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CORPO ESTRANHO / Robin Cook
CORPO ESTRANHO / Robin Cook

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CORPO ESTRANHO

 

                   15 DE OUTUBRO DE 2007

                   SEGUNDA FEIRA, 19:00 - DELI, ÍNDIA.

Só os residentes de Deli de longa data que fossem extraordinariamente sensíveis às vicissitudes dos padrões do trânsito naquela cidade seriam capazes de dizer que a hora de ponta já atingira o seu pico e começava agora a diminuir. A cacofonia de buzinas, sirenes e derrapagens parecia inalterada ao torturado ouvido e destreinado.  Amultidão parecia constante. Havia camiões pintados de cores berrantes; ônibus com tantos passageiros precariamente agarrados ao exterior e empoleirados no tejadilho  como os que viajavam no seu interior; automóveis, dos pesados Mercedes aos diminutos Marutis; aglomerados de táxis pretos e amarelos; riquexós motorizados; motocicletas  e scooters, muitas delas transportando famílias inteiras; e enxames de bicicletas pretas e envelhecidas. Milhares de peões teciam o seu caminho através do trânsito  que avançava intermitentemente, enquanto hordas de crianças, sujas e andrajosas, enfiavam as mãos imundas pelas janelas abertas dos carros, na mira de algumas moedas. Vacas, cães e bandos de macacos selvagens vagueavam pelas ruas. Sobre tudo isto, um sufocante manto de pó, poluição e nevoeiro.

Para Basant Chandra era mais um fim de tarde normal, na cidade onde vivera durante a totalidade dos seus 47 anos. Com mais de 14 milhões de habitantes, o trânsito difícil era inevitável e Basant, como todos os outros habitantes, tinha aprendido a lidar com ele. Nesta noite, em particular, sentia-se ainda mais tolerante do que de costume, pois estava relaxado e satisfeito, tendo feito uma parada para visitar a sua acompanhante favorita, Kaumudi.

Em geral, Basant era um homem preguiçoso, furioso e violento que se sentia enganado pela vida. Tendo crescido numa família Kshatriya de casta elevada, sentia que  os seus pais o tinham casado abaixo da sua condição, escolhendo para sua esposa uma mulher Vaishya, embora o seu pai tivesse conseguido uma posição de gerência na  empresa farmacêutica do sogro como parte do dote e lhe tivessem sido oferecido um lugar particularmente bem pago como gerente de vendas, em vez do que ocupava anteriormente como vendedor de caminhões Tatá. O derradeiro golpe à auto-estima de Basant chegara com os filhos: cinco moças de 22, 16, 12, 9 e 6 anos. Tinha havido um rapaz, mas a esposa abortara aos cinco meses, algo por que Basant a culpava abertamente. Na sua mente, ela tinha-o feito de propósito, trabalhando demasiadas horas, sempre preocupada, no departamento de medicina interna de um hospital público. Lembrava-se desse dia como se fosse ontem. Podia tê-la morto.

Com tais pensamentos a atravessar-lhe o espírito, Basant esmurrou o volante, frustrado, enquanto estacionava no lugar reservado em frente à casa dos seus pais, onde  vivia com a família. Tratava-se de uma imunda estrutura de cimento, com três andares, que fora pintada de branco num qualquer momento no passado, agora difícil de  determinar. O telhado era plano e as molduras das janelas eram de metal. No primeiro andar havia um pequeno consultório onde a sua esposa, Meeta, recebia os seus  poucos doentes particulares. O resto do andar térreo era ocupado pelos seus pais já idosos. Basant e a sua família ocupavam o segundo piso e o seu irmão mais novo,  Tapasbrati, e respettiva família, o terceiro.

Enquanto Basant olhava criticamente para o seu lar, que dificilmente se poderia considerar o tipo de casa em que esperara estar a viver nesta fase da sua vida, apercebeu-se  de que um carro parava atrás do seu, bloqueando-o. Espreitou pelo retrovisor, mas foi obrigado a semicerrar os olhos por causa da luz dos faróis. Tudo o que conseguia  ver, através da neblina luminosa, era um emblema da Mercedes.

- Que diabo? cuspiu Basant. Não era suposto estacionarem atrás dele. Abriu a porta e saiu do carro, com toda a intenção de se dirigir à parte de trás e dizer das boas  ao condutor. Mas não teve de o fazer. O condutor e os seus dois passageiros já estavam no exterior e dirigiam-se para ele, ominosamente.

- Basant Chandra? - perguntou o passageiro da frente. Não era um homem grande, mas transmitia uma indiscutível aura de autoridade malévola, com a sua compleição  escura, o cabelo espetado e a imagem de mau rapaz criada pelo casaco de couro preto de motociclista e pela justa t-shirt branca que realçava o seu corpo forte e  atlético. O condutor era quase tão intimidante. Era enorme.

Basant recuou, enquanto campainhas de alarme soavam dentro da sua cabeça. Não se tratava de um encontro fortuito.

- Estão a invadir propriedade privada - disse Basant, tentando parecer confiante, embora não se sentisse assim.

- Não é essa a questão - disse o homem com o casaco de motociclista. - A questão é: és tu o pedaço de trampa de burro chamado Basant Chandra?

Basant engoliu com dificuldade. Os seus alarmes internos soavam agora com urgência. Talvez não devesse ter batido com tanta força na prostituta. Desviou os olhos  do condutor sikh para o segundo passageiro, que tinha entretanto tirado uma arma do bolso do casaco.

- Sou Basant Chandra conseguiu dizer. A sua voz soou como um guincho quase não a reconhecia. Qual é o problema?

- Tu és o problema - disse o homem com o casaco de motociclista. Apontou por cima do ombro. Mete-te no carro. Fomos contratados para te meter algum juízo na cabeça.  Vamos dar uma voltinha.

- Eu... eu... eu não posso ir a lado nenhum. A minha família está à minha espera.

- Oh, claro! disse o aparente líder do grupo, dando uma gargalhada curta e cínica. Foi precisamente sobre isso que viemos falar contigo. Entra no carro antes que o Subrata perca o controle e te dê um tiro, algo que sei que ele preferiria fazer.

Basant tremia agora visivelmente. Olhava em desespero de um rosto ameaçador para outro e depois para baixo, para a arma na mão de Subrata.

Dou-lhe um tiro, Sachm? perguntou Subrata, erguendo a sua pistola automática com silenciador.

- Vês o que quero dizer? perguntou Sachin, virando para cima as palmas das mãos abertas. Vais-te meter no carro ou quê?

Querendo fugir para a escuridão mas demasiado aterrorizado para o fazer, não fossem dar-lhe um tiro pelas costas, Basant obrigou-se a andar, perguntando-se se devia  tentar correr para o meio da rua congestionada. Incapaz de forçar a sua mente quase paralisada a tomar uma decisão, deu por si junto ao Mercedes negro, com Subrata  a abrir a porta de trás, do lado do passageiro, com a mão livre.

Subrata forçou Basant a baixar a cabeça e o torso para entrar no carro, antes de dar a volta e entrar para o outro lado. Ainda empunhava a arma e assegurou-se de  que Basant o via.

Sem mais uma palavra, Sachin e o condutor entraram para os bancos da frente. O carro saiu para a rua tão depressa quanto possível no trânsito congestionado.

- Para a lixeira? perguntou o condutor.

- Para a lixeira, Suresh concordou Sachin.

Dolorosamente consciente da presença da arma de fogo, Basant sentia-se, de início, demasiado aterrorizado para dizer o que quer que fosse. Quando começou a falar  a voz tremia-lhe, mas depois conseguiu conferir-lhe uma aparência de força.

- Qual o motivo de tudo isto? - questionou. Para onde me levam e porquê?

- Vamos levar-te à lixeira disse Sachin, voltando-se para trás. Todos concordamos que é onde deves estar.

- Não compreendo disse Basant, atabalhoadamente. Não vos conheço.

- Isso vai mudar a partir desta noite.

Basant sentiu uma ponta de esperança. Não que essa perspectiva o fizesse feliz, mas Sachin sugeria uma relação a longo prazo, o que significava que não lhe iam dar um tiro. Como era gestor de vendas de produtos farmacêuticos, ocorreu-lhe que aquelas pessoas pudessem estar interessadas num qualquer tipo de droga. O problema residia no fato de Basant só ter acesso aos medicamentos que a firma do sogro produzia, na sua maior parte antibióticos, e aquele tipo de pressão por causa de antibióticos  parecer demasiado extremo.

- Será que vos posso ajudar de alguma forma? perguntou Basant esperançoso.

- Oh, sim! Claro! respondeu Sachin, sem desenvolver.

Seguiram em silêncio durante mais algum tempo. Por fim, Basant voltou a falar.

Se me disserem o que precisam, terei todo o gosto em ajudar no que estiver ao meu alcance.

Sachin voltou-se e fixou os olhos em Basant, durante um momento, mas não falou. Qualquer pequena redução no pânico que o tomara dissipou-se. Os seus tremores regressaram  com violência. A sua intuição garantiu-lhe que aquilo não ia acabar bem. Quando o condutor abrandou atrás de um carro de bois que ultrapassava outro, Basant considerou  a hipótese de abrir a porta do carro, saltar para o exterior e correr na direção da neblina escura e poeirenta. Um rápido olhar para o colo de Subrata e a arma que  aí repousava deu-lhe de imediato a resposta.

- Nem penses nisso - disse Subrata, como se lesse os pensamentos de Basant.

Saíram da estrada principal, passados cerca de 15 minutos, e dirigiram-se para o enorme aterro. Através das janelas podiam ver pequenos fogos cujas labaredas lambiam os montes de lixo, libertando espirais de fumo em direção do céu. Era possível ver crianças a vasculhar os detritos, procurando comida ou qualquer coisa de valor, mesmo que questionável. Os faróis dianteiros captavam imagens de ratazanas, tão grandes como coelhos, a correr ao longo do caminho. Encostando entre montes de lixo  com vários andares de altura, o condutor deu a volta ao carro, virando-o na direção de onde tinham vindo. Deixou o motor a trabalhar. Os três brutamontes saíram  do carro. O condutor abriu a porta a Basant. Como este não lhe respondia, o condutor aproximou-se, agarrou-o pela kurta e arrastou-o aos tropeções para fora do carro.  Basant não conseguiu evitar um ataque de tosse provocado pelo fumo e pelo fedor. Sem o largar, o condutor continuou a arrastá-lo para a zona iluminada pelos faróis,  onde o libertou com brusquidão. Basant fez tudo o que podia para conseguir ficar de pé.

Sachin, que calçava agora uma pesada luva na mão direita, aproximou-se de Basant e, antes que este pudesse reagir, deu-lhe um violento muro na cara, fazendo-o cambalear para trás, perder o equilíbrio e cair sobre o lixo fétido. Com um zumbido nos ouvidos e o nariz a sangrar, rebolou sobre o estômago e tentou levantar-se, mas as mãos afundaram-se no lixo solto. Ao mesmo tempo, sentiu vidros partidos a lacerar-lhe o braço esquerdo. Foi puxado pelo tornozelo para longe do monte de lixo,  para o firme e compatado caminho dos caminhões. Depois foi energicamente pontapeado no estômago, o que fez com que perdesse o fôlego.

Basant precisou de vários minutos para recuperar a sua capacidade respiratória. Quando isso aconteceu, Sachin baixou-se, agarrou-o pela frente da kurta e puxou-o  de forma a deixá-lo sentado. Basant ergueu os braços numa tentativa de proteger o rosto de um novo golpe, que nunca se materializou. Hesitante, abriu os olhos, erguendo-os  na direção do rosto cruel do seu atacante.

- Agora que temos a tua atenção rosnou Sachin - quero dizer-te algumas coisas. Sabemos quem és e a merda que és. Sabemos o que tens vindo a fazer à tua filha mais  velha, Veena, desde que ela tinha 6 anos. Sabemos que a manténs na linha ameaçando fazer o mesmo às suas quatro irmãs mais novas. E sabemos o que tens feito à mãe  dela.

- Eu nunca... começou Basant, mas foi interrompido por uma violenta bofetada.

- Não tentes sequer negá-lo, meu sacana, ou dou-te um enxerto e deixo-te aqui para servires de refeição aos ratos e aos cães.

Sachin olhou fixamente para o encolhido Basant antes de continuar.

- Isto não é uma qualquer espécie de julgamento. Sabemos que o que estou a dizer é verdade, meu sacana nojento! E vou dizer-te uma coisa: isto é um aviso! Se voltares  a tocar em alguma das tuas filhas de forma incorreta, ou na tua mulher por raiva, matamos-te. É simples. Fomos contratados para o fazer e, sabendo o que sabemos  sobre ti, preferia fazê-lo já e despachar a questão. Por isso, até estou a torcer por que me dês uma desculpa. De qualquer forma, essa é a mensagem. Alguma pergunta?  Quero ter a certeza de que percebeste.

Basant acenou. Uma faísca de esperança atravessou a sua mente aterrorizada. O presente pesadelo era apenas um aviso.

Sachin voltou a esbofetear inesperadamente Basant, atirando-o de costas ao chão, os ouvidos a zumbir e o nariz de novo a sangrar.

Sem mais uma palavra, Sachin retirou a luva de pele, olhou para Basant por um momento, acenou aos companheiros para que o seguissem e regressou ao Mercedes preto.

Sentando-se, inundado por uma sensação de alívio absoluto ao perceber que tinha sido deixado para trás, Basant levantou-se. Contudo, um instante depois, teve de  voltar a saltar para cima do lixo solto, por forma a escapar do grande carro que acelerava na sua direção, falhando o alvo por poucos centímetros. Basant ficou a olhar para a sua traseira, enquanto os faróis vermelhos desapareciam no fumo e na neblina. Só então ficou verdadeiramente consciente da escuridão e do fedor que o rodeavam, do fato de tanto o seu nariz como o seu braço estarem a sangrar e de as ratazanas se estarem a aproximar lentamente. Sentindo, de súbito, nojo e um medo  renovado, Basant lutou por se levantar, arrancando-se ao lixo solto e procurando terreno firme, sem nunca deixar de gemer com a dor no flanco, provocada pelo pontapé  que lhe tinham dado. Embora fosse muito difícil ver, porque não havia luar, apressou-se a seguir em frente, de mãos esticadas como um cego. Ainda tinha um longo  caminho a percorrer antes de chegar a uma estrada onde conseguisse arranjar transporte. Não era uma situação agradável e era, sem dúvida, assustadora, mas pelo menos estava vivo.

 

                   À MESMA HORA EM NOVA DELI 

Numa movimentada rua de negócios, espremido entre típicos edifícios comerciais de três andares, em betão reforçado, cujas fachadas se encontravam quase completamente  cobertas de cartazes em hindu e inglês, encontrava-se o moderno e espartano Hospital Queen Victoria, com cinco andares. Em marcante contraste com os seus vizinhos,  fora construído em vidro espelhado âmbar e mármore verde. Tendo sido batizado em honra da amada monarca britânica do século XIX; para apelar tanto aos modernos turistas  médicos como à classe média alta indiana, em rápida expansão, o hospital tinha-se tornado um farol de modernidade lançado para o centro da intemporalidade indiana.

Não fosse pelos dois altos porteiros sikh, envergando as vestes tradicionais, parados dos dois lados da entrada, o hospital pareceria fechado. No interior, o dia  aproximava-se claramente do fim. Sendo um hospital de cuidados terciários, sem um verdadeiro departamento de urgência médica, o Queen Victoria lidava apenas com  cirurgias eletivas com marcação prévia, não com emergências. Os pratos sujos do jantar tinham sido há muito recolhidos, lavados e escondidos nos seus armários e  a maior parte dos visitantes já tinha partido. As enfermeiras distribuíam os medicamentos da noite, verificavam os drenos e as compressas das cirurgias do dia ou  sentavam-se no interior de fortes cones de luz, nos balcões de piso, para terminarem de inserir dados nos computadores.

Depois de um dia caótico, envolvendo 37 grandes cirurgias, esta era uma altura de calma e relaxamento para todos, incluindo os 117 pacientes: bem, todos exceto Veena Chandra. Enquanto o pai se arrastava para longe do aterro, fétido e nojento, Veena enfrentava as suas próprias dificuldades, na semi-obscuridade da sala de anestesia.

Tendo por única luz a que lhe chegava do mal iluminado corredor central, Veena tentava, com os dedos a tremer, introduzir a agulha de uma seringa de 10cc na tampa de borracha de um frasco para injetáveis de succinilcolina, uma droga paralisante de efeito rápido relacionada com o curare largamente utilizado nos dardos envenenados da Amazônia. Normalmente conseguia encher uma seringa assim com facilidade; afinal de contas era enfermeira, tendo-se formado no famoso hospital público, All India Institute of Health Sciences, há quase três meses. Terminados os estudos  tinha sido contratada por uma empresa americana chamada Nurses International que a tinha, por sua vez, cedido ao Hospital Queen Victoria, depois de algum treino  especializado.

Não querendo espetar-se com a agulha, o que poderia revelar-se fatal, Veena baixou os braços por um momento e tentou relaxar. Estava uma pilha de nervos. Não sabia,  de fato, se seria capaz de fazer aquilo que lhe fora pedido e que tinha concordado em fazer. Deveria encher a seringa, levá-la até ao quarto de Maria Hernandez,  que se esperava estivesse ainda a dormir devido à anestesia para a cirurgia de substituição da anca a que se submetera nessa manhã, injetar o seu conteúdo na linha  intravenosa e bater rapidamente a retirada, tudo sem ser vista. Veena sabia que não ser vista por ninguém num hospital quase cheio era deveras improvável, razão  pela qual continuava vestida com o tradicional uniforme branco das enfermeiras, que envergara todo o dia. A sua esperança era que, mesmo que alguém a visse, não  estranhasse o fato de ela se encontrar no hospital, embora trabalhasse durante o dia e não à noite.

Para a ajudar a acalmar, Veena fechou os olhos e, assim que o fez, foi transportada para o dia, quatro meses atrás, em que o pai a ameaçara pela última vez. Estavam  em casa, os pais dele estavam na sala de estar, a mãe dela no hospital e as irmãs tinham saído para passar a tarde de sábado com os amigos. De forma totalmente inesperada,  ele encurralara-a no banheiro. Enquanto a televisão berrava na divisão ao lado, ele começou a gritar, praguejando contra ela. Sabia bem como lhe bater, sem nunca  lhe deixar qualquer marca no rosto. Como já não acontecia há mais de um ano, Veena partira do princípio que o problema terminara. Mas agora sabia com toda a certeza  que nunca terminaria. A única forma de fugir às garras do pai seria deixando a índia. Contudo, temia pelas suas irmãs. Sabia-o incapaz de controlar os seus impulsos.  Se partisse, ele escolheria com toda a certeza uma das suas irmãs e começaria tudo de novo, algo que não podia permitir.

O súbito estrondo do metal a cair no pavimento compósito trouxe Veena de volta ao presente, fazendo o coração falhar um batimento. Febrilmente, escondeu o frasco  e a seringa numa gaveta repleta de seringas intravenosas. De súbito acenderam-se as luzes no corredor principal do bloco operatório. Com o pulso acelerado, Veena  aproximou-se da pequena janela de vidro de segurança e olhou para o exterior. Encontrando-se na escura sala de anestesia tinha a certeza de não ser visível. As portas principais para o átrio exterior, à direita, tinham sido momentaneamente abertas. Um segundo depois, dois homens da limpeza apareceram, envergando uniformes do hospital. Ambos transportavam esfregonas. Pegaram nos baldes vazios que tinham largado momentos antes e avançaram pelo corredor, passando a poucos metros  de Veena.

Em parte aliviada por se tratar apenas dos homens da limpeza, Veena regressou ao centro da sala e recuperou o frasco e a seringa. Estava agora ainda mais nervosa  do que momentos antes. A chegada inesperada dos homens da limpeza relembrara-a de como seria fácil ser apanhada no bloco operatório e, se o fosse, de como seria  difícil encontrar uma desculpa para a sua presença. Tremendo ainda mais, insistiu e acabou por conseguir inserir a agulha na tampa do frasco para injetáveis. Exercendo  pressão negativa, encheu a seringa até ao nível que pré-determinara. Queria uma boa dose, mas não demasiado grande.

A divagação, breve e desagradável, recordara a Veena os motivos por que tinha de fazer aquilo que lhe fora pedido. Tinha aceitado pôr a dormir uma idosa americana  com um historial de problemas cardíacos em troca de uma garantia, da parte do seu empregador, de que a sua mãe e as suas irmãs seriam protegidas, para todo o sempre,  dos abusos do pai. Tinha sido uma escolha difícil, tomada impulsivamente graças à ideia de que esta seria a sua única oportunidade de obter uma espécie de liberdade,  não só para si, mas também para onze das suas amigas que tinham entrado para a Nurses International ao mesmo tempo.

Tendo arrumado o frasco e deitado fora a embalagem da seringa, Veena dirigiu-se à porta. Se ia, de fato, prosseguir com o plano tinha de se concentrar e ser cuidadosa.  Acima de tudo, tinha de evitar que a vissem, em especial próximo do quarto da sua vítima. Se, por acaso, fosse vista em qualquer outra parte do hospital, explicaria  que tinha regressado nessa noite para usar os recursos da biblioteca e estudar a doença de Maria Hernandez.

Veena destrancou a porta e abriu-a, lentamente, metendo a cabeça de fora para espreitar para os dois lados do corredor. Nesse momento, encontravam-se vários elementos  da equipe de limpeza a conversar e a lavar o chão. Como tinham começado na ponta e se dirigiam para as escadas, as suas costas estavam convenientemente voltadas  na direção de Veena. Saindo para o corredor, Veena fechou a porta com suavidade antes de se afastar, silenciosamente, do bloco operatório. Mesmo antes de permitir  que as portas principais se fechassem, olhou de relance para a equipe de limpeza. Sentiu um alívio palpável. Permaneciam alheios à sua presença.

Abdicando do elevador, não fosse obrigada não só a viajar com alguém mas também a conversar, Veena usou as escadas para descer ao quarto piso. Aí abriu uma frincha  da porta, antes de espreitar para todo o comprimento do corredor obscurecido, em ambas as direções. Não havia ninguém à vista, nem mesmo atrás do balcão da recepção do piso, que desenhava, por contraste, um oásis de luz clara no meio do chão. Aparentemente, as enfermeiras encontravam-se nos quartos, atendendo aos seus pacientes. Veena desejou que não estivesse ninguém no quarto de Maria Hernandez, que se situava na direção oposta. Do ponto onde se encontrava,  nas escadas, ficava para o lado direito, três portas mais abaixo. Tudo o que conseguia ouvir eram os sons abafados de múltiplos aparelhos de televisão e o bip distante  dos monitores das redondezas.

Para reunir coragem, Veena deixou que a porta se fechasse, enquanto cerrava os olhos e se encostava contra a parede de betão das escadas. Passo a passo, reviu aquilo  que estava prestes a fazer, para evitar qualquer erro, recordando a forma como chegara àquele ponto inimaginável na sua vida. Tudo se encaixara nessa tarde, quando  regressava ao bangalô depois do trabalho. Ela e as outras onze enfermeiras contratadas pela Nurses International eram obrigadas a viver naquilo que, embora pelo  nome soasse como uma pequena cabana, era, na verdade, uma enorme mansão britânica da época Raj. Aí residiam de forma luxuosa, juntamente com os quatro responsáveis  da Nurses International. Ainda assim, ao atravessar a porta principal, Veena sentiu o pulso a acelerar e os músculos a ficarem tensos, como sempre acontecia. Veena  tinha de manter sempre a guarda.

Como hindu aculturada, Veena reconhecia possuir uma forte tendência para se submeter à autoridade masculina. Quando se juntou à Nurses International, principalmente  devido às suas promessas de a ajudarem a emigrar para a América, tratou Cal Morgan, o chefe da organização, da mesma forma como se esperava que tratasse o seu próprio  pai. Infelizmente, esta resposta natural não era isenta de problemas. Típico americano de 32 anos, Cal interpretou o respeito e a atenção inerentes à cultura de Veena como um avanço, o que deu origem a diversos mal-entendidos. A situação era difícil para ambos e assim se manteve devido à continuada falta de comunicação.

Veena temia comprometer as suas hipóteses de conseguir a liberdade, emigrando com a ajuda da Nurses International, e Cal temia perdê-la porque se tratava da sua  melhor empregada e de uma líder entre as outras enfermeiras.

Nessa tarde, como acontecia todas as tardes dos dias em que trabalhava, assim que entrou na mansão e apesar da tensão entre eles, Veena procurou Cal na biblioteca  forrada com painéis de madeira, que ele ocupara e transformara no seu escritório. No final de cada turno, as enfermeiras deviam reportar a um dos quatro responsáveis  da firma, o presidente Cal Morgan, a vice-presidente Petra Danderoff, o chefe da informática Durell Williams ou a psicóloga Santana Ramos, dependendo de quem tivesse  recrutado a enfermeira em questão. Veena tinha de reportar a Cal porque tinha sido por ele contratada dois meses antes, aquando da formação da empresa. Todos os  dias Veena e as outras eram incumbidas, para além das suas funções normais como enfermeiras, de recolher sub-repticiamente resmas de dados sobre os pacientes, dos computadores centrais dos seis hospitais privados onde tinham sido colocadas, trazê-los e apresentá-los ao responsável designado. Durante o mês de treino nos Estados Unidos tinham recebido instruções espetíficas em relação a esta  atividade. Como explicação, fora-lhes dito que uma das principais funções da Nurses International consistia na recolha de dados relativos aos sucessos cirúrgicos.  O porquê do interesse da empresa em tais dados não foi explicado, nem interessava particularmente a ninguém. O esforço, complicado e clandestino, parecia um baixo  preço a pagar, desde logo compensado pelo ordenado equiparado ao das enfermeiras americanas, dez vezes superior ao das suas colegas indianas e, ainda mais importante,  pela promessa de serem transferidas para os Estados Unidos passados seis meses.

Sentindo-se como sempre tensa, Veena entrou no escritório de Cal, nessa tarde, e viu a sua ansiedade crescer quando ele lhe pediu que fechasse a porta e se sentasse  no sofá. Temendo mais uma tentativa de sedução, fizera o que lhe fora pedido, mas foi chocada com algo completamente diferente. Ele dissera-lhe que tinha sabido  nesse dia toda a história sobre o pai e como este a extorquia. Atordoada e humilhada, Veena ficara também furiosa com a sua melhor amiga, Samira Patel, pois soube  instintivamente que só ela poderia ter revelado o seu pior segredo. Samira era uma enfermeira que tinha recebido o seu treino juntamente com Veena e que tinha, com  ela, sido recrutada pela Nurses International. Também ela desejava emigrar para os Estados Unidos mas por motivos mais genéricos. Familiarizada com as liberdades  do Ocidente através das imagens na Internet, odiava aquilo que considerava as restrições que a vida na índia lhe impunha. Gostava de se descrever como um espírito  livre.

Depois de Cal lhe ter revelado o que sabia, Veena levantara-se tencionando fugir sem sequer pensar para onde iria, mas Cal agarrara-a pelo braço e obrigara a sentar-se.  Para sua surpresa, em vez de a culpar e condenar, como Veena sempre achara que aconteceria, mostrou-se convincentemente compreensivo e furioso por descobrir que  ela se sentia de alguma forma responsável pelo comportamento do pai. Depois persuadira-a de que a poderia ajudar, se ela o ajudasse a ele. Garantiria que o pai não  lhe voltaria a tocar, nem às suas irmãs ou à mãe. E que, se o fizesse, desapareceria.

Convencida de que Cal estava a falar a sério, Veena perguntara-lhe o que deveria ela fazer por ele. Cal explicara-lhe que os dados relativos aos resultados das cirurgias  eram decepcionantes. Eram demasiado bons e tinham chegado à conclusão de que precisavam de criar os seus próprios dados negativos, revelando-lhe que tinham planejado  fazê-lo utilizando succinilcolina. Inicialmente Veena ficara chocada com o plano, em especial por não compreender por que precisariam eles desses "dados negativos", mas quanto mais Cal falava, dizendo que só teria de o fazer uma vez, e que ficaria livre do seu pai e que poderia emigrar sem se sentir culpada por pôr em risco a mãe e as irmãs, e quanto mais reconhecia que nunca mais lhe seria feita tal oferta, decidiu, impulsivamente, cooperar. E não só decidiu cooperar como  o quis fazer nessa mesma noite, não fosse pensar demasiado sobre o que estava prestes a fazer.

Com uma determinação renovada para terminar o que viera fazer e com uma clara idéia da necessária sequência de eventos, Veena respirou fundo. Depois desencostou-se  da parede das escadas, abriu os olhos e voltou a verificar se o corredor à sua frente estava desimpedido. Com a tensão a acelerar os batimentos nas suas têmporas,  dirigiu-se a passos rápidos para o quarto da Sr.a Hernandez. Mal tinha dado alguns passos, quando uma das enfermeiras do turno da noite saiu de um dos quartos em  frente do desta, o que fez com que Veena parasse de repente.

Felizmente, a enfermeira não se apercebeu da sua presença. Concentrada no tabuleiro de medicamentos que transportava, continuou o seu caminho pelo corredor, afastando-se da recepção do piso. Tão rapidamente como aparecera, desapareceu para o interior do quarto de outro paciente.

Suspirando silenciosamente de alívio, Veena olhou na direção do balcão de piso. Tudo estava calmo. Estugou o passo, chegando em segundos à porta do quarto da Sr.a  Hernandez. Empurrando-a, entrou e voltou a encostá-la. Embora a televisão estivesse ligada, o volume estava baixo. A intensidade das luzes do teto tinha sido diminuída,  fazendo com que os cantos do quarto se perdessem nas sombras. Veena não teve problemas em ver a Sra. Hernandez. A mulher estava adormecida, a cabeceira da cama erguida  num ângulo de 45°. A luz emitida pela televisão iluminava o seu rosto, deixando as órbitas na penumbra, o que lhe conferia uma aparência lívida, como se já estivesse  morta.

Felizmente a mulher dormia e Veena, desejando que a ansiedade produzida por aquela situação terminasse o mais depressa possível, correu para a cabeceira da cama  e retirou a seringa do bolso. Teve o cuidado de não tocar nas ruidosas grades metálicas da cama, quando se inclinou para agarrar a linha intravenosa. Também teve  o cuidado de não a puxar, com medo de chamar a atenção da paciente e de a acordar. Segurando a válvula com uma mão, usou os dentes para remover a protecção da agulha.  Depois, sustendo a respiração, preparou-se para apertar lentamente o êmbolo. Mas em vez disso, quase saltou de susto, pois, sem qualquer motivo aparente, a Sra.  Hernandez virou a cabeça na sua direção e olhou para o rosto de Veena. Um ligeiro sorriso dançava-lhe nos lábios.

- Obrigado, querida - disse.

Veena sentiu o sangue gelar. Sabendo que tinha de agir depressa ou nunca seria capaz de o fazer, empurrou rapidamente o êmbolo da seringa, lançando o bólus de succinilcolina para a corrente sanguínea da doente. O que a fizera agir fora uma súbita e inadequada raiva defensiva: como se atrevia a mulher a ter a insensibilidade de acordar para lhe agradecer, pensando, aparentemente, que Veena lhe estava a administrar um medicamento que a ajudaria?

Embora Veena não tivesse pensado seriamente sobre o que seria forçada a testemunhar depois de ter injetado a droga paralisante, ficou horrorizada com o que viu.  Em vez de uma morte pacífica, como as do cinema, que sempre supusera e que Cal insinuara, aquilo a que assistiu foi precisamente o contrário. Passados poucos segundos  o corpo da Sra. Hernandez reagiu à grande dose de succinilcolina com contrações rápidas da sua musculatura. Começou pelos músculos faciais, provocando ondas de grotescas  contorções no rosto. A aumentar o horror inesperado estava o medo intenso visível nos seus olhos. Quando a sua mão se ergueu numa vã tentativa de tocar Veena, procurando  a sua ajuda, também ela começou a tremer de forma incontrolável. E depois, chegou a súbita e ominosa escuridão púrpura que se espalhou pelo seu rosto como a sombra  que se espalha sobre a lua durante um eclipse. Sem conseguir respirar, mas plenamente consciente, a Sra. Hernandez estava a sufocar rapidamente e a ficar cianótica.

Horrorizada pelo que provocara e não desejando mais do que fugir, Veena foi forçada pela culpa a continuar pregada ao chão e a observar os estertores de morte da  sua paciente. Felizmente para ambas, depressa terminaram e os olhos da sra. Hernandez fixaram-se vazios, na eternidade.

- O que fui eu fazer? - sussurrou Veena. - Porque é que ela tinha de acordar?

Libertando-se, por fim, da paralisia psicologicamente induzida, Veena voltou-se e saiu a correr do quarto. Sem sequer pensar nas consequências, correu pelo corredor,  apenas vagamente consciente de que não se encontrava ninguém atrás do balcão do piso. Durante o dia havia sempre, pelo menos, um auxiliar da enfermaria, mas não  ao fim da tarde e não durante a noite.

No elevador, Veena apercebeu-se vagamente de que se encontrava sozinha. Continuava a ver o rosto da Sra. Hernandez nas suas horríveis contorções. Havia pessoas no  lobby do hospital, incluindo alguns doentes de ambulatório acompanhados por membros das suas famílias, mas ninguém reparou em Veena. Ela sabia que o que tinha de  fazer era sair do hospital o mais depressa possível.

No exterior, o porteiro abriu-lhe as portas de vidro, quando a viu aproximar-se. Disse-lhe boa noite, enquanto ela saía apressada, mas ela não respondeu. Inicialmente,  tinha planejado sair pela porta de serviço, mas agora, na sua mente, já não importava. No que lhe dizia respeito, se as outras pessoas a viam ou não era indiferente.

Na rua, Veena fez sinal a um dos riquexós motorizados, amarelos e verdes, que não eram mais do que scooters de três rodas, cobertas, com bancos corridos atrás e lados abertos. Veena deu o endereço do bangalô, na opulenta zona Chanakyapuri da cidade e entrou. Com um safanão súbito, o motorista arrancou, como se fosse um participante de uma corrida, buzinando intermitentemente, embora não houvesse qualquer necessidade. Como o trânsito diminuíra consideravelmente, fizeram um bom tempo,  em especial a partir do momento em que entraram na zona residencial de Chanakyapuri. Olhando sempre em frente, durante toda a viagem, Veena tentava não pensar, contudo  não conseguia afastar da mente as violentas contorções do rosto da sra. Hernandez.

Chegados à mansão, Veena não conseguiu convencer o condutor a entrar na estrada de acesso para a levar até à porta. Ele alegava não acreditar que ela ali morasse  e não desejava problemas com a polícia. Como um episódio semelhante com o motorista de um riquexó motorizado já ocorrera por duas vezes, em menos de um mês, Veena  não tentou argumentar. Pagou ao homem e apressou-se a atravessar o portão, penetrando na propriedade murada. Passando a porta da frente, Veena não seguiu diretamente  para o quarto que partilhava com Samira mas para a biblioteca na esperança de aí encontrar Cal. Como não o encontrou, procurou-o na sala de estar formal, onde a  Nurses International colocara um grande aparelho de televisão de tela plana. Encontrou Cal e Durell concentrados na repetição dos jogos de futebol americano do dia  anterior. Ambos estavam estirados nas respettivas poltronas, segurando garrafas de cerveja Kingfisher.

- Ah! exclamou Cal ao ver Veena. Deixou tombar as pernas do braço da poltrona. Foi rápido! Está feito?

Veena não falou. Com uma expressão sombria, limitou-se a fazer sinal a Cal para que a seguisse e encaminhou-se de novo para o escritório dele.

Quando Cal entrou na biblioteca, Veena, que se mantinha à entrada, fechou a porta, algo que ele achou curioso.

- O que é que se passa? perguntou.

Pela primeira vez teve a sensação de que se passava decididamente algo de errado. Observou-a com mais atenção. Aos seus olhos, e aos de quase toda a gente, Veena  tinha uma extraordinariamente bela combinação de traços angulares arianos e redondos hindus, com impressionantes olhos azuis esverdeados de forma exótica, cabelo  mais negro do que a noite e pele cor de bronze. Normalmente tinha um ar muito pacífico, mas não nesse momento. Os seus lábios cheios e escuros estavam apertados  e pálidos. Cal não conseguia dizer se isso era sinal de raiva, determinação ou uma combinação de ambos.

- Está feito? perguntou de novo.

- Está feito disse Veena entregando-lhe um porta-chaves com uma pen, contendo os registros médicos da Sra. Hernandez. Mas houve um problema.

- Sim? perguntou Cal, olhando para a pen, perguntando-se se seria esse o problema. Houve algum problema com a recolha de dados?

- Não! Obter os registros médicos foi fácil.

- Ok disse Cal, fazendo arrastar a palavra. Então, qual foi o problema?

- A sra. Hernandez acordou e falou comigo.

- E? perguntou Cal. Podia ver que Veena estava muito perturbada, mas não considerou o fato de a mulher lhe ter falado invulgar. O que é que ela disse?

- Ela agradeceu-me disse Veena, as lágrimas a acumular-se-lhe nos olhos. Respirou fundo e olhou para o lado, tentando controlar as suas emoções.

- Bem, foi simpático da parte dela - disse Cal, tentando aligeirar a conversa.

- Ela agradeceu-me mesmo antes de eu a injetar - acrescentou Veena furiosa.

Os seus olhos queimavam, quando os voltou de novo para Cal.

- Acalma-te! disse ele, tratava-se em parte de um pedido, em parte de uma ordem.

- Pode ser fácil para si dizê-lo. Não teve de olhar para os olhos dela e ver o rosto contorcer-se. Não me disse que ela ia contorcer-se grotescamente e ficar roxa, enquanto sufocava à frente dos meus olhos.

- Eu não sabia.

Veena olhou para Cal e abanou a cabeça, aparentemente enojada.

- As pessoas que me disseram como fazê-lo insinuaram que a paciente morreria pacificamente por estar  completamente paralisada.

- Bem, mentiram.

- Lamento disse Cal, encolhendo os ombros. De qualquer forma estou orgulhoso de ti. E, como prometi, soube há poucos minutos que a conversa dos meus colegas com o  teu pai correu muito bem. Estão verdadeiramente confiantes de que ele seguirá o seu conselho à letra. Por isso, de agora em diante não precisarás de te preocupar  com a possibilidade de ele se portar mal contigo, com as tuas irmãs ou com a tua mãe. Os homens que enviei estão plenamente convencidos mas, ainda assim, vão-lhe  fazer uma visitinha todos os meses para que ele não se esqueça de que se deve comportar. Estás livre.

Durante algum tempo, Cal susteve o olhar de Veena. Esperara alguma reação positiva da parte dela, mas não havia nada. Precisamente quando lhe ia perguntar porque  é que não estava mais contente, ela chocou-o atirando-se a ele. Antes que ele se conseguisse aperceber do que se estava a passar, ela agarrou-lhe na camisa pelo  colarinho, com ambas as mãos, e rasgou-a. Os botões saltaram com uma força explosiva.

Instintivamente, Cal agarrou-lhe nos antebraços mas não antes de ela ter afastado a camisa dos seus ombros e a ter puxado para baixo. Nessa altura, verdadeiramente  confuso, Cal deixou que ela lhe tirasse a camisa, fizesse com ela uma bola e a atirasse para o lado. Tentou apanhar o seu olhar, esperando encontrar nele uma explicação,  mas ela estava demasiado concentrada. Sem um segundo de hesitação, colocou as palmas das mãos no seu peito nu e empurrou-o para trás. Ele cambaleou, até os calcanhares baterem nos pés do sofá. Nessa altura, os joelhos fraquejaram e ele caiu sentado. Ainda sem hesitar ou oferecer uma qualquer explicação, ela agarrou-lhe num pé, levantou-o e arrancou um dos sapatos, atirando-o na direção da  camisa abandonada. Depois foi a vez do segundo sapato. Quando se viu livre dos sapatos, ela atacou o cinto e a braguilha e, tendo-as agarrado pelas duas pernas,  lançou as calças na direção dos sapatos e da camisa.

- Que diabo? perguntou Cal, enquanto ela colocava, sem cerimônias, os polegares por dentro do elástico da cintura das sua calcinha.

O corpo atlético de Cal estava à vista, em toda a sua glória. Toda aquela situação estava para lá da sua mais lasciva fantasia. Era um fato que Cal Morgan se sentia atraído por Veena Chandra desde o dia em que a entrevistara, exatamente nove semanas antes, e que tinha realizado vários avanços sexuais mas não tivera sorte alguma.  Cal ficara perplexo. Tendo sido considerado o homem mais sexy da turma de finalistas do liceu de Beverly Hills, para além de melhor aluno, e recebendo honras semelhantes  na UCLA, Cal nunca tivera falta de companhia feminina nem de sexo, algo que encarava como um desporto. Mas nunca tivera sucesso com Veena, o que era confuso, uma  vez que ela agia sempre como se gostasse realmente dele, realizando pequenos favores e mostrando uma consideração especial.

- Porque é que estás a fazer isto? perguntou Cal, sem tentar esconder a sua estupefação, embora não lhe fosse pedir para parar.

Nesse momento, Veena desabotoava rapidamente o seu uniforme de enfermeira. Tinha agora fixado os seus olhos nos de Cal e a sua expressão era a de uma determinação  furiosa. Pela primeira vez, desde que a conhecera, Cal pensou que ela talvez sofresse, de fato, de um desequilíbrio emocional. O fato de ter sabido precisamente  nesse dia que ela tinha sido vitimizada pelo pai durante dezesseis anos, não caíra no esquecimento.

Veena não falou ao despir o uniforme e também não retirou os olhos dos de Cal quando abriu o sutiã e libertou os seus seios rijos. Em contraste, os olhos de Cal  desceram para absorver a nudez de Veena em toda a sua glória. Cal sabia que ela tinha um corpo extraordinário porque a vira num modesto biquini, quando todas as  enfermeiras foram à Califórnia para, durante um mês, receberem treino em informática e cultura, mas isto era infinitamente mais cativante.

Ainda assim, Veena não falava, nem abrandava. Mal retirou todas as suas roupas, avançou para Cal, sentou-se ao colo dele e dirigiu-o para dentro de si. Depois colocou  as mãos nos seus ombros e começou a mover-se ritmicamente.

Cal ergueu os olhos para os dela. Ela continuava a olhá-lo com a mesma expressão determinada. Se não fosse tão bom, teria pensado que ela o castigava pela experiência dessa noite no hospital. Sem qualquer abrandamento da parte de Veena, Cal perdeu todo o controle voluntário e atingiu o clímax. Como Veena não parava, Cal implorou-lhe  que o fizesse.

- Tens de me deixar descansar disse.

Veena respondeu de imediato, descendo de cima dele e, sem hesitar por um momento, começou a vestir-se. A sua expressão facial não se tinha alterado.

Emerso na neblina pós-coito de prazer físico, Cal observou-a e foi-se sentindo cada vez mais confuso. Endireitou-se.

- O que estás a fazer?

- Estou-me a vestir, não é óbvio? respondeu ela, falando pela primeira vez desde que iniciara naquela relação sexual agressiva. O seu tom era de desafio, como se considerasse  a pergunta de Cal idiota.

- Vais-te embora?

- Vou - disse Veena, enquanto fechava o sutiã.

Cal viu-a pegar no vestido.

- Gostaste da experiência? perguntou ele.

Era óbvio que ela não tivera um orgasmo. As suas ações tinham sido de tal forma mecânicas que Cal comparava o seu comportamento ao de um manequim.

- Porquê, deveria?

- Bem, sim, claro disse Cal, um pouco magoado mas também perplexo. Porque não ficas. Preciso de arquivar a história da sra. Hernandez, mas depois podíamos falar sobre  a tua experiência desta noite, no hospital. Sinto que precisas de falar sobre ela.

- Como falaríamos sobre isso?

- Bem, discutiríamos os pormenores.

- Os pormenores são que ela acordou, agradeceu-me e não partiu pacificamente.

- Tenho a certeza que há mais do que isso.

- Tenho de ir - disse Veena enfaticamente. Olhou em volta para se assegurar de que tinha tudo e dirigiu-se para a porta.

- Espera! Porque é que fizeste amor comigo esta noite e porque é que o fizeste desta forma?

- Como é que o fiz?

- Bem, agressivamente. É a melhor forma de o descrever.

- Eu queria, pelo menos uma vez na vida, provar que o meu pai estava errado.

- O que é que queres dizer com isso? perguntou Cal, com um breve riso cínico. Começava a sentir-se usado, embora a experiência não tivesse sido fisicamente desagradável.

- O meu pai sempre me disse que nenhum homem me quereria depois de saber o meu segredo. Sabias o meu segredo e ainda assim estavas disposto a fazer amor comigo. O meu pai estava errado.

- Oh, por amor de Deus, - pensou Cal, irritado, mas não o disse.

- Maravilhoso, agora já sabes - disse com um sorriso amarelo. Vemo-nos por aí.

Levantou-se e começou a vestir-se. Estava consciente de que Veena o observava, mas evitou o seu olhar. Pouco depois ela tinha partido.

Cal sussurrou uma torrente de impropérios, enquanto vestia o resto da roupa. Aos 32 anos, não fazia a menor intenção de se envolver romanticamente e experiências como aquela faziam-no pensar se alguma vez desejaria ter uma relação séria. As mulheres eram, no que lhe dizia respeito, verdadeiramente misteriosas e loucas.

 

Com a pen na mão, saiu da biblioteca em busca de Santana Ramos, que era a psicóloga residente, mas também a guru da informação. Embora Cal tivesse bastante experiência  com os media devido à sua experiência à frente do departamento de relações públicas da Superior Care Hospital Corporation, onde trabalhara antes de se juntar à Nurses International, juntamente com Petra Danderoff, não tinha os contatos de Santana. Afinal ela trabalhara para a CNN durante quase cinco anos.

Cal encontrou Santana no seu quarto, lendo a sua adorada revista de psicologia e, sem partilhar os detalhes sangrentos que Veena relatara, disse-lhe que a primeira paciente tinha sido despachada. Entregou-lhe a pen com o historial médico da paciente. Não disse uma palavra sobre a relação sexual agressiva.

- Liga aos teus amigos na CNN disse Cal. Lá são cerca de 10 horas da manhã. Faz-lhes chegar a história, apresenta-a como uma informação vinda de um informador interno, dizendo que o governo indiano está a tentar abafar este tipo de coisas. Diz-lhes que agora que temos gente nos locais certos, surgirão mais casos e encoraja-os a colocar a notícia no ar o mais depressa possível.

- Perfeito disse Santana, pegando na pen. Acho que isto vai resultar acrescentou, enquanto se levantava.

- Também eu disse Cal. Trata já disto.

- Considera-o feito.

Confiando que ela manteria a sua palavra, Cal deu duas pancadinhas no ombro de Santana, como forma de encorajamento. Deixando o seu quarto, dirigiu-se para a sala  de estar tencionando continuar a assistir com Durell ao jogo da NFL. Mas enquanto andava, a sua mente regressou ao perturbador episódio com Veena. Apesar de ela ser a sua melhor empregada, ele perguntou-se se devia mencionar aos outros a sua óbvia instabilidade emocional. O que o impediu foi o fato de saber que Petra, que era contra qualquer namorico entre Cal ou Durell e as enfermeiras, acabaria por se vangloriar e o torturar, repetindo "Eu bem te disse" até à exaustão. Além  disso, também era embaraçoso admitir que tinha sido tão flagrantemente usado. De repente, Cal parou. Na sua mente repetia o último comentário de Veena "queria, pelo  menos uma vez na vida, provar que o meu pai estava errado."

- Porquê uma vez? Perguntou-se Cal. Levou os nós dos dedos à boca e mordiscou-os distraidamente.

- Oh, meu Deus! disse de súbito.

Voltando-se na direção contrária à da sala de estar formal, correu na direção da ala dos hóspedes, onde as enfermeiras estavam instaladas. Chegando junto do quarto  de Veena e Samira, bateu violentamente na porta, enquanto gritava o nome de Veena. Como ela não respondeu de imediato, tentou a porta, sem nunca perder a esperança  de que os seus medos fossem infundados. Infelizmente não eram. Encontrou Veena deitada na cama, com um ar pacífico, os olhos fechados. Na mão segurava uma embalagem  de plástico vazia que contivera comprimidos Ambien.

Segurando os ombros de Veena, Cal sentou-a com rudeza. A cabeça dela tombou mas os olhos de pálpebras pesadas abriram-se.

- Meu Deus, Veena. gritou Cal. Porquê? Porque é que fizeste isto? Sabia que se ela morresse todo o esquema que montara tão cuidadosamente terminaria.

- É assim que deve ser murmurou Veena. Uma vida por outra vida. Veena tentou recostar-se e Cal deixou que ela voltasse a cair na cama. Pegou no celular e ligou para  Durell, através das teclas de marcação rápida. Quando Durell atendeu, queixando-se de ter sido interrompido enquanto estava a ver o jogo, Cal pediu-lhe que chamasse  uma ambulância o mais depressa possível, pois Veena tivera uma overdose e necessitava de uma lavagem ao estômago.

Atirando o celular para o lado, Cal arrastou o corpo mole de Veena para a beira da cama, permitindo que a sua cabeça pendesse e usou o indicador para a fazer vomitar.  Não foi bonito. A parte boa foi que mais de doze comprimidos Ambien intatos, bem como alguns fragmentados, caíram sobre o tapete arruinado. A parte má foi que ele  também vomitou.

 

                   15 DE OUTUBRO DE 2007

                   SEGUNDA FEIRA, 7:35 - LOS ANGELES, EUA

Ia ser um dia glorioso em Los Angeles. O calor, a poluição e o fumo dos inevitáveis incêndios florestais do fim do Verão e do início do Outono tinham, finalmente,  sido soprados para o interior e substituídos pelo primeiro ar limpo de há meses. Não só Jennifer Hernandez tinha sido capaz de ver as próximas montanhas de Santa  Mônica, a caminho do Centro Médico da UCLA, como conseguira vislumbrar a mais distante cordilheira de São Gabriel, iluminada de forma divinal pelo sol que se erguia.

Jennifer sentia-se animada nessa manhã cristalina, e não era só por causa do tempo. Era o seu primeiro dia num novo turno em cirurgia. Jennifer era aluna do quarto  ano da UCLA e tinha gostado o suficiente do seu programa de cirurgia do terceiro ano para considerar fazer dela a sua especialidade; no entanto sentia que não tinha  assistido a cirurgias suficientes para tomar uma decisão. Embora houvesse um maior número de mulheres a estudar cirurgia do que no passado, continuavam a ser uma  minoria. Não era uma decisão fácil. A cirurgia geral era particularmente exigente em termos horários, em especial para uma mulher que estabelecera objetivos, tanto  profissionais como pessoais, e Jennifer pensava que queria uma família. Necessitando de adquirir mais experiência para poder tomar uma decisão ponderada, escolheu  cirurgia geral como uma das cadeiras do quarto e último ano. Estava confiante nas suas capacidades de decisão e na firmeza das suas mãos, duas qualidades necessárias  nas cirurgias e, pela sua experiência durante o terceiro ano, sabia que estas eram ao mesmo tempo desafiantes e empolgantes.

De acordo com o plano para o primeiro dia, os estudantes de medicina destacados deveriam mudar de roupa e encontrar-se com os respettivos orientadores na sala de  convívio da cirurgia, às oito da manhã. Jennifer chegou mais cedo, como era seu costume. Consequentemente, embora ainda fossem apenas 7:35, já tinha mudado de roupa e já estava sentada na sala de convívio da cirurgia, percorrendo distraída as páginas de uma antiga revista Time. Em simultâneo mantinha um ouvido atento ao programa da CNN na televisão, enquanto observava as entradas e saídas de médicos, enfermeiras e outro pessoal. O dia já tinha sem dúvida começado  no que dizia respeito às cirurgias. Tinham-lhe dito que as segundas-feiras eram sempre movimentadas e, pelo quadro branco, podia ver que as 23 salas de cirurgia estavam nesse momento ocupadas.

Jennifer deu um gole no seu café. A ansiedade em relação a um possível atraso começava a desvanecer-se e ela perguntou-se se seria aceite no excelente programa de  cirurgia da UCLA se fosse essa a sua escolha de especialização. O mais excitante era que, no ano seguinte, todo o hospital seria transferido para o complexo Ronald  Reagan, do outro lado da estrada, cujo bloco operatório seria equipado com o que havia de mais moderno e de melhor. Sendo uma das alunas mais esforçadas, Jennifer  estava nos primeiros lugares na sua turma e, como tal, sentia-se confiante de que teria boas hipóteses de ser convidada a ficar, se se candidatasse. Mas para dizer  a verdade, ficar em Los Angeles não seria a sua primeira escolha. Jennifer não era de Los Angeles; nem sequer era da Costa Oeste como a maior parte dos seus colegas.  Jennifer era de Nova Iorque e tinha vindo para a costa oeste para aproveitar a bolsa de estudos que tinha sido criada por um agradecido e rico mexicano cujo câncer  tinha sido curado no Centro Médico da UCLA. A bolsa de estudos seria atribuída a uma mulher hispânica carenciada. Cumprindo os três requisitos, Jennifer candidatou-se  e ganhou, começando assim a sua inesperada migração para a Califórnia. Mas, agora que o seu treino médico chegava ao fim, queria regressar à costa leste. Adorava  a Big Apple e considerava-se uma nova-iorquina de gema. Fora aí que nascera e, por muito difícil que fosse, fora aí que crescera.

Jennifer bebeu mais um gole de café e concentrou toda a sua atenção no aparelho de televisão. Os dois pivots da CNN tinham dito algo que captara a sua atenção. Referiam  que o turismo médico ameaçava tornar-se uma indústria crescente nos países em desenvolvimento, em especial no sul da Ásia, em países como a índia e a Tailândia,  e não se tratavam apenas de cirurgias cosméticas e tratamentos enganadores, como curas para o câncer não testadas, como ocorrera em dias de antanho. Tratavam-se  de procedimentos do século XXI, como operações de coração aberto e transplantes de medula óssea.

Inclinando-se para a frente, Jennifer ouvia com renovado interesse. Nunca tinha ouvido o termo turismo médico. Na sua mente parecia uma espécie de oxímoro. Jennifer  certamente nunca fora à índia e, devido aos seus parcos conhecimentos do país, imaginava que se tratava de um país terrivelmente pobre, em que a maioria da população  era magra, subnutrida e maltrapilha, vivendo sob a influência das quentes e úmidas monções durante metade do ano e de um deserto quente, seco e poeirento durante a outra metade. Embora fosse inteligente o suficiente para reconhecer que tal estereótipo não era necessariamente verdadeiro, considerava provável que contivesse alguma verdade, ou não seria um estereótipo. Aquilo de que tinha a certeza era de que um tal estereótipo dificilmente sugeria que se tratasse de um  destino apropriado a alguém que procurasse as mais recentes competências cirúrgicas, as mais modernas e dispendiosas tecnologias e técnicas próprias do século XXI.

Para Jennifer era notório que os pivots partilhavam da sua descrença.

- É chocante disse o homem. Em 2005, mais de 75 mil americanos viajaram para a Índia para se submeterem a grandes cirurgias e, desde então, de acordo com o governo  indiano, o número tem vindo a crescer em mais de 20% ao ano. Prevêem que, no fim da década, seja responsável pela entrada de cerca de 2,2 mil milhões de dólares em moeda estrangeira.

- Estou impressionada, verdadeiramente impressionada! - disse a apresentadora. Porque é que as pessoas vão para lá? Alguém sabe?

- A falta de seguro, aqui nos Estados Unidos, é a principal razão e os custos a segunda respondeu o homem. Uma operação que custaria 80 mil aqui, em Atlanta, pode custar 20 mil lá e, além disso, são-lhes oferecidas umas férias num hotel indiano de cinco estrelas para recuperar.

- Uau! exclamou a mulher. Mas é seguro?

- Essa seria também a minha preocupação concordou o homem e é por isso que a história que acaba de nos chegar é tão interessante. O governo indiano, que tem apoiado  o turismo médico através de incentivos econômicos, tem alegado ao longo dos últimos anos que os resultados são tão bons ou melhores do que os conseguidos no Ocidente.  Afirmam que isso se prende com o fato de todos os cirurgiões serem certificados e o equipamento e os hospitais, muitos deles acreditados pela Comissão Conjunta Internacional,  serem ultramodernos e novinhos em folha. Contudo, nunca foram publicados dados ou elementos estatísticos em nenhuma revista médica que pudessem suportar tais alegações.  Há instantes a CNN teve conhecimento, através de uma fonte conhecida e de confiança, que uma americana de Queens, Nova Iorque, com 64 anos e gozando de uma saúde,  em geral boa, chamada Maria Hernandez, que fora submetida a uma simples cirurgia de substituição da anca, cerca de doze horas antes, faleceu subitamente, segunda-feira à noite, às 19:54, hora indiana, no Hospital Queen Victoria, em Nova Deli, Índia. De particular interesse foi a certeza, expressa pela fonte, de que o trágico falecimento seria apenas a ponta do icebergue.

- Muito interessante disse a mulher. Suponho que ainda vamos ouvir falar disto.

- É o que depreendo concordou o homem.

- Prossigamos agora com a interminável campanha para as eleições presidenciais de 2008.

 

Jennifer recostou-se, atordoada. Mentalmente repetia o nome: Maria Hernandez, de Queens, Nova Iorque. A avó paterna de Jennifer, a pessoa mais importante na sua  vida, chamava-se Maria Hernandez e, o que era ainda mais preocupante, vivia em Queens. E ainda mais preocupante era o fato de ter problemas numa anca que tinham  vindo a piorar. Apenas há um mês atrás, tinha perguntado a opinião de Jennifer em relação à cirurgia. O conselho de Jennifer fora de que apenas Maria poderia responder  a tal pergunta, já que, nessa altura, dependia do grau de deficiência e desconforto que lhe causava.

Mas para a Índia? Jennifer abanou a cabeça.

O fato de parecer tão pouco provável que a sua avó partisse para a Índia sem discutir a idéia consigo, era a principal fonte da sua esperança de que se tratasse  de uma outra Maria Hernandez a viver em Queens. Jennifer e a avó eram muito próximas, sendo Maria a sua mãe de criação. A sua mãe biológica tinha sido morta quando  Jennifer tinha apenas 3 anos, vítima trágica de disparos feitos a partir de um carro, no Upper East Side de Manhattan. Jennifer, os seus dois irmãos, Ramón e Diego, bem como o inútil do pai, Juan, tinham ido viver para o minúsculo apartamento de um só quarto em Woodside, Queens, quase desde o dia do acidente.

Jennifer tinha sido a última a partir e isso só acontecera quando entrara na faculdade de medicina. Na mente de Jennifer, Maria era uma santa cujo marido a abandonara.  Maria não só permitira que fossem viver com ela, como os sustentara e cuidara deles, sem nunca deixar de trabalhar como ama e empregada doméstica. Jennifer e os  irmãos ajudaram-na, trabalhando depois das aulas, quando cresceram, mas Maria era o seu principal ganha-pão.

Quanto a Juan, Jennifer não se recordava de alguma vez ter feito alguma coisa. Tendo, supostamente, uma antiga e incapacitante lesão nas costas, sofrida ainda antes  de Jennifer ter nascido, não era capaz de trabalhar. Antes da sua morte, a mãe de Jennifer, Mariana, tinha sido a única a auferir um ordenado, trabalhava no departamento  de compras da Bloomingdale. Agora que Jennifer se aproximava do fim do curso de medicina e sabia um pouco mais sobre doenças psicossomáticas e fingidas, tinha ainda  mais razões para questionar a suposta incapacidade do pai e desprezá-lo.

Como a cadeira em que estava sentada era baixa e de braços altos, Jennifer teve de lutar para se levantar. Não podia ficar ali sentada depois de ter recebido tão  perturbadoras notícias da avó. Também sabia que a mera possibilidade de a notícia envolver a sua avó tornaria impossível qualquer esforço de concentração, quando  se encontrasse com o novo orientador. Tinha de ter a certeza, o que significava que teria de fazer algo que odiava: ligar ao detestável e preguiçoso pai.

Jennifer pouco falava com o pai desde os seus 9 anos, preferindo fazer de conta que ele não existia, o que era algo difícil tendo em conta que viviam juntos num pequeno apartamento. Nesse aspecto, sentia-se aliviada desde que se mudara para Los Angeles, pois não falava com ele de todo. Durante o primeiro ano, caso ele atendesse  o telefone, quando ligava para Maria, limitava-se a desligar e a tentar mais tarde, numa altura em que tivesse a certeza de que a sua avó estava em casa. Mas a maior  parte das vezes deixava que a avó lhe telefonasse, o que acontecia com bastante regularidade. De qualquer forma, o telefone deixara de ser um problema quando a avó,  por insistência de Jennifer, comprara um celular e atribuíra a linha fixa ao pai de Jennifer. No que dizia respeito às visitas de Jennifer a Nova Iorque, era algo  que não acontecia há quatro anos, em parte por causa do pai e em parte por causa da despesa. Em vez disso, trazia a avó à Costa Oeste mais ou menos de seis em seis  meses. Maria adorara. Dissera à neta que, vir à Califórnia para ver Jennifer, era a coisa mais excitante que fizera em toda a sua vida.

No vestiário das mulheres, Jennifer marcou o código que abria a fechadura do seu cacifo, abriu-o e retirou o celular do seu interior. Depois de ter deambulado pelo  espaço durante algum tempo, encontrou um ponto em que a recepção era adequada. Marcou o número e esperou que fosse feita a ligação, cerrando os dentes em antecipação  à voz do pai. Como eram 7:45 em Los Angeles, sabia que seriam 10:45 em Nova Iorque, precisamente a hora a que Juan costumava sair da cama.

- Olha, olha, a emproada da minha filhaescarneceu Juan depois dos cumprimentos iniciais. O que é que aconteceu para receber uma chamada de tão presunçosa futura médica?

Jennifer ignorou a provocação.

- É sobre a avó disse simplesmente. Estava determinada a não permitir que ele a levasse a estender a conversar para lá do tema em mãos.

- O que é que tem a avó? Onde é que ela está?

- Porque é que perguntas?

- Diz-me só onde é que ela está.

- Está na Índia. Finalmente mandou reparar a anca. Sabes como ela é teimosa. Há vários anos que lhe ando a pedir para o fazer, porque lhe dificulta o trabalho.

Jennifer ignorou a custo o comentário em relação ao trabalho, conhecendo como conhecia a história do pai.

- Já tiveste notícias do médico, do hospital, alguma coisa?

- Não. Por que deveria?

- Têm o teu número de telefone, presumo.

- Certamente.

- Porque é que não foste com ela? Jennifer sentia-se doente só de pensar na sua avó sozinha, na Índia, submetendo-se a uma grande cirurgia, quando o mais longe que tinha viajado fora à Califórnia para a visitar.

- Não podia ir com as costas como estão e tudo o mais.

- Como foi marcada a cirurgia? perguntou Jennifer. Queria desligar o telefone. O fato de ninguém ter telefonado a Juan era definitivamente encorajador.

- Através de uma empresa de Chicago chamada Foreign Medical Solutions.

- Tens o número à mão?

- Sim, espera um segundo.

Jennifer pôde ouvir o auscultador ser pousado na mesinha do telefone. Podia imaginá-la junto à porta de entrada, na zona do apartamento que deveria servir para colocar  a mesa de jantar, mas que estava ocupada com a cama de Juan. Um minuto depois, Juan regressou e recitou um número de Chicago. Assim que Jennifer o apontou, desligou.  Não se sentia capaz de continuar com hipócritas conversas de circunstância, nem mesmo de despedida. Com o número na mão ligou para a Foreign Medical Solutions e,  depois de ter dito à telefonista quem era e porque é que estava a telefonar, foi transferida para uma fulana chamada Michelle, cujo título era gestora de processos.  A mulher tinha uma voz impressionante e profunda, com um ligeiro sotaque sulista. Depois de Jennifer ter repetido a sua história, Michelle pediu-lhe que esperasse  em linha. Durante alguns momentos Jennifer pôde ouvir o inconfundível som das teclas do computador, enquanto Michelle acedia à ficha de Maria Hernandez.

- O que é que pretendia saber? perguntou Michelle, regressando à linha. Como aluna de medicina deve estar consciente que as normas do HIPAA limitam o tipo de informação  que podemos transmitir, mesmo que seja quem afirma dizer.

- Primeiro queria ter a certeza de que ela está bem.

- Está muito bem. Fez a sua cirurgia, que decorreu com tranquilidade. Passou menos de uma hora no recobro e depois foi transferida para o seu quarto. Recebemos a indicação  de que já começou a ingerir fluidos pela boca. É a última entrada.

- É recente?

- Sim, de fato. Tem pouco mais de uma hora.

- Isso são boas notícias disse Jennifer. Sentia-se ainda mais aliviada do que quando Juan dissera não recebera quaisquer notícias. A maior parte dos vossos pacientes  do Queen Victoria Hospital apresentam bons resultados?

- Sim. É um hospital popular. Até tivemos um doente que insistiu em ir para o Queen Victoria para ser operado ao segundo joelho.

- Um testemunho é sempre bom disse Jennifer. Posso ligar para o hospital, para tentar falar com a minha avó?

- Certamente disse Michelle e deu-lhe o número.

- Que horas são agora, em Nova Deli? perguntou Jennifer.

- Deixe-me ver.

Houve uma pausa. Baralho-me muitas vezes com isto. Aqui são 9:55, por isso creio que sejam 21:25 em Nova Deli. Estão dez horas e meia mais à frente do que nós, aqui em Chicago.

- Haverá algum problema em telefonar?

- Não sei dizer-lhe, de fato respondeu Michelle.

Jennifer agradeceu à mulher. Por um momento pensou em ligar para o celular da avó, mas depois descartou a idéia. Ao contrário do seu AT&T, Jennifer não acreditava  que o Verizon da avó funcionasse na Índia. Ligou para o Queen Victoria Hospital. Quando a chamada foi atendida, literalmente, em poucos segundos, Jennifer não pôde  deixar de se sentir impressionada, em especial porque não fazia ideia de como os celulares, ou para dizer a verdade qualquer outro tipo de telefone, funcionavam.  Pouco depois estava a falar em inglês com uma mulher de voz agradável e melódica, com um óbvio sotaque indiano, que se encontrava do outro lado do mundo. Ao ouvido  de Jennifer era semelhante ao sotaque inglês, mas mais musical.

- Nem posso acreditar que estou a falar com alguém na Índia comentou Jennifer.

- Não tem de quê disse a telefonista, algo inadequadamente. Mas é provável que fale mais vezes para a Índia do que pensa, tendo em conta os nossos muitos centros de  atendimento telefônico.

Jennifer deu o nome da avó e pediu para falar com ela.

- Lamento muito respondeu a telefonista mas não podemos passar chamadas depois das oito da noite. Se tivesse a extensão poderia ligar diretamente.

- Pode dizer-me a extensão?

Lamento, mas não tenho autorização, por motivos óbvios. Senão faria eu mesma a ligação.

- Compreendo disse Jennifer, mas ainda assim achava que não tinha feito mal em perguntar. Pode dizer-me como ela está?

- Oh, sim, claro. Temos aqui uma lista. Podia repetir o apelido?

Jennifer repetiu:

- Hernandez.

- Aqui está disse a telefonista. Está muito bem, já come e está móvel. Os médicos dizem estar muito satisfeitos.

- Isso é excelente - respondeu Jennifer. - Diga-me, há alguém aí no hospital responsável pelo seu caso?

- Oh, sim, claro! Todos os nossos visitantes estrangeiros têm uma gestora de caso do país anfitrião. A da sua avó é Kashmira Varini.

- Posso deixar-lhe uma mensagem?

- Sim. Se quiser posso apontá-la ou pode deixá-la no voicemail. Posso fazer a ligação.

- O voicemail seria ótimo disse Jennifer.

Estava impressionada. O seu breve contato com um hospital indiano sugeria que se tratava de um local bastante civilizado e, de certo, equipado com os mais contemporâneos  sistemas de comunicação.

Depois da agradável mensagem de Kashmira Varini, Jennifer deixou a indicação do seu nome, grau de parentesco com Maria Hernandez e um pedido de ser mantida ao corrente  do progresso da sua avó ou, pelo menos, ser informada caso houvessem problemas ou complicações. Antes de desligar, Jennifer indicou lenta e claramente o seu número  de celular. Queria ter a certeza de que não haveria enganos provocados pela pronúncia. Jennifer sabia que tinha um forte sotaque nova-iorquino.

Fechando o celular, Jennifer começou a guardá-lo no cacifo, mas depois parou. Pensou que a probabilidade de uma outra Maria Hernandez, de Queens, ter sido submetida  a uma cirurgia praticamente ao mesmo tempo que a sua avó no mesmo hospital na Índia era deveras pequena. Na verdade, parecia verdadeiramente rocambolesco e a idéia  de ligar para a CNN e dizer-lhes isso mesmo passou-lhe pela mente. Jennifer era uma mulher de ação e não de pensamentos, não hesitando em dizer o que pensava e achava  que a CNN o merecia por não ter confirmado adequadamente a sua história antes de a transmitir. Mas um estado de espírito mais inteligente e menos emotivo prevaleceu.  A quem telefonaria na CNN e quais as hipóteses de receber qualquer tipo de satisfação? Além disso, olhou de súbito para o relógio. Vendo que já passava das oito,  sentiu um arrepio de ansiedade percorrer-lhe a espinha, como um choque elétrico. Estava atrasada para o primeiro dia no departamento de cirurgia, apesar de todos  os esforços em contrário.

Jennifer bateu a porta do cacifo e correu para a porta, colocou o telefone em modo de vibração e meteu-o no bolso das calças, juntamente com o cadeado e a chave.  Estava verdadeiramente preocupada. Chegar atrasada não era uma boa forma de começar um novo estágio, em especial com um cirurgião compulsivo, e a sua experiência  em cirurgia no terceiro ano dizia-lhe que eles eram todos compulsivos.

 

                   15 DE OUTUBRO DE 2007

                   SEGUNDA FEIRA, 11:05 - NOVA IORQUE, EUA

- Consegues vê-los? perguntou a Dra. Shirley Schoener. A Dra. Schoener era uma ginecologista especializada em infertilidade. Embora nunca o admitisse, tinha optado  pela medicina por superstição, era uma forma de lidar com o seu medo das doenças, tal como a especialização em infertilidade se prendia com o receio de ser ela própria  infértil. E tinha resultado em ambas as frentes. atualmente, era saudável e tinha dois filhos maravilhosos. Além disso tinha uma carreira invejável, sendo a sua  taxa de gravidezes bem-sucedidas soberba.

- Suponho que sim disse a Dra. Laurie Montgomery.

Laurie era médica legal e trabalhava para o Gabinete de Medicina Legal da cidade de Nova Iorque. Aos 43 anos, era contemporânea da Dra. Schoener. Tinham frequentado juntas a faculdade de medicina, sendo inclusivamente amigas e colegas de turma. A diferença entre ambas, para além das suas diferentes especializações, residia no fato de Shirley ter casado relativamente cedo, aos 30 anos, pouco depois de terminado o internato, e de os filhos terem chegado em devido tempo, tendo Shirley dado à luz um depois do outro. Laurie esperara pelos 41 anos, há dois anos atrás, antes de casar com um colega médico legista, Jack Stapleton, e pôr fim ao que chamara o "guarda-redes", um eufemismo para os diferentes tipos de métodos contraceptivos que usara ao longo dos anos. Sem os contraceptivos, Laurie assumira que rapidamente engravidaria com a criança que sempre soubera que teria. Afinal de contas, engravidara por engano numa altura em que confiara no método rítmico, simplesmente por ter feito as contas demasiado à justa. Infelizmente, a gravidez revelara-se ectópica e fora necessário interrompê-la. Mas agora que era suposto conceber, tal não acontecia, e passado o ano de sexo livre de "guarda-redes" e desprotegido necessário, chegara à desagradável conclusão de que tinha de enfrentar a realidade e ser pró-ativa. Nessa altura contatara a velha amiga Shirley e iniciara os tratamentos.

