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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CONTAGEM DECRESCENTE / Ken Follett
CONTAGEM DECRESCENTE / Ken Follett

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CONTAGEM DECRESCENTE

 

1958: A GUERRA FRIA ESTÁ NO AUGE, os Soviéticos acabaram de bater os Americanos nos primeiros capítulos da corrida para a conquista do espaço. Claude Lucas acorda, uma manhã, na Union Station de Washington. Vestido com roupas de vagabundo, está afectado por uma amnésia que o impede de recordar, entre outras coisas, o seu estatuto profissional. Acontece que ele é uma personagem central no próximo lançamento do Explorer um foguetão do exército dos EUA. Anthony Carroll, agente da CIA e velho amigo de Lucas, anda a seguir o caso. E convém-lhe que a amnésia não passe tão depressa...

 

Cinco da manhã

O foguetão Jupiter encontra-se na rampa de lançamento do Complexo 26 em Cabo Canaveral. Por razões de sigilo, foi tapado com cobertas de lona que escondem tudo, excepto a cauda, igual à do míssil Redstone, produzido pelo Exército. o resto do foguetão, sob a capa que o esconde, é deveras extraordinário...

Acordou sobressaltado. Pior que isso: estava aterrorizado. O coração batia-lhe apressadamente, arquejava e sentia o corpo retesado. Era como acordar de um pesadelo, embora sem a sensação de alívio que normalmente se lhe segue. Teve a intuição de que alguma coisa terrível lhe acontecera, mas não sabia o quê.

Abriu os olhos. Uma débil luz vinda de um outro local iluminava vagamente o espaço que o circundava e permitiu-lhe distinguir formas imprecisas, conhecidas, mas sinistras. Ouviu o som de água a correr numa cisterna algures ali perto.

Tentou acalmar-se. Engoliu em seco, respirou fundo e procurou pensar claramente. Estava deitado sobre uma superfície dura. Tinha frio, sentia o corpo moído e parecia-lhe que estava de ressaca, pois a dor de cabeça, a secura na boca e a sensação de náusea assim o indicavam.

Sentou-se direito, tremendo de medo. Do chão emanava o desagradável odor a desinfectante forte. Reconheceu o contorno de uma fila de lavatórios.

Estava numa casa de banho pública.

Sentiu-se enojado. Dormira no chão de uma casa de banho de homens. Que raio lhe acontecera? Tentou concentrar-se. Estava vestido, tinha uma espécie de sobretudo e umas botas fortes nos pés, porém, algo lhe dizia que a roupa não era sua. o pânico que sentia começava a abrandar, para dar lugar a um receio mais profundo, menos histérico, mas mais racional. o que lhe acontecera era muito grave.

Precisava de luz.

Levantou-se. Olhou em redor, perscrutando a escuridão, e conjecturou sobre a localização da porta. Com os braços esticados para a frente, para se precaver de objectos invisíveis, encaminhou-se para uma parede. Depois começou a andar de lado, explorando a parede com as mãos. Encontrou uma superfície vítrea e fria, que presumiu ser um espelho, depois um rolo para toalhas e uma caixa de metal, que podia ser uma máquina automática. Por fim, as pontas dos dedos apalparam um interruptor, que rapidamente accionou.

Uma luz brilhante inundou os azulejos brancos das paredes, o chão de cimento e uma fila de sanitas com as portas dos respectivos cubículos abertas. Num canto estava o que parecia um amontoado de roupas velhas. Interrogou-se sobre como fora ali parar. Concentrou-se melhor. Que acontecera na noite anterior? Não se lembrava.

O medo histérico voltou a invadi-lo, à medida que descobria que não conseguia lembrar-se do que quer que fosse.

Cerrou os dentes para não gritar. Ontem... anteontem... nada. Como se chamava? Não sabia.

Voltou-se para a fila de lavatórios. Sobre eles havia um enorme espelho. Nele reflectido viu um vagabundo infecto e andrajoso, com o cabelo emaranhado, a cara mascarrada, olhos esbugalhados e lunáticos. Fitou o vagabundo por um segundo e foi assolado por uma terrível descoberta. Deu alguns passos para trás, ao mesmo tempo que um grito de terror se lhe escapava da garganta e o homem do espelho copiava os seus gestos. o vagabundo era ele mesmo.

Já não conseguia conter a onda de pânico. Abriu a boca e, com uma voz que tremia de horror, gritou: «Quem sou eu? »

O amontoado de roupas velhas moveu-se. Deu uma volta, deixou entrever um rosto e uma voz resmoneou:

— És um vagabundo, Luke, vê se calas o bico! o seu nome era Luke.

Sentiu-se ridiculamente agradecido pela informação. Um nome não era muito, mas já lhe dava alguma segurança. Mirou o seu companheiro. Trazia um casaco de lã roto com um cordel em volta da cintura a fazer as vezes de cinto. A cara enegrecida tinha, porém, um ar astuto. o homem esfregou os olhos e resmungou:

— Dói-me a cabeça.

Luke perguntou:

— Quem és tu?

— Sou o Pete, meu anormal, não vês?

— Não. — Luke engoliu em seco, tentando controlar o pânico.

— Perdi a memória!

— Não admira. Ontem bebeste uma garrafa de uísque inteira. já é um milagre que não tenhas perdido a cabeça... — Pete humedeceu os lábios. — Quase nem cheguei a provar o raio do uísque! O uísque explica a ressaca», pensou Luke.

— Mas porque haveria de beber a garrafa inteira? Pete riu-se num tom trocista.

— Essa deve ser a pergunta mais estúpida que já ouvi. Para te embebedares, claro!

Luke ficou estarrecido. Era um vagabundo bêbado que dormia em casas de banho públicas!

Estava a morrer de sede. Curvou-se sobre um dos lavatórios, abriu a água e bebeu directamente da torneira. Sentíu-se melhor. Limpou a boca e forçou-se a olhar-se no espelho mais uma vez.

Tinha um aspecto mais calmo. o ar lunático desaparecera, para dar lugar a um misto de espanto e desânimo. o reflexo mostrava um homem de trinta e muitos anos, cabelo escuro e olhos azuis. Não tinha bigode ou barba, embora fosse notório que há alguns dias não a fazia. Voltou-se para o seu companheiro.

— Luke quê? — perguntou. — Qual é o meu sobrenome?

— Luke... qualquer coisa. Como raio queres que eu saiba?

— Como é que fiquei assim? Há quanto tempo ando nisto? o que aconteceu?

Pete levantou-se.

— Preciso de tomar o pequeno-almoço — declarou.

Luke apercebeu-se de que estava com fome. Interrogou-se se teria algum dinheiro. Revistou os bolsos do sobretudo, do casaco, das calças. Estavam vazios. Não tinha dinheiro, carteira ou sequer um lenço de assoar. Não tinha nada de seu.

— Acho que estou falido.

Não me digas!... — respondeu Pete sarcasticamente.

— Anda daí.

Saiu da casa de banho aos tropeções. Luke seguiu-o. Ao atravessar a porta sofreu novo choque. Encontrava-se num imenso templo, vazio e estranhamente silencioso. Filas de assentos de mogno estendiam-se pelo chão de mármore, quais bancos de igreja à espera de uma congregação espectral. Em torno do vasto templo, num sobranceiro lintel de pedra que repousava sobre fileiras de pilares, estranhos guerreiros de pedra armados de ehno e escudo guardavam aquele local sagrado. Muito acima das suas cabeças o tecto formava uma abóbada ricamente decorada com octógonos dourados. Uma ideia insensata atravessou a mente de Luke: a de que fora a vítima sacrificial de um estranho rito que o deixara num estado amnésico.

Aterrado, perguntou:

— Que lugar é este?

— Union Station, em Washington, DC — disse Pete.

Fez-se então luz na cabeça de Luke e as coisas começaram a fazer sentido. Foi com alívio que reparou na sujidade das paredes, nas pastilhas elásticas pisadas no chão de mármore, nos invólucros de chocolates e maços de cigarros amachucados aos cantos. Que ideia ridícula! Estava numa grandiosa estação de combóios às primeiras horas da manhã, antes de esta se começar a encher de passageiros. Assustara-se como uma criança que imagina ver monstros na escuridão do quarto.

Pete encaminhou-se para um arco triunfal sobre o qual se podia ler «Saída» e Luke correu atrás dele.

Uma voz agressiva quebrou o silêncio: Ei, ei! Vocês aí!

— Ai, ai! — exclamou Pete, e estugou o passo.

Um homem entroncado de uniforme justo dos caminhos de ferro avançou para eles, indignado.

— E donde é que o par de vagabundos apareceu? Pete gemeu:

— Já estamos de saída...

Luke sentiu-se humilhado por se ver corrido de uma estação de combóios por um funcionário adiposo.

O homem não se contentou em ver-se livre deles.

— Dormiram aqui, não foi? — protestou, seguindo-os de perto.

— Sabem que isso não é permitido.

Luke não gostou de ser repreendido como um rapazinho, ainda que merecesse a admoestação. Dormira, de facto, na maldita casa de banho. Reprimiu uma resposta e apressou o passo.

— Isto não é uma pensão barata — continuou o homem.

— Malditos vagabundos... Vá, ponham-se a andar!

Empurrou Luke pelo ombro e este voltou-se de repente, confrontando-o.

— Não me toque! — exclamou. Ficou surpreendido com a ameaça velada que o seu tom de voz evidenciara. o funcionário estacou. -já estamos de saída, por isso, não precisa de fazer ou dizer mais nada, estamos entendidos?

O homem deu um passo atrás, assustado.

— Vamos embora — interveio Pete, agarrando no braço do companheiro.

Luke sentiu-se envergonhado. o homem era um borra-botas excessivamente zeloso, mas Pete e ele eram mendigos e um funcionário dos caminhos de ferro tinha o direito de os expulsar dali. Não o deveria ter intimidado.

Atravessaram a majestosa arcada. Lá fora estava escuro. Havia alguns carros estacionados em redor da rotunda frente à estação, mas as ruas estavam calmas. o ar era terrivelmente frio e Luke aconchegou-se, cruzando as lapelas do casaco esfarrapado. Era Inverno, uma madrugada gelada em Washington, talvez janeiro ou Fevereiro.

Interrogou-se em que ano estariam.

Pete virou à esquerda, aparentemente seguro do caminho que deveria tomar. Luke seguiu-o.

— Para onde vamos? — perguntou.

— Conheço uma igreja metodista na Rua H onde podemos tomar o pequeno-almoço de borla, se não te importares de cantar um hino ou dois.

— Estou esfomeado, sou capaz de cantar uma oratória inteira. Pete seguiu sem hesitar um caminho em ziguezague através de um bairro pobre. A cidade ainda não acordara. Não havia luzes nas casas e as lojas tinham os taipais corridos. Os quiosques de jornais e as tascas não estavam ainda abertos. Olhando para as cortinas baratas suspensas da janela de um quarto, Luke imaginou um homem lá dentro, dormindo profundamente sob uma pilha de cobertores, a mulher aconchegada ao seu lado, e sentiu-se angustiado. Algo no seu íntimo lhe dizia que o seu lugar era ali, que pertencia àquela comunidade de homens e mulheres que se aventuravam de madrugada pelas ruas geladas: o homem em roupa de trabalho que se arrasta para o emprego, o jovem de cachecol e luvas que se monta na bicicleta, a mulher a fumar no interior bem iluminado de um autocarro.

A sua cabeça fervilhava de perguntas. Há quanto tempo era bêbado? Alguma vez tentara deixar de beber? Teria família que o pudesse ajudar? Onde conhecera Pete? Onde arranjavam a bebida? Onde a consumiam? Pete era taciturno e Luke controlou a impaciência, na esperança de que ele se revelasse mais prestável depois de ter alguma coisa no estômago.

Chegaram a uma pequena igreja provocadoramente entalada entre um cinema e uma loja de tabaco. Entraram por uma porta lateral e desceram um lanço de escadas até à cave. Luke deu por si numa sala comprida e baixa — a cripta, pensou. Numa das extremidades viu um piano vertical e um pequeno púlpito, na outra um fogão de cozinha. No meio, três filas de pranchas de madeira sobre cavaletes e bancos corridos. Havia três vagabundos, cada um sentado a uma mesa, olhando pacientemente para o vazio. Na cozinha improvisada, uma mulher atarracada agitava qualquer coisa numa panela. Ao seu lado, um homem de barba grisalha e cabeção, inclinado sobre uma cafeteira fumegante, levantou os olhos, voltou-se e sorriu.

— Entrem, entrem! — disse, bem-disposto. — Aqui está mais quentinho.

Luke olhou-o cautelosamente, interrogando-se se aquela boa disposição seria verdadeira.

Estava de facto bem quente ali, sufocante, mesmo. Luke desabotoou o sobretudo imundo.

— Bom dia, pastor Lonegan — cumprimentou Pete.

— Já alguma vez aqui esteve? Esqueci-me do seu nome — confessou o pastor.

— Sou o Pete, ele é o Luke.

— Dois discípulos! — congratulou-se. A sua bonomia era genuína. — Vêm um pouco cedo para o pequeno-almoço, mas há café acabado de fazer.

Luke interrogou-se como Lonegan conseguia manter a boa disposição, tendo de estar acordado àquela hora da manhã para servir o pequeno-almoço a uma mão-cheia de vadios catatónicos.

O pastor verteu café para duas canecas.

— Leite e açúcar? — perguntou.

Luke não fazia ideia se gostava de leite e açúcar no café.

— Sim, obrigado — disse, à sorte.

Aceitou a caneca e sorveu o café. Achou-o repugnantemente cremoso e doce. Presumiu que costumava tomá-lo simples. Todavia, o café mitigou-lhe a fome e não ficou nem uma gota na caneca.

— Daqui a alguns minutos faremos as orações — informou o pastor. — Quando terminarmos, as famosas papas de aveia de Mistress Lonegan já deverão estar prontas.

Luke pensou que as suas suspeitas haviam sido injustificadas. o pastor Lonegan era o que aparentava, um homem alegre, que tinha prazer em ajudar o próximo.

Sentaram-se a uma das mesas e Luke examinou o seu companheiro. Até então, apenas reparara na cara suja e nas roupas rasgadas. Agora notava que Pete não revelava nenhum dos sinais de um bêbado inveterado: derrames, pele seca e a escamar na cara, cortes ou feridas. Talvez fosse ainda muito jovem — cerca de vinte e cinco anos, supôs Luke — e o seu rosto era ligeiramente desfigurado. Tinha um sinal de nascença vermelho-escuro que se estendia da orelha ao maxilar e os dentes eram irregulares e descolorados. Deixara crescer o bigode, talvez para desviar a atenção dos dentes, numa altura em que, porventura, ainda se preocupava com a aparência. Luke sentiu nele uma raiva reprimida. supôs que Pete tinha algum ressentimento contra o mundo, talvez por o ter feito feio, talvez por outra razão qualquer. Provavelmente, acreditava que o mundo estava a ser destruído por um grupo de pessoas que odiava: imigrantes chineses, negros presunçosos ou um clube obscuro de milionários que comandavam secretamente o mercado de valores.

— Para onde estás a olhar? — inquiriu Pete.

Luke encolheu os ombros e não respondeu. Sobre a mesa havia um jornal aberto na página das palavras cruzadas e um resto de lápis. Olhou distraidamente para a grelha, pegou no lápis e entreteve-se a preenchê-la.

Começaram a chegar mais sem-abrigo. Mrs. Lonegan colocou sobre a mesa uma pilha de tigelas e de colheres. Luke preencheu todas as linhas e colunas, menos uma: «Pequena localidade na Dinamarca», seis letras. o pastor Lonegan espreitou sobre o seu ombro para a grelha de palavras totalmente resolvida, ergueu as sobrancelhas, admirado, e disse a meia-voz para a esposa:

— Oh!, nobre espírito transtornado!

Luke lembrou-se imediatamente da resposta que faltava

— «HamIet» — e inseriu-a na grelha. Depois pensou: «Como é que eu sabia isto?»

Desdobrou o jornal e procurou a data na primeira página. Era quarta-feira, 29 de janeiro de 1958. o cabeçalho despertou-lhe a atenção: «Foguetão americano fica em terra.» Leu de seguida a notícia.

«Cabo Canaveral, terça-feira. A Marinha americana abandonou hoje uma segunda tentativa de lançar o seu foguetão espacial Vanguard, após uma série de problemas técnicos.

A decisão chega dois meses depois de o lançamento do primeiro Vanguard ter terminado num humilhante desaire, já que o foguetão explodiu segundos após a ignição.

As esperanças de lançar um satélite espacial que rivalize com o Sputnik soviético estão agora concentradas no foguetão Jupiter, fabricado pelo Exército. »

O som do piano fez-se ouvir e Luke levantou a cabeça do jornal. Mrs. Lonegan estava a tocar as notas introdutórias de um hino conhecido. Ela e o marido começaram a cantar What a Friend We Have ín Jesus e Luke juntou-se-lhes, feliz por se lembrar da letra.

O uísque produzia um estranho efeito, pensou. Conseguira fazer as palavras cruzadas e cantar um hino de cor, mas não sabia o nome da sua mãe. Talvez já bebesse há vários anos e o álcool lhe tivesse afectado o cérebro. Perguntou-se como se deixara chegar a uma tal situação.

Depois do hino, o pastor Lonegan leu alguns versos da Bíblia, declarando em seguida que todos podiam ser salvos. Ali estava um grupo que bem precisava de salvação, pensou Luke. Ainda assim, não se sentiu tentado a depositar a sua fé em Jesus. Primeiro, precisava de descobrir quem era.

O pastor improvisou uma oração e deram graças. Os homens alinharam-se então, enquanto Mrs. Lonegan lhes servia papas de aveia. Luke comeu três tigelas. Depois sentiu-se bem melhor. A ressaca começava a passar.

Impaciente por retomar as suas perguntas, abordou o pastor.

— Desculpe, já alguma vez me viu aqui? É que perdi a memória...

Lonegan olhou cuidadosamente para ele.

— Acho que não, mas vejo aqui centenas de pessoas por semana e posso estar enganado. Que idade tem?

— Não sei — confessou Luke, sentindo-se ridículo.

— Trinta e muitos, diria. Não deve andar nesta vida há muito tempo, pois isso deixa marcas, e você caminha com energia, a sua pele está boa, apesar da sujidade, e tem lucidez suficiente para resolver umas palavras cruzadas. Deixe de beber agora, e poderá ter de novo uma vida normal.

Luke interrogou-se quantas vezes o pastor pronunciara estas mesmas palavras.

— Vou tentar — prometeu.

— Se precisar de ajuda, é só pedir.

Um rapaz que parecia ser deficiente mental batia continuamente no braço de Lonegan, chamando a sua atenção. Este voltou-se para ele com um sorriso paciente.

— Há quanto tempo me conheces? — perguntou Luke a Pete.

— Não sei. Há algum tempo.

— Onde passámos a noite de ontem?

— Tem calma. A tua memória voltará, mais cedo ou mais tarde.

— Tenho de descobrir de onde sou.

Subitamente, Pete pareceu hesitar.

— Do que precisamos é de uma cerveja — disse — para nos ajudar a pensar com mais clareza.

Voltou-se e encaminhou-se para a porta. Luke agarrou-o pelo braço.

Não quero cerveja — declarou com ar decidido. Parecia que Pete não queria que ele investigasse o seu passado. Talvez temesse perder o companheiro. Paciência. Tinha coisas mais importantes para fazer do que andar atrás dele. — De facto — concluiu acho que gostava de ficar sozinho.

— Quem julgas que és, a Greta Garbo?

— Estou a falar a sério.

— Precisas de mim para olhar por ti. Não conseguirás safar-te sozinho. Que diabo, nem te lembras da tua idade!

Pete tinha um ar desesperado, mas Luke não se deixou comover.

— Agradeço a tua preocupação, mas não me estás a ajudar a descobrir quem sou.

Após uma ligeira hesitação, Pete encolheu os ombros.

— Tu é que sabes — assentiu. Voltou-se de novo para a porta.

— Vemo-nos por aí, talvez.

— Talvez.

Pete saiu. Luke apertou a mão de Lonegan.

— Obrigado por tudo — disse.

— Espero que encontre o que procura — rematou o pastor. Luke subiu as escadas e saiu para a rua. Pete estava um quarteirão mais à frente a falar com um homem de gabardina verde e gorro a condizer — mendigando uma cerveja, supôs Luke. Caminhou na direcção oposta e virou na primeira esquina.

Estava ainda escuro. Tinha os pés frios e reparou que não trazia meias. Acelerou o passo, pois começara a nevar. Alguns minutos depois, abrandou. Não havia motivo para correr. Andar depressa ou devagar não fazia qualquer diferença. Parou e abrigou-se na entrada de um prédio.

Não tinha para onde ir.

 

Seis da manhã

O foguetão está cercado em três lados por uma plataforma que o segura. A plataforma, na realidade a antiga torre de um campo petrolífero convertida para este fim, está assente sobre dois conjuntos de rodas que correm sobre carris. Toda a estrutura, maior que uma casa, recuará cem metros antes do lançamento.

Elspeth  acordou preocupada com Luke. Deixou-se ficar na cama por alguns momentos, atormentada, sem conseguir parar de pensar no homem que amava. Ligou o candeeiro da mesa-de-cabeceira e sentou-se.

O quarto do motel estava decorado com motivos do Programa Espacial. o candeeiro de pé tinha a forma de um foguetão e os quadros nas paredes representavam planetas, luas em quarto crescente e trajectórias orbitais sobre céus nocturnos imaginários. o Starlite pertencia a um dos vários grupos de novos motéis que haviam germinado no meio das dunas na área de Cocoa Beach, na Florida, treze quilómetros a sul de Cabo Canaveral, para alojar o afluxo de visitantes. o decorador achara, obviamente, o espaço sideral um tema adequado, mas Elspeth sentia-se como se estivesse a dormir no quarto de um rapaz de dez anos.

Levantou o auscultador do telefone que se encontrava na mesa-de-cabeceira e ligou para o escritório de Anthony Carroll, em Washington, DC. Ninguém atendeu. Tentou o número de casa e o resultado foi o mesmo. Teria alguma coisa corrido mal? A ansiedade era insuportável. Disse para si mesma que Anthony devia ir a caminho do escritório. Tentaria ligar-lhe novamente dentro de meia hora. Não deveria levar mais de trinta minutos a chegar ao escritório.

Enquanto tomava banho pensou em Luke e Anthony e nos tempos em que se haviam conhecido. Fora antes da guerra. Eles andavam em Harvard e ela em Radcliffe. Ambos os rapazes pertenciam ao Orfeão da Universidade de Harvard: Luke tinha uma maravilhosa voz de barítono e Anthony era um extraordinário tenor. Elspeth era regente do Grupo Coral de Radcliffe e organizara um concerto em parceria com o orfeão.

Luke e Anthony formavam um duo invulgar. Eram ambos altos e atléticos, mas as semelhanças terminavam por aí. As raparigas de Radcliffe chamavam-lhes a «Bela e o Monstro». Luke era a Bela, com o seu cabelo escuro ondulado e roupas elegantes. Com um grande nariz, queixo proeminente e ar de quem usava roupas que não eram suas, Anthony não era muito atraente, mas as raparigas sentiam-se seduzidas pela sua energia e entusiasmo.

Elspeth tomou banho rapidamente. Ainda de roupão, sentou-se ao toucador para se maquilhar. Colocou o relógio de pulso ao lado do eyeliner, para não deixar passar os trinta minutos que estabelecera como prazo.

Lembrou-se que também estava sentada ao toucador de roupão da primeira vez que falara com Luke. Fora durante um ataque-surpresa nocturno que um grupo de rapazes de Harvard, alguns dos quais já ébrios, fizera ao dormitório feminino para conseguir peças de roupa interior como troféus. Agora, quase vinte anos depois, parecia-lhe incrível que ela e as restantes raparigas não tivessem temido nada mais sério que o roubo de algumas peças de langerie. Seria o mundo mais inocente nessa altura?

Luke viera parar ao seu quarto por acaso. Estava a licenciarse em Matemática, como ela. Embora ocultasse a cara por trás de uma máscara, Elspeth reconheceu as suas roupas: um casaco de tweed cinzento-claro com um lenço de algodão às bolinhas encarnadas no bolso. Assim que reparou que se encontrava sozinho com ela, ficou envergonhado, como se de repente lhe tivesse ocorrido que o que estava a fazer era ridículo. Ela sorriu, apontou para o guarda-vestidos e declarou: «Na gaveta de cima.» Luke retirou um bonito par de cuecas brancas de renda e Elspeth lamentou de imediato as suas palavras: as cuecas haviam sido bastante caras. No entanto, no dia seguinte ele convidou-a para sair.

Tentou concentrar-se na maquilhagem. Esta manhã a tarefa estava a ser mais difícil que o habitual, pois dormira mal. A base acetinou-lhe o rosto e o batôn salmão alegrou-lhe os lábios. Era licenciada em Matemática pela Universidade de Radcliffe, mas no trabalho esperavam que se parecesse com uma manequim.

Penteou o cabelo. Era castanho-avermelhado e estava cortado como se usava: pelo queixo e enrolado na nuca. Enfiou rapidamente um vestido de algodão sem mangas às riscas verdes e castanho-amareladas com um cinto largo de couro castanho-escuro.

Haviam decorrido vinte e nove minutos desde que tentara telefonar a Anthony.

Para passar o último minuto, pôs-se a pensar no número 29. Era um número primo — não podia ser dividido por nenhum número, excepto por si mesmo e por um -, mas, para além disso, não era muito interessante. A única coisa curiosa era que 29 mais 2X2 era um número primo para qualquer valor de x até 28. Calculou a série de cabeça: 29, 31, 37, 47, 61, 79, 101, 127...

Pegou no telefone e marcou o número do escritório de Anthony de novo. Não obteve resposta.

 

1941

Elspeth Twomey apaixonou-se por Luke da primeira vez que ele a beijou.

A maioria dos rapazes de Harvard não fazia a menor ideia de como se beijava. Ou magoavam os lábios da rapariga com um brutal beijo repenicado ou abriam tanto a boca que mais parecia estarem no dentista. Quando Luke a beijou, às cinco para a meia-noite, a coberto da sombra do pátio do dormitório, mostrou-se arrebatado, mas, ao mesmo tempo, terno. Os seus lábios moviam-se constantemente, não apenas na sua boca, mas também nas faces, nas pálpebras e no pescoço. A ponta da língua sondou delicadamente os seus lábios, pedindo permissão para entrar. Ela nem sequer fingiu hesitar. Depois, já no quarto, olhou para o espelho e sussurrou para o seu reflexo: «Acho que estou apaixonada por ele. »

Isso acontecera seis meses atrás e, desde então, esse sentimento não parara de crescer. Via Luke quase todos os dias. Almoçavam ou estudavam juntos durante algumas horas e os fins-de-semana também eram passados quase inteiramente em conjunto. Eram ambos finalistas.

Não era invulgar uma rapariga de Radcliffe ficar noiva de um rapaz de Harvard ou de um jovem professor no último ano, casar no Verão, partir numa longa lua-de-mel e mudar-se para um apartamento no regresso. Começavam depois a trabalhar e um ano mais tarde tinham o primeiro filho.

Mas Luke nunca falara em casamento.

Olhava para ele agora, sentado a uma mesa ao fundo do Flanagan’s Bar, a discutir com Bernard Rothsten, um aluno já licenciado, de bigode preto cerrado, alto e com ar de poucos amigos. o cabelo de Luke teimava em cair-lhe para os olhos e ele não parava de o puxar para trás com a mão esquerda, num gesto já habitual. Quando fosse mais velho e tivesse um emprego de responsabilidade, teria de pôr gel no cabelo para o obrigar a manter-se no lugar, e aí perderia aquele ar sensual, pensou Elspeth.

Bernard era comunista, como muitos dos estudantes e professores de Harvard.

— O teu pai é banqueiro — disse com desdém a Luke — e tu também o serás. Claro que para ti o capitalismo é uma maravilha. Elspeth reparou que Luke começara a ficar vermelho. o seu pai fora recentemente mencionado num artigo da revista Time como um dos dez homens que se tornara milionário desde a Depressão. No entanto, supôs que Luke corava não por ter dinheiro, mas porque gostava da sua família e se sentia ofendido com a crítica implícita que Bernard fizera ao pai. Elspeth indignou-se por ele e exclamou:

— Não julgamos as pessoas pelos respectivos pais, bem.!

— De qualquer forma — acrescentou Luke -, a banca é uma actividade tão honrada como outra qualquer. Os banqueiros ajudam as pessoas a abrir negócios e a criar empregos.

— Como fizeram em mil novecentos e vinte e nove! — disparou Bernard.

— Também erram, e por vezes ajudam as pessoas erradas. Os soldados também cometem erros e matam pessoas que não deviam, e nem por isso te acuso de seres um assassino.

Foi a vez de Bernard ficar ofendido. Combatera na Guerra Civil Espanhola — era três ou quatro anos mais velho que os restantes — e Elspeth presumiu que ele se recordara de algum erro trágico.

— De qualquer maneira, não pretendo ser banqueiro — concluiu Luke.

A namorada de Ben, Peg, uma rapariga pouco atraente, inclinou-se para a frente, subitamente interessada na conversa. Tal como o namorado, levava as suas convicções muito a peito, embora não tivesse o mesmo tom sarcástico.

— Então, que planeias tornar-te? — perguntou.

— Cientista.

— Que tipo de cientista? Luke apontou para cima.

— Quero explorar o espaço para além do nosso planeta. Ben riu-se com desdém.

— Foguetões espaciais! Uma fantasia infantil... Elspeth saltou novamente em defesa de Luke.

— Pára com isso, Ben! Não fazes a mínima ideia do que estás a dizer.

Ben licenciara-se em Literatura Francesa.

Todavia, Luke não pareceu ficar magoado com o escárnio de Bernard. Talvez já se tivesse habituado a que as pessoas se rissem do seu sonho.

— Será realidade em breve — declarou Luke. — E digo-te mais: acredito que a ciência fará mais pelas pessoas do que o comunismo.

Elspeth franziu o sobrolho. Amava Luke, mas achava-o demasiado ingénuo no que dizia respeito a política.

— Estás a ser muito simplista — argumentou ela. — Os benefícios da ciência dirigem-se a uma reduzida e privilegiada elite.

— Isso não é verdade — contrapôs Luke. — Os barcos a vapor facilitam a vida tanto a marinheiros como a passageiros de transatlânticos.

— Já alguma vez estiveste na casa das máquinas de um transatlântico? — inquiriu Bernard.

— Sim, e não havia ninguém a morrer de escorbuto. Um vulto alto projectou a sua sombra sobre a mesa.

— Os meninos já têm idade para beber bebidas alcoólicas em público?

Era Anthony Carroll. Vestia um fato de sarja azul tão amarrotado que parecia que dormira com ele e vinha acompanhado de alguém tão impressionante que Elspeth soltou um involuntário murmúrio de surpresa. Era uma rapariga pequena, com um ar delicado, elegantemente vestida com um casaco vermelho curto, uma saia preta e um pequeno chapéu encarnado de pala, por debaixo do qual se escapavam alguns caracóis.

— Esta é a Billie Josephson — apresentou Anthony

— És judia? — perguntou Ben Rothsten.

— Sim — respondeu Billie, surpreendida com uma pergunta tão directa.

— Então, podes casar com o Anthony, mas não podes fazer parte do seu clube.

— Não pertenço a nenhum clube — protestou Anthony.

— Pertencerás, Anthony, vais ver — asseverou Bernard.

Luke levantou-se para cumprimentar a rapariga, deu um encontrão à mesa com as ancas e fez cair um copo. Não era seu costume ser desastrado e Elspeth percebeu, com alguma irritação, que o seu namorado ficara instantaneamente deslumbrado com Miss Josephson.

— Estou surpreendido — exclamou com o seu sorriso mais encantador. — Quando o Anthony disse que a sua acompanhante se chamava Billie, imaginei alguém com um metro e— oitenta e o corpo de um lutador.

Billie riu-se alegremente e sentou-se ao lado de Luke.

— O meu nome é Bila. É um nome bíblico. Bila era a criada de Raquel e a mãe de Dan. Todavia, cresci em Dallas, onde me chamavam Billie-jo.

Anthony sentou-se ao lado de Elspeth e disse-lhe ao ouvido:

— Não é uma beleza?

Billie não era exactamente uma beleza, pensou Elspeth. A sua cara era estreita, o nariz afiado e os olhos grandes, brilhantes e castanho-escuros. Era o conjunto de tudo que a tornava tão deslumbrante: o bâton encarnado, a forma como trazia o chapéu, o sotaque do Texas e, acima de tudo, a sua vivacidade. Enquanto conversava com Luke, contando-lhe uma história sobre os Texanos, sorria, franzia as sobrancelhas e pantominava todo o tipo de emoções.

— É engraçada — disse Elspeth a Anthony, — Não sei porque nunca reparei nela...

— Billie trabalha e não vai a muitas festas.

— Então, como a conheceste?

— Reparei nela no Fogg Museurn. Trazia um casaco verde com botões de bronze e uma boina. Lembrou-me um soldadinho de brincar acabado de sair da caixa.

Billie não era um brinquedo, pensou Elspeth. Era mais perigosa do que isso. A rapariga riu-se de qualquer coisa que Luke disse e bateu-lhe no braço, como se o estivesse a admoestar. Elspeth achou o gesto provocante e, irritada, interrompeu-os, perguntando a Billie:

— Estás a planear escapar ao recolher obrigatório hoje?

As alunas de Radcliffe deviam estar no dormitório às dez da noite. Podiam obter autorização para chegar mais tarde, mas para tal, teriam de inserir o seu nome num livro e especificar onde pretendiam ir e a que horas regressariam. A hora de chegada era, obviamente, controlada. No entanto, havia raparigas espertas e as complicadas regras do recolher obrigatório só serviam para as inspirar a desenvolver planos engenhosos de o contornar.

— Vou passar a noite com uma tia que me veio visitar e que reservou uma suíte no Ritz. Qual é a tua história?

— Não tenho nenhuma, apenas uma janela do rés-do-chão que ficará aberta toda a noite — replicou Elspeth.

— Na verdade — confessou Billie, baixando a voz -, vou ficar com uns amigos do Anthony em Fenway.

Anthony ficou com um ar envergonhado.

— São umas pessoas que a minha mãe conhece e que têm um apartamento grande — explicou a Elspeth. — Não faças esse olhar de reprovação, são pessoas muito respeitáveis.

— Espero bem que sim — respondeu ela com um ar formal, e teve a satisfação de ver Billie corar. Depois, voltando-se para Luke, perguntou:

— A que horas é o filme, querido?

— Temos de ir — disse ele, olhando para o relógio.

Luke pedira um carro emprestado durante o fim-de-semana. Era um Ford Modelo A de dois lugares com dez anos, cujas formas pareciam já antiquadas quando comparado com os automóveis mais aerodinâmicos do início dos anos 40.

Luke conduzia o carro com destreza e era óbvio que se divertia. Foram até Boston. Elspeth perguntava a si mesma se não teria sido desagradável para com Billie. Talvez um pouco, admitiu, mas também não iria pensar mais nisso.

Foram ver o último filme de Alfred Hitchcock, Suspeita, no Loew’s State Theatre. No escuro do cinema, Luke pós o braço em redor de Elspeth e ela encostou a cabeça no seu ombro. Pensou que fora uma pena terem escolhido um filme sobre um casamento desastroso.

Por volta da meia-noite, regressaram a Cambridge. No caminho, estacionaram frente ao rio Charles, ao lado da casa dos barcos. o carro não tinha aquecimento e Elspeth levantou a gola de pele do casaco e encostou-se a Luke, para que ele a aquecesse.

Falaram sobre o filme. Elspeth achava que na vida real a personagem desempenhada por Joan Fontaine, uma rapariga reprimida que fora educada por pais muito conservadores, nunca se sentiria atraída por um patife como o que Cary Grant personificava. Luke contestou:

— Foi por isso mesmo que ela se apaixonou por ele, porque ele era perigoso.

— As pessoas perigosas são atraentes?

— Claro.

Elspeth afastou-se dele e olhou para o reflexo da Lua na superficie agitada da água. «Billie Josephson é perigosa», pensou. Luke apercebeu-se do que se passava e mudou de assunto.

— Hoje à tarde o professor Davies disse-me que poderia fazer a pós-graduação aqui em Harvard, se quisesse.

— A propósito de quê?

— Disse-lhe que esperava ir para Columbia. Ele perguntou-me: «Para quê? Fique aqui! » Expliquei-lhe que a minha família está em Nova Iorque e ele respondeu: «Família? Pois! » Assim, sem mais nem menos. Como se eu não pudesse ser um matemático sério e ao mesmo tempo preocupar-me com a minha família...

Luke era o mais velho de quatro filhos. A mãe era francesa. o pai conhecera-a em Paris no fim da Primeira Guerra Mundial. Elspeth sabia que Luke gostava dos seus dois irmãos adolescentes e adorava a irmã, de onze anos.

— O professor Davies é solteiro — acrescentou Elspeth.

— Vive para o trabalho.

— Já alguma vez pensaste em fazer uma pós-graduação? o coração de Elspeth bateu com mais força.

— Achas que devia?

Estaria Luke a pedir-lhe para ir para Columbia com ele?

— És melhor que muitos dos rapazes de Harvard — declarou Luke.

— Sempre quis trabalhar no Departamento de Estado.

— Isso significaria viver em Washington.

Elspeth tinha a certeza de que Luke não planeara esta conversa, estava meramente a pensar alto. Era típico de um homem falar de um assunto sem sequer ter parado um minuto para pensar sobre pormenores que afectariam a sua vida. Todavia, parecia desanimado com a perspectiva de poderem ficar em cidades diferentes. «A solução para o dilema deveria ser tão óbvia para mim como para ele», pensou Elspeth alegremente.

— Alguma vez estiveste apaixonada? — perguntou Luke de repente. Apercebendo-se de que fora pouco delicado, acrescentou:

— É uma pergunta muito pessoal, não tenho o direito de a fazer.

— Não tem importância — disse, poderia falar de amor com ela sempre que quisesse. — Na realidade, já. — Olhou para ele e ficou satisfeita por ver uma expressão de descontentamento atravessar-lhe o rosto. — Quando tinha dezassete anos, houve uma greve de metalurgistas em Chicago. Nessa altura envolvia-me muito em questões políticas. Fui ajudar como voluntária, distribuindo café e -fazendo pequenos recados, e trabalhei para um jovem sindicalista chamado Jack Largo, pelo qual me apaixonei.

— E ele por ti?

— Claro que não. Jack tinha vinte e cinco anos e via-me como uma miúda. Era amável comigo e encantador, mas era assim para toda a gente — respondeu. Depois hesitou. — No entanto, uma vez beijou-me. — Interrogou-se se fizera bem em contar tudo isto a Luke, mas sentia necessidade de desabafar. — Estávamos sozinhos a empacotar panfletos e eu comentei qualquer coisa que o fez rir. já nem me lembro o que foi. «És um amor, Ellie», disse ele. Era o tipo de homem que encurta o nome de toda a gente. De certeza que te chamaria Lou. Depois beijou-me, mesmo nos lábios. Quase morri de felicidade, mas ele continuou a empacotar panfletos, como se não tivesse acontecido nada.

— Acho que se apaixonou mesmo por ti.

— Talvez...

— Ainda tens algum contacto com ele? Abanou a cabeça e respondeu:

— Morreu.

— Tão jovem?!

— Foi morto — explicou, reprimindo as lágrimas. A última coisa que queria era que Luke pensasse que estava ainda apaixonada pela memória de Jack. — Dois polícias fora de serviço contratados pela metalurgia levaram-no para un beco e espancaram-no até à morte com barras de ferro.

— Meu Deus! — exclamou Luke, e olhou fixamente para ela.

— Toda a gente sabia quem eram os culpados, mas ninguém foi preso.

Luke pegou-lhe na mão.

— Já li histórias semelhantes nos jornais, mas nunca parecem reais.

— Mas são. A máquina nunca pode parar. Quem é apanhado no caminho tem de ser eliminado.

— Até parece que estás a afirmar que a indústria não é muito melhor que o crime organizado...

— Não vejo grande diferença. De qualquer maneira, agora já não me envolvo. já me chegou.

Luke começara a falar de amor e ela mudara estupidamente a conversa para a política. Apressou-se a voltar ao assunto inicial.

— E tu, Luke, já alguma vez te apaixonaste?

— Não tenho a certeza — respondeu, hesitante. — Acho que não sei o que é o amor.

Era a resposta típica de um rapaz. Depois beijou-a e ela descontraiu-se.

Elspeth gostava de o afagar com as pontas dos dedos enquanto se beijavam, acariciando-lhe as orelhas, a face, o cabelo e a nuca. De vez em quando Luke parava de a beijar para a olhar intensamente, examinando-a com um leve sorriso nos lábios, fazendo-a pensar em Ofélia a dizer: « Começou a examinar o meu rosto como se quisesse desenhá-lo.» Depois tornava a beijá-la. o que a fazia sentir-se tão feliz era pensar que ele gostava assim tanto dela.

Passado um instante, afastou-se um pouco dela e suspirou profundamente.

— Não sei como é que as pessoas casadas conseguem aborrecer-se — disse. — Não precisam de parar de se beijar.

Elspeth gostava destas conversas sobre casamento.

— Acho que são os filhos que os fazem parar — alvitrou, rindo.

— Queres ter filhos um dia?

Sentiu o coração bater mais forte. o que estava ele a querer insinuar?

— Claro que sim.

— Eu gostava de ter quatro.

«Tal como os pais», pensou Elspeth.

— Rapazes ou raparigas?

— Ambos.

Seguiu-se um breve silêncio. Elspeth temia dizer o que quer que fosse. o silêncio prolongou-se. Por fim, Luke virou-se para ela com um olhar sério.

— O que acharias disso? Gostarias de ter quatro filhos?

Era a deixa que ela esperava. Sorriu alegremente e respondeu:

— Se fossem teus, adorava.

Luke beijou-a de novo.

Começou a ficar demasiado frio para continuarem ali e, relutantemente, encaminharam-se para o dormitório de Radcliffe. Quando passavam por Harvard Square um vulto acenou para eles do passeio.

— Parece o Anthony — exclamou Luke, incrédulo. Era de facto Anthony, e Billie estava com ele.

Luke parou o carro e Anthony inclinou-se sobre a janela.

— Ainda bem que vos vi — disse, com um ar aliviado. — Preciso de um favor.

Billie estava atrás de Anthony, tremendo de frio e com um ar furioso.

— O que fazem aqui? — perguntou Elspeth a Anthony.

— Houve uma confusão. Os meus amigos de Fenway foram passar o fim-de-semana fora. Devem ter confundido as datas. A Billie não tem onde ficar. — Elspeth lembrou-se que Billie mentira para escapar ao recolher obrigatório. Agora não poderia regressar ao dormitório sem revelar a sua mentira. — Levei-a para o nosso dormitório. Pensei que ela poderia ficar no nosso quarto e eu e Luke passaríamos a noite na biblioteca.

— Estás doido?! — exclamou Elspeth.

— Não seria a primeira vez que se fazia uma coisa dessas — interveio Luke. — o que aconteceu, então?

— Fomos descobertos.

— Meu Deus! — exclamou Elspeth.

Ser descoberta no quarto de um rapaz era um caso muito grave, especialmente à noite. Tanto o rapaz como a rapariga poderiam ser expulsos da universidade.

— Quem é que vos viu? — inquiriu Luke.

— Geoff Pidgeon e um grupo de outros rapazes.

— O Geoff é bom rapaz. Quem eram os outros?

— Não sei. Bernard. Estava um pouco escuro e encontravam-se todos bêbados. Falarei com eles de manhã.

Luke acenou com a cabeça em sinal de assentimento.

— E o que pretendes fazer agora? — perguntou.

— A Billie tem um primo que vive em Newport, em Rhode Island. Importavas-te de a levar até lá? — pediu Anthony

— O quê?! — indignou-se Elspeth. — Mas isso fica a oitenta quilómetros!

— É capaz de levar uma hora ou duas — replicou Anthony, indiferente. — o que dizes, Luke?

— Claro — prontificou-se ele de imediato.

Elspeth sabia que Luke concordaria. Era uma questão de honra para ele ajudar um amigo, independentemente do incómodo que pudesse causar. Todavia, isso não servia de consolo a Elspeth.

— Obrigado — agradeceu Anthony.

— Não há problema — assegurou Luke. — Bom, na verdade até há. Este carro só tem dois lugares.

Elspeth abriu a porta do carro e saiu.

— Faz favor — disse, amuada. Logo de seguida, sentiu-se envergonhada por ter ficado tão mal-humorada. Luke fazia bem em ajudar um amigo em apuros, mas detestava a ideia de saber que ele passaria duas horas naquele carro com a atraente Billie Josephson.

Luke apercebeu-se da sua reprovação e disse:

— Volta aqui, Elspeth. Levo-te ao dormitório primeiro. Ela tentou ser amável.

— Não vale a pena. o Anthony acompanha-me até lá. Não tarda muito a Billie morre de frio.

— Está bem, se não te importas mesmo... — concluiu Luke. Elspeth desejou que Luke não tivesse concordado tão rapidamente.

— Não sei como agradecer-te — disse Billie, beijando Elspeth no rosto. Entrou no carro e fechou a porta sem sequer se despedir de Anthony.

Luke acenou e arrancou.

Anthony e Elspeth ficaram a ver o carro desaparecer na escuridão.

— Raios! — protestou Elspeth.

 

Seis e meia da manhã

Gravado num dos lados do foguetão encontra-se a indicação «EU» em grandes letras pretas. Trata-se de um código simples:

 

H U N T s v L L E x1 2 3 4 5 6 7 8 9 0

 

Assim, EU quer dizer míssil número vinte e nove. O objectivo do código é evitar revelar o número de mísseis já produzidos.

Aurora avançava sub-repticiamente sobre a cidade. Homens e mulheres saíam de suas casas, semicerrando os olhos e apertando os lábios contra o vento frio, e caminhavam apressados em direcção ao calor e luz dos escritórios, lojas, hotéis e restaurantes onde trabalhavam.

Luke caminhava sem destino: uma rua era tão boa quanto Outra, já que nenhuma significava o que quer que fosse. Talvez, pensava, ao dobrar a próxima esquina descobrisse, qual revelação, que estava num local conhecido: a rua onde crescera, um edifício onde trabalhara. Porém cada esquina era uma desilusão.

À medida que a manhã clareava, começou a examinar as pessoas com quem se cruzava. Uma delas poderia ser o seu pai, a sua irmã, até o seu filho. Esperava que alguém o reconhecesse, parasse e o abraçasse, dizendo: «Luke, o que te aconteceu? Vem comigo para casa, deixa-me ajudar-te! » Mas talvez os seus familiares lhe voltassem a cara. Quiçá fizera alguma coisa que os ofendera ou talvez até vivessem numa outra cidade.

Começou a pressentir que não iria ter sorte. Nenhum dos transeuntes o abraçaria, chorando de alegria, e não iria reconhecer subitamente a rua onde vivera. Percorrer as ruas fantasiando sobre um golpe de sorte não era uma estratégia viável. Precisava de um plano. Tinha de haver maneira de descobrir a sua identidade.

Interrogou-se se não estaria incluído na lista de pessoas desaparecidas. Tinha a certeza de que deveria haver uma relação dessas pessoas com a descrição de cada uma. Quem elaboraria tal lista? Tinha de ser a polícia.

Lembrou-se de ter passado por uma esquadra alguns minutos antes. Virou-se bruscamente para voltar para trás. Ao fazê-lo, esbarrou contra um homem de gabardina verde-azeitona e gorro a condizer. Pareceu-lhe que já o vira antes. Os olhos de ambos cruzaram-se e, por um instante, Luke pensou ter sido reconhecido. No entanto, o homem desviou o olhar com algum embaraço e continuou a andar.

Engolindo a decepção, tentou reconstituir o caminho que percorrera. Era difícil, pois dobrara esquinas e atravessara ruas mais ou menos ao acaso. Todavia, mais cedo ou mais tarde, acabaria por dar de caras com uma esquadra.

Enquanto caminhava, tentou deduzir algumas informações sobre si mesmo. Observou um homem alto de chapéu de feltro cinzento acender um cigarro e fumá-lo com satisfação, mas não sentiu qualquer desejo de fumar. Supôs, portanto, que não fumava. olhando para os carros, compreendeu que os de que mais gostava — os de aspecto desportivo — eram os mais recentes. Decidiu que gostava de carros velozes e tinha a certeza que sabia conduzir. Sabia também o nome da marca e modelo de quase todos os carros que via. Era este o tipo de informação que conservara, para além da capacidade de se exprimir na sua língua materna.

Quando vislumbrava o seu reflexo na montra de uma loja, via um vagabundo de idade indeterminada, mas, quando olhava para os transeuntes, conseguia calcular aproximadamente as suas idades. Descobriu ainda que classificava as pessoas como mais jovens ou mais velhas que ele. Pensando melhor nisso, percebeu que as pessoas de vinte anos pareciam mais novas que ele e que as pessoas de quarenta aparentavam ser mais velhas. Assim, concluiu que a sua idade deveria encontrar-se entre estas duas.

Estas insignificantes vitórias sobre a amnésia conferiram-lhe uma desmesurada sensação de triunfo.

Todavia, perdera-se por completo. Estava a meio de uma rua de lojas baratas, reparou, com alguma irritação. Havia lojas de roupa com montras cheias de cartazes a anunciar pechinchas, lojas de mobílias usadas, prestamistas e mercearias que aceitavam senhas de alimentação. Estacou e olhou em redor, pensando no que haveria de fazer. Trinta metros atrás de si, viu o homem da gabardina verde e gorro, olhando para uma televisão exposta numa montra.

Luke franziu o sobrolho, pensando: «Estará a seguir-me?» Um perseguidor anda sempre sozinho, raramente transporta uma mala ou um saco de compras e parece vaguear em vez de caminhar com um objectivo definido. o homem de gorro verde correspondia a esta descrição.

Era fácil confirmar as suas suspeitas.

Continuou até ao fundo do quarteirão, atravessou a estrada e caminhou na direcção oposta. Quando chegou ao fim da rua, colocou-se na berma do passeio e olhou para ambos os lados. o homem da gabardina verde-azeitona estava trinta metros atrás de si. Luke atravessou novamente a estrada. Para evitar levantar suspeitas, começou a examinar cuidadosamente as portas, como se procurasse um número, e prosseguiu até ao ponto de partida. o homem de gabardina seguiu-o.

Luke estava baralhado, mas, ao mesmo tempo, esperançoso. Se havia um homem a segui-lo, teria de saber alguma coisa sobre si, talvez até a sua identidade.

Para se certificar de que estava a ser seguido, precisava de viajar num meio de transporte, obrigando o seu perseguidor a fazer o mesmo. Apesar da excitação, algo no fundo da sua mente se interrogava:

« Como sabes o que fazer para verificar se estás a ser seguido? » o método surgira-lhe instintivamente. Teria feito algum trabalho clandestino antes de se tornar num vagabundo?

Pensaria nisso mais tarde. Agora precisava de dinheiro para apanhar um autocarro. Não tinha nada nos bolsos; certamente gastara o último centavo em bebida. Mas isso não constituía problema, havia dinheiro por toda a parte: nos bolsos das pessoas, nas lojas, em táxis e residências.

Começou a observar o que o circundava com outros olhos. Via quiosques de jornais prontos a serem assaltados, malas que podiam ser puxadas, bolsos à espera de serem roubados. Olhou para dentro de um café. Havia um homem por trás do balcão e uma empregada a servir às mesas. Era um local tão bom como qualquer outro. Entrou.

Os seus olhos esquadrinharam as mesas à procura de trocos deixados como gorjeta, mas não iria ser uma tarefa fácil. Aproximou-se do balcão. Um rádio transmitia as notícias: «Os especialistas afirmam que esta é a última oportunidade que a América tem de concorrer com os Russos na corrida para controlar o espaço. » o homem por detrás do balcão estava a fazer café e o vapor e a deliciosa fragrância que se elevavam de uma máquina reluzente fizeram dilatar as narinas de Luke. o que diria um vagabundo naquela situação?

— Tem por aí alguns dounuts rançosos? — perguntou.

— Ponha-se a andar! — replicou o homem rudemente.

— E não volte!

Luke pensou em saltar o balcão e abrir a caixa registadora, mas pareceu-lhe uma atitude extrema, quando tudo o que queria era dinheiro para o bilhete de autocarro. Ao lado da registadora, ao alcance da sua mão, encontrava-se uma lata com uma ranhura no topo. o rótulo apresentava a imagem de uma criança e a legenda «Lembre-se daqueles que não vêem». Luke mexeu-se de modo. que o seu corpo escondesse a lata da vista dos clientes e da empregada. Agora só precisava de distrair o empregado de balcão.

— Dê-me qualquer coisa... — insistiu.

— Já é de mais! Agora é que vais mesmo sair daqui! — protestou o homem. Pousou um jarro com impetuosidade e limpou as mãos ao avental. Tinha de passar por baixo do balcão para chegar a Luke e durante alguns segundos não o conseguiria ver.

Nesse espaço de tempo, Luke agarrou na lata e meteu-a no casaco. Estava desanimadoramente leve, mas algo fez barulho no seu interior, o que significava que não estava vazia.

O empregado de balcão agarrou Luke pelo colarinho e impeliu-o para a rua. Luke não ofereceu resistência até que, já à porta, o homem lhe deu um forte pontapé no traseiro. Esquecendo o que acabara de fazer, voltou-se rapidamente, pronto para retaliar. o homem assustou-se com a reacção inesperada do vagabundo e recuou para dentro do café.

Luke pensou que não tinha o direito de se insurgir contra o empregado de balcão. Entrara no café para pedir e não saíra quando lhe haviam dito para o fazer. É verdade que o pontapé fora desnecessário, mas estava a pedi-lo — roubara o dinheiro das crianças cegas!

Ainda assim, foi com bastante dificuldade que engoliu o seu orgulho, se voltou e se escapuliu, qual cão com o rabo entre as pernas.

Escondeu-se no beco, procurou uma pedra afiada e atacou a lata, extravasando a sua raiva. Em pouco tempo a lata estava esventrada. o dinheiro que continha não ultrapassaria dois ou três dólares, pensou. Colocou as moedas no bolso do casaco e abandonou o beco. Agradeceu aos céus a caridade e prometeu que daria três dólares aos cegos, se alguma vez se emendasse.

«Está bem», pensou, «trinta dólares.»

O homem da gabardina verde estava num quiosque a ler o jornal.

Um autocarro parou a poucos metros dali. Luke não fazia ideia do seu destino, mas isso não importava. Entrou nele. o condutor olhou-o com um ar pouco satisfeito, mas não o expulsou.

— Quero andar três paragens — disse Luke.

— Não importa para onde quer ir, o bilhete custa dezassete cêntimos, a não ser que tenha uma senha.

Luke pagou com algum do dinheiro que roubara.

Talvez não estivesse a ser seguido. Enquanto se dirigia para a traseira do autocarro, olhava ansiosamente pela janela. o homem da gabardina afastava-se com o jornal debaixo do braço. Luke franziu as sobrancelhas. Era suposto o homem estar a tentar apanhar um táxi. Possivelmente, tudo não passava de coincidência. Sentiu-se desapontado.

O autocarro arrancou e Luke sentou-se.

Mais uma vez interrogou-se como saberia todas aquelas manobras sobre perseguições. Talvez tivesse sido treinado para executar este tipo de trabalho. Mas para quê? Seria polícia? Talvez tivesse alguma coisa a ver com a guerra. Sabia que houvera uma guerra e que a América lutara contra os Alemães, na Europa, e contra os japoneses, no Pacífico, no entanto, não se conseguia lembrar se se alistara para combater.

Na terceira paragem saiu do autocarro com mais alguns passageiros. Olhou para ambos os lados da rua. Não avistou nenhum táxi por ali nem o homem da gabardina verde-azeitona. Enquanto meditava sobre isto, reparou que um dos passageiros que saíra do autocarro ao mesmo tempo que ele parara na entrada de uma loja e procurava qualquer coisa nos bolsos. Luke viu-o acender um cigarro e fumá-lo com satisfação.

Era um homem alto de chapéu de feltro cinzento. Luke apercebeu-se de que já o tinha visto.

 

Sete da manhã

A rampa de lançamento não passa de uma mesa de aço com quatro pernas e um buraco no centro, através do qual ojacto dofoguetão passará. Um deflector cónico colocado por baixo espalhará o jacto horízontalmente.

Anthony Carroll percorreu Constitution Avenue num Cadilac Eldorado com cinco anos que pertencia à sua mãe. Pedira-lho emprestado há um ano para regressar a Washington vindo da casa dos pais, na Virgínia, e ainda não lho devolvera. Provavelmente, a mãe já teria entretanto comprado outro carro.

Parou no parque de estacionamento do Edifício Q de Alphabet Row, uma faixa de construções semelhantes a casernas, construídas à pressa durante a guerra numa área não urbanizada, perto do Lincoln Memorial. Era, sem dúvida, um atentado à arquitectura, mas Anthony gostava do local, pois passara grande parte da guerra ali, a trabalhar para o Office of Strategic Services, o precursor da CIA. Esses sim, eram os bons velhos tempos, em que uma agência clandestina podia fazer mais ou menos o que quisesse sem ter de dar satisfações a ninguém, excepto ao presidente.

A CIA era a instituição de maior crescimento em Washington e estava a construir um quartel-general de vários milhões de dólares em Langley, na Virgínia, na margem oposta do rio Potomac. Quando ficasse pronto, os edifícios de Alphabet Row seriam demolidos.

Anthony opusera-se firmemente à construção deste novo edifício, e não só pelas boas recordações que Alphabet Row lhe evocava. Actualmente a CIA tinha escritórios em trinta e nove edifícios do quarteirão da Baixa conhecido como Foggy-Bottorn, onde se concentrava a maioria dos serviços governamentais. Assim devia continuar a ser, argumentara Anthony clamorosamente. Com os seus escritórios misturados com outros departamentos governamentais, era muito mais difícil para os agentes estrangeiros avaliar o tamanho e poder da Agência. Pelo contrário, quando tudo fosse transferido para Langley, qualquer pessoa conseguiria fazer uma estimativa dos seus recursos, dos efectivos e até do orçamento passando por lá de carro.

Fora uma batalha perdida. Quem comandava estava determinado a gerir a Agência de forma mais firme. Anthony acreditava que os serviços secretos eram coisa para temerários e aventureiros. Assim fora durante a guerra, mas agora estavam nas mãos de plumitivos e contabilistas.

Havia um local de estacionamento reservado para si e marcado como «Chefe dos Serviços Técnicos», mas Anthony ignorou-o e estacionou frente à porta principal. Ao olhar para o edifício, interrogou-se se a sua iminente demolição não significaria o fim de uma era. Nos dias que corriam, tornara-se cada vez mais frequente perder estas batalhas burocráticas. Era ainda, no entanto, uma figura bastante poderosa na Agência. «Serviços Técnicos» era o nome eufemístico da divisão responsável pelos assaltos, escutas telefónicas, experiências com medicamentos novos e outras actividades ilegais. A sua alcunha era Dirty Trichs. Anthony chegara,ao cargo que ocupava graças à sua folha de serviço como herói de guerra e a uma série de golpes executados durante a guerra fria. Algumas pessoas queriam agora transformar a CIA na imagem que o público dela tinha, uma mera agência de recolha de informação.

«Só por cima do meu cadáver», pensou.

No entanto, tinha inimigos: superiores que ofendera com os seus modos bruscos, agentes fracos e incompetentes a cujas promoções se opusera, plumitivos que não gostavam da ideia de ver o Governo metido em operações secretas. Estavam prontos a destruí-lo, assim que desse um passo em falso.

Hoje ia arriscar ainda mais a pele.

À medida que entrava no edifício, pós deliberadamente de lado as suas preocupações e concentrou-se no problema que lhe iria ocupar o dia: o Dr. Claude Lucas, conhecido como Luke, o homem mais perigoso da América, aquele que ameaçava tudo aquilo por que Anthony vivia.

Passara grande parte da noite no escritório e fora a casa apenas para fazer a barba e mudar de camisa. o guarda que se encontrava à entrada ficou com um ar surpreendido e disse:

— Bom dia, Mister Carroll, já de regresso?

— Um anjo apareceu-me em sonhos e disse-me: «Volta para o trabalho, meu sacana preguiçoso.» Bom dia.

O guarda riu-se e informou-o:

— Mister Maxell está à sua espera no seu gabinete.

Anthony franziu a testa. Pete Maxell deveria estar com Luke. Algo correra mal.

 

Negócios sujos. (N. da T.)

 

Correu escada acima.

Pete estava sentado na cadeira em frente à secretária de Anthony, ainda com as roupas de vagabundo e a mancha de sujidade que lhe cobria parcialmente o sinal de nascença que tinha na cara. Quando Anthony entrou, Pete deu um salto, assustado.

