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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CORPOS EM CHAMAS / L. P. Baçan
CORPOS EM CHAMAS / L. P. Baçan

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CORPOS EM CHAMAS

 

                     Data: 3 de julho de 1951.

                     Local: Saint Petersburg, Estado da Flórida.

            Ocorrência: Nesta manhã, por volta das 6:00 horas, recebi um chamado da central, mandando-me atender uma ocorrência na Rua Flower. Dirigi-me ao local, onde percebi um ajuntamento diante do número 14l6. A Sra. P.M.Jones, vizinha da casa onde verificara-se a ocorrência, aproximou-se e informou-me que algo acontecera à Sra. Mary Plumber, moradora no endereço acima.

Segundo ela, um mensageiro da Wester Union tentara entregar um telegrama à Sra. Plumber, mas esta não atendera à campainha nem às batidas na porta. O referido mensageiro procurou a Sra. Jones, pedindo sua ajuda. Foram juntos até a casa e, ao tentar abrir a porta, perceberam que a maçaneta estava muito quente. Quando entraram, com a ajuda de alguns operários que estavam trabalhando ali perto, encontraram sinais de incêndio, cinzas humanas e um crânio encolhido pela ação do fogo. Nem ela nem o mensageiro conseguiram entender o que havia acontecido. Isolei a área, chamei o rabecão, depois entrei na casa. Tudo estava em ordem na sala, apesar de estar muito quente, a despeito da temperatura amena do lado de fora. Um cheiro de queimado muito intenso vinha de um dos quartos da casa. Fui até lá. O aposento estava muito quente, apesar de ter suas janelas totalmente abertas. Perto de uma dessas janelas havia um amontoado de madeira carbonizada, lembrando o formato de uma cadeira. Junto dessa madeira queimada havia muita cinza e uma cabeça humana, só que menor que o normal, totalmente carbonizada também. Havia uma mesa com um abajur a um canto, segundo a Sra. Jones, que estava totalmente queimada também. Havia fuligem na parede, do lado da cadeira apenas, começando a cerca de um metro do assoalho. A tomada elétrica estava derretida. Um relógio elétrico, ligado naquela tomada, mas intacto sobre o criado-mudo ao lado da cama marcava 4:20 horas. Do outro lado do aposento, sobre uma cômoda, havia um castiçal com 3 velas, todas derretidas, atestando que o fogo fora muito forte. Apesar disso, as roupas de cama estavam intactas, bem como as cortinas.

            Conclusão: Impossível afirmar o que aconteceu naquele quarto. Se fosse fogo, todo ele teria se queimado. Estranhamente, parece que apenas o corpo da Sra. Plumber, a cadeira onde ela estava sentada e a mesinha com abajur ao lado se queimaram. Apesar da fuligem na parede e da janela estar aberta, as cortinas não queimaram.

            Assinado: S.J.Spencer, Ajudante Comissionado, Nível IV.

 

                     Laudo Técnico

                     Ocorrência: Rua Flower, 1416.

            Dados Preliminares: Residência construída em alvenaria, em bom estado de conservação. Fiaç·es elétricas compatíveis e vistoriadas. Quarto principal: sinais de carbonização, possivelmente de uma cadeira, uma mesinha e um abajur. Crânio encolhido, possivelmente pertencente à Sra.Mary Plumber, juntamente com cinzas humanas. Identificação impossível. Arcadas dentárias totalmente destruídas pelo fogo. Não há sinais da origem do fogo. Tempo na noite do acontecimento bom, sem nuvens ou registros de descargas elétricas. Peso estimado da vítima, segundo descriç·es da vizinha e do filho: 75 quilos, necessitando de altas temperaturas para ser carbonizado, o que fatalmente provocaria incêndio na madeira da casa ou no resto dos móveis e cortinas.

            Conclusão: ????????

 

            A casa estava abandonada havia mais de quarenta anos. O mato crescera no jardim e nos fundos, envolvendo a casa e escondendo-a das vistas dos outros vizinhos. Normalmente eles teriam protestado contra o desleixo, mas, naquelas circunstâncias, preferiram ver o mato cobrí-la, afastando-a de suas vistas e ocultando, com isso, aquele mistério e aquele medo que haviam se instalado no bairro.

            As pessoas mudaram-se. Richard Plumber, o único filho da Sra. Plumber mudara-se para Nova Iorque, com a esposa e os filhos. Estes, por sua vez, também haviam se casado e tido seus filhos. No início de 1995, Richard faleceu e seus bens foram divididos entre os herdeiros.

            Norma Plumber, neta de Richard, estranhou aquele documento no meio dos papéis que seu pai trouxera da casa do avô.

            -- Pai -- disse ela. -- Pelo que está escrito aqui, o vovô tinha uma casa em Saint Petersburg ainda.

            -- Tinha? -- surpreendeu-se ele. -- Nunca comentou nada.

            -- Pois está aqui. Inclusive com os tal·es dos impostos anuais pagos, até o deste ano.

            -- Interessante... Nem fez parte do testamento. Por que ele esconderia isso? -- intrigou-se Patrick Plumber, apanhando o papel. -- Sei que papai nasceu nessa cidade, mas não sei porque mantinha essa casa lá.

            -- Que acha de tentarmos descobrir o que há por trás disso? Se a casa existe, deve valer um bom dinheiro. Pode estar alugada. Alguém deve estar recebendo esse dinheiro... Não sei, acho que deveríamos ver isso.

            -- Vou pedir ao meu advogado que tente descobrir alguma coisa -- decidiu ele.

            Alguns dias mais tarde, quando retornou do trabalho, Patrick procurou pela filha. Moravam os dois no apartamento. A esposa de Patrick havia falecido alguns anos antes.

            Norma estava em seu quarto, estudando para as provas de final de período.

            -- Norma, recebi notícias sobre a casa. Ela existe realmente e está em nome de minha avó, Mary Plumber. Só que está totalmente abandonada. Segundo o meu advogado, com a anuência dos herdeiros e com o atestado de óbito da vovó, podemos vendê-la e dividir o dinheiro.

            -- Que ótimo, pai! O que pretende fazer?

            -- Quando terminará suas provas?

            -- No final de semana, por quê?

            -- Pensei em tirar uma semana de férias. Poderíamos ir para lá e resolver este assunto. O que me diz?

            -- Vou adorar -- afirmou ela.

            -- Então está decidido. Vou providenciar as passagens. Que tal irmos no domingo?

 

            Charles Root, ajudante comissionado do xerifado no Condado de Saint Petersburg, sentou-se diante da mesa do computador e ficou olhando admirado aquele interessante aparelho. Todos os arquivos da Polícia local haviam sido resumidos naquela modernidade, após um trabalho exaustivo de meses. Tudo o que desejasse estava ali, na ponta de seus dedos. Bastava procurar e encontrar.

            -- Tudo perfeito agora? -- indagou Edward Weller, o xerife, olhando por sobre o ombro dele.

            -- Sim, tudo que possa imaginar, xerife. Além de todo o arquivo legível do xerifado, estamos ligados com os computadores das principais cidades do país, inclusive do FBI. Se quisermos mandar um alerta nacional, nós o faremos e imediatamente todos os outros o receberão.

            -- Bom, eu só acredito vendo, Charlie, você me conhece. Desde o início, quando você propôs isso, achei que não levaria a nada. Mostre-me, agora, uma prova prática de que isso pode nos ajudar nas investigaç·es, por exemplo.

            O rapaz pensou por instantes.

            -- Quer ver uma coisa? -- indagou, digitando alguns dados no computador. -- Estou pedindo aqui uma lista de crimes insolúveis que constam em nossos arquivos.

            Feito isso, Charles aguardou e, pouco depois, o computador foi imprimindo uma relação com nomes das vítimas, datas e causa da morte.

            -- Certo. Mas onde isso nos leva? -- questionou o xerife.

            -- Calma, xerife, não terminei ainda -- falou o rapaz, continuando a digitar. -- Temos agora um quadro estatístico com as armas utilizadas para esses crimes -- informou ele.

            -- Veja aqui, xerife. Em 1960, tivemos seis crimes onde foram utilizadas armas calibre trinta e oito. Não parece significativo? Não poderia ser um assassinato em série? Poderíamos voltar a investigar esses casos e cruzar as informaç·es.

            -- Acha que isso pode nos levar a algum lugar?

            -- Posso investigar. O que me diz?

            -- Vá em frente. Talvez tenhamos alguma coisa para mostrar ao prefeito e justificar o gasto feito -- afirmou o xerife, sempre avesso às modernidades.

            Para ele, as investigaç·es tinham de ser feitas no velho estilo. Via, no entanto, que os tiras como ele, da velha geração, estavam chegando ao fim. Logo ele estaria se retirando e o lugar ficaria para tiras com novos recursos, modernos e avançados como Charles Root.

            Deixou seu ajudante à vontade e foi cuidar de outras coisas. Charles ficou ali, olhando a tela do computador, percebendo algo interessante. Nos últimos cinqüenta anos, diversas pessoas haviam morrido supostamente queimadas em incêndios sem muita lógica.

            Digitou alguma coisa no teclado e aguardou. A maioria das pessoas mortas em incêndios eram mulheres. Cruzou informaç·es. As mortes haviam acontecido com intervalos de no máximo três meses, mas, em 1970, chegaram a acontecer com um intervalo menor, de até quinze dias.

            Por outro lado, nos últimos dez anos, nenhum outro caso havia ocorrido na cidade. Achou tudo aquilo muito interessante e pensou fazer, mais tarde, uma pesquisa mais completa sobre o assunto.

            Dedicou-se a analisar aqueles crimes de 1960, onde todas as vítimas haviam sido baleadas por um trinta e oito. Percorreu os relatórios balística, tentando compará-los, mas não pôde localizá-los. Simplesmente não faziam parte dos arquivos.

            -- Maldição! -- praguejou ele, pensando por instantes.

            Os crimes haviam acontecido ao longo do ano, com intervalos de até três meses, sendo que o último fora com um intervalo menor.

            Procurou por esse na memória do computador. O relatório da ocorrência estava ali. Um homem morrera com um tiro na cabeça, com todos os indícios de tratar-se de um suicídio, já que havia traços de pólvora em sua mão e queimadura em sua boca, onde pusera o cano ao disparar.

            Seu corpo fora retirado do Rio Peters, poucas horas após a morte. Como não localizaram a arma usada nem descobriram o local onde a morte aconteceu, o crime foi arquivado como insolúvel.

            Anotou o nome do último morto. Após ele, as mortes com aquelas características haviam cessado. Percebeu, também, que todas as vítimas, com exceção da última, haviam sido baleadas nas costas, sempre com três tiros ao mesmo tempo.

            Era intrigante isso. Indicavam um padrão. Se naquela época tivessem feito um exame balístico, os projéteis comparados poderiam dar mais alguma pista.

            Concentrou-se, porém, no nome do último morto, o do provável suicídio. Seu nome era Daniel Bovet, funcionário do First Bank of Saint Petersburg, com trinta anos na data de sua misteriosa morte.

            Isto era tudo que tinha de informação sobre a pessoa. Nos relatos das testemunhas que o conheciam, nada surge de revelador. Daniel Bovet não estava envolvido em nenhum desfalque, conforme declaraç·es do presidente do Banco. Assim, nada justificava seu tresloucado gesto nem ligava-o com os demais crimes do Trinta e Oito.

            -- O que está fazendo? -- indagou Anna Whiple, sentando-se ao lado dele.

            Anna fora uma das principais apoiadoras de sua idéia de informatizar o xerifado, uma idéia inicialmente absurda numa comunidade tão conservadora como aquela, perdida no interior do Estado da Flórida.

            A garota graduara-se em Criminologia e ocupava o posto de investigadora. Quando fora admitida, todos a olhavam com reservas, duvidando que uma mulher poderia ser mais astuta que um homem numa investigação.

            Em pouco tempo ela provara o contrário. Logo em sua primeira missão, seguiu pistas que foram desconsideradas pelos investigadores veteranos. A princípio ainda zombaram dela e de sua preocupação com detalhes tão insignificantes.

            Pouco a pouco, porém, com indícios inexpressivos ela foi montando toda a seqüência do crime e, quando apontou e prendeu sozinha o culpado, ganhou o respeito de todos. A partir daí, Anna ganhou seu lugar e ocupou seu espaço dentro do xerifado.

            Era jovem ainda, beirando os vinte e cinco anos, solteira e morava sozinha. Entre ela e Charles havia uma grande amizade. Talvez mesmo algo mais que uma grande amizade, mas, inexplicavelmente, ambos ainda não haviam tido a oportunidade de perceber isso. Continuavam convivendo como amigos, mas a maneira como comportavam-se um com o outro era por demais reveladora.  

            -- Estou pesquisando crimes antigos - informou ele.

            -- Que fascinante. O que temos aí?

            -- Seis mortes em 1960, todos com uma arma do mesmo calibre. A última delas tem todos os indícios de ser um suicídio, enquanto nas demais as vítimas foram baleadas três vezes nas costas.

            -- Isso é significativo. Temos um padrão. Há estudos balísticos?

            -- Infelizmente, não. Os crimes começaram em março e terminaram em dezembro, tão inexplicavelmente como começaram.

            -- Informaç·es sobre as vítimas?

            -- Apenas as informaç·es-padrão. O que faria se fosse investigar esses crimes agora? -- indagou ele.

            -- Bom, se eu fosse investigar isso, começaria por tentar estabelecer o motivo. Alguma coisa aconteceu no início de 1960 e em dezembro daquele ano...

            -- Em dezembro morreu a sexta vítima.

            -- Suicídio, não crime.

            -- Não consigo separá-lo das outras mortes. Imagine que alguma coisa realmente aconteceu no início do ano e que Daniel Bovet resolveu matar cinco pessoas, por motivos que desconhecemos, suicidando-se depois. Talvez uma vingança, talvez um acerto de contas, alguma coisa assim.

            -- Não é uma teoria de se jogar fora. Se Daniel tinha um motivo para matar os outros cinco, só temos que chegar a ele para matar todo o caso.

            -- Acha que pode ser tão simples assim?

            -- As coisas normalmente são simples demais, Charlie. A nossa miopia é que complica tudo, sabia? Não existe um crime perfeito. Sempre sobram pistas...

            -- Há exceções...

            -- Difícil...

            -- Mas não impossível. Quer ver uma coisa? -- indagou ele, pedindo uma informação ao computador. -- Olhe aqui -- acrescentou, quando a informação surgiu na tela.

            -- O que temos aqui? -- indagou ela, interessada.

            -- Todas as mortes por fogo nos últimos quarenta anos. Veja que interessante este caso. Vou pedir o relatório do oficial que atendeu a ocorrência, depois o do perito.

            -- Absurdo! -- exclamou ela, após ler o relatório daquela ocorrência.

            -- Achou isso um absurdo? Veja o que diz o perito -- acrescentou o rapaz, pedindo a informação seguinte.

            Anna leu a interessante conclusão do técnico que analisara o caso.

            -- Fico admirada de ver que ele assinou o documento ainda -- comentou ela.

            -- E por que não deveria? Foi o que ele pôde dizer de tudo aquilo. Acho até que ele foi muito coerente. Poderia ter afirmado simplesmente que fora um curto circuito ou um cigarro deixado aceso. Ao invés disso, preferiu reconhecer sua ignorância. Convenhamos, Anna. Não acha tudo isso muito estranho? -- indagou ele, encarando-a.

            Estavam bem próximos um do outro. Como sempre fazia, ele a olhou com uma ternura indisfarçável, detendo-se em seus olhos, na curva de suas sobrancelhas, no desenho delicado e sensual de seus lábios carnudos, na maneira especial que ela possuía de ficar mordiscando a haste dos óculos.

            -- Deve haver algum engano... -- comentou ela. -- Não é lógico...

            -- Já ouviu falar de combustão espontânea, Anna? -- indagou ele.

            -- Ora, Charlie, isso é tolice.

            -- Não, eu li, um dia desses, numa dessas revistas de assuntos místicos que há casos relatados de pessoas que simplesmente pegaram fogo e foram consumidas até virarem cinzas.

            -- O que não foi o caso dessas pessoas aí. Nenhuma delas apareceu na revista, apareceu?

            -- Não, mas isso não significa que não possa ter acontecido o mesmo com elas.

            -- Está bem, Charlie, não vou discutir com você. O ser humano é basicamente constituído de água, compreende? Desidrate-o e terá muito pouca coisa de resto. Imagine você uma mulher de setenta e cinco quilos pegando fogo! Dá para acreditar?

            Charles pensou por instantes. Analisando sob aquele ângulo, Anna tinha toda razão.

            -- É, mas Shakespeare disse que havia mais mistérios entre o céu e a terra do que poderíamos imaginar.

            -- Foi uma citação, dentro do contexto de uma peça teatral, não uma verdade absoluta. Dá para separar as duas coisas?

            -- Está bem, eu desisto. Não dá para discutir com você -- riu ele, entregando os pontos.

 

            O Hospital Central de Saint Petersburg havia acabado de passar por uma total reestruturação. Alguns setores foram remodelados e ampliados, outros foram criados e o Departamento de Pesquisa, paralisado havia mais de vinte anos, estava sendo de novo incentivado. Toda a diretoria anterior havia sido substituída.

            Gary Ridgewood, após completar seu doutorado, estava assumindo a chefia desse departamento, juntamente com uma equipe que ele escolheria pessoalmente.

Naquela manhã agradável de começo de verão, ele estava no gabinete do diretor geral do hospital, assumindo definitivamente seu posto.

            -- Quero parabenizá-lo, Gary, pelo sucesso. Li sua tese de doutoramento sobre o Hormônio Ridgewood, que seu avô vinha pesquisando, quando faleceu. É simplesmente fantástica! E está no caminho certo. Temos aqui na Flórida o maior percentual de população idosa por metro quadrado. Miami tem se caracterizado como a capital da aposentadoria. Imagine as possibilidades comerciais desse hormônio, caso consiga produzí-lo industrialmente. Pode estar certo que nosso hospital tem o maior interesse na continuidade das pesquisas, pondo, inclusive, a sua disposição, o próprio laboratório que foi de seu avô.

            -- Agradeço-o por isso, Dr. Cooper. Para mim vai ser uma honra e um privilégio trabalhar aqui, onde meu avô trabalho e, quem sabe, encontrar suas anotaç·es sobre as experiências que vinha fazendo.

