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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Convulsão / Robin Cook
Convulsão / Robin Cook

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Convulsão

                   

 

Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2001, foi um daqueles dias de Inverno surpreendentemente quentes que profetizam falsamente a chegada da Primavera aos habitantes da costa Atlântica. O sol esteve brilhante desde o Maine até Florida Keys, com uma variação de temperatura espantosamente inferior a seis graus centígrados. Seria um dia normal, feliz para a grande maioria das pessoas que viviam neste extenso litoral, embora para dois indivíduos em particular, este dia fosse o início de uma série de acontecimentos que fariam com que as suas vidas se cruzassem tragicamente.

 

13.35

Cambridge, Massachusetts

Daniel Lowell ergueu o olhar da mensagem telefónica cor-de-rosa, que segurava na mão. Duas coisas tornavam-na única: em primeiro lugar, a pessoa que telefonara era o Dr. Heinrich Wortheim, presidente do Departamento de Química de Harvard, dizendo que queria falar com o Dr. Lowell no seu gabinete, e, em segundo lugar, o pequeno quadrado ao lado da palavra URGENTE estava marcado com um grande x. O Dr. Wortheim comunicava sempre por carta e esperava uma carta em resposta. Como um dos mais importantes químicos do mundo inteiro, que ocupava a cátedra grandiosa e muito poderosa, era excentricamente napoleónico. Era raro misturar-se directamente com a gentalha que incluía Daniel, embora este fosse chefe de um departamento que estava sob a tutela de Wortheim.

 

Hei, Stephanie! chamou Daniel do outro lado do laboratório. Viste esta mensagem telefónica na minha secretária? É do imperador. Quer falar comigo no gabinete dele.

 

Stephanie levantou os olhos do microscópio electrónico de dissecação, onde estava a trabalhar e olhou de relance para ele.

 

Isso não me parece nada bom disse ela.

 

Não lhe disseste nada, pois não?

 

Como é que eu teria a oportunidade de lhe dizer alguma coisa? Só o vi duas vezes durante toda a minha tese de doutoramento... quando a defendi e quando ele me entregou o diploma.

 

Ele deve ter alguma ideia dos nossos planos reconheceu Daniel. Suponho que não será assim tão surpreendente, tendo em conta toda a gente que convidei para fazer parte do nosso conselho consultivo.

 

Vais?

 

Não perdia isto por nada deste mundo.

 

A distância que separava o laboratório do edifício onde se situavam os gabinetes administrativos do departamento, era curta. Daniel sabia que o esperava uma espécie de confronto, mas não importava. Na verdade, aguardava-o com ansiedade.

 

No momento em que Daniel apareceu, a secretária do departamento fez-lhe sinal para que entrasse directamente no santuário de Wortheim. Encontrou o idoso laureado com o Prémio Nobel sentado à sua secretária antiga. Com cabelos brancos e rosto magro, Wortheim parecia mais velho do que os seus setenta e dois anos. Mas a sua aparência não diminuía a personalidade dominadora, que irradiava dele como um campo magnético.

 

Por favor, sente-se, Dr. Lowell convidou Wortheim, observando o recém-chegado por cima dos seus óculos de leitura de aros metálicos. A sua voz tinha um toque de sotaque alemão, apesar de ter vivido nos Estados Unidos a maior parte da vida.

 

Daniel obedeceu. Sabia que lhe pairava no rosto um sorriso leve e despreocupado, que com certeza não passaria despercebido ao director do departamento. Embora Wortheim tivesse mais de setenta anos, as suas faculdades eram tão agudas como sempre e estavam atentas a qualquer desrespeito. E o facto de ser suposto fazer uma vénia a este dinossauro, era parte do motivo por que Daniel estava tão seguro da sua decisão em abandonar a vida académica. Wortheim era inteligente, e ganhara um Prémio Nobel, mas continuava centrado na química inorgânica sintética do século passado. A química orgânica sob a forma de proteínas e os seus respectivos genes era o presente e o futuro do ramo.

 

Foi Wortheim quem quebrou o silêncio, depois de os dois homens terem olhado um para o outro.

 

Pela sua expressão, presumo que os rumores são verdadeiros.

 

Não pode ser mais específico? replicou Daniel. Queria ter a certeza de que as suas suspeitas estavam correctas. Só planeara fazer um anúncio oficial dali a um mês.

 

Tem estado a formar um conselho científico consultivo disse Wortheim. Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro. Um conselho consultivo só pode significar uma coisacontinuou. Parou e olhou para Daniel.Está a planear apresentar o seu pedido de demissão, e já fundou ou está prestes a fundar uma empresa.

 

Declaro-me culpado afirmou Daniel. Não conseguiu evitar que o seu ligeiro sorriso se transformasse num sorriso aberto. O rosto de Wortheim ficara profundamente ruborizado. Indubitavelmente, Wortheim comparou a situação com o comportamento traiçoeiro de Benedict Arnold durante a Guerra Revolucionária Americana.

 

Comprometi-me publicamente quando o senhor foi contratado lançou-lhe Wortheim. Até mandámos construir o laboratório que exigiu.

 

Eu não vou levar o laboratório comigo retorquiu Daniel. Não podia acreditar que Wortheim estava a tentar fazê-lo sentir-se culpado.

 

A sua falta de respeito é de bradar aos céus.

 

Eu podia pedir desculpa, mas não estaria a ser sincero. Wortheim voltou para a secretária.

 

A sua saída vai deixar-me numa posição difícil perante o presidente da universidade.

 

Lamento que isso aconteça disse Daniel. E digo isto com toda a sinceridade. Mas este género de mistificação burocrática faz parte do motivo por que não vou sentir a falta da vida académica.

 

Que mais?

 

Estou cansado de sacrificar o meu tempo de investigação a ensinar.

 

O seu número de horas lectivas é um dos menos onerosos do departamento. Negociámos isso quando entrou para os quadros da universidade.

 

Mesmo assim, afasta-me da minha investigação. Mas esse também não é o problema principal. Eu quero colher os benefícios do que a minha criatividade produziu. Ganhar prémios e publicar artigos em revistas científicas não basta.

 

O doutor quer ser uma celebridade.

 

Suponho que é uma forma de ver a coisa. E o dinheiro também vai ser agradável. Por que não? Pessoas com metade da minha capacidade conseguiram-no.

 

Já leu Arrowsmith, de Sinclair Lewis?

 

Não tenho muito tempo para ler romances.

 

Talvez devesse arranjar tempo sugeriu Wortheim. É possível que o fizesse repensar esta decisão antes que ela seja irreversível.

 

Já pensei muito no assunto declarou Daniel. Acho que é a opção certa para mim.

 

Gostaria de conhecer a minha opinião?

 

Acho que sei qual é a sua opinião.

 

Penso que vai ser um desastre para nós dois, mas principalmente para si.

 

Obrigado pelo encorajamento disse Daniel. Levantou-se. Vemo-nos no campus depois saiu.

 

17.17

Washington D. C.

Obrigado a todos por terem vindodeclarou o senador Ashley Butler com o seu cordial e habitual sotaque sulista. Com um sorriso estampado no rosto pastoso, estendeu a mão a um grupo de homens e mulheres de expressões ansiosas que se levantaram de um salto no momento em que ele entrou na pequena sala de conferências do seu gabinete do Senado, juntamente com o seu assessor. Os visitantes estavam agrupados à volta da mesa central em carvalho. Eram representantes de uma pequena organização empresarial da capital do Estado que o senador representava, e tinham-se juntado para que houvesse uma diminuição dos impostos, ou talvez fosse por causa da redução dos seguros. O senador não se lembrava ao certo do que era, e não constava do seu plano como deveria constar. Tomou nota mentalmente para falar sobre o lapso com a sua chefe de gabinete.

 

Peço imensa desculpa pelo atraso continuou ele, depois de apertar energicamente a mão da última pessoa. Tenho aguardado este encontro com expectativa, e queria chegar mais cedo, mas tem sido um dia complicadíssimo - revirou os olhos para dar ênfase às palavras. Infelizmente, devido à hora e a outra reunião urgente, não posso ficar. Tenho imensa pena, mas aqui o Mike é óptimo.

 

O senador deu ao assessor encarregue de se encontrar com o grupo uma palmada no ombro, impelindo o jovem para a frente até as coxas deste estarem encostadas à mesa.


Mike é o melhor que tenho, e vai escutar os vossos problemas e depois informa-me de tudo. Tenho a certeza de que poderemos ajudar, e queremos ajudar.

 

O senador deu mais uma série de pequenas palmadas no ombro de Mike, ao mesmo tempo que lhe dirigia um sorriso de admiração, como um pai orgulhoso na licenciatura do filho.

 

Em coro, os visitantes agradeceram ao senador por tê-los recebido, especialmente tendo em conta o seu horário exigente. Sorrisos zelosos definiam cada um e todos os rostos. Se as pessoas ficaram desapontadas com a brevidade do encontro e com o facto de terem tido de esperar quase meia hora, não o mostraram de forma alguma.

 

O prazer foi meu declarou Ashley, efusivamente. Nós estamos aqui para vos servir.

 

Ashley voltou-se e preparou-se para sair. Ao chegar à porta, acenou. Os visitantes do seu Estado natal responderam da mesma forma.

 

Foi fácil murmurou Ashley para Carol Manning, a sua chefe de gabinete, que seguira o patrão desde a sala de conferências. Estava com receio de que eles me moessem o juízo com uma litania de histórias tristes e exigências absurdas.

 

Pareciam boas pessoas disse Carol vagamente.

 

Achas que Mike consegue tratar do assunto?

 

Não sei disse Carol. Não está aqui à tempo suficiente para eu ter uma ideia formada sobre ele.

 

Seguindo em frente, o senador percorreu o comprido corredor para o seu gabinete particular. Olhou rapidamente para o relógio. Eram cinco e vinte da tarde.

 

Presumo que te lembras onde é que me vais levar agora.

 

Claro declarou Carol. Vamos voltar ao gabinete do Dr. Whitman.

 

O senador lançou um olhar de censura na direcção de Carol enquanto levava o dedo indicador aos lábios.

 

Isso não é suposto ser do conhecimento público sussurrou ele, irritado.

 

Ao passar pela sua secretária, Dawn Shackelton, e sem lhe prestar a menor atenção, Ashley agarrou nos papéis que ela tinha na mão e entrou no seu gabinete particular. Os papéis incluíam uma agenda preliminar para o dia seguinte, juntamente com uma lista dos telefonemas recebidos durante o tempo que ele estivera no Capitólio para uma votação, e também a transcrição de uma entrevista de improviso com alguém da CNN, que o encurralara no átrio.

 

É melhor ir buscar o meu carro disse Carol, depois de olhar para o relógio.Temos de estar no consultório do médico às seis e meia, e não faço ideia de como estará o trânsito.

 

Boa ideia disse Ashley, passando para o outro lado da sua secretária, enquanto dava uma vista de olhos à lista de telefonemas.

 

Quer que o apanhe na esquina da C com a Second?

 

Ashley limitou-se a resmungar uma resposta afirmativa. Havia uma série de telefonemas importantes, provenientes dos directores de várias das suas muitas comissões de acção política. Na sua opinião, a angariação de fundos era a parte mais importante do seu trabalho, especialmente porque teria de financiar uma campanha de reeleição de Novembro a um ano. Ouviu a porta fechar-se atrás de Carol. Pela primeira vez em todo o dia, o silêncio desceu sobre ele. Ergueu os olhos. Igualmente pela primeira vez em todo o dia, estava sozinho.

 

Instantaneamente, a ansiedade que sentira ao acordar naquela manhã espalhou-se como um incêndio incontrolável. Sentiu-a desde a boca do estômago até às pontas dos dedos. Nunca gostara de ir ao médico. Em criança, era o simples medo de uma injecção ou de alguma outra experiência dolorosa ou embaraçosa. Mas à medida que fora ficando mais velho, o medo mudara e tornara-se mais poderoso e perturbador. Ir ao médico tornara-se um aviso nada bem-vindo da sua mortalidade e do facto de que já não era uma criança. Agora, era como se o simples acto de ir ao médico aumentasse as suas hipóteses de ter de enfrentar um diagnóstico terrível como cancro ou, pior ainda, ALS também conhecida por Doença de Lou Gherig.

 

Alguns anos antes, fora diagnosticada ALS a um dos irmãos de Ashley depois de este ter revelado alguns sintomas neurológicos vagos. Após o diagnóstico, o homem que possuía um corpo forte e atlético e uma figura muito mais saudável do que Ashley ficara rapidamente entrevado, e morrera passados poucos meses. Os médicos não tinham podido fazer nada.

 

Ashley pousou distraidamente os papéis em cima da secretária e olhou para o ar. Também ele começara a sentir alguns sintomas neurológicos vagos um mês antes. A princípio, limitara-se a menosprezá-los, atribuindo o seu aparecimento à tensão do trabalho, ou ao hábito de beber demasiado café, ou a não ter tido uma boa noite de sono. Os sintomas intensificavam-se e enfraqueciam, mas nunca desapareceram completamente. Na verdade, lentamente, pareceram piorar. O mais perturbador era o tremor intermitente da mão esquerda. Em algumas ocasiões, até precisara de a segurar com a mão direita para evitar que as pessoas reparassem. E depois era a sensação de areia nos olhos, que os fazia encherem-se de lágrimas de uma forma embaraçosa. E, por fim, uma sensação ocasional de rigidez que podia tornar o acto de se levantar e começar a andar, um esforço mental e físico.

 

Uma semana atrás, o problema levara-o finalmente a ir ao médico, apesar da relutância supersticiosa que sentia em relação a esta classe. Não foi a Walter Reed nem ao Centro Médico Naval Nacional em Bethesda. Tinha demasiado receio de que os órgãos de informação descobrissem que havia algum problema. Ashley não precisava desse género de publicidade. Após quase trinta anos no Senado, tornara-se muito poderoso e uma força a ter em conta, apesar da reputação de obstrucionista que contrariava regularmente os ditames do seu partido. Na verdade, com a sua militância e consistência em diversos assuntos fundamentalistas e populistas como o direito dos Estados e a oração nas escolas, e a sua acção de oposição ao aborto, conseguira gorar directivas partidárias enquanto desenvolvia um eleitorado nacional cada vez maior. A reeleição para o Senado não constituiria um problema com aquela máquina política bem oleada. O objectivo de Ashley era candidatar-se à Casa Branca em 2004. A última coisa que desejava era alguém a especular ou a lançar rumores sobre a sua saúde.

 

Depois de ter ultrapassado a relutância em procurar uma opinião médica, Ashley consultou um clínico geral particular na Virgínia, o qual já consultara no passado e em cuja discrição podia confiar. O clínico geral, por sua vez, recomendou-lhe de imediato o Dr. Whitman, um neurologista.

 

O Dr. Whitman fora reservado, embora ao ouvir os receios específicos de Ashley tivesse dito que duvidava que o problema estivesse relacionado com a ALS. Depois de o examinar minuciosamente e de o mandar fazer alguns exames, incluindo uma ressonância magnética, o Dr. Whitman não fizera um diagnóstico mas dera-lhe uma receita, para ver se lhe minorava os sintomas. De seguida, marcara uma consulta a Ashley para dali a uma semana, quando já teria os resultados de todos os exames. Dissera que pensava poder fazer um diagnóstico nessa altura. Era esta consulta que Ashley ia ter agora.

 

Ashley passou uma mão pela testa. Formara-se aí algum suor, apesar de a sala estar fresca. Sentia a pulsação acelerada. E se, afinal de contas, tivesse ALS? E se tivesse um tumor cerebral? Quando era senador estadual no começo da década de 1970, um dos seus colegas tivera um tumor cerebral. Ashley tentou em vão recordar quais tinham sido os sintomas do homem, mas não conseguiu. Só conseguia lembrar-se de ver o homem a tornar-se uma sombra do que fora, antes de morrer.

 

A porta da antessala chiou ao ser aberta. A cabeça cuidadosamente penteada de Dawn espreitou.

 

Carol acabou de ligar pelo telemóvel. Vai estar no lugar que combinaram dentro de cinco minutos.

 

Ashley acenou afirmativamente e levantou-se. Felizmente, não sentiu qualquer dificuldade. O facto de a medicação que o Dr. Whitman lhe dera ter, aparentemente, operado milagres era a única coisa boa em tudo aquilo. Os sintomas preocupantes tinham desaparecido por completo, com excepção de um pequeno tremor nas mãos, pouco antes da hora da dose seguinte. Se o problema podia tratar-se tão facilmente, talvez não devesse preocupar-se demasiado. Pelo menos, foi disso que tentou convencer-se.

 

Carol chegou precisamente à hora combinada, como Ashley esperava. Trabalhava com ele há dezasseis dos dezanove anos da sua carreira senatorial e demonstrara a sua confiança, a sua dedicação e lealdade vezes sem conta. Enquanto se dirigiam para Virgínia, ela tentou aproveitar o tempo para falar sobre os acontecimentos do dia e sobre o que deviam esperar no dia seguinte, mas depressa percebeu o nível da preocupação de Ashley e calou-se. Em vez de falar, concentrou-se no tráfego infernal.

 

A ansiedade de Ashley cresceu à medida que se aproximavam do consultório do médico. Quando saiu do carro, a transpiração tinha reaparecido. Ao longo dos anos, Ashley aprendera a escutar a sua intuição, e esta estava a disparar campainhas de alarme. Havia alguma coisa errada no seu cérebro, e ele sabia-o, e sabia que estava a tentar negá-lo.

 

A consulta fora marcada segundo a conveniência de Ashley para depois das consultas regulares do médico, e na sala de espera vazia pairava uma imobilidade sepulcral. A única luz provinha de um pequeno candeeiro de secretária que criava uma mancha difusa de iluminação na secretária vazia da recepcionista. Ashley e Carol pararam por momentos, sem saberem muito bem o que fazer. Depois, uma porta interior abriu-se, inundando o espaço com uma forte luz fluorescente. Na soleira da porta, delineava-se a silhueta sem forma do Dr. Whitman, iluminada a contraluz.

 

Peço desculpa por este acolhimento inospitaleiro disse o Dr Whitman, mas já foram todos para casa; premiu um interruptor de parede. Tinha uma bata branca vestida. O seu comportamento era muito profissional.

 

Não precisa de se desculpar replicou Ashley. Nós apreciamos a sua discrição; observou o rosto do médico, com esperança de ver a sua expressão a suavizar-se em algo que pudesse interpretar como um sinal auspicioso. Não viu nenhuma.

 

Por favor, venha para o meu consultório, Senador. O Dr. Whitman apontou para o interior. Sr.a Manning, agradeço que espere aqui fora.

 

O consultório do médico era um exemplo de limpeza compulsiva. O mobiliário consistia numa secretária com duas cadeiras para os pacientes. Os objectos em cima da secretária estavam todos cuidadosamente alinhados, enquanto os livros na estante estavam organizados de acordo com o tamanho.

 

O Dr. Whitman apontou para uma das cadeiras antes de se sentar atrás da secretária. Com os cotovelos no tampo, tamborilou com os dedos. Depois de Ashley estar sentado, olhou para ele. Seguiu-se uma pausa plena de significado.

 

Ashley nunca se sentira tão desconfortável. A ansiedade atingira a intensidade máxima. Ashley passara a maior parte da sua vida em busca de poder, e obtivera-o para além dos seus sonhos mais desmedidos. No entanto, naquele momento, estava totalmente indefeso.

 

Ao telefone, disse-me que a medicação que lhe dei ajudou começou o Dr. Whitman.

 

Maravilhosamente exclamou Ashley, subitamente animado por o Dr. Whitman ter começado pela positiva. Quase todos os meus sintomas desapareceram.

 

O Dr. Whitman anuiu conhecedoramente. A sua expressão manteve-se inescrutável.

 

Eu teria presumido que isso é uma boa notícia.

 

Ajuda-nos a fazer o diagnóstico declarou o Dr. Whitman.

 

Bem... o que é? perguntou Ashley, após uma pausa desconfortável. Qual é o diagnóstico?

 

A medicação era uma forma de levodopa começou o Dr. Whitman num tom doutoral. O organismo pode convertê-la em dopamina, que é uma substância envolvida em algumas transmissões dos neurónios.

 

O senador respirou fundo. Uma onda súbita de raiva ameaçava vir à superfície. Não queria uma prelecção, como se fosse um aluno. Queria o diagnóstico. Sentiu que estava a ser gozado como um gato goza com um rato encurralado.

 

O senhor perdeu algumas células que estão envolvidas na produção de dopamina continuou o Dr. Whitman. Essas células estão numa parte do seu cérebro chamada substantia nigra.

 

Ashley ergueu as mãos, como se estivesse a render-se. Suprimiu a vontade de o atacar verbalmente, engolindo em seco com alguma dificuldade.

 

Vamos direitos ao assunto, Doutor. Que é que eu tenho?

 

Tenho noventa e cinco por cento de certeza de que o senhor sofre da doença de Parkinson declarou o Dr. Whitman. Recostou-se. A cadeira da secretária chiou.

 

Por instantes, Ashley não falou. Não sabia muito sobre a doença de Parkinson, mas não lhe parecia nada boa, e vieram-lhe à lembrança algumas imagens de celebridades a lutar contra aquele mal. Ao mesmo tempo, sentiu-se aliviado por o médico não lhe ter dito que ele tinha um tumor cerebral ou ALS. Aclarou a garganta.

 

Tem cura? permitiu-se perguntar.

 

Actualmente, não disse Whitman. Mas como já sentiu com a medicação que lhe dei, pode ser controlada durante algum tempo.

 

Que é que isso significa?

 

Podemos mantê-lo relativamente sem sintomas durante algum tempo, talvez um ano, talvez mais. Infelizmente, devido ao seu historial de sintomas que se desenvolveram relativamente depressa, na minha experiência os medicamentos perderão a eficácia mais rapidamente do que com muitos outros doentes. Nessa altura, a doença será progressivamente debilitante. Teremos de lidar com cada situação à medida que ela surgir.

 

Isto é um desastre murmurou Ashley. Estava arrasado com as implicações. Os seus piores receios tinham-se tornado realidade.

 

 

18.30, quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2002 Um ano depois

Daniel teve a impressão de que o táxi parara sem motivo no meio de um quarteirão no centro da Rua M, em Georgetown, Washington D. C., uma movimentada avenida de quatro faixas. Daniel nunca gostara de andar de táxi. Parecia o cúmulo do ridículo confiar a vida a um completo desconhecido que a maioria das vezes era oriundo de um distante país do terceiro mundo e, frequentemente, estava mais interessado em falar ao telemóvel do que em prestar atenção à condução. Sentado no meio da Rua M, mergulhado na escuridão e com o tráfego da hora de ponta a sibilar dos dois lados e o motorista a reagir emocionalmente numa língua desconhecida, era uma situação exasperante. Daniel olhou de relance para Stephanie. Ela parecia descontraída e sorriu-lhe à média luz. Ela apertou-lhe a mão afectuosamente.

 

Só ao inclinar-se para a frente é que Daniel viu que havia um semáforo suspenso para facilitar uma curva bastante esquisita para a esquerda a meio do quarteirão. Olhou para o outro lado da rua e viu uma entrada que dava acesso a um edifício em tijolo que parecia um caixote.

 

Aquilo é o hotel? perguntou Daniel. Se for, não se parece muito com um hotel.

 

Vamos suspender a avaliação até termos mais algumas informações replicou Stephanie, num tom brincalhão.

 

O semáforo mudou e o táxi deu um salto em frente, como um cavalo de corrida a sair da linha de partida. O motorista só tinha uma mão no volante enquanto acelerava na curva. Daniel segurou-se para não ser atirado contra a porta do carro. Depois de um grande salto na junta entre a estrada e o acesso ao hotel, e de mais uma curva brusca para a esquerda junto à porta de entrada, o motorista travou com força suficiente para provocar uma tensão considerável no cinto de segurança de Daniel. Momentos depois, a porta de Daniel foi aberta.

 

Bem-vindos ao Four Seasons disse, alegremente, um porteiro de libré. Vão ficar aqui hospedados?

 

Daniel e Stephanie deixaram a bagagem com o porteiro, entraram no átrio do hotel e dirigiram-se para o balcão de recepção. Passaram por um grupo de estátuas que podiam estar num museu de arte moderna. A carpete era espessa e luxuosa. Pessoas muito bem vestidas estavam sentadas em cadeiras de veludo confortáveis.

 

Como é que me convenceste a ficar aqui? perguntou Daniel retoricamente. O exterior pode ser simples, mas o interior sugere que vai ser caro.

 

Stephanie obrigou Daniel a parar.

 

Estás a tentar sugerir que te esqueceste da conversa que tivemos ontem?

 

Ontem conversámos muito balbuciou Daniel. Reparou que a mulher que acabara de entrar com um poodle francês tinha um anel de noivado com um diamante do tamanho de uma bola de pingue-pongue.

 

Sabes do que estou a falar! declarou Stephanie. Levantou a mão e puxou o rosto de Daniel na direcção do seu. Decidimos que íamos aproveitar esta viagem ao máximo. Vamos ficar duas noites neste hotel, e vamos satisfazermo-nos bem como, espero, um ao outro.

 

Daniel percebeu a indirecta lasciva de Stephanie e, embora contra vontade, não pôde deixar de rir.

 

O teu depoimento de amanhã perante a Subcomissão de Política de Saúde do senador Butler não vai ser uma tarefa fácilcontinuou Stephanie. Isso é um facto. Mas, apesar do que acontecer por lá, pelo menos vamos levar a recordação de uma experiência agradável quando voltarmos para Cambridge.

 

Não podíamos ter tido uma experiência agradável num hotel menos caro?

 

Eu não declarou Stephanie. Eles têm um ginásio, massagista e serviço de quartos do mais alto nível, e nós vamos aproveitar tudo. Por isso, começa a relaxar e a soltar-te. Para além do mais, eu é que vou pagar a conta.

 

A sério?

 

Claro! Com o salário que tenho estado a receber, bem posso devolver algum à empresa.

 

Oh, isso é um golpe baixo! comentou Daniel, brincalhão, enquanto fingia endireitar-se de uma bofetada a fingir.

 

Escuta disse Stephanie, eu sei que já há algum tempo que a empresa não pode pagar os nossos ordenados, mas eu vou pagar esta viagem com o cartão de crédito da empresa. Se amanhã as coisas correrem verdadeiramente mal, o que é uma possibilidade, o tribunal de falências pode decidir quanto é que será pago ao Four Seasons pelo nosso prazer.

 

O sorriso de Daniel abriu-se numa forte gargalhada.

 

Tu nunca deixas de me surpreender, Stephanie!

 

E ainda não viste nada declarou Stephanie com um sorriso. A questão é: vais descontrair-te ou não? Até no táxi se percebia que estavas tenso como uma corda de piano.

 

Isso foi porque estava preocupado e sem saber se íamos chegar aqui inteiros, não como íamos pagar.

 

Vá lá, esbanjador disse Stephanie, empurrando Daniel para a frente. Vamos para a nossa suite.

 

Suite? perguntou Daniel, enquanto se deixava empurrar para o balcão de recepção.

 

Stephanie não exagerara. A suite estava voltada para uma parte do Canal Chesapeake e Ohio com o Rio Potomac, em pano de fundo. Na mesa de apoio na sala de estar havia umfrappé com uma garrafa de champanhe a gelar. Jarras com flores acabadas de apanhar alegravam o toucador do quarto e a grande bancada da enorme casa de banho de mármore.

 

Logo que o paquete desapareceu, Stephanie abraçou Daniel. Os olhos escuros dela fitaram as órbitas azuis dele. Um ligeiro sorriso bailou nos seus lábios cheios.

 

Sei que estás muito tenso por causa de amanhã começou ela, por isso, que tal deixares-me ser eu a guia turística? Ambos sabemos que a legislação proposta pelo senador Butler tornaria ilegal o teu trabalho patenteado e brilhante. E implicaria um cancelamento da segunda parte do financiamento da empresa, com consequências obviamente desastrosas. Com isto dito e compreendido, vamos esquecer os nossos problemas por esta noite. Consegues fazer isso?

 

Posso tentar disse Daniel, embora soubesse que seria impossível, o fracasso era um dos seus maiores medos.

 

É tudo o que te peço disse Stephanie. Deu-lhe um beijo rápido antes de se afastar para abrir o champanhe. O plano é o seguinte: bebemos uma taça de bolhas e depois tomamos um duche refrescante. Em seguida, temos uma reserva num restaurante aqui perto chamado Citronelle, que ouvi dizer que é fantástico. Depois de uma refeição maravilhosa, voltamos para aqui e fazemos amor louca e apaixonadamente. Que dizes?

 

Seria doido se oferecesse alguma resistência afirmou Daniel, levantando as mãos numa rendição trocista.

 

Stephanie e Daniel já viviam juntos há mais de dois anos e tinham criado uma confortável intimidade. Tinham reparado um no outro em meados da década de 1980, quando Daniel regressara à vida académica e Stephanie era aluna finalista de química em Harvard. Nenhum deles tinha aprofundado a atracção mútua, já que esse tipo de ligações não era visto com bons olhos pela política da universidade. Para além disso, nenhum deles tinha a mais pequena noção de que o seu sentimento era recíproco, pelo menos não antes de Stephanie terminar a licenciatura e começar a fazer parte do corpo docente, o que lhes deu a oportunidade de interagirem num plano mais igual. Até as suas áreas de especialização científica se complementavam. Quando Daniel abandonou a universidade para criar a sua empresa, foi natural que Stephanie o acompanhasse.

 

Nada mal disse Stephanie, depois de esvaziar a sua taça e pousá-la na mesa de apoio. Muito bem! Vamos atirar uma moeda ao ar para ver quem toma duche primeiro.

 

Não é preciso atirar uma moeda ao ar disse Daniel, pousando a taça vazia ao lado da de Stephanie. Eu cedo. Vai tu primeiro. Enquanto tomas duche, eu faço a barba.

 

Combinado disse Stephanie.

 

Daniel não sabia se era do champanhe ou da animação contagiosa de Stephanie, mas sentia-se muito menos tenso, embora não menos preocupado, quando colocou espuma nas faces e começou a barbear-se. Como só bebera uma taça, suspeitava de que era a segunda hipótese. Tal como Stephanie insinuara, o dia seguinte podia trazer um desastre, um medo que lhe recordava de forma perturbadora a profecia de Heinrich Wortheim no dia em que descobrira que Daniel ia voltar para o sector privado. Mas Daniel ia tentar não deixar que esses pensamentos dominassem a visita, pelo menos, nessa noite. Tentaria seguir o conselho de Stephanie e divertir-se.

 

Daniel olhou para lá da sua imagem cheia de espuma e viu a figura indistinta de Stephanie do outro lado do vidro embaciado da cabina de duche. A sua voz a cantar ouvia-se acima do ruído da água. Tinha trinta e seis anos, mas parecia ter vinte e seis. Como já lhe dissera mais do que uma vez, fora muito beneficiada na lotaria genética. A sua figura alta e com curvas era magra e firme como se ela fizesse ginástica regularmente, o que não acontecia, e a pele escura, cor de azeitona, estava praticamente desprovida de manchas. Uma melena de cabelos espessos e escuros com olhos negros a condizer completavam o retrato.

 

A porta do chuveiro abriu-se e Stephanie saiu. Secou rapidamente os cabelos com a toalha, completamente despreocupada com a nudez. Por instantes, curvou-se pela cintura, deixando os cabelos caírem livremente quantos os esfregava freneticamente com a toalha. Depois, endireitou-se, atirando os cabelos para trás como um cavalo a redireccionar a crina. Quando começou a limpar as costas com um movimento provocante das ancas, a sua linha de visão apanhou o olhar de Daniel no espelho. Parou.

 

Hei! interrogou Stephanie. Para onde é que estás a olhar? É suposto estares a fazer a barba. De repente incomodada, enrolou-se na toalha como se fosse um vestido curto sem alças.

 

Inicialmente embaraçado por ser apanhado a espiar, Daniel recompôs-se rapidamente. Pousou a lâmina de barbear e aproximou-se de Stephanie. Agarrou-a pelos ombros e olhou para os seus olhos de ónix líquido.

 

Não consegui deixar de reparar como estás sensual e absolutamente arrasadora.

 

Stephanie inclinou a cabeça para o lado para observar Daniel de uma perspectiva ligeiramente diferente.

 

Estás bem? Daniel riu-se.

 

Estou bem.

 

Voltaste para a sala de estar e deste cabo da garrafa de champanhe?

 

Estou a falar a sério.

 

Não dizes nada do género há meses.

 

Dizer que tenho andado preocupado seria pouco. Quando tive a ideia de formar a empresa, não fazia a menor ideia de que a angariação de fundos ia ocupar cento e dez por cento dos meus esforços. E agora, para cúmulo, aparece este perigo político, que ameaça destruir toda a operação.

 

Compreendo disse Stephanie. A sério que acredito, e não levei a mal.

 

De verdade que já passaram meses?

 

Confia em mim disse Stephanie, a abanar a cabeça para dar mais ênfase às palavras.

 

Desculpa disse Daniel. E para mostrar os meus remorsos, gostava de apresentar uma moção para alterar os planos da noite. Proponho que passemos à fase de fazer amor e deixemos os planos para o jantar em suspenso. Alguém tem alguma objecção?

 

Quando Daniel tentou inclinar-se para dar um beijo brincalhão a Stephanie, ela empurrou-lhe o rosto ainda cheio de espuma para trás apenas com a ponta do dedo indicador no nariz dele. A sua expressão sugeria que estava a tocar em alguma coisa extremamente desagradável, especialmente enquanto limpava o bocado de espuma que tinha no dedo no ombro dele.

 

As regras parlamentares não vão desviar esta senhora de um bom jantar declarou ela. Deu-me algum trabalho conseguir esta marcação, por isso os planos para a noite mantêm-se conforme a votação e aprovação prévias. Agora, toca a fazer a barba! Brincalhona, empurrou-o para o lavatório e depois aproximou-se do outro lavatório para secar os cabelos.

 

Falando a sério gritou Daniel por cima do barulho do secador, quando acabou de fazer a barba. Estás fantástica. Por vezes, pergunto a mim próprio o que vês num velho como eu; bateu nas faces com aftershave.

 

Aos cinquenta e dois anos não podes dizer que és velho - gritou Stephanie por sua vez. Especialmente, sendo tão activo como és. Na verdade, tu também és bastante sensual.

 

Daniel observou-se ao espelho. Achou que não estava nada mal, embora não estivesse disposto a enganar-se imaginando que era de alguma forma sensual. Há muito tempo que se reconciliara com o facto de estar do lado aberrante da equação da vida, depois de ter crescido como um prodígio da ciência desde o sexto ano. Stephanie estava apenas a tentar ser simpática. Ele sempre tivera um rosto magro, por isso, pelo menos, não tinha o problema de desenvolver bochechas ou até rugas, com excepção de alguns ténues pés de galinha no canto dos olhos quando sorria. Mantivera-se fisicamente activo, embora não muito durante os últimos meses, devido aos constrangimentos de tempo ditados pela angariação de fundos. Enquanto fizera parte da faculdade de Harvard, aproveitara plenamente as instalações desportivas, usando com regularidade os campos de squash e andebol, bem como as oportunidades de remar no Rio Charles. O único verdadeiro problema de aparência que via era a linha do cabelo a recuar nos cantos superiores da testa e a área da coroa a ficar mais rala, para além de os cabelos castanhos estarem a ficar grisalhos nas zonas laterais da cabeça, mas não podia fazer grande coisa para remediar isso.

 

Depois de ambos terem acabado de se arranjar e vestir, pegaram nos casacos e saíram do hotel armados, com indicações simples para o restaurante, dadas pelo porteiro. De braço dado, percorreram diversos quarteirões para ocidente ao longo da Rua M, passando por inúmeras galerias de arte, livrarias e lojas de antiguidades. A noite estava fresca mas não demasiado fria, com uma abóbada de estrelas visíveis apesar das luzes da cidade.

 

No restaurante, o maítre d’ conduziu-os até uma mesa lateral que proporcionava alguma privacidade no movimentado estabelecimento. Escolheram a comida, pediram uma garrafa de vinho e prepararam-se para um jantar romântico. Quando as entradas foram servidas já se tinham divertido a recordar a atracção que tinham sentido um pelo outro antes de sequer se conhecerem mais intimamente, e mergulharam num silêncio satisfeito. Infelizmente, Daniel quebrou-o.

 

Provavelmente, não devia mencionar isto... começou ele.

 

Então não menciones interrompeu Stephanie, percebendo imediatamente o rumo que Daniel pretendia dar à conversa.

 

Mas devo declarou Daniel. Na verdade, tenho de mencionar, e é melhor agora do que mais tarde. Há vários dias, disseste que ias investigar o nosso carrasco, o senador Ashley Butler, com a ideia de, possivelmente, me ser útil para a audição de amanhã. Sei que investigaste o assunto, mas não me disseste nada. Porquê?

 

Se bem me lembro, tu concordaste que esta noite íamos esquecer a audição.

 

Concordei que ia tentar esquecer a audição corrigiu Daniel. Não fui totalmente bem sucedido. Não falaste sobre o que descobriste porque não descobriste nada útil ou por outro motivo? Esclarece-me sobre isto e depois podemos esquecer tudo o resto da noite.

 

Stephanie desviou o olhar durante alguns segundos para organizar os pensamentos.

 

Que é que queres saber?

 

Daniel soltou uma gargalhada curta e exasperada.

 

Estás a dificultar mais as coisas do que é necessário. Para falar com franqueza, não sei o que quero saber, porque nem sequer sei o suficiente para fazer perguntas.

 

Ele não vai ser fácil.

 

Já tínhamos essa impressão.

 

Está no Senado desde 1972, e a sua antiguidade dá-lhe um poder significativo.

 

Já tinha calculado isso, uma vez que ele é o presidente da subcomissão disse Daniel. Preciso de saber qual é a sua principal motivação.

 

A minha impressão é que ele é um demagogo sulista, bastante típico e antiquado.

 

Um demagogo? perguntou Daniel. Por instantes, mastigou a região interna da face. Suponho que tenho de admitir a minha estupidez neste caso. Já ouvi a palavra demagogo anteriormente mas, para dizer a verdade, não sei exactamente o que significa para além do seu sentido pejorativo.

 

Refere-se a um político que usa os preconceitos e receios populares, para conseguir e manter o poder.

 

Neste caso, estás a referir-te à preocupação do público com a biotecnologia em geral.

 

Isso mesmo admitiu Stephanie. Especialmente quando a biotecnologia envolve palavras como embrião e clonagem.

 

Com o sentido de quintas de embriões e cenários de filme de terror.

 

Precisamente concordou Stephanie. Ele joga com a ignorância e com os piores medos das pessoas. E, no Senado, é um obstrucionista. É sempre mais fácil ser contra as coisas do que a favor delas. Ele fez a sua carreira à custa disso, mesmo contrariando o seu próprio partido em inúmeras ocasiões.

 

Não parece nada promissor para nós gemeu Daniel. Exclui a hipótese de tentar convencê-lo com qualquer tipo de argumento racional.

 

Infelizmente, sou da mesma opinião. Foi por isso que não te contei o que descobri sobre ele. É deprimente que alguém como Butler esteja no Senado, e muito pior ainda que tenha toda a importância e poder que ele tem. É suposto que os senadores sejam líderes, não pessoas que ocupam o cargo para obter poder.

 

O que é deprimente é que este imbecil tem poder para bloquear a minha ciência criativa e prometedora.

 

Não me parece que ele seja um imbecil corrigiu Stephanie.

 

Muito pelo contrário. Ele tem sido muito criativo por mérito próprio. Até deveria dizer maquiavélico.

 

Diz-me alguns dos seus outros cavalos de batalha?

 

Os fundamentalistas e conservadores do costume. Direitos estaduais, claro. Esse é um dos grandes. Mas ele também é contra coisas como a pornografia, a homossexualidade, os casamentos entre pessoas do mesmo sexo e esse género de coisas. E, oh, sim, é contra o aborto.

 

Aborto? perguntou Daniel, surpreendido. Ele é um Democrata e é contra o aborto? Está a começar a parecer um membro da Extrema Direita Republicana.

 

Já te disse que ele não tem medo de ir contra o Partido, quando isso lhe convém. É definitivamente contra o aborto, embora, ocasionalmente, a sua posição tenha requerido algumas manobras e recuos. Da mesma forma, tem andado a fazer sapateado à volta das questões dos direitos humanos. É um conservador inteligente, conivente, burocrata e populista que, ao contrário de Strom Thurmond e Jessie Helms, não saiu do Partido Democrático.

 

Surpreendente! comentou Daniel. Seria de esperar que as pessoas o vissem como ele realmente é, um oportunista, sedento de poder pessoal, e o excluíssem. Por que é que achas que o Partido não se aliou contra ele, se os contrariou em tantas questões?

 

Ele é demasiado poderoso disse Stephanie. É uma verdadeira máquina de angariação de fundos interligados com comissões de acção política, fundações e até empresas geridas em nome dos seus diversos assuntos populistas. Os outros senadores têm indubitavelmente medo dele, com o tipo de dinheiro de relações públicas que ele pode arranjar. Não tem medo nem pejo de usar os seus bolsos fundos contra qualquer pessoa que se atravesse no seu caminho, quando há alguma reeleição.

 

Isto está a ficar cada vez pior murmurou Daniel.

 

No entanto, descobri uma coisa curiosa acrescentou Stephanie. Não passa de uma coincidência, mas tu e ele têm algumas coisas em comum.

 

Oh, por favor! queixou-se Daniel.

 

Em primeiro lugar, têm ambos famílias grandes disse Stephanie.

 

Na verdade, pertencem a famílias com nove filhos, e são ambos os terceiros, com dois irmãos mais velhos. Isso é realmente uma coincidência! Quais são as probabilidades de uma coisa dessas acontecer? Bastante reduzidas. Poder-se-ia presumir que vocês são mais parecidos do que pensam. O rosto de Daniel desanuviou-se. Estás a falar a sério? Stephanie riu-se. Não, claro que não! Estou a brincar! Acalma-te! Ela esticou-se, pegou no vinho de Daniel e entregou-lho. Depois, ergueu o seu copo. Basta de falar no senador Butler! Vamos brindar à nossa saúde e ao nosso relacionamento porque, aconteça o que acontecer amanhã, pelo menos temos isso, é o que é mais importante? Tens razão disse Daniel. A nós! Sorriu, mas intimamente sentiu o estômago a embrulhar-se num nó. Por muito que tentasse, não conseguia esquecer o espectro de fracasso que pairava sobre ele como uma nuvem negra.

 

Brindaram e beberam, a olhar um para o outro por cima dos copos. Tu és verdadeiramente linda disse Daniel, a tentar recuperar o momento da casa de banho do hotel, quando Stephanie saíra do duche. | Linda, inteligente e muito sensual.

 

Assim gosto mais replicou Stephanie. Tu também és. E também és brincalhona acrescentou Daniel. Mas mesmo assim amo-te. Eu também te amo disse Stephanie. ] Terminado o jantar, Stephanie estava ansiosa por voltar para o hotel. Caminharam com passos rápidos. Depois do calor do restaurante, o frio nocturno penetrou através dos casacos. No elevador vazio do hotel. Stephanie beijou Daniel apaixonadamente, empurrou-o para um canto e encostou-se eroticamente a ele.

 

Calma! disse Daniel, com uma gargalhada nervosa. Provavelmente, há uma câmara de vídeo de segurança aqui dentro.

 

Oh, céus! murmurou Stephanie, enquanto se endireitava rapidamente e endireitava o casaco. Os seus olhos perscrutaram o tecto do elevador. Nunca tinha pensado nisso.

 

Quando o elevador abriu no andar deles, Stephanie pegou na mão de Daniel e encorajou-o a andar rapidamente pelo corredor até à porta do quarto. Sorriu, enquanto a abria com o cartão. No interior, fez um grande teatro para encontrar o cartão de NÃO INCOMODAR e pendurá-lo do lado de fora da porta. Feito isto, pegou na mão de Daniel e puxou-o da pequena entrada até ao quarto.

 

Despir os casacos! ordenou, atirando o dela para uma cadeira.

 

Depois, empurrou-o de costas para cima da cama. Subiu para cima dele com um joelho de cada lado do seu peito e começou a desapertar-lhe a gravata. De repente, parou. Reparou que ele tinha a testa brilhante de transpiração.

 

Sentes-te bem? perguntou, preocupada.

 

Estou a ter um acesso de calor confessou Daniel.

 

Stephanie deslizou para o lado e puxou Daniel para a posição de sentado. Ele limpou a testa e olhou para a humidade na mão.

 

Também estás pálido.

 

Posso imaginar disse Daniel. Acho que estou a ter uma mmi-crise autónoma do sistema nervoso.

 

Parece-me conversa de médico. Não te importas de explicar isso em inglês corrente?

 

Estou apenas exausto. Infelizmente, devo ter tido uma espécie de subida de adrenalina. Lamento, mas acho que o sexo está fora de questão.

 

Não tens de pedir desculpa.

 

Eu acho que sim disse Daniel. Sei que estás à espera, mas enquanto vínhamos para o hotel eu tive a sensação de que não estava escrito.

 

Não faz mal insistiu Stephanie. Não vai fazer nem estragar a noite. Estou mais interessada em certificar-me de que vais ficar bem.

 

Daniel suspirou.

 

Vou ficar bem depois de amanhã, quando souber o que vai acontecer. A incerteza e eu nunca nos demos particularmente bem, especialmente quando envolve alguma coisa má.

 

Stephanie colocou os braços à volta dele e abraçou-o. Sentiu o coração dele a bater no peito.

 

Mais tarde, depois de Stephanie se encontrar imóvel há tempo suficiente para a sua respiração se regularizar nas profundezas do sono, Daniel afastou os cobertores e saiu da cama. Não conseguira adormecer com a mente e a pulsação a mil. Vestiu um roupão do hotel e foi para a sala de estar. À janela, contemplou a vista.

 

Não conseguia parar de pensar na profecia de desastre de Heinrich Wortheim e no facto de parecer que se ia realizar. O problema era que Daniel fechara portas quando saíra de Harvard. Wortheim nunca mais o aceitaria e talvez até tentasse vedar-lhe o acesso a outras instituições. Para cúmulo, Daniel também fechara algumas portas quando saíra da Merck em 1985 para regressar à vida académica na altura em que aceitara o cargo em Harvard.

 

A garrafa de champanhe aninhada no frappé chamou a atenção de Daniel. Tirou-a da água; o gelo já derretera há muito. Ergueu-a para a luz que vinha do lado de fora da janela. Ainda restava quase meia garrafa. Encheu uma taça e provou. Estava um pouco murcho, mas ainda razoavelmente frio. Bebeu alguns pequenos goles e olhou novamente pela janela.

 

Sabia que o medo de ter de voltar para Revere Beach, Massachusetts, era irracional, mas não o tornava menos real. Revere Beach era a cidade onde ele crescera, numa família dirigida por um comerciante insignificante que culpava pela sua série de fracassos a mulher e os filhos, especialmente aqueles que os embaraçavam. Infelizmente, era acima de tudo Daniel, o qual tivera o azar de vir a seguir a dois irmãos mais velhos que tinham sido grandes atletas no liceu, um facto que causara um considerável alívio ao frágil ego do pai. Em contraste, Daniel fora um miúdo magro e frágil, mais interessado em jogar xadrez e em produzir hidrogénio a partir de água, Drano e folha de alumínio na cave. O facto de Daniel ter entrado no Boston Latin, onde foi academicamente excelente, não teve qualquer efeito no pai, que continuou a usá-lo impiedosamente como bode expiatório. Até as bolsas de Daniel para a Universidade de Wesleyan e depois para a Faculdade de Medicina de Columbia tinham mudado pouco, a não ser afastá-lo dos irmãos durante algum tempo.

 

Daniel acabou o champanhe da taça e serviu-se de mais. Enquanto continuava a beber, a sua mente vagueou para o senador Butler, a sua obsessão do momento. Stephanie dissera que estava a brincar quando sugerira que ele e o senador eram mais parecidos do que ele poderia pensar. Perguntou a si mesmo se ela pensaria realmente assim, já que era sem dúvida uma coincidência que ele e o senador tivessem tipos de família semelhantes. Muito no fundo da mente de Daniel, instalou-se o pensamento de que talvez houvesse alguma verdade na ideia. Afinal de contas, Daniel tinha de admitir que invejava o poder que o homem ostentava ao colocar a sua carreira em perigo.

 

Daniel pousou a taça na mesa de apoio e voltou-se na direcção do quarto. Caminhou lentamente na escuridão do ambiente desconhecido. Não estava nada confiante de conseguir dormir enquanto a sua intuição lhe dizia tão activamente que se aproximava o desastre, e no entanto não queria passar a noite inteira levantado. Pensou deitar-se e tentar descontrair-se, e se não conseguisse dormir, pelo menos, descansaria.

 

 

9.51, terça-feira, 21 de Fevereiro de 2002

A porta do gabinete do senador Ashley Butler abriu-se de rompante, e o senador saiu com a chefe de gabinete atrás. Puxou bruscamente o papel que Dawn, a sua secretária, que estava sentada à secretária, lhe estendeu.!

 

É o seu discurso de abertura para a audição da subcomissão disse ela para o senador, que já ia a virar a esquina do corredor principal e a dirigir-se para a porta principal do seu escritório no Senado. Ela estava acostumada a ser ignorada e não levou a mal. Como era ela que fazia a agenda diária do senador, sabia que ele estava atrasado. Já devia estar na audição, para que esta pudesse ter início às dez horas em ponto. Ashley limitou-se a resmungar depois de ler as primeiras linhas do papel e entregou a folha a Carol, que vinha atrás de si, para que esta lhe pudesse dar uma vista de olhos. Carol era mais do que a chefe de gabinete de Ashley, que contratava e despedia funcionários. Quando os dois chegaram à sala de espera do complexo de que fazia parte o seu gabinete, e ele parou para cumprimentar a cerca de meia dúzia de pessoas que esperavam para falar com diversos chefes de gabinete, Carol teve de o empurrar para a porta, para não se atrasarem mais do que já estavam.

 

Já no átrio de mármore do Edifício do Gabinete do Senado, aceleraram o passo. Era difícil para Ashley, cuja rigidez voltara apesar da medicação receitada pelo Dr. Whitman. Ashley descrevera a rigidez como uma sensação semelhante a tentar andar em cima de melaço.

 

Que te parece esse discurso de abertura? perguntou Ashley.

 

Até onde li, parece-me bom respondeu Carol. Acha que Rob mandou Phil dar uma vista de olhos?


Espero bem que sim atirou Ashley. Percorreram uma distância curta em silêncio antes de Ashley acrescentar, Quem diabo é Rob?

 

É o nosso relativamente novo director da Subcomissão de Política de Saúde explicou Carol. Tenho a certeza de que se lembra dele. Ele sobressai, literalmente, numa multidão. É o ruivo alto que veio da equipa do Kennedy.

 

Ashley limitou-se a acenar afirmativamente. Embora se orgulhasse da facilidade que tinha para se recordar de nomes, já não conseguia reter todos os nomes das pessoas que trabalhavam para ele, pois os seus funcionários tinham crescido para mais de setenta pessoas, e havia as inevitáveis mudanças. Porém, Phil era um nome que conhecia, já que estava com ele há quase tanto tempo como Carol. Na qualidade de principal analista político de Ashley, Phil era um elemento chave, e era importante que tudo o que ia fazer parte da transcrição de uma audição ou do Registo do Congresso fosse feito por ele.

 

E a sua medicação? perguntou Carol. Os seus saltos pareciam tiros de espingarda quando batiam no chão de mármore.

 

Tomei os comprimidos disse Ashley, irritado. Para ter a certeza a cem por cento, a mão deslizou sub-repticiamente para o bolso lateral do casaco e procurou. Como suspeitava, o comprimido que aí tinha colocado já desaparecera, o que significava que o tomara antes de sair do seu gabinete particular. Tinha de ter um nível elevado da droga no sangue, durante a audição. A última coisa que queria era que algum jornalista reparasse num sintoma, como a mão a tremer durante os trabalhos, especialmente agora que tinha um plano para prevenir o problema.

 

Ao fazerem uma curva no corredor, chocaram contra diversos colegas senadores particularmente liberais, que se dirigiam para o lado oposto. Ashley parou e passou facilmente para o tom de voz sulista, lento, indolente e meloso que lhe era característico, enquanto elogiava os cortes de cabelo, os fatos de linha moderna e as gravatas berrantes dos seus colegas políticos. Numa autocensura bem humorada, comparou os trajes deles com o seu próprio fato escuro, com a gravata discreta e a simples camisa branca. Era o mesmo estilo de roupas que usava quando chegara ao Senado em 1972. Ashley era um homem de hábitos. Não só ainda usava o mesmo género de roupas como ainda comprava todo o seu guarda-roupa na mesma loja conservadora, na sua terra natal.