— Que aconteceu? — inquiriu Anthony.

— O Luke decidiu que queria estar sozinho. Anthony já estava à espera disto.

— Quem é que ficou no teu lugar?

— O Simons tem-no sob vigilância e o Betts anda por perto como reforço.

Anthony acenou com a cabeça pensativamente. Luke livrara-se de um agente, poderia livrar-se de outro.

— E a memória dele? — indagou Anthony.

— Desapareceu por completo.

Anthony tirou o casaco e sentou-se à secretária. Luke estava a causar problemas, mas Anthony não esperava o contrário e estava preparado.

Olhou para o homem à sua frente. Pete era um bom agente, competente e cuidadoso, mas inexperiente. Todavia, era-lhe extremamente leal. Os agentes mais novos sabiam que Anthony organizara pessoalmente um assassínio: o de Jean-François; Darlan, almirante do governo de Vichy, em Argel, na véspera do Natal de 1942. Os agentes da CIA matavam de facto pessoas, embora apenas ocasionalmente, por isso, os mais novos olhavam para Anthony com respeito. Pete tinha para com ele uma dívida muito especial. No formulário pelo qual se candidatara para a Agência, Pete mentira, afirmando que nunca tivera problemas com a lei. Anthony descobriu mais tarde que, enquanto estudante em São Francisco, Pete fora multado por abordar uma prostituta. Deveria ter sido despedido por isto, mas Anthony guardara segredo e ele ficara-lhe eternamente grato.

Pete estava infeliz e envergonhado e achava que desapontara Anthony

— Tem calma — disse Anthony, adoptando um tom paternal.

— Conta-me exactamente o que aconteceu.

Pete sentiu-se aliviado e agradecido e tornou a sentar-se.

— Acordou desvairado, a gritar «Quem sou eu?» e coisas do género. Consegui acalmá-lo... mas cometi um erro. Chamei-lhe Luke.

Anthony dissera-lhe para observar Luke, mas para não lhe dar qualquer informação.

— Não faz mal. De qualquer maneira, não é o seu verdadeiro nome — replicou Anthony.

— Depois perguntou quem eu era e eu respondi: « Sou o Pete. » Saiu-me sem pensar, estava tão preocupado em fazê-lo parar de gritar... — confessou Pete. Sentia-se mortificado por ter de confessar estes erros estúpidos a Anthony, mas este não os considerou graves e rejeitou os seus pedidos de desculpa.

— O que se passou a seguir?

— Levei-o até à igreja metodista, como tínhamos planeado, mas ele começou a fazer perguntas. Queria saber se o pastor já o tinha visto.

Anthony ia acenando com a cabeça em sinal de assentimento.

— Não devíamos estar surpreendidos. Durante a guerra foi o melhor agente que alguma vez tivemos. Perdeu a memória, mas não os instintos.

Esfregou a cara com a mão direita; começava a sentir-se cansado.

— Tentei impedi-lo de investigar o seu passado — prosseguiu Pete -, mas acho que ele percebeu o que eu estava a fazer. Depois disse-me que queria ficar sozinho.

— Conseguiu alguma pista? Aconteceu alguma coisa que o Pudesse conduzir à verdade? — insistiu Anthony.

— Não. Leu um artigo no jornal sobre o Programa Espacial, mas pareceu-me que não significou nada de importante para ele.

— Alguém notou alguma coisa estranha na sua conduta?

— O pastor ficou surpreendido por ele conseguir fazer umas palavras cruzadas. A maior parte dos vagabundos nem sequer sabe ler.

Ia ser uma tarefa difícil, mas exequível, tal como Anthony previra.

— Onde está o Luke agora?

— Não sei. o Steve telefonará assim que puder.

— Quando ele telefonar, volta aqui e põe-me a par da evolução dos acontecimentos. Aconteça o que acontecer, não podemos deixar que o Luke nos escape das mãos.

— Certo.

O telefone branco que se encontrava sobre a secretária de Anthony tocou. Era a sua linha directa. Olhou para ele durante um instante. Não havia muitas pessoas que conhecessem aquele número. Levantou o auscultador.

— Sou eu — disse a voz de Elspeth. — o que aconteceu?

— Tem calma. Está tudo sob controlo — assegurou Anthony.

 

Sete e meia da manhã

O foguetão tem 20,9 metros de altura e pesa 29 toneladas, embora grande parte do peso se deva ao combustível. o satélite propriamente dito tem apenas 64 centímetros e pesa 8, 16 quilos.

O homem perseguiu Luke uns duzentos e cinquenta metros, enquanto este caminhava para sul ao longo da Rua 8.

Era já de manhã e, embora a rua estivesse movimentada, Luke apercebia-se facilmente do chapéu de feltro cinzento entre a multidão de cabeças que se acumulava nas esquinas das ruas e nas paragens de autocarro. Contudo, depois de atravessar Pennsylvania Avenue, perdeu-o de vista. Mais uma vez, interrogou-se se não estaria a imaginar coisas. Acordara num mundo desconcertante, onde qualquer facto estranho podia ser verdadeiro. Talvez a ideia de que estava a ser seguido fosse apenas uma fantasia. No entanto, não acreditava realmente nisso e, um minuto mais tarde, reparou no homem da gabardina verde a sair de uma padaria.

— Toí encore... — murmurou.

Ficou surpreendido por ter falado em francês, mas não ligou muito ao caso. Tinha preocupações mais prementes. Não havia dúvida: tinha duas pessoas a segui-lo no que parecia ser uma bem montada operação. Eram realmente profissionais.

Tentou perceber o que tal significava. Chapéu de Feltro e Gabardina podiam ser polícias. Talvez tivesse cometido um crime ou matado alguém enquanto estivera sob o efeito do álcool. Poderiam ser espiões, agentes do KGB ou da CIA, embora lhe parecesse pouco verosímil que um vagabundo como ele pudesse estar envolvido em espionagem. Muito provavelmente, tivera uma mulher que deixara há alguns anos e que agora se queria divorciar e contratara dois detectives particulares para conseguirem provas do modo como vivia. Talvez fosse francesa.

Nenhuma das hipóteses lhe parecia muito verosímil, contudo, sentia-se bastante animado. Os seus perseguidores deveriam saber quem ele era. Qualquer que fosse o motivo por que o seguiam, sabiam com certeza alguma coisa sobre si. No mínimo, sabiam mais do que ele próprio.

Decidiu separar a equipa e confrontar depois o mais novo. Entrou numa tabacaria e comprou um maço de Pall Mall, pagando com algum do dinheiro que tirara da lata. Quando saiu, Gabardina desaparecera e Chapéu de Feltro substituíra-o de novo. Luke caminhou até ao fim do quarteirão e dobrou a esquina.

Na berma estava estacionada uma camioneta de Coca-Cola com a traseira voltada para si. o condutor descarregava as grades e levava-as para o interior de um restaurante. Luke saiu do passeio, caminhou até ao extremo da camioneta e posicionou-se de forma a poder observar a rua sem ser visto por quem dobrasse a esquina.

Um minuto depois, Chapéu de Feltro apareceu, caminhando apressadamente e verificando a entrada de cada prédio, à procura de Luke.

Luke atirou-se para o chão e rebolou para baixo da camioneta. Com os olhos ao nível do passeio, distinguiu as calças de fato azuis e os sapatos clássicos do seu perseguidor.

O homem acelerou o passo, presumivelmente preocupado que Luke tivesse desaparecido no final da rua. Depois voltou-se e regressou ao ponto de partida. Entrou no restaurante e saiu daí a poucos segundos. Circundou a camioneta, voltou para o passeio e continuou a andar. Pouco depois, desatou a correr.

Luke ficou satisfeito. Não sabia como aprendera este jogo, mas parecia jogá-lo muito bem. Rastejou para a parte da frente da camioneta e manteve-se acocorado. Olhou em redor do pára-choques. Chapéu de Feltro continuava a afastar-se rapidamente.

Luke atravessou o passeio e dobrou a esquina. Colocou-se na entrada de uma loja de aparelhos eléctricos. Enquanto observava um gira-discos com uma etiqueta que indicava oitenta dólares, abriu o maço de cigarros, tirou um e esperou, vigiando com atenção a rua.

Gabardína não tardou a aparecer.

Era alto — mais ou menos da altura de Luke — e tinha constituição atlética, mas era cerca de dez anos mais novo que ele e aparentava uma óbvia ansiedade. o instinto de Luke disse-lhe que o homem não era muito experiente.

Reparou em Luke e estremeceu de susto. Luke olhou directamente para ele. o homem desviou o olhar e continuou a andar, saindo do passeio, como qualquer pessoa faria para evitar o contacto com um vagabundo.

Luke atravessou-se-lhe no caminho. Pós o cigarro na boca e disse:

— Tem lume, amigo?

Gabardina não sabia o que fazer. Hesitou, parecendo preoCUpado. Por um instante, Luke pensou que ele continuaria a andar, ignorando-o, mas então o homem tomou uma decisão rápida e estacou.

— Claro — disse, tentando disfarçar. Levou a mão ao bolso da gabardina, tirou uma carteira de fósforos e acendeu um.

Luke tirou o cigarro da boca e perguntou:

— Sabe quem eu sou, não sabe?

O homem ficou claramente assustado. o treino não o preparara para uma situação em que o perseguido desatava a fazer perguntas ao perseguidor. Ficou a olhar para Luke, estupefacto, com o fósforo na mão; este ardeu até ao fim. Deixou-o então cair e disse:

— Não sei do que está a falar, amigo.

— Anda a seguir-me — explicou Luke. — Deve saber quem eu sou.

Gabardina continuou a fazer-se de inocente.

— Anda a vender alguma coisa?

— Acha que estou vestido como um vendedor? — inquiriu Luke ironicamente. — Vamos, seja honesto.

— Não ando a seguir ninguém.

— Você anda atrás de mim há uma hora, e eu estou perdido! o homem tomou uma decisão.

— Você está doido! — exclamou, e tentou continuar a andar. Luke deu um passo para o lado, bloqueando-lhe a passagem.

— Dê-me licença, por favor — disse Gabardina.

Luke não fazia tenções de o deixar passar. Agarrou-o pela gola da gabardina e atirou-o contra a montra da loja, fazendo o vidro abanar. A sua raiva e frustração vieram ao de cima.

— Putaín de merde! — gritou.

Gabardina era mais jovem e estava em melhor forma física que Luke, mas não ofereceu resistência.

— Tire as mãos de cima de mim — protestou. — Não ando a segui-lo!

— Quem sou eu? — perguntou Luke, aos berros. — Diz-me, quem sou eu?

— Como hei-de saber?

Agarrou no pulso de Luke, tentando obrigá-lo a soltá-lo. Luke largou-lhe a gola e agarrou-o pelo pescoço.

— Não te armes em santinho — ameaçou. — Diz-me o que se passa!

Gabardina perdeu a calma e os seus olhos esbugalharam-se de medo. Tentou soltar a mão de Luke. Quando percebeu que isso não iria resultar, começou a socá-lo nas costelas. o primeiro golpe foi certeiro e Luke encolheu-se de dor, mas não o largou, aproximando-se ainda mais dele, por forma a neutralizar a força de subsequentes murros. Apertou os dedos contra a garganta do seu oponente, sufocando-o. o pânico que o homem sentiu quando se viu impedido de respirar estava estampado nos seus olhos.

Por trás de Luke, um transeunte assustado exclamou:

— O que se passa aí?

Luke ficou subitamente chocado consigo mesmo. Estava a matar o homem! Abrandou a força que exercia. Que se passava consigo? Seria um assassino?

Gabardina conseguiu finalmente soltar-se. Luke estava estupefacto com o grau de violência a que chegara. Deixou cair os braços.

— Seu tarado! — exclamou Gabardina. o medo era ainda bem visível no seu rosto. — Tentou matar-me!

— Só quero a verdade e sei que tu ma podes contar! Gabardina esfregou o pescoço.

— Grande besta! — continuou. — Deve estar completamente doido!

Luke enraiveceu-se de novo.

— Estás a mentir! — gritou, e estendeu a mão para o agarrar novamente.

Gabardina deu meia volta e largou a correr.

Luke poderia ter ido atrás dele, mas hesitou. De que valia? o que faria se o apanhasse, torturava-o?

Depois, era tarde de mais. Três transeuntes haviam parado para ver a confusão e, a uma distância segura, olhavam fixamente para o agressor. Passado um momento, Luke afastou-se na direcção contrária à tomada pelos seus dois perseguidores.

Sentia-se pior que nunca, trémulo devido ao acesso de raiva e desapontado com o resultado obtido. Encontrara duas pessoas que sabiam provavelmente quem ele era e não conseguira extrair de nenhuma delas qualquer informação.

«Lindo trabalho, Luke», disse para consigo mesmo. «Não chegaste a lado nenhum.»

Estava novamente sozinho.

 

Oito da manhã

O foguetão Júpiter possui quatro andares. o maior é uma versão melhorada do míssil balístíco Redstone. Este é o primeiro andar e também o propulsor, um motor incrivelmente poderoso, que tem a tarefa hercúlea de libertar o foguetão das poderosas garras da gravidade terrestre.

Dr. Billie Josephson estava atrasada.

Levantara a mãe, ajudara-a a vestir um roupão de xadrez, obrigara-a a colocar o aparelho do ouvido e sentara-a na cozinha frente a uma chávena de café. Depois fora acordar o filho, Larry, de sete anos, elogiara-o por não ter molhado a cama e dissera-lhe que, ainda assim, tinha de tomar banho à mesma. No final, voltou para a cozinha.

A mãe, uma senhora pequena e roliça de setenta anos conhecida como Becky-Ma, tinha o rádio ligado com o volume bem alto. Perry Como cantava Catch a Falling Star. Billie colocou umas fatias de pão na torradeira e pôs manteiga e doce de uva na mesa para BeckyMa. Para Larry deitou Cornflakes numa tigela, cortou uma banana às fatias para cima dos cereais e encheu a tigela com leite.

Fez uma sanduíche de manteiga de amendoim e doce e colocou-a na lancheira de Larry, juntamente com uma maçã, uma tablete de chocolate e uma pequena garrafa de sumo de laranja. Pós a lancheira na mochila e juntou-lhe o caderno e a luva de basebol, presente do pai.

No rádio, um repórter entrevistava algumas das pessoas que se haviam juntado na praia perto de Cabo Canaveral na esperança de verem o lançamento do foguetão.

Larry entrou na cozinha com os atacadores desapertados e a camisa mal abotoada. Billie arranjou-o, sentou-o à mesa e começou a fazer ovos mexidos.

Eram oito e um quarto e estava quase despachada. Amava o filho e a mãe, mas uma parte dela lamentava ter de tomar conta deles. o repórter entrevistava agora um porta-voz do Exército:

«— Estes curiosos não correm perigo? E se o foguetão sai da trajectória e se despenha na praia?

— Não há perigo de isso acontecer. Todos os foguetões possuem um mecanismo de autodestruição. Se se desviar da trajectória, faremos com que expluda ainda no ar.

— Mas como é que conseguirão fazê-lo explodir depois de já ter descolado?

— O mecanismo é accionado por um sinal de rádio emitido de terra.

— Ainda assim parece perigoso. Algum radioamador pode accioná-lo acidentalmente.

— O mecanismo responde apenas a um sinal complexo, uma espécie de código. Os foguetões são coisas muito caras, por isso, não corremos riscos.»

— Hoje tenho de fazer um foguetão espacial. Posso levar o boião do iogurte para a escola? — inquiriu Larry.

— Não, ainda está meio cheio — respondeu a mãe.

— Mas tenho de levar alguns recipientes! Miss Peg vai ficar furiosa se o não fizer!

Estava quase em lágrimas.

— Para que precisas dos recipientes?

— Para fazer um foguetão espacial! A professora disse-nos a semana passada.

Billie suspirou.

— Larry, se me tivesses avisado na semana passada, teria juntado um monte de recipientes. Quantas vezes tenho de te pedir que não deixes as coisas para o último minuto?

— O que hei-de fazer agora?

— Eu já vejo. Vamos pôr o iogurte numa tigela e... que tipo de recipientes queres?

— Os que tenham a forma de um foguetão espacial.

Billie interrogou-se se os professores pensavam na carga de trabalho que impunham às mães já sobrecarregadas quando pediam às crianças que trouxessem coisas de casa. Colocou torradas com manteiga em três pratos e serviu os ovos mexidos, mas não comeu. Deu uma volta à casa e arranjou uma caixa de detergente em cartão com a forma de um tubo, uma garrafa de plástico de sabonete líquido, uma caixa de gelado e outra de chocolates com a forma de um coração.

A maioria dos rótulos das embalagens representava os produtos a serem usados por famílias: geralmente uma dona de casa bonita, duas crianças felizes e o pai a fumar cachimbo em segundo plano. Billie perguntou-se se outras mulheres odiariam aquele estereótipo tanto quanto ela. Nunca tivera uma família assim. o pai, um pobre alfaiate de Dallas, morrera era ela ainda criança, e a mãe criara cinco filhos na mais completa miséria. Ela própria divorciara-se quando Larry tinha dois anos. Havia muitas famílias sem homem, em que a mãe era viúva, divorciada ou, como se chamava na altura, uma «mulher perdida». Todavia, essas famílias não apareciam retratadas nos pacotes dos cereais.

Colocou todos os recipientes num saco de plástico para o filho os levar para a escola.

— Ena pá, aposto que tenho mais que qualquer dos outros! — congratulou-se Larry. — Obrigado, mãe.

O seu pequeno-almoço estava frio, mas Larry sentia-se feliz. Um carro apitou lá fora. Billie olhou-se ao espelho no vidro da porta do armário. o cabelo preto encaracolado fora penteado à pressa, não tinha maquilhagem, excepto o eyelíner, que se esquecera de tirar na noite anterior, e vestira uma camisola cor-de-rosa larga, o que até lhe dava um aspecto mais ou menos atraente.

A porta das traseiras abriu-se e Roy Brodsky entrou. Roy era o melhor amigo de Larry e os rapazes cumprimentaram-se animadamente, como se não se vissem há um mês. Billie reparou que todos os amigos de Larry eram agora rapazes. No jardim-escola fora diferente: rapazes e raparigas brincavam juntos indiscriminadamente. Interrogava-se que alteração psicológica ocorreria por volta dos cinco anos que fazia com que as crianças preferissem as do seu próprio sexo.

Roy vinha acompanhado pelo pai, Harold, um homem elegante, de olhos castanho-claros. Harold Brodsky era viúvo: a mãe de Roy morrera num acidente de viação. Harold ensinava Química na Universidade George Washington. Billie e Harold namoravam. Ele olhou para ela com adoração e disse:

— Meu Deus, estás deslumbrante. Ela sorriu e beijou-o na face.

Tal como Larry, Roy trazia um saco cheio de embalagens.

— Também tiveste de despejar metade dos recipientes da cozinha? — perguntou Billie a Harold.

— Sim. Tenho tigelas cheias de cereais, de chocolates e de queijo fundido. E seis rolos de papel higiénico sem o cilindro de cartão do meio.

— Bolas, não me lembrei do papel higiénico! Harold riu-se.

— Estava a pensar se não gostarias de jantar hoje em minha casa...

Billie ficou surpreendida.

— Vais cozinhar?

— Não exactamente. Pensei em pedir a Mistress Riley que preparasse um guisado que eu depois pudesse aquecer.

— Óptimo — concordou Billie. Nunca jantara em casa dele. Normalmente iam ao cinema, a concertos de música clássica ou a festas na casa de outros professores universitários. Pôs-se a imaginar o que o levara a convidá-la.

— O Roy vai à festa de aniversário de um primo hoje à noite e dorme lá. Poderemos conversar sem sermos interrompidos.

— Está bem — concordou Billie. Também podiam conversar sem serem interrompidos num restaurante, pensou. Harold tinha outro motivo para a convidar para jantar em sua casa quando o filho ia passar a noite fora... Olhou para ele. Tinha uma expressão sincera e desinteressada — sabia o que ela estava a pensar.

— Venho buscar-te por volta das oito. Vamos, miúdos!

Conduziu os rapazes pela porta das traseiras. Larry partiu sem se despedir, mas Billie já se acostumara a encarar tal facto como um sinal de que tudo estava bem. Quando se sentia ansioso com qualquer coisa ou começava a adoecer, ficava para trás e não a queria largar.

— Harold é um bom homem — declarou a mãe. — Devias casar com ele depressa, antes que mude de ideias.

— Não vai mudar de ideias.

— Não te precipites antes de ele avançar com a proposta. Billie sorriu para a mãe.

— Não lhe escapa nada, pois não?

— Sou velha, mas não sou estúpida.

Billie levantou a mesa e deitou o seu pequeno-almoço no lixo. já a correr, desfez a sua cama, a de Larry e a da mãe e colocou os lençóis no saco da lavandaria. Mostrou o saco a Becky-Ma e disse:

— Lembre-se, só tem de entregar este saco ao homem da lavandaria quando ele vier, está bem, mãe?

— Já não tenho comprimidos para o coração — queixou-se a mãe.

— Raios partam! — exclamou. Raramente blasfemava em frente da mãe, mas a sua paciência já estava no fim. — Vou ter um dia muito ocupado no escritório e não tenho tempo de ir à porcaria da farmácia!

— Que hei-de fazer?, acabaram-se.

A coisa que mais a irritava na mãe era a forma como conseguia ser ao mesmo tempo uma pessoa discernente e uma criança indefesa.

— Podia-me ter dito ontem que estava a ficar sem comprimidos. Ontem foi dia de ir às compras! Não posso fazer compras todos os dias. Tenho de trabalhar!

Becky-Ma desatou num pranto. Billie compadeceu-se de imediato.

— Desculpe, mãe — Becky-Ma chorava facilmente, como Larry Cinco anos atrás, quando haviam decidido morar os três juntos, a mãe ajudava-a a tomar conta de Larry, mas actualmente mal conseguia olhar por ele uma ou duas horas quando regressava da escola. Tudo seria mais fácil se Billie e Harold se casassem.

O telefone tocou. Billie acariciou o ombro da mãe e atendeu. Era Ben Rothsten, o seu ex-marido. Davam-se bem, apesar do divórcio. Vinha ver o filho duas ou três vezes por semana e contribuía para a sua educação. Billie ficara magoada com ele, mas isso pertencia agora ao passado.

— Olá, Ben, levantaste-te cedo! — admirou-se.

— É verdade. Tiveste alguma notícia do Luke? Ficou surpreendida com a pergunta.

— Do Luke Lucas? Não. Aconteceu alguma coisa?

— Não sei, talvez.

Ben e Luke partilhavam a intimidade de rivais. Quando eram jovens estavam sempre a discutir. As suas discussões pareciam muitas vezes acrimoniosas, todavia, tanto na faculdade como durante a guerra, mantiveram-se unidos.

— O que se passa? — perguntou Billie.

— Telefonou-me na segunda-feira. Fiquei um pouco surpreendido. Não costumo falar muitas vezes com ele.

— Nem eu — confessou Billie. Fez um esforço para se lembrar. — A última vez que o vi foi há cerca de dois anos, acho eu.

— Ao aperceber-se do tempo que passara, perguntou-se porque deixara esfriar a amizade. Estava sempre muito ocupada, concluiu, mas lamentou que assim fosse.

— Recebi uma carta dele no Verão passado — acrescentou Bernard. — Dizia que andava a ler os meus livros ao sobrinho e que os achava muito divertidos. — Bernard era autor de Os gémeos Travessos, uma série de livros infantis com muito sucesso. — Era uma carta bem simpática!

— E porque te telefonou na segunda-feira?

— Disse que vinha a Washington e que queria falar comigo acerca de uma coisa que acontecera.

— Chegou a dizer-te o quê?

— Não. Afirmou apenas que era semelhante ao que fazíamos durante a guerra.

Billie franziu a testa. Luke e Bernard haviam pertencido ao Office of Strategic Services durante a guerra e tinham combatido ao lado da Resistência francesa. Todavia, desde 1946 que nada tinham a ver com esse mundo.

— O que achas que ele queria dizer com isso, Ben?

— Não sei. Ele disse que me telefonaria quando chegasse a Washington. Sei que se instalou no Hotel Carlton na segunda-feira à noite, mas hoje já é quarta-feira e ele não disse nada. Ontem à noite não dormiu no hotel.

— Como descobriste isso?

Bernard suspirou, impaciente.

— Billie, tu também estiveste no OSS. o que terias feito?

— Acho que passava umas notas para a mão da criada de quarto.

— Isso mesmo. Portanto, passou a noite toda fora e ainda não regressou.

— Se calhar, anda por aí a divertir-se.

— Pois, e se calhar o Papa fuma charros, mas não parece muito provável, pois não?

Bernard tinha razão. A líbido de Luke não era algo que se pudesse ignorar, mas, como Billie bem sabia, Luke valorizava a intensidade em detrimento da variedade.

— De facto, não — concordou.

— Telefona-me se souberes alguma coisa dele, sim?

— Claro, fica descansado.

— Então, até à próxima.

— Adeus, Bernard. — disse Billie, e desligou.

Depois sentou-se à mesa da cozinha, esquecendo que estava atrasada, a pensar em Luke.

 

1941

A estrada 138 serpenteava por Massachusetts em direcção a Rhode Island. Não havia uma única nuvem no céu e o luar iluminava bem a estrada. o velho Ford não possuía aquecimento e, embora Billie tivesse casaco, cachecol e luvas, os pés estavam entorpecidos pelo frio. No entanto, nem se importava muito com isso. Não era um grande sacrifício passar um par de horas num carro sozinha com Luke Lucas, ainda que fosse namorado de outra. A sua experiência ensinara-lhe que os homens bonitos eram fastidiosamente presunçosos, mas este parecia constituir uma excepção.

A viagem até Newport era demorada, mas Luke parecia estar a gostar de conduzir todos aqueles quilómetros. Alguns rapazes de Harvard ficavam nervosos perto de raparigas atraentes e fumavam cigarro atrás de cigarro ou estavam sempre a alisar o cabelo e não paravam de compor a gravata. Luke, porém, estava descontraído, conduzindo sem esforço aparente e conversando animadamente. o tráfego era pouco intenso e ele ia olhando alternadamente para a estrada e para ela.

Falaram sobre a guerra na Europa. Nessa manhã, grupos rivais de alunos tinham montado barracas e distribuído panfletos. Os íntervencionistas defendiam arrebatadamente que a América deveria entrar na guerra e os partidários do America First Committee argumentavam o contrário com igual fervor. juntara-se uma multidão de rapazes e raparigas, professores e alunos. o facto de se saber que os rapazes de Harvard se contariam entre os primeiros a morrer tornara as discussões altamente emotivas.

— Tenho primos em Paris — disse Luke. — Gostava que fossemos lá salvá-los, mas isso é uma razão mais pessoal.

— Também tenho uma razão pessoal — acrescentou Billie.

— Sou judia. No entanto, em vez de enviar americanos para morrer na Europa, abria as fronteiras aos refugiados. Assim, salvávamos vidas, em vez de matarmos.

— É essa também a opinião do Anthony.

Billie estava ainda furiosa com o fiasco em que a noite se tornara.

— Estou tão zangada com o Anthony! — confessou. — Deveria ter-se certificado de que podíamos ficar no apartamento dos amigos.

Esperava alguma compreensão por parte de Luke, mas este desiludiu-a.

— Acho que foram ambos um pouco descuidados — opinou com um sorriso amistoso, mas era impossível ignorar a censura implícita na sua opinião.

Billie sentiu-se ofendida. No entanto, estava em dívida para com ele por causa da boleia e engoliu a resposta que tinha na ponta da língua.

— Estás a defender o teu amigo, o que é muito louvável

— disse amavelmente -, mas acho que ele tinha o dever de zelar pela minha reputação.

— Sim, mas tu também.

Ficou surpreendida por vê-lo tão crítico. Até então fora extremamente encantador.

— Pareces achar que a culpa foi minha!

— Foi principalmente azar — explicou ele -, embora o Anthony te tenha colocado numa posição em que um pouco de azar pode provocar grandes danos.

— É bem verdade.

— E tu permitiste que ele o fizesse.

Estava consternada com a reprovação que ele demonstrava. Queria que Luke tivesse uma boa impressão dela, embora não soubesse sequer porque se importava com isso.

— Seja como for, nunca mais volto a fazer uma coisa destas — declarou com veemência.

— O Anthony é um óptimo rapaz, muito inteligente, um pouco excêntrico.

— Faz as raparigas terem vontade de tomar conta dele, pentear-lhe o cabelo, engomar-lhe os fatos e cozinhar-lhe as refeições. Luke riu-se.

— Posso fazer-te uma pergunta pessoal? — inquiriu.

— Podes tentar.

Olhou-a fixamente durante um momento e depois indagou:

— Estás apaixonada por ele?

Era uma pergunta um pouco repentina, mas ela gostava de homens que a conseguissem surpreender, por isso, respondeu honestamente.

— Não. Gosto dele, aprecio a sua companhia, mas não o amo. Pensou então na namorada de Luke. Elspeth era a rapariga mais bonita da universidade, uma mulher alta, com o cabelo comprido cor de cobre e o rosto pálido e resoluto de uma rainha nórdica.

— E tu? Estás apaixonado pela Elspeth?

Luke desviou o olhar do seu e fitou a estrada.

— Acho que não sei o que é o amor — respondeu.

— Isso é uma resposta evasiva.

— Tens razão — concordou. Lançou-lhe um olhar inquiridor e depois decidiu que podia confiar nela. — Bom, para ser franco, isto é o mais próximo que já estive do amor, mas ainda não sei se é amor verdadeiro.

Billie foi assolada por um sentimento de culpa.

— O que é que o Anthony e a Elspeth pensariam se soubessem que estávamos a ter esta conversa? — interrogou-se.

Ele tossiu, embaraçado, e mudou de assunto.

— Foi uma pena terem encontrado aqueles rapazes no dormitório.

— Espero que não denunciem o Anthony Pode ser expulso.

— Não é o único que tem de preocupar-se com isso. Também podes ficar em apuros, Billie.

Billie tentara toda a viagem afastar tal pensamento da cabeça.

— Acho que nenhum deles sabe quem eu sou. Ouvi um referir-se a mim como «rameira».

Luke lançou-lhe um olhar surpreendido. Ela supôs que Elspeth não teria usado a palavra «rameira» e desejou não a ter pronunciado.

— Acho que mereci ouvi-la — confessou. — Na verdade, estava num dormitório masculino à meia-noite.

— Para mim não existem desculpas para a falta de educação. Era uma reprimenda tanto para ela quanto para os rapazes que a haviam insultado, pensou, contrariada. Luke era bastante cáustico. Estava a enfurecê-la, mas isso tornava-o ainda mais interessante. Billie decidiu tirar as luvas.

— E tu? És muito moralista relativamente a mim e a Anthony, mas não colocaste também a Elspeth numa situação vulnerável ao mantê-la fora do dormitório até de madrugada?

Para sua surpresa, Luke riu-se.

— Tens razão e eu sou um idiota presumido — anuiu ele. Hoje, todos corremos riscos.

— É bem verdade. Nem sei o que farei se for expulsa — disse ela, estremecendo só de pensar nisso.

— Vais estudar para outro lado. Billie abanou a cabeça.

— Sou bolseira. o meu pai morreu e a minha mãe é uma viúva na miséria, Se for expulsa daqui por transgressão moral, não terei grandes hipóteses de conseguir outra bolsa. Porque fazes esse ar de espanto?

— Para ser franco, tenho de dizer que não te vestes como uma bolseira.

Billie ficou feliz por ele ter reparado nas suas roupas. I o Leavenworth Award — explicou Billie.

— Extraordinário! — exclamou ele. o Leavenworth Award era uma bolsa bastante generosa e milhares de alunos brilhantes candidatavam-se a ela todos os anos. — Deves ser um génio!

— Não sei — argumentou ela, satisfeita com o tom de respeito que a sua voz evidenciava. — Não pareço inteligente o suficiente para me certificar de que tenho onde dormir esta noite.

— Por outro lado, ser expulso da faculdade não é a pior coisa do mundo. Algumas das pessoas mais inteligentes desistiram da universidade e depois tornaram-se milionárias.

— Seria o fim do mundo para mim. Não quero ser milionária, quero ajudar pessoas doentes.

— Vais ser médica? — inquiriu Luke.

— Psicóloga. Quero compreender o funcionamento da mente.

— Porquê?

— Por ser tão misterioso e complexo. Coisas como a lógica, a forma como pensamos. Conseguimos imaginar coisas que não estão na nossa frente. Os animais não são capazes disso. E temos ainda a capacidade de recordar. Os peixes não têm memória, sabias?

Luke acenou com a cabeça em sinal de assentimento.

— E porque será que quase toda a gente consegue reconhecer uma oitava? — disse ele. — Duas notas em que a frequência de uma é o dobro da frequência da outra. Como é que o nosso cérebro sabe isso?

— Também achas isso interessante! — exclamou Billie, contente por ele partilhar da sua curiosidade.

— De que morreu o teu pai?

Billie engoliu em seco e teve de se esforçar para conter as lágrimas. Era sempre assim: uma simples palavra e era cilindrada por uma dor intensa, vinda não se sabe de onde, que quase a impedia de falar.

— Peço imensa desculpa! — implorou Luke. — Não era minha intenção magoar-te.

— Não tem problema — conseguiu dizer, a meia-voz. Inspirou profundamente. — o meu pai enlouqueceu. Numa manhã de domingo, foi tomar banho ao rio Trinity o problema era que detestava água e não sabia nadar. Acho que queria morrer. o médico legista foi da mesma opinião, mas o Juíz teve pena de nós e declarou que fora um acidente, para que pudéssemos receber o seguro de vida. Eram cem dólares. Vivemos desse dinheiro durante um mês — inspirou novamente. — Falemos de outra coisa. o que é que te atrai na matemática?

— Bem — disse, hesitando um pouco -, acho que a matemátíca é tão estranha como a psicologia. Tomemos como exemplo Pí. Por que motivo é que a razão entre o perímetro da circunferência e o respectivo diâmetro é três vírgula catorze? Porque não seis ou dois e meio? Quem tomou essa decisão e porquê?

— Queres explorar o espaço, não é?

— Acho que é a aventura mais emocionante em que a humanidade jamais embarcou — explicou ele.

— Eu queria fazer um mapa da mente — adiantou ela, sorrindo. A dor da perda parecia estar a abandoná-la. — Sabes, temos uma coisa em comum: grandes ideias.

Luke riu-se e travou o carro.

— Estamos a chegar a um cruzamento — informou ele.

Billie ligou a lanterna e observou o mapa que tinha sobre os joelhos.

— Vira à direita, Luke.

Estavam a aproximar-se de Newport. o tempo passara rápidamente e Billie lamentava que a viagem estivesse a chegar ao fim.

—   Não faço ideia do que vou dizer ao meu primo — confessou.

— Como é ele? É invertido.

— Invertido? Em que sentido?

— No sentido homossexual.

Luke lançou-lhe um olhar surpreendido.

— Estou a ver... — respondeu.

Billie não tinha paciência para homens que esperavam que as mulheres estivessem com rodeios quando o assunto era sexo.

— Choquei-te outra vez, não foi? — Luke sorriu e respondeu:

— Como tu dirias, é bem verdade.

Billie ríu-se. Era um coloquialismo próprio do Texas. Ficou feliz por ele reparar nestes pequenos pormenores sobre si.

— Há ali uma bifurcação — disse ele. Billie consultou novamente o mapa.

— Tens de parar. Não a encontro aqui.

Luke parou o carro e inclinou-se para observar o mapa sob a luz da lanterna. Esticou a mão para o virar um pouco na sua direcção e ela sentiu o seu toque quente na sua mão fria.

— Acho que estamos aqui — disse ele, apontando.

Em vez de olhar para o mapa, Billie deu por si a olhar para ele. o seu rosto estava quase completamente às escuras, iluminado apenas pelo luar e pela luz indirecta da lanterna. Luke sentiu o olhar dela e levantou a cara. Sem pensar, Billie ergueu a mão e acariciou-lhe a face com a parte exterior do dedo mínimo. Ele olhou para ela e Billie viu espanto e desejo nos seus olhos.

— Que rumo tomamos? — murmurou ela.

Ele afastou-se de repente e engrenou uma mudança.

— Vamos... — disse, aclarando a garganta. — Vamos pela esquerda.

Billie perguntou-se o que raio estava a fazer. Luke passara a noite a namorar com a rapariga mais bonita da universidade. Billie saíra com o colega de quarto de Luke. Que raio lhe passara pela cabeça?

Os seus sentimentos relativamente a Anthony não eram muito fortes, mesmo antes da calamidade daquela noite, mas, ainda assim, estava, de facto, comprometida com ele, por isso não deveria de forma alguma meter-se com o seu melhor amigo.

— Porque fizeste aquilo? — perguntou Luke, zangado.

Não sei — respondeu ela. — Não era minha intenção, aconteceu. Vai mais devagar.

Luke fez uma curva depressa de mais.

— Não me quero sentir assim em relação a ti! — exclamou ele.

— Assim como?

— Não interessa.

O cheiro a maresia inundou subitamente o carro e Billie percebeu que já não estavam longe da casa do primo. Reconheceu então a estrada.

— Vira na próxima à esquerda — disse. — Se não abrandares, não vês o desvio.

Luke travou e virou para uma estrada de areia.

Uma parte de Billie queria chegar ao seu destino, sair do carro e acabar com aquela tensão insuportável; a outra parte queria que a viagem não terminasse nunca.

— Chegámos — anunciou ela.

Pararam frente a uma bonita casa prefabricada de um só andar com beirais ornamentados e um candeeiro perto da porta. Os faróis do Ford iluminaram um gato, deitado no peitoril da janela, que os fixava com um olhar calmo, indiferente ao turbilhão das emoções humanas.

— Entra — convidou Billie. — o meu primo faz-te um café para te manteres acordado durante a viagem de regresso.

— Não, obrigado — recusou ele. — Eu espero aqui até entrares.

— Foste muito gentil comigo. Acho que não o mereço. Estendeu a mão para se despedir dele.

— Amigos? — propôs Luke, tomando-lhe a mão.

Ela levou a mão dele ao encontro da sua cara, beijou-lha e pressionou-a carinhosamente contra a face, fechando os olhos. Pouco depois, ouviu-o soltar um gemido. Abriu os olhos e viu-o a olhar para si. A mão dele rodeou-lhe o pescoço, puxou-o para ele e beijaram-se. Foi um beijo longo e suave. Billie agarrou-lhe a gola do casaco e puxou-o para mais junto de si. Sabia que se ele a agarrasse agora não resistiria. A ideia fê-la arder de desejo. Excitada, prendeu-lhe um dos lábios com os dentes e trincou-lho.

Ouviu então a voz de Denny.

— Quem está ai?

Afastou-se de Luke e olhou em frente. Havia luzes acesas dentro de casa e Denny estava à porta com um roupão de seda purpúrea.

Voltou-se para Luke.

— Podia apaixonar-me por ti em vinte minutos — declarou -, mas acho que não podemos ser amigos.

Olhou para ele durante mais um instante, vendo nos seus olhos o mesmo perturbante dilema que lhe consumia o coração. Depois desviou o olhar, inspirou profundamente e saiu do carro.

— Billie! — exclamou Denny. — Por amor de Deus, que fazes tu aqui?

Ela atravessou o jardim, subiu para o alpendre e atirou-se para os braços do primo.

— Oh!, Denny — murmurou -, amo aquele homem, mas ele pertence a outra mulher!

Denny consolou-a, dando-lhe palmadinhas suaves nas costas.

— Sei exactamente como te sentes, querida.

Sentiu o carro começar a andar e voltou-se para acenar. Quando o carro passou frente à porta olhou para Luke e vislumbrou o brilho no seu rosto.

O carro desapareceu na escuridão.

 

Oito e meia da manhã

Empoleirado sobre o nariz pontiagudo do míssil Redstone encontra-se o que parece uma grande gaiola de pássaros com um telhado extremamente íngreme e um mastro que atravessa o seu centro. Esta parte, com cerca de quatro metros, inclui o segundo, terceiro e quarto andares dofoguetão e o satélite, nunca antes os agentes secretos na América haviam sido tão poderosos como em janeiro de 1958.

O director da CIA, Allen Dulles, era irmão de John Foster Dulles, secretário de Estado de Eisenhower, o que fazia com que a Agência tivesse uma ligação directa com a Presidência. Todavia, isso apenas explicava metade desse poder.

Sob o comando de Dulles encontravam-se quatro directores-adjuntos, embora só um deles fosse importante — o director-adjunto do Planeamento. A Direcção do Planeamento, também conhecida como SC, sigla de Serviços Clandestinos, fora o departamento responsável pelos golpes contra governos de esquerda no Irão e na Guatemala.

A administração Eisenhower ficara espantada e, ao mesmo tempo, satisfeita ao constatar que tais golpes eram mais baratos e exangues, quando comparados com os custos de uma guerra como a da Coreia. Consequentemente, os homens do Planeamento gozavam de um enorme prestígio nos círculos governamentais, embora não junto do público americano, a quem os jornais haviam anunciado que ambos os golpes tinham sido obra de forças anticomunistas locais.

Integrados na Direcção do Planeamento encontravam-se os Serviços Técnicos, o departamento que Anthony Carroll chefiava. Anthony fora contratado em 1947, aquando da criação da CIA. Sempre planeara trabalhar em Washington — em Harvard especíalizara-se em Ciências Políticas — e fora o herói do OSS durante a guerra. Colocado em Berlim no início dos anos 50, organizara a escavação de um túnel desde o sector americano até um ramal telefónico no sector soviético e colocara as comunicações do KGB sob escuta. Até ser descoberto, seis meses mais tarde, o túnel permitiu que a CIA recolhesse valiosas informações sobre as actividades do seu rival soviético. Fora o maior golpe de espionagem da guerra fria e Anthony foi recompensado com o lugar de chefia do departamento.

Os Serviços Técnicos eram, teoricamente, uma divisão de treino. Havia uma grande quinta na Virgínia onde os recrutas aprendiam a arrombar casas e colocar microfones, a usar códigos e tinta invisível, a chantagear diplomatas e a intimidar informadores. No entanto, a designação «treino» servia também de capa para todo o tipo de acções secretas executadas dentro dos Estados Unidos. o facto de a CIA estar proibida por lei de operar dentro do país não passava de um pequeno inconveniente. Tudo o que Anthony quisesse fazer, desde colocar os telefones de líderes de sindicatos sob escuta até testar novos medicamentos em presidiários, poderia ser rotulado como exercício de treino. A vigilância de Luke não constituía excepção.

Seis experientes agentes estavam reunidos no escritório de Anthony. Era uma sala grande e sóbria, com algumas peças de mobiliário do tempo da guerra: uma pequena secretária, um armário de metal, uma mesa assente sobre dois cavaletes e um conjunto de cadeiras de dobrar. No novo quartel-general, em Langley, não faltariam confortáveis sofás e secretárias de mogno, mas Anthony gostava do aspecto espartano do seu escritório.

Pete Maxell passou aos restantes uma fotografia de Luke e uma descrição das suas roupas, enquanto Anthony punha os agentes ao corrente da situação.

— Hoje, o nosso alvo é um funcionário do Departamento de Estado com acesso a informação altamente confidencial. Foi recentemente acometido por um esgotamento nervoso. Chegou de Paris na segunda-feira, passou essa noite no Hotel Carlton e embebedou-se na terça-feira. Passou toda a noite de ontem fora e esta manhã foi visto num refúgio para vagabundos. É óbvio que representa um risco para a segurança nacional.

Um dos agentes, Red Rifenberg, pós a mão no ar.

— Tenho uma pergunta.

— Qual?

— Porque não o agarramos e lhe perguntamos o que raio se passa?

— É o que faremos, no fim.

A porta do escritório de Anthony abríu-se e Carl Hobart, um homem rechonchudo, careca e de óculos, entrou. Era ele que chefiava os Serviços Especializados, que incluíam a Divisão de Arquivos e Descodificação, bem como a dos Serviços Técnicos. Era teoricamente, o superior hierárquico de Anthony. Quando o viu entrar, este murmurou qualquer coisa para si próprio e rezou para que Hobart não interferisse com o que estava a fazer.

Anthony continuou a reunião.

— Antes de nos darmos a conhecer, precisamos de saber o que o nosso alvo faz, onde vai, quem contacta. Talvez esteja a ter problemas com a mulher, mas pode acontecer também que esteja a passar informações para o outro lado, quer por razões ideológicas quer por chantagem, e tenha cedido à pressão. Se estiver envolvido em alguma espécie de traição, precisamos de todas as informações antes de o agarrarmos.

Hobart interrompeu-o.

— O que se passa?

Anthony voltou-se para ele lentamente.

— Um pequeno exercício. Estamos a vigiar um diplomata suspeito.

— Entregue isso ao FBI — replicou Hobart bruscamente. Hobart passara a guerra nos Serviços Secretos da Marinha. Para ele, espionagem significava descobrir onde se encontrava o inimigo e o que estava ali a fazer. Não gostava dos veteranos do OSS e dos seus truques. Esta cisão dividia a Agência. Os homens do OSS eram aventureiros que haviam aprendido o seu ofício durante a guerra e que pouco respeito demonstravam por orçamentos e protocolos. Os burocratas enfureciam-se com esta indiferença. Anthony era o arquétipo do aventureiro: um arrogante destemido, que escapava sem castigo por ser excelente no que fazia.

Anthony olhou Hobart de cima a baixo.

— Porquê?

— Sabe perfeitamente que a tarefa de apanhar espiões comunistas nos Estados Unidos pertence ao FBI e não a nós.

— Precisamos de deslindar esta história até à sua origem. Um caso como este pode resultar num grande número de informações, se o conduzirmos de forma correcta. Os agentes federais apenas se interessam pela publicidade que colocar comunistas na cadeira eléctrica lhes pode trazer.

— Mas a lei assim o estipula!

— Ambos sabemos que isso não passa de um disparate!

Não importa!

Uma coisa é as duas facções rivais da CIA: o ódio pelo FBI e pelo seu megalómano director, J. Edgar Hoover. Tirando partido disso, Anthony argumentou:

— De qualquer maneira, quando foi a última vez que o FBI nos deu alguma coisa?

— A última vez foi «nunca» — declarou Hobart -, mas tenho outra missão para si hoje.

Anthony começou a ficar irritado. Quando é que este palhaço se ia embora? A função dele não era distribuir tarefas.

— Do que é que está a falar?

— A Casa Branca pediu um relatório sobre a melhor forma de lidar com um grupo de rebeldes em Cuba. Vai haver uma reunião de alto nível mais tarde. Preciso que você e os seus melhores agentes me dêem algumas informações.

— Está a pedir-me informações sobre Fidel Castro?

— Claro que não. Sei tudo sobre Castro. Preciso é de ideias práticas sobre como lidar com casos de sublevação.

Anthony detestava este tipo de conversa cheia de rodeios.

— Porque não diz logo o que pretende? Quer saber como os há-de eliminar?

— Talvez — respondeu Hobart. Anthony riu-se com desdém.

— O que haveríamos de fazer então, abrir uma escola dominical para eles?

— Isso será a Casa Branca a decidir. A nossa função é apresentar opções. Você e os seus homens podem dar-me algumas sugestões.

Anthony manteve a aparente indiferença, mas, por dentro, estava preocupado. Hoje não tinha tempo para distracções e precisava dos seus melhores homens para vigiar Luke.

— Logo verei o que posso fazer — disse, esperando que Hobart se contentasse com uma certeza vaga. Mas não.

— Na minha sala de conferências com os seus melhores homens às dez horas, e não admito desculpas.

Hobart voltou-lhe as costas e encaminhou-se para a porta. Anthony tomou uma decisão.

— Não! — declarou.

Já à porta, Hobart voltou-se.

— Não era um convite — declarou. — Não falte!

— Repare nos meus lábios — advertiu Anthony. Relutantemente, Hobart olhou para a cara de Anthony. Articulando cuidadosamente cada palavra, este pronunciou: «Vá-se lixar!» Ouviu-se um riso abafado vindo de um dos agentes.

A careca de Hobart encarniçou-se.

— Isto não fica por aqui — ameaçou -, pode apostar que não!

— Saiu finalmente, batendo com a porta.

Toda a gente desatou a rir.

— Voltemos ao trabalho — disse Anthony. — Simons e Betts estão neste momento com o nosso alvo, mas serão substituídos daqui a alguns minutos. Assim que eles regressarem, quero que Rifenberg e Ackie Horwitz tomem conta da vigilância. Faremos quatro turnos de seis horas cada e haverá uma equipa de reserva sempre a postos. É tudo por agora.

Os agentes saíram em grupo, mas Pete Maxell deixou-se ficar para trás. Fizera a barba e vestira o seu habitual fato e gravata. Agora os seus dentes estragados e o sinal de nascença eram mais notórios. Era tímido e pouco sociável, talvez devido à sua aparência, mas extremamente dedicado aos seus poucos amigos. Foi com alguma preocupação que disse a Anthony:

— Não estará a arriscar-se com o Hobart?

— O homem é um palerma!

— Mas é o seu chefe.

— Não posso permitir que me cancele uma importante operação de vigilância.

— Mas mentiu-lhe. Ele pode facilmente descobrir que Luke não é um diplomata de Paris.

Anthony encolheu os ombros.

— Nessa altura conto-lhe outra história.

Pete fez um ar duvidoso, mas acenou em sinal de assentimento e encaminhou-se para a porta.

— Todavia, tens razão, estou a arriscar a minha pele até ao limite. Se alguma coisa correr mal, Hobart não perderá a oportunidade de me cair em cima — concordou Anthony.

— Foi isso que pensei.

— Então, é melhor certificarmo-nos de que nada corre mal. Pete saiu. Anthony olhou para o telefone, tentando acalmar-se e ser paciente. As regras hierárquicas irritavam-no, mas homens como Hobart eram coisa que não faltava. Cinco minutos depois, o telefone tocou e Anthony atendeu.

— Chateaste de novo o Carl Hobart. — Era a voz sibilante de um homem que fumara e bebera entusiasticamente a maior parte da sua vida.

— Bom dia, George — cumprimentou Anthony. George Cooperman era chefe adjunto das Operações e camarada de Anthony do tempo de guerra. Era também o superior hierárquico de Hobart. — Ele não devia atravessar-se no meu caminho.

— Vem até aqui, meu palerma arrogante — disse George com amabilidade.

— É para já — respondeu Anthony, e desligou o telefone. Abriu a gaveta da secretária e retirou um envelope que continha um maço de fotocópias. Depois vestiu o sobretudo e dirigiu-se ao escritório de Cooperman, no Edifício P, mesmo ali ao lado.

Cooperman era um homem alto e magro de cinquenta anos, cujas faces haviam enrugado prematuramente. Tinha os pés em cima da secretária, uma caneca gigante de café junto ao cotovelo e um cigarro na boca. Estava a ler o jornal moscovita Pravda; estudara Literatura Russa em Princeton. Pousou o jornal quando Anthony chegou.

— Porque não podes ser simpático para aquele gajo? — resmungou. Falava sem tirar o cigarro da boca. — Eu sei que é difícil, mas podias fazé-lo por mim.

Anthony sentou-se.

— A culpa é dele. já devia ter percebido que apenas o insulto quando é ele que me começa a chatear.

— Qual é a tua desculpa desta vez, Anthony?

Anthony atirou o envelope para cima da secretária. Cooperman pegou nele e observou as fotocópias.

— Esquemas de um foguetão, parece-me. E então?

— São confidenciais. Tirei-os ao sujeito que andamos a seguir. É um espião, George.

— E preferiste não contar nada disto ao Hobart...

— Quero seguir este tipo até que ele revele toda a sua rede e depois usá-la para «desinformação». o Hobart entregaria o caso ao FBI, que agarraria no tipo e o mandaria para a prisão, e nunca teríamos conhecimento da sua rede.

— Quanto a isso tens razão. Ainda assim, preciso de ti nesta reunião. Vou presidi-la. Deixa a tua equipa prosseguir com a operação. Se acontecer alguma coisa, podem ir chamar-te à sala de conferências.

— Obrigado, George.

— Mais uma coisa. Esta manhã humilhaste o Hobart frente a uma sala cheia de agentes, não foi?

— Parece que sim.

— Da próxima vez, tenta ser mais gentil, está bem? — disse Cooperman, pegando novamente no jornal. Anthony levantou-se para se ir embora, levando o envelope consigo. Cooperman ergueu os olhos do jornal e advertiu-o: — É bom que te certifiques de que a operação corre bem. Se depois de insultares o teu superior ainda deres bronca, talvez já não possa proteger-te.

Anthony saiu.

Não voltou de imediato ao escritório. A fila de edifícios condenados que albergavam aquela parte da CIA preenchia uma faixa de terreno entre Constitution Avenue e a alameda com o lago. A entrada para os carros fazia-se pelo lado da rua, mas Anthony saiu para o parque através de um portão nas traseiras.

Passeou ao longo da alameda de olmos ingleses, inalando o ar frio da manhã, buscando conforto nas árvores centenárias e nas águas silenciosas. Tinham havido alguns momentos complicados essa manhã, mas conseguira safar-se com um conjunto diferente de mentiras para cada parte envolvida.

Chegou ao fundo da alameda, a meio caminho entre o Lincoln Memorial e o Washington Monument. «A culpa é toda vossa», murmurou, dirigindo-se aos dois grandes presidentes. «Fizeram com que os homens acreditassem que podiam ser livres. Estou a lutar pelos vossos ideais. já nem sei ao certo se acredito em ideais, mas acho que sou demasiado casmurro para desistir. Também alguma vez se sentiram assim? »

Os presidentes não responderam e algum tempo depois Anthony regressou ao Edifício Q.

No seu gabinete encontrou Pete com a equipa que estivera a vigiar Luke: Simons, com um sobretudo azul-escuro, e Betts, que vestia uma gabardina verde. Com eles encontrava-se também a equipa que os deveria ter substituído, Rifenberg e Horwitz.

— Que raio se passa? — perguntou Anthony, assolado por um medo repentino. — Quem está com o Luke?

Simons segurava um chapéu de feltro cinzento que abanava ao mesmo ritmo que as suas mãos tremiam.

— Ninguém — respondeu.

— O que aconteceu? — bramiu Anthony. — Que merda se passou, seus anormais?

Após um momento de hesitação, Pete respondeu:

— É que... — começou, engolindo em seco. — Perdemo-lo.

 

Nove da manhã

O Júpiter C foi construído para o Exército pela Chrysler Corporation. o grande motor que propulsiona o primeiro andar foi fabricado pela North American Aviation, Inc. o segundo, terceiro e quarto andares foram projectados e testados pelojet Propulsion Laboratory (JPL), em Pasadena.

Luke estava furioso consigo mesmo. Não dominara bem a situação. Encontrara duas pessoas que provavelmente sabiam quem ele era e perdera-as.

Encontrava-se outra vez no bairro pobre perto da igreja metodista, na Rua H. o dia estava cada vez mais claro, o que fazia as ruas parecerem mais sujas, os edifícios mais velhos, as pessoas mais maltrapilhas. Viu dois vagabundos à porta de uma loja vazia a beberem uma garrafa de cerveja a meias. Estremeceu e apressou o passo.

Então, compreendeu que a sua reacção fora estranha. Um alcoólico não recua frente a uma garrafa. Contudo, para Luke, a ideia de beber cerveja a esta hora do dia era repugnante. Assim, concluiu com grande alívio, não podia ser um alcoólico. Mas se não era um bêbado, era o quê?

Resumiu tudo o que sabia sobre si mesmo. Tinha trinta e muitos anos, não fumava e, apesar da aparência, não era um alcoólico. Estivera em algum momento da sua vida envolvido em operações clandestinas e sabia a letra de What a Friend We Have in Jesus. Era ridiculamente pouco.

Tinha andado à procura de uma esquadra de polícia, mas não encontrara nenhuma. Decidiu perguntar a alguém onde ficava a mais próxima. Algum tempo depois, quando deambulava por um terreno baldio cercado de chapa ondulada, viu um polícia deslizar para o passeio por uma fenda nas chapas. Aproveitando a oportunidade, perguntou-lhe:

— Qual é a melhor maneira de chegar à esquadra mais próxima? o polícia era um homem pesado de bigode ruivo. Olhou Luke com desprezo e respondeu-lhe:

No porta-bagagens do meu carro, se não te pisgares da minha vista.

Luke ficou indignado com a atitude agressiva do polícia. Qual era o problema dele? No entanto, estava farto de palmilhar ruas e precisava de indicações, por isso, insistiu.

— Só preciso de saber onde fica a esquadra.

— Não volto a avisar-te, pedaço de esterco!

Luke começou a ficar irritado. Quem é que o polícia pensava que era?

— Fiz-lhe uma pergunta educada, senhor agente — ripostou. o polícia deslocou-se surpreendentemente depressa para um homem do seu tamanho. Agarrando Luke pela lapela do casaco, empurrou-o pela fenda nas chapas onduladas. Luke cambaleou e caiu num pedaço de cimento rugoso, aleijando o braço.

Para sua surpresa, verificou que não estava sozinho. No mesmo baldio encontrava-se uma rapariga. Tinha cabelos loiros pintados, muita maquilhagem e usava um casaco comprido aberto sobre um vestido solto. Tinha sapatos de salto alto e meias rasgadas. Estava a acabar de puxar as cuecas para cima. Luke percebeu que era uma prostituta e que acabara de prestar um serviço ao polícia. Este atravessou a fenda e pontapeou Luke no estômago. Ouviu a prostituta dizer:

— Por amor de Deus, Sid, que foi que ele fez, cuspiu no passeio? Deixa o desgraçado em paz!

— Este merdoso tem de aprender a ter maneiras — vociferou o polícia.

Pelo canto do olho, Luke viu-o tirar o cassetete e levantá-lo. Quando o polícia se preparava para lhe bater, Luke rebolou para um dos lados. Contudo, não foi suficientemente rápido e a ponta do bastão ainda lhe acertou no ombro esquerdo, entorpecendolhe o braço por alguns momentos. o polícia levantou o cassetete de novo.

Na cabeça de Luke, algo o fez mudar de atitude.

Em vez de se desviar como anteriormente, atirou-se às pernas do polícia. o movimento frontal que este começara a executar fé-lo estatelar-se no chão, largando o cassetete. Luke levantou-se de um pulo. Enquanto o polícia se erguia, Luke aproximou-se dele, movendo-se dentro do seu alcance, mas de forma que ele não lhe conseguisse tocar. Agarrou-lhe as golas da farda, puxou-o para a frente com um movimento brusco e deu-lhe uma cabeçada no nariz. Ouviu-se um estalido no momento em que o nariz do polícia se partiu, o homem gritava de dor.

Luke soltou-lhe então as golas, girou sobre um pé e pontapeou o polícia na parte lateral do joelho. Os seus sapatos gastos não eram suficientemente rígidos para lhe partir os ossos, mas, ainda assim, o joelho tem pouca resistência a uma pancada lateral, e o homem caiu.

Uma parte da mente de Luke interrogava-se onde aprendera a lutar daquela maneira.

O polícia sangrava do nariz e da boca, mas conseguiu erguer-se, apoiando-se no cotovelo esquerdo, e sacou da pistola com a mão direita.

Antes de estar sequer fora do coldre, Luke agarrou-lhe no antebraço direito e empurrou-lhe a mão contra o cimento com força. A arma escapou-se imediatamente da mão do polícia. Então Luke ergueu-o e torceu-lhe o braço, de forma que o homem caísse para a frente. Puxando-lhe o braço para trás das costas, Luke baixou-se, colocando ambos os joelhos nas costas do polícia e impedindo-o de respirar. Por fim, agarrou-lhe o dedo indicador e dobrou-o para trás.

O polícia gritava. Luke dobrou-lhe o dedo ainda mais. Ouvíu-o estalar e o polícia desmaiou.

— Não baterás em mais vagabundos durante uns tempos, merdoso! — asseverou Luke.

Levantou-se. Pegou na arma, retirou-lhe as munições e espalhou-as pelo chão,

A prostituta olhava fixamente para ele.

— Quem raio és tu, o Elliott Ness? — inquiriu.

Luke voltou-se para olhar para ela. Era magra e por baixo da maquilhagem não tinha muito bom aspecto.

Não sei quem sou — admitiu.

— Bem, não és um vagabundo, com certeza — garantiu ela.

— Nunca vi um que conseguisse dar uma sova destas num estupor como aqui o Sidney

Foi disso que me lembrei agora.

É melhor sairmos daqui — disse a rapariga. — Ele vai ficar muito irritado quando acordar.

Luke acenou com a cabeça em sinal de concordância. Não tinha medo de Sidney, irritado ou não, mas não tardaria que o local se enchesse de mais polícias. Atravessou a fenda e, uma vez na rua, apressou o passo.

A mulher seguiu-o. Os seus saltos afiados produziam um ruído seco contra o passeio. Luke abrandou o passo para que o alcançasse. Sentia uma espécie de camaradagem para com ela. Tinham ambos sido maltratados por Sidney, o polícia.

