermanência.

 

                   AS VANTAGENS DE ESTAR CONSCIENTE DA IMFERMANÊNCIA

No entanto, se vocês não esperarem até a última hora para assi­milar o conhecimento de que vão morrer e avaliarem realistica­mente a sua situação agora, não se deixarão dominar por propó­sitos superficiais e temporários. Não descuidarão do que impor­ta a longo prazo. É melhor determinar desde o início que vocês vão morrer e investigar o que vale a pena. Se tiverem em mente a rapidez com que a vida desaparece, darão valor ao seu tempo e farão o que é importante. Ao ter um forte sentimento da imi­nência da morte, sentirão a necessidade de se envolver na práti­ca espiritual, de aperfeiçoar a mente, e não desperdiçarão o tempo com distrações como comer, beber, conversar extensamente sobre a guerra, ler romances e fazer fofoca.

Todos os seres desejam a felicidade e não querem o sofrimento. Utilizamos muitos níveis de técnicas para remover o sofrimento indesejável nas suas formas superficiais e profundas, mas são principalmente os seres humanos que se dedicam a téc­nicas na primeira parte da vida para evitar um sofrimento posterior. Tanto os que praticam quanto os que não praticam a reli­gião procuram, no decorrer da vida, reduzir alguns tipos de sofrimento e eliminar outros, às vezes até aceitando a dor como uma maneira de superar um sofrimento maior e alcançar certo grau de felicidade.

Todo mundo tenta remover a dor superficial, mas existe outra classe de técnicas que diz respeito a eliminar o sofrimento em um nível mais profundo e que visa, na pior das hipóteses, diminuir o sofrimento nas vidas futuras e, além disso, eliminar todas as formas de sofrimento não apenas para a própria pessoa, como também para todos os seres. A prática espiritual é desse tipo mais profundo.

Essas técnicas envolvem um ajuste de atitude; desse modo, a prática espiritual significa basicamente acomodar bem o pensamento. Em sânscrito, isso se chama dharma, que quer dizer “aquilo que afasta”. Significa que, ao ajustarmos atitudes contraproducentes, somos libertados de um nível de sofrimento e, portanto, mantidos afastados desse sofrimento particular. A práti­ca espiritual protege, ou afasta, a nós e às outras pessoas da dor e da aflição.

 

Primeiro vocês compreendem sua situação na existência cíclica e buscam manter-se afastados do sofrimento; posteriormente, estendem essa realização a outros seres e desenvolvem a compaixão, o que significa que vocês se dedicam a manter outros seres afastados do sofrimento. Faz sentido que, individualmente, escolham tomar conta de muitos, mas também serão mais felizes ao se concentrarem no bem-estar dos outros. A compaixão diminui o medo da dor pessoal e aumenta a força interior. Ela confere uma sensação de poder, de sermos capazes de concluir nossas tarefas. Ela empresta coragem.

Vou dar um pequeno exemplo. Recentemente, quando eu estava em Bodh Gaya, contraí uma infecção intestinal crônica. A caminho do hospital, a dor do meu abdômen era muito intensa e eu estava suando muito. O carro estava passando pela área do pico do Abutre (Buda pregou nesse local), onde os habitantes são extremamente pobres. O estado de Bihar é uma região carente, mas essa área particular o é ainda mais. Nem mesmo vi crianças indo ou voltando da escola. Só avistei a pobreza. E a doença. Lembro-me claramente de um menino com poliomielite, que usava nas pernas um aparelho enferrujado e muletas de metal nas quais ele apoiava as axilas. Era óbvio que não havia ninguém para tomar conta dele. Fiquei muito comovido. Mais adiante, em um ponto de chá, um velho que vestia apenas uma peça suja de roupa estava caído no chão sem que ninguém se importasse com ele.

Mais tarde, no hospital, meus pensamentos não paravam de girar em torno do que eu vira e fiquei refletindo em como era triste eu ter quem cuidasse de mim enquanto aquelas pobres pessoas não tinham ninguém que olhasse por elas. Fiquei pen­sando nessas coisas em vez de me concentrar no meu sofrimen­to. Embora o suor brotasse do meu corpo, minha preocupação estava em outro lugar.

 

Desse modo, apesar de o meu corpo estar sentindo uma imensa dor (um buraco tinha se aberto na minha parede intestinal) que me impedia de dormir, a minha mente não estava sofrendo nem medo nem desconforto. A situação só teria piora­do se eu tivesse me concentrado nos meus problemas. Este é um exemplo extraído da minha exígua experiência de como uma atitude de compaixão pode ajudar até a própria pessoa, eliminando um pouco da dor física e mantendo afastado o sofrimen­to mental, apesar do fato de que outras pessoas talvez não este­jam sendo diretamente ajudadas.

A compaixão fortalece sua perspectiva e com essa coragem vocês ficam mais relaxados. Quando seu ponto de vista inclui o sofrimento de um número ilimitado de seres, seu sofrimento parece pequeno comparado com o deles.

 

                          2 - Libertando-se do Medo

 

“Sua vida subsiste entre as causas da morte como uma lâmpada que se ergue em uma forte brisa”.

               PRECIOUS GARLAND (grinalda preciosa) de NAGARJUNA

 

O Primeiro Panchen Lama escreveu um poema de 17 estrofes que muitos tibetanos usam para concentrar suas reflexões diárias sobre a morte. O titulo do poema é: Wishes for Release from the Perilous Straits of the Intermediate State, Hero Releasing from Fright (Desejos para libertar-se das situações difíceis e perigosas do estado intermediário, o herói livrando-se do medo). A fim de ficar livre das situações amedrontadoras, como ser atacado por ladrões, bandidos e animais selvagens, vocês precisam ser salvos por um guia heroico e capaz. Analogamente, para libertar-se do horror das apari­ções ilusórias no processo da morte e durante o estado interme­diário entre as vidas, precisam praticar o conselho oferecido nesse poema, que fornece técnicas profundas para que vocês se livrem desses temores. Ao refletir sobre o poema, vocês apren­dem como a morte ocorre, e esse conhecimento lhes será útil quando o verdadeiro processo acontecer. A hora da morte é uma ocasião em que os níveis mais profundos da mente se mani­festam; a reflexão diária também abre a porta para esses estados.

O poema contém uma série de desejos que podem ser usa­dos por qualquer um de nós para que a mente reaja de um modo virtuoso quando a morte chegar Algumas pessoas procu­ram gerar uma poderosa motivação virtuosa na hora da morte, para fortalecer e ativar predisposições virtuosas, o que as conduz a um renascimento favorável. A meta delas é realizar uma transmigração para a vida seguinte a fim de dar seguimento à prática religiosa. Outras, como veremos, procuram utilizar os níveis mentais mais profundos que se manifestam quando a pessoa está morrendo, para alcançar estados espirituais mais avançados.

Todos os praticantes visam ser úteis aos outros.

O poema do Primeiro Panchen Lama descreve três níveis de prática espiritual — para as pessoas altamente treinadas, para as de padrão médio e para as pouco experientes —, sob a forma de desejar permanecer consciente durante o processo da morte, o estado entre as vidas e o renascimento. Ele descreve detalhadamente o que se deve fazer em cada estágio.

Vocês precisam ado­tar um nível apropriado de prática no restante da vida para que, na hora da morte, possam vencer com sucesso cada estágio.

Quando a morte efetivamente chegar, se vocês não estive­rem acostumados a essa prática, será muito difícil realizar com êxito qualquer reflexão proveitosa. Por conseguinte, agora e o momento de praticar e preparar-se enquanto ainda estão felizes e as circunstâncias de sua vida são favoráveis. Se fizerem isso, na ocasião de verdadeira necessidade e pressão, não haverá preocupações. Se não se prepararem quando tiverem tempo para ouvir, pensar, meditar e fazer perguntas, não terão tempo no último dia e se verão sem um protetor ou refúgio, restando-lhes apenas o arrependimento. É melhor que muito antes desse momento comecem a se dedicar à prática contínua da reflexão sobre o processo da morte e do estado intermediário entre as vidas, ima­ginando as etapas para que elas se tornem familiares. Essa atitu­de é muito importante, porque assim vocês poderão alcançar o sucesso compatível com sua maior capacidade.

Não basta apenas conhecer o processo da morte e as prati­cas ligadas a ele; é preciso familiarizar-se mais com eles ao longo dos meses e dos anos. Se agora, quando seus sentidos ainda estão claros e a consciência não degenerou, sua mente não se tornar proveitosa para o caminho da virtude e não se acostumar com ele, ela terá dificuldade, na hora da morte, em avançar por vontade própria em uma trajetória desconhecida. Na ocasião da morte, vocês podem estar fisicamente fracos por causa da doen­ça e mentalmente deprimidos devido a um medo terrível.

Portanto, é fundamental que adquiram intimidade com as práticas relacionadas com o processo da morte. Não há nenhum substituto para isso. Não há nenhuma pílula que vocês possam tomar.

O esforço necessário para assimilar essas práticas depende da motivação interior decorrente da convicção de que as experiências de prazer e de dor correspondem, diretamente, às suas ações virtuosas e não virtuosas. Assim sendo, no início é importante aperfeiçoar a idéia das ações de causa e efeito, ou carma, com base no conhecimento de que as boas ações derivam da mente domada e as más ações, da mente indomada. Embora ações vir­tuosas e não virtuosas sejam praticadas pelo corpo, pela palavra e pela mente, esta última é a mais importante, de modo que a base do budismo é a transformação da mente. A ênfase do ensinamento budista é na mente domada, cujo alicerce é a percep­ção de que vocês são os criadores do seu prazer e da sua dor Buda disse as seguintes palavras:

“Os budas não lavam as más ações com água. Não removem com as mãos o sofrimento dos seres que transmigram. Nem transferem suas realizações para outros. Os seres são libertados através dos ensinamentos da verdade, da natureza das coisas”.

 

Vocês são os seus próprios protetores; o conforto e o des­conforto estão em suas mãos.

 

                   O STATUS DA LINHAGEM DOS PANCHEN LAMAS

O Primeiro Panchen Lama, cujo nome era Losang Chokyi Gyeltsen, foi um dos mentores do Quinto Dalai Lama no sécu­lo XVII. Antes dessa época, embora ele fosse um monge comum, as pessoas do local e seu próprio mestre o consideravam uma encarnação de um grande ioga tibetano, Ensaba. Ele talvez não tenha sido um grande erudito, mas era um praticante magnífico. Como o seu mestre Sangyay Yeshay, ele nutria um respeito genuíno pelas outras linhagens da prática budista.

Nas obras completas do seu mestre, encontramos um vocabulário religioso de outras tradições e essa abertura pode ter influencia­do a prática de Panchen Losang Chokyi Cyeltsen. Ele sem dúvi­da contribuiu muito para o respeito mútuo e a harmonia entre as escolas tibetanas do budismo.

O Panchen Lama anterior, Lobsang Trinley Lhundrup Choekyi Gyeltsen, o décimo na linha de reencarnações, morreu em 1989. Ele e eu nascemos em uma província situada na região nordeste do Tibet chamada Amdo. Houve uma pequena con­trovérsia quando ele foi escolhido como a reencarnação do seu predecessor. Os funcionários do seu mosteiro em Shigatse, situado na região ocidental do Tibet, estavam na província de Amdo em uma área sob a influência de um líder militar muçul­mano. Eles chegaram à conclusão de que Lobsang Trinlev Lhundrup Choekyi Gyeltsen era a verdadeira reencarnação do Nono Panchen Lama. No Acordo de Dezessete Pontos que o governo chinês promoveu como uma maneira de estabelecer um relacionamento com o Tibet, os chineses indicaram, ou talvez tenham insistido, que o governo tibetano reconhecesse um menino que já estava nas mãos deles, como o Décimo Panchen Lama. Desse modo, seu reconhecimento foi um pouco controverso, mas ele demonstrou ser corajoso e um grande herói, a serviço do budismo e do povo tibetano. Não há dúvida quanto à sua autenticidade.

Quando o conheci, por volta de 1952, ele era muito ino­cente, sincero e inteligente. Em 1954, no ano em que ambos fomos à China, ele veio do Tibet ocidental para unir-se a mim em Lhasa, a capital, por alguns dias. A seguir, foi para a China através da província Amdo e eu fui através de Kongpo. Talvez devido ao descontentamento de alguns dos seus funcionários, a sua atitude mudou um pouco.

Em 1956, quando ambos estávamos na Índia durante a cele­bração do aniversário de 2.500 anos do Buda, as indicações dessa mudança ainda eram pequenas. No entanto, como eventos muito tristes — batalhas com tropas chinesas — tiveram lugar em 1957 e 1958 nas duas províncias orientais, Amdo e Kham, informações sobre as atrocidades cometidas pelo exército chinês finalmente o alcançaram. Ele então compreendeu plenamente, talvez tarde demais, que todo o Tibet deveria se unir para enfrentar essa nova ameaça. No meu exame escolástico final, ele enviou um funcionário monástico de sua confiança, que me explicou que o modo de pensar do Panchen Lama tinha mudado bastante devido às recentes notícias recebidas da região onde ele nascem. Sob essa nova ameaça, ele tomara a firme deci­são de que seu mosteiro em Shigatse iria trabalhar em conjunto com o governo tibetano.

Depois que fugi para a Índia em 1959, o Panchen Lama me substituiu como o líder dentro do Tibet e, durante vários anos, teve um comportamento maravilhoso. Finalmente, foi colocado em prisão domiciliar e feito prisioneiro. Depois que foi liberta­do, usou sabiamente a oportunidade, esforçando-se ao máximo para melhorar a situação da religião budista e da cultura tibetana. Quando uso a palavra “sabiamente” quero dizer que ele não abordou questões sensíveis como a independência do Tibet, empregando toda a sua energia na preservação do budismo e da cultura tibetana. Houve até mesmo ocasiões em que ele repreendeu publicamente os tibetanos que só usavam roupas no estilo chinês e só falavam chinês. Esses tibetanos foram pressionados a usar trajes tibetanos e a expressarem-se no idioma tibetano. Ele demonstrou sua sinceridade por meio dessas ações.

Sua morte foi muito repentina e prematura, e me entriste­ceu muito. Quando ele estava vivo, havia um líder tibetano que falava no país em nome do povo, enquanto no exterior eu pro­curava ser útil no maior número de maneiras possíveis. Agora que se foi, não há mais ninguém no Tibet capaz de fazer o que ele fazia. As pessoas estão velhas demais ou excessivamente assustadas. Sua morte foi uma grande perda.

Assim que ele faleceu, mandei uma mensagem para o go­verno chinês dizendo que gostaria de enviar uma delegação espiritual para fazer algumas oferendas no mosteiro do Panchen Lama, mas meu pedido foi rejeitado. Alguns anos depois, pedi ao governo chinês que permitisse que uma delegação espiritual partisse em busca da reencarnação do Panchen Lama, mas uma vez mais negaram minha solicitação.

Obviamente, o ponto importante era que a reencarnação do Panchen Lama fosse autêntica. Naquela época, alguns tibetanos insistiram em que a reencarnação do Panchen Lama teria de ser procurada fora do Tibet ocupado, mas fui de opinião que o motivo deles era político. O que realmente importava era encontrar a reencarnação genuína, quer dentro, quer fora do Tibet. Se a reencarnação do Panchen Lama estivesse no Tibet, eu sabia que seria necessário discutir o assunto com o governo chinês, de modo que pedi para enviar uma delegação espiritual a fim de procurar essa reencarnação.

O pedido foi recusado, mas nesse ínterim, através de um canal informal privado, mantive contato com um Lama, Cha­drel Rinpochay, que me enviou uma relação de 25 candidatos e várias fotografias. Assim que vi a foto de Gedhun Choekvi Nyima, tive uma sensação de afinidade e de intimidade. Fiz algumas adivinhações, que foram muito positivas para ele. Finalmente, realizei uma adivinhação fazendo girar uma tigela com bolas de massa contendo o nome dos candidatos finais em tiras de papel enroladas dentro delas. Foi como se a bola com o nome dele tivesse voado para fora da tigela. Esses passos me con­feriram a certeza de que ele é a reencarnação do Décimo Panchen Lama.

No entanto, não fiz a proclamação. À medida que o tempo ia passando, um número cada vez maior de tibetanos, especial­mente os que moravam no Tibet, insistiam em que eu tomasse a decisão. Continuei a tentar comunicar-me com o governo chinês, mas não tive êxito. Finalmente achei que seria apropriado fazer a proclamação na data em que Buda ministrou pela primei­ra vez ensinamentos sobre Kalachakra, ou a Roda do Tempo, com a qual o Panchen Lama tem uma conexão especial. Fiz outra adivinhação através das bolas de massa para verificar se deveria ou não fazer a proclamação e obtive uma resposta positiva.

Anunciei então o nome do novo Panchen Lama e, no dia seguinte, fui seriamente censurado pelo nosso amo e senhor, o governo chinês. Mas realmente assustador foi o fato de que poucos dias depois, o jovem Lama reencarnado e seus pais foram retirados do seu lugar de origem, levados para Lhasa e depois para a China, e a partir de então nunca mais se teve noticias dele. O ocorrido me deixou muito triste, porque a criança teve de sofrer os efeitos das minhas atividades, consideradas ilegais pelo governo chinês.

Os chineses acreditam que devem ter a palavra final. Isso de fato aconteceu algumas vezes na história tibetana, quando houve uma divergência interna entre grupos na comunidade tibetana, sobre uma escolha restrita de candidatos. Eles se volta­ram para o imperador da China, que era ao mesmo tempo budista e patrono do budismo tibetano, para que ele tomasse a decisão final diante de uma imagem do Buda Shakyamuni usan­do um recipiente dourado, do qual era retirada uma vareta onde estava gravado um nome. Esses foram casos em que os tibetanos eliminaram a discussão eclesiástica de uma maneira religiosa.

Meu predecessor, o Décimo Terceiro Dalai Lama, foi esco­lhido por unanimidade pelo governo tibetano após os procedimentos internos habituais sem nenhuma consulta externa Quando lhe pediram que opinasse sobre o Nono Panchen Lama, ele declarou sua escolha entre os candidatos, mas era jovem demais para que sua autoridade fosse completa. Como os tibetanos se inclinam para o caminho mais fácil, eles se voltaram para a consulta externa do recipiente dourado, que foi realizada pelo embaixador da China. Ainda assim, o nome que o Décimo Terceiro Dalai Lama fortemente recomendara foi o extraído do recipiente dourado.

Como os tibetanos confiavam no imperador chinês, é natu­ral que envolvessem o seu patrono e defensor em certas ativida­des religiosas importantes. Esse tipo de situação modificou-se completamente hoje em dia com o governo chinês atual, cujo interesse primordial é o controle. Para fazer sua escolha pessoal do atual Panchen Lama, os chineses fizeram uma adivinhação com o recipiente dourado, mas ela foi predeterminada; ele e os seus pais já aguardavam no templo a proclamação.

O governo chinês colocou então em prisão domiciliar o monge que, atuan­do como o líder do budismo tibetano, “escolheu” a vareta. Trata-se certamente de um governo totalitário.

Não obstante, em duas ou três ocasiões assisti a vídeos do Panchen Lama oficial do governo chinês, Cyaltsen Norbu, e ele parece competente. Em um dos vídeos, ele estava transmitindo um ensinamento relacionado com um ritual de longa vida. Ele sabia de cor a cerimônia e explicou muito bem o significado do ritual.

 

                   SINOPSE DO POEMA

O poema de 17 estrofes do Primeiro Panchen Lama é um guia para técnicas budistas específicas, destinadas a fazer com que a pessoa supere o medo da morte e possivelmente utilize os estágios da morte para o progresso espiritual. Espeto que essa descrição das experiências psicológicas interiores e das mudanças físicas proporcione uma reflexão produtiva para os que se inte­ressam pela morte e pelos níveis mais profundos da mente e também que sirva como fonte de informações para cientistas que têm interesse em trabalhar com budistas eruditos e iogues sobre assuntos relacionados com a morte. Embora as pessoas ligadas às ciências tenham em geral encarado a mente como um produto do corpo, alguns especialistas estão começando a pen­sar nela como uma entidade mais independente, capaz de afetar o corpo. É evidente que emoções fortes, como o ódio, podem afetar o corpo, mas estão sendo realizadas experiências relacio­nadas com práticas específicas nas quais a mente é deliberadamente treinada, como o desenvolvimento da fé, da compaixão, da concentração unidirecional, da reflexão sobre o vazio ou meditações especiais da tradição Nyingma do budismo tibetano. Essas experiências demonstram que o treinamento mental pode ter uma função autônoma, influenciando o corpo e até mesmo dessensibiizando-o. Creio que uma consulta a enfermeiros, es­pecialmente nas clínicas para pacientes com doenças terminais, sobre os sinais iminentes da morte também seria proveitosa.

As primeiras sete estrofes do poema do Panchen Lama explicam como abordar a morte. Após uma estrofe inicial que fala sobre buscar refúgio em Buda, na sua doutrina e na comu­nidade espiritual (detalhados neste capítulo), as duas estrofes seguintes (Capítulo 3) tratam da importância de dar valor à vida atual e considerá-la uma oportunidade para a prática espiritual. Elas descrevem como usar essa preciosa situação refletindo sobre a impermanência do presente a fim de debilitar nosso apego excessivo às experiências transitórias. A quarta e a quinta estro­fes (Capitulo 4) mencionam a adoção de uma perspectiva capaz de lidar tanto com o intenso sofrimento que pode acompanhar os momentos que cercam a morte quanto com as ilusões que aparecem quando estamos morrendo. A sétima e a oitava estro­fes (Capitulo 5) estipulam como alcançar as condições mais favoráveis para a morte lembrando o que praticar e permane­cendo alegre.

As três estrofes seguintes (Capitulo 6) descrevem detalhadamente as aparições que ocorrem durante as quatro primeiras fases do processo da morte e como meditar no decorrer delas. Essa seção vale-se do nosso conhecimento sobre o colapso dos elementos que sustentam a consciência e as experiências correspondentes. Essas abrem gradualmente o caminho para que três mentes sutis, mais profundas, se manifestem como é descrito na estrofe seguinte (Capítulo 7). Esse capitulo expõe a estrutura da mente e do corpo segundo o tantra ioga superior. A décima segunda e a décima terceira estrofes (Capítulo 8) abordam a experiência culminante da mente inata fundamental de clara luz. Esse nível mais profundo da mente é a base de toda a vida consciente.