            -- Se estiverem no laboratório, temos certeza que você as encontrará lá. Nada foi mexido. A administração anterior tinha uma verdadeira fobia por causa daquele laboratório. Jamais entendi o motivo. Agora ele é seu. Deve precisar de reformas e adequaç·es. Converse com alguém do Departamento de Administração. Eles lhe darão as chaves e poderão também ajudá-lo nas mudanças que pretender fazer, além de dar instruç·es sobre o processo de seleção de pessoal.

            --Sobre isto, neste momento inicial do projeto, gostaria de trabalhar sozinho. Assim que tiver algo realmente sólido a respeito, dimensionarei minha necessidade de auxiliares. Algum inconveniente nisso?

            -- Não, de forma alguma, desde que não retarde a produção de nosso importante hormônio -- falou o diretor, com olhos cheios de cobiça.

            Ninguém, em sã consciência, deixaria de incentivar um projeto de desenvolvimento de um medicamento que retardasse o envelhecimento. Sua produção e venda geraria, sem dúvidas, milh·es para seu inventor e para o laboratório que o produzisse. O Dr. Cooper queria que o laboratório do hospital fosse esse felizardo. Certamente haveria dinheiro para todos naquela empreitada.

            Gary agradeceu e deixou o gabinete do diretor. Andou pelos corredores do hospital com familiaridade. Durante a elaboração de sua tese, estivera ali algumas vezes, tentando ter acesso às anotaç·es de seu avô, que tentara a produção do hormônio. A antiga diretoria jamais permitira isso.

            Agora não importava mais. Aqueles velhos estúpidos possivelmente estariam, em breve, usufruindo dos resultados de suas pesquisas e retardando o próprio envelhecimento. Se tivesse colaborado antes, mais cedo teriam o maravilhoso produto.

            Gary acreditava firmemente no sucesso de seu experimento. Tecnicamente ele fora provado e sua produção pelo corpo humano dependia de um estímulo a ser fornecido sinteticamente. Toda a sua tese estivera embasada em provar a existência do hormônio. Toda a sua preocupação agora estava em produzir esse elemento sintético que estimularia a sua produção. Nele seu avô havia trabalhado e feito importantes pesquisas, ao longo de mais de vinte anos. Ele queria ter as anotaç·es em suas mãos. Sabia que estaria ganhando tempo com elas.

            Alguma coisa não vinha dando certo nas experiências de seu avô, mas ele não sabia de que se tratava. No material que havia conseguido retirar do hospital percebia-se isso. As mais importantes notas e resultados, no entanto, estavam lá, no laboratório que ele iria visitar em seguida.

            Foi até o Departamento Administrativo.

            -- Bom dia! -- cumprimentou ele a recepcionista. -- Meu nome é Dr. Gary Ridgewood e estou assumindo o Departamento de Pesquisas. Preciso das chaves do laboratório.

            -- Oh, sim, doutor. Sabíamos que viria. Nossa chefe gostaria de conhecê-lo. Pode aguardar um instante?

            -- Sim, claro -- concordou ele.

            Enquanto a recepcionista ia até a sala ao lado, Gary caminhou pela sala despreocupadamente. Havia algumas fotos nas paredes, mostrando antigas equipes. Sorriu ao reconhecer seu avô numa delas.

            -- A semelhança é incrível, não? -- comentou uma voz feminina atrás dele.

            Voltou-se para olhar a bela e elegante figura de Linda Hart, a administradora do hospital.

            -- Linda Hart? Você é a administradora? -- surpreendeu-se ele.

            -- E por que não? -- retrucou ela, avançando com a mão estendida.

            Um perfume discreto e agradável precedeu-a. Gary apertou com satisfação a mão firme e macia da jovem, que o olhava nos olhos o tempo todo.

            Haviam sido colegas na Universidade. Linda dedicara-se à Administração Hospitalar, onde graduara-se com louvor. Para ele, nada poderia ser mais conveniente que ter uma amiga naquele importante posto do hospital.

            -- Quando soube que você assumiria o Departamento de Pesquisas, fiquei absolutamente maravilhada. Seria ótimo poder revê-lo -- confessou ela.

            -- E nada me surpreendeu tão agradavelmente que encontrá-la aqui. Você continua linda... Aliás, está ainda mais linda. Casou-se?

            -- Não, não tive tempo ainda. Até agora sempre pensei em minha carreira. Penso que, finalmente, poderei me dedicar a certos aspectos de minha vida pessoal que deixei abandonados ao longo do tempo. E você, casou-se?

            -- Somos iguais nesse ponto, sabia? Também pus minha carreira à frente de tudo.

            -- Bom, sorte a nossa. Se nada der certo, pelo menos poderemos contar um com o outro, já que somos tão iguais.

            -- E poderíamos começar com um jantar esta noite. O que me diz?

            -- Digo que adoro a idéia -- riu ela, com aqueles olhos azuis brilhando deliciosamente e os cabelos longos e bem cuidados esvoaçando ao redor de seu rosto de uma beleza invulgar. -- Está assumindo hoje?

            -- Agora.

            -- ãtimo! Quer ir conhecer o laboratório? Tenho as chaves comigo e gostaria de ir junto. Não conheço o lugar ainda, por incrível que pareça. Se houver necessidade de alguns reparos ou providências, cuidarei disso imediatamente.

            -- Então vamos. Há muito tempo não caminho ao seu lado -- comentou ele.

            -- Foram tempos agradáveis -- confessou ela, apoiando-se no braço dele.

            Avançaram pelos corredores do hospital, conversando sobre os tempos de estudantes, até uma ala isolada, num prédio que recebera uma nova pintura exterior, mas não perdera o ar um tanto sinistro que parecia residir em suas janelas estreitas e em sua porta de folhas de aço.

            -- Fica isolado do corpo do hospital. Isso garante-lhe privacidade, além de ter estacionamento próprio. Acho que poderíamos providenciar uma passarela coberta ligando-o ao hospital, caso precise passar de um para outro e esteja chovendo. O que me diz?

            -- Muito prático, concordo.

            -- Providenciarei -- riu ela.

            Chegaram à porta. Linda entregou as chaves a ele, que localizou a correta e abriu a porta.

            -- O laboratório está limpo e bem cuidado. Semanalmente era feita limpeza e assepsia, impedindo qualquer deterioração. Vamos encontrar, com certeza, instrumentos antigos, talvez ultrapassados, mas em excelente estado de conservação. Tudo que precisar trocar ou adquirir, basta que me procure. Recebemos importantes doaç·es para restaurar o laboratório.

            -- Realmente? E os doadores sabem o que vamos pesquisar aqui?

            -- Sim, não foi segredo desde que confirmaram sua vinda.

            -- Todos sabem, então, do hormônio contra o envelhecimento?

            -- Sim.Eu, particularmente, acho uma coisa valiosíssima, em todos os sentidos, Gary. Em todos os sentidos mesmo -- reafirmou ela.

            -- Inclusive o financeiro?

            -- Principalmente o financeiro.

            Avançaram por uma ante sala, com uma porta que abria-se para um corredor curto. Havia uma porta de cada lado do corredor, possivelmente um depósito e um escritório e, ao fundo, havia uma porta de madeira e vidro martelado, com letras vermelhas e grandes, indicando que ali era o laboratório.

            Gary sentiu-se muito emocionado ao aproximar-se daquela porta. Atrás dela seu avô iniciara e desenvolvera aquela importante pesquisa que ele, anos depois de sua morte, retomou, completou os aspectos teóricos e científicos, apresentando-a aos meios acadêmicos.

            Seu avô estivera sempre voltado para a parte prática da pesquisa. Talvez sentisse o passar dos anos e tentasse desesperadamente encontrar uma forma de deter o processo inexorável do envelhecimento.

            A última fechadura foi aberta. Gary empurrou a porta e segurou-a para que Linda passasse. Seguiu-a, depois, maravilhado por estar ali, finalmente.

            Seus olhos percorreram rapidamente o ambiente, em busca de algo. Localizou logo. Era um cofre de ferro, a um canto do laboratório. Sorriu aliviado.

            -- Acho que irá aproveitar muito pouco desses materiais, Gary. São ultrapassados. Vamos ter de trocar tudo isso...

            -- Não tão depressa, Linda -- pediu ele.

            -- E por que não?

            -- Talvez eu seja um saudosista, mas, se encontrar as anotaç·es de meu avô, gostaria de repetir algumas de suas experiências neste mesmo equipamento. A partir daí irei dimensionando minhas necessidades de substituição. Concorda?

            -- Por mim tudo bem, Gary. Você é o chefe do departamento. O que disser, eu acato -- falou ela, avançando na direção do cofre. -- Se procura anotaç·es do seu avô, com certeza vai encontrá-las aqui -- acrescentou ela, examinando as chaves que tinha na mão. Só que não sei como vamos abrí-lo. Não tenho a chave dele. Mandarei uma equipe especializada vir arrombá-lo para você.

            -- Não tão depressa, querida -- falou ele, ajoelhando-se diante do cofre e alisando-o respeitosamente com as mãos. -- Não quero perder nada do que está aqui dentro. Deixe isso comigo. Tenho alguns documentos de meu avô comigo. Talvez encontre a combinação do cofre entre eles.

            -- Como você quiser. Vou deixá-lo aqui -- disse ela, anotando algo em um pedaço de papel.

            Estendeu-o para ele.

            -- É o meu endereço. Saiu daqui às seis da tarde. Dê-me algum tempo para me preparar...

            -- ãs oito está bem?

            -- Está ótimo! -- afirmou ela, olhando-o longamente em seguida, encabulando-o até. -- É muito bom revê-lo, Gary.

            Ele sorriu, levantou-se e segurou-a pelos ombros. Ela não resistiu quando ele a beijou.

            -- Até a noite -- disse ela, num suspiro, antes de afastar-se.

 

            Charles Root aproveitou seu horário de almoço, comeu rapidamente um sanduíche e foi até a Biblioteca Municipal. Aquele assunto que estivera discutindo com Anna deixara-o intrigado. Cinco pessoas haviam morrido misteriosamente assassinadas, enquanto que uma sexta suicidava-se.

            Não conseguia tirar de sua cabeça que havia alguma ligação entre esses fatos. A melhor maneira de conseguir mais algumas informações era consultando os jornais da época.

            Todas as edições do Diário de Saint Petersburg, a partir de 1895, quando fora fundado, estavam em microfichas que podiam ser examinadas através de aparelhos semelhantes a telas de televisão, onde as páginas iam passando, à medida que se manuseava o controle.

            Charles localizou o período correspondente ao ano de 1960. Começou logo no princípio e foi passando, página por página, dia por dia, até a notícia do primeiro crime. Falava do cadáver encontrado, de quem era a pessoa, e outros detalhes do crime.

            -- O que está fazendo aqui? -- indagou Anna, cochichando, sentando-se ao lado dele.

            -- O que faz aqui? -- cochichou ele em resposta.

            -- Vim ver se descobria alguma coisa sobre aquelas pessoas incendiadas.

            Ele riu e apontou para a tela.

            -- Queria ver se descobria alguma coisa sobre as mortes. Seja o que for e se houver alguma pista, está desta data para trás. Tem um tempo para me ajudar?

            -- Sim, claro.

            -- Vou voltar dia após dia. Fique atenta comigo. Vamos ver se descobrimos alguma coisa.

            -- Ok! Depois você me ajuda com os incêndios, está bem?

            Charles concordou com a proposta. Foi recuando dia após dia, até chegar ao primeiro dia do ano. Nada haviam encontrado que pudesse dar alguma pista.

            Estavam ambos com os olhos cansados de fixarem aquela tela luminosa. Charles esfregou os olhos. Anna fez o mesmo.

            -- Seja o que for, não vamos encontrar mais em nosso horário de almoço. Não temos mais tempo -- lembrou ela, consultando o relógio. -- Vamos voltar para o trabalho e discutir isso.

            Naquela tarde, os dois voltaram a conversar sobre o assunto. Anna havia feito mais algumas investigaç·es por conta e encontrara algo interessante.

            -- Estive no Banco e falei com um dos diretores. Ele não tinha conhecimento do fato nem sabia quem fora Daniel Bovet, morto em 1960 e funcionário do seu estabelecimento. Só que ele foi muito prestativo e conversou com um e outro, além de ter chamado o funcionário mais antigo do Banco, um velhinho muito simpático, que se lembrava de alguma coisa. Segundo ele, Daniel fora responsável por um desfalque no Banco, um valor não muito alto, mas expressivo para a época.

            -- Espere um pouco! -- disse Charles. -- Há um depoimento do presidente do Banco. Ele afirma que Daniel era um funcionário exemplar, que nenhum prejuízo dera ao estabelecimento e...

            -- Estavam mentido. Eu lembrei isso ao velhinho. Ele afirmou que aquela foi uma decisão tomada pelo presidente do Banco para evitar desgastes à imagem da empresa. Os depositantes poderiam perder a credibilidade neles se ele admitisse publicamente que haviam sido lesados. Compreendeu agora?

            -- Daniel deu um desfalque... Por quê? E por que teria de matar cinco pessoas, antes de suicidar-se?

            -- Se a sua linha de pensamento estiver correta, Charlie. Não se esqueça que nada prova que ele matou os outros cinco. É pura especulação de sua parte.

            -- Certo, aceito isso, mas é uma teoria e, na falta de outra melhor, vamos seguir por esta. Por que Daniel deu o desfalque? Como vamos descobrir isso?

            -- Talvez analisando as vítimas consigamos estabelecer um padrão -- sugeriu ela.

            -- Pode ser uma saída. Vamos ver isso -- concordou ele, indo até o computador.

 

                         Lista de Vítimas do Trinta e Oito

 

Nome                          Data                       Profissão

Fred Carmichael        23-mar-60             enfermeiro

Ames Berham             22-mai-60             enfermeiro

Roland Dering             21-ago-60             porteiro

Dave Hunt                   24-out-60               motorista

Justus Lovelace           21-nov-60             faxineiro

Daniel Bovet               20-dez-60              bancário

 

            Charles destacou o papel e ficou olhando para ele. Anna debruçou-se no ombro dele e ficou lendo também. Charles distraiu-se com a proximidade do rosto dela, o suave perfume que vinha de sua pele e de seus cabelos.

            Virou o rosto devagarinho. Anna fez o mesmo. Olharam-se olho no olho. Sorriram de uma forma nova, terna e carinhosa, reveladora mesmo.

            -- Seus olhos são muito bonitos, sabia? -- comentou ele.

            -- Charlie, estamos em serviço -- respondeu ela, toda atrapalhada, mas mantendo-se ali, olhando-o nos olhos.

            -- Estamos trabalhando... Isso não me impede de dizer que tem os olhos bonitos, sabia?

            -- Certo, mas vamos voltar ao trabalho.

            -- Você ficou embaraçada -- observou ele.

            -- Charlie! -- repreendeu-o ela, levantando-se e quebrando o encanto momentâneo.

            Ele sorriu, olhando-a andar de um lado para outro da sala, evitando encará-lo.

            Ficou olhando para ela, reparando em seu modo de andar, em seu rosto bonito e expressivo, em seu corpo de linhas bem definidas e gestos elegantes.

            Algo estranho agitou-se dentro dele. Algo novo e intenso. Anna parou e encarou-o, como se fosse dizer alguma coisa. O olhar dele, no entanto, fez com que ela mudasse de idéia. O olhar dele a fazia sonhar.

            Ficaram sem palavras e sem gestos. Anna aproximou-se. Tirou o papel da mão dele. Olhou-o atentamente.

            -- Dois deles são enfermeiros... -- comentou ela.

            -- É, mas só os dois. Os outros têm outras profiss·es -- respondeu ele.

            -- Sim... Porteiro, motorista e faxineiro, com exceção de Daniel Bovet, que era bancário...

            -- Sim, claro -- concordou ele.

            Ela devolveu o papel para ele.

            -- Porteiro onde? -- indagou ela.

            -- Como?

            -- Onde ele era porteiro... O terceiro homem da lista...

            -- Ah, sim... -- disse ele, voltando à realidade.

            Voltou-se para o computador e digitou alguns dados.

            -- Roland Dering era porteiro no Hospital Central daqui...

            Os dois voltaram a olhar-se. Por momentos, seus olhos brilharam intensamente.

            -- Dois enfermeiros e um porteiro... Hospital. E o motorista e o faxineiro? -- quis saber ela.

            Charles já estava trabalhando nisso, junto ao computador. Olhou uma a uma as fichas das vítimas. Todas trabalhavam no mesmo lugar, exceto Daniel, o suicida.

            -- Hospital Central -- disse ele.

            -- Estranho, não? O que estava havendo no Hospital Central há trinta anos atrás?

            -- Assim que tiver um tempo, vou lá tentar saber isso...

            -- Quando for, me avise. Eu quero ir com você -- afirmou ela, olhando-o com novos olhos.

 

            Assim que Linda deixou o laboratório, Gary apressou-se em ir trancar a porta. Retornou para junto do cofre, tirando do bolso um envelope. Nele havia uma chave e um pedaço de papel.

            Introduziu a chave na fechadura. Depois foi lendo a combinação anotada no papel e girando o segredo. Virou a chave, finalmente. A porta, fechada a tantos anos, estava emperrada, apesar da trava interna ter sido aberta.

            Olhou ao seu redor. Estava trêmulo, tentando imaginar o que encontraria lá dentro. Seu maior temor era que algo tivesse acontecido às anotaç·es, inutilizando-as. Esse temor o deixava febril e apressado.

            Viu uma barra de ferro perto da janela. Foi apanhá-la e com ela forçar a porta do cofre. Pouco a pouco ela cedia, até, finalmente, abrir-se, rangendo e derrubando placas de ferrugem no assoalho.

            Os olhos do médico brilharam, quando ele viu, empilhados cuidadosamente num compartimento do cofre, os livros de nota de seu avô.

            Apanhou o primeiro deles, lendo o início. Passou algumas páginas. Seu rosto demonstrava o máximo interesse e toda a satisfação do mundo. Respostas que ele vinha buscando havia muito tempo poderiam estar ali.

            Retirou os livros de anotaç·es do cofre, levando-os para uma mesa ali perto. Folheou-os aleatoriamente. Tudo era extremamente fascinante.

            -- Calma, Gary... Muita calma... Vamos do princípio... As respostas devem estar aí... Vamos começar do princípio de tudo -- decidiu ele, apanhando o primeiro livro.

            Todos eles tinham anotado um livro na lombada, indicando sua ordem. Gary abriu o primeiro. Seu avô iniciava suas observaç·es contando como chegara à conclusão sobre existência daquele hormônio, cuja presença era fundamental para o homem.