— Foi bom ver o Sidney enfrentar alguém que não se deixou intimidar por ele — admitiu a rapariga. — Acho que estou em dívida para contigo.

— De forma alguma.

— Então, da próxima vez que te quiseres divertir, é por conta da casa.

Luke tentou não demonstrar a repulsa que sentiu.

— Como se chama? — perguntou ele.

— Dee-Dee.

Luke franziu a testa.

— Bem, na verdade é Doris Dobbs — admitiu ela -, mas um nome desses não se adequa à minha profissão.

— Sou o Luke. Não sei o meu apelido. Perdi a memória.

— Bolas, isso deve fazer-te sentires-te... estranho.

— Desorientado.

— É isso — disse ela. — Era essa a palavra que tinha na ponta da língua.

Luke olhou para ela de soslaio. Havia um sorriso irónico na sua cara. Compreendeu que a rapariga estava a gozar com ele e simpatizou com ela por causa disso.

— Não se trata simplesmente de não saber o meu nome e a minha morada — explicou ele. — Nem sequer sei que tipo de pessoa sou.

— Como assim?

— Interrogo-me se serei honesto. — Talvez fosse um disparate, pensou, abrir o seu coração a uma prostituta, assim, no meio da rua, mas não tinha mais ninguém. — Serei um marido fiel, um pai dedicado e um bom trabalhador? Ou serei um bandido? Detesto não saber a resposta!

— Se é isso que te preocupa, já percebi que tipo de homem és. Um bandido estaria a pensar: serei rico, as miúdas adoram-me, serei o terror do bairro?

Tinha razão. Luke acenou, em sinal de concordância, mas não estava ainda convencido.

— Uma coisa é querer ser boa pessoa, mas talvez não viva de acordo com as minhas crenças.

— Bem-vindo à raça humana, querido. Todos nos sentimos assim — concluiu ela. Parou na entrada de um prédio. — Bem, foi uma longa noite. Fico por aqui.

— Adeus.

Ela hesitou.

— Queres um conselho?

— Claro.

— Se queres que as pessoas parem de te tratar como lixo, será melhor arranjares-te um pouco. Faz a barba, penteia o cabelo e veste um casaco que não pareça um capacho.

Luke percebeu que ela tinha razão. Ninguém iria perder o seu tempo consigo, quanto mais ajudá-lo a descobrir a sua identidade, enquanto parecesse um vagabundo.

— Boa ideia — concordou. — Obrigado. Voltou-se para se ir embora. Ela gritou-lhe ainda:

— E arranja um chapéu!

Luke levou a mão à cabeça e depois olhou em redor. Era a única pessoa na rua, do sexo masculino ou feminino, que não tinha chapéu. Mas onde iria um vagabundo arranjar roupas novas? As poucas moedas que tinha no bolso não dariam para nada.

A solução surgiu-lhe rapidamente. Ou se tratava de um problema simples ou já antes se encontrara numa situação semelhante. Iria a uma estação de combóios. Era um local habitualmente cheio de pessoas que traziam consigo mudas completas de roupa e artigos de higiene, tudo bem arrumado dentro de malas.

Encaminhou-se para a esquina mais próxima e verificou a sua localização. Estava no cruzamento da Rua A com a Rua 7. Ao deixar Union Station, nessa manhã, reparara que ficava perto do cruzamento da Rua F com a Rua 2.

Dirigiu-se para lá.

 

Dez da manhã

O primeiro andar dofoguetão está ligado ao segundo por meio de cavilhas explosivas em redor das quais se encontram molas comprimidas. Quando o combustível é totalmente consumido, as cavilhas são detonadas e as molas empurram o primeiro andar já sem qualquer utilidade, para longe.

Georgetown Mind Hospital era uma mansão vitoriana de tijolos encarnados com uma extensão moderna de telhado plano nas traseiras. Billie Josephson arrumou o seu Ford Thunderbírd no parque de estacionamento e correu para o edifício.

Detestava chegar atrasada. Sentia que era uma falta de respeito para com o seu trabalho e os colegas. o que faziam ali era de importância vital. Lenta e meticulosamente, estavam a tentar compreender os mecanismos da mente humana. Era como cartografar um planeta distante, a superfície do qual apenas se consegue vislumbrar através de breves abertas nas nuvens.

Estava atrasada por causa da mãe. Depois de Larry ter saído para a escola, Billie fora comprar os comprimidos da mãe e, quando regressara, encontrara Becky-Ma vestida e deitada na cama a arquejar. o médico veio depressa e o que disse não era novidade. Becky-Ma tinha o coração fraco. Se sentisse dificuldade em respirar, devia deitar-se, não podia esquecer-se de tomar os comprimidos e não devia aborrecer-se.

Billie teve vontade de dizer: «E eu? Os aborrecimentos não me fazem mal também?» No entanto, resolveu mais uma vez que o melhor era lidar com a situação com calma.

Passou pelo balcão da recepção e deu uma vista de olhos ao registo da noite anterior. Um novo doente dera entrada depois de ela ter saído: Joseph Bellow, esquizofrénico. o nome soava-lhe conhecido, mas não se conseguia lembrar porquê. Surpreendentemente, o doente tivera alta durante a noite. Era muito estranho.

Passou pela sala de convívio a caminho do seu gabinete. o televisor estava ligado. Numa praia poeirenta, um repórter proclamava: «Aqui, em Cabo Canaveral, a pergunta que toda a gente se coloca é quando é que o Exército irá colocar em órbita o seu foguetão. o lançamento deverá ocorrer nos próximos dias.»

Os «objectos» da pesquisa de Billie andavam por ali. Alguns viam televisão, outros faziam jogos ou liam e uns quantos olhavam fixamente para o ar. Acenou para Tom, um rapaz que não sabia o significado das palavras.

— Como estás, Tômmy? — cumprimentou ela.

O rapaz sorriu e acenou-lhe. Tom compreendia bem a linguagem corporal e, a maior parte das vezes, respondia como se percebesse o que as pessoas lhe diziam, por isso, Billie levou meses a descobrir que ele não compreendia uma única palavra.

A um canto, Marlene, uma alcoólica, namoriscava um jovem enfermeiro. Tinha cinquenta anos, mas não se lembrava de nada desde os dezanove. Pensava que era ainda uma rapariguinha e recusava-se a acreditar que o velho» que a amava e tomava conta de si era o seu marido.

Através da parede de vidro de uma das salas de entrevistas viu Ronald, um brilhante arquitecto que sofrera lesões cerebrais num acidente de viação. Fazia testes num papel. Em resultado do acidente, perdera a capacidade de lidar com números. Para tentar somar três mais quatro tinha de recorrer aos dedos e fazia-o com uma lentidão excruciante.

Muitos doentes revelavam formas diversas de esquizofrenia, uma inaptidão de se relacionarem com o mundo real.

Alguns dos doentes podiam ser ajudados, com medicamentos, electrochoques, ou ambos, mas a tarefa de Billie era traçar os contornos exactos das suas incapacidades. Ao estudá-las, estava a esboçar as funções de uma mente normal. Ronald conseguia olhar para um grupo de objectos num tabuleiro e dizer se via três ou quatro, mas, se lá estivessem doze e ele tivesse de os contar, levaria muito tempo e poderia errar. Tal sugeria a Billie que a capacidade de perceber através de uma rápida vista de olhos quantos objectos estão contidos num pequeno grupo e a capacidade de contar são coisas diferentes.

Desta forma, conseguia traçar um mapa das profundezas da mente, localizando a memória aqui, a linguagem ali, a matemática acolá. Se a incapacidade estivesse relacionada com uma pequena lesão cerebral, Billie poderia especular que a capacidade normal estava localizada na área do cérebro afectada pela lesão. Por fim, a sua imagem conceptual das funções da mente seriam traçadas num diagrama físico do cérebro humano.

À velocidade a que progredia actualmente, seriam precisos cerca de duzentos anos para que tal diagrama fosse completado. No entanto, Billie não estava sozinha. Com uma equipa de psicólogos conseguia avançar bem mais rapidamente. Poderia assim ser que conseguisse ver o mapa completo ainda durante o curso da sua vida. Era essa a sua ambição.

Haviam já passado muitos anos desde a depressão suicida do seu pai. As doenças mentais não tinham curas rápidas e a mente era ainda um mistério para os cientistas. Contudo, poderia ser melhor entendida se Billie conseguisse apressar o seu trabalho. E então pessoas como o seu pai poderiam ser ajudadas.

Subiu um lanço de escadas para o andar superior, pensando no doente misterioso. Joseph Bellow soava a Joe Bellow, o tipo de nome que qualquer pessoa poderia inventar. Por que motivo tivera alta a meio da noite?

Chegou ao seu gabinete e olhou pela janela para umas obras. Estava a ser acrescentada uma nova ala ao hospital e ia ser criado um novo cargo para a chefiar: director de investigação. Billie candidatara-se ao cargo, bem como um dos seus colegas, o Dr. Leonard Ross. Len era mais velho que Billie, mas ela tinha mais experiência e publicara mais coisas — vários artigos e um manual, Uma Introdução à Psicologia da Memória. Tinha a certeza de que conseguiria levar a melhor em relação a Len, mas não sabia quem mais se candidatara e queria muito este cargo.

No local das obras, reparou que entre os trabalhadores se encontrava também um grupo de homens de sobretudos de lã e chapéus de feltro, em vez dos habituais fatos-macaco e capacetes de protecção. Pareciam fazer uma visita guiada. Olhando mais atentamente, viu que Len estava com eles.

— Quem são aqueles homens ali nas obras com o Len Ross? — perguntou à secretária.

— São da Fundação Sowerby

Billie franziu as sobrancelhas. A fundação ia financiar o novo cargo, por isso teria uma palavra a dizer na escolha do candidato. E lá estava Len cheio de sorrisinhos para eles.

— Sabíamos que os homens da fundação vinham cá hoje?

— O Len disse que lhe tinha mandado um bilhete. Passou por cá há algum tempo para a vir buscar, mas ainda não tinha chegado.

Billie tinha a certeza de nunca ter visto tal bilhete. Len não a avisara propositadamente. E logo hoje, que chegara atrasada!

— Raios! — praguejou. Apressou-se a ir juntar-se ao grupo no local das obras.

Não voltou a pensar em Joseph Bellow durante várias horas.

 

Onze da manhã

Como o foguetão foi montado à pressa, os andares superiores utilizam um motorjá produzido há vários anos, em vez de um motor novo. Os cientistas escolheram uma versão reduzida do já testado motor Sergeant. Os andares superiores dofoguetão estão equipados com grupos destes pequenos mísseis, conhecidos como Baby Sergeants.

 

Enquanto Se tentava orientar no emaranhado de ruas que conduziam a Union Station, Luke deu por si a verificar, a cada minuto, se estava a ser seguido.

Despistara os seus perseguidores havia mais de uma hora, mas estes podiam estar à sua procura. A ideia deixou-o apreensivo. Quem eram e o que pretendiam? o seu instinto dizia-lhe que o assunto era sério. De outro modo, porque o seguiam em segredo?

Abanou a cabeça, tentando aclarar as ideias. Esta especulação sem fundamento era frustrante. Conjecturar não o levaria a parte alguma. Precisava de descobrir o que se passava.

Primeiro teria de se lavar e arranjar. o seu plano era roubar uma mala a um dos passageiros. Tinha a certeza de já ter feito isso antes. Quando se tentou lembrar, veio-lhe à cabeça uma frase em francês: «La valise d’un type qui descend du train.»

Não iria ser fácil. As suas roupas rasgadas e sujas sobressairiam numa multidão de viajantes respeitáveis. Teria de se movimentar rapidamente para conseguir escapar. Não tinha alternativa. Dee-Dee, a prostituta, tinha razão. Ninguém daria ouvidos a um vagabundo.

Se fosse preso, a polícia nunca acreditaria que era algo mais que um bêbado qualquer. Acabaria na prisão. A ideia fê-lo tremer de medo. Não era tanto a prisão que o assustava, mas a perspectiva de passar semanas e meses naquela ignorância e confusão, sem saber quem era e incapaz de fazer fosse o que fosse para o descobrir.

À sua frente, em Massachusetts Avenue, vislumbrou a arcada granítica de Union Station, qual catedral romanesca transladada da Normandia. Planeando com antecedência todos os pormenores da operação, considerou que depois do roubo o melhor a fazer seria fugir depressa. Precisava de um carro. A forma de o roubar materializou-se de imediato na sua cabeça.

Perto da estação, a rua estava pejada de carros estacionados. A maioria deveria pertencer a passageiros dos combóios. Abrandou o passo enquanto um carro estacionava num lugar um pouco mais à frente. Era um Ford Fiesta azul e branco, novo, mas não ostentoso. Serviria perfeitamente. A ignição era accionada por meio de uma chave e não por um manípulo, mas bastaria extrair um par de fios debaixo do painel de instrumentos e ligá-los para fazer o carro andar.

Interrogou-se de onde lhe surgira tal ideia.

Um homem de sobretudo escuro saiu do Ford, tirou uma pasta do porta-bagagens, fechou o carro e encaminhou-se para a estação.

Quanto tempo se demoraria? Era possível que fosse tratar de algum assunto à estação e regressasse daí a poucos minutos. Assim sendo, iria direito à polícia queixar-se do roubo do carro e Luke correria o risco de ser preso a qualquer momento. Não era boa ideia. Tinha de descobrir para onde ia o homem. Seguiu-o até à estação.

O grandioso interior, que nessa manhã lhe parecera um templo abandonado, estava agora repleto de actividade. Luke sentiu-se alvo das atenções. Toda a gente parecia tão limpa e bem vestida... A maioria das pessoas desviava o olhar, mas algumas miravam-no com expressões de repugnância ou desprezo. Ocorreu-lhe que poderia dar de caras com o funcionário que o expulsara de manhã. Iria haver confusão, pois sem dúvida que o homem o reconheceria.

O dono do Ford juntou-se a uma fila de pessoas frente à bilheteira. Luke fez o mesmo. Olhava para o chão para não cruzar o olhar com o de ninguém e fazia figas para que não reparassem nele.

A fila andou e o homem ficou frente ao balcão. «Para Filadélfia, ida e volta», disse.

Era o suficiente para Luke. Filadélfia ficava a horas de distância. o homem estaria fora da cidade todo o dia, portanto, só daria pela falta do carro quando regressasse. Luke estaria em segurança até ao fim do dia. Saiu da fila e apressou-se a deixar a estação.

Era um alívio estar cá fora. Até os vagabundos tinham direito a andar na rua. Regressou a Massachusetts Avenue e encontrou o Ford. Para poupar tempo, arrombaria o carro de imediato. Olhou para ambos os lados da rua. Havia carros e pessoas a passar constantemente. o problema era a sua aparência, mas, se esperasse até que a rua acalmasse, acabaria por ficar ali o dia inteiro. Teria apenas de ser rápido.

Saiu do passeio, deu a volta ao carro e colocou-se frente à porta do condutor. Pressionando as mãos contra o vidro, tentou empurrá-lo para baixo. Não resultou. Sentia a boca seca. Olhou rapidamente para ambos os lados: ainda ninguém reparara nele. Colocou-se então nas pontas dos pés para adicionar o peso do seu corpo à pressão que exercia sobre o mecanismo da janela. Por fim, o vidro começou a deslizar.

Quando ficou completamente aberto, meteu a mão dentro do carro e destrancou a porta. Abriu-a, subiu o vidro e fechou de novo a porta. Agora estava pronto para uma fuga rápida.

Pensou em ligar o carro e deixar o motor a funcionar, mas isso talvez chamasse a atenção de um polícia ou de um transeunte mais curioso.

Voltou a Union Station. Preocupava-se constantemente que algum dos funcionários da estação reparasse em si. Não precisava de ser o que o encontrara de manhã, qualquer funcionário consciencioso poderia achar-se no direito de o correr dali. Fez tudo para não dar nas vistas. Não andava nem depressa nem devagar, tentava manter-se junto às paredes sempre que podia, tinha o cuidado de não se atravessar no caminho de ninguém e não olhava as pessoas na cara.

A melhor altura para roubar uma mala seria imediatamente a seguir à chegada de um combóio cheio de passageiros, quando a plataforma ficava apinhada de gente. Examinou o quadro das partidas e chegadas. Daí a doze minutos chegaria um expresso de Nova lorque. Seria perfeito.

Enquanto olhava para o quadro para verificar em que linha o combóio chegava, um arrepio percorreu-lhe a espinha.

Olhou à sua volta. Vira alguma coisa pelo canto do olho, algo que desencadeara um aviso instintivo. o quê? o seu coração disparou. o que temia?

Tentando não dar nas vistas, afastou-se do quadro e foi para junto do quiosque dar uma olhadela aos jornais do dia. Observou os cabeçalhos:

 

FOGUETÃO Do EXÉRCITO LANÇADO EM BREVE

ASSASSINO DE DEZ APANHADO EM FLAGRANTE

DULLES ASSEGURA GRUPO REUNIDO EM BAGDADE

ÚLTIMA OPORTUNIDADE EM CABO CANAVERAL

 

Um momento depois, voltou a olhar por cima do ombro. Duas dezenas de pessoas entrecruzavam-se na plataforma, apressando-se a entrar e a sair de combóios suburbanos. Havia outras tantas, familiares e motoristas, sentadas nos bancos de mogno ou de pé, aguardando pacientemente o combóio de Nova iorque. Um maìtre esperava clientes para o almoço à porta do restaurante. Havia um grupo de cinco carregadores a fumar... E dois agentes.

Tinha a certeza disso. Eram ambos jovens e estavam bem aperaltados: fato completo, sobretudo e chapéu, sapatos bem engraxados. Todavia, não era tanto a aparência, mas mais a atitude, que os traía. Estavam bem alerta, percorrendo a estação com os olhos, estudando as caras das pessoas que passavam, olhando para todo o lado... excepto para o quadro das partidas e chegadas. A única coisa em que não estavam interessados era em viajar.

Sentiu-se tentado a falar com eles. Ao pensar nisso, foi dominado por uma necessidade de ter algum contacto humano com pessoas que o conhecessem. Ansiava que alguém lhe dissesse: «Olá, Luke, como estás? Que bom ver-te de novo! »

Estes dois provavelmente diriam: «Somos agentes do FBI, estás preso.» Luke pensou que isso seria quase um alívio, mas o seu instinto não permitiu que avançasse. De cada vez que pensava em confiar neles, interrogava-se por que motivo o seguiam furtivamente, se a sua intenção não seria fazer-lhe mal.

Virou-lhes as costas e afastou-se, tentando manter o quiosque dos jornais entre si e o campo de visão deles. Sob a sombra de uma arcada, arriscou olhar para trás. Os dois homens atravessavam o átrio, caminhando de leste para oeste, segundo o seu ponto de vista. Quem seriam?

Deixou a estação, caminhou alguns metros ao longo da imponente arcada exterior e voltou a entrar no átrio principal. Foi ainda a tempo de ver as costas dos dois agentes, à medida que se dirigiam para a porta oeste.

Olhou para o relógio. Tinham passado dez minutos. o expresso de Nova Iorque chegaria daí a dois. Apressou-se a dirigir-se para a plataforma e esperou.

À medida que os primeiros passageiros emergiam do combóio, uma calma glacial apoderou-se dele. Observava as chegadas atentamente. Era quarta-feira, o meio da semana, por isso, havia muitos homens de negócios e militares, mas poucos turistas e um número muito reduzido de mulheres e crianças. Procurou um homem da sua altura e com a sua constituição.

Assim que os passageiros começaram a sair da plataforma, as pessoas que os esperavam avançaram e acumularam-se, impedindo a circulação. A multidão engrossou, depois alastrou, à medida que as pessoas tentavam irritadamente abrir caminho. Luke viu um rapaz com a sua estatura, mas usava um casaco tipo anoraque e um gorro de malha azul: não deveria trazer nenhum fato na mochila. Da mesma forma, pós de parte um passageiro idoso que tinha a sua altura, mas era muito magro. Descobriu um homem que parecia ideal, porém, apenas trazia consigo uma pasta.

Por esta altura, tinha já saído do combóio cerca de uma centena de passageiros, mas parecia haver muitos mais por emergir. o átrio encheu-se de pessoas impacientes. Localizou então o homem perfeito. Tinha a mesma altura, constituição e idade. o seu sobretudo cinzento desabotoado revelava um casaco desportivo de tweed e umas calças de flanela, o que significava que, provavelmente, trazia um fato na mala de pele que transportava na mão direita. Tinha um ar ansioso e caminhava apressadamente, como se estivesse atrasado para um encontro.

Luke misturou-se com a multidão e abriu caminho, empurrando as pessoas, até se encontrar mesmo por trás do homem. A turba era compacta e movia-se lentamente. o alvo de Luke avançava em impacientes arrancos e paragens. A multidão dispersou um pouco e o homem encaminhou-se rapidamente por uma brecha.

Foi,então que Luke o rasteirou. Enganchou o pé firmemente em volta do tornozelo do homem e, quando este começou a andar, Luke levantou o pé, obrigando a perna do homem a dobrar-se pelo joelho.

Este deu um grito e caiu. Largou a mala e a pasta e esticou as mãos para a frente. Chocou contra uma senhora de casaco de peles e também ela tropeçou, emitindo um pequeno grito, e caiu. o homem atingiu o chão de mármore com uma pancada bem audível e o chapéu rolou para longe. Um milésimo de segundo depois, a mulher tombou sobre os joelhos, deixando cair a carteira e uma elegante mala de pele branca.

Outros passageiros reuniram-se em torno de ambos para os ajudar, perguntando: «Magoou-se?»

Luke pegou calmamente na mala do homem e afastou-se, apressando o passo. Encaminhou-se para a saída mais próxima. Não olhou para trás, mas manteve-se atento a gritos acusatórios ou sons de perseguição. Se escutasse alguma coisa, estava pronto para largar a correr. Não iria desistir facilmente da sua muda de roupa e estava convencido de que conseguiria correr mais depressa que a maioria das pessoas, mesmo carregando uma mala. Todavia, enquanto se encaminhava o mais rápido que conseguia para a saída, sentia-se como se as suas costas fossem o centro de um alvo.

À saída, olhou rapidamente para trás por cima do ombro. A multidão continuava concentrada no mesmo local. Não conseguiu vislumbrar o homem que rasteirara, nem a mulher do casaco de peles, mas havia um indivíduo alto e de ar autoritário que perscrutava o átrio, como se procurasse alguma coisa. A sua cabeça girou de repente na direcção de Luke, que atravessou a porta sem perder mais tempo.

Cá fora, começou a descer Massachusetts Avenue. Pouco depois chegou ao Ford Fiesta. Dirigiu-se de imediato ao porta-bagagens, para esconder a mala, mas estava trancado. Lembrou-se de ver o dono do carro fechá-lo. Olhou para trás na direcção da estação. o homem alto corria pelo meio do trânsito que se acumulava na rotunda frente à estação, fintando carros e avançando para Luke. Quem seria? Um polícia à paisana? Um detective? Um simples intrometido?

Luke correu para a porta do condutor, abriu-a e arremessou a mala para o banco de trás. Depois entrou e fechou a porta.

Sob o painel de instrumentos encontrou os fios da ignição. Puxou-os para fora e juntou-os. Não aconteceu nada. Sentiu suor a formar-se na testa, apesar do frio que fazia. Porque se recusava o carro a andar? A resposta surgiu-lhe de imediato: era o fio errado. Apalpou de novo no mesmo local. Havia um outro fio no lado direito da ignição. Puxou-o e com ele tocou a ponta do fio do lado esquerdo.

O motor ligou-se.

Carregou no pedal e o motor acelerou.

Engrenou uma mudança, soltou o travão de mão, fez pisca e arrancou. o carro estava voltado para a estação, por isso, teve de fazer inversão de marcha.

Um sorriso atravessou-lhe o rosto. A menos que tivesse azar, haveria uma muda de roupa lavada na mala. Sentiu que começava a ter controlo sobre a sua vida.

Agora, precisava de um local onde pudesse tomar banho e mudar de roupa.

 

Meio-dia

O segundo andar é composto por onze motores Baby Sergeant, distribuídos por um anel circular em torno de um tubo central. o terceiro andar tem três motores Baby Sergeant, unidos por três divisórias transversais. Sobre o terceiro andar encontra-se o quarto, com apenas um motor o satélite está colocado sobre o nariz do quarto andar

 

Contagem decrescente estava em x menos seiscentos e trinta minutos e Cabo Canaveral fervilhava de actividade. Os cientistas espaciais eram todos iguais: desenvolveriam armas, se o Governo assim os instruísse, mas o seu sonho era o espaço sideral. A equipa que desenvolvera o Explorer tinha já construído e lançado vários mísseis, mas este seria o primeiro que se libertaria da gravidade terrestre e voaria para lá da atmosfera. Para a maioria das pessoas que integrava a equipa, o lançamento daquela noite seria a concretização do sonho de uma vida. Elspeth não era excepção.

A equipa estava sediada nos hangares D e R, que ficavam lado a lado. Os tradicionais hangares de avião adequavam-se bem à construção de foguetões: havia uma grande área central por onde os componentes podiam ser retirados e alas de dois andares em ambos os lados para escritórios e pequenos laboratórios.

Elspeth estava no hangar R, Tinha uma máquina de escrever e uma secretária no escritório do seu chefe, Willy Fredrickson, o director do lançamento, que passava a maior parte do tempo fora dali. A função de Elspeth era preparar e distribuir o calendário do lançamento.

O problema era que o calendário mudava constantemente. A América nunca antes lançara um foguetão para o espaço e surgiam problemas novos a toda a hora. Os engenheiros estavam sempre a improvisar maneiras de trapacear um sistema ou falsear um componente. Aqui, à fita adesiva chamava-se «fita míssil».

Assim, Elspeth elaborava actualizações regulares do calendário. Tinha de se manter em contacto com todos os grupos da equipa, registar as mudanças de planos no seu bloco de notas, depois passá-las à máquina e fotocopiá-las para serem distribuídas. o seu cargo exigia que fosse a todo o lado e soubesse quase tudo. Quando ocorria um contratempo, sabia dele de imediato e contava-se entre os primeiros a tomar conhecimento da solução encontrada. Tinha o título de secretária e ganhava um salário correspondente, mas ninguém conseguiria fazer o que ela fazia sem uma licenciatura em Ciências. Todavia, Elspeth não se importava de ganhar pouco. Sentia-se grata por ter um emprego que representava um desafio, Algumas das suas colegas de Radclíffe continuavam a tomar notas ditadas por homens de fatos de flanela cinzenta.

A actualização do meio-dia estava pronta e Elspeth pegou na pilha de papéis para começar a distribuí-los. Estava extremamente ocupada, mas isso hoje até lhe convinha, pois impedia que se preocupasse com Luke a toda a hora. Por sua vontade, telefonaria a Anthony de cinco em cinco minutos a perguntar por novidades, mas isso seria uma estupidez, Ele entraria em contacto consigo se alguma coisa corresse mal, disse para si mesma. Entretanto, o melhor seria concentrar-se no seu trabalho,

Foi primeiro ao Departamento de Imprensa, onde os encarregados das relações públicas comunicavam a repórteres de confiança que o lançamento iria acontecer nessa noite. o Exército queria os jornalistas presentes no local para testemunharem este triunfo. No entanto, a informação apenas deveria ser divulgada depois do acontecimento, já que os lançamentos eram muitas vezes adiados, ou mesmo cancelados, devido a imprevistos. Os cientistas tinham já aprendido, através de experiências amargas, que um adiamento de rotina para resolução de problemas técnicos podia parecer um desaire quando a imprensa o relatava. Assim, o Exército fizera um acordo com as maiores agências noticiosas. o momento dos lançamentos era revelado com antecedência, na condição de nada ser publicado até que houvesse «fogo na cauda», o que significava que a ignição correra bem. o departamento era composto exclusivamente por homens e vários olharam-na fixamente quando ela entrou e entregou um calendário ao chefe. Elspeth sabia que era uma mulher atraente, com a sua aparência nórdica, porte alto e escultural; mas havia algo de temeroso nela — a configuração dos lábios, talvez, ou o brilho que emanava dos seus olhos verdes — que fazia com que os homens que se sentiam inclinados a assobiar-lhe ou a lançar-lhe piropos pensassem duas vezes.

No Laboratório de Lançamento de Mísseis encontrou cinco cientistas de mangas arregaçadas junto de uma bancada, olhando preocupadamente para um pedaço plano de metal que parecia saído de um incêndio.

— Boa tarde, Elspeth — disse o chefe do grupo, o Dr. Keller, Falava um inglês com uma forte pronúncia. Como a maioria dos cientistas, era um alemão que fora capturado no final da guerra e trazido para a América para trabalhar no Programa de Desenvolvimento de Foguetões.

Elspeth entregou-lhe uma cópia da actualização, que ele recebeu sem sequer olhar para o papel. Acenou com a cabeça para o objecto que se encontrava na bancada e perguntou:

— O que é isso?

— Uma palheta do jacto.

Elspeth sabia que o primeiro andar do foguetão era manobrado por palhetas colocadas no interior da cauda.

— O que lhe aconteceu?

— A inflamação do combustível corrói o metal — elucidou o Dr. Keller. A pronúncia alemã tornou-se mais acentuada à medida que se entusiasmava com a explicação. — É um fenómeno que, até certo ponto, ocorre sempre. No entanto, com combustível à base de álcool, as palhetas duram o tempo suficiente para cumprirem o seu objectivo. Agora estamos a usar um novo combustível, hídina, que possui um maior período de combustão e maior velocidade de escape, porém, pode corroer as palhetas de tal forma que se tornam ineficazes. — Estendeu as mãos num gesto de exasperação. — Não tivemos tempo para executar os testes suficientes.

— Penso que tudo o que preciso de saber é se isso atrasará o lançamento — afirmou Elspeth. Achava que não aguentava um adiamento. A expectativa era já quase insuportável.

— É isso que estamos a tentar decidir — disse Keller, olhando para os colegas. — Acho que a nossa resposta será: vamos arriscar. Os outros acenaram sombriamente com a cabeça, demonstrando a sua concordância.

Elspeth sentiu-se aliviada.

Vou fazer figas — disse, voltando-se para sair.

É uma coisa tão útil como qualquer outra que nós façamos rematou Keller, e os colegas riram lugubremente.

Elspeth saiu do hangar para enfrentar o escaldante sol californiano. os hangares ficavam numa clareira arenosa aberta por entre a vegetação que cobria o cabo — palmitos, carvalhos americanos e uma espécie de relva que provocaria cortes a quem se atrevesse a andar descalço. Atravessou um pátio poeirento e penetrou no hangar Q, a sua acolhedora sombra invadiu-lhe o rosto como uma brisa refrescante.

Na sala da telemetria viu Hans Mueller, conhecido como Hank. Este apontou-lhe um dedo e disse:

— Cento e trinta e cinco.

Era um jogo que costumavam fazer. Elspeth tinha de dizer o que havia de estranho no número.

— Esse é fácil de mais — declarou ela. — Pega-se no primeiro algarismo, soma-se o quadrado do segundo mais o cubo do terceiro, e obténs o número em que pensaste. — Enunciou-lhe então a expressão numérica:

 

V + 3  2 +5 3 =135

 

— Muito bem — disse ele -, qual é o próximo número que segue este padrão?

Elspeth pensou durante um momento e respondeu:

— Cento e setenta e cinco:

 

11+72+5 3 = 175

 

— Certo! Ganhas o primeiro prémio.

Hank meteu a mão no bolso e tirou dez cêntimos. Ela aceitou-os.

— Dou-te uma hipótese de os reaveres — desafiou Elspeth.

— Cento e trinta e seis.

Hank franziu as sobrancelhas.

— Espera. Soma o cubo dos seus algarismos...

 

13 +3 3+6 3 = 244

 

Agora repete o processo, e terás o número em que pensaste!

 

23 +4 3+4 3 = 136

 

Elspeth devolveu-lhe a moeda e entregou-lhe uma cópia da actualização.

Quando saía, um telegrama pregado à parede com alfinetes chamou-lhe a atenção: «Já tive o meu pequeno satélite, fica tu agora com o teu.» Mueller reparou que Elspeth estava a lê-lo e explicou:

— É da esposa do Stulílinger, o director de investigação, teve um rapaz.

Elspeth sorriu.

Encontrou Willy Fredrickson na sala de comunicações com dois técnicos do Exército a testarem a ligação da teleimpressora com o Pentágono. A máquina não estava a funcionar e Willy sentia-se frustrado, no entanto, ao receber a actualização, lançou-lhe um olhar agradecido e disse:

— Vales mais que o teu peso em ouro, Elspeth.

Pouco depois, duas pessoas acercaram-se de Willy, um jovem oficial do Exército, que trazia um mapa, e Stirrimens, um dos cientistas.

— Temos um problema — declarou o oficial. Entregou o mapa a Willy e continuou. — o jet stream moveu-se para sul e sopra a uma velocidade de duzentos e setenta quilómetros por hora.

Elspeth sentiu-se desanimar. Sabia o que isto significava. o jet stream era um vento de grande altitude, que soprava na estratosfera entre nove e doze quilómetros de altitude. Normalmente não se estendia sobre Cabo Canaveral, mas podia deslocar-se e, se fosse muito violento, era capaz de empurrar o foguetão para fora da sua rota.

— Onde se encontra agora? — perguntou Willy.

— Sobre a Florida — respondeu o oficial. Willy voltou-se para Stimmens.

— Previmos uma situação destas, não foi?

— Na verdade, não — declarou Stinímens. — Embora não passe de conjectura, supomos que o foguetão consiga aguentar ventos até duzentos e vinte e dois quilómetros por hora, no máximo.

Willy virou-se de novo para o oficial.

— Qual é a previsão para esta noite?

— Achamos que pode atingir trezentos e vinte sete quilómetros por hora e não há indícios de que se desloque para norte.

— Raios! — praguejou Willy, e levou as mãos à cabeça. Elspeth sabia o que ele estava a pensar. o lançamento poderia ter de ser adiado para o dia seguinte. — Lancem um balão atmosférico, por favor — ordenou, por fim. — Reavaliaremos as condições atmosféricas novamente às cinco horas.

Elspeth inseriu uma nota no seu bloco para não se esquecer de acrescentar a reunião ao seu calendário e depois saiu, abatida. Podiam resolver problemas de engenharia, mas não podiam fazer nada quanto ao tempo atmosférico.

Fora do hangar, meteu-se num jipe e dirigiu-se à rampa de lançamento do Complexo 26. o caminho por entre os arbustos era poeirento e o jipe saltava em cada sulco. Um veado-de-cauda-branca que matava a sede numa poça assustou-se e pulou para o meio da vegetação. Havia muita fauna selvagem em Cabo Canaveral a viver por entre a vegetação. As pessoas falavam mesmo na existência de aligátores e pumas, mas Elspeth nunca vira nenhum.

Parou em frente do posto blindado e olhou para a rampa de lançamento 26 B. a trezentos metros dali. A torre era uma plataforma de um campo petrolífero adaptada para este fim e pintada com uma tinta antiferruginosa cor de laranja que a protegia da humidade e da maresia. De um dos lados encontrava-se um elevador, que permitia o acesso aos vários andares da plataforma. A estrutura era brutalmente prática, sem uma ponta de graciosidade, pensou Elspeth; era uma construção funcional sem qualquer pretensão estética.

O foguetão Jupíter C, semelhante a um gigantesco lápis branco, parecia preso no emaranhado de vigas cor de laranja, qual libelínha numa teia de aranha. Os homens tratavam-no por «ela», apesar da sua forma fálica, e também Elspeth o encarava como um ser feminino. Um véu nupcial de cobertas de lona escondera os andares superiores de olhares indiscretos desde que ali fora colocado, mas agora tinham sido retiradas e o foguetão estava completamente à vista, reflectindo a luz do sol na sua pintura imaculada.

Os cientistas não eram pessoas muito atentas a questões de política, mas até eles sabiam que os olhos do mundo estavam neste momento postos neles. Há quatro meses atrás, a União Soviética espantara o mundo ao lançar o primeiro satélite espacial, o Sputník. Em todos os países onde o braço-de-ferro entre capitalismo e comunismo ainda se travava — da Itália à índia, por toda a América Latina, África e Indochina -, a mensagem fora bem entendida: a ciência comunista era melhor. Um mês depois, os Soviétícos lançaram um segundo satélite, o Suptník 2, com um cão a bordo. Os Americanos estavam devastados. Um cão hoje, um homem amanhã.

O presidente Eisenhower prometera que a América lançaria um satélite antes do final do ano. Na primeira sexta-feira de Dezembro, quando faltavam quinze minutos para o meio-dia, a Marinha americana lançou o Vanguard, na presença da imprensa mundial. o foguetão elevou-se alguns metros no ar, irrompeu em chamas, tombou de lado e desfez-se em pedaços no chão. «É um Fiasknik! » afirmava um cabeçalho de jornal.

O Jupíter C era a última esperança americana. Não haveria outra oportunidade. Se esta tentativa falhasse, os Estados Unidos estariam fora da corrida ao espaço. o descrédito do orgulho nacional era a menor das consequências, o Programa Espacial americano ficaria completamente desacreditado e a URSS controlaria o espaço durante o futuro próximo.

«Tudo isso», pensou Elspeth, «está dependente deste foguetão.» A circulação de veículos estava proibida na área da rampa de lançamento, excepto a veículos essenciais, como camiões de combustível, por isso, Elspeth deixou o jipe e atravessou o espaço aberto entre o posto blindado e a torre, seguindo o percurso de uma conduta metálica que abrigava os cabos que uniam os dois locais. Ligada à parte traseira da torre, ao nível do solo, encontrava-se uma comprida guarita de metal, pintada com a mesma tinta laranja, que albergava escritórios e maquinaria. Elspeth entrou por uma porta nas traseiras.

Encontrou o supervisor da plataforma, Hatry Lane, de capacete protector e botas de borracha, sentado numa cadeira a examinar um diagrama.

— Olá, Harry — disse ela alegremente.

Ele resmungou. Não gostava de ver mulheres perto da rampa de lançamento e nenhum sentido de cortesia o constrangia de lho fazer notar.

Elspeth largou uma cópia da actualização sobre uma mesa de metal e saiu. Regressou ao posto blindado, um edifício branco e baixo, de janelas estreitas de espesso vidro verde. As portas estavam abertas e ela entrou. Havia três compartimentos: uma sala de máquinas, que ocupava toda a largura do edifício, e duas salas que controlavam a ignição, A à esquerda e B à direita, viradas para as duas rampas de lançamento. Elspeth entrou na sala B.

O sol que penetrava pelo vidro verde projectava uma estranha luz por toda a sala, fazendo-a parecer o interior de um aquário. Frente às janelas, uma fila de cientistas olhava para um conjunto de painéis de controlo. Reparou que todos usavam camisas de manga curta, como se fosse uma farda. Tinham auscultadores com microfones, através dos quais comunicavam com a rampa de lançamento. Podiam levantar os olhos e ver o foguetão pelas janelas ou controlá-lo através dos televisores a cores, que exibiam a mesma imagem. Ao longo da parede do fundo da sala, uma fileira de homens registava temperaturas, pressões no sistema de combustível e a actividade eléctrica. No canto mais afastado encontrava-se uma balança que mostrava o peso do foguetão na rampa de lançamento. Reinava um ambiente de iminência serena, enquanto os homens murmuravam para os microfones dos auscultadores, apertando botões aqui, accionando interruptores ali, constantemente verificando mostradores e contadores. Sobre as suas cabeças, um relógio de contagem regressiva indicava os minutos que faltavam para a ignição. Quando Elspeth olhou para ele, o ponteiro passou dos seiscentos para os quinhentos e noventa e nove.

Entregou a actualização e abandonou o edifício. Enquanto conduzia de regresso ao hangar, lembrou-se de Luke e percebeu que tinha uma desculpa perfeita para telefonar a Anthony. Informá-lo-ia do jet stream e depois perguntaria por Luke.

Isso fê-la animar-se. Dirigiu-se para o hangar. já no escritório, ligou para a linha directa de Anthony e ele atendeu de imediato.

— Provavelmente, o lançamento será adiado para amanhã — alvitrou ela. — Registaram-se ventos muito fortes na estratosfera.

— Não sabia que havia vento por lá.

— Há um, chama-se jet stream. o adiamento não é ainda definitivo. Vai haver uma reunião para reavaliação das condições atmosféricas às cinco, e depois logo se verá. E o Luke?

— Mantém-me informado do resultado dessa reunião, está bem?

— Claro. E o Luke?

— Bom, acho que temos um problema. o seu coração sobressaltou-se.

— Que tipo de problema?

— Perdemo-lo.

— Como?

— Ele escapou-se aos meus homens.

— Deus nos ajude! — exclamou Elspeth. — Agora é que estamos em apuros!

 

1941

Luke chegou a Boston de madrugada. Estacionou o Ford, entrou no dormitório pela porta das traseiras e subiu para o quarto pelas escadas de serviço. Anthony dormia profundamente. Luke lavou o rosto e deitou-se de roupa interior.

De repente, sentiu Anthony a abaná-lo aos gritos:

— Luke! Levanta-te!

Abriu os olhos. Sabia que acontecera uma desgraça, mas não se conseguia recordar do que era.

Que horas são? — resmoneou.

É uma hora e a Elspeth está lá em baixo à tua espera.

A referência a Elspeth reavivou-lhe a memória e recordou-se da calamidade da noite passada. já não a amava.

— Ai, meu Deus! — suspirou.

— É melhor ires lá abaixo falar com ela.

Apaixonara-se por Billie Josephson. Era essa a desgraça que destruiria a vida de todos: a sua, a de Elspeth, a de Billie e a de Anthony.

— Raios! — praguejou, e levantou-se.

Despiu a roupa interior e tomou um banho rápido. Quando fechava os olhos via Billie: os seus olhos escuros a cintilarem, a sua boca vermelha a sorrir, o seu pescoço. Vestiu umas calças de flanela e uma camisola, calçou uns ténis e cambaleou escada abaixo.

Elspeth esperava-o no vestíbulo, a única parte do edifício onde a entrada de raparigas era habitualmente permitida. Era uma sala espaçosa, com uma lareira e cadeiras confortáveis. Estava deslumbrante como sempre, num vestido de lã azul e com um grande chapéu. Ontem, esta visão alegrar-lhe-ia o coração; hoje, saber que ela se vestira daquela forma para ele fazia-o sentir-se ainda mais miserável.

Ela riu-se quando o viu.

— Pareces um rapazinho que não consegue acordar!

Luke deu-lhe um beijo na cara e afundou-se num cadeirão.

— Levei horas a chegar a Newport — disse ele.

— É óbvio que te esqueceste que me convidaste para almoçar — declarou Elspeth alegremente.

Olhou para ela. Era bela, mas não a amava. Não sabia se alguma vez a amara, mas tinha a certeza de que, se tal sucedera, agora não a amava mais. Sentia-se o pior dos canalhas. Ela estava tão contente e ele ia estragar-lhe a felicidade. Não sabia como lho haveria de dizer. Sentia-se tão envergonhado... Tinha de dizer alguma coisa.

— Podemos deixar o almoço para outro dia? Ainda nem sequer fiz a barba.

Um laivo de preocupação atravessou-lhe o orgulhoso e pálido rosto e Luke compreendeu que ela sabia perfeitamente que havia algo de errado. No entanto, respondeu como se não fosse nada.

— Claro — concordou -, os príncipes encantados precisam do seu sono de beleza.

Luke prometeu a si mesmo que mais tarde teria uma conversa franca com ela e seria totalmente honesto.
— Desculpa, estiveste a vestir-te para nada — disse ele com um ar infeliz.

— Não foi para nada, vim ver-te. E os teus colegas de dormitório também parecem ter gostado do meu conjunto — retorquiu ela enquanto se levantava. — De qualquer forma, o professor e Mistress Durkhan vão dar uma festa.

Luke levantou-se e ajudou-a a vestir o casaco.

— Podíamos encontrar-nos mais tarde — sugeriu. Tinha de contar-lhe tudo nesse dia, seria indecente deixar passar mais tempo sem lhe revelar toda a verdade.

— Seria óptimo — concordou ela alegremente. — Vai buscar-me às seis. — Soprou-lhe um beijo e saiu como se fosse uma estrela de cinema. Luke sabia que tudo não passava de uma representação, embora ela fosse uma boa actriz.

Voltou para o quarto. Anthony estava a ler o jornal de domingo.

— Fiz café — disse ele.

— Obrigado — agradeceu Luke, e serviu-se de uma chávena.

— Devo-te um grande favor — continuou Anthony. — Ontem à noite salvaste a Billie.

— Farias o mesmo por mim — asseverou Luke. Bebeu o café e começou a sentir-se melhor. — Parece que nos safámos. Alguém te disse alguma coisa esta manhã?

— Nem uma palavra.

— A Billie é uma rapariga e peras! — continuou Luke. Sabia que era perigoso falar sobre ela, mas não conseguia evitá-lo.

— É estupenda — concordou Anthony. Luke observou com desânimo o ar de orgulho do colega de quarto. — Estava sempre a perguntar a mim mesmo porque não haveria ela de sair comigo, mas nunca acreditei que aceitasse, nem sei porquê. Talvez por ser tão bonita e elegante. Quando ela disse que sim nem acreditei nos Meus ouvidos. Quase lho pedi por escrito.

Afirmações exageradas eram a maneira de Anthony de ser engraçado e Luke forçou um sorriso, embora se sentisse aterrado. Roubar a namorada alheia era uma atitude desprezível, fosse em que circunstâncias fosse, mas o facto de Anthony estar obviamente louco por Billie tornava as coisas ainda piores.

Lukc suspirou.

— O que se passa? — perguntou Anthony Luke decidiu contar-lhe a verdade.

— Já não estou apaixonado pela Elspeth. Acho que terei de terminar tudo.

Anthony ficou com um ar chocado.

— Que pena. Faziam um belo par.

— Sinto-me um idiota.

— Não te recrimines. Acontece. Não são casados, nem sequer estão noivos.

— Não oficialmente.

Anthony franziu as sobrancelhas.

—   Pediste-a em casamento?

—   Não.

—   Então, não estão noivos, oficial ou oficiosamente.

—   Conversámos sobre o número de filhos que gostaríamos de ter.

—   Ainda assim, não estão noivos.

—   Acho que tens razão, mas sinto-me um canalha à mesma. Ouviram bater à porta e um homem que Luke nunca vira entrou.

— Mister Lucas e Mister Carroll, suponho?

Usava um fato muito puído, mas tinha um ar arrogante, e Luke supôs que fosse um dos funcionários da universidade encarregue de zelar pela disciplina.

Anthony levantou-se de um pulo e disse:

— Sim. E o senhor deve ser o doutor útero, o famoso ginecologista. Graças a Deus que chegou!

Luke não se riu. o homem trazia dois envelopes brancos e Lukc pressentiu que não era coisa boa.

— Sou o secretário do reitor. Pediu-me que vos entregasse estes envelopes pessoalmente — declarou. Deu um envelope a cada um e saiu.

— Bolas! — exclamou Anthony quando a porta se fechou. Luke abriu o seu envelope e leu o pequeno bilhete que este continha.

 

Caro Mr Lucas,

Queira ter a amabilidade de vir ao meu gabinete às três da tarde. Cumprimentos. Peter Ryãer Reitor

 

Estas cartas implicavam sempre problemas disciplinares. Alguém fizera queixa de que estivera uma rapariga no dormitório. Anthony seria provavelmente expulso.

Luke nunca vira o colega de quarto assustado — a sua despreocupação parecia sempre inabalável -, mas agora estava aterrado e pálido,

— Não posso voltar para casa — murmurou.

Nunca falara muito sobre os pais, mas Luke tinha uma vaga imagem de um pai tirano e de uma mãe resignada. Agora acreditava que a realidade poderia ser bem pior do que imaginara.

Ouviram novamente alguém a bater à porta e Geoff Pidgeon, o amistoso e rechonchudo ocupante do quarto em frente, entrou.

— Aquele não era o secretário do reitor?

— Podes crer — confirmou Luke, acenando com a carta.

— Eu não disse nada a ninguém sobre a rapariga de ontem à noite.

— Então, quem terá sido? — indagou Anthony. — o único delator do dormitório é o Jenkins; (Paul Jenkins era um religioso fanático, cuja missão na vida era lutar pela moral e bons costumes dos rapazes de Harvard), mas ele foi passar o fim-de-semana fora.

— Não chegou a ir — disse Pidgeon. — Mudou de planos.

— Então foi ele — concluiu Anthony. — Vou estrangular aquele sacana com as minhas próprias mãos!

Se Anthony fosse expulso, compreendeu Luke de repente, Billie ficaria livre. Sentiu-se envergonhado por ter tido um pensamento tão egoísta quando a vida do seu amigo estava prestes a ficar arruinada. Depois, ocorreu-lhe que Billie também deveria estar em apuros.

— Será que a Elspeth e a Billie também receberam cartas? — inquiriu Luke.

— Porque haveriam de ter recebido? — questionou Anthony

— O Jenkins deve saber os nomes das nossas namoradas. Tem um interesse lascivo por essas coisas.

— Se isso for verdade, podemos estar certos de que também fez queixa delas — disse Pidgeon.

— A Elspeth está safa. Não entrou aqui e ninguém pode provar o contrário, mas a Billie pode ser expulsa. Assim, perderá a bolsa de estudos, segundo o que me explicou a noite passada. Não poderá estudar em mais parte nenhuma — adiantou Luke.

— Não posso preocupar-me com ela agora — disse Anthony

— Tenho de pensar no que hei-de fazer.

Luke ficou chocado. Anthony colocara Billie em apuros e, segundo o seu código moral, deveria estar mais preocupado com ela do que consigo próprio. Todavia, vislumbrou aí um pretexto para falar com Billie e não resistiu. Reprimindo um sentimento de culpa, sugeriu:

— E se eu fosse ao dormitório das raparigas ver se a Billie já regressou de Newport?

— Farias isso? — indagou Anthony. — Obrigado.

Pidgeon saiu. Anthony sentou-se na cama a fumar sombriamente, enquanto Luke fazia a barba e trocava de roupa. Embora tivesse pressa, dedicou alguma atenção à roupa que escolheu: uma camisa azul-clara, um novo par de calças e o seu casaco de tweed cinzento favorito.

Eram duas da tarde quando chegou ao dormitório de Radcliffe. os edifícios de tijolo encarnado estavam dispostos em torno de um pequeno parque onde os estudantes passeavam aos pares. Fora aqui que beijara Elspeth pela primeira vez, recordou tristemente, num sábado à meia-noite, no final do primeiro encontro. Detestava homens que trocavam de rapariga como trocavam de camisa e, no entanto, estava a fazer precisamente o mesmo, mas não conseguia impedi-lo.

Uma funcionária de uniforme acompanhou-o ao vestíbulo. Luke pediu para falar com Billie. A funcionária sentou-se à secretáría, pegou num tubo acústico semelhante aos usados nos navios, soprou para o bocal e anunciou: «Visita para MissJosephson. »

Billie desceu vestindo uma camisola de caxemira cinzenta-clara e uma saia de xadrez. Estava linda, mas perturbada, e Luke desejou abraçá-la e confortá-la. Também ela fora chamada ao gabinete de Peter Ryder e confirmou que o homem que lhe entregara a carta também deixara uma para Elspeth.

Levou-o para a sala de fumo, onde era permitido às raparigas receber visitas do sexo masculino.

— O que hei-de fazer? — lamentou-se. o seu rosto estava alterado pela aflição. Parecia uma viúva desolada.

Luke achou-a ainda mais deslumbrante que no dia anterior. Ansiava por dizer-lhe que resolveria tudo, mas não conseguia vislumbrar qualquer solução.

— O Anthony podia argumentar que era outra pessoa que estava no quarto, mas teria de dizer quem era — alvitrou ele.

— Nem sei o que vou dizer à minha mãe! — Talvez pudesse pagar a uma mulher da rua e dizer que era ela.

Billie acenou que não com a cabeça.

Não iriam acreditar nele.

— E o jenkins com certeza que diria que não era aquela a rapariga que vira. Foi ele que te denunciou.

— A minha carreira está arruinada — afirmou ela. Depois, com um sorriso amargo, acrescentou: — Terei de regressar a Dallas e ser secretária de um industrial do petróleo com botas de cowboy.

Vinte e quatro horas atrás, Luke era um homem feliz. Era difícil de acreditar.

Duas raparigas de casaco e chapéu com as faces muito ruborizadas irromperam pela sala.

— Já ouviram as notícias? — perguntou uma delas.

Luke não estava interessado nas notícias. Abanou a cabeça. Billie perguntou distraidamente:

— O que aconteceu?

— Estamos em guerra!

— O quê?! — espantou-se Luke, franzindo as sobrancelhas.

— É verdade — confirmou a segunda rapariga. — Os Japoneses bombardearam o Havai!

Luke mal podia acreditar.

— O Havai? Para quê? o que há no Havai?

— Isso é verdade? — perguntou Billie.

— Toda a gente fala do bombardeamento na rua. As pessoas até param os carros — asseverou a rapariga.

Billie olhou para Luke.

— Tenho medo, Luke.

Ele pegou-lhe nas mãos. A sua vontade era dizer-lhe que tomaria conta dela, acontecesse o que acontecesse.

Entraram mais duas raparigas, que falavam com grande excitação. Alguém trouxe um rádio para baixo e ligou-o a uma tomada. Seguiu-se um silêncio expectante, enquanto todos esperavam que o aparelho aquecesse. Ouviu-se então a voz de um locutor dizer: «Em Pearl Harbor, o couraçado Arizona foi destruído e o hiahoma afundou-se. Os primeiros relatos afirmam que mais de cem aviões americanos foram bombardeados no solo na base naval de Ford Island e em Wheeler Field e Hickam Field. Estima-se que as baixas americanas rondem dois mil mortos e mil feridos. »

Luke sentiu-se invadido por uma ira inesperada.

— Duas mil pessoas mortas! — exclamou.

Um grupo de raparigas excitadas que entrou na sala foi mandado calar de forma bastante rude. o locutor continuou: O inesperado ataque japonês começou às sete e cinquenta e cinco da manhã, hora local.»

— Isto significa que vamos entrar na guerra, não é? — perguntou Billie.

— Podes apostar! — respondeu Luke colericamente. Sabia que era ridículo e irracional odiar uma nação inteira, mas era assim que se sentia. — Gostava de arrasar o Japão!

— Não quero que vás para a guerra — implorou ela, apertando-lhe a mão. Havia lágrimas nos seus olhos. — Não quero ver-te ferido.

O seu coração quase explodiu de alegria perante a atitude dela

— Fico tão feliz que penses assim!... — exclamou. Depois sorriu lugubremente. — o mundo desmorona-se e eu sinto-me feliz.

— Olhou para o relógio. — Acho que, apesar de estarmos em guerra, teremos de falar à mesma com o reitor. — Ocorreu-lhe nesse instante uma ideia, mas ficou calado.

— Que foi? — perguntou Bíllie. — Que se passa?

— Talvez haja, de facto, uma forma de tu e o Anthony ficarem em Harvard.

— Qual?

— Deixa-me pensar.

Elspeth estava nervosa, mas repetia para si mesma que não havia motivo para recear fosse o que fosse. Contornara o recolher obrigatório na noite anterior, porém não fora apanhada. Tinha quase a certeza de que nada disto tinha a ver consigo e com Luke, Quem estava em apuros eram Anthony e Billie. Elspeth mal conhecia Billie, mas gostava de Anthony e tinha um pressentimento de que ele iria ser expulso.

Os quatro encontraram-se à porta do gabinete do reitor.

— Tenho um plano — declarou Luke, mas, antes de se poder explicar, o reitor abriu a porta e convidou-os a entrar. Luke apenas teve tempo de dizer: — Deixem-me ser eu a falar.

O reitor Peter Ryder era um homem de trato difícil e antiquado. Vestia um fato bem engomado, composto por casaco e colete pretos e calças cinzentas de riscas. o laço formava uma borboleta perfeita, as botas brilhavam e o cabelo lustroso parecia tinta preta sobre um ovo cozido. A seu lado encontrava-se uma solteirona já grisalha chamada Iris Rayford, responsável pela conduta moral das raparigas de Radcliffe.

Sentaram-se em cadeiras dispostas em círculo. o reitor acendeu um cigarro.

— Bom, rapazes, é melhor contarem-me a verdade, como verdadeiros cavalheiros — começou. — o que aconteceu no vosso quarto ontem à noite?

Anthony ignorou a pergunta de Ryder e agiu como se fosse ele quem dirigia a reunião.

—   Onde está o Jenkins? — inquiriu laconicamente. — É ele o delator, não é?

— Não foi solicitada a mais ninguém a presença nesta reunião -anunciou o reitor.

— Mas um homem tem o direito de ser confrontado pelo seu adoracus

— Não estamos no tribunal, Mister Carroll — disse o reitor, já irritado. — Miss Rayford e eu queremos apenas tomar conhecimento dos factos ocorridos. Quaisquer procedimentos disciplinares, se considerados necessários, serão tomados na devida altura.

Não me parece que isso seja aceitável — argumentou arrogantemente Anthony — o Jenkins deveria estar aqui.

Elspeth percebeu o que Anthony estava a fazer. Esperava que Jenkins; não tivesse coragem suficiente de repetir as acusações na sua cara. Se tal acontecesse, a universidade teria de esquecer o caso. Elspeth não acreditava que resultasse, mas valia a pena tentar.

No entanto, Luke interrompeu a discussão.

— Já chega — disse, com um gesto impaciente. Dirigiu então a palavra ao reitor. — Fui eu quem levou uma mulher para o dormitório ontem à noite.

Elspeth sobressaltou-se. o que estava ele a dizer? o reitor franziu a testa.

— Segundo me informaram, foi Mister Carroll quem convidou a dita senhora a entrar — asseverou o reitor.

— Receio que tenha sido mal informado — contrapôs Luke.

— Isso não é verdade! — exclamou Elspeth.

Luke lançou-lhe um olhar glacial.

— Miss Twomey estava no seu dormitório por volta da meia-noite, como o registo da funcionária nocturna poderá comprovar — continuou Luke.

Elspeth olhou-o fixamente. o livro comprovaria esse facto, pois uma amiga falsificara a sua assinatura. Compreendeu que o melhor era calar-se, antes que acabasse por arranjar problemas para si mesma, mas o que estava Luke a fazer?

Anthony perguntava-se exactamente o mesmo. Olhando para Luke, baralhado, disse:

— Não sei o que pretendes, mas...

— Deixa-me contar como as coisas se passaram — pediu Luke. Anthony parecia indeciso e o amigo acrescentou: — Por favor. Anthony encolheu os ombros.

— Continue, por favor, Mister Lucas, estou ansioso por ouvir a sua história — disse o reitor sarcasticamente.

— Conheci a rapariga na Dew Drop Inn — começou Luke. Miss Rayford falou pela primeira vez:

— A Dew Drop Inn? — perguntou, incrédula. — Isso é um trocadilho?

— Sim.

— Continue.

— O nome dela é Angela Carlotti e é empregada lá.

O reitor não estava claramente a acreditar numa única palavra.

— Segundo sei, a rapariga que foi vista no dormitório masculino foi Míss Josephson, aqui presente — declarou o reitor.

— Está enganado, senhor reitor — afirmou Luke no mesmo tom de quem acaba de proferir uma verdade inabalável. — Miss Josephson é nossa amiga, mas não se encontrava na cidade. Passou a noite em casa de um familiar em Newport, Rhode Island.

— O familiar pode confirmar isso? — perguntou Miss Rayford a Billie.

 

O trocadilho reside na semelhança fonética de Dew Drop Inn (Estalagem da Gota de Orvalho) e  «Do drop in» («Faça favor de entrar»). (N. da T.)

 

Esta olhou estupefacta para Luke e depois respondeu:

— Sim, Miss Rayford.

Elspeth olhava Luke fixamente. Estaria mesmo disposto a sacrificar a sua carreira para salvar Anthony? Era uma loucura! Luke sempre fora um amigo dedicado, mas isto já era de mais.

— Pode apresentar essa... empregada? — inquiriu. Ryder, pronunciando a palavra «empregada» com desprezo, como se estivesse a dizer «prostituta».

— Sim, senhor reitor, posso.

O reitor ficou surpreendido. Elspeth estava espantada. Teria Luke pago a uma rapariga para se fazer passar por culpada? Não resultaria, pois Jenkins juraria a pés juntos que não era aquela a rapariga. Então, Luke acrescentou:

— Todavia, não pretendo envolver a rapariga nisto.

— Nesse caso, será difícil aceitar a sua história — replicou o reitor. Elspeth estava confusa. Luke contara uma história pouco plausível e agora não tinha forma de a confirmar. Onde quereria chegar?

— Acho que a presença de Miss Carlotti não será necessária — argumentou Luke.

— Permita-me discordar, Mister Lucas.

Foi então que Luke largou a bomba que guardara para o fim:

— Pretendo deixar a universidade hoje à noite, senhor reitor.

— Luke! — exclamou Anthony.