As quatro últimas estrofes (Capítulos 9 e 10) descrevem o estado intermediário (após a morte e antes da vida seguinte) e mostram como reagir aos eventos com freqüência horríveis que podem ocorrer durante esse estado. Elas detalham como vários níveis de praticantes podem procurar direcionar seu renasci­mento seguinte.

Em conjunto, essas 17 estrofes apresentam a amplitude total da preparação para a morte na qual eliminamos as condições desfavoráveis, obtemos condições favoráveis, aprendemos a nos engajar na prática espiritual durante o processo da morte, tornamo-nos aptos a lidar com o estado intermediário entre as vidas e influenciar o renascimento subseqüente.

 

               O Início do Poema: A Obediência a Manjushri

 

Antes de o poema começar, O Primeiro Panchen Lama expres­sa devoção e obediência à Manjushri, a manifestação física da sabedoria de todos os Budas. O autor considera Manjushri indi­ferençável do seu Lama, ou mestre. A razão pela qual ele ofere­ce obediência à Manjushri é a seguinte.

A base de uma boa morte e de um estado intermediário satisfatório entre as vidas, e até mesmo da obtenção do estado de Buda em uma progressão de vidas, é a prática bem sucedida da clara luz da morte. Existem duas classes de prática: a da compai­xão e a da sabedoria. A prática da clara luz durante a morte está incluída na prática da sabedoria; por conseguinte, está contida nos estágios do ensinamento da visão profunda da compatibilidade da aparição com o vazio da existência inerente, cuja trans­missão deriva do nosso amável mestre Buda Shakyamuni através de Manjushri. (Os estágios dos ensinamentos sobre vastas moti­vações e ações compassivas foram analogamente transmitidos pelo Buda Shakyamuni, porém através de Maitreya e Avalo­kiteshvara.) Desse modo, como a prática bem-sucedida da morte e do estado intermediário entre as vidas diz respeito principalmente ao fator da sabedoria, o Primeiro Panchen Lama expressa devoção a Manjushri.

 

Obediência ao Guru Manjushri.

 

Após prestar obediência à manifestação da sabedoria, ele inicia o poema propriamente dito.

 

               Primeira Estrofe

 

Eu e todos os seres através do espaço, sem exceção,

Buscamos refúgio até a suprema iluminação

Nos Budas do passado, do presente e do futuro, na doutrina e na comunidade espiritual.

Que sejamos libertados dos temores desta vida, do estado intermediário e do seguinte.

 

Com uma atitude de auto-ajuda, os budistas buscam refúgio no Buda como mestre, na doutrina de Buda (estados de realiza­ção e ensinamentos sobre eles) como um refúgio efetivo e na comunidade espiritual como guia para esse refúgio. Eles desen­volvem a convicção de que a interiorização da doutrina pode oferecer proteção contra o sofrimento. Eles consideram essas Três jóias (Buda, sua doutrina e a comunidade espiritual) como o refúgio final.

Buscar refugio apenas para aliviar o próprio sofrimento e libertar-se da existência cíclica não satisfaz às qualificações do refugio altruísta. Sua perspectiva não seria ampla. Sua atitude ao buscar refúgio deve estar voltada para o beneficio de todos os seres sencientes, deve almejar que eles se libertem do sofrimen­to e alcancem o estado de Buda. Vocês devem buscar a onisciência do estado de Buda, a fim de satisfazer o objetivo primordial: ajudar os outros.

Vocês devem pensar em todos os seres sencientes por todo o espaço e procurar alcançar a suprema iluminação, que supera a dos praticantes de concentração mais estreita porque envolve a eliminação das obstruções, tendo em vista não apenas libertar-se da existência cíclica como também atingir a onisciência. Essa iluminação superior, ou supremo nirvana, está além dos extremos das tendências, quer na direção de ser apanhado na existência cíclica do ciclo repetitivo do nascimento, velhice, doença e morte (denominado samsara), quer na direção da paz inativa, um estado no qual a pessoa se liberta do ciclo de sofrimento sem possuir a capacidade plena de ajudar os outros.

 

O Primeiro Panchen Lama aconselha a seus leitores que busquem refúgio no Buda, na sua doutrina e na comunidade espiritual a fim de alcançar a mais elevada iluminação em bene­ficio de outros seres sencientes. Esse refúgio chama-se causal; vocês estão se refugiando nas Três Jóias que estão inculcadas nas seqüências mentais dos outros, colocando sua confiança espe­cialmente na cessação do sofrimento e nos estados espirituais que eles efetivaram, para superar o sofrimento. Suplicar àqueles que possuem as Três Jóias evoca a compaixão deles, não por gerá-la neles e sim porque vocês se abrem a esse sentimento.

Ao tomar o refúgio causal, vocês estão praticando as doutri­nas ensinadas pelo Mestre Buda tendo como modelo a comuni­dade espiritual de elevada realização; estão efetivando caminhos espirituais e muitos níveis da cessação do sofrimento. Desse modo, se tornam membros da comunidade espiritual de elevada realização e removem pouco a pouco todas as obstruções que os impedem de libertarem-se da existência cíclica, bem como os obstáculos à onisciência, tornando-se então um Buda. Vocês se libertam de todos os temores e alcançam a onisciência, de modo que conhecem a disposição das outras pessoas e sabem que técnicas irão ajudá-las. No interesse de alcançar esse refúgio extre­mamente produtivo, essa estrofe suplica às três fontes causais de refúgio que invoquem a compaixão delas.

Como o refúgio é o início da prática budista, o primeiro desejo do texto do Primeiro Panchen Lama está relacionado com ele. Sem o refúgio, é difícil que outras práticas sejam bem sucedidas. No entanto, uma atitude de total confiança nas Três Jóias não é suficiente. Buda disse o seguinte: “Ensino a vocês o caminho da libertação. Saibam que a libertação depende de vocês. Ele não oferece a realização como um presente; vocês precisam praticar a moralidade, a meditação concentrada e a sabedoria".

Considerem, por exemplo, a recitação do mantra om mani padme hum, que é praticada com a intenção de invocar dentro de vocês a compaixão por todos os tipos de seres sencientes. Ao encerrar uma sessão de repetição — 21, 108 ou mais vezes —, o valor da prática é dedicado através da recitação de uma oração relacionada com Avalokiteshvara, pois ele é a manifestação física da compaixão de todos os Budas.

 

Através das virtudes desta prática,

Que eu possa rapidamente atingir um estado

Idêntico ao de Avalokiteshvara

Para ajudar todos os seres sencientes a alcançar o mesmo estado.

 

Não existe a menor possibilidade de vocês atingirem o esta­do de Buda através da mera recitação de om mani padme hum, mas, se sua prática for associada ao verdadeiro altruísmo, ela pode funcionar como uma causa para a obtenção do estado de Buda. Analogamente, o fato de vocês tocarem, verem ou ouvirem um guru qualificado pode exercer um impacto positivo capaz de favorecer o desenvolvimento de uma experiência espiritual mais profunda. Quando meu mentor mais antigo, Ling Rinpochay, e eu tocávamos a testa um do outro no início de um encontro mais formal ou, em outras ocasiões, quando eu pegava a mão dele e a levava até a minha testa, o gesto me conferia emocionalmente um forte sentimento de intimidade, relacionado com uma fé e uma confiança mais intensas. Na época de Buda, quando alguém que realmente o respeitava e amava tocava o pé dele, esse contato certamente produzia algum beneficio. No entanto, se uma pessoa que não tinha nem fé nem respeito por Buda agarrasse a perna dele e pressionasse a cabeça contra ela, provavelmente nenhuma bênção seria gerada. Embora algo seja exigido da parte do guru, muito mais é requerido do discípulo.

Quando pediam a um maravilhoso Lama da província Amdo no Tibet que concedesse uma bênção colocando a mão sobre a cabeça do praticante, ele dizia o seguinte: “Não sou um Lama capaz de conferir a libertação pondo uma das mãos, que possui a mesma natureza do sofrimento, sobre a cabeça de uma pessoa”.

 

                   RESUMO DOS CONSELHOS

1 - A motivação da prática deve ser o beneficio de todos os seres vivos - a vontade de que eles se libertem do sofri­mento e alcancem a perfeição. Ajustem sempre sua motivação para querer ajudar o mais possível os outros. Tentem, pelo menos, não fazer mal a eles.

2 - Os Budas são mestres do caminho espiritual; não ofere­cem a realização como um presente. Vocês precisam pra­ticar todos os dias a moralidade, a meditação concentra­da e a sabedoria.

 

                             3 - Preparando-se para Morrer

 

“Sem saber que preciso deixar tudo para trás e partir, pratiquei várias ações nocivas em atenção a amigos e Inimigos”. - BUDA

 

                     Segunda Estrofe:

 

Que possamos extrair a essência significativa da sustentação desta vida

Sem sermos distraídos pelas questões insensatas da vida,

Pois esta boa base, difícil de obter e fácil de se desintegrar,

Apresenta a oportunidade de escolha entre o lucro e a perda, o conforto e a miséria.

 

A consumação da prática bem-sucedida requer condições internas e externas favoráveis, as quais vocês já têm. Por exemplo, na condição de seres humanos, temos um corpo e uma mente que nos permitem entender os ensinamentos. Assim sendo, satisfazemos as condições internas mais importantes. Externamente, é preciso que as práticas sejam transmitidas e se tenha liberdade para praticar. Na presença dessas circunstâncias, se vocês se esforçarem, o sucesso está garantido. No entanto, se não se empenharem, o desperdício será enorme. É necessário que valorizem essas condições, pois quando elas não estão presentes, vocês nem mesmo têm uma oportunidade. Vocês devem dar valor às possibilidades atuais.

Como vocês obtiveram tanto um corpo humano quanto as condições externas corretas, por meio do desejo de praticar, podem fazer sua vida valer a pena. Vocês precisam fazer isso. É chegada a hora de fazê-lo. Se usarem essa oportunidade para tra­balhar em causas construtivas, poderão realizar feitos muito poderosos; se forem motivados pelos três venenos da cobiça, do ódio e da ignorância, vocês podem igualmente praticar, de várias maneiras, ações nocivas e muito poderosas.

É muito difícil para outros seres, como os animais, que não possuem nossa excelente base humana, alcançar virtudes por meio do poder individual. Temos conhecimento de raros casos em que fizeram coisas virtuosas na presença de condições exter­nas adequadas, mas eles têm dificuldade em pensar. Quando os animais agem com cupidez ou ódio, eles o fazem de uma forma temporária ou superficial; são incapazes de praticar ações noci­vas físicas ou verbais muito poderosas ou em grande quantidade. No entanto, os seres humanos podem pensar a partir de nume­rosos pontos de vista. Como a nossa inteligência é mais eficaz, podemos atingir o bem e o mal em grande escala.

Esse dom humano, quando usado para o bem, pode ser muito eficaz. Se vocês forem cuidadosos e procurarem praticar boas ações, os objetivos desta vida e os das vidas futuras poderão ser alcançados. Se não tomarem cuidado, as suas más ações poderão gerar um tremendo sofrimento. É por esse motivo que, embora muitos tipos de seres tenham evoluído neste planeta desde a sua formação, foram os humanos que realizaram os maiores progres­sos, mas também foram eles que aprenderam a produzir mais medo, sofrimento e outros problemas, ameaçando inclusive des­truir o planeta. Tanto o melhor quanto o pior estão sendo feitos por seres humanos. Como vocês possuem os dotes físicos neces­sários para alcançar os benefícios e a perda, o conforto e a miséria, precisam saber como usá-los de um modo infalível.

Se soubessem que teriam o dom dessa escolha no decorrer de uma longa seqüência de vidas, talvez fosse aceitável não usá­-lo sabiamente nesta vida. No entanto, este não é o caso. A muta­bilidade de qualquer fenômeno é um indício de que ele depen­de de causas, de modo que a instabilidade do nosso corpo é um sinal de que ele também depende de causas. Elementos do seu pai e da sua mãe estão envolvidos como causas e condições do seu corpo, mas para que o óvulo da sua mãe e o espermatozóide do seu pai se unam, ainda outras causas se fazem necessárias.

 

Estas dependem, por exemplo, do óvulo e do espermatozóide dos pais dos seus pais e assim por diante, recuando ao óvulo e ao espermatozóide de alguns seres sencientes após a formação do mundo. Ainda assim, se a criação deste corpo humano dependesse apenas do óvulo e do espermatozóide, como eles não estavam presentes na época da formação deste sistema de mundo e como não surgiram desprovidos de uma causa (considerando-se a conseqüência de que teriam então que aparecer em todos os lugares o tempo todo ou nunca), isso significa que também existem outros fatores, ou seja, o carma.

Cada sistema de mundo possui eras de formação, continua­ção, desintegração e, finalmente, um período de vazio. Após essa seqüência quádruplo, um novo sistema de mundo se forma a partir da circulação dos ventos, ou energias, e a partir do subseqüente desenvolvimento de outros elementos. Quer esse processo seja explicado de acordo com as opiniões científicas de hoje, quer consoante a filosofia budista, existe um momento em que um sistema de mundo específico é inexistente. O início do processo de formação de um sistema de mundo depende de muitas causas e condições, as quais, por sua vez, são fenômenos causados. Estes precisam ser formados por uma divindade cria­dora ou pela força do carma (ações anteriores) das pessoas que nascerão lá e usarão aquele ambiente. A partir de uma perspec­tiva budista, é impossível que a criação do que é causado, e por­tanto impermanente (inclusive um sistema de mundo), dependa da supervisão, ou força motivadora, de uma divindade não cau­sada e, por conseguinte, permanente. Antes, é através da força do carma dos seres sencientes que tem lugar o processo de formação do ambiente. A única escolha alternativa é que ele seja não causado, o que seria absurdo.

Assim como a criação e a desintegração do ambiente depende de causas e condições, o mesmo é verdade com relação à qualidade de vida dos seres sencientes. Uma das regras sóli­das de causa e efeito diz que as boas causas produzem bons resultados e as causas nocivas geram maus resultados.

 

Isso significa que qualquer efeito positivo a longo prazo é precedido pela acumulação de uma boa causa. Analogamente, para produzir um efeito vigoroso, é necessário ter uma causa poderosa. No que tange à natureza física do ser humano, tivemos de acumular nas vidas anteriores as inúmeras causas e condições poderosas que individualmente produziram a forma, a cor, a acuidade dos sentidos e outras qualidades do nosso corpo.

Se depois de ter praticado uma ação virtuosa e acumulado o poder dela, este permanecesse sem degenerar até dar frutos nesta vida ou em uma existência futura, ele não seria tão frágil. No entanto, esse não e o caso. Mais exatamente, a geração de um intenso estado mental não virtuoso, como a raiva, subjuga a capacidade de um poder virtuosamente implantado, fazendo com que ele não consiga germinar, como quando chamuscamos uma semente. Inversamente, a geração de uma vigorosa atitude virtuosa refreia as forças estabelecidas pelas não-virtudes, tornando-as incapazes de manifestar seus efeitos. Assim sendo, é necessário não apenas alcançar um grande número de causas construtivas poderosas como também evitar forças contrárias que fariam com que essas causas benéficas degenerassem.

As boas ações requeridas para a acumulação dessas causas, ou potências, surgem da mente domada, ao passo que as más ações nascem da mente indomada. Os seres comuns como nós estão acostumados à mente indomada desde tempos imemoriais. Considerando essa predisposição, podemos concluir que as ações praticadas com uma mente indomada são mais poderosas para nós e as praticadas com uma mente domada são mais fracas. É importante reconhecer que esse excelente apoio vital do corpo humano que hoje possuímos é um resultado saudável de uma abundância de ações boas e poderosas de uma mente domada no passado. Foi muito difícil alcançar esse resultado e, por ele ser muito raro, vocês precisam tomar cuidado e usá-lo bem, tomando medidas para que ele não seja desperdiçado. Se não fosse raro e difícil de obter, vocês não precisariam ser cuidadosos, mas esse não é o caso.

 

Se esse dom humano, tão difícil de alcançar, fosse estável e permanente, sem ter a tendência de se deteriorar, haveria tempo no futuro para utilizá-lo. No entanto, esse sistema de apoio vital é frágil e facilmente se desintegra a partir de inúmeras causas externas e internas. O Four Hundred Stanzas on the Yogic Deeds of Bodhisattvas (Quatrocentas estrofes sobre os feitos iogues dos bodhisatt­vas) de Aryadeva diz que como o corpo depende dos quatro ele­mentos da terra, da água, do fogo e do vento, os quais, por sua vez, fazem oposição uns aos outros; a felicidade física é apenas um equilíbrio ocasional desses elementos e não uma harmonia duradoura. Por exemplo, se estamos com frio, o calor é inicialmente agradável, mas o excesso dele precisa ser evitado. O mesmo é verdade com relação às doenças; o remédio para uma enfermidade pode acabar dando origem a outra moléstia, a qual, por sua vez, precisa ser neutralizada. Nosso corpo é uma fonte de grandes problemas e complicações; a felicidade física é meramente a ausência temporária desses problemas.

Nosso corpo precisa receber uma nutrição completa, os ali­mentos. Mas. quando comemos muito, a coisa necessária para gerar a saúde torna-se uma fonte de doença e dor. Nos países onde a comida é escassa, a fome e a inanição são as grandes cau­sas do sofrimento, mas naqueles onde é abundante e está dispo­nível em muitas variedades nutritivas, o sofrimento ainda está presente devido à ingestão excessiva de alimentos e à indigestão. Quando existe um equilíbrio sem que problemas se manifestem, dizemos que encontramos a “felicidade”, mas seria tolo achar que ficamos, ou que um dia poderíamos ficar, livres da doença. Nosso tipo de corpo é um ninho de problemas. Não creiam que não morreríamos na ausência da doença, das guerras ou da fome. A natureza do corpo é desintegrar-se. Desde a concepção, o corpo está sujeito a morrer.

Desse modo, o corpo humano é um dom precioso, ao mesmo tempo poderoso e frágil. Graças ao simples fato de esta­rem vivos, vocês são uma ocorrência muito importante e trazem consigo uma grande responsabilidade, O bem poderoso pode ser alcançado para vocês e para os outros, de maneira que se dei­xar distrair pelos assuntos secundários desta vida seria um enor­me desperdício. Vocês devem desejar usar a vida que têm neste corpo de um modo eficaz, e rogar ao seu guru, aos três refúgios e a outras fontes que os ajudem a fazer isso, instigando-se a par­tir do interior e buscando ajuda externa. Com esse objetivo, além de recitar as palavras desta estrofe, devem refletir sobre o significado dela, fazendo com que ele surja na sua mente.

 

Em resumo, como este corpo humano, que sustenta sua vida, é benéfico, foi difícil de obter e é fácil de se desintegrar, vocês devem usá-lo tanto para o seu benefício quanto para o dos outros. Os benefícios provêm da mente domada: quando a sua mente está tranqüila, relaxada e feliz, os prazeres externos como a boa comida, as vestimentas e conversa tornam as coisas ainda melhores, mas a ausência deles não os deixam abatidos. Quando sua mente não está tranqüila e domada, por mais maravilhosas que sejam as circunstâncias externas, vocês são oprimidos por receios, expectativas e temores. Com a mente domada, aprecia­rão a riqueza ou a pobreza, a saúde ou a doença, e até poderão morrer felizes. Com a mente domada, é maravilhoso ter muitos amigos, mas também é aceitável não ter nenhum. A base da feli­cidade e do bem-estar reside na mente tranqüila e domesticada.

No que diz respeito aos outros, quando a sua mente está serena e domesticada, a vida torna-se mais agradável para os seus amigos, cônjuge, pais, filhos e conhecidos, sua casa fica tranqüi­la e todos que nela residem passam a desfrutar uma excelente sensação de relaxamento. Ao entrar na sua casa, as outras pessoas detectam um sentimento de felicidade. Quando sua mente não está tranqüila e domesticada, além de vocês ficarem repetidamente zangados, as outras pessoas, quando entram na sua casa, sentem de imediato que nela existe muita discórdia e que vocês freqüentemente ficam perturbados e irritados.

Como domar a mente gera a felicidade, e deixar de fazer isso conduz ao sofrimento, usem a vida para reduzir o numero de atitudes não domadas — como controlar os inimigos, promo­ver os amigos, aumentar o lucro financeiro e coisas semelhantes — e domar, ou treinar, o mais possível sua mente. Essa e a manei­ra de extrair a essência significativa do precioso e tênue corpo humano.

 

                         RESUMO DOS CONSELHOS

1 - Compreendam o valor do corpo humano com o qual foram contemplados, pois ele é o resultado de muitas boas causas do passado. Reconheçam o fato de que os ensinamentos estão disponíveis e prontos para serem implementados.

2 - Como esta preciosa vida humana pode ser usada de maneiras poderosamente benéficas ou destrutivas, sendo em si mesma extremamente frágil, utilizem-na adequa­damente agora.

3 - A felicidade física é apenas um equilíbrio ocasional dos elementos no corpo e não uma profunda harmonia. Entendam o temporário pelo que ele é.

4 - A mente domada os deixa tranqüilos, relaxados e felizes, ao passo que se a mente não estiver serena e dócil, por mais maravilhosas que sejam suas circunstâncias externas, vocês serão perseguidos por receios e preocupações. Compreendam que a base da felicidade e do seu bem-estar reside na mente tranqüila e domada. Ela também re­presenta um grande benefício para aqueles que os cercam.

 

                     Terceira Estrofe

 

Que possamos compreender que não há tempo a perder, Pois a morte é definida, mas a hora da morte é indefinida. O que se reuniu se separará e o que se acumulou será consumido sem resíduos.

No fim da subida vem a descida, a finalidade do nascimento é a morte.

 

Desde tempos imemoriais temos estado sob a influência de uma ilusão de permanência, de modo que achamos que sempre nos resta muito tempo. Essa idéia nos faz correr o grande peri­go de desperdiçar a vida procrastinando. Para neutralizar essa tendência, é importante meditar a respeito da impermanência, sobre o fato de que a morte poderia sobrevir a qualquer mo­mento.