            ã medida que a idade avançava, a capacidade do homem de produzí-lo declinava, ocorrendo, então, a velhice. Se a produção do hormônio pudesse ser estimulada sinteticamente, a velhice poderia ser controlada. Essa era a essência da teoria do velho Dr. Ridgewood.

            Sobre ela Gary desenvolvera toda uma tese, seguindo os passos do avô e provando a existência do hormônio. Seu avô, no entanto, fora mais longe. Havia iniciado experiências práticas para a produção do agente estimulador da produção do hormônio.

            -- Fascinante! -- murmurou ele, percebendo quão longe seu avô havia chegado, antecipando-se inclusive à engenharia genética.

            A fórmula inicial do estimulante surgiu, diante de seus olhos. Analisou-a rapidamente. Após tanto tempo e graças aos novos conhecimentos sobre o assunto, Gary já pôde perceber algumas falhas na fórmula.

            Imaginou onde chegaria, com seu conhecimento e os resultados das experiências do avô. Avançou na leitura, sem importar-se com as horas.

            Desde que começara seus estudos e decidira-se por aquele assunto, sempre sonhara ler aquelas anotaç·es, que estiveram guardadas tanto tempo. O resultado de toda uma vida de dedicação estava ali, oferecendo-lhe conhecimentos que vinham do passado para serem aprimorados no presente, beneficiando as geraç·es futuras. Gary sentiu-se orgulho de participar de tudo aquilo.

            Chegou a um ponto do livro de notas onde o Dr. Ridgewood faria sua primeira experiência. Colada à página do livro estava um relatório.

 

Hospital Central de Saint Petersburg

Relatório de Pesquisa Médica

 

-           Nome: Samantha Arbuckle

-           Idade: 68 anos.

-           Diagnóstico: arteriosclerose degenerativa.

-           Prognóstico: 3 meses de lucidez, tempo indeterminado de vida vegetativa.

-           Tratamento: 5 cc diários de estimulante hormonal.

-           Início: 23 de março de 1949.

-           Reaç·es: Após a primeira semana de administração do estimulante, a paciente apresentou um quadro de melhores geral, com um inexplicável aumento da temperatura corpórea. Nenhuma infecção detectada. O medicamento foi suprimido. A temperatura do corpo voltou ao normal. A paciente continuou apresentando quadro degenerativo progressivo. Retomamos a medicação com o estimulante, reduzindo a dose pela metade. A paciente apresentou melhores no seu quadro clínico, inclusive com regressão de comportamentos senis. A temperatura voltou a aumentar. A experiência não teve continuidade. A paciente morreu tragicamente num acidente que carbonizou seu corpo.

            Conclus·es: A melhora apresentada no quadro clínico da paciente indica que o medicamento surte os efeitos desejados, numa dose 50% inferior à dose inicialmente programada. Não foram encontrados motivos para o aumento da temperatura corpórea.

Oliver Ridgewood, Md

 

            -- Fascinante! -- murmurou ele, olhando a assinatura do velho cientista no pé do documento.

            Para ele, eram momentos de pura emoção, lendo aquelas notas, percorrendo o mesmo caminho que o seu avô percorrera tempos atrás.

            Avançou na leitura, totalmente envolvido com o assunto. Muitas das conclus·es a que ele chegara, com base em outros documentos que o avô deixara, estavam ali, comprovadas.

            Queria saber mais, porém, das experiências prática do velho. Após uma série de observaç·es e informaç·es, havia uma página de um relatório médico.

            A segunda paciente tinha sessenta e cinco anos e sofrera um derrame cerebral. Estava com sérios problemas circulatórios, que tendiam a se agravar com sua imobilidade, após o acidente cardio-vascular.

            As mesmas doses foram administradas, notando-se logo na primeira semana uma considerável melhora na paciente que pôde, inclusive, deixar o leito e caminhar, usando um andador.

            O aumento de temperatura do corpo também foi verificado, só que, também com esta paciente, algo inesperado aconteceu. Novo acidente vitimou-a. O que sobrou dela foi encontrado no pátio do hospital. Aparentemente alguém ateou fogo ao monte e folhas secas que havia ali, sem que ela tivesse tempo de sair do local. Seu corpo queimou totalmente.

            -- Diabos! Que azar! -- murmurou ele, levantando a cabeça e esfregando os olhos cansados.

            Já estava na metade aquele primeiro livro, mas ainda havia muitos deles para serem lidos. Mal podia conter sua impaciência. Foi quando notou o papel sobre a mesa, contendo o endereço de Linda.

            -- Danação! -- resmungou ele.

            Aquela leitura fantástica era tudo o que ele sempre sonhara ano após ano. Não queria deixá-la. Queria ler tudo até o fim e não fazer mais nada além disso.

            Só que assumira um compromisso com Linda. Tinha de ir buscá-la para um jantar. Era importante estar bem relacionado com ela. Além disso, aquele beijo inesperado e tão espontâneo revelava que nada mudara entre eles.

            A velha paixão estava presente e poderia reacender-se. Gary hesitou, entre isso e o desejo de ir fundo naquela leitura.

            Teve de reconhecer, no entanto, que jamais chegaria ao fim daquela leitura em apenas um dia. Por outro lado, tinha todo o tempo da vida pela frente. O laboratório era todo seu. As informaç·es eram todas suas.

            Deixou o livro de notas e foi até o cofre. Limpou a ferrugem acumulada em alguns pontos, esfregando com a barra de ferro. Experimentou fechar de novo a porta e conseguiu-o sem maiores problemas. Tudo seria mais fácil quando trouxesse um pouco de óleo para lubrificar aquelas dobradiças e engrenagens.

            Guardou os livros de volta no cofre, com um cuidado que beirava a reverência. Sentia-se feliz, afinal, por estar ali, por ter aquela oportunidade, por poder trabalhar no projeto com todo o apoio da administração do hospital.

            Linda era uma peça importante em tudo isso. Além do mais, quando a beijara sentira que ainda havia dentro dele um sentimento muito forte em relação a ela.

            Não custava nada investir um pouco de tempo nisso.

 

            Patrick Plumber e a filha estavam absolutamente atônitos diante da explicação do advogado. Tinham vindo de Nova Iorque para decidiram a questão daquela casa, mas estavam esbarrando agora em algo totalmente absurdo.

            -- Eu não entendo -- comentou ele. -- Isso tudo aconteceu em 1951, não há como minha ancestral estar viva. Está dizendo que, legalmente, nada podemos fazer?

            -- Sim, isso mesmo -- confirmou o advogado, após examinar os documentos que eles haviam trazido.

            -- É um absurdo, sinceramente -- frisou Patrick. -- Algum idiota deve ter-se esquecido desse detalhe. Deve haver um atestado de óbito por aí, em alguma parte, provando que ela morreu.

            -- Nesse caso, terá de procurá-lo, Sr. Plumber. Sem ele, sua avó continua legalmente viva.

            Pai e filha entreolharam-se, surpresos com tudo aquilo.

            -- Qual será o caminho a seguir então, advogado? -- indagou Norma.

            -- Bem, como já foi dito, a primeira coisa é tentar descobrir se existe um atestado de óbito. Poderiam começar pelo xerifado. Eles devem ter em seus arquivos os documentos do processo, na época. Se não gostar lá um atestado de óbito, deverá haver no processo elementos que permitam um procedimento legal para o caso. Eu poderia fazê-lo para vocês, mas devo advertí-los que será um processo caro, por isso recomendo que tentem recolher o máximo de evidências ou indícios que puderem, antes de retornarem a mim.

Acho que fui claro, não?

            -- Sim, entendo e agradeço sua honestidade. Vamos começar pelo xerifado, então -- decidiu-se Patrick.

            Algum tempo depois, os dois estavam no carro que haviam alugado, assim que chegaram.

            -- E então, acha que ainda conseguiremos falar com alguém no escritório do xerife? -- indagou Norma.

            -- Não sei. Pela hora, creio que não. Não sei como trabalha o pessoal daqui. Acho que poderíamos aproveitar e ir até lá, de qualquer modo.

            -- Certo -- concordou Norma, que dirigia o carro.

            Patrick tinha um mapa da cidade consigo e localizou rapidamente a delegacia, dando as instruç·es à filha. Chegaram lá em pouco tempo.

            O xerife havia saído para uma diligência.

            -- Puxa, hoje não foi o nosso dia -- reclamou Patrick.

            -- Talvez um dos ajudantes possa ajudá-lo. Charles Root ainda está aqui. Quer falar com ele?

            -- Bom, já que estamos aqui...

            -- Por ali, por favor -- apontou o recepcionista, indicando a porta de um dos gabinetes.

            Pai e filha foram até lá. Instantes depois, Charles e Anna, que estavam de saída juntos, foram atendê-los.

            -- Queriam falar com o xerife, não? -- comentou Charles. -- Vejamos se posso ajudá-los.

            -- Bem, é sobre algo que aconteceu em 1951. Minha avó faleceu aqui, de forma misteriosa, sem que se chegasse a alguma conclusão sobre sua morte. Com isso, se foi feito ou não, ninguém sabe, mas não estamos conseguindo localizar o atestado de óbito dela. Sem ele, não poderemos vender uma propriedade que pertenceu a ela -- explicou Patrick.

            -- Não entendo... O Registro Civil poderá fornecer uma cópia do atestado de óbito e... -- ia dizendo Charles.

            -- Eles não tem... Não consta lá um atestado de óbito para ela. Imaginamos que possa ter ficado anexado ao processo que investigou sua morte e alguém tenha esquecido de encaminhar uma cópia ao Registro Civil.

            -- É possível! -- comentou Charles. -- Em que circunstâncias morreu sua avó?

            -- Queimada -- informou Patrick.

            -- Qual era o nome dela? -- indagou Anna, repentinamente interessada.

            -- Mary Plumber...

            -- Já vi esse nome em algum lugar, Charlie -- comentou ela.

            -- Naquela relação das pessoas que morreram queimadas em circunstâncias não muito claras... -- lembrou ele.

            -- Sim, isso mesmo. Lembro-me da conclusão do perigo...Aliás, da inconclusão do perito...

            -- Não examinei todo o arquivo daquele caso, mas acho que poderemos verificar se há algum atestado de óbito lá -- prontificou-se Charles, pedindo-lhes que aguardassem.

            Anna e ele foram até a sala do computador e rapidamente ele acessou o dossiê daquele caso. Vasculhou-o do começo ao fim, sem localizar o que procurava.

            -- Não há um atestado de óbito -- afirmou ele.

            -- Ninguém soube dizer com certeza quem morreu no local. O crânio ficou tão queimado que encolheu. Só havia isso e cinzas naquele estranho incêndio. E é estranho, se você considerar que apenas o corpo da mulher e a cadeira queimaram. Esquisito, muito esquisito mesmo -- afirmou ela.

            -- E como fica essa família? Como vão provar que a mulher está mesmo morta?

            -- É uma boa pergunta. Possivelmente esteja, mas quem vai assinar um documento atestando isso?

            -- É complicado demais. Vou pedir que eles retornem amanhã e falem com o xerife. Não vejo como ajudá-los -- concluiu ele.

            Ele foi até a sala, informando a Patrick e sua filha que nada havia sido localizado e que o melhor a fazer era retornar no dia seguinte e falar com o xerife.

            -- Acho que teremos de fazer isso mesmo. Vamos aproveitar para dar uma olhada na casa, antes que escureça de todo -- falou Patrick.

            Ele e a filha despediram-se e foram para o carro. Charles retornou à sala do computador, onde Anna havia ficado. Ela observava alguma coisa na tela.

            -- O que descobriu aí? -- indagou ele.

            -- Nada, apenas um detalhe interessante que observei, quando olhávamos o arquivo ainda há pouco.

            -- E o que é?

            -- Há uma declaração de um médico do Hospital Central, informando que a vítima estava fazendo um tratamento contra a senilidade... Apenas isso, nada mais consistente.

            -- E por que achou interessante isso?

            -- Não sei, de repente começamos a ver muitas coisas sobre o Hospital Central, não? Os enfermeiros, o porteiro, motorista e faxineiro do hospital, mortos em 1960. A mulher que morreu em 1951, fazendo um tratamento lá. Não sei... Apenas coincidências...Quis verificar se havia alguma coisa mais positiva.

            -- Já que tocou no assunto, vamos verificar uma coisa -- comentou ele, apertando algumas teclas.

            Cruzou algumas informaç·es, mas nada encontrou de positivo. Anna entendeu o que ele pretendia fazer.

            -- Quer ver se as outras vítimas têm alguma coisa a ver com o hospital? -- indagou ela.

            -- Sim, com o hospital e com o banco. Deve haver alguma ligação, não acha?

            -- Pode ser, mas não vamos fazer isso esta noite. Gostaria de jantar num lugar bem elegante...

            -- Só há um lugar assim em Saint Petersburg: o Gateway. Com sorte conseguirei fazer uma reserva.

            -- É muito caro?

            -- Se não comermos lagosta e caviar -- brincou ele.

            -- Sério mesmo: você vai me levar?

            -- Sim, vou -- afirmou ele, olhando-a daquele modo que a fazia sentir-se especial.

            Charles começava a descobrir quão especial era ela.

 

            Quando pararam o carro diante do endereço, Patrick e Norma olharam-se surpresos. Ambos haviam sentido calafrios, olhando aquelas ruínas, ocultas no meio das árvores e arbustos. Alguém parecia cuidar do local, pois a aparência geral não era de total abandono. Havia uma certa beleza nos arbustos podados e nas árvores que haviam crescido, sufocando a casa.

            -- Abandonada... Ninguém mora aqui, pai -- observou a garota.

            -- Não sei... Veja aqueles arbustos... Foram podados recentemente...

            -- Vamos dar uma olhada?

            -- Sim, vamos aproveitar o que resta de luz do dia -- decidiu ele

            Desceram do carro e passaram pelo rústico portão de madeira que mal se mantinha em pé. Sob a calçada que conduzia até a casa, além do labirinto vegetal, as raízes poderosas das árvores haviam se infiltrado, provocando rachaduras e desníveis.

            As janelas fechadas davam à casa uma aparência tétrica. A pintura era velha, muito velha mesmo e em muitos pontos a madeira havia apodrecido.

            Pouca coisa poderia ser aproveitada. Um galho havia caído sobre o telhado. O estado do interior da casa, com a chuva entrando por ali ao longo dos anos, deveria ser lastimável.

            -- Não sei como não demoliram esta casa antes... -- falou Norma.

            -- Veja ali, na porta -- apontou Patrick.

            Havia um papel colado lá, da Prefeitura, informando que a casa estava condenada e não deveria ser habitada. Um lacre havia sido posto na porta da frene, mas parecia violado.

            -- Vamos entrar? -- convidou ele, forçando o trinco da porta, que abriu-se precariamente. -- É bom olhar onde pisa, Norma -- advertiu ele.

            Entraram na sala da casa. Pássaros voaram. Ratos correram de um lado para outro. A madeira do assoalho estava podre junto à parede, onde um galho quebrara o telhado.

            -- Vamos por ali -- indicou ele, contornando aquele local inseguro.

            Foram até a cozinha. Estava abandonada e parecia ter sido saqueada. Torneiras, armários e móveis haviam sido retirados, inclusive lâmpadas e fios elétricos.

            -- Só vale pelo terreno, pai. Pouco se aproveita da construção -- observou a garota.

            -- É, só vai interessar para alguma companhia de demolição e salvados. Mesmo assim, muito pouca coisa -- concordou ele.

            Voltaram à sala. Havia um corredor, que levava a dois quartos e a um banheiro. Caminharam com cuidado. Ali também fios, tomadas e soquetes haviam sido arrancados.

            -- Quer apostar comigo como levaram a banheira? -- desafiou ela.

            -- Não duvido nada -- riu ele.

            Norma foi até uma das portas, abrindo-a. Era o banheiro. Ela riu. A banheira e tudo o mais haviam sido levados. Patrick abrira a porta de um dos quartos. Apenas móveis quebrados e sinais de saque ali também.

            -- Este deve ser o quarto principal -- falou Norma, abrindo a terceira porta.

            Para surpresa de ambos, aquele quarto estava intocado. A velha cama de metal ainda conservava o colchão, lençol e travesseiros. Havia uma cômoda, com vidros de perfume e outras bugigangas encima.

            Norma foi até lá e examinou. Abriu uma das gavetas. Baratas correram por entre tecidos envelhecidos pelo tempo. Voltou-se para comentar alguma coisa com seu pai. Ele estava imóvel, olhando a mancha de fuligem na parede e os restos carbonizados no assoalho.

            -- Foi aqui que ela morreu, não? -- comentou a garota.

            -- Misteriosamente incinerada... Como pode ser isso?

            -- Isso deve ter confundido o pessoal da época, não?

            -- Sim, além de nos criar uma dor de cabeça danada agora. Acho que essa herança inesperada foi um mau negócio. Saquearam toda a casa e deixaram este aposento, como se o temessem...

            -- Superstiç·es, papai -- comentou ela, voltando à cômoda.

            Encontrou ali uma pasta de couro, fechada com zíper. Retirou-a com cuidado, espantando os insetos que passeavam sobre o objeto. Abriu-a com cuidado.

            -- Veja, pai, há alguns documentos aqui -- informou ela.

            Patrick foi ver com ela.

            -- Identidade... Carteira de motorista de John Plumber...Deve ser o bisavô... Carteira de saúde... Ela estava fazendo um tratamento no hospital...Veja aqui... Senilidade...

            -- Ei, talvez com isso consigamos alguma coisa no hospital. Uma ficha médica ou algo assim que possamos usar para tentar provar a morte dela... Eu não acredito que estou fazendo isso -- disse ele. -- É a coisa mais óbvia do mundo... Mary Plumber morreu aqui.

            -- É só um detalhe legal, papai. Vamos resolver isso da melhor maneira, você verá -- disse ela, encontrando um cartão de um médico chamado Dr.Oliver Ridgewood junto aos documentos.

            -- Tomara que tudo isso compense o trabalho -- reclamou ele.

            -- Veja por um outro prisma, pai. Estamos numa viagem de férias e encontramos algo interessante para fazer. É só isso. No fim das contas, ainda vamos lucrar alguma coisa com isso -- falou ela, com otimismo.

            Diante dela havia um velho espelho, pendurado na parede. Estava coberto de poeira, baço, com defeitos. Isso tudo não a impediu, no entanto, de ver aquele vulto estranho parado na porta do quarto, com um pedaço de cano na mão.

            Gritou, enquanto se voltava para olhar.

            -- Quem são vocês? O que fazem aqui? -- indagou o homem, que vestia roupas velhas e tinha toda a aparência de um mendigo.