— Não valerá de nada ir-se embora antes de ser expulso. A investigação decorrerá à mesma — contrapôs o reitor.

— O nosso país está em guerra.

— Eu sei, Mister Lucas.

— Vou alistar-me no Exército amanhã de manhã, senhor reitor.

— Não! — gritou Elspeth.

Pela primeira vez, o reitor ficou sem resposta. Olhava para Luke boquiaberto.

Elspeth percebeu que Luke jogara bem a sua cartada. A universidade não iria abrir um processo disciplinar contra um rapaz que ia arriscar a vida pelo seu país. E se não houvesse investigação, Billie estava safa.

Uma nuvem negra atravessou-lhe o olhar. Luke sacrificara tudo, mas para salvar Billie.

Miss Rayford poderia ainda exigir o testemunho do primo de Billie, mas este certamente que mentiria por ela. Radcliffe não poderia esperar que Billie apresentasse a empregada Angela Carlotti.

Mas nada disso interessava agora a Elspeth. A única coisa em que pensava era que acabara de perder Luke.

Ryder murmurava qualquer coisa sobre o relatório que teria de fazer e Miss Rayford fez um grande espalhafato para que Billie lhe desse a morada do primo. Porém, tudo não passava de camuflagem. Tinham sido derrotados e sabiam-no.

Os quatro foram finalmente dispensados.

Assim que a porta se fechou, Billie irrompeu em lágrimas.

— Não vás para a guerra, Luke! — implorou ela.

— Salvaste-me a vida — disse Anthony, abraçando o amigo. Nunca me esquecerei do que fizeste por mim, nunca. — Afastou-se de Luke e pegou na mão de Billie. — Não te preocupes, ele é demasiado esperto para se deixar matar — asseverou.

Luke voltou-se para Elspeth. Quando os seus olhos se cruzaram, ele estremeceu e ela compreendeu que a ira deveria ser bem visível no seu rosto. Não se importou com isso. Olhou fixamente para ele durante algum tempo e depois levantou a mão e deu-lhe uma bofetada na cara. Luke soltou um gemido involuntário de dor e surpresa.

— Grande canalha! — exclamou ela.

Depois voltou-lhe as costas e afastou-se.

 

Uma da tarde

Cada motor Baby Sergeant tem 1,2 metros de comprimento, 15,2 centímetros de diâmetro e pesa 26,7 quilogramas. Funcionam apenas durante seis segundos e meio.

Luke procurava uma rua residencial calma. Washington era-lhe completamente estranha, como se nunca ali tivesse estado. Ao afastar-se de Union Station, escolhera uma direcção ao acaso e rumara para oeste. A rua conduzira-o ainda mais para o centro da cidade, um local de vistas impressionantes e grandiosos edifícios governamentais. Talvez fosse belo, mas ele achava-o intimidante. No entanto, sabia que, se continuasse a andar em linha recta, acabaria por chegar a um local onde as famílias normais viviam em casas normais.

Atravessou um rio e deu consigo num bonito subúrbio de ruas estreitas orladas de árvores. Passou por um edifício com uma tabuleta onde se podia ler «Georgetown Mind Hospital» e supôs que a zona se chamasse Georgetown. Virou para uma rua de casas modestas, bastante prometedora. As pessoas não deveriam ter empregados domésticos a tempo inteiro, por isso, havia boas hipóteses de encontrar uma casa vazia.

A rua fazia esquina e terminava num cemitério. Luke estacionou o Ford roubado com a parte dianteira virada para a saída da rua, para o caso de ter de fugir à pressa.

Precisaria de algumas ferramentas básicas, como um escopro ou uma chave de fendas e um martelo. Provavelmente, haveria um pequeno estojo de ferramentas no porta-bagagens, mas este estava trancado. Podia arrombar a fechadura, se conseguisse encontrar um pedaço de arame, caso contrário, teria de se deslocar a uma loja de ferramentas e comprar, ou roubar, o que necessitava.

Voltou-se para o banco traseiro e puxou a mala que roubara. Ao remexer nas roupas, encontrou uma pasta de arquivo que continha papéis. Tirou um clipe e fechou a mala.

Demorou cerca de trinta segundos a abrir o porta-bagagens. Tal como esperava, havia algumas ferramentas numa caixa de estanho ao lado do macaco. Escolheu a maior das chaves de fendas. Não havia martelo, mas encontrou uma pesada chave de porcas, que serviria na perfeição. Colocou-as no bolso do sobretudo esfarrapado e fechou o porta-bagagens.

Tirou a mala do carro, fechou a porta e dobrou a esquina. Sabia que um vagabundo maltrapilho a passear-se num bom bairro com uma mala cara não passaria despercebido. Se os moradores chamassem a polícia e esta não tivesse nada melhor para fazer, ficaria em apuros num piscar de olhos. Por outro lado, se tudo corresse bem, poderia estar lavado, barbeado e vestido como um cidadão respeitável em meia hora.

Tentou a sua sorte na primeira casa da rua. Atravessou um pequeno pátio e bateu à porta.

Rosemary Siras viu um bonito carro azul e branco passar lentamente frente à sua casa e perguntou-se de quem seria. Os Browning podiam ter comprado um carro novo, dinheiro não lhes faltava. Ou talvez fosse de Mr. Cyrus, que era solteiro e não tinha de privar-se de certas coisas. Se assim não fosse, pensou, só poderia pertencer a um estranho.

Tinha ainda boa vista e conseguia abarcar grande parte da rua da sua confortável cadeira colocada frente à janela do segundo andar, especialmente no Inverno, quando as árvores ficavam despidas de folhas, por isso, viu bem o estranho quando este virou a esquina. E «estranho» era a palavra certa. Não usava chapéu, o sobretudo estava rasgado e os sapatos atados com cordéis, para não se desfazerem. Todavia, trazia na mão uma mala com um aspecto novo.

Viu-o dirigir-se para casa de Mrs. Britsky e bater à porta. Era viúva e vivia sozinha, mas não era nenhuma tola. Mrs. Siras sabia que ela se livraria rapidamente do desconhecido. De facto, Mrs. Britsky olhou pela janela e acenou-lhe para que se fosse embora com um gesto peremptório.

Encaminhou-se para a casa ao lado e bateu à porta de Mrs. Lowe, que não se mostrou relutante em abri-la. Era uma mulher alta, de cabelo preto, demasiado orgulhosa, na opinião de Mrs. Siras. Trocou algumas palavras com o visitante e depois fechou a porta.

Seguiu para a casa seguinte, aparentemente planeando percorrer a rua toda. A jovem Jearmie Evans veio à porta com a filha, Rita, ao colo. Tirou qualquer coisa do bolso do avental, talvez algumas moedas, e estendeu-lha. Com que então, era um pedinte!.. Mr. Clark veio à porta de roupão e chinelos. o estranho não conseguiu nada dele.

O proprietário da casa seguinte, Mr. Bonetti, estava a trabalhar e a esposa, Angelina, grávida de sete meses, saíra há coisa de cinco minutos com uma sacola no braço, sem dúvida para ir às compras. o estranho não teria sorte.

Por esta altura, Luke tivera já tempo de examinar as portas, que eram todas iguais. Tinham fechaduras Yale, daquelas com uma lingueta na espessura da porta e uma cavidade metálica na ombreira. A fechadura era accionada do lado de fora com uma chave e do lado de dentro com uma maçaneta.

Cada porta tinha uma pequena janela de vidro fosco a altura da cabeça. A melhor forma de a arrombar seria partir o vidro e meter a mão por dentro para alcançar a maçaneta. Contudo, uma janela partida seria facilmente vista da rua. Assim, decidiu usar a chave de fendas.

Olhou para ambos os lados da rua. Tivera azar e fora obrigado a bater a cinco portas até encontrar uma casa vazia. Por esta altura, talvez já tivesse atraído as atenções, mas não via ninguém. De qualquer forma, não tinha escolha. Tinha de arriscar.

Mrs. Siras virou-se de costas para a janela e levantou o auscultador do telefone, que se encontrava ao lado da cadeira. Lenta e cuidadosamente, marcou o número da esquadra local, que sabia de cor.

Luke tinha de agir com rapidez. Inseriu a ponta da chave de fendas entre a porta e a ombreira ao nível da fechadura. Depois bateu no cabo da chave de fendas com a pesada chave de porcas, tentando forçar a ponta da chave a entrar na cavidade metálica.

À primeira pancada a chave de fendas não se mexeu. Estava encravada no metal da cavidade. Abanou-a, tentando encontrar um ponto onde entrasse. Usou de novo a chave de porcas, desta vez com mais força. Ainda assim, a chave de fendas não conseguiu penetrar na cavidade metálica. Sentiu gotas de suor começarem a formar-se na sua testa, apesar do frio.

Com um esforço, ordenou a si mesmo que se mantivesse calmo. já fizera isto antes. Quando? Não fazia ideia. Não importava. A técnica funcionava, tinha a certeza.

Abanou novamente a chave de fendas. Desta vez, pareceu-lhe que a ponta da chave conseguira entrar numa ranhura. Martelou outra vez, com toda a força que tinha. A chave de fendas avançou dois centímetros.

Empurrou o cabo da chave para o lado, obrigando a lingueta da fechadura a sair da cavidade metálica. Para seu grande alívio, a porta abriu-se.

O estrago provocado na fechadura era demasiado pequeno para ser visto da rua,

Entrou rapidamente e fechou a porta.

Quando Rosemary Siras acabou de marcar o número, olhou pela janela de novo, mas o estranho havia desaparecido. Fora rápido. Alguém atendeu da esquadra. Sentindo-se confusa, desligou o telefone sem falar.

Porque parara o homem subitamente de bater às portas? Para onde tinha ido? Quem seria?

Sorriu. Tinha algo com que ocupar o pensamento durante o resto do dia.

Era a residência de um casal jovem. A casa estava mobilada com um misto de presentes de casamento e coisas compradas em lojas de velharias. Na sala de estar havia um sofá novo e um grande televisor, mas ainda utilizavam caixas de fruta na cozinha para guardar algumas coisas. Sobre o írradiador do vestíbulo encontrava-se uma carta por abrir endereçada a Mr. G. Bonetti.

Não havia vestígios de crianças. Muito provavelmente, Mr. e Mrs. Bonetti trabalhavam e estariam fora todo o dia. No entanto, não podia contar com isso e precisava de se despachar.

Subiu rapidamente ao andar superior. Havia três quartos, mas só um deles estava mobilado. Colocou a mala sobre a cama e abriu-a. No seu interior encontrou um fato azul de risca branca cuidadosamente dobrado, uma camisa branca e uma gravata de riscas. Havia ainda meias escuras, roupa interior lavada e um par de sapatos bem engraxados, que pareciam ser apenas um número acima do seu.

Despiu as suas roupas imundas e lançou-as para um canto. Estar assim nu na casa de estranhos era um pouco constrangedor. Ainda considerou a hipótese de não tomar banho, mas cheirava mal, mesmo a si próprio.

Atravessou o pequeno patamar até à casa de banho. A sensação de estar debaixo de água quente a ensaboar-se era extremamente reconfortante. Quando saiu da banheira, ficou quieto e atento a qualquer barulho. A casa permanecia silenciosa.

Secou-se a uma das toalhas cor-de-rosa de Mrs. Bonetti

«Outro presente de casamento», pensou — e vestiu as cuecas, calças, meias e sapatos que tirara da mala. Estar pelo menos meio vestido já apressaria a fuga, se algo corresse mal enquanto se barbeava.

Mr. Bonetti usava máquina de barbear eléctrica, mas Luke preferia a lâmina. Na mala encontrou uma lâmina de barbear e um pincel da barba. Ensaboou a cara e barbeou-se rapidamente.

Mr. Bonetti não tinha after-shave, mas talvez encontrasse um na mala. Depois de tresandar toda a manhã, Luke afeiçoara-se à ideia de cheirar bem. Encontrou um bonito estojo de pele para artigos de higiene com um fecho de correr e abriu-o. Em vez de um frasco de after-shave encontrou cem dólares em notas de vinte, cuidadosamente dobradas: dinheiro de emergência. Enfiou o dinheiro no bolso, planeando devolvê-lo ao dono um dia. Ao fim e ao cabo, o homem não era um colaborador. E o que é que isso quereria dizer?

Outro mistério. Vestiu a camisa, pós a gravata e enfiou o casaco. Assentavam-lhe bem: tivera o cuidado de escolher uma vítima da sua altura e com uma constituição semelhante. As roupas eram de boa qualidade. A etiqueta da mala revelava um endereço em Central Park South, Nova lorque. Luke supôs que o dono fosse um empresário que viera a Washington para uma série de reuniões.

Havia um espelho de corpo inteiro atrás da porta do quarto. Desde que saíra da casa de banho dos homens de Union Station, naquela manhã, que não via o seu reflexo.

Aproximou-se do espelho, preparando-se para o que iria encontrar.

Viu um homem alto, em boa forma, com trinta e muitos anos, cabelo preto e olhos azuis: uma pessoa normal, com um aspecto cansado. Uma estranha sensação de alívio invadiu-o.

Como é que um indivíduo com aquele aspecto ganharia a vida?, interrogou-se.

As suas mãos eram macias e agora que estavam limpas não se pareciam nada com as de um trabalhador manual. A pele do rosto era aveludada, como a de quem não passa muito tempo na rua à mercê das intempéries, e o cabelo estava bem cortado. o reflexo no espelho revelava alguém que parecia confortável nas roupas de um homem de negócios. Não era, decididamente, um polícia.

Não havia nenhum chapéu ou sobretudo na mala e Luke sabia que não passaria despercebido sem ambos num dia frio de janeiro. Interrogou-se se não encontraria alguma coisa ali por casa. Valia a pena perder mais alguns segundos à procura.

Abriu o armário. Não havia muita coisa no seu interior. Mrs. Bonetti possuía três vestidos e o marido tinha um casaco desportivo para os fins-de-semana e um fato escuro, que provavelmente usaria para ir à igreja. Não havia nenhum sobretudo — Mr. Bonetti deveria tê-lo vestido e não tinha dinheiro para comprar outro -, mas encontrou uma gabardina. Tirou-a da cruzeta. Era melhor que nada. Vestiu-a. Era um tamanho abaixo, mas teria de servir.

Também não encontrou nenhum chapéu no armário, mas havia uma boina de tweed, que Mr. Bonetti deveria usar aos sábados com o casaco desportivo. Luke experimentou-a. Era muito pequena. Mais tarde compraria um chapéu com algum do dinheiro que tirara do estojo de higiene. Todavia, teria de se contentar com a boina durante algum tempo.

De súbito, ouviu um barulho no andar de baixo. Ficou imóvel, escutando.

A voz de uma mulher jovem disse:

— O que aconteceu à minha porta? Uma outra voz, semelhante, respondeu:

— Parece que alguém a tentou arrombar!

Luke praguejou entre dentes. Ficara ali demasiado tempo.

— Acho que tens razão!

— Devias chamar a polícia.

Afinal, Mrs. Bonetti não tinha ido trabalhar. Provavelmente, fora às compras, encontrara uma amiga na loja e convidara-a para um café.

— Não sei... Parece que os ladrões não entraram.

— Como podes saber? É melhor verificares se não roubaram nada. Luke percebeu que tinha de sair dali depressa.

— O que há aqui para roubar? As jóias da família?

— E o televisor?

Luke abriu a janela do quarto e olhou para o pátio por onde entrara. Não havia nenhuma árvore ou tubo de escoamento por onde pudesse fugir.

— Não há nada mexido. Acho que não entraram.

— E lá em cima?

Movendo-se silenciosamente, Luke atravessou o patamar para a casa de banho. Nas traseiras da casa não havia nada, a não ser uma queda aparatosa para um pátio pavimentado.

— Vou ver.

— Não tens medo?

Ouviu-se um risinho nervoso,

— Tenho, mas é a única solução. Faríamos figura de parvas se chamássemos a polícia e não houvesse ninguém cá dentro.

Luke ouviu passos nas escadas. Escondeu-se atrás da porta da casa de banho.

Os passos aproximaram-se; ouviu as mulheres atravessarem o patamar e entrarem no quarto. Mrs. Bonetti soltou um grito.

— De quem é esta mala? — perguntou a amiga.

— Nunca a vi antes!

Luke escapulíu-se silenciosamente da casa de banho. Conseguia ver a porta do quarto aberta, mas não as duas mulheres. Desceu as escadas em bicos de pés, grato pela alcatifa.

— Que tipo de ladrão traz mala?

— Vou chamar a polícia agora mesmo. Isto mete medo! Luke abriu a porta da frente e saiu.

Sorriu. Conseguira,

Fechou a porta com cuidado e afastou-se a passos largos.

Mrs. Siras franziu as sobrancelhas, confusa. o homem que saía da casa dos Bonetti tinha a gabardina preta de Mr. Bonetti e a boina de tweed que ele usava para ver os Redskins, porém era mais encorpado e a roupa parecia não lhe assentar muito bem,

Viu-o descer a rua e virar a esquina. Teria de regressar, pois a rua não tinha saída. Pouco depois, o carro azul e branco que vira algum tempo atrás dobrou a esquina a toda a velocidade. Compreendeu então que o homem que deixara a casa era o mendigo que tinha observado. Devia ter arrombado a porta e roubado a roupa de Mr. Bonetti.

Quando o carro passou frente à sua janela, Mrs. Siras leu e decorou a matrícula.

 

Uma e meia da tarde

Os motores Sergeant foram sujeitos a trezentos testes de estática, cinquenta testes de voo e duzentos e noventa testes do sistema de ignição sem falhar nenhum.

Anthony estava sentado na sala de conferências, espumando de impaciência e frustração.

Luke andava ainda a monte por Washington. Ninguém sabia o que andaria a tramar e ele estava ali preso, a ouvir um oportunista do Departamento de Estado falar monotonamente sobre a necessidade de combater os rebeldes que se acoitavam nas montanhas em Cuba. Anthony sabia tudo sobre Fidel Castro e Che Guevara. Tinham menos de mil homens sob o seu comando. Claro que podiam ser eliminados, mas não valia a pena. Se Castro fosse assassinado, outro qualquer tomaria o seu lugar.

O que Anthony queria era sair dali para procurar Luke. Tanto ele como os seus agentes tinham já telefonado para a maioria das esquadras do distrito de Colúmbia, pedindo-lhes que relatassem quaisquer incidentes envolvendo bêbados ou vagabundos, criminosos que falassem como um professor universitário ou qualquer coisa fora do normal. Os polícias ficavam contentes por poder colaborar com a CIA: gostavam de imaginar que podiam estar envolvidos num caso de espionagem internacional.

O homem do Departamento de Estado terminou o seu discurso e iniciou-se uma mesa-redonda. Anthony sabia que a única forma de os Estados Unidos impedirem alguém como Castro de subir ao Poder era apoiar um governo reformista moderado. Felizmente para os comunistas, não havia o perigo de isso acontecer.

A porta abriu-se e Pete Maxell entrou de mansinho. Com um aceno de cabeça pediu desculpa ao presidente da reunião, George Cooperman, e sentou-se ao lado de Anthony. Passou-lhe uma pasta contendo uma pilha de relatórios policiais.

Tinha ocorrido qualquer coisa de estranho em quase todas as esquadras: uma mulher bonita, que fora presa por roubar carteiras no Jefferson Memorial, revelou ser um homem; uns quantos inconformistas tinham aberto uma jaula e libertado uma águia do jardim zoológico; um homem de Wesley Heights tentara sufocar a mulher com uma piza; um camião de entregas pertencente a uma editora religiosa espalhara a sua carga em Petworth. e, em consequência disso, o trânsito em Georgia Avenue estava bloqueado por uma avalanche de Bíblias.

Era possível que Luke tivesse saído de Washington, mas Anthony não achava muito provável. Não tinha dinheiro para apanhar um combóio ou um autocarro. Podia roubar, é claro, mas porque se daria a esse trabalho? Não tinha para onde ir. A mãe vivia em Nova Iorque e tinha uma irmã em Baltimore, mas não o sabia. Não tinha motivos para viajar.

Enquanto lia os relatórios de fúgida, escutava o seu chefe, Carl Hobart, falar sobre o embaixador dos Estados Unidos em Cuba, Earl Smith, que trabalhara arduamente para difamar líderes religiosos e outras pessoas que pretendiam reformar o país através de meios pacíficos, Anthony interrogava-se por vezes se Smith não seria um agente do Kremlin, mas o mais provável era ser simplesmente estúpido.

Um dos relatórios policiais chamou-lhe a atenção e mostrou-o a Pete.

— Isto está certo? — murmurou, incrédulo.

Pete acenou com a cabeça em sinal de assentimento.

— Um vagabundo atacou e espancou um polícia na esquina da Rua A com a Rua Sete,

— Um vagabundo espancou um -polícia?

— E não foi longe do local onde perdemos o Luke.

— É capaz de ser ele! — exclamou Anthony, entusiasmado. Carl Hobart, que discursava naquele momento, lançou-lhe um olhar de reprovação. Anthony murmurou:

— Mas porque atacaria um polícia? Roubou alguma coisa, a arma dele, por exemplo?

— Não, mas deu-lhe uma valente tareia. o homem teve de receber tratamento hospitalar. Tinha o dedo indicador da mão direita partido.

Um frémito percorreu o corpo de Anthony como se fosse um choque eléctrico.

— É ele! — bradou.

— Por amor de Deus! — queixou-se Carl Hobart. George Cooperman disse num tom bem-humorado:

— Anthony, ou bem que calas a boca, ou vais lá fora acabar a conversa, sim?

Anthony levantou-se.

— Desculpa, George. Volto num minuto. Saiu da sala e Pete seguiu-o.

— É ele — repetiu Anthony quando a porta se fechou. — Era essa a marca dele durante a guerra. Costumava fazer isso aos tipos da Gestapo, para que não pudessem voltar a apertar gatilhos. Pete tinha um ar confuso.

— Como sabe isso?

Anthony compreendeu que acabara de cometer um erro. Pete acreditava que Luke era um diplomata com um esgotamento nervoso. Não lhe contara que conhecia Luke pessoalmente. Agora, amaldiçoava-se por ter sido tão descuidado.

— Não te contei tudo — confessou, num tom indiferente. Trabalhei com ele no OSS.

— E ele tornou-se diplomata depois da guerra — discorreu Pete. De súbito, olhou para Anthony, franzindo as sobrancelhas.

— Não está simplesmente a ter problemas com a mulher, pois não?

— Não. Tenho quase a certeza que é algo mais sério. Pete aceitou a explicação.

— Deve ser um tipo bastante cruel, para partir o dedo a um polícia assim sem mais nem menos.

— Cruel? — questionou Anthony. Nunca pensara em Luke dessa forma, embora por vezes fosse, de facto, implacável. — Sim, talvez, em situações de perigo — concluiu. Conseguira emendar o seu erro, pensou, com alívio, mas tinha ainda de encontrar Luke. A que horas foi isso?

— Às nove e meia.

— Raios! Há mais de quatro horas. Por esta altura pode estar em qualquer parte da cidade!

— O que fazemos?

— Manda uns quantos homens até à Rua A com uma fotografia do Luke, para ver se alguém sabe dizer para onde se terá dirigido. Fala também com o polícia.

— Está bem.

— E se conseguires alguma coisa, não hesites em interromper esta porcaria desta reunião.

— Pode contar comigo.

Anthony voltou a entrar. George Cooperman, companheiro de Anthony durante a guerra, falava impacientemente:

— Devíamos era mandar uns quantos tipos das Forças Especiais, que eles acabavam com a gentalha do Castro num dia e meio. o homem do Departamento de Estado perguntou com nervosismo:

— Conseguiríamos manter a operação em segredo

— Não — declarou George. — Mas podíamos disfarçá-la de conflito local, como fizemos no Irão e na Guatemala.

— Desculpem-me se a pergunta for estúpida — interrompeu Carl Hobart -, mas por que motivo o que fizemos no Irão e na Guatemala é segredo?

— Porque, obviamente, não queremos dar a conhecer os nossos métodos — explicou o homem do Departamento de Estado.

— Desculpe, mas isso não faz sentido — continuou Hobart.

— Os Russos sabem que fomos nós, os iranianos e os Guatemaltecos sabem que fomos nós. Que raio, até na Europa os jornais anunciaram abertamente que tínhamos sido nós! Não enganámos ninguem, a não ser o povo americano. Qual o interesse de mentir ao nosso próprio povo?

George respondeu-lhe, já bastante irritado:

— Se as coisas viessem a público, o Congresso exigiria um inquérito, e lá teríamos os políticos atrás de nós a perguntar se tínhamos o direito de agir daquela forma, se o fizemos em conformidade com a lei e se parámos para pensar nos pobres agricultores iranianos e nos apanhadores de banana guatemaltecos!

— Talvez até nem fossem perguntas irrelevantes — persistiu Hobart, teimosamente. — Fizemos alguma coisa boa na Guatemala?

É difícil perceber a diferença entre o regime de Armas e um punhado de bandidos.

George acabou por perder a paciência.

— Que se lixe! — gritou. — Não estamos aqui para alimentar iranianos esfomeados ou dar liberdades civis a camponeses sul-americanos, por amor de Deus! A nossa missão é promover os interesses americanos, e para o Diabo com a democracia!

Seguiu-se um momento de silêncio, interrompido por Carl Hobart:

— Obrigado, George. Ainda bem que esclareceste esse ponto.

 

             Duas da tarde

Cada motor Sergeant possui um dispositivo de ignição que consiste em duas mechas eléctricas ligadas paralelamente e um rolo gelatinoso de oxídante metálico revestido por uma rolha plástica. Os dispositivos de ignição são tão sensíveis, que têm de ser desligados caso ocorra uma tempestade eléctrica num raio de vinte quilómetros em torno de Cabo Canaveral, para evitar uma ignição acidental.

Numa loja de roupa para homem em Georgetown, Luke comprou um chapéu de feltro cinzento-claro e um sobretudo de lã azul. Vestiu-os quando saiu da loja e sentiu, por fim, que podia encarar o mundo de frente.

Estava pronto para atacar os seus problemas. Primeiro, teria de aprender algumas coisas sobre a memória. Queria saber o que provocava a amnésia, se havia diferentes tipos e quanto tempo poderia durar. Mais importante ainda: precisava de informações sobre o seu tratamento ou possível cura.

Onde poderia ir para obter tais informações? A uma biblioteca. Como encontraria uma? Num mapa. Comprou um mapa das ruas de Washington no quiosque de jornais ao lado da loja de roupa e descobriu a Biblioteca Pública Central. Segundo o mapa, ficava do outro lado da cidade. Meteu-se no carro e foi até lá.

Era um edifício grandioso de estilo clássico, elevado acima do nível do solo como um templo grego. No frontão, sobre a colunata da entrada principal, estavam inscritas as seguintes palavras:

 

«CIÊNCIA — POESIA — HISTóRIA»

 

No cimo das escadas Luke hesitou, mas depois lembrou-se que era de novo um cidadão respeitável e entrou.

O efeito da sua nova aparência tornou-se imediatamente evidente. Uma bibliotecária grisalha sentada por trás do balcão levantou-se e disse:

— Posso ajudá-lo?

Luke sentiu-se ridiculamente grato por ser tratado de forma tão cortês.

— Gostaria de consultar alguns livros sobre a memória — disse.

— É na Secção de Psicologia. Se fizer o favor de me seguir, indicar-lhe-ei onde fica.

Conduziu-o por uma enorme escadaria até ao andar superior e depois apontou para um canto.

Luke percorreu a estante com os olhos. Havia muitos livros sobre psicanálise, desenvolvimento infantil e percepção, nenhum dos quais lhe seria de grande utilidade. Retirou um volume grosso intitulado o Cérebro Humano e folheou-o, mas não havia grande coisa sobre a memória, e o que havia parecia-lhe demasiado técnico. Encontrou algumas equações e informação estatística de mais fácil compreensão, mas o resto pressupunha conhecimentos de biologia que ele não detinha.

A sua atenção foi então atraída por Uma Introdução à Psicologia da Memória, da autoria de Billie josephson. Parecia mais prometedor. Tirou-o da prateleira e encontrou um capítulo sobre perturbações da memória, onde leu:

«É bastante comum a situação em que o doente ”perde a memória” é conhecida como ”amnésia total”. »

Luke estava exultante. Não era a única pessoa a quem tal acontecera.

O doente desconhece a sua identidade e não reconhecerá os seus próprios pais ou filhos. No entanto, lembra-se de muitas outras coisas e poderá ser capaz de conduzir um carro, falar línguas estrangeiras, desmontar um motor e dizer o nome do primeiro-ministro do Canadá. A designação mais correcta para este ” distúrbio seria ”amnésia autobiográfica”.»

Era exactamente o que lhe acontecera. Era ainda capaz de verificar se estava a ser seguido e ligar um carro roubado sem necessitar da chave.

A Dr.a Josephson descrevia então as linhas gerais da sua teoria, segundo a qual o cérebro continha vários e diferentes compartimentos de memória, semelhantes a diversos ficheiros de um arquivo, para armazenar tipos diferentes de informação.

«A memória autobiográfica armazena acontecimentos pessoais. Estes são classificados segundo o momento e o local onde tiveram lugar: habitualmente, sabemos não só o que aconteceu, mas quando e onde.

A memória semântica de longo prazo armazena conhecimentos gerais, como o nome da capital da Roménia e a forma de resolver equações do segundo grau.

A memória de curto prazo é onde guardamos um número de telefone nos segundos que distam entre vê-lo na lista telefónica e marcá-lo. »

Dava depois exemplos de doentes que haviam perdido um ficheiro, mas que retinham outros, como Luke. Sentiu um profundo alívio e gratidão para com a autora do livro ao verificar que o que lhe acontecera era um fenómeno psicológico amplamente estudado.

Foi então assaltado por uma ideia. Se tinha trinta e muitos anos, deveria ter desempenhado uma profissão durante uma década. os conhecimentos com ela relacionados deveriam estar ainda na sua cabeça, alojados na memória semântica de longo prazo. Deveria ser capaz de a usar para descobrir a sua profissão. E isso seria o princípio da descoberta da sua identidade!

Levantando os olhos do livro, tentou descobrir que conhecimento especial detinha. Não contou as capacidades de um agente secreto, pois havia já decidido, a julgar pela sua pele macia, que não era nenhuma espécie de polícia. Que outras capacidades especiais tinha?

Era exasperadoramente difícil de descobrir. Aceder à memória não era como abrir um frigorífico, onde de relance se pode abarcar o conteúdo, era mais como utilizar o ficheiro de uma biblioteca — era preciso saber o que se procurava. Sentiu-se frustrado, mas obrigou-se a ser paciente e pensar com calma.

Se fosse advogado, seria capaz de se recordar de milhares de leis? E se fosse médico, deveria ser capaz de olhar para alguém e dizer: «Está com uma apendicite»?

Assim não resultaria. Recordando os últimos minutos, a única coisa em que reparara fora que compreendera facilmente as equações e o material estatístico contidos no livro o Cérebro Humano, embora outras informações da área da psicologia fossem mais confusas. Talvez a sua profissão envolvesse números: contabilidade ou seguros, por exemplo. Ou talvez fosse professor de Matemática.

Encontrou a Secção de Matemática e deu uma vista de olhos pelas prateleiras. Tirou um livro chamado Teoria dos Números e folheou-o durante algum tempo. A informação era apresentada de forma clara, embora já estivesse um pouco ultrapassada...

De repente, levantou os olhos do livro. Descobrira uma coisa: entendia a teoria dos números.

Era uma pista importantíssima. A maioria das páginas do livro continha mais fórmulas que texto. Não fora escrito para um leigo curioso, era um livro académico e ele conseguia entendê-lo. Tinha de ser um cientista.

Com um crescente optimismo, localizou as estantes dedicadas à química e tirou Engenharia de Polímeros. Achou o livro compreensível, mas não muito fácil. Avançou para a física e folheou Um Símpósio sobre o Comportamento de Gases Frios e Muito Frios. Era fascinante, era como ler um bom romance.

Estava cada vez mais próximo, pensou. A sua profissão envolvia matemática e física, mas que ramo da física? Os gases frios eram um tema interessante, mas não lhe pareceu ter mais conhecimentos que o autor do livro. Perscrutou as estantes e parou nas de geofísica, lembrando-se do cabeçalho do jornal que lera de manhã: «Foguetão americano fica em terra.» De uma das prateleiras tirou Princípios de Engenharia de Foguetões.

Era um texto elementar, mas, ainda assim, encontrou um erro na primeira página em que abriu o livro. Continuando a ler, encontrou mais dois.

— É isso! — exclamou em voz alta, assustando um rapazinho que estudava um livro de biologia. Se era capaz de detectar erros num manual, tinha de ser perito nessa matéria. Era cientista espacial!

Interrogou-se sobre quantos cientistas espaciais haveria nos Estados Unidos. Supôs que existissem algumas centenas. Dirigiu-se ao balcão de informações e falou com a bibliotecária de cabelos grisalhos.

— Existe alguma espécie de lista de cientistas?

— Claro — disse ela. — Consulte o Dicionário de Cientistas Americanos, que está mesmo no início da Secção de Ciência. Encontrou-o facilmente. Era um livro grosso, mas, apesar disso, não poderia incluir todos os cientistas americanos. «Deve mencionar apenas os mais proeminentes», pensou. Não obstante, valia a pena dar uma vista de olhos. Sentou-se a uma mesa e examinou o índice, procurando alguém chamado Luke. Teve de controlar a ansiedade e obrigar-se a procurar com atenção.

Encontrou um biólogo chamado Luke Parfitt, um arqueólogo chamado Lucas Dimittry e um farmacologista chamado Luc Fontainebleu, mas nenhum físico.

Verificando mais uma vez, para se certificar de que não lhe escapara nenhum, percorreu a lista de geofísicos e astrónomos. Não encontrou ninguém com o nome de Luke, ou qualquer versão parecida. «Claro que», pensou, desanimado, «nem sequer tinha a certeza se o seu primeiro nome era Luke. Fora assim que Pete lhe chamara, mas, tanto quanto sabia, o seu verdadeiro nome até podia ser Percival.»

Estava desiludido; contudo, não desistiria.

Pensou noutra abordagem. Algures, haveria pessoas que o conheceriam. o nome Luke poderia não ser seu, mas o rosto era. o Dicionário de Cientistas Americanos apenas continha fotografias das figuras mais importantes, como o Dr. Wernher von Braun. Contudo, Luke supôs que deveria ter amigos e colegas que o reconheceriam, se os conseguisse encontrar. Agora sabia onde começar a procurar, pois alguns dos seus conhecidos deveriam ser também cientistas espaciais.

Onde poderia encontrar cientistas? Numa universidade.

Procurou a entrada «Washington, DC» na enciclopédia. Esta íncluía uma lista das universidades da cidade. Escolheu a Universidade de Georgetown, por já ter estado em Georgetown e saber o caminho para lá. identificou a universidade no mapa de ruas que comprara e viu que era bastante grande, cobrindo cerca de cinquenta quarteirões. Teria provavelmente um importante Departamento de Física, com dezenas de professores, Com certeza que um deles o conheceria.

Esperançoso, abandonou a biblioteca e meteu-se no carro.

 

Duas e meia da tarde

Os dispositivos de ignição não foram originariamente desenvolvidos para serem accionados no vácuo. Tiveram de ser, portanto, remodelados para o foguetão Jupiter C, A. de forma que o motor fique selado num contentor hermeticamente fechado; b) no caso de o contentor sofrer alguma brecha, o sistema de ignição esteja também num contentor selado; c) o dispositivo de ignição seja accionado no vácuo. Este sistema de segurança múltiplo é uma aplicação de um princípio de engenharia conhecido como «redundância».

A reunião sobre Cuba foi interrompida para um café e Anthony correu para o Edifício Q, para se informar sobre Os últimos desenvolvimentos, rezando para que a sua equipa tivesse descoberto alguma pista sobre o paradeiro de Luke.

Pete veio recebê-lo às escadas.

— Temos aqui algo de estranho — declarou, mal o viu. Esperançoso, o coração de Anthony bateu mais forte.

— O que é?

— Um relatório da polícia de Georgetown. Uma dona de casa regressou das compras e descobriu que alguém lhe arrombou a porta de casa e usou a sua casa de banho. o intruso desapareceu, deixando para trás uma mala e uma pilha de roupas imundas e esfarrapadas.

Anthony ficou delirante.

— Finalmente, uma pista! — exclamou. — Dá-me a morada.

— Acha que é ele?

— Tenho a certeza que é! Está farto de parecer um vagabundo, por isso arrombou uma casa, tomou banho, fez a barba e vestiu umas roupas decentes. É típico dele, detesta andar mal vestido. Pete fitou-o, admirado.

— Conhece-lo mesmo bem!

Anthony apercebeu-se de que cometera novo lapso.

— Não, limitei-me a ler a ficha dele — apressou-se a explicar, com brusquidão.

— Desculpe — disse Pete, e depois acrescentou: — Porque terá deixado coisas para trás?

— Suponho que a dona da casa terá chegado antes de ele estar pronto.

— E a reunião sobre Cuba?

Anthony fez parar uma secretária que passava por eles e disse-lhe:

— Se faz favor, telefone para a sala de conferências do Edifício P e diga a Mister Hobart que fiquei com dores de estômago e que Míster Maxell teve de me levar para casa.

— Dores de estômago — repetiu ela, impassível.

— Isso mesmo — confirmou Anthony, afastando-se. Depois, por cima do ombro, ainda acrescentou: — A menos que se lembre de uma desculpa melhor.

Deixou o edifício seguido por Pete e meteram-se no seu velho Cadillac amarelo.

— A situação requer cuidados especiais — declarou a Pete, enquanto se encaminhavam para Georgetown. — Foi óptimo Luke ter deixado algumas pistas. o nosso problema é não termos uma centena de homens para procurar pistas, por isso, o meu plano é conseguir pôr a polícia de Washington a trabalhar para nós.

— Boa sorte — disse Pete, cepticamente. — E eu, que faço?

— Sê simpático para os agentes e deixa a conversa comigo.

— Acho que consigo fazer isso.

Anthony acelerou e em pouco tempo encontrou o endereço que constava no relatório policial. Era uma casa pequena situada numa rua calma. Havia um carro da polícia estacionado em frente ao portão.

Antes de entrar, Anthony examinou o lado oposto da rua, escrutinando as casas. Pouco depois, encontrou o que procurava: um vulto numa janela a olhar para ele. Era uma senhora idosa de cabelos brancos. Não se afastou da janela quando os seus olhos se encontraram, continuando a fitá-lo com uma curiosidade descarada. Era exactamente o que Anthony procurava, uma vizinha intrometida. Sorriu e cumprímentou-a e ela acenou com a cabeça em resposta.

Anthony voltou-se e aproximou-se da casa que fora arrombada. Reparou nas arranhadelas e esfoladuras na ombreira da porta onde — a fechadura fora forçada. «Um trabalho profissional e bem feito, sem estragos desnecessários », pensou. Enquadrava-se bem no perfil de Luke.

A porta foi aberta por uma atraente rapariga que esperava bebé para breve, presumiu, Anthony. Conduzíu-o e a Pete até à sala de estar, onde se encontravam dois homens sentados no sofá a beber café e a fumar. Um tinha um uniforme de polícia, o outro, um homem novo com um fato barato, era provavelmente detective. Na sua frente encontrava-se uma mesa baixa de pernas largas viradas para fora. Sobre a mesa estava uma mala aberta.

Anthony apresentou-se. Mostrou a identificação apenas aos dois polícias: não queria que Mrs. Bonetti e todos os seus amigos e vizinhos soubessem que a CIA estava interessada no caso, por isso, disse:

— Somos colegas destes senhores.

O detective chamava-se Lewis Hite.

— Sabe alguma coisa sobre isto? — perguntou ele cautelosamente.

— Acho que temos algumas informações que vos podem interessar, mas primeiro preciso de saber o que descobriram — afirmou Anthony.

— Temos uma mala pertencente a alguém chamado RowIey Anstruther junior, de Nova lorque, que arromba a casa de Mistress Bonetti, toma banho e vai-se embora, deixando a mala para trás. Não se percebe porquê.

Anthony examinou a mala. Era de pele de boa qualidade e não estava nem meio cheia. Deu também uma vista de olhos pelo seu conteúdo. Havia camisas e roupa interior lavada, mas não encontrou sapatos, calças ou casacos.

— Parece que Mister Anstruther chegou a Washington hoje

— concluiu Anthony.

Hite acenou com a cabeça em sinal de confirmação, mas Mrs. Bonetti perguntou, admirada:

— Como sabe?

Anthony sorriu.

— O detective Hite explica-lhe — disse, não querendo ofender Hite, roubando-lhe a oportunidade de fazer um brilharete.

— A mala só contém roupa interior lavada — explicou Hite. o seu dono não mudou de roupa, por isso ainda não terá passado nenhuma noite fora. Isso significa que saiu de casa hoje de manhã.

— Parece-me que foram também encontradas algumas roupas velhas — acrescentou Anthony.

O polícia, cujo nome era Lonnie, disse:

— Sou eu que as tenho — e puxou uma caixa de cartão de um dos lados do sofá. — Gabardina, camisa, calças e sapatos — enumerou, remexendo no interior da caixa.

Anthony reconheceu as roupas. Eram os trapos que Luke vestia.

— Não creio que Mister Anstruther tenha vindo a esta casa anunciou Anthony. — Acho que a mala lhe foi roubada esta manhã, provavelmente em Union Station. — Olhou para o polícia. — Lonnie, importava-se de telefonar para a esquadra mais próxima da estação e perguntar se alguém apresentou queixa do roubo de uma mala? Isto é, se Mistress Bonettí permitir que usemos o seu telefone.

— Com certeza — disse ela. — Está no vestíbulo.

Anthony acrescentou:

— O relatório do furto deve incluir uma lista do conteúdo da mala. Se não me engano, descobrirá nela um fato e um par de sapatos, que não se encontram aqui. — Todos o olhavam espantados. — Aponte cuidadosamente a descrição do fato.

— Certo — disse o polícia, e dirigiu-se para o telefone. Anthony sentia-se bem. Conseguira tomar o comando da ínvestigação sem ofender os polícias. o detective Hite olhava agora para ele, como que aguardando instruções.

— Mister Anstruther deve ser um homem com um metro e oitenta e cinco, oitenta quilos, porte atlético. Lewís, se verificar o tamanho dessas camisas, verá que é o large — asseverou Anthony. É isso mesmo, já tinha verificado — assegurou Hite.

— Já devia saber que estaria um passo à minha frente — lisonjeou-o Anthony com um sorriso forçado. — Temos uma fotografia do homem que acreditamos ter roubado a mala e arrombado a casa. — Anthony acenou para Pete, que lhe entregou um maço de fotografias. — Não sabemos o nome dele — mentiu -, mas sabemos que tem um metro e oitenta e cinco, oitenta quilos, porte atlético e poderá fingir que perdeu a memória.

— Então, o que se passa? — perguntou Hite, intrigado. — Este tipo queria as roupas de Mister Anstruther e veio aqui para se mudar?

— Mais ou menos.

— Mas porquê?

Anthony fez um ar apologético e respondeu:

— Desculpe, não posso dizer-lho.

Hite estava satisfeito.

— Informação confidencial, não é? Não faz mal. Lonnie regressou à sala.

— Tinha razão sobre o roubo. Foi em Union Station, às onze e meia desta manhã.

Anthony sorriu. Impressionara bem os dois polícias.

— E quanto ao fato? — perguntou.

— Azul com risca branca.

Anthony voltou-se para o detective.

— Pronto, pode distribuir a fotografia com a descrição do suspeito, incluindo a roupa que traz vestida.

— Acha que ele não saiu da cidade?

— Acho — afirmou Anthony, embora não estivesse tão certo disso quanto aparentava. Todavia, não lhe ocorria qualquer razão que levasse Luke a sair da cidade.

— Talvez ande de carro — sugeriu o detective.

— Vamos descobrir — disse Anthony, voltando-se para Mrs. Bonetti. — Como se chama a senhora de cabelo branco que vive do outro lado da rua, duas portas abaixo?

— Rosemary Siras.

— Ela passa muito tempo à janela?

— Chamamos-lhe Rosie Abelhuda.

— Óptimo. Vamos ter uma conversinha com ela? — sugeriu ao detective.

— Vamos a isso.

Atravessaram a estrada e bateram à porta de Mrs. Siras. Ela abriu-a instantaneamente, pois já estava no vestíbulo à espera deles.

— Eu vi-o! — exclamou de imediato. — Quando entrou parecia um vagabundo e saiu todo aperaltado!

Anthony fez um gesto, indicando a Hite que conduzisse a entrevista.

— Ele tinha algum carro, Mistress Siras?

— Sim, um carro pequeno azul e branco. Pensei logo que não pertencia a ninguém aqui da rua — declarou, e depois olhou para eles com um ar astuto. -já sei o que me vão perguntar a seguir.

— Reparou na matrícula? — inquiriu Hite.

— Sim — disse ela com um ar triunfante -, e apontei-a. Anthony sorriu.

 

Três da tarde

Os andares superiores do foguetão estão contidos num tubo de alumínío com uma base de magnésiofundído. o tubo do último andar está assente sobre rolamentos que lhe permitem girar durante o voo. o tubo cumprirá quinhentas e cinquenta rotações por segundo, para melhorar a precisão do voo.

 

A Rua 37, no final da Rua 0, os portões de ferro da Universidade de Georgetown encontravam-se abertos. Dos três lados de um relvado lamacento havia edifícios de estilo gótico e estudantes e professores caminhavam apressadamente de um edifício para outro, agasalhados nos seus casacos de Inverno. Enquanto atravessava os portões, imaginou que alguém o poderia reconhecer e dizer « Olá, Luke! », e o pesadelo terminaria.

Muitos dos professores usavam cabeção e Luke percebeu que a universidade era católica e, aparentemente, só para estudantes do sexo masculino.

Interrogou-se se seria católico.

Estacionou em frente à entrada principal, um pórtico com três arcos, onde se podia ler «Ala Healy». No interior encontrou um balcão de atendimento e a primeira mulher que via desde que atravessara os portões. Esta informou-o que o Departamento de Física ficava directamente por baixo do local onde se encontravam e que para lá chegar teria de voltar a sair do edifício, virar e descer uma escadaria. Sentia que se aproximava cada vez mais do âmago do mistério, qual caçador de tesouros que penetra nas câmaras de uma pirâmide egípcia.

Seguindo as indicações da recepcionista, encontrou um grande laboratório com bancadas no centro e portas de ambos os lados, que conduziam a gabinetes mais pequenos. Numa das bancadas, um grupo de homens examinava um espectrógrafo de microndas. Todos usavam óculos. A julgar pela idade, Luke supôs que eram professores e alunos. Algum deles podia facilmente ser seu conhecido. Aproximou-se com um olhar expectante.

Um dos homens mais velhos reparou nele, mas não o reconheceu.

— Posso ajudá-lo? — perguntou.

— Espero que sim — disse Luke. — A universidade tem algum Departamento de Geofísica?

— Valha-nos Deus, não — respondeu o homem. — Nesta universidade, até a Física é considerada uma disciplina de segunda ordem. — Os outros ríram-se.

Luke deu-lhes oportunidade de olharem bem para si, mas nenhum parecia conhecê-lo. «Não fora a melhor escolha», pensou, desanimado. «Talvez devesse ter ido à Universidade George Washington. »

— E Astronomia? — indagou.

— Sim, claro. Os céus estudamos. o nosso observatório é famoso.
Sentiu-se novamente encorajado.

— Onde fica?

O homem apontou para uma porta ao fundo do laboratório e disse:

— Vá até ao extremo oposto deste edifício e encontrará o departamento do outro lado do campo de basebol. — Dito isto, voltou a sua atenção para a bancada.

Luke seguiu por um longo, escuro e sujo corredor, que percorria todo o comprimento do edifício. Ao vislumbrar um homem meio curvado, que, pela roupa, lhe pareceu um professor, a caminhar em sentido oposto, Luke olhou-o nos olhos, pronto a esboçar um sorriso se o homem o reconhecesse. Todavia, uma expressão nervosa atravessou o rosto do professor e este apressou o passo.

Destemidamente, Luke prosseguiu, exibindo o mesmo olhar a toda a gente com quem se cruzava e que podia ser um cientista; contudo, ninguém dava sinais de o reconhecer. Ao deixar o edífício, viu campos de ténis, uma faixa do rio Potomac e, para oeste, para lá dos campos de desporto, uma cúpula branca.

Aproximou-se dela com grande expectativa. No telhado plano de um pequeno edifício de dois andares encontrava-se um grande observatório giratório, cuja cúpula possuía uma secção deslizante. As dispendiosas instalações indicavam um importante Departamento de Astronomia. Luke entrou no edifício.

Os gabinetes estavam dispostos em torno de um imenso pilar central, que suportava o gigantesco peso da cúpula. Luke abriu uma porta e deparou-se com uma biblioteca vazia. Tentou outra e encontrou uma atraente rapariga, mais ou menos da sua idade, sentada a uma máquina de escrever.

— Bom dia — cumprimentou ele. — o professor está?

— Quer dizer o padre Heyden?

— Sim.

— E quem é o senhor?

— Sou. — Estupidamente, Luke não previra que teria de dar um nome. Agora, a sua hesitação só fazia com que a secretária levantasse as sobrancelhas com desconfiança. — Ele não me conhece — explicou. — Isto é... conhece-me, mas não pelo nome. A desconfiança da secretária aumentou.

— Ainda assim, deve ter um nome.

— Luke. Professor Luke.

A que universidade pertence, professor Luke? À de Nova lorque.

A qual, em particular, das muitas instituições de ensino superior de Nova lorque?

Luke ficou sem resposta. Levado pelo entusiasmo, não planeara este encontro, e agora estava claramente a meter os pés pelas mãos. «Quando estamos num buraco», pensou, «o melhor é parar de cavar.» Desfez o sorriso simpático e falou num tom seco.

— Não vim aqui para ser interrogado — disse. — informe apenas o padre Heyden de que o professor Luke, o físico espacial, passou por aqui e gostaria de trocar algumas palavras com ele, está bem?

— Receio que isso não seja possível — replicou ela, inflexível. Luke deixou o gabinete, batendo com a porta. Estava zangado consigo mesmo, mais do que com a secretária, que se limitara a proteger o seu chefe de ser importunado por um doido. Decidiu dar uma vista de olhos pelo edifício, abrindo portas até alguém o reconhecer ou ser corrido dali. Subiu as escadas que conduziam ao segundo andar. o edifício parecia estar deserto. Subiu uma escada de madeira sem corrimão e entrou no observatório. Tambem este estava vazio. Deixou-se ficar algum tempo a admirar o grande telescópio giratório com o seu complexo sistema de rodas dentadas e engrenagens, uma verdadeira obra-prima da engenharia, e interrogou-se sobre o que haveria de fazer a seguir.

A secretária subiu as escadas. Luke preparou-se para uma discussão, mas, ao invés, ela falou-lhe num tom complacente.

— Está metido em algum sarilho, não está?

A sua bondade provocou-lhe um nó na garganta.

— É muito embaraçoso — explicou ele. — Perdi a memória. Sei que trabalhava na área de engenharia espacial e esperava encontrar aqui alguém que me reconhecesse.

— Não está cá ninguém de momento — elucidou ela.

— o professor Larkley encontra-se a dar uma palestra sobre combustíveis para foguetões no Instituto Smithsonían, integrada no Ano Internacional da Geofísica, e todos os professores foram assistir.

Luke recuperou a esperança perdida. Em vez de encontrar um geofísico, encontraria uma sala inteira deles.

— Onde fica o Instituto Smithsonian?

— Fica na Baixa, exactamente no Mail, perto da Rua Oito. Pelo que já conhecia de Washington, sabia que não ficava longe,

— A que horas é a palestra?

— Começou às três.

Luke olhou para o relógio. Eram três e meia. Se se apressasse, conseguiria chegar lá por volta das quatro.

— No Smithsonian — repetiu ele, para confirmar.

— Na verdade, fica no Edifício dos Aeroplanos, nas traseiras do instituto.

— Sabe quantas pessoas estarão na palestra?

— Cerca de cento e vinte.

Sem dúvida que uma delas o conheceria!

— Obrigado — disse, e correu escadas abaixo para o exterior do edifício.

 

Três e meia da tarde

Ao girar o tubo do segundo andar estabiliza a trajectória do voo, nivelando as variações entre os onze pequenos motores individuais.

 

Billie estava furiosa com Len Ross por este ter tentado captar as boas graças das pessoas da Fundação Sowerby. o lugar de director de investigação deveria ir para o melhor cientista, não para o mais untuoso. Continuava ainda bastante aborrecida nessa tarde quando a secretária do director do hospital lhe telefonou, pedindo-lhe que fosse ao seu gabinete.

Charles Silverton era contabilista, mas compreendia as necessidades dos cientistas. o hospital era propriedade de um trust cujos objectivos eram compreender e mitigar as doenças mentais. Para Charles, a sua função era assegurar-se de que os problemas administrativos e financeiros não distraiam os médicos do seu trabalho. Billie gostava dele.

O seu gabinete fora outrora a sala de jantar da original mansão vitoriana e possuía ainda a lareira e os tectos ornamentados. Indicou uma cadeira a Billie e perguntou-lhe:

— Falaste com as pessoas da Fundação Sowerby esta manhã?

— Sim. o Len andava a mostrar-lhes as obras e eu juntei-me a eles. Porquê?

Charles respondeu-lhe com outra pergunta:

— Achas que poderias ter dito alguma coisa que os ofendesse? Billie franziu a testa, confusa.

— Acho que não. Só falámos sobre a nova ala.

— Sabes, gostava muito que tivesses ganho o lugar de director de investigação.

Ela ficou assustada.

— Não sei se gostei do tempo verbal que usaste!

— O Len Ross é um cientista competente, mas tu és excepcional. Chegaste mais longe que ele e és dez anos mais jovem — prosseguiu Charles.

— A fundação vai apoiar o Len para o lugar? Ele hesitou, parecendo embaraçado.

— Insistem que seja ele, como condição da doação.

— Uma ova! — exclamou Billie, estupefacta.

— Conheces alguém ligado à fundação?

— Sim. Um dos meus amigos é membro do conselho de administração. o seu nome é Anthony Carroll e é padrinho do meu filho.

— Por que motivo faz ele parte do conselho de administração? Qual é a sua profissão?

— Trabalha para o Departamento de Estado, mas a mãe é muito rica e está envolvida em várias obras de beneficência.

— É possível que ele tenha alguma coisa contra ti?

Por momentos, Billie recuou no tempo. Zangara-se com Anthony após a catástrofe que fizera Luke abandonar Harvard e não voltaram a sair juntos. Contudo, depois perdoara-lhe, devido à forma como ele se comportara com Elspeth. Esta nunca recuperara da ausência de Luke e descuidara os estudos, correndo o risco de não se licenciar. Vagueava pela universidade, qual fantasma pálido de cabelos ruivos, estava cada vez mais magra e faltava às aulas. Foi Anthony quem a salvou. Tornaram-se amigos íntimos. Anthony reconquistou o respeito de Billie e ficaram amigos desde então.

— Em mil novecentos e quarenta e um zangámo-nos, mas há muito que fizemos as pazes — explicou Billie.

— Talvez alguém no conselho de administração admire muito o trabalho de Len.

— A abordagem de Len é diferente da minha — alvitrou Billie.

— Ele é um freudiano, sempre em busca de explicações psicanalíticas. Se um doente perde de repente a capacidade de ler, ele presume que o doente tem algum medo inconsciente da literatura, medo esse que está a ser reprimido. Eu procuro sempre uma lesão ”cerebral como a causa mais provável.

— Então, deve haver um freudiano convicto no conselho de administração que não aprecia a tua abordagem — concluiu Charles.

— Pelos vistos... — suspirou Billie. — Eles podem fazer isso? Parece-me tão injusto...

— É no mínimo, invulgar. Normalmente, as fundações fazem questão de não interferir em decisões que requeiram conhecimentos especializados, mas não existe nenhuma lei contra isso.

— Bom, de qualquer maneira, não vou aceitar a situação de braços cruzados. Qual foi a razão que avançaram?

— Recebi um telefonema informal do presidente. Ele disse-me que o conselho acha que o Len está melhor qualificado para o lugar. Billie abanou a cabeça em sinal de desconfiança.

— Tem de haver outra explicação.

— Porque não perguntas ao teu amigo?

— É exactamente o que vou fazer — rematou ela.

 

Três e quarenta e cinco da tarde

Foi utilizado um estroboscópio para determinar com exactidão o local onde os pesos deveriam ser colocados, deforma que o tubo giratório ficasse bem equilibrado, já que, caso contrário, a armação interior vibraria dentro da armação exterior e todo o conjunto se desintegraria.

 

Luke consultara o seu mapa de Washington antes de sair da

Universidade de Georgetown. o instituto ficava num parque

chamado MaIl. Enquanto descia a Rua K olhou para o relógio. Chegaria ao Smithsonian em cerca de dez minutos. Partindo do pressuposto de que demoraria outros cinco a encontrar a sala de conferências, chegaria no final da palestra. Então, descobriria quem era.

Acordara para este pesadelo havia quase onze horas, todavia, como não se conseguia lembrar de nenhum acontecimento anterior às cinco da manhã, era como se durasse toda a sua vida.

Na Rua 9 virou à direita, encaminhando-se para sul em direcção ao Mall bastante esperançoso. Momentos depois ouviu uma sirene tocar e estremeceu.

Pelo espelho retrovisor viu um carro da polícia mesmo atrás de si com as luzes a piscar. Havia dois polícias no banco da frente. Um deles apontou para a berma do lado direito e Luke viu-o pronunciar: «Encoste.»

Ficou devastado. Por pouco não conseguira.

Quereriam apenas multá-lo por alguma pequena infracção às regras de trânsito? Mesmo que fosse só isso, pedir-lhe-iam a carta de condução e ele não tinha nada que o identificasse. De qualquer forma, não se tratava, com certeza, de uma pequena infracção. Conduzia um automóvel roubado. Calculara que o roubo só seria notado quando o dono do automóvel regressasse de Filadélfia, ao fim da noite, mas algo correra mal. Os polícias pretendiam prendê-lo. Contudo, teriam de apanhá-lo primeiro.

À sua frente, naquela rua de sentido único, seguia um comprido camião. Sem pensar duas vezes, carregou no pedal do acelerador e colocou-se ao lado do camião.

Os polícias ligaram a sírene e seguiram-no.

Luke ultrapassou o camião a grande velocidade e colocou-se à frente dele. Agindo agora sob instinto, puxou o travão de mão e rodou o volante para a direita.

O Ford derrapou ao mesmo tempo que virava. o camião guinou para a esquerda para o evitar, forçando o carro da polícia a deslocar-se também para o lado esquerdo da rua.

Luke colocou o carro em ponto morto, para que o motor não se fosse abaixo. Parou virado em sentido contrário. Meteu então a primeira e carregou no acelerador.

Os carros desviavam-se para a esquerda e para a direita, tentando evitar uma colisão frontal. Luke guinou para a direita, para se afastar de um autocarro, depois raspou numa carrinha, mas conseguiu abrir caminho por entre um coro de furiosas buzinadelas. Um velho Lincoln trepou um passeio e bateu num poste, um motociclista perdeu o controlo da moto e caiu. Luke fez figas que não se tivesse magoado.

Para chegar ao cruzamento mais próximo, virou à direita para uma larga avenida. Percorreu ainda mais dois quarteirões a grande velocidade, passando sinais vermelhos, e depois olhou pelo espelho. Nem sinal do carro da polícia.

Virou novamente, dirigindo-se agora para sul. Estava perdido, mas sabia que o Mall ficava nessa direcção. Agora que a polícia já não o perseguia, seria mais seguro conduzir normalmente. No entanto, eram quatro da tarde e estava mais longe do Smíthsonian do que há cinco minutos atrás. Se chegasse atrasado, a assistência já teria debandado. Carregou mais uma vez no acelerador.

A rua em que se encontrava, e que se dirigia para sul, não tinha saída e Luke viu-se obrigado a voltar à direita. Tentou ver os nomes das ruas à medida que avançava, ultrapassando veículos mais lentos. Estava na Rua D. Um minuto mais tarde encontrava-se na Rua 7 e virou para sul.

A sua sorte melhorou: todos os sinais estavam verdes. Ao atravessar Constitution Avenue já ia a cento e doze quilómetros por hora e logo chegou ao parque.

Do seu lado direito viu um grande edifício vermelho-escuro que se assemelhava a um castelo de um conto de fadas. Ficava exactamente onde o mapa indicava. Parou o carro e olhou para o relógio. Passavam cinco minutos das quatro. A assistência devia estar a dispersar. Praguejou e saltou do carro.