Embora não exista nenhuma certeza de que vocês irão efeti­vamente morrer esta noite, quando cultivam a percepção consciente da morte, reconhecem que poderiam morrer esta noite. Com essa atitude, caso haja algo que possam fazer para favore­cer tanto esta vida quanto a seguinte, vocês lhe darão precedência sobre algo que apenas beneficiará esta vida de uma forma superficial. Além disso, por não terem certeza de quando a morte sobrevirá, vocês se absterão de fazer alguma coisa que prejudique tanto a sua vida atual quanto as futuras. À medida que esse sentimento de cautela evoluir, vocês se esforçarão ainda mais para não acumular predisposições desfavoráveis através de ações descontroladas. Serão motivados a desenvolver, de acordo com sua habilidade, atitudes que funcionem como antídotos contra as várias formas de uma mente indomada. A seguir, quer vocês vivam por um dia, uma semana, um mês ou um ano, esse período será significativo, seus pensamentos e ações se basearão no que é favorável a longo prazo, e quanto mais viverem, mais benéficos eles serão.

Quando, ao contrário, vocês estão sujeitos à influência da ilusão da permanência e passam o tempo envolvidos com assun­tos pouco profundos, que se mantêm na superfície desta vida, sofrem uma grande perda. É por esse motivo, nesta estrofe, que o Panchen Lama leva nossa atenção para o valor de tornar cada momento importante.

No meu caso particular, tenho hoje 67 anos. Sou o mais velho dos 13 Dalai Lamas que me antecederam, com exceção do Primeiro Dalai Lama, Gendun Drup, que passou dos oiten­ta anos. O Quinto Dalai Lama viveu 66 anos. Sou mais velho do que ele — sou um homem idoso! Ainda assim, devido a recentes avanços nos tratamentos médicos e nas condições de vida, tenho alguma esperança de viver até os oitenta ou noventa anos, mas e certo que em algum momento terei de morrer. Nós, tibetanos, até mesmo acreditamos poder ampliar nosso tempo de vida por meio de rituais, mas não tenho certeza de que aqueles que os praticam efetivamente vivam mais tempo.

 

Para realizar um ritual de longa vida é necessário ter uma visualização estável dentro da meditação concentrada.

 

Além disso, é preciso compreender o vazio da existência inerente, pois é a própria sabedoria que se manifesta como o eu imaginado, ideal. Da mesma forma, é necessário ter compaixão e uma intenção altruísta para alcançar a iluminação. Essas exigências tornam difíceis as meditações da longa vida.

Uma vez que são as atitudes de permanência e admiração por nós mesmos, que guardamos no coração como se fossem o centro da vida, que causam nossa ruína, as meditações mais produtivas são sobre a impermanência, o vazio da existência inerente e a compaixão. Sem estes, os rituais de longa vida e coisas semelhantes de nada servirão. É por essa razão que Buda enfatizava que as duas asas do pássaro que voa em direção à iluminação são a compaixão e a sabedoria. Estas são as maneiras de combater as atitudes de impermanência e a admiração por nós mesmos que, desde tempos imemoriais, debilitam nossos desígnios de felicidade.

Por volta dos 15 ou 16 estudei os estágios do caminho para a iluminação e iniciei uma forma de meditação para cultivar as etapas. Comecei também a transmitir ensinamentos durante os quais eu tinha de praticar cada vez mais a meditação analítica, pois esta última e o ensinamento caminham de mãos dadas. O tema da percepção consciente da morte é organizado ao redor de três bases, nove razões e três decisões:

Primeira base: A Contemplação de que a morte é definida

 

1 – Porque a morte definitivamente chegará e, por conseguinte, não pode ser evitada;

2 – Porque nosso tempo de vida não pode ser ampliado e diminui incessantemente;

3 – Porque mesmo quando estamos vivos existe pouco tempo para praticar.

Primeira decisão: Preciso praticar.

Segunda base: A contemplação de que a hora da morte é indefinida.

4 – Porque nosso tempo de vida neste mundo é indefinido;

5 – Porque as causas da morte são inúmeras e as causas da vida são poucas;

6 – Porque o momento da morte é incerto devido à fragilidade do corpo.

Segunda decisão: Preciso praticar agora.

Terceira base: A contemplação de que na hora da morte a única coisa que pode ajudar é a prática.

7 – Porque no momento da morte nossos amigos não podem nos ajudar;

8 - Porque no momento da morte nossa riqueza não pode nos ajudar;

9 - Porque no momento da morte nosso corpo não pode nos ajudar.

Terceira decisão: Praticarei o desapego com relação a todas as coisas maravilhosas desta vida.

 

Tudo o que se reúne um dia se dispersa — pais, filhos, irmãos e amigos. Isso faz parte da natureza da existência cíclica. Por mais que os amigos gostem uns dos outros, um dia terão de se separar. Gurus e discípulos, pais e filhos, irmãos, maridos e mulheres e amigos – independentemente de quem sejam – um dia irão se separar.

Enquanto o meu mentor mais antigo, Ling Rinpochay, gozava de boa saúde, era-me quase impossível, insuportável, pensar sobre a morte dele. Para mim, ele era sempre como uma rocha muito sólida com a qual eu podia contar. Eu me perguntava como poderia sobreviver sem ele. Mas quando ele sofreu um derrame, e posteriormente um segundo, ainda mais grave, a situação acabou possibilitando que parte da minha mente pensasse: “Agora seria melhor para ele partir”. Passou algumas vezes pela minha cabeça que ele pode ter contraído deliberadamente aquela doença para que quando efetivamente falecesse, eu estivesse pronto para lidar com a tarefa seguinte: procurar a reencarnação dele.

Além de nos separarmos de todos os nossos amigos, a riqueza e os recursos que acumulamos com o tempo, por mais maravilhosos que sejam, acabam tornando-se inúteis. Por mais elevada que seja nossa condição ou posição, um dia acabamos caindo.

Para lembrar-me disso, quando subo ao palanque alto no qual leciono, ao mesmo tempo em que me sento, recito para mim mesmo as palavras do Diamond Cutter Sutra (Sutra do lapidador de diamantes) sobre a impermanência:

 

Veja as coisas formadas a partir de causas

Como estrelas cintilantes, fantasias vistas com uma doença secular.

A luz bruxuleante de uma lamparina de manteiga, ilusões mágicas,

Orvalho, bolhas, sonhos, relâmpagos e nuvens.

 

Reflito sobre a fragilidade dos fenômenos causados e, a seguir, estalo os dedos, e esse breve som simboliza a imperma­nência. É desse modo que lembro a mim mesmo que logo esta­rei descendo do elevado trono.

Todo ser humano, por mais que viva, um dia terá de morrer. Não existe nenhuma outra maneira. Quando vivemos na existência cíclica, não podemos existir fora da natureza dela. Por mais maravilhosas que as coisas possam ser, faz parte da natureza delas que elas e vocês, que se alegram com elas, um dia degenerem.

Além de terem de morrer um dia, vocês também não sabem quando isso acontecerá. Se soubessem, poderiam adiar sua preparação para o futuro. Mesmo que exibam sinais de que vão viver até uma idade avançada, não podem afirmar com certeza absoluta que não vão morrer hoje. Vocês não devem procrasti­nar. Devem, antes, fazer preparativos para que mesmo que mor­ram hoje á noite, não tenham arrependimentos. Se passarem a reconhecer a incerteza e a iminência da morte, sua percepção da importância de usar sabiamente seu tempo ficará cada vez mais forte. Tsongkhapa, iogue tibetano erudito, diz o seguinte:

Quando compreendemos a dificuldade de encontrar este corpo humano, não há como ficar sem fazer nada.

Quando percebemos seu grande significado, passar o tempo de uma maneira insensata é uma causa de sofrimento.

 

Quando contemplamos a morte, preparamo-nos para avançar para a vida seguinte.

Quando contemplamos as ações e os seus efeitos, repelimos as fontes da não-consciência.

Quando, dessa maneira, essas quatro bases tornam-se firmes,

Outras práticas virtuosas facilmente se desenvolvem.

 

Pensar a respeito da morte não apenas funciona como uma preparação para a morte e instiga ações que favorecem as vidas futuras, como também afeta dramaticamente a perspectiva men­tal. Por exemplo, quando as pessoas não estão acostumadas a pratica de tomar consciência da certeza da morte, mesmo quando é óbvio que estão idosas e em breve irão morrer, os amigos e a família acham que não podem ser realistas com elas, sentindo até a necessidade de cumprimentá-las pela aparência física delas. Ambas as partes sabem que se trata de uma mentira, isso é ridículo!

Às vezes, até mesmo pacientes que sofrem de doenças ter­minais como o câncer evitam usar as palavras “morrer” ou “morte”, É praticamente impossível para eu conversar com eles sobre a morte iminente deles, porque oferecem resistência ao que tenho a dizer. No entanto, para a pessoa que não conse­gue nem mesmo enfrentar a palavra “morte”, e muito menos a realidade dela, é provável que o advento efetivo traga consigo um grande medo e mal-estar. Por outro lado, quando converso com um praticante cuja morte parece estar próxima, não hesito em dizer: “Quer você vá morrer ou se recuperar, precisa se pre­parar para as duas coisas.” Podemos então refletir juntos sobre a iminência da morte. Não há necessidade de esconder nada, pois a pessoa está preparada para enfrentar a morte sem sentir pesar. O praticante que desde cedo pensa sobre a impermanência mostra-se muito mais corajoso e feliz quando morre. Refletir sobre a incerteza do momento da morte desenvolve uma mente tranqüila, disciplinada e virtuosa, porque ela se detém em outros assuntos que vão além das coisas superficiais desta breve vida.

 

                   RESUMO DOS CONSELHOS

1 - Se vocês cultivarem o sentimento da incerteza do mo­mento da morte, utilizarão melhor o seu tempo.

2 - Para evitar procrastinar no que tange à prática espiritual, tomem cuidado para não se deixarem influenciar pela ilusão da permanência.

3 - Compreendam que por mais maravilhosa que possa ser uma situação, faz parte da natureza dela terminar.

4 -Não pensem que haverá tempo mais tarde.

5 - Enfrentem com franqueza a idéia da sua morte. Es­timulem habilmente as outras pessoas a serem francas sobre a morte delas. Não se enganem mutuamente com elogios quando a hora da morte se aproximar. A sinceri­dade promove a coragem e a alegria.

 

                 4 – Removendo Obstáculos para uma Morte Favorável

 

Por mais firmemente que vocês se agarrem, não podem permanecer. Qual a vantagem de ficar assustados e com medo do que é inalterável?                          

                             BUDA

 

Quarta Estrofe:

 

Que sejamos aliviados do intenso sofrimento decorrente das varias causas da morte

Quando neste lugar de concepções errôneas de sujeito e objeto

O corpo ilusório formado pelos quatro elementos impuros

E a consciência estiverem para se separar.

 

Comecem o mais cedo possível na vida a se familiarizar com os estados virtuosos da mente. Quando essa capacidade se estabele­cer, vocês poderão dirigir a mente para a virtude mesmo quan­do estiverem morrendo. No entanto, na ocasião da morte, vocês poderiam ser dominados por uma dor incapacitante devido a uma terrível doença, poderiam sofrer um acidente ou ser ataca­dos e morrer prematuramente, ou poderiam não ser capazes de concluir seu tempo de vida devido a uma exaustão de mérito, ou seja, por terem usado sua reserva de bom carma que dá continuidade a esta vida.

Essas circunstâncias poderiam tornar inexeqüível sua longa prática com estados mentais virtuosos (embora isso não seja obrigatório). O sofrimento em si poderia gerar um medo intenso, tornando impossível a contemplação virtuosa, exceto para aqueles que tenham tido um grau elevado de treinamento e possuam grandes poderes de meditação con­centrada. Por conseguinte, é importante desejar agora se libertar dessa dor e medo excruciantes, e morrer de um modo relaxado; essa vontade permite que a atitude virtuosa que vocês vêm cul­tivando seja forte; e vocês serão capazes de morrer com um maior conhecimento.

Como a morte envolve a separação do corpo e da mente, é importante compreender a natureza do “eu” que se forma com relação ao conjunto de agregados físicos e mentais, bem como a natureza desses próprios agregados.

O tipo de corpo que possuímos é uma entidade impura, produzida a partir dos quatro ele­mentos de terra, água, fogo e vento, está sujeito à dor mesmo a proveniente de leves causas e é semelhante a uma ilusão, tanto no sentido de estar aqui em um momento e desaparecer no seguinte, quanto no de parecer existir inerentemente, mas na verdade ser desprovido dessa existência inerente. Por dar a impressão de ser limpo quando é lavado, e por parecer feliz, permanente e submetido ao nosso controle, o corpo vive, por assim dizer, em um lugar de falsas interpretações a respeito da nature­za da consciência e dos seus objetos.

O lugar de concepções errôneas mencionado na quarta estrofe refere-se à existência cíclica. Ele é construído por ações (carma) que estão sob a influência das emoções perturbadoras. Estas últimas surgem da ignorância, especificamente da idéia da existência inerente, que confunde a natureza do eu e do outro, assim como a das coisas, imaginando que existem através do próprio ser deles. Por conseguinte, a ignorância é a causa fundamental do repetido giro da existência cíclica.

A falsa percepção da existência inerente motiva o carma — tanto as ações quanto as predisposições acumuladas a partir des­sas ações —, o propulsor da existência cíclica. Os fenômenos que surgem devido a esse processo de ignorância parecem existir de um modo inerente, mas isso não é verdade, sendo portanto um lugar de equívocos.

O lugar da existência cíclica é criado pela concepção errônea de que o sujeito e o objeto, o que com­preende e o compreendido, os fenômenos internos e os exter­nos, existem em si e por si mesmos, inerentemente, sob o próprio poder deles.

Por meio desta estrofe vocês estão formando o desejo de que, quando a consciência estiver para se separar do corpo ilusório composto pelos quatro elementos, não serão afligidos por um intenso sofrimento, pois isso afetaria o sucesso da prática. Outras condições que impedem a prática são a cobiça e o ódio, que são enormes obstáculos à atitude virtuosa.

 

                           RESUMO DOS CONSELHOS

1 - Pratiquem agora para que na ocasião da morte a força da sua familiaridade com a virtude possa afetar sua atitude.

2 - Encarem o corpo como um verdadeiro lugar de falsas interpretações, porque embora ele possa dar a impressão de ser limpo quando é lavado, uma fonte de felicidade, permanente e submetido ao seu controle, ele não é nada disso. O corpo é criado a partir dos quatro elementos (terra, água, fogo e vento), está sujeito a sentir dor e muda a cada momento por vontade própria.

3 - As pessoas e as coisas parecem existir em função do seu próprio poder e a ignorância aceita essa falsa aparência, dando origem às emoções perturbadoras da cobiça, do ódio e de uma confusão ainda maior. Essas emoções per­turbadoras, por sua vez, poluem as ações do corpo, da palavra e da mente, perpetuando o processo da existên­cia cíclica. Reconheça que vocês vivem em um lugar de falsas interpretações.

 

                           Quinta Estrofe

 

Que sejamos aliviados das aparências equivocadas da não-virtude

Quando, enganados no momento de necessidade por este corpo que tratamos com tanto carinho,

Os temíveis inimigos — os senhores da morte — se manifestarem

E nos aniquilemos com as armas dos três venenos da cobiça, do ódio e da ignorância.

 

A hora da morte é muito importante, pois marca o fim de uma vida e o início de outra. Se nesse momento crucial o corpo permanecesse conosco, vocês poderiam depositar nele sua con­fiança, mas nessa importante ocasião ele os decepciona. Seu corpo, mantido tão zelosamente com comida, roupas, dinheiro, amigo, remédios e até más ações, simplesmente os abandona.

A mera menção da morte nos causa certo mal-estar. Quando o processo da morte se manifesta e os temíveis aspectos da impermanência, chamados no poema de “senhores da morte”, se apresentam, algumas pessoas reagem com um forte apego às suas posses, aos seus amigos e ao próprio corpo, ao passo que outras demonstram ódio pelos inimigos e pelo seu sofrimento aparentemente insuportável. Mesmo que a cobiça e o ódio não estejam presentes, geram uma forte convicção na sua existência inerente e na de todas as aparições — a forma central da ignorância. Esses três venenos, a cobiça, o ódio e a ignorância, são os mais fortes obstáculos interiores à prática virtuosa, e, em um sentido mais profundo, são as armas com as quais as pessoas se matam na ocasião da morte. Para impedir que essas atitudes venenosas surjam quando vocês estiverem morrendo, semeiem desejos de que a cobiça e o ódio intensos não se manifestem e que falsas aparições não ocorram.

No momento da morte, é importante não tomar medica­mentos que os tornariam incapazes de pensar adequadamente. As drogas que embotam a mente devem ser evitadas pelo praticante religioso, pois a consciência mental deve permanecer o mais lúcida possível.

Tomar uma injeção que permita uma morte “tranqüila” poderia privar a mente da oportunidade de se manifestar de uma maneira virtuosa ao refletir sobre a impermanência, gerar a fé, sentir compaixão ou meditar sobre o altruísmo. No entanto, se for desenvolvido um analgésico que não embote a mente, ele até poderia ser útil, pois vocês dariam seguimento à sua atividade mental habitual, sem serem distraídos pela dor.

 

                         RESUMO DOS CONSELHOS

1 - Entendam que esse corpo, que vocês defendem a todo custo, um dia irá abandoná-los.

2 - Evitem ansiar pela situação que estão abandonando.

3 - Evitem odiar o fato de ter de partir.

4 – Mantenham-se afastados, o mais possível, do ódio e da ignorância para poder realizar a prática virtuo­sa quando estiverem morrendo.

5 - Compreendam que, ao tomar um comprimido ou inje­ção para ter uma suposta morte tranqüila, poderão estar se privando de urna oportunidade crucial de manifestar a virtude.

 

                 5 - Obtendo Condições Favoráveis para o Momento da Morte.

 

     Alguns morrem no útero,

     Outros ao nascer,

     Outros ainda quando engatinham,

     Alguns quando conseguem andar.

 

     Alguns são velhos,

     Outros são idosos.

     Um por um eles se vão

     Como frutos que caem no solo.

                               BUDA

 

               Sexta Estrofe

 

Que possamos recordar as instruções da prática

Quando os médicos desistirem e os ritos de nada adiantarem,

Os amigos tiverem perdido a esperança na nossa recuperação,

E nada mais nos restar fazer.

 

O capítulo anterior tratou principalmente de dois obstáculos à prática adequada na ocasião da morte — o sofrimento intenso e as aparições enganosas que dão origem à cobiça, ao ódio ou à confissão. Enquanto procuram evitar esses dois obstáculos, vocês também precisam gerar atitudes virtuosas lembrando-se da sua prática. Quando já não existe nenhuma esperança para esta vida, quando os médicos desistem do seu caso, quando os ritos religiosos tornam-se inúteis e quando até mesmo os seus amigos e parentes desistiram bem no fundo de ter qualquer esperança, vocês precisam fazer o que é proveitoso. Enquanto sua mente estiver alerta, vocês terão de fazer o possível para mantê-la em um estado virtuoso.

Para fazer isso, vão precisar se lembrar das instruções para gerar atitudes virtuosas. Como irei discutir mais adiante em outras estrofes, essas instruções devem ser usadas (1) antes da clara luz da morte; (2) quando a clara luz da morte se manifesta; (3) quando a clara luz da morte cessa e tem inicio o estado intermediário; e (4) durante o estado intermediário, para que vocês possam realizar feitos iogues especiais. Quaisquer instruções que possam ter recebido em conformidade com sua capacidade e inteligência precisam ser relembradas com clareza nessas ocasiões. Executem sua prática habitual em qualquer nível ao qual tenham chegado nesses momentos.

A prática pode ter um grande efeito através das cinco forças que se seguem:

1 - A força da familiaridade. Cultivem com freqüência sua prá­tica habitual e acostumem-se a ela, seja ela qual for: o cultivo da intenção de libertar-se da existência cíclica, o cultivo do amor e da compaixão, o cultivo da intenção de alcançar a iluminação pelo bem dos outros ou o cul­tivo dos estágios do tantra ioga superior.

2 - A força de governar o futuro. Pensem o seguinte: “Manterei minha prática nesta vida, no estado intermediário e nas vidas futuras até alcançar o estado de Buda.”

3 - A força das sementes benéficas. Acumulem a força de ações meritórias (bom carma) para impulsionar sua prática.

4 - A força da erradicação. Estabeleçam que todos os fenôme­nos como o nascimento, a morte e o estado intermediá­rio só existem de forma dependente; eles não possuem uma existência inerente, por menor que seja. Tomem essa decisão como parte da convicção de que a admira­ção por si mesmo é um inimigo, pensando o seguinte:

“O fato de eu experimentar o sofrimento na existência cíclica deve-se à admiração que sinto por mim mesmo; a admiração por nós mesmos tem origem na idéia de que os seres e as coisas possuem uma existência inerente, quando isso não é verdade;”

5 - A força do desejo. Desejem repetidamente o seguinte:

“Que mesmo depois de morrer eu consiga um corpo que me sirva de apoio para que eu possa praticar a doutrina na minha próxima vida. Que um excelente guia espiritual cuide de mim e que eu não me separe da prá­tica.”

 

Essas cinco forças são especialmente úteis para que nos lem­bremos de praticar, mesmo quando isso for extremamente difícil.

Quando estiver claro que alguém está prestes a morrer, os amigos não devem se reunir em volta da pessoa de uma forma apegada, agarrando-lhe a mão, abraçando-a chorosos ou lamen­tando a situação. Essa atitude não é nem um pouco proveitosa. Pelo contrário, esse comportamento gera uma atitude de desejo na mente do moribundo, arruinando qualquer chance de um procedimento virtuoso. Os amigos devem ajudar a proporcionar as condições adequadas para o desenvolvimento da virtude, tra­zendo à memória da pessoa instruções e práticas religiosas, falando-lhe com suavidade ao ouvido até o cessar da respiração externa.