            -- Deus do céu, homem! Que susto! -- exclamou Patrick.

            -- Não podem entrar aqui... -- disse o velho maltrapilho.

            -- Meu nome é Patrick Plumber e esta casa me pertence, por herança -- falou ele. -- E você, o que faz aqui?

            O velho ficou todo embaraçado, escondendo o pedaço de cano nas costas.

            -- Eu moro aqui... Lá embaixo... No porão... Só durmo, na verdade... E cuido do jardim...

            -- Esta casa está condenada, não oferece condiç·es de habitação -- lembrou Patrick.

            -- Eu sei... mas não tenho escolha... Vocês não vão me tirar daqui, vão? -- indagou ele, apreensivo.

            -- Por mim, pode continuar aí, velho. Só acho que devia tomar cuidado. Isto aqui pode cair encima de você qualquer dia -- alertou ele.

            -- Quanto a isso, não me preocupo. É uma boa casa -- disse o velho, dando alguns passos para dentro do quarto.

            Quando viu, porém, a mancha escura na parede e os restos de cinzas no chão, recuou rapidamente para a porta e persignou-se.

            -- Foi ali... Foi ali que ela morreu, não? O demônio abriu as portas do inferno para ela... Dizem que era uma bruxa...

            -- Está falando tolices, velho -- repreendeu-o Patrick.

            -- Não... Eu sei da história... Contaram-me quando eu era jovem... Ela estava aqui, falando com o demônio e ele a levou para o inferno...Foi assim mesmo que aconteceu... Eles me contaram... Devem fechar este quarto... Ninguém pode entrar aqui... --

foi dizendo o velho, enquanto recuava pelo corredor, sumindo das vistas dos dois.

            A noite chegava rapidamente e a casa tornava-se sinistra e assustadora, vazia e depredada daquele jeito. Norma verificou as outras gavetas. Reuniu os papéis que encontrara na pasta de couro. Examinou o guarda-roupa. Havia apenas roupas e sapatos deteriorados pelo tempo.

            -- Vamos dar o fora daqui. Isto está me dando arreios -- comentou Patrick.

            -- Eu ia dizer o mesmo -- falou a garota, seguindo-o.

            Não viram sinal do velho, que parecia ter sumido, tragado pela casa. A trama vegetal que envolvia a casa, na semi-escuridão da noite que chegava, era ainda mais assustadora, como se o tempo tivesse parado para a casa e a vegetação lutasse com ela na disputa do pedaço de terra que lhe pertencera um dia.

            Nos terrenos vizinhos, altos muros tapavam a visão de seus moradores, isolando a casa. Quem passava pela rua via apenas frestas por entre as árvores e arbustos.

            -- Uma coisa é certa -- comentou Patrick. -- O terreno deve ser bem valorizado aqui. Observe que só há casas de alto padrão por aqui.

            -- Eu não lhe disse que isto ainda seria um bom negócio -- frisou ela.

            -- Tomara que esteja certa. Vamos voltar para o hotel. Quero encontrar um bom restaurante para jantar hoje. Afinal, como você disse, estamos em férias, não?

           -- Certo, pai. Acho que começou as pegar o espírito da coisa -- riu ela, enquanto entravam no carro.

 

            O ambiente era discreto e sofisticado, com garçons impecavelmente vestidos e muito atenciosos. Anna e Charles foram levados até a mesa que haviam reservado. O garçom deixou-os à vontade com o menu nas mãos para fazerem suas escolhas.

            Para aquela noite, Charles havia caprichado no visual. Sentira uma necessidade extrema de mostrar-se apresentável para a garota. Cortara os cabelos, fizera a barba com rigor, depois vestira um terno que havia muito estava guardado em seu guarda-roupa. Combinara corretamente a camisa com a gravata.

            Quando passara pela casa da garota para apanhá-la, estavam ambos irreconhecíveis. Anna, usando um conjunto de saia preta, justa no corpo, modelando suas formas que, ocultas pelos jeans folgados que costumava usar, ficavam longe das vistas dele. Soltara os cabelos e fizera uma maquilagem discreta. Um perfume excitante substituíra aquele usado por ela no dia a dia.

            Olharam-se com admiração. Ela estendeu instintivamente a mão sobre a mesa e Charles fez o mesmo, apertando-a com a sua.

            -- Estou adorando! -- comentou ela.

            -- Você está linda, sabia?

            -- E você nem parece o Charlie de todo dia...

            Ambos riram. Sentiam-se abertos a todo um processo de descobertas entre os dois.

            Patrick e Norma passavam pela mesa e os dois os reconheceram.

            -- E então, Sr. Plumber, viu a casa? -- indagou Charles.

            -- Sim, está em péssimo estado.

            -- Procure-nos amanhã. Estou certo que o xerife terá uma solução para o seu caso.

            -- Tomara que sim ou teremos um problema sério nas mãos para resolver. Bom apetite para vocês -- disse ele, afastando-se com Norma.

            -- Você sabe onde fica a tal casa? -- indagou Anna.

            -- Sim, em Salinas, aquele bairro chique... É um lugar estranho aquele. O terreno ficou isolado pelos altos muros das casas que foram construídas aos lados e nos fundos. Toda a parte da frente está cheia de árvores e arbustos, tapando a visão da velha construção. Acho que os demais moradores do bairro vão adorar, se o Plumber conseguir pôr aquele terreno à venda.

            -- Poderíamos ir mais tarde até o hospital, não? -- propôs ela e o rosto dele revelou contrariedade.

            Tinha planos mais românticos para aquela noite.

            -- Não vamos tratar nada de trabalho esta noite. Se quiser ir lá amanhã, no horário do almoço, eu vou com você. Nesta noite, não.

            Ela notou a veemência com que ele defendera o programa daquela noite e sorriu, entendendo. O trabalho poderia esperar. Aquela noite era mais importante que tudo.

            O jantar foi delicioso e o tempo passou agradavelmente para os dois, que conversaram coisas pessoais, coisas que um não sabia do outro e tinha curiosidade a respeito.

            -- Quer conhecer um local muito romântico? -- convidou ele, após muitos rodeios.

            -- Onde?

            -- A Colina dos Namorados...

            Ela riu da proposta que, em qualquer outra hora lhe pareceria uma coisa ingênua e boba mas que, naquele momento, era tudo o que ela desejava.

            A Colina dos Namorados ficava ao norte da cidade, margeando o Rio Saint Petersburg. Do alto dela tinha-se uma maravilhosa vista da cidade e do rio, que serpenteava vindo do oeste em direção ao leste, buscando o oceano.

            Era um local tranqüilo, onde os namorados podiam ficar em paz, conversar, olhar a paisagem e namorar.

            -- Sempre tive vontade de conhecer esse lugar. Você leu meus pensamentos -- sorriu ela.

            -- Vou pedir a conta -- disse ele, fazendo um gesto para o garçom.

            Naquele momento, Anna notou a presença de Linda Hart, a administradora do hospital, juntamente com um desconhecido, muito bem vestido, de gestos elegantes e sóbrios.

            -- Aquela é Linda Hart -- comentou ela.

            -- E quem é Linda Hart?

            -- A diretora administrativa do hospital. Se quisermos fazer alguma investigação lá, vamos ter de pedir autorização dela.

            -- Certo, faremos isso amanha...

            -- Conhece o homem que está com ela?

            Charles olhou discretamente.

            -- Não, deve ser novo na cidade. Por quê?

            -- Não sei. Pela maneira como conversam, parecem ser velhos conhecidos. Poderíamos falar com ela, na saída.

            -- Você é impossível, Anna. É teimosa como minha mãe.

            Ela riu da comparação.

            -- Poderíamos aproveitar a oportunidade. Se ela não permitir a investigação, teremos de agir de outra forma...

            Charles não a conhecia profundamente ainda, mas sabia que Anna, quando punha uma idéia na cabeça, nada a fazia tirá-la de lá. O melhor, portanto, era ceder um pouco para não estragar seus planos para aquela noite.

            -- Está bem, sua teimosa! -- decidiu ele. -- Se quiser falar com ela, tudo bem. Parece que eles também já terminaram de jantar mesmo. Vá até lá, enquanto eu pago a conta/

            -- Você é um amor -- murmurou ela, levantando-se.

            Foi até a mesa, onde chamou discretamente a atenção de Linda

            -- Meu nome é Anna Whiple e sou investigadora do xerifado local. Eu e meu parceiro precisamos fazer algumas investigaç·es nos arquivos do hospital. Acha isso possível?

            -- Investigaç·es? Que tipo de investigaç·es? Muito de nossos arquivos são confidenciais, deve saber disso.

            -- São de pacientes que morreram há muito tempo. Só queremos tentar entender o que houve com essas pacientes. Percebemos a existência de um padrão nas mortes...

            -- Bem, em princípio, o hospital está sempre disposto a colaborar com a Polícia. Por que não me procura lá amanhã? Farei o possível para ajudar -- prontificou-se Linda.

            -- Agradeço a gentileza, Linda. Desculpe-me incomodá-los -- falou a policial, olhando para Gary.

            -- Este é o Doutor Gary Ridgewood, novo chefe de nosso departamento de pesquisas -- apresentou-o ela.

            Anna cumprimentou-o, depois retornou à mesa, onde Charles acabara de pagar a conta.

            -- E então, satisfeita agora? -- indagou ele.

            -- Sim, vou falar com ela amanhã. O sobrenome Ridgewood é conhecido para você?

            Charles pensou por instantes.

            -- Não, não me lembro. Por quê?

            -- O homem que está com Linda Hart, seu nome é Gary Ridgewood e está assumindo o departamento de pesquisas do hospital. Tenho certeza de que já ouvi esse sobrenome antes...

            -- Não é um sobrenome comum, mas você pode tê-lo ouvido em qualquer parte por aí...

            -- Não, foi recente isso. Não consigo lembrar-me...

            -- Terá tempo para isso depois. Agora vamos, quero que conheça a Colina dos Namorados.

            Quando os dois passaram pela mesa ocupada por Linda e Gary, Anna sorriu, cumprimentando-os discretamente.

            -- Gostei do nível dos agentes policiais de Saint Petersburg -- disse Gary.

            -- Chiques, não? -- sorriu ela.

            -- Realmente. Mas o que anda acontecendo no seu hospital para chamar a atenção da Polícia?

            -- Desconheço. Confesso que, intimamente, fiquei preocupada com isso. Como ela mencionou arquivos, não creio que seja nada recente. Por que estariam investigando isso agora?

            --Amanhã você descobrirá. Agora fale-me de você. Senti sua falta, sabia?

            -- Eu também senti a sua, mas fomos para escolas diferentes completar nossos estudos. Eu mal tinha tempo de respirar e acho que o mesmo acontecia com você. Perdi contato com a maioria de meus amigos da Universidade.

            -- O mesmo aconteceu comigo. Havia gente interessante entre eles, outros totalmente dispensáveis...

            -- E eu, em qual das categorias me enquadrava? -- indagou ela, de modo provocante.

            -- Na dos absolutamente indispensáveis. Tentei localizá-la algumas vezes, mas desisti. Ninguém sabia de você.

            -- Agora não precisa mais. Você me achou.

            -- E fico muito feliz com isso -- sorriu ele, estendendo a mão sobre a mesa e segurando a dela.

            Linda apertou os dedos dele entre os seus e fechou os olhos sonhadoramente. Fazia muito tempo que não se sentia tão completa como mulher.

 

            Para o Dr. Ridgewood, aquele havia sido um dia memorável, não apenas porque, finalmente, tivera acesso às importantes anotaç·es de seu avô como, também, reencontrara Linda, por quem nutria uma forte atração.

Haviam ficado separados algum tempo, por contingência de suas carreiras, mas aquela fora a mais grata das surpresas. Encontrara-a de novo e, para sua sorte, como administradora do hospital onde ele trabalharia.

Em resumo, teria todas as facilidades do mundo, como se não bastassem todas as que já haviam caído em suas mãos.

Após o jantar, foram para a casa de Linda, onde passaram um bom tempo conversando e matando as saudades dos velhos tempos. Gary queria passar a noite ali, mas havia marcado um compromisso para aquela noite ainda. Um compromisso onde estava em jogo sua estabilidade financeira.

Foi difícil convencer Linda que estava cansado e que tinha que resolver alguns assuntos ainda, antes de ir dormir.

-- Onde você está hospedado? -- quis ela saber.

-- No Lindon Hotel.

-- Por que não vem para cá?

-- Tenho que resolver algo ainda esta noite...

-- Agora já passou da hora de fazer negócios... -- insistiu ela, os braços envolvendo-o pelo pescoço, os lábios ardentes passeando pelo seu rosto e pelos seus lábios.

            Linda era uma mulher sedutora e fascinante. Fugir de seus braços e deixar a promessa de seu corpo para uma outra oportunidade era algo realmente doloroso para Gary, principalmente quando se sentia tão sedento dela, em função do reencontro.

-- Então vá lá, resolva isso e venha para cá...

-- Pode ficar tarde...

-- Eu espero...

-- Está bem... Tentarei não me demorar -- afirmou ele, prendendo-a em seus braços e beijando-a apaixonadamente.

Havia se esquecido do sabor daqueles lábios, do calor daquele corpo, do perfume daquela pele, mas tudo isso voltava novamente a sua memória, provocando-o.

-- Vou esperá-lo -- disse ela, acompanhando-o até a porta.

Antes que ele saísse, ela novamente abraçou-o, prendendo-o contra a porta e beijando-o fogosamente. Gary despertava sensaç·es e instintos quase selvagens dentro dela. Em sua mente ela revia noites tempestuosas que haviam passado juntos e isso doía em seu corpo de tanta saudade.

-- Está bem, eu voltarei, então -- afirmou ele.

A custo conseguiu livrar-se dela e ir para o carro. Era quase meia-noite e as pessoas com quem falaria deveriam estar a sua espera, no hotel.

Assim que chegou lá, foi direto ao bar. Reconheceu-os numa das mesas ao fundo. Eram dois homens de meia idade, ligeiramente grisalhos, vestidos com elegância e sobriedade. Levantaram-se, assim que o viram chegando.

-- Espero não tê-los feito esperar, cavalheiros, mas é que encontrei uma velha amiga...

-- Linda Hart? -- indagou um deles.

-- Sim, isso mesmo. Como souberam?

-- É nosso trabalho, doutor -- respondeu o outro, retirando do bolso interno de seu paletó um grosso envelope.

Depositou-o sobre a mesa, diante do médico. Gary apanhou-o, sopesou-o, depois guardou-o no bolso interno de seu paletó.

-- Duzentas e cinqüenta das grandes -- disse o homem, referindo-se a notas de mil dólares.

-- Parece-me justo, como pagamento inicial do acordo -- disse o doutor.

-- Agora precisamos de algumas boas novidades, doutor, para tranqüilizarmos nosso pessoal -- falou o que parecia ser o mais velho deles.

-- Encontrei as anotações de meu avô e já comecei a examiná-las. Vai demorar algum tempo até que eu tenha acompanhado todas as experiências que ele fez. De imediato, já percebi uma falha na fórmula do estimulador. Se meu avô tivesse os conhecimentos e recursos que temos agora, com certeza teria chegado ao produto definitivo.

-- Excelente, doutor! É uma notícia que vai agradar o pessoal. Espero que avance rapidamente em suas pesquisas. Quanto mais cedo chegar ao produto final, melhor para todos nós. Sabe que nosso laboratório pretende investir pesado nesse novo produto. Da mesma maneira, deve haver gente investindo indiretamente, através do hospital. A notícia correu. Concorrentes estão atrás de conseguir participar desta corrida que você provocou, doutor.

-- Não se preocupem. O que os concorrentes acertarem com o hospital, é problema deles. Meu compromisso é com vocês.

-- Teremos exclusividade na patente?

-- Obviamente - confirmou o médico. -- Agora, se me dão licença, tenho um outro compromisso.

-- Divirta-se, doutor -- disseram os dois homens, enquanto ele sorria, levantava-se e saía para ir ao encontro de Linda.

 

Ana e Charlie haviam apresentado ao xerife todas as suas conclus·es sobre os dois casos. Aparentemente, o homem da lei não parecia sensibilizado com os argumentos dos dois.

-- Pense bem, xerife. São crimes considerados insolúveis, arquivados, fora de questão. Se surgir uma resposta para tudo isso, imagine como isso repercutirá a seu favor. O prefeito vai se sentir satisfeito com isso. Com certeza poderá usar como argumento a seu favor na reeleição -- comentou Charles.

-- Sem contar que, nos meios policiais do Estado, se nome será sempre mencionado quando se falar de crimes insolúveis. Poderá criar um lema, xerife: em Saint Petersburg não existem crimes insolúveis, ou coisa parecida. Será chamado para dar palestras. A imprensa vai adorar um caso desses... -- falava Anna.

-- Sim, o agente da lei insatisfeito com a impunidade investiga e elucida casos do passado. Vai ser uma publicidade e tanto para você e para a cidade. Quem sabe até apresentar-se no programa Review, de entrevistas na tevê.

-- Sim, conhecer Sonja Bharal, a sensação loura do momento e apresentadora-revelação.

Os olhos do xerife agora olhavam longe, sonhando e divagando.

-- Está bem, conseguiram me convencer. O que precisam, afinal? -- indagou ele.

-- Que transforme isso numa investigação oficial. Poderemos precisar olhar os arquivos do hospital. Talvez encontremos restriç·es. Precisaremos de um mandado, coisas desse tipo.

-- Certo -- concordou ele, preenchendo uma ordem de serviço, determinando o início das investigaç·es. -- Pronto, agora é oficial -- disse, entregando o papel a Charles.

-- ãtimo, xerife! -- agradeceram os dois, saindo imediatamente para apanhar uma viatura.

Queriam ir ao hospital o mais depressa possível. Se houvesse algum impedimento, teriam como solicitar um mandado ao juiz e continuar suas investigaç·es sem maiores problemas.

-- Sensacional! -- falou Anna, quando já estavam no carro. -- Acho que isso vai ser interessante. Deixe-me ver a lista das pessoas mortas pelo fogo -- pediu ela.

Charles retirou uma listagem de computador, que trazia no bolso de sua jaqueta. Anna desdobrou-a e ficou olhando com interesse, pensativa, compenetrada.

Ele aproveitou para olhá-la. Era especialmente linda e atraente quando ficava pensativa daquela forma. Suspirou, lembrando-se da noite anterior. A Colina dos Namorados nunca lhe parecera um local tão romântico e agradável como na noite anterior.