Atravessou o relvado a correr. A secretária dissera-lhe que a palestra era no Edifício dos Aeroplanos, nas traseiras do instituto. Isto seriam as traseiras ou a frente? Parecia-lhe a frente. Ao lado do edifício havia um caminho que atravessava um pequeno jardim. Seguíu-o e foi dar a uma larga avenida de dois sentidos. Ainda a correr, encontrou um elaborado portão de ferro, que conduzia à entrada traseira do museu. à sua direita, junto a um relvado, viu o que parecia ser um antigo hangar. Entrou.

Olhou em redor. Havia uma grande variedade de aeroplanos suspensos do tecto: antigos biplanos, um jacto do tempo da guerra e até um balão de ar quente. Ao nível do chão, vitrinas exibiam insígnias, fardas de aviadores, câmaras aéreas e fotografias, Luke dirigiu-se ao funcionário de uniforme.

Vim para a palestra sobre combustíveis para foguetões. Chegou tarde — informou o homem, consultando o relógio de pulso, — São quatro e dez, a palestra já terminou.

— Onde decorreu? Pode ser que ainda apanhe o orador.

— Acho que ele já saiu.

Lukc olhou-o nos olhos e disse lentamente:

— Responda à merda da pergunta. Onde? o homem ficou com um ar assustado.

— Na outra ponta do edifício — disse de rajada.

Luke apressou-se. Na extremidade do hangar fora improvisada uma sala de conferências com uma tribuna para o orador, um quadro de lousa e filas de cadeiras. A maior parte da audiência havia saído e alguns funcionários estavam já a empilhar as cadeiras junto da parede. Todavia, oito ou nove homens agrupados em redor de um indivíduo de cabelos brancos, que deveria ser o orador, permaneciam a um canto, absortos numa discussão.

Luke ficou desanimado. Alguns minutos antes tinha ali estado mais de uma centena de cientistas da sua área, agora, havia apenas uma mão-cheia deles e era bem possível que nenhum o conhecesse.

O homem de cabelos brancos olhou para ele e voltou a dedicar-se à discussão. Era impossível saber se reconhecera Lukc ou não. Não parava de falar.

— O nitrometano é quase impossível de manusear. Não podemos ignorar os factores de segurança.

— É possível trabalhar com alguma segurança, se o combustível for suficientemente bom — disse um rapaz envergando um fato de tweed.

A discussão era bem conhecida de Luke. Fora testada uma inacreditável variedade de combustíveis, muitas delas mais poderosas que a combinação de álcool e oxigénio líquido, mas todas apresentavam desvantagens.

Um homem com uma pronúncia sulista afirmou:

— E a hidrazina dimetílica assimétrica? Ouvi dizer que estão a testá-la no Jet Propulsion Laboratory, em Pasadena.

— Funciona, mas é mortalmente tóxica — disse Luke de repente, sem pensar.

Todos se viraram para ele. o homem de cabelos brancos franziu as sobrancelhas, ligeiramente irritado por terem sido interrompidos por um estranho.

Então o rapaz do fato de tweed fez um ar chocado e exclamou:

— Meu Deus, o que fazes em Washington, Luke?

Luke sentiu-se tão feliz que quase chorou.

 

Quatro e um quarto da tarde

Um programador de fita existente no tubo varia a velocidade de rotação dos andares superiores entre 450 e 750 r p. m., de forma a poderem evitar-se vibrações de ressonância, que provocariam a desíntegração do foguetão no espaço.

 

Luke apercebeu-se de que não conseguia falar. A emoção resultante do alívio era tão grande que parecia apertar-lhe a garganta. Esforçara-se todo o dia para se manter calmo e racional, mas agora sentia-se prestes a sucumbir.

Os outros cientistas retomaram a discussão, indiferentes à sua angústia, com excepção do jovem de fato de tweed, que parecia preocupado.

— Estás bem? — perguntou.

Luke acenou com a cabeça. Por fim, conseguiu dizer:

— Podemos falar?

— Claro, claro. Há um gabinete por detrás da exposição dos irmãos Wright. o professor Larkley usou-o há pouco. — Dirigiram-se para uma porta ali perto. — A propósito, fui eu que organizei a palestra. — Conduziu Luke para um pequeno e espartano gabinete com duas cadeiras, uma secretária e um telefone e sentaram-se. — o que se passa? — inquiriu o jovem.

— Perdi a memória.

— Meu Deus!

— Amnésia autobiográfica. Consigo ainda lembrar-me da minha formação científica, e foi assim que vos encontrei, mas não sei nada sobre mim mesmo.

Chocado, o rapaz perguntou:

— Sabes quem eu sou? Luke abanou a cabeça.

— Nem sequer tenho a certeza do meu nome!...

— Bolas! — o rapaz ficou com um ar desnorteado. — Nunca tinha visto uma coisa assim!

— Preciso que me contes tudo o que sabes sobre mim.

— Claro. Bom, por onde hei-de começar?

— Chamaste-me Luke.

— Toda a gente te chama Luke. És o doutor Claude Lucas, mas acho que nunca gostaste do nome Claude. Eu sou o Will McDermot.

Luke fechou os olhos, dominado por um sentimento de alívio e gratidão. Sabia o seu nome!

— Obrigado, Will.

— Não sei nada sobre a tua família, só nos encontrámos umas quantas vezes em conferências.

— Sabes onde moro?

— Em Huntsville, no Alabama, creio eu. Trabalhas para a Arrny Ballistic Missile Agency, cujo quartel-general fica no Redstone Arsenal, em Huntsville. No entanto, não és militar. o teu chefe é Wernher von Braun.

— Nem calculas como é bom saber isso tudo!

— Fiquei surpreendido por te ver, porque a tua equipa está prestes a lançar um foguetão que colocará um satélite americano no espaço pela primeira vez. Estão todos em Cabo Canaveral e diz-se que o lançamento será esta noite.

— Li qualquer coisa sobre o foguetão no jornal esta manhã. Meu Deus, eu trabalhei nisso?

— Sim. É o Explorer. Será o lançamento mais importante da história do Programa Espacial americano, sobretudo depois do sucesso do Sputník russo e do desastre do Vanguard da Marinha.

Luke estava entusiasmadíssimo. Algumas horas antes julgava-se um bêbado vagabundo e agora descobria que era um cientista no topo da carreira.

— Mas eu devia lá estar para o lançamento!

— Exactamente. Fazes alguma ideia da razão por que não estás? Luke abanou a cabeça.

— Acordei esta manhã na casa de banho dos homens de Union Station. Não faço ideia de como fui lá parar.

Will esboçou um sorriso irónico e piscou-lhe o olho.

— Parece-me que estiveste numa grande farra ontem à noite!

— Responde-me sinceramente: eu costumo fazer esse tipo de coisas, embebedar-me e perder os sentidos?

— Não te conheço suficientemente bem para te responder, Luke. No entanto, ficaria surpreendido. já sabes como são os cientistas. A nossa ideia de divertimento é juntarmo-nos a beber café e a falar sobre o nosso trabalho.

Isso fazia sentido para Luke.

— Apanhar uma bebedeira não me parece suficientemente interessante.

Todavia, não tinha outra explicação para o facto de estar nesta embrulhada. Quem seria Pete? Porque andariam a segui-lo?

E quem seriam os dois homens que o procuraram em Union Station?

Pensou falar nisto tudo a Will, mas decidiu que as coisas iriam soar muito estranhas e o colega ainda pensaria que ele estava doido.

— Vou telefonar para Cabo Canaveral — declarou Luke.

— Boa ideia — Will levantou o auscultador e marcou o zero.

— Fala Will McDermot, posso fazer uma chamada interurbana deste telefone? Obrigado. — Passou o telefone a Lukc.

Luke pediu o número às informações e marcou.

— Fala o doutor Lucas. — Sentiu-se desmesuradamente satisfeito por poder pronunciar o seu nome. Nunca lhe ocorrera que podia ser tão reconfortante. — Gostaria de falar com alguém da equipa do Explorer.

— Estão nos hangares D e R — disse o telefonista. — Espere um momento, por favor.

Pouco depois uma voz disse:

— Fala o coronel Hide.

— É o doutor Lucas.

— Luke! Até que enfim! Onde raio te meteste?

— Estou em Washington.

— E que fazes aí, em nome de Deus? Estamos aflitos. Temos a polícia do Exército à tua procura, o FBI, até a CIA!

Isso explicava os dois agentes em Union Station, pensou Luke.

— Oiça, aconteceu-me uma coisa estranha. Perdi a memória. Andei a vaguear pela cidade a tentar descobrir quem sou. Encontrei por fim um cientista que me conhece.

— É extraordinário. Como é que isso aconteceu?

— Esperava que me pudesse explicar, coronel.

— Costumas chamar-me Bill.

— Certo, Bill.

— Bom, então vou contar-te o que sei. Na segunda-feira de manhã saíste daqui, dizendo que tinhas de ir a Washington. Partiste da Patrick.

— Patrick?

— Da Patríck Air Force Base, perto de Cabo Canaveral. A Marigold tratou das reservas...

— Quem é a Marigold?

— A tua secretária em Huntsville. Também reservou a tua habitual suíte no Hotel Carlton, em Washington.

Havia um certo tom de inveja na voz do coronel e Luke ínterrogou-se sobre essa «habitual suíte», mas tinha perguntas mais prementes a fazer.

— Contei a alguém o objectivo da viagem?

— A Marigold marcou-te um encontro com o general Sherwood no Pentágono, às dez da manhã de ontem, mas tu não compareceste.

— E dei alguma razão para querer falar com o general?

— Aparentemente, não.

— Qual é a área de responsabilidade dele?

— Segurança, mas ele é também amigo da tua família, por isso a reunião podia ser sobre qualquer outra coisa.

Tinha de ser algo de extrema importância, pensou Luke, para o obrigar a abandonar assim Cabo Canaveral a tão pouco tempo do lançamento do foguetão.

— O lançamento é esta noite?

— Não, temos problemas meteorológicos. Foi adiado para amanhã às vinte e duas e trinta.

— Tenho amigos aqui em Washington?

— Claro. Um deles não tem parado de me telefonar. O seu nome é Bernard Rothsten, eu digo-te o número.

Luke rabiscou-o num pequeno bloco.

— Vou telefonar-lhe já.

— Primeiro devias falar com a tua mulher.

Luke ficou sem palavras e sem fôlego. «Mulher», pensou. «Tenho mulher.» Interrogou-se como seria ela.

— Ainda estás aí, Luke?

— Sim... Bill.

— Posso passar?

— Como se chama ela?

— Elspeth — declarou o coronel. — o nome da tua mulher é Elspeth. Vou passar a ligação, não desligues.

Luke ficou com uma sensação estranha no estômago. Que disparate, pensou, era a sua mulher.

— É a Elspeth. Luke, és mesmo tu?

Tinha uma voz calorosa, doce, uma dicção perfeita e nenhum sotaque em especial. Luke imaginou uma mulher alta, segura de si mesma.

— Sim, é o Luke. Perdi a memória.

— Tenho estado tão preocupada! Estás bem?

Sentíu-se ridiculamente grato por ter alguém que se preocupava consigo.

— Acho que sim — respondeu.

— Que aconteceu?

— Na verdade, não sei. Acordei esta manhã na casa de banho dos homens de Union Statíon e passei o dia a tentar descobrir quem sou.

— Anda toda a gente à tua procura. Onde estás agora?

No Instituto Smithsonian, no Edifício dos Aeroplanos.

— Tens alguém a olhar por ti?

Luke sorriu para Will McDermot.

— Um colega cientista ajudou-me e também tenho o número de Bernard Rothsten, mas não preciso que tomem conta de mim. Estou bem, só perdi a memória.

Will McDermot levantou-se, parecendo envergonhado, e sussurrou,

— É melhor dar-te alguma privacidade. Espero lá fora. — Luke acenou em sinal de gratidão.

— Então não te lembras porque partiste para Washington tão à pressa?

— Não, e pelos vistos também não te contei porquê.

— Disseste que era melhor para mim que não soubesse, mas fiquei muito inquieta. Telefonei a um velho amigo nosso em Washington, o Anthony Carroll. Trabalha para a CIA.

— Ele fez alguma coisa?

— Telefonou para o Hotel Carlton na segunda-feira à noite e tu combinaste tomar o pequeno-almoço com ele na terça de manhã, mas não apareceste. Tem andado o dia todo à tua procura. Vou ligar-lhe e dizer-lhe que está tudo bem.

— É óbvio que me aconteceu alguma coisa entre a tarde de segunda-feira e a manhã de terça.

— Devias ir ao médico ver se está tudo bem.

— Sinto-me bem, mas há muita coisa que preciso de saber. Temos filhos?

— Não.

Luke sentiu uma tristeza que lhe parecia familiar, como a dor de uma antiga ferida.

Elspeth continuou:

— Temos tentado desde que casámos, há quatro anos, mas ainda não tivemos sorte.

— Os meus pais ainda estão vivos?

— A tua mãe está. Vive em Nova lorque. o teu pai morreu há cinco anos.

Luke foi subitamente dominado por uma angústia vinda não se sabe de onde. Perdera qualquer lembrança que guardasse do pai e nunca mais o veria, Era muito triste.

— Tens dois irmãos e uma irmã, todos mais novos que tu. A tua irmã mais nova, a Alice, é a tua preferida. Tem menos sete anos que tu e vive em Baltimore — adiantou Elspeth.

— Tens os números de telefone deles?

— Claro. Não desligues que eu já tos dou.

— Gostaria de falar com eles, nem sei porquê. — Ouviu então um soluço abafado do outro lado da linha. — Estás a chorar? — Elspeth fungou.

— Estou bem. — Luke imaginou-a a tirar um lenço da carteira.

— De repente fiquei com tanta pena de ti... — confessou ela, chorosa. — Deve ter sido horrível!

— Houve alguns momentos maus.

— Toma então nota dos números.

— Somos ricos? — perguntou quando acabou de apontar os números.

— O teu pai era um bem-sucedido banqueiro e deixou-te bastante dinheiro. Porque perguntas?

— Bill Hide disse-me que eu estava instalado na minha "habítual suite no Carlton".

— Antes da guerra, o teu pai foi conselheiro da administração Roosevelt e gostava de levar a família consigo quando ia a Washington. Sempre tiveram uma suíte no Carlton. Acho que também gostas de manter essa tradição.

— Então não vivemos do que o Exército me paga.

— Não, embora em Huntsville tentemos manter um nível muito semelhante ao dos teus colegas.

— Podia continuar a fazer-te perguntas durante o resto do dia, mas o que pretendo realmente descobrir é como tudo isto me aconteceu. Importavas-te de apanhar um avião e vir ter comigo ainda hoje?

Seguiu-se um momento de silêncio.

— Por que motivo?

— Para descobrirmos juntos este mistério. Dava-me jeito a tua ajuda e companhia.

— Devias esquecer tudo isso e vir para aqui.

Isso era impensável.

— Não posso esquecer, tenho de saber o que se passou. É demasiado estranho para ignorar.

— Luke, não posso abandonar Cabo Canaveral agora. Estamos prestes a lançar o primeiro satélite americano! Não posso abandonar a equipa numa altura destas.

— Acho que tens razão. — Luke compreendia a posição da mulher, mas, ainda assim, ficou magoado com a sua recusa. — Quem é Bernard Rothsten?

— Esteve em Harvard contigo e com o Anthony Carroll. Agora é escritor.

— Ao que parece, tem tentado entrar em contacto comigo. Talvez saiba alguma coisa. Telefona-me mais tarde, sim? Estou no Motel Starlite.

— Está bem. Toma cuidado, Luke, por favor — pediu ela com ar sério.

— Tomarei, prometo — e desligou.

Ficou sentado em silêncio durante um bocado. Estava emocionalmente esgotado.

Uma parte de si desejava ir para o tal hotel deitar-se, mas era demasiado curioso. Levantou o auscultador mais uma vez e marcou o número de Bernard Rothsten.

— Fala Luke Lucas — declarou quando alguém atendeu do outro lado.

Bernard possuía uma voz grave e vestígios de sotaque nova-iorquino.

— Luke, graças a Deus! o que raio te aconteceu?

— Toda a gente me pergunta isso. A resposta é que, na realidade, não sei nada, excepto que perdi a memória.

— Perdeste a memória?

— É isso mesmo.

— Que merda! Fazes alguma ideia de como isso aconteceu?

— Não. Estava na esperança que tivesses alguma pista.

— Talvez tenha.

— Por que razão tens tentado falar comigo?

— Estava preocupado. Telefonaste-me na segunda-feira a dizer que vinhas a Washington e querias falar comigo. Disseste que me telefonarias do Carlton, mas nunca chegaste a fazê-lo.

— Aconteceu-me alguma coisa na segunda-feira à noite.

— Deve ter sido. Escuta, tens de telefonar a uma pessoa, A doutora Billie Josephson é uma especialista mundial em memória.

O nome soou-lhe familiar.

— Acho que vi o livro dela na biblioteca.

— É também minha ex-mulher e uma tua velha amiga. — Bernard deu-lhe o número de telefone dela.

— Vou já telefonar-lhe, Bernard.

— Fazes bem.

— Perco a memória e venho a descobrir que uma velha amiga minha é especialista mundial em memória. Não é uma coincidência extraordinária?

— Podes crer — concordou Bernard.

 

Quatro e quarenta e cinco da tarde

O último andar, que contém o satélite, tem 2,03 metros de comprimento e apenas 15,2 centímetros de díâmetro, pesando pouco mais de 13 quílos. Tem a forma de uma chaminé de fogão.

 

Billie marcara uma entrevista de uma hora com um doente, um jogador de futebol que sofrera um traumatismo na sequência de uma colisão com um oponente. Era um caso interessante, pois o homem não se lembrava de nada até uma hora antes do jogo e até ter dado por si na linha lateral de costas para o campo, a interrogar-se sobre o que estava ali a fazer.

 

Manteve-se sempre um pouco distraída durante a entrevista, pensando na Fundação Sowerby e em Anthony Carroll. Quando acabou de conversar com o futebolista e ligou para Anthony, sentia-se frustrada e impaciente. Teve sorte e conseguiu apanhá-lo no gabinete logo à primeira tentativa.

— Anthony — disse abruptamente — que raio se passa?

— Muita coisa — respondeu ele. — o Egipto e a Síria concordaram em unir-se, as saias estão a ficar cada vez mais curtas e Roy Campanella partiu o pescoço num acidente de viação e nunca mais poderá jogar para os Dodgers.

Billie controlou o impulso de gritar com ele.

— Fui preterida para o lugar de director de investigação aqui no hospital — explicou com uma calma forçada. — o Len Ross ficou com o lugar. Sabias disso?

— Sim, acho que sim.

Não compreendo. Sempre pensei que poderia perder para alguém mais qualificado, tipo o Sol Weínberg, de Princeton, ou alguém do mesmo calibre, mas toda a gente sabe que sou melhor que o Len,

— Ai sabe?

— Vá lá, Anthony! Tu próprio o sabes. Que raio, foste tu quem me encorajou a enveredar por este tipo de investigação no final da guerra, quando...

— Sim, sim, eu lembro-me — interrompeu-a ele de repente. Sabes bem que isso ainda é confidencial.

Billie nem acreditava que o que haviam feito durante a guerra era ainda um segredo importante, mas também não lhe interessava.

— Então, por que motivo não me escolheram?

— É suposto eu saber?

Sentiu que a conversa já estava a tornar-se humilhante, mas a necessidade de compreender o que se passara sobrepunha-se ao seu embaraço.

— A fundação insiste em que o lugar seja do Len.

— Acho que têm esse direito.

— Anthony, sê sincero!

— Estou a ser.

És membro da fundação. É muito invulgar que interfiram numa decisão deste tipo. Normalmente deixam-na para os peritos. Deves saber porque tomaram tal medida.

— Pois, mas não sei, e suponho que a medida não foi ainda tomada. Não houve  nenhuma reunião sobre isso.

— O Charles pareceu-me bastante definitivo.

— Não duvido que seja verdade, infelizmente para ti, mas não é o mais provável. Não é o tipo de coisa que seja decidida abertamente.

— É que o director e um ou dois membros do conselho se tenham juntado no Cosmos Club para tomar uma bebida e conversar sobre o assunto. Um deles deve ter telefonado ao Charles e contado o resultado da conversa. Ele não pode dar-se ao luxo de se incompatibilizar com eles, por isso concordou.

— É assim que estas coisas funcionam. O que me surpreende é que o Charles tenha sido tão sincero contigo.

— Estava chocado, presumo. Não compreende porque fizeram tal coisa. Pensei que soubesses.

— Deve tratar-se de um motivo ridículo. O Ross tem família?

— Casado e tem quatro filhos.

— O director não concorda que as mulheres ganhem salários mais elevados quando há homens que têm de sustentar a família.

— Por amor de Deus! Eu tenho um filho e uma mãe idosa para cuidar!

— Eu não disse que o motivo tinha a ver com a lógica. Escuta, Billie, tenho de desligar. Desculpa, telefono-te mais tarde.

— Está bem — disse ela.

Quando desligou ficou a olhar para o telefone, tentando perceber o que sentia. A conversa soara-lhe a falso e perguntava-se porquê. Era perfeitamente plausível que Anthony não tivesse conhecimento das maquinações que ocorriam entre os restantes membros da fundação. Então, porque não acreditava nele? Pensando melhor, percebeu que Anthony fora evasivo, o que não era seu costume. No final dissera-lhe o pouco que sabia, embora com grande relutância.

Tudo se resumia a uma impressão muito clara. Anthony mentira.

 

Cinco da tarde

O quarto andar do foguetão é composto de titãnio leve, em vez de aço inoxidável. Esta díferença de peso permite ao foguetão carregar mais novecentos indispensáveis gramas de equipamento científico.

 

Quando Anthony pousou o auscultador, o telefone tocou de imediato. Voltou a atender e ouviu a voz de Elspeth, que parecia assustada.

— Há um quarto de hora que estou em linha à espera!

— Estava a falar com a Billie, ela...

— Isso agora não interessa. Acabei de falar com o Luke.

— Como?

— Cala-te e escuta! Ele estava no Smithsonian, no Edifício dos Aeroplanos, com um grupo de cientistas.

— Vou já para lá.

Anthony largou o telefone e correu porta fora. Pete viu-o e foi atrás dele. Atravessaram o parque de estacionamento e meteram-se no carro de Anthony.

O facto de Luke ter falado com Elspeth desanimou Anthony Isso indicava que as coisas começavam a ficar fora de controlo, mas, se chegasse a Luke antes de qualquer outra pessoa, talvez conseguisse voltar a tomar as rédeas do assunto. Levaram quatro minutos a chegar ao cruzamento de Independence Avenue com a Rua 10. Deixaram o carro perto da porta das traseiras do museu e correram para o antigo hangar.

Havia uma cabina telefónica perto da entrada, mas nenhum sinal de Luke.

— É melhor separarmo-nos — sugeriu Anthony. — Eu vou pela direita e tu pela esquerda. — Caminhou por entre as exposições, perscrutando as caras de todas as pessoas, à medida que olhavam para os armários envidraçados ou para as aeronaves suspensas do tecto. No outro extremo do edifício encontrou Pete, que, com as mãos, fez um gesto a indicar que não vira Luke.

Num dos lados havia casas de banho e gabinetes. Pete procurou nas casas de banho e Anthony nos gabinetes. Luke deveria ter telefonado de um dos telefones dos gabinetes, mas já não se encontrava no edifício.

Pete saiu da casa de banho dos homens e disse: — Nada.

— É uma catástrofe! — lamentou-se Anthony

— Ai sim? — perguntou Pete, franzindo a testa. — Uma catástrofe? Este tipo é mais importante do que me disse, não é?

— Sim — confirmou Anthony. — É provavelmente o homem mais perigoso da América.

— Meu Deus!...

Encostadas à parede do fundo, Anthony viu uma pilha de cadeiras e uma tribuna desmontável. Um jovem com um fato de tweed falava com dois outros de macacão. Anthony lembrou-se que Elspeth lhe dissera que Luke estava com um grupo de cientistas. Talvez fosse ainda possível reencontrar o seu rasto. Aproximou-se do homem do fato de tweed e perguntou:

— Desculpe, pode dizer-me se houve aqui alguma reunião?

— Houve. O professor Larkley acabou de dar uma palestra sobre combustíveis para foguetão, integrada no Ano Internacional da Geofísica. Eu sou Will McDermot, o organizador da palestra.

— O doutor Claude Lucas esteve aqui?

— Esteve. É amigo dele?

— Sou.

— Sabia que ele perdeu a memória? Nem sequer se lembrava do seu próprio nome até eu lho dizer.

Anthony teve de se conter para não praguejar. Temera que isto acontecesse desde o momento em que Elspeth lhe dissera que falara com Luke. Agora ele já sabia a sua identidade.

— Preciso urgentemente de localizar o doutor Lucas — disse Anthony.

— Que pena, ele acabou de sair.

— Disse para onde ia?

— Não. Ainda tentei convencê-lo a ir ao médico, mas ele disse que se sentia bem.

— Muito obrigado.

Anthony voltou-se e afastou-se a passos largos. Estava furioso. Lá fora, em Independence Avenue, viu um carro-patrulha. Dois polícias examinavam um carro estacionado do outro lado da rua. Anthony aproximou-se e reparou que o carro era um Ford Fíesta azul e branco.

— Olha para aquilo — disse a Pete, apontando para o carro. Verificou a matrícula. Era o carro que Mrs. Siras vira da janela de sua casa.

Mostrou ao polícia o seu distintivo da CIA.

— Viram esta viatura mal estacionada? — perguntou.

O mais velho dos dois polícias respondeu:

— Não. Vimos um homem a conduzi-la na Rua Nove, mas escapou-nos.

— Deixaram-no escapar? — inquiriu Anthony, incrédulo.

— O tipo guinou o carro e começou a conduzir em sentido contrário! — explicou o polícia mais jovem. — É um grande condutor, seja lá quem for!

— Pouco depois vimos o carro estacionado aqui, mas o condutor desapareceu.

Anthony sentiu vontade de lhes bater com as cabeças uma contra a outra, mas controlou-se.

— O fugitivo é capaz de ter roubado outro carro nestas redondezas — explicou, tirando um cartão-de-visita da carteira. — Se tiverem conhecimento de algum relatório que dê conta do furto de uma viatura por aqui, por favor telefonem-me para este número.

O polícia mais velho leu o cartão e disse:

— Pode contar comigo, Mister Carroll.

Anthony e Pete voltaram ao Cadillac amarelo e partiram.

— O que acha que ele fará agora? — perguntou Pete.

— Não sei. Pode ir direito ao aeroporto e meter-se num avião para a Florida, pode dar-lhe na cabeça de ir visitar a mãe em Nova lorque... Teremos de nos dividir em várias direcções. — Manteve-se em silêncio, pensativo, até chegarem ao Edifício Q. Ao entrar no seu gabinete declarou: — Quero dois homens no aeroporto, dois em Union Station e dois no terminal rodoviário. Quero outros dois a telefonar a todos os familiares, amigos e conhecidos de Luke, a perguntar se o esperam ou tiveram notícias dele. Quero que vás com dois agentes ao Hotel Carlton. Arranja um quarto e depois montem guarda ao vestíbulo. Juntar-me-ei a vocês mais tarde.

Pete saiu e Anthony fechou a porta.

Pela primeira vez nesse dia, estava assustado. Agora que Luke descobrira a sua identidade, quem poderia prever que mais iria descobrir? Este projecto deveria ser o maior triunfo de Anthony, mas estava a tornar-se um desaire que poderia pôr fim à sua carreira. Ou mesmo à sua vida...

Se conseguisse encontrar Luke, talvez pudesse ainda remediar as coisas, todavia, teria de tomar medidas drásticas. já não bastaria colocar Luke sob vigilância. Tinha de resolver o problema de uma vez por todas.

Com o coração pesado, dirigiu-se à fotografia do presidente Eisenhower, que estava pendurada na parede. Puxou um dos lados da moldura, que se abriu, revelando um cofre. Marcou a combinação, abriu a porta e tirou a sua arma.

Era uma Walther P38 automática, a pistola utilizada pelo Exército alemão na Segunda Guerra Mundial. Anthony já a tinha antes de ir para o Norte de África. Possuía também um silenciador concebido pelo OSS especialmente para aquela arma. A primeira vez que matara um homem fora com ela.

Albin Moulier era um traidor, que denunciara membros da Resistência francesa à polícia. Merecia morrer — os cinco homens estavam de acordo quanto a isso. Tiraram à sorte quem seria o seu executor num estábulo em ruínas perdido no meio de nenhures, era já tarde e uma única candeia lançava sombras tremeluzentes nas grossas paredes de pedra. Sendo o único estrangeiro, Anthony poderia ter sido dispensado, mas dessa forma perderia o respeito dos companheiros, por isso insistiu em participar. E tirou a palha mais curta.

Albín estava atado à roda ferrugenta de uma charrua partida e nem venda tinha. Escutou, portanto, a conversa e assistiu enquanto os homens tiravam as palhas. Borrou-se quando pronunciaram a sentença de morte e gritou quando viu Anthony sacar da Walther. Os gritos ajudaram: fizeram Anthony ter vontade de o matar rapidamente, para acabar com o barulho. Matou Albin à queima-roupa com uma bala entre os olhos. No final, os outros disseram-lhe que o fizera bem, sem hesitações ou arrependimentos, como um homem.

Albin ainda assombrava os sonhos de Anthony

Tirou o silenciador do cofre, colocou-o sobre o cano da arma e apertou-o firmemente. Vestiu o sobretudo. Era comprido, de tecido de lã de camelo, com uma só fileira de botões e bolsos interiores bem fundos. Colocou a arma, coronha para baixo, no bolso do lado direito, com o silenciador a aparecer. Deixando o casaco desabotoado, levou a mão esquerda ao bolso, sacou da arma pelo silenciador e transferiu-a para a mão direita. Empurrou então a patilha de segurança para a posição de disparo. Toda a operação levou cerca de um segundo. o silenciador tornava a arma um pouco incómoda. Seria mais fácil carregar as duas partes em separado, no entanto, poderia não ter tempo de montar o silenciador antes de disparar. Esta era a melhor solução. Abotoou o casaco e saiu.

 

Seis da tarde

O satélite não é esférico, tem a forma de uma bala. Em teoria, uma esfera deveria ser mais estável, mas, na prática, o satélite tem de possuir antenas salientes para comunicações via rádio, e as antenas prejudicam a forma circular

 

Luke apanhou um táxi para o Georgetown Mind Hospital e deu o seu nome na recepção, afirmando ter uma entrevista marcada com a Dra Josephson.

Billie fora encantadora ao telefone: preocupada com ele, satisfeita por ouvi-lo, ansiosa por vê-lo assim que pudesse. Tinha um sotaque sulista e parecia estar sempre pronta a rir.

Descia agora as escadas a correr: era uma mulher baixa de bata branca, com grandes olhos castanhos e corada de excitação. Luke não pôde deixar de sorrir quando olhou para ela.

— É tão bom ver-te! — disse ela, e lançou os braços em redor do seu pescoço para o abraçar.

Luke sentiu um súbito impulso de responder à sua exuberância e abraçá-la com força, porém, receoso de fazer alguma coisa que a pudesse ofender, estacou, com as mãos no ar, como se estivesse a ser vítima de um assalto.

Ela riu-se.

Não te lembras de como sou... — disse. — Sossega, sou praticamente inofensiva.

Luke deixou que os seus braços rodeassem os ombros dela. o seu pequeno corpo parecia tão macio e curvilíneo por debaixo da bata...

— Anda daí, vou mostrar-te o meu gabinete. — Conduziu-o escadas acima.

Enquanto atravessavam um amplo corredor, uma mulher de cabelos brancos e roupão disse:

— Doutora, gosto do seu namorado! — Billie fez uma careta e respondeu:

— Pode ficar com ele a seguir, Marlene.

Billie tinha um gabinete pequeno com uma secretária e um arquivador de metal, mas embelezara-o com flores e uma pintura abstracta com salpicos de cores garridas. Ofereceu café a Luke e abriu um pacote de bolachas. Depois começou a fazer-lhe perguntas sobre a amnésia.

Tomava notas à medida que ele ia respondendo. Luke não comia nada havia doze horas e, portanto, devorou as bolachas todas. Ela sorriu e indagou:

— Queres mais? Tenho outro pacote. — Luke abanou a cabeça.

— Bom, já percebi o que se passa contigo — disse ela, por fim. — Tens amnésia total, mas, tirando isso, estás de perfeita saúde. Não posso avaliar o teu estado físico, pois não sou esse tipo de médica, no entanto, o meu dever é aconselhar-te a consultar um médico assim que puderes. — Sorriu-lhe. — Mas pareces-me bem, apenas abalado.

— Existe cura para este tipo de amnésia?

— Não, não existe. O processo é, de um modo geral, irreversível.

Foi um duro golpe. Luke tinha esperanças que de repente voltasse a recordar-se de tudo.

— Bolas! — murmurou.

— Não fiques abatido — disse Billie amavelmente. — Quem padece deste tipo de amnésia consegue reaprender o que esqueceu, por isso, pode retomar o fio da sua vida e levar uma existência normal. Vais ficar bem.

Mesmo enquanto escutava notícias horríveis, deu por si a olhá-la, fascinado, concentrando a atenção primeiro nos seus olhos, que pareciam brilhar de compaixão, depois na sua expressiva boca e na forma como a luz do candeeiro de secretária se reflectia nos seus caracóis escuros. Luke desejava que ela não parasse de falar.

— O que poderá ter provocado esta amnésia? — perguntou.

— Lesão cerebral é a primeira possibilidade a tomar em consideração. Contudo, não detectei nenhum sinal de ferida e tu próprio me disseste que não tens dores de cabeça.

— É verdade. E que mais?

— Existem várias alternativas — explicou ela pacientemente.

— Pode ser provocada por tensão prolongada, por um choque súbito ou por fármacos. É também, por vezes, um efeito secundário de alguns tratamentos para a esquizofrenia que envolvem uma combinação de electrochoques e fármacos.

— Há alguma forma de descobrir qual das alternativas me afectou?

— Não de forma conclusiva. Disseste que de manhã te sentiste como se estivesses de ressaca. Se não foi bebida, pode ser o efeito secundário de algum medicamento. Não irás obter uma resposta final falando com médicos. Precisas de descobrir o que aconteceu entre a noite de segunda-feira e esta manhã.

— Bem, pelo menos sei o que procuro — concluiu Luke.

— Trauma, fármacos ou tratamento contra a esquizofrenia.

Não és esquizofrénico — disse ela. — Tens uma forte noção da realidade. Qual será o teu próximo passo?

Luke levantou-se. Sentia-se relutante em abandonar a companhía de tão encantadora mulher, mas ela já lhe dissera tudo o que podia.

— Vou falar com o Bernard Rothsten. Pode ser que ele tenha alguma pista.

— Tens carro?

— Pedi ao táxi para esperar.

— Acompanho-te até à saída.

Enquanto desciam as escadas, Billie deu-lhe o braço afectuosamente.

— Há quanto tempo estás divorciada do Ben?

— Cinco anos. O tempo suficiente para voltarmos a ser amigos.

— É uma pergunta estranha, mas tenho de a fazer. Alguma vez namorámos?

— Se namorámos!

 

1943

O dia em que a Itália se rendeu, Billie encontrou inesperadamente Luke no vestíbulo do Edifício Q.

A princípio não o conheceu. Viu um homem magro de cerca de trinta anos com um fato demasiado grande e os seus olhos cruzaram os dele sem o reconhecer. Foi então que ele disse:

— Billie, não te lembras de mim?

Reconheceu imediatamente a voz e o seu coração disparou, mas quando olhou outra vez para o homem emaciado cujos lábios tinham acabado de pronunciar aquelas palavras soltou um grito de horror. A cabeça parecia uma caveira, o cabelo escuro, outrora sedoso, estava baço e ralo, o colarinho da camisa era largo de mais e o casaco parecia pendurado numa cruzeta. Os seus olhos eram os de um homem idoso.

— Luke! — exclamou. — Que aspecto horrível!

— Obrigadinho — disse ele com um sorriso cansado.

— Desculpa — apressou-se a corrigir.

— Não tem importância. Perdi peso, eu sei, mas onde estive não havia muita comida.

Billie teve vontade de o abraçar, mas retraiu-se, incerta sobre o modo como ele reagiria.

— O que fazes aqui? — inquiriu ele. Ela respirou fundo.

— Um curso de formação sobre mapas, rádio, armas de fogo, combate desarmado.

Luke franziu a testa.

— Não estás propriamente vestida para praticar ju-jítsu.

Billie continuava a adorar vestir-se de forma elegante, apesar da guerra. Nesse dia trazia um fato amarelo-pálido, composto por um casaco curto e uma audaciosa saia à altura do joelho, e um grande chapéu, que se assemelhava a um prato virado ao contrário. o salário que o Exército lhe pagava não chegava, obviamente, para comprar os modelos mais recentes, por isso ela própria fizera o fato com uma máquina de costura emprestada. o pai ensinara todos os filhos a costurar.

— Presumo que isso seja um elogio — disse ela, sorrindo. Por onde tens andado?

— Podemos conversar?

— Claro — afirmou. Tinha uma aula de criptografia, mas que se lixasse a aula.

— Vamos lá para fora.

Era uma quente tarde de Setembro. Luke despiu o casaco e pô-lo sobre o ombro enquanto caminhavam.

— Como vieste parar ao OSS? — quis saber Luke.

— o Anthony Carroll é que tratou de tudo — explicou ela. o Office of Strategic Services era considerado um óptimo empregador e os lugares bastante cobiçados. — o Anthony aproveitou a influência da família para chegar até aqui. É assistente pessoal de Bill Donavan. — o general Wíld Bill Donavan era o chefe do OSS. — Eu era motorista de um general, por isso fiquei muito contente por ser deslocada para cá. o Anthony usou a sua posição para trazer todos os seus antigos amigos de Harvard para aqui. A Elspeth encontra-se em Londres, a Peg no Cairo, e suponho que tu e o Bernard têm estado algures por trás das linhas inimigas.

— França — informou Luke.

— Como foi?

Luke acendeu um cigarro. Era um vício novo — em Harvard não fumava -, mas agora puxava o fumo do cigarro para os pulmões. como se fosse o sopro da vida,

— O primeiro homem que matei era francês — disse ele, sem medir as palavras.

Era dolorosamente evidente que precisava de falar sobre o assunto.

— Conta-me o que aconteceu — pediu Billie.

— Era um polícia, um gendarme. Chamava-se Claude, tal como eu. Não era propriamente um mau tipo: era anti-semita, mas não mais do que o comum francês ou muitos americanos. Encontrou por acaso o local onde o meu grupo estava reunido. Não havia dúvidas quanto ao que estávamos a fazer: tínhamos mapas abertos sobre a mesa e espingardas empilhadas a um canto, e o Bernard demonstrava ao «franciú» como se armava uma bomba-relógio. — Soltou uma gargalhada estranha. — o grande parvo tentou prender-nos a todos! Não que isso fizesse alguma diferença. Tinha de ser morto, de qualquer maneira...

— O que fizeste? — murmurou Billie.

— Levei-o para a rua e dei-lhe um tiro na nuca.

— Meu Deus!

— Não morreu de imediato. Ainda demorou cerca de um minuto,

Bíllie segurou-lhe na mão e apertou-lha. Ele apertou a dela e, de mãos dadas, continuaram a caminhar. Contou-lhe outra história sobre uma mulher da Resistência que fora capturada e torturada e Billie não conseguiu conter as lágrimas. A tarde foi caindo e arrefecendo, mas as histórias cruéis e os pormenores macabros não paravam de jorrar dos seus lábios: carros que explodiam, oficiais alemães assassinados, camaradas da Resistência mortos em combate e famílias judaicas conduzidas para destinos desconhecidos, segurando as mãos dos seus confiantes filhos.

Caminhavam havia cerca de duas horas quando ele tropeçou e Billie o segurou, impedindo-o de cair.

— Estou tão cansado... — lamentou-se ele. — Tenho andado a dormir mal.

Billie chamou um táxi e levou-o para o hotel.

Luke estava hospedado no Carlton. o Exército não costumava recorrer a tais luxos, mas lembrou-se que a família dele era rica. Luke tinha uma suíte só para si. Havia um majestoso piano na sala de estar e algo que ela nunca antes vira — uma extensão telefónica na casa de banho.

Billie telefonou para o serviço de quartos e pediu uma canja, ovos mexidos, pão e um pouco de leite frio. Ele sentou-se no sofá e começou a contar outra história, desta vez engraçada, sobre a sabotagem de uma fábrica que fazia caçarolas para o Exército alemão:

— Encontrei uma grande oficina metalúrgica com cerca de cinquenta mulheres musculadas a alimentar o forno e a bater os moldes. Gritei: «Saiam todas! Vamos fazer o edifício explodir! », mas elas limitaram-se a rir-se de mim! Não saíram e continuaram a trabalhar. Não acreditaram em mim.

A comida chegou antes que pudesse terminar a história.

Billie assinou o talão, deu uma gorjeta ao empregado e colocou os pratos em cima da mesa de jantar. Quando se voltou, Luke tinha adormecido.

Acordou-o o tempo suficiente para o conseguir levar até ao quarto e deitá-lo na cama.

Não te vás embora — murmurou ele, e os seus olhos fecharam-se de novo.

Billie tirou-lhe as botas e alargou-lhe cuidadosamente o nó da gravata. Pela janela entrava uma brisa calma: Luke não iria precisar de cobertor.

Sentou-se na beira da cama a olhar para ele, recordando a longa viagem de carro de Cambridge a Newport que haviam feito quase dois anos atrás. Acariciou-lhe a face com o dedo mínimo, como fizera nessa noite. Ele nem se mexeu.

Tirou o chapéu e os sapatos, reflectiu durante um momento, e despiu o casaco e a saia. Depois, de roupa interior e meias, deitou-se na cama. Pós os braços em torno dos ombros ossudos de Luke, colocou-lhe a cabeça sobre o seu peito e abraçou-o.

— Está tudo bem agora — murmurou ela. — Dorme o tempo que quiseres. Ainda aqui estarei quando acordares.

A noite caiu. A temperatura desceu. Billie fechou a janela e puxou um lençol para se taparem. Pouco depois da meia-noite, com os braços em torno do corpo quente de Luke, adormeceu. De madrugada, depois de ter dormido doze horas seguidas, Luke levantou-se de repente e foi à casa de banho. Regressou alguns minutos depois e meteu-se de novo na cama. Tirara o fato e a camisa e estava apenas com a roupa interior. Pós os braços à volta dela e abraçou-a.

— Esqueci-me de te dizer uma coisa muito importante declarou ele.

— O quê?

— Em França, pensava em ti a toda a hora. Todos os dias.

— A sério? — sussurrou ela.

Ele não respondeu. Voltara a adormecer.

Billie deixou-se ficar aconchegada, imaginando-o em França a arriscar a vida e a pensar nela. Estava tão feliz que parecia que o seu coração rebentaria a qualquer instante.

Às oito da manhã foi até à sala de estar, telefonou para o Edifício Q e disse que estava doente. Era o primeiro dia que tirava por motivos de saúde desde que estava no exércíto, havia mais de um ano. Tomou banho, vestiu-se e telefonou para o serviço de quartos a pedir café e Corn flakes. o empregado chamou-lhe Mrs. Lucas. Ficou satisfeita por não ser uma empregada, pois uma mulher teria reparado que ela não usava aliança.

Pensou que o aroma do café acordaria Luke, mas não. Leu o Washington Post de uma ponta à outra, incluindo as páginas desportivas, e estava já a escrever uma carta à mãe, no papel do hotel, quando ele emergiu do quarto em cuecas e aos tropeções, o cabelo despenteado, a cara por barbear. Billie sorriu-lhe, contente por já ter acordado.

Luke parecia confuso.

— Quantas horas dormi?

Ela consultou o relógio de pulso. Era quase meio-dia,

— Cerca de dezoito horas.

Não conseguia perceber o que ele estaria a pensar. Sentir-se-ia contente por vê-la? Envergonhado? Preferiria que ela se fosse embora?

— Meu Deus! Há um ano que não dormia assim — disse Luke, esfregando os olhos. — Estiveste aqui o tempo todo? Estás fresca como uma alface.

— Dormi um pouco.

— Ficaste a noite toda?

— Tu pediste-mo.

Ele franziu a testa.

— Acho que me lembro. — Sacudiu a cabeça. — Bolas, tive uns sonhos... — Dirigiu-se para o telefone. — Serviço de quartos? Queria um bife, mal passado, três ovos, sumo de laranja, torradas e café.

BIllie fez uma careta enjoada. Nunca passara a noite com um homem, por isso não sabia o que deveria esperar de manhã. Contudo, isto desapontava-a. Era tão pouco romântico que se sentia quase insultada. Lembrou-se dos irmãos: também eles acordavam hirsutos, rabugentos e famintos, mas ficavam habitualmente melhor depois de comerem.

— Espere só um minuto — disse ele para o bocal do telefone. Olhou para Billie. — Queres mais alguma coisa?

— Sim, um chá gelado.

Repetiu o pedido e desligou. Depois sentou-se ao lado dela no sofá.

— Ontem fartei-me de falar.

— É bem verdade.

— Durante quanto tempo?

— Cerca de cinco horas seguidas.

— Peço desculpa.

— Não peças. o que quer que faças, por favor, não peças desculpa. — Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. — Nunca mais o esquecerei.

Ele pegou-lhe nas mãos.

— Estou tão contente que nos tenhamos encontrado de novo!

O coração de Billie bateu mais forte.

— Eu também.

Isto já se parecia mais com o que ela esperara.

— Gostava de te beijar, mas há vinte e quatro horas que não mudo de roupa.

Billie sentiu de repente algo no seu interior, como um curso de água que acaba de surgir à superfície, e teve uma sensação de humidade. Ficou chocada consigo mesma: nunca acontecera assim tão depressa.

Porém, conteve-se. Não decidira até que ponto pretendia que as coisas fossem. Tivera toda a noite para o fazer, mas nem sequer pensara nisso. Agora temia perder o controlo assim que ele lhe tocasse. E depois?

A guerra produzira uma nova frouxidão moral em Washington, mas ela nunca fora partidária dessa nova atitude. Entrelaçou os dedos sobre o colo e disse:

— Não faço tenções de te beijar até estares vestido.

Ele lançou-lhe um olhar céptico.

— Estás com medo de te comprometer?

Billie estremeceu perante a ironia do seu tom de voz.

— O que queres dizer com isso?

Ele encolheu os ombros.

—  Passámos a noite juntos.

Ela sentiu-se injuriada e indignada.

— Fiquei aqui porque tu mo pediste! — protestou.

— Está bem, não te zangues.

No entanto, o desejo que sentia por ele transformara-se, num segundo, numa cólera igualmente intensa.

— Estavas a cair de exaustão e eu meti-te na cama — explicou ela, irada. — Depois pedíste-me que não fosse embora e, por isso, fiquei.

— Eu agradeço.

— Então, não fales comigo como se tivesse agido como uma... puta!

— Não foi isso que quis dizer.

— Foi, sim! Insinuaste que já me comprometi tanto que qualquer coisa que faça não tem a menor importância.

Ele suspirou.

— Não era minha intenção insinuar isso, por amor de Deus! Estás a fazer uma tempestade de um comentário trivial.

— Extremamente trivial...

O problema era que ela já se comprometera. Alguém bateu à porta.

Olharam um para o outro.

— Deve ser o serviço de quartos — alvitrou Luke.

Billie não queria que o empregado a visse com um homem seminu.

— Vai para o quarto — pediu a Luke.

— Está bem. Antes, dá-me o teu anel.

Ele olhou para a mão esquerda. Usava um anel de ouro com sinete no dedo mínimo.

— Porquê?

— Para que o empregado julgue que sou casada.

— Mas eu nunca o tiro.

Esta resposta ainda a enfureceu mais.

— Sai-me da frente — disse, entre dentes.

Ele foi para o quarto. Billie abriu a porta da suíte e uma empregada entrou com o carrinho.

— Aqui tem, miss — disse ela.

Billie corou. Aquele miss soara como um insulto. Assinou o talão, mas não deu gorjeta.

A empregada saiu. Billie ouviu a água do chuveiro a correr. Sentia-se exausta. Passara horas sob o poder de uma profunda paixão romântica e, em poucos minutos, tudo acabara mal. Luke era habitualmente tão amável e, no entanto, metamorfoseara-se num urso. Como podia uma coisa dessas acontecer?

Fosse qual fosse a razão, fizera-a sentir-se vulgar. Dentro de um minuto ou dois ele sairia da casa de banho, pronto para se sentar e tomar o pequeno-almoço com ela, como se fossem um casal. Mas não eram, e ela começava a sentir-se cada vez mais desconfortável.

«Bom», pensou, «se não estou a gostar da situação, porque continuo aqui?» Era uma boa pergunta.

Pôs o chapéu. Era melhor sair com a dignidade que ainda lhe restava.

Ainda pensou em deixar-lhe um bilhete. o barulho da água parou. Ele estava prestes a reaparecer, descalço e de roupão, a cheirar a sabonete, o cabelo molhado, irresistível. Não havia tempo para bilhetinhos.

Deixou a suíte, fechando a porta sem fazer barulho.

Durante as quatro semanas que se seguiram viu-o quase todos os dias.

Ao princípio, Luke estava no Edifício Q, para relatar toda a informação que recolhera nas suas missões. Ia ter com ela à hora de almoço e comiam juntos na cafetaria ou levavam umas sanduíches para o parque. Luke voltou à sua característica gentileza descontraída, fazendo-a sentir-se respeitada. Talvez, pensou, também ele nunca tivesse passado a noite com uma mulher e, tal como ela, não sabia qual a etiqueta a seguir. Tratara-a informalmente, como trataria a irmã — e talvez a irmã fosse a única rapariga que alguma vez o vira em roupa interior. »

No final da semana convidou-a para sair e foram ver o filme A Paixão de Jane Eyre no sábado à noite. No domingo foram fazer canoagem no Potomac. Por toda a cidade reinava um clima de imprudência. Washington estava apinhada de jovens que se preparavam para ser enviados para a frente ou que regressavam a casa de licença, rapazes para quem a morte era um acontecimento diário. Queriam jogar, beber, dançar e fazer amor, pois podiam não voltar a ter outra oportunidade. Os bares encontravam-se entupidos e uma rapariga solteira nunca corria o risco de passar a noite sozinha. Os Aliados estavam a ganhar a guerra, mas a alegria era todos os dias interrompida por notícias de familiares, vizinhos e colegas de escola que haviam sido mortos ou feridos em combate.

Luke ganhou algum peso e começou a dormir melhor. o olhar assombrado acabou por lhe desaparecer do rosto. Comprou algumas peças de roupa à sua medida: camisas de manga curta, calças brancas e um fato de flanela, que usava quando saíam à noite. Alguma da sua puerilidade acabou por regressar.

Conversavam interminavelmente. Ela explicava-lhe de que modo o estudo da psicologia humana contribuiria para eliminar as doenças mentais e ele demonstrava-lhe que o homem seria capaz de voar até à Lua. Reviveram o fatídico fim-de-semana em Harvard que mudara as suas vidas, discutiam a guerra e conjecturavam sobre quando terminaria. Billie achava que, agora que a Itália capitulara, os Alemães não resistiriam durante muito mais tempo, mas Luke acreditava que não seria assim tão fácil correr com os japoneses do Pacífico. Por vezes saíam com Anthony e Bernard e discutiam política num bar qualquer, como faziam quando andavam na universidade. Um fim-de-semana, Luke foi a Nova Iorque ver a família e Billie sentiu tanto a sua falta que ficou doente. Nunca se cansava de estar junto dele, nunca ficava entediada na sua companhia. Ele era atencioso, espirituoso e inteli gente.

Tinham grandes discussões duas vezes por semana, cada qual seguindo o mesmo padrão da primeira, na suíte do hotel. Luke dizia qualquer coisa que lhe soava despótica, ou tomava uma decisão sobre os planos daquela noite sem a consultar, ou partia do Pressuposto de que sabia mais que ela sobre determinado assunto, rádio, automóveis ou ténis. Ela protestava calorosamente e ele acusava-a de reagir de forma exagerada. Billie ficava cada vez mais irritada, à medida que lhe tentava explicar que a sua atitude não fora a mais correcta, e ele começava a sentir-se como se estivesse no banco dos réus. Levados pela exaltação, ela acabava por exagerar ou afirmar algo que sabia ser falso, ele acusava-a de falta de sinceridade e punha fim à discussão, afirmando que não valia a pena continuar, pois ela diria sempre mais qualquer coisa para provar que estava certa. Por fim, Luke virava-lhe as costas, cada vez mais convencido de que tinha razão. Daí a alguns minutos, Billie caía em si e ia a correr procurá-lo para lhe implorar que esquecessem tudo e fizessem as pazes. Ao princípio ele mostrava-se inflexível, mas depois ela dizia qualquer coisa que o fazia rir e Luke acabava por ceder.

Contudo, durante todo esse tempo, Billie não voltou ao seu quarto de hotel e beijava-o de forma discreta e recatada e sempre em locais públicos. Ainda assim, tinha a mesma sensação de humidade de cada vez que lhe tocava e sabia que não poderia ir mais além sem se entregar por completo.

O soalheiro Setembro deu lugar a um friorento Outubro e Luke recebeu ordens para uma nova colocação.

Deram-lhe a notícia numa sexta-feira à tarde. Ao fim do dia, foi esperar Billie à entrada do Edifício Q. Ela percebeu imediatamente pela sua cara que alguma coisa não estava bem. — Que se passa? — perguntou.

— Vou voltar para França.

— Quando? — inquiriu ela, desanimada.

— Parto de Washington na segunda-feira de manhã cedo. o Bernard também.

— Por amor de Deus, não fizeram já a vossa parte?

— Não é o perigo que me incomoda — confessou ele. — Só não queria deixar-te.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas.

— Dois dias.

— Tenho de fazer a mala.

— Eu ajudo-te — sugeriu ela. Foram para o hotel.

Assim que Luke fechou a porta da suíte, ela agarrou-o pela camisola, puxou-o para si e inclinou a cabeça para ele a beijar. Desta vez, não havia nada de discreto ou recatado no seu gesto. Com a ponta da língua, percorreu-lhe os lábios e depois abriu a boca para receber a língua dele.

Despiu o casaco. Por baixo trazia um vestido de riscas verticais azuis e brancas.

— Apalpa-me o peito — pediu. Luke foi apanhado de surpresa. — Por favor — implorou ela.

As mãos dele cobriram por completo os seus pequenos seios. Billie fechou os olhos, concentrando-se na sensação que tal lhe produzia.

Quando se afastaram, olhou-o fixamente, memorizando o seu rosto. Não queria esquecer o azul dos seus olhos, a madeixa de cabelo que lhe caía constantemente sobre a testa, a forma do queixo, os traços dos lábios.

— Gostava de ter uma fotografia tua. Tens alguma? — perguntou-lhe.

— Não costumo andar com fotografias minhas — disse ele, fazendo uma careta. Depois, com um sotaque nova-iorquino, acrescentou: — Achas que sou o Frank Sinatra?

— Deves ter algures uma fotografia tua.

— Talvez tenha uma fotografia de família. Deixa-me procurar. Encaminhou-se para o quarto e Billie seguiu-o.

A sua mala de couro castanho encontrava-se sobre o suporte para malas onde, supôs Billie, havia estado nas últimas quatro semanas. Do seu interior tirou uma moldura de prata que se abria como um livro, revelando uma fotografia de cada lado. Luke pegou numa delas e estendeu-lha.

Fora tirada há três ou quatro anos e mostrava um Luke mais jovem e forte, de camisola de malha. Com ele encontrava-se um casal, presumivelmente os pais, dois rapazes gémeos de cerca de quinze anos e uma menina. Estavam todos vestidos com roupa de praia.

— Não posso aceitá-la. É a fotografia da tua família — exclamou Bíllie, embora desejasse do fundo do coração poder guardá-la.

— Quero que fiques com ela. Faço parte da minha família.

Fora precisamente isso que ela adorara na fotografia.

— Levaste-a contigo para França?

— Sim.

Era tão importante para ele, que Billie não queria privá-lo dela, embora tal a tornasse ainda mais valiosa.

— Mostra-me a outra — disse ela.

— Como?

— Há duas fotografias nessa moldura.

Embora relutante, Luke acabou por abri-la. A segunda fotografia fora recortada do anuário de Radcliffe. Era Billie.

— Também a tinhas contigo em França? — perguntou. o nó que se lhe formou na garganta quase a impedia de respirar.

— Sim.

Billie irrompeu em lágrimas. Era insuportável. Luke recortara a sua fotografia do anuário e mantivera-a junto a si, ao lado da fotografia da família, durante todo o tempo em que correra perigo de vida. Nunca imaginara ser assim tão importante para ele.

— Porque choras? — inquiriu Luke.

— Porque tu me amas — respondeu ela.

— É verdade. Tinha medo de to revelar. Amo-te desde o fim de semana em que a guerra rebentou.

A paixão dela converteu-se então em cólera.

— Como podes dizer isso? Deixaste-me!

— Se nos tivéssemos tornado amantes nessa altura, o Anthony ficaria destroçado,

— O Anthony que se lixe! — replicou, ao mesmo tempo que lhe batia com os punhos no peito. — Como foste capaz de colocar a felicidade dele acima da minha?

— Não teria sido correcto da minha parte.

— Não percebes, já perdemos dois anos! — As lágrimas corriam-lhe pelas faces. — Agora só temos dois dias, dois miseráveis dias!

— Então, pára de chorar e beija-me outra vez — murmurou ele.

Ela pós os braços em volta do seu pescoço e puxou-o, para si, As suas lágrimas perderam-se nos lábios de ambos. Luke começou a desabotoar-lhe o vestido. Impaciente, ela pediu-lhe:

— Arranca-o, por favor.

Ele puxou-o com força e os botões começaram a cair. Mais um puxão e o vestido abriu-se por completo. Billie empurrou-o pelos ombros abaixo e ficou em roupa interior.

De súbito, Luke ficou com um ar sério.

— Tens a certeza que queres?

Billie temeu que ele fosse ficar paralisado por receios morais.

— Sim, toda. Não pares, por favor! — implorou.

Ele empurrou-a cuidadosamente para cima da cama. Billie ficou deitada de costas e ele por cima dela, sustendo o seu peso nos cotovelos. Olhou-a intensamente e disse:

— É a primeira vez que faço isto.

— Não faz mal — garantiu ela —, eu também.

A primeira vez terminou rapidamente, mas uma hora depois o desejo regressou e desta vez foi mais demorado. Ela declarou-lhe que queria fazer tudo, conceder-lhe todos os prazeres que ele jamais imaginara, envolver-se em cada acto de intimidade sexual. Fizeram amor durante todo o fim-de-semana, frenéticos de desejo e dor, sabendo que poderiam não voltar a ver-se.

Depois de Luke partir, na segunda-feira de manhã, Billie chorou durante dois dias.

Oito semanas mais tarde descobriu que estava grávida.

 

Seis e meia da tarde

Os cientistas apenas podem conjecturar sobre as temperaturas que o satélite enfrentará no espaço à medida que emerge da escuridão da sombra da Terra para o brilho da luz solar Para mitigar os efeitos que tal produz, o cilindro foi parcialmente revestido com tiras de óxido de alumínio com três milímetros de largura, que reflectirão os raios abrasadores, e isolado com fibra de vidro, que o protegerá dofrio do espaço.

 

Sim, namorámos — respondeu Billie enquanto desciam as escadas.

 

Luke tinha a boca seca. Imaginou-se a pegar-lhe na mão, a observar o seu rosto à luz das velas numa mesa de jantar, a beijá-la, a vê-la despir-se. Sentiu-se culpado por saber que era casado, embora não se conseguisse recordar da sua esposa. E Billie estava mesmo ali ao seu lado a conversar animadamente, a sorrir, a cheirar a sabonete perfumado.

Chegaram à porta do edifício e pararam.

— Estávamos apaixonados? — inquiriu Luke. Olhou-a intensamente, examinando a sua reacção. Até então, interpretara com facilidade as suas expressões, mas, de repente, o livro fechara-se e tudo o que conseguia agora vislumbrar era uma capa em branco.

— Claro — confirmou ela, e, embora o seu tom fosse despreocupado, havia algo estranho na sua voz. — Na altura, achava que eras o único homem do mundo.

Como pudera deixar escapar uma mulher destas? Por instantes, pareceu-lhe uma tragédia maior do que perder a memória.

— Entretanto tornaste-te mais sensata.

— Já tenho idade suficiente para saber que o príncipe encantado não existe, apenas um bando de homens com mais ou menos defeitos. Alguns têm armaduras reluzentes, mas estão sempre enferrujadas algures.

Luke queria saber tudo, cada pormenor, mas as perguntas seriam intermináveis.

— Então, casaste com o Bernard.

— Sim.

— Como é ele?

— Inteligente. Os meus homens têm todos de ser espertos, caso contrário aborreço-me. Fortes, também, o suficiente para representarem um desafio. — Depois sorriu e ficou claro que tinha um grande coração.

— O que correu mal, então?

