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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CORPO DE DELITO / Patricia D. Cornwell
CORPO DE DELITO / Patricia D. Cornwell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CORPO DE DELITO

 

       Cadáveres estendidos em macas de metal não oferecem um espetáculo propriamente agradável. Vítimas de assassinato, menos ainda. Para a dra. Kay Scarpetta, porém, os corpos de Beryl Madison e de Cary Harper podem se transformar em aliados importantíssimos. Ela fará tudo para arrancar deles algumas pistas que possam auxiliar na solução do caso. Munida de facas, serras, tubos de ensaio e microscópios, a dra. Scarpetta vai dialogando com a carne sem vida de um grande escritor americano e de sua jovem e bela filha adotiva.

       Uma das alunas mais destacadas do curso de medicina em Cornell, a dra. Kay Scarpetta surpreendeu colegas e professores ao resolver dedicar-se à medicina legal. Para uma jovem brilhante como ela, havia uma série de outras opções que a maioria das pessoas julgaria mais convenientes. Nada, porém, atraía mais a jovem Kay Scarpetta do que a possibilidade de ficar montando e desmontando, dia após dia, os diversos mecanismos da morte.

       Cary Harper e sua filha adotiva, porém, não são apenas mais dois corpos. O mistério em torno do assassinato é completo. Torna-se ainda maior quando a irmã de Cary morre subitamente, após haver recebido várias ameaças. Por que alguém estaria se dedicando com tanto método e violência ao extermínio de toda uma família?

       Uma série de pistas falsas ou incompletas vão distanciando cada vez mais a polícia do criminoso. Toda a trama, porém, começa a ser desvendada a partir do momento em que a dra. Scarpetta recebe a visita de um desequilibrado que diz ter acesso à "alma" do assassino. Sem querer, o estranho acaba fornecendo a pista correta para a identidade do criminoso. Ele agora tem um nome e está à solta. Envolvida demais no caso, a jovem legista começa a receber telefonemas ameaçadores. Seria ela a próxima da lista? A cada dia que passa esse encontro terrível parece mais inevitável...

      

      

                        13 de agosto KEY WEST

      

       Para M,

       Passaram-se trinta dias, entre matizes de cores ensolaradas e mudanças de vento. Penso demais, e não sonho.

       Dedico a maioria das tardes a escrever, no terraço do Louie's, olhando para o mar. A água, estampada de verde-esmeralda nas restingas, azula no fundo. O céu não termina nunca, as nuvens movem-se brancas, sempre, como fumaça. Uma brisa constante atenua os ruídos dos banhistas e veleiros que ancoram para lá dos recifes. O amplo telhado do terraço permite que eu fique à mesa, no final da tarde, quando costuma cair uma pancada súbita, sentindo o cheiro da chuva e vendo a água se arrepiar como pêlo alisado ao contrário. Chega a fazer sol e chuva, ao mesmo tempo.

       Ninguém me incomoda. Já pertenço à família do restaurante, como Zulu, o labrador preto que corre espalhando água, atrás de Frisbees, e os gatos vadios que se aproximam silenciosamente, para aguardar educados que lhes sirvam as sobras. O vigia de quatro patas do Louie's alimenta-se melhor do que qualquer ser humano. Conforta-me ver o mundo a tratar suas criaturas com gentileza. Não posso reclamar dos dias.

       É das noites que tenho medo.

       Quando meus pensamentos rastejam de volta para os vãos sombrios, e espalham suas teias terríveis, eu me perco nas ruas da Cidade Velha, atraída pelos bares barulhentos como uma mariposa pela luz. Walt e PJ sofisticaram meus hábitos noturnos, até fazer deles uma arte. Walt volta para a pensão primeiro, ao anoitecer, pois as vendas das jóias em prata cessam depois que escurece, em Mallory Square. Abrimos as garrafas de cerveja e aguardamos a chegada de PJ. Depois saímos, vamos de bar em bar, em geral terminando a noite no Sloppy Joe's. Estamos nos tornando inseparáveis. Espero que os dois permaneçam inseparáveis, para sempre. Seu amor não me espanta mais. Nada me espanta mais, fora a morte que vislumbro.

       Homens emaciados e abatidos, olhos qual janelas, pelas quais enxergo almas atormentadas. A AIDS é um holocausto, a consumir os atrativos desta pequena ilha. Estranho que eu me sinta em casa, com os excluídos e moribundos. Talvez viva menos que todos. Quando passo a noite em claro, escutando o zumbido da ventoinha da janela, as imagens do modo como tudo acontecerá me assombram.

       Sempre que ouço o telefone tocar, eu me lembro. Sempre que ouço alguém conversando atrás de mim, eu me viro. De noite, verifico o closet, olho atrás da cortina e debaixo da cama. Depois escoro a porta com uma cadeira.

       Meu Deus do céu, não quero ir para casa, Beryl

        

                  30 de setembro, KEY WEST

      

       Para M,

       Ontem, no Louie's, Brent surgiu no terraço, dizendo que o telefonema era para mim. Meu coração disparou quando entrei, mas só havia ruídos de ligação interurbana, e a linha caiu.

       Imagina como fiquei! Tento me convencer de que ando paranóica demais. Ele teria dito algo, para se deleitar com meu medo. Impossível que saiba onde estou, impossível ter me localizado aqui. Um dos garçons chama-se Stu. Brigou recentemente com um amigo, no norte, e mudou-se para cá. Talvez o amigo tenha telefonado, e a ligação estivesse ruim. Pode ter perguntado por "Stu", e não por "Straw", e quando atendi a linha caiu.

       Gostaria de nunca ter revelado meu apelido a ninguém. Sou Beryl. Sou Straw. Estou com medo.

       O livro não está pronto. Meu dinheiro praticamente acabou, e o tempo piorou. Venta ferozmente nesta manhã escura. Permaneci no quarto; se tentasse trabalhar no Louie's, o vento levaria as folhas de papel para o mar. As luzes da rua piscaram. As palmeiras lutam contra o vento, as folhas viradas como guarda-chuvas do avesso. O mundo ruge, para lá da minha janela, qual animal ferido, e, quando a chuva bate no vidro, parece que um exército escuro marcha contra Key West, para sitiar a cidade.

       Devo partir em breve. Sentirei saudades da ilha. Sentirei saudades de PJ e de Walt. Com eles sinto-me segura, protegida. Não sei o que vou fazer quando voltar a Richmond. Talvez seja melhor mudar depressa, embora não saiba para onde ir.

                      Beryl

    

       Depois de recolocar as cartas de Key West em seu envelope pardo apanhei um pacote de luvas cirúrgicas, que guardei na maleta médica preta, e tomei o elevador para descer um andar, até o necrotério.

       O piso frio do corredor fora esfregado, estava úmido; a sala de autópsia trancada, inativa no momento. Na diagonal do elevador encontrava-se a geladeira de aço inoxidável, e, ao abrir a porta maciça, fui recebida pelo sopro gelado de ar nauseabundo, tão familiar. Localizei o cadáver sem me preocupar com a etiqueta de identificação. Reconheci o pé miúdo que saía para fora do lençol branco. Já conhecia cada centímetro do corpo de Beryl Madison.

       Olhos azuis embaçados me contemplavam inertes, pelas pálpebras entreabertas. O rosto frouxo exibia cortes pálidos, em sua maioria no lado esquerdo. No pescoço, aberto até a espinha, viam-se os músculos rompidos, que antes o sustentavam. Próximos uns aos outros, do lado esquerdo do peito, contei nove ferimentos a faca, furos similares a botões vermelhos, quase perfeitamente verticais. Facadas desferidas em rápida seqüência, uma após a outra, com tamanha violência que o cabo deixara marcas na pele. Os cortes no antebraço mediam entre um e doze centímetros de comprimento. Contando as duas facadas nas costas, e excluindo as perfurações no peito e a garganta aberta, cheguei a um total de vinte e sete cortes, todos eles infligidos quando a moça tentava desviar de uma lâmina larga, afiada.

       Não precisaria de fotografias ou diagramas do corpo. Ao fechar os olhos, eu via o rosto de Beryl Madison. Recordava em detalhe a revoltante violência cometida contra seu corpo. O pulmão esquerdo fora perfurado quatro vezes. As artérias carótidas, praticamente seccionadas. Aorta, artéria pulmonar e pericárdio foram atingidos. Ela já estava morta, para todos os efeitos, quando o maníaco praticamente a decapitou.

       Eu procurava algum sentido naquilo. Alguém a ameaçara de morte. Ela fugira para Key West, aterrorizada até a alma. Não queria morrer. Na noite de seu retorno a Richmond, fora assassinada.

         Por que permitiu que ele entrasse em sua casa? Meu Deus, por quê?

       Repondo o lençol, empurrei o corpo para o fundo da geladeira, junto com os outros cadáveres. No dia seguinte, àquela hora, ela já teria sido cremada, e as cinzas enviadas para a Califórnia. Beryl Madison faria trinta e quatro anos no mês seguinte. Não tinha ninguém no mundo, nenhum parente vivo, ao que constava. Exceto uma meia-irmã em Fresno. A porta pesada se fechou.

       O asfalto do estacionamento, nos fundos do escritório do médico-legista titular, estava quente, reconfortante sob meus pés, e sentia o cheiro dos dormentes creosotados da ferrovia vizinha, sob o sol forte atípico. Estávamos no final de outubro, no dia das bruxas.

       A porta dupla estava escancarada, um de meus assistentes do necrotério molhava o concreto com uma mangueira. Brincalhão, ele desviou o jato em minha direção, o suficiente para que algumas gotas respingassem na canela.

       "Ei, doutora Scarpetta, vai matar o serviço, hoje?", gritou.

       Passava um pouco das quatro. Eu raramente saía antes das seis.

       "Quer uma carona para algum lugar?", acrescentou.

       "Muito obrigada, já tenho transporte", respondi.

       Nasci em Miami. Conhecia a região onde Beryl se escondera durante o verão. Quando fechei os olhos, vi as cores intensas de Key West. Verde, azul, crepúsculos magníficos, só Deus mesmo para produzi-los. Beryl Madison não deveria ter voltado para casa nunca mais.

       Um LTD Crown Victoria zero-quilômetro, reluzente como se fosse de vidro preto, entrou lentamente no estacionamento. Esperava o Plymouth capenga de sempre, e levei um susto quando o vidro da janela do Ford novinho deslizou, zumbindo. "Está esperando o ônibus, por acaso?" O espelho escuro refletia minha expressão de surpresa. O tenente Pete Marino tentou um ar blasé, quando a porta se abriu com um estalo eletrônico.

       "Estou impressionada", falei, examinando o interior luxuoso.

       "Fui promovido." Ele acelerou um pouco. "Que tal?"

       Depois de aturar calhambeques por muitos anos, Marino finalmente conseguira um carrão.

       Notei o orifício no painel, quando tirei um cigarro. "Andou usando a lâmpada de leitura, ou apenas o barbeador elétrico?"

       "Dei azar", queixou-se. "Um malandro roubou o acendedor. No lava-rápido, sabe? Logo no primeiro dia em que saí com o carro, dá para acreditar? Fiquei furioso porque a máquina entortou minha antena; dei uma bronca no encarregado..."

       Às vezes, Marino agia como minha mãe.

       "...e nem percebi que haviam roubado o acendedor, diacho." Ele parou, enfiando a mão no bolso, enquanto eu revirava a bolsa, atrás de uma caixa de fósforos.

       "Doutora, não disse que ia parar de fumar?", perguntou, irônico, ao passar o isqueiro Bic.

       "E vou mesmo", resmunguei. "Amanhã."

      

       Na noite da morte de Beryl Madison eu havia saído para ver uma ópera pomposa, e depois beber num pub inglês que exagerava nos preços. Meu par, um juiz aposentado, foi perdendo a pompa conforme exagerava na bebida. Não levei o bip. Incapaz de me localizar, a polícia convocara Fielding, meu principal assistente, a comparecer à cena do crime. Aquela seria minha primeira visita à casa da escritora assassinada.

       Windsor Farms não era bem o tipo de bairro em que se poderia esperar que ocorresse um crime tão hediondo. Casas grandes, distantes da rua, exibiam gramados impecáveis. Em sua maioria, contavam com alarme contra ladrões e ar-condicionado, o que eliminava a necessidade de deixar a janela aberta. O dinheiro não comprava a eternidade, mas garantia um certo nível de segurança. Não me recordava de um caso anterior de homicídio em Farms.

       "A moça tinha bastante dinheiro, obviamente", comentei, quando Marino parou num cruzamento.

       Uma senhora de cabelos brancos conduzia um maltese pela coleira, e olhou para nós quando o cão cheirou um tufo de grama, preparando-se para o inevitável.

       "Um monte de pêlos inútil", ele disse, encarando desdenhosamente a senhora e seu cachorro, que retomavam o passeio. "Odeio esses bichos. Latem até dizer chega, mijam em qualquer lugar. Se é para ter cachorro, que seja um bem feroz, pelo menos."

        "Muitas pessoas só desejam companhia", falei.

       "É." Ele fez uma pausa, e retomou o tema anterior. "Beryl Madison tinha dinheiro, nasceu em berço de ouro. Pelo jeito, torrou boa parte das economias lá em Queer West. Ainda não terminamos o levantamento da papelada que ela deixou."

       "Teria gasto tudo?"

       "Pelo jeito, não", ele respondeu. "Descobrimos que ganhava bem, como escritora — era um sucesso. Usava vários pseudônimos. Adair Wilds, Emily Stratton, Edith Montague." Os reflexos escuros se viraram para mim, novamente.

       Nenhum dos nomes soava familiar, exceto Stratton. "Seu nome do meio era Stratton", lembrei.

       "Daí o apelido, Straw."

       "Isso e o cabelo louro", 1 completei.

       Beryl tinha cabelo loiro, cor de mel, com reflexos dourados sob o sol. Miúda, seus traços eram bem delicados, refinados. Devia chamar a atenção, em vida. Difícil dizer. Eu só conhecia uma foto dela, viva. A da carteira de motorista.

       "Quando falei com a meia-irmã", Marino explicou, "descobri que os amigos chamavam Beryl de Straw. O destinatário de suas cartas de Keys conhecia o apelido, tenho a impressão." Ele ajustou o pára-sol. "Não consigo imaginar um motivo para que ela tenha xerocado as cartas. Puxa vida, conhece alguém que tire cópias da correspondência pessoal que envia?"

       "Você acaba de mostrar que a moça tinha mania de registrar tudo", comentei.

       "Isso mesmo. O que me intriga. Suponha que o maluco a tenha ameaçado por vários meses. Como agia? O que dizia? Não sabemos, pois ela não gravou os telefonemas, nem escreveu a respeito. A moça tira cópias das cartas pessoais, mas não anota nada, quando um sujeito ameaça matá-la. Não faz sentido, creio."

       "Nem todo mundo pensa como nós."

       "Bem, tem gente que nem pensa, quando se vê no meio de uma confusão, e não quer que ninguém saiba do que se trata", ele retrucou.

       Embicando no acesso, ele estacionou em frente à porta da garagem. O mato crescera muito, salpicado de hastes longas de dentes-de-leão, que balançavam com a brisa. Um aviso de VENDE-SE havia sido colocado em cima da caixa de correio. A fita amarela, lacrando a porta da frente, ainda indicava que ali ocorrera um crime.

       "O carro dela está na garagem", Marino disse, ao descer. "Um Honda Accord EX preto, no vinho. Alguns detalhes do carro podem ser interessantes para você."

       Paramos no acesso, olhando em volta. Os raios oblíquos do sol aqueciam meus ombros e nuca. No ar frio do outono, apenas o zumbido dos insetos rompia o silêncio. Respirei fundo, lentamente. Senti-me, de repente, muito cansada.

       A casa, em estilo moderno, exibia linhas retas de uma simplicidade rigorosa. Janelas grandes ocupando toda a fachada, decks de tábuas no piso inferior que lembravam um convés de navio. Construída em pedra e madeira escura, era o projeto típico para agradar um casal jovem, de posses: cômodos amplos, pé-direito alto, muito dinheiro gasto em espaços inúteis. A viela, Windham Drive, terminava logo em seguida. Por isso ninguém viu nem ouviu nada, só quando já era tarde demais. Carvalhos e pinheiros cercavam a casa, pelos lados, isolando a residência de Beryl dos vizinhos. Nos fundos, o declive acentuado de um barranco pontilhado de pedras grandes e arbustos terminava numa área de mata, que se estendia até onde a vista alcançava.

       "Puxa vida. Aposto que ali tem até cervo", Marino disse, olhando para a floresta. "Impressionante, né? A gente olha pela janela, num lugar desses, e acha que é o dono do mundo. Já imaginou que lindo, quando neva? Eu adoraria morar num lugar assim. Acender a lareira no inverno, pegar um gole de conhaque e olhar a paisagem pela janela. Ser rico deve ser ótimo."

       "Principalmente quando a pessoa está viva para aproveitar."

       "Acho que tem razão", ele disse.

       As folhas secas estalaram sob nossos pés, quando nos aproximamos da casa, pela face oeste. A porta da frente, ao nível do deck, possuía visor tipo olho mágico, que me fitava vazio. Marino jogou fora o cigarro, que descreveu um arco sobre a grama, e enfiou a mão no bolso da calça azul-clara. O paletó desabotoado exibia a barriga imensa, caída sobre o cinto, e a camisa aberta no peito enrugava-se em torno do coldre.

       Presa a uma etiqueta amarela, pois era uma das provas recolhidas, a chave para a fechadura de segurança surgiu em suas mãos. Espantei-me com o tamanho delas. Bronzeadas, rijas, mais pareciam luvas de beisebol. Jamais poderia ser dentista, ou músico. Cinqüentão, com cabelo grisalho ralo e rosto gasto como seus ternos, seu porte ainda impressionava as pessoas. Policiais corpulentos como ele raramente se envolvem em brigas. Os marginais olham, pensam duas vezes e metem o rabo entre as pernas.

       Paramos no retângulo de luz do vestíbulo, para calçar as luvas. A casa cheirava a mofo e poeira, como costuma ocorrer com residências fechadas por muito tempo. Embora a unidade de identificação do departamento de polícia de Richmond tivesse examinado detalhadamente a cena do crime, nada se encontrava fora de lugar. Marino garantiu que o local estaria com a mesma aparência de dois dias atrás, quando descobriram o corpo de Beryl.

       "Como pode ver", sua voz ecoou, "ela permitiu a entrada do elemento, com certeza. Nenhum sinal de arromba-mento; o alarme contra ladrões é de primeira, e não disparou no momento da entrada do sujeito." Apontando para o painel ao lado da porta, acrescentou: "No momento, está desativado. Mas funcionava perfeitamente, quando chegamos. Fazia um barulho dos diabos, aliás foi por isso que a encontramos".

      Ele explicou, em seguida, que o homicídio fora descoberto em conseqüência de um chamado por causa do alarme. Pouco depois das onze da noite, uni dos vizinhos de Beryl ligou para a polícia, avisando que o alarme tocava havia meia hora. Uma viatura que se encontrava nas proximidades compareceu ao local, e o policial encontrou a porta aberta. Em poucos minutos pedia apoio pelo rádio, aos berros.

       Encontramos a sala de estar destruída, a mesa de centro tombada. Revistas, um cinzeiro de cristal, algumas tigelas art-déco e um vaso de flores se espalhavam sobre o tapete oriental. Uma poltrona azul-clara, de couro, estava de cabeça para baixo. A seu lado, uma almofada do sofá, da mesma cor. Na parede branca do fundo, à esquerda da porta que levava ao corredor, havia manchas escuras de sangue seco.

       "O alarme possui retardador de tempo?", perguntei.

       "Claro. Quando se abre a porta, ele zumbe durante quinze segundos, permitindo que a pessoa tecle o código antes que dispare a sirene."

       "Então ela deve ter aberto a porta, desativado o alarme, deixado que a pessoa entrasse e depois ativado novamente o sistema, enquanto o visitante ainda estava dentro da casa. Caso contrário, não teria disparado depois, quando ele saiu. Interessante."

       "Claro", Marino disse, "interessante pra cacete."

       Paramos na sala de estar, ao lado da mesa de café tombada, fosca de pó para digitais. No chão havia revistas de circulação nacional e publicações sobre literatura, tudo datado de vários meses.

       "Encontrou jornais ou revistas recentes?", perguntei, "Se ela comprou um jornal local, isso pode ser importante. Vale a pena checar qualquer atitude posterior ao desembarque."

       Percebi que seus músculos faciais se contraíam. Marino odiava quando imaginava que eu pretendia ensiná-lo a fazer seu trabalho.

       Ele disse: "Encontramos alguns, lá em cima, no quarto de dormir, junto com a mala e a pasta. Um Herald, de Miami, e o Keynoter, que traz basicamente anúncios de imóveis em Keys. Acha que ela pensava em se mudar para lá? Os dois jornais foram publicados na segunda-feira. Deve tê-los comprado no aeroporto, antes de pegar o avião de volta para Richmond''.

       "Gostaria muito de saber o que o corretor de imóveis dela tem a dizer..."

       "Nada, o sujeito não tem nada a dizer", ele interrompeu. "Nem fazia idéia de onde Beryl poderia estar, e só mostrou a casa depois da partida da moça. Para um jovem casal, que a considerou cara demais. Beryl queria trezentos mil pelo imóvel." Ele olhou em volta, o rosto impassível. "Aposto que dá para conseguir um desconto, agora."

       "Beryl pegou um táxi no aeroporto, na noite em que chegou." Concentrei a atenção nos detalhes.

       Ele puxou um cigarro, com o qual apontou. "Encontramos o recibo ali, no vestíbulo. Naquela mesinha perto da porta. Já interroguei o chofer do táxi; chama-se Woodrow Hun-nel. Uma besta quadrada. Disse que esperava passageiros na fila do aeroporto. Ela fez sinal e entrou no carro, por volta das oito. Chovia a cântaros. Deixou-a na porta da casa, cerca de quarenta minutos depois, e ela mesma carregou a mala e a valise. Em seguida, o chofer foi embora. A corrida ficou em vinte e seis dólares, incluindo a gorjeta. Em meia hora o sujeito voltou ao aeroporto, onde pegou outro passageiro."

       "Tem certeza de tudo isso, ou está se fiando no que ele contou, apenas?"

       "Certeza absoluta." Ele bateu o cigarro no nó do dedo e girou o filtro com o polegar e o indicador. "Checamos a história". Hunnel disse a verdade. Não tocou na moça. Não teve tempo para tanto."

       Segui seus olhos até as marcas escuras perto da porta. O sangue provavelmente manchara as roupas do assassino. Dificilmente um motorista de táxi sujo de sangue conseguiria passageiros.

       "Ela não passou muito tempo em casa", falei. "Chegou por volta das nove, e o vizinho deu parte às onze. O alarme tocou por meia hora. Quer dizer que o assassino saiu daqui por volta das dez e meia."

         "É", ele concordou. "Não consigo entender esta parte da história. A julgar pelas cartas, ela estava se borrando de medo. Voltou para a cidade, trancou-se dentro de casa, chegou a pôr o 38 em cima do balcão, na cozinha — vou lhe mostrar, quando chegarmos lá. Depois, bumba! A campainha tocou? Só sabemos que, em seguida, permitiu a entrada do tarado. Quando o sujeito estava dentro, ela acionou o alarme de novo. Só pode ter sido alguém conhecido."

       "Eu não descartaria um estranho", falei. "Se fosse um sujeito esperto, ela poderia confiar nele, permitindo que entrasse, por algum motivo."

       "Tarde da noite?" Seus olhos se detiveram em mim, depois de examinar a sala. "Acha que o cara vendia assinaturas de revistas ou chocolate, às dez da noite?"

       Não respondi. Não saberia como.

       Paramos na porta aberta, que dava para o corredor. "O sangue começou a correr aqui", Marino disse, olhando para as manchas escuras na parede. "Ele começou a esfaqueá-la neste local. Calculo que a moça tenha corrido, e o sujeito a perseguiu, golpeando-a com a faca."

       Recordei-me dos cortes no rosto, nas mãos e nos braços de Beryl.

       "Meu palpite", prosseguiu, "é que ele a atingiu no braço esquerdo, nas costas ou no rosto, neste local. O sangue na parede espirrou da lâmina. Ele a cortou uma vez e, quando ergueu a faca novamente, o sangue respingou na parede."

       As manchas elípticas tinham uma largura aproximada de seis milímetros, adquirindo formato alongado na extremidade do arco, à esquerda do batente. Os pingos de sangue descreviam uma curva de pelo menos três metros. O atacante movera o braço com o ímpeto de um jogador de tênis. Senti a intensidade da violência. Não se tratava apenas de raiva. Era algo muito pior. Por que ela o deixou entrar?

       "Tomando por base a localização desta mancha, creio que o maníaco encontrava-se aqui", Marino disse, postando-se a alguns metros da porta, ligeiramente à esquerda. "Ergueu o braço para atacar outra vez, e o sangue da lâmina respingou na parede. As marcas, como pode ver, começam neste ponto." Ele apontou para as manchas mais altas, quase no nível da sua cabeça. "Em seguida descem, parando a menos de meio metro do piso." Seus olhos desafiadores fixaram-se em mim. "Você a examinou. O que acha? Destro ou canhoto?"

       Os policiais sempre desejam descobrir isso. Não adianta explicar mil vezes que não se pode saber com certeza. Eles sempre perguntam.

       "Impossível dizer, com base apenas nas manchas de sangue", falei, sentindo a boca seca, com gosto de poeira. "Depende inteiramente da posição dele, em relação à vítima. As facadas no peito entraram num ângulo ligeiramente inclinado, da esquerda para a direita. Pode ser canhoto. Mas, novamente, isso depende da posição em relação à vítima."

       "Só acho curioso que a maioria dos ferimentos provocados durante as tentativas de defesa se localizem no lado esquerdo do corpo. Ela saiu correndo, certo? Ele a atacou pela esquerda, e não pela direita. Suspeito que seja canhoto."

       "Isso depende das respectivas posições do atacante e da vítima", insisti, impaciente.

       "Óbvio", ele resmungou. "Tudo depende de alguma coisa."

       O assoalho do corredor era de madeira. As marcas de giz indicavam os pingos de sangue no chão, até a beira da escada, a uns três metros à esquerda. Beryl fugira por ali, na direção da escada. O choque e o terror sobrepujaram a dor. Na parede à esquerda, a cada passo, ou quase, vi borrões ensangüentados de seus dedos cortados. Ela tentava se apoiar e equilibrar, na fuga.

       As manchas escuras se distribuíam pelo chão, pelas paredes, chegavam a sujar o teto. Beryl correra até o final do corredor, no andar de cima, onde ficou acuada, por um momento. Naquele trecho havia muito sangue. A caçada prosseguiu, quando a moça, aparentemente, conseguiu entrar em seu quarto, onde tentou escapar subindo na cama de casal. Naquele momento ela atirou a mala no atacante. Ou, mais provável, a mala caiu no chão, quando ela subiu na cama. A polícia a encontrou sobre o tapete, aberta, os papéis espalhados. Inclusive as fotocópias das cartas escritas em Key West.

       "Localizaram outros papéis aqui?", perguntei.

       "Recibos, alguns guias de turismo, incluindo-se um mapa de ruas", Marino respondeu. "Posso tirar cópias de tudo, se desejar."

       "Por favor", falei.

       "Achamos também uma pilha de folhas datilografadas, na gaveta." Ele mostrou o local. "Provavelmente o texto que escreveu em Keys. Muitas notas nas margens, a lápis. Nada de digitais úteis. Algumas, borradas, ou parciais, pertenciam à vítima."

       Na cama só restava o colchão; o acolchoado e os lençóis encontravam-se no laboratório. Ali ela começara a fraquejar, a perder o controle muscular, a enfraquecer. Cambaleara até o corredor, novamente, caindo sobre o tapete oriental, que eu já conhecia pelas fotos do local. No piso, vi manchas de sangue e impressões. Beryl se arrastara até o quarto de hóspedes, adiante do banheiro, onde morreu, finalmente.

       "Quer saber", Marino dizia, "acho que ele a deixou correr um pouco, para se divertir. Poderia ter agarrado e matado a moça lá embaixo, na sala. Mas isso estragaria seu prazer. Aposto que ria o tempo inteiro, excitado com o sangue, os gritos, as súplicas. Ela desmaiou, quando entrou aqui. Acabou a graça. Final da história. Golpes fatais, e pronto."

       O quarto era frio, decorado em amarelo-pálido como o sol no inverno. O assoalho de madeira estava escuro, perto da cama. Manchas e estrias escuras também se destacavam na parede clara. Nas fotos do corpo, Beryl aparecia de costas, com as pernas abertas, os braços cobrindo a cabeça, o rosto virado na direção da cortina da janela. Nua. Quando examinei as fotografias, inicialmente, não soube dizer como ela era, nem identificar a cor do cabelo. Vi tudo vermelho. A polícia encontrou uma calça comprida caqui, ao lado do corpo. A blusa e a roupa íntima haviam desaparecido.

       "Aquele chofer de táxi — chamado Hunnel, ou algo assim —, ele se lembrava de como Beryl estava vestida, quando a pegou no aeroporto?", perguntei.

       "Estava escuro", Marino lembrou. "Ele não tinha certeza. Pelo que se lembra, a moça vestia calça comprida e casaco. Sabemos que usava calça, quando foi atacada; a calça caqui que encontramos ao lado do corpo. E havia um casaco do conjunto, sobre a cadeira, no quarto dela. Não creio que tenha trocado de roupa ao chegar em casa; tirou o casaco, apenas, e o jogou em cima da cadeira. O resto da roupa — blusa, peças íntimas — foi levado pelo assassino."

       "Como souvenir", pensei em voz alta.

       Marino examinava o assoalho manchado, onde o corpo caíra.

       Ele disse: "Calculo que o sujeito a derrubou, tirou-lhe a roupa e a estuprou, ou tentou. Depois a esfaqueou e quase a decapitou. Uma pena, o resultado negativo dos exames". Ele se referia aos testes para indicar presença de esperma. "Podemos esquecer a identificação pelo DNA."

       "A não ser que haja sangue dele, nas amostras recolhidas", lembrei. "Caso contrário, nada de DNA."

       "E nem um fio de cabelo", ele disse.

       "Nenhum diferente do cabelo dela, pelo menos."

       O silêncio absoluto na casa tornava nossas vozes irritantes, altas. Para qualquer lado que eu olhasse, via as manchas medonhas. As imagens desfilaram em minha mente: facadas, marcas do cabo, o corte terrível no pescoço, como uma boca vermelha escancarada. A poeira dificultava minha respiração. Sentia falta de ar.

       Pedi: "Mostre onde estava a arma".

       Quando a polícia chegou à cena do crime, naquela noite, encontraram o 38 automático de Beryl sobre o balcão da cozinha, perto do forno de microondas. A arma estava carregada, com a trava de segurança. Os fragmentos de digitais analisados pelo laboratório pertenciam a ela.

       "Guardava a caixa de balas na gaveta da mesa, ao lado *               da cama", Marino disse. "Provavelmente mantinha o revól-

       ver lá, também. Imagino que tenha levado as malas para o andar de cima, para abri-las e tirar a roupa suja, que colocou no cesto do banheiro. Depois guardou as malas no armário do quarto. A certa altura, no meio disso tudo, apanhou a arma. Mostra, sem dúvida, que estava com os nervos à flor da pele. Quer apostar que ela examinou todos os cômodos, antes de se acalmar um pouco?"

       "Eu teria agido assim", comentei.

       Ele olhou em torno. "Talvez tenha vindo até a cozinha para comer um lanche."

       "Talvez tenha pensado em comer, mas não o fez", retruquei. "O conteúdo do estômago era de cinqüenta mililitros de fluido marrom escuro. Cerca de cinqüenta gramas de material completamente digerido antes de sua morte. Ou, melhor dizendo, do momento do ataque. A digestão pára nos momentos de tensão ou medo intenso. Se ela tivesse acabado, de lanchar, quando o assassino a pegou, o alimento ainda estaria no estômago."

       "Não tem quase nada para comer, aqui", ele disse, como se isso fosse importante, ao abrir a geladeira.

       Encontramos lá um limão murcho, dois pacotes de manteiga, um queijo Havarti embolorado, temperos e uma garrafa de água tônica. O freezer estava um pouco mais bem servido. Só um pouco. Alguns peitos de frango, pratos congelados prontos Le Menu, carne moída. Beryl, pelo jeito, não sentia prazer em cozinhar, fazia isso por necessidade prática. Lembrei-me de minha cozinha. Aquela era melancolicamente estéril. A poeira flutuava nos raios de luz que passavam pela persiana cinza que protegia a janela em cima da pia. O ralo e a pia estavam secos, vazios. Os eletrodomésticos, modernos, pareciam novos.

       "A outra possibilidade é que tenha descido para tomar um drinque", Marino especulou.

       "O teste STAT, para álcool, deu negativo", falei.

       "Mas ela pode ter pensado nisso."

       Ele abriu a porta do armário que havia em cima da pia. Não se via um milímetro de espaço vazio, nas prateleiras: Jack DanieLs, Chivas Regai, Tanqueray, licores e uma garrafa que atraiu a minha atenção. Na prateleira superior, na frente do conhaque, vi um litro de rum haitiano Barbancourt quinze anos, caro como scotch puro malte.

       Removendo a garrafa com a mão protegida pela luva, coloquei-a sobre a bancada da pia. Não havia selo, mas o lacre que protegia a tampa estava intacto.

       "Duvido que tenha comprado esta bebida por aqui", alertei Marino. "Aposto que trouxe de Miami, ou Key West."

       "Acha que ela comprou o rum na Flórida?"

       "É possível. Sem dúvida, ela conhecia bebidas. Barbancourt é um colosso."

       "Não sabia que você era doutora em rum", ele disse.

       A garrafa de Barbancourt não estava empoeirada, ao contrário das outras, na mesma fileira.

       "Isso pode explicar sua descida à cozinha", prossegui. "Talvez tenha vindo guardar o rum. Talvez estivesse pensando em tomar um pouco antes de dormir, quando alguém bateu à porta."

       "Sim, mas isso não explica por que deixou a arma no balcão, quando foi ver quem era. Deduzimos que ela estava apavorada, certo? Ainda penso que esperava a visita de alguém, que conhecia o tarado. Bem, havia muita bebida fina, aqui. Acha que a moça tomava tudo sozinha? Não faz sentido. Dá a impressão de que recebia alguém, de vez em quando, provavelmente um homem. Diacho, poderia ser o tal de 'M', para quem escrevia quando estava em Keys. Talvez esperasse por ele, na noite em que a mataram."

       "Está querendo dizer que 'M' pode ser o assassino?", falei.

       "O que você pensa?"

       Ele começava a me provocar, e o modo como manipulava o cigarro apagado me dava nos nervos.

       "Admito qualquer possibilidade", respondi. "Por exemplo, também poderia dizer que ela não esperava ninguém. Estava na cozinha, guardando o rum, possivelmente pensando em experimentá-lo. Nervosa, mantinha a arma ao alcance da mão, sobre o balcão. Assustou-se quando alguém tocou a campainha, ou bateu à porta..."

       "Certo", ele interrompeu, "estava nervosa, assustada. Então por que diabos deixou o revólver na cozinha, quando foi até a porta?"

       "Ela treinava?"

       "Treinava?", repetiu, quando nossos olhares se cruzaram. "Treinava o quê?"

       "Tiro, ora essa."

       "Puxa... sei lá..."

       "Caso não tivesse treinamento específico, portar uma arma não seria reflexo natural, e sim uma decisão consciente. As mulheres carregam tubos de Mace na bolsa. São atacadas, e só se lembram do Mace depois da ocorrência, pois defender-se não é um reflexo."

       "Não sei..."

       Eu sabia. Usava um Ruger 38 carregado com Silvertips, a munição mais cara e destrutiva existente no mercado. Só pensaria em andar armada depois de treinar muito. Freqüentei o stand de tiro do departamento por vários meses. Quando estava sozinha em casa, eu me sentia mais segura com a arma do que sem ela.

       Além disso, na sala, ao lado da lareira, há ferros para cuidar do fogo, num suporte de latão. Beryl lutou contra o atacante, ali mesmo, e nem pensou em se armar com um atiça-dor. Defender-se não era um reflexo, em seu caso. Só sabia fugir, subir escada acima, ou se esconder em Key West.

       Tentei explicar. "Creio que ela não estava acostumada com armas de fogo. A campainha tocou. Sentiu medo, atrapalhou-se. Foi para a sala, espiou pelo olho mágico. Confiava na pessoa que batia, quem quer que fosse. Permitiu sua entrada. Esqueceu-se da arma."

       "Ou então esperava uma visita", ele insistiu.

       "É bem possível. Alguém que sabia que ela estava de volta."

       "Talvez ele soubesse", falou.

       "E talvez fosse 'M'." Falei o que ele queria escutar, enquanto guardava a garrafa de rum no armário.

       "Certo. Faz mais sentido assim, não acha?"

       Fechei a porta do armário. "Ela passou meses apavorada com as ameaças, Marino. Difícil acreditar que fosse um amigo íntimo, e que Beryl não desconfiasse de nada."

       Ele se mostrou contrariado, e consultou o relógio e tirou outra chave do bolso. Não fazia o menor sentido que Beryl abrisse a porta para um desconhecido. E menos ainda que uma pessoa em quem confiasse a atacasse daquele jeito.

         Por que ela o deixou entrar? A questão me atormentava sem parar.

       Um caminho coberto ligava a casa à garagem. O sol desaparecera atrás das árvores.

       "Quero mostrar uma coisa", Marino disse, destrancando a porta. "Só entrei aqui pouco antes de telefonar para você. Poderia ter arrombado a garagem na noite do crime, mas não vi razão para isso." Ele deu de ombros largos, como a garantir que realmente poderia derrubar uma porta, árvore ou contêiner de lixo, se o desejasse. "Ela não entrou aqui desde sua viagem à Flórida. Levamos um tempo até encontrar a maldita chave."

       Era a primeira garagem revestida de madeira que eu via na vida, com piso de cerâmica italiana vermelha, caríssima.

       "Isso tudo foi feito para servir de garagem?", perguntei.

       "Tem porta de garagem, certo?" Ele tirou outras chaves do bolso. "Um luxo, só para manter o carro abrigado da chuva, não acha?"

       A garagem estava abafada, cheirando a mofo, porém arrumada. Exceto pela pá e pela vassoura no canto, não vi sinais das ferramentas de costume, do cortador de grama e outros trastes que costumam ser guardados numa garagem. O local mais parecia uma loja de automóveis, com o Honda preto estacionado no meio do piso de cerâmica. O carro, de tão limpo e reluzente, passaria por novo, saído da loja.

       Marino destrancou a porta do motorista e a abriu.

       "Pronto. Fique à vontade", disse.

       Por um momento, permaneci sentada no banco de couro marfim, olhando pelo pára-brisa, para a parede revestida de madeira.

       Afastando-se um pouco do carro, ele acrescentou: "Fique sentada, tá? Sinta o clima, examine o interior do carro, diga o que lhe vier à cabeça".

       "Quer que eu dê a partida?"

       Ele me passou a chave.

       "Por favor, abra a porta da garagem. Caso contrário, morreremos asfixiados.''

       Franzindo a testa ao olhar em volta, ele localizou o interruptor e acionou a porta automática.

       O carro pegou na hora. O motor ronronou gutural, uniforme. O rádio e o ar-condicionado estavam ligados. O marcador de gasolina indicava um quarto de tanque, o hodômetro menos de dez mil quilômetros rodados. O teto solar encontrava-se parcialmente aberto. No painel encontrei um tíquete de lavagem a seco, datado de 27 de julho, quinta-feira. Beryl levara uma saia e um casaco para a lavanderia e obviamente não retornara para buscá-los. No banco do passageiro havia uma nota fiscal da mercearia, datada de doze de julho, às dez e quarenta da manhã, quando adquirira um pé de alface, tomate, pepino, carne moída, queijo, suco de laranja e dropes de hortelã, por nove dólares e treze centavos, pagando com uma nota de dez.

       Ao lado da nota encontrei um envelope do banco, fino e comprido, branco, vazio. Junto com ele, uma caixa marrom para óculos ray-ban, também vazia.

       No banco de trás havia uma raquete de tênis Wimbledon e uma toalha branca embolada, que apanhei estendendo o braço. Em letras azuis bordadas na borda li: WESTWOOD RACQUET CLUB, o mesmo nome impresso na maleta vermelha de vinil que encontramos no guarda-roupa de Beryl.

       Marino deixou a surpresa para o final. Deduzi que já examinara todos aquele objetos, e pretendia que eu os visse in situ. Não constituíam provas de nada. O assassino não entrara na garagem, em momento algum. Ele me provocava desde que chegamos na casa. Um hábito seu que me deixava furiosa.

       Desliguei o motor e desci do carro. A porta se fechou com um baque abafado, pesado.

       Ele me encarou, enigmático.

       "Tenho algumas perguntas", falei.

       "Pode mandar."

       "Westwood é um clube fechado? Ela era sócia?"

       Aquiesceu.

       "Verificou quando reservou quadra pela última vez?"

       "Sexta-feira, doze de julho, às nove da manhã. Tinha aula marcada. Fazia uma aula por semana, e quase não jogava."

       "Pelo que me recordo, ela saiu de Richmond no sábado, treze de julho, pela manhã, chegando a Miami pouco depois do meio-dia."

       Ele fez que sim, novamente.

       "Portanto, ela teve aula e seguiu direto para a mercearia. Em seguida, deve ter ido ao banco. Seja como for, a determinada altura, depois das compras, resolveu fugir da cidade. Se soubesse que ia viajar no dia seguinte, não teria ido às compras. Não teve tempo de comer todas as coisas que comprou, e não deixou a comida na geladeira. Ao que parece, jogou tudo fora, exceto a carne moída e o queijo, e provavelmente os dropes de hortelã."

       "Parece razoável", ele disse, imperturbável.

       "E largou a caixa de óculos e as outras coisas em cima do assento do carro", prossegui. "Além disso, deixou o ar-condicionado e o rádio ligados, o teto solar parcialmente aberto. Dá a impressão de que entrou na garagem, desligou o motor e correu para dentro de casa, usando os óculos escuros. Imagino que tenha acontecido alguma coisa, quando ela estava na rua, voltando da aula de tênis e das compras...''

       "Claro. Sem dúvida alguma, aconteceu mesmo. Dê uma volta, olhe do outro lado — especificamente, na porta do passageiro."

       Olhei.

       O que vi desorganizou meus pensamentos, que se espalharam como bolas de gude. Na pintura nova, reluzente, abaixo da maçaneta, alguém riscara um coração, com o nome BERYL no centro.

       "Chega a dar arrepio, não é?", ele disse.

       "Se o sujeito fez isso enquanto o carro estava estacionado no clube, ou na mercearia", raciocinei, "alguém pode tê-lo visto."

       "Claro. Portanto, deve ter riscado o carro antes." Ele parou, examinando distraidamente o coração. "Quando foi que você olhou para a porta do passageiro de seu carro pela última vez?"

       "Há dias. Ou uma semana."

       "Ela foi até a mercearia." Só então ele acendeu o maldito cigarro. "Não comprou muita coisa." Tragou fundo, com vontade. "E provavelmente as compras couberam dentro de uma única sacola, certo? Quando minha esposa está com uma ou duas sacolas, apenas, costuma colocá-las na frente, sobre o tapete ou no banco. Talvez Beryl tenha dado a volta pelo lado do passageiro, para guardar as compras no carro. Então viu o risco na pintura. Talvez soubesse que o sujeito havia feito o desenho naquele dia. Talvez não. Pouco importa. Bastou para aterrorizá-la, deixá-la com os nervos à flor da pele. Voltou para casa, passando, quem sabe, no banco, para tirar dinheiro. E pegou o primeiro avião que saiu de Richmond, seguindo para a Flórida."

       Segui-o para fora da garagem, até seu carro. A noite descia depressa, esfriando o ar. Ele ligou o motor, enquanto eu olhava fixamente para a janela lateral da casa de Beryl. Seus ângulos se perdiam nas sombras, e os vidros estavam escuros. As luzes da varanda e da sala de estar piscaram, de repente.

       "Minha nossa", Marino murmurou. "Como pode?"

       "Um timer", falei.

       "Puxa vida."

    

       Voltei para casa, acompanhada pela lua cheia que banhava Richmond. Nas longas alamedas, apenas as crianças fantasiadas mais teimosas ainda comemoravam o dia das bruxas. Os faróis do carro iluminavam as máscaras assustadoras das silhuetas infantis. Pensei nas inúmeras vezes em que a campainha soou, sem ter sido atendida. Minha casa era uma das favoritas, pois eu distribuía doces aos montes, não tendo filhos para mimar. Quatro pacotes de chocolate intactos fariam a festa de meus subordinados, na manhã seguinte.

       O telefone começou a tocar enquanto eu subia a escada. Antes que a secretária eletrônica fosse acionada, tirei o fone do gancho. Não reconheci a voz imediatamente, mas logo o timbre gelou meu coração.

       "Kay? É Mark. Graças a Deus você está em casa..."

       Mark James parecia falar de dentro de um tambor de óleo, e dava para ouvir o ruído dos automóveis ao fundo.

       "Onde está?", falei com dificuldade, sabendo que traía meu nervosismo.

       "Na via Noventa e Cinco, a cerca de oitenta quilômetros de Richmond."

       Sentei-me na beirada da cama.

       "Em um telefone público", ele completou. "Quero seu endereço." Depois de uma outra leva de carros barulhentos, ele disse: "Preciso falar com você, Kay. Passei a semana inteira em Washington, estou tentando localizá-la desde o final da tarde. Resolvi arriscar, e aluguei um carro para vir até aqui. Tudo bem?".

       Eu não sabia o que dizer.

       "Pensei que poderíamos tomar um drinque juntos, pôr a conversa em dia", disse o homem que, no passado, partira meu coração. "Reservei um apartamento no Radisson, no centro. Amanhã, logo cedo, há um vôo de Richmond para Chicago. Pensei que... Na verdade, temos um assunto sério para tratar."

       Não conseguia imaginar qual assunto Mark poderia querer discutir comigo.

       "Tudo bem?", ele perguntou novamente.

       Não estava tudo bem coisa nenhuma! Mas eu disse apenas: "Claro, Mark. Será um prazer revê-lo".

       Expliquei como chegar a minha casa, e fui para o banheiro lavar o rosto, enquanto repassava o caso. Quinze anos ou mais haviam transcorrido, desde o tempo em que cursamos direito na mesma faculdade. Meu cabelo agora era mais cinzento do que louro. Mark e eu não nos encontrávamos havia muito tempo. O azul de meus olhos, neste período, desbotara um pouco. O espelho, implacável, informava friamente que eu jamais teria trinta e nove anos outra vez. Deveria considerar uma plástica facial. Em minha memória, Mark mal passava dos vinte e quatro anos. A paixão que sentia por ele me levou à dependência, e depois ao desespero absoluto. Quando acabou, mergulhei no trabalho.

       Ele ainda apreciava carros rápidos, que dirigia em alta velocidade. Menos de quarenta e cinco minutos depois da ligação abri a porta e observei sua descida do Sterling alugado. Era o mesmo Mark de minhas recordações, o mesmo corpo esbelto a caminhar confiante sobre as pernas compridas. Galgou os degraus energicamente, sorrindo de leve. Após um abraço apressado, permanecemos no vestíbulo por um momento, sem saber bem o que dizer.

       "Ainda gosta de uísque?", perguntei, finalmente.

       "Nisso eu não mudei", disse, acompanhando-me até a cozinha.

       Preparei o drinque exatamente como costumava fazer, no tempo da universidade. Dose dupla de Glenfiddich, gelo, um pouco de club soda. Seus olhos me seguiram pela cozinha, fixando-se nos dois copos sobre a mesa. Ele tomou um gole, olhou para o copo e girou lentamente o gelo com os dedos, um gesto típico seu, quando estava tenso. Observei-o por algum tempo, e me detive nos traços finos, nas maçãs do rosto proeminentes, nos olhos cinzentos e claros. O cabelo escuro estava meio grisalho, nas têmporas.

       Desviei a atenção para o gelo que girava no copo. "Trabalha numa firma de Chicago, presumo."

       Reclinando-se na cadeira, ele ergueu os olhos e disse: "Cuido dos recursos, raramente acompanho julgamentos e perícias. Encontro Diesner, às vezes. Ele me contou que você estava aqui, em Richmond".

       Diesner era médico-legista titular em Chicago. Participávamos de simpósios e de vários comitês técnicos. Jamais mencionara seu relacionamento com Mark James, e nem podia imaginar como descobriu que eu conhecia Mark.

       "Fiz a bobagem de contar que a conhecia da faculdade, e ele vive falando em você, para me provocar", Mark explicou, como se lesse meu pensamento.

      Nisso eu acreditava. Diesner, bravo como um bode velho, odiava advogados de defesa. Seu desempenho, durante os embates no tribunal, tornaram-se legendários.

       Mark dizia: "Como a maioria dos especialistas em medicina legal, ele favorece a promotoria. Quem representa o bandido não presta. Diesner faz questão de me procurar, e, como quem não quer nada, comenta seu último artigo, ou um caso horripilante do qual participou. Doutora Scarpetta, a famosa legista". Riu, mas seus olhos o traíam.

       "Não concordo com esta história de que favorecemos a promotoria", retruquei. "Quando as provas favorecem o acusado, o caso nem vai a julgamento. Isso causa uma falsa impressão."

       "Kay, sei como tudo funciona", ele disse, no tom conciliatório que eu conhecia tão bem. "Tenho noção das coisas terríveis que você vê. No seu lugar, também desejaria ferrar com os caras."

       "Claro. Você sabe tudo", comecei a dizer. Retomávamos a velha discussão. Era difícil acreditar. Em menos de quinze minutos, continuávamos a briga onde fora interrompida. Nossas desavenças mais sérias diziam respeito a este tema. Formada em medicina, eu cursava direito em Georgetown, quando conheci Mark. Testemunhara o lado negro das pessoas, a crueldade, as tragédias absurdas. Tocara, com as mãos enluvadas, as feridas abertas dos mortos e moribundos. Mark não passava de um playboy, para quem um criminoso era o sujeito que riscou a pintura de seu Jaguar. Escolhera o direito porque seu pai e avô haviam sido advogados. Eu era católica; Mark, protestante. Eu era de origem italiana; ele, mais anglo do que o príncipe Charles. Nasci numa família pobre; sua infância transcorreu num dos bairros mais chiques de Boston. Cheguei a imaginar que nosso casamento seria uma dádiva dos céus.

       "Você não mudou nada, Kay", ele disse. "Ou quase nada. Irradia agora uma certa firmeza, ou rigidez. Imagino que seja osso duro de roer, no tribunal."

       "Não me considero rígida."

       "Não quis criticá-la. Só dizer que você está ótima." Seus olhos passearam pela cozinha. "E bem-sucedida. É feliz?"

       "Gosto da Virgínia", respondi, incapaz de encará-lo. "Sofro muito no inverno, mas calculo que você sofra mais ainda. Como consegue agüentar o frio de Chicago, seis meses por ano?"

       "Não agüento, se quer saber a verdade. Você odiaria. Uma flor de Miami, como você, morreria em um mês." Mark bebericou o uísque. "Não se casou?"

       "Casei."

       "Hummm." Ele franziu a testa, meditativo. "Tony não sei das quantas... eu me lembro de quando começou a sair com Tony... Benedetti, certo? No final do terceiro ano."

       Surpreendi-me que Mark tivesse notado. E, mais ainda, que se lembrasse. "Sou divorciada, há muito tempo."

       "Lamento", ele disse em voz baixa.

       Estendi a mão para pegar meu copo.

       "Tem saído com alguém legal?", ele perguntou.

       "No momento não. Nem legal nem nada."

       Mark não ria tanto quanto antes. Comentou, em tom neutro: "Quase me casei, faz alguns anos, mas achei que não ia dar certo. Ou, para ser sincero, devo confessar que entrei em pânico, na última hora".

       Mal podia crer que ele jamais tivesse se casado. Mark deve ter lido meu pensamento outra vez.

       "Isso aconteceu depois da morte de Janet", contou hesitante. "Eu era casado."

       "Janet?"

       Vi que girava o gelo no copo, novamente. "Conheci Janet em Pittsburgh, depois que saí de Georgetown. Trabalhava na firma, no setor de direito tributário."

       Mark mudara muito. Ao observá-lo atentamente, fui tomada de perplexidade. A intensidade que um dia me atraíra tanto se alterara. Havia algo de sombrio, impenetrável.

       "Acidente de automóvel", explicou. "Num sábado à noite. Ela saiu para comprar pipoca. Pretendíamos ver um filme na televisão. Um motorista embriagado veio pela contramão, com os faróis apagados."

       "Minha nossa. Mark, lamento muito", falei. "Deve ter sido terrível."

       "Aconteceu há oito anos."

       "Tiveram filhos?", murmurei.

       Ele fez que não.

       Permanecemos algum tempo em silêncio.

       "Minha firma vai abrir um escritório em Washington, D.c", ele disse, quando nossos olhares se cruzaram.

       Não respondi.

       "É possível que eu seja transferido para lá. Passamos por uma fase de expansão, temos mais de cem advogados nas sucursais de Nova York, Atlanta e Houston."

       "E quando vai mudar?", perguntei calmamente.

       "Talvez no começo do ano."

       "Vai aceitar, mesmo?"

       "Não agüento mais Chicago, Kay. Preciso sair de lã. Queria que você soubesse — por isso vim até aqui. É o motivo principal, pelo menos. Não gostaria de estar em Washington e encontrá-la assim, de surpresa. Pretendo morar no norte de Virgínia. Você trabalha por aqui. Com certeza nos encontraríamos num restaurante, ou no teatro, qualquer dia desses. Não gostaria que fosse assim."

       Imaginei a cena. No Kennedy Center, veria Mark, algumas fileiras adiante, sussurrando na orelha de sua jovem e linda acompanhante. Senti a dor antiga bater, uma dor tão forte que chegava a ser física. Ele nunca teve concorrentes. Meus sentimentos se concentravam apenas em Mark. No início, uma vozinha me dizia, lá no fundo, que isso não era mútuo. Depois de algum tempo, veio a certeza.

       "Este foi o motivo principal", ele repetiu, em tom profissional, como um advogado iniciando sua argumentação. "No entanto, há um assunto que não diz respeito a nosso relacionamento pessoal."

       Fiquei quieta.

       "Uma moça foi assassinada aqui, em Richmond, há uns dois dias. Beryl Madison..."

       Meu ar de espanto o calou, por um momento.

       "Berger, diretor da firma, ligou para meu hotel, em D. c, e contou tudo. Gostaria de falar a respeito..."

       "O que você tem a ver com o crime?", perguntei. "Por acaso a conhecia?"

       "Superficialmente. Fomos apresentados, no inverno passado, em Nova York. Nosso escritório de lá cuida de direitos autorais, na área de entretenimento. Beryl tinha problemas editoriais e procurou Orndorff & Berger para resolver uma disputa contratual. Estava em Nova York, por coincidência, no mesmo dia em que ela conversou com Sparacino, o advogado encarregado de seu caso. Sparacino acabou nos convidando para almoçar com ele no Algonquin."

       "Se existe alguma possibilidade de que essa disputa tenha relação com o assassinato, deveria procurar a polícia, em vez de vir conversar comigo", falei, furiosa.

       "Kay", ele retrucou, "minha firma nem sabe que estou aqui, tá? Berger ligou ontem para falar de outro assunto. Mencionou a morte de Beryl Madison por acaso, pediu que eu lesse os jornais locais, tentasse descobrir alguma coisa..."

       "Claro. Ou seja, que procurasse descobrir alguma coisa com sua ex..." Senti o sangue subir ao rosto. Ex o quê?

       "Não é nada disso." Ele desviou a vista. "Estava pensando em você, pensando em ligar antes de falar com Berger, antes mesmo de saber da morte de Beryl. Cheguei a pegar no telefone, por duas noites seguidas. Já havia conseguido seu nome, com o auxílio à lista. Mas não consegui, sei lá. E talvez nunca tivesse ligado, se Berger não me contasse o que ocorrera. Talvez precisasse de um pretexto, como o caso de Beryl. Mas não é o que você está pensando..."

       Não ouvi nada. Notei, para meu assombro, que desejava ardentemente acreditar nele. "Caso sua firma tenha interesse no assassinato, preciso saber o motivo exato."

       Ele meditou, por um momento. "Não sei se posso afirmar que temos um interesse legítimo no crime. Talvez seja pessoal, ficamos horrorizados. Foi um choque, para quem manteve contato com Beryl, em vida. Também posso dizer que ela se encontrava no meio de uma disputa complicada. Um contrato, que assinara havia uns oito anos, a prejudicava muito. É meio confuso. Tem a ver com Cary Harper."

       "O escritor?", perguntei, atônita. "Cary Harper, o romancista?"

       "Como você provavelmente já sabe", Mark disse, "ele não mora longe daqui. Vive numa mansão do século XVIII, chamada Cutler Grove. Fica na beira do rio James, em Williamsburg."

       Tentei me recordar onde lera a respeito de Harper, autor de um romance que ganhara o prêmio Pulitzer, uns vinte anos atrás. Um ermitão legendário, que morava com a irmã. Ou era uma tia? Muito se falara sobre a vida particular de Harper. Quanto mais ele se recusava a dar entrevistas e fugia dos repórteres, mais cresciam as especulações.

       Acendi um cigarro.

       "Esperava que você fosse parar", ele disse.

       "Só se removessem meu lobo frontal."

       "Não disponho de muitas informações. Beryl manteve um relacionamento de teor ignorado com Harper, na adolescência. Chegou a residir com ele e a irmã. Beryl, candidata a escritora, era a filha talentosa que Harper nunca teve. Tornou-se sua protegida. Graças a seus contatos, conseguiu que Beryl publicasse o primeiro romance, aos vinte e dois anos, uma narrativa quase literária, sob o pseudônimo de Stratton. Harper aceitou até escrever um comentário para a capa, sobre a nova escritora que descobrira. Muita gente franziu a testa. Não passava de mais um livro comercial, e não de literatura. Ninguém ouvira falar em Harper nos últimos anos."

        "E o que isso tem a ver com a tal disputa contratual?"

       Mark respondeu indiretamente. "Harper pode ser o maioral para uma jovem à procura de ídolos, mas não passa de um filho da mãe. Antes que o livro saísse, obrigou Beryl a assinar um contrato, que a proibia de escrever a seu respeito, enquanto ele ou a irmã ainda vivessem. Harper é um cinqüentão; a irmã, só um pouco mais velha. Basicamente, o contrato amarrava Beryl pelo resto da vida, impedindo que escrevesse suas memórias. Como poderia fazer isso, deixando Harper de fora?"

       "Ela daria um jeito", retruquei. "Mas, sem Harper, o livro não faria sucesso."

       "Exato."

       "Por que ela recorria a pseudônimos? Fazia parte do acordo com Harper?"

       "Creio que sim. Calculo que ele pretendia manter Beryl como seu segredo. Garantiu o sucesso editorial para a moça, mas isolou-a do mundo. O nome Beryl Madison é praticamente desconhecido, embora seus romances tenham alcançado grande sucesso comercial."

       "Devo deduzir que ela planejava romper o contrato, e por isso procurou Orndorff & Berger?"

       Mark bebeu mais um pouco. "Devo lembrá-la de que a moça não era cliente minha. Desconheço os detalhes. Mas tenho a impressão de que andava insatisfeita; queria escrever algo que valesse a pena. O restante você já deve saber. Ela falou que tinha problemas, alguém a ameaçava..."

       "Quando contou isso?"

       "No inverno passado, na época em que almoçamos juntos. Final de fevereiro, creio."

       "Prossiga", falei, intrigada.

       "A moça nem imaginava quem a ameaçava. Não posso afirmar, com certeza, se as ameaças começaram antes ou depois de sua decisão de escrever algo diferente."

       "E como poderia romper o contrato, sem maiores conseqüências?"

       "Não sei se havia um meio", Mark retrucou. "Sei que Sparacino resolveu informar Harper que ele não tinha escolha. Se cooperasse, o texto seria inofensivo. Ou seja, Harper poderia censurar o material, até certo ponto. Ou então passaria por malvado, e Sparacino contaria tudo aos jornalistas, iria ao Sixty Minutes, poria a boca no mundo. Harper estava num beco sem saída. Claro, poderia processar Beryl, mas ela não tinha muito dinheiro. O nome dele, sim, valia uma fortuna. Uma ação na justiça faria com que todos corressem para comprar o livro de Beryl. Harper seria prejudicado."

       "E se tentasse proibir a publicação?"

       "Mais publicidade. E uma ação do gênero custaria milhões."

       "E agora ela está morta." Esmaguei o cigarro no cinzeiro.

       "O livro não foi terminado, presumo. Harper não tem mais motivos para se preocupar. É aí que pretende chegar, Mark? Dizer que Harper está envolvido no assassinato?"

       "Só estou contando o que sei", ele disse.

       Os olhos límpidos se fixaram nos meus. Eram tão inacessíveis, às vezes, lembrei-me pesarosa.

       "O que acha?", ele perguntou.