 

Novamente a caminho, Carol comentou o grau da cordialidade de Ashley.

 

Estou apenas a dar-lhes graxa troçou Ashley. Preciso dos votos deles para o meu projecto de lei, que vai ser votado na próxima semana. Sabes que não posso concordar com esse tipo de disparates, especialmente com transplantes capilares.

 

É claro que sei disse Carol. Foi por isso que fiquei surpreendida. Ao aproximarem-se da entrada lateral da sala de audições, Ashley abrandou.

 

Diz-me rapidamente o que tu e o resto da equipa descobriram sobre a primeira testemunha desta manhã. Tenho um plano especial em banho-maria e quero que seja bem sucedido.

 

Conheço o currículo profissional dele de cordisse Carol. Fechou os olhos por instantes para ajudar a mobilizar a memória. É um prodígio da ciência desde o liceu e destacou-se na faculdade de medicina e nos estudos de doutoramento. É, no mínimo, impressionante! Para além disso, depressa se tornou um dos mais jovens cientistas chefes do departamento de investigação da Merck antes de ter sido activamente recrutado para um posto de prestígio em Harvard. O homem deve ter um QI na estratosfera.

 

Lembro-me do currículo dele. Mas não é isso que me interessa agora. Fala-me sobre o que Phil descobriu sobre a personalidade do homem!

 

Lembro-me que Phil achou que ele era egoísta e vaidoso pela forma como desvaloriza o trabalho dos colegas cientistas. Quero dizer, a maior parte das pessoas, mesmo que sejam dessa opinião, guardam-na para si mesmas. Ele não pode deixar de ser arrogante.

 

Que mais?

 

Chegaram à porta da sala lateral e hesitaram. Ao fundo do corredor, à entrada da porta principal da sala de audições, amontoava-se uma pequena multidão, e o ruído de vozes chegava até eles.

 

Carol encolheu os ombros.

 

Não me lembro de muito mais coisas, mas tenho comigo o dossier que a equipa elaborou e que, certamente, englobará as impressões de Phil. Quer perder algum tempo a lê-lo novamente antes de iniciarmos a audição?

 

Estava à espera que me falasses sobre o receio que o homem tem do fracasso disse Ashley. Lembras-te de alguma coisa sobre isso?

 

Agora que o menciona, sim, creio que era um dos pontos que Phil referia.

 

Muito bem!disse Ashley, com os olhos fixos num ponto distante. E combinando isso com um ego aparentemente do tamanho de uma pista de corridas de cavalos, tenho a oportunidade de exercer uma influência significativa, não te parece?

 

Suponho que sim, mas não estou a perceber muito bem onde quer chegar. Lembro-me que Dan pensou que ele tinha um muito desproporcionado medo de fracassar, apesar das suas capacidades e da sua óbvia inteligência. Afinal de contas, provavelmente ele poderia ter sucesso em tudo o que quisesse, desde que se empenhasse. Como é que o medo que ele tem do fracasso lhe permite ter influência sobre ele, e influência para quê?

 

Ele pode fazer tudo o que quiser mas, aparentemente, neste momento, quer ser um empresário famoso, um facto que, ao que parece, admitiu sem a menor vergonha numa das entrevistas. E para isto fez uma grande jogada em termos de carreira e em termos financeiros. Quer que a empresa que acabou de criar com base na sua técnica patenteada seja um sucesso por motivos muito pessoais e talvez até superficiais.

 

Então, que é que quer fazer? perguntou Carol. Rob quer que apoie formalmente o fim deste procedimento. É tão simples como isso.

 

As circunstâncias tornaram as coisas um pouco mais complicadas do que isso. Eu quero obrigar o bom do médico a fazer uma coisa que tenho quase a certeza que ele não estaria disposto a fazer.

 

Uma expressão de preocupação estampou-se no rosto largo de Carol.

 

Rob sabe disto?

 

Ashley abanou a cabeça. Fez sinal a Carol para que lhe devolvesse o discurso de abertura já preparado e pegou-lhe, quando ela lho estendeu.

 

Que é que quer que o médico faça?

 

Tu e ele vão saber esta noite declarou Ashley quando os seus olhos começaram a observar o discurso de abertura. Seria demasiado demorado explicar-te agora.

 

Isto está a assustar-me admitiu Carol em voz alta. Olhou para um lado e para o outro do corredor, enquanto Ashley lia o discurso. Mexeu-se, inquieta. O objectivo principal de Carol e o motivo por que sacrificava tanto da sua vida em prol do cargo actual, era que queria candidatar-se ao lugar de Ashley quando este se retirasse, uma situação que prometia acontecer mais cedo do que mais tarde, devido ao diagnóstico da doença de Parkinson. Possuía habilitações mais do que suficientes, pois já fora senadora estadual antes de ir para Washington para orientar o espectáculo de Ashley, e nesta altura, com o seu objectivo à vista, não queria que ele fizesse uma manobra para fazer o que Bill Clinton fizera a Al Gore. Desde aquela visita fatídica ao Dr. Whitman, Ashley andava preocupado e imprevisível. Ela aclarou a garganta para chamar a atenção do seu chefe.Exactamente, como é que pensa conseguir que o Dr. Lowell faça uma coisa que não quer fazer?

 

Montando-lhe uma armadilha e puxando-lhe o tapete de debaixo dos pés replicou Ashley, e levantou os olhos do papel para fitar os de Carol. Sorriu-lhe, conspirador. Estou a travar uma batalha, e pretendo vencer. Para conseguir, vou seguir uma deixa antiquíssima de A Arte da Guerra. Descubro os pontos de combate necessários, e depois chego lá com uma força avassaladora! Deixa-me ver o relatório financeiro da empresa dele!

 

Carol procurou na pilha de papéis que trazia até encontrar o papel que Ashley queria. Entregou-lho, e ele observou-o rapidamente. Ela observou o rosto dele à procura de pistas. Perguntou a si mesma se devia ligar para Phil do seu telemóvel logo que pudesse, para avisá-lo que se preparasse para o inesperado.

 

Isto é bom murmurou Ashley. Isto é muito bom. É uma sorte eu ter estes contactos no Departamento. Sozinhos, não teríamos conseguido a maior parte destes documentos.

 

Talvez devesse falar com Phil sobre o que está a planear fazer sugeriu Carol.

 

Não há tempo respondeu Ashley. Na verdade, que horas são agora?

 

Carol olhou para o relógio.

 

São dez e dez.

 

Ashley levantou a mão esquerda apoiada na direita para verificar se havia algum tremor. A mão tremia ligeiramente, mas mal se notava.

 

É o melhor que poderia esperar. Vamos trabalhar!

 

Ashley entrou na sala de audições pela porta lateral, à direita do estrado elevado em forma de ferradura. A sala estava cheia, e de uma multidão de pessoas amontoadas e aos encontrões umas às outras, emergia um zumbido de conversa incoerente. Ashley teve de abrir caminho entre colegas e funcionários até chegar ao seu lugar. O ruivo Rob apareceu imediatamente com uma segunda cópia do discurso de abertura que Ashley iria fazer. Ashley acenou-lhe para que se afastasse, sacudindo o exemplar que já tinha na mão. Sentou-se e ajustou o microfone articulado.

 

Depois de os seus olhos fazerem um circuito rápido pela decoração confortavelmente familiar de estilo grego revivalista da sala de audições, pousaram nas duas figuras sentadas no banco de testemunhas abaixo dele. Em primeiro lugar, a sua atenção foi magneticamente atraída para a jovem atraente com os cabelos brilhantes e sedosos a emoldurarem-lhe o rosto. Ashley sentia uma afinidade por mulheres bonitas, e esta mulher à sua frente tinha todos os requisitos. Usava um fato discreto, azul escuro, com uma gola branca que contrastava profundamente com a sua compleição bronzeada, cor de azeitona. Apesar do traje recatado, exsudava uma sensualidade saudável. Os seus olhos escuros estavam presos em Ashley, e ele ficou com a impressão de estar a olhar para dois canos de espingarda. Não fazia a menor ideia de quem ela era nem por que estava ali, mas pensou que a sua presença prometia tornar a audição um pouco mais agradável.

 

Relutantemente, Ashley desviou a atenção daquela mulher agradável para o Dr. Daniel Lowell. Os olhos do médico eram mais claros que os da companheira, e no entanto reflectiam um nível igual de atrevimento com o seu olhar firme. Ashley adivinhou que o médico era razoavelmente alto, apesar de estar recostado na cadeira. Tinha uma constituição magra, e um rosto estreito e angular emoldurado por uma melena de rebeldes cabelos grisalhos. Até as roupas sugeriam um nível de insolência comparável à que se reflectia nos seus olhos e postura. Em contraste com o traje formal e apropriado da companheira, ele vestira um casaco informal de tweed com cotoveleiras de couro, uma camisa aberta sem gravata e, nas pernas visíveis por baixo da mesa, calças de ganga e ténis.

 

Ashley sorriu intimamente enquanto pegava no martelo. Pensou que a aparente atitude de Daniel e a sua forma de vestir eram uma fraca tentativa de provar que não se sentia ameaçado por ter sido chamado a testemunhar perante uma subcomissão do Senado. Talvez Daniel pensasse que podia exibir a sua pessoa académica da Ivy League, como forma de intimidação contra a experiência académica baptista de cidade pequena de Ashley. Mas não ia funcionar. Ashley sabia que tinha Daniel no seu campo, com a habitual vantagem de estar a jogar em casa.

 

A Subcomissão de Política de Saúde, da Comissão de Educação, Trabalho e Pensões vai iniciar os trabalhos anunciou Ashley com uma entoação sulista muito vincada, enquanto batia com o martelo. Esperou alguns momentos, enquanto o grupo anteriormente desordeiro de assistentes ocupava os seus lugares. Atrás dele, ouviu diversos funcionários a fazer o mesmo. Baixou os olhos para Daniel Lowell, mas o médico não se mexera. Ashley olhou rapidamente para a direita e para a esquerda. A maior parte dos membros da sua subcomissão não estavam presentes, embora quatro estivessem ali. Os que estavam presentes estavam a ler memorandos ou a falar em sussurros com os seus assessores. Não havia quorum, mas não importava. Não fora agendada uma votação e Ashley não ia pedir nenhuma.

 

Esta audição vai analisar a S. 1103 continuou Ashley, enquanto pousava as notas para o discurso de abertura na mesa à sua frente. Cruzou os braços e encaixou os cotovelos nas palmas das mãos, para impedir qualquer potencial tremor. Inclinou ligeiramente a cabeça para trás, para ver melhor através dos bifocais. Este projecto de lei é um complemento da lei já aprovada no Senado, para banir a técnica de clonagem chamada...

 

Ashley hesitou e inclinou-se para a frente, a olhar para a folha.

 

Tenham paciência comigo disse ele, obviamente a afastar-se do texto preparado. Esta técnica é não só assustadora, como é difícil, e talvez o senhor doutor possa ajudar-me se eu me atrapalhar. Chama-se Recombinação Segmentar Transgénica Homóloga, ou RSTH. Uau! Disse bem, Doutor?

 

Daniel endireitou-se na cadeira e inclinou-se para a frente.

 

Sim respondeu sucintamente, e recostou-se de novo. Também ele tinha os braços cruzados.

 

Por que é que os médicos não falam inglês? perguntou Ashley, enquanto espreitava para Daniel por cima dos óculos.

 

Alguns espectadores riram-se à socapa, para alegria de Ashley. Adorava manipular as multidões.

 

Daniel inclinou-se para a frente para responder, mas Ashley levantou a mão.

 

Essa questão não é oficial, e não precisa de responder. A escrivã fez o ajustamento na sua máquina.

 

Depois, Ashley olhou para a esquerda.

 

Isto também não é oficial, mas gostaria de saber se o distinto senador de Montana concorda comigo que os médicos desenvolveram propositadamente uma linguagem própria apenas para que metade do tempo nós, comuns mortais, não façamos a menor ideia das coisas que eles estão a dizer.

 

Ouviram-se mais risadas entre os espectadores, quando o senador de Montana ergueu os olhos da sua leitura e acenou um sim entusiástico.

 

Muito bem, onde é que eu ia? perguntou Ashley, enquanto olhava novamente para o seu discurso de abertura. A necessidade desta legislação reside no problema de que, neste país, a biotecnologia em geral e a ciência médica em particular perderam as bases protectoras morais e éticas. Nós, os elementos da Subcomissão de Política de Saúde do Senado, sentimos que é nosso dever, na qualidade de americanos preocupados e morais, inverter esta tendência seguindo a linha dos nossos colegas na Câmara. Os fins não justificam os meios, especialmente no campo da investigação médica, como foi inequivocamente declarado há muito tempo nos Julgamentos de Nuremberga. Esta RSTH é um caso semelhante. Esta técnica ameaça uma vez mais criar embriões pobres e indefesos e depois desmembrá-los com a justificação dúbia de que as células derivadas desses humanos minúsculos, acabados de gerar, serão utilizados para tratar uma vasta gama de pacientes. Mas isto não é tudo. Como ouviremos no depoimento do seu investigador, que temos a honra de ter aqui como testemunha, esta não é uma técnica de clonagem normal, e eu, na qualidade de autor do princípio do projecto de lei, estou chocado por esta técnica estar destinada a tornar-se uma prática corrente. Bem, deixem-me dizer-vos que só por cima do meu cadáver!

 

Ouviram-se aplausos discretos de um pequeno grupo de assistentes. Ashley reforçou as suas palavras com um aceno de cabeça e com uma breve pausa. Depois, respirou fundo.

 

Ora, eu podia falar sobre esta técnica nova, mas não sou médico, e vou deixar isso a cargo do perito, que teve a bondade de se apresentar perante esta subcomissão. Gostaria de começar a interrogar a testemunha, a menos que o meu eminente colega da outra ala, queira proferir algumas palavras.

 

Ashley olhou para o senador sentado à sua direita, o qual abanou a cabeça, tapou o microfone com a mão e inclinou-se para o presidente.

 

Ashley sussurrou ele. Espero que sejas rápido com isto. Eu tenho de sair daqui às dez e meia.

 

Não te preocupes sussurrou Ashley em resposta. Vou directamente à jugular.

 

Ashley bebeu um gole do copo de água que tinha à sua frente e espreitou para Daniel.

 

A nossa primeira testemunha é o brilhante Dr. Daniel Lowell, que, como já referi, é o investigador da RSTH. O Dr. Lowell tem credenciais impressionantes, incluindo mestrados e doutoramentos de algumas das instituições mais prestigiadas do nosso país. Surpreendentemente, até conseguiu arranjar tempo para fazer o internato de clínica geral. Recebeu inúmeros prémios pelo seu trabalho e ocupou cargos de prestígio na empresa farmacêutica Merck e na Universidade de Harvard. Bem-vindo, Dr. Lowell.

 

Muito obrigado, Senador disse Daniel. Endireitou-se na cadeira. Agradeço os seus comentários sobre o meu currículo mas, se me é permitido, gostaria de avançar imediatamente para um ponto específico do seu discurso de abertura.

 

Faça o favor respondeu Ashley.

 

A RSTH e a clonagem terapêutica não envolvem, repito, não envolvem o desmembramento de embriões. Daniel falou lentamente, realçando cada palavra. As células terapêuticas são retiradas antes de cada embrião ter começado a formar-se. São retiradas de uma estrutura chamada blastocisto.

 

Nega que esses blastocistos são vida humana incipiente?

 

São vida humana mas, quando desagregadas, as suas células são semelhantes às células que o senhor perde das gengivas quando lava os dentes vigorosamente.

 

Não me parece que os lave com tanto vigor retorquiu Ashley, com uma breve gargalhada. Alguns espectadores imitaram-no.

 

Todos nós libertamos células epiteliais vivas.

 

Talvez assim seja, mas essas células epiteliais não vão formar embriões como um blastocisto.

 

Poderiam formar declarou Daniel. Esse é o ponto fulcral da questão. Se as células epiteliais forem fundidas com a célula de um ovócito cujo núcleo tenha sido extraído, e depois a combinação for activada, poderiam formar um embrião.

 

Que é o que é feito na clonagem.

 

Precisamente disse Daniel. Os blastocistos têm potencial para formar um embrião viável, mas só se forem implantados num útero. Na clonagem terapêutica, nunca lhes é permitido formarem embriões.

 

Acho que estamos a atolar-nos em semântica declarou Ashley, impaciente.

 

É semântica concordou Daniel. Mas é semântica importante.

 

As pessoas têm de compreender que os embriões não estão envolvidos na clonagem terapêutica nem na RSTH.

 

A sua opinião em relação ao meu discurso de abertura está devidamente registada disse Ashley. Agora, gostaria de passar à técnica propriamente dita. Não se importa de a descrever aqui na audição para a transcrição oficial?

 

Com todo o prazer declarou Daniel. A Recombinação Segmentar Transgénica Homóloga é o nome que demos a uma técnica que envolve a substituição da parte do ADN de um indivíduo responsável por uma doença particular por ADN homólogo e livre dessa mesma doença. Isto é feito no núcleo de uma das células do paciente, que é depois usada para clonagem terapêutica.

 

Pare aíinterrompeu Ashley. Já estou confuso, e tenho a certeza de que a maior parte dos presentes também. Deixe-me ver se percebi bem. O doutor está a falar em pegar na célula de uma pessoa doente e mudar o seu ADN, antes de fazer a clonagem terapêutica.

 

Correcto disse Daniel. Substituir a pequena porção do material genético da célula que é responsável pela doença do indivíduo.

 

E a clonagem terapêutica é depois feita para fabricar um monte destas células para curar o paciente.

 

Novamente correcto! Com diversas hormonas de crescimento, as células são encorajadas a tornarem-se o tipo de células de que o paciente necessita. E, graças à RSTH, essas células não terão a predisposição genética para voltarem a formar a doença que está a ser tratada. Quando essas células são implantadas num paciente, não só o paciente será curado, como não terá tendência genética para voltar a ter a mesma doença.

 

Talvez pudéssemos falar sobre uma doença em particular sugeriu Ashley. Talvez fosse mais fácil para nós, não cientistas, compreendermos. Depreendi por alguns artigos que o doutor publicou que a doença de Parkinson é um dos males que acredita que serão receptivos a este tipo de tratamento.

 

Correcto disse Daniel. Assim como muitas outras doenças, desde a de Alzheimer e da diabetes a certas formas de artrite. É uma lista de doenças impressionante, muitas das quais não tem sido receptivas a um tratamento, e muito menos a uma cura.

 

Por enquanto, vamos concentrar-nos na doença de Parkinson disse Ashley. Por que é que pensa que a RSTH funcionará nestes casos?

 

Porque com a Parkinson temos a sorte de ter um modelo de ratos para testar declarou Daniel. Esses ratos têm a doença de Parkinson, o que quer dizer que nos seus cérebros faltam células nervosas que produzem um composto chamado dopamina, que funciona como neurotransmissor, e a doença deles é uma imagem reflectida da forma humana. Pegámos nestes animais, efectuámos a RSTH e curámo-los permanentemente.

 

Isso é impressionante comentou Ashley.

 

É ainda mais impressionante quando vemos isso acontecer diante dos nossos próprios olhos.

 

As células são injectadas?

 

Sim.

 

E isso não apresenta problemas?

 

Não, absolutamente nenhum esclareceu Daniel. Já há uma experiência considerável na utilização destas técnicas em humanos para outras terapias. A injecção tem de ser aplicada com cuidado, sob condições controladas, mas geralmente não há problema nenhum. Na nossa experiência, os ratos não tiveram quaisquer efeitos nefastos.

 

Os ratos ficam curados pouco depois da injecção?

 

Na nossa experiência, os sintomas de Parkinson começam a desaparecer imediatamente disse Daniel. E continuam rapidamente. Com os ratos que tratámos, foi absolutamente notável. No espaço de uma semana, os animais tratados não se distinguem dos animais saudáveis nos controlos.

 

Suponho que está ansioso por testar isto em humanos sugeriu Ashley.

 

Extremamente admitiu Daniel, com uma série de acenos para dar ênfase às palavras. Depois de completarmos os estudos em animais, que estão a avançar rapidamente, esperamos que a FDA nos dê rapidamente autorização para iniciarmos experiências em humanos num ambiente controlado.

 

Ashley viu Daniel a olhar para a companheira e até a apertar-lhe momentaneamente a mão. Ashley sorriu intimamente, pressentindo que Daniel estava convencido de que o seu depoimento estava a correr bem. Chegara o momento de esclarecer o equívoco.

 

Diga-me, Dr. Lowell - começou Ashley. Alguma vez ouviu o ditado: Se uma coisa parecer boa de mais para ser verdadeira, provavelmente não é?

 

Claro que sim.

 

Bem, eu acho que a RSTH é um exemplo perfeito. Deixando momentaneamente de lado o argumento semântico sobe se os embriões são ou não desmembrados, a RSTH tem outro grande problema ético.

 

Ashley calou-se para conseguir o efeito desejado. As pessoas presentes estavam completamente imóveis.

 

Doutor disse Ashley, num tom condescendente. Alguma vez leu aquele romance clássico de Mary Shelley chamado Frankenstein?

 

A RSTH não tem nada a ver com o mito de Frankenstein disse Daniel indignado, a insinuar que sabia perfeitamente bem onde é que Ashley queria chegar. Insinuar uma coisa dessas é uma tentativa irresponsável de aproveitamento dos medos e ideias erradas do público.

 

Lamento, mas sou obrigado a discordar disse Ashley. Na verdade, estou convencido de que Mary Shelley deve ter tido o pressentimento de que a RSTH ia surgir, e foi por isso que escreveu o seu romance.

 

Os espectadores começaram a rir. Tornou-se aparente que estavam suspensos de cada palavra e que estavam a divertir-se.

 

Ora, eu sei que não tive a vantagem de uma educação na Ivy League, mas li Frankenstein, cujo título inteiro inclui O Prometeu Moderno, e penso que os paralelismos são notáveis. Segundo compreendo, a palavra transgénico, que faz parte do nome confuso da sua técnica, significa tirar partes e pedaços dos genomas de diversas pessoas e misturá-los como se estivesse a fazer um bolo. A este rapaz da província, isso parece muito semelhante ao que Victor Frankenstein fez quando criou o seu monstro, tirando partes de um cadáver e outras partes de outro, e cosendo-as umas às outras. Ele até usou um pouco de electricidade, exactamente como vocês fazem com a vossa clonagem.

 

Com a RSTH estamos a acrescentar extensões relativamente curtas de ADN, não órgãos inteiros retorquiu Daniel, acaloradamente.

 

Acalme-se, Doutor! disse Ashley. Estamos a efectuar uma audição para apurar factos, não uma luta. Onde eu quero chegar é que, com a sua técnica, está a tirar partes de uma pessoa e a colocá-las noutra. Não é verdade?

 

A um nível molecular.

 

Não me interessa a que nível é replicou Ashley. Só quero estabelecer os factos.

 

A ciência médica já efectua transplantes de órgãos há algum tempo

 

disse Daniel, rispidamente. A generalidade do público não vê um problema moral nisso, muito pelo contrário, e o transplante de órgãos é certamente um paralelo conceptual melhor para a RSTH do que o romance do século XIX da Mary Shelley.

 

No exemplo que deu, relacionado com a doença de Parkinson, admitiu que está a pensar injectar esses pequenos Frankensteins moleculares, que está a planear misturá-los para que estes acabem nos cérebros das pessoas. Lamento, Doutor, mas não tem havido muitos transplantes de cérebros no nosso programa actual de transplante de órgãos, por isso não me parece que o paralelismo seja válido. Injectar partes de outra pessoa e colocá-las no cérebro de alguém vai um passo para além do âmbito do meu livro, e acredito que do Livro do Bom Deus.

 

As células terapêuticas que criamos não são Frankensteins moleculares

 

disse Daniel, zangado.

 

A sua opinião foi devidamente registada cortou Ashley. Vamos continuar.

 

Isto é uma farsa! comentou Daniel. Levantou os braços para dar ênfase às suas palavras.

 

Devo recordar-lhe, Doutor, que está a ser ouvido por uma subcomissão do Senado, e espera-se que o senhor se comporte com o devido decoro. Somos todos pessoas razoáveis, e devemos mostrar respeito uns pelos outros, enquanto tentamos fazer todos os possíveis para reunir informações.

 

Está a ficar cada vez mais óbvio que esta audição foi montada sob falsos pretextos. O senhor não veio aqui para obter informações sobre a RSTH com a mente aberta, como sugere com magnanimidade. Está apenas a usar esta audição para se evidenciar com retórica emotiva bem preparada.

 

Eu gostaria que soubesse disse Ashley, condescendente que fazer esse tipo de declarações e acusações inflamadas é especificamente mal visto no Congresso. Isto não é o Crossfire, nem outro circo qualquer dos órgãos de comunicação social. No entanto, recuso-me a ficar ofendido. Em vez disso, vou garantir-lhe uma vez mais que a sua opinião foi devidamente registada, e, como já disse, gostaria de continuar. Na qualidade de investigador da RSTH, dificilmente se pode esperar que seja inteiramente objectivo em relação aos méritos morais da técnica, mas gostaria de o questionar sobre este assunto. Porém, em primeiro lugar, gostaria de dizer que tem sido difícil não reparar na senhora extremamente atraente que se encontra sentada ao seu lado na mesa das testemunhas. Ela está aqui para ajudá-lo a testemunhar? Se for esse o caso, talvez seja boa ideia apresentá-la para ficar registada.

 

É a Dr.a Stephanie D’Agostino disse Daniel, furioso. É a minha colaboradora científica.

 

Outra mestrada e doutorada? perguntou Ashley

 

Tenho um mestrado, mas não um doutoramento disse Stephanie para o seu microfone. E, Sr. Presidente, gostaria de corroborar a opinião do Dr. Lowell sobre a parcialidade com que esta audição tem evoluído, mas sem as suas palavras inflamadas. Acredito fortemente que as alusões ao mito de Frankenstein em relação à RSTH são inadequadas, uma vez que jogam com os medos fundamentais das pessoas.

 

Estou mortificado disse Ashley. Sempre pensei que as pessoas da Ivy League eram viciadas em alusões a muitas e variadas obras-primas da literatura, mas aqui, a única vez que recorro a uma, dizem-me que é inadequado. Ora, isso é justo, especialmente uma vez que me recordo distintamente de me ter sido ensinado na minha pequena faculdade baptista que Frankenstein era, entre outras coisas, um aviso sobre as consequências morais do materialismo científico não controlado? Na minha opinião, isso torna o livro extremamente apropriado. Mas basta deste assunto! Estamos numa audição, não num debate literário.

 

Antes de Ashley poder continuar, Dan aproximou-se por detrás dele e tocou-lhe no ombro. Ashley tapou o microfone com a mão para impedir que os comentários do assessor fossem ouvidos.

 

Senador sussurrou Dan ao ouvido de Ashley.Esta manhã, assim que o pedido para que a Dr.a D’Agostino se pudesse apresentar com o Dr. Lowell na mesa de testemunhas deu entrada, fizemos uma investigação rápida sobre ela. Estudou em Harvard. Cresceu no North End de Boston.

 

E isso tem alguma importância? Dan encolheu os ombros.

 

Pode ser coincidência, mas eu duvido. O investidor da empresa de Lowell que está indiciado e de que o Departamento nos falou também é um D’Agostino, que cresceu no North End. Provavelmente, são parentes.

 

Ora, ora comentou Ashley. Isso é curioso. Pegou na folha de papel que Dan trazia e pousou-a ao lado da declaração financeira da empresa de Daniel. Teve dificuldade em suprimir o sorriso depois de tanta sorte inesperada.

 

Dr.a D’Agostino disse Ashley para o microfone, depois de retirar a mão. Por acaso está relacionada com Anthony D’Agostino, residente no número catorze da Rua Acorn em Medford, Massachusetts?

 

É meu irmão.

 

E trata-se do mesmo Anthony D’Agostino que foi indiciado por extorsão?

 

Infelizmente, sim disse Stephanie. Olhou de relance para Daniel, que a fitou com uma expressão de descrença.

 

Dr. Lowell continuou Ashley. Estava consciente de que um dos seus primeiros e maiores investidores foi indiciado por esse crime?

 

Não, não estava declarou Daniel. Mas ele não é de maneira nenhuma um grande investidor.

 

Hmmm disse Ashley Na minha perspectiva, várias centenas de milhares de dólares é muito dinheiro. Mas não vamos discutir por causa disso. Suponho que ele não é um dos directores?

 

Não, não é.

 

Que alívio. E suponho que podemos presumir que o criminoso indiciado Anthony D’Agostino não faz parte do vosso conselho de ética, que sei que têm.

 

Um riso abafado soou na audição.

 

Ele não faz parte do nosso conselho de ética esclareceu Daniel.

 

Isso também é um alívio. Agora vamos falar por momentos sobre a sua empresa disse Ashley. O nome é CURA, uma palavra muito optimista.

 

É verdade disse Daniel com um suspiro, como se estivesse farto da audição.

 

Lamento se está cansado com os rigores desta audição, Doutor disse Ashley.Vamos tentar despachar as coisas o mais depressa possível. Mas sei que a sua empresa está a tentar obter a segunda fase de financiamento por meio de capitalistas especuladores, com a RSTH como a sua maior propriedade intelectual. O vosso objectivo principal é abrir a empresa ao público através de uma Oferta Pública de Venda?

 

Sim respondeu Daniel simplesmente. Recostou-se para trás na cadeira.

 

Agora, isto não é oficial disse Ashley. Olhou para a sua esquerda. Gostaria de perguntar ao distinto senador do grande Estado de Montana se ele pensa que a Comissão de Valores Mobiliários acharia interessante o facto de um dos investidores iniciais de uma empresa que está a planear abrir o seu capital ao público, estar indiciado por extorsão. Quero dizer, há aqui uma questão de integridade moral. Dinheiro proveniente de extorsão e talvez até de prostituição, tanto quanto sabemos, a ser lavado graças a uma empresa de biotecnologia.

 

Acho que eles ficariam muito interessados respondeu o senador de Montana.

 

Também é essa a minha opinião declarou Ashley. Olhou de novo para os seus apontamentos e depois para Daniel. Segundo sei, a sua segunda fase de financiamento foi retida pelo S. 1103 e pelo facto de a Câmara já ter dado o seu parecer. Estou correcto?

 

Daniel acenou afirmativamente.

 

Tem de falar para a transcrição disse Ashley.

 

Correcto afirmou Daniel.

 

E sei que a sua taxa de consumo, isto é, o dinheiro que está a usar para se manter à tona actualmente, é muito elevada e que se não receber a segunda fase do financiamento vai à falência.

 

Correcto.

 

É uma pena afirmou Ashley, aparentemente solidário. Todavia, para os nossos objectivos aqui nesta audição terei de presumir que a sua objectividade em relação aos aspectos morais da RSTH apresenta sérias dúvidas. Quero dizer, o próprio futuro da sua empresa depende de o S. 1103 não ser aprovado. Não é verdade, Doutor?

 

A minha opinião tem sido e continuará a ser que é moralmente errado não continuar a investigar e usar posteriormente a RSTH para curar inúmeros seres humanos que sofrem.

 

A sua opinião foi registada declarou Ashley. Mas, para que conste do registo, eu gostaria de referir que o Dr. Daniel Lowell optou por não responder à pergunta que lhe foi feita.

 

Ashley recostou-se para trás e olhou para a sua direita.

 

Não tenho mais perguntas para fazer a esta testemunha. Algum dos meus estimados colegas quer apresentar alguma questão?

 

Os olhos de Ashley percorreram os rostos dos senadores sentados no estrado.

 

Muito bem disse Ashley. A Subcomissão de Política de Saúde gostaria de agradecer aos doutores Lowell e D’Agostino a sua simpática participação. E gostaríamos de chamar a próxima testemunha: o Sr. Harold Mendes, da organização Direito à Vida.

 

 

11.05, quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2002

Stephanie viu o táxi no meio da fila compacta de carros, que se aproximavam, e levantou a mão na expectativa. Ela e Daniel tinham seguido uma sugestão que lhes fora dada por um guarda de segurança do Edifício do Senado e tinham ido a pé até à Avenida Constitution na esperança de apanhar um táxi, mas não tinham tido muita sorte. O que começara nessa manhã como um dia razoável, bonito, alterara-se para pior. Nuvens escuras e pesadas tinham vindo de este, e com a temperatura ligeiramente negativa havia uma muito real possibilidade de neve. Aparentemente, nessas condições a procura de táxis excedia largamente a oferta.

 

Lá vem um disse Daniel bruscamente, como se Stephanie tivesse alguma coisa a ver com a falta de táxis. Não o deixes fugir!

 

Estou a vê-lo respondeu Stephanie num tom igualmente crispado. Depois de saírem da audição no Senado, nenhum deles falara muito mais do que o mínimo necessário para decidirem aceitar a sugestão de ir a pé até à Avenida Constitution. Semelhantes às nuvens que se amontoavam, as suas disposições tinham escurecido à medida que a audição matinal avançava.

 

Raios! balbuciou Stephanie quando o táxi passou por eles sem parar. Era como se o motorista usasse uma venda. Stephanie fizera tudo, menos atirar-se para a frente dos carros.

 

Deixaste-o ir queixou-se Daniel.

 

Deixei-o ir? gritou Stephanie. Eu acenei. Eu assobiei. Até saltei para cima e para baixo. Não te vi fazer qualquer esforço.

 

Que diabo vamos fazer? perguntou Daniel. Aqui fora está mais frio do que a mama de uma bruxa.

 

Bem, se tiveres alguma ideia brilhante, diz-me, Einstein.

 

O quê? A culpa de não haver táxis é minha?

 

. Também não é minha retorquiu Stephanie.

 

Abraçaram-se a si próprios numa tentativa vã de se manterem quentes, mas fizeram questão de se manter afastados um do outro. Naquela viagem, nenhum deles trouxera um verdadeiro casaco de Inverno. Tinham pensado que não seriam necessários, pois tinham ido setecentos quilómetros para sul.

 

Lá vem outro disse Daniel.

 

É a tua vez.

 

Com a mão levantada, Daniel aventurou-se até à estrada que pensava ser segura. Quase imediatamente, teve de recuar quando avistou um todo-o-terreno a vir direito a ele pela faixa de emergência. Daniel acenou e gritou, mas o táxi passou na corrente de veículos, sem abrandar.

 

Bom trabalho comentou Stephanie.

 

Cala-te!

 

Precisamente quando estavam prestes a desistir e a começar a caminhar ao longo da Avenida Constitution, um motorista de táxi buzinou. Estivera parado no semáforo da Rua First com a Constitution, e observara os esforços de Daniel. Quando o semáforo mudou, ele voltou para a esquerda e parou junto ao passeio.

 

Stephanie e Daniel instalaram-se no banco de trás e colocaram os cintos de segurança.

 

Para onde? perguntou o motorista, enquanto os observava pelo espelho retrovisor. Usava um turbante e era tão escuro como se tivesse acabado de passar uma semana no Deserto do Sara.

 

Para o Four Seasons disse Stephanie.

 

Stephanie e Daniel mantiveram-se em silêncio, enquanto olhavam pelas respectivas janelas.

 

Eu diria que a audição não podia ter corrido pior queixou-se Daniel por fim.

 

Foi pior do que isso respondeu Stephanie.

 

Não tenho a menor dúvida de que o filho da mãe do Butler vai votar este projecto de lei, e quando isso acontecer já me garantiram na Organização da Indústria Biotecnológica que será aprovado na comissão e no próprio Senado.

 

Então, adeus à CURA, Inc.

 

É uma pena que neste país a investigação médica seja refém de
políticas demagógicas disse Daniel asperamente. Eu nem sequer devia ter sido obrigado a vir a Washington.

 

Bem, talvez não. Talvez tivesse sido preferível teres vindo sozinho. Não há dúvida de que não ajudaste nada quando disseste ao Ashley que ele estava a evidenciar-se e que não tinha uma mente aberta.

 

Daniel virou-se e olhou para a nuca de Stephanie.

 

Que é que disseste? sibilou.

 

Não devias ter perdido o controlo.

 

Não acredito nisto exclamou Daniel. Estás a tentar insinuar que este resultado desastroso é culpa minha?

 

Stephanie virou-se para olhar para Daniel.

 

Ser sensível em relação aos sentimentos das outras pessoas não é um dos teus pontos fortes. E esta audição é a prova disso. Quem sabe o que teria acontecido se não tivesses perdido a calma. Atacá-lo como tu fizeste foi inadequado, porque pôs fim a qualquer diálogo que pudessem ter. É a única coisa que estou a dizer.

 

O rosto pálido de Daniel ficou muito encarnado.

 

Aquela audição foi uma maldita farsa!

 

Talvez tenha sido, mas isso não justifica que o digas na cara de Butler, porque isso deitou por terra qualquer hipótese de sucesso que pudéssemos ter, por muito pequena que fosse. Eu penso que o objectivo dele era enfurecer-te para que a tua imagem ficasse prejudicada, e resultou. Foi a sua forma de te desacreditar como testemunha.

 

Estás a irritar-me.

 

Daniel, eu estou tão irritada com este resultado como tu.

 

Sim, mas estás a dizer que a culpa é minha.

 

Não, estou a dizer que o teu comportamento não ajudou em nada. Há uma diferença.

 

Bem, o teu comportamento também não foi muito útil. Por que é que nunca me disseste que o teu irmão tinha sido indiciado por extorsão? A única coisa que me disseste foi que ele era um investidor qualificado. Que grandes qualificações! Foi o momento perfeito para eu ficar a conhecer esse pequeno pormenor sórdido.

 

Foi depois de ele ter investido, e a notícia saiu nos jornais de Boston. Por isso, não é um segredo, mas foi uma coisa sobre a qual não me apeteceu falar, pelo menos, naquela altura. Pensei que tu não tinhas mencionado o assunto por consideração. Mas devia ter percebido.

 

Não te apeteceu falar no assunto? perguntou Daniel, com uma surpresa exagerada. Tu sabes que eu não me dou ao trabalho de ler os estúpidos pasquins de Boston. Por isso, como é que poderia saber? E acabaria por ter de saber, porque Butler teve razão. Se tivéssemos feito uma OPV, teria de vir a público que tínhamos um criminoso como investidor, e isso teria parado o processo.

 

Ele foi indiciado declarou Stephanie. Não foi condenado. Não te esqueças de que no nosso sistema judiciário, a pessoa é inocente até prova em contrário.

 

Essa é uma desculpa muito esfarrapada para não me teres contado disse Daniel bruscamente. Ele vai ser condenado?

 

Não sei; a voz de Stephanie perdera a irritação, enquanto lutava com alguma dose de culpa por não ter sido mais franca com Daniel em relação ao irmão. De vez em quando pensava falar-lhe sobre o assunto, mas adiava sempre para um amanhã que nunca chegara.

 

Não fazes a menor ideia? Tenho alguma dificuldade em acreditar nisso.

 

Já tinha tido vagas suspeitasadmitiu Stephanie.Tive as mesmas suspeitas em relação ao meu pai, e foi Tony que continuou os negócios dele.

 

De que negócios é que estás a falar?

 

Imobiliários e alguns restaurantes, e também um café em Hanover Street.

 

Só isso?

 

Isso é que não sei. Como disse, tinha suspeitas vagas devido a coisas como pessoas a entrar e a sair da nossa casa a todas as horas do dia e da noite, e das mulheres e crianças a serem mandadas sair da sala no fim de prolongadas refeições de família, para os homens poderem conversar. De muitas maneiras, em retrospectiva, parecia-me que éramos o cliché de uma família italo-americana da Mafia. Certamente não à escala que vemos nos filmes de gangsters, mas modestamente semelhante. Esperava-se que nós, mulheres, nos ocupássemos dos assuntos mundanos, da casa e da igreja, e que não tivéssemos qualquer interesse pelos negócios. Para te dizer a verdade, era embaraçoso para mim, porque nós, miúdos, éramos tratados de forma diferente pela vizinhança. Eu estava morta por sair dali, e era suficientemente inteligente para reconhecer que a melhor maneira era sendo boa aluna.

 

Eu compreendo isso disse Daniel. A rispidez da sua voz também se derreteu. O meu pai também se metia em todos os tipos de negócios, alguns dos quais estavam perto de ser vigarices. O problema é que fracassavam todos, o que quer dizer que, subsequentemente, ele, os meus irmãos e eu tornámo-nos o alvo de piadas na cidade de Revere, especialmente na escola, pelo menos aqueles de nós que não faziam parte do grupo in, o que era seguramente o meu caso. A alcunha do meu pai era «Lowell Falhado», e infelizmente o epíteto tinha tendência para se espalhar.

 

Em relação a mim, foi o oposto disse Stephanie. Éramos tratados com uma espécie de deferência, que não era agradável. Tu sabes como os adolescentes gostam de passar despercebidos. Bem, para mim isso era impossível, e eu nem sabia porquê. Odiava.

 

Por que é que nunca me contaste nada disto?

 

Por que é que nunca me contaste nada sobre a tua família a não ser que tinhas oito irmãos, nenhum dos quais, devo acrescentar, conheço? Pelo menos, eu fiz-te perguntas sobre a tua família em várias ocasiões.

 

Bom argumento disse Daniel vagamente. Os seus olhos deambularam para o exterior, onde se viam alguns flocos de neve solitários a dançar ao sabor das rajadas de vento. Sabia que a verdadeira resposta à pergunta de Stephanie era que nunca se interessara pela família dela, da mesma forma que não se interessava pela sua. Aclarou a garganta e voltou-se novamente para Stephanie.Talvez não tenhamos falado sobre as nossas famílias, porque ambos nos sentimos embaraçados com as nossas infâncias. Ou talvez tenha sido uma combinação disso e da nossa preocupação com a ciência e com a criação da empresa.

 

Talvez concordou Stephanie sem muita convicção. Olhou pelo vidro da frente. É verdade que a vida académica foi sempre o meu escape. Claro que o meu pai nunca aprovou, mas isso só aumentou a minha determinação. Raios, ele achava que eu não devia ir para a universidade. Pensava que era uma perda de tempo e de dinheiro, e dizia que eu ia casar-me e ter filhos como acontecia há cinquenta anos.

 

O meu pai ficou literalmente embaraçado por eu ser bom em ciências. Disse a toda a gente que eu tinha de sair ao lado da minha mãe, como se fosse uma doença genética.

 

E os teus irmãos e irmãs? Foi assim para eles?

 

Até certo ponto, porque o meu pai era uma pessoa suficientemente mesquinha para nos culpar pelos seus fracassos. Sabes, arranjar o capital de que necessitava para concretizar a ideia brilhante para o negócio do momento. Mas os meus irmãos, que eram bons no desporto, tinham mais sorte, pelo menos quando estavam na escola, porque o meu pai era doido por desportos. Mas voltemos ao teu irmão Tony. De quem foi a ideia de ele investir na CURA, tua ou dele? A voz de Daniel recuperou alguma da brusquidão anterior.

 

Isto vai transformar-se novamente numa discussão?

 

Responde à minha pergunta!

 

Que diferença faz?

 

Foi um erro de julgamento monumental permitir que um possível mafioso... ou provável, como pode ser o caso... investisse na nossa empresa.

 

Foi uma combinação dos dois declarou Stephanie. Em contraste com o meu pai, ele interessa-se pelo que eu tenho feito ultimamente, e eu disse-lhe que a biotecnologia era um bom ramo para ele investir algum do dinheiro dos restaurantes.

 

Maravilhoso! exclamou Daniel, sarcasticamente. Espero que percebas que, regra geral, os investidores não gostam de perder dinheiro, apesar de terem sido adequadamente avisados dos riscos das novas empresas. Eu diria que esse tipo de atitude seria aviso suficiente para afastar um mafioso. Alguma vez ouviste falar em inconveniências como patelas esmagadas?

 

Por amor de Deus, ele é meu irmão! Ninguém vai esmagar as rótulas dos joelhos a ninguém.

 

Sim, mas eu não sou irmão dele.

 

É insultuoso sugerires uma coisa dessas declarou Stephanie, furiosa. Virou a cabeça para olhar pela janela. Geralmente, tinha um reservatório de paciência para aturar o sarcasmo, o ego e a negatividade anti-social de Daniel, graças à reverência que sentia pelo seu brilhantismo científico, mas no momento, e devido aos acontecimentos daquela manhã, estava a ficar impaciente.

 

Dadas as circunstâncias, não me apetece muito ficar mais uma noite em Washington declarou Daniel. Acho que devíamos fazer as malas, sair do hotel e voltar para Boston no próximo voo.

 

Por mim, tudo bem retorquiu Stephanie.

 

Stephanie saiu do táxi, enquanto Daniel pagava. Dirigiu-se imediatamente para o átrio do hotel, apenas vagamente consciente de que ele não vinha muito longe dela. Estava suficientemente perturbada para perguntar a si mesma o que faria quando chegassem a Boston. No seu estado de espírito actual, a ideia de voltar para o apartamento de Daniel em Cambridge, onde estava a viver, não era agradável. A sugestão de Daniel de que a sua família era vil o bastante para ser capaz de violência física, era de bradar aos céus. Não sabia ao certo se alguém na sua família estava envolvido em agiotagem ou outras actividades questionáveis, mas tinha a certeza absoluta que nunca ninguém se magoara.

 

Dr.a D’Agostino, por favor! disse um dos recepcionistas em voz bastante alta.

 

Ouvir o seu nome ser chamado inesperadamente no meio do átrio do hotel surpreendeu Stephanie, a ponto de a fazer parar. Daniel colidiu com ela e deixou cair a pasta que trazia na mão.

 

Santo Deus! exclamou Daniel, enquanto se baixava para apanhar os papéis que tinham caído. Um paquete deu uma ajuda. Os papéis eram esquemas muito técnicos da RSTH. Levara-os para a audição para o caso de se justificar a sua apresentação, para que as pessoas compreendessem a técnica. Infelizmente, não tivera a oportunidade de o fazer.

 

Quando Daniel se levantou, Stephanie já voltara do balcão da recepção e estava novamente a seu lado.

 

Podias ter-me dito que ias parar queixou-se Daniel.

 

Quem é Carol Manning? perguntou Stephanie.

 

Não faço a menor ideia. Por que é que perguntas?

 

Tens uma mensagem urgente dela. Stephanie entregou-lhe o papel. Daniel leu-o rapidamente.

 

É suposto eu telefonar-lhe. Diz que é uma emergência. Como é que pode ser uma emergência, se não sei quem ela é?

 

Qual é o código de área? perguntou Stephanie, enquanto espreitava por cima do ombro de Daniel.

 

Dois-zero-dois! disse Daniel. Sabes onde é?

 

Claro que sei! É aqui mesmo em D. C.

 

Washington! exclamou Daniel. Bem, isso resolve a questão amachucou a folha, aproximou-se da recepção e pediu a um dos recepcionistas que a destruísse.

 

Stephanie estava pregada ao sítio onde entregara o bilhete a Daniel. Pensou rapidamente, enquanto observava Daniel a dirigir-se para os elevadores. Tomando uma decisão súbita, correu para a recepção, tirou o bilhete que ainda estava amachucado na mão do recepcionista enquanto este falava com outro hóspede, e correu atrás de Daniel.

 

Acho que devias telefonar disse Stephanie, ligeiramente ofegante, quando chegou junto de Daniel.

 

Oh, a sério? perguntou Daniel desdenhosamente. Não me parece.

 

O elevador chegou e Daniel entrou. Stephanie seguiu-o.

 

Não, eu acho que devias telefonar. Quero dizer, que é que tens a perder?

 

Um pouco mais da minha auto-estima disse Daniel.

 

O elevador subiu. Os olhos de Daniel estavam colados ao botão do andar. Os de Stephanie estavam colados a Daniel. As portas abriram-se. Começaram a percorrer o corredor.

 

Acho que reconheci o prefixo do número por ter ligado para o gabinete do senador Ashley Butler a semana passada. Creio que o prefixo era 224, e se era, então é um número do Edifício de Gabinetes do Senado.

 

Uma razão ainda maior para eu não telefonar declarou Daniel. Abriu a porta do quarto com o cartão e entraram. Stephanie estava mesmo atrás dele.

 

Enquanto Daniel tirava o casaco, Stephanie entrou na sala de estar. Junto à secretária, endireitou o bilhete.

 

É 224 disse para Daniel. ^emergência está sublinhada. Talvez o tipo tenha mudado de ideias!

 

Isso é tão provável como a lua sair da sua órbita disse Daniel, aproximando-se de Stephanie. Baixou os olhos para a mensagem. É esquisito. Que tipo de emergência poderá ser? Originalmente, pensei que era de algum jornalista, mas se é um número do Senado não é possível. Sabes uma coisa, não me interessa. Colaborar com uma pessoa que está relacionada com o Senado dos Estados Unidos não está na minha lista de prioridades neste momento.

 

Telefona! Podes estar a fazer uma asneira enorme. Se não telefonares, telefono eu. Vou fingir que sou a tua secretária.

 

Tu, secretária? Que divertido! Está bem, por amor de Deus, telefona!

 

Vou usar o sistema de alta-voz para poderes ouvir.

 

Maravilhoso disse Daniel, sarcasticamente. Estendeu-se no sofá, com a cabeça num dos braços e os pés no outro.

 

Stephanie marcou o número. Só se ouviu um toque electrónico antes de a chamada ser atendida. Uma voz decididamente feminina lançou um «estou», como se a pessoa estivesse ansiosamente à espera do outro lado.

 

Estou a telefonar em nome do Dr. Daniel Lowell disse Stephanie. Fitou Daniel nos olhos. Fala Carol Manning?

 

Sim. Obrigada por ter telefonado. É extremamente importante que eu fale com o doutor, antes de ele sair do hotel. Ele está disponível?

 

Posso perguntar qual é o assunto?

 

Eu sou a chefe de gabinete do senador Ashley Butler começou Carol.Talvez me tenha visto esta manhã. Estava sentada atrás do senador.

 

Daniel passou rapidamente o dedo indicador pela garganta para que Stephanie desligasse. Ela ignorou-o.

 

Preciso de falar com o doutor continuou Carol. Como disse, é extremamente importante.

 

Acrescentando um esgar zangado, Daniel gesticulou de novo com o dedo, como se estivesse a cortar a garganta. Fê-lo de novo quando Stephanie hesitou.

 

Ela fez-lhe sinal para que parasse com aquilo. Era evidente que ele não estava disposto a falar com Carol Manning, mas ela não pretendia desligar.

 

O doutor está aí? perguntou Carol.

 

Ele está aqui, mas momentaneamente indisposto. Daniel revirou os olhos.

 

Posso saber com quem estou a falar? perguntou Carol. Stephanie hesitou uma vez mais enquanto pensava no que dizer, tendo em conta que dissera a Daniel que ia fingir que era a sua secretária. Pensando que era ridículo, agora que estava ao telefone, disse por fim o seu nome.

 

Oh, óptimo! replicou Carol. Pelo depoimento do Dr. Lowell, depreendo que é colaboradora dele. Posso perguntar se a sua colaboração é íntima e talvez até pessoal?

 

Um sorriso forçado estampou-se no rosto de Stephanie. Olhou para o telefone por um segundo, como se o aparelho pudesse dizer-lhe por que é que Carol Manning estava disposta a quebrar a etiqueta formal e fazer uma pergunta daquelas. Em circunstâncias mais normais, teria irritado Stephanie. Agora, só aumentou a sua curiosidade.

 

Não é minha intenção ser inconveniente acrescentou Carol,. Como se tivesse pressentido a reacção de Stephanie. Esta é uma situação bastante peculiar, mas disseram-me que estava registada na mesma suite. Espero que compreenda que o meu objectivo não é invadir a sua privacidade, mas ser o mais discreta possível. É que o senador gostaria de marcar um encontro secreto com o Dr. Lowell, e nesta cidade não é fácil, tendo em conta a proeminência e notoriedade do senador.

 

A boca de Stephanie abrira-se lentamente, enquanto escutava aquele pedido surpreendente. Até Daniel pousara os pés no chão e estava agora sentado muito direito.

 

Eu esperava continuou Carol, poder comunicar esta mensagem directamente ao Dr. Lowell, para que apenas o senador, o doutor e eu própria soubéssemos do encontro. Obviamente, isso já não é possível. Espero que possamos contar com a sua discrição, Dr.a D’Agostino.

 

O Dr. Lowell e eu trabalhamos muito intimamente disse Stephanie. É claro que pode contar com a minha discrição gesticulou freneticamente para saber se Daniel queria participar na conversa, agora que esta tinha seguido um rumo tão inesperado. Daniel abanou a cabeça, mas fez-lhe sinal para que continuasse.

 

Esperamos que o encontro possa decorrer esta noite disse Carol.

 

Posso dizer ao Dr. Lowell que o encontro é sobre o quê?

 

Não posso dizer-lhe.