Haviam estado juntos, trocado alguns beijos e conversado bastante num clima bem descontraído e amigável. Quanto mais a conhecia, mas a admirava.

Ela sentiu o olhar dele e voltou ligeiramente a cabeça para olhá-lo. Sorriu e piscou um olho. Ele sorriu e piscou em resposta.

-- É muita gente, Charles. Cinqüenta e cinco pessoas...

-- Sim, mas olhe com atenção. Verá coisas curiosas aí. Todas eram mulheres e com mais de sessenta anos. De um modo geral, foram mortes inexplicáveis, embora nos laudos você leia coisas irresponsáveis, como cigarro aceso, combustível por perto e esse tipo de coisa. Só que, nos laudos que consegui olhar, apenas a pessoa e no máximo algum móvel perto dela, como uma cadeira, uma cama ou um sofá, queimaram. Imagine, agora, quantos outros casos devem estar acobertados sob incêndios completos, que destruíram o local onde a pessoa se encontrava?

-- É estranho, é muito estranho. Tão estranho quanto os crime do Trinta e Oito, como você os chama. Por que as vítimas eram todas empregadas do Hospital Central?

-- Não sei dizer, Anna, mas, com base nessas duas situaç·es, a das mulheres que se encontravam em tratamento e que morreram queimadas e a dos empregados que foram baleados, podemos concluir que, no passado, coisas estranhas andaram acontecendo naquele hospital, não?

-- Realmente muito estranhas - concordou ela, pensativa.

 

Gary levantara-se cedo naquela manhã, após uma tórrida e movimentada noite na companhia de Linda. Nunca imaginara que uma mulher poderia ser tão exigente, demonstrando uma paixão arrebatadora e sem limites.

Lembrava-se dela, quando mais jovens e ainda imaturos. O sexo não tinha essa liberação de energias tão intensa. Era mais um passatempo. Linda conseguira fazer disso algo inesquecível e encantador. Jamais havia passado uma noite tão memorável e cheia de prazer.

Deixou-a na cama, deliciosamente nua e adormecida, depois foi para o seu hotel, tomar um banho e preparar-se para mergulhar-se naquelas anotaç·es.

Estava impaciente para tê-las de novo em suas mãos e acompanhar aquela caminhada feita por seu avô, dezenas de anos atrás. Era uma volta ao passado que mudaria todo o presente e o futuro de milh·es de pessoas em todo o mundo, caso as previs·es e estudos de Gary Ridgewood estivessem corretas.

Antes de ir para o hospital, pensou no dinheiro que havia recebido na noite anterior. Eram duzentos e cinqüenta mil dólares, a primeira parcela de seu acordo de exclusividade com uma importante multinacional de remédios.

Todos sabiam o valor que representara um produto como aquele que ele pesquisava. Milh·es de velhos no mundo inteiro pagariam todo o dinheiro que tivessem para prolongar suas vidas, com lucidez e vigor para viver com dignidade.

Para Gary, era como ter descoberto a fonte da eterna juventude. Seu produto teria essa qualidade e poderia até ser conhecido dessa forma.

Quando desceu para tomar o seu café da manhã, no restaurante do hotel, passou pela portaria e apanhou um exemplar do jornal do dia. Folheava-o, enquanto era servido. Viu algumas ofertas de imóveis e considerou o assunto.

Poderia investir aquele dinheiro nisso. Era seguro e sempre teria um retorno. Anotou o telefone de um dos corretores. Tencionava ligar para ele mais tarde e tratar do assunto. Não sabia ainda o que poderia fazer com duzentos e cinqüenta mil, mas a primeira providência seria passar em um banco e depositá-lo.

Depois pensou melhor. Um depósito desses chamaria a atenção. O melhor a fazer era levar o envelope para o laboratório .

Aquele cofre estivera lá por mais de vinte anos e nunca fora tocado. Ninguém sabia, possivelmente, o que ele continha. Ninguém poderia imaginar que as importantes anotaç·es do Dr. Oliver Ridgewood estivessem ali.

Sentiu-se tranqüilo e feliz naquela manhã. Tinha suas pesquisas, um laboratório, todo o apoio necessário, muito dinheiro e Linda Hart. O que mais um homem poderia desejar?

Quando chegou ao hospital, foi imediatamente procurá-la. Linda estava radiante, como se aquela noitada de sexo e prazer não a tivesse esgotado, mas renovado suas energias. Seus olhos brilhavam intensamente. Sua pele parecia um veludo. Até seus cabelos pareciam mais soltos e mais brilhantes.

-- Não o vi sair -- comentou ela, assim que ele entrou e fechou a porta atrás de si.

Ficou ali, parado, olhando para ela.

-- Sabe o que me deu vontade de fazer agora? -- indagou ele.

-- O quê? -- respondeu ela, interessada.

-- Borrar todo esse batom que você está usando e dar-lhe um beijo.

-- Tenho boas notícias -- sorriu ela, com malícia. -- Este batom não borra.

-- Maravilhosa tecnologia! - comentou ele, contornando a escrivaninha e inclinando-se sobre Linda.

A garota levantou o rosto e fechou os olhos. Gary colou seus lábios aos dela, sugando-os e mordiscando-os. Uma de suas mãos desceu pelo pescoço dela e foi buscar um dos seios, beliscando o biquinho saliente.

Bateram na porta naquele momento. Ele endireitou o coro rapidamente, pego de surpresa. A porta começou a abrir-se. Linda sorriu e estendeu um lenço de papel para Gary.

-- Para que isso? -- indagou ele, num sussurro.

-- Eu menti -- riu ela.

Ele riu também, limpando os lábios, enquanto a porta abria-se totalmente e Anna e Charles entravam.

-- Bom-dia, Linda -- cumprimentou-a Anna. -- Nós nos vimos ontem, no restaurante. Este é Charles Root, ajudante do xerife. Esperamos não estar interrompendo nada...

-- De forma alguma, eu já estava de saída mesmo -- falou Gary.  

-- Não, fique, por favor! -- pediu Linda. -- Temos que conversar sobre os equipamentos do laboratório.

-- Sim, claro -- concordou ele, indo sentar-se num sofá no canto oposto da sala.

Linda apontou as duas cadeiras para Anna e Charles, que se sentaram.

-- Poderia me explicar, Anna, qual a natureza dessas investigaç·es que pretendem fazer?

-- São casos antigos, acontecidos de... -- deu ela uma pausa, enquanto abria a listagem que Charles tirara no computador. -- De 1949 até 1970. Tratam-se de cinqüenta e cinco mulheres que morreram misteriosamente queimadas.

-- E o que tem o hospital a ver com isso?

-- Todas estavam se tratando aqui. É a única coisa comum a todas elas.

-- Bem, não sei como poderíamos ajudar... -- falou Linda.

-- Sei que já informatizaram o hospital há muito tempo -- lembrou Charles. -- Tem as fichas dos pacientes antigos arquivados de alguma forma?

-- Temos todas em microfichas, mas não seria ético deixá-los examinar essas microfichas dessa forma...

-- Vamos ser o mais discreto possíveis, Linda. São pacientes antigas e todas já morreram. Achamos que as famílias até agradeceriam, se pudéssemos encontrar uma resposta para essas mortes misteriosas. Se encontrarmos alguma pista importante, que demande investigaç·es mais aprofundadas, teremos um mandado do juiz para tornar tudo legal.

-- Eu não sei -- disse Linda, pensativa. -- O que acha, Dr. Ridgewood?

-- Não vejo problema algum, Linda. Nada vai extrapolar a área policial. É só uma investigação de rotina que pode até dar em nada. Acho que pode ignorar a burocracia e colaborar com a nossa valorosa força policial -- sugeriu ele.

Anna olhou-o e sorriu, agradecida.

-- Está bem. Vou ligar para o setor de arquivos e autorizar. Vocês podem ir até lá. Sigam pelo corredor, guiem-se pela sinalização.

-- Obrigada, Linda! -- agradeceu Anna.

Quando os dois policiais saíam, encontraram-se com Patrick Plumber e sua filha, que vinham chegando.

-- Olá! O que fazem por aqui? Algum problema? -- indagou Charles.

-- Não, está tudo bem -- respondeu Norma.

-- Estiveram com o xerife?

-- Não, ainda não. Como minha avó estava fazendo um tratamento médico aqui no hospital, resolvi dar uma olhada,. Dizem que Linda Hart é a pessoa indicada para isso -- disse Patrick.

-- Sim, é naquela sala. Vão gostar dela, é muito prestativa. De qualquer forma, passem pelo xerifado depois -- recomendou Charles.

-- Faremos isso - assegurou Patrick.

Os dois jovens seguiram pelo corredor, orientando-se pelas placas de sinalização, chegando sem problemas ao setor de arquivos. As microfichas e as máquinas leitoras foram postas à disposição deles.

-- Estamos passando as informaç·es das microfichas para o computador. Em breve será mais fácil efetuar qualquer pesquisa -- informou a atendente.

-- E até que ponto já informatizaram o arquivo? -- indagou Charles.

-- Já fechamos a década de 70.

-- Sério? Mas isso é ótimo. Se pudermos acessar seu computador, eu poderia fazer a pesquisa lá do meu gabinete, na chefatura. Não pode me dar o número de seu computador?

A garota pensou por instantes.

-- Bem, Linda disse para colaborar com vocês de todas as formas... Acho que não haverá problemas. Aqui está o número de acesso -- informou ela, anotando-o num pedaço de papel.

Charles e Anna exultavam, quando saíam dali. O mesmo não acontecia com Patrick e sua filha. O hospital nada poderia fazer para ajudá-los a resolver aquele problema. A próxima chance a ser tentada era com o xerife.

 

Na segurança do laboratório trancado, Gary dedicou-se à leitura das anotaç·es de seu avô. ã medida que avançavam, devorando páginas, seus gestos foram se tornando mais febris, enquanto sua expressão alterava-se. A preocupação, inicialmente, estampou-se em seu rosto. Depois, o medo. Finalmente, o horror. Ele passou de um livro de notas para outro, lendo relatórios, passando por outro, amontoando os livros sobre a mesa, até, apertar a cabeça com as mãos, num gesto de puro desespero.

-- Meu Deus do céu! -- exclamou ele, completamente horrorizado.

O conteúdo dos últimos livros deixara-o chocado. Sentiu-se confuso, incapaz de raciocinar diante das descobertas.

-- Calma, Gary! Calma! Pense friamente -- dizia a si mesmo, andando de um lado para outro do laboratório. -- A fórmula precisa de algumas mudanças, você já percebeu isso. O que aconteceu, não importa. É o preço a pagar.

Ficou falando sozinho, argumentando consigo mesmo, até acalmar-se e retornar à mesa. O projeto era importante demais. Tinha nas mãos elementos para rever tudo que fora feito e chegar a novas conclusões.

Seu avô fizera um ótimo trabalho. As anotaç·es eram minuciosas. Todos os detalhes das alteraç·es feitas na fórmula inicial estavam ali. Só precisaria de tempo. Tinha certeza que poderia sintetizar o estimulador hormonal e chegar a um resultado positivo.

Havia muito em jogo. Muito mesmo. E de repente ele se deu conta de um outro detalhe, que fez voltar todo o seu nervosismo. Primeiro, aqueles dois policiais com uma lista de cinqüenta e cinco pacientes mortas. Todas, possivelmente, utilizadas nos testes feitos por seu avô.

-- Maldição! -- praguejou ele, esmurrando a mesa.

Aquela investigação era inoportuna, justo naquele momento. E havia também aquele homem, que estivera com a filha, no gabinete de Linda, procurando informações sobre uma parente morta de forma misteriosa.

De repente, todo mundo parecia interessado em revirar aqueles acontecimentos que estavam esquecidos havia tanto tempo. Justo agora, quando havia tanto em jogo.

Apanhou o telefone e discou o número do hotel. Pediu para falar com os homens com quem encontrara-se na noite anterior.

-- Já estávamos de saída, doutor vamos apanhar o avião do meio-dia... -- informou um deles.

-- Cancelem. Aconteceu algo. Preciso de ajuda -- pediu ele.

-- É sério?

-- Sim.

-- P·e em risco o nosso trabalho?

-- Possivelmente.

-- Neste caso, concordo com você. É sério mesmo. Pode almoçar conosco, doutor?

-- Sim, claro.

-- Há um restaurante perto da ponte sobre o rio, na entrada da cidade. Sabe onde é?

-- Eu descubro.

-- Estamos indo para lá agora mesmo.

-- Encontro-os lá.

Antes de ir, Gary foi até o setor de arquivo.

-- Dois policiais estiveram aqui, hoje pela manhã... -- falou ele.

-- Sim, Linda mandou dar-lhes toda ajuda.

-- E onde eles estão?

-- Vão fazer a pesquisa direto do xerifado, usando o computador...

-- Como assim?

-- Temos parte do arquivo já informatizado. Eles podem ter acesso ao nosso arquivo agora.

-- Sabe o que eles queriam pesquisar?

-- Ainda há pouco falei com eles pelo telefone. Estão pesquisando uma lista de pacientes do hospital...

-- Tem essa lista?

-- Posso tirá-la no computador agora mesmo. Eu ajudei o policial Root a reunir as fichas dessas pacientes -- disse ela, indo até o computador.

Minutos depois retornava com a relação das cinqüenta e cinco mulheres mortas misteriosamente. Não precisou comparar os nomes com os constantes nos livros de notas de seu avô. Tinha certeza que todas haviam participado da experiência.

Aquilo era algo que não poderia ser descoberto nem divulgado. Se aqueles policiais ligassem as mortes com a experiência, jamais poderia retomá-la e muito dinheiro seria perdido. Dedicara muito tempo àquele projeto para vê-lo falhar agora.

Tinha de agir rápido.

-- Ei, Gary, vamos almoçar juntos? -- convidou Linda, quando ele passou apressadamente pelo corredor, diante da porta aberta do gabinete dela.

-- Tenho um compromisso... Depois falo com você... -- informou ele, seguindo em frente.

Ela foi até a porta, mas ele já havia sumido.

-- Estranho! -- comentou ela, depois deu de ombros e voltou para sua mesa.

 

No xerifado, Charles e Anna tentavam entender o que tinham ela frente, examinando as fichas das mulheres misteriosamente mortas pelo fogo.

As fichas sucediam-se diante dos olhos deles, mas não haviam conseguido encontrar alguma ligação naquilo tudo. O xerife surgiu na sala, acompanhado de Patrick Plumber e de sua filha, Norma.

-- Se eu estou certo, vocês conseguiram as cópias das fichas das pacientes, não? -- indagou o xerife.

-- Sim, foram fornecidas pelo hospital -- disse Anna.

-- Podem localizar a ficha de Mary Plumber?

-- Sim, claro que sim -- respondeu Charles, usando o computador.

Momentos depois, a ficha médica de Mary Plumber surgia na tela.

-- Em que isto poderia ajudar, xerife? -- indagou ele.

-- Não sei, mas esta boa gente está com um problema estranho nas mãos. Uma parente morta que não foi declarada morta simplesmente porque não pôde ser identificada.

Examinaram a ficha.

-- Mary Plumber havia voltado ao hospital no dia anterior a sua morte. Recebeu uma dose de um remédio cujo nome está ilegível, mas parece alguma coisa como não sei o quê hormonal... -- disse Charles, lendo as anotaç·es.

Norma lembrou-se de algo, Retirou de sua bolsa o cartão que encontrara na casa em ruínas.

-- Quem assinou essa última visita dela? -- indagou.

-- Está difícil de ler...

-- Não seria Oliver Ridgewood? - ajudou ela, estendendo o cartão.

-- Sim, é possível -- falou ele.

-- Ei, eu disse que já tinha ouvido aquele nome -- comentou Anna.

-- Que nome? -- quis saber o xerife.

-- O daquele homem que estava com Linda Hart. Ele é Ridgewood também, como o médico que assinou essa ficha...

-- Espere um pouco, Anna. Você me deu uma idéia -- comentou Charles, começando a repassar as fichas na tela do computador. -- Veja, Anna! -- disse ele, olhando a ficha e mostrando a listagem dos crimes insolúveis. -- Esta estava sendo tratada pelo Dr. Ridgewood, quando morreu. Vejamos outra -- acrescentou ele.

Quando comparou isso, verificaram que a segunda pessoa na lista também morrera enquanto era tratada pelo mesmo médico.

-- O que isso quer dizer, afinal? -- quis saber o xerife.

-- Espere um pouco, xerife. Ainda é cedo para conclus·es... -- pediu Charles, continuando a comparação.

-- Todas as mulheres morta que olhamos até agora morreram enquanto estavam recebendo tratamento no hospital, todas atendidas pelo mesmo médico.

-- E onde isso nos leva? -- indagou o homem da lei.

Anna e Charles entreolharam-se.

-- Não sei! -- afirmou ele.

-- Também não tenho a menor idéia, mas se descobrirmos qual era a natureza do trabalho do Dr. Ridgewood, talvez possamos ter algumas respostas.

-- Esperem um pouco vocês dois -- disse o xerife. -- Estão insinuando que um médico do hospital central pode ser o responsável por mais de cinqüenta mortes, todas arquivadas como crime insolúvel?

-- Nada disso, xerife -- defendeu-se Charles.

-- Isso seria apressar conclus·es, xerife. Não podemos nos esquecer que ele trabalhava com idosas, gente com doenças terminais, com problemas de saúde generalizados, senilidade, derrames, enfartes, esse tipo de coisa.

-- Mas todas morreram queimadas -- observou Patrick. -- O que o fogo tem a ver com isso?

Anna e Charles não tinham respostas para isso.

-- Bem, temos em nossos arquivos um laudo inconclusivo sobre a morte de sua parente -- disse o xerife a Plumber. -- Posso dar-lhe uma cópia autenticada. Acho que só resolverá esse problema legalmente, com a ajuda de um juiz.

-- Era isso que eu temia - afirmou Patrick.

-- Se este é o único meio, vamos a ele então, pai -- falou Norma, decidida.

-- De volta ao advogado -- comentou Patrick, com desalento.

O xerife acompanhou-os para fora da sala, enquanto Anna e Charles olhavam-se, tentando encontrar respostas.

-- Qual vai ser o próximo passo? -- perguntou ele.

-- Vamos tentar pôr um pouco de ordem nisso -- falou ela.

-- Você pensaria melhor com uma xícara de café quente?

-- Possivelmente - respondeu ela, com um sorriso agradecido. -- Mas eu me sentiria melhor comendo alguma coisa.

-- Puxa, nem vi a hora passar -- comentou ele, olhando o relógio. -- Vamos almoçar juntos?