       Não falei o que realmente achava, ou seja, que parecia muito estranho ouvir tudo aquilo de Mark. Pouco importava se Beryl era sua cliente ou não. Ele conhecia a ética da profissão, e as informações passadas a um advogado da firma deveriam ser mantidas em sigilo por todos. Encontrava-se a um passo da negligência, e isso não combinava com o Mark James cheio de escrúpulos que conhecera. Ficaria menos surpresa se ele aparecesse tatuado.

       "Acho que você deve conversar com Marino, o encarregado desta investigação", respondi. "Caso contrário, serei obrigada a relatar nossa conversa. De um jeito ou de outro, ele vai incomodar sua firma, fazer perguntas."

       "Claro. Não vejo problema algum."

       Ficamos em silêncio, por um momento.

       "Como ela era?", perguntei, limpando a garganta.

       "Já disse, só a vi uma vez. Mas era uma moça impressionante. Dinâmica, espirituosa. Estava vestindo um conjunto branco deslumbrante, de lã. Pode-se dizer que se mantinha meio distante de tudo. Guardava muitos segredos. Ninguém jamais chegaria ao fundo de sua mente. E bebia demais. Naquele dia, pelo menos, bebeu. Três coquetéis, o que me pareceu excessivo, no meio do dia. Não creio que fizesse isso sempre, contudo. Parecia tensa, nervosa. A razão para procurar Orndorff & Berger era dolorosa. Sem dúvida a história entre ela e Harper a perturbava um bocado."

       "O que ela tomou?"

       "Como assim?"

       "Os três coquetéis. O que ela pediu?"

       Ele franziu o cenho, olhando para a parede da cozinha. "Sei lá, Kay. Faz alguma diferença?"

       "Não sei se faz alguma diferença ou não", respondi, pensando no bar lotado. "Ela falou sobre as ameaças que recebia? Na sua presença?"

       "Sim. Sparacino tocou no assunto. Só sei que começou a receber telefonemas de um tipo muito específico. Sempre a mesma voz, de um desconhecido, a crer no que ela disse. E aconteceram episódios estranhos — não me recordo dos detalhes. Já faz muito tempo."

       "Sabe se ela registrava estes episódios?", perguntei.

       "Não sei."

       "E a moça não tinha idéia de quem a ameaçava, ou do motivo para tanto?"

       "Foi a impressão que tive." Ele colocou a cadeira no lugar. Era quase meia-noite.

       Lembrei-me de algo, ao acompanhá-lo até a porta. "Esse Sparacino. Qual é o primeiro nome dele?"

       "Robert", Mark respondeu.

       "Não tem a inicial 'M', por acaso?"

       "Não." Ele me olhou, curioso.

       "Dirija com cuidado."

       "Boa noite, Kay", Mark disse, hesitante.

       Talvez fosse apenas a minha imaginação, mas por um instante pensei que me beijaria. Que nada, ele apenas afastou-se, descendo agilmente os degraus, e, quando escutei o barulho do carro que se afastava, eu já estava dentro de casa outra vez.

       A manhã seguinte foi tipicamente frenética. Fielding nos informou, na reunião da equipe, que faríamos cinco autópsias, incluindo a de um cadáver em decomposição, encontrado flutuando no rio, algo que sempre provocava gemidos de desespero. Richmond enviara dois testes de balística. Completei o primeiro antes de correr para o fórum de John Marshall, para testemunhar em mais um caso de maníaco homicida com metralhadora. Depois segui para a faculdade de medicina, onde almocei com os estudantes que orientava. Sempre tentando afastar o encontro com Mark de minha mente. Quanto mais tentava não pensar nisso, mais pensava. Ele era cauteloso. E teimoso. Não combinava com seu jeito entrar em contato comigo, após uma década e tanto de silêncio.

       Só no início da tarde desisti, e liguei para Marino.

       "Estava pensando em ligar para você", ele disse, antes que eu pronunciasse duas palavras inteiras. "Assim que saísse. Pode me encontrar no escritório de Benton, daqui a uma hora, ou uma hora e meia?"

       "De que se trata?", eu nem havia explicado o motivo pelo qual lhe telefonara.

       "Recebi o relatório sobre Beryl. Calculei que gostaria de estar presente."

       Ele desligou, como sempre, sem se despedir.

       Na hora marcada segui para a rua East Grace, e estacionei na frente do primeiro parquímetro que vi, nas proximidades do prédio. Os dez andares do moderno edifício destacavam-se como um farol, no porto melancólico de lojas de móveis usados que posavam de antiquários e pequenos restaurantes de comida estrangeira, cujos pratos "originais" não tinham nada de original. Mendigos perambulavam pela calçada esburacada.

       Identifiquei-me na recepção que havia no saguão, passei pelo guarda e peguei o elevador para o quinto andar. No final do corredor, encontrei a porta da madeira, sem placas. A localização do escritório do FBI em Richmond era um dos segredos mais bem guardados da cidade, e sua presença tão discreta e sutil quanto a dos agentes de terno. Um rapaz, sentado atrás do balcão que tomava metade da sala, olhou para mim enquanto falava ao telefone. Levou a mão ao bocal e ergueu as sobrancelhas, em pose de "o que deseja"? Expliquei o motivo de minha visita, e ele me convidou a sentar.

       A sala de espera era pequena, claramente decorada por homens. Couro grosso azul-marinho cobrindo móveis estofados, mesa de centro lotada de revistas esportivas. Nas paredes revestidas de madeira, enfileiravam-se os retratos dos diretores do FBI, prêmios recebidos, e uma placa dourada com os nomes dos agentes mortos em ação. A porta externa se abria, de vez em quando, e sujeitos altos, musculosos, usando ternos e óculos escuros, passavam sem olhar em minha direção.

       Benton Wesley provavelmente era tão prussiano quanto os outros, mas com o passar dos anos conquistara meu respeito. Sob a carapaça de agente havia um ser humano notável. Era ríspido e enérgico, mesmo quando estava sentado, e sempre usava calça escura, com camisa branca engomada. A gravata, estreita como mandava a moda, exibia um nó impecável. Na cintura, o coldre para uma dez milímetros, que raramente usava no escritório. Fiquei sem ver Wesley por algum tempo, mas ele não havia mudado em nada. Forte e até belo, de um modo rústico, tinha cabelo prematuramente grisalho, o que sempre me surpreendia.

       "Lamento tê-la feito esperar, Kay", disse sorridente.

       Seu aperto de mão, reconfortante, não continha o menor traço de machismo. Advogados e policiais apertavam minhas mãos com uma força capaz de fraturar os dedos.

       "Marino já chegou", Wesley acrescentou. "Eu precisava repassar alguns detalhes com ele, antes de conversar com você."

       O agente abriu a porta, e acompanhei-o pelo corredor deserto. Pedindo que eu esperasse em sua sala, ele se afastou para buscar café.

       "O computador finalmente resolveu colaborar, na noite passada", Marino disse. Recostado na poltrona confortável, examinava um revólver 357, que parecia novinho em folha.

       "Computador? Mas que computador?" Teria esquecido o cigarro? Não, estava no fundo da bolsa, como sempre.

       "Na central. Sai do ar a toda hora. Bem, consegui as cópias dos boletins de ocorrência, sobre as ameaças. Interessante. Pelo menos eu acho".

       "De Beryl?", perguntei.

       "Acertou." Ele colocou a arma sobre a mesa de Wesley, acrescentando: "Bela arma. Uma sorte danada. Este miserável a ganhou num sorteio, durante a convenção dos chefes de polícia realizada em Tampa, na semana passada. Eu não consigo ganhar nem no bingo".

       Minha mente divagava. A mesa de Wesley estava coberta de recados, fitas de vídeo, relatórios e envelopes pardos grossos: material sobre os diversos crimes que a polícia local encaminhava para sua apreciação. Por trás das vitrines da estante, na parede lateral, havia armas macabras — espadas, soco-inglês, uma pistola caseira e uma lança africana — troféus de caça, presentes de pessoas agradecidas. Uma fotografia antiga mostrava William Webster cumprimentando Wesley, na frente de um helicóptero dos Fuzileiros Navais, em Quantico. Nenhum indício de que Wesley tinha esposa e três filhos. Agentes do FBI, tal qual a maioria dos policiais, ocultavam zelosamente sua vida pessoal. Mais ainda se conheciam os horrores do mundo de perto. Wesley montava perfis de suspeitos. Costumava estudar fotografias de chacinas e depois visitar penitenciárias, onde ficava cara a cara com os Charles Mansons e Ted Bundys da vida.

       Wesley retornou, com dois copinhos descartáveis de café, um para Marino, o outro para mim. Wesley nunca se esquecia de que eu tomava café preto e precisava de um cinzeiro ao alcance da mão.

       Marino apanhou a pilha de cópias de documentos policiais e começou a folheá-los.

       "Para começar", disse, "só temos três boletins. O primeiro data de onze de março, segunda-feira, às nove e meia da manhã. Beryl Madison discou 911 na noite anterior, solicitando que um policial comparecesse a sua residência, para registrar uma queixa de ameaça. O chamado, como era de se esperar, não recebeu prioridade máxima, pois naquela noite as ruas estavam pegando fogo. Só enviaram um guarda para lá na manhã seguinte. Hã... Jim Reed, na polícia há cinco anos." Ele ergueu os olhos, em minha direção.

       Balancei a cabeça. Não conhecia Reed.

       Marino estudou o boletim. "Reed anotou que a queixosa, Beryl Madison, estava muito agitada, e relatou ter recebido um telefonema ameaçador, às oito e quinze da noite anterior — domingo. A voz masculina, possivelmente de um homem branco, disse o seguinte: 'Aposto que anda com saudades de mim, Beryl. Mas estou sempre vigiando você, embora não possa me ver. Eu a vejo. Pode fugir, mas não vai conseguir se esconder'. A queixosa informou que o autor da chamada revelou ter observado a senhorita Madison naquela manhã, quando ela adquiria um jornal na frente da loja Seven-Eleven. O sujeito descreveu suas roupas, 'suéter vermelho, sem sutiã', Ela confirmou que fora, de carro, ate a Seven-Eleven da avenida Rosemount, por volta das dez da manhã de domingo, e que se vestia do modo descrito. Estacionara o veículo na frente da loja e adquirira um Washington Post na máquina, sem entrar na loja nem notar a presença de qualquer pessoa na área. O fato de o elemento conhecer tais detalhes a incomodou muito, pois, em sua opinião, provava que ele a seguia. Quando perguntada se notara que alguém a seguia, declarou que não."

       Marino passou para a segunda página, onde se encontrava o trecho confidencial do relatório, e o resumiu: "Reed conta aqui que a senhorita Madison relutava em divulgar detalhes específicos das ameaças feitas pelo elemento. Quando interrogada, finalmente revelou que ouvira frases 'obscenas', e disse que o sujeito afirmou imaginá-la sem roupa, o que lhe dava vontade de 'matar". Segundo a senhorita Madison, neste momento ela desligou o telefone".

       Marino colocou a fotocópia sobre a mesa de Wesley.

       "Qual foi o conselho dado a ela, pelo policial Reed?", perguntei.

       "O de sempre", Marino respondeu. "Aconselhou-a a anotar tudo. Quando recebesse uma ligação, deveria registrar dia, hora e os diálogos. Também alertou-a para manter as portas bem trancadas, as janelas fechadas e trancadas,-e estudar a possibilidade de instalar um sistema de alarme. Caso notasse veículos suspeitos, deveria anotar o número da placa e chamar a polícia."

       Lembrei-me do que Mark disse sobre seu almoço ,com Beryl, em fevereiro último. "Ela falou se o telefonema do dia onze de março havia sido o primeiro?"

        Wesley respondeu, consultando o boletim de ocorrência. "Aparentemente, não." Ele passou para outra página. "Reed menciona que ela declarou ter recebido vários telefonemas agressivos, desde o início do ano, mas só contatou a polícia neste caso. Ao que parece, os chamados anteriores eram esporádicos, e menos específicos do que o recebido na noite de domingo, dez de março."

       "Beryl tinha certeza de que os telefonemas haviam sido feitos pela mesma pessoa?", perguntei a Marino.

       "Ela disse a Reed que parecia ser a mesma voz", respondeu. "Um homem branco, articulado, de fala mansa. Não era a voz de ninguém conhecido — ou, pelo menos, foi o que declarou."

       Marino retomou os boletins, passando para o segundo: "Beryl ligou para o policial Reed na terça-feira à noite, às sete e dezoito. Disse que precisava conversar, e o policial chegou à sua residência em menos de uma hora, pouco depois das oito. Novamente, segundo seu relatório, estava muito perturbada. Disse ter recebido outro telefonema, antes de chamar Reed. Mesma voz, mesmo elemento. As ameaças eram similares às feitas em dez de março".

       Marino passou a ler o boletim, palavra por palavra: " 'Aposto que sente saudades de mim, Beryl. Vou procurá-la logo. Sei onde você mora, sei de tudo a seu respeito. Pode fugir, mas não vai conseguir se esconder'. Depois o sujeito mencionou o carro novo, o Honda preto, e afirmou que havia quebrado a antena, na noite anterior, quando o carro se encontrava estacionado na frente da casa. A queixosa confirmou que o carro estivera estacionado na frente da casa na noite anterior, e que, ao sair, na manhã de terça, notou a antena danificada, ainda presa ao carro, porém torta, num ângulo inusitado. Não funcionava mais. O policial examinou o veículo, e confirmou que a antena havia sido danificada".

       "Quais foram as providências do policial Reed?", perguntei.

       Marino consultou a segunda página e disse: "Aconselhou-a a sempre guardar o carro dentro da garagem. Ela informou que nunca usava a garagem, pretendia transformá-la em escritório. Depois ele sugeriu que a moça pedisse aos vizinhos que prestassem atenção a veículos estranhos na área, ou na frente de sua propriedade, a qualquer hora. Ela perguntou se deveria adquirir uma arma".

       "E isso é tudo? E quanto aos registros que Reed a aconselhara a manter? Alguma menção?"

       Não. Ele também anotou o seguinte, na parte confidencial do boletim: 'A reação da queixosa à antena quebrada pareceu excessiva. Mostrou-se extremamente irritada, e a certa altura destratou este policial'. Marino ergueu os olhos. "Ou seja, Reed duvidava dela. Talvez pensasse que a própria Beryl tivesse quebrado a antena e inventado a história dos telefonemas."

       "Ai, meu Deus", falei, revoltada.

       "Espere aí. Tem idéia de quantos pirados ligam diariamente para a polícia, contando histórias do gênero? As mulheres telefonam sem parar, mostram cortes, arranhões, denunciam estupros. Algumas inventam tudo. Têm um parafuso solto, precisam de atenção..."

       Eu conhecia bem as doenças imaginárias, os ferimentos provocados pela própria pessoa. Todos os Munchausens e desajustados e maníacos capazes de cometer violências terríveis contra si mesmos, e até de desenvolver doenças. Não precisava de uma aula de Marino.

      "Prossiga", falei apenas. "O que houve em seguida?"

       Ele colocou o segundo boletim sobre a mesa de Wesley e começou a ler o terceiro. "Beryl ligou para Reed mais uma vez, no dia seis de julho, sábado, às onze e quinze da manhã. Ele passou em sua casa de tarde, às quatro, e percebeu que a queixosa estava irritada, hostil..."

       "Não admira. Esperou cinco horas..."

       "Na ocasião", Marino ignorou meu comentário e seguiu adiante, "a senhorita Madison declarou que o mesmo elemento telefonara, às onze horas, falando o seguinte: 'Ainda sente falta de mim? Calma, Beryl, calma. Procurei por você, ontem à noite. Não estava em casa. Tinge o cabelo? Espero que não'. A senhorita Madison, que é loura, tentou dialogar com ele, neste momento. Suplicou para ser deixada em paz, perguntou quem era e por que fazia aquilo com ela. Segundo a moça, ele não respondeu, desligando o telefone em seguida. Ela confirmou a saída, na noite anterior ao chamado. Quando o policial perguntou onde fora, ela se mostrou evasiva, dizendo apenas que estava fora da cidade."

       "E o que o policial Reed fez naquele momento, para aliviar o sofrimento da moça?", perguntei.

       Marino olhou para mim, inexpressivo. "Ele a aconselhou a comprar um cachorro, e ela disse que era alérgica a cães."

       Wesley abriu uma pasta. "Kay, você está analisando o caso depois de saber que um crime terrível foi cometido. Mas Reed não poderia saber disso. Tente ver a coisa pelo lado dele. Uma moça vivendo sozinha, que assume um comportamento histérico. Reed fez o possível, deu-lhe até seu telefone pessoal. Atende a seus chamados rapidamente, pelo menos no primeiro caso. Mas a moça se mostra evasiva, quando ele faz perguntas específicas. Ela não tem provas. Qualquer policial adotaria uma postura meio cética."

       "Se fosse comigo", Marino reforçou, "pensaria a mesma coisa. Deduziria que a moça sentia muita solidão, precisava de atenção, queria confirmar que alguém se importava com ela, pelo menos um pouquinho. Ou talvez planejasse uma vingança contra alguém, um ex-namorado que a abandonara, e estivesse preparando o terreno."

       "Entendi", falei antes que pudesse conter a minha língua. "E, se o namorado ou o marido a ameaçasse de morte, pensaria a mesma coisa. E Beryl acabaria morta, de um jeito ou de outro."

       "Talvez", Marino disse, impaciente. "Mas, se fosse o marido — na hipótese de ela ser casada — pelo menos teríamos um suspeito, e seria possível conseguir uma ordem do juiz, para manter o miserável à distância."

       "Ordens do gênero não valem o papel em que são escritas", retruquei, a raiva rompendo os limites do meu autocontrole. Costumava realizar autópsias em meia dúzia de mulheres, por ano, todas mortas por maridos ou namorados teoricamente intimidados por ordens judiciais.

       Perguntei a Wesley, depois de um longo silêncio: "Reed sugeriu, em algum momento, que o telefone fosse grampeado?".

       "Não adiantaria nada", ele respondeu. "É difícil conseguir autorização para um grampo. A companhia telefônica exige uma lista imensa de ligações e provas cabais de que as ameaças realmente ocorreram."

       "Ela não possuía provas cabais?"

       Wesley fez que não, lentamente. "Seria preciso um número maior de ligações, Kay. Muito maior, mesmo. Registros das épocas em que ocorreram. Padrões claros de repetição. Sem isso, pode dizer adeus ao grampo."

       "Pelo que sabemos", Marino acrescentou, "Beryl recebia uma ou duas ligações por mês. E não anotava os dados, como Reed aconselhara. Ou, se marcou tudo, não encontramos o papel. Não gravou os telefonemas, tampouco."

       "Meu Deus", murmurei, "alguém está tentando matar a moça, e é preciso convocar uma sessão extraordinária do Congresso, para levar o caso a sério."

       Wesley não respondeu.

       Marino reagiu. "No seu ramo é igual, doutora. Não existe medicina preventiva. Não passamos de um bando de lixeiros. Pouco podemos fazer antes da ocorrência. Aí temos um dado concreto. Um cadáver, por exemplo."

       "O comportamento de Beryl era um dado concreto", respondi. "Veja os boletins. Ela seguiu as sugestões do policial Reed. Instalou o sistema de alarme. Começou a estacionar o carro dentro da garagem, embora pretendesse transformá-la em escritório. A moça perguntou a respeito do revólver, depois saiu para adquiri-lo. Sempre ligava para Reed imediatamente após uma chamada ameaçadora por parte do assassino. Em outras palavras, ela não esperou horas, ou dias, para acionar a polícia."

       Wesley espalhou as cópias das cartas enviadas por Beryl, de Key West, os desenhos da cena do crime e o relatório, assim como uma série de fotos Polaroid, do jardim, do interior da casa e, finalmente, do corpo, no andar superior. Examinou os itens em silêncio, o rosto contraído. Demonstrava claramente que chegara a hora de ir adiante, já havíamos discutido e argumentado o bastante. O que a polícia havia feito ou deixado de fazer não era importante. Encontrar o assassino, sim.

       "Uma coisa me intriga", Wesley disse. "Falta consistência no modus operandi. A seqüência de ameaças indica uma mente psicopata. Alguém capaz de seguir e atormentar Beryl por meses a fio, embora, aparentemente, só a conhecesse de vista. Sem dúvida, ele se excitava com a fantasia, com a fase inicial. Estendeu esta parte ao máximo. Talvez tenha atacado, finalmente, porque ela o frustrou, saindo da cidade. Pode ter pensado que a moça ia mudar para sempre e a matou no momento em que retornou."

       "Ela o deixou puto da vida", Marino comentou.

       Wesley continuou a olhar para as fotos. "Vejo muita raiva, e aí está a incoerência no procedimento. A raiva parece concentrada na pessoa em si. A mutilação do rosto, especificamente." Ele apontou para a foto, com o indicador. "O rosto é a pessoa. No homicídio típico, cometido por um sádico sexual, o rosto da vítima não é tocado. Ela é despersonalizada, um símbolo. Em certo sentido, para o assassino a vítima não possui uma face, pois não é ninguém. Quando mutila, escolhe outras partes do corpo, como os seios, órgãos genitais..." Ele parou, perplexo. "Há elementos pessoais no assassinato de Beryl. Cortes na face, excesso de golpes. Isso tudo combina com alguém que ela conhecia. Um sujeito com uma obsessão forte, secreta. Mas observá-la a distância e segui-la não se encaixa no padrão. São atos próprios de um assassino desconhecido."

       Marino brincava com o 357 que Wesley ganhara no encontro. Girando o cilindro, distraidamente, ele disse: "Quer saber minha opinião? Aposto que o louco sofria de mania de grandeza. Sabe como é, enquanto a pessoa se comportar direitinho, não sofre nada. Beryl desobedeceu, ao deixar a cidade e colocar uma placa de VENDE-SE na frente da casa. Acabou a graça. Quem não se comporta, é punido".

       "Em sua opinião, qual é o perfil psicológico do criminoso?", perguntei a Wesley.

       "Branco, vinte a trinta e poucos anos. Inteligente, vindo de um lar desfeito, onde faltava a figura paterna. Também pode ter sofrido violências na infância. Físicas e psicológicas. Solitário. Isso não significa que ele mora sozinho, contudo. Pode ser casado, pois parece eficiente em manter uma imagem social adequada. Leva vida dupla. Existe um homem, que o mundo vê, e o outro, obscuro. É um compulsivo-obsessivo, um voyeur."

       "Ora", Marino disse sarcástico, "isso se aplica a metade dos malucos que eu conheço."

       Wesley deu de ombros. "Pode ser que eu esteja abrindo muito o leque, Pete. Ainda não me concentrei no caso. Ele pode ser um frustrado, do tipo que ainda mora com a mãe, ter antecedentes criminais. Criado em instituições, com várias passagens por prisões. Ou trabalhar numa empresa de segurança no centro da cidade, e sem qualquer histórico criminal ou psiquiátrico. Ao que consta, sempre ligava para Beryl à noite. O único chamado diurno ocorreu num sábado. Ela trabalhava em casa, e lá permanecia a maior parte do tempo. O sujeito ligava quando era conveniente para ele, ou quando imaginava encontrá-la em casa. Prefiro achar que trabalhava em horário comercial, com fins de semana livres."

       "A não ser que tenha telefonado da empresa onde trabalhava", Marino disse.

       "Sempre existe esta possibilidade", Wesley admitiu.

       "E quanto à idade?", indaguei. "Por que não pode ser mais velho do que calculou?"

       "Seria incomum", Wesley disse. "Mas tudo é possível."

       Bebericando o café, que já estava frio, contei o que Mark revelara sobre os problemas contratuais de Beryl e seu relacionamento enigmático com Cary Harper. Quando terminei, Wesley e Marino me encaravam, curiosos. No mínimo, aquela visita inesperada do advogado de Chicago, tarde da noite, parecia esquisita. Por outro lado, surgia um dado novo. Marino e Wesley, provavelmente, e até eu mesma, antes da noite passada, não pensávamos que pudesse haver uma razão por trás da morte de Beryl. O motivo mais comum, em homicídios sexuais, é a falta total de motivo. Os assassinos atacam porque gostam, quando percebem uma boa oportunidade.

       "Um amigo meu trabalha na polícia de Williamsburg", Marino comentou. "Ele me contou que Harper é um mau-caráter e vive isolado. Passeia num Rolls-Royce antigo, nunca fala com ninguém. Mora em uma mansão enorme, na beira do rio, mas não recebe visitas. E o sujeito é velho, doutora."

       "Nem tanto", discordei. "Cinqüentão. Vive isolado, concordo. Mora só com a irmã."

       "As chances são remotas", Wesley disse, e parecia muito tenso. "Mas vamos ver no que pode dar. Vá em frente, Pete. No mínimo, Harper pode esclarecer quem é o famoso 'M' a quem Beryl escrevia. Obviamente, trata-se de algum conhecido. Amigo íntimo, ou namorado. Alguém deve saber quem é o tal sujeito, por lá. Se descobrirmos, já será um progresso."

       Marino não gostou. "Pelo que ouvi", disse, "Harper não vai conversar comigo, e não tenho base para intimá-lo judicialmente. Além disso, não acredito que tenha atormentado Beryl, apesar do motivo. Se fosse matá-la, teria agido imediatamente, e pronto. Por que estender o caso por nove, dez meses? E Beryl não reconheceu a voz dele nos telefonemas."

       "Harper pode ter contratado alguém", Wesley disse.

       "Sei. Neste caso, nós a teríamos encontrado uma semana depois, morta com um tiro na nuca", Marino argumentou. "Assassinos profissionais não atormentam suas vítimas, não telefonam para assustá-las, não as estupram e não usam facas."

       "A maioria, não", Wesley concordou. "Mas nem temos certeza se houve estupro. Não havia sêmen." Ele me olhou de lado, e eu confirmei com a cabeça. "O sujeito pode ter problemas de ejaculação. Em todo o caso, o crime pode ter sido encenado, para parecer um estupro. Tudo depende de quem foi contratado e qual era o plano exato. Por exemplo, sé Beryl aparecesse morta com um tiro na nuca, no meio de uma disputa judicial com Harper, a polícia o colocaria em primeiro lugar na lista. Se o assassino fosse um sádico sexual, um psicopata, então o nome de Harper não viria à mente dos investigadores."

       Marino desviara os olhos para os livros da estante, com o rosto corado. Lentamente, fixando os olhos inquietos em mim, ele perguntou: "O que mais sabe a respeito do tal livro que ela estava escrevendo?".

       "Só o que já contei. Era autobiográfico, e possivelmente desairoso para a reputação de Harper", respondi.

       "Durante a temporada em Key West, acha que ela estava trabalhando neste livro?"

       "Presumo que sim. Não dá para saber, com certeza."

       Ele hesitou. "Bem, odeio dizer, mas não encontramos nada do gênero, na casa."

       Até Wesley mostrou-se surpreso. "E o original existente no quarto?"

       "Ah, aquilo." Marino apanhou um cigarro. "Já dei uma olhada. Mais um romance sobre a Guerra de Secessão, bem meloso. Não tem nada a ver com o livro que a doutora mencionou."

       "Trazia a data, ou o título?", perguntei.

       "Nada. Ainda não estava pronto, creio. Era desta grossura." Marino separou os dedos cerca de dois centímetros. "Havia muitas notas à margem, e mais dez páginas manuscritas."

       "Acho melhor dar uma olhada mais atenta em sua papelada, disquetes de computador, para ter certeza de que o original da autobiografia não se encontrava mesmo por lá", Wesley disse. "Também precisamos saber quem é seu editor, ou agente literário. Talvez tenha enviado o original para alguém, antes de voltar de Key West. Precisamos ter certeza de que ela não trouxe o material de volta para Richmond. Em caso positivo, no mínimo pode-se dizer que o desaparecimento é suspeito."

       Consultando o relógio, Wesley afastou a poltrona e desculpou-se: "Tenho outra reunião em cinco minutos". E nos conduziu até a saída.

       Não consegui me livrar de Marino. Ele insistiu em me acompanhar até o carro.

       "Você precisa manter os olhos bem abertos." Lá vinha ele de novo, a fim de passar um sermão sobre "segurança nas ruas", como fizera tantas vezes, no passado. "Muitas mulheres nem pensam nisso. Vejo quando saem pela rua, sem a menor idéia de quem possa estar olhando para elas, ou até seguindo seus passos. Quando chegar no carro, olhe sempre embaixo dele, tá? Não acredito que as mulheres nunca pensem nisso. Se estiver dirigindo pela rua e perceber que alguém a segue, como deve agir?"

       Ignorei-o.

       "Deve seguir direto para o corpo de bombeiros, entendeu? Sabe por quê? Porque tem sempre alguém lá, mesmo no Natal, às duas da madrugada. Lembre-se disso."

        Enquanto esperava uma brecha no trânsito, eu procurava a chave do carro. Ao olhar para o outro lado da rua, notei um retângulo branco odioso, sob o limpador de pára-brisa. Teria estourado a hora? Droga.

       "Eles estão por toda a parte", Marino insistiu. "É só prestar atenção, quando volta para casa, ou quando sai para fazer compras."

       Eu o fuzilei com os olhos, e atravessei a rua correndo.

       "Ei", ele disse quando cheguei ao carro, "não fique brava comigo, tá? Tem sorte que eu esteja por perto, como um anjo da guarda."

       O tempo se esgotara. Eu havia passado quinze minutos do prazo. Arranquei a multa do pára-brisa e a guardei no bolso dele.

       "Quando você voltar para a delegacia", falei, "cuide disso, por favor."

       Marino sorria para mim, quando parti.

    

       Dez quadras adiante, estacionei em outra vaga com parquímetro e depositei as duas últimas moedas de que dispunha. Apesar de manter um aviso de médico-legista bem visível no painel, os guardas de trânsito não se abalavam. Havia alguns meses, um deles teve a pachorra de me multar enquanto eu estava no centro, trabalhando na cena de um homicídio, convocada pela própria polícia, no meio da tarde.

       Subi os degraus de cimento com pressa, passei pela porta de vidro e entrei no prédio principal da biblioteca pública, onde as pessoas se moviam silenciosamente, por entre mesas de madeira cobertas de livros. O ambiente silencioso inspirava hoje o mesmo respeito que eu sentia na infância. Assim que localizei a fileira de máquinas de microfichas, do outro lado do salão, comecei a consultar o índice de livros escritos por Beryl Madison, sob os vários pseudônimos, e a anotar seus títulos. O último trabalho, um romance histórico passado na época da Guerra de Secessão, publicado sob o pseudônimo de Edith Montague, datava de um ano e meio. Provavelmente irrelevante, e Mark tinha razão, pensei. Nos últimos dez anos, Beryl publicara seis romances. Jamais ouvira falar neles.

       Em seguida, iniciei a pesquisa na imprensa. Nada. Beryl fazia livros. Pelo que eu estava vendo, não escrevia artigos cm revistas, nem dava entrevistas. Recortes de jornais talvez me ajudassem mais. Encontrei resenhas de livros nas edições do Times de Richmond, em anos recentes. Inúteis, pois se referiam à autora pelo pseudônimo. O assassino de Beryl sabia seu verdadeiro nome.

       Telas e mais telas com índices desfilaram à minha frente. "Maberly", "Macon", e finalmente "Madison"". Encontrei um texto curto sobre Beryl, publicado no Times de novembro último:

      

                   ESCRITORA REALIZA PALESTRA

      

       A escritora Beryl Stratton Madison dará uma conferência às Filhas da Revolução Americana, nesta quarta-feira, no hotel Jefferson (esquina da rua Principal com Adams). A senhorita Madison, descoberta pelo ganhador do prêmio Pulítzer, Cary Harper, é mais conhecida pelos romances históricos passados durante a Guerra de Secessão. Ela falará sobre "A viabilidade da lenda como veículo para os fatos".

      

       Anotei as informações pertinentes, fiquei por ali o tempo necessário para localizar alguns livros de Beryl e dar uma espiada neles. De volta ao escritório, ocupei-me da papelada. Não conseguia desviar a atenção do telefone. Não é da sua conta. Conhecia muito bem os limites de minha atuação, e a função da polícia.

       As portas do elevador, no final do corredor, se abriram para o pessoal da limpeza. Eles conversavam em voz alta, a caminho da sala dos faxineiros, logo adiante. Sempre chegavam por volta das seis e meia. A sra. J. R. McTigue encarregava-se das inscrições, segundo o jornal, mas não me atenderia, de qualquer modo. O número publicado pertencia provavelmente ao escritório da entidade, que encerrava o expediente às cinco.

       O telefone tocou só duas vezes, e foi atendido.

       Após uma pausa, indaguei: "É a senhoraj. R. McTigue?".

       "Sim, isso mesmo. Sou a senhora McTigue."

       Tarde demais. Não me restava alternativa, senão falar com franqueza. "Senhora McTigue, aqui é a doutora Scarpetta..."

       "Doutora o quê?"

       "Scarpetta", repeti. "Trabalho como legista, na investigação da morte de Beryl Madison..."

       "Ah! Claro. Li a respeito. Que horror. Uma moça tão adorável. Não pude acreditar, quando soube..."

       "Consta que ela fez uma palestra na reunião de sua entidade, em novembro último..."

       "Ficamos tão contentes quando ela concordou em comparecer. Sabe, ela não costumava participar deste tipo de evento."

       A sra. McTigue parecia idosa, e eu já desanimava, calculando ter perdido meu tempo. Mas ela me surpreendeu.

       "Sabe, Beryl compareceu por uma questão de cortesia. Só por isso. Sabe, meu falecido marido era amigo de Cary Harper, o escritor. Com certeza já ouviu falar nele. Joe conseguiu tudo, na verdade. Ele sabia o quanto era importante, para mim. Sempre adorei os livros de Beryl."

       "Onde mora, senhora McTigue?"

       "No Gardens."

       Chamberlayne Gardens era uma casa de repouso, próxima ao centro. Mais um marco sombrio em minha vida profissional. Nos últimos anos, tive vários casos do Gardens, bem como de todas as outras casas para idosos e asilos da cidade.

       "Estava pensando em passar por aí, para conversarmos por alguns minutos, quando fosse voltar para casa", falei. "Seria possível?"

       "Creio que sim. Mas é claro. Suponho que não haja problema algum. Seu nome, como é, mesmo?"

       Repeti meu nome, pausadamente.

       "Estou no apartamento trezentos e setenta e oito. Quando chegar ao saguão, pegue o elevador e salte no terceiro andar."

      

       O local de residência da sra. McTigue já revelava um bocado a seu respeito. Chamberlayne Gardens recebia idosos que não precisavam de assistência pública para sobreviver. O depósito pelo apartamento era substancial, e a mensalidade mais cara que uma prestação de apartamento. Mas o Gardens, como outros asilos, não passava de uma prisão. Dourada, adorável, e no entanto ninguém gostava de morar lá.

       No limite oeste do centro, o edifício moderno, de tijolos, era uma mistura melancólica de hotel e hospital. Estacionei numa vaga para visitante e segui em direção ao pórtico do que parecia ser a entrada principal. O saguão brilhava, com quadros de Williamsburg e flores de seda em pesados vasos de cristal. Por cima do carpete vermelho grosso havia tapetes ao estilo oriental, industrializados. Um candelabro de latão dava o toque final, no alto. Um senhor encarquilhado, de bengala na mão, ocupava o sofá, os olhos distantes sob o boné de tweed inglês. Uma senhora decrépita atravessava o saguão, apoiada num andador.

       Um rapaz entediado, atrás do vaso que decorava a recepção, não me deu a menor atenção quando segui para o elevador. As portas se abriram, depois de algum tempo, e demoraram-se a fechar, como costuma ocorrer nos lugares onde as pessoas precisam de muito tempo para se movimentar. Subi os três andares, sem companhia, consultando distraidamente o boletim colado no painel de madeira do elevador. Avisos de passeios a museus e fazendas locais, datas das reuniões do clube de bridge, artesanato e pintura, e o prazo máximo para a entrega dos agasalhos tricotados para o Centro Comunitário Hebraico. Muitos avisos eram antigos. Lares para idosos, com seus nomes de cemitério, do tipo Shelterling Pines ou Chamberlayne Gardens, sempre me incomodavam um pouco. Não saberia o que fazer, quando minha mãe não pudesse mais viver sozinha. Na última vez em que liguei, ela falou em fazer uma prótese na bacia.

       O apartamento da sra. McTigue situava-se na metade do corredor, à esquerda. Assim que bati, atendeu uma senhora enrugada, com cabelos ralos encaracolados e amarelos como papel velho. O rosto, cheio de rouge, contrastava com o cardigã branco, grande demais para ela. Senti o perfume de água de colônia floral e o aroma de queijo derretido.

       "Sou Kay Scarpetta", falei.

       "Foi muita gentileza sua ter vindo", ela disse, tocando delicadamente minha mão estendida. "Gostaria de tomar um chá, ou algo mais forte? Pode pedir o que quiser, que eu tenho. Estou tomando vinho do Porto."

       Ela falou isso enquanto me conduzia à pequena sala de visitas, onde indicou uma poltrona, para que eu me sentasse. Desligando a televisão, ela acendeu mais uma lâmpada. A sala era exagerada, como um cenário da ópera Aída. Sobre o tapete persa desbotado havia diversas peças de mobília pesada, em mogno: cadeiras, mesinhas, um aparador, estantes de livros, armários de canto cheios de porcelana e louça. Amontoados nas paredes, vi quadros escuros, cordões de sinos e peças de latão polido.

       Ela voltou trazendo uma pequena bandeja de prata, onde vi um decantador Waterford com vinho do Porto, dois cálices idênticos e um pratinho com biscoitos caseiros de queijo. Enchendo os cálices, ela estendeu o prato com guardanapos de linho bordados, que pareciam velhos e recém-passados. O ritual todo exigiu um bom tempo. No final, ela se sentou num assento gasto do sofá, onde suponho que passava a maior parte do dia, assistindo televisão ou lendo. Agradava-lhe receber uma visita, mesmo que o motivo não fosse exatamente social. Calculei que raramente alguém aparecia para vê-la.

       "Como mencionei anteriormente, sou legista e trabalho no caso de Beryl Madison", expliquei. "Até agora, descobrimos muito pouco sobre ela, ou sobre as pessoas que a conheciam."

       A sra. McTigue bebericou o Porto, com ar inexpressivo. Acostumara-me tanto a ir direto ao assunto, no trato com policiais e advogados, que me esquecia da necessidade de aquecimento característica do resto do mundo. O biscoito, crocante, estava muito gostoso. Elogiei-o.

        "Muito obrigada." Ela sorriu. "Por favor, sirva-se. Fiz uma porção."

       "Senhora McTigue", tentei novamente, "era amiga de Beryl Madison, antes de convidá-la a falar no encontro de seu grupo, no outono passado?"

       "Sim, claro", ela respondeu. "Pelo menos indiretamente, e apreciava seus livros. Adoro romances históricos, sabe? São meus favoritos."

       "Como sabia que ela os escrevia?", perguntei. "Beryl usava pseudônimos. Não existe referência a seu nome real na capa, nem nos dados sobre o autor." Sabia disso, tendo consultado vários livros de Beryl, na biblioteca.

       "Tem razão. Suponho que eu seja uma das poucas pessoas a conhecer sua verdadeira identidade. Por causa de Joe."

       "Seu marido?"

       "O senhor Harper e ele eram amigos", respondeu. "Bem, até onde alguém pode ser amigo do senhor Harper, claro. Conheceram-se por causa do trabalho de Joe. Foi assim que tudo começou."

       "E qual era o trabalho de seu marido?", indaguei, concluindo que minha anfitriã era muito menos confusa do que presumira.

       "Construção civil. Quando o senhor Harper comprou Cutler Grove, a casa precisava de uma bela restauração. Joe passou quase dois anos supervisionando a reforma."

       Eu deveria ter ligado as coisas desde o início. A construtora McTigue e a madeireira McTigue eram duas importantes empresas do ramo, em Richmond, com filiais espalhadas pela região toda.

       "Isso faz mais de quinze anos", prosseguiu a sra. McTigue. "Na época em que Joe trabalhava em Grove, ele conheceu Beryl, que inspecionava sempre a obra, junto como senhor Harper, e acabou vindo morar na casa. Era muito nova." Ela parou. "Lembro-me de Joe ter me contado que o senhor Harper havia adotado uma linda garota, uma jovem escritora muito talentosa. Creio que ela era órfã. Uma história triste, sabe? Não se falava muito no assunto, claro." Ela devolveu o cálice para a bandeja, cuidadosamente, e atravessou a sala com calma, aproximando-se da escrivaninha. Abriu uma gaveta e retirou um envelope cor creme, tamanho grande.

       "Aqui está", ela disse. Suas mãos tremiam, ao estendê-lo para mim. "A única fotografia que tenho dela."

       Dentro do envelope havia uma folha branca de papel de carta, dobrada sobre a foto velha, ligeiramente sobreposta, em preto e branco. Dois homens imponentes, bronzeados, com trajes esportivos, ladeavam uma adolescente loura, formosa. As três figuras estavam juntas, franzindo os olhos contra o sol ofuscante.

       "Este aqui é Joe", disse a sra. McTigue, apontando para o homem à esquerda da mocinha, que sem dúvida era Beryl Madison adolescente. As mangas da camisa caqui de Joe estavam enroladas até o cotovelo dos braços musculosos, os olhos protegidos pela aba de um boné da International Har-vester. Do lado direito de Beryl encontrava-se um homem corpulento, de cabelos brancos. Cary Harper, segundo a sra. McTigue.

       "Tiramos esta foto perto do rio", contou. "Quando Joe trabalhava na reforma da casa. O cabelo do senhor Harper já era branco naquela época. Suponho que conheça a história. Dizem que o cabelo ficou assim enquanto ele escrevia The jagged comer, aos trinta e poucos anos, imagine."

       "Tiraram a foto em Cutler Grove?"

       "Sim, em Cutler Grove", ela respondeu.

       A face de Beryl me assombrou. Sábia e compenetrada demais para alguém tão nova. Sua expressão melancólica indicava perda e tristeza, do tipo que eu me acostumei a associar a crianças maltratadas e abandonadas.

       "Beryl era uma criança na época", a sra. McTigue disse.

       "Suponho que tivesse dezesseis ou dezessete anos."

       "Isso mesmo. Creio que tem razão", ela concordou, atenta a meus movimentos, enquanto eu dobrava a folha de papel sobre a foto e a devolvia ao envelope. "Só encontrei esta foto depois da morte de Joe. Acho que foi tirada por um dos empregados da construtora."

       Guardando novamente o envelope na gaveta, ela sentou-se e acrescentou: "Creio que um dos motivos para o ótimo relacionamento entre Joe e o senhor Harper estava na capacidade de guardar segredos de Joe. Ele não me contava muitas coisas, certamente". Sorrindo desanimada, ela fixou os olhos na parede.

       "Pelo menos o senhor Harper contou a seu marido sobre os livros de Beryl, quando foram publicados", comentei.

       Ela voltou a atenção para mim, novamente, mostrando-se surpresa. "Bem, nem sei se Joe algum dia me disse como descobriu isso, doutora Scarpetta. Lindo nome. Seria espanhol?"

       "Italiano."

       "Ah! Deve cozinhar muito bem, então."

       "Gosto muito de cozinhar, realmente", falei, antes de beber um pouco de vinho do Porto. "Então, pelo que sabe, o senhor Harper falou a seu marido sobre os livros de Beryl."

       "Que coisa!", ela franziu p cenho. "Muito interessante que tenha dito isso. Nunca pensei no assunto. Mas, claro, o senhor Harper deve ter contado, algum dia. Bem, não posso imaginar outro modo para Joe descobrir isso. E ele sabia. Quando Flag of honor foi lançado, ele me deu o livro de presente, no Natal."

       Ela se levantou outra vez. Examinou as estantes, até encontrar um volume grosso, que passou para mim. "Está autografado", acrescentou orgulhosa.

       Abri o livro e examinei a assinatura de "Emily Stratton", datada de dezembro, dez anos atrás.

       "Seu livro de estréia", falei.

       "E, provavelmente, um dos poucos que autografou na vida." A sra. McTigue exultava. "Creio que Joe conseguiu isso através do senhor Harper. Claro, não haveria outro modo.''

       "Tem outros livros autografados?"

       "Dela, não. Bem, tenho todos os romances que Beryl publicou, li um por um, em geral duas ou três vezes." Ela hesitou, arregalando os olhos. "Aconteceu mesmo do jeito que os jornais descreveram?"

       "Sim." Não contei a verdade inteira. A morte de Beryl fora muito mais brutal do que o noticiado pela imprensa.

       Ao servir-se de mais um biscoitinho de queijo, ela pareceu, por um momento, a ponto de chorar.

       "Fale sobre novembro passado", pedi. "Já faz quase um ano, desde que Beryl falou a seu grupo, senhora McTigue. As Filhas da Revolução Americana."

       "Foi em nosso almoço anual com o autor. O ponto culminante das atividades do ano, quando convidamos um conferencista especial, um autor — em geral, alguém muito famoso. Era a minha vez de dirigir o comitê, tomar todas as providências, convidar um escritor. Desde o início, eu queria chamar Beryl, mas deparei-me com vários obstáculos. Para começar, não fazia a menor idéia de como localizá-la. Seu telefone não constava na lista, eu não sabia o endereço, jamais poderia imaginar que residia aqui mesmo, em Richmond. Pedi ajuda a Joe." Ela hesitou, rindo nervosamente. "Sabe, suspeito que ele queria ver se eu conseguia resolver o caso sozinha. E Joe andava sempre tão ocupado! Bem, ele ligou para o senhor Harper, certa noite, e na manhã seguinte meu telefone tocou. Jamais esquecerei minha surpresa. Quase perdi a fala, quando ela se identificou."

       O telefone dela. Não me ocorrera que o número pudesse estar fora da lista. Não se falava neste detalhe, nos relatórios do policial Reed. Será que Marino sabia disso?

       "Ela aceitou o convite, o que me alegrou muito. Depois fez as perguntas de praxe", a sra. McTigue disse. "Quantas pessoas esperávamos. Calculei que teríamos entre duzentas e trezentas. A hora da palestra, quanto tempo deveria falar, este tipo de coisa. Beryl foi muito charmosa, elegante. Contida, porém. E diferente. Não trouxe livros. Os autores sempre trazem seus livros, como deve saber. Para vender depois, autografados. Beryl disse que não costumava fazer isso. Recusou os honorários, também. Tudo muito incomum. Uma moça modesta e educada, concluí."

       "Seu grupo era formado apenas por mulheres?", perguntei.

       Ela tentou se lembrar. "Creio que algumas sócias trouxeram os maridos. Mas as mulheres eram a maioria absoluta. Como sempre."

       Isso eu já esperava. Dificilmente o assassino de Beryl estaria entre seus admiradores, na conferência de novembro.

       "Sabe se ela aceitava convites do gênero com freqüência?", perguntei.

       "Ah, não", a sra. McTigue respondeu imediatamente. "Sei que não, pelo menos em nossa região. Se eu soubesse de algo do gênero, teria sido a primeira a ir. Fiquei com a impressão de que se tratava de uma moça muito recatada, que escrevia por prazer, e não se preocupava em aparecer. Daí os pseudônimos, creio. Escritores, quando escondem a identidade, como em seu caso, raramente são vistos em público. Sem dúvida ela não teria aberto uma exceção, para nós, se não fosse a amizade entre Joe e o senhor Harper."

       "Percebo que ele faria qualquer coisa para o senhor Harper", comentei.

       "Ora, mas é claro."

       "Chegou a conhecê-lo?"

       "Sim."

       "Qual foi a sua impressão?"

       "Achei que ele era muito reservado", disse. "Mas, às vezes, penso que se trata de um homem muito infeliz, e que talvez se considere melhor do que os outros. Admito que é uma figura impressionante." Seu olhar se perdeu novamente no vazio, embaçado pelas recordações. "E, sem dúvida, meu marido dedicava-se muito a ele."

       "Quando viu o senhor Harper pela última vez?", perguntei.

       "Joe faleceu na primavera passada."

       "E nunca mais esteve com o senhor Harper, depois da morte de seu marido?"

       Amargurada, ela fez que não com a cabeça e recolheu-se a seu mundo particular, sobre o qual eu não sabia nada. Tentei imaginar o que poderia ter havido entre Cary Harper e o sr. McTigue. Negócios escusos? Uma influência nociva sobre o sr. McTigue, capaz de diminuí-lo como homem, aos olhos da esposa? Talvez Harper fosse egoísta e rude, apenas.

       "Ele tem uma irmã, pelo que sei. Cary Harper mora com ela?", perguntei.

       A sra. McTigue me surpreendeu, cerrando os lábios. Seus olhos se encheram de lágrimas.

       Devolvi o cálice à mesa e peguei minha bolsa.

       Ela me acompanhou até a porta.

       Insisti, diplomaticamente. "Beryl chegou a se corresponder com a senhora, ou com seu marido?"

       Ela fez que não.

       "Conhece algum amigo dela? Seu marido chegou a mencionar o nome de alguém?"

       Novamente, ela balançou a cabeça.

       "Ela mencionou algum conhecido cujo nome começasse por 'M'?"

       A sra. McTigue fixou os olhos tristes no corredor deserto, com a mão na porta. Quando olhou para mim, estava chorosa, distraída. "Sei de 'P' e 'A', em dois de seus romances. Espiões da União, creio. Meu Deus. Acho que esqueci o forno ligado." Ela piscou diversas vezes, como se a luz a incomodasse. "Apareça quando quiser."

       "Será um prazer." Toquei seu braço, carinhosamente, agradeci e fui embora.

       Liguei para minha mãe assim que cheguei em casa, e dessa vez senti alívio ao ouvir os sermões e alertas costumeiros, ao escutar aquela voz forte, que mostrava seu amor de modo tão insensato.

       "A temperatura caiu muito esta semana. Menos de dez graus, aqui. Vi no noticiário que está beirando o zero, em Richmond. Já nevou aí?"

       "Ainda não, mãe. Não nevou. Como vai a bacia?"

       "Mais ou menos, como era de se esperar. Estou fazendo uma manta de crochê, para que você possa cobrir as pernas no escritório, enquanto trabalha. Lucy perguntou a seu respeito."

       Eu não falava com minha sobrinha havia semanas.

       "Está trabalhando num projeto de ciências, para a escola, neste momento", minha mãe prosseguiu. "Um robô falante, veja só. Trouxe-o para casa, outro dia, e apavorou Sinbad, coitadinho. Ele se escondeu debaixo da cama..."

       Sinbad era um gato malvado, vagabundo, traiçoeiro, rajado de cinza e preto, que começara a seguir minha mãe tenazmente, quando ela fazia compras em Miami Beach, certa manhã. Sempre que eu a visitava, Sinbad mostrava sua hospitalidade, empoleirando-se em cima da geladeira, como um abutre, a me vigiar desconfiado.

       "Não imagina quem eu encontrei no outro dia", falei, tentando soar descontraída. A necessidade de contar a alguém era insuportável. Minha mãe conhecia meu passado, ou pelo menos boa parte dele. "Lembra-se de Mark James?"

       Silêncio.

       "Ele estava em Washington, e veio me visitar."

       "Claro que eu me lembro dele."

       "Parou para discutir um caso. Sabe, ele é advogado. Hã... em Chicago." Bati em retirada, rapidamente. "Tinha uma reunião em D. c." Quanto mais eu falava, mais seu silêncio me condenava, sufocante.

       "Sei. Só me lembro que você quase morreu por causa deste sujeito, Katie."

       Quando ela me chamava de "Katie", eu me sentia com dez anos outra vez.

    

       Uma das vantagens óbvias de ter os laboratórios de medicina legal no mesmo prédio era não precisar esperar pelos relatórios escritos. Como eu, os cientistas geralmente dispunham de muitas informações, antes de começar a redação dos textos. Tendo enviado as amostras do caso Beryl Madison sete dias antes, deveria esperar várias semanas até que os relatórios chegassem à minha mesa. Joni Hamm, contudo, já teria algumas conclusões e opiniões a respeito. Terminei os casos daquela manhã e, sentindo vontade de especular um pouco, subi para o quarto andar, levando a xícara de café.

       O "escritório" de Joni era pouco mais que uma alcova, espremida entre os laboratórios de análises de amostras e drogas, no final do corredor. Quando entrei, ela estava sentada numa banqueta, espiando pelas lentes de um microscópio estereoscópico. O caderno de anotações, próximo ao cotovelo, transbordava de anotações em caligrafia caprichada.

       "Estou atrapalhando?", perguntei.

       "Nem um pouco", ela disse, erguendo os olhos, distraída.

       Puxei uma cadeira.

       Joni, bonita e miúda, usava o cabelo preto bem curto, emoldurando seus olhos grandes, escuros. Fazia doutorado à noite, além de cuidar dos dois filhos pequenos. Por isso, sempre parecia cansada e meio irritada. Como a maioria do pessoal do laboratório, aliás. Muitos diziam o mesmo a meu respeito.

       "Preciso de informações sobre o caso Beryl Madison", expliquei. "O que conseguiu identificar?"

       "Mais do que esperava, creio." Ela virou as páginas do caderno. "As amostras enviadas para análise deixariam qualquer um louco."

       Não me surpreendi. Enviáramos uma série imensa de envelopes e fragmentos. O corpo ensangüentado de Beryl atraíra partículas, como se tivesse cola. As fibras, em particular, eram mais difíceis de examinar, pois precisaram ser lavadas antes de passar pelo microscópio de Joni. Cada fibra foi lavada em uma solução detergente, que por sua vez passou por um banho de ultra-som. Depois da remoção do sangue e da sujeira, a solução foi filtrada em papel estéril especial, e cada fibra posta entre duas lâminas de vidro.

       Joni repassava suas anotações. "Se eu não conhecesse os fatos", ela comentou, "suspeitaria que Beryl Madison foi morta em outro lugar, não em sua própria casa."

       "Impossível", falei. "Ela morreu no andar de cima, e a polícia chegou logo em seguida."

       "Sei disso. Vamos começar pelas fibras existentes na casa. Coletamos três tipos, na palma da mão e nos joelhos ensangüentados. Lã. Duas em tons escuros de vermelho, uma dourada."

       "Combinam com o tapete oriental existente no corredor do andar superior?" Recordei-me das fotografias da cena do crime.

       "Sim", ela disse. "Conferem com as amostras do tapete, trazidas pela polícia. Se Beryl Madison engatinhou sobre o tapete, isso explica as fibras encontradas. Esta é a parte mais fácil."

       Joni apanhou uma pilha de pastas de papelão duro, repassando-as até encontrar a que procurava. Abriu as abas e examinou as séries de lâminas de vidro, enquanto falava. "Além das fibras de lã mencionadas, encontramos algumas de algodão branco. Não servem para nada, podem vir de qualquer lugar e possivelmente são do lençol branco que cobriu o corpo. Também examinei dez outras fibras, encontradas nos cabelos, nas áreas cobertas de sangue do pescoço e do peito, bem como nos fragmentos sob as unhas. Sintéticas." Ela me encarou. "Não combinam com nenhum dos exemplares enviados pela polícia para comparação."

       "Não podem ser das roupas, ou das cobertas da cama?", questionei.

       Joni fez que não, e disse: "De modo algum. Parecem estranhas à cena do crime, e, como foram encontradas no sangue, ou sob as unhas, aumenta a possibilidade de transferência passiva, do atacante para ela".

       Uma sorte inesperada. Quando Fielding, o médico-legista assistente, conseguiu me localizar, na noite do assassinato de Beryl, eu o instruíra a esperar por mim no necrotério. Cheguei pouco antes da uma da manhã, e passamos horas a examinar o corpo de Beryl sob o laser, recolhendo cada partícula e fibra que se destacava. Deduzira que, em sua maioria, seriam inúteis para a investigação, originárias das roupas de Beryl, ou da casa. A presença de dez fibras diferentes, deixadas pelo atacante, era uma surpresa e tanto. Na maioria dos casos, considerava uma bênção encontrar duas ou três. Muitas vezes, não havia nenhuma. As fibras são difíceis de enxergar, mesmo com lentes de aumento, e a menor interferência no corpo, ou corrente de ar, pode deslocá-las, muito antes que o médico-legista chegue à cena do crime, ou que o cadáver siga para o necrotério.

       "Sintéticas? De que tipo?", perguntei.

       "Olefina, acrílico, náilon, polietileno e Dynel. Náilon, na maioria das amostras", Joni respondeu. "As cores variam: vermelho, azul, verde, dourado, laranja. Microscopicamente, não combinam umas com as outras, tampouco."

       Ela distribuiu as amostras no estereoscópio e as examinou.

       E explicou: "Longitudinalmente, algumas são estriadas, outras não. A maioria contém dióxido de titânio, em densidades variadas. Isso significa que algumas são meio foscas, outras foscas, e poucas brilhantes. Os diâmetros são grosseiros, sugerindo fibras do tipo usado em carpetes, mas no corte transversal as formas variam".

         "Dez origens distintas?", falei.

       "É o que parece, a esta altura", ela disse. "Definitivamente atípicas. Caso as fibras tenham sido transferidas pelo atacante, ele carregava uma variedade incomum, em sua pessoa. Obviamente, as mais grosseiras não provinham de suas roupas, e sim de carpetes. Mas não combinam com nenhum dos carpetes da casa. Que ele ande por aí carregado de tantas fibras é curioso por outro motivo, também. A gente pega fibras o dia inteiro, mas elas não permanecem grudadas no corpo. Ao sentar em algum lugar, a pessoa atrai fibras, que em seguida se despregam, quando ela senta em outro lugar. Ou o ar as remove."

       Aquilo me deixou perplexa. Joni virou outra página de seu caderno e disse: "Também examinei o conteúdo do aspirador no microscópio, doutora Scarpetta. Os fragmentos recolhidos por Marino no tapete oriental são, para dizer o mínimo, muito intrigantes". Ela consultou uma lista. "Cinza de cigarro, partículas de papel rosado, do tipo usado nos selos dos maços de cigarro, contas de vidro minúsculas, caquinhos de vidro do tipo usado em garrafas de cerveja ou em faróis de carro. Como sempre, há partículas de insetos e vegetais. E uma bolinha de metal. Além de muito sal."

       "Sal de cozinha?"

       "Isso mesmo", ela disse.

       "Tudo isso foi encontrado no tapete oriental?", perguntei.

       "E também na área onde' o corpo foi encontrado", ela explicou. "E fragmentos do mesmo tipo encontravam-se no cadáver. Sob as unhas e no cabelo."

       Beryl não fumava. Não havia razão para a presença de cinza ou partículas do selo de maço de cigarro dentro de sua casa. O sal é associado à comida, e não fazia sentido haver sal no andar de cima, ou no corpo dela.

       "Marino trouxe seis amostras diferentes, obtidas com o aspirador. Todas elas do carpete, ou dos trechos do chão onde havia sangue", Joni disse. "Comparamos o material com as amostras de controle, obtidas nas áreas da casa e nos trechos acarpetados onde não havia sangue algum, nem sinais de briga — áreas onde a polícia calcula que o assassino não passou. Estas amostras são muito diferentes. Os fragmentos que mencionei foram encontrados apenas nas áreas onde se calcula que o assassino esteve, sugerindo que o material foi transferido dele para a cena do crime e para o corpo da vítima. As partículas poderiam estar grudadas nos sapatos, nas roupas, no cabelo. Em todos os locais, em tudo que tocou, havia tais fragmentos."

       "Era o próprio Cascão, então", falei.

       "O material é praticamente invisível a olho nu", Joni retrucou, séria como de costume. "Ele provavelmente não tinha idéia de que levava tantos materiais distintos em sua pessoa."

       Estudei as listas manuscritas. Só dois tipos de casos, em minhas experiências anteriores, registravam tal abundância de partículas. No primeiro tipo, o corpo era atirado num aterro, acostamento ou estacionamento revestido com cascalho. No outro, o corpo seguia de um local para outro, na traseira suja de um caminhão, ou no chão de um carro. Nenhum deles se aplicava às condições de Beryl.

       "Repita a lista, com destaque para as cores", pedi. "Quais as cores dos fiapos de carpete e das roupas?"

       "As seis fibras de náilon são vermelhas, claras e escuras; azuis, verdes, verde-amarelado e verde-escuro. Na verdade, o verde-escuro pode ser preto. Todas elas muito grosseiras, do tipo usado para fazer carpete. Suspeito que uma, pelo menos, se origine de um veículo, e não de carpete doméstico."

       "Por quê?"

       "Por causa dos fragmentos. Por exemplo, as contas de vidro minúsculas são com freqüência associadas à tinta fosforescente empregada em placas de rua, por exemplo. As esferas de metal costumam aparecer quando analisamos material aspirado de automóveis. São bolinhas da solda empregada na montagem do veículo. Não as vemos, mas estão lá. Fragmentos de vidro quebrado existem em qualquer lugar, especialmente em acostamentos e estacionamentos com brita. A gente os pega na sola do sapato e os deixa no carro. O mesmo vale para cinzas de cigarro. Finalmente, temos o sal, o que mais me leva a suspeitar de um automóvel, como origem das partículas. As pessoas vão ao McDonald's. Comem batata frita dentro do carro. Aposto que a maioria dos carros desta cidade carrega um pouquinho de sal."

       "Digamos que esteja correta", argumentei. "Digamos que as fibras sejam de um carpete de carro. Isso ainda não explica a presença de seis fibras de náilon diferentes. Não creio que alguém tenha seis tipos de carpete dentro de seu veículo."