 

Não me dizer vai causar um problema declarou Stephanie. Eu sei que o Dr. Lowell não ficou satisfeito com o que se passou na audição desta manhã. Não sei se estará receptivo a um encontro com o senador, a menos que tenha alguma ideia de que será vantajoso para ele. Stephanie olhou para Daniel. Ele ergueu o polegar num sinal de que aprovava a forma como ela estava a tratar do assunto.

 

Isto também é bastante estranho disse Carol. Embora eu seja a chefe de gabinete do senador e normalmente saiba tudo o que se passa, não faço a menor ideia por que é que o senador quer reunir-se com o doutor. A única coisa que o senador disse foi que, embora o Dr. Lowell possa estar irritado com os acontecimentos de hoje, devia abster-se de tirar quaisquer conclusões sobre o S.1103, até se encontrarem.

 

Isso é bastante vago disse Stephanie.

 

É o melhor que posso fazer com as informações de que disponho. No entanto, sugiro veementemente que o doutor se encontre com o senador. Sinto que vai ser vantajoso para ele. Não posso imaginar nenhum outro motivo para este encontro. É bastante invulgar, e eu sei do que estou a falar. Já trabalho com o senador há dezasseis anos.


Onde é que este encontro decorreria? O lugar mais seguro seria um carro em movimento. Isto está a parecer-me exageradamente melodramático. O senador insistiu que o segredo fosse absoluto, e, como eu disse, nesta cidade isso não é fácil.

 

Quem estaria a conduzir o carro?

 

Eu própria.

 

Se este encontro se concretizar, eu tenho de insistir em estar também presente.

 

Daniel revirou novamente os olhos.

 

Como já a pus a par da reunião, presumo que seria aceitável, mas para ter a certeza absoluta terei de perguntar ao senador.

 

Posso presumir que passariam pelo hotel para nos vir buscar? Infelizmente, isso não seria aconselhável. O plano mais seguro seria a doutora e o Dr. Lowell apanharem um táxi para Union Station. Às vinte e uma horas em ponto, eu passo num Chevrolet Suburban preto com vidros foscos e a matrícula GDF471. Paro junto ao passeio directamente em frente da estação. Para o caso de haver algum problema, vou dar-lhe o número do meu telemóvel.

 

Stephanie anotou o número que Carol lhe deu.

 

O senador pode contar com a presença do Dr. Lowell?

 

Eu vou transmitir-lhe as informações exactamente como mas apresentou.

 

Não posso pedir mais nada disse Carol. No entanto, gostaria de realçar uma vez mais a extrema importância deste encontro para o senador e para o Dr. Lowell. O senador usou precisamente estas palavras.

 

Stephanie agradeceu à mulher, disse que voltaria a telefonar dentro de quinze minutos e desligou. Olhou para Daniel.

 

Este é sem dúvida um dos episódios mais bizarros em que já estive envolvida disse ela, quebrando um breve silêncio. Que é que achas? Que diabo pode aquele velho manhoso ter em mente? Infelizmente, só existe uma maneira de sabermos. Achas mesmo que devíamos ir? Vamos colocar as coisas da seguinte forma disse Stephanie. Acho que serias parvo se não fosses. Uma vez que o encontro é secreto, nem sequer tens de te preocupar com a hipótese de perderes mais auto-estima, a menos que te importes com o que o senador Ashley Butler pensa sobre ti, e, sabendo o que pensas dele, não me parece que seja esse o caso.

 

Acreditaste na Carol quando ela disse que não sabia qual era o objectivo da reunião?

 

Sim, acreditei. Detectei alguma mágoa quando falou. O meu palpite é que o senador tem alguma coisa na manga, que nem sequer quis partilhar com a sua chefe de gabinete.

 

Está bem disse Daniel com alguma relutância. Telefona-lhe e diz que estarei em Union Station às nove da noite.

 

Estaremos em Union Station, queres tu dizer replicou Stephanie. Eu não estava a brincar quando falei com a Sr.a Manning. Insisto em ir.

 

Por que não? disse Daniel. Até podíamos fazer uma festa.

 

 

20.15, quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2002

Quando virou para o caminho de acesso e parou, Carol ficou com a impressão de que todas as luzes estavam acesas na modesta casa do senador em Arlington, Virgínia. Olhou para o relógio. Com os caprichos do trânsito de Washington, conseguir chegar a Union Station às nove da noite em ponto, não era a coisa mais fácil do mundo. Esperava ter calculado bem, embora as coisas não estivessem a começar de forma auspiciosa. Demorara mais dez minutos do que pensara a vir do seu apartamento em Foggy Bottom até à casa de Ashley. Felizmente, com o seu plano precavido, dera a si mesma uma margem de mais quinze minutos.

 

Carol deixou o motor ligado, puxou o travão de mão e preparou-se para sair do carro. Mas afinal não foi necessário expor-se ao frio cortante. A porta principal da casa de Ashley abriu-se, e o senador apareceu. Atrás dele estava a sua enorme mulher de quarenta anos, que parecia o epitome da sólida domesticidade, com um avental com franjas de renda sobre um vestido estampado de trazer por casa. Sob a protecção do alpendre e seguindo ordens aparentes, ele lutou para abrir o chapéu de chuva. O que começara nesse dia como alguns flocos de neve, mudara para chuva intensa.

 

Com o rosto escondido por baixo da curva invertida do chapéu de chuva preto, Ashley começou a descer os degraus. Caminhou lenta e deliberadamente, dando a Carol um momento para estudar o homem entroncado, ligeiramente curvado e pesado que noutra vida poderia ter sido um agricultor ou até um metalúrgico. Para Carol, ver o patrão a aproximar-se não foi uma visão particularmente agradável. Havia algo distintamente deprimente e patético naquela cena. O ar nublado e a coloração de sépia ajudavam, assim como o monótono clique-claque dos limpa pára-brisas, enquanto percorriam implacavelmente os seus arcos no vidro molhado. Mas, para Carol, era mais o que sabia do que o que via. Ali estava um homem que ela tinha respeitado quase ao ponto da reverência, por quem fizera inúmeros sacrifícios ao longo de mais de uma década, mas que era agora imprevisível e, ocasionalmente, até mau. Apesar de todos os seus esforços com o senador durante o dia, continuava sem fazer a mínima ideia por que é que ele insistia em manter o encontro clandestino e politicamente arriscado com o Dr. Lowell, e devido à sua insistência em manter segredo absoluto não podera perguntar a mais ninguém. Para piorar as coisas, não conseguia apagar a sensação de que Ashley lhe escondera o motivo do encontro por rancor, apenas porque sabia instintivamente o quão desesperadamente ela o queria saber. Ao longo do último ano, graças a uma série de comentários sarcásticos imerecidos, ela sentia que ele invejava a sua relativa juventude e boa saúde.

 

Carol observou Ashley a parar ao fundo das escadas para se ajustar ao piso plano. Por instantes, pareceu paralisado, uma metáfora da sua teimosia de touro, uma qualidade que Carol em tempos admirara quando envolvia as crenças políticas populistas dele, mas que agora a irritava. No passado, ele lutara pelo poder apenas pelo próprio poder, como se fosse viciado nele. Ela considerara-o sempre um homem grandioso que saberia quando retirar-se, mas agora já não tinha tanta certeza.

 

Ashley começou a caminhar lentamente, e com o seu casaco preto, os ombros arredondados e passinhos curtos e arrastados, fez lembrar a Carol um grande pinguim. O senador foi ganhando velocidade à medida que avançava. Carol esperava que ele desse a volta para se sentar no assento a seu lado. mas ele abriu a porta de trás directamente atrás dela. Ela sentiu o carro a abanar ligeiramente, quando ele entrou. A porta fechou-se com estrondo. Ouviu o chapéu de chuva a cair no chão.

 

Carol virou-se. Ashley recostou-se no assento. À luz fraca, castanho-acinzentada do interior do carro, o rosto dele parecia pálido, quase fantasmagórico, e as suas feições rudes encovaram-se como se tivessem sido comprimidas numa bola de pão cru. Os cabelos grisalhos que, tipicamente, se mantinham no seu lugar, estavam caídos como um monte de lã de aço. As lentes dos óculos de aros grossos reflectiam estranhamente as luzes da casa.

 

Estás atrasada queixou-se Ashley, sem nenhum vestígio de sotaque sulista.

 

Desculpe respondeu Carol por reflexo. Estava sempre a pedir desculpa. Mas acho que vamos chegar a horas. Devemos falar antes de voltarmos para a cidade?

 

Conduz! ordenou Ashley.

 

Carol foi invadida por uma onda de raiva. No entanto conteve-se, sabendo muito bem quais seriam as consequências se expressasse os seus sentimentos. Ashley tinha memória de elefante para quaisquer desrespeitos recebidos, e a maldade da sua vingança era lendária. Carol engrenou a marcha-atrás no grande Suburban e recuou do caminho de acesso.

 

O percurso era simples, com estradas de acesso limitado a maior parte do caminho. Carol percorreu a via rápida 395, agora mais tranquila ao apanhar todos os semáforos verdes. Na artéria principal, ficou satisfeita ao constatar que havia menos tráfego do que quinze minutos antes, e acelerou sem obstáculos para a velocidade máxima permitida. Pressentindo que ia conseguir chegar a horas, descontraiu-se ligeiramente, mas ao aproximarem-se do Rio Potomac, um avião comercial acabado de sair do Aeroporto Nacional Reagan trovejou por cima deles. Carol teve a sensação de que este se encontrava a uns meros dois metros acima deles. Tensa como estava, o ruído inesperado e reverberante assustou-a o suficiente para provocar uma ligeira guinada do carro.

 

Se não soubesse disse Ashley, voltando ao seu característico sotaque sulista arrastado e falando pela primeira vez desde a ordem grosseira, teria jurado pela alma da minha mãe que a turbulência daquele avião se estendeu desde o ar até esta auto-estrada. Tens o domínio completo deste veículo, minha querida?

 

Está tudo bem disse Carol sem mais explicações. Naquele momento, até achava o sotaque teatral de Ashley insuportável, sabendo que ele podia ligá-lo e desligá-lo com a maior das facilidades.

 

Tenho andado a analisar o dossier que tu e o resto do pessoal organizaram sobre o bom doutor disse Ashley após uma breve pausa. Na verdade, já o decorei quase todo. Tenho de te felicitar e a todos os outros. Todos vocês fizeram um belo trabalho. Estou convicto de que sei tanto sobre aquele rapaz como ele próprio.

 

Carol acenou afirmativamente, mas não respondeu. O silêncio voltou a instalar-se até entrarem no túnel que passava por baixo da extensão relvada | de Washington Mail. Sei que estás descontente e zangada comigo disse Ashley, subitamente. E também sei porquê.;

 

Carol olhou de relance para o senador pelo espelho retrovisor. Clarões de luz dos azulejos de cerâmica do túnel reflectiam-se no rosto dele de uma forma trémula, fazendo-o parecer mais fantasmagórico do que antes.

 

Estás zangada comigo, porque eu não te confidenciei os meus motivos para este encontro iminente.

 

Carol voltou a olhar para ele. Estava embasbacada. Uma admissão daquele tipo era totalmente contrária à personalidade dele. Ele nunca sugerira que sabia ou se importava com o que Carol estava a sentir. Assim sendo, era mais uma prova da sua imprevisibilidade actual, e ela não sabia como reagir.

 

Recorda-me uma altura em que a minha mãe estava zangada comigo disse Ashley, acrescentando agora ao sotaque a sua maneira cómica de falar. Carol resmungou no seu íntimo. Era um maneirismo que achava igualmente cansativo. Isto passou-se quando eu era pequeno. Decidi ir pescar sozinho num rio a mais de um quilómetro e meio de distância da nossa casa, onde se dizia que havia peixes-gato do tamanho de tatus. Saí antes de o dia nascer, antes de mais alguém se levantar, e causei uma preocupação tremenda à minha mãe. Quando voltei para casa, ela estava quase doida e agarrou-me pela nuca e exigiu saber por que é que eu não lhe pedira autorização para fazer uma viagem tão arriscada com a minha tenra idade. Eu disse-lhe que não lha pedira porque sabia que ela ia dizer que não. Bem, minha querida Carol, a situação repete-se com o iminente encontro com o médico. Conheço-te bastante bem para saber que farias tudo para me dissuadir, e eu estou empenhado em levar a minha decisão até ao fim.

 

Eu só tentaria demovê-lo se fosse do seu interesse replicou Carol.

 

Há alturas em que a transparência da tua competitividade é flagrante, minha querida. A maior parte das pessoas talvez não acreditassem nas tuas verdadeiras motivações, tendo em conta a tua devoção aparentemente altruísta, mas eu conheço-te melhor.

 

Carol engoliu em seco, enervada. Não sabia ao certo como reagir ao comentário pomposo de Ashley, mas sabia que não queria ir na direcção que ele insinuara, mostrando que conhecia as suas ambições nunca expressas. Em vez disso, perguntou:

 

Pelo menos, discutiu este encontro com Phil para se certificar das suas potenciais ramificações políticas?

 

Céus, não! Não discuti o encontro com ninguém, nem sequer com a minha mulher, abençoada seja ela. Tu, os doutores e eu próprio somos as únicas pessoas que sabem que ele vai acontecer daqui a alguns minutos.

 

Carol saiu da auto-estrada e dirigiu-se para a Avenida Massachusetts. Ficou aliviada por estarem a aproximar-se de Union Station e isso inviabilizar a possibilidade de a conversa voltar ao tópico dos seus objectivos tácitos. Olhou para o relógio. Faltava um quarto para as nove.

 

Vamos chegar um pouco antes da hora disse ela.

 

Então abranda um bocado sugeriu Ashley. Eu preferia chegar exactamente à hora combinada. Vai dar o tom certo ao encontro.

 

Carol voltou à direita na North Capital e depois à esquerda na D. Era uma zona conhecida, devido à sua proximidade com o Edifício do Senado. Faltavam três minutos para as nove, quando se aproximou de Union Station. Quando parou directamente em frente da estação, eram nove horas em ponto.

 

Ali estão eles disse Ashley, apontando sobre o ombro de Carol. Daniel e Stephanie estavam abrigados sob um chapéu de chuva do Four Seasons. Sobressaíam da multidão pela sua imobilidade. Todas as outras pessoas nas redondezas procuravam abrigo, ou na estação ou num dos táxis parados.

 

Carol fez sinal de luzes para chamar a atenção dos dois doutores.

 

Não há motivo para fazer um alarde desses resmungou Ashley Eles já nos viram.

 

Daniel olhou para o relógio antes de se dirigir para o Suburban. Stephanie apoiava-se no seu braço esquerdo.

 

Stephanie e Daniel aproximaram-se da janela de Carol. Ela baixou o vidro.

 

Sr.a Manning? perguntou Daniel, desenvoltamente.

 

Estou no banco de trás, Doutor! disse Ashley antes de Carol poder responder. Que tal sentar-se aqui ao pé de mim e a sua lindíssima colaboradora ir para junto da Carol à frente?

 

Daniel encolheu os ombros antes de ele e Stephanie darem a volta ao carro. Segurou o chapéu de chuva para Stephanie entrar, e depois entrou também.

 

Bem-vindo! disse Ashley, encantado, enquanto estendia uma das mãos grandes e com dedos grossos. Obrigado por ter vindo encontrar-se comigo numa noite tão terrivelmente chuvosa.

 

Daniel olhou para a mão de Ashley mas não fez qualquer movimento para apertá-la.

 

Que é que tem em mente, Senador?

 

Ora aqui temos um verdadeiro yankee disse Ashley alegremente. Baixou a mão e, aparentemente, não se ofendeu com a grosseria de Daniel. Sempre prontos a irem directos ao assunto, sem perder tempo com os refinamentos da vida. Bem, como queira. Mais tarde teremos tempo para apertos de mão. Entretanto, o que eu pretendo é que nos conheçamos melhor. Estou muito interessado nos seus talentos esculapianos.

 

Para onde, Senador? perguntou Carol, enquanto espreitava para Ashley pelo espelho retrovisor.

 

Que tal levarmos os nossos bons doutores a dar uma volta pela nossa bela cidade? sugeriu Ashley. Vai para o Tidal Basin, para que eles possam apreciar o memorial mais elegante da nossa cidade!

 

Carol engrenou o carro e dirigiu-se para sul na Rua First. Carol e Stephanie trocaram um olhar rápido e avaliador.

 

Aqui está o Capitólio à direita disse Ashley, a apontar. E à nossa esquerda situa-se o Supremo Tribunal, cuja arquitectura eu adoro, e a Biblioteca do Congresso.

 

Senador declarou Daniel. Com o devido respeito, que receio não ser muito, não estou interessado em que nos mostre a cidade, nem estou interessado em conhecê-lo melhor, especialmente depois da audição ridícula por que nos fez passar esta manhã.

 

Meu caro, caro amigo... começou Ashley após um breve silêncio.

 

Que tal se parasse com o estilo bombástico sulista! atirou Daniel, desdenhosamente. E, para que fique bem claro, eu não sou seu caro amigo. Nem sequer sou seu amigo.

 

Com o devido respeito, Doutor, e estou a falar com sinceridade, o senhor prejudica-se muito ao ser tão malcriado. Se me permite um conselho: prejudica a sua causa quando permite que as suas emoções se sobreponham ao seu intelecto considerável, como aconteceu esta manhã. Apesar da animosidade adequadamente expressa que sente por mim, quero negociar consigo de homem para homem e, de preferência, de cavalheiro para cavalheiro, um assunto extremamente importante mas sensível. Ambos temos uma coisa que o outro deseja, e para realizar esses desejos cada um tem de fazer algo que preferia não fazer.

 

Está a falar com charadas resmungou Daniel.

 

Talvez esteja admitiu Ashley.Já consegui atrair o seu interesse? Não vou continuar, a menos que esteja convencido do seu interesse. Ashley ouviu Daniel a exalar impacientemente e, pela linguagem corporal, imaginou que o médico revirara os olhos, mas não pôde ter a certeza devido à escuridão em que o carro estava mergulhado. Ashley esperou enquanto Daniel espreitava rapidamente pela janela para os edifícios smithsonianos que iam ficando para trás.

 

A simples admissão do seu interesse não o obriga a nada nem o coloca em qualquer espécie de perigo disse Ashley. Mais ninguém, com excepção das pessoas que se encontram neste carro, sabe que estamos a falar esta noite, desde que, evidentemente, não tenha informado ninguém.

 

Teria sido embaraçoso contar a quem quer que fosse.

 

Eu decidi ser imune à sua grosseria, Doutor, como fui imune esta manhã à falta de cortesia que evidenciou com as suas roupas, com a sua linguagem corporal desdenhosa e com os seus ataques verbais à minha pessoa. Como sou um cavalheiro, podia ter-me sentido insultado, mas não senti. Por isso, não se canse! O que quero saber é se estaria interessado em negociar.

 

Concretamente, que é que eu estaria a negociar?

 

A viabilidade da sua empresa recém formada, a sua carreira actual, a sua hipótese de ser célebre e, talvez mais importante, uma oportunidade para evitar o fracasso. Tenho razões para acreditar que o fracasso é um anátema especial para si.

 

Daniel olhou para Ashley à média luz. Ashley sentiu a intensidade do olhar do médico, apesar de ser incapaz de ver os pormenores. O senador ficou confiante de que estava de facto a tocar de perto no íntimo do homem.

 

O senhor acredita que eu sou particularmente adverso ao fracasso? perguntou Daniel, num tom de voz menos sardónico do que o anterior.

 

Absolutamente retorquiu Ashley. O doutor é uma pessoa poderosamente competitiva, o que, combinado com o seu intelecto, tem sido a força motora do seu sucesso. Mas as pessoas poderosamente competitivas não gostam de falhar, especialmente quando parte da sua motivação é escapar ao passado. O senhor portou-se bem e já percorreu um longo caminho desde Revere, Massachusetts, e no entanto o seu pior pesadelo envolve uma queda que o obrigaria a voltar às raízes da sua infância. Não é uma preocupação racional, tendo em conta as suas credenciais, mas no entanto persegue-o.

 

Daniel soltou uma gargalhada curta e triste.

 

Como é que lhe ocorreu essa teoria ridiculamente bizarra? perguntou.

 

Eu sei muito sobre si, meu amigo. O meu pai dizia-me sempre que conhecimento era poder. E, como íamos negociar, tive o cuidado de aproveitar os meus recursos consideráveis, incluindo contactos no FBI, para saber o mais possível sobre si e sobre a sua nova empresa. Na verdade, não só sei coisas sobre si, como sobre várias gerações da sua família.

 

Mandou o FBI investigar-me? inquiriu Daniel. Não sei bem se acredito em si.

 

Mas devia acreditar! Deixe-me transmitir-lhe alguns pontos altos do que se revelou uma história extremamente interessante. Em primeiro lugar, está directamente relacionado com a famosa família Lowell da Nova Inglaterra, referida na famosa descrição da sociedade de Boston, onde os Lowell só falam com os Cabot e os Cabot só falam com Deus. Ou será ao contrário? Podes ajudar-me nisto, Carol?

 

O senhor explicou-o correctamente, Senador disse Carol.

 

Estou aliviado declarou Ashley. Não quero prejudicar a minha credibilidade tão cedo no meu discurso. Infelizmente, Doutor, estar relacionado com os famosos Lowell não o ajudou. Parece que o seu avô alcoólico foi renegado e, mais importante, deserdado após desafiar os desejos da família saindo do liceu para se alistar no exército como soldado de infantaria durante a primeira guerra mundial, e casando com uma plebeia de Medford, depois de ser desmobilizado. Parece que teve uma experiência tão devastadora na Europa durante o serviço militar que ficou psicologicamente incapaz de se reintegrar na sociedade privilegiada. Isto em claro contraste, é claro, com os irmãos e irmãs, que não tinham estado na guerra e que estavam a aproveitar os excessos dos alegres anos vinte e que, mesmo que tivessem corrido o risco de se tornarem alcoólicos, estavam pelo menos a concluir os estudos e a casar com pessoas socialmente aceitáveis.

 

Não estou a achar isto divertido, Senador. Podemos ir directamente ao assunto?

 

Paciência, meu amigo disse Ashley. Deixe-me trazer a história para o presente. Parece que o seu avô paterno alcoólico também não foi um pai especialmente bom, nem um bom modelo de comportamento para os seus dez filhos, um dos quais era o seu pai. Tal pai tal filho é certamente aplicável ao seu pai, que sofreu durante o serviço militar na segunda guerra mundial. Embora conseguisse quase sempre evitar o alcoolismo, dificilmente poderá ser considerado um bom pai ou um modelo para os seus nove filhos, como tenho a certeza que concordará. Felizmente, com a sua competitividade, intelecto e oportunidade para evitar uma experiência na guerra do Vietname, quebrou esta espiral descendente de gerações, mas não sem algumas cicatrizes.

 

Pela última vez, Senador, a menos que me diga o que pretende em inglês simples, insisto que nos leve novamente para o nosso hotel.

 

Mas já lhe disse declarou Ashley. No momento em que entrou no carro.

 

Então, é melhor dizê-lo novamente disse Daniel, irritado. Aparentemente, foi tão subtil que não percebi.

 

Eu disse-lhe que estava interessado nos seus talentos esculapianos.

 

Evocar o deus grego da cura continua a fazer disto uma charada para a qual eu não estou com paciência. Sejamos específicos, especialmente porque estava a falar disto como tratando-se de uma negociação.

 

Especificamente, quero trocar os seus poderes de médico pelos meus poderes de político.

 

Eu sou um investigador, não um médico no activo.

 

No entanto, não deixa de ser médico, e a investigação que faz é para curar pessoas. Continue a falar. O que estou prestes a dizer-lhe é fulcral para o motivo por que estamos aqui a falar os dois. Mas tenho de ter a sua palavra de honra da que o que lhe vou dizer ficará confidencial, independentemente do desfecha deste encontro.

 

Se for puramente pessoal, não tenho o menor problema em guardar segredo. Excelente! E Dr.a D’Agostino! Dá-me a sua palavra de honra? Claro que sim gaguejou Stephanie, surpreendida por se dirigirem inesperadamente a ela. Estava torcida no banco, a olhar para trás, para os dois homens. Estava naquela posição desde que o senador começara a falar sobre o medo que Daniel tinha de fracassar. Carol esforçava-se para se concentrar na condução e reduzira consideravelmente a velocidade. Embasbacada com a conversa que se desenrolava no banco de trás, os seus olhos estavam mais na imagem de Ashley no retrovisor do que na estrada. Tinha a certeza de que sabia o que Ashley se preparava para dizer, e percebera agora qual o seu plano. Estava estarrecida.

 

Ashley aclarou a garganta.

 

Infelizmente, foi-me diagnosticada a doença de Parkinson. Para piorar as coisas, o meu neurologista acredita que eu tenho uma variante que progride rapidamente, e parece ser esse o caso. Na última consulta, ele até levantou o espectro de a doença poder começar a afectar as minhas capacidades cognitivas muito em breve.

 

Durante alguns momentos, o silêncio no carro foi absoluto. Há quanto tempo sabe?perguntou Daniel.Eu não notei nenhum tremor.

 

Há cerca de um ano. A medicação tem ajudado, mas como o meu neurologista tinha previsto está a perder a eficácia com muita rapidez. Assim, a minha enfermidade será do conhecimento público em breve, a menos que alguma coisa seja feita, e depressa. E receio que a minha carreira política esteja em causa.

 

Espero que toda esta charada não esteja a levar-nos onde eu penso declarou Daniel.

 

Imagino que está admitiu Ashley. Doutor, eu quero ser a sua cobaia ou, mais precisamente, o seu rato substituto. O senhor tem tido imensa sorte com os seus ratos, como declarou orgulhosamente esta manhã.

 

Daniel abanou a cabeça.

 

Isto é absurdo! Quer que eu o trate como tenho tratado os nossos ratos!

 

Precisamente, Doutor. Muito bem, eu sabia que não quereria por uma série de razões, e é por isso que esta discussão é uma negociação.

 

Seria contra a lei interrompeu Stephanie. A FDA nunca o permitiria.

 

Não estava nos meus planos informar a FDA declarou Ashley, calmamente. Eu sei como eles podem ser complicados de vez em quando.

 

Teria de ser feito num hospital disse Stephanie. E, sem a aprovação da FDA, nenhum hospital daria autorização.

 

Nenhum hospital neste país acrescentou Ashley. Na verdade, eu estava a pensar nas Bahamas. É uma época do ano bastante agradável para ir para as Bahamas. Para além do mais, há lá uma clínica que serviria lindamente para os nossos objectivos. Há seis meses, a minha Subcomissão de Política de Saúde teve uma série de audições sobre a perigosa falta de regulamentação de clínicas de tratamento da infertilidade neste país. Uma clínica chamada Wingate foi apresentada na audição como um exemplo de como algumas dessas clínicas estão a ignorar até os padrões mínimos para terem um lucro enorme. A Clínica Wingate tinha-se mudado recentemente para a Ilha de New Providence para evitar as poucas leis aplicáveis à sua prática, que incluíam algumas actividades muito questionáveis. Mas o que me chamou especialmente a atenção foi que estavam a construir um centro de investigação e um hospital completamente novos e com equipamento sofisticadíssimo.

 

Senador, há motivos para que a investigação médica comece com animais antes de passar para os humanos. Fazer o contrário não é ético, na melhor das hipóteses, e uma loucura na pior. Eu não posso fazer parte de uma coisa dessas.

 

Eu sabia que no começo não ia ficar entusiasmado com a ideia disse Ashley.Uma vez mais, é por isso que este encontro é uma negociação. Sabe, eu estou disposto a prometer-lhe sob a minha palavra de honra que o meu projecto de lei, S. 1103 nunca sairá da subcomissão se o doutor aceitar tratar-me com a sua RSTH em segredo absoluto. Isso significa que a segunda fase de financiamento será paga e a sua empresa poderá continuar em exercício, e o doutor tornar-se-á o empresário famoso do ramo da biotecnologia que aspira ser. Quanto a mim, o meu poder político ainda é ascendente e vai manter-se com essa tendência, desde que esta ameaça da Parkinson seja retirada. Assim... em consequência de cada um fazer o que preferiria não fazer, ambos ganhamos.

 

Que é que está a fazer que preferiria não fazer? perguntou Daniel.

 

Estou a aceitar o risco de ser cobaia declarou Ashley. Sou o primeiro a admitir que gostava que os nossos papéis estivessem invertidos, mas a vida é assim. Também estou a arriscar consequências políticas dos meus constituintes conservadores, que esperam que o S.1103 seja votado fora da subcomissão.

 

Daniel abanou a cabeça, espantado.

 

Isto é absurdo comentou ele.

 

Mas há mais disse Ashley. Consciente do risco que estou a correr com esta nova terapia, não me parece que a nossa troca de serviços seja igual. Para rectificar esse desequilíbrio e para ajudar o risco, exijo alguma intervenção divina.

 

Tenho medo de lhe perguntar o que quer dizer com intervenção divina.

 

Segundo percebi, se me fosse tratar com a sua RSTH precisaria de um segmento de ADN que não tenha a doença de Parkinson.

 

Exactamente, mas não importa quem é a pessoa. Não há mistura de tecidos, como acontece com os transplantes de órgãos.

 

Para mim, a pessoa é importante disse Ashley. Também compreendi que o senhor poderia tirar esse pequeno segmento de ADN de uma amostra de sangue?

 

Não seria possível retirá-lo de glóbulos vermelhos, que não têm núcleo disse Daniel. Mas podia retirá-lo de glóbulos brancos, que se podem encontrar sempre no sangue. Por isso, sim, podia retirá-lo do sangue.

 

Deus seja louvado pelos glóbulos brancos exclamou Ashley. Ora, o que me interessa é a fonte do sangue. O meu pai era um ministro baptista, mas a minha mãe, que Deus tenha a sua alma em descanso, era uma católica irlandesa. Ensinou-me algumas coisas que ficaram comigo a vida inteira. Deixe-me fazer-lhe uma pergunta: sabe o que é o Sudário de Turim?

 

Daniel olhou de relance para Stephanie. Um sorriso forçado de descrença estampara-se-lhe no rosto.

 

Eu fui educada na fé católica disse Stephanie. Sei o que é o Sudário de Turim.

 

Eu também sei o que é disse Daniel. É uma relíquia religiosa que, alegadamente, foi a mortalha com que Jesus Cristo foi enterrado, e que se provou ser falsa há cerca de cinco anos.

 

Verdade disse Stephanie. Mas foi há mais de dez anos. A datação por carbono provou que era de meados do século XIII.

 

O relatório da datação por carbono não me interessa declarou Ashley. Especialmente porque foi contestado por vários cientistas eminentes. Mesmo que o relatório não tivesse sido contestado, o meu interesse seria o mesmo. O sudário tinha um lugar muito especial no coração da minha mãe, e alguma dessa devoção passou para mim, quando ela me levou a mim e aos meus dois irmãos mais velhos a Turim para o ver quando eu não passava de um fedelho nada impressionável. Esquecendo as preocupações sobre a autenticidade, o que é incontestável é que há manchas de sangue no tecido. Quase toda a gente concorda com isso. Eu quero que a pequena secção de ADN necessária para a RSTH venha do Sudário de Turim. É essa a minha exigência e a minha oferta.

 

Daniel riu com ironia.

 

Isto é mais do que absurdo. É uma loucura. Para além do mais, como é que eu conseguiria obter uma amostra de sangue do Sudário de Turim?

 

Isso é da sua responsabilidade, Doutor replicou Ashley. Mas estou disposto a ajudá-lo e tenho meios para o fazer. Tenho a certeza de que posso obter pormenores sobre o acesso ao sudário através de um dos conhecidos do meu arcebispo, que estão sempre dispostos a trocar favores para terem uma consideração política especial. Por acaso, sei que há amostras do sudário que foram tiradas, oferecidas, e depois recuperadas pela igreja. Talvez fosse possível arranjar uma dessas, mas o doutor teria de ir buscá-la.

 

Estou sem palavras admitiu Daniel, tentando esconder o seu divertimento.

 

Isso é inteiramente compreensível disse Ashley. Tenho a certeza de que esta oportunidade que lhe propus o apanhou desprevenido. Não estou à espera que me responda imediatamente. Como homem ponderado que é, tinha a certeza de que gostaria de reflectir sobre o assunto. A minha sugestão é que me telefone, e vou dar-lhe um número especial para o fazer. Mas gostaria de dizer que, se não tiver notícias suas até amanhã às dez horas da manhã, presumirei que resolveu não aproveitar a minha oferta. Às dez horas, mandarei os meus funcionários agendarem uma votação do S. 1103 pela subcomissão o mais depressa possível para que possa passar à comissão e depois ao Senado. E já sei que o lobby BIO o. informou que o S. 1103 será aprovado sem problemas.

 

22.05, quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2002

As luzes traseiras do Suburban de Carol Manning esbateram-se à medida que o veículo descia a Avenida Louisiana, misturando-se de seguida com o tráfego antes de desaparecer na escuridão geral da noite. Stephanie e Daniel observaram-nas até elas deixarem de se ver, e depois olharam um para o outro. Os seus narizes estavam a poucos centímetros de distância, já que os corpos estavam encostados sob o chapéu de chuva. Estavam uma vez mais imóveis no passeio diante de Union Station, como acontecera uma hora antes quando estavam à espera de que os fossem buscar. Nessa altura, estavam curiosos por antecipação. Agora, estavam perplexos.

 

Amanhã de manhã, vou jurar que tudo isto não passou de uma alucinação disse Stephanie, a abanar a cabeça.

 

Definitivamente, há uma irrealidade de sonho em tudo o que nos aconteceu admitiu Daniel.

 

Bizarro é um adjectivo melhor.

 

Daniel baixou os olhos para o cartão profissional do senador, que este colocara na sua mão livre. Virou-o. Escrevinhado com a caligrafia incerta do senador, via-se um número de telemóvel que devia ser usado para contactá-lo directamente nas próximas doze horas. Daniel olhou para o número como se estivesse a memorizá-lo.

 

De repente, levantou-se uma rajada de vento que mudou momentaneamente a chuva fina da vertical para a horizontal. Stephanie estremeceu quando a humidade lhe salpicou o rosto.

 

Está frio. Vamos voltar para o hotel! Não faz sentido estarmos aqui parados para ficarmos encharcados.

 

Como se estivesse a despertar de um transe, Daniel pediu desculpa e olhou para a praça, em frente da estação. Havia uma paragem de táxis de um lado, com diversos táxis convenientemente parados. Daniel virou o chapéu de chuva contra o vento e puxou Stephanie para a frente. Chegou junto ao primeiro táxi da fila e segurou o chapéu para Stephanie antes de ele próprio entrar. Hotel Four Seasons disse Daniel para o motorista, que estava a observá-los pelo espelho retrovisor.

 

Esta noite foi irónica e bizarra disse Stephanie inesperadamente, quando o táxi arrancou. No mesmo dia em que me falas um pouco sobre a tua família, oiço a história toda pela boca do senador Butler.

 

Eu acho isso mais irritante do que irónico afirmou Daniel. Raios, é uma violação infame da minha privacidade ele ter-me mandado investigar pelo FBI. Também é aviltante que o FBI o fizesse. Quero dizer, eu sou um cidadão privado e não sou suspeito de qualquer crime. Um abuso destes parece dos tempos de J. Edgar Hoover.

 

Então, tudo o que Butler disse sobre ti é verdade?

 

Basicamente, penso que sim respondeu Daniel vagamente. Escuta, vamos falar sobre a oferta do senador.

 

Posso dizer-te desde já qual é a minha reacção. Acho que é uma porcaria!

 

Não vês nenhum aspecto positivo?

 

O único aspecto positivo é que isto confirmou as nossas impressões do homem como um demagogo de quinta-essência. Também é um hipócrita detestável. É contra a RSTH por razões puramente políticas, e está disposto a banir esta técnica e a sua investigação apesar do seu potencial para salvar vidas e aliviar sofrimento. Ao mesmo tempo, quer beneficiar dela. É obsceno e indesculpável, e certamente não vamos fazer-lhe a vontade. Stephanie soltou uma pequena gargalhada irónica. Lamento ter dado a minha palavra de honra em como manteria a doença dele em segredo. Os órgãos de comunicação social morreriam por uma história destas, e eu adoraria que eles a tivessem.

 

É claro que não podemos falar com os órgãos de comunicação social declarou Daniel categoricamente. E acho que não devíamos ser precipitados. Penso que a oferta do senador Butler merece alguma reflexão.

 

Surpreendida, Stephanie virou-se para olhar para Daniel. Tentou observar o rosto dele à luz fraca.

 

Não estás a falar a sério, pois não?

 

Vamos listar os factos conhecidos. Dominamos bem a técnica dos neurónios de dopamina que crescem a partir de células estaminais, por isso não estamos propriamente às apalpadelas na escuridão em relação a esse aspecto.

 

Fizemos experiências com células estaminais de murinos, não com células humanas.

 

O processo é o mesmo. Colegas já o fizeram com células estaminais humanas recorrendo à mesma metodologia. Fazer as células não vai ser um problema. Depois de termos as células, podemos seguir o mesmo protocolo que utilizámos para os ratos. Não há motivo para que não resulte com um humano. Afinal de contas, cada rato que tratámos teve um comportamento notavelmente bom.

 

Excepto os que morreram.

 

Sabemos porque motivo os que não conseguiram, morreram. Foi antes de aperfeiçoarmos a técnica da injecção. Todos os ratos que foram bem injectados sobreviveram e ficaram curados. Com um voluntário humano, teríamos disponível um dispositivo estereotáxico, que não existe para os roedores. Isso tornará a injecção mais exacta, infinitamente mais fácil, e, consequentemente, mais segura. Para além disso, não seríamos nós próprios a administrar a injecção. Procuraríamos um neurocirurgião que estivesse disposto a dar uma ajuda.

 

Não posso acreditar que estou a ouvir isto exclamou Stephanie. Parece que já te convenceste a fazer esta experiência doida e nada ética, e é isso mesmo que vai ser: uma experiência descontrolada e arriscada, com uma única cobaia humana. Seja qual for o resultado, não terá qualquer valor excepto, possivelmente, para Butler.

 

Eu não sou da tua opinião. Ao concordarmos em utilizar esta técnica, estamos a salvar a CURA e a RSTH, o que significa que milhões de pessoas poderão beneficiar. Parece-me que um compromisso insignificante como a ética é um preço baixo a pagar por um retorno enorme do outro lado.

 

Mas estaremos a fazer precisamente o que, no seu discurso de abertura esta manhã, o senador Butler acusou a indústria biotécnica de fazer: usar os fins para justificar os meios. Pura e simplesmente, não seria ético fazer a experiência com o senador Butler.

 

Sim, bem, talvez até certo ponto, mas quem é que estamos a colocar em risco? Ele é o vilão! É ele que está a pedir. Pior ainda, é conivente com isso ao fazer chantagem connosco com as informações que obteve ao coagir, não sei como, o FBI a fazer uma investigação ilegal.

 

Tudo isso pode ser verdade, mas dois males não fazem um bem, e não nos absolve da cumplicidade.

 

Eu acho que sim. Vamos obrigar Butler a assinar uma declaração, e pomos tudo nessa declaração, incluindo o facto de estarmos plenamente conscientes de que aplicar a técnica seria considerado contrário à ética por qualquer comissão consultiva de investigação neste país, porque está a ser efectuada sem um protocolo adequado. Na declaração constará inequivocamente que foi ideia de Butler aplicar esta técnica, e aplicá-la fora do país. Também constará que recorreu à chantagem para nos convencer a participar.

 

Achas que ele vai assinar uma declaração dessas?

 

Não lhe vamos dar escolha. Ou assina ou não tem o benefício da RSTH. Ele está confiante com a ideia de que vamos aplicar a técnica nas Bahamas, por isso não estaremos a violar qualquer regra da FDA, e nós teremos uma declaração sólida como uma rocha no caso de precisarmos. O ónus ficará totalmente nos ombros do Butler.

 

Deixa-me pensar nisso durante alguns minutos.

 

Pensa o tempo que quiseres, mas eu estou plenamente convencido de que o peso moral favorece a concretização. Seria diferente se estivéssemos a obrigá-lo de qualquer maneira. Mas não estamos. É precisamente o contrário.

 

Mas pode argumentar-se que ele não está informado. Ele é um político, não um médico. Não está verdadeiramente a par dos riscos. Pode morrer.

 

Ele não vai morrer disse Daniel enfaticamente. Vamos pecar por conservadorismo excessivo, o que quer dizer que o pior cenário é não lhe aplicarmos células suficientes para elevar a concentração de dopamina o bastante para ele se livrar de todos os sintomas. Se isso acontecer, vai implorar-nos para que o tratemos novamente, o que será fácil, já que manteremos as células de tratamento em cultura.

 

Deixa-me pensar no assunto.

 

Claro disse Daniel.

 

Seguiram o resto do caminho em silêncio. Só quando estavam no elevador do hotel é que Stephanie falou:

 

Achas mesmo que conseguiríamos encontrar um local apropriado para aplicar a técnica?

 

Butler já se dedicou bastante a tudo isso declarou Daniel. Ele não queria deixar nada ao acaso. Francamente, eu ficaria chocado se ele não tivesse mandado investigar a Clínica Wingate para se certificar de que é apropriada, ao mesmo tempo que me mandou investigar a mim.

 

Suponho que isso é possível. Na verdade, recordo-me de ler sobre a Clínica Wingate há cerca de um ano. Era uma clínica de tratamento de infertilidade popular e não filiada em Bookford, Massachusetts, antes de se mudar, à pressa, para as Bahamas. Foi um escândalo bastante grande.

 

Eu também me recordo. Era dirigida por dois tarados. O departamento de investigação deles estava a fazer experiências de clonagem nada éticas.

 

Pouco escrupulosas é uma descrição melhor, como tentar que fetos humanos fizessem a gestação em porcas. Recordo-me de que estiveram igualmente implicados no desaparecimento de duas dadoras de óvulos de Harvard. Os directores tiveram de fugir do país e evitaram por pouco serem extraditados para os Estados Unidos. Bem vistas as coisas, parece o oposto absoluto do género de lugar e de pessoas com quem deveríamos envolver-nos.

 

Nós não estaríamos a envolver-nos com eles. Fazemos o nosso trabalho, lavamos as mãos e saímos.

 

As portas do elevador abriram-se. Começaram a percorrer o corredor até à suite.

 

E a questão do neurocirurgião? perguntou Stephanie. Achas sinceramente que vamos conseguir encontrar alguém disposto a participar neste esquema? Ele ou ela saberá que há algo suspeito.

 

Com o incentivo adequado, isso não deverá constituir um problema. O mesmo acontece com a clínica.

 

Estás a referir-te a dinheiro.

 

Claro! O motivador universal.

 

E quanto ao pedido de segredo feito por Butler? Como é que lidaríamos com isso?

 

O segredo é mais um problema dele do que nosso. Nós não vamos usar o seu nome verdadeiro. Sem aqueles óculos e o fato escuro, acho que ele é um tipo de homem bastante indefinido e insignificante. Com uma camisa berrante de mangas curtas e óculos escuros, talvez ninguém o reconheça.

 

Stephanie usou o seu cartão para abrir a porta. Despiram os casacos e foram para a sala de estar.

 

Queres alguma coisa do minibar? sugeriu Daniel.Apetece-me comemorar. Há duas horas, pensei que estávamos presos debaixo de uma nuvem negra. Agora, há um raio de sol.

 

Apetece-me beber um pouco de vinho respondeu Stephanie. Esfregou as mãos uma na outra para aquecê-las, antes de se enroscar na ponta do sofá.

 

Daniel tirou a rolha de garrafa pequena de cabernet e deitou uma quantidade generosa num balão. Estendeu-o a Stephanie antes de se servir de um uísque escocês puro. Sentou-se na outra ponta do sofá. Brindaram e beberam.

 

Então, queres avançar com este plano doido? perguntou Stephanie.

 

Quero, a menos que consigas dar-me uma razão que me obrigue a não o fazer.

 

Que tal este disparate do Sudário de Turim? Quero dizer, intervenção divina! Que ideia tão absurda e presunçosa!

 

Discordo. Acho que é um golpe de génio.

 

Só podes estar a brincar!

 

De maneira nenhuma! Seria o derradeiro placebo, e sabemos até que ponto os placebos podem ser poderosos. Se ele quer acreditar que vai ficar com um pouco do ADN de Jesus Cristo, eu não tenho nada a objectar. Dar-lhe-á um incentivo poderoso para acreditar na cura. Acho que é uma ideia brilhante. Não estou a sugerir que temos de tirar o ADN do Sudário. Podemos simplesmente dizer-lhe que o tirámos, e daria o mesmo resultado. Mas podemos pensar melhor no assunto. Se existir sangue no sudário como ele afirma, e conseguirmos ter acesso a ele como ele sugere, funcionaria.

 

Mesmo que a mancha de sangue seja do século XIII?

 

A idade não deverá fazer qualquer diferença. O ADN estaria em fragmentos, mas isso não constituiria um problema. Usaríamos a mesma sonda que utilizaríamos numa amostra fresca de ADN para formar o segmento de que precisamos, e depois aumentá-la-íamos por PCR. Em muitos sentidos, acrescentaria um pouco de desafio e excitação. A parte mais difícil seria resistir à tentação de descrever o procedimento para a| Nature ou para a Science depois do facto consumado. Podes imaginar o método para se obter grandes quantidades de um fragmento específico de ADN. O PCR amplifica rapidamente uma molécula de ADN em biliões de moléculas. (N. da T.)

 

Nós não vamos poder publicar este caso disse Stephanie.

 

Eu sei! Mas é engraçado pensar em ser precursor de coisas futuras. O próximo passo será uma experiência controlada, e certamente poderemos publicar isso. Nesse ponto, a CURA estará na ribalta, e as nossas desgraças de financiamento serão coisa do passado.

 

Quem me dera poder partilhar do teu entusiasmo.

 

Acho que vais partilhar, quando as coisas começarem a encaixar-se no seu lugar. Embora o tempo não tivesse sido mencionado esta noite, presumo que o senador estará ansioso para despachar o assunto o mais depressa possível. Isso significa que devíamos dar início aos preliminares amanhã, quando voltarmos para Boston. Eu vou tratar de tudo para fazer as reservas na Clínica Wingate e para arranjar um neurocirurgião. Que tal se te ocupasses tu do pedaço do Sudário de Turim?

 

Pelo menos, isso será interessante disse Stephanie, a tentar demonstrar algum entusiasmo com a ideia de tratar Butler, apesar do que a sua intuição lhe dizia. Gostarei muito de saber por que é que a Igreja ainda considera que é uma relíquia depois de ter sido provado que é falso.

 

Obviamente, o senador pensa que é real.

 

Se bem me lembro, a datação por carbono foi confirmada por três laboratórios independentes. Seria difícil contradizer uma coisa dessas.

 

Bem, vejamos o que consegues descobrir disse Daniel. Entretanto, é melhor começarmos a planear algumas viagens concretas.

 

Estás a referir-te a Nassau?

 

Nassau e, provavelmente, Turim, dependendo do que descobrires.

 

Onde é que vais desencantar dinheiro para essas viagens?

 

Do Ashley Butler.

 

As sobrancelhas de Stephanie ergueram-se.

 

Afinal de contas, talvez esta brincadeira não seja má de todo.

 

Então, alinhas nisto comigo? perguntou Daniel.

 

Sim, acho que sim.

 

Não estás muito convencida.

 

Neste momento, é a melhor resposta que posso dar-te. Mas imagino que vou ficar mais entusiasmada à medida que as coisas forem evoluindo, como tu sugeriste.

 

Eu vou aceitar tudo o que conseguiranunciou Daniel. Levantou-se do sofá e, ao passar por Stephanie, apertou-lhe o ombro. Vou beber mais um uísque. Deixa-me encher o teu copo.

 

Daniel serviu as bebidas e voltou a sentar-se. Depois de olhar rapidamente para o relógio, colocou o cartão de Butler à sua frente e pôs o telefone na mesa de apoio.

 

Vamos contar a novidade ao senador. Tenho a certeza de que ele vai ficar irritantemente presunçoso mas, para usar a frase dele, a vida é assim. Daniel usou o botão do auscultador para obter linha. Marcou o número e o telefone foi atendido rapidamente. O tom de barítono de Butler, arrastado e sulista, inundou a sala.

 

Senador disse Daniel, interrompendo o cumprimento verboso de Ashley. Não é minha intenção ser grosseiro, mas é tarde e só quero dizer-lhe que decidimos aceitar a sua oferta.

 

Maravilhoso! entoou Ashley. E tão depressa! Eu estava com medo de que deixassem esta decisão tão simples arruinar o vosso sono e que só telefonassem amanhã de manhã. Bem, estou muito satisfeito! Posso presumir que a Dr.a D’Agostino concordou em participar também?

 

Concordei disse Stephanie, a tentar parecer optimista.

 

Excelente, excelente! ecoou Ashley. Não que esteja surpreendido, já que este assunto é para benefício de todos nós. Mas acredito muito sinceramente que ter a mesma opinião e unanimidade de propósito é essencial para o sucesso, e sem dúvida que queremos o sucesso deste empreendimento.

 

Presumimos que gostaria de fazer isto imediatamente disse Daniel.

 

Sem dúvida, meus queridos amigos. Sem dúvida. Estou com o tempo contado para esconder a minha enfermidade explicou Ashley. Não há tempo a perder. Convenientemente para os nossos objectivos, vai haver uma interrupção nos trabalhos do Senado em breve. Começa dentro de aproximadamente um mês, a 22 de Março, e estende-se até ao dia 8 de Abril. Normalmente, eu vou para casa para fazer contactos políticos, mas em vez disso é o período de tempo que tenho em mente para o meu tratamento. Um mês é um período de tempo suficiente para vocês, cientistas, fazerem as células curativas adequadas?

 

Daniel olhou de relance para Stephanie e falou em voz baixa, pouco acima de um sussurro:

 

É menos do que eu pensava que ele queria. Que é que pensas? Achas que conseguimos?

 

É arriscado sussurrou Stephanie com um encolher de ombros. Primeiro, precisaríamos de alguns dias para fazer a cultura dos fibroblastos dele. Depois, presumindo uma transferência nuclear bem sucedida que criasse um pré-embrião viável, precisaríamos de cinco ou seis dias para que o blastocisto se formasse. Depois disso, são necessárias duas semanas de cultura com células alimentadoras depois de colhermos as células estaminais.

 

Há algum problema? perguntou Ashley. Não consigo ouvir o que vocês estão a dizer. Só um segundo, Senador! disse Daniel para o auscultador. Estou a falar com a Dr.a D’Agostino sobre o tempo. Ela vai ter de fazer a maior parte do trabalho de laboratório.

 

Nessa altura teremos de fazê-las diferenciarem-se em células nervosas perfeitas acrescentou Stephanie. Isso leva mais duas semanas, ou talvez um pouco menos. As células de rato ficavam boas ao fim de apenas dez dias.

 

Então qual é o teu palpite, se correr tudo bem? perguntou Daniel. Um mês seria suficiente?

 

Teoricamente, é possível disse Stephanie. Poderia ser feito, mas teríamos de começar quase imediatamente o trabalho celular, no máximo amanhã! O problema com essa ideia é que teríamos de ter ovócitos humanos disponíveis, e não temos.

 

Oh, céus! balbuciou Daniel. Mordeu o lábio inferior e franziu a testa. Estou tão acostumado a trabalhar com um fornecimento de óvulos de vaca que me esqueci da dificuldade de obtenção de óvulos humanos.

 

É um entrave importante admitiu Stephanie. Mesmo na melhor das hipóteses em que já tivéssemos uma dadora disponível, necessitaríamos de cerca de um mês para estimulá-la e retirá-los.

 

Bem, talvez os nossos amigos da clínica de tratamento de infertilidade possam ajudar-nos também em relação a este assunto. Como têm um centro de infertilidade em funcionamento, seguramente terão alguns óvulos extra disponíveis. Tendo em conta a reputação de pouco éticos, aposto que com o incentivo certo conseguiremos convencê-los a fornecerem-nos o que precisamos.

 

Suponho que é possível, mas nesse caso ficaríamos ainda mais ligados a eles. Quanto mais fizerem por nós, menos fácil será lavarmos as mãos e sairmos como tu tão jovialmente, sugeriste há alguns momentos.

 

Mas não temos muitas opções. A alternativa é desistir da CURA, da RSTH e de todo o nosso sangue, suor e lágrimas.

 

A decisão tem de ser tua. Mas, para que fique registado, sinto-me mal em ficar a dever qualquer tipo de favores àquela gente da Wingate, tendo em conta a história deles.

 

Daniel acenou algumas vezes enquanto reflectia sobre as implicações, suspirou e depois virou-se para o telefone.