O primeiro passo consistiu em averiguar se haveria algo de errado, anatômica ou físiologicamente, com ela ou com o Jack. A resposta tinha sido negativa. Fora a única  altura na sua vida em que desejara que os exames médicos revelassem algo de errado para que pudesse ser corrigido. Descobriram sim, como seria de esperar, que uma  das suas trompas de Falópio não funcionava como resultado da sua gravidez ectópica, mas a outra, bem como a sua função aparente eram absolutamente normais. Todos  achavam que o fato de ter apenas uma trompa não deveria ter criado um problema.

Nessa altura, Laurie experimentara Clomid aliado à inseminação intra-uterina, cujo nome antigo, inseminação artificial, tinha sido mudado para que parecesse mais  natural. Depois de alguns ciclos de Clomid, todos eles sem sucesso, tinham passado para as injeções de hormonas para estimular os folículos e, caso este método se  revelasse tão infrutífero como os dois anteriores, a última esperança de Laurie residia na fertilização in vitro. Assim sendo, sentia-se compreensivelmente tensa,  talvez mesmo algo afetada por uma depressão clínica. Nunca imaginara quão stressantes seriam os tratamentos para a infertilidade, nem como seria grande o fardo emocional  que acarretariam. Sentia-se frustrada, decepcionada, furiosa e exausta. Era como se o seu corpo brincasse com ela, depois de tanto se ter esforçado por não engravidar.

- Não compreendo como é que não os consegues ver - disse a Dra. Schoener. Os folículos são bastante visíveis, pelo menos quatro deles, e têm ótimo aspecto. São de  bom tamanho, nem grandes demais, nem pequenos demais.

Agarrando no monitor de ultra-sons com a mão livre, voltou-o consideravelmente, para que ficasse mais perpendicular à linha de visão de Laurie. Depois apontou para  os folículos um de cada vez. Com a mão direita por baixo de um lençol, dirigia a sonda de ultra-sons no vértice esquerdo da vagina de Laurie.

- Ok, vejo-os disse Laurie.

Estava encavalitada na marquesa, com os pés nos apoios e as pernas afastadas. Da primeira vez que realizara uma ultra-sonografia para efeitos de tratamento de fertilidade  ficara um pouco abalada, pois estava à espera que a sonda fosse colocada no exterior do seu abdómen. Mas agora, tendo-se submetido ao procedimento dia sim, dia não,  durante a primeira metade de cinco ciclos, realizava-o sem problemas. Era um pouco desconfortável, mas não era doloroso. O maior problema era o fato de os considerar  humilhantes, mas por outro lado, achava toda a algaraviada em torno da infertilidade humilhante.

- Têm melhor aspecto do que nos ciclos anteriores? perguntou Laurie. Precisava de encorajamento.

- Não particularmente admitiu a Dra. Schoener. Mas o que me agrada mais é o fato de, neste ciclo, a maioria de encontrar no ovário esquerdo e não no direito. Lembra-te de que é o teu oviduto esquerdo que se encontra desobstruído.

- Achas que isso vai fazer diferença?

- Estarei a detetar alguma negatividade? - disse a Dra. Schoener, removendo a sonda e afastando o monitor de ultra-sons.

Laurie deu uma pequena risada, enquanto retirava os pés dos apoios, deslizava as pernas para um dos lados da marquesa e se sentava. Agarrava o lençol em torno da  cintura.

- Tens de manter um pensamento positivo continuou a Dra. Schoener. Tens tido alguns sintomas hormonais?

Laurie repetiu o seu riso falso, desta feita ainda mais forçado. Também revirou os olhos.

- Quando comecei com isto, prometi a mim mesma que não deixaria que me afetasse. Como estava enganada! Havias de me ter visto ontem a berrar contra um octogenário  que tentou passar à minha frente na fila da caixa na Whole Foods. Como diz o povo, foi de fazer corar um carroceiro.

- E dores de cabeça?

- Isso também.

- Afrontamentos?

- Tudo aquilo a que tenho direito. E o que mais me chateia é o Jack. Ele age como se não fosse nada com ele. De cada vez que me vem o período e eu me sinto arrasada  por não estar grávida ele limita-se a dizer: "Bem, talvez no próximo mês" e continua com o que estava a fazer. Só me apetece dar-lhe com uma frigideira na cabeça.

- Ele não quer filhos, pois não? perguntou a Dra. Schoener.

- Bem, para dizer a verdade, acho que está a fazer isto mais por mim, embora assim que os tenhamos, se os viermos a ter, ele se vá tornar no melhor pai do mundo. Estou  convencida disso. O problema do Jack é o fato de ter tido duas filhas adoráveis com a sua falecida esposa, mas todas terem perdido a vida num trágico acidente de  avião que realizava um vôo interno. Sofreu muito, por isso teme tornar-se de novo vulnerável. Foi ainda mais difícil convencê-lo a casar.

- Não sabia disse a Dra. Schoener, com verdadeira empatia.

- Muito poucas pessoas sabem. O Jack não é muito aberto no que diz respeito a questões pessoais.

- Não há nada de estranho na sua reação disse a Dra. Schoener, enquanto recolhia os restos de papéis da ultra-sonografia e os deitava para o caixote. A menos que seja  comprovadamente a fonte da infertilidade, algo que leva muito a sério, o homem lida com a infertilidade e os seus tratamentos de forma muito diferente da mulher.

- Eu sei, eu sei - disse Laurie insistentemente. Levantou-se, mantendo o lençol enrolado à sua volta. Eu sei disso, mas ainda assim chateia-me que não se mostre mais empenhado e compreensivo em relação àquilo por que estou a passar. Nada disto é fácil, independentemente do ponto de vista, em especial com a ameaça da hiperestimulação  a pairar sobre mim. O problema é que, como médica, sei o que devo temer.

- Felizmente, não parece existir qualquer ameaça de hiperestimulação nem neste ciclo nem nos do passado, por isso quero manter a dose das tuas injeções. Se o teu nível  hormonal estiver demasiado alto, na amostra de sangue que colhemos hoje, telefono-te para realizarmos os ajustes necessários. Caso contrário, continua tudo como  estava. Estás a ir muitíssimo bem. Sinto-me confiante em relação a este ciclo.

- Disseste o mesmo no mês passado.

- Disse-o porque me sentia bem o mês passado, mas sinto-me ainda melhor este mês, com esse teu ovário esquerdo a participar mais na ação.

- Qual é o teu palpite em termos de data para a realização da injeção de agonista e da inseminação intra-uterina? O Jack gosta de ser avisado com alguma antecedência,  quando vai ter de se "chegar à frente".

- Tendo em consideração a atual dimensão dos folículos, diria que entre cinco e seis dias. Pede na recepção que te marquem uma nova ultra-sonografia e uma aplicação  de estradiol para daqui a dois ou três dias, como for mais conveniente para ti. Nessa altura serei capaz de te dar uma estimativa melhor.

- Mais uma coisa disse Laurie, quando a Dra. Schoener estava prestes a deixá-la. A noite passada estava deitada na cama, incapaz de voltar a dormir quando se impôs  uma questão em relação ao meu trabalho. Achas que podem existir questões ambientais, em relação à morgue, que possam estar a contribuir para este problema de infertilidade,  como fixadores para amostras de tecidos ou algo do gênero?

- Duvido respondeu a Dra. Schoener sem hesitar. Se os patologistas tivessem uma taxa de infertilidade superior à dos outros médicos, eu teria ouvido alguma coisa.  Lembra-te que vejo inúmeros médicos, no centro médico, incluindo alguns patologistas.

Laurie agradeceu à amiga, deu-lhe um abraço rápido e esgueirou-se para o vestiário onde tinha deixado as roupas. Ainda não eram bem onze e meia, o que era perfeito.  Significava que estaria de volta ao gabinete de medicina legal por volta do meio-dia, a altura em que administrava a si mesma a sua injeção diária de hormonas.

 

                   15 DE OUTUBRO DE 2007

                   SEGUNDA FEIRA, 9:30 - LOS ANGELES, EUA

A vibração do celular apanhou Jennifer de surpresa, porque se esquecera que o tinha metido no bolso das calças em vez de o deixar no cacifo. Consequentemente, deu  um pulo, o que foi suficiente para chamar a atenção do seu novo orientador, o Dr. Robert Peyton. Tendo em conta que ele tinha deixado bem claro que ela começara  com o pé errado, ao chegar com um atraso de quase quatro minutos no primeiro dia, o celular a vibrar, levemente audível, era um potencial desastre. Meteu a mão no  bolso e tentou acalmar o aparelho insistente, mas não conseguiu. Incapaz de determinar rapidamente a orientação do telefone, não conseguia encontrar o botão certo.

Jennifer, juntamente com o Dr. Peyton, um homem elegante e de muito bom aspecto, e sete dos colegas de turma de Jennifer, que tinham escolhido a mesma opção, aguardavam  na quietude mortal do armazém de material de anestesia, situada entre as salas de operações oito e dez, enquanto era discutido o calendário desse mês. O grupo de  oito indivíduos deveria ser dividido em quatro duplas, sendo-lhes atribuídos turnos semanais em várias especialidades cirúrgicas, incluindo anestesia. Para desgosto  de Jennifer, ela e a sua colega tinham sido destacadas para a anestesia. Sentia vontade de dizer que se quisesse anestesia teria escolhido essa disciplina, mas como  começara com o pé errado, com o atraso, não se queixara.

- Haverá alguma coisa que a menina queira partilhar com o grupo em relação ao seu aparente sobressalto e à sua aparente necessidade de trazer o celular para o Bloco  Operatório? perguntou o Dr. Peyton, com um tom de provocação na voz, e com o que pareceu a Jennifer uma inapropriada sugestão de sexismo.

Sentiu-se tentada a responder à letra mas reconsiderou. Além disso, a contínua vibração do celular dominava o seu pensamento. Não conseguia imaginar quem podia estar  a ligar-lhe, a menos que tivesse algo a ver com a sua avó. De forma impulsiva, apesar da atenção de todos os presentes estar centrada em si, retirou o telefone do bolso, com a intenção de o silenciar; contudo, ao fazê-lo olhou de relance para a tela de LCD. Apercebeu-se de imediato que se tratava de uma chamada internacional e, tendo marcado o número há tão pouco tempo, percebeu que se tratava  do Queen Victoria Hospital.

- Peço desculpa a todos disse Jennifer. Tenho de atender esta chamada. É sobre a minha avó.

Sem esperar a resposta do Dr. Peyton, Jennifer saiu porta fora, emergindo no corredor central do Bloco Operatório. Sentindo que a presença de um celular naquela  área poderia ser seriamente condenada, atendeu a chamada, encostou o celular ao ouvido e disse à pessoa do outro lado da linha para aguardar um momento. Depois correu  na direção das portas giratórias da entrada. Só quando se encontrou de novo no vestiário tentou estabelecer o diálogo. Começou por pedir desculpas.

- Não há problema - respondeu-lhe uma voz indiana de tom bastante agudo. O meu nome é Kashmira Varini e deixou-me uma mensagem no voicemail. Sou a gestora de caso  da sra. Maria Hernandez.

- Deixei de fato uma mensagem admitiu Jennifer. Sentia a tensão acumular-se nos músculos do abdómen ao pensar no motivo daquela chamada. Jennifer sabia que não se  tratava de um telefonema social, tendo em conta que devia ser perto da meia-noite em Nova Deli.

- Ligo-lhe como pediu. Além disso, acabei de falar com o seu pai, que também me aconselhou a contatá-la. Disse que devia ficar encarregue de tudo.

- Encarregue de quê? perguntou Jennifer. Sabia que se estava a fazer de burra, a dilatar e adiar o impensável. A chamada tinha de estar relacionada com o estado de  Maria e poucas eram as hipóteses de que se tratassem de boas notícias.

- Encarregue dos preparativos. Temo que a Sra. Maria Hernandez tenha falecido.

Por um momento Jennifer sentiu-se incapaz de falar. Parecia-lhe impossível que a avó estivesse morta.

- Continua em linha? perguntou Kashmira.

- Ainda aqui estou - respondeu Jennifer. Estava chocada. Não podia acreditar que um dia que começara tão promissor pudesse revelar-se tão desastroso. Como pode ser  isso? queixou-se irritada. Liguei para o hospital há cerca de hora e meia e a telefonista garantiu-me que a minha avó estava bem. Disse-me que até já comia e se  movia.

- Temo que a telefonista não estivesse ao corrente. Todos no Hospital Queen Victoria lamentam este infeliz acontecimento. A sua avó estava a progredir esplendidamente,  a operação para substituir a anca estava terminada, e foi um sucesso a todos os níveis. Ninguém esperava este resultado. Espero que aceite as nossas sinceras condolências.

A mente de Jennifer estava próxima da paralisia. Era quase como se lhe tivessem batido na cabeça.

- Sei que é um choque continuou Kashmira mas quero assegurar-lhe que fizemos tudo o que pudemos pela sr.a Maria Hernandez. Agora, claro...

- De que é que ela morreu? perguntou Jennifer subitamente, interrompendo a gestora de caso.

- Os médicos disseram-me que se tratou de um ataque cardíaco. Sem qualquer aviso de complicações. Foi encontrada inconsciente, no quarto. Claro que foi tentada a reanimação,  mas infelizmente não houve qualquer resposta.

- Não me parece muito provável a ocorrência de um ataque cardíaco disse Jennifer, as emoções a transbordar furiosamente. Sei que ela tinha colesterol e pressão arterial  baixos, níveis reduzidos de glicemia e um cardiograma perfeitamente normal. Sou aluna de medicina. Assegurei-me de que ela fazia um exame completo no Centro Médico  da UCLA quando me visitou, apenas há alguns meses atrás.

- Um dos médicos referiu que ela tinha um historial de arritmia.

- Arritmia, o tanas gritou Jennifer. Oh, de fato sofreu de PVCs no passado, mas descobriu-se que isso estava relacionado com a efedrina presente num medicamento que  estava a tomar. O mais importante é que as PVCs desapareceram assim que parou de tomar o medicamento e nunca mais regressaram.

Agora era a vez de Kashmira ficar em silêncio, sendo necessário que Jennifer, depois de alguns instantes, lhe perguntasse se continuava em linha.

- Não, ainda aqui estou respondeu Kashmira. Não estou certa de saber o que lhe dizer. Não sou médica; só sei o que os médicos me dizem.

Um toque de culpa acalmou a resposta de Jennifer às horríveis notícias. Instantaneamente sentiu alguma vergonha por ter culpado o mensageiro.

- Peço desculpa. Estou apenas muito transtornada. A minha avó era muito especial para mim. Era como uma mãe.

- Todos lamentamos muito a sua perda, mas há decisões a tomar.

- Que tipo de decisões?

- Principalmente em relação ao corpo. Estando já na posse da certidão de óbito assinada, o que é o caso, precisamos de saber se pretende mandar cremar ou embalsamar  o corpo e se planeja enviá-lo para os Estados Unidos ou deixá-lo na Índia.

- Oh, meu Deus murmurou Jennifer.

- Sabemos que é difícil tomar este tipo de decisões, dadas as circunstâncias, mas são necessárias. Perguntamos ao seu pai, uma vez que o nome dele consta do contrato  como familiar mais próximo, mas ele disse que você, sendo quase médica, deveria tratar de tudo, e vai enviar-nos por fax uma declaração nesse sentido.

Jennifer revirou os olhos. Um tal truque para evitar qualquer responsabilidade era típico de Juan. Ele não tinha vergonha.

- Considerando as terríveis circunstâncias, tínhamos esperado que o Sr. Hernandez viesse à Índia, durante 15 dias, às nossas custas, mas ele alegou ser incapaz de viajar devido a uma lesão nas costas.

Sim, pois, disse Jennifer para si mesma. Sabia bem que todos os anos, em Novembro, podia guiar até Adirondacks, caçar e subir às montanhas, com os seus amigos imprestáveis,  sem qualquer dificuldade.

- Certamente estender-lhe-emos o mesmo convite, dado que será a nova familiar mais próxima. O contrato que a sua avó assinou incluía viagem e estadia para um parente  que a desejasse acompanhar, mas ela dissera que não seria necessário. De qualquer forma, os fundos continuam disponíveis.

Jennifer sentia que a estavam a estrangular, a avó tinha morrido na longínqua Índia e o seu corpo jazia só, sobre a fria pedra de uma qualquer câmara mortuária.  Sendo-lhe disponibilizada a viagem e o alojamento, soube instintivamente que não podia decepcionar a sua avó, teria de ignorar qualquer inconveniente causado às  suas responsabilidades pessoais, nomeadamente, a faculdade de medicina e o seu novo estágio em cirurgia. Nunca se perdoaria, mesmo que a avó não lhe tivesse dito  o que ia fazer.

- Tudo poderá ser tratado através da embaixada americana e os documentos podem ser assinados à distância mas a sua presença é, sem dúvida, preferível. É mais seguro,  nestas circunstâncias, a presença de um familiar para evitar erros e mal-entendidos.

- Está bem, eu vou - disse Jennifer abruptamente mas quero partir imediatamente. Isso significa ainda hoje, se possível.

- Isso não deverá ser um problema desde que haja lugar no vôo do fim da tarde de Singapura, com escala em Tóquio. Não é a primeira vez que recebemos doentes da zona  de Los Angeles, por isso estou familiarizada com os horários. O maior problema será o visto, mas devo ser capaz de conseguir um visto médico de emergência através  do Ministério da Saúde indiano. Podemos informar a companhia aérea a partir daqui. Só precisarei do seu número de passaporte o mais depressa possível.

- Vou agora para o meu apartamento e ligo-lhe com a informação - prometeu Jennifer.

Estava contente por ter um e só o tinha por causa da avó. Maria tinha-a levado, e aos seus dois irmãos, à Colômbia para conhecer a família, tinha ela 9 anos. Também  se sentiu contente por se ter dado ao trabalho de o renovar.

Talvez consiga ter tudo pronto quando me voltar a ligar. Apesar da hora tardia, aqui na Índia, vou tratar já de tudo. Mas antes de a deixar ir, queria perguntar-lhe uma vez mais se deseja que o corpo da sua avó seja cremado, o que recomendo, ou embalsamado.

- Nenhuma das duas, enquanto eu não chegar aí - disse Jennifer. - Entretanto vou perguntar aos meus dois irmãos o que acham.

Jennifer sabia que era mentira. Ela e os irmãos tinham seguido caminhos muito diferentes na vida e raramente se falavam. Nem sequer tinha como contatá-los e, tanto  quanto sabia, até podiam estar presos por tráfico de drogas.

- Mas nós precisamos de uma resposta. A certidão de óbito já foi assinada. Tem de decidir.

Jennifer hesitou na sua resposta. Como era seu costume quando a pressionavam, retraiu-se.

- Presumo que o corpo se encontre numa câmara frigorífica.

- Está sim, mas a nossa política é tratar imediatamente dele. Não temos instalações adequadas porque as famílias indianas reclamam os seus mortos de imediato, para  os cremarem ou enterrarem, mas principalmente cremarem.

- Em boa parte, a razão por que aí vou é para ver o corpo.

- Então podemos mandar embalsamá-lo. Ficará muito mais apresentável.

- Ouça, Sra. Varini disse Jennifer. Vou viajar meio mundo para ver a minha avó. Não quero que a perturbem até à minha chegada. Certamente não a quero cortada e retalhada  por um embalsamador. O mais certo é cremá-la, mas não quero decidir antes de a ver uma última vez, está bem?

- Como quiser disse Kashmira, com um tom de voz que sugeria o seu enorme desagrado em relação àquela decisão. Depois deu a Jennifer o seu número direto, insistindo  para que lhe transmitisse os detalhes relativos ao passaporte o mais depressa possível.

Jennifer desligou o telefone. A sua perplexidade e irritação com a inapropriada e contínua insistência da gestora de caso para que tomasse uma decisão em relação  ao corpo da avó, quando ela indicara claramente que ainda não sabia, tivera pelo menos o efeito de afastar a dor. Mas, depois, Jennifer encolheu os ombros. Toda  aquela situação deveria ser apenas mais um exemplo da falta de tato de algumas pessoas. Kashmira Varini era certamente uma daquelas funcionárias administrativas  de nível intermédio, como um quadradinho junto de "destino do corpo" que tinha de ser marcado.

Saindo apressadamente do vestiário planejou as horas seguintes, sentindo que isso também a ajudaria a pensar noutra coisa que não a morte da avó. Primeiro tinha de regressar ao Bloco Operatório, procurar o Dr. Peyton e explicar-lhe a situação.

Depois tinha de correr para o seu apartamento, procurar o passaporte e ligar para a Índia com o número. Finalmente, devia dirigir-se à faculdade de medicina e explicar  tudo ao deão dos alunos.

Tendo atravessado a porta principal do Bloco Operatório, Jennifer parou junto da recepção. Enquanto esperava para perguntar a uma das atarefadas enfermeiras chefes se o Dr. Peyton e os seus alunos ainda se encontravam na sala de anestesia onde os tinha deixado, deu por si a considerar uma questão espantosa: como era possível ter tido conhecimento da morte da avó logo pela CNN, cerca de hora e meia antes de ter sido contatada pelo hospital? Como não conseguia pensar numa explicação plausível,  decidiu que perguntaria às autoridades hospitalares, assim que chegasse à Índia. Tanto quanto sabia, os parentes próximos deviam ser informados antes de serem transmitidos  nomes à imprensa, embora lhe tenha ocorrido que tal poderia ocorrer nos Estados Unidos mas não na Índia. Mas isso levantava outra questão: porque é que a CNN estava  interessada em transmitir o nome da sua avó? Ela não era propriamente uma celebridade. Seria apenas uma pista na questão do turismo médico? E quem seria essa fonte conhecida e de confiança que afirmava que a morte da sua avó era apenas a ponta do icebergue?

 

                   15 DE OUTUBRO DE 2007

                   SEGUNDA FEIRA, 23:40 - DELI, ÍNDIA.

Kashmira Varini era uma mulher magra, pálida e muito direta, que raramente sorria e cujo tom de pele contrastava com os saris que usava. Mesmo a hora tão tardia,  tendo sido chamada ao hospital com urgência para lidar com a morte da sra. Hernandez, tinha-se dado ao trabalho de vestir uma indumentária lavada e passada, de ricos  tons de vermelho e ouro. Embora tivesse uma aparência mortiça e não fosse particularmente simpática, era boa no que fazia graças à sua capacidade de transmitir aos  pacientes uma imagem forte, de proficiência, eficiência e empenho, em especial graças ao seu excelente domínio da língua inglesa. Embora os pacientes vindos de longe  para se submeterem a uma cirurgia se sentirem invariavelmente assustados e, por consequência, nervosos, ela deixava-os à vontade mal chegavam ao hospital.

Conseguiu ouvir o suficiente do meu lado da conversa, para adivinhar o que disse a Menina Hernandez? perguntou Kashmira.

Encontrava-se no escritório do diretor-geral do hospital, numa mesa comprida. Ele estava sentado à sua frente. Contrastando consideravelmente com a sua indumentária  étnica, Rajish Bhurgava, o redondo e algo obeso diretor-geral, estava paramentado como um cowboy, com calças de ganga que lhe assentavam mal e uma camisa de flanela  aos quadrados que tinha molas em vez de botões. Tinha as pernas cruzadas e as botas de cowboy balançavam periclitantes no canto da mesa.

- Consegui perceber que não conseguimos obter permissão para embalsamar ou cremar o corpo, que era o principal objetivo da chamada. É uma pena.

- Fiz o melhor que pude disse Kashmira em sua defesa. Mas a neta é consideravelmente mais obstinada do que o filho. Talvez devêssemos ter avançado com a cremação sem  lhe perguntar.

- Não creio que pudéssemos correr esse risco. Ramesh Srivastava foi muito claro quando me telefonou a dizer que queria que este caso desaparecesse. Referiu espetificamente que não desejava mais atenção da parte dos media e se a neta fosse desrespeitada, o que, como deve calcular, aconteceria caso o corpo fosse cremado sem a sua autorização,  isso poderia acontecer.

- Mencionou o nome de Ramesh Srivastava antes, quando me ligou a informar que a sra. Hernandez tinha morrido e me disse que tinha de lidar com isto ainda hoje. Quem  é ele? Nunca ouvi o seu nome.

- Lamento. Pensei que soubesse. É um membro de topo na administração, colocado à frente do departamento de turismo médico do Ministério da Saúde.

- Foi ele que lhe ligou por causa da morte.

- Foi, o que é chocante. Nunca conheci o homem, mas é um indivíduo importante. A sua nomeação revela o quão vital se está a tornar o turismo médico no entender do  governo.

- Como é que ele soube da morte antes de nós?

- Essa é uma boa pergunta. Um dos seus subordinados ouviu a notícia na CNN International e considerou que era suficientemente sério, tendo em conta os seus possíveis  efeitos na campanha de Relações Públicas que o Ministério do Turismo e a Indian Healthcare Federation lançaram em conjunto, para informar imediatamente Srivastava,  apesar da hora. O que mais me impressionou foi o fato de Srivastava me ter ligado diretamente em vez de delegar num dos seus assistentes. Isso mostra a seriedade  com que ele encara este fato, razão pela qual deseja que este caso desapareça, o que, obviamente, implica a rápida destruição do corpo. Para ajudar, disse que ia  fazer uns telefonemas que permitiriam obter sem mais delongas a certidão de óbito, o que aconteceu. Também deu ordem para que nenhum membro do pessoal do hospital  falasse com a imprensa, sob qualquer pretexto. Disse que pairava no ar a idéia de uma qualquer investigação. - Ele não quer nenhuma investigação.

- Recebi a mensagem, alto e bom som, tal como todos os outros.

- Assim sendo disse Rajish, deixando cair as pernas para o chão e batendo na mesa para ênfase libertemos o corpo para cremação ou embalsamamento e para longe daqui.

Kashmira empurrou para trás a cadeira, cujas pernas arranharam o chão em protesto.

- Darei de imediato início ao processo, cuidarei dos preparativos para a viagem da Menina Hernandez. planeja voltar a falar com o Sr. Srivastava esta noite?

- Pediu-me que lhe ligasse para casa, com um ponto da situação. Por isso, sim, voltarei.

- Diga-lhe que talvez necessitemos do seu apoio na obtenção de um visto médico de emergência para a Menina Hernandez.

- Com certeza disse Rajish, rabiscando uma nota para si mesmo.

Observou Kashmira enquanto esta saía do seu gabinete. Dirigindo a sua atenção para o telefone que Kashmira usara para ligar para Jennifer e marcando o número de telefone do secretário-adjunto Srivastava, que Rajish anotara num pedaço de papel, fez a chamada. Sentia-se  orgulhoso por estar a ligar para alguém de tão elevada posição na Saúde, em especial a uma hora tão pouco ortodoxa.

Tendo atendido ao primeiro toque, o que sugeria que deveria estar à espera perto do aparelho, Ramesh Srivastava não perdeu tempo com conversas de circunstância.  Perguntou se se tinham visto livres do corpo como pedira.

- Não exatamente teve de admitir Rajish, prosseguindo com a descrição de como tinham perguntado ao filho que, depois, designara a neta que, por sua vez, adiara a decisão.  As boas notícias explicou Rajish são que a neta deverá estar a caminho de Deli dentro de poucas horas e, assim que chegue, poderei pressioná-la para tomar uma decisão.

- E quanto aos media - questionou Ramesh. Têm havido elementos dos media a patrulhar o hospital?

- Nada de nada.

- Sinto-me surpreendido e encorajado. O que me leva de novo à questão da forma como tiveram acesso à notícia. Tendo em conta o contexto em que a peça foi emitida,  parece-nos que se tratará de um estudante de esquerda que se opõe ao rápido crescimento dos hospitais privados na índia. Tem conhecimento da existência de alguma  pessoa, ou pessoas, assim no Queen Victoria Hospital?

- De maneira nenhuma. Tenho a certeza de que a administração teria conhecimento de alguém assim.

- Não se esqueça disto. Com a estagnação dos orçamentos dos hospitais públicos, em particular no que diz respeito ao controle das doenças infecciosas, serão pessoas  que encaram o tópico de forma bastante emotiva.

- Não me esquecerei, com certeza disse Rajish.

A idéia de que um membro da sua equipe médica pudesse ser um traidor era perturbadora e a primeira coisa que faria, de manhã, seria abordar a questão junto do chefe  do pessoal médico.

 

                   15 DE OUTUBRO DE 2007

                   SEGUNDA FEIRA, 10:45 - LOS ANGELES, EUA

Jennifer dirigia-se da faculdade de medicina para o edifício principal do Centro Médico da UCLA e sentia-se impressionada com tudo o que conseguira fazer, apesar do choque emocional. Desde que terminara a conversa com a gestora de caso do Hospital Queen Victoria, pouco mais de uma hora antes, tinha falado com o seu novo orientador,  corrido para casa, telefonado para a Índia para dar o número do seu passaporte, ido até à faculdade de medicina, obtido a bênção do deão para tirar uma semana, conseguido  um substituto para o seu lugar no banco de recolha de sangue e esperava agora conseguir resolver os seus temores emocionais, as suas preocupações econômicas e a  questão da vacina profilática contra a malária. Embora tivesse levantado a quase totalidade dos 400 dólares das suas poupanças, receava que não fossem suficientes,  mesmo com o cartão de crédito e o fato de a Foreign Medical Solutions de Chicago suportar as despesas maiores. Jennifer nunca fora à índia, quanto mais numa missão  que envolvia lidar com um cadáver. A possibilidade de vir a necessitar de uma soma significativa não era assim tão rebuscada, em especial se a cremação ou o embalsamamento  não pudessem ser cobrados à empresa.

O fato de ter estado tão atarefada durante a última hora tinha tido como benefício secundário impedi-la de pensar na realidade da morte da avó. Até o tempo parecia  ajudar, já que o dia estava tão radiante como a madrugada anunciara. Ainda conseguia ver as montanhas ao longe, embora não com a mesma clareza. Mas agora que quase  terminara os seus preparativos, a realidade começava a impor-se.

Jennifer ia sentir terrivelmente a falta de Maria. Era a pessoa de quem se sentia mais próxima e assim fora desde os 3 anos de idade. Para além dos dois irmãos,  com quem não falava durante meses a fio, os únicos parentes que conhecia viviam na Colômbia e só se encontrara com eles uma vez, quando a avó a levara até lá com esse mesmo propósito. Os parentes do lado da mãe eram um mistério absoluto. E no que a Jennifer dizia respeito, o pai, Juan, não contava.

Mal Jennifer passou pela porta giratória do edifício principal, de tijolo vermelho, do hospital, o celular tocou. Olhando para a tela, verificou que se tratava de  uma chamada da índia. Atendeu o telefone e, ao fazê-lo, regressou para o exterior e para a luz do sol.

- Tenho boas notícias disse Kashmira. Consegui tratar de tudo. Tem consigo caneta e papel?

- Tenho respondeu Jennifer. Retirando da mala que trazia a tiracolo um pequeno bloco de apontamentos e entalando o celular na curva do pescoço, conseguiu apontar a  informação do voo. Quando soube que ia partir nessa tarde mas que só chegaria nas primeiras horas de quarta-feira, ficou chocada. Não fazia idéia que demoraria tanto  tempo.

- É um vôo longo admitiu Kashmira. Mas estamos quase do outro lado do mundo. Agora, quando aterrar em Nova Deli e tiver de passar pelo controle de passaportes deve  seguir para a fila do corpo diplomático. O seu visto encontrar-se-á aí à sua espera. Então, depois de recolher a bagagem e passar pela alfândega, estará à sua espera  um representante do Amal Palace Hotel, segurando um cartaz. Ele tratará da sua bagagem e levá-la-á até ao motorista.

- Parece suficientemente simples - disse Jennifer, enquanto tentava descobrir, pela hora de partida e de chegada, exatamente quantas horas estaria no ar. Depressa  compreendeu que não o conseguiria sem conhecimento das diferenças horárias. Além disso, sentia-se confusa por ter de atravessar a Linha Internacional de Mudança  de Data.

- Quarta-feira de manhã, irá um carro buscá-la ao hotel, às oito. Está bem assim?

- Acho que sim disse Jennifer perguntando-se se ainda se sentiria humana depois de estar num avião durante tantas horas e sem fazer ideia se seria capaz de dormir.

- Aguardamos com expectativa a sua chegada.

- Obrigado.

- Agora gostaria de lhe perguntar mais uma vez se já optou entre a cremação e o embalsamamento.

Uma onda de irritação varreu Jennifer, precisamente quando começava a gostar da gestora. Ela não teria a mínima intuição? Perguntou-se Jennifer espantada.

- Porque é que haveria de ter mudado de idéias em relação a apenas duas horas atrás? perguntou irritada.

- A administração deixou bem claro que acreditava ser melhor para todos, incluindo para o corpo da sua avó, se avançássemos com isto.

- Bem, lamento. Os meus sentimentos não se alteraram, em especial porque tenho estado de tal forma ocupada que ainda não tive tempo para pensar em nada. Além disso, não quero sentir que estou a ser pressionada. Partirei o mais depressa possível.

- Não pretendemos de forma alguma pressioná-la. Apenas recomendamos o que é melhor para todos.

- Não considero que seja o melhor para mim. Espero que compreendam, porque se eu chegar aí e o corpo da minha avó tiver sido violado sem o meu consentimento, vou armar  uma grande confusão. Estou a falar a sério, porque não acredito que as vossas leis sejam muito diferentes das nossas neste tipo de situação. O corpo pertence-me  enquanto parente mais próxima.

- Certamente não faríamos nada sem a sua aprovação expressa.

- Ótimo disse Jennifer, recuperando um pouco, mas ainda assim surpresa com a veemência da sua resposta. Ela tinha consciência de que estava, provavelmente, a transferir os seus sentimentos, culpando o hospital e mesmo Maria. Não estava apenas triste em relação à sua avó, também estava zangada. Não parecia justo que Maria não lhe  tivesse dito que ia fugir para a Índia, realizar uma cirurgia e depois ser morta.

Terminada a chamada, Jennifer deixou-se ficar onde estava, reconhecendo que seria necessário algum tempo e esforço para enfrentar aquelas questões psicológicas.  Mas depois lembrou-se das horas e de que teria de apanhar um vôo daí a não muito tempo. Com isso em mente, apressou-se a atravessar as portas giratórias e a dirigir-se  às urgências.

Como sempre, reinava o caos nas urgências. Jennifer estava à procura do Dr. Neil McCulgan, que tinha subido rapidamente de chefe residente das urgências para a sua  atual posição como diretor assistente encarregue dos horários. Jennifer conhecera-o durante o primeiro ano, quando ele ainda estava a realizar o internato. Possuindo  uma personalidade estranha à Costa Leste, ela achava-o único e intrigante. Neil era o típico "surfista" da Califórnia do Sul, com cabelo descolorado, o que no seu  caso resultava num castanho de difícil descrição. O que Jennifer achava tão diferente era a sua atitude aberta, amigável e descontraída que contrastava com o fato  de ser um inteletual disfarçado e um estudante compulsivo, com uma memória quase fotográfica. Quando o conheceu, Jennifer nem podia acreditar que ele se sentisse  atraído por uma especialidade médica tão tensa e exigente como a medicina das urgências.

Embora Jennifer estivesse consciente de não partilhar das suas habilidades sociais, partilhava com ele um interesse geral pelo conhecimento e hábitos de estudo,  além de ter descoberto nele uma fértil fonte de todos os tipos de informação. Passado um ano, Neil tornara-se o único homem com quem se sentia capaz de conversar, e não apenas sobre medicina. Como consequência, tornaram-se os melhores amigos. Na verdade, Neil tornara-se no seu primeiro namorado a sério. Ela pensava ter tido namorados antes, mas depois de conhecer Neil compreendeu que isso não era inteiramente verdade. Neil fora a primeira pessoa a quem Jennifer estivera disposta  a confiar os seus mais profundos segredos.

- Desculpe! disse Jennifer a um dos atormentados enfermeiros, no caótico balcão central. O enfermeiro acabara de gritar qualquer coisa para um colega inclinado para  fora de uma porta a vários quartos de distância, no corredor principal. - Pode-me dizer onde está o Dr. McCulgan?

- Não faço a mínima idéia respondeu o homem. Por uma razão qualquer tinha não um, mas dois estetoscópios pendurados ao pescoço. Experimentou o gabinete dele?

Aproveitando a sugestão, Jennifer apressou-se para a área de triagem, onde estava localizado o gabinete. Espreitando para o interior, sentiu-se com sorte. Ele estava  sentado à secretária, de costas voltadas para ela, envergando uma imaculada bata branca sobre as calças verdes. Jennifer sentou-se na cadeira entalada entre a secretária  e a parede. Assustado, ele levantou instantaneamente os olhos.

- Ocupado? perguntou Jennifer, a voz ligeiramente embargada.

A sua questão gerou apenas um riso abafado do homem cuja atenção se voltara para o gigantesco horário das Urgências para o mês de Novembro, sobre o qual estava debruçado.

Neil tinha feições agradáveis, olhos inteligentes e alguns cabelos cinzentos prematuros na zona das têmporas. Também tinha os ombros largos e a cintura excecionalmente  estreita dos surfistas. Nos pés trazia chinelas de couro branco, com sola de madeira.

- Posso falar contigo um instante? perguntou ela. Ao falar teve de suster as lágrimas.

- Se conseguires ser rápida - disse ele, com um sorriso. - Tenho de ter este horário pronto a imprimir dentro de uma hora. Voltou a levantar o rosto e só então se  apercebeu que ela lutava para controlar as suas emoções. O que é que se passa? perguntou, subitamente apreensivo. Pousou a caneta e inclinou-se na direção dela.

- Recebi notícias horríveis esta manhã.

- Lamento muito disse ele, esticando-se e agarrando-lhe o braço. Não perguntou sobre o que eram. Conhecia-a o suficiente para saber que se ela quisesse lhe contaria,  caso contrário qualquer insistência da sua parte seria inútil.

- Obrigado. Foi a minha avó. Jennifer libertou o braço e esticou-se sobre a secretária de Neil para agarrar um lenço de papel.

- Eu lembro-me dela. Maria, certo?

- Sim. Ela morreu há apenas algumas horas. Até foi anunciado, acredites ou não, na CNN.

- Oh, não! Meu Deus, lamento muito. Sei o que ela significava para ti. O que é que aconteceu?

- Disseram-me que tinha sido um ataque cardíaco, o que me surpreende muito.

- Posso compreender porquê. O nosso departamento médico não tinha dito que ela estava de excelente saúde?

- Disseram, sim. Até lhe fizeram uma prova de esforço.

- Vais para casa agora ou é esse o problema? Quer dizer, não começaste hoje o novo estágio de cirurgia?

- Não e sim respondeu Jennifer cripticamente. A situação é um pouco mais complicada.

Jennifer prosseguiu então, contando a Neil toda a história sobre a Índia, a insistência para que decidisse entre a cremação ou o embalsamamento, o pedido ao deão  para que lhe concedessem uma licença de uma semana, o fato de a empresa de serviços médicos pagar as suas despesas e a sua partida dentro de poucas horas.

- Uau disse Neil. Tiveste uma manhã atribulada. Lamento que vás à Índia por motivos tão tristes. Como te disse em Maio, quando regressei, é um país fascinante, cheio  de contrastes incríveis. Mas não creio que esta vá ser uma viagem agradável.

Neil tinha estado na Índia cinco meses antes, para discursar numa conferência médica em Nova Deli.

- Não consigo imaginar nada de agradável nesta viagem, o que me leva à questão da malária. O que achas que deva fazer?

- Au! - disse Neil, encolhendo-se. - Lamento dizer que devias ter começado há uma semana atrás.

- Bem, não havia forma de antecipar isto. De resto está tudo em ordem, mesmo em relação à febre tifóide, por causa do susto que apanhei o ano passado com o meu doente  de medicina interna.

Neil retirou o livro de receitas da gaveta e escreveu rapidamente. Entregou a receita Jennifer, que a analisou.

- Doxiciclina? leu Jennifer em voz alta.

- Normalmente não é a primeira escolha, mas a proteção é quase imediata. As boas notícias é que o mais provável é que nem precises. A malária representa um verdadeiro  problema é no sul da Índia.

Jennifer acenou e colocou a receita na mala.

- Porque é que a tua avó foi à Índia para realizar a cirurgia?

- Presumo que fosse apenas uma questão de custos. Não tinha seguro de saúde. E estou certa que o sacana do meu pai a encorajou bastante.

- Já tinha lido sobre turismo médico à Índia, mas nunca conhecera ninguém que o tivesse feito.

- Eu nem sequer sabia que existia.

- Onde é que te vão alojar?

- Num hotel chamado Amal Palace.

- Uau! - exclamou Neil. - É suposto ser de cinco estrelas. Riu-se e acrescentou. É melhor teres cuidado; devem estar a tentar comprar-te. Claro que estou a brincar. Não precisam de te comprar. Um dos aspectos negativos do turismo médico é não teres onde recorrer. Não existe negligência médica. Mesmo que eles façam asneira da  grossa, como tirar o olho errado ou matar alguém por erro ou incompetência, não há nada que se possa fazer.

- Acredito que tenham feito um negócio qualquer com o Amal Palace. Trata-se apenas do local onde colocam as pessoas. Quer dizer, não estou a receber tratamento especial.  Aparentemente, pagam a viagem e a estadia a um parente. Por isso é que vou receber a viagem. O preguiçoso do meu pai disse que não podia ir.

- Bem, espero que resulte algo de positivo desta viagem - disse Neil. Apertou o pulso de Jennifer uma última vez. E mantém-me informado. Liga-me a qualquer hora:  manhã, tarde ou noite. Lamento muito em relação à tua avó. Pegou na caneta como sinal de que tinha de voltar ao trabalho.

- Tenho alguns pedidos a fazer disse Jennifer, sem se levantar do lugar.

- Claro. Em que estás a pensar?

- Considerarias vir comigo? Acho que preciso de ti. Quer dizer, vou estar completamente fora do meu elemento. Com exceção de uma viagem à Colômbia quando tinha 9 anos,  nunca saí do país, quanto mais para ir a um local exótico como a índia. Como estiveste lá há pouco tempo, já tens um visto. Não sou capaz de dizer como me sentiria  mais confortável. Sei que é pedir muito, mas sinto-me tão provinciana; até ir a Nova Jersey me costumava deixar ansiosa. Estou a brincar, mas não sou uma viajante,  nem por sombras. E eu sei que um dos benefícios das urgências é poderes tirar alguns dias. em especial tendo em conta que fizeste os turnos do Clarence há algumas  semanas atrás e que ele está em dívida para contigo.

Com um suspiro, Neil abanou a cabeça. A última coisa que queria fazer era viajar para a Índia, mesmo que conseguisse os dias. Na verdade, esse fora um dos motivos  por que se interessara inicialmente por aquela especialidade e estabelecera para si um horário de 24 horas a trabalhar e 24 horas a descansar, de tal forma que se  a semana de trabalho começasse segunda-feira às 7 da manhã, estava terminada quinta-feira às 7 da manhã, a não ser que quisesse fazer horas extraordinárias. Os restantes  quatro dias da semana ficavam livres para o seu verdadeiro amor, o surf. Nesse momento, aguardava ansiosamente o encontro do fim-de-semana em San Diego. Também era  verdade que o amigo e colega surfista, Clarence Hodges, estava em dívida com ele por causa da viagem ao Havaí. Mas nada disso interessava. Neil não queria ir à Índia por causa de uma avó morta. Se fosse a mãe de Jennifer a morrer, talvez, mas não a avó.

- Não posso disse Neil, depois de uma pausa, como se tivesse considerado verdadeiramente a idéia. Lamento mas não posso ir. Pelo menos não agora. Se puderes esperar  uma semana, talvez, mas agora não é uma boa altura. Abriu as mãos erguidas, atabalhoadamente, sobre o horário em que estava a trabalhar como se fosse esse o problema.

Jennifer ficou chocada e desapontada. Tinha pensado muito sobre se deveria ou não pedir-lhe e se precisaria realmente dele. O que a fizera decidir-se fora o fato de não saber, realisticamente, se seria capaz de lidar com a situação quando chegasse à Índia. Aquilo que ficara bastante claro para ela que, depois do choque inicial  provocado pela notícia da morte de Maria, tinha erguido bastantes defesas, que incluíam toda aquela correria e o planejamento da viagem, algo a que os psicólogos  chamam "bloqueio". Até então as coisas tinham funcionado razoavelmente bem e ela estava funcional. Mas sendo a sua avó tão próxima, temia ver-se em apuros quando  a realidade da perda se instalasse. Receava sinceramente que, ao chegar à Índia, estivesse emocionalmente desfeita.

Jennifer olhou furiosa para Neil. A surpresa e o desapontamento tinham-se metamorfoseado de imediato, dando lugar à raiva. Jennifer sentira-se tão confiante de que  se lhe pedisse diretamente e admitisse que precisava dele, o que achava ter feito, ele acederia, como resultado direto das confidências que tinham partilhado. O  fato de ele ter recusado tão prontamente e apresentado uma explicação tão fraca e ridícula, algo que ela nunca faria se a situação fosse inversa, só podia significar  que o seu relacionamento não era o que ela pensara. Em resumo, como os homens em geral, do seu ponto de vista, ele estava a demonstrar que não eram de confiança.

Jennifer ergueu-se abruptamente e, sem dizer mais nada, saiu do minúsculo gabinete, emergindo na cheia sala das urgências. Podia ouvir Neil chamar o seu nome, mas  não parou nem respondeu. Atormentava-a saber que confiar nele tinha sido um erro. Quanto a pedir-lhe algum dinheiro emprestado, naquela altura já nem considerava  a hipótese.

 

                   16 DE OUTUBRO DE 2007

                   TERÇA-FEIRA, 6:30 - NOVA DELI, ÍNDIA

Cal Morgan era uma daquelas pessoas que dormem profundamente e precisam de um poderoso alarme para serem despertadas. O que usava era um despertador com leitor de CDs, e o CD era de hinos marciais. Com o volume a três quartos, o leitor vibrava o suficiente para se fazer abanar a si mesmo, à mesa-de-cabeceira e aos outros objetos  pousados sobre a sua atulhada superfície. Até Petra, na suite adjacente, o conseguia ouvir como se estivesse no seu quarto. Por isso, quando começava a tocar, Cal  esforçava-se por desligá-lo assim que se sentia adequadamente consciente. Ainda assim, de vez em quando, voltava a adormecer.

Mas isso não ia acontecer nessa manhã. Estava demasiado excitado, graças às atividades da noite anterior, para dormir mais. Deitou-se de costas, a olhar para o teto,  e pensou nos mais recentes acontecimentos.

O que o preocupava era o fato de a tentativa de suicídio de Veena quase ter destruído todo o projeto. Se não tivesse ido vê-la naquela altura, ela teria morrido  e restavam poucas dúvidas de que a sua morte teria resultado num inquérito e que um inquérito teria sido um desastre. Certamente teria levado ao encerramento da  Nurses International e, durante o processo, pelo menos abrandado o seu progresso em direção ao derradeiro objetivo, o de se tornar verdadeiramente rico como diretor  executivo da SuperiorCare Hospital Corporation.

De início Cal não se sentira interessado na área da saúde e, na verdade, continuava pouco preocupado com doentes e enfermeiras. Simplesmente gostava dos valores  monetários envolvidos, dois trilhões de dólares por ano, só nos Estados Unidos, e no crescimento sustentado recorde. Quando ainda andava no liceu, a sua primeira  escolha, em termos profissionais, fora a publicidade e, para se preparar, frequentara a UCLA e a Rhode Island School of Design. Mas a sua breve passagem pelo meio  foi suficiente para reconhecer as suas limitações, em especial financeiras. Desistindo da publicidade, mas não dos princípios do engano, navegou através da Harvard Business School, onde ficou ao corrente dos estonteantes valores envolvidos nos cuidados de saúde. Quando terminou a faculdade de gestão procurou, e conseguiu, um lugar ainda que baixo na SuperiorCare Health Corporation, que era uma das maiores empresas do ramo: possuía hospitais, clínicas e planos de saúde em quase todos  os estados e nas principais cidades dos Estados Unidos.

Para melhor utilizar as suas capacidades criativas, Cal entrou para a empresa através do departamento de relações públicas, onde considerava existirem melhores oportunidades  de criar um nome para si e, consequentemente, atrair a atenção dos diretores da empresa. No primeiro dia vangloriou-se de que, no espaço de dez anos, estaria à frente  da empresa e, ao fim de dois, parecia haver algum mérito na sua profecia. Juntamente com uma mulher impressionante com mais 5 anos e 2,5 centímetros para além do seu 1,82, chamada Petra Danderoff, que já pertencia ao departamento de Relações Públicas quando se lhe juntou, deu por si a co-gerir o departamento na sequência de uma série de campanhas publicitárias extremamente bem sucedidas que resultaram na quase duplicação do número de adesões aos planos de saúde da empresa.

Algumas pessoas foram surpreendidas pela sua ascensão meteórica, mas não Cal. Desde tenra idade que estava acostumado ao sucesso, em parte como cumprimento do que  a confiança e a competitividade que faziam parte do seu mapa genético profetizavam, algo que fora cultivado ao ponto de se tornar uma obsessão pelo seu igualmente  competitivo pai. Desde a infância, queria ganhar em tudo, em especial quando competia contra os dois irmãos mais velhos. Dos jogos de tabuleiro, como o Monopólio,  às notas na escola, do atletismo aos presentes que oferecia aos pais pelo Natal, Cal insistia em ser o número um, com uma obstinação que poucos seriam capazes de  igualar. E o sucesso apenas reforçava o seu apetite pelo sucesso, ao ponto de ao longo dos anos ter perdido qualquer vestígio da necessidade de princípios morais.  Para ele, a batota, a que não se referia nestes termos, e o ignorar da ética eram ferramentas que utilizava para progredir em direção aos seus próprios objetivos.

Os diretores da SuperiorCare Hospital Corporation não conheciam estes detalhes do passado e da personalidade de Cal. Mas estavam plenamente conscientes do seu contributo  para a empresa e desejosos de o recompensar, em particular o administrador executivo, Raymond Housman. Por coincidência, este reconhecimento materializara-se mais  ou menos na mesma altura em que um problema financeiro premente fora trazido ao seu conhecimento, pelo diretor financeiro, Clyde English. Para seu horror coletivo,  o departamento de contabilidade determinara que, em 2006, a empresa perdera cerca de 27 milhões de dólares em lucros porque a crescente indústria indiana de turismo médico levara um perturbador número de doentes americanos a desdenhar os hospitais da SuperiorCare e a partir para o Subcontinente Asiático para realizar as suas cirurgias.

Ligando os dois assuntos, Raymond Housman convidara Cal para uma reunião secreta no seu escritório. Explicara-lhe a questão do turismo médico e a necessidade de inverter a situação. Depois ofereceu a Cal uma oportunidade sem igual. Disse que a SuperiorCare se preparava para financiar generosamente, através de um obscuro  banco em Lugano, na Suíça, uma empresa cujo objetivo seria, expressamente, a séria diminuição das cirurgias na Índia, se concordasse formá-la. Raymond deixara bem  claro que a SuperiorCare Hospital Corporation não queria qualquer ligação óbvia com tal empresa e que a negaria veementemente caso fosse inquirido sobre isso e que  também não queriam saber como é que a empresa atingia esses objetivos. Aquilo que Raymond não disse mas que Cal ouviu, sem sombra de dúvidas, foi que o seu afastamento  da SuperiorCare Health Corporation seria temporário e que o seu sucesso na presente causa levaria à sua readmissão na empresa de braços abertos e em posição consideravelmente  mais elevada, tratando-se na verdade de um salto na escada corporativa.

Apesar de não fazer idéia de como haveria de atingir o objetivo da empresa, Cal aceitou de imediato, com a condição de incluir no negócio a sua atual co-diretora do departamento de relações públicas, Petra Dandorff. Inicialmente Housman hesitara devido à falta de alguém para gerir o departamento de Relações Públicas, mas  depois de ter sido relembrado da seriedade do problema do turismo médico, concordou.

Duas semanas depois, Cal e Petra estavam de regresso à terra natal de Cal, Los Angeles, lutando por definir o modus operandi da sua nova empresa. Para ajudar cada  um tinha contratado um amigo talentoso: Cal escolhera Durell Williams, um afro-americano de quem se tornara amigo na UCLA e que se tinha especializado em segurança  informática; e Petra convidara Santana Ramos, uma doutorada em psicologia que se juntara à CNN depois de meia dúzia de anos no setor privado.

Mais importante, todos os quatro eram igualmente competitivos, afastavam a questão da ética como uma fraqueza limitadora e estavam convencidos que o presente desafio,  que consistia em minar o turismo médico a favor de uma empresa da Fortune 500. era uma oportunidade única e todos juraram fazer o que fosse preciso para denegrir  o turismo médico. Com bastante rapidez, o grupo definiu um plano para promover os receios dos doentes como melhor forma de diminuir a procura. Até ser sujeita a  propaganda em contrário, qualquer pessoa que necessitasse de ser submetida a uma cirurgia tinha consideráveis reservas em relação a viajar para a Índia ou qualquer  outro país em desenvolvimento, devido a um conjunto de razões facilmente compreensíveis. Em primeiro lugar, estava a preocupação com a geral falta de limpeza do país, que aumentava a ameaça de infecção das suturas ou de contágio por um sem número de temíveis doenças infecciosas. Depois, estava a óbvia interrogação em relação às capacidades dos cirurgiões e restante pessoal, incluindo  as enfermeiras. Para além disso, havia a questão dos hospitais e da disponibilidade do necessário equipamento tecnológico. E, por fim, a dúvida em relação ao sucesso  das operações realizadas.

Quando o grupo analisou a propaganda que o Gabinete de Turismo da índia emitia de forma pró-ativa, descobriram que abordava, precisamente, essas questões. Consequentemente,  foi decidido que a nova empresa de Cal deveria criar campanhas publicitárias que fizessem o oposto e se aproveitassem dos medos das pessoas. Todos estavam certos  de que este plano teria sucesso, porque as campanhas publicitárias são sempre mais fáceis quando assentam sobre crenças e preconceitos já existentes.

Infelizmente, mal tinham optado por uma estratégia e começado a trocar idéias quando se depararam com um sério problema. Tinham compreendido que tendo em conta o  investimento e o esforço que a Índia estava a aplicar na promoção do turismo médico, o governo indiano ia sem dúvida investigar caso alguém começasse a fazer o oposto  e um qualquer tipo de investigação iria, invariavelmente, levantar problemas significativos caso não fosse possível consubstanciar as alegações efetuadas durante  a campanha.

O que depressa reconheceram foi a necessidade de utilizarem dados reais dos hospitais privados indianos, em particular relacionados com resultados, mortalidade e  complicações pós-operatórias, o que incluía elementos estatísticos como as taxas de infecções. Contudo esses dados não estavam disponíveis. O grupo procurara na  Internet, em revistas da especialidade e mesmo junto do Ministério da Saúde indiano, que depressa descobriam se opunha veementemente à divulgação desse tipo de informação  recusando-se, inclusive, a admitir a sua existência. Nos seus próprios anúncios nunca tinham utilizado quaisquer elementos estatísticos, limitando-se a alegar que  os seus resultados eram tão bons ou melhores do que os conseguidos no Ocidente.

Momentaneamente num impasse, o grupo compreendera de súbito que necessitavam de uma quinta coluna no interior dos hospitais privados indianos, participando na altamente  lucrativa e crescente indústria do turismo médico. O que melhor serviria os seus interesses seriam os contabilistas mas a eficácia de tal ideia parecia, na melhor  das hipóteses, questionável. Em vez disso tinham decidido utilizar enfermeiras, principalmente porque Santana sabia algo que os outros desconheciam: nomeadamente,  a existência de um negócio mundial no ramo da enfermagem. No Ocidente havia escassez. No Oriente, em especial nas Filipinas e na índia, havia excesso, sendo muitas as enfermeiras que desejavam emigrar para os Estados Unidos por questões econômicas e culturais, mas se deparavam com obstáculos significativos e quase intransponíveis.

Depois de extensa pesquisa e muita discussão, Cal e companhia decidiram entrar no ramo da enfermagem, fundando uma empresa chamada Nurses International. O seu plano,  tal como foi posto em prática, era contratar doze jovens, vulneráveis, atraentes, impressionáveis e recém-formadas enfermeiras indianas, pagar-lhes ordenados iguais  aos americanos e trazê-las, com visto de turista, para os Estados Unidos, em particular para a Califórnia, onde passariam um mês em formação com o intuito de as  tornar numa equipe de espias reconhecidas e, consequentemente, fáceis de manipular. Na Califórnia seriam estragadas com mimos para maximizar a manipulação e para  aproveitar o seu desejo de emigrar. Ao mesmo tempo receberiam treino em informática, durante as horas da manhã, em particular no que dizia respeito a técnicas de  pirataria informática. À tarde, trabalhariam durante algumas horas num hospital da SuperiorCare para melhorarem o seu inglês americano, para além de se familiarizarem  com as expectativas dos doentes americanos, algo que consideravam facilitar a sua contratação por hospitais privados indianos.

Tudo correra milagrosamente de acordo com o planejado, com equipas de duas enfermeiras em seis hospitais privados indianos envolvidos no turismo médico. Para alojamento,  era-lhes exigido que residissem juntas numa mansão alugada pela Nurses International na zona diplomática de Nova Deli, para o desgosto das suas famílias. No entanto,  como o dinheiro que elas lhes enviavam não parou, as queixas desapareceram por completo.

Depois de terem estado a trabalhar durante uma semana, lamentando-se todas elas de que desejavam regressar à Califórnia antes do fim dos seis meses que deveriam  passar na índia, foram instruídas para extrair os dados relativos aos resultados dos pacientes dos computadores dos respettivos hospitais. O objetivo era permitir  que começassem a calcular as taxas de infecção, resultados adversos e mortalidade, para futuras campanhas publicitárias. Para surpresa de Cal e da restante equipa,  nenhuma das enfermeiras questionou tal atividade e foram maravilhosamente bem-sucedidas. Os dados revelaram-se bastante bons, mesmo impressionantemente excelentes  em algumas instituições.

Durante alguns dias Cal e Petra sentiram-se deprimidos e inseguros em relação ao que deveriam fazer. Depois de todo o dinheiro gasto na montagem de tão elaborado  sistema de espionagem, começavam a sentir-se pressionados por resultados. Raymond Housman enviara, inclusivamente, um representante secreto na semana anterior para  saber quando poderiam esperar que acontecesse alguma coisa. Ao que parecia, as perdas de lucro provocadas pelo turismo médico continuavam e o seu ritmo aumentava  de forma assustadora. Cal prometera resultados breves já que, na altura da visita do emissário, os dados tinham apenas começado a entrar.

Então, apelando à sua criatividade e desejo de ganhar, Cal tivera uma segunda idéia. Se não existiam estatísticas más que pudessem utilizar como base da sua campanha  negativa, porque não criar maus resultados e histórias de insucesso com a ajuda da sua já instalada quinta coluna e depois fazê-los chegar aos media em tempo real?  Com a inesperada ajuda de um anestesiologista e de um patologista que conhecera em Charlotte, na Carolina do Norte, enquanto trabalhara nos escritórios da SuperiorCare,  Cal optara pela sucinilcolina como droga de eleição para provocar morte súbita. A idéia era encontrar pacientes com um historial de problemas cardíacos e que tivessem  recebido sucinilcolina como parte da anestesia e injetá-los com um bólus do paralisante muscular na manhã depois da operação. Fora assegurado a Cal que a droga seria  indetetável, assumindo-se que fazia parte da anestesia. O melhor era o imediato diagnóstico de morte por ataque cardíaco devido ao historial clínico.

Mal conceberam o seu plano, Cal e Petra apresentaram-no a Durell e Santana. Embora Durell tivesse aceite de imediato o plano, Santana mostrara-se hesitante. Para  ela, o roubo de informação privilegiada era uma coisa, mas matar pessoas era algo completamente diferente. Ainda assim, acabou por ceder, em parte devido ao entusiasmo  dos outros; à determinação de todos em atingir o sucesso, incluindo a dela; ao seu convencimento de que o esquema não seria descoberto; ao limitado número de vítimas;  mas principalmente ao fato de acreditar, tal como os outros, que era a única forma de salvar a Nurses International que, afinal de contas, esperavam ser um importante  degrau nas suas carreiras e na obtenção da riqueza de que se julgavam merecedores. Embora em menor grau, a sua mudança de opinião foi também influenciada pelo intenso  estudo do hinduísmo, a que se dedicara desde a sua chegada ao país. Tinha descoberto em si uma atração inteletual pelo conceito de punarjamma, a crença hindu no  renascimento, que significava que a morte não era o fim mas uma porta para uma nova vida, que seria melhor se o indivíduo tivesse aderido às suas responsabilidades  dhármicas. E, por fim, o fato de ter, juntamente com os outros, jurado fazer o que fosse preciso para denegrir o turismo médico.

Aceite a nova estratégia, o problema passara a ser a resposta das enfermeiras e a questão da sua cooperação. Embora o grupo se tivesse rendido de tal forma à cultura  americana, durante o mês que passara em Los Angeles, tão dependente do dinheiro que lhes era pago em benefício das suas famílias e tão desejoso de emigrar que o  mais certo era fazerem o que lhes era pedido, Cal, Petra e Durell sentiam-se inseguros. Santana, por outro lado, achava que as enfermeiras não teriam qualquer problema  porque seriam ajudadas pela sua crença em samsara e, em especial, pela sua crença na importância da organização e do grupo sobre o indivíduo. Santana afirmou, então, que a chave era Veena e que deviam fazê-la aceitar que era o seu dhanna "pôr a dormir" uma doente americana. A idéia era que, se ela estivesse disposta a fazê-lo, enquanto líder de fato, as restantes seguiriam os seus passos sem interrogações.

Mas a cooperação de Veena não era um dado adquirido. Embora todos concordassem que era a mais empenhada da equipe e a mais desejosa de emigrar, todos sentiam haver  um desequilíbrio entre a sua obviamente arguta inteligência, inata capacidade de liderança e excecional beleza, e a sua má imagem de si mesma e fraca auto-estima.  Com tal ideia em mente, Santana prosseguira explicando que, na sua opinião profissional, Veena estava vergada sob o peso de uma qualquer bagagem psicológica, para  além da sua forte adesão às tradicionais cultura e religião indianas. Também sugerira que a descoberta do problema e a oferta de ajuda na sua resolução, independentemente  da sua natureza, poderia ser vital na obtenção da sua cooperação.

Nessa altura olharam para Durell. Todos sabiam que se envolvera intimamente com uma das enfermeiras, Samira Patel. Embora tal relacionamento fosse visto com desagrado  por Petra e Santana, tornara-se de súbito útil. Como Samira era colega de quarto, para além de melhor amiga de Veena, acreditaram que se tivesse confiado a alguém  o seu segredo, teria sido a Samira. Consequentemente pediram a Durell para o descobrir, o que este fez, convencendo Samira de que a Nurses International tinha de  ajudar Veena e que, se tal não fosse possível, por ignorarem o que a perturbava, todo o programa, incluindo a sua ajuda na emigração das enfermeiras para os Estados  Unidos, estaria em perigo.

Samira acreditara claramente em cada palavra e, apesar de ter jurado segredo, relatou o doloroso historial familiar de Veena. Armado com essa informação, Cal abordara  Veena na tarde anterior, oferecendo-se para pôr, definitivamente, um fim aos abusos em troca da sua cooperação e liderança na nova estratégia. Veena hesitara inicialmente,  mas mudara de ideias graças à promessa de acabar com as ameaças à sua mãe e irmãs. Essa sempre fora a sua maior preocupação no que dizia respeito à emigração.

Cal Morgan suspirou. Tendo revisto a sua história, compreendeu que o programa para desencorajar os americanos de partirem para a índia a fim de realizarem as suas  cirurgias, dificilmente podia ser considerado tão fácil como inicialmente supusera. Abanou a cabeça e perguntou-se que mais iria acontecer. Reconhecendo que não  havia como antecipar o inesperado, decidiu que precisava de um plano de fuga. Se acontecesse o pior, tinha de estar na posse de um plano e dos recursos que lhe permitissem sair da Índia, pelo menos com os outros três responsáveis. Prometera a si mesmo levantar a questão na reunião que marcara para as oito horas.

Virando-se na cama, Cal olhou para o despertador. Eram 6:45, horas de se levantar se queria ir dar uma corrida antes do café da manhã; além disso podia verificar como estava Veena e assegurar-se de que estava de pé e decidida a ir trabalhar. Embora os médicos lhe tivessem feito uma lavagem ao estômago na noite anterior, nas urgências, e achassem que tinha absorvido apenas uma quantidade mínima de Ambien, graças aos rápidos esforços de Cal, ele queria ter a certeza. O fato de não se  apresentar ao trabalho, precisamente no dia a seguir à morte da Sra. Hernandez poderia atrair a atenção, caso houvesse algum motivo para desconfiar que a morte da  paciente não tivesse sido natural. Além disso, havia a preocupação com a possibilidade de Veena ter sido vista no hospital bem depois de terminado o seu turno.

Envergando a sua indumentária para jogging, Cal seguiu na direção da ala de hóspedes. Contornando a última esquina viu que a porta do quarto de Veena estava aberta,  o que considerou encorajador. Chegado à entrada, bateu na ombreira da porta, disse olá e inclinou-se, em simultâneo, para dentro do quarto. Veena estava sentada  na sua cama, de roupão. Com exceção de uma ligeira coloração vermelha na córnea, parecia normal e tão bela como sempre. Não estava sozinha. Santana estava sentada  na cama de Samira, à frente da de Veena.

Tenho o prazer de dizer que a paciente está bem disse Santana. Santana tinha mais cinco anos que Cal. Como ele, estava vestida para a prática de jogging, mas ao  contrário de Cal, envergava um fato com estilo: as calças eram justas, brilhantes e pretas, e a t-shirt de manga curta igualmente justa e preta, feita de um tecido  sintético. O seu cabelo escuro e espesso estava preso num rabo-de-cavalo, seguro por sua vez à parte de trás da cabeça.

- Excelente! - disse Cal, e sentia-o. - Vais trabalhar, presumo? - perguntou a Veena.

Claro respondeu Veena. A sua voz refletia as sensações algo drogadas que experimentava.

Temos estado a falar sobre o que aconteceu ontem à noite disse Santana sem evasivas.

- Excelente - repetiu Cal, já sem o mesmo entusiasmo. Não conseguia deixar de se sentir relutante em discutir um assunto que lhe provocaria desconforto se estivesse  envolvido.

- Ela garantiu-me que não voltará a tentá-lo.

- Isso é bom - disse Cal, enquanto pensava - Ela que não se atreva.

Disse que o fez por achar que os deuses a olhariam com simpatia, uma espécie de uma vida por outra vida. Mas agora, como os deuses a salvaram, sente que eles querem que ela continue viva. Na verdade acredita que todo o episódio faz parte do seu karma.

O diabo é que a salvaram, pensou Cal, embora não o tivesse dito.

- Não podia estar mais feliz, porque é um fato que precisamos dela - disse, em vez disso.

Cal estudou o rosto de Veena e perguntou-se se teria falado com Santana em relação à forma violenta como tinham feito amor ou sobre os perturbadores estertores da  morte da doente, mas o seu rosto parecia tão imperscrutável e sereno como sempre. Quando Cal falou com os colegas, ao regressar das urgências, não mencionou nenhum  dos dois, exatamente por quê não sabia dizer. O seu melhor palpite era o embaraço de ter sido usado de forma tão flagrante através da agressão sexual de Veena. Estava  acostumado a manipular as mulheres, não o contrário. Em relação ao tipo de morte aparentemente provocado pela sucinilcolina, que era bem diferente da paralisia pacífica  que lhe tinham descrito e que transmitira aos outros, temia que qualquer discussão sobre o tema diminuísse o entusiasmo geral em torno do esquema.

Cal pedira permissão e saíra, embora se sentisse algo preocupado com a possibilidade de as duas mulheres aproveitarem a oportunidade para falar sobre ele. Mas não  foi algo que o preocupasse durante muito tempo. Saindo do bangalô e passando a correr pelo portão da frente, começou o seu jogging. Chanakyapuri era uma das poucas  áreas da cidade, juntamente com a linha de floresta protegida junto à costa, onde era agradável correr. Infelizmente estava atrasado e o tráfego era já intenso e  aumentava a cada minuto. O pó e a poluição tinham quase atingido os níveis intermédios. Em resposta deixou a rua principal, trocando-a por ruas secundárias. Aí o  ar era melhor mas, não muito longe da atulhada rua principal, deu de caras com um grupo de macacos, o que sempre o assustara. Os macacos de Deli eram notavelmente  atrevidos, pelo menos de acordo com a experiência de Cal. Não que ele achasse que o podiam atacar em grupo, mas porque temia que pudessem transportar uma qualquer  doença exótica que lhe pudessem transmitir, em especial se o mordessem. Nessa manhã, como se pressentissem o seu desconforto, os animais correram atrás dele, exibindo  os dentes amarelos, fazendo barulho e gritando como se tivessem enlouquecido.

Considerando que os macacos e a poluição eram mais do que suficientes para considerar o jogging dessa manhã um falhanço, Cal mudou abruptamente de direção, levando  os macacos a fugir em pânico. Tal como um cavalo concentrado em regressar ao estábulo, Cal rapidamente percorreu o caminho de volta à mansão. Tendo estado fora durante  menos de uma hora, sentiu-se contente por estar de volta e particularmente feliz ao entrar na banheira. Enquanto se ensaboava e barbeava, e apesar da decepcionante  experiência durante o jogging, encarou a manhã de forma positiva. A breve conversa com Santana tinha aliviado significativamente as suas preocupações em relação a Veena. O gesto suicida assustara-o e até Santana o ter assegurado do contrário, temia que ela voltasse a tentá-lo. Agora estava confiante de que isso não aconteceria, e associando a experiência ao conceito de karma,  Veena parecia agora considerar aquilo que fizera à Sra. Hernandez como parte do seu destino, o que era um bom augúrio em relação à colaboração das restantes enfermeiras.

Depois de um café da manhã de fiambre e ovos, preparado pelo cozinheiro do bangalô, Cal dirigiu-se à estufa nas traseiras da casa. Quando se mudaram, aquela divisão  tinha apenas cadeiras, mas acrescentaram-lhe uma mesa redonda e passaram a utilizar o espaço como sala de reuniões matinal.

Quando Cal entrou, os outros três estavam já sentados e o seu alegre diálogo extinguiu-se. Cal ocupou a sua cadeira costumeira, de frente para o jardim e de costas  para o interior da mansão. Os outros tinham igualmente ocupado as suas posições normais, sugerindo que os quatro eram criaturas de hábitos. Santana estava à direita  de Cal, Petra à esquerda e Durell mesmo à sua frente. As suas posturas refletiam em parte a sua personalidade. Com uma confiança silenciosa, Durell estava refastelado,  com o queixo apoiado na mão e o cotovelo pousado no braço da cadeira. Tinha uma aparência poderosa, era musculado, tinha a pele cor de mogno, uma fina barbicha e  bigode. Petra estava sentada à direita, na beira da cadeira, como se estivesse no liceu e precisasse de impressionar o professor com o nível da sua atenção. Santana  estava confortavelmente sentada na sua cadeira, com as mãos pousadas no colo, como a psicóloga profissional que era, esperando que o paciente começasse a falar.  Parecia sempre calma, mantendo as emoções sob um controle apertado.

Cal abriu a reunião com a tentativa de suicídio de Veena para se assegurar de que todos estavam bem informados. Pediu a Santana que relatasse o que tinha sabido  nessa manhã, ao falar com Veena, em particular sobre a sua afirmação de que não voltaria a tentá-lo e respettiva explicação. Cal admitiu que o episódio o assustara  ao ponto de acreditar que precisavam de ter uma estratégia de fuga, para o caso de virem a necessitar dela.