— Um conflito de valores. Pode soar um pouco absurdo, mas o Bernard arriscou a vida em nome da liberdade em duas guerras, a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Grande Guerra, e para ele a política está acima de tudo o resto.

Havia ainda uma pergunta que Luke queria colocar. Não lhe ocorrendo nenhuma forma delicada ou indirecta de a fazer, despejou-a de uma só vez:

— Estás envolvida com alguém agora?

— Sim. o nome dele é Harold Brodsky.

Luke sentiu-se ridículo. Era óbvio que teria namorado. Era uma bonita divorciada de trinta e poucos anos, os homens sem dúvida que fariam fila para sair com ela.

— É ele o príncipe encantado?

— Não, mas é inteligente, faz-me rir e adora-me.

Um punhal de inveja cravou-se no coração de Luke. «Sortudo do Harold», pensou.

— E partilha dos teus valores?

— Sim. A coisa mais importante na sua vida é o filho. O Harold é viúvo. Só depois é que vem o seu trabalho académico.

— E que trabalho é esse?

— A química do iodo. Sinto o mesmo em relação ao meu trabalho. — Sorriu. — Posso não ser muito idealista em relação aos homens, mas a minha ambição continua a ser deslindar os mistérios do cérebro humano.

Isto trouxe Luke de volta ao seu problema. O regresso à realidade foi como um golpe inesperado, ao mesmo tempo traumatizante e doloroso.

— Quem me dera que conseguisses deslindar o mistério do meu — desabafou.

Billie arqueou as sobrancelhas e, apesar da gravidade dos seus problemas, Luke reparou na sua beleza enquanto ela franzia o nariz, perplexa.

— É estranho. — comentou. — Talvez tenhas sofrido algum traumatismo craniano que não deixou vestígios visíveis, mas, nesse caso, é surpreendente que não tenhas sentido dores de cabeça.

— Não senti nada.

— Pelo teu aspecto vejo que não és alcoólico ou tóxico dependente. Se tivesses sofrido algum choque emocional ou tivesses estado sujeito a uma grande pressão, eu teria provavelmente tomado conhecimento disso através dos amigos que temos em comum,

— Só resta...

Billie abanou a cabeça.

Não és de certeza esquizofrénico, por isso, dificilmente poderias ter recebido o tratamento composto por electroterapia e fármacos que poderia ter provocado...

De repente, Billie calou-se. Ficou sedutoramente sobressaltada, os olhos arregalados, a boca entreaberta.

— Que foi? — indagou Luke.

— Acabei de lembrar-me de Joe Blow.

— Quem é ele?

— Joseph Bellow. O nome ficou-me na cabeça, porque me soava a inventado.

— E então?

— Deu entrada aqui no hospital ontem, depois de eu ter ido para casa. Foi-lhe dada alta durante a noite, o que é muito estranho.

— Qual era o problema dele?

— Era esquizofrénico. — Empalideceu. — Ai, meu Deus!

Luke começou a perceber o seu raciocínio.

— Então, esse doente...

— Vamos ver a ficha dele.

Billie voltou-se e subiu as escadas a correr. Percorreram o longo corredor a passos largos e entraram numa sala cuja porta indicava «Sala do Arquivo». Estava vazia. Billie acendeu a luz.

Abriu a gaveta correspondente às letras «A-D», percorreu as pastas e tirou uma. Leu em voz alta:

— Indivíduo do sexo masculino, caucasiano, um metro e oitenta e cinco, oitenta quilogramas, trinta e sete anos de idade.

A suposição de Luke confirmou-se.

— Achas que sou eu? — perguntou. Billie acenou que sim com a cabeça.

— O doente recebeu o tratamento que provoca amnésia total.

— Meu Deus! — exclamou, ao mesmo tempo intrigado e consternado. Se Billie tivesse razão, o tratamento fora-lhe administrado deliberadamente. Isso explicava porque fora seguido — presumivelmente por alguém que queria certificar-se de que surtira o efeito desejado. — Quem terá sido?

— O meu colega, o doutor Leonard Ross, é que tratou da entrada do doente no hospital. O Len é psiquiatra. Gostava de conhecer a fundamentação lógica que o levou a autorizar tal tratamento. O doente deve ser mantido sob observação durante alguns dias antes de lhe ser receitado qualquer tratamento. Nem imagino qual terá sido a justificação médica para dar alta ao doente imediatamente a seguir, mesmo com o consentimento de familiares. Isto é muito estranho.

— Pelos vistos, o Ross está metido em sarilhos. — Billie suspirou.

— Provavelmente, não. Se eu fizer queixa, acusar-me-ão de má perdedora. Dirão que me estou a vingar por o Len ter conseguido o lugar que eu queria, o de director de investigação.

— Quando foi isso?

— Hoje mesmo.

Luke ficou perplexo.

— O Ross foi promovido hoje?

— Sim, e não me parece que seja apenas coincidência.

— Claro que não! Foi subornado. Prometeram-lhe a promoção em troca deste tratamento menos claro.

— Não posso crer! Na verdade, até acredito. o Len é um fraco.

— Deve ter sido o instrumento dos desígnios de alguém. Alguém aqui do hospital o deve ter coagido.

— Não — afirmou Billie, abanando a cabeça. — A fundação que está a financiar o cargo, a Fundação Sowerby, insistiu para que o cargo fosse ocupado por Ross. Foi o meu chefe quem mo disse, Na altura, não percebemos porquê. Agora já estou a ver.

— Tudo se encaixa, mas continuo sem perceber. Alguém da fundação queria que eu perdesse a memória?

— Imagino quem possa ser — alvitrou Billie. — Anthony Carroll. Ele faz parte do conselho de administração.

O nome soou-lhe familiar. De repente lembrou-se que Anthony era o homem da CIA que Elspeth mencionara ao telefone.

— Ainda assim, continuamos sem saber por que motivo.

— Mas agora temos alguém a quem perguntar — concluiu Billie, levantando o auscultador do telefone.

Enquanto ela marcava o número, Luke tentou organizar os seus pensamentos. A última hora fora marcada por uma série de choques. Fora-lhe dito que não recuperaria a memória, soubera que amara Billie e a perdera, e não conseguia perceber como pudera ter sido tão parvo. Agora descobrira que a amnésia lhe fora propositadamente infligida e que o responsável era alguém da CIA. Contudo, continuava sem perceber a razão que estaria por trás de tudo.

— Queria falar com Anthony Carroll — disse Billie. — Fala a doutora Josephson. — o seu tom era peremptório. — Está bem, então diga-lhe que preciso de lhe falar com urgência. — Olhou para o relógio. — Ele que me ligue para casa daqui a exactamente uma hora. — De súbito o seu semblante carregou-se e a sua voz tornou-se autoritária. — Não brinque comigo. Eu sei que lhe consegue fazer chegar uma mensagem a qualquer hora do dia ou da noite, onde quer que ele se encontre. — E desligou o telefone na cara do seu interlocutor. Olhou para Luke com um ar envergonhado. — Desculpa. o tipo disse-me que ia ver se o conseguia encontrar, como se me estivesse a fazer um favor.

Luke lembrou-se de Elspeth lhe ter dito que Anthony era um antigo amigo que andara consigo e com Bernard em Harvard.

— Pensava que este Anthony era nosso amigo.

— Pois — disse Billie com ar preocupado —, também eu.

 

Sete e meia da tarde

O problema da temperatura representa um obstáculo importante num voo espacial tripulado. Para calcular a eficácia do seu isolamento, o Explorer transporta quatro termómetros: três no exterior para medir a temperatura da carenagem, e um dentro do compartimento de instrumentos para indicar a temperatura interior o objectivo é manter a temperatura entre quatro e vinte e um graus Celsíus — limites razoáveis para a sobrevivência humana.

 

Bernard vivia em. Massachusetts Avenue, numa casa com vista para o pitoresco desfiladeiro de Rock Creek inserida numa área residencial de grandes mansões e embaixadas estrangeiras. A decoração do apartamento revelava claras influências ibéricas: mobiliário colonial espanhol com formas retorcidas em madeira escura, as paredes brancas repletas de quadros com paisagens banhadas pelo sol. Luke recordou-se do que Billie lhe dissera sobre Bernard ter combatido na Guerra Civil Espanhola.

Era fácil imaginar Bernard como combatente. o seu cabelo escuro começava a revelar entradas e a cintura descaía um pouco sobre o cinto das calças, mas o seu semblante deixava entrever uma personalidade determinada, Luke interrogou-se se uma pessoa assim tão realista acreditaria na estranha história que tinha para lhe contar.

Bernard cumprimentou-o calorosamente e serviu-lhe um café forte numa chávena pequena. Sobre a consola do gramofone encontrava-se uma moldura com a fotografia de um homem de meia-idade de camisa rasgada, segurando uma espingarda.

— É Largo Benito — explicou Bernard. — o maior homem que jamais conheci. Lutei ao seu lado em Espanha. o meu filho também se chama Largo, mas a Billie trata-o por Larry.

Bernard encarava provavelmente o tempo que passara em Espanha como os melhores anos da sua vida. Luke perguntou a si mesmo com alguma inveja qual teria sido a melhor época da sua vida.

— Suponho que também tenha tido boas memórias de alguma coisa — declarou, abatido.

Bernard lançou-lhe um olhar intrigado.

— Que se passa, companheiro?

Luke sentou-se e contou-lhe tudo o que ele e Billie tinham descoberto no hospital. Depois disse:

— O que acho que me aconteceu é o seguinte. Não sei se vais acreditar, mas vou contar-to à mesma, pois espero que consigas lançar alguma luz sobre este mistério.

— Farei o que puder.

— Vim para Washington na segunda-feira, mesmo antes do lançamento do foguetão, para discutir com um general do Exército um assunto qualquer que não quis revelar a ninguém. Preocupada comigo, a minha mulher telefonou ao Anthony, pedindo-lhe que olhasse por mim. o Anthony combinou comigo que nos encontrássemos na terça-feira de manhã para tomarmos o pequeno-almoço juntos.

— Faz sentido. o Anthony é teu amigo há muitos anos. Quando vos conheci, já vocês eram companheiros de quarto.

— O que vou contar a seguir é um pouco mais especulativo. Encontrei-me então com o Anthony, conforme combinado, antes de ir para o Pentágono. Ele deitou qualquer coisa no meu café que me pôs a dormir, meteu-me no carro e levou-me para o Georgetown Mind Hospital. Conseguiu de alguma forma afastar a Billie do hospital, ou talvez tenha esperado que ela saísse de serviço, e fez com que eu fosse admitido sob um nome falso. Depois foi ter com o doutor Len. Ross, que sabia que se deixaria subornar facilmente. Utilizando a sua posição como membro do conselho de administração da Fundação Sowerby, persuadiu Len a aplicar-me tratamento que destruiria a minha memória.

Fez uma pausa, esperando que Bernard lhe dissesse que tudo aquilo era ridículo, impossível, fruto de uma mente demasiado imaginativa. Mas não. Para sua surpresa, Bernard perguntou simplesmente-. — Mas por amor de Deus, porquê?

Luke começou a sentir-se melhor. Se Bernard acreditava nele, poderia ajudá-lo.

— Por agora — prosseguiu Luke —, concentremo-nos no «como», em vez do «porquê».

— Está Bem. Para não deixar pistas, o Anthony fez-me sair do hospital, vestiu-me uns trapos, possivelmente logo a seguir ao tratamento, enquanto estava ainda inconsciente, e foi largar-me em Union Station, ao lado de um outro suposto vagabundo, cuja missão era persuadir-me de que eu sempre vivera assim e, ao mesmo tempo, vigiar-me e certificar-se de que o tratamento resultara.

Desta vez, Bernard mostrou-se céptico.

— Mas ele devia saber que, mais cedo ou mais tarde, acabarias por descobrir a verdade.

Não necessariamente, ou, pelo menos, não toda a verdade. É óbvio que o Anthony deve ter calculado que, após alguns dias ou semanas, eu acabaria por descobrir a minha identidade, mas talvez pensasse que continuaria a acreditar que tudo era resultado de uma bebedeira. Segundo o que se diz, as pessoas podem perder a memória depois de grandes bebedeiras. Se, mesmo assim, eu não achasse isso muito provável e fizesse algumas perguntas, as pistas já teriam desaparecido. A Billie já teria esquecido o doente misterioso e, caso se lembrasse, o Ross já teria destruído qualquer registo do doente. Bernard acenou com a cabeça, pensativo.

— Um plano arriscado, mas com boas hipóteses de resultar. Muitas vezes, em operações secretas, é o melhor que se pode esperar.

— Devo confessar que estou surpreendido por não te mostrares mais céptico. — Bernard encolheu os ombros. — Há alguma razão para acreditares assim tão facilmente na minha história? — pressionou-o Luke.

— Estivemos todos envolvidos em acções clandestinas. Estas  coisas acontecem.

Luke tinha a certeza que Bernard estava a esconder-lhe alguma coisa. Não havia mais nada a fazer a não ser implorar.

— Ben., se sabes de mais alguma coisa, diz-me, por amor de Deus. Preciso de toda a ajuda que conseguir.

Bernard tinha um ar angustiado.

— Há mais uma coisa, mas é segredo e não quero meter ninguém em sarilhos.

O coração de Luke saltou de esperança.

— Por favor, conta-me. Estou desesperado! — Bernard olhou-o intensamente.

— Pois estás. — Respirou fundo. — Está bem. Então aqui vai: no final da guerra, a Billie e o Anthony trabalharam num projecto especial para o OSS, a Comissão da Droga da Verdade. Na altura, tu e eu não soubemos de nada, mas eu descobri mais tarde, quando já estava casado com a Billie. Procuravam substâncias que influenciassem prisioneiros sob interrogatório. Tentaram mescalina, barbitúricos, escopolina e canábis. As vítimas eram soldados suspeitos de ligações comunistas. A Billie e o Anthony foram para campos militares em Atlanta, Memphís e New Orteans. Aí conquistavam a confiança do soldado, davam-lhe o charro e ficavam à espera para ver se ele revelava algum segredo.

— Então, o que a maioria dos soldados conseguiu foi uma pedrada à borla! — comentou Luke, rindo.

Bernard acenou com a cabeça, concordando.

— A esse nível, o assunto era mais ou menos cómico. Depois da guerra, a Billie voltou à universidade para fazer o doutoramento sobre o efeito de várias drogas legais, como a nicotina, sobre o estado mental das pessoas. Quando finalmente se doutorou continuou a trabalhar na mesma área, concentrando-se no modo como as drogas e outros factores afectam a memória.

— Mas não para a CIA.

— Era o que eu pensava, mas estava enganado. Meu Deus! — Em mil novecentos e cinquenta, quando Roscoe Hillenkoetter era director, a CIA deu início a um projecto com o nome de código Bluebird e o Hillenkoetter autorizou o uso de fundos não aprovados, por isso não existem documentos ligados com o caso. o projecto estava relacionado com o controlo da mente e financiou uma série de planos de investigação em várias universidades, canalizando o dinheiro através de fundações, para encobrir a sua verdadeira origem. o trabalho da Billie foi financiado assim.

— E o que é que ela pensava em relação a isso?

— Nós discutimos muitas vezes por causa disso, Eu disse-lhe que não achava bem, que a CIA planeava fazer lavagens cerebrais às pessoas. Ela respondeu-me que todo o trabalho científico era passível de ser utilizado para o bem e para o mal, que a investigação que estava a conduzir era inestimável e que não se importava com eventuais danos secundários.

— Foi por isso que se divorciaram?

— Mais ou menos. Na altura, eu estava a escrever um programa radiofónico intitulado Detective Story, mas queria era entrar no cinema. Em mil novecentos e cinquenta e dois escrevi um argumento sobre uma agência governamental secreta que fazia lavagens cerebrais a cidadãos. Foi comprado por Jack Wamer, mas não contei nada à Billie.

—   Porque não?

—   Porque sabia que a CIA conseguiria cancelar o filme.

—   Eles podem fazer isso?

—   Podes crer que sim.

—   Então, o que aconteceu?

— O filme estreou em mil novecentos e cinquenta e três. O Frank Sinatra desempenhou o papel do cantor do clube nocturno que presencia um crime político e que depois perde a memória através de um processo secreto. A Joan Crawford fazia de empresária dele. Foi um enorme sucesso. A minha carreira estava lançada. Fui inundado de propostas milionárias dos outros estúdios.

— E a Billie?

— Levei-a à estreia.

— Suponho que tenha ficado muito zangada. 

Bernard sorriu lugubremente.

— Ficou doida. Acusou-me de usar informações confidenciais que me contara. Estava certa de que a CIA não lhe concederia mais fundos e que a sua carreira estava arruinada. Foi o fim do nosso casamento.

— Então, foi isso que ela quis dizer quando referiu que entre vocês havia um conflito de valores.

— É verdade. Ela devia era ter casado contigo. Nunca percebi porque não o fez.

Luke foi apanhado de surpresa. Tinha curiosidade em saber o que Bernard queria dizer com aquilo, mas adiou a pergunta para mais tarde. — Mas voltando a mil novecentos e cinquenta e três... a CIA não lhe cortou os fundos?

— Não — confirmou Bernard com um ar amargo. — Em vez disso, destruíram a minha carreira.

— De que forma?

—  Fui sujeito a uma investigação, como é óbvio, tinha sido comunista até ao final da guerra, por isso era um alvo fácil. Fui colocado na lista negra de Hollywood e nem sequer consegui recuperar o meu antigo emprego na rádio.

— Qual foi o papel do Anthony nisso tudo?

— Segundo a Billie, ele fez tudo o que pôde para me proteger, mas, depois do que me contaste, nem sei se terá sido verdade.

— O que é que fizeste depois?

— Os dois anos que se seguiram foram maus, mas depois tive a  ideia dos gémeos Travessos. — Luke franziu a testa, sem perceber. — É uma colecção de livros infantis — explicou Ben, apontando para uma estante cheia de livros coloridos. — Tu lia-los para o filho da tua irmã.

Luke ficou contente por saber que tinha um sobrinho, ou talvez vários. Gostava da ideia de ler para eles. Tinha ainda tanto a aprender sobre si mesmo...

— Os livros devem ser um sucesso — comentou Luke, indicando com a mão a estante.

Ben acenou afirmativamente.

— Escrevi o primeiro sob um pseudónimo e usei um agente que era bastante compreensivo para com as vítimas da caça às bruxas da época maccartista. o livro foi um sucesso de vendas e, desde aí tenho escrito dois por ano,

Luke levantou-se e tirou um livro da estante. Leu em voz alta: O que é mais peganhento, mel ou chocolate derretido? Os gémeos tinham de saber. Fora por isso que haviam feito a experiência que tanto zangara a mãe.»

Sorriu. Conseguia perceber por que motivo as crianças adoravam os livros. Depois ficou triste.

— A Elspeth e eu não temos filhos.

— Não sei porquê — disse Bernard. — Sempre desejaste muito formar uma família.

— Tentámos, mas não conseguimos. — Luke fechou o livro. — O meu casamento é feliz?

Bernard suspirou.

— Já que perguntas, não.

— Porquê?

— Aconteceu alguma coisa, mas tu não sabias o quê. Telefonaste-me uma vez, a pedir-me conselho, mas eu não consegui ajudar-te.

— Há pouco... disseste que a Billie devia ter casado comigo.

— Vocês eram doidos um pelo outro.

— O que aconteceu?

— Não sei. Depois da guerra tiveram uma grande discussão. Não sei ao certo o que a motivou.

— Terei de perguntar à Billie.

— Suponho que sim.

Luke voltou a colocar o livro na estante.

— Bom, agora compreendo por que motivo acreditaste na minha história.

— Sim. Acho que é o Anthony quem está por trás de tudo.

— Fazes ideia da razão que o terá levado a fazer isto?

— Não faço a mínima ideia.

 

Oito da noite

Se as variações de temperatura forem mais elevadas que o esperado, é possível que os transístores de germànio sofram um sobreaquecimento, as baterias de mercúrio parem e o satélite deixe de transmitir dados para a Terra.

 

Billie sentou-se frente ao espelho do toucador para retocar a maquilhagem. Considerava os olhos o seu melhor traço fisionómico, por isso maquilhava-os sempre cuidadosamente com eyeliner preto, sombra cinzenta e um pouco de rímel. Como deixara a porta do quarto aberta, conseguia ouvir o som de disparos proveniente da televisão no andar inferior: Larry e Becky-Ma estavam a ver um filme.

Não lhe apetecia sair nessa noite. Os acontecimentos do dia tinham-lhe despertado emoções fortes. Estava zangada por não ter conseguido o cargo que queria, espantada com o que Anthony fizera e confusa e intimidada com a descoberta de que o que existira entre si e Luke continuava tão poderoso e perigoso como no passado. Deu por si a rever os relacionamentos com Anthony, Luke, Bernard e Harold e a perguntar-se se, ao longo da vida, tomara as decisões certas, Depois de tudo o que acontecera, a perspectiva de passar a noite a ver um filme na televisão com Harold parecia-lhe insípida.

O telefone tocou.

Billie saltou do banco e atravessou o quarto para chegar ao telefone sobre a mesa-de-cabeceira, mas Larry tinha já atendido no vestíbulo. Ouviu a voz de Anthony dizer:

— Fala da CIA. Washington está prestes a ser invadida por um exército de couves saltitantes.

Larry soltou uma gargalhada.

— És tu, tio Anthony!

— Se for abordado por uma couve não fale com ela, repito, não fale com ela,

— As couves não falam!

— A única forma de lidar com elas é bater-lhes com pão às fatias.

— Estás a gozar comigo! — protestou Larry alegremente.

— Olá, Anthony — interrompeu Billie.

— Vai vestir o pijama, Larry está bem? — disse Anthony

— Está bem, tio — e desligou.

A voz de Anthony mudou de tom.

— Estás aí, Billie?

— Sim.

— Pediste que te ligasse com urgência. Estou a ver que te conseguiste entender com o oficial de serviço.

— Sim. Anthony, que raio andas a tramar?

— Terás de me fazer uma pergunta mais específica.

— Não brinques comigo, por amor de Deus. Percebi que estavas a mentir da última vez que falámos, mas na altura desconhecia a verdade. Agora já não. Descobri o que fizeste ao Luke ontem à noite no meu hospital. — Seguiu-se um momento de silêncio. -Quero uma explicação!

— Não posso falar sobre isto ao telefone. Se nos pudéssemos encontrar nos próximos dias...

— Isso querias tu! — Billie não ia deixá-lo adiar a conversa. Quero ouvir a tua história agora!

— Sabes que não posso...

— Podes fazer o que bem entenderes, por isso não te faças de parvo comigo!

Anthony protestou:

— Devias confiar em mim. Somos amigos há vinte anos.

— Pois, e da primeira vez que saímos juntos meteste-me logo em sarilhos.

— Ainda estás zangada por causa disso? — perguntou Anthony em tom brincalhão.

Billie abrandou.

— Claro que não. Quero confiar em ti. Afinal de contas, és o padrinho do meu filho.

— Explíco-te tudo se te encontrares comigo amanhã.

Ela quase concordou, mas depois lembrou-se do que ele fizera.

— Ontem à noite não confiaste em mim, pois não? Fizeste tudo nas minhas costas, mesmo dentro do meu hospital!

— Já te disse que posso explicar...

— Devias ter explicado antes de me enganares. Diz-me a verdade, ou vou ao FBI assim que desligar. A decisão é tua. Ameaçar homens era uma atitude perigosa — por vezes torna-os ainda mais obstinados. No entanto, ela sabia que a CIA detestava e temia qualquer tipo de interferência do FBI, especialmente quando a Agência actuava na fronteira da legalidade, ou seja, a maioria das vezes. Os agentes federais, que protegiam ciosamente o direito de caçar espiões dentro dos EUA, ficariam deliciados com a oportunidade de investigar acções ilegais da CIA em território nacional. Se o que Anthony andava a fazer fosse estritamente legal, então a ameaça de Bíllie nada significaria, mas, se estivesse a pisar os limites da lei, ficaria assustado,

Anthony suspirou.

— Bom, estou numa cabina e suponho que seja pouco provável que o teu telefone esteja sob escuta. — Fez uma pausa. Podes achar a minha história difícil de engolir...

— Põe-me à prova.

— Bem, então aqui vai. O Luke é um espião, Billie. Por instantes ela ficou estupefacta, depois replicou:

— Não sejas ridículo!

— É comunista, um agente de Moscovo.

— Por amor de Deus se achas que vou acreditar nisso...

— Não me interessa se acreditas ou não. — o seu tom de voz tornou-se subitamente áspero. — Há anos que passa segredos de tecnología espacial para os Soviéticos. Como é que julgas que eles conseguiram colocar o Sputník em órbíta quando o nosso satélite estava ainda nas bancadas dos laboratórios? Por amor de Deus, eles não estão à nossa frente cientificamente! Tiram partido da nossa investigação e da deles, e o responsável é o Luke!

— Anthony, há vinte anos que conhecemos o Luke. Ele nunca demonstrou o mínimo interesse por política!

— É o melhor disfarce de todos.

Billie hesitou. Seria verdade? Sem dúvida que um bom espião faria de conta que não se interessava por política ou até que era membro do Partido Republicano.

— O Luke não trairia o seu país.

— Coisas dessas acontecem. Lembra-te que quando ele esteve na Resistência francesa trabalhou com os comunistas. É claro que nessa altura eles estavam do nosso lado, mas é óbvio que ele manteve o contacto depois da guerra. Pessoalmente, acho que não casou contigo porque isso interferiria com o seu trabalho para os comunas.

— Mas casou com a Elspeth.

— Sim, mas nunca tiveram filhos. Billie sentou-se. Estava aturdida.

— Que indícios tens disso?

— Tenho provas. Planos ultra-secretos que ele passou a um conhecido oficial do KGB.

Agora estava desnorteada, sem saber no que havia de acreditar.

— Mesmo que tudo isso seja verdade, porque lhe apagaste a memória?

— Para lhe salvar a vida.

Com esta resposta, ficou totalmente desorientada.

— Não estou a compreender.

— Billie, nós íamos eliminá-lo.

— Quem é que ia matá-lo?

— Nós, a CIA. Sabes que o Exército está prestes a lançar o nosso primeiro satélite. Se o foguetão for um desastre, os Russos dominarão o espaço, como a Inglaterra dominou a América durante duzentos anos. Tens de compreender que o Luke representou a maior ameaça ao poder e prestígio americanos desde a guerra. A decisão de o eliminar foi tomada assim que descobrimos quem ele era.

— Porque não se limitaram a levá-lo a tribunal por espionagem?

— Deixarmos que o mundo inteiro saiba que a nossa segurança é tão reles que os Soviéticos há anos que se aproveitam da nossa tecnologia? Pensa no que isso faria à influência que o nosso país detén, especialmente em todos os países subdesenvolvidos que Moscovo tenta aliciar. Essa opção não foi sequer colocada.

— Então, o que aconteceu?

— Convenci-os a tentar esta solução. Fui directamente às chefias. Ninguém sabe disto, a não ser o director da CIA e o presidente. E teria resultado, se o Luke não fosse um sacana tão engenhoso. Eu poderia ter salvo o Luke e mantido tudo em segredo. Se ao menos ele tivesse acreditado que perdera a memória depois de uma noite de farra e vivesse como um vagabundo durante algum tempo, eu teria conseguido manter as coisas em segredo. Nem ele jamais saberia que segredos revelara!

Billie foi assolada por um momento de egoísmo.

— Não hesitaste em arruinar a minha carreira.

— Para salvar a vida do Luke? Nunca me ocorreu que quisesses que eu hesitasse.

Não sejas insensível. Esse foi sempre o teu pior defeito.

— De qualquer forma, o Luke estragou-me os planos, com a tua ajuda. Ele está contigo agora?

— Não. — Billie sentiu os cabelos da nuca a arrepiarem-se.

— Preciso de falar com ele antes que se prejudique ainda mais. Onde está?

Agindo sob instinto, Billie mentiu.

Não sei.

— Não me esconderias nada, pois não?

— Claro que sim. Acabaste de me dizer que a tua organização quer matar o Luke, por isso seria muito estúpido da minha parte dizer-te onde ele se encontra, caso soubesse. Mas não sei.

— Escuta-me, Billie. Eu sou a sua única esperança. Se queres mesmo salvar-lhe a vida, diz-lhe que me telefone.

— Vou pensar nisso — disse Billie, mas Anthony já tinha desligado.

 

Oito e meia da noite

O compartimento de instrumentos não possui portas ou escotilhas de acesso. Para trabalhar no equipamento, os engenheiros de Cabo Canaveral têm de levantar toda a carenagem. É um procedimento incómodo, mas que permite poupar peso, um factor crítico na luta para libertar o foguetão da força da gravidade terrestre.

 

Luke pousou o telefone com a mão a tremer. — Que foi que ela disse? Parece que viste um fantasma! exclamou Bernard.

— O Anthony diz que eu sou um agente soviético — balbuciou Luke.

Bernard franziu as sobrancelhas.

— E?...

Diz que, quando a CIA me descobriu, decidiram matar-me, mas ele convenceu-os de que bastaria apagar-me a memória.

— Uma história vagamente plausível — concluiu Bernard.

Luke estava devastado.

— Meu Deus, achas que pode ser verdade?

— Claro que não!

— Não podes ter a certeza disso.

— Posso, sim.

Luke mal se atrevia a ter esperança.

— Como?

— Porque eu fui um agente soviético. Luke olhou-o, espantado. E agora?

— Podíamos ser ambos agentes sem que soubéssemos um do outro — argumentou.

Bernard abanou a cabeça.

— Foste tu quem pós fim à minha carreira como agente.

— Como?

— Queres mais café?

— Não, obrigado, sinto-me um pouco tonto.

— Estás com péssimo aspecto. Quando foi a última vez que comeste?

— A Billie deu-me umas bolachas. Esquece a comida. Conta-me o que sabes.

Bernard levantou-se.

— Vou fazer-te uma sanduíche, antes que desmaies. Luke apercebeu-se de que estava faminto.

— Agradeço.

Dirigiram-se à cozinha, Bernard abriu o frigorífico e tirou um pão de centeio, manteiga, carne enlatada e uma cebola. Luke sentiu água a crescer na boca.

— Foi durante a guerra — começou Bernard enquanto barrava manteiga em quatro fatias de pão. — A Resistência francesa estava dívídida em duas facções, os gaullistas e os comunistas, que lutavam por uma posição de destaque na França do pós-guerra. Roosevelt e Churchill queriam certificar-se de que os comunistas não ganhariam as eleições. Assim, os gaullistas recebiam todo o armamento e munições.

— E o que achava eu de tudo isso?

Bernard dispunha camadas de carne, mostarda e argolas de cebola sobre as fatias de pão.

— Tu não te metias na política francesa, querias apenas ganhar aos nazis e regressar a casa, mas eu tinha outros planos. Queria equilibrar um pouco as coisas.

— De que forma?

— Avisei os comunistas de que estávamos à espera de uma entrega via pára-quedas, para que eles nos fizessem uma emboscada e nos roubassem o armamento. — Abanou a cabeça, com ar desanimado. — Fizeram merda da grande! Era suposto cruzarem-se connosco, como que por acaso, quando já estivéssemos de regresso à base, e exigirem um quinhão do material. Em vez disso, atacaram-nos logo que o material caiu no solo. Assim, ficaste a saber que tínhamos sido traídos, e eu era o suspeito mais óbvio.

— E que foi que eu fiz?

Fizeste um acordo comigo. Eu parava de trabalhar para Moscovo naquele mesmo instante e tu manterias segredo sobre o que eu fizera para sempre.

— E?...

Bernard encolheu os ombros.

Ambos mantivemos a nossa palavra, mas acho que nunca me perdoaste. A partir daí, a nossa amizade nunca mais foi a mesma. Um gato birmanés cinzento apareceu subitamente. Miou e Bernard lançou um pouco de carne para o chão. o gato comeu-a com delicadeza e lambeu as patas.

— Se eu fosse comunista, ter-te-ia encoberto — alvitrou Luke.

— Obviamente.

—  Luke começou a acreditar na sua própria inocência.

— Mas talvez me tivesse tornado comunista depois da guerra... — argumentou ainda.

— Não. É algo que acontece quando se é jovem, ou então nunca acontece.

Fazia sentido.

— Talvez espiasse por dinheiro...

— Não precisas de dinheiro, Luke. A tua família é rica. Era verdade, Elspeth dissera o mesmo.

— Então o Anthony está enganado — concluiu Luke.

— Ou a mentir... — Ben cortou as sanduíches ao meio e colocou cada uma num prato diferente. — Queres um refrigerante?

— Pode ser.

Ben tirou duas garrafas de Coca-Cola do frigorífico e abriu-as. Estendeu a Luke um prato e uma garrafa, pegou no seu prato e na sua garrafa e conduziu Luke de novo para a sala de estar.

Luke sentia-se como um lobo esfomeado e comeu a sanduíche em poucas dentadas. Ben observava-o, divertido.

— Toma, come a minha — disse. Luke abanou a cabeça.

— Não, obrigado.

— Vá lá, aceita. De qualquer maneira, eu devia começar a fazer dieta. — Luke pegou na sanduíche de Ben e devorou-a. — Se o Anthony está a mentir, qual será a verdadeira razão para querer que percas a memória?

Luke engoliu um pedaço de pão.

— Tem de estar relacionada com a minha partida súbita de Cabo Canaveral na segunda-feira.

— Sim, de outro modo, seria uma coincidência grande de mais

— assentiu Ben, acenando com a cabeça.

— Eu devo ter descoberto alguma coisa muito importante, tão importante que me obrigou a correr para o Pentágono para a revelar.

Bernard franziu a testa.

— Porque não terás contado o que descobriste a ninguém de Cabo Canaveral?

Luke ficou pensativo por instantes.

— Provavelmente, porque não confiava em ninguém.

— Pode ser. Então, antes de chegares ao Pentágono foste interceptado pelo Anthony.

— Isso mesmo. Suponho que, por confiar nele, lhe contei o que descobrira.

— E então?

— Ele deve ter achado o segredo tão importante que teve de me apagar a memória para se assegurar de que nunca seria revelado.

— Que segredo seria esse?

— Quando descobrir, compreenderei o que me aconteceu.

— Por onde vais começar?

Acho que a primeira coisa a fazer é ir até ao hotel e dar uma vista de olhos pelas minhas coisas. Talvez descubra alguma pista. — Se o Anthony te limpou a memória, também deve ter remexido nas tuas coisas.

Nesse caso, deve ter destruído as pistas mais óbvias, mas talvez haja alguma coisa sque ele não tenha achado relevante. De qualquer das formas, terei de ver. E depois?

— O único local que me resta é Cabo Canaveral. Apanharei um avião ainda hoje... — Olhou para o relógio. Já passava das nove da noite. — Ou amanhã de manhã.

— Dorme aqui — ofereceu Bernard.

— Porquê?

— Não sei. Não me agrada a ideia de passares a noite sozinho. Vai ao Carlton, junta as tuas coisas e volta para aqui. Eu levo-te ao aeroporto de manhã.

Luke acenou com a cabeça em sinal de concordância; depois, sentindo-se um pouco envergonhado, confessou:

— Foste um amigo e peras, Bernard. — Bernard encolheu os ombros,

— Já nos conhecemos há muito tempo.

 Luke não ficou satisfeito com a resposta.

— Mas acabaste de me dizer que depois daquele incidente em França a nossa amizade nunca mais foi a mesma.

— É verdade — admitiu Bernard. Mirou Luke com um olhar sincero e disse: — Na altura, achavas que uma pessoa que te traísse uma vez acabaria por te trair outra.

— Acredito — disse Luke, pensativo. — Mas estava enganado, não estava?

— Sim — declarou Bernard. —, estavas.

 

Nove e meia da noite

O compartimento dos instrumentos tem tendência a sobreaquecer antes da descolagem. A solução encontrada para este problema é típica da rude, mas eficaz, engenharia que está Por trás do apressado PrOjectO Explorer. Um invólucro contendo gelo seco foi apenso electromagnetícamente ao exterior do foguetão. Um termostato acciona uma ventoinha sempre que o compartimento aquece. Pouco antes da descolagem, o electroíman é desligado e o mecanismo de arrefecimento desprende-se.

 

O Cadillac Eldorado amarelo de Anthony estava estacionado na Rua K, entre a Rua 15 e a 16, por trás de uma fila de táxis que esperavam a sua vez de ser chamados pelo porteiro do Hotel Carlton. Sentado ao volante, Anthony tinha uma vista desimpedida da entrada. Pete encontrava-se no hotel, no quarto que alugara, à espera da eventual chamada de um dos agentes que procuravam Luke por toda a cidade.

Uma parte de Anthony esperava que nenhum deles fizesse o telefonema, que Luke conseguisse escapar. Assim, pelo menos, evitaria a mais dolorosa decisão da sua vida. A outra, porém, estava ansiosa por encontrar Luke e acabar com o assunto de uma vez por todas.

Luke era um velho amigo, um homem às direitas, um marido fiel e um excelente cientista, Ao fim e ao cabo, isso não tinha a menor importância, Durante a guerra também haviam matado homens bons, que apenas estavam do lado errado. Luke estava do lado errado na guerra fria, o que tornava as coisas mais difíceis era o facto de conhecer o seu alvo.

Pete saiu do hotel a correr. Anthony baixou o vidro do carro.

— O Ackie telefonou. Luke foi visto em Massachusetts Avenue, no apartamento de Bernard Rothsten — anunciou Pete.

— Até que enfim! — disse Anthony. Colocara agentes perto das casas de Bernard e Billie, antecipando que Luke poderia pedir ajuda aos seus antigos amigos, e o facto de ter razão deu-lhe uma sombria satisfação.

— Quando ele sair, o Ackie vai seguí-lo de moto — acrescentou Pete.

— Óptimo.

— Acha que ele virá ao hotel?

— É possível. Eu fico aqui à espera. — Havia mais dois agentes no vestíbulo do hotel, que alertariam Anthony caso Luke entrasse por outra porta. — A outra hipótese é o aeroporto.

— Temos lá quatro homens.

— Certo. Acho que temos todas as saídas cobertas. Pete acenou em sinal de concordâncía.

— É melhor voltar para o quarto.

Anthony matutou sobre a cena que se seguiria. Luke sentir-se-ia confuso, inseguro, desconfiado, mas desejoso de confrontar o seu velho amigo. Anthony tentaria ficar algures a sós com ele e, assim que isso acontecesse, teria apenas alguns segundos para tirar a arma do bolso interior do sobretudo.

Luke imploraria, talvez, que lhe poupasse a vida. Não estava na sua natureza aceitar a derrota. Tentaria agarrar Anthony, saltar pela janela ou correr para a porta. Anthony agiria com frieza. Não era a primeira vez que tirava a vida a alguém, não perderia o sangue-frio. Seguraria a arma com firmeza, fazendo pontaria ao peito de Luke, e apertaria o gatilho, disparando várias vezes. Luke cairia no chão. Anthony aproxímar-se-ia dele, tomar-lhe-ia o pulso e, se necessário, aplicar-lhe-ia o golpe de misericórdia. E o seu velho amigo estaria morto.

Não haveria qualquer problema. Anthony tinha consigo a irrefutável prova da traição de Luke: os esquemas com a letra dele. Na realidade, não podia provar que haviam sido tirados a um agente soviético, mas, para a CIA, a sua palavra era o bastante. Tinha apenas de se livrar do corpo, Este seria, obviamente, encontrado e seguir-se-ia uma investigação. Mais cedo ou mais tarde a polícia descobriria que a CIA estivera interessada na vítima e começaria a fazer perguntas, mas a Agência sabia bem como agir: à polícia apenas seria dito que a ligação da CIA com a vítima era uma questão de segurança nacional, e portanto confidencial, mas que nada tivera a ver com o homicídio.

— Quem quer que se lembrasse de questionar isso — polícia, jornalista ou político — seria sujeito a um teste de lealdade. Amigos, vizinhos e familiares seriam interrogados por agentes que aludiriam a suspeitas de ligações ao Partido Comunista.. A investigação nunca chegaria a nenhuma conclusão, mas, ainda assim, destruiria a credibilidade do suspeito.

Uma agência secreta pode fazer o que quiser», pensou com uma confiança sinistra.

Um táxi parou em frente ao hotel e Luke saiu. Vestia um sobretudo azul e trazia um chapéu cinzento que comprara ou roubara nesse dia. Ackie Horwitz parou a mota do outro lado da rua. Anthony saiu do carro e encaminhou-se para a entrada do hotel, Luke parecia cansado, mas a sua expressão revelava uma firme determinação. Enquanto pagava ao taxísta, o seu olhar cruzou-se com o de Anthony, mas não o reconheceu. Disse ao homem que ficasse com o troco e entrou no hotel. Anthony seguiu-o.

Tinham ambos a mesma idade, trinta e sete anos, e haviam-se conhecido em Harvard, aos dezoito.

«Onde as coisas chegaram», pensou Anthony amargamente, «onde as coisas chegaram... »

Luke notara que fora seguido por um homem de moto desde que deixara o apartamento de Bernard. Agora todos os seus sentidos estavam alerta.

O vestíbulo do Carlton assemelhava-se a uma grandiosa sala de recepções pejada de reproduções de peças de mobiliário francês. Frente à entrada, os balcões da recepção e do porteiro haviam sido colocados em recantos na parede, para que não prejudicassem o rectângulo perfeito formado pelo vestíbulo. Duas senhoras de casaco de pele conversavam com um grupo de homens de smokíng perto da entrada do bar. Paquetes de libré e funcionários da recepção de casaca cumpriam as suas funções com uma discreta eficiência. Era um lugar luxuoso, destinado a mitigar os nervos de viajantes irritados. Não surtiu o mínimo efeito em Luke.

Examinando o local, rapidamente identificou dois homens com ar de agentes. Um deles estava sentado mum elegante sofá, lendo um jornal, o outro encontrava-se perto do elevador a fumar um cigarro. Ambos pareciam deslocados relativamente ao ambiente: a gabardina e o fato deixavam entrever que não estavam ali para passar a noite em bares e restaurantes caros.

Luke considerou sair do hotel, mas essa não seria a melhor estratégia. Aproximou-se do balcão da recepção, disse o seu nome e pediu a chave do quarto. Quando se voltou, um estranho dirigíu-lhe a palavra.

— Olá, Luke!

Era o homem que o seguira quando entrara no hotel. Não parecia um agente, mas Luke reparara vagamente nele: era alto, mais ou menos da sua altura, e teria um ar distinto, não fosse a forma desleixada como se vestia, o seu dispendioso sobretudo de lã de camelo estava velho e puído, os sapatos pareciam nunca ter sido engraxados e o cabelo precisava de ser cortado. Contudo, falava com autoridade.

— Lamento, mas não o reconheço. Perdi a memória — disse Luke.

— Sou o Anthony Carroll. Estou muito contente por finalmente te ter encontrado! — E estendeu a mão para cumprimentar Luke.

Este hesitou. Ainda não percebera se Anthony era amigo ou inimigo. Apertou-lhe finalmente a mão e disse:

— Tenho muitas perguntas para te fazer.

— Estou pronto para responder a todas.

Luke deteve-se por instantes, olhando-o fixamente e interrogando-se por onde deveria começar. Anthony não parecia o tipo de pessoa capaz de trair um velho amigo. Tinha um ar honesto e inteligente, não muito bonito, mas atraente. Por fim, Luke disse:

— Como foste capaz de me fazer isto?

— Tive de o fazer, para teu bem. Estava a tentar salvar-te a vida.

— Não sou espião.

— As coisas não são assim tão simples.

Luke examinou cuidadosamente Anthony, tentando adivinhar o que lhe passava pela cabeça, Não conseguia decidir se lhe estaria a dizer a verdade e, no entanto, Anthony parecia-lhe sincero, Não havia um único indício de dissimulação na sua expressão, Ainda assim, Luke sentia que ele lhe estava a esconder qualquer coisa.

— Ninguém acredita na história que tu contas sobre eu trabalhar para Moscovo.

— Ninguem... quem?

— Nem o Ben., nem a Billie.

— Eles não conhecem todos os pormenores.

— Mas conhecem-me a mim.

— Também eu.

— E o que é que tu sabes que eles desconhecem?

— Eu digo-te, mas não podemos falar aqui. O que te vou contar é confidencial. Vamos até ao meu gabinete? Fica a cinco minutos daqui.

Luke não estava disposto a ir até ao gabinete de Anthony, não enquanto este não respondesse satisfatoriamente a várias perguntas. No entanto, percebia que o vestíbulo do hotel não era o melhor local para uma conversa secreta.

— Vamos antes para o meu quarto — sugeriu. isso afastá-lo-ia dos agentes e ainda lhe permitiria manter o controlo da situação: sozinho, Anthony não seria capaz de o dominar.

Anthony hesitou, mas acabou por concordar:

— Com certeza.

Atravessaram o vestíbulo e entraram no elevador. Luke verificou o número do quarto na chave: quinhentos e trinta.

— Quinto andar — disse ao ascensorista. Este fechou a porta do elevador e accionou a alavanca.

Nenhum deles pronunciou uma única palavra enquanto subiam. Luke observou as roupas de Anthony: o casaco velho, o fato amarrotado, a gravata inclassificável. Surpreendentemente, Anthony conseguia usá-las com uma espécie de presunção despreocupada.

De repente, Luke reparou que o macio tecido do sobretudo arqueava ligeiramente no lado direito. Havia um objecto pesado no bolso.

Sentiu um arrepio de medo. Cometera um grave erro. Não lhe ocorrera que Anthony estivesse armado.

Tentando manter-se impassível, Luke pensava a toda a velocidade. Seria ele capaz de o matar ali mesmo no hotel? Se esperasse até que estivessem no quarto, ninguém veria nada. E o barulho? A arma deveria estar equipada com um silenciador.

Quando o elevador parou no quinto andar, Anthony desabotoou o casaco.

«Para puxar a arma mais rapidamente», pensou Luke.

Saíram do elevador. Luke não sabia para que lado ficava a suíte, mas Anthony virou sem hesitar para a direita. já deveria lá ter estado.

O suor escorria por baixo do sobretudo de Luke. Sentia-se como se algo do género lhe tivesse acontecido mais que uma vez, mas haviajá muito tempo. Desejou ter ficado com a arma do polícia cujo dedo partira de manhã, mas nessa altura não fazia ideia do problema em que estava envolvido e pensava apenas que perdera a memória.

Tentou acalmar-se. Era um contra um. Anthony estava armado, mas Luke percebera as intenções dele. A situação estava mais ou menos equilibrada.

Caminhando pelo corredor, com o coração aos pulos, Luke procurou algo com que pudesse agredir Anthony: uma jarra grande, um cinzeiro de vidro... Não havia nada.

Tinha de fazer alguma coisa antes que entrassem no quarto. Conseguiria tirar a arma a Anthony? Talvez, mas era uma operação arriscada. A arma poderia disparar durante o confronto e ninguém poderia prever para que lado estaria virada no momento crítico.

Chegaram à porta do quarto e Luke tirou a chave do bolso, uma gota de transpiração correu-lhe cara abaixo. Se entrasse, estava morto.

Destrancou a porta e abriu-a.

— Entra — disse, afastando-se para deixar o seu convidado entrar primeiro.

Anthony hesitou, depois passou por Luke — e entrou. Rapidamente, Luke enganchou o pé em torno do tornozelo direito de Anthony, colocou-lhe as palmas das mãos nas omoplatas e empurrou-o com força. Anthony voou pelo quarto adentro e estatelou-se em cima de uma pequena mesa estilo Regência, derrubando uma grande jarra de narcisos. Em desespero, tentou ainda agarrar-se a um candeeiro de pé em latão com um quebra-luz em seda cor-de-rosa, mas o candeeiro caiu também.

Luke fechou a porta e fugiu. Correu corredor fora. o elevador já havia descido. Irrompeu pela porta da saída de emergência e desceu a escadaria. No piso inferior chocou contra uma empregada que carregava uma pilha de toalhas.

A mulher gritou, assustada, e as toalhas voaram por todo o lado.

— Desculpe! — exclamou Luke, sem parar.

Segundos depois chegou ao fundo das escadas. Deu por si num estreito corredor. Para um dos lados, subindo um pequeno lanço de escadas e atravessando uma arcada, conseguia vislumbrar o vestíbulo.

Anthony sabia, mesmo antes do que sucedeu, que era um erro entrar no quarto primeiro, porém, Luke não lhe deixara outra alternativa. Felizmente, não ficou muito magoado. Após um momento de desorientação, conseguiu pôr-se de pé, Voltou-se, apressou-se para a porta e abriu-a. Ainda viu Luke fugir pelo corredor. Quando o começou a perseguir, este dobrou uma esquina e desapareceu, presumívelmente para a escada de emergência.

Anthony seguiu-o, correndo o mais rápido que podia, mas temia não conseguir apanhar Luke, em tão boa condição física quanto ele, Teriam Curtis e Malone, colocados no vestíbulo, o bom senso de deter Luke?

No piso inferior, Anthony foi momentaneamente atrasado por uma empregada que, de gatas no chão, apanhava um monte de toalhas espalhadas. Compreendeu de imediato que Lukc chocara contra ela. Amaldiçoou a sua sorte e abrandou para contornar a empregada. Quando terminou a manobra, ouviu o elevador chegar. Animou-se: talvez ainda estivesse com sorte.

Do elevador saiu um casal nitidamente um pouco ébrio de alguma comemoração no bar ou no restaurante. Anthony abriu caminho por entre eles, entrou no elevador e disse:

— Para o vestíbulo, e depressa!

O ascensorista fechou de imediato a porta e puxou a alavanca. Anthony olhava, impotente, o número descendente dos andares à medida que estes se acendiam em lenta sucessão. O elevador chegou ao rés-do-chão. A porta deslizou para o lado e ele saiu.

Luke emergiu no vestíbulo mesmo ao lado do elevador. o seu coração pareceu parar por instantes. Os dois agentes que vira anteriormente estavam agora frente à entrada principal, bloqueando-lhe a saída. Um momento depois, o elevador chegou e dele saiu Anthony

Tinha de tomar uma decisão numa fracção de segundo: lutar ou fugir.

Não queria lutar contra três homens, pois quase de certeza não sairia vencedor. Os seguranças do hotel seriam alertados, Anthony mostraria o seu distintivo da CIA e toda a gente faria o que ele mandasse. Luke acabaria preso.

Voltou-se e correu de novo pelo corredor, em direcção às profundezas do hotel. Atrás de si ouviu os passos de Anthony a persegui-lo. Tinha de haver uma saída pelas traseiras. Os abastecimentos não chegavam, com certeza, pelo vestíbulo.

Afastou uma cortina e deu por si num pequeno pátio decorado como uma esplanada mediterrânica. Alguns casais dançavam numa pequena pista de dança. Abrindo caminho por entre as mesas, conseguiu alcançar uma porta. À sua esquerda havia um estreito corredor. Sem hesitar, correu ao longo dele. Devia estar já perto das traseiras do hotel, pensou, embora não conseguisse vislumbrar nenhuma saída.

Foi desembocar numa espécie de copa, onde eram aplicados os toques finais aos pratos cozinhados num outro lugar. Meia dúzia de empregados de uniforme aqueciam comida em fogões a carvão e dispunham pratos em travessas. No meio da copa havia uma escadaria para um andar inferior. Luke esgueirou-se por entre os empregados e desceu as escadas, ignorando uma voz que gritou:

— Desculpe, meu senhor! Não pode ir para aí! — Quando Anthony seguiu Luke, a mesma voz continuou, indignada: o que pensam que isto é, Union Station?

Na cave ficava a cozinha principal, um tórrido purgatório onde dezenas de homens cozinhavam para centenas de pessoas. Jactos de gás flamejavam, o vapor ondeava, as panelas borbulhavam. Os empregados de mesa gritavam com os cozinheiros e os cozinheiros gritavam com os ajudantes. Estavam demasiado ocupados para reparar em Luke, que se esgueirava por entre os frigoríficos, os fogões, as pilhas de pratos e as caixas de legumes.

Ao fundo da cozinha encontrou mais uma escadaria, desta vez para o andar superior, Supôs que desse para a porta das entregas. Caso contrário, estaria encurralado. Arriscou e subiu as escadas. Ao cimo destas, irrompeu por duas portas oscilantes e sentiu o ar frio da noite.

Encontrava-se num pátio escuro. Uma lâmpada fraca sobre as portas deixava entrever caixotes do lixo gigantes e plataformas de madeira empilhadas que pareciam ter já contido caixas de fruta. A quarenta e cinco metros à sua direita viu uma vedação de arame com um portão fechado e, para lá dela, uma rua que o seu sentído de orientação lhe indicava ser a Rua 15.

Correu para o portão. Ouviu a porta abrir-se e imaginou que Anthony estaria mesmo atrás de si, mas encontrava-se sozinho. Luke conseguiu chegar ao portão. Estava fechado e trancado com um forte cadeado de aço. Se ao menos um transeunte passasse, Anthony não se atreveria a disparar. Porém, não se avistava vivalma.

Com o coração aos pulos, Luke trepou a vedação. Ao chegar ao cimo, ouviu o discreto disparar de uma arma com silenciador, mas não sentiu nada. Era um tiro difícil, um alvo em movimento na escuridão a quarenta e cinco metros de distância, mas não impossível. Saltou a vedação. A pistola disparou mais uma vez. Com um pulo chegou ao chão. Ouviu um terceiro disparo. Levantou-se e começou a correr em direcção a leste. Não voltou a ouvir a pistola.

Na primeira esquina, olhou para trás. Não avistou Anthony em parte alguma.

Conseguira escapar.

Anthony sentia as pernas a tremer. Encostou a mão contra a parede fria para se acalmar. O pátio cheirava a legumes apodrecidos. Sentia-se como se estivesse a respirar o odor de produtos em decomposição.

Fora a coisa mais difícil que alguma fez fizera. Em comparação, matar Albin Moulier fora fácil. Agora quase não conseguira premir o gatilho.

O resultado fora o pior que se podia imaginar: Luke continuava vivo e, agora que estivera debaixo de fogo, totalmente alerta e determinado em descobrir a verdade.

A porta da cozinha abriu-se de repente e Malone e Curtis apareceram. Anthony colocou a arma discretamente no bolso. Depois, arquejando, disse:

— Saltou a vedação. Vão atrás dele.

Porém, sabia que não conseguiriam apanhar Luke.

Quando os dois deixaram o pátio, Anthony começou à procura das balas.

 

Dez e meia da noite

A mecânica do foguetão baseia-se na do míssil V-2, usado contra Londres durante a guerra. Até o motor parece o mesmo. Os acelerómetros, reles e giroscópios são os mesmos do V-2. A bomba dos combustíveis funciona a peróxido de hidrogénio, que passa por um catalisador de cádmio, libertando energia que faz mover uma turbina. Também este sistemafoi retirado do V-2.

 

Harold Brodsky preparou um óptimo dry martini e o guisado de Mrs. Riley não desiludiu as expectativas. Para sobremesa, Harold serviu tarte de cerejas e gelado. Billie sentia-se culpada. Ele estava a esforçar-se imenso para lhe agradar, mas ela não conseguia deixar de pensar em Luke e em Anthony, no seu passado comum e na forma como se haviam reencontrado.

Enquanto Harold fazia café, telefonou para casa, para ver se Larry e Becky-Ma estavam bem. Depois Harold sugeriu que fossem para a sala de estar ver televisão. Abriu uma dispendiosa garrafa de brande francês e serviu generosas doses em dois grandes balões. Estaria a tentar reunir coragem, pensou Billie, ou a procurar diminuir a sua resistência? Inalou os vapores do brande, mas não bebeu.

Também Harold estava pensativo, Habitualmente conversador, espirituoso e divertido, nessa noite parecia preocupado.

Viram um filme de suspense, Run, Joe, Run. Jan Sterling desempenhava o papel de uma empregada de mesa que se envolvia com o ex-gangster Alex Nichol. Billie não conseguia interessar-se pelos perigos imaginários que se desenrolavam no ecrã. o seu pensamento era arrastado para o que Anthony fizera a Luke. No OSS, tinham violado todo o tipo de leis e Anthony estava ainda envolvido em operações clandestinas, porém, sentia-se chocada por ver a que extremo ele chegara. Em tempo de paz, as regras eram seguramente diferentes.

E qual seria o seu motivo? Bernard telefonara a dizer que confessara tudo a Luke e tal confirmara o que o seu instinto lhe dizia, que Luke não era espião. Anthony acreditaria nisso? Caso acreditasse, qual seria então a verdadeira razão que o levara a apagar a memória de Luke?

Harold desligou a televisão e serviu-se de outro brande.

— Tenho andado a pensar no nosso futuro — começou ele. Billie sentiu-se desanimar. Harold ia propor-lhe casamento. Se o tivesse feito no dia anterior, teria aceite de imediato, Hoje nem sequer lhe apetecia pensar nisso.

— Amo-te — disse ele, pegando-lhe na mão. — Damo-nos bem, partilhamos os mesmos interesses e ambos temos um filho. Mas não é por isso. Acho que quereria casar contigo mesmo que fosses uma empregada de mesa daquelas que mascam pastilha e adoram Elvis Presley — Billie riu-se. — Adoro-te pela simples razão de seres quem és. Sei que é amor verdadeiro, pois já amei assim antes, apenas uma vez, uma pessoa: a Lesley Amei-a do fundo do coração até à sua morte, por isso, não tenho dúvidas do que sinto. Amo-te e quero que fiquemos juntos para sempre. olhou para ela. — E tu, o que sentes?

Billie suspirou.

— Gosto muito de ti. Gostaria de ir para a cama contigo, acho que seria óptimo. — Harold levantou as sobrancelhas, mas não a Interrompeu. — E é óbvio que a vida seria muito mais fácil se tivesse alguém com quem a partilhar...

— Isso é bom.

— Ontem isso seria o bastante. Teria dito «sim, amo-te, vamos casar», mas hoje encontrei uma pessoa do meu passado e lembrei-me como era estar apaixonada aos vinte e um anos. — Olhou-o com um ar franco. — Não me sinto assim em relação a ti, Harold. Ele não ficou totalmente desanimado.

— Na nossa idade ninguém ama assim.

— Talvez tenhas razão. — Por momentos, desejou poder ser estouvada e livre como outrora, mas era um desejo disparatado para uma mulher divorciada com um filho de sete anos. Para ganhar tempo, levou o copo aos lábios.

Ouviu-se o som da campainha. o coração de Billie disparou.

— Quem será? — exclamou Harold, irritado, — Espero que não seja o Sidney Bowrnan a pedir-me o macaco emprestado a esta hora! — Levantou-se e saiu da sala.

Billie sabia quem era. Pousou o copo, mais uma vez sem ter bebido, e levantou-se.

Ouviu a voz de Luke vinda da porta.

— Preciso de falar com a Billie.

Billie interrogou-se por que motivo se sentia de repente tão desmesuradamente satisfeita.

— Não sei se ela agora quer ser incomodada — respondeu Harold. É importante.

— Como é que soube que a Billie estava aqui?

— Foi a mãe dela que me disse. Desculpe, Harold, não tenho tempo a perder.

Billie ouviu uma pancada, seguida de um grito de protesto de Harold, e percebeu que Luke forçara a entrada. Dirigiu-se para a porta da sala e olhou para ambos.

— Tem calma, Luke, estás em casa do Harold — advertiu Billie. Luke tinha o casaco rasgado, não trazia chapéu e parecia bastante abalado. — o que aconteceu?

— O Anthony disparou sobre mim.

— O Anthony? — balbuciou, chocada. — Meu Deus, o que é que lhe deu? Disparou sobre ti?

Harold parecia assustado.

— Que história é esta?

Luke ignorou-o.

— Está na hora de contar tudo isto a alguém influente — disse a Billie. — Vou ao Pentágono, mas receio que não acreditem na minha história. Importas-te de vir comigo para a corroborar?

— Claro — concordou e tirou o casaco e o chapéu do bengaleiro da entrada.

— Billie! Por amor de Deus, estávamos a meio de uma conversa muito importante... — reclamou Harold.

— Preciso mesmo de ti! — contrapôs Luke.

Billie hesitou. Era um duro golpe para Harold. Era óbvio que planeava este momento havia já muito tempo. Porém, a vida de Luke corria perigo.

— Desculpa — disse a Harold —, tenho de ir. — Ergueu a face para que Harold a beijasse, mas ele voltou a cara. — Não fiques assim. Vemo-nos amanhã.

— Saiam os dois da minha casa! — vociferou Harold, furioso. Billie saiu, seguida de Luke, e Harold bateu com a porta.

 

Onze da noite

O Programa Júpíter custou quarenta milhões de dólares em 1956 e cento e quarenta milhões em 1957. Estima-se que em 1958 o valor ultrapasse trezentos milhões.

 

Anthony encontrou papel de carta e sobrescritos na gaveta da escrivaninha do quarto que Pete reservara. Pegou num sobrescrito e do bolso do casaco tirou três balas destorcidas. Introduziu-as no sobrescrito, fechou-o e escondeu-o no bolso. Livrar-se-ia dele na primeira oportunidade que surgisse.