Por exemplo, se o moribundo acredita em um Deus criador, pensar em Deus pode trazer mais conforto e paz à pessoa, fazen­do com que ela sinta menos apego, medo e pesar. Se a pessoa acredita no renascimento, pensar a respeito de uma nova vida repleta de significado a serviço dos outros produzirá resultados semelhantes. Um budista poderia ficar consciente de Buda e dedicar boas ações nesta vida a uma vida seguinte produtiva. Um ateu poderia analogamente refletir sobre o fato de a morte ser parte integrante da vida, e agora que ela está tendo lugar não adianta se preocupar. O ponto principal é a paz de espírito para que o processo da morte não seja perturbado.

 

                                   RESUMO DOS CONSELHOS

1 - É útil saber que em um determinado ponto cessará to­da a esperança de que esta vida continue. Nesse ponto, médicos, religiosos e amigos não podem mantê-los nesta vida, de modo que caberá a vocês fazer o que é proveitoso.

2 - Quando estiverem morrendo, precisam recordar instru­ções espirituais que se harmonizem com seu nível de prática e executá-las.

3 - Familiarizem-se com sua prática. Mostrem-se determi­nados a sustentar essa orientação espiritual em todas as situações, por mais difícil que isso seja. Envolvam-se em muitas ações meritórias para que a força acumulada delas afete todos os aspectos da sua vida e da sua morte. Compreendam que o sofrimento surge da admiração por si mesmos e aprendam a admirar os outros. Desejem com freqüência manter a sua prática espiritual ao longo das vidas futuras.

4 - Quando outra pessoa estiver morrendo, tomem cuidado para não aborrecê-la causando um apego ainda maior ou provocando a raiva ou o ódio. Não lamentem o fato de ela estar indo embora, não se agarrem a ela nem chorem na presença dela. Ajudem-na a ter uma partida significa­tiva lembrando-lhe a prática mais profunda.

5 - Se possível, peçam a outras pessoas que façam o mesmo por vocês. Tomem providências para ter alguém ao seu lado que lhes fale suavemente ao ouvido de vez em quando, lembrando-lhes alguma atitude espiritual espe­cífica que vocês desejem manifestar.

 

                 Sétima Estrofe

 

Que tenhamos a confiança da alegria e do prazer

Quando a comida e a riqueza acumuladas com ganância forem deixadas para trás

E nos separemos para sempre de amigos queridos e muito desejados,

Encaminhando-nos sozinhos para uma situação perigosa.

 

Em circunstâncias normais, se lhes dissessem que sua morte era iminente, a situação seria triste, não apenas para vocês, mas também para seus amigos e sua família. Nessa tristeza, o proces­so de morrer — a retirada gradual da consciência — teria lugar. No entanto, como foi explicado anteriormente, se tiverem refletido sobre a importância de extrair a essência dessa situação da vida e a necessidade da prática espiritual, se tiverem pensado maduramente, repetidas vezes, sobre a impermanência, ao recordar essas instruções quando estiverem morrendo, vocês não se submeterão à influência de condições desfavoráveis como a dor e a tristeza. Todas as aparições associadas à morte, em vez de distraí-los, os farão lembrar-se da prática e os impelirão em direção à meditação.

Com isso em mente, será possível morrer com alegria e confiança, como uma criança que volta contente para a casa dos pais. Entre aqueles que entram no estado intermediário entre vidas, os melhores são capazes de determinar o próximo nasci­mento; essas pessoas podem morrer confiantes, sem nenhuma preocupação. Os praticantes medianos não ficarão assustados, e os piores pelo menos não sentirão pesar. Como se prepararam para renascer de uma maneira significativa, sendo capazes de dar seguimento ao seu empenho espiritual, não há pesar, depressão ou medo quando a morte chega. Sua consciência pode partir com bastante confiança.

Vários monges e eruditos que conheço morreram dessa maneira. Ao perceber que estavam prestes a morrer, chamaram seus conhecidos mais chegados para despedir-se deles. No dia da morte vestiram seus trajes monásticos amarelo-alaranjados e, sem nenhuma preocupação, morreram meditando. Certo monge aqui em Dharmsala colocou as vestes que pedira a um dos seus ajudantes que lhe trouxesse e simplesmente faleceu.

Várias pessoas aqui na Índia conseguiram permanecer dentro da mente de clara luz durante muitos dias — uma por 17, outros por nove ou dez. Um indício de que isso ocorrera foi o fato de que depois que pararam de respirar o corpo delas permaneceu completamente puro, sem o menor odor de putrefação, durante todo esse tempo neste país de clima quente. Elas foram capazes de se conservar sem flutuações na mente de clara luz e morrer com uma enorme alegria e confiança.

Meu mentor mais antigo, Ling Rinpochay, contou-me uma história sobre um Lama que é ao mesmo tempo triste e engraça­da. Quando estava para morrer, o Lama vestiu seu traje amarelo-alaranjado, disse aos seus companheiros que sua morte estava pró­xima e faleceu, sentado de pernas cruzadas na postura de meditação. Um dos seus novos discípulos, recém-chegado de uma região distante, que desconhecia a possibilidade de uma pessoa morrer durante a meditação sentada, entrou no quarto do lama e viu que o corpo do seu mestre estava sentado. Ele imaginou que um espírito o tinha penetrado, de modo que derrubou o corpo!

 

                           RESUMO DOS CONSELHOS

1 - Para evitar ficar deprimidos a respeito da morte, refugiem-se na sua religião dentro da compaixão por todos os seres, reflitam sobre a importância de extrair a essência da vida atual, que é contemplada tanto com o lazer quanto com as necessidades da prática espiritual, e pen­sem maduramente, repetidas vezes, a respeito da impermanência.

2 - Com esse trabalho de base para recordar com eficácia sua prática quando estiverem morrendo, até mesmo eventos e aparições horríveis que possam ocorrer só servirão para estimulá-los a ficar calmos e meditar com alegria e con­fiança.

 

                   6 - Meditando durante o Processo da Morte

 

Esta vida desaparece muito rápido como algo que é escrito na água com uma vareta.

                             BUDA

 

             Oitava Estrofe

 

Que possamos gerar uma poderosa mente de virtude

Quando os elementos — terra, água, fogo e vento —dissolverem-se em estágios

E a força física for perdida, a boca e o nariz ficarem secos e enrugados,

O calor se recolher, a respiração ficar arquejante e sons chocalhantes emergirem.

 

As primeiras sete estrofes são apresentadas de acordo com as duas formas da doutrina budista, o sutra e o tantra; este último envolve uma prática especial que requer que a pessoa se imagi­ne aqui e agora como um ser totalmente compassivo e sábio com a forma física de um Buda. A partir da oitava estrofe, as práticas apresentadas passam a ser principalmente tântricas, extraídas especificamente da classe do tantra ioga superior.

A descrição da morte em função da dissolução gradual do corpo e da mente e dos quatro elementos é exclusiva do tantra ioga superior. Após a concepção, tem lugar um processo de for­mação do mais sutil para o mais denso, mas durante a morte ocorre a dissolução do mais denso para o mais sutil.

Os fenôme­nos que se dissolvem consistem nos quatro elementos: a terra (a substância rígida do corpo), a água (os fluidos), o fogo (o calor) e o vento (a energia, o movimento).

Quer ou não vivamos nosso período de vida completo, o processo da morte encerra muitas fases. No caso de uma morte repentina, as pessoas passam muito rápido por essas fases, tendo pouca chance de percebê-las; aquelas que morrem de um modo mais gradual têm a possibilidade de reconhecer e fazer uso des­ses diferentes estágios. Presságios da morte, como uma mudan­ça na maneira como o ar se movimenta nas narinas, sonhos e sinais físicos podem ter lugar muitos anos antes da morte efeti­va, embora no caso da pessoa comum eles geralmente ocorram um ou dois anos antes dessa época. Entre os presságios da morte estão sentir aversão pelo ambiente, a casa, os amigos e assim por diante, o que gera o desejo de ir para outro lugar. Ou a pessoa pode passar a desejá-los muito mais do que antes. Ela pode deixar de ser uma pessoa difícil e passar a cooperar, ou o inverso pode acontecer. O entusiasmo dela pode aumentar ou diminuir acentuadamente. Pode ocorrer uma mudança na radiância física ou no seu estilo de comportamento. A natureza das conversas da pessoa pode se tornar grosseira e ela pode adquirir o hábito de praguejar, ou pode ainda falar repetidamente sobre a morte.

Quando o processo efetivo da morte se inicia, passamos por oito fases. As quatro primeiras envolvem o colapso dos quatro elementos no nível mais interno da mente, que se chama mente de clara luz. Lembrem-se de que a apresentação das fases da morte é um mapeamento dos estados mentais mais profundos que ocorrem durante a vida do dia-a-dia e em geral passam despercebidos. Essas oito fases acontecem na ordem direta quando morremos, vamos dormir, acabamos de sonhar, espirramos, desmaiamos ou temos um orgasmo, e na ordem inversa quando o processo da morte termina completamente, assim como quando começamos a sonhar, e quando o espirro, o desmaio e o orgas­mo terminam.

 

Os oito estágios são identificados através de um conteúdo visual, embora não sejam percebidos com os olhos:

 

                   Ordem Direta

         1 – miragem

         2 – fumaça

         3 – pirilampos

         4 – chama de uma lamparina

         5 – mente-céu branca radiante

         6 – mente-céu vermelho-laranja radiante

         7 – mente-céu negra radiante

         8 – clara luz

 

                   Ordem Inversa

         1 – clara luz

         2 – mente-céu negra radiante

         3 – mente-céu vermelho-laranja radiante

         4 – mente-céu branca radiante

         5 – chama de uma lamparina

         6 – pirilampos

         7 – fumaça

         8 – miragem

 

                     AS QUATRO PRIMEIRAS FASES NA ORDEM DIRETA

                     O COLAPSO DOS QUATRO ELEMENTOS

Em geral, os elementos mais densos se dissolvem nos mais sutis. À medida que degenera a capacidade dos primeiros atuarem como um apoio para a consciência, os últimos se manifestam mais. Estas são as quatro primeiras das oito fases existentes:

Primeira fase. O elemento terra degenera e se dissolve no ele­mento água. Os aspectos sólidos do corpo, como os ossos, não são mais capazes de servir como suporte, ou base, para a cons­ciência; a capacidade dos aspectos sólidos de fazer isso é transfe­rida ou se dissolve nos fluidos do corpo, como o sangue e a fleuma.

A capacidade de o elemento água atuar como uma base da consciência evidencia-se mais. O corpo torna-se dramatica­mente mais fino e os membros se afrouxam. Perdemos a força física — a vitalidade e o brilho do corpo diminuem radicalmen­te deixando-o debilitado. A visão torna-se escura e imprecisa; não conseguimos mais abrir e fechar os olhos. Podemos ter a sensação de que estamos afundando na terra ou na lama, e pode­mos até pedir: “Segurem-me!”, ou fazer um esforço para levan­tar, mas é importante não lutar e permanecer calmos em uma atitude virtuosa. O que vemos na mente parece uma miragem.

 

Segunda fase. A capacidade do elemento água degenera e se dissolve no elemento fogo — o calor que sustenta o corpo —, e a capacidade do elemento fogo de servir como base da consciên­cia se intensifica. Já não experimentamos sentimentos de prazer ou dor, ou mesmo sentimentos neutros, associados aos sentidos e à consciência mental. A boca, a língua e a garganta se ressecam devido à perda da saliva, e uma espuma forma-se nos dentes. Outros fluidos, como a urina, o sangue, o fluido regenerativo e o suor, secam. Não conseguimos mais ouvir sons e o zumbido habitual no ouvido cessa por completo. O que vemos na mente parece golfadas de fumaça, uma nuvem fina de fumaça em todo o aposento ou uma fumaça que sobe pela chaminé.

 

Terceira fase. A capacidade do elemento fogo degenera e se dissolve no elemento vento — as correntes de ar, ou energia, que dirigem várias funções como inspirar, expirar, arrotar, cuspir, falar, engolir, flexionar as articulações, distender e contrair os membros, abrir e fechar a boca e as pálpebras, urinar, defecar, menstruar e ejacular. O calor do corpo diminui, o que resulta na incapacidade de ingerir alimentos. Se a pessoa teve uma vida predominantemente desvirtuosa, o calor corporal inicialmente se avoluma para baixo a partir do alto da cabeça em direção ao coração, e a parte superior do corpo esfria primeiro; no entan­to, se ela teve uma vida predominantemente virtuosa, o calor se acumula a partir da sola dos pés em direção ao coração, e a parte inferior do corpo esfria primeiro. A capacidade de sentir cheiro cessa. Já não conseguimos prestar atenção às atividades e desejos dos amigos e parentes à nossa volta, ou mesmo lembrar o nome deles. Temos dificuldade em respirar, a expiração se torna cada vez mais prolongada e a inspiração progressivamente mais curta: a garganta emite sons chocalhantes ou arquejantes.

 

O que vemos na mente parece pirilampos, talvez dentro da fumaça, ou centelhas na fuligem da base de uma panela de metal.

 

Quarta fase. A capacidade do elemento vento mais grosseiro degenera e se dissolve na consciência. A língua fica grossa e curta, e a sua raiz torna-se azulada. Experimentar o contato físico é impossível, bem como a ação física. O ar deixa de passar pelas narinas, mas existem níveis mais sutis de respiração, ou vento, de modo que a cessação do alento não indica a conclusão do processo da morte. O que vemos na mente parece a chama de uma lamparina de manteiga ou uma vela (ou como a luz bru­xuleante acima de uma vela ou lamparina de manteiga). Inicialmente a luz oscila como se a manteiga ou a cera já estivessem praticamente consumidas. A seguir, quando os ventos sobre os quais cavalgam as concepções mentais começam a ruir, a aparência da chama torna-se firme.

De um modo geral, o corpo do ser é formado pelos quatro elementos; no entanto, devido a variações nos canais e nos ven­tos dentro dessa estrutura, pessoas diferentes experimentam apa­rições internas distintas durante o processo de dissolução. É por esse motivo que existem pequenas variações nas explicações desse processo em tantras específicos mencionados por Buda, como o Guhyasamaja (o principal sistema explicado neste livro), o Chakrasamvara e o Kalachakra, assim como em certos tantras da Antiga Ordem de Tradução do budismo tibetano, denominada Nyingma. Essas variações secundárias provêm principalmente de diferenças nos canais dentro do corpo e nos ventos e gotas de fluido essencial que percorrem esses canais. Como esses fatores internos diferem nas pessoas, as práticas iogues também são leve­mente diferentes. Mesmo quando os fatores internos são os mesmos, os sinais interiores da morte aparecem à mente de maneiras distintas porque os iogues colocam a ênfase em pontos diferentes do corpo.

Durante esses estágios, é preciso adotar uma atitude virtuo­sa desobstruída, que é o desejo expresso nesta estrofe do poema do Panchen Lama. Nós, seres sencientes comuns sob a influên­cia do nascimento e da morte, temos predisposições que foram estabelecidas no decorrer de vidas de boas e más ações, cujos frutos ainda não se manifestaram.

 

Cada momento em que nos envolvemos com ações motivadas pela ignorância contribui para a vida na existência cíclica. Ações muito fortes podem impulsio­nar não apenas uma, mas sim muitas vidas na existência cíclica. Quando a morte se aproxima, uma dessas inúmeras predisposi­ções cármicas edificantes e nocivas é alimentada e atua como a base para a vida seguinte; muitos outros carmas estabelecem as qualidades da vida como a saúde, os recursos e a inteligência. Por conseguinte, nossos pensamentos, nosso estado mental, perto do momento da morte são muito importantes.

Mesmo que na maior parte da vida vocês tenham praticado atitudes virtuosas, uma forte tendência não virtuosa perto da hora da morte pode alimentar as predisposições não virtuosas que todos possuímos; essa é uma ocasião muito perigosa. A irri­tação e a raiva podem surgir até mesmo por causa de um barulho desagradável feito por alguém que deposite um objeto com muita força em algum lugar. Inversamente, uma pessoa geral­mente não muito habituada a uma grande virtude pode gerar uma poderosa mente virtuosa quando estiver para morrer, ati­vando predisposições cármicas para a virtude que resultem em um bom renascimento. Por conseguinte, vocês precisam tomar muito cuidado quando a hora da morte se aproximar, e procu­rar gerar, o mais possível, qualquer tipo de atitude virtuosa que sejam capazes de manifestar. É muito importante que as pessoas que estiverem cuidando do moribundo saibam que a mente dele encontra-se em um estado delicado; devem tomar cuidado para não causar distúrbios, como falar alto, chorar e lidar descuidadamente com objetos, procurando, em vez disso, criar um ambiente tranqüilo.

 

                           RESUMO DOS CONSELHOS

Para não ficarem surpresos com o processo da morte quando ele começar, aprendam os estágios da dissolução dos quatro elementos e os sinais externos que os acompanham, como apresentados anteriormente, e os sinais internos, descritos na estrofe que se segue.

2 - Perto do momento da morte, procurem ativar e alimen­tar boas predisposições por meio de atitudes virtuosas.

3 - Os presságios da morte podem se manifestar um ou dois anos antes do momento efetivo dela. Eles os advertem da necessidade de se preparar, mas é melhor estarem pron­tos antes que eles surjam.

 

                       Nona Estrofe

 

Que possamos compreender o modo de existir imortal

Quando surgem várias aparições equivocadas temíveis e horríveis

E em particular a miragem, a fumaça e os pirilampos

E cessa o suporte das oitenta concepções individuais.

 

Quando os quatro elementos se dissolvem, ocorrem várias aparições. Às vezes, mesmo antes de o olho e o ouvido pararem de funcionar, visões e sons invulgares aparecem para a consciência mental. Pessoas que estejam sofrendo de uma doença debili­tante, por exemplo, poderão ver um incêndio terrível, o que lhes causará um grande medo. Outras experimentam visões agradáveis e até impressionantes, permanecendo relaxadas. Diferenças como essas decorrem de predisposições estabelecidas por ações virtuosas e não virtuosas nesta vida e em vidas anteriores. Essas distinções indicam o tipo e a qualidade do renasci­mento que está prestes a ocorrer, da maneira como a qualidade da luz no céu antes do amanhecer prediz as condições atmosfé­ricas do dia que se aproxima.

Quando os quatro elementos se dissolvem um por um, sur­gem os sinais internos da morte. A dissolução do elemento terra na água produz uma aparição que se parece com uma miragem no deserto; a dissolução da água no fogo resulta em uma apari­ção que se assemelha as golfadas de fumaça de uma chaminé ou uma nuvem fina de fumaça espalhada pelo aposento; a dissolu­ção do fogo no vento cria uma aparição semelhante a pirilampos ou pequenas centelhas na fuligem da base de urna frigideira usada para tostar sementes. (A dissolução do elemento vento será discutida no próximo capítulo.).

 

Esses sinais — a miragem, a fumaça, os pirilampos e a chama, bem como os quatro que serão descritos a seguir — aparecem para as pessoas que morrem gradualmente. Eles não ocorrem em uma forma completa para aquelas que perdem a vida de repente, cuja morte é causada por acidentes ou armas.

 

                         RESUMO DOS CONSELHOS

1 - Compreendam que as miríades de aparições que podem ocorrer no processo da morte, algumas até assustadoras e horríveis, são atribuíveis ao carma. Não se deixe distrair por elas.

2 - Aprendam as três primeiras das oito aparições: a mira­gem como as que se vêem no deserto; golfadas de fuma­ça de uma chaminé ou uma nuvem fina de fumaça que toma conta de um aposento; pirilampos ou centelhas na fuligem na base de uma frigideira.

 

                               Décima Estrofe

 

Que possamos gerar uma poderosa atenção e introspecção,

Quando o componente vento começar a se dissolver na consciência

E cessar a seqüência externa da respiração, as aparições dualísticas grosseiras se dissolverem,

E surgir uma aparição como uma lamparina de manteiga acesa.

 

A consciência é definida como sendo luminosa e esclareci­da. Ela é luminosa no duplo sentido de que sua natureza é clara e que ela ilumina, ou revela, como uma lâmpada que dissipa a escuridão para que os objetos possam ser vistos. A consciência também conhece os objetos no sentido de que pelo menos os percebe, mesmo quando não os conhece adequadamente.

 

A consciência é composta de momentos, em vez de células, átomos ou partículas. Desse modo, a consciência e a matéria possuem naturezas basicamente diferentes e, por conseguinte, têm causas substanciais distintas. As coisas materiais possuem outras coisas materiais como suas causas substanciais (assim chamadas porque produzem a substância, ou entidade básica, do efeito), porque precisa haver uma harmonia na natureza básica entre a causa substancial e o efeito substancial. A argila, por exemplo, é a causa substancial de um pote de argila. A causa substancial da mente precisa ser algo luminoso e esclarecido — um movimento prévio da mente. Por conseguinte, qualquer momento de consciência requer um momento precedente de consciência para a sua causa substancial, o que significa que é preciso existir uma seqüência mental desprovida de início. É assim que um cicio de renascimento se estabelece através do raciocínio. Além disso, uma única memória exata de renasci­mento é uma indicação suficiente nem todas as pessoas preci­sam recordar. A ausência de vidas anteriores e futuras nunca foi diretamente percebida, ao passo que existem casos comprovados de uma clara lembrança de vidas passadas. Apesar do fato de que o corpo depende de condições para crescer e diminuir, ele é dotado de vida, e quando essa força vital cessa, ele rapidamente se deteriora e se torna um cadáver. Por mais bonito que o corpo tenha sido, ele passa a ser um cadáver. Se vocês analisarem essa força vital que impede o corpo de se deteriorar, perceberão que se trata da mente, O fato de a carne estar ligada à consciência a impede de se decompor. É o continuum dessa mente que avança para a vida seguinte.

A diferença de natureza entre a mente e a matéria exige que suas causas substanciais sejam diferentes, mas isso não significa que a mente e a matéria não interajam, pois elas o fazem de muitas maneiras. A matéria pode ser uma condição sinérgica da mente, como quando a matéria sutil dentro do globo ocular atua como uma condição sinérgica de consciência visual, ou quando uma cor ou forma funciona como uma condição sinérgica da consciência visual ou quando o seu corpo atua como um suporte, ou base, da própria consciência.