Se ela se tivesse conseguido matar continuou Cal ocorreria uma investigação e um inquérito, e qualquer tipo de investigação representaria grandes problemas para  a Nurses International.

- O que queres dizer exatamente com estratégia de fuga? - perguntou Petra.

- Exatamente aquilo que a expressão implica - disse Cal. Não me estou a referir a nada de filosófico. Estou a falar literalmente. Na pior das hipóteses, caso seja  preciso deixar a Índia de um momento para o outro, todos os detalhes devem estar tratados. Não deverá haver espaço a improvisos, porque podemos não ter tempo.

Petra e Santana acenaram em concordância. Durell limitou-se a levantar as sobrancelhas inquisitivamente.

- Por terra, mar ou ar? perguntou.

- Estou aberto às vossas sugestões respondeu Cal. Olhou para cada um deles, prendendo por fim o olhar em Petra, que era muito picuinhas em relação àquele tipo de detalhes.

- Pelo ar seria demasiado difícil disse. O controle de passaportes no Ghandi International é demasiado apertado. Teríamos de pagar a demasiadas pessoas, porque não  saberíamos a que hora do dia ou da noite isso aconteceria. Se queremos fugir secretamente, terá de ser por terra.

- Concordo disse Durell. Inclinou-se para a frente, os cotovelos em cima da mesa, esfregando as mãos uma contra a outra. Acho que devíamos seguir para nordeste num  carro ou SUV expressamente comprado para o efeito, que seria mantido atestado, carregado com os artigos necessários e pronto a partir. Podemos tentar a passagem  da fronteira para o Nepal, num local que decidamos previamente ser o mais adequado, embora na verdade não tenhamos muito por onde escolher. E finalmente, devemos  colocar no carro um montante em dinheiro para subornos. Isso é fundamental.

- Queres dizer: comprar um carro, prepará-lo e mantê-lo escondido? perguntou Cal.

- Exatamente respondeu Durell. Ligamo-lo de vez em quando, mas colocamo-lo na garagem grande da mansão e deixamo-lo lá.

Cal encolheu os ombros. Olhou para as duas mulheres, uma de cada vez, tentando apreender as suas reações. Ninguém falou. Cal voltou-se de novo para Durell.

- Posso deixar-te encarregue de preparar aquilo que sugeres?

- Sem problemas respondeu Durell.

- Agora regressemos à nossa nova estratégia. Já tivemos algum feedback?

- Certamente que sim disse Santana. Tive notícias do meu contato na CNN passado poucas horas. Avançaram e colocaram no ar a história mal a receberam, tal como eu esperara.  A resposta foi fantástica e aparentemente maior do que tinham antecipado, com uma torrente de emails desde o início. Foi mais do que conseguiram com qualquer outro  relato, com exceção das primárias presidenciais, durante toda a semana. Estão mortinhos por mais.

Recostando-se, Cal deixou que um ligeiro sorriso se espalhasse pelo rosto. Aquilo que acabava de ouvir eram as primeiras boas notícias geradas pelo seu esforço coletivo  durante todo o projeto.

Quando acordei hoje de manhã, tinha outra mensagem da Rosalyn Beekman, o meu contato na CNN. Dizia que os três grandes canais noticiosos se tinham apropriado da  história para realizarem as suas próprias peças sobre o turismo médico em geral. No final dos três segmentos, os pivots deixaram grandes dúvidas em relação à segurança das intervenções cirúrgicas na Índia.

- Excelente exclamou Cal, batendo ligeiramente no tampo da mesa com punho, por várias vezes, para dar ênfase. É música para os meus ouvidos. Isto levanta também a  questão de quando deveremos repeti-lo. Se a CNN está, como Santana diz, mortinha por receber mais material, parece-me que não lho devíamos negar.

- Concordo disse Durell. Sem dúvida. Se o peixe está a morder o isco, é hora de pescar. E tenho de vos dizer, a Samira está pronta. Ficou magoada por termos escolhido  a Veena para ser a primeira, e não ela. Diz que tem um doente com um historial de problemas cardíacos, a ser operado esta manhã e que seria perfeito.

Cal soltou uma curta gargalhada.

- E eu que temia que fosse difícil convencer as enfermeiras a cooperar; afinal até se voluntariam.

Afastando o olhar de Durell, Cal olhou para Petra e Santana.

- E vocês, minhas senhoras? O que pensam sobre tratarmos de mais uma? A noite passada quando descobri que a Veena tinha tido uma overdose nunca pensei que estaria  a perguntar se haveríamos de tratar de outro esta noite, mas aqui estou.

- A Rosalyn foi bastante insistente no seu desejo de mais material disse Santana, olhando para Petra. Já que sabemos que a notícia será imediatamente posta no ar,  terei de dizer que sim.

- Quais são as hipóteses da Samira ter uma reação exagerada como a de Veena? - perguntou Petra, olhando para Santana. Não queremos outra tentativa de suicídio.

- De certeza que a Samira não faria isso - disse Durell.

- Foi enfático. Pode ser da idade da Veena, sua companheira de quarto e melhor amiga, mas no que diz respeito à personalidade, são completamente diferentes, o que  de alguma forma poderá explicar o fato de serem próximas, ou pelo menos costumarem sê-lo. Ontem à tarde, antes de partir para tratar do serviço, a Veena discutiu  com a Samira sobre o fato de ter partilhado os seus segredos de família.

- Concordas, Santana? perguntou Petra.

- Concordo disse Santana. A Samira é muito competitiva, mas não é uma líder. - Mais importante ainda, é mais egoísta e menos fechada.

- Então concordo em fazê-lo disse Petra.

- E quanto ao fato de o evento ocorrer dois dias seguidos, no mesmo hospital? perguntou Durell. Alguém vê aqui um problema?

- Boa pergunta disse Petra. Todos os olhos se voltaram para Cal.

- Não creio que interesse. Asseguraram-me que seria indetetável por diversas razões. Por outro lado, as autoridades hospitalares e os seus fazedores de políticas vão querer enterrar estas mortes o mais depressa possível, desculpem-me o trocadilho, para evitar ao máximo a publicidade negativa. A Índia não tem um sistema de medicina  legal, mas mesmo que por uma astronomicamente remota hipótese alguém suspeitasse de alguma coisa, e por qualquer outra razão igualmente remota pensassem na succinilcolina,  a droga teria desaparecido há muito e quaisquer resíduos, ou o que é que lhes chamam, seriam explicados como resultantes da anestesia recebida pela cirurgia.

- Na verdade disse Santana duas mortes em dois dias, é uma história ainda maior. Acho que poderá ajudar à nossa causa.

Acenando com a cabeça em acordo, Cal olhou para Petra e Durell. Ambos responderam ao aceno.

Maravilhoso disse Cal com um sorriso, colocando ambas as mãos abertas sobre a mesa. É ótimo que haja unanimidade. Vamos tratar de tudo. Depois, olhando para Durell,  acrescentou Depois, podes dar as boas notícias à Samira quando ela regressar do trabalho.

- Será um prazer respondeu Durell.

 

                   15 DE OUTUBRO DE 2007

                   SEGUNDA FEIRA, 19:54 - LOS ANGELES, EUA.

Neil McCulgan pousou a caneta e esfregou os olhos. O horário em que estivera a trabalhar continuava incompleto. A empresa informática que o deveria elaborar tinha  mudado de mãos recentemente e, sem o administrador executivo para manter as coisas sob controle, o programa misturara tudo, daí a necessidade de Neil o refazer,  dolorosamente, à mão. Olhou para o relógio. Já eram quase oito horas; devia ter saído às sete e estava exausto.

O fato de não ter conseguido terminar o horário devia-se a duas coisas: a primeira tinha sido um enorme choque em cadeia na A405 que provocara diversas mortes e  vários feridos muito graves, que tinham começado a chegar, nas respettivas ambulâncias, menos de meia hora depois de Jennifer Hernandez ter abandonado infantilmente  o seu gabinete. Tudo isso implicou a perda de várias horas, enquanto separava os vivos dos mortos, estabilizava os feridos mais graves e os enviava para o Bloco  Operatório e, por fim, lidava adequadamente com os feridos ligeiros engessando ossos partidos e suturando lacerações.

O segundo motivo pelo qual o horário refeito ainda não estava terminado era a sua incapacidade para se concentrar adequadamente.

Raios! gritou para a parede, sentindo-se, em seguida, culpado e idiota. Girando a cadeira, olhou para a zona de triagem. Dois pacientes olhavam na sua direção, de  sobrancelhas arqueadas. Embaraçado pela sua explosão, Neil levantou-se da cadeira e, depois de acenar aos pacientes sobressaltados, fechou a porta e voltou a sentar-se.

Neil não se conseguia concentrar por causa de Jennifer. Embora tenha inevitavelmente utilizado aquilo a que chamava o seu comportamento pueril para justificar ainda  mais a sua decisão de não ir à Índia, começava lentamente a admitir que tinha lidado com a situação de forma miserável. Primeiro, os seus verdadeiros motivos eram muito mais egoístas. Acabou por admitir que a desculpa que apresentara, nomeadamente o refazer do horário das Urgências, tinha sido uma mentira flagrante.

Deveria ter sido mais direto para que, pelo menos, tivesse havido um diálogo sincero. E, por fim, o que o fazia sentir-se ainda mais culpado era o fato de a desculpa  que dera a si mesmo, que teria sido mais receptivo se a morte envolvesse a mãe e não a avó, ser também uma mentira. Ele sabia bem que a avó de Jennifer tinha sido,  para todos os efeitos, a sua mãe.

A certa altura Neil ligou para o celular de Jennifer, mas ela não respondeu. Não fazia ideia se isso tinha acontecido porque ela sabia que era ele quem estava a ligar ou porque já tinha partido, e não tinha como descobrir. Até pensou, num momento de irracionalidade, em correr para o LAX, para falar com ela antes que partisse, mas afastou essa ideia porque desconhecia por completo a companhia aérea em que ia voar. Tendo tratado dos preparativos da sua viagem à Índia, cinco meses antes, sabia que havia vários voos de Los Angeles para Nova Deli.

Durante toda a tarde, Neil torturou-se por ter lidado tão mal com Jennifer, ao ponto de se acusar a si próprio de ter exibido o comportamento imaturo e egoísta de  que a acusava. Chegou ao ponto de achar que ela tinha agido de forma absolutamente apropriada ao sair sem olhar para trás. Por essa altura tinha boas razões para  acreditar que se ela tivesse agido de qualquer outra forma, ele teria, provavelmente, feito finca-pé e passado por um idiota ainda maior.

Impulsivamente, Neil levantou-se, fazendo a cadeira deslizar sobre as suas rodas e colidir com a porta. Retirando uma bata branca lavada de um gancho atrás da porta,  vestiu-a e dirigiu-se ao balcão central. Perguntou à primeira enfermeira que conseguiu encurralar se sabia se o Clarence Hodges já tinha saído. O seu turno terminara  oficialmente à mesma hora que o de Neil mas, como este, raramente saía a horas. Felizmente, disseram a Neil que se encontrava numa das baias a coser uma laceração.  Para ajudar Neil, a enfermeira apontou para a cortina atrás da qual ele se encontrava.

- Uau! exclamou Neil quando olhou por cima do ombro de Clarence.

Clarence estava a coser a orelha direita de volta ao lado da cabeça do doente. Realizava uma meticulosa reparação plástica, com aquilo que pareciam centenas de minúsculas  suturas com um fio de seda preta extremamente fino. Fora Neil quem recrutara Clarence. Tinha sido colega de Neil no liceu, mas depois tinham escolhido universidades  rivais, Neil fora para a UCLA e Clarence para a USC, no entanto quando se tratou de estudar medicina ambos optaram pela UCLA. O que os tornara amigos espetiais tinha sido o seu amor pelo surf.

- É uma laceração e tanto! Clarence recostou-se e espreguiçou-se.

- Aqui o Bobby e o seu skate envolveram-se numa pequena discussão com uma árvore e acho que a árvore ganhou.

Clarence ergueu a ponta do lençol e olhou para o seu paciente. Ficou surpreso por vê-lo a dormir.

- Meu Deus, parece que já estou nisto há algum tempo.

- Porque é que não pediste aos rapazes da cirurgia plástica para virem cá a baixo e tratarem disto? perguntou Neil.

- Por causa do Bobby disse Clarence, ao dar mais um ponto com a ajuda do porta agulhas. Quando eu sugeri isso, ele disse que se ia embora, apesar de a sua orelha estar  pendurada por apenas algumas farripas de tecido. Disse que já cá estava há tanto tempo que não ia esperar mais. Queria que fosse eu a fazê-lo, mesmo depois de lhe  ter dito que não era um cirurgião plástico. Foi muito insistente e até se levantou da marquesa como se se fosse dirigir para a porta. Pronto, para resumir a história,  é por isso que o estou a fazer.

- Importas-te que te pergunte a opinião sobre uma coisa, enquanto trabalhas?

- De maneira nenhuma. Com o Bobby a dormir, faz-me jeito a companhia. Claro que, há dois segundos atrás, eu não sabia que ele estava a dormir.

Neil contou rapidamente a história de Jennifer, que Clarence ouviu sem comentar enquanto continuava a coser a orelha de Bobby.

- Portanto, em suma, é isso disse Neil quando terminou.

- Sobre o que é que queres a minha opinião? Se eu ia à Índia para fazer uma cirurgia de substituição da anca: a resposta é não.

- A questão não é essa. A questão é a forma como lidei com o pedido da Jennifer. Acho que fiz um péssimo trabalho. Qual é a tua opinião?

Clarence olhou para os olhos do amigo.

- Estás a falar a sério? De que outra forma haverias de ter lidado com ela?

- Podia ter sido mais honesto.

- Em que aspecto? Quer dizer, não consigo imaginar que queiras ir até à Índia por causa da avó de alguém, tu consegues? Quer dizer, não é que a possas trazer de volta  à vida, ou assim.

- É verdade que, neste momento, não me agrada muito a ideia de ir à Índia admitiu Neil.

- Então, pronto. Lidaste muito bem com a situação. A reação dela é problema dela. Não devia ter saído assim.

- Achas? perguntou Neil. Não estava convencido. Depois de ter explicado o episódio a Clarence sentia-se ainda mais culpado pelo seu comportamento, não menos.

- Espera lá disse Clarence parando de suturar e olhando de novo para Neil. Começo a achar que há alguma coisa que não me estás a dizer. Qual é a tua relação com esta  mulher? Gostas dela ou quê? Estão a namorar?

- Mais ou menos admitiu Neil. Na verdade, não tenho a certeza. É como se ela me mantivesse a alguma distância. Temo-nos encontrado muitas vezes e é maravilhoso. Temos  sempre coisas sobre o que conversar, ela é bastante aberta comigo, diz-me coisas que nunca disse a ninguém. Sei-o com toda a certeza.

- Vocês já tiveram relações?

- Não, mas não foi por falta de esforço. Quer dizer, tentámos uma vez, mas foi embaraçoso. É estranho. Podemos estar a falar das coisas mais íntimas, mas assim que  me tento aproximar, bam! Ergue-se uma parede.

- Isso não soa bem.

- Eu sei, mas por outro lado, ela é muito inteligente, trabalha e estuda até cair para o lado e é uma excelente companhia. Nunca estive com uma moça como ela.

- Se é quem eu estou a pensar, também é um mulherão.

- Não o posso negar. Prendeu-me a atenção desde a primeira vez que a vi, era ainda uma estudante de medicina do primeiro ano.

- Ok disse Clarence. Isto muda tudo. Pelo que me dizes, amas esta mulher.

- Digamos que estou interessado mas, como ela tem alguma bagagem, preciso de saber mais.

- Estás a pensar ir atrás dela para a índia? É sobre isso que queres saber a minha opinião?

- É. A única coisa que sei sobre ela com toda a certeza é que é teimosa. Toma as suas decisões instantaneamente e depois mantém-nas como um cão agarrado a um osso.  Neste momento, está muito chateada comigo e consigo perceber porquê. Confiou em mim e agora que me pediu que a apoiasse, eu, de certa forma, confirmei os seus piores  medos não o fazendo. Se não for até lá posso dizer adeus a qualquer hipótese de vir a saber mais sobre ela.

- Então vai! É esse o meu conselho. Resolver a questão do corpo deverá levar-vos cerca de meia hora e acabou. Depois podem fazer as pazes. Assim não vão entrar em  guerra por causa desta questão.

- Então achas que devo ir?

- Sem dúvida. Além disso disseste-me que achaste a Índia divertida, por isso podes matar dois coelhos com uma cajadada só.

- Disse-te que era interessante.

- Interessante ou divertida, qual é a diferença? No que diz respeito às tuas responsabilidades, não te preocupes com elas.

- De fato, tinha tirado os próximos quatro dias.

- Estás a ver o que quero dizer. É o destino. Vai! No que diz respeito às tuas obrigações passados os quatro dias, não te preocupes. Estou-te a dever uma. Substituo-te  e quando não puder, tratarei para que alguém o faça.

- De certo vou precisar de mais de quatro dias. Só a viagem são quatro dias.

- Não te preocupes com isso. Está bem? Eu disse que te substituía. Sabes onde é que ela vai ficar?

- Sei.

- É tudo o que precisas. Quando partes?

- Amanhã, acho eu - disse Neil, perguntando-se se tinha deixado que o amigo o convencesse a fazer algo que se podia revelar mais complicado e stressante do que antecipara.

Se, ao menos, soubesse...

 

                   16 DE OUTUBRO, 2007

                   TERÇA FEIRA 19:45 - NOVA DELI, ÍNDIA

De forma reflexa, Samira Patel sorriu timidamente aos dois altos porteiros sikh, na porta da frente do Hospital Queen Victoria. Envergava o seu uniforme de enfermeira, tal como Veena fizera na noite anterior. Eles não responderam ao seu avanço, mas sem dúvida que a reconheceram. Ambos abriram a respettiva porta, em silêncio, e  com uma vénia, permitiram a sua entrada.

Durell tinha-a instruído durante várias horas, nessa tarde, antes de Samira ter partido na sua missão, incluindo o que devia fazer quando estivesse dentro do hospital.  Apesar da sua excitação, seguiu as sugestões à risca. Atravessou o lobby evitando o qualquer contato visual. Em vez do elevador, subiu pelas escadas ao segundo andar,  onde se localizava a biblioteca. Depois de ter acendido as luzes, retirou vários livros de ortopedia das prateleiras e espalhou-os sobre uma das mesas, abrindo inclusivamente  um deles na seção que tratava da cirurgia de substituição do joelho, o procedimento a que o seu paciente, Herbert Benfatti, se tinha submetido nessa manhã. Tudo  isto era ideia de Durell. Ele queria que ela tivesse uma explicação clara e verificável para a sua presença no hospital àquela hora, caso fosse questionada por uma  ou mais enfermeiras superiores.

Assim que a biblioteca ficou ao seu gosto e que copiou do computador da biblioteca para uma pen o quadro clínico do Sr. Benfatti, regressou às escadas e subiu ao  quinto andar, onde se localizava o Bloco Operatório. Por essa altura, a sua excitação crescera ao ponto de se transformar em ansiedade, sendo ainda maior do que  esperara, o que a levou a questionar-se sobre o porquê de se ter voluntariado tão prontamente. Mas ao mesmo tempo, sabia exatamente porque é que o tinha feito. Embora  Veena Chandra tivesse sido a sua melhor amiga desde que se conheceram na terceira classe, Samira sempre se sentira inferior. O problema residia no fato de Samira  invejar a beleza de Veena, com a qual se achava incapaz de competir e a levava a desejar fazê-lo em todos os outros aspectos. Samira estava convencida de que o cabelo de Veena era mais escuro e brilhante do que o seu e que a sua pele era mais dourada, o nariz mais pequeno e proporcional.

Ainda assim, apesar da sua competitividade, em relação à qual Veena não tinha qualquer conhecimento, as moças tinham desenvolvido uma amizade próxima, baseada no  sonho partilhado de um dia emigrarem para a América. Como as suas outras amigas na escola, cedo tinham tido acesso à Internet, de que Samira se aproveitara muito  mais do que Veena, mas que garantira a ambas uma janela para o Ocidente e um primeiro contato com o conceito de liberdade pessoal. Quando chegaram à adolescência,  tinham-se tornado inseparáveis e partilhavam os seus segredos, o que, para Veena, incluía os abusos do pai, algo que nunca partilhara com mais ninguém por medo de  fazer abater a vergonha sobre a sua família. O segredo de Samira, em forte contraste com o de Veena, era o seu fascínio por sites pornográficos e, consequentemente,  por sexo, sendo-lhe difícil, tal era o esforço de negação, pensar em qualquer outra coisa. Estava desejosa, ela mesma, de o experimentar e sentia-se como um animal  enjaulado, em especial devido à sua rígida educação islâmica. Em última instância, o que cimentou a relação entre as duas jovens foi a sua disponibilidade para encobrir  a outra, cada uma delas dizendo aos seus pais que ia dormir a casa da outra, partindo depois para bares de estilo Ocidental e ficando fora toda a noite. Em vez de  abraçarem os tradicionais valores kármicos indianos de paciência, obediência e aceitação das dificuldades graças à promessa de recompensas numa vida futura, tanto  Samira como Veena desejavam, cada vez mais, receber as suas recompensas nesta vida e não na próxima.

No dia anterior, quando Samira ouvira dizer que Veena tinha sido a escolhida para ser a primeira enfermeira a pôr em prática a nova estratégia, sentira-se extremamente  ciumenta. Fora por isso que agira da forma como agira, voluntariando-se para a missão seguinte, alegando que o faria melhor e sem hesitação. O motivo pelo qual se  sentia tão confiante residia no fato de haver uma área em que tinha feito maiores progressos do que a amiga: tinha abandonado a antiga cultura da índia e abraçado  a nova cultura do Ocidente. O seu romance com Durell era uma prova clara disso.

Com a mão a tremer, Samira abriu a porta das escadas, no quinto andar. Estava relativamente escuro. Durante alguns segundos, limitou-se a escutar. Não se ouviam  quaisquer sons para além do zumbido baixo dos ventiladores. Saiu para o corredor e deixou que a porta se fechasse atrás de si.

Consciente de que não se encontrava sozinha, Samira dirigiu-se para sala de operações tentando minimizar o som dos saltos a bater no chão compósito. A iluminação  era baixa mas adequada. Atravessando as duplas portas exteriores, assegurou-se de que a sala de convívio estava vazia. Sabia que era ocasionalmente usada ao fim  do dia e que o turno da noite a ocupava para descansar e ver televisão, embora oficialmente lhes estivesse vedado o acesso. Aproximou-se das portas duplas que davam acesso ao Bloco Operatório em si e abriu-as. Infelizmente as dobradiças queixaram-se com um guincho, fazendo com que Samira se encolhesse. Podia sentir o coração bater descompassado no peito e podia ouvi-lo dentro dos seus ouvidos. Tendo  esperado durante alguns segundos por uma qualquer resposta ao som das portas, Samira entrou no bloco operatório. Quando o mesmo ruído foi emitido pelas portas que  se fechavam, encolheu-se novamente. Mas o anterior silêncio sepulcral desceu sobre ela como um pesado manto.

Samira estava ansiosa por despachar aquela parte da missão. Podia sentir o suor no seu rosto, embora o ar condicionado estivesse excessivamente forte no Bloco Operatório.  Não gostava de se sentir ansiosa e, graças à longa vida de duplicidade que levara durante a adolescência, sentia-o demasiadas vezes.

Uma vez no Bloco Operatório e confiante de que se encontrava sozinha, Samira apressou-se a encher a seringa com a succinilcolina. O único potencial problema foi  o fato de, com a pressa, quase ter deixado cair o frasco contendo a droga paralisante. Se se tivesse partido, caindo ao chão, teria sido uma calamidade, pois teria  hesitado em limpá-lo. Cada farpa de vidro teria sido o equivalente a um dardo venenoso, impregnado de curare das selvas do Peru. Apercebeu-se de como seria irônico,  caso fosse encontrada morta no Bloco Operatório, na manhã seguinte.

Foi com grande alívio que Samira repetiu o precurso na direção das escadas. Terminada essa parte da missão, pensou que o pior já tinha passado, mas mal sabia o que  a esperava.

Descendo dois pisos, olhou para as horas. Passava uns minutos das oito. A sua única preocupação nessa altura era a Sr.a Benfatti, que tinha conhecido nessa tarde.  Estaria ainda de visita? Do lado positivo, era a primeira noite desde a cirurgia do Sr. Herbert Benfatti e o mais certo era que ainda estivesse a sentir os efeitos  da anestesia, o que significava que deveria estar muito sonolento ou a dormir. A única forma de o descobrir era verificando.

Abrindo a porta das escadas no terceiro piso, Samira olhou para os dois lados do corredor. Podia ver duas enfermeiras sob a luz forte do balcão de piso, o que significava  que as outras duas se encontravam ou no quarto de um dos doentes ou na pausa. Era impossível sabê-lo.

Sentindo a sua ansiedade aumentar de novo, disse a si mesma que era agora ou nunca. Respirou fundo, passou para o corredor e dirigiu-se ao quarto do Sr. Benfatti.  Tudo correra bem até ter chegado à porta, que se encontrava aberta cerca de 15 centímetros. Desejosa, nessa altura, de despachar o que fora fazer, Samira levantou a mão para bater à porta, mas acabou por suster o movimento. Para seu choque, a porta tinha sido aberta no preciso instante em que Samira esperara fazer contato com a sua superfície. Por reflexo, Samira soltou um grito de surpresa ao ser inesperadamente confrontada com uma das enfermeiras do turno da noite, que Samira conhecia apenas pelo primeiro nome. Era a impressionantemente obesa e brusca Charu, e enchia por completo a porta.

Por contraste com a reação de surpresa de Samira, Charu mostrou-se irritada por encontrar alguém no seu caminho. Olhou para Samira, dos pés à cabeça, como se a estudasse  e depois disse, de forma não muito amigável:

- O que é que estás aqui a fazer? Tu trabalhas de dia.

Charu e Samira só se conheciam da passagem de serviço das enfermeiras, durante a mudança de turno, quando as enfermeiras de dia comunicavam às da noite o estado  de cada paciente e as suas necessidades espetíficas.

- Só queria ver o meu doente disse Samira, com a voz mais hesitante do que desejaria. Tenho estado na biblioteca a estudar as cirurgias de substituição do joelho.

- A sério? perguntou Charu, num tom de voz que sugeria dúvida.

- A sério repetiu Samira, tentando mostrar-se firme.

Charu olhou para Samira com um ar de descrença mas não o verbalizou. Em vez disso acrescentou:

- A sra. Benfatti está de visita.

- Partirá em breve? Queria fazer algumas perguntas ao Sr. Benfatti sobre os seus sintomas.

Charu limitou-se a encolher os ombros, antes de empurrar Samira para fora do seu caminho.

Samira viu-a dirigir-se para a sua secretária. Não sabia o que fazer. Não podia ficar por ali à espera que a Sr.a Benfatti saísse. Contudo, se regressasse à biblioteca,  não saberia se a esposa partira. Além do mais, perguntava-se se o fato de ter encontrado Charu não significaria que deveria abortar por completo a missão. Claro  que o problema com tudo isso residia no fato de se poder passar mais uma semana antes que tivesse outro paciente americano com um qualquer historial de problemas  cardíacos que fosse um alvo adequado. Por essa altura os benefícios de competir com Veena talvez não fossem tão fortes.

Samira ainda debatia esta questão, quando foi novamente surpreendida. Desta vez era a sra. Lucinda Benfatti, uma mulher moderadamente alta e de constituição pesada,  na casa dos 50, com cabelo fortemente ondulado. Tendo conhecido Samira nesse mesmo dia, reconheceu-a de imediato.

- Caramba, trabalha muito.

- Por vezes gaguejou Samira. A sua missão, no decurso da qual não deveria ser vista, estava-se a tornar uma piada seca.

- Até que horas trabalha?

- Varia - mentiu Samira. Mas vou sair em breve. Como está o paciente? Quis passar por aqui para verificar....

- Oh, é tão querida! Está bastante bem, mas não é muito bom com as dores e tem tido muitas. A enfermeira que aqui esteve agora, deu-lhe uma injeção adicional. Espero que funcione. Porque é que não entra para dizer olá? Tenho a certeza que ele gostará de a ver.

- Não sei se será adequado, já que acabou de receber uma injeção para as dores. Não quero incomodá-lo.

- Não incomoda nada. Vamos! A Sra. Benfatti agarrou em Samira pelo cotovelo e levou-a para o quarto do marido. As luzes tinham sido diminuídas, mas o nível de iluminação  geral era razoável, já que a televisão de tela plana estava ligada e sintonizada na BBC. O Sr. Benfatti estava deitado de costas, com a cama algo elevada. A perna  esquerda estava metida num aparelho que lhe flectia o joelho num ângulo de 30°, de forma lenta mas regular, várias vezes por minuto.

- Herbert, querido chamou a Sra. Benfatti, sobrepondo-se ao som da televisão. Olha quem está aqui.

O Sr. Benfatti baixou o volume da televisão com o controle remoto e olhou para Samira. Reconheceu-a e, tal como a esposa, comentou a longa duração do seu dia de  trabalho.

Antes que Samira pudesse responder, a Sra. Benfatti interveio.

- Não sei como é convosco, mas eu estou exausta. Vou voltar para o hotel e cair na cama. Mais uma vez, boa noite, querido disse, beijando a larga testa de Herbert.  Dorme bem.

A mão direita do Sr. Benfatti acenou ligeiramente. A esquerda, através da qual a linha intravenosa entrava no braço permaneceu absolutamente imóvel. A Sra. Benfatti  despediu-se de Samira e partiu.

Samira estava numa situação difícil. Não lhe interessava iniciar uma conversa com o homem, se fosse prosseguir com o plano, mas por outro lado não podia ficar ali  em silêncio. Além disso, tendo-se encontrado com a Sra. Benfatti, não seria essa mais uma razão para abortar o plano? A única coisa de que tinha a certeza era de  que aquilo que julgava que seria muito simples se estava a revelar tudo menos simples. Incapaz de decidir, Samira permaneceu pregada ao chão, muda.

O Sr. Benfatti esperou um momento antes de perguntar:

- Há alguma coisa que possa fazer por si, como dar uma corrida à cozinha e preparar-lhe algo para comer? Riu-se um pouco com a sua própria tentativa de fazer uma piada.

- Como está o seu joelho? perguntou Samira, enquanto tentava organizar os seus pensamentos.

- Oh, ótimo escarneceu o Sr. Benfatti. Estou pronto para uma corrida. Inconscientemente a mão de Samira deslizou para o interior do bolso e os seus dedos encontraram  a seringa. Com um certo sobressalto, foi recordada dos motivos da sua presença.

Enquanto o Sr. Benfatti falava sobre os detalhes das dores que sentira, Samira lutou por decidir o que fazer. Reconhecendo que não havia nenhuma forma racional de tomar uma decisão que não envolvesse olhar para uma bola de cristal que não possuía, escolheu a opção mais simples, que consistia em reconhecer a sua impetuosidade  e prosseguir conforme planejado. O fator decisivo acabou por ser a constatação de que o corpo do Sr. Benfatti só seria descoberto talvez passadas várias horas, tendo  em conta que a esposa acabara de sair e a enfermeira de lhe dar uma injeção. Isso significava que Samira estaria já bem longe da cena do crime, quando isso acontecesse.  Retirou a seringa do seu esconderijo. Usando os dentes retirou a tampa da agulha, agarrou na válvula, mesmo abaixo do filtro de perfusão.

O Sr. Benfatti tinha visto Samira aproximar-se rapidamente da cama, vislumbrara a agulha e parara a sua diatribe sobre a dor.

- O que é isto? - perguntou. Quando Samira o ignorou e ergueu a agulha até à válvula para proceder à injeção, ele estendeu a mão direita e agarrou o pulso direito  de Samira. No instante seguinte, os seus olhos cruzaram-se. O que me vai dar?

- É para as dores - improvisou Samira nervosa. O fato de o Sr. Benfatti a estar a segurar aterrorizava-a. Por um segundo temeu, irracionalmente, que aquilo que se preparava  para administrar ao Sr. Benfatti passasse para ela devido ao contato.

- Acabei de receber uma injeção para as dores há dois segundos. Não será demais?

- O médico disse para lhe dar mais uma. Dou-lha, para poder dormir mais tempo.

- A sério?

- A sério repetiu Samira, recordando-se da desagradável conversa que tivera com Charu. Olhou para baixo, para o ponto onde o Sr. Benfatti lhe apertava o pulso. O homem  era forte e embora não sentisse dor, estava lá perto. Restringia o seu fluxo sanguíneo.

- O médico está aí?

Não, foi-se embora por hoje. Deu as ordens por telefone.

O Sr. Benfatti continuou a agarrá-la durante mais alguns segundos e depois largou-a subitamente.

Samira soltou um breve suspiro de alívio. Tinha começado a sentir picadas nas pontas dos dedos. Sem perder nem mais um momento, lutou por introduzir a agulha na  válvula, tendo especial cuidado, na sua pressa, para não se picar a si mesma. Com a succinilcolina, mesmo uma ínfima quantidade podia criar sérios problemas. Sem  mais demoras, Samira esvaziou a seringa. Um segundo depois, um grito começou a erguer-se dos lábios do Sr. Benfatti, levando Samira a tapar-lhe a boca com a mão  livre.

O Sr. Benfatti respondeu tentando chegar ao botão que lhe permitia chamar a enfermeira e que estava preso na beira da almofada, mas Samira conseguiu arrancá-lo para longe do seu alcance com a mão que segurava a seringa.

Quase de imediato sentiu uma diminuição da resistência contra a sua mão, à medida que a boca do homem se afastava. Removendo a mão, Samira viu uma espécie de contrações  sob a pele, como se o seu rosto tivesse sido subitamente invadido por vermes. Em simultâneo, os braços e até a perna livre começaram a agitar-se de forma breve e  incontrolável. Um segundo depois, os movimentos pararam. No seu lugar ocorreu um escurecimento da pele, particularmente visível devido à luz branca emitida pelo  aparelho de televisão. Começara lentamente, mas depois ganhara velocidade até que toda a pele exposta do Sr. Benfatti apresentava um ominoso tom roxo escuro.

Embora Samira tivesse propositadamente evitado olhar para os olhos do homem enquanto ele passava pelos rápidos estertores da morte, fê-lo naquele momento. As pálpebras  estavam apenas meio abertas e as pupilas vazias. Recuando em direção à porta, Samira chocou contra uma cadeira, que agarrou, evitando que caísse. A última coisa  que desejava era que alguém aparecesse questionando a origem de um estrondo. Olhando uma última vez para o Sr. Benfatti, de junto da porta, Samira ficou momentaneamente  hipnotizada pelo fato da perna do homem continuar a ser mecanicamente flectida e estendida, como se este continuasse vivo.

Voltando-se, Samira fugiu do quarto, forçando-se depois a andar, com medo de chamar a atenção. Mantendo os olhos fixos no balcão de piso, onde se encontravam as  quatro enfermeiras, Samira seguiu para as escadas. Só quando aí se encontrou se permitiu respirar, sentindo-se surpreendida pelo fato de ter estado a suster a respiração.  Não se tinha apercebido de nada.

Depois de arrumar os livros e de apagar a luz da biblioteca, Samira desceu ao andar da recepção. Gostou do fato de este se encontrar vazio e ainda mais do fato de  os guardas já terem saído do serviço. Uma vez na rua, Samira apanhou um riquexó motorizado e, enquanto se afastavam, olhou para o Queen Victoria Hospital. Parecia  escuro, envolto em sombras e, o que era mais importante, calmo.

Durante a viagem para casa, Samira sentiu-se progressivamente melhor com o que tinha feito, e o medo, a ansiedade e a indecisão que tinha experimentado, passaram  rapidamente para segundo plano. Quando o riquexó motorizado chegou à entrada do bangalô, parecia que todos os seus problemas não passavam de estática no monitor  de um radar.

- Tenho de a deixar aqui - disse o condutor em hindu, quando parou.

- Não quero sair aqui. Leve-me até à porta!

Os olhos de condutor piscaram nervosamente na escuridão, quando ele olhou para Samira. Era óbvio que tinha medo.

- Mas o dono de uma tal mansão pode ficar zangado e chamar a polícia. E a polícia exigirá dinheiro.

- Eu moro aqui disse Samira rispidamente, acrescentando algumas pragas retiradas da Internet. Se não me levar, não será pago.

- Escolho não ser pago. A polícia exigirá dez vezes mais.

Com mais algumas palavras apropriadas, Samira saiu da scooter de três rodas e, sem olhar para trás, atravessou a entrada. Atrás de si, ouviu uma explosão de equivalente  profanidade quando o riquexó motorizado se afastou ruidosamente na noite. Enquanto andava, Samira considerou a forma como haveria de descrever a experiência de despachar  o americano. Não levou mais de um instante a decidir omitir as suas preocupações e concentrar-se no sucesso: o Sr. Benfatti estava morto. Isso era o importante.  Certamente não se ia queixar como Veena fizera.

Entrando em casa, encontrou todos os seus ocupantes, os quatro gestores e as onze enfermeiras, na sala de estar formal, vendo um velho DVD intitulado A República  dos Cucos. Mal ela entrou na sala, Cal parou o filme. Todos a olharam expectantes.

- Então? perguntou Cal.

Samira estava a gostar de provocar o grupo. Pegara numa maçã e sentara-se como se fosse ver o filme sem apresentar o seu relatório.

- Então o quê? perguntou Samira, mantendo a encenação.

- Não nos obrigues a implorar! ameaçou Durell.

- Oh, estão a falar do que aconteceu ao Sr. Benfatti.

Samira avisou Durell, brincando.

- Correu tudo bem, tal como todos disseram que correria, mas também eu não esperava que fosse de outra forma.

- Não tiveste medo? perguntou Raj. Veena disse que estava aterrorizada. O Raj era o único enfermeiro. Apesar da sua constituição musculosa, a sua voz era suave, quase  feminina.

- Nem um pouco disse Samira, embora ao falar se recordasse da forma como se sentira quando Benfatti lhe agarrou o braço com força suficiente para impedir a circulação  sanguínea.

O Raj voluntariou-se para amanhã explicou Cal. Tem um paciente perfeito, com uma cirurgia marcada para de manhã.

Samira voltou-se para ele. Era um homem elegante. Ao fim do dia usava umas camisas um número abaixo do seu, para salientar o seu físico impressionante.

- Não te preocupes. Vai correr tudo bem assegurou Samira. A succinilcolina atua literalmente em segundos.

- A Veena disse que o rosto da sua paciente se contorceu todo comentou Raj com uma expressão de preocupação. Disse que foi horrível.

- Houve alguma fasciculação, mas tudo terminou quase antes de ter começado.

- A Veena disse que a doente dela ficou roxa.

- Isso aconteceu, mas não devias ficar a admirar o teu trabalho. Algumas enfermeiras riram. Cal, Petra e Santana mantiveram-se sérios.

- E o registro médico informatizado de Benfatti? perguntou Santana. Como Samira não o tinha referido, Santana temia que ela se tivesse esquecido. Precisava do historial  para tornar o acontecimento mais pessoal na televisão.

Inclinando-se para trás, contra o sofá, e erguendo o corpo para fora, Samira conseguiu meter a mão no bolso e retirar do seu interior uma pen, semelhante à que Veena  dera a Cal, na noite anterior. Depois atirou-a na direção de Santana.

Santana agarrou a pen no ar, como se fosse um guarda-redes de hóquei, pesou-a como se assim pudesse dizer se continha ou não os dados e depois levantou-se.

Quero fazer chegar a história à CNN. Já lhes dei um gostinho do que estava para vir e estão à espera, ansiosos. O meu contato garantiu-me que será transmitida de imediato.

Enquanto as pessoas que estavam sentadas ao seu lado, no sofá, levantavam as pernas, Santana saiu detrás da mesinha de centro e dirigiu-se para o seu gabinete.

- Tenho uma sugestão a fazer - disse Samira, depois de Santana ter saído. Acho que devíamos arranjar a nossa própria succinilcolina. Entrar no Bloco Operatório sem sermos  vistas é a parte mais frágil do plano. É o único local do hospital onde não devemos estar e se alguém nos visse lá, não teríamos como justificar a nossa presença.

- Quão fácil seria arranjarmos essa droga? perguntou Durell.

- Com dinheiro, pode-se arranjar qualquer droga na Índia disse Samira.

- Acho que a decisão é fácil disse Petra a Cal.

Cal acenou em concordância e olhou para Durell.

- Vê o que consegues fazer!

- Sem problemas disse Durell.

Cal não podia estar mais satisfeito. A nova estratégia estava a funcionar e todos participavam nela, até davam sugestões. Não podia deixar de pensar que ter começado  o esquema com Veena fora brilhante, apesar do susto da sua tentativa de suicídio. Apenas alguns dias antes, tinha medo de falar com Raymond Housman, mas agora Cal  mal podia esperar. A Nurses International começava a compensar, algo que não lhe podia ter agradado mais, mesmo que não fosse da forma como esperara. Mas quem se  importaria, pensou Cal. O importante eram os resultados, não o método.

- Hei, não querem ver o resto do filme? perguntou, agitando o comando por cima da cabeça.

 

                   16 DE OUTUBRO DE 2007

                   TERÇA FEIRA, 23:02 - NOVA DELI, ÍNDIA

As rodas do largo jato bateram com força ao tocar no pavimento de asfalto do Indira Ghandi International Airport e acordaram rudemente Jennifer. Tinha sido acordada 20 minutos antes por uma das assistentes de bordo, que lhe solicitara  que endireitasse as costas do assento, pois o avião iniciara a sua descida, mas tinha voltado a adormecer. A cruel ironia era o fato de, durante a última parte da viagem, não ter conseguido dormir senão ao aproximarem-se do seu destino.

Colando o nariz à janela, Jennifer tentou apreciar as suas primeiras imagens da Índia. Podia ver pouco mais do que as luzes da pista, que iam ultrapassando à medida  que a propulsão dos poderosos motores era invertida. O que mais a surpreendeu foi a presença de algo que lhe parecia nevoeiro e que obscurecia a vista na direção  do terminal. Tudo o que conseguia ver eram as caudas dos aviões, indistintas e individualmente iluminadas, que se erguiam da obscuridade geral. O terminal, em si,  não passava de um borrão de luz. Erguendo os olhos viu uma lua quase cheia, no ápice de um céu cinzento escuro sem estrelas.

Jennifer começou a preparar as suas coisas. Felizmente para si, o lugar ao seu lado estava vazio e tinha podido aproveitar em pleno o livro sobre cirurgias, o guia  turístico da Índia e um romance que trouxera para o vôo, ou, mais precisamente, os três vôos. O seu itinerário exigia duas paradas, que na verdade lhe agradaram  como uma oportunidade para esticar as pernas e andar, mas eram apenas uma mudança para outro avião.

Quando o grande avião aterrou junto do local de embarque e a luz que indica o uso dos cintos de segurança se apagou, Jennifer já tinha todos os objetos arrumados  na sua malinha de viagem com rodas, mas teve de esperar enquanto os passageiros que estavam mais perto das portas saíam lentamente. Todos tinham um aspecto que se  adequava à forma como ela se sentia; contudo estava exausta. Ao aterrar num país estranho e exótico, apercebeu-se de que sentia uma redobrada, ou mesmo triplicada ou quadruplicada, energia. Apesar da viagem se destinar a lidar com a morte da sua adorada avó, não podia deixar de sentir uma certa excitação, bem como algum nervosismo.

Os vôos em si, embora extremamente longos, tinham sido suportáveis. E ao contrário da sua preocupação inicial de que a sua duração poderia deixar demasiado tempo  livre para pensar na morte da sua amiga mais chegada, ela parecia ter tido o efeito oposto. Em certa medida, o tempo que fora obrigada a passar sozinha permitira-lhe  aceitar a perda, aproveitando uma das lições que tivera de aprender ao estudar medicina: a morte faz parte da vida e a sua existência é uma das coisas que faz com  que a vida seja tão especial. Jennifer não ia sentir menos falta da avó, mas a sua perda não ia paralisá-la.

Assim que saiu do avião, Jennifer dirigiu-se ao ligeiramente delapidado e sujo terminal, tomando por fim consciência de que se encontrava, de fato, na Índia. No  avião todos usavam roupas ocidentais. Agora começava a ver os coloridos saris e os igualmente coloridos fatos que as mulheres usavam e que, ficaria mais tarde a  saber, se chamavam salwar-kameezes. Os homens envergavam longas túnicas, chamadas dhotis, sobre volumosos lungi epajamas, que são calças largas apertadas nos tornozelos.

Sentindo-se algo preocupada com a possibilidade de se deparar com algum problema, Jennifer aproximou-se do primeiro obstáculo: o controle de passaportes. Não pôde  deixar de reparar que as filas eram longas e se moviam lentamente nos poucos guichés ocupados por agentes fronteiriços para os cidadãos e os turistas. Por outro  lado, em frente ao guiché diplomático não havia ninguém. Os seus ocupantes ou conversavam ou liam os jornais. Com pouca confiança na burocracia em geral e na indiana  em particular, graças ao que tinha recentemente lido no guia turístico, Jennifer estava convencida de que teria problemas por não ter consigo o seu visto, mesmo  tendo a companhia aérea sido disso avisada. Tudo dependia da sra. Kashmira Varini e de esta ter realizado a chamada prometida e falado com as pessoas certas.

Desculpe teve Jennifer de dizer junto da janela do guichê para receber alguma atenção. As conversas pararam e os jornais foram pousados. O relativamente grande grupo  de funcionários que lidava com a fila diplomática, em forte contraste com os outros guichês, ocupados apenas por um funcionário, olhou para Jennifer como se estivessem chocados com o fato de terem trabalho. Todos os funcionários envergavam largos uniformes castanhos e, embora as roupas não estivessem visivelmente sujas, pareciam em desalinho.

Como lhe fora indicado, Jennifer entregou o passaporte e começou a explicar a situação, altura em que o guarda fronteiriço lhe devolveu o passaporte e, sem dizer  uma palavra, fez sinal para que Jennifer utilizasse uma das outras filas.

- Foi-me dito espetificamente que me dirigisse ao guiché diplomático explicou Jennifer.

Sentia o coração apertado, à medida que a preocupação com a possibilidade de não conseguir entrar no país depois de tão longa viagem, começou a crescer. Apressadamente,  relatou que lhe tinham dito que estaria um visto à sua espera, espetificamente no guiché diplomático.

Ainda sem dirigir uma palavra a Jennifer, o guarda fronteiriço pegou no telefone. Mesmo de onde se encontrava, no exterior do guichê, Jennifer pôde ouvir os gritos  do outro lado da linha. Um minuto depois viu o agente abrir uma gaveta, sob o balcão ao qual estava sentado, e extrair alguns papéis. Depois fez sinal a Jennifer  para que lhe devolvesse o passaporte, o que Jennifer fez de bom grado. O guarda colou-lhe então aquilo que supôs ser o visto, rubricou-o e carimbou-o. Só então o  devolveu a Jennifer, fazendo-lhe sinal para que avançasse. Aliviada por lhe terem permitido a entrada no país depois de ter temido o pior, Jennifer pegou na malinha  e surpreendida por não ter de pagar pelo visto, avançou, não fossem eles mudar de ideias. O curioso fato de todo o episódio se ter desenrolado sem que o guarda proferisse  uma única palavra, fazia-a recordar o porquê de não gostar de burocracias.

De seguida era preciso ir levantar a bagagem o que, surpreendentemente, se revelou mais eficaz do que no aeroporto JFK. Quando Jennifer conseguiu localizar a passadeira  correta, a sua mala de viagem com rodas já lá se encontrava e já tinha realizado várias vezes o circuito.

Os agentes alfandegários pareciam ainda mais desgrenhados do que os dos passaportes, e ainda menos empenhados. Estavam todos sentados na beira dos longos balcões,  construídos para facilitar a abertura e o exame das malas, mas nenhum o estava a fazer. Obediente, Jennifer abrandou, mas eles limitaram-se a acenar-lhe para que  prosseguisse.

De seguida Jennifer empurrou as portas de segurança da alfândega e entrou na área principal das chegadas do terminal. De imediato teve a percepção de uma das principais  caraterísticas da Índia: a sua impressionante população. O local estava cheio. Embora a zona de chegadas do terminal estivesse repleta devido à aterragem de diversos  voos internacionais quase em simultâneo, nada se comparava ao resto do terminal. Logo depois das portas encontrava-se uma rampa com 10 metros de largura, mais de 25 metros de comprimento e um corrimão metálico. Encostados ao corrimão, apertados uns contra os outros como sardinhas, encontravam-se hordas de  pessoas expectantes, a maioria delas empunhando cartazes bastante rudimentares. Cerca de metade envergava roupas ocidentais, incluindo um grande número de pessoas  de uniformes elegantes com chapéus de pala, que exibiam as insígnias dos hotéis.

Jennifer parou de súbito, chocada com mais esta dificuldade. Tendo-lhe sido dito que um empregado do Amal Palace Hotel, empunhando um cartaz com o seu nome, a esperaria,  não se preocupara com aquele aspecto da viagem. Claramente, não fora a atitude correta. De onde se encontrava podia ver centenas de cartazes e ainda mais pessoas.

Sem nunca ter gostado de ser o centro das atenções, Jennifer tentou ainda assim fazer-se notar, à medida que subia a rampa. Enquanto procurava em vão o seu nome,  foi cruzando o seu olhar com o de desconhecidos, que lhe pareciam cada um deles mais estrangeiro e exótico do que o outro. Para uma jovem sozinha, praticamente sem  qualquer experiência de viagens, era intimidante e até um pouco assustador, especialmente sem elementos da polícia ou outras autoridades à vista.

Fica calma, pensou Jennifer, esperando ouvir, a qualquer momento, chamar o seu nome no meio do ruído. Infelizmente ou felizmente, Jennifer não tinha a certeza de  ter sido abordada por alguém ao chegar ao topo da rampa. Sem qualquer desejo de abrir caminho por entre a turba, voltou-se e tão lentamente como subira a rampa,  desceu-a. Ninguém chamara por ela, quando chegou às portas de saída, ou se o fizeram ela não o ouvira.

No momento em que pensava regressar ao interior para inquirir sobre a existência de informações sobre hotéis, as portas abriram-se e por elas saiu um jovem envergando  um uniforme de bagageiro, que tinha ainda pior aparência do que os utilizados pelos homens da alfândega. O jovem parecia-se mais com um estudante do que com um bagageiro  profissional e o uniforme era não só andrajoso como também demasiado grande. Empurrava um carrinho de quatro rodas carregado de bagagens. Ao atravessar as portas  ganhara velocidade para se preparar para a rampa. Consequentemente, quase atropelara Jennifer.

- Peço desculpa - exclamou o bagageiro, ao ver Jennifer e ao parar o carrinho, com alguma dificuldade.

Jennifer desviou-se.

- A culpa é minha. Não devia estar a tentar entrar pela saída. Pode dizer-me se existe por aí algum guichê de informações? É suposto encontrar-me com alguém do hotel,  mas não sei onde.

- Que hotel?

- O Amal Palace.

O bagageiro assobiou.

- Se é suposto vir alguém do Amal buscá-la, estará cá sem dúvida.

- Mas onde?

- Suba até ao topo da rampa e vire à direita. De certo encontrar-se-ão vários nessa zona. Estarão vestidos com uniformes azuis-escuros.

Jennifer agradeceu ao jovem e voltou a subir a rampa. Embora ainda se sentisse algo relutante em avançar pelo meio da multidão, decidiu fazê-lo e tal como o bagageiro  prometera, encontrou os funcionários do Amal em todo o seu esplendor bem vestido e engomado. Embora achasse estranho o fato de não tornarem mais visível a sua presença,  aproximou-se do homem que exibia o seu nome numa ardósia. Apresentou-se como Nitin e agarrou nas duas malas de Jennifer. Também telefonou a Rajiv, o motorista, a  partir do seu celular, antes de guiar Jennifer para fora do terminal. Enquanto andavam, ele manteve um diálogo amigável.

Quando chegaram ao exterior, e enquanto esperavam no passeio que Rajiv trouxesse o carro, Jennifer reparou uma vez mais na neblina espessa que cobria a área e fazia  incidir sobre os candeeiros do aeroporto e os faróis dos carros pesados halos. Era precisamente o mesmo efeito que vira do avião, mas agora com a adição de um cheiro  acre.

- Esta neblina é normal? perguntou a Nitin, enquanto franzia o nariz.

- Ah, sim respondeu Nitin. Pelo menos nesta altura do ano.

- E em que altura do ano é que não há?

- Durante as monções.

- Só?

- Só.

- E o que a provoca?

- Temo que o pó e a poluição. Temos 11,5 milhões de habitantes em Deli, neste momento, mais ou menos oficialmente, com mais pessoas a mudarem-se para Deli todos os dias do que as que nascem cá. Não oficialmente, penso que sejamos perto de 14 milhões. É uma migração em massa vinda do interior que está a provocar uma enorme pressão sobre tudo e um aumento do tráfego. Esta neblina é originada principalmente pelo fumo dos escapes e pelo pó das ruas, mas as fábricas existentes nos limites da cidade também dão o seu contributo.

Jennifer estava horrorizada, mas não teceu quaisquer comentários. Pensava que Los Angeles era mau em Setembro, mas Deli fazia com que Los Angeles parecesse a Primavera  numa pastagem nos Alpes.

- Aí vem Rajiv - disse Nitin, quando um Ford Explorer preto ultra-brilhante, com vidros fumados, parou junto ao passeio.

Rajiv saltou do lugar do condutor, contornou o veículo e cumprimentou Jennifer de uma forma tipicamente hindu, pressionando as palmas das mãos uma contra outra, fazendo uma vênia e dizendo "namasté". Envergava um esplêndido e impecavelmente limpo e engomado uniforme branco, completo com luvas brancas e chapéu de pala  branco. Enquanto abria a porta de trás para Jennifer, Nitin colocou as duas malas na bagageira. Um momento depois, ela e Rajiv entravam em Nova Deli.

Passar o primeiro carro em direção contrária apanhou Jennifer completamente de surpresa. Embora o volante do Explorer estivesse do lado direito, não se tinha apercebido  do que isso implicava. Quando os faróis do carro saíram da escuridão e se dirigiram para eles, ela partiu do princípio que passaria à sua direita, mas à medida que  os veículos se aproximaram o carro não se moveu para a direita. Pelo contrário, parecia deslizar para a esquerda. No momento em que os dois carros se cruzaram, Jennifer  suprimiu um grito, pensando que iam colidir de frente. Só então percebeu. Na índia, bem como na Grã-Bretanha, os automóveis circulavam pela esquerda e eram passados  pela direita.

Com o coração ainda a bater no peito, Jennifer reclinou-se. Sentia vergonha da sua inocência como viajante. Para se acalmar, usou a toalha fresca que Rajiv lhe dera  para limpar a testa e bebeu um goleda fresca garrafa de água que ele lhe providenciara. Entretanto olhou pela janela, impressionada com o que via.

Assim que chegaram à estrada principal, emergindo da estrada de acesso ao aeroporto, o seu progresso abrandara quase por completo. Apesar de já passar da meia-noite  a estrada estava repleta, em ambos os sentidos, por todo o tipo de veículos, mas principalmente por caminhões, todos sobrecarregados ao máximo. Sobre tudo aquilo pendia  uma sufocante camada de fumos de escape e pó, para além do ruído dos motores a descoberto e da buzina de cada uma das viaturas, soando de poucos em poucos segundos,  por nenhuma outra razão para além do mero capricho do motorista.

Quando Jennifer afastou os olhos de toda aquela cena, deu por si a abanar a cabeça incrédula. Era como um sonho louco; além disso, se o tráfego era assim durante  a noite, como seria durante o dia?

O condutor falava um inglês razoável e mostrou-se mais do que contente por fazer de guia turístico enquanto atravessavam a cidade. Jennifer encheu-o de perguntas,  em especial quando saíram da estrada principal e entraram na zona residencial de Chanakyapuri. Ali, pelo menos, não havia camiões ou ônibus e o trânsito fluía mais  livremente. Jennifer reparou nas gigantes vivendas brancas, muito parecidas, que se seguiam, uma atrás da outra, e que pareciam algo delapidadas mas ainda assim  impressionantes. Fez perguntas sobre elas.

- São bangalôs da era Raj britânica disse o motorista. Pertenciam aos diplomatas britânicos e continuam a ser ocupadas por alguns diplomatas.

Em breve o motorista apontava para as diversas embaixadas estrangeiras, em relação às quais parecia estar orgulhoso. Apontou para a embaixada americana, que parecia bastante feia aos olhos de Jennifer, quando comparada com as de muitos outros países. A sua principal caraterística era o tamanho. Jennifer voltou-se, quando passaram pelo edifício que ficava à sua esquerda, para ver melhor. Considerou  que provavelmente teria de a visitar em busca de ajuda para lidar com os restos mortais da sua avó.

De seguida o motorista apontou para os edifícios governamentais indianos, que eram impressionantes. Disse que tinham sido desenhados por um famoso arquiteto britânico,  do qual Jennifer nunca tinha ouvido falar. Alguns minutos depois chegaram ao hotel e pararam junto à rampa que dava acesso à porta principal. A princípio sentiu-se  desapontada. O edifício não passava de um arranha-céus moderno, que se poderia encontrar em qualquer parte do mundo. Esperava algo mais tipicamente indiano.

Mas o interior era outra história. Para sua surpresa, os espaços públicos do hotel vibravam de atividade apesar da hora, e Jennifer teve de aguardar numa fila para  fazer o check-in. Na verdade não era exatamente uma fila, mas antes uma cadeira onde lhe ofereceram refrescos e deram a oportunidade de olhar para a zona da recepção.  Instantaneamente, Jennifer percebeu a reação do bagageiro do aeroporto quando lhe disse onde ficaria alojada. Jennifer não ficara em muitos hotéis durante a sua  vida e certamente nunca num como o Amal Palace. Era, nas suas próprias palavras, sumptuoso e até mesmo decadente.

Vinte minutos mais tarde, o concierge do hotel, de trajo formal, acompanhava-a ao seu quarto no nono andar, saía mantendo as costas para a porta e fechara-a atrás  de si. A caminho do quarto tinha descrito as instalações e serviços do hotel, que incluíam um spa/ginásio aberto 24 horas, com uma piscina olímpica exterior. Jennifer  decidiu que ia tentar disfrutar da sua estadia pelo menos um pouco, como Neil sugerira. O breve pensamento sobre Neil, fê-la enfurecer-se, pelo que o afastou do  pensamento.

Depois de trancar a porta, Jennifer abriu as malas, desfê-las e tomou um longo e quente duche. Ao sair do banho pensou sobre o que havia de fazer. Embora soubesse  que se devia sentir exausta, a excitação da chegada e o fato de saber que era meio-dia em Los Angeles dera-lhe uma nova energia. Sabia que, se tentasse dormir, daria  voltas e mais voltas na cama, acabando por ficar frustrada. Em vez disso, enrolou-se num dos luxuosos roupões turcos pendurados atrás da porta do banheiro, puxou  para baixo o edredão da espaçosa cama king-size, recostou-se num monte de almofadas e ligou o impressionante aparelho de televisão de tela plana, utilizando o controle  remoto. Não fazia idéia do que ia encontrar na televisão, mas não lhe fazia diferença. A ideia era relaxar e enganar o corpo, fazendo-o pensar que eram horas de  dormir.

O que viu foram muito mais canais ingleses do que esperara, pelo que o zaping se mostrou bastante divertido. Quando encontrou a BBC quase parou para ver, de fato, as notícias. Mas ao sentir dificuldades em concentrar-se, decidiu avançar e depressa encontrou a CNN. Surpreendida por encontrar um canal por cabo americano, ficou  a ver durante algum tempo, já que não reconheceu os pivots. Passados 15 minutos, quando estava prestes a avançar para outro canal, a pivot prendeu a atenção de Jennifer ao apresentar uma notícia sobre turismo médico, semelhante à que Jennifer vira enquanto esperava na sala de convívio da cirurgia no centro médico da UCLA. Perguntando-se se o nome da avó voltaria a ser mencionado, ouviu atentamente.

O nome do doente era outro, mas o hospital era o mesmo.

Hipnotizada, Jennifer endireitou-se enquanto apivot das notícias continuava:

As alegações do governo indiano de que os resultados das suas intervenções cirúrgicas são tão bons ou melhores do que os das que se realizam no Ocidente receberam  mais um golpe a noite passada, quando o Sr. Herbert Benfatti, de Baltimore, Maryland, como referimos anteriormente, faleceu de ataque cardíaco pouco depois das nove  da noite, hora de Nova Deli. Este trágico desfecho ocorreu depois de o paciente ter sido submetido a uma cirurgia de substituição do joelho sem complicações, cerca  de doze horas antes. Embora o Sr. Benfatti tivesse um historial de arritmia, estava de boa saúde e realizara uma angiografia o mês passado, para se preparar para  esta cirurgia. As nossas fontes dizem-nos que mortes como esta não são um fenômeno estranho nos hospitais privados indianos. Até ao momento, as autoridades indianas  têm conseguido simplesmente evitar a fuga de tais informações. As nossas fontes asseguram-nos ainda que pretendem continuar a revelar quaisquer futuras mortes, bem  como aquelas que possam ter acontecido no passado, para que os possíveis utentes possam estar na posse de toda a informação de que necessitam para efetuar escolhas  conscientes sobre se querem ou não correr estes riscos apenas para poupar alguns dólares. A CNN apresentará estas informações mal estejam disponíveis. Agora regressamos...

A primeira reação de Jennifer foi de pena para com a família Benfatti e a esperança de que não tivessem tido conhecimento das trágicas notícias através da televisão,  como acontecera com ela. Também fez com que se questionasse em relação ao hospital. Duas mortes inesperadas depois de cirurgias opcionais em duas noites seguidas  era sem dúvida excessivo e certamente evitável, o que o tornava ainda mais grave. Também deu por si a perguntar-se se o Sr. Benfatti seria casado e, em caso afirmativo,  se a Sr.a Benfatti estaria na índia e se se encontrariam no mesmo hotel. Jennifer considerou que se houvesse uma Sr.a Benfatti seria simpático da sua parte apresentar-lhe  pessoalmente as suas condolências, se conseguisse reunir coragem para tal. A última coisa que Jennifer queria era perturbar quem quer que fosse o seu parente próximo;  contudo, tendo em conta a sua atual experiência com a morte da avó, sentia que a poderia compreender melhor do que qualquer outra pessoa.

 

                   17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 8:31 - NOVA DELI, ÍNDIA

Jennifer saiu do Mercedes preto que o Hospital Queen Victoria enviara para a ir buscar ao Amal Palace Hotel. A temperatura exterior era quente, mas não em demasia.  O anêmico sol matinal lutava arduamente para penetrar a neblina e refletia-se debilmente na fachada envidraçada do hospital. Jennifer nem sequer precisou de proteger  os olhos ao examinar o edifício. Tinha uma altura de cinco andares, e embora frio e moderno, a sua agradável combinação de vidro cor de cobre e mármore de cores  complementares fez com que o admirasse um pouco. Mas o que o fazia salientar-se tanto era o que o rodeava. A ostensivamente dispendiosa estrutura estava flanqueada,  de um lado e do outro, por edifícios de comércio, gastos e brancos, mas fortemente manchados e sem quaisquer caraterísticas distintivas, que alojavam um sem número  de pequenas lojas que vendiam tudo desde Pepsi a banheiras rudimentares. A rua em si era uma confusão, repleta de buracos e cheia de lixo de todos os tipos, para  além de várias vacas, indiferentes ao ruído do trânsito e das buzinas. Como Jennifer antecipara, o trânsito era ainda pior do que na noite anterior. Embora parecessem  circular menos camiões, gastos e coloridos, havia consideravelmente mais ônibus cheios a transbordar de gente, riquexós, bicicletas, peões e, o que Jennifer achava  ainda mais perturbador, matilhas de crianças pequenas, descalças e vestidas com farrapos sujos, umas deformadas, outras doentes e malnutridas, todas correndo perigosamente  entre os carros que circulavam lentamente, enquanto pediam moedas. Como se isso não bastasse, algumas portas abaixo do hospital, do outro lado da rua, encontrava-se  um terreno vazio, cheio de blocos de cimento partidos, terra, pedras, todo o tipo de detritos e até mesmo lixo a sério. Ainda assim, aquele espaço era o lar de diversas  famílias, cujos casebres eram formados por chapas de metal retorcido, caixas de cartão e farrapos de tecido. A somar àquele ambiente havia um grande número de cães  vadios e até uma ratazana.

- Esperarei aqui por si disse o condutor que tinha contornado o carro para abrir a porta a Jennifer. Sabe quanto tempo se vai demorar?

- Não faço ideia respondeu Jennifer.

- Se eu não estiver aqui sentado, ligue-me para o celular quando estiver pronta para sair.

Jennifer concordou em fazê-lo, embora a sua atenção se centrasse no hospital. Não sabia o que esperar e compreendeu que as suas emoções estavam à flor da pele. Em lugar de se sentir apenas triste com o falecimento da avó, estava progressivamente irritada agora que se encontrava, por fim, ali. Tendo sabido que ocorrera uma segunda morte, em tudo semelhante e em tão poucos dias, não podia deixar de pensar que a morte da avó poderia ter sido prevenida ou pelo menos evitada. Sabia que não se tratava de uma ideia completamente racional e talvez se devesse mais ao seu estado de espírito em geral, mas de qualquer forma era o que sentia. O principal problema residia no fato de se sentir exausta e de o jet-lag a afetar mais do que esperara. Tinha dormido pouco ou quase nada.

Depois, para piorar as coisas, o condutor tinha-se atrasado, algo que haveria de aprender tratar-se de uma tradição indiana, forçando-a a esperar no átrio do hotel.

Temendo que o fato de se sentar fizesse com que adormecesse, aproveitou esse tempo para indagar sobre uma Sr.a Benfatti e se tal mulher estaria no mesmo hotel, o que se revelou ser verdade. Não que Jennifer tivesse decidido, definitivamente, falar com a mulher, mas queria sabê-lo ainda assim, caso optasse por fazê-lo.

Jennifer achou os dois porteiros altos, envergando vestes tradicionais e turbante, tão imperturbáveis como o edifício em si. Ambos a cumprimentaram à maneira indiana, com as palmas apertadas uma contra a outra, antes de abrirem a respettiva porta; nenhum falou ou alterou a sua expressão facial neutra.

O interior do hospital estava consideravelmente frio, como se tentasse proclamar o luxo do hospital só por si, e era tão moderno e rico como o exterior. O chão era de mármore, as paredes de madeira eram de cor clara, com acabamentos finos, e o mobiliário era uma combinação de aço liso e veludo. À esquerda havia uma elegante cafetaria que podia estar presente num hotel de cinco estrelas de estilo ocidental.

Sem saber exatamente o que deveria fazer, Jennifer aproximou-se do balcão das informações, que se parecia mais com a recepção de um Ritz-Carlton ou de um Four Seasons do que com a de um hospital, em especial tendo em conta as atraentes jovens, envergando um impressionante sarí em vez das batas cor-de-rosa dos voluntários. Uma delas notara a chegada de Jennifer e quando esta se aproximou, perguntou graciosamente se necessitava de ajuda. Conhecendo o modo como os apressados empregados e voluntários dos hospitais americanos agiam, Jennifer ficou de imediato impressionada com a orientação para o consumidor da instituição.

Assim que Jennifer disse o nome, a recepcionista indicou que a Sr.a Kashmira Varini se encontrava à sua espera e que ia comunicar à gestora de caso que Jennifer tinha chegado. Enquanto a recepcionista fazia a chamada, Jennifer deu mais uma olhadela ao átrio. Até havia uma livraria engraçada e uma loja de brindes.

Pouco depois, a Sra. Varini apareceu à porta que dava acesso a um dos vários gabinetes localizados por detrás do balcão de informações. Envergava um sari particularmente vistoso de tecido excecional. Jennifer avaliou-a, enquanto se aproximava. Era magra e tinha um pouco menos do que o seu 1,69m, mas não muito. O cabelo e os olhos eram significativamente mais escuros do que os de Jennifer e usava o cabelo afastado do rosto e preso atrás por um travessão de prata. Embora as suas feições fossem em geral agradáveis, os lábios eram finos e teriam parecido desagradáveis, não fosse o fato de ela exibir um sorriso beatífico que Jennifer veio a descobrir ser falso. Chegando junto de Jennifer, Kashmira utilizou o típico cumprimento indiano.

- Namasté - disse.

Embora Jennifer se sentisse algo embaraçada, retribuiu o cumprimento.

Kashmira embarcou então nas normais questões socialmente aceites sobre a viagem, e se Jennifer gostava do seu quarto e do hotel e se o transporte tinha sido aceitável.

Mesmo depois de tão breve troca de palavras, o sorriso já tinha desaparecido quase totalmente, com exceção de algumas aparições obrigatórias nos momentos apropriados.

Então Kashmira ficou extremamente séria, transmitindo as suas condolências, as dos médicos e, na verdade, de todo o pessoal do hospital, pelo falecimento da avó de Jennifer.

- Foi um acontecimento trágico e completamente inesperado - acrescentou.

- Isso foi, de fato - disse Jennifer, olhando para a mulher e sentindo um renascer da raiva que experimentara nessa manhã, em relação a toda aquela situação, não só o fato de ter perdido a pessoa que lhe era mais próxima, mas também o de ter sido arrancada àquele que era, possivelmente, um dos mais importantes estágios de toda a sua carreira médica. Sabia que o imprestável do seu pai devia ser tão culpado pela situação como qualquer outra pessoa, mas naquele momento fazia recair todas as culpas sobre o Hospital Queen Victoria em geral e Kashmira Varini em particular, em especial porque teve a imediata impressão de que as condolências que apresentava estavam longe de ser sinceras.

- Diga-me - prosseguiu Kashmira, completamente desconhecedora do estado de espírito de Jennifer, ditado pela privação de sono - onde nos deveremos dirigir para despacharmos a desagradável questão dos preparativos? Podemos ir para a cafetaria ou para o meu gabinete privado. A decisão é toda sua.

Levando algum tempo, Jennifer olhou para o outro lado do balcão de informações, para a porta aberta de onde saíra Kashmira e depois, voltando-se na direção oposta, para a cafetaria envidraçada. O que a fez decidir foi o medo de adormecer, se não tomasse outro café. Quando Jennifer transmitiu o seu veredicto a Kashmira, a gestora de caso mostrou-se bastante satisfeita, o que provocou mais um dos seus falsos sorrisos, já que isso sugeria que Jennifer seria fácil de manipular.

Jennifer bebeu, de fato, outro café, embora este não tenha tido grande impacto e depressa considerou imperativo regressar rapidamente ao hotel para dormir uma sesta.

Para melhor explicar como se sentia mal, um cálculo rápido disse-lhe que, se estivesse em Los Angeles, estaria a preparar-se para dormir.

- Sra. Varini - disse Jennifer, interrompendo a sua anfitriã, que descrevia a falta de instalações mortuárias do hospital. Lamento muito, mas estou a ter dificuldades em concentrar-me devido à falta de sono e estou certamente menos capaz do que o normal para tomar qualquer decisão significativa. Temo ter de regressar ao meu quarto para algumas horas de descanso.

- Se é culpa de alguém, será minha - disse Kashmira, de forma pouco convincente. Não devia ter estabelecido um calendário tão apertado. Mas podemos abreviar as coisas. Na realidade, só precisamos de uma simples decisão da sua parte. Apenas precisamos de saber se pretende embalsamar ou cremar. É só dizer-nos! Nós trataremos de tudo.

Jennifer esfregou os olhos e libertou um suspiro audível.

- Podia ter feito isso de Los Angeles.

- Sim, podia concordou Kashmira.

Jennifer abriu os olhos, piscando o suficiente para afastar a sensação de corpo estranho e depois olhou para a expectante Sra. Varini.

- Ok, preciso de ver a minha avó. Foi para isso que vim.

- Tem a certeza?

