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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CONTOS DE FANTASMAS / Daniel Defoe
CONTOS DE FANTASMAS / Daniel Defoe

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CONTOS DE FANTASMAS

 

               Primeira Parte

               Histórias verdadeiras de fantasmas

A aparição da senhora Veal / O fantasma em todos os cômodos / O espectro e o salteador / O eclesiástico e o testamento perdido / Uma estranha experiência de dois irmãos / O diabo brinca com um mordomo / O diabo e o relojoeiro

 

               Segunda Parte

               Fantasmas falsos e aventuras divertidas

Um acusador fantasmagórico / Uma ilusão referente a um urso e um asno / O fantasma útil / Os presuntos e o Quaker / O adivinho na Feira de Bristol

 

                  

                                       Histórias verdadeiras de fantasmas

 

                     A Aparição da Senhora Veal

Este relato é verdadeiro e cercado por muitas circunstâncias que podem induzir qualquer homem sen­sato a acreditar nele. Foi enviado por um cavalheiro, um juiz da paz em Maidstone, no Kent, e pessoa de muita inteligência, a um amigo seu em Londres, tal como está aqui redigido. O texto é certificado por uma dama parente do citado juiz da paz e que é pessoa de mente sóbria e de grande compreensão, a qual vive em Canterbury, a umas poucas portas da casa em que mora a senhora Bargrave, nomeada no relato. O juiz da paz acredita que sua parente é de espírito tão atila­do que nunca se deixaria enganar por qualquer fraude. Ela própria garantiu-lhe positivamente que a questão toda tal como aqui relatada e redigida constitui a ver­dade, e a mesma coisa que ela ouviu aproximadamen­te nas mesmas palavras da boca da mesma senhora Bargrave, a qual, ela sabe, não tinha razão para inven­tar e divulgar tal história, nem desejo de forjar e contar uma mentira, sendo uma mulher muito honesta e virtuo­sa, e toda a sua vida um exemplo de piedade. O pro­veito que podemos tirar desse documento é ter em men­te que há uma vida por vir depois desta e um Deus justo que retribuirá à cada um segundo os atos feitos com este corpo atual; devemos, portanto, refletir no que tem sido a nossa vida; não esquecer de que o tem­po de que dispomos é curto e incerto e que, se quisermos escapar à punição reservada aos ímpios e alcan­çar a recompensa dos que procedem bem, que é a vida eterna, temos de, no tempo que nos resta, voltar a Deus por um rápido arrependimento, deixando de co­meter o mal e aprendendo a fazer o bem. partindo em busca de Deus, se com felicidade Ele possa ser de nós encontrado, e de levar tais vidas no futuro que Lhe possam ser agradáveis.

Isto que vou contar é tão raro em todas as suas circunstâncias, e fundado em tão boa autoridade, que toda a minha leitura e as minhas conversas nada me forneceram de semelhante. E coisa apta a satisfazer o investigador mais destro e exigente.

A senhora Bargrave é a pessoa a quem a se­nhora Veal apareceu depois de falecer. Ela é minha amiga íntima, e posso atestar-lhe a probidade, por es­tes últimos quinze ou dezesseis anos, por meu próprio conhecimento. E posso confirmar a reputação de ho­nestidade de que gozou desde sua mocidade até o momento em que a conheci, o que é necessário; por­que, em função do relato que fez da aparição da se­nhora Veal, ela é objeto de calúnia por parte de algu­mas pessoas que são amigas do irmão da mencionada senhora Veal, às quais o relato da aparição parece uma ofensa, e fazem o que podern para acabar com a re­putação da senhora Bargrave e para ridicularizar a história que conta. Mas, dadas as circunstâncias do que se passou e a boa disposição da senhora Bargrave, não obstante os maus-tratos inéditos a que foi sujeita por um marido muito cruel, não há em sua fisionomia o menor sinal de desalento. Nem eu a ouvi pronunciar uma expressão de desespero ou de queixa, nem mesmo quando submetida às barbaridades do marido, de que eu fui testemunha, assim como várias outras pes­soas cuja reputação não se pode pôr em dúvida.

E preciso que vocês saibam que a senhora Veal era uma moça solteira e nobre de cerca de trinta anos de idade e, por alguns anos, vinha sofrendo de ataques que nela se manifestavam porque ela interrompia o que estava dizendo com alguma extravagância abrupta. Ela era sustentada pelo único irmão que tinha, e toma­va conta da casa deste último em Dover. Era uma mulher muito religiosa, e o irmão um homem sóbrio, ao que tudo demonstrava, mas agora ele faz o que pode para reduzir a pedaços esta história.

A senhora Veal era intimamente ligada à senho­ra Bargrave desde a infância. Naquela época, as con­dições em que vivia a senhora Veal eram ruins. O pai não tomava cuidado das crianças como devia, o que as expunha a privações, e também a senhora Bargrave vivia naqueles tempos com um pai cruel, embora não lhe faltassem nem comida nem roupa, coisas que fal­tavam à senhora Veal. Estava, portanto, dentro das possibilidades da senhora Bargrave ajudar a senhora Veal de várias maneiras, o que esta última muito apreciava. Muitas vezes, ela dizia:

- Senhora Bargrave, a senhora não é apenas a melhor, mas é a única amiga que tenho no mundo e nenhuma circunstância na vida dissolverá jamais tal amizade.

Elas lamentavam juntas a fortuna adversa e liam o livro de Drelincourt sobre a morte e outros livros bons. E assim, como duas amigas cristãs, elas se con­fortavam reciprocamente.

Algum tempo depois, os amigos do senhor Veal arranjaram-lhe um lugar na Alfândega de Dover, o que fez com que a senhora Veal, a pouco e pouco, se des­prendesse da intimidade com a senhora Bargrave, embora nunca houvesse entre as duas, alguma coisa como uma briga. Mas, gradualmente, surgiu entre elas uma indiferença, até que, por fim, a senhora Bargrave passara dois anos e meio sem ver a amiga, embora por cerca de um ano a senhora Bargrave tivesse estado ausente de Dover e houvesse passado os últimos seis meses em Canterbury morando em casa própria.

Em tal casa, em 8 de setembro último, 1705, ela estava sentada sozinha na manhã, meditando sobre sua vida desafortunada e buscando argumentos que a in­clinassem à resignação devida à Providência, embora sua situação parecesse difícil. "E", pensou ela, "eu fui ajudada até agora e não duvido de que ainda o serei e estou certa de que minhas aflições terminarão quando for mais apropriado" e, depois de tais pensamentos, tomou de sua obra de costura, coisa que ela mal aca­bara de fazer quando ouviu bater à porta. Levantou-se para ver quem era e deu com a senhora Veal, que estava de roupa de montaria. Naquele exato momento, o relógio bateu doze badaladas.

Madame - disse a senhora Bargrave -, estou surpreendida em vê-la. Por tanto tempo estivemos se­paradas!

Mas disse-lhe que ficava feliz em voltar a vê-la, e fez menção de dela se aproximar, com o que concor­dou a senhora Veal, até que os lábios das duas quase se tocaram.

E então a senhora Veal passou a mão pelos olhos e disse:

Não me sinto muito bem.

Disse à senhora Bargrave que partiria sozinha numa viagem e tivera um grande desejo de visitá-la antes de seguir.

Mas - ponderou a senhora Bargrave - como é que a senhora parte em viagem sozinha? Isso espan­ta-me, porque sei que seu irmão lhe é tão aficionado.

Ora - disse a senhora Veal -, enganei meu irmão e vim sozinha, tal era o meu desejo de ver a senhora, antes de partir em viagem.

Assim a senhora Bargrave seguiu com ela para outro aposento e a senhora Veal sentou-se numa ca­deira de braços, exatamente onde a senhora Bargrave estivera sentada quando ouvira a senhora Veal bater à porta.

Então disse a senhora Veal:

Minha querida amiga, eu vim renovar nossa amizade antiga, e peço seu perdão por me ter apartado. E, se puder perdoar-me, a senhora é uma das melho­res mulheres.

Ora - disse a senhora Bargrave -, não mencio­ne uma tal coisa. Isso nunca me preocupou. Posso facilmente perdoá-la.

Que pensou a senhora de mim? - perguntou a senhora Veal.

Pensei - respondeu a senhora Bargrave - que a senhora era como o resto do mundo e que a prospe­ridade a tinha feito esquecer a nossa ligação.

Então a senhora Veal lembrou à senhora Bargrave os muitos serviços amistosos que esta lhe tinha prestado no passado e muito das conversas que, uma com a outra, tinham mantido no tempo de adver­sidade; lembrou-lhe os livros que liam e, em particular, o conforto que recebiam da meditação do ensaio de Drelincourt sobre a morte, que ela classificou como o melhor dos livros sobre o assunto. Também mencio­nou os livros que o doutor Sherlock e dois autores ho­landeses traduzidos escreveram sobre a morte e vá­rios outros. Mas disse que Drelincourt possuía a visão mais clara da morte e de nossa futura condição, entre todos os que tinham tratado do assunto. Então pergun­tou à senhora Bargrave se ela dispunha de um exem­plar da obra de Drelincourt.

Sim - disse a senhora Bargrave.

Traga-o - pediu a senhora Veal.

E então a senhora Bargrave subiu ao andar de cima e trouxe o livro.

Querida senhora Bargrave - afirmou a senho­ra Veal se os olhos da fé estivessem abertos como os olhos do corpo, veríamos numerosos anjos a nosso redor, para guardar-nos. As idéias que temos do céu não são nada perto do que é, como diz Drelincourt. Portanto, suporte com paciência seus sofrimentos e acredite que o Todo-Poderoso a tem em particular consideração e que as tribulações que a afligem são marcas do favor de Deus. E quando essas tribulações tiverem alcançado o objetivo pelo qual foram manda­das elas lhe serão retiradas. E acredite-me, minha que­rida amiga, acredite no que lhe digo: um minuto de fu­tura felicidade a recompensará infinitamente de todos os seus sofrimentos; pois nunca poderei acreditar - (nesse ponto, a senhora Veal bateu com a mão no joe­lho com grande veemência, a mesma veemência que marcou tudo o que dizia) - que Deus suportará que a senhora passe todos os seus dias em aflição; mas es­teja certa de que seus males a deixarão, ou a senhora os deixará dentro em breve.

Falou de uma maneira tão celestial e patética que a senhora Bargrave chorou várias vezes, tanto aquilo tudo a impressionou.

Então a senhora Veal mencionou o livro do dou­tor Hoerneck sobre o ascetismo, no fim do qual ele faz um relato da vida dos cristãos primitivos. Ela reco­mendou tais modelos para nossa imitação, e disse que as conversas deles não eram como as de hoje em dia.

Pois agora disse ela só há conversas vãs e superficiais, muito diferentes das que mantinham. Eles falavam para edificação recíproca e para que aumen­tasse mutuamente a fé; assim não eram como nós so­mos, e nós não somos como eram. Mas acrescentou - poderíamos fazer como faziam. Havia entre eles uma amizade cordial, mas onde acharemos tal maravilha hoje em dia?

É de fato difícil - respondeu a senhora Bargrave - encontrar um verdadeiro amigo nos dias que cor­rem.

O senhor Norris - disse a senhora Veal - es­creveu um bonito livro de versos intitulado amizade na perfeição, livro que eu admiro enormemente. A senhora conhece o livro?

Não - disse a senhora Bargrave -, mas publi­quei os meus próprios versos.

A senhora publicou? - perguntou a senhora Veal. - Então, vá buscá-los.

A senhora Bargrave buscou os versos no an­dar de cima e os ofereceu à senhora Veal, para que os lesse, mas esta os recusou e disse que olhar para baixo lhe daria dor de cabeça; pediu então à senho­ra Bargrave que lesse os versos, coisa que esta úl­tima fez.

Quando admiravam "Amizade", a senhora Veal disse:

Querida senhora Bargrave, eu a amarei para sempre.

Nos versos usam-se por duas vezes as palavras "pertencentes aos Campos Elíseos".

Disse a senhora Veal: - Esses poetas têm tais nomes para o céu!

Passava muitas vezes a mão pelos olhos e dizia:

Não acha a senhora que estou muito afetada por meus ataques?

Não - respondeu a senhora Bargrave -, acho que está com tão boa aparência quanto jamais a vi.

Depois de toda essa conversação, em que a apa­rição pronunciou palavras de uma qualidade muito su­perior às que a senhora Bargrave disse que poderia usar, e que consistiu em muito mais do que aquilo de que se podia lembrar (não se deve pensar que seria possível reter inteiramente uma conversa que durou uma hora e três quartos, embora a senhora Bargrave declare que se lembra da maior parte do que trata­ram), ela pediu à senhora Bargrave que escrevesse, em seu nome, uma carta a seu irmão, dizendo-lhe que desse anéis a tais e tais pessoas, e que havia uma bolsa com ouro no escritório dela, e que ela lhe pedia que desse duas peças de ouro ao primo Watson.

Como falava muito e com pressa, a senhora Bargrave entendeu que lhe vinha um dos ataques a que era sujeita, e colocou-se assim numa cadeira bem diante dos joelhos dela, para impedir que caísse ao chão, se sobreviesse o ataque. Pois a cadeira de braços, pensou a senhora Bargrave, impediria que a senhora Veal caísse para qualquer dos lados. E, tentando divertir a senhora Veal, tomou de uma das mangas do vestido desta e elogiou o tecido. A senhora Veal disse-lhe que era de seda lavada, e feita recentemente.

Não obstante isso, a senhora Veal insistiu em seu pedido, e disse à senhora Bargrave que não devia recusar-lhe o favor; e queria que contasse ao irmão toda a conversa, quando tivesse uma oportunidade para tanto.

Querida senhora Veal - respondeu a senhora Bargrave isso parece tão fora de propósito que não posso dizer como cumprir o seu desejo. E que história mortificante será a nossa conversa para um jovem!

Bem! - disse a senhora Veal - não quero que recuse.

Parece-me muito melhor - ponderou a senho­ra Bargrave - que a senhora mesma o faça.

Não - respondeu a senhora Veal embora isso lhe pareça agora fora de propósito, a senhora com­preenderá a razão por que o peço mais tarde.

A senhora Bargrave, então, para satisfazer a in­sistência com que lhe era feito o pedido, dispunha-se a buscar caneta e tinta, mas a senhora Veal disse-lhe:

Não faça nada agora. Faça-o quando eu me for. Mas faça-o com certeza.

Isso foi uma das últimas coisas que lhe requereu ao despedir-se. E a senhora Bargrave prometeu o que lhe era solicitado.

Então, a senhora Veal pediu notícias da filha da senhora Bargrave. Esta respondeu que a filha não es­tava em casa.

Mas se a senhora quiser vê-la - acrescentou a senhora Bargrave - eu a mandarei chamar.

Faça isso - disse a senhora Veal.

Ao que a senhora Bargrave deixou a visitante e foi ter com um vizinho para que este chamasse a jo­vem senhorita Bargrave. Quando a senhora Bargrave regressava, a senhora Veal estava do lado de fora da porta, na rua, diante do mercado de animais do sábado (que é dia de tal mercado) e parecia prestes a partir logo que a senhora Bargrave chegou-lhe perto.

Esta perguntou-lhe por que estava com tanta pressa.

Respondeu a senhora Veal que devia partir, em­bora talvez não seguisse viagem antes de segunda-feira; e disse à senhora Bargrave que estimaria voltar a vê-la na casa do primo Watson antes de seguir via­gem para onde ia. Então a senhora Veal disse que se despediria, e andou para longe da senhora Bargrave à vista desta última, até que uma volta da rua não a dei­xou mais ver, o que se deu exatamente à uma hora e quarenta e cinco minutos da tarde.

A senhora Veal morreu no dia 7 de setembro ao meio-dia, de seus ataques, e, antes de morrer, não dis­pôs de mais do que quatro horas de consciência. Nes­se período, ela recebeu os sacramentos. No dia que se seguiu ao da aparição da senhora Veal, dia esse que foi um domingo, a senhora Bargrave sofreu muito de um resfriado e de uma dor de garganta, e não saiu de casa. Mas, na manhã de segunda-feira, ela mandou uma pessoa perguntar em casa do comandante Watson se a senhora Veal estava lá.

As pessoas da casa ficaram intrigadas com a pergunta da senhora Bargrave e mandaram-lhe dizer que a senhora Veal não estava lá, nem era esperada. Diante dessa resposta, a senhora Bargrave disse à empregada que esta certamente se enganara de nome, ou fizera alguma tolice.

E, embora estivesse doente, colocou o chapéu e foi ela própria à casa do comandante Watson, embora não conhecesse ninguém da família, para ver se a se­nhora Veal estava ou não lá. Eles disseram que muito os intrigava a pergunta, pois a senhora Veal não esti­vera na cidade; tinham certeza de que, se houvesse estado, tê-los-ia procurado.

Estou certa - disse a senhora Bargrave - de que passou comigo no sábado quase duas horas.

Responderam-lhe que era impossível, pois eles teriam visto a senhora Veal, desde que esta houvesse vindo à cidade.

O comandante Watson chegou quando discuti­am e disse que a senhora Veal estava certamente morta, e que se estava gravando o seu nome para co­locar a inscrição no caixão. Isso muito surpreendeu a senhora Bargrave, que foi ver imediatamente o grava­dor e verificou que a notícia procedia.

Então ela relatou toda a história ao comandante Watson e família, e o vestido que a senhora Veal usa­ra, e que riscas, que cores tinha, e que a senhora Veal lhe havia contado que era lavado.

Então, a senhora Watson exclamou:

A senhora certamente a viu, pois ninguém sa­bia, além da senhora Veal e de mim, que o vestido era lavado.

A senhora Watson acrescentou que a descrição do vestido era exata.

Pois - disse ela - eu ajudei a fazê-lo, eu pró­pria.

A senhora Watson fez a notícia correr pela cidade, e sustentou a demonstração da verdade do que dizia a senhora Bargrave quanto à aparição da senhora Veal.

E o comandante Watson levou imediatamente dois cavalheiros à senhora Bargrave para ouvir-lhe o rela­to do acontecimento da própria boca.

E então a história espalhou-se com tal rapidez que cavalheiros e pessoas de qualidade, a parte judiciosa e cética do mundo, vieram vê-la em grupos, o que se tornou para ela uma tal carga que foi força­da a recolher-se; pois, em geral, acreditavam no que ela dizia, e viam claramente que a senhora Bargrave não era uma hipocondríaca, pois sempre aparecia com um aspecto tão satisfeito e agradável que conquistou a estima de todas as pessoas de posição, e pensa-se que é um grande favor obter o relato da boca da pró­pria senhora mencionada.

Eu deveria ter contado a vocês, antes, que a se­nhora Veal disse à senhora Bargrave que esperava a irmã e o cunhado, vindos de Londres para visitá-la.

Respondeu a senhora Bargrave: - Como se dá que a senhora arranjou tal programa tão fora de ordem?

Não podia ser. de outra forma - afirmou-lhe a senhora Veal.

E a irmã dela e o cunhado chegaram a Dover, justo no momento em que a senhora Veal expirava.

A senhora Bargrave perguntou-lhe se queria to­mar chá.

Respondeu a senhora Veal: - Não me seria de­sagradável. Mas garanto que aquele louco (com o que se referia ao senhor Bargrave) quebrou todos os seus utensílios de chá.

Não obstante - disse a senhora Bargrave -, tirarei alguma coisa em que possa tomar chá.

A senhora Veal, no entanto, recusou a bebida e disse:

- Não tem importância. Deixe isso.

Todo o tempo que permaneci com a senhora Bargrave, tempo que somou algumas horas, ela rememorou outros ditos da senhora Veal. E esta disse mais uma coisa material à senhora Bargrave, a saber, que o velho senhor Breton concedeu à senhora Veal dez libras por ano, o que constituía um segredo, e des­conhecido para a senhora Bargrave até que a senhora Veal o contou.

A história da senhora Bargrave nunca varia, o que intriga aqueles que põem em dúvida a verdade do relato, ou não querem reconhecê-la. Uma empregada num quintal vizinho à casa da senhora Bargrave ouviu-a falar com alguém no momento em que a senhora Veal estava com ela. A senhora Bargrave foi ter com seu vizinho de porta logo depois de despedir-se da se­nhora Veal, contou a tal vizinho a conversa maravilho­sa que mantivera com uma velha amiga. O livro de Drelincourti sobre a morte tem sido, desde que isso aconteceu, comprado extraordinariamente. E deve ser observado que, não obstante todo o cansaço e aborre­cimento que a senhora Bargrave sofreu por causa des­sa aparição, ela nunca recebeu o valor de um centavo por causa do relato, nem suportou que sua filha rece­besse qualquer coisa de qualquer pessoa, o que de­monstra que não tem interesse algum nessa história.