 

Senador, talvez seja possível termos algumas células de tratamento dentro de um mês. Mas tenho de avisá-lo de que vai ser preciso esforço e alguma sorte, e temos de começar imediatamente. O senhor vai ter de colaborar.

 

Serei obediente como um cordeiro. Já iniciei o processo há um mês, ao fazer planos para chegar a Nassau no dia 23 de Março e para ficar na ilha todo o tempo que for necessário, durante o período de encerramento do Senado. Até fiz uma reserva para o doutor. É para que veja como eu estava confiante da sua participação. É importante ter tratado do assunto atempadamente, porque nesta altura do ano é época alta nas Bahamas. Vamos ficar no complexo turístico Atlantis, onde tive o prazer de me hospedar o ano passado, já com este plano em mente. É um complexo hoteleiro com tamanho suficiente para proporcionar um anonimato adequado de idas e vindas, sem levantar suspeitas. Também têm um casino, e como deve imaginar eu gosto de jogar quando tenho a sorte de ter alguns dólares a mais no bolso.

 

Daniel trocou olhares com Stephanie. Por um lado, estava contente por Ashley ter feito reservas com tempo para ajudar o projecto, mas por outro lado ficou irritado por o senador ter presumido que ele não recusaria.

 

O senhor vai ficar registado com o seu nome? perguntou Stephanie.

 

Claro que sim declarou Ashley. Mas usarei um nome falso para a minha viagem à Clínica Wingate.

 

E quanto a esta clínica? perguntou Daniel. Espero que a tenha investigado tão minuciosamente como investigou o meu passado.

 

Pode acreditar que sim. Acho que vai descobrir que a clínica é perfeitamente adequada para os seus objectivos, embora o pessoal possa não estar à altura. O suposto director da clínica é o Dr. Spencer Wingate, que é um gabarola, embora aparentemente bem qualificado no campo da infertilidade. Parece mais interessado na vida social da ilha e o seu maior desejo é ir para o continente para animar os negócios na sociedade europeia.

 

O homem que o secunda no poder é o Dr. Paul Saunders, e é ele que dirige o dia-a-dia da clínica. É um indivíduo mais complicado, que se vê como um investigador de nível mundial apesar da falta de especialização apropriada, para além da infertilidade clínica. Estou confiante de que os dois indivíduos estarão dispostos a colaborar se apelar às suas vaidades pessoais. Para eles, a perspectiva de trabalharem com alguém com as suas credenciais e estatuto é uma oportunidade que só aparece uma vez na vida.

 

Lisonjeia-me, Senador.

 

Stephanie sorriu com o sarcasmo de Daniel.

 

Só porque é bem merecido replicou Ashley. Para além disso, uma pessoa tem de ter fé no seu médico.

 

Não sei porquê, mas acho que os doutores Wingate e Saunders estarão mais interessados em dinheiro do que no meu currículo disse Daniel.

 

Eu estou convencido de que eles estarão interessados no seu currículo para obterem reconhecimento e para os ajudar a ganhar dinheiro comentou Ashley. Mas a sua natureza venal e a falta de preparação para a investigação não nos diz respeito, para além de estarmos conscientes dela e podermos aproveitá-la. Nós só estamos interessados nas suas instalações e equipamento.

 

Espero que perceba que efectuar esta técnica, sob estas circunstâncias, não vai ser nada barato.

 

Eu também não gostaria que fosse barato retorquiu Ashley. Quero a versão cara, de alta qualidade e de primeira classe. Fique tranquilo que eu tenho acesso a fundos mais do que suficientes para cobrir quaisquer despesas que sejam necessárias para salvar a minha carreira política. Mas espero que os seus serviços pessoais sejam gratuitos. Afinal de contas, estamos a trocar serviços.

 

De acordo disse Daniel. Mas, antes de prestarmos quaisquer serviços, a Dr.a D’Agostino e eu queremos que assine uma declaração especial que vamos elaborar. Esta declaração vai descrever a forma exacta como este assunto começou bem como todos os riscos envolvidos, incluindo o facto de que nunca aplicámos esta técnica num ser humano.

 

Desde que me garantam a confidencialidade dessa declaração, não tenho qualquer problema em assiná-la. Compreendo que a queiram para se protegerem. Estou absolutamente certo de que quereria a mesma coisa se estivesse no vosso lugar, por isso não haverá problema nenhum, desde que não inclua qualquer coisa disparatada ou desapropriada.

 

Posso garantir-lhe que será razoável disse Daniel. A seguir, gostaria de o encorajar a usar os seus recursos, como sugeriu, para descobrir como poderemos aceder ao Sudário de Turim para obtermos uma amostra.

 

Já dei instruções à Sr.a Manning para iniciar as devidas reuniões com os diversos prelados com quem tenho um relacionamento profissional. Suponho que acontecerão nos próximos dias. Seria precisa uma amostra muito grande?

 

Pode ser extremamente pequenadisse Daniel. Algumas fibras seriam suficientes, mas teriam de ser fibras provenientes de uma parte do sudário que contivesse uma mancha de sangue.

 

Ashley riu-se.

 

Até um não cientista ignorante como eu presumiria isso. O facto de necessitar apenas de uma pequena amostra vai ajudar incomensuravelmente. Como mencionei a noite passada, sei que algumas amostras foram levadas e depois recolhidas pela igreja.

 

Precisaríamos delas o mais depressa possível acrescentou Daniel.

 

Compreendo inteiramente a necessidade de celeridade replicou Ashley. Precisam de mais alguma coisa de mim?

 

Sim disse Stephanie. Precisamos que faça uma biópsia à pele, amanhã de manhã. Se quisermos ter hipótese de produzir as células curativas num mês, temos de levar a sua biópsia connosco, quando voltarmos amanhã para Boston. O seu médico particular pode marcar uma biópsia num dermatologista, que poderá mandar um correio entregá-la no hotel. Servirá como fonte de fibroblastos que crescerão numa cultura de tecidos.

 

Vou tratar disso logo de manhã.

 

Creio que por agora é tudo disse Daniel. Olhou para Stephanie, e ela acenou em sinal de concordância.

 

Tenho um pedido pessoal, vitalmente importante, a fazer-vos disse Ashley.Acho que devíamos trocar endereços electrónicos especiais e usar a Internet para todas as nossas comunicações, que seriam genéricas e curtas. A próxima vez que falarmos directamente deveria ser na Clínica Wingate, na Ilha de New Providence. Estou empenhado em que este assunto seja um segredo bem guardado, e quanto menos contacto directo tivermos, melhor. É aceitável?

 

Absolutamente concordou Daniel.

 

Quanto a dinheiro para despesas disse Ashley, mandar-vos-ei por correio electrónico o número de uma conta confidencial num banco offshore em Nassau, aberta por uma das minhas comissões de acção política, de onde poderão retirar fundos. Claro que vou querer um relatório de despesas no futuro. É aceitável?

 

Desde que haja dinheiro suficiente disse Daniel. Uma das maiores despesas será obter os óvulos humanos necessários.

 

Reitero disse Ashley que haverá fundos mais do que adequados à vossa disposição. Fiquem tranquilos!

 

Alguns minutos depois, após despedidas prolongadas de Ashley, Daniel inclinou-se para a frente e desligou o sistema de alta-voz. Levou o telefone para a mesa do fundo. Depois, virou-se para olhar para Stephanie.

 

Tive de me rir quando ele chamou gabarola ao director da Clínica Wingate. Diz o roto ao nu, «que vestes tu?».

 

Estavas certo quando disseste que ele tinha pensado muito neste assunto. Fiquei chocada quando ele disse que fizera as reservas para a viagem, há um mês. Não tenho a menor dúvida de que ele mandou investigar a Clínica Wingate.

 

Já te sentes melhor quanto a estares envolvida na cura dele?

 

Até certo ponto admitiu Stephanie. Especialmente desde que ele disse que não se oporá a assinar uma declaração elaborada por nós. Pelo menos, ficarei com a sensação de que ele teve em conta a natureza experimental do que está a fazer e dos riscos inerentes. Eu não estava nada segura disso anteriormente.

 

Daniel deslizou pelo sofá, pôs os braços à volta de Stephanie e puxou-a contra o seu corpo. Sentiu o coração dela a bater no peito. Afastou-se para a observar e mergulhou nas profundezas escuras dos seus olhos.

 

Agora que, aparentemente, temos as coisas sob controlo na arena política-empresarial-de investigação, que tal começarmos onde parámos a noite passada?

 

Stephanie retribuiu o olhar de Daniel.

 

É uma proposta?

 

Claro que sim.

 

O teu sistema nervoso autónomo vai colaborar?

 

Muito mais do que a noite passada, posso garantir-te. Daniel levantou-se e ajudou Stephanie a levantar-se também.

 

Esquecemo-nos do cartão de não incomodar disse Stephanie, enquanto Daniel a puxava ansiosamente para o quarto.

 

Vamos viver perigosamente disse ele, com um piscar de olhos.

 

 

14.35, sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2002

Stephanie acordou cedo na manhã seguinte e ficou a pensar nos pormenores do projecto Butler. A sua intuição negativa em relação ao tratamento da doença de Parkinson do senador não se alterara, mas havia demasiadas coisas para fazer e não podia ficar obcecada com essas sensações. Antes mesmo de tomar um duche, usou o seu computador portátil para mandar uma série de mensagens ao senador sobre a maneira de fazer a biópsia.

 

Em primeiro lugar, queria a biópsia o mais cedo possível nessa manhã. Em segundo lugar, queria ter a certeza absoluta de que era uma amostra de pele com espessura completa, porque precisaria de células da parte mais profunda da derme. E em terceiro lugar queria que a amostra fosse simplesmente colocada num recipiente com fluido de cultura de tecido e não congelada ou sequer gelada. Estava confiante de que o tecido se manteria em perfeitas condições à temperatura ambiente até voltar para o laboratório em Cambridge, onde o trataria adequadamente. O seu objectivo era fazer uma cultura dos fibroblastos do senador, cujos núcleos usaria para criar as células que o tratariam. Tivera sempre mais sorte com células frescas do que congeladas quando fazia RSTH seguida de transferência nuclear, ou clonagem terapêutica, como algumas pessoas insistiam em chamar ao processo.

 

Para surpresa de Stephanie, e apesar de ser tão cedo, o senador respondeu-lhe quase imediatamente, sugerindo não só que se levantava sempre cedo como estava empenhado no projecto, como, aliás, já o declarara na noite anterior. Na sua mensagem, ele garantia-lhe que já mandara telefonar para o seu médico e quando ele telefonasse comunicar-lhe-ia os pedidos dela e insistiria para que fossem concretizados o mais depressa possível.

 

Daniel estava eléctrico desde que atirara os cobertores para trás. Também ele estava ao seu computador portátil, a enviar mensagens por correio electrónico. Vestido apenas com o roupão turco do hotel, escreveu uma mensagem para o grupo de capital de risco da Costa Oeste que expressara interesse em investir na CURA, mas mostrara relutância em libertar quaisquer fundos até a questão do projecto de lei do senador Butler estar resolvida. Daniel queria informá-los de que o projecto de lei estava destinado a ficar permanentemente na subcomissão e que já não representava uma ameaça. Daniel teria gostado de explicar como tivera acesso a esta informação, mas sabia que não podia. Daniel não esperava uma mensagem dos possíveis investidores nas próximas horas, uma vez que eram apenas quatro horas da madrugada na Costa Oeste quando a sua mensagem entrara na World Wide Web. No entanto, estava confiante de que responderiam.

 

Num impulso extravagante, pediram o pequeno-almoço no quarto. Por insistência de Daniel, incluía mimosas. Na brincadeira, ele dissera a Stephanie que era bom que ela se fosse acostumando àquela vida, porque seria a ordem do dia quando a CURA se tornasse pública.

 

Já estou farto da pobreza académica declarou ele. Vamos estar na lista A, e vamos viver à grande!

 

Às nove e um quarto, ficaram ambos surpreendidos com um telefonema do recepcionista a dizer que um correio deixara uma encomenda de uma Dr.a Claire Schneider marcada URGENTE. Perguntaram se desejavam que fosse entregue directamente no quarto, e eles responderam que sim. Como pensavam, o pacote continha a biópsia de pele de Butler, e ficaram profundamente impressionados com a eficiência do senador. A amostra chegara várias horas mais cedo do que eles tinham previsto.

 

Com a biópsia em mãos, tinham conseguido apanhar o avião das dez e meia para Boston, e chegaram ao Aeroporto Logan, pouco depois do meio-dia. Na sequência de uma experiência de táxi ainda mais arrepiante do que as de Washington, pelo menos para Daniel, com um motorista paquistanês num veículo a cair aos bocados, foram deixados no apartamento de Daniel, num condomínio na Rua Appleton. Uma mudança de roupa e um almoço rápido seguidos de uma viagem curta no Ford Focus de Daniel e chegaram às instalações actuais da CURA a este de Cambridge, na Rua Athenaeum. Entraram pela porta principal. A empresa ocupava o apartamento do rés-do-chão imediatamente à direita da entrada.

 

Quando Daniel fundara a CURA, a empresa ocupava a maior parte do rés-do-chão do edifício de escritórios do século XIX, recentemente renovado. Mas à medida que o buraco orçamental aumentava, o espaço foi a primeira coisa a desaparecer. Actualmente, tinha um décimo do tamanho original, com um único laboratório, dois gabinetes pequenos e uma zona de recepção. A segunda coisa a ir foi o pessoal não essencial. Os funcionários incluíam Daniel e Stephanie, que já não recebiam ordenados há quatro meses, outro cientista principal chamado Peter Conway, Vicky McGowan e três técnicos de laboratório que em breve seriam reduzidos para dois, ou talvez até para um. Daniel ainda não decidira. O que Daniel não mudara fora o conselho de administração, o conselho consultivo científico e o conselho de ética, que pretendia manter no escuro em relação ao caso Butler.

 

Só são duas e trinta e cinco anunciou Stephanie, depois de fechar a porta. Eu diria que é uma boa hora, tendo em conta que acordámos em Washington D. C.

 

Daniel limitou-se a resmungar. A sua atenção estava concentrada em Vicky, a secretária telefonista-recepcionista, que estava a entregar-lhe um monte de mensagens telefónicas, algumas das quais precisavam de explicação. Em particular, as pessoas do grupo de capital de risco da Costa Oeste tinham telefonado ao invés de responder à mensagem de correio electrónico que Daniel lhes enviara. Segundo Vicky, tinham ficado pouco satisfeitos com a informação recebida e queriam saber mais pormenores.

 

Stephanie deixou Daniel a tratar dos assuntos empresariais e foi para o laboratório. Cumprimentou Peter, que estava sentado à frente de um dos microscópios de dissecação. Enquanto Stephanie e Daniel tinham ido para Washington, ele ficara para continuar todas as experiências da empresa.

 

Stephanie colocou o seu computador portátil na superfície de pedra da bancada do laboratório, que usava como secretária; o seu gabinete particular tinha sido sacrificado na redução do espaço inicial. Com a biópsia de pele de Butler na mão, dirigiu-se para uma área de trabalho do laboratório. Retirou o pedaço de pele assepticamente, moeu-a e depois colocou o material moído num meio de cultura novo, juntamente com antibiótico. Depois de a amostra estar armazenada em segurança numa incubadora dentro do tubo de ensaio, voltou para a área que usava como secretária.

 

Como é que correram as coisas em Washington?perguntou Peter.

 

Era um homem de constituição magra que parecia um adolescente, apesar de ser mais velho do que Stephanie. As suas características mais distintivas eram as roupas maltrapilhas e os cabelos louros que usava apanhados num rabo-de-cavalo. Stephanie pensara sempre que ele podia ser um cartaz para os anos sessenta, dominados pelos hippies.

 

Em Washington correu tudo bem respondeu Stephanie vagamente. Ela e Daniel tinham decidido não contar aos outros sobre o senador Butler até o facto estar consumado.

 

Então, continuamos operacionais? perguntou Peter.

 

Parece que sim respondeu Stephanie. Ligou o computador à corrente e ligou-o. Pouco tempo depois, estava na Internet.

 

O dinheiro de São Francisco vem? insistiu Peter.

 

Vais ter de perguntar a Daniel replicou Stephanie. Eu tento manter-me longe do lado empresarial das coisas.

 

Peter percebeu a mensagem implícita e voltou ao seu trabalho.

 

Stephanie estava ansiosa para começar a investigar o assunto do Sudário de Turim, desde o momento em que Daniel sugerira que se encarregasse disso como contributo inicial para o projecto Butler. Pensara em começar nessa manhã depois de tomar duche e antes de a biópsia da pele de Butler ter chegado, mas decidira não o fazer porque ligar-se à Internet com um modem era agonizantemente lento agora que estava mimada com a ligação de banda larga da CURA. Para além do mais, pensou que pouco depois de começar a trabalhar teria de desligar. Agora, tinha o resto da tarde à sua frente.

 

Seleccionou o motor de busca Google, digitou SUDÁRIO DE TURIM e clicou no botão de PESQUISA. Não fazia ideia do que podia esperar. Embora se lembrasse de referências imprecisas ao sudário quando era criança e ainda católica praticante, bem como algo sobre ter sido declarado falso após datação por carbono quando estava no primeiro ano da faculdade, não pensava na relíquia há anos e presumira que as outras pessoas faziam o mesmo. Afinal de contas, que relevância podia ter uma falsificação do século XIII? Mas um piscar de olhos depois, quando a pesquisa do Google ficou completa, soube que estava enganada. Surpreendida, viu-se a olhar para o número de resultados: mais de vinte e oito mil e trezentos!

 

Stephanie clicou no primeiro resultado, chamado Página Oficial do Sudário de Turim, e na hora seguinte, esteve completamente absorta na quantidade de informações disponíveis. Na página de introdução, leu que o sudário era o artefacto mais estudado na História da Humanidade! Devido ao seu relativo desconhecimento na matéria, achou que era uma afirmação surpreendente, especialmente tendo em conta o seu interesse genérico pela História; a sua cadeira nuclear fora química, embora tivesse História como cadeira opcional. Também leu que uma série de especialistas eram da opinião de que a questão da autenticidade do sudário como um artefacto do século I não ficara resolvida com os resultados da datação por carbono. Como mulher de ciência, e conhecendo a precisão da datação por carbono, não conseguia compreender como é que alguém podia ter tal opinião e estava ansiosa para descobrir. Mas antes de o fazer usou a página para observar fotografias do sudário, que estavam apresentadas em formato positivo e negativo.

 

Stephanie soube que a primeira pessoa a fotografar o sudário em 1898 ficara surpreendida por a imagem ser significativamente mais óbvia no negativo, e ela achou o mesmo. Na revelação, a imagem era ténue, e olhar para ela e tentar ver a figura fez-lhe lembrar um dos seus passatempos de Verão na infância: tentar ver rostos, pessoas ou animais nas variações infinitas das nuvens. Mas, no negativo, a imagem era impressionante! Era claramente a de um homem que fora espancado, torturado e crucificado, o que levantava a questão de como é que um falsificador medieval podia ter antecipado o desenvolvimento da fotografia. O que surgira na revelação como simples manchas eram agora regatos de sangue agonizantemente reais. Olhando de novo para a imagem revelada, ficou surpreendida por o sangue ter mantido a sua cor encarnada.

 

No menu principal da Página Oficial do Sudário de Turim, Stephanie clicou num botão denominado PERGUNTAS MAIS FREQUENTES. Uma das perguntas mais frequentes era se alguma vez se tinha efectuado um teste de ADN ao sudário. Empolgada, Stephanie clicou na pergunta. Na resposta dada, ficou a saber que investigadores do Texas tinham encontrado ADN nas manchas de sangue, embora houvesse algumas dúvidas em relação à proveniência da amostra testada. Havia também questões sobre quanta contaminação do ADN poderia ter sido deixada por todas as pessoas que tinham tocado no sudário ao longo dos séculos.

 

A Página Oficial do Sudário de Turim também continha uma bibliografia extensa, e Stephanie observou-a atentamente. Uma vez mais, ficou surpreendida com a sua extensão. Com a curiosidade agora aguçada e sendo amante de livros, procurou uma série de títulos. Saiu da página do sudário e procurou a página oficial de uma livraria, que apresentou uma centena de títulos, muitos dos quais eram os mesmos que constavam da página oficial do sudário. Depois de ler algumas críticas, seleccionou alguns dos livros que queria ter imediatamente. Estava especialmente interessada nos de Ian Wilson, um professor muito erudito de Oxford, que era citado como apresentando os dois lados da controvérsia em relação à autenticidade do sudário, embora estivesse convencido de que era verdadeiro, significando não só que era um artefacto do século I como que era a mortalha de Jesus Cristo!

 

Stephanie pegou no telefone e ligou para a livraria mais próxima. Foi recompensada ao saber que a loja tinha um dos títulos em que ela estava interessada. Era O Sudário de Turim: A Prova Ilustrada, de Ian Wilson e Barrie Schwortz, um fotógrafo profissional que fizera parte de uma equipa americana, que estudara minuciosamente o sudário, em 1978. Stephanie pediu que reservassem o livro em seu nome.

 

Voltou à página oficial da livraria e encomendou mais alguns livros sobre o sudário para serem entregues no dia seguinte. Depois disso, levantou-se e tirou o casaco das costas da cadeira.

 

Vou à livraria disse a Peter.

 

»Vou buscar um livro sobre o Sudário de Turim. Só por curiosidade, que é que sabes sobre o assunto?

 

Hmmm disse Peter, enquanto coçava o rosto como se estivesse mergulhado nos seus pensamentos. Sei o nome da cidade onde ele é guardado.

 

Estou a falar a sério queixou-se Stephanie.

 

Bem, digamos que já ouvi falar nele, mas não é um tema de conversa muito frequente entre mim e os meus amigos disse Peter. Se fosse pressionado, diria que é um dos objectos que a igreja medieval usou para acalmar os fogos religiosos e para manter as caixas de esmolas cheias, como bocados da verdadeira cruz e unhas de santos.

 

Achas que é verdadeiro?

 

Queres dizer, a mortalha de Jesus Cristo?

 

Sim.

 

Raios, não! Provou-se que era falso há dez anos.

 

E se eu te dissesse que é o artefacto mais investigado na História da Humanidade?

 

Eu perguntava-te se ultimamente tens andado a fumar erva.

 

Stephanie riu-se.

 

Obrigada, Peter.

 

Estás a agradecer-me o quê?perguntou ele, obviamente confuso.

 

Estava preocupada com a hipótese de o meu desconhecimento do Sudário de Turim ser de alguma forma único. É reconfortante saber que não é. Stephanie vestiu o casaco e dirigiu-se para a porta.

 

A que é que se deve esse interesse súbito pelo Sudário de Turim? perguntou Peter.

 

Em breve, vais saber gritou Stephanie por cima do ombro. Atravessou a recepção na diagonal e espreitou para o gabinete de Daniel. Ficou surpreendida ao vê-lo debruçado sobre a secretária com a cabeça nas mãos.

 

Hei chamou Stephanie. Estás bem?

 

Daniel levantou os olhos e pestanejou. Tinha os olhos encarnados, como se tivesse estado a esfregá-los, e o seu rosto estava mais pálido do que era habitual.

 

Sim, estou bem disse, como se estivesse exausto. A sua energia anterior desvanecera-se.

 

Que é que se passa?

 

Daniel abanou a cabeça e procurou na secretária cheia de coisas. Suspirou.

 

Dirigir esta empresa é como manter um barco cheio de fissuras a flutuar, apenas com um dedal para tirar a água. O grupo de capital de risco recusa-se a disponibilizar a segunda fase de financiamento até eu lhes dizer por que é que tenho tanta certeza de que o projecto de lei de Butler não vai sair da subcomissão. Mas eu não posso dizer-lhes, porque se o fizer o barco vai certamente ao fundo e o mais provável seria Butler negar que ia manter o projecto de lei encalhado. Nesse caso, estaria tudo perdido.

 

Quanto dinheiro é que nos resta?

 

Quase nada gemeu Daniel. No próximo mês, por esta altura, vamos estar a mexer na nossa linha de crédito para pagar os ordenados.

 

Isso dá-nos o mês de que precisamos para tratar Butler disse Stephanie.

 

Que sorte disse Daniel sarcasticamente. Irrita-me de morte termos de interromper as nossas investigações e termos de lidar com Butler e, possivelmente, com aqueles palhaços da infertilidade em Nassau. É um maldito crime que a investigação médica se tenha politizado neste país. Os antepassados que nos fundaram e insistiram na separação da Igreja e do Estado estão provavelmente a dar voltas nas sepulturas por causa destes relativamente poucos políticos, que usam as suas supostas crenças religiosas para deter o que será indubitavelmente o maior avanço no tratamento médico.

 

Bem, todos sabemos o que está verdadeiramente por detrás deste movimento Luddite da biociência disse Stephanie.

 

De que é que estás a falar?

 

Na verdade, são políticas de aborto disfarçadas declarou Stephanie. A grande questão é que esses demagogos querem que um zigoto seja declarado um ser humano com plenos direitos constitucionais, independentemente de como o zigoto foi formado e independentemente do que o futuro reserva a esse mesmo zigoto. É uma posição ridícula, mas no entanto, se acontecesse, Roe versus Wade teria de ser tido em conta.

 

Provavelmente, tens razão admitiu Daniel. Expirou como se o ar estivesse a sair de um pneu.Que situação absurda. A história vai interrogar-se que tipo de pessoas éramos nós que deixámos que uma questão pessoal como o aborto prejudicasse uma sociedade durante anos sem fim. Copiámos muitas das nossas ideias sobre direitos do indivíduo, Governo e certamente o nosso direito comum da Inglaterra. Por que é que não seguimos a orientação da Inglaterra sobre como melhor lidar com a ética da biociência reprodutiva?

 

É uma boa pergunta, mas neste momento não vai servir-nos de nada preocuparmo-nos com a resposta. Que aconteceu ao entusiasmo que sentias com o tratamento de Butler? Vamos ao trabalho! Depois de ele estar curado, não vai renegar o nosso acordo mesmo que haja uma fuga para os órgãos de comunicação social, porque teremos a declaração assinada por ele. Quero dizer, depois de estar curado ele pode lidar com os órgãos de comunicação social negando quaisquer acusações de estar politicamente motivado. O que ele não poderia negar é uma declaração assinada.

 

Tens uma certa razão admitiu Daniel.

 

E quanto ao dinheiro de Butler? perguntou Stephanie. Parece-me que neste momento é a questão chave. Já houve alguma comunicação sobre esse assunto?

 

Membro de um grupo de operários que, entre 1811 e 1816, armavam motins com o objectivo de serem destruídas as máquinas. (N. da T.)

 

Ainda nem me lembrei de verificar. Daniel voltou-se para o computador e, após alguns toques no teclado, olhou para a sua caixa de correio especial. Está aqui uma mensagem que deve ser de Butler. Tem um anexo, o que é encorajador.

 

Daniel abriu o anexo. Stephanie deu a volta à secretária para olhar por cima do ombro dele.

 

Eu diria que parece muito encorajador disse Stephanie. Ele deu-nos o número de uma conta bancária, e parece que podemos movimentá-la os dois.

 

Tem uma ligação à página oficial do banco disse Daniel. Vejamos se conseguimos saber o saldo da conta. Isso vai dizer-nos até que ponto Butler está a levar o assunto a sério.

 

Alguns cliques depois, Daniel afundou-se na cadeira. Ergueu os olhos para Stephanie, e ela não desviou o olhar. Estavam ambos abalados.

 

Eu diria que ele está a levar isto muito a sério! comentou Stephanie. E que está ansioso!

 

Estou estupefacto! disse Daniel. Esperava dez ou vinte mil, no máximo. Nunca me passou pela cabeça que pudessem ser cem mil. Onde é que ele arranjou tanto dinheiro e tão depressa?

 

Já te disse que ele tem uma teia de comissões de acção política que são verdadeiras máquinas de angariação de fundos. O que pergunto a mim mesma é se alguma das pessoas que doou o seu dinheiro poderia imaginar como é que esse dinheiro ia ser gasto. Há uma grande dose de ironia nisto, se são tão conservadores como imagino que são.

 

Esse não é um problema nosso disse Daniel. Para além do mais, nunca vamos gastar cem mil dólares. Ao mesmo tempo, é bom saber que estão lá, para o caso de serem precisos. Vamos trabalhar!

 

Eu já dei início à cultura de fibroblastos com a biópsia de pele.

 

Excelente disse Daniel, com a exuberância daquela manhã a voltar. Até a sua cor de pele estava melhor. Vou começar por descobrir tudo o que for possível sobre a Clínica Wingate.

 

Parece-me bom! disse Stephanie. Começou a dirigir-se para a porta. Volto dentro de uma hora.

 

Onde é que vais?

 

À livraria do centro da cidade disse Stephanie por cima do ombro. À porta, hesitou. Mandei reservar um livro. Depois de iniciar a cultura de tecido, comecei à procura de coisas sobre o Sudário de Turim. Devo dizer que tive sorte na divisão do trabalho. O sudário está a revelar-se muito mais interessante do que eu pensava.

 

Que é que descobriste?

 

O suficiente para me prender, mas dentro de vinte e quatro horas apresento-te um relatório completo.

 

Daniel sorriu, levantou o polegar a Stephanie e voltou-se novamente para o ecrã do computador. Usou um motor de busca para pesquisar uma lista de clínicas de tratamento de infertilidade e encontrou a página oficial da Clínica Wingate. Alguns cliques depois, estava conectado.

 

Passou rapidamente as primeiras páginas. Como esperava, eram compostas por material laudatório para atrair os possíveis clientes. Numa secção intitulada CONHEÇA A NOSSA EQUIPA, fez uma breve viagem paralela para ler os currículos profissionais dos directores que incluía o fundador e administrador executivo, o Dr. Spencer Wingate; o director de Investigação e dos Serviços de Laboratório, o Dr. Paul Saunders; e a chefe dos Serviços Clínicos, a Dr.a Sheila Donaldson. Os currículos eram tão brilhantes como as descrições da própria clínica, embora na opinião de Daniel as três pessoas tivessem frequentado faculdades e programas de treino de segunda ou até de terceira categoria.

 

No fundo da página, encontrou o que queria: um número de telefone. Havia também um endereço de correio electrónico, mas Daniel pretendia falar directamente com um dos directores, ou Wingate ou Saunders. Pegou no telefone e marcou o número. A chamada foi atendida rapidamente por uma telefonista simpática que fez um elogio breve e mecânico da clínica, antes de perguntar com quem é que Daniel queria falar.

 

Dr. Wingate disse Daniel. Decidiu que o melhor era começar pelo topo.

 

Seguiu-se mais uma breve pausa antes de Daniel ser passado para uma mulher, com uma voz igualmente agradável. Perguntou educadamente o nome de Daniel antes de dizer se o Dr. Wingate estava disponível. Quando Daniel mencionou o seu nome, a reacção foi imediata.

 

É o Dr. Daniel Lowell, da Universidade de Harvard?

 

Daniel calou-se momentaneamente, enquanto tentava decidir como responder.

 

Já estive em Harvard, embora de momento tenha a minha própria empresa.

 

Vou pô-lo em contacto com o Dr. Wingate disse a secretária. Sei que ele tem estado à espera do seu telefonema.

 

Após um piscar de olhos de descrença, Daniel afastou o telefone do ouvido e olhou para o aparelho durante alguns instantes, como se este pudesse explicar a resposta inesperada da secretária. Como podia Spencer Wingate estar à espera do seu telefonema? Daniel abanou a cabeça.

 

Boa tarde, Dr. Lowell! respondeu uma voz com um marcado sotaque da Nova Inglaterra e uma oitava mais alta do que Daniel teria esperado. Fala Spencer Wingate, e tenho muito prazer em ouvi-lo. Esperávamos o seu telefonema a semana passada, mas não interessa. Não se importa de aguardar alguns momentos enquanto ponho o Dr. Saunders em linha? Vai demorar um minuto, mas o melhor é fazermos uma chamada em conferência, pois sei que o Dr. Saunders está tão ansioso como eu para falar com o senhor.

 

Tudo bem disse Daniel num tom agradável, embora o seu espanto não parasse de aumentar. Recostou-se para trás na cadeira, pousou os pés em cima da secretária e passou o telefone para a mão esquerda, para poder usar a direita para tamborilar com um lápis na secretária. Fora apanhado completamente desprevenido pela reacção de Spencer Wingate ao seu telefonema e sentiu uma ponta de ansiedade. Não parava de ouvir os avisos de Stephanie em relação a envolver-se com aqueles vigaristas infames da infertilidade.

 

O minuto arrastou-se para cinco. Quando Daniel recuperou suficientemente o equilíbrio para perguntar a si mesmo se teria sido inadvertidamente desligado, Spencer voltou à linha. Estava ligeiramente ofegante.

 

Muito bem, estou de volta! E tu, Paul? Estás em linha?

 

Estou aqui disse Paul, aparentemente a usar uma extensão noutra sala. Em contraste com a voz de Spencer, a de Paul era bastante grossa, com um toque nasalado característico do Midwest. É um prazer falar consigo, Daniel, se é que posso tratá-lo assim.

 

Se quiser disse Daniel. Como achar melhor.

 

Obrigado. E, por favor, chame-me Paul. Não há necessidade de formalidades entre amigos e colegas. Deixe-me dizer-lhe desde já que estou ansioso para trabalhar consigo.

 

Também é o meu sentimento declarou Spencer. Raios! Toda a clínica está ansiosa. Quando é que podemos esperá-lo?

 

Bem, essa é uma das razões por que estou a telefonar disse Daniel vagamente, a esforçar-se para ser diplomata, mas intensamente curioso.

 

Mas primeiro gostaria de saber por que é que estavam à espera do meu telefonema.

 

Soubemos pelo seu observador, ou seja qual for o título que lhe dá

 

respondeu Spencer. Como é que ele se chamava, Paul?

 

Marlowe disse Paul.

 

Certo! Bob Marlowe disse Spencer. Depois de terminar a inspecção das nossas instalações, disse que o senhor entraria em contacto connosco na semana seguinte. Escusado será dizer que ficámos desapontados quando não tivemos notícias suas. Mas isso são águas passadas, agora que telefonou.

 

Estamos encantados por querer usar as nossas instalações disse Paul. Será uma honra trabalhar consigo. Agora, espero que não se importe que eu especule sobre o que tem em mente, porque Bob Marlowe foi vago, mas presumo que quer experimentar a sua engenhosa RSTH num paciente. Quero dizer, por que outro motivo quereria abandonar o seu laboratório e esses hospitais fantásticos que tem em Boston? A minha suspeita está correcta?

 

Como é que conhece a RSTH? perguntou Daniel. Não sabia ao certo se queria admitir as suas motivações numa fase tão inicial da conversa.

 

Lemos a sua brilhante comunicação científica na Nature disse Paul. Estava brilhante, simplesmente brilhante. A sua importância global para a biociência lembrou-me a minha própria comunicação, Maturação In Vitro de ovócitos humanos. Leu?

 

Ainda nãorespondeu Daniel, obrigando-se a continuar a ser subtil. Em que revista foi publicado?

 

Na Revista de Tecnologia Reprodutiva do Século XXI disse Spencer.

 

Não conheço essa revista declarou Daniel. Quem é que a publica?

 

Nós disse Paul, orgulhosamente. Aqui mesmo na Clínica Wingate. Estamos tão empenhados na investigação, como nos serviços clínicos.

 

Daniel revirou os olhos. Sem a crítica dos seus pares, a auto publicação científica era um oxímoro, e ficou impressionado com a precisão da breve descrição que Butler fizera daqueles dois homens.

 

A RSTH nunca foi aplicada num ser humano disse Daniel, evitando responder à pergunta de Paul.

 

Nós estamos conscientes disso interrompeu Spencer. E é uma das muitas razões por que gostaríamos muito que fosse aplicada aqui pela primeira vez. A Clínica Wingate está precisamente a lutar para ter a reputação de estar sempre na linha da frente.

 

A FDA não veria com bons olhos a execução de um procedimento experimental sem um protocolo aprovado disse Daniel.Nunca dariam a sua aprovação.

 

É evidente que não aprovariam concordou Spencer. E nós sabemo-lo bem; riu-se, e Paul imitou-o. Mas aqui nas Bahamas, a FDA não precisa de saber, já que não têm jurisdição.

 

Se fôssemos aplicar a RSTH num humano, o procedimento teria de decorrer no mais absoluto segredo disse Daniel, admitindo por fim indirectamente quais eram os seus planos. Não pode ser divulgado e, obviamente, não poderia ser usado com objectivos promocionais.

 

Estamos plenamente conscientes disso declarou Paul. Spencer não estava a insinuar que usaríamos isso imediatamente.

 

Céus, não! guinchou Spencer. Só estava a pensar aproveitar esse facto depois de ele ser do conhecimento público.

 

Eu teria de conservar o direito de determinar o momento certo disse Daniel. Nem sequer vou usar o episódio para promover a RSTH.

 

Não? perguntou Paul. Então por que é que quer fazer isto?

 

Por motivos puramente pessoais declarou Daniel. Estou confiante de que a RSTH funcionará tão bem em humanos como nos ratos. Mas preciso de o provar a mim mesmo com um paciente para ter força para lidar com o revés que estou a sofrer da direita política. Não sei se sabem, mas estou a lutar contra uma proibição da minha técnica pelo Congresso.

 

Seguiu-se uma pausa desagradável na conversa. Ao exigir segredo e afastar as mais-valias publicitárias num futuro próximo, Daniel estava certo de ter anulado uma das razões para a Clínica Wingate colaborar. Freneticamente, tentou pensar numa forma de minorar o desapontamento deles, e instantes antes de falar, possivelmente, para piorar as coisas, Spencer quebrou o silêncio:

 

Suponho que podemos respeitar a sua necessidade de segredo. Mas se não vamos obter qualquer valor promocional a curto prazo com a sua colaboração connosco, que tipo de compensação tem em mente para utilizar as nossas instalações e serviços?

 

Nós pretendemos pagar afirmou Daniel.

 

Seguiu-se novo silêncio. Daniel sentiu uma ponta de pânico ao perceber que as negociações não estavam a correr bem, erguendo o espectro de perder a oportunidade de utilizar a Clínica Wingate para o tratamento de Butler. Tendo em conta as limitações de tempo, uma perda dessas podia ser um golpe fatal para o projecto. Daniel pressentiu que teria de oferecer mais. Lembrando-se do que o senador dissera sobre a vaidade de Spencer e Paul, cerrou os dentes e disse:

 

Depois, mais adiante, quando a FDA aprovar a RSTH para uso geral, podíamos escrever uma comunicação científica em co-autoria sobre o caso.

 

Daniel estremeceu. A ideia de fazer uma comunicação científica em co-autoria com aqueles palhaços era um pensamento doloroso, embora racionalizasse que poderia adiar o projecto infinitamente. Mas, apesar da oferta, o silêncio persistiu, e o pânico de Daniel cresceu. Lembrou-se da sua própria reacção à exigência feita por Butler para que usasse sangue do Sudário de Turim e atirou também esse engodo, explicando que o paciente insistira nisso. Daniel até propôs o mesmo título que, na brincadeira, sugerira a Stephanie.

 

Ora, parece-me uma comunicação científica dos diabos! replicou Paul de repente. Adoro! Onde é que a publicaríamos?

 

Em qualquer revista disse Daniel vagamente. Na Science ou na Nature. Onde quiserem. Não me parece que seja difícil de editar.

 

A RSTH funcionaria com sangue do Sudário de Turim? perguntou Spencer. - Se bem me lembro, essa coisa tem cerca de quinhentos anos.

 

E que tal cerca de dois mil anos? disse Paul.

 

Não se provou ser uma falsificação medieval?questionou Spencer.

 

O ADN estaria fragmentado, quer tenha quinhentos ou dois mil anos disse Daniel. Mas isso não deverá constituir um problema. Nós só precisamos de fragmentos, que as nossas sondas de RSTH procurarão após a amplificação por meio de um PCR. Vamos juntar enzimaticamente o que precisamos para genes inteiros. Vai funcionar lindamente.

 

Que tal o The New England Journal of Medicine? sugeriu Paul. Isso seria um golpe para a clínica! Adoraria ter alguma coisa naquela publicação pomposa.

 

Claro disse Daniel, arrepiado com a ideia. Por que não?

 

Também estou a começar a gostar disse Spencer. É o tipo de artigo que seria apanhado pelos órgãos de informação como se fosse ouro puro! Apareceria em todos os jornais. Raios, até já consigo ver todos os apresentadores de televisão a falarem sobre o assunto nos noticiários da noite.

 

Tenho a certeza de que tem razão disse Daniel. Mas não se esqueça de que, até o artigo sair, tudo isto tem de ser mantido no mais absoluto sigilo.

 

Nós compreendemos disse Spencer.

 

Como é que vai conseguir obter uma amostra do Sudário de Turim?

 

perguntou Paul. Sei que a Igreja Católica o tem trancado em Itália, numa espécie de cofre da era espacial.

 

Estamos a tratar do assunto neste preciso momento explicou Daniel. Prometeram-nos assistência clerical ao mais alto nível.

 

Eu diria que teriam de conhecer o Papa! comentou Paul.

 

Talvez devêssemos falar sobre custos disse Daniel, ansioso para mudar de assunto agora que a crise fora evitada.Não queremos quaisquer mal-entendidos.

 

De que género de serviços estamos a falar? perguntou Paul.

 

O paciente que vamos tratar sofre da doença de Parkinson esclareceu Daniel. Vamos necessitar de uma unidade de investigação operacional e de equipamento estereotáxico para a implantação.

 

Temos a unidade de investigação operacional disse Paul. Mas não equipamento estereotáxico.

 

Isso não representa um problema disse Spencer. Podemos pedi-lo emprestado ao Hospital Princesa Margarida. O Governo das Bahamas e a comunidade médica da ilha apoiaram muito activamente a nossa mudança para cá. Tenho a certeza de que terão todo o prazer em ajudar. Só não lhes diremos o que vamos fazer com ele.

 

Vamos precisar dos serviços de um neurocirurgião disse Daniel.

 

Um que seja capaz de ser discreto.

 

Também não me parece que isso constitua um problema disse Spencer. Há vários na ilha que, na minha opinião, estão a ser utilizados abaixo das suas capacidades. Tenho a certeza de que poderemos contratar um deles. Não sei ao certo quanto é que ele cobrará, mas posso garantir-lhe que será muito menos do que nos Estados Unidos. Calculo que rondará os duzentos ou trezentos dólares.

 

Não lhe parece que a questão da confidencialidade será problemática?

 

perguntou Daniel.

 

Não respondeu Spencer. Todos andam à procura de trabalho.

 

Com menos turistas a alugar motorizadas, os traumatismos cranianos caíram a pique. Eu sei, porque dois deles vieram à clínica e deixaram os seus cartões profissionais.

 

Parece fantástico disse Daniel. Para além disso, todos precisamos de espaço no vosso laboratório. Presumo que têm um laboratório para fazer o vosso trabalho de reprodução.

 

Vai ficar surpreendido com o nosso laboratório disse Paul com orgulho. É do mais moderno que há, e muito mais do que um simples laboratório de tratamento de infertilidade! E, para além de mim, temos diversos técnicos talentosos à sua disposição que são experientes em transferência nuclear e que estão ansiosos para aprender a RSTH.

 

Não vamos precisar da assistência de qualquer pessoal de laboratório declarou Daniel. Nós faremos o nosso trabalho celular. Do que necessitamos é de ovócitos humanos. Será possível vocês fornecerem-nos?

 

Claro! disse Paul. Os ovócitos são a nossa especialidade, e em breve serão o nosso pão com manteiga. No futuro, pretendemos fornecê-los a toda a América do Norte. Para quando é que precisa deles?

 

O mais brevemente possível disse Daniel. Isto pode parecer demasiado optimista, mas gostaríamos de estar prontos para implantar dentro de um mês. Temos um prazo apertado, com uma pequena janela de oportunidade imposta pelo paciente voluntário.

 

Deste lado, não há problema declarou Paul. Podemos fornecer-vos os ovócitos amanhã!

 

A sério?perguntou Daniel. Parecia bom de mais para ser verdade.

 

Podemos arranjar-lhe ovócitos sempre que precisar disse Paul. Depois, acrescentou com uma gargalhada, Até nas férias!

 

Estou impressionado declarou Daniel com sinceridade. E aliviado. Estava preocupado com a perspectiva de a procura de ovócitos nos atrasar. Mas isso leva-nos, novamente, aos custos.

 

Com excepção dos ovócitos, não sabemos quanto cobrar confessou Spencer. Para lhe dizer a verdade, nunca antecipámos que alguém usasse a nossa clínica. Vamos simplificar as coisas: que tal vinte mil para usar a sala de operações, incluindo o seu pessoal, e vinte mil para a taxa simples de utilização do laboratório?

 

Muito bem disse Daniel. E quanto aos ovócitos?

 

Cinco mil por unidade disse Paul. E garantimos, pelo menos, cinco divisões em cada, se não substituímo-lo.

 

Parece-me justo disse Daniel. Mas terão de ser frescos!

 

Serão tão frescos como uma margarida afirmou Paul. Quando é que podemos esperá-lo?

 

Volto a telefonar-vos ao fim do dia ou esta noite disse Daniel. Ou, o mais tardar, amanhã. Temos de começar a tratar disto.

 

Nós estaremos aqui declarou Spencer.

 

Daniel pousou o auscultador do telefone lentamente. Depois de o pousar devidamente no descanso, deu um grito de alegria. Apesar dos revezes recentes, tinha uma forte sensação de que a CURA, a RSTH e o seu próprio destino estavam novamente nos eixos!

 

O Dr. Spencer Wingate deixara a sua mão bronzeada pousada no auscultador do telefone depois de desligar, enquanto pensava na conversa que acabara de ter com o Dr. Daniel Lowell. Não tinha corrido como ele imaginara e esperara, e estava desapontado. Quando a questão de o famoso investigador querer usar a Clínica Wingate fora inesperadamente levantada duas semanas atrás, ele considerara-a providencial uma vez que tinham acabado de abrir as portas após oito meses de construção e confusão. Na sua mente, uma associação profissional a um homem que Paul dizia que poderia ganhar um Prémio Nobel teria sido uma forma soberba de anunciar ao mundo que a Wingate estava novamente em funcionamento após a lamentável confusão no Massachusetts, no último mês de Maio. Mas no pé em que as coisas estavam, não podia haver anúncio. Vinte mil dólares podia ser bom, mas era uma mera migalha em comparação com o dinheiro que tinham acabado de gastar para construir e equipar a clínica.

 

A porta do gabinete de Spencer, que estava ligeiramente entreaberta desde que voltara precipitadamente há pouco, depois de localizar o seu colega, foi aberta de par em par. A figura baixa e quadrada do Dr. Paul Saunders enchia a soleira. Um sorriso aberto mostrava os seus dentes quadrados e bastante espaçados. Ele não partilhava, obviamente, a desilusão de Spencer.

 

Consegues imaginar? disse Paul, precipitadamente.Nós vamos ter uma comunicação científica no New England Journal of Medicine! Atirou-se para uma cadeira à frente da secretária de Spencer e esmurrou o ar com os punhos erguidos como se tivesse vencido uma etapa da Volta à França em Bicicleta.E que comunicação: «A Clínica Wingate, o Sudário de Turim e a RSTH Juntam-se para a Primeira Cura da Doença de Parkinson.» Vai ser fantástico! As pessoas vão fazer fila à nossa porta!

 

Spencer recostou-se e pôs as mãos com os dedos entrelaçados atrás da cabeça. Olhou para o director de investigação, um título em que Paul insistira, com alguma condescendência. Paul era um trabalhador esforçado e com visão, mas podia ser excessivamente entusiasta e faltava-lhe o espírito prático necessário para dirigir um negócio convenientemente. Na encarnação anterior da clínica, no Massachusetts, ele quase a arruinara financeiramente. Se Spencer não tivesse hipotecado a clínica e transferido a maior parte dos bens para o exterior, não teriam sobrevivido.

 

Que é que te leva a ter tanta certeza de que haverá uma comunicação científica? perguntou Spencer.

 

O rosto de Paul toldou-se.

 

Que é que estás a dizer? Acabámos de falar no assunto ao telefone, título e tudo, com o Daniel. Foi ele quem sugeriu.

 

Ele sugeriu, mas como é que podemos ter a certeza de que acontecerá? Concordo que seria óptimo se acontecesse, mas ele pode adiar indefinidamente.

 

Por que diabo faria uma coisa dessas?

 

Não sei, mas por algum motivo o segredo é um ponto alto na lista, e uma comunicação científica destruiria isso. Ele não vai querer escrever uma comunicação, pelo menos, não com a brevidade de que necessitamos, e se nos adiantássemos e o fizéssemos sem ele, provavelmente ele limitar-se-ia a negar qualquer envolvimento no caso. Se isso acontecesse, ninguém a publicaria.

 

Tens uma certa razão concordou Paul.

 

Os dois homens olharam um para o outro à distância da secretária de Spencer. Um avião a jacto, na aproximação final ao Aeroporto Internacional de Nassau, troou por cima das suas cabeças. A clínica situava-se a oeste do aeroporto, em terra seca e árida. Fora o único local onde tinham conseguido comprar a extensão de terreno que queriam a um preço razoável e vedá-la adequadamente.

 

Achas que ele estava a falar verdade em relação à utilização do Sudário de Turim? perguntou Paul.

 

Também não sei disse Spencer. Parece-me um bocado rebuscado, se é que me entendes.

 

Pelo contrário, o conceito pareceu-me intrigante.

 

Não me interpretes mal disse Spencer. A ideia é interessante e certamente daria uma comunicação científica extremamente boa e seria uma história noticiada a nível internacional, mas quando somamos tudo, incluindo a questão do secretismo, há sem dúvida alguma coisa dúbia envolvida. Quero dizer, acreditaste na explicação que ele deu quando lhe perguntei por que é que ia dar-se a todo este trabalho?

 

Aquilo de ele querer provar a RSTH a si próprio?

 

Precisamente.

 

Não completamente, embora seja verdade que o Congresso dos Estados Unidos está a considerar a hipótese de banir a RSTH. E agora que me puseste a pensar, ele aceitou os teus preços um pouco depressa de mais, como se o preço não importasse.

 

Não podia estar mais de acordo declarou Spencer. Eu não fazia a menor ideia de quanto pedir pela utilização das nossas instalações, e atirei alguns números para o ar à espera de que ele fizesse uma contraproposta. Raios, ele concordou tão depressa que devia ter pedido o dobro.

 

Então, que é que te parece?

 

Acho que a questão é a identidade do paciente declarou Spencer. É a única coisa que penso que faz sentido.

 

Quem, por exemplo?

 

Não sei declarou Spencer. Mas, se fôssemos obrigados a adivinhar, eu diria que é um membro da família. O meu segundo palpite seria uma pessoa rica, uma pessoa muito rica, e possivelmente famosa e rica, e é nessa hipótese que apostaria o meu dinheiro!

 

Rica! repetiu Paul. Um leve sorriso apareceu no seu rosto. Uma cura poderia valer milhões.

 

Exactamente, e é por isso que acho que devíamos optar pela hipótese da pessoa rica e famosa. Afinal de contas, por que é que o Daniel Lowell vai receber potencialmente milhões, enquanto nós temos de nos contentar com uns míseros vinte mil!

 

Isso quer dizer que temos de descobrir a identidade do paciente voluntário.

 

Eu esperava que visses a questão da minha perspectiva. Estava com medo de que sentisses que valia a pena apenas para trabalhar com este investigador conhecido.

 

Raios, não! disse Paul, bruscamente. Não, quando não poderemos ter os benefícios promocionais que esperávamos. Ele até insinuou que não vamos ter treino prático na técnica de RSTH quando disse que vai ser ele a efectuar o trabalho celular. Originalmente, pensei que era um facto consumado. No entanto, ainda quero aprender a técnica, por isso quando ele telefonar novamente diz-lhe que isso tem de fazer parte do acordo.

 

Vou dizer-lhe com o maior prazer disse Spencer. E também vou dizer-lhe que queremos metade do dinheiro antecipadamente.

 

Diz-lhe que também queremos uma consideração especial no futuro, em relação ao licenciamento da RSTH.

 

Boa ideia disse Spencer. Vou ver o que posso fazer na renegociação do nosso acordo, sem subir o dinheiro. Não quero assustá-lo. Entretanto, que tal assumires a responsabilidade de tentar descobrir a identidade do paciente? É um género de actividade em que és melhor do que eu.

 

Vou aceitar isso como um elogio.

 

Eu pretendia que fosse um elogio. Paul levantou-se.

 

Vou pôr imediatamente o Kurt Hermann, o nosso chefe de segurança, a tratar do assunto. Ele adora esse tipo de trabalhos.