- Claro que tenho a certeza! gritou Jennifer antes que se conseguisse controlar. Não era sua intenção ser tão explosiva. Está aqui, não está?

- Certamente que está. Só não tinha a certeza de que a quisesse ver. Já passou algum tempo desde segunda-feira à noite.

- Tem estado numa câmara frigorífica, não tem?

- Sim, certamente. Só pensei que talvez uma jovem como você não quisesse...

- Tenho 26 anos e sou aluna do 4° ano de medicina interrompeu Jennifer, irritada. Não creio que tenha de se preocupar com as minhas susceptibilidades.

- Muito bem disse Kashmira. Assim que terminar o café, levá-la-emos a ver a sua avó.

- Já bebi café que chegue. Estou a começar a ficar nervosa.

Jennifer afastou a caneca meio cheia e o açucareiro da beira da mesa e levantou-se. Enquanto Kashmira fazia o mesmo, Jennifer parou para deixar passar uma ligeira tontura...

Utilizando um dos silenciosos e ultramodernos elevadores, desceram a um piso subterrâneo, onde se encontravam salas médicas, uma moderna cafetaria para o pessoal, os vestiários dos empregados e diversas e variadas salas de aprovisionamento. Um único guarda idoso, envergando um uniforme demasiado grande, estava sentado numa cadeira de costas direitas, encostada contra a parede.

Havia duas câmaras frigoríficas, ambas do lado da cafetaria. Sem comentários, Kashmira levou Jennifer à mais próxima e tentou abri-la. Jennifer deu uma ajuda. Certamente não se tratava de uma câmara mortuária, como admitiu Kashmira. O interior estava cheio de prateleiras, do chão ao teto, ao longo dos 12 metros de comprimento da câmara. Uma espreitadela rápida revelou a Jennifer que continha principalmente comida selada, mas também alguns produtos médicos, igualmente selados, que necessitavam de refrigeração. No centro estava uma maca de hospital cujo ocupante se encontrava coberto por um limpo lençol de hospital. O cheiro da câmara frigorífica era ligeiramente enjoativo.

Não há muito espaço disse Kashmira. Talvez prefira entrar sozinha.

Sem uma palavra, Jennifer penetrou no seu interior. A temperatura parecia adequada, regulada para perto do ponto de congelação. Agora que Jennifer se encontrava, de fato, na presença da avó, não tinha tanta certeza de querer realmente olhar para ela. Apesar de ter sugerido o contrário, Jennifer, a aluna de medicina, nunca se acostumara aos corpos mortos, mesmo depois de ter tido a oportunidade de passar uma semana como observadora numa morgue, durante o estágio. Voltou a olhar para a gestora de caso, que se apercebeu do olhar de Jennifer e franziu a testa, como que para dizer: Então? Vais olhar ou quê?

Compreendendo que não podia adiar mais, Jennifer pegou na ponta do lençol e, lutando para conter as lágrimas, puxou o pano, expondo o rosto da avó. O primeiro choque foi o fato de parecer tão normal. Parecia ser a calorosa, generosa e grisalha avó e a mulher robusta, sempre simpática e apoiante que Jennifer conhecera. Mas depois Jennifer olhou com mais atenção. Era a luz florescente que fazia com que a pele e os lábios assumissem uma tonalidade de alabastro, com exceção do lado do pescoço, onde a pele assumira uma lividez de um roxo escuro. A sua cor era na verdade um bronzeado sem vida, translúcido e manchado, e ela estava sem dúvida morta.

De acordo com o seu frágil estado emocional, a tristeza de Jennifer transformou-se de novo em fúria. Deixou cair o lençol e voltou a olhar para Kashmira Varini, cuja falsa simpatia a irritou ainda mais. Jennifer saiu da câmara e ficou a ver Kashmira lutar para fechar a pesada porta. Não se ofereceu para ajudar.

- Pronto! disse Kashmira, endireitando-se e limpando as mãos depois de a porta se ter fechado com um clique. Já viu porque é que precisamos que tome uma decisão em relação à sua avó. Ela não pode continuar aqui mais tempo.

- Há uma certidão de óbito? - perguntou Jennifer, aparentemente sem motivo, mas mais por se ter recordado de súbito do destino do Sr. Benfatti.

- Com toda a certeza. Tem de haver uma certidão de óbito para se considerar quer a cremação quer o embalsamamento. A certidão de óbito foi assinada pelo cirurgião principal da sra. Maria Hernandez.

- E a causa da morte foi sem dúvida um ataque cardíaco?

- Foi!

- O que provocou o ataque cardíaco?

Durante vários segundos, Kashmira ficou a olhar para Jennifer, que não conseguia perceber se a mulher estava chocada, irritada ou simplesmente frustrada com as perguntas de Jennifer, ou com o que parecia ser uma recusa teimosa em decidir o que fazer com o corpo.

- Não sei o que provocou o ataque cardíaco da sua avó. Não sou médica.

- Eu estou prestes a tornar-me uma e não consigo imaginar o que lhe poderá ter provocado o ataque cardíaco. O seu coração era, literal e figurativamente, a sua melhor caraterística em diversos aspectos. E uma autópsia? Pensaram nisso? Quer dizer, se os médicos não sabem o que se passa com o seu doente, normalmente querem ficar a saber, e isso é um bom indicativo de que é necessário fazer uma autópsia.

Kashmira ficou surpresa com tal pergunta, mas o mesmo aconteceu com Jennifer. Até ao preciso momento em que o disse, Jennifer não considerara a realização de uma autópsia, nem sabia por que a queria. Disse-o mais por causa de Kashmira, provavelmente porque ela e o hospital a estavam a tentar obrigar a tomar uma decisão. Autópsia, cremação e mesmo embalsamamento eram acontecimentos violentos e Jennifer odiava pensar que seria de alguma forma responsável por eles, por muito irracional que fosse tal pensamento. Mas havia agora um novo pensamento: quão semelhante seria a morte do Sr. Benfatti e se poderiam ambas ter sido evitadas.

- A polícia e os magistrados são as únicas pessoas na Índia a poder solicitar uma autópsia, os médicos não podem.

- Está a brincar.

- Certamente que não estou a brincar.

- Isso é pedir a conivência entre a polícia e os magistrados, se quer saber. E quanto a aprender qualquer coisa sobre o falecimento da minha avó, ou algo que possa manter um outro futuro paciente vivo? Quer dizer, afinal de contas tiveram mais uma morte muito parecida, a noite passada. Se soubessem o que provocou o ataque cardíaco da minha avó, não poderia o do Sr. Benfatti sido evitado e o homem salvo?

- Não sei de nada sobre um Sr. Benfatti - respondeu Kashmira, quase depressa demais. O que sei é que temos um corpo na câmara frigorífica, que já lá está há demasiado tempo e que tem de ser removido. Pela nossa experiência, as famílias reclamam os corpos imediatamente, por isso tem de tomar uma decisão agora. Como pode ver, o corpo não pode ficar aqui. Simplesmente não se destina aos corpos e este já lá se encontra desde segunda-feira à noite.

- Isso é problema seu - disse Jennifer. Estou chocada com o fato de o vosso hospital não possuir uma morgue. Acabei de chegar à Índia, depois de voar durante quase 24 horas e pretendo apenas ficar a par dos pormenores. A minha dificuldade reside no fato de estar mental e fisicamente exausta. Vou regressar ao hotel e dormir algumas horas, antes de tomar uma decisão. Além disso, vou visitar a embaixada americana, para discutir com eles algumas questões de logística. Sei que tem a certeza do que eles vão dizer, mas eu gosto de ouvir esse tipo de coisas da boca do cavalo.

- Da boca do cavalo? perguntou Kashmira.

- É só uma expressão. Significa diretamente da pessoa ou pessoas envolvidas. Vou dormir uma sesta, visitar a embaixada americana se puder, e depois volto.

- Será demasiado tarde. Terá de tomar uma decisão agora.

- Ouça, Sra. Varini, para ser sincera, começo a ter a sensação de que estou a ser pressionada. E agora, com esta segunda morte a noite passada, que me parece demasiado parecida com a da minha avó, será ainda menos provável que venha a tomar uma decisão precipitada. Quer dizer, afirma que não sabe nada sobre isso, o que até pode ser verdade, mas eu quero saber alguma coisa sobre o assunto. Foi demasiado próxima da morte da minha avó e soa demasiado semelhante.

- Lamento, mas os registros dos outros pacientes são confidenciais. Quanto a si, disse-lhe espetificamente que precisava de uma decisão sua esta manhã. Não podemos ter o corpo da sua avó na câmara nem mais uma hora. Para dar mais ênfase Kashmira estendeu uma mão e tocou de novo na porta da câmara. Se não quiser colaborar, temo que terá de falar diretamente com o nosso presidente, porque ele tem autoridade para falar com um magistrado e solicitar a um tribunal que decida por si.

- Não vou falar com ninguém durante algumas horas gritou Jennifer. Agora estava verdadeiramente zangada. Antes, tivera a impressão de que o Hospital Queen Victoria a estava a tentar pressionar e agora tinha a certeza. Embora por um lado tal atitude fosse compreensível tendo em conta a sua falta de instalações adequadas, por outro parecia provocatório, especialmente a sua relutância em fazer uma autópsia quando ela indicava expressamente que o desejava.

- Ligar-lhe-ei quando for capaz de pensar melhor e regressarei. Entretanto, deixo-vos um aviso: não profanem o corpo da minha avó sem a minha autorização a menos que queiram que eu desça dos saltos.

- Descer dos saltos? perguntou Kashmira, completamente baralhada.

Jennifer revirou os olhos.

- Significa ficar verdadeiramente chateada.

 

                   17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 9:45 - DELI, ÍNDIA

Jennifer olhou pela janela do Mercedes. Estava de tal forma embrenhada nos seus pensamentos que nem reparou no trânsito. A verdade é que já estava "chateada" muito antes de o ter admitido. Não restavam dúvidas de que o Hospital Queen Victoria a andava a pressionar, e tendo sido uma vítima durante demasiado tempo na sua relativamente curta existência, não gostava do papel. Sair dele tinha sido o seu principal desafio. O acontecimento seminal ocorrera durante o ciclo, numa altura em que os confrontos e as lutas se tinha tornado a regra para ela. Sem saber que mais fazer, a avó, que sempre fora uma mulher particularmente orgulhosa, fez algo que normalmente não faria: pediu a ajuda de alguém. A pessoa para quem se voltou foi a Dra. Laurie Montgomery, uma médica legista de Nova Iorque que a avó praticamente tinha criado, como ama, desde que tinha 1 ano de idade, até ter feito 13.

Na altura, Jennifer achou um pouco estranho conhecer uma pessoa que chamava "Avózinha" à sua avó. Mas ela tinha sido a ama de Laurie Montgomery durante 12 anos. Sem surpresa, esta apaixonara-se pela avó de Jennifer e considerava-a parte da família. Por isso, quando os demónios a fizeram dar um passo em frente no precipício, Maria pediu a Laurie Montgomery para tentar pôr um fim à espiral descendente da neta.

Sendo tanto o amor e o respeito que sentia por Maria, Laurie decidiu ajudar. O que fez foi convidar a desobediente Jennifer para o Gabinete de Medicina Legal, durante uma semana, depois das aulas, para a acompanhar e ver como era o seu trabalho. Os outros médicos legistas tinham-se mostrado céticos em relação à presença de uma moça de 12 anos na morgue, mas Laurie vencera e o resultado fora melhor do que o esperado. A situação fora demasiado "marada" e "nojenta", nas palavras da jovem Jennifer, para captar a sua imaginação adolescente, em especial por se ter tratado da primeira carreira académica a que foi exposta, mesmo que superficialmente. Jennifer encarou tudo com naturalidade... até ao terceiro dia. Nesse dia, deu entrada uma moça exatamente da mesma idade que ela, com um ponto perfeito, redondo e vermelho na testa. Tinha sido abatida a tiro por um gangue rival.

Felizmente, a história de Jennifer acabou por ter um final feliz. Ela e Laurie deram-se melhor do que qualquer pessoa esperaria, o que levou Laurie a inquirir junto da sua própria mãe, uma filantropa, e da sua escola particular, sobre a possibilidade de conseguirem uma bolsa para Jennifer. Um mês depois, esta encontrava-se num ambiente académico, exigente e sem gangues, e o resto é história.

- Claro! exclamou Jennifer suficientemente alto para sobressaltar o motorista.

- Há algum problema, minha senhora? perguntou o motorista, enquanto olhava para Jennifer pelo retrovisor.

- Não, não há problema nenhum disse Jennifer, enquanto se esticava na direção do saco de pôr à tiracolo e começava a vasculhar o seu interior, em busca do telefone.

Não fazia ideia de quanto lhe custaria uma chamada para Nova Iorque, mas não se ia preocupar com isso. Ia ligar para Laurie Montgomery. Laurie nem sequer sabia que a avó morrera e isso era razão mais do que suficiente para telefonar. Além disso, havia a questão da decisão e mesmo a ideia da autópsia. Agora que tinha pensado em ligar para Laurie, Jennifer tinha dificuldade em explicar a si mesma porque não tinha pensado nisso antes.

Enquanto tentava descobrir como ligar para os Estados Unidos, Jennifer colocou outra questão a si própria: que horas seriam na Costa Leste? Sabia que a diferença era de nove horas e meia, mas em que sentido? Apesar da sua exaustão, Jennifer tentou obrigar-se a concentrar. Raciocinou que se Nova Iorque ficava para a frente, então as horas deviam ser para trás, e por muito louco que aquilo lhe parecesse na altura, sentiu-se mais confiante, embora não excessivamente. Voltou a rever o seu raciocínio e decidiu aceitar, como uma questão de fé, que em Nova Iorque era perto da meia-noite do dia anterior.

Sabendo, devido ao passado distante, que Laurie era uma coruja inveterada, Jennifer decidiu-se a fazer a chamada. Apesar do tema, sentiu-se excitada enquanto a ligação era realizada. Era extraordinário pensar que estava prestes a falar com Laurie, do outro lado do mundo, algo que já não fazia há mais de um ano. O telefone foi atendido ao primeiro toque.

- Espero não estar a ligar demasiado tarde - disse Jennifer, sem outro preâmbulo.

- Meu Deus, não respondeu Laurie. Jennifer?

- Sim.

Laurie estava nitidamente contente por ouvir a voz de Jennifer e presumiu que ela se encontrava na Califórnia. Durante alguns minutos as duas mulheres conversaram sobre questões banais. Jennifer perguntou pelo Jack. Laurie, por seu lado, pediu desculpas por não ter ligado a Jennifer desde o casamento e usou o reboliço dos tratamentos para a infertilidade como principal desculpa. Jennifer desejou-lhe boa sorte.

- Então - disse Laurie quando houve uma pausa trata-se de um mero telefonema social ou quê? Não que não seja ótimo ouvir notícias tuas, mas será que há algo em que possa ajudar? Uma carta de recomendação para um internato?

- Infelizmente existe um motivo espetífico para o meu telefonema, mas nada tem a ver com a minha formação médica - disse Jennifer. E prosseguiu, explicando que se encontrava na índia e porquê. Em vários momentos teve de parar para se recompor.

- Oh, não! disse Laurie quando Jennifer terminou. Não soube de nada. Oh, lamento muito.

Jennifer podia ouvir um certo embargamento na voz de Laurie, enquanto falava nostalgicamente sobre o quanto Maria tinha contribuído para a sua infância. Encerrou o seu elogio espontâneo com uma pergunta:

- Foste à Índia para trazer o corpo ou as cinzas para os Estados Unidos ou planejas deixá-la aí? Afinal de contas, a índia poderá ser o país mais espiritual do mundo.

- Se eu morresse na Índia, acho que queria que as minhas cinzas fossem colocadas no Ganges com os milhares de milhões de outras almas.

- Isso é uma coisa em que não pensei - admitiu Jennifer, explicando que já estava a ter problemas em optar entre a cremação e o embalsamamento, quanto mais pensar em relação ao que faria depois. Durante o dia de hoje vou tentar visitar a embaixada americana. Imagino que tenham conhecimento dos custos comparativos e de todos os detalhes diplomáticos.

- Imagino que seja esse o caso. Céus, lamento que tenhas de fazer isso sozinha. Quem me dera estar aí para te ajudar. Ela era realmente como uma mãe para mim, tanto que acho que a minha mãe verdadeira sentia ciúmes, mas isso é culpa dela. Foi ela que me entregou à tua avó, para começar.

- Garanto-te que o sentimento era mútuo disse Jennifer.

- Agrada-me ouvi-lo, mas não estou surpreendida. As crianças conseguem pressentir isso, como eu.

- Há mais uma questão sobre a qual queria a tua opinião. Tens mais alguns minutos?

- Certamente. Sou toda ouvidos.

- As autoridades do hospital têm estado a pressionar-me muito, algo a que admito não responder muito bem, e eles até têm razão. Quer dizer, o hospital privado envolvido é espetacular e tem a melhor tecnologia. Ainda assim, quando o construíram não fizeram nenhuma morgue, pois os corpos na Índia são reclamados muito depressa, quer pelos hindus quer pelos muçulmanos, por motivos religiosos. E talvez os donos do hospital tenham pensado que na Índia espiritual, com todos os deuses do seu lado, não teriam mortes.

Jennifer conseguiu dar uma pequena risada e depois continuou.

- O corpo da avó está num frigorífico, mas a câmara encontra-se perto da cafetaria e contém principalmente recipientes com comida selada. Aparentemente é o único local onde podem deixar o corpo.

- Bah! emitiu Laurie.

- Digo-te isto porque o seu argumento é que têm um motivo válido para se verem livres da avó, principalmente quando já têm na mão uma certidão de óbito.

- Diria que sim.

- Mas tentaram obrigar-me a decidir ainda antes de ter chegado aqui e mal cheguei, e só cá estou há quatro horas; tem sido insistência atrás de insistência para cremar ou embalsamar. Quer dizer, queriam literalmente fazê-lo ontem, como se achassem que o céu podia cair. Inicialmente, talvez estivesse a ser obstrutiva simplesmente porque mataram a avó. Mas agora é outra coisa.

- Como o quê? O que estás a insinuar?

- Perguntei-lhes o que matara a avó e eles responderam que fora um ataque cardíaco. Depois perguntei-lhes o que o tinha provocado, tendo em conta que ela me tinha vindo visitar a Los Angeles não há muito tempo e que, durante a sua estadia, tinha realizado vários exames no Centro Médico da UCLA. Tinham-me dito que o seu sistema cardiovascular tinha recebido uma excelente nota. Ora, como é que uma pessoa com um excelente pode chumbar passados poucos meses, doze horas depois de uma cirurgia eletiva? Quer dizer, durante o procedimento poderia ser compreensível devido à toxicidade idiossincrática, mas não passadas doze horas, pelo menos não creio nisso.

- Concordo - disse Laurie. Sem fatores de risco aparentes tens de colocar a questão do porquê.

- E foi por isso que a coloquei mas não recebi uma resposta satisfatória, pelo menos da gestora de caso. Limitou-se a dizer-me que não era médica e aparentemente considerou que isso era suficiente. Foi então que sugeri uma autópsia.

- Muito bem comentou Laurie. É disso mesmo que se precisa quando temos dúvidas.

- Nem pó - resmungou Jennifer. A gestora de caso, Kashmira Varini, disse que haver ou não uma autópsia não dependia dos médicos ou dos parentes, mas sim da polícia e dos magistrados. Depois disse que, como a avó já tinha uma certidão de óbito, não ia haver autópsia: caso encerrado!

- Já tinha ouvido dizer que o sistema de patologia forense indiano está muito atrasado. É pena. Cria um ambiente propício aos erros de justiça. Em muitos países em desenvolvimento, a polícia e a justiça são quase invariavelmente corruptas e estão muitas vezes em conluio.

- E há mais - disse Jennifer. Pela segunda noite consecutiva ocorreu uma morte no mesmo hospital, que soa estranhamente parecida. Primeiro foi a minha avó, depois, a noite passada, um homem chamado Herbert Benfatti. Ambos faleceram aparentemente de ataques cardíacos na noite da cirurgia e, tal como a avó, o Sr. Benfatti tinha feito uma angiografia, que estava essencialmente normal, como parte dos exames pré-operatórios.

- Autopsiaram o segundo paciente?

- Não faço idéia. Quando perguntei à gestora que trata do caso da avó, ela disse-me que nada sabia sobre a morte ocorrida na noite anterior, mas eu não acreditei nela.

- Porquê?

- Principalmente por intuição, acho eu, que dificilmente se pode considerar científica. Simplesmente não me parece uma pessoa verdadeira. Queria que eu decidisse o que fazer com o corpo da avó e não tinha a menor intenção de permitir qualquer mudança de assunto. Não sei.

- Achas que vais conseguir empatá-los mais algum tempo?

- Na verdade não sei. Por muito irritada que esteja, sei que eles também o estão; pelo menos a gestora de caso. Por que perguntas?

- Porque estarei aí assim que puder, para te dar uma ajuda. Acho que não me perdoaria se não fosse. Lembra-te, ela foi tanto minha mãe como tua e dos teus irmãos. Ouve: irei a menos que te aches incapaz de lidar com uma louca em sobrecarga hormonal.

Jennifer ficou atordoada. Nunca lhe tinha ocorrido que Laurie estivesse disposta a ir até à Índia.

- Com hormonas ou sem elas, não faz a mínima diferença, mas é um vôo terrivelmente longo avisou. Quer dizer, adorava ter a tua ajuda e apoio. Não me entendas mal!

- Não duvido que seja uma das mais longas - disse Laurie mas não pode ser assim tão má. Li há pouco tempo que a Índia Airlines tem vôos diretos Nova Iorque/Deli.

- Suponho que seja melhor do que as duas paradas a que me obrigaram.

- Onde estás hospedada?

- Chama-se Amal Palace e é o melhor hotel em que alguma vez fiquei. Claro que fiquei em muito poucos.

- Espera um instante! - disse Laurie subitamente, soando desagradada consigo mesma. - Em que estou eu a pensar? Não posso sair disparada para a Índia. Estou no meio  do meu ciclo fértil.

- Certo! Tinhas-me dito e também me esqueci - disse Jennifer. De forma egoísta, sentiu um enorme desapontamento. Ter Laurie junto de si teria sido excelente.

- Para dizer a verdade - disse Laurie acho que posso ir, de qualquer forma, desde que leve comigo a minha fábrica de esperma. É isso que Jack tem chamado a si mesmo  nos últimos meses. Isso significa que fica nas mãos do Dr. Calvin Washington, o diretor-adjunto. Sei que ele me deixava ir, mas se nos deixa ir os dois tão em cima  da hora, não faço ideia. Mas vale a pena tentar. O plano é este: ou vamos os dois ou não vai nenhum. Consegues viver com a dúvida?

- Claro - disse Jennifer. Diz ao Dr. Washington que eu estou a pedir por favor para vos deixar vir.

- É um bom estratagema. Ele nunca recuperou da tua estadia de uma semana há catorze anos atrás.

- Nem eu e vou, por fim, poder ver o resultado no próximo mês de Junho, quando receber o meu diploma.

- E estarei lá para te ver recebê-lo - disse Laurie. E agora, uma questão de timing: quando é que conseguiremos chegar aí, e partindo do princípio que vamos, fazes idéia?

- Sim - disse Jennifer. Corrige-me se estiver errada: aí ainda é terça-feira.

- Sim. Pouco antes da meia-noite.

- Se partires amanhã, quarta-feira, chegarás aqui quinta-feira ao fim do dia.

- Achas que consegues aguentá-los até chegarmos aí? Não queremos que a avó seja cremada ou embalsamada, se estamos a considerar uma autópsia.

- Farei os possíveis, certamente. Hei, até te vou buscar ao aeroporto.

- Poderemos falar disso quando tivermos a certeza de que iremos.

- Laurie disse Jennifer, momentos antes de a chamada chegar ao fim posso colocar-te uma pergunta pessoal?

- Claro.

- Pensas menos de mim por ter deixado que todas estas coisas, sem dúvida supérfluas, tenham ofuscado a dor que sinto pela morte da avó? O que quero dizer é que a maioria  das pessoas ficam de tal forma esmagadas pelas emoções que se tornariam incapazes de se preocupar com o fato de um ente querido ter ou não sido sujeito a uma autópsia.  Serei esquisita?

- Não, de certeza absoluta, sintética e analítica! Eu teria respondido exatamente da mesma forma. As pessoas normais amam a pessoa, não o corpo. O corpo não passa  de um receptáculo que se sabe de antemão murchará e morrerá. O fato de amares a tua avó ao ponto de seres sensível a questões que vão para lá dos detalhes relacionados  com os preparativos fúnebres é, a meu ver, um tributo.

- Espero que sim.

- Eu sei que sim - disse Laurie. Como médica legista, já vi muitos corpos e testemunhei as reações de muitos familiares.

Alguns minutos mais tarde, depois das adequadas despedidas, Jennifer desligou. Apesar de não ser supersticiosa, agradeceu em silêncio à sua estrela da sorte por  lhe ter ocorrido a ideia de ligar a Laurie Montgomery. Estava entusiasmada com a possibilidade de Laurie se lhe juntar e o fato de ela estar disposta a isso, só  fez com que Jennifer pensasse como o seu namoradinho Neil McCulgan se mostrara reles. Cruzou literalmente os dedos durante um momento e agitou-os no ar, pedindo  que Laurie e Jack conseguissem os dias que lhes permitiriam viajar.

- Estamos a aproximar-nos do hotel anunciou o motorista. - Devo esperar?

A idéia de pedir ao motorista que esperasse não lhe ocorrera, mas já que a empresa de cuidados de saúde que matara a avó ia pagar, porque não? Afinal de contas,  ela teria de regressar ao hospital.

- Pode esperar ou regressar ao hotel daqui a algumas horas. De uma forma ou de outra, telefono-lhe quando quiser voltar ao Hospital Queen Victoria.

- Muito bem, minha senhora respondeu o motorista.

 

                   16 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 1:15 - NOVA IORQUE, EUA

Jack chamou Laurie. Acorda! Laurie tinha acendido a luz mas, para não acordar Jack, mantivera-a no mínimo. Como tinha estado a trabalhar ao computador, no escritório plenamente iluminado, o quarto parecia excecionalmente escuro.

- Vá lá, querido continuou. Acorda! Temos de falar.

Jack estava deitado de lado, virado para Laurie. Ela não fazia ideia de há quanto tempo ele estaria a dormir, talvez há quase duas horas. Normalmente, a sua rotina  noturna consistia num jantar ligeiro, depois de Jack ter corrido um pouco no campo de basquetebol. Enquanto comiam, viam metade de um DVD, durante uma hora ou assim,  o que correspondia ao resto da sua noite, antes de arrumar tudo. Por volta das nove horas, costumavam passar para o escritório de ambos, virado para a 106th Street e o campo de basquete, bem como o restante parque, cuja remodelação e iluminação Jack pagara. Invariavelmente por volta das dez ele começava a bocejar, dava um beijo no cimo da cabeça de Laurie e ia para a cama, supostamente para ler. Mas na verdade nunca lia grande coisa. Independentemente da hora a que Laurie fosse espreitar  ao quarto ele estava a dormir, por vezes com um livro ou revista de medicina precariamente encavalitado sobre o peito e a luz da mesa-de-cabeceira acesa.

- Jack! chamou Laurie mais uma vez. Sabia que ia ser difícil acordá-lo, mas estava determinada. Começou a tocar-lhe no ombro esquerdo até ao ponto de o abanar. Ainda  assim, ele dormia. Embora por vezes o considerasse frustrante, a maior parte das vezes achava-o um traço invejável. Laurie tinha o sono leve até de madrugada, quando  tinha de se levantar. Nessa altura dormia profundamente.

Laurie abanou uma vez mais o forte ombro de Jack e chamou o seu nome com rudeze. Um olho e depois o outro, abriram-se.

- Que horas são? - perguntou ele, com uma voz que parecia vinda do túmulo.

- Perto da uma e um quarto, acho eu. Precisamos de falar. Aconteceu uma coisa. A princípio, depois de terminada a chamada de Jennifer, Laurie não pensara em incomodar Jack. Achou que ele estaria a dormir, o que se revelou ser verdade. O que fez foi navegar na Internet para aprender tudo o que pudesse sobre viajar para a íÍndia  e aprendeu muito.

- A casa está a arder? perguntou, com o seu sarcasmo habitual.

- Não! A sério. Temos de falar.

- Não pode esperar pela manhã?

- Suponho que poderia - admitiu Laurie. Mas queria dar-te um aviso. Disseste-me que não gostas de surpresas. Em especial surpresas grandes.

- Estás grávida?

- Quem me dera! Mas bom palpite. Não, não estou grávida. Há uns instantes recebi uma chamada daquela jovem que se vai licenciar em medicina pela UCLA em Junho, a Jennifer  Hernandez. Lembras-te dela? Veio ao nosso casamento. Trazia um delicioso vestido vermelho. Consegues imaginá-la? Tem uma das melhores figuras do mundo.

- Jesus! resmungou Jack. Já passa da meia-noite e tu acordaste-me para me fazeres perguntas sobre a roupa que alguém levou ao nosso casamento? Poupa-me!

- O vestido não interessa. Só estou a tentar fazer com que te recordes desta estudante de medicina. É aquela que passou uma semana no Gabinete de Medicina Legal quando  tinha 12 anos, a mesma para quem eu e a minha mãe arranjámos uma bolsa de estudos no mesmo ano.

- Está bem, eu lembro-me dela disse Jack, deixando bem claro que estava a mentir. Claramente, estava muito mais interessado em voltar a dormir.

- Ela ligou-me mais ou menos há uma hora da Índia. Está lá porque a avó faleceu depois de ter sido submetida a uma cirurgia em Nova Deli. O hospital está a pressioná-la  a decidir o que fazer com o corpo.

Jack levantou a cabeça e os seus olhos abriram-se mais.

- Da Índia?

- Da Índia - repetiu Laurie.

Depois contou a Jack toda a história, tal como Jennifer lha tinha relatado. Chegada ao fim acrescentou: Não sei se te lembras, mas a Maria  Hernandez foi minha ama até eu ter 13 anos e a única razão por que deixou de o ser foi porque a minha própria mãe ficou demasiado ciumenta. Na altura fiquei arrasada. Dava mais valor à opinião da Maria do que à da minha mãe, nas roupas e assim. Adorava aquela mulher. Foi uma mãe para mim, durante anos muito importantes. Costumava fugir à socapa para Woodside, Queens, para a visitar.

- Porque é que foi fazer a cirurgia à Índia?

- Não sei ao certo. Provavelmente por motivos financeiros.

- Achas mesmo que estamos perante uma conspiração? perguntou Jack com um tom cético.

- Claro que não. Estava a apoiar a Jennifer porque ela parece pensar que sim. Se houver algum problema com este hospital, será certamente um erro do sistema. No que  diz respeito ao fato de a estarem a pressionar, tenho a certeza de que estão. O corpo tem estado numa câmara frigorífica desde segunda à noite, mas nem sequer se  trata de uma câmara mortuária. Parece mais uma câmara de armazenamento de produtos da cafetaria.

- Queres dizer que há comida guardada com o cadáver?

- É isso mesmo, mas ao contrário. Seria mais correto dizer que há um cadáver com a comida e alguns medicamentos. Mas é comida selada, o que soa pior do que é. De qualquer  forma, a Jennifer parece acreditar na existência de uma conspiração.

- Isso é de loucos! Acho que a menina Jennifer Hernandez pode estar um bocado assoberbada e, por isso, ligeiramente paranóica.

- Não podia estar mais de acordo, razão pela qual, se tudo correr bem, tu e eu estaremos a caminho ainda esta noite.

- Repete lá isso? pediu Jack. Pensava ter ouvido, mas não tinha a certeza.

- Amanhã, logo pela manhã, vou ao gabinete do Calvin. O que espero é que esta emergência seja suficiente para justificar que nos dê uma semana ou assim de licença.  Se ele der luz verde, irei diretamente para a organização que gere os vistos indianos, pago os bilhetes, que já reservei online. E depois...

- Espera um segundo! disse Jack. Sentou-se e enrolou os cobertores à volta da cintura. Os seus olhos estavam agora bem abertos. Aguenta os cavalos. Já nos comprometeste  a uma viagem à volta do mundo?

- Se estás a perguntar se já disse à Jennifer que íamos fazer todos os esforços para ir, então a resposta é sim. Disse-lhe que tínhamos de ter a aprovação do Calvin.

- Que uma jovem de luto tenha ficado paranóica devido ao stress, dificilmente é justificação para se viajar um ror de quilômetros para lhe segurar a mão.

- Dar à Jennifer o nosso apoio não é a única razão da nossa ida respondeu Laurie, a ira a aumentar.

- Diz-me lá a outra razão!

- Já te disse! gritou Laurie. A Maria Hernandez foi como uma mãe para mim durante doze anos. A sua morte é uma verdadeira perda.

- Se é assim uma perda tão grande, porque é que não a vias, sabe Deus há quanto tempo?

Laurie ficou cega de raiva e por um momento não falou. O comentário de Jack tornou o confronto crescente ainda pior, porque expunha efetivamente o sentimento de  culpa de Laurie. Era verdade que há muito tempo que não visitava ou falava com Maria. Tinha pensado nisso e planejara fazê-lo, mas não o fizera.

Tenho um prazo a cumprir em relação ao meu trabalho de investigação disse Jack. E no sábado temos o jogo de basquetebol do bairro pelo qual espero há semanas. Raios, ajudei a preparar tudo.

- Cala-te com a porcaria do basquetebol - rugiu Laurie.

Cerrou os dentes e rosnou a Jack. Como um vulcão, todo o ressentimento que borbulhava sob a superfície, provocado pelo stress em torno dos tratamentos para a infertilidade,  emergiu como uma explosão piroclástica. Também odiava o fato de ele continuar a jogar basquetebol, que ela considerava um jogo perigoso.

Jack foi o primeiro a lembrar-se que Laurie estava a tomar injeções diárias de hormonas, e embora não se tivesse apercebido de que ela guardava ressentimentos em  relação ao seu comportamento, que ele achava ótimo, já tinha assistido a várias explosões surpresa induzidas pelas hormonas, algo que estava claramente a acontecer  nesse momento. Reconhecendo a realidade, ergueu as mãos e rendeu-se.

- Desculpa - disse, tentando parecer sincero. Esqueci-me das hormonas. Por um breve instante, o comentário de Jack tornou as coisas ainda piores. De forma irracional, Laurie pensou que Jack estava a culpá-la pelo presente desentendimento. Mas analisando melhor a situação, podia ver as semelhanças entre o seu  atual estado de espírito e aquele que apresentara quando se voltara contra uma avozinha de oitenta e tal anos, na fila para a caixa do Whole Foods. Um segundo depois,  essa constatação levou-a às lágrimas.

Jack aproximou-se da beira da cama e pôs um braço em torno dela. Por um momento não disse nada. Anteriores experiências por tentativa e erro, tinham-lhe ensinado  que essa era a melhor coisa a fazer. Tinha de esperar que ela se acalmasse.

Passado mais ou menos um minuto, Laurie controleu as lágrimas. Os seus olhos estavam vermelhos e rasos de água quando olhou para Jack.

- Na verdade, não me tens apoiado nesta coisa da infertilidade!

Jack teve de lutar contra o impulso de revirar os olhos. Do seu ponto de vista experimentara de tudo e agora não lhe restava mais nada senão providenciar o esperma  quando solicitado.

- Quando me vem o período, no fim de cada ciclo, ages de forma tão desinteressada - disse Laurie, engolindo as lágrimas. Limitas-te a dizer: "Oh, está bem, talvez para  a próxima" e mais nada. Não fazes qualquer esforço por sofrer comigo. Para ti é apenas mais um ciclo.

- Pensei que estava a ajudar, esforçando-me por parecer desinteressado. Sinceramente, seria mais fácil expressar desânimo. Mas nunca pensei que isso pudesse ajudar.  Lembro-me claramente de ter ouvido a Dra. Schoener dizer isso mesmo. Raios, é a indiferença que tenho de fabricar.

- A sério? perguntou Laurie.

- A sério disse Jack, enquanto desviava algumas madeixas húmidas de cabelo cor de avelã da testa dela. E quanto à índia, nada tenho contra a tua ida, mas não conheço a Maria Hernandez nem a sua neta Jennifer. Para mim, voar para o outro lado do mundo é um desperdício sem sentido de tempo e dinheiro, especialmente de dinheiro. Claro que vou sentir a tua falta e iria se precisasses de mim.

- Não estás a dizer isso só por dizer? perguntou Laurie.

- Não. Se precisasses de mim, iria. Isso é um fato, mas...

- Eu preciso de ti - disse Laurie, com um súbito entusiasmo. - És indispensável.

- A sério? perguntou Jack, as sobrancelhas grossas unindo-se interrogativamente. Não consigo imaginar porquê.

- O ciclo, tonto - disse Laurie excitada. Ontem, a Dra. Schoener disse que achava que só deveriam faltar quatro ou cinco dias para a injeção estimulante e a libertação  folicular. Nessa altura, será a tua vez de pegares no volante.

Jack expirou profundamente. Na sua mente, a questão da infertilidade não tinha qualquer ligação com a proposta viagem à Índia.

- Não faças essa cara tão abatida. Talvez pudéssemos considerar dispensar a pipeta e fazer a coisa a sério. Mas digo-te uma coisa, depois de tanto esforço e stress,  não vou permitir que fiques aqui sentado enquanto viajo para a Índia, quando a atual colheita de folículos desabrochar. A Dra. Schoener está particularmente otimista  porque o ovário esquerdo, que encabeça a minha trompa de Falópio boa, é o que se está a preparar para disparar, desta vez.

Erguendo o braço do ombro de Laurie e recostando-se contra a cabeceira da cama, Jack disse:

- Parece que vamos dar um pulinho à índia, isto se o nosso intrépido segundo comandante nos deixar ir. Talvez o possa subornar para que diga que não!

Laurie deu uma palmadinha brincalhona na coxa de Jack, por cima das cobertas, ao levantar-se.

- Acabei de ter uma boa idéia. Vou precisar de uma consulta de obstetrícia para seguir os meus folículos e fazer as análises sanguíneas; talvez arranje alguém no mesmo  hospital, o Queen Victoria. Pode ajudar com o problema da Jennifer, se tivermos uma amiga entre o pessoal do hospital.

- Pode ser que sim - disse Jack, enquanto deslizava para debaixo dos cobertores e os puxava para cima até ao pescoço. Só uma questão em relação à logística: se precisamos  de vistos, também precisamos de fotografias para o passaporte.

- De manhã poderemos usar a loja 24 horas com seção de fotografia, na Columbus Avenue.

- Era precisamente isso que eu estava a pensar - disse Jack, depois de ter inspirado profundamente e exalado ruidosamente.

- Vais voltar a dormir?

- Claro que vou voltar a dormir. Que mais haveria de estar a fazer depois da meia-noite?

- Quem me dera ser capaz de dormir como tu. O problema é que agora fiquei demasiado entusiasmada.

 

                   17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 11:42 - NOVA DELI, ÍNDIA

Jennifer sentia-se completamente frustrada. Embora estivesse de tal forma exausta que até se sentia algo agoniada, não conseguia adormecer. Tinha fechado as pesadas cortinas, por isso o quarto estava suficientemente escuro. O problema residia no fato de se encontrar, ao mesmo tempo, demasiado cansada e excitada. A ideia de que  Laurie pudesse juntar-se a ela era quase demasiado boa para ser verdade e tinha ficado com a cabeça a zumbir. Por fim, pensou que se lixe e saiu da cama.

Usando apenas a calcinha, a roupa com que se tinha deitado, aproximou-se da janela e voltou a abrir as cortinas, inundando o quarto com a difusa luz citadina indiana.  Distraidamente, pensou quão mais quente seria o exterior, se a poluição não bloqueasse uma parte significativa dos raios solares.

Olhando para baixo, Jennifer analisou a piscina. Havia várias pessoas a apreciá-la, embora estivesse longe de estar cheia. Era uma piscina grande. De imediato Jennifer  lamentou o fato de não ter levado consigo um fato de banho. Nem sequer lhe passara pela cabeça, quando fez a mala, embora agora, ao olhar para a impressionante extensão  de água azul, achasse que devia ter pensado nisso. Afinal de contas, ela sabia que ia para um hotel fino, num país quente. Jennifer encolheu os ombros. A ideia de  que talvez tivessem fatos simples à venda, ocorreu-lhe, mas depois abanou a cabeça. Sendo o hotel tão fino, se os tivessem à venda, seriam certamente de estilista  e muito caros. Era uma pena porque Jennifer achava que algum exercício era precisamente aquilo que o médico prescrevera, no que dizia respeito a ultrapassar o jet  lag.

Pensar em exercício recordou a Jennifer a existência de um ginásio no hotel. Ocorreu-lhe vestir um fato de treino, algo que tinha trazido, andar de bicicleta ou levantar uns pesos. Estava prestes a seguir o seu próprio conselho, quando olhou para as horas. Era perto do meio-dia, o que lhe deu outra idéia: almoçar. Apesar das incessantes náuseas provocadas pelo jet lag, achou que seria preferível tentar normalizar os seus padrões alimentares como forma de a ajudar a lidar com o completo desarranjo dos sonos.

Não fazendo a menor intenção de impressionar quem quer que fosse essa manhã, menos ainda os funcionários do Queen Victoria, Jennifer vestira um simples pólo e umas  calças de ganga justas, quando fora ao hospital, e depois de ter tentado dormir, vestiu as mesmas roupas. Ao fazê-lo lembrou-se de ver se a sr.a Benfatti estaria  disposta a almoçar com ela. É claro que havia sempre uma hipótese de a senhora se encontrar num estado de sofrimento profundo e muito deprimida, não desejando ser  vista em público. Ao mesmo tempo, tal possibilidade era indicativa da adequação do seu convite. Como estudante de medicina, Jennifer vira por demasiadas vezes o  quanto a morte e a doença podem isolar as pessoas na nossa sociedade, precisamente quando precisam de mais apoio.

Jennifer dirigiu-se ao telefone, antes que perdesse a coragem. Pediu à telefonista que a ligasse ao quarto da Sr.a Benfatti, fosse este onde fosse no hotel. Jennifer  afastou o auscultador da orelha durante um momento, enquanto o telefone tocava, para ver se o quarto da Sr.a Benfatti era perto do seu. Não ouviu nada.

Quando estava prestes a desligar, a ligação foi estabelecida. Uma mulher de voz rouca e arrastada respondeu. Jennifer calculou que ela tivesse estado a chorar.

- Sra. Benfatti? perguntou Jennifer.

- Sim respondeu a Sra. Benfatti com voz cansada.

Jennifer lançou-se numa rápida descrição de quem era e porque se encontrava na Índia. Pensou ter ouvido a Sra. Benfatti suster a respiração quando Jennifer explicou  que a sua avó tinha falecido em circunstâncias semelhantes às do marido dela, na noite anterior.

- Lamento muito em relação ao seu marido - continuou Jennifer. Tendo em conta o falecimento da minha avó apenas na noite anterior, estou realmente solidária consigo.

- Lamento igualmente a sua perda. É uma tragédia tão grande, em especial tão longe de casa.

- O motivo por que lhe liguei disse Jennifer é a esperança de que possa querer almoçar comigo.

A Sra. Benfatti não respondeu de imediato. Jennifer esperou pacientemente, compreendendo perfeitamente que a sua interlocutora estava, de certo, envolvida numa discussão  interior consigo mesma. Jennifer imaginava que estivesse com péssimo aspecto, devido ao fato de estar a chorar e deprimida, o que representava um grande argumento  a favor de ficar no quarto. Ao mesmo tempo, devia estar intrigada com a coincidência e desejosa de falar com alguém na mesma triste situação.

- Tenho de me vestir - disse, por fim, a sra. Benfattie fazer alguma coisa a esta cara. Olhei-me ao espelho há um bocado e, como se costuma dizer, parece que fui atropelada por um caminhão.

- Demore o tempo que precisar - disse Jennifer. Já gostava da mulher, especialmente se tinha a força para gozar consigo mesma numa altura tão difícil. Não há pressa.  Posso esperar por si aqui ou num dos restaurantes, digamos no principal junto do átrio, ou será que prefere comida chinesa?

- O restaurante comum serve perfeitamente. Não tenho muita fome. Estarei aí dentro de meia hora e levarei vestida uma camisa lilás.

- Eu tenho vestido um pólo branco e calças de ganga.

- Encontramo-nos lá e, já agora, o meu nome é Lucinda.

- Parece-me bem. Encontramo-nos lá, Lucinda.

Jennifer desligou lentamente o telefone. Não sabia porquê, mas tinha um bom pressentimento em relação a Lucinda e sentiu-se, de súbito, desejosa para que começasse  o almoço. De alguma forma, a náusea desaparecera misteriosamente.

Tendo-se sentado no restaurante multinivelado, de forma a ter uma visão desimpedida do balcão da anfitriã, Jennifer viu a Sra. Benfatti mal ela entrou, vinda do  átrio; pelo menos sentia-se confiante de que era a Sra. Benfatti. Usava uma camisa lilás, cuidadosamente engomada, por cima de uma saia de um roxo mais escuro. Era  uma mulher grande e de estatura ampla. O seu cabelo "cinzento-rato" tinha um comprimento médio e estava penteado com uma permanente. Se a isso fosse obrigada, Jennifer  teria dito que devia estar nos seus cinquentas ou perto.

Jennifer viu-a parar e falar com o chefe de sala. Quando este fez sinal à Sra. Benfatti para que o seguisse e se voltou para seguir na direção de Jennifer, acenou  e a Sra. Benfatti respondeu. Enquanto se aproximavam, Jennifer continuou a observá-la. Estava impressionada com a forma como a Sra. Benfatti andava, de cabeça erguida.  Só quando ela se aproximou e Jennifer viu os seus olhos vermelhos, se tornou visível que tinha acabado de perder o companheiro de toda uma vida.

Jennifer levantou-se e apresentou a mão.

- Sra. Benfatti - disse ela. É um prazer conhecê-la, embora lamente as circunstâncias. Obrigado por ter aceite juntar-se a mim para o almoço.

A Sra. Benfatti não falou de imediato. Deixou que o chefe de sala puxasse a cadeira e a empurrasse, uma vez sentada.

- Desculpe - disse, quando o chefe de sala se afastou. - Temo que tenha de lutar para manter o controle. Foi tudo tão repentino. Ontem, tendo ele saído da anestesia  tão depressa e passado tão bem o dia, pensei que estávamos safos, e depois tinha de acontecer isto.

- Eu compreendo, sra. Benfatti - começou Jennifer.

- Por favor, Lucinda. A mulher repuxou o canto dos olhos, antes de se endireitar, esforçando-se visivelmente por retomar e manter o controle.

- Sim, claro. Obrigado, Lucinda! disse Jennifer.

Assumindo um relativo controle sobre o almoço, Jennifer sugeriu que pedissem a comida, para despachar essa questão. Assim que o fizeram, Jennifer começou a falar  sobre si mesma, como estava prestes a terminar o curso de medicina, sobre a perda da mãe e o fato de ter sido criada pela avó. Quando Jennifer fez uma pausa, no  momento em que a comida chegava à mesa, ficou feliz por Lucinda lhe colocar uma questão. Perguntou o que tinha acontecido ao pai de Jennifer, já que esta não o mencionara.

- Não? disse Jennifer, exagerando humoristicamente a expressão interrogativa. Estou chocada. Bem, talvez não esteja chocada. Isso é forte demais. Provavelmente a razão  por que não o mencionei é o fato de nunca o mencionarmos, nem eu nem os meus irmãos. Ele não o merece.

Apesar das circunstâncias, Lucinda riu, cobrindo gentilmente a parte inferior da cara com a mão.

- Conheço o gênero. Também temos um desses na família.

Para felicidade de Jennifer, Lucinda tomou a palavra e enquanto comiam as respectivas refeições, falou primeiro sobre o tio deserdado que tinha sido mandado para  a prisão durante algum tempo. Depois sobre os dois filhos: um era oceanógrafo em Woods Hole, Massachusetts, e tinha um filho; e o outro era um herpetólogo no Museu  de História Natural de Nova Iorque, e tinha três filhos.

- E o seu falecido marido? perguntou Jennifer, de forma algo hesitante. Não sabia qual seria a reação de Lucinda, mas queria falar, mais tarde ou mais cedo, sobre  a morte dos seus familiares. Queria saber até onde iam as semelhanças.

- Teve uma loja de animais, durante muitos anos.

- Então compreendo de onde vêm os biólogos.

- É verdade. Os rapazes adoravam a loja e adoravam trabalhar com os animais, peixes e tudo.

- Porque é que vieram à Índia para fazer a cirurgia? perguntou Jennifer, sustendo a respiração. Se Lucinda fosse capaz de lidar com a pergunta sobre uma decisão que,  se tivesse sido diferente, podia significar que o marido ainda estava vivo, Jennifer tinha a certeza de que não haveria limites em relação às outras perguntas.

- É simples: achávamos que não podíamos pagar uma operação destas no joelho nos Estados Unidos.

- Acho que para a minha avó foi o mesmo - disse Jennifer. Estava satisfeita. Embora a voz de Lucinda estivesse ligeiramente embargada, não havia lágrimas.

Diga-me continuou Jennifer o que achou do Hospital Queen Victoria? Tem-lhe sido fácil lidar com eles? São profissionais? Quer dizer, o hospital em si parece fantástico, o mesmo não se pode dizer sobre os seus vizinhos.

Lucinda riu-se uma vez mais, o que Jennifer começou a considerar como sendo uma das suas idiossincrasias, em especial porque o tentava esconder com a mão.

- Não é horrível todo aquele lixo? O pessoal do hospital, incluindo os médicos, age como se não o vissem, em especial as crianças a pedir. Alguns estão visivelmente  doentes.

- Estou igualmente espantada. Mas como é que tem sido tratada?

- Excelente. Pelo menos a princípio.

- O que quer dizer? Quando chegamos fomos muito bem tratados. Olhe só para este hotel. Lucinda fez um gesto a englobar o restaurante. Nunca fiquei num hotel tão bom. No hospital passava-se  o mesmo. De fato, o serviço no hospital fazia-nos pensar num hotel. O Herbert disse-o espetificamente.

A menção casual ao marido, fez com que Lucinda fizesse uma breve pausa. Pigarreou para limpar a garganta. Jennifer deixou que se recompusesse. Mas esta manhã foi  um pouco diferente.

- Sim? perguntou Jennifer. Diferente como?

- Estão frustrados comigo - disse Lucinda. Estava tudo bem até terem insistido que eu tomasse uma decisão entre cremar e embalsamar. Disseram que tinha de o fazer de  imediato. Quando disse que não podia fazê-lo, porque o meu marido sempre se recusara a discuti-lo, por superstição, tentaram obrigar-me. Quando eu lhe disse que  os meus dois rapazes vinham a caminho e que seriam eles a decidir, o representante do hospital disse que não podiam esperar que viesse alguém da América. Precisavam  de saber hoje. Pude ver que estavam muito perturbados.

Agora era a vez de Jennifer rir.

- Estou com o mesmo problema disse e estão irritados comigo pelas mesmas razões.

- Que coincidência.

- Começo a perguntar-me se será - disse Jennifer. Onde está o corpo do seu marido?

- Numa câmara frigorífica, algures. Não tenho a certeza.

- Deve ser provavelmente uma das duas câmaras frigoríficas da cave, junto à cafetaria. É aí que se encontra a minha avó, enquanto esperamos.

- Porque é que estão à espera?

- Uma grande amiga minha vem a caminho. Pelo menos espero que venha. É uma patologista forense que trabalha como médica legista. Vai ajudar-me e ver a minha avó. Acho que a minha avó pode precisar de uma autópsia e quanto mais me pressionam, mais certezas tenho. Sabe, a minha avó não estava em risco de ataques cardíacos. Tenho a certeza disso.

- Também não achávamos que o Herbert estivesse. O cardiologista examinou-o pouco menos de um mês antes de termos vindo. Disse que estava ótimo e que tinha um coração  excelente e colesterol baixo.

- Porque é que o seu marido consultou um cardiologista?

- Há três anos atrás, fizemos uma viagem a África para ver os animais. Tivemos os dois que tomar uma data de injeções e um medicamento contra a malária chamado mefloquina.  Infelizmente, ele experimentou um dos seus efeitos secundários sob a forma de batimentos cardíacos irregulares, mas depois passou por si.

- Então o seu marido tinha um coração normal, para todos os efeitos - disse Jennifer. Bem, o mesmo se passava com a minha avó. Ela lembrava-se de lhe terem dito que  tinha um sopro no coração, quando era criança, e sempre pensou que tivesse algum problema. Pedi que fosse vista no Centro Médico da UCLA, por um excelente cardiologista,  que chegou à conclusão de que ela devia ter aquilo a que chamam um dueto patente, algo de que os embriões precisam mas que é suposto fechar, depois. O da avó tinha  ficado aberto, mas acabou por fechar quase por completo. Também teve algumas irregularidades cardíacas, como o seu marido, mas determinou-se que tinha sido provocado  por um remédio para a gripe e passou. O coração dela era perfeitamente normal e tendo em conta a idade, muitíssimo bom. Com o seu marido e a minha avó a apresentarem  este tipo de historial cardíaco, é normal que fique paranóica.

- Acha que a sua amiga estaria disposta a dar uma olhadela ao meu Herbert?

Enquanto o empregado tomava nota do pedido do café e levantava os pratos, as mulheres encostaram-se para trás e deixaram de falar, ambas revendo a conversa. Quando  o empregado saiu, inclinaram-se ambas para a frente. Jennifer falou:

- Claro que lhe posso pedir para ver o seu marido. Ela é uma pessoa maravilhosa e acho que uma excelente médica legista, tanto ela como o marido. Trabalham juntos  em Nova Iorque. Fez uma pausa. Quando é que soube do seu marido?

- Foi a coisa mais bizarra - disse Lucinda. Recebi uma chamada, que me acordou, de um amigo da família, em Nova Iorque, que me queria apresentar as condolências pelo  Herbert. O problema é que, nessa altura, eu ainda não sabia de nada. Pensava que o Herbert estava ótimo, tal como quando eu o deixara três horas antes. Lucinda parou  de falar e os lábios tremeram-lhe, enquanto lutou para reter as lágrimas. Por fim, suspirou de forma audível e secou os cantos dos olhos. Olhou para Jennifer, tentou  sorrir e pediu desculpa.

- Não precisa de pedir desculpa - assegurou-lhe Jennifer. Na verdade sentia-se um pouco culpada, dada a forma como estava a pressionar Lucinda. No entanto as semelhanças entre os dois casos pareciam crescer. Sente-se bem? perguntou Jennifer. Sem pensar no que estava a fazer, Jennifer inclinou-se e agarrou no pulso de Lucinda, num gesto espontâneo de apoio. Aquele movimento surpreendeu a própria  Jennifer; mal conhecia aquela mulher e já estava a tocá-la. Talvez devêssemos falar sobre qualquer outra coisa sugeriu Jennifer, retirando a mão.

- Não, está tudo bem. Na verdade quero falar sobre isto. Lá em cima no quarto, estava apenas a cismar, o que não estava a ajudar em nada. É bom para mim falar sobre  isso.

- Então o que é que fez, depois de falar com o seu amigo de Nova Iorque?

- É claro que fiquei em choque. Perguntei-lhe onde raio tinha ouvido tal coisa. Bem, tinha ouvido na CNN, como parte de uma notícia sobre o turismo médico. Consegue  acreditar?

O maxilar inferior de Jennifer caiu lentamente; ela tinha visto o mesmo segmento que o amigo de Lucinda, embora talvez não ao mesmo tempo.

- De qualquer forma - continuou Lucinda, assumindo progressivamente o controle das suas emoções - enquanto estava a falar com o meu amigo, insistindo que o Herbert  estava ótimo, a segunda linha começou a tocar. Pedi ao meu amigo que esperasse um momento enquanto carregava no outro botão. Era do hospital, espetificamente a nossa  gestora de caso, a informar-me de que o Herbert tinha de fato morrido.

Lucinda fez uma nova pausa. Não havia mais lágrimas, apenas uma respiração pesada.

- Demore o tempo que quiser - pediu Jennifer.

Lucinda acenou, enquanto o empregado se aproximava para perguntar se desejavam mais café. As duas mulheres abanaram a cabeça, absolutamente concentradas na sua conversa  privada.

- Achei horrível que a CNN soubesse da morte do meu marido antes de mim. Mas não disse nada na altura. Estava demasiado arrasada pela notícia. Tudo o que fiz foi dizer  à Kashmira Varini que ia de imediato para o hospital.

- Espere lá! disse Jennifer, erguendo as mãos para dar mais ênfase. O nome da sua gestora de caso é Kashmira Varini?

- Sim, é. Conhece-a?

- Não posso dizer que a conheça, mas já me encontrei com ela. Também era gestora do processo da minha avó. Isto é ainda mais estranho. Esta manhã perguntei-lhe sobre  a morte do seu marido e ela disse-me que não sabia de nada.

- Certamente que sabia. Foi com ela que me encontrei a noite passada.

- Meu Deus - disse Jennifer em voz alta. Tinha a sensação de que esta mulher não era de confiança, mas porque é que ela haveria de mentir sobre algo que eu poderia descobrir tão facilmente?

- Não faz sentido.

- Digo-lhe uma coisa: quando a vir esta tarde, vou-lhe perguntar diretamente. Isto é ridículo. Quem é que ela pensa que somos? Crianças a quem pode mentir descaradamente?

- Talvez tenha qualquer coisa a ver com a sua necessidade de confidencialidade.

- O tanas! disse Jennifer e depois retraiu-se. Perdoe-me a linguagem, mas estou a ficar cada vez mais chateada.

- Não precisa de pedir desculpas. Eu criei dois rapazes.

- Que seja, mas a maioria das pessoas não concede a mesma latitude às mulheres. Voltando à CNN. Aconteceu-me algo de muito parecido.

Jennifer prosseguiu, explicando como também ela tinha ouvido a notícia da morte da avó na CNN e que tinha mesmo telefonado, tanto à empresa de cuidados de saúde  que tinha providenciado tudo como ao hospital, apenas para se assegurar de que a avó estava bem. E que só mais tarde ao receber uma chamada do hospital, da sra. Varini, soube a verdade: que a sua avó tinha efetivamente falecido.

- Que bizarro! Parece que no Queen Victoria a mão esquerda não fala com a direita.

- Pergunto-me se não será pior do que isso retrucou Jennifer.

- Como assim?

Jennifer sorriu, abanou a cabeça e encolheu os ombros, tudo ao mesmo tempo.

Não faço a mínima idéia. Claro que podemos estar apenas a sofrer de paranóia provocada pela dor. Sou a primeira a admitir que estou longe de me encontrar no meu  juízo perfeito, com o choque de perder a minha melhor amiga, mãe e avó, tudo de uma vez. Além disso, estou a aprender que o jet lag não é coisa para meninos. Estou  exausta, mas não consigo dormir. Talvez também não esteja a pensar muito bem. Quer dizer, pode ser que as mortes na sequência de uma cirurgia eletiva sejam tão raras  no Queen Victoria que eles não saibam bem como lidar com isso. Afinal de contas, nem sequer fizeram uma morgue.

O que é que vai fazer?

Rezar para que a minha amiga Laurie Montgomery possa vir. Se não vier, não sei o que farei. Entretanto, esta tarde vou voltar ao hospital. Vou perguntar à Sra. Varini  porque é que me mentiu e vou deixar bem claro, se não o fiz ainda, que não quero que toquem na minha avó. E a Lucinda? Quer jantar comigo hoje à noite?

Que convite atencioso. Posso dizer-lhe mais tarde? Não sei onde vão estar as minhas emoções.

Pode dizer-me quando quiser. Provavelmente terá de ser cedo. Acho que o que vai acontecer é que vou ficar sem energia e dormir durante 12 horas. Mas o que vai fazer em relação ao hospital? Vai esperar que os seus filhos cheguem e deixar as decisões nas suas mãos?

É exatamente isso que vou fazer.

Talvez devesse ligar à sua amiga, a Sr.a Varini, e assegurar-se de que ela não pode alegar algum mal-entendido e fazer o que quer que seja sem a sua expressa aprovação.  Quando os familiares estão a sofrer é fácil pressioná-los. Ironicamente, costuma ser para que permitam a autópsia, não o contrário.

Acho que vou seguir o seu conselho. A noite passada não estava em mim.

Já terminou o almoço? perguntou Jennifer. Vou voltar ao hospital. Tinha pensado ir à embaixada, mas acho que vou adiar a visita. Quero colocar algumas questões à  gestora de caso, como porque é que me mentiu. Avisá-la-ei se descobrir alguma coisa preocupante.

Já tendo assinado os respettivos talões, as mulheres levantaram-se e diversos ajudantes correram a puxar-lhes as cadeiras. O restaurante estava agora cheio, forçando-as  a esgueirar-se por entre uma multidão de pessoas à espera de mesa. Já no átrio, despediram-se com a promessa de falarem mais tarde. Precisamente quando se estavam  a separar, Jennifer pensou noutra coisa.

Acho que vou ver o que consigo descobrir sobre o contato da CNN. Importava-se muito de tentar descobrir junto do seu amigo de Nova Iorque, a que horas é que viu  o segmento sobre o seu marido, na hora de Nova Iorque?

Terei todo o gosto. Tinha planejado ligar-lhe. Sei que ele se sentiu terrivelmente por ter sido ele a dar-me as notícias.

Estavam uma vez mais prestes a separar-se, quando Lucinda disse:

Obrigado por me ter encorajado a sair do quarto. Acho que isto foi muito mais saudável e temo que não o fizesse, se dependesse só de mim.

O prazer foi meu respondeu Jennifer. Tinha o telefone na mão e preparava-se para chamar o carro e o motorista.

 

                   17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 13:42 - NOVA DELI, ÍNDIA

- Quanto tempo vai demorar, minha senhora? - perguntou o motorista. Estava a segurar a porta do carro para que Jennifer pudesse sair. Durante a viagem do hotel para o hospital ela conseguira dormir durante cerca de 20 minutos e agora sentia-se ainda pior do que antes. Ainda assim, queria falar com Kashmira Varini.

- Não tenho a certeza disse Jennifer, olhando para o hospital. Acabara de lhe ocorrer a ideia de subir ao 4° andar, onde lhe tinham dito que ficava o quarto da avó,  e ver se conseguia encontrar a enfermeira de dia a quem tinha sido atribuído o seu caso. Mas não será muito, não da maneira como me sinto.

- Vou tentar ficar aqui - disse o motorista, apontando para o chão mas se os porteiros correrem comigo, terá de me ligar para o celular.

Não faz mal disse Jennifer.

Como acontecera na sua anterior visita, os dois coloridos porteiros abriram as portas duplas sem que Jennifer tivesse de dizer uma palavra. Como estava mais calor  no exterior do que nessa manhã, parecia mais frio lá dentro. No que lhe dizia respeito, o ar condicionado estava, definitivamente, frio demais.

Nessa altura havia entre quarenta e sessenta pessoas na área da recepção, sendo todos eles indianos da classe média alta ou estrangeiros com algumas posses. Junto  da recepção estava uma mão cheia de possíveis clientes, alguns em cadeiras de rodas. Era visível um grande número de funcionários do hospital, a acompanhar os seus  pacientes, em diferentes etapas do processo de admissão. Espreitando para a cafetaria, Jennifer pôde ver que se encontrava cheia, com algumas pessoas de pé, à espera  de mesa.

Com o à-vontade criado pelas horas passadas num hospital, Jennifer não hesitou minimamente quando avançou na direção dos elevadores. Quando entrou assegurou-se de  que o botão para o 4° andar tinha sido carregado e tentou passar despercebida.

Para Jennifer, o piso da enfermaria era um dos mais agradáveis que já tinha visto, e já vira a sua conta. O chão em si estava coberto por uma carpete industrial de cores atrativas, de elevada qualidade e com capacidade para absorver o som o que, combinado com o teto acústico de elevada tecnologia e as paredes construídas  com materiais que absorvem o som, reduzia o ruído ambiente a quase nada. Até o barulho provocado por um grande carrinho de comida completamente carregado se revelou  mínimo, quando passou por detrás de Jennifer, no momento em que esta se dirigia ao balcão do piso.

Vários doentes tinham regressado das suas cirurgias, por isso quase toda a gente estava ocupada, incluindo a recepcionista de piso. Jennifer limitou-se a observar. Estava impressionada com as semelhanças dos protocolos com aqueles que vira no Centro Médico da UCLA, apesar de se encontrar do outro lado do mundo, num país em  desenvolvimento.

Em relativamente pouco tempo os doentes em pós-operatório imediato tinham sido instalados nos seus quartos, estabilizados e devolvidos à companhia dos seus parentes.  Tão abruptamente como começara, a agitação dissipou-se. Foi então que a recepcionista de piso, cuja chapa com o nome dizia apenas "Kamna", reparou em Jennifer:

- Posso ajudar? perguntou.

- Acredito que sim - respondeu Jennifer. Perguntou-se se Kamna era mesmo um nome ou se significava alguma coisa, como recepcionista. O meu nome é Jennifer Hernandez e  sou a neta de Maria Hernandez. Creio que ela esteve neste piso.

- Tem razão - disse Kamna. Estava no quarto 408. Lamento muito.

- Também eu. Trata-se de um problema comum?

- Não sei se percebo o que quer dizer.

- As mortes são muito frequentes?

Kamna tremeu, quase como se Jennifer lhe tivesse batido. Até a cabeça de uma das enfermeiras sentadas à frente de um computador se ergueu com uma expressão de choque  no rosto.

- Não, é muito raro disse Kamna.

- Mas ouve outra a noite passada, por volta da mesma hora. Já são duas de seguida.

- Isso é verdade - disse Kamna nervosa. Olhou para baixo, para a enfermeira, em busca de apoio.

- Sou a enfermeira Kumar - disse a mulher. A enfermeira-chefe deste piso. Posso ajudá-la?

- Queria falar com quem quer que fosse que estivesse a tomar conta da minha avó.

Na verdade eram duas enfermeiras. Primeiro a Menina Veena Chandra, que é nova na nossa equipe e, sendo nova, uma enfermeira mais antiga de seu nome Shruti Aggrawal foi encarregue de a supervisionar.

- Suponho que seria seguro dizer que a Menina Chandra seria a pessoa a lidar, de fato, com a minha avó.

- Correto. Tudo tinha corrido normalmente. Não tinha havido problema algum. A sr.a Hernandez estava muitíssimo bem.

- A Menina Chandra encontra-se disponível?

A enfermeira Kumar fez uma pausa, analisando Jennifer por um momento, talvez preocupada com a possibilidade de que esta fosse uma mulher louca que tivesse vindo  ao hospital em busca de vingança. Todos estavam perfeitamente conscientes da morte da Sr.a Hernandez. Mas, aparentemente, Jennifer tinha passado no exame. Não vejo  porque não. Vou ver se ela pode falar consigo.

Perfeito disse Jennifer.

A enfermeira Kumar levantou-se, desceu o corredor e, depois de um rápido olhar na direção de Jennifer, desapareceu no interior de um quarto.

Jennifer voltou a olhar para Kamna, que não tinha mexido um músculo. Continuava claramente insegura em relação ao estado mental e às intenções de Jennifer. Esta  sorriu-lhe, tentando acalmar a mulher que parecia um coelho prestes a fugir. A recepcionista sorriu-lhe também, mas foi um sorriso ainda mais falso e fugidio do  que o de Jennifer. Antes que conseguisse acalmar a mulher, viu a enfermeira Kumar emergir do quarto, com uma jovem enfermeira a reboque. Jennifer piscou os olhos.  Mesmo no seu uniforme, a recém-contratada enfermeira parecia mais uma rainha de um concurso de beleza, uma estrela de cinema ou, o que era ainda mais irritante na  opinião de Jennifer, uma modelo de roupa ulterior. Era o tipo de mulher que nunca deixava de fazer com que Jennifer se sentisse gorda. Tinha um corpo perfeito e  um rosto que era o sonho de qualquer fotógrafo.

- Esta é a enfermeira Veena Chandra - disse a enfermeira-chefe quando as duas mulheres chegaram ao balcão do piso. Nessa mesma altura, o elevador abriu as portas e do  seu interior saíram os dois guardas de uniforme que Jennifer tinha visto no piso inferior. Como eles se pareceram demorar, ao fundo, Jennifer calculou que a enfermeira-chefe  os tinha chamado quando estivera fora da sua vista.

Veena saudou Jennifer, com as palmas das mãos juntas. Jennifer tentou imitar o gesto. Veena era ainda mais bela ao perto, com uma pele impecável, cor de bronze,  e impressionantes olhos verdes que Jennifer achou hipnotizantes. O problema residia no fato de estes não se fixarem nos seus senão por breves instantes antes de  se afastarem, como se Veena fosse tímida ou se sentisse atrapalhada na presença de Jennifer.

- Sou a Jennifer. A neta da Sra. Hernandez...

- Sim, a enfermeira Kumar disse-me.

- Importa-se que lhe coloque algumas perguntas?

Veena trocou um rápido olhar de incerteza com a enfermeira-chefe, que acenou, indicando que não havia problema.

- Não me importo.

- Talvez nos pudéssemos sentar naquelas cadeiras junto à janela disse Jennifer, apontando para uma pequena zona de descanso, com um sofá moderno e duas cadeiras. Sentia  que a enfermeira-chefe e a recepcionista estavam a mais, de pé como estátuas, presas a todas as suas palavras.

Veena voltou a olhar para a enfermeira Kumar, o que começou a deixar Jennifer confusa. A mulher agia como se tivesse 12 anos, embora Jennifer calculasse que devia estar na casa dos 20, mesmo que fossem vinte e poucos. Agia como se preferisse estar em qualquer outro lado menos ali, enfrentando uma conversa com Jennifer.

A enfermeira Kumar encolheu os ombros e fez um sinal na direção da zona de descanso.

- Espero não a estar a deixar desconfortável - disse Jennifer a Veena, enquanto andavam e se sentavam. Nem sequer sabia que a minha avó estava na índia, quando soube  que tinha morrido. Por isso não estou muito contente com a sua morte, digamos assim, e estou a ver o que consigo saber.

- Não, não me está a deixar desconfortável - respondeu Veena, tensa. - Estou bem. Por um breve momento a imagem do rosto contorcido de Maria Hernandez atravessou-lhe  o espírito.

- Está a agir de forma muito nervosa - comentou Jennifer, tentando em vão estabelecer contato visual prolongado.

- Talvez tenha medo que esteja zangada comigo.

Jennifer riu, instintivamente, não muito alto, mais como sinal de surpresa.

- Por que haveria de estar zangada consigo? Ajudava a minha avó. Meu Deus. Não, não estou zangada. Estou agradecida.

Veena acenou, mas pareceu pouco convencida, embora se tivesse permitido um pouco mais de contato visual.

- Só queria perguntar-lhe como é que ela estava. Parecia feliz? Sofreu?

- Estava bem. Não estava a sofrer. Até me falou sobre si. Disse-me que se ia tornar médica.

- É verdade disse Jennifer. Não estava surpreendida. A avó estava muito orgulhosa do que tinha conseguido e para desgosto de Jennifer gabava-se a qualquer pessoa que  a ouvisse. Jennifer tentou pensar no que mais devia perguntar. Na verdade, não tinha pensado nisso com antecedência. Foi você quem encontrou o corpo da Maria depois  do seu aparente ataque cardíaco?

Não! disse Veena de forma comparativamente explosiva. Não, não repetiu. A sra. Hernandez morreu no turno da noite. Eu trabalho de dia. Saio às três e meia. Estava em casa. Este é o meu primeiro mês a trabalhar aqui. Trabalho  de dia, com supervisão.

Jennifer olhou para a jovem enfermeira, que era, na verdade, sua contemporânea. Não pôde deixar de sentir que havia algo de errado, como se não estivessem exatamente  a falar do mesmo.

- Posso colocar-lhe algumas perguntas pessoais? Veena acenou, hesitante.

- Formou-se recentemente da escola de enfermagem?