Mas o senhor Veal faz o que pode para abafar o assunto, e diz que está pronto a ver a senhora Bargrave, mas, contudo, é uma questão de fato que esteve com o comandante Watson desde que lhe morreu a irmã, mas nunca se aproximou da senhora Bargrave. E alguns dos amigos dele dizem que ela é uma grande mentirosa, e que ela tinha conhecimento da pensão de dez libras por ano, concedida pelo senhor Breton. Mas a pessoa que afirma isso tem a reputação de um mentiroso no­tório entre pessoas que sei serem de caráter ilibado. O senhor Veal é demasiado cavalheiro para dizer que ela mente, mas se limita a dizer que ela ficou louca em virtude dos maus-tratos que sofreu de parte do ma­rido. Mas a senhora Bargrave não necessita de mais do que se apresentar porque, com sua presença, ela refuta essa acusação de loucura. O senhor Veal diz que perguntou à irmã, no leito de morte, se queria fazer alguma disposição testamentária, ela respondeu que não.

Agora, as coisas que a senhora Veal, em sua aparição, queria doar eram tão desprovidas de impor­tância, não havendo nenhum propósito de fazer justiça com a doação, que o projeto daquela senhora me pa­rece consistir em habilitar a senhora Bargrave a de­monstrar a verdade da aparição, confirmando ao mun­do a realidade do que vira e ouvira, e garantindo a sua reputação no meio das pessoas razoáveis e compre­ensivas da humanidade.

Além disso, o senhor Veal confessa que havia uma bolsa de ouro, mas que ela não foi achada na escrivaninha da senhora Veal e sim no estojo dos pen­tes. Isso não parece provável, pois a senhora Watson diz que a senhora Veal tomava tal cuidado com a cha­ve de sua escrivaninha que não a confiava a ninguém. Se era assim, não há dúvida de que não colocaria seu ouro fora da escrivaninha. E o fato de que a senhora Veal passava com freqüência a mão pelos olhos e per­guntava à senhora Bargrave se os ataques que ela sofria não a haviam afetado, parece-me tudo feito de propósito para relembrar os ataques à senhora Bargrave, para prepará-la a não julgar estranho que ela própria não escrevesse ao irmão para que ele dis­tribuísse os anéis e o ouro, coisa que parecia tanto com o pedido de uma pessoa prestes a falecer. E esse foi o efeito produzido na senhora Bargrave, a quem tudo pareceu resultado dos ataques, e foi um dos muitos exemplos de seu enorme amor pela senhora Bargrave, e cuidado com ela, para que não temesse, o que transparece em toda a maneira de conduzir-se a apa­rição, particularmente em que veio ter com a senhora Bargrave durante o dia, quando esta estava sozinha, e evitou a saudação; e também na maneira de partir, para impedir uma segunda tentativa de saudação, de proxi­midade, de beijos.

Não posso descobrir por que motivo o senhor Veal julga que este relato é uma ofensa (como fica evidente pelo fato de que tenta abafá-lo), pois, em ge­ral, as pessoas julgam que a senhora Veal é um bom espírito, dado o teor celestial de sua conversação. Seus dois grandes objetivos foram reconfortar a senhora Bargrave em suas aflições e pedir-lhe perdão pela quebra de amizade, com uma conversa pia feita para encorajar a amiga. Supor que a senhora Bargrave possa ter inventado uma tal história do meio-dia de sexta-feira até o meio-dia de sábado (desde que se acredite que ela soube de imediato da morte da senhora Veal), sem confundir circunstâncias e sem ter interesse al­gum na coisa, implica julgá-la mais inteligente, com mais sorte e mais velhaca também do que passará pela ca­beça de uma pessoa qualquer.

Perguntei-lhe se ouviu um som quando bateu com a mão no joelho da senhora Veal. Ela diz que disso não se recorda, e acrescenta:

- Parecia ser tão substancial quanto eu, que com ela falava; e é tão possível persuadir-me de que é sua aparição que fala comigo como persuadir-me que eu não vi a senhora Veal realmente, pois eu não sofri qual­quer medo. Eu a recebi como uma amiga, e como tal dela me despedi. Eu não daria um centavo para fazer com que qualquer pessoa acreditasse em mim. Não tenho qualquer interesse nisso. O que isso me acarre­tará, e por um longo tempo, pelo que sei, são problemas. E se a coisa não fosse divulgada casualmente, nunca teria se tornado pública.

Mas agora ela diz que fará um proveito íntimo do acontecido, e recolher-se-á o mais possível; e tem cumprido esse propósito. Ela conta que um cavalheiro veio de uma distância de trinta milhas para ouvir o re­lato, e que ela narrou a história para uma sala cheia de gente. Vários cavalheiros escutaram a história da pró­pria boca da senhora Bargrave.

A coisa muito me impressionou, e nela acredito tanto quanto na história mais bem fundamentada. E parece-me estranho que tenhamos a tendência a ne­gar a veracidade de fatos porque não podemos resol­ver coisas de que não possuímos noções certas ou demonstrativas.Em qualquer outro caso, a autoridade e a sinceridade da senhora Bargrave teriam bastado para confirmar o que contasse.

 

                   O Fantasma em Todos os Cômodos

Uma certa pessoa de importância, que passava com sua família o verão em sua casa de campo, foi obrigada, por um motivo especial de saúde, a deixar a mencionada casa e a seguir para Aix-la-Chapelle, com a finalidade de submeter-se aos banhos medicinais daquela cidade. Ocorreu isso, parece, no mês de agosto, dois meses antes do momento em que usualmente regressava a Londres para o inverno.

Saindo assim mais cedo do que de costume, não retirou a mobília da casa, como fazia usualmente a fa­mília, ou carregou os objetos de prata e outros bens valiosos, mas deixou tudo ao cuidado do mordomo e de três empregados. E pediu ao padre da paróquia que ficasse de olho nos empregados e que lhes desse uma mão, com gente da aldeia próxima, se isso se fizesse necessário.

Não teve o mordomo notícia pública de qualquer perigo que ameaçasse a casa, mas sentiu, durante três dias ou quatro, sucessivos, impulsos íntimos de terror, de que a residência estava sitiada e a ponto de ser assaltada por um grupo de bandidos, que assassina­riam todos que nela moravam e, depois de pilhá-la, a incendiariam. E essa visão de tal forma o obcecou e tanto o impressionou que em nada mais podia pensar.

Por esse motivo, no terceiro dia ele foi ter com o padre e contou-lhe suas apreensões. Em tal ocasião, o padre e o mordomo mantiveram a seguinte conversa, assim começando o mordomo:

Padre - disse ele o senhor sabe a responsa­bilidade que me cabe e que o meu patrão me confiou toda a casa e a rica mobília que a guarnece. Estou em grande perplexidade a esse respeito e venho pedir-lhe conselho.

Padre - Qual é o problema? Você ouviu falar em algum perigo iminente?

Mordomo - De nada ouvi falar. Mas tais foram as apreensões que senti e de tal forma me impressio­naram que...

E nesse ponto ele relatou as singularidades da inquietação que dele se tinha apossado e acrescentou, além do que já contei, que um dos empregados sentira a mesma coisa e o fizera ciente disso, embora ele de nada tivesse falado com o empregado.

Padre - E possível que você tenha sonhado com isso?

Mordomo - Não! Estou certo de que não podia ter sonhado, porque não me tem sido possível dormir.

Padre - Que posso fazer por você? Que quer você que eu faça?

Mordomo - Gostaria, antes de mais nada, que o senhor me dissesse o que pensa dessas coisas e se devo levá-las a sério.

A essa altura, o padre interrogou-o com mais rigor sobre a questão das apreensões, e mandou vir o empregado, examinou-o em separado, e, sendo um homem muito sensato e honesto, assim respondeu ao mordomo:

Meu caro senhor mordomo, eu não atribuo grande importância a essas coisas, mas também não acho que devam ser postas de lado. Por isso, eu o aconselho a manter-se vigilante e a me dar parte do menor alarma que suceder.

Mordomo - Não é grande conforto dizer-me o senhor para vigiar, se me atacarem com maior força do que posso suportar. Creio que, se quaisquer bandi­dos alimentam o projeto de assaltar a casa, eles têm conhecimento do poder de que disponho.

Padre - Quer que eu reforce a sua guarnição?

Mordomo - Gostaria que o fizesse.

Padre - Mandarei alguns homens com armas de fogo para passarem a noite na casa.

Nessas condições, o padre mandou-lhe cinco camaradas fortes, com mosquetes e com uma dúzia de granadas de mão. Enquanto permaneceram na casa, nada sucedeu. O padre, vendo que nada acontecia, e não querendo continuar a despender o dinheiro do pro­prietário, mandou chamar o mordomo e, repreendendo-o com irritação, disse-lhe o que pensava.

Padre - Não sei como se explicará com o pa­trão, mas você o fez efetuar uma enorme despesa aqui, mantendo uma guarnição na casa, todo esse tempo.

Mordomo - Lamento isso, padre, mas que pos­so fazer?

Padre - Controle suas emoções e tenha cora­gem. Não vá deixar o patrão desperdiçar duzentas ou trezentas libras com as apreensões que você tem.

Mordomo - Mas o senhor próprio disse que não se deviam desprezar tais impressões.

Padre - E verdade, mas também disse que não se lhes devia atribuir demasiada importância.

Mordomo - Que me resta, então, fazer?

Padre - Mande embora os homens e vigie o mais que puder. Se lhe chegar alguma notícia sólida de peri­go, mande dizer-me e eu o ajudarei.

Mordomo - Então, que os bons anjos protejam a casa de meu patrão, porque ninguém mais o fará.

- Amém - disse o padre -, confio em que os bons espíritos tomarão conta de todos vocês.

Isso dizendo, ele abençoou o mordomo, o qual partiu reclamando muito, porque ficara sem guarnição e entregue aos bons espíritos.

Contudo, parece que as impressões do mordomo, por mais íntimas que fossem e vindas ele não sabia de onde, não eram de tão pouca importância quanto o pa­dre pensava. Pois, assim como ele tinha na mente a impressão de que alguém planejava um crime, assim realmente as coisas se passavam, como vocês verão.

Um grupo de ladrões, que obtivera a informação de que o nobre proprietário partira com a família para Aix-la-Chapelle, mas que deixara a casa com a mobí­lia, com a prataria e com muitos objetos de valor, havia planejado pilhar a residência e queimá-la depois, exa­tamente como o dissera o mordomo.

Eram vinte e dois ao todo e armados dos pés à cabeça. No entanto, enquanto esteve em casa a força adicional para revigorar a guarnição do mordomo, organizou-se um sistema segundo o qual três homens montavam guarda a noite inteira, e os ladrões não ou­saram assaltar a residência.

Logo, porém, que lhes chegou ao conhecimento que os homens do padre haviam sido dispensados, re­novaram o projeto e, para abreviar a história, ataca­ram a casa na altura da meia-noite. Como dispunham, segundo acredito, de todo o instrumental necessário, forçaram logo uma janela, e doze penetraram na casa, enquanto o resto ficava de sentinela em lugares estra­tégicos, para impedir que chegasse socorro da cidade.

O pobre mordomo e os três empregados viram-se numa situação desesperada. Estavam no andar de cima e haviam erguido, nas escadarias, a barricada que puderam, logo que ouviram os ladrões entrarem. Quando tomaram consciência de que os bandidos já se achavam no interior da casa, nada mais lhes foi dado fazer do que se manterem no andar superior, até que se completasse a pilhagem e tudo fosse incen­diado, eles inclusive.

Mas parece que foi resolvido, seja pelos bons es­píritos que o padre mencionou, seja por alguma outra entidade, reservar-lhes um destino melhor, como se verá.

Quando os primeiros do bando ingressaram na casa e abriram a porta, deixando passar quantos julga­ram necessários, com os quais, como disse acima, so­maram doze, fecharam novamente a porta, e, portan­to, se trancaram dentro da casa. Dois ficaram do lado de fora da porta, com uma senha combinada, para que trouxessem mais gente, se necessário.

Os doze, correndo pelo salão, ali encontraram pouco que lhes satisfizesse a cupidez. Mas, quando irromperam em seguida numa saleta muito bem mobi­liada, onde a família costumava reunir-se, viram com surpresa, numa grande cadeira de braços, um homem idoso e grave, com uma peruca preta que lhe vinha até os ombros, com uma veste de rico brocado e uma gola de rendas, típica de advogados. O senhor os olhava com grande surpresa e parecia-lhes fazer sinais de que tivessem misericórdia. Não disse palavra, nem eles disseram muito, com exceção de um dentre eles que, surpreso, exclamou: - Ué! Quem está aí?

De imediato, os vilões entraram a derrubar as belas cortinas de damasco das janelas e a apossar-se de outras coisas ricas, mas um deles disse a outro, com uma praga:

Faça com que o velho idiota nos conte onde está escondida a prataria.

Outro acrescentou:

Se ele não contar, corte-lhe a garganta, incontinenti.

O velho cavalheiro, com gestos de rogo, e como se lhes estivesse pedindo que lhe conservassem a vida, com grande medo, indicou-lhes outra saleta, que era a sala de jogos, e contígua à primeira, e dava, por uma outra porta, no salão de onde se divisavam os jardins. Levaram algum tempo forçando o caminho para essa sala de jogos, mas, quando lograram entrar, ficaram surpreendidos de ver o mesmo homem idoso, na mes­ma vestimenta e mesma cadeira, fazendo os mesmos gestos e rogos silenciosos que fazia na sala anterior.

Não se preocuparam muito, de início, pois pen­saram que ele penetrara por outra porta, e começa­ram a injuriá-lo por lhes dar o trabalho de arrombar uma porta quando havia outra para o mesmo cômodo. Mas um deles, pior do que os outros, disse com uma grande praga que o velho malandro tinha, de propósito, vindo por outra porta para esconder a prataria e o di­nheiro, e mandou que lhe arrebentassem o crânio. Ao ouvir isso, outro dos bandidos jurou ao velho que, se não lhes mostrasse, de contínuo, onde estavam as pratas e o dinheiro, ele o mataria naquele mesmo momento.

Diante dessas palavras furiosas, o velho cava­lheiro apontou para as portas que davam no salão, as quais, sendo um par de portas de dois batentes, foram logo abertas. Os bandidos se precipitaram no grande salão, onde, olhando para a extremidade do aposento que lhes estava mais distante, deram novamente com o homem idoso, na mesma vestimenta e atitude que antes.

Quando viram isso, os que estavam na vanguar­da entre eles gritaram alto:

Ora, esse velho sujeito tem trato com o diabo, certamente. Aqui está ele, novamente, antes de nós!

Mas agora era diferente o caso, pois quando eles saíram da primeira saleta, ansiosos pela prataria e di­nheiro, e querendo logo em tudo botar as mãos, todo o grupo se precipitou na segunda saleta. E dessa vez quando o velho cavalheiro indicou o terceiro cômodo, eles não correram todos para o salão, mas quatro fica­ram para trás na saleta ou sala de jogos, não em virtu­de de ordem ou projeto, mas acidentalmente.

Dessa forma, eles caíram na seguinte confusão: enquanto alguns deles gritaram do salão que o velho lá estava, outros responderam da saleta:

Como é possível isso, com todos os diabos? Ele está aqui na sua cadeira, fazendo as suas ma­caquices.

Diante disso, dois deles voltaram à primeira saleta, e ali viram-no de novo, sentado como antes. Apesar desse fato, longe de terem idéia do que estava se pas­sando, imaginaram que alguém os enganava ou deles zombava e que havia três diferentes velhos, todos ves­tidos com a mesma vestimenta para a mesma ocasião, para mostrar-lhes que os homens do andar de cima não tinham medo deles.

Bem - disse um dentre eles -, eu matarei um dos velhos marotos. Eu os ensinarei a zombar de nós.

Ao dizer isso, erguendo o seu mosquete tão alto quanto possível, golpeou o velho cavalheiro, como pen­sava que fosse, com toda a força que possuía. Mas eis que nada havia na cadeira e o mosquete voou em mil pedaços, ferindo-lhe gravemente a mão. E um pedaço do cano, batendo-lhe na cabeça, quebrou-lhe a cara e o fez cair no chão.

Ao mesmo tempo, um daqueles que estavam no salão correu para o homem que estava ali sentado, jurou que lhe tiraria a veste de fino brocado, antes que lhe cortasse a garganta. Quando tentou segurá-lo, no entanto, nada havia na cadeira.

Isso acontecendo em ambos os cômodos, eles ficaram, todos, horrivelmente confusos e gritaram nas duas saletas, no mesmo momento, de uma maneira terrível.

Como estavam possuídos do maior espanto di­ante daquelas coisas, estacaram, depois do primeiro clamor, e olharam um para o outro durante algum tem­po, sem dizer palavra. Por fim, um deles falou:

- Tornemos à primeira saleta e vejamos se o velho saiu de lá também.

Por causa disso, dois ou três que se encontra­vam mais próximos daquele cômodo para ali correram e voltaram a ver a velha figura, como a haviam visto no início. Diante dessa vista, bradaram pelo grupo e disseram aos outros acreditar que todos estavam en­feitiçados e que era certo haverem apenas imaginado distinguir um homem nos outros cômodos, pois o cida­dão velho e real estava ali, onde sempre estivera, des­de o princípio.

Todos então correram para o mesmo cômodo, dizendo que verificariam se era ou não o diabo. E um deles declarou:

Deixem-me entrar. Falarei com ele. Não é a primeira vez que tenho negócios com o diabo.

E eu também - disse um outro - chegarei até ele.

E acrescentou, com uma praga, que cavalheiros como eles, no negócio em que estavam, não deviam temer parlamentar com o diabo.

Um terceiro (pois agora a coragem tornou a ampará-los) gritou:

Que seja o diabo, ou a avó do diabo, eu lhe falarei. Estou resolvido a destrinchar este assunto.

E, com essas palavras, correu antes dos outros e, fazendo o sinal da cruz, disse ao velho cavalheiro reclinado na cadeira:

Em nome de São Francisco e de São... (e reci­tou o nome de dois ou três santos que considerou sufi­cientes para atemorizar o diabo), quem és tu?

A figura não fez movimento ou pronunciou pa­lavra. Mas quando lhe olharam a face, viram que, em lugar de seu ar digno de piedade e de seus gestos de quem pede pela vida, transformara-se no mais horrí­vel monstro que jamais se viu e tal como não posso descrever. E que, no lugar das mãos erguidas para pedir misericórdia, havia agora duas adagas de fogo, que não flamejavam, mas eram incandescentes e terminavam numa ponta que era uma chama azulada. Numa palavra, viram o diabo ou alguma outra coisa na mais temível forma que pode ser imaginada. E fui de opinião, quando primeiro li a história, que os ban­didos de tal maneira ficaram aterrorizados que a ima­ginação lhes construiu no pensamento, mais tarde, uma coisa ainda mais terrível do que o próprio diabo podia simular, ao aparecer.

Seja, no entanto, como for, tal era a figura que, quando lhe chegaram perto, nenhum deles teve a co­ragem de encará-lo e muito menos de falar-lhe. E aquele que foi tão atrevido a ponto de aproximar-se do velho, armado com todo um exército de santos, caiu ao solo, tendo desmaiado de pavor.

Em todo esse tempo, o mordomo e seus três homens permaneciam no andar de cima, extrema­mente preocupados com o perigo que corriam e es­perando que, a cada momento, os ladrões tentariam forçar a barricada nas escadas e cortar-lhes as gar­gantas. Ouviram o barulho confuso que se fazia embaixo, mas não podiam ter idéia do que era e muito menos do que significava. Mas, enquanto durou o ruído, passou pela cabeça de um dos empregados que era certo que todos os bandidos se encontravam na saleta, e que, enquanto ali ficavam, ocupados com o que quer que fosse, ele poderia subir ao teto da casa e jogar uma das granadas de mão pela chaminé, tal­vez logrando ferir os assaltantes.

O mordomo aprovou o projeto, mas com um acréscimo:

- Se você limitar-se a atirar uma granada numa saleta, eles fugirão todos para a sala de jogos, e assim não sofrerão prejuízo. Mas leve três e coloque uma em cada chaminé e assim eles não saberão para onde correr.

Com essas ordens, dois dos homens muito co­nhecedores da casa subiram ao telhado e, pondo fogo no pavio das granadas, colocaram uma em cada um dos tubos. Elas desceram chiando pelas chaminés, com um barulho terrível e (o que foi pior do que tudo) atingiram a saleta onde se localizavam todos os ladrões, exatamente no momento em que o sujeito que falara com o espectro, atemorizado até desmaiar, caía ao chão.