-- Sim, claro.

Charles ia desligar o computador, quando Anna lembrou-se de algo.

-- Espere, não desligue ainda! -- pediu ela.

-- O que foi?

-- Não me lembro de ter visto o sobrenome dela, mas tenta localizar uma ficha com o sobrenome Bovet.

-- A mãe de Daniel Bovet ou coisa assim?

-- Sim... Vai ser interessante se encontrarmos algo assim, não?

Charles pesquisou, sem localizar nada.

-- Não, não tem.

-- Talvez com o nome de solteira...

-- Se soubéssemos qual é...

-- Deixe para lá. Vamos almoçar -- decidiu ela.

-- Pensando melhor -- comentou ele, digitando alguma coisa no teclado do computador. -- O primeiro nome da mãe dele era Ruth. Vamos ver agora se há alguma Ruth morta em 1959 ou 1960.

Ao pedir essa informação, o computador listou Ruth Norton, morta em novembro de 1960.

-- Novembro de 60? Não pode ser... Os crimes do Trinta e Oito começaram em março... -- observou Charles, confuso.

-- Procure a ficha dela, vamos nos certificar -- sugeriu Anna.

Charles procurou pela ficha, pondo-a na tela.

-- É ela -- afirmou Charles. -- Tratou-se de outubro a novembro... Diabos! Isso acaba com a minha teoria. Daniel não tinha motivo algum para começar a matar gente do hospital no mês de março. Sua mãe só começou a ser atendida ali em outubro... Não sei mais nada. Vamos comer -- decidiu ele, desligando o computador nervosamente.

 

Gary estava um tanto alterado, falando confusamente. Os dois homens trataram de acalmá-lo primeiro, dando-lhe uma bebida. Depois fizeram-no repetir tudo que dissera de forma tão ininteligível e atropelada.

-- Está calmo agora, doutor? -- perguntou um deles.

-- Sim, deixe-me explicar de novo, por favor - falou ele, tomando mais um gole do drinque. -- Meu avô fez as suas experiências de fins dos anos quarenta até setenta, quando morreu. Usou mulheres idosas como cobaias. Todas elas, após um período de melhora, apresentavam um estranho quatro de aumento da temperatura do corpo. Estranhamente, todas elas morriam queimadas. Havia algo na fórmula estimulador hormonal que provocava isso... É um fato por demais conhecido na parapsicologia, mas jamais registrado assim, de modo provocado. Não sei dizer o que fez isso acontecer, mas há alguns erros na fórmula de meu avô...

-- Certo, doutor. As pessoas tomavam o remédio, melhoravam,     depois pegavam fogo? -- resumiu seu interlocutor, olhando significativamente para o amigo ao lado.

-- Parece loucura, mas é a verdade.

-- Ok, doutor! Não vejo como isso pode afetar-nos...

-- A Polícia está investigando essas mortes... Além disso, há dois parentes de uma das mulheres mortas. Estão tentando conseguir um atestado de óbito da mulher. mas não conseguem, porque ela ardeu até virar cinzas... De qualquer modo, acho que foram eles que provocaram tudo isso...

-- Certo. Sabe os nomes deles?

-- Acho que o sobrenome é Plumber... Também estão hospedados no Lindon Hotel...

-- Certo, nós os localizaremos.

-- O que vão fazer?

-- Ajudá-los a conseguir o tal atestado de óbito e mandá-los para longe daqui. Como sabe da investigação policial?

-- Dois tiras estiveram no hospital. Uma mulher, acho que se chama Anna, e um rapaz... Charles é o nome dele.

-- Charles e Anna, tudo bem. Deixe esse problema conosco, doutor. Concentre-se apenas em aprimorar essa fórmula. Tudo que precisar será posto ao seu alcance. Faça o seu trabalho que nós faremos o nosso...

Assim que Gary deixou-os a sós, os dois homens entreolharam-se, preocupados.

-- O acha?

-- Difícil dizer, mas teremos de ser drásticos com essa situação. Há muito dinheiro em jogo, você sabe. Temos ordens de deixar o doutor à vontade para trabalhar, sem qualquer tipo de preocupação.

-- Então vamos ter de agir.

-- Sim, vamos começar pelos Plumber. Será mais fácil. Depois vamos estudar o que fazer com os policiais. Precisamos descobrir o que eles sabem primeiro, para não deixar nada incompleto para trás.

-- Está bem, mas não gosto disso.

-- Vamos ser o mais discretos possíveis e tratar de chamar o mínimo de atenção. Vou lhe dizer o que devemos fazer.

 

Norma e seu pai voltavam do almoço para o hotel. Patrick estava contrariado por não ter tido resultados até aquele momento. Norma tentara convencê-lo que, no fim, tudo daria certo e que o terreno compensava o trabalho que estavam tendo.

-- Vou descansar um pouco. Quando acordar, vamos voltar ao advogado -- decidiu ele.

-- Vou ler. Quer que o acorde? -- ofereceu ela, enquanto ele abria a porta do apartamento.

Haviam se hospedado numa suíte, com uma área comum e dois quartos separados, dando-lhes toda a privacidade.

-- Sim, daqui a uma hora, no máximo -- disse ele, deixando-a entrar primeiro.

Fechou a porta atrás de si. Norma foi para o seu aposento,. Patrick para o outro. Assim que entraram, sentiram um cheiro forte no ar, um cheiro penetrante de clorofórmio.

Antes que entendessem o que se passavam, foram dominados e postos para dormir. Os dois homens trabalharam rápidos, estendendo os corpos deles nas respectivas camas. Depois, retiraram do bolso seringas, com longas agulhas, que foram espetadas no céu da boca dos dois, injetando um líquido incolor.

Norma e Patrick ficaram imóveis em suas camas. Os dois homens reuniram-se na área comum da suíte.

-- Tudo pronto?

-- Sim, está terminado.

-- Tente localizar os documentos do carro que eles alugaram, assim como a chave. Vamos precisar deles.

-- Certo, deixe comigo.

-- Depois vamos deixá-los dormindo aqui e tentar descobrir o que a Polícia tem a respeito do caso. ã noite viremos fazer a limpeza.

Examinaram o local atentamente, antes de sair, um pouco mais tarde. Como usavam luvas cirúrgicas, nenhum vestígio denunciaria a presença deles ali.

Foram até a chefatura, onde passaram algum tempo conversando com o xerife, tomando informaç·es com muita habilidade. Sem que o homem da lei suspeitasse, eles arrancaram dele tudo que precisavam saber.

-- O que acha? -- indagou um deles ao outro, quando saíram de lá.

-- Acho que só precisamos eliminar o computador para não termos problemas com eles -- falou o outro e os dois riram. -- Parece que ele foi a origem de todo o problema.

-- Penso que sim. Vamos dar algo com que se ocupar, assim deixarão o doutor em paz.

-- De acordo.

 

Quando anoiteceu, os dois homens deixaram o quarto do hotel e, antes de mais nada, foram até a suíte que fora ocupada por Patrick e sua filha, cujos corpos jaziam imóveis sobre a cama. Uma poderosa toxina fora injetada em seus cérebros, provocando morte imediata. Nenhum traço dela, no entanto, apareceria na necrópsia. Os dois tinham tudo muito bem planejado. Eram especialistas em sua área.

Um deles apanhou o telefone e ligou para a portaria. Passava um pouco das oito da noite.

-- É Patrick Plumber, da suíte 618. Gostaria de saber se há vagas para o show de hoje à noite, no restaurante do hotel?

-- Sim, Sr. Plumber, mas temos poucas mesas sobrando. Não quer deixar reservada uma?

-- Sim, claro. Mesa para duas pessoas, minha filha e eu. A que horas começa?

-- ãs onze, senhor.

-- Excelente! Pode me recomendar um restaurante típico para jantarmos esta noite?

-- Temos uma porção, Sr. Plumber, mas o Catfish é o mais procurado e elogiado.

-- A especialidade é peixe, não?

-- Sim, o catfish, ou bagre, como é conhecido por alguns.

-- Pode reservar uma mesa para nós lá?

-- Sim. Sabe o endereço, senhor?

-- Já ouvi falar. Fica na encosta da Colina Eaglewood, não?

-- Acertou, senhor. Recomendo um pouco de calma quando passar pela estrada. Soube que está em obras e um tanto perigosa. Espero que goste do jantar. Ligarei e farei a reserva para duas pessoas.

O homem desligou o telefone com um sorriso satisfeito.

-- Só precisamos tirá-los daqui e levá-los para o carro.

-- Eu sei como fazer isso -- falou o outro, deixando o quarto com extrema cautela.

Foi, pelo corredor, até o depósito. A porta estava trancada, mas ele a abriu com facilidade. Havia um carrinho utilizado pelas camareiras para levar as guarniç·es de cama e banho, quando faziam a arrumação pela manhã.

Ele empurrou o carrinho até o quarto. Os corpos foram acomodados lá dentro, depois levados para o elevador de serviço. Sem maiores problemas chegaram ao estacionamento. O carro alugado por Patrick foi levado para um ponto escuro e ali eles passaram os corpos do carrinho para o veículo. Enquanto um deles dirigia, o outro seguia-o com o outro carro.

Rumaram para a Colina Eaglewood. Como o rapaz da portaria avisara, havia um trecho em obras, onde a pista cedera, abrindo uma cratera. Logo depois desse ponto, havia uma estrada secundária que deixava a principal e subia uma encosta íngreme. O motorista manobrou o carro até o meio da encosta, parando-o lá.

Seu companheiro seguira-o. Rapidamente eles acomodaram os corpos nos bancos dianteiros do carro. Um deles calçou o pneu traseiro, depois liberou o freio, com o motor ainda ligado.

O outro foi até o carro e retornou com um litro de uísque. Quebrou-o no interior do veículo, entre os dois corpos, espalhando o líquido por toda parte.

-- Prenda-os com o cinto de segurança -- ordenou um deles. - Assim não serão arremessados para fora do carro, quando caírem.

O outro fez o que ele ordenara. Um fósforo foi riscado, então, e atirado para dentro do automóvel. Um ruído surdo e as chamas dominaram-no por dentro. Um dos homens chutou o calço. Transformado numa bola de fogo, o carro desceu de ré a encosta, atravessou a pista e caiu na depressão, despencando pela encosta, arrebentando-se todo, até explodir quando bateu lá embaixo, após uma queda violenta.

Ficou ardendo como um estranho e macabro farol na escuridão da encosta. Os dois homens tomaram o seu veículo e voltaram para a cidade. Passaram por uma cabine telefônica, onde um deles ligou para a Polícia, informando o acidente, desligando em seguida.

Momentos depois, todos os carros disponíveis na cidade rumavam para o local. Os dois foram diretamente para o xerifado. Apenas a operadora do rádio ficara ali para atender.

-- Precisamos falar com o xerife -- disse um deles, enquanto a garota desdobrava-se para atender as ligaç·es que vinham de pessoas informando a explosão.

O homem tratou de confundí-la, fazendo perguntas sobre o xerife, distraindo sua atenção. O outro, disfarçadamente, entrou pelo corredor e foi direto à sala do computador.

Sem acender a luz e valendo-se apenas da claridade que vinha da janela, ele retirou do bolso um disquete e introduziu-o no computador, após ligá-lo.

Digitou alguma coisa, depois esperou. O computador copiou rapidamente o programa existente no disquete.

No momento seguinte, ele desligou tudo, retirou o disquete e retornou para junto do amigo.

-- Terá de esperar o xerife... -- repetia a garota.

-- Está bem, a gente procura por ele amanhã cedo. Acho que estará tudo mais calmo por aqui, não?

-- Sim, tenho certeza que sim, senhor - afirmou a garota, às voltas com o telefone que não parava de tocar.

Os dois homens saíram rapidamente. No hotel encontraram-se com o Dr. Ridgewood saindo. Cumprimentaram-no.

-- Está tudo resolvido, doutor. Pode continuar suas experiências com tranqüilidade -- disse um deles.

-- Ótimo! É muito bom ter vocês dois por perto -- afirmou ele, indo apanhar seu carro.

Linda esperava-o na casa dela para um jantar a dois. Sentiu-se mais aliviado após a notícia dada pelos dois seguranças da poderosa multinacional para quem desenvolvia o estimulador hormonal.

 

O local era de difícil acesso e, quando conseguiram chegar lá, o fogo já destruíra totalmente o carro e carbonizara seus ocupantes. Charles e o Xerife Weller tentaram identificar o veículo, mas pouco sobrara dele.

-- Consegue reconhecer alguma coisa? -- indagou o xerife.

Charles examinava o carro, percebendo que o parachoque traseiro havia sido arrancado durante a queda. Iluminou com a lanterna as marcas deixadas na encosta pelo carro.

-- O que foi? -- indagou o xerife.

-- O parachoque foi arrancado. Deve estar aí para cima.

-- Tente achá-lo. Pode ser a única forma de identificarmos os ocupantes -- disse o xerife. -- George e Steve, ajudem o Charles -- acrescentou.

Os três homens começaram a subir a encosta, procurando.

-- Ali -- apontou um deles, iluminando com o farolete.

O pedaço arrancado do carro estava ali, enroscado numa pedra, onde esbarrara na queda. O local era perigoso. Charles, com toda cautela, conseguiu ir até lá e desenroscá-lo, fazendo-o escorregar para baixo e ir cair próximo do xerife.

-- Ei, cuidado aí! -- gritou o homem da lei, indo apanhar o destroço.

Preso a ele estava a placa do veículo. Tinha uma cor especial, que identificava os carros para locação. Quando Charles e os outros voltaram, o xerife conversava com alguém pelo celular do carro. Quando desligou, olhou Charles com pesar.

-- O carro foi alugado no aeroporto. Patrick Plumber -- disse ele.

-- Ele e a filha?

-- Possivelmente.

-- Maldição! Que coisa, meu Deus! Não mereciam isso. Como pode ter acontecido?

-- Deve ter despencado naquela parte em obras, com certeza.

-- Ligue para o hotel. Confirme com eles, xerife -- pediu Charles.

-- Tome, faça isso -- disse o homem da lei, passando-lhe o aparelho.

Charles ligou para o Lindon Hotel. Confirmaram que Patrick e a filha haviam feito reserva no Catfish e, possivelmente, estivessem lá. O ajudante do xerife pediu que ligassem para o aposento deles. Realmente haviam saído.

O rapaz ficou arrasado com aquela tragédia, lamentando principalmente por Norma, ainda tão jovem. Nada havia, no entanto, que pudesse fazer. Havia acontecido.

Pensou em ligar para Anna, informando a ocorrência, mas desistiu. No dia seguinte falaria com ela.

Anna, no entanto, quando ouvira as sirenes, ligara para o xerifado e informara-se. Assim, no dia seguinte, quando Charles a esperou descer do carro, no estacionamento, ela já sabia.

-- Descobriram a causa? -- indagou ela.

-- Uma equipe está fazendo uma perícia na colina hoje, tentando descobrir o que provocou o acidente. Que ironia, não? Vieram tentar solucionar o problema com a parente que morreu queimada e tiveram o mesmo destino.

-- Uma fatalidade! -- concordou ela. -- Vamos voltar ao computador? Tenho algo que gostaria que você fizesse por mim -- pediu ela.

-- Certo, o que quer?

-- Que tente descobrir qual é a especialidade do Dr. Ridgewood, tanto do velho, como do novo. Acha que pode conseguir isso?

-- Vamos pedir algumas informaç·es a uns números que eu conheço -- disse ele. -- Se eles não souberem informar, ninguém mais saberá.

-- É legal isso?

-- Se você não contar a ninguém, eu também não contarei - a-firmou ele.

Foram para a sala. Charles ligou o computador e começou sua pesquisa. De repente, todos os controles emperraram e a tela simplesmente ficou limpa.

-- O que houve? -- indagou Anna.

-- Não sei, estava tudo normal. Vou desligar e ligar de novo.

Charles desligou o computador, depois voltou a ligá-lo. A tele continuou em branco.

-- Não entendo -- comentou ele, digitando diversos comandos.

-- Parece que a memória sumiu. Tudo que estava nele sumiu. Estranho.

-- Perdeu tudo que tinha gravado aí?

-- É o que parece, mas acho que deve ser algum defeito -- disse ele, apanhando o telefone e ligando para a empresa que desenvolvera os programas para a Polícia.

Conversou por algum tempo, mas nada do que lhe disseram para fazer funcionava.

-- Acho melhor virem até aqui -- pediu ele. -- Estava tudo muito bem ontem à noite, quando saí daqui.

Quando desligou, ficou olhando intrigado para o aparelho.

-- O que aconteceu, afinal? -- perguntou Anna.

-- Não sei, mas vamos deixar que um técnico examine isso. Felizmente fiz uma cópia de segurança de todo o arquivo mas, se for um vírus, não convém reimplantá-los antes de descobrirmos o que é.

-- Bom, vamos ter de adiar nossa pesquisa, não?

Anna pensou por instantes.

-- Pelo contrário. Se não podemos ter a informação indiretamente, vamos buscá-la diretamente.

-- Como assim? Falar direto com o Dr. Ridgewood?

-- Sim, por que não?

-- Bem, não poderei ir com você agora. Tenho de esperar pela vinda do técnico...

-- Não se preocupe. Farei isso sozinha -- resolveu ela, piscando-lhe um olho e saindo para obter a resposta que procurava.

 

Gary Ridgewood estava de volta ao normal naquela manhã. Tudo parecia resolvido e ele poderia voltar a concentrar-se nas pesquisas de seu avô, além de ter avançado em seu relacionamento com Linda Hart.

Ela insistia para que ele deixasse o hotel e fosse morar com ela, na sua espaçosa residência. A idéia não era de todo má. Gary não queria, no entanto, agir precipitadamente naquele assunto. Acabava de reencontrá-la. Tinha tempo para decidir isso.

Fez um balanço do que tinha descoberto até o momento. Num quadro-negro que havia na parede, ele escreveu a fórmula inicial de seu avó, depois foi anotando as variaç·es seguintes. Um princípio estava incorreto. Um princípio que havia provocado estranhas reaç·es nas pessoas, poucos dias após o início do tratamento. As melhoras ocorriam, mas as pacientes morriam em seguida.

Ficou pensando naquela propriedade do estimulador hormonal, inclusive em suas possibilidades. Um homem inteligente como ele podia imaginar mil e uma utilidades para algo como aquilo, inclusive sua utilização como arma militar.

Talvez seu avô tivesse chegado mais longe do que poderia imaginar em sua época. Gary imaginava agora um produto posto na água de milh·es de soldados, fazendo com que eles, após algum tempo, simplesmente se evaporassem.

-- É um absurdo! -- murmurou, simplesmente.

Se uma idéia como aquelas caísse em mãos erradas, a humanidade toda correria um risco terrível. Não era seu interesse. Queria o estimulador hormonal com seu princípio regenerativo, permitindo uma sobrevida aos idosos. Poderia ganhar milh·es, salvando vidas, não destruindo-as.

Bateram na porta do laboratório.

-- Diabos! -- praguejou ele, atrapalhado.

Não queria ser interrompido e não imaginava que poderia estar ali. A única pessoa que poderia procurá-lo era Linda, mas ela não o incomodaria durante o trabalho. Sabia como ele era metódico nisso.

Foi abrir a porta.

-- Lembra-se de mim, doutor? -- indagou-lhe Anna.

-- Sim, claro, a policial. Em que posso ajudá-la? -- indagou ele, saindo e fechando a porta atrás de si.

Anna estranhou que ele trabalhasse trancado em seu laboratório, sozinho, tomando todos aqueles cuidados. Mal permitira uma visão do interior do aposento.

-- Gostaria de fazer algumas perguntas...

-- Por que não vamos ao escritório? -- indagou ele, apontando a porta no meio do corredor.

-- Sim, claro. Será que eu posso dar uma olhada em seu laboratório? Sempre fui muito curiosa a respeito de...  

-- Lamento - cortou-a ele. -- Estou trabalhando com algumas fórmulas no quadro-negro e devo afirmar que são confidenciais, pelo menos até que eu termine minha pesquisa. É um produto novo, tenho de tomar todas as precauções, se é que me entende. Espionagem industrial e esse tipo de coisa...

-- Sim, claro -- afirmou ela, embora não percebesse a necessidade de tanto segredo.

Acompanhou-o até a sala. Gary indicou-lhe uma poltrona, indo sentar-se atrás da imponente escrivaninha.

-- Tiveram muito trabalho ontem, não? -- comentou ele.

-- Como assim?

-- Ontem à noite, ouvi uma correria de sirenes cidade.

-- Oh, sim, aquilo. Foi uma tragédia. Lembra-se de Patrick Plumber e sua filha, que estavam às voltas com o problema de um atestado de óbito de uma parente?

Gary estremeceu. Havia comentado isso com os homens na noite anterior.

-- O que houve com eles? -- indagou, num fio de voz.

Todo o seu semblante modificou-se.

-- Morreram num acidente de carro. O veículo despencou de uma colina. Morreram carbonizados...

-- Deus!... Não! -- murmurou o médico, demonstrando o quanto a notícia o havia abalado.

Anna não entendeu aquela ração. Sempre julgara que os médicos eram insensíveis à morte de um modo geral. Gary, no entanto, reagia estranhamente para alguém que mal conhecia as duas vítimas.

-- Acabei de me lembrar... Tenho um compromisso agora... Precisa me desculpar... -- disse ele, levantando-se da mesa e indo até a garota, praticamente arrancando-a da cadeira e acompanhando-a até o corredor.

Antes que Anna pudesse entender o que se passava, ele havia retornado para o escritório, deixando-a do lado de fora, no corredor.

Pensou em ir embora, mas tudo aquilo estava muito estranho. Ouviu Gary usando o telefone, falando alto e nervosamente, mas não conseguia entendê-lo.

Olhou a porta atrás de si, no corredor. Era um depósito. Entrou ali e deixou uma fresta aberta. Pode ouvir o médico gritando que queria ver a pessoa com quem ele falava imediatamente, antes de bater o telefone.

Quando ele desligou, saiu do escritório furioso e caminhou de volta para o laboratório, onde entrou e trancou a porta.

Ficou pensando no que fazer em seguida e teve uma idéia. Deixou seu esconderijo e atravessou o corredor, entrando no escritório.

Examinou o telefone sobre a mesa. Era uma linha direta, num aparelho moderno, com tecla de rediscagem. Apertou-a e esperou.

-- Lindon Hotel -- disse uma voz educada e atenciosa do outro lado.

Desligou, sem nada dizer. Com quem ele estaria tão bravo no hotel? Teria aquela reação sido provocada pela notícia da morte dos Plumber?

Ligou à procura de Charles.

-- Você precisa vir até aqui -- pediu ela.

-- Onde está?

-- No setor de pesquisa do Hospital Central...

-- Que diabos faz aí?

-- Eu lhe conto quando chegar. Venha logo. Vou esperá-lo do lado de fora -- disse ela, desligando.

Saiu rapidamente do prédio e ficou num local onde pudesse observar quem entrava ou saía de lá. Tudo estava muito estranho naquele caso.

 

Charles notou, pelo tom de voz de Anna, que o assunto era sério, por isso apressou-se em ir ao encontro dela. A investigadora esperava-o próximo do laboratório.

-- E então, o que está havendo? -- indagou ele.

Anna contou-lhe o que presenciara.

-- Acha mesmo que foi a notícia das mortes dos Plumber que o deixou assim? -- duvidou ele.

-- Tenho certeza.

-- Por quê? O que ele teria a ver com isso?

-- Não tenho a menor idéia, Charlie, mas não estou gostando disso. Desde o princípio, parecia haver algo relacionando este local a tudo de ruim que descobríamos. Pode ser pura coincidência, mas agora vou até o fim. Tudo por causa daquele seu computador, que acabou nos trazendo a isto...

-- Falando nisso, o técnico descobriu o que era o problema...

-- Sério? Arrumou já?

-- Não. Vai ser preciso trocar toda a memória permanente do computador. Instalaram um nele um vírus dos mais modernos e sofisticados. Está lá, mas não se consegue identificá-lo.

-- E como isso foi parar lá?

-- É uma boa pergunta, Anna. Não faço a menor idéia.

-- Fazendo essa troca da memória, você poderá usar os programas que tem de reserva, não?

-- Aí é que está o problema. Terei de refazer tudo. O vírus pode estar instalado nas cópias de segurança. Não há como saber.

-- Sendo assim, toda e qualquer informação que procurarmos sobre o que estamos investigando não será possível?

-- Exatamente.

-- Não acha isso estranho? Será que chegamos perto demais de alguma coisa muito importante ou tudo não está passando de uma seqüência de coincidências? -- comentou ela.

-- Para mim, são coincidências demais... Veja, quem são aqueles dois ali? -- apontou ele.

Dois homens, muito bem vestidos, caminhavam apressadamente na direção do laboratório.

-- Não os conheço. Parecem apressados, não? E nervosos, pela forma como gesticulam...

-- Precisamos estar perto disso -- falou Charles, tomando a mão da garota e arrastando-a atrás dele.

Ao redor do prédio havia uma cerca viva muito bem aparada. Caminharam abaixados por ela, dando a volta.

-- Esta janela é do escritório dele -- disse Anna.

Os dois esperaram algum tempo. As vozes indicaram que os homens estavam em outro aposento.

-- Vamos ver no laboratório -- disse ela, puxando-o desta vez.

Os dois foram postar-se sob a janela do laboratório. Lá dentro, o Dr. Gary Ridgewood parecia fora de si.

-- Se eu soubesse que vocês agiam dessa forma, jamais teria concordado com isso -- falou ele, andando nervosamente.

-- Fazemos o que tem que ser feito, doutor -- falou um deles.

-- Não isso... Jamais serei cúmplice de algo assim. E depois, aquela policial não esteve aqui gratuitamente. Ela desconfia de alguma coisa, pude sentir isso...

-- Está entrando em pânico, doutor. Precisa acalmar-se. Há muito em jogo nesta história para nos deixarmos abater por parentes mortos ou policiais intrometidos. Deixe tudo isso conosco. Cuide apenas de fazer sua pesquisa.

-- Não sei, acho que preciso reavaliar tudo isso -- disse ele. -- Se as coisas vão ser feitas desta forma, quero estar fora disso.

Os dois homens entreolharam-se, depois começaram a rir. Um deles aproximou-se do médico, olhando-o nos olhos.

-- Gosta de dinheiro, não é, doutor?

-- Não a esse preço...

-- ... mas deve gostar muito mais de viver - acrescentou o homem, friamente.

Gary olhou aqueles olhos frios e ameaçadores. Sabia do que ele estava falando. Sentiu-se, então, numa terrível armadilha da qual não poderia sair. Era muita coisa para ele. Não conseguiria trabalhar dessa forma.

Primeiro aquela descoberta terrível em relação às pesquisas do avô. Agora isso: mortes justificadas pela ganância e pelo lucro fácil.

Fora seduzido por uma proposta milionária, onde poderia fazer sua independência financeira. Não sabia, no entanto, que teria de vender sua alma ao demônio para ter o que queria.

Era isso que teria de fazer, caso continuasse com aquela farsa. Seria algo abominável compactuar com assassinatos apenas para proteger o investimento de homens inescrupulosos.

Num gesto irrefletido de coragem, foi até o cofre e apanhou o envelope com os duzentos e cinqüenta mil dólares.

-- Tomem, podem levar. Não quero isso. Estou fora! -- afirmou ele, encarando os dois.

Os homens entreolharam-se. Um deles aproximou-se de Gary, estendeu o braço e seus dedos, como garras, fecharam-se na garanta do médico, apertando com força.

Ele se viu sem fala e sem forças, com o ar impedido de entrar em seus pulm·es, com as artéria impedindo de levar sangue ao seu cérebro.

Tentou retirar aqueles dedos de sua garganta, mas não teve forças. Lá fora, Anna e Charles não percebiam o que estava acontecendo. Apenas estranhavam aquele silêncio.

O homem que apertava a garganta de Gary soltou-o. Quando ele ia respirar e encher os pulmões de ar, o homem golpeou-o com força no estômago, fazendo-o gemer e dobrar-se. O médico caiu de joelhos. Novamente com a mão em garra, o homem apertou um ponto entre seu pescoço e seu ombro. Gary jamais havia experimentado dor tão lancinante.

-- Como vê, doutor, temos meios de fazê-lo sofrer muito. Ninguém sai fora de um negócio como este em que se envolveu. Muitos arranjos foram feitos, muita gente está investindo. Comece sua pesquisa, doutor, e chegue logo a um resultado. As pessoas podem ficar impaciente, sabendo como você é em relação aos seus negócios - ameaçou-o.

-- Não podem me forçar a aceitar esse dinheiro... nem a trabalhar para vocês... -- disse o médico, tentando levantar-se.

Um deles retirou um estojo do bolso interno de seu paletó. Abriu-o sobre a mesa, enquanto o outro segurava Gary pelo pescoço e o levava até lá.

-- Veja isso, doutor -- falou um deles, obrigando Gary a olhar o conteúdo do estojo. -- Temos vírus, bactérias, toxinas, venenos, uma porção de coisas nesses vidrinhos. Qualquer um deles poderia causar-lhe um sofrimento terrível, mas não vamos fazer isso com você. Vamos encontrar alguém de quem você goste muito... Linda talvez... Verá como é terrível ver uma pessoa querida definhar até a morte, bem diante de seus olhos.

-- Sim, doutor. É apenas um aviso. Meteu-se num negócio grande demais e terá de fazer sua parte. Ou isso, ou conhecerá o verdadeiro sofrimento -- finalizou o homem, empurrando o médico para trás.

-- Vamos conversar com aquela sua amiguinha policial agora -- falou um dos homens e os dois saíram do laboratório.

Sob a janela, Charles e Anna trocaram um olhar de surpresa e espanto.

-- Eles vão a sua procura, Anna.

-- Pelo que entendi, acho que aqueles dois têm alguma coisa a ver com a morte dos Plumber...

-- E são perigosos. Melhor passarmos um alarme.

-- Vamos falar com o médico, primeiro. Ele tem muito o que esclarecer.

-- Certo, vamos lá.

Enquanto os dois davam a volta no prédio, Gary punha-se em pé e, resolutamente, resolvera falar com Linda, contando-lhe tudo o que estava acontecendo. Sua consciência não o permitiria conviver com o assassinato.

Valorizar seu trabalho, vendendo sua patente para a melhor oferta, era uma coisa. Vender-se junto era algo abominável que jamais faria.

Ainda tinha um pouco de princípios e escrúpulos.

Charles e Anna entraram cautelosamente. Avançaram pelo corredor em silêncio, até a porta do laboratório. Entraram, estranhando encontrá-lo vazio.

-- Onde está o médico? -- indagou ele.

Anna recuou até o escritório, no meio do corredor. Empurrou a morta. Estava vazio.

-- Ele saiu muito rápido...

-- Onde pode ter ido? -- indagou Charles, entrando.

Havia fórmulas anotadas no quadro-negro ao fundo, uma mesa cheia de livros de anotaç·es e um envelope grosso, caindo no meio da sala.

Estava parcialmente aberto e dele haviam escorregado algumas notas novas de mil dólares. Charles apanhou-o, mostrando-o a Anna, que se aproximou.

-- Deve haver uns duzentos mil aqui -- surpreendeu-se o policial.

-- Temos algo grande, muito grande mesmo acontecendo, Charlie -- falou ela, olhando os livros sobre a mesa.

Um deles estava aberto numa página de um relatório médico. Debruçou-se sobre ele e começou a ler.

-- Ei, Charlie! Quer ver algo interessante? -- indagou ela.

-- O que é?

-- Ouça isto: ... aumento de temperatura verificado novamente, sem causa aparente. Não afeta a paciente, que demonstrou muita vitalidade e melhoras visíveis em seu raciocínio. Temo pelo aumento da temperatura. Não seio que o provoca. Alterei a fórmula. Preciso continuar, mesmo sabendo que isso poderá custar-lhe a vida...

-- Está falando sério? -- surpreendeu-se ele.

-- Veja o final. Está datado de 29 de dezembro de l968.

-- O que diz aí?

-- Níveis de temperatura acima da média, sem reflexos nos sinais vitais da paciente. Exames sanguíneos não indicam infecção. Continua desconhecida a causa... Paciente deveria ter retornado. Sua casa pegou fogo... Ninguém sabe a causa... Eu sei... Assinado, Dr. Oliver Ridgewood.

Charles continuou olhando para Anna sem ter entendido ao certo o que tudo aquilo representava. A garota sentia-se igualmente chocada com aquele relato.

Seguiu adiante, folheando o livro, até encontrar um outro relatório. Da mesma forma ele retratava morte anunciada de mais uma paciente. O mesmo acontecia nos relatórios seguintes. Nos intervalos, o cientista falava de sua angústia e de sua obsessão em procurar aquela cura que estava vitimando dezenas de cobaias.

Segundo ele, já havia sido condenado ao inferno pelo que fizera. Sua única chance de equilibrar as contas com o criador era descobrir, finalmente, a fórmula correta.

-- Meu Deus! É terrível! -- exclamava ela, a cada passagem.

Charles também folheava um dos livros e sentia-se da mesma forma que ela. Esqueceram-se de tudo, concentrados naquela revelação terrível, que explicava dezenas de mortes ao longo de mais de vinte anos. Mortes que, infelizmente, haviam sido inúteis, porque o Dr. Ridgewood não descobrira o que pretendera descobrir.

-- O que vamos fazer com isto aqui, Charles? -- indagou ela, horrorizada.

-- São provas terríveis para condenar um homem morto.

-- Talvez não se possa mais fazer justiça, mas com isto poderíamos resolver problemas como o que levou os Plumber à morte. Sabemos agora que essas pessoas morrera, como morreram e porque morreram.

-- E isto? Qual é o significado disto? -- indagou o rapaz, mostrando o envelope contendo dinheiro.

-- Vamos encontrar o Dr. Ridgewood.

Quando iam deixar o local, ouviram passos no corredor. Charles foi observar. Era Gary e Linda, que caminhavam na direção do laboratório.

-- É tudo muito embaraçoso, Linda, mas prefiro isso do que ser cúmplice de mais crimes. Precisamos avisar o xerife. Aqueles homens mataram os Plumber e estão atrás daquela policial...

-- Acalme-se, Gary. Vamos ver isso tudo com calma -- afirmou ela.

Assustaram-se e surpreenderam-se com a presença da dupla de policiais no laboratório.

-- O que estão fazendo aqui? -- indagou Linda, num fio de voz.

-- Gostaríamos de saber o que significa isto? -- retrucou Charles, mostrando o envelope.

Gary empalidecera, sem reação, sentindo-se perdido.

-- Além disso, gostaríamos que nos dissesse o que sabe sobre a morte de Patrick e Norma Plumber, doutor... -- acrescentou Anna.

-- E a de mais de cinqüenta mulheres, no período de l950 e 1970, todas elas mortas em circunstâncias misteriosas que não entendo até agora como não chamaram a atenção na época -- ajuntou Charles.

-- Não têm o direito de estar aqui... Entraram sem um mandado...Vou chamar a segurança -- disse Linda, recuando até o corredor.

Apanhou seu aparelho de telefone celular. Ligou rapidamente.

-- Venham depressa. A Polícia está aqui.

Após uma pequena pausa, ela acrescentou:

-- Sim, ele está fora de controle -- finalizou ela, voltando ao laboratório.

Gary caminhava de um lado para outro, muito nervoso, tentando encontrar as palavras para justificar aquela situação.

-- Acho melhor acompanhar-nos, doutor -- recomendou Charles.

-- Ele não sai daqui, enquanto o departamento jurídico do hospital não mandar alguém aqui -- cortou-o Linda.

-- Não há necessidade disso. Apenas estamos convidando o Dr. Ridgewood para prestar esclarecimentos -- explicou Anna.

-- Nada feito, garotos. Vocês entraram aqui sem um mandado, reviraram as coisas do doutor e estavam saindo com um envelope contendo dinheiro...

Anna olhou-a interrogativamente.

-- Como sabe que há dinheiro no envelope? -- indagou Anna.

-- Vocês disseram -- confundiu-se Linda.

Gary percebeu a confusão feita por ela e olhou-a sem entender. Linda estava pálida agora, olhando Gary como se tentasse justificar alguma coisa.

-- Como sabia do conteúdo do envelope, Linda? -- indagou ele.

-- Você está confuso, Gary. Eles disseram. Além disso, qualquer idiota percebe que há dinheiro ali dentro. Dinheiro que os dois estavam roubando, se não chegássemos a tempo -- afirmou ela.

Anna e Charles entreolharam-se. Estavam percebendo onde ela pretendia chegar. A acusação poderia dar-lhes muita dor de cabeça e exigiria muitas explicaç·es.

-- É melhor eu ligar para o xerife -- disse Anna.