       "Dificilmente", Joni disse. "Mas as fibras podem ter sido transferidas para dentro do carro dele. Talvez trabalhe em uma profissão em que mantenha contato com carpetes. Talvez, em sua atividade, entre e saia de carros o dia inteiro."

       "Um lava-rápido?", perguntei, recordando-me do carro de Beryl. Imaculado, por dentro e por fora.

       Joni concentrou-se na possibilidade. "Pode ser algo do gênero. Se ele trabalha com lavagem de automóveis, do tipo em que os funcionários entram nos veículos para limpar o interior e o porta-malas, fica exposto a várias fibras diferentes, durante o dia. Inevitavelmente, algumas se grudarão em seu corpo. Outra possibilidade é que trabalhe como mecânico de autos."

       Estiquei a mão para pegar o café. "Muito bem. Passemos às quatro fibras restantes. O que pode me dizer a respeito delas?"

       Joni consultou as anotações. "Uma delas é acrílico, uma olefina, uma polietileno e a outra Dynel. As três primeiras são usadas em carpetes. A fibra de Dynel é interessante, pois não se vê Dynel com freqüência. Ela é empregada em casacos de pele sintéticos, tapetes felpudos, perucas. Mas esta amostra de Dynel é mais fina; deve ter vindo de alguma roupa."

       "Foi a única fibra de vestuário encontrada?"

       "Tudo indica que sim", ela respondeu.

       "Beryl vestia um conjunto bege..."

       "Não era de Dynel", ela disse. "Pelo menos a calça e o casaco não eram. Mescla de algodão e poliéster. Talvez a blusa fosse de Dynel, não tenho como comprovar, pois desapareceu." Ela apanhou mais uma lâmina na pasta e a prendeu. "Quanto à fibra laranja mencionada, a única de acrílico, exibe um corte transversal que nunca vi na vida."

       Traçando um diagrama, mostrou o padrão. Três círculos que se uniam no centro, lembrando um trevo de três folhas, sem haste. As fibras são fabricadas forçando um polímero derretido ou dissolvido a passar pelos furos de uma máquina de fiar. Em conseqüência, os cortes transversais dos filamentos resultantes, ou seja, das fibras, possuem a mesma forma dos orifícios da máquina, assim como a pasta de dentes sai do tubo com o mesmo formato da boca, num corte transversal. A maioria dos acrílicos, quando não são redondos, tem forma de amendoim, osso de cachorro, haltere ou cogumelo.

       "Olhe." Joni moveu-se para o lado, abrindo espaço para mim.

       Espiei pelas lentes duplas. A fibra parecia uma fita torcida, com vários tons de laranja-vivo, pontilhadas por partículas escuras de dióxido de titânio.

       "Como pode observar", ela explicou, "a cor também é meio esquisita. Laranja. Irregular, com densidade moderada e partículas para atenuar o brilho da fibra. Mesmo assim, o laranja é uma cor berrante, carnavalesca, pouco comum em vestimentas ou carpetes. O diâmetro é médio."

       "O que nos permite pensar num carpete", arrisquei. "Apesar da cor inusitada."

      "Possivelmente."

       Comecei a pensar nos materiais alaranjados que conhecia. "E quanto a coletes de trânsito?", perguntei. "São alaranjados, e uma fibra deles combinaria com os resíduos de veículos identificados."

       "Improvável", ela retrucou. "A maioria dos coletes de trânsito que conheço é confeccionada em náilon, e não em acrílico. Em geral, de uma mescla forte, que não costuma esfiapar. Além disso, capotes e capas usadas por policiais ou grupos que fazem manutenção de ruas são lisos, dificilmente esfiapam, e também confeccionados em náilon." Ela acrescentou, pensativa: "Neles, raramente encontramos estas partículas que reduzem o brilho — ninguém quer um colete de trânsito fosco, certo?".

       Recuei, abandonando o estereoscópio. "De qualquer maneira, esta fibra é tão diferente que pode ser patenteada. Alguém do ramo poderia reconhecê-la, mesmo que não tenhamos material para comparação."

       "Boa sorte."

       "Já sei. Segredo industrial", falei. "A indústria têxtil zela por suas patentes, tanto quanto uma pessoa por sua privacidade."

       Joni esticou os braços e massageou a nuca. "Sempre considerei milagrosa a colaboração que os federais conseguiram no caso de Wayne Williams", ela lembrou, citando o terrível período de vinte e dois meses, em Atlanta, no qual pelo menos trinta crianças negras foram mortas pelo mesmo serial killer. Partículas fibrosas, encontradas nos cadáveres de doze vítimas, foram relacionadas a residências e automóveis usados por Williams.

       "Talvez seja bom convocar Hanowell para examinar estas fibras. Em especial, a cor de laranja", sugeri.

       Roy Hanowell era um agente especial do FBI, trabalhando no Departamento de Análise Microscópica em Quantico. Ele examinara as fibras no caso Williams e desde então vivia afogado em pedidos de várias procedências, gente ansiosa por analisar qualquer coisa, de cashmere a teias de aranha.

       "Boa sorte", Joni repetiu, com o mesmo ar desanimado.

       "Pode ligar para ele?", perguntei.

       "Duvido que ele aceite olhar algo que já foi examina-. do", ela disse, acrescentando: "Sabe como são os federais".

       "Então nós duas vamos telefonar", decidi.

      

       Quando retornei para minha sala, encontrei meia dúzia de recados telefônicos. Um deles me chamou a atenção. Estava escrito: "Mark. Por favor, ligue para mim assim que puder". Em seguida, havia um número de Nova York. Só consegui pensar em um motivo para a presença dele em Nova York. Uma visita a Sparacino, advogado de Beryl. Por que Orndorff & Berger se interessava tanto pelo assassinato de Beryl Madison?

       O número pertencia à linha direta de Mark, pois ele atendeu logo no primeiro toque.

       "Quando veio a Nova York pela última vez?", ele perguntou, como quem não quer nada.

       "Como?"

       "Há um vôo saindo de Richmond dentro de quatro horas, exatamente. Direto. Poderia pegá-lo?"

       "De que se trata?", perguntei com a voz pausada, sentindo o coração palpitar.

       "Não creio que seja prudente discutir os detalhes pelo telefone, Kay", ele disse.

       "Não creio que seja prudente para mim ir a Nova York, Mark", devolvi.

       "Por favor. É importante. Eu não pediria que viesse, se não fosse."

       "Não dá..."

       "Passei a manhã com Sparacino", ele me interrompeu, enquanto emoções havia muito reprimidas lutavam para se soltar e mudar minha decisão. "Alguns fatos novos surgiram, relacionados com Beryl Madison e seu departamento."

       "Meu departamento?" Eu já não soava tão decidida. "O que poderíamos ter para conversar sobre o meu departamento?"

       "Por favor", ele insistiu. "Venha, por favor."

       Hesitei.

       "Eu a encontrarei em La Guardiã". A urgência na voz de Mark cortou minhas tentativas de evasão. "Encontraremos um lugar discreto para conversar. Já providenciei as reservas. Só precisa pegar a passagem no balcão do aeroporto. Reservei um quarto de hotel para você e cuidei de tudo."

       Meu Deus, pensei ao desligar, e logo me vi dentro da sala de Rosie.

       "Preciso ir a Nova York esta tarde", expliquei, num tom que eliminava maiores explicações. "Surgiu algo, relacionado ao caso de Beryl Madison, e só voltarei ao escritório amanhã, na melhor das hipóteses." Evitei seu olhar. Embora minha secretária não soubesse de nada a respeito de Mark, temia que meus motivos fossem escandalosamente óbvios.

       "Vai deixar um telefone para contato?", Rose perguntou.

       "Não."

       Abri a agenda, e comecei a procurar as reuniões que precisaria cancelar, quando ela informou: "O pessoal do Times ligou hoje. Querem fazer um artigo a seu respeito. Um perfil, creio".

       "Nem pensar", retruquei irritada. "Eles só querem arrancar informações sobre o caso de Beryl Madison. Nunca falha. Sempre que eu me recuso a falar sobre um crime brutal, todos os repórteres da cidade resolvem, de repente, perguntar onde fiz a faculdade, se tenho cachorro ou dúvidas quanto à pena de morte, e qual é a minha cor, filme, modo de morrer e comida favoritos."

       "Direi que não pode", ela resmungou, pegando o telefone.

       Saí do escritório com tempo apenas suficiente para ir até em casa, jogar algumas coisas na mala e evitar a hora dos congestionamentos. Conforme Mark prometera, a passagem me aguardava no balcão do aeroporto. Reserva na primeira classe. Em menos de uma hora, estava instalada numa poltrona, sem vizinhos, Passei a hora seguinte bebendo Chivas com gelo e tentando ler, enquanto os pensamentos voavam na minha cabeça como as nuvens no céu crepuscular, para lá da janela oval.

       Eu queria ver Mark. Percebi que não se tratava de uma necessidade profissional, mas sim de uma fraqueza que já julgava superada havia muito tempo. Senti, alternadamente, aversão e entusiasmo por minha atitude. Não confiava nele, embora desejasse desesperadamente confiar. Não é o Mark que conheci um dia, e, mesmo que fosse, não poderia esquecer o que fizera comigo. Mas meu coração recusava-se a ouvir as coisas que minha razão dizia.

       Li vinte páginas de um livro escrito por Beryl Madison, com o pseudônimo de Adair Wilds, sem ter a menor idéia do que lera. Não morro de amores por romances históricos, e aquele ali, para ser sincera, não merecia nenhum prêmio. Beryl escrevia bem, a narrativa chegava a ser melodiosa, mas a história capengava. Não passava de um livro comercial, escrito a partir de uma fórmula, e não pude deixar de pensar se ela teria mesmo condições de fazer a literatura a que aspirava, se permanecesse viva.

       A voz do piloto anunciou, subitamente, que pousaríamos dentro de dez minutos. Lá embaixo a cidade era um painel iluminado, com luzinhas móveis nas avenidas e luzes vermelhas piscando no alto dos arranha-céus.

       Minutos depois tirei a mala do compartimento de bagagem e atravessei o corredor de desembarque, mergulhando na balbúrdia do La Guardiã. Virei, assustada com a pressão dos dedos em meu cotovelo. Mark estava atrás de mim, sorridente.

       "Graças a Deus", falei aliviada.

       "O quê? Pensou que eu fosse um batedor de carteiras?", ele perguntou secamente.

       "Se fosse, não estaria em pé agora", retruquei.

       "Não duvido." Ele me guiou pelo terminal. "Só trouxe esta maleta?"

       "Sim."

       "Ótimo."

       Na saída, pegamos um táxi pilotado por um sikh barbudo, de turbante castanho, cujo nome era Munjar, segundo a identificação grudada no painel. Mark e ele tiveram de gritar, até que o sujeito conseguisse entender nosso destino.

       "Ainda não jantou, espero", Mark disse.

       "Só comi amêndoas torradas..." Encostei nos ombros dele, quando o motorista passou de uma pista a outra.

       "Conheço uma boa churrascaria, perto do hotel", Mark disse em voz alta. "Pensei em comer lá, pois não sei como me mexer nesta maldita cidade."

       Chegar ao hotel já bastaria, pensei, enquanto Munjar desfiou um monólogo, sem a menor cerimônia, sobre sua vinda aos Estados Unidos para se casar, o que planejava fazer em dezembro, embora ainda não tivesse uma esposa em vista. Ele nos informou que estava na praça havia apenas três semanas, e que aprendera a dirigir no Punjab, onde guiava trator desde os sete anos.

       O trânsito estava um tanto lento, mas os táxis amarelos eram dervixes alucinados a rodopiar na escuridão. Quando nos aproximamos do centro, passamos por um fluxo ininterrupto de pessoas em trajes de gala, a caminho da longa fila no Carnegie Hall. As luzes fortes, os casacos de pele e os ternos pretos trouxeram de volta antigas lembranças. Mark e eu adorávamos ir ao teatro, a concertos, à ópera.

       O táxi parou no Omni do Central Park, uma impressionante torre iluminada, perto dos teatros, na esquina da 55 com a Sétima Avenida. Mark pegou minha bagagem, e eu o segui pelo saguão elegante. Ele cuidou do registro e da remessa da mala para o apartamento. Minutos depois, caminhávamos sob o ar gelado da noite. Ainda bem que eu havia trazido o casaco. Fazia muito frio, talvez nevasse. Mais três quadras e chegamos ao Gallagher's, pesadelo dos bovinos e coronárias, sonho de todos os apreciadores da carne sangrando. A vitrine, na frente, exibia os cortes, protegidos pelo vidro, numa profusão de todos os tipos de carne imagináveis. Aquele era um templo de celebridades. As fotografias autografadas cobriam as paredes.

       O barulho era muito, e o barman preparou bebidas fortes para nós. Acendi um cigarro e olhei em volta. As mesas ficavam próximas umas das outras, algo típico nos restaurantes de Nova York. Dois executivos conversavam à nossa esquerda, ninguém ocupava a mesa da direita, um rapaz extremamente atraente e solitário lia o Times de Nova York na mesa de trás, enquanto bebia cerveja. Encarei Mark por algum tempo, tentando ler seu rosto. Seus olhos estavam contraídos, e ele brincava com o gelo do uísque.

       "Por que me chamou aqui, Mark?", perguntei.

       "Talvez eu quisesse apenas jantar com você", ele disse.

       "Sério."

       "É sério. Não está se divertindo?"

       "Como posso me divertir, sabendo que uma bomba vai explodir a qualquer momento?", falei.

       Ele desabotoou o paletó. "Vamos pedir primeiro. Depois conversaremos."

       Fazia sempre isso comigo, antigamente. Chamava-me, só para me fazer esperar. Talvez fosse coisa de advogado. Costumava me deixar louca da vida. E ainda funcionava direitinho.

      "A costela é o carro-chefe da casa", ele disse, enquanto olhávamos o cardápio. "Estou pensando em pedir uma, com salada de espinafre. Nada de muito complicado. Mas é a melhor da cidade."

       "Nunca esteve aqui?", perguntei.

       "Não. Mas Sparacino sim", ele respondeu.

       "Ele recomendou este restaurante? E o hotel também, presumo?", perguntei, sentindo pontadas paranóicas.

       "Claro", ele respondeu, concentrado na carta de vinhos. "É a rotina da firma. Os clientes que chegam se hospedam no Omni, porque é mais conveniente para a empresa."

       "E os clientes jantam aqui, também?"

       "Sparacino costuma comer aqui, depois do teatro. Por isso recomendou o restaurante", Mark explicou.

       "E o que mais Sparacino costuma fazer?", perguntei. "Disse a ele que se encontraria comigo?"

       Ele me encarou, antes de responder. "Não."

       "Como é possível que a firma pague minha conta, e que Sparacino tenha recomendado o hotel e o restaurante, sem saber de minha vinda?"

       "Ele recomendou o hotel para mim, Kay. Eu precisava dormir em algum lugar. E precisava comer. Sparacino me convidou para sair com ele e mais dois advogados, esta noite. Recusei; disse que precisava rever alguns documentos e que provavelmente comeria um filé por aí. Conhecia alguma churrascaria boa? E assim por diante."

       Comecei a entender, e não sabia se estava nervosa ou constrangida. Provavelmente, as duas coisas. Orndorff & Ber-ger não pagaram minha viagem. Mark estava bancando as despesas. A firma ignorava tudo.

       O garçom voltou, Mark pediu. Perdi o apetite.

       "Cheguei ontem à noite", ele disse, retomando sua história. "Sparacino entrou em contato comigo em Chicago, ontem de manhã; disse que precisava me ver imediatamente. Como já deve ter adivinhado, trata-se de Beryl Madison." Ele parecia inquieto.

       "E daí?", provoquei, cada vez mais preocupada.

       Ele respirou fundo e disse: "Sparacino sabe de nossa ligação. De nossa... amizade. Nosso passado...".

       Meu olhar o congelou.

       "Kay..."

       "Seu filho da mãe." Empurrei a cadeira e joguei o guardanapo em cima da mesa.

       "Kay!"

       Mark agarrou meu braço e me obrigou a sentar novamente. Puxei o braço, furiosa, e permaneci sentada, rígida, a encará-lo. Foi num restaurante de Georgetown, muitos anos atrás, que eu arrancara a pulseira de ouro, presente de Mark, e a deixara cair na sopa de mariscos. Comportei-me como uma criança, na época. Um dos raros momentos, em minha vida, no qual perdi completamente a compostura, dando um escândalo.

       ' 'Olhe'', ele disse, baixando a voz,' 'não a culpo por pensar desta forma. Mas não é nada disso. Não estou me aproveitando de nosso relacionamento anterior. Quero que me ouça, por um minuto, por favor. É tudo muito complicado; tem a ver com coisas que você desconhece. Procuro o melhor para você, juro. Nem deveria conversar com você. Se Sparacino ou Berger descobrirem, me botam no olho da rua."

       Não falei nada. Sentia tanta raiva que nem conseguia raciocinar.

       Mark inclinou-se para a frente. "Entenda o seguinte. Berger está pegando no pé de Sparacino. E Sparacino, neste exato momento, está querendo pegar no seu pé."

       "No meu pé?", repeti, atônita. "Nunca vi este sujeito. Como ele poderia pegar no meu pé?"

       "Como já disse, tem a ver com o caso de Beryl", Mark insistiu. "Na verdade, ele é advogado dela desde o início de sua carreira como escritora. Só entrou para nossa firma quando abrimos a filial aqui em Nova York. Antes disso, trabalhava por conta própria. Precisávamos de um advogado especialista em direitos autorais. Sparacino tinha trinta e tantos anos de carreira, em Nova York. Conhecia todo mundo. Trouxe seus clientes. Logo de cara, conseguimos um monte de contratos. Lembra-se de meu primeiro encontro com Beryl, em um almoço no Algonquin?"

       Fiz que sim, perdendo a disposição para discutir.

       "Foi tudo armação, Kay. Não fui lá por acaso. Berger me mandou."

       "Por quê?"

       Depois de olhar para os lados, ele disse: "Porque Berger está preocupado. A firma mal chegou a Nova York, e você sabe como é difícil se estabelecer nesta cidade, formar uma clientela sólida, uma boa reputação. A última coisa que precisamos é de um cretino como Sparacino, capaz de jogar o bom nome da firma na lama".

       Ele ficou quieto, enquanto o garçom se aproximava com a salada e abria cerimoniosamente uma garrafa de cabernet sauvignon. Mark tomou o primeiro gole obrigatório e autorizou o enchimento das taças.

       "Berger já sabia, quando contratou Sparacino, que o sujeito era exuberante, gostava de agir depressa, com estardalhaço", Mark prosseguiu. "Pensou que era só o jeito dele. Alguns advogados são conservadores, outros gostam de aparecer. Contudo, Berger e mais uns poucos começaram a perceber, há poucos meses, que Sparacino era capaz de ir longe demais. Lembra-se de Christie Riggs?"

       Demorei um pouco a me lembrar. "Sei. A atriz que se casou com o jogador de futebol americano?"

       Mark fez que sim e disse: "Sparacino manipulou o caso do começo ao fim. Christie era modelo, iniciante, e gravara alguns comerciais para a televisão, aqui. Há uns dois anos. Naquela época, Leon Jones estava nas capas de todas as revistas. Os dois se conheceram numa festa, e um fotógrafo registrou a saída dos dois, juntos. Eles entraram na Maserati de Jones. Em seguida, Christie Riggs apareceu na sala de espera de Orndorff & Berger. Marcara uma hora com Sparacino".

       "Está me dizendo que Sparacino estava por trás de tudo?", perguntei, incrédula.

       Christie Riggs e Leon Jones casaram-se no ano anterior e se divorciaram seis meses depois. O relacionamento tumultuado e o divórcio escabroso causaram sensação, e não saíam do noticiário, em horário nobre.

       "Isso mesmo", Mark disse, bebendo um pouco de vinho.

       "Explique melhor."

       "Sparacino escolheu Christie", ele disse. "Linda moça, inteligente, ambiciosa. Mas só se destacava por sair com Jones. Sparacino preparou um plano ardiloso. Ela queria ser conhecida. Queria enriquecer. Só precisava atrair Jones para a teia, e depois começar a contar na frente das câmeras os detalhes de sua vida pessoal. Ela disse que apanhava, que ele bebia, era um psicopata, cheirava cocaína e quebrava a mobília. Como sabe, logo ela e Jones se divorciaram. Christie assinou um contrato de um milhão de dólares, para escrever um livro."

       "Sinto uma certa pena de Jones, sabendo disso", murmurei.

       "A pior parte é que ele realmente a amava e não percebeu que caía numa armadilha. Começou a beber demais, acabou na clínica Betty Ford. Desde então, sumiu de cena. Um dos melhores jogadores dos Estados Unidos afundou, perdeu tudo, e a culpa é de Sparacino, indiretamente. Jogadas pesadas e vergonhosas como essa não combinam com nosso estilo. Orndorff & Berger é uma firma antiga, distinta. Quando Berger soube o que seu advogado andava fazendo, não ficou nada animado."

       'Por que a firma não o despede, simplesmente?", perguntei, cutucando a salada.

       "Porque não podemos provar nada, por enquanto. Sparacino é muito liso. E poderoso, principalmente em Nova York. É como agarrar uma serpente. Como largar, sem levar uma picada? A lista não pára aí." Os olhos de Mark traíam sua raiva. "Quando se examina o currículo de Sparacino, e os casos em que trabalhou antes, a conclusão é inevitável."

       "Cite outros casos", pedi, quase odiando a idéia.

       "Várias ações duvidosas. Um escritor sensacionalista resolve escrever a biografia não autorizada de Elvis, John Lennon ou Frank Sinatra, e, quando chega o momento de publicá-la, a celebridade, ou algum parente, processa o autor. O caso vai parar nos programas de entrevistas das grandes redes de televisão, na revista People. O livro sai, de qualquer maneira, beneficiado por uma avalanche de publicidade gratuita. Se todo mundo está brigando por causa do livro, alguma coisa ele tem. Não provocaria tanta comoção à toa. Suspeitamos que o método de Sparacino é representar o escritor, e depois agir nos bastidores, oferecendo à 'vítima' muito dinheiro, por baixo do pano, para processar seu cliente. Tudo combinado, e funciona como um passe de mágica."

       "A gente não pode acreditar em mais ninguém." Na verdade, eu já achava isso antes.

       A costela chegou. Assim que o garçom se afastou, perguntei: "E como Beryl Madison acabou envolvida com esta figura?".

       "Graças a Cary Harper", Mark disse. "Este é o lado irônico da história. Sparacino representou Harper, por alguns anos. Quando Beryl iniciou a carreira, Harper os colocou em contato. Sparacino cuidou dela desde o início, combinando as tarefas de agente, advogado e padrinho. Creio que Beryl era muito vulnerável a senhores idosos e poderosos. A carreira da moça seguiu sem grandes novidades, até que ela resolveu escrever sua autobiografia. Aposto que Sparacino sugeriu isso. Seja lá como for, Harper não publicava nada desde seu Grande Romance Americano, entrou para a história, e só interessava a alguém como Sparacino se houvesse escândalo."

       Refleti sobre o caso. "Seria possível que Sparacino estivesse armando uma jogada com eles? Em outras palavras: Beryl resolve romper seu silêncio — e o contrato com Harper — e Sparacino atua nos dois lados. Sugere a Harper, por baixo do pano, que ele cause problemas."

       Ele encheu as taças e respondeu: "Sim, aposto que ele estimulou a briga, sem que Beryl ou Harper percebessem. Como já expliquei, Sparacino age assim mesmo".

       Comemos em silêncio, por algum tempo. A Gallagher's justificava sua reputação. Dava para cortar a costela com garfo.

       Mark falou, depois de algum tempo. "O que me revoltou, Kay", e me encarou, com o rosto tenso, "no almoço no Algonquin, foi a menção de Beryl às ameaças. Ela disse que alguém ameaçava matá-la..." Ele hesitou. "Para dizer a verdade, conhecendo Sparacino como conheço..."

       "Você não acreditou nela." Terminei a frase para ele.

       "Não", Mark confessou. "Não acreditei. Francamente, calculei que se tratava de outro golpe de publicidade. Suspeitei que Sparacino a convencera a fingir tudo, para ajudar na venda do livro. Não haveria apenas a disputa com Harper; poderiam usar também as ameaças de morte. Não dei muito crédito ao que ela disse." Ele fez uma pausa. "Mas errei."

       "Sparacino não chegaria a este ponto", falei. "Não está sugerindo que..."

       "Acho mais provável que Sparacino tenha provocado Harper, até fazer com que ele perdesse o controle, ficasse furioso a ponto de contratar alguém para fazer as ameaças."

       "Se for isso mesmo", falei calmamente, "ele tem muita coisa a ocultar, no que diz respeito ao período em que Beryl viveu com ele."

       "É possível", Mark disse, concentrando-se novamente na refeição. "Mesmo que não tenha, conhece Sparacino, sabe como o sujeito age. Verdade ou ficção, não importa. Quando Sparacino resolve promover um escândalo, acaba conseguindo, e ninguém se lembra depois dos resultados, só das acusações."

       "E agora ele quer me pegar?", perguntei, cética. "Não compreendo. Onde é que eu entro?"

       "Simples. Sparacino quer o original do livro de Beryl, Kay. Agora, mais do que nunca, o livro é quente. Lembre-se do que aconteceu à autora." Ele olhou para mim. "Ele acredita que o original foi entregue para você, como prova. E desapareceu."

       Estendi a mão para pegar o molho e perguntei, com toda a calma: "Por que ele acredita que o original desapareceu?".

       "Sparacino teve acesso, de algum modo, aos relatórios da polícia", Mark disse. "Já os conhece, presumo."

       "Só dados de rotina."

       Ele refrescou minha memória. "No verso há uma lista detalhada do material recolhido — incluindo os papéis encontrados no chão do quarto e o original existente sobre a mesa."

       Ai, meu Deus, pensei. Marino encontrara um original. Infelizmente, era o livro errado.

       "Ele conversou com o investigador, na manhã de hoje", Mark disse. "Um tenente chamado Marino. Ele contou a Sparacino que a polícia não está com o texto. Disse que as provas foram encaminhadas para os laboratórios, no prédio onde você trabalha. Sugeriu que Sparacino contatasse o médico legista titular. Em outras palavras, você."

     "É sopro forma", falei. "A polícia manda todo mundo falar comigo, e eu os mando de volta para a polícia."

       "Tente convencer Sparacino. Ele alega que o material foi entregue a você, que deu entrada junto com o corpo de Beryl. E agora está desaparecido. Acusa seu departamento como responsável."

       "Isso é ridículo."

       "Acha mesmo?" Mark me olhou, intrigado. Aquela conversa mais parecia um interrogatório. "Não é verdade que parte do material recolhido como prova vai junto com o cadáver, e que você o recebe, pessoalmente, e encaminha tudo para os laboratórios, ou guarda em sua sala?"

       Claro que era verdade.

       "Você recebeu as provas, no caso Beryl?", perguntou.

       "Não recebi o material recolhido na cena do crime, como, por exemplo, os papéis pessoais dela", expliquei, tensa. "A papelada foi entregue pela polícia, e não por mim, diretamente aos laboratórios. Na verdade, a maior parte das provas encontradas na casa foram encaminhadas para o depósito da polícia."

       Ele repetiu: "Tente convencer Sparacino".

       "Nunca vi o original do livro", declarei enfaticamente. "Meu departamento não está com ele, nem nunca esteve. Pelo que sei, não foi encontrado, e ponto final."

       "Não foi encontrado? Quer dizer que não estava na casa dela? A polícia não o localizou?"

       "Não. O original encontrado não é o mesmo a que você se refere. Trata-se de outro, anterior, possivelmente de um livro já publicado, e está incompleto. Tem umas duzentas páginas, no máximo. A polícia o encontrou no quarto, sobre a penteadeira. Marino o recolheu, para exame das impressões digitais. O assassino poderia ter mexido no material."

       Ele empertigou-se na cadeira.

       "Se não o encontraram", perguntou em voz baixa, "então aonde ele foi parar?"

       "Não faço a menor idéia", respondi. "Suponho que possa estar em qualquer lugar. Talvez tenha sido enviado a alguém, pelo correio."

       "Ela usava computador?"

       "Sim.".

       "Checaram o disco rígido?"

       "O computador dela não*possui disco rígido, só dois drives para disquetes", expliquei. "Marino está examinando os disquetes. Desconheço seu conteúdo."

       Não faz sentido", ele insistiu. "Mesmo que ela tenha enviado o original para alguém, deveria ter tirado uma cópia antes. Uma cópia que teria ficado na casa."

       "Não faz sentido que Sparacino, seu agente, não tenha uma cópia", argumentei, irônica. "Duvido que ele jamais tenha visto o livro. Na verdade, aposto que Sparacino guardou a primeira versão. Talvez até a versão final."

       "Ele nega isso, e, acredito, por um bom motivo. Pelo que soube a respeito de Beryl, ela era muito reservada, no que dizia respeito a seus livros, e não permitia que ninguém — nem mesmo Sparacino — visse o material, enquanto não terminasse o livro. Ela o mantinha informado sobre o andamento do serviço, por meio de telefonemas, conversas, cartas. Segundo ele, o último contato ocorreu há um mês, mais ou menos, Ela teria dito que estava ocupada, revisando o texto, e que apresentaria o livro, pronto para ser publicado, no dia primeiro do ano."

       "Há um mês?", perguntei, cautelosa. "Ela escreveu para Sparacino?"

       "Telefonou."

       "De onde?"

       "Diacho, eu sei lá. De Richmond, creio."

       "Foi isso que ele lhe contou?"

       Mark refletiu, por um momento. "Não, ele não mencionou o local do chamado." E, depois de uma pausa: "Por quê?".

       "Ela passou algum tempo fora da cidade", respondi, como se isso não fosse importante. "Só gostaria de saber se Sparacino conhecia o paradeiro dela."

       "A polícia não sabe onde ela esteve?"

       "A polícia não sabe de muita coisa."

       "Isso não é resposta."

       "Eu deveria dizer que não está certo discutirmos o caso, Mark. Eu já falei demais, e não sei direito por que você se interessa tanto."

       "Você não sabe se meus motivos são legítimos", ele disse. "Pensa que a convidei para jantar, e tomar este vinho, só para extrair algumas informações."

       "Para ser honesta, sim."

       "Estou preocupado, Kay." Pela tensão em sua face — e aquela face ainda me impressionava demais — percebi que estava mesmo. Não1 conseguia tirar os olhos de cima dele.

       "Sparacino trama alguma coisa", ele disse. "Não quero que você saia chamuscada." Ele serviu o resto do vinho.

       "O que ele pode fazer, Mark?", perguntei. "Ligar para mim, exigindo um original que não possuo? E daí?"

       "Creio que ele já sabe que você não tem o original", disse Mark. "O problema é que isso não importa. Sim, ele quer o livro. E o conseguirá, de um modo ou de outro, a não ser que esteja perdido. Ele é o executor testamentário de Beryl."

       "Que gracinha", falei.

       "Sei que ele está tramando algo." Ele falava para si mesmo.

       "Mais um golpe publicitário?", sugeri, soando mais descontraída do que me sentia.

       Ele bebeu o vinho, sem dizer nada.

       "Não imagino o que possa ser", prossegui. "Não estou envolvida em nada."

       "Eu imagino", ele disse, sério.

       "Então, por favor, me conte", pedi.

       Ele contou. "Título: MÉDICO-LEGISTA TITULAR RECUSA-SE A DIVULGAR LIVRO POLÊMICO."

       Ri. "Tudo isso é ridículo."

       Ele não riu. "Pense bem. Uma autobiografia controvertida, escrita por uma moça solitária, que acaba brutalmente assassinada. O original desaparece, e a legista titular é acusada de roubo. O material sumiu no necrotério, diacho. Quando o livro sair, vai ser um tremendo sucesso, e Hollywood disputará os direitos cinematográficos."

       "Não me preocupo", falei, sem soar muito convincente. "Tudo isso é muito vago, nem posso imaginar que aconteça."

       "Sparacino especializou-se em criar caso à toa, Kay", ele me alertou. "Só não quero que você acabe como Leon Jones." Ele olhou para o lado, à procura do garçom, mas seus olhos se fixaram na porta da frente. Baixando os olhos rapidamente, para a costela em seu prato, ele resmungou:

       "Merda".

       Precisei de toda a minha força de vontade para não virar a cabeça. Não olhei para cima, nem demonstrei de outro modo ter percebido a aproximação daquele sujeito imenso.

       "Olá, Mark. Imaginei que o encontraria aqui."

       O sujeito, um cinqüentão de fala macia, exibia um rosto flácido, porém implacável, onde se destacavam os olhos azuis miúdos e frios. Corado, ofegava um pouco, como se o esforço de carregar seu peso excessivo afetasse cada célula do corpo.

       "Tive um impulso de passar por aqui e convidá-lo para tomar um drinque, meu caro." Ele desabotoou o casaco de cashmere e virou-se para mim, sorridente, estendendo a mão. "Creio que ainda não nos conhecemos. Robert Sparacino."

       "Kay Scarpetta", respondi, espantosamente calma.

      

       Conseguimos, não sei como, passar uma hora tomando licor com Sparacino. Foi horrível. Ele agia como se eu fosse uma desconhecida. Mas sabia muito bem quem eu era, e seguramente não aparecera ali por acaso. Numa cidade do tamanho de Nova York, como poderia ter sido apenas uma coincidência?

       "Tem certeza de que ele não sabia de minha vinda?", perguntei.

       "Não vejo como poderia saber", Mark disse.

       Senti sua pressa, quando ele me acompanhou até a rua 55. O Carnegie Hall estava vazio, poucas pessoas passeavam na calçada. Já era quase uma da manhã, e meus pensamentos inquietos flutuavam no álcool.

       Sparacino tornara-se mais animado e cordial a cada Grand Marnier, e no final já enrolava a língua.

       "Ele não perde uma. A gente pensa que está embriagado, e não se lembrará de uma só palavra, na manhã seguinte. Que nada. Está sempre alerta, mesmo quando dorme."

       "Não está fazendo com que eu me sinta melhor", falei.

       Seguimos direto para o elevador e subimos em silêncio cúmplice, observando as luzes que piscavam, a cada andar. Nossos pés percorreram, silenciosos, o corredor acarpetado. Torcia para que minha mala estivesse no quarto, e fiquei aliviada quando a vi sobre a cama, ao entrar.

       "Está aqui perto?", perguntei.

       "Quase do lado." Seus olhos percorriam o apartamento. "Vai me oferecer uma saideira?"

       "Não trouxe nada..."

       "Aqui há um bar completo. Pode acreditar em mim", ele disse.

       Eu precisava tanto de um drinque quanto de um tiro na cabeça.

       "O que Sparacino vai fazer?", perguntei.

       O "bar completo" era um frigobar cheio de cerveja, vinho e miniaturas de destilados.

       "Ele nos viu juntos", acrescentei. "O que pode acontecer agora?"

       "Depende do que eu disser a ele", Mark falou.

       Passei-lhe um copo descartável, com uísque. "Vou reformular a pergunta. O que pretende dizer-lhe, Mark?"

       "Uma mentira."

       Sentei-me na beirada da cama.

       Ele puxou uma cadeira e começou a girar lentamente as pedras de gelo da bebida. Nossos joelhos quase se tocavam.

       "Direi que tentava descobrir alguma coisa, através de você", Mark disse. "Para ajudá-lo."

       "Ou seja, que estava me usando", disse, sentindo que meus pensamentos se embaralhavam, como uma transmissão de rádio problemática. "Que seria capaz de fazer isso. Por causa de nosso relacionamento passado."

       "Sim."

       "E isso é mentira?", indaguei, desconfiada.

       Ele riu. Quase me esquecera do quanto amava o som de sua risada.

       "Não vejo graça nenhuma", protestei. Fazia calor no apartamento. O uísque me esquentava. "Se isso é mentira, Mark, então me diga, qual é a verdade?"

       "Kay", ele disse, sempre sorridente, fixando os olhos em mim. "Já lhe contei a verdade." Ele ficou em silêncio, por um momento. Depois debruçou-se e tocou meu rosto. Senti medo, pois desejava muito que me beijasse.

       Ele recuou. "Por que não fica até amanhã de tarde? Talvez possamos conversar com Sparacino, logo cedo."

       "Não", recusei. "É exatamente isso que ele deseja que eu faça."

       "Tudo bem. Como preferir."

       Horas depois, quando Mark saiu, eu permaneci acordada, olhando para o teto, consciente do vazio a meu lado, na parte já fria da cama. Nos velhos tempos, Mark nunca passava a noite comigo, e na manhã seguinte eu percorria o apartamento, recolhendo as peças de roupa, copos sujos, pratos e garrafas de vinho. Limpava os cinzeiros. Nós dois fumávamos, na época. Ficávamos acordados até uma, duas, três da madrugada, conversando, rindo, brincando, bebendo, fumando. Discutíamos, também. Eu odiava os debates, que não raro se transformavam em brigas terríveis, olho por olho, dente por dente. Lei tal contra princípio tal. Sempre esperava que ele declarasse seu amor por mim. Ele nunca o fez. Na manhã seguinte, só restava a sensação de vazio que sentia quando era menina, depois do Natal, quando ajudava minha mãe a jogar fora os papéis de presente amontoados debaixo da árvore.

       Não sabia bem o que desejava. Acho que nunca soube. O distanciamento emocional custava mais caro do que a proximidade. Mesmo assim, eu não aprendia. Nada havia mudado. Caso ele se aproximasse de mim, eu teria deixado de me comportar sensatamente. O desejo ignora a razão, e a necessidade de intimidade jamais deixara de existir. Aquelas imagens, distantes de minha mente havia anos, agora me atormentavam novamente. Seus lábios colados aos meus, a urgência do desejo, as mãos dele. As lembranças me atormentavam.

       Esqueci-me de pedir que me acordassem e de programar o despertador ao lado da cama. Meu alarme mental, programado para as seis horas, fez com que eu despertasse na hora desejada. Sentei-me na cama, com uma aparência terrível. Era assim que eu me sentia. Uma ducha quente e os cabelos bem escovados não conseguiam disfarçar as olheiras profundas, nem o rosto abatido. As luzes do banheiro revelavam tudo, brutalmente honestas. Liguei para a United Airlines, e às sete bati na porta de Mark.

       "Oi", ele disse, ao surgir odiosamente lépido e disposto. "Mudou de idéia?"

       "Sim", falei. O perfume familiar de sua água de colônia reorganizou meus pensamentos, soltos como cacos de vidro brilhantes dentro de um caleidoscópio.

       "Já sabia", ele disse.

       "E como adivinhou?", perguntei.

       "Você nunca foge de uma boa briga", ele disse, olhando para mim pelo espelho do quarto, enquanto ajeitava o nó da gravata.

       Mark e eu combinamos uma reunião no escritório de Omdorff & Berger, no início da tarde. O saguão da firma era um espaço amplo, desolado. O balcão negro imenso subia do carpete negro, reluzindo apenas nos detalhes em latão polido. Um bloco sólido de latão servia de mesa, entre duas poltronas pretas de acrílico. Não havia mais nenhuma mobília, nem plantas ou quadros. Nada, além de esculturas retorcidas, como estilhaços, a quebrar o vazio da sala.

       "Posso ajudá-la?" A recepcionista sorriu automaticamente, das profundezas de sua cadeira.

       Antes que eu pudesse responder, uma porta invisível abriu-se na parede negra, silenciosamente, e Mark surgiu para apanhar minha bagagem e me conduzir por um corredor comprido e largo. Passamos por várias portas, que davam para escritórios espaçosos, com janelas envidraçadas por onde se via Manhattan, cinzenta. Não vi ninguém. Calculei que estivessem todos almoçando.

       "Quem, em nome de Deus, decorou a recepção?"

       "A pessoa que nos aguarda", Mark disse.

       O escritório de Sparacino era o dobro dos outros, a mesa um bloco maciço de ébano, coberto de pesos de papel de pedras semipreciosas, cercado de estantes de livros. Não parecia menos intimidador do que na noite passada, o advogado dos artistas e escritores. Vestia um terno caro; John Gotti, provavelmente. O lenço vermelho, no bolso superior, contrastava com o traje escuro. Ele não se levantou quando entramos e ocupamos as poltronas. Por um momento terrível, nem sequer olhou para nós dois.

       "Presumo que estejam a caminho do restaurante, para almoçar", ele disse finalmente, erguendo os frios olhos azuis. Os dedos gordos fecharam uma pasta. "Prometo não abusar de sua boa vontade, doutora Scarpetta. Mark e eu repassamos alguns detalhes referentes ao caso de minha cliente Beryl Madison. Como advogado dela, e executor testamentário, tenho exigências muito definidas, e confio que possa colaborar na concretização dos anseios de minha cliente."

       Não falei nada. Em vão, procurei um cinzeiro.

       "Robert precisa dos papéis que pertencem a ela", Mark disse, mecanicamente. "Especificamente, os originais do livro que ela estava escrevendo, Kay. Expliquei-lhe, antes de sua chegada, que o departamento de medicina legal não guarda os pertences da vítima. Pelo menos, neste caso específico."

       Havíamos ensaiado tudo, durante o café da manhã. Mark deveria "enrolar" Sparacino antes de minha chegada. Começava a suspeitar que a "enrolada" seria eu.

       Encarei Sparacino e disse: "Os itens recebidos por meu departamento constituem provas, e não incluem os originais mencionados".

       "Está querendo dizer que não tem o original?", ele perguntou.

       "Exatamente."

       "E não sabe onde eles foram parar?"

       "Não tenho a menor idéia."

       "Bem, o que está dizendo cria uma série de problemas."

       Seu rosto permaneceu inexpressivo, enquanto abria a pasta para tirar uma fotocópia do relatório policial sobre Beryl, que logo reconheci.

       "De acordo com a polícia, o original foi encontrado na cena do crime", ele disse. "Agora, sou informado de que não se trata do original em questão. Pode me ajudar a entender isso?"

       "Algumas páginas de um original foram localizadas", respondi. "Mas não creio que pertençam ao livro que procura, senhor Sparacino. Pelo que sei, não fazem parte de um trabalho atual. Além disso, nunca passaram pelas minhas mãos."

       "Quantas páginas?", ele perguntou.

       "Não cheguei a ver o material", falei.

       "Quem teve acesso a ele?"

       "O tenente Marino. Deveria procurá-lo, na verdade", falei.

       "Já fiz isso, e ele me disse que entregou o original para a senhora."

       Não acreditei que Marino tivesse dito aquilo. "Uma falha de comunicação, com certeza", retruquei. "Creio que Marino se referia às páginas encaminhadas para o laboratório, pertencentes a uma obra anterior. Mas o laboratório de análise é um departamento independente, embora localizado no mesmo prédio que o meu."

       Olhei para Mark. Sua expressão era tensa, e ele transpirava.

       O couro rangeu, quando Sparacino acomodou-se na poltrona.

       "Serei direto, doutora Scarpetta. Não acredito no que está dizendo."

       "Não posso obrigá-lo a crer em nada", falei calmamente.

       "Refleti muito sobre a questão", ele prosseguiu, também calmamente. "O fato é que o original não passa de um monte de papel inútil, a não ser que a pessoa saiba o valor que possui para determinados envolvidos. Sei de pelo menos duas pessoas, excluindo os editores, que pagariam um alto preço pelo livro que ela escrevia quando morreu."

      "Isso não me diz respeito", retruquei. "Meu departamento não está com o original mencionado. E jamais esteve."

       "Alguém o pegou." Ele olhou pela janela. "Conheci Beryl melhor do que ninguém. Estava familiarizado com seus hábitos, doutora Scarpetta. Ela passou muito tempo fora da cidade e voltou horas antes do assassinato. Duvido muito que não mantivesse o original ao alcance da mão. No escritório, na pasta, na mala." Os olhos azuis fixaram-se em mim. "Ela não possuía cofre em banco, nem poderia guardar o mate-.rial em outro lugar. Jamais aceitaria isso, de qualquer forma. Ela o levou consigo, quando saiu da cidade. Trabalhava nele. Obviamente, quando voltou a Richmond, trouxe o original consigo."

       "Ela passou muito tempo fora da cidade", repeti. "Tem certeza disso?"

       Mark não olhava para mim.

       Sparacino reclinou-se na poltrona, cruzando os dedos em cima da barriga enorme.

       Ele disse: "Sei que Beryl não estava em casa. Tentei falar com ela durante várias semanas. Então recebi uma ligação, há cerca de um mês. Não revelou onde se encontrava, mas disse que estava em segurança, e passou a relatar os progressos na elaboração do livro, no qual estava trabalhando duro. Para resumir, eu não a forcei a contar nada. Beryl andava apavorada, e fugiu por causa de um maluco que a atormentava. Não me importava, realmente, onde poderia estar. Contentei-me em saber que trabalhava no livro, em segurança, e cumpriria os prazos combinados. Pode soar duro, mas costumo ser pragmático".

       "Nós não sabemos onde Beryl esteve", Mark informou. "Infelizmente, Marino não quis contar."

       A escolha do pronome doeu. "Nós" significava ele e Sparacino.

       "Se está esperando que eu diga..."

       "É exatamente o que espero", Sparacino interrompeu. "Descobriremos, mais cedo ou mais tarde, que ela se escondeu na Carolina do Norte, em Washington, ou no Texas — diacho, em algum lugar. Mas preciso saber disso agora. Afirma que seu departamento não guardou o original. A polícia alega que não o tem, tampouco. Um modo seguro para chegar ao final desta história é descobrir para onde ela foi, e começar a procurar lá o original. Talvez alguém a tenha levado ao aeroporto. Talvez tenha feito amigos no local. Talvez alguém saiba o que aconteceu com o livro. Por exemplo, ela o levava consigo, ao subir no avião?"

       "Esta informação pode ser pedida ao tenente Marino", retruquei. "Não devo discutir os detalhes do caso com o senhor."

       "Não esperava que o fizesse", Sparacino disse. "Provavelmente por saber que ela o levava, ao pegar o avião de volta para Richmond. Provavelmente por ter recebido o original junto com o corpo, em seu departamento. E depois ter permitido que sumisse." Ele parou, fixando os olhos frios em mim. "Quanto Cary Harper e a irmã pagaram para que entregasse o original a eles?"

       Mark parecia um cadáver, o rosto pálido sem expressão alguma.

       "Diga, quanto? Dez mil? Vinte? Cinqüenta?"

       "Isso encerra nossa conversa, senhor Sparacino", eu disse, apanhando a bolsa.

        "Não. Creio que não, doutora Scarpetta", Sparacino insistiu.

       Ele examinou a pasta. Como quem não quer nada, jogou algumas folhas de papel em minha direção.

       Senti o sangue sumir do rosto, quando reconheci as fotocópias dos artigos publicados nos jornais de Richmond, havia mais de um ano. A primeira reportagem era terrivelmente familiar:

      

                       MÉDICO-LEGISTA ACUSADO DE FURTO

      

       Quando Timothy Smathers levou um tiro e morreu, dentro de sua residência, no mês passado, usava um relógio de ouro e levava U$83 em dinheiro, no bolso da calça, segundo a esposa, testemunha do homicídio supostamente cometido por um ex-funcionário descontente. A polícia e membros do esquadrão de resgate, que compareceram à casa dos Smathers, alegam que os valores acompanharam o corpo, quando este foi enviado para o médico legista, para autópsia...

       Havia outros, e não precisava ler mais nada, para saber do que se tratava. O caso Smathers provocara uma onda de publicidade negativa para meu departamento; a pior de todas.

       Passei as fotocópias para as mãos estendidas de Mark. Sparacino me pegara de jeito, mas eu estava decidida a não ceder.

       "Conforme pode notar, ao ler as reportagens", falei, "houve uma investigação rigorosa do caso, e meu departamento foi absolvido de qualquer responsabilidade."

       "Sim, mas é claro", Sparacino disse. "A senhora entregou pessoalmente os valores em questão, na casa funerária. Depois disso, os valores desapareceram. O problema está em provar este fato. A senhora Smathers ainda é de opinião que o departamento de medicina legal furtou o relógio e o dinheiro do marido. Conversei com ela."

       "O departamento dela foi inocentado, Robert", Mark interferiu, em tom seco, ao examinar os artigos. "Mesmo assim, aqui diz que a senhora Smathers recebeu um cheque, como indenização, no valor dos itens desaparecidos."

       "Correto", confirmei friamente.

       "E o valor sentimental? Ele não tem preço", Sparacino argumentou. "Mesmo que pagassem dez vezes o valor, ela continuaria sofrendo."

       Aquilo era uma piada macabra. A sra. Smathers, considerada pela polícia suspeita de encomendar a morte do marido, casou-se com um viúvo milionário, antes mesmo que a grama crescesse sobre a sepultura do falecido.

       "E, como as reportagens ressaltam", Sparacino prosseguiu, "seu departamento foi incapaz de apresentar o recibo capaz de confirmar a entrega dos pertences do senhor Smathers à funerária. O recibo, supostamente arquivado por seu secretário, sumiu. E o dito cujo acabou transferido para não sei onde. No final, foi a sua palavra contra a do pessoal da funerária. Embora o assunto não tenha sido resolvido satisfatoriamente, ninguém mais se importa."

       "Onde pretende chegar?", Mark perguntou, sempre em tom neutro.

       Sparacino olhou para Mark, mas logo voltou a atenção para mim. "O caso Smathers, infelizmente, não é um episódio isolado. O mesmo tipo de acusação voltou a ser feita em julho, quando seu departamento recebeu o corpo de um idoso chamado Henry Jackson, falecido por causas naturais. O cadáver deu entrada no necrotério com cinqüenta e dois dólares em dinheiro, no bolso. Novamente, ao que consta, o dinheiro desapareceu, e vocês foram obrigados a emitir um cheque, em nome do filho do falecido. O filho queixou-se à reportagem de uma emissora local de televisão. Possuo o videoteipe da entrevista que foi ao ar, se quiser vê-la."

       "Jackson deu entrada com cinqüenta e dois dólares no bolso", respondi, a ponto de perder a paciência. "O corpo, encontrava-se em adiantado estado de decomposição, e o dinheiro tão podre que nem o ladrão mais desesperado teria coragem de pôr as mãos nele. Não sei o que aconteceu com ele; suponho que tenha sido incinerado com as roupas igualmente podres e infestadas de vermes."

       "Minha nossa", Mark resmungou.

       "Seu departamento vive tendo problemas, doutora Scarpetta." Sparacino sorria.

       "Todos os departamentos têm problemas", reagi, e me levantei. "Se deseja recuperar os pertences de Beryl Madison, dirija-se à polícia."

       "Lamento muito", Mark disse, quando atravessamos o corredor, a caminho do elevador. "Não imaginava que o filho da mãe fosse jogar merda no ventilador. Deveria ter me contado, Kay..."

       "Contado?" Encarei-o, incrédula. "Contado o quê?"

       "Contado a respeito do sumiço dos valores, da publicidade negativa. Sparacino adora este tipo de coisa. Como eu não sabia, caímos numa armadilha. Droga!"

       "Eu não lhe contei nada", falei, erguendo a voz, "porque não era relevante para o caso de Beryl. Os problemas mencionados por ele não passam de tempestades em copo d'água. Acontecem com freqüência, pois recebemos cadáveres em péssimas condições. Policiais e agentes funerários passam o dia recolhendo pertences de pessoas..."

       "Por favor, não fique brava comigo."

       "Não estou brava com você!"

       "Bem que eu avisei sobre Sparacino. Estou tentando protegê-la."

       "Acho que não tenho muita certeza quanto ao que você está tentando fazer, Mark."

       Continuamos a conversar, alterados, enquanto ele tentava parar um táxi. Na rua, o trânsito engarrafado provocava um alvoroço de buzinas e motores acelerados. Meus nervos estavam à flor da pele. Um táxi finalmente parou, e Mark abriu a porta de trás, colocando minha mala no assoalho. Quando entregou algumas notas ao motorista, depois que eu entrei, percebi qual era a jogada. Mark não me faria companhia. Deixaria que eu voltasse sozinha para o aeroporto, sem almoçar. Antes que conseguisse abaixar o vidro da janela, para reclamar, o táxi partiu, com um solavanco.

       Segui em silêncio até o aeroporto de La Guardiã, onde seria obrigada a aguardar três horas pelo vôo. Estava faminta, furiosa e desnorteada. Não admitia partir naquele estado. Descobri uma cadeira desocupada no bar, sentei-me, pedi uma bebida e acendi o cigarro. Observei a fumaça azulada a se dissipar no ar nebuloso. Minutos depois, introduzia uma moeda no telefone público.

       "Orndorff & Berger", disse a voz feminina, em tom profissional.

       Imaginei o balcão negro e falei: "Mark James, por favor".

       Após uma pausa, a moça disse: "Lamento, deve ser engano".

       "Ele trabalha no escritório de Chicago. Está de passagem por Nova York. Tivemos uma reunião aí, não faz muito tempo", expliquei.

       "Poderia aguardar um momento, por favor?"

       Suportei a versão musak de Baker street, de Jerry Rafferty, por dois minutos, no mínimo.

       "Lamento", a telefonista informou, ao retornar. "Não há ninguém aqui com este nome, senhora."

       "Ele e eu nos encontramos no saguão, há menos de duas horas", insisti, impaciente.

       "Verifiquei isso, senhora. Lamento, talvez tenha nos confundido com outra firma."

       Praguejando baixinho, bati o telefone. Liguei para o auxílio à lista e pedi o número de Orndorff & Berger em Chicago. Telefonei para lá, usando o cartão de crédito. Pretendia deixar um recado para Mark, pedindo que me ligasse assim que pudesse.

       Meu sangue gelou quando a recepcionista de Chicago anunciou: "Lamento, senhora. Nesta firma não trabalha nenhum Mark James".

    

       Mark James não constava na lista telefônica de Chicago. Encontrei cinco Mark James e três M James. Quando cheguei em casa, tentei todos os números, mas só consegui falar com mulheres ou vozes masculinas desconhecidas. De tão atarantada, não consegui dormir.

       Só na manhã seguinte ocorreu-me contatar Diesner, médico-legista em Chicago. Mark afirmara conhecê-lo.

       Disse a Diesner, calculando que a abordagem direta seria a mais conveniente, depois dos cumprimentos habituais: "Estou tentando localizar Mark James, advogado de Chicago. Creio que o conhece".

       "James...", Diesner repetiu, pensativo. "Lamento, mas não me recordo, Kay. Disse que ele é advogado, aqui em Chicago?"

       "Sim." Senti meu coração apertado. "Trabalha com Orndorff & Berger."

       "Claro, conheço Orndorff & Berger. Uma firma muito conceituada. Mas não me lembro de nenhum Mark James..." Ouvi o som de gaveta ao ser aberta, e de papéis folheados. Depois de algum tempo, Diesner disse. "Nada. Não encontrei o nome dele nas páginas amarelas."

       Assim que desliguei, tomei mais uma xícara de café preto, e olhei pela janela da cozinha, para o comedouro dos pássaros, vazio. A chuva ameaçava cair, naquela manhã cinzenta. Para limpar minha escrivaninha no escritório, precisaria de uma retroescavadeira. Era sábado. Segunda-feira seria feriado estadual. O escritório ficaria deserto. Minha equipe já estava aproveitando o fim de semana prolongado. Deveria aproveitar a calma e o silêncio para colocar o serviço em dia. Mas não dava a mínima. Pensava em Mark, exclusivamente. Era como se ele não existisse, como se tudo não passasse de imaginação, de pesadelo. Quanto mais tentava compreender, mais os pensamentos se embaralhavam. O que estava acontecendo, caramba?

       Já entrando em desespero, consultei o Auxílio à Lista para tentar obter o número do telefone da casa de Robert Sparacino. Fiquei secretamente aliviada ao saber que o nome não constava. Seria suicídio ligar para ele. Mark havia mentido para mim. Disse que trabalhava na Orndorff & Berger, que morava em Chicago e conhecia Diesner. Nada disso era verdade! Mas eu queria que o telefone tocasse, queria que fosse Mark. Lavei e passei roupa, abri uma lata de molho de tomate, fiz almôndegas e dei uma espiada na correspondência.

       O telefone só tocou às cinco da tarde.

       "Olá, doutora. É Marino." A voz, tão familiar, me animou um pouco. "Não queria incomodar, no final de semana, mas tento localizá-la há dois dias. Só quero saber se está tudo bem."

       Marino adorava bancar o anjo da guarda.

       "Consegui um videoteipe que gostaria de ver", disse. "Pensei que estaria em casa e gostaria de saber se posso passar aí. Tem videocassete?"

       Ele sabia que eu tinha. Ele já "passara" em minha casa para ver fitas, antes. "Que tipo de videoteipe?", perguntei.

       "Interrogatório de um pirado. Passei a manhã inteira falando com ele. Sobre Beryl Madison." Ele fez uma pausa. Notei a satisfação na voz, por seu desempenho.

       Quanto mais eu conhecia Marino, mais ele se pavoneava. Em parte, eu atribuía este fenômeno ao fato de o tenente ter salvo minha vida, num episódio horrível, que nos aproximou, apesar de tantas diferenças.

       "Está de serviço?", perguntei.

       "Ora, estou sempre de serviço", ele resmungou.

       "Sério."

       "Nada oficial, tá? Saí às quatro, mas minha esposa foi para Jersey, visitar a mãe, e tenho mais nós para desatar do que num tapete."

       A esposa viajara. Os filhos já eram grandes. Marino não queria voltar para a casa vazia naquele sábado cinzento, deprimente. Minha própria casa, vazia, não chegava a me animar, tampouco. Olhei para a panela com molho, borbulhando no fogão.

       "Não pretendia sair, mesmo", falei. "Passe aqui com o tal videoteipe, e o veremos juntos. Gosta de espaguete?"

       Ele hesitou. "Bem..."

       "Com almôndegas. Ia cozinhar o macarrão agora, Come comigo?"

       "Tudo bem", ele disse. "Acho que sim."

      

       Quando Beryl Madison queria mandar lavar o carro, costumava ir até o Masterwash, na zona sul.

       Marino descobrira isso visitando todos os lava-rápidos de primeira classe da cidade. Não havia muitos, uma dúzia no máximo, nos quais o veículo passava automaticamente pela série de escovas giratórias, enquanto finíssimos jatos de água com detergente bombardeavam a lataria. Depois de uma rápida passagem pelos jatos de ar quente, um motorista assumia o volante e o conduzia até o local onde os funcionários passavam aspirador, cera e líquido para limpar os pneus, pára-choques e o que mais houvesse. Marino informou que a lavagem "Super Luxo" custava quinze dólares.

       "Dei uma sorte dos diabos", Marino disse, ao guiar o espaguete para o garfo com uma colher de sopa. "Como se pode localizar um negócio desses, hein? Os caras lavam setenta, cem carros por dia. Acha que alguém pode se lembrar de um Honda preto? Nem matando."

       Era o próprio pescador bem-sucedido. Fisgara um peixão. Calculava que ele, ao receber o relatório preliminar das fibras, na semana anterior, iria percorrer os lava-rápidos e lojas de roupas da cidade. Em se tratando de Marino, não ficaria pedra sobre pedra.

       "Acertei na mosca, ontem", ele prosseguiu. "Passei no Masterwash. Estava no final da lista, por causa da localização. Calculei que Beryl levaria o carro para algum lugar na zona oeste. Mas não, ela preferiu a zona sul, e só encontrei um motivo para tanto. O local oferece serviços de proteção contra ferrugem. Descobri que ela levou o automóvel lá, pouco depois de comprá-lo, em dezembro, e gastou cem paus em proteção da lataria e chassi. Em seguida, abriu uma conta e entrou na promoção para clientes fixos. Ganhava dois dólares de desconto a cada lavagem, e a oferta da semana, grátis."

       "Foi assim que descobriu?", perguntei. "Graças à promoção?"

       "Claro", disse. "Eles não usam computador. Precisaram examinar os recibos, um a um. Encontraram uma cópia do contrato para clientes fixos. A julgar pelo estado do carro, na garagem, eu imaginava que ela passara pelo lava-rápido pouco antes de viajar para Key West. Pesquisei as despesas com cartão de crédito, também. Achei uma nota em nome da Masterwash, o serviço antiferrugem de cem dólares. Creio que pagava em dinheiro, quando se tratava de lavagem, apenas."

       "E neste lava-rápido o pessoal entra nos carros", comentei. "Como é o uniforme deles?"

       "Nenhum item cor de laranja, que combine com a fibra esquisita encontrada. A maioria usa jeans e tênis — e todos vestem a camisa azul, com o logotipo da Masterwash bordado em branco, no bolso. Verifiquei tudo quando estive lá. Nada que chamasse a atenção. Só vi fibras de algodão branco nos panos utilizados para enxugar os carros."

       "Não parece nada promissor", falei, empurrando o prato. Pelo menos Marino era um bom-garfo. Meu estômago ainda doía, por causa de Nova York. Não sabia se lhe contava tudo, ou não.

       "Em princípio, não", ele disse. "Mas um sujeito com quem conversei me deixou com a pulga atrás da orelha."

       Esperei.