Não se pode exprimir o grau de pavor que se apossou do grupo todo. Alguns correram de volta à sala de jogos de onde tinham procedido e outros fugi­ram para a porta que se comunicava com o salão, mas todos, no mesmo instante, ouviram o diabo, como pensavam, descendo pela chaminé.

Tivesse sido possível que os pavios das grana­das houvessem continuado a queimar no interior do tubo das chaminés, onde o vazio do lugar aumentava mil vezes o som e de onde a fuligem, entrando em combustão, caía em flocos de fogo, os bandidos teriam perdido o entendimento, imaginando que, assim como havia entre eles, na cadeira, um terrível diabo, outros dez mil demônios desciam pela chaminé para destruí-los e, talvez, para carregá-los.

Não se podia isso passar. Assim, quando já o barulho os atemorizara o suficiente, as bombas che­garam aos cômodos, todas as três juntas. Aconte­ceu, como se fosse de propósito, que a bomba desti­nada à saleta onde todos se encontravam explodiu logo que chegou à lareira. Não tiveram tempo sequer para pensar no que seria, e muito menos para ter conhecimento seguro de que se tratava de uma grana­da de mão. Mas, como lhes causou muito mal, eles acreditaram com tanta certeza que era o demônio como acreditavam que o espectro sentado na cadeira de braços também o era.

O ruído da explosão da granada foi tão repentino e tão inesperado que os deixou a todos na maior con­fusão. Também foram terríveis os estragos que, entre eles, a bomba causou. Não só foi morto o homem que desmaiara e que jazia no chão, mas também o foram dois outros. Cinco dentre eles sofreram ferimentos graves; um teve as duas pernas quebradas e de tal forma sucumbiu ao desespero que, quando a gente dos arredores entrou na sala, matou-se com a pistola, para impedir que o prendessem.

Se os outros houvessem fugido da saleta para os dois cômodos restantes, é provável que tivessem sido feridos pelas outras bombas. Mas, como ouviram o barulho em ambos os cômodos externos e, além disso, imaginavam que não se tratava de uma granada de mão, mas do demônio, não tiveram poder para mexer-se. E se o pudessem não teriam sabido para onde ir. Por isso permaneceram imóveis até que ambas as bom­bas nos outros cômodos explodissem. Ficando então perplexos, tanto com o barulho quanto com a fumaça, e esperando que mais demônios descessem pela cha­miné até onde estavam, correram todos para a porta principal, ajudando como podiam os feridos. Um entre esses últimos morreu nos campos, depois de deixarem a casa.

Devo observar que, quando assim se alarmaram com o que não sabiam o que fosse que baixava pela chaminé, gritaram que o diabo na cadeira mandara chamar mais demônios, para destruí-los. É de supor que, se as bombas não houvessem sido jogadas, todos teriam fugido. E certo que o diabo artificial, juntando-se em momento tão crítico aos diabos visionários, ou o que quer que fossem, completou a desordem entre eles e forçou-os a fugir.

Quando chegaram à porta onde estavam os dois homens de sentinela, chamaram os camaradas que estavam postados nas avenidas que davam para a casa. Estes vieram e ajudaram a carregar os feridos. Mas, depois de ouvirem o relato daqueles que tinham entrado na casa e de se reunirem em conselho, um pouco adiante (reunião essa que o mordomo e os emprega­dos puderam divisar, apesar da escuridão), todos resolveram retirar-se.

Ocorreu outro acidente que, embora não se re­lacione com o meu assunto, devo registrar, para com­pletar a história. Duas das granadas puseram fogo nas chaminés, com os seus pavios acesos. A terceira, en­trando por um tubo onde não havia fuligem, pois o apo­sento não havia sido muito usado, não pôs fogo na cha­miné. O fogo, lançando chamas pelo telhado, como é natural, foi visto por alguém na aldeia, que correu, de imediato, e alarmou o padre, o qual levantou todo o povo, acreditando que algum desastre se passara e que a casa fora incendiada.

Se o resto dos bandidos não houvesse resolvido afastar-se, como eu disse acima, teriam certamente caído nas mãos dos moradores da aldeia, que acorre­ram logo, com as armas que encontraram, para a casa. Mas os ladrões haviam escapado, deixando, como fi­cou dito atrás, três do grupo mortos na casa e um nos campos.

 

                   O Espectro e o Salteador

Uma história nos conta que Hind, o famoso as­saltante, o mais famoso desde Robin Hood, encontrou um espectro na estrada num sítio chamado Stangate-hole, no condado de Huntingdon, lugar onde usualmente cometia seus roubos, e famoso por muito assalto de estrada, desde então.

O espectro apareceu na forma de um simples vendedor rural de gado. E como o diabo conhecia muito bem os lugares em que Hind se escondia e que fre­qüentava, chegou a uma hospedaria, pôs o cavalo na cocheira e fez com que o hospedeiro carregasse a mala que trazia, que era muito pesada, até o quarto que alu­gara. Quando se viu no quarto, abriu a mala, retirou o dinheiro, que parecia estar contido em vários peque­nos embrulhos, e o colocou em não mais do que dois sacos, distribuídos de maneira a pesar igualmente dos dois lados do cavalo e a chamar tanta atenção quanto possível.

E raro que as hospedarias que abrigam ladrões não sejam freqüentadas por espias, para que proporcio­nem aos primeiros as necessárias informações. Hind soube do dinheiro, olhou o homem, olhou o cavalo, para que os pudesse reconhecer. Apurou a direção para onde se dirigia o comerciante. Esperou-o e encontrou-o em Stangate-hole, bem no fundo da garganta entre as duas colinas, e o fez parar, dizendo-lhe que devia en­tregar o dinheiro.

Quando Hind mencionou o dinheiro, o vende­dor simulou surpresa, fingiu cair em pânico, tremeu, demonstrou bem o medo, e num tom digno de com­paixão disse:

Não passo, como o senhor vê, de um homem pobre! Na verdade, senhor, não disponho de dinheiro.

(Assim o diabo mostrou que podia dizer a verdade, quando isso lhe servia.)

Seu velho vagabundo! - disse Hind. - Você não tem dinheiro? Vamos, abra os seus alforjes e dê-me os dois sacos, um de um lado da sela e outro, de outro. Como é que você pode não dispor de dinheiro e, con­tudo, seus sacos são muito pesados para ficarem, os dois, de um lado só? Vamos, entregue o que tem, ou eu o farei em pedaços neste mesmo momento.

Ao dizer isso, é claro que Hind se excedeu, pois pronunciou ameaças que não podia cumprir.

O pobre diabo lamentou-se e chorou, e repetiu que o salteador deveria estar enganado; devia tomá-lo por outra pessoa, porque ele, de fato, não tinha dinheiro.

Vamos, vamos - disse Hind venha comigo.

E tomou o cavalo do vendedor pelas rédeas e o conduziu para dentro da mata, muito densa de ambos os lados da estrada, porque o negócio tomaria tempo e seria perigoso concluir na estrada aberta.

Quando se achava no interior da mata, disse:

Vamos, senhor Vendedor de Gado, desmonte e dê-me os sacos neste exato minuto.

Em poucas palavras, fez o pobre homem des­montar, cortou as rédeas e as cilhas do cavalo, abriu os alforjes, onde deu com os dois sacos.

Muito bem - disse Hind -, aqui estão eles, e tão pesados quanto antes.

Atirou-os ao chão e abriu-os com a faca: num ele encontrou uma corda para enforcar, ou baraço, e noutro deparou com uma peça de estanho sólido na forma exata de uma forca. E o camponês que se acha­va atrás dele disse:

- Eis o seu destino, Hind. Tome cuidado! Se Hind ficou surpreso com o que achou nos sacos - pois não havia um só centavo de dinheiro no saco onde deu com a corda -, mais surpreso ainda ficou ao ouvir o vendedor chamá-lo pelo nome, e virou-se para matá-lo, pois julgou ter sido reconhecido. Mas o sangue lhe gelou nas veias quando, virando-se (como eu disse) para matar o camarada, não deparou com mais do que o pobre cavalo.

Caiu ao chão e ali permaneceu por um tempo considerável. Não lhe foi possível dizer quanto tempo, porque estava sozinho, mas deve ter sido questão de muitos minutos. Voltando a si, por fim, partiu aterrori­zado ao mais alto ponto e envergonhado, pensando no que tudo aquilo significava.

Indiquei que não havia dinheiro num dos sacos, mas havia uma moeda no outro, moeda essa que a história diz que era escocesa: uma moeda na Escócia intitulada de um "quatorze", o que corresponde em in­glês a treze pence e meio penny para pagar o carrasco. É possível supor que daí tenha derivado o dito popular, até hoje em uso, de que treze pence e meio penny é o soldo do carrasco.

 

                   O Eclesiástico do Testamento Perdido

Conta-se esta história do falecido reverendo dou­tor Scot, um homem eminente por sua erudição e pie­dade e cujo juízo era conhecido por ser tão sólido que dificilmente se abalava.

O doutor, tal como me foi relatada a história, es­tava sentado sozinho ao lado da lareira, seja em seu estúdio ou em sua saleta em Broad Street, onde vivia, e lendo um livro, com a porta bem fechada e trancada. Ele tinha certeza de que não havia ninguém mais no aposento quando, erguendo casualmente a cabeça, fi­cou extremamente surpreso de ver sentado numa ca­deira de braços do outro lado da lareira um cavalheiro idoso e grave, com uma vestimenta negra de veludo, uma longa cabeleira, e olhando-o com uma fisionomia agradável, como se estivesse a ponto de falar.

Uma outra pessoa que conta esta história diz que o velho cavalheiro apareceu de pé e, quando acabava de abrir a porta do estúdio e de nele penetrar, foi ele que saudou o doutor e primeiro falou com este último. Mas a diferença entre as duas versões é pequena.

As duas versões concordam em que o doutor ficou grandemente surpreso à vista do visitante. E é certo que vê-lo sentado era o que havia de mais sur­preendente, pois o doutor, vendo o velho cavalheiro numa cadeira e sabendo que a porta estava trancada, devia imediatamente e à primeira vista ter concluído que se tratava de um espírito, ou aparição, ou o diabo, chamem-no vocês como quiserem. Se o tivesse visto perto da porta, deveria, à primeira vista, supor que era realmente um cavalheiro que viera falar-lhe, e podia pensar que deixara de trancar a porta, como pensava ter feito.

Mas, seja qual for a versão exata, o certo é que o doutor entrou em grande desordem àquela vista, como o reconheceu para as pessoas a quem contou a histó­ria e da boca das quais ouvi o relato, tendo, portanto, havido poucos intermediários entre o doutor e mim.

Foi o espectro, ao que parece, que começou a falar, pois faltou ânimo ao doutor, como ele disse, de se dirigir à aparição. Digo que o espectro ou a aparição falou em primeiro lugar e expressou o desejo de que o doutor não se amedrontasse ou se surpreendesse, pois não lhe causaria qualquer dano. Afirmou-lhe que vi­nha tratar de um assunto de grande importância para uma família prejudicada e que corria grande perigo de ser arruinada, e que, embora o doutor fosse um estra­nho para aquela família, ainda assim, sabendo-o um homem íntegro, ele (o espectro) o escolhera para exe­cutar um ato de acentuada caridade e de justiça, e que sabia que dele (doutor) podia depender em matéria de execução.

O doutor não se encontrava de início em condi­ção de espírito que lhe permitisse receber bem esse prefácio com a atenção necessária, mas parecia antes inclinar-se a deixar o aposento, se pudesse, e fez uma ou duas vezes tentativas de chamar alguém da família, o que pareceu desagradar um tanto à aparição.

Mas parece que esse desagrado da aparição era pena perdida, pois ele (doutor), como contou mais tar­de, estava desprovido do poder de sair do aposento, mesmo se estivesse perto da porta, ou de chamar so­corro, se algum estivesse disponível.

Neste ponto a aparição, vendo que o doutor es­tava ainda imerso em confusão, solicitou-lhe novamente que recuperasse o controle de suas emoções, pois nada lhe aconteceria de mal ou próprio a inquietá-lo; solici­tou-lhe também que lhe permitisse explicar o negócio que a fizera aparecer, o qual, quando o doutor o hou­vesse escutado, dar-lhe-ia talvez menos causa para ficar surpreso ou apreensivo do que se mostrava agora.

A essa altura, e dado o tom tranqüilo com que foi pronunciada a explicação que figura acima, o dou­tor recuperou-se do susto para dizer, embora ainda sem segurança:

Em nome de Deus, que és tu?

Desejo que não se amedronte - repetiu a apa­rição. - Sou um estranho para o senhor, e se lhe reve­lar o meu nome este nada lhe dirá, mas o senhor pode executar a tarefa sem perguntar.

O doutor ainda não se reconfortara e continuava inquieto e nada disse, por algum tempo.

A aparição voltou a dizer-lhe que não temesse, mas recebeu, em resposta, a mesma pergunta igno­rante:

Em nome de Deus, que és tu?

Ao ouvir isso, o espectro mostrou-se aborrecido, como se o doutor não o tivesse tratado com o devido respeito, e censurou-o um pouco, dizendo-lhe que o poderia ter aterrorizado até que obedecesse, mas que escolhera aparecer calma e tranqüilamente. Usou ou­tras palavras tão corteses que o doutor começou a sentir-se melhor. Por fim, perguntou o doutor:

Que quer o senhor de mim?

Diante dessa pergunta, a aparição, como que satisfeita, passou a contar a sua história assim:

Eu vivi no condado de... (não me lembro exa­tamente o nome do condado, mas era um dos conda­dos ocidentais da Inglaterra), onde eu deixei um exce­lente domínio que está agora nas mãos de meu neto. Mas a posse está sendo disputada por meus dois so­brinhos, filhos de meu irmão mais moço.

Nessa altura, ele revelou o próprio nome, o nome do neto, os nomes dos sobrinhos, mas eu não tenho autorização para publicar tais nomes, nem tal seria conveniente, por numerosas razões.

Nesse ponto, o doutor interrompeu a aparição, e perguntou-lhe por quanto tempo o neto estivera na posse do domínio. A aparição respondeu que o neto possuíra o domínio por... anos, deixando implícito que morrera havia o mesmo número de anos.

Prosseguiu a aparição e disse ao doutor que seus sobrinhos combateriam com muita força o neto no pro­cesso, e o expulsariam da mansão e do domínio, o que o fazia correr o perigo de ser inteiramente arruinado e de ver sua família reduzida à pobreza.

Ainda assim, o doutor não conseguia discernir o âmago do assunto, ou o que poderia fazer para ajudar ou remediar o mal que ameaçava a família, e, por isso, fez algumas perguntas à aparição. Pois agora se encon­travam num pé de maior familiaridade do que no início.

Perguntou o doutor:

E que posso eu fazer, se a lei estiver contra ele?

Ora - respondeu o espectro não assiste qual­quer direito aos meus sobrinhos. Mas o grande instru­mento de decisão, que é o testamento, perdeu-se. E, por falta de tal documento, o meu neto não logrará comprovar o seu título à propriedade do domínio.

Bem - disse o doutor -, e, mesmo assim, que poderei fazer no caso?

Se o senhor proceder para a casa de meu neto, acompanhado por pessoas em quem possa confiar, eu lhe darei instruções que lhe permitirão localizar o do­cumento, que está escondido num lugar onde o colo­quei com minhas próprias mãos e onde o senhor levará meu neto a encontrá-lo, em presença do senhor.

Mas por que motivo não pode o senhor orientar o seu próprio neto a fazer isso? - perguntou o doutor.

É coisa que não me deve perguntar. Há diver­sas razões, de que poderá tomar conhecimento mais tarde. Entrementes, só posso depender da honestidade do senhor. E de tal forma eu arranjarei o assunto que suas despesas lhe serão indenizadas e receberá uma retribuição generosa pelo trabalho que tiver.

Depois dessa explicação e de diversas repreen­sões (pois não foi fácil convencer o doutor a seguir em tal tarefa até que o espectro pareceu zangar-se, e chegou mesmo a ameaçá-lo pelo fato de recusar), o doutor finalmente prometeu à aparição fazer o que esta queria.

Obtida a promessa, a aparição disse que o dou­tor poderia comunicar ao neto que conversara com o avô (mas não em que data e de que maneira) e pedir para visitar a casa, e que, num andar superior ou sótão, ele encontraria grande quantidade de madeira velha, de cofres velhos, velhos baús e coisas semelhantes, agora fora de moda, jogadas a um canto e empilhadas para permitir que ali se colocasse mobília mais moder­na, cômodas, armários e outros móveis.

Acrescentou que num determinado canto esta­va um certo baú velho com um cadeado quebrado e, neste cadeado, uma chave que não podia ser virada na fechadura ou retirada.

Neste ponto, descreveu-lhe minuciosamente o baú, tanto da parte de fora, o cadeado e a cobertura, quanto da parte interior, e deu-lhe indicações de um lugar escondido que nenhum homem poderia achar ou a que poderia chegar, a menos que se fizesse em pe­daços o velho baú.

- Em tal baú - disse o espectro - e em tal lugar está o grande documento ou testamento, que regula a herança, e sem o qual a família será arruinada e posta na rua.

Tendo dito isso, e prometendo o doutor seguir para o campo e executar tal importante tarefa, a apa­rição, assumindo um aspecto muito agradável e sorri­dente, fez os seus agradecimentos e desapareceu.

Passados alguns dias e dentro do prazo fixado pelo espectro, o doutor partiu para o condado que lhe fora indicado. Chegando com muita facilidade à casa do cavalheiro em questão, pelas informações que ti­nha recebido, bateu na porta e perguntou pelo proprie­tário. Depois que os empregados lhe disseram que o dono da casa estava e de dizerem a este que um ecle­siástico o procurava, o cavalheiro apareceu à porta e, com muita cortesia, convidou o visitante a entrar.

Depois que o doutor ali estivera por algum tem­po, reparou que o cavalheiro o recebia com uma cor­tesia inusitada, pois se tratava de um estranho e sem propósito ostensivo. Conversaram de forma muito amistosa, e o doutor simulou muito ter ouvido a respeito da família (como, de fato, havia) e a respeito do avô.

De quem, ao que creio, senhor - disse ele -, o domínio lhe vem por via direta.

Ai de mim! - respondeu o cavalheiro, e balan­çou a cabeça. - Meu pai morreu jovem, e meu avô deixou as coisas em tal confusão que, por faltar um documento capital, que ainda não foi encontrado, te­nho enfrentado dificuldades que me erguem dois pri­mos, filhos do irmão de meu avô, que já me deram muita despesa a respeito da propriedade.

A essas palavras, o doutor, parecendo um tanto curioso, disse:

Mas tenho fé em que o senhor já venceu tais dificuldades.

Não, na verdade - respondeu o cavalheiro -, para ser franco com o senhor. Nunca as venceremos, a menos que possamos encontrar o testamento, o qual, no entanto, pretendo localizar, pois pretendo empreen­der uma busca completa do mesmo.

Desejo de coração que o senhor o localize - exclamou o doutor.

Não tenho dúvida de que o encontrarei. Tive um sonho estranho a respeito do assunto, a noite pas­sada.

Um sonho a respeito do testamento? - per­guntou o doutor. - Espero que tenha sido um sonho feliz: de que o testamento seria encontrado.

Sonhei - respondeu o cavalheiro - que um homem que eu nunca vira em minha vida vinha visi­tar-me e ajudava-me a procurar o documento. E pos­sível que o estranho seja o senhor.

Teria grande prazer em ser tal homem - disse o doutor.

O senhor pode ser o homem que me ajudará a procurar.

Sim - afirmou o doutor -, eu posso ajudá-lo a procurar, e isso farei de todo o coração, mas preferiria ser o homem que o ajudasse a encontrar o documento. Quando pretende o senhor fazer a busca?

Amanhã - respondeu o cavalheiro - ou, pelo menos, assim eu havia planejado.

Mas de que maneira pretende conduzir a bus­ca?

Ora - respondeu o cavalheiro -, é nossa opi­nião que meu avô estava tão preocupado em preser­var esse documento, e sentia tanta desconfiança de que alguns que o cercavam tentariam retirá-lo dele, se o pudessem, que o escondeu em algum lugar secreto. E estou resolvido a pôr a casa abaixo até achá-lo, se estiver acima da terra.

É possível - ponderou o doutor - que ele de tal maneira tenha ocultado o documento que seja neces­sário destruir a casa, antes de encontrá-lo, e talvez nem assim o senhor o consiga. Sei de coisas seme­lhantes que se perderam completamente pelo cuidado que se tomou em preservá-las.