- Há cerca de três meses disse Veena, acenando.

- A minha avó foi a primeira paciente que perdeu?

- Sim, foi - disse Veena, com mais um aceno. A primeira paciente privada.

- Lamento. Nunca é fácil, quer se seja médico ou enfermeiro, ou mesmo aluno de medicina, e de certo não estou zangada consigo. Com o destino talvez, mas não consigo.  Não sei se é religiosa, mas se for, a sua religião não lhe dá algum conforto? Quer dizer, aparentemente o karma da minha avó foi deixar esta vida e talvez na próxima  não tenha de trabalhar tanto. Trabalhou mesmo muito durante toda a sua vida e não o fez para si mesma. Era realmente uma pessoa generosa. A melhor.

Quando Jennifer viu os olhos de Veena a brilhar com as lágrimas, sentiu que tinha descoberto a origem do nervosismo da enfermeira. A avó tinha sido a sua primeira  morte enquanto enfermeira a sério, uma etapa difícil, algo que Jennifer conseguia compreender.

- É uma querida por se interessar tanto - acrescentou Jennifer. Não quero que se sinta desconfortável. Mas tenho mais algumas perguntas. Sabe alguma coisa sobre  a morte da minha avó? Quer dizer, alguma coisa como quem a encontrou e em que circunstâncias? Ou mesmo que horas eram?

- Foi o Theru Wadha que a encontrou quando foi saber se ela queria alguma coisa para dormir - disse Veena, limpando os cantos dos olhos com o nó do dedo.

Pensou que ela estivesse a dormir até ter reparado que tinha os olhos abertos. Perguntei-lhe o que tinha acontecido ontem quando vim trabalhar, por ela ser minha  paciente e isso.

- A que horas foi, sabe? - perguntou Jennifer. Tendo descoberto o seu segredo e abordado o assunto, esperava que ela relaxasse. Mas isso não aconteceu. Parecia ainda  mais ansiosa. Esfregava as mãos uma na outra como se elas se defrontassem num combate de luta livre.

- Por volta das dez e meia.

- Já que falou diretamente com o enfermeiro, será que ele lha descreveu de alguma forma? Quer dizer, parecia calma, como se tivesse tido uma morte pacífica? Comentou alguma coisa assim?

- Disse que ela parecia azul quando acendeu as luzes e deu o alerta.

- Então tentaram reanimá-la?

- Só por breves instantes. Ele disse que a morte era clara. Não havia qualquer sinal de atividade cardíaca, ela estava fria e já um pouco rígida.

- Estava, de fato, morta. E quanto ao fato de estar azulada? Sabe se ele se referia a algo mais cinzento ou mesmo azul?

Veena pareceu estar a pensar. As mãos libertaram-se uma da outra e agarraram os braços da cadeira.

- Acho que quis dizer azul.

- Um azul cianótico?

- Acho que sim. Foi o que pensei.

- Isso é curioso para um ataque cardíaco.

- É? perguntou Veena algo surpreendida.

- Ele disse se estava toda azul ou se era apenas os lábios e as pontas dos dedos...?

- Não sei. Acho que toda azul.

- E o Sr. Benfatti? perguntou Jennifer, mudando rapidamente de assunto. De súbito recordou-se das histórias dos chamados anjos da morte, assassinos em série ligados  aos cuidados de saúde, que "encontravam" as suas vítimas depois de as terem morto, por vezes para as tentar salvar.

- O que tem o Sr. Benfatti? perguntou Veena, sobressaltada.

- Por acaso não foi o enfermeiro Wad-não-sei-das-quantas que o encontrou a noite passada, não? perguntou Jennifer. Sabia que a resposta era não, mas ainda assim tinha  de perguntar.

- Não - disse Veena, apressadamente. O Sr. Benfatti não era um doente deste piso. Estava no 3°. Não sei quem encontrou o Sr. Benfatti.

- Menina Hernandez! chamou uma voz, por detrás de Jennifer. Sobressaltada, Jennifer voltou-se e olhou para cima. Era a enfermeira-chefe Kumar, que se aproximara vinda do balcão.

- Temo que a Menina Chandra tenha de regressar aos seus pacientes. Além disso, liguei à Sra. Kashmira Varini para a informar de que se encontra aqui. Pediu-me que  lhe dissesse para passar pelo gabinete dela. Disse que sabe onde é. Estou certa de que ela poderá responder a quaisquer outras questões que possa ter. A enfermeira  Kumar fez sinal a Veena para que voltasse para os seus afazeres.

Tanto Jennifer como Veena se levantaram.

- Muito obrigado disse Jennifer. Estendeu o braço e apertou a mão da mulher, ficando surpresa com o fato de esta estar fria como gelo.

- Não tem de quê - disse Veena hesitante, voltando a agir como se fosse uma tímida mocinha. Os seus olhos viajavam inconscientemente entre as duas mulheres. Vou voltar ao trabalho.

Jennifer ficou a vê-la afastar-se, lamentando ter de comer tão pouco e fazer tanto exercício para conseguir um corpo como aquele. Afastou dela a sua atenção e referiu  os seus pensamentos à enfermeira Kumar.

- Uma mulher belíssima.

- Acha? - perguntou com rispidez a enfermeira Kumar. Sabe onde fica o gabinete da sra. Varini, creio eu.

- Sei concordou Jennifer. Obrigado pela sua ajuda, deixando-me falar com ela.

- Não tem de quê - disse a enfermeira Kumar, mas depois girou abruptamente sobre os calcanhares e dirigiu-se ao balcão de piso.

Sentindo uma certa retração, Jennifer seguiu para os elevadores. Pensou por um instante em pedir para ver o quarto da avó, mas mudou de ideias. Sabia que seria igual  a qualquer outro quarto de hospital, mas mais fino. Quando o elevador chegou e ela entrou, reparou que o mesmo aconteceu com os dois guardas que a tinham aparentemente  seguido. Estava claramente a ser tratada com grande desconfiança.

Enquanto o elevador descia, Jennifer pensou na conversa que tinha tido com a recém-contratada enfermeira. Sentia-se emocionada com o fato dela se mostrar tão afetada por aquela morte, já que deveria ter passado poucas horas, ao longo de vários  dias, na presença da avó. Claro que a parte mais interessante da conversa era a que tinha a ver com a sua suposta cianose. Fechando os olhos por um segundo, Jennifer foi transportada para a aula de fisiologia e tentou pensar, cientificamente, que tipo de ataque cardíaco poderia ter provocado uma cianose generalizada.

Infelizmente, não conseguia pensar em nenhum. A única coisa em que conseguia pensar era na possibilidade de ter inspirado e ficado engasgada com algum pedaço de  comida. Para que a cianose fosse generalizada, o coração da avó tinha de estar a funcionar bem; tinham de ser os pulmões a falhar no seu papel.

Jennifer abriu os olhos. Tal consideração, levantava a possibilidade de asfixia.

Alguém podia ter asfixiado a avó e produzido cianose generalizada, mas assim que a ideia lhe ocorreu, Jennifer afastou-a rapidamente do espírito. Não acreditava  no quão paranóica se estava a tornar. Sentiu-se embaraçada. Sabia, tal como sabia de onde vinha o ar que respirava, que ninguém tinha asfixiado a sua avó.

O elevador parou no lobby e quase toda a gente saiu, incluindo Jennifer, que fez questão de olhar, por um momento, nos olhos do guarda que segurava as portas abertas.

- Muito obrigado disse Jennifer alegremente.

O guarda pareceu surpreso por lhe falarem, mas não retribuiu a delicadeza.

Sem perder tempo, Jennifer dirigiu-se para o balcão de mármore da recepção, contornou-o e seguiu para a porta aberta do gabinete de Kashmira Varini. Jennifer bateu  na ombreira. Kashmira estava sentada à secretária, a preencher um formulário.

- Entre, por favor - disse, quando olhou para cima em resposta à batida de Jennifer.

Levantou-se e apresentou os cumprimentos do costume, a que Jennifer respondeu apenas com um ligeiro inclinar da cabeça. Kashmira fez-lhe então sinal para que se  sentasse, ao qual acedeu obedientemente. Jennifer olhou para Kashmira.

- Obrigado por ter regressado - disse Kashmira. Espero que tenha tido uma sesta refrescante.

- Não preguei olho.

- Oh! exclamou Kashmira, esperando aparentemente uma reação mais positiva a uma pergunta que esperara retórica. Estava, definitivamente, na expectativa de começar  a reunião com uma nota mais positiva do que aquela em que tinha terminado a da manhã, na cave. Comeu alguma coisa? Posso pedir-lhe uma sanduíche ou uma salada.

- Já almocei, obrigado.

- Visitou o gabinete consular na sua embaixada?

- Não disse Jennifer e depois acrescentou sra. Varini...

- Por favor, chame-me Kashmira.

- Está bem, Kashmira. Acho que devíamos esclarecer as coisas. Esta manhã perguntei-lhe especificamente em relação ao Sr. Benfatti. Você mentiu-me. Disse que não sabia  nada sobre um Sr. Benfatti e depois fiquei a saber que é a sua gestora de caso. Em que é que ficamos?

Por um momento, Kashmira ponderou as suas palavras. Pigarreou antes de começar a falar.

- Peço desculpa por isso. Foi o resultado de um sentimento de frustração. Estava a tentar convencê-la a concentrar-se na questão do corpo da sua avó e na necessidade  de tomar uma decisão, algo que não deveria ser assim tão difícil. Estou certa de que saberá que não falamos sobre outros doentes. Essa deveria ter sido a minha resposta.  Confesso que me sentia exasperada consigo, e ainda sinto um pouco. Acabei de receber uma chamada da Sr.a Lucinda Benfatti, que me disse que a tinha aconselhado espetificamente  a não tomar qualquer decisão. Ora, eu sei que ela tinha pensado em deixar que os filhos chegassem, mas ainda tinha esperança de, depois de passado o choque, lhe  poder solicitar que pedisse aos filhos que tomassem uma decisão antes de darem início à sua viagem, para que pudéssemos tratar do corpo. Sempre foi assim que funcionou  no passado. Este tipo de problemas nunca se levantou. Está a dizer que lidar com a morte de pacientes é um problema comum?

- Muito pelo contrário - disse Kashmira com determinação. Não veja nas minhas palavras algo que não está lá.

- Está bem, está bem - disse Jennifer, temendo tê-la pressionado demasiado. Obrigado pelo seu pedido de desculpas, aceito-o. Na verdade, estou impressionada com  a explicação. Estava curiosa com o que faria, porque não pensei que o conseguisse explicar.

Esta questão da sua avó deixou-me completamente desorientada.

- É bom saber que, pelo menos, estamos de acordo em alguma coisa resmungou Jennifer.

- Desculpe?

- Esqueça - acrescentou Jennifer. Estava a fazer uma piada de mau gosto. Mas há algo que queria ver. Queria ver a certidão de óbito da minha avó.

- Por que diabos a quer ver?

- Só quero ver o que é que lá está como causa de morte.

- Um ataque cardíaco, tal como lhe disse.

- Ainda assim gostaria de a ver. Tem-na consigo, ou pelo menos uma cópia?

- Tenho. Está no meu arquivo.

- Posso vê-la? Suponho que a certa altura me será entregue uma cópia, de qualquer das formas. Não é um segredo de estado.

Kashmira pensou por um momento, encolheu os ombros e empurrou-se, juntamente com a cadeira, para um conjunto de arquivos. Abrindo uma das gavetas, percorreu os separadores  até retirar um ficheiro individual. Abrindo-o, encontrou um documento oficial de aspecto deveras indiano. Regressou à secretária e passou o documento a Jennifer.

Jennifer pegou nele e, ao ler o nome da avó, sentiu uma estocada de emoção. Estava escrito em hindu e inglês, pelo que não teve qualquer problema em lê-lo. Percorreu  à mão as entradas que indicavam a causa da morte: ataque cardíaco; e a hora da morte: 22:35, dia 15 de Outubro de 2007. Jennifer decorou os dados e devolveu o documento a Kashmira. Esta voltou a colocá-lo no ficheiro e o ficheiro no seu devido lugar no arquivador.

Fazendo deslizar a cadeira para junto da secretária, Kashmira olhou uma vez mais para Jennifer.

- Bom! Depois de tudo isto, está pronta para me dizer o que quer fazer: cremar ou embalsamar?

Jennifer abanou a cabeça.

- Também já estou pelos cabelos. Mas há esperança no horizonte. A minha avó era ama de uma mulher que, convenientemente, se tornou patologista forense.

- Falei com ela e está a caminho da índia, o que significa, creio eu, que chegará amanhã à noite. Vou colocar a decisão nas mãos dela e do marido, que também é médico legista.

- Recordo-lhe que, patologista forense ou não, não fará qualquer diferença. Não haverá qualquer autópsia, ponto final. Não foi, nem será autorizada.

- Talvez sim, talvez não. Pelo menos quero ter alguém ao meu lado. Sei que não estou a pensar com grande clareza. Estou absolutamente exausta e não consigo dormir.

- Talvez lhe possa arranjar alguns medicamentos para dormir.

- Não, obrigado disse Jennifer. O que queria era uma cópia dos registros médicos da minha avó.

- Poderei consegui-lo, mas pode demorar cerca de 24 horas.

- Não interessa! E gostaria de falar com o cirurgião-chefe.

- É um homem muito ocupado. Se tiver questões espetíficas, anote-as e eu tentarei conseguir as respostas.

- E se for uma questão de erro médico?

- Não se coloca a questão do erro médico num contexto internacional. Lamento.

- Devo dizer que não está a ser uma grande ajuda.

- Ouça, Menina Hernandez. Sem dúvida que nos acharia muito mais prestativos se cooperasse conosco.

Jennifer levantou-se.

- A sério - disse Kashmira. - Posso arranjar-lhe qualquer coisa para dormir. Talvez depois de uma boa noite de descanso compreenda que tem de tomar uma decisão.  A sua avó não pode ficar na nossa câmara frigorífica.

Compreendo isso disse Jennifer. Porque não transfere o corpo para uma morgue pública normal?

- Isso seria impossível. As morgues públicas, no nosso país, têm condições assustadoras, devido à nossa burocracia bizantina. São administradas pelo Ministério do  Interior e não pelo Ministério da Saúde, como deveria ser. Como o Ministério do Interior pouco se preocupa com elas, recebem muito poucos fundos. Algumas não têm  refrigeração, outras só de forma intermitente e os corpos apodrecem frequentemente. Para ser brutalmente sincera, não podemos permitir que isso aconteça, mesmo à  sua avó, devido ao potencial impacto negativo nos media. Estamos a tentar ajudá-la. Por favor, ajude-nos!

De imediato, Jennifer sentiu-se abalada. Pôs-se de pé. Embora continuasse a demonstrar pouco tato, o Hospital Queen Victoria parecia estar a mudar de tática, deixando  de a pressionar e começando a implorar.

- Vou regressar ao hotel conseguiu dizer. Preciso de descansar.

- Sim, durma bem disse Kashmira. Levantou-se também e fez uma vénia com as mãos juntas.

Jennifer saiu para a confusão do átrio, onde uma dúzia de novas admissões aguardavam para serem processadas. Aproximou-se da parede de vidro e olhou para o exterior  em busca do carro e do seu motorista, no pequeno desvio para o hospital. Não os vendo, tirou o celular da mala e marcou os números.

 

                   17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 14:55 - NOVA DELI, ÍNDIA

Kashmira observou Jennifer abrir caminho através das pessoas. Kashmira nunca tivera tantos problemas com um parente. Quando a conseguiu convencer a vir à índia, pensou que o problema do corpo de Maria Hernandez estava, basicamente, terminado; agora assumia um novo nível de urgência, com não um, mas dois investigadores forenses  a caminho para darem a sua opinião. Kashmira sabia que o administrador executivo não ia ficar contente.

Assim que Jennifer saiu do átrio, Kashmira saiu do seu gabinete e percorreu o corredor até ao local onde se situava o gabinete de canto de Rajish.

- Ele está disponível? - perguntou Kashmira à secretária particular de Rajish.

Acredito que sim disse a secretária. Mas não está de bom humor. Confirmou, usando o intercomunicador, e fez sinal a Kashmira para que entrasse, enquanto recebia  outra chamada, de uma linha exterior.

Entre chamadas, Rajish lia uma pilha de cartas e assinava-as com um rabisco rápido. Contrastando com a indumentária casual que envergara na noite em que fora ali  chamado, vestia um fato de um estilista ocidental, uma camisa branca e uma gravata Gucci.

- Ela voltou esta tarde? perguntou Rajish, quando Kashmira fechou a porta do gabinete e se aproximou da secretária.

Durante a hora de almoço informara-o em relação à intransigência de Jennifer nessa manhã e da sua teimosia, mas acabara dizendo que estava optimista em relação ao  fato de que ficaria mais razoável depois de dormir um pouco. Também transmitira a Rajish a breve referência de Jennifer a uma autópsia. Esta nova informação levara  Rajish a comentar, irritado, que não haveria qualquer autópsia, em situação alguma. Acrescentou que a última coisa que desejava era que se descobrisse alguma patologia  real, que deveria ter sido identificada antes da cirurgia. Kashmira também lhe disse que Jennifer tinha falado no nome de Benfatti e Rajish perguntara-lhe como é que Jennifer soubera da sua morte. Kashmira confessara não fazer ideia. Com tudo isto, Rajish não era um fã de Jennifer Hernandez.

- Acabou de sair - disse Kashmira em resposta à pergunta de Rajish.

- E? perguntou rudemente Rajish.

- Com uma segunda morte, em igual número de dias, estava de péssimo humor. Uma vez mais, na noite anterior, recebera uma chamada do poderoso Ramesh Srivastava e fora  informado de que a CNN International tinha relatado mais uma morte no hospital de Rajish, ainda antes de ter sido informado. Embora o funcionário público de elevada  posição não o tivesse ameaçado verdadeiramente, a insinuação de culpa ficara desconfortavelmente clara.

- Temo que esteja a ficar pior. Agora diz que quer esperar por sexta-feira antes de tomar uma decisão. Ao que parece, a velha trabalhou para alguém que mais tarde  se tornou uma patologista forense e que deverá chegar amanhã à noite.

Rajish bateu com a mão na testa e esfregou vigorosamente as têmporas com o polegar e o indicador.

- Isto não pode estar a acontecer lamentou.

- Ainda vai ficar pior. A fulana vai trazer o marido, que também é um patologista forense.

Num ligeiro estado de pânico, Rajish baixou a mão e fixou os olhos em Kashmira.

- Vamos lidar com dois especialistas forenses americanos?

- Parece que assim é.

- Deixou bem claro à Menina Hernandez que não haveria qualquer autópsia?

- Sim, tanto esta manhã como esta tarde. Parece-me que o fato de esta fulana que se dirige para cá ser uma patologista forense não tem a ver com a sua vinda. Por isso  não devemos tirar conclusões precipitadas.

Rajish inclinou a cadeira para trás, até ficar a olhar diretamente para o teto.

- O que fiz eu para merecer estes problemas? Tudo o que tenho tentado fazer é manter a questão fora dos media, para lá do original segmento da CNN.

- Nesse aspecto, as coisas continuam sossegadas. Não esteve aqui ninguém da imprensa, nem ontem nem hoje.

- Graças aos deuses por estas pequenas bênçãos, mas isso pode mudar a qualquer momento, em especial agora, com duas mortes.

- A Menina Hernandez também pode estar a interferir com essa situação. Ouviu-se um guincho alto, quando Rajish se inclinou de súbito para a frente e olhou para Kashmira  de olhos esbugalhados.

- Como é que ela o consegue?

- De alguma forma, ela e a viúva encontraram-se. Lucinda Benfatti ligou-me há pouco tempo para deixar bem claro que também não quer que toquem no corpo do marido até  à chegada dos filhos, na sexta-feira. Como sabe, ela já o tinha dito a noite passada, mas ambos achámos que as hipóteses de mudar de ideias hoje, quando falasse com ela, eram boas. Mas não. Na verdade, mencionou a vinda dos patologistas forenses amigos de Jennifer e o fato de lhe ter pedido para que os amigos dessem também uma olhadela ao marido. Se os media ficarem a saber disto, poderão cair-lhe  em cima.

Rajish bateu com a palma da mão na testa. Várias das cartas que esperavam resposta levantaram-se no ar.

- Esta mulher é uma praga a contaminar os outros com a sua teimosia. Temo que esta situação esteja rapidamente a crescer para além da nossa capacidade para a manter  escondida. A maioria das pessoas de luto fica demasiado atordoada para causar problemas. O que há de errado com esta moça Hernandez?

- É obstinada, como referi concordou Kashmira.

- É espiritual?

- Não faço idéia. Não diz nada que me leve a pensar que sim ou que não. Por que pergunta?

- Estava a pensar que se fosse espiritual poderíamos tentá-la com o corpo da avó.

- Como assim?

- Podíamos oferecer-nos para o cremar nos mundialmente famosos ghats de cremação de Varanasi e lançar as suas cinzas ao Ganges.

- Mas isso é um privilégio reservado aos hindus. Rajish gesticulou como se afastasse uma mosca.

- Alguma consideração extra para com os brâmanes dos ghats de Jalore resolverá a questão. Talvez a Menina Hernandez se sinta tentada. Podia ser apresentado como uma  derradeira atenção para com a falecida. Também o poderíamos oferecer à Sr.a Benfatti.

- Não me sinto otimista - disse Kashmira. - Nenhuma das duas me parece particularmente religiosa e ser cremado em Varanasi só tem verdadeiro significado para os  hindus. Vou tentar. A própria Hernandez já admitiu que talvez pudesse pensar de forma diferente depois de ter dormido um pouco. Está exausta e sofre com ojet lag.  Talvez um tal suborno a faça perder a cabeça.

- Temos de retirar aqueles corpos da câmara frigorífica da cafetaria - insistiu Rajish. especialmente, tendo em conta que o hospital está de momento a ser observado  pela Comissão Conjunta Internacional. Não nos podemos dar ao luxo de falhar, devido a uma violação acidental. Entretanto, vou telefonar a Ramesh Srivastava para  relatar que estamos a ter alguma dificuldade em lidar com essa Hernandez.

- Tentei o meu melhor, garanto-lhe. Tenho sido muito direta. Mais do que com qualquer outro parente.

- Sei que sim. O problema reside no fato de termos recursos limitados. O mesmo não acontece com alguém como Ramesh Srivastava. Tem atrás de si o peso de toda a burocracia  indiana. Se assim o desejasse, poderia inclusivamente manter fora do país os dois amigos da Menina Hernandez.

- Mantê-lo-ei informado de quaisquer alterações - disse Kashmira, enquanto se voltava para sair.

- Por favor disse Rajish, com um breve aceno.

Usou o intercomunicador para pedir à secretária que ligasse para o Sr. Ramesh Srivastava. Não estava ansioso por fazê-lo. Sabia como Srivastava era poderoso e que  podia fazer com que Rajish fosse despedido com um estalar dos dedos.

 

                  17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 15:15 - NOVA DELI, ÍNDIA

Não fora um bom dia para Ramesh Srivastava. Mal chegara ao escritório, nessa manhã, o secretário de estado adjunto para a saúde tinha-lhe ligado para dizer que o secretário de estado da saúde estava furioso com a transmissão de um segundo segmento relacionado com a emergente indústria do turismo médico indiano. Desde então  as chamadas não paravam. Tinham chegado de meia dúzia de secretários adjuntos do Ministério da Saúde e da Segurança Social, do presidente da Indian Healthcare Federation  e até do secretário de estado do turismo, todos para lhe recordar que era ele quem presidia ao departamento de turismo médico quando este passava pela mais negativa  crise de relações públicas internacional que alguma vez experimentara. Todos lhe recordaram igualmente que tinham o poder para acabar com a sua carreira se ele não  fizesse alguma coisa e depressa. O problema residia no fato de ele não saber o que fazer. Tentara descobrir como é que a CNN International recebia as suas informações, mas sem sucesso.

- Tem um Sr. Rajish Bhurgava em linha, neste momento disse a secretária de Ramesh, quando este atravessou a porta do gabinete no regresso das suas três horas de almoço.

Ramesh correu para o gabinete e levantou o auscultador.

- Localizou a fuga?

- Só um momento disse a secretária de Rajish. Vou passar-lhe o Sr. Bhurgava.

Ramesh praguejou em silêncio, enquanto se afundava na sua cadeira. Era um homem grande, que começava a ficar careca, com olhos úmidos e profundas cicatrizes nas  maçãs do rosto, causadas pela acne infantil. Tamborilou com os dedos gordos e impacientes sobre a mesa. Assim que Rajish Bhurgava entrou em linha, Ramesh repetiu  uma vez mais a pergunta com igual emoção.

- Não - admitiu Rajish. Voltei a falar demoradamente com o chefe do pessoal médico. Continuamos a acreditar que o mais provável é tratar-se de um dos médicos que também têm alguns privilégios de admissão para os seus doentes privados, relativamente escassos. Sabemos que alguns deles são fortemente contra o fato de o governo nos conceder apoios e incentivos fiscais às custas do adequado financiamento  do controle das doenças transmissíveis nas zonas rurais. O que ele está agora a fazer é a verificar se algum dos mais ativos se encontrava aqui tanto na segunda-feira  como ontem à noite.

- O que é que ele pensa em relação às mortes em si? resmungou Ramesh. Duas mortes em duas noites é intolerável. O que é que vocês estão a fazer de errado? Com a CNN  a transmitir estas fatalidades por todo o mundo, sete a oito vezes por dia, conseguiram estragar seis meses da nossa campanha, em especial na América, o nosso maior  alvo.

- Coloquei-lhe a mesma questão. Ele está completamente baralhado. Nenhum dos pacientes apresentava sintomas ou sinais de aviso, nem quando consultaram os seus médicos  nem quando realizaram os nossos exames de admissão.

Realizaram aqui cardiogramas antes de serem operados?

- Sim, claro que realizaram cardiogramas e ambos chegaram com relatórios positivos dos seus cardiologistas americanos. O chefe do pessoal médico afirmou que, mesmo  em retrospectiva, não havia como prever o que aconteceu. Tanto as cirurgias como o pós-operatório correram sem qualquer incidente.

- E a questão da Hernandez? Pelo menos isso já foi resolvido?

- Temo que não admitiu Rajish. Ainda não decidiu o que fazer do corpo e agora começou a discutir a possibilidade de realizar uma autópsia.

- Porquê?

- Não temos a certeza, para além da sua firme crença de que o coração da avó estava em excelente forma.

- Não quero uma autópsia afirmou Ramesh categoricamente. Não há forma alguma de isso nos ser útil. Se a autópsia não mostrasse nada, não a usariam para nos exonerar,  porque deixaria de haver uma história, e se a autópsia revelar alguma patologia de que não tínhamos conhecimento, crucificavam-nos. Não, não pode haver nenhuma autópsia.

- O mais complicado é que a Menina Hernandez parece ter contatado uma antiga cliente da falecida e ela e o marido, ambos patologistas forenses, estão a caminho e chegarão  a Deli na sexta-feira.

- Meu Deus - disse Ramesh. Bem, se fizerem um pedido formal para uma autópsia, assegure-se de que é passado a um dos magistrados habituados a lidar com estas questões.

- Farei o meu melhor disse Rajish. Mas talvez com os seus contatos nos pudéssemos questionar se desejamos a sua presença.

- Precisaria de mais tempo. De outra forma, seriam parados já no aeroporto e isso, por si mesmo, poderia causar um problema com os media se fosse associado às já famosas mortes nos hospitais privados, anunciadas pela CNN. A imprensa livre é muito chata e adora este tipo de mexericos.

- A Hernandez também está a fazer das suas de uma outra forma. Ao que parece, procurou a Sr.a Benfatti esta manhã e convenceu-a a adiar a permissão para tratarmos  do corpo do marido, tal como está a fazer com o da avó.

- Não! exclamou Ramesh, sem poder acreditar.

- Temo que sim. Começo a pensar, como me tem dito a gestora de caso, que ela está deliberadamente a tentar causar problemas. Começo mesmo a achar que ela está a ficar  paranóica e a responsabilizar-nos, como se tivéssemos criado deliberadamente esta estratégia.

- Então, pronto - disse Ramesh. - Não podemos permitir que isto continue.

- Haverá alguma coisa que possamos fazer? perguntou Ramesh esperançoso.

- Talvez - disse Ramesh. Não podemos ficar sentados, sem fazer nada e permitir que esta mulher tenha carta branca até a sua paranóia ter sido de alguma forma satisfeita.

- Não podia estar mais de acordo.

- Mantenha-me informado de todo e qualquer desenvolvimento disse Ramesh.

- Absolutamente responde Rajish.

Ramesh pousou o auscultador e voltou-se para o teclado sobre a sua secretária. Percorrendo a lista de contatos, encontrou o número do celular do inspetor Naresh  Prasad da polícia de Nova Deli, que liderava a pequena e clandestina Unidade de Segurança Industrial. Voltando a pegar no auscultador, fez a chamada. Como os homens  não se falavam há quase seis meses, trocaram algumas informações pessoais antes de Ramesh abordar a razão do seu telefonema.

- Nós, aqui no Departamento de Turismo Médico, temos um problema que necessita do seu talento.

- Estou a ouvi-lo disse Naresh.

- É uma boa altura para falarmos?

- Não há melhor que isto.

- Há uma jovem chamada Jennifer Hernandez, cuja avó faleceu na segunda-feira à noite no Hospital Queen Victoria, na sequência de um infeliz ataque cardíaco. De alguma  forma a CNN teve conhecimento e transmitiu a notícia como forma de questionar o nosso sistema de segurança.

- Isso não é bom.

- Isso é dizer pouco - afirmou Ramesh. Depois prosseguiu contando a Naresh todo o problema, incluindo os detalhes da segunda morte. Então enumerou todas as coisas que Jennifer fizera e que estava a fazer para se tornar uma persona non grata.

- Todo este assunto começa a ter um sério efeito sobre a nossa campanha a favor do turismo médico, que pode ter um impacto sobre a nossa capacidade de atingirmos os  nossos objetivos definidos. Não sei se foi mantido completamente ao corrente, mas subimos as nossas estimativas de forma a tornar o turismo médico numa indústria  de 2,2 biliões de dólares por ano até 2010.

Naresh assobiou para o telefone. Estava de fato impressionado.

- Ainda não tinha ouvido esses números. Estão a tentar apanhar as TI? O pessoal da informática vai ficar com inveja, porque acham que se tornaram os reis hereditários  da moeda estrangeira.

- Infelizmente, o presente problema pode ter um sério impacto no nosso objetivo - disse Ramesh, ignorando a pergunta de Naresh. - Precisamos de ajuda.

- É para isso que aqui estamos. O que podemos fazer?

- Há duas partes. Uma para a sua unidade em geral e uma para si em especial. Em relação à sua unidade, precisamos que realize uma investigação para descobrir quem  está a fornecer informações confidenciais à CNN International. O administrador executivo do Queen Victoria e o seu chefe do pessoal médico acreditam que possa ser  um médico radicado, que também tenha alguns privilégios de admissão. Quantos existem no Queen Victoria, não sei, mas quero-os investigados. E quero saber quem é  essa pessoa.

- Isso pode ser conseguido facilmente. Entregarei o trabalho aos meus melhores agentes. E qual é a minha parte?

- A moça, Jennifer Hernandez. Quero que trate dela. Não deve ser difícil. Está hospedada no Amal.

- Porque não contata um dos seus colegas da imigração? Manda prendê-la e deportá-la. Problema terminado!

- Sinto que ela é atrevida, teimosa e cheia de recursos. Temo que, se a imigração a fosse buscar, ela armasse uma confusão e se os media associassem o seu caso com  a morte relatada na CNN, poder-se-ia criar uma história ainda maior sobre uma tentativa de encobrimento por parte do governo. Isso podia tornar tudo decididamente  pior.

- Tem razão. O que quer dizer exatamente com "tratar dela"? Sejamos espetíficos.

- Deixo isso nas mãos da sua merecida fama de criativo. Quero que deixe de ser uma pedra no meu sapato. Seja como for que o consiga, dar-me-ei por satisfeito. Na verdade,  é melhor que eu não saiba. Assim, se me perguntarem mais tarde, sendo um dos visados pelo seu comportamento, não terei de mentir.

- E se puder garantir-lhe que ela não deseja nada de mal e que as suas aparentes ameaças são falsas?

- Seria satisfatório, claro. Em especial se a sua equipe conseguir identificar o médico infiltrado. Preciso de atacar este problema nas duas frentes.

- Posso depreender que a minha compensação será a do costume?

- Digamos que é comparável. Verifique as coisas. Siga-a. Lembre-se, não queremos que ela se torne parte das notícias; e certamente não queremos que se torne numa espécie  de mártir. Quanto à compensação, ela deverá depender do grau de dificuldade. Já nos conhecemos há muito. Podemos confiar um no outro.

Terá notícias minhas.

- Ótimo.

Ramesh desligou. Próximo do final da conversa com o polícia "industrial", tivera outra ideia em relação ao problema Hernandez, uma possível solução que seria mais  fácil, mais barata e provavelmente melhor, pois não envolveria o governo. Tudo o que tinha de fazer era deixar alguém suficientemente furioso e, por acaso, o indivíduo  que Ramesh tinha em mente ficava facilmente furioso quando a questão envolvia dinheiro. Ramesh estava surpreso por não se ter lembrado antes de Shashank Malhotra.  Afinal de contas, o tipo fazia-lhe pagamentos frequentes e até o levara a uma memorável viagem ao Dubai.

- Olá, meu querido amigo exclamou Shashank várias oitavas acima do necessário. Que bom ouvi-lo. Como está a família?

Ramesh podia imaginar Shashank no seu gabinete palaciano com vista para a fina Cinnaught Place. Shashank era um dos novos homens de negócio indianos, que se dedicavam  a uma grande variedade de atividades, umas legais e outras nem tanto. Ultimamente tinha-se apaixonado pelos cuidados de saúde e viu o turismo médico como o caminho  para uma segunda fortuna fácil. Ao longo dos três últimos anos tinha investido uma soma substancial e era o principal accionista de uma empresa que, adequadamente  em relação ao atual problema, detinha os Hospital Queen Victoria em Deli, Bangalore e Chennai, bem como os Aesculapian Medical Center em Deli, Mumbai e Hiderabad.  Também fora ele a contribuir, recentemente, com a fatia de leão dos custos da recente campanha publicitária na Europa e na América do Norte que apresentava a índia  como o destino para os cuidados de saúde do século XXI. Shashank Malhotra era um importante jogador.

Depois de ter sido trocado um número suficiente de delicadezas, Ramesh avançou para os negócios.

- O motivo do meu telefonema é um problema no Hospital Queen Victoria, aqui em Deli. Foi informado?

- Ouvi dizer que ocorreu um qualquer problema menor disse Shashank preocupado.

Apercebera-se da alteração na voz de Ramesh e era famoso pela sua sensibilidade à palavra problema, já que normalmente significava gastar dinheiro.

E era particularmente sensível em relação a problemas associados tanto com o grupo Hospital Queen Victoria, como com o Aesculapian Medical Centers, porque se tratavam dos mais recentes membros do seu império financeiro e ainda não tinha atingido a rentabilidade.

- É mais do que isso - disse Ramesh. E acho que devia ficar ao corrente. Tem um minuto?

- Está a brincar? Claro que quero saber.

Ramesh contou a Shashank a história, mais ou menos da mesma forma como a contara ao inspetor Naresh Prasad, mas omitindo a parte relativa às otimistas previsões  económicas para o turismo médico, pois Shashank já as conhecia bem. À medida que Ramesh ia avançando, percebia que Shashank compreendia tanto a importância quanto  a urgência da situação, graças às questões concretas que ia colocando enquanto Ramesh avançava.

Quando Ramesh terminou e se calou, Shashank permaneceu igualmente em silêncio. Ramesh deixou-o a pensar, em especial sobre a parte de anular a maior parte dos ganhos  da campanha publicitária.

- Acho que me deviam ter contado tudo isto um pouco mais cedo - rosnou Shashank. Parecia uma pessoa completamente diferente. O tom de voz era baixo e ameaçador.

- Acho que tudo ficaria bem se esta jovem se decidisse em relação ao corpo da avó e depois fosse para casa. Estou certo de que conhece alguém qualificado a realizar  tais sugestões, alguém que ela talvez ouvisse.

- Onde é que ela está instalada?

- No Amal Palace.

Ramesh deu por si, sem interlocutor.

 

                   17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 15:45 NOVA - DELI, ÍNDIA

Veena olhou para o relógio. Nunca uma passagem de serviço parecera demorar tanto tempo. Deveria ter saído às três e meia e já eram um quarto para as quatro.

- Então é isso - disse a enfermeira Kumar à enfermeira chefe da noite. Alguma pergunta?

- Não creio - disse a enfermeira chefe. Obrigado.

Todos se levantaram. Veena avançou diretamente para o elevador enquanto as outras davam início a conversas de circunstância. Samira viu-a e teve de correr para a  apanhar.

- Para onde vais? perguntou.

Veena não respondeu. Os seus olhos dirigiam-se de um elevador para o outro, tentando ver qual chegaria primeiro.

- Veena! chamou Samira, a voz carregada de emoção. Vais continuar sem falar comigo? Acho que estás a levar isto longe demais.

Veena ignorou Samira e aproximou-se da porta do elevador, que estava prestes a chegar. Samira seguiu-a.

- Sei que é normal que tenhas ficado zangada comigo, de início - sussurrou Samira, depois de se ter colocado atrás da amiga. Várias das outras enfermeiras tinham-se  juntado a elas, conversando sobre os acontecimentos do dia. Mas depois de algum tempo para pensar nisso, pensei que compreendesses que o fiz tanto por mim como pelas  outras.

O elevador chegou, todas entraram. Veena dirigiu-se para o fundo, voltou-se e ficou de frente para a porta. Samira juntou-se a ela.

- Este silêncio não é justo - continuou Samira num sussurro. - Nem sequer queres saber os detalhes sobre ontem à noite?

- Não - respondeu Veena, também num sussurro.

Eram as primeiras palavras que dirigia a Samira desde segunda-feira, quando Cal lhe revelou que tinha conhecimento dos problemas da sua família. A única outra pessoa no mundo a conhecê-los era Samira, por isso a fonte tornara-se óbvia.

- Obrigado por falares comigo - disse Samira, mantendo a voz baixa, sob o tagarelar das outras. Sei que não era suposto dizer nada sobre o teu pai, mas isto pareceu-me  diferente. O Durell disse-me que a nossa emigração dependia disso. Também me foi prometido que o teu problema seria tratado, que tu serias livre e a tua família  também.

A minha família foi humilhada - disse Veena. Irreversivelmente humilhada.

Samira não disse nada. Sabia que, de início, Veena ficaria emersa em pensamentos sobre a sua família alargada e respettiva reputação, em vez de se alegrar em relação  à sua recém-obtida liberdade e à das suas irmãs, em relação a um pai horrível. Mas esperava que visse depressa a luz. Mais do que nunca, Samira queria fugir ao que  considerava os grilhões da Índia atual. Não podia esperar que a Nurses International a ajudasse a emigrar.

Com as mudanças de turno, o elevador parava em todos os pisos.

- Não vou regressar diretamente ao bangalô - disse Veena, mantendo os olhos fixos no indicador de piso. Vou falar com Shrimati Kashmira Varini.

- Por que diabos vais falar com ela? perguntou Samira num sussurro. A neta da minha vítima veio ver-me esta tarde e achei muito desconfortável ter de falar com ela. O Cal nunca sugeriu que tivéssemos que fazer algo assim. Ela assusta-me. Disse-me que não estava contente em relação à morte da avó e que vai  investigar. Não me agrada.

O elevador parou, com um solavanco, no piso do lobby e libertou uma carga completa de passageiros. Passados apenas alguns passos, Veena parou. Samira fez o mesmo.

- Talvez fosse melhor se não fizesses nada até termos falado com o Cal e o Durell - disse Samira, depois de se ter assegurado de que ninguém estava a ouvir.

Quero descobrir onde é que ela está hospedada, para o caso do Cal perguntar, e de certo que a gestora de caso sabe.

- Imagino que sim.

- A neta referiu também a tua vítima.

- Em que aspecto? perguntou Samira com crescente alarme.

- Perguntou se a mesma pessoa que encontrou a sr.a Hernandez também encontrou o Sr. Benfatti.

- Porque é que haveria de se importar?

- Não sei.

- Agora deixaste-me preocupada - disse Samira. Espero por ti aqui prosseguiu, quando Veena se voltou e seguiu na direção do balcão de informações.

Veena limitou-se a acenar por cima do ombro. Contornando o balcão, Veena espreitou para lá da porta aberta do gabinete de Kashmira Varini. Tinha esperança de que a gestora de caso estivesse sozinha e estava.

- Desculpe-me - chamou Veena e fez uma vênia quando Kashmira olhou para cima. Posso fazer-lhe uma pergunta?

Claro respondeu Kashmira, devolvendo o cumprimento. Veena avançou até à secretária.

- Falei com a neta da Sra. Hernandez, a Jennifer, esta tarde.

- Sim, a enfermeira Kumar disse-mo quando me ligou a informar que ela estava cá. Sente-se! Kashmira apontou com o queixo na direção de uma das cadeiras livres no seu  gabinete.

Embora Veena planejasse demorar apenas alguns segundos, sentou-se.

- Estou curiosa em relação à forma como reagiu a ela. Estamos a ter alguma dificuldade em lidar com ela.

- Em que aspecto? - perguntou Veena, sentindo-se cada vez mais preocupada em relação à americana.

- Em quase todos os aspectos. Só precisamos que ela estipule o que quer que façamos ao corpo da avó para que possamos tratar do assunto. Mas ela recusa-se. Temo que  tenha uma qualquer idéia paranóica de que se trata de um erro médico ou de algo intencional. Até arranjou maneira de trazer aqui vários patologistas forenses, sabe-se  lá para quê. Deixei bem claro que não haverá autópsia alguma.

Veena tinha de forma inconsciente inspirado mais profundamente quando ouviu Kashmira dizer "intencional" e esperava que não tivesse sido notório. A sua ideia de  que Jennifer Hernandez podia ser, de fato, um problema tinha ganho força.

- Sente-se bem? - perguntou Kashmira, inclinando-se na direção de Veena.

- Sim, sinto. Foi um dia longo, é tudo.

- Precisa de um copo de água ou assim?

- Estou bem. A razão por que passei por aqui era porque desejava saber onde Jennifer Hernandez está hospedada. Estava a pensar ligar-lhe. Quero ter a certeza de que  respondi a todas as suas perguntas. Quando ela aqui veio, eu estava muito ocupada e a enfermeira Kumar teve de nos interromper para que eu regressasse aos meus doentes.

- Está no Amal - disse Kashmira. Enquanto esteve a falar com ela, como é que ela lhe pareceu? Foi de alguma forma hostil? Comigo anda para trás e para a frente. Não  sei se por estar cansada ou zangada.

- Não, não foi hostil. Na verdade, foi o contrário. Mostrou-se compreensiva em relação ao fato de a sua avó ter sido a minha primeira doente a falecer desde que terminei  os estudos.

- Isso nem parece dela.

- Mas disse especificamente que estava descontente em relação à morte da avó, o que quer que isso queira dizer, e que estava a investigá-la. Foram as palavras que usou, mas com grande firmeza.

- Se vier a falar com ela, por favor encoraje-a tomar uma decisão em relação ao corpo da avó. Seria uma enorme ajuda.

Depois de prometer ajudar em relação à questão de cremação ou embalsamamento, se a oportunidade se apresentasse, Veena desejou as boas noites a Shrimati Varini e  saiu para o lobby. Encontrou Samira e guiou-a para o exterior.

- O que é que ficaste a saber? - perguntou Samira, enquanto desciam o acesso.

- Temos de falar com o Cal sobre esta Hernandez. Ela preocupa-me. Até a Kashmira Varini está a ter problemas com ela. Disse que acredita que a Jennifer Hernandez suspeita  que a morte da avó se possa ter devido a um erro médico ou a um ato intencional. Por outras palavras que não foi natural.

Samira estacou, agarrando Veena, de súbito, pelo cotovelo e obrigando-a a parar.

- Queres dizer que ela pensa que avó pode ter sido assassinada.

- É uma maneira de o dizer afirmou Veena.

- Acho melhor regressarmos ao bangalô.

- Não podia estar mais de acordo.

Apesar do trânsito das horas que antecediam a hora de ponta encher as ruas, as duas mulheres tiveram a sorte de encontrar um riquexó motorizado vazio. Subiram para  o banco de trás, indicaram ao condutor o endereço do bangalô e depois prepararam-se para a viagem.

 

                   17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA 16:26 - NOVA DELI, ÍNDIA

- Tens um segundo? perguntou Durell à porta da biblioteca. Cal levantou os olhos das folhas com as despesas da Nurses International. O ritmo a que queimavam dinheiro era impressionante mas, com as coisas a correrem tão bem, de momento, não estava tão preocupado como estivera dois ou três dias antes.

- Claro respondeu Cal.

Encostou-se para trás e esticou os braços por cima da cabeça. Observou Durell a entrar calmamente e a espalhar vários mapas sobre a mesa que Cal usava como secretária.  Trazia também fotografias de vários veículos, que distribuiu cuidadosamente com as suas mãos grandes e fortes. Durell envergava uma das suas t-shirts pretas justas,  que moldavam os seus músculos como se tivessem sido pintadas sobre eles.

- Pronto - disse Durell, endireitando-se e esfregando as mãos uma na outra com prazer. Foi isto que descobri.

Antes que pudesse continuar, a porta da frente bateu ao longe, com força suficiente para ser ouvida e também para agitar a chícara de café expresso de Cal sobre  o seu pires, na secretária. Os dois homens olharam um para o outro.

- Mas que raio? perguntou Cal.

- Alguém quer que saibamos que chegou - disse Durell. Olhou para o relógio. Eram quase quatro e meia. Deve ter sido uma das enfermeiras que teve um dia mau.

Mal as palavras de Durell tinham escapado dos seus lábios, já Veena e Samira tinham atravessado a porta da biblioteca. As duas começaram a falar ao mesmo tempo.

- Hei! gritou Cal, fazendo-lhes sinal com as duas mãos para que se acalmassem. Uma de cada vez e espero que seja importante. Acabaram de interromper o Durell.

Veena e Samira trocaram um olhar. Veena falou.

- Há um possível problema no Queen Victoria...

- Um possível problema? perguntou Cal, interrompendo-a. Veena acenou excitada.

- Então acho que podiam mostrar alguma consideração. O Durell estava a falar.

- Podemos ver isto mais tarde - disse Durell, reunindo as fotografias dos carros. Cal agarrou-lhe no pulso para o impedir e olhou-o nos olhos.

- Não, continua! Elas podem esperar.

- Tens a certeza? perguntou Durell, inclinando-se de forma a falar ao ouvido de Cal. Pensei que esta história da fuga era informação privilegiada.

- Não faz mal. Se o Armagedão chegar, quero que venham connosco. Deixa que ouçam. Poderão ajudar.

Durell fez-lhe sinal com o polegar e chegou-se para trás.

- Ouçam - disse Cal. - O Durell tem estado a trabalhar naquilo que chamamos um plano de contingência, para o caso de se concretizar o pior cenário possível. Mas  é informação privilegiada. Nada de dizer às outras.

A sua curiosidade aumentou e as mulheres reuniram-se junto da mesa, olhando para os mapas.

- Espero que compreendas que incluí-las cria um novo nível de complexidade ao pôr-nos a todos em movimento, se e quando o plano for posto em marcha disse Durell a  Cal.

- Podes tratar disso noutra altura - disse Cal. Vamos ouvir o plano! Durell voltou a dispor as fotografias dos veículos. Enquanto o fazia, explicou às mulheres que tinha arranjado uma idéia para poderem sair do país caso fosse preciso.

- Primeiro, existem vários veículos que podemos comprar e guardar na garagem impenetrável que temos na propriedade. A idéia seria tê-lo atestado, carregado e pronto  a partir. Acho que deve ter tração às quatro rodas porque as estradas da rota que proponho não estão na melhor forma.

- Qual é a rota que recomendas? perguntou Cal.

- Seguiríamos para sudeste, saindo de Deli, e utilizaríamos a principal auto-estrada para Varanasi. Daí prosseguiríamos para nordeste ao longo da fronteira para o Nepal, através da travessia fronteiriça de Raxaul-Birgunj. Durell marcou o caminho no mapa.

- É um bom lugar para atravessar?

- Acho que é o melhor. Raxaul fica na Índia e Birgunj no Nepal. Ao que parece são duas cidades em crescimento e igualmente degradadas com algumas centenas de metros  entre elas e cuja maior indústria, pelo que pude ver, é o negócio do sexo para os duzentos ou mais camionistas que todos os dias fazem a travessia.

- Parece maravilhoso.

- Para aquilo que queremos, acho que é perfeito. É de tal forma secundária, que nem sequer pedem vistos. Na verdade não possui mais do que um posto alfandegário.

- E Fica nas montanhas? perguntou Cal.

- Não, é tropical e plano.

- Parece perfeito. E depois de atravessarmos?

- É um caminho bastante direto até à auto-estrada de Prethir do lado nepalês, até Katmandu e um aeroporto internacional. Nessa altura, estaremos livres.

- Haverá montanhas no Nepal, suponho?

- Oh, sim!

- Então recomendo o Toyota Land Cruiser - disse Cal, pegando na fotografia e acenando com ela. - Temos os nossos seis lugares mais a tração às quatro rodas.

- Tens razão disse Durell, pegando nas outras fotografias. - Também era a minha primeira escolha.

- Compra-o, apronta-o e guarda-o nessa garagem. Pede aos guardas que o ponham a funcionar uma vez por semana. Além disso, tratemos de fazer uma mala com uma muda de  roupa.

- Se vamos deixar lá as chaves, não recomendo que deixemos as malas. Uma das secções da vedação no extremo mais recuado da propriedade caiu.

- Usemos aquele quarto da cave que se parece com uma catacumba. A porta que desce até ele tem tranca, não tem?

- É uma chave grande e velha que parece saída de um castelo medieval.

- É o que faremos. Cada um de nós prepara uma pequena mala e tranca-a nas catacumbas.

- O que faremos com a chave? - perguntou Durell. - Todos devíamos saber onde é que se encontra. Se acontecer um problema grave, como aquele a que se destina este  plano, todos devíamos saber onde se encontra a chave. Um atraso pode representar um problema.

Cal olhou em seu redor, para a biblioteca. Para além de uma considerável colecção de livros antigos, havia muita tralha sobre as mesas e prateleiras. Os olhos de  Cal depressa caíram sobre uma caixa antiga indiana de papier-machê, sobre a prateleira de uma lareira. Levantou-se e aproximou-se dela. Tinha uma intrincada e brilhante  pintura e era, de certo, suficientemente grande. Depois de alguma luta, conseguiu abri-la. Estava convenientemente vazia.

- A chave virá para aqui. O que dizem? Ergueu a caixa para que todos pudessem ver.

Acenaram enquanto Cal voltava a colocar a caixa no seu local original. Depois, enquanto regressava à sua cadeira, olhou para as mulheres.

- Não têm nenhum problema com tudo isto? Podem arranjar uma pequena mala e entregá-la ao Durell? E quero dizer mesmo pequena, só para dois dias.

As mulheres acenaram mais uma vez.

- Parece tudo ótimo, Durell disse Cal em especial tendo em conta que a hipótese de virmos a necessitar dele são praticamente nulas, mas o melhor é estarmos preparados.

Cal pensou, mas não disse, que o estímulo tinha partido da tentativa de suicídio de Veena, que certamente não tinha sido prevista. Olhou para ela, impressionado  com a sua aparente mudança. Ainda assim, sabendo agora a história dos abusos que tivera de sofrer em silêncio, tinha de se perguntar se ela estaria tão estável como  ele precisava que estivesse.

- Transmitirei os detalhes à Perra e à Santana disse Durell a Cal, enquanto reunia os mapas. Depois, às mulheres, disse que voltaria a falar com elas, em relação à forma como se reuniriam no improvável caso de terem de ativar o plano.

Cal acenou a Durell, mas a sua atenção estava agora voltada para Veena e Samira.

- Pronto disse ele. É a vossa vez. Qual é o possível problema? Veena e Samira arrancaram em simultâneo, pararam e voltaram a arrancar, antes de Samira fazer um gesto, indicando que cedia a palavra a Veena. Esta descreveu o encontro com Jennifer Hernandez e com a gestora de caso. Cal ergueu a mão  para a silenciar e depois chamou:

- Durell, talvez devesses ouvir isto!

Durell estava de saída, lutando para conseguir dobrar os mapas. Voltou-se e regressou. Cal resumiu o que as moças já tinham dito, depois fez sinal a Veena para que  continuasse.

Veena prosseguiu, relatando como Jennifer impedia que o hospital lidasse com o corpo da sra. Hernandez e mais importante ainda, que estava de fato a investigar a  morte da avó. Veena disse que a gestora de caso até tinha usado as palavras erro e intencional para descrever como Jennifer acreditava ter sido provocada a morte.

- Temo que ela não acredite que tenha sido natural resumiu Veena. E disse-me que isso não poderia acontecer, que era impossível para alguém imaginar, sequer, tal coisa.  Mas esta Jennifer Hernandez está a fazer precisamente isso, o que me dá um mau pressentimento sobre tudo isto...

- Está bem, está bem disse Cal, erguendo a mão num gesto para que Veena se acalmasse. Estás a ficar demasiado excitada, aqui. Cal olhou para Durell. Como raio pode  esta Hernandez estar a pensar como está?

Durell abanou a cabeça.

- Não faço ideia, mas acho que devíamos tentar descobrir. Poderá haver algum aspecto desta tragédia da succinilcolina que não estejamos a tomarem consideração?

- Não imagino qual - disse Cal. O anestesiologista foi muito espetífico no nosso caso hipotético. Disse que a vítima deveria ter um historial de problemas cardíacos; exatamente o quê não interessava, a pessoa deveria ter sido submetida a uma cirurgia geral nas últimas doze horas e a droga devia ser dada através da linha intravenosa.  Foi isso, não foi?

- É o que me lembro disse Durell.

- Ela é estudante de medicina acrescentou Veena. Sabe destas coisas.

- Isso não deveria importar disse Cal. O nosso plano provém de um anestesiologista e é à prova de bala.

- Ela fez com que dois médicos legistas viessem à Índia - disse Samira.

- É verdade concordou Veena. Não é só nela que temos de pensar. E referiu o meu doente, o Sr. Benfatti, à Veena, o que significa que já sabia o que lhe tinha acontecido - acrescentou Samira.

- Assim que a informação passou na CNN, qualquer pessoa poderia saber disse Cal. Isso não é um problema.

- Mas não estão preocupados com a vinda dos médicos legistas? - perguntou Veena. São patologistas forenses. Certamente que me preocupa.

- Os médicos legistas não me preocupam por duas razões: primeiro, porque me parece que disseste que o Queen Victoria não tenciona permitir que seja realizada a autópsia  e, segundo, mesmo que esta fosse realizada e encontrassem vestígios de succinilcolina, isso seria atribuído à que os doentes receberam como parte da anestesia. A  única coisa que me preocupa um pouco é o fato desta Hernandez ter uma suspeita. O que a poderia ter levado a suspeitar de alguma coisa?

- Talvez tudo não passe de paranóia da parte dela sugeriu Durell. E o fato de terem ocorrido duas mortes seguidas.

- Isso é uma idéia interessante - disse Cal. Sabes, pode ser isso. Pensem. Do nada descobre que a avó morreu depois de ter realizado uma cirurgia na Índia, de todos  os lugares. Tem de viajar para cá. Depois o hospital pressiona-a para que tome uma decisão em relação ao corpo, ainda antes de estar pronta. Ainda para mais, ocorre  outra morte semelhante. É o suficiente para deixar uma pessoa paranóica. Talvez a lição a tirar daqui seja que não devemos fazer dois de seguida no mesmo hospital.

- Mas a Samira tinha o paciente perfeito - disse Durell, defendendo a namorada. E estava ansiosa. Temos de recompensar esse tipo de iniciativa.

- Sem dúvida e foi o que fizemos. Fizeste um excelente trabalho, Samira. Mas de agora em diante não façamos o mesmo hospital duas noites seguidas. Temos de os espalhar.  Afinal de contas temos enfermeiras em seis hospitais. Não faz sentido corrermos qualquer tipo de risco.

- Bem, esta noite não vamos correr esse tipo de risco disse Durell.

- Vai haver outro esta noite? - perguntou Veena, apreensivamente. Não acham que deviam deixar passar alguns dias, uma semana ou esperar que essa Jennifer Hernandez parta?

- É difícil parar com o sucesso a que estamos a assistir disse Cal. A noite passada, nos Estados Unidos, os três canais noticiosos aproveitaram a sugestão da CNN e  apresentaram segmentos sobre o turismo médico asiático, indicando que ele talvez não seja tão seguro como se supunha. Foi poderoso.

- É verdade disse Durell. A mensagem está a chegar à nossa terra, em grande. O contato da Santana na CNN tem-lhe dito que já estão a receber notícias de cancelamentos  de viagens de turismo médico. Não se pode argumentar contra o sucesso, o meu pai sempre o disse.

- Que hospital vai estar envolvido esta noite? - perguntou Veena, no mesmo tom sério. Não tentava esconder a sua oposição a um novo caso tão pouco tempo depois dos  dois primeiros, em especial tendo sido ela a dar início ao programa.

- O Aesculapian Medical Center - disse Cal. O Raj telefonou hoje a dizer que o seu doente David Lucas, que está na casa dos 40, é um excelente candidato. Foi-lhe inserido  um stent há três anos, por isso sabemos que tem uma doença obstrutiva.

- Também o tornamos mais fácil - disse Durell. Pegamos na excelente sugestão de Samira em relação à succinilcolina. Agora temos o nosso próprio stock, por isso não será  necessária uma perigosa infiltração no Bloco Operatório.

- É verdade disse Cal. Recebemo-la hoje. Esse é o tipo de sugestão de que necessitamos para tornar o plano melhor e mais seguro. Acho que lhes devíamos pagar um bónus  para encorajar este tipo de pensamento construtivo.

- Então acho que a Samira devia receber um bônus - disse Durell, dando a Samira um abraço de parabéns.

- E Veena também, por ter quebrado o gelo - disse Cal. Deu a Veena um abraço equivalente e a forma e firmeza do seu corpo sob o uniforme de enfermeira excitou-o de imediato.

- Significa isto que não planejam fazer nada em relação à Jennifer Hernandez? perguntou Veena. Afastou-se imediatamente de Cal. Estava surpresa pelo fato de este e  Durell não estarem preocupados com a vontade de Jennifer em investigar a morte da avó. Esforcei-me por descobrir onde é que ela estava hospedada, pensando que quereriam  saber.

- Onde é que ela está hospedada?

- No Amal Palace.

- A sério! Que coincidência, tendo em conta que foi lá que vos entrevistamos para a Nurses International.

- Cal, estou a falar a sério.

- Eu também. Mas não vou ter nada a ver com essa mulher, não enquanto responsável da Nurses International. Por outro lado, tu poderias ir sem levantar qualquer suspeita.

- Estou certa de que descobririas que o Durell tem razão, que não passa de paranóia dela, mas seria um alívio para ti e para nós saber que não há uma qualquer pista  que nos está a escapar.

- Não poderia disse Veena, abanando a cabeça como se afastasse uma ligeira náusea.

- Porque não?

- Só o fato de pensar nela faz-me recordar o rosto da avó, contorcendo-se enquanto morria e, pior ainda, ouço-a a agradecer-me novamente.

- Então não te encontres com ela disse Cal, com alguma irritação na voz. Só estou a tentar sugerir formas de lidares com as tuas ansiedades.

- Talvez eu não devesse estar a fazer isto, de todo - disse Veena, subitamente.

- Ora, não nos atiremos assim de cabeça. Lembra-te que não terás de "tratar" de mais nenhum doente. Já estás despachada. Tinhas de pôr a bola em movimento, mais nada.  Agora, estás a desempenhar um papel de apoio.

- Quero dizer, talvez nenhuma de nós devesse estar a fazer isto.

- Não te cabe a ti decidir afirmou Cal. Limita-te a considerar que se trata do teu dever dhármico apoiar os outros. E lembra-te, esta atividade libertou-te do teu  pai e vai levar-te e às tuas colegas, incluindo a Samira, a uma nova liberdade na América.

Veena permaneceu ali por um momento, acenando em concordância, depois voltou-se e saiu da sala sem dizer mais nada.

- Ela vai ficar bem? perguntou Durell, olhando para os outros, depois de ter assistido à saída silenciosa de Veena.

- Vai ficar ótima - disse Samira. Só vai demorar algum tempo. Sofre mais do que nós. O problema dela é não ter sido exposta à Internet como o resto de nós e, assim sendo,  permanece mais indiana do que as restantes. Por exemplo, quando finalmente começou a falar comigo, hoje, depois de ter estado zangada por eu vos ter revelado o seu  segredo, profundo e negro, um dos seus primeiros comentários não foi de alegria por ter, por fim, conseguido a liberdade do pai e poder seguir os seus sonhos, mas  antes dizer que a sua família tinha sido desonrada.

- Acho que começo a compreender disse Cal. No entanto, o que me preocupa, é a história do suicídio. Haverá alguma hipótese de ela o voltar a tentar?

- Não! De maneira nenhuma! Fê-lo porque achava que era o que se esperava dela, no contexto da sua religião e da sua família, mas salvaste-a. Por isso, assunto encerrado.  Não era o seu karma morrer, mesmo que ela tivesse pensado que sim. Não, ela não o voltará a tentar.

- Deixa-me perguntar outra coisa disse Cal. já que és a melhor amiga dela. Ela alguma vez fala sobre sexo?

Samira soltou uma gargalhada surda.

- Sexo? Estás a brincar? Não, ela nunca fala sobre sexo. Ela odeia o sexo. Bem, permite-me que corrija a afirmação. Eu sei que ela quer ter filhos um dia. Mas sexo,  por sexo, nem pensar. Não como outras pessoas que conheço. Samira piscou o olhou a Durell, que se escondeu atrás de um punho fechado.

- Obrigado - disse Cal. - Devia ter-te feito estas perguntas há semanas atrás.

 

                   17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 6:15 - NOVA IORQUE, EUA

Antes de abrir os olhos, o Dr. Jack Stapleton ouviu um som estranho aos seus ouvidos. Era um rugido distante e abafado, de um tipo que considerava difícil de descrever.

Por um momento pensou no que o poderia ter provocado. Tendo em conta que a sua casa típica de Manhattan, uma brownstone na 106th Street, que era na verdade feita de tijolo, tinha sido renovada há apenas dois anos, pensou que se poderia tratar de um som próprio da recém-transfigurada casa de que até agora não se tivesse apercebido.

Contudo, pensando melhor, era demasiado alto para isso. Tentando com afinco caraterizá-lo, pensou de súbito numa queda de água.

Jack piscou os olhos até os conseguir abrir. Levando a mão, sob as cobertas, até ao lado da cama onde a mulher dormia e não a encontrando, compreendeu a origem do  som: era o chuveiro. Laurie já estava levantada, um fenômeno nunca antes visto. Sendo uma coruja inveterada, era comum ter que a arrancar da cama aos gritos e pontapés  para que pudesse sair para o GML, também conhecido por Gabinete de Medicina Legal, a horas decentes. Quanto a si, Jack gostava de chegar cedo, antes de todos os  outros, o que lhe permitia escolher os melhores casos.

Abismado, Jack atirou para trás as cobertas e, completamente nu, que era a forma como gostava de dormir, avançou pé ante pé para o banheiro cheia de vapor. Laurie  estava praticamente invisível atrás das portas do polibã. Jack abriu uma frincha da porta.

- Hei, tu aí dentro chamou Jack sobre o ruído da água.

Com espuma no cabelo, Laurie inclinou-se, saindo de debaixo da água.

- Bom dia, dorminhoco disse ela. Já era tempo de acordares. Vai ser um dia atarefado.

- De que é que estás a falar?

- Da viagem à Índia! disse Laurie. Voltou a colocar a cabeça debaixo de água e enxaguou vigorosamente o cabelo.

Jack saltou para trás para evitar ser molhado e deixou a porta do polibã fechar-se. De repente lembrou-se de tudo. Lembrava-se vagamente de excertos da conversa  a meio da noite, quando fora acordado, mas pensara que tinha sido um pesadelo.

Não via Laurie assim tão motivada desde que ela e a mãe se tinham juntado para planejar o seu casamento. Um pouco mais tarde, Jack ficou a saber que Laurie tinha  ficado acordada e que já tinha, basicamente, tratado de tudo, da viagem ao alojamento, faltando apenas a permissão de Calvin para que os dois pudessem partir. Deveriam  fazê-lo nessa noite, fazer escala em Paris e chegar a Nova Deli a altas horas da noite seguinte. No que dizia respeito ao hotel, iam ficar no mesmo em que se encontrava  Jennifer Hernandez.

Às 7 da manhã, Jack deu por si a olhar para a lente de uma câmara digital, numa loja da Columbus Avenue. Quando o flash disparou, ele saltou. Alguns minutos mais  tarde, ele e Laurie estavam de volta à rua.

Deixa-me ver a tua foto! disse Laurie, rindo quando olhou para ela. Jack agarrou-a, chateado por ela o estar a gozar. Queres ver a minha? perguntou Laurie, estendendo-a  a Jack ainda antes que este tivesse a oportunidade de responder.

Como já esperava, a dela tinha melhor aspecto do que a sua, com oflash a refletir-se nas madeixas avermelhadas do seu cabelo castanho, como se o empregado de balcão  fosse um fotógrafo profissional. A maior diferença encontrava-se nos olhos. Enquanto os de Jack eram castanho-claro e encovados, como se estivesse de ressaca, os  de Laurie eram azuis-claros, brilhantes e cheios de vida.

Quando chegaram ao Gabinete de Medicina Legal, às sete e meia, Laurie pensou que as coisas pareciam bem encaminhadas. Acreditava que, se se tratasse de um dia particularmente  movimentado, Calvin se sentiria menos inclinado psicologicamente a deixá-los tirar uma semana. Mas não havia movimento, pelo menos por enquanto. Quando ela e Jack  entraram no gabinete de Identificação, onde o dia começava para todos os médicos legistas, o médico encarregue dos casos que chegavam durante a noite, o Dr. Paul  Plodget, estava sentado à secretária a ler o The New York Times. À sua frente estava uma invulgar pequena pilha de ficheiros que já tinham sido revistos. Ao seu  lado, numa das cadeiras de napa castanha, estava sentado Vinnie Amendola, um dos assistentes da morgue cujo trabalho consistia em chegar mais cedo para ajudar na  transição dos assistentes da noite. Também fazia café para todos. Na altura estava a ler o New York Post.

- Um dia leve, hoje? perguntou Laurie para ter a certeza.

- Um dos mais leves disse Paul, sem sair de detrás do seu jornal.

- Algum caso interessante? - perguntou Jack, enquanto começava a percorrer a pequena pilha.

- Depende de quem quiser saber - disse Paul. Há um suicídio que vai ser um problema. Talvez tenham visto os pais. Estavam sentados à porta da sala de identificação há  bocado. Fazem parte de uma família judaica proeminente e bem relacionada. Para dizer as coisas de forma simples, não querem uma autópsia e foram bastante claros.  Paul espreitou pelo lado do jornal, para ter a certeza de que Jack o tinha ouvido.

- O caso precisa mesmo de uma autópsia? perguntou Jack. Por lei, os casos de suicídio tinham de ser autopsiados, mas o Gabinete de Medicina Legal tentava ser sensível  aos desejos das famílias, em especial quando estavam envolvidas questões religiosas.

Paul encolheu os ombros.

- Eu diria que sim, por isso a questão deve ser tratada com algum tato.

- Isso exclui o Dr. Stapleton comentou Vinnie.

Jack bateu na parte de trás do jornal de Vinnie com as unhas, o que o fez saltar.

- Com esse tipo de recomendação, importam-se que fique com o caso? perguntou a Paul.

- À vontade respondeu Paul.

- O Calvin já chegou? perguntou Laurie.

Paul baixou o jornal para poder olhar para Laurie, com uma exagerada expressão interrogativa que dizia: Estás doida?

- O Jack e eu talvez necessitemos de tirar uma licença de urgência, a começar hoje ao fim do dia - disse Laurie a Paul. Se isso não for um problema, o que não acredito  que seja, gostaria de tirar um dia para tratar da papelada de tantos casos quanto possível.

- Não deve haver problema concordou Paul.

- Vou sair para falar com estes pais disse Jack, para quem o quisesse ouvir, enquanto pegava na pasta do caso. Laurie agarrou-lhe o braço.

- Eu vou esperar pelo Calvin. Quero receber da sua parte um sim ou um não, o mais cedo possível. Se for sim, dou um pulo lá abaixo, ao buraco, antes de sair para tratar  dos nossos vistos.

- Está bem disse Jack, mas era visível que já estava concentrado no caso em mãos.

Depois de um breve desvio até à secretária de Marlene, na recepção, para pedir que a informasse assim que Calvin chegasse, Laurie apanhou o elevador até ao seu gabinete  no 5° andar. Sentando-se, atirou-se à pilha de casos que tinha pendentes.

Mas não foi longe. Tinham passado apenas 22 minutos quando Marlene a informou de que Calvin tinha acabado de passar pela porta da frente, muito mais cedo do que o normal.

O gabinete do diretor adjunto do Gabinete de Medicina Legal ficava ao lado do muito maior gabinete do diretor, perto da entrada principal do edifício. A essa hora,  antes das oito, as secretárias ainda não tinham chegado e Laurie teve de se anunciar a si mesma.

- Entra! disse Calvin quando viu Laurie à porta. O que quer que queiras, que seja rápido. Tenho de ir à Câmara.

Calvin era um afro-americano enorme, que poderia ter jogado na NFL se não estivesse tão interessado em estudar medicina quando terminou a escola. Com a sua habilidade  para intimidar, combinada com um temperamento explosivo e uma veia perfeccionista, era um administrador muito eficiente. Apesar de o Gabinete de Medicina Legal ser  um serviço público, tinha-se tornado muito mais eficiente sob a gestão do Dr. Calvin Washington.

- Desculpa incomodar-te tão cedo - começou Laurie mas temo que eu e o Jack tenhamos uma espécie de emergência.

- Oh-oh entoou Calvin, enquanto reunia o material que necessitava de levar para o escritório do presidente da Câmara. Porque é que tenho a sensação de que vou ficar sem os meus dois patologistas mais produtivos. Ok, dá-me a versão resumida do problema!

Laurie limpou a garganta.

- Lembras-te daquela moça, a Jennifer Hernandez, que convidei a vir aqui, há 14 anos atrás?

- Como poderei esquecer? Era totalmente contra e, de alguma forma, deixei que me convencesses. Depois acabou por se mostrar uma das melhores coisas que este gabinete alguma vez fez. Já foi há 14 anos? Deus do céu!

- Já foi assim há tanto tempo. Na verdade a Jennifer vai terminar o curso de Medicina, da UCLA, na próxima Primavera.

- Isso é ótimo. Adoro essa menina.

- Ela manda cumprimentos.

- Para ela também - disse Calvin. Laurie, tens de te apressar. Tenho de sair por aquela porta daqui a 5 minutos.

Laurie contou a história da morte de Maria Hernandez e a dificuldade de Jennifer em lidar com o corpo. Também contou a Calvin como Maria tinha sido como uma mãe,  não só para Jennifer mas também para ela, desde a infância ao início da adolescência, e concluiu dizendo que ela e Jack queriam ir à índia e precisavam de cerca  de uma semana.

- As minhas condolências - disse Calvin. Certamente consigo compreender o teu desejo de apresentares os teus sentimentos, mas não estou certo de compreender porque é que o Jack tem de ir. Perder-vos aos dois ao mesmo tempo coloca-nos sob um nível de tensão bastante elevado, a menos que tenhamos um aviso prévio significativo.