 

Analogamente, a consciência molda a matéria, pois são as nossas ações, ou carmas, motivados pela consciência, que estruturam o ambiente. A influência conjunta do carma de muitos seres molda o sistema de mundo que habitamos. Além disso, de acordo com o tanta ioga superior, a consciência cavalga o vento que é físico, embora nas suas formas mais sutis ele não seja com­posto por partículas. Devido a essa estreita associação entre a mente e o vento que faz com que eles sejam uma entidade indi­ferençável, um ser iluminado é capaz de manifestar um corpo tendo o vento sutil como a sua causa substancial, um corpo além das partículas físicas, como no caso do Corpo de Completa Satisfação de um Buda na Terra Pura.

Aplicando à concepção essa doutrina de causas substanciais e condições sinérgicas, podemos verificar que as substâncias da mãe e do pai — óvulo e espermatozóide — atuam como as causas substanciais do corpo da criança e funcionam como condições sinérgicas da mente. O último momento de consciência dessa criança na vida anterior atua como a causa substancial da consciência no momento da concepção e como uma condição sinérgica do corpo. Assim como em um nível grosseiro, o corpo, e até mesmo o embrião, é considerado a base física da consciência, o vento sobre o qual cavalga a consciência como um cavaleiro sobre o cavalo, é uma entidade física que sustenta a consciência. Embora esta última possa se separar do corpo físico, como o faz quando passamos de uma vida para outra, ela nunca se separa do nível de vento mais sutil.

Não creio que o vento muito sutil, ou energia, possa ser classificado como um dos quatro elementos, a terra, a água, o fogo e o vento, visto que ele está além das partículas físicas. O próprio vento muito sutil é um dos aspectos do movimento da mente muito sutil; ele é a mesma entidade que sua respectiva mente. Seria difícil analisar o vento e a mente muito sutil com instrumentos científicos; no entanto, talvez seja possível detectar cientificamente a presença do vento e da mente muito sutil nos casos em que ocorre a morte clínica antes que a consciência se retire do corpo, enquanto este ainda não se decompôs. Alguns cientistas trouxeram aparelhos para o nosso hospital, mas enquanto eles estiveram aqui, ninguém morreu, e quando pes­soas com experiência espiritual faleceram, os aparelhos não esta­vam disponíveis.

 

Quando o vento, ou a energia, sobre o qual cavalgam os diversos níveis de consciência, torna-se muito fraco e se dissol­ve mais plenamente na consciência, níveis mentais cada vez mais sutis se manifestam. No início da quarta fase, quando os ventos que funcionam como a base de muitas atitudes começam a se dissolver, surge para a mente uma imagem que se assemelha à chama de uma lamparina de manteiga ou de uma vela, que ini­cialmente bruxuleia e a seguir se firma. A respiração externa cessa. O mundo em geral considera que este é o momento da morte, embora ele na verdade ocorra mais tarde. Nesse estágio, níveis mais densos da aparição de sujeito e objeto como distantes e divididos em entidades separadas se dissolvem: o olho não distingue formas visíveis, o ouvido não escuta sons, o nariz não sente o cheiro de odores, a língua não percebe os sabores, e o corpo não sente objetos tangíveis. A natureza luminosa e escla­recida da mente emerge desnuda.

Se vocês forem capazes de permanecer alertas na hora da morte, reconhecendo os sinais dos estágios da dissolução, man­tendo uma introspecção suficiente para que possam se empe­nhar em qualquer nível de virtude que conheçam, sua prática será muito poderosa. Na pior das hipóteses, ela afetará sua pró­xima vida de uma maneira positiva.

 

                                 RESUMO DOS CONSELHOS

1 - Embora a mente e a matéria possuam diferentes causas substanciais, interagem de muitas maneiras.

2 - Depois dos três sinais interiores da miragem, da fumaça e dos pirilampos, surge o quarto sinal interno, que se parece com a chama de uma lamparina de manteiga ou de uma vela, que no início oscila e depois se firma.

3 - Embora nesse ponto cesse a respiração externa atraves das narinas e não haja nenhuma reação consciente a estímulos externos, a pessoa ainda não morreu. O ideal é não perturbar o corpo até que a morte completa tenha lugar.

4 - Manter a mente alerta e sustentar a introspecção que os ajudam a reconhecer que fase do processo interno está ocorrendo pode estimular uma poderosa realização e influenciar um renascimento positivo.

 

                           7 - A Estrutura Interna

 

          Um amanhã no qual você terá partido,

           Sem dúvida está se aproximando.

                               LETTER TO KANIKA (Carta para Kanika) de SHURA

 

                 Décima Primeira Estrofe

 

Que possamos conhecer a nossa própria natureza

Através da ioga, percebendo a existência cíclica e o nirvana como vazios

Quando a aparição, o aumento e a quase realização se dissolverem – os primeiros na última – E experiências como o luar, a luz do sol e a escuridão penetrantes despontarem.

 

Para ter uma idéia das quatro fases derradeiras do processo da morte, é fundamental compreender não apenas os níveis da consciência como também a estrutura dos canais, ventos e gotas de fluido essencial dentro do corpo. Essa é uma parte importan­te da fisiologia e psicologia tântricas.

 

                               NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA

O tantra ioga superior divide a consciência em níveis grosseiros (ou densos), sutis e muito sutis. Os níveis grosseiros abrangem as consciências dos cinco sentidos — a consciência do olho que percebe as cores e as formas; a consciência do ouvido para os sons; a consciência do nariz para os odores; a consciência da língua para os sabores; a consciência do corpo para a experiência tátil. Essas são as consciências individuais com específicas esferas de atividade: cores e formas, sons, odores, sabores e a experiên­cia tátil.

Mais sutil do que essas, porém ainda no nível grosseiro, está a consciência com a qual pensamos. Ela está agrupada em três classes, que correspondem a três tipos de vento — forte, médio e fraco — nos quais cavalgam as três classes de consciência. O primeiro grupo envolve um forte movimento do vento para os seus objetos e abrange 33 experiências conceituais, como o medo, o apego, a fome, a sede, a compaixão, a ganância e o ciúme.

O se­gundo grupo é formado por consciências conceituais que envol­vem um movimento médio do vento para seus objetos e abraçam quarenta concepções, como a alegria, a admiração, a generosidade, o desejo de beijar, o heroísmo, a falta de cortesia e a desonestidade.

O terceiro grupo envolve um movimento fraco do vento para seus objetos e abarca sete concepções que são o esqueci­mento, a equivocação (como perceber água em uma miragem), a catatonia, a depressão, a preguiça, a dúvida, e o desejo e o ódio equivalentes. (Em cada um desses três grupos de consciência, ou concepções, existem três níveis de densidade e sutileza.)

Essas três categorias de experiências conceituais se encaixam no nível grosseiro da mente, mas são mais sutis do que as cinco consciências sensoriais. São reflexões, por assim dizer, de níveis mais profundos de consciência que possuem uma percepção dualista cada vez menor. São impressões de três níveis sutis da mente que se manifestam nos períodos em que cessam os níveis mais densos da consciência, quer de forma intencional, como nos profundos estados meditativos, quer de um modo natural, como no processo da morte ou quando vamos dormir.

Quando os ventos sobre os quais cavalgam essas oitenta con­cepções sofrem um colapso, as concepções também se dissol­vem. Isso possibilita que os três níveis sutis de consciência se manifestem na seguinte ordem: a mente de aparição branca radiante, a mente de aparição vermelho-laranja radiante e mente de aparição negra radiante. (Essas mentes são descritas mais adiante onde são expostas a quinta, a sexta e a sétima fase.) Esses níveis finalmente conduzem ao nível muito sutil de consciência, a mente de clara luz, a qual, quando utilizada no cami­nho espiritual, é extremamente poderosa. (Ela é descrita mais adiante, na oitava fase.)

 

Antes de analisarmos com detalhe essas quatro fases finais, é preciso explicar as mudanças das quais elas dependem. Na fisio­logia do tantra ioga superior, elas têm lugar em canais físicos, nos ventos e nas gotas essenciais que percorrem esses canais.

 

                     A ESTRUTURA DOS CANAIS DO CORPO

Existem no corpo pelo menos 72 mil canais — artérias, veias, dutos, nervos e trajetos manifestados e não manifestados — que começam a se desenvolver no que será o coração logo após a concepção. Os três canais mais importantes vão do ponto entre as sobrancelhas até o alto da cabeça, descem a seguir ao longo da coluna vertebral até a sua base, finalmente estendendo-se até a extremidade do órgão sexual. Essa descrição é uma maneira de imaginar os canais central, direito e esquerdo durante a meditação. A localização efetiva desses canais é um pouco diferente, mas, mesmo assim, imaginá-los desse modo ideal é eficaz para induzir os níveis mais sutis da mente. Às vezes descrições físicas como essa meramente indicam pontos de convergência que devem ser usados na meditação.

Em lugares vitais nesses três canais existem sete rodas-canais, com diferentes números de raios, ou pétalas-canais:

1 - A roda da grande bem-aventurança reside no alto da cabeça, com 32 pétalas-canais. Ela é chamada de roda da grande bem-aventurança porque no seu centro está a gota do fluido físico branco essencial que é a base da bem-aventurança.

2 - A roda da satisfação situa-se no meio da garganta e tem 16 pétalas-canais. Ela é chamada de roda da satisfação por­que é aí que os sabores são experimentados.

3 - A roda dos fenômenos está localizada no coração e possui oito pétalas-canais. Ela é chamada de roda dos fenômenos porque é a residência do vento e da mente muito sutis que são a base de todos os fenômenos.

4 - A roda da emanação está situada no plexo solar e tem 64 pétalas-canais. Ela é chamada de roda da emanação por­que o fogo interior, inflamado pelo treinamento iogue e pelo método de gerar a grande bem-aventurança, reside nesse local.

5 - A roda que sustenta a bem-aventurança situa-se na base da coluna vertebral e tem 32 pétalas-canais. Ela é chamada de roda que sustenta a bem-aventurança porque o nível mais profundo da bem-aventurança é sustentado a partir da base da coluna.

6 - A roda no meio da jóia (a extremidade do órgão sexual) tem 16 pétalas-canais.

7 - Há também uma roda entre as sobrancelhas, com 16 pétalas-canais.

 

No coração, os canais direito e esquerdo se entrelaçam três vezes em torno do canal central (cada canal também dá uma volta ao redor de si mesmo) e a seguir avançam no sentido des­cendente. Isso resulta em uma compressão sêxtupla no coração, que impede a passagem do vento no canal central. Como essa compressão é grave, o coração é um foco de meditação perigo­so, que pode provocar um esgotamento nervoso se não forem utilizadas técnicas adequadas de meditação.

Em cada um desses centros — a testa, o alto da cabeça, a gar­ganta, o coração, o plexo solar, a base da coluna e o órgão sexual — os canais direito e esquerdo se entrelaçam ao redor do canal central, um de cada vez (cada canal também dá uma volta em torno de si mesmo), fazendo assim duas compressões. Os canais direito e esquerdo são inflados com o vento e comprimem o canal central, fazendo com que o vento não possa entrar; essas compressões são chamadas de “nós”. Além disso, é importante lembrar que as figuras e as descrições da estrutura dos canais e das rodas-canais se destinam à prática; elas não representam necessariamente a forma e a posição real deles, que podem variar enormemente de pessoa para pessoa.

 

                         A ESTRUTURA DOS VENTOS NO CORPO

Quando a mente presta atenção a um objeto, ela o faz através do movimento do vento, ou energia. A mente cavalga o vento como um cavaleiro monta um cavalo. De acordo com o tantra ioga superior, nossa estrutura psicofísica envolve cinco ventos primários e cinco secundários:

 

1 - O vento que sustenta a vida. Reside principalmente no conjunto de canais do coração e a sua função é manter a vida. Ele também dá origem aos cinco ventos secundá­rios, que governam a operação sensorial e a atenção.

2 – O vento que é expelido para baixo. Habita principalmente o conjunto de canais do baixo abdômen e movimenta-se no útero e na vesícula seminal, na bexiga, nas coxas e assim por diante. Ele interrompe e inicia a micção, a defecação e a menstruação.

3 - O vento que habita o fogo. Reside principalmente no con­junto de canais do plexo solar, onde o calor interior é gerado através da ioga. Esse vento causa a digestão, sepa­rando as porções refinadas e não refinadas do alimento e assim por diante.

4 - O vento que se move para cima. Habita principalmente o conjunto de canais da garganta. Operando através da garganta e da boca, esse vento causa a fala, o paladar, o ato de engolir, de arrotar, de cuspir e assim por diante.

5 - O vento penetrante. Reside principalmente nas articula­ções, causando o movimento dos membros, o alonga­mento e a contração dos membros, e o abrir e fechar das pálpebras.

 

Como vocês podem ver, o vento dirige as funções físicas e mentais. A boa saúde requer a livre movimentação dos ventos; o seu bloqueio causa problemas.

 

Normalmente, o vento não se movimenta no canal central, a não ser durante o processo da morte; no entanto, por meio de intensas técnicas iogues, isso é possível, o que possibilita que os estados mais profundos da mente se manifestem. Durante as quatro últimas fases da morte, os ventos que atuam com a base da consciência penetram os canais direito e esquerdo, nestes se dissolvendo. Por sua vez, os ventos nos canais direito e esquerdo penetram o canal central e neste se dissolvem. O esvaziamento dos canais direito e esquerdo afrouxa as compressões nos nós dos canais. Quando os canais direito e esquerdo se esvaziam, o canal central fica livre, possibilitando assim que o vento se movimen­te dentro dele. Esse movimento induz a manifestação das men­tes sutis, que os iogues do tantra ioga superior procuram usar no caminho espiritual; os ventos nos quais cavalga a mente profun­damente bem-aventurada são intensamente refratários a se mover na direção de objetos, e uma mente desse tipo é particu­larmente poderosa para criar a realidade.

Há mais de vinte anos havia uma monja que já passava dos oitenta anos e que dormia na varanda de uma casa em um luga­rejo próximo. As pessoas costumavam pedir que ela fizesse adi­vinhações. Ela me pediu uma audiência e eu a recebi. Ela me presenteou com um livro da tradição Nyingma sobre práticas, chamado Breakthrough and Leap-Over, e tivemos uma conversa informal. Ela me disse que se casara bem jovem e ainda vivia no Tibete, mas o seu marido faleceu. Depois da morte dele, ela abandonou a vida mundana, deixou para trás tudo que possuía e partiu em uma peregrinação. Acabou chegando a Drikung, onde encontrou um Lama muito idoso, que tinha aproximada­mente oitenta anos e morava em uma montanha atrás de Drikung. O Lama estava rodeado por cerca de 12 discípulos. Ela relatou que em duas ocasiões diferentes viu monges usando seus xales para voar do topo de uma colina para outro. Ela efetiva­mente viu isso.

Se for verdade, não se trata apenas de um feito mágico; é decorrente da prática do ioga do vento. Os monges, que viviam naquela região remota com um velho Lama, haviam claramente renunciado ao mundo e devem ter afrouxado os nós dos canais. Parece-me que eles também devem ter tido a visão do vazio da existência inerente, bem como o altruísmo dotado de amor e compaixão. Quer fossem ou não eruditos, eles devem ter tido a essência de compreender o vazio.

 

                     AS GOTAS DOS FLUIDOS ESSENCIAIS DO CORPO

No centro das rodas-canais existem gotas, brancas em cima e vermelhas embaixo, nas quais se baseiam a saúde física e a men­tal. No alto da cabeça, predomina o elemento branco, enquan­to no plexo solar prevalece o elemento vermelho. Essas gotas se originam da gota fundamental no coração, que é do tamanho de uma semente grande de mostarda ou de uma ervilha pequena e, como as outras, é branca em cima e vermelha embaixo. Corno perdura até morte, essa gota do coração é chamada de “gota indestrutível”. O vento muito sutil que sustenta a vida vive den­tro dessa gota; na ocasião da morte, todos os ventos acabam por se dissolver nele, em cujo ponto a clara luz da morte se manifesta.

Agora, tendo como base essas informações a respeito dos níveis de consciência, dos canais e das gotas dos fluidos essenciais, voltemos a examinar como os níveis de consciência se dis­solvem nos estágios finais da morte.

 

                         ELUCIDANDO AS QUATRO FASES FINAIS DA MORTE

As quatro fases finais da morte começam com três níveis de mente sutil e terminam com uma fase de mente muito sutil. Depois que cessam os níveis mais densos da consciência, emergem três fases de mente sutil. À medida que avançamos através desses três níveis, nossa consciência se torna progressivamente não-dualista, visto que existe uma noção cada vez menor de sujeito e objeto.

 

Quinta fase. Quando as oitenta concepções do nível grossei­ro da consciência se dissolvem, emerge o primeiro de três níveis sutis, uma aparição branca radiante que se manifesta espontaneamente. É uma abertura luminosa, como um céu de outono banhado por uma luz branca. Nada mais aparece para essa mente. A tradição budista usa o exemplo do céu de outono por­que nessa estação, na Índia, onde se originou esse ensinamento, as chuvas das monções do verão já terminaram, deixando o céu sem nuvens e livre da poeira. De um modo muito semelhante, o céu, ou espaço, é a mera ausência da obstrução, as concepções grosseiras desapareceram, deixando uma sensação de abertura. O primeiro dos três estados mais sutis é chamado de “aparição”, porque surge uma aparição semelhante ao luar, mas nenhuma luz desse tipo brilha do lado de fora. Esse estado também é chama­do de “vazio”, porque está além das oitenta concepções e dos ventos que elas cavalgam.

Eis o que ocorre na quanta fase em um nível físico, embora aconteça fora do que o moribundo está experimentando: (1) Os ventos nos canais direito e esquerdo acima do coração penetram o canal central através da sua abertura no alto da cabeça. (2) Por esse motivo, o nó dos canais no alto da cabeça é afrouxado. (3) Isso, por sua vez, faz com que a gota branca que reside no alto da cabeça e possui a natureza da água desça; quando ela chega ao topo do nó sêxtuplo dos canais direito e esquerdo no coração, a aparição branca radiante se manifesta.

Sexta fase. Quando a mente de aparição branca e seu vento se dissolvem na mente de aumento da aparição, uma aparição vermelho-laranja radiante surge espontaneamente. Trata-se de uma abertura ainda maior, como um céu de outono livre de nuvens e poeira, e permeado pela luz vermelho-laranja. Nada mais acontece a essa mente. Esse estado é chamado de “aumen­to da aparição” porque uma aparição semelhante a uma luz solar muito radiante se manifesta, porém uma vez mais nenhuma luz desse tipo está brilhando do lado de fora. Esse estado também é chamado de “muito vazio”, porque está além da mente de apa­rição e do vento que ela cavalga.

 

Fisicamente: (1) Os ventos superiores e inferiores dentro do canal central se juntam no coração, afrouxando o nó sêxtuplo dos canais direito e esquerdo. (2) Neste ponto, a gota branca originária do alto da cabeça desce ainda mais e a gota vermelha proveniente do umbigo sobe ainda mais, e ambas penetram a parte central da gota indestrutível do coração. (3) Quando essas duas gotas se encontram surge a aparição negra radiante.

Oitava fase. A mente se torna ainda mais sutil do que é durante a segunda parte inconsciente da mente de quase-realização negra; o movimento do vento enfraquece e surge o estado do vento mais sutil. Neste ponto, a inconsciência é desobstruída e a mente de clara luz, a mais sutil de todas as men­tes, não conceitual e totalmente não-dualista, se manifesta. Nesse momento crítico toda a atividade conceitual cessou e as três “condições contaminadoras” — as aparições branca, verme­lha e negra, ou a lua, o sol e a escuridão, que impedem o surgi­mento da cor natural do céu — se dissolveram. Uma abertura muito clara se manifesta. Como um céu de outono ao amanhe­cer, antes do nascer do sol, livre de todos os fatores contamina­dores, nada mais aparece. Essa consciência mais profunda é cha­mada de “mente inata fundamental de clara luz” é “totalmente vazia” porque está além das oitenta concepções e das três mentes sutis.

Fisicamente: (1) As gotas branca e vermelha se dissolvem na gota indestrutível do coração; a branca se dissolve na parte supe­rior branca e a vermelha na parte inferior vermelha. (2) A seguir, os ventos dentro do canal central se dissolvem no vento que sustenta a vida. (3) Isso faz com que o vento muito sutil e a mente de clara luz se manifestem.

 

No caso da maioria das pessoas, a morte tem lugar quando o nível mental mais sutil se manifesta. A consciência mais sutil em geral permanece no corpo durante três dias, a não ser que ele tenha sido devastado pela doença, em cujo caso ela pode não permanecer nem mesmo um dia. Para o praticante competente. esta é uma valiosa oportunidade para praticar. Aqueles que estão conscientes da mente de clara luz podem permanecer nesse estado por períodos mais longos e, dependendo do treinamento prévio, podem até mesmo usá-lo para compreender a verdade do vazio da existência inerente de todos os fenômenos, inclusive a existência cíclica e o nirvana.

 

                             COMPREENDENDO O VAZIO

Entender a doutrina budista do vazio é fundamental para viver e morrer com realismo e sem medo. Vazio não quer dizer não-existência. Vocês podem pensar que o vazio significa o nada, mas isso não é verdade. Os fenômenos são vazios de quê? Sem entender o que é negado, vocês não podem compreender sua ausência, ou o vazio. Vejam as coisas da seguinte maneira. Buda disse com freqüência que como todos os fenômenos têm uma origem dependente, eles são relativos, o que quer dizer que a existência deles depende de causas, condições e das próprias partes deles. O seu corpo, por exemplo, não existe de um modo independente; mais exatamente, depende de um grande núme­ro de causas como o óvulo e o espermatozóide, bem como de água e comida. Ele também depende das suas próprias partes: pernas, braços, tronco e cabeça.

Examinem se o seu corpo, que parece existir por si mesmo, é o mesmo ou difere dos seus braços, pernas, tronco e cabeça. Se ele de fato existir do jeito que parece, extremamente concre­to e presente, deverá ficar cada vez mais claro sob a luz da análi­se se o corpo for uma das suas partes individuais, se for a soma delas, ou se for algo completamente diferente. Quanto mais de perto vocês olham, mais ele não é encontrado em nenhuma dessas maneiras. Este é o caso de todos os fenômenos. O fato de vocês não conseguirem encontrá-los com essa análise significa que eles não existem por conta própria; não são auto-estabelecidos. Não existem de um modo inerente, apesar de todas as indicações em contrário.