Se fosse feito de material que o fogo não des­truísse - adiantou o cavalheiro -, eu poria fogo na casa para descobri-lo.

Suponho que o senhor remexeu, vezes repeti­das, todos os baús, malas e cofres de seu avô?

Claro - respondeu o cavalheiro -, revirei-os to­dos de cima para baixo, e lá jazem, numa pilha, num grande sótão, com nada dentro deles. Destruímos três ou quatro em busca de gavetas secretas, e eu os quei­mei de raiva, embora fossem excelentes baús de ci­preste, que custaram dinheiro quando estavam na moda.

Lamento que os tenha queimado - disse o doutor.

Só os queimei depois de fazê-los em pedaços e verificar que era impossível que contivessem algu­ma coisa escondida.

Isso aliviou o ânimo do doutor, porque este co­meçou a inquietar-se quando lhe foi dito que alguns baús haviam sido feitos em pedaços e queimados.

Bem, senhor - disse ele -, se lhe posso prestar qualquer serviço em sua busca, voltarei e vê-lo-ei novamente amanhã. Estarei presente ao seu trabalho de busca.

Não - respondeu o cavalheiro -, não pretendo apartar-me do senhor, uma vez que teve a bondade de me oferecer os seus serviços. O senhor passará aqui a noite e participará da busca, desde o início.

O doutor conseguira o que desejava na medida em que se fizera conhecido e desejado na casa e chega­ra à um certo grau de intimidade com o dono. Assim, embora simulasse que queria ir-se, não foi necessária muita insistência para que permanecesse e consentiu em passar a noite na residência do cavalheiro.

Um pouco antes do cair da noite o cavalheiro convidou-o a dar um passeio pelo parque, mas ele de­clinou do convite com uma brincadeira.

Eu preferiria, caro senhor - disse ele, sorrindo -, que o senhor me permitisse visitar esta bela mansão que será demolida amanhã. Gostaria de ver a casa por uma vez, antes que o senhor a destrua.

Com todo o meu coração - respondeu o cava­lheiro.

E assim levou-o para o andar superior, mostrou-lhe todos os melhores cômodos e toda a mobília e pin­turas, e retornando ao topo da grande escada por onde haviam vindo, ofereceu -lhe descer novamente.

Mas, senhor - disse o doutor por que não subimos mais acima?

Não há nada ali, a não ser sótãos e velhas malas cheias de coisas velhas, e um lugar que se co­munica com o torreão e com a torre do relógio.

Ora, deixe-me ver tudo, agora que estamos com as mãos na massa - disse o doutor. - Adoro visi­tar velhas torres altas e torreões, as obras magníficas de nossos ancestrais, embora estejam passando de moda agora. Rogo deixar-me vê-las.

O senhor ficará cansado - respondeu o cava­lheiro.

Não, não - disse o doutor. - Se o senhor, que as viu tantas vezes, não se cansar, não me cansarei, posso assegurar-lhe. Por favor, subamos.

O cavalheiro subiu e o doutor seguiu-o.

Depois que haviam errado pela parte abandona­da de uma velha casa, parte essa que não necessito descrever, passaram por um grande aposento cuja porta estava aberta e em cujo interior havia uma grande quan­tidade de madeira velha.

E que lugar é este? - perguntou o doutor, olhan­do para dentro, mas não fazendo menção de entrar.

Este é o quarto! - disse o cavalheiro macia­mente, porque havia um empregado que os acompa­nhava. - Este é o quarto de que lhe falei onde estão todas as coisas velhas: os baús, os cofres e as malas. Veja! Estão todos empilhados quase até o teto.

Com isso, o doutor entrou e olhou em volta, pois este era o lugar a que fora mandado e que desejava ver. Passara apenas dois minutos no aposento quando verificou que tudo estava exatamente como o descre­vera o espectro em Londres, seguiu diretamente para a pilha de que a aparição lhe falara, e pôs os olhos no próprio baú com o velho cadeado enferrujado, com a chave que não virava na fechadura nem saía.

Por Deus, senhor - disse o doutor -, o senhor teve bastante trabalho se remexeu todas essas gave­tas e baús, e tudo o que pode haver neles.

Na verdade, senhor - respondeu o cavalheiro -, eu esvaziei cada uma dessas caixas e examinei to­dos os velhos escritos que contêm, um por um, com alguma ajuda, é verdade, mas ainda assim não houve uma só peça que não me passasse pelas mãos.

Bem, senhor - ponderou o doutor -, vejo que trabalhou seriamente, e acho que o assunto é de gran­de importância para o seu bem. Neste mesmo mo­mento, uma estranha idéia passa-me pela cabeça. Será que o senhor poderá satisfazer minha curiosidade, abrin­do e esvaziando um pequeno baú que me chama a atenção? Pode não haver nada nele, pois o senhor sabe que nunca estive aqui antes. Mas tenho a impressão que ele contém lugares secretos que o senhor não encontrou. É possível que em tais lugares nada se encontre, se existirem e forem achados.

O cavalheiro olhou para o baú, sorrindo.

Lembro-me muito bem de tê-lo aberto. - E, virando-se para o empregado: - Will, não se lembra você deste baú?

Sim, senhor - respondeu Will -, lembro-me muito bem de que o senhor estava tão fatigado que se sentou sobre o baú, quando havia retirado tudo do inte­rior. O senhor bateu com a tampa e mandou-me trazer uma limonada. O senhor disse que estava tão cansado que se achava a ponto de desmaiar.

Bem, senhor, eu só queria remexer o baú por uma imaginação minha, e é muito provável que não haja nada nele.

Não tem importância. O senhor o verá virado de cabeça para baixo. E assim também verá todo o resto, desde que o queira.

Meu caro senhor, se me fizer a vontade quan­to a este, não o perturbarei mais.

De imediato, o cavalheiro fez com que o baú fos­se retirado da pilha e aberto, pois não estava trancado - a chave nem o abria nem o fechava. O doutor, fin­gindo olhar para os papéis e prestando pouca atenção ao baú, reclinou-se e meteu sua bengala no baú, mas retirou-a logo, como se tivesse cometido um engano. E, virando-se para o baú, fechou-lhe novamente a tampa e sentou-se nele, como se estivesse muito fatigado.

No entanto, aproveitou a oportunidade para fa­lar suavemente com o cavalheiro, para que mandasse embora o empregado por um momento.

Porque quero dizer-lhe uma ou duas palavras, sem que ninguém nos escute. - E então disse em voz alta: - Senhor, pode mandar buscar um martelo e um buril?

Sim, senhor - disse o cavalheiro. - Vai, Will, buscar um martelo e um buril.

Logo que Will se apartou, disse o doutor:

Deixe-me dizer-lhe uma coisa. Encontrei o seu documento. Encontrei o testamento. Apostarei com o senhor uma centena de guinéus como o tenho neste baú.

O cavalheiro abriu novamente a tampa, pesquisou todo o interior do baú, mas não deparou com nada. Confuso e espantado ele disse ao doutor:

Que quer o senhor dizer? O senhor não é ne­nhum mago. Não há mais aqui do que um baú vazio.

É verdade - disse o doutor -, eu não sou um mago. Mas digo-lhe novamente que o documento está neste baú.

O cavalheiro voltou a chamar por seu emprega­do com o martelo. Mas o doutor sentou-se com toda a calma sobre a tampa do baú.

Por fim, chegou o empregado com o martelo e o buril, e o doutor pôs-se a trabalhar com o baú: bateu com o martelo no fundo.

Ouça - disse ele -, o senhor não ouve? Não o ouve claramente?

Ouvir o quê? - disse o cavalheiro. - Eu não o compreendo.

Ora, o baú tem um fundo duplo, senhor, um falso fundo. O senhor não ouve o barulho de vazio?

Numa palavra, eles imediatamente abriram o fundo e imediatamente encontraram o pergaminho es­tendido no baú, como se estivesse numa gaveta.

Não me é possível descrever a surpresa e a ale­gria do cavalheiro e, logo depois, de toda a família. Pois o cavalheiro mandou subir a esposa e duas de suas filhas ao sótão, no meio de todas as coisas aban­donadas, para ver não apenas o documento, mas onde fora achado e para dizer-lhes como o fora.

Vocês podem facilmente supor que o doutor foi tratado com cortesias fora do comum pela família e enviado (depois de ali passar uma semana) para Lon­dres na própria carruagem do cavalheiro. Não me lem­bro se revelou ou não o segredo ao cavalheiro. Quero referir-me ao segredo da aparição, por meio da qual o lugar onde jazia o documento lhe foi revelado, e que o obrigou a vir até aquela casa para descobri-lo. Digo que não me lembro de tal parte da história, mas não é substantiva. Tudo o que me foi relatado da história, eu o reproduzi. E a verdade do relato me foi confirmada de tal maneira que não o posso pôr em dúvida.

 

                   Uma Estranha Experiência de Dois Irmãos

  1. H., um cavalheiro de fortuna, filho mais velho da família (sendo o pai um baronete, homem de família honrada, e que então ainda vivia), porque era um ho­mem jovem e dado a prazeres, teve um caso com uma certa senhora, caso em que seu irmão mais jovem (mais do que ele dado a prazeres) era seu rival. A mulher era bonita e não desprovida de meios, mas, em maté­ria de recursos, muito inferior ao irmão mais velho, cuja fortuna era calculada em duas mil libras por ano, dinheiro que lhe caberia pela morte do pai, Senhor G. H.

O mais jovem dos dois irmãos estava realmente apaixonado pela dama, e queria com ela casar-se se pudesse obter para tanto o consentimento do pai, e, por duas ou três vezes, tinha falado com o velho baronete a respeito do assunto. O pai não era muito contrário à idéia, mas julgava que a fortuna da dama era muito reduzida.

Sir G. disse ao filho que, fosse ele o mais velho, não haveria dificuldade no projeto, pois, como o domí­nio estava livre de qualquer hipoteca, o herdeiro não teria necessidade de fazer fortuna por meio de uma mulher, mas que o irmão mais moço teria sempre de procurar uma fortuna para remediar-se. Costumava brincar com o filho e dizer-lhe que era essa circuns­tância que lhe fazia admitir a sua maneira de viver; que um filho mais moço tinha de ser bonito, culto, de vestir-se bem e ser alegre; que o primeiro devia ser visto com bons olhos pela corte; que o segundo o de­veria ser pelas damas. Que o primeiro podia ser um tolo, capaz apenas de assinar o nome, assobiar para os cachorros e de montar a cavalo. Mas, como era raro que o mais velho tivesse cabeça, a natureza sabiamente dava espírito ao segundo e a propriedade ao mais velho.

- Assim - disse o cavalheiro -, a situação de seu irmão é muito diferente da sua.

Era com tais argumentos bem-humorados que o velho cavalheiro procurava persuadir seu filho a não casar-se com a dama. Mas não o proibiu de continuar em sua corte à mesma, ameaçando-o de retirar-lhe o apoio, a respeito de dinheiro. Assim, o jovem cavalhei­ro andava abertamente em companhia da dama e, embora não lhe tivesse proposto casamento, projetava fazê-lo.

Por outro lado, o mais velho procurava a mesma senhora com um propósito diferente e muito pior, por­que queria fazer dela sua amante e não sua mulher.

Com esses diferentes projetos, os irmãos muitas vezes se encontravam na casa da mencionada senho­ra, ou seja, na casa da tia com quem ela vivia. Pois o pai lhe tinha falecido e a mãe a abandonara, de forma que ela dependia de seu próprio critério.

O irmão mais velho contava com a seguinte van­tagem em seu interesse: a senhora o amava e teria ficado muito contente se ele a desejasse para casa­mento, mas tal não era o projeto dele. Numa palavra, o caso assim se resumia: o irmão caçula amava a dama, mas esta amava o mais velho.

O irmão mais velho procurava vencer-lhe a vir­tude, e o caçula procurava conquistar-lhe a afeição.

Mas, como eu disse, correndo as coisas em favor do mais velho, a dama estava em perigo de sacrificar a honra pela paixão que a possuía, e os honestos propó­sitos do irmão caçula corriam o perigo de ser também sacrificados.

Os dois jovens mantinham, cada um por seu lado, as suas pretensões, mas nenhum dos dois era tão dis­creto a ponto de esconder do outro, em certa medida, que alimentava propósitos quanto à dama, sem, no en­tanto, revelar inteiramente a natureza de tais propósi­tos. No entanto, como muitas vezes se encontravam no apartamento da senhora, era impossível que se passasse muito tempo antes que entrassem numa con­versa sobre o assunto, e isso os enredou numa confu­são, como já o veremos.

O irmão mais velho começou uma noite a tratar do assunto com o caçula, de maneira um tanto rude.

Jack - disse ele nós dois muitas vezes da­mos um com o outro aqui. Eu não entendo isso. Por favor, diga-me o que pretende? É um tanto esquisito que dois irmãos tenham a mesma amante. Não nos comportemos como italianos, meu caro Jack.

Não - disse Jack -, que pretende você? Se algum de nós está errado, creio que é você.

Não - respondeu T. -, não estou de acordo. Estou certo. Estou seguro disso. Sempre estou, e esta­rei certo. Por favor, tome nota disso.

Não tomo nota de nada. Todo o mundo sabe que estou certo e continuarão a sabê-lo e você tam­bém o saberá, Tom.

Por favor, Jack - disse Tom -, procure alterar uma parte de seu comportamento.

Que comportamento? Não o compreendo. Mas se o compreendesse, não sei de qualquer comporta­mento meu que esteja errado, e não modificarei nada em minha maneira de comportar-me.

Trata-se de que, quando o encontro aqui, o que me parece excessivamente comum, observo que você sempre se esforça para permanecer depois que eu saio e para me fazer sair. Digo-lhe que isso não me agrada.

Em nada modificarei essa maneira de proce­der, posso garantir-lhe - disse Jack. - Parece-me que tenho mais que fazer aqui do que você. E, quanto a você encontrar-me aqui com muita freqüência, o abor­recimento é recíproco. Parece-me que você vem com freqüência excessiva, a menos que entretenha um pro­pósito honesto.

Você é muito impertinente, senhor Jack, com seu irmão mais velho. Penso que tenho de amansá-lo um pouco - disse Tom.

Ora, meu bom irmão mais velho - respondeu Jack -, quando você for um baronete, você poderá assumir esses ares de importância. Mas até então, não tem direito a reverências, como parece pensar.

Olhe aqui, Jack - disse Tom eu não estou brincando com você, e não quero que brinque comigo. A melhor resposta que um cavalheiro dá a uma brin­cadeira é um tapa na orelha, ou uma bengalada.

Ora, caro senhor - respondeu Jack -, devo considerar-me um cavalheiro igual a você, ou senão não seria seu irmão. E, como você parece disposto a falar seriamente, peço-lhe vênia para dizer que serei tratado como um cavalheiro. E, se você não sabe como fazê-lo, eu o ensinarei.

Ambos estavam agora de cabeça quente. Pois, diante das últimas palavras do irmão mais moço, o mais velho tomou da bengala, ao que o mais jovem lançou mão da espada.

- Olhe - disse ele -, se está disposto a tratar seu irmão de tal maneira, tenha em conta que o filho de meu pai pode ser morto, mas não se submeterá a bengaladas, e eu não as suportarei de sua parte. Estou a seu dispor, no momento que quiser.

Algumas pessoas que ali estavam, amigos de ambos, se interpuseram e os separaram naquele mo­mento. Mas voltaram a encontrar-se no mesmo lugar e, embora tivessem decorrido dois, três ou mais dias, logo ingressaram na mesma espécie de discussão. O pior é que era o mais velho, logo aquele dos dois a quem não assistia razão, quem começava a disputa.

Aconteceu que deram um com o outro na resi­dência da dama e foram levados à sala de visitas, mas, desafortunadamente, a senhora não se encontrava em casa. Ela havia dito à empregada que, se os cavalhei­ros viessem não estando ela em casa, nunca os dei­xasse entrar juntos, ou, pelo menos, não os colocasse no mesmo aposento, pois havia percebido que come­çavam a irritar-se um com o outro. Ela sabia que am­bos eram esquentados e raivosos e temia alguma des­graça entre eles, embora fossem irmãos.

Mas alguns dos empregados da tia da dama ten­do atendido à porta, quando o irmão mais velho bateu, conduziram-no à mesma sala onde o mais jovem aguar­dava o regresso da senhora.

Isso teve tanta influência no que se seguiu, como se o diabo, que está sempre pronto a armar das suas, o houvesse arranjado de propósito, pois logo que os dois irmãos se encontraram começaram a discutir.

Bem, Jack - disse o mais velho -, você conti­nua a fazer daqui um de seus lugares favoritos, apesar do que eu lhe disse.

Eu, de fato, não compreendo a sua maneira de falar - respondeu Jack. - Você parece tomar comigo uma liberdade a que não tem qualquer direito.

Que liberdade eu tomo? - perguntou o mais velho. - Quis saber o que o traz à casa da Senhora...? Foi isso tomar excessiva liberdade? E volto a pergun­tar a mesma coisa; é isso uma ofensa?

E eu lhe respondi que não lhe prestaria contas do que faço, não é verdade? Foi isso uma ofensa para você? Se foi, não sei o que fazer. Dar-lhe-ei agora a mesma resposta. Não tenho idéia do que você preten­de, fazendo tal pergunta.

Sei o que quero dizer com ela, e espero uma resposta melhor. É o que lhe digo em poucas palavras - respondeu o mais velho.

Se você quer transformar isso numa briga, seja bem-vindo - disse.

Direi tudo em tão poucas palavras quanto você quiser. Diga-me o que deseja, e terá uma resposta di­reta ou uma recusa direta.

Ora, minha pergunta é curta - disse o mais velho. - Por que motivo você visita a Senhora...? É fácil compreender a pergunta.

Eu responderei com a mesma pergunta - dis­se Jack. - Por que motivo você a visita?

Ora, isso é uma resposta tão grosseira quanto é possível dar a um irmão mais velho - disse o morgado - e cheia de despeito. Mas é melhor responder em poucas palavras. Eu a visito por um motivo que não suporta rivais. Espero que você me compreenda agora.

Bem, e eu faço o mesmo - disse Jack -, mas há entre nós uma questão que decidirá quem tem di­reito, e essa questão consiste em saber quem a visitou primeiro?

Ora, isso é verdade - disse o mais velho - em muitos casos, mas não em amor. Em tal caso, a priori­dade de nada vale. Não é questão que me preocupe.

Então, também não há força em ser o irmão mais velho. Também essa questão não me preocupará.

Não, não - disse o mais velho. - Não o espe­ro. Não há parentesco quando se procura uma mulher. Não existe para mim irmão ou pai, tio ou primo, quan­do falo em minha amante.

Muito bem - disse Jack -, agora você me res­pondeu melhor do que pretendia. E talvez cheguemos a um entendimento mais cedo do que eu pensava.

Que quer você dizer, por um entendimento?

Que quero dizer? Quero dizer que você corte­ja a Senhora... para fazer dela uma prostituta.

Use melhores palavras, Jack - disse o mais velho. - Quero dela fazer uma amante.

Não há melhores palavras. Uma prostituta é uma prostituta. Diga o que quiser. Para mim é a mes­ma coisa.

Bem, supondo que você tem razão, que é que você tem que ver com o assunto?

Ora, suponha que eu cortejo a mesma senhora para transformá-la em minha mulher. Creio que nesse caso estou em melhor posição.

Não, em absoluto, Jack. Não permitirei que faça sua mulher de minha amante.

Nem posso eu permitir que você transforme em prostituta a minha mulher.

Mas não terei escrúpulos nisso, posso assegu­rar-lhe - disse o mais velho -, desde que ela consinta. Por mais que você seja meu irmão, farei o que desejo, se puder.

E não lhe enganarei: consinta ela ou não, eu lhe cortarei a garganta por esse motivo, por mais ir­mão meu que você seja.

Muito bem, Jack - respondeu o mais velho -, então eu sei o que posso esperar de você.

É verdade - disse Jack é a velha regra dos cavalheiros andantes. Conquiste-a e use-a.

E o que deve ser feito então? - perguntou o mais velho.

Não lhe preciso dizer o que deve ser feito. Digo-lhe que ela é minha mulher. Penso que basta di­zer isso para que você saiba o que fazer.

E eu lhe digo - respondeu o mais velho - que ela é minha amante. Basta dizer-lhe isso. Você é um corno, ou o será. Penso que é justo dizer-lhe isso ante­cipadamente.

E penso que isso consiste em dizer-me que devo cortar-lhe a garganta. Pois nunca serei um corno, ou deixarei que alguém assim me chame.