Começara a fazer a análise dos prejuízos. Restava-lhe pouco tempo, mas tinha de ser meticuloso. Precisava de apagar todo e qualquer vestígio do incidente. A tarefa ajudava-o a desviar o pensamento da aversão que sentia por si mesmo e que tanto lhe amargava na boca.

O subgerente de serviço entrou no quarto com ar irritado. Era um homem pequeno, careca e bem arranjado.

— Faça o favor de se sentar, Mister Suchard — disse Anthony, e mostrou-lhe a sua identificação da CIA.

— CIA! — exclamou Suchard, e a sua indignação pareceu diminuir.

Anthony tirou um cartão-de-visita e estendeu-o a Suchard,

— O cartão diz Departamento de Estado, mas pode sempre contactar-me para esse número, se precisar de mim.

Suchard manejava o cartão como se fosse explodir a qualquer momento.

— O que posso fazer por si, Mister Carroll?

O homem tinha um leve sotaque que a Anthony pareceu suíço.

— Em primeiro lugar, gostaria de pedir desculpa pela pequena desordem de há pouco.

Suchard concordou com pedantismo. Não ia dizer que não tivera importância.

— Felizmente, poucos hóspedes se aperceberam de alguma coisa. Apenas o pessoal da cozinha e alguns empregados de mesa o viram a perseguír um cavalheiro — condescendeu.

— Fico satisfeito por não ter perturbado muito o seu elegante hotel, mesmo que por razões de segurança nacional.

Suchard ergueu as sobrancelhas, surpreendido.

— Segurança nacional?

— Claro, não posso dar-lhe pormenores...

— Claro.

— Mas espero poder contar com a sua discrição,

Os profissionais de hotelaría orgulhavam-se da sua discrição e Suchard acenou vigorosamente com a cabeça em sinal de assentimento, acrescentando:

— Com certeza que sim.

— Talvez nem seja necessário relatar o incidente ao gerente.

— Possivelmente...

Anthony tirou do bolso um rolo de -notas.

— O Departamento de Estado tem um pequeno fundo destinado a compensações. — Pegou numa nota de vinte. Suchard aceitou-a. — E se algum dos empregados lhe parecer descontente, talvez. — Retirou calmamente mais quatro notas de vinte e estendeu-as a Suchard.

Era um suborno avultado para um subgerente.

Muito obrigado — disse Suchard. — Tenho a certeza de que poderemos satisfazer o seu pedido.

— Se alguém lhe fizer perguntas, talvez seja melhor dizer que não viu nada,

— Com certeza — concordou Suchard, levantando-se. — Se puder fazer mais alguma coisa por si?...

— Manter-me-ei em contacto — disse Anthony e Suchard saiu. Pete entrou no quarto.

— O chefe de segurança do Exército em Cabo Canaveral é o coronel Bill Hide — informou. — Está instalado no Motel Starlite. — Entregou a Anthony um pedaço de papel com um número de telefone e voltou a sair.

Anthony marcou o número do gabinete de Híde.

— Fala Anthony Carroll, da CIA, Divisão dos Serviços Técnicos — anunciou,

Hide falava de forma lenta, arrastada e pouco militar e parecia já ter bebido mais que a sua conta.

— O que posso então fazer por si, Mister Carroll?

— Estou a telefonar por causa do doutor Lucas,

— Ah!, sim?

Hide soou-lhe um tanto hostil e Anthony decidiu adulá-lo um pouco.

— Gostava de pedir o seu conselho, se puder díspensar-me algum do seu tempo a uma hora tão tardia, coronel.

— Com certeza, se puder ajudar.

Assim estava melhor.

— Acho que já sabe que o doutor Lucas se tem comportado de forma estranha, o que é preocupante para um cientista na posse de informações confidenciais.

— Sim, bastante preocupante.

Anthony queria que Hide sentisse que dominava a situação.

— Como descreveria o seu estado mental?

— Pareceu-me normal da última vez que o vi, mas falei com ele há algumas horas e disse-me que perdera a memória.

— Então, deve ser isso. Ele roubou um carro, arrombou uma casa, bateu num polícia, coisas desse género.

— Meu Deus, está num estado pior do que eu imaginava! Híde estava a acreditar na história, pensou Anthony com alívio. Continuou:

— Pensamos que ele não está no seu estado normal, mas o senhor conhecê-lo-á melhor que nós. o que se passará?

— Anthony susteve a respiração, esperando a resposta certa.

— Bom, deve ser algum esgotamento. — Era exactamente aquilo em que Anthony pretendia que Hide acreditasse, mas agora o coronel pensava que a ideia fora sua e continuou, tentando convencer Anthony: — Escute, Mister Carroll, o Exército não iria contratar um louco para um projecto altamente secreto. É óbvio que alguma coisa o desestabilizou.

— Ele parece acreditar que há uma conspiração contra si, mas, segundo a sua opinião, não devemos necessariamente dar crédito a tal história?

— Exacto.

— Então, será melhor não darmos muita importâncía ao caso. Quer dizer, não será necessário alertar o Pentágono.

— Claro que não — disse Hide, preocupado. — Na verdade, será melhor eu telefonar para lá a avisar que o Luke perdeu o juizo.

— Como preferir.

Pete entrou e Anthony levantou a mão, indicando-lhe que esperasse. Mudou para um tom de voz mais sentido e disse:

— A propósito, sou um velho amigo do doutor e da senhora Lucas, tentarei convencer o Luke a procurar ajuda psiquiátrica.

— Parece-me boa ideia.

— Muito obrigado, coronel, já fiquei mais descansado. Agiremos de acordo com as suas sugestões.

— De nada. Se precisar de voltar a falar comigo, telefone a qualquer hora.

— Com certeza. — E desligou.

— Ajuda psiquiátrica? — perguntou Pete.

— Não ligues. Era só para que ele confiasse em mim. Anthony reviu a situação: não havia vestígios no hotel e já predispusera o Pentágono contra Luke. Só restava o hospital de Bíllie. Levantou-se para sair. — Volto daqui a uma hora. Quero que fiques aqui, mas não no vestíbulo. Chama o Maione e o Curtis e suborna um empregado do serviço de quartos para que vos deixe entrar na suíte do Luke. Tenho um pressentimento de que ele vai voltar.

— E se o fizer?

— Não o deixem escapar, aconteça o que acontecer.

 

Meia-noite

O foguetão júpiter C utiliza hidina, um combustível secreto e doze por cento mais poderoso que o combustível à base de álcool usado no míssil Redstone. Substância tóxica e corrosiva, a hidina é uma mistura de hidrazina dimetílica assimétrica e triamina díetílénica.

 

Billie conduziu o Thunderbird encarnado até ao parque de estacionamento do Georgetown Mind Hospital e desligou o motor. o coronel Lopez, do Pentágono, parou ao seu lado num Ford Faírlane verde-acastanhado.

— Ele não acreditou numa única palavra do que eu disse! reclamou Luke, irritado.

— Não podemos recriminá-lo — argumentou Billie. — o subgerente do Carlton afirma que ninguém foi perseguido pelas cozinhas e que não havia balas no pátio das entregas.

— O Anthony eliminou as provas.

— Eu sei disso, mas o coronel Lopez não.

— Ainda bem que te tenho a ti para corroborar a minha história! Saíram do carro e entraram no edifício com o coronel, um pacato hispânico com ar de ser uma pessoa inteligente. Billie acenou com a cabeça ao recepcionista e conduziu os dois homens escada acima e ao longo do corredor até à sala do arquivo.

— Vou mostrar-lhe a ficha de um homem chamado joseph Bellow, cujas características físicas condizem com as de Luke adiantou ela. o coronel acenou com a cabeça. — Verá que deu entrada na terça-feira, foi tratado e recebeu alta às quatro da manhã de quarta-feira. É preciso ver que é muito invulgar prescrever um tratamento a um doente esquizofrénico sem um período prévio de observação. E é claro que nem preciso de lhe lembrar que é,inaudito dar alta a um doente de um hospital psiquiátrico às quatro da manhã!...

— Compreendo — disse Lopez.

Bíllie abriu a gaveta, tirou a pasta do doente, colocou-a sobre a mesa e abriu-a.

Estava vazia.

— Oh!, meu Deus! — exclamou ela. Luke olhava para a pasta vazia, incrédulo.

— Eu próprio vi os papéis há menos de seis horas! Lopez levantou-se com um ar enfastiado.

— Bem, parece-me que é tudo — concluiu o coronel.

Luke tinha a horrível sensação de estar a viver num mundo surrealista, no qual as pessoas podiam fazer-lhe o que quisessem, disparar sobre si e perturbar-lhe a mente, sem que ele alguma vez conseguisse provar que as coisas lhe tinham realmente acontecido.

— Talvez seja mesmo esquizofrénico — disse Luke sombriamente.

— Pois eu não sou — afirmou Billie -, e também vi a ficha!

— Mas agora não está aqui — contrapôs Lopez.

Esperem lá — acrescentou Billie -, o registo diário dele deu entrada no hospital. Está na recepção. Fechou a gaveta do arquivo com um estrondo. Regressaram à entrada. Billie falou com o recepcionista:

— Deixa-me consultar o registo, por favor, Charlie.

— É para já, doutora Josephson. — o jovem negro por trás do balcão remexeu na papelada da recepção durante uns momentos. Que estranho, onde é que o registo se meteu?

— Não posso acreditar!... — murmurou Luke.

As faces do recepcionista ruborizaram-se de embaraço.

— Estava aqui há um par de horas...

Billie fumegava de cólera.

— Diz-me uma coisa, Charlie, o doutor Ross passou por cá esta noite?

— Sim, doutora, saiu há alguns minutos,

— Da próxima vez que o vires, pergunta-lhe para onde foi o registo, que ele saberá, com certeza.

— Eu pergunto.

Bíllie afastou-se do balcão de recepção.

— Deixe-me fazer-lhe uma pergunta, coronel. Antes de nos encontrarmos consigo esta noite, alguém lhe tinha já falado de mim? — perguntou Luke, também já irritado.

Lopez hesitou, mas acabou por responder:

— Sim.

— Quem? Relutantemente, confessou:

— Bom, acho que tem o direito de saber, Recebemos uma chamada de Cabo Canaveral, de um tal coronel Hide. Disse que a CIA andava a vigiá-lo e concluíra que se comportava de forma irracional. Luke acenou lentamente com a cabeça.

O Anthony de novo.

Não me ocorre mais nada que possamos fazer para o convencer, Não o censuro por não acreditar em nós, visto que não conseguimos apresentar-lhe nenhuma prova do que afirmamos — queixou-se Billie.

— Nunca disse que não acreditava em vocês — replicou Lopez. Luke ficou surpreendido e olhou para o coronel com uma esperança renovada. — Podia acreditar que você imaginou que um agente da CIA o perseguiu pelos corredores do Carlton e disparou sobre si no pátio. Posso até aceitar que você e a doutora Josephson combinaram fazer de conta que havia um ficheiro que desapareceu, mas não acredito que aqui o Charlie esteja envolvido. Deve existir um registo diário, e a verdade é que desapareceu. Não acho que tenham sido vocês a fazê-lo, o que ganhariam com isso? Mas, então, quem foi? Alguém tem alguma coisa a esconder!

— Então, acredita em mim? — inquiriu Luke.

— O que há para acreditar? Você não sabe o que se passa. Eu também não, mas alguma coisa não está bem, isso é certo, e acho que está relacionada com o foguetão que estamos prestes a lançar.

— O que pensa fazer?

— Vou ordenar um alerta de segurança máxima em Cabo Canaveral. já lá estive e acho que são negligentes. Amanhã de manhã nem vão saber o que lhes caiu em cima.

— E o Anthony?

— Tenho um amigo na CIA. Vou contar-lhe a sua história e dizer-lhe que não tenho a certeza se é verdadeira ou falsa, mas que estou preocupado.

— Isso não nos levará muito longe! — protestou Luke. — Precisamos de saber o que se passa, por que motivo me fizeram perder a memória!

— Concordo — retorquiu Lopez -, mas não posso fazer mais nada. o resto é consigo.

— Bolas! — exclamou Luke. — Pelos vistos, estou sozinho.

Não, não estás — discordou Billie.

 

Uma da manhã

O novo combustível baseia-se num gás de combate e é altamente perigoso. É transportado para Cabo Canaveral num combóio especial equipado com nitrogénio, para o cobrir, se alguma porção se escapar Uma gota que caia acidentalmente na pele entrará na corrente sanguínea de imediato e será fatal. Os técnicos afirmam: «Em caso de dúvida, o melhor é fugir para bem longe. »

 

Billie conduzia rapidamente, manejando a caixa de três velocidades manual do Thunderbírd com confiança. Luke observava-a com admiração. Percorreram as pacatas ruas de Georgetown a grande velocidade, entraram na Baixa de Washington e dirigiram-se ao Hotel Carlton.

Luke sentia-se motivado. Sabia quem era o seu inimigo, tinha uma amiga do seu lado e estava ciente do que tinha a fazer. Estava perplexo com o que lhe acontecera, mas determinado em deslindar o mistério e impaciente por começar.

Billie estacionou o carro na esquina antes da entrada.

— Eu vou primeiro — declarou. — Se estiver alguém suspeito no vestíbulo, saio logo. Se me vires tirar o casaco é porque o caminho está desimpedido.

O plano não agradava completamente a Luke.

— E se o Anthony lá estiver?

— Ele não disparará sobre mim — asseverou Billie, e saiu do carro.

Luke ainda pensou argumentar com ela, mas decidiu não o fazer. Provavelmente, Billie tinha razão. Presumiu que Anthony teria já inspeccionado meticulosamente o seu quarto e destruído tudo o que considerasse uma pista para o segredo que tentava esconder. Contudo, Anthony também necessitava de manter a aparêncía de normalidade, para corroborar a história de que ele perdera a memória após uma noite de bebedeira, Assim, Luke esperava encontrar a maioria das suas coisas. Isso ajudá-lo-ia a reorientar-se e talvez houvesse alguma pista que Anthony tivesse deixado escapar.

Aproximaram-se do hotel separadamente, ficando Luke do lado oposto da rua. Viu Billie entrar, não deixando de reparar no seu andar confiante e na forma como o seu casaco balançava. Conseguia ver o vestíbulo através das portas de vidro. Um carregador abordou-a imediatamente, desconfiado por ver uma mulher tão bonita chegar sozínha àquela hora. Viu os lábios de Billie mexer e percebeu que ela falava com o porteiro. Provavelmente estaria a dizer-lhe que era Mrs. Lucas e que o marido não demorava. Depois despiu o casaco.

Luke atravessou a estrada e entrou no hotel. Para que o carregador ouvisse, disse:

Queria fazer uma chamada antes de irmos para cima, querida. Havia um telefone interno no balcão da recepção, mas Luke não queria que o carregador escutasse a conversa. Ao lado da recepção havia um pequeno vestíbulo com uma cabina telefónica fechada. Luke entrou; Billie seguiu-o e fechou a porta. o compartimento era pequeno e ficaram quase colados um ao outro. Ele colocou uma moeda na ranhura e telefonou para o hotel. Desviou o auscultador um pouco, para que Billie também ouvisse a conversa. Embora estivesse nervoso, achou deliciosamente excitante estar assim tão próximo dela.

— Sheraton-CarIton, bom dia.

Luke deu-se conta de que era de facto quinta-feira de madrugada. Havia vinte horas que estava acordado, porém, não sentia sono. Estava demasiado ansioso.

— Quarto quinhentos e trinta, por favor. A telefonista hesitou:

— Mas, caro senhor, já passa da uma da manhã, é uma emergência?

— O doutor Lucas pediu-me que lhe ligasse fosse a que horas fosse.

— Com certeza.

Seguiu-se uma pausa e depois ouviu-se um sinal de chamada. Luke estava bem consciente do corpo de Billie num vestido de seda purpúrea. Teve de resistir ao ímpeto de pôr os braços em torno dos seus ombros para a abraçar.

Após quatro toques, estava quase a acreditar que o quarto estava vazio, mas, depois, do outro lado, alguém atendeu. Pelos vistos, Anthony, ou um dos seus homens, continuava à sua espera. Uma maçada, mas Luke preferia saber onde se encontrava o inimigo.

— Estou? — disse a voz do outro lado da linha num tom indistinto. Não era Anthony, mas podia ser Pete.

Luke imitou a voz de alguém embriagado:

— Ronníe, fala o Tim. Estamos todos à vossa espera! O homem suspirou, irritado:

— Bêbado! — resmungou, como se estivesse a falar com outra pessoa. — Enganou-se no número, amigo.

— Desculpe, espero não o ter... — Luke parou de falar assim que, do outro lado, o homem desligou o telefone.

— Está lá alguém — confirmou Billie.

— Talvez mais que uma pessoa.

— Sei como fazê-los sair. — Sorriu matreiramente. — Também o fiz em Lisboa, durante a guerra. Anda daí.

Saíram da cabina. Luke viu Billie pegar discretamente numa carteira de fósforos pousada sobre um cinzeiro perto do elevador. o carregador levou-os para o quinto andar.

Encontraram o quarto quinhentos e trinta, mas não pararam, Mais à frente, no corredor, Bíllie abriu uma porta sem placa numerada e descobriu um armário de roupa de cama.

— Perfeito — disse, em voz baixa. — Há algum detector de incêndios aqui perto?

Luke olhou em redor e viu um alarme daqueles que são accionados partindo o vidro com um pequeno martelo.

— Está ali um — disse, apontando.

— Óptimo.

No interior do armário, arrumadas em prateleiras de madeira, havia pequenas pilhas de lençóis e cobertores. Billie desdobrou um cobertor e atirou-o para o chão. Fez o mesmo a uma série deles, até formar um pequeno monte. Luke percebeu o que Billie ia fazer e as suas suspeitas foram confirmadas quando ela tirou o papel de encomenda do pequeno-almoço da maçaneta de uma porta e lhe pegou fogo com um fósforo. Assim que se incendiou, Billie colocou o papel sobre a pilha de cobertores.

— É por isto que nunca se deve fumar na cama — comentou ela. Quando as chamas cresceram, Bíllie juntou mais lençóis ao monte. As suas faces enrubesceram de calor e excitação e estava mais atraente do que nunca. Em pouco tempo formou-se uma grande fogueira, o fumo precipitava-se do armário e começou a encher o corredor.

— Está na altura de fazer soar o alarme — avisou ela -, não queremos que ninguém fique ferido.

— Claro — concordou Luke, e mais uma vez surgiu-lhe à cabeça o mesmo pensamento: «Não são colaboradores.» Porém, agora compreendia-o. Quando pertencia à Resistência e fazia explodir fábricas e armazéns, devia preocupar-se constantemente com os franceses inocentes que acabavam por ficar feridos.

Agarrou no pequeno martelo preso por uma corrente ao lado do alarme, partiu o vidro e carregou no botão encarnado por trás dele. Segundos depois, uma estridente campainha quebrou o silêncio do corredor.

Luke e Billie recuaram, afastando-se do elevador, até já só conseguirem vislumbrar a porta do quarto de Luke através do fumo., A porta mais próxima abriu-se e do quarto saiu uma senhora em camisa de dormir. Viu o fumo, gritou e correu para as escadas. De uma outra porta emergiu um homem em mangas de camisa com um lápis na mão, que, obviamente, ficara a trabalhar até tarde, depois um casal jovem enrolado em lençóis, com ar de terem sido interrompidos enquanto faziam amor, e ainda um homem meio estremunhado num pijama cor-de-rosa amarrotado. Pouco depois, o corredor encontrava-se cheio de pessoas que tossiam e tacteavam o caminho para as escadas por entre o fumo.

A porta da suíte quinhentos e trinta abriu-se lentamente. Luke viu um homem alto avançar para o corredor. Espreitando através da névoa, pareceu-lhe que tinha um sinal de nascença cor de vinho na cara: era Pete. Chegou-se para trás, para não ser reconhecido. o homem hesitou, depois pareceu decidir-se e juntou-se ao grupo de pessoas que se encaminhava para as escadas. Da suíte emergiram mais dois homens, que o seguiram.

— Podemos avançar — disse Luke.

Entraram na suíte e Luke fechou a porta, para o fumo não entrar. Tirou então o casaco.

— Valha-me Deus! — exclamou Billie. — É o mesmo quarto.

De olhos esbugalhados, observou o quarto.

— Não posso acreditar!... — disse, numa voz tão reprimida que ele mal a ouviu. — É a mesma suíte! Luke permaneceu parado a observá-la. Billie estava claramente sob o poder de uma forte emoção.

— O que aconteceu aqui? — perguntou, por fim. Ela abanou a cabeça, espantada.

— É difícil imaginar que não te recordes. — Caminhou pelo quarto. — Havia um piano naquele canto. Imagina, um piano num quarto de hotel! — Espreitou para a casa de banho. — E um telefone ali. Eu nunca tinha visto um telefone numa casa de banho.

Luke esperou. o seu rosto revelava tristeza, mas havia algo mais que ele não conseguia definir.

— Tu ficaste aqui instalado durante a guerra — disse ela, por fim. Depois, de rompante, declarou: — Fizemos amor ali.

Luke olhou para o quarto.

— Naquela cama, suponho.

— Não só na cama... — Deu uma risadinha e ficou novamente séria. — Éramos tão jovens!

A ideia de fazer amor com uma mulher tão encantadora era insuportavelmente excitante.

— Meu Deus, quem me dera lembrar-me! — disse Luke numa voz plena de desejo.

Para sua surpresa, ela corou.

Ele voltou-se e pegou no telefone. Marcou o número da telefonista. Queria certificar-se de que o incêndio não teria hipótese de alastrar. Após uma longa espera, alguém atendeu do outro lado.

— Fala Mister Davies, fui eu que accionei o alarme — disse Luke rapidamente. — o fogo é no armário ao lado do quarto qui nhentos e quarenta. — Desligou sem esperar resposta.

Já recomposta, Billie olhava em seu redor.

— As tuas roupas estão aqui — anunciou ela,

Luke entrou no quarto. Sobre a cama encontravam-se um casaco desportivo de tweed cinzento e um par de calças de flanela a condizer, que pareciam acabados de chegar da lavandaria. supôs que os trouxera vestidos no avião e que os mandara engomar. Dentro de um dos sapatos havia um cinto de pele de crocodilo cuidadosamente enrolado.

Abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira e encontrou um portanotas, um livro de cheques e uma caneta de tinta permanente. Mas o melhor era uma pequena agenda com uma lista de números telefónicos na parte de trás. Folheou rapidamente as páginas e procurou a semana em que se encontravam.

 

DOMINGO, 26

Telefonar à Alice (1928)

 

SEGUNDA-FEIRA, 27

Comprar calções de banho

8h30 Reunião-ápice, Motel Vanguard

 

TERÇA-FEIRA, 28

8h Pequeno-almoço com A. C., café Hay Adams

 

Billie colocou-se ao lado de Luke, para ver o que ele estava a ler, e pôs a mão sobre o seu ombro. Era um gesto trivial, mas ele não conseguiu evitar um arrepio de prazer.

 

— Fazes ideia de quem será esta Alice? — perguntou.

— A tua irmã mais nova.

— Quantos anos tem?

— Menos sete que tu, o que faz com que tenha trinta. Nasceu em mil novecentos e vinte e oito. Suponho que falei com ela no dia do seu aniversário. Podia telefonar-lhe agora e perguntar-lhe se lhe contei alguma coisa estranha.

— Boa ideia.

Luke sentia-se bem. Estava a reconstruir a sua vida.

— Devo ter ido para a Florida sem o meu fato de banho.

— Ninguém se lembra de nadar em janeiro.

— Deve ter sido por isso que apontei na agenda para comprar uns na segunda-feira. Nessa mesma manhã fui para o Motel Vânguard às oito e meia.

— O que é uma reunião-ápice?

— Acho que deve estar relacionado com a curva descrita pelo foguetão durante o voo. É claro que não me lembro de trabalhar nisso, mas sei que é preciso fazer um cálculo importante e complicado. o segundo andar tem de ser lançado precisamente para o ápice, de forma que se consiga colocar o satélite em órbita permanente.

— Podias tentar descobrir quem mais esteve presente nessa reunião e falar com essas pessoas.

— Farei isso mesmo.

— Na terça-feira, tomaste o pequeno-almoço com o Anthony no café do Hotel Hay Adams.

— Depois disso, não tenho mais nada apontado. — Passou para a parte de trás da agenda. Tinha os números de telefone de Anthony, Billie, Ben, da mãe e de Alice, bem como mais vinte ou trinta outros que não lhe diziam nada.

Algum deles te faz lembrar alguma coisa? — perguntou a Billie. Ela abanou a cabeça.

Havia algumas pistas que valia a pena seguir, mas nada de muito significativo. Era o que Luke esperava, mas ainda assim sentia-se abatido. Meteu a agenda no bolso e percorreu o quarto com o olhar. Reparou então numa mala de pele preta aberta sobre uma cadeira. Revistou-a, encontrando camisas e roupa interior lavada, um caderno cheio de cálculos matemáticos e um livro de capa mole intitulado o Velho e o Mar, com a ponta da página cento e quarenta e três dobrada.

Billie revistou a casa de banho.

— Utensílios da barba, bolsa de artigos de higiene, escova de dentes, e é tudo. Luke começou a abrir todos os armários e gavetas do quarto e Billie fez o mesmo na sala de estar. Ele encontrou um sobretudo de lã preto e um chapéu de feltro da mesma cor num armário, e foi tudo. Nada — gritou. — E tu?

As tuas mensagens telefónicas estão aqui na secretária. Às 11, uma do Ben, uma de um coronel Hide e outra de alguém chamado Marigold.

Luke supôs que Anthony também lera as mensagens, as considerara inofensivas e decidira não as destruir, para não levantar suspeitas.

— Quem é Marigold, sabes? — inquiriu Billie.

Luke pensou durante um instante. Já ouvira esse nome naquele dia. Recordou-se então.

— É a minha secretária em Huntsville. O coronel Hide disse-me que foi ela que tratou da reserva do meu voo.

— Será que lhe disseste por que motivo ias viajar?

— Duvido. Não contei nada a ninguém de Cabo Canaveral.

— Ela não está em Cabo Canaveral e é possível que confies mais na tua secretária que em qualquer outra pessoa.

Luke acenou com a cabeça.

— Tudo é possível. Vou verificar. É a pista mais prometedora que conseguimos até agora. — Tirou a agenda do bolso e voltou a verificar os números de telefone. — Cá está! Tenho aqui o número de telefone da casa dela. — Sentou-se à secretária e marcou o número. Interrogou-se sobre quanto mais tempo teriam até que Pete e os outros agentes voltassem.

Billie pareceu ler-lhe o pensamento e começou a guardar-lhe as coisas na mala de pele preta.

O telefone foi atendido por uma mulher ensonada com um sotaque do Alabama. Pela voz, Luke supôs que fosse negra.

— Desculpe telefonar a esta hora. Estou a falar com a Marigold?

— Doutor Lucas! Graças a Deus! Como está?

— Acho que estou bem, obrigado.

— O que raio lhe aconteceu? Ninguém sabia onde estava e agora ouvi dizer que perdeu a memória. É verdade?

— Sím

— E como foi isso?

— Não faço ideia, mas esperava que me ajudasse a descobrir...

— Se puder...

— Gostava de saber por que razão de repente decidi vir para Washington na segunda-feira. Eu disse-lhe o motivo da viagem?

— Não, e eu estranhei.

Era a resposta que Luke esperava, mas não deixava de ser decepcionante.

— Terei, ainda assim, dito alguma coisa que a fizesse suspeitar de algo?

— Não,

— Mas, ao certo, o que é que lhe disse?

— Disse-me que precisava de um voo para Washington via Huntsville e pediu-me que reservasse um lugar nos voos da MATS. A MATS era a transportadora aérea militar e Luke supôs que tinha direito a usá-la sempre que viajasse ao serviço do Exército. No entanto, havia uma coisa que não compreendia.

— Fui para Washington via Huntsville? — Mais ninguém mencionara tal facto.

— O doutor disse que queria parar aqui durante uma ou duas horas.

— Porque seria?

— Depois disse uma coisa um pouco estranha. Pediu-me que não contasse a ninguém que vinha a Huntsville.

— Ah!, sim? — Luke tinha a certeza de que se tratava de uma pista importante. — Então, era uma visita secreta?

— Sim, e eu mantive o segredo. Já fui interrogada pela polícia do Exército e pelo FBI, mas não contei nada, pois o doutor assim mo pediu. Quando me disseram que tinha desaparecido, fiquei sem saber se procedera bem, mas achei que o melhor era cumprir o que me pedira. Fiz bem?

— Não sei, Marigold, mas, de qualquer forma, agradeço a sua lealdade. — o alarme de incêndio parou de tocar. Luke apercebeu-se de que o tempo se esgotara. — Tenho de desligar. Obrigado pela sua ajuda.

— Sempre às ordens. Tome cuidado consigo, está a ouvir? E desligou.

— Já emalei as tuas coisas — disse Billie,

— Obrigado. — Tirou o casaco e o chapéu do armário.

— Agora o melhor é sairmos daqui, antes que os tipos regressem.

Foram até a uma cafetaria aberta toda a noite que ficava perto do edifício do FBI, junto a Chinatown, e pediram café.

— Quando será o primeiro voo da manhã para Huntsville? — perguntou Luke.

— Precisamos de um guia com os planos de voo das companhias aéreas — disse Billie.

Luke olhou à sua volta. Viu dois polícias a comer doughnuts, quatro estudantes embriagados a pedir hambúrgueres e duas mulheres com pouca roupa para a época do ano, que podiam ser prostitutas.

— Não me parece que aqui encontremos algum — comentou Luke.

— Aposto que o Bernard tem um. É o tipo de coisa de que os escritores gostam.

— Ele já deve estar a dormir.

— Então, eu acordo-o. Tens uma moeda? — decidiu Billie, levantando-se.

— Claro. — Luke tinha ainda as moedas resultantes do roubo do dia anterior.

Billie dirigiu-se às cabinas ao lado das casas de banho. Luke ia bebendo o café e olhando para ela. Sorria, ao mesmo tempo que falava e inclinava a cabeça, esforçando-se por ser carinhosa com alguém que acabava de ser acordado de madrugada. Estava encantadora e Luke ardia de desejo por ela.

Billie regressou à mesa e anunciou:

— Ele vem ter connosco e traz o guia.

Luke olhou para o relógio, Eram duas da manhã.

— Provavelmente vou logo a seguir para o aeroporto. Espero que haja um voo bem cedo.

— Haverá algum prazo para resolveres isto? — inquiriu Billie, franzindo as sobrancelhas.

— Talvez. Não paro de me perguntar o que me terá levado a largar tudo e vir a correr para Washington. Tem de ser alguma coisa relacionada com o foguetão. E o que poderá ser senão algo que ameace o lançamento?

— Sabotagem?

— Sim. Se tiver razão, terei de o provar antes das dez e meia da noite.

— Queres que vá contigo para Huntsville?

— Tens o Larry

— Posso deixá-lo com o Bernard.

Luke abanou a cabeça.

— É melhor não... Obrigado.

— Sempre foste um sacana muito independente.

— Não é isso — argumentou Luke. Queria que ela compreendesse. — Adorava que viesses comigo, é esse o problema.

Billie estendeu o braço sobre o tampo de plástico da mesa e pegou-lhe na mão.

— Tudo bem — concordou.

— É confuso, entendes? Estou casado com outra pessoa, mas não sei o que sinto por ela. Como é a Elspeth?

Billie abanou a cabeça.

— Não sou a pessoa indicada para te falar dela. Terás de a redescobrir por ti mesmo.

— Talvez tenhas razão.

Billie aproximou-lhe a mão dos lábios e beijou-lha suavemente. Luke engoliu em seco.

— Sempre gostei assim tanto de ti ou isto é novidade?

— Não é novidade.

— Parece que nos damos bem.

— Não. Passamos a vida a discutir, mas adoramo-nos.

— Disseste que já nos amamos, naquela suíte.

— É melhor não continuares.

— Foi bom?

Billie olhou para ele com os olhos marejados de lágrimas.

— Foi melhor que isso.

— Então, porque não estou casado contigo?

Ela começou a chorar, soluçando suavemente.

— Porque... — Limpou as lágrimas e respirou fundo, mas começou a chorar outra vez. Por fim, acrescentou: — Ficaste tão zangado comigo que não me falaste durante cinco anos.

 

1945

Os pais de Anthony tinham uma herdade onde criavam cavalos perto de Charlottesville, na Virgínia, a duas horas de Washington. A casa, em madeira branca cheia de recantos e corredores, tinha cerca de uma dúzia de quartos. Havia ainda estábulos, picadeiros, campos de ténis, um lago e um ribeiro e uma grande área arborizada. A mãe de Anthony herdara a propriedade do pai, juntamente com cinco milhões de dólares.

 

Luke chegou lá na sexta-feira seguinte à rendição do Japão. Mrs. Carroll recebeu-o à porta. Era uma mulher loura e nervosa, com aspecto de ter sido muito bela durante a juventude. Conduziu-o a um pequeno quarto, imaculadamente asseado, com soalho em madeira envernizada e uma cama antiga.

Luke tirou a farda — era agora major — e vestiu um casaco desportivo de caxemira preta e calças de flanela cinzentas. Quando fazia o nó da gravata, Anthony abriu a porta e espreitou.

— Bebidas no escritório quando estiveres pronto — anunciou.

— Já não demoro — respondeu Luke. — Qual é o quarto da Billie?

Uma expressão de preocupação atravessou o rosto de Anthony

— Lamento, mas as raparigas ficaram na outra ala — informou.

— O almirante é um pouco antiquado com estas coisas. — o seu pai dedicara a vida à Marinha.

— Não tem problema — disse Luke, encolhendo os ombros. Passara os últimos três anos em operações nocturnas pela Europa ocupada, não iria ter dificuldades em encontrar o quarto da namorada no escuro.

Quando, às seis da tarde, desceu até ao escritório, encontrou todos os seus antigos amigos à sua espera. Para além de Anthony e Billie, também lá estavam Elspeth, Bernard e a namorada deste, Peg, Luke passara grande parte da guerra com Bernard e Anthony e cada dia de licença com Billie, mas desde 1941 que não via Elspeth ou Peg.

O almirante ofereceu-lhe um martiní e Luke bebeu um golo com grande satisfação. Era uma ocasião para festejar. A conversa era animada e barulhenta. A mãe de Anthony observava-os com uma expressão de vaga satisfação e o pai bebia cocktails uns atrás dos outros.

Durante o jantar, Luke observou-os a todos atentamente, comparando-os com os jovens sonhadores que, quatro anos atrás, tanto haviam temido ser expulsos de Harvard. Elspeth estava assustadoramente magra, após três anos a rações de emergência em Londres. Até os seus magníficos seios pareciam mais pequenos. Peg, outrora uma rapariga desleixada mas com um grande coração, apresentava-se agora elegantemente vestida, embora o seu rosto bem maquílhado lhe desse um aspecto insensível e cínico. Aos vinte e sete anos, Bernard parecia dez anos mais velho. Esta havia sido a segunda guerra em que participara. Fora ferido três vezes e possuía o semblante lúgubre de alguém que já conheceu muito sofrimento, o seu próprio e o dos outros.

Anthony era o que menos se ressentira. Embora tivesse participado em algumas campanhas, passara a maior parte da guerra em Washington. A sua confiança, optimismo e humor pouco convencional haviam sobrevivido intactos.

Também Billie parecia pouco diferente. Sofrera maus bocados durante a infância, e talvez por isso a guerra não a afectara grandemente. passara dois anos em operações secretas em Lisboa e Luke sabia, embora os outros não, que matara um homem por lá, cortando-lhe o pescoço com uma eficiência silenciosa no pátio por trás do café onde ele se preparava para vender segredos ao inimigo, Contudo, permanecia uma mulher cheia de energia, alegre num momento e feroz no seguinte.

Era uma sorte que todos tivessem conseguido sobreviver. A maioria deste tipo de grupos tinha certamente perdido pelo menos um dos seus membros.

— Devíamos fazer um brinde — propôs Luke, erguendo o seu copo de vinho. — Aos que sobreviveram e aos que não tiveram essa sorte. Todos brindaram e em seguida Bernard disse:

— Façamos outro. Aos homens que conseguiram vencer a máquina de guerra nazi, ao Exército Vermelho.

Brindaram todos mais uma vez, mas o almirante, não parecendo muito satisfeito, anunciou:

— Acho que já basta de brindes.

Bernard era ainda um comunista acérrimo, porém Luke tinha a certeza de que ele já não trabalhava para Moscovo. Tinham feito um acordo e Luke acreditava que Bernard cumpria a sua parte, Apesar de tudo, a amizade que os unia nunca se recompusera totalmente. Confiar em alguém era como segurar um pouco de água nas mãos: era muito fácil entorná-la e depois já não a podíamos recuperar. Era com tristeza que Luke recordava a camaradagem que partilhara com Ben, pois sentia que não a conseguiriam reconquistar.

Foi servido café. Luke passou as chávenas. Quando oferecia natas e açúcar a Billie, esta disse, entre dentes:

— Ala leste, segundo andar, última porta à esquerda.

— Natas?

Ela levantou uma sobrancelha.

Ele reprimiu uma gargalhada e continuou o que estava a fazer, Às dez e meia, o almirante insistiu que passassem à sala de bilhar. Sobre um aparador haviam sido colocados charutos cubanos e bebidas mais fortes, mas Luke recusou beber mais. Estava desejoso de se meter debaixo dos lençóis ao lado do corpo quente e suave de Billie e a última coisa que desejava era deixar-se dormir, o almirante serviu-se de um copo de uísque e arrastou Luke até ao fundo da sala para lhe mostrar as suas armas, dispostas num armário fechado colocado na parede. A família de Luke não era dada à caça e para si as armas serviam para matar pessoas, não animais, por isso não apreciou grandemente a colecção do almirante. Estava convicto de que armas e bebidas alcoólicas faziam uma má combinação, contudo, fingiu-se interessado, para não ser indelicado para com o seu anfitrião.

— Conheço e respeito a tua família, Luke — anunciou o almirante enquanto examinavam uma espingarda Enfield. — o teu pai é um homem notável.

— Obrigado — disse Luke. Tal anúncio de respeito soou-lhe ao preâmbulo de um discurso ensaiado. o seu pai passara a guerra a ajudar a gerir o Office of Price Administration, mas, provavelmente, o almirante ainda achava que ele era banqueiro.

— Terás de pensar na tua família quando escolheres uma esposa, meu rapaz — continuou o almirante.

— Com certeza, é o que farei, — Luke ínterrogou-se sobre o que se estaria a passar na cabeça do almirante.

— Quem quer que se torne Mistress Lucas terá um lugar de destaque à sua espera na sociedade americana. Tens de escolher uma rapariga que consiga desempenhar bem esse papel.

Luke começou a perceber onde o almirante queria chegar. Irritado, colocou abruptamente a espingarda no lugar.

— Levarei isso em conta, almirante — disse, e voltou-lhe as costas.

O almirante pôs-lhe a mão no ombro, impedindo-o de andar.

— Não te desperdices, meu rapaz. — Luke lançou-lhe um olhar indignado. Estava determinado a não perguntar ao almirante onde queria chegar. já sabia a resposta e seria melhor que a conversa ficasse por ali. No entanto, o almirante prosseguiu. Não te apegues de mais àquela judia, ela não te merece.

Luke cerrou os dentes.

— Se me permite, preferiria discutir este assunto com o meu próprio pai.

— Mas o teu pai não a conhece, pois não?

Luke corou, Nesse ponto o almirante tinha razão. Luke e Billie nunca haviam conhecido os respectivos pais.

Quase nunca houvera tempo suficiente. A sua relação era feita de momentos roubados nos intervalos da guerra. Contudo, essa não era a única razão. No fundo do seu coração, uma mal-intencionada voz dizia-lhe que uma rapariga de uma família judaica pobre não era o que os seus pais haviam imaginado para si, Aceitá-la-iam, tinha a certeza, acabariam por gostar dela pelas mesmas razões que ele, mas, ao princípio, ficariam um pouco desiludidos. Consequentemente, estava desejoso de a apresentar aos pais na ocasião certa, numa altura calma, durante a qual tivessem tempo de a conhecer melhor.

O facto de haver um fundo de verdade na insinuação do almirante enfureceu Luke ainda mais. Com uma agressividade dificilmente controlada, declarou:

— Perdoe-me, mas sou obrigado a avisá-lo de que considero esses comentários ofensivos.

A sala mergulhou num silêncio profundo, mas a ameaça velada de Luke não atingiu o ébrio almirante.

— Eu compreendo, meu rapaz, mas já vivi mais tempo que tu e sei do que estou a falar.

— Desculpe, mas o senhor nem conhece as pessoas envolvidas.

— Acho que sei mais sobre a senhora em questão do que tu. O tom do almirante soava admoestatório, mas Luke estava suficientemente enraivecido para o ignorar.

— Uma merda é que sabe! — protestou com deliberada insolência.

Bernard tentou intervir,

— É melhor acalmarem-se. Vamos jogar bilhar.

Mas agora não havia nada que parasse o almirante. Passou o braço em torno dos ombros de Luke e continuou:

— Também sou homem, compreendo essas coisas — disse com uma pretensa intimidade que desagradou profundamente a Luke.

— Desde que não leves a coisa muito a sério, não há mal nenhum em divertirmo-nos com algumas raparigas, já todos...

Não chegou a terminar a frase. Luke voltou-se para ele e empurrou-o com toda a força para longe. o almirante cambaleou para trás, agitando os braços, o copo a voar pelo ar. Ainda tentou equilibrar-se, mas não conseguiu, e acabou por cair sentado no tapete. Luke gritou-lhe:

— Agora, o melhor é acabar com isso, antes que lhe cale a boca com um murro!

Lívido, Anthony agarrou Luke pelo braço, dizendo:

— Por amor de Deus, o que pensas que estás a fazer?

Bernard interpôs-se entre eles e o almirante.

— Acalmem-se.

— Qual calma, qual nada! — reclamou Luke. — Que tipo de homem te convida para sua casa e depois insulta a tua namorada? Já vai sendo tempo de alguém ensinar boas maneiras a este velho gágá!

— Ela é uma meretriz! — declarou o almirante, ainda sentado. — Eu cá sei, raios! — A sua voz transformou-se num rugido. Fui eu que paguei o aborto dela!

Luke ficou aturdido,

— Aborto?!

— Sim, senhor — confirmou o almirante, lutando para se pôr de pé. — o Anthony engravidou-a e eu paguei mil dólares para ela se livrar do bastardinho. — A sua boca contorceu-se num rancoroso esgar de triunfo. — Agora diz lá que não sei do que estou a falar?!

— Isso é mentira!

— Pergunta ao Anthony.

Luke olhou para o seu velho amigo. Anthony abanou a cabeça.

— O bebé não era meu. Eu disse ao meu pai que era, para conseguir os mil dólares, mas o bebé era teu, Luke.

Luke corou até à raiz dos cabelos. o velho almirante conseguira ridicularizá-lo, Afinal, o ingénuo era ele. Acreditava conhecer Billie, e, no entanto, ela fora capaz de lhe esconder algo tão importante. Concebera um filho, a sua namorada decidira abortar, e toda a gente sabia disso, menos ele. Sentia-se completamente humilhado.

Saiu de rompante da sala. Atravessou o vestíbulo e entrou no escritório. A única pessoa que aí se encontrava era a mãe de Anthony. As raparigas já se deviam ter ido deitar. Mrs. Carroll reparou na sua cara e perguntou:

— Luke, meu querido, aconteceu alguma coisa?

Ele ignorou-a e saiu, batendo com a porta.

Correu escada acima e ao longo da ala leste. Encontrou o quarto de Billie e entrou sem bater.

Ela estava deitada na cama nua, a ler, a cabeça pousada sobre uma das mãos, o cabelo encaracolado caindo para a frente como uma onda acabada de rebentar. Por um instante, esta visão fê-lo ficar sem fôlego. A luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira descrevia uma linha dourada pelo seu corpo, desde o ombro, ao longo da anca e da perna esguia, até à unha encarnada do dedo do pé. Contudo, a sua beleza apenas o enfurecia ainda mais.

Billie fitou-o com um sorriso divertido, mas depressa a sua expressão se obscureceu quando viu o olhar de Luke.

— Alguma vez me enganaste? — gritou ele. Ela sentou-se na cama, assustada.

— Não, nunca!

— O cabrão do almirante diz que pagou para que fizesses um aborto!

O rosto dela empalideceu de imediato.

— Oh!, não...

— É verdade? — vociferou Luke. — Responde-me!

Ela acenou com a cabeça e começou a chorar, escondendo a cara nas mãos.

— Então, sempre me enganaste!

— Desculpa — disse, entre soluços. — Eu queria ter o teu filho, do fundo do coração, mas não podia falar contigo. Estavas em França e nem sabia se alguma vez voltarias. Tive de decidir tudo sozinha. — Levantou então a voz. — Foi a pior altura da minha vida!

Luke estava estupefacto.

— Eu concebi uma criança... — disse.

O tom dela mudou numa questão de segundos.

Não sejas tão sentimentalista — disse, com desdém. — Não sentiste o mesmo em relação ao teu esperma quando fomos para a cama, por isso não comeces agora, já é demasiado tarde.

A resposta dela ofendeu-o.

— Devias ter-me dito. Mesmo que na altura não me pudesses contactar, deverias ter-me contado assim que vim a casa de licença.

Ela suspirou.

— Sim, eu sei, mas o Anthony achou que o melhor era não dizer a ninguém, e não é difícil convencer uma rapariga a manter uma coisa destas em segredo. Ninguém saberia, se não fosse o palerma do almirante.

Luke estava irritado com a forma calma como ela falava de uma traição, como se a única coisa que tivesse feito de errado fosse ter sido apanhada.

— Não sou capaz de viver com isto! — declarou ele. A voz dela mudou de tom.

— O que queres dizer com isso?

— Depois de me teres enganado, e sobre uma coisa assim tão importante, como poderei voltar a confiar em ti?

— Vais dizer-me que acabou tudo entre nós — concluiu ela, angustiada. Luke nada disse e ela continuou: — já percebi isso. Conheço-te demasiado bem. Tenho razão, não tenho?

— Sim.

Billie começou novamente a chorar.

—  Grande idiota! — disse, por entre lágrimas. — Apesar da guerra, não aprendeste nada.

— A guerra ensinou-me que o mais importante é a lealdade.

— Tretas! Ainda não aprendeste que quando estamos sob pressão ficamos vulneráveis e dispostos a mentir.

— Mesmo às pessoas que amamos?

— Mentimos mais às pessoas que amamos por gostarmos tanto delas. Porque achas que contamos a verdade a padres, a psicólogos e a estranhos que encontramos no combóio? Porque não os amamos e, portanto, não nos ralamos com o que eles pensam.

O seu discurso era irritantemente plausível, mas ele desprezava desculpas fáceis.

— Não é essa a minha filosofia de vida.

— Sorte a tua — disse ela num tom amargo. — Tiveste uma infância feliz, nunca passaste por dificuldades, não sabes o que é a rejeição, tens centenas de amigos. Viveste maus bocados durante a guerra, mas não foste ferido ou torturado e não tens imaginação suficiente para ser um cobarde. Nunca te aconteceu nada. É claro que não dizes mentiras, pela mesma razão que Mistress Carroll não rouba latas de sopa.

Ela era incrível: convencera-se a si mesma de que era ele quem estava errado! Era impossível conversar com alguém que se enganara a si mesmo tão completamente. Desiludido, Luke voltou-se, preparando-se para se ir embora.

— Se é isso que pensas de mim, deves ficar contente por o nosso relacionamento chegar ao fim.

— Não, não fico — disse ela com as lágrimas a correrem-lhe pela cara abaixo. — Amo-te. Nunca amei mais ninguém. Lamento ter-te mentido, mas não vou consumir-me de culpa por ter tomado uma má decisão numa altura de crise.

Ele não queria que ela se consumisse de culpa. Não queria que fizesse fosse o que fosse. Só queria afastar-se dela, dos amigos, do almirante e daquela casa detestável.

Algures no fundo do seu coração, uma voz dizia-lhe que estava a desperdiçar a coisa mais preciosa que alguma vez tivera e avisou-o de que isso lhe consumiria a alma durante anos, porém, Luke estava demasiado zangado, humilhado e magoado para a escutar.

Dirigiu-se para a porta.

— Não vás... — suplicou Billie.

— Vai para o Inferno! — replicou ele, e saiu.

 

Duas e meia da manhã

O novo combustível e um depósito de combustível maior aumentaram a propulsão do Jupiter C para uma força de trinta e sete toneladas e alargaram o período de combustão de cento e vinte e um para cento e cinquenta e cinco segundos.

 

Anthony revelou-se um verdadeiro amigo nessa altura — disse Billie. — Estava desesperada. Mil dólares! Nunca conseguiria arranjar tanto dinheiro. Ele pediu-o ao pai e acarretou com as culpas. Foi um verdadeiro cavalheiro. É por isso que é tão difícil entender o que anda a fazer agora.

— Não acredito que desisti de ti! Não compreendi tudo por que passaste, não foi?

— A culpa não foi toda tua — argumentou Billie. — Na altura, acreditava que sim, mas agora consigo perceber o meu papel em toda a situação. — Parecia exausta pelo simples facto de ter relatado a história. Ficaram em silêncio durante algum tempo, meditando no arrependimento que sentiam. Luke perguntou a si mesmo quanto tempo Bernard demoraria a chegar, mas depois voltou a pensar na história que Billie acabara de relatar.

Não gosto muito do que estou a aprender sobre mim mesmo — declarou. — É então verdade que perdi os meus dois melhores amigos, tu e o Ben, por ser rancoroso e teimoso?

Billie hesitou, depois riu-se e disse:

— Para quê estarmos com rodeios? Sim, foi isso exactamente que fizeste.

— Então, casaste com o Bernard.

Consegues ser tão egocêntrico! — disse ela com um ligeiro tom de censura. — Não casei com o Bernard por me teres deixado, casei com ele por ser um dos melhores homens do mundo. É inteligente, amável, bom na cama. Levei anos a recuperar, mas quando isso aconteceu apaixonei-me pelo Ben — E nós dois ficámos amigos de novo?

— Aos poucos. Sempre gostámos muito de ti, nós todos, mesmo sendo um sacana tão teimoso. Escreví-te quando o Larry nasceu e tu fizeste-me uma visita. Depois, no ano seguinte, o Anthony deu uma grande festa quando fez trinta anos e tu apareceste. Já tinhas regressado a Harvard, para o doutoramento, e nós estávamos em Washington. O Anthony, a Elspeth e a Peg trabalhavam para a CIA, eu fazia investigação na Universidade George Washington e o Bernard escrevia guiões para a rádio. Tu vinhas a Washington duas vezes por ano e arranjávamos sempre maneira de nos juntarmos.

— Quando é que casei com a Elspeth?

— Em mil novecentos e cinquenta e quatro, o ano em que me divorciei do Bernard.

— Sabes porque me casei com ela?

Billie hesitou. «A resposta deveria ser fácil», pensou Luke. Deveria ter dito: «Porque a amavas, claro!», mas não.

— Não sou a pessoa mais indicada para te responder — disse Billie, por fim.

— Perguntarei à Elspeth.

— Espero bem que sim.

Luke olhou para ela. Este último comentário soou-lhe estranho. Enquanto tentava divisar um modo de lhe extrair o significado do comentário, um Lincoln Continental branco estacionou lá fora e dele saiu Ben., entrando rapidamente na cafetaria.

— Desculpa, acordámos-te — disse Luke.

— Não faz mal. A Billie não concorda com a crença de que quando um homem está a dormir devemos deixá-lo em paz. Se ela estiver acordada, toda a gente deverá está-lo também. Saberias isso, se não tivesses perdido a memória.

Colocou em cima da mesa uma volumosa publicação. Na capa podia ler-se: Guia das Companhias Aéreas (Publicado Mensalmente). Luke pegou nele.

— Procura as Capital Airlines — sugeriu Billie. — Costumam fazer voos para o Sul.

Luke encontrou as páginas correspondentes.

— Há um avião que parte às seis e cinquenta e cinco, ou seja, daqui a quatro horas. — Continuou a ler. — Mas pára em todas as cidadezinhas de Dixie e só chega a Huntsville às duas e vinte e três da tarde, hora local.

Bernard pós os óculos e começou a ler por cima do seu ombro, — o próximo avião só parte às nove da manhã, mas faz menos paragens, por isso aterrará em Huntsville mais cedo, alguns minutos antes do meio-dia — informou Bernard.

— Até apanhava o avião que decola mais tarde, mas não me agrada ficar em Washington mais tempo que o necessário — afirmou Luke.

— Tens mais dois problemas — anunciou Ben., — Número um, acho que o Anthony colocou agentes no aeroporto.

Luke franziu a testa.

— Talvez pudesse sair de Washington de carro e apanhar o avião noutro lado. — Olhou para o horário. — A primeira escala do avião que parte mais cedo é num local chamado Newport News. Onde ficará?

— Perto de Norfolk, na Virgínia — respondeu Billie.

— Aterra dois minutos depois das oito. Consigo lá chegar a tempo?

— São trezentos e vinte quilómetros. Deves lá chegar em cerca de quatro horas e ainda terás uma hora de espera.

— Mais até, se levares o meu carro. Atinge uma velocidade máxima de cento e oitenta e cinco quilómetros por hora.

— Emprestavas-me o teu carro?

Bernard sorriu.

— Já salvámos a vida um ao outro. Um carro não é nada.

Luke acenou com a cabeça.

— Obrigado.

— Mas tens um segundo problema — referiu Bernard.

— Qual?

— Fui seguido até aqui.

 

Trés da manhã

Os tanques de combustível contêm dívisórias para impedir que seja muito agitado. Sem elas, o movimento do líquido é tão violento que fez que um Foguetão de teste, o Jupiter IB, se desintegrasse após noventa e três segundos de voo,

 

Anthony estava sentado ao volante do seu Cadillac amarelo a um quarteirão da cafetaría. Estacionara atrás de um camião, por forma que o seu conspícuo automóvel ficasse quase completamente resguardado, embora não perdendo de vista a cafetaria e a extensão de passeio iluminada pela luz derramada pelas janelas, Parecia ser um local de encontro de polícias: havia dois carros-patrulha estacionados cá fora, para além do Thunderbird encarnado de Billie e do Continental branco de Bernard.

Ackie Horwitz estivera à porta da casa de Bernard Rothstein com instruções para não sair de lá, a menos que Lukc aparecesse; no entanto, quando Bernard saiu a meio da noite, Ackie teve o bom senso de desobedecer às ordens e segui-lo na sua moto. Assim que Ben chegou à cafetaria, Ackie telefonou para o Edifício Q e alertou Anthony,

Anthony viu Ackie sair da cafetaria com um copo de café numa das mãos e um chocolate na outra. Aproximou-se da janela do automóvel e disse a Anthony:

— O Luke está lá dentro.

— Logo vi... — comentou Anthony com uma satisfação malévola.

— Mas mudou de roupa. Agora traz um casaco e um chapéu pretos.

— Perdeu o outro chapéu no Carlton.

— O Rothsten está lá com ele e a rapariga também.

— Quem mais está lá dentro?

— Quatro polícias a contarem anedotas obscenas, um insone a ler o Washington Post e o cozinheiro.

Anthony acenou com a cabeça. Não podia fazer nada com os polícias lá dentro.

— Esperamos aqui até que o Luke saia e depois seguimo-lo os dois. Desta vez não vamos perdê-lo.

— Certo.

Ackie regressou à moto, parada atrás do carro de Anthony, e sentou-se a beber o café.

Anthony começou a antecipar a perseguição: apanhariam Luke numa rua calma, dominá-lo-iam e levá-lo-iam para um esconderijo secreto da CIA em Chinatown. Nessa altura, Anthony arranjaría forma de se livrar de Ackie e depois mataria Luke.

Sentia uma ímpiedosa determinação. Passara por um momento de fraqueza emocional no Carlton, mas depois endurecera o coração, decidindo não pensar mais em amizades ou traições até tudo estar terminado. Sabia que o que estava a fazer era acertado, por isso, lidaria com os arrependimentos depois de cumprir a sua missão.

A porta da cafetaría abriu-se.

Billie foi a primeira a sair. As luzes estavam por trás dela, por isso Anthony não conseguiu ver-lhe o rosto, no entanto, reconheceu a sua silhueta e o característico balançar do seu andar. A seguir saiu um homem de casaco preto e chapéu da mesma cor: era Luke. Dirigiram-se para o Thunderbird encarnado. A pessoa de gabardina que saiu por último meteu-se no Lincoln branco.

Anthony ligou o motor.

O Thunderbird arrancou, seguido do Lincoln. Anthony esperou alguns segundos e arrancou também, Ackie fez o mesmo, Billie dirigiu-se para oeste e a pequena escolta seguiu-a. Anthony tentou sempre manter-se a um quarteirão de distância, mas àquela hora as ruas encontravam-se desertas e sem dúvida que eles perceberiam que estavam a ser seguidos. Não valia a pena continuar o jogo: estava na altura de agir.

Chegaram à Rua 14 e pararam num sinal encarnado. Anthony travou atrás do Lincoln. Quando o sinal ficou verde, o Thunderbird de Billie arrancou de repente a toda a velocidade, mas o Lincoln ficou parado.

Praguejando, Anthony fez marcha atrás, engrenou a primeira e carregou no acelerador. O carro disparou, ultrapassou o Linconn e foi atrás do Thunderbird.

Billie ziguezagueou pelo bairro por trás da Casa Branca, passando sinais vermelhos, desafiando sentidos proibidos e percorrendo ruas de sentido único fora de mão. Anthony fez o mesmo, tentando desesperadamente não a perder. No entanto, o Cadillac não chegava aos calcanhares do Thunderbird em termos de facilidade de manobra e Billie conseguiu afastar-se.

Ackie ultrapassou Anthony e ficou mesmo atrás dela. Contudo, à medída que a distância entre os dois carros aumentava, Anthony supôs que o plano dela era livrar-se primeiro do Cadillac e dirigir-se depois para uma auto-estrada, onde conseguiria andar mais depressa que a moto, incapaz de igualar a velocidade máxima de duzentos quilómetros por hora do Thunderbird.

— Raios! — praguejou.

Então, a sorte interveio. Ao guinar para dobrar uma esquina, Billie deu de caras com um tapete de água. De uma das valetas da rua jorrava água em grande quantidade e a estrada estava submersa por um lençol de seis centímetros. Billie perdeu o controlo do carro. A traseira do Thunderbird dançou e o veículo descreveu um semicírculo. Ackie virou para se desviar dela, a moto derrapou e ele caiu e rolou sobre a água, mas levantou-se de imediato. Anthony carregou no travão e o Cadillac deslizou, parando no cruzamento. o Thunderbird ficou atravessado na rua, com a traseira a poucos centímetros de um carro estacionado. Anthony atravessou o carro à sua frente. Billie não conseguiria escapar.

Ackie encontrava-se já ao lado da porta do condutor e Anthony correu para o lado do passageiro.

— Sai do carro! — gritou, tirando a arma do bolso interior do casaco.

A porta abriu-se e o homem de casaco e chapéu pretos saiu. Anthony viu imediatamente que não era Luke, mas Bernard. Voltou-se para olhar para o fundo da rua de onde tinha vindo.

Não havia vestígios do Lincoln branco.

A ira começou a crescer dentro de si. Tinham mudado de casacos e Luke escapara no carro de Bernard. Apeteceu-lhe matá-lo logo ali.

— Nem sabes o que fizeste!

Bernard. demonstrava uma calma irritante.

— Então diz-me, Anthony, o que fiz eu? — Anthony voltou-se e meteu a arma de novo no bolso. — Espera aí. Deves-me algumas explicações. o que fizeste ao Luke é ilegal.

— Não tenho que te dar porra nenhuma de explicação! — vociferou Anthony.

— O Luke não é espião.

— Como podes saber?

— Sei.

— Não acredito em ti.

Bernard olhou-o nos olhos.

— Claro que acreditas — disse. — Sabes perfeitamente que Luke não é um agente soviético. Porque manténs essa mentira?

— Vai-te lixar! — respondeu Anthony, e afastou-se.

Billie morava em Arlington, um verdejante subúrbio na margem do rio Potomac que pertence à Virgínia. Anthony conduziu ao longo da rua e, quando passou à frente de sua casa, reparou num Chevrolet escuro da CIA estacionado do outro lado. Virou a esquina e estacionou.

Billie chegaria a casa daí a poucas horas e sabia para onde Luke tinha ido. Porém, era mais que certo que não contaria nada a Anthony. Perdera a confiança dela. Agora Billie permaneceria leal a Luke, a menos que Anthony a sujeitasse a uma grande pressão.

Estaria louco? Uma voz na sua cabeça não parava de perguntar-se se a corrida valeria o prémio. Haveria alguma justificação para o que se preparava para fazer? Afastou as dúvidas que o assolavam. Há muito que escolhera o seu destino e não deixaria que ninguém o desviasse dele, nem Luke.