Ainda assim, isso não significa que os seres sencientes e as coisas não existam. Mais exatamente, simplesmente não existem da forma concreta como parecem existir. Quando vocês fizerem uma boa análise e meditarem adequadamente, compreenderão a harmonia entre a aparência efetiva das pessoas e das coisas, e o vazio da existência inerente nelas. Sem esse entendimento, o vazio e a aparência parecem ser mutuamente exclusivos.

A existência de todos os fenômenos — causas e efeitos, agen­tes e ações, bons e maus — é meramente convencional; eles têm uma origem dependente. Como os fenômenos dependem de outros fatores para existir, não são independentes. Essa ausência de independência — vazio da existência inerente — é a verdade suprema deles. Compreender essa verdade é sabedoria.

A causa fundamental do sofrimento é a ignorância, a con­cepção errônea de que os seres vivos e os objetos existem de um modo inerente. Todos os estados mentais imperfeitos baseiam-se nesse erro. Uma das principais metas do caminho espiritual é opor-se à ignorância por meio da sabedoria. Uma consciência sábia, fundamentada na realidade, entende que os seres vivos e outros fenômenos não existem de um modo inerente. Esta é a sabedoria do vazio.

Uma das obras mais eloqüentes e funcionais do Primeiro Panchen Lama é “Argument with Ignorance” (Debate com a ignorân­cia), que se assemelha ao oitavo capítulo do Guide to the Bodhisattva’s Way of Life (Guia para o modo de vida do bodhisattva), no qual tem lugar uma polêmica entre o egocentrismo e a admiração pelos outros. O Argument with Ignorance do Primeiro Panchen Lama encerra uma acalorada discussão entre as concepções errôneas ignorantes de que os seres sencientes e os objetos existem de um modo inerente e a sabedoria da origem dependente e do vazio. Quando li o livro, percebi que minha perspectiva do Caminho do Meio não chegava à altura da abor­dagem mais elevada.

Devido à explicação do Panchen Lama, finalmente com­preendi que, após refutar a existência inerente, é extremamente difícil pressupor a existência meramente nominal e aceita das pessoas e dos fenômenos. Isso foi confirmado por uma estrofe na grande exposição de discernimento especial de Tsongkhapa na obra The Great Treatise on the Stages of the Path to Enlightenment (O grande tratado sobre os estágios do caminha da iluminação):

 

“Embora seja difícil para a sua mente colocar a origem dependente da causa e do efeito dentro da ausência da existência inerente,

Seria maravilhoso se vocês se apoiassem em uma abordagem.

Dizendo que esse é o sistema do Caminho do Meio”.

 

Antes disso, eu não contestara a maneira como os seres sencientes e os objetos aparecem para nós. Eu deixara essa aparência intocada e considerara a negação da existência inerente como algo além da aparência básica convencional. No entanto, ao refletir sobre o significado do texto do Panchen Lama, adqui­ri uma nova perspectiva. Essa declaração pode ser melhor expli­cada pela maneira como passei a encarar uma afirmação feita pelo iogue erudito Gungtang Könchok Tenpay Dröunmay do fim do século XVIII c início do século XIX.

“Devido ao fato de que a existência inerente está sendo explorada em uma análise,

O fato de ela não ser encontrada refuta a existência inerente.

Ainda assim, o fato de ela não ser encontrada não nega a base do que está sendo procurado,

E assim, depois, um resíduo meramente nominal é visto”.

 

Ele parece estar indicando que, à parte a refutação da exis­tência inerente além do fenômeno, a aparição do fenômeno não está sendo refutada. Na verdade, o fenômeno em si não está sendo negado, mas tudo indica que nessa declaração as aparições cármicas dos fenômenos são deixadas intocadas da maneira como aparecem para nós, para que sejam estabelecidas através do seu caráter, e alguma existência inerente adicional está sendo refutada. No entanto, essa é a perspectiva da mais baixa das duas escolas do Caminho do Meio, a Escola da Autonomia.

 

Para ela, se os fenômenos fossem finalmente estabelecidos, eles o seriam como o seu próprio modo de ser, em cujo caso teriam de aparecer para a sabedoria do supremo, mas uma vez que fenômenos como os quatro elementos não aparecem para a sabedoria do supremo, em última análise eles não existem. Essa e a perspectiva da Escola da Autonomia. Parece-me que a partir desse ponto de vista, que contraria a declaração de Tsongkhapa sobre a perspectiva da mais elevada das duas escolas do Caminho do Meio anteriormente citadas, não seria difícil pressupor a origem dependente de causa e efeito diante dessa análise.

O “Argument with Ignorance” do Primeiro Panchen Lama deixa claro que, quando as formas e assim por diante aparecem para nós, desde o início dão a impressão de estarem estabelecidas por meio do seu próprio caráter, de modo que quando essa aparên­cia é refutada, parece que o fenômeno em si deixa de existir. É por esse motivo que Tsongkhapa diz que é difícil pressupor a origem dependente de causa e efeito na ausência da existência inerente. Com o auxílio do “Argument with Ignorance” do Primeiro Panchen Lama, entendo que o que Tsongkhapa disse é de fato verdade. O livro foi verdadeiramente útil.

Compreender que vocês não possuem uma existência ine­rente por meio do raciocínio de que vocês não são nem um nem muitos, nem singular nem plural, e manter essa perspecti­va consegue debilitar — um pouco — a ignorância que concebe a existência inerente. No entanto, essa compreensão não supera completamente a concepção da existência inerente, que perma­nece com relação a vocês. Por quê? Porque um “Eu” conven­cional, que existe de forma inerente, permanece para essa cons­ciência. Tão logo o “eu” aparece, surge também a existência inerente que deve ser refutada, de modo que vocês precisam compreender que o “eu” que aparece durante a observação da mente e do corpo não existe. Esse “eu” não existe. Nas palavras do Primeiro Panchen Lama:

 

Meramente refutando a verdadeira existência

Do “eu” que aparece durante a observação da mente e do corpo,

Tomem essa ausência como o objeto da sua atenção, Com uma aparência clara sem deixar a força dela se deteriorar.

 

Ele está dizendo que se meditarmos dessa maneira, debilita­remos a concepção da existência inerente. Essa noção me aju­dou bastante.

Aqui, nos estágios da morte, vocês procuram tomar essa natureza suprema dos fenômenos, o vazio da existência inerente, como um objeto das mentes mais sutis e poderosas, e concentrar-se unidirecionalmente nele. Por meio dessa ioga conhecerão sua natureza suprema. Das duas naturezas, a con­vencional e a suprema, vocês estão voltando a mente para a suprema. a ausência da existência inerente.

 

                             RFSI JMO POS CONSELHOS

1 - Observem como diversas atitudes e concepções possuem forças diferentes em função do movimento do vento em direção aos seus respectivos objetos.

2 - Aprendam que depois dos quatro sinais internos da miragem, da fumaça, dos pirilampos e da chama (de uma lamparina de manteiga ou de uma vela, no início bruxu­leante e depois firme), surgem as três mentes mais sutis de aparição branca radiante, de aumento da aparição vermelho-laranja e de quase-realização negra.

3 – Lembrem-se de que vocês estão procurando usar essas mentes mais sutis para compreender a verdade do vazio.

4 - O vazio não quer dizer não-existência; mais exatamente, ele é a ausência da existência inerente dos fenômenos, tanto dos seres quanto das coisas.

5 - Aprendam a analisar os fenômenos. Concentrem-se em se eles são qualquer uma das suas partes individualmente ou o conjunto das suas partes, ou algo completamente diferente. Essa análise mostrará que os fenômenos não existem da maneira concreta como parecem existir.

6 - Todas as causas e efeitos, agentes e ações, bons e maus só existem de um modo convencional; eles têm uma ori­gem dependente.

7 - A ausência de independência, ou vazio de existência inerente, é a verdade suprema deles. É isso que a sabedo­ria compreende, debilitando a ignorância por trás da cobiça, do ódio e do sofrimento que eles causam.

  1. Conheçam por meio dessa ioga sua natureza suprema bem como a de todos os fenômenos.

 

                           8 - A Clara Luz da Morte

 

Compreendam que o corpo é impermanente como um vaso de argila.

Saibam que os fenômenos não possuem uma existência inerente, são como miragens.

Depois de destruir as armas venenosas do apego, que são atraentes como flores,

Vocês até mesmo passarão além das visões da morte.

                           BUDA

 

 

                   Décima Segunda Estrofe

 

Que as claras luzes mãe e filho se encontrem

Quando a quase-realização se dissolver no vazio total

E cessem todas as multiplicações conceituais e surja uma experiência

Semelhante a um céu de outono livre de condições poluentes.

 

Segundo o tantra ioga superior, não existe nenhuma mente mais sutil do que a mente de clara luz; ela atua como a base de todas as aparições da existência cíclica e do nirvana. Essa mente de clara luz existe continuamente desde a existência cíclica imemorial. Como ela não é temporária, é chamada de mente funda­mental, ao passo que as mentes de quase-realização negra, de aumento da aparição vermelho-laranja, de aparição branca e assim por diante são repetidamente criadas e estão fadadas a se extinguirem através do poder das condições sendo então cha­madas de temporárias e fortuitas. Essa mente fundamental de clara luz totalmente vazia, inata, é a mente mais profunda.

 

Todas as outras mentes podem ser consideradas grosseiras, embora existam muitos níveis de densidade e sutileza entre elas. Em comparação com a mente de clara luz, até as mentes de apa­rição branca, de aumento da aparição vermelho-laranja e quase realização negra, que são mais sutis do que a consciência ordiná­ria, são grosseiras. Em comparação com a mente inata fundamental de clara luz, elas são temporárias, assim como o são as consciências usuais.

A partir dessa perspectiva, o lugar das concepções errôneas do sujeito e objeto (mencionado anteriormente na quarta estro­fe) pode referir-se aos fenômenos produzidos a partir de ações (carma), os quais, por sua vez, têm origem na qualidade concei­tual de níveis mais grosseiros de consciência. Quando vocês são capazes de permanecer para sempre na mente inata de clara luz sem retornar aos níveis mais densos, o carma não tem a oportunidade de se acumular. No entanto, para permanecer constante­mente na mente de clara luz, vocês precisam remover as obstruções à onisciência, que são as contaminações da aparência errônea de sujeito e objeto como se possuíssem uma existência ine­rente. Quando vocês são capazes de permanecer na mente de clara luz, a consciência conceitual deixa de existir. Até então, vocês estão sob a influência de um nível mais grosseiro de consciência, de uma qualidade conceitual temporária, e acumulam carma.

Na fase final do processo da morte, quando toda a consciência grosseira se dissolve no vazio total, que é a mente de clara luz ou mente inata fundamental, as miríades de objetos do mundo, bem como conceitos como a semelhança e a diferença, foram apaziguados nessa mente mais sutil. Todas as aparições de ambientes e seres se retraíram espontaneamente. Se vocês forem capazes de transformar a clara luz da morte em uma consciência plenamente qualificada, a mente reconhecerá sua própria face, sua própria natureza: a entidade da mente fundamental.

 

No caso do não-praticante, as aparições grosseiras também se recolhem. No entanto, essa retração das aparições convencio­nais, não é causada por uma percepção da realidade alcançada por meio da meditação. Nesses quatro últimos estágios do pro­cesso da morte, os ventos que atuam como os suportes da consciência tornam-se ­cada vez mais sutis. Quando, na última fase, os ventos temporários que conduzem a consciência já se dissolveram a mente (quer a pessoa seja uni praticante ou um não-praticante) se torna, por assim dizer, uniforme, surgindo então uma abertura imaculada.

No entanto, na condição de praticantes, vocês procuram ir além desse vazio habitual, dessa mera ausência de aparições convencionais. Quando surgir a clara luz, procurem compreender o vazio extraordinário da existência inerente com a própria mente de clara luz. Isso não acontecerá através do esforço na hora da clara luz propriamente dita, surgindo, ao contrário, a partir da força da familiaridade alcançada antes das fases de dissolução, e da poderosa consciência do vazio durante a manifestação das três mentes de aparição branca, vermelha e preta. Isso confirma a importância do treinamento contínuo.

A pedra angular da minha prática é a reflexão sobre os qua­tro ensinamentos básicos da impermanência do sofrimento, do vazio e do altruísmo, Além disso, como parte de oito diferentes práticas rituais diárias, imagino a dissolução do elemento terra na água, do elemento água no fogo e assim por diante. Embora eu não possa afirmar que possuo uma profunda experiência, uma pequena interrupção da respiração tem lugar quando o ritual pede que a dissolução de todas as aparências seja imagina­da. Estou certo de que versões mais completas se manifestam quando o praticante visualiza as dissoluções de uma maneira mais tranqüila e meticulosa. Uma vez que todas as minhas prá­ticas cotidianas da ioga da divindade envolvem a visualização da morte, estou me habituando ao processo, de modo que no momento efetivo da morte essas etapas serão supostamente familiares. No entanto, não sei se serei ou não bem-sucedido.

 

Alguns dos meus amigos religiosos, inclusive praticantes de um sistema chamado a “grande conclusão” na ordem Nyingma do budismo tibetano, relataram profundas experiências de disso­lução, mas ainda dentro da esfera das semelhanças das verdadeiras, O corpo de alguns tibetanos, declarados clinicamente mor­tos, permaneceu sem se decompor durante bastante tempo. Ano passado, o corpo de um Lama da ordem Sakya permaneceu viçoso, sem se decompor, por mais de vinte dias. Ele “morreu” em Dharmsala, mas continuou a meditar, ainda aqui em Dharmsala; seu corpo foi então transportado para Rajpur na região de Dehra Dun, onde ainda permaneceu exuberante. Foi extraordinário. Conheço cerca de 15 tibetanos cujos corpos também permaneceram livres de decomposição, alguns durante poucos dias, outros por mais tempo, sendo o prazo máximo de três semanas. O corpo do meu mentor mais antigo, Ling Rinpochay, permaneceu 13 dias sem se decompor.

Este estado, na sua melhor forma, quando transformado em uma experiência espiritual, é chamado de encontro das claras luzes mãe e filho. A clara luz mãe aparece naturalmente no momento da morte através da força do carma. A clara luz filho é gerada através do cultivo do caminho espiritual, alcançada pelo esforço de um iogue em uma meditação anterior. O encontro das claras luzes mãe e filho não é na verdade uma reunião de duas entidades; mais exatamente, a clara luz mãe da morte, que surge por causa do carma, transforma-se em uma consciência espiritual, a clara luz filho. Esse é o encontro das claras luzes mãe e filho.

Em outra interpretação, a clara luz filho é vista como o vazio e o encontro das duas luzes significa não permitir que a clara luz mãe seja uma mente ordinária da morte, usando-a para tomar como seu objeto o vazio da existência inerente — a clara luz filho. Considerar a clara luz mãe uma mente usual da morte é a interpretação que costuma prevalecer, mas os significados são essencialmente os mesmos.

 

                     AS GOTAS SUTIS COMO BASE DAS MENTES SUTIS

Como descrito anteriormente, a manifestação dos níveis mais profundos da consciência está intimamente ligada aos processos físicos dos cinco elementos — a terra, a água, o fogo e o vento — especialmente o quarto, os ventos servem de base da consciência. Também envolvida no processo da morte está uma gota de matéria sutil no coração, que contém a consciência mais sutil do estado ordinário.

 

O Kalachakra tantra, outro tantra ioga superior mencionado por Buda que se tornou amplamente conhecido na Índia no século X, oferece uma fascinante apresentação de oito gotas de matéria sutil em locais estratégicos do corpo. Esses são lugares de contaminação a ser purificados e um potencial a serem utili­zado. Como a gota no coração no Cuhyasamaja tantra (o qual, como mencionado anteriormente, é o principal sistema expli­cado neste livro), essas oito gotas são uma matéria sutil do tamanho de uma semente de mostarda e são formadas pelos compo­nentes básicos branco e vermelho; também são esteios das consciências sutis. As predisposições formadas por atos virtuosos e não virtuosos estão impregnadas nessas consciências sutis. Ações praticadas pelo corpo, pela fala e pela mente depositam na consciência tendências latentes que residem nessas gotas materiais, onde são armazenadas até que certas condições fazem com que elas se manifestem como prazer, dor e os outros eventos da exis­tência cíclica.

Existem dois agregados de quatro gotas cada um; cada par trabalha em conjunto para criar diferentes estados de consciên­cia. O primeiro agregado está localizado (1) na testa (ou no alto da cabeça), (2) na garganta, (3) no coração e (4) no umbigo; o segundo agregado está situado (1) no umbigo, (2) no lugar secreto (na base da coluna), (3) no centro do órgão sexual e (4) na extremidade do órgão sexual. As gotas na testa e no umbigo geram o estado desperto; as gotas na garganta e na base da coluna produzem o estado de sonho; as gotas no coração e no centro do órgão sexual produzem o estado de sono profundo; e as gotas no umbigo e na extremidade do órgão sexual geram o estado de bem-aventurança sexual. Como vocês podem ver, a gota no umbi­go encerra dentro de si duas diferentes predisposições: uma pro­duz o estado desperto no seu papel como a quarta do conjunto superior de gotas. e a outra produz o estado da bem-aventurança sexual no seu papel como a primeira do conjunto inferior de gotas.

 

Cada gota contém dois tipos de potências, puras e impuras. Quando estamos acordados, os ventos da parte superior do corpo se reúnem na testa e os ventos da parte inferior, no umbigo; as potências puras produzem aparições de objetos puros, e as impuras geram aparições de objetos impuros. Durante o sonho, os ventos superiores se reúnem na garganta e os inferiores na região secreta, e as potências puras produzem sons cristalinos enquanto as pertencias impuras dão origem a uma fala confusa. No sono profundo, os ventos superiores se reúnem no coração e os ventos inferiores no centro dos órgãos sexuais, e as potências puras produzem a clareza não conceitual e as potências impuras, a obscuridade. Durante uma intensa exaltação sexual, os ventos superiores se reúnem no umbigo e os inferiores na extremidade do órgão sexual, fazendo com que as potências puras gerem a bem-aventurança e as impuras produzam a emissão ou a secreção sexual (no caso dos homens e das mulheres).

O treinamento espiritual na tradição Kalachakra está volta­do para a purificação desses quatro conjuntos de gotas. Através da limpeza das gotas na testa e no umbigo que produzem a apa­rição de objetos impuros durante o estado desperto, os objetos se tornam aparições de formas vazias, formas que estão além da mera matéria. Na condição de formas vazias, essas aparições podem ser utilizadas no caminho para a iluminação. As gotas na garganta e na base da coluna vertebral têm a capacidade de produzir a fala errônea, mas quando são purificadas é possível trazer à tona “sons invencíveis” que serão usados no caminho espiritual. As gotas no coração e no centro do órgão sexual possuem a habilidade de produzir a obscuridade, mas por meio da sua purificação torna-se possível utilizar a sabedoria não conceitual no caminho espiritual. As gotas no umbigo e na extremidade do órgão sexual têm a capacidade de produzir a emissão, e por meio da sua limpeza a bem-aventurança pode ser transformada em uma grande bem-aventurança desprovida de emissão e utilizada para fins espirituais. Essas capacidades positivas evoluem para formas cada vez mais elevadas, finalmente transformando-se no corpo, na fala, na mente e na bem-aventurança especiais e diamantinos de um Buda.

 

No sistema Kalachakra, todas as obstruções que prendem os seres a um estado de sofrimento e limitação, que os impedem de ser altruisticamente eficazes, estão contidas nessas quatro gotas. Não é o material das gotas em si que funciona como base, ou suporte, para a infusão cármica das obstruções; mais exatamente, os ventos e as mentes muito sutis que habitam esses dois conjuntos de quatro gotas são impregnados de potências cármicas, tanto virtuosas quanto não virtuosas. As gotas materiais são o esteio para essas mentes e ventos sutis, de uma maneira bastante seme­lhante à que o corpo físico grosseiro serve de apoio à mente.

Há dois anos, um iogue tibetano que praticava o estilo de meditação da grande conclusão da tradição Nyingma atingiu o estado de completo desaparecimento do corpo físico denso, o que chamamos de “alcançar um corpo de arco-íris”. O seu nome era Achok e ele era de Nyarong. Ele estudou filosofia de tempos em tempos em uma universidade monástica Geluk, perto de Lhasa, chamada Será e também recebeu ensinamentos do meu mentor mais novo Trijang Rinpochay, mas o seu prin­cipal mestre foi o Lama Nyingma, Dujom Rinpochay. Embora praticasse o tantra tanto segundo a antiga quanto a nova escola de budismo tibetano, a sua principal prática era a recitação de om mani padme hum e a meditação que acompanha esse mantra.

Até mais ou menos três anos atrás, ele dizia com freqüência que esperava ter a oportunidade de encontrar o Dalai Lama nesta vida. Então, certo dia, convocou seus seguidores para realizar oferendas por amor à vida do Dalai Lama. Depois de con­cluídas as oferendas, ele os surpreendeu anunciando que iria partir. Vestiu seu traje monástico amarelo-alaranjado e lhes disse que o prendessem dentro do seu quarto por uma semana. Seus discípulos atenderam o seu pedido e sete dias depois, quando abriram o aposento, descobriram que ele tinha desaparecido, deixando apenas a veste. Um dos discípulos e colega de prática veio até Dharmsala, onde me contou a história e entregou-me um pedaço do seu traje.

 

Como, ao contrário de alguns lamas, ele em geral perma­necia em retiro como um monge muito simples e sem pretensões, demonstrou ser um bom praticante e finalmente esse fenô­meno ocorreu. É possível perceber nesse caso a conexão entre a causa e o efeito. Mencionam-se milagres a respeito de outros monges, porém desprovidos das causas adequadas.

No tantra ioga superior, as potências, que na vida ordinária produzem ambientes e seres impuros por meio do vento e da mente muito sutil, são purificadas através da prática do caminho espiritual, por meio do qual são transformadas na mente, na fala e no corpo puros e altruístas de um Buda. Nosso objetivo é manifestar a mente inata fundamental de clara luz, o nível mais sutil de consciência e permanecer dentro desse nível mental sem regredir para níveis mais densos. No entanto, esse estado purificado não é apenas mental; envolve o corpo, porém um corpo fabricado a partir do vento que é a base da mente de clara luz. O supremo propósito dessas manifestações é ajudar as outras pessoas a se libertarem totalmente do sofrimento e da limitação.