Isso falando, o irmão mais jovem levantou-se numa raiva violenta e saiu, e o irmão mais velho, tão esquentado quanto ele, disse-lhe que fazia bem em deixar-lhe o lugar.

Tal afirmação ainda mais irritou o mais moço e, voltando-se para o mais velho, exclamou:

Espero que você tenha a cortesia de acompa­nhar-me.

Não, Jack - respondeu o mais velho, e pra­guejou. - Você não lutará por minha amante e por mi­nha propriedade, ao mesmo tempo. Tomarei primeiro, medidas para que você nada consiga com essa luta.

De todo o coração - replicou Jack. - Damos a um bandido na forca tempo para rezar.

Eu corrigirei seu atrevimento amanhã de ma­nhã, sem falta - disse o mais velho.

É preciso que eu espere tanto tempo? - res­pondeu Jack e acrescentou alguma coisa muito amar­ga, para significar que o irmão era muito covarde para lutar. Mas foi o contrário que aconteceu, porque na­quela mesma noite ele recebeu um desafio do mais velho, indicando o lugar e o tempo para que se encon­trassem no dia seguinte, às cinco da manhã.

Os dois inconsiderados e esquentados jovens fo­ram levados a esse ponto de raiva antes pela violência de seus temperamentos e paixões do que por ciúme real, porque qualquer um dos dois mal começara a en­volver-se com a dama. Mas, como eram ambos de cabeça quente e teimosos, ergueram a tempestade entre os dois e, coincidindo o fósforo e a madeira, a chama se elevou devido à mera natureza das coisas.

Meu propósito não é, porém, fazer reflexões morais, mas relatar o fato. Feito o desafio, não tinham mais que fazer do que encontrar-se, lutar, servir um de assassino do outro, e entregar as conseqüências ao curso do tempo.

O pai, o bom velho cavalheiro, ainda vivo na épo­ca, nada podia saber do que se passava entre seus filhos, porque estava morando, naquele mesmo tempo, em sua casa de campo no condado de W..., a sessenta milhas pelo menos de Londres.

Cedo da manhã, segundo o combinado, os irmãos se prepararam para o duelo, e seguiram, por caminhos diferentes, para o lugar de encontro, pois moravam em diferentes partes da cidade.

O irmão mais novo, cujo sangue parece era o mais quente, foi o primeiro a sair e mal amanhecera quando chegou ao lugar escolhido. Ali ele viu seu ir­mão, como supôs, andando apressadamente de um lado para o outro, como se esperasse com impaciência a vinda dele.

Ora - disse ele com seus botões -, estou certo de que cheguei cedo. No entanto, não fique impaciente, irmão Tom. Breve estarei com você.

E, com essas reflexões, apressou o passo. Não dera muitos passos, no entanto, quando viu o irmão, como ainda julgava que fosse, vindo como que para encontrá-lo, e com a espada desembainhada.

Voltou a falar com seus botões: - Você é muito lento com sua espada. Pensou que eu não lhe daria tempo para desembainhá-la?

Como ficou, porém, surpreendido quando, che­gando perto da figura, verificou que não se tratava do irmão, mas do pai e que, em vez de ter na mão uma espada, tinha apenas uma pequena bengala, como a que o velho cavalheiro usava para caminhar.

Ele ficou ainda mais estupefato porque supunha que seu pai, como eu disse acima, se encontrava em sua casa de campo, a uma distância de cerca de ses­senta milhas. No entanto, não lhe restou qualquer dú­vida quando não apenas o viu ainda de mais perto, mas quando o pai lhe falou.

Então, Jack? - disse o velho cavalheiro. - Você desafia seu pai e lhe mostra a espada?

De fato, Jack, quando supôs que via o irmão com a espada na mão, desembainhara a própria espada.

O senhor pode estar certo - afirmou ele - que não supunha que se tratava do senhor. Não tenho dúvi­das de que sabe quem eu esperava encontrar aqui. É uma manobra pobre e covarde a dele: primeiro desa­fiar-me, e depois mandar o senhor. O senhor não teria agido da mesma maneira, quando jovem.

Já não é momento para falar, Jack - disse o pai. - Tenho aqui o seu desafio e vim lutar com você, e não conversar. Portanto, empunhe sua espada. Você sabe que não há considerações de parentesco quando surgem brigas por causa de amor.

Com essas palavras, o pai tirou da espada e avan­çou contra ele.

Tirar da espada! - exclamou Jack. - E contra meu pai? Que o céu não o permita! Deixar-me-ei ma­tar primeiro.

Mas, voltando o pai a avançar e com uma fisionomia furiosa como se, de fato, fosse matá-lo, Jack retirou a espada e a bainha e atirou as duas coisas no chão, gritando:

-Tome-as, senhor, mate-me com elas. Por Deus, que quer o senhor?

Mas como aquele que lhe parecia o pai correu para ele, Jack apartou-se e, pondo-se de um salto fora de seu alcance, pareceu resolvido a deitar a correr. Visto isso, o pai inclinou-se, pegou-lhe a espada e fi­cou quieto.

O jovem, surpreso e espantado com o encontro, mergulhou em terror e confusão, e não sabia o que fazer. Mas, voltando atrás muitos passos e observando que seu pai partira, como pensava, resolveu que, mes­mo não dispondo de espada, iria até o lugar do encon­tro e veria se seu irmão havia vindo. Pois, por mais que estivesse desarmado, o irmão não poderia dizer que ele não viera.

Nessas condições, foi para o lugar escolhido e sentou-se no chão, esperando ali por duas horas, mas nada viu de seu irmão. Mas, quando de lá saiu ao fim de duas horas, ele encontrou a espada jazendo no chão onde fora atirada, ou tão perto de tal lugar quanto po­dia imaginar, embora estivesse seguro de que ali não estava quando passou pela segunda vez no mesmo lugar.

Isso o tornou muito curioso, e não sabia que ex­plicação dar ao ocorrido. Mas pegou da espada e foi para casa, pensando no sentido que teria aquilo tudo.

Não passara muito tempo em casa quando o empregado do irmão mais velho veio aos seus aposen­tos com uma mensagem muito cortês do patrão, que queria saber como ele passava. O empregado tinha ordens para perguntar, de parte do irmão, se alguma coisa de extraordinário lhe acontecera aquela manhã e de dizer-lhe que o irmão mais velho estava muito enfermo, motivo por que não viera em pessoa.

O caráter estranho da mensagem aumentou a surpresa que sentira antes. Por esse motivo, ele cha­mou o mensageiro e com ele manteve a seguinte con­versa:

Jack - Que se passa, Will? Como passa meu irmão?

Will - Meu patrão manda saudações a Vossa Senhoria, e quer saber como passa.

Jack - Na verdade, não estou inteiramente bem, mas como está seu patrão? Que se passou?

Will - Para dizer a verdade, não sei o que se passa. Penso que alguma coisa amedrontou seu irmão esta manhã.

Jack - Amedrontou, Will? O que o amedron­tou? Não é fácil amedrontar seu patrão.

Will - Sim, é verdade. Mas alguma coisa extraor­dinária se passou. Não sei o que foi, porque não esta­va a seu lado. Dizem na casa que ele viu o pai, ou viu uma aparição na forma de seu pai.

Jack - Ora, eu também vi. Agora, você me amedronta, porque me pareceu coisa de pouca impor­tância antes. Penso que era certamente meu pai.

Will - Não era, senhor, infelizmente. Seu pai? Ora, meu velho patrão estava em... no condado de... e muito doente, sexta-feira passada. Eu vim de lá. Seu irmão mandou-me a ele com uma mensagem.

Jack - E você o viu pessoalmente, Will?

Will - Se Vossa Senhoria quiser que eu jure, eu jurarei. Eu o vi e falei com ele, e ele estava muito do­ente. Estou certo de que Vossa Senhoria acredita que conheço meu velho patrão.

Jack - E claro que o conhece. Creio que passou quatro anos com ele, não passou?

Will - Eu o vesti e despi por cinco anos e meio. E posso dizer que o conheço com suas roupas ou sem as roupas.

Jack - Bem, William, espero que você concorde que eu também conheço meu pai, ou aquele a quem tenho chamado meu pai por estes últimos trinta anos.

Will - Claro.

Jack - Bem, diga então a meu irmão que eu vi meu pai ou o diabo. Vi e falei com ele. Estou amedron­tado.

Seguiu Will de volta, com esta mensagem, para seu patrão, e este, juntamente com Will, veio ter com seu irmão.

Logo que entrou no aposento do irmão, correu para ele e beijou-o.

Querido Jack - disse ele -, que se passou conosco hoje? Nós dois bancamos os tolos; mas per­doe-me e diga-me o que se passou.

Jack recebeu-o com todo o amor e ternura ima­gináveis e os dois entraram imediatamente a compa­rar experiências. Will contara ao irmão mais velho o que lhe mandara dizer o mais novo: que vira o pai e com ele falara. E agora o mais novo contou todos os detalhes como os relatei acima: que o pai avançara para ele com tal fúria que realmente pensou que o mataria, e que fugira.

O mais velho contou sua história com o mesmo propósito: que, quando vinha para o lugar escolhido, o pai o encontrara e perguntara-lhe aonde ia. Que res­pondera com uma invenção, e dissera que ia a Kensington para ali reunir-se com alguns cavalheiros, que seguiriam com ele para Hampton Court.

Disse que a essa altura o pai se zangara.

E observei - afirmou ele - que seu rosto tornou-se vermelho como o fogo. Bateu com o pé, como costumava fazer quando o provocavam, e disse-me que eu o enganava com uma mentira; que conhecia meu destino tão bem quanto eu; que eu ia assassinar meu irmão mais moço, e que ele viera satisfazer mi­nha fúria com seu sangue, e que eu devia assassiná-lo, em vez de matar meu irmão.

Fiquei tão confuso - acrescentou o mais velho - que nada pude dizer por um bom tempo. Recobrei o controle, no entanto, e ia desculpar-me, quando se en­fureceu ainda mais. Quando lhe disse que entretinha intenções tão honestas para com a Senhora... quanto as suas, ele me chamou de mentiroso. E ele estava certo. Disse-me, em resumo, que eu a cortejava para corrompê-la, mas que você a cortejava honradamente para com ela casar-se, e que ele lhe dera seu consen­timento. Não soube o que responder e então pedi-lhe perdão. Assim, mandou-me voltar para casa e recon­ciliar-me com meu irmão, ou ele usaria para comigo outro procedimento, na próxima vez que me visse. E agora, caro Jack - disse o mais velho -, vim para pe­dir-lhe perdão, não apenas em obediência a meu pai, mas de vontade própria, porque estou convencido de que o ofendi muito.

Podem ter certeza de que os irmãos tornaram- se imediatamente tão bons amigos quanto em qual­quer época em que o haviam sido em suas vidas. Mas, contudo, Jack não sabia ao certo se vira a aparência real de seu pai, e as palavras do empregado do irmão não lhe deixaram a cabeça em paz a noite toda. Pois o encontro entre os dois irmãos fora tão ocupado pelos êxtases da reconciliação que não lhe sobrou tempo para mais nada.

Na manhã seguinte, o jovem cavalheiro tornou a ver o irmão, para pagar a visita e voltar a falar nos assuntos que lhes interessavam.

Caro irmão - disse Jack -, inquieta-me uma parte de nossa história. Estou contente de que tenha­mos voltado a entender-nos, mas não consigo saber quem fez a paz entre nós. Se o que diz o seu emprega­do Will for verdade, o pacificador não foi meu pai.

Sim - disse o irmão -, Will contou-me que na sua opinião era meu pai ou o diabo.

Sim, eu disse isso - afirmou Jack - mas isso era para significar certeza de que não se tratava de meu pai, e não que eu supunha que fosse o demônio. Mas, diga-me, por favor, faz quanto tempo meu pai está na cidade?

Não - disse o mais velho -, eu não sabia que ele estava na cidade. Mas que eu o vi eu sei muito bem.

Mas você não mandou Will procurá-lo no cam­po? E é possível que ele tenha vindo desde então, em tão pouco tempo?

Sim, ele pode ter vindo - respondeu o mais velho. - Muitas vezes ele faz todo o caminho em pou­co mais de um dia; algumas vezes num dia. Você sabe que seis cavalos andam depressa.

Mas, por favor, qual é a sua opinião? Você o viu tão bem quanto eu. Era realmente meu pai? Seu empregado Will diz que é impossível. Além disso, ele diz que meu pai estava enfermo e de cama.

Will diz que ele não estava bem, mas não disse que estava de cama. Mas confesso que nunca cogitei nesse problema. Era certamente meu pai! Quem mais poderia ser? Como você disse, irmão, deveria ser meu pai ou o demônio.

Não, também não sei o que dizer quanto a ser demônio. Creio que não há entre o diabo e meu pai qualquer forma de correspondência.

Além disso, irmão - respondeu o mais velho -, por que o diabo nos quereria tanto bem a ponto de preocupar-se em reconciliar-nos? Creio que ele teria preferido ver-nos matar um ao outro, como estávamos prestes a fazer.

Eu acredito - disse Jack - que ele teve algu­ma coisa a ver com a nossa briga.

O mesmo penso eu - disse o mais velho. - Creio que, de minha parte, estava louco. E, como diz o povo, o diabo havia entrado em mim ou eu nunca me teria comportado tão tolamente.

Sim, irmão - disse Jack -, mas como chegare­mos ao fundo desse assunto? Ambos pensamos que era meu pai, e ambos pensamos que dificilmente po­deria ser ele, e ambos somos de opinião de que não se tratava do demônio.

Então - disse o mais velho -, se nem era meu pai nem o demônio, que diremos?

Ora, isso torna-me impaciente de resolver a questão. Agora, dir-lhe-ei uma coisa que me alarma um pouco. Mandei um empregado à casa do Senhor..., onde, como você sabe, meu pai sempre se instala, e outro ao pátio de Black Swan, onde você sabe que sua carruagem fica guardada, e de todos os lados chega-me a notícia de que ele não está na cidade e que não é aqui esperado antes de seis semanas.

Bom, isso é extraordinário, confesso - disse o mais velho. - Nunca pensei nisso, porque nunca en­tretive dúvidas dessa natureza. Era coisa que não me passava pela cabeça. Mas, por minha fé, você me dei­xa muito inquieto a respeito do assunto.

Por minha parte - respondeu o mais jovem -, daria qualquer coisa para chegar a uma certeza a res­peito desse negócio. Eu chegaria a montar a cavalo e seguir até a casa de campo.

Irei com você, de todo o coração - disse o mais velho.

Para concluir o assunto, direi que os dois irmãos concordaram e partiram ambos para ver o pai. Monta­ram no mesmo dia, mas, umas poucas horas depois que tinham seguido, chegou, de parte do pai, uma carta à casa do irmão mais velho, carta essa de que nar­rarei o conteúdo dentro em pouco.

E antes de mais nada devo observar que, quan­do chegaram à casa do pai, encontraram-no muito doen­te, e souberam que não se tinha ausentado daquela residência e estava muito preocupado com a sorte dos filhos por causa do seguinte:

Na noite que se passou antes que escrevesse a carta, foi surpreendido em seu sono por um sonho, ou melhor, uma visão de que seus dois filhos tinham bri­gado por causa de uma amante; que a briga chegara ao ponto de que se tinham reciprocamente desafiado, e haviam partido para duelar no campo, mas que al­guém o avisara e que ele se levantara às quatro da manhã para ir ao encontro deles e impedir o duelo.

Depois desse sonho, despertou com grande in­quietação e terror. No entanto, verificando que tudo não passava de um sonho, recuperara a calma e ador­mecera novamente, mas o sonho voltara com tal viva­cidade que foi forçado a chamar o empregado para que com ele ficasse o resto da noite. E ficou aterrori­zado, e com o pensamento em desordem, tal o medo.

Em conseqüência de tal sonho, mandara um mensageiro, com ordens de cavalgar dia e noite, para saber como passavam os filhos, e voltar dizendo se houvera ou não tal briga entre eles. Tinha também or­dens o mensageiro, caso fosse verdadeira a briga, de insistir com eles para que deixassem o pai ser mediador da questão, para que nada fizessem até ele chegar, o que lhe permitiria terminar com o rancor entre eles e restabelecer a paz fraternal. Esse era o conteúdo da carta mencionada acima, que chegou umas poucas horas depois que partiram.

Não se pode pôr em dúvida que ficaram confu­sos os filhos ao ouvir o pai relatar seu sonho, ou me­lhor, visão, acerca da briga. E também era espantoso ver a visão confirmada por todos os traços particula­res e saber que o velho cavalheiro estivera longe de Londres o tempo todo, e mal passara um dia inteiro fora da cama.

Entraram em conferência para saber se diriam ao pai a história da briga, e especialmente o fato de que o haviam visto cada um por seu lado, e que ele, de fato, os apartara, impedindo que duelassem.

Depois de muito debater, chegaram à conclusão de não dizer ao pai que o tinham visto em visão ou em aparência, para não o inquietar. Quanto ao resto, como estavam perfeitamente reconciliados, acharam que não havia maneira ou ocasião de mencioná-lo. Assim, ape­nas deixaram parecer que o visitavam para saber como passava e pedir-lhe a bênção, porque Will lhes dissera que ele estava enfermo. Quanto à carta, disseram-lhe que não a haviam visto.

Segundo essa resolução, executaram a cerimô­nia de visitarem o pai, e apressaram-se em partir para que melhor pudessem conversar a respeito de tal es­tranha conjunção de circunstâncias, que continha tan­tas coisas surpreendentes para o pensamento deles, e mesmo para o entendimento, pois não sabiam como explicar as coisas.

 

                   O Diabo Brinca com um Mordomo

Um cavalheiro na Irlanda, que vivia perto da casa do conde de Orrery, enviou seu mordomo uma tarde para uma aldeia próxima, a comprar cartas de bara­lho. Quando este passou por um campo, divisou um grupo no meio, sentado em torno de uma mesa, onde havia várias iguarias. Quando se aproximou do grupo, todos os seus componentes se levantaram e o saudaram, expressando o desejo de que se sentasse e com eles partilhasse da comida. Um deles, no entanto, sus­surrou as seguintes palavras no seu ouvido: - Nada faça do que eles o convidam a fazer. - Então, como ele recusou a aceitar-lhes o convite, a mesa e todas as iguarias que a eles guarneciam desapareceram, mas o grupo entrou a dançar ao som de vários instrumentos.

Foi outra vez o mordomo solicitado a participar dos divertimentos, mas nada o convencia a neles in­gressar. Por esse motivo, os membros do grupo aban­donaram o seu divertimento e começaram a trabalhar, solicitando ainda ao mordomo que a eles se juntasse. Este, no entanto, recusou. Assim, diante de sua tercei­ra recusa, eles todos desapareceram e deixaram o mordomo sozinho, o qual, muito consternado, regres­sou à casa sem os baralhos, desmaiou quando passou pela porta, mas recuperou os sentidos e contou a seu patrão tudo o que se passara.

Na noite seguinte, um dos fantasmas veio para o pé de sua cama e disse-lhe que, se ousasse dela sair no dia seguinte, seria carregado. Aceito esse conse­lho, manteve-se quieto até a tardinha, mas, tendo ne­cessidade de urinar, aventurou-se a colocar um pé para fora da porta, coisa que ele tinha acabado de fazer quando uma corda lhe foi passada pela cintura, à vista de várias testemunhas, e o pobre homem foi arrastado para fora da casa com uma rapidez inexplicável, se­guido por muitas pessoas.

Mas não foram bastante ágeis para alcançá-lo, até que um cavaleiro, muito bem montado, encontrando-o na estrada e vendo muitos seguidores atrás de um homem puxado por uma corda, sem que ninguém o forçasse, pegou da corda e o parou em sua carreira, mas, em pagamento, recebeu uma tal lambada nas costas, com uma das extremidades da corda, que qua­se caiu do cavalo. No entanto, sendo um bom cristão, ele se mostrou excessivamente forte para o diabo, e resgatou o mordomo dentre as mãos dos espíritos, trazendo-o de volta para seus amigos.

O lord Orrery, ouvindo falar de tais lances, para conhecer-lhes melhor a verdade, mandou chamar o mordomo, com permissão de seu empregador, e pe­diu-lhe que passasse algumas noites em sua casa, ao que o empregado obedeceu. O empregado, depois de ali pernoitar pela primeira vez, disse ao conde que o espectro voltara a visitá-lo e lhe dissera que naquele mesmo dia ele desapareceria nos braços dos espíritos, por mais que se tomassem medidas para impedir que isso acontecesse. Diante do que foi levado a um gran­de aposento, onde se encontravam em grande número pessoas santas para defendê-lo dos assaltos de Satã, entre as quais estava o famoso restaurador de pes­soas enfeitiçadas, o senhor Geatrix, que morava nos arredores, e sabia, como se pode supor, como tratar o diabo tão bem quanto qualquer outra pessoa. Além disso, havia dignitários eminentes na casa, entre os quais dois bispos, todos esperando o acontecimento maravilhoso de tal inexplicável prodígio.