       "O nome dele é Al Hunt, vinte e oito anos, branco. Suspeitei dele logo de cara, quando o vi lá, em pé, supervisionando os lavadores. Sei lá, acho que foi intuição. Ele não combinava com o lugar. Elegante, chique, do tipo que deveria estar usando terno e pasta de couro. E perguntei a mim mesmo, 'o que um cara assim faz neste fim de mundo?' " Ele parou para limpar o prato com pão de alho. "Dei uma encostada, e comecei a interrogá-lo. Perguntei a respeito de Beryl, mostrei o retrato da carteira de motorista. Quis saber se ele se lembrava de tê-la visto por lá, e pimba! Ele ficou agitado."

       Não pude deixar de pensar que também ficaria agitada, se Marino "desse uma encostada" em mim. Ele provavelmente abordou o pobre coitado com a sutileza de uma locomotiva.

       "E aí?", perguntei.

       "Aí, nós entramos, tomamos café, e começamos a tratar do que interessava", Marino respondeu. "Al Hunt é um filhinho de papai. Para você ver, ele fez até faculdade. Formou-se em psicologia, mas foi trabalhar como enfermeiro no Metropolitan, por uns dois anos. Dá para acreditar? Perguntei por que trocou o hospital pelo Masterwash e descobri que o pai dele é o dono do negócio. O pai de Hunt tem investimentos espalhados pela cidade. Masterwash é apenas um deles. Possui vários estacionamentos e é o rei dos cortiços da zona norte. Só posso pensar que Al vem sendo treinado para assumir os negócios do pai, certo?"

       A história começava a me interessar.

       "Contudo, Al não usa terno, embora tenha toda a pinta. Ou seja, Al não passa de um fracassado. O velho não confia no taco dele, para colocá-lo de terninho, atrás de uma mesa, dando as cartas. Preferiu deixar o filho checando se a turma encerou direito o carro e limpou os pára-choques. Percebi, logo de cara, que havia algo suspeito." Ele levou o dedo engordurado à cabeça.

       "Talvez fosse melhor interrogar o pai, também", sugeri.

       "Certo. Ele vai me dizer que seu herdeiro não passa de um pateta."

       "E como planeja aprofundar a história?"

       "Já fiz isso", ele respondeu. "Veja a fita de vídeo que eu trouxe, doutora. Passei a manhã inteira com Al Hunt na central. O sujeito fala pelos cotovelos e se mostrou muito interessado no que aconteceu com Beryl; disse que leu tudo nos jornais..."

       "Como ele sabia quem ela era?", interrompi. "Os jornais e a televisão não mostraram fotos da moça. Ele reconheceu o nome?"

       "Ele declarou que não, que não tinha a menor idéia de quem poderia ser a loira que costumava ver no lava-rápido, antes de eu mostrar a carteira de motorista dela. Depois fez a maior cena, fingiu que estava chocado, muito perturbado mesmo. Não perdia uma palavra minha, queria conversar mais a respeito dela. Interessado demais por uma suposta desconhecida." Ele colocou o guardanapo amassado em cima da mesa. "Acho melhor que você veja por si mesma."

       Passei uma garrafa de café, tirei os pratos sujos da mesa, e fomos para a sala, ver o vídeo. O cenário era familiar. Já o vira antes, em diversas oportunidades. A sala de interrogatório da polícia era um cubículo, com paredes revestidas de madeira. A única peça de mobília era uma mesa no meio do piso acarpetado. Perto da porta havia um interruptor de luz, e só os especialistas ou freqüentadores assíduos saberiam que faltava um parafuso na parte superior. Do outro lado do orifício minúsculo, uma câmera especial, com lente grande angular, registrava tudo.

       Al Hunt não parecia ameaçador à primeira vista. Era claro, com cabelo louro ralo e pele pálida. Seria até atraente, não fora o queixo recuado, que fazia o rosto desaparecer no pescoço. Usava um casaco de couro castanho e jeans, e tamborilava nervosamente numa lata de 7-Up, sem tirar os olhos de Marino, que estava sentado bem à sua frente.

       "O que Beryl Madison tinha de tão especial?", Marino perguntou. "Por que a notou? Passam muitos carros pelo lava-rápido, diariamente. Lembra-se de todos os clientes?"

       "Lembro-me de muitos, por incrível que pareça", Hunt respondeu. "Principalmente dos clientes habituais. Nem sempre guardo o nome deles, mas eu me lembro dos rostos, pois as pessoas costumam esperar fora do carro, enquanto o pessoal faz a limpeza interna. Muitos fregueses gostam de acompanhar o serviço, entende? Ficam de olho no carro, para que a turma não se esqueça de nada. Alguns pegam um pano e até ajudam um pouco, principalmente quando estão com pressa. Tem gente que não agüenta ficar parada."

       "Beryl era assim? Gostava de acompanhar o serviço?"

       "Não, senhor. Temos alguns bancos, lá. Ela costumava sentar-se num banco. Às vezes lia um livro, ou jornal. Não prestava muita atenção ao serviço e não se mostrava muito sociável. Talvez por isso eu a tenha notado."

       "Como assim?", Marino perguntou.

       "Quero dizer que ela emitia sinais. Eu os percebi logo."

       "Sinais?"

       "As pessoas emitem vários tipos de sinal", Hunt explicou. "Eu consigo captá-los, tenho sensibilidade para isso. Posso dizer muito a respeito de uma pessoa, pelos sinais que ela emite."

       "Estou emitindo sinais agora, Al?"

       "Sim, senhor. Todo mundo os emite."

       "E quais são estes sinais, no meu caso?"

       Hunt ficou muito sério, quando respondeu: "Vermelho-claro".

       "Como?", Marino disse, surpreso.

       "Eu capto os sinais como cores. Talvez ache isso estranho, mas não é um caso único. Algumas pessoas percebem as cores irradiadas pelos outros. Eu consigo perceber isso; são os sinais. No seu caso, vermelho-claro. Um pouco calorosos, mas também ameaçadores, perigosos. Como um sinal de alerta. Eles sugerem algum tipo de perigo..."

       Marino. parou a fita e sorriu malicioso, para mim.

       "O sujeito é pirado, não é?"

       "Na verdade, creio que ele é muito astuto", falei. "Você é caloroso, e perigoso."

       "Bobagem, doutora. O sujeito é pancada. Até parece, quando ele fala, que todo mundo tem um arco-íris em volta do corpo."

       "Existe um fundo de verdade no que ele diz, em termos psicológicos", retruquei, com objetividade. "As emoções estão associadas a cores. Isso serve de base legítima para o uso de cores em locais públicos, hotéis, instituições. O azul, por exemplo, é associado à depressão. Não vai encontrar muitos quartos azuis em hospitais psiquiátricos. O vermelho indica violência, raiva, paixão. O preto é mórbido, sinistro. E você disse que Hunt era diplomado em psicologia."

       Marino irritou-se e acionou o vídeo novamente.

       "Presumo que isso tenha a ver com o papel que desempenha", Hunt disse. "O senhor é investigador e precisa de minha cooperação neste momento. Não confia em mim, entretanto, e pode se tornar perigoso, se eu tiver algo a esconder. Creio que o sinal de alerta que sinto vem daí. A parte calorosa diz respeito a sua personalidade. Deseja que as pessoas sintam-se à vontade em sua presença. Próximas. Talvez queira se aproximar das pessoas. Age de modo duro, mas quer que os outros gostem do senhor..."

       "Tudo bem", Marino interrompeu. "E quanto a Beryl Madison? Viu as cores dela, também?"

       "Sim, é claro. Isso me chamou a atenção, imediatamente. Ela era diferente, muito diferente mesmo."

       "Como assim?" A cadeira de Marino estalou, quando ele recostou, cruzando os braços.

       "Muito reservada", Hunt respondeu. "Captei cores árticas, em sua aura. Azul-claro, amarelo-pálido, como um sol de inverno, e branco, tão frio que era quente como gelo seco, como se ele fosse queimar quem a tocasse. O branco se destacava. Muito diferente. Costumo captar tons pastéis, na maioria das mulheres. As nuances femininas combinam com as roupas que usam. Rosa, amarelo, azul-claro e verde, para senhoras passivas, tranqüilas, frágeis. Por vezes, encontro mulheres que emitem cores fortes, escuras, como vinho, vermelho e marinho. Tipos mais intensos. Em geral, agressivas, advogadas, médicas ou empresárias, usando roupas nos tons que citei. Costumam ficar ao lado do carro, com as mãos nos quadris, supervisionando a limpeza. E não hesitam em apontar manchas no pára-brisa, ou trechos mal lavados."

       "Gosta deste tipo de mulher?", Marino perguntou.

       Ele hesitou. "Para ser honesto, não."

       Marino riu, e aproximou-se, para dizer: "Claro. Nem eu gosto deste tipo. Também prefiro as garotas em tons mais suaves".

       Olhei para Marino, o real, fechando a cara.

       Fui ignorada. Na tela, ele disse a Hunt: "Fale mais sobre Beryl, sobre as cores que captou".

       Hunt franziu o cenho, esforçando-se para pensar. "Os tons pastéis que emitia não eram incomuns, embora eu não os interpretasse como exatamente frágeis. Nem passivos. As cores eram mais frias, árticas, como já falei. Nada a ver com as flores. Como se quisesse manter o mundo afastado dela, para lhe dar mais espaço."

       "Acha que ela era frígida?"

       Hunt brincou com a lata de 7-Up. "Não, senhor, creio que não posso dizer isso. Na verdade, não captei nada do gênero. Distância, foi o que me veio à mente. Senti que alguém precisaria vencer uma distância imensa para se aproximar dela. Mas, se conseguisse chegar mais perto, ela o queimaria, com sua intensidade. Aí se originam os sinais brancos e quentes, que a destacavam, em minha percepção. Ela era intensa, muito intensa. Senti sua inteligência e seus problemas. Sérios. Mesmo quando estava sentada ali no banco, sozinha, sem prestar atenção em ninguém, sua mente continuava trabalhando. Era distante e quente como uma estrela branca."

       "Notou que ela era solteira?"

       "Não usava aliança", Hunt respondeu, sem pensar. "Deduzi que era solteira. Não notei nada no carro que indicasse o contrário."

       "Não compreendo", Marino falou, parecendo confuso. "O que o carro poderia revelar?"

       "Creio que foi na segunda visita. Enquanto um dos funcionários limpava o interior, percebi que não havia nenhum item masculino. A sombrinha no chão, por exemplo, era do tipo fino, azul, que as mulheres sempre carregam. Os homens preferem guarda-chuvas grandes, com cabo de madeira curva. Havia roupa da lavanderia, no banco de trás, e só vi itens femininos. Senhoras casadas, em sua maioria, pegam também a roupa do marido, quando vão à lavanderia. Isso sem falar no porta-malas. Nada de ferramentas, ou cabos de reboque. Nada masculino. Interessante, mas quando a gente olha para os carros o dia inteiro, aprende a identificar estes detalhes e tirar conclusões sobre os motoristas, quase sem se dar conta."

       "Parece que você se deu conta, no caso dela", Marino disse. "Será que não passou por sua cabeça convidá-la para sair, Al? Tem certeza de que não sabia seu nome, que não notou a etiqueta na roupa, nem um envelope dentro do carro?"

       Hunt fez que não, com a cabeça. "Não sabia o nome dela. Talvez nem quisesse saber."

       "Por que não?"

       "Sei lá...", Hunt se mostrava tenso, confuso.

       "Sem essa, Al. Pode se abrir comigo. Ei, talvez eu desse uma cantada nela, sabia? Moça interessante, bonita. Sabe, eu aposto que pensaria nisso, provavelmente teria olhado o nome na etiqueta e ligado para ela."

       "Bem, eu não fiz nada disso." Hunt baixou os olhos, concentrando-se nas mãos. "Não tentei nada."

       "Por que não?"

       Silêncio.

       Marino disse: "Talvez por ter se aproximado de uma mulher assim antes, que o chamuscou?".

       Silêncio.

       "Ora, isso acontece com qualquer um, Al."

       "Na faculdade", Hunt respondeu, quase inaudível. "Saí com uma moça. Durante dois anos. Ela acabou me trocando por um cara da faculdade de medicina. As mulheres deste tipo... elas procuram certos tipos. Sabe, quando começam a pensar em um compromisso mais definitivo."

       "Elas preferem os descolados", Marino disse, e seu tom de voz era agressivo. "Advogados, médicos, banqueiros. Não ligam para sujeitos que trabalham num lava-rápido."

       Hunt ergueu a cabeça. "Eu não trabalhava num lava-rápido."

       "Não importa, Al. Moças esnobes como Beryl Madison nem olham para você, certo? Aposto que não o teria reconhecido, se o encontrasse na rua, em algum lugar..."

       "Não diga isso."

       "Verdade ou mentira?"

       Hunt olhou para os punhos cerrados.

       "Então, aposto que você se interessou por Beryl, né?" Marino insistiu, implacável. "Talvez tenha pensado naquela moça branca e quente o dia inteiro, fantasiando, imaginando como seria sair com ela, levá-la para jantar, fazer amor com ela. Talvez só lhe faltasse peito para abordá-la diretamente. Imaginou que a moça o desprezaria, que o considerasse inferior a ela..."

       "Pare com isso! Está me pressionando. Pare! Já chega!", Hunt gritou, com voz esganiçada. "Não me encha o saco!"

       Marino olhou para ele, do outro lado da mesa, imperturbável.

       "Estou falando que nem seu pai, Al?" Marino acendeu um cigarro, enquanto dizia isso. "O velho acha que o filho é bicha, só porque você não quer ser o rei dos cortiços que não dá a mínima para a vida ou os sentimentos dos outros." Ele soltou uma baforada e falou carinhosamente: "Sei de tudo sobre o senhor Hunt, o velho ditador. E também sei que ele disse a todos os amigos que você era um frouxo, que sentia vergonha de ter o sangue dele correndo nas suas veias. Foi quando você começou a trabalhar como enfermeiro. Encare a verdade. Só aceitou trabalhar na droga do lava-rápido porque ele ameaçou deserdá-lo, se não concordasse".

       "Você sabia disso? Como descobriu?", Hunt gaguejou.

       "Sei de muitas coisas. Também descobri, se quer saber, que o pessoal do Metropolitan o considera um enfermeiro de primeira. Muito jeitoso com os pacientes. Eles lamentaram muito sua saída. Acho que usaram a palavra "sensível", para descrevê-lo. Talvez sensível demais, o que o faz sofrer, não é, Al? Isso explica o fato de você não sair com mulheres, de não ter namorada. Sente medo. Beryl o apavorava, certo?"

       Hunt respirou fundo.

       "Foi por isso que não pegou o nome dela? Para não sentir a tentação de telefonar, de tentar alguma coisa?"

       "Só a notei, mais nada", Hunt disse, nervoso.

       "Realmente, não há mais nada, fora o que eu já disse. Não pensei nela, do modo como sugeriu. Só, bem... só a notei. Mas não fiquei remoendo. Nunca falei com ela, a não ser na última vez..."

       Marino apertou a tecla de parada novamente. "Esta é a parte mais importante..." Fez uma pausa, olhando fixamente para mim. "Ei, está tudo bem com você?"

       "Você realmente precisava ser tão brutal?", falei, emocionada.

       "Não me conhece, para dizer que isso foi brutal", Marino disse.

       "Desculpe. Esqueci que Átila, o Huno, estava em minha sala."

       "Era só um teatro", ele retrucou, magoado.

       "Merece o Oscar."

       "Não seja tão severa, doutora."

       "Você o desmoralizou completamente", falei.

       "Era uma tática, certo? Um modo de fazê-lo falar sem pensar muito. As pessoas acabam dizendo coisas que não pretendiam dizer." Ele se voltou para o videocassete, e falou, ao apertar a tecla: "O interrogatório inteiro valeu pelo que ele me disse em seguida".

       "Quando foi isso?", Marino perguntou a Hunt. "A última vez em que ela esteve no lava-rápido?"

       "Não me recordo do dia exato", Hunt respondeu. "Faz uns dois meses. Sei que foi numa sexta-feira, no final da manhã. Eu me lembro, porque ia almoçar com o meu pai naquele dia. Sempre almoço com ele às sextas, para falarmos de negócios." Ele estendeu a mão para pegar o 7-Up. "Sempre me arrumo um pouco na sexta. Naquele dia, pus até gravata."

       "E Beryl chegou, no final da manhã, para mandar lavar o carro", Marino o incentivou. "E, naquela ocasião, você a abordou."

       "Na verdade, ela falou comigo primeiro", Hunt retrucou, como se isso fosse importante. "O carro estava saindo do boxe, quando ela se aproximou de mim e me disse que derramara algo no porta-malas. Queria saber se dava para limpar. Ela me levou até o carro, abriu a tampa e eu vi que o carpete estava encharcado. Pelo jeito, levava as compras no porta-malas, e uma garrafa de dois litros de suco de laranja se quebrara. Acho que resolveu lavar o carro naquela hora por causa disso."

       "As compras ainda estavam no porta-malas, quando ela levou o carro?"

       "Não", Hunt respondeu.

       "Lembra-se das roupas que ela vestia, naquele dia?"

       Hunt hesitou. "Tênis, óculos escuros. Hã... parecia vir da quadra. Lembro bem disso, pois nunca a vira daquele jeito. Antes, usava sempre roupas de sair. E vi a raquete de tênis e outras coisas no porta-malas, que ela tirou, antes de passar pela máquina. Eu me lembro que ela limpou tudo e passou as coisas para o banco traseiro."

        Marino tirou um bloco de anotações do bolso do paletó. Virou algumas páginas e disse: "Será que não foi na segunda semana de julho? No dia doze, sexta-feira?".

       "É bem possível."

       "Lembra-se de mais alguma coisa? O que mais a moça falou?"

       "Ela foi quase cordial", Hunt respondeu. "Disso eu me lembro bem. Talvez por que eu a ajudei, mandando limpar o porta-malas, embora não fizesse parte da lavagem. Poderia exigir que levasse o carro para a lavagem especial e pagasse trinta dólares pelo serviço. Mas resolvi dar uma força. E fiquei por ali, enquanto o pessoal trabalhava. E olhei para o lado do passageiro. A porta havia sido danificada. Uma coisa esquisita. Acho que alguém pegou uma chave e riscou um coração e algumas letras na porta, bem abaixo da maçaneta. Quando perguntei o que havia acontecido, ela deu a volta e inspecionou a porta. Ficou um tempo parada, olhando. Juro, ficou branca como cera. Creio que só viu os riscos quando eu chamei sua atenção. Tentei acalmá-la, dizendo que era normal ficar nervosa, quando acontecia algo assim. O Honda era novinho em folha, sem um arranhão. Valia uns vinte mil dólares, Aí algum cretino vem e faz uma maldade dessas. Provavelmente algum moleque, sem ter mais o que fazer."

       "E o que ela disse depois, Al?", Marino perguntou. "Deu alguma explicação para o estrago na pintura?"

       "Não, senhor. Ela não falou mais nada. Acho que ficou apavorada, começou a olhar para os lados, muito perturbada. Depois perguntou onde ficava o telefone mais próximo, e expliquei que havia um telefone público na recepção. Quando terminou de ligar e saiu, o carro já estava pronto. Ela foi embora."

       Marino parou a fita e a removeu do aparelho. Lembrei-me do café, fui até a cozinha e servi duas xícaras.

       "Ao que parece, isso responde uma de nossas perguntas", falei, ao retornar.

       "Claro", Marino disse, estendendo o braço para pegar o creme e o açúcar. "Imagino que Beryl usou o telefone público para contatar o banco, ou talvez a companhia aérea na qual reservou a passagem. Encontrar o coração riscado na porta foi a gota d'água. Ela pirou. Do lava-rápido, foi direto ao banco. Descobri onde ela mantinha uma conta corrente. No dia doze de julho, às dez para a uma da tarde, Beryl retirou quase dez mil dólares em dinheiro vivo, zerando a conta. Era uma cliente especial. Não teve problemas."

       "Ela comprou cheques de viagem?"

       "Não, por incrível que pareça", ele disse. "Isso indica que temia mais ser localizada por alguém do que ser assaltada. Pagou tudo em dinheiro, lá em Keys. Ninguém precisaria saber seu nome, se não usasse cartões de crédito ou cheques de viagem."

       "Devia estar aterrorizada", comentei em voz baixa. "Não imagino alguém carregando tanto dinheiro na bolsa. Precisa ser maluco, ou chegar ao desespero absoluto."

       Ele acendeu um cigarro. Eu também.

       Sacudindo o fósforo, perguntei: "Acredita na possibilidade de alguém ter riscado a pintura enquanto o carro estava na lavagem?".

       "Fiz a mesma pergunta a Hunt, para ver como ele reagia", Marino respondeu. "Ele jurou que ninguém poderia fazer isso durante a lavagem; disse que alguém notaria, com certeza. Não sei não. Sabe, a gente esquece cinqüenta centavos no painel, num lava-rápido, e, quando volta, vê que sumiu. Os lavadores roubam; parecem bandidos. Troco, guarda-chuva, talão de cheque, qualquer coisa, e ninguém viu nada, quando a gente pergunta. Hunt poderia ter feito o coração, pelo que sei."

       "Ele é meio esquisito", concordei. "Estranho que tenha notado Beryl com tanta intensidade. Era apenas mais uma pessoa, no meio de muitas outras que usavam os serviços diariamente. Quantas vezes ia lá? Uma por mês, se tanto?"

       Ele concordou com um movimento de cabeça. "Mas ela se destacava, como se tivesse um luminoso de néon na testa. Pode ser perfeitamente inocente. Ou não."

       Recordei-me do que Mark afirmara sobre Beryl. Em sua opinião, ela era "memorável".

       Marino e eu tomamos o café em silêncio, na escuridão que toldava novamente meus pensamentos. Mark. Só poderia haver algum engano. Buscava uma explicação lógica, para seu nome não constar na equipe de Orndorff & Berger. Talvez tivessem esquecido de colocá-lo na lista, ou a firma se informatizara recentemente, e o nome dele constasse no departamento errado. Assim, o nome não apareceu quando a recepcionista pediu a listagem ao computador. Talvez as duas recepcionistas fossem novatas e não conhecessem muitos advogados. Mas por que seu nome não constava nem na lista telefônica de Chicago?

       "Não quer me contar o que a atormenta?", Marino disse, finalmente. "Está tão estranha, desde que cheguei."

       "Ando meio cansada, só isso", respondi.

       "Cascata", falou, ao beber mais um gole de café.

       Quase engasguei com o meu, quando ele disse: "Rose me contou que você andou viajando. Por acaso conversou com Sparacino, em Nova York?".

       "Quando Rose lhe contou isso?"

       "Não interessa. E não fique brava com sua secretária", pediu. "Ela só falou que você saiu da cidade. Não contou nada. Nem para onde foi, nem com quem foi falar. O resto eu descobri por minha própria conta."

       "Como?"

       "Você se entregou", ele disse. "Não negou, agora, certo? Então, o que foi que andou conversando com Sparacino?"

       "Ele disse que falou com você. Talvez devesse me contar a sua conversa, antes", respondi.

       "Não teve nada a ver." Marino apanhou o cigarro no cinzeiro. "Ligou para minha casa, uma noite. Não me pergunte como ele conseguiu meu nome e número de telefone. Queria a papelada de Beryl, e eu não estava disposto a entregar nada. Talvez cooperasse mais, se o sujeito não fosse um bunda-mole. Começou a me dar ordens, agia como o dono do mundo. Disse que era o executor testamentário e fez ameaças."

       "E você mandou o miserável para mim", falei.

       Marino me encarou, inexpressivo. "Não. Nem mesmo mencionei seu nome."

       "Tem certeza?"

       "Claro que sim. A conversa não durou nem três minutos. E foi como eu disse. Seu nome não chegou a ser mencionado."

       "E quanto ao original encontrado pela polícia e citado no relatório? Sparacino perguntou algo a respeito?"

       "Perguntou", Marino disse. "Mas não dei nenhum detalhe, só expliquei que o material fora encaminhado aos peritos, para análise. E avisei que não poderia discutir os detalhes do caso, como sempre."

       "Não disse que o original encontrado havia sido encaminhado para o meu departamento?"

       "Caramba, claro que não." Ele me encarou, desconfiado. "Por que diria isso a ele? Nem é verdade. Mandei o material para Vander procurar digitais, e fiquei junto dele, enquanto o analisava. Depois o levei de volta comigo. Está agora com o resto do material, no depósito da polícia." Ele parou. "Por quê? O que Sparacino andou falando?"

       Levantei-me para servir mais café. Voltei e contei tudo a Marino. Quando terminei, ele me encarava, incrédulo. Algo em seu olhar me incomodava. Pela primeira vez, creio, notei que Marino estava com medo.

       "O que vai fazer se ele telefonar?", perguntou.

       "Se Mark telefonar?"

       "Não. Se os sete anões telefonarem", Marino respondeu, sarcástico.

       "Pedir a ele que explique tudo direitinho. Perguntar se mora mesmo em Chicago, pois não há registro algum disso." Minha frustração aumentava a cada segundo. "Não sei, mas tentarei descobrir o que anda acontecendo, afinal."

       Marino desviou a vista, contraindo os músculos do rosto.

       "Imagina que Mark pode estar envolvido... mancomunado com Sparacino, metido em atividades ilegais, crimes", falei, quase incapaz de traduzir em palavras suas suspeitas apavorantes.

       Ele acendeu outro cigarro, irritado. "O que mais esperava que eu pensasse? Não viu seu ex-Romeu por mais de quinze anos, nem conversou com ele, nem soube de seu paradeiro. Como se ele tivesse sido tragado pela terra. De repente, ele bate à sua porta. Como pode saber o que o sujeito realmente andou fazendo neste período? Nem faz idéia. Só tem o que ele contou..."

       Paramos de falar quando o telefone tocou. Consultei instintivamente meu relógio, ao ir para a cozinha. Menos de dez horas, e meu coração disparou de medo quando ergui o fone do gancho.

       "Kay?"

       "Mark?" Engoli em seco. "Onde está?"

       "Em casa. Voltei para Chicago. Acabei de entrar em casa..."

       "Tentei falar com você, em Nova York e Chicago, no escritório..." Gaguejei. "Liguei do aeroporto."

       Seguiu-se um intervalo ansioso.

       "Sabe, não tenho muito tempo para conversar, agora Só liguei para dizer que sinto muito e saber se estava bem. Depois telefono de novo."

       "Onde está?", perguntei novamente. "Mark? Mark?"

       Só ouvi o sinal de discar, e mais nada.

    

       No dia seguinte, domingo, nem escutei o despertador. Dormi até dizer chega. Acordei depois do meio-dia, inquieta e com a cabeça pesada. Saí da cama, sem me lembrar dos meus sonhos, embora soubesse que não haviam sido agradáveis.

       O telefone tocou pouco depois das sete da noite, quando eu picava cebolas e pimentões para preparar uma omelete que jamais comeria. Minutos depois, eu estava percorrendo um trecho escuro da 64 Leste. No painel, um pedaço de papel continha as instruções para chegar a Cutler Grove. Minha mente parecia um programa de computador em loop, dando voltas e voltas, processando sempre a mesma informação. Cary Harper fora assassinado. Uma hora antes, voltara da taverna de Williamsburg, e alguém o atacara quando saía do carro. Tudo aconteceu muito depressa. Um homicídio brutal. Como no caso de Beryl Madison, cortaram-lhe a garganta.

       Estava escuro lá fora; nos trechos com neblina os faróis do carro me ofuscavam, mesmo baixos. A visibilidade, reduzida a quase zero, fazia com que a rodovia, muito conhecida, parecesse estranha. Não sabia bem onde me encontrava. Acendia um cigarro, tensa, quando percebi os faróis que se aproximavam pelo retrovisor. Um carro escuro, que não identifiquei, chegou bem perto e depois afastou-se, mantendo uma certa distância. E seguiu assim, quilômetro após quilômetro, quer eu acelerasse, quer reduzisse a velocidade. Quando, finalmente, cheguei ao acesso que procurava, e virei, o carro me seguiu.

       A estradinha de terra onde entrei não possuía placas indicativas. Os faróis do outro carro continuavam fixos no meu pára-choque traseiro. O 38 estava em casa. Não tinha nada para me defender, exceto um tubo de Mace na maleta médica. Falei "graças a Deus" em voz alta, de tão aliviada, ao ver a mansão surgir na bruma, depois de uma curva. No acesso semicircular, vi luzes de emergência e veículos variados. Estacionei, e o carro que me seguia parou logo atrás do meu. Encarei Marino, espantada, quando ele desceu e ergueu a gola do casaco para proteger a orelha.

         "Meu Deus do céu", falei contrariada. "Não posso acreditar."

       "Nem eu", ele resmungou, e com passadas largas aproximou-se de meu carro. E olhou para o círculo de luzes brilhantes, em volta do Rolls-Royce branco antigo, estacionado próximo à porta dos fundos da mansão. "Merda. Só posso dizer isso. Merda!"

       A polícia estava por toda a parte. Seus rostos desfilavam fantasmagóricos, sob as luzes artificiais. Os motores roncavam, e as frases fragmentadas vindas dos rádios, ininteligíveis por causa da estática, pairavam no ar úmido e frio. A fita de isolamento da cena do crime, presa ao corrimão da escada dos fundos, selava a área, num retângulo amarelo de horror.

       Um policial à paisana, usando casaco de couro marrom, aproximou-se de nós. "Doutora Scarpetta?", indagou. "Sou o detetive Poteat."

       Abri a maleta, para apanhar um par de luvas cirúrgicas e a lanterna.

       "Ninguém tocou no corpo", Poteat informou. "Procedi exatamente conforme as instruções do doutor Watts."

       O dr. Watts, clínico geral, era um dos quinhentos legislas do estado, e um dos dez mais imprestáveis. A polícia o convocou, naquela noite, e ele imediatamente me telefonou. A conduta padrão exigia que o legista titular fosse avisado, sempre que ocorria a morte suspeita ou inesperada de uma personalidade conhecida. A conduta padrão, no caso do dr. Watts, era fugir de qualquer caso, sempre que possível, para evitar a papelada e o trabalho. Raramente comparecia à cena do crime, e, realmente, nem sinal dele ali.

       "Cheguei quase ao mesmo tempo que a ambulância", Poteat explicou. "Garanti que ninguém mexesse no corpo desnecessariamente. Eles não o viraram, nem removeram as roupas. Nada. Estava morto, mesmo."

       "Obrigada", falei, automaticamente.

       "A princípio, creio que ele foi golpeado na cabeça. Talvez atingido por um tiro. Há chumbo de monte, espalhado. Logo verá. Não localizamos a arma. Consta que a vítima chegou por volta das quinze para as sete e estacionou o carro onde este se encontra agora. Pelo que concluímos, foi atacado ao sair do veículo."

       O policial olhou para o Rolls-Royce branco. A área em volta estava escura, por causa das sombras projetadas pelos arbustos de buxo, mais altos e antigos do que ele.

       "A porta do motorista estava aberta, quando chegou?", perguntei.

       "Não, senhora", Poteat respondeu. "Encontramos as chaves do carro no chão, como se ele as segurasse na mão, quando caiu. Como já disse, não tocamos em nada, pretendíamos esperar pela doutora, a não ser que o tempo nos obrigasse a agir. Vai chover." Ele ergueu os olhos para as nuvens pesadas. "Pode nevar, até. Nenhum sinal de luta dentro do veículo, nada fora do lugar. Deduzimos que o atacante esperava por ele, escondido nos arbustos talvez. Só sei que tudo aconteceu muito depressa, doutora. A irmã não ouviu o disparo da arma. Não escutou nenhum ruído, declarou."

       Afastei-me dele, para conversar com Marino. Abaixei-me para passar pela fita de isolamento e chegar mais perto do Rolls-Royce, com os olhos fixos no solo, atenta para cada detalhe em meu caminho. O carro encontrava-se estacionado paralelamente à calçada, a menos de três metros da escada dos fundos, com a porta do motorista voltada na direção da casa. Contornei o capo, onde o distintivo famoso brilhava, parei e apanhei a máquina fotográfica.

       Cary Harper estava de costas, a cabeça a poucos centímetros do pneu do carro. O pára-lama branco estava salpicado e manchado de sangue, e o suéter tricotado bege quase todo tingido de vermelho. O molho de chaves encontrava-se próximo aos quadris. Sob a luz forte, eu praticamente só via o sangue vermelho, pegajoso. Nódoas tingiam o cabelo branco. Na face e no crânio havia lacerações, provocadas por um instrumento contundente, que o atingira com força, a ponto de rasgar o couro cabeludo. A garganta havia sido cortada de orelha a orelha, quase a ponto de separar a cabeça do corpo. Por toda a parte, quando eu virava a lanterna, via chumbo de matar pássaro espalhado, como pequenas contas de estanho. Vi centenas de esferas no corpo, e em volta dele, e até mesmo algumas espalhadas pelo capo do carro.

       O chumbo não havia sido disparado por arma de fogo.

       Contornei o trecho, tirando fotografias, depois me agachei e apanhei o termômetro químico longo, que introduzi cuidadosamente sob o suéter e alojei na axila esquerda. A temperatura do corpo era de 33,5 graus, e a temperatura ambiente de meio grau abaixo de zero. O corpo esfriava rapidamente, no frio intenso, pois Harper não usava agasalhos pesados. O rigor já se iniciara nos músculos menores. Calculei que estava morto há menos de duas horas.

       Em seguida, comecei a procurar pistas que não sobreviveriam à viagem até o necrotério. Fibras, fios de cabelo ou quaisquer outros fragmentos aderidos ao sangue poderiam esperar. Só itens soltos me preocupavam, e examinei o corpo minuciosamente, e depois a área em torno dele, quando o facho iluminou algo, perto do pescoço. Abaixei-me, sem tocar no montinho esverdeado de uma substância que se parecia muito com Play-Doh. Havia vários chumbinhos grudados na substância. Quando eu guardava o material cuidadosamente num saco plástico, a porta dos fundos se abriu, e encarei inadvertidamente uma senhora de olhos aterrorizados, na parte interna do vestíbulo, ao lado de um policial que portava uma prancheta metálica.

       Os passos próximos pertenciam a Marino e Poteat. Eles cruzaram o cordão de isolamento e foram ao encontro do policial com a prancheta. A porta se fechou silenciosamente.

       "Alguém vai ficar com ela?", perguntei.

       "Claro", o policial respondeu, a respiração formando uma nuvem esbranquiçada. "A senhorita Harper aguarda a chegada de uma amiga, e disse que vai estar bem. Manteremos uma ou duas viaturas nas proximidades, só para garantir que o sujeito não volte a atacar."

       "O que procuramos?", Poteat perguntou.

       Ele enfiou as mãos nos bolsos do casaco e encolheu os ombros, por causa do frio. Flocos de neve do tamanho de moedas começaram a cair, em espiral.

       "Mais de uma arma", expliquei. "Os ferimentos na cabeça e na face resultam de golpes contundentes." Apontei com o dedo protegido pela luva ensangüentada. "Quanto ao chumbo, notem que as esferas não deformaram, e aparentemente nenhuma delas penetrou no corpo da vítima."

       Marino olhou para o chumbo espalhado, positivamente perplexo.

       "Tive a mesma impressão", Poteat disse, balançando a cabeça. "Aparentemente, nenhum tiro foi disparado. Portanto, não devemos procurar uma espingarda, como prioridade. Queremos uma faca e também uma chave de roda, certo?"

       "É possível, mas não obrigatório", respondi. "Só posso afirmar, por enquanto, que o pescoço foi cortado com um instrumento afiado, e que o golpearam com algo contundente."

       "Isso é um tanto vago, doutora", Poteat reclamou, franzindo a testa.

       "Sei que é vago. Temos várias possibilidades", concordei.

       Embora tivesse suspeitas quanto aos grãos de chumbo para matar pássaros, evitei especulações, por causa de experiências infelizes no passado. Possibilidades costumam ser interpretadas ao pé da letra. Em determinada cena de crime, a polícia deixou passar uma agulha de tricô suja de sangue, na sala da vítima, só porque eu havia dito que a arma ' 'poderia ser um picador de gelo".

       "A equipe de socorro já pode trabalhar", anunciei, removendo as luvas.

       Harper foi embrulhado num lençol branco limpo e guardado num saco especial. Ao lado de Marino, acompanhei as luzes traseiras da ambulância, que se afastaram lentamente, até desaparecer na escuridão do acesso vazio. Não ligaram a sirene, nem as luzes superiores — ninguém tinha pressa para transportar defuntos. A neve caía com força, e grudava na gente.

       "Já vai?", Marino perguntou.

       "O que pretende, me seguir de novo?" Não sorri.

       Ele olhou para o Rolls-Royce, dentro do círculo de luzes leitosas, no acesso. Os flocos de neve derretiam, quando chegavam à área de pedregulhos manchados com o sangue de Harper.

       "Não a segui", Marino disse, sério. "Recebi a mensagem pelo rádio, quando já estava quase em Richmond, de novo."

       "Quase em Richmond, de novo?", interrompi. "Como assim, de novo?"

       "Eu estava aqui", ele disse, procurando a chave do carro no bolso. "Descobri que Harper freqüentava a taverna Culpeper's. Decidi apertá-lo um pouco. Falei com o sujeito, por cerca de meia hora, até que ele me mandou tomar no rabo. Aí cada um foi para o seu lado. Segui na direção de Richmond, e, quando faltavam uns vinte quilômetros para chegar lá, Poteat pediu que divulgassem um alerta e me informassem do ocorrido. Voltei correndo e, quando reconheci seu carro na estrada, resolvi acompanhá-la, para evitar que se perdesse."

       "Está dizendo que realmente conversou com Harper, na taverna, esta noite?", perguntei, atônita.

       "É isso aí", ele disse. "Ele saiu e foi atacado cinco minutos depois." Agitado e inquieto, Marino seguiu na direção do carro. "Vou conversar com Poteat, ver o que conseguimos descobrir. Estarei de volta de manhã, para examinar a correspondência, se você não fizer nenhuma objeção." Observei-o partir, limpando a neve do cabelo. Já havia desaparecido quando dei partida no Plymouth. Os limpadores removeram a fina camada de neve, depois pararam, na metade do pára-brisa. O motor do carro tentou funcionar, mas logo tornou-se o segundo morto daquela noite.

       A biblioteca de Harper era uma sala aconchegante, vistosa, decorada com tapetes persas e antiguidades em madeira de lei. Poderia apostar que o sofá era Chippendale. Jamais tocara num Chippendale genuíno. Sentar, então, nem pensar. No forro alto havia ornamentos em gesso, no estilo rococó. As paredes estavam cobertas de livros, em sua maioria encadernados em couro. Na lareira de mármore, à minha frente, crepitava um fogo recentemente aceso.

       Debruçada, estendi as mãos na direção da chama e retomei o estudo do quadro em cima da lareira. Retratava uma bela moça, vestida de branco, num banco pequeno. Tinha cabelo louro e longo, e as mãos, relaxadas sobre o colo, seguravam uma escova prateada. Ela tremulava um pouco, por causa do calor do fogo. Os cílios longos se destacavam nos olhos grandes, os lábios úmidos estavam entreabertos, e o decote do vestido mostrava um colo branco como porcelana, onde os seios ainda não apontavam. Intrigava-me a exposição tão saliente do quadro quando a irmã de Cary Harper entrou e fechou a porta, silenciosamente como a abrira.

       "Pensei que isso a reanimaria um pouco", disse, estendendo um cálice de vinho.

       Ela deixou a bandeja numa mesinha e sentou-se sobre a almofada de veludo vermelho de uma poltrona'barroca, pondo os pés de lado, como as verdadeiras damas aprendem a fazer com as damas mais velhas da família.

       "Obrigada", disse, pedindo desculpas novamente.

       A bateria de meu carro não estava mais entre nós, e não adiantaria dar uma carga nela. A polícia pedira um guincho pelo rádio e prometera me levar a Richmond, assim que terminassem de examinar a cena do crime. Não me restara alternativa. Não poderia esperar debaixo da neve, nem passar uma hora dentro de uma viatura. Por isso, bati na porta dos fundos da srta. Harper.

       Ela bebericava o vinho, olhando distraidamente para o fogo. Como os objetos requintados que a rodeavam, ela era um serviço perfeito, uma das mulheres mais elegantes que eu já vira. O cabelo grisalho emoldurava, com suavidade, seu rosto aristocrático. O rosto era fino, os traços gentis, o corpo esguio perfeito para o suéter bege e a saia de veludo. Quando olhei para Sterling Harper, a palavra "solteirona" não me veio à mente.

       Permanecemos em silêncio. A neve fustigava as janelas, e o vento gemia nos beirais. Difícil imaginar alguém vivendo sozinha naquela mansão.

       "Tem outros parentes?", perguntei.

       "Nenhum vivo", ela respondeu.

       "Lamento muito, senhorita Harper..."

       "Claro. Não precisa mais repetir isso, doutora Scarpetta."

       Um anel de esmeralda brilhou à luz da lareira quando ela ergueu o cálice. Seus olhos se fixaram em mim. Recordo-me do terror que os inundava quando abriu a porta no momento em que eu examinava o corpo de seu irmão. Agora, mostrava-se incrivelmente calma.

       "Cary já esperava por isso", ela comentou, subitamente. "Suponho que o modo como aconteceu tenha sido o mais chocante, para mim. Não imaginava que alguém teria a ousadia de esperá-lo na porta de casa."

       "A senhora não escutou nada?", perguntei.

       "Ouvi q barulho do carro, quando chegou. Depois, mais nada. Como ele não entrou em casa, abri a porta para verificar. Imediatamente, liguei para a polícia."

       "Ele costumava freqüentar outros locais, fora a taverna Culpeper's?", perguntei.

       "Não. Nenhum outro local. Costumava ir até Culpeper's todas as noites. Cansei de preveni-lo quanto aos perigos daquele lugar, para alguém de sua idade, nestes tempos modernos. Ele sempre levava bastante dinheiro, e Cary era especialista em ofender pessoas. Nunca passava muito tempo lá. Uma hora, no máximo duas. Dizia que procurava inspiração, misturando-se ao povo. Cary não tinha mais nada a dizer. Ficou em The jagged comer."

       Do romance, que li em Cornell, restaram apenas algumas impressões: o sul, gótico, pleno de violência, incesto e racismo, visto pela ótica de um jovem escritor, criado numa fazenda na Virgínia. Lembro-me de ter ficado deprimida.

       "Meu irmão era um desses talentos desafortunados, capazes de escrever apenas um livro", a srta. Harper acrescentou.

       "Houve muitos grandes escritores como ele", falei.

       "Só viveu o que foi obrigado a viver, quando era jovem", ela prosseguiu, em seu tom compassado. "Depois disso, tornou-se um homem vazio, vivendo em desespero silencioso. Sua obra não passou de uma série de equívocos, romances inacabados que atirava ao fogo, fechando a cara para as páginas em chamas. Depois ficava perambulando pela casa, como um touro furioso, até resolver tentar novamente. Viveu assim, por anos e anos, mais do que eu gosto de me lembrar."

       "Parece muito dura com seu irmão", comentei em voz baixa.

       "Sou muito dura comigo mesma, doutora Scarpetta", ela disse, ao me encarar. "Cary e eu saímos da mesma fôrma. A diferença, entre nós, é que não me sentia inclinada a analisar o que não poderia ser alterado. Ele insistia em escavar sua natureza, seu passado, as forças que o moldaram. Ganhou o prêmio Pulitzer graças a isso. Quanto a mim, preferi não lutar contra o que me parecia tão claro."

       "E o que era?"

       "A família Harper chegou ao final da linha, estéril e esnobe. Não haverá outros depois de nós", ela disse.

       O vinho era tinto, comum, seco, com sabor levemente metálico. Quanto tempo demoraria a polícia para encerrar os levantamentos? Imaginei ter ouvido um ruído de caminhão, havia algum tempo; talvez o guincho chegando para rebocar meu carro.

       "Aceitei o papel que a vida me destinou, de cuidar de meu irmão e conduzir a família até sua extinção", a srta. Harper falou. "Sentirei falta de Cary, só porque era meu irmão. Não ficarei aqui sentada mentindo, dizendo o quanto era maravilhoso." Ela tomou mais um gole de vinho. "Certamente, isso soa muito duro a seus ouvidos."

       Duro não era a palavra apropriada. "Admiro sua honestidade", falei.

       "Cary tinha imaginação e emoções voláteis. Eu, não. Se não fosse isso, não teria suportado a situação. Certamente, não moraria aqui."

       "Morar nesta casa isolada deve ser difícil", falei, supondo ser este o motivo.

       "O isolamento não me incomoda", ela disse.

       "O que a incomoda, então, senhorita Harper?", indaguei, procurando o maço de cigarro.

       "Gostaria de tomar mais um cálice de vinho?", ela perguntou, e a sombra do fogo ocultava parte de seu rosto.

       "Não, muito obrigada."

       "Gostaria de não ter vindo para esta casa. Nada de bom aconteceu aqui", ela disse.

       "O que pretende fazer, senhorita Harper?" O vazio em seus olhos gelou meu sangue. "Vai continuar aqui?"

       "Não tenho para onde ir, doutora Scarpetta."

       "Acredito que não encontraria dificuldade em vender Cutler Grove", comentei, desviando novamente a atenção para o retrato sobre a lareira. A moça de branco sorria misteriosa, à luz do fogo, dos segredos que jamais revelaria.

       "É difícil abandonar o pulmão de aço, doutora Scarpetta."

       "Como assim?"

       "Sou velha demais para uma mudança", ela explicou. "Velha demais para pensar na saúde e em novos relacionamentos. O passado respira por mim. É a minha vida. Ainda é jovem, doutora Scarpetta. Um dia, saberá como é olhar para trás. Descobrirá que não pode escapar. Sua história pessoal a prenderá a salas familiares onde, ironicamente, ocorreram os eventos que a afastaram da vida. Encontrará mais conforto na mobília dura das desilusões e considerará as pessoas que a desiludiram mais amigáveis, com o passar do tempo. E, sem se dar conta, correrá para o aconchego da dor da qual fugia antes. É mais fácil. Só posso dizer isso. É mais fácil."

       "Tem alguma idéia de quem pode ter assassinado seu irmão?", perguntei diretamente, tentando mudar de assunto.

       Ela não disse nada, apenas olhou para o fogo, intensamente.

       "E quanto a Beryl?", insisti.

       "Soube que a ameaçaram, por meses a fio, antes de sua morte."

       "Meses a fio?", repeti.

       "Beryl e eu éramos muito unidas."

       "Sabia, então, das ameaças?"

       "Sim. Ela me contou que a incomodavam."

       "Ela contou isso, senhorita Harper?"

       "Claro", ela disse.

       Marino pesquisara as contas telefônicas de Beryl. Não identificara nenhum interurbano para Williamsburg. E a moça não recebera cartas da srta. Harper, nem do irmão.

       "Então manteve contato com ela, estes anos todos?", falei.

       "Um contato muito estreito", ela respondeu. "Pelo menos, na medida do possível. Por causa do livro que estava escrevendo, e da clara violação do acordo com meu irmão. Sabe, foi tudo muito penoso. Cary ficou furioso."

       "O senhor Harper sabia o que Beryl estava fazendo? Ela contou tudo a ele?"

        "O advogado se encarregou disso."

       "Sparacino?"

       "Desconheço os detalhes das conversas entre ele e Cary", ela disse, e sua fisionomia se anuviou. "Meu irmão foi informado sobre o livro de Beryl. O bastante para subir pelas paredes. O advogado instigou o conflito, por baixo do pano. Ia de Beryl a Cary, agindo como se fosse aliado de um, ou de outro, dependendo do interlocutor."

       "Sabe o que aconteceu com o livro? Estaria com Sparacino?", perguntei, cautelosamente. "Sabe se vão publicá-lo?"

       "Ele ligou para Cary, faz alguns dias. Ouvi trechos da conversa, o suficiente para me certificar de que o original havia desaparecido. Seu departamento foi mencionado. Cary disse algo sobre o legista titular. A senhora, suponho. Naquela altura, ele já estava irritado. Concluí que o senhor Sparacino tentava descobrir se meu irmão possuía o original."

       "E seria possível?" Eu precisava saber.

       "Beryl jamais o mostrou a Cary", ela respondeu, emocionada. "Não faria sentido algum mostrar o livro a ele, que se opunha ferozmente."

       Permanecemos em silêncio, por algum tempo.

       Em seguida, perguntei: "Senhorita Harper, o que seu irmão temia tanto?".

       "A vida."

       Esperei, observando-a cuidadosamente. Ela olhava para o fogo, outra vez.

       "Quanto mais temia a vida, mais fugia dela", disse com voz estranha. "Viver em reclusão provoca efeitos curiosos na mente. É capaz de virá-la pelo avesso, acelerar os pensamentos e idéias, a ponto de levá-los a círculos viciosos, onde ricocheteiam em ângulos absurdos. Beryl, creio, foi a única pessoa que meu irmão amou. Fixou-se nela. Sentia uma necessidade avassaladora de controlá-la, obrigá-la a permanecer presa a ele. Quando acreditou que ela o traía, que não conseguia mais exercer seu poder, a loucura chegou a extremos. Sem dúvida, passou a imaginar um monte de absurdos em relação ao que ela divulgaria a seu respeito. Sobre nossa situação aqui."

       Quando ela estendeu novamente o braço para pegar o cálice de vinho, a mão tremia. Falava do irmão como se ele estivesse morto havia anos. Sua voz tornava-se tensa, quando o mencionava. O amor profundo pelo irmão continha também uma muralha de raiva e sofrimento.

      "Cary e eu não tínhamos ninguém, quando Beryl surgiu", ela continuou. "Nossos pais haviam morrido. Só tínhamos um ao outro. Cary era difícil. Um demônio que escrevia como um anjo. Eu me dispunha a ajudar, para que deixasse sua marca no mundo."

       "Tais sacrifícios, em geral, são acompanhados pelo ressentimento", arrisquei.

       Silêncio. A luz da lareira bruxuleava em seu rosto caprichosamente esculpido.

       "Como conheceram Beryl?", perguntei.

       "Ela nos encontrou. Morava em Fresno, na época, com o pai e a madrasta. Escrevia, era obcecada por literatura." A srta. Harper não tirava os olhos do fogo, enquanto falava. "Certo dia, Cary recebeu uma carta dela, por intermédio da editora. Ainda me lembro bem. Ela revelava uma imaginação promissora, que precisava se desenvolver. Assim iniciou-se a correspondência, e meses depois Cary a convidou para nos visitar. Mandou-lhe uma passagem. Pouco tempo depois, ele adquiriu esta casa e começou a restaurá-la. Fez isso por causa dela. Uma jovem introduzira a magia em seu mundo."

       "E sua reação?"

       Ela não respondeu, de início.

       A lenha se moveu,' no fogo, e as fagulhas pularam.

       "As complicações da vida não cessaram, depois que ela veio morar conosco, doutora Scarpetta. Observei o que acontecia entre os dois."

       "Entre seu irmão e Beryl?"

       "Não queria aprisioná-la, como ele. Cary, com suas tentativas incessantes de controlar Beryl, e a ter só para si, acabou por afugentar a moça."

       "Seu amor por Beryl era imenso", comentei.

       "Impossível de explicar", ela disse, com a voz tensa. "E muito difícil de lidar."

       Tentei avançar mais. "Seu irmão não queria que mantivesse contato com ela?"

       "Não, especialmente nos últimos meses, em função do livro. Cary a renegou. Seu nome não podia ser pronunciado nesta casa. Ele me proibiu de manter qualquer contato com Beryl."

       "Mas não adiantou", falei.

       "Não. Mantínhamos contato, de modo muito restrito", ela disse, com dificuldade.

       "Deve ter sido muito doloroso. Afastar-se de alguém a quem se ama tanto."

       Ela desviou os olhos, concentrando-se no fogo.

       "Senhorita Harper, quando soube da morte de Beryl?"

       Ela não respondeu.

       "Alguém telefonou?"

       "Ouvi pelo rádio, na manhã seguinte", murmurou.

       Meu Deus, pensei. Que coisa horrível.

       Ela não disse mais nada. Seu sofrimento encontrava-se fora do meu alcance, e, por mais que eu pretendesse oferecer uma palavra de consolo, nada poderia dizer. Permanecemos em silêncio por um longo tempo. Quando finalmente consultei o relógio, vi que era quase meia-noite.

       A casa estava muito quieta — quieta demais, percebi alarmada.

       Depois do calor da biblioteca, o hall de entrada parecia frio como uma catedral. Abri a porta dos fundos e arregalei os olhos de surpresa. Para lá do manto branco da neve, o acesso era um alvo tapete sólido. Mal dava para ver as marcas dos pneus deixadas pela polícia. Os desgraçados haviam partido sem me avisar. Meu carro sumira, rebocado havia muito tempo. Ninguém se lembrara de me chamar. Droga! Droga! Droga!

       Quando retornei à biblioteca, a srta. Harper estava pondo lenha no fogo.

       "Pelo jeito, eles me esqueceram aqui", falei, sabendo que soava contrariada. "Posso usar seu telefone?"

       "Lamento, mas não será possível", ela respondeu com voz pausada. "Os telefones ficaram mudos, logo depois que a polícia foi embora. Acontece sempre, quando o tempo piora."

       Observei-a, enquanto atiçava o fogo. Vi os rolos de fumaça subindo pela chaminé, e as fagulhas espalhando-se para os lados.

     Eu me esquecera.

       Só naquele momento recordei-me.

       "Sua amiga..."

       Ela atiçou o fogo novamente.

       A polícia informou que uma amiga sua estava a caminho, que passaria a noite aqui..."

       A srta. Harper empertigou-se lentamente e deu meia-volta, o rosto afogueado pelo calor.

       "Isso mesmo, doutora Scarpetta", ela disse. "Foi muita gentileza sua ter vindo."

    

       A srta. Harper trouxe mais vinho, enquanto o relógio de carrilhão, próximo à porta da biblioteca, dava doze badaladas.

       "O relógio", sentiu-se obrigada a explicar, "está dez minutos atrasado. Sempre esteve."

       Os telefones da mansão realmente não funcionavam. Verifiquei isso. Caminhar até a cidade significava enfrentar dez centímetros de neve, por vários quilômetros. Não poderia sair dali.

       O irmão estava morto. Beryl estava morta. A srta. Harper estava sozinha no mundo. Tomara que fosse só coincidência. Acendi um cigarro e bebi um pouco de vinho.

       A srta. Harper não teria a força física necessária para matar o irmão e Beryl. E se o assassino quisesse matar a srta. Harper, também? E se ele voltasse?

       Meu 38 estava em casa.

       A polícia vigiava a área.

         Como? Em trenós?

       Notei que a srta. Harper dirigia-se a mim.

       "Desculpe", falei, forçando um sorriso.

       "Você não está sentindo frio?", ela repetiu.

      Seu rosto revelava serenidade, enquanto ela olhava para o fogo, sentada na poltrona barroca. As chamas altas crepitavam como uma bandeira fustigada pelo vento, e as rajadas de vento aleatórias sopravam cinzas para fora da lareira. Minha companhia parecia servir de consolo. Estivesse eu em seu lugar, não ia querer ficar sozinha, tampouco.

       "Estou bem", menti. Sentia frio.

       "Posso emprestar-lhe um suéter."

       "Por favor, não se incomode. Estou confortável... mesmo."

       "É quase impossível aquecer esta casa", prosseguiu. "O pé-direito alto dificulta isso. Não há isolamento térmico. A gente acaba se acostumando."

       Pensei em minha casa moderna, com aquecimento central a gás, em Richmond. Pensei na cama grande, no colchão firme e no cobertor elétrico. Pensei no pacote de cigarro no armário, perto da geladeira, e no uísque escocês no bar. Pensei no andar superior empoeirado, no vento que entrava na mansão de Cutler Grove.

       "Dormirei bem aqui. No sofá."

     "Bobagem. O fogo logo se apagará." Ela brincava com um botão do casaco, sem tirar os olhos do fogo.

       "Senhorita Harper", tentei pela última vez. "Tem alguma idéia de quem pode ter feito isso? A Beryl, ou a seu irmão? Ou saberia dizer o motivo?"

       "Pensa que foi o mesmo homem." Ela disse isso como afirmação, não como pergunta.

       "Imagino que sim."

       "Gostaria de poder dizer algo útil", ela respondeu. "Talvez já não importe mais. Seja lá quem for, está feito, e pronto."

       "Quer que ele escape à punição?"

       "Já houve punição em demasia. Nada poderá desfazer o que foi feito."

       "Não acha que Beryl gostaria que ele fosse preso?"

       Ela me encarou, arregalando os olhos. "Gostaria que a tivesse conhecido."

        "Creio que a conheci. De certa forma", respondi, carinhosamente.

       "Não consigo explicar..."

       "E nem precisa, senhorita Harper..."

       "Tudo poderia ser tão bom..."

       Vi seu sofrimento naquele instante. O rosto se contraiu, mas ela logo recuperou o controle. Não precisava concluir o pensamento. Tudo poderia ser tão bom, agora que ninguém mais era capaz de separar a srta. Harper e Beryl. Companheiras. Amigas. A vida é tão vazia, quando se está só, quando não há ninguém para amar.

     "Lamento", falei com sinceridade. "Lamento muito, senhorita Harper."

       "Estamos na metade de novembro", ela disse, desviando o rosto novamente. "Um pouco cedo, para nevar. O degelo será rápido, doutora Scarpetta. Poderá partir no final da manhã. As pessoas que a esqueceram aqui já terão se lembrado. Foi muito bom ter vindo."

       Ela parecia saber que eu viria. Tive a impressão de que planejara tudo, de algum modo. Claro, não seria possível.

       "Gostaria de pedir que fizesse uma coisa", ela pediu.

       "O que seria, senhorita Harper?"

       "Volte na primavera. Venha até aqui em abril", ela disse, para as chamas.

       "Será um prazer", respondi.

       "Os miosótis estarão floridos. O gramado verde se tingirá de azul, graças a eles. Fica tudo tão lindo nessa época. É a minha favorita, no ano. Beryl e eu adorávamos sair para colher miosótis. Já os estudou, de perto? Ou é como a maioria das pessoas, e não se detém neles, porque são tão pequenos? São tão lindos, de perto. Tão lindos, como se fossem feitos de porcelana e pintados pela mão perfeita de Deus. Costumávamos usá-los no cabelo e colocá-los em vasos, espalhados pela casa, Beryl e eu. Prometa que voltará em abril. Promete, não é?" Ela se voltou para mim, e a emoção em seus olhos doía.

       "Sim, sim, é claro", repeti, e falava sério.

       "Costuma comer algo especial, no café da manhã?", ela perguntou, ao se levantar.

       "O que fizer, para mim estará ótimo."

       "A geladeira está cheia", ela comentou, estranhamente. "Traga o vinho; vou levá-la a seu quarto."

       Sua mão deslizou pelo corrimão, enquanto subia.pela escadaria magnífica para mostrar o quarto de hóspedes. Não havia luzes no teto, só luminárias laterais para clarear o caminho, e o ar bolorento era frio como o de um porão.

       "Meu quarto fica na outra ponta do corredor, três portas para lá, se precisar de algo", ela disse, e me conduziu a um quarto pequeno.

       A mobília era de mogno, marchetado com pau-cetim, e no papel azul-claro da parede havia várias telas a óleo, mostrando flores e uma vista do rio. A cama com dossel estava preparada, com uma pilha alta de acolchoados. Uma porta aberta conduzia ao banheiro. O ar abafado cheirava a pó, como se as janelas nunca fossem abertas, e apenas as memórias se movessem por ali. Com certeza ninguém dormia naquele quarto havia muitos e muitos anos.

       "Encontrará uma camisola de flanela na primeira gaveta. Há toalhas limpas e outras coisas necessárias, no banheiro", a srta. Harper disse. "Espero que esteja tudo em ordem."

       "Sim, muito obrigada." Sorri para agradá-la. "Boa noite."

       Fechei a porta e passei o trinco frágil. A camisola era o único item na gaveta. Debaixo dela, encontrei um sachê, que perdera o perfume havia muito tempo. As outras gavetas estavam vazias. No banheiro, encontrei uma escova de dentes, ainda na embalagem de celofane, um tubo minúsculo de pasta de dente, um sabonete de lavanda, sem uso, e muitas toalhas, como a srta. Harper prometera. A pia estava seca como giz, e, quando abri a torneira dourada, saiu um líquido enferrujado. Demorou muito até que eu conseguisse água limpa, quente o bastante para lavar o rosto.

       A camisola, velha porém limpa, era azul como os miosótis, mas de um azul desbotado. Entrei na cama, puxei os acolchoados cheirando a bolor até o queixo e apaguei a luz. O travesseiro era macio, e senti o toque das plumas, quando o ajeitei. Acordada, sentindo o nariz frio, sentei-me na cama, naquele quarto escuro, para terminar o vinho. Certamente, havia sido o quarto de Beryl. A casa estava tão silenciosa que imaginei ouvir o som da neve caindo do outro lado da janela.

       Não me dei conta, mas devo ter cochilado. Quando abri os olhos, senti o coração disparado, e senti medo de me mover. Não conseguia me lembrar do pesadelo. No início, não tinha certeza de onde estava, e se o ruído que escutara era mesmo real. A torneira do banheiro pingava, as gotas escorriam lentamente pelo ralo. As tábuas do assoalho, para lá da porta trancada do meu quarto, rangeram novamente, de leve.

       Minha mente analisou as possibilidades. A queda da temperatura provocava rangidos na madeira. Ratos. Alguém percorria o corredor, lentamente. Apurei os ouvidos, prendendo a respiração, e escutei o ruído suave de passadas. A srta. Harper, calçando chinelos, concluí. Pelo jeito, estava descendo a escada. Virei de um lado para outro, por cerca de uma hora. Finalmente, decidi acender a luz do quarto e sair da cama. Três e meia da madrugada, vi, perdendo a esperança de voltar a dormir. Tremendo de frio, na camisola emprestada, vesti o casaco e destranquei a porta. Percorri o corredor escuro como breu, até reconhecer a silhueta do corrimão da escada.

       A lua iluminava ligeiramente o hall de entrada gelado, passando pelas janelinhas da porta da frente. A neve cessara, e as estrelas surgiram. Vi os ramos e os arbustos sob uma capa branca brilhante. Segui para a biblioteca, atraída pela promessa de calor do fogo crepitante.

       A srta. Harper estava sentada no sofá, com um afegã sobre os ombros. Olhava para as chamas, com as faces cobertas de lágrimas, que não se deu ao trabalho de limpar. Tossi discretamente, chamei seu nome, baixinho, para não assustá-la.

       Ela não se mexeu.

       "Senhorita Harper?", chamei novamente, mais alto. "Ouvi quando desceu, e..."

      Ela estava recostada no sofá, os olhos fixos no fogo. A cabeça pendeu para o lado, quando sentei-me a seu lado e encostei os dedos no pescoço. Estava quente, mas sem pulso. Deitei-a no tapete e tentei desesperadamente, com respiração boca a boca e massagem no esterno, forçar seu pulmão a funcionar e fazer seu coração bater novamente. Não sei por quanto tempo tentei ressuscitá-la. Quando finalmente desisti, sentia os lábios dormentes e os músculos das costas e do braço trêmulos. Na verdade, eu tremia dos pés à cabeça.

       O telefone continuava mudo. Não poderia chamar ninguém. Não poderia fazer absolutamente nada. Parei na frente da janela da biblioteca, e abri as cortinas para olhar, através das lágrimas, para a incrível brancura iluminada pela lua. Não via nada para lá do rio escuro. De algum modo, consegui recolocar o corpo no sofá e cobri-lo gentilmente com o afegã, enquanto o fogo se apagava, e a moça do retrato sumia nas sombras. A morte de Sterling Harper fora uma surpresa e tanto, e me deixara atônita. Sentei-me no tapete, na frente do sofá, e observei o fogo que se extinguia. Não poderia mantê-lo aceso, tampouco. Na verdade, nem tentei.

       Não chorei, quando meu pai morreu. Depois de vê-lo doente por muitos anos, eu me especializara em cauterizar as emoções. Ele ficou na cama, durante a maior parte da minha infância. Quando finalmente morreu, certa noite, o sofrimento terrível de minha mãe provocou um distanciamento ainda maior, e foi desta distância aparentemente segura que levei à perfeição a arte de observar o naufrágio de minha família.

       Acompanhei a anarquia que explodiu entre minha mãe e minha irmã com uma objetividade aparentemente impecável. Minha irmã mais nova, Dorothy, era completamente narcisista e irresponsável, desde que nasceu. Silenciosamente, afastei-me das discussões, gritarias e recriminações, e me refugiei em meu íntimo, para manter a lucidez. Cansada das brigas dentro de casa, passava cada vez mais tempo com as freiras da escola e me enfurnava na biblioteca, onde logo notei a precocidade de minha mente, e as recompensas que isso me traria. Destaquei-me nas ciências, e senti atração pela biologia humana. Aos quinze anos, já lia a Anatomia de Gray, que se tornou o item básico de minha educação autodidata, e minha salvação. Sairia de Miami para cursar a faculdade. Numa era em que as mulheres eram professoras, secretárias e donas de casa, eu seria médica.

       No colegial só tirava dez, jogava tênis e lia, até durante as férias de verão e feriados, enquanto minha família se digladiava como um bando de veteranos confederados, num mundo há muito conquistado pelos nortistas. Tinha poucos amigos, e pouco interesse em namorar, Formada em primeiro lugar, na turma, ganhei bolsa integral para estudar em Cornell. Depois, segui para a Faculdade de Medicina Johns Hopkins, e para o curso de direito em Georgetown. Depois disso, voltei à Hopkins, como residente de patologia. Só remotamente tinha consciência do que estava fazendo. A carreira na qual mergulhei conduziria inevitavelmente à cena terrível da morte de meu pai. Eu desmontaria a morte, e a remontaria novamente, milhares de vezes. Dominaria seus códigos e a levaria aos tribunais. Compreenderia seus meandros mais secretos. Mas nada disso traria meu pai de volta à vida, e a criança que havia dentro de mim jamais deixou de lamentar sua perda.

       As brasas se moveram na lareira, e cochilei um pouco, acordando sobressaltada.

       Horas mais tarde, os detalhes de minha prisão começaram a se materializar no azul frio da manhã. Sentia as pernas e costas doloridas quando me levantei com dificuldade para chegar até a janela. O sol era um ovo pálido contra o rio cinzento. Os troncos negros das árvores contrastavam com a neve branca. O fogo se apagara, e duas questões atormentavam meu cérebro febril. A srta. Harper teria falecido se eu não estivesse ali? Muito conveniente, para ela, morrer quando eu estava na casa. Por que viera até a biblioteca? Imaginei-a descendo a escada, atiçando o fogo e acomodando-se no sofá. Enquanto olhava para as chamas, o coração simplesmente parou de bater. Ou teria olhado para o retrato, no final?

       Acendi todas as luzes. Puxei a poltrona para perto da lareira, subi e tirei o quadro do gancho. O quadro não parecia tão perturbador, de perto, o efeito geral se desintegrava nas nuances sutis de cor e nas pinceladas delicadas da tinta a óleo. A poeira soltou-se da tela quando desci e coloquei o quadro no chão. Não havia data nem assinatura, e o retrato não era tão antigo quanto eu presumira. As cores haviam sido deliberadamente usadas para que parecesse velho, e não havia o menor sinal de rachaduras na pintura.

       Virei o quadro, para examinar o fundo. No centro havia um selo dourado, com o nome de uma firma de molduras, em Williamsburg. Tomei nota do nome e subi de novo na poltrona, devolvendo o quadro à sua posição original. Depois agachei-me na frente da lareira e delicadamente remexi as cinzas, com um lápis tirado da minha bolsa. Por cima da lenha queimada encontrei uma camada fina de cinza branca, que se desfez como teia de aranha, quando a toquei. Sob ela havia uma bola escura, que parecia de plástico derretido.

       "Sem querer ofender, doutora", Marino disse, ao sair do estacionamento em seu carro, "mas a senhora está com um ar terrível."

      "Muito agradecida", murmurei.

       "Como já disse, não queria ofendê-la. Aposto que não conseguiu dormir quase nada."

       Quando não apareci para realizar a autópsia de Cary Harper, pela manhã, Marino ligou imediatamente para a polícia de Williamsburg. No meio da manhã, dois policiais constrangidos apareceram na mansão, as correntes a ranger e marcar a neve lisa, funda. Depois da seqüência deprimente de questões sobre a morte de Sterling Harper, o corpo foi transportado na ambulância que ia para Richmond, e os policiais me deixaram na central de polícia, em Williamsburg, onde tomei café com roscas doces, enquanto esperava por Marino.

       "Eu não teria passado a noite naquela casa, de jeito nenhum", Marino prosseguiu. "Nem que a temperatura caísse a vinte abaixo de zero. Preferiria congelar a passar a noite com um defunto..."

       "Sabe onde fica a rua Princess?", interrompi-o.

       "O que tem lá?" Seus olhos me examinaram, curiosos, por trás das lentes espelhadas.

       A neve parecia fogo branco, sob o sol, e as ruas se enchiam de lama, rapidamente.

       "Preciso passar no número quinhentos e sete da rua Princess", falei, no tom imperativo de quem esperava ser levada até lá.

       A loja situava-se no final do centro histórico, entre duas outras, na praça Merchant. No estacionamento, recém-limpo da neve, não havia mais do que uma dúzia de carros, os tetos cobertos de neve. Senti alívio, ao perceber que a The Village Frame Shoppe & Gallery estava aberta.

       Marino não fez perguntas, quando desci. Ele provavelmente notou que não era o momento apropriado para fazê-las. Havia apenas um cliente dentro da galeria, um rapaz de casaco preto, examinando distraidamente algumas pinturas, enquanto uma moça loura cuidava do caixa, atrás do balcão.

       "Posso ajudar?", a loura perguntou, olhando para mim inexpressiva.

       "Isso depende. Há quanto tempo trabalha aqui?", perguntei.

       O modo desconfiado com que me encarou fez com que eu me desse conta de que realmente estava com um ar horrível. Dormira de casaco. Meu cabelo não vira a cor do pente. Estendi a mão, para ajeitar uma mecha rebelde, e percebi que havia perdido um brinco. Identifiquei-me, exibindo a carteirinha de couro preto com meu distintivo.

       "Trabalho aqui há dois anos", ela disse.

       "Estou interessada numa pintura, emoldurada nesta loja, provavelmente antes que você trabalhasse aqui", expliquei. "Um retrato que Cary Harper trouxe, provavelmente."

       "Ai, meu Deus. Ouvi tudo no rádio, hoje de manhã. Minha nossa, que coisa horrível aconteceu com ele." Ela gaguejava. "Acho melhor conversar com o senhor Hilgeman." Dizendo isso, desapareceu nos fundos, para buscá-lo.

       O sr. Hilgeman era um senhor distinto, usava paletó de tweed e me disse, sem rodeios: "Cary Harper não vem a esta loja há anos, e ninguém aqui o conhece direito, pelo que sei".

       "Senhor Hilgeman", falei, "sobre a lareira, na biblioteca de Harper, há um retrato de uma moça loura. Foi emoldurado em sua loja, há vários anos, provavelmente. Lembra-se dele?"

       Não notei nem o mais leve sinal de reconhecimento nos olhos cinzentos que me examinavam por trás dos óculos de leitura.

       "Ao que parece, é muito antiga", expliquei. "Uma boa imitação, com um tratamento inusitado do tema. A moça tem nove, dez, no máximo doze anos, mas está trajada como uma mulher, de branco, sentada num banco pequeno, segurando uma escova de cabelo."

       Deveria ter tirado uma foto Polaroid do quadro, pensei. Minha máquina estava dentro da maleta médica, mas a idéia não me passou pela cabeça. Estava distraída demais.

       "Sabe", o sr. Hilgeman disse, e seus olhos se iluminaram, "creio que me lembro do quadro, agora. Uma menina bonita, mas estranha. Sim. Muito sugestivo, pelo que me recordo!"

       Não o apressei.

       "Já faz uns quinze anos, pelo menos... Deixe-me ver." Ele levou o indicador aos lábios. "Não", disse. "Não fui eu."

       "Não foi,o senhor? Não foi o senhor o quê?"

       "Não fiz a moldura. Deve ter sido Clara. A assistente que trabalhava aqui naquela época. Creio — não, tenho certeza — que Clara enquadrou a pintura. Um serviço caro, embora não fosse o caso, sabe. O quadro não era grande coisa. Na verdade", ele acrescentou, franzindo a testa, "foi uma de suas tentativas mal-sucedidas.''

       "Suas?", interrompi. "Refere-se a Clara?"

      "Estou falando de Sterling Harper." Ele me olhou, intrigado. "Ela era artista." E, depois de uma pausa: "Isso deve ter acontecido há vários anos, quando ela pintava bastante. Pelo que sei, havia até um ateliê na casa. Nunca estive lá, claro. Mas ela costumava trazer os quadros para cá, em sua maioria naturezas-mortas e paisagens. A pintura a que se refere foi o único retrato do qual me recordo".

       "Há quanto tempo ela o pintou?"

       "Faz pelo menos quinze anos, como já disse."

       "Alguém posou para ela?"

       "Suponho que tenha usado uma fotografia..." Ele franziu o cenho. "Na verdade, não posso responder sua pergunta. Mas, se alguém posou, não sei quem possa ser."

       Não demonstrei minha surpresa. Beryl deveria ter dezesseis ou dezessete anos, e morava em Cutler Grove. Seria possível que o sr. Hilgeman, e o resto da cidade, não soubesse disso?

       "Uma coisa terrível", ele lamentou. "Uma família tão talentosa e inteligente. Não se casaram, não tiveram filhos."

       "E quanto aos amigos?", perguntei.

       "Não conheci nenhum dos dois, pessoalmente", ele disse.

       E nunca conhecerá, pensei morbidamente.

       Marino limpava o pára-brisa com uma flanela quando voltei ao estacionamento. A neve derretida e o sal jogado pelo pessoal da limpeza sujaram e mancharam seu carro preto novo. Isso o contrariou. Na calçada, vi um monte de pontas de cigarros. Sem a menor cerimônia, ele esvaziara ali o cinzeiro.

       "Duas coisas", comecei a dizer, séria, quando entramos no carro. "Na biblioteca da mansão há um retrato de uma moça loura, que a senhorita Harper aparentemente mandou emoldurar nesta loja, faz uns quinze anos."

       "Beryl Madison?" Ele puxou o isqueiro.

       "Pode ser muito bem um retrato dela", confirmei. "Em caso positivo, a mostra muito mais nova do que era, quando os Harper a conheceram. E o tratamento do tema é muito peculiar, ao estilo Lolita..."

       "Como é?"

       "Sexy", respondi diretamente. "Uma menina, retratada de modo sensual."

       "Nossa. Está querendo dizer que Cary Harper era um tarado enrustido?"

       "Para começar, o retrato foi pintado pela irmã."

       "Merda", ele reclamou.

       "Em segundo lugar", prossegui, "fiquei com uma forte impressão de que o dono da loja de molduras não fazia a menor idéia de que Beryl morava com os Harper. Neste caso, estou tentando imaginar como isso foi possível. Ela morou na mansão por vários anos, Marino. A poucos quilômetros da cidade. De uma cidade pequena."

       Ele olhava fixo para a frente, enquanto dirigia, sem dizer palavra.

       "Muito bem", concedi, "pode ser apenas especulação. Eles eram reclusos. Talvez Cary Harper tenha feito o possível para esconder Beryl do mundo. Seja lá como for, a situação me parece pouco saudável. Mas pode não ter relação alguma com suas mortes."

       "Uma ova", ele disse, contrariado, "pouco saudável uma ova. Doente, isso sim. Mesmo que fossem tão reclusos como diz, não faz sentido que todos desconhecessem a presença dela. A não ser que vivesse enjaulada, ou acorrentada ao pé da cama. Bando de tarados. Odeio tarados. Odeio gente que abusa de crianças. Sabia?" Ele me olhou de esguelha, novamente. "Realmente, eu odeio. Estou sentindo aquela sensação de novo."

       "Qual sensação?"

       "Acho que o famoso escritor deu um jeito em Beryl", Marino disse. "Ela pretendia contar todos os podres dele no livro, o sujeito pirou e foi atrás dela com a faca."

       "E quem o matou, neste caso?", perguntei.

       "Talvez a própria irmã."

       O assassino de Cary Harper possuía a força necessária para desferir um golpe capaz de provocar a perda imediata da consciência. Cortar a garganta de alguém também não combinava com uma mulher. De fato, nunca tive um caso em que a mulher fizesse isso.

      Depois de um longo período de silêncio, Marino perguntou: "A velha senhorita Harper parecia senil?".

       "Um tanto excêntrica, diria. Mas, senil, não."

       "Louca?"

       "Também não."

       "Baseado na maneira como descreveu tudo, não me parece que a reação dela à morte brutal do irmão tenha sido apropriada", ele comentou.

       "Ela estava em estado de choque, Marino. As pessoas, quando entram em choque, não reagem de modo apropriado."

       "Acha que ela cometeu suicídio?"

       "Isso é possível, certamente", respondi.

       "Encontrou alguma droga no local?"

       "Alguns medicamentos comuns, nada letal", falei.

       "Ferimentos?"

       "Nenhum visível."

       "E sabe como ela morreu?", ele perguntou, fixando os olhos em mim, com o rosto severo.

       "Não", respondi. "No momento, não tenho a menor idéia."

       "Presumo que vá voltar a Cutler Grove", falei a Marino, quando ele estacionou atrás do prédio do departamento de medicina legal.

       "O que não me anima nem um pouco", ele resmungou. "Por que não vai para casa e dorme um pouco?"

       "Não se esqueça da máquina de escrever de Cary Harper."

       Marino procurou o isqueiro no bolso.

        "O tipo e o modelo, bem como fitas usadas."

       Ele acendeu o cigarro.

       "E qualquer papel de carta ou similar, existente na casa. Sugiro que colete as cinzas da lareira, pessoalmente. Será extremamente difícil preservá-las..."

       "Sem querer ofender, doutora, mas está falando como a minha mãe."

       "Marino", falei rispidamente, "isso é sério."

       "Eu sei que é sério, tá bom. E você precisa dormir, com urgência.''

       Marino estava frustrado e também precisava dormir.

      O salão estava vazio, o piso de cimento manchado de óleo. Dentro do necrotério, senti a vibração monótona da eletricidade e dos geradores, que normalmente não notava, durante o expediente. A lufada de ar pestilento soou inusitadamente alta, quando entrei na geladeira.

       Os corpos estavam em maças, encostados na parede da esquerda. Talvez por cansaço, quando ergui o lençol que cobria Sterling Harper senti fraquejar os joelhos, e deixei cair a maleta médica no chão. Recordei-me da beleza de seu rosto, do terror nos olhos quando a porta da mansão se abriu e ela espiou, enquanto eu examinava seu irmão morto, a mão enluvada brilhando rubra com seu sangue. Irmão e irmã estavam presentes. Era só o que eu precisava saber. Cobri-a cuidadosamente, ocultando a face imóvel como uma máscara. Por toda parte, vi pés descalços, etiquetados.

       Notei, distraidamente, a caixa amarela de filme fotográfico, sob a maça de Sterling Harper, assim que entrei na sala frigorificada. Mas, apenas quando me abaixei para pegar a maleta médica, e a olhei melhor, eu me dei conta do significado. Filme Kodak, trinta e cinco milímetros, vinte e quatro exposições. O filme padrão, para meu departamento, era Fuji, e sempre pedíamos trinta e seis exposições. Os paramédicos que transportaram o corpo da srta. Harper já haviam deixado o prédio, horas antes, e não tirariam fotografias.

       Retornei ao corredor. A luz do elevador atraiu a minha atenção, e me dei conta de que estava parado no segundo andar. Havia mais alguém no prédio. Provavelmente, tratava-se do guarda de segurança, fazendo sua ronda. Mesmo assim, senti um arrepio na nuca. Pensei novamente na caixa de filme, vazia. Apertei a alça da maleta com força e decidi subir pela escada. No segundo andar, abri a porta lentamente e apurei os ouvidos, antes de prosseguir. Os escritórios da ala leste estavam vazios, de luzes apagadas. Virei à direita no corredor principal, passando pelo auditório deserto, pela biblioteca e pela sala de Fielding. Não ouvi nada, não vi ninguém. Só para garantir, decidi chamar a segurança, quando chegasse ao meu escritório.

       Quando eu o vi, parei de respirar. Por um momento, terrível, minha mente recusou-se a funcionar. Silenciosa e meticulosamente, ele examinava as pastas suspensas, na gaveta que abrira, em um dos arquivos. A gola do casaco azul cobria as orelhas. Protegera os olhos com óculos escuros de aviador, e as mãos com luvas cirúrgicas. No ombro musculoso notei a tira de couro que prendia a câmera. Parecia sólido e duro como mármore, e seria impossível, para mim, fugir sem que me visse. As mãos enluvadas se imobilizaram, subitamente.

       Quando ele respirou, por reflexo ataquei-o com a maleta médica, que girei como se fosse um martelo olímpico. O impulso a jogou com tanta força, entre as pernas, que o impacto fez com que os óculos pulassem de sua face. Ele tombou para a frente, dobrando o corpo em agonia, desequilibrando-se o bastante para que eu o atingisse com um chute na altura do tornozelo, e o jogasse de bruços, no chão. Cair sobre as lentes da máquina fotográfica não fez com que se sentisse melhor, creio. Só a câmera serviu de amortecedor para o impacto de suas costelas contra o piso.

       Os instrumentos médicos se espalharam, quando esvaziei freneticamente a maleta, à procura da pequena lata de Mace que sempre transportava comigo. Ele gritou, quando pulverizei o líquido em seu rosto. Levou a mão aos olhos e rolou no chão, enquanto eu telefonava pedindo ajuda. Esguichei mais um pouco, por via das dúvidas, antes da chegada do guarda de segurança. Em seguida, veio a polícia. Meu hóspede, histérico, pedia pelo amor de Deus para ser levado ao hospital, enquanto um guarda implacável o algemava com os braços nas costas e o puxava com rispidez.

       Segundo a carteira de motorista, o nome do intruso era Jeb Price, trinta e quatro anos, morador de Washington, D. C. Na parte traseira da cintura da calça de veludo, ele portava uma automática Smith & Wesson nove milímetros, com catorze balas no pente e uma na agulha.

       Não me lembro de ter entrado na minha sala e apanhado a chave no quadro, para sair com o outro carro do departamento. Mas devo ter feito isso, pois estacionei a perua azul-escura na frente de casa, quando começou a escurecer. Utilizada no transporte de cadáveres, o veículo era um trambolho, com janelas laterais discretamente protegidas por cortinas. A parte traseira era revestida com uma prancha de madeira compensada, que precisávamos remover semanalmente, para limpeza. A perua, mistura de carro da família com carro de defunto, só era mais fácil de estacionar que um caminhão.

       Como um zumbi, subi sem me importar em ouvir os recados na secretária eletrônica, ou desligá-la. O cotovelo e o ombro direitos doíam. Os ossos da mão doíam. Larguei a roupa em cima de uma cadeira, tomei um banho bem quente e deitei-me, zonza. Dormi profundamente. A escuridão me engolfava, eu tentava nadar através das trevas, meu corpo parecia chumbo, e os toques insistentes do telefone foram cortados abruptamente pela secretária eletrônica.

       "...não sei quando vou poder ligar de novo, portanto preste bem atenção. Por favor, Kay. Soube da morte de Cary Harper..."

       Meu coração batia forte, quando abri os olhos. A voz aflita de Mark me tirou do torpor.

       "...por favor, fique fora deste caso. Não se envolva. Por favor. Telefonarei de novo, assim que puder..."

       Quando finalmente cheguei ao aparelho e tirei o fone do gancho, só ouvi o sinal de discar. Toquei de novo a mensagem, enterrei a cara no travesseiro e comecei a chorar.

      

       Na manhã seguinte, Marino chegou ao necrotério quando eu iniciava uma incisão em "Y" no corpo de Cary Harper.

       Removi as costelas e retirei os órgãos da cavidade torácica, enquanto Marino observava tudo, silenciosamente. A água pingava nas pias, os instrumentos cirúrgicos tilintavam e retiniam, e do outro lado da sala uma lâmina comprida raspava na pedra — um assistente afiava a faca. Tínhamos quatro casos naquela manhã, e todas as mesas de autópsia de aço inoxidável estavam ocupadas.

       Como Marino não dizia nada, toquei no assunto.

       "O que descobriu a respeito de Jeb Price?", perguntei.

       "Sua ficha não combina com a de um arrombador", ele respondeu, desviando os olhos, incomodado. "Nenhuma ocorrência anterior, nenhum mandado de prisão, nada. Ele se recusa a falar. Se falasse, seria com voz de soprano, depois do que você fez. Parei na Identificação, antes de vir para cã. Eles estão revelando o filme encontrado na câmera. Trarei as cópias assim que ficarem prontas."

       "Já deu uma espiada?"

       "Nos negativos", ele respondeu.

       "E aí?", perguntei.

       "Fotos do interior da geladeira. Dos corpos de Harpei e da irmã", contou.

       Isso eu já esperava. "Não creio que seja repórter de um jornal sensacionalista", falei, de brincadeira.

       "Claro que não."

       Desviei a vista do corpo. Marino não estava de bom humor. Mais preocupado do que de costume, cortara o rosto duas vezes, ao se barbear. Os olhos estavam vermelhos.

       "Os repórteres que conheço não andam com pistolas nove milímetros carregadas com Glasers", ele disse. "E costumam choramingar quando são flagrados, pedir uma moeda para telefonar para o advogado do jornal. O sujeito não era amador. Deve ter arrombado uma fechadura, para entrar. Coisa de profissional. Agiu numa segunda-feira à tarde, feriado estadual, quando dificilmente haveria alguém no prédio. Encontramos o carro dele estacionado a umas três quadras dali, no estacionamento da Farm Fresh. Alugado, com telefone celular. Havia munição e pentes suficientes para deter um pelotão do exército. Sem falar na pistola metralhadora Mac Ten e no colete de Kevlar. Não pode ser repórter."

       "Não tenho certeza de que se trata de um profissional, contudo", comentei, ao trocar a lâmina do bisturi. "Descuidou-se, deixando uma caixa vazia de filme dentro da geladeira. E, se realmente pretendia agir com segurança, deveria ter entrado às duas da madrugada, e não em pleno dia."

       "Tem razão. O esquecimento da caixinha do filme foi bobeira", Marino concordou. "Mas entendo a entrada naquele horário. E se o pessoal da funerária, ou do serviço médico, chegasse para entregar um corpo enquanto Price estava lá? No meio da tarde, poderia fingir que trabalhava no necrotério, se tivesse sangue frio suficiente. Todavia, se fosse surpreendido às duas da madrugada, não conseguiria dar uma explicação convincente para sua presença."

       Qualquer que fosse o caso, Jeb Price não brincava em serviço. As balas de segurança Glaser eram terríveis. Pequenas esferas de chumbo, que se dispersavam com o impacto, rasgando a carne e os órgãos, como uma tempestade de chumbo quente. Mac Tens são armas preferidas de terroristas e chefões do tráfico, custam um dólar a dúzia na América Central, no Oriente Médio, e em minha cidade natal, Miami.

       "Deveria colocar uma fechadura de segurança na sala frigorificada", Marino acrescentou.

       "Já chamei o pessoal da manutenção", falei.

       Adiara aquela precaução por alguns anos. O pessoal da funerária e os paramédicos entravam na geladeira, fora do expediente. Os guardas de segurança precisariam da chave. Os legistas do departamento precisariam da chave. Haveria reclamações. Haveria problemas. Saco, eu já estava cheia de problemas!

       Marino concentrou a atenção no corpo de Harper. Ninguém precisava de autópsia, nem da opinião de um expert, para saber a causa da morte.

       "Ele apresenta fraturas múltiplas no crânio e danos ao cérebro", expliquei.

       "Cortaram a garganta no final, como no caso de Beryl?"

       "A veia jugular e a carótida foram seccionadas, mas os órgãos não estão muito claros", respondi. "Ele teria morrido de hemorragia em questão de minutos, se houvesse pressão sangüínea. Em outras palavras, ele não sangrou o suficiente para morrer disso. Estava morto, ou moribundo, em função dos golpes na cabeça, quando a garganta foi cortada."

       "Encontrou ferimentos que indicassem tentativas de defesa?", Marino perguntou.

       "Nenhum." Apontei com o bisturi, para mostrar. Forcei os dedos de Harper, um a um, para abri-los. "Não há unhas quebradas, cortes ou contusões. Ele não tentou desviar os golpes."

       "Nunca soube o que o atingiu", Marino comentou. "Chegou em casa quando já estava escuro. O sujeito o esperava, provavelmente escondido entre os arbustos. Harper estacionou e saiu do Rolls-Royce. Trancava a porta, no momento em que o atacante aproximou-se por trás, e o golpeou na cabeça..."

       "Há cerca de vinte por cento de estenose nesta artéria", pensei alto, procurando o lápis.

       "Harper cai, feito um saco de batata, e o maluco continua batendo", Marino prosseguiu.

       "Trinta por cento na coronária direita." Anotei os dados numa caixa de luvas vazia. "Nenhuma seqüela de infartos anteriores. Coração saudável, embora um pouco aumentado. Com alguma calcificação da aorta, aterosclerose moderada."

       "Depois o sujeito corta a garganta de Harper. Provavelmente para ter certeza de que está mesmo morto."

       Olhei para cima.

       "O assassino queria se certificar de que Harper estava morto", Marino repetiu.

       " Não sei se atribuiria um raciocínio tão racional ao atacante", contestei. "Olhe só para ele, Marino." Ergui o couro cabeludo, para descobrir novamente o crânio, rachado como um ovo cozido demais. Apontando para as fraturas, expliquei: "Ele foi golpeado pelo menos sete vezes, com tanta força que não sobreviveria a um único golpe. Depois sua garganta foi cortada. Sem necessidade. Como no caso de Beryl".

       "Certo. Desnecessariamente. Não discuto isso", ele retrucou. "Só estou dizendo que o assassino queria garantir que Beryl e Harper estavam mesmo mortos. Quando o sujeito corta a garganta, pode ir embora com a certeza absoluta que a vítima não ressuscitará para contar a história."

       Marino fechou a cara, quando comecei a despejar o conteúdo do estômago no recipiente.

       "Não se incomode com isso. Posso contar o que ele comeu, estava sentado bem na frente do sujeito. Amendoim salgado. E dois martinis", disse.

       Os amendoins nem chegaram a ser digeridos pelo estômago de Harper, quando ele morreu. Não havia mais nada, exceto um fluido marrom. Senti o cheiro de álcool.

       Perguntei a Marino: "O que conseguiu descobrir, na conversa com ele?".

       "Absolutamente nada."

       Eu o encarei, enquanto rotulava o recipiente.

       "Esperei na taverna, tomando água tônica com limão", contou, "Cheguei por volta das quinze para as cinco. Às cinco em ponto, Harper entrou."

       "Como sabia que era ele? Os rins estavam ligeiramente granulados. Coloquei-os na balança, e anotei seu peso.

       "Não tive dificuldade, com aquela cabeleira branca", Marino explicou. "Exatamente como descrito por Poteat. Percebi quem era no instante em que entrou. Harper sentou-se sozinho e não falou com ninguém. Pediu 'o de sempre', comendo amendoim enquanto esperava, observei-o por algum tempo, depois aproximei-me, puxei uma cadeira e me apresentei. Ele disse que não poderia ajudar em nada, e que não queria falar no assunto. Fiz pressão, contei que Beryl recebia ameaças. Perguntei se sabia disso. Ele ficou irritado, e disse que não."

       "Acha que ele dizia a verdade?" Também gostaria de saber a verdade sobre Harper e a bebida. Tinha um fígado gordo.

       "Difícil saber", Marino disse, batendo a cinza do cigarro no chão. "Em seguida, perguntei onde estava na noite do crime, e ele me disse que ficou na taverna, até o horário de costume, depois voltou para casa. Quando perguntei se a irmã poderia confirmar, falou que ela havia saído."

       Ergui os olhos, surpresa, com o bisturi na mão, em pleno ar. "Ido aonde?"

       "Estava viajando", disse.

       "Ele não falou para onde?"

       "Não. Ele disse, literalmente: 'Problema dela. Não me pergunte'." Marino fixou-se no fígado, que eu fatiava, incomodado. "Meu prato favorito era fígado acebolado. Acredita nisso? Não conheço um único policial capaz de comer fígado depois de presenciar uma autópsia..."

       A serra Stryker o interrompeu, quando comecei a trabalhar na cabeça. Marino desistiu, e recuou quando o pó de osso ergueu-se na atmosfera pungente. Mesmo se chegam em bom estado, cadáveres fedem quando são abertos. Visualmente, a experiência não é nenhuma maravilha. Marino merecia elogios. Qualquer que fosse o caso, ele sempre acompanhava a autópsia.

       O cérebro de Harper estava mole, com marcas irregulares variadas. Houve pouca hemorragia, revelando que não vivera por muito tempo, depois dos ferimentos. Pelo menos sua morte foi misericordiosamente rápida. Ao contrário de Beryl, Harper não teve tempo para registrar o terror, sentir a dor ou pedir que lhe poupassem a vida. O crime diferia do outro, em vários aspectos. Não recebera ameaças, ao que sabíamos. Não havia sinais de abuso sexual. Morrera espancado, e não esfaqueado, sem que o assassino levasse itens do vestuário.

       "Contei cento e sessenta e oito dólares na carteira", revelei a Marino. "O relógio de pulso e o anel estavam presentes, e foram registrados."

       "E quanto à corrente do pescoço?", ele perguntou.

       Não tinha idéia do que estava querendo dizer.

       "Ele usava uma corrente de ouro, grossa, com uma medalha. Uma espécie de escudo, ou brasão", explicou. "Notei a corrente, na taverna."

       "Não veio junto com o corpo, e não me lembro de tê-la visto na cena do crime...", eu ia dizer ontem à noite. Mas não havia sido ontem à noite. Harper falecera no domingo à noite. Estávamos na terça-feira, já, e eu perdera a noção dos dias. Os dois últimos pareceram irreais, e, se não tivesse ouvido a fita com a mensagem de Mark mais uma vez, naquela manhã, imaginaria que a ligação era irreal, também.

       "Então pode ser que o assassino a tenha levado. Mais um souvenir", Marino disse.

       "Não faz sentido", comentei. "Posso entender o souvenir, no caso de Beryl, se o crime foi obra de um sujeito perturbado, obcecado por ela. Mas por que levar algo de Harper?"

       "Troféus, talvez", Marino sugeriu. "Lembranças da caçada. Pode ser um matador profissional, que gosta de guardar recordações do serviço."

       "Prefiro pensar que um matador contratado seja mais cuidadoso", objetei.

       "Claro, é o que pensa. Assim como pensa que Jeb Price seria mais cuidadoso, e não largaria uma caixa de filme na geladeira", ele retrucou, irônico.

       Removi as luvas e rotulei os tubos de ensaio e outras amostras recolhidas. Peguei minha papelada e voltei para meu escritório no andar superior, acompanhada por Marino.

       Rose deixara o jornal da tarde sobre minha mesa. O assassinato de Harper e a morte súbita da irmã saíram na primeira página, em destaque. A reportagem seguinte estragou meu dia:

      

                         LEGISTA TITULAR ACUSADA

                         DE "PERDER" ORIGINAIS POLÊMICOS

      

       Nos créditos constava Nova York, como origem do texto. Reportagem da Associated Press, que contava também como eu "aleijara" um homem chamado Jeb Price, depois de surpreendê-lo "revistando" meu escritório, na tarde do dia anterior. As alegações sobre o original saíram de Sparacino, sem dúvida, pensei revoltada. Quanto a Jeb Price, a fonte era o relatório da polícia, claro. Quando verifiquei os recados, notei que, em sua maioria, eram de repórteres.

       "Checou os disquetes do computador?", perguntei, jogando o jornal para Marino.

       "Sim, claro", ele disse. "Já olhei tudo."

       "E localizou o tal livro, que está deixando todo mundo agitado?"

       Examinando a primeira página, ele disse: "Não".

       "Não estava lá?", falei, frustrada. "Não estava nos disquetes? Como é possível, se ela escrevia no computador?"

       "Não me pergunte", ele disse. "Só estou dizendo que verifiquei mais de uma dezena de disquetes. Não encontrei nada recente neles. O material parece ser mais antigo, dos romances. Nada sobre ela mesma, ou sobre Harper. Encontrei algumas cartas antigas, incluindo duas para Sparacino, tratando de negócios. Não me chamaram a atenção."

       "Talvez tenha guardado os disquetes num lugar seguro, antes de ir para Key West", falei.

       "Talvez. Mas não os encontramos."

       Naquele momento, Fielding entrou, os braços simiescos apontando pelas mangas do traje cirúrgico, as mãos musculo-sas ligeiramente esbranquiçadas pelo talco das luvas cirúrgicas de látex que usara nos exames. Fielding era uma obra de arte. Só Deus sabe quantas horas gastava por semana, para esculpir seu corpo numa academia de musculação qualquer. Defendia a teoria de que sua obsessão pelo corpo era inversamente proporcional à sua obsessão pelo trabalho. Como legista assistente, revelava competência. Participava da equipe havia menos de um ano, e já mostrava sinais de exaustão. Quanto mais se desiludia, mais aumentava a massa muscular. Calculava em mais dois anos o prazo para que se refugiasse no mundo mais agradável e lucrativo da patologia hospitalar, ou se tornasse herdeiro do Incrível Hulk.

       "Serei obrigado a aguardar os exames de Sterling Harper", ele disse, parado ao lado da minha mesa, inquieto. "O nível de álcool era de apenas um ponto três, e não há nada revelador no suco gástrico. Nenhum sangramento, nem odores diferentes. O coração está bom, sem sinal de infartos antigos, e as coronárias desimpedidas. Cérebro normal. Algo acontecia em seu corpo, porém. O fígado estava inchado, com cerca de dois quilos e meio, e o baço pesou mais de um quilo, com espessamento da cápsula. Há comprometimento dos nódulos linfáticos, também."

       "Alguma metástase?", perguntei.

       "Nenhuma, à primeira vista."

       "Apresse as análises microscópicas", pedi.

       Fielding moveu a cabeça e saiu abruptamente.

       Marino olhou para mim, inquisidor.

       "Pode ser muita coisa", falei. "Leucemia, linfoma, doenças colágenas — algumas são benignas, outras não. O baço e os nódulos linfáticos reagem, como parte do sistema imunológico. Ou seja, o baço está quase sempre ligado a doenças do sangue. Quanto ao fígado inchado, isso não ajuda muito, em termos de diagnóstico. Não posso afirmar nada, até verificar as alterações histológicas no microscópio."

       "Poderia falar claro, por favor?" Ele acendeu o cigarro. "Explique, em termos mais simples, o que o doutor Schwarzenegger descobriu."

       "O sistema imunológico dela reagia a algum problema", falei. "Ela estava doente."

       "Doente o bastante para fazer com que ela morresse no sofá?"

       "De repente?", falei. "Duvido muito."

       "E quanto a algum medicamento?", ele sugeriu. "Sabe, ela pode ter tomado as pílulas e atirado o frasco no fogo, o que explicaria o plástico derretido que encontrou na lareira, e o fato de não haver vidros de remédios ou similar, na casa. Só pílulas inofensivas, que se podem comprar sem receita."

       Uma overdose de drogas constava com destaque em minha lista, mas não precisava me preocupar com isso, no momento. Apesar de meus pedidos, apesar das promessas de que seu caso receberia tratamento prioritário e urgente, os resultados dos exames toxicológicos demorariam dias, talvez semanas.

       Quanto ao irmão, eu havia formulado uma teoria.

       "Creio que Cary Harper foi atingido por um porrete caseiro, Marino", falei. "Provavelmente um pedaço de cano metálico, cheio de chumbo, para aumentar o peso. As pontas foram fechadas com uma massa, do tipo Play-Doh, para conter o chumbo. Depois de vários golpes, o Play-Doh escapou, e as esferas de chumbo se espalharam."

       Ele bateu a cinza, pensativo. "Não combina com o estilo mercenário do material que encontramos no carro de Price. Nem com algum plano da senhorita Harper, tampouco."

       "Presumo que não encontrou chumbo de matar pássaros, nem Play-Doh ou similar, em sua casa, certo?"

       Ele balançou a cabeça e disse-, "Não".

      

     O telefone não parou de tocar o dia inteiro. Relatos de minha suposta participação no sumiço do "original misterioso e valioso" e narrativas exageradas sobre a captura de um arrombador que invadira minha sala chegaram aos boletins dos serviços noticiosos. Os repórteres tentavam obter declarações, e alguns vigiavam o estacionamento do prédio, ou aguardavam no saguão, com os microfones e câmeras estendidos, como rifles. Um locutor de rádio particularmente irreverente disse que eu era a única legista do país a usar "luvas de ouro, e não de borracha". A situação começava a escapar ao controle, e rapidamente. Precisava levar o aviso de Mark a sério. Sparacino era bem capaz de fazer de minha vida um inferno.

       Sempre que Thomas Ethridge tinha algo em mente, ligava para meu número direto, em vez de passar por Rose. Não me surpreendi, quando telefonou. Senti até alívio. No final da tarde, passei em seu escritório. Pela idade, poderia ser meu pai. Era um homem cuja simpatia juvenil se transformava, com idade, em celebração do caráter. Ethridge, com seu rosto de Winston Churchill, combinava mais com o parlamento, ou com uma sala de fumar esfumaçada de charuto. Sempre nos demos muito bem.

       "Golpe publicitário? Acha que alguém vai acreditar nisso, Kay?", o procurador-geral perguntou, brincando distraidamente com uma corrente de ouro de relógio, que saía do colete.

       "Tenho a impressão de que não acredita em mim", falei.

       Sua resposta foi apanhar a caneta-tinteiro Mont Blanc grossa, e lentamente desenroscar a tampa.

       "Suponho que ninguém terá a chance de acreditar ou não em mim", acrescentei desolada. "Minhas suspeitas não se baseiam em dados concretos, Tom. Se eu fizer uma acusação dessa natureza, para reagir às manobras de Sparacino, ele vai deitar e rolar."

       "Sente-se isolada, não é, Kay?"

       "Sim. E estou, Tom."

       "Situações do gênero adquirem vida própria", ele brincou. "Nosso problema está em lidar com elas sem causar mais comoção."

       Esfregando os olhos cansados, por trás dos óculos de tartaruga, ele virou a página do bloco e começou a fazer mais uma de suas listas, ao estilo Nixon. Riscou uma linha vertical no centro da página amarela, com as vantagens de um lado e as desvantagens do outro. Vantagens e desvantagens em relação a quê, eu não sabia. Depois de encher metade da folha, com uma coluna dramaticamente mais longa do que a outra, ele encostou na poltrona, olhou para cima e franziu o cenho.

       "Kay", ele disse, "já percebeu que costuma se envolver bem mais nos casos do que seus antecessores?"

       "Não conheci meus antecessores", respondi.

       Ele sorriu, de leve. "Não respondeu a minha pergunta, minha cara."

       "Honestamente, nunca pensei muito no assunto."

       "Não esperava que o fizesse", ele me surpreendeu ao falar. "Não esperava, pois sei que é extremamente dedicada, Kay. Foi um dos motivos que me levou a apoiar firmemente sua nomeação. A vantagem é que você não deixa passar nada, sendo uma ótima patologista forense, além de administradora capacitada. O lado ruim é que mostra uma certa tendência para se colocar em situações delicadas, às vezes. Como no caso dos estrangulamentos, não faz nem um ano. Jamais teriam sido resolvidos, e outras mulheres poderiam ter morrido, se não fosse por sua atuação. Mas quase perdeu a vida com isso."

       "Agora, temos este incidente de ontem." Ele fez uma pausa, balançou a cabeça e riu. "Embora, devo confessar, tenha me impressionado. 'Incapacitado', foi a palavra usada no rádio, esta manhã. É verdade?"

       "Não foi bem assim", falei, constrangida.

       "Sabe quem era ele e o que procurava?"

       "Não temos certeza", falei. "Mas ele entrou na geladeira do necrotério e tirou fotografias dos corpos de Cary e Sterling Harper. Quando entrei, ele consultava os arquivos, mas isso não me deu pista alguma."

       "Em ordem alfabética?"

       "Ele estava na gaveta 'M a N'."

       " 'M' de Madison?"

       "Possivelmente", respondi. "Mas a pasta dela foi para o arquivo com chave, na outra sala. Não havia nada naquela gaveta."

       Depois de um longo silêncio, ele apontou para o bloco, com o indicador, e disse: "Anotei o que sabemos sobre estas mortes recentes. Beryl Madison, Cary Harper, Sterling Harper. Contêm todos os ingredientes de um livro de mistério, não concorda? E ainda por cima surge esta intriga a respeito de um original desaparecido, que supostamente envolve o departamento de medicina legal. Precisamos esclarecer alguns pontos, Kay. Primeiro, se alguém mais ligar perguntando sobre o original, pode facilitar sua vida, orientando o eventual interessado a entrar em contato comigo. Aposto que a conseqüência imediata será um processo. Portanto, prepararei minha equipe, para tentar acabar com isso logo no início. Segundo, meditei muito sobre os problemas, e gostaria que você se portasse como um iceberg".

       "O que isso significa, exatamente?", perguntei, confusa.

       "Na superfície só aparece uma fração do que existe em baixo", ele respondeu. "Não confunda isso com uma atitude evasiva, embora deva se portar assim, em termos práticos, também. Evite contatos com a imprensa, fuja o quanto puder do noticiário." Ele começou a alisar a corrente do relógio outra vez. "Inversamente proporcional à sua visibilidade será seu envolvimento, ou nível de atuação, se estiver disposta a colaborar."

       "Meu envolvimento?", protestei. "Está me dizendo a fazer meu trabalho, só meu trabalho, e manter o departamento fora do noticiário?"

       "Sim e não. Sim, quanto a fazer seu trabalho. Quanto a manter o departamento de medicina legal fora do noticiário, temo que isso esteja fora de controle." Ele parou, cruzando as mãos em cima da mesa. "Conheço Robert Sparacino muito bem."

       "Conhece?"

       "Tive o duvidoso prazer de conhecê-lo na faculdade de direito", ele disse.

       Encarei-o, surpresa.

       "Columbia, turma de cinqüenta e um", Ethridge explicou. "Um rapaz obeso e arrogante, com problemas sérios de caráter. E também muito inteligente, teria sido o primeiro da classe, e chegado a auxiliar do departamento de justiça, se eu não houvesse atrapalhado." Ele fez uma pausa. "Fui para Washington, onde tive o raro privilégio de trabalhar com Hugo Black. Robert permaneceu em Nova York."

       "Ele nunca o perdoou, certo?", perguntei, começando a desconfiar da verdade. "Deduzo que, desde então, a rivalidade cresceu. Ele nunca aceitou que você tenha se formado em primeiro lugar na turma."

       "Sempre manda um cartão de Natal", Ethridge comentou, secamente. "Feito em computador, com carimbo no lugar da assinatura, e meu nome vem grafado errado. Impessoal o suficiente para se tornar um insulto."

       Agora fazia sentido a orientação de Ethridge, para desviar as batalhas contra Sparacino para a promotoria. "Não imagina que ele tenha me atacado só para atingi-lo, não é?", indaguei, relutante.

       "Seria possível? Que o original desaparecido não passe de uma desculpa, e ele saiba disso? Que procure criar dificuldades, para me dar dores de cabeça, e manchar minha reputação, indiretamente?" Ele sorriu, desanimado. "Dificilmente esta seria sua única motivação."

       "Mas pode ter servido de incentivo", comentei. "Ele sabe que uma ação na justiça, ou qualquer litígio com meu departamento, seria obrigatoriamente tratado pelo procurador do estado. Pelo que contou, trata-se de um sujeito vingativo."

       Ethridge tamborilava levemente com os dedos, ao me olhar, para dizer: "Vou contar algo que ouvi a respeito de Sparacino, quando estudávamos na Columbia. Ele veio de um lar desfeito, e morava com a mãe, enquanto o pai ausente ganhava uma fortuna em Wall Street. Ao que consta, o menino visitava o pai em Nova York, várias vezes por ano; era precoce, um leitor voraz deslumbrado com o mundo da literatura. Numa de suas visitas, conseguiu persuadir o pai a levá-lo ao Algonquin, no dia em que Dorothy Parker e sua turma costumavam ir lá. Robert, com nove ou dez anos na época, havia planejado tudo, a crer na história que ouvi, e que ele teria contado a amigos, durante uma bebedeira, na Columbia. Ele pretendia aproximar-se da mesa de Dorothy Parker, estender a mão e dizer: 'Senhorita Parker, sempre sonhei em encontrá-la'. Quando chegou perto da mesa, acabou dizendo: 'Senhorita Parker, sempre sonhei em encoxá-la'. Ao ouvir isso ela riu, e disse, espirituosa como sempre: 'Muitos homens sonharam, mas nenhum tão jovem'. As gargalhadas gerais esmagaram Sparacino, humilharam-no. Ele nunca se esqueceu do incidente."

       A imagem do gordinho estendendo a mão suada para dizer aquilo era tão patética que não ri. Caso sofresse uma humilhação na frente de um mito da minha infância, jamais me esqueceria, tampouco.

       "Contei a história", Ethridge disse, "para reforçar meu argumento no caso atual, Kay. Quando Sparacino contou o caso na Columbia, estava bêbado, amargurado, e jurou vingança. Prometeu mostrar a Dorothy Parker e ao resto da intelectualidade que deveriam levá-lo a sério. E o que aconteceu?" Ele me encarou, interessado na reação. "Trata-se de um dos advogados mais poderosos, em termos de direitos autorais. Mantém um relacionamento estreito com editores, agentes, escritores. Todos o odeiam, em particular, mas consideram imprudente ignorá-lo. Dizem que ele almoça freqüentemente no Algonquin, e insiste em assinar os contratos dos livros e filmes lá, onde sem dúvida ri, secretamente, para o fantasma de Dorothy Parker. Acredita que estou forçando uma interpretação?"

       "Não. Ninguém precisa ser psicólogo para chegar à mesma conclusão", falei.

       "Então preste atenção no meu conselho", Ethridge disse, cravando os olhos em mim. "Deixe Sparacino por minha conta. Evite contatos com ele, se possível. Não deve subestimá-lo, Kay. Mesmo que pense ter dito pouca coisa, ele sabe ler nas entrelinhas, é um mestre das inferências, e costuma acertar na mosca. Não sei bem qual o envolvimento dele com Beryl Madison, com os Harper, ou qual seu verdadeiro objetivo. Talvez um coquetel de planos desagradáveis. Mas não quero que descubra mais detalhes a respeito destas mortes."

       "Já conseguiu um monte", falei. "O relatório policial sobre Beryl Madison, por exemplo. E não me pergunte como..."

       "Ele é muito ladino", Ethridge interrompeu. "Mantenha todos os relatórios em lugar seguro, evite que circulem. Só envie cópias para quem realmente precisa. Tranque o escritório, aumente a segurança, mantenha todos os arquivos a sete chaves. Impeça que sua equipe forneça informações sobre estes casos, a não ser quando tiver certeza absoluta que a pessoa ligando é realmente quem diz ser. Sparacino usará cada migalha para obter vantagens. Para ele, tudo não passa de um jogo. Muita gente pode sair queimada — inclusive você. Isso, para não mencionar os efeitos sobre os casos, na época do julgamento. Depois de seus golpes publicitários, precisaremos transferir o julgamento para a Antártica."

       "Ele pode ter previsto que agiria assim", comentei em voz baixa.

       "Imaginado que eu me ofereceria para servir de pára-raios? Que pularia dentro do ringue, em vez de passar o problema para um assistente?"

       Fiz que sim.

       "É bem possível", ele respondeu.

       Eu tinha certeza. O objetivo de Sparacino não era me prejudicar. Visava atingir seu antigo rival. Sparacino jamais conseguiria atacar diretamente o procurador-geral do estado. Nunca passaria dos guardas, dos assistentes, das secretárias. Portanto, escolheu a mim, e conseguira o resultado desejado. A idéia de ser usada daquele modo só me enfurecia ainda mais, e repentinamente pensei em Mark. Qual seria seu papel nesta história?

       "Não a culpo por se aborrecer", Ethridge disse. "Mas será preciso conter seu orgulho e controlar as emoções, Kay. Preciso de sua ajuda."

       Escutei, silenciosamente.

       "O bilhete para o parque de diversões de Sparacino é o original que todos desejam, garanto. Existe alguma possibilidade, de localizá-lo?"

       Senti meu rosto esquentar. "Nunca passou pelo meu departamento, Tom..."

       "Kay", ele retrucou com firmeza, "não se trata disso. Muitas coisas não passam pelo departamento, e o legista chefe consegue encontrá-las. Medicamentos receitados, queixa de uma dor no peito, pouco antes do paciente cair morto, inesperadamente. Idéias suicidas, reveladas por um membro da família. Você não tem poderes de polícia, mas está autorizada a investigar. E muitas vezes consegue detalhes que ninguém revelou à polícia."

       "Não quero ser uma testemunha comum, Tom."

       "Você é uma testemunha especializada. Claro que não quer ser comum. Seria um desperdício", falou.

       "E os investigadores conseguem muito mais do que eu, nos interrogatórios", completei. "Não esperam que as pessoas digam a verdade."

       "E você espera?"

       "O médico da família normalmente espera. Conta que as pessoas lhe digam a verdade. Fazem o melhor possível. A maioria dos médicos não espera que o paciente esteja mentindo."

       "Kay, está generalizando demais", ele disse. " "Não quero me ver na posição de..."

       "Kay, o Código diz que o médico-legista titular deve investigar as causas da morte, e o modo como esta ocorreu. E depois preparar um relatório escrito. Isso é muito vago, e lhe dá plenos poderes de investigação. Só não pode prender alguém, na verdade. Sabe disso. A polícia não vai achar aquele original, nunca. Você é a pessoa indicada para encontrá-lo." Ele me encarou, com firmeza. "É mais importante para você, para sua reputação, do que para eles."

       Não poderia evitar aquilo. Ethridge declarara guerra a Sparacino, e eu acabava de ser recrutada.

       "Encontre o original, Kay." O procurador-geral consultou o relógio. "Conheço você muito bem. Se tentar, vai pelo' menos descobrir o que aconteceu com o material. Três pessoas já morreram. Inclusive um escritor, vencedor do prêmio Pulitzer, autor de um de meus livros favoritos. Precisamos esclarecer tudo. O que conseguir saber a respeito de Sparacino deve ser passado para mim. Vai tentar, não é?"

       "Sim, senhor", respondi. "Claro que vou tentar."

       Comecei atormentando os cientistas.

       O exame de documentos encontra-se entre os poucos procedimentos científicos capazes de oferecer respostas imediatas. Palpáveis como papel, visíveis como tinta. Na quarta-feira, à tarde, o chefe da seção, cujo nome era Will, além de Marino e de mim, já havíamos passado quatro horas a examinar o material. O que descobrimos dava vontade de tomarmos um porre.

       Não sabia bem o que esperava. Talvez uma solução simples, como determinar imediatamente que a srta. Harper queimara o original perdido de Beryl, na lareira. Com isso, concluiríamos que Beryl o entregara à guarda da amiga. E presumiríamos que o livro continha segredos que a srta. Harper preferia não tornar públicos. Mais importante, chegaríamos à conclusão de que o original, afinal de contas, não desaparecera da cena do crime.

       Mas a quantidade de resíduos de papel não era compatível com esta possibilidade. Alguns fragmentos escaparam ao fogo, nenhum deles maior que uma moeda, ou úteis para uma análise sob as lentes com filtro infravermelho dos instrumentos de comparação. Testes químicos ou procedimentos técnicos não nos ajudariam a examinar as cinzas esbranquiçadas. Eram tão frágeis que não ousamos tirá-las da caixa de papelão rasa na qual Marino as recolhera. Fechamos a porta e desligamos os ventiladores do laboratório, para evitar movimentos no ar.

       Estávamos reduzidos a manipular, frustrados e cuidadosos, as cinzas leves, com pinças, atrás de uma palavra ou outra. Pelo que sabíamos, a srta. Harper queimara páginas de papel feito com aparas de tecido, datilografado com máquina de fita de carbono. Confirmamos isso de várias maneiras. O papel produzido com polpa de madeira escurece quando incinerado, enquanto o papel de algodão é incrivelmente limpo, e as cinzas brancas, como o encontrado na lareira da srta. Harper. Os raros fragmentos que não queimaram exibiam as características do papel em questão. Finalmente, o carbono não queima. O calor encolhera as letras datilografadas até reduzi-las ao corpo sete, aproximadamente. Certas palavras estavam inteiras; destacavam-se na cinza clara. O resto se fragmentara completamente e se sujara como os papeizinhos da sorte em biscoitos chineses que passaram do ponto.

       "C-H-E-G-A", Will soletrou, os olhos avermelhados por trás dos óculos de armação preta, fora de moda. Seu rosto jovem demonstrava cansaço. Esforçava-se para ser paciente, como exigia o serviço.

       Acrescentei a palavra à página já pela metade de meu bloco de anotações.

       "Chegou, chegando, chegada", ele disse, suspirando. "Pode ser isso."

       "Chegadiça, chegadiço", pensei em voz alta.

       "Chegadiço?", Marino indagou, rabugento. "Mas que diabos quer dizer isso?"

       "Intrometido", respondi.

       "Um pouco hermético, para mim", Will disse, impaciente.

       "Talvez um pouco hermético para a maioria das pessoas", concordei, sonhando com o frasco de Advil, guardado no bolso do casaco, atribuindo a dor de cabeça persistente ao esforço de leitura.

       "Minha nossa", Marino queixou-se. "Palavras, palavras, palavras. Nunca vi tantas palavras em minha vida. Nunca ouvi metade destas palavras, e nunca senti falta delas, se quer mesmo saber."

       Ele estava recostado numa cadeira giratória, os pés em cima da mesa, enquanto lia a transcrição dos trechos decifrados por Will, encontrados na fita da máquina de Cary Harper. Como não se tratava de fita de carbono, as páginas queimadas pela srta. Harper não poderiam ter vindo da máquina de escrever do irmão. Pelo jeito, o romancista trabalhava em um novo romance. Tentara começar de várias maneiras, e desistira. O material analisado por Marino quase não fazia sentido e, quando eu o examinei, concluí que a inspiração de Harper continuava escassa.

       "Duvido que alguém consiga vender esta droga", Marino disse.

       Will terminara outro fragmento de sentença, obtido nas amostras que se desfaziam, e eu me debrucei para inspecionar.

       "Sabe", Marino prosseguiu, "eles sempre publicam coisas, depois da morte de um escritor. Em geral, porcarias que o sujeito não queria ver na rua."

       "Sim. Poderiam dar o título Restos de um banquete literário", resmunguei.

       "Como é?"

       "Não importa. Não há nem dez páginas, aqui, Marino", comentei distraída. "Não daria um livro."

       "Certo. Então publicariam isso no Esquire, ou na Play-boy. Provavelmente vale alguma coisa", Marino disse.

       "Esta palavra sem dúvida é um nome próprio, de cidade, empresa ou similar", Will arriscou, alheio à conversa. "Co se inicia por maiúscula."

       "Interessante. Muito interessante", falei.

       "Cuidado para não soprar aqui", Will alertou, segurando a pinça com firmeza, como se fosse um bisturi. Manipulava um pedaço de cinza, no qual as letras negras se destacavam: bor Co.

       "Companhia, Comarca, Colégio, Correio", sugeri. Meu sangue começou a correr novamente, e já me sentia alerta.

       "Sim, mas que expressão teria bor? Marino perguntou, intrigado.

       "Ann Arbor?", Will sugeriu.

       "Que tal uma comarca na Virgínia?", Marino disse.

       Não encontramos nenhuma comarca na Virgínia cujo nome terminasse em bor.

       "Harbor", sugeri.

       "Muito bem. Seguido de Co?", Will retrucou, cético.

       "Pode ser uma empresa. Não sei o quê-Harbor Com-pany", Marino falou.

       Consultei a lista telefônica. Havia cinco empresas com Harbor no nome: Harbor East, Harbor South, Harbor Villa-ge, Harbor Imports e Harbor Square.

       "Não me parece o caminho certo", Marino disse.

       Não tivemos mais sorte quando disquei para o auxílio à lista, pedindo nomes de empresas na área de Williamsburg, com Harbor na razão social. Fora um prédio de apartamentos, não havia mais nada. Em seguida, liguei para o investigador Poteat, na polícia de Williamsburg, e, exceto o mesmo prédio de apartamentos, ele não conhecia nenhuma outra possibilidade.

       "Talvez não adiante concentrar nossa atenção só nisso", Marino disse, desanimado.

       Will ocupava-se da caixa com as cinzas, novamente.

       Marino espiou, por cima do meu ombro, para a lista de palavras encontradas até aquele momento.

         Você, seu, eu, nós e bem eram as mais comuns. Outras palavras completas poderiam constar de qualquer sentença, como e, é, era, que, isso, qual, a, em. Certos termos eram mais específicos, como cidade, casa, sei, por favor, medo, trabalho, penso e sinto. Quanto a palavras incompletas, éramos obrigados a adivinhar sua composição, em vida. Algo relacionado a terrível aparecia em diversas oportunidades, e não encontramos outras palavras comuns com terr e ter...vel. O sentido, claro, nos escapava. Estaria a pessoa se referindo a terrível, como em "desastre terrível", ou a terrivelmente, como em "terrivelmente contrariada", ou "terrivelmente saudosa"?

       Significativamente, encontramos vários fragmentos do nome Sterling, assim como do nome Cary.

       "Tenho quase certeza de que ela queimou sua correspondência pessoal", deduzi. "O tipo de papel e os termos empregados conduzem a tal conclusão."

       Will concordou.

       "Lembra-se de ter encontrado papel de carta, entre as coisas de Beryl Madison, na casa dela?", perguntei a Marino.

       "Papel de computador, papel ofício. Só isso. Nada de papel de carta sofisticado e caro, como este aqui", ele disse.

       "A impressora dela usa fita de carbono", Will alertou, prendendo outro fragmento com a pinça. "Creio que temos mais um."

       Examinei o material.

       Desta vez, só restara um or C.

       "Beryl possuía uma impressora Lanier, ligada ao computador", falei a Marino. "Seria bom descobrir se não havia usado outro tipo, antes."

       "Já revirei seus recibos e notas fiscais", ele disse.

       "De quantos anos para cá?"

       "Tudo que encontrei. Cinco, seis anos", respondeu.

       "Mesmo computador?"

       "Não", disse. "Mas a mesma impressora, doutora. Um modelo chamado mil e seiscentos, com margarida. Sempre usou o mesmo tipo de fita. Não sei o que usava para escrever, antes disso."

       "Entendo."

       "Que bom", Marino reclamou, cocando a nuca. "Pois eu não entendo droga nenhuma."

    

       A Academia Nacional do FBI em Quantico, na Virgínia, é um oásis de tijolo e vidro, no meio de um campo de batalha artificial. Jamais me esquecerei da primeira temporada que passei lá, já faz muitos anos. Dormi e acordei com o som das semi-automáticas disparadas, e, quando entrei numa trilha errada, na pista de corrida que cruzava o bosque, certa tarde, quase fui atropelada por um tanque de guerra.'

       Cheguei na sexta-feira de manhã. Benton Wesley marcara a reunião, e Marino empertigou-se, quando a fonte e as bandeiras da Academia apareceram. Acompanhá-lo me obrigava a dar dois passos para cada um dos seus. Entramos no saguão amplo e ensolarado de um prédio novo, tão parecido com um hotel que recebera o apelido de Quantico Hilton. Depois de deixar a arma na recepção, Marino registrou nossa presença, e prendemos os crachás de visitantes, enquanto o recepcionista ligava para Wesley, para confirmar nosso acesso privilegiado.

       Um labirinto de divisórias envidraçadas ligava escritórios, salas de aula e laboratórios, e se podia transitar entre os edifícios sem sair lá fora. Por melhor que conhecesse o local, sempre acabava perdida. Marino parecia saber para onde ia, de modo que o segui sem reclamar, observando o desfilar dos estudantes em seus uniformes coloridos. Camisa vermelha e calça caqui indicavam policiais. Camisa cinza, com calça preta folgada enfiada em botas reluzentes, caracterizava o pessoal novo do DEA. Já os veteranos vestiam preto puro. Agentes novos, do FBI, azul e caqui. Os membros do Esquadrão de Seqüestro, elitistas, usavam branco. Homens e mulheres em plena forma, impecavelmente trajados. Exalavam um odor de compostura militar, perceptível como o cheiro de solvente para limpeza de armas que deixavam ao passar.

       Subimos pelo elevador de serviço, e Marino apertou o botão marcado ss (Super Subsolo, traduziam em tom jocoso). O abrigo antibomba secreto de Hoover ficava a vinte metros de profundidade, dois andares abaixo do stand de tiro interno. Sempre me pareceu apropriado que a Academia situasse ali a Unidade de Ciência Comportamental, mais perto do inferno que. do céu. Os nomes mudam. Antes, pelo que eu soube, os encarregados dos perfis psicológicos eram chamados de agentes investigadores criminais. O serviço não muda. Sempre haverá psicopatas, sociopatas, assassinos tarados — ou qualquer outro título que se dê a gente ruim, que sente prazer em provocar dores indescritíveis nos outros.

       Saímos do elevador e seguimos por um corredor insípido, até entrarmos em uma sala de espera idem. Wesley surgiu e nos conduziu a uma pequena sala de reuniões, onde Roy Hanowell nos aguardava, sentado à mesa comprida. O especialista em fibras nunca demonstrava me reconhecer, quando nos encontrávamos. E eu fazia questão de me apresentar, quando ele estendia a mão.

       "Claro, claro que me lembro da senhora, doutora Scarpetta. Como tem passado?", ele perguntou, como de costume.

       Wesley fechou a porta, e Marino olhou em volta, fechando a cara ao não encontrar nenhum cinzeiro. Uma lata vazia de Diet Coke, no lixo, serviria. Resisti ao impulso de sacar meu maço. Na Academia se fumava tanto quanto numa unidade de terapia intensiva.

      A camisa branca de Wesley estava amarrotada nas costas, seus olhos revelavam cansaço e preocupação. Folheou o conteúdo de uma pasta. E foi direto ao assunto.

       "Alguma novidade a respeito de Sterling Harper?", perguntou.

       Ao repassar as lâminas com amostras de tecidos, no dia anterior, não cheguei a me surpreender com o que descobri. Mas os dados histológicos não revelaram a causa da morte.

       "Ela sofria de leucemia crônica", respondi.

       Wesley ergueu os olhos. "Foi a causa da morte?"

       "Não. Na verdade, nem sei se ela sabia a respeito da doença", falei.

       "Isso é interessante", Hanowell comentou. "Alguém pode ter leucemia, sem saber?"

       "O quadro da leucemia crônica é ardiloso", expliquei. "Os sintomas podem ser sutis, como suores noturnos, cansaço, perda de peso. Por outro lado, a doença pode ter sido diagnosticada há algum tempo, e estar em tratamento. Não estava à beira de uma crise fatal. Não encontramos infiltrações leucêmicas, nem detectamos infecções significativas."

       Hanowell parecia surpreso. "Então, como ela morreu?"

       "Não sei", admiti.

       "Drogas?" Wesley perguntou, iniciando suas anotações.

       "O laboratório de toxicologia já começou a segunda bateria de testes", respondi. "O relatório preliminar mostra um nível alcoólico no sangue de zero, zero, três. Além disso, havia dextrometorfano, um antitussígeno presente em numerosos calmantes da tosse, vendidos sem receita. Na cena do crime encontramos um frasco de Robitussin, no armário do banheiro do andar superior. Pela metade."

       "Então ela não se matou", Wesley resmungou.

       "O frasco inteiro não a mataria", disse. E acrescentei: "O caso me intriga, contudo".

       "Pode me manter informado? Avise, se descobrir algo sobre ela", Wesley pediu. Virou algumas páginas, e passamos para o tópico seguinte da reunião. "Roy examinou as fibras do caso Beryl Madison. Gostaríamos de falar a respeito. E depois, Pete, Kay", ele ergueu os olhos para nós, "temos um outro assunto para discutir."

       Wesley não estava nem um pouco contente, e intuí que o motivo que o levou a nos convocar não me faria feliz, tampouco. Hanowell, em contraste, mantinha sua postura calma de costume. Seus olhos, cabelos, sobrancelhas e olhos eram cinzentos. Até o terno era cinza. Sempre que o via, parecia sonolento e cinza, tão plácido e descolorido que sentia vontade de tirar sua pressão sangüínea, para ver se existia.

       "Com uma única exceção", Hanowell começou, laconicamente, "as fibras enviadas para exame, doutora Scarpetta, revelam poucas surpresas — nenhum corante especial, nem cortes transversais notáveis. Concluí que as seis fibras de náilon têm seis origens distintas, no que concordo com seu perito em Richmond. Quatro delas combinam com material usado em carpetes de autos."

       "Como descobriu isso?", Marino perguntou.

       "Os revestimentos e carpetes se degradam rapidamente com o calor e a luz do sol, como pode imaginar", Hanowell disse. "Se as fibras não são tratadas com corantes metalizados, capazes de protegê-las contra raios UV, o carpete do carro apodrece ou descora muito depressa. Usando raios X, consegui detectar traços de metais em quatro fibras de náilon. Embora não possa afirmar peremptoriamente que a origem delas seja carpete automotivo, as fibras coincidem com este revestimento."

       "Alguma chance de vinculá-las a marca e modelo?", Marino quis saber.

       "Nenhuma, infelizmente", Hanowell retrucou. "A não ser que tenhamos uma fibra muito especial, com modificações patenteadas, tentar localizar o fabricante é inútil, especialmente quando se trata de veículos fabricados no Japão. Posso dar um exemplo. O carpete de um Toyota começa na forma de bolinhas de plástico, exportadas para o Japão. Lá, elas são desdobradas em fibras, que voltam, para virar carpete. Depois, o carpete vai para o Japão, para que seja instalado nos carros, na linha de montagem."

        Ele prosseguiu. Só conseguia me deprimir ainda mais.

       "Também temos dores de cabeça com carros fabricados nos Estados Unidos. A Chrysler, por exemplo, costuma encomendar a mesma cor de carpete a três fornecedores diferentes. Na metade do ano, contudo, resolve mudar de fornecedores. Digamos que vocês dois possuam LeBarons 87, pretos, com interior vinho, tenente. Bem, os fornecedores do carpete cor vinho do seu carro podem ser diferentes do fornecedor do carpete cor vinho do carro da doutora. Ou seja, o único dado significativo das fibras examinadas é a variedade. Duas podem vir de carpetes domésticos. Quatro, de autos. As cores e cortes transversais variam. Se acrescentarmos a isso a olefina, o Dynel, as fibras acrílicas, chegamos a uma miscelânea que considero muito peculiar."

       "Obviamente", Wesley interrompeu, "o assassino tem uma profissão ou atividade que o coloca em contato com diversos tipos de carpete. E, quando ele matou Beryl Madison, usava uma roupa que permitiu a aderência de diversas fibras."

       Lã, veludo e flanela juntavam fiapos, pensei. Mas não encontramos nem lã nem algodão tingido nos locais por onde passou o assassino.

       "E quanto ao Dynel?", perguntei.

       "Costumamos associar o Dynel a itens femininos. Perucas, peles sintéticas", Hanowell respondeu.

       "Sim, mas não exclusivamente", falei. "Uma camisa, ou calça de Dynel pode gerar eletricidade estática suficiente para atrair fibras, como acontece com o poliéster. Isso pode explicar a razão para ele carregar tantos fiapos."

       "Possivelmente", Hanowell disse.

       "Então, talvez o elemento usasse peruca", Marino sugeriu. "Sabemos que Beryl permitiu sua entrada na casa, ou seja, não se sentia ameaçada por ele. A maioria das mulheres não temeria outra mulher que batesse à porta."

       "Um travesti?", Wesley perguntou.

       "Pode ser", Marino retrucou. "Alguns são mulheres perfeitas. Chega a dar nojo. Por vezes, só consigo distinguir um quando estou cara a cara com ele."

       "Se o atacante fosse travesti", argumentei, "como explicar as fibras aderidas a ele? Se a origem das fibras é seu local de trabalho, ele não poderia se vestir de mulher."

       "A não ser que faça ponto nas ruas", Marino disse. "Entra e sai de carros a noite inteira, por exemplo. E, quem sabe, de quartos de motel acarpetados."

       "Então a escolha da vítima não faz sentido", falei.

       "Não, mas a ausência de esperma passa a fazer", Marino lembrou. "Travestis masculinos, bichas, normalmente não estupram mulheres."

       "E normalmente não saem por aí matando mulheres, tampouco", falei.

       "Falei em uma exceção", Hanowell retomou sua análise, consultando o relógio. "Trata-se da fibra acrílica alaranjada que tanto despertou sua curiosidade." Seus olhos cinzentos se fixaram em mim, impassíveis.

       "A fibra com corte transversal em forma de trevo de três folhas", falei.

       "Isso mesmo", Hanowell disse, balançando a cabeça. "O formato do corte transversal é incomum, e visa, como outras trilobuladas, esconder a sujeira e difundir a luz. Só encontrará estas fibras, pelo que sei, em Plymouths fabricados no final dos anos 70 — fibras de náilon, presentes no carpete. Exibem o mesmo formato de trevo que a fibra encontrada no caso de Beryl Madison."

       "Mas a fibra alaranjada é acrílica", protestei. "E não náilon."

       "Correto, doutora Scarpetta", ele concordou. "Estou apenas tentando situá-la, para explicar as características marcantes desta fibra. O fato de ser acrílico, e não náilon, e o fato de fibras de cores fortes, como o laranja, raramente serem usadas em carpetes automotivos, nos permitem excluir uma série de origens para ela — inclusive Plymouths fabricados no final dos anos 70. Ou qualquer outro automóvel, ao que me consta."

       "Quer dizer que nunca viu uma fibra laranja assim antes?", Marino perguntou.

       "Já vamos chegar aí", Hanowell disse, hesitante.

       Wesley interferiu: "No ano passado, encontramos uma fibra idêntica a esta, em todos os aspectos, quando Roy foi convocado para examinar fragmentos de um Boeing 747, seqüestrado em Atenas, na Grécia. Com certeza lembram-se do incidente", ele disse.

       Silêncio.

       Até mesmo Marino perdeu a fala, momentaneamente.

       Wesley prosseguiu, os olhos fundos de preocupação. "Os seqüestradores mataram dois soldados americanos que estavam a bordo e jogaram seus corpos na pista. Chet Ramsey, fuzileiro naval de vinte e quatro anos, foi o primeiro a ser jogado pela janela do avião. A fibra alaranjada aderira ao sangue, em sua orelha esquerda."

       "A fibra poderia ter o interior do avião como origem?", perguntei.

       "Acho que não", Hanowell respondeu. "Comparei a fibra com amostras do carpete, tecidos de revestimento, cobertores guardados nos compartimentos acima dos bancos, e não achei nenhuma que combinasse, nem remotamente. Ou a fibra grudou em Ramsey em outro lugar — o que é pouco provável, pois aderiu' ao sangue fresco — ou, possivelmente, foi resultado de transferência passiva de um dos terroristas. A única alternativa que posso contemplar é que a fibra tenha como origem um dos passageiros. Neste caso, o indivíduo precisaria ter estado em contato com ele, depois dos ferimentos. De acordo com o relato das testemunhas, nenhum dos outros passageiros encostou no fuzileiro. Ramsey estava na frente da aeronave, longe dos outros passageiros. Foi espancado, levou um tiro. Enrolaram o corpo num cobertor do avião e o atiraram na pista. O cobertor, aliás, era marrom."

      Marino falou primeiro, e mostrou sua contrariedade: "Pode me explicar como um seqüestrador na Grécia pode ter relação com dois escritores assassinados na Virgínia, caramba?".

       "A fibra vincula pelo menos dois incidentes", Hanowell retrucou. "O seqüestro e a morte de Beryl Madison. Isso não quer dizer que exista alguma ligação entre os dois crimes, tenente. Mas a fibra alaranjada é tão rara que nos força a considerar a possibilidade de que exista algum denominador comum entre os acontecimentos de Atenas e os crimes que ora investigamos."

       Havia mais do que uma possibilidade. Havia uma certeza. Um denominador comum. Pessoa, local ou coisa, pensei. Um dos três, e os detalhes começavam a se materializar em minha cabeça.

       Falei: "Jamais conseguiram interrogar os terroristas. Dois deles acabaram abatidos. Outros dois conseguiram escapar, e jamais foram capturados".

       Wesley fez que sim.

       "Temos certeza de que eram mesmo terroristas, Benton?", perguntei.

       Após uma pausa, ele respondeu: "Não conseguimos vinculá-los a nenhum grupo terrorista. Mas presumimos que buscavam agredir os Estados Unidos. O avião era americano, bem como um terço dos passageiros".

       "Como se vestiam os seqüestradores?", perguntei.

       "Roupas civis. Calças compridas, camisas abertas, nada incomum."

       "E não encontraram as tais fibras alaranjadas no corpo dos dois terroristas mortos?", perguntei.

       "Não sabemos", Hanowell respondeu. "Eles foram atingidos na pista, e não conseguimos agir com rapidez suficiente, na hora de reclamar os corpos, para mandá-los para cá por via aérea, para exames, junto com os soldados americanos. Infelizmente, só consegui um relatório sobre fibras das autoridades gregas. Não examinei as roupas ou fragmentos encontrados nos seqüestradores pessoalmente. Como é óbvio, muita coisa pode ter passado despercebida. Mesmo que houvesse uma fibra laranja em um dos corpos, isso não nos revelaria sua origem, necessariamente."

       "Espere aí, o que está querendo dizer?" Marino ergueu a voz. "Que eu devo sair por aí procurando um seqüestrador foragido, que resolveu sair matando gente na Virgínia?"

       "Não podemos eliminar totalmente esta possibilidade, Pete", Wesley disse. "Por mais bizarra que pareça."

       "Os quatro seqüestradores do avião nunca foram ligados a um grupo terrorista'', lembrei. "Desconhecemos seus objetivos e suas identidades. Só sabemos que dois deles eram libaneses — se não me falha a memória — e os dois que escaparam, possivelmente, gregos. Recordo-me que se comentou, na época, que o alvo seria um embaixador americano, de férias, que deveria ter viajado naquele avião, com a família."

       "É verdade", Wesley disse, tenso. "No entanto, quando a embaixada americana em Paris foi bombardeada, alguns dias antes, os planos para a viagem do embaixador sofreram mudanças secretas, sem alteração das reservas anteriores."

       Seus olhos cruzaram com os meus, e ele tamborilava com a caneta-tinteiro no polegar esquerdo.

       Wesley acrescentou: "Não excluímos a possibilidade de que os seqüestradores fossem um grupo de extermínio. Profissionais, contratados por alguém".

       "Certo, certo", Marino disse, impaciente. "E ninguém descarta a possibilidade de um profissional ter assassinado Beryl Madison e Cary Harper. Sabe, os crimes podem ter sido encenados, para parecer coisa de maluco."

       "Suponho que se possa começar pesquisando melhor esta fibra alaranjada, em busca de sua possível origem", falei. E acrescentei: "E, quem sabe, esteja na hora de ficar de olho em Sparacino, para verificar se ele não tem alguma ligação com o tal embaixador, ou outro passageiro daquele vôo, que seria o verdadeiro alvo do ataque".

       Wesley não respondeu.

       Marino interessou-se subitamente pelo corte de uma unha, com o canivete.

       Hanowell correu a mesa com os olhos, e depois pediu licença, concluindo que não haveria mais perguntas para ele.

       Marino acendeu outro cigarro.

       "Se quer saber", disse, soltando uma baforada monumental, "isso está virando uma loteria. Nada está batendo com nada. Por que contratar um assassino internacional para apagar uma moça que escreve romances e um escritor que não produziu nada nos últimos anos?"

       "Não sei", Wesley disse. "Tudo depende de quem tem os contatos. Droga, tudo depende de um monte de coisas, Pete. Só podemos seguir as pistas, da melhor maneira possível. Isso nos leva ao item seguinte da agenda, Jeb Price."

       "Já saiu da cadeia", Marino disse, automaticamente.

       Eu o encarei, incrédula.

       "Saiu quando?", Wesley perguntou.

       "Ontem", Marino respondeu. "Pagou fiança. Cinqüenta mil dólares, para ser exato."

       "Pode me explicar como ele conseguiu fazer isso?", falei, furiosa por não ter sido informada previamente.

       "Claro que posso, doutora", ele disse.

       Havia três maneiras de conseguir uma fiança, pelo que eu sabia. Na primeira, alguém se responsabilizava pelo suspeito. Na segunda, deixando dinheiro ou um imóvel como depósito. A terceira, com um fiador profissional, que cobrava dez por cento do total e exigia garantias, para evitar que o suspeito fugisse e o deixasse de mãos abanando. Jeb Price, soube por Marino, optara pela terceira via.

       "Gostaria de saber como ele conseguiu fazer isso", insisti, tirando um cigarro da bolsa. Puxei a lata de coca, para dividir com Marino.

       "Só sei de um jeito. Ele ligou para o advogado, que mandou o dinheiro e pediu que Lucky cuidasse de tudo", Marino disse.

       "Lucky?", perguntei.

       "Isso mesmo. Lucky Bonding Company, empresa especializada em fianças, na rua Dezessete, a uma quadra do xadrez, o que é muito conveniente", Marino respondeu. "Funciona como uma loja de penhores dos bandidos, administrada por Charlie Luck. Também conhecida como Hock & Walk. Charlie e eu nos conhecemos há muito tempo. Batemos papo, contamos piadas quando nos encontramos. Muitas vezes, ele me conta seus segredos. Em outras ocasiões, fecha o bico. Desta vez não quis falar nada, infelizmente. Apertei-o ao máximo, mas não consegui o nome do advogado de Price. Suspeito, porém, que não seja local."

       "Price, obviamente, tem contatos em altas esferas", falei.

       "Obviamente", Wesley concordou, irritado.

       "E ele não contou nada?"

       "Tinha o direito de permanecer em silêncio, e pode apostar que ele o exerceu em sua plenitude", Marino disse.

       "O que descobriram a respeito do arsenal dele?" Wesley tomava notas, novamente. "Pesquisaram no registro de armas?"

       Marino respondeu: "A pistola está registrada no nome dele, que tem licença para porte de arma, emitida há seis anos por um juiz senil, aqui no norte da Virgínia, que logo depois aposentou-se e mudou para o sul. De acordo com os registros do tribunal, Price é solteiro, trabalhava na capital, em uma empresa que comercializava ouro e prata, chamada Finklestein, na época da emissão do porte de arma. E adivinhem? A Finklestein não existe mais".

       "E quanto à sua ficha policial?" Wesley continuou a escrever.

       "Nem uma multa. Tem uma BMW oitenta e nove registrada em seu nome, com endereço de Washington, D. c. Um apartamento, próximo a Dupont Circle, do qual aparentemente se mudou, no inverno passado. A imobiliária localizou o contrato de locação. Ele consta como autônomo. Ainda estou investigando. Pedirei cópia de sua declaração ao imposto de renda, para ver se recebeu restituição, nos últimos cinco anos."

       "É possível que ele seja detetive particular?", perguntei.

       "Não no distrito de Columbia", Marino respondeu.

       Wesley olhou para mim e disse: "Alguém o contratou. Com que objetivo, ainda não sabemos. Ele fracassou em sua missão, sem dúvida. Quem estiver por1 trás do sujeito, pode tentar novamente. Não quero que se exponha, Kay".

       "Seria óbvio demais dizer que eu também não quero?"

       "Explicando melhor", ele prosseguiu, como um pai preocupado, "quero que você evite situações onde esteja vulnerável. Por exemplo, não acho uma boa idéia ficar sozinha no escritório, quando o prédio está vazio. Não me refiro apenas aos finais de semana. Se costuma trabalhar até as seis ou sete da noite, e todo mundo já foi embora para casa, não deve sair no escuro e pegar o carro no estacionamento. Melhor sair. às cinco, quando todos estão de olhos abertos e ouvidos atentos."

       "Agradeço os conselhos", falei.

       "E, se precisar sair mais tarde, Kay, chame o pessoal da segurança, e peça a alguém que a escolte até o carro", Wesley insistiu.

       "Ou ligue para mim, caramba", Marino ofereceu-se, imediatamente. "Tem o número do meu celular. Se não me localizar, peça uma viatura."

       Claro, pensei. Com sorte, chegaria em casa antes da meia-noite.

       "Tome muito cuidado." Wesley olhou para mim com severidade. "Deixe as teorias de lado e lembre-se de que duas pessoas foram assassinadas. O matador está solto por aí. As características das vítimas e os motivos são suficientemente estranhos para me convencer de que tudo é possível."

       Suas preocupações retornaram, com insistência, à minha mente, na volta para casa. Quando tudo é possível, nada é impossível. Um mais um não pode dar três. Ou pode? A morte de Sterling Harper não se encaixava na mesma equação das mortes do irmão e de Beryl. Mas, e se acabasse por se encaixar?

       "Você disse que a senhorita Harper estava fora da cidade, na noite em que Beryl foi assassinada", falei a Marino. "Descobriu mais alguma coisa a este respeito?"

      "Nada."

       "Acredita que ela foi de carro, onde quer que tenha ido?", perguntei.

       "Não. Os Harper só possuíam um carro, o Rolls branco. E o irmão estava com ele, na noite da morte de Beryl."

       "Como sabe disso?"

       "Chequei na taverna Culpeper. Harper chegou na hora habitual, naquela noite. Foi de carro, como sempre, e saiu por volta das seis e meia."

      

       Em função dos eventos recentes, duvido que tenha surpreendido alguém ao anunciar, na reunião com a equipe, na segunda-feira, que tiraria uns dias de folga, a partir daquele momento.

       Corria que meu encontro com Jeb Price mexera com meus nervos, a ponto de me obrigar a dar um tempo, descansar, enterrar a cabeça na areia por algum tempo. Não contei a ninguém para onde ia, pois ainda não sabia. Simplesmente, saí, deixando para trás uma secretária aliviada e uma escrivaninha lotada.

       Voltei para casa e passei a manhã inteira ao telefone, ligando para todas as empresas aéreas que atuavam no aeroporto Byrd, em Richmond, o mais conveniente para Sterling Harper.

       "Sim, eu sei que há uma multa de vinte por cento", disse ao funcionário da US Air que me atendeu. "Mas o senhor não entendeu bem. Não quero mudar a passagem. Isso ocorreu faz algumas semanas. Estou tentando descobrir se ela realmente viajou."

       "A passagem não era da senhora?"

       "Não", expliquei pela terceira vez. "Foi emitida no nome dela."

       "Então ela precisa entrar em contato conosco pessoalmente."

       "Sterling Harper morreu", expliquei. "Ela não pode entrar em contato com vocês pessoalmente."

       Pausa atônita.

       "Ela morreu de repente, pouco antes de viajar", expliquei. "Se puder verificar no computador, por favor..."

       E assim por diante. Cheguei ao ponto de recitar as perguntas sem pensar. Na US Air não havia nada. Nem nos computadores da Delta, United, American e Eastern. A julgar pelos dados existentes nos computadores das empresas, a srta. Harper não viajara de avião, saindo de Richmond, na última semana de outubro, quando Beryl Madison havia sido assassinada. A srta. Harper não viajara de carro, tampouco. Duvidava que tivesse ido de ônibus. Restava o trem.

       Um funcionário da Amtrak, chamado John, informou que o computador estava pifado, e disse que me telefonaria de volta. Desliguei, e alguém tocou a campainha.

       Faltava pouco para o meio-dia, O dia estava lindo e luminoso como uma maçã madura. O sol pintava retângulos brancos na sala, e refletia no pára-brisa do seda Mazda prateado que estacionara na frente. Desconhecido. O sujeito louro e pálido, do outro lado do olho mágico, mantinha a cabeça abaixada, e a gola do casaco de couro erguida até a orelha. Senti o peso do revólver Ruger em minha mão, e o guardei no bolso da jaqueta, ao abrir a porta. Só o reconheci quando ficamos cara a cara.

       "Doutora Scarpetta?", ele perguntou, agitado.

       Não o convidei a entrar, mantendo sempre a mão direita no bolso, fechada com força em volta da coronha.

       "Por favor, desculpe-me por bater à sua porta assim, de surpresa", ele disse. "Telefonei para seu departamento e fui informado de que estava de férias. Procurei seu nome na lista, mas o telefone estava ocupado. Concluí que a encontraria em casa. Bem, preciso muito falar com a senhora. Posso entrar?"

       Ele parecia ainda mais inofensivo ao vivo, do que na fita trazida por Marino.

       "De que se trata?", perguntei, com firmeza.

       "Beryl Madison. Queria conversar a respeito dela", ele disse. "Bem... meu nome é Al Hunt. Não pretendo abusar de sua boa vontade. Prometo ser breve."

       Recuei, permitindo que ele entrasse. Seu rosto ficou branco como alabastro, quando sentou-se na sala da minha casa, e seus olhos se fixaram na coronha do revólver, que apontava no bolso. Sentei-me numa poltrona, a uma distância segura.

       "Puxa, a senhora está armada?"

       "Sim, estou", respondi.

       "Não gosto disso. De armas."

       "Não são muito agradáveis, concordo", falei.

       "Nem um pouco. Meu pai me levou para caçar veados, uma vez. Quando eu era pequeno. Ele acertou uma corça. Ela chorou. A corça chorou, deitou de lado, gemendo. Nunca consegui atirar em nada."

       "Conheceu Beryl Madison?", perguntei.

       ''A polícia — o investigador com quem falei a respeito dela", ele gaguejou. "Um tenente. Tenente Marino. Ele foi ao lava-rápido onde trabalho, e conversou comigo, depois me levou para a delegacia. Falamos durante muito tempo. Ela costumava levar o carro para lavar. Foi assim que a conheci."

       Enquanto ele tartamudeava, não pude deixar de pensar nas "cores" que estariam emanando de mim. Azul-aço? Talvez um pouco de vermelho, pois eu estava alarmada, embora tentasse disfarçar. Pensei em pedir-lhe que se fosse. Pensei em chamar a polícia. Mal podia crer que ele estava dentro de minha casa, e talvez a audácia do rapaz, e minha surpresa, possam explicar a ausência de qualquer atitude, de minha parte.

       Eu o interrompi. "Senhor Hunt..."

       "Por favor, me chame de Al."

       "Tudo bem, Al", falei. "Por que veio falar comigo? Se tem alguma informação, por que não procurou o tenente Marino?"

       Seu rosto corou, e ele olhou para as mãos, constrangido.

       "O que tenho a dizer não se enquadra exatamente como informação para a polícia. Pensei que a senhora poderia entender."

       "E por que pensa assim? Não me conhece." ' "A senhora tomou conta de Beryl. Em geral, as mulheres são mais intuitivas, mais compreensivas do que os homens", ele disse.

       Talvez fosse apenas isso, algo simples. Quem sabe Hunt não tivesse procurado por mim, acreditando que eu não o humilharia? Encarava-me, com ar magoado, perdido, quase em pânico.

       Ele perguntou: "Já soube de algo com certeza absoluta, doutora Scarpetta, sem ter, no entanto, qualquer prova para apoiar sua crença?".

       "Não sou clarividente, se é isso que está querendo saber."

       "A senhora fala como um cientista."

       "Sou cientista."

       "Mas tem sensibilidade", ele insistiu, os olhos traindo seu desespero. "Sabe muito bem do que eu estou falando, não é?"

       "Sim", respondi. "Acho que sei, Al."

       Ele se mostrou aliviado, e respirou fundo. "Eu sei coisas, doutora Scarpetta. Sei quem matou Beryl."

       Não reagi.

       "Eu o conheço, sei o que ele pensa, sente, e o motivo que o levou ao crime", ele disse, emocionado. "Se contar, a senhora promete tratar o que eu disser com muito cuidado, e levar tudo a sério, e não... Sabe, não quero que corra para a polícia. Eles não compreenderiam. Entende isso, não é?"

       "Tratarei o que me disser com muita consideração", respondi.

       Ele se debruçou no sofá, os olhos luminosos, em seu rosto abatido, como se saísse de um El Greco. Instintivamente, aproximei a mão direita do bolso. Sentia o cabo do revólver na palma da mão.

       "A polícia não entende", ele disse. "São incapazes de me compreender. Por que larguei a psicologia, por exemplo. A polícia nunca entenderia isso. Tenho diploma. E daí? Trabalhei como enfermeiro, e agora estou num lava-rápido. Não acha que a polícia seja capaz de entender isso, não é?"

       Não respondi.

       "Quando era menino, sonhava em ser psicólogo, assistente social, talvez até psiquiatra", ele prosseguiu. "Seria natural, para mim. Era o que eu deveria ser, meus talentos levavam para estas áreas."

       "Mas você não chegou lá", lembrei-o. "Por quê?"

       "Porque eu seria destruído", ele disse, desviando o olhar. "Trata-se de algo que não consigo controlar. Simplesmente acontece comigo. Eu me envolvo completamente com os problemas e idiossincrasias alheios, a ponto de sufocar minha própria personalidade. Eu me perco. Não me dei conta do quanto isso era sério, até passar algum tempo na unidade de psiquiatria forense. Para criminosos insanos. Bem, fazia parte de minha pesquisa, da pesquisa para a tese." Estava cada vez mais perturbado. "Jamais me esquecerei. Frankie. Frankie era um esquizofrênico paranóico. Matou a mãe a pancadas, com um pedaço de pau. Conheci Frankie muito bem. Ajudei-o a encarar melhor a vida, até aquela tarde de inverno.

       "Disse a ele: 'Frankie, Frankie, o que acontece com você? O que detona tudo? Lembra-se do que acontece em sua mente, nos seus nervos?'

       "Ele disse que estava sentado na poltrona que sempre ocupava, na frente da lareira, olhando para as chamas que se extinguiam, quando eles começaram a sussurrar para ele. Murmuravam coisas terríveis, zombavam. Quando a mãe entrou, ela o olhou como sempre fazia, mas daquela vez ele notou os olhos dela. As vozes se elevaram tanto que ele não conseguiu mais pensar, e, quando percebeu, estava todo molhado, e ela não tinha mais rosto. Depois as vozes se acalmaram. Não consegui dormir, por várias noites, depois disso. Sempre que fechava os olhos, via Frankie chorando, coberto com o sangue da mãe. Eu o compreendia. Compreendia o que ele havia feito. Com quem quer que eu falasse, e sempre que me contavam uma história, eu era afetado do mesmo modo."

       Eu continuei sentada, a imaginação desligada. Só o cientista, o clínico, atuavam. Escolhera-os, como a uma peça de roupa.

       Perguntei: "Sentiu vontade de matar alguém, Al?".

       "Todo mundo sente, às vezes", ele disse, quando nossos olhares se cruzaram.

       "Todo mundo? Acha mesmo?"

       "Sim. Qualquer um tem esta capacidade. Sem dúvida.

       "E quem sentiu vontade de matar?", perguntei.

       "Não tenho revólver, nem nada... hã... perigoso", ele respondeu. "Pois não pretendo, nunca, ficar vulnerável a um impulso. Quando a gente é capaz de se imaginar fazendo algo, quando se pode chegar ao mecanismo por trás do ato, abre-se uma fresta na porta. Quase todos os eventos ruins que ocorrem neste mundo foram, antes, imaginados. Não somos bons ou maus, um ou outro." Sua voz tremia. "Mesmo as pessoas classificadas como insanas têm suas próprias razões, para justificar os atos que cometeram."

       "E qual foi a razão para justificar o que aconteceu com Beryl?", perguntei.

       Meus pensamentos eram precisos, e foram claramente enunciados. Mesmo assim, por dentro eu me sentia mal, e tentava bloquear as imagens: as manchas escuras nas paredes, os ferimentos a faca no peito, os livros enfileirados na estante, aguardando pacientemente pela leitura.

       "A pessoa que fez aquilo a amava", ele disse.

       "Um modo meio brutal de demonstrar um sentimento, não acha?"

       "O amor pode ser brutal", ele disse.

       "Você a amava?"

       "Éramos muito semelhantes."

       "De que modo?"

       "Fora de sincronia." Ele estudava as mãos, novamente. "Sozinhos, sensitivos, incompreendidos. Isso fez com que ela se afastasse, mantivesse distância, tornasse impossível uma aproximação. Não sabia nada a seu respeito — quero dizer, ninguém me contou nada. Mas eu percebia o ser que havia dentro dela. Intuí que ela tinha plena consciência de quem era, de seu valor. Mas estava profundamente revoltada com o preço que pagava por ser diferente. Estava magoada. Não sei o motivo. Algo a ferira. Por causa disso, eu me preocupava com ela. Queria me aproximar, pois sabia que era capaz de compreendê-la."

       "E por que não se aproximou, Al?", perguntei.

       "As circunstâncias não eram apropriadas. Talvez, se a encontrasse em outro lugar", ele respondeu.

       "Fale sobre a pessoa que fez isso a ela, Al", pedi. "Ele teria se aproximado dela, se as circunstâncias fossem apropriadas?"

       "Não."

       "Não?"

       "As circunstâncias nunca seriam apropriadas, pois ele é mal adaptado, e sabe disso", Hunt disse.

       Sua súbita transformação me desconcertou. Agora ele era o psicólogo. Sua voz estava mais calma. Concentrou-se profundamente, retorcendo as mãos, no colo.

       Em seguida, disse: "Falta-lhe amor próprio, e é incapaz de expressar seus sentimentos de um modo construtivo. A atração torna-se obsessão, o amor adquire aspectos patológicos. Quando ama, precisa possuir, pois sente-se inseguro, desvalorizado, exposto a ameaças. Quando seu amor secreto não é correspondido, a obsessão cresce. Envolve-se tanto que a capacidade de reagir e funcionar decresce. É igual às vozes ouvidas por Frankie. Uma força o conduz. Ele perde o controle".

       "Ele é inteligente?", perguntei.

       "Razoavelmente."

       "E quanto à educação?"

       "O problema dele está na incapacidade de desempenhar as funções para as quais está intelectualmente preparado."

       "Por que ela?", perguntei. "Por que ele escolheu Beryl Madison?"

       "Ela possuía liberdade e fama, e ele não", Hunt respondeu, com os olhos vidrados. "Acha que sente atração por ela, mas é algo mais. Ele deseja possuir as qualidades das quais sente falta. Ele quer possuí-la. Em certo sentido, quer ser Beryl."

       "Afirma, então, que ele sabia que Beryl era escritora?", perguntei.

       "Não se pode ocultar muitas coisas dele. De um jeito ou de outro, descobriu que ela era escritora. Ele sabia tanto a respeito dela, que, ao perceber isso, ela se sentiu terrivelmente invadida e profundamente amedrontada."

       "Conte-me a respeito daquela noite", falei. "O que aconteceu na noite em que ela morreu, Al?"

       "Só sei o que li nos jornais."

       "O que concluiu, a partir dos relatos publicados?", perguntei.

       "Ela estava em casa", disse, com os olhos perdidos na distância. "Tarde da noite, quando ele bateu à sua porta. Muito provavelmente, ela o deixou entrar. A certa altura, pouco antes da meia-noite, ele saiu da casa, e o alarme contra ladrões disparou. Ela estava morta, a facadas. Houve violação sexual. Foi isso que li."

       "Tem alguma teoria sobre o que pode ter ocorrido?", perguntei, com delicadeza. "Especulações, a partir do que leu?"

       Ele inclinou-se para a frente, na poltrona, e sua postura modificou-se dramaticamente, outra vez. Seus olhos se encheram de emoção. O lábio inferior começou a tremer.

       "Vejo algumas cenas em minha mente", ele disse.

       "Por exemplo?"

       "Coisas que eu não posso dizer à polícia."

       "Não sou a polícia", falei.

       "Eles não compreenderiam. As coisas que sinto e vejo, sem explicação. É como Frankie." Ele piscou, para afastar as lágrimas. "Posso ver o que aconteceu, e entender, mesmo que não conheça os detalhes. Nem preciso dos detalhes. Na maioria dos casos, é impossível obtê-los. Sabe por quê, não é?

       "Porque os Frankies deste mundo tampouco conhecem os detalhes, por isso! É como um acidente ruim, do qual a gente não se lembra. A consciência volta, como se a gente acordasse de um pesadelo e olhasse para os destroços. A mãe sem rosto. Ou Beryl, morta e ensangüentada. Os Frankies acordam quando estão correndo, ou quando um guarda, que não chamou, surge na frente da casa."

       "Acredita que o assassino de Beryl não se recorda exatamente do que houve?", perguntei, cuidadosamente.

       Ele fez que sim.

       "Tem certeza absoluta?"

       "O psiquiatra mais competente pode interrogá-lo durante um milhão de anos, e nunca obterá uma resposta precisa", Hunt disse. "A verdade jamais será conhecida. Precisa ser recriada, e, até certo ponto, inferida."

      "Foi o que você fez. Recriou. Inferiu."

       Ele umedeceu o lábio inferior, e respirava com dificuldade. "Quer que eu conte o que vejo?"

       "Sim", respondi.

       "Muito tempo se passou, desde o primeiro contato com ela", começou. "Ela não tinha consciência dele, como pessoa, embora pudesse tê-lo conhecido no passado. Ela o viu, mas não o notou. Sua frustração, sua obsessão, o levou até a porta da casa dela. Algo detonou o processo, obrigou-o ao confronto."

       "O que foi?", perguntei. "O que o levou a isso?"

       "Não sei."

       "O que sentia, quando decidiu confrontar-se com ela?"

       Hunt fechou os olhos e disse: "Raiva. Raiva, por não poder fazer com que as coisas funcionassem do modo como ele queria".

       "Raiva, por não poder se relacionar com Beryl?", perguntei.

       Ainda de olhos fechados, Hunt balançou a cabeça lentamente, de um lado para o outro, e disse: "Não. Talvez existisse isso, perto da superfície. Mas as raízes eram mais profundas. A raiva existia porque nada funcionava do jeito que ele queria, desde o início".

       "Quando ele era criança?", perguntei.

       "Sim."

       "Ele sofreu violências?"

       "Psicológicas", Hunt disse.

       "Por parte de quem?"

       Ainda de olhos fechados, ele respondeu: "Da mãe. Quando matou Beryl, estava matando a mãe".

       "Já leu livros de psiquiatria forense, Al? Conhece as teorias?", perguntei.

       Ele abriu os olhos e me encarou, como se não tivesse escutado a pergunta.

       E prosseguiu, emocionado: "Precisa levar em conta quantas vezes ele imaginou aquele momento. Não agiu impulsivamente, no sentido de simplesmente entrar na casa dela, sem premeditar nada. Seu impulso talvez fosse descontrolado, mas os métodos obedeciam a um plano rigoroso, detalhado. Não poderia permitir que ela se assustasse e impedisse sua entrada na casa. Chamaria a polícia, daria sua descrição. E, mesmo que ele não fosse preso, sua máscara cairia, e jamais poderia se aproximar dela novamente. Precisava de um plano garantido, sem falhas, algo que não despertasse suspeitas. Quando apareceu na porta, naquela noite, inspirava confiança. Ela permitiu sua entrada".

       Em minha mente, via Beryl na porta de casa, mas não via seu rosto, nem a cor do cabelo; só uma figura indistinta e a lâmina brilhante, quando ele entrou com a arma que usaria para matá-la.

       "Foi então que tudo se deteriorou para ele", Hunt prosseguiu. "Não se recorda do que ocorreu em seguida. O pânico da moça, o terror, não foram agradáveis para ele. Não pensara naquela parte do ritual, com detalhes. Quando ela correu, tentando fugir dele, quando ele viu o pânico em seus olhos, percebeu que ela o rejeitava profundamente. Percebeu que estava fazendo uma coisa horrível, e seu desprezo por si mesmo transformou-se em desprezo por ela. Em raiva. Ele perdeu o controle sobre ela, quando estava reduzido a frangalhos. Aí virou um assassino, um destruidor. Um selvagem incontrolável, rasgando, cortando, machucando. Os gritos e o sangue eram terríveis para ele. E, quanto mais atacava e destruía o templo que por tanto tempo venerara, mais a visão se tornava insuportável."

       Ele me olhou, e não vi ninguém, por trás daqueles olhos. Seu rosto não revelava a menor emoção, quando perguntou: "Pode compreender isso, doutora Scarpetta?".

       "Estou escutando", foi só o que disse.

       "Ele vive em cada um de nós", Hunt falou.

       "Ele sente remorso, Al?"

       "Já superou isso. Não creio que possa sentir-se bem, nem que compreenda seu ato completamente. Suas emoções estão embaralhadas. Em sua mente, ele não a deixou morrer. Ele fantasia, revive os contatos com ela, imagina que o relacionamento com ela seja o mais profundo, o mais íntimo, pois ela estava pensando nele quando deu o último suspiro, e este é o momento de máxima proximidade com outro ser humano. Em suas fantasias, ele imagina que ela continua a pensar nele, depois da morte. Mas a parte racional está insatisfeita e frustrada. Ninguém pode pertencer totalmente a outra pessoa, e isso é o que ele começa a descobrir."

       "O que quer dizer?", perguntei.

       "Seu ato não poderia produzir o efeito desejado, de modo algum", Hunt respondeu. "Sente-se inseguro quanto à proximidade — assim como nunca teve certeza da proximidade da mãe. Novamente, a desconfiança. E há outras pessoas, com motivos mais legítimos do que os motivos dele, para manter um relacionamento com Beryl."

       "Quem, por exemplo?"

       "A polícia." Seus olhos fixaram-se em mim. "E a senhora."

       "Por investigarmos seu assassinato?", perguntei, sentindo um arrepio na espinha.

       "Sim."

       "E para onde isso nos leva?", perguntei.

       "Cary Harper está morto."

       "Ele matou Harper?"

       "Sim."

       "Por quê?", perguntei, nervosa, acendendo o cigarro.

       "O que ele fez a Beryl foi um ato de amor", Hunt respondeu. "O que fez a Harper, um ato de ódio. Agora, ele odeia tudo. Qualquer pessoa relacionada a Beryl corre perigo. Era isso que eu queria dizer ao tenente Marino, à polícia. Mas não adiantaria nada. Ele... pensaria que eu tenho um parafuso solto."

       "Quem é ele?", perguntei. "Quem matou Beryl?"

       Al Hunt afastou-se, até a outra ponta do sofá, e esfregou o rosto com as mãos. Quando ergueu a vista, seu rosto estava vermelho.

       "Jim Jim", murmurou.

       "Jim Jim?", perguntei, assombrada.

       "Não sei", disse, perdendo o controle da voz. "Escuto este nome, na minha cabeça, ecoando, ecoando..."

       Permaneci imóvel.

       "Faz muito tempo, no hospital Valhalla", ele disse.

       "No manicômio judiciário?", perguntei. "Jim Jim era paciente, quando trabalhou lá?"

       "Não tenho certeza." As emoções saltavam em seus olhos, como um temporal. "Ouço o nome e vejo aquele lugar. Meus pensamentos retornam a lembranças obscuras. Como se eu fosse sugado por um ralo. Faz tanto tempo. Muita coisa está bloqueada, agora. Jim Jim. Jim Jim. Como um trem, passando. O som não pára. Tenho dores de cabeça, por causa do som."

       "Quando foi isso?", perguntei.

       "Faz dez anos", ele gritou.

       Hunt não poderia estar terminando uma tese nesta época, deduzi. Seria pouco mais que um adolescente.

       "Al", falei, "você não estava fazendo nenhuma pesquisa no manicômio judiciário. Era paciente do hospital, certo?"

       Ele cobriu o rosto com as mãos e chorou. Quando recuperou parcialmente o controle, recusou-se a prosseguir a conversa. Estava obviamente descontrolado. Murmurou desculpas, disse que estava atrasado para um compromisso, e praticamente saiu correndo da casa. Fiz um café, e comecei a andar de um lado para o outro, na cozinha, tentando pensar no que deveria fazer em seguida. Pulei, quando o telefone tocou.

       "Kay Scarpetta, por favor."

       "Sou eu mesma."

       "Aqui é John, da Amtrak. Consegui a informação que desejava, senhora, finalmente. Vamos ver... Sterling Harper tinha uma passagem para o Virginian, no dia vinte e sete de outubro, com volta para o dia trinta e um. Segundo meu registro, ela viajou neste trem, ou pelo menos alguém usou sua passagem. Quer saber os horários?

       "Sim, por favor", falei, anotando tudo. "Qual o destino dela?"

       Ele respondeu: "Saída de Fredéricksburg, com destino a Baltimore".

       Tentei telefonar para Marino. Estava na rua. Ligou de volta para mim à noite, e também tinha novidades.

       "Quer que eu vá até aí?", perguntei, perplexa.

       "Acho que não adianta", Marino disse. "Não há dúvida quanto ao que ele fez. Escreveu um bilhete e o pendurou na cueca. Disse que lamentava muito, mas não estava mais agüentando. Que era demais. Não vi nada de suspeito, na cena. Estamos de partida. E Doe Coleman está aqui, conosco", disse, referindo-se a um dos legistas da minha equipe.

       Pouco depois de sair de minha casa, Al Hunt seguiu de carro para a casa dele, uma construção em tijolo, no Ginter Park, onde morava com os pais. Pegou um bloco de papel e uma caneta no escritório do pai. Desceu a escada que conduzia ao porão e tirou o cinto de couro preto da calça, do tipo estreito. Tirou a calça, os sapatos e largou tudo no chão. Quando a mãe desceu, mais tarde, para colocar a roupa suja na máquina, encontrou o filho único morto, pendurado num cano, na lavanderia.

      

       A chuva gelada começou a cair depois da meia-noite, e pela manhã o mundo estava glaçado. Fiquei em casa, no sábado, a conversa com Al Hunt zumbindo na minha cabeça, rompendo a quietude de meus pensamentos íntimos como o gelo caindo da janela e se estilhaçando no chão, ao derreter de repente. Sentia culpa. Como qualquer outro mortal tocado pelo suicídio, abrigava a ilusão de que poderia ter feito algo para impedi-lo.

     Desarvorada, acrescentei seu nome à lista. Quatro pessoas mortas. Dois homicídios flagrantes, terríveis, e duas mortes incompreensíveis. Os casos se interligavam, de alguma maneira. Talvez o fiapo alaranjado os unisse. Trabalhei em casa, no sábado e domingo, pois meu escritório no centro só serviria para me lembrar que eu estava de férias, sem responsabilidades no momento — lá, não me sentiria útil. A rotina prosseguia, sem a minha presença. As pessoas me procuravam e depois morriam. Colegas respeitados, como o procurador-geral, queriam respostas, e eu não tinha nenhuma a oferecer.

       Reagi, do único jeito que eu sabia. Sentei-me na frente do computador e relacionei os detalhes dos casos. Pesquisei em meus livros de referência. E telefonei até dizer chega.

       Só vi Marino novamente na estação da Amtrak da rua Staples Mill, na manhã de segunda. Passamos por dois trens, que aguardavam passageiros na plataforma. O vento escuro, invernal, era aquecido pelos motores, e o ar cheirava a diesel. Embarcamos em nosso trem, e retomamos a conversa iniciada dentro da estação.

       "O doutor-Masterson não se mostrou muito disposto a colaborar", falei, referindo-me ao psiquiatra de Hunt, ao depositar no chão, cuidadosamente, a sacola de compras que levava. "Suspeito, porém, de que se lembra muito mais a respeito de Hunt do que admitiu." Por que eu sempre escolhia um lugar onde o descanso para os pés não funcionava?

       Marino bocejou escandalosamente ao baixar o seu descanso, que funcionava perfeitamente. Não se ofereceu para trocar de lugar comigo. Eu teria concordado.

       "Então Hunt tinha dezoito ou dezenove anos quando foi internado", ele disse.

       "Sim. Para tratamento de uma depressão muito intensa."

       "Certo, eu já imaginava."

        "Como assim?"

       "Este tipo vive deprimido."

       "Que tipo é este, Marino?"

       "Vamos dizer que a palavra bicha me passou pela cabeça mais de uma vez, quando conversei com ele."

       A palavra bicha passava pela cabeça de Marino sempre que ele conversava com alguém meio diferente.

       O trem partiu, silencioso como um navio deixando o porto.

       "Uma pena, que não tenha gravado a conversa", Marino disse, espreguiçando.

       "Com o doutor Masterson?"

       "Não, com Hunt. Quando ele passou em sua casa."

       "É discutível, e já não faz diferença", retruquei, incomodada.

       "Não sei. Ao que parece, o sujeito sabia muita coisa. Gostaria muito que ele ainda estivesse entre nós, por assim dizer."

       As declarações de Hunt, em minha sala, seriam importantes, caso estivesse vivo e não contasse com álibis inatacáveis. A polícia virou o apartamento de Hunt pelo avesso. Não encontrou nada capaz de ligar Hunt aos assassinatos de Beryl Madison e Cary Harper. Além disso, Hunt jantava com os pais, num clube de campo, na noite da morte de Beryl. E estava na ópera, quando Harper foi atacado. A policia checou os dois álibis. Os pais de Hunt diziam a verdade.

       Balançávamos, chacoalhávamos e roncávamos, no rumo norte. O trem apitava, piava funesto.

       "O caso de Beryl o levou ao limite", Marino disse. "Se quer minha opinião, ele se envolveu com o assassino, até pirar, saiu de cena, e se matou antes de desabar completamente."

       "Acho mais provável que Beryl tenha reaberto uma antiga ferida", argumentei. "O caso trouxe à tona sua incapacidade de se relacionar."

       "Parece que ele e o assassino são farinha do mesmo saco. Nenhum dos dois consegue se relacionar direito com as mulheres. Dois fracassados."

       "Hunt não era violento."

       "Talvez se encaminhasse para este lado, e não conseguisse mais viver com esta perspectiva", Marino disse.

       "Não sabemos quem matou Beryl e Harper", lembrei. "Não sabemos se o assassino era como ele. Não sabemos de nada, ainda nem temos idéia do motivo. O assassino pode ser alguém como Jeb Price. Ou um sujeito chamado Jim Jim."

       "Jim Jim uma ova", ele disse, irônico.

       "Não podemos descartar nada, a esta altura, Marino."

       "Como preferir. Vai ver Jim Jim saiu do manicômio de Valhalla, e agora é terrorista meio-período e carrega as fibras cor de laranja na roupa. Não agüento mais." Ajeitando-se na poltrona, ele fechou os olhos e resmungou: "Preciso tirar férias".

       "Eu também", falei. "Férias de você."

       Na noite anterior Benton Wesley telefonara, para conversar a respeito de Hunt, e contei-lhe aonde ia, e o motivo. Insistiu que seria perigoso para mim ir sozinha. Via terroristas, Uzís e Glasers por toda a parte. Exigiu que Marino me acompanhasse, e eu não me importaria, se isso não tivesse causado tantos contratempos. Não conseguimos outra passagem para o trem das seis e trinta e cinco da manhã, de modo que Marino fez a reserva para o das quatro e quarenta e oito. Passei em meu escritório no centro, às três da madrugada, para apanhar a caixa de isopor que levava agora na sacola. Sentia um cansaço absurdo, o déficit de sono aumentava brutalmente. Os Jeb Prices da vida não precisariam me abater. Marino, meu anjo da guarda, daria conta do recado.

       Os outros passageiros cochilavam, com as lâmpadas de leitura apagadas. Em pouco tempo deslizávamos lentamente por Ashlandr e eu pensava nas pessoas que moravam em casas brancas imaculadas, nas fazendas à margem da ferrovia. Janelas escuras ainda estavam fechadas, os mastros na frente das casas vazios, a nos saudar rigidamente. Passamos por estabelecimentos sonolentos — barbearia, papelaria, banco — e ganhamos velocidade na curva que contornava o campus da faculdade Randolph-Macon, com seus prédios georgianos e campo de futebol coberto de gelo, freqüentado, naquela madrugada enluarada, apenas por uma fileira de sleds de futebol americano, multicoloridos. Para lá da cidade começava a floresta, e barrancos de argila vermelha. Recostada na poltrona, hipnotizada pelo balanço do trem, relaxava cada vez mais, conforme nos afastávamos de Richmond, e sem querer peguei no sono.

       Não sonhei, mas permaneci inconsciente por uma hora, e quando abri os olhos o dia amanhecia, do outro lado do vidro. Passávamos pelo rio Quantico. A água parecia estanho polido, refletindo a luz nas ondas e redemoinhos, e vi barcos na correnteza. Pensei em Mark. Pensei em nossas noitadas em Nova York e no passado distante. Perdera o contato com ele, depois da mensagem incompreensível na secretária eletrônica. Tentava imaginar o que ele estava fazendo, e sentia medo de saber.

       Marino empertigou-se, olhando para mim, meio grogue. Estava na hora de tomar café da manhã e fumar, não necessariamente nesta ordem.

       O vagão-restaurante estava meio cheio de passageiros em estado de coma parcial, do tipo que se pode encontrar em qualquer rodoviária dos Estados Unidos, sempre parecendo muito à vontade. Um jovem dormia, ao som da música que tocava dentro dos fones de ouvido que tapavam suas orelhas. Uma senhora, com ar cansado, embalava um bebê agitado. Um casal de velhos jogava cartas. Conseguimos uma mesa vazia, no canto. Acendi um cigarro, enquanto Marino ia buscar comida. O único comentário favorável que eu poderia fazer sobre o sanduíche de presunto e ovo era que estava quente. O café não estava ruim.

       Ele rompeu a embalagem de celofane com os dentes, e olhou para a sacola de compras que eu deixara ao lado da poltrona. Ali dentro encontrava-se a caixa de isopor que continha amostras de Sterling Harper. Fígado, tubos de ensaio cheios de sangue, líquido estomacal. Tudo protegido com gelo seco.

       "Quanto tempo leva para descongelar?", ele perguntou.

       "Chegaremos a tempo, desde que não haja atrasos", falei.

       "Por falar em tempo, ele está sobrando, para nós. Importa-se de repetir tudo, principalmente a parte do remédio para tosse? Estava meio sonolento, quando me falou nisso, ontem à noite."

       "Sei, tão sonolento quanto está agora."

       "Você não fica cansada?"

       "Estou exausta, Marino. Nem sei se vou sobreviver."

       "Acho melhor sobreviver, diacho. Pode ter certeza de que eu não vou levar estes pedaços de cadáver sozinho", ele disse, levantando a xícara de café.

       Expliquei, com a objetividade de um conferencista. "O ingrediente ativo no supressivo da tosse encontrado no banheiro da senhorita Harper é dextrometorfano, uma espécie de codeína sintética. Dextrometorfano não mata, a não ser em doses cavalares. Trata-se de um d-isômero de um composto, cujo nome não vem ao caso, pois não significa nada para você..."

       "Ah, é? Como sabe que significa nada para mim?"

       ''Três-metóxi-N-metilmorfina.''

       "Tem razão. Não significa nada para mim."

       Prossegui: 'Existe uma outra droga, o 1-isômero do mesmo composto do qual o dextrometorfano é o d-isômero. Este d-isômero é o levometorfano, um narcótico poderoso, cerca de cinco vezes mais forte do que a morfina. A única diferença entre as duas drogas, nos exames toxicológicos, é que, observadas num aparelho ótico rotativo chamado polarímetro, o dextrometorfano desvia a luz para a direita, e o levometorfano desvia a luz para a esquerda".

       "Ou seja, sem este aparelho, não se pode distinguir as duas drogas", Marino concluiu.

       "Não nos exames toxicológicos de rotina", respondi. "O levometorfano se confunde com o dextrometorfano, pois o composto de origem é o mesmo. A única diferença perceptível está no desvio da luz em sentidos opostos, do mesmo modo como d-sacarose e l-sacarose desviam a luz para sentidos diferentes, embora sejam, estruturalmente, o mesmo disacarídeo. D-sacarose é açúcar comum. L-sacarose não tem valor nutritivo para seres humanos."

       "Não sei se entendi direito", Marino disse, esfregando os olhos. "Como compostos iguais podem ser diferentes?"

       "Pense em dextrometorfano e levometorfano como gêmeos idênticos", falei. "Não são a mesma pessoa, por assim dizer, mas parecem iguaizinhos. Só que um é destro, e o outro, canhoto. Um é bonzinho, o outro, capaz de matar. Entendeu melhor?"

       "Acho que sim. Bem, quanto levometorfano mataria a senhorita Harper?"

       "Trinta miligramas provavelmente dariam conta do recado. Quinze comprimidos de dois miligramas, em outras palavras", falei.

       "Se ela fizesse isso, o que aconteceria?"

      "Adormeceria rapidamente, e morreria."

       "Seria possível, para ela, saber tanto a respeito desta história de isômeros?"

       "Talvez", respondi. "Sabemos que sofria de câncer, e suspeitamos que desejasse disfarçar seu suicídio. Isso pode explicar o plástico derretido na lareira, e as cinzas dos papéis que queimou, antes de morrer. É possível, inclusive, que tenha deixado o frasco com remédio contra tosse no banheiro, para nos iludir. Como encontramos o frasco do medicamento, não me surpreendi ao encontrar sinais de dextrome-torfano em seu exame toxicológico."

       A srta. Harper não tinha parentes vivos, poucos amigos — se é que os tinha — e não parecia ser do tipo que viajava o com freqüência. Ao descobrir sua viagem recente a Baltimore, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a Johns Hopkins, uma das melhores clínicas oncologicas do mundo. Alguns telefonemas confirmaram que a srta. Harper fazia visitas periódicas ao Hopkins, para tratamento do sangue e medula, uma rotina relacionada à doença que ela obviamente ocultava. Quando descobri quais eram os medicamentos receitados, as peças do quebra-cabeças subitamente se encaixaram em minha mente. Os laboratórios do meu departamento não possuíam o polarímetro indispensável aos testes de levometorfano. O dr. Ismail, do Hopkins, prometera colaborar, se eu levasse as amostras necessárias.

       Faltava pouco para as sete horas, e nos aproximamos de Washington, D. C. Os pântanos que precediam a capital passaram depressa, e logo entramos na cidade. O memorial Jefferson brilhava, alvo, por entre as árvores. Os prédios de escritórios, altos, erguiam-se tão próximos à ferrovia que pude ver plantas e luminárias, através das janelas limpíssimas. O trem mergulhou no solo, como uma toupeira, e se escondeu na plataforma subterrânea.

      

       Encontramos o dr. Ismail no laboratório de farmacologia da clínica oncológica. Abri a sacola e coloquei a caixa de isopor sobre sua mesa.

       "Trouxe, então, as amostras sobre as quais conversamos?", ele perguntou, sorridente.

       "Sim", respondi. "Ainda não descongelaram, espero. Viemos direto da estação para cá."

       "Se a concentração for razoável, daremos a resposta dentro de um ou dois dias." ;

       "O que pretende fazer com o material, exatamente?", Marino perguntou, enquanto seus olhos passeavam pelo laboratório, que não diferia dos outros laboratórios que conhecíamos.

       "Trata-se de um procedimento simples, na verdade", o dr. Ismail explicou, pacientemente. "Em primeiro lugar, faremos um extrato da amostra do líquido gástrico. ,É a parte mais trabalhosa e demorada do teste. Em seguida, o extrato será submetido ao polarímetro, aparelho que mais parece um telescópio. Tem lentes giratórias, porém. Eu olho pelo visor, e giro as lentes para a direita e para a esquerda. Se a droga em questão é dextrometorfano, a luz cai para a direita. Isso significa que a luz, no meu campo de visão, será mais forte quando eu girar as lentes para a direita. Se for levometorfano, vale o contrário."

       Ele prosseguiu, explicando que o levometorfano é um poderoso anestésico, receitado quase exclusivamente para doentes terminais de câncer. Como a droga foi descoberta ali, mantinham uma lista de todos os pacientes do Hopkins que a utilizaram. O objetivo era determinar o espectro terapêutico. Para nós, interessava saber que havia um registro detalhado do tratamento da srta. Harper.

       "Ela vinha a cada dois meses, para tratamento do sangue e medula, e a cada visita recebia um suprimento de duzentos comprimidos de dois miligramas", disse o dr. Ismail, consultando um livro grosso de registro, meticulosamente. "Vamos ver... a última visita aconteceu no dia vinte e oito de outubro. Ainda deveria ter setenta e cinco a cem comprimidos."

       "Não os encontramos", falei.

       "Uma pena." Ele ergueu os olhos escuros, pesaroso. "Estava indo tão bem. Era uma pessoa adorável. Gostava muito de receber sua visita, vinha sempre com a filha."

      Assim que me recuperei do susto, perguntei: "Filha?".

       "Imaginei que fosse filha dela. Uma moça loura..."

       Marino interferiu: "Estava com a senhorita Harper, na última visita, no final de outubro?".

       O dr. Ismail franziu a sobrancelha e disse: "Não. Pelo que eu me lembro, não a vi. A senhorita Harper veio sozinha".

       "Há quantos anos a senhorita Harper vem aqui?", perguntei.

       "Preciso consultar seu prontuário. Há vários anos, com certeza. Dois, no mínimo."

       "E a filha, a moça loura, sempre a acompanhava?", perguntei.

       "No início, não", ele contou. "Mas, no ano passado, ela veio com a senhorita Harper em todas as visitas, exceto na última, em outubro. Era impressionante. Ter alguém da família, sempre disposto a acompanhar um doente grave, é muito bom."

       "Onde a senhorita Harper ficava, quando estava aqui?" Marino contraiu os músculos faciais novamente.

       "A maioria dos pacientes se hospeda nos hotéis das proximidades. Mas a senhorita Harper gostava da área do ancoradouro", o dr. Ismail informou.

        Minhas reações demoraram a acontecer, em função da tensão e da falta de sono.

       "Sabe em que hotel?", Marino insistiu.

       "Não. Desconheço..."

       Comecei a ver, de repente, as imagens dos fragmentos datilografados, sobre a cinza clara.

       Interrompi o diálogo dos dois. "Posso consultar a lista telefônica, por gentileza?"

       Quinze minutos depois, Marino e eu tentávamos conseguir um táxi, na rua. O sol brilhava, mas fazia muito frio.

       "Droga", ele repetiu. "Espero que tenha razão."

       "Logo descobriremos", falei, tensa.

       Nas páginas amarelas encontramos um hotel chamado Harbor Court. bor Co, bor C. As letras minúsculas enegrecidas, nos restos de papel queimado, não me saíam da cabeça. O hotel destacava-se como um dos mais luxuosos da cidade, e ficava bem em frente a Harbor Place.

       "Sabe o que eu não consigo entender?", Marino recomeçou, quando outro táxi passou, sem parar. "Por que se dar ao trabalho? A senhorita Harper suicidou-se, certo? Por que precisava fazer tanto mistério? Faz sentido, para você?"

       "Ela era uma pessoa orgulhosa. Suicídio devia ser, em sua opinião, um ato vergonhoso. Talvez preferisse que ninguém soubesse. Por isso, resolveu se matar enquanto eu estava na casa dela."

       "Por quê?"

       "Talvez porque não quisesse que seu corpo fosse encontrado depois de uma semana." O trânsito estava terrível, e comecei a pensar que teríamos de caminhar até o hotel.

       "E acha que ela sabia mesmo esta história de isômeros?"

       "Creio que sim."

       "Como é possível?"

       "Ela procurava uma morte digna, Marino. É possível que estivesse planejando o suicídio há algum tempo, no caso da leucemia se agravar. Para evitar o seu sofrimento, e o sofrimento alheio. Levometorfano servia como uma luva. Na maioria das vezes, nem é identificado — principalmente se houvesse um remédio para tosse contendo dextrometorfano na casa."

       "Sério mesmo?" Ele deslumbrou-se quando um táxi nos viu, graças a Deus, e começou a encostar. "Estou impressionado. Juro mesmo."

       "É trágico."

       "Não sei." Ele abriu um chiclete e passou a mascá-lo vigorosamente. "Se fosse eu, também não ia querer acabar num leito de hospital, cheio de tubos no nariz. Talvez agisse como ela."

       "Ela não se matou por causa do câncer."

       "Sei disso", ele disse, quando descemos a calçada. "Mas tem a ver. Deve ter. Ela não permaneceria muito tempo neste mundo, de qualquer maneira. Aí Beryl foi morta. Em seguida, assassinaram o irmão." Ele deu de ombros. "Fazer o quê, por aqui?"

       Entramos no táxi e demos o endereço ao motorista. Seguimos sem conversar, por uns dez minutos. O táxi quase parou, entrando num arco pequeno, que conduzia a um pátio revestido de cerâmica, com canteiros e arbustos. O porteiro, vestindo fraque e cartola, surgiu imediatamente a meu lado, e fomos escoltados a um saguão esplêndido, iluminado, em rosa e creme. Tudo parecia novo e limpo, polido, com flores naturais viçosas sobre os móveis finíssimos. Os funcionários do hotel, impecáveis, distribuídos pelo local, sem que sua presença fosse ostensiva.

       Fomos levados a um escritório bem decorado, onde o gerente elegante conversava ao telefone. T. M. Bland, a crer na placa de latão reluzente sobre sua mesa, olhou para nós dois, e rapidamente encerrou a conversa telefônica. Marino não perdeu tempo em dizer o que queria.

       "Nossa lista de hóspedes é confidencial", o sr. Bland respondeu, sorrindo atenciosamente.

       Marino acomodou-se numa poltrona de couro e acendeu o cigarro, apesar da placa de POR FAVOR, NÃO FUME pendurada ostensivamente na parede. Depois puxou a carteira e mostrou o distintivo.

       "Meu nome é Pete Marino", proclamou laconicamente. "Polícia de Richmond, departamento de Homicídios. Esta é a doutora Kay Scarpetta, médico-legista titular do estado da Virgínia. Compreendemos a necessidade de sigilo. Respeitamos seu hotel, senhor Bland. Contudo, pedimos sua compreensão. Sterling Harper está morta. O irmão, Cary Har-per, está morto. E Beryl Madison também. Cary Harper e Beryl Madison foram assassinados. Não sabemos ainda o que aconteceu exatamente com a senhorita Harper. Por isso estamos aqui,"

       "Leio jornais, tenente Marino", o sr. Bland disse, começando a perder a pose. "Certamente o hotel cooperará com as autoridades, no que for possível."

       "Então confirma que eles se hospedavam aqui?", Marino disse.

       "Cary Harper jamais se hospedou neste hotel."

       "Mas a irmã e Beryl Madison, sim."

       "Correto", o sr. Bland disse.

       "Com que freqüência? Qual foi a última vez?"

       "Preciso verificar na ficha da senhorita Harper", o sr. Bland respondeu. "Pode, por favor, me dar licença, por um minuto?"

       Ele nos fez esperar mais de quinze minutos. Voltou com um texto impresso em computador.

       "Como pode ver", disse, ao sentar-se, "a senhorita Harper e Beryl Madison estiveram conosco em seis oportunidades, no último ano e meio."

       "A cada dois meses, aproximadamente", pensei alto, examinando as datas no papel. "Exceto na última semana de agosto, e no final de outubro. Nestas ocasiões, a senhorita Harper veio sozinha."

       Ele fez que sim.

       "Qual era o objetivo das visitas?", Marino perguntou.

       "Negócios, possivelmente. Compras. Passeio. Realmente, não sei dizer. O hotel não costuma vigiar os hóspedes."

       "E não costuma se importar com o que os hóspedes fazem, a não ser quando aparecem mortos", Marino disse. "Fale sobre o que andou vendo, quando as senhoras em questão se hospedaram aqui."

       O sorriso do sr. Bland desapareceu, e ele apanhou uma esferográfica dourada que estava em cima do bloco de anotações, mostrando-se todavia confuso quanto à sua utilidade. Enfiou a caneta no bolso da camisa rosa engomada, e limpou a garganta.

       "Só posso falar sobre o que vi", disse.

       "Por favor", Marino retrucou.

       "As duas viajavam separadas. Em geral, a senhorita Harper chegava à noite, e Beryl Madison no dia seguinte. Não costumavam deixar o hotel juntas, tampouco."

       "Como assim?"

       "Quero dizer que saíam do hotel em horários diferentes, embora partissem no mesmo dia. E não escolhiam o mesmo meio de transporte, necessariamente. Não seguiam no mesmo táxi, por exemplo."

       "As duas pegavam o trem?", perguntei.

       "Creio que a senhorita Madison ia de limusine, para o aeroporto", o sr. Bland explicou. "Mas a senhorita Harper preferia viajar de trem."

       "E quanto às acomodações?", perguntei, estudando o impresso.

       "Isso mesmo", Marino reforçou. "Aqui não tem nada sobre os apartamentos." Ele apontou para o texto, com o _ indicador. "Reservavam um simples ou duplo? Uma cama ou duas?"

       O sr. Bland corou, com as implicações da pergunta. "Elas sempre reservavam uma suíte dupla, com vista frontal. Eram convidadas do hotel, senhor Marino, e estes detalhes não estão disponíveis para publicação."

       "Ei, acha que eu tenho cara de repórter, pombas?"

       "Está dizendo que elas se hospedavam aqui de graça?", perguntei, confusa.

       "Isso mesmo, madame."

       "Importa-se de explicar o motivo?", Marino disse.

       "Assim desejava o senhor Joseph McTigue", o sr. Bland respondeu.

       "Como assim?", perguntei, ao me debruçar para encará-lo. "O construtor de Richmond? Refere-se a este Joseph McTigue?"

       "O falecido senhor McTigue foi um dos responsáveis por várias construções nesta área. Entre seus investimentos, encontrava-se uma parcela substancial de ações do hotel", o sr. Bland explicou. "A seu pedido, recebíamos a senhorita Harper. E continuamos a honrar sua palavra, mesmo depois de seu falecimento."

       Minutos depois eu deixava um dólar para o porteiro, que abria a porta do táxi para que Marino e eu entrássemos.

       "Importa-se em contar quem é esse tal de Joseph McTigue? Tenho o palpite de que você sabe", Marino perguntou, quando entramos na rua.

       "Visitei a esposa dele, em Richmond. A senhora que reside em Chamberlayne Gardens. Já lhe contei."

       "Puta merda."

       "É, também fiquei desconcertada", concordei.

       "E o que acha disso tudo?"

       Ainda não achava nada, mas começava a suspeitar.

       "Para mim, parece coisa de doido", Marino prosseguiu. "Para começo de conversa, esta história da senhorita Harper pegar o trem, enquanto Beryl viajava de avião, parece esquisita, pois seguiam para o mesmo destino."

       ''Não estranho", falei. "Sem dúvida, não podiam viajar juntas, Marino. A senhorita Harper e Beryl preferiam não correr o risco. Não deveriam manter nenhum contato, recorda-se? Se Cary Harper apanhava a irmã na estação de trem, Beryl não conseguiria desaparecer de repente, caso viajasse em companhia da senhorita Harper." Fiz uma pausa, ao pensar em algo. "E talvez a senhorita Harper ajudasse Beryl no livro, passando informações sobre a família Harper."

       Marino espiava pela janela.

       "Se quer saber minha opinião, penso que as duas eram lésbicas enrustidas."

       Notei os olhos curiosos do motorista, pelo espelho retrovisor.          

       "Creio que se amavam, apenas", falei;

       "E talvez tivessem um casinho. Encontravam-se a cada dois meses, em Baltimore, onde ninguém as conhecia, ou não dava a mínima.'"

       "Sabe", Marino insistiu, "talvez explique a fuga de Beryl para Key West. Sendo homossexual, estaria em casa, lá."

       "Sua homofobia é realmente furiosa, além de cansativa, Marino. Deveria tomar cuidado. As pessoas podem começar a desconfiar de você."

       "Claro", ele disse, sem achar a mínima graça.

       Fiquei quieta.

       Ele insistiu: "Bem, isso, nos interessa. Quem sabe Beryl arranjou uma namoradinha", quando estava lá."

       "Por que não verifica?" "

       "Não dá, cara. Não quero ser picado por um mosquito na capital americana da AIDS. E interrogar um bando de bichas não ia me fazer bem."

       "Pediu à polícia da Flórida para verificar os contatos dela na região?", perguntei, agora a sério.

       "Eles fizeram algumas perguntas. Jogo duro. Morriam de medo de comer, de beber água. Um dos veados do restaurante mencionado por ela está morrendo de AIDS, agora mesmo. Os policiais precisaram usar luvas o tempo inteiro."

       "Durante as entrevistas?"

       "É isso aí. E máscaras cirúrgicas, também — pelo menos quando interrogavam o tal moribundo. Não conseguiram nada que servisse para nós, nenhuma informação útil."

       "Aposto que não", comentei. "Sua turma trata as pessoas como leprosos, e ainda se admira quando elas não querem se abrir."

       "Quer saber o que eu acho? Deviam serrar aquela parte da Flórida e deixar que o mar levasse embora.'!

       "Ainda bem que ninguém quer saber o que você acha."

       Inúmeros recados aguardavam resposta, na secretária eletrônica, quando voltei para casa, no final da tarde.

       Torcia para que um deles fosse de Mark. Sentei-me na beirada da cama, para beber uma taça de vinho, e ouvi, um tanto desanimada, as vozes que saíam da máquina.

       Bertha, a empregada, estava com gripe, e avisava que não apareceria no dia seguinte. O procurador-geral queria tomar café da manhã comigo, amanhã, para discutir o processo aberto pelo espólio de Beryl Madison, contra o estado, por conta do original desaparecido. Três repórteres desejam entrevistar-me, e minha mãe precisava saber se eu preferia presunto ou peru, no Natal;— um modo não muito sutil de indagar se poderia contar com minha presença, pelo menos no feriado mais importante do ano.

       Não reconheci a voz seguinte.    

       "... Você tem lindos cabelos louros. São verdadeiros, ou você tinge, Kay?"

       Voltei a fita. Abri, frenética, a gaveta da mesa de cabeceira.    

       ... São verdadeiros, ou você tinge, Kay? Deixei um presentinho para você, nos fundos da casa. No alpendre."

       Atônita, segurando o revólver Ruger, voltei a fita mais uma vez. A voz era quase um sussurro, muito calma e decidida. Homem branco. Não consegui identificar o sotaque, nem sentir qualquer emotividade no tom. O som dos meus pés na escada me enervou, e acendi as luzes de todos os cômodos pelos quais passei. O alpendre dos fundos ficava depois da cozinha, e meu coração batia com força, quando espiei pela janela lateral, que dava para o comedouro dos pássaros. Mal afastei as cortinas, erguendo o revólver, com o cano apontado para o teto.

       A luz do alpendre afastando a escuridão do quintal, mesclando os perfis das árvores com a escuridão do bosque nos fundos do terreno. A área estava limpa. Não via nada no alpendre, nem nos degraus da cozinha. Envolvi a maçaneta com os dedos, e permaneci imóvel, o coração disparado, ao abrir a tranca.

       O arranhar na parte externa da porta foi quase imperceptível, quando a abri, e quando vi o que estava pendurado na maçaneta externa, bati a porta com tanta força que as janelas tremeram.

       Tirei Marino da cama, a julgar por sua reação.

       "Venha para cá agora!", gritei, ao telefone, a voz uma oitava acima do normal.

      

     "Fique calma", ele disse com firmeza. "Não abra a porta para ninguém, até eu chegar. Entendeu bem? Estou a caminho."

       Quatro viaturas se enfileiraram na frente da minha casa, e os policiais vasculharam a escuridão, por entre os arbustos, e entraram no bosque, com seus longos dedos luminosos.

       "A unidade K-9 está a caminho", Marino disse, colocando o rádio portátil em cima da mesa da cozinha. "Sério, duvido que encontremos o maluco por perto. Mas precisamos ter certeza absoluta, antes de ir embora."

       Era a primeira vez em que via Marino usando jeans, e ele poderia ter ficado até elegante, não fosse o par de meias de atletismo e tênis comum, acompanhados de um agasalho de atletismo justo demais. O cheiro de café quente enchia a cozinha. Preparei um bule enorme, capaz de atender a metade do quarteirão. Meus olhos não sossegavam, à procura de algo para fazer.

       "Conte tudo outra vez, bem devagar", Marino disse, acendendo um cigarro.

       "Cheguei em casa e comecei a ouvir os recados na secretária eletrônica", repeti. "No último, ouvi a voz do sujeito, um jovem, branco. Acho melhor você mesmo escutar a mensagem. Ele fala sobre o meu cabelo, pergunta se é tingido." Os olhos de Marino fixaram-se nas raízes, curiosos. "Depois disse que havia deixado um presente no alpendre, nos fundos. Espiei pela janela, mas não vi nada. Nem mesmo sei o que esperava. Não sei. Alguma coisa horrível, numa caixa. Um presente macabro. Quando abri a porta, ouvi um ruído, algo raspando na madeira. Estava preso à maçaneta, do lado de fora."

       Dentro de um saco plástico especial para provas, havia uma corrente de ouro, com um medalhão estranho.

       "Tem certeza de que é o mesmo usado por Harper na taverna?", perguntei mais uma vez.

       "Mas é claro", Marino respondeu, com ar tenso. "Sem a menor sombra de dúvida. Também tenho certeza de onde o medalhão esteve, desde então. O sujeito o retirou do corpo de Harper, e agora você ganhou um presente de Natal antecipado. Pelo jeito, o tarado está a fim de você."

       "Por favor", falei, impaciente.

       "Ei. Estou levando isso a sério, tá?" Ele não sorriu, ao erguer o envelope, para examinar a corrente através do plástico. "Como pode ver, o fecho está torto, assim como o último elo. Parece ter se rompido, quando ele o arrancou do pescoço de Harper. Foi consertado com alicate, pelo jeito. Provavelmente, estava usando ò medalhão. Merda." Ele bateu a cinza. "Havia algum ferimento no pescoço de Harper, causado pela corrente, ao ser arrancada?"

       "Não havia muito pescoço para examinar", falei, sombria.

       "Já viu um medalhão deste tipo antes?"

       "Nunca."

       Parecia um brasão, em ouro dezoito quilates, mas não vi nenhuma inscrição, fora a data, 1906, no verso.

       "Com base nas marcas do joalheiro, estampadas no verso, creio que sua origem é inglesa", falei. "As marcas indicam um código internacional e revelam quando o medalhão foi feito, onde, e por quem. Um joalheiro poderia interpretá-las. Sei que não é italiano..."

       "Doutora..."

       "Teria setenta e cinco, no verso, para indicar ouro dezoito quilates, quinhentos para catorze quilates..."

       "Doutora..."

       "Temos um joalheiro que nos dá consultoria, em Schwarzschild..."

       "Ei", Marino disse, erguendo a voz, "isso não importa, está bem?" Eu falava sem parar, como uma velha histérica.

       "A árvore genealógica inteira do dono do medalhão não vai nos ajudar na coisa mais importante — o nome do maluco que o deixou pendurado na sua porta." Seus olhos se abrandaram um pouco, e ele baixou a voz. "O que tem para beber aqui? Brandy. Tem brandy?"

       "Está de serviço."

       "Não é para mim", ele riu. "É para você. Tome um pouco." Ele indicou uns cinco centímetros, com o polegar e o indicador. "Depois conversaremos."

       Voltei do bar com uma taça bojuda. O brandy queimou na minha garganta, e aqueceu meu sangue instantaneamente. Parei de tremer por dentro. E por fora também. Marino me olhava, curioso. Sua atenção me lembrou uma série de coisas. Vestia o mesmo conjunto amarrotado, com o qual viajara de trem, na volta de Baltimore, A calça de malha se enrolara um pouco na cintura, e formara bolsas nos joelhos. Sentia uma compulsão enlouquecedora de lavar o rosto e escovar os dentes; O couro cabeludo coçava. Sem dúvida, tinha uma aparência terrível.

      "O elemento não faz ameaças à toa", Marino disse, calmamente, enquanto eu bebia.

       "Provavelmente, está só me provocando, porque estou envolvida no caso. Zombando. Psicopatas costumam provocar quem investiga seus crimes, e mandar lembranças." Nem eu acreditava nas minhas palavras. Marino, então, nem se fala.

       "Manterei uma viatura nas redondezas. Vigiaremos sua casa", ele disse. "Agora, entenda as regras. Obedeça sem discutir. Não banque a espertinha." Ele me encarou. "Primeiro, não importa qual seja a sua rotina normal. Quero que troque tudo, o máximo possível. Se costuma fazer supermercado às sextas, na parte da tarde, da próxima vez vá na quarta, e escolha outra loja. Não entre em casa, ou no carro, sem olhar bem em volta. Se vir algo estranho, como um carro desconhecido estacionado por perto, ou qualquer sinal de que alguém entrou em sua casa, fuja correndo, e chame a polícia. Quando entrar em casa, se sentir algo — basta uma intuição, um arrepio — saia imediatamente, vá até o telefone mais próximo e ligue para a polícia. Peça a um guarda que a acompanhe, até revistar a casa e garantir que está tudo em ordem."

       "Tenho alarme contra ladrões", falei.

       "Beryl também tinha."

       "Ela deixou o filho da mãe entrar."

       "Não cometa o mesmo erro. Tome cuidado com quem bate."

       "O que acha que ele vai fazer? Driblar meu alarme?", insisti.

       "Tudo é possível."

       Lembrei-me de que Wesley dissera a mesma coisa.

       "Saia do escritório antes de escurecer, quando o pessoal ainda estiver por perto. O mesmo vale para a entrada no serviço. Se costuma chegar quando ainda está escuro, e o estacionamento vazio, passe a entrar um pouco mais tarde. Mantenha a secretária eletrônica ligada. Grave tudo. Se receber outro telefonema, entre em contato comigo imediatamente. Mais alguns e grampearemos sua linha..."

       "Como fizeram com Beryl?" Estava ficando nervosa.

       Ele não respondeu.

       "Como é, Marino? Meus direitos vão ter de esperar, também? Até que seja tarde demais, porra?"

       "Quer que eu fique, e durma no sofá, esta noite?", ele perguntou, calmamente.

       Encarar a manhã seguinte seria pedir demais. Imaginei Marino de short, camiseta deixando apontar a barriga imensa, quando seguisse para o banheiro, descalço. Provavelmente deixaria a tampa da privada levantada.

       "Não precisa", falei.

       "Tem porte de arma, certo?"

       "Só licença para ter arma em casa. Na rua, não."

       Ele empurrou a cadeira, e decidiu: "Conversarei com o juiz Reinhard, amanhã de manhã. Pedirei o porte".

       Era tudo. Quase meia-noite.

       Pouco depois, eu estava sozinha em casa, e não conseguia dormir. Tomei mais uma dose de brandy, e depois outra. Fiquei deitada na cama, olhando para o teto escuro. Se acontecem várias coisas ruins na vida da gente, as pessoas começam a se perguntar se você as atraiu, se tem um ímã que atrai problemas ou perigos. Começava a pensar assim. Talvez Ethridge tivesse razão; eu me envolvia demais nos casos, e me expunha ao perigo. Já passara por riscos anteriores, que poderiam ter me mandado ao encontro do Criador.

       Quando finalmente consegui apagar, sonhei coisas absurdas. Ethridge fazendo um buraco no colete, com o charuto. Fielding examinando um cadáver, que parecia uma almofada de alfinetes, pois não encontrava nenhuma artéria com sangue. Marino num pula-pula, subindo a ladeira, a ponto de cair.

      

       Passei o início da manhã em meu quarto, no escuro, observando as sombras e silhuetas do terreno.

       Meu Plymouth ainda não retornara da oficina estadual. Quando olhei para a perua que o substituíra, pensei se seria difícil, para um homem adulto, esconder-se debaixo dela, e agarrar meu pé quando eu destrancasse a porta. Não precisaria me matar. Eu morreria do coração, antes. A rua, para lá do carro, estava deserta, as luzes mal a iluminavam. Abrindo uma fresta na cortina, espiei, sem ver nada. Não ouvia nada. Nada parecia fora de lugar. Provavelmente nada parecia fora de lugar quando Cary Harper chegou em casa, voltando da taverna.

       Meu café da manhã com o procurador-geral estava marcado para dali a uma hora. Chegaria atrasada, se não reunisse coragem suficiente para sair pela porta da frente da minha própria casa, percorrer dez metros de calçada, e entrar no meu carro. Estudei as sebes e as plantas que protegiam meu gramado, atenta a suas silhuetas esguias, enquanto o céu clareava, paulatinamente. A lua estava redonda e iridescente, gloriosa em seu brilho matinal. O gramado era um tapete prateado de geada.

       Como ele se aproximara das casas, da minha casa? Precisava de um, meio de transporte. Pouco se especulara sobre a capacidade de movimentação do assassino. O tipo de veículo faz parte do perfil de um criminoso, assim como a idade e a raça, mas ninguém comentou isso, nem mesmo Wesley. Tentei imaginar o motivo, olhando para a rua deserta.

       E o comportamento de Wesley, em Quantico, ainda me incomodava.                                                  

       Manifestei minhas preocupações a Ethridge, quando tomávamos café da manhã.

       "Pode ser, simplesmente, que Wesley tenha preferido não lhe contar tudo", ele sugeriu.

       "Sempre se mostrou muito aberto, no passado."

       "O pessoal do FBI sabe manter a boca fechada, Kay."

       "Wesley se especializa em perfis", retruquei. "Sempre foi comunicativo, manifestando abertamente suas opiniões e teorias. Mas, neste caso, recusa-se a falar tudo. Mal elaborou os perfis. Sua personalidade mudou. Perdeu o senso de humor, e nem me olha nos olhos. Está estranho, e muito nervoso."

       Respirei fundo.

       Ethridge disse, em seguida-. "Ainda sente-se isolada, não é, Kay?".

       "Sim, Tom."

       "E um pouco paranóica."

       "Também", confessei.

       "Confia em mim, Kay? Acredita que eu esteja do seu lado, e que levo em consideração seus interesses, da melhor maneira possível?", ele perguntou.

       Fiz que sim, e respirei fundo.

       Conversávamos em voz baixa, no salão de refeições do hotel Capitol, um local preferido pelos políticos e plutocratas. Três mesas adiante sentava-se o senador Partin, seu rosto mais enrugado do que nunca, a conversar seriamente com um rapaz cujo rosto eu já vira em algum lugar.

       "A maioria de nós sente-se isolado e paranóico, durante períodos estressantes. Como se estivéssemos sozinhos no meio do mato." Os olhos de Ethridge pousaram em mim, gentis e preocupados.

       "Estou sozinha no meio do mato", falei. "Sinto isso porque é verdade."

       "Entendo as preocupações de Wesley."

       "Mas é claro."

       "O que me preocupa, em você, Kay, é que baseia suas teorias na intuição, age por instinto. Isso pode ser muito perigoso, às vezes."

       "Pode ser, às vezes. Mas também pode ser muito perigoso quando as pessoas começam a complicar demais as coisas. Assassinatos são, muitas vezes, tragicamente simples."

       "Nem sempre, porém."

       "Quase sempre, Tom."

       "Você não acha que as maquinações de Sparacino estão ligadas a estas mortes?", o procurador-geral indagou.

       "Creio que seria fácil demais permitir que as maquinações dele nos distraíssem. Suas atitudes, e as atitudes dos criminosos, podem estar correndo em trilhos paralelos. Ambos são perigosos, mortais até. Mas não coincidem. Eles não agem pelos mesmos motivos."

       "Não acha que o original perdido seja a ligação?"

       "Não sei."

       "E não está mais perto de saber?"

       A pergunta fez com que eu me sentisse como uma aluna que esqueceu da lição de casa. Gostaria que não a tivesse formulado.

       "Não, Tom", admiti. "Não tenho a menor idéia, ainda."

       "Seria possível que Sterling Harper tenha queimado o original na lareira, antes de morrer?"

       "Duvido muito. O especialista em documentação examinou os restos de papel queimado, e os identificou como papel de carta, de alta qualidade. Combinam com papéis de carta, ou o tipo usado por advogados para registrar documentos oficiais. Dificilmente alguém escreveria um livro naquele papel. É mais provável que a senhorita Harper tenha queimado cartas e papéis pessoais."

       "Cartas de Beryl Madison?"

       "Não podemos descartar esta possibilidade", respondi, embora já a tivesse descartado.

       "Ou, quem sabe, cartas de Cary Harper?"

       "Encontramos uma coleção de papéis pessoais dele, na casa", expliquei. "Não havia nenhum sinal de que alguém os remexera, ou removera uma parte."

       "Se as cartas eram de Beryl Madison, por que a senhorita Harper as queimaria?"

       "Não sei", confessei, sabendo que Ethridge pensava em seu desafeto, Sparacino.

       Sparacino agira rapidamente. Tive acesso ao processo, ou a suas trinta páginas iniciais. Sparacino responsabilizava minha pessoa, a polícia e o governo estadual. Quando liguei para Rose, da última vez, ela me informou que a revista People telefonara. Um dos repórteres fotografara o prédio do departamento, de fora, pois não passara do saguão. Minha fama crescia. Especializei-me em recusar entrevistas e sumir do mapa.

       "Acredita que se trata de um psicótico, certo?", Ethridge perguntou, sem rodeios.

       Apesar da fibra acrílica alaranjada e seus vínculos com seqüestradores, era o que eu pensava, e disse isso.

       Ele baixou os olhos para o desjejum, ainda na metade, e, quando os ergueu, surpreendi-me com o que vi. Tristeza, desapontamento. E relutância terrível.

       "Kay", ele falou, "não tenho como tocar neste assunto de modo mais suave."

       Estendi a mão para pegar um biscoito.

       "Você precisa saber. Não importa o que esteja acontecendo ou não, não importa o que você possa pensar, em particular. Precisa saber de uma coisa."

       Decidi fumar, em vez de comer, e puxei o maço de cigarro.

       "Tenho um contato. Basta que saiba que ele acompanha as investigações do Departamento de Justiça..."

       "Vai falar de Sparacino", interrompi.

       "Vou falar de Mark James", ele disse.

       Não poderia ter me assustado mais, nem se o procurador-geral tivesse soltado um palavrão.

       Perguntei-, "Qual é o problema com Mark?".

       "Acho que você deveria responder, Kay."

       "Aonde pretende chegar, exatamente?"

       "Vocês dois foram vistos juntos em Nova York, faz algumas semanas. No Gallagher's." Seguiu-se uma pausa tensa, e eu disfarcei, ridiculamente: "Não vou lá há anos".

       Ele olhou para a fumaça que saía do meu cigarro.

       "Pelo que me lembro, o filé de lá é ótimo..."

       "Chega, Tom", falei em voz baixa.

       "Muitos irlandeses freqüentam aquele lugar, e abusam da bebida e das brincadeiras..."

       "Já chega, por favor", pedi, elevando a voz.

       O senador Partin nos encarou, de sua mesa, ligeiramente curioso, e trocou um olhar breve com Ethridge, e depois me encarou, por uma fração de segundo. O garçom surgiu do nada, para servir o café e perguntar se desejávamos mais alguma coisa. Eu me sentia desconfortavelmente quente.

       "Não me enrole, Tom", falei. "Quem me viu?"

       Ele gesticulou, como se aquilo não fosse importante. "Só importa como você o conheceu."

       "Eu o conheci há muito tempo."

       "Isso não é resposta."

       "Estudamos direito juntos."

       "Eram amigos?"

       "Sim."

       "Amantes?"

       "Minha nossa, Tom."

       "Lamento, Kay. É muito importante." Limpando os lábios com o guardanapo, ele pegou a xícara de café, e os olhos percorreram o salão. Ethridge estava pouco à vontade. "Digamos que vocês dois passaram boa parte da noite juntos, em Nova York. No hotel Omni."

       Meu rosto pegou fogo.

       "Não me importo nem um pouco com sua vida pessoal, Kay. Duvido que alguém se importe, tampouco. Exceto neste caso. Sabe, eu lamento muito." Ele limpou a garganta, e finalmente olhou para mim novamente. "Droga. O amiguinho de Mark, Sparacino, está sendo investigado pelo Departamento de Justiça..."

       "Amiguinho?"

       "Isso tudo é muito sério, Kay", Ethridge prosseguiu. "Não sei como Mark James era quando o conheceu, mas sei muito bem o que ele se tornou depois. Vi a ficha do sujeito. Depois que vocês foram vistos juntos, andei investigando. Ele se meteu com coisas sérias em Tallahassee, faz sete anos. Golpes. Fraudes. Crimes pelos quais foi condenado. Passou um tempo na cadeia. Depois disso, acabou se envolvendo com Sparacino, que está ligado ao crime organizado, ao que consta."

       Senti o coração apertado por uma morsa, que lhe tirou todo o sangue, e devo ter empalidecido, pois Ethridge rapidamente passou um copo com água, e esperou pacientemente que eu me recompusesse. Quando nossos olhos se cruzaram novamente, ele prosseguiu, do ponto onde interrompera suas declarações avassaladoras.

       "Mark jamais trabalhou para Orndorff & Berger, Kay. A firma nunca ouviu falar nele. O que não me surpreende. Mark James jamais poderia exercer a profissão, seu diploma de advogado foi cassado. Ao que parece, trabalha como assistente pessoal de Sparacino."

       "E Sparacino trabalha para Orndorff & Berger?", consegui perguntar.

       "Cuida dos direitos autorais e entretenimento. Esta parte é verdadeira", ele respondeu.

       Não falei nada, lutando para controlar as lágrimas.

       "Fique longe dele, Kay", Ethridge disse, a voz como uma carícia rude, em sua tentativa de ser gentil. "Pelo amor de Deus, afaste-se deste sujeito. Seja lá o que for que tenha com ele, rompa."

       "Não tenho nada com ele", falei, abalada.

       "Quando manteve contato com ele, pela última vez?"

       "Fez algumas semanas. Ele ligou. Conversamos por trinta segundos, no máximo."

       Ele balançou a cabeça, como se já esperasse ouvir isso. "É a vida dos paranóicos. Um dos frutos venenosos da atividade criminal. Duvido que Mark James aprecie telefonemas longos. Duvido que se aproximasse de você, sem segundas intenções. Explique-me como foi parar em Nova York, na companhia dele."

       "Ele queria se encontrar comigo. Para me alertar sobre Sparacino", acrescentei, envergonhada. "Ou, pelo menos, foi o que disse."

       "E ele a alertou?"

       "Sim."

       "O que disse, exatamente?"

       "As mesmas coisas que você já mencionou, sobre Sparacino."

       "E por que Mark lhe disse tudo isso?"

       "Ele alegou que tentava me proteger."

       "Acreditou?"

       "Não sei mais no que acreditar", falei.

       "Está apaixonada por este sujeito?"

       Encarei o procurador-geral, e meus olhos se endureceram como pedras.

       Ele prosseguiu, calmamente: "Preciso saber o quanto você está vulnerável. Por favor, não pense que eu gosto de fazer isso, Kay".

       "Por favor digo eu. Também não gosto nem um pouco desta história, Tom." Não procurei esconder meu desagrado.

       Ethridge removeu o guardanapo do colo, e o dobrou cuidadosa e deliberadamente, antes de colocá-lo sob o prato.

       "Tenho motivos para me preocupar", disse, com tanta suavidade que precisei me debruçar para escutá-lo. "Mark James pode lhe fazer um mal terrível, Kay. Tenho meus motivos para suspeitar que ele está por trás do arrombamento de seu escritório..."

     "Que motivos?", interrompi, erguendo a voz. "Do que está falando? Que provas pode ter..." As palavras ficaram presas em minha garganta, pois o senador Partin e seu jovem acompanhante aproximaram-se de nossa mesa. Nem cheguei a perceber quando se levantaram e vieram para cá. Podia dizer, por suas expressões, que interromperam uma conversa séria de propósito.

       "John, mas que bom revê-lo", Ethridge disse, levantando-se da cadeira. "Já conhece a legista titular, Kay Scarpetta?"

       "Claro, claro. Como tem passado, doutora Scarpetta?" O senador apertou minha mão, sorrindo, os olhos distantes. "Este é meu filho, Scott."

       Notei que Scott não herdara os traços rústicos, quase ásperos do pai, nem o corpo atarracado. Aquele rapaz era assombrosamente formoso, alto, atlético, o rosto fino emoldurado por uma coroa de cabelos pretos magníficos. Teria vinte e poucos anos, e a insolência discreta de seu olhar me incomodava. A conversa cordial não atenuou meu assombro. Tampouco me senti melhor quando o pai e o filho finalmente nos deixaram a sós novamente.

       "Já o vi antes", falei a Ethridge, depois que o garçom serviu outra xícara de café.

       "Quem? John?"

       "Não... não, claro que já conheço bem o senador. Estou falando do filho, Scott. Seu rosto parece familiar."

       "Provavelmente o viu na televisão", ele explicou, consultando discretamente o relógio. "É ator, ou tenta ser. Até agora('só conseguiu papéis secundários em novelas."

       "Oh, meu Deus", murmurei.

       "Talvez algumas pontas em filmes, também. Morava na Califórnia, e agora está em Nova York."

       "Não", falei, atônita.

       Ethridge deixou o café de lado, e fixou os olhos calmos em mim.

       "Como ele sabia que estávamos tomando café da manhã aqui, Tom?", perguntei, fazendo de tudo para manter a voz neutra, conforme as imagens do Gallagher's voltavam à minha mente. O rapaz solitário, tomando cerveja numa mesa próxima àquela ocupada por Mark e por mim.

       "Não sei como ele descobriu", Ethridge respondeu, os olhos brilhando de satisfação secreta. "Basta dizer que não me surpreende, Kay. O filho de Partin vem me seguindo há dias."

       "Ele não é seu contato no Departamento de Justiça..."

       "Meu Deus, claro que não", Ethridge disse, enfático.

     "Sparacino?"

       "Aposto que sim. Isso faz sentido, não é, Kay?"

       "Por quê?"

       Ele conferiu a conta, dizendo: "Para tomar pé no que está ocorrendo. Para espionar. Para intimidar". Ele me encarou. "Pode escolher."

       Scott Partin me chamou atenção, por ser um rapaz do tipo capaz de se destacar por seu magnífico isolamento. Eu me lembro que ele lia o Times de Nova York, tomando cerveja, melancólico. Só o notei porque pessoas extremamente bonitas, como lindos arranjos de flores, raramente passam despercebidos.

       Senti vontade de contar tudo a Marino, quando descemos de elevador para o primeiro andar, no prédio do meu departamento, naquela manhã.

       "Tenho certeza", repeti. "Ele estava sentado a duas mesas da nossa, no Gallagher's."

       "Sozinho?"

       "Correto. Tomava cerveja. Não creio que estivesse comendo. Não me lembro", falei, quando passamos pelo depósito imenso, cheirando a papelão e pó.

       Minha mente e meu coração haviam disparado, tentando situar as mentiras de Mark. Segundo ele, Sparacino não sabia de minha ida a Nova York, e apenas por coincidência apareceu na churrascaria. Não podia ser verdade. O filho de Partin fora enviado para me espionar, naquela noite, e isso só poderia acontecer se Sparacino soubesse onde me encontrar, com Mark.

       "Bem, podemos ver isso de outro ângulo", Marino disse, enquanto caminhávamos pelos subterrâneos empoeirados do meu departamento. "Digamos que um dos meios de sustento para ele, na Big Apple, seja fazer uns servicinhos de espionagem para Sparacino, certo? Então, pode ser que Partin tenha sido enviado para vigiar Mark, e não você. Lembre-se, Sparacino recomendou a churrascaria de Nova York a Mark — ou, pelo menos, foi isso que Mark lhe disse. Portanto, Sparacino já calculava que Mark jantaria lá, naquela noite. Sparacino manda Partin para a churrascaria, com o objetivo de vigiar Mark. Partin concorda, e espera por ele, tomando cerveja. Vocês dois entram. A certa altura, ele sai de fininho e liga para Sparacino, dando o serviço. Bingo! Em seguida, Sparacino aparece."

       Eu queria tanto acreditar nisso.

       "Só uma teoria", Marino acrescentou.

       Sabia que não poderia acreditar nela. A verdade, insisti, sem querer disfarçar nada, era que Mark me traíra. Não passava de um criminoso, como Ethridge afirmara.

       "Precisa levar todas as possibilidades em consideração", Marino concluiu.

       "Claro", resmunguei.

       Passamos por mais um corredor estreito e paramos na frente de uma pesada porta metálica. Encontrei a chave certa, e entramos no local onde os especialistas em armas realizam os testes balísticos em quase todas as armas de fogo portáteis conhecidas pelo homem. Era um stand de tiro especial, em bloco de cimento e chumbo. Uma das paredes, cheia de prateleiras, exibia dezenas de revólveres, pistolas e metralhadoras confiscadas pelos tribunais e enviadas para análise. Escopetas e rifles pendiam nos ganchos. Na parede do fundo a placa de aço reforçada no centro exibia as marcas de milhares e milhares de disparos, realizados ao longo dos anos. Marino encaminhou-se para um dos cantos, onde manequins e suas partes — torsos, pernas, quadris e cabeças — estavam empilhados, numa recordação macabra das covas coletivas de Auschwitz.

       "Prefere a cor clara, certo?", ele perguntou, selecionando um torso de manequim masculino de pele pálida.

       Ignorei-o, abrindo a bolsa para pegar o Ruger de aço inoxidável. A pilha de plástico fez barulho, enquanto ele escolhia uma cabeça caucasiana, com cabelos e olhos castanhos pintados. Fixou-a no torso do manequim, que apoiou numa caixa de papelão encostada na parede de aço, a uns trinta passos de distância.

       "Acerte um tiro, e tchau mesmo", Marino disse.

       Municiei o revólver, e olhei para Marino, que sacou a pistola nove milímetros da cintura, nas costas. Ele removeu o pente, examinou-o e o recolocou na posição.

       "Feliz Natal", disse, oferecendo-a a mim, travada, com a coronha em minha direção.

       "Não, muito obrigada", falei, o mais educadamente possível.

       "Cinco tiros, com sua arma, e você está fora do jogo."v

       "Se eu errar."

       "Cascata, doutora. Todo mundo erra. Seu problema, com o Ruger, é ter poucos tiros."

       "Prefiro acertar com a minha, do que errar com a sua, que só serve para espalhar chumbo para todos os lados."

       "Tem muito mais poder de fogo", ele disse.

       "Sei disso. Cinco vezes mais, a quinze metros, mesmo que eu use munição Silvertips Plus."

       "Isso, e o triplo de tiros", Marino acrescentou.

       Já treinara com nove milímetros antes, e não gostava destas pistolas. Não possuíam a precisão do meu 38 especial. Ofereciam menos segurança, pois costumavam travar. Jamais apreciei a substituição da qualidade pela quantidade. Melhor treinar e conhecer minha própria arma.

       "Só preciso acertar um tiro", falei, colocando os protetores nos ouvidos.

       "Claro. Entre os olhos."

       Firmando o revólver com a mão esquerda, apertei o gatilho repetidamente, e acertei o manequim. Uma vez na cabeça, três no peito. O quinto tiro pegou no ombro. Tudo Isso aconteceu em poucos segundos. A cabeça e o torso, separados, caíram da caixa, e bateram na parede do fundo, com uni baque surdo.

       Sem dizer palavra, Marino deixou a nove milímetros em tinia da mesa e sacou a 357 do coldre do peito. Percebi que ferira seu orgulho. Sem dúvida, pois ele se dera ao trabalho de providenciar a automática para mim. Pensou que eu ia gostar.

       "Muito obrigado, Marino", falei.

       Carregando seu revólver, ele o ergueu lentamente.

       Tentei dizer que apreciava sua gentileza, mas ele não me escutou, ou não prestou atenção.

       Recuei, quando ele disparou seis vezes, fazendo com que a cabeça do manequim dançasse alucinadamente, no chão. Recarregando a arma, ele atacou o torso. Quando terminou, a fumaça de pólvora enchera o ar com seu cheiro acre, e percebi que jamais desejaria ver Marino bravo de verdade comigo.

       "O melhor é acertar o sujeito quando ele está caído", falei.

       "Isso mesmo", ele disse, removendo o protetor de ouvido. "É o melhor."

       Deslizamos a placa de madeira pelo trilho acima de nossas cabeças e posicionamos um alvo de papel no fundo do stand. Quando acabei com a caixa de balas, concluindo que ainda era capaz de acertar um muro à queima-roupa, disparei alguns Silvertips, para limpar o cano. Em seguida, peguei um pano com Hoppe Número 9- O solvente sempre me fazia pensar em Quantico.

       "Quer minha opinião?", Marino disse, enquanto limpava a arma. "Acho melhor você deixar uma escopeta à mão, em casa."

       Não falei nada, guardando o Ruger na caixa.

       "Sabe, uma do tipo autocarregável, Remington, calibre doze, cano duplo. É como acertar o idiota com quinze disparos de trinta e dois — o triplo do que pode fazer, com três cargas completas. São quarenta e cinco bolas de chumbo. Vai dar e sobrar."

       "Marino", falei calmamente, "estou bem. Não preciso de um arsenal."

       Ele me encarou, fechando a cara. "Tem alguma idéia do que é acertar um cara, e ele continuar avançando em cima de você?"

       "Não tenho", respondi.

       "Sabe, eu tenho. Quando morava em Nova York, esvaziei a arma num animal, pirado de PCP. Acertei o filho da mãe quatro vezes, no peito, mas ele nem piscou. Parecia uma história de Stephen King, o cara vinha feito um morto-vivo."

       Achei algumas toalhas de papel no bolso do jaleco, e comecei a limpar o óleo e o solvente das mãos.

       "O maluco que caçou Beryl na casa dela, doutora, era igual ao lunático que me atacou. Não sei qual é a dele, mas nada o deterá, quando avançar."

       "O sujeito em Nova York", eu quis saber, "morreu?"

       "Ah, claro. No pronto-socorro. Fomos para o hospital na mesma ambulância. Um belo passeio."

       "Você foi ferido?"

       O rosto de Marino se contraiu, quando ele disse: "Não foi nada. Setenta e oito pontos. Só uns cortes. Nunca me viu sem camisa? O cara tinha uma faca".

       "Que coisa horrível", murmurei.

       "Odeio facas, doutora."

       "Eu também", concordei.

       Fomos embora. Eu me sentia suja de óleo e resíduos de pólvora. Atirar é muito mais nojento do que a maioria das pessoas imagina.

       Marino puxou a carteira, enquanto caminhávamos. E me entregou um cartão branco.

       "Mas eu não preenchi o formulário de pedido", falei, espantada, ao ver a permissão para porte de arma.

       "Eu sei. Mas o juiz Reinhard me devia um favorzinho."

       "Obrigada, Marino", falei.

       Ele sorriu, e abriu a porta para mim.

      

       Apesar dos conselhos de Wesley e Marino, e do meu próprio bom senso, fiquei no prédio até depois de escurecer. O estacionamento estava deserto. Eu havia deixado muito .serviço acumulado, em minha mesa, mas uma consulta à agenda me tranquilizou.

       Rose reorganizara minha vida, sistematicamente. Reuniões haviam sido transferidas ou canceladas; as conferências e autópsias passadas a Fielding. O secretário de Saúde, meu superior imediato, tentara falar comigo, em três ocasiões, e finalmente perguntou se eu estava doente.

       Fielding especializara-se em me substituir. Rose datilografava os relatórios de autópsias e ditados. Fazia o trabalho dele, na verdade, e não o meu. O sol continuava a nascer e a se pôr, e o departamento desempenhava suas funções, sem maiores dramas, porque eu escolhera e treinara bem a equipe. Sabia agora como Deus se sentira, depois de criar um mundo que passou a pensar que não precisava mais Dele.

       Não voltei direto para casa. Peguei o carro e passei antes em Chamberlayne Gardens. Encontrei os mesmos avisos defasados na parede do elevador. Subi em companhia de uma senhora encarquilhada, que não tirou os olhos solitários de mim, agarrada à bengala como um pássaro a seu poleiro.

       Não telefonei avisando a sra. McTigue de minha visita. Quando a porta do 378 finalmente se abriu, depois que bati com força, por muito tempo, ela me olhou intrigada, de seu refúgio entupido de mobília e som de televisão no último volume.

       "Senhora McTigue?" Eu me apresentei novamente, pois não sabia se ela se recordaria de mim.

       A porta se abriu, e seu rosto também. "Claro. Mas é claro! Quanta gentileza sua em me visitar. Entre, por favor."

       Usava um vestido caseiro cor-de-rosa, combinando com o chinelo, e, quando a acompanhei até a sala, ela desligou a televisão e tirou a pequena toalha do sofá, onde evidentemente se acomodara para comer pão integral, tomar suco e ver o noticiário vespertino.

       "Por favor, me desculpe", falei. "Interrompi seu lanche."

      "Absolutamente. Eu estava só beliscando alguma coisa. Aceita um refresco?" Ela ofereceu, imediatamente.

       Recusei, polidamente, e me sentei, enquanto ela ajeitava a sala, apressada. Senti um aperto no coração, ao me recordar de vovó, cujo bom humor se manteve intacto, mesmo depois que a pele se estragou, em torno das orelhas. Jamais me esquecerei de uma visita a Miami, no verão, pouco antes de sua morte, quando a levei às compras. O alfinete da "fralda" improvisada com cuecas e Kotex se abriu, e a fralda desceu até os joelhos, no meio da Woolworth. Ela correu para o toalete das senhoras. Rimos tanto que eu quase perdi o controle da bexiga, também.

       "É provável que tenhamos neve esta noite", a sra. McTigue comentou, ao sentar-se.

       "Lá fora está bem úmido", retruquei, distraída. "E faz muito frio. Talvez neve, mesmo."

       "Duvido que a neve se acumule, entretanto."

       "Odeio dirigir na neve", falei, sentindo a mente lotada de coisas pesadas, desagradáveis.

       "Talvez neve no Natal, este ano. Não seria ótimo?"

       "Seria ótimo." Procurava em vão por uma máquina de escrever, no apartamento.

       "Não me lembro do último Natal com neve que tivemos."

       A conversa nervosa tentava ocultar sua inquietação. Sabia que eu estava ali por algum motivo, e que não trazia boas notícias.

       "Tem certeza de que não quer tomar alguma coisa? Um cálice de vinho do Porto?"

       "Não, obrigada", falei.

       Silêncio.

       "Senhora McTigue", arrisquei. Seus olhos revelavam insegurança e desamparo infantis. "Posso ver aquela fotografia outra vez? A que me mostrou, em minha visita anterior?"

       Ela piscou várias vezes, o sorriso fino e pálido como uma cicatriz.

       "A foto de Beryl Madison", acrescentei.

       "Claro, certamente", ela disse, e se levantou lentamente, com ar resignado. Foi até a escrivaninha buscá-la. Medo, talvez confusão, passaram por seu rosto, quando me entregou a fotografia. Pedi também para ver o envelope e a folha de papel creme.

       Percebi instantaneamente, pelo tato, que se tratava de um papel semelhante. Quando estudei as marcas-d'água da Crane, claras contra a luz, tive certeza. Olhei rapidamente para a foto, e naquela altura a sra. McTigue já se mostrava abertamente surpresa.

       "Lamento", falei. "Deve estar curiosa para saber por que estou fazendo isso."

       Ela não encontrou palavras para se expressar.

       "Estou curiosa. A foto parece muito mais antiga que o papel que a protege."

       "E é", ela retrucou, os olhos amedrontados fixos em mim. "Encontrei a foto entre os papéis de Joe, e a guardei no envelope, para que não se estragasse."

       "Costuma usar papel de carta e envelopes assim?", perguntei, com o máximo de tato possível.

       "Ah, não." Ela estendeu a mão, pegou o copo de suco e bebeu lentamente. "Era do meu marido. Mas eu o escolhi, para ele. Um belo papel, para usar na firma. Depois de seu falecimento, passei a usar as folhas brancas, de cópia, e os envelopes. Tenho mais, se quiser ver."

       Não havia outro modo de saber, a não ser inquirindo-a diretamente.

       "Senhora McTigue, seu marido tinha máquina de escrever?"

       "Mas é claro. Eu a dei para nossa filha, que mora em Falls Church. Sempre preferi escrever minhas cartas a mão. Não faço mais isso, por causa da artrite."

       "Qual o tipo de máquina?"

       "Sei lá. Não me lembro. Só posso dizer que era elétrica, e nova", ela gaguejou. "Joe trocava de máquina, depois de alguns anos. Sabe, mesmo quando os computadores surgiram, ele continuou a cuidar da correspondência do jeito antigo. Burt — o gerente da empresa — insistiu para que Joe usasse o computador, mas Joe sempre preferiu a máquina de escrever."

       "Em casa, ou no escritório?", perguntei.

       "Nos dois locais. Costumava levar serviço para casa e trabalhar até tarde, na biblioteca."

       'Ele se correspondia com os Harper, senhora McTigue?"

       Ela tirou um lenço do bolso do robe e começou a torcê-lo nas mãos.

       "Lamento fazer tantas perguntas", falei, com gentileza.

       Ela olhou para as mãos contraídas, e não disse nada.

       "Por favor", insisti. "É importante. Caso contrário, eu não perguntaria."

       "É sobre aquela mulher, não é?" O lenço estava rasgando, e ela não ergueu a cabeça.

       "Sterling Harper."

       "Isso mesmo."

       "Por favor, me conte, senhora McTigue."

       "Ela era adorável. Tão graciosa. Uma dama", a sra. McTigue disse.

       "O seu marido se correspondia com a senhorita Harper?", perguntei.

       "Tenho quase certeza que sim."

       "O que a levou a pensar isso?"

       "Eu o vi escrevendo cartas, uma ou duas vezes. Sempre dizia que era coisa da firma."

       Não falei nada.

       "Sim, meu Joe." Ela sorriu, com os olhos vidrados. "Um verdadeiro cavalheiro. Sempre beijava a mão das damas. Fazia com que se sentissem verdadeiras rainhas."

       "A senhorita Harper também escrevia para ele?", perguntei, hesitante, pois não via graça alguma em cutucar velhas feridas.

       "Não que eu saiba."

       "Ele escrevia, mas ela nunca respondia as cartas?"

       "Joe adorava escrever cartas. Sempre disse que escreveria um livro, algum dia. E gostava muito de ler, também."

       "Entendo por que apreciava tanto Cary Harper, então."

       "O senhor Harper sentia muita frustração, com freqüência, e telefonava. Suponho que o termo seja bloqueio da criatividade. Ele telefonava para Joe, e os dois conversavam sobre coisas interessantes, por horas a fio. Literatura, e o que mais os interessasse." O lenço se transformara num monte de papel picado, em seu colo. "Joe gostava muito de Faulk-ner, como pode imaginar. E também de Hemingway e Dos-toievski. Quando começamos a namorar, eu morava em Arlington, e ele aqui. Escrevia as cartas mais maravilhosas que alguém poderia receber."

       Cartas semelhantes àquelas que escrevera a outro amor, na maturidade, pensei. Cartas como aquelas que escrevera a uma mulher sensacional e solteira, Sterling Harper. Cartas que ela, uma dama, queimara antes de cometer suicídio, pois não queria perturbar os sentimentos e lembranças da viúva.

       "Encontrou-as, então", ela disse, com a voz sumida.

       "Se encontrei cartas para ela?"

       "Sim. As cartas dele."

       "Não." Foi, talvez, a meia-verdade mais piedosa que já falei. "Não encontramos nada do gênero, senhora McTigue. A polícia não encontrou nenhuma correspondência de seu marido, entre os pertences dos Harper, nem papel de carta com o timbrado, e muito menos cartas íntimas, endereçadas a Sterling Harper."

       Seu rosto desanuviou-se, com a negativa enfática.

        "A senhora passava muito tempo com os Harper? Socialmente, por exemplo?", perguntei.

       "Sim, é claro. Estive com eles duas vezes, pelo que me recordo. O senhor Harper foi a nossa casa, para um jantar. E, em determinada ocasião, os Harper e Beryl Madison passaram a noite conosco."

       Interessante. "Quando eles passaram a noite em sua casa?"

       "Poucos meses antes do falecimento de Joe. Creio que tenha sido no Ano-Novo, um ou dois meses antes da palestra de Beryl para nosso grupo. Na verdade, tenho certeza, pois a árvore de Natal ainda estava montada. Sim, foi isso mesmo. Adorei receber sua visita."

       "De Beryl?"

       "Mas é claro! Adorei. Acho que os três tinham ido a Nova York, tratar de negócios. Uma reunião com o agente de Beryl, provavelmente. Passaram por Richmond, a caminho da casa deles, e aceitaram o convite para passar a noite conosco. Quanta gentileza. Quero dizer, os Harper dormiram lá. Beryl morava em Richmond, sabe. De noite, Joe a levou para casa. E, na manhã seguinte, foi com os Harper até Williamsburg."

       "O que aconteceu, naquela noite?"

       "Deixe-me ver... eu me lembro de ter feito pernil de cordeiro. Chegaram tarde do aeroporto, pois a companhia aérea havia perdido as malas do senhor Harper."

       Fazia quase um ano, pensei. Aconteceu antes de Beryl começar a receber as ameaças, a crer nas informações disponíveis.

       "Estavam muito cansados, por causa da viagem", a sra. McTigue prosseguiu. "Mas Joe se esforçou ao máximo. Era o anfitrião mais charmoso que já conheci."

       A sra. McTigue sabia? Poderia ter percebido, pelo modo como o marido olhava para a srta. Harper, que estava apaixonado por ela?

       Lembrei-me do olhar distante de Mark, no final de nosso namoro. Já fazia tanto tempo! Quando vi aquele olhar, entendi tudo. Foi instintivo. Compreendi que ele não pensava mais em mim, mas recusei-me a acreditar que estivesse apaixonado por outra pessoa, até que ele me contou.

       "Kay, lamento", ele disse quando tomamos café irlandês pela última vez, em nosso bar favorito de Georgetown. Os floquinhos de neve caíam em espiral, do céu cinzento, e os casais radiantes caminhavam abraçados, em seus casacos de inverno e cachecóis coloridos tricotados. "Sabe que eu a amo, Kay."

       "Mas não do mesmo jeito que eu o amo", falei, meu coração atormentado pela dor mais intensa que já senti.

       Ele baixou os olhos. "Nunca pretendi magoar você."

        "Claro que não."

       "Sinto muito. Sinto muito."

       Sentia mesmo. Eu tinha certeza que sim. Mas isso não mudava nada, diacho.

       Jamais soube o nome dela, nem quis saber. Não era a mulher com quem se casou, mais tarde, a tal de Janet, que morreu. Talvez fosse tudo mentira, também.

       "... ele estava muito irritado."

       "Quem?", perguntei, e meus olhos focalizaram a sra. McTigue, novamente.

       "O senhor Harper", ela explicou, e estava começando a se mostrar cansada. "Irritou-se tanto com o extravio da bagagem. Felizmente, as malas vieram no vôo seguinte." Ela fez uma pausa. "Minha nossa. Parece que faz tanto tempo, e no entanto não faz tanto tempo assim."

       "E quanto a Beryl?", perguntei. "Do que se recorda, no que diz respeito a ela, na noite em questão?"

       "Todos mortos, agora." Suas mãos continuavam cruzadas no colo, e seu rosto era um espelho escuro, vazio. Todos mortos, menos ela; todos os convidados da temível e deliciosa noite, fantasmas.

       "Falemos sobre eles, senhora McTigue. Ainda estão conosco."

       "Tem razão", ela disse, os olhos molhados de lágrimas.

       "Precisamos da ajuda deles, e eles da nossa."

       Ela fez que sim.

       "Fale mais sobre aquela noite", insisti. "Fale sobre Beryl."

       "Beryl quase não falou. Lembro-me de que ela passou muito tempo olhando para o fogo."

       "O que mais?"

       "Aconteceu uma coisa."

       "O quê? O que aconteceu, senhora McTigue?"

       "Ela e o senhor Harper pareciam descontentes um com o outro", ela disse.

       "Por quê? Discutiram?"

       "Aconteceu depois que o rapaz trouxe a bagagem. O senhor Harper abriu uma das malas e tirou um envelope contendo papéis. Não sei o que era. Mas ele bebeu demais."

       "E então, o que houve?"

       "Ele trocou palavras duras com a irmã e Beryl. Depois pegou os papéis e os atirou ao fogo. Ele disse: 'Eis o que eu penso disso! Lixo, lixo!'. Ou algo do gênero."

       "Sabe o que ele queimou? Um contrato, talvez?"

       "Creio que não", ela disse. "Fiquei com a impressão de que era um texto escrito por Beryl. As páginas estavam datilografadas, e sua raiva se concentrou nela."

       A autobiografia que Beryl escrevia, pensei. Ou, talvez, um esboço, que a srta. Harper, Beryl e Sparacino haviam discutido em Nova York, com Cary Harper, cada vez mais enfurecido e descontrolado.