 

Diz ao infame Green Beret, ou quem diabo ele era, para matar o menor número possível de pessoas. Depois de todo este investimento e esforço, não vamos estragar as boas-vindas que tivemos nesta ilha.

 

Paul riu-se.

 

Na verdade, ele é muito cuidadoso e conservador.

 

Ele não é responsabilidade minha afirmou Spencer. Ergueu as mãos para acabar com qualquer discussão. Não me parece que as putas que ele matou em Okinawa lhe chamassem conservador, e teve a mão um bocado pesada no Massachusetts, ao nosso serviço, mas já falámos sobre esse assunto. Admito que é bom no que faz, caso contrário não faria parte da nossa equipa. Faz-me a vontade e diz-lhe para ser discreto! É tudo o que peço.

 

Vou dizer-lhe com o maior prazer. Paul levantou-se. Mas não te esqueças de que, como nenhum de nós, incluindo o Kurt, pode voltar aos Estados Unidos, provavelmente ele não conseguirá muito até o Daniel, a sua equipa e o paciente chegarem cá.

 

Eu não espero milagres declarou Spencer.

 

 

16.45, 22 de Fevereiro de 2002

As espirais denteadas da linha do horizonte de Manhattan delineavam-se contra o céu de fim de tarde de meados de Inverno, quando o avião de Washington-Nova Iorque deu a volta na aproximação final ao Aeroporto LaGuardia. As luzes da grande e pulsante cidade brilhavam, como jóias na escuridão que se adensava. As muitas pontes suspensas pareciam colares de pérolas iluminadas, pendurados nos pilares elevados. As filas ondulantes de faróis na FDR Drive assemelhavam-se a fios de diamantes, enquanto as luzes traseiras sugeriam rubis. Um navio de cruzeiros alegremente enfeitado parecia uma pregadeira, enquanto deslizava em silêncio para uma doca no Rio Hudson.

 

Carol Manning desviou os olhos da janela e daquela paisagem inspiradora para observar o interior do avião. Não havia conversa. Alheados da paisagem majestosa, os passageiros estavam absortos nos seus jornais, documentos de trabalho ou computadores portáteis. Os seus olhos deambularam para o senador sentado na sua fila, na coxia, com um banco de intervalo. Como os outros passageiros, ele estava a ler. As suas mãos grandes apertavam a pilha de memorandos referentes aos compromissos do dia seguinte que arrancara das mãos de Dawn Shackelton quando ele e Carol tinham saído do escritório com esperança de apanhar o voo das três e meia. Tinham conseguido por pouco.

 

Por insistência de Ashley, nessa mesma manhã, Carol telefonara a um dos secretários particulares do cardeal e marcara uma reunião de emergência para essa tarde. Recebeu instruções para dizer que era um assunto urgente, mas que demoraria quinze minutos, no máximo. O padre Maloney respondera que veria o que podia fazer, uma vez que a agenda do cardeal estava cheia, mas telefonara uma hora depois para dizer que o cardeal poderia receber o senador algures entre as dezassete e trinta e as dezoito e trinta, a seguir a uma recepção formal a um cardeal italiano que estava de visita e antes de um jantar com o mayor. Carol dissera que estariam lá.

 

Dadas as circunstâncias de ter de correr para o avião e de se preocupar com o tráfego potencial da cidade de Nova Iorque, Carol não pôde deixar de se impressionar com a equanimidade aparente de Ashley. Claro que ele a tinha a ela para se preocupar por ele, mas se os seus papéis estivessem invertidos e ela estivesse a viver o que ele estava a encarar potencialmente, teria ficado desmesuradamente ansiosa a ponto de ter dificuldade de concentração. Mas certamente não Ashley! Apesar de um ligeiro tremor, as páginas dos memorandos estavam a ser estudadas e passadas para trás numa sucessão célere, sugerindo que a sua lendária velocidade de leitura não sofrera com a doença, nem com os acontecimentos das últimas vinte e quatro horas.

 

Carol aclarou a garganta.

 

Senador, quanto mais penso neste assunto, mais surpreendida fico por não ter pedido a minha opinião. Consulta-me para quase tudo.

 

Ashley virou a cabeça e observou Carol por cima dos óculos de aros grossos, que tinham deslizado e estavam pendurados na ponta do nariz. A sua testa alta estava franzida com condescendência.

 

Minha querida Carol começou ele. Tu não tens de me dar a tua opinião. Como eu disse a noite passada, já a conheço muito bem.

 

Então, espero que esteja consciente de que penso que vai correr um risco demasiado grande com este suposto tratamento.

 

Aprecio a tua preocupação, independentemente da motivação, mas estou decidido.

 

Está a permitir que façam uma experiência em si. Não faz ideia de qual será o resultado.

 

Pode ser verdade que não tenho a certeza do resultado, mas também é verdade que se não fizesse nada face à minha doença neurológica degenerativa, incurável e progressiva, sei exactamente qual seria o resultado. O meu pai pregava que Deus ajuda aqueles que se ajudam a si mesmos. Toda a minha vida fui um lutador, e seguramente não vou parar agora. Não vou entregar-me com um choramingo. Vou dar pontapés e gritar como uma doninha fedorenta, presa num saco.

 

E se o cardeal lhe dissesse que o que pensa fazer não é aconselhável?

 

Essa resposta é altamente improvável, uma vez que não tenho a menor intenção de informar o cardeal das minhas intenções.

 

Então, por que estamos a vir para cá? perguntou Carol num tom que tocava a raiva. Eu estava com a esperança de que Sua Eminência poderia apelar ao seu bom senso durante a vossa conversa.

 

Nós não estamos a fazer esta peregrinação ao trono do poder da Igreja Católica continental na América do Norte para pedir conselhos, mas simplesmente para arranjar um pedaço do Sudário de Turim, como uma protecção de esperança contra as incertezas da minha terapia.

 

Mas como é que pretende ter acesso ao sudário sem explicar porquê? Ashley levantou uma mão como um orador a acalmar uma multidão em desordem.

 

Chega, minha querida Carol, se não a tua presença será mais um fardo do que uma ajuda. Voltou a concentrar-se nos seus papéis, enquanto o avião se dirigia para a pista.

 

Uma onda de calor espalhou-se pelo rosto de Carol por ter sido sumariamente dispensada. Aquele tratamento degradante estava a tornar-se demasiado comum, assim como a irritação associada a ele. Preocupada com a eventualidade de os seus sentimentos serem aparentes, virou-se novamente para a janela.

 

Enquanto o avião se dirigia para a manga de desembarque, Carol manteve-se concentrada no exterior do aparelho. De perto, Nova Iorque já não parecia uma jóia, graças ao lixo e a montículos de neve suja, que se espalhavam e alinhavam junto à praça de táxis. Ajudada pelo cenário escuro e ermo, pensou nas suas emoções contraditórias e na culpa que sentia em relação ao plano de Ashley para tratar a sua enfermidade. Por um lado, estava legitimamente receosa da sua natureza experimental, enquanto por outro achava que a terapia poderia funcionar. Embora a sua reacção inicial ao diagnóstico de Ashley tivesse sido de pena, ao longo do ano começara a encará-lo também como a sua oportunidade. Agora, o medo de um mau resultado competia em pé de igualdade com o medo de um bom resultado, embora tivesse dificuldades em admitir isso a si própria. Num certo sentido, sentia-se como um Brutus para o César que era Ashley.

 

A transição do avião para a limusina, que Carol tinha alugado, fez-se sem problemas. Quarenta e cinco minutos depois estavam mergulhados num mar de carros na FDR Drive, cujo fluxo de tráfego parara desde que a tinham sobrevoado de avião.

 

Preocupado com o atraso, Ashley pousou as páginas que estivera a analisar e apagou a luz de leitura. O interior da viatura ficou escuro.

 

Vamos perder a nossa janela de oportunidade gemeu numa voz desprovida de sotaque.

 

Lamento disse Carol, como se a culpa fosse sua. Milagrosamente, passados cinco minutos de uma paragem completa e de várias pragas de Ashley, o tráfego começou a mover-se novamente.

 

O Senhor seja louvado por estes pequenos favores entoou Ashley. Ao sair na Rua 96, o motorista usou habilidosamente um caminho secundário para o centro da cidade e conseguiu deixar o senador e a sua assessora na residência do arcebispo, na esquina da Madison com a Rua

50, quatro minutos antes do intervalo entre compromissos. O motorista recebeu instruções para dar a volta ao quarteirão, pois eles planeavam estar de volta ao aeroporto dentro de uma hora.

 

Carol nunca estivera na residência. Observou a casa simples de três andares, em pedra cinzenta e telhas de lousa, que se aninhava na sombra dos arranha-céus da cidade. Erguia-se a partir da ponta do passeio, sem uma tira de relva para suavizar a sua severidade. Alguns prosaicos aparelhos de ar condicionado de janela manchavam a fachada, assim como as pesadas grades de ferro no rés-do-chão. As grades davam ao edifício a aparência de uma pequena prisão e não de uma residência. Um vislumbre de renda belga por baixo de uma das janelas era o único toque de suavidade.

 

Ashley subiu os degraus de pedra e puxou a campainha de latão muito brilhante. Não tiveram de esperar muito tempo. A pesada porta foi aberta por um padre alto e elegante, com um nariz notavelmente romano, e cabelos ruivos cortados curtos. Usava uma sotaina preta com um colarinho clerical branco.

 

Boa tarde, Senador.

 

Para o senhor também, padre Maloney disse Ashley enquanto entrava. Espero ter chegado na altura certa.

 

Sem dúvida respondeu o padre Maloney. Vou deixá-lo e à sua assistente no estúdio privado de Sua Eminência. Ele irá ter convosco dentro de alguns momentos.

 

O estúdio era uma sala no primeiro andar, mobilada de forma espartana. Como objectos de decoração, uma fotografia formal e emoldurada do Papa João Paulo II e uma pequena estátua da Virgem Maria esculpida em mármore branco de Carrara. O chão de madeira não tinha carpete, e os sapatos de Carol ecoaram ruidosamente na superfície envernizada. O padre Maloney retirou-se em silêncio e fechou a porta atrás de si.

 

Bastante austero comentou Carol. A única mobília era um sofá de couro pequeno e velho, uma cadeira de couro a condizer, um genuflexório e uma pequena secretária com uma cadeira de madeira de costas direitas.

 

O cardeal gostaria que as suas visitas acreditassem que ele não está interessado no mundo material comentou Ashley, enquanto se baixava para a gasta cadeira de couro. Mas eu sei que não é assim.

 

Carol sentou-se rigidamente na ponta do sofá, com as pernas de lado. Ashley recostou-se como se estivesse a visitar um familiar. Cruzou as pernas, revelando uma meia preta e um bocado de perna branca e pastosa.

 

Instantes depois, a porta voltou a abrir-se e entrou o Reverendo James Cardinal O’Rourke seguido pelo padre Maloney, que fechou a porta atrás deles. O cardeal estava vestido a rigor. Sobre calças pretas e camisa branca de colarinho eclesiástico, usava uma sotaina preta engrandecida com vivos e botões encarnados de cardeal. Por cima da sotaina, havia uma capa escarlate curta e sem mangas. Cingida à cintura, tinha uma larga faixa encarnada. Na cabeça, via-se um solidéu encarnado de cardeal. À volta do pescoço, trazia uma cruz de prata coberta de jóias.

 

Carol e Ashley levantaram-se. Carol ficou abalada com o espectáculo do traje sumptuoso do cardeal, acentuado pela aspereza da sala. Mas depois de se ter levantado, constatou que o poderoso prelado era mais baixo do que ela, e ao lado de Ashley, que não era de modo nenhum alto, parecia decididamente baixo e gordo. Apesar das suas roupas reais, o rosto bondoso e sorridente sugeria um padre humilde com pele macia e imaculada, faces coradas e brilhantes, e agradáveis feições arredondadas. Porém, os seus olhos astutos contavam uma história diferente e mais consistente com o que Carol sabia sobre o poderoso prelado. Reflectiam uma inteligência formidável e prudente.

 

Senador disse o cardeal num tom de voz que condizia com o comportamento gentil que projectava. Estendeu a mão com um pulso mole.

 

Sua Eminência disse Ashley, recorrendo ao seu sotaque sulista mais cordial. Deu à mão do cardeal mais uma pressão do que um aperto, evitando deliberadamente beijar o anel do prelado. É um grande prazer. Sabendo muito bem a pressão dos seus compromissos, agradeço-lhe profundamente ter arranjado tempo para falar com este rapaz do campo tão em cima da hora.

 

Oh, deixe-se disso, Senador afirmou o cardeal. Como sempre, é um prazer vê-lo. Sente-se, por favor.

 

Ashley sentou-se na cadeira de couro e assumiu a postura anterior.

 

Carol corou novamente. Ser ignorada era tão embaraçoso como ser dispensada. Esperara ser apresentada, especialmente quando os olhos do cardeal fitaram o seu rosto com um erguer ligeiro, curioso, das sobrancelhas. Sentou-se novamente quando o cardeal puxou a cadeira de madeira da pequena secretária. O padre Maloney estava à porta, em silêncio.

 

Por deferência com as nossas agendas começou Ashley, acho que deveria ir direito ao assunto.

 

Sentindo-se estranhamente invisível, Carol observou os dois homens sentados ao seu lado. Reconheceu de imediato as suas semelhanças de carácter, apesar das diferenças de aparência e para além das suas naturezas trabalhadoras e exigentes. Ambos achavam que era vantajoso esbater as fronteiras entre a Igreja e o Estado; eram ambos adeptos da lisonja e de cultivar relacionamentos pessoais com quem podiam trocar favores nos respectivos campos; ambos escondiam personalidades que eram duras, calculistas e com uma vontade de ferro atrás da sua pessoa exterior (o humilde padre para o cardeal e o rapaz do campo cordial e ingénuo para o senador); e ambos guardavam a sua autoridade zelosamente e amavam o exercício do poder.

 

É sempre melhor ser directo disse James. Sentou-se direito, com as mãos papudas a segurar no solidéu, que tirara da cabeça quase careca.

 

Carol teve a imagem de dois espadachins a medirem-se cautelosamente.

 

Perturbou-me incomensuravelmente ver a Igreja Católica tão pressionada continuou Ashley. Este escândalo sexual foi muito prejudicial, especialmente com a divisão que gerou no seu seio e com um líder idoso e doente em Roma. Tenho ficado acordado à noite a tentar encontrar uma forma de poder ser útil.

 

Carol teve de se conter para não revirar os olhos. Conhecia bem de mais os verdadeiros sentimentos do senador em relação à Igreja Católica. Enquanto congregacionista e fundamentalista, tinha pouca consideração por qualquer religião hierárquica, e na sua opinião a Igreja Católica era a mais hierárquica.

 

Aprecio a sua empatia disse James, e sinto uma preocupação semelhante em relação ao Congresso dos Estados Unidos na sequência da tragédia de 11 de Setembro. Também eu me interroguei sobre o que poderia fazer para ajudar.

 

A sua liderança moral é uma ajuda constante disse Ashley.

 

Gostaria de fazer mais declarou James.

 

A minha preocupação com a igreja é que um número relativamente pequeno de padres com desenvolvimento psicossexual suspenso conseguiram colocar toda a organização filantrópica em perigo financeiro. O que eu gostaria sinceramente de propor em troca de um pequeno favor é introduzir legislação para limitar a responsabilidade civil de organizações de caridade reconhecidas, das quais a Igreja Católica é um grande exemplo.

 

Durante alguns minutos, o silêncio reinou na sala. Pela primeira vez, Carol apercebeu-se do tiquetaque de um pequeno relógio em cima da secretária e também dos sons abafados do trânsito na Avenida Madison. Observou o rosto do cardeal. A expressão dele não se tinha alterado.

 

Essa legislação seria uma grande ajuda nesta crise actual disse James por fim.

 

Por muito egrégio que cada episódio individual de abuso sexual seja para a vítima, não devemos vitimizar todas as almas que dependem da igreja para as suas necessidades de saúde, educação e espírito. Como a minha mãe costumava dizer: Não podemos deitar fora o bebé com a água suja do banho.

 

Qual é a probabilidade de essa legislação ser aprovada?

 

Com o meu apoio total, o qual eu certamente daria, calculo que será de mais de cinquenta por cento. Quanto ao presidente, acho que gostaria muito de promulgar a lei. Ele é um homem de muita fé, com uma forte crença na necessidade de instituições de caridade religiosas.

 

Tenho a certeza de que o Santo Padre ficaria grato pelo seu apoio.

 

Eu sou um servidor do povo disse Ashley. De todas as raças e religiões.

 

Mencionou um pequeno favor disse James. É algo que eu deva saber?

 

Oh, é uma pequena coisa declarou Ashley. Uma coisa em memória da minha mãe. A minha mãe era católica. Alguma vez mencionei isso?

 

Creio que não disse James.

 

Carol vislumbrou de novo a imagem de dois espadachins a defender e a atacar.

 

Profundamente católica afirmou Ashley. Era do velho país, perto de Dublin, e era uma mulher muito religiosa.

 

Presumo pela sua sintaxe que já foi para junto do Criador.

 

Infelizmente, sim disse Ashley. Hesitou por instantes, como se estivesse engasgado. Há alguns anos, Deus tenha a sua alma em descanso, quando eu era uma criança.

 

Era uma história que Carol conhecia. Uma noite, após uma sessão prolongada no Senado, fora a um bar em Capitol Hill com o senador. Depois de alguns uísques, o senador ficara especialmente falador e contara a triste história da mãe. Esta morrera quando Ashley tinha nove anos em consequência de um aborto clandestino, que preferira fazer a ter um décimo filho. A ironia é que receava morrer durante o parto porque tivera complicações durante o nascimento do nono filho. O intransigente pai de Ashley ficara ultrajado e dissera à família e à sua congregação que a mulher estava condenada a arder no inferno para toda a eternidade.

 

Quer que reze uma missa pela alma dela? perguntou James.

 

Isso seria muito generoso replicou Ashley, mas não é bem o que eu tinha em mente. Até hoje, recordo-me de me sentar nos seus joelhos e escutar todas as coisas maravilhosas que ela me contava sobre a Igreja Católica. E lembro-me especialmente do que ela me contou sobre o milagroso Sudário de Turim, que adorava.

 

Pela primeira vez, a expressão do cardeal mudou. Foi uma mudança subtil, mas Carol percebeu que era definitivamente de surpresa.

 

O sudário é considerado uma relíquia extremamente sagrada disse James.

 

Eu nunca diria que não retorquiu Ashley.

 

O próprio Santo Padre disse informalmente que acredita que é a mortalha de Jesus Cristo.

 

Fico contente por as crenças da minha mãe serem confirmadas disse Ashley. Em pleno reconhecimento do papel primordial da minha mãe, tenho sido um estudioso do sudário ao longo de todos estes anos. Por acaso, sei que foram tiradas algumas amostras, umas usadas para testes e outras não. Por acaso, também sei que essas amostras não usadas foram reclamadas pela Igreja depois dos resultados da datação por carbono. O que eu gostaria de ter era uma amostra minúsculaAshley juntou o polegar e o dedo indicador para dar mais ênfase às suas palavras, minúscula, de fibra com sangue, das que foram recuperadas.

 

O cardeal recostou-se na cadeira. Trocou um olhar rápido com o padre Maloney.

 

É um pedido muito invulgar disse ele. Porém, a Igreja tem sido muito clara em relação a este assunto. Não vai haver mais testes científicos ao sudário, para além dos necessários para garantir a sua conservação.

 

Eu não tenho qualquer interesse na datação por carbono declarou Ashley categoricamente.

 

Então, para que é que quer esta amostra minúscula, minúscula?

 

Para a minha mãe disse Ashley simplesmente. Gostaria sinceramente de a colocar dentro da urna que contém as cinzas dela da próxima vez que for a casa, para que os seus restos mortais possam misturar-se com O Hospedeiro Sagrado. A urna dela está ao lado da do meu pai, na lareira da velha casa de família.

 

Carol teve de suprimir uma gargalhada trocista ao constatar como o senador conseguia mentir de forma tão convincente. Na mesma noite em que lhe contara a história da pobre mãe, ele dissera que o pai não permitira que ela fosse enterrada no cemitério da igreja, e ela fora enterrada no cemitério dos indigentes da cidade.

 

Acredito acrescentou Ashley que se ela pudesse ter um desejo, seria este, para ajudar a sua alma imortal a obter entrada no paraíso eterno.

 

James ergueu os olhos para o padre Maloney.

 

Não sei nada sobre essas alegadas amostras. Sabe alguma coisa?

 

Não, Sua Eminência respondeu o padre Maloney. Mas posso tentar descobrir. O arcebispo Manfredi, que o senhor conhece bem, tem estado a viver em Turim. E monsenhor Garibaldi, que eu conheço bem, também está lá.

 

O cardeal olhou de novo para Ashley.

 

Contentar-se-ia apenas com algumas fibras?

 

É tudo o que peço disse Ashley. Embora deva acrescentar que gostaria de as ter o mais depressa possível, pois estou a planear uma viagem a casa num futuro muito próximo.

 

Se conseguíssemos arranjar esta fibra minúscula, como é que a faríamos chegar às suas mãos?

 

Eu mandaria imediatamente um agente a Turim disse Ashley. Não é o tipo de coisa que confie aos correios ou a qualquer transportadora comercial.

 

Veremos o que podemos fazer disse James e levantou-se. E presumo que, em breve, vai apresentar a legislação sugerida.

 

Ashley levantou-se igualmente.

 

Na segunda-feira de manhã, Sua Eminência, desde que tenha notícias suas nessa altura.

 

As escadas representavam um nítido esforço para o cardeal, e ele subiu-as lentamente, parando com frequência para recuperar o fôlego. O problema principal dos seus trajes formais é que lhe restringiam os movimentos com tantas camadas e frequentemente aqueciam de mais, especialmente quando subia as escadas para os seus aposentos privados. O padre Maloney ia imediatamente atrás dele e quando o cardeal parava, ele parava também.

 

A segurar o corrimão com uma mão, o cardeal pousou o outro braço no joelho levantado. Expirou com a face pálida e inchada e passou uma mão pela testa. Havia um elevador, mas ele evitava-o como uma espécie de penitência.

 

Posso fazer alguma coisa pelo senhor, Eminência? perguntou o padre Maloney. Eu podia trazê-lo para baixo, para evitar que subisse estas escadas íngremes. Tem sido uma tarde muito cansativa.

 

Obrigado, Michael disse James. Mas tenho de me refrescar, se quero sobreviver ao jantar com o presidente da câmara e com o cardeal que está de visita.

 

Quando quer que entre em contacto com Turim? perguntou o padre Maloney, para aproveitar o momento.

 

Esta noite, depois da meia-noite disse James entre respirações. Serão seis horas da manhã pela hora deles, e talvez consiga apanhá-los antes da missa.

 

Se me permite o comentário, sua Eminência, é um pedido surpreendente.

 

Sem dúvida! Surpreendente e curioso! Se a informação do senador sobre as amostras estiver correcta, e ficaria surpreendido se não estivesse, sabendo o que sei sobre o homem, deve ser um pedido fácil de satisfazer uma vez que obvia a necessidade de tocar no próprio sudário. Mas nas tuas conversas com Turim não te esqueças de realçar que o assunto deve ser completamente discreto. Eles terão de manter uma confidencialidade estrita e não haverá documento nenhum. Estou a ser claro?

 

Perfeitamente claro disse Michael. Está a questionar-se sobre a utilização que o senador pensa dar às amostras, Sua Eminência?

 

Essa é a minha única preocupação confirmou James, com uma última inspiração profunda. Recomeçou a subir as escadas lentamente. O senador é um mestre a fazer acordos. Tenho a certeza de que não quereria a amostra para fazer quaisquer testes não autorizados, mas pode estar a trocar favores com alguém que esteja interessado em analisá-lo. O Santo Padre decretou ex cathedra que o sudário não deveria ser submetido a mais indignidades científicas, e eu concordo plenamente. Mas, tirando isso, acredito que é uma causa nobre trocar algumas das fibras sagradas por uma hipótese de garantir a viabilidade económica da igreja. Concorda, padre?

 

Completamente.

 

Chegaram ao cimo das escadas e o cardeal parou uma vez mais para recuperar o fôlego.

 

Acredita que o senador vai fazer o que disse em relação à legislação, sua Eminência?

 

Sem dúvida afirmou James sem hesitar. O senador cumpre sempre a sua parte de um acordo. Como exemplo, foi fundamental no programa de certidões escolares que vai salvar as nossas escolas paroquiais. Em troca, eu garanti que ele tinha os votos católicos na última reeleição. Foi, como se diz, uma situação clara de vencedor-vencedor. Mas esta troca actual não é tão clara. Consequentemente, se for concretizada, como garantia suplementar quero que vá a Turim e veja quem recebe a amostra e depois siga a amostra para verificar a quem é entregue. Dessa forma, poderemos antecipar qualquer perigo potencialmente negativo.

 

Sua Eminência! Não me ocorre nenhuma missão mais agradável.

 

Padre Maloney! disse o cardeal rispidamente. Trata-se de uma missão séria e não de uma ocasião para se divertir. Espero discrição e empenho absolutos.

 

Claro, Sua Eminência! Não foi minha intenção insinuar outra coisa.

 

 

19.25, 22 de Fevereiro de 2002

Oh, céus! balbuciou Stephanie em voz alta, depois de olhar para o relógio. Eram quase sete e meia! Era surpreendente como o tempo podia voar quando ela estava absorta, e estivera absorta a tarde inteira. Primeiro, ficara cativada na livraria com os livros sobre o Sudário de Turim, e na última hora ficara estupefacta com o que estava a aprender, sentada diante do computador.

 

Voltara para o escritório pouco antes das seis e encontrara-o vazio. Presumindo que Daniel fora para casa, sentara-se à sua secretária improvisada no laboratório, e com a ajuda da Internet e de alguns arquivos de jornais envolvera-se na descoberta do que acontecera à Clínica Wingate pouco menos de um ano antes. Fora uma leitura absorvente e até perturbadora.

 

Stephanie colocou o computador portátil na sua pasta, pegou no saco plástico da livraria e vestiu o casaco. À porta do laboratório, apagou as luzes, o que a obrigou depois a atravessar a recepção às escuras. Uma vez na rua, virou para a Praça Kendall. Caminhou com a cabeça inclinada para se proteger do frio cortante. Típico do clima da Nova Inglaterra, verificara-se uma mudança vincada desde o princípio da tarde. Com o vento agora de norte ao invés de oeste, a temperatura caíra a pique e a tarde amena transformara-se numa noite fria. Juntamente com o vento norte, vieram tempestades de neve que cobriram a cidade, como se esta tivesse sido polvilhada com açúcar em pó.

 

Na Praça Kendall, Stephanie apanhou o metro da Linha Encarnada para a Praça Harvard, um território familiar dos seus tempos de faculdade. Como sempre e apesar do tempo, a praça estava a fervilhar de estudantes e da multidão que gravita nesses ambientes. Até alguns músicos ambulantes se tinham arriscado a sair, apesar do mau tempo. Com os dedos azuis, faziam serenatas aos transeuntes. Stephanie sentiu pena deles e foi deixando um comboio de notas de um dólar nos chapéus virados ao contrário, enquanto percorreu a Praça Harvard até à Praça Eliot.

 

As luzes e confusão ficaram rapidamente para trás quando Stephanie entrou na Rua Brattle. Passou por uma secção do Radcliff College e também pela famosa Casa Longfellow. Mas não se deixou arrebatar pelo que a rodeava. Em vez disso, reflectiu sobre o que descobrira nas últimas três horas e meia, e que estava ansiosa para partilhar com Daniel. Estava igualmente interessada em saber o que ele descobrira.

 

Já passava das oito quando subiu os degraus da frente para o edifício de apartamentos onde Daniel morava. Ele ocupava o apartamento do último andar de uma casa de três andares do final do período vitoriano com todas as ornamentações, incluindo beirais em madeira, que fora convertida em apartamentos. Ele comprara o apartamento em 1985, quando regressara à vida académica em Harvard. Fora um ano grandioso para Daniel. Não só deixara o emprego na empresa farmacêutica Merck como também deixara a mulher com quem estava casado há cinco anos. Explicara a Stephanie que se sentira sufocado por ambos. A mulher era uma enfermeira que ele tinha conhecido enquanto fazia o internato de medicina e o doutoramento ao mesmo tempo, um feito que Stephanie comparava a correr uma maratona de costas. Ele dissera a Stephanie que a ex-mulher era viciada em trabalho e que estar casado com ela o fizera sentir-se como Sísifo, a rolar constantemente uma rocha pela montanha acima. Também dissera que ela era demasiado bondosa e esperava que ele fosse igual a ela. Stephanie não sabia o que pensar de qualquer das explicações, mas não insistiu no assunto. Estava grata por eles não terem tido filhos o que, aparentemente, a ex-mulher queria desesperadamente.

 

Cheguei! gritou Stephanie, depois de fechar a porta do apartamento com o rabo. Equilibrando a pasta do computador e o saco dos livros na minúscula mesa da entrada, Stephanie despiu o casaco e abriu a porta do roupeiro para o pendurar.

 

Está alguém em casa? gritou ela, embora a sua voz tivesse soado abafada por estar direccionada para o interior do roupeiro. Quando acabou de arrumar o quarto, virou-se. Preparava-se para gritar novamente, mas a forma de Daniel encheu a entrada para o vestíbulo e assustou-a. Ele estava a apenas alguns centímetros de distância. O barulho que saiu dos lábios de Stephanie foi mais um pio do que outra coisa qualquer.

 

São quase oito horas conseguiu Stephanie dizer. Levou uma mão ao peito. Não me assustes dessa maneira!

 

Por que é que não telefonaste? Eu estava quase a chamar a polícia.

 

Oh, por favor! Tu sabes como eu sou nas livrarias. Fui a mais do que uma e esqueci-me do tempo. Nos dois sítios, acabei sentada num canto, a ler e a tentar decidir o que comprar. Depois, quando voltei ao escritório, quis aproveitar a banda larga.

 

Por que é que não tinhas o telemóvel ligado? Tentei ligar-te uma dúzia de vezes.

 

Porque estava numa livraria e quando cheguei ao escritório, nem me passou pela cabeça. Hei! Lamento se estavas preocupado comigo, está bem? Mas agora estou em casa, sã e salva. Que é que fizeste para o jantar?

 

Muito engraçadinha resmungou Daniel.

 

Relaxa! disse Stephanie, puxando a manga de Daniel, brincalhona. Aprecio a tua preocupação, a sério, mas estou esfomeada e tu também deves estar. E se fôssemos até à praça jantar? Podias telefonar para o Rialto, enquanto eu tomo um duche. É sexta-feira à noite, mas quando chegarmos lá não deve estar muito cheio.

 

Está bem disse Daniel com relutância, como se estivesse a concordar com um empreendimento de grande importância.

 

Só às nove e vinte é que entraram no restaurante Rialto e, tal como Stephanie previra, havia uma mesa preparada e à espera. Como estavam ambos famintos, analisaram imediatamente a ementa e fizeram o pedido sem demora. Pediram ao empregado de mesa que trouxesse logo o vinho, água com gás e pão para matarem a sede e começarem a saciar a fome.

 

Muito bem disse Stephanie, recostando-se na cadeira. Quem quer falar primeiro?

 

Posso começar eu declarou Daniel. Porque não tenho muito para dizer, mas o que tenho é encorajador. Telefonei para a Clínica Wingate, que me parece muito bem equipada para as nossas necessidades, e vão deixar-nos utilizar as suas instalações. Na verdade, já combinámos o preço: quarenta mil.

 

Uau! comentou Stephanie.

 

Sim, eu sei: é um bocado alto, mas tive relutância em regatear. Inicialmente, depois de os informar que não poderiam aproveitar o facto de utilizarmos as suas instalações para fins promocionais, tive receio de que as portas se tivessem fechado. Felizmente, eles reconsideraram.

 

Bem, o dinheiro não é nosso, e não há dúvida de que temos bastante. E quanto à questão dos ovócitos?

 

Essa é a parte melhor. Disseram-me que podem fornecer-nos ovócitos sem o menor problema.

 

Quando?

 

Dizem que quando quisermos.

 

Santo Deus exclamou Stephanie. Que intrigante.

 

A cavalo dado não se olha o dente.

 

E quanto a um neurocirurgião?

 

Também não há problema em relação a esse ponto. Há vários na ilha que estão desesperados para arranjar trabalho. O hospital local até tem equipamento estereotáxico.

 

Isso é encorajador.

 

Também me pareceu.

 

Eu tenho uma notícia boa e uma má. Qual é que queres ouvir primeiro?

 

Até que ponto é que a má é má?

 

Tudo é relativo. Não é suficientemente má para impossibilitar o que estamos a planear, mas é bastante má para nos preocuparmos.

 

Vamos ouvir a má e despachar o assunto.

 

Os directores da Clínica Wingate são piores do que eu me lembrava. A propósito, com quem é que falaste quando telefonaste para a clínica?

 

Com dois dos directores: Spencer Wingate em pessoa e o seu lugar-tenente, Paul Saunders. E devo dizer-te que são dois palhaços. Imagina isto: publicam a sua própria revista pseudocientífica, e o processo de escrever e editar só os envolve a eles!

 

Queres dizer que não há um conselho de crítica editorial?

 

Foi a impressão com que fiquei.

 

Isso é de morrer a rir, a menos que alguém assine a revista e aceite o que está escrito como um evangelho.

 

Foi exactamente o que pensei.

 

Bem, são muito piores do que palhaços declarou Stephanie. E piores do que dois simples perpetradores de experiências de clonagem reprodutiva contrárias à ética. Eu recorri a arquivos de jornais, especialmente do The Boston Globe, para saber o que aconteceu em Maio passado quando a clínica foi inesperadamente mudada para as Bahamas. Recordas-te de eu ter mencionado a noite passada em Washington em que eles tinham estado implicados no desaparecimento de duas alunas de Harvard? Bem, foi muito mais do que uma simples implicação, segundo duas denunciadoras extremamente credíveis que por acaso eram candidatas a um doutoramento em Harvard. Elas tinham conseguido arranjar emprego na clínica para descobrirem o destino dos óvulos que tinham doado. Durante a investigação descobriram muito mais do que tinham pensado. Numa audiência com um júri de acusação, afirmaram ter visto os ovários da mulher desaparecida no que chamaram a «sala de recuperação de óvulos» da clínica.

 

Santo Deus! exclamou Daniel. Por que é que as pessoas da Wingate não foram indiciadas, com esse tipo de testemunho?

 

Falta de provas e uma equipa de advogados de defesa caríssima! Aparentemente, os directores tinham um protocolo de evacuação previamente estudado que incluía a destruição imediata da clínica e do seu conteúdo, particularmente das instalações de investigação. Desintegrou-se tudo num inferno de chamas enquanto os directores partiam num helicóptero. Foi por isso que não receberam uma intimação. A ironia final é que, sem uma intimação, puderam receber o dinheiro do seguro de incêndio.

 

Então, que é que pensas de tudo isto?

 

Simplesmente que, definitivamente, essas pessoas não são simpáticas, e que devíamos limitar a nossa interacção com eles. E, depois do que li, gostaria de conhecer a origem dos óvulos que eles nos vão fornecer, só para ter a certeza de que não estamos a ser coniventes com alguma coisa pouco escrupulosa.

 

Não me parece que seja boa ideia. Já decidimos que seguir pela estrada da ética é um luxo que não podemos ter se queremos salvar a CURA e a RSTH. Questioná-los neste ponto pode causar problemas, e não queremos colocar em risco a utilização das instalações deles. Tal como eu disse, eles não ficaram excessivamente entusiasmados depois de eu ter inviabilizado qualquer utilização do nosso envolvimento para fins promocionais.

 

Stephanie brincou com o guardanapo enquanto reflectia sobre o que Daniel acabara de dizer. Não lhe agradava nada ter de trabalhar com a Clínica Wingate, mas era verdade que ela e Daniel não tinham muitas opções devido às limitações de tempo a que tinham de se sujeitar. Também era verdade que já estavam a violar a ética ao concordarem com o tratamento de Butler.

 

Bem, que é que dizes? perguntou Daniel. Podes viver com isto?

 

Suponho que simdisse Stephanie sem entusiasmo.Efectuamos o procedimento e pomo-nos a mexer.

 

É esse o plano disse Daniel. Agora, vamos continuar! Qual é a boa notícia que tens para me dar?

 

A boa notícia envolve o Sudário de Turim.

 

Sou todo ouvidos.

 

Esta tarde, antes de ir à livraria, disse-te que a história do sudário era mais interessante do que eu tinha imaginado. Bem, foi a exposição mais aquém dos factos que fiz este ano.

 

Porquê?

 

Agora, estou convencida de que afinal de contas, Butler é capaz de não ser assim tão doido, porque o sudário pode muito bem ser verdadeiro. É uma reviravolta surpreendente, já que sabes como eu sou céptica.

 

Daniel acenou afirmativamente.

 

Quase tanto como eu.

 

Stephanie olhou para o namorado depois deste último comentário, esperançada de que houvesse algum vestígio de humor como um sorriso matreiro, mas não havia. Sentiu uma ponta de irritação por Daniel ter de ser um pouco mais céptico, fosse qual fosse a questão. Bebeu um gole de vinho para voltar a concentrar-se no assunto que tinha em mãos.

 

De qualquer forma continuou, comecei a ler o material na livraria, e foi difícil parar. Quero dizer, mal posso esperar para voltar ao livro que comprei. Foi escrito por um professor de Oxford chamado Ian Wilson. Com sorte, amanhã vou receber mais livros que encomendei pela Internet.

 

Stephanie foi interrompida pela chegada da refeição. Ela e Daniel observaram com impaciência enquanto o empregado de mesa os servia. Daniel esperou que o homem se afastasse antes de falar.

 

Muito bem, aguçaste a minha curiosidade admitiu ele.Oiçamos a base desta surpreendente epifania.

 

Comecei a minha leitura com o conhecimento confortável de que o sudário tinha sido datado através de carbono por três laboratórios independentes como sendo do século XIII, o mesmo século em que apareceu historicamente. Conhecendo a precisão da tecnologia de datação por carbono, não esperava que a minha crença de que se tratava de uma falsificação fosse desafiada. Mas foi e quase imediatamente. A razão era simples. Se o sudário tivesse sido feito quando a datação por carbono sugeria, o falsificador teria de ser impossivelmente engenhoso e muitos anos-luz acima de Leonardo da Vinci.

 

Vais ter de explicar disse Daniel entre garfadas. Stephanie fizera uma pausa para começar a jantar.

 

Vamos começar com algumas razões subtis pelas quais o falsificador teria de ser sobre-humano para o seu tempo e depois passaremos a outras mais fortes. Em primeiro lugar, o falsificador teria de conhecer a perspectiva na arte, a qual ainda não fora descoberta. A imagem do homem no sudário tinha as pernas flectidas e a cabeça inclinada para a frente, provavelmente em rigor mortis.

 

Admito que não é terrivelmente forte comentou Daniel.

 

Que tal esta: o falsificador teria de conhecer o método exacto de crucificação usado pelos romanos, na era antiga. Era diferente de todas as descrições de crucificação do século XIII, e existem literalmente centenas de milhares. Na realidade, os pulsos do condenado estavam pregados à trave, não as palmas, que não teriam podido suportar o peso. Para além disso, a coroa de espinhos não era um anel pequeno, mas mais um boné que lhe revestia o crânio.

 

Daniel acenou algumas vezes, pensativo.

 

Experimenta esta: as manchas de sangue bloqueiam a imagem no tecido, o que significa que esse artista inteligente começou com as manchas de sangue e depois fez a imagem, o que é contrário à forma como todos os artistas trabalham. A imagem seria feita primeiro ou, pelo menos, o esboço. Depois, os pormenores como sangue seriam acrescentados para se ter a certeza de que ficariam nos lugares correctos.

 

Isso é interessante, mas teria de colocar essa na categoria da perspectiva.

 

Então, vamos continuar disse Stephanie. Em 1979, quando o sudário foi submetido a cinco dias de escrutínio científico por equipas de cientistas dos Estados Unidos, Itália e Suíça, ficou inequivocamente determinado que a imagem não fora pintada. Não havia pinceladas, havia uma gradação infinita de densidade e a imagem era um fenómeno de superfície, mas sem imbibição, o que significava que nenhum fluido de qualquer espécie estava envolvido. A única explicação que apresentaram em relação à origem da imagem foi uma espécie de processo de oxidação da superfície das fibras do tecido, como se tivessem sido expostas, na presença de oxigénio, a um clarão intenso de luz forte ou outra radiação electromagnética forte. Obviamente, isto foi vago e puramente especulativo.

 

Está bem disse Daniel. Sou obrigado a admitir que estamos a chegar a razões bastante fortes.

 

Há mais declarou Stephanie. Alguns dos cientistas que examinaram o sudário em 1979 eram da NASA e submeteram-no a análises com as tecnologias disponíveis mais sofisticadas, incluindo um aparelho conhecido como Analisador de Imagem VP-8. Tratava-se de um aparelho analógico que foi desenvolvido para converter imagens digitais especialmente gravadas da superfície da lua e de Marte, em imagens tridimensionais. Para surpresa de toda a gente, a imagem no sudário contém este tipo de informação, o que significa que a densidade da imagem do sudário num dado local é directamente proporcional à distância a que estava do indivíduo crucificado que cobriu. Bem vistas as coisas, teria de ter sido um falsificador dos diabos, se antecipou tudo isto no século XIII.

 

Credo! exclamou Daniel, enquanto abanava a cabeça, abismado.

 

Deixa-me acrescentar mais uma coisa disse Stephanie. Biólogos especializados em pólen determinaram que o sudário contém um tipo de pólen que só existe em Israel e na Turquia, o que significa que, a par de ser inteligente, o suposto falsificador teria de ser cheio de recursos.

 

Como podem os resultados da datação por carbono ter estado tão errados?

 

Uma pergunta interessante afirmou Stephanie, enquanto comia mais uma garfada do seu jantar. Mastigou rapidamente. Ninguém sabe ao certo. Houve sugestões de que o linho antigo tende a suportar o crescimento continuado de bactérias e a deixar uma biopelícula transparente, como uma camada de verniz, que distorceria os resultados. Aparentemente, tem havido um problema semelhante com a datação por carbono de alguns tecidos em múmias egípcias, cuja antiguidade é conhecida com bastante precisão por outros meios.

 

” Outra ideia sugerida por um cientista russo é que o fogo que chamuscou o sudário no século XVI podia ter alterado os resultados, embora eu tenha dificuldade em compreender como é que poderia tê-los alterado em mais de mil anos.

 

E quanto ao aspecto histórico?perguntou Daniel. Se o sudário é verdadeiro, como é que a sua história só remonta ao século XIII, quando apareceu em França?

 

Essa é outra pergunta pertinente disse Stephanie. Quando comecei a ler o material sobre o sudário, gravitei para os aspectos científicos e só comecei agora com os históricos. Ian Wilson relacionou muito inteligentemente o sudário com outra relíquia bizantina extremamente reverenciada chamada o Pano de Edessa, que esteve em Constantinopla mais de trezentos anos. O que é interessante é que este pano desapareceu quando a cidade foi saqueada por cruzados, em 1204.

 

Há alguma prova documental de que o sudário e o Pano de Edessa sejam um e o mesmo?

 

Foi precisamente aí que parei de ler disse Stephanie. Mas parece provável que essa prova exista. Wilson cita uma testemunha ocular francesa da relíquia bizantina antes do seu desaparecimento, que o descreveu nas suas memórias como uma mortalha com uma imagem mística e de corpo inteiro de Jesus, que seguramente parece o Sudário de Turim. Se as duas relíquias forem a mesma, então a história leva-a pelo menos até ao século IX.

 

Posso certamente compreender por que é que tudo isto te prendeu a atenção declarou Daniel. É fascinante. E, voltando à ciência, se a imagem não foi pintada, quais são as teorias actuais sobre a sua origem?

 

Essa pergunta é, provavelmente, a mais intrigante de todas. Na verdade, não existe nenhuma.

 

O sudário foi estudado cientificamente desde o episódio que mencionaste em 1979?

 

Muito disse Stephanie.

 

E não há teorias?

 

Nenhuma que tenha resistido a mais testes. Claro que continua a haver a vaga ideia de alguma espécie de clarão de radiação estranha... Stephanie deixou a voz arrastar-se como se quisesse deixar a ideia a pairar no ar.

 

Espera um segundo! disse Daniel. Não te preparas para me atirar com algum disparate divino ou sobrenatural, pois não?

 

Stephanie abriu as mãos com as palmas voltadas para cima, encolheu os ombros e sorriu ao mesmo tempo.

 

Agora, tenho a impressão de que estás a gozar comigo comentou Daniel com uma risada.

 

Estou a dar-te a oportunidade de apresentares uma teoria.

 

Eu? perguntou Daniel.

 

Stephanie acenou afirmativamente.

 

Eu não poderia apresentar uma hipótese sem ter acesso directo a todas as informações. Presumo que os cientistas que o examinaram usaram coisas como microscopia de electrões, espectroscopia, fluorescência ultra-violeta, bem como análises clínicas apropriadas.

 

Tudo o que mencionaste e mais disse Stephanie. Recostou-se na cadeira, com um sorriso provocante. E mesmo assim não existe uma teoria aceite de como a imagem foi produzida. Sem dúvida que é um enigma. Mas vá lá! Não sejas corte! Não podes pensar em alguma coisa com os pormenores que te relatei?

 

Tu é que tens andado a ler replicou Daniel. Acho que devias ter uma sugestão.

 

E tenho disse Stephanie.

 

Será que me atrevo a perguntar qual é?

 

Estou inclinada na direcção do divino. Eis o meu raciocínio: se o sudário é a mortalha de Jesus Cristo e se Jesus ressuscitou, o que significa que passou do material para o não material, presumivelmente num instante, então o sudário teria sido sujeito à energia da desmaterialização. Foi o clarão de luz que criou a imagem.

 

Que diabo é a energia da desmaterialização? perguntou Daniel, exasperado.

 

Não sei bem admitiu Stephanie com um sorriso. Mas teria de haver uma libertação de energia com uma desmaterialização. Olha para a energia libertada pelo declínio elementar rápido. Cria uma bomba atómica.

 

Suponho que não preciso de te lembrar que estás a usar um raciocínio muito pouco científico. Estás a usar a imagem do sudário para postular a desmaterialização para poderes usar a desmaterialização para explicar o sudário.

 

Não é científico, mas para mim faz sentido disse Stephanie com uma gargalhada. E também faz sentido para Ian Wilson, que descreveu a imagem do sudário como uma fotografia da Ressurreição.

 

Bem, pelo menos, convenceste-me a dar uma espreitadela ao livro que compraste.

 

Só quando eu acabar! brincou Stephanie.

 

Que efeito é que estas informações sobre o sudário tiveram na tua reacção sobre a utilização das suas manchas de sangue para tratar Butler?

 

Deu uma volta de cento e oitenta graus admitiu Stephanie.

 

Neste ponto, sou completamente a favor. Quero dizer, por que não recrutar o potencialmente divino para nosso benefício? E, como disseste em Washington, usar o sangue do sudário trará algum desafio e excitação, ao mesmo tempo que cria o derradeiro placebo.

 

Daniel levantou a mão, e ele e Stephanie bateram com as mãos uma na outra por cima da mesa.

 

E sobremesa? perguntou Daniel.

 

Eu não quero. Mas se tu comeres, eu tomo um café. Daniel abanou a cabeça.

 

Eu não quero sobremesa. Vamos para casa. Quero verificar se tenho alguma mensagem de correio electrónico dos tipos do grupo de capital de risco Daniel fez sinal ao empregado para pedir a conta.

 

E eu quero ver se há alguma mensagem do Butler. A outra coisa que aprendi sobre o sudário é que vamos precisar da ajuda dele para conseguir uma amostra. Sozinhos, seria impossível. A igreja selou-o com um nível muito sofisticado de segurança, dentro de uma caixa da era do espaço numa atmosfera de árgon. Também declararam categoricamente que não haveria mais testes. Após o fiasco da datação por carbono, eles estão com medo, o que é razoável.

 

Foi feita alguma análise ao sangue?

 

Claro que sim disse Stephanie. Constatou-se que é do tipo AB, que era muito mais comum no Próximo Oriente antigo do que é agora.

 

Algum trabalho sobre o ADN?

 

Também respondeu Stephanie. Foram isolados diversos fragmentos de genes específicos, incluindo uma beta globulina do cromossoma X e até um fragmento do cromossoma Y.

 

Bem, aí tens disse Daniel. Se conseguirmos obter uma amostra, será muito fácil tirar os segmentos de que precisamos com as nossas sondas da RSTH.

 

É bom que as coisas comecem a acontecer depressa avisou Stephanie. Se não, não vamos ter as células a tempo das férias que o Butler vai ter no Senado.

 

Eu estou plenamente consciente disso replicou Daniel. Pegou no cartão de crédito que o empregado lhe estendia e assinou o recibo. Se o sudário vai ser envolvido, temos de ir a Turim nos próximos dias. Por isso, é bom que Butler comece a mexer-se! Depois de termos a amostra, poderemos voar directamente para Nassau a partir de Londres, pela British Airways. Verifiquei isso ao princípio da noite.

 

Não vamos fazer o trabalho celular aqui no nosso laboratório?

 

Infelizmente, não. Os óvulos estão lá, não aqui, e não quero correr o risco de os mandar vir para cá, pois quero-os frescos. Esperemos que o laboratório da clínica esteja tão bem equipado como eles afirmam, porque vamos fazer tudo lá.

 

Isso quer dizer que vamos partir daqui a alguns dias e que estaremos fora um mês ou mais.

 

Isso mesmo. Há algum problema?

 

Suponho que não disse Stephanie. Não é má altura para passar um mês em Nassau. Peter pode tomar conta das coisas no laboratório. Mas amanhã ou no domingo vou ter de ir a casa para ver a minha mãe. Como sabes, ela tem andado adoentada.

 

É melhor ires o mais depressa possível disse Daniel. Se Butler der notícias sobre a amostra do sudário, vamos-nos embora.

 

 

14.45, sábado, 23 de Fevereiro de 2002

Daniel sentiu que estava a ficar com uma vaga ideia de como era ter uma perturbação maníaco-depressiva, quando desligou o telefone depois de mais uma conversa decepcionante com as pessoas da empresa de capital de risco de São Francisco. Antes do telefonema, sentia-se no topo do mundo depois de esboçar os planos para o próximo mês num bloco A4. Com Stephanie agora a apoiar entusiasticamente o plano para tratar Butler, incluindo a utilização de sangue do sudário, as coisas começavam a encaixar-se nos seus lugares. Nessa manhã, entre os dois, tinham elaborado uma declaração abrangente para Butler assinar e tinham-na enviado ao senador por correio electrónico. De acordo com as instruções que tinham enviado, deveria ser assinada na presença de Carol Manning e enviada por fax para o escritório deles.

 

Quando Stephanie voltou para o laboratório, para verificar a cultura de fibroblastos de Butler, Daniel convencera-se de que as coisas estavam a correr tão bem que era razoável telefonar aos homens do dinheiro na esperança de os fazer mudar de opinião, em relação a disponibilizarem a segunda fase do financiamento. Mas o telefonema não correra bem. A pessoa-chave terminara a conversa dizendo a Daniel para não voltar a telefonar, a menos que tivesse provas escritas de que a RSTH não seria proibida. O banqueiro acrescentara que, a menos que recebesse a documentação num futuro próximo, o dinheiro destinado à CURA seria transferido para outra prometedora empresa de biotecnologia cuja propriedade intelectual não corria perigo político.

 

Daniel afundou-se na cadeira, com as ancas precariamente apoiadas na ponta e com a cabeça pousada nas costas da cadeira. A ideia de voltar à vida académica estável mas com falta de dinheiro, com a sua previsibilidade de passo de caracol, parecia-lhe cada vez mais atraente. Estava a começar a abominar os grandes altos e baixos de tentar alcançar o estatuto de celebridade rica que merecia. Era de bradar aos céus que as estrelas de cinema só tivessem de decorar algumas deixas e os atletas famosos só tivessem de evidenciar uma destreza pouco inteligente com um taco ou uma bola para comandarem o lucro e a atenção com que eram bombardeados. Com as suas credenciais e uma descoberta brilhante a seu favor, era abominável ter de suportar tanto trabalho e a ansiedade associada. O rosto de Stephanie espreitou na esquina.

 

Adivinha? disse ela, entusiasmada. As coisas estão a correr extremamente bem com a cultura de fibroblastos de Butler. Graças à atmosfera de cinco por cento de C02 e ar, já está a começar a formar-se uma monocamada. As células vão ficar prontas mais cedo do que eu previ.

 

Maravilhoso disse Daniel num tom deprimido e monocórdico.

 

Qual é o problema agora? perguntou Stephanie. Entrou no gabinete e sentou-se. Parece que vais infiltrar-te no chão. Por que é que estás com essa cara?

 

Nem perguntes! É a mesma velha história do dinheiro, ou pelo menos da falta dele.

 

Suponho que isso significa que telefonaste novamente para os capitalistas da empresa de investimentos de risco.

 

Que clarividente! disse Daniel, sarcasticamente.

 

Santo Deus! Por que é que te estás a torturar?

 

- Então, agora achas que estou a fazer isto a mim próprio.

 

Estás, se continuares a telefonar-lhes. Segundo o que me disseste ontem, as intenções deles foram bastante claras.

 

Mas o plano Butler está a avançar. A situação está a evoluir. Stephanie fechou os olhos por instantes e respirou fundo.

 

Daniel começou ela, a tentar pensar na melhor maneira de formular o que queria dizer-lhe sem o irritar, não podes esperar que as outras pessoas vejam o mundo como tu. Tu és um homem brilhante, talvez inteligente de mais para o teu próprio bem. As outras pessoas não olham para o mundo como tu. Quero dizer, não podem pensar como tu.

 

Estás a ser condescendente? Daniel olhou para a namorada, colaboradora científica e sócia. Ultimamente, com a tensão dos acontecimentos recentes, era mais a última do que a primeira, e os negócios não estavam a correr bem.

 

Céus, não! declarou Stephanie enfaticamente. No entanto, antes de poder continuar, o telefone tocou. O ruído estridente no gabinete silencioso assustou-os.

 

Daniel estendeu a mão para o auscultador, mas não pegou nele. Olhou rapidamente para Stephanie.

 

Estás à espera de um telefonema? Stephanie abanou a cabeça.

 

Quem poderá estar a telefonar aqui para o escritório num sábado?

 

Talvez seja para o Petersugeriu Stephanie.Ele está novamente no laboratório.

 

Daniel levantou o auscultador e usou o nome todo da empresa, ao invés da sigla.

 

Clínica de Substituição Celular disse num tom oficial.

 

Fala o Dr. Spencer Wingate da Clínica Wingate. Estou a telefonar de Nassau para falar com o Dr. Daniel Lowell.

 

Daniel fez sinal a Stephanie para ela ir para a recepção e ouvir pela extensão de Vicky. Depois, identificou-se a Spencer.

 

Seguramente, não esperava falar directamente consigo, doutor disse Spencer.

 

A nossa recepcionista não trabalha aos sábados.

 

Santo Deus! exclamou Spencer. Riu-se. Não me apercebi de que era fim-de-semana. Como abrimos as novas instalações recentemente, temos estado todos a trabalhar vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, para engomar as rugas. Peço mil perdões se estou a incomodá-lo.

 

Não está a incomodar nada garantiu-lhe Daniel, e ouviu um clique suave quando Stephanie ficou em linha. Há algum problema relacionado com a nossa conversa de ontem?

 

Muito pelo contrário disse Spencer. Estava com receio de que tivesse havido uma mudança do seu lado. O doutor disse que telefonaria a noite passada ou hoje, o mais tardar.

 

Tem razão, eu disse isso replicou Daniel. Desculpe. Tenho estado à espera de notícias do sudário para pôr as coisas em movimento. Peço desculpa por não lhe ter telefonado.

 

Não é necessário pedir desculpa. Embora não tenha tido notícias suas, achei que devia telefonar-lhe para lhe dizer que já falei com um neurocirurgião chamado Dr. Rashid Nawaz, que tem consultório em Nassau. É um cirurgião paquistanês que estudou em Londres e me garantiram ser bastante talentoso. Até teve algumas experiências com implantes de células fetais, e está ansioso para ser útil. Também concordou em trazer o equipamento esterotáxico do Hospital Princesa Margarida.

 

Mencionou a necessidade de discrição?

 

Evidentemente e ele concordou.

 

Maravilhoso replicou Daniel. Discutiram os honorários dele?

 

Eu tratei disso. Parece que os serviços dele vão ser um pouco mais caros do que eu pensava, talvez devido à discrição que foi pedida. Ele está a pedir mil dólares.

 

Daniel questionou-se momentaneamente se devia fazer um esforço para negociar. Mil dólares era uma soma significativamente mais elevada do que o cálculo inicial de duzentos ou trezentos dólares. Mas o dinheiro não era dele, e acabou por dizer a Spencer para tratar de tudo.

 

Mais informações sobre quando podemos esperá-lo? perguntou Spencer.

 

Neste momento, nãodisse Daniel. Eu digo-lhe logo que souber.

 

Perfeito declarou Spencer. Enquanto o tenho ao telefone, há alguns pormenores que gostaria de abordar.

 

Faça o favor.

 

Em primeiro lugar, gostaria de pedir metade da quantia combinada antecipadamente disse Spencer. Podemos enviar-lhe instruções para o depósito.

 

Quer o dinheiro imediatamente?

 

Gostaríamos de recebê-lo logo que tivermos a data da sua chegada. Isso vai possibilitar a organização dos funcionários apropriados. Isso vai constituir um problema?

 

Suponho que não respondeu Daniel.

 

Bom disse Spencer. Em seguida, gostaríamos que os nossos funcionários fossem autorizados a aprender a técnica da RSTH, especialmente o Dr. Paul Saunders, bem como a oportunidade de debater consigo um futuro acordo de licenciamento da RSTH e taxas para as sondas e enzimas necessárias.

 

Daniel hesitou. A sua intuição dizia-lhe que estava a ser pressionado por ter concordado depressa de mais com o preço no dia anterior. Aclarou a garganta.

 

Não tenho qualquer objecção a que o Dr. Saunders observe mas, quanto à questão do licenciamento, infelizmente não tenho liberdade para tomar esse género de decisões. A CURA é uma empresa com um conselho de administração que teria de concordar com qualquer decisão, com o apoio pleno dos accionistas. Mas, na qualidade de administrador executivo, posso prometer-lhe que voltaremos a falar no assunto futuramente, e a vossa ajuda nesta situação será tida em consideração.

 

Talvez eu estivesse a pedir de mais admitiu Spencer amistosamente. Riu-se. Mas como diz o ditado, Não custa tentar.

 

Daniel revirou os olhos, a lamentar as indignidades que tinha de suportar.

 

Uma última coisa disse Spencer. Gostaríamos de saber o nome do paciente, para podermos dar início ao processo de admissão e para abrirmos uma ficha. Gostaríamos de nos preparar para a chegada dele ou dela.

 

Não vai haver registo disse Daniel. Ontem deixei bem claro que este tratamento vai ser efectuado no mais absoluto sigilo.

 

Mas teremos de identificar o paciente para os testes laboratoriais e afins disse Spencer.

 

Chame-lhe Paciente X ou John Smith disse Daniel. Não faz a menor diferença. Penso que ele só vai ficar na vossa clínica vinte e quatro horas, no máximo. Nós estaremos sempre com ele, e faremos todos os testes laboratoriais.

 

E se as autoridades das Bahamas questionarem a admissão dele?

 

Isso é provável?

 

Não, suponho que não. Mas, se acontecer, não sei bem o que poderíamos dizer.

 

Estou confiante de que com a sua experiência a lidar com as autoridades durante a construção da clínica, saberá ser criativo. É uma parte da razão por que lhe estamos a pagar quarenta mil dólares. Certifique-se de que eles não questionam.

 

Vamos precisar de um ou dois subornos. Talvez se subisse o preço mais cinco mil dólares, nós pudéssemos garantir que não haverá qualquer problema com as autoridades.

 

Daniel não respondeu imediatamente, enquanto controlava a raiva. Detestava ser manipulado, especialmente por um palhaço do calibre de Wingate.

 

Muito bem disse ele por fim, sem camuflar a irritação. Vamos depositar vinte e dois mil e quinhentos dólares. Porém, quero a sua garantia pessoal de que esta operação vai decorrer sem percalços daqui em diante, e que não haverá mais exigências.

 


Tem a minha garantia, como fundador da Clínica Wingate, de que faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que a sua associação connosco corresponda às suas expectativas e satisfação completa.

 

Vai ter notícias nossas muito em breve.

 

Nós estaremos aqui!

 

Os ruidosos motores do avião fizeram as paredes do gabinete de Spencer estremecer quando o Boeing 767 intercontinental passou pela Clínica Wingate a uma altitude de menos de cento e cinquenta metros, a preparar-se para aterrar. Com o forte isolamento acústico do edifício, a vibração era mais táctil do que audível, e suficientemente forte para agitar levemente a colecção de diplomas emoldurados de Spencer. Este já estava acostumado à perturbação diária intermitente e não prestava qualquer atenção, para além de endireitar os diplomas de vez em quando.

 

Como é que me portei? gritou Spencer pela porta aberta.

 

Paul Saunders apareceu à porta depois de ter escutado a conversa de Spencer com Daniel do seu gabinete contíguo.

 

Bem, vejamos o lado positivo das coisas. Não descobriste o nome do paciente, mas conseguiste eliminar quase metade dos ricos e famosos do mundo. Agora sabemos que é um homem.

 

Muito engraçado disse Spencer. Não esperávamos que ele nos desse o nome numa bandeja de prata. Mas consegui que ele subisse a oferta para quarenta e cinco mil e que te deixasse observar o trabalho celular. Não é mau.

 

Mas não insististe no assunto do licenciamento. Isso pode fazer-nos poupar muito dinheiro com a nossa terapia celular.

 

Sim, bem, ele tinha uma certa razão. Está a administrar uma empresa.

 

Pode ser uma empresa, mas é uma empresa privada e aposto o que quiseres como ele é de longe o maior accionista.

 

Bem, ganhamos umas e perdemos outras. De qualquer forma, não o espantei. Lembra-te de que essa era uma das nossas preocupações... que,

se o pressionássemos de mais, ele iria para outro sítio qualquer.

 

Reconsiderei essa preocupação, desde que ele estivesse a falar verdade em relação aos limites de tempo. Possivelmente, somos o único sítio que pode fornecer-lhe de um dia para o outro um laboratório de primeira classe, instalações hospitalares e ovócitos humanos sem perguntas.

 


Mas não importa. O nosso potencial pagamento milagroso vai ser garantido quando descobrirmos o nome do paciente. Estou convencido disso. E quanto mais depressa descobrirmos, melhor.

 

Eu não podia estar mais de acordo, e para esse fim, descobri que Lowell estava no seu escritório hoje, o que era o verdadeiro objectivo do telefonema.

 

Verdade! E tenho de reconhecer que conseguiste. Logo que desligaste, telefonei a Kurt Hermann para o avisar. Ele disse que ia transmitir imediatamente a informação ao seu compatriota que está posicionado em Boston, à espera de entrar no apartamento de Lowell.

 

Espero que este compatriota, como lhe chamaste, seja capaz de ser discreto. Se Lowell se assustar... ou, pior ainda, se se magoar... pode ficar tudo comprometido.

 

Eu transmiti especificamente os teus receios em relação à violência, a Kurt.

 

E que é que ele disse?

 

Tu sabes que Kurt não diz grande coisa. Mas compreende.

 

Espero que tenhas razão, porque nos dava muito jeito uma sorte financeira inesperada. Com o que gastámos a montar e a equipar esta clínica, o poço está praticamente seco, e para além do nosso trabalho celular, há muito pouco trabalho de fertilização no horizonte imediato.

 

O Dr. Spencer Wingate parece mesmo o bandido que eu receava disse Stephanie. Voltara para o gabinete de Daniel depois de escutar a conversa. Fala sobre subornos como se fosse uma ocorrência banal.

 

Talvez nas Bahamas seja declarou Daniel.

 

Espero que ele seja baixo, gordo e que tenha uma verruga no nariz. Daniel olhou para Stephanie, confuso.

 

Talvez fume imenso e tenha mau hálito.

 

De que diabo estás tu a falar?

 

Se Spencer Wingate parecer tão feio como soa, talvez eu não perca completamente a fé na profissão médica. Sei que é irracional, mas não quero que ele se pareça nada com a imagem mental de um médico. Assusta-me pensar que ele é um médico em exercício. E isso aplica-se igualmente aos seus sócios.

 

Oh, deixa-te disso, Stephanie! Não sejas tão ingénua. A profissão médica, como qualquer outra profissão, está longe de ser perfeita. Há bons e maus, e a maioria encontra-se algures no meio.

 

Achei que a auto-regulamentação fazia parte da definição desta profissão. De qualquer maneira, a verdadeira questão é que gostava que a minha intuição não estivesse a dizer-me que é má ideia trabalhar com estas pessoas.

 

Pela última vez disse Daniel, frustrado, nós não estamos a trabalhar com estes palhaços. Deus me livre! Vamos usar as instalações deles e mais nada. Fim da história.

 

Vamos esperar que seja assim tão simples disse Stephanie. Daniel retribuiu o olhar de Stephanie. Já estavam juntos há tempo suficiente para ele ter consciência de que ela não aceitava a sua justificação, e irritou-o que ela não estivesse a apoiá-lo mais. O problema é que as dúvidas dela chamavam a atenção para as suas próprias dúvidas, que ele estava a tentar ignorar activamente. Queria acreditar que todo aquele episódio ia correr bem e que acabaria em breve, mas a negatividade de Stephanie não parava de minar as suas esperanças. Na recepção, o fax ganhou vida.

 

Vou ver o que é disse Stephanie. Levantou-se e saiu da sala. Daniel observou-a a afastar-se. Foi um alívio escapar ao olhar dela. As pessoas tinham o dom de o irritar até Stephanie, de vez em quando. Perguntou a si mesmo se estaria melhor sozinho.

 

Já é a declaração de Butler gritou Stephanie.Assinada perante uma testemunha, juntamente com um bilhete a informar que o original já está no correio.

 

Óptimo! gritou Daniel por sua vez. Pelo menos, a colaboração de Butler era encorajadora.

 

Na primeira folha, o senador pergunta se verificámos o nosso correio electrónico esta tarde. Stephanie apareceu à porta com uma expressão interrogativa. Eu não, e tu?

 

Daniel abanou a cabeça e inclinou-se para a frente, ligando-se à Internet. No endereço novo e especial criado para o tratamento de Butler, havia uma mensagem do senador. Stephanie deu a volta à secretária de Daniel e olhou por cima do seu ombro, enquanto ele a abria.

 

Meus caros doutores,

 

Espero que esta mensagem os encontre ocupados com os preparativos para o meu tratamento iminente. Eu também tenho estado produtivamente ocupado, e congratulo-me por informar-vos de que os guardiões do Sudário de Turim têm sido muito úteis, graças à intervenção de um colega influente. Devem viajar para Turim logo que puderem. Ao chegarem, vão telefonar para a Chancelaria da Arquidiocese de Turim para falar com monsenhor Mansoni. Informarão o monsenhor de que são os meus representantes. Nessa altura, sei que o monsenhor vai marcar um encontro num local apropriado para vos entregar a amostra sagrada. Por favor, compreendam que isto tem de ser feito com a maior discrição e sigilo, para não pôr em perigo o meu estimado colega. Entretanto, continuo o vosso amigo sincero, A. B.

 

Daniel levou um momento a apagar a mensagem, tal como ele e Stephanie tinham decidido apagar todas as outras mensagens do senador. Tinham combinado entre todos que haveria o menor número de provas possível do caso. Quando acabou, levantou os olhos para ela.

 

Não há dúvida de que o senador está a cumprir a sua parte. Stephanie acenou afirmativamente.

 

Estou impressionada. E também estou a começar a ficar empolgada. O caso está definitivamente a ficar com um toque de intriga internacional.

 

Quando é que podes estar pronta para partir? A Alitalia tem voos diários para Roma que saem à noite com ligações a Turim. Lembra-te de que vais ter de levar coisas para um mês.

 

Fazer as malas não vai ser o problema disse Stephanie. Os meus dois problemas são a minha mãe e a cultura de tecidos de Butler. Preciso de passar algum tempo com a minha mãe, como te disse. E também quero deixar a cultura de tecidos de Butler num ponto em que Peter possa tomar conta.

 

De quanto tempo estás a falar em relação à cultura?

 

Não muito. Esta manhã está tão boa que, provavelmente, amanhã de manhã estarei satisfeita. Só quero ter a certeza de que está a formar-se uma verdadeira monocamada. Depois, Peter pode mantê-la, passá-la e conservá-la criogenicamente. O meu plano é que ele envie uma alíquota para Nassau num contentor de nitrogénio líquido, quando nós estivermos prontos para aplicar a técnica. Manteremos o resto da cultura aqui, para o caso de precisarmos dela no futuro.

 

Não sejamos pessimistas disse Daniel. E a tua mãe?

 

Amanhã posso vê-la algumas horas durante o dia. Ela está sempre em casa aos domingos, a cozinhar.

 

Então, teoricamente, poderias estar pronta para partir amanhã à noite?

 

Claro, se fizer as malas esta noite.

 

Então, vamos voltar imediatamente para o apartamento. Eu faço os telefonemas necessários de lá.

 

Stephanie entrou novamente no laboratório para ir buscar o computador portátil e o casaco. Depois de se certificar de que Peter estava a pensar ir para o laboratório na manhã seguinte para poderem conversar sobre a cultura de Butler, voltou para a recepção. Encontrou Daniel a segurar a porta da entrada aberta para ela com impaciência.

 

Credo, estás com pressa! comentou Stephanie. Era costume ela ter de esperar por Daniel. De cada vez que iam a algum lado, ele arranjava sempre mais uma coisa para fazer.

 

Já são quase quatro horas, e não quero que tenhas uma desculpa para não estares pronta para partir amanhã à noite. Lembro-me do tempo que demoraste a fazer a mala para passar duas noites em Washington, e isto é para um mês. Tenho a certeza de que vais demorar mais tempo do que pensas.

 

Stephanie sorriu. Era verdade porque, entre outras coisas, precisava de passar algumas peças a ferro. Também se lembrou de que tinha de passar pela farmácia para comprar alguns artigos de que necessitava para a viagem. O que não esperava foi a rapidez com que Daniel conduziu depois de entrarem no carro. Arriscou um olhar de relance para o velocímetro enquanto desciam o Memorial Drive a grande velocidade. Iam a quase oitenta numa zona de cinquenta.

 

Hei, abranda! conseguiu Stephanie dizer. Estás a conduzir como um daqueles motoristas de táxi de que te queixas.

 

Desculpa disse Daniel. Abrandou ligeiramente.

 

Prometo que vou ter tudo pronto, por isso não é necessário arriscares as nossas vidas. Stephanie olhou de lado para Daniel, para ver se ele percebia que ela estava a tentar ser engraçada, mas a sua expressão determinada não mudou.

 

Estou ansioso para despachar este famigerado assunto, agora que sinto que estamos verdadeiramente a começar disse ele, sem tirar os olhos da estrada.

 

Pensei numa coisa que devia fazer disse Stephanie. Vou colocar um alarme para que as futuras mensagens de correio electrónico de Butler também sejam enviadas para a caixa de mensagens do meu telemóvel. Assim, saberemos que chegou uma mensagem e poderemos lê-la imediatamente.

 

Boa ideia concordou Daniel.

 

Encostaram junto ao passeio diante da casa de Daniel. Ele desligou o motor e saltou do carro. Já ia a meio do passeio da frente quando Stephanie tirou o computador portátil do banco de trás. Ela encolheu os ombros. Ele podia ser um professor extremamente distraído quando se concentrava num único pensamento. Podia ignorá-la completamente, como estava a fazer agora. Mas ela não estava disposta a ficar ofendida com o comportamento dele. Conhecia-o bem de mais.

 

Daniel subiu as escadas duas a duas, enquanto decidia se telefonava primeiro para a companhia aérea para marcar as passagens e depois para as pessoas da Wingate. Pensou que marcar uma noite em Turim seria apropriado. Depois, lembrou-se de que teria de pedir as instruções para enviar o dinheiro a Spencer quando ligasse para Nassau, para poder resolver igualmente o problema do dinheiro.

 

Daniel chegou ao segundo andar e parou, enquanto procurava as chaves. Foi nesse momento que reparou que a porta do apartamento estava ligeiramente entreaberta. Por uma fracção de segundo, tentou lembrar-se de quem fora o último a sair nessa manhã: ele ou Stephanie. Depois lembrou-se de que fora ele, pois tivera de voltar para ir buscar a carteira. Recordava-se nitidamente de ter fechado a porta à chave, incluindo a fechadura de segurança.

 

O som da porta da frente do edifício a abrir e a fechar espalhou-se pelas escadas, juntamente com os passos de Stephanie nas escadas antigas e que chiavam. Para além disso, a casa estava em silêncio. Os inquilinos do rés-do-chão estavam de férias nas Caraíbas, e o inquilino do primeiro andar nunca estava em casa durante o dia. Era um matemático que não largava o centro de informática do MIT e só vinha a casa para dormir.

 

Cautelosamente, Daniel empurrou a porta para ter uma visão mais alargada da entrada. Agora, podia ver o corredor até à sala de estar. Com o sol a aproximar-se do horizonte distante a sudeste, o apartamento estava quase na penumbra. Viu, de imediato, o feixe de uma lanterna quando esta passou momentaneamente pela parede da sala de estar. Ao mesmo tempo, ouviu uma das gavetas do seu arquivo vertical a ser fechada.

 

Quem diabo está aí? gritou Daniel a plenos pulmões. Estava ultrajado por um intruso ter entrado no seu apartamento, mas não era imprudente. Embora o intruso tivesse obviamente entrado pela porta principal, Daniel estava confiante de que ele verificara o apartamento e sabia do acesso nas traseiras do estúdio para a escada de incêndio. Quando pegou no telemóvel para marcar o número de emergência, Daniel estava plenamente convencido de que o ladrão ia fugir por ali.

 

Para seu choque, o intruso apresentou-se imediatamente na sua linha de visão e cegou-o com a sua lanterna. Daniel tentou bloquear o feixe com a mão. Não foi inteiramente bem sucedido, mas foi o suficiente para ver que o homem vinha na sua direcção a toda a velocidade. Antes de poder reagir, foi bruscamente atirado para o lado por uma mão enluvada com força suficiente para o fazer chocar contra a parede. Os seus ouvidos apitaram com a pancada. Daniel recuperou o equilíbrio e avistou um homem grande vestido com um fato preto justo, incluindo uma máscara preta de esqui, a descer velozmente as escadas com passos silenciosos. Depois de um guincho de Stephanie, a porta lá em baixo abriu e fechou com estrondo.

 

Daniel correu para o corrimão e olhou para baixo. No patamar inferior, Stephanie estava encostada à porta fechada do matemático, apertando o computador contra o peito com ambas as mãos. O seu rosto estava lívido.

 

Estás bem? perguntou ele.

 

Quem diabo era aquele? perguntou ela.

 

Um maldito ladrão respondeu Daniel. Voltou-se para examinar a porta.

 

Stephanie subiu o último lance de escadas e espreitou por cima do ombro dele.

 

Pelo menos, não arrombou a porta disse Daniel. Devia ter uma chave.

 

Tens a certeza de que estava fechada à chave?

 

Absoluta! Recordo-me nitidamente de até trancar a fechadura de segurança.

 

Quem mais tem uma chave?

 

Ninguém declarou Daniel. Há apenas duas. Foram as que mandei fazer quando comprei este apartamento e mudei as fechaduras.

 

Ele deve ter arrombado a fechadura.

 

Se o fez, então era um profissional. Mas por que é que um profissional arrombaria o meu apartamento? Eu não tenho nada de valor.

 

Oh, não! exclamou Stephanie de repente. Deixei todas as minhas jóias em cima da cómoda, incluindo o relógio de ouro da minha avó. Passou intempestivamente por Daniel e dirigiu-se para o quarto.

 

Daniel seguiu-a pelo corredor.

 

Isso recorda-me. Fui suficientemente estúpido para deixar todo o dinheiro que levantei ontem à noite no ATM, em cima da secretária.

 

Daniel entrou no estúdio. Para sua surpresa, o dinheiro estava exactamente onde o tinha colocado, no centro do mata-borrão. Pegou nele, e ao fazê-lo reparou que tudo o resto que se encontrava sobre a secretária fora mexido. Daniel admitia que não era a mais arrumada das pessoas, mas era extremamente bem organizado. Podia haver pilhas de correspondência, contas e revistas científicas em cima da secretária, mas ele conhecia a sua localização exacta, e até a ordem de cada pilha.

 

Os seus olhos pousaram no arquivo vertical de quatro gavetas. Até os recortes de artigos de revistas amontoados no cimo e à espera de serem arquivados tinham sido mexidos. Não tinham sido muito mexidos, mas a sua posição fora alterada.

 

Stephanie apareceu à porta. Suspirou, aliviada.

 

Devemos ter vindo para casa no momento certo. Aparentemente, ele ainda não tinha tido tempo de chegar ao quarto. Todas as minhas coisas estavam onde as deixei ontem à noite.

 

Daniel levantou a pilha de notas.

 

Ele nem sequer levou o dinheiro, e esteve aqui de certeza. Stephanie riu sem vontade.

 

Que tipo de ladrão era ele?

 

Eu não acho isto nada engraçado disse Daniel. Começou a abrir gavetas individuais da secretária e do arquivo para verificar a aparência dos respectivos conteúdos.

 

Eu também não estou a sugerir que acho graça disse Stephanie. Estou a tentar usar o humor para expressar os meus verdadeiros sentimentos.

 

Daniel levantou os olhos.

 

De que é que estás a falar?

 

Stephanie abanou a cabeça e expirou com força. Conseguiu afastar as lágrimas. Estava a tremer.

 

Estou perturbada. Este género de acontecimentos inesperados perturbam-me profundamente. Sinto-me violada por alguém ter estado aqui, a invadir a nossa privacidade. Realça a realidade de que estamos sempre a viver no fio da navalha, mesmo quando não o sabemos.

 

Eu também estou perturbado disse Daniel. Mas não filosoficamente. Estou perturbado porque há aqui alguma coisa que não compreendo. Parece-me bastante óbvio que este intruso não era um ladrão vulgar. Andava à procura de alguma coisa específica, e eu não faço ideia do que poderia ser. Isso é perturbador.

 

Não achas que chegámos a casa antes de ele ter a oportunidade de levar alguma coisa?

 

Ele já cá estava há algum tempo, certamente o suficiente para levar algumas coisas de valor, se andasse à procura disso. Teve tempo para revistar a secretária e talvez o arquivo.

 

Como é que sabes?

 

Sei, por causa do meu grau de compulsividade. Este homem era um profissional, e andava à procura de alguma coisa especial.

 

Estás a pensar em propriedade intelectual talvez relacionada com a RSTH?

 

É possível, mas duvido. Tudo isso está protegido com as devidas patentes. Para além do mais, nesse caso o arrombamento teria sido no escritório.

 

Então que mais? Daniel encolheu os ombros.

 

Não sei.

 

Telefonaste para a polícia?

 

Comecei, mas depois ele saiu disparado. Agora, não sei se devemos.

 

Por que não? Stephanie estava surpreendida.

 

Que é que eles iam fazer? O homem já fugiu há muito tempo. Parece que não desapareceu nada, por isso não há o problema dos seguros, e para além disso não sei se quero que nos façam imensas perguntas sobre o que temos andado a fazer ultimamente, se fosse caso disso. E, acima de tudo, vamos partir amanhã à noite, e não quero que nada estrague isso.

 

Espera um segundo! exclamou Stephanie de repente. E se este episódio tiver alguma coisa a ver com Butler?

 

Daniel olhou para Stephanie, que estava do outro lado da secretária.

 

Como e por que é que envolveria Butler? perguntou Daniel. Stephanie olhou para ele. O som do compressor do frigorífico a ligar na cozinha quebrou o silêncio do princípio da noite.

 

Não sei disse ela, por fim. Estava apenas a pensar nas ligações dele ao FBI, e no facto de te ter mandado investigar de uma maneira ou de outra. Talvez eles ainda não tenham acabado.

 

Daniel acenou afirmativamente enquanto reflectia sobre a ideia de Stephanie, apercebendo-se de que não podia ser esquecida sem mais nem menos, apesar do seu carácter estranho. Afinal de contas, o encontro nocturno e clandestino com Butler há duas noites fora igualmente estranho.

 

Por enquanto, vamos tentar esquecer este incidente disse Daniel. Temos imensas coisas para preparar. Vamos começar!

 

Está bem disse Stephanie, a reunir toda a sua força de espírito. Talvez concentrar-me na arrumação das malas me faça descontrair. Mas primeiro acho que devíamos telefonar a Peter para o caso deste fulano estar a planear arrombar também o escritório.

 

Boa ideia disse Daniel. Mas não lhe vamos falar sobre Butler. Quero dizer, tu não lhe contaste, pois não?

 

Não. Eu não lhe contei nada.

 

Óptimo! disse Daniel, enquanto pegava no telefone.

 

 

11.45, 24 de Fevereiro de 2002

Por muito acostumada que estivesse ao clima caprichoso da Nova Inglaterra, Stephanie ainda estava surpreendida com o dia calmo e lindo em que aquele domingo se transformou. Embora o sol de Inverno fosse pálido, o ar estava quente e os pássaros eram ruidosos e omnipresentes como se a Primavera estivesse mesmo ao virar da esquina. Muito diferente do seu passeio a pé para casa na sexta-feira à noite, desde a praça Harvard com uma camada de neve no chão.

 

Stephanie estacionou o carro de Daniel no parque de estacionamento municipal em Government Center e dirigiu-se a pé para o North End, um dos bairros mais singulares de Boston. Era um viveiro de ruas estreitas, onde se alinhavam casas de tijolo de três andares. Os imigrantes do sul de Itália tinham adoptado a zona no século XIX e haviam-na transformado numa verdadeira Pequena Itália, à qual não faltavam as habituais vistas e cheiros. Havia sempre pessoas a conversar animadamente na rua, e o aroma de molho bolonhês a fervilhar permeava o ar. Quando a escola acabava, havia crianças por todo o lado.

 

Tudo pareceu familiar a Stephanie enquanto descia a Rua Hanover, a avenida comercial que dividia o bairro ao meio. Em geral, a comunidade onde ela crescera era simpática, sociável e calorosamente educada. Os únicos problemas eram as questões familiares que ela admitira recentemente a Daniel. Aquela conversa despertara sentimentos e pensamentos que ela suprimira há muito, como o caso da acusação de Anthony.

 

Stephanie parou do lado de fora da porta aberta do Café Cosenza. Era um dos estabelecimentos da família e oferecia pastelaria italiana e gelados, bem como os habituais expresso e cappuccino. Um murmúrio de conversas misturadas com risos, acompanhado pelo assobio e ruído da máquina de café vinha até à rua, bem como o cheiro de café acabado de moer. Passara muitas horas agradáveis a comer cannoli e gelados com as amigas naquele café, que tinha uma pirosa pintura de parede com o Monte Vesúvio e a Baía de Nápoles, e no entanto, da sua perspectiva actual, era como se tudo isso tivesse acontecido há cem anos.

 

Na rua e a olhar para dentro, Stephanie apercebeu-se de como se sentia distante da sua infância e da sua família excepto, talvez, da mãe, a quem telefonava com frequência. Excluindo o irmão mais novo, Cario, que abraçara a vida eclesiástica, um chamamento que ela não conseguia compreender, ela era a única pessoa na família que fora para a faculdade e que tirara um curso superior. E a maior parte das suas amigas da escola primária e do liceu, até mesmo as que tinham continuado a estudar, estavam actualmente a viver no North End ou nos subúrbios de Boston juntamente com casas, maridos, SUVs e filhos. Ao invés disso, ela vivia com um homem dezasseis anos mais velho do que ela, com quem estava a lutar para manter aberta uma empresa de tecnologia, tratando em segredo um senador dos Estados Unidos com uma terapia não aprovada, experimental e com boas perspectivas de sucesso.

 

Stephanie continuou a descer a Rua Hanover e ponderou sobre o corte com a vida antiga. Achou interessante que isso não a incomodasse. Em retrospectiva, tinha sido uma reacção natural ao seu desconforto em relação aos negócios do pai e ao papel da família na comunidade. No entanto, deu por si a pensar se a sua história de vida teria tido um rumo completamente diferente se o pai estivesse emocionalmente mais disponível. Quando era pequena, tentara quebrar a barreira do chauvinismo machista e egoísta do pai e da sua preocupação com o que quer que estivesse a fazer, mas nunca conseguira. O esforço em vão acabara por criar um carácter fortemente independente, que a levara até onde ela estava hoje.

 

Stephanie parou quando lhe ocorreu um pensamento curioso. O pai e Daniel tinham algumas coisas em comum, apesar das diferenças abissais e óbvias. Ambos eram igualmente egoístas, ambos podiam ser rudes de vez em quando a ponto de serem considerados associais, e ambos eram ferozmente competitivos dentro dos seus mundos. Para além disso, Daniel era igualmente chauvinista; a única diferença é que o chauvinismo dele envolvia o intelecto e não o sexo. Stephanie riu interiormente. Perguntou a si mesma por que é que aquele pensamento nunca lhe ocorrera, uma vez que, quando estava preocupado, Daniel podia estar também emocionalmente indisponível, especialmente nos últimos tempos, com o advento das dificuldades financeiras da CURA. Embora a psicologia não fosse nem de longe o seu forte, perguntou vagamente a si mesma se as semelhanças entre o pai e Daniel podiam ter alguma coisa a ver com a atracção que sentira por Daniel quando o conhecera.

 

Recomeçou a andar e prometeu a si mesma voltar ao assunto quando tivesse mais tempo. Agora, estava muito ocupada com a partida para Turim, agendada para aquela noite. Estivera a fazer as malas quase até ao nascer do dia. Depois, passara uma boa parte da manhã no laboratório com Peter, a descrever exactamente o que queria que ele fizesse com a cultura de Butler. Felizmente, as células estavam a progredir de modo louvável. Dera à cultura o nome de John Smith, aproveitando a dica da conversa de Daniel com o Dr. Wingate. Se Peter tinha algumas questões sobre o que estava a acontecer em relação à ida para NassAu, e por que é que ele ia enviar algumas das células do tal John Smith preservadas criogenicamente, não as fez.

 

Stephanie virou à esquerda na Rua Prince e acelerou o passo. Aquela zona era ainda mais familiar, especialmente quando passou pela velha escola. A casa da sua infância e onde os pais ainda viviam situava-se meio quarteirão depois da escola, à direita.

 

O North End era uma comunidade segura, graças a uma «vigilância do bairro» não oficial. Havia, pelo menos, meia dúzia de pessoas à vista que eram socialmente viciadas em saber o que toda a gente estava a fazer. O lado mau, enquanto criança, era que não podia fazer nada às escondidas, mas naquele momento saboreou a sensação de segurança. Embora, aparentemente, Daniel tivesse recuperado do susto que apanhara com o intruso na tarde anterior e tivesse desvalorizado o episódio considerando-o sem importância no grande esquema, Stephanie ainda não se recompusera, pelo menos, não completamente e voltar ao velho bairro era reconfortante. O que Stephanie continuava a considerar perturbador é que, sem uma explicação, o incidente tendia a exacerbar a desconfiança que sentia em relação ao caso Butler.

 

Stephanie parou defronte da antiga casa e observou a pedra cinzenta falsa que cobria os tijolos no rés-do-chão, o toldo de alumínio encarnado com a franja branca sobre a porta principal e a estátua de gesso pintada com cores berrantes que continuava no seu nicho. Sorriu por ter demorado tanto tempo a reconhecer como aqueles embelezamentos eram pirosos. Antes dessa revelação, nem sequer tinha reparado neles.

 

Embora tivesse chave, Stephanie bateu e esperou. Telefonara do escritório para dizer que ia passar por lá, para que não houvesse surpresa. Instantes depois, a porta foi aberta pela mãe, Thea, que a recebeu de braços abertos. O avô de Thea era grego e, subsequentemente, ao longo dos anos os nomes dados às mulheres tinham sido pensados com cuidado no lado materno da família, incluindo o de Stephanie.

 

Deves estar com fome disse Thea, recuando para observar a filha. Com a mãe, a comida era sempre tema de conversa.

 

Não digo que não a uma sanduíche disse Stephanie, sabendo que seria impossível recusar. Seguiu a figura magra da mãe para a cozinha, que estava inundada pelo aroma de comida a ferver. Há aqui alguma coisa que cheira bem.

 

Estou a fazer osso buco, o prato preferido do teu pai. Não queres ficar para o almoço? Vamos comer cerca das duas horas.

 

Não posso, mãe.

 

Cumprimenta o teu pai.

 

Obedientemente, Stephanie enfiou a cabeça na sala de estar adjacente à cozinha. A decoração não mudara um milímetro das primeiras memórias de Stephanie. Como sempre, antes de um almoço de domingo, o pai estava escondido atrás do jornal apertado nas suas mãos papudas. Um cinzeiro resplandecente em forma de saco de feijão estava pendurado num dos braços do sofá.

 

Olá, pai disse Stephanie alegremente.

 

Anthony D’Agostino Sénior baixou a parte de cima do jornal. Espreitou para Stephanie por cima dos óculos de leitura, com olhos ligeiramente remelosos. Um halo de fumo de cigarro pairava à volta dele como nevoeiro denso. Apesar de ter sido atlético na juventude, agora era a imagem da imobilidade corpulenta. Engordara consideravelmente ao longo da última década, apesar dos avisos sérios dos médicos, mesmo após o ataque cardíaco que sofrera há três anos. Enquanto a mãe emagrecia, ele engordava numa, pouco saudável, proporcionalidade inversa.

 

Não quero que perturbes a tua mãe, ouviste? Ultimamente, ela não tem andado a sentir-se bem.

 

Vou fazer todos os possíveis disse Stephanie.

 

Ele colocou o jornal na posição inicial. «Que conversador», pensou Stephanie, enquanto encolhia os ombros e revirava os olhos. Recuou para a cozinha. Thea tinha pegado em queijo, pão, presunto de Parma e fruta, e estava a pôr tudo em cima da mesa. Stephanie observou a mãe a trabalhar. Perdera mais peso desde que Stephanie a vira pela última vez, o que não era bom sinal. Os ossos das mãos e do rosto estavam salientes, com pouquíssima carne. Dois anos antes, fora diagnosticado a Thea um cancro da mama. Depois da cirurgia e da quimioterapia, ela estivera bem até há três meses, quando houvera uma recidiva. Tinha sido encontrado um tumor num dos pulmões. O prognóstico não era bom.

 

Stephanie sentou-se e preparou uma sanduíche. A mãe encheu uma caneca de chá e sentou-se à sua frente.

 

Por que é que não podes ficar para o almoço? perguntou Thea. O teu irmão mais velho vem.

 

Com ou sem a mulher e os filhos?

 

Sem respondeu Thea.Ele e o teu pai têm uns negócios para tratar.

 

Isso soa-me familiar.

 

Por que é que não ficas? Quase nunca te vemos.

 

Eu gostava, mas não posso. Esta noite vou para fora durante aproximadamente um mês, e foi por isso que quis vir cá hoje. Ainda tenho muitas coisas para preparar.

 

Vais com aquele homem?

 

Ele chama-se Daniel, e sim, vamos juntos.

 

Tu não devias estar a viver com ele. Não está certo. Para além do mais, ele é velho de mais. Tu devias estar casada com um homem simpático e jovem. Já não és assim tão nova.

 

Já falámos sobre esse assunto, mãe.

 

Escuta a tua mãe berrou Anthony Sénior da sala de estar. Ela sabe o que está a dizer.

 

Stephanie manteve a boca calada.

 

Para onde é que vais?

 

Principalmente, para Nassau, nas Bahamas. Primeiro vamos a outro lado, mas apenas por um dia ou dois.

 

Vão de férias?

 

Não respondeu Stephanie. Explicou à mãe que a viagem estava relacionada com trabalho. Não revelou pormenores, e a mãe também não perguntou, especialmente porque Stephanie mudou a conversa para as sobrinhas e sobrinhos. Os netos eram o assunto predilecto de Thea. Uma hora depois, quando Stephanie se preparava para sair, a porta abriu-se e Tony Júnior entrou.

 

” As maravilhas nunca acabam? disse Tony numa surpresa trocista quando avistou Stephanie. Tinha um sotaque forte e culto de executivo. A toda poderosa doutora de Harvard decidiu fazer uma visita a estes saloios pobres e trabalhadores.

 

Stephanie ergueu os olhos e sorriu para o irmão mais velho. Manteve-se calada tal como, anteriormente, com o pai. Há muito que aprendera a não cair nas armadilhas. Tony menosprezara sempre os estudos de Stephanie, tal como o pai, mas não inteiramente pelo mesmo motivo. Com Tony, Stephanie suspeitava de que era mais uma questão de ciúmes, já que ele quase não conseguira fazer o liceu. Quando era adolescente, o problema de Tony não era falta de inteligência, mas falta de motivação. Agora que era adulto, gostava de fingir que não se importava de não ter ido para a universidade, mas Stephanie sabia que não era bem assim.

 

A mãe disse-me que o teu filho está a revelar-se um grande jogador de hóquei disse Stephanie, para afastar a conversa do assunto melindroso da escolaridade. Tony tinha um filho com doze anos e uma filha com dez.

 

Sim, é um craque disse Tony. Partilhava a tonalidade de Stephanie e quase a mesma altura, mas era mais forte, com um pescoço grosso e mãos grandes como as do pai. E, também como o pai, Tony projectava na mente de Stephanie uma animosidade masculina pouco lisonjeira e chauvinista, que a fazia sentir pena da cunhada e preocupação pela sobrinha.

 

Tony beijou a mãe em ambas as faces antes de entrar na sala de estar.

 

Stephanie ouviu o ruído do jornal a ser pousado, mãos a bater que podia imaginar como sendo um aperto de mão, e uma troca de «Como vai isso? Óptimo! Como vão as coisas consigo? Óptimas.» Quando a conversa passou para o desporto que envolvia as diversas equipas profissionais de Boston, Stephanie esqueceu-os.

 

Tenho de ir andando, mãe disse ela.

 

Por que é que não ficas? Eu posso pôr o almoço na mesa daqui a nada.

 

Não posso, mãe.

 

O pai e o Tony vão sentir a tua falta!

 

Oh, sim, claro! disse Stephanie.

 

Eles amam-te à maneira deles.

 

Tenho a certeza de que amam replicou Stephanie com um sorriso. A ironia é que acreditava. Stephanie esticou-se e apertou o pulso de Thea. Sentiu-o frágil, como se, se apertasse com demasiada força, os ossos pudessem partir. Stephanie empurrou a cadeira para trás e levantou-se. Thea imitou-a, e abraçaram-se.

 

Eu telefono das Bahamas logo que me instale e dou-lhe o nome e o número de telefone do hotel disse Stephanie. Deu um beijo na face da mãe antes de enfiar a cabeça na sala de estar. O manto de fumo era mais denso com os dois homens a fumar. Adeus aos dois. Vou-me embora.

 

Tony ergueu os olhos.

 

Que é isto? Já vais?

 

Ela vai viajar durante um mês disse Thea por cima do ombro de Stephanie. Tem de preparar as coisas.

 

Não! disse Tony. Não podes ir. Ainda não! Eu preciso de falar contigo. Ia telefonar-te, mas uma vez que estás aqui, é melhor falarmos pessoalmente.

 

Então é bom que te despaches disse Stephanie. Eu tenho mesmo de me ir embora.

 

Vais esperar até nós terminarmos disse Anthony. Tony e eu estamos a falar de negócios.

 

Não faz mal, pai disse Tony. Apertou o joelho do pai e levantou-se. O que tenho para dizer à Steph não vai demorar muito.

 

Anthony resmungou e pegou no jornal que pusera de lado.

 

Tony voltou para a cozinha. Sentou-se ao contrário numa das cadeiras e fez sinal a Stephanie para que se sentasse noutra. Ela hesitou ligeiramente. Tony tornara-se progressivamente mais peremptório desde que assumira os negócios do pai, e era irritante. Para evitar uma cena sentou-se, mas para se sentir melhor consigo mesma disse ao irmão que ele teria de ser rápido. Também lhe pediu para apagar o cigarro, o que ele fez de má vontade.

 

O motivo por que ia telefonar-te começou Tony é porque Mikey Gualario, o meu contabilista, me disse que a CURA está prestes a afundar. Eu disse que isso é impossível, porque a minha irmã mais nova ter-me-ia avisado. Mas ele diz que leu no Globe. Que é que se passa?

 

Estamos com alguns problemas financeiros admitiu Stephanie. É um problema político que está a reter a segunda fase de financiamento.

 

Então o Globe não estava a inventar isto tudo?

 

Eu não li o artigo, mas como disse estamos com alguns problemas. Tony franziu o sobrolho como se estivesse a pensar. Acenou algumas vezes.

 

Bem, não é uma grande notícia. Presumo que compreendes que eu possa estar preocupado com o meu empréstimo de duzentos mil dólares.

 

Correcção! Não foi um empréstimo. Foi um investimento.

 

Espera um minuto! Tu vieste ter comigo a chorar que precisavas de dinheiro.

 

Correcção de novo! Eu disse que precisávamos de angariar dinheiro, e certamente não estava a chorar.

 

Sim, bem, disseste que era uma coisa segura.

 

Disse que pensava que era um bom investimento, porque se baseava numa técnica recém descoberta, brilhante e totalmente patenteada, que promete ser uma bênção para a medicina. Mas avisei-te que não era isento de risco, e dei-te o prospecto. Leste-o?

 

Não, não li. Não percebo nada dessas porcarias. Mas se o investimento era tão bom, qual é o problema?

 

O que aconteceu, e que ninguém antecipou, é a possibilidade de o Congresso proibir a implementação da técnica. Mas posso garantir-te que estamos a resolver o assunto, e pensamos que o temos sob controlo. Foi tudo completamente inesperado para todos nós, e a prova disso é que Daniel e eu investimos todo o nosso dinheiro na empresa, incluindo uma hipoteca à casa de Daniel. Lamento que neste momento o investimento não pareça sólido. Poderia acrescentar que lamento termos aceite o teu dinheiro.

 

Vocês e eu!

 

Que é que vai acontecer com essa tua acusação? Tony sacudiu o ar como se estivesse a afastar uma mosca.

 

Nada. É um monte de disparates. O procurador do Ministério Público está apenas à procura de publicidade para ser reeleito. Mas não mudemos de assunto. Disseste que achas que têm este problema político sob controlo.

 

Acreditamos que sim.

 

Isto tem alguma coisa a ver com esta viagem de um mês que vão fazer?

 

Tem confirmou Stephanie. Mas não posso contar-te os pormenores.

 

Oh, a sério? perguntou Tony sarcasticamente. Eu tenho duzentos mil envolvidos nisto, e tu não me podes contar os pormenores. Há algo errado neste filme.

 

Se fôssemos divulgar o que estamos a fazer, poríamos em perigo a sua eficácia.

 

Divulgar, pôr em perigo, eficácia! imitou Tony depreciativamente. Não me lixes! Espero que não penses que vou ficar satisfeito com uma mão cheia de notas de dez dólares. Nem penses! Então para onde é que vais, Washington?

 

Ela vai para Nassau disse Thea, inesperadamente, do lugar onde se encontrava, junto ao fogão. E não sejas tão mau com a tua própria irmã. Estás a ouvir?

 

Tony sentou-se imediatamente muito direito, com as mãos caídas ao longo do corpo. O queixo caiu lentamente com uma surpresa profunda.

 

Nassau! gritou. Isto está a ficar cada vez mais doido. Se a CURA está prestes a falir por causa de uma bomba política, não te parece que devias ficar por cá e fazer alguma coisa?

 

É por isso que vamos para Nassau disse Stephanie.

 

Ha! gritou Tony. O que me parece é que esse teu pseudo namorado está a pensar dar um golpe.

 

Isso não podia estar mais longe da verdade. Quem me dera poder contar-te mais, Tony, mas não posso. Com sorte, daqui a um mês as coisas vão voltar ao normal, e nessa altura teremos todo o prazer em considerar o teu dinheiro um empréstimo, e pagar-te-emos com juros.

 

Vou esperar sentado troçou Tony. Dizes que não podes contar-me mais nada, mas eu posso contar-te uma coisa. Esses duzentos mil não eram todos meus.

 

Não? perguntou Stephanie. Pressentiu que a conversa desagradável estava prestes a piorar.

 

Tu pintaste as coisas tão cor-de-rosa que achei que tinha de partilhar o investimento. Metade do dinheiro veio dos irmãos Castigliano.

 

Nunca me disseste isso!

 

Estou a dizer-te agora.

 

Quem são os irmãos Castigliano?

 

Sócios. E posso dizer-te mais uma coisa. Eles não vão gostar de saber que o investimento que fizeram foi para o espaço. Não estão acostumados a isso. Na qualidade de teu irmão, acho que devia dizer-te que não é boa ideia irem para as Bahamas.

 

Mas temos de ir.

 

Já disseste isso, mas não me explicaste porquê. Obrigas-me a repetir-me: é melhor tu e aquele teu namorado de Harvard ficarem quietos e cuidarem da loja, porque parece que estão a planear divertir-se ao sol com o nosso dinheiro enquanto nós, os otários, gelamos o cu aqui em Boston.

 

Tony disse Stephanie no tom mais calmo e tranquilizador que conseguiu. Nós vamos para Nassau e vamos resolver este malfadado problema.

 

Tony levantou as mãos para o céu, com as palmas para cima.

 

Eu tentei! Deus sabe que tentei!

 

Graças à direcção assistida, Tony só precisou do dedo indicador da mão direita para virar o volante do seu Cadillac DeVille preto. Com uma noite tão agradável, tinha o vidro aberto e a mão esquerda pendurada do lado de fora, a segurar o cigarro. O som característico dos pneus a chiar na gravilha camuflou o rádio quando entrou no parque de estacionamento, defronte do edifício da Loja de Artigos para Canalização Irmãos Castigliano. Era uma estrutura cinzenta de um só piso, com o telhado plano de cimento. Nas traseiras, viam-se alguns barracões.

 

Tony parou ao lado de três veículos semelhantes ao seu: eram todos Cadillacs, e eram todos pretos. Atirou o cigarro para uma pilha de lava-loiças enferrujados e desligou o motor. Ao sair do carro, foi assaltado pelo odor do pântano. Não era agradável. Com a noite a aproximar-se rapidamente, o vento mudara para este.

 

A fachada do edifício precisava de ser pintada. Para além do nome da firma em letras maiúsculas, havia inúmeros graffitis nas paredes. A porta não estava fechada à chave e Tony entrou sem bater, como era seu hábito. No meio da sala, havia um balcão. Atrás do balcão, viam-se filas de prateleiras do chão ao tecto cheias de material de canalização. Não estava ninguém à vista. Um rádio em cima do balcão estava sintonizado numa estação que passava música dos anos cinquenta.

 

Tony passou para o outro lado do balcão e percorreu a ala central. Ao fundo, abriu uma segunda porta que dava acesso a um escritório. Em contraste com a zona de abastecimento, esta área era relativamente confortável, com um sofá de couro e duas secretárias sobre um tapete oriental. Janelas pequenas com vidraças davam para os barracões que estavam rodeados de pneus velhos e outros lixos. Havia três homens sentados na sala: um em cada secretária e um no sofá.

 

Tony entrou, apertou as mãos aos dois homens que estavam sentados às secretárias e depois ao homem que se encontrava no sofá antes de ele próprio se sentar. Os homens que estavam às secretárias eram os irmãos Castigliano. Eram gémeos e chamavam-se Sal e Louie. Tony conhecia-os desde o terceiro ano, mas apenas de nome e não como amigos. No liceu, tinham sido miúdos magros e cheios de borbulhas e eram gozados impiedosamente, e, adultos, continuavam a ser magros, com faces cadavéricas e olhos muito encovados.

 

O homem no sofá ao lado de Tony era Caetano Baresse, o qual crescera na cidade de Nova Iorque. Tinha uma constituição semelhante à de Tony, mas mais forte e com feições mais pesadas. Normalmente, era ele que trabalhava ao balcão da loja, na sala exterior. Como segundo emprego, era guarda-costas dos gémeos. A maior parte das pessoas pensavam que ele estava ali para compensar a troça de que os gémeos tinham sido alvo na escola, mas Tony sabia que não era nada disso. A contribuição dos braços fortes de Caetano era um requisito ocasional para as outras actividades empresariais dos gémeos: algumas legais, outras menos. Era devido a estas actividades empresariais que Tony e os gémeos se tinham aproximado.

 

Em primeiro lugar disse Tony, quero agradecer-vos por terem vindo aqui num domingo.

 

Não há problema disse Sal. Estava sentado à esquerda de Tony. Espero que não te importes por termos convidado o Caetano.

 

Quando telefonaste e disseste que havia um problema, achámos que ele devia acompanhar-nos acrescentou Louie.

 

Não há problema disse Tony. Só gostava que tivéssemos tido este encontro um pouco mais cedo, e vou explicar porquê.