Até que decorresse parte da tarde, o tempo pas­sou-se em paz e tranqüilidade, mas, por fim, percebeu-se que o paciente encantado elevava-se do solo sem qual­quer ajuda visível, o que fez com que o senhor Geatrix e outro homem, este muito forte, o agarrassem pelos ombros e procurassem trazê-lo de volta ao solo, mas sem resultado. Pois o diabo mostrou-se excessivamente poderoso e, depois de uma luta renhida entre as partes opostas, obrigou os seus inimigos a largar o homem e, retirando-lhes o mordomo, transportou-o por sobre a cabeça dos presentes e o atirou no ar, de um lado para o outro, como se fosse um cachorro num lençol, en­quanto várias pessoas corriam por debaixo do pobre homem para evitar que caísse ao chão. Por quais meios, quando terminou a brincadeira dos espíritos, não se pôde achar como naquela baderna, houvesse o ame­drontado mordomo recebido o menor dano, saído ileso, aparecendo no mesmo lugar, na mesma condição, para provar que o demônio é um mentiroso.

Os duendes tendo, nessa ocasião, abandonado o seu passatempo e deixado o objeto de seu escárnio repousar um pouco, para que se pudesse revigorar antes do novo ataque, o lorde ordenou que, na mesma noite, dois de seus empregados com ele dormissem, com medo de que o diabo ou outra entidade viesse e o agar­rasse, cochilando. Não obstante isso, o mordomo disse ao lorde na manhã seguinte que o espírito voltara a visitá-lo, com a aparência de um falso médico, e trazia na mão direita um prato de madeira cheio de um licor verde, como caldo de carne, à vista do que tentou acor­dar os seus companheiros de leito.

Mas o espectro disse-lhe que suas tentativas eram baldadas, pois seus companheiros, encantados, esta­vam mergulhados num profundo sono, e avisou-o para não se atemorizar, porque ele era o mesmo espírito que o precavera no campo, para que não se juntasse ao grupo que ali se reunia, quando partira para com­prar cartas de jogar; acrescentou o espírito que se o mordomo não se tivesse recusado a obedecer ao que lhe pedia o grupo teria passado a sofrer a vida inteira. Também o espírito se mostrou espantado de que o mordomo houvesse escapado no dia anterior, porque sabia que contra ele se formara uma poderosa combi­nação. Disse que no futuro não haveria mais tentati­vas da mesma natureza. Afirmou o espectro que sabia que o mordomo era sujeito a duas espécies de acessos e que, como amigo, trouxera um remédio que o curaria de ambos, aconselhando-o a que o tomasse.

Mas o pobre paciente, que fora miseravelmente tratado por tal espécie de charlatães vestidos de médi­cos, e temendo que o demônio estivesse no fundo do prato, não queria deixar-se convencer a engolir a dose, o que enfureceu o espírito. Este disse-lhe, no entanto, que sentia afeição por ele, mordomo, e que, se este amassasse as raízes de uma bananeira, sem as folhas, e bebesse o sumo, ficaria certamente curado de uma espécie de seus acessos. Mas, como punição por cau­sa da teimosia que o mordomo havia demonstrado, sofreria da outra espécie de acessos até morrer.

Então, o doutor espiritual perguntou ao paciente se o conhecia. O mordomo disse que não.

- Eu sou - disse ele - o fantasma errante, a alma penada de seu velho conhecido John Hobby, que faleceu e foi enterrado faz sete anos. E desde então, por causa do mal que fiz em vida, tenho andado em companhia desses maus espíritos que você viu no cam­po, e sou levado de um lado para o outro nessa condi­ção em que não encontro repouso, estando fadado a continuar no mesmo estado miserável até o dia do juízo final. - Acrescentou o espírito fantasiado de falso médico: - Se você tivesse servido o seu Criador nos dias da juventude, e rezado na manhã em que saiu para comprar cartas de baralho, não teria sido tratado pelos espíritos que o atormentaram com tanto rigor e severi­dade.

Depois que o mordomo relatou tais passagens maravilhosas ao lorde e família, consultaram-se os dois bispos, presentes entre outras pessoas de qualidade, para saber se devia o mordomo seguir o conselho do espírito e tomar o sumo da bananeira, e se fizera bem ou mal ao recusar tomar o líquido que o espectro lhe oferecera. A questão ao princípio pareceu objeto de discussão, mas, depois de algum tempo, chegaram os bispos à conclusão de que o mordomo agira como um bom cristão, em todo o assunto, pois era um grande pecado seguir o conselho do diabo em qualquer coisa, e que nenhum homem devia praticar o mal com a es­perança de conseguir o bem.

Em resumo, o pobre mordomo, depois de seus sofrimentos, não obteve qualquer recompensa pelo que passara, tendo-lhe sido negado, pelos bispos, o benefício, ou a aparência de benefício, que o espírito pretendia conferir-lhe.

 

                     O Diabo e o Relojoeiro

Na paróquia de St. Bennet Fynk, perto do Mer­cado Real, vivia uma honesta e pobre viúva, a qual, tendo-lhe falecido recentemente o marido, admitiu inquilinos em sua casa. Ela alugou alguns de seus quar­tos, para diminuir a carga que para ela representava o aluguel da casa. Entre outros, alugou suas águas-furtadas para um fabricante de molas de relógios, um ho­mem ocupado em armar os movimentos dos relógios e que trabalhava para os lojistas que vendem relógios.

Aconteceu que um homem e uma mulher subi­ram para falar com esse fabricante de molas a respei­to de algum assunto de sua profissão. E, quando che­garam perto do topo da escada, estando a porta da água-furtada em que ele usualmente trabalhava bem aberta, viram que o pobre homem (o fabricante de re­lógios) se enforcara numa trave que atravessava o cômodo mais baixo do que o teto. Espantada diante daquele quadro, a mulher parou e gritou para o homem que a seguia na escada que corresse e cortasse a cor­da de que pendia a pobre criatura.

Naquele mesmo momento, surgiu rapidamente um homem de outra parte do cômodo, parte que os dois na escada não podiam ver, trazendo em suas mãos um escabelo e o colocou no chão ao lado do homem enforcado. Subindo com rapidez no escabelo tirou uma faca do bolso, e tomando da corda com uma das mãos fez sinal com a cabeça para a mulher e o homem que vinha atrás dela, como se lhes dissesse que parassem e não subissem - mostrando-lhes a faca em sua mão, como se estivesse prestes a cortar a corda que pren­dia o pobre homem.

A essa vista, a mulher parou um pouco, mas o homem que se pusera no escabelo continuou com sua mão e faca como se estivesse atrapalhado com o nó, mas não cortou a corda. A mulher então voltou a gri­tar e o homem que estava atrás dela lhe disse:

Suba e ajude o homem no escabelo!

Mas o homem no escabelo tornou a fazer sinais para eles ficarem quietos e não subirem, como se qui­sesse dizer que cortaria a corda imediatamente. Então ele desferiu dois golpes com sua faca e parou nova­mente. E nesse meio tempo o pobre homem pendia da corda e, em conseqüência, estava morrendo. Por isso, a mulher na escada gritou para a figura no escabelo:

Que há com você? Por que não liberta o pobre homem?

E o homem que lhe estava atrás, não dispondo mais de paciência, afastou-a e disse-lhe:

Deixe-me passar. Garanto que cortarei a corda!

Com isso, correu para dentro do quarto onde estava o homem no escabelo. Mas quando chegou ali, teve a surpresa de verificar que o pobre homem pen­dia da corda, mas não havia homem com faca ou escabelo, ou qualquer coisa parecida. Tudo aquilo era espectro e ilusão, feitos sem dúvida para deixar a po­bre criatura que se enforcara, perecer e expirar.

O homem ficou tão amedrontado e espantado que, não obstante toda a coragem que demonstrara antes, caiu no chão como morto. E a mulher se viu forçada, por fim, a cortar a corda de que pendia o re­lojoeiro com um par de tesouras, o que lhe custou mui­to esforço.

Como não tenho motivo para pôr em dúvida a veracidade desta história, que me foi contada por pes­soas em cuja honestidade posso confiar, assim tam­bém penso que não é preciso muito trabalho para con­vencer-nos de quem era o homem no escabelo. Era o demônio que se colocou ali para terminar o assassina­to do homem que ele, como diabo que é, tentara antes e conseguira convencer a suicidar-se. Além disso, essa história corresponde tão bem com a natureza do diabo e com o seu ofício, a saber, ser um assassino, que nun­ca a pus em dúvida. Nem penso eu que caluniamos o diabo se lhe atribuímos o que se passou na história.

Nota: Quanto ao resto da história, não posso di­zer positivamente se o homem foi libertado da corda a tempo de recuperar-se ou se o diabo conseguiu o que queria e deteve o homem e a mulher até que fosse demasiado tarde. Seja como for, está claro que fez o seu trabalho diabólico e se manteve no quarto até ser forçado a desaparecer.

 

                                       Fantasmas falsos e aventuras divertidas

 

                   Um acusador fantasmagórico

Ouvi contar a história que me parece verídica de um homem trazido à barra da justiça por suspeita de assassinato, mas de um assassinato que ele não imaginava ser possível ao conhecimento humano des­vendar.

Quando teve de fazer juramento no tribunal declarou-se inocente, e a corte começou a carecer de provas, só aparecendo suspeitas e circunstâncias. No entanto, todas as testemunhas possíveis foram exami­nadas, colocando-se estas, como é de costume, num pequeno estrado, para serem visíveis de todo o tribunal.

Quando a corte pensou que não tinha mais tes­temunhas para inquirir e já estava o homem prestes a ser absolvido, ele deu um salto no lugar onde se acha­va, como se alguma coisa o amedrontasse. Recobran­do, no entanto, a coragem, apontou com o braço para um sítio onde se situavam usualmente testemunhas para depor em julgamento, e fazendo sinais com a mão disse:

- Meritíssimo. Isso não é justo. Isso não é legal. Ele não é uma testemunha legal!

A corte ficou surpresa e não podia entender o que queria dizer o homem. Mas o juiz, um homem de mais penetração, compreendeu o que se passava e, fazendo calar alguns da corte, que desejavam falar e que talvez tivessem ajudado o homem a recuperar a razão, disse:

Quietos! - disse ele. - O homem vê alguma coisa mais do que nós vemos. Começo a entendê-lo.

E, virando-se para o prisioneiro:

Como? - disse ele. - Ele não é uma testemu­nha legal? Creio que a corte aceitará o que disser quan­do vier a falar.

Não, Meritíssimo. Não é justo. Não pode ser permitido - declarou o prisioneiro, com uma veemên­cia confusa em sua fisionomia que demonstrava que ele tinha um coração audaz, mas uma consciência cul­pada.

Por que não, meu amigo? Que razão você apre­senta para isso? - perguntou o juiz.

Meritíssimo - respondeu este -, nenhum ho­mem pode ser testemunha em causa própria. Ele é uma parte, meritíssimo. Ele não pode ser testemunha.

Mas você se engana - disse o juiz pois você é indiciado em nome do Rei, e o homem pode ser uma testemunha do Rei, como no caso de um assalto nas estradas nós sempre permitimos que a pessoa assalta­da apareça como testemunha, porque, se não fosse assim, o assaltante não poderia ser condenado. Mas nós ouviremos o que tem a dizer quando for inquirido.

Isso foi dito pelo juiz com tanta gravidade e de uma forma tão natural que o criminoso no banco dos réus respondeu:

Se o senhor permitir que ele seja uma teste­munha, eu serei um homem morto.

Essa última palavra ele a pronunciou em tom mais baixo do que o resto, mas pediu uma cadeira para sen­tar-se.

A corte ordenou que lhe fosse dada uma cadei­ra, a qual, se não lhe houvesse sido oferecida, teria feito uma falta capaz de fazê-lo cair ao chão. Observou-se que, quando se sentou, aparentava grande cons­ternação e que levantou as mãos várias vezes, repe­tindo:

Sou um homem morto! Um homem morto!

Por fim, o juiz disse-lhe:

Olhe aqui, Senhor... (chamando-o pelo nome). Não lhe resta mais do que um caminho, e eu o lerei para o senhor, do texto das Escrituras.

E, pedindo uma Bíblia, ele a abriu no Livro de Josué, e leu o texto de Josué 7, 19: "Então disse Josué a Acã: Filho, dá glória ao SENHOR Deus de Israel, e a ele rende louvores; e declara-me agora o que fizeste, não mo ocultes".

A essas palavras, o assassino que se condenava a si mesmo rompeu em choro e em lamentação por sua miserável condição, e fez uma inteira confissão do crime. E, quando a terminou, explicou da seguinte maneira os motivos de sua surpresa: que vira a pessoa assassinada no estrado das testemunhas, pronta a ser inquirida e prestes a mostrar a garganta que fora cor­tada pelo prisioneiro, e que, como disse o réu, perma­neceu olhando-o com uma terrível fisionomia. E isso o deixou atônito, como é natural. E, contudo, não houve aparição real, não houve espectro ou fantasma. Tudo lhe pareceu existir por causa de sua culpa e pela agi­tação de sua alma, inflamada e surpreendida pela in­fluência da consciência.

 

                       Uma Ilusão Referente a um Urso e um Asno

Um cavalheiro sóbrio e grave, cujo nome não darei nesta história, porque ela é antes produto de uma enfermidade do espírito do que de uma real deficiên­cia do cérebro, tinha, por um longo desuso da parte viva de seu sentido, parte que não lhe faltava em ou­tros tempos, se deixado afundar numa condição muito baixa de espírito, e permitido que a hipocondria se es­praiasse, em vapor e fumaças, em sua cabeça.

Era uma enfermidade que tinha suas crises e seus intervalos. Algumas vezes, ele via clara e justamente as coisas, mas, outras vezes, enxergava estrelas ao meio-dia e demônios de noite. Numa palavra, o mundo era uma aparição para a sua faculdade imaginativa quando a doença prevalecia e o aborrecimento dele tomava conta. Tudo isso ele não sabia explicar, nem podia ajudar a operação de seu físico por qualquer dos poderes de que dispunha para curar-se.

Aconteceu que ficou fora de casa, na residên­cia de um amigo, mais tarde do que de costume, uma noite, mas, como havia lua cheia e ele tinha a compa­nhia de um empregado, sentia-se bem, e mostrou-se animado e mesmo alegre, com uma forte soma de bom humor - mais do que se observara nele por muito tempo.

Conhecia perfeitamente o caminho de volta, por­que não se encontrava a mais de três milhas da cidade em que vivia, e estava muito bem montado. Mas, em­bora a lua brilhasse no céu, perturbou-o o acidente de que havia nuvens, e, mais do que tudo, de que uma nuvem muito escura apareceu subitamente (quer di­zer, sem que ele a notasse, e assim subitamente para ele) e pairou sobre sua cabeça, o que tornou tudo mui­to escuro. E, para mais perturbá-lo, ainda, começou a chover violentamente.

Nessas condições, estando muito bem montado, como eu já disse, resolveu galopar, pois não estava a mais de duas milhas da cidade. Assim, esporeando o cavalo, fê-lo correr. O empregado, cujo nome era Gervásio, não estando tão bem provido de montaria, ficou para trás. A escuridão e a chuva juntas irritaram um tanto o nosso cavalheiro, mas como eram coisas inesperadas fizeram-no galopar com mais velocidade, em vez de diminuir o ritmo do cavalo.

No curso do caminho havia um pequeno rio, mas atravessava-o uma boa ponte, bem provida de mura­lhas, de ambos os lados, o que fazia com que naquele ponto não houvesse perigo, como não havia perigo no resto da estrada. O cavalheiro manteve a velocidade para cruzar a ponte, quando, já a tendo percorrido até a metade, seu cavalo parou de supetão e refugou, pen­dendo para a direita. O cavalheiro nada viu, de princí­pio, e não perdeu muito a calma por causa do acidente, mas esporeou o cavalo para que prosseguisse. O cavalo deu dois ou três passos, então voltou a estacar, relinchou, e fez movimentos para voltar atrás. Então o cavalheiro, escrutando a noite para ver o que espanta­ra o cavalo e o que se passava, divisou dois grandes olhos abertos, os quais, como ele disse, olhavam dire­tamente para ele.

Nesse momento, ele se sentiu muito amedronta­do, mas, a essa altura, ouviu o seu empregado Gervásio aproximar-se. Quando Gervásio chegou bem perto, a primeira coisa que ouviu seu patrão dizer foi:

- Deus me abençoe, é o demônio!

A essas palavras, Gervásio, sujeito de pouca co­ragem, teve tanto medo quanto seu patrão. No entanto, o patrão, um pouco animado porque ouviu seu empre­gado aproximar-se, esporeou novamente o cavalo e ordenou a Gervásio que chegasse mais perto, mas ele, atemorizado, não se apressou. Por fim, com muito trabalho, o patrão, abusando das esporas, passou pela ponte e pela criatura com olhos largos, criatura que, como a luz aumentara um pouco, ele afirmou positivamente, depois de passar, que era um grande urso preto e que devia, conseqüentemente, ser o demônio.

Embora Gervásio se encontrasse bastante per­to, temendo mais, contudo, que seu patrão o pusesse na frente, manteve-se tão apartado quanto podia. Quan­do o seu patrão o chamou ele respondeu, mas não avan­çou, ou, pelo menos, não se apressou. Mas, vendo que seu patrão passara pelo obstáculo e que ele próprio estava obrigado a seguir, prosseguiu lentamente. E quando chegou à ponte ele viu aquilo que fazia o cavalo do patrão relinchar e refugar, do que vocês ouvirão mais, adiante.

O cavalo do patrão, tendo ultrapassado a dificul­dade, não necessitou mais de esporas, mas voou como o vento, como acontece com cavalos amedrontados. E, como a chuva continuava, seu patrão que, por todos os motivos, queria chegar em casa, deixou-o ir, o que fez com que chegasse a sua casa e nela penetrasse antes que o empregado Gervásio o alcançasse.

O patrão, logo que chegou à luz, desmaiou, e tal fora o efeito do medo sobre ele que, quando com mui­ta dificuldade fizeram-no recobrar a consciência, con­tinuou a passar mal. E quando sua mulher, e uma irmã que morava em casa com ele, tão sucumbida à hipocondria quanto ele próprio, vieram saber o que se passara, ele contou-lhes uma história formal de que na ponte encontrara o diabo. Disse que se colocara na saída da ponte, na parte esquerda, no canto do muro. Acrescentou que estacara e contemplara a figura, e que pôde distintamente perceber que se tratava do diabo na forma de um urso. Deu outros detalhes tão exatos e singulares que não havia lugar para dúvidas de que vira uma aparição, e que essa aparição tomara a for­ma de um grande urso.

Gervásio chegou em casa pouco depois e, indo diretamente para o estábulo, como o devia fazer, para cuidar do cavalo do patrão e do seu próprio, contou ali a história à sua maneira para os outros empregados, e especialmente para dois ou três serventes de cava­lheiros vizinhos. E lhes disse que o patrão correra gran­de perigo de ser jogado por cima da muralha da ponte, porque o cavalo que montava teve medo de um asno que se postara no canto da muralha.

E foi, de fato, culpa minha - acrescentou Gervásio -, pois se tratava de um cavalo muito jovem, e nunca disse a meu patrão que seu defeito consiste em que não pode suportar a vista de um asno, e nunca se aproxima de semelhante animal se o pode.

Está você certo de que era um asno? - disse­ram os outros empregados, entreolhando-se como se estivessem assustados - está você certo, Gervásio?

Sim - disse Gervásio -, pois logo que meu pa­trão o ultrapassou, eu alcancei o bicho e bati-lhe com a minha vara. E começou a zurrar, como vocês podem imaginar. E então eu me apartei e o deixei.

Ora, Gervásio - disseram os empregados -, seu patrão pensa que se tratava do diabo, com tanta certeza como se lhe tivesse falado.

Lamento que meu patrão tenha sentido tanto medo - disse Gervásio -, mas estou certo que era um asno, e nada mais.

Mas a história se divulgara, e a sua primeira par­te espalhou-se pela cidade: que o Senhor... tinha visto o diabo e quase morrera de medo.

Então, circulou a história do empregado Gervásio e fez parecer que a aparição estranha e maravilhosa do Senhor... assumira as proporções normais de um asno, e que o diabo que vira na forma de um urso não era mais do que aquilo que os italianos chamam de um burrico. Isso fez com que muito se rissem os outros do patrão.