O centro desse processo de purificação é a compreensão da natureza luminosa e perspicaz da mente, a percepção de que as emoções perturbadoras como a cobiça, o ódio, a inimizade, o ciúme c a agressividade não residem na essência da mente, sendo, em vez disso, periféricas a ela. Quando a mente conhece a pró­pria natureza e quando esse conhecimento está aliado a uma poderosa concentração, pouco a pouco se torna possível reduzir, e finalmente superar, os estados aflitivos que impulsionam o processo do repetido sofrimento. Esta é a perspectiva tibetana do relacionamento íntimo entre a mente e a matéria, e de como elas atuam no processo da purificação altruisticamente orientada.

 

                               RESUMO DOS CONSELHOS

1 - A fase final do processo da morte ocorre quando surge a mente inata fundamental de clara luz. Essa mente existe continuamente desde tempos imemoriais e continuará a existir para sempre.

2 - Finalmente, no estado de Buda, vocês se tornam capazes de permanecer na mente inata de clara luz sem passar pelo processo inverso dos níveis mais grosseiros de consciência. Nesse ponto, não existe oportunidade de acu­mular o carma.

3 - Mesmo para o não-praticante comum, a ausência de aparições densas desponta no momento da morte, mas o praticante altamente desenvolvido procura usar essa mente para compreender a verdade, o vazio da existên­cia inerente, através da força da familiaridade adquirida a partir da meditação sobre o vazio.

4 - A mente ordinária de clara luz que se manifesta no está­gio final da morte é chamada de clara luz mãe e a clara luz gerada por meio da força de cultivar o caminho espi­ritual é denominada clara luz filho.

5 - A clara luz mãe da morte, que desponta devido ao carma, transforma-se em uma consciência espiritual que conhece o vazio, a clara luz filho, e essa transformação é chamada de encontro das claras luzes mãe e filho.

 

                     Décima Terceira Estrofe

 

Que nos fixemos na meditação profunda e unidirecional

Na sabedoria exaltada da bem-aventurança e do vazio combinados

Durante as quatro vacuidades causadas pelo derretimento do componente branco semelhante à lua,

Pelo fogo da poderosa fêmea semelhante ao trovão.

 

Por meio de técnicas de concentração, os iogues geram o calor interno, chamado de “poderosa fêmea” (Tumo, em tibetano), que se movimenta para cima no canal central a partir da sua localização principal no plexo solar. Esse calor interno derrete o componente branco no conjunto de canais no alto da cabeça (a roda de grande bem-aventurança). Metaforicamente, esse componente branco essencial é comparado à lua e chamado de mente de iluminação. Quando o componente branco se derre­te, ele começa a descer pelo interior do canal central quando, pouco a pouco, chega às rodas-canais da garganta, do coração, do umbigo e da região secreta, quatro níveis de alegria são experimentados: alegria, suprema alegria, alegria especial e alegria inata.

 

Essas quatro alegrias são sabedorias exaltadas de grande bem-aventurança. Essas sabedorias jubilosas tomam o vazio como objeto de realização e assim a bem-aventurança e o vazio são considerados como estando unidos. Através da sabedoria meditativa de grande bem-aventurança no tantra ioga superior, quando a clara luz mãe desponta na morte devido ao carma, é possível transformá-la em um caminho espiritual de consciência (a clara luz filho). O desejo contido nessa estrofe do poema do Panchen Lama, o último relacionado com o estado da morte, está voltado para a obtenção dessa capacidade.

Alguém que pratique diariamente o tantra da ioga superior imagina o surgimento dos oitos sinais da morte — a miragem, a fumaça, pirilampos, a chama de uma lamparina de manteiga, a aparição branca radiante, o aumento da aparição vermelho-laranja radiante, a quase-realização negra radiante e a clara luz — em associação com a reflexão sobre o vazio. Isso é feito dentro de uma percepção consciente tripla: Identificamos o sinal que está aparecendo no momento, a seguir determinamos o sinal anterior e posteriormente definimos o sinal seguinte. Por exem­plo: “Pirilampos estão aparecendo. A fumaça acaba de passar. Uma chama está prestes a surgir”. Embora os oito sinais só apa­reçam efetivamente na meditação no caso dos iogues adiantados, mantemos na imaginação as três percepções conscientes no interesse de nos familiarizarmos com esses sinais. Na prática plenamente desenvolvida, permanecemos na concentração meditativa sobre o vazio e os sinais aparecem espontaneamente.

 

                                   A IOGA DA DIVINDADE

Na prática do tantra, utiliza-se a imaginação para acelerar o desenvolvimento espiritual. A ioga da divindade requer que vocês (1) imaginem que a sua mente (apesar de habitualmente incomodada por emoções perturbadoras) é uma mente de pura sabedoria motivada pela compaixão; (2) substituam a aparência do seu corpo ordinário (formado por carne, sangue e osso) por um corpo oriundo de uma sabedoria compassivamente motiva­da; e (3) desenvolvam o sentimento de um eu puro baseado em uma mente e um corpo que aparecem puramente em um ambiente ideal, totalmente comprometidos em ajudar os outros. Dessas maneiras, vocês se visualizam como tendo o corpo, as atividades, os recursos e o ambiente de um Buda.

A chave de tudo é a imaginação. Ao meditar sobre si mesmos nessa condi­ção ideal, vocês começam com a reflexão sobre o vazio, desenvolvendo o mais possível a percepção do vazio da existência inerente. É a partir dessa percepção que surge a divindade. A mente, ao compreender o vazio, aparece como a divindade e suas adjacências, seus recursos e atos de compaixão. Desse modo, a ioga da divindade é a união da sabedoria e da motivação compassiva; uma consciência percebe o vazio e também aparece na forma de uma divindade compassivamente ativa.

Na prática particular da ioga da divindade encontrada no tantra ioga superior, executada seis vezes por dia, os praticantes também refletem primeiro sobre o vazio, mas a seguir associam o nível de compreensão do vazio que possuem à progressão gradual dos oito sinais da morte. Em uma última etapa, eles usam a mente de clara luz que percebe o vazio — ou uma consciência que imite esse estado mental — como a base a partir da qual aparecem em uma forma ideal e compassiva como uma divindade.

 

                         A UNIÃO SEXUAL E O CAMINHO ESPIRITUAL

O praticante que possui uma compaixão e sabedoria firmes pode utilizar o ato sexual no caminho espiritual como uma téc­nica para focalizar fortemente a consciência e manifestar a mente inata fundamental de clara luz. O objetivo é atualizar e prolongar os níveis mais profundos da mente a fim de usar o poder deles no fortalecimento da percepção do vazio. O mero ato sexual não tem nenhuma relação com o cultivo espiritual, mas quando a pessoa atinge um nível elevado de prática na motivação e na sabedoria, nem mesmo a união dos dois órgãos sexuais, denominado ato sexual, não reduz o valor da sustentação do comportamento puro.

De que maneira o ato sexual ajuda o praticante no cami­nho? Como o potencial dos níveis mais densos da mente é muito limitado, mas os níveis mais profundos e mais sutis são muito mais poderosos, os praticantes adiantados precisam entrar em contato com esses níveis mentais mais sutis. Para atingir esse objetivo, a consciência mais grosseira precisa ser enfraquecida e temporariamente interrompida, o que torna necessário que mudanças dramáticas tenham lugar no fluxo das energias interiores. Embora breves versões dos níveis mais profundos da mente ocorram durante o espirro e o bocejo, obviamente não podem ser prolongados. Além disso, uma experiência prévia com a manifestação dos níveis mais profundos faz-se necessária para que sua ocorrência no sono profundo possa ser utilizada. Por esse motivo, utiliza-se o sexo. Através de técnicas especiais de concentração durante o orgasmo, praticantes competentes são capazes de prolongar estados profundos, sutis e poderosos, utilizando-os para compreender o vazio. No entanto, o ato sexual praticado dentro de um contexto mental ordinário não encerra nenhum benefício.

O pai do falecido Serkong Rinpochay foi ao mesmo tempo um grande erudito e um praticante consumado. Ele pertencia ao mosteiro Ganden, situado ao sudeste, a uma considerável dis­tância de Lhasa, mas seu Lama principal, Trin Ngawang Norbu, vivia no mosteiro Drepung a oeste de Lhasa. Por esse motivo, o pai de Serkong Rinpochay costumava ficar em Lhasa e todas as manhãs empreendia a longa jornada até Drepung, onde buscava água para o seu Lama, varria a casa onde ele morava, de vez em quando recebia ensinamentos durante o dia e depois voltava para Lhasa.

Certa noite, o pai de Serkong conheceu uma moça e que­brou os seus votos. Na manhã seguinte, muito choroso, ele foi até Drepung, mas ao chegar ao quarto do Lama, este já tinha realizado uma cerimônia de reparação.

O mestre, Trin Ngawang Norbu, disse: “Você teve uma recaída, mas está tudo bem. Agora você deve praticar o tantra com uma consorte”. Essa declaração em si foi incomum, mas o fato ainda mais extraordinário foi que, quando a consorte morreu, o mantra da deusa Vajrayogini manifestou-se no crânio dela.

Nesse mesmo período, houve um Lama, Tabung Rinpo­lchay, que praticava com uma consorte. Em um dia auspicioso do mês, quando ele estava transmitindo ensinamentos ao regen­te e outros lamas mais antigos como Trijang Rinpochay (que veio a ser o meu mentor mais novo), teve lugar uma representação ritual que envolvia dois instrumentos semelhantes à flauta. Os dois músicos usavam as mãos esquerda e direita em posições opostas para fechar os orifícios dos instrumentos, de modo que quando olharam um para o outro, para trás e para frente, acaba­ram tocando melodias muito diferentes. A audiência parou de cantar e riu estrepitosamente dessa estranha música. No entanto, quando contemplaram Tabung Rinpochay viram que ele estava sentado, totalmente alheio ao que estava acontecendo, mas não estava dormindo. Mais tarde, o regente percebeu que naquele exato momento, Tabung Rinpochay estava recebendo ensinamentos do plano da pura aparição.

Durante esse período, o Décimo Terceiro Dalai Lama con­duziu uma investigação para verificar quais os Lamas que eram autênticos e expulsou um bom número deles, mas abriu uma exceção para o pai de Serkong Rinpochay e Tabung Rinpochay. Desse modo, reconheceu oficialmente a extraordinária habilida­de desses lamas e lhes concedeu o direito especial de usar uma consorte na prática do tantra. Por conseguinte, eles devem ter vivido algumas experiências profundas, mas não conheço nenhum registro de que tenham reivindicado tais façanhas.

 

                                 RESUMO DOS CONSELHOS

1 - O nível mais elevado do praticante pode transformar a clara luz mãe, que desponta no momento da morte devi­do ao carma, em uma consciência do caminho espiritual.

2 - Nos níveis inferiores, aqueles que praticam diariamente a ioga da divindade do tantra ioga superior imaginam o surgimento dos oito sinais da morte dentro de uma per­cepção consciente tripla, identificando o sinal que está aparecendo, o sinal anterior e o que vai surgir. Pratique a série de oito em associação com a reflexão sobre o vazio. Cada uma possui três partes, com exceção da pri­meira e da última, que têm duas:

  • A miragem está aparecendo. A fumaça está prestes a despontar.
  • A fumaça está aparecendo. A miragem acaba de passar. Pirilampos estão prestes a surgir.
  • Pirilampos estão aparecendo. A fumaça acaba de passar. Uma chama está prestes a despontar.
  • Uma chama está surgindo. Pirilampos acabam de passar. Uma aparição branca radiante está prestes a se manifestar.
  • Uma aparição branca radiante está aparecendo. Uma chama acaba de passar. Um aumento vermelho-laranja está prestes a despontar.
  • Um aumento vermelho-laranja está surgindo. Uma aparição branca radiante acaba de passar. Um negrume radiante está prestes a se manifestar.
  • Um negrume radiante está aparecendo. Um aumento vermelho-laranja acaba de passar. A mente de clara luz está prestes a se manifestar.
  • A mente de clara luz está aparecendo. Um negrume radiante acaba de passar.

3 - Na prática particular da ioga da divindade do tantra ioga superior, os praticantes combinam o nível de entendi­mento do vazio que possuem com a evolução gradual dos oito sinais da morte. A seguir, utilizam a mente de clara luz que percebe o vazio — ou uma consciência que imita esse estado mental como a base a partir da qual eles aparecem em uma forma ideal e compassiva como uma divindade.

4 - Os praticantes altamente desenvolvidos que possuem uma compaixão e sabedoria firmes podem fazer uso do ato sexual como uma técnica para focalizar fortemente a mente e manifestar a mente inata de clara luz. Com essa mente mais profunda eles percebem o vazio da existên­cia inerente de uma maneira dramaticamente poderosa.

 

                         9 - Reagindo ao Estado Intermediário

 

Aqueles que decidem “morrer” param de sentir medo. Como poderiam temer até as visões da morte!

                               BUDA

 

                     Décima Quarta Estrofe

 

Que possamos completar em lugar do estado intermediário

A meditação concentrada de ilusão para que ao deixar a clara luz

Ascendamos em um corpo de completa satisfação que reluz com a glória das marcas e belezas de um Buda

Surgidas do vento puro e da mente da clara luz da morte.

 

Quando os iogues ascendem da percepção do vazio pela mente mais sutil, eles o fazem em um corpo fabricado a partir do vento (energia) e da mente puros, adornado com as marcas e as bele­zas de um Buda. Não se trata apenas de imaginação ou imitação, e sim de um fato. Em vez de entrar em um estado intermediá­rio, o iogue ascende do estado da morte no que chamamos de corpo ilusório, em lugar do estado intermediário. Ele pode ser de dois tipos diferentes: um corpo ilusório impuro ou o corpo de completa satisfação de um Buda. Essa estrofe é um desejo de realizar essa profunda transformação.

A mente de clara luz e o vento que funciona como base para a clara luz são uma única entidade, mas podem ser divididos conceitualmente.

O vento atua como a causa substancial de um corpo ilusório, enquanto a mente funciona como a condição cooperativa de um corpo ilusório. Essas duas causas produzem um corpo ilusório cujo aspecto é semelhante ao corpo da divin­dade favorita que vocês têm imaginado através da prática da ioga da divindade. Não é um corpo de carne e osso; a sua natureza é simplesmente do vento e da mente, clara e desembaraçada como um arco-íris.

Diz-se que a aparência do ser ideal, a divindade, é seme­lhante á aparição repentina de um peixe saltando para fora de um lago em plena forma. Há um longo tempo vocês vem medi­tando a respeito de si mesmos como uma divindade particular, cultivando essa visão, imaginando esse corpo ideal, enquanto se preparam para essa transformação. O objetivo dessa prática finalmente foi alcançado. A imitação conduziu ao fato.

 

                                   NÍVEIS DE PRÁTICA

Tentei enfatizar o tempo todo a importância de praticar no seu nível natural. O tantra ioga superior encerra três níveis. Até este ponto, examinamos praticantes que alcançaram um elevado nível de competência, mas não conseguiram atingir nesta vida a suprema proeza do estado de Buda. Essas pessoas começam a morrer devido à força do carma contaminado e das emoções perturbadoras, mas se forem capazes de transformar a clara luz mãe na clara luz filho do caminho, podem evadir um estado intermediário comum que conduz ao renascimento, e alcançar um corpo ilusório genuíno e não apenas imaginado.

O nível seguinte de praticante (discutido na próxima estro­fe) não é capaz de transformar a clara luz da morte em um esta­do do caminho espiritual — não podendo, portanto, induzir a realização de um corpo ilusório —, mas não é, no entanto, sub­metido à morte natural. Esse iogue efetivamente transforma a clara luz da morte em uma forma do caminho, embora ela não seja capaz de produzir um corpo ilusório. O iogue é capaz de aparecer, não de fato e sim na imaginação, em um corpo ilusó­rio durante um estado intermediário comum. O iogue desse nível pode escolher a forma do renascimento através do poder da compaixão, dos desejos e da plena consciência.

O nível seguinte de praticante (discutido na décima sexta estrofe) não consegue transformar a clara luz da morte em um caminho completamente qualificado, mas é capaz de gerar, após o período de inconsciência da última parte da mente de quase-realização negra, alguma forma de plena consciência da prática do tantra durante a manifestação da clara luz. Essa pessoa passa para um estado intermediário comum e renasce de uma manei­ra ordinária, mas é capaz de gerar a prática salutar por meio de boas predisposições — a força projetante de ações prévias — e a reunião de circunstâncias externas e internas.

Os três níveis buscam gerar a consciência de clara luz em uma sabedoria que percebe o vazio. Por conseguinte, antes dos estágios de dissolução, os três níveis tornam-se conscientes do vazio. Especialmente durante as dissoluções da terra, da água, do fogo e do vento, e da emergência das quatro vacuidades —mentes de aparição branca, de aumento da aparição vermelho-laranja, de quase-realização negra e de clara luz —, eles geram o poder da plena consciência e contemplam o vazio da existência inerente, o modo imortal da existência que é natureza de todos os fenômenos.

O fato de o nível mais elevado de praticante ser capaz de transformar a clara luz da morte em uma consciência que per­cebe o vazio atua como um antídoto contra a morte impotente. A partir desse momento, a pessoa deixa de estar sujeita ao renascimento e à morte. A verdadeira natureza de todos os fenôme­nos, contemplada dessa maneira, confere a imortalidade (conse­qüentemente, é chamada de “imortal” no poema).

A morte se manifesta em estágios, a partir da dissolução da terra na água, até (e inclusive) o despontar da clara luz. Posteriormente, nos casos de morte ordinária (e não da morte do iogue altamente treinado) os oito estágios ocorrem na ordem inversa: passando da clara luz para a quase-realização negra, para o aumento da aparição vermelho-laranja, para a aparição bran­ca, para a chama, para os pirilampos, para a fumaça, para a miragem.

 

No final de uma morte comum, três eventos ocorrem simultaneamente: (1) a clara luz cessa; (2) a pessoa se ergue da clara luz da morte em direção à quase-realização negra radiante; e (3) tem início o estado intermediário (após o que ocorrem as outras etapas inversas). De uma maneira semelhante, um iogue que se encontre no primeiro nível da prática do tantra ioga superior, mas habite a clara luz metafórica, ergue-se simultanea­mente da clara luz em direção à quase-realização, criando um corpo ilusório. No entanto, um iogue que esteja no primeiro nível da prática do tantra ioga superior e que se erga da genuína clara luz não passa em sentido inverso para a mente de quase-realização e assim por diante; todos os níveis mais grosseiros da mente cessaram.

 

                               RESUMO DOS CONSELHOS

1 - Os praticantes altamente desenvolvidos são capazes de utilizar a clara luz da morte comum e o vento que ela cavalga como as causas substanciais da mente e do corpo puros, respectivamente.

2 - Para ser capaz de se erguer de dentro da mente de clara luz em um corpo puro fabricado a partir do vento, é necessário ter praticado anteriormente, imaginando que sua mente e seu corpo são altruisticamente motivados. O que é executado como imitação finalmente conduz a uma realização concreta.

3 - Efetuar a transformação final requer deixar de passar, de trás para diante, da mente inata fundamental de clara luz para um nível mental mais denso, o que produz um esta­do imortal.

 

                             Décima Quinta Estrofe

 

Se, devido ao carma, um estado intermediário se estabelecer

Que as aparições errôneas sejam purificadas

Por meio da imediata análise e compreensão da ausência da existência inerente

Dos sofrimentos do nascimento, da morte e do estado intermediário.

 

No final do período em que a mente mais sutil permanece no corpo, ocorre um leve movimento do vento no qual cavalga a mente de clara luz, e o vento e a consciência mais sutis deixam a gota aberta de componentes brancos e vermelhos no coração e abandonam o corpo. Uma pequena quantidade de sangue emerge do nariz e uma diminuta quantidade de fluido essencial emana do órgão sexual, indicando que esse nível final de cons­ciência deixou o corpo, embora esses sinais possam não ocorrer nas pessoas cujo corpo foi consumido pela doença. Neste ponto, o corpo começa a se deteriorar e cheirar mal.

Os mais qualificados dos iogues que não atingem o estado de Buda durante a vida alcançam um corpo ilusório em lugar de um estado intermediário. As pessoas comuns incapazes de ascender em um corpo ilusório por não terem atingido as realizações superiores entram em um estado intermediário através da força do carma. Caso isso aconteça, é preciso imediatamente reconhecer e compreender sua situação.

O início do estado intermediário se caracteriza pelo cessar da clara luz e pelo despontar, na ordem inversa, dos sete estados remanescentes. Aqui, na abertura do estado entre vidas, as pes­soas passam através das oito fases como fazem quando acordam, começam a sonhar, voltam a si de um desmaio e emergem do orgasmo:

 

                   8 – clara luz

                   7 – mente-céu negra radiante

                   6 – mente-céu vermelho-laranja radiante

                   5 – mente-céu branca radiante

                   4 – chama de uma lamparina

                   3 – pirilampos

                   2 – fumaça

                   1 – miragem

 

Assim como quando vão dormir e ressurgem com um corpo de sonho, no estado intermediário vocês de repente têm um corpo moldado como aquele no qual irão renascer. Com freqüência, esse corpo é semelhante ao seu corpo futuro com cerca de cinco ou seis anos de idade. O vento que a mente de clara luz cavalga é a causa substancial desse corpo, mas também é uma condição cooperativa que contribui para a mente do estado intermediário. A mente de clara luz, ao contrário, é a causa substancial da mente do estado intermediário e a condição coopera­tiva que contribui para o corpo do ser no estado intermediário.

Certo funcionário monástico da ordem Geluk era um prati­cante bom e corajoso. Quando o Exército de Libertação chinês entrou em Chamdo na província Kham do Tibete e a “liber­tou”, ele era um dos subordinados do representante do governo tibetano perto dessa região. O representante achou que era importante ter um encontro com os chineses e perguntou aos seus subordinados se alguém estaria disposto a ir ter com eles. Mas todos, com exceção desse funcionário monástico e de outra pessoa, ficaram com medo. Esse homem corajoso e de confiança contou-me que, certa vez, sua mãe lhe disse: “Vou entrar em um sono profundo e você não deve tocar o meu corpo.” Ela dormiu profundamente por uma semana e depois retornou. Durante esse período, sua alma, ou mente, visitou vários lugares. O filho não tinha nenhuma razão para mentir para mim e ele não estava ape­nas relatando um boato. É extremamente provável que esse não tenha sido um caso em que a pessoa morreu e voltou da morte, e sim o de um corpo de sonho especial.