Abriu o porta-bagagens e tirou um estojo de couro preto do tamanho de um livro de capa dura e uma pequena lanterna. Depois encaminhou-se para o Chevrolet, sentou-se no banco do passageiro, ao lado de Pete, e ficou a olhar para as janelas da casa de Billie.

«Será a pior coisa que alguma vez fiz», pensou.

Olhou então para Pete e perguntou-lhe:

— Confias em mim?

Pete esboçou um sorriso envergonhado e respondeu:

— Que raio de pergunta é essa? Claro que sim.

A maioria dos agentes mais novos idolatrava Anthony, mas Pete tinha outra razão para lhe ser fiel. Anthony descobrira algo sobre ele que poderia constituir motivo para despedimento — o facto de ter sido preso por aliciar uma prostituta —, mas mantivera segredo. Então, para recordar Pete desse facto, perguntou-lhe:

— Se eu fizesse algo que te parecesse errado, continuarias a apoiar-me?

Pete hesitou, e quando respondeu a sua voz parecia embargada pela emoção:

— Deixe que lhe diga uma coisa — começou, olhando em frente, através do pára-brisas, para a rua. — Tem sido como um pai para mim.

— Vou fazer uma coisa que não te vai agradar. Preciso que acredites que o que vou fazer é acertado.

— Já disse que confio em si.

— Vou entrar — declarou Anthony. — Buzina se chegar alguém.

Atravessou a estrada, entrou no quintal, rodeou a garagem e dirigiu-se para a porta das traseiras. Apontou a lanterna para a janela da cozinha. A mesa e as cadeiras que tão bem conhecia estavam envoltas pela escuridão.

Vivera uma vida de engano e traição, mas aquilo, pensou, revoltado, era o mais baixo a que já descera.

A porta da cozinha tinha uma fechadura antiga com a chave da parte de dentro. Anthony seria capaz de a abrir com um lápis. Segurou na lanterna com a boca e abriu o estojo, tirando um instrumento que parecia uma sonda dentária. introduziu-o no buraco da fechadura, empurrando a chave, que se encontrava no outro extremo. Esta caiu sobre o tapete, não emitindo qualquer som. Rodou a sonda e destrancou a porta.

Silenciosamente, penetrou na casa às escuras. Sabia bem como orientar-se lá dentro. Primeiro verificou a sala, depois o quarto de Billie. Estavam ambos vazios. Passou então ao quarto de Becky-Ma. Dormia profundamente, o aparelho auditivo colocado sobre a mesa-de-cabeceira. Por fim, foi ao quarto de Larry

Sentindo-se culpado, apontou a lanterna para a criança adormecida. Sentou-se na beira da cama e acendeu a luz.

— Larry, acorda — disse. — Acorda.

Os olhos do rapaz abriram-se. Após um momento de desorientação, Larry sorriu.

—  Tio Anthony! — cumprimentou com ar satisfeito.

—  São horas de acordar — anunciou Anthony

—  Que horas são? É muito cedo. O que vamos fazer?

— É surpresa — declarou Anthony.

 

Quatro e meia da manhã

O combustível é projectado para a câmara de combustão do motor do foguetão a uma velocidade de cerca de trinta metros por segundo. A inflamação tem início no preciso instante em que osfluidos se encontram. o calor produzido pela chama evapora rapidamente os líquidos. A pressão eleva-se a várias centenas de quilogramas por centímetro quadrado e a temperatura sobe a dois mil e oitocentos graus Celsius.

— Continuas apaixonada pelo Luke, não é verdade? perguntou Bernard a Billie.

Estavam sentados no carro dela à porta da casa de Bernard. Billie não queria entrar: estava impaciente por chegar a casa.

— Apaixonada? — perguntou, de forma evasiva. — Achas? Não sabia bem o quanto estaria disposta a partilhar com o ex-marido. Eram amigos, mas não íntimos.

— Tudo bem — disse ele. — Há muito que me dei conta de que deverias ter casado com ele. Acho que nunca deixaste de o amar. Também me amaste, mas de forma diferente.

Era verdade. O seu amor por Bernard era um sentimento calmo, dócil. Com ele nunca sentira a paixão que a submergia sempre que estava com Luke. E quando se interrogava sobre o que sentia por Harold — o suave afecto ou o redemoinho de emoção -, a resposta era óbvia. Pensar em Harold conferia-lhe um agradável, mas moderado, sentimento de prazer. Não era uma mulher muito experiente no que dizia respeito a homens; os únicos com quem dormira haviam sido Luke e Ben., mas o instinto dizia-lhe que com Harold nunca experimentaria o mesmo desejo sexual que Luke lhe despertava.

— O Luke é casado — lembrou Billie. — E com uma mulher bonita. — Parou um instante, pensativa. — Achas a Elspeth sensual?

Bernard franziu a testa.

— É difícil dizer. Talvez seja, com o homem certo. A mim sempre me pareceu uma mulher fria, mas nunca teve olhos para outro homem a não ser o Luke.

— Não que isso tenha muita importância. O Luke é o tipo de homem fiel. Ficava com ela mesmo que fosse um iceberg, só porque era esse o seu dever. — Fez uma pausa e depois olhou para Bernard. — Queria dizer-te uma coisa.

— Diz.

— Obrigada por não teres dito "eu bem te avisei". Fico muito agradecida pelo teu comedimento.

Bernard riu-se.

— Estás a pensar na nossa grande discussão.

Ela acenou, em sinal de concordância.

— Disseste que o meu trabalho seria usado para fazer lavagens cerebrais às pessoas. A tua profecia concretizou-se.

— Ainda assim, eu estava errado. O teu trabalho tinha de ser feito. Precisamos de entender o cérebro humano. As pessoas podem sempre utilizar o conhecimento para fins malévolos, mas não podemos impedir o progresso científico. Tens alguma teoria sobre o que o Anthony tem andado a tramar?

—   A melhor que me ocorreu foi a seguinte— suponho que o Luke terá descoberto um espião em Cabo Canaveral e veio a Washington para revelar tudo ao Pentágono. Porém, o espião é, na realidade, um agente duplo, trabalhando também para nós, por isso o Anthony quer a todo o custo protegê-lo.

Bernard abanou a cabeça.

— Não me parece. o Anthony poderia ter resolvido a questão dizendo simplesmente ao Luke que o espião também trabalhava para nós. Não precisava de lhe apagar a memória.

— Acho que tens razão. Para além disso, o Anthony disparou contra o Luke. Eu sei que esta história de ser agente secreto pode afectar a cabeça de muita gente, mas não acredito que a CIA fosse capaz de matar um cidadão americano para proteger um agente secreto.

— Podes crer que o faria — confirmou Bernard — Mas não seria necessário. O Anthony poderia limitar-se a confiar no Luke.

— Tens alguma teoria melhor?

— Não.

Billie encolheu os ombros.

— Já nem sei se isso é importante. o Anthony enganou e traiu os seus amigos, sabe-se lá porquê. Perdemo-lo, e era um bom amigo.

— A vida é muito injusta — rematou Bernard. Deu-lhe um beijo na face e saiu do carro. — Se amanhã tiveres notícias do Luke, telefona-me.

— Fica descansado.

Bernard entrou no edifício e Billie arrancou.

Atravessou Memorial Bridge, contornou o National Cemetery e ziguezagueou pelas ruas do bairro até chegar a casa. Subiu a entrada para a garagem de marcha atrás, um hábito que desenvolvera porque saía de casa sempre à pressa, entrou e pendurou o casaco no bengaleiro. Foi directamente para o andar de cima, desabotoando o vestido. Lançou-o para cima de uma cadeira, descalçou os sapatos e foi espreitar Larry

Quando viu a cama vazia, soltou um grito.

Foi procurá-lo à casa de banho, depois ao quarto de Becky-Ma.

— Larry! — gritou a plenos pulmões. — Onde estás? — Correu escada abaixo e procurou-o em cada divisão. Ainda em roupa interior, saiu de casa e foi procurá-lo na garagem e no pátio. Entrou novamente em casa e verificou mais uma vez cada divisão, abrindo armários, procurando debaixo das camas e em qualquer área capaz de esconder um rapaz de sete anos.

Desaparecera. Becky-Ma saiu do quarto com o medo estampado no rosto.

— O que está a acontecer? — perguntou com a voz a tremer.

— Onde está o Larry? — gritou Billie.

— Na cama dele, acho eu — respondeu, a voz transformando-se num gemido de angústia à medida que se apercebia do que acontecera.

Billie deixou-se ficar parada por um momento, respirando fundo e controlando o pânico que sentia. Em seguida, entrou no quarto de Larry e observou-o atentamente.

O quarto estava arrumado, sem sinais de luta. Abrindo o armário, viu o pijama azul de Larry bem dobrado sobre uma prateleira. As roupas que separara para ele levar para a escola também haviam desaparecido. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, ele vestira-se antes de sair. Parecia ter ido com alguém em quem confiava. Anthony!

A princípio sentiu-se aliviada. Anthony não faria mal a Larry Mas depois pensou melhor. Será que não? Também não acreditara que fizesse mal a Luke e, no entanto, disparara sobre ele. Ninguém sabia do que Anthony seria capaz. No mínimo, Larry teria ficado assustado por ser acordado tão cedo e obrigado a vestir-se e a sair de casa sem ver a mãe.

Tinha de o encontrar e trazer de volta rapidamente.

Correu para o andar de baixo para telefonar a Anthony, mas, antes de chegar ao telefone, este tocou. Levantou o auscultador de imediato.

— Estou?

— É o Anthony.

— Como foste capaz? — vociferou ela. — Como pudeste ser tão cruel?

— Tenho de saber onde está o Luke — respondeu Anthony friamente. — É de importância vital.

— Foi-se embora... — disse, calando-se de seguida. Se lhe desse essa informação, não teria nada com que negociar com ele.

— Para onde

Billie respirou fundo para se acalmar.

— Onde está o Larry?

— Está comigo. Está bem, não te preocupes. — A resposta dele enfureceu-a.

— Como poderei não me preocupar, seu grande idiota?

— Diz-me o que preciso de saber e tudo correrá bem.

Billie queria acreditar nele, despejar logo ali a resposta e confiar que ele traria Larry para casa são e salvo, mas resistiu bravamente a tal tentação.

— Quando vir o meu filho, digo-te onde está o Luke.

— Não confias em mim?

— Estás a gozar comigo?

Anthony suspirou.

— Está bem. Encontra-te comigo no Jefferson Memorial. Um pequeno triunfo para Billie.

— Quando?

— Às sete horas.

Billie olhou para o relógio. já passava das seis da manhã,

— Lá estarei.

— Billie...

— Sim?

— Vai sozinha.

— Sim.— E desligou.

Becky-Ma estava de pé ao seu lado. Parecia ainda mais velha e débil,

— O que é? — perguntou, desesperada. — o que se passa?

Billie tentou aparentar que estava calma.

— O Larry está com o Anthony Deve ter vindo cá a casa e levou-o, enquanto dormias. Vou buscá-lo agora. Podemos parar de nos preocupar.

Subiu ao primeiro andar e vestiu-se. Depois pegou na cadeira do toucador e colocou-a frente ao guarda-vestidos. De pé sobre a cadeira, tirou um pequeno estojo do cimo do guarda-vestidos. Colocou-o sobre a cama e abriu-o.

O interior do estojo revelou um Colt automático calibre quarenta e cinco. Todos tinham recebido revólveres Colt durante a guerra. Billie guardara o seu como recordação, mas o instinto fizera-a limpá-lo e oleá-lo regularmente. «Quando nos tornamos um alvo», pensava ela, « nunca nos sentimos confortáveis sem uma arma de fogo. »

Accionou a mola de engate e desengate no lado esquerdo da coronha, por trás do gatilho, e tirou o carregador do interior desta. Havia uma caixa de munições no estojo. Introduziu sete balas no carregador, empurrando-as uma a uma, e voltou a colocá-lo na coronha. Depois introduziu uma bala na câmara.

Quando se voltou, viu Becky-Ma à porta do quarto, a olhar fixamente para a arma. As duas mulheres fitaram-se durante um momento.

Depois Billie correu porta fora e meteu-se no carro.

 

Seis e meia da manhã

O primeiro andar contém aproximadamente vinte e cinco toneladas de combustível, que serão consumidas em dois minutos e trinta e cinco segundos.

 

Era um prazer conduzir o Lincoln Continental de Ben., um belo e esguio automóvel, que rodava sem esforço a cento e sessenta quilómetros por hora pelas estradas desertas da Virgínia. Ao sair de Washington, Luke sentira que deixava o pesadelo para trás e as primeiras horas de viagem foram como uma libertação.

Estava ainda escuro quando chegou a Newport News e estacíonou no pequeno parque ao lado do edifício, ainda fechado, do aeroporto. Não se via nenhuma luz, à excepção da lâmpada solitária de uma cabina telefónica perto da entrada. Luke desligou o motor e ficou em silêncio. A noite estava limpa e estrelada. Os aviões estacionados pareciam estranhamente quietos, quais cavalos a dormir de pé.

Estava acordado havia mais de vinte e quatro horas e sentia-se muito cansado, no entanto, o seu cérebro continuava activo e alerta.

Estava apaixonado por Billie. Agora que se encontrava a trezentos quilómetros de distância dela, podia admiti-lo para si mesmo. Mas o que significava isso? Sempre a amara ou seria apenas uma paixoneta de um dia, uma repetição do que acontecera em 1941? E Elspeth? Porque casara com ela? Perguntara isso mesmo a Billie, mas ela recusara-se a falar no assunto. «Perguntarei à Elspeth», respondera a Billie.

Olhou para o relógio. Tinha mais de uma hora até o avião descolar. Havia tempo suficiente. Saiu do carro e dirigiu-se à cabina telefónica.

Ela atendeu logo, como se já estivesse acordada, A telefonista do motel avisou-a de que os custos da chamada seriam adicionados à sua conta e ela respondeu:

— Com certeza, pode passar a chamada.

De repente, Luke sentiu-se constrangido.

— Bom dia, Elspeth.

— Estou tão contente que tenhas telefonado! — disse ela de imediato. — Tenho estado louca de preocupação. o que se passa?

— Não sei por onde começar.

— Estás bem?

— Sim, agora estou bem. Em poucas palavras: foi o Anthony quem me provocou a perda de memória, com uma combinação de medicamentos e choques eléctricos.

— Meu Deus, porque faria uma coisa dessas?

— Ele afirma que sou um espião soviético.

— Que absurdo!

— Foi o que ele disse à Billie.

— Então estiveste com a Billie?

Luke não pôde deixar de notar a hostilidade latente na sua voz.

— Ela tem sido muito amável — disse, em jeito de defesa. Recordou-se então que pedira a Elspeth que viesse ter com ele a Washington para o ajudar e que ela recusara.

— Donde estás a telefonar? — perguntou ela, mudando de assunto.

Luke hesitou. Os seus inimigos poderiam ter facilmente colocado o telefone de Elspeth sob escuta.

— Prefiro não dizer, não vá estar alguém à escuta.

—   Está bem, Luke, eu compreendo. o que vais fazer agora?

— Preciso de descobrir o que é que o Anthony queria que eu me esquecesse.

— Como pretendes descobri-lo?

— Também prefiro não dizê-lo ao telefone.

A voz dela traiu então a exasperação que sentia:

— Bom, lamento que não possas contar-me nada.

— Na verdade, telefonei para te perguntar umas coisas.

— O quê?

— Porque não podemos ter filhos?

— Não sabemos. No ano passado, consultámos um especialista em fertilidade, mas ele não descobriu nada. Há algumas semanas fui a uma médica em Atlanta e ela mandou-me fazer uns exames. Estamos à espera dos resultados.

— Podes dizer-me como foi que casámos?

— Eu seduzi-te.

— Como?

— Fingi que tinha sabonete num olho para conseguir que me beijasses. É o truque mais velho do mundo e até me espanta que tenhas caído nele.

Luke não percebeu se ela estava a ser engraçada, cínica, ou ambas as coisas.

— Mas em que circunstâncias é que te pedi em casamento?

— Bom, durante vários anos não te voltei a ver, mas depois reencontrámo-nos em Washington, em mil novecentos e cinquenta e quatro. Eu estava ainda na CIA e tu trabalhavas no jet Propulsion Laboratory, em Pasadena, mas vieste a Washington para o casamento da Peg. Ficámos sentados um ao lado do outro ao pequeno-almoço. — Fez uma pausa, saboreando as recordações. Quando retomou o relato, a sua voz adquirira um tom mais brando. — Fartámo-nos de conversar, como se não se tivessem passado treze anos e fossemos ainda dois universitários com a vida toda pela frente. Eu tive de partir mais cedo; era regente da 16th. Strect Youth Orchestra e tinha um ensaio. Tu foste comigo...

 

1954

As crianças da orquestra eram todas provenientes de famílias pobres e, na sua maioria, negras. O ensaio decorreu no salão paroquial de um bairro miserável. Os instrumentos eram emprestados, cedidos ou comprados em casas de penhores. O ensaio consistia na abertura de uma ópera de Mozart, As Bodas de Fígaro. Contrariamente ao que se poderia prever, as crianças tocaram bem.

O motivo era Elspeth. Era uma professora empolgante, reparando em cada nota mal tocada ou erro rítmico e corrigindo-os com infinita paciência. De vestido amarelo, conduzia a orquestra com extraordinário entusiasmo, os cabelos ruivos balançando constantemente, as longas e elegantes mãos extraindo a música deles com gestos apaixonados.

O ensaio demorou duas horas e Luke assistiu a tudo boquiaberto. Percebeu facilmente que todos os rapazes estavam apaixonados por Elspeth e que todas as raparigas queriam ser como ela.

— Estas crianças têm tanta música dentro delas como qualquer miúdo rico, confessei-o na sala — disse ela mais tarde, já no carro, — o pior é que com isto estou sempre metida em sarilhos.

— Mas porquê?

— Sou apelidada de simpatizante dos negros — explicou — e pode dizer-se que isso já arruinou a minha carreira na CIA.

— Não compreendo.

— Qualquer pessoa que trate os negros como seres humanos é suspeita de ser comunista, por isso, nunca passarei de secretária. Não que seja uma grande perda. De qualquer forma, uma mulher não pode aspirar a muito mais que isso.

Elspeth levou-o até sua casa, um pequeno e arrumado apartamento com algumas peças de mobiliário moderno. Luke preparou dois martínis e ela começou a fazer esparguete na minúscula cozinha. Luke contou-lhe alguns pormenores sobre o seu trabalho.

— Fico muito feliz por ti — disse ela com um entusiasmo genuíno. — Sempre desejaste explorar o espaço. Lá em Harvard, quando namorávamos, falavas disso.

— Nessa altura, as pessoas pensavam que era um sonho ridículo, uma coisa de romances de ficção científica — lembrou ele, sorrindo.

— Acho que ainda não podemos ter a certeza que aconteça.

— Eu acredito que sim — argumentou ele com ar sério. — As maiores dificuldades foram superadas pelos cientistas alemães durante a guerra. Os alemães construíram foguetões que podiam ser lançados da Holanda para aterrarem em Londres.

— Eu estava lá. Lembro-me que lhes chamávamos «bombas voadoras». — Fez uma pausa, durante a qual a recordação dessa época a fez estremecer de horror. — Uma delas quase me matou. Dirigia-me ao meu gabinete durante um ataque aéreo, pois tinha de dar instruções a um agente que ia ser largado na Bélgica. Algumas horas depois, quando ouvi uma bomba explodir atrás de mim. o som que produzem é horrível. Depois ouvem-se vidros a partir, betão a desmoronar e uma espécie de vento cheio de pó e pequenos pedaços de pedra. Sabia que, se me virasse para ver, entrava em pânico e atirava-me para o chão, cobrindo a cabeça e os olhos, por isso, comecei a correr e continuei a olhar em frente.

Luke, sentiu-se comovido com a imagem de Elspeth a percorrer ruas desertas no meio de um ataque aéreo e agradecido por ela ter sobrevivido.

— Foste muito corajosa — murmurou.

— Não me senti corajosa, apenas apavorada — corrigiu ela, encolhendo os ombros.

— Em que pensaste na altura?

— Não adivinhas?

Luke recordou-se que sempre que Elspeth não tinha nada que fazer pensava na sua adorada matemática.

— Números primos? — arriscou ele.

— A sucessão de Fibonacci — corrigiu ela, rindo.

Luke acenou com a cabeça. O matemático Fibonacei imaginara um casal de coelhos que dava à luz dois filhos todos os meses, filhos esses que começavam a procriar ao mesmo ritmo um mês depois de nascerem. Calculou então quantos casais de coelhos haveria ao fim de um ano. A resposta era 144, mas o número de pares de coelhos existente em cada mês era a mais famosa sequência de números da matemática: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89,144... É sempre possível calcular o número seguinte, somando os dois anteriores,

— Quando cheguei ao escritório — prosseguiu Elspeth —, já ia no quadragésimo número.

— Lembras-te qual é?

— Claro. É o cento e dois milhões trezentos e trinta e quatro mil cento e cinco. Então, os nossos foguetões baseiam-se nas bombas voadoras alemãs?

— Mais no foguetão alemão V-2, para ser exacto — Luke não deveria falar do seu trabalho, mas, afinal de contas, estava a conversar com Elspeth e, provavelmente, ela tinha acesso a informação com um grau de confidencialidade maior do que ele. — Estamos a construir um foguetão que possa descolar do Arizona e explodir em Moscovo. E, se conseguirmos, poderemos enviar um até à Lua.

— Então, é o mesmo princípio, mas a uma escala mais alargada?

Ela demonstrava mais interesse na engenharia espacial que qualquer outra rapariga que já conhecera.

— Sim. Precisamos de motores maiores, combustível mais eficaz, melhores sistemas de orientação, esse tipo de coisas. Porém, nenhum desses problemas é insuperável e não podemos esquecer que temos os cientistas alemães a trabalhar para nós.

— Acho que ouvi falar nisso. — Mudou então de assunto. — E como vai a tua vida? Tens alguma namorada?

— De momento, não. — Tivera várias desde que rompera com Billie, há nove anos, e dormira com algumas delas, mas a verdade, que não desejava revelar a Elspeth, era que nenhuma significara muito para si.

Houvera uma que talvez tivesse amado, uma rapariga alta de olhos castanhos e cabelo revolto. Tinha o mesmo tipo de energia e joíe de vivre que tanto apreciava em Billie. Conhecera-a em Harvard, quando fazia o doutoramento. Um fim de tarde, enquanto deambulavam por Harvard Yard, ela tomara-lhe as mãos e dissera: «Sou casada». Depois beijara-o e afastara-se. Fora o mais próximo que estivera de entregar o seu coração.

— Então e tu? — perguntou a Elspeth. — A Peg casou, a BilIle está a divorciar-se. já vais um pouco atrasada.

— Sabes o que se diz das raparigas que trabalham para o Governo...

A expressão era uma frase feita — e repetida — pela imprensa. Havia tantas jovens a trabalhar para o Governo em Washington que ultrapassavam em número os homens solteiros numa proporção de cinco para um. Como resultado, haviam sido estereotipadas como sexualmente frustradas e desesperadas por um namorado. Luke não acreditava que Elspeth fosse assim, mas, se ela quisesse evitar a sua pergunta, estava no seu direito

Ela pediu-lhe que fosse olhando pelo jantar enquanto se refrescava. Sobre o fogão havia um tacho grande de esparguete e outro mais pequeno com um borbulhante molho de tomate. Luke tirou o casaco e a gravata e mexeu o molho com uma colher de pau. O martini fizera-o ficar levemente ébrio, a comida cheirava bem e estava na companhia de uma mulher de quem gostava. Sentia-se feliz.

De súbito, ouviu Elspeth chamá-lo com um incaracterístico tom de impotência:

— Luke, importavas-te de chegar aqui?

Ele entrou na casa de banho. O vestido de Elspeth estava pendurado por trás da porta e ela encontrava-se de pé perto do lavatório de soutien sem alças cor de pêssego, saiote a condizer, meias e sapatos. Embora estivesse mais vestida do que se estivesse na praia, Luke achou muito excitante vê-la de roupa interior. Elspeth tinha a mão a tapar a cara.

— Tenho sabonete num olho — queixou-se ela. — Ajuda-me a tirá-lo.

Luke abriu a torneira da água fria.

— Inclina-te e aproxima a cara da torneira — disse ele, colocando a mão esquerda entre as suas omoplatas para a ajudar.

A pele das suas costas era macia e morna. Com a mão direita em forma de concha, aparou a água da torneira e levou-lha até ao olho.

— Isso ajuda — confirmou ela.

Luke enxaguou-lhe o olho mais algumas vezes, até ela dizer que o ardor passara. Depois ajudou-a a endireitar-se e limpou-lhe o rosto com uma toalha.

— O olho ficou um pouco encarnado, mas acho que está bem concluiu ele.

— Devo estar um horror.

Não estás nada. — Olhou-a intensamente. O seu olho estava encarnado e, daquele lado, o cabelo tinha algumas madeixas molhadas, porém, estava tão deslumbrante como no dia em que a vira pela primeira vez, mais de dez anos atrás. — Estás absolutamente linda.

Embora Luke já tivesse parado de lhe secar o rosto, a cabeça dela continuava erguida e, como sorria para ele, os seus lábios estavam um pouco entreabertos. Beijá-la era a coisa mais fácil do mundo. Ela beijou-o, a princípio hesitantemente, mas depois colocou-lhe as mãos por trás do pescoço e puxou-o para si, beijando-o com força.

O soutien fazia pressão contra o peito dele. Era suposto ser uma coisa sensual, mas o arame era tão duro que lhe arranhava o peito através do fino algodão da camisa. De súbito ele recuou, sentindo-se ridículo.

— O que foi? — perguntou ela.

Ele tocou-lhe levemente no soutien e disse, fazendo uma careta:

— Isso magoa.

— Pobrezinho — replicou ela com ironia.

Levou as mãos atrás das costas e desapertou o soutien com um só movimento, deixando-o cair no chão.

Já lhe tocara nos seios algumas vezes quando namoravam, mas nunca os vira. Eram brancos e redondos, os mamilos pálidos franzidos de excitação. Ela voltou a colocar os braços em redor do seu pescoço e pressionou o seu corpo contra o dele. Os seus seios eram macios e quentes.

— Assim já não magoa — disse ela.

Passado um momento, Luke pegou-lhe ao colo e levou-a até ao quarto, pousando-a sobre a cama. Ela atirou os sapatos para longe. Ele pegou no elástico do saiote e perguntou:

— Posso?

— Oh!, Luke, és tão bem-educado! — comentou ela com uma gargalhada. Ele sorriu. Era realmente um pouco ridículo, mas não sabia ser diferente. Ela levantou as ancas e ele tirou-lhe o saiote. As cuecas condiziam com o resto da roupa interior. — Não perguntes — avisou ela. — Limita-te a tirar-mas.

Fizeram amor lenta e intensamente. Elspeth não parava de puxar-lhe a cabeça para perto da sua, beijando-lhe o rosto enquanto ele se movia para dentro e para fora dela.

— Há tanto tempo que desejava isto — murmurou ao ouvido dele; depois gemeu de prazer e reclinou-se na almofada, exausta. Daí a pouco tempo, Elspeth adormeceu profundamente, mas Luke manteve-se acordado, pensando na sua vida.

Sempre quisera uma família. Para si, a felicidade era uma casa grande e barulhenta cheia de crianças e amigos. No entanto, aos trinta e três anos continuava solteiro e a vida parecia passar cada vez mais depressa. Desde a guerra, a carreira tornara-se a sua prioridade e voltara à universidade para compensar os anos perdidos. Contudo, não era este o motivo por que continuava solteiro. A verdade é que apenas amara verdadeiramente duas mulheres: Billie e Elspeth. Billie enganara-o, mas Elspeth estava ali a seu lado. Olhou para o seu voluptuoso corpo. Haveria alguma coisa melhor que passar cada noite assim, com uma rapariga que era inteligente, corajosa, espectacular com crianças e, para além disso tudo, extremamente bela?

Quando o dia nasceu, levantou-se para fazer café. Colocou as chávenas num tabuleiro e levou-o para o quarto. Elspeth estava já acordada e sentada na cama com um ar encantadoramente ensonado. Sorriu para ele.

— Queria perguntar-te uma coisa — disse Luke. Sentou-se na beira da cama e pegou-lhe na mão. — Casas comigo?

O seu sorriso desapareceu, dando lugar a um olhar preocupado.

— Que repentino! — exclamou ela. — Dás-me algum tempo para pensar?

 

Sete da manhã

Os gases de escape passam através da tubeira de jacto do foguetão como uma chávena de café quente a ser despejada pela garganta de um boneco de neve.

 

Anthony conduziu o carro até ao Jefferson Memorial com Larry sentado no banco da frente, entre si e Pete. Estava ainda escuro e a área encontrava-se deserta. Voltou o carro ao contrário e estacionou-o de forma que os faróis iluminassem qualquer carro que se aproximasse.

O monumento consistia numa colunata circular dupla com um telhado abobadado. Estava colocado sobre uma plataforma elevada, à qual se chegava por meio de uma escadaria na parte de trás.

— A estátua tem seis metros de altura e pesa quatro toneladas e meia — disse Anthony a Larry. — É feita de bronze.

— Onde está?

— Daqui não a consegues ver, mas está dentro daqueles pilares,

— Devíamos ter vindo de dia — queixou-se Larry

Anthony costumava passear com Larry. Já tinham ido à Casa Branca, ao jardim zoológico e ao Smithsonian. Compravam cachorros-quentes para o almoço, à tarde comiam gelados e Anthony oferecia sempre um brinquedo a Lariy antes de o levar a casa. Anthony gostava do afilhado. Contudo, hoje Larry sentia que alguma coisa não estava bem. Era demasiado cedo, tinha saudades da mãe e, provavelmente, apercebia-se da tensão que reinava no Cadillac.

Anthony abriu a porta do carro.

— Fica aí um pouco, Larry, enquanto eu converso com o Pete.

— Os dois homens saíram, A respiração de ambos condensava-se no ar frio da manhã, — Eu espero aqui — começou a combinar com Pete —, tu levas o miúdo e mostras-lhe o monumento. Fica deste lado, para que ela o consiga ver quando chegar,

— Certo. — A voz de Pete era fria e brusca.

— Detesto ter de fazer isto — confessou Anthony. Na verdade, já nem se preocupava. Larry estava infeliz e Billie doida de preocupação, mas tudo isso seria ultrapassado. Não permitiria que qualquer sentimentalismo interferisse com o seu objectivo. — Não vamos magoar a criança ou a mãe — acrescentou ainda, numa tentatíva de tranquilizar Pete. — Ela há-de dizer-nos para onde foi Luke.

— Depois entregamos o miúdo.

— Não.

— Não? — o rosto de Pete estava imerso na escuridão, mas a voz traiu a sua consternação. — Porque não?

— Para o caso de, mais tarde, precisarmos de mais informações dela. — Pete estava preocupado, mas aquiesceria, pelo menos por agora, pensou. Anthony Abriu a porta do carro. — Anda daí, Larry, o tio Pete vai levar-te a ver o monumento. — disse.  — Com cuidadosa educação, Larry saiu.

— Depois de o vermos, gostaria de ir para casa.

Anthony engoliu em seco. A coragem de Larry era quase insuportável. Porém, respondeu com uma voz calma:

— Depois perguntamos à tua mãe. Agora, podes ir.

A criança deu a mão a Pete e rodearam o monumento em direcção à escadaria. Um minuto mais tarde, reapareceram à frente dos pilares, iluminados pelas luzes dos faróis.

Anthony olhou para o relógio de pulso. Daí a dezasseis horas, o foguetão já teria descolado e tudo estaria terminado, de uma forma ou de outra. Dezasseis horas era muito tempo, o tempo suficiente para Luke fazer muitos estragos. Tinha de o apanhar, e rapidamente.

Billie deveria chegar a qualquer instante. Teve um momento de dúvida. Viria mesmo? Com certeza estaria demasiado assustada e em pânico para chamar a polícia ou fazer alguma gracinha, pensou Anthony.

Tinha razão. Alguns instantes depois, chegou um outro carro. Anthony não conseguiu ver a cor, mas era um Ford Thunderbird. Estacionou a vinte metros do Cadillac de Anthony e uma figura pequena e esguia saltou de dentro dele, deixando o motor a trabalhar.

— Olá, Billie — cumprimentou Anthony.

Billie olhou para ele e logo depois para o monumento, onde viu Pete e Larry admirando a colunata. Ficou paralisada.

Anthony caminhou na sua direcção.

— Não tentes nada, só vais assustar o Larry.

— Não sou eu que o estou a assustar, seu filho da puta! — A sua voz mudava de tom devido à tensão que sentia. Estava quase em lágrimas.

— Tive de fazer isto.

— Ninguém tem de fazer uma coisa destas!

A hostilidade dela não o surpreendia, mas, ainda assim, o seu desprezo ofendia-o.

— Conheces aquela citação de Thomas Jefferson que está no interior deste monumento em letras com um metro de altura? Diz: «Jurei aos pés do altar de Deus eterna hostilidade contra qualquer forma de tirania sobre a mente do homem. » É por isso que estou a fazer isto.

— Quero que os teus motivos se lixem! Já perdeste de vista quaisquer ideais que alguma vez tenhas tido. Nada de bom pode sobreviver a este tipo de traição.

Era uma perda de tempo argumentar com ela,

— Onde está o Luke? — perguntou abruptamente. Seguiu-se uma longa pausa. Por fim, Billie respondeu:

— Apanhou um avião para Huntsville.

Anthony suspirou de alívio e satisfação. Já tinha o que queria. No entanto, a resposta surpreendeu-o.

— Porquê Huntsville?

— É onde o Exército projecta os foguetões.

— Eu sei disso, Mas porque haveria de ir para lá hoje? O lançamento vai ser na Florida.

— Isso já não sei.

Anthony tentou ver nos olhos dela se estaria a mentir, mas a noite era demasiado escura.

— Acho que me estás a esconder alguma coisa.

— O que tu achas não me interessa. Vou buscar o meu filho e vou-me embora.

— Não, não vais — anunciou Anthony — Vamos mantê-lo connosco durante mais algum tempo.

— Porquê? Já te disse para onde foi o Luke! — A voz de Billie soava como um grito de angústia.

— Talvez nos possas ainda ser útil.

— Não é justo!

— A vida está cheia de injustiças. — E voltou-lhe as costas. Foi um erro.

Billie: já estava mais ou menos à espera disto.

Quando Anthony se aproximou do carro, foi atrás dele. Com o ombro direito, deu-lhe uma pancada no fundo das costas. Billie pesava apenas cinquenta e quatro quilos e ele deveria ter mais vinte, no entanto, ela tinha o elemento «surpresa» e a raiva do seu lado. Anthony tropeçou e caiu para a frente, aterrando sobre as mãos e os joelhos. Gemeu de dor e de surpresa.

Billie tirou o Colt do bolso do casaco.

Quando Anthony tentou levantar-se, ela atacou-o de novo, desta vez num dos lados. Voltou a cair, rebolando pelo chão. Assim que ficou de barriga para cima, Billie encostou-lhe um joelho à cara e empurrou violentamente o cano da arma pela boca de Anthony adentro. Sentiu um dente partir-se.

Ele ficou paralisado de medo.

Deliberadamente, empurrou a alça de segurança para cima, para a posição de disparar. Olhou-o fixamente e viu o medo estampado nos olhos dele. Não esperara que Billie viesse armada. Um fio de sangue escorria-lhe pelo queixo.

Billie olhou para cima. Larry e o outro homem continuavam a observar o monumento, ignorando o que se passava. Voltou a sua atenção de novo para Anthony.

— Vou tirar a arma da tua boca — disse ela, ofegante. — Se te mexeres, mato-te. Se ficares vivo, vais chamar o teu colega e dizer-lhe para fazer tudo o que eu mandar. — Tirou a arma da boca de Anthony e apontou-lha ao olho esquerdo. — Agora, chama-o.

Anthony hesitou.

Ela encostou-lhe o cano da pistola à sobrancelha.

— Pete! — chamou ele.

Pete olhou em volta e perguntou, desorientado:

— Onde está?

Anthony e Billie encontravam-se fora do alcance dos faróis do cadillac.

— Diz-lhe para ficar onde está — instruiu ela.

Anthony não disse nada. Billie empurrou o Colt contra o olho dele.

— Fica onde estás! — gritou de imediato.

Pete colocou a mão em forma de pala por cima dos olhos, perscrutando a escuridão, na tentativa de perceber donde vinha a voz.

— O que se passa? — perguntou. — Não o consigo ver.

— Larry, fala à mãe. Mete-te no nosso carro — gritou Billie. Pete agarrou Larry pelo braço.

— O homem não me deixa — gritou Larry.

— Fica calmo! — continuou Billie. — o tio Anthony vai dizer a esse homem para te largar. — Pressionou o cano do revólver ainda com mais força contra o olho de Anthony.

— Está bem! — gemeu ele. Billie aliviou a pressão. — Deixa o miúdo, Pete!

— Tem a certeza? — inquiriu Pete, espantado.

— Faz o que te digo, por amor de Deus! Ela tem uma arma apontada contra mim!

— Tudo bem! — Pete largou o braço de Larry.

Larry encaminhou-se para as traseiras do monumento e reapareceu, segundos depois, ao nível do solo. Correu em direcção a Billie.

— Para aqui não — avisou ela, esforçando-se por manter um tom calmo. — Mete-te no carro, depressa!

Larry correu para o Thunderbird e saltou para o seu interior, fechando a porta com força.

Com um movimento rápido, Billie esbofeteou Anthony com a arma, aplicando toda a sua força. Ele gritou de dor, mas, antes que se conseguisse mexer, ela empurrou-lhe novamente a arma pela boca abaixo. Anthony ficou quieto, gemendo.

— Lembra-te disto, se te sentires mais alguma vez tentado a raptar uma criança — advertiu Billie. Levantou-se, tirando-lhe a arma da boca. — Deixa-te ficar quietinho — ordenou-lhe. Olhou para o monumento. Pete não se mexera.

Meteu-se no carro.

— Tens uma arma? — perguntou Larry. Apressou-se a esconder o Colt no casaco.

— Estás bem? — perguntou ao filho. Ele começou a chorar.

Billie empurrou a alavanca das mudanças para a primeira e arrancou a toda a velocidade.

 

Oito da manhã

Os motores mais pequenos que propulsionam o segundo, terceiro e último andares utilizam um combustível sólido conhecido como T.17-E2, um polissulfureto com perdoreto de amónio como oxidante. Cada motor produz cerca de setecentos e vinte cinco quilogramas de propulsão no espaço.

 

Bernard deitou leite quente sobre os Corn flakes de Larry, enquanto Billie cortava fatias de pão para fazer torradas. Estavam a tentar consolar a criança, mas, na opinião de Billie, também os adultos necessitavam de consolo. Larry comia com grande apetite, ao mesmo tempo que escutava o rádio.

— Vou matar aquele cabrão do Anthony! — disse Bernard entre dentes, de forma que Larry não ouvisse. — Juro por Deus, ele não me escapa!

A raiva de Billie já se esfumara. Esbofetear Anthony com a pistola ajudara muito a que isso acontecesse. Agora estava apenas preocupada e nervosa, em parte por causa de Larry, que apanhara um valente susto, e em parte por causa de Luke.

— Receio que o Anthony tente matar o Luke novamente — disse ela.

Bernard meteu duas fatias de pão na torradeira.

— O Luke não se deixa matar facilmente.

— O pior é que ele acha que logrou escapar, não sabe que contei ao Anthony onde está. — Enquanto Bernard esperava que as torradas saltassem, Billie percorria a cozinha, mordendo o lábio inferior.

— O Anthony já deve ir a caminho de Huntsville. O Luke apanhou um avião lento, o Anthony poderá meter-se num voo da MATS e chegar lá primeiro. Tenho de encontrar maneira de avisar o Luke.

— Podemos deixar uma mensagem no aeroporto — sugeriu Bernard.

— Não me parece muito seguro. Acho que terei de ir lá pessoalmente. Havia um avião que partia às nove, não havia? Onde está aquele guia?

— Aí em cima da mesa.

Billie pegou nele. O voo duzentos e setenta e um partia de Washington exactamente às nove horas. Ao contrário do avião que Luke apanhara, este apenas fazia duas paragens, aterrando em Huntsville quatro minutos antes do meio-dia. O voo de Luke só aterraria às duas e vinte e três. Poderia esperar por ele no aeroporto.

— Consigo lá chegar a tempo.

— Então, será melhor ires.

Billie hesitou, olhando para Larry, dividida. Bernard leu-lhe o pensamento.

— Ele fica bem.

— Eu sei, mas não me apetecia nada deixá-lo, principalmente hoje.

— Eu tomo conta dele.

— Não o leves à escola, Bernard.

— Está bem. Também acho que é melhor.

— Já acabei os Corn flakes — anunciou Larry.

— Então já deves estar pronto para comer uma torrada — disse Ben, colocando-lhe uma no prato. — Queres doce?

— Sim.

— Sim, quê?

— Sim, se faz favor.

Bernard espalhou um pouco de doce sobre a torrada. Sentada frente ao filho, Billie disse-lhe:

— Não quero que vás à escola hoje.

— Mas hoje é dia de natação! — protestou Larry.

— Talvez o pai te leve a nadar.

— Mas não estou doente!

— Eu sei, querido, mas tiveste uma noite agitada e precisas de descansar.

As reclamações de Larry tranquilizaram um pouco Billie. Larry parecia estar a recuperar depressa. Ainda assim, não se sentia bem em mandá-lo para a escola, pelo menos enquanto tudo não estivesse resolvido.

Sabia, porém, que podia deixá-lo com o pai. Bernard era um agente treinado e poderia proteger o filho de qualquer coisa. Tomou então uma decisão: iria para Huntsville.

— Passa um dia divertido com o pai. Talvez amanhã já possas ir à escola, está bem?

— Está bem.

— Agora a mamã tem de sair. — Billie não queria dramatizar o facto de se ir embora, pois isso apenas assustaria a criança.

— Vemo-nos depois — disse, num tom normal.

Quando saía, ouviu Bernard dizer:

— Aposto que não és capaz de comer outra torrada!

— Isso é que sou! — respondeu Larry

Billie fechou a porta.

 

Dez e quarenta e cinco da manhã

O foguetão descolará na vertical e será depois orientado para uma trajectória com uma inclinação de quarenta graus relativamente ao horiZonte. Durante o voo assistido por motores, o primeiro andar é guiado por superfícies aerodinâmicas e por pás móveis de carbono colocadas na tubeira de jacto do motor

 

Luke adormeceu assim que apertou o cinto e nem deu por o avião descolar de Newport News. Dormiu profundamente durante o voo, embora acordasse de cada vez que as rodas do avião tocavam em mais uma pista de aterragem no seu percurso para oeste, atravessando a Virgínia e a Carolina do Norte. Sempre que abria os olhos, era acometido por um ataque de ansiedade, consultando o relógio para confirmar quantas horas e minutos faltavam para o lançamento. Ficava então em pulgas sentado na cadeira, enquanto o pequeno avião deslizava ao longo da pista. Algumas pessoas saíam, uma ou duas entravam, e o avião levantava voo mais uma vez. Era como andar de autocarro.

O avião parou para reabastecimento em Winstort-Salem e os passageiros desceram por alguns minutos. Luke aproveitou para telefonar para o Redstone Arsenal. Foi a sua secretária, Marigold Clark, quem atendeu.

—   Doutor Lucas! — disse ela. — Está bem?

— Estou óptimo, mas não me posso demorar. o lançamento ainda está programado para esta noite?

— Sim, às dez e meia.

— Vou a caminho de Huntsville. o meu avião aterra às duas e vinte e três. Estou a tentar descobrir por que motivo fui aí na segunda-feira.

— Ainda não recuperou a memória?

— Não. Não sabe porque fiz essa viagem, pois não?

— Como lhe contei, o doutor não me disse.

— O que é que eu fiz aí?

— Deixe-me pensar. Fui ter consigo ao aeroporto num carro do Exército e trouxe-o aqui para a base. O doutor foi ao Laboratório de Computação, depois levou o carro até à ponta sul.

— O que há aí, na ponta sul?

— As plataformas dos testes de estática. Penso que deve ter ido ao Edifício de Engenharia, por vezes trabalha lá, mas não tenho a certeza, pois não estava consigo.

— E depois?

— Pediu-me que o levasse a casa. — Luke notou um certo tom cerimonioso na sua voz. — Eu esperei no carro. O doutor apenas se demorou um ou dois minutos. Depois levei-o de volta ao aeroporto.

— Só isso?

— É tudo de que me lembro.

Luke suspirou, sentindo-se frustrado. Esperava que Marigold se lembrasse de alguma coisa que pudesse constituir uma pista. Desesperado, tentou outra abordagem.

— Como é que lhe pareci?

— Bem, embora a sua cabeça estivesse noutro lado. Achei-o apreensivo, era essa a palavra que procurava. Supus que estivesse preocupado com alguma coisa, como acontece frequentemente com os cientistas.

— A minha roupa tinha alguma coisa de estranho?

Não, vestia um dos seus bonitos casacos de tweed.

— E trazia alguma coisa nas mãos?

— Apenas a mala. E uma pasta de arquivo.

Luke perdeu o fôlego por um instante.

— Uma pasta? — Engoliu em seco. Uma hospedeira interrompeu-o.

— Está na hora de embarcar, doutor Lucas.

Tapou o bocal do telefone com a mão e replicou:

— É som um minuto. — Depois perguntou a Marigold: — A pasta tinha alguma coisa de especial?

— Era uma pasta comum do Exército, em cartão fino, acastanhada, das usadas para guardar correspondência.

— Faz alguma ideia do que estava lá dentro?

— Pareceu-me que apenas tinha papéis.

Luke tentava respirar normalmente.

—   Quantas folhas de papel, uma, dez, cem?

— Talvez umas quinze ou vinte.

—   Viu, por acaso, o que estava escrito nessas folhas?

—   Não, o doutor não as tirou da pasta.

—   E ainda tinha essa pasta comigo quando me levou ao aeroporto?

Do outro lado da linha seguiu-se um silêncio.

A hospedeira voltou.

— Doutor Lucas, se não embarcar, teremos de partir sem o senhor.

— Vou já, vou já. — Repetiu a pergunta a Marigold: — Ainda tinha essa pasta...

— Eu ouvi-o — interrompeu Marigold. — Estou a tentar recordar-me.

Luke mordeu o lábio, expectante.

— Não se apresse.

— Se a tinha quando saiu de casa, não sei.

— E no aeroporto?

— Sabe, acho que nessa altura não a tinha. Estou a vê-lo entrar no terminal e lembro-me que tinha a sua mala numa das mãos e na outra... nada.

— Tem a certeza?

— Sim, agora tenho a certeza. Deve ter deixado a pasta num outro sítio, talvez na base ou em casa.

A cabeça de Luke estava a cem à hora. A pasta fora o motivo da sua viagem a Huntsville, tinha a certeza. Deveria conter o segredo que descobrira e que Anthony tanto queria que esquecesse. Talvez fosse uma cópia do original e a tivesse escondido algures como medida de segurança. Fora por isso que pedira a Marigold que não contasse a ninguém que estivera em Huntsville. Talvez fosse uma medida excessiva, mas sem dúvida que ganhara tais hábitos durante a guerra.

Se conseguisse descobrir a pasta, deslindaria o mistério.

A hospedeira já tinha saído do terminal e Luke viu-a a correr pela pista. As hélices do avião estavam já em movimento.

— Acho que essa pasta é de extrema importância — disse a Marigold. — importava-se de dar uma vista de olhos, a ver se a encontra por aí?

— Mas, doutor Lucas, deve existir por aqui um milhão dessas pastas acastanhadas! Como poderei saber qual delas era a que o senhor trazia?

— Procure por aí e veja se vê alguma num local onde não deveria estar. Assim que aterrar em Huntsville, vou até minha casa e procuro por lá. Depois, se não a encontrar, vou até à base.

Desligou e correu para o avião.

 

Onze da manhã

O plano de voo é programado com antecedência. Durante o voo, sinais enviados para o computador activam o sistema de orientação, para manter o foguetão na sua rota.

 

O voo da MATS para Huntsville estava cheio de generais. o Redstone Arsenal não se limitava a projectar foguetões espaciais. Era também o quartel-general do Arrny Ordnance MisSile Command. Anthony, que se mantinha a par destas coisas, sabia que na base estava a ser testada uma vasta gama de armas: desde o míssil Reàeye, do tamanho de um bastão de basebol, para ser usado por tropas terrestres contra aviões inimigos, ao gigantesco míssil terra-terra Honestgan.

Anthony trazia óculos de sol, para esconder os dois olhos negros que Billie lhe deixara de recordação. o lábio já parara de sangrar e o dente partido apenas se via quando falava. Apesar dos ferimentos, sentia-se animado: Luke estava perto. Deveria aproveitar a primeira oportunidade que tivesse para o matar? Era tentadoramente simples. No entanto, Preocupava-o o facto de não saber com certeza o que Luke andava a tramar. Tinha de tomar uma decisão. Contudo, quando embarcou no avião estava a pé havia já quarenta e oito horas e adormeceu de imediato. Sonhou que tinha novamente vinte e um anos, que havia folhas nas árvores de Harvard Yard e que uma vida cheia de possibilidades gloriosas se estendia a sua frente como uma estrada. Acordou a ser sacudido por Pete, enquanto um cabo abria a porta do avião, e a inalar a brisa morna do Alabama.

Huntsville tinha um aeroporto civil, mas os voos da MATS aterravam na pista da base. o edifício do terminal era uma pequena cabana de madeira e a torre uma plataforma metálica aberta, com uma única sala de controlo no topo.

Anthony abanou a cabeça para aclarar as ideias, a medida que atravessava a relva ressequida. A sua única bagagem era a pequena maleta onde trazia a arma, um passaporte falso e cinco mil dólares, o kít de emergência sem o qual nunca apanhava um avião.

A adrenalina motivava-o. Nas próximas horas, mataria um homem pela primeira vez desde o final da guerra. o seu estômago retraiu-se ao pensar nisso. Onde o faria? Uma hipótese seria esperá-lo no aeroporto de Huntsville, segui-lo e apanhá-lo numa estrada qualquer. Contudo, era uma opção arriscada. Luke poderia facilmente detectar que estava a ser seguido e escapar. Não seria nunca um alvo fácil. Poderia ainda escapulir-se, se Anthony não tivesse muito cuidado.

Talvez fosse melhor descobrir onde Luke planeava ir, chegar lá primeiro e armar-lhe uma emboscada.

— Vou à base fazer algumas perguntas — disse a Pete. — Preciso que vás para o aeroporto e fiques lá de vigia. Se o Luke chegar ou acontecer qualquer coisa, tenta contactar-me aqui.

No final da pista de aterragem, um jovem com farda de tenente — segurava um cartaz onde se podia ler: «Mister Carroll, Departamento de Estado.» Anthony apertou-lhe a mão.

— Com os cumprimentos de coronel Hickam, sir — disse o tenente num tom formal. — Tal como solicitado pelo Departamento de Estado, aqui está o automóvel. — Apontou para um Ford verde-acinzentado.

— Muito obrigado — respondeu Anthony. Telefonara para a base antes de apanhar o avião, fingindo descaradamente que cumpria ordens do director da CIA, Allen Dulles, e exigindo a colaboração do Exército numa missão de importância vital, cujos pormenores eram confidenciais. Funcionara: o tenente parecia ansioso por lhe agradar.

— O coronel Hickam gostaria de que passasse pelo quartel-general quando pudesse — disse o tenente, entregando a Anthony um mapa. A base era enorme. Estendia-se por vários quilómetros para sul, até ao rio Ténmessee. — O edifício do quartel-general está assinalado no mapa — continuou o soldado: — E temos uma mensagem para si a pedir-lhe que ligue para Mister Carl Hobart, em Washington.

— Obrigado, tenente. Onde fica o gabinete do doutor Lucas?

— No Laboratório de Computação. — Tirou um lápis do bolso e marcou o local no mapa. — Mas esta semana o pessoal do laboratório está todo em Cabo Canaveral.

— O doutor Lucas tem secretária?

— Sim, é Mistress Marigold Clark.

Talvez ela soubesse o que Luke fora fazer a Huntsville. Óptimo.

— Tenente, este é o meu colega Pete Maxell. Ele precisa de se deslocar ao aeroporto civil para esperar um voo.

— Eu próprio o levarei lá, sir — ofereceu-se o tenente.

— Obrigado. Se ele precisar de me contactar na base, qual será a melhor forma de o fazer?

O tenente olhou para Pete.

— Poderá deixar uma mensagem no gabinete do coronel Híckarn e eu farei chegá-la a Mister Carroll.

— Óptimo — disse Anthony com ar decidido. — Vamos, então. Meteu-se no Ford, consultou o mapa e arrancou. Era uma típica base militar, Estradas em linha recta atravessavam áreas densamente arborizadas, interrompidas aqui e ali por rectângulos perfeitos de relva cortada rente, como o cabelo de um recruta. Os edifícios consistiam em estruturas de tijolo castanho com telhados planos. As estradas estavam bem assinaladas e não tardou a encontrar o Laboratório de Computação, um edifício de dois andares em forma de T. Anthony interrogou-se por que motivo necessitavam de tanto espaço para fazer cálculos, mas depois compreendeu que deveriam ter um potente computador no interior.

Estacionou à porta e pensou por um momento. A pergunta que tinha a fazer era muito simples: onde planeava Luke ir ali em Huntsville? Era bem possível que Marigold soubesse. No entanto, o mais provável era que ela defendesse Luke e desconfiasse de um estranho, especialmente se este tivesse dois olhos negros. Porém, ficara para trás quando a maioria das pessoas com quem trabalhava tinha ido para Cabo Canaveral preparar o grande acontecimento, por isso, deveria estar a sentir-se sozinha e entediada.

Entrou no edifício. Num gabinete havia três pequenas secretárias, cada qual com uma máquina de escrever. Duas delas estavam vazias. A terceira era ocupada por uma mulher negra com cerca de cinquenta anos, que usava óculos com brilhantes nas hastes e um vestido de algodão florido.

— Boa tarde — cumprimentou Anthony.

Ela olhou para cima. Ele tirou os óculos. A mulher ergueu as sobrancelhas, surpreendida com o seu aspecto.

— Olá! Posso ajudá-lo?

— Estou à procura de uma mulher que não me bata, minha senhora — respondeu Anthony com uma sinceridade fingida. Marigold desatou a rir.

Anthony puxou uma cadeira e sentou-se num dos lados da secretária.

— Venho do gabinete do coronel Hickam — declarou ele. Estou à procura de Marigold Clark. Onde posso encontrá-la?

— Sou eu.

— Com certeza que não. A Mistress Clark que procuro é uma senhora crescida. Você é apenas uma rapariguinha.

— Deixe-se de piropos — disse Marigold, sorrindo ainda.

— O doutor Lucas vem a caminho de Huntsville. Suponho que não é novidade para si.

—  Ele telefonou-me esta manhã.

—  A que horas o espera?

—  O avião dele aterra às duas e vinte e três.

—  Então, deve chegar aqui por volta das três.

—  Não necessariamente.

—  Porque não?

Ela acabou por dar-lhe todas as informações que Anthony desejava.

— O doutor Lucas disse-me que ia passar por casa primeiro e depois viria aqui.

Perfeito. Mal podia acreditar na sua sorte. Luke ia directamente do aeroporto para casa. Anthony podia ir para lá esperá-lo e matá-lo assim que entrasse. Não haveria testemunhas e, se usasse o silenciador, ninguém ouviria o disparo. Deixaria o corpo dentro de casa e afastar-se-ia. Com Elspeth na Florida, poderiam passar-se vários dias até que o corpo fosse encontrado.

— Obrigado — disse a Marigold, levantando-se. — Foi um prazer conhecê-la. E abandonou o gabinete antes mesmo de ela ter tempo de lhe perguntar o nome.

Regressou ao carro e dirigiu-se ao quartel-general, um monólito de três andares, que mais parecia uma prisão. Encontrou o gabinete do coronel Hickam. Este tinha saído, mas um sargento conduziu-o a uma sala vazia onde havia um telefone.

Ligou para o Edifício Q, mas não falou com o seu chefe, Carl Hobart. Em vez disso, pediu para falar com o superior de Carl, George Cooperman.

— Como vão as coisas, George? — disse.

— Disparaste sobre alguém ontem à noite? — inquiriu de imediato Cooperman, a voz rouca soando ainda mais grave que o habitual.

Com algum esforço, Anthony adoptou o tom fanfarrão que tanto agradava a Cooperman.

— Céus, quem te disse isso?

— Um coronel qualquer do Pentágono telefonou ao Tom Ealy, do gabinete do director, e o Ealy contou ao Hobart, que teve logo ali um orgasmo.

— Não deixei provas. Apanhei as balas todas.

— Este coronel encontrou um buraco com cerca de nove milímetros de largura na porra da parede e adivinhou o que o provocara. Acertaste em alguém?

— Infelizmente, não.

— Estás em Huntsville, certo?

— Sim.

— É suposto regressares de imediato.

— Então ainda bem que não falei contigo.

— Escuta, Anthony, sempre te encobri no que pude, porque apresentas resultados, mas não posso fazer nada por ti neste caso. A partir de agora, estás por tua conta, companheiro.

— Melhor ainda.

— Boa sorte.

Desligou e ficou a olhar para o telefone. Não tinha muito mais tempo. O seu desempenho como Billy the Kid começava a tornar-se insustentável. Tinha de terminar a sua missão depressa.

Telefonou para Cabo Canaveral e pediu para falar com Elspeth,

— Tiveste notícias do Luke? — perguntou ele.

— Telefonou-me às seis e meia da manhã — disse ela num tom um pouco hesitante.

— Donde?

— Não me quis dizer onde estava, para onde ia ou o que planeava fazer, pois temia que o meu telefone estivesse sob escuta. Mas disse-me que eras tu o responsável pela sua amneésia.

— Ele vem neste momento a caminho de Huntsville. Eu estou no Redstone Arsenal. Vou para tua casa esperá-lo. Achas que conseguirei entrar?

Ela respondeu com outra pergunta:

— Continuas a tentar protegê-lo?

— Claro.

— Não lhe vai acontecer nada?

— Farei o melhor que puder.

Seguiu-se uma pausa, mas depois ela disse:

—  Há uma chave debaixo do vaso da buganvília, nas traseiras.

— Obrigado.

— Vais olhar por ele, não vais?

— Já disse que vou fazer o meu melhor.

— Não fales assim comigo — protestou ela.

— Eu tomo conta dele — tranquilizou-a Anthony, e desligou. Levantou-se para sair e o telefone tocou. Interrogou-se se haveria de atender. Talvez fosse Hobart, mas o chefe não sabia que ele estava no gabinete do coronel Hickam. A única pessoa que sabia disso era Pete, pensou.

Atendeu.

Era, de facto, Pete.

— A doutora Josephson está aqui! — anunciou ele.

— Merda! — Anthony acreditara que, depois do sucedido com Larry, ela já não o incomodaria. — Acabou de sair de um avião?

— Sim, devia ser um voo mais rápido do que aquele em que o Lucas vem. Está sentada ali dentro do terminal, como se estivesse à espera.

— Dele, claro! — exclamou Anthony, irritado. — Raios a partam! Veio avisá-lo de que estamos aqui. Tens de a fazer sair daí.

— Como?

— Não me interessa. Livra-te dela!

 

Meio-dia

A órbita do Explorer terá uma inclinação de trinta e quatro graus relativamente ao equador. Em relação à superfície da Terra, avançará para sudeste através do oceano Atlântico até à ponta sul de África, e depois para nordeste através do oceano Índico e da indonésía até ao Pacífico.

 

O aeroporto de Huntsville era pequeno, mas movimentado. o seu único terminal tinha um balcão da Hertz, algumas máquinas automáticas e uma fila de cabinas telefónicas. Assim que chegou, Billie foi confirmar a hora a que aterraria o voo de Luke e constatou que o avião vinha com um atraso de cerca de uma hora e chegaria a  Huntsville às três e um quarto. Faltavam ainda três horas.

Comprou um chocolate e uma bebida numa das máquinas, pousou a mala que continha o Colt no chão, ao seu lado, e encostou-se a uma parede a pensar. Qual seria a melhor forma de lidar com a situação? Assim que visse Luke, avisá-lo-ia de que Anthony também estava na cidade. Luke ficaria atento e tomaria as devidas precauções, mas não podia esconder-se, pois tinha de descobrir o que fizera em Huntsville na segunda-feira e, para tal, precisava de se deslocar. Teria inevitavelmente de correr alguns riscos. Poderia ela fazer alguma coisa para o proteger?

Enquanto pensava nisto, uma rapariga de uniforme das Capital Airlines abordou-a:

— A senhora é a doutora Josephson?

— Sim,

— Tenho uma mensagem telefó