No entanto, o pobre Gervásio relutava em retra­tar-se, e, por esse motivo, perdeu o emprego. E o sá­bio Senhor... insiste até hoje que viu o diabo e que o reconheceu por seus grandes olhos, embora se saiba que um urso tem os olhos pequenos. Mas não é possí­vel persuadir qualquer pessoa sujeita a pavores de que não viu o diabo, se viu alguma coisa, e se está certa de que não sabe de que se trata.

 

                   O Fantasma Útil

Um cavalheiro residente no campo possuía uma velha casa que consistia nos restos de um antigo mos­teiro já demolido e resolveu pô-la abaixo, mas achou que o preço da obra era demasiado alto. Assim, ele imaginou um estratagema que era divulgar que a casa era mal-assombrada, e fez isso com tanta astúcia que todos passaram a acreditar na história. Pois ele arran­jou um sujeito que se vestisse de branco e passasse rapidamente pelo pátio interno da casa, exatamente no momento em que colocara outras pessoas na janela, de maneira que pudessem ver o que se passava no pátio.

As pessoas da janela comunicaram ao resto da casa que havia uma aparição. Então o dono da casa e a dona, assim como toda a família, foram chamados à janela, de onde, embora estivesse tão escuro que não pudessem distinguir de que se tratava, ainda assim vi­ram claramente uma coisa de branco percorrer o pátio e entrar por uma porta no velho edifício. Logo depois que a figura entrou, perceberam um lampejo de fogo no interior da casa, coisa que se combinara que o su­jeito faria com algum enxofre e outros materiais, de propósito, para que o fogo deixasse um cheiro de súlfur que não fosse exatamente o da pólvora.

Como o cavalheiro esperava, o seu ardil surtiu resultado. Algumas pessoas imaginosas, sabendo do que se passava, e desejosas de contemplar o espetá­culo, foram brindadas com oportunidade para ver a aparição e a viram, na realidade, em sua forma costu­meira de mostrar-se. Tornaram-se ordinárias suas andanças freqüentes, numa parte da casa que permi­tia ao espírito sair por uma porta num outro pátio e penetrar assim na casa de moradia. E, quando partia assim, dava uma grande batida com o pé e imediata­mente desaparecia.

Por causa disso, passou-se a dizer que havia di­nheiro escondido e o cavalheiro divulgou que ele cava­ria em busca do tesouro, e as pessoas em geral fica­ram ansiosas por que se começasse a escavar. No entanto, o cavalheiro parecia um tanto indiferente quan­to ao assunto. Contudo, via-se a aparição aparecer e desaparecer, andar de um lado para o outro, quase to­das as noites, e costumeiramente desvanecia-se num lampejo de fogo, o que, numa palavra, era coisa muito extraordinária.

Por fim, alguns dos cidadãos da aldeia, achando que o cavalheiro não se mexia, disseram que se ele o permitisse eles cavariam, porque havia com certeza dinheiro escondido ali. Afirmaram que se ele o con­sentisse eles buscariam o dinheiro e o encontrariam, ainda que tivessem de pôr abaixo toda a casa.

O cavalheiro respondeu que não era justo que eles, além de pôr a casa abaixo, ficassem com todo o dinheiro que encontrassem. Isso era excessivo; ele, no entanto, consentiria no seguinte: desde que transpor­tassem todo o material e o lixo que derrubassem, e empilhassem os tijolos e a madeira no pátio junto da casa, e se contentassem com a metade do que achas­sem, ele lhes daria permissão para cavar.

Bem, eles concordaram e puseram mãos à obra. O espírito ou aparição parecia indicar o lugar, e a pri­meira coisa que abateram foi um montão de chaminés reunidas - um duro trabalho! Mas o cavalheiro, dese­joso de encorajá-los, escondeu secretamente vinte e sete moedas de ouro velho num buraco, numa chaminé que só tinha uma entrada, que ele fechou com tijolos.

Quando encontraram esse dinheiro, foram per­feitamente iludidos e ficaram entusiasmados. Aconte­ceu que o cavalheiro se achava perto, mas não exata­mente no lugar onde ficava o dinheiro quando este foi encontrado. Sendo chamado, ele muito generosamente deu-lhes todas as moedas, mas com a condição de que não esperassem procedimento semelhante se dessem com mais ouro.

Numa palavra, esse primeiro bocado que come­ram fez com que os camponeses trabalhassem como cavalos e caíssem mais no laço que lhes fora armado. Mas o que mais os encorajou é que realmente encon­traram vários objetos de valor ao abater a casa, coisas essas que talvez estivessem escondidas desde que se alterara a sua primitiva condição de mosteiro. E tam­bém descobriram algum dinheiro, mas a esperança de achar mais de tal forma animou os camaradas que eles puseram toda a casa abaixo. Pode-se dizer que a ar­rancaram do chão com as raízes, pois cavaram nos próprios alicerces, que era o que desejava o cavalhei­ro e trabalho pelo qual teria pago uma grande soma de dinheiro.

Era tão forte a convicção, suscitada pelos pas­seios da aparição, de que encontrariam dinheiro que nada podia diminuir o afinco com que os aldeões tra­balhavam. Como se as almas das velhas monjas ou frades ou de quem quer que fosse que ali escondera qualquer tesouro, supondo que havia algum tesouro escondido, não conseguissem repouso, ou pudessem preocupar-se com que o dinheiro fosse achado, tantos anos depois, pois a construção tinha quase duzentos anos.

 

                     Os Presuntos e o Quaker

Escrevem-me, de Edimburgo, com a data de 17 de agosto, que poucos dias antes aconteceu a seguinte história com um Quaker e jardineiro, um certo William Miller, que vive perto de Holy Rood House, que se acredita ter posses no valor de duas mil libras esterli­nas, e cuja casa está bem armazenada com presuntos da Westfália. Três ou quatro gatunos vieram à casa dele e, vendo tais presuntos, foram possuídos de um forte desejo de apossar-se de alguns deles. Para tal objetivo, a fim de que pudessem cumprir o seu projeto, lograram, quando William e sua família já estavam na cama, subir ao telhado da casa, amarrar uma corda em torno de um entre eles e baixá-lo pela chaminé.

Este último atou cinco ou seis presuntos à cintu­ra e, colocando outros nos ombros, deu o sinal para que o içassem. Mas, quando os outros o puxaram, a corda se rompeu e ele caiu com ruído, tão preto quan­to um negro da Etiópia, e sentou-se na cadeira de bra­ços ao canto da lareira.

O Quaker, ouvindo barulho, julgou (como era natural) que havia ladrões na casa e deu ordens à empregada, Sara, que acendesse uma vela, coisa que ela fez. E ela, ao observar o camarada com presuntos e negro como o inferno sentado na cadeira de braços, saiu correndo, gritando:

- O demônio! O demônio! O demônio!

William, o Quaker, levantando-se da cama e ven­do a figura infernal na cadeira e fazendo caretas, dei­xou cair a vela. Por fim, reunindo a coragem de que dispunha, disse:

Amigo, quem é você? Pois, por sua aparência, você provém das sombras abaixo.

O esperto gatuno respondeu:

Meu nome é Moloque, e venho das regiões infernais, como Embaixador Extraordinário de meu patrão, o alto e poderoso príncipe Belzebu, com um presente destes presuntos para você, William Miller, sabendo que gosta de carne de porco.         

O Quaker, tremendo, respondeu:

Eu ordeno a você, em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, que vá embora! Pois não quero ter nada com você em minha casa.

Abriu a porta, e o malandro partiu com seu botim. No entanto, de manhã, William muito estranhou a falta de seus presuntos. Não há lugar no mundo em que se encontrem mais gatunos e batedores de carteira do que este, e exercem a arte nas igrejas e nas ruas tão bem que o regimento de Guardas de Londres, que nós consideramos mestres no ofício, não passam, perto deles, de rematados asnos.

           

                   O Adivinho na Feira de Bristol

Um mágico, distribuindo cartazes e gabando-se de suas extraordinárias habilidades, partiu seguindo sua profissão, como o fazem outros comerciantes, para a Feira de Bristol. E ali fez maravilhas, revelou o futuro, calculou datas de nascimento, examinou as mãos de moças, olhou-as nos olhos, disse-lhes coisas grossas para que enrubescessem. E então, calculando pelo colorido das faces delas como é que as coisas anda­vam, para o que usava também de milhares de per­guntas astuciosas, compreendia-lhes o caso, e conta­va depois como uma grande descoberta o que elas lhe haviam revelado, fornecendo-lhe tolamente pistas na­quele mesmo minuto.

Entre as outras mocinhas que lhe vieram sub­meter seus problemas, chegou uma com a seguinte louvável pergunta: se estou apaixonada, casarei ou não com o homem? Era tão tímida que não podia pronun­ciar a questão, ela própria, mas a trouxe por escrito. E, em vez de formular a pergunta como está acima, ela escrevera: se for cortejada.

O doutor (porque todos tais profissionais são doutores) olhou o papel, e, vendo que a caligrafia era de mulher, perguntou:

- É sua própria caligrafia, menina. Suponho que não confiaria em mais ninguém para escrever isso?

Ela fez uma reverência e respondeu afirmativa­mente.

Então, ele leu:

Se apaixonado, o homem casará comigo ou não?

A menina ficou vermelha e disse:

Não é assim, o senhor não leu direito.

Bem, mocinha - disse ele -, eu lerei direito pouco a pouco. Chegue perto, meu amor. Tire a luva. Deixe-me ver sua mão.

Tomou-lhe a mão, olhou-lhe a palma, e excla­mou:

Muito bem, está tudo certo aqui.

Tomou-lhe o pulso.

Ah! - exclamou, com um estremecimento - é assim? Bem, venha, criança, sente-se na cadeira. Eu lhe contarei uma história.

Assim, a menina, depois de umas poucas ceri­mônias e fracas tentativas para recusar, sentou-se, e o doutor deu início à sua história.

Havia - disse ele - uma jovem, uma moça muito esperta, como você é, minha querida (e neste ponto ele tomou-lhe novamente o pulso), que veio a mim faz dias, com a mesma pergunta. E, depois que eu conversei um pouco com ela, e tomando-lhe o pulso como o faço com o seu, minha querida - e tomou-lhe ainda outra vez o pulso e ela estremeceu. - Ah! - ex­clamou - então é assim! - E então prosseguiu: - Eu, com a ajuda de minha arte, que é a melhor vereda para a descoberta da verdade oculta, e pelo comércio com seres invisíveis que me informam de tudo a ser conhecido, e para o serviço dos que vêm buscar assistên­cia de meu sublime gênio, digo, mediante o meu julga­mento infalível, descobri que a pobre moça escondera de mim uma coisa que não deveria ter escondido.

Pois, fornecendo-me uma versão falsa de seu caso, como poderia eu responder retamente? Não é verdade que eu, que sou auxiliado pelos bons espíritos, os habitantes do mundo superior, não devo ser enga­nado?

Assim, eu lhe disse: "Meu amor, você me ocul­tou a parte mais importante do caso. Não há, na per­gunta, alguma coisa mais do que você reconheceu?" Ela, de princípio, não me deu resposta, até que eu, sen­do iluminado pelo brilhante espírito da quinta região, Alahamed Irvichá, e todas as luzes auxiliares da at­mosfera alta e sublime... (neste ponto o doutor recitou um grande número de palavras gregas que quase aterrorizaram a pobre moça, que ele, todo esse tempo, se­gurava pela mão ou pelo pulso) eu - disse ele - que não podia ser enganado, disse-lhe em palavras fran­cas: "O que você me escondeu é que está esperando criança". A essas palavras - continuou o mágico -, a pobre e culpada moça, nada tendo a dizer, e não po­dendo negar o que viu que era revelado pela minha inteligência que nunca falha, confessou-me que eu dissera a verdade. E eu, compadecido de suas circuns­tâncias (pois fora iludida), prometi-lhe minha poderosa assistência para obrigar o malandro a casar-se com ela, coisa que agora está felizmente terminada, o que traz a ela grande satisfação.

Todo o tempo em que contava essa história, ele a segurava pelo pulso e lhe olhava com freqüência o rosto.

Com a mão, ele discerniu um movimento pouco comum e súbita desordem em seu pulso, ocasionado pelo fato de que a história foi muito bem contada, e bem representado o comportamento da moça. Olhan­do-lhe a face, ele viu que, momento a momento, ela enrubescia ou empalidecia. E, quando ele disse que era informado de tudo pelos espíritos superiores do mundo invisível, viu que ela caía na maior das confu­sões.

Agora, minha querida - disse o doutor, levantando-a pela mão da cadeira onde estava sentada -, permita-me considerá-la um pouco melhor.

Levou-a até a janela, e carinhosamente ergueu- lhe uma das pálpebras. Pronunciou duas exclamações e disse:

Ai, tudo bem.

A moça todo esse tempo enrubescia ou ficava pálida. Um pouco de feitiçaria revelaria ao doutor tudo o que ele queria saber.

Agora, minha querida - disse ele à menina -, seria bom que você fosse o bastante franca para me deixar conhecer todo o seu caso, se confiar em mim; eu guardo tão bem um segredo quanto a morte. Você não precisa preocupar-se, porque conhecer fatos ocul­tos é minha profissão. Há príncipes que me confiam seus segredos, e sou conselheiro dos conselheiros. E, se eu traísse alguém, seria uma dupla ofensa; nem os espíritos invisíveis me comunicariam o segredo dos negócios íntimos das pessoas, se não me julgassem digno de fé. Portanto, pode confiar em mim, com a maior segurança, menina. Nunca divulgarei qualquer coisa que me revelar.

A moça manteve-se muda como um peixe e não lhe disse palavra, mas ficou tão vermelha como os corais de um peru, quando se zanga.

Vamos, querida - disse ele -, talvez você não consiga expressar-se livremente, o que me faz não pressioná-la mais. Mas sente-se até que eu volte a consultar os espíritos, os quais, como eu lhe disse, es­tão sempre prontos a vir em auxílio da inocência ofen­dida, e que não deixarão de prestar-me completas in­formações a respeito de seu caso e de dar-me orienta­ções para o seu bem. Assim, não necessito de que me faça qualquer confissão de seu caso. Eu serei capaz, em alguns momentos, de contar-lhe o caso diretamen­te, sem a sua confissão. Assim, por favor, espere sen­tada por uns dois ou três minutos e eu voltarei a você.

Tendo dito isso, ele fez menção de sair, ao ver que a moça começou a chorar com veemência. E o doutor, muito esperto para não se aproveitar dessa circunstância, e certo de que atingira o alvo, parou e voltou até onde ela estava.

Bem, minha querida - disse -, eu vejo o que se passa, e já tinha em parte informação disso antes, como você pode facilmente perceber. Mas vamos, minha criança, vejamos. Que se pode fazer por você?

Ela continuava a chorar, mas quando ele per­guntou "que se pode fazer?" ela pronunciou alguma coisa, mas não a podia dizer com clareza:

Que Tomás quisesse... - e parou.

Eu compreendo você, menina - exclamou ele -, gostaria que eu obrigasse Tomás a casar-se com você, não é isso?

Sim - respondeu a moça, e choramingou lasti­mosamente.

Bem - disse o doutor -, mas há quanto tempo você espera criança? Quero saber disso, e então po­derei dizer se realizarei ou não o seu desejo.

Dizendo isso, passou-lhe a mão levemente sobre o ventre.

Não creio que esteja esperando faz muito tempo.

Cerca de quatro meses - respondeu a menina.

Bem, mocinha - disse ele -, volte aqui ama­nhã de tarde, e eu lhe direi o que resolveram a respeito de seu caso os espíritos que me amparam em minha arte infalível.

Assim, tomando uma coroa das mãos da pobre moça por deixar que ela própria revelasse a verdade, e fortalecendo sua reputação de mágico e homem de artes eminente, ele a fez partir, acrescentando que, se ele lograsse obrigar Tomás a com ela casar-se, ele, o mágico, esperaria um sinal de gratidão mais valioso.

Numa palavra, ele anotou o nome de Tomás e onde vivia e achou jeito de influir de tal forma em To­más que este veio vê-lo, dentro de dois ou três dias, para livrar-se de um fantasma que o perseguia. O caso passou-se da seguinte maneira: o doutor possuía um ajudante que o acompanhava em seu comércio. Era um jovem sutil, de língua insinuante, pau-para-toda-obra. Em determinado lugar, era um malabarista, em outro um dançarino; um dia representava o papel de feiticeiro; em outro momento, representava o de fan­tasma ou de aparição, e em outro ainda o de demônio ou de espírito. E assim era capaz de assumir todas as formas e atitudes que pudessem ser desejadas.

O doutor, tendo sabido pela moça o lugar onde Tomás morava, e apurando, com satisfação, que vivia numa taverna não muito distante, sendo empregado de um comerciante que, não dispondo de lugar para alojá-lo em casa, pagava-lhe um quarto na cervejaria, tendo, portanto, encontrado esse ponto para dar partida a suas artimanhas, enviou seu assistente para instalar-se na mesma casa.

Tal camarada achou jeito de tal forma entrar na intimidade de Tomás que sempre lhe sabia o destino e com que comissão ou negócio. E foi muito feliz para ele saber que, por primeira comissão, Tomás iria a uma aldeia a cerca de uma milha da cidade, e à tardinha.

Quando Tomás seguia para a aldeia, o malandro, muito sutil, meteu-se atrás de uma parede no caminho, e com um tom de voz oco e assustador chamou-o pelo nome três vezes; depois, entrou por um campo de milho, onde, mesmo que Tomás suspeitasse ali encontrá-lo, não o poderia descobrir. E, saindo do cam­po de milho, correu por outro caminho e colocou-se num lugar por onde Tomás deveria passar, e, como estivesse regressando à cidade, deu com Tomás cara a cara, como se diz, como se um estivesse vindo pela estrada e o outro indo.

Cumprimentaram-se, como de costume, e come­çaram a conversar sobre a questão da voz que Tomás havia ouvido.

Jorge - disse Tomás -, fico muito contente de vê-lo. Gostaria que você fosse comigo até aquela aldeia. Ficaria muito grato a você pela companhia.

Estou com muita pressa - respondeu Jorge. - Não posso seguir agora.

Faça-me esse favor, pois estou terrivelmente amedrontado.

Amedrontado? - perguntou Jorge. - Por quê?

Quando eu vinha por aquela parede de pedra ali, ao pé da colina - disse Tomás -, ouvi uma voz chamar-me três vezes pelo nome, muito alto.

Que significará isso? - disse Jorge. - Segura­mente, havia alguém atrás da parede que conhecia você. Por que isso o amedronta?

Não, não, não vinha de trás da parede. Era, antes, do outro lado da estrada - respondeu Tomás. - Mas a voz provinha do alto. Estou certo de que deve ser algum espírito.

Bom, se vinha do alto, pode significar alguma coisa. Tais vozes são coisas tristes. Meu patrão dir-lhe-ia exatamente o que isso quer dizer.

Assim o dizem - respondeu Tomás. - Seu pa­trão diz às pessoas tudo sobre tais coisas, mas será que você mesmo não pode dizer alguma coisa a res­peito? Por favor, faça-me um pouco companhia.

Bem - disse Jorge. - Como você está tão preocupado, seguirei a seu lado até que você esteja em segurança na próxima aldeia, mas então terei de correr para casa, pois a noite está caindo e meu patrão pode necessitar de mim.

Assim, em resumo, Jorge seguiu com Tomás, coisa que o primeiro sempre desejara.

Mas, Jorge - disse Tomás -, que pode signifi­car essa voz?

Quantas vezes ela o chamou? - perguntou Jorge.

Três vezes - respondeu Tomás.

E era muito alta e clara? - perguntou Jorge. - Está você certo de que não se enganou? Pois muitas vezes as pessoas imaginam ouvir vozes, quando não há voz nenhuma.

Pode ser - respondeu Tomás -, mas eu não sou tão vítima assim de minha imaginação. Estou certo de que ouvi a voz três vezes. Chamou pelo meu nome e sobrenome, primeiro Tomás, e então Tomás Saunaers e novamente Tomás Saunders. Era certamente a voz de um demônio. Era dura e oca como o demônio.

Devo confessar que não gosto disso - excla­mou Jorge. - Parece significar a morte quando as pes­soas são assim chamadas, e a morte pode vir em três dias, três semanas, três meses ou três anos.

Você não pode dizer qual o tempo exato? - perguntou Tomás.

Não, realmente - respondeu Jorge -, eu não posso ir tão longe. Se meu patrão tomasse conheci­mento do caso, ele o poderia dizer com precisão. Mas ouso dizer que se trata de morte, ou de alguma coisa de muito ruim.