-- Ninguém sai daqui até os advogados chegarem -- falou Linda, recuando até a porta e fechando-a com a chave.

Guardou o chaveiro consigo.

Charles e Anna estranharam aquele comportamento. Era tudo muito suspeito. Tudo, aliás, era suspeito ali naquele lugar.

-- Dr. Ridgewood, acho que tem informaç·es importantes para nós. O que tem a dizer sobre a morte dos Plumber? Quem eram os dois homens que estavam aqui, falando com você e que o ameaçaram? -- indagou Charles, aproximando-se e observando a mancha avermelhada no pescoço do médico.

-- Eu tenho de contar a eles, Linda...

-- Não faça nada até os advogados chegarem, Gary!

-- Posso decidir isso sozinho, Linda. Não compactuarei mais com o que está acontecendo...

-- Pode falar quando quiser, doutor. Para que era este dinheiro?

-- Para pagar meu trabalho, minha pesquisa...

-- Gary, não! -- insistiu Linda.

-- Vou falar, Linda. Não preciso de um advogado...

-- Compreende que poderá estar pondo um fim em sua carreira? Jamais alguém confiará em você de novo. Todo o seu trabalho estará perdido. Anos de estudo e de dedicação serão jogados fora...

-- Se gastei minha vida para chegar a isto, Linda, então prefiro deixar tudo para trás...

-- Abra a porta, Linda. Vou chamar o xerife.

-- Não, ninguém sai daqui...

Anna sacou sua arma e apontou-a na direção da fechadura. Linda interpôs-se entre ela e a porta.

-- Terá de atirar em mim primeiro -- falou Linda.

-- Eu não entendo, Linda. Por que você está agindo assim? -- indagou Gary.

-- O que a assusta tanto? -- ajuntou Charles.

-- Sim, de que tem medo? -- completou Anna.

Linda ouviu passos no corredor e sorriu, aliviada. Estava chegando a ajuda de que precisava. Tudo poderia ser melhor resolvido agora.

Virou-se e tratou de abrir a fechadura. Quando escancarou a porta com um sorriso, seu rosto revelou espanto. Ela recuou, assustada.

-- Não, não podem fazer isso -- protestou ela e, no momento seguinte, sua cabeça foi jogada violentamente para trás.

Miolos e cabelos foram grudar-se na parede oposta, enquanto seu corpo caía pesadamente.

Anna tentou sacar sua arma, mas os homens já apontavam, diretamente para ela, suas pistolas com silenciadores.

-- Um movimento em falso e será morta também. Acho que foi longe demais agora, doutor. Precisamos mostrar-lhe como trabalhamos de verdade. Quando dissemos que havia muito em jogo, era verdade. Nada nos deterá, muito menos sua amiga aí ou dois policiais de nada. Isso nada representa na ordem do dia, doutor. Eles são apenas peças descartáveis -- disse um dos homens, com profundo desprezo.

Charles temeu por Anna e por si mesmo diante de criminosos tão decididos.

 

Gary olhava, sem acreditar o corpo de Linda, caído no outro lado da sala. O sangue formava uma poça escura ao lado da cabeça dela, que apresentava, entre os olhos, um orifício avermelhado por onde o sangue escorria.

Os olhos dela estavam abertos, olhando sem expressão para o teto. Antes de morrer, ela urinara e defecara. Nunca a morte lhe pareceu tão prosaica e tão chocante. Caída ali estava a mulher com quem ele fizera amor, que lhe dissera palavras ardentes, esfregando-se em seu corpo.

Ali estava alguém de quem ele gostava, por quem nutria algum sentimento. Não era um cadáver comum, nem um paciente comum. Era uma parte dele, alguém com quem convivera. De repente, percebia que tudo que haviam passado juntos simplesmente jamais voltaria a acontecer de novo.

Olhou pateticamente para os dois homens que empunhavam as armas.

-- Por quê? -- indagou ele, pateticamente.

-- Não seja idiota, doutor. Não nos diga que não suspeitava dela -- falou um dos homens, aproximando-se lentamente de Anna, que havia deixado cair sua arma.

O homem abaixou-se para apanhar a arma no assoalho. Charles torceu para que Anna não fizesse o que ele pensou que ela faria, mas já era tarde.

Ela trazia uma segunda arma escondida entre os seios. Charles sabia disso. Quando o homem inclinou-se, ela tentou sacar essa arma. O homem ergueu-se rapidamente e o cano de sua automática atingiu o queixo de Anna, jogando-a para trás.

-- Não façam isso -- gritou Gary, apanhando um frasco de reagente sobre o balcão a sua frente e jogando-o contra o homem.

O vidro partiu-se e a substância cáustica ardeu em seus olhos e em sua pele.

-- Maldição! -- gritou ele, apertando o gatilho na direção do médico.

Gary gemeu, enquanto era jogado para trás, sobre a mesa onde estavam os livros de notas.

-- Malditos! -- gritou Charles, atirando-se atrás de um outro balcão e sacando sua arma.

Uma saraivada de balas foi quebrando vidros e equipamentos, sempre precedidos de um som abafado das armas com silenciadores.

-- Deus, como arde esta coisa! -- gemia o outro homem. esfregando a manga do paletó no rosto.

Percebeu que a fricção do tecido arrancava fiapos sangrentos de sua pele.

-- Frank, estou derretendo... Meus olhos... Frank... ajude-me -- pediu ele, trombando com uma prateleira cheia de vidros e materiais químicos, derrubando-a estrepitosamente.

Charles percebeu o ruído da automática armando-se, após o último tiro do pente, que teria de ser substituído.

Levantou-se, sem saber ainda onde estava seu alvo. O homem que caíra sobre a prateleira erguia-se. Charles atirou no peito dele, vendo o buraco abrir-se em seu paletó escuro.

O sangue vazou generosamente, enquanto o homem voltava a cair sobre os restos da prateleira.

O outro remuniciou a pistola. Charles abaixou-se. Os tiros foram arrebentando tudo sobre o balcão, enquanto ele rastejava, tentando pôr-se fora da linha de tiro.

Viu, então, Anna mover-se, aturdida, com sangue em seu queixo. Temeu que ela atraísse a atenção do atirador, mas não havia como alertá-la.

Dr. Ridgewood estava caído debaixo da mesa, mas movia-se. Charles não sabia a extensão de seu ferimento. Ouviu barulho lá fora, gente correndo.

O homem que disparava contra ele também ouviu o corre-corre. Seguranças do hospital mobilizavam-se. Ele olhou seu parceiro, que sangrava muito, revirando os olhos.

-- Sinto muito, parceiro -- disse ele, apertando o gatilho repetidas vezes e matando-o.

Correu, depois, para a porta. Gente chegava pelo corredor. Ele gritou para que se afastassem. As pessoas atiravam no piso. Outras colavam-se amedrontadas contra a parede, enquanto ele passava correndo.

Charles correu até Anna.

-- Estou bem... Vá atrás dele... Eu consigo ajuda para o médico -- ordenou ela.

O policial viu a pistola que estava perto do corpo do pistoleiro morto. Apanhou-a e correu em perseguição ao fugitivo.

Não foi difícil seguí-lo. Bastava observar as pessoas em choque ou em pânico. O assassino corria na direção do estacionamento. Tinha de pegá-lo lá.

-- Polícia! Para onde ele foi? -- gritava ele, enquanto corria.

As pessoas assustadas apontavam a direção tomada pelo fugitivo. Com as duas armas nas mãos, Charles corria o máximo que podia.

Chegou ao estacionamento. Estava ofegante. Ouviu um carro cantando os pneus e fazendo o motor roncar alto. Vinha em sua direção. Apontou seu trinta e oito e disparou repetidas vezes, até que esgotasse a munição.

As balas pareciam não fazer efeito contra o veículo que vinha a toda sobre ele.

Guardou o revólver e tentou apontar a automática, mas o carro já estava praticamente sobre ele. Saltou para o lado, enquanto o veículo passava velozmente.

Lá na frente, na saída do estacionamento, carros da segurança do hospital fechavam a saída. O motorista freou secamente, fazendo o seu veículo derrapar e girar.

Charles percebeu que ele vinha de novo para cima dele. Apontou a arma cuidadosamente e apertou o gatilho três vezes seguida, marcando três pontos muito próximos no parabrisa do carro, que derrapou e bateu violentamente contra outros automóveis estacionados.

O ajudante do xerife correu naquela direção. O motorista, coberto de sangue e de estilhaços de vidro, saiu com dificuldade, caindo no piso do estacionamento. Sua arma disparou numa seqüência impressionante.

Charles sentiu os projéteis passando por ele. Um calor intenso tomou conta de sua coxa, como se um animal furioso o tivesse mordido ali.

Não se importou. Sua atenção estava no homem que rastejava lá na frente, enquanto substituía o pente de sua automática. O rapaz aproximou-se dele, apontando sua arma.

-- Não se mova -- ordenou.

-- Não vai me levar vivo -- disse o homem, cuspindo sangue, continuando o movimento de trocar o pente de sua arma.

-- Pare ou vou atirar! -- gritou o rapaz.

-- Não vai me levar vivo -- repetiu o outro.

Charles não teve alternativa. Apertou o gatilho, mas nada aconteceu. Só então percebeu que a arma estava com percussor recuado, indicando que as balas haviam acabado.

-- Maldição! -- praguejou ele, olhando nos olhos do outro.

Havia neles crueldade e total desprezo pela vida humana. Seguranças aproximavam-se com cuidado, mas jamais chegariam a tempo de salvar Charles.

-- Vou levá-lo comigo, policial -- disse o outro, levantado a arma sem pressa alguma.

Charles olhou-o nos olhos e viu o olhar da morte fixo nele. Naquele momento que lhe pareceu uma eternidade, pensou em Anna e em tudo que estava perdendo.

-- Não é justo -- murmurou, fechando os olhos.

O barulho do tiro veio de outro ponto. Charles abriu os olhos assustados e viu o pistoleiro dobrando-se ao meio, após deixar cair a sua arma. Novo disparo e o projétil atingiu-o no meio da espinha. Seu corpo desarticulou-se como uma marionete com os fios cortados.

Lá atrás, com a arma ainda apontada e fumegante Anna respirava aliviada por ter conseguido atingir seu alvo.

-- Graças a Deus! -- murmurou ela, sentando-se.

O sangue gotejava de seu queixo ferido. Charles tentou caminhar na direção dela, mas uma fisgada na coxa impediu-a. Olhou, com surpresa, sua calça manchada de vermelho e a poça de sangue ao redor de seu pé.

-- Maldição! Ele me atingiu! -- comentou, olhando aturdido o ferimento que atravessava sua coxa.

Sentou-se, pondo a mão no ferimento e apertando. O sangue minava por entre seus dedos. Anna corria na sua direção, seguida de outras pessoas. Charles deixou o tronco pender para trás e ficou olhando umas nuvens preguiçosas que passavam no céu.

Viu o rosto sujo de sangue da garota surgir diante dele, encobrindo a visão das nuvens.

-- Você está bem? -- indagou ela, segurando-o pelos ombros.

Viu, então, o sangue que minava de sua coxa.

-- Oh, Deus! Ele o feriu... Alguém me ajude. Policial ferido! -- gritou ela.

-- Você também não está cem por cento -- disse ele, tentando rir, enquanto estendia a mão para limpar o sangue que brotava do queixo dela.

Anna sentou-se ao lado dele. Olharam-se.

-- Você já imaginou que lugar mais cômodo fomos escolher para sermos ferido? O estacionamento do hospital -- disse ela.

Charles começou a rir. Uma ambulância do hospital deslocava-se velozmente na direção deles. Anna também começou a rir, depois abraçou-o com força, tremendo.

-- Tive tanto medo - murmurou ela, frágil e assustada.

-- Eu também -- acrescentou ele, apertando-a contra o corpo.

 

Charles acordou com a boca seca e uma dor intensa na coxa. O efeito da anestesia passava. Haviam aplicado um sedativo que logo começaria a fazer efeito. Ele olhou ao seu redor. Viu o rosto apreensivo de Anna, com um curativo no queixo.

Esboçou um sorriso, depois dormiu de novo.

Quando acordou, o xerife estava sentado ao lado da cama, olhando-o com orgulho.

-- Parabéns, Charlie! Estamos todos orgulhosos de você -- afirmou o xerife. -- Imagine que o prefeito pessoalmente virá aqui parabenizá-lo.

O rapaz olhou ao seu redor, procurando por Anna. Viu o sorriso dela. Levantou a mão, chamando por ela.

-- Tudo bem com você? -- indagou ele.

-- Sim, comigo tudo bem. E você, como se sente depois da operação?

-- O que fizeram comigo?

-- Tiveram que fechar uma torneira que você tinha aí na coxa. A bala perfurou uma artéria. Mais um pouco e você teria sangrado até morrer...

-- Sorte que tudo aconteceu no estacionamento do hospital -- lembrou ele, esboçando um sorriso.

-- Sim, sorte.

-- O que aconteceu por lá? O que houve com o médico?

-- Gary Ridgewood está morto e, com ele, o segredo de uma importante descoberta.

-- E aqueles homens?

-- Trabalhavam para uma multinacional de medicamentos, só que jamais encontraremos qualquer indício que possa incriminá-los. São poderosos demais para serem enfrentados por insetos como nós -- disse ela, com desalento.

-- Não diga isso, Anna. Estou certo que, quando Charles puder voltar àquele computador, haveremos de encontrar uma forma de pegar aqueles bastardos -- afirmou o xerife.

-- Nada nos impedirá de tentar.

-- Você viu, xerife. Conseguimos algo para você mostrar ao prefeito e provar que o investimento no computador compensou. Tudo começou com ele. Uma série quase interminável de crimes insolúveis foram elucidados graças a ele -- afirmou o rapaz. Só lamento não ter encontrado as respostas corretas para os crimes do Trinta e Oito.

-- Foi bom você lembrar isso -- falou Anna, indo apanhar sua bolsa.

Retirou dali um dos livros de notas do Dr. Oliver Ridgewood, que Charles logo reconheceu.

-- O que tem aí? -- indagou ele, curioso.

-- Depois de tudo terminado, recolhi estes livros e comecei a dar uma olhada neles. Veja o que descobri. Neste livro, de 1960, o cientista cita Daniel Bovet.

-- E o que os dois tinham em comum?

-- Daniel Bovet estava com sua mãe em estado terminal. Desesperado, deu um desfalque no banco para tentar pagar um tratamento. Alguém falara-lhe da droga que o Dr. Ridgewood estava experimentando. Ele procurou o doutor, disposto a tudo. O médico, após alguma indecisão, atendeu-o, só que a mãe dele, como as outras mulheres, também morreu. O rapaz ficou ensandecido, fora de controle. Foi aí que o médico resolveu usar o rapaz para esconder um uma outra série de crimes. Descobrira que um faxineiro e outros empregados do hospital roubavam sua droga para vender para velhos doentes. Cada um dos ladr·es não soube do outro, só que as pessoas para quem eles venderam a droga também morreram e o médico, temendo que isso estourasse em suas mãos, foi matando os ladr·es.

-- E onde entra Daniel Bovet nisso tudo?

-- O médico usou-o para despistar os outros crimes. Daniel foi o bode expiatório.

-- Como?

-- Primeiro drogou-o, depois simulou o suicídio, em algum ponto do rio, onde Daniel deveria ser encontrado, juntamente com a arma do crime. Todas as suspeitas dos crimes acabariam sendo imputadas a ele. Só que o corpo boiou e afastou-se do local. Mesmo assim, o médico conseguiu ficar livre de qualquer suspeita.

-- Meu Deus! Tudo isso em nome da medicina? -- horrorizou-se o rapaz. -- Quero distância de hospitais. Tratem de me tirar daqui o mais depressa possível -- pediu ele, enquanto Anna e o xerife riam dele.

-- Se dependesse de mim, eu o levaria daqui agora mesmo -- falou ela, debruçando-se sobre ele.

--E eu iria sem pestanejar -- murmurou ele, puxando-a para si e beijando-a.

 

Fazia frio no porão da casa, apesar de ser começo de verão. O velho junto alguns papéis velhos num canto onde improvisara um fogão, acendendo-os. Os papéis arderam rapidamente, consumindo-se antes que a temperatura melhorasse.

O velho remexeu uma velha caixa, onde guardara uma porção de coisas que tirara da casa. Encontrou um livro grande, com páginas escritas numa letra feminina, mas trêmula.

Rasgou algumas folhas, jogando-as no fogo. Aproximou-se um pouco mais das chamas. Ia arrancar a outra folha, mas, movido pela curiosidade, leu com dificuldade o que estava escrito ali.

 

         DIÁRIO

         DATA: 3 de julho de 1951.

ACONTECIMENTOS DE HOJE: Hoje eu senti a presença do demônio como se estivesse frente a frente com ele. Tenho certeza disso, como tenho certeza que Deus Nosso Senhor está no céu. Quando o Dr. Ridgewood aplicou-me aquela injeção, eu senti o fogo do inferno invadindo minhas veias e todo o meu corpo ser dominado por sensaç·es que havia muito tempo eu não sentia. Pensamentos impuros passaram por minha cabeça, olhando aquele médico. Pensamentos que jamais pensei que um dia voltaria a ter, principalmente agora que tudo faço para reconciliar-me com Deus e ter uma boa recepção na eternidade. O suor banhou meu corpo. Eu queria sair dali e correr pelas ruas, recuperar um tempo perdido que deixei não sei onde, como se estivesse recebendo a dádiva de uma segunda chance. Mas sabia que aquilo não era nenhum dom divino e que o preço a pagar por aquilo seria alto demais para mim.

Quando voltei para casa, orei. Orei com muito fervor...

 

-- Puxa! Agora que eu estava começando a gostar -- disse o velho, percebendo que o fogo diminuíra.

Arrancou mais algumas páginas, jogando-as nas chamas. Esperou a luz aumentar, para ler o que tinha naquela página.

-- Meu Deus! Ardo. Estou em chamas... Minha pele queima... Meu sangue parece água fervente em minhas veias, purificando-me dos pecados dos últimos dias... Preciso sair daqui... Preciso molhar-me... A caneta derreteu entre meus dedos... O que acontece... -- terminou de ler o velho, com decepção.

Ficou olhando a capa chamuscada do livro, sem entender o que havia acontecido.

-- O demônio... Desde o princípio, eu sabia -- murmurou ele, persignando-se, enquanto atirava o que restara do diário no fogo.

As chamas crepitaram, jogando interessantes desenhos nas sombras das paredes sujas.

 

                                                                                L. P. Baçan  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

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