       "Joe se meteu na história", ela disse, cruzando os dedos, controlando a dor.

       "E o que ele fez?"

       "Ele a levou para casa. Levou Beryl Madison para a casa dela." Ela parou, olhando para mim apavorada. "Foi por isso que tudo aconteceu. Eu sei."

       "Por isso o que aconteceu?"

       "Por isso eles morreram", ela disse. "Sei disso. Senti desde o início. Foi uma sensação pavorosa."

       "Consegue descrevê-la para mim? Pode fazer isso?"

       "Por isso eles morreram", ela repetiu. "Havia ódio demais naquela sala, naquela noite."

    

       O hospital Valhalla situava-se numa elevação, no mundo sofisticado da comarca de Albemarle, para onde os vínculos entre meu departamento e a universidade da Virgínia me levavam várias vezes por ano. Embora já tivesse notado o imponente edifício de tijolos, numa colina distante, visível da Interestadual, nunca visitara o hospital, quer por motivos pessoais, quer profissionais.

       O antigo hotel, freqüentado por milionários e colunáveis, faliu durante a Depressão, e foi comprado por três irmãos psiquiatras. Eles se dedicaram, sistematicamente, à transformação no Valhalla numa usina freudiana, numa estância psiquiátrica onde as famílias de posses podiam esconder seus constrangimentos e embaraços genéticos, seus velhos senis e garotos mal programados.

       Não me surpreendi, realmente, ao saber que Al Hunt fora internado lá, na adolescência. O que me surpreendeu foi a relutância de seu psiquiatra em discutir o caso. Por trás da cordialidade profissional do dr. Warner Masterson, deparei-me com uma muralha de evasivas capaz de quebrar as brocas das furadeiras dos mais tenazes inquisidores. Percebi que ele não queria falar comigo. Ele percebeu que não tinha escolha.

       Parei numa das vagas destinadas a visitantes, no estacionamento de pedrisco, e entrei no saguão mobiliado no estilo vitoriano, com tapetes orientais e cortinas pesadas com sanefas, já um tanto puídas. Antes que eu anunciasse minha presença ao recepcionista, uma voz atrás de mim falou:

       "Doutora Scarpetta?"

       Dei meia-volta, e vi um negro alto, esguio, usando terno azul-marinho, com corte europeu. Seu cabelo começava a branquear. Tinha maçãs do rosto e testa altas, aristocráticas.

       "Sou Warner Masterson", disse, sorrindo cordialmente ao estender a mão.

       Quase pensei que já o conhecia, de algum congresso, quando ele me explicou que me reconhecera das fotografias nos jornais e do noticiário televisivo. Eu poderia passar sem essa.

       "Vamos até minha sala", ele sugeriu sorridente. "Espero que a viagem não tenha sido muito cansativa. Quer tomar alguma coisa? Café? Soda?"

       Ele não parou de andar enquanto falava, e esforcei-me ao máximo para acompanhar suas passadas largas. Uma parcela significativa da raça humana não faz idéia do que é ter pernas curtas, e sempre acabo correndo de modo constrangedor, atrás dos outros, como um carrinho de mão entre trens expressos. O dr. Masterson chegou ao final de um corredor longo, acarpetado, quando finalmente teve a delicadeza de olhar para trás. Parou na frente de uma porta, e esperou até que o alcançasse, antes de me convidar para entrar. Acomodei-me numa poltrona, enquanto ele se sentava atrás da mesa, e automaticamente enchia um caríssimo cachimbo de roseira com tabaco.

       "Desnecessário dizer, doutora Scarpetta", principiou o dr. Masterson, com sua voz contida, lenta, ao abrir uma pasta volumosa, "lamentei profundamente a morte de Al Hunt."

       "Ela o surpreendeu?", perguntei.

       "Não totalmente."

       "Gostaria de repassar o caso dele", falei.

       Ele hesitou o bastante para que eu cogitasse em lembrá-lo de meus direitos legais aos registros. Antes disso, porém, ele sorriu novamente, e disse, ao entregá-lo: "Certamente".

       Abri o envelope pardo e examinei seu conteúdo, enquanto a fumaça azulada do cachimbo enchia o ar, como madeira aromática sendo queimada. O histórico de Al Hunt e seu exame inicial eram pura rotina. Gozava de boa saúde, ao ser admitido na manhã de dez de abril, havia onze anos. Os detalhes do exame de sua condição mental já davam margem a especulações,

       "Estava em estado de catatonia, ao ser admitido?", perguntei.

       "Extremamente deprimido, sem reagir a nada", o dr. Masterson respondeu. "Não soube nos dizer o motivo de sua presença aqui. Não soube nos dizer nada. Não tinha energia emocional para responder a nenhuma pergunta. Perceberá, pelo relatório, que não conseguimos administrar os testes Stanford-Binet, nem o MMPI, e que fomos obrigados a aguardar um momento mais propício."

       Os resultados haviam sido arquivados. A marca de Al Hunt no teste de inteligência Stanford-Binet era de 130. Falta de inteligência não era seu mal, e disso eu já sabia. Quanto ao Minnesota Multiphasic Personality Inventory, ele não se enquadrava nos critérios de esquizofrenia ou perturbações mentais com origem cerebral. De acordo com a avaliação do dr. Masterson, Al Hunt sofria de "alteração esquizóide da personalidade, com elementos de personalidade limítrofe, que se manifestaram como ataque psicótico, quando ele cortou os pulsos com uma faca de churrasco, depois de se trancar no banheiro". Um gesto suicida, onde os cortes superficiais eram um grito de socorro, e não uma tentativa séria de acabar com a própria vida. A mãe o levou ao pronto-socorro mais próximo, onde foi suturado e liberado. Na manhã seguinte o levaram ao Valhalla. Uma entrevista com a sra. Hunt revelou que o incidente foi provocado por uma "perda de controle" do marido com Al, durante o jantar.

       "Inicialmente", o dr. Masterson prosseguiu, "Al não participava das terapias ocupacionais ou de grupo, nem das atividades sociais que promovemos para os pacientes. A resposta aos medicamentos antidepressivos foi mínima, e durante as sessões mal conseguíamos fazer com que falasse."

       Como não houve melhora na primeira semana, o dr. Masterson continuou a explicar, chegaram a pensar em tratamento eletroconvulsivo, ou ECT, o que equivale a religar o computador, em vez de determinar as causas da falha. Embora, no final, o resultado possa ser uma reordenação sadia dos processos cerebrais, uma espécie de realinhamento, os "bugs" que causaram o problema seriam inevitavelmente esquecidos, e possivelmente perdidos para sempre. Como regra, ECT não é um tratamento aplicado a jovens.

       "O ECT foi ministrado?", perguntei, ao não encontrar menção no prontuário.

       "Não. Antes que optássemos por ele, na falta de alternativa viável, um pequeno milagre ocorreu, durante o psicodrama, certa manhã."

       Ele parou, para acender novamente o cachimbo.

       "Explique como foi a sessão de psicodrama onde ocorreu a mudança", pedi.

       "Certos procedimentos são automáticos, para induzir o relaxamento, pode-se dizer. Durante a sessão em questão, os pacientes foram enfileirados, e pedimos que imitassem flores. Tulipas, narcisos, margaridas, o que lhes viesse à mente. Cada pessoa assumiria o papel da flor escolhida. Obviamente, pode-se inferir muita coisa, a partir da seleção do paciente. Al participou de uma atividade, pela primeira vez. Agitou os braços, e baixou a cabeça." Ele mostrou, mais parecendo um elefante do que uma flor. "Quando o terapeuta pediu que dissesse qual era a flor, ele respondeu: 'Violeta'." 3

       Não falei nada, sentindo uma onda crescente de compaixão pelo rapaz, cuja vida recriávamos ali.

       "Claro, nossa primeira reação foi presumir que se tratava de uma referência ao que o pai pensava dele", o dr. Masterson explicou, limpando os óculos com um lenço. "Referências duras, zombeteiras, aos trejeitos efeminados do jovem Al, à sua fragilidade. Mas havia muito mais." Ele recolocou os óculos, e me encarou, com firmeza. "Tem noção das associações de cores feitas por Al?"

      

       "Remotamente."

       "Violeta é também uma cor."

       "Correto", concordei.

       "A cor que obtemos ao misturar o azul da depressão com o vermelho da cólera. A cor das contusões, da dor. A cor de Al. Era a cor que radiava de sua alma, dizia."

       "Trata-se de uma cor passional", falei. "Muito intensa."

       "Al Hunt era um jovem muito emotivo, doutora Scarpetta. Sabe que ele era clarividente?"

       "Não exatamente", respondi, pouco à vontade.

       "Seu pensamento mágico incluía clarividência, telepatia, superstições. Desnecessário dizer, estas características surgiam com mais força em momentos de stress, quando ele acreditava ter a capacidade de ler o pensamento alheio."

       "E conseguia, mesmo?"

       "Era muito intuitivo." Acendeu o cachimbo outra vez. "Devo admitir que sua percepção era válida, em muitos casos. Este era um dos problemas de Al. Ele sentia o que os outros sentiam ou pensavam, e parecia possuir um conhecimento apriorístico inexplicável das coisas que outros fariam, ou haviam feito. A dificuldade surgiu, como expliquei em nossa conversa telefônica, nas projeções de Al, que iam longe demais. Ele se perdia nos outros, agitava-se, ficava paranóico, em parte porque seu ego era muito fraco. Como a água, mostrava uma tendência para adquirir a forma do recipiente. Para usar um lugar-comum, personalizava o universo."

       "Um modo de ser muito perigoso", observei.

       "Para dizer o mínimo. Ele está morto."

       "Está dizendo que ele se considerava empático?"

       "Sem dúvida."

       "Considero isso incoerente com o diagnóstico", falei. ' 'As pessoas com desajustes de personalidade em geral não sentem nada pelos outros."

       "Certo, mas o lado mágico de seu pensamento cuidava disso, doutora Scarpetta. Al atribuía seu desajuste emocional e ocupacional à sua empatia avassaladora com os outros. Acreditava realmente que percebia e compartilhava a dor dos outros, que conhecia a mente alheia, como já mencionei. Na verdade, Al Hunt estava isolado socialmente."

       "A equipe do hospital Metropolitan o descreveu como um enfermeiro muito bom, no trato com os enfermos, quando trabalhou lá", lembrei.

       "Não me surpreende", o dr. Masterson argumentou. "Ele era enfermeiro no setor de convalescentes. Jamais sobreviveria ao contato com os pacientes com enfermidades crônicas, que necessitavam de longos períodos de internação. Al era atencioso, desde que não precisasse se envolver demais com a pessoa, desde que não desenvolvesse um relacionamento profundo com a pessoa."

       "Isso explica por que, apesar do diploma em psicologia, ele não conseguia exercer a psicoterapia", conjeturei.

       "Exatamente."

       "E quanto ao relacionamento com o pai?"

       "Era disfuncional, abusivo", ele respondeu. "O senhor Hunt era um sujeito duro, dominador. Sua idéia de educar um filho era espancá-lo até a maturidade. Al simplesmente não estava emocionalmente capacitado para suportar as pressões, as provocações, o universo mental do pai que, na opinião deste, o prepararia para a vida. Isso o atirou nos braços da mãe, onde sua auto-imagem tornou-se cada vez mais confusa. Creio que não haja nenhuma surpresa nisso, para a doutora. Muitos homossexuais masculinos, doutora Scarpetta, são filhos de brutamontes que guiam picapes, portam espingardas e colam bandeiras confederadas no pára-choques."

       Pensei em Marino. Sabia que tinha um filho crescido. Nunca me ocorrera, até aquele momento, que Marino jamais falava no filho, que vivia em algum lugar do oeste.

       Perguntei: "Está sugerindo que Al era homossexual?".

       "Estou apenas dizendo que ele era inseguro, que seus sentimentos de inadequação o prejudicavam muito, a ponto de impedir que reagisse aos estímulos das outras pessoas, ou seja, que mantivesse relacionamentos íntimos de qualquer natureza. Que eu sabia, nunca manteve uma relação homossexual." Seu rosto se manteve inescrutável, quando ele olhou por cima da minha cabeça, chupando o cachimbo.

       "O que aconteceu no psicodrama, naquele dia, doutor Masterson? Qual foi o pequeno milagre ao qual aludiu? Sua imitação de violeta? Só isso?"

       "Isso rompeu a barreira", ele disse. "Mas o milagre, se quer saber, foi um diálogo intenso e volátil que manteve com o pai, que imaginava sentado numa cadeira vazia, no meio da sala. Conforme o diálogo se intensificou, o terapeuta percebeu o que ocorria, sentou-se na cadeira, assumindo o papel do pai de Al. Naquela altura, Al se envolvera tanto que parecia em transe. Não distinguia o real do imaginário, e finalmente soltou toda a sua raiva."

       "Como ela se manifestou? Ele se tornou violento?"

       "Começou a chorar descontroladamente", o dr. Masterson respondeu.

       "O que o 'pai' disse a ele?"

       "Insultou-o, com as palavras de costume, mostrou-se crítico, disse que ele não valia nada como homem, como ser humano. Al era hipersensível às críticas, doutora Scarpetta. Isso, em parte, explicava sua instabilidade. Ele se achava sensível aos outros, quando, na verdade, era sensível só a si mesmo."

       "Havia um assistente social encarregado de Al?", perguntei, continuando a consultar os relatórios, sem encontrar registros feitos pelos terapeutas.

       "Claro."

       "Quem era?" Senti falta de partes do arquivo.

       "O terapeuta que acabei de mencionar", ele retrucou, calmamente.

       "O terapeuta do psicodrama?"

       Ele fez que sim.

       "Ainda trabalha no hospital?"

       "Não", o dr. Masterson disse. "Jim não está mais conosco..."

       "Jim?", interrompi.

       Ele começou a remover o tabaco queimado do cachimbo.

       "Qual é o sobrenome, e onde ele está agora?", perguntei.

       "Lamento informar que Jim Barnes faleceu em um acidente automobilístico, há muitos anos."

       "Quantos anos?"

       O dr. Masterson começou a limpar os óculos outra vez. "Suponho que há oito ou nove anos."

       "Como aconteceu, e onde?"

       "Não me recordo dos detalhes."

       "Uma pena", falei, como se o assunto não me interessasse mais.

       "Deyo presumir que considera Al Hunt suspeito, no caso que investiga?"

       "Há dois casos. Dois homicídios", falei.

       "Muito bem, então. Nos casos."

       "Para ser sincera, doutor Masterson, não cabe a mim decidir quem é suspeito ou não. Trata-se de um problema da polícia. Meu interesse se restringe a obter informações sobre Al Hunt, que possam ajudar á confirmar uma propensão anterior ao suicídio."

       "Existe alguma dúvida quanto a isso, doutora Scarpetta? Ele se enforcou, certo? Poderia ser outra coisa, fora suicídio?"

       "Vestia-se de modo estranho. Camisa e short de boxeador", respondi, preferindo os fatos. "Atitudes assim levam a especulações."

       "Pensa na possibilidade de auto-asfixia erótica?" Ele ergueu a sobrancelha, surpreso. "Uma morte acidental, ocorrida durante a masturbação?"

       "Devo fazer o possível para responder a esta pergunta, caso venha a ser formulada."

        "Entendo. Por questões relativas ao seguro. No caso da família contestar os termos do atestado de óbito."

       "Por qualquer razão", falei.

       "Tem realmente alguma dúvida sobre o ocorrido?", ele perguntou, franzindo o cenho.

       "Não", respondi. "Penso que ele tirou a própria vida, doutor Masterson. Creio que era esta a intenção do rapaz, quando ele desceu ao porão, e que possivelmente tirou a calça quando pegou o cinto. Ele usou o cinto para se enforcar."

       "Muito bem. E talvez eu possa esclarecer outro ponto. Doutora Scarpetta, Al nunca revelou propensão para a violência. O único indivíduo a quem prejudicou, que eu saiba, foi ele mesmo."

       Eu acreditava nele. Acreditava também que me escondia muitas coisas, que seus lapsos de memória e imprecisões eram deliberados. Jim Barnes, pensei. Jim Jim.

       "Quanto tempo Al passou internado aqui?", perguntei, mudando de assunto.

       "Quatro meses, creio."

       "Esteve internado na ala do manicômio judiciário?"

       "Valhalla não tem ala de manicômio judiciário, exatamente, O setor que chamamos de Backhall destina-se aos psicóticos, pacientes sofrendo de DT, qualquer interno que represente perigo para si mesmo. Não recebemos criminosos insanos."

       "E Al algum dia esteve neste setor?", perguntei novamente.

       "Nunca foi necessário."

       "Agradeço muito a atenção", falei, ao me levantar. "Se puder enviar uma fotocópia destes relatórios para mim, pelo correio, serei grata."

       "Providenciarei isso, com o maior prazer." Seu sorriso amplo tomou conta do rosto, mas ele não me olhou diretamente. "Não hesite em telefonar, se eu puder ser útil em mais alguma coisa."

      Apesar de algo me incomodar, enquanto eu o seguia pelo longo corredor, até o saguão, meu instinto mandava que me calasse, e não perguntasse nada sobre Frankie, nem mencionasse seu nome. Backhall. Para pacientes psicóticos, ou com DT. Al Hunt mencionara entrevistas com pacientes confinados no manicômio judiciário. Seria tudo produto de sua imaginação, ou estado perturbado? Não havia setor assim, no Valhalla. Mas nada impedia que um paciente chamado Frankie estivesse trancado no Backhall. Talvez Frankie, mostrando melhoras, passasse depois a uma ala diferente, enquanto Al estivera internado em Valhalla? Talvez Frankie tivesse imaginado o assassinato da mãe, ou desejado isso?

         Frankie matara a mãe com uma acha de lenha. O assassino de Cary Harper utilizara um cano de metal.

       Quando cheguei a meu escritório já estava escuro, e os faxineiros haviam terminado o serviço e partido.

       Sentada à mesa, dei meia-volta para trabalhar no terminal do computador. Depois de vários comandos, a tela âmbar surgiu na minha frente, e logo em seguida consegui acessar o caso de Jim Barnes. Nove anos antes, no dia vinte e um de abril, ele sofrerá um acidente, sozinho no carro, na comarca de Albemarle. Causa da morte, "ferimentos na cabeça". A taxa de álcool no sangue era de 18, quase o dobro do limite legalmente aceito, e ele usara nortriptyline e amitriptyline. Jim Barnes era um sujeito problemático.

       No escritório do analista de computadores, no corredor, a máquina de microfilme, aquela caixa arcaica, aguardava consultas em cima da mesa, como um Buda. Minhas habilidades audiovisuais jamais se destacaram extraordinariamente. Após uma busca impaciente no arquivo de microfilmes, encontrei o rolo que procurava, e consegui, nem sei como, instalá-lo corretamente na máquina. Com as luzes apagadas, observei o desenrolar interminável das páginas em preto e branco, meio desfocadas. Meus olhos doíam, quando encontrei o caso. O filme estalou baixinho, quando eu centralizei o relatório manuscrito na tela. Segundo a polícia, por volta das dez e quarenta e cinco da noite, numa sexta-feira, a BMW 1973 de Barnes seguia no rumo leste, na 1-64, em alta velocidade. Quando a roda direita saiu da pista, ele girou demais o volante, bateu na guia e o carro voou. Avançando o filme, localizei o relatório médico preliminar. Na parte reservada aos comentários, um certo dr. Brown anotou que a vítima fora despedida naquela tarde do hospital Valhalla, onde trabalhava como assistente social. Quando saiu do Valhalla, por volta das cinco da tarde, naquele dia, estava extremamente agitado e furioso, segundo testemunhas. Barnes era solteiro r tinha apenas trinta e um anos de idade.

       O nome de duas testemunhas constava no relatório médico, indivíduos que o dr. Brown deve ter entrevistado. Um deles era o dr. Masterson, o outro uma funcionária do hospital, chamada srta. Jeanie Sample.

      

       Muitas vezes, trabalhar num caso de homicídio significa se perder. Qualquer caminho que pareça remotamente promissor precisa ser trilhado. Com um pouco de sorte, talvez uma rua secundária o leve à avenida principal. O que um assistente social, falecido havia nove anos, poderia ter a ver com os assassinatos recentes de Beryl Madison e Cary Harper? Todavia, senti a presença de algo, de uma pista, uma ligação.

       Não pretendia abordar a equipe do dr. Masterson, e seria capaz de apostar que ele já alertara a todos que pudessem saber de algo. Se ligasse, seriam educados — e se fechariam em copas. Na manhã seguinte, sábado, deixei que meu subconsciente continuasse a trabalhar no problema, enquanto ligava para o Johns Hopkins, esperando encontrar o dr. Ismail. Ele estava de plantão, e confirmou minha teoria. As amostras retiradas do líquido no estômago de Sterling Harper, assim como seu sangue, indicavam que ela havia inferido levometorfano pouco antes de falecer, e o nível fatal de oito miligramas por litro de sangue era alto demais para uma overdose acidental. Ela cometera suicídio, e o fizera de modo a dificultar esta conclusão, em circunstâncias normais.

       "Ela sabia que dextrometorfano e levometorfano apareceriam como dextrometorfano, apenas, numa análise toxicológica de rotina?", perguntei ao dr. Ismail.

       "Não me recordo de ter comentado isso com a senhorita Harper", ele disse. "Mas ela se interessava bastante pelos detalhes do tratamento e pela composição dos medicamentos, doutora Scarpetta. É possível que tenha pesquisado o tema, em nossa biblioteca. Lembro-me que fez várias perguntas, quando receitei levometorfano pela primeira vez. Isso ocorreu há vários anos. Como se tratava de uma droga experimental, ela se interessou, ou talvez estivesse temerosa..."

       Mal consegui manter a atenção concentrada em suas palavras, enquanto ele explicava e se justificava. Jamais conseguiria provar que a srta. Harper deixara o frasco com remédio contra tosse onde pudesse ser facilmente encontrado, de propósito. Mas era capaz de apostar que ela havia feito isso mesmo. Resolvera morrer com dignidade, sem se envergonhar, mas não queria morrer sozinha.

       Depois que desliguei, preparei uma xícara de chá e fiquei andando pela cozinha, parando de vez em quando para apreciar o belo dia claro de dezembro. Sammy, um dos raros esquilos albinos de Richmond, atacava novamente meu comedouro de pássaros. Por um momento nos encaramos, sua cara peluda a se mover freneticamente, enquanto mastigava. As sementes voavam por entre suas patinhas, e a cauda fofa e clara erguia-se como um ponto de interrogação contra o céu azul. Já o conhecia do inverno anterior, quando costumava ficar à janela, observando suas tentativas de pular do galho para o comedouro. Sempre escorregava pelo protetor em forma de cone, e as patas se agitavam no ar, quando caía. Depois de uma série notável de tombos no chão duro, Sammy finalmente aprendeu a se segurar. De vez em quando eu atirava punhados de amendoins para ele, e chegara ao ponto de sentir certa ansiedade, quando ele sumia por algum tempo. Sempre me regozijava ao revê-lo, saltitante, para surrupiar a comida dos pássaros.

       Sentei-me à mesa, na cozinha, com bloco e caneta ao alcance da mão. Telefonei para o Valhalla.

       "Jeanie Sample, por favor", pedi, sem me identificar.

       "Ela é paciente, senhora?", perguntou a telefonista, imediatamente.

       "Não, é funcionária..." expliquei, solícita. "Acho eu. Não falo com Jeanie há anos."

       "Um momento, por favor."

       A voz feminina voltou. "Não temos registro de nenhum funcionário com este nome."

       Droga. Como era possível? Tentei raciocinar. O número telefônico indicado no relatório do médico era da região do Valhalla. E se o dr. Brown cometeu um engano? Nove anos atrás, pensei. Muita coisa pode acontecer em nove anos. A srta. Sample poderia ter mudado. Ou se casado.

       "Desculpe", falei. "Sample era seu nome de solteira."

       "Sabe o nome de casada?"

       "Minha nossa, que horror. Acho que esqueci..."

       "Jean Wilson?"

       Fiz uma pausa, mostrando incerteza.

       "Temos uma funcionária chamada Jean Wilson", a voz prosseguiu. "Ela é terapeuta ocupacional. Pode aguardar um momento, por favor?" Desta vez, não demorou nada. "Sim, seu sobrenome é Sample Wilson, senhora. Mas ela não trabalha nos finais de semana. Voltará só na segunda-feira, pela manhã. Gostaria de deixar um recado?"

       "Existe alguma possibilidade de entrar em contato com ela antes disso?"

       "Não temos permissão para fornecer os telefones particulares dos funcionários." Ela começava a suspeitar de algo. "Se deixar seu nome e telefone, tentarei entrar em contato com ela, e pedir que ligue para a senhora."

       "Lamento, mas não vou ficar aqui, neste número, por muito tempo." Pensei no que fazer, por um momento, e minha voz soou desapontada, quando acrescentei: "Tentarei outra vez — quando passar de novo pela cidade. Suponho que possa escrever para o Valhalla, para avisar".

       "Sim, senhora, como preferir."

       "E qual é o endereço daí?"

       Ela o informou.

      "E o nome do marido?"

       Pausa. "Skip, creio."

       Muitas vezes, um apelido de Leslie, pensei. "A senhora Skip ou Leslie Wilson", falei, como se anotasse. "Muito agradecida."

       Havia um Leslie Wilson em Charlottesville, segundo o auxílio à lista, e um L. P. Wilson, e um L. T. Wilson. Comecei a discar. O sujeito que atendeu, quando disquei para L.

  1. Wilson, disse que "Jeanie" saíra, e que voltaria para casa dentro de uma hora.

       Já calculava que uma voz desconhecida, a fazer perguntas pelo telefone, despertaria suspeitas. Jeanie Wilson ligaria para o dr. Masterson, primeiro, e isso encerraria o assunto. Contudo, é bem mais difícil bater a porta na cara de alguém que aparece inesperadamente, em carne e osso. Especialmente se a pessoa se apresenta como médico-legista titular, e mostra a identidade para confirmar.

       Jeanie Sample Wilson não aparentava mais de trinta anos, ao me receber de pulôver vermelho e calça jeans. Era uma morena ativa, de olhar cordial, sardas no nariz e cabelos longos presos em rabo de cavalo. Na sala, que vi pela porta aberta, dois meninos pequenos assistiam desenhos na televisão, sentados no carpete.

       "Há quanto tempo trabalha no Valhalla?", perguntei.

       Ela hesitou. "Há uns doze anos."

       Senti tanto alívio que quase suspirei. Jeanie Wilson era funcionária do hospital, e não somente quando Jim Barnes fora despedido, havia nove anos. Estava lá quando Al Hunt fora internado, dois anos antes.

       A moça permaneceu plantada na porta, firme. Havia apenas um carro no acesso, além do meu. Pelo jeito, o marido havia saído. Ótimo.

       "Investigo os homicídios de Beryl Madison e Cary Harper", falei.

       Seus olhos se arregalaram. "O que quer de mim? Nem os conhecia...?"

       "Posso entrar?"

       "Claro. Desculpe. Faça o favor."

       Sentamo-nos na cozinha pequena, com piso de paviflex, mesa de fórmica e armários de pinho, impecavelmente limpa. As caixas de sucrilhos se enfileiravam, ordeiras, em cima da geladeira. Nos balcões, vidros enormes cheios de biscoitos, arroz e macarrão. A máquina de lavar louça estava ligada, e senti o cheiro de bolo assando no forno.                

       Pretendia enfrentar sua hesitação sendo direta. "Senhora Wilson, Al Hunt foi internado no Valhalla, há onze anos. Por algum tempo, foi suspeito dos casos em questão. Conhecia Beryl Madison."

       "Al Hunt?", ela repetiu, atônita.

       "Lembra-se dele?"

       Ela fez que não.

      "Disse que trabalha no Valhalla há doze anos?"

       "Onze e meio, na verdade."

       "Al Hunt foi paciente lá, há onze anos, como já disse."

       "Não me lembro deste nome..."

       "Ele cometeu suicídio na semana passada", falei.

       Aí ela ficou mais surpresa ainda.

       "Conversei com ele, pouco antes de sua morte, senhora Wilson. O assistente social que cuidou dele faleceu num acidente automobilístico, há nove anos. Jim Barnes. Preciso de informações a este respeito."

       O rubor começou a subir pelo pescoço. "Acredita que o suicídio tenha alguma ligação com Jim?"

       Seria impossível responder. "Ao que consta, Jim Barnes foi demitido do Valhalla horas antes de seu falecimento", prossegui. "Seu nome — ou, pelo menos, seu nome de solteira — foi mencionado no relatório médico, senhora Wilson."

       "Houve... sabe, houve dúvidas", ela gaguejou. "Sabe, se foi suicídio ou acidente. Fui interrogada. Um médico, legista, não me recordo bem. Um sujeito me procurou."

       "O doutor Brown?"

       "Não me lembro do nome, ela disse.

       "Por que ele queria falar com a senhora?"

       "Suponho que tenha me procurado porque eu fui uma das últimas pessoas a ver Jim com vida. Acho que o legista ligou para o hospital, e Betty o passou para mim."

       "Betty?"

       "Ela era recepcionista, na época."

       "Preciso saber de tudo que ainda se lembra, sobre a demissão de Jim Barnes", falei, quando ela se levantou para olhar o bolo.

       Quando voltou, já se mostrava recomposta, Não parecia mais tão nervosa."Na verdade, estava furiosa.

       Ela disse: "Talvez não seja certo falar coisas ruins a respeito dos mortos, doutora Scarpetta, mas Jim não era uma boa pessoa. Causou muitos problemas no Valhalla, e deveria ter sido demitido muito antes".

       "Quais os problemas causados por ele no hospital?"

       "Os pacientes reclamavam muito. Bem, com freqüência não se pode acreditar neles. É difícil saber quando dizem a verdade, ou mentem. O doutor Masterson e os outros terapeutas ouviam queixas, de vez em quando, mas nada foi provado. Até que, certa manhã, houve uma ocorrência com testemunha. Na manhã daquele dia. Do dia em que Jim foi demitido e sofreu o acidente."

       "Esta ocorrência foi testemunhada pela senhora?", perguntei.

       "Sim." Ela olhou para o outro lado, com a boca contraída.

       "O que aconteceu?"

        "Eu estava passando pelo saguão, procurava o doutor Masterson, para falar alguma coisa, quando Betty me chamou. Ela trabalhava na recepção, com o PBX, como eu já contei — Tommy, Clay, parem de fazer barulho!"

       A gritaria na sala só aumentou, e alguém mudava os canais da televisão, sem parar.

       A sra. Wilson levantou-se, irritada, para cuidar dos filhos. Ouvi o ruído surdo da mão nos traseiros, e logo acabou a dança dos canais. Os personagens dos desenhos atiravam uns nos outros, com metralhadoras, a julgar pelo som.

       "Onde estávamos?", ela perguntou, voltando para a cozinha.

       "Falávamos de Betty", lembrei.

       "Claro. Ela me chamou, para dizer que a mãe de Jim estava na linha. Ligação interurbana, e parecia ser algo urgente. Nunca soube o motivo da ligação. Betty perguntou se eu poderia localizar Jim, e chamá-lo. Ele estava no psicodrama, que se realizava no salão de festas. Sabe, o Valhalla tem um salão de festas, que usamos em diversas atividades. No sábado à noite, festas e bailes. Tem até palco. Antes, o Valhalla era um hotel. Entrei pelos fundos e, quando vi o que estava acontecendo, mal pude acreditar." Os olhos de Jeanie Wilson brilhavam, de raiva. Ela começou a mexer na ponta da toalha. "Fiquei ali parada, olhando. Jim estava de costas para mim, no palco, com cinco ou seis pacientes. Estavam sentados nas cadeiras, e não podiam ver o que acontecia com um dos pacientes. Uma moça. Seu nome era Rita. Tinha no máximo treze anos. Rita fora violentada pelo padrasto. Nunca abria a boca, perdera a fala com o trauma. Jim a forçava a encenar o estupro."

       "O estupro?", perguntei, calmamente.

       "Aquele filho da puta. Desculpe-me. Mas isso me revolta até hoje."

       "É compreensível."

       "Ele alegou, depois, que não estava fazendo nada de anormal. Aquele cretino era um mentiroso de marca maior. Negou tudo. Mas eu havia testemunhado. Sabia exatamente o que ele estava fazendo. Assumiu o papel do padrasto, e Rita ficou tão aterrorizada que não conseguia se mexer. Permaneceu imóvel, na cadeira. Ele se aproximou, e falou na sua orelha, em voz baixa. Rita era muito desenvolvida, para seus treze anos. Ouvi tudo. Jim perguntava: 'Ele fez assim, Rita?'. E repetia a pergunta, enquanto a tocava. De modo malicioso, como o padrasto havia feito, suponho. Saí correndo. Ele não percebeu que eu vira tudo, até que o doutor Masterson o interrogou, poucos minutos depois."

       Entendi o motivo da recusa do dr. Masterson em discutir o caso de Jim Barnes comigo. E, provavelmente, a razão para a falta de algumas páginas na pasta de Al Hunt. Se algo do. gênero se tornasse público, embora tivesse ocorrido havia muito tempo, a reputação do hospital seria prejudicada.

       "E havia suspeitas de atitudes similares, por parte de Jim Barnes, em outras ocasiões?", perguntei.

       "Algumas queixas anteriores sugeriam isso", Jeanie Wilson respondeu, com os olhos alertas.

       "Sempre moças?"

       "Nem sempre.".

       "Recebeu reclamações de pacientes masculinos?"

       "De um dos rapazes. Sim. Mas ninguém as levou a sério, na época. Ele tinha problemas sexuais, de qualquer forma. Fora violentado, ou algo assim. O tipo adequado para os ataques de Jim, pois ninguém acreditaria no pobre rapaz."

       "Lembra-se do nome deste paciente?"

       "Minha nossa..." Ela franziu a testa. "Faz tanto tempo." Permaneceu pensativa, por algum tempo. "Frank... Frankie. É isso aí. Lembro-me de que alguns pacientes o chamavam de Frankie. Não sei o sobrenome."

       "Qual a idade dele?" Senti o coração disparar.

       "Não sei. Dezessete, dezoito anos."

       "E o que mais se recorda, a respeito de Frankie?", perguntei. "É importante. Muito importante."

       O alarme soou, e ela afastou a cadeira para tirar o bolo do forno. Quando estava em pé, aproveitou para dar uma espiada nos meninos. Voltou de testa franzida.

       E disse: "Eu me recordo vagamente de que ele passou algum tempo no Backhall, quando foi admitido. Depois o transferiram para a enfermaria masculina, no segundo andar, onde ficam os rapazes. Fazia terapia ocupacional comigo". Ela se esforçava para pensar, e levou o indicador ao queixo. "Era muito hábil, eu me lembro. Fazia muitos cintos de couro, peças de latão. E adorava tricotar, o que era curioso. A maioria dos pacientes masculinos não faz tricô, não quer nem ouvir falar nisso. Preferem trabalhar com couro, fazer cinzeiros, estas coisas. Ele era criativo, e muito hábil. E se destacava, também, pela organização. Era obcecado com limpeza, sempre cuidava do local de trabalho, recolhendo restos de couro do chão. Como se a falta de asseio realmente o incomodasse." Ela parou, erguendo os olhos para mim.

       "E quando ele se queixou de Jim Barnes?", perguntei.

       "Pouco depois que Jim começou a trabalhar no Valhalla." Ela hesitou, tentando se lembrar. "Creio que Frankie estava no hospital havia um mês, se tanto, quando disse algo a respeito de Jim. Creio que contou a outro paciente. Na verdade...", ela parou, e as sobrancelhas delicadas se arquearam, "o outro paciente se queixou ao doutor Masterson."

       "Sabe quem era o outro paciente? O rapaz a quem Frankie se queixou?"

       "Não."

       "Poderia ter sido Al Hunt? Disse que trabalhava no Valhalla havia pouco tempo. Hunt ficou internado na primavera e no verão, há onze anos."

       "Não me lembro de Al Hunt..."

       "Eles eram da mesma idade", acrescentei.

       "Isso é curioso." Seus olhos se encheram de especulações inocentes, ao me encarar. "Frankie tinha um amigo, outro adolescente. Lembro-me dele. Louro. O menino era louro, muito tímido, quieto. Não me recordo do nome."

       "Al Hunt era louro", falei.

       Silêncio.

       "Ai, meu Deus."

       Insisti. "Ele era quieto, tímido..."

       "Ai, meu Deus", ela repetiu. "Então aposto que era ele! Cometeu suicídio, na semana passada, é?"

       "Sim."

       "Ele falou no Jim, com a senhora?"

       "Ele falou em alguém chamado Jim Jim."

         "Jim Jim", ela repetiu. "Minha nossa. Sei lá..."

       "O que aconteceu a Frankie?"

       "Não passou muito tempo lá. Um ou dois meses."

       "Voltou para casa?", perguntei.

       "Imagino que sim", ela disse. "Aconteceu alguma coisa com a mãe dele. Creio que morava com o pai. Frankie havia sido abandonado pela mãe, quando era nenê. Ou algo assim. Só me lembro que a situação familiar era difícil. Bem, suponho que se possa dizer o mesmo sobre todos os pacientes do Valhalla." Ela suspirou. "Meu Deus. Isso é demais. Não pensei nele, nestes anos todos. Frankie." E balançou a cabeça. "O que será que foi feito dele?"

       "Não tem idéia?"

       "Absolutamente nenhuma." Ela me encarou, por um longo tempo, e começou a entender. Pude sentir o medo surgindo em seus olhos. "Duas pessoas assassinadas. Não acha que Frankie...?"

       Não falei nada.

       "Ele não era violento. Pelo menos, não enquanto eu trabalhei com ele. Era muito meigo, na verdade."

       Ela esperou. Eu não respondi.

       "Sabe, ele era muito cordial, educado, e me observava atentamente. Sempre fazia tudo que eu pedia."

       "Ele gostava da senhora, então."

        "Ele tricotou um cachecol, para mim. Acabei de me lembrar. Vermelho, branco e azul. Tinha me esquecido completamente. O que será que aconteceu com o cachecol?" Sua voz se perdeu nas lembranças. "Devo ter doado para o Exército da Salvação, ou algo assim. Não sei. Frankie tinha uma espécie de fixação por mim." Ela riu, nervosa.

       "Senhora Wilson, poderia descrever Frankie?"

       "Alto, magro, de cabelos escuros." Ela fechou os olhos, por um instante. "Faz tanto tempo." Olhou para mim, de novo. "Ele não se destacava. Pelo que me lembro, não era muito bonito. Sabe, eu me recordaria melhor, se fosse lindo, ou realmente feio. Acho que era meio comum."

       "O hospital tem fotografias dele, nos arquivos?"

       "Não."

       Silêncio, novamente. Depois ela me olhou, surpresa.

       "Ele gaguejava", disse, devagar, e depois outra vez, mais segura.

       "Como?"

       "Costumava gaguejar, às vezes. Quando Frankie ficava muito nervoso, ou excitado, gaguejava."

         Jim Jim.

       Al Hunt reproduzira tudo direitinho. Quando Frankie contara a respeito das tentativas ou atos de Barnes, estaria agitado, nervoso. Poderia ter gaguejado. Sempre gaguejaria, ao mencionar o episódio de Jim Barnes ao amigo Hunt. Jim Jim!

       Corri para o telefone público mais próximo, ao sair da casa de Jeanie Wilson. Marino, o cretino, tinha saído para jogar boliche.

    

       A segunda-feira chegou, entre nuvens que voavam rápidas pelo céu tenebroso, envolvendo os sopés de Blue Ridge, escondendo o Valhalla. O vento balançava o carro de Marino, e quando estacionamos no hospital, os primeiros flocos de neve, minúsculos, aderiram ao pára-brisa.

       "Merda", ele reclamou. "Só faltava essa."

       "Não vai se acumular", falei para consolá-lo, e me encolhi, quando os flocos gelados atingiram meu rosto. Baixamos a cabeça, para nos protegermos do vento, e corremos em silêncio no frio, até a entrada principal.

       O dr. Masterson nos aguardava no saguão, o rosto duro como pedra, por trás do sorriso forçado. Quando os dois homens se cumprimentaram, com um aperto de mão, olharam-se como dois gatos inamistosos, e não fiz nada para aliviar a tensão, pois cansara dos joguinhos do psiquiatra. Ele tinha informações das quais precisávamos, e as forneceria, sem rodeios, em sua totalidade, por força de uma ordem judicial. Poderia espernear o quanto quisesse. Sem mais delongas, nos conduziu ao escritório, e desta vez fechou a porta.

       "Bem, em que posso ajudantes?", perguntou, direto, ao se sentar.

       "Mais informações", falei.

       "Claro. Mas, devo confessar, doutora Scarpetta", ele falou, como se Marino não estivesse presente, "não consigo entender o que mais eu poderia contar sobre Al Hunt, para colaborar em suas investigações. Já consultou a ficha dele, e revelei tudo que me lembrava..."

       Marino o cortou. "É, mas estamos aqui para reavivar sua memória", disse, tirando o cigarro do bolso. "E não é no Al Hunt que estamos interessados."

       "Não compreendo."

       "Estamos mais interessados no amiguinho dele", Marino falou.

       "Que amiguinho?", o dr. Masterson perguntou, encarando-o friamente.

       "Será que o nome Frankie ajuda a refrescar a sua memória?"

       O dr. Masterson começou a limpar os óculos, e concluí que era aquela sua artimanha favorita para ganhar tempo, quando precisava pensar.

       "Havia um paciente aqui, adolescente, na mesma época de Al Hunt. Seu nome era Frankie", Marino acrescentou.

       "Lamento, mas não consigo me lembrar."

       "Lamente o quanto quiser, doutor. Mas conte logo quem é Frank."

       "Temos trezentos pacientes aqui no Valhalla, sempre", ele respondeu. "Não posso me lembrar de todos que estiveram aqui, em particular dos que permaneceram pouco tempo internados."

       "Quer dizer então que o tal de Frankie não ficou muito tempo?", Marino perguntou.

       O dr. Masterson pegou o cachimbo. Dera um passo em falso, e seus olhos traíam toda a sua raiva. "Não quero dizer nada, tenente." Ele começou a encher o cachimbo de tabaco, lentamente. "Mas, se pudesse fornecer mais algumas informações sobre o paciente em questão, o jovem a quem chama de Frankie, talvez eu possa ajudá-lo. Sabe de mais alguma coisa, além do fato de ele ser adolescente?"

       Interferi. "Aparentemente, Al Hunt tinha um amigo, quando estava internado aqui, alguém chamado Frankie. Al o mencionou, durante uma conversa comigo. Acreditamos que o paciente tenha ficado na ala chamada Backhall, logo após sua admissão, e depois transferido para outro andar, onde travou conhecimento com Al. Frankie, segundo a descrição, seria alto, moreno, magro. Gostava de tricotar, um passatempo atípico, nos pacientes masculinos, creio."

       "Al Hunt contou tudo isso?", o dr. Masterson perguntou, sem alterar a voz.

       "Frankie também era obsessivamente organizado", falei, evitando responder.

       "Lamento, mas o gosto pelo tricô não costuma chamar a minha atenção", ele comentou, acendendo o cachimbo.

       "Também se falou numa tendência para gaguejar, quando submetido a pressões", falei, controlando minha impaciência.

       "Hummm. Talvez sofresse de embaraço fônico, e isso deve ter sido anotado em seu diagnóstico. Poderíamos começar por aí..."

     "Poderíamos começar cortando o papo furado", Marino disse, asperamente.

       "Realmente, tenente", o dr. Masterson o encarou, condescendente. "Sua hostilidade é gratuita."

       "Sei, e você acha que está com a bola toda, né? Mas posso conseguir uma ordem do juiz, esfregá-la gratuitamente na sua cara, e levá-lo para a delegacia, preso por cumplicidade em homicídio. Que tal?" Marino cravou os olhos nele.

       "Creio que exagerou na sua atitude impertinente", ele respondeu, com calma enervante. "Não admito ameaças, tenente."

       "E eu não aceito ser enrolado", Marino retrucou.

       "Quem é Frankie?", insisti.

       "Asseguro-lhe que não sei, assim de imediato", o dr. Masterson respondeu. "Mas, se, puderem esperar alguns minutos, verei o que posso conseguir no computador."

       "Muito agradecida", falei. "Esperaremos aqui."

       O psiquiatra mal saíra da sala, quando Marino falou: "Mas que bunda-mole".

       "Marino", falei desanimada.

       "Até parece que esta espelunca vive cheia de rapazes. Aposto que setenta e cinco por cento dos pacientes têm mais de sessenta anos. Sabe, os jovens devem se destacar, chamar a atenção. Ele sabe muito bem quem é o tal de Frankie, e provavelmente sabe até o número do sapato do maluco."

       "Talvez."

       "Não tem nada de talvez nesta história. Já vi que o babaca está a fim de enrolar a gente."

       "Se você continuar a hostilizá-lo, só vai dificultar as coisas, Marino."

       "Foda-se." Ele se levantou e foi até a janela, atrás da escrivaninha do dr. Masterson. Abrindo as cortinas, ele observou a manhã desanimadora. "Fico puto da vida quando alguém mente para mim. Juro por Deus, ponho ele em cana, se for o caso. Tem uma coisa nestes médicos de loucos que me deixa puto. Se Jack, o Estripador, estiver internado aqui, eles nem ligam. Continuam mentindo para a polícia, botam o animal na cama, e dão sopinha, como se ele fosse o grande herói da criançada." Ele parou, resmungando contrariado: "Pelo menos, parou de nevar".

       Esperei até que ele se acomodasse novamente na poltrona, para dizer: "Creio que ameaçá-lo de prisão por cumplicidade em homicídio foi um pouco de exagero".

       "Ele pulou na cadeira, não pulou?"

       "Dê-lhe uma chance para salvar as aparências, Marino."

       Ele olhou emburrado para a janela fechada, fumando.

       "Aposto que, a esta altura, ele já concluiu que é melhor ajudar a gente", falei.

       "É. Mas eu não gosto de ficar aqui brincando de esconde-esconde, enquanto o Frankie maluquinho está solto na rua, aprontando, pronto para explodir, como se fosse uma bomba-relógio."

       Pensei na calma de minha casa, na vizinhança tranqüila, na corrente de Cary Harper presa na maçaneta da porta, e na voz que sussurrou na secretária eletrônica Você tem lindos cabelos louros. São verdadeiros, ou você tinge, Kay? Estranho. Intrigava-me o significado daquela pergunta. Que diferença poderia fazer, para ele?

       "Se Frankie é o assassino que procuramos", falei pausadamente, tomando fôlego, "não posso imaginar nenhuma ligação entre Sparacino e estes homicídios."

       "Isso veremos", ele resmungou, acendendo outro cigarro, enquanto mantinha os olhos fixos na porta, contrariado.

       "Como assim, veremos?"

       "Uma coisa leva a outra, por incrível que pareça", ele retrucou, enigmático.

       "Como é? Que coisa leva aonde, Marino?"

       Ele consultou o relógio e soltou uma praga. "Onde ele se meteu, afinal? Foi almoçar?"

       "Tomara que esteja procurando a ficha de Frankie."

       "Tomara."

       "Como é esse negócio de uma coisa leva a outra, Marino?", perguntei novamente. "No que anda pensando? Poderia ser mais específico, por favor?"

       "Vamos dizer o seguinte", Marino falou. "Tenho um palpite muito forte que, se não fosse pelo maldito livro, Beryl ainda estaria escrevendo, e os três continuariam vivos. Até Hunt estaria vivo, também. Provavelmente."

       "Eu não tenho tanta certeza."

       "Claro que não. Você é objetiva demais. Mas eu acho, tá bom?" Ele me encarou, esfregando a vista cansada e o rosto afogueado. "Tenho uma intuição, tá? Ela me diz que Sparacino e o livro estão por trás disso tudo. Foi o que ligou o assassino a Beryl, inicialmente, e depois uma coisa foi levando à outra. Em seguida, o maluco matou Harper. E depois a senhorita Harper se mata, tomando comprimidos suficientes para matar um cavalo, para n$o passar o resto da vida naquele casarão, sozinha, sofrendo "de câncer. Depois Hunt se pendura na viga do porão, meio pelado."

       A fibra alaranjada, com seu corte transversal em forma de trevo, surgiu em minha mente, junto com o original de Beryl, Sparacino, Jeb Price, o filho do senador Partin que morava em Hollywood, a sra. McTigue e Mark. Eram membros e órgãos de um corpo que eu não conseguia montar de volta. De algum modo inexplicável, eram a alquimia capaz de conduzir pessoas e eventos distintos até Frankie. Marino tinha razão. Uma coisa leva a outra. O assassinato nunca surge do vácuo. O mal sempre vem de algum lugar.

       "Tem alguma teoria, a respeito de qual possa ser exatamente esta ligação?"

       "Não, infelizmente não tenho nenhuma", ele retrucou, bocejando no exato momento em que o dr. Masterson entrou na sala e fechou a porta.

       Notei, com satisfação, que ele trazia uma pilha de pastas na mão.

       "Muito bem", ele disse friamente, sem encarar qualquer um de nós. "Não encontrei ninguém chamado Frankie, e portanto presumo que se trate de um apelido. Sendo assim, selecionei os casos por data de tratamento, idade e raça. Tenho aqui as fichas de seis rapazes brancos, com exceção da ficha de Al Hunt. Todos estiveram internados no Valhalla, no período que os interessa. As idades variam entre treze e vinte e quatro anos."

       "Então que tal deixar a gente dar uma olhada, enquanto você fuma o cachimbo?" Marino baixou a guarda, mas não muito.

       "Prefiro passar apenas o histórico, para garantir o sigilo, tenente. Se um deles o interessar, examinaremos sua ficha em detalhe. Aceita?"

       "Aceito", eu falei, antes que Marino pudesse argumentar.

       "O primeiro caso", começou o dr. Masterson, abrindo a primeira pasta, "é de um rapaz de dezenove anos, de Highland Park, Illinois, admitido em dezembro de 1978, com um histórico de abuso de drogas — heroína, mais especificamente." Ele virou a página. "Um metro e oitenta e cinco, oitenta quilos, cabelos castanhos, olhos castanhos. O tratamento durou três meses."

       "Al Hunt só foi internado no mês de abril seguinte", expliquei ao psiquiatra. "Não estiveram aqui na mesma época."

       "Sim, acho que tem razão. Deixei de levar em conta este detalhe. Podemos descartá-lo, então." Ele colocou a pasta em cima da mesa, enquanto eu tentava acalmar Marino, com um olhar severo. Ele estava a ponto de explodir, o rosto vermelho como um Papai Noel.

       Abrindo a segunda pasta, o dr. Masterson prosseguiu: "Temos um rapaz de catorze anos, loiro, olhos azuis, um metro e oitenta, setenta quilos. Histórico de distanciamento, alucinações, e foi diagnosticado como esquizofrênico do tipo desorganizado, hebefrênico".

       "Importa-se em explicar que raio é isso?", Marino perguntou.

       "Uma esquizofrenia típica de adolescentes. Inclui maneirismos bizarros, incapacidade de relacionamento social, e comportamento esquisito. Por exemplo", ele parou, para virar a página, "ele saía de casa, a caminho do ponto do ônibus, mas não aparecia na escola. Em certa ocasião, foi encontrado debaixo de uma árvore, fazendo desenhos incoerentes no caderno."

       "Certo. E agora ele é um artista famoso, e mora em Nova York", Marino resmungou, sarcástico. "Seu nome é Frank, Franklin, ou começa com FV

       "Não. Nem de longe."

       "Bem, quem é o próximo?"

       "O próximo é um jovem de vinte e dois anos, de Delaware. Cabelos ruivos, olhos cinzentos, um metro e noventa, setenta e cinco quilos. Admitido em março de 1979, recebeu alta em junho. Segundo o diagnóstico, sofria de síndrome delusoria orgânica. Os fatores adicionais eram epilepsia do lobo temporal e histórico de abuso de cannabis. As complicações incluíam disforia é tentativa de autocastração, ao reagir a um trauma."        

       "O que quer dizer disforia?"

       "Ansiedade, agitação, depressão."

       "Isso aconteceu antes de ele tentar virar soprano?"

       O dr. Masterson estava começando a perder as estribeiras, e ninguém poderia culpá-lo.

       "Próximo?", Marino disse, como um sargento autoritário.

       "O quarto caso envolve um rapaz de dezoito anos, cabelos pretos, olhos castanhos, um metro e oitenta e cinco, setenta quilos, admitido em maio de 1979. Diagnosticado como esquizofrênico, do tipo paranóico. Seu histórico", ele folheou a pasta, depois pegou o cachimbo, "inclui raiva e ansiedade difusas, com dúvidas quanto à identidade sexual, e um temor evidente de ser classificado de homossexual. A manifestação da psicose aparentemente se deve à abordagem, por um homossexual, no vestiário masculino..."

       "Pode parar por aqui", Marino o interrompeu, antes que eu pudesse fazê-lo. "Vamos falar mais sobre este caso. Quanto tempo ele passou no Valhalla?"

       O dr. Masterson acendeu o cachimbo. Examinou a ficha, meticulosamente, antes de responder: "Dez semanas".

       "Coincide com o período de internação de Hunt", Marino disse.

       "Correto."

       "Então, ele foi abordado no vestiário masculino, e perdeu o cabaço? O que aconteceu depois? Que psicose é essa?"

       O dr. Masterson virava as páginas. Ajeitando os óculos, ele respondeu: "Um episódio alucinatório, com delírios de grandeza. Ele acreditava que Deus o mandava fazer certas coisas".

       "Que coisas eram essas?", Marino inclinou-se para a frente, na poltrona.

       "Não há nada específico nos registros, exceto que ele falava de modo bizarro."

       "E ele era esquizofrênico paranóico?", Marino perguntou.

       "Sim."

       "Poderia definir isso melhor? Quais são os outros sintomas?"

       "Em termos clássicos", o dr. Masterson respondeu, "existem manifestações típicas, que incluem mania de grandeza, ou alucinações pomposas. Pode haver frustração invejosa, relações interpessoais extremadas, tendência a discussões intermináveis e, em alguns casos, violência."

       "De onde ele era?", perguntei.

       "Maryland."

       "Merda", Marino resmungou. "Morava com os pais?"

       "Morava apenas com o pai."

       Falei: "Tem certeza de que era paranóico, e não indiferenciado?".

       A distinção era importante. Os esquizofrênicos do tipo indiferenciado costumam se comportar de modo muito desorganizado. Em geral, não possuem a capacidade de premeditar crimes e evitar suas conseqüências. O elemento que procurávamos era suficientemente organizado para planejar e executar com sucesso seus crimes, e escapar depois à prisão.

       "Tenho certeza absoluta", o dr. Masterson respondeu. Após uma pausa, ele acrescentou, calmamente: "O primeiro nome do paciente é Frank. Interessante". E depois me passou a pasta. Marino e eu a folheamos rapidamente.

       Frank Etham Aims, ou Frank E. Daí o "Frankie", imaginei. Deixou o Valhalla no final de julho de 1979, e pouco depois, segundo anotações feitas pelo dr. Masterson na época, Aims fugiu de sua casa, em Maryland.

       "Como sabe que ele fugiu de casa?", Marino perguntou, olhando para o psiquiatra. "Como sabe o que aconteceu com ele, depois que saiu deste hospício?"

       "O pai dele telefonou. Estava muito preocupado", o dr. Masterson disse.

       "E então?"

       "Infelizmente, eu não podia fazer mais nada. Nem ninguém. Frank era maior de idade, tenente."

       "Lembra-se se alguém se referia a ele como 'Frankie'?" perguntei.                              

       Ele fez que não.

       "E quanto a Jim Barnes? Seria ele o assistente social encarregado de Frank?", perguntei.

       "Sim", o dr. Masterson disse, relutante.

       "Frank Aims foi abordado por Jim Barnes?", perguntei.

       Ele hesitou. "Houve uma denúncia."

       "De que tipo?"

       "Denúncia de natureza sexual, doutora Scarpetta. E, pelo amor de Deus, estou colaborando ao máximo. Espero que levem isso em consideração."

       "Peraí", Marino falou. "Estamos levando tudo em consideração, tá legal? Ninguém vai soltar um press-release da história, entendeu?"

       "Então Frank conhecia Al Hunt?", prossegui.

       O dr. Masterson hesitou novamente, e seu rosto contraiu-se. "Sim. Al formulou as acusações."

       "Na mosca", Marino murmurou.

       "O que quer dizer exatamente com isso? De que maneira Al formulou as acusações?", perguntei.

       "Ele procurou uma terapeuta", o dr. Masterson explicou, adotando um tom defensivo. "Ele também conversou comigo, durante uma de nossas sessões. Frank foi questionado, mas recusou-se a discutir o assunto. Ficou muito nervoso, bravo, e se fechou completamente. Eu não poderia fazer nada, tendo somente as declarações de Al como base. Sem a corroboração de Frank, as acusações não tinham consistência."

       Marino e eu permanecemos em silêncio.

       "Lamento", o dr. Masterson disse, e já nem tentava esconder seu nervosismo. "Não posso colaborar, no que diz respeito ao paradeiro de Frank. Não sei de mais nada. O pai dele entrou em contato comigo pela última vez há uns sete ou oito anos."

       "E qual foi o motivo para este contato?", perguntei.

        "O senhor Aims precisava falar comigo."

       "Para quê?"

       "Queria saber se eu tinha idéia de onde estava Frank."

       "E tinha?", Marino indagou.

       "Nenhuma", o dr. Masterson respondeu. "Nunca mais ouvi uma palavra sequer sobre Frank, lamento."

       "O que o senhor Aims queria pedir, caso mantivesse algum contato com Frank?", fiz a pergunta decisiva.

       "Ele queria encontrar o filho, e esperava que eu pudesse ajudá-lo. A mãe havia morrido. A mãe de Frank."

       "Quando ela morreu, e o que aconteceu?", perguntei.

       "Em Freeport, no Maine. Desconheço as circunstâncias específicas."

       "Morte natural?", perguntei.

       "Não", o dr. Masterson disse, evitando olhar para nós. "Tenho quase certeza de que não foi morte natural."

       Marino não tardou em localizar a ocorrência. Ligou para a polícia de Freeport, no Maine. De acordo com os registros, no final de tarde de 5 de janeiro de 1983, a sra. Wilma Aims foi espancada até a morte por um "assaltante" que se encontrava dentro de sua casa, quando ela voltou das compras no supermercado. Tinha quarenta e dois anos quando faleceu, era uma senhora miúda, com olhos azuis e cabelos louros tingidos. O caso nunca foi resolvido.

       Eu não tinha a menor dúvida sobre a identidade do tal assaltante. Nem Marino.

       Ele disse: "Quer dizer, então, que Hunt era mesmo clarividente, né? Sabia que Frank mataria a mãe. Pois isso aconteceu muito tempo depois da passagem dos dois malucos pelo hospício".

       Observávamos as estripulias do esquilo Sammy, em volta do comedouro de pássaros. Quando Marino me deixou em casa, na volta do hospital, eu o convidei para entrar e tomar um café.            

       "Tem certeza de que Frank não trabalhou no lava-rápido de Hunt, nos últimos anos?", perguntei.

       "Não me lembro de nenhum Frank, ou Frankie Aims, na lista de empregados", ele disse.

       "Ele pode muito bem ter trocado de nome."

       "Provavelmente fez isso, mesmo, se matou a mãe. Temendo que a polícia o procurasse." Marino pegou a xícara de café. "Nosso problema é a falta de uma descrição recente. Além disso, locais como o Masterwash têm alta rotatividade. Gente contratada e despedida todos os dias. Os caras trabalham alguns dias, uma semana, um mês. Tem idéia de quantos rapazes altos, magros e morenos passaram por lá? Dava para fazer uma lista telefônica."

       Estávamos tão perto, e tão longe. Era de enlouquecer. "As fibras combinam com um lava-rápido", falei, frustrada. "Hunt trabalhava no lava-rápido freqüentado por Beryl, e provavelmente conhecia o assassino. Entende o alcance disso, Marino? Hunt sabia que Frankie matara a mãe, pois Hunt e Frankie devem ter mantido contato, depois que saíram de Valhalla. Frankie pode ter trabalhado no lava-rápido de Hunt, recentemente. É possível que Beryl tenha atraído a atenção de Frankie, quando levou o carro dela para lavar."

       "Eles contam com trinta e seis empregados. Só onze não são negros, doutora. E, entre os onze brancos, há seis mulheres. Restam, então, cinco sujeitos. Três deles são menores de vinte anos, e portanto teriam oito ou nove anos quando Frankie esteve em Valhalla. Não se encaixam no perfil. Os outros três também não, por motivos diversos."

       "Que motivos diversos?", perguntei.

       "Foram contratados nos últimos meses, e não trabalhavam lá quando Beryl começou a levar o carro. Sem mencionar que a descrição não bate. Um dos caras é ruivo, outro era nanico, quase tão baixo quanto você."

       "Obrigada pela parte que me toca."

       "Continuarei a investigar", disse, desviando a vista do comedouro de pássaros, quando o esquilo Sammy nos encarou com seus olhos rosados. "E quanto a você?"

       "Qual é o problema comigo?"

       "Seu pessoal sabe que ainda trabalha no dep