Não haviam prosseguido muito depois disso, quando Jorge, observando um lugar conveniente, deu um pequeno salto e parou, dando a impressão de que via alguma coisa.

Pare um pouco - disse ele a Tomás.

Que houve? - perguntou Tomás.

Que houve? - disse Jorge. - Você deve saber muito bem o que houve. Você cometeu um assassina­to, Tomás? Você matou alguém?

Se eu matei alguém? Deus tenha piedade de mim! - respondeu Tomás. - Que quer você dizer?

Será que você não vê nada? - perguntou Jor­ge. - Você não vê nada ali? - Apontou para uma gran­de árvore na estrada por que seguiam.

Não, não vejo nada - respondeu Tomás. - Não me amedronte. Você sabe, Jorge, já estou muito ate­morizado.

Não - disse Jorge. - Não o quero atemorizar. Mas você ficaria extremamente atemorizado se visse. Fico contente de que você não veja nada.

Mas que é? - perguntou Tomás. - Querido Jorge, diga-me! É o demônio?

Não, não é o demônio - respondeu Jorge. - Mas é um espírito. E seguramente um fantasma. Foi isso que me fez perguntar se você havia matado alguém.

Bem, eu vou morrer - respondeu Tomás. - Eu já estou morto de medo. Por que você vê o fantasma e eu não o vejo?

Há motivo para isso - disse Jorge. - Meu pa­trão dotou-me com uma visão particular que me per­mite ver aparições, quando outros não as conseguem ver. E parte de nossa profissão. Mas você a verá em poucos momentos, porque ela chegará mais perto. Já o posso prever.

Que farei? Será que ela falará comigo?

Ainda não sei - respondeu Jorge. - Pode ser que não. Já lhe direi.

Continuaram a progredir todo esse tempo, e co­meçaram a muito se aproximar da aldeia, quando Jor­ge disse:

Não sei o que pensar disso, Tomás. O fantas­ma ameaça e faz sinais como se quisesse aproximar- se de você e golpeá-lo.

Golpear-me! - disse Tomás. - Então, ele cer­tamente me matará!

Não, não, eles nunca matam. Além disso, vejo que você está com tanto medo que procurarei falar com ele e evitar que se mostre. Se meu patrão esti­vesse aqui, ele o mandaria embora com uma palavra.

Isso dizendo, Jorge avançou três passos, man­dou que Tomás ficasse imóvel, traçou um círculo no chão e colocou Tomás no interior.

Fique aí - disse - e estará seguro. E não tenha medo. Eu verei o que posso fazer por você.

Tomás permaneceu imóvel, como lhe haviam or­denado, mas tremia, na maior confusão. E Jorge saiu um pouco do caminho e passou a falar alto, mas de maneira que Tomás só podia ouvir a voz, não podia com­preender as palavras. E Jorge fez um grande número de movimentos, traçou cruzes no ar; demorou nisso bastante tempo, antes de voltar até onde estava Tomás.

Bem, Tomás - disse ele -, acho que o libertei, por essa vez, mas há alguma coisa. Essa aparição amea­ça você estranhamente. Creio que ela voltará.

Mas ela foi embora? - perguntou Tomás.

Fique quieto um momento - disse Jorge. - Penso que está indo embora.

Assim, Jorge e Tomás ficaram quietos por mo­mentos.

Sim, ali - disse Jorge -, está indo por aquele caminho (apontando para o norte). E está indo pelo ar. Vamos, prossigamos.

Assim, seguiram até a aldeia, e Jorge disse a Tomás que tinha de deixá-lo e seguir para casa com toda a possível velocidade.

Querido Jorge! - pediu Tomás. - Não me deixe! Eu não teria coragem de regressar na noite escura, nem que me desse mil libras.

Não me é possível permanecer - respondeu Jorge. - Se você está com tanto medo, o melhor que tem a fazer é passar aqui a noite e voltar à cidade pela manhã.

Também não ouso fazer isso - disse Tomás. - Meu patrão ficará com tanta raiva que perderei o lugar.

Então, você deve encontrar na aldeia alguém que caminhe em sua companhia. Pois, na verdade, eu não posso ficar.

Assim, Jorge foi embora, deixou Tomás e pas­sou a correr, como se fosse forçado a regressar com a maior rapidez possível.

Quando Jorge se tinha afastado e estava fora da vista, ele alterou sua aparência como sabia muito bem fazer por causa de sua perícia em papéis teatrais e danças, coisas que eram parte de sua profissão. Ten­do uma camisola de linho no bolso de seu casaco, vestiu-se como um fantasma ou uma aparição. Não se revestiu de uma mortalha, como um cadáver, mas de branco até os pés e com uma touca de mulher na ca­beça. E, com essa fantasia, colocou-se por onde ele sabia que Tomás devia passar. Antes disso, no entan­to, recobrindo a sua roupa com um grande casaco, botou-se na aldeia defronte da porta por que entrara Tomás, para que o pudesse ver ao sair e ver para onde ia, de forma a não o perder e também para saber quem e quantos viriam com o mesmo Tomás.

Logo deu com Tomás, pois este emergiu da casa, com dois camaradas, passada cerca de uma hora. Jor­ge seguiu-os à distância até que os viu numa pequena alameda que levava até a estrada, e verificou que não podiam tomar outro caminho. Isso feito, ele correu por outro lado através dos campos e chegou à estrada an­tes que eles o fizessem.

A primeira coisa que fez foi entrar num pequeno bosque, onde, deitando-se no chão e longe das vistas, ele começou a assobiar como uma serpente, de ma­neira muito assustadora. Isso produziu efeito imediato, pois atemorizou-os a todos, e ele ouviu um dentre eles dizer que era o diabo e que este estava atrás de To­más. E o outro camarada disse a mesma coisa, acres­centando que não prosseguiria. Foi isso bastante para

Jorge, pois logo compreendeu que Tomás não trouxe­ra lampiões. Mexendo-se assim e pondo-se num lugar que ficava um pouco atrás deles para que não pudes­sem fugir de volta à aldeia, ele mudou de tática e pas­sou a rosnar como um cachorro grande, e isso nova­mente os atemorizou. Tendo feito esse início, ele inter­rompeu o barulho, foi para a estrada e parou-lhe bem no meio, no lugar em que a alameda dava numa char­neca, o que lhe permitia ser visto todo de branco, antes que saíssem da alameda.

A noite não estava muito escura, mas não havia lua. Viam-se algumas estrelas, não muitas. Quando chegaram ao fim da alameda, viram o espectro. E logo que o viram todos os três deram para correr, gritando, cheios de terror. Jorge alcançara agora seu objetivo, pois não queria levar a coisa mais adiante. Assim, manteve-se em seu lugar, até que, pelo ruído, ele compreendeu que eles tinham atravessado a estrada mais além e haviam desaparecido de vista. Então, retirou a camisola e apressou-se até a casa onde residia, onde, quando Tomás chegou, encontrou Jorge muito calma­mente sentado à porta, fumando seu cachimbo.

Ele saudou Tomás, mas não disse mais nada, não reparando em qualquer coisa. No entanto, Tomás su­biu logo ao andar de cima e se atirou na cama. Na manhã seguinte, Tomás estava muito doente.

Jorge, nesse meio tempo, foi ver o patrão e rela­tou-lhe tudo o que se passara. O mágico, vendo que suas artimanhas haviam andado como esperava, deu mais instruções a Jorge, as quais se resumiam em per­seguir o pobre Tomás dia e noite e não lhe dar quartel até obrigá-lo a vir pedir socorro a ele, o mágico, o que não demorou muito.

Eu deveria ter observado que o doutor, ou esper­talhão, verificando que seria bem-sucedido em seus projetos com Tomás, mandou chamar a pobre moça e lhe disse que havia recorrido ao sumo de sua arte e perícia para ajudá-la.

E, por minha palavra - acrescentou -, tomei um cuidado paternal com você. E coloquei de seu lado tantos dos bons espíritos das regiões superiores que eles (sempre prontos a executar atos de beneficência e de bondade para com mortais aflitos) asseguraram- me de que Tomás casará com você. Ele virá e lhe fará a corte, como se não houvesse obtido essa vantagem injusta sobre você, ou não terá mais repouso nesta vida. Não terá mais repouso até que volte a cortejá-la.

A pobre moça sorriu e ficou extremamente sa­tisfeita, como é fácil supor, e, colocando a mão no bol­so, deu ao doutor, meia guinéa pelas boas novas. O doutor pegou o dinheiro, mas disse-lhe, modestamen­te, que, se ele lhe prestasse um serviço tão importante, ela deveria levar em consideração etc... Ela compreen­deu o que ele queria, e disse-lhe que não possuía uma grande soma de dinheiro, mas tinha uma tia rica e ou­tros bons amigos. E que Tomás não tinha necessidade de agir para com ela como fizera e que, se não fosse por aquilo que nós sabemos, ela teria desprezado ca­sar-se com ele. Mas...

Eu compreendo você, criança - disse o doutor. - Agora, não apenas você tem de aceitá-lo, mas deve ficar contente se ele a aceitar.

Sim - respondeu ela.

Bem - disse o doutor -, e sua tia conhece esta história infeliz?

Ela conhece - respondeu a rapariga - e pediu- me que diga ao senhor que lhe fará um bonito presente, se o senhor puder arranjar o assunto.

Bem, menina - disse o doutor -, diga à sua tia que eu procurarei levar tudo a cabo, se ela cumprir o que promete.

Ela o fará, senhor. Eu lhe trarei o presente - disse ela e indicou a soma de vinte libras.

O doutor, com uma modéstia pouco comum, não ambicionando mais, disse-lhe generosamente que, se falhasse, não queria receber mais do que o que havia já recebido.

Essas negociações duraram dois ou três dias, e, entrementes, Jorge assombrou Tomás em várias oca­siões. Este dificilmente podia sair de casa de noite, sem que Jorge se mostrasse, algumas vezes todo de branco, algumas vezes todo de preto. Até que, por fim, Tomás veio vê-lo num fim de tarde.

Jorge - disse ele -, querido Jorge, se você não me ajudar, eu não sei o que fazer, pois a perseguição a que estou submetido ultrapassa o que posso suportar. Esse demônio, se é o demônio, de tal forma me inco­moda que não me dá trégua. A noite passada, ele me chamou novamente, por três vezes, com a mesma voz, e ainda três vezes, exatamente como o fez na parede que fica na estrada.

O que ocorrera consistia simplesmente em que Jorge, com esperteza, apoiara uma escada, durante a noite, na janela do pobre coitado, e clamara por ele, com a mesma voz oca e fatal que usara antes.

Bem - disse Jorge -, muito lastimo, Tomás. Em seu lugar, eu mandaria chamar um padre e me prepararia para o outro mundo, pois duvido que você permaneça muito tempo neste mundo.

Mas você não me disse - perguntou Tomás - que seu patrão poderia ajudar-me?

De fato - respondeu Jorge eu o disse, e acredito que ele o poderia, se você não deixasse as coisas irem muito longe e se você não houvesse feito algo de mau. Pois os espíritos do mundo invisível, que o meu patrão conhece e com os quais conversa, são todos bons espíritos, Tomás, e eles nada farão por você, desde que você tenha cometido assassinato ou roubo, ou alguma coisa de semelhante. E se, portanto, for esse o seu caso, não me deixe levá-lo a meu patrão, pois não o poderá ele ajudar.

Tomás arregalou os olhos como se estivesse en­feitiçado.

Deus tenha piedade de mim! Que quer você dizer, irmão Jorge? Estou tão inocente como um recém-nascido. Nunca fiz coisa semelhante em toda a minha vida.

Bem, Tomás - disse Jorge -, se você está fa­lando a verdade, levarei seu caso ao conhecimento de meu patrão. E se você vier ao nosso escritório ama­nhã, pela manhã, receberá uma resposta.

Bom Jorge - respondeu Tomás -, não o adie até amanhã. Que farei eu nesse meio tempo? Jorge: o demônio me matará esta noite.

Que quer você que eu faça? - perguntou Jorge. - Irei imediatamente, se você quiser, mas duvido que esteja em casa.

No entanto, cedendo às pressões de Tomás, fo­ram os dois juntos procurar o doutor, que era o que, no fundo, Jorge queria. Quando chegaram ao mágico, Jorge apresentou o jovem e contou-lhe toda a história em traços largos, implorando-lhe a alta e superior as­sistência para o pobre aflito rapaz, perseguido e ater­rorizado diariamente ao ponto de estar quase perdendo ojuízo.

Mas - respondeu o doutor (tal como Jorge, por suas instruções, fizera antes) - temo que este ho­mem tenha cometido algum crime flagrante, o que dá direito aos maus espíritos de persegui-lo. Venha cá, amigo. Deixe-me ver sua mão. Você não cometeu as­sassinato ou traição?

Não, senhor, nunca em minha vida.

Vamos, tire a luva - ordenou-lhe o doutor.

Aqui, senhor - disse Tomás -, pode ver que não estou com a mão queimada.

Jovem, meu jovem - disse o doutor -, não é isso o que eu procuro. - Examinou-lhe a palma. - Bem - acrescentou -, está tudo bem aqui. Mas cometeu você roubo ou crime capital? Não me venha pedir aju­da se for culpado de quaisquer dos crimes que condu­zem à forca.

Então o doutor tomou-lhe o pulso e encarou-o de frente.

Há aqui alguma desordem, alguma culpa. Pen­se bem, jovem, fique certo, se você roubou alguma coisa ou cometeu qualquer crime, os bons espíritos, habitantes do mundo invisível, a cuja sublime influên­cia eu recorrerei em sua ajuda e para que o livrem do poder dos espíritos maus que o perseguem, nada farão em socorro de você se houver cometido um crime. E mais do que isso: eles certamente me darão notícia do caso, logo que lhes fizer a súplica em favor de você, e o contarão como motivo para que não o aju­dem. Assim, seria melhor que você me contasse tudo imediatamente.

Na verdade, senhor - respondeu Tomás nunca fiz qualquer coisa semelhante em toda a minha vida.

Você já causou algum prejuízo a alguma pes­soa, coisa pela qual você está sendo assim perse­guido?

Não, na verdade, senhor - respondeu Tomás -, eu não.

Bem, amigo - disse o doutor -, só pergunto para ajudá-lo, pois não me importa o que você tenha feito, nem me interessa sabê-lo. Mas deixe-me fazer- lhe mais uma pergunta e então poderei defendê-lo como uma pessoa muito inocente. Está você disposto a re­parar um prejuízo que tenha feito a qualquer pessoa?

Sim, senhor, de todo o coração - disse Tomás. E - acrescentou - nunca causei prejuízo, em toda a minha vida.

Todo esse tempo o doutor o segurava pela mão, de quando em quando tomando-lhe o pulso.

Veja bem, amigo, há aqui alguma desordem. Sua consciência vacila, e está um pouco perturbada. Não me obrigue a fazer súplicas inúteis, porque, se o fizer, não somente não resultará nada de bom para você, mas esses espíritos maus o farão em pedaços quando o souberem, como o saberão, que eu supliquei em favor de você. Vamos, farei apenas mais uma per­gunta. Não houve algum negócio amoroso entre você e uma moça, e ela teve o coração partido e morreu por você e agora se vinga disso e o persegue? Pois parece que você disse que a aparição usava uma touca de mulher.

Não, na verdade, senhor - respondeu Tomás -, nunca tive negócio de amor a não ser com uma moça, e ela está viva. Estou certo de que a vi por três vezes, desde que começaram essas aparições.

Nesse ponto, o doutor o segurou com força.

Bem, existe alguma coisa entre vocês? Ela ain­da é sua namorada?

Não, senhor - respondeu Tomás. - Nós aca­bamos.

Acabaram! - disse o doutor. - Que fez você? Não se deitou com ela, deitou? Mas, no entanto, To­más, tenho de ser justo: devo confessar que essa é uma questão delicada, o que me faz não insistir na res­posta. Espero que você não tenha causado prejuízo à moça. Se o tiver feito, diga que o reparará. Vamos, sente-se aí até que eu vá a meu estúdio, e, se você houver sido honesto, eu o ajudarei, não há dúvida. Mas, se você não tiver sido honesto, eu voltarei e lhe direi o que você escondeu, sem me dar ao trabalho de per­guntar a você.

Neste ponto, Tomás começou a esbugalhar os olhos e a parecer atemorizado.

Desculpe - disse ele -, mas devo eu confes­sar tudo?

Não, não, Tomás - respondeu o doutor -, não lhe peço que confesse coisa alguma. Voltarei em pou­cos momentos e lhe direi o que oculta, tão bem como se você o tivesse contado.

Sim, mas então, o senhor diz que, se eu não lhe contar tudo agora, então não obterei socorro, depois?

É verdade, Tomás - disse o doutor gravemen­te -, é o que digo. E, assim, se você tiver alguma coisa para me contar antes que eu vá até o estúdio, conte-ma. Mas não o obrigo a contar. Se tiver alguma coisa a dizer-me, diga-o; se nada tiver a dizer, declare-o.

Bem, nada, senhor, mas, a respeito da moça, um pouco.

Ora, foi justamente o que eu pensei quando tomei o seu pulso. Não cheguei quase a dizê-lo? Aposto que você deitou-se com a pobre menina e a deixou grávida. É esse o fato?

Temo que seja essa a verdade - respondeu Tomás -, mas foi só duas vezes que estive com ela.

Bem - disse o doutor -, você a seduziu, pare­ce-me, prometendo casar-se com ela, não é verdade?

Penso que o senhor sabe de tudo - disse To­más. - Na verdade, assim se passaram as coisas.

E então - acrescentou o doutor -, quando ve­rificou que a pobre moça estava grávida, você a desa­pontou, suponho.

Sim, senhor - disse Tomás -, não há jeito de esconder qualquer coisa do senhor.

Bem, Tomás - disse o doutor -, e que farei eu por você agora? Pois não há maneira de salvá-lo, a menos que você preste alguma satisfação à moça. Onde está ela? Você diz que ela está viva, parece.

Sim, graças a Deus, está viva - respondeu Tomás.

Bem, que faremos, Tomás? - perguntou o dou­tor. - Você casaria com ela? Você lhe prestaria essa satisfação?

Sim, claro, casarei com ela; e a mandarei cha­mar agora mesmo - respondeu Tomás.

Casar de noite! - exclamou o doutor. - Isso não serve, Tomás.

Ora, senhor - declarou Tomás -, eu me casa­rei novamente com ela à luz do dia.

Não, não, Tomás - disse o doutor -, nós não infringiremos a lei. Eu lhe direi o que faremos. Mande chamar a menina e que ela me conte a sua história e o que ela quer. Se ela se contentar com o casamento, você assinará uma promessa de que se casará com ela, amanhã, de manhã. E, para proteger você do de­mônio que o perseguiu, você dormirá esta noite aqui com meu outro empregado, e não darei resposta a qualquer espírito que tenha a ousadia de assombrar você em minha casa.

De todo o meu coração - respondeu Tomás -, se o senhor prometer-me que não serei mais perse­guido, depois do casamento.

Ora, Tomás - disse o doutor -, para garanti-lo, eu tirarei a sorte para você esta noite, e saberei se as vozes e os espectros deviam-se a ela ou não. E, se de fato a ela se deviam, eu lhe assegurarei que nunca mais ouvirá vozes ou verá espectros depois de se casar. E, se não se deviam, não terá a obrigação de casar-se. É uma proposta justa, Tomás.

Não, senhor, por favor - disse Tomás -, eu acho que devo casar-me. Essa é a verdade! E eu me casarei, quer eu me livre ou não de fantasmas, uma vez que o senhor diz que é justo fazê-lo. E, além disso, senhor - disse Tomás -, ela é uma moça boa e hones­ta, e também me ama, e será uma boa mulher. Eu a aceito, senhor, para o bem e para o mal.

Agora você fala de forma honesta - respon­deu o doutor. - Agora, eu gosto de você, Tomás. Garanto que o diabo não mais o perseguirá, se você se casar, mas você se comportou como um malandro para com ela, antes.

No todo, o doutor animou-o, o jovem sentiu-se mais à vontade, e mandaram chamar a moça. E, na manhã seguinte, casaram-se, e deram um grande jan­tar matrimonial perto da casa do doutor; assim, tudo se fez como o queria a moça e como o queria o mágico. Pois o doutor recebeu duas guinéas de Tomás, por libertá-lo do diabo (quem o teria feito mais barato?), e vinte dos amigos da esposa, e a dama que deu o dinheiro achou que o tinha gasto muito bem...

 

                                                                                Daniel Defoe  

 

                      

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