 

Viemos logo que foi possível declarou Sal.

 

A bateria do meu telemóvel tinha acabado explicou Caetano. Eu estava em casa da minha cunhada, a jogar bilhar. Foi difícil encontrarem-me.

 

Tony acendeu um cigarro e ofereceu o maço. Cada um tirou um. Em breve, estavam todos a fumar.

 

Depois de dar algumas passas, Tony apagou o cigarro. Precisava das mãos para gesticular enquanto falava. Assim preparado, contou aos irmãos Castigliano palavra por palavra, segundo se lembrava, a conversa que tivera ao princípio da tarde com Stephanie. Não ocultou nada, nem embelezou as palavras. Disse que era sua opinião e do seu contabilista que a empresa de Stephanie ia falir.

 

Enquanto Tony falava, os gémeos foram ficando cada vez mais agitados. Sal, que estivera a brincar com um clipe dobrando-o para trás e para a frente, partiu-o em dois. Furioso, Louie apagou o cigarro meio fumado.

 

Não acredito nisto disse Sal quando Tony acabou.

 

A tua irmã é casada com este cretino? perguntou Louie.

 

Não, só vivem juntos.

 

Bem, devo dizer-te que não vamos ficar parados enquanto o filho da mãe se diverte ao sol disse Sal. Nem penses!

 

Temos de lhe mostrar que não estamos satisfeitos disse Louie. Ou ele vem para cá e endireita as coisas, ou está tramado. Percebeste, Caetano?

 

Sim, claro. Quando?

 

Louie olhou para Sal. Sal olhou para Tony.

 

Hoje é tarde de mais disse Tony. É por isso que eu teria gostado de vos ver mais cedo. Eles vão a caminho não sei de onde, antes de se dirigirem para Nassau. Mas a minha irmã vai telefonar à minha mãe quando chegar às Bahamas.

 

E tu dizes-nos? perguntou Sal.

 

Sim, claro. Mas na condição de deixarem a minha irmã fora disto.

 

O nosso problema não é com ela declarou Louie. Pelo menos, acho que não é.

 

Não é garantiu Tony. Confiem em mim! Não quero que haja sangue entre nós.

 

O nosso problema é com ele disse Sal. Louie olhou para Caetano.

 

Acho que vais para Nassau.

 

Caetano estalou os nós da mão direita com a esquerda.

 

Parece-me óptimo!

 

 

7.00, segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2002

Stephanie! chamou Daniel suavemente enquanto lhe abanava o ombro. Vão servir o pequeno-almoço. Queres tomá-lo ou devo deixar-te dormir até aterrarmos?

 

Stephanie abriu os olhos com dificuldade, esfregou-os e bocejou ao mesmo tempo. Depois, teve de piscar rapidamente algumas vezes antes de conseguir ver. Tinha os olhos secos da atmosfera ressequida do avião.

 

Onde estamos? perguntou, com voz rouca. Também tinha a garganta seca. Endireitou-se e espreguiçou-se. Depois, inclinou-se e espreitou pela janela. Embora houvesse um indício de amanhecer ao longo do horizonte, o chão lá em baixo ainda estava escuro. Via as luzes de vilas e cidades a salpicar a paisagem.

 

Acho que estamos algures sobre a França disse Daniel. Apesar de, nos planos que tinham feito, terem tentado evitar pressas de última hora, a noite anterior tinha sido uma luta ansiosa para sair do apartamento de Daniel, chegar ao Aeroporto Logan e passar pela segurança. Tinham entrado no avião menos de dez minutos antes da partida. Graças ao dinheiro de Butler, estavam a voar na Classe Magnifica da Alitalia e iam sentados nos dois primeiros bancos do lado esquerdo do Boeing 767. Stephanie endireitou as costas do banco da posição reclinada.

 

Como é que estás tão acordado? Dormiste?

 

Nem sequer fechei os olhos admitiu Daniel. Comecei a ler aqueles teus livros sobre o Sudário de Turim, especialmente o de Ian Wilson. Já percebo por que é que ficaste vidrada. É um material fascinante.

 

Deves estar exausto.

 

Não disse Daniel. Ler sobre o sudário parece que me deixou com mais energia. Até já estou mais encorajado para tratar Butler e usar os fragmentos de ADN do sudário. Na verdade, ocorreu-me que, depois de resolvermos o problema de Butler, talvez devêssemos tratar outra celebridade algures no estrangeiro com a mesma fonte de ADN, alguém que não se importe com a publicidade. Depois de a história da cura chegar aos órgãos de informação, nenhum político se atreveria a interferir e, melhor ainda, a FDA seria obrigada a alterar o protocolo para aprovação do tratamento.

 

Calma! avisou Stephanie. Não vamos dar um passo maior do que as pernas. Por enquanto, precisamos de nos concentrar em Butler. A cura dele não é, nem por sombras, um dado adquirido.

 

Não achas que é uma boa ideia tratar outra celebridade?

 

Preciso de reflectir um pouco para responder de forma inteligente disse Stephanie, a tentar ser diplomática. Neste momento, a minha mente está um pouco baralhada. Preciso de ir à casa de banho, e depois quero tomar o pequeno-almoço. Estou esfomeada. Quando o meu cérebro estiver a trabalhar com todos os cilindros, quero ouvir o que leste sobre o sudário, especialmente se tens uma teoria de como a imagem foi formada.

 

Menos de uma hora depois, aterraram no Aeroporto Fiumicino, em Roma. Juntamente com uma multidão de pessoas que chegaram ao mesmo tempo vindas de diversos destinos internacionais, passaram pelo controlo de passaportes e depois conseguiram encontrar o caminho para a porta de embarque do voo de ligação para Turim. Num bar próximo, Daniel aproveitou para se deliciar com um expresso italiano que emborcou como os patronos locais. Nesta parte da viagem não havia Classe Magnifica, e quando embarcaram no avião viram-se numa cabina apertada cheia de homens de negócios. Stephanie estava no assento do meio e Daniel na coxia, a meio da cabina do aparelho.

 

Isto é aconchegante comentou Daniel. Graças ao seu metro e noventa de altura, tinha os joelhos encostados ao assento da frente.

 

Como é que te sentes agora? Estás cansado?

 

Não, e especialmente não depois daquele café fortíssimo.

 

Então, fala-me sobre o sudário! Quero ouvir o que tens para me dizer devido à longa fila para a casa de banho no voo de Boston para Roma, não tinham tido oportunidade de abordar o assunto antes de aterrarem.

 

Bem, em primeiro lugar, não tenho nenhuma teoria sobre como a imagem foi formada. É sem dúvida um mistério intrigante, concordo, e fiquei especialmente cativado com a forma poética como Wilson o descreveu como «um negativo fotográfico à espera, entorpecido, como uma cápsula do tempo, do momento da invenção da fotografia». Mas não aceito a ideia de a imagem ser a prova da Ressurreição, como tu e ele sugeriram. É um raciocínio científico cheio de falhas. Não podes pressupor como um facto um processo desconhecido e intuitivo de desmaterialização para explicar um fenómeno desconhecido.

 

E os buracos negros?

 

De que é que estás a falar?

 

Os buracos negros foram pressupostos como factos para explicar fenómenos desconhecidos, e os buracos negros são sem dúvida contrários à nossa experiência científica directa.

 

Seguiu-se um período de silêncio, com excepção do ruído abafado dos motores do avião misturado com o ruído dos jornais da manhã e o matraquear de teclados de computador. Tens uma certa razão admitiu Daniel por fim.

 

Vamos continuar! Que mais captou o teu interesse?

 

Algumas coisas. Uma que me vem à ideia é o resultado de a espectroscopia do reflexo mostrar sujidade nas imagens dos pés. Pareceu-me uma descoberta extraordinária, até descobrir que alguns dos grânulos foram identificados através de cristalografia óptica como sendo aragonite travertina, a qual tinha uma assinatura espectral correspondente a amostras de pedra calcária tiradas de antigas sepulturas de Jerusalém.

 

Stephanie riu-se.

 

Só tu para ficares impressionado com um dos pormenores científicos mais misteriosos. Eu nem sequer me lembro dessa parte.

 

É impensável que um falsificador do século XIV se tenha dado a tanto trabalho para obter e espalhar esses detritos na sua suposta criação.

 

Eu não poderia estar mais de acordo.

 

Outro facto que me chamou a atenção foi que, quando se olha para a intercepção dos habitais das plantas do Médio Oriente, cujos pólens são mais predominantes no sudário, a aparente origem do sudário fica reduzida para trinta quilómetros entre Hebron e Jerusalém.

 

Curioso, não é?

 

É mais do que curioso disse Daniel. Se o sudário é ou não a mortalha de Jesus Cristo não está certamente provado... nem, na minha opinião, poderá jamais estar... mas na minha mente o artefacto veio de Jerusalém, e embrulhou um homem que foi açoitado ao antigo estilo romano, cujo nariz foi partido, que tinha feridas de espinhos na cabeça, e que foi crucificado e sofreu uma ferida de lança no peito.

 

Que é que te pareceu o aspecto histórico?

 

Está bem apresentado e é cativante reconheceu Daniel. Depois de o ler, estou disposto a aceitar a ideia de que o Sudário de Turim e o Pano de Edessa são um e o mesmo. Fiquei particularmente abalado com a forma como as marcas nas pregas foram usadas para explicar como podia ter sido exibido em Constantinopla como simplesmente a cabeça de Jesus, como o Pano de Edessa era geralmente descrito, ou o corpo inteiro de Jesus, frente e costas, como descrito pelo cruzado Robert de Clari. Foi ele que o viu pouco antes do seu desaparecimento durante o saque de Constantinopla, em 1204.

 

O que significa que os resultados da datação por carbono estão errados.

 

Por muito perturbador que me pareça enquanto cientista, é capaz de ser verdade.

 

Mal tinham recebido os sumos de laranja quando o sinal de aviso dos cintos se acendeu, e se ouviu o anúncio de que os pilotos estavam a fazer a aproximação ao Aeroporto Caselle em Turim. Quinze minutos depois, aterraram. Como o avião estava cheio, levaram quase tanto tempo como no voo de Roma para sair do aparelho, percorrer a manga e encontrar o carrossel das malas.

 

Enquanto Daniel esperava que a bagagem aparecesse, Stephanie reparou numa concessão de telemóveis e aproximou-se para alugar um. Antes de sair de Boston, ficara a saber que o seu telemóvel estadual não funcionaria na Europa, embora funcionasse em Nassau, e para ter a certeza de que não perderia nenhuma mensagem de correio electrónico de Butler enquanto estava em Turim precisava de um número europeu de telemóvel. Logo que tivesse oportunidade, pensava ligá-lo para que as mensagens de Butler fossem para os dois números.

 

Saíram do terminal a puxar as malas e com os casacos vestidos, e colocaram-se numa fila de táxis. Enquanto esperavam, avistaram pela primeira vez o Piedmont. A oeste e a norte, viram as montanhas com os cumes cobertos de neve. A sul, uma neblina cor de malva pairava sobre a zona industrial da cidade. O tempo estava quente e não muito diferente do que tinham deixado em Boston, o que fazia sentido, já que as duas cidades se situavam aproximadamente à mesma latitude.

 

Espero que não te arrependas de não alugar um carro disse Daniel, enquanto observava os táxis cheios a arrancar a toda a velocidade.

 

O roteiro dizia que é impossível estacionar nesta cidade lembrou-lhe Stephanie. O lado positivo é que dizem que os motoristas italianos são bons, embora conduzam depressa.

 

Já no táxi, Daniel segurou-se com toda a força enquanto o motorista correspondia à descrição de Stephanie. O táxi era um Fiat pós-moderno com um design compacto que o fazia parecer uma amálgama de um SUVe de um carro pequeno. Infelizmente para Daniel, respondia notavelmente bem ao acelerador.

 

Stephanie já estivera diversas vezes em Itália e tinha expectativas específicas em relação à cidade. Inicialmente, ficou desapontada. Turim não tinha nenhum do encanto medieval ou renascentista que associava a lugares como Florença ou Siena. Em vez disso, parecia uma cidade indeterminadamente moderna cheia de características suburbanas e, no momento, apanhada nas malhas da hora de ponta matinal. O tráfego era intenso, e todos os motoristas italianos pareciam igualmente agressivos, com montes de buzinadelas, acelerações rápidas e travagens igualmente rápidas. A viagem foi de esfrangalhar os nervos, especialmente para Daniel. Stephanie tentou conversar, mas ele estava demasiado absorto a observar as movimentações do motorista.

 

Daniel reservara apenas uma noite no que o seu roteiro descrevia como o melhor hotel da cidade, o Grand Belvedere. Situava-se no centro da cidade velha, e quando entraram nessa zona a impressão que Stephanie tinha de Turim começou a mudar. Ainda não via o estilo de arquitectura que esperava, mas a cidade começava a ter um encanto próprio, com alamedas largas, praças com arcadas e elegantes edifícios barrocos. Quando pararam diante do hotel, o desapontamento de Stephanie tinha-se metamorfoseado em apreciação.

 

O Grand Belvedere era a última palavra em luxo do século XIX. O átrio estava embelezado com mais anjos e querubins dourados do que Stephanie jamais vira num único sítio. Colunas de mármore erguiam-se para sustentar arcadas, enquanto pilastras estriadas se alinhavam nas paredes. Porteiros fardados apressaram-se a pegar na bagagem deles, que era uma colecção bastante extensa, uma vez que traziam coisas para uma estada de um mês em Nassau.

 

O quarto tinha o tecto alto, um grande candelabro Murano e menos ornamentações do que o átrio, mas era igualmente imponente. Querubins dourados com asas pairavam nos quatro cantos da pesada cornija. As janelas altas davam para a Piazza Carlo Alberto, onde se situava o hotel. Reposteiros pesados, de brocado vermelho escuro, com centenas de borlas vestiam as janelas. O mobiliário, incluindo a cama, era em madeira escura e fortemente esculpida. No chão, havia uma espessa carpete oriental.

 

Depois de dar uma gratificação ao paquete e ao recepcionista bem vestido que os tinham acompanhado ao quarto, Daniel olhou de relance para o aposento com uma expressão satisfeita no rosto.

 

Nada mau! Nada mau! comentou ele. Olhou de relance para a casa de banho de mármore antes de se voltar para Stephanie. Por fim, estou a viver como mereço.

 

Tu és de mais! troçou Stephanie. Abriu a mala para tirar os artigos de higiene.

 

A sério! riu-se Daniel. Não sei como é que suportei ser um académico pobre durante tanto tempo.

 

Vamos trabalhar, rei Midas! Como é que vamos descobrir o número de telefone da Chancelaria da Arquidiocese para falar com monsenhor Mansoni? Stephanie entrou na casa de banho. Acima de tudo, queria lavar os dentes.

 

Daniel dirigiu-se para a secretária e começou a abrir gavetas, à procura de uma lista telefónica da cidade. Quando não teve sucesso, espreitou nos armários.

 

Acho que devíamos ir lá abaixo e pedir ao recepcionista que faça a ligação disse Stephanie do quarto. Podemos pedir-lhe também que nos faça uma reserva para o jantar esta noite.

 

Boa ideia disse Daniel.

 

Como Stephanie previa, o recepcionista teve todo o prazer em ajudar. Desencantou uma lista telefónica, e segundos depois, monsenhor Mansoni estava em linha, antes mesmo de Stephanie e Daniel terem decidido quem devia falar com ele. Após um momento de confusão, Daniel pegou no telefone. De acordo com as instruções na mensagem de Butler, identificou-se como representante de Ashley Butler e disse que estava em Turim para levar uma amostra. Tentando ser discreto, não deu mais pormenores.

 

Tenho estado à espera do seu telefonema respondeu monsenhor Mansoni com um pesado sotaque italiano. Estou preparado para me encontrar consigo esta manhã, se for possível.

 

Por nós, quanto mais depressa, melhor replicou Daniel.

 

Nós? perguntou o monsenhor.

 

A minha sócia e eu estamos aqui juntos explicou Daniel. Achou que o termo sócia era suficientemente vago. Sentiu-se invulgarmente embaraçado ao falar com um padre católico romano que poderia ficar chocado com o estilo de vida que ele e Stephanie levavam.

 

Devo presumir que a sua sócia é uma mulher?

 

Exactamente respondeu Daniel. Olhou para Stephanie, para verificar se ela gostava do termo sócia. Nunca o usara para descrever o relacionamento de ambos, apesar de ser apropriado. Stephanie sorriu ao ver a atrapalhação dele.

 

Ela virá à nossa reunião?

 

Claro declarou Daniel. Onde é que seria conveniente para o senhor?

 

Talvez o Café Torino, na Piazza San Cario seja agradável. O senhor e a sua sócia estão num hotel da cidade?

 

Creio que fica mesmo no centro.

 

Excelente comentou o monsenhor. O café deve situar-se perto do vosso hotel. O recepcionista pode indicar-vos o caminho.

 

Óptimo disse Daniel. Quando é que nos encontramos?

 

Pode ser daqui a uma hora?

 

Lá estaremos confirmou Daniel. Como é que o reconheceremos?

 

Não deve haver muitos padres presentes, mas se houver eu serei seguramente o mais corpulento. Infelizmente, engordei imenso com a minha actual posição sedentária.

 

Daniel olhou de relance para Stephanie. Percebeu que ela estava a ouvir a conversa do padre.

 

Provavelmente, também seremos fáceis de reconhecer. Devo dizer que parecemos bastante americanos com as nossas roupas. Para além disso, a minha sócia é uma beldade de cabelos pretos.

 

Nesse caso, tenho a certeza de que nos reconheceremos mutuamente. Encontramo-nos cerca das onze e um quarto.

 

Ficamos à espera disse Daniel, antes de devolver o auscultador ao recepcionista.

 

Beldade de cabelos pretos? perguntou Stephanie num sussurro forçado, depois de lhes ter sido indicado o caminho e quando se afastavam do balcão da recepção. Estava embaraçada.Nunca me descreveste assim. É extremamente sexista.

 

Desculpa disse Daniel. Eu estava um bocado atrapalhado. Nunca marquei um encontro com um padre.

 

Luigi Mansoni abriu uma das gavetas da sua secretária. Enfiou a mão, tirou uma pequena caixa de prata e guardou-a no bolso. Depois, levantou a sotaina para não escorregar na bainha e saiu apressadamente do gabinete. Ao fundo do corredor, bateu à porta de monsenhor Valerio Garibaldi. Estava ofegante, o que era embaraçoso, uma vez que percorrera menos de trinta metros. Verificou as horas e perguntou a si mesmo se devia ter dito uma hora e meia a Daniel. Ouviu a voz de Valerio a mandá-lo entrar.

 

Mudando para italiano, que era a sua língua nativa, Luigi relatou ao amigo e superior a conversa telefónica que acabara de ter.

 

Santo Deus respondeu Valerio Garibaldi em italiano. Tenho a certeza de que é mais cedo do que o padre Maloney esperava. Esperemos que ele esteja no seu quarto Valerio pegou no telefone. Ficou aliviado quando o padre Maloney atendeu. Contou as novidades ao americano, e disse-lhe que ele e monsenhor Mansoni estavam à espera dele no gabinete.

 

Tudo isto é muito curioso disse Valerio para Luigi, enquanto esperavam.

 

De facto replicou Luigi. Faz-me pensar se não deveríamos alertar um dos secretários do arcebispo para que, se houver um problema, a culpa seja dele. Sua Reverência não foi notificado. Afinal de contas, Sua Reverência é o guardião oficial do sudário.

 

Tens muita razão disse Valerio. Acho que vou aceitar a tua sugestão.

 

Uma pancada na porta precedeu a chegada do padre Maloney. Valerio fez-lhe sinal para que se sentasse. Embora Valerio e Luigi ocupassem cargos mais elevados na hierarquia da igreja, o facto de Michael estar a representar oficialmente o cardeal O’Rourke, o prelado católico romano mais poderoso da América do Norte e amigo pessoal do arcebispo, o cardeal Manfredi, levou-os a tratarem-no com especial deferência.

 

Michael sentou-se. Em contraste com os monsenhores, estava vestido com o seu habitual fato preto simples com um colarinho clerical branco. Também em contraste com os outros, que eram ambos consideravelmente corpulentos, Michael era magro, e com o seu nariz aquilino as suas feições tinham um estereotipo mais italiano do que as dos seus anfitriões. Os cabelos ruivos também o diferenciavam, uma vez que os outros dois tinham cabelos grisalhos.

 

Luigi relatou uma vez mais a conversa tida com Daniel, realçando que havia duas pessoas envolvidas, e uma delas era uma mulher.

 

Isso é surpreendente comentou Michael. E eu não gosto de surpresas. Mas a vida é assim. Presumo que a amostra está pronta.

 

Claro disse Luigi. Para conveniência de Michael, estava a falar em inglês, embora Michael falasse um italiano razoável. No último ano do curso, Michael frequentara o seminário em Roma, onde fora obrigado a aprender italiano.

 

Luigi procurou nos bolsos da sua sotaina e mostrou a elegante caixa de prata, semelhante a uma cigarreira de meados do século XX.

 

Aqui está disse ele. O professor Ballasari fez a selecção das fibras pessoalmente para ter a certeza de que correspondiam ao pedido. Não restam dúvidas de que são provenientes de uma zona com sangue.

 

Posso? perguntou Michael. Estendeu a mão.

 

Claro disse Luigi. Entregou a caixa a Michael.

 

Michael segurou a caixa gravada em relevo com as duas mãos. Para ele, era uma experiência emocionante. Há muito tempo que estava convencido da autenticidade do sudário, e segurar uma caixa que continha o sangue verdadeiro do seu Salvador e não vinho transubstanciado era arrebatador.

 

Luigi esticou-se e pegou novamente na caixa, que guardou por baixo das grandes pregas da sotaina.

 

Há alguma instrução específica? perguntou.

 

Certamente que simrespondeu Michael. Preciso que descubra o máximo possível sobre essas pessoas a quem vai entregar a amostra: nomes, moradas, o que for. Na verdade, exija ver os passaportes e anote os números. Com essa informação e os vossos contactos com as autoridades civis, poderemos saber imenso sobre as identidades deles.

 

De que é que anda à procura? perguntou Valerio.

 

Não sei ao certo admitiu Michael. Sua Eminência, James Cardinal O’Rourke, está a trocar esta amostra minúscula por um grande benefício político para a Igreja. Ao mesmo tempo, quer estar cem por cento seguro de que os ditames do Santo Padre em relação à proibição de testes científicos do sudário não são violados.

 

Valerio acenou afirmativamente como se compreendesse, mas na verdade não compreendia. Trocar bocados de uma relíquia por favores políticos estava para além da sua experiência, especialmente com a exigência de não haver documentação oficial. Era preocupante. Ao mesmo tempo, sabia que as poucas fibras guardadas na caixa de prata tinham vindo de uma amostra do sudário tirada muitos anos antes, e que o sudário propriamente dito não fora perturbado recentemente. A preocupação principal do Santo Padre em relação ao sudário era a sua conservação.

 

Luigi levantou-se.

 

Se quero chegar ao encontro a tempo, devia ir-me embora. Michael levantou-se igualmente.

 

Vamos juntos, se não se importa. Eu vou observar a troca de longe. Depois de a amostra ser entregue, pretendo seguir essas pessoas. Quero saber onde estão hospedadas, para o caso de as suas identidades serem perturbadoras.

 

Valerio levantou-se com os outros. Tinha uma expressão confusa.

 

Que é que vai fazer se, como diz, as identidades deles forem perturbadoras?

 

Serei obrigado a improvisar disse Michael. Nesse ponto, as instruções do cardeal foram vagas.

 

Esta cidade é bastante bonita disse Daniel, quando ele e Stephanie se dirigiam para oeste pelas ruas alinhadas com residências apalaçadas. No começo não fiquei impressionado, mas agora estou.

 

Eu tive a mesma impressão disse Stephanie.

 

Depois de percorrerem alguns quarteirões, chegaram à Piazza San Carlo, e a paisagem abriu-se numa grande praça com o tamanho de um campo de futebol, rodeada por edifícios barrocos. As fachadas estavam ornamentadas com uma agradável profusão de formas decorativas. No centro da praça, erguia-se uma imponente estátua equestre de bronze. O Café Torino ficava a meio da praça, do lado ocidental. No interior do estabelecimento, viram-se envolvidos num aroma intenso de café acabado de moer. Vários candelabros de cristal pendurados num tecto cheio de frescos inundavam o interior com um brilho quente e incandescente.

 

Não tiveram de procurar muito pelo monsenhor Mansoni. O padre levantou-se no momento em que eles entraram e fez-lhes sinal para irem Para a sua mesa. Enquanto se dirigiam na direcção dele, Stephanie olhou em volta para os outros clientes. O estranho comentário de monsenhor Mansoni de que não haveria muitos padres no café estava correcto. Stephanie viu apenas mais um. Estava sentado sozinho e, por breves instantes, Stephanie teve a estranha sensação de que os olhos dele estavam presos nos seus.

 

Bem-vindos a Turimdisse Luigi. Apertou as mãos aos dois recém chegados e convidou-os a sentarem-se. Os seus olhos detiveram-se em Stephanie o suficiente para a fazer sentir-se levemente desconfortável, quando se lembrou da inadequada descrição de Daniel.

 

Um empregado de mesa apareceu em resposta ao estalar de dedos do monsenhor e anotou o pedido de Stephanie e Daniel. Daniel bebeu outro expresso, enquanto Stephanie se contentava com água mineral gaseificada.

 

Daniel olhou para o prelado. A descrição que ele fizera de si próprio como sendo corpulento não era exagerada. Um grande pescoço duplo quase escondia o colarinho branco. Como médico, perguntou a si mesmo qual seria o nível de colesterol do padre.

 

Suponho que para começar devíamos apresentar-nos. Eu sou Luigi Mansoni, de Verona, Itália, mas agora vivo aqui em Turim.

 

Daniel e Stephanie apresentaram-se à vez dizendo os seus nomes e que viviam em Cambridge, Massachusetts. Nesse ponto, chegaram o café e a água.

 

Daniel bebeu um gole e pousou a chávena no pires minúsculo.

 

Sem querer ser rude, gostaria de tratar do assunto que nos trouxe aqui. Presumo que trouxe a amostra.

 

Claro replicou Luigi.

 

Temos de ter a certeza de que a amostra vem de uma parte do sudário com uma mancha de sangue continuou Daniel.

 

Posso garantir-lhe que sim. Foi seleccionada pelo professor que o arcebispo Manfredi, o guardião actual, encarregou da conservação do sudário.

 

Então? perguntou Daniel. Pode entregar-nos a amostra?

 

Daqui a poucodisse Luigi. Procurou na sotaina e tirou um pequeno bloco e uma caneta. Antes de entregar a amostra, recebi instruções para tomar nota de alguns pormenores das vossas identidades. Com a controvérsia  e o frenesim da imprensa sobre o sudário, a Igreja insiste em saber quem está na posse de todas as amostras.

 

Quem vai recebê-la é o senador Ashley Butler disse Daniel.

 

Foi o que me disseram. Porém, até esse momento, precisamos de ter a prova das vossas identidades. Lamento, mas são as instruções que recebi.

 

Daniel olhou para Stephanie. Ela encolheu os ombros.

 

Que tipo de prova pretende?

 

Passaportes e moradas actuais será suficiente.

 

Eu não tenho qualquer problema em relação a isso declarou Stephanie. E a morada que consta do passaporte é a minha morada actual.

 

Acho que também não tenho qualquer problema disse Daniel. Os dois americanos pegaram nos documentos e passaram-nos para o outro lado da mesa. Luigi abriu um de cada vez e copiou as informações. Depois, devolveu-os. Guardou o bloco e a caneta e mostrou-lhes a caixa. Com óbvia deferência, fê-la deslizar na direcção de Daniel.

 

Posso? perguntou Daniel.

 

Claro replicou Luigi.

 

Daniel pegou na caixa de prata. Havia um pequeno fecho de lado, que abriu. Cuidadosamente, levantou a tampa. Stephanie inclinou-se para poder espreitar por cima do ombro dele. No interior via-se um envelope pequeno, selado e semitransparente que continha um tapete de fibras minúsculo mas adequado, de uma cor indeterminada.

 

Parece boa disse Daniel. Fechou a tampa e prendeu o fecho. Entregou a caixa a Stephanie, que a guardou na bolsa juntamente com os passaportes.

 

Quinze minutos depois, Daniel e Stephanie saíram novamente para o pálido sol de Inverno. Atravessaram diagonalmente a Praça San Cario na direcção do hotel. Apesar do desconforto provocado pelo fuso horário, caminhavam rapidamente. Ambos se sentiam um pouco eufóricos.

 

Não podia ter sido mais fácil comentou Daniel.

 

Não posso deixar de concordar disse Stephanie.

 

Longe de mim recordar-te o teu pessimismo anterior troçou Daniel. Nunca faria uma coisa dessas.

 

Espera um segundo censurou Stephanie. Obtivemos a amostra facilmente, mas ainda estamos muito longe de tratar Butler. As minhas preocupações são em relação a todo este caso.

 

Creio que este pequeno episódio é apenas um prenúncio das coisas que estão para acontecer.

 

Espero que tenhas razão.

 

Que é que achas que devíamos fazer o resto do dia? perguntou Daniel. O nosso voo para Londres é só às sete e cinco da manhã de amanhã.

 

Eu preciso de dormir um pouco disse Stephanie. E tu também deves precisar. Que tal irmos para o hotel, comermos qualquer coisa ao almoço, em seguida fecharmos os olhos durante meia hora e depois sairmos? Há algumas coisas que gostaria de ver enquanto cá estamos, especialmente a igreja onde o sudário está guardado.

 

Parece-me um bom plano disse Daniel, satisfeito.

 

Michael Maloney manteve a maior distância a que se atreveu, sem perder Daniel e Stephanie de vista. Ficou surpreendido com a velocidade a que se deslocavam e teve de os acompanhar. Quando saíra do café, tivera sorte em avistá-los, pois já quase tinham saído da praça.

 

No momento em que os dois americanos saíram do café, Michael falara por alguns instantes com Luigi para o encorajar a verificar as identidades por intermédio das autoridades civis e para lhe ligar para o telemóvel logo que obtivesse alguma informação. Michael disse que pretendia manter os americanos debaixo de olho, ou pelo menos saber onde estavam hospedados, até ficar satisfeito com as informações.

 

Quando os americanos desapareceram numa esquina, Michael desatou a correr até os avistar novamente. Estava decidido a não os perder. Não esquecendo as palavras do seu mentor e chefe, o cardeal O’Rourke, Michael estava a tratar esta missão com grande seriedade. Aspirava fortemente a subir na hierarquia da Igreja, e até à data as coisas estavam a decorrer de acordo com os seus planos. Primeiro, tivera a oportunidade de estudar em Roma. A seguir, viera o reconhecimento dos seus talentos pelo então bispo

O’Rourke, o convite para fazer parte da sua equipa e a elevação do bispo a arcebispo. Neste ponto da carreira, Michael sabia que o seu sucesso dependia unicamente de agradar ao seu poderoso superior, e sabia intuitivamente que aquela missão relacionada com o sudário era uma oportunidade de ouro. Graças à importância que tinha para o cardeal, proporcionava-lhe uma circunstância única para demonstrar a sua lealdade inabalável, a sua dedicação e até a capacidade de improvisação, tendo em conta a falta de directivas específicas.

 

Quando entrou na Piazza Carlo Alberto, Michael supôs que o casal se dirigia para o Grand Belvedere. Acelerou o passo quase para a corrida, para estar mesmo atrás dos americanos quando eles entraram. No interior, parou enquanto eles se dirigiam para o elevador, e depois observou o indicador a subir até ao quarto andar. Satisfeito, Michael dirigiu-se para uma área de descanso no átrio do hotel. Sentou-se num sofá de veludo, pegou num exemplar do Corriere delia Sera, e começou a ler enquanto mantinha um olho na fila de elevadores. «Até agora, tudo bem», pensou.

 

Não teve de esperar muito tempo. O casal voltou a aparecer e foram para o restaurante. Michael reagiu mudando para outro sofá de onde se via melhor a entrada do restaurante. Estava confiante de que ninguém lhe prestara a menor atenção. Sabia que, em Itália, usar um fato de padre católico romano era sinónimo de acesso e anonimato.

 

Meia hora mais tarde, quando o casal saiu do restaurante, Michael não pôde deixar de sorrir. Meia hora para o almoço era tão americano. Sabia que os italianos que se encontravam no restaurante estavam aí instalados, pelo menos, por duas horas. Os americanos voltaram para o elevador e subiram de novo para o quarto andar.

 

Desta vez, Michael teve de esperar bastante mais. Terminou o jornal e olhou em volta, à procura de outra coisa para ler. Como não encontrou nada e não quis correr o risco de ir à livraria, começou a pensar no que faria se as informações que esperava receber de Luigi não fossem apropriadas. O que esperava saber é que, pelo menos, uma daquelas pessoas trabalhava de alguma forma para o senador Butler ou, possivelmente, para uma organização que estivesse ligada ao senador. Lembrava-se de ele ter dito especificamente que mandaria um agente buscar a amostra. Exactamente o que queria dizer com «agente» ainda estava para ser visto.

 

Michael esticou-se e olhou para o relógio. Eram quase três da tarde, e o seu estômago começou a fazer barulho. Não comera nada, a não ser um bolo no Café Torino. Enquanto a sua mente o atormentava com imagens das suas massas preferidas, o telemóvel vibrou no bolso. Tinha desligado deliberadamente o som. Em pânico de perder a chamada, pegou no telemóvel e atendeu. Era Luigi.

 

Acabei de receber as informações dos meus contactos no departamento de imigração disse Luigi. Não creio que vá gostar do que tenho para lhe dizer.

 

Oh! comentou Michael. Tentou manter-se calmo. Infelizmente, naquele momento, os americanos saíram do elevador com casacos vestidos e roteiros turísticos na mão, obviamente preparados para um passeio. Com receio de que apanhassem um táxi, que acrescentaria um elemento de dificuldade, Michael lutou para vestir o casaco enquanto mantinha o telefone encostado à orelha. Os americanos andavam depressa, como antes.

 

Espere um pouco, Luigi! disse Michael, interrompendo o monsenhor.

 

Eu vou sair daqui com um braço no casaco, Michael ficara com a outra manga presa na porta giratória. Teve de recuar para se soltar.

 

Prego! disse o porteiro, enquanto o ajudava.

 

Mi scusi respondeu Michael. Libertado da porta, correu para o exterior e foi recompensado ao ver os americanos a passarem pela fila de táxis e a dirigirem-se para a esquina nordeste da praça. Abrandou para uma passada rápida.

 

Desculpe, Luigi disse Michael para o telefone. O casal decidiu sair do hotel no momento em que me telefonou. Que é que estava a dizer?

 

Eu disse que são ambos cientistas replicou Luigi. Michael sentiu o coração a bater mais depressa.

 

Não é uma boa notícia!

 

Também não me pareceu. Aparentemente, os nomes surgiram logo quando as autoridades italianas contactaram os colegas americanos a pedir informações. São ambos licenciados na área biomolecular, Daniel Lowell na vertente química e Stephanie D’Agostino na vertente da biologia. Aparentemente, são bastante conhecidos nos seus ramos, ele mais do que ela. Como ambos têm o mesmo endereço, tudo indica que vivem juntos.

 

Santo Deus! comentou Michael.

 

Certamente, não parecem correios normais.

 

É o pior dos cenários.

 

Concordo. Com os antecedentes deles, devem estar a planear algum tipo de testes. Que é que vai fazer?

 

Ainda não sei disse Michael. Tenho de pensar.

 

Se eu puder ajudar, é só dizer.

 

Eu mantenho-me em contacto disse Michael, antes de desligar. Embora tivesse dito a Luigi que não sabia o que ia fazer, isso não era bem verdade. Já decidira que ia reaver a amostra do sudário; só ainda não sabia como. O que sabia era que queria ser ele próprio a fazê-lo para, quando contasse ao arcebispo, poder ter todos os louros por ter salvo o sangue do Salvador de mais uma indignidade científica.

 

Os americanos chegaram à grande Piazza Castello, mas não abrandaram. O primeiro pensamento de Michael foi que pensavam visitar o Palazzo Reale, a antiga residência da Casa de Sabóia, mas mudou de ideia quando os americanos circundaram a Piazzeta Reale para irem para a Piazza Giovani.

 

Claro! disse Michael em voz alta. Sabia que o Duomo di San Giovani ficava na esquina, e a igreja era a casa actual do sudário desde o incêndio de 1997 na capela onde este se encontrava anteriormente. Michael seguiu um pouco atrás, para se certificar do destino dos americanos. Logo que os viu a subir os degraus principais da catedral, virou-se e voltou para trás. Presumindo que os dois ficariam convenientemente ocupados fora do hotel nas horas mais próximas, pensou que seria bom aproveitar a oportunidade. Se queria recuperar a amostra do sudário, esta podia ser a melhor altura, se não a única, presumindo que eles iam partir de manhã.

 

Embora já estivesse ligeiramente ofegante, Michael obrigou-se a acelerar o passo. Queria voltar para o Grand Belvedere o mais depressa possível. Apesar da inexperiência com a intriga em geral e com o furto em particular, tinha de descobrir que quarto do hotel é que Daniel e Stephanie ocupavam, conseguir entrar nele e descobrir a caixa de prata, tudo isto em duas horas, no máximo.

 

Estamos a ver o sudário verdadeiro? perguntou Daniel num sussurro. Havia diversas outras pessoas na catedral, mas estavam ajoelhadas nos bancos a rezar ou a acender velas diante de imagens religiosas. Os únicos sons eram os ecos ocasionais de saltos no chão de mármore, quando as pessoas andavam de um lado para o outro.

 

Não, não é o sudário sussurrou Stephanie em resposta. É uma réplica fotográfica de tamanho real tinha o roteiro aberto na página certa. Ela e Daniel estavam diante de uma alcova cuja frente de vidro ocupava o rés-do-chão do transepto norte da igreja. Um andar acima, situava-se o nicho tapado com uma cortina de onde os antigos duque e duquesa de Sabóia assistiam à celebração da missa.

 

A fotografia estava exposta de forma panorâmica. As partes de cima da imagem frontal e traseira do homem crucificado quase se tocavam no centro, o que era explicado por o homem ter sido colocado com a face para cima no pano e depois este ter sido enrolado à volta dele. A imagem frontal estava voltada para o lado esquerdo. A fotografia estava exposta no que parecia ser uma mesa com quatro metros e meio de comprimento e um metro e vinte de largura, tapada até ao chão com tecido azul pregueado.

 

A fotografia está sobre a nova caixa de conservação onde o sudário foi guardado explicou Stephanie. Tem um sistema hidráulico, por isso quando o sudário é exibido a parte de cima pode rodar para cima, e a relíquia é vista através de vidro à prova de bala.

 

Recordo-me de ter lido sobre isso comentou Daniel. Parece um aparato imponente. Pela primeira vez na longa vida do sudário, a relíquia fica completamente horizontal numa atmosfera controlada.

 

É verdadeiramente espantoso que a imagem tenha durado tanto tempo como durou, tendo em conta tudo aquilo por que passou.

 

Ao olhar para esta fotografia de tamanho real, acho a imagem mais difícil de discernir do que tinha imaginado. Na verdade, se o sudário é assim, é de certa forma decepcionante. Pode ser visto e apreciado melhor no livro que tu compraste.

 

E ainda melhor no negativo acrescentou Stephanie.

 

Aparentemente, a imagem não se desvaneceu. O que aconteceu foi que o fundo amareleceu, por isso o contraste diminuiu.

 

Espero que a nova caixa de conservação impeça que isso volte a acontecer referiu Stephanie. Bem, já vimos onde está o sudário voltou-se e observou o interior da catedral. Pensei que talvez fosse interessante visitarmos o local, mas para uma igreja italiana da Renascença esta é bastante simples.

 

Eu estava a pensar a mesma coisadisse Daniel. Vamos embora. Que tal irmos dar uma espreitadela ao palácio real? Parece que o interior é a quinta-essência do rococó.

 

Stephanie olhou para Daniel, curiosa.

 

Quando é que te tornaste tão especialista em arquitectura e design de interiores?

 

Daniel riu-se.

 

Li no roteiro antes de sairmos.

 

Bem, eu adorava ver o palácio, mas tenho um problema.

 

Que género de problema?

 

Stephanie olhou para os pés.

 

Esqueci-me de calçar sapatos decentes para andar, em vez destes que calcei para ir almoçar. Acho que vou dar cabo dos pés, se andarmos a passear de um lado para o outro a tarde inteira. Desculpa, mas importavas-te muito se voltássemos rapidamente ao hotel?

 

Por mim, agora que temos a amostra do sudário estamos apenas a passar o tempo. Não me importa o que fizermos.

 

Obrigada disse Stephanie, aliviada. Daniel costumava ficar impaciente com aquele tipo de falhas. Lamento muito. Devia ter pensado nisso. E, uma vez que vamos lá, vou vestir outra camisola. Na rua está mais frio do que eu pensava.

 

Excepto quando em companhia de alguns brincalhões inofensivos quando andava no liceu, o padre Michael Maloney nunca infringira de forma consciente qualquer lei civil, e o facto de se preparar agora para o fazer estava a causar-lhe mais ansiedade do que ele previra. Não só estava trémulo e a transpirar, como tinha tanta azia que lamentou não ter um anti-ácido consigo. A aumentar o seu fardo estava a preocupação com o tempo. Certamente, não queria ser apanhado em flagrante delito pelos americanos. Embora estivesse seguro de que eles estariam fora durante duas horas ou mais a visitar a cidade, decidiu limitar-se apenas a uma hora, para não correr riscos. O simples pensamento de ser surpreendido fazia os seus joelhos ficarem fracos.

 

Ao aproximar-se do Grand Belvedere, não fazia ideia de como ia cumprir o seu objectivo, pelo menos, não até passar por uma florista na mesma praça do hotel. Entrou na loja e perguntou se um dos arranjos de flores já preparados podia ser, imediatamente, entregue no hotel. Depois de obter uma resposta positiva, escolheu um, endereçou um envelope com os nomes dos americanos e assinou o cartão: Bem-vindos ao Grand Belvedere, a gerência.

 

E nesse momento, cinco minutos depois, enquanto Michael estava sentado no mesmo sofá no átrio que ocupara antes, o arranjo de flores foi trazido para o hotel. Michael levantou o jornal para esconder o rosto e olhou sub-repticiamente enquanto a mesma mulher a quem comprara as flores entregava o arranjo na secretária dos porteiros. Um dos paquetes assinou o recibo e a mulher saiu.


Infelizmente, nos dez minutos que se seguiram não aconteceu nada. As flores permaneceram no balcão, enquanto os paquetes conversavam animadamente uns com os outros.

 

Vá lá! disse Michael em silêncio, enquanto rangia os dentes. Apetecia-lhe ir queixar-se à recepção, mas não se atreveu. Não queria chamar a atenção para a sua pessoa. O seu plano era aproveitar ao máximo o traje sacerdotal para parecer inofensivo, e até relativamente invisível.

 

Por fim, um dos paquetes verificou o envelope das flores e foi para o outro lado da secretária. Pelo reflexo de luz no rosto do homem, Michael viu que ele estava a consultar o computador. Instantes depois, deu a volta à secretária, pegou nas flores e dirigiu-se para o elevador. Michael pousou o jornal e foi atrás dele.

 

O paquete cumprimentou Michael com um aceno quando as portas se fecharam. Michael sorriu. No quarto andar, o paquete saiu e Michael fez o mesmo. Mantendo uma distância curta entre ele próprio e o paquete, Michael seguiu-o. Quando o homem parou diante do 408 e bateu à porta, Michael passou por ele. O paquete acenou e sorriu. Michael retribuiu.

 

Michael virou uma esquina e parou. Cuidadosamente, olhou para trás. Viu o paquete a bater de novo antes de empunhar um anel de chaves numa corrente. Abriu a porta e desapareceu por instantes. Quando reapareceu sem flores, vinha a assobiar baixinho. Fechou a porta e voltou para os elevadores.

 

Depois de o homem desaparecer, Michael voltou para o quarto 408. Não esperava que a porta estivesse destrancada, e não estava. Olhou para o corredor e viu um carrinho de limpeza. Michael respirou fundo e encheu as bochechas momentaneamente para ganhar coragem, e em seguida dirigiu-se para o carrinho que estava ao lado de uma porta que se mantinha aberta com um travão.

 

Hesitante, Michael bateu à porta aberta.

 

Sucsi! chamou. Ouviu uma televisão acesa ao longe. Entrou no quarto e viu duas mulheres de meia-idade com uniformes castanhos a fazer a cama. Sucsi! chamou Michael, consideravelmente mais alto.

 

As mulheres reagiram como se estivessem chocadas. Ambas perceptivelmente lívidas. Uma delas recuperou o suficiente para correr e desligar a televisão.

 

Recorrendo ao seu melhor italiano, Michael perguntou às mulheres se podiam ajudá-lo. Explicou que deixara a chave no quarto 408, e precisava de fazer um telefonema imediatamente. Queria saber se elas não se importavam de lhe abrir a porta, para ele não ter de descer até à recepção.

 

As mulheres trocaram um olhar confundido. Michael levou alguns momentos a perceber que elas falavam muito mal italiano. Explicou novamente o seu pretenso problema, falando lentamente e com clareza. Nessa ocasião, uma das mulheres percebeu a mensagem, e para alívio de Michael pegou nas suas chaves. Michael acenou afirmativamente.

 

Como se quisesse compensar as dificuldades de comunicação, a mulher passou por Michael e quase correu pelo corredor. Michael teve de correr para acompanhá-la. Ela abriu a porta do quarto 408 e segurou-a aberta. Michael agradeceu-lhe enquanto entrava. A porta fechou-se.

 

Michael expirou. Não se apercebera de que estivera a conter a respiração. Recuou para se encostar à porta enquanto observava o aposento. Os reposteiros estavam abertos, e entrava imensa luz. Havia mais bagagem do que ele esperara, embora todas as malas, com excepção de duas, estivessem fechadas como se ainda não tivessem sido abertas. Infelizmente, não havia nenhuma caixa de prata visível na cómoda, na secretária ou nas mesas-de-cabeceira.

 

Michael sentiu o coração a bater muito depressa. Também estava a transpirar copiosamente.

 

Eu não sou bom nisto sussurrou. Queria desesperadamente encontrar a caixa de prata e ir-se embora. Precisou de toda a sua força de vontade para permanecer no quarto.

 

Afastou-se da porta e dirigiu-se em primeiro lugar para a secretária. No meio do mata-borrão, entre duas malas para computadores portáteis, via-se uma chave do 408. Após um momento de hesitação, Michael pegou nela e guardou-a no bolso. Revistou, rapidamente as malas do computador: nenhuma caixa de prata. Só levou um momento a revistar as gavetas da secretária. Com excepção do papel de carta do hotel, estavam vazias. Seguiu-se a cómoda. Também ela estava vazia, com excepção de formulários de lavandaria e sacos de plástico para colocar a roupa. As pequenas gavetas das mesas-de-cabeceira também estavam vazias. Verificou a casa de banho, mas não encontrou a caixa de prata. Espreitou para dentro do roupeiro, viu um cofre e soltou um suspiro de alívio. A porta estava entreaberta e não havia nada lá dentro. Verificou os bolsos de um blusão de homem que estava pendurado num cabide: nada.

 

Voltou-se para o interior do quarto e aproximou-se das malas abertas.

 

Estavam em suportes de bagagem aos pés da cama. Aproximou-se de uma de cada vez, levantou as tampas e passou a mão pelos lados. Encontrou diversos objectos diferentes, mas nenhuma caixa de prata. Depois, levantou cuidadosamente as roupas para procurar com mais minúcia. De repente, ouviu vozes e, para seu horror, parecia inglês americano. Endireitou-se, paralisado. No instante seguinte, ouviu o pior som que podia ter imaginado. Era o som de uma chave a ser enfiada na fechadura da porta!

 

 

15.45, segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2002

Que diabo?perguntou Stephanie. Estava parada à porta do quarto. Daniel espreitou por cima do ombro dela.

 

Que é que se passa? perguntou Daniel.

 

Há flores na cómoda disse Stephanie. Quem é que nos mandaria flores?

 

Butler?

 

Ele não sabe que estamos em Turim, a menos que lhe tenhas mandado uma mensagem de correio electrónico.

 

Eu não lhe mandei mensagem nenhuma disse Daniel, como se fosse uma coisa completamente absurda. Mas, com os contactos que tem nos serviços secretos, talvez saiba. Depois de me mandar investigar, eu não excluiria essa possibilidade. Ou talvez, monsenhor Mansoni lhe tenha dito que a amostra foi entregue.

 

Stephanie dirigiu-se para o arranjo de flores e abriu o envelope.

 

Oh, por amor de Deus, é apenas da gerência do hotel.

 

Que simpático disse Daniel com indiferença. Entrou na casa de banho para usar a sanita.

 

Stephanie dirigiu-se para a sua mala de viagem que estava no suporte de bagagens. Tinha um par de sapatos para caminhada, entalados do lado esquerdo da mala. Levantou a tampa aberta da mala e hesitou. Uma blusa de linho que ela arrumara com todo o cuidado em Boston estava ligeiramente deslocada, e tinha a gola dobrada. Com o dedo, endireitou a dobra. Como temia, ficou um vinco, mesmo depois de ela ter tentado alisá-la com a palma da mão. A resmungar baixinho uma das suas ordinarices privadas, começou a estender a mão para os sapatos de caminhada quando os seus olhos pousaram numa peça de roupa interior, que também estava ligeiramente desarrumada e que ela guardara com igual cuidado. Stephanie endireitou-se e olhou para a mala aberta.

 

Daniel! Vem cá!

 

Com o som do autoclismo como pano de fundo, o rosto de Daniel apareceu à porta da casa de banho. Estava com uma toalha na mão.

 

Que é? perguntou com as sobrancelhas erguidas. Pelo tom da voz dela, percebera que estava ligeiramente perturbada.

 

Alguém esteve no nosso quarto!

 

Já sabíamos isso quando vimos as flores.

 

Vem cá!

 

Daniel colocou a toalha ao ombro e foi colocar-se ao lado de Stephanie. Seguiu o dedo dela, que apontava para a mala aberta.

 

Alguém esteve a mexer na minha mala disse Stephanie.

 

Como é que sabes? Stephanie explicou.

 

Isso são mudanças bastante subtis declarou Daniel. Deu-lhe uma palmada condescendente nas coisas.Tu própria estiveste a mexer na mala antes de sairmos. Tens a certeza de que não estás a ter um pequeno ataque de paranóia, devido ao assalto de Cambridge?

 

Alguém esteve a mexer na minha mala! repetiu Stephanie, irritada. Afastou a mão dele. Com o fuso horário e o cansaço demasiado grande, sentiu-se imediatamente frustrada por Daniel estar a ser tão desinteressado. Olha para a tua mala!

 

Daniel revirou os olhos e abriu a mala aberta que se encontrava no suporte ao lado da de Stephanie.

 

Muito bem, estou a olhar disse.

 

Alguma coisa diferente?

 

Daniel encolheu os ombros. Estava longe de ser o melhor fazedor de malas do mundo e vasculhara tudo quando andara à procura de roupa interior limpa. De repente, ficou paralisado e depois ergueu lentamente os olhos para os de Stephanie.

 

Meu Deus! Falta uma coisa!

 

O quê? Stephanie apertou a mão de Daniel, enquanto espreitava para a mala.

 

Alguém levou o meu frasco de plutónio!

 

Stephanie bateu no ombro de Daniel. Este reagiu protegendo-se de uma forma exagerada de mais golpes, que nunca vieram.

 

Estou a falar a sério queixou-se Stephanie estridentemente. Concentrou-se de novo na mala, pegou na escova de cabelo e brandiu-a. Aqui está mais uma coisa! Quando saímos para o nosso passeio, esta escova estava directamente em cima das minhas roupas, não enfiada num canto da mala. Lembro-me porque pensei levá-la para a casa de banho. Estou a dizer-te: alguém andou a mexer na minha mala!

 

Está bem! Está bem! exclamou Daniel. Tem calma! Stephanie abriu a bolsa lateral da mala e tirou um estojo de veludo com fecho. Abriu-o e espreitou para o interior.

 

Pelo menos, as minhas jóias estão aqui, incluindo o dinheiro que guardei. Foi bom não ter trazido nada verdadeiramente valioso.

 

Talvez as empregadas de limpeza tivessem precisado de desviar as malas? sugeriu Daniel.

 

Não me lixes! retorquiu Stephanie, como se a sugestão fosse ridícula. Os seus olhos deambularam pelo quarto até pousarem na secretária. A minha chave do quarto desapareceu! Deixei-a em cima do mata-borrão.

 

Tens a certeza?