- A razão por que Jack tem de ir, na verdade, nada tem a ver com a morte de Maria Hernandez explicou Laurie. O Jack e eu submetemo-nos a um tratamento de fertilidade  que começou há cerca de 8 meses. Neste momento, estou num ciclo durante o qual me tenho vindo a injetar com níveis elevados de hormonas e dentro de dias terei de  dar a mim mesma a injeção que libertará os folículos. Nessa altura...

- Está bem, está bem! exclamou Calvin, interrompendo Laurie a meio da frase. Já percebi. Pode ser! Podem tirar a vossa semana. Cá nos havemos de arranjar. Calvin pegou  na pasta.

- Obrigado, Dr. Washignton - disse Laurie. Sentiu um arrepio de excitação. A viagem ia mesmo ter lugar.

Seguiu o diretor adjunto até ao exterior do gabinete.

- Liga-me a dizer quando vais voltar ao trabalho disse Calvin por cima do ombro, a caminho da porta da frente.

- Com certeza respondeu Laurie, enquanto se dirigia para os elevadores.

- Mais uma coisa disse Calvin, já a meio do lado de fora, mantendo a porta aberta com o rabo. Traz-me uma recordação e engravida. Dito isto, partiu, deixando a porta  fechar.

Como uma tempestade que chega subitamente, uma nuvem cobriu o nascente entusiasmo de Laurie. O último comentário de Calvin deixara-a furiosa. Voltando-se de novo  para o elevador, libertou uma enxurrada de palavrões. Com toda a pressão que colocava sobre si mesma para engravidar e o desânimo que isso gerava, não precisava  de mais. Para ela, o fato de Calvin se ter intrometido no assunto era o equivalente a discriminação sexual. Afinal de contas, ele não estava disposto a colocar uma  pressão equivalente no Jack.

No interior do elevador, esmurrou o botão do 5° andar, com o lado do punho. Não conseguia acreditar como os homens podiam ser insensíveis. Era indesculpável.

Então, quase tão depressa como chegara, a fúria dissipou-se. Uma súbita clarividência fez com que Laurie compreendesse que eram mais uma vez as hormonas a funcionar,  tal como acontecera com Jack na noite anterior e com a idosa no supermercado. O que mais a surpreendia e embaraçava era a velocidade a que tais episódios sucediam.  Não havia tempo para ser racional.

Uma vez de volta ao escritório e sentindo-se mais em controle das suas emoções, Laurie fez uma chamada para a amiga Shirley Schoener. Sabia que era uma boa hora, porque Shirley tinha reservado o seu tempo, das 8 às 9 da manhã para comunicar com as suas pacientes do tratamento para a fertilidade, fosse por telefone ou por e-mail. Ela respondeu de imediato.

Sabendo que outros pacientes iriam telefonar, Laurie foi direta ao assunto, contando a Shirley que ela e Jack iam partir para a índia nessa noite e porquê.

- Estou com ciúmes respondeu Shirley. Vai achá-la tão... interessante.

- Seria assim que alguém descreveria algo de que não gostou, mas que sente deve tratar de forma diplomática - respondeu Laurie.

- É apenas uma questão de ser difícil caraterizar a nossa resposta à Índia explicou Shirley. O país evoca uma variedade tão grande de emoções, que as descrições simples  e genéricas se tornam inúteis. Mas adorei-a!

- Não vamos ter tempo para ver mesmo a índia disse Laurie. Infelizmente será entrar e sair.

- Não faz mal. A Índia é tão cheia de contradições, por todos os lados, que compreenderás aquilo que estou a dizer independentemente do período de tempo que lá fiques  e de ires a Deli, Mumbai ou Calcutá. É tão complexo. Estive lá há cerca de um ano, para um congresso médico e, desde então, nunca mais fui a mesma. Há uma beleza  sublime e uma fealdade citadina que se cruzam. Há uma extrema riqueza e a pobreza mais vil que possas imaginar. Digo-te, é de tirar o fôlego. É impossível não sermos  afetados por ela.

- Bem, decerto vamos manter os olhos abertos, mas vamos lá para lidar com a morte de Maria Hernandez. Mas também temos de tratar do meu ciclo.

- Meu Deus - exclamou Shirley. No meu entusiasmo com a Índia, esqueci-o momentaneamente. Tenho uma sensação tão boa em relação a este ciclo; não quero que vás. Não poderei  ficar com os louros quando engravidares, o que acho que vai acontecer.

- Vá lá, não acrescentes ainda mais pressão - disse Laurie com um risinho. Contou a sua recente reação ao comentário de Calvin.

- E és tu a mulher que duvidava que viesse a ter um problema com as hormonas! gozou Shirley.

- Nem me lembres. Mas não achava mesmo que tivesse. Nunca tive problemas com a TPM, como acontece com algumas pessoas que conheço.

- Portanto, vamos precisar que sejas vista por alguém em Nova Deli no primeiro dia, depois da tua chegada. Não queremos correr o risco de gerar hiper-estimulação.

- Foi por isso que liguei. Quero saber se há alguém em Nova Deli que recomendes.

- Montes de gente - respondeu Shirley. Graças ao fato de lá ter ido para o congresso, fiquei em contato com várias pessoas. A medicina indiana está bastante avançada;  mais do que as pessoas pensam. Conheço pelo menos meia dúzia de médicos que não teria problemas em recomendar-te. Tens alguma exigência especial, como homem ou mulher,  ou alguma localização espetífica na cidade?

- O que vinha a calhar era se um dos que recomendas trabalhasse para o Hospital Queen Victoria disse Laurie. Podia ser útil conhecer alguém da equipe quando tivéssemos de lidar com a administração.

- Não podia estar mais de acordo. Façamos assim, vou fazer alguns telefonemas. Em Deli são cerca de um quarto para as seis, que é uma hora perfeita. Também podia mandar  uns e-mails, mas acho que telefonar e falar diretamente com as pessoas será melhor, além disso não tenho nenhuma chamada em espera. Obrigado Shirley disse Laurie.  Tenho a certeza de que te vou ficar a dever uma, mas não sei como te conseguirei algum dia pagar. Duvido que queiras receber o pagamento em favores profissionais.

- Nem brinques com isso disse Shirley. Sou demasiado supersticiosa.

Desligando, Laurie olhou automaticamente para o relógio. O local onde deveria arranjar os vistos  para a índia só abria às 9, por isso ainda tinha algum tempo. A primeira coisa que fez foi telefonar para a companhia aérea e usar o cartão de crédito para pagar  os bilhetes que tinha reservado. Depois ligou a Jennifer. O telefone tocou quatro ou cinco vezes e quando finalmente foi atendido, Laurie esperara ouvir o atendedor  eletrônico. Mas fora Jennifer, que parecia sem fôlego. Laurie identificou-se e perguntou se estava a ligar em má altura, porque poderia facilmente ligar mais tarde.

- Não. tudo bem - disse Jennifer, com a respiração pesada. Estou a jantar num restaurante chinês todo fino, aqui no hotel, e quando o celular tocou corri para a recepção  para atender. Adivinha com quem estou a jantar.

- Nem poderia começar a tentar a adivinhar.

- A Sra. Benfatti. É a esposa do homem que morreu no Queen Victoria a noite passada.

- Isso é uma coincidência.

- Na verdade, não. Procurei-a e almoçamos juntas. Devo dizer que a morte dele tem algumas semelhanças estranhas com a da avó.

- A sério? perguntou Laurie. Perguntou-se se as semelhanças seriam reais ou imaginárias.

- Diabos, aqui estou eu a falar sem parar e tu é que me ligaste. Por favor, diz-me que vens à Índia.

- Vamos, de fato, à Índia - disse Laurie, na sua voz sentia-se o entusiasmo.

- Excelente! alegrou-se Jennifer. Estou tão contente, nem fazes idéia.

- Diz ao Dr. Washington obrigado, obrigado, obrigado.

- Ele mandou-te cumprimentos disse Laurie. Houve alguma alteração considerável, por aí?

- Na verdade, não. Continuam a tentar obrigar-me a dar-lhes luz verde. Disse-lhes que vinhas e que devias chegar sexta-feira de manhã.

- Por acaso mencionaste que eu era uma patologista forense?

- Oh, sim, sem dúvida.

- E qual foi a resposta deles?

- Mais um sermão sobre o fato de não haver autópsia. São peremptórios.

- Vamos ver - disse Laurie.

- Fiz questão de falar com a enfermeira que tomava conta da avó. É de uma beleza que nem vais acreditar, com uma figura de morrer.

- Vindo de ti, é um cumprimento e tanto.

- Não jogamos na mesma liga. É o tipo de mulher que, provavelmente, pode comer tudo e parecer cada vez melhor. Também é muito simpática. Inicialmente, quando a conheci,  agiu de forma muito estranha.

- Como assim?

- Tímida ou envergonhada, não consegui perceber qual das duas. Mas ao que parece tinha medo que eu estivesse zangada com ela.

- Porque é que haverias de estar zangada?

- Foi o que lhe perguntei. Sabes afinal qual era o motivo? A avó foi o primeiro doente que perdeu desde que terminou o curso de enfermagem. Não é comovente?

- Ficaste a saber alguma coisa sobre a tua avó? perguntou Laurie. Não teceu nenhum comentário em relação à pergunta retórica de Jennifer. À primeira vista, Laurie  não compreendeu como é que o fato de Maria ter sido a primeira doente daquela enfermeira a morrer podia estar relacionado com o fato de ela ter medo que Jennifer  estivesse zangada com ela. Laurie supôs que devia ser uma coisa cultural.

- Na verdade, não - disse Jennifer, mas depois corrigiu-se. exceto o fato de a avó estar cianótica quando a encontraram.

- Verdadeira cianose? perguntou Laurie.

- Foi isso que ela disse e eu perguntei-lhe espetificamente. Mas ela estava a apresentar um relato em segunda mão. A avó não morreu no turno dela, mas no da noite.  Tinha-o ouvido da enfermeira que encontrou a avó, já depois de ela estar morta.

- Talvez seja melhor não andares a brincar às investigações médicas - sugeriu Laurie. Podes incomodar demasiadas pessoas.

- Talvez tenhas razão concordou Jennifer em especial, tendo em conta que vêm a caminho. Qual é o teu voo?

Laurie indicou o número do vôo e hora prevista de chegada.

- Ouve, não tens de vir ao aeroporto como sugeriste - disse Laurie podemos meter-nos num táxi.

- Eu quero ir. Levo o carro do hotel. Quer dizer, as minhas despesas estão a ser todas pagas.

Tendo em conta as circunstâncias, Laurie concordou que Jennifer a fosse buscar quando chegassem.

- Agora, devo deixar-te regressar ao jantar e à tua companhia.

- Falando na Sra. Benfatti, disse que também dariam uma olhadela ao caso do marido. Espero que não te importes. Como disse, há semelhanças.

- Primeiro veremos as semelhanças e depois decidiremos disse Laurie.

- Mais uma coisa - disse Jennifer. Fui esta tarde à embaixada americana e falei com um funcionário consular muito simpático e que foi muito prestativo.

- Ficaste a saber alguma coisa?

- Ao que parece, a gestora de caso do Queen Victoria estava a dizer a verdade sobre a questão de trazer os corpos para os Estados Unidos. Temos de ultrapassar uma  série de questões burocráticas e é muito caro. Por isso, estou mais inclinada para a cremação.

- Falaremos disso quando aí chegar disse Laurie. Agora volta ao teu jantar.

- Sim senhora comandante. Vemo-nos amanhã à noite disse Jennifer alegremente.

Laurie voltou a pousar o auscultador. Por um momento manteve a mão sobre ele, pensando na relação entre um ataque cardíaco e uma cianose generalizada. Quando o coração  falha, ele deixa de bombear mas não há cianose generalizada. Esta só ocorre quando os pulmões falham, mas o bombeamento de sangue continua.

O telefone sob a mão de Laurie tocou inesperadamente, fazendo-a saltar. Com o pulso acelerado, voltou a levantar o auscultador e tartamudeou um "olá" apressado.

- Queria falar com a Dra. Laurie Montgomery disse uma voz agradável.

- É a própria respondeu Laurie com curiosidade.

- Sou o Dr. Arun Ram. Acabei de falar com a Dra. Shirley Schoener. Ela disse que vai viajar para Nova Deli de imediato, e que se encontra no meio de um ciclo fértil  com utilização de hormonas. Disse também que precisará de manter os folículos sob vigilância e verificar os níveis de estradiol no sangue.

- É verdade. Obrigado por ter telefonado. Esperava que a Dra. Schoener me ligasse com alguns números de telefone para que eu fizesse as chamadas.

- Não me custa nada. Fui eu que sugeri, uma vez que a Dra. Schoener referiu que tinha acabado de falar consigo. Queria que soubesse que me sinto honrado por poder  ajudar. A Dra. Schoener falou-me um pouco sobre si e estou muito impressionado. Houve uma altura, no início do meu treino, em que aspirei a tornar-me patologista  forense, graças à influência das séries americanas. Infelizmente, desencantei-me. As instalações no meu país são muito más, devido à nossa infame burocracia.

- É pena. Precisamos de boas pessoas nesta especialidade e a índia teria tudo a ganhar se as instalações e o campo em si fossem melhorados.

- A Dra. Schoener ligou primeiro para uma colega minha, a Dra. Daya Mishra, que é obviamente uma mulher, por isso, se preferir... Mas a Dra. Schoener também disse  que estava interessada em alguém com privilégios de admissão no Hospital Queen Victoria, por isso a Dra. Mishra recomendou-me.

- Ficaria grata se me pudesse ver. O meu marido e eu temos alguns assuntos a tratar no Hospital Queen Victoria, por isso seria mais conveniente.

- Quando vêm, exatamente?

- Partimos esta noite de Nova Iorque e temos chegada prevista a Deli na quinta à noite, dia 18 de Outubro, às 22:50.

- Em que ponto do presente ciclo fértil se encontra?

- No sétimo dia, mas mais importante que isso, na segunda-feira a Dra. Schoener estimou que, dentro de cinco dias, deveria ser administrada a injeção para libertar  os folículos.

- Então foi vista pela última vez na segunda-feira e estava tudo bem.

- Tudo bem.

- Então creio que terei de a ver na sexta-feira de manhã. A que horas prefere? Qualquer hora serve, já que sexta-feira tenho o dia reservado para investigação, logo  tenho a agenda livre.

- Não sei - disse Laurie. Que tal às 8 da manhã?

- Então às 8 da manhã será disse o Dr. Arun Ram.

Terminada a chamada com o Dr. Ram, Laurie ligou a Shirley e agradeceu-lhe a ajuda.

- Vais gostar dele - disse Shirley. É muito inteligente, tem um sentido de humor fantástico e apresenta bons resultados.

- Não se pode pedir muito mais do que isso - disse Laurie antes de desligar. Com todas as chamadas despachadas, Laurie olhou de relance para o relógio.

Estava na hora de visitar a empresa contratada pela Índia para o serviço de vistos. Tirou os passaportes da mala, o seu e o de Jack, e juntou-os às fotografias que  tinham tirado nessa manhã.

Com os passaportes e as fotos metidos na mala, junto com o celular, Laurie saiu do seu gabinete e dirigiu-se aos elevadores. Quando ouviu a porta do elevador abrir-se,  apressou o passo para o apanhar e acabou por chocar de frente com a colega de gabinete, a Dra. Riva Mehta, que saía do elevador. Ambas pediram desculpas. Laurie  chegou mesmo a rir.

- Minha nossa, estás de bom humor - comentou Riva.

- Acho que sim - respondeu Laurie alegremente.

- Não me digas que estás grávida - disse Riva.

Laurie e Riva não só eram companheiras de gabinete, como também eram confidentes. Riva era a única pessoa, para além de Shirley, com quem partilhara todo o stress do tratamento para a fertilidade.

- Quem me dera - disse Laurie. - Não, eu e o Jack vamos fazer uma visita de emergência à Índia.

Laurie lutava com o elevador, cuja porta tentava desesperadamente fechar-se.

- Isso é ótimo disse Riva. Onde na índia? Riva e os pais tinham emigrado para os Estados Unidos tinha ela 11 anos.

- Nova Deli - respondeu Laurie. Na verdade, vou agora buscar os vistos para a Índia. Volto dentro de meia hora, mais ou menos. Adorava falar contigo sobre isto, talvez me possas dar algumas dicas.

- Com certeza - disse Riva com uma venia.

Laurie enfiou-se no elevador e deixou que a porta insistente se fechasse.

Enquanto descia, pensou sobre o comentário de Riva em relação ao seu bom humor e compreendeu que estava, de fato, eufórica, uma sensação aumentada pelo estado depressivo  em que passara os últimos dois ou três meses. Vagamente, esperou que a pressão da infertilidade não a estivesse a tornar bipolar.

Saindo na cave, Laurie correu para a sala de autópsias. Sabendo que apenas se demoraria alguns instantes, pegou apenas numa bata e num chapéu, e atravessou, com um empurrão, as portas duplas. Embora fossem quase 8:45 Jack e Vinnie eram a única equipe a trabalhar. Muitos dos outros assistentes de morgue estavam a preparar  os ficheiros e os corpos, mas os seus médicos ainda não tinham chegado.

Jack e Vinnie já iam bem adiantados. O corpo em que estavam a trabalhar já tinha a grande incisão em forma de Y, sobre o peito e o abdomen, suturada. Na altura tinham removido a parte de cima do crânio e trabalhavam no cérebro.

- Como é que isso vai? - perguntou Laurie, colocando-se ao lado de Jack.

- Estamos a divertir-nos, como sempre - respondeu Jack, endireitando-se e espreguiçando-se.

- Um típico suicídio por disparo de arma de fogo? - perguntou Laurie.

Jack deu uma curta gargalhada.

- Dificilmente. Neste momento é bastante claro que se trata de um homicídio.

- A sério? perguntou Laurie. Como assim?

Jack esticou-se por cima do cadáver, agarrou no escalpe dobrado do avesso e puxou-o de forma a cobrir o rosto e regressar à sua posição original. No alto, do lado  da cabeça, no centro de uma área rapada, encontrava-se a ferida de entrada, um círculo bem definido e de um vermelho escuro, rodeado por diversos pontos negros de  cerca de 5 a 7 milímetros.

- Caramba - exclamou Laurie. Tens razão. Isto não é um suicídio.

- E não é tudo - disse Jack. O caminho percorrido pela bala é bastante inclinado, de cima para baixo, de tal forma que ela acabou nos tecidos subcutâneos do pescoço.

- Como é que podem saber tanto a partir daqui? perguntou Vinnie.

- É fácil - disse Laurie. - Quando alguém dispara sobre si mesmo, encostam quase sempre o cano à pele. O que acontece depois é que os gases libertados penetram na  pele juntamente com a bala. O resultado é uma ferida de entrada que se torna irregular e estrelada, porque a pele é afastada do crânio e rasga.

- E vês este pontilhado? perguntou Jack, apontando com o cabo de um escalpelo para o anel de pontos negros em redor da ferida. Isso são resíduos de pólvora. Num suicídio,  tudo isto fica dentro da ferida. Depois, voltando-se para Laurie, perguntou: A que distância achas que se encontrava o cano, quando a arma foi disparada?

Laurie encolheu os ombros.

- Talvez a 40 ou 50 centímetros.

- Essa é precisamente a minha idéia concordou Jack. E acho que a nossa vítima estava deitada quando tudo aconteceu.

- É melhor informares o chefe o mais depressa possível - aconselhou Laurie. Este é o tipo de caso que tem invariavelmente consequências políticas.

- Esse é o meu plano - disse Jack. É impressionante como, em tantos casos, depois da autópsia descobrimos que a morte não foi como julgávamos antes, não é?

- É o que faz com que o nosso trabalho seja tão importante disse Laurie.

- Ah! exclamou Jack. Já viste o Calvin?

- Oh, sim! disse Laurie, recordando-se da sua missão. Foi por isso que passei por aqui. Vou a caminho da Travisa para tratar dos nossos vistos para a Índia. O Calvin  deu-nos luz verde para a semana.

- Bolas disse Jack, mas riu antes que Laurie pudesse ficar zangada.

 

                   17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 19:40 - NOVA DELI, ÍNDIA

Raj Khatwani entreabriu a porta da escada de serviço e espreitou para a nesga do corredor do terceiro piso do Aesculapian Medical Center que conseguia ver. Não viu ninguém, mas ouviu um carrinho de medicamentos que se aproximava, com um tilintar de vidros caraterístico. Fechou a porta. Era uma porta forte, à prova de fogo,  mas ainda assim conseguiu ouvir o carrinho a passar.

Encostando-se à parede de cimento, procurou controlar a respiração. A tensão que sentia era tanta que até respirar se tornava numa tarefa difícil. Tinha a testa  salpicada de suor. A única coisa em que conseguia pensar era no renovado respeito que sentia por Veena e por Samira. Agora que estava a meio caminho de liquidar  o seu primeiro paciente, apercebeu-se de que era uma tarefa bem mais complicada do que tinha imaginado, especialmente depois de Samira lhe dizer que era canja. Que  rica canja, pensou involuntariamente.

Quando lhe pareceu que já tinha passado tempo suficiente, voltou a entreabrir a porta. Como não viu ninguém nem se apercebeu de qualquer ruído, abriu a porta um  pouco mais, meteu a cabeça de fora e espreitou para ambos os lados do corredor. As únicas pessoas que se viam eram duas enfermeiras lá ao fundo, junto ao balcão  da recepção no corredor principal, a conversar com um doente do ambulatório. Estavam bastante afastadas e Raj mal conseguia ouvir as suas vozes. Do lado oposto,  antes de se chegar à estufa no fim do corredor, haviam apenas três quartos de doentes. Viam-se estufas nos dois extremos do longo corredor, repletas de plantas e  de cadeiras para os doentes capazes de as usarem.

Raj ainda podia ouvir no seu íntimo a recomendação de Samira: "Passa despercebido, mas se te virem age normalmente. Deixa o teu uniforme de enfermeiro falar por  ti. Passa despercebido!" Raj esboçou um sorriso. Para um homem alto e com um peso um pouco superior a noventa quilos, passar despercebido não era nada óbvio, ainda  para mais num piso de hospital em que enfermeiras e pessoal auxiliar andavam sempre a correr de um lado para o outro, atarefados com mil e uma coisas.

Raj tinha ido nessa tarde ao quarto de Samira e de Veena para se aconselhar, antes de partir para o Aesculapian Medical Center. Na verdade, fizera-o mais por respeito  pelas suas colegas do que por pensar que precisava de ajuda, mas agora que se encontrava ali, achava que tinha sido boa ideia. Samira admitira finalmente que se  tinha sentido nervosa, um fato que lhe agradava saber, pois também ele se encontrava francamente nervoso. Veena, contudo, mantivera-se calada.

Tratando-se do único homem de entre os doze elementos dos Enfermeiros Internacionais, Raj era uma presa apetecível para as restantes onze mulheres, bastante femininas  e atraentes. Tinha uma pele não muito escura, perfeita, o cabelo preto cortado à escovinha, olhos negros penetrantes e, sob o nariz ligeiramente aquilino, tinha  um fino bigode que parecia delineado a lápis. Mas a caraterística dominante era mesmo o físico. Tinha ombros largos, cintura estreita e músculos salientes. Cada  polegada do seu corpo tornava visível o halterofilista entusiasta, o especialista em artes marciais e o cinturão negro que ele era. Contudo, a despeito do seu aspecto,  Raj não era um indivíduo de caraterísticas demasiado masculinas, embora também não fosse efeminado, pelo menos em seu entender. Tão pouco era homossexual. Via-se  apenas como Raj. Aquelas atividades de levantamento de pesos e artes marciais, aparentemente distanciadas do seu carácter, tinham sido originalmente idéia do pai.  Tendo-se apercebido cedo das peculiaridades sociais do filho, quisera de algum modo protegê-lo de um mundo manifestamente cruel. À medida que crescia, Raj começou  a interessar-se pelo levantamento de pesos, devido à curiosidade que o seu físico despertava na maior parte das suas amigas, e gostava das artes marciais porque,  do seu ponto de vista, eram mais uma dança do que um desporto agressivo.

De repente, Raj começou a ouvir nitidamente um som de passos sobre o cimento. Horrorizado, apercebeu-se de que vinha alguém a descer a escada de serviço. Pela proximidade  do ruído, sabia que a pessoa estava quase a chegar ao patamar entre o terceiro e o quarto pisos e, quando o contornasse, Raj ficaria totalmente exposto. Raj sabia  que, se não queria ser visto, só tinha duas escolhas: ou precipitar-se escadas abaixo, se calhar tendo mesmo de descer até à cave, ou sair para o terceiro piso,  correndo o risco de alguém o ver.

Os passos aproximavam-se rapidamente; Raj tinha de se decidir! Estava em pânico. O som tornou-se mais surdo, sinal de que o indivíduo estava a chegar ao patamar.  Com um pânico crescente, Raj abriu a porta do terceiro piso, apenas o suficiente para passar, e depois fechou-a com a anca. Dando-se conta de que tinha estado a  reter a respiração, Raj recomeçou a respirar, ao mesmo tempo que olhava para um e outro lado do corredor. Atrás de si, na escada de serviço, podia ouvir os passos, agora abafados, que seguiam na direção do patamar do terceiro piso. Receando que a pessoa fosse sair ali, Raj afastou-se da porta de serviço e dirigiu-se  para o quarto do seu paciente. Tinha sido forçado a agir. Sentia-se como alguém à beira de uma piscina, com medo de se atirar, e que alguém empurrou para dentro  de água. Raj não olhou para trás até chegar à porta do quarto de David Lucas.

Mesmo à sua frente, do quarto a seguir, surgiram duas enfermeiras, embrenhadas numa conversa sobre o tratamento do paciente. Por sorte, encaminharam-se de imediato  para a recepção. Se tivessem olhado na direção oposta, dariam de caras com Raj, que se encontrava apenas a três metros de distância e ele teria sido obrigado a dar-lhes  sérias explicações.

Felizmente, conseguiu entrar no quarto passando despercebido, mas uma vez lá dentro parou. Ouvia-se o rumor de uma conversa. David Lucas não se encontrava sozinho.

Sem saber se devia continuar ali ou desaparecer, Raj quedou-se estático. Um segundo mais tarde sentiu-se invadido por uma onda de alívio. Não era nenhuma visita,  era a televisão. Subitamente confiante, Raj deu mais alguns passos no aposento e contornou a parede exterior do banheiro, o que lhe permitiu ter uma visão do doente,  impressionantemente obeso, recostado na cama. O doente estava a dormir. Uma sonda nasogástrica, ligada a um aspirador de líquidos, saía-lhe por uma das narinas.  No recipiente podia ver-se cerca de meia chícara de um fluido amarelado, tingido de sangue. Um monitor cardíaco, na parede atrás do Sr. Lucas, emitia som a um ritmo  regular. A cena era em todos os aspectos idêntica à que Raj deixara às três da tarde, quando saíra de serviço.

Raj introduziu a mão no bolso das suas calças de enfermeiro e tirou de lá a seringa que tinha preparado previamente no bangalô. Ao contrário de Veena e de Samira, não tivera de ir buscar a succinilcolina à sala de operações vazia, e estava satisfeito por isso. Sabia que devia agradecer a Samira, e já o fizera.

Depois de inspecionar a seringa para se certificar de que não tinha escorrido nenhum líquido, uma possibilidade a ter em conta, uma vez que tinha enchido a seringa de Occ. até ao limite, Raj sentiu-se pronto para entrar em ação. Enchera a seringa assim deliberadamente, pois a última coisa que queria era não injetar a quantidade suficiente do produto.

Indo novamente até à porta, Raj espreitou uma última vez para os dois lados do corredor. Havia uma enfermeira que caminhava na sua direção, mas entrou num quarto e desapareceu. Convicto de que aquela era a altura ideal, voltou para junto da cama. Pegou cuidadosamente na sonda sem a puxar, tirou a tampa da agulha com os dentes e em seguida introduziu delicadamente a agulha através do orifício da sonda. Não precisava de se preocupar com questões de esterilização. A postos, Raj aguardou mais uns instantes para ver se ouvia qualquer ruído suspeito do corredor, que se sobrepusesse ao som da televisão. Não ouvindo nada, usou ambas as mãos para despejar todo o conteúdo da seringa na sonda, o que produziu uma grande bolha. Como não tinha bloqueado previamente a parte superior da sonda, a primeira coisa de que se apercebeu foi de um rápido aumento do nível do líquido  dentro da câmara de filtragem (de tipo Milipore). Mas a reação do doente deixou esse fato para segundo plano. Tal como Samira o tinha prevenido, os músculos faciais  de David Lucas contraíram-se, ao mesmo tempo que os seus olhos se abriram subitamente. E quando as extremidades dos membros começaram a fazer movimentos espasmódicos, soltou também um grito.

Raj recuou um passo, chocado com aquilo a que estava a assistir. Embora o tivessem prevenido, aquela reação fora muito mais rápida e desconcertante do que tinha  previsto. Ficou a assistir ao esforço do doente para se erguer, apenas para voltar a tombar como um saco de gelo cheio de líquido. Com um sentimento de repulsa,  Raj deu meia volta e saiu precipitadamente. Mas não foi longe. Quando escancarou a porta que dava para o corredor, esbarrou literalmente com um personagem vestido  de branco que acabava de levantar a mão para abrir uma porta que, por causa de Raj, já não se encontrava no lugar onde devia estar.

O embate empurrou-os para o corredor, e Raj envolveu o homem num abraço para evitar derrubá-lo.

- Peço imensa desculpa - balbuciou o enfermeiro, confuso. A colisão fora completamente inesperada e, para piorar as coisas, ele reconheceu o homem. Era o Dr. Nirav Krishna,  o cirurgião de David Lucas, que fazia a sua última ronda antes de ir para casa.

- Santo Deus, homem - disse o Dr. Krishna num tom de voz brusco. Para quê tanta pressa?

Por um breve instante de puro pânico, Raj procurou pensar em qualquer coisa para dizer. Compreendendo que não tinha outra saída, disse a verdade.

- Trata-se de uma emergência. O Sr. Lucas está muito mal.

Sem pronunciar uma palavra, o Dr. Krishna desembaraçou-se de Raj e precipitou-se para dentro do quarto. Quando chegou ao leito, viu que David Lucas estava a ficar  cianótico. Pelo canto do olho viu o monitor indicar que o ritmo cardíaco era relativamente normal. Foi então que reparou que o doente não estava a respirar. Não  chegou a ver nenhum espasmo, porque estes já tinham cessado.

- Vá buscar um carro da urgência! - berrou o Dr. Krishna, e a seguir arrancou o tubo nasogástrico e atirou-o para um canto. Depois pegou no comando da cama e começou  a baixar a cabeceira. Ao ver Raj parado no mesmo lugar, voltou a gritar-lhe para que fosse buscar o carro. Iam ter de fazer a reanimação do doente.

Raj recuperou do entorpecimento, mas não do terror. Saiu a correr do quarto e continuou pelo corredor fora até à sala dos enfermeiros, onde estavam arrumados os carrinhos das urgências. Enquanto corria, ia pensando no que havia de fazer. A única alternativa que lhe pareceu viável foi que devia ajudar. O cirurgião tinha-o visto bem, e se ele se limitasse a desaparecer seria seguramente implicado no caso. Quando chegou à sala, Raj gritou às duas enfermeiras que estavam sentadas à secretária  que havia uma parada cardíaca no doente do quarto 304. Sem se deter, abriu a porta da arrecadação onde estava arrumado o carrinho da urgência, agarrou nele, tirou-o  de lá e depois voltou rapidamente para o quarto de David Lucas, fazendo uma enorme barulheira durante todo o processo. Quando lá chegou, as luzes estavam acesas.  O Dr. Krishna estava a fazer respiração boca a boca e, para profundo horror de Raj, o Sr. Lucas não parecia estar muito mal; a cianose tinha desaparecido quase por  completo.

- Máscara de oxigênio - gritou o Dr. Krishna. Uma das enfermeiras que tinha ido a correr atrás de Raj, tirou-a do carrinho e lançou-a na direção do médico. O Dr. Krishna  pôs a cabeça do paciente em posição, colocou a máscara e começou a ventilar a vítima. Agora o peito movia-se ainda melhor do que quando lhe estava a dar a respiração  boca a boca. Oxigênio! gritou o Dr. Krishna. A outra enfermeira colocou o cilindro por cima da cabeceira da cama e, entre as compressões do Dr. Krishna, ligou-o  à máscara. Em poucos segundos a cor do Sr. Lucas melhorou a olhos vistos; agora era francamente rosada.

Enquanto estas atividades se desenrolavam, Raj teve a oportunidade de ponderar na confusão em que estava metido. Nem sequer tinha a certeza do que seria melhor,  que o doente morresse ou se salvasse. Também não sabia se seria melhor para si escapulir-se discretamente ou permanecer ali; e na incerteza, deixou-se ficar parado.

Nesse momento, o médico do turno da noite, a Dra. Sarla Dayal, chegou a correr. Juntou-se ao grupo que estava à cabeceira da cama e o Dr. Krishna fez-lhe um breve  resumo da ocorrência.

- Quando aqui cheguei, ele estava completamente cianótico - disse o Dr. Krishna e o monitor cardíaco parecia normal, mas isso é apenas um aspecto da questão. O problema  é que ele tinha deixado de respirar.

- Acha que teve uma hemorragia? inquiriu a Dra. Dayal. Talvez um ataque cardíaco que tivesse levado a qualquer tipo de hemorragia. O doente tem um historial de doença  arterial oclusiva.

- Talvez tenha sido isso - concordou o Dr. Krishna. Parece-me que o monitor cardíaco está agora a dizer-nos alguma coisa. O ritmo está claramente a baixar. A Dra. Dayal  pôs uma mão no peito do doente.

- A pulsação está a baixar e parece muito fraca.

- Talvez tenha a ver com a obesidade do doente.

- Também me parece muito quente. Verifique. Eu faço a ventilação.

O Dr. Krishna voltou a máscara de oxigênio na direção da médica de serviço e pôs a mão no peito de David Lucas.

- Também me parece. - Olhou para uma das enfermeiras. - Vamos medir-lhe a temperatura! A enfermeira acenou afirmativamente e foi buscar o termômetro do doente.

- Há algum cardiologista de serviço? perguntou o Dr. Krishna.

- Há com certeza - respondeu a Dra. Dayal. Dirigiu-se à outra enfermeira e disse-lhe para telefonar ao Dr. Ashok Mishra e dizer-lhe para vir imediatamente. Diga-lhe  que é uma urgência acrescentou ela.

- O ritmo cardíaco continua a baixar e não estou a gostar disto - disse o Dr. Krishna, observando o monitor. Vamos lá ver o nível de potássio.

A enfermeira que não estava ao telefone recolheu uma amostra de sangue e foi a correr para o laboratório.

Para não estorvar, Raj foi recuando lentamente até se encostar à parede. Dava graças por as pessoas estarem tão concentradas na reanimação do doente que nem davam  pela sua presença. A idéia de sair dali para fora voltou a passar-lhe pela cabeça, mas o receio de dar nas vistas fez com que permanecesse no mesmo lugar.

- O Dr. Mishra vem assim que puder - gritou a enfermeira, pousando o auscultador. Está quase a terminar de acudir a outra urgência.

- Isto não me cheira nada bem - disse o Dr. Krishna. Tenho um mau pressentimento. A bradicardia progressiva já devia ter cessado. Este coração está definitivamente com  problemas. Não sou um especialista, mas parece-me que o intervalo QRS está a cada vez maior.

- O doente está realmente febril - disse a enfermeira, olhando para o termômetro incrédula.

- Qual é a temperatura? perguntou o Dr. Krishna.

- Quase quarenta e três.

- Merda! gritou o Dr. Krishna. É uma hiperpirexia. Vá buscar gelo!

A enfermeira saiu do quarto a correr.

- Deve ter razão, Dra. Dayal - resmungou o Dr. Krishna. Devemos estar perante um caso de ataque cardíaco e hemorragia.

A enfermeira que tinha ido a correr ao laboratório regressou. Estava sem fôlego, mas conseguiu dizer:

- O nível de potássio de emergência é de 9, unidades por litro. O técnico diz que nunca viu valores tão elevados, por isso vai repetir a análise.

- Céus! exclamou o Dr. Krishna. Nunca vi um nível de potássio assim. Vamos dar-lhe um pouco de gluconato de cálcio: dez mililitros numa dissolução a dez por cento.

- Vá fazer a preparação. Vamos dar-lhe daqui a alguns minutos. Outra coisa, quero vinte unidades de insulina normal. E há resina permutadora de catiões? Se houver,  traga.

A enfermeira regressou com o gelo. O Dr. Krishna deitou-o por cima do doente e uma boa parte caiu ruidosamente no chão. A enfermeira saiu de seguida a toda a pressa  para ir buscar a resina, enquanto a colega começou a tomar nota do tratamento por escrito.

- Raios! gritou o Dr. Krishna quando o registro do monitor ficou horizontal.

- Perdemos a pulsação. Subiu para cima da cama e começou a fazer massagem cardíaca.

A tentativa de reanimação prolongou-se por mais vinte minutos, mas apesar da medicação, do gelo, da resina permutadora de catiões, e de muitos e variados esforços,  o batimento cardíaco não foi recuperado.

- Penso que vamos ter de desistir - declarou por fim o Dr. Krishna. É evidente que o que estamos a fazer não está a resultar. E receio que o rigor mortis já se esteja  a instalar, provavelmente devido à hipertermia do paciente. É altura de pararmos. Deixou então de fazer pressão sobre o peito. Embora há dez minutos atrás a Dra.  Dayal se tivesse oferecido para o revezar, ele tinha recusado. "É meu paciente", explicou.

Depois de agradecer às duas enfermeiras e à Dra. Dayal pela ajuda, o Dr. Krishna voltou a puxar para baixo as mangas da bata branca, que tinha arregaçado quando  iniciara a tentativa de reanimação, e dirigiu-se para a porta.

- Eu trato da papelada - declarou, olhando por cima do ombro enquanto os outros começavam a apanhar o lixo, a pôr o quarto em ordem e a preparar o corpo.

- Por causa daquela diretiva que a administração enviou hoje mesmo por correio eletrônico, no sentido de declarar os óbitos imediatamente, vou contatar também o diretor-geral  Khajan Chawdhry para lhe dar as más notícias.

- Obrigado, Dr. Krishna - disseram as duas enfermeiras ao mesmo tempo.

- Se quiser, eu telefono a Khajan ofereceu-se a Dra. Dayal.

- Acho que devo ser eu a fazê-lo retorquiu o Dr. Krishna. Ele era meu paciente, e devo ser eu a assumir quaisquer problemas que este caso venha a gerar. Com todas  as mortes que têm havido no Queen Victoria a atrair as atenções dos media internacionais, este episódio vai no mínimo ser considerado muito inconveniente. Tenho  a certeza de que vai haver grandes pressões para que o caso seja abafado e despachado rapidamente. É péssimo, porque em circunstâncias normais eu gostaria realmente  de saber qual foi a sequência fisiológica dos acontecimentos, a começar pelo historial clínico de doença coronária obstrutiva, até à hipertermia e ao nível do potássio  assustadoramente elevado.

- Duvido que alguma vez cheguemos a saber - disse a Dra. Dayal. Também me parece que a administração vai querer abafar isto. Mas se Khajan quiser falar comigo, diga-lhe que estou aqui no hospital e à sua inteira disposição.

O Dr. Krishna acenou por cima do ombro para indicar que tinha ouvido. Estava quase a chegar à pequena passagem que conduzia à porta de saída do quarto, quando passou  por Raj. Por instinto, o seu olhar voltou-se vivamente para ele.

- Santo Deus, homem, esqueci-me completamente de si. Acompanhe-me! disse o Dr. Krishna, fazendo sinal a Raj para que o seguisse. Em seguida transpôs a porta, seguindo  à frente de Raj.

Na esperança vã de que poderia continuar a ser ignorado e que se esqueceriam dele, Raj seguiu relutantemente o cirurgião. Uma vez mais tinha o coração a bater desordenadamente.  Não sabia o que estava para acontecer, mas não ia ser coisa boa.

O Dr. Krishna esperava-o lá fora no corredor.

- Desculpe ter-me esquecido de si, meu rapaz disse o cirurgião. Estava seriamente preocupado, mas agora estou a reconhecê-lo. Vi-o esta manhã quando passei por aqui  para ver como estava o Sr. Lucas. É o enfermeiro de dia, se não estou em erro. Diga-me outra vez como se chama?

- Raj Kahtwani - disse Raj, hesitante.

- Sim, claro, Raj! Caramba, você tem um horário comprido.

- Não estou a trabalhar. Saí de serviço às três horas.

- Mas ainda está no hospital, e dá efetivamente a impressão de que está de serviço, de uniforme e tudo.

- Regressei ao hospital para ir à biblioteca. Queria informar-me sobre a operação que fez ao Sr. Lucas. A cirurgia de obesidade não estava incluída no meu currículo  da escola de enfermagem.

- Fico muito impressionado! Faz-me lembrar quando eu tinha a sua idade! A auto-motivação é a chave do sucesso na medicina. Venha, acompanhe-me até ao balcão principal.

Os dois homens começaram a andar, com Raj a sentir cada vez mais dificuldades em resistir à tentação de fugir. Sabia que quanto mais tempo ali ficasse, mais probabilidades  havia de se incriminar, conseguia sentir a seringa da succinilcolina no bolso das calças, a fazer pressão sobre a anca.

- Andou a pesquisar alguma questão a que eu possa responder-lhe?

Raj procurou desesperadamente pensar numa pergunta que pudesse fazer e que tornasse credível o fato de ter estado realmente a estudar.

- Hum... disse em voz alta. Como é que sabe exatamente a porção de estômago que deve tirar?

- Boa pergunta - disse o Dr. Krishna, mudando para um tom de voz profissional e fazendo gestos elaborados com as mãos enquanto respondia. Reparou que Raj desviou ansiosamente os olhos para a porta das escadas de serviço quando passaram por ela. O cirurgião deteve-se, interrompendo o discurso.

- Peço desculpa disse. Tem de ir a algum lado?

- Tenho de voltar para casa respondeu Raj.

- Então não lhe roubo mais tempo - disse o Dr. Krishna. Mas tenho uma pergunta que gostaria de lhe fazer. Por que razão se encontrava no quarto do Sr. Lucas precisamente  no momento em que se deu o incidente fatal?

O cérebro de Raj procurou desesperadamente uma explicação. Sabia que quanto mais tempo hesitasse, menos convincente pareceria, o que o deixava ainda mais tenso.

- Depois de ter estado a ler, quis fazer algumas perguntas ao paciente. Mas no preciso momento em que cheguei ao quarto, apercebi-me de que algo profundamente errado  se estava a passar.

- Ele estava consciente?

- Não sei. Estava a contorcer-se como se estivesse com dores.

- Isso foi provavelmente o ataque cardíaco. Normalmente é o que mata estes doentes com excesso de peso. Bem, quase salvou o dia. Obrigado.

- Não tem de quê - disse Raj e engoliu em seco, quase denunciando a farsa. Nem conseguia acreditar que lhe estivessem a agradecer.

- Se estiver interessado, tenho alguns artigos de jornal excelentes sobre a cirurgia da obesidade que lhe posso emprestar.

- Isso seria ótimo - conseguiu dizer Raj.

Depois de um rápido aperto de mão, os dois homens separaram-se e Raj desapareceu nas escadas de serviço, enquanto o Dr. Krishna se dirigiu para o balcão central,  a fim de preencher a certidão de óbito e telefonar para a assistente social e para Kahjan Chawdhry.

Quando se viu nas escadas de serviço, Raj teve de fazer uma pausa. O coração batia tão depressa que até sentia tonturas. Agachou-se durante cerca de vinte segundos,  o que aliviou as tonturas, e depois de limpar o suor frio da testa, voltou a pôr-se de pé, amparando-se ao corrimão. Aliviado, desceu alguns degraus e quando sentiu  que tinha voltado ao seu estado normal, correu pelas escadas abaixo até ao piso da saída.

Satisfeito por o átrio se encontrar deserto, Raj atravessou-o quase a correr em direção à porta e deixou o edifício. Na rua esforçou-se por andar um pouco mais devagar,  sentindo dificuldade em não ceder ao pânico e desatar a correr. Sentia-se como um assaltante, ao sair de um banco com todo o dinheiro e com todos os olhos postos  nele. Estava à espera de ouvir a qualquer momento um apito estridente e um grito a ordenar-lhe que parasse.

Ao chegar à rua ainda apinhada de gente, Raj acenou a um riquexó motorizado, e só quando o Aesculapian Medical Center desapareceu do pequeno retrovisor é que ele começou a relaxar. Ao olhar em frente numa espécie de transe, Raj recapitulou todo o episódio com terror. Tinha medo de contar aos outros, mas tinha ainda mais medo  de não contar, na incerteza de quais seriam as consequências.

Depois de transpor a porta da frente do bangalô, Raj parou à escuta. Conseguia ouvir a vibração dos graves no grande altifalante do sistema de vídeo da sala de estar,  por isso dirigiu-se para lá. Encontrou Cal, Durell. Petra e Santana, juntamente com Veena, Samira e mais duas enfermeiras, que estavam a ver um DVD de ação. Durell  estava entusiasticamente absorvido e encorajava os protagonistas, que se debatiam com dificuldades insuperáveis.

Raj foi por trás de Cal e após um momento de hesitação, tocou-lhe levemente no ombro.

Por causa da tensão do filme, Cal sobressaltou-se quando sentiu o toque, olhou para ver quem o estava a chamar, e depois interrompeu a sessão.

- Raj! Estamos contentes por te ver de volta. Como é que a coisa correu?

- Receio que não tenha corrido nada bem - admitiu Raj, e desviou os olhos de Cal, olhando para o chão. Foi um desastre.

Houve um momento de silêncio, enquanto todos os olhares convergiam para Raj.

- Sempre achei que não devíamos ter continuado tão cedo - explodiu Veena. Deviam ter-me dado ouvidos!

Cal levantou a mão para que ela se calasse.

- Acho que devemos ouvir o Raj antes de tirarmos conclusões precipitadas. Diz-nos como é que as coisas se passaram, Raj. Não omitas nenhum detalhe.

Raj contou toda a história sem lhe dar grandes retoques, desde a colisão com o médico, até ao agradecimento deste no corredor do hospital após a tentativa frustrada  de reanimação. Quando terminou, deixou-se ficar em silêncio, ainda a olhar para o chão e evitando os olhares dos outros.

- E é tudo? perguntou Cal, depois de um breve silêncio. Cal sentia-se aliviado. Ele e todos os outros estavam à espera de algo muito pior, como, por exemplo, de Raj  ter sido acusado de fazer aquilo que efetivamente fizera. Deixem-me só recapitular. O diagnóstico foi ataque cardíaco e um qualquer tipo de hemorragia. É isso que  vai constar da certidão de óbito?

Raj assentiu.

- Foi o que percebi.

- E não ouviste nada sobre um inquérito, autópsia, ou qualquer gênero de investigação?

- Não. Nada que se parecesse. O que ouvi o cirurgião dizer foi que tinha chegado uma mensagem por correio eletrônico que o obrigava a telefonar ao diretor-geral do hospital para declarar o óbito imediatamente. Parece que estão preocupados com as atenções internacionais que as duas mortes no Hospital Queen Victoria despertaram. Querem impedir que a morte de hoje seja do domínio público.

- Isso quase parece bom de mais - disse Cal. Dadas as circunstâncias, não consigo imaginar um melhor desfecho para este potencial desastre. Parece-me que fizeste um  trabalho sensacional, Raj.

Raj começou a sentir-se aliviado. O seu olhar encontrou-se mesmo com os de alguns dos outros. Por iniciativa de Cal, houve mesmo um aplauso coletivo.

- Vamos buscar umas garrafas de Kingfisher ao frigorífico e fazer um brinde ao Raj disse Cal.

- E quanto a fazermos uma pausa? perguntou Veena. Acho que agora devíamos parar, pelo menos durante alguns dias. Não devemos abusar da sorte.

- Parece-me muito sensato - disse Cal mas vamos tirar o máximo de dividendos deste caso. Arranjaste a gravação que o hospital fez do doente? perguntou Cal a Raj. Raj  meteu a mão num bolso e tirou uma pen e a seringa de succinilcolina. Cal pegou na pen e entregou-a a Santana. Vamos enviar este episódio fatal diretamente para a  CNN. Com a tentativa falhada de reanimação, deve dar uma boa história e produzir ainda maior impacto. Convence-os a porem isto no ar com a maior brevidade.

Santana pegou na pen.

- Isto deve demorar apenas uns minutos, depois estarei de volta para a tal cerveja. Esperem por mim.

 

                   17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 21:05 - NOVA DELI, ÍNDIA

O sono de Jennifer nunca andara tão perturbado. De regresso ao quarto depois de ter jantado com Lucinda Benfatti, estava tão cansada que quase adormeceu enquanto estava a lavar os dentes. Mas, uma vez deitada e com as luzes apagadas, o seu espírito começou a divagar. Sem se dar conta, estava a antecipar, com grande excitação,  a chegada de Laurie e de Jack, e a pensar se não deveria ter reservado já uma das camionetas do hotel para ir buscá-los. Aparentemente, era entre as dez da noite  e as duas da madrugada que chegava a maior parte dos voos internacionais, sendo a altura em que a procura de veículos do hotel devia ser mais intensa.

Preocupada com o fato de provavelmente já não ir a tempo, Jennifer sentou-se, acendeu a luz e telefonou para o concierge. Ao conversar com ele ficou a saber uma  coisa que desconhecia. A viagem até ao aeroporto, para ir buscar os hóspedes do Amai Palace era grátis, e um veículo tinha sido já destinado para Laurie e Jack.  Perguntou se podia ir na camioneta e o funcionário assegurou-lhe que sim, tendo-lhe ainda comunicado a hora da partida e prometido que ia informar o transporte de  que ela também ia.

Resolvido esse assunto, Jennifer voltou a apagar a luz e enroscou-se debaixo dos cobertores. Primeiro começou por se deitar de costas, com as mãos confortavelmente  entrelaçadas sobre o peito. Mas a questão da reserva do transporte despertou o seu cérebro, e viu-se embrenhada em divagações a propósito da conversa que Laurie  e Jack iriam ter com a assistente social, se teriam mais sorte que ela, e no significado que isso teria em relação a uma possível autópsia.

Alguns minutos mais tarde Jennifer voltou-se de lado, ao mesmo tempo que a questão da cianose lhe ocupava os pensamentos, e perguntou a si mesma se Herbert Benfatti  estivera cianótico e como podia tirar isso a limpo.

Cinco minutos depois, estava deitada de barriga para baixo a pensar no que iria fazer no dia seguinte. Não tinha seguramente a menor intenção de ir para o Hospital Queen Victoria olhar para o ar e ser chateada todo o santo dia. Pensou que podia experimentar fazer um pouco de turismo, embora com as preocupações que tinha, calculasse que iria aborrecer-se. Conhecia-se a si própria suficientemente bem para  saber que, mesmo em circunstâncias melhores, não era muito do gênero de andar a fazer turismo, pelo menos no que respeitava a velhos edifícios e túmulos. O que lhe  interessava eram as pessoas.

Chegada a este ponto, começou a pensar nos escassos conhecimentos que tinha sobre a Índia, sobre os indianos e sobre a cultura indiana em geral.

- Raios! - disse subitamente Jennifer na escuridão. Apesar de o corpo insistir em dizer-lhe que estava exausta, tinha o espírito a zumbir como o interior de uma colméia. Com um sentimento de frustração, sentou-se, acendeu o candeeiro da mesinha de cabeceira e levantou-se da cama. No armário da entrada, conseguiu descobrir  os variados guias da índia que tinha adquirido no aeroporto de Los Angeles; levou-os para o quarto e espalhou-os em cima da cama. A seguir foi até ao televisor,  deslocou-o da posição em que se encontrava, apontado para o sofá, e virou-o na direção da cama. Saltou de novo para dentro da cama e serviu-se do comando para sintonizar  a CNN Internacional. Praguejou de novo, quando se apercebeu de que se tinha esquecido de trazer a água. Voltou a sair da cama e foi ao frigorífico do mini-bar, tirou  de lá uma garrafa de água mineral e tirou a tampa. De regresso à cama, aconchegou as almofadas e instalou-se confortavelmente, encostando-se à cabeceira. Quando  finalmente achou que estava confortável, abriu um dos guias na secção dedicada à Velha Deli.

Enquanto os apresentadores da CNN pairavam acerca dos inteligentes empresários franceses, que andavam a planejar a construção de hotéis inspirados na Disney, para  o Dubai, Jennifer ia lendo acerca do Forte Vermelho, que tinha sido edificado pelos imperadores Mogóis. Havia uma quantidade enorme de fatos, de números, de nomes  e de datas. Na página seguinte encontrava-se a descrição da maior mesquita da índia, com estatísticas igualmente enfadonhas, tais como a quantidade de pessoas que  podia acolher nas cerimónias das sextas-feiras. Foi então que se deparou com algo que realmente a interessava: uma descrição pormenorizada do mercado renovado da  Velha Deli.

Jennifer estava a tentar localizar o mundialmente famoso mercado de espetiarias no plano que constava do guia, quando a sua atenção foi atraída para o que se estava  a passar na televisão. A apresentadora estava a anunciar:

Na sequência das notícias sobre as duas mortes ocorridas nos hospitais indianos para turistas, até recentemente merecedores de elogios, fomos informados de que uma  terceira morte terá ocorrido há cerca de uma hora. Ao contrário das duas primeiras mortes, que se deram no Hospital Queen Victoria em Nova Deli, a trágica morte desta noite ocorreu no Aesculapian Medical Center, também em Nova Deli, sendo a vítima um homem saudável, embora obeso, de quarenta e oito anos e natural de Jacksonville, Florida, chamado David Lucas, que fora operado esta manhã para a colocação de uma banda gástrica. Deixa mulher e dois filhos com idades de dez e  doze anos.

Estupefata, Jennifer endireitou-se.

É uma verdadeira tragédia reforçou o apresentador, especialmente se tivermos em consideração as crianças envolvidas. Informaram qual tinha sido a causa da morte?

Informaram. Aparentemente foi uma mistura de ataque cardíaco e hemorragia.

É horrível. As pessoas vão à índia para poupar alguns dólares, e zás, regressam dentro de um caixão. Se eu tivesse de fazer uma intervenção cirúrgica e a escolha  fosse entre poupar dinheiro e morrer, ou gastar um pouco mais e continuar vivo, tenho a certeza de que sei o que escolhia.

Sem dúvida. E parece que há muitos outros pacientes a reagir da mesma maneira. A CNN está a ser inundada de telefonemas e mensagens de pessoas que cancelaram as  intervenções cirúrgicas que tinham marcadas na Índia.

Não me espanta nada disse o apresentador. Como já disse, se fosse comigo, era de certeza absoluta o que faria.

Quando os apresentadores passaram para outro tema, relacionado com o Dia das Bruxas, que era daí a apenas duas semanas, Jennifer baixou o som da televisão. Sentia-se  de novo perplexa. Mais um ataque cardíaco num hospital privado indiano, envolvendo um americano saudável e que ocorria mais ou menos dentro do mesmo período pós-operatório.  Olhou para o relógio e procurou calcular que horas seriam em Atlanta. Estimou que fossem cerca das onze e meia da manhã. Impulsivamente, agarrou no telefone e através  do assistente de endereços AT&T conseguiu ligar para a CNN. Depois de explicar qual o assunto que a levava a telefonar, e de ter sido encaminhada de um departamento  para outro, conseguiu finalmente ter em linha uma mulher que parecia estar a par do assunto. A mulher disse que se chamava Jamielynn.

- É sobre a morte de um turista num hospital. Eu vi apenas uma parte da notícia na CNN Internacional disse Jennifer. O que gostaria de saber era quem...

- Desculpe, mas não divulgamos nada que envolva as nossas fontes disse Jamielynn, interrompendo Jennifer.

- Já receava isso - disse Jennifer. Mas qual a hora a que a história desse caso vos chegou? Isso não compromete em nada a vossa fonte.

- Suponho que não - concordou Jamielynn. Vou perguntar! Não desligue!

- Jamielynn demorou alguns minutos a regressar. Posso dizer-lhe a hora a que chegou, mas nada mais. A informação chegou-nos às dez horas e quarenta e um minutos da manhã, hora de leste, e foi difundida às onze e dois.

- Obrigada disse Jennifer. Tomou nota no bloco de apontamentos que estava junto do telefone. Em seguida ligou para a recepção e pediu o número do Aesculapian Medical  Center. Quando lho deram, marcou o número. O telefone tocou várias vezes até atenderem. Quando isso sucedeu, pediu que lhe ligassem para o quarto de David Lucas.

- Lamento, mas não estamos autorizados a ligar para os quartos dos doentes depois das oito.

Como é que os familiares fazem para ligar depois das oito? Jennifer pensou que já sabia a resposta, mas mesmo assim quis perguntar.

- Têm o número direto.

Jennifer desligou sem se despedir. Sentiu que estava em maré de sorte, e chamou o concierge. Perguntou se havia uma Sra. David Lucas hospedada no hotel. Enquanto  aguardava, pensou se seria capaz de arranjar coragem para ligar à mulher tão pouco tempo após a ocorrência.

- Lamento, mas não temos nenhuma Sra. David Lucas registrada no nosso hotel disse o concierge.

- Tem a certeza? - perguntou Jennifer. Sentiu-se imediatamente desanimada.

O concierge soletrou o nome e perguntou se Jennifer soletrava de maneira diferente. Jennifer disse que não e já ia desligar, desanimada, quando teve uma idéia.

- Estou hospedada no Hotel Amal Palace por causa do Hospital Queen Victoria. Os outros hospitais privados instalam os parentes mais próximos dos seus pacientes estrangeiros  noutros hotéis?

- Sim, é uma prática habitual respondeu o concierge. O Queen Victoria também o faz quando nós estamos cheios.

- Pode dizer-me quais os hotéis em que posso experimentar?

- Com certeza. Qualquer um dos restantes hotéis de cinco estrelas. O Taj Mahal, o Oberoi, o Imperial, o Ashok e o Grand são os mais populares, mas também se recorre  ao Park e ao Hyatt Regency. Depende das vagas. Se quiser ligar para algum destes hotéis, a telefonista terá muito gosto em fazê-lo.

Seguindo o conselho do concierge, Jennifer telefonou para os outros hotéis pela ordem em que tinham sido mencionados. A procura não demorou muito tempo. À terceira  tentativa, o Imperial, acertou.

- Deseja que faça a ligação? perguntou a telefonista do Imperial.

Jennifer sentiu-se hesitante. Ia perturbar e preocupar seriamente aquela mulher, quer ela tivesse conhecimento do que acontecera ao marido, quer não. No entanto, dadas as semelhanças entre os casos da sua avó, do Sr. Benfatti e o atual, achou  que não tinha muita escolha.

- Se não se importar - disse Jennifer, finalmente.

Jennifer fez um trejeito enquanto ouvia o telefone a chamar. Quando responderam, deu um salto e tropeçou nas palavras ao explicar quem era, ao mesmo tempo que se  desfazia em desculpas por estar a incomodar.

- Não incomoda nada disse a sra. Lucas. E por favor, trate-me por Rita.

Logo que souberes por que te estou a telefonar, já não vais querer que te trate por Rita, disse  Jennifer de si para si, enquanto se esforçava por arranjar coragem para começar. Para ela já era evidente que, tal como tinha acontecido consigo e com a sr.a Benfatti,  Rita não fora informada da morte do marido, apesar de a CNN já saber do assunto. Para suavizar o golpe, explicou à mulher o que tinha acontecido com ela e com Lucinda  em relação à CNN.

- É horrível ser-se informada dessa maneira - disse Rita, manifestando simpatia, mas a sua voz diminuiu de intensidade quando, relutantemente, pressentiu qual era  a razão que levara Jennifer a telefonar-lhe às nove da noite.

- Sim - concordou Jennifer especialmente quando nos Estados Unidos eles se esforçam ao máximo por evitar que isso aconteça, pois querem que seja a família a ser informada  em primeiro lugar. Mas, sra. Lucas, apenas há alguns instantes, eu liguei o televisor na CNN Internacional, e os apresentadores começaram a falar da tragédia do  falecimento do seu marido.

Tendo finalmente conseguido dizer o que queria, Jennifer calou-se. À medida que os segundos passavam, Jennifer não sabia se devia expressar simpatia ou esperar que  a Sra. Lucas respondesse. O tempo ia passando e Jennifer não podia continuar calada.

- Lamento profundamente ter sido eu a dar-lhe esta horrível notícia, mas existe uma razão para isso.

Trata-se de alguma partida cruel? perguntou Rita com voz irada.

- Garanto-lhe que não - disse Jennifer, sensível à raiva e à dor da outra mulher.

- Mas eu deixei o David há apenas pouco mais de uma hora e ele estava perfeitamente bem - berrou ela.

- Compreendo o que está a sentir, com uma estranha a telefonar-lhe assim sem mais nem menos, Sra. Lucas. Mas garanto-lhe que está a ser noticiado em todo o mundo que  David Lucas, de Jacksonville, Florida, faleceu no Aesculapian Medical Center há pouco mais ou menos uma hora e que deixou mulher e dois filhos.

- Valha-me Deus! proferiu Rita, desesperada.

- Sra. Lucas, por favor telefone para o hospital e certifique-se. Se for verdade, e faço votos para que não seja, por favor ligue-me. Só estou a tentar ajudar. E se  for verdade e eles tentarem pressioná-la para que o corpo seja cremado ou embalsamado imediatamente, peço-lhe que não o permita, pois a experiência que tive com o hospital onde a minha avó e o Sr. Benfatti foram operados diz-me que há qualquer coisa que não bate certo, que não bate mesmo nada certo, com o turismo de saúde indiano.

- Não sei o que dizer! disse Rita abruptamente. Estava encolerizada, mas ao mesmo tempo confusa com a sinceridade do tom de voz de Jennifer.

- Não diga nada. Telefone só para o hospital e depois ligue-me. De fato, eu já telefonei para o hospital mas não me deram qualquer informação, o que é estúpido, uma  vez que o assunto já está a passar na televisão internacional. Estou hospedada no Hotel Palace Amal e vou ficar aqui ao pé do telefone. Lamento uma vez mais ter  sido eu a telefonar-lhe para a informar, quando era da responsabilidade do hospital fazê-lo.

Jennifer mal acabara de proferir estas palavras, quando ouviu o sinal contínuo no auscultador. Rita tinha-lhe desligado o telefone na cara. Pensou que provavelmente  teria feito o mesmo na situação inversa e pousou lentamente o auscultador. O fato de ter sido a mensageira da desgraça dava-lhe uma sensação horrível e detestou  ver-se nesse papel. Ao mesmo tempo, na sua qualidade de estudante de medicina, sabia que isso iria acontecer-lhe muitas vezes ao longo da sua carreira.

Consciente de que dormir estava agora completamente fora de questão, Jennifer pensou no que havia de fazer a seguir. Pensou em continuar a ler o guia, mas pôs imediatamente  essa idéia de lado. Não conseguia concentrar-se. Começou a sentir-se preocupada com a possibilidade de que mesmo que a notícia da CNN fosse verdadeira, Rita resolvesse  deixá-la na incerteza e não lhe telefonar, numa espécie de reação passivo-agressiva, atribuindo ao mensageiro a culpa das más notícias.

À falta de uma idéia melhor, Jennifer aumentou o som da televisão e começou a ver apaticamente uma parte de um programa da CNN sobre o Darfur. Mas, mal tinha acabado  de se instalar confortavelmente, o telefone tocou. Levantou o auscultador ainda antes de o primeiro toque ter terminado. Tal como esperava, era Rita, mas a voz de  Rita tinha mudado. Estava agora chocada ao ponto de lhe ser difícil articular as palavras.

- Não sei quem a senhora é, ou que espécie de pessoa é, mas o meu marido morreu.

- Lamento profundamente e não tive naturalmente nenhum prazer em ser eu a informá-la. A única razão que me levou a fazê-lo foi a possibilidade de o hospital procurar  coagi-la a autorizar a cremação ou o embalsamamento do corpo.

- Que diferença faz? perguntou Rita com rispidez.

- Apenas a de que se fizer qualquer delas, não será possível proceder à autópsia. É óbvio que há semelhanças entre o falecimento inesperado do seu marido e os da minha  avó e do Sr. Benfatti. Quer dizer, presumo que a morte do seu marido tenha sido inesperada?

- Totalmente! Há apenas um mês ele foi examinado pelo cardiologista e estava tudo bem.

- Passou-se o mesmo com a minha avó e com o Sr. Benfatti. Para ser sincera, preocupa-me a eventualidade de estas mortes não terem acontecido de maneira natural. Era  o que eu queria dizer quando afirmei que havia algo de errado em tudo isto.

- O que é que isso quer dizer concretamente?

- Preocupa-me a possibilidade de estas mortes terem sido intencionais.

- Quer dizer que alguém matou o meu marido?

- Sim, de algum modo disse Jennifer, consciente de que tal afirmação podia parecer perfeitamente paranóica.

- Mas porquê? Não temos aqui ninguém que nos conheça. Não vejo nenhuma maneira de alguém poder beneficiar com isso.

- Receio não ter qualquer pista. Mas amanhã à noite chegam dois patologistas forenses meus amigos. Vão ajudar-me com o caso da minha avó. Posso pedir-lhes que verifiquem  também o do seu marido. Jennifer sabia que estava a pôr-se numa posição delicada ao oferecer os serviços de Laurie e de Jack sem os consultar, mas tinha a convicção  de que eles iriam querer ajudar. Jennifer também sabia que, quando se procura descobrir uma conspiração, quantos mais casos houver, maiores são as probabilidades  de ter êxito.

Jennifer ouviu Rita assoar-se antes de voltar a aproximar-se do auscultador. Havia pausas na sua respiração, como se estivesse a procurar controlar o sofrimento.

- Por favor, sra. Lucas. Não os deixe destruir nenhuma possível prova. Devemos isso àqueles que nos eram queridos. Pode também perguntar a quem encontrou o seu marido  se ele estava azul. Tanto a minha avó como o Sr. Benfatti estavam azuis.

- Em que é que isso poderia ajudar? - perguntou ela, procurando não chorar.

- Não sei. Neste tipo de situação, caso eu esteja certa, não se pode saber quais são os fatos que poderão resolver o mistério. Aprendi isso nos meus estudos de medicina  e ao procurar fazer diagnósticos. Não se sabe verdadeiramente o que poderá ser importante.

- É médica?

- Ainda não. Estou no último ano da Faculdade. Termino a licenciatura em Junho de 2008.

- Porque não me disse logo? perguntou Rita, com muito menos animosidade.

- Não me pareceu que fosse importante disse Jennifer, embora agora que pensava nisso, a sua experiência lhe dissesse que as pessoas pareciam, estranhamente, dar mais  crédito à sua opinião ao descobrirem que era estudante de medicina, mesmo quando se tratava de assuntos que não tinham a ver com a sua área.

- Não lhe prometo nada - disse Rita. Vou agora para o hospital e vou refletir naquilo que me disse. Ligo-lhe durante a manhã.

- Parece-me justo - disse Jennifer.

O fato de Rita dizer até logo deu a Jennifer motivos para estar optimista. Aquela mulher não só iria voltar a contatá-la, como ia cooperar. Mas, quanto mais Jennifer  pensava nesta terceira morte e nas suas implicações, mais a frase de Shakespeare parecia fazer sentido: "Algo está podre no reino da Dinamarca". Simultaneamente,  a ideia de a hipótese da conspiração ser possivelmente mais um estratagema de que se estava a servir para fugir ao tremendo choque da morte da avó, atravessava-lhe  o espírito.

 

                  17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 22:11 - NOVA DELI, ÍNDIA

Ramesh Srivaslava fez o possível para não perder as estribeiras. Já passava das dez horas da noite, e estava ainda a receber outra chamada. Parecia-lhe que tinha passado toda a noite ao telefone. Primeiro, tinha sido o delegado do departamento de turismo de saúde a telefonar para lhe dizer que o delegado que lhe estava imediatamente  subordinado lhe ligara havia apenas alguns minutos com a notícia frustrante de que tinha passado uma reportagem na CNN sobre a morte de mais um paciente americano  no Aesculapian Medical Center. O que tornava o caso particularmente digno de notícia era o fato de o paciente, David Lucas, estar ainda na casa dos quarenta. Mal  terminou esta chamada inquietante, Ramesh recebeu um telefonema de Khajan Chawdhry, o diretor-geral do hospital envolvido, a fornecer-lhe todos os detalhes que eram  do seu conhecimento. Agora lá estava o telefone, novamente a tocar.

- O que se passa? perguntou Ramesh, sem fazer nenhum esforço para se mostrar sociável. Tratando-se de um funcionário público superior indiano, não estava habituado  a ter tanto trabalho.

- É novamente Khajan Chawdhry, excelência disse o diretor-geral. Lamento incomodá-lo, mas surgiu um pequeno problema relativamente às ordens espetíficas que deu, nomeadamente  à sua insistência para que não se façam autópsias.

- Como pode haver um problema? perguntou Ramesh. Trata-se de uma ordem muito simples.

Khajan havia explicado anteriormente a sequência bizarra de acontecimentos que envolveram a morte de David Lucas, começando pela cianose incipiente sem obstrução  das vias respiratórias, a que se seguiram as alterações do sistema elétrico do coração e uma súbita subida da temperatura e do nível de potássio do doente. Não sendo  ele um médico, Ramesh pedira-lhe que traduzisse por meninos a sua irritante algaraviada e a resposta fora que a morte do homem tinha sido provocada por uma espécie de ataque cardíaco combinado com uma hemorragia. Ramesh disse ao cirurgião para escrever isso mesmo na certidão de óbito e em circunstância alguma autorizar que se fizesse a autópsia.

- O problema é a mulher - declarou Khajan timidamente. Ela quer que se faça a autópsia.

- Normalmente as pessoas não querem que se façam autópsias - disse Ramesh com irritação. O cirurgião disse-lhe para pedir a autópsia depois de eu lhe ter dado ordens  espetíficas para o não fazer?

- Não, o cirurgião tem perfeita consciência da opinião negativa sobre as autópsias no setor privado em geral, e sobre a sua opinião negativa em relação a este caso,  em particular. Não foi ele quem falou à mulher sobre a autópsia, mas outra americana chamada Jennífer Hernandez, que lhe telefonou antes ainda de esta saber da morte  do marido. Foi a tal Hernandez que levantou a hipótese da autópsia, dizendo-lhe que há patologistas forenses que vêm a caminho por causa da avó dela e que também  poderiam ocupar-se do caso do seu marido, na condição de o corpo deste não ser cremado nem embalsamado.

- Ela outra vez! gemeu Ramesh em voz alta. Essa tal Hernandez está a tornar-se insuportável.

- O que devo fazer se a Sr.a Lucas insistir em que se faça a autópsia?

- Como já disse a Rajish Bhurgava em relação ao Queen Victoria, faça com que o pedido de autópsia seja retido por um dos magistrados com quem costumamos trabalhar  e informe-o de que não será feita qualquer autópsia. Entretanto, faça o possível para que a Sr.a Lucas autorize a cremação ou o embalsamamento. Pressione-a! Ela  ainda está no hospital?

- Está sim.

- Faça tudo o que puder.

- Sim, senhor.

Ramesh desligou e telefonou imediatamente ao inspetor Naresh Prasad.

- Boa noite - disse Naresh. Há meses que não tinha notícias suas, e agora liga-me duas vezes no mesmo dia. Em que lhe posso ser útil?

- Quais são as informações que tem?

- Quais são as informações que tenho acerca de quê?

- Acerca da fuga de informação no Hospital Queen Victoria e do espinho que tenho cravado, Jennifer Hernandez.

- Deve estar a brincar. Só falámos nesse assunto hoje. Ainda não comecei a tratar de nada. Estou a reunir uma equipe para começarmos amanhã.

- Bem, tanto um caso como outro estão a ficar mais complicados e eu quero que entre em ação.