No estado intermediário, como o corpo é fabricado a par­tir do vento e da mente, vocês têm os cinco sentidos, mas seu corpo fica claro como um arco-íris, sem projetar uma sombra, e vocês não deixam pegadas. Através da força mágica do carma vocês são naturalmente contemplados com a capacidade de via­jar em um tempo muito curto ao redor ou através deste sistema de mundo, sem ser obstruídos pela terra, rochas, montanhas e prédios; não obstante, depois que penetram o útero da sua nova mãe, já não podem partir.

 

Embora vocês falem com os seus parentes, amigos e outras pessoas, eles não os escutam e, portanto, não respondem ao que vocês perguntam. Vocês não vêm o sol, a lua ou as estrelas. Apesar de não terem sido anteriormente clarividentes, possuem agora uma clarividência limitada.

Se descobrirem que estão manifestando sinais de estar nesse estado, vocês devem pensar: “Morri e vivo agora no estado intermediário.” Usem o poder da plena consciência para com­preender que as aparições agradáveis e desagradáveis que têm lugar durante o estado intermediário são criações de uma mente equivocada e usem a plena consciência para compreender que não faz sentido apegar-se ao agradável ou ficar zangados com o desagradável. Em vez disso, imaginem que vocês surgiram em um corpo ilusório e compreendam que as várias aparições e sofrimentos da morte, do estado intermediário e do renascimento são desprovidos de uma existência inerente, que não são verdadeiros. Reconheçam que essas aparições são causadas por ações anteriores (carma) que na verdade não possuem nem mesmo uma partícula de verdadeira formação.

Assim como na ioga da divindade vocês imaginam ativa­mente que tudo é ilimitadamente puro, criado a partir da com­paixão e da sabedoria, no estado intermediário também vêem todas as aparições dos seres como deuses e deusas, e todas as apa­rições de ambientes como mansões maravilhosas, desvencilhando-se, desse modo, de qualquer aversão pelo feio ou atra­ção pelo belo. Estão procurando fazer com que qualquer coisa que surja desponte como desprovido de uma existência ineren­te e que qualquer coisa que esteja vazia se manifeste como a recreação da bem-aventurança, a diversão de uma divindade.

 

                             RESUMO DOS CONSELHOS

1 - É muito importante reconhecer os sinais de que vocês se encontram no estado intermediário.

2 - Encarem todas as aparições agradáveis e desagradáveis como expressões do seu carma bom e mau.

3 - Em lugar do que lhe for apresentado, imaginem que vocês surgiram em um corpo ilusório, concebendo todas as aparições de seres como expressões ideais de compai­xão e sabedoria, e todas as aparições de ambientes como mansões maravilhosas.

4 - Abstenham-se de sentir aversão pelo feio ou gostar do belo.

5 - Reconheçam que as diversas aparições e sofrimentos da morte, do estado intermediário e do renascimento são desprovidos de existência inerente; eles não existem por si mesmos.

 

                     Décima Sexta Estrofe

 

Que possamos renascer em uma terra pura

Transformando por meio da ioga o exterior, o interior e o secreto

Quando vários sinais — quatro sons da inversão dos elementos,

Três assustadoras aparições e incertezas aparecem.

 

Quando estamos vivos, todos os ventos e concepções estão enterrados em padrões ordinários e não estão sob o nosso con­trole. Durante o estado intermediário, os ventos, ou energias associadas aos quatro elementos, invertem os padrões habituais, e sons assustadores emergem dessa inversão. Quando o vento-terra se desintegra, retumba estrondosamente um som seme­lhante ao de montanhas que desmoronam. Quando o vento-água se desintegra, vocifera um som como o de um oceano encapelado. Quando o vento-fogo se desintegra, esbraveja um som semelhante ao de um incêndio que se inflama em uma densa floresta. Devido à aniquilação do vento-vento, troveja um som como um horrendo furacão rodopiante. Ocorrem também assustadoras aparições de seres do inferno, fantasmas famintos e animais que são projeções do seu carma. Alguns aparecem como Senhores da Morte brandindo as armas e gritando: “Atacar! Matar”, e ficamos amedrontados.

 

Nosso lugar, ponto de apoio, comida, amigos e sentimentos são completamente incertos. A incerteza do lugar significa que chegamos constantemente a vários lugares. A incerteza do ponto de apoio quer dizer que buscamos refugiar-nos no transitório: pontes, poços e assim por diante. A incerteza de comportamento significa que mudamos abruptamente e flutuamos de um lado para o outro no vento, como uma pena. A incerteza da comida quer dizer que vemos alimentos deliciosos, mas somos incapazes de ingeri-los a não ser que tenham sido destinados a nós. A incerteza de amigos significa que procuramos a companhia de seres aleatórios. A incerteza de sentimento quer dizer que expe­rimentamos mudanças repentinas de humor, e nos sentimos ora felizes, ora magoados, tristes, zangados e assim por diante.

Além disso, as três assustadoras feras de rapina aparecem no estado intermediário: uma grande fera de rapina vermelha se estiverem dominados pela cobiça, uma grande fera de rapina cinza se estiverem dominados pela ignorância e uma grande fera de rapina negra se estiverem dominados pelo ódio. Existem também quatro caminhos que indicam sua vida seguinte. O fato de haver um caminho de luz branca na direção que vocês segui­rem é um sinal de que nascerão como um deus ou semideus. Se o caminho for de luz amarela, nascerão na próxima vida como um ser humano ou animal. Um caminho de luz negra indica que vão renascer como um ser do inferno. Um caminho de luz vermelha sugere um renascimento como um fantasma faminto.

No estado intermediário, a cor do corpo da pessoa que irá renascer como um ser do inferno assemelha-se a uma tora quei­mada; como um animal, é semelhante à fumaça; como um fan­tasma faminto, é parecida com a água; como um deus da esfera do desejo ou ser humano, semelhante ao ouro; como um deus da esfera da forma, branca. A direção do movimento também reflete o renascimento da pessoa. As formas intermediárias dos seres do inferno (estados de renascimento caracterizados por um elevado prazer) e dos seres humanos seguem diretamente em frente. Os estados intermediários dos deuses da esfera da forma (estados de renascimento que se caracterizam por uma intensa concentração) ascendem.

 

O estado intermediário poderá durar apenas um breve momento, especialmente se o carma virtuoso da pessoa for particularmente forte, como seria o caso de ela ter gerado um amor e compaixão poderosos, desenvolvido um intenso desejo de renascer em uma terra pura ou se a intenção dela de renascer para o benefício de outros for veemente. O estado intermediá­rio também poderá durar apenas um breve instante se o carma não virtuoso da pessoa for particularmente forte, por ela ter assassinado o pai ou a mãe, por exemplo. Caso contrário, impul­sionado pelo carma em diversos graus de luz e escuridão, ela correrá de um lado para o outro em busca de uma situação para o renascimento. Se essa situação não for encontrada em sete dias, o ser do estado intermediário morre. Assim como quando começamos a despertar do sono nosso corpo de sonho se dissol­ve como um bafejo no espelho, nosso corpo de vento no estado intermediário se dissipa a partir da base e do topo, terminando no coração. Nessa pequena morte, passamos rapidamente pelas oito fases da morte na ordem direta, mas ressurgimos em um novo estado intermediário, uma vez mais na ordem inversa. Esse processo de sete dias pode continuar, no máximo, através de sete desses “renascimentos” no estado intermediário, perfazendo um total de 49 dias. Algumas pessoas dizem que um dia nesse esta­do é relativo e depende da extensão do dia para o tipo de ser como o qual renasceremos, o que é extremamente longo para alguns seres. No entanto, outras dizem que ele tem a extensão de um dia humano.

Voltemos então ao poema. No meio dessas várias aparições, vocês estão procurando permanecer calmos e fazer com que (1) seus ambientes externos pareçam inestimáveis e maravilhosas mansões com as adjacências destas; (2) os seres interiores (como os seres do inferno, fantasmas famintos, animais, seres humanos, semideuses e deuses) apareçam como divindades (seres cuja essência e a compaixão e a sabedoria) e (3) o segredo (a sua consciência e sabedoria) surjam como a meditação concentrada da bem-aventurança que percebe o vazio. Assim sendo, inde­pendentemente dos sinais que possam aparecer, eles são reversíveis por meio da prática, não havendo dúvida de que através dela vocês renascerão em uma vida favorável. Por meio do poder das três iogas em que vocês imaginam o exterior, o interior e o segredo como sendo puros, vocês estão buscando fechar a porta do renascimento para uma vida impura na existência cíclica e, em vez disso, nascer em uma terra especial e suprema, além do carma contaminado e das aflições perturbadoras, na qual vocês podem continuar a praticar.

 

                           RESUMO DOS CONSELHOS

1 - Estejam preparados para o fato de que no estado interme­diário podem surgir muitas aparições incomuns, tanto maravilhosas quanto horríveis. Compreendam agora que qualquer coisa que apareça pode ser transformada pela sua imaginação.

2 - Permaneçam calmos. Imaginem o ambiente como belas mansões dispostas em uma serena paisagem. Vejam seres cuja essência é de compaixão e sabedoria. Pensem na sua consciência como uma mente bem-aventurada que per­cebe o vazio.

3 - Essas considerações produzirão o renascimento em um lugar onde vocês poderão continuar sua prática voltada para uma percepção espiritual mais profunda.

 

                             10 - O Renascimento Positivo

 

Independentemente da fortuna que você possa ter acumulado,

Você parte para outra vida

Sozinho, sem um consorte ou filhos,

Sem roupas, sem amigos,

Como uma pessoa dominada por um inimigo no deserto.

Se você não terá nem mesmo o seu nome,

Que necessidade há de considerar qualquer outra coisa?

                           BUDA

 

                                 Décima Sétima Estrofe

 

Que possamos renascer com o supremo amparo vital de um praticante do tantra que usa o céu,

Ou o corpo de um praticante monástico ou leigo, que possui as três práticas.

E que possamos completar a realização dos caminhos dos dois estágios de geração e conclusão,

Alcançando rapidamente, desse modo, os corpos de um Buda

— a verdade, a completa satisfação e a emanação.

 

 

A conexão com a vida seguinte enquanto a pessoa está no esta­do intermediário é um processo de atração e repulsão. Tanto os animais que nascem de ovos extrínsecos ao corpo quanto os seres que nascem do útero vêem os seus pais efetivamente no ato sexual, ou uma imagem deste, e a seguir geram o desejo pelo pai ou pela mãe (o do sexo oposto ao seu) e a repulsa pelo pai ou pela mãe (o do mesmo sexo que o seu).

 

Quando o ser intermediário está prestes a abraçar a pessoa que deseja, de repente, tudo o que vê é o órgão sexual da pessoa, e por esse motivo fica zan­gado. Desse modo, a atração e a repulsa ocasionam a morte do ser do estado intermediário.

Temos de dizer que é dessa maneira que o estado interme­diário às vezes termina, visto que a fertilização in vitro contradiz o que alguns dos nossos textos afirmam ter de ser o caso — especificamente que os pais precisam estar deitados juntos em uma condição de intensa excitação sexual. Hoje em dia, o sêmen do pai pode ser guardado em um laboratório e inserido no útero da mãe sem nenhuma estimulação sexual. Esse procedimento que contradiz certas escrituras é hoje uma realidade e temos que aceitá-la. Na qualidade de seguidores da tradição da Univer­sidade Monástica Nalanda da Índia antiga, precisamos admitir a razão e a investigação. A partir desse ponto de vista nossa explicação habitual está incompleta.

Até mesmo nas escrituras budistas, existe a história de um casal que se tornou celibatário; ambos passaram a ser monges. Certo dia o monge, influenciado por lembranças do passado, perseguiu a ex-esposa. Quando ele tocou o corpo da monja, lançou o sêmen sobre a roupa dela. Mais tarde, ela também foi influenciada pelas próprias recordações e colocou um pouco do esperma dentro da vagina. Posteriormente, nasceu uma criança. Desse modo, até mesmo essa antiga escritura budista contradiz a doutrina de que a concepção só tem lugar quando o casal está sexualmente abraçado.

De uma maneira análoga, diz-se que a linhagem do próprio Buda Shakyamuni recua a um homem que se chamava Amigo do Sol porque o líquido seminal do seu pai, que caíra sobre uma folha, foi fortalecido pelo calor do sol e gerou duas crianças. Essas duas histórias, que um dia pareceram contos de fadas, hoje estão se tornando realidade na ciência. Embora, de um modo geral, a concepção tenha lugar na presença de certas condições, nem sempre isso ocorre. Analogamente, o término do estado intermediário não exige necessariamente que a pessoa se sinta atraída pelo pai ou pela mãe, o que for do sexo oposto ao dela, e fique frustrada por ver apenas o órgão sexual.

 

Durante a morte do estado intermediário, o ser passa rapi­damente pelas oito fases na ordem direta:

 

                       1 – miragem,

                       2 – fumaça,

                       3 – pirilampos,

                       4 – chama de uma lamparina,

                       5 – mente-céu branca radiante,

                       6 – mente-céu vermelho-laranja radiante,

                       7 – mente-céu negra radiante,

                       8 – clara luz.

 

No momento da concepção, o ser passa através das sete fases remanescentes na ordem inversa:

 

                       7 – mente-céu negra radiante,

                       6 – mente-céu vermelho-laranja radiante,

                       5 – mente-céu branca radiante,

                       4 – chama de uma lamparina,

                       3 – pirilampos,

                       2 – fumaça,

                       1 – miragem.

 

Existem diferentes explicações para como o ser entra no útero. Alguns textos dizem que ele entra pela boca do macho ou no alto da cabeça, passa através do corpo e do falo dele, e pene­tra o útero da fêmea. Outros dizem que o ser entra diretamente no útero através da vagina. Uma pessoa na qual predomine a virtude terá a sensação de estar entrando em uma casa agradável e ouvindo sons melodiosos. Uma pessoa dominada pela não-virtude terá a sensação de entrar em um pântano ou floresta escura no meio de um clamor estridente.

 

O vento e a mente muito sutis do ser penetram o material (óvulo e espermatozóide) doado pelos pais. No feto, que nessa ocasião é do tamanho de uma grande semente de mostarda, forma-se o canal central com os canais direito e esquerdo rodeando-o três vezes. A seguir, o vento que se move para cima e o vento que é expelido para baixo avançam em suas respectivas direções e os três canais se estendem. Gradualmente o corpo se desenvolve e por fim emerge do útero.

Se realizarem continuamente a prática espiritual explicada nas estrofes precedentes do poema do Primeiro Panchen Lama, poderão renascer com um corpo físico especial que sustentará uma vida na qual serão capazes de chegar ao fim dos caminhos remanescentes do tantra que conduzem à iluminação plena. Poderão renascer em lugares incomuns habitados por seres denominados “usuários do céu”, que praticam o tantra, ou em lugares mais ordinários onde ensinamentos, gurus e a liberdade de praticar estão presentes. Em um renascimento tão favorável, vocês prometem ter um comportamento puro e vêm a possuir as Ires práticas — a moralidade, a meditação concentrada e a sabedoria — como a base do seu progresso espiritual. Tendo como alicerce essas práticas, vocês buscariam concluir a realiza­ção dos dois estágios do tantra ioga superior:

  • a ioga da divindade associada à meditação sobre o vazio e os oitos sinais da morte;
  • a ioga da divindade associada à meditação sobre o vazio, a retirada dos ventos do canal central e a efetivação dos níveis mais profundos da consciência.

 

Através desses três estágios, vocês completariam as etapas remanescentes em direção ao estado de Buda que é totalmente voltado para servir os outros. O desejo final do poema do Panchen Lama é que essa vida futura torne-se realidade. Lembrem-se de que a meta suprema da prática budista é servir os outros e para que a obtenção do estado de serviço seja mais eficaz é preciso alcançar uma mente e um corpo puros. O objetivo é ser capaz de ajudar um grande número de seres sencien­tes através de miríades de expedientes.

 

Quando praticarem, não deixe que o caminho seja apenas algo extrínseco a vocês: voltem a mente para a trajetória espiritual. Caso contrário, embora tentem praticar, poderão ficar cansados e até mesmo aborrecidos depois de algum tempo. Não recitem apenas as palavras do poema do Primeiro Panchen Lama, Wishes for Release from the Perilous Straits of the Intermediate State, Hero Releasing from fright (Desejos para libertar-se das situações difíceis e perigosas do estado intermediário, o herói livrando-se do medo), mas pratiquem-no diariamente a partir da abordagem da meditação reflexiva, levando à mente o significado. Este é o meu conselho.

 

                                     RESUMO DOS CONSELHOS

1 - Tenham em vista renascer com um corpo e uma situação capazes de chegar ao término dos caminhos espirituais remanescentes.

2 – O propósito de tornar-se plenamente iluminados é servir completamente aos outros.

 

                       11 - Reflexão Diária sobre o Poema

 

Assim como a poderosa corrente de uma cachoeira,

Não pode ser invertida,

O movimento da vida humana

Também é irreversível.

                     BUDA

 

Aqui está o poema do Primeiro Panchen Lama em sua totalidade:

 

DESEJOS PARA LIBERTAR-SE DAS SITUAÇÕES DIFÍCEIS E PERIGOSAS DO ESTADO INTERMEDIÁRIO, O HERÓI LIVRANDO-SE DO MEDO - PRIMEIRO PANCHEN LAMA,

           LOSANG CHOKYI GYELTSEN

 

Eu e todos os seres através do espaço, sem exceção,

Buscamos refúgio até a suprema iluminação

Nos Budas do passado, do presente e do futuro, na doutrina e na comunidade espiritual.

Que sejamos libertados dos temores desta vida, do estado intermediário e do seguinte.

 

Que  possamos extrair a essência significativa da sustentação desta vida,

Sem sermos distraídos pelas questões insensatas da vida, Pois esta boa base, difícil de obter e fácil de se desintegrar,

Apresenta a oportunidade de escolha entre o lucro e a

perda, o conforto e a miséria.

 

Que possamos compreender que não há tempo a perder,

Pois a morte é definida, mas a hora da morte é indefinida.

O que se reuniu se separará e o que se acumulou será consumido sem resíduos,

No fim da subida vem a descida, a finalidade do nascimento é a morte.

 

Que sejamos aliviados do intenso sofrimento decorrente das várias causas da morte

Quando neste lugar de concepções errôneas de sujeito e objeto

O corpo ilusório formado pelos quatro elementos impuros

E a consciência estiverem para se separar

 

Que sejamos aliviados das aparências equivocadas da não-virtude,

Quando, enganados no momento de necessidade por este corpo que tratamos com tanto carinho,

Os temíveis inimigos — os senhores da morte — se manifestarem

E nos aniquilemos com as armas dos três venenos da cobiça, do ódio e da ignorância.

 

Que possamos recordar as instruções da prática,

Quando os médicos desistirem e os ritos de nada adiantarem,

Os amigos tiverem perdido a esperança na nossa recuperação,

E nada mais nos restar fazer

 

Que tenhamos a confiança da alegria e do prazer,

Quando a comida e a riqueza acumuladas com ganância forem deixadas para trás

E nos separemos para sempre de amigos queridos e muito desejados,

Encaminhando-nos sozinhos para uma situação perigosa.

 

Que possamos gerar uma poderosa mente de virtude, Quando os elementos — terra, água, fogo e vento — dissolverem-se em estágios

E a força física for perdida, a boca e o nariz ficarem secos e enrugados,

O calor se recolher, a respiração ficar arquejante e sons chocalhantes emergirem.

 

Que possamos compreender o modo de existir imortal, Quando surgem várias aparições equivocadas temíveis e horríveis

E em particular a miragem, a fumaça e os pirilampos

E cessa o suporte das oitenta concepções indicativas.

 

Que possamos gerar uma poderosa atenção e introspecção,

Quando o componente vento começar a se dissolver na cons­ciência

E cessar a seqüência externa da respiração, as aparições dualísticas grosseiras se dissolverem,

E surgir uma aparição como uma lamparina de manteiga acesa.

 

Que possamos conhecer a nossa própria natureza Através da ioga, percebendo a existência cíclica e o nirvana como vazios,

Quando a aparição, o aumento e a quase-realização se dissol­verem — os primeiros na última — E experiências como o luar, a luz do sol e a escuridão penetrantes despontarem.

 

Que as claras luzes mãe e filho se encontrem

Quando a quase-realização se dissolver no vazio total

E cessem todas as multiplicações conceituais e coteja uma experiência

Semelhante a um céu de outono livre de condições poluentes.

 

Que nos fixemos na meditação profunda e unidirecional

Na sabedoria exaltada da bem-aventurança e do vazio

combinados

Durante as quatro vacuidades causadas pelo derretimento do componente branco semelhante à lua,

Pelo fogo da poderosa fêmea semelhante ao trovão.

 

Que possamos completar em lugar do estado intermediário

A meditação concentrada de ilusão para que ao deixar a clara luz,

Ascendamos em um corpo de completa satisfação que reluz com a glórias das marcas e belezas de um Buda

Surgidas do vento puro e da mente da clara luz da morte.

 

Se, devido ao carma, um estado intermediário se estabelecer,

Que as aparições errôneas sejam purificadas

Por meio da imediata análise e compreensão da ausência da existência inerente

Dos sofrimentos do nascimento, da morte e do estado intermediário.

 

Que possamos renascer em uma terra pura

Transformando por meio da ioga o exterior, o interior e o secreto

Quando vários sinais — quatro sons da inversão dos elementos,

Três assustadoras aparições e incertezas aparecem.

 

Que possamos renascer com o supremo amparo vital de um praticante do tantra que usa o céu,

Ou o corpo de um praticante monástico ou leigo, que possui as três práticas

E que possamos completar a realização dos caminhos dos dois estágios de geração e conclusão,

Alcançando rapidamente, desse modo, os corpos de um Buda

— a verdade, a completa satisfação e a emanação.

 

                                                                                Dalai Lama e Jeffrey Hopkins  

 

                      

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