 

Não te lembras de que falámos nisso antes de sair, se devíamos ou não levar duas chaves?

 

Vagamente.

 

Stephanie entrou na casa de banho. Os olhos de Daniel inspeccionaram o quarto. Não conseguia decidir se a paranóia de Stephanie era digna de crédito, uma vez que sabia que ela ainda estava perturbada com o intruso em Cambridge. Sabia que os funcionários de hotel como as empregadas de limpeza, os fornecedores dos minibares, o pessoal do serviço de quartos e os paquetes estavam sempre a entrar e a sair dos quartos. Talvez um deles tivesse enfiado as mãos na mala dela. Para algumas pessoas, podia ser uma tentação enorme.

 

Também mexeram na minha bolsa de cosméticos disse Stephanie da casa de banho.

 

Daniel dirigiu-se para a porta e parou na soleira.

 

Falta alguma coisa?

 

Não, não falta nada! respondeu Stephanie, irritada.

 

Hei, não te zangues comigo!

 

Stephanie endireitou-se, fechou os olhos e respirou fundo. Acenou algumas vezes.

 

Tens razão. Desculpa. Não estou zangada contigo, apenas frustrada por não estares tão preocupado com isto como eu.

 

Se nos faltasse alguma coisa, seria diferente.

 

Stephanie fechou a tampa da bolsa de maquilhagem. Aproximou-se de Daniel e abraçou-o. Ele apertou-a contra si.

 

Fico perturbada quando mexem nas minhas coisas, especialmente depois do que aconteceu antes de partirmos.

 

É inteiramente compreensível disse Daniel.

 

É curioso não faltar nada, nem o dinheiro. Isso torna este episódio precisamente igual ao de Cambridge, embora o facto de ter acontecido aqui seja mais confuso. Pelo menos, lá podíamos pensar em espionagem industrial, embora seja improvável. Que poderia alguém procurar aqui a não ser jóias e dinheiro?

 

A única coisa que me ocorre é a amostra do sudário. Stephanie afastou-se de Daniel para poder olhar para o rosto dele.

 

Por que é que alguém procuraria isso?

 

Não faço a menor ideia. É simplesmente a única coisa que temos que é única.

 

Mas, presumivelmente, a única pessoa que sabe que a temos é o homem que no-la deu. As sobrancelhas de Stephanie estavam juntas, como se ela estivesse novamente perturbada.

 

Tem calma! Não acredito que alguém andasse à procura da amostra do sudário. Estava apenas a falar em voz alta. Mas, já que estamos a falar no assunto, onde é que ela está?

 

Ainda está na minha bolsa disse Stephanie.

 

Vai buscá-la! Vamos vê-la mais uma vez! Daniel pensou que era melhor afastar o assunto de um possível intruso.

 

Recuaram para o centro do aposento. Stephanie pegou na bolsa que atirara para cima da cama. Tirou a caixa de prata e abriu-a. Daniel pegou cuidadosamente no envelope semi transparente e ergueu-o para a luz difusa que vinha das janelas. Iluminado por detrás, o entrelaçado de fibras de linho era distinto, embora a sua cor continuasse indeterminada.

 

Meu Deus! disse Daniel, a abanar a cabeça. É verdadeiramente surpreendente pensar que há uma ténue hipótese de isto conter o sangue da pessoa discutivelmente mais famosa que já andou sobre a terra, e nem sequer estou a pensar no aspecto divino.

 

Stephanie pousou a caixa de prata em cima da secretária e pegou no envelope. Aproximou-se da janela e levantou-o também para a luz. Protegendo os olhos dos fortes raios de sol com a mão livre, usou a luz pálida mas directa para examinar o envelope.

 

Parece sangue disse ela. Sabes, deve ser o meu passado católico a renascer misteriosamente, porque tenho uma forte intuição de que é o sangue de Jesus Cristo.

 

Embora o padre Michael Maloney não pudesse ver Stephanie D’Agostino, estava tão próximo que conseguia ouvi-la respirar. Ficou aterrorizado ao pensar que os batimentos do seu coração iriam denunciá-lo ou, se isso não acontecesse, o som das gotas de transpiração que lhe pingavam do rosto e caíam ruidosamente no chão. Ela estava a poucos centímetros de distância.

 

Em profundo desespero quando ouvira a chave a entrar na fechadura, escondera-se atrás dos reposteiros. Tinha sido um acto reflexo. Em retrospectiva, tinha sido embaraçoso esconder-se atrás dos reposteiros, como se fosse um vulgar ladrão. Devia ter ficado onde estava, devia ter aceite o seu destino de ser apanhado e assumido todas as responsabilidades pelos seus actos. Sabia que a melhor defesa era o ataque, e na situação actual para justificar as suas acções devia ter usado a sua indignação em relação às identidades verdadeiras daquelas pessoas e aos testes não autorizados que estavam obviamente a planear fazer ao sudário.

 

Infelizmente, a sua reacção de lutar ou fugir fora avassaladora, especialmente do lado da fuga, de tal maneira que quando se dera conta já estava escondido, e uma vez escondido era demasiado tarde para representar o papel de indignado. Agora, a única coisa que podia fazer era rezar para não ser descoberto.

 

A princípio pensara estar perdido com a exclamação de Stephanie quando a porta se abrira. Imaginou que tinha sido visto ou, no mínimo, que o movimento dos reposteiros tinha sido aparente. Quando percebeu que fora o arranjo de flores que chamara a atenção da mulher, sentiu um alívio que não podia ser descrito com palavras.

 

Depois, teve de suportar a descoberta de Stephanie da sua incompetência para revistar a mala e o facto de ter tirado a chave da secretária. Nesse momento, o coração começou novamente a bater mais depressa depois de ter abrandado um pouco do choque inicial. Receou que ela começasse a revistar o quarto, o que significava que seria descoberto imediatamente. O embaraço e consequências de uma coisa dessas eram demasiado horríveis para contemplar. O que começara como uma forma de garantir a sua carreira futura estava agora em risco de ter um efeito totalmente oposto.

 

O que pensamos sobre o sudário não é importante disse Michael. A única coisa que importa é o que Butler pensa.

 

Não sei bem se estou completamente de acordo contigo replicou Stephanie. Mas isso é uma discussão para outro dia.

 

Michael ficou tenso quando Stephanie roçou nos reposteiros. Felizmente, eram de pesado brocado italiano, e, aparentemente, ela não reparou que também lhe tocara no braço através do tecido. Outra onda de adrenalina percorreu o seu corpo, tendo como resultado mais transpiração. Para ele, o som de gotas intermitentes de suor a cair no chão era tão alto como o som de pedras a cair em cima de um tambor. Nunca imaginara que podia transpirar tão copiosamente, especialmente quando nem sequer estava muito calor.

 

Que é que faço com a amostra? perguntou Stephanie, enquanto se afastava.

 

Dá-ma respondeu Daniel, algures dentro do quarto. Michael concedeu a si mesmo o direito de respirar fundo, e

 

descontraiu-se ligeiramente. Estava o mais encostado possível à parede, para minimizar o alto que o seu corpo fazia no reposteiro. Ouviu mais alguns sons que não conseguiu identificar, juntamente com o que lhe pareceu a caixa de prata a ser fechada com força.

 

Sabes, podíamos mudar de quarto disse Michael. Ou até de hotel, se quiseres.

 

Que é que achas que devíamos fazer?

 

Acho que devíamos ficar onde estamos. Há muitas chaves para todos os quartos em todos os hotéis. Esta noite, quando formos dormir, não vamos esquecer-nos de correr o ferrolho.

 

Michael ouviu o forte clique da fechadura de segurança a ser activada na porta que dava para o corredor.

 

É uma volta e meia comentou Daniel. Que dizes? Não quero que estejas nervosa. Não há necessidade.

 

Michael ouviu a porta que dava para o corredor a abanar.

 

Acho que a fechadura é boa disse Stephanie. Parece segura.

 

Com a fechadura de segurança no lugar, ninguém conseguirá passar por aquela porta sem nós sabermos. Teriam de usar um aríete.

 

Está bem disse Stephanie. Vamos ficar aqui. É apenas uma noite, e curta, uma vez que vamos para Londres no avião das sete e cinco. Que hora tão esquisita. A propósito: por que é que vamos via Paris?

 

Não havia outra alternativa. Aparentemente, a British Airways não opera em Turim. Era a Air France ou a Lufthansa para Frankfurt. Achei que era preferível não voltar para trás.

 

Parece ridículo não haver um voo directo para Londres. Quero dizer, Turim é uma das maiores cidades industriais italianas.

 

Que é que posso dizer? perguntou Daniel com um encolher de ombros. Mas, por enquanto, que tal calçares os sapatos para andar e vestires as outras coisas que querias para podermos voltar ao nosso passeio?

 

«Oh, por favor despacha-te!», implorou Michael em silêncio.

 

Mudei de ideia disse Stephanie, para desgosto imediato de Michael. Que tal ficarmos no quarto até à hora do jantar? Já passa das quatro, e daqui a pouco vai escurecer. Tu dormiste tão pouco a noite passada que deves estar exausto.

 

Estou cansado admitiu Daniel.

 

Vamos despir-nos e meter-nos na cama. Até te faço uma massagem nas costas, e veremos o que acontece, dependendo do teu cansaço. Que dizes?

 

Daniel riu-se.

 

Nunca ouvi uma ideia melhor em toda a minha vida. Para ser franco, não estava nada interessado em conhecer a cidade. Ia mais para te fazer a vontade.

 

Bem, isso já não é necessário, meu querido!

 

Michael arrepiou-se quando ouviu sons de roupas a serem despidas, risadas e carinhos. Receou que um deles se aproximasse dos reposteiros, mas isso não aconteceu. Ouviu os sons que a cama fez quando os corpos se deitaram sobre ela. Ouviu o som de loção a ser espremida de uma embalagem e até o som de carne contra carne escorregadia. Ouviu um murmúrio de satisfação de Daniel, enquanto a massagem progredia.

 

Chega disse Daniel, por fim. Agora é a tua vez a cama queixou-se quando os corpos trocaram de posição.

 

O tempo arrastou-se. Os músculos de Michael começaram a doer, particularmente nas pernas. Com medo de ter uma cãibra, que seguramente o trairia, mudou de posição, e depois conteve a respiração para o caso de o seu movimento ter sido notado. Felizmente, não foi, mas a dor voltou passados alguns minutos. No entanto, pior do que o desconforto físico foi a tortura de ouvir os sons de intimidades entre um homem e uma mulher que conduziram ao ruído ritmado e inconfundível de fazer amor. Michael estava a ser forçado pelas circunstâncias a assistir, e embora tentasse recitar em silêncio partes do seu breviário, deu por si excitado apesar dos seus votos de celibato.

 

Após alguns gemidos de prazer, o quarto ficou em silêncio durante alguns minutos. Em seguida, ouviram-se sussurros que Michael não conseguiu perceber, seguidos de gargalhadas e risadas. Por fim, para alívio de Michael, o casal foi para a casa de banho. Percebeu-o pelo som abafado das vozes por cima do som do chuveiro.

 

Michael permitiu-se rodar a cabeça, flectir os ombros rígidos, levantar os braços e até andar brevemente sem sair do sítio. Passado menos de um minuto, regressou à sua posição completamente imóvel, sem saber se um deles resolveria voltar para o quarto. Não teve de esperar muito tempo, e pouco depois ouviu alguém a mexer nas malas.

 

Infelizmente para Michael, Stephanie e Daniel levaram mais três quartos de hora para se vestir, pegar nos casacos e encontrar a única chave que lhes restava antes de, por fim, saírem para jantar. De início, o silêncio parecia ensurdecedor, quando ele se esforçou para ouvir quaisquer ruídos que sugerissem que eles estavam a voltar para virem buscar alguma coisa de que se haviam esquecido. Passaram cinco minutos. Finalmente, Michael agarrou cautelosamente na ponta do reposteiro e afastou-a lentamente, revelando progressivamente mais do quarto agora às escuras. O casal deixara a luz da casa de banho acesa, e a luz espalhava-se pelo quarto e formava um charco ao longo da cama.

 

Michael olhou para a porta de saída e tentou calcular a rapidez com que conseguiria lá chegar, sair, e fechá-la atrás de si. Não demoraria muito, mas ficou nervoso ao pensar que estaria totalmente exposto antes de deixar alguma distância entre a sua pessoa e o quarto 408. Neste ponto, ser apanhado seria significativamente mais problemático do que quando Stephanie e Daniel tinham entrado no quarto.

 

Enquanto tentava ganhar coragem para abandonar a segurança relativa do reposteiro, os seus olhos vaguearam pelo aposento. O reflexo de um objecto brilhante em cima da cómoda ao lado do arranjo de flores chamou a sua atenção. Piscou os olhos, sem acreditar no que estava a ver.

 

Louvado seja Deus! sussurrou. Era a caixa de prata.

 

Maravilhando-se com a sua sorte apesar de tudo, Michael respirou fundo e saiu do esconderijo. Hesitou mais um segundo, escutou antes de se dirigir rapidamente para a cómoda, pegou na caixa de prata, enfiou-a no bolso e correu para a porta. Para seu alívio, o corredor estava vazio. Afastou-se rapidamente do quarto 408, com receio de olhar para trás e aterrorizado com a perspectiva de alguém o abordar. Só quando chegou aos elevadores é que permitiu a si mesmo olhar para o fundo do corredor. Continuava vazio.

 

Alguns minutos mais tarde, Michael passou pela porta giratória do hotel e saiu para a noite. Nunca o frio de uma noite de Inverno lhe soubera tão bem no rosto ruborizado. Afastou-se rapidamente da porta, cada passo um pouco mais vivo do que o anterior. Com a mão direita enfiada no bolso do casaco, a apertar a caixa de prata para se lembrar do que conseguira fazer, foi invadido por uma alegria não muito diferente da euforia da absolvição, que sentira anteriormente na sequência de visitas especialmente difíceis como suplicante ao confessionário. Era como se os difíceis sofrimentos e padecimentos por que passara para salvar a amostra de sangue do Salvador tivessem tornado a experiência muito mais pungente.

 

Michael apanhou um táxi da praça de táxis do hotel e deu a morada da Chancelaria da Arquidiocese ao motorista. Recostou-se no banco de trás e tentou descontrair. Olhou para o relógio. Eram quase seis e meia. Tinha ficado preso atrás do reposteiro do quarto do casal durante mais de duas horas! Mas fora um pesadelo com final feliz, como evidenciava o toque frio da caixa de prata no seu bolso.

 

Michael fechou os olhos e deleitou-se a pensar na melhor altura para telefonar ao cardeal James O’Rourke para explicar os infelizes desenvolvimentos em relação às identidades dos pseudo correios, seguido da resolução derradeira do problema. Agora que estava em segurança, deu por si a sorrir ao recordar tudo por que passara. Escondido atrás de um reposteiro num quarto de hotel enquanto o casal fazia amor era tão absurdo que desafiava qualquer crença. Em certa medida, gostaria de o contar ao cardeal, mas sabia que não podia. A única pessoa a quem acabaria por contar era ao seu confessor, e também não ia ser fácil.

 

Conhecendo a agenda do cardeal, Michael pensou que era melhor esperar até às dez e meia da noite, hora italiana, para fazer o telefonema. A hora antes do jantar era o momento em que o cardeal estava mais acessível. Durante o telefonema, o que Michael iria apreciar particularmente era insinuar ao invés de dizer directamente ao cardeal que fora ele que, com o seu engenho, salvara sozinho e pessoalmente o que podia ter sido um embaraço para a igreja em geral e para o cardeal em particular.

 

Quando o táxi parou diante da chancelaria, Michael sentiu-se quase no seu estado normal. Embora o coração ainda estivesse a bater depressa, já não transpirava e a respiração estava inteiramente normal. O único problema é que a camisa e a roupa interior estavam encharcados da provação, e ele estava gelado.

 

Michael foi imediatamente falar com Valerio Garibaldi, de quem ficara amigo quando frequentara o Colégio Norte Americano em Roma, mas foi informado de que o amigo tinha saído do edifício para tratar de um assunto oficial. Michael dirigiu-se então para o gabinete de Luigi Mansoni. Bateu na porta aberta, e o monsenhor fez-lhe sinal para que entrasse e se sentasse. O clérigo estava ao telefone. Concluiu rapidamente o telefonema e concentrou toda a sua atenção em Michael. Passando de italiano para inglês, perguntou como é que Michael se tinha arranjado. Pelo seu olhar fixo, tornou-se aparente que estava intensamente interessado.

 

Bastante bem, tendo em conta... disse Michael, evasivo.

 

Tendo em conta o quê?

 

Tendo em conta o que tive de suportar triunfalmente, levou a mão ao bolso e tirou a caixa de prata gravada. Cuidadosamente, colocou-a em cima da secretária de Luigi antes de a empurrar na direcção do monsenhor. Recostou-se com um sorriso satisfeito no rosto magro.

 

As sobrancelhas de Luigi arquearam-se. Estendeu a mão, levantou cuidadosamente a tampa e segurou-a entre as palmas das mãos.

 

Estou surpreendido por eles terem concordado em devolvê-la disse ele. Pareciam duas pessoas muito ardentes.

 

O seu julgamento é mais exacto do que pensa disse Michael. Mas eles ainda não sabem que devolveram a amostra à igreja. E, para ser franco, eu não esperei para falar com eles.

 

Um ligeiro sorriso iluminou o rosto rechonchudo de Luigi.

 

Estou a pensar que talvez seja melhor não lhe perguntar como conseguiu recuperá-la.

 

É melhor não.

 

Bem, então é assim que vamos fazer. Pela minha parte, vou simplesmente devolver a amostra ao professor Ballarasi, e o assunto fica arrumado Luigi soltou o fecho e abriu a tampa da caixa. Depois, ficou parado a olhar para o interior vazio. Após alguns olhares rápidos para a frente e para trás entre Michael e a caixa, disse, Estou confuso. A amostra não está aqui!

 

Não! Não diga uma coisa dessas!Michael sentou-se muito direito.

 

Infelizmente, não posso deixar de o dizer respondeu Luigi. Virou a pequena caixa ao contrário e levantou-a para que Michael pudesse ver.

 

Oh, não! exclamou ele. Agarrou a cabeça com as duas mãos e afundou-se até os cotovelos pousarem nos joelhos. Não acredito!

 

Devem ter tirado a amostra.

 

Obviamente replicou Michael, enquanto expirava. Parecia deprimido.

 

Está perturbado.

 

Mais do que imagina.

 

Certamente, nem tudo está perdido. Talvez agora devesse abordar os americanos directamente e pedir-lhes que devolvam a amostra.

 

Michael esfregou o rosto com força e depois expirou. Olhou para Luigi.

 

Não me parece que seja uma alternativa, não depois do que eu fiz para obter a caixa vazia. E, mesmo que fosse falar com eles, a avaliação que fez das suas personalidades está muito provavelmente correcta. Recusariam. A minha intuição é que eles têm um plano específico para a amostra, e estão decididos a levá-lo até ao fim.

 

Sabe quando é que eles se vão embora?

 

Amanhã de manhã, no voo das sete e cinco da Air France. Vão para Londres, via Paris.

 

Bem, existe uma outra opção disse Luigi, juntando os dedos. Existe uma maneira segura de recuperarmos a amostra. Por acaso, estou relacionado do lado da família da minha mãe com um senhor chamado Cario Ricciardi, que é meu primo direito. Acontece que ele é o Superintendente Arqueológico de Piedmont, ou seja, o director regional do NPPA, que significa Núcleo de Protecção do Património Artístico e Arqueológico.

 

Nunca ouvi falar.

 

Não é surpreendente, uma vez que as actividades deles são essencialmente não oficiais, mas trata-se de um corpo especial dos carabinieri responsável pelo vasto tesouro dos monumentos e objectos históricos italianos, que certamente incluem o Sudário de Turim, apesar de a Santa Sé ser a sua proprietária de direito. Se eu telefonasse ao Cario, ele não teria qualquer problema em recuperar a amostra.

 

Que é que acha? Quero dizer, foi o senhor que deu a amostra aos americanos; eles não a roubaram. Na verdade, como a entregou num lugar público, provavelmente um advogado empreendedor até conseguiria arranjar uma testemunha.

 

Eu não sugeriria que a amostra foi roubada. Diria simplesmente que a amostra foi obtida sob falsos pretextos, o que é, aparentemente, o caso. Mas, mais importante, declararia que não foi dada autorização para que a amostra fosse levada para fora de Itália. Na verdade, acrescentaria que a transferência da amostra para fora do país tinha sido estritamente proibida, e no entanto, tive a informação de que os americanos estavam a planear fazê-lo amanhã de manhã.

 

E essa polícia arqueológica teria autoridade para confiscá-la.

 

Sem dúvida! São uma agência muito poderosa e independente. Para lhe dar um exemplo, há alguns anos o vosso então presidente Ronald Reagan pediu ao então presidente italiano se os recém descobertos bronzes retirados do mar ao largo de Reggio di Calábria, podiam ser levados para os Jogos Olímpicos de Los Angeles como ícones dos jogos. O presidente italiano concordou, mas o Superintendente Arqueológico disse que não e as estátuas ficaram em Itália.

 

Está bem, estou impressionado disse Michael. A agência tem uma divisão uniformizada?

 

Têm os seus ispettori, ou inspectores, que se vestem discretamente, mas quando é preciso actuar oficialmente usam carabinieri uniformizados ou agentes da Guardiã di Finanza. No aeroporto, seria talvez a Guardiã di Finanza, embora se estivessem a agir sob as ordens específicas de Cario, muito provavelmente, os carabinieri também participassem.

 

Se fizer o telefonema, que é que vai acontecer aos americanos?

 

Amanhã de manhã, quando fizerem o check in para o voo internacional, vão ser presos, levados para a cadeia e, eventualmente, julgados. Em Itália, acusações desta natureza são consideradas muito sérias. Mas eles não seriam julgados imediatamente. Esse tipo de casos avançam com lentidão. No entanto, a amostra ser-nos-á devolvida sem demora, e o problema ficará resolvido.

 

Faça o telefonema!disse Michael simplesmente. Estava desapontado, mas nem tudo estava perdido. Obviamente, não poderia ficar com os louros por resolver sozinho o problema da amostra do sudário. Por outro lado, ainda podia certificar-se de que o cardeal saberia que ele tinha sido um interveniente indispensável.


Um arroto satisfeito rugiu desde a boca do estômago de Daniel e emergiu entre as suas faces infladas. Uma mão apertou o rosto numa tentativa fraca de esconder o sorriso endiabrado.

 

Stephanie lançou-lhe um dos que considerava os seus olhares de desprezo. Nunca achava graça quando ele dava livre curso ao seu endiabrado lado juvenil.

 

Daniel riu-se.

 

Hei, acalma-te. Tivemos um jantar bestial e uma óptima garrafa de Barolo. Não vamos arruinar tudo!

 

Só vou acalmar depois de sair daquele quarto disse Stephanie. Acho que tenho o direito de estar enervada depois de alguém ter andado a pôr as patas nas minhas coisas.

 

Daniel colocou a chave na porta e empurrou-a. Stephanie atravessou a soleira e deixou os olhos vaguear. Daniel começou a passar por ela para o interior do quarto. Ela deteve-o com o braço.

 

Preciso de ir à casa de banho queixou-se Daniel.

 

Tivemos visitas!

 

Oh! como é que sabes? Stephanie apontou para a cómoda.

 

A caixa de prata desapareceu.

 

É verdade disse Daniel. Acho que estiveste certa desde o princípio.

 

É claro que estive certa respondeu Stephanie. Avançou e pôs a mão na cómoda onde a caixa de prata estivera, como se não acreditasse que tinha desaparecido. Mas tu também. Deviam andar à procura da amostra do sudário.

 

Bem, tenho de te dar os parabéns pela ideia de tirar a amostra e deixar a caixa.

 

Obrigada disse Stephanie. Mas primeiro vamos certificar-nos de que não pensaram apenas que a caixa era valiosa aproximou-se uma vez mais da mala e verificou novamente o estojo das jóias. Ainda estava tudo no lugar, incluindo o dinheiro.

 

Daniel fez o mesmo. As jóias, dinheiro e cheques de viagem estavam intactos. Endireitou-se.

 

Que queres fazer? perguntou ele.

 

Sair de Itália. Nem num milhão de anos pensei sentir-me assim. Stephanie deixou-se cair em cima da cama, com o casaco vestido, e olhou para o candelabro de vidro multicolorido.

 

Estou a referir-me a esta noite.

 

Queres sabes se devemos mudar de hotel ou de quarto?

 

Exactamente.

 

Vamos ficar aqui e usar a fechadura de segurança.

 

Estava com esperança de que dissesses isso disse Daniel, enquanto despia as calças. Segurou-as pelas pernas e endireitou-as para manter os vincos. Mal posso esperar para me meter na cama acrescentou, enquanto olhava para Stephanie, deitada de costas. Depois, dirigiu-se para o roupeiro e pendurou as calças. Apoiado na ombreira da porta, descalçou os sapatos.

 

Seria um esforço sobre-humano mudarmos, e eu estou de rastos disse Stephanie. Com grande esforço, levantou-se novamente e despiu o casaco. Para além disso, não sei se a pessoa que tem andado a perseguir-nos não conseguiria encontrar-nos onde quer que estivéssemos. Vamos sair deste quarto apenas quando estivermos prontos para sair do hotel; passou por Daniel e pendurou o casaco.

 

Por mim, tudo bem disse Daniel, a desabotoar a camisa. De manhã, até podemos sair do hotel sem tomar o pequeno-almoço. Em vez disso, podemos comer qualquer coisa numa daquelas cafetarias no aeroporto. Têm todas uma grande variedade de bolos. O porteiro disse que devíamos estar no aeroporto por volta das seis horas, o que significa que vamos ter de nos levantar bastante cedo, mesmo se não comermos antes de sair.

 

Excelente ideia disse Stephanie. Não fazes ideia de como estou ansiosa para chegar ao aeroporto, fazer o check in e entrar naquele avião.

 

 

4.45, terça-feira, 26 de Fevereiro de 2002

Apesar da forte fechadura de segurança na porta, Stephanie dormiu muito pouco. Cada barulho dentro do hotel ou na rua provocava uma pequena reacção de pânico, e havia imensos barulhos. Em determinada altura, pouco depois da meia-noite, quando hóspedes tinham aberto a porta de um quarto próximo e entrado, Stephanie sentara-se na cama, pronta para a batalha, certa de que as pessoas estavam a entrar no seu quarto. Tinha-se sentado tão rapidamente que puxara as roupas de cama de Daniel, cuja reacção foi puxá-las para si, zangado.

 

Por fim, depois das duas da manhã, Stephanie conseguiu adormecer. Mas não foi de maneira nenhuma um sono tranquilo, e foi um alívio quando Daniel lhe abanou o ombro para acordá-la, depois do que lhe pareceu um sono de quinze minutos.

 

Que horas são? perguntou ela, ensonada. Apoiou-se num cotovelo.

 

São cinco da manhã. Toca a levantar! Temos de estar num táxi daqui a meia hora.

 

«Toca a levantar» era uma frase que a mãe tinha usado para acordar Stephanie quando esta era adolescente, e como Stephanie era uma dorminhoca de primeira e detestava acordar, a frase irritara-a sempre. Daniel conhecia a história e usava a expressão deliberadamente para provocá-la, o que, é claro, era uma maneira eficaz de a acordar.

 

Estou acordada disse ela, irritada, quando ele voltou a abaná-la. Olhou para o seu torturador, mas ele limitou-se a sorrir antes de lhe despentear fugazmente os cabelos com a palma da mão. Aquele gesto era outra coisa que Stephanie achava irritante, mesmo quando tinha os cabelos despenteados, como era seguramente o caso naquele momento; era aviltante, e dissera isso mesmo a Daniel em diversas ocasiões. Fazia-a sentir que ele a considerava uma criança ou, pior ainda, um animal de estimação.

 

Stephanie observou Daniel a ir para a casa de banho. Deitou-se de costas e piscou os olhos por causa da luz. O candelabro de vidros multicoloridos estava aceso por cima dela. Lá fora, ainda estava escuro como breu. Respirou fundo. Parecia que a única coisa que queria fazer era voltar a dormir. Mas depois as teias de aranha da sua mente começaram a desaparecer, e ela pensou no quanto queria entrar no avião com as fibras do sudário e sair de Itália.

 

Estás acordada? gritou Daniel da casa de banho.

 

Já estou levantada! gritou Stephanie em resposta. Não teve qualquer remorso em mentir, não quando ele fora tão impiedoso a acordá-la. Espreguiçou-se, bocejou e sentou-se na cama. Depois de afastar uma curta sensação semelhante a náuseas, levantou-se.

 

Um duche operou maravilhas nos dois. Apesar de fingir o contrário, Daniel estava longe de se sentir desperto inicialmente e, quando o despertador tocou, teve quase tanta dificuldade para sair da cama como Stephanie. No entanto, quando saíram da casa de banho, estavam ambos muito animados a pensar que iam para o aeroporto. Vestiram-se e arrumaram as coisas com grande eficiência. Às cinco e um quarto, Daniel telefonou para a recepção para lhe chamarem um táxi e para mandarem alguém vir buscar as malas.

 

É difícil acreditar que ao fim da tarde já estaremos em Nassau disse Daniel, enquanto fechava e trancava a sua mala de viagem. O itinerário do dia era voar para Londres na Air France via Paris, fazer a ligação para a British Airways, depois seguir directamente para a Ilha de New Providence nas Bahamas.

 

O que tenho dificuldade em compreender é que vamos do Inverno para o Verão num único dia. Há séculos que não visto uns calções e um top de Verão. Estou ansiosa.

 

O paquete chegou e levou a bagagem para o átrio num carrinho, com instruções para a colocar no táxi. Enquanto Stephanie secava o cabelo, Daniel ficou à porta da casa de banho.

 

Acho que devíamos falar ao gerente sobre o intruso disse Stephanie por cima do barulho do secador de cabelo.

 

Que é que isso adiantaria?

 

Não muito, suponho, mas acho que eles gostariam de saber. Daniel olhou para o relógio.

 

Acho que nem vale a pena pensar nisso. Não temos tempo. São quase cinco e meia. Precisamos de ir para o aeroporto.

 

Por que é que não vais pagar a conta? sugeriu Stephanie. Eu desço dentro de dois minutos.

 

Nassau, cá vamos nós disse Daniel ao sair.

 

O toque insistente do telefone arrancou Michael das profundezas do sono. Antes de estar completamente acordado, já tinha o telefone encostado à orelha. Era o padre Peter Fleck, o outro secretário particular do cardeal

O’Rourke.

 

Está acordado?perguntou Peter. Desculpe telefonar-lhe a esta hora.

 

Que horas são? perguntou Michael. Procurou o interruptor do candeeiro da mesa-de-cabeceira, e depois tentou ver as horas no relógio.

 

Faltam vinte e cinco minutos para a meia-noite aqui em Nova Iorque. Que horas são aí em Itália?

 

São cinco e trinta e cinco da manhã.

 

Desculpe, mas quando me telefonou esta tarde disse que era imperativo falar com o cardeal o mais depressa possível, e Sua Eminência acabou de chegar à residência. Deixe-me passar-lhe o telefone.

 

Michael esfregou o rosto e bateu na face para acordar. Instantes depois, a voz suave do cardeal James O’Rourke ouviu-se ao ouvido de Michael. Também ele pediu desculpa por ligar a uma hora tão inconveniente e explicou que fora obrigado a permanecer num compromisso interminável com o governador, que começara ao fim da tarde.

 

Lamento ter de aumentar os seus problemas disse Michael, com alguma trepidação. Não se deixava enganar pela humilde graciosidade daquele homem poderoso. Por detrás da aparente benevolência, Michael estava plenamente consciente de como ele podia ser impiedoso, especialmente com um subordinado que fosse suficientemente tolo ou azarado para lhe desagradar. Ao mesmo tempo, podia ser extraordinariamente generoso com aqueles que lhe agradavam.

 

Está a insinuar que houve um problema em Turim? perguntou o cardeal.

 

Infelizmente, simdisse Michael. As duas pessoas que o senador mandou para recolher a amostra do sudário são cientistas biomoleculares.

 

Compreendo comentou James.

 

São o Dr. Daniel Lowell e a Dr.a Stephanie D’Agostino.

 

Compreendo repetiu James.

 

Devido às suas instruções continuou Michael, percebi que ficaria perturbado com este desenvolvimento devido às implicações com os testes não autorizados. A boa notícia é que, em conjunto com monsenhor Mansoni, consegui que a amostra seja devolvida à Igreja.

 

Ohdisse James simplesmente. Seguiu-se uma pausa desagradável. Não era de maneira nenhuma a reacção que Michael esperava. Neste ponto da conversa, contava com uma reacção inquestionavelmente positiva do cardeal.

 

Obviamente, o objectivo é evitar mais indignidades científicas para o sudário acrescentou Michael rapidamente. Sentiu um arrepio a subir-lhe pela coluna. A sua intuição estava a dizer-lhe que a conversa ia tomar um rumo inesperado.

 

Os doutores Lowell e D’Agostino concordaram em entregar a amostra voluntariamente?

 

Não exactamente admitiu Michael. A amostra será confiscada pelas autoridades italianas quando fizerem o check in de um voo para Paris esta manhã.

 

E que é que vai acontecer aos cientistas?

 

Creio que serão detidos.

 

É verdade que não tiveram de tocar no sudário propriamente dito para arranjar esta amostra, como o senador Butler sugeriu?

 

É verdade. A amostra era um pedaço minúsculo de um bocado que foi cortado do sudário há vários anos.

 

Foi entregue aos cientistas em estrita confidencialidade, sem documentação oficial?

 

Que eu saiba, sim declarou Michael. Eu deixei claro que esse era o seu desejo específico Michael começou a transpirar, certamente não tão copiosamente como enquanto estivera escondido no quarto do hotel no dia anterior, mas com um estímulo semelhante: medo. Sentia um nó de ansiedade a crescer no estômago e a retesar-lhe os músculos. O tom das perguntas do cardeal tinha uma dureza quase imperceptível que a maior parte das pessoas não teria detectado, mas que Michael ouviu e reconheceu imediatamente. Sabia que Sua Eminência estava a ficar cada vez mais zangado.

 

Padre Maloney! Para sua informação, o senador já apresentou a legislação prometida que limita a responsabilidade civil da caridade, e acredita agora que com o seu apoio tem maiores perspectivas de ser aprovada do que quando propôs a ideia na sexta-feira. Não preciso de lhe explicar o valor desta legislação para a Igreja. No que diz respeito à amostra do sudário, sem documentação oficial, mesmo que sejam efectuados alguns testes prejudiciais, os resultados não podem ser autenticados e poderão ser simplesmente repudiados.

 

Desculpe disse Michael, num tom pouco convincente. Pensei que Sua Eminência quereria a amostra de volta.

 

Padre Maloney, as suas instruções eram claras. Não foi mandado a Turim para pensar. Foi aí para descobrir quem recebia a amostra e segui-la, se necessário, para ver a quem era entregue. Não tinha nada que arquitectar a devolução da amostra e colocar desse modo em perigo um processo legislativo de extrema importância.

 

Não sei o que dizer disse Michael com dificuldade.

 

Não diga nada. Em vez disso, aconselho-o vivamente a reverter o que colocou em movimento, se não for já um facto consumado; isto é, claro, a menos que o seu objectivo imediato em termos de carreira seja o ser nomeado para uma pequena paróquia, algures nas Montanhas Catskill. Eu não quero que a amostra do sudário seja confiscada, e também não quero que os cientistas americanos sejam presos, que é um termo mais correcto para o que os aguarda do que o eufemismo que usou. Mais importante, não quero que o senador Butler me telefone a dizer que retirou o projecto de lei, pois creio que será a reacção dele se o que me descreveu ocorrer. Estou a ser claro, padre?

 

Perfeitamente claro gaguejou Michael. Deu por si a falar para o boneco. O cardeal desligara abruptamente.

 

Michael engoliu em seco com alguma dificuldade, enquanto pousava o auscultador. Ser mandado para uma pequena paróquia nos confins do estado de Nova Iorque era o equivalente da Igreja a ser mandado para a Sibéria.

 

Michael pegou imediatamente no auscultador do telefone. O avião dos cientistas americanos só partia depois das sete. Isso significava que talvez ainda conseguisse evitar um desastre para a sua carreira. Primeiro, telefonou para o Grand Belvedere e ficou a saber que os americanos já tinham saído. A seguir, tentou falar com monsenhor Mansoni, mas o prelado saíra da sua residência há meia hora para tratar de um assunto da Igreja no aeroporto.

 

Galvanizado com estas revelações, Michael correu para as roupas que estavam cuidadosamente dobradas numa cadeira ao lado da cama. Sem fazer a barba ou tomar duche, ou sequer ir à casa de banho, saiu do quarto a correr. Como não estava disposto a esperar pelo elevador, desceu as escadas. Minutos depois, ofegante, teve uma certa dificuldade para abrir o Fiat alugado com a respectiva chave. Depois de ligar o motor, fez marcha-atrás e saiu a grande velocidade do parque de estacionamento.

 

Arriscando um olhar ao relógio, calculou que poderia chegar ao aeroporto pouco depois das seis. O problema principal é que não fazia a menor ideia do que ia fazer depois de lá chegar.

 

Vais dar-lhe uma gorjeta generosa? perguntou Stephanie, provocadora, quando o táxi subiu a rampa que conduzia à zona de partidas do aeroporto de Turim. A fobia que Daniel sentia por táxis estava a começar a irritá-la, embora o motorista tivesse ignorado por completo os seus pedidos insistentes para que abrandasse. De cada vez que Daniel falava, o homem limitava-se a encolher os ombros e dizia, «Não inglês!». Ao mesmo tempo, não tinha ido mais depressa do que os outros carros na auto-estrada.

 

Ele vai ter sorte se eu lhe pagar a viagem! retorquiu Daniel.

 

O táxi parou no mar de outros táxis e carros que estavam a descarregar passageiros. Em contraste com o centro da cidade, no aeroporto já havia uma grande azáfama. Stephanie e Daniel saíram, juntamente com o motorista. Entre os três, tiraram toda a bagagem do pequeno táxi e empilharam-na no passeio. A resmungar, Daniel pagou ao homem e ele foi-se embora.

 

Como é que vamos fazer isto? perguntou Stephanie. Tinham mais malas do que os dois podiam razoavelmente carregar. Ela olhou para a área imediata.

 

Não me agrada a ideia de deixar as coisas sem vigilância disse Daniel.

 

Concordo. Que tal um de nós ir buscar um carrinho, enquanto o outro fica a tomar conta?

 

Parece-me boa ideia. Qual é a tua preferência?

 

Como tu tens os bilhetes e os passaportes, por que é que não pegas neles e preparas tudo enquanto eu vou procurar o carrinho?

 

Stephanie internou-se no meio da multidão, mantendo os olhos atentos a um carrinho, mas estavam todos a ser usados. Teve mais sorte no interior do terminal, especialmente depois de passar para lá dos balcões de check in para a zona de segurança. Os viajantes que passavam pela segurança para as portas de embarque tinham de deixar os carrinhos no terminal. Stephanie pegou num que estava abandonado e voltou para trás. Encontrou Daniel sentado em cima da mala maior, a bater o pé com impaciência.

 

Demoraste imenso queixou-se.

 

Desculpa, mas fiz o melhor que pude. Este sítio está cheio de gente. Deve haver diversos voos a sair quase ao mesmo tempo.

 

Juntos, carregaram todas as malas com excepção das malas dos computadores portáteis no carrinho e fizeram uma pilha bastante precária. Puseram os computadores portáteis ao ombro. Enquanto Daniel empurrava, Stephanie caminhou ao lado para evitar que a pilha de malas se desmoronasse.

 

Reparei que há muitos polícias por aquidisse Stephanie, enquanto entravam no terminal. Nunca tinha visto tantos. Claro que os carabinieri italianos dão nas vistas com os seus fatos espalhafatosos.

 

Pararam a cerca de seis metros da entrada do terminal. A multidão redemoinhava à volta deles como um rio de pessoas. Parados onde estavam, formavam uma pequena ilha.

 

Para onde é que vamos? perguntou Daniel. Algumas pessoas empurraram-no. Não vejo nenhum cartaz da Air France.

 

Os voos estão listados nos ecrãs de plasma ao lado de cada balcão de check in disse Stephanie. Espera aqui! Eu vou procurar o nosso voo.

 

Stephanie levou apenas alguns minutos a encontrar o balcão certo. Quando voltou para junto de Daniel, descobriu que ele se desviara para um canto para fugir do fluxo de pessoas que entravam. Stephanie apontou na direcção que tinham de seguir, e começaram a dirigir-se para lá.

 

Percebo o que queres dizer em relação à políciacomentou Daniel. Meia dúzia de polícias passaram por mim quando tu não estavas. O que me chamou a atenção foram as metralhadoras.

 

Há um grupo atrás do balcão onde temos de fazer o check in disse Stephanie.

 

Puseram-se atrás da fila bastante comprida para fazer o check in do voo de Paris. Cinco minutos arrastaram-se, enquanto a fila avançava a passo de caracol.

 

Que diabo estão eles a fazer lá à frente? perguntou Daniel. Pôs-se em bicos de pés para tentar ver o que estava a atrasar as coisas. Não consigo imaginar o que é que demora tanto. Será que a polícia está a atrasar o processo?

 

Desde que não fiquemos engarrafados ao passar pela segurança, acho que não vai haver problema. Stephanie olhou de relance para o relógio. Eram seis e vinte.

 

Como este balcão é apenas para o nosso voo, estamos todos no mesmo barco. Daniel ainda estava a olhar para a frente da fila.

 

Não tinha pensado nisso, mas tens razão.

 

Meu Deus! exclamou Daniel.

 

Que é que foi agora? a exclamação de Daniel e a sua mudança de tom fizeram Stephanie perceber até que ponto ainda estava tensa. Tentou seguir a linha de visão de Daniel, mas não conseguiu ver por cima das pessoas que estavam à sua frente.

 

Monsenhor Mansoni, o padre que nos deu a amostra do sudário, está lá à frente com a polícia, atrás do balcão de check in.

 

Tens a certeza? perguntou Stephanie. Parecia uma coincidência demasiado grande. Tentou ver novamente, mas não conseguiu.

 

Daniel encolheu os ombros. Olhou mais uma vez para o balcão antes de se concentrar em Stephanie.

 

Não há dúvida de que parece ele, e não posso imaginar que existam muitos padres tão obesos.

 

Achas que isto tem alguma coisa a ver connosco?

 

Não posso imaginar, embora a combinação da presença dele com o facto de alguém ter tentado levar a amostra do sudário do nosso quarto de hotel me deixe inquieto.

 

Não estou a gostar disto disse Stephanie. Não estou a gostar nada disto.

 

A fila à frente deles avançou. Daniel hesitou, inseguro do que fazer até o homem imediatamente atrás o empurrar para a frente com impaciência. Daniel empurrou o carrinho cheio de malas, mas ficou deliberadamente escondido atrás dele. Ele e Stephanie estavam agora a quatro pessoas da frente da fila. Stephanie deu alguns passos para o lado e olhou sub-repticiamente em frente. Voltou de imediato para junto de Daniel, atrás do carrinho.

 

De certeza que é o monsenhor Mansoni disse ela. Ela e Daniel olharam um para o outro.

 

Que diabo vamos fazer? perguntou Daniel, aflito.

 

Não sei. É a polícia que me incomoda, não o padre.

 

Obviamente retorquiu Daniel, zangado.

 

Onde está a amostra do sudário?

 

Já te disse. Na mala do meu computador portátil.

 

Hei, não me grites.

 

A fila avançou. Com o homem atrás deles a respirar em cima do pescoço de Daniel, ele sentiu-se obrigado a empurrar o carrinho para a frente. O aproximarem-se mais do balcão exacerbou a ansiedade dos dois.

 

Talvez não passe de um caso de imaginações demasiado férteis sugeriu Stephanie, esperançada.

 

É uma coincidência grande de mais para explicar como simples paranóia respondeu Daniel. Se fosse apenas o padre ou apenas a polícia seria uma coisa, mas com os dois naquele balcão em particular, é outra coisa completamente diferente. O problema é que vamos ter de tomar uma decisão. Quero dizer, não fazer nada é uma espécie de decisão, porque dentro de alguns minutos estaremos à frente deles, e o que vai acontecer acontecerá.

 

Neste ponto, que é que podemos fazer? Estamos presos no meio de uma multidão de pessoas e carregados com um camião de bagagem. No pior dos casos, entregamos a amostra, se é que é isso que eles querem.

 

Não haveria tantos polícias uniformizados se eles estivessem simplesmente a planear confiscar a amostra.

 

Desculpem-me disse uma voz ofegante e em pânico atrás deles, num inglês americano irrefutável.

 

Stephanie e Daniel estavam tão tensos que as suas cabeças dispararam para trás em uníssono e confrontaram o clérigo obviamente perturbado com olhos raivosos e insistentes. O peito do homem estava a subir e a descer, presumivelmente do esgotamento da corrida, enquanto gotas de suor lhe salpicavam a testa. A aumentar a aparência enlouquecida tinha um rosto por barbear e uma melena de cabelos ruivos despenteados, ambos em forte contraste com as roupas de padre razoavelmente direitas. Aparentemente, ele chegara até junto de Stephanie e de Daniel abrindo caminho à força pelas filas de check in, a avaliar pelas expressões de irritação dos viajantes das redondezas.

 

Dr. Lowell e Dr.a D’Agostino! disse o padre Michael Maloney, a transpirar. É imperativo que fale convosco.

 

Scusi! disse o homem atrás de Daniel, irritado. Gesticulou para Daniel se mover. A fila avançara e, embora estivesse a observar Michael, Daniel teve de se mexer.

 

Daniel fez sinal ao homem para passar à frente, o que ele fez de boa vontade.

 

Michael olhou rapidamente por cima do carrinho de bagagem de Daniel e Stephanie. Ao avistar o monsenhor e a polícia, baixou-se e espremeu-se ao lado de Daniel.

 

Só temos alguns segundos disse num sussurro forçado. Vocês não podem fazer o check in no voo para Paris!

 

Como é que sabe os nossos nomes? perguntou Daniel.

 

Não há tempo para explicações.

 

Quem é o senhor? perguntou Stephanie. Havia alguma coisa no homem que não lhe era estranha, mas não conseguia lembrar-se de onde é que o conhecia.

 

Não importa quem sou. O que é importante é que vocês estão prestes a ser presos, e a amostra do sudário será confiscada.

 

Já me lembro de si disse Stephanie. O senhor estava no café ontem, quando nos entregaram a amostra.

 

Por favor! implorou Michael.Têm de sair daqui. Eu tenho um carro. Vou levar-vos para fora da Itália.

 

De carro? perguntou Daniel, como se a sugestão fosse ridícula.

 

É a única maneira. Aviões, comboios e todos os transportes de massas estarão vigiados, mas especialmente os aviões e em particular este voo para Paris. Estou a falar a sério; vocês estão prestes a ser detidos e metidos numa prisão. Acreditem em mim!

 

Daniel e Stephanie trocaram olhares. Estavam ambos a pensar a mesma coisa: a chegada repentina e o aviso daquele padre perturbado era inacreditavelmente inesperada, o que conferia uma credibilidade poderosa ao que tinha sido uma mera suposição temida alguns segundos antes. Não iam fazer o check in para o voo de Paris.

 

Daniel começou a virar o carrinho das bagagens. Michael agarrou-lhe no braço.

 

Não há tempo para toda essa bagagem.

 

Que é que está a dizer? perguntou Daniel.

 

Michael esticou o pescoço para olhar fugazmente para o balcão a uns meros seis metros de distância. Instantaneamente, baixou a cabeça como uma tartaruga, encolhendo os ombros.

 

Raios! Agora fui visto, o que significa que estamos todos a segundos do desastre. A menos que estejam interessados em passar algum tempo na prisão, temos de nos despachar. Vocês têm de deixar a maior parte da bagagem! Têm de tomar uma decisão em relação ao que é mais importante: a vossa liberdade ou a vossa bagagem.

 

Estão ali todas as minhas roupas de Verão disse Stephanie. Estava aterrada com a ideia.

 

Signore! disse o homem atrás de Daniel, com irritação óbvia, enquanto gesticulava para que Daniel avançasse. Vá! Vá via! Várias pessoas atrás dele também reclamaram. A fila avançara novamente, e ao bloquear a parte de trás, Daniel e Stephanie estavam a provocar uma cena.

 

Onde está a amostra? perguntou Michael. E os vossos passaportes?

 

Estão na mala que trago ao ombro respondeu Daniel.

 

Ainda bem! disse Michael. Mantenham as malas, mas deixem o resto! Mais tarde, eu mando o consulado americano tratar das vossas coisas e enviá-las para onde vocês irão, depois de Londres. Venham! Apertou o braço de Daniel enquanto apontava para longe do balcão.

 

Daniel olhou por cima do carrinho carregado mesmo a tempo de ver monsenhor Mansoni a agarrar o braço de um polícia uniformizado e a apontar na direcção deles. Com pressa crescente, Daniel concentrou-se em Stephanie.

 

Acho melhor fazermos o que ele diz.

 

Está bem! Deixamos as malas replicou Stephanie com resignação, erguendo os braços.

 

Sigam-me! disse Michael. Foi à frente o mais depressa possível, e afastou-os do carrinho das bagagens. Viajantes na área imediata, que estavam apertados nas suas filas, separaram-se com relutância e lentamente. Enquanto repetia «scusi» vezes sem conta, Michael foi obrigado a empurrar pessoas para o lado e a tropeçar em bagagens de mão que estavam no chão. Daniel e Stephanie seguiram os passos dele como se Michael estivesse a abrir um trilho numa floresta de seres humanos. Era frustrantemente difícil avançar, e o esforço recordou a Stephanie um pesadelo que estava a ter quando Daniel a acordara à uma hora e meia atrás.

 

Gritos de alto vindos de detrás deles obrigaram-nos a maiores esforços. Depois de se libertarem das multidões que rodeavam os balcões de check in, o avanço foi muito mais fácil, mas Michael absteve-se de correr.

 

Irmos a correr para o terminal seria uma coisa explicou ele. Correr no sentido contrário vai dar imenso nas vistas. Andem rapidamente!

 

De repente, imediatamente à frente, apareceram dois polícias jovens, a aproximarem-se rapidamente deles com as metralhadoras em punho.

 

Oh, não! gemeu Daniel. Abrandou.

 

Continuem a andar! disse Michael por entre dentes cerrados. Atrás deles, havia agora uma comoção audível com gritos ininteligíveis.

 

Em rota de colisão, os dois grupos aproximaram-se rapidamente um do outro. Tanto Daniel como Stephanie tinham a certeza de que os polícias se aproximavam para os deter, e só no último momento é que se aperceberam de que não era verdade. Ambos suspiraram de alívio quando os polícias passaram por eles sem sequer os olharem, presumivelmente com pressa de chegar ao furor na área de check in.

 

Outros viajantes começaram a parar para olhar para os polícias, com diversos graus de medo estampados no rosto. Depois do 11 de Setembro, perturbações em aeroportos de todo o mundo, fosse qual fosse a causa, punham as pessoas com os nervos em franja.

 

O meu carro está no último piso das chegadas explicou Michael, enquanto se dirigia para as escadas. Não consegui deixá-lo no piso das partidas.

 

Desceram as escadas o mais rapidamente possível. Lá em baixo, o terminal estava relativamente deserto, uma vez que os voos ainda não tinham começado a chegar. As únicas pessoas visíveis eram uma mão cheia de funcionários do aeroporto a prepararem-se para a invasão de passageiros e bagagens, e funcionários das agências de aluguer de automóveis a preparar os seus quiosques.

 

Agora é ainda mais importante não nos apressarmos disse Michael em voz baixa. Algumas pessoas olharam para eles, mas apenas por instantes, antes de voltarem ao trabalho. Michael levou Stephanie e Daniel para as portas principais, que abriram automaticamente. Saíram rapidamente, mas depois Michael parou. Esticou os braços de lado e fez os outros pararem também.

 

Isto não parece nada bomgemeu Michael. Infelizmente, aquele é o meu carro alugado.

 

Cerca de cinquenta metros adiante, uma carrinha Fiat castanha com os piscas ligados estava estacionada junto ao passeio. Imediatamente atrás, via-se um carro da polícia, azul e branco, com a luz azul a piscar. As cabeças dos dois agentes estavam delineadas no banco da frente.

 

Que é que vamos fazer? perguntou Daniel, ansioso. Que tal alugarmos outro?

 

Não me parece que as agências de aluguer de automóveis já estejam abertas retorquiu Michael. E podia demorar demasiado tempo.

 

Que tal um táxi? sugeriu Stephanie. Temos de nos afastar deste aeroport