- Estão a ficar mais complicados em que aspecto?

- Houve outra morte e mais uma vez a CNN pôs a notícia no ar quase de imediato. Tomei conhecimento através de um delegado, cujo assistente viu o assunto na televisão,  praticamente no mesmo momento em que o diretor-geral era informado pelo médico da equipe que tentou reanimar o doente.

- Presumo que tenha sido no mesmo hospital, o Queen Victoria?

- Não, desta vez foi no Aesculapian Medical Center.

- Interessante! A mudança de hospital pode dar uma ajuda, se o culpado for um médico do quadro. Ele, ou ela, teria de ter uma situação privilegiada em ambos os hospitais.  Isso pode reduzir substancialmente a lista dos suspeitos.

- Bem pensado. Não me tinha ocorrido.

- Talvez seja por isso que o senhor é um burocrata e eu um investigador da polícia. E sobre a tal mulher? O que é que ela fez para o irritar ainda mais?

Ramesh pôs Naresh a par do que Khajan lhe contara em relação à conversa que Jennifer tivera com a sr.a Lucas para que esta solicitasse a autópsia, antes ainda de  o hospital informar a mulher de que o marido tinha morrido.

- Como é que essa Hernandez soube que o homem tinha morrido?

- Não tenho a certeza, mas calculo que tenha sabido pela CNN Internacional.

- Talvez ela conheça alguém na CNN que a esteja a informar... Que lhe parece?

Ramesh permaneceu alguns instantes sem responder. Começava a sentir-se vexado por estar a perder tempo com toda aquela ginástica mental. Isso era trabalho de Naresh,  não dele. O que ele queria eram resultados. Queria era ver-se livre daquela trapalhada, para que os estragos em termos de imagem pública fossem devidamente avaliados  e a seguir, esperava, reparados.

- Ouça! - disse Ramesh subitamente, ignorando a pergunta de Naresh. - Tudo se resume a isto: a Jennifer Hernandez está a tornar-se tremendamente incômoda e os seus  atos estão a pôr o futuro do turismo de saúde indiano em risco, particularmente em relação aos Estados Unidos, que prometem ser o nosso maior mercado por causa do  seu sistema de saúde ineficaz e da inflação médica descontrolada que provoca. Quero que se ocupe dessa mulher, seja pessoalmente, seja através de alguém em que deposite  confiança. Siga-a durante alguns dias e mantenha-me constantemente informado sobre as pessoas que ela vê, com quem fala e onde vai. Quero um relatório completo e,  acima de tudo, quero um bom motivo para a poder deportar, sem levantar suspeitas ou dar azo a qualquer género de publicidade. Se ela não estiver a fazer nada de  errado, faça com que isso aconteça. Mas, por amor de Deus, não a transforme numa mártir, querendo com isto dizer que não quero que haja recurso à violência. Estamos  entendidos?

- Perfeitamente disse Naresh. Vou começar logo de manhã a ter essa Hernandez debaixo de olho e vou ocupar-me dela pessoalmente. Vou também pôr um agente de confiança em campo para saber quem está a passar as informações à CNN.

- Ótimo disse Ramesh. - E tal como lhe disse, mantenha-me informado. Quando desligou o telefone, Ramesh resfolegou ruidosamente de exasperação.

Embora se sentisse satisfeito por ter posto Naresh em alerta e de acreditar na sua palavra, querendo isto dizer que esperava que ele começasse a seguir Jennifer  Hernandez logo na manhã seguinte, a questão de saber se tal seria suficiente, ou se não seria já demasiado tarde, incomodava-o. No seu íntimo, considerava que Naresh  era de confiança e razoavelmente competente, mas não era seguramente "a faca mais afiada do faqueiro". Ao mesmo tempo, Ramesh estava preocupado com o efeito que  mais uma morte noticiada pela CNN iria ter nos seus superiores, que o tinham chamado nessa mesma tarde para se queixarem das duas anteriores. Era claro que o caso  não ia ser simples, e tinha as suas dúvidas acerca do estilo metódico, mas lento, de Naresh. Estes pensamentos recordaram a Ramesh o seu telefonema dessa tarde para  Shashank Malhotra, que era tudo menos lento e metódico. Convencido de que não faria mal espicaçar o homem de negócios um pouco mais, Ramesh voltou a levantar o auscultador  para fazer aquela que esperava que fosse a última chamada do dia.

- Desta vez está a telefonar para dar boas notícias? perguntou Shashank, logo que percebeu quem lhe estava a telefonar.

- Gostava que fosse esse o caso - respondeu Ramesh. Mas infelizmente, esta noite houve mais uma morte de um paciente do turismo de saúde, que já foi noticiada na CNN  Internacional.

- Foi novamente no Queen Victoria? inquiriu Shashank. Era óbvio que não estava com disposição para conversa fiada.

- Esse é o único aspecto positivo do acontecimento disse Ramésh. Desta vez foi no Aesculapian Medical Center. De certo modo, este comentário de Ramesh destinava-se  a provocar Shashank, sabendo que ele sabia que o Aesculapian Medical Center fazia parte das instituições em que Shashank tinha capitais aplicados, tal como o Hospital  Queen Victoria. O lado negativo é que o paciente era novo e deixa mulher e duas crianças. Este gênero de história atrai mais as atenções dos media por causa do aspecto  sentimental.

- Não precisa de me dizer aquilo que já estou farto de saber.

- O outro problema é Jennifer Hernandez. De algum modo, ela conseguiu envolver-se neste caso tanto como no anterior, embora se trate de um hospital diferente.

- O que é que ela fez?

- O senhor compreende que em casos sensíveis como estes nós queremos evitar as autópsias, porque as autópsias são como atirar achas para uma fogueira. Quanto menos atenções melhor, porque assim evitamos os media e, mais concretamente, evitamos dar-lhes alguma coisa que valha a pena noticiar, o que não é frequentemente o caso das autópsias.

- Estou a perceber. Faz sentido. Não me obrigue a perguntar outra vez! rosnou Shashank. O que é que ela fez?

- Ela convenceu de algum modo as duas viúvas a pedirem autópsias.

- Merda! exclamou Shashank rudemente.

- Estou curioso - disse Ramesh, tentando parecer despreocupado. Esta tarde perguntei-lhe se conseguia encontrar alguém que falasse com ela e a convencesse de que o que  está a fazer não serve em nada os seus interesses, e que talvez, só talvez, fosse muito melhor para ela levar os restos mortais da avó para a América antes que começasse  a afetar gravemente o turismo de saúde indiano. Ao fim da tarde de hoje, fui informado de que muitos doentes, não só da América mas também da Europa, fizeram cancelamentos  de última hora das operações que tinham marcadas.

- Cancelamentos, diz você.

- Sim, cancelamentos repetiu Ramesh, consciente de que a mentalidade de homem de negócios de Shashank associava intimamente cancelamentos e perda de lucros.

- Devo confessar que esta tarde pus de parte a ideia de fazer aquilo que me sugeriu rosnou Shashank mas acabo de mudar de opinião.

- Penso que prestaria um grande favor ao turismo de saúde indiano. E, caso se tenha esquecido, ela está hospedada no Hotel Amal Palace.

 

                   17 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUARTA FEIRA, 22:58 - NOVA DELI, ÍNDIA

- O senhor desculpe-me - disse o assistente de bordo, tocando ligeiramente no ombro de Neil McCulgan. - Importa-se de endireitar a cadeira? Estamos a descer e aterraremos no Aeroporto Internacional Indira Gandhi dentro de poucos minutos.

- Obrigado - disse Neil, e fez o que lhe fora pedido. Bocejou, endireitou a cadeira e mudou de posição, até ficar confortável. Apesar de terem saído de Singapura com  uma hora e meia de atraso, estavam a chegar apenas uma hora mais tarde. Tinham de algum modo conseguido recuperar meia hora, mesmo voando com ventos a grande altitude.

- Impressiona-me a sua capacidade para dormir tão bem num avião - disse o passageiro que estava sentado ao lado de Neil.

- Sou um felizardo, imagino - respondeu Neil. Estivera a falar com o homem durante a primeira hora e tinha ficado a saber que ele era vendedor de acessórios" de  cozinha Viking no noroeste da índia. Neil tinha achado o homem interessante e a conversa tornara evidente que, na sua qualidade de médico das Urgências, sabia muito  pouco acerca do mundo em geral.

- Onde é que vai ficar instalado em Deli? perguntou o desconhecido.

- No Hotel Amal Palace - respondeu Neil.

- Quer partilhar um táxi? Eu vivo nas redondezas.

- Tenho uma camioneta do hotel à minha espera. Pode vir comigo, desde que não tenha de esperar pela bagagem. Eu só trago bagagem de mão.

- Também eu - disse o homem, estendendo a mão. O meu nome é Stuart, já devia ter-me apresentado antes.

- Neil. Muito prazer - disse Neil, apertando rapidamente a mão do homem. Neil inclinou-se para a frente e procurou olhar pela janela.

- Ainda não se vê nada - disse Stuart, que estava sentado do lado da janela."

- Nem luzes, nem coisa nenhuma?

- Não nesta época do ano, nem com esta neblina. Vai perceber o que estou a dizer quando fizermos o trajeto para a cidade. É como se fosse nevoeiro cerrado, mas trata-se  sobretudo de poluição.

- Excelentes perspectivas - disse Neil, sarcasticamente.

Neil recostou-se, apoiou a cabeça e fechou os olhos. Agora que estava quase a chegar ao termo da viagem, começou a pensar em como iria ser o seu encontro com Jennifer.  Durante as duas escalas que tinha feito no decorrer da viagem, ainda pensara em telefonar-lhe. Não conseguia decidir se era melhor fazer-lhe a surpresa pessoalmente  ou por telefone. A vantagem da chamada telefônica era a de lhe dar a ela algum tempo para se adaptar à ideia. O inconveniente era o de haver boas hipóteses de ela  lhe dizer para dar meia volta e regressar a casa. Por fim, este receio fizera com que optasse por não telefonar.

As enormes rodas do avião tocaram na pista com um solavanco que fez Neil abrir os olhos, surpreendido. Agarrou-se aos apoios para os braços para permanecer encostado  à cadeira durante a travagem do avião.

- Quanto tempo vai ficar em Deli? perguntou Stuart.

- Não por muito tempo - respondeu Neil de maneira evasiva. Pensou por um instante se não devia anular o convite que tinha feito ao homem para lhe dar carona. Não estava  com disposição para entrar em qualquer tipo de conversa de âmbito mais pessoal.

Tendo aparentemente percebido, Stuart não fez mais nenhuma pergunta até passarem pela verificação de passaportes e pela alfândega.

- Está aqui de férias ou em negócios? - perguntou Stuart, enquanto aguardavam que o transporte do hotel chegasse.

- Um pouco das duas coisas - mentiu Neil, mostrando-se pouco receptivo. E você?

- O mesmo - respondeu o homem. Venho cá frequentemente e tenho um apartamento. É uma cidade calma, mas para os meus propósitos, prefiro Banguecoque.

- A sério? - disse Neil pouco interessado, embora imaginasse vagamente quais fossem os "propósitos" do homem.

- Se me quiser fazer perguntas acerca de Deli, ligue-me - disse o homem, estendendo a Neil um cartão dos acessórios para cozinha Viking.

- Hei-de fazê-lo mentiu Neil, metendo o cartão no bolso depois de lhe deitar um olhar de relance.

Os viajantes fatigados sentaram-se no banco da retaguarda da camioneta do hotel. Neil fechou os olhos e regressou aos seus pensamentos sobre a maneira de reatar  as coisas com Jennifer. Agora que se encontrava na mesma cidade que ela, sentiu-se ainda mais excitado do que esperava. Aguardava ansiosamente o momento em que a iria encontrar e pedir-lhe desculpa por não ter vindo logo que ela lhe pedira.

Neil abriu os olhos apenas o tempo suficiente para ver as horas. Passavam cinco minutos da meia-noite e percebeu que, apesar da sua excitação por ir encontrar Jennifer,  ia ter de esperar até de manhã. Então começou a pensar na melhor maneira de lhe fazer a surpresa, um assunto que se revelou complicado quando percebeu que não fazia  a menor ideia de como ela iria ocupar o tempo. De repente, sentiu uma desagradável sensação de medo. Embora lhe parecesse inverosímil não ter pensado nisso antes,  a verdade é que ela podia ter tratado dos assuntos relativos à avó na quarta-feira, o primeiro dia inteiro que passara em Deli, e podia estar a fazer o vôo de regresso  nesse preciso instante: talvez mesmo no mesmo avião em que ele tinha vindo.

Neil abriu os olhos e afastou estes pensamentos do espírito. Riu-se de si próprio e olhou através da janela para a espessa neblina que o seu companheiro lhe descrevera  antes. Foi o suficiente para fazer com que Neil, sempre preocupado em relação à sua saúde, se sentisse congestionado.

Pouco tempo depois a camioneta subiu a rampa de acesso à entrada do hotel. Vários porteiros e carregadores rodearam o veículo, abrindo as portas.

- Se eu lhe puder ser útil, ligue-me - disse Stuart, dando um aperto de mão a Neil. E obrigado pela carona.

- De acordo respondeu Neil. Conseguiu, com algum esforço, retirar a mala das mãos de um carregador, insistindo que preferia ser ele a levá-la: não só não era pesada,  como tinha rodas.

Efetuou o registro sentado a uma secretária, e ao apresentar o passaporte, perguntou ao recepcionista, que estava vestido de maneira formal e se apresentara como  Arvind Sinha, se havia uma Jennifer Hernandez lá registrada. Sem o recepcionista ver, foi fazendo figas.

- Vejo já, sahib - disse Arvind. Serviu-se de um teclado que tirara de debaixo do tampo da secretária. Sim, na realidade há.

- Que bom, disse Neil para si próprio. Desde o momento em que lhe ocorrera a possibilidade de Jennifer já ter partido, tinha sido uma tortura.

- Pode dizer-me o número do quarto?

- Desculpe, mas não posso - desculpou-se Arvind. - Por razões de segurança, não podemos dar os números dos quartos dos nossos clientes. Contudo, a telefonista pode  fazer a ligação, desde que a Menina Hernandez não tenha o telefone desligado, e desde que o senhor ache que é apropriado ligar-lhe. Já passa da meia-noite.

- Compreendo - disse Neil. Na excitação em que estava, agora que sabia que ela se encontrava lá, não podia evitar sentir-se um pouco desapontado. Em última análise,  tinha planejado ir até ao quarto dela e encostar o ouvido à porta. Se ouvisse o som da televisão, batia. Pode dizer-me se ela deu alguma indicação para fazer o registro de saída amanhã? perguntou Neil.

Arvind regressou ao teclado e em seguida olhou para o monitor.

- Não há qualquer data de partida marcada.

- Ótimo - disse Neil.

Após mais alguns minutos a cumprir as formalidades, Arvind levantou-se, fazendo a cadeira rodar para trás.

- Posso acompanhá-lo ao seu quarto?

Neil também se levantou.

- Tem alguma etiqueta de transporte para a bagagem?

- Não, é só isto - disse Neil, erguendo a sua mala de mão. Viajo com pouca coisa.

Enquanto seguia o recepcionista em direção aos elevadores, ia pensando na maneira de fazer a surpresa a Jennifer logo de manhã. Uma vez que desconhecia quais eram  os planos dela, a decisão tornava-se difícil, e por fim, pensou que o melhor seria entregar as coisas ao acaso.

- Desculpe-me, Sr. Sinha - disse Neil, enquanto subiam, no elevador. Podia dar instruções para me acordarem às oito e um quarto?

- Naturalmente, senhor!

 

                   18 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUINTA FEIRA, 7:30 - NOVA DELI, ÍNDIA 

Jennifer encontrava-se mergulhada naquele sonho que tinha sempre que andava preocupada, e em que entrava o pai. Nunca contara o sonho a ninguém com receio do que as pessoas poderiam pensar dela. Ela própria também não tinha bem a certeza do que havia de pensar. No sonho o pai estava a persegui-la, com uma expressão cruel  no rosto, enquanto ela lhe implorava que parasse. Acabava sempre encurralada na cozinha, onde agarrava numa faca de talhante e a empunhava. Mas, mesmo assim, o pai  continuava a aproximar-se, dizendo-lhe com ar de troça que ela não teria coragem de utilizar a faca. Mas ela utilizava-a. Golpeava-o vezes sem conta, mas ele limitava-se  a rir.

Habitualmente, ao chegar a este ponto, costumava acordar empapada em suor, e assim sucedera também naquele dia. Desorientada, demorou algum tempo a perceber que  estava na índia e que o telefone estava a tocar. Jennifer pegou no auscultador com um ligeiro sentimento de pânico, ao mesmo tempo que um pensamento irracional se  insinuava no seu espírito, dizendo-lhe que quem quer que estivesse a ligar tinha sido testemunha das suas atividades criminosas noturnas.

A chamada era de Rita Lucas, que se apercebeu da nota de ansiedade que havia na voz de Jennifer.

- Espero que não seja má altura para ligar.

- Não, não há problema - disse Jennifer, mais sintonizada com o mundo real. Estava só a ter um sonho.

- Peço desculpa por estar a telefonar tão cedo, mas queria ter a certeza de que a apanhava. Na verdade, estive a fazer serão. Não me deitei. Passei quase toda a noite  no hospital.

Jennifer olhou para o relógio analógico do rádio. Levou algum tempo a conseguir ver que horas eram, pois o ponteiro pequeno e o grande eram quase do mesmo tamanho...

- Tinha esperança de que pudéssemos tomar o café da manhã juntas.

- Também teria muito gosto.

- Pode ser daqui a pouco tempo? Estou exausta. E posso pedir-lhe que venha ter comigo aqui ao Imperial? Receio estar com o mesmo aspecto com que me sinto, um destroço.

- Não me importo nada. Em menos de meia hora estou pronta. Qual é a distância entre o Imperial e o Amal Palace, sabe?

- Fica muito perto. É só subir a Janpath.

- Eu não sei onde é a Janpath.

- É muito perto. Talvez uns cinco minutos de táxi.

- Então devo poder estar aí por volta das oito disse Jennifer, afastando os cobertores e pondo as pernas para fora da cama.

Encontro-me consigo na sala de café da manhã. Depois de passar pela porta principal, atravesse o átrio. A sala de café da manhã fica à direita.

- Vemo-nos daqui a meia hora disse Jennifer.

Depois de desligar, Jennifer meteu a primeira. Na qualidade de estudante de medicina, tinha aperfeiçoado o método de se arranjar num ápice. Há muito tempo que tinha  decidido que valia a pena fazer o esforço de se despachar mais depressa para poder desfrutar de mais quinze minutos de sono.

Estava contente por Rita Lucas ter vontade de se encontrar com ela. Jennifer estava ansiosa por obter mais informações sobre esta terceira morte de um turista de  saúde americano e até que ponto se parecia com as outras duas.

Enquanto tomava ducha e enfiava a roupa, ia pensando nas suas atividades para o resto do dia. Queria manter-se longe do Hospital Queen Victoria, para não ter de  voltar a irritar-se com a chata da assistente social. O que significava que tinha de pensar no que iria fazer durante a maior parte da manhã, hora de almoço, tarde  e hora de jantar, de maneira a não andar com a sensação frustrante de estar a marcar passo em relação ao caso da avó, até à chegada de Laurie. No que dizia respeito  à noite, sabia exatamente o que ia fazer e aguardava com antecipado prazer a hora da ida ao aeroporto.

Sentia-se orgulhosa de si própria quando saiu do quarto, levando um dos guias turísticos na mão. Eram apenas oito menos sete, provavelmente um novo recorde pessoal.  Enquanto o elevador descia, voltou a pensar nos seus planos para esse dia. Tinha decidido entrar em contato com Lucinda Benfatti para almoçarem ou jantarem juntas,  ou uma coisa e outra. Durante a manhã, desde que o café da manhã não se prolongasse por muito tempo, tinha decidido fazer umas visitas turísticas, embora fazer visitas  turísticas não lhe dissesse muito. Mas pensou que seria uma vergonha ter feito uma viagem até tão longe e não ver ao menos um pouco da cidade. À tarde, estava com  ideias de fazer um pouco de exercício, e em seguida preguiçar à beira da piscina, um prazer que desfrutava raramente.

Quando ela disse que ia ao Hotel Imperial, um dos porteiros do Amal Palace aconselhou-a a andar até à rampa de entrada do hotel e chamar um riquexó motorizado amarelo e verde, se gostava de emoções fortes. Tomando o conselho como uma espécie de repto, Jennifer entendeu aceitá-lo, especialmente por o porteiro lhe ter dito que seria  bastante mais rápido do que um táxi normal durante a hora de ponta da manhã.

A princípio Jennifer achou o veículo pitoresco, com as suas três rodas e aberto dos lados. Mas, quando se instalou no banco escorregadio de vinil e aquela coisa  partiu como se estivesse a participar numa corrida, começou a pensar duas vezes. Sacudida para trás e para a frente quando o condutor se pôs em movimento, Jennifer  procurou desesperadamente encontrar algo a que se agarrar. Logo a seguir, viu-se atirada de um lado para o outro, quando ganharam velocidade e o condutor começou  a andar aos ziguezagues por entre a fumarada dos escapes dos ônibus. A calamidade final aconteceu quando passaram por um buraco, o que levou a que Jennifer fosse  projetada para cima, com suficiente impulso para fazer a sua cabeça embater no tejadilho de fibra de vidro.

Mas a pior de todas as peripécias aconteceu quando o condutor acelerou por entre dois ônibus que convergiam para um mesmo ponto. Parecendo ignorar a possibilidade  de serem esmagados por veículos cinquenta vezes maiores, o condutor não afrouxou minimamente, a despeito da rápida diminuição do espaço entre o riquexó e os ônibus,  de tal forma que as pessoas que iam agarradas aos lados dos ônibus podiam ter dado um aperto de mão a Jennifer.

Convicta de que o riquexó motorizado e os ônibus iriam colidir, Jennifer largou o varão, recolheu os braços e agarrou-se à borda do assento. Fechou os olhos e cerrou  os dentes, à espera de ouvir o barulho estridente do contato. Mas tal não sucedeu. Em vez disso, ela ouviu o rangido ensurdecedor dos freios dos ônibus, quando afrouxaram  rapidamente à aproximação de um sinal vermelho. Jennifer voltou a abrir os olhos. O condutor do riquexó, capaz de freiar a uma distância muito menor, disparou como  um foguete, irrompendo por entre os ônibus que estavam a freiar, e só depois utilizou os seus próprios freios.

No instante em que o riquexó, ao cabo de alguns solavancos, finalmente parou, foi imediatamente rodeado por uma legião de crianças descalças e imundas, vestidas  de farrapos, com idades compreendidas entre os três e os doze anos, que estenderam a mão esquerda para Jennifer, enquanto, com a mão direita, faziam o gesto de levar  comida à boca. Algumas das moças mais velhas transportavam bebés, envoltos em faixas de pano, junto às ancas.

Jennifer retraiu-se e fez um movimento de recuo, enquanto olhava para os olhos escuros e tristes das crianças, alguns cobertos de pus resultante de infecções. Receando  dar-lhes dinheiro, o que poderia provocar uma disputa entre elas, Jennifer olhou para o condutor, pedindo-lhe ajuda. Mas o condutor não esboçou qualquer movimento, nem se voltou. Como se estivesse distraído, ia fazendo acelerações, com o motor do veículo desembraiado.

Quase agoniada perante o espettáculo daquela miséria tão crua e desoladora, Jennifer sentiu um misto de repulsa e de medo reverente, pelo fato de o hinduísmo, com  as suas crenças nopunarjanma e no karma, poder expor os seus devotos a tão grandes contrastes e injustiças.

Para grande alívio de Jennifer, o semáforo mudou para o verde e o enxame de riquexó motorizados, motoretas, motociclos, ônibus, camiões e carros, abafou tudo, indiferente  às crianças, que tiveram de se esquivar dos veículos para não serem atropeladas.

Tal como o porteiro tinha prometido, o trajeto entre o Amal Palace e o Imperial foi breve, mas depois de Jennifer ter pago a corrida e começado a subir a rampa do  Hotel Imperial, uma vez que o condutor do riquexó motorizado a informara que não lhe era permitido o acesso às instalações do Imperial, sentiu-se, física e mentalmente,  como se tivesse acabado de correr a maratona. O pior de tudo era a ligeira dor de cabeça que sentia, resultante de todo o fumo dos escapes que tinha sido obrigada  a respirar.

À medida que se aproximava do hotel, a beleza do edifício, com a sua atmosfera colonial, chamou-lhe a atenção, mas não gostou da área onde estava localizado. Nesse  aspecto, era idêntico ao Hospital Queen Victoria, que estava também encaixado no meio de estabelecimentos comerciais destituídos de qualquer atrativo.

Dhaval Narang achava que tinha o melhor emprego do mundo porque, durante a maior parte do tempo, limitava-se a estar sentado e a jogar às cartas com outras pessoas  que também trabalhavam para Shashank Malhotra. E quando o chamavam para fazer qualquer coisa, era sempre trabalho não apenas interessante, mas também muitas vezes  estimulante, e a missão atual não fugia à regra. Tinha sido incumbido de se desembaraçar de uma jovem americana, chamada Jennifer Hernandez. A parte estimulante  consistia no fato de não fazer a menor ideia do aspecto dela. Tudo o que sabia era que estava hospedada no Hotel Amal Palace. Quanto tempo iria lá permanecer, também  era uma incógnita, por isso ele não ia poder dar-se ao luxo de perder muito tempo à procura da mulher, estudá-la e ver quais eram os seus hábitos. As ordens de Shashank  eram para que a coisa fosse feita; e feita depressa.

Com o rádio a passar música de inspiração wollywoodesca, Dhaval, vestido com uma camisa preta de colarinho aberto e exibindo vários cordões de ouro ao pescoço, conduziu o seu adorado Mercedes negro, de classe E, sedan, pela rampa do Amal e estacionou debaixo do pórtico. Dentro do porta-luvas encontrava-se uma Beretta automática munida de um silenciador de três polegadas. Era uma das muitas armas que tinha ao seu dispor. Uma das regras de Dhaval era que, uma vez atingido o alvo,  a arma devia ou desaparecer, ou ser deixada na cena do crime. Na altura em que tinha sido contratado pela primeira vez, Shashank queixara-se de esse hábito ser demasiado  dispendioso, mas Dhaval insistira, ameaçando mesmo despedir-se se não lhe fosse permitido mantê-lo. Shashank tinha acabado por ceder. Na Índia, era muito mais fácil  comprar armas do que encontrar alguém com o currículo de Dhaval.

Dhaval era oriundo de uma cidadezinha do Rajasthan e alistara-se no exército para fugir à vida de província, inexoravelmente sufocante. Essa decisão tinha transformado  a sua vida de múltiplas maneiras. Acabou por se apaixonar pela vida da tropa, com as suas excitantes perspectivas de uma potencial licença para matar. Concorreu  e foi admitido nas recém-criadas Forças espetiais Indianas, acabando por se tornar num Black Cal da Guarda da Segurança Nacional, uma unidade de elite. A sua carreira  progrediu de maneira fulgurante, pelo menos até participar em ações reais, durante a operação de Caxemira em 1999. No decorrer duma incursão noturna contra um grupo  de suspeitos de apoio aos paquistaneses, ele deu provas de uma brutalidade tão desenfreada, ao matar dezessete suspeitos que procuravam render-se, que o comando  considerou-o um irresponsável embaraçoso e retirou-o da operação. Um mês mais tarde, foi demitido do serviço militar.

Felizmente para Dhaval, a sua história, que a Guarda de Segurança Nacional procurara abafar, apareceu na tela do radar de Shashank Malhotra, que estava a diversificar  rapidamente os seus negócios e a criar inimigos no decorrer desse processo. Como precisava de alguém com o treino e a postura de Dhaval, Shashank assediou o ex-agente  das forças espetiais, e o resto são histórias.

Dhaval baixou o vidro da janela quando o porteiro principal do Amal Palace se aproximou, com a caderneta de autocolantes para estacionamento do hotel numa mão e  um lápis na outra.

- Quanto tempo tenciona ficar aqui? perguntou. Estava com pressa, porque havia cada vez mais homens de negócios a chegar para reuniões de café da manhã.

Agarrando num maço de rupias, Dhaval estendeu-as ao porteiro. Desapareceram rapidamente dentro da túnica escarlate deste.

- Gostava de estacionar perto da entrada. Fico provavelmente uma hora, duas no máximo.

Sem dizer nada a Dhaval, o porteiro apontou para o último lugar de estacionamento diante da entrada do hotel, e depois fez sinal ao carro seguinte para avançar.  Dhaval contornou as colunas exteriores do pórtico e arrumou o carro no local que lhe tinha sido designado. Era ótimo. Via perfeitamente a entrada do hotel e o carro estava voltado para a rampa de saída para a rua.

Depois de sair do carro, Dhaval entrou no átrio do hotel e, usando um dos telefones, ligou para Jennifer Hernandez. Deixou o telefone tocar meia dúzia de vezes,  ouviu o correio de voz e desligou. Dirigiu-se à sala de café da manhã e perguntou ao chefe de mesa se tinha visto a menina Jennifer Hernandez nessa manhã.

- Não senhor disse o distinto funcionário.

- Tenho um encontro com ela e não faço a menor ideia do seu aspecto. Talvez me pudesse dar uma idéia...

- É uma mulher jovem, muito bonita, de estatura mediana; tem cabelos escuros, brilhantes e à altura dos ombros; e é esbelta. Costuma vestir calças de ganga justas  e camisas de algodão.

- Estou impressionado disse Dhaval. É uma descrição muito mais pormenorizada do que estava à espera. Fico-lhe muito grato.

- Tenho de admitir que me recordo melhor das mulheres bonitas - disse o chefe de mesa, piscando o olho e sorrindo - e ela é, de fato, uma mulher atraente.

Dhaval saiu um pouco desconcertado do restaurante. Pouco passava das oito horas, e Jennifer não estava nem no quarto nem no restaurante. Dhaval parou perto do meio  do átrio e olhou em redor para ver se havia alguém que correspondesse à descrição feita pelo chefe de mesa, mas não havia ninguém. Depois passeou o olhar para além  das grandes janelas, e viu meia dúzia de pessoas a dar braçadas na piscina.

Dhaval saiu do hotel e observou os nadadores. Havia duas mulheres jovens. Uma tinha cabelo castanho, mas não se podia dizer que fosse esbelta. A segunda nadadora  era loura, portanto também ficava excluída. De regresso ao hotel, Dhaval transpôs a entrada para o piso inferior e foi inspeccionar as termas e a sala de musculação.  Havia duas pessoas a usar as máquinas de pesos e as bicicletas estáticas, mas eram ambas homens.

Sentindo-se ligeiramente desencorajado, Dhaval regressou ao átrio e dirigiu-se ao balcão dos transportes. O empregado do hotel que ali trabalhava chamava-se Samarjit  Rao. Sam, como era conhecido, estava na lista de subornos de Shashank Malhotra. Quando Shashank trazia homens de negócios a Deli, instalava-os sempre no Amal, e  achava frequentemente que era importante saber por onde é que essas pessoas andavam.

- Sr. Narang - disse Sam respeitosamente. Namasté. Sam sabia quem Dhaval era e tinha-lhe um terror apropriado.

- Há uma jovem, parece que atraente, pelo menos na opinião do chefe de mesa, que está registrada aqui no hotel. O nome dela é Jennifer Hernandez. Conhece-la?

- Conheço - disse Sam, olhando nervosamente em redor. Havia vários empregados do hotel que sabiam quem era Dhaval.

- Preciso de alguém que me indique quem ela é. Achas que podes fazer isso?

- Claro, senhor. Assim que ela voltar.

- Ela saiu do hotel?

- Sim, vi-a sair um pouco antes das oito.

Dhaval suspirou. Esperava encontrá-la suficientemente cedo para poder segui-la quando ela saísse.

- Bem, fico aqui à espera durante algumas horas disse Dhaval. Vou arranjar um jornal e sento-me de costas voltadas para a parede. Apontou para algumas poltronas que  estavam desocupadas. Quando ela chegar, se chegar, diz-me.

 

A chamada do serviço de despertar, às 8:15, arrancou Neil de um sono profundo e ele atendeu em pânico, sem saber bem onde estava. Mas o seu espírito depressa ficou  lúcido e ele agradeceu à telefonista antes de saltar para fora da cama. A primeira coisa que fez foi abrir os reposteiros e olhar para a rua. O dia estava soalheiro  mas, ao mesmo tempo, enevoado. Mesmo por baixo da janela ficava a piscina, onde se encontravam umas quantas pessoas a nadar. Neil pensou em fazer o mesmo lá mais  para a frente, durante o dia. Seria um bom remédio, tanto para a sua ansiedade como para o jet lag.

Com a impaciência a aumentar, dirigiu-se rapidamente para o banheiro e meteu-se debaixo do chuveiro. Depois lavou os dentes, pôs alguma ordem nos cabelos e enfiou  uma camisa e umas calças de ganga lavadas. Uma vez arranjado, sentou-se na beira da cama e com um dedo trémulo, premiu o botão de chamada do telefone. O seu plano  era fingir que estava a telefonar de Los Angeles, e no decorrer da conversa, procurar descobrir quais eram os planos de Jennifer para esse dia. Uma vez na posse  dessas informações, haveria de congeminar a melhor maneira de lhe aparecer de surpresa.

Parecia que a telefonista estava a demorar uma eternidade a responder.

- Vamos lá! dizia ele, impaciente. Quando, por fim, a telefonista atendeu, pediu-lhe para ligar a Jennifer. A seguir ouviu o telefone a tocar no quarto dela, e na  expectativa de ouvir a sua voz a qualquer momento, foi ficando cada vez mais ansioso.

Ao cabo de uma dúzia de toques, Neil percebeu que ela não ia atender e voltou a pousar o auscultador no descanso. Neil experimentou então ligar para o celular, mas  logo ao primeiro toque foi ter ao correio de voz, sinal de que Jennifer não tinha o celular ligado. Desligou. Um pouco desapontado, pensou em qual iria ser o passo seguinte. Admitiu que havia a possibilidade de ela estar no duche e que devia voltar a tentar daí a cinco ou dez minutos, mas no estado de agitação em que se encontrava, não lhe apetecia ficar ali sentado sem fazer nada. Pegou no cartão-chave, saiu do quarto e desceu para o piso da entrada. Depois pensou que havia  a possibilidade de ela poder estar a tomar o café da manhã.

O restaurante estava quase cheio, e enquanto esperava na fila para falar com o chefe de mesa, deixou que o olhar percorresse todos os pisos da sala. Contra a parede  de fundo do piso superior, havia um bufett substancialmente guarnecido.

À sua direita, alguns pisos abaixo, havia uma janela panorâmica que dava para os jardins e para a piscina. Neil voltou a ficar desapontado. Não via Jennifer em nenhum  lado.

- Quantas pessoas? perguntou o chefe de mesa quando chegou a vez de Neil.

- Apenas uma - disse Neil.

Enquanto o chefe de mesa agarrava num menu para dar a um dos recepcionistas, Neil perguntou:

- Por acaso conhece uma hóspede do hotel chamada Jennifer Hernandez? Ela é...

- Conheço - disse o chefe de mesa. E o senhor é o segundo homem a perguntar por ela esta manhã. Ela ainda não desceu para o café da manhã.

- Obrigado - disse Neil, animado. Ela devia estar no chuveiro quando ele telefonara há pouco. Neil deixou que a recepcionista o conduzisse a uma mesa de dois lugares  que ficava perto da janela, mas não se sentou. Onde fica a cabina telefônica mais próxima?

- Há várias no corredor que conduz aos lavabos - disse a jovem. Apontou para onde ficava o dito corredor.

Neil agradeceu e dirigiu-se apressadamente para lá. Tinha o coração novamente a bater muito depressa, o que não deixou de o surpreender. Nunca lhe passara pela cabeça  que iria sentir uma tal excitação, o que o fez pensar se não estaria mais ligado a Jennifer do que gostaria de admitir. Quando a telefonista atendeu, Neil voltou  a pedir-lhe que ligasse para o quarto de Jennifer. Confiante que desta vez iria conseguir falar com ela, começou mesmo a pensar numa deixa para encetar a conversa.  Mas não precisou de nenhuma. Como anteriormente, o telefone limitou-se a tocar indefinidamente.

Ao fim de algum tempo acabou por desligar. Estava tão seguro de que ela ia atender, que a desilusão desta vez ainda foi maior. Chegou mesmo a experimentar um ligeiro  acesso de paranóia, com o pensamento de que ela tinha sido avisada da sua chegada e estava a evitá-lo deliberadamente a insinuar-se-lhe no espírito.

- Isso é completamente ridículo! murmurou Neil, quando o seu lado mais sensato resolveu intervir.

Tendo decidido que o mais importante agora era tomar um bom café da manhã, regressou à mesa do restaurante. Enquanto se dirigia para lá, ocorreu-lhe se a ausência de Jennifer não teria alguma coisa a ver com o outro homem que andara a perguntar por ela, e ao ponderar nessa questão, apercebeu-se de algo mais. Estava com ciúmes.

Sentando-se à mesa num lugar de onde podia ver o lugar da recepcionista, pegou no menu e fez um gesto para chamar o empregado.

O inspetor Noresh Prosad conduziu o seu Ambassador branco, um modelo de colecção pertencente ao parque automóvel do governo, para a rampa do Hotel Amal Palace e  acelerou na subida até à entrada do hotel. Como eram cerca das nove horas, havia uma grande quantidade de carros a chegar para descarregarem os seus ocupantes, que  eram homens de negócios.

Quando chegou a vez de Naresh, um dos porteiros, de turbante e esplendorosamente vestido, fez-lhe sinal para avançar e depois levantou a mão para o mandar parar.  Abriu a porta do Ambassador, pôs-se direito e saudou Naresh quando este descia do carro. Tendo passado já por este ritual noutras ocasiões, Naresh abriu a carteira,  mostrando a identificação. Ergueu o braço quase em toda a sua extensão, para que o porteiro, impressionantemente alto, pudesse ler e verificar a fotografia, se assim  entendesse. Naresh deu-se conta de que havia na cena um elemento humorístico, uma vez que ele era baixo. O seu metro e setenta, ao pé dos mais de dois metros do  sikh, fazia com que este parecesse um verdadeiro gigante.

- Preciso de deixar o carro estacionado aqui junto à porta e pronto para partir rapidamente, se necessário - disse Naresh.

- Sim, inspetor Prasad disse o porteiro, subentendendo que verificara cuidadosamente a identificação de Naresh. Estalou os dedos e indicou a um dos arrumadores para  onde devia levar o carro.

Naresh, cioso da sua pessoa, procurou fazer-se o mais alto possível, enquanto subia os degraus que levavam à porta do hotel e passava por um grupo de hóspedes que  aguardavam um transporte. Uma vez lá dentro, Naresh olhou a toda a volta do luxuoso átrio, procurando decidir-se quanto à linha de ação a seguir. Após alguns segundos  de deliberação, achou que pedir ajuda ao concierge era o que fazia mais sentido. Para evitar dar nas vistas esperou a sua vez, enquanto vários hóspedes mantinham  os dois concierges ocupados com pedidos de reserva para o jantar.

- Em que lhe posso ser útil, senhor? perguntou-lhe um dos concierges, que estava vestido de maneira formal, com um sorriso encantador.

Naresh estava impressionado.  Tanto aquele sujeito como o seu colega irradiavam uma alegria que fazia crer que gostavam verdadeiramente do trabalho que faziam, algo que Naresh raramente encontrava entre o vasto número de funcionários públicos indianos com que tinha de lidar diariamente.

Continuando a proceder cautelosamente para não dar nas vistas, Naresh mostrou subtilmente a sua identificação.

- Estou interessado numa das hóspedes do hotel. Nada de importante. Trata-se apenas de uma formalidade. Apenas estamos interessados na sua segurança.

- E em que podemos ajudá-lo, inspetor? - perguntou o concierge, baixando a voz. O seu nome era Sumit.

O segundo concierge, que tinha visto Naresh a identificar-se, inclinou-se para participar na conversa, depois de concluir a conversa com um cliente. O seu nome era  Lakshay.

- Algum de vocês conhece uma jovem americana que está hospedada no hotel e se chama Jennifer Hernandez?

- Ah, sim! disse Lakshay. É uma das nossas hóspedes mais simpáticas e atraentes, se é que posso acrescentar. Mas até agora só veio aqui ao balcão para pedir um mapa  da cidade, mais nada. Fui eu que a atendi.

- Parece ser uma mulher muito simpática acrescentou Sumit. Sorri sempre que passa e procura olhar-nos nos olhos.

- Hoje já a viram?

- Sim, eu vi-a - disse Sumit. Deixou o hotel há cerca de quarenta minutos. Tu tinhas saído uns minutos - disse dirigindo-se a Lakshay, para responder à interrogação muda  do colega.

Naresh suspirou.

- Que azar. Estava sozinha ou acompanhada?

- Estava sozinha, mas não sei se tinha alguém lá fora à espera dela.

- Como é que estava vestida?

De maneira informal: um pólo de cor garrida e umas calças de ganga azuis; Naresh acenou com a cabeça, enquanto pensava nas hipóteses que tinha.

- Deixe-me sair e perguntar aos porteiros. Pode ser que se lembrem dela.

Sumit saiu detrás do balcão e encaminhou-se em passo rápido para a saída.

- Ele age como se estivesse a divertir-se - comentou Naresh, observando o concierge através da vidraça, e reparando nas abas do seu casaco a flutuar na brisa.

- Sempre - disse Lakshay. A jovem fez algo de errado?

- Na verdade, não estou autorizado a dizer.

Lakshay anuiu, um pouco embaraçado da sua curiosidade.

Observaram Sumit e um dos sikhs enquanto travavam uma breve e animada conversa. Depois Sumit voltou para dentro.

- Parece que foi só até ao Hotel Imperial, isto se se tratar da mesma mulher, mas tenho quase a certeza que sim.

Um casal inglês de meia-idade aproximou-se do balcão e Naresh afastou-se para o lado. Enquanto o casal inglês pedia que lhes recomendassem um restaurante para almoçarem  na parte antiga de Deli, Naresh refletia sobre o que devia fazer. Primeiro pensou em correr até ao Imperial, mas a seguir mudou de ideias, apercebendo-se de que  Jennifer tinha partido há quase uma hora e que podia já não a apanhar, especialmente se não houvesse lá ninguém que a pudesse identificar. Decidiu ficar no Amal,  na esperança de que ela não permanecesse fora durante todo o dia e voltasse em breve para o hotel. Pelo menos, no Amai podia contar com os concierges para a identificarem.

- Obrigado pela ajuda - disse a inglesa, depois de Sumit lhe ter entregue uma reserva para o almoço. No momento em que o casal inglês se virou para partir, Naresh regressou  para junto do balcão.

- Eis o que decidi fazer - disse ele. - Vou ficar ali sentado no meio do átrio. Se a menina Jennifer entrar, quero que me façam sinal.

- Faremos isso com o maior prazer, inspetor - disse Sumit.

Lakshay também concordou.

 

Jennifer olhou por cima da mesa do café da manhã para Rita Lucas e ficou impressionada com a maneira como a outra mulher se estava a aguentar. Quando Jennifer  chegou ao Hotel Imperial, a mulher tinha-lhe pedido desculpa pelo seu aspecto, explicando-lhe que não tivera disposição para se arranjar depois de ter estado a pé  toda a noite, primeiro no hospital durante várias horas, e depois ao telefone com familiares e amigos.

Era uma mulher magra e pálida; o oposto do seu falecido marido. Denotava um certo tipo de atitude tímida e desesperada perante a tragédia em que se via envolvida.

Ele era um bom homem dizia ela. Mas não conseguia controlar o apetite. Tentava, tenho de o admitir, mas não era capaz, embora o seu aspecto e as suas limitações  o envergonhassem.

Jennifer acenou com a cabeça, percebendo que a outra mulher precisava de desabafar. Jennifer tinha a impressão de que ela, mais do que o marido, era quem se sentia  embaraçada, e que tinha sido ela a convencê-lo a fazer a operação que acabara por matá-lo.

Anteriormente, Rita admitira que o hospital tinha tentado forçá-la a tomar uma decisão sobre o destino a dar ao corpo. Disse que, de início, eles apresentaram isso  como uma sugestão, mas depois tornaram-se progressivamente mais insistentes. Rita admitiu que, se não tivesse falado primeiro com Jennifer, certamente se teria rendido  e permitido que o corpo fosse cremado.

Foi o fato de não terem sido capazes de me explicar a causa da morte do David que realmente me fez mudar de idéias explicou Rita. Primeiro era um simples ataque cardíaco, depois já era uma hemorragia e um ataque cardíaco, e por fim foi um ataque cardíaco que provocou uma hemorragia. Parecia que não eram capazes de se decidir.  Quando sugeri que fizessem a autópsia tornaram-se quase agressivos; bem, pelo menos a assistente social ficou zangada. Já ao cirurgião pareceu-me que não lhe fazia  diferença.

- Mencionaram se ele tinha ficado azul quando teve o ataque cardíaco? - perguntou Jennifer.

- Falaram nisso - respondeu Rita. Disseram que o fato de a respiração assistida ter feito aquilo passar tão rapidamente os fez acreditar que ele iria sobreviver.

Rita fez uma pausa antes de perguntar:

- E acerca dos patologistas forenses seus amigos que vêm a caminho para a ajudarem no caso da sua avó? Disse que eles poderiam investigar também o caso do meu marido. Essa possibilidade ainda se mantém?

- Eles vêm a caminho, por isso ainda não tive oportunidade de lhes perguntar. Mas estou certa de que não haverá problema.

- Sinceramente, gostava muito que o fizessem. Quanto mais penso no seu comentário de isto ser uma dívida que temos para com os nossos entes queridos, mais me sinto  de acordo consigo. Por tudo aquilo que me contou, também eu fiquei com algumas suspeitas.

- Vou-lhes perguntar esta noite quando eles chegarem e amanhã digo-lhe disse Jennifer.

Rita suspirou e uma vez mais as lágrimas começaram a surgir, por isso limpou cuidadosamente um olho com o lenço, e depois o outro.

- Acho que já disse tudo, e estou a sentir-me exausta. Talvez seja melhor ir para cima. Felizmente, tenho alguns comprimidos de Xanax. Se alguma vez precisei de um,  é agora.

As duas mulheres levantaram-se e abraçaram-se espontaneamente. Jennifer ficou surpreendida com a fragilidade de Rita. Era como se a tivessem espremido de mais; alguns  ossos pareciam prestes a estalar.

Despediram-se no átrio. Jennifer prometeu telefonar na manhã seguinte e Rita agradeceu por ela a ter ouvido. Depois separaram-se.

Quando Jennifer saiu do hotel prometeu a si mesma que desta feita, para regressar ao Amai, iria apanhar um táxi a sério e não um riquexó motorizado.

 

                   18 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUINTA FEIRA, 9:45 - NOVA DELI, ÍNDIA 

Durante o trajeto relativamente curto entre o Hotel Imperial e o Hotel Amal Palace, Jennifer chegou à conclusão que um táxi normal não era muito mais relaxante que um riquexó motorizado, tirando o fato de ter os lados fechados, o que pelo menos Lhe dava a impressão de estar mais segura. A condução do taxista era tão agressiva  como a do condutor do riquexó motorizado, com a diferença de o seu veículo ser um pouco menos manobrável.

Durante a viagem, e depois de ver as horas, Jennifer voltou a reiterar os seus planos de ir fazer um pouco de turismo durante a manhã; e algum exercício e depois  preguiçar junto à piscina, durante a tarde. O café da manhã com Rita convencera-a ainda mais de que algo de estranho se estava a passar, e não queria andar obcecada  com essa ideia. Olhava pela janela do táxi e já se sentia suficientemente familiarizada com o trânsito de Deli para reconhecer que a hora de ponta da manhã estava  a passar. Em vez do "pára-arranca", era o "vai-avançando-a-passo-de-caracol", por isso era uma hora tão boa como qualquer outra para ela dar uma volta pela cidade.

De regresso ao hotel, não se preocupou em ir ao quarto. Servindo-se do telefone do hotel, telefonou a Lucinda Benfatti.

- Espero que não seja demasiado cedo para telefonar - disse Jennifer, como quem se desculpa.

- Céus, claro que não - disse Lucinda.

- Acabei de tomar o café da manhã com uma mulher cujo marido morreu ontem à noite, não no Queen Victoria, mas noutro hospital do mesmo gênero.

- Podemos certamente compreender a sua dor.

- E de várias maneiras. Toda a situação é idêntica à experiência por que passamos. Uma vez mais, a CNN tomou conhecimento do caso antes dela.

- Com esta, são já três mortes - declarou Lucinda. Estava chocada. Duas podia ter sido coincidência; mas três casos em três dias, não pode ser.

- É precisamente o que eu penso.

- Estou contente por os seus amigos patologistas forenses estarem a chegar.

- Também eu, mas tenho a sensação de que até eles chegarem estou a marcar passo. Hoje vou procurar não pensar no assunto. Acho mesmo que vou tentar comportar-me como  uma turista. Quer vir comigo? Não me importa nada aquilo que vou ver. Só quero abstrair a minha mente disto tudo.

- Se calhar é boa idéia, mas não para mim. Não consigo fazer isso.

- Tem a certeza? - perguntou Jennifer, sem estar segura de que seria delicado insistir mais.

- Tenho sim.

- Aqui estou eu, a dizer que quero afastar os meus pensamentos de tudo isto, e no entanto, tenho algumas perguntas que desejava fazer-lhe. A primeira é se chegou a  descobrir através do seu amigo de Nova Iorque a que horas é que ele soube da morte de Herbert na CNN?

- Sim, cheguei - disse Lucinda. Anotei isso algures. Não desligue! Jennifer podia ouvir Lucinda a remexer nos objetos que estavam em cima da secretária enquanto ia resmungando.  Passou quase um minuto até ela voltar ao telefone. Aqui está ele. Tomei nota nas costas de um envelope. Foi mesmo antes das onze da manhã. Ele lembra-se, porque  tinha ligado a televisão para ver um programa que estava marcado para as onze.

- Está bem - disse Jennifer, enquanto tomava nota da hora. Agora queria fazer-lhe outro pedido. Importa-se?

- De modo algum.

- Ligue ao seu amigo Varini e pergunte-lhe qual é a hora que consta na certidão de óbito, ou se for até lá, peça para ver a certidão de óbito com os seus próprios  olhos, pois tem direito a fazê-lo. Gostava de saber a hora e vou dizer-lhe porquê. Em relação à minha avó, ouvi dizer que a sua morte tinha ocorrido às sete e quarenta  e cinco da manhã, hora de Los Angeles, o que é à volta das oito e um quarto, hora de Nova Deli. Aqui em Nova Deli, quando pedi para ver a certidão de óbito, verifiquei  que a hora que constava era dez e trinta e cinco da noite, o que não deixa de ser, no mínimo, curioso. A hora da morte é posterior à hora que foi anunciada na televisão.

- É estranho! Dá a impressão de que, antes de isso suceder, alguém sabia que ela ia morrer.

- Precisamente - disse Jennifer. É verdade que podia ter havido uma aselhice qualquer aqui na Índia que poderia explicar a discrepância, como por exemplo alguém ter  escrito dez e trinta e cinco da noite quando devia escrever nove e trinta e cinco, mas mesmo se fosse assim, seria um espaço de tempo demasiado curto para a CNN  receber a informação, verificá-la de algum modo, escrever o texto sobre o turismo de saúde, e pôr o assunto no ar.

- Estou de acordo consigo; vou fazer o possível por descobrir.

- Já agora, uma última questão - disse Jennifer. Quando descobriram que a minha avó tinha morrido, ela estava azul. Chama-se a isso cianose. É complicado dar-lhe a explicação  fisiológica deste fenómeno. Depois de um ataque cardíaco, às vezes o doente pode ficar um pouco azul, talvez nas extremidades, como as pontas dos dedos, mas não  no corpo todo. Com todas as outras analogias entre o caso da minha avó e o de Herbert, gostava de saber se ele também estava azul.

- A quem posso perguntar?

- Às enfermeiras. São as enfermeiras que sabem o que se passa num hospital. Ou aos estudantes de medicina, se os houver no hospital.

- Vou tentar.

- Peço-lhe que me desculpe por estar a incumbi-la de todas estas tarefas.

- Não tem importância. Até gosto de ter coisas para fazer. Faz com que não ande tão obcecada com as minhas próprias emoções.

- Uma vez que não lhe apetece passear, que tal jantar? Vai esperar os seus filhos ao aeroporto ou vai ficar à espera no hotel?

- Vou ao aeroporto. Estou ansiosa por vê-los. Quanto ao jantar, posso dizer-lhe algo mais tarde?

- Naturalmente disse Jennifer. Ligo-lhe durante a tarde.

Depois das despedidas, Jennifer pousou o auscultador e dirigiu-se apressadamente ao balcão dos concierges. Agora que tinha tomado a decisão de fazer turismo, queria  pôr-se a caminho.

Infelizmente, havia fila para o balcão, e teve de esperar. Quando chegou a sua vez e avançou para o balcão, não pôde deixar de reparar na reação do concierge. Era  como se tivesse reconhecido uma velha amiga. O que tornava o fato ainda mais surpreendente é que nem sequer era o mesmo homem que lhe dera o mapa da cidade na véspera.

- Gostava que me desse uma opinião - disse Jennifer, enquanto observava os olhos negros do homem. Em vez de a olhar nos olhos, como seria normal, parecia que ele estava  a olhar por cima do ombro de Jennifer, na direção do átrio, de tal maneira que Jennifer se virou para ver se estava a passar-se qualquer coisa lá atrás, mas não  viu nada fora do comum.

- Que tipo de opinião? - perguntou o homem, olhando por fim diretamente para Jennifer.

- Quero fazer um pouco de turismo esta manhã disse ela. Reparou que o homem se chamava Sumit. O que é que me recomenda para um período de duas ou três horas?

- Já visitou a Velha Deli? inquiriu Sumit.

- Ainda não visitei nada.

- Então sugiro-lhe definitivamente a Velha Deli - disse Sumit, ao mesmo tempo que pegava num mapa da cidade. Abriu o mapa com a destreza do hábito e estendeu-o em cima  do balcão.

Jennifer olhou para o mapa. Era igual ao que lhe tinham dado na véspera.

- Veja, a Velha Deli fica aqui - disse Sumit, apontando com o indicador da mão esquerda.

Jennifer seguiu com o olhar o dedo do concierge, mas pelo canto do olho viu  Sumit fazer um sinal com a mão direita, por cima da cabeça, como se procurasse atrair a atenção de alguém. Jennifer voltou-se para o átrio para ver para quem é que  Sumit estava a acenar, mas parecia não haver ninguém a retribuir-lhe o gesto. Voltou a olhar para o concierge, que pareceu ligeiramente embaraçado e baixou a mão,  como uma criança apanhada em flagrante a tentar chegar ao frasco dos doces.

- Desculpe disse Sumit. Estava a tentar dizer adeus a um velho amigo.

- Não tem importância - disse Jennifer. O que devo ver na Velha Deli?

- O Forte Vermelho, seguramente - disse ele, pousando o dedo em cima do mapa. Pegou no guia turístico de Jennifer e abriu-o imediatamente na página certa. É talvez o  melhor emblema da índia, se excluirmos o Taj Mahal, em Agra. Pessoalmente, gosto do Diwan-i-Aam em particular.

- Parece prometedor - disse Jennifer, notando que o homem já não parecia estar minimamente distraído.

- Bom dia, menina Hernandez disse o segundo concierge, quando acabou de atender o último cliente e aguardava que o seguinte avançasse. Fora ele que lhe dera o mapa  da cidade no dia anterior.

- Bom dia respondeu Jennifer.

- A menina Hernandez vai visitar a Velha Deli - disse Sumit a Lakshay.

- Vai adorar - disse Lakshay, enquanto fazia sinal ao hóspede seguinte para se aproximar.

- E para além do Forte Vermelho? perguntou Jennifer.

- Recomendo-lhe que visite a mesquita de Jama Masjid, construída pelo mesmo imperador Mogol. É a maior mesquita da Índia.

- Há algum mercado perto destes dois monumentos? perguntou Jennifer.

- Não apenas um mercado, mas o mercado. É o mais maravilhoso labirinto de galis estreitas e de katras ainda mais apertadas, onde pode comprar de tudo. As lojas são  minúsculas e os donos são negociantes, por isso tem de discutir os preços. É uma maravilha. Sugiro-lhe que dê um passeio pelo mercado, que faça compras se quiser,  e depois vá almoçar a este restaurante, o Karimdisse Sumit, apontando para o mapa. É o restaurante de cozinha mughlai mais autêntico de Nova Deli.

- É seguro? perguntou Jennifer. Prefiro não apanhar nenhuma diarréia.

- Muito seguro. Eu conheço o chefe de mesa. Vou ligar-lhe e dizer-lhe que provavelmente vai passar por lá. Se for, peça para falar com Amit Singh. Ele vai tomar bem conta de si.

- Obrigado - disse Jennifer. - Parece-me uma boa ideia. Procurou dobrar o mapa na forma original.

Sumit pegou no mapa e achatou-o com perícia.

- Posso perguntar-lhe como tenciona ir para a Velha Deli?

- Ainda não tinha pensado nisso.

- Posso recomendar-lhe que utilize um dos carros do hotel. Podemos arranjar um motorista que fale inglês, e o carro tem ar condicionado. É um pouco mais caro do que  um táxi normal, mas o motorista estará sempre consigo, exceto quando andar a visitar os monumentos e o mercado. Muitas das nossas hóspedes acham que é muito cômodo.

Esta idéia agradou imediatamente a Jennifer. Dado que esta seria provavelmente a sua única visita turística, pensou que devia fazê-la como deve ser e, sendo uma  turista inexperiente, este pormenor podia fazer toda a diferença entre divertir-se ou não.

- Disse que não fica muito mais caro que um táxi? perguntou Jennifer para se certificar.

- É verdade, isto se alugar um táxi à hora. Trata-se de um serviço exclusivo para os nossos hóspedes.

- Como é que trato disso? Só me serve se tiver um carro disponível já.

Sumit apontou para um balcão semelhante ao seu que ficava do outro lado da entrada principal.

- É no balcão dos transportes, mesmo no lado oposto, e o meu colega, que está vestido como eu, é o encarregado dos transportes. Asseguro-lhe que ele irá mostrar-se  muito útil.

Jennifer foi aos ziguezagues pelo meio das pessoas que entravam e que saíam do hotel e aproximou-se do balcão dos transportes. Não reparou num homem careca, de rosto  redondo e uns oito centímetros mais baixo do que ela, que se levantou de uma poltrona instalada no meio do átrio e se aproximou dos concierges. Mas aconteceu vê-lo,  uns instantes depois, enquanto o encarregado dos transportes concluía uma conversa telefônica. Reparou nele porque estava a falar com um porteiro muito alto, de  turbante, o que o fazia parecer muito mais pequeno do que realmente era.

- Posso ajudá-la? - perguntou o encarregado dos transportes quando desligou.

Reparou que a reação do homem ao falar com ela era idêntica à do recepcionista: uma espécie de reconhecimento distraído. Jennifer sentiu-se instantaneamente envergonhada,  inquieta com qualquer possível irregularidade no seu aspecto, como qualquer coisa metida entre os dentes. Pelo seguro, passou a língua por cima deles.

- Posso ajudá-la? - repetiu o homem.

Jennifer viu que o nome dele era Samarjit Rao. Não se lembrava seguramente de já o ter encontrado.

- Já nos conhecemos? perguntou Jennifer.

- Infelizmente, não. Não pessoalmente, bem entendido. Mas fui eu que tratei do seu transporte para o aeroporto na quinta-feira à noite, e sei que vai esta noite ao  aeroporto numa camioneta. E nós temos recomendações da gerência para decorarmos os nomes e os rostos dos nossos hóspedes.

- Devo confessar que estou impressionada - disse Jennifer. E prosseguiu perguntando quanto custava um carro com motorista por mais ou menos três horas, e se havia algum  que estivesse livre nessa altura, com um motorista que falasse inglês.

Samarjit disse um preço a Jennifer, que era mais baixo do que ela esperava. Logo que ele verificou que havia um carro disponível com motorista que falava inglês,  Jennifer disse que aceitava. Cinco minutos mais tarde disseram-lhe para ir para o pórtico e esperar que chegasse um Mercedes que tinham ido buscar à garagem. Também  lhe disseram que o nome do motorista era Ranjeet Basoka, e que o porteiro sikh já estava informado e indicar-lhe-ia o veículo certo.

Enquanto esperava que o carro alugado aparecesse, entreteve-se a olhar para a mistura de pessoas de diferentes nacionalidades que circulavam por ali, mas, assim  distraída, não se apercebeu de um homem vestido de preto, com vários cordões de ouro ao pescoço, que saiu do hotel, abriu caminho através da multidão e entrou num  Mercedes preto. Nem viu que o homem não pôs o carro a trabalhar, limitando-se a ficar sentado no lugar do condutor e a tamborilar no volante.

- Deseja mais café? perguntou o empregado.

- Não, obrigado - disse Neil.

Dobrou o jornal, levantou-se e esticou-se. O café da manhã tinha sido fantástico. O bufete era dos mais variados que ele tinha visto, e tinha-se servido de quase tudo. Depois de assinar a fatura, dirigiu-se para o átrio apinhado de gente, pensando em qual deveria ser o seu plano. Tendo visto o balcão  dos concierges, decidiu que ia começar por ali.

- Demorou algum tempo até chegar a sua vez.

- Sou hóspede do hotel - começou por dizer.

- Certamente disse Lakshay. O senhor é Sahib Neil McCulgan, se não estou em erro.

- Como é que sabe o meu nome?

- Ao chegar de manhã, quando tenho tempo, procuro saber quem são os novos hóspedes. Às vezes engano-me, mas a maior parte das vezes acerto.

- Então deve conhecer a menina Jennifer Hernandez.

- Perfeitamente. É um amigo?

- Sou. Ela não sabe que estou cá. É uma espécie de surpresa.

- Um momento - disse Lakshay enquanto saía precipitadamente de trás do balcão. Espere aqui acrescentou, enquanto saía pela porta a correr.

Atônito, Neil ficou a olhar para ele através dos vidros, enquanto o concierge se dirigia diretamente para um porteiro vestido com cores garridas. Tiveram uma rápida  troca de palavras e em seguida Lakshay voltou a correr para o interior do hotel. Estava um pouco ofegante.

- Desculpe disse a Neil. É que a menina Hernandez esteve aqui há dois minutos. Pensei que talvez ainda pudesse apanhá-la, mas ela acabou de partir no carro.

O rosto de Neil iluminou-se.

- Ela esteve aqui na recepção há apenas alguns minutos?

- Sim. Veio pedir conselho sobre os lugars que devia visitar. Dissemos-lhe para ir ver o Forte Vermelho em Velha Deli, a mesquita Jama Masjid e o mercado de Deli,  almoçando provavelmente num restaurante chamado Karim.

- Por essa ordem?

- Sim, por isso acho que é capaz de a apanhar ainda no Forte Vermelho, se se despachar.

Neil precipitou-se para a saída do hotel, quando o segundo concierge o chamou.

- Ela foi num carro do hotel. Um Mercedes preto. Peça ao encarregado dos transportes o número da matrícula. Pode ser útil.

Neil fez um aceno com a mão, a mostrar que tinha ouvido, depois encaminhou-se para o balcão dos transportes, obteve o número de matrícula do carro e foi a correr  para ver se caçava um táxi.

Jennifer deu imediatamente graças por ter deixado que o concierge lhe falasse em alugar um carro do hotel para o passeio. Logo que se viu confortavelmente instalada  dentro do Mercedes, com o ar condicionado e os sons exteriores amortecidos, em comparação com o riquexó motorizado e o táxi normal, sentiu-se como se estivesse noutro  planejta. Durante os primeiros quinze minutos foi apreciando o espettáculo das ruas indianas com a sua fantástica colecção de meios de transporte e os animais misturados  com a multidão, desde os irrequietos macacos até às vacas sonolentas. Também viu o seu primeiro elefante indiano.

O motorista, Ranjeet, envergava um uniforme azul escuro, feito à medida, cuidadosamente passado a ferro. Embora falasse inglês, o seu sotaque era tão cerrado que  era difícil para Jennifer entender o que dizia. Procurou fazer um esforço enquanto ele ia apontando para os vários pontos de interesse, mas acabou por desistir e foi-se limitando a acenar com a cabeça e a dizer coisas do gênero: "Muito interessante" ou "É maravilhoso". Por fim, abriu o guia na seção que falava do Forte Vermelho.

Passados alguns minutos o motorista reparou que ela estava concentrada no livro e calou-se.

Durante cerca de meia hora esteve a ler coisas sobre a arquitetura do forte e alguma da sua história, ao ponto de se abstrair completamente do trânsito e do caminho  que faziam. Também não se deu conta dos dois carros que iam a seguir o seu: um era um Ambassador branco e o outro um Mercedes preto. Algumas vezes estes carros ficavam  muito próximos, especialmente quando paravam nos sinais vermelhos ou nos engarrafamentos. Outras vezes estavam bastante afastados, mas nunca fora de vista.

Em breve vai aparecer o Forte Vermelho à direita disse Ranjeet logo a seguir a este semáforo.

Jennifer levantou os olhos da leitura, que tinha passado do Forte Vermelho para Jama Masjid. O que lhe chamou imediatamente a atenção foi que a aglomeração, tanto  de pessoas como de veículos, especialmente riquexós e carroças puxadas por animais, era muito maior na Velha Deli do que em Nova Deli. Havia muito mais lixo e detritos  de toda a ordem. Mas também havia muito mais azáfama, como pessoas a serem barbeadas ou a cortar o cabelo, tratamentos médicos, comida, massagens, limpeza de ouvidos,  lavagem de roupa, conserto de calçado, dentes obturados; tudo na rua, com reduzido equipamento. Tudo o que o barbeiro tinha era uma cadeira, um pequeno espelho rachado,  alguns utensílios, um balde de água e um grande trapo.

Jennifer estava abismada. Tudo o que no Ocidente é feito em segredo, à porta fechada, era ali exibido em plena rua. Para Jennifer era uma orgia visual. De cada vez  que uma atividade lhe chamava a atenção e queria fazer perguntas ao motorista sobre o que estavam aquelas pessoas a fazer, deparava-se logo com alguma coisa ainda  mais surpreendente.

- Ali está o Forte Vermelho - disse Ranjee orgulhosamente.

Jennifer olhou através do pára-brisas para uma monstruosa estrutura de arenito vermelho, guarnecida de ameias, muito maior do que tinha imaginado.

- É enorme - disse a custo. Estava boquiaberta. Circulavam ao longo da muralha ocidental, e parecia que nunca mais acabava.

- A entrada fica ali adiante, à direita disse Ranjeet, apontando em frente. Chama-se a Porta Lahore. É onde o primeiro-ministro faz o discurso do Dia da Independência.

Jennifer não estava a prestar atenção ao que ele dizia. O Forte Vermelho era avassalador. Quando estava a ler sobre ele, imaginara algo do tamanho da Biblioteca  Pública de Nova Iorque; mas era muitíssimo maior e construído num estilo de arquitetura maravilhosamente exótico. Explorá-lo adequadamente levaria um dia e não a hora, mais coisa menos coisa, que tinha planejado.

Ranjeet virou para o parque de estacionamento que ficava em frente da Porta Lahore. Uma grande quantidade de ônibus de turismo estavam estacionados ao longo de um  dos lados. Ranjeet passou por eles e parou junto a um grupo de lojas de recordações.

- Fico ali à sua espera disse ele, apontando para umas árvores imponentes que proporcionavam um pouco de sombra. Se não me vir quando sair, ligue-me e eu venho diretamente  para aqui.

Jennifer pegou no cartão que o motorista lhe estendeu, mas não respondeu. Estava a olhar para a imensidão do forte e a reconhecer a futilidade de pensar em ver um  edifício do tamanho do Forte Vermelho numa hora. Certamente que não lhe faria justiça. A esse sentimento negativo juntava-se o cansaço geral que começava a sentir  por causa dojet lag, da sonolência que o carro lhe provocara e da constatação de que não era uma grande apreciadora de edifícios antigos. Jennifer gostava mais de  pessoas. Se tinha de fazer um esforço, preferia ver pessoas a ver arquitetura em ruínas. Interessava-a muito mais o espetáculo das ruas indianas, algumas das quais  tivera ocasião de apreciar durante o trajeto.

- Passa-se alguma coisa, menina Hernandez? perguntou Ranjeet. Depois de lhe ter estendido o cartão, tinha continuado a olhar para Jennifer. Ela não se tinha mexido.

- Não disse Jennifer. Apenas mudei de idéia. Presumo que estamos perto da zona do mercado, não é?

- Estamos sim - disse Ranjeet. Apontou para o outro lado da estrada que passava junto do Forte Vermelho. Toda a zona a sul de Chandni Chowk, aquela rua principal por  onde se sai do Forte Vermelho, é a zona do mercado.

- Há algum lugar onde seja prático para si estacionar, de maneira a que eu possa dar uma volta pelo mercado?

- Há sim. Há o parque de estacionamento da mesquita Jama Masjid, que fica no extremo sul do mercado.

- Então vamos - disse Jennifer.

Ranjeed fez uma rápida inversão de marcha e foi a acelerar pelo caminho por onde tinham vindo, levantando uma nuvem de poeira amarelada. Também buzinou, quando estavam  a aproximar-se perigosamente de um homem vestido de preto e que trazia o casaco por cima do braço. O que Ranjeed não viu foi um homem de pequena estatura, que estava  junto a uma tenda de venda de refrescos, deitar fora a lata de refrigerante e desatar a correr para o seu carro.

Chandni Chowk é ao mesmo tempo uma rua e um bairro? perguntou Jennifer. Tinha regressado à leitura do guia. É um pouco confuso.

- É as duas coisas - disse Ranjeet. Embora estivessem parados num semáforo, voltou a buzinar quando um táxi que virava para o parque de estacionamento da Porta Labore, mais depressa do que era apropriado, se chegou a poucos centímetros do táxi, e fez uma ultrapassagem a alta velocidade. Ranjeet fez um gesto com o punho e gritou  algumas palavras em hindu, que Jennifer presumiu não serem daquelas que se usam nos salões de chá.

- Desculpe - disse Ranjeet.

- Não faz mal - disse Jennifer. O táxi também a alarmara.

As luzes mudaram e Ranjeet acelerou, entrando na larga Netaji Subhash Marg, com várias faixas, que passava em frente do Forte Vermelho e se dirigia para sul.

- Já andou num riquexó a pedais, menina Hernandez?

- Não, nunca admitiu Jennifer. Mas já andei num riquexó motorizado. Aconselho-a a experimentar um riquexó a pedais, especialmente aqui em Chandki Chowk. Posso arranjar-lhe  um em Jama Masjid, e ele leva-a a fazer a visita ao mercado. As ruas chamam-se galis e são estreitas e apinhadas de gente e as katra são ainda mais estreitas. Precisa  de um riquexó a pedais, senão perde-se. - Ele pode trazê-la de volta quando quiser.

- Acho que devia experimentar - disse Jennifer, sem grande entusiasmo. Disse a si mesma que devia ter mais espírito de aventura.

Ranjeed virou à esquerda para sair da grande avenida e viu-se imediatamente atolado no trânsito de uma rua apertada. Não era ainda o verdadeiro mercado, mas havia  lojas de tamanho modesto que vendiam uma vasta gama de mercadorias, desde utensílios de cozinha de aço inoxidável a visitas de ônibus ao Rajasthan, alinhadas nos  dois lados da rua. Enquanto o carro ia avançando lentamente, Jennifer pôde observar as miríades de rostos da população local, que refletiam a vertiginosa variedade  de grupos étnicos e culturas que se tinham miraculosamente amalgamado ao longo dos milénios, para formar a Índia dos dias de hoje.

A rua estreita desembocava na mesquita Jama Masjid, de aspecto exótico, onde Ranjeed virou à esquerda e entrou num parque de estacionamento que estava a abarrotar.  Saiu do carro e disse a Jennifer para aguardar um momento.

Enquanto esperava, Jennifer aprendeu algo acerca do temperamento indiano. Embora Ranjeed tivesse deixado o carro no meio do parque de estacionamento movimentado,  ninguém pareceu importar-se. Era como se ela e o carro fossem invisíveis, apesar de estarem a obstruir a passagem. Nem conseguia imaginar o rebuliço que provocaria  fazer algo de similar em Nova Iorque.

Ranjeet regressou com um riquexó atrás dele. Jennifer ficou horrorizada. O ciclista era magro como um espeto, com as faces chupadas, a denotarem uma carência total  em proteínas. Não parecia capaz de ir muito longe a pé, quanto mais de pedalar com força suficiente para locomover um triciclo carregado com os sessenta e dois quilos  de peso de Jennifer.

Este é Ajay disse Ranjeed. Ele vai levá-la a visitar o mercado, para onde quer que queira ir. Sugiro-lhe o Dariba Kalan com os seus ornamentos de ouro e prata. Também há alguns templos que talvez gostasse de visitar. Quando quiser regressar ao carro, basta dizer-me.

Jennifer saiu do carro e instalou-se com alguma relutância no assento do riquexó. Notou que havia pouco a que se agarrar, o que lhe dava uma sensação de vulnerabilidade.  Ajay fez uma vénia e depois começou a pedalar sem dizer uma palavra. Para grande surpresa de Jennifer, ele era capaz de movimentar o veículo com aparente facilidade,  mantendo-se de pé enquanto pedalava. Circularam ao longo da fachada de Jama Masjid e depois foram engolidos pelo enorme mercado.

Na Porta Lahore do Forte Vermelho, enquanto Dhaval Narang chegava ao carro, Ranjeet já tinha passado um sinal verde e acelerava para sul para juntar-se ao tráfego  que vinha da Avenida Chandni Chowk. Carregando no acelerador, Dhaval conseguiu chegar ao sinal antes de ele mudar para vermelho. Continuando a acelerar, foi em perseguição  do carro do hotel, procurando desesperadamente não o perder de vista. Uma vez que o trânsito estava congestionado, a tarefa não era fácil, mesmo tendo uma condução  agressiva, na tentativa de se aproximar. Estava a sair-se bem, até ao momento em que um ônibus arrancou da berma e lhe tapou a visão.

Obrigado a correr o risco, Dhaval meteu prego a fundo, cortou diante de um camião e conseguiu passar pelo lado do ônibus cheio de passageiros. Infelizmente, no momento  em que conseguiu olhar de novo em frente, Ranjeet tinha desaparecido. Abrandando consideravelmente, Dhaval começou a olhar para as ruas laterais, voltadas para oeste,  à medida que ia passando por elas. Pouco depois teve de parar num semáforo, permitindo que um mar de gente atravessasse a Netaji Subhash Marg.

Dhaval estava furioso, batendo com os dedos no volante impacientemente, enquanto esperava que a luz mudasse para verde. Aprincípio tinha ficado satisfeito por causa  do Forte Vermelho, porque era grande e inundado de turistas, o que facilitava a tarefa de disparar um tiro e misturar-se com a multidão sem ter medo de ser apanhado.  Mas depois Ranjeed tinha partido subitamente e Dhaval não tinha nenhuma ideia de para onde fora, nem porquê.

Quando o semáforo mudou para verde, Dhaval teve de esperar impacientemente enquanto os carros que estavam à sua frente se punham lentamente em movimento. No cruzamento,  deu uma olhadela na direção da mesquita Jama Masjid e tomou uma decisão rápida. A meio caminho da mesquita e preso no tráfego, estava o que lhe pareceu ser o Mercedes  do Amai Palace.

Guinando o volante repentinamente para a direita, Dhaval, temerariamente, atravessou-se à frente do tráfego que vinha em sentido contrário, obrigando vários carros a meterem freios a fundo. Cerrando os dentes, Dhaval estava quase à espera de ouvir o estrondo duma colisão, mas felizmente foram só guinchos de freios, buzinas e gritos irados. Quer o carro lá adiante fosse o do hotel quer não, estava  decidido a ir inspeccionar a mesquita. Se Jennifer Hernandez não se encontrasse lá, então ele regressaria ao hotel.

Circulando lentamente no tráfego congestionado da rua lateral, demorou algum tempo a chegar à mesquita, dirigindo-se depois para o parque de estacionamento. Mal  fez isso reconheceu logo o carro do hotel, que estava a estacionar. Olhando rapidamente por cima do ombro na direção oposta, foi recompensado com a visão de Jennifer  sentada num riquexó, antes de ela desaparecer numa das galis cheias de gente.

Tendo sido informado do plano que Jennifer tinha estabelecido para o passeio à Velha Deli, o inspetor Naresh Prasad limitou-se a deduzir que ela tinha mudado de  ideias relativamente à visita ao Forte Vermelho e estava a dirigir-se para Jama Masjid. Embora estivesse com alguma pressa, pensou que não valia a pena correr riscos.  Ao mesmo tempo não queria perdê-la, ainda que fosse progressivamente pondo em questão a necessidade de a seguir enquanto ela estivesse a comportar-se como uma turista.  Teria preferido de longe saber com quem Jennifer tinha tomado o café da manhã nessa manhã, do que andar atrás dela numa peregrinação turística.

Ao estacionar o carro no parque, reparou num homem vestido de preto a sair de um Mercedes. Era o mesmo homem que Naresh tinha visto, há apenas alguns minutos, a  correr para o carro quando Jennifer Hernandez estava a abandonar o parque de estacionamento do Forte Vermelho. Cheio de curiosidade, Naresh saiu também rapidamente  do carro.

Neil não pôde deixar de sorrir enquanto corria ao longo da fachada da mesquita Jama Masjid. Estava seguramente a ter um trabalho dos diabos para fazer a surpresa  a Jennifer e perguntava a si mesmo o que teria acontecido no Forte Vermelho. Quando visitara a Índia há cinco meses, o Forte Vermelho fora um dos seus locais turísticos  preferidos, mas aparentemente Jennifer pensava de maneira diferente.

Um minuto mais cedo, por mera sorte, Neil tinha vislumbrado Jennifer, em equilíbrio num riquexó e prestes a ser tragada pelo labirinto de ruelas de Deli. Gritando  ao motorista para parar, Neil atirara o dinheiro para cima do banco da frente e saltara do carro, apenas para se ver imediatamente atolado na multidão que se amontoava diante da entrada da mesquita. Quando finalmente conseguiu libertar-se, Jennifer já tinha desaparecido.

Quando Neil entrou no mercado, teve de abrandar a corrida. A princípio não estava certo da direção que ela tinha tomado, mas um minuto ou dois de corrida suplementar  puseram-na de novo ao alcance da vista. Nesse momento ela estava a cerca de quinze metros à sua frente.

Jennifer não estava a divertir-se. O banco do riquexó era duro e o piso estava cheio de buracos. Por diversas vezes receou cair, quando os pneus do triciclo passaram  por uma cova. As vielas, as ruelas estreitas e as katras, mais estreitas ainda, estavam horrivelmente apinhadas, eram barulhentas, frenéticas, vibrantes e caóticas,  tudo em simultâneo. Miríades de fios elétricos e canos pairavam por cima delas, como teias de aranha. Havia uma sinfonia de cheiros, uns deliciosos e outros repugnantes,  provenientes, entre outras coisas, de especiarias e urina, fezes de animais e jasmim.

Ao mesmo tempo que se agarrava com unhas e dentes, ia pensando que provavelmente acharia aquela experiência mais interessante se não fosse a morte da avó, que era  uma presença constante na sua consciência, não obstante o bombardeamento de que os seus sentidos eram objeto. Embora estivesse a lidar com aquela tragédia muito  melhor do que tinha imaginado antes de chegar à índia, ela ainda a afetava negativamente a vários níveis. Consequentemente, a parte do mercado por onde estava a  passar parecia-lhe suja, com demasiado lixo e imundice e excessivamente inundada de gente. As próprias lojas, na sua grande maioria, eram meros buracos nas paredes,  com a tralha espalhada pela rua. Embora reconhecendo que ainda tinha de ver a zona onde se vendia ouro e prata e a das especiarias, achava que já tivera a sua dose.  Não estava pura e simplesmente de maré.

No momento em que Jennifer ia dizer ao ciclista que queria voltar para trás, tinha-se efetivamente inclinado para a frente, agarrando-se com a mão esquerda e mantendo  o saco em cima do colo, para tentar chamar a atenção do homem, mas apercebeu-se, pelo canto do olho, de uma espécie de agitação. Quando se voltou para a esquerda  e baixou os olhos, deu por si a olhar fixamente para o cano de uma arma de fogo. Por cima do cano estava o rosto duro, magro e inexpressivo de um homem.

O que todo aquele mar de gente que estava na galis ouviu a seguir foi o estampido assustador de dois tiros a serem disparados. Aqueles que estavam perto da vítima,  e que por acaso olhavam nessa direção, tiveram também oportunidade de testemunhar o terrível poder destrutivo de uma bala de nove milímetros disparada à queima-roupa,  que atravessara o crânio e saíra pelo lado esquerdo da cara do homem. Daí resultou que grande parte da face esquerda fosse arrancada, pondo à mostra a dentição da  mandíbula superior, bem como a da mandíbula inferior.

 

                   18 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUINTA FEIRA, 10:52 - DELI, ÍNDIA 

Durante um momento, pareceu que o tempo tinha parado. Tudo ficou silencioso. Todos os que se encontravam ali ao pé emudeceram. Os ouvidos zuniam com o estrondo do disparo na viela estreita e apinhada. No instante seguinte, foi como se viesse ali um tornado, com toda a gente a gritar e a fugir num pânico absoluto.

O ciclista anémico que transportava Jennifer foi um dos primeiros a fugir, tendo saltado literalmente do seu triciclo e desatado a correr pela gali fora, sem sequer  segurar no seu dhoti. Podia parecer subalimentado, mas tinha um forte instinto de sobrevivência.

No momento em que o condutor abandonou o riquexó e desatou a correr, a roda dianteira guinou abruptamente e o impulso do veículo impeliu-o para diante.

Ao embater, Jennifer foi projetada para cima do pavimento imundo. O saco que levava a tiracolo não a abandonou quando ela se estatelou ao comprido no chão, raspando  a asa do nariz e o ombro direito durante o processo. Na altura não si importou com o lugar onde tinha caído. Quase no próprio instante em que tocou no chão, pôs-se  de pé e começou a correr como toda a gente. Em poucos segundos o mercado tornou-se numa maré de gente sempre a subir, que avançava como uma vaga, submergindo as  lojas, que funcionavam como as valvas de um molusco. Mal o tumulto chegava às suas portas, estas fechavam-se instantaneamente; os ferrolhos eram corridos e a mercadoria  era atropelada e espezinhada na rua.

Jennifer não tinha ideia nenhuma de para onde estava a ir, mas agradava-lhe deixar que os seus pés em estado de choque a levassem rapidamente para onde quisessem,  desde que fosse para longe do local onde a arma tinha disparado. Não conseguia pensar em mais nada senão na imagem do homem vestido de negro a apontar-lhe uma arma  à cara. Naquela derradeira fração de segundo tinha visto a face esquerda do homem desaparecer literalmente; num segundo estava lá, e no segundo seguinte tinha desaparecido. Nesse instante o homem pareceu-lhe a personificação da própria Morte.

Jennifer deu-se conta que havia outras pessoas a correr, cada qual numa direção ligeiramente diferente, embora a maior parte descesse a rua e virasse à direita na  primeira esquina. Depressa ficou esgotada de tanto correr e viu que algumas pessoas desapareciam atrás da porta de uma das maiores lojas que havia depois do virar  da esquina. O dono protestava e procurava fechar a porta, mas as pessoas, cerca de meia dúzia, não lhe ligavam. Jennifer abriu caminho para entrar na loja atrás  dos outros, quando viu, mesmo à sua frente, dois polícias vestidos de caqui, com ar desmazelado, a correrem para o meio das pessoas e a bater-lhes com longos bastões  de bambu, para acalmar o pânico.

Depois de se atirar para dentro da loja e olhar à volta para a mercadoria, percebeu que era um talho. Próximo da entrada havia pilhas e pilhas de grades minúsculas  cheias de frangos e de alguns patos vivos. Mais para o interior havia porcos e uma ovelha. O lugar tresandava e estava imundo. O chão estava coberto duma crosta  de sangue seco. As moscas andavam por cima de tudo. Jennifer teve dificuldade em mantê-las afastadas da cara.

Enquanto o dono discutia com os outros estranhos que tinham entrado, ela procurou um esconderijo onde pudesse recuperar o fôlego e voltar a pôr a cabeça em ordem.  Ainda estava cheia de medo. Sabendo que não podia ser muito exigente, encontrou um cortinado sujo. Sem hesitar, afastou-o para o lado e entrou.

Ao ver que o seu pé não encontrava apoio, Jennifer apercebeu-se tardiamente que tinha de orientá-lo para cima de um de dois tijolos. O mesmo sucedendo com o outro  pé. Tinha entrado inadvertidamente numo banheiro improvisada. Equilibrando-se, voltou a puxar a cortina para o lugar dela. A seguir procurou voltar-se sem tirar  os pés dos tijolos. O aposento consistia apenas num buraco, dois tijolos, e uma torneira.

A discussão entre o dono e os intrusos ainda prosseguia na pequena loja. Jennifer presumiu que a linguagem fosse hindu. Procurou não respirar pelo nariz. O cheiro  empestava.

Agora que estava imóvel, Jennifer começou a tremer. Olhou para as mãos e, depois de alguma hesitação, cheirou-as. Não cheiravam nada bem, resultado daquilo para  cima de que caíra ao ser cuspida do triciclo e que não sabia bem o que era. Pelo menos não eram fezes. Olhou para a torneira, encolheu os ombros e dobrou-se para  lavar as mãos. Nesse momento, pareceu-lhe que tinha entrado outra pessoa na loja e que discutia com o dono. Desta feita era em inglês. Mas a pessoa não falou muito.  Era mais o dono que continuava a vociferar muito zangado. Depois ouviu-se algo cair com estrondo e os porcos começaram a grunhir e a ovelha a balir.

Preocupada com o que estaria a acontecer, Jennifer ergueu-se, virou-se e pôs-se à escuta. Parecia que o dono estava a tentar levantar-se. No preciso momento em que Jennifer tinha conseguido arranjar coragem para espreitar pela cortina, esta foi aberta de rompante, fazendo com que Jennifer soltasse um grito. O mesmo sucedeu com a pessoa que tinha aberto a cortina. Era Neil McCulgan.

- Céus, pregaste-me um susto de morte - protestou Neil, levando a mão ao peito.

- Eu? protestou Jennifer com igual veemência. Então e tu? E que raios estás tu a fazer aqui?

- Depois explico disse Neil. Estendeu a mão a Jennifer para ajudá-la a sair de cima dos tijolos. Por trás dele, o dono estava atarefado a tentar libertar-se do meio  de uma pilha de pequenas grades cheias de frangos para onde presumivelmente fora empurrado. Algumas das grades tinham-se partido e deixado sair os frangos, que deambulavam  nervosamente pelo chão.

Ela sacudiu a cabeça e levantou as mãos em sinal de aviso.

- Não vais querer tocar-me. Fui projetada de um triciclo para cima de alguma...

- Eu sei. Eu vi tudo.

- Viste? Jennifer saiu do banheiro. Mal olhou para a meia dúzia de indianos que tinham entrado na loja à sua frente.

- Claro que vi.

- Quero que vocês, americanos, saiam daqui para fora - berrou o dono, depois de apanhar os frangos e de enfiar as pobres aves em gaiolas já ocupadas. Quero que saiam  daqui para fora!

- Vamos! disse Neil, mantendo-se entre o dono e Jennifer. Não há nada de que seja preciso fugir.

No exterior, as coisas tinham regressado à normalidade. As pessoas já não estavam em pânico e tinham começado a voltar para a rua. As lojas estavam a voltar a abrir  e os dois polícias já não andavam a bater em ninguém. E o melhor de tudo era que aparentemente ninguém, a não ser o homem que tinha sido baleado, tinha ficado ferido.

- Pronto, já estamos suficientemente longe! disse Jennifer, parando no meio da ruela. Estava a tremer, agora que tinha um segundo para pensar na experiência por que  tinha passado. Os acontecimentos tinham-se sucedido com tanta rapidez. Sabes o que aconteceu?

- Um pouco - disse Neil. Eu ia atrás de ti, a tentar apanhar-te, quando se ouviram os tiros. Tenho tentado apanhar-te desde o momento em que saíste do hotel. Deixei-te  escapar no Forte Vermelho.

- Não me senti capaz de o ir visitar - confessou Jennifer. E deu-se o caso de também não conseguir aguentar o mercado. Eu ia pedir ao ciclista para voltar para trás e levar-me de volta ao carro, quando soaram os tiros.

- Seja como for, eu fui até à mesquita e vi-te desaparecer no riquexó. Tive de vir a correr pelo meio de toda aquela gente que estava diante da mesquita para ver se  conseguia não te perder no meio deste labirinto Neil fez um gesto largo com a mão. Nem sequer tinha a certeza da direção que tinhas seguido. Mas fui o mais depressa  que pude, apesar da multidão. Então no momento em que te vi, reparei que havia alguém atrás de ti que sacou de uma arma. Gritei "maldito assassino" e desatei a correr  mais depressa, mas um tipo baixote que estava atrás do outro foi mais rápido. Parecia um pistoleiro. Sacou da pistola e bum, bum; depois gritou: "Polícia!" e exibiu  um distintivo. Foi assim que as coisas se passaram. Vi-te dar um trambolhão do riquexó e fugires dali. O mais que consegui fazer foi não te perder de vista. És uma  verdadeira lebre.

- Achas que o sujeito da pistola queria matar-me? perguntou Jennifer com ansiedade. Começou a fazer o movimento de levar a mão ao rosto, em sinal de desalento, mas  achou que não era boa idéia.

Neil fez um trejeito com a boca e encolheu os ombros.

- Dava essa impressão. Quer dizer, podia ser que estivesse a tentar roubar-te, é uma hipótese, mas tenho as minhas dúvidas. Agia com demasiada determinação. Há alguém  que possa realmente querer matar-te? Neil deixou que a pergunta se arrastasse, sugerindo que não podia crer no que de fato estava a perguntar.

- Frustrei mais ou menos algumas pessoas, mas nada que justificasse quererem matar-me. Pelo menos, acho que não..

- Talvez fosse um caso de confusão de identidades.

Jennifer afastou o olhar, abanou a cabeça e sorriu sem alegria.

- Santo Deus, o que tenho andado a fazer não justifica ser morta por isso. Nem pensar. Se não foi um erro, então vou-me embora daqui, com a minha avó e tudo.

Tens a certeza que não há ninguém que esteja mesmo, mesmo zangado contigo?

- A assistente social da minha avó, mas isso é por causa da porra do trabalho dela. Não é o gênero de coisa que leve a matar uma pessoa.

- De uma maneira ou de outra, tiveste muita sorte que o polícia à paisana estivesse onde estava.

- Tens toda a razão - disse Jennifer. Vamos embora! Vamos ter com esse sujeito. Talvez ele saiba alguma coisa. Talvez andasse a seguir o outro tipo. Agora que têm o  corpo, talvez saibam se ele andava a seguir-me ou não. Vale a pena tentar obter algumas respostas.

Neil estendeu o braço e reteve Jennifer.

- Não te aconselho a fazer isso.

- Porque não? disse Jennifer, libertando o braço.

- Quando estive aqui no último encontro de médicos, os meus anfitriões disseram-me muita coisa sobre o governo indiano e a polícia indiana. A menos que seja absolutamente  necessário, é preferível estar longe dos dois. Aqui a corrupção é um estilo de vida. Não é encarada da mesma perspectiva moral que no Ocidente. Onde quer que estejas  envolvida, custa-te dinheiro. O CBI, que é o equivalente do nosso FBI, é supostamente muito diferente. Mas nesta situação vais ter de te haver com a polícia normal.  Nem sequer estou certo de que não te meteriam na prisão por incitação a alguém para puxar de uma arma.

- Não sejas parvo - disse Jennifer, a pensar que Neil estava a brincar. Começou a andar na direção onde o incidente tinha ocorrido. Estás a exagerar.

- Estou a exagerar um pouco - admitiu Neil, alcançando Jennifer. Mas o fato de que a polícia local é em certa medida corrupta é óbvio para quem está dentro do assunto,  isso podes crer. E a maior parte dos funcionários públicos também são. É melhor uma pessoa não se envolver. Se fizeres um pedido espetífico acerca de um crime, eles  vão ter de preencher um FIR, que é uma participação, e claro, terão de fazer cinco milhões de cópias. Isso dar-lhes-á trabalho e eles odeiam ter trabalho, por isso  vão odiar-te a ti também.

- Um homem foi morto. É preciso fazer um FTR.

- Sim, mas esse é o FIR deles.

- Quanto mais penso no assunto, mais me parece que ele deve ter andado a seguir-me duma maneira ou doutra.

- Talvez sim, talvez não disse Neil. Estou-te a dizer que estás a correr um risco. Disseram-me muito claramente para não me envolver com a polícia local.

Era difícil caminharem lado a lado no meio da multidão, especialmente quanto mais se aproximavam do local e a multidão se ia adensando. Neil deixou Jennifer ir à  frente. De súbito, ela parou e voltou-se.

- Espera lá! disse ela. Embora tenha ficado atordoada e distraída com este episódio, deixa-me perguntar-te novamente: Que diabo estás a fazer aqui na Índia? Quer dizer,  esta pergunta já me veio várias vezes à cabeça, mas este atentado contra a minha vida desviou-me a atenção.

- Sem dúvida - disse Neil, à procura do que havia exatamente de dizer naquele momento. Se não tivesse sido por causa de toda aquela excitação, tencionava ser direto  e antes de mais, pedir desculpa. Encolheu os ombros, enquanto pensava: que diferença faz? Estou aqui porque me pediste para vir e porque sugeriste que ias precisar  de mim. Não levei isso muito a sério. Receio que estivesse mais preocupado com a competição de surf que ia haver em La Jolla. Infelizmente, quando te foste embora  antes mesmo de qualquer discussão, fiquei furioso e demorei algum tempo a deixar de estar furioso, e quando deixei, já tinhas partido...

- Quando chegaste? perguntou Jennifer.

- A noite passada. Não te ia incomodar se estivesses a dormir. O problema é que eles nem me deram o número do teu quarto, por isso não pude encostar o ouvido à tua  porta.

- Porque é que não telefonaste para eu saber que tu vinhas?

- Essa é fácil - disse Neil com uma breve risada, fazendo troça de si mesmo. Tive medo que me dissesses para dar meia volta e ir para casa. Quer dizer, nem sequer  tinha a certeza de que irias responder, ou se respondesses, conhecendo-te como te conheço, não tinha a certeza se não irias dizer-me apenas que fosse para o inferno.

- Era bem capaz disso - admitiu Jennifer. A tua atitude desapontou-me imenso. Isso posso garantir-te.

- Lamento não ter dado à situação a importância que ela merecia na altura. Jennifer ficou pensativa por uns momentos, mordendo o interior da bochecha.

Depois deu novamente meia volta e abriu caminho através da multidão. O riquexó estava ainda deitado de lado. O corpo também estava no mesmo lugar, a descoberto.  Faltando-lhe o lado esquerdo da cara e com os dentes à mostra, parecia que estava a fazer uma careta.

- Aquele é o condutor sussurrou Jennifer, fazendo um movimento com o queixo na direção do macilento condutor do riquexó, agachado no chão. Estava rodeado por vários  polícias que envergavam fardas de caqui.

- Eu não te dizia? - disse Neil, sussurrando também. - O desgraçado provavelmente foi preso.

- Achas mesmo que sim?

- Não me admirava nada.

- Parece-me que o tipo baixo é o manda-chuva. Que te parece?, Naresh Prasad estava a conversar com os outros polícias fardados que se encontravam ao pé do cadáver.

- Deve ser um detetive à paisana ou coisa que o valha.

- Achas mesmo que não devia ir falar com eles? perguntou Jennifer.

- Põe a questão desta maneira: o que é que tu sabes? Nada. Não sabes sequer se este tipo te seguiu desde o Palace Amal, ou só te viu aqui e pensou que eras uma milionária  do Ocidente.

- Vai-te embora! disse Jennifer.

- Não tens maneira de saber. Essa é que é a questão. Eles também não sabem. Se insistires em te envolver, não ficas a saber nada, não acrescentas nada, e se calhar  isso ainda te vai custar dinheiro. Além de que, se mudares de idéias, podes falar com eles amanhã ou mesmo esta tarde. Ninguém te vai culpar por teres desaparecido  daqui, dadas as circunstâncias...

- Está bem - disse Jennifer com aspereza. Convenceste-me, pelo menos para já. Vamos regressar ao hotel. Acho que estou a precisar de uma bebida. Ainda estou a tremer.

- Boa escolha! comentou Neil. O que podemos fazer é ir direitos à embaixada americana ainda durante o dia de hoje, ou amanhã, e perguntar qual é a opinião deles. Se  acharem que deves preencher um FIR, fá-lo-emos, porque então eles também estarão envolvidos e ninguém vai poder chatear-nos.

- Parece-me sensato - disse Jennifer.

A multidão obstruía quase todas as galis perto do lugar onde ocorrera o crime. Num dos lados, vários polícias tinham aberto uma estreita passagem junto à parede  mais distante. Para o fazer, a polícia tivera de mandar os comerciantes retirarem as mercadorias da rua. Jennifer e Neil viram-se novamente obrigados a caminhar  em fila.

Enquanto ia avançando, Jennifer olhou para trás, para o riquexó ainda tombado de lado. Foi-lhe possível ver o lugar onde tinha caído. Deu de novo uma olhadela rápida  ao condutor. Não lhe tinham permitido mudar de posição, o que parecia dar crédito à opinião de Neil de não se envolver no assunto, a menos que existisse uma razão  forte para tal. Jennifer olhou brevemente para o polícia baixo à paisana quando passaram por ele, o que a levou a voltar a olhar, surpreendida. O polícia estava  a olhar para ela.

Durante alguns instantes Jennifer e o inspetor Naresh Prasad ficaram a olhar um para o outro, até que Jennifer desviou os olhos.

- Não olhes agora - sussurrou Jennifer por cima do ombro, dirigindo-se a Neil mas o polícia baixo estava a olhar para mim.

- Vamos deixar-nos de paranóias.

- A sério que estava. Achas que ele me viu no riquexó e me reconheceu?

- Não faço a menor idéia. Pára e volta-te. Vamos ver como ele reage. Isto é, se ele te reconheceu por estares metida no assunto, não temos muito por onde escolher.  Temos de falar com ele.

Jennifer estacou, mas não se voltou imediatamente.

- Sinto-me nervosa disse.

- Volta-te! disse Neil, tapando a boca com a mão para que mais ninguém ouvisse. Estavam apenas a seis metros do polícia. Se o mercado não fosse tão barulhento, seriam  capazes de ouvir alguma coisa do que o homem estava a dizer.

Jennifer respirou fundo e voltou-se lentamente. Nessa altura, a linha de visão entre ela e o inspetor Prasad não estava desimpedida. Quando ela e Neil estacaram  abruptamente, obstruíram a passagem e as pessoas que queriam passar começaram a amontoar-se. Mesmo assim, Jennifer conseguia ver um lado da cara do polícia e bastaria  que ele rodasse a cabeça noventa graus, para ficar a olhar diretamente para ela. Mas ele não rodou a cabeça, nem interrompeu a conversa que estava a ter com os polícias de uniforme.

- Não está a olhar para ti - disse Neil.

- Também não me parece concordou Jennifer.

- Vamo-nos embora daqui antes que ele o faça disse Neil, agarrando o braço de Jennifer e dando-lhe um puxão.

Como a multidão era agora menos compacta, foi-lhes possível andar mais depressa e passado pouco tempo, estavam a sair do ambiente sufocante e sombrio do mercado.  A enorme mesquita Jama Masjid encontrava-se agora do lado oposto, à direita. Jennifer afrouxou o ritmo de andamento e olhou para trás, para dentro do mercado, embora  não conseguisse ver até muito longe.

- Sinto-me mais exposta fora do mercado do que dentro dele - disse. Vamos embora daqui.

- Sou da mesma opinião concordou Neil.

Começaram ambos a correr, mas enquanto o faziam, Jennifer continuou a olhar para trás.

- Receio que estejas a ficar cada vez mais paranóica - comentou Neil, no intervalo entre duas respirações.

- Tu também ficavas, se alguém te apontasse uma arma e entretanto fosse assassinado.

- Contra fatos desses não tenho argumentos.

Tiveram de correr mais devagar ao aproximarem-se da mesquita, por causa da multidão de turistas e daqueles que tentavam explorá-los. Jennifer continuava a observar  por cima do ombro e, quando estavam perto do parque de estacionamento, foi recompensada.

- Não olhes! disse Jennifer, continuando a andar. Mas aquele polícia baixo à paisana vem efetivamente atrás de nós.

- Neil parou, mas não se voltou.

- Onde está?

- Atrás de nós. Vamos! Vamos sair daqui.

- Não. Vamos ver se ele se aproxima de nós disse Neil. Calma aí, eu sou o responsável por teres abandonado a cena do crime. Não quero que fiques metida em sarilhos  por causa disso.

- Agora estás a contradizer-te.

- Não, não estou. Como afirmei, se ele te reconheceu como sendo a pessoa que estava no riquexó, precisamos de falar com ele. Ainda estás a vê-lo?

Jennifer deu meia volta e inspeccionou a multidão.

- Não, agora não estou.

Por sua vez, Neil voltou-se e também olhou...

- Lá está ele, a afastar-se da mesquita. Outro falso alarme.

- Onde?

Neil apontou.

- Tens razão.

Ficaram a ver o inspetor Prasad desaparecer por uma das ruas que ia desembocar na Jama Masjid.

Jennifer olhou para Neil e encolheu os ombros.

- Desculpa!

- Não sejas tonta. Se ele não tivesse entrado naquela rua, eu também teria pensado que nos estava a seguir.

Jennifer e Neil continuaram a andar e entraram no parque de estacionamento. Como era mais alto, Neil conseguia pôr-se em bicos de pés e ver por cima do mar de carros  que ali se encontravam. O primeiro Mercedes preto que viram não era o carro do Amal Palace, mas o segundo era. Depois, os empregados do parque levaram vinte minutos  a tirar dali todos os carros que estavam a impedir o Mercedes de sair. Cinco minutos depois de isso suceder, Jennifer e Neil estavam de regresso à estrada principal  que seguia para sul, na direção do Amai Palace.

- Pensava que queria ir ao Karim - disse o motorista, dirigindo-se a Jennifer, enquanto olhava para ela pelo retrovisor.

- Perdi o apetite - disse Jennifer do banco de trás. - Quero apenas regressar ao hotel.

- Chegaste a ver alguns monumentos aqui em Deli? perguntou Neil a Jennifer.

- Nem um - afirmou Jennifer. Esta era para ser a minha grande tentativa. Infelizmente foi um fiasco. Estendeu a mão na horizontal. Estava a tremer, não tanto como  logo a seguir ao tiroteio, mas de qualquer modo ainda tremia bastante.

- Apesar desta catástrofe, deduzo que estás a lidar muito melhor com a questão da tua avó do que pensavas que serias capaz.

Jennifer respirou fundo e deixou o ar sair através dos lábios parcialmente franzidos.

- Julgo que estou. Não imaginava se iria ser capaz de separar o corpo da minha avó da sua alma ou espírito. Não sei se é um benefício colateral de andar a estudar  medicina e ter lidado com cadáveres, ou outra coisa qualquer. Claro que, quando vi o corpo da avó pela primeira vez, senti-me abalada. Mas depois disso, tenho pensado  nele apenas como um corpo já sem préstimo, e também sobre as informações que nos pode dar acerca da maneira como ela morreu. Por isso quero realmente que se faça  a autópsia.

- E eles vão fazer a autópsia a teu pedido?

- Bem gostava. Não, nada de autópsia. Eles assinaram uma certidão de óbito, e uma vez que está assinada, querem que o corpo seja embalsamado ou cremado. A assistente social da minha avó mostra-se inflexível, por assim dizer, na questão de se ter de eliminar o corpo, e tem andado a massacrar-me desde o primeiro dia, que para mim foi segunda-feira de manhã.

- Onde está o corpo, numa morgue?

- Sim, claro - disse Jennifer com um riso trocista. O corpo da avó e o de um homem chamado Benfatti estão no frigorífico duma cafetaria. Ontem de manhã, vi de fato  o corpo da minha avó aí. Não é o lugar ideal por uma série de motivos, mas pronto. É suficientemente frio.

- E quanto a esse outro corpo que mencionaste?

- Houve mais duas mortes idênticas. Uma é tão igualzinha à da minha avó que até arrepia. A outra tem algumas parecenças, mas aposto que foi por ter sido descoberto  imediatamente a seguir a ter sofrido aquilo que os outros também sofreram, porque no terceiro caso eles fizeram, de fato, uma verdadeira tentativa de reanimação.

- Como sabes tudo isso?

- Encontrei-me com as mulheres deles. Também falei com elas no sentido de não autorizarem que os corpos sejam embalsamados ou cremados. Penso que estamos perante três  casos de pessoas que foram vítimas de alguma espécie de crise clínica fatal. Os hospitais querem chamar a isso ataque cardíaco, quer esteja confirmado quer não,  porque os três têm um historial de problemas cardíacos. Para te ser franca, a sensação que tenho é de que os hospitais apenas se querem ver livres destes casos o  mais depressa possível, e francamente, isso levantou-me suspeitas desde o primeiro dia.

- Não se pode dar o caso de isso ser uma espécie de defesa da tua parte, para te ajudar a lidar com o aspecto emocional da perda da tua avó?

Durante uns segundos Jennifer voltou-se para o lado e ficou a olhar através da janela do carro. Era uma pergunta pertinente, embora a sua primeira reação fosse de  irritação por Neil ser capaz de pensar que ela estava a inventar aquilo tudo. Voltou-se novamente para Neil.

- Penso que há algo de errado em relação a estas três mortes. Penso que não foram provocadas por causas naturais. Penso realmente isso.

Foi a vez de Neil ficar a olhar. Escolheu olhar pela janela da frente. Quando se voltou para Jennifer, ela estava ainda a olhar para ele.

- Será difícil provar isso sem se fazerem as autópsias. Presumo que tens estado a tentar conseguir que façam a da tua avó.

- Mais ou menos - admitiu Jennifer. Como já te disse, estando a certidão de óbito assinada, eles não querem saber mais de autópsias. Tudo o que querem é que o corpo  saia do frigorífico da cafetaria. Mas a razão que faz com que esteja hoje com a cabeça fora de água é que esta noite aconteceu algo que pode mudar o rumo dos acontecimentos.

- O que é que devo fazer, dar palpites? queixou-se Neil, quando Jennifer parou de falar.

- Só quero ter a certeza de que estás a escutar bem - disse Jennifer. Alguma vez mencionei o fato de a minha avó ter sido ama de uma mulher que se tornou bastante  conhecida como patologista forense?

- Creio que sim, mas recorda-me novamente.

- O nome dela é Laurie Montgomery. Trabalha como patologista forense em Nova Iorque juntamente com o marido, Jack Stapleton.

- Lembro-me de teres falado de Laurie, mas não de Jack.

- Bem, eles estão casados há alguns anos. Telefonei-lhe na terça-feira, logo a seguir a ter visto a minha avó. Queria apenas que ela tratasse de alguns assuntos, mas  sofri um choque quando se ofereceu para vir imediatamente para cá. Confesso que não sabia que a minha avó contava tanto para ela. Mas até devia. A avó Maria tinha  esse tipo de efeito sobre as pessoas. Mas então surgiu um problema: Laurie e Jack estão a meio de um ciclo de reprodução assistido, o que significa que Jack tem  de estar presente para o realizar.

Neil arregalou os olhos.

- Seja como for, a solução do problema foi virem ambos, e está previsto chegarem esta noite.

- O fato de virem não faz mal - disse Neil. Mas não estou seguro se deves depositar demasiadas esperanças nisso. Se tu não foste capaz de demover as autoridades locais,  não me parece que um casal de patologistas forenses consigam fazer melhor. Dá-se o caso de eu estar ao corrente que a patologia forense não é, de fato, uma área  que goze de grande popularidade aqui na Índia, e que o fazer-se ou não se fazer uma autópsia não é um assunto em que os médicos tenham voz ativa.

- Chegou-me o mesmo aos ouvidos. E para que a confusão seja ainda maior, há controvérsia acerca de qual ministério superintende o quê. As morgues estão sob a alçada  do Ministério da Administração Interna, ao passo que os médicos que trabalham nelas dependem do Ministério da Saúde. E mais, a decisão sobre se uma autópsia se justifica  num caso espetífico, é tomada pela polícia e pelos magistrados, não pelos médicos.

- É onde eu queria chegar. Por isso, eu não poria as expectativas muito em alta, só porque um casal de patologistas forenses de relevo vão chegar à cidade. Tenho a sensação de que tu fizeste tudo o que uma pessoa pode fazer.

- Talvez seja assim, mas não vou baixar os braços, embora o episódio de hoje me faça sentir tentada. Posso afirmar-te com toda a certeza que se Laurie e Jack não chegassem hoje à noite, eu já não estaria aqui.

- Ser eu a única pessoa a insistir para que partas, não me parece lá muito sensato.

Continuaram em silêncio, cada qual embrenhado nos seus pensamentos e cada qual a olhar através da respectiva janela para as imagens caleidoscópicas que as ruas de Deli ofereciam. Passado um bocado, Jennifer arriscou um olhar na direção de Neil.  Ainda se sentia abalada com a sua presença. Ele era talvez a última pessoa no mundo que ela estaria à espera de ver, quando estava agachada na retrete do talho imundo  e a cortina foi brutalmente aberta. Estudou-lhe o perfil. No ponto em que a testa e o nariz se encontravam, o entalhe era mínimo, como uma efígie duma moeda grega.  Os lábios eram carnudos e a maçã-de-adão saliente. Pensou que ele era um homem atraente e sentia-se lisonjeada por ele ter vindo. Mas o que significava isso? Tinha  desistido dele essencialmente pela maneira como ele a tinha enxotado. Embora Jennifer, uma vez tomada uma decisão, não tivesse por hábito mudar de ideias, o esforço  de Neil, ao percorrer catorze mil quilômetros para vir ter com ela, dava a entender que talvez fosse o momento de abrir uma exceção.

- Estás a planejar ir ao aeroporto dar as boas-vindas aos teus amigos? perguntou Neil repentinamente.

- Estou. Queres vir?

- Não achas que estarias mais segura se ficasses no hotel?

- Talvez, mas o aeroporto é tão seguro como o hotel. Penso que não haverá problema.

- Se me convidares, vou contigo.

- Absolutamente! disse Jennifer.

Jennifer levantou a mão. Ainda tremia, como se ela tivesse bebido onze cafés.

Jennifer ia olhando com frequência pela janela de trás do carro. Preocupava-a a possibilidade de estar a ser seguida, como aparentemente fora quando saíra do hotel.  Infelizmente, com a densidade do trânsito e o caos generalizado das ruas, era difícil dizer. Mas quando chegaram ao Hotel Amal Palace e começaram a subir a extensa  rampa, algo ligeiramente fora do normal aconteceu.

Estava a espreitar uma vez mais pela janela, na altura em que subiam a rampa, e no momento em que ia voltar-se para a frente surgiu um carro branco e pequeno, atrás  deles. Mas, de repente o carro parou, obstruindo a passagem. Jennifer tentou ver quantas pessoas estavam no carro, mas não conseguiu, por causa da névoa e do sol  que fazia reflexo no pára-brisas.

Olhou em frente e viu que estavam a chegar ao pórtico. Voltando-se de novo para a retaguarda, viu o pequeno carro branco recuar e sair da rampa, depois de ter provocado  um coro de buzinas e de gritos coléricos. Alguém que se teria enganado na entrada, foi tudo o que Jennifer conseguiu pensar, mas apesar de tudo, no estado ultra-sensível  em que se encontrava, pareceu-lhe ser um acontecimento um pouco estranho.

- Não vai precisar mais do carro? perguntou o motorista, desviando a atenção de Jennifer das excentricidades curiosas do carro branco.

- Não - disse Jennifer, ansiosa por ir para dentro do hotel.

- Espanta-me que tenhas alugado um carro - disse Neil, enquanto se encaminhavam para as portas da entrada.

- Não sei se não me vou arrepender - admitiu Jennifer. A companhia de seguros, a Foreign Medical Solutions, de Chicago, paga-me a estadia no hotel, mas não sei se também  cobre os extras. Se não cobrir, vou ter de recorrer ao meu cartão de crédito.

No interior do átrio hesitaram.

- Tens fome? perguntou Neil.

- Nenhuma - reconheceu Jennifer. Sinto-me como se estivesse com uma overdose de cafeína.

- O que é que te apetece fazer? Ou preferes que seja eu a dar uma sugestão, já que estás tão elétrica?

- A segunda - respondeu Jennifer, sem hesitar. Não se sentia capaz de pensar em questões práticas.

- A noite passada perguntei e disseram-me que têm um ginásio completo, com pesos, bicicletas estáticas; todo o equipamento. Trouxeste roupa de ginástica?

- Trouxe.

- Ótimo. Talvez um pouco de exercício seja o que tu precisas. Depois disso, talvez te apeteça comer qualquer coisa, e nesse caso, podemos comer lá fora, ao pé da piscina.  Mais tarde, se estiveres com disposição para isso, podemos recapitular tudo e procurar alguém na secção consular da embaixada americana. Podem dar-te uma opinião  sobre o episódio do mercado e o que deves fazer.

- Não sei se quero ir à embaixada, mas a ideia de fazer um pouco de exercício e de ir até à piscina era o que eu tinha originalmente planejado. Estou de acordo a cem  por cento.

- Menina Hernandez! chamou uma voz. Ela virou-se nessa direção. Viu um dos concierges a acenar com um pedaço de papel. Pediu desculpa a Neil e dirigiu-se ao balcão.

- Regressou cedo - disse Sumit. Espero que tenha gostado da visita.

- Não era bem o que eu tinha em mente disse Jennifer, com relutância em dizer exatamente o que tinha acontecido.

- Lamento muito - disse Sumit. Há alguma coisa que pudéssemos ter feito de forma diferente?

- Penso que o problema teve mais a ver comigo - admitiu Jennifer, e em seguida mudou de assunto. Têm alguma coisa para mim?

- Sim, temos. Recebemos uma mensagem urgente para si. É preciso que telefone a Kashmira Varini, e aqui está a mensagem e o número de telefone.

Jennifer levou o número. Irritava-a que a tivessem incomodado. Enquanto ia ao encontro de Neil, abriu a mensagem. Dizia: "Organizamos algo muito especial para a sua avó. Por favor, telefone a Kashmira Varini." Jennifer parou e voltou a ler a mensagem. Estava intrigada. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que  talvez eles tivessem visto a luz e planejassem fazer uma autópsia. Continuou a andar e mostrou a mensagem a Neil.

- Esta é a dama que tem sido a minha bete noire - disse Jennifer.

- Telefona-lhe! respondeu Neil, devolvendo-lhe o papel.

- Achas que sim? Não consigo simplesmente acreditar que ela possa estar a fazer qualquer coisa correta.

- Só há uma maneira de descobrires.

Foram os dois até ao balcão da recepção. Jennifer perguntou se havia um telefone no átrio que pudesse usar para fazer uma chamada local. Sem um segundo de hesitação,  Sumit pegou num dos vários telefones que tinha ao pé dele, colocou-o no tampo do balcão e empurrou-o na direção de Jennifer. Como se ainda não fosse suficiente,  levantou o auscultador, passou-lho e depois, com o indicador, premiu o botão da linha externa. Tudo isto executado com um gracioso sorriso.

Jennifer marcou o número, e ficou a olhar para Neil enquanto o telefone chamava. Não tinha ideia nenhuma do que iria sair dali.

- Ah, sim disse Kashmira quando Jennifer se identificou. Obrigada por voltar a entrar em contato comigo. Tenho excelentes notícias. O nosso diretor-geral, Rajish Burghava,  organizou algo de extraordinário para a sua avó. Já ouviu falar nos fornos ghats de Varanasi?

- Não posso dizer que tenha ouvido falar nisso - respondeu Jennifer.

- A cidade de Varanasi, ou Banaras, como os ingleses lhe chamam, ou Kashi, como lhe chamavam os antigos, é de longe a cidade hindu mais sagrada da Índia, com um legado  religioso que ascende a mais de três mil anos.

Jennifer encolheu os ombros para Neil, indicando que ainda não fazia a mínima ideia do que o hospital tinha em mente.

- A cidade é santificada por Shiva e pelo Ganges e é indiscutivelmente o local mais sagrado para ritos de passagem.

- Talvez me pudesse dizer o que é que isso tem a ver com a minha avó - disse Jennifer com impaciência, compreendendo que aquilo não tinha nada a ver com a autópsia.

- Com certeza - disse Kashmira entusiasticamente. O Sr. Bhurgava organizou uma coisa sem precedentes para a sua avó. Embora os fornos ghats de Varanasi sejam reservados  exclusivamente a hindus, ele obteve a permissão para que a sua avó possa efetuar o seu rito de passagem em Varanasi. Tudo o que eu preciso é que venha ao hospital  assinar a autorização.

- Não tenho a intenção de ofender ninguém - disse Jennifer mas que a minha avó seja cremada em Varanasi ou em Nova Deli não faz grande diferença para mim.

- Então é porque não está a perceber. As pessoas que são cremadas em Varanasi beneficiam de um karma particularmente bom e de um bom nascimento na próxima reencarnação.  Só precisamos da sua autorização para continuar.

- Sra. Varini - disse Jennifer pausadamente amanhã de manhã nós iremos ao hospital. Irei estar acompanhada de dois patologistas forenses meus amigos, e então chegaremos  a algum tipo de acordo.

- Receio que esteja a ser pouco sensata ao não aceitar esta oportunidade única. Não haverá custos. É uma gentileza que lhe fazemos a si e à sua avó.

- Como disse antes, não quero ferir os sentimentos de ninguém. Aprecio os esforços que desenvolveram por minha causa, mas teria preferido uma autópsia. A resposta  é não.

- Nesse caso é meu dever informá-la de que o Hospital Queen Victoria se dirigiu ao tribunal, e que esperamos ter amanhã, por volta do meio-dia, uma ordem judicial  para remover, enviar para Varanasi e cremar, a sua avó, o Sr. Benfatti e o Sr. Lucas. Lamento que tenha levado o assunto até este ponto, mas o corpo da sua avó,  bem como o dos restantes, é uma ameaça para o bem-estar das instituições.

A cabeça de Jennifer abanou ligeiramente com a intensidade do desligar. Devolveu o telefone a Sumit e agradeceu-lhe. A Neil, disse:

- Desligou-me na cara. Vão obter uma autorização legal para remover o corpo da avó amanhã e cremá-la.

- Então é excelente que os teus amigos cheguem esta noite.

- Bem podes dizê-lo. Se estivesse aqui sozinha, não sei mesmo o que havia de fazer.

- Então é uma coisa excelente... disse Neil, metendo-se com Jennifer ao repetir literalmente o comentário que fizera, como ela, de forma meramente retórica, lhe dissera  para fazer.

- Já chega! disse Jennifer, reprimindo o riso e dando-lhe uma sacudidela ao braço com ambas as mãos.

- Porque não vamos aos nossos quartos mudar de roupa para irmos fazer exercício?

- Foi a tua melhor sugestão até ao momento disse Jennifer, e dirigiram-se ambos para os elevadores.

 

                   18 DE OUTUBRO DE 2007

                   QUINTA FEIRA, 14:17 - NOVA DELI, ÍNDIA 

O inspetor Naresh Prasad entrou no edifício do Ministério da Saúde e reparou na diferença que existia entre ele e o que abrigava o Departamento da Polícia de Nova Deli. Em comparação com a tinta a descascar e a boa dose de lixo que eram a norma no seu edifício, o Ministério da Saúde era um local asseado. Mesmo o equipamento  da segurança era novo, e as pessoas que trabalhavam com ele davam um pouco a impressão de se sentirem motivadas. Como de costume, teve de deixar o seu revólver de  serviço à entrada.

Tendo saído no segundo andar, Naresh caminhou pelo longo corredor, onde sabia que se encontrava o relativamente novo gabinete de Turismo de Saúde, escutando o eco  dos seus passos. Entrou sem bater à porta. O contraste entre o seu gabinete e o de Ramesh Srivastava era ainda mais flagrante do que o dos respectivos edifícios.  O gabinete de Ramesh estava pintado de fresco e os móveis eram novos. Em quase tudo era visível, inclusive no equipamento nas mesas das secretárias, que Ramesh fazia  parte de um escalão da burocracia de Estado significativamente mais elevado do que o dele.

Como já estava plenamente à espera, teve de aguardar durante algum tempo. Isso fazia parte da estratégia que os burocratas usam para mostrar a sua superioridade  em relação aos colegas, mesmo quando não têm nada para fazer. Mas Naresh não se importava. Já calculava que ia ser assim. Além do mais, havia uma sala de espera  com um novo sofá, um tapete e revistas, embora o material de leitura já tivesse perdido a atualidade.

- O Sr. Srivastava pode recebê-lo agora - disse uma das secretárias um quarto de hora mais tarde, apontando na direção da porta do chefe.

Naresh levantou-se com esforço do sofá. Alguns segundos depois estava diante da secretária de Ramesh. Ramesh não o convidou a sentar-se. O homem tinha os dedos entrelaçados  e os cotovelos apoiados na secretária. Os seus olhos aquosos fitaram Naresh com irritação. Era óbvio que não era altura para conversa fiada.

Disse-me ao telefone que me queria ver porque há um problema disse Ramesh, mal-encarado. Qual é o problema?

- A primeira coisa que fiz esta manhã foi ocupar-me da menina Hernandez. Não cheguei ao hotel a tempo de a seguir até ao Imperial, onde foi tomar o café da manhã,  por isso não sei com quem se foi encontrar. Mas logo a seguir a isso, pouco depois das nove, ela regressou ao Amai e então alugou um carro do hotel, aparentemente  para ir dar um passeio turístico.

- Será que tenho de ouvir tudo isso? lamentou-se Ramesh.

- Se quer saber como o problema aconteceu disse Naresh. Ramesh fez girar o dedo para dizer a Naresh que prosseguisse.

- Ela fez uma parada breve no Forte Vermelho, mas aquilo não lhe interessou. A seguir foi para o mercado, estacionou em Jama Masjid e alugou um riquexó.

- Não pode limitar-se a dizer qual é o problema? lamentou-se Ramesh de novo.

- Foi nesse momento que eu cheguei ao parque de estacionamento, atrás de um Mercedes novo, de classe E. Apercebi-me vagamente do carro, porque ele também tinha vindo  a segui-la desde o Forte Vermelho.

Ramesh arregalou os olhos perante o interminável relatório de Naresh.

- O tipo partiu no encalço da menina Hernandez, e como achei isso curioso, redobrei os esforços e corri atrás de ambos. A partir desse momento passou-se tudo num abrir  e fechar de olhos. O tipo não hesitou. Foi a correr atrás da menina Hernandez e puxou de uma arma. Foi mesmo no meio do mercado, com gente por todos os lados. Ele  ia atirar, não há qualquer dúvida. Tive dois segundos para decidir se devia intervir. Tudo o que conseguia ouvir era o senhor a dizer-me para não deixar que ela  se tornasse numa mártir. Bem, era nisso mesmo que ela estava em vias de se tornar, portanto disparei e matei o candidato a assassino.

A boca de Ramesh foi-se escancarando lentamente. Depois bateu com a mão na testa e inclinou-se para a frente, apoiado no cotovelo, enquanto abanava a cabeça em pequenos  movimentos.

- Não! gritou. Naresh encolheu os ombros.

- Aconteceu tudo muito depressa. Naresh meteu a mão no bolso e tirou de lá um pedaço de papel. Nele estava escrito Dhaval Narang. Pô-lo em cima da secretária, diante  de Ramesh.

Sem retirar a cabeça da mão que a apoiava, Ramesh pegou no papel. Leu o nome.

- Você sabe quem era este sujeito? disse Ramesh com rispidez. Levantou os olhos e olhou irritadamente para Naresh.

- Agora sei. É Dhaval Narang.

- É verdade. É Dhaval Narang. E sabe para quem é que ele trabalhava?

Naresh abanou a cabeça.

- Trabalhava para Shashank Malhotra, seu perfeito imbecil. Malhotra queria ver-se livre da moça. O crime seria atribuído a ladrões. A questão de ser mártir só se punha  se fôssemos nós, funcionários públicos da índia, a matá-la, não Malhotra.

- O que havia eu de fazer? Estava a tentar seguir as suas ordens. Porque não me disse que Malhotra ia encarregar-se dela?

- Porque não sabia. Pelo menos, não tinha a certeza. Ramesh esfregou vigorosamente a cara. É claro que agora tudo piorou. Agora ela está prevenida de que é um alvo a abater. Onde está ela?

- Voltou para o hotel.

- O que aconteceu no local?

- Toda a gente entrou em pânico com o tiro. Ela fugiu como todos os outros. Fiquei no local para ajudar os polícias a restabelecerem a ordem e para obter a identificação  da vítima.

- Ela voltou atrás e falou com a polícia e consigo?

- Voltou atrás e vinha acompanhada por um americano. Não sei nem onde nem como se encontraram. Mas ela não falou com a polícia, o que não deixa de ser um pouco estranho.  Pensei em prendê-la para interrogatório, mas quis falar primeiro consigo.

- Isso apenas mostra que ela está desconfiada.

- Talvez se vá embora, depois de uma experiência daquelas, não?

- Isso seria ótimo, mas não é essa a opinião da assistente social nem do diretor-geral do hospital. Por qualquer razão, essa jovem está profundamente determinada,  suceda o que suceder.

- Bem, o que quer que eu faça?

- Teve alguns resultados em relação a descobrir quem é a fonte que fornece as informações à CNN?

- Pus dois homens em campo para tratar desse assunto, esta manhã. Não voltei a falar com eles.

- Telefone-lhes enquanto eu ligo para Shashank Malhotra. E outra coisa: houve mais uma morte, mas esta foi no Aesculapian Medical Center. Uma vez mais, a CNN soube  do caso muito depressa.

Ramesh pegou no telefone. Não ia adiar a conversa com Shashank Malhotra. Apesar do que dissera a Naresh, Ramesh sabia que, no fim de contas, era ele o responsável  pela morte de Dhaval Narang. Como Naresh tinha dito, devia ter sido informado.

- Espero que me esteja a telefonar a agradecer por ter resolvido o seu problema - disse Shashank quando entraram em contato. O tom da sua voz era neutro. Não era tão bem-disposto como no dia anterior, nem tão ameaçador.

- Receio bem que não. Receio que haja um problema adicional e um desenvolvimento do antigo.

- O que se passa? perguntou Shashank.

- Em primeiro lugar, a menina Hernandez falou com a esposa do terceiro doente para que ela peça a autópsia. E em segundo lugar, Dhaval Narang foi atingido a tiro e  morto esta manhã no mercado de Velha Deli.

- Não está a falar a sério, pois não?

- Não o enviou para falar com a menina Hernandez e convencê-la a partir da Índia? perguntou Ramesh.

- Ele está realmente morto? inquiriu Shashank, com um misto de cólera e de incredulidade.

- Sei-o de fonte segura.

- Como é que isso pode ter acontecido? Ele era um profissional. Não era nenhum amador.

- Todos nós cometemos erros.

- Não o Dhaval rosnou Shashank. Ele era o melhor. Ouça, eu quero que tratem dessa mulher.

- Nós queremos o mesmo, mas agora ela está alertada de que alguém quer vê-la morta. Acho melhor lidarmos nós com o problema.

- Acho bem que o faça! resmungou Shashank. Não quero que você comece a ter de andar a olhar para trás quando vai para o trabalho e quando volta. Dito isto, desligou.

Ramesh voltou a colocar o telefone no descanso. Olhou para Naresh, que também tinha acabado a sua chamada.

- Por enquanto nada - disse Naresh. Mas eles ainda mal começaram a investigação. Não vai ser fácil. Há montes de médicos universitários privados que têm privilégios de entrada noutros hospitais privados não universitários; e a maioria goza de privilégios de entrada em mais de um hospital. É mais por uma questão de conveniência para os doentes em termos de localização, e aparentemente eles não gostam de admitir muito isso, na medida em que em princípio não deviam ter doentes privados.

- Posso supor que os seus homens vão continuar a trabalhar neste assunto?

- Com todo o empenho. O que deseja que eu faça?

- Mantenha-se bem de olho nessa tal Hernandez. Supostamente, esta noite vai chegar uma amiga dela que é patologista forense. Lembre-se, as autópsias estão fora de  questão. Felizmente, com respeito a isto, temos a lei do nosso lado.

 

                   18 DE OUTUBRO DE 2008

                   QUINTA-FEIRA, 16:32 - NOVA DELI, ÍNDIA 

Cal tinha as pernas cruzadas e os pés pousados em cima da mesa da biblioteca. Santana tinha-lhe arranjado uma série de artigos sobre turismo de saúde que andavam a ser publicados nos jornais dos Estados Unidos. Todos eles salientavam os três blocos informativos da CNN sobre as mortes de Nova Deli e os noticiários noturnos  transmitidos pelas três cadeias televisivas. Os leitores andavam a devorar aqueles artigos. Os preferidos de Cal eram os que se relacionavam com histórias de pessoas  que tinham cancelado viagens já reservadas, na maior parte para a índia, mas também para a Tailândia.

Com tudo de repente a correr tão bem, Cal devia estar eufórico, mas não estava. Como uma dor de dentes, o assunto que se prendia com essa tal Hernandez tinha andado  a incomodá-lo durante todo o dia. De manhã cedo tinha voltado a telefonar ao anestesista e ao patologista, e uma vez mais eles tinham passado a pente fino um hipotético  cenário envolvendo a succinilcolina. Se os dois médicos alimentavam quaisquer reservas, não o demonstraram minimamente, e em certos aspectos pareciam estar em competição  um com o outro para ver quem dava mais garantias sobre a infalibilidade do esquema diabólico.

Depois de desligar, sentira-se mais sossegado. Infelizmente, esse estado de espírito não tinha sido duradouro, e a mesma questão voltava a atormentá-lo. O que é  que poderia ter despertado as suspeitas daquela chata? Mesmo depois de Hernandez partir, haveria com certeza outras pessoas que se mostrariam igualmente curiosas  e iriam tropeçar nessa mesma falha misteriosa e potencialmente fatal.

- Eh, meu! chamou Durell, da porta da biblioteca.

- Que se passa?

- Queres chegar aqui e dar uma vista de olhos ao novo bólide da organização?

- Porque não? disse ele. Deixou os pés caírem no chão com um baque e levantou-se.

Ouviu-se então a porta da rua da mansão a fechar com estrondo.

- Podes aguentar só uns minutinhos? - perguntou Cal. - Se a Veena e Samira estiverem cá, gostava de lhes fazer umas perguntas. Tenho estado todo o dia a dar voltas  à cabeça por causa daquela gaja, a Hernandez, desde que disseste, acertadamente, que devíamos descobrir o que é que levantou suspeitas. Imagino que deve ter algo  a ver com o fato de ela andar a estudar medicina, mas não consigo fazer a menor ideia do que poderá ser. Cheguei mesmo a telefonar aos dois médicos de Charlotte,  na Carolina do Norte, que consultámos originalmente. Tanto quanto me é possível compreender, nós pensámos em tudo.

Sou da opinião que se descubra admitiu Durell. Se não for assim, vai ser uma preocupação constante. Sabes do que estou a falar, certo?

- Sei do que estás a falar declarou Cal, na altura em que Veena, Samira e Raj entravam na biblioteca. Estavam bem-dispostos e vinham a cantar uma canção que tinham  aprendido na infância. Samira parou de cantar, foi direita a Durell e deu-lhe um abraço e um verdadeiro beijo. Veena foi até junto de Cal, mas apenas se permitiu  um ligeiro beijo em cada face, à francesa.

Raj atirou-se literalmente para cima da poltrona a rir, enquanto terminava o último refrão da cantiga.

- Vocês estão todos muito satisfeitos comentou Cal, deixando a sugestão de que ele não estava.

- Foi um dia fácil para todos nós - disse Veena. O Raj foi o único que teve um paciente e era só para tratar de uma hérnia. A Samira e eu tivemos de arranjar coisas para  fazer.

- Como assim?

Veena e Samira entreolharam-se.

- Não sabemos ao certo. Talvez tenham havido alguns cancelamentos. Talvez os Enfermeiros Internacionais estejam a fazer um trabalho excessivamente bom. Riram todos.

- Não deixava de ser irônico - disse Cal. Seja como for, em que pé estão as coisas com a Hernandez? Souberam alguma coisa hoje?

- Fiquei livre por volta das duas e meia - disse Veena, por isso desci para falar com a assistente social. Perguntei-lhe acerca do corpo de Maria Hernandez e se  já se tinham ocupado dele. Ela deu uma risada trocista e disse "Claro que não." Aparentemente, foram ao ponto de se oferecer para levarem o corpo para Varanasi para  ser cremado nas margens do Ganges, mas a neta recusou, por isso ficaram todos frustrados. A patologista forense sua amiga vai amanhã ao hospital, o que não deve  fazer diferença nenhuma, pois eles recusam fazer a autópsia. Mas há boas notícias. A assistente social disse-me que amanhã vão receber uma ordem judicial de um magistrado  para que o corpo seja levado e cremado. Portanto, algures durante o dia de amanhã, deve estar tudo resolvido.

- É A mesma coisa em relação a Benfatti disse Samira.

- A mesma coisa com David Lucas - disse Raj. A ordem do magistrado abrange os três corpos.

- Não andaram a fazer perguntas sobre os corpos das vossas vítimas, espero? - perguntou Cal, com uma ligeira nota de alarme na voz.

- Sim, andamos - disse Samira. - Qual é o problema? Todos nos sentiremos melhor quando os corpos tiverem partido.

- Por favor, não voltem a fazer isso! Não chamem as atenções fazendo perguntas espetíficas sobre os corpos.

Todos encolheram os ombros.

- Não nos pareceu que estivéssemos a levantar suspeitas disse Samira. A situação é comentada em todo o hospital. Não é o mesmo que se fôssemos nós os únicos a falar  disso.

- Façam-me o favor de não participarem nas conversas - disse Cal.

- A certidão de óbito do meu doente foi assinada hoje - disse Raj. - Mas mesmo assim a mulher quer a autópsia, a conselho de Jennifer Hernandez.

- Qual foi a causa oficial da morte? - perguntou Cal.

- Ataque cardíaco - disse Raj. Ataque cardíaco, com subsequente embolia e hemorragia.

- Com todos os corpos ainda por perto - disse Cal - talvez devêssemos deixar de matar doentes durante alguns dias.

Veena endireitou-se na poltrona de couro onde se tinha refastelado.

- Estou totalmente de acordo. Ponto final nas mortes até que todo este caos provocado por Jennifer Hernandez tenha entrado na ordem.

- Alguém devia informar Petra - disse Cal. Uma das suas enfermeiras telefonou hoje a dizer que tinha arranjado uma boa candidata.

Veena saltou da poltrona.

- Eu encarrego-me disso. Nem sequer me lembrei que devíamos ter eliminado um na noite passada Sem esperar pela resposta, abandonou a sala.

Raj levantou-se do sofá.

- Acho que vou tomar um duche.

- Também eu - disse Samira. Deu a Durell um abraço de despedida e saiu da sala com Raj.

Cal olhou de relance para Durell.

- Vamos lá ver essa máquina.

- Topaste? - respondeu Durell.

- Acho que devíamos tomar medidas enérgicas em relação a essa Jennifer Hernandez - disse Cal, enquanto saíam da biblioteca e se dirigiam para a porta da rua.

- Já te disse, se não descobrirmos o que levantou suspeitas, vamos sentir-nos sempre como se andássemos com as pilas à mostra. Alguém vai acabar por ver e há-de vir pedir-nos contas.

- É precisamente o que me preocupa. É uma chatice, e logo agora que tudo o resto está a andar sobre rodas.

- O que tens em mente? - perguntou Durell. Abriu a porta da mansão e segurou-a para Cal passar.

- Acho que vou chamar Sachin, o Sr. Blusão de Couro. Ele ocupou-se lindamente do pai da Veena. Pensei nele porque me telefonou ontem para dizer que andou a vigiar  Basant Chandra na quarta-feira, e o tipo entrou em pânico. Acha que não vai voltar a pôr-lhe a vista em cima nas próximas semanas. Penso que não terá qualquer problema  em lidar com a Jennifer Hernandez. É uma tarefa muito mais simples.

- O que vais mandá-lo fazer?

- Deitar-lhe a mão e trazê-la para aqui. Podemos fechá-la naquela sala debaixo da garagem até que ela fale.

- E depois? perguntou Durell. Estava ao lado de um Toyota Land Cruiser cor de vinho. Já tinha andado muitos quilômetros e tido a sua dose de amolgadelas, mas o uso  e as mossas pareciam conferir-lhe ainda mais caráter.

Cal pousou a mão levemente sobre a superfície metálica do veículo e deu uma volta completa em seu redor, passando os dedos por cima dele. Depois abriu a porta do  lado do condutor e olhou para o interior. O interior tinha também um aspecto usado.

- Gosto dele - disse Cal. Como está o motor?, Sem problemas. Foi um carro de trabalho para uma firma de arquitetos.

- Ótimo - disse Cal. Fechou a porta com firmeza, e ouviu-se um clique tranquilizador.

- O que vais então fazer com a Hernandez, depois de ela dizer aquilo que queremos?

- Nada. Limito-me a pagar a Sachin para a fazer desaparecer. Não me interessa de fato saber onde é que ela vai acabar, mas aposto que será algures no fundo de um aterro.

Durell acenou com a cabeça. Pensava em quantas pessoas não teriam já desaparecido nesses locais. Era tão cômodo.

- Eh, meu! Adoro o carro disse Cal, com a boa disposição em alta. Deu um chute num dos pneus da frente. Se precisarmos dele, estará à altura. Bom trabalho.

- Obrigado.

 

                   18 DE OUTUBRO DE 2008

                   QUINTA FEIRA, 22:32 - NOVA DELI, ÍNDIA

Tendo dissimulado toda a parafernália das injeções, Laurie abriu caminho para um dos banheiros do avião. Depois de fechar a porta, espalhou toda a farmacopeia de gonadotropina na prateleira minúscula. Encheu destramente a seringa com a quantidade prescrita de hormona folículo-estimulante e, com igual destreza, deu a si própria  a injeção subcutânea, espetando a agulha na face anterior da coxa. Dez e meia da noite na índia era apenas uma da tarde em Nova Iorque, hora em que, todos os dias impreterivelmente, ela dava a si mesma a injeção.

Nesse momento estavam a sobrevoar o noroeste da Índia e em breve estariam a descer para Deli.

Tendo acabado de dar a injeção, Laurie olhou-se ao espelho. Estava com um aspecto horrível. Os cabelos estavam numa absoluta desordem e as olheiras quase que chegavam  aos cantos da boca. Pior que tudo: sentia-se suja. Mas não era de admirar. Primeiro fora o vôo da noite para Paris, durante o qual só tinha conseguido dormir algumas  horas. Em seguida tinham sido as três horas de escala, que foi praticamente o tempo que precisaram para chegar à porta de embarque seguinte. E finalmente a maratona  de oito horas que estava ainda em curso. O que a punha irritada era Jack, que não tivera qualquer problema em conseguir dormir. Não lhe parecia justo.

Laurie apanhou os resíduos que tinham ficado da injeção e deitou-os no lixo. A agulha que tinha usado foi para dentro da bolsa, onde transportava os medicamentos  e as seringas novas. Não queria ser irresponsável. Lavou as mãos e voltou a ver-se ao espelho. Era difícil não o fazer, uma vez que a maior parte da parede por trás  do lavatório naquelo banheiro liliputiana consistia num espelho. Não podia impedir-se de pensar no efeito que esta súbita viagem teria na saga da sua infertilidade.  Não fazia a mínima idéia do motivo pelo qual até à data não tinha conseguido engravidar e esperava que a viagem não viesse a agravar o problema, qualquer que ele  fosse.

Abriu a porta e saiu. Percebendo que, conjuntamente com a sua reação ao fato de Jack estar a dormir e aos pensamentos sobre não conseguir engravidar, estava a começar a ficar irritada, fez um esforço consciente para se acalmar. Esperava ser capaz de manter as suas frágeis emoções à distância durante a visita, de maneira a poder  dar a Jennifer o apoio que ela precisava, e que fora a principal razão que a levara a empreender aquela viagem. Ao mesmo tempo, no seu foro íntimo Laurie reconhecia  que estava ali também para apaziguar a sua consciência. A morte de Maria tinha-lhe provocado inquestionavelmente uma certa dose de culpabilidade.

Novamente sentada, Laurie olhou para Jack. Ainda estava profundamente adormecido e na mesma posição de há cinco minutos atrás quando ela se levantara. Ele era a  imagem da tranquilidade, com um leve sorriso de despreocupação no rosto atraente. O cabelo dele também estava desgrenhado, mas uma vez que o usava curto, à Júlio  César, o aspecto não era tão mau como o da sua guedelha emaranhada.

Com a mesma rapidez com que há alguns minutos se tinha sentido irritada por causa do talento de Jack para dormir, agora era o sentimento contrário que se manifestava  nela, desenhando-lhe no rosto um sorriso admirativo. Laurie amava Jack mais do que alguma vez imaginara ser capaz e sentia-se abençoada por isso.

Nesse momento o intercomunicador do avião deu sinais de vida. O capitão deu a todos as boas-vindas à índia e anunciou que tinham começado a descida para o aeroporto  internacional Indira Ghandi, estando a aterragem prevista para dentro de vinte minutos.

Movida por uma súbita onda de amor, Laurie dobrou-se, envolveu a cabeça de Jack nas suas mãos e beijou-lhe longamente os lábios. Os olhos dele abriram-se, pestanejaram  e depois ele retribuiu o gesto. Laurie fez-lhe um largo sorriso.

- Estamos a chegar disse.

Jack sentou-se, espreguiçou-se e tentou olhar através da janela. Não vejo nada.

- Nem vais ver. Lembra-te que são dez e meia da noite. Aterramos por volta das onze.

A aterragem foi suave. Tanto Laurie como Jack foram invadidos por um sentimento de excitação quando desceram do avião e começaram a andar ao longo do terminal. Passaram  sem problema pela verificação de passaportes, e não tiveram de esperar pela bagagem, pois não tinham bagagem no porão. Na alfândega, foram mandados passar sem hesitação.

Quando Laurie e Jack apareceram na rampa à saída da área da alfândega, Jennifer começou a acenar como uma louca e a chamá-los aos gritos. A sua impaciência era tanta  que correu para eles e deu um grande abraço a Laurie.

- Bem-vindos à Índia disse Jennifer jovialmente. Obrigada, obrigada por terem vindo. Nem fazem idéia do que isso significa para mim..

- Estou muito contente por te ver - disse Laurie rindo, algo surpreendida pela exuberância de Jennifer. Não conseguiu dar um passo, até Jennifer a libertar.

Depois Jennifer abraçou Jack com igual entusiasmo.

- Para ti também disse.

- Obrigado - conseguiu dizer Jack, tentando impedir que o boné de basebol dos Boston Red Sox, que lhe tinha dado a irmã, lhe caísse da cabeça.

Jennifer transferiu um braço para o ombro de Laurie, de modo que tinha um em cima de Jack e o outro em cima de Laurie. Foi nessa coreografia bizarra que subiram  o resto da rampa at&e