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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CRIME NA VIA ÁPIA / Steven Saylor
CRIME NA VIA ÁPIA / Steven Saylor

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CRIME NA VIA ÁPIA

 

Papá! Acorda!

 

Uma mão apertou-me o ombro e abanou-me suavemente. Eu afastei-me e senti o ar frio na nuca, quando a manta resvalou. Voltei a puxá-la para cima e enrolei-a à minha volta, aninhando-me para me aquecer. Estendi a mão na direcção de Betesda, mas apenas encontrei um vazio quente no sítio onde ela devia estar.

 

Era melhor levantares-te, papá. Eco voltou a abanar-me, já não com a mesma suavidade.

 

Sim, marido disse Betesda. Levanta-te!

 

Não há sono tão profundo como o sono de uma fria noite de Janeiro, em que o céu é um manto de nuvens baixas e a terra estremece sob ele. Mesmo com o meu filho e a minha mulher a chamarem por mim, voltei a deslizar para os braços de Morfeu com a mesma facilidade com que um rapaz desliza para dentro de uma cama comprida e macia, de penas de ganso. Parecia-me estar a ouvir duas gralhas a pairar de forma absurda numa árvore próxima, chamando-me "papá" e "marido". As gralhas investiram sobre mim, abanando as asas e picando-me com os bicos. Eu gemi e agitei os braços para as afastar. Depois de uma curta batalha, elas retiraram para as nuvens geladas, deixando-me sonhar em paz.

 

As nuvens geladas abriram-se de repente. Senti um jacto de água fria na cara.

 

Sentei-me muito direito, cuspindo e pestanejando. Com um aceno de satisfação, Betesda colocou um copo vazio ao lado de uma lamparina trémula, em cima de uma mesinha encostada à parede. Eco estava aos pés da cama, a enrolar a manta que tinha puxado de cima de mim. Comecei a tremer de frio e pus os braços à volta do corpo.

 

Ladrão de mantas! resmunguei atordoado. Naquele momento, este parecia-me o mais grave de todos os crimes imagináveis. Roubar o descanso de um velho!

 

Eco mostrou-se insensível. Betesda cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha. À luz vacilante da lamparina, os dois continuavam muito parecidos com duas gralhas.

 

Fechei os olhos.

 

Tenham piedade! suspirei, pensando que, com um apelo à misericórdia, talvez conseguisse mais uns momentos de sono abençoado.

 

Mas, antes que a minha cabeça voltasse a pousar na almofada, Eco agarrou-me no ombro e voltou a endireitar-me.

 

Não, papá! Isto é grave.

 

O que é que é grave? Fiz uma tentativa pouco empenhada de o afastar. A casa está a arder? Já estava irrecuperavelmente acordado e sentia-me rabujento, até me aperceber quem era a pessoa ausente daquela conspiração para me acordar. Olhei à volta do quarto, pestanejando, e senti um súbito arrepio de pânico. Diana! Onde está Diana?

 

Estou aqui, papá. Ela entrou no quarto e avançou para o círculo de luz. O seu cabelo comprido, que soltara para dormir, dava-lhe pelos ombros, brilhante como água preta à luz das estrelas. Os seus olhos aqueles olhos egípcios em forma de amêndoa que herdara da mãe estavam ligeiramente inchados com o sono.

 

O que se passa? perguntou ela, bocejando. O que estás aqui a fazer, Eco? Por que está toda a gente acordada? E que barulho é aquele lá fora nas ruas?

 

Barulho? disse eu.

 

Ela inclinou um pouco a cabeça.

 

Calculo que não oiças assim muito bem, aqui nas traseiras. Mas do meu quarto ouve-se nitidamente. Foram eles que me acordaram.

 

Quem?

 

- Os que andam na rua. A correr. Com tochas acesas. A gritar qualquer coisa. Franziu o nariz, como costuma fazer quando se sente intrigada. Ao ver a minha cara desprovida de expressão, voltou-se para a mãe, que avançou para ela com os braços abertos. Aos 17 anos, Diana ainda é suficientemente criança para apreciar esses confortos. Entretanto, Eco mantinha-se afastado, com aquela expressão carregada do mensageiro de uma peça que vem trazer más-notícias.

 

Apercebi-me finalmente de que devia estar a acontecer qualquer coisa terrível.

 

Pouco depois, já me tinha vestido e avançava a passos largos pelas ruas escuras, ao lado de Eco, e acompanhado pelos seus quatro guarda-costas.

 

Voltei a cabeça, ansiosamente, quando um grupo de jovens de olhar sombrio se aproximou por trás, a correr. Quando passaram por nós, as suas tochas atravessaram o ar com um silvo. As nossas sombras dançaram como loucas na rua, aumentando enormemente quando as tochas nos passaram ao lado e diluindo-se em seguida na escuridão, como espectros, quando os que as transportavam nos deixaram para trás.

 

Tropecei numa pedra irregular.

 

Bolas de Numa! Também devíamos ter trazido umas tochas.

 

Prefiro que os meus guarda-costas tenham as mãos desocupadas disse Eco.

 

Pois, bem, pelo menos esses são suficientes disse eu, lançando um olhar aos quatro formidáveis jovens escravos que nos rodeavam, um à frente, um atrás e um de cada lado. Tinham o aspecto de gladiadores treinados maxilares apertados, olhar impiedoso, atentos a todos os movimentos da rua.

 

Os guarda-costas de boa qualidade são caros e custam a alimentar. A minha nora Menénia queixava-se sempre que Eco comprava mais um, afirmando que valia mais gastar o dinheiro em escravos para a cozinha ou num tutor melhor para os gémeos. Primeiro a segurança respondia-lhe Eco. São estes tempos em que vivemos. Infelizmente, eu tinha de concordar com ele.

 

Os meus pensamentos concentraram-se na mulher e nos filhos de Eco, que ele deixara em casa, no Monte Esquilino.

 

Menénia e os gémeos... disse eu, acelerando o passo para poder acompanhá-lo. A minha respiração formava nuvens no ar, mas pelo menos aquela velocidade mantinha-me aquecido. Embora fôssemos bastante depressa, houve outro grupo de homens que se aproximou por trás de nós e nos ultrapassou, e as suas tochas puseram em fuga as nossas sombras.

 

Estão seguros. Mandei pôr uma porta nova em casa no mês passado. Seria necessário um exército para derrubá-la. E deixei os dois guarda-costas mais corpulentos que tenho a cuidar deles.

 

Mas afinal quantos guarda-costas é que tu tens actualmente?

 

Só seis, os dois que ficaram em casa e estes quatro.

 

Só seis? Eu continuava a ter apenas Belbo, que tinha ficado em casa a cuidar de Betesda e Diana. Infelizmente, Belbo já estava demasiadamente velho para ser um guarda-costas em condições. E não era de esperar que os restantes escravos de minha casa oferecessem grande resistência se acontecesse alguma coisa verdadeiramente terrível...

 

Tentei afastar esses pensamentos do espírito.

 

Aproximou-se outro grupo de homens a correr. Também não traziam tochas. Quando passaram por nós, na escuridão, reparei que os guarda-costas de Eco ficaram tensos e meteram as mãos dentro das capas. Homens desconhecidos sem tochas nas mãos podiam ter consigo objectos mais perigosos como punhais.

 

Mas o grupo passou sem incidentes. Por cima de nós, alguém abriu as portadas da janela de um andar superior, inclinando-se para baixo.

 

Em nome do Hades, o que se passa esta noite?

 

Mataram-no! gritou um dos homens que iam à nossa frente. Assassinaram-no a sangue-frio, os cobardes degenerados!

 

Mataram quem?

 

Clódio! Clódio morreu!

 

A figura sombria que estava à janela calou-se por momentos, depois soltou uma longa e sonora gargalhada, que ecoou no ar frio. O grupo que ia à nossa frente estacou abruptamente.

 

Problemas! disse Eco. Eu acenei com a cabeça, e depois apercebi-me de que essa observação sussurrada era um sinal para os guarda-costas. Eles cerraram fileiras à nossa volta. Apressámos o passo.

 

Mas então para onde... arquejou o homem que estava à janela, que tinha dificuldade em falar por causa do riso, para onde é que vai toda a gente com tanta pressa? Vão comemorar?

 

O grupo da rua irrompeu em berros irados. Alguns ergueram os punhos. Outros inclinaram-se, para pegar em pedras. Até no Monte Palatino, com as suas ruas imaculadas e as suas casas elegantes, se encontram pedras soltas. O homem que estava à janela continuou a rir, depois, subitamente, guinchou.

 

A minha cabeça! Oh, a minha cabeça! Malandros imundos! Fechou as portadas com estrondo, para evitar uma chuva de pedras.

 

Nós continuámos em boa velocidade e dobrámos uma esquina.

 

Achas que é verdade, Eco?

 

Que Clódio foi morto? Em breve saberemos. Não é aquela casa, ali adiante? Olha para aquelas tochas todas reunidas na rua! Foi isso que me fez sair de casa esta noite via-se o brilho reflectido nas nuvens. Menénia chamou-me ao telhado para ver. Pensei que o Monte Palatino estava a arder.

 

E então achaste melhor vir verificar se o teu paizinho se teria queimado?

 

Eco sorriu, depois ficou com uma expressão sombria. Quando vinha a descer a Subura, vi imensa gente na rua. Pessoas reunidas nas esquinas, a ouvir oradores. Acotovelando-se à entrada das casas, a falar em voz baixa. Umas discursavam, outras choravam. Havia centenas de homens que se dirigiam ao Palatino, como um rio a correr colina acima. E todos diziam a mesma coisa: Clódio morreu.

 

A casa de Públio Clódio a sua nova casa, que ele tinha comprado e para onde se mudara apenas uns meses antes era uma das maravilhas arquitectónicas da cidade, ou um dos seus monstros, conforme o ponto de vista. As casas dos ricos no Monte Palatino estavam cada ano maiores e mais ostentatórias, como grandes animais ataviados devorando as casas pequenas à sua volta e exibindo penugens sempre mais sumptuosas. A penugem deste animal concreto era de mármore multicolor. À luz das tochas da rua, podia-se ver o reflexo brilhante das superfícies e das colunas de mármore que adornavam os terraços exteriores porfírio verde polido da Lacedemónia, mármore vermelho do Egipto, salpicado de pontos brancos como a pele de uma corça, mármore amarelo da Numídia, com veios vermelhos. Estes terraços, instalados na encosta da colina e plantados de rosas despidas das pétalas por ser Inverno, rodeavam o pátio da entrada, pavimentado a cascalho. O portão de ferro que normalmente barrava o acesso ao pátio estava aberto, mas a passagem estava completamente impedida pela massa de amigos enlutados, que enchiam o pátio e já ocupavam a rua.

 

Algures para além da multidão, na extremidade do pátio, ficava a entrada para a casa propriamente dita, que se estendia pela colina como uma espécie de aldeia, com as diversas alas rodeadas por novos terraços e ligadas entre si por meio de pórticos, onde se alinhavam ainda mais colunas de mármore multicolor. A casa erguia-se acima de nós, como uma montanha em miniatura de sombras profundas e mármore brilhante, iluminada por dentro e por fora, suspensa como um sonho entre as nuvens baixas e o fumo esbatido provocado pelas tochas.

 

E agora? disse eu. Nem sequer conseguimos chegar ao pátio de entrada. A multidão é demasiadamente compacta. O boato deve ser verdadeiro, olha para todos estes homens adultos a chorar. Anda, é melhor voltarmos para casa e irmos cuidar das nossas famílias. Quem sabe o que acontecerá em seguida?

 

Eco acenou com a cabeça, mas parecia não ter ouvido. Pôs-se em bicos de pés, esforçando-se por ver para dentro do pátio de entrada.

 

As portas da casa estão fechadas. Ninguém parece entrar nem sair. Está toda a gente ali reunida...

 

Houve um súbito movimento de excitação entre a multidão.

 

Deixem-na passar! Deixem-na passar! gritou alguém. A multidão tornou-se ainda mais compacta quando as pessoas recuaram para dar passagem a uma espécie de veículo que chegava da rua. Surgiu primeiro uma falange de gladiadores, empurrando e acotovelando as pessoas com brusquidão para abrirem caminho. As pessoas faziam o possível por se afastar. Os gladiadores eram enormes, pareciam gigantes; em comparação com eles, os guarda-costas de Eco não passavam de rapazes. Dizem que há umas ilhas, situadas para além da extremidade norte da Gália, onde os homens crescem assim. Estes tinham as faces pálidas e os cabelos ásperos e avermelhados.

 

À nossa frente, a multidão comprimiu-se. Eco e eu fomos apertados um contra o outro; os guarda-costas dele continuavam a formar um anel à nossa volta. Fui pisado. Fiquei com os braços imobilizados ao longo do corpo. Captei um vislumbre da liteira que se aproximava, sustentada aos ombros dos carregadores, que chegavam a ser maiores do que os gigantescos gladiadores. Suspenso acima da multidão, o pavilhão de seda às listas vermelhas e brancas brilhava à luz vacilante das tochas.

 

Por momentos, o meu coração parou de bater. Eu já andara naquela liteira. Claro que ela devia seguir lá dentro.

 

A liteira aproximou-se. Ia com as cortinas fechadas, como seria de esperar. Ela não devia ter qualquer desejo de ver a multidão, nem de ser vista por ela. Mas, por breves momentos, quando o pavilhão passou por mim, pareceu-me que as cortinas se tinham afastado ligeiramente. Esforcei-me por ver por cima das cabeças dos carregadores, mas fui confundido pelo jogo de luz e sombras na ondulação da seda vermelha e branca. Talvez eu tivesse visto apenas uma sombra, e não uma abertura.

 

A mão que Eco me poisou no ombro fez-me recuar subitamente, afastando-me do caminho dos gladiadores que acompanhavam o pavilhão. Ele falou-me ao ouvido:

 

Achas...?

 

Claro. Tem de ser ela. As listas vermelhas e brancas, quem havia de ser?

 

Não fui exactamente o único homem de entre a multidão a reconhecer a liteira e a saber quem devia ir lá dentro. Afinal, esta era a gente de Clódio, os pobres da Subura que armavam tumultos por sua ordem, os ex-escravos que esperavam dele a protecção do seu direito de voto, a multidão faminta que tinha engordado com a sua legislação de distribuição gratuita de cereais. Sempre tinham apoiado Clódio, da mesma maneira que ele sempre os tinha apoiado a eles. Tinham seguido a sua carreira, comentado as suas leviandades sexuais e os seus assuntos de família, programado destinos terríveis para os seus inimigos. Adoravam Clódio. Podiam adorar ou não a sua escandalosa irmã mais velha, mas sabiam reconhecer a sua liteira. Subitamente, ouvi sussurrar o nome dela entre a multidão. Depois, houve outros que o repetiram, juntando-se num coro até o nome se transformar num canto suave que seguia a passagem do seu pavilhão:

 

Clódia... Clódia... Clódia...

 

A liteira passou pela entrada estreita, e chegou ao pátio da frente. Os gladiadores podiam ter aberto caminho à força, mas a violência foi desnecessária. Ao ouvirem o nome dela, os amigos enlutados recuaram com uma espécie de temor. Começou a formar-se diante da liteira um espaço vazio, que voltava a fechar-se atrás dela, de tal maneira que o veículo avançou rapidamente e sem incidentes até à extremidade do pátio, subindo o pequeno lanço de escadas que ia dar à entrada. As altas portas de bronze abriam para dentro. O pavilhão foi voltado ao contrário, de forma a que os seus ocupantes não pudessem ser vistos, quando descessem e entrassem em casa. As portas fecharam-se atrás deles com um ruído metálico abafado.

 

O canto desvaneceu-se. Um silêncio inquieto desceu sobre a multidão.

 

Clódio morto disse Eco baixinho. Parece impossível.

 

Ainda não viveste o suficiente respondi eu pesarosamente.

 

Morrem todos, os grandes e os pequenos, e a maioria morre cedo demais.

 

Claro, eu apenas queria dizer...

 

Eu sei o que tu querias dizer. Quando alguns homens morrem, é como um grão de areia lançado a um rio nem sequer forma uma onda. Mas há outros que parecem seixos enormes. As ondas expandem-se até à margem. E, com muito poucos...

 

É como um meteoro caído do céu disse Eco. Eu inspirei profundamente.

 

Esperemos que não seja tão horrível como isso. Mas qualquer coisa me dizia que seria.

 

Esperámos algum tempo, apanhados pela inércia que se abate sobre uma multidão quando se aproxima um momento importante. Ouvimos aos que nos rodeavam numerosos e contraditórios rumores relativos ao que se passara. Tinha havido um incidente na Via Ápia, mesmo à saída de Roma não, a vinte quilómetros de Roma, em Bovilas não, mais para sul. Clódio seguia sozinho a cavalo não, com um pequeno grupo de guarda-costas não, numa liteira com a mulher e a sua habitual comitiva de escravos e acompanhantes. Tinha havido uma emboscada

 

não, tratara-se de um assassino isolado não, fora um traidor alojado entre os homens de Clódio...

 

E assim prosseguia a história, sem que fosse possível encontrar uma verdade segura, para além de um simples ponto, objecto de acordo unânime: Clódio estava morto.

 

As nuvens baixas foram-se afastando gradualmente, revelando um firmamento nu sem lua, preto de breu, incrustado de estrelas que brilhavam como cristais de gelo. O curto e veloz percurso que fizera desde minha casa tinha-me aquecido o sangue. A amálgama de corpos e de tochas acesas mantivera-me aquecido mas, com o progressivo arrefecimento da noite, eu também fui ficando mais frio. Encolhi os dedos dos pés, esfreguei as mãos, vi a minha respiração misturar-se com o fumo que havia no ar.

 

Isto é absurdo disse por fim. Estou gelado. Não trouxe uma capa suficientemente quente. Reparei que Eco parecia bastante aquecido, metido dentro de uma capa que não era mais pesada do que a minha, mas o sangue de um homem de 58 anos é menos espesso que o de outro homem 20 anos mais novo. De qualquer maneira, estamos à espera de quê? Já descobrimos a que se devia o pânico. Clódio morreu.

 

Sim, mas como?

 

Não pude impedir-me de sorrir. Ele tinha aprendido o seu ofício comigo. A curiosidade transforma-se num hábito. Mesmo quando não há menção de dinheiro, um Descobridor não consegue deixar de se sentir curioso, especialmente quando se trata de um crime. Não é com esta multidão que vamos descobrir disse eu.

 

Também acho que não.

 

Então, vem daí. Ele hesitou.

 

Calculo que vão mandar alguém cá fora falar com a multidão. Certamente que mandarão alguém, mais cedo ou mais tarde... Viu-me tremer. Bem, vamos embora.

 

Não precisas de vir comigo.

 

Não te vou deixar regressar a casa sozinho, papá. Pelo menos numa noite como esta.

 

Então manda os teus guarda-costas acompanharem-me.

 

Não sou suficientemente doido para ficar sozinho no meio desta multidão.

 

Podemos dividi-los, dois para ti e dois para mim.

 

Não. Não estou interessado em correr riscos. Vou levar-te a casa. Depois volto cá, se ainda for caso disso.

 

Podíamos ter ficado a regatear aqueles pormenores de logística durante mais algum tempo, mas naquele momento Eco ergueu os olhos para fixar alguém que se encontrava por trás de mim. Os guarda-costas retesaram-se.

 

Ando à procura de um homem chamado Gordiano disse uma voz ribombante por cima da minha cabeça. Voltei-me e dei com o nariz num peito extremamente largo. Algures por cima dele, havia uma cara rosada, encimada por uma franja de caracóis ruivos. O Latim do homem era atroz.

 

Eu chamo-me Gordiano disse eu.

 

Óptimo. Vem comigo.

 

Vou contigo para onde? Ele inclinou a cabeça.

 

Para dentro da casa, evidentemente.

 

A convite de quem? perguntei, embora já soubesse.

 

Por ordem da senhora Clódia. Afinal, ela tinha-me visto da liteira.

 

Mesmo com o gigante de cabelo ruivo a conduzir-nos, eu senti-me hesitante perante a perspectiva de avançar pela entrada cheia de gente e atravessar o pátio. Mas ele partiu noutra direcção. Seguimo-lo pela rua abaixo, deixámos a multidão para trás, e chegámos à base de uma escada estreita metida na encosta da colina, para além do anel exterior de terraços de mármore. A escada era flanqueada por figueiras, cujos ramos densos formavam um dossel por cima das nossas cabeças.

 

Tens a certeza de que isto vai dar à casa? perguntou Eco, desconfiado.

 

Venham comigo sem receio disse o gigante asperamente, apontando para cima, para uma lamparina distante colocada no topo das escadas. Sem uma tocha para nos orientar, o caminho era escuro e os degraus estavam perdidos na sombra. Subimo-los cuidadosamente, atrás do gigante, até chegarmos a um estreito patamar. A lamparina estava pendurada ao lado de uma porta de madeira. Diante da porta, estava outro gladiador, que nos ordenou que deixássemos a escolta lá fora e que tirássemos as armas. Eco apresentou um punhal e entregou-o a um dos seus guarda-costas. Apesar dos meus protestos de que nada trazia, o gigante ruivo insistiu em me revistar. Finalmente satisfeito, abriu a porta e convidou-nos a entrar.

 

Atravessámos um corredor comprido e mal iluminado, descemos um lanço de escadas, e chegámos finalmente a uma sala estreita. Estávamos no átrio da casa, do lado de dentro das altas portas de bronze, barradas no interior por uma robusta viga de madeira. Através das portas, chegava até mim, proveniente do pátio, o ruído da multidão inquieta.

 

Esperem aqui disse o gigante, e atravessou umas cortinas.

 

O átrio era iluminado por uma lamparina de tecto, cujas chamas se reflectiam no mármore polido das paredes e do chão. Aproximei-me das cortinas vermelhas, que brilhavam com uma luz difusa que me fascinava.

 

Sabes o que é isto, Eco? Devem ser os famosos drapejados atálicos. São feitos com fio de ouro genuíno. Quando se vêem à luz do fogo, parece que são tecidos de chamas!

 

Devo explicar que a casa de Públio Clódio, bem como o seu recheio, tinha uma história curta mas digna de nota. O proprietário original fora Marco Escauro, que começara a construir a casa seis anos antes, no ano em que fora eleito edil, estando por isso obrigado, durante as festividades do Outono, a entreter as massas à sua própria custa com produções teatrais. Seguindo uma tradição antiga, Escauro mandou construir um teatro temporário no Campo de Marte, à saída das muralhas da cidade. Dois anos mais tarde, Pompeu construiria o primeiro teatro permanente em Roma as crianças romanas cresceriam sem conhecer a decadência grega, mas o teatro de Escauro fora construído para durar apenas uma época.

 

Já estive em muitas cidades e vi muitos edifícios notáveis, mas nunca vi nada como o teatro de Escauro. Tinha lugar para 80 000 pessoas. O enorme palco tinha três níveis, e era suportado por 360 colunas de mármore. Entre estas colunas, e metidas em diversos nichos, ao longo de todo o edifício, havia 3 000 estátuas de bronze. Estes espantosos números foram comentados até não haver ninguém que não os conhecesse de cor, e não eram exagerados; nos momentos mortos das peças, os patetas contavam as colunas e as estátuas em voz alta, enquanto os actores evoluíam no palco sem conseguirem prender-lhes a atenção, completamente ultrapassados pela decoração.

 

O nível inferior do palco era decorado com mármore, o nível superior com madeira dourada, e o nível intermédio com extraordinárias construções de vidro colorido não se tratava apenas de janelas pequeninas, mas de paredes inteiras de vidro, uma extravagância nunca vista e que certamente não mais seria repetida. Decoravam o palco enormes cenários, pintados por alguns dos melhores artistas do mundo e enquadrados por sumptuosos drapejados atálicos de tecido vermelho e cor de laranja, entretecidos com fio de ouro, como os lendários fatos dourados do Rei Atalo da Ásia; sob a luz dourada do meio-dia, pareciam tecidos com o próprio Sol.

 

Quando as festividades terminaram e o teatro foi derrubado, Escauro vendeu alguns dos objectos decorativos e fez de outros presentes sumptuosos. Mas guardou a maior parte das coisas, com que decorou a sua casa nova no Palatino. As coberturas e as colunas de mármore transformaram-se em terraços e pórticos. As paredes de vidro colorido, em clarabóias. Enormes cestas cheias de estátuas, pinturas e panos fabulosos foram armazenadas no pátio da entrada, e gradualmente levadas para dentro. Escauro decidiu instalar no átrio reprojectado as maiores colunas do teatro, feitas de mármore preto luculeano e oito vezes mais altas que um homem. As colunas eram tão pesadas, e seria tão difícil rebocá-las, que um adjudicatário dos esgotos obrigou Escauro a depositar uma soma em dinheiro, prevenindo possíveis danos causados às canalizações aquando do transporte das colunas pela cidade, até ao Palatino.

 

A casa de Escauro suscitou quase tantos comentários como o seu teatro. As pessoas que tinham aberto a boca de espanto no teatro vieram abri-la diante da casa. Os seus vizinhos, mais conservadores (e menos abastados), consideraram-na uma afronta ao bom gosto, uma monstruosidade de desperdício e excesso, uma difamação das austeras virtudes romanas. Aqueles que se queixavam deviam ter-se recordado do antigo axioma troiano: por muito má que seja uma situação, pode sempre piorar como aconteceu quando começou a correr o boato de que Escauro tencionava mudar-se e tinha vendido a casa a Clódio, o agitador da ralé. Clódio, o patrício de nascimento que prescindira da sua linhagem para se tornar plebeu; Clódio, o veneno da Gente de Bem; Clódio, o Senhor da Plebe.

 

Clódio tinha pago quase 15 milhões de sestércios pela casa e o respectivo recheio. Se o boato era verdadeiro que Clódio tinha morrido, tivera pouco tempo para usufruir dela. Não chegaria a ver as rosas desabrochar nos terraços de mármore, na Primavera.

 

Meti a cabeça pelos drapejados atálicos para espreitar para o átrio que ficava para além deles, onde o tecto se erguia subitamente à altura de três andares.

 

As colunas de mármore luculeano! murmurei a Eco, atravessando as cortinas e fazendo-lhe sinal para que me seguisse, pois ali estavam elas, em todo o seu esplendor preto de azeviche, elevando-se até ao tecto,

12 metros mais acima.

 

No centro do átrio, havia uma piscina pouco funda, decorada com mosaicos brilhantes em preto-azulado e prateado, que retratavam o céu nocturno e as constelações. Por cima da piscina, estava recortado no tecto um quadrado correspondente mas, em vez de estar aberta para o céu, a clarabóia parecia estar coberta por uma enorme chapa de vidro, através da qual as estrelas vacilavam como se estivessem dentro de água. Era uma sensação estonteante: a clarabóia parecia uma piscina, reflectindo as estrelas que tínhamos aos pés.

 

Percorri lentamente o perímetro do átrio. Instaladas em nichos, nas paredes, viam-se as máscaras de cera dos antepassados da família. Públio Clódio Pulcher pertencia a uma linhagem muito antiga e muito nobre. Um por um, os rostos dos seus antepassados olharam impassíveis para mim. A maioria tinha sido capturada na maturidade ou na velhice, mas percebia-se que, de uma forma geral, eram belos. Afinal, Pulcher o nome deste ramo da família significa belo.

 

Eco deu-me uma pancadinha no ombro. O nosso acompanhante tinha voltado. Fez-nos um gesto com o queixo e nós seguimo-lo, penetrando nas profundezas da casa.

 

Enquanto avançávamos pelos corredores, fui espreitando para dentro dos compartimentos por onde passávamos. Vi em toda a parte sinais de que nos encontrávamos numa casa para onde houvera uma mudança recente e que ainda não estava completamente arrumada. Havia caixas e cestas amontoadas em algumas salas, enquanto outras estavam completamente vazias. Em certos sítios, viam-se andaimes e cheirava a pintura recente. Até os compartimentos que pareciam acabados davam a impressão de não serem definitivos as mobílias estavam colocadas em ângulos invulgares, os quadros pendurados em espaços invulgares, as estátuas muito juntas umas das outras.

 

O que esperava eu encontrar dentro da casa? Mulheres a chorar, escravos a correr de um lado para o outro, confusos, uma sensação de pânico? Em vez disso, a casa estava silenciosa e quase não se via ninguém. A vastidão do local fazia com que o silêncio parecesse ainda mais pronunciado e inquietante, como um templo deserto. Ocasionalmente, um escravo atravessava-se no nosso caminho, afastando-se com deferência e mantendo o rosto desviado.

 

Quando o corpo morre, disse-me um filósofo certo dia, toda a vida que existe dentro dele se contrai num único ponto, antes de expirar por completo. Era o que parecia ter acontecido em casa de Clódio, toda a vida reunida num mesmo sítio, porque subitamente voltámos uma esquina e entrámos numa sala iluminada por muitas lamparinas e cheia de vozes sussurradas. Homens de toga e de aspecto nervoso passeavam agitadamente de um lado para o outro, conversando em grupos, fazendo gestos de mãos, abanando a cabeça, discutindo em voz baixa. Havia escravos encostados aos cantos, silenciosos mas atentos, à espera de instruções.

 

Chegámos à porta fechada existente na outra extremidade da sala. Ali perto, estava sentado um homem pesadão, com o queixo apoiado nas mãos e uma expressão de profunda infelicidade. Tinha na cabeça uma ligadura manchada de sangue e um torniquete à volta de um braço. Um jovem belo, vestindo uma túnica elegante, inclinava-se sobre ele repreendendo-o severamente e mal dando oportunidade ao brutamontes de responder com resmoneios.

 

Não consigo compreender como pudeste abandoná-lo. Para começar, por que foram tão poucos com ele? Em nome do Hades, o que vos passou pela cabeça para o acompanharem à taberna, em vez de o levarem para a villã?

 

O nosso acompanhante bateu suavemente à porta com o lado do pé; alguém lhe tinha ensinado boas maneiras. O jovem e o homem ferido ergueram os olhos e olharam desconfiados para Eco e para mim.

 

O homem ferido franziu o sobrolho.

 

Em nome do Hades...

 

O jovem olhou para nós com uma expressão carregada.

 

Deve ser aquele sujeito que a minha tia Clódia mandou chamar. A porta abriu-se. Dois olhos femininos espreitaram para fora. O nosso acompanhante pigarreou.

 

Aquele que se chama Gordiano e o seu filho, Eco.

 

A jovem escrava acenou com a cabeça e abriu a porta. Eco e eu entrámos. O nosso acompanhante ficou do lado de fora quando a rapariga fechou a porta.

 

A sala parecia um santuário. O chão estava coberto por tapetes espessos, e as paredes por tapeçarias, que abafavam o suave crepitar da única braseira que aquecia a sala, criando sombras compridas nos cantos. Encostada a uma das paredes, via-se uma mesa comprida que mais parecia um altar, e algumas mulheres reunidas diante dela, de costas voltadas para nós. As mulheres estavam vestidas de preto e tinham o cabelo solto sobre os ombros. Não pareciam ter-se apercebido da nossa chegada. A jovem escrava foi até junto de uma delas e tocou-lhe suavemente no cotovelo. Clódia voltou-se e olhou para nós do outro lado da sala.

 

Há quase quatro anos que não a via, desde o julgamento de Marco Célio. Nessa altura, Clódia tinha-me contratado para auxiliar a acusação; as coisas não tinham corrido de acordo com os seus planos e o resultado não fora dos melhores para ela. Desde então, mantivera uma existência bem mais discreta e privada, pelo menos era o que se ouvia dizer nas raras ocasiões em que o seu nome era mencionado. Mas eu não me tinha esquecido dela. Não é possível esquecer uma mulher como Clódia.

 

Ela aproximou-se lentamente, com a orla do vestido preto a arrastar pelo chão. O seu perfume chegou até nós um momento antes de ela própria chegar, enchendo o ar com uma essência de açafrão e nardo. Eu sempre a tinha visto com o cabelo puxado para trás e seguro com ganchos. Nesta altura, tinha-o solto em sinal de luto, dando um contorno preto lustroso aos ângulos marcados dos seus malares e à linha orgulhosa do nariz. Já tinha passado os 40, mas a sua pele ainda se assemelhava a pétalas de rosa branca. As suas faces suaves e a sua testa pareciam brilhar à luz bruxuleante da braseira. Tinha os olhos aqueles famosos olhos verdes e luminosos vermelhos de choro, mas a voz continuava firme.

 

Gordiano! Pareceu-me ter-te avistado entre a multidão. É o teu filho?

 

O meu filho mais velho, Eco.

 

Ela acenou com a cabeça, pestanejando para afastar as lágrimas.

 

Venham sentar-se ao pé de mim. Levou-nos para um canto e indicou-nos com um gesto que nos sentássemos num dos canapés, enquanto ela se sentava no outro. Encostou uma mão à testa e fechou os olhos. Parecia prestes a começar a soluçar mas, passado um momento, inspirou fundo e sentou-se direita, juntando as mãos no regaço.

 

A luz que vinha da braseira foi interrompida por uma sombra. Uma das outras mulheres atravessou a sala para se juntar a nós. Sentou-se ao lado de Clódia e estendeu as mãos para as dela.

 

A minha filha Metela disse Clódia, embora não fosse propriamente necessário apresentá-la. A jovem era inequivocamente filha daquela mulher. Talvez chegasse mesmo a ser tão bela como a mãe, com o passar do tempo. Uma beleza como a de Clódia não era coisa com que uma mulher nascesse. Era mais do que aquilo que os olhos viam, um mistério que se escondia por trás da carne, e que apenas se aprofunda com a passagem do tempo.

 

Julgo recordar que tens uma filha com a mesma idade disse Clódia suavemente.

 

Diana disse eu. Tem 17 anos.

 

Clódia acenou com a cabeça. Subitamente, Metela começou a chorar. A mãe abraçou-a por momentos, depois soltou-a e disse-lhe que fosse ter com as outras mulheres.

 

Ela gostava muito do tio disse Clódia.

 

O que aconteceu?

 

A sua voz estava cheia de tensão e desprovida de cor, como se a mais pequena manifestação de emoção a impedisse de falar.

 

Não temos a certeza. Ele estava no Sul, na villa que fica depois de Bovilas. Aconteceu qualquer coisa na estrada. Dizem que foi Milo, ou os homens de Milo. Houve uma escaramuça. Públio não foi o único a morrer. A voz faltou-lhe. Fez uma pausa para se recompor. Uma pessoa que ia a passar por ali viu o corpo dele na estrada nem sequer havia alguém a guardá-lo! Foi trazido para a cidade por uns desconhecidos. O corpo chegou pouco depois do pôr do Sol. Desde então, têm estado a chegar alguns dos guarda-costas dele. Os que sobreviveram. Ainda estamos a tentar perceber o que aconteceu.

 

Vi um homem com uma ligadura a ser interrogado na sala ao lado.

 

Era um dos guarda-costas. Um homem que acompanhava Públio há anos. Como é que ele permitiu que isto acontecesse?

 

E o jovem que está a interrogá-lo?

 

Calculo que seja o meu sobrinho. O filho mais velho do nosso irmão Ápio. Veio comigo e com Metela na liteira. Amava Públio como a um segundo pai. Abanou a cabeça. O filho pequeno de Públio estava com ele em Bovilas. Não sabemos o que aconteceu ao miúdo. Nem sequer sabemos onde está! Subitamente, isto foi de mais para ela. Começou a chorar. Eco desviou os olhos. Era um espectáculo difícil de ver.

 

O choro acalmou.

 

Clódia, disse eu suavemente, por que me mandaste chamar? A pergunta pareceu intrigá-la. Franziu a testa e pestanejou para afastar as lágrimas.

 

Não tenho bem a certeza. Vi-te no meio da multidão, por isso... Encolheu os ombros. Na verdade, não sei. Mas é necessário fazer qualquer coisa. Tu sabes dessas coisas, não sabes? Perguntas. Investigações. Como é que isso se faz. Públio sabia tratar dessas coisas, naturalmente. Mas agora que Públio...

 

Inspirou profundamente e exalou lentamente. As lágrimas tinham-se-lhe acabado.

 

Na verdade, não sei por que te mandei chamar. Talvez fosse para ver uma velha cara conhecida. Separámo-nos como amigos, não foi? Tocou-me no braço e conseguiu fazer um sorriso triste. O esforço produziu apenas uma pequena fracção do encanto de que eu sabia que ela era capaz. A fragilidade da tentativa tornava-a ainda mais pungente. Quem sabe o que vai acontecer? O mundo está virado ao contrário. Mas vai ser preciso fazer alguma coisa para o endireitar. Os filhos de Públio são excessivamente jovens para tratarem disso. Terão de ser outros membros da família a fazê-lo. Podemos precisar de ti. Podemos chegar a isso, compreendes? Suspirou pesadamente. Neste momento, não há nada a fazer, excepto procurarmos todo o consolo que pudermos. Metela precisa de mim. Levantou-se e olhou tristemente para as mulheres que se encontravam do outro lado da sala.

 

A entrevista parecia ter acabado. Eu fiz um sinal de cabeça a Eco. Levantámo-nos simultaneamente do canapé.

 

A jovem escrava aproximou-se para nos acompanhar à porta. Clódia afastou-se e depois voltou-se para trás.

 

Espera. Deves vê-lo. Quero que vejas o que lhe fizeram.

 

Conduziu-nos até ao outro lado da sala, à mesa que servia de altar, ao lado da qual se encontrava Metela, juntamente com mais duas mulheres e uma criança. Ao sentir-nos aproximar, a mulher mais velha voltou-se e franziu o sobrolho. Tinha um rosto descarnado e macilento e o cabelo, quase completamente grisalho, chegava-lhe à cintura. Não tinha lágrimas nos olhos, mas apenas raiva e ressentimento.

 

Quem são estes homens?

 

São meus amigos disse Clódia, com uma voz tensa.

 

E há homem que não o seja? A mulher lançou a Clódia um olhar de desprezo. O que estão eles a fazer aqui? Deviam esperar na sala de fora, com o resto das pessoas.

 

Fui eu que lhes pedi que viessem, Semprónia.

 

Esta casa não é tua disse a mulher secamente.

 

Metela colocou-se ao lado da mãe e deu-lhe a mão. A mulher mais velha olhou para elas. A quarta mulher, cujo rosto eu ainda não tinha visto, manteve as costas voltadas. Estendeu a mão para tocar na cabeça da rapariguinha que estava encostada a ela. A criança inclinou o pescoço para trás e olhou para nós com os seus olhos grandes e inocentes.

 

Semprónia, por favor... disse Clódia num murmúrio tenso.

 

Sim, mãe, vamos tentar manter a calma. Mesmo com a nossa querida Clódia. A quarta mulher acabou por se voltar. Nos seus olhos, não vi lágrimas nem raiva. Havia cansaço na sua voz, mas era um cansaço de exaustão, e não de resignação. Não havia qualquer emoção detectável na sua voz ou no seu rosto, apenas uma espécie de firme determinação. Seria de esperar uma reacção mais forte na viúva do morto. Talvez estivesse simplesmente entorpecida com o choque, mas avaliou-nos com um olhar vivo e resoluto.

 

Fúlvia não era uma grande beleza, como Clódia, mas a sua aparência não deixava de impressionar. Era pelo menos dez anos mais nova; calculei que não tivesse mais do que trinta anos. Ao ver a filhinha apoiar-se nela, percebi qual era a origem dos curiosos e luminosos olhos castanhos da criança; havia no olhar de Fúlvia uma argúcia que indicava uma inteligência formidável. Não tinha a rudeza azeda da mãe, mas era possível detectar as sementes dessa característica nas linhas duras que lhe rodeavam a boca, especialmente quando voltava o olhar para Clódia.

 

Percebi imediatamente que não havia amor entre as duas cunhadas. Há muito que Clódia e o irmão eram famosos (ou difamados) pela sua devoção mútua; havia quem pensasse que as suas relações estavam mais próximas das de um casal do que propriamente de dois irmãos. Que papel teria a mulher de Clódio no meio disso tudo? O que pensaria Fúlvia da intimidade que havia entre o seu marido e a irmã deste? Pelo olhar que circulou entre ambas, presumi que as mulheres tinham aprendido a tolerar-se uma à outra, mas não mais do que isso. Clódio fora o elo de ligação entre elas, o objecto do afecto de ambas, bem como a causa da sua animosidade mútua; e é possível que também conseguisse manter a paz entre elas. Mas agora Clódio estava morto.

 

E bem morto, pensei, ao avistar o seu corpo atrás de Fúlvia, deitado na mesa comprida e alta. Ainda trazia vestidas as suas roupas de Inverno de andar a cavalo uma túnica pesada de mangas compridas, apertada à cintura com um cinto, perneiras de lã e botas de couro. A túnica, nojenta e ensopada em sangue, estava rasgada à altura do peito e desfeita em farrapos, como as flâmulas de uma bandeira vermelha.

 

Anda murmurou Clódia, ignorando as outras mulheres e agarrando-me no braço. Quero que o vejas. Levou-me até à mesa. Eco vinha atrás de mim.

 

O rosto não fora tocado. Tinha os olhos fechados, e os lábios e as faces exangues tinham apenas umas manchas de lama e sangue, e formavam uma ligeira careta, como a de um homem que sofre de uma dor de dentes ou que está a ter um pesadelo. Era estranhamente parecido com a irmã, com os mesmos malares finamente moldados e o nariz comprido e orgulhoso. Era um rosto que fazia derreter o coração das mulheres e picava os homens de inveja, um rosto que troçava da seriedade dos seus colegas patrícios no senado e conquistava a adoração da ralé. Clódio fora extraordinariamente belo, com uma expressão quase excessivamente jovem para um homem já perto dos 40 anos. Os únicos sinais de idade eram uns quantos fios prateados que tinha nas têmporas; e até esses quase se perdiam na espessa juba do seu cabelo preto.

 

Abaixo do pescoço, o seu corpo esguio e forte era elegantemente proporcionado, com ombros quadrados e um peito largo de nadador. Tinha uma ferida aberta no ombro direito, duas pequenas punhaladas no peito, e os membros marcados por numerosas lacerações, pequenas cicatrizes e nódoas negras. Também tinha feridas no pescoço, como se lhe tivessem apertado uma corda fina à volta da garganta; na verdade, se não tivesse mais feridas, eu teria afirmado que fora estrangulado.

 

Ao meu lado, Eco estremeceu. Tal como eu, já tinha visto muitos corpos mortos, mas as vítimas de veneno ou de um punhal nas costas constituem um espectáculo menos sangrento do que o proporcionado pelo cadáver que tínhamos diante de nós. Este corpo não era o de um homem que tinha morrido em consequência de um crime rápido e furtivo. Era o corpo de um homem que morrera no decorrer de uma batalha.

 

Clódia pegou numa das mãos do cadáver, apertando-a entre as suas como se pudesse aquecê-la. Passou os dedos pelos dele e franziu a testa.

 

O anel. O anel com o sinete de ouro! Foste tu que lho tiraste, Fúlvia? Fúlvia abanou a cabeça.

 

O anel já tinha desaparecido quando o trouxeram. Os homens que o mataram devem ter ficado com ele, como um troféu. Uma vez mais, não dava sinais de emoção.

 

Alguém bateu suavemente à porta. Entrou um grupo de jovens escravas, com panos dobrados nos braços. Traziam pentes, frascos de unguentos e jarros de água quente que deixavam no ar um rasto de vapor.

 

Dá-me um pente disse Clódia, estendendo a mão para uma das escravas.

 

Fúlvia franziu o sobrolho.

 

Quem mandou vir estas coisas?

 

Fui eu. Clódia aproximou-se da outra extremidade da mesa e começou a pentear o cabelo do irmão. Os dentes do pente ficaram presos numa mancha de sangue seco. O rosto dela tornou-se rígido. Ela puxou o pente, mas tinha as mãos a tremer.

 

Foste tu que as mandaste vir? Então podes mandá-las outra vez embora disse Fúlvia.

 

Por quê?

 

O corpo dele não precisa de ser lavado.

 

Claro que precisa. As pessoas que estão lá fora querem vê-lo.

 

E vê-lo-ão.

 

Mas não assim!

 

Exactamente assim. Querias que os teus amigos vissem as feridas. Pois bem, eu quero a mesma coisa. Todos os habitantes de Roma as verão.

 

Mas este sangue todo, e as roupas em farrapos...

 

Então tiramos-lhe a roupa. Deixemos que as pessoas o vejam tal como é.

 

Clódia continuou a pentear, mantendo os olhos fixos no que estava a fazer. Fúlvia aproximou-se dela. Agarrou no pulso de Clódia, apoderou-se do pente e atirou-o ao chão. O gesto foi súbito e violento, mas a sua voz permaneceu tão impassiva como o seu rosto.

 

A mãe tem razão. Esta casa não é tua, Clódia. E ele não era teu marido.

 

Eco puxou-me pela manga. Eu acenei com a cabeça. Era altura de nos irmos embora. Inclinei a cabeça, num gesto de deferência para com o cadáver, mas o gesto passou despercebido; Clódia e Fúlvia olhavam fixamente uma para a outra, como duas fêmeas de tigre com as orelhas para trás. As jovens escravas dispersaram nervosamente enquanto nós nos dirigíamos à porta. Antes de sairmos da sala, voltei-me para olhar pela última vez para as mulheres, e fiquei impressionado com o quadro: Clódio morto em cima da mesa, rodeado pelas cinco mulheres que lhe tinham sido mais íntimas, e cujas idades alcançavam uma vida. A pequena filha, a sobrinha, Metela, a mulher, Fúlvia, a irmã, Clódia e a sogra, Semprónia. Pensei nas mulheres de Tróia, de luto por Heitor, com as jovens escravas a fazer de coro.

 

A sala exterior, mais iluminada, parecia pertencer a outro mundo, com os homens de toga circulando impacientemente de um lado para o outro, e as conversas em vozes masculinas sussurradas. A atmosfera era igualmente tensa, mas a tensão era de uma natureza diferente não era uma tensão de luto, mas de crise e confusão, como um campo militar sujeito a um cerco, ou uma reunião de conspiradores desesperados. A sala estava agora mais cheia. Tinham chegado algumas pessoas importantes, com as respectivas comitivas de libertos e escravos. Reconheci diversos senadores e magistrados bem famosos, de tendência populista. Alguns estavam aos pares, conversando em voz baixa. E havia outros reunidos em círculo, ouvindo um homem de olhos grandes com o cabelo em desalinho, que não cessava de dar murros na palma da mão.

 

Proponho que organizemos um assalto a casa de Milo esta noite dizia ele. Estamos à espera de quê? É aqui mesmo ao lado. Arrastamo-lo para a rua, incendiamos-lhe a casa e damos cabo dele.

 

Murmurei ao ouvido de Eco:

 

Sexto Clélio?

 

Eco acenou com a cabeça e respondeu-me, noutro murmúrio:

 

A mão direita de Clódio. Organiza as multidões, encena tumultos, parte braços, quebra narizes. Não tem receio de sujar as mãos.

 

Alguns dos políticos acenavam com a cabeça, aprovando a sugestão de Clélio. Outros troçavam:

 

O que te leva a pensar que Milo se atreveria a regressar à cidade, depois do que fez? perguntou um deles. Por esta altura, já deve ir a meio caminho de Massília.

 

Nem pensar disse Clélio. Milo não faria isso. Há anos que se andava a gabar de que um dia matava Públio Clódio. Ouve bem o que eu digo, amanhã estará no Fórum a vangloriar-se de tê-lo feito. E, quando mostrar a cara, damos cabo dele ali mesmo!

 

Não vale a pena dar cabo dele disse o jovem elegante e bem-vestido em que eu tinha reparado ao entrar, Ápio, o sobrinho de Clódio.

 

Vamos antes reclamar um julgamento.

 

Um julgamento! exclamou Clélio exasperado. Ouviu-se uma gargalhada colectiva.

 

Sim, um julgamento insistiu Ápio. É a única maneira de denunciar o patife juntamente com os amigos dele. Acham que Milo esteve sozinho por trás disto? Ele não tem inteligência para encenar uma emboscada. Cheira-me à maldita pança de Cícero! Os inimigos do tio Públio não o mataram por capricho. Foi um crime frio e calculado! A vingança não me chega, para isso bastava um punhal nas costas. Quero ver esses homens desacreditados, humilhados, expulsos de Roma! Quero que a cidade inteira os repudie, a eles e às famílias. Para isso, é preciso um julgamento.

 

Não me parece que a questão seja escolher se se dá cabo dele ou não disse um jovem calmo de olhar astuto que se encontrava na orla da multidão.

 

Gaio Salusto murmurou Eco ao meu ouvido. Um dos tribunos radicais eleitos o ano passado.

 

As cabeças voltaram-se. Tendo conquistado a atenção concentrada do grupo, Salusto encolheu os ombros.

 

O que vos faz pensar que seremos capazes de controlar a multidão, para um lado ou para o outro? Clódio era capaz, mas Clódio está morto. Não podemos saber o que acontecerá amanhã, ou já agora o que se vai passar hoje. Dar cabo dele? Por que não um banho de sangue? Teremos sorte se houver suficiente organização em Roma para se poder fazer um julgamento.

 

Nesta altura, ouviu-se outra rodada de risos e troças, mas ninguém pôs directamente em causa o que Salusto dissera. Em vez disso, afastaram-se pouco à-vontade e retomaram a discussão sem ele.

 

Um julgamento! insistia Ápio.

 

Primeiro um tumulto! dizia Sexto Clélio. A plebe não aceitará menos do que isso. E, se Milo se atrever a mostrar a cara, cortamos-lhe a cabeça e exibimo-la no Fórum espetada numa estaca.

 

Se fizermos isso, a cidade voltar-se-á contra nós argumentou Ápio. Não. O Tio Públio sabia bem como se deve usar a multidão como um punhal, e não como uma moca. Estás enervado, Sexto. Precisas de dormir.

 

Não me digas como é que Públio utilizava a plebe disse Clélio. Metade das vezes era eu que planeava as estratégias.

 

Os olhos de Ápio faiscaram. Fizeram-me lembrar os olhos de Clódia, brilhantes e verdes como esmeraldas.

 

Não tentes elevar-te acima da tua posição, Sexto Clélio. Guarda essa retórica vulgar para a ralé. Os homens que estão nesta sala são sofisticados de mais para as tuas fanfarronadas.

 

Clélio abriu a boca para responder, depois voltou-se e afastou-se. Houve um silêncio tenso, quebrado por Salusto.

 

Acho que estamos todos um pouco enervados disse ele. Por mim, vou para casa dormir um bocado. Saiu da sala com uma comitiva enorme atrás, deixando mais espaço para os que ficaram continuarem a passear e a gesticular.

 

E nós devíamos fazer o mesmo disse eu, empurrando Eco ligeiramente. Preciso de dormir. Além disso, Salusto tem razão: ninguém sabe o que pode acontecer nas ruas esta noite. Devíamos estar em casa, com as nossas famílias, metidos atrás de portas trancadas.

 

O gladiador que nos tinha acompanhado estivera a vigiar-nos. Quando nos dirigimos à porta, juntou-se a nós e insistiu em acompanhar-nos à saída. Só voltou para trás depois de nos entregar à protecção dos guarda-costas de Eco, no patamar à saída da porta discreta por onde tínhamos entrado.

 

Descemos os degraus até à rua. A multidão reunida à saída do pátio da frente da casa de Clódio tinha agora aumentado. À semelhança do que faziam os seus chefes dentro da casa, os homens mantinham-se em grupos, a discutir o que haviam de fazer, só que em voz mais sonora e usando uma linguagem mais crua. Havia outros homens que se mantinham sozinhos e soluçavam abertamente, como se tivessem perdido um pai ou um irmão.

 

Eu gostaria de ter avançado a direito, mas a multidão era uma espécie de força, uma corrente subterrânea que me impedia de prosseguir. Eco não se importava de permanecer por ali, a observar, por isso fomo-nos deixando estar, fascinados pela luz das tochas, pelos fragmentos flutuantes de conversas, por aquela massa móvel que era a multidão, pelo ambiente de incerteza e de terror.

 

Subitamente, as grandes portas de bronze da casa de Clódio abriram-se para trás com um duplo ruído metálico. Um sussurro de antecipação atravessou a multidão. Primeiro, apareceram uns homens armados. Desceram os degraus em cordão, precedendo e flanqueando os homens de toga que transportavam o corpo de Clódio sobre uma padiola comprida e plana.

 

Um gemido percorreu a multidão ao primeiro vislumbre do corpo, seguido de uma súbita corrida para diante. A padiola foi poisada nos degraus e erguida na vertical, para que Clódio pudesse ser visto. Nós fomos apanhados na confusão. A multidão que se encontrava no pátio comprimiu-se, e os que estavam na rua foram empurrados para diante atrás deles, como que sugados para um vórtice. Eco agarrou-me na mão, enquanto éramos transportados através dos portões, para o pátio, como destroços numa enxurrada. Os guarda-costas tentaram não se afastar, empurrando e encostando-se a nós. A ponta da lâmina do punhal que o guarda-costas que estava atrás de mim tinha guardado dentro da túnica espetou-me as costelas, e eu pensei como seria irónico ser acidentalmente ferido pelo próprio homem que estava ali para me proteger.

 

Houve uma pausa no movimento. A multidão estava comprimida no pátio da frente como grãos de areia dentro de um frasco. Por entre o fumo das tochas, pude avistar Clódio com grande clareza, erguido na padiola, rodeado de guardas armados na morte, como estivera em vida. De cada um dos lados da padiola, encontravam-se os homens que a tinham transportado. Entre eles, reconheci Ápio e Sexto Clélio.

 

Clódio tinha sido despido das roupas ensanguentadas e mantinha apenas uma espécie de tanga à volta das ancas. A chaga do ombro e as feridas do peito tinham sido limpas, mas apenas para se tornarem mais visíveis; ainda havia muito sangue coalhado espalhado sobre a sua carne pálida e cerosa. Reparei que lhe tinham penteado e desenvencilhado amorosamente os cabelos. Tinham-lhos puxado para trás, como ele os usava em vida, mas uma madeixa solta caíra-lhe para cima de um dos olhos. Se apenas olhássemos para o seu rosto, podíamos pensar que estava a dormir, e a franzir o nariz porque a madeixa de cabelo lhe fazia cócegas, e que a qualquer momento ergueria a mão para afastá-la. Vê-lo nu debaixo das estrelas numa noite fria como aquela fez-me estremecer.

 

À nossa volta, os homens lamentavam-se, praguejavam, choravam, batiam os pés, abanavam os punhos cerrados, enterravam a cara nas mãos. Outro tremor de apreensão varreu a multidão quando Fúlvia apareceu no alto das escadas.

 

Tinha os braços cruzados diante do peito e a cabeça inclinada. Trazia solto o comprido cabelo negro, que se misturava com a longa linha preta do vestido. A multidão ergueu as mãos na sua direcção, mas ela pareceu ignorar estes gestos de consolo. Deixou-se estar durante um longo momento ao lado do corpo do marido, olhando para ele. Depois, ergueu o rosto para o céu e lançou um grito de angústia que me fez gelar o sangue. Era um grito semelhante ao de um animal selvagem rasgando o ar frio da noite; se ainda havia alguém a dormir no Palatino, terá certamente acordado com ele. Fúlvia puxou os cabelos, ergueu os braços ao céu e lançou-se para cima do corpo do marido. O sobrinho e Sexto Clélio fizeram uma tentativa desajeitada de a impedir, e depois recuaram atemorizados quando ela começou a guinchar e a bater com os punhos na padiola. Tomou a cara do cadáver com as mãos a tremer e encostou o seu rosto ao do marido, cobrindo os seus lábios frios com um beijo.

 

À nossa volta, a multidão bramiu como um oceano agitado. Eu pensei naquilo que o tribuno Salusto tinha dito: ninguém consegue controlar uma multidão assim. Ela pode estropiar ou matar um homem sem querer e sem qualquer finalidade, esmagando-o ou pisando-o aos pés. Agarrei em Eco e, por um acto de vontade, conseguimos recuar e passar pelo portão. A multidão que não cabia no pátio enchia agora as ruas, até onde a vista alcançava. Em todo o quarteirão, para um lado e para o outro, viam-se as casas iluminadas como se fosse de dia, com guardas de expressões ansiosas postados nos telhados. Eu fui andando, abrindo caminho por entre a multidão, enquanto Eco e os seus guarda-costas se esforçavam por me acompanhar.

 

Finalmente, ultrapassámos a multidão. Não abrandei o passo enquanto não dobrámos uma esquina e nos encontrámos numa rua vazia e escura. Parei para recuperar o fôlego, e Eco imitou-me. Ele tinha as mãos a tremer. Apercebi-me de que o mesmo acontecia comigo.

 

Ouvindo apenas a minha própria respiração e o meu pulso, nas têmporas, não dei conta de passos que se aproximavam. Mas os guarda-costas deram. Tornaram-se rígidos e colocaram-se à nossa volta. Um grupo de homens subia a rua, dirigindo-se a casa de Clódio. Ao passarem, o chefe fez-lhes sinal para que parassem. Olhou para nós à luz esbatida das estrelas. Tinha o rosto mergulhado na sombra, mas eu percebi que tinha o cabelo encaracolado, o nariz proeminente, e um corpo sólido por baixo da capa. Momentos depois, afastou-se dos seus guarda-costas e aproximou-se de nós.

 

Vêm de casa de Clódio?

 

Sim respondi eu.

 

É verdade o que se diz?

 

O que é que se diz?

 

Que Clódio está morto.

 

É verdade.

 

O homem suspirou. Foi um suspiro breve e ligeiro, muito diferente dos ruidosos lamentos que acabávamos de deixar para trás.

 

Pobre Públio! Quer dizer que foi o fim dele, para o bem ou para o mal. Acabou tudo. Empertigou a cabeça. Eu não te conheço?

 

Conheces?

 

Julgo que sim. Sim, tenho a certeza.

 

Consegues ver no escuro, cidadão?

 

O suficiente. E nunca me esqueço de uma voz. Murmurou qualquer coisa e depois resmungou. És o pai de Meto, não és? E este é o irmão de Meto, Eco.

 

Sim. Tentei observá-lo melhor. Consegui distinguir-lhe as feições toscas a testa decidida, o nariz achatado de pugilista, mas nem por isso o reconheci.

 

Conhecemo-nos o ano passado disse ele, brevemente, quando foste visitar Meto a Ravena. Eu também sirvo no exército de César. Fez uma pausa. Vendo que eu não dava sinais de o reconhecer, encolheu os ombros. Bem, o que se passa ali do outro lado da esquina? Aquele brilho no céu, não é uma casa em chamas?

 

Não. São muitas tochas acesas.

 

Há uma grande multidão reunida em casa dele?

 

Sim. Vieram ver o corpo. A mulher, Fúlvia...

 

Fúlvia? Ele pronunciou o nome com uma estranha intensidade, como se tivesse um significado secreto para ele.

 

Está a lamentar-se. Talvez consigas ouvi-la.

 

Ele voltou a suspirar, um suspiro fundo e expressivo.

 

Acho que é melhor ir ver. Então adeus, Gordiano. Adeus, Eco. Voltou a juntar-se aos seus companheiros, e afastou-se rapidamente.

 

Adeus... respondi eu, ainda incapaz de me recordar do nome dele. Voltei-me para Eco.

 

Tal como ele disse, papá, conhecemo-lo o ano passado, no quartel-general de Inverno de César, em Ravena. É um pouco modesta a maneira como diz que "também serve no exército de César". Segundo Meto, ele é um dos principais homens do general. Fomos rapidamente apresentados. Eu também já me tinha esquecido dele. Espanta-me que se recorde de nós. Bem, mas ele é um político. Voltou a Roma há vários meses, vai candidatar-se a um cargo. Tenho-o visto no Fórum, a angariar votos. Tu também deves tê-lo visto.

 

Vi? Como é que ele se chama?

 

Marco António.

 

Ao pequeno-almoço, Betesda e Diana exigiram saber tudo. Eu tentei suavizar a descrição do cadáver de Clódio por uma questão de deferência para com o apetite de ambas, mas elas insistiram em conhecer todos os pormenores macabros. Não manifestaram grande interesse pelas querelas dos políticos, mas escutaram atentamente as minhas impressões da famosa casa e da sua decoração, e mostraram-se especialmente curiosas relativamente a Clódia.

 

Já passaram quatro anos desde o julgamento de Marco Célio? Betesda soprou suavemente uma colher cheia de farinha quente.

 

Quase.

 

E pensar que, durante todo esse tempo, não tivemos sequer um vislumbre de Clódia.

 

Não é propriamente muito surpreendente; não nos movemos nos mesmos círculos elevados que ela. Mas julgo que ninguém a viu assim muito. O julgamento tirou-lhe qualquer coisa. Pareceu-me uma mulher diferente.

 

A sério? A ideia que fica é que ela fez uma grande cena, convidando-te para o coração da imponente casa do irmão, fazendo-te sentir privilegiado e especial. Ela pretende qualquer coisa.

 

Francamente, Betesda, a mulher estava perturbada.

 

Estava?

 

Já te disse que ela tinha dificuldade em evitar chorar.

 

Chorar é uma coisa. Estar perturbada é outra.

 

Não estou a perceber.

 

Não? Betesda encostou-se na cadeira. Tem cuidado com a farinha, Diana. Vais queimar a língua.

 

Diana acenou com a cabeça, distraída, e meteu na boca uma colher cheia.

 

O que queres dizer, Betesda? Com essa observação sobre Clódia?

 

Bem, não tenho dúvidas de que ela estava transtornada com a morte do irmão. Todos sabemos que eles eram muito íntimos, ou pelo menos sabemos o que as pessoas diziam sobre eles. E foi uma morte tão sangrenta, pela maneira como descreveste o corpo. Que horror! Mexeu a farinha. Ergueram-se da taça nuvenzinhas de vapor.

 

Mas?

 

Diana pigarreou.

 

Acho que o que a mãe está a tentar dizer é...

 

Bem, é óbvio, não é? Betesda olhou para Diana, e acenaram com a cabeça em uníssono. A liteira, o guarda-costas...

 

E a utilização da entrada principal. Sim. Diana franziu os lábios, pensativamente.

 

Em nome do Hades, de que estão vocês a falar?

 

Bem... Betesda experimentou outra colher de farinha, e por fim achou que estava à temperatura ideal. Pela tua descrição, pareceu-me que existe a entrada principal da casa, e também a portinha lateral escondida por onde vocês entraram.

 

Sim...

 

E ambas vão dar ao mesmo sítio.

 

Sim, ao átrio principal.

 

Bem, eu não posso falar por Clódia, mas se eu estivesse perturbada, não teria estômago para encarar uma enorme multidão. Preferia evitá-la, se pudesse. E Clódia podia tê-lo feito com grande facilidade, entrando por essa porta lateral. Podia ter evitado completamente a multidão. Não tenho razão? A liteira podia tê-la depositado, a ela, a Metela e ao sobrinho Ápio, ao fundo dos degraus, e eles subiam e entravam em casa sem ninguém chegar a saber que lá estavam.

 

Acho que sim...

 

Diana pegou no fio do argumento.

 

Mas ela preferiu passar pelo meio da multidão naquela liteira enorme, com aquele pavilhão às listas vermelhas e brancas que toda a gente conhece, acompanhada por um verdadeiro exército de enormes gladiadores ruivos.

 

Betesda acenou com a cabeça.

 

Para ter a certeza de que toda a gente sabia que ela tinha chegado.

 

E continuaria a falar disso muito tempo depois.

 

Qual é a vossa ideia? perguntei eu, olhando de uma para a outra.

 

Bem, papá, que o desgosto não era a única coisa que ocupava a mente de Clódia.

 

Exactamente disse Betesda. O seu objectivo era fazer uma entrada.

 

Oh, francamente! Abanei a cabeça. Se vocês tivessem lá estado, se tivessem sentido o estado de espírito que se vivia naquela casa, o desespero, a angústia...

 

O que só contribuía para aumentar o drama disse Betesda. Não duvido da dor de Clódia. Mas tens de perceber que ela deve ter considerado antecipadamente as circunstâncias. Deve ter percebido que não lhe permitiriam aparecer em público ao lado do corpo do irmão, quando ele fosse exibido à multidão. Esse privilégio estava reservado a Fúlvia.

 

Por isso, Clódia deixou a sua impressão como pôde, fazendo uma entrada grandiosa disse Diana.

 

Estou a ver. Querem vocês dizer que ela pretendia desviar as atenções da cunhada para si própria.

 

Nada disso. Betesda franziu o sobrolho perante a minha compreensão lenta. Ela apenas queria o que lhe era devido.

 

Queria reclamar a parte de sofrimento público que acha que lhe pertence explicou Diana.

 

Estou a ver disse eu, sem ter a certeza de estar. Bem, falando de coisas feitas para chamar a atenção, claro que eu fiquei espantado com a inconsistência do comportamento de Fúlvia...

 

Inconsistência? disse Betesda.

 

O que queres dizer com isso, papá?

 

Já vos disse como ela se mostrou rígida dentro de casa, sem dar mostras de praticamente emoção nenhuma, mesmo ao pôr Clódia no seu lugar relativamente à limpeza do corpo. E depois, aqueles gritos histéricos diante daquela gente toda, quando vieram exibir Clódio à multidão!

 

Qual é a inconsistência, papá? Diana olhou para mim com curiosidade, no que foi imitada pela mãe. Quase me convenci de que estavam a fazer troça de mim.

 

Parece-me que uma mulher deve sofrer em privado e mostrar alguma descrição em público, e não o contrário disse eu.

 

Betesda e Diana olharam uma para a outra e franziram o sobrolho.

 

Que sentido teria tal coisa? disse Betesda.

 

Não se trata de ter sentido...

 

Marido! Betesda abanava a cabeça. Claro que Fúlvia não estava interessada em exibir a sua dor diante de ti, que eras um estranho, na intimidade da sua casa, especialmente na presença de Clódia. Comportou-se com dignidade para que a mãe se sentisse orgulhosa dela, para ensinar à filha que devia ser forte, para confundir a chorosa cunhada. E também pelo marido, uma vez que vocês, os Romanos, acreditam que os lémures de um morto podem demorar-se algum tempo nas proximidades do seu corpo desabitado. Por isso, na tua presença ela assumiu uma atitude digna. Mas a multidão que estava no exterior era outra coisa. Fúlvia pretendia inflamá-la o mais que pudesse, da mesma maneira que o marido a tinha inflamado tantas vezes. E não o conseguiria, se se comportasse como uma estátua ao lado do seu cadáver coberto de sangue, não te parece?

 

Achas então que a exibição pública do seu desgosto foi calculada e pouco sincera?

 

Calculada, foi com certeza. Pouco sincera? De maneira nenhuma. Ela limitou-se a escolher o momento e o local mais adequados para libertar o sofrimento que tinha dentro de si.

 

Abanei a cabeça.

 

Não sei bem se estás a dizer coisa com coisa. Preferia tentar perceber em que esquemas estavam metidos os políticos que se encontravam na antessala.

 

Betesda e Diana encolheram os ombros em uníssono, evidenciando que o assunto as entediava.

 

De uma forma geral, os políticos são demasiadamente óbvios para serem interessantes disse Betesda. Claro que eu posso ter julgado mal Clódia e Fúlvia. Não estava lá, não vi o que se passou. Apenas posso adivinhar pelo que tu me disseste.

 

E eu sou um observador assim tão pouco fiável? Ergui uma sobrancelha. Há quem me trate por Descobridor, sabiam?

 

O que se passa prosseguiu Betesda, ignorando o que eu dissera, é que nunca podemos ter a certeza absoluta do que pretendem realmente as pessoas. Especialmente quando se trata de mulheres tão complicadas como Clódia ou Fúlvia. Como é que a pessoa pode saber o que elas realmente pensam ou sentem? O que elas realmente pretendem? Betesda trocou um olhar pensativo com Diana. Levaram ambas colheres cheias de papa de aveia simultaneamente à boca, baixando-as abruptamente quando Belbo entrou na sala.

 

Este gigante de cabelo cor de palha era desde há muito o meu guarda-costas, e salvara-me a vida em diversas ocasiões. Ainda era forte como um touro, mas também se tornara pesado como esses animais; leal como um perdigueiro, mas já pouco apto para a caça. Eu continuava a confiar-lhe a minha vida todos os dias era ele que me barbeava, mas já não podia estar certo de que ele me protegeria dos punhais que abundavam no Fórum. O que se faz a um guarda-costas leal que ultrapassou o seu prazo de utilidade? Belbo lia muito mal e apenas possuía uns conhecimentos básicos de aritmética. Não tinha quaisquer talentos especiais para a carpintaria ou a jardinagem. Para além de realizar ocasionalmente um feito de força prodigiosa como erguer sozinho uma saca pesada de cereais ou um armário maciço, era-me útil como porteiro, uma tarefa que, basicamente, o obrigava a estar sentado ao sol no átrio durante todo o dia. A letargia combinava com a sua natureza bovina, e realçava o temperamento calmo que as pessoas que não o conheciam tomavam frequentemente por estupidez. Belbo talvez fosse um tanto lento, mas não era imbecil. Costumava sorrir de uma anedota depois de toda a gente ter terminado de rir. Raramente se irritava, mesmo quando era provocado. Ainda mais raramente se mostrava temeroso. No entanto, ao entrar na sala de jantar, os seus olhos bovinos estavam escancarados de susto.

 

Belbo, o que se passa?

 

Lá fora na rua, senhor. Diante da casa. Acho que é melhor vires ver.

 

Logo que saí para o jardim do centro da casa, ouvi o barulho que provinha da rua uma combinação indistinta de gritos e batidos de pés. Parecia um tumulto. Atravessei rapidamente o jardim e o átrio e cheguei à entrada da casa. Belbo abriu o pequeno painel existente na porta e afastou-se para o lado, para me permitir ver pelo olho de segurança.

 

Eu avistei uma confusão de movimento da esquerda para a direita uma multidão a correr, vestida de preto. Ouvi o rugido da turba, mas não consegui perceber o que diziam.

 

Quem são eles, Belbo? O que se passa? Estava a olhar pelo olho de segurança. Subitamente, uma figura destacou-se da multidão e correu até à porta. Aplicou a boca ao olho de segurança e começou a gritar. Vamos pegar-lhe fogo! Pegar-lhe fogo! Bateu com os punhos na porta. Eu recuei, com o coração aos pulos. Pelo olho de segurança, vi o homem recuar, com o rosto cristalizado numa careta maníaca. Apesar de ter a porta entre nós, estremeci. Depois, tão subitamente como se aproximara, o homem voltou costas e afastou-se, desaparecendo entre a multidão.

 

Em nome do Hades, o que se passa?

 

Eu aconselhava-te a não saíres para investigar disse Belbo, muito sério.

 

Pensei por momentos.

 

Vamos até ao telhado. Vai buscar o escadote, Belbo, e trá-lo para o jardim!

 

Momentos mais tarde, dei por mim precariamente equilibrado nas telhas inclinadas da parte da frente de minha casa. Daí, conseguia ver a rua, mas também o Fórum, ao fundo, com os templos e os espaços públicos amontoados no vale situado entre o Palatino e o Capitólio. Mesmo abaixo de mim, a multidão continuava a correr pela rua. Alguns homens prosseguiam em frente. Outros desviavam-se, tomando o atalho a que chamavam a Rampa, que desce para o Fórum e vai dar a um espaço estreito, entre a Casa das Vestais e o Templo de Castor e Pólux. Alguns dos tumultuosos levavam paus e mocas. Outros brandiam punhais, em aberto desafio às leis que proíbem a utilização desse tipo de armas dentro da cidade. E, embora o dia tivesse clareado há muito, havia quem levasse tochas na mão. As chamas chicoteavam o ar frio.

 

A multidão acabou por se tornar menos compacta, mas foi rapidamente seguida por um grupo ainda mais numeroso, e mais lento, de pessoas enlutadas. Se se tratava de um cortejo fúnebre, era um cortejo muito estranho. Onde estavam os actores a fazer paródias ao morto, para alegrar os espíritos? Onde estavam as efígies de cera dos antepassados do morto, retiradas dos seus lugares de honra no átrio de sua casa, para assistirem à sua passagem para o outro mundo, ao encontro deles? Onde estavam as acompanhantes contratadas, chorando e puxando os cabelos eriçados na verdade, onde estavam as mulheres?

 

Mas ouvia-se música trompas de luto, lamentos de flautas e tamborins, que produziam um ruído que me fazia arrepiar. E havia um corpo, o cadáver de Clódio, transportado sobre uma padiola de madeira, engrinaldada com um pano negro. Continuava nu, à excepção da tanga à volta das ancas, e sujo e coberto de sangue seco.

 

Alguns dos acompanhantes desviaram-se para descerem a Rampa até ao Fórum, mas o grosso da procissão que acompanhava o cadáver de Clódio prosseguiu pela rua que passava diante de minha casa, e que percorre a crista do Palatino. Apercebi-me de que estavam a fazer um circuito lento e deliberado pela colina, passando diante das casas dos ricos e poderosos em procissão sombria, permitindo a amigos e inimigos que lançassem um olhar derradeiro ao homem que tanta perturbação tinha introduzido na vida ordenada da República.

 

Algumas casas mais adiante, o percurso fá-los-ia passar directamente diante da casa do homem que fora o mais implacável inimigo de Clódio, no senado e nos tribunais. Clódio guindara-se a campeão dos humildes, dos soldados de infantaria e dos libertos; contra ele, estivera sempre Cícero, o leal porta-voz daqueles que a si próprios se chamavam os Melhores. A procissão funerária parecia ordeira, mas na multidão que a precedera eu vira punhais e tochas. Sustive a respiração, perguntando a mim próprio o que aconteceria quando chegassem a casa de Cícero.

 

Quando olhei na direcção da casa de Cícero, vi que não estava sozinho na minha apreensão. As casas e árvores que havia de permeio bloqueavam-me a visão da rua, mas da casa propriamente dita conseguia ver algumas janelas do andar de cima, com as portadas fechadas, e uma parte do telhado. Aí estavam empoleiradas duas figuras, como Belbo e eu estávamos empoleirados no telhado de minha casa, a espreitarem por cima do beiral, para baixo, para a rua. Ao brilho da manhã que nascia, discerni imediatamente a silhueta de Cícero, o seu pescoço largo, o seu maxilar severo. Acocorado atrás dele, com a mão estendida para ter a certeza de que o seu senhor não se debruçava excessivamente, encontrava-se a silhueta mais esguia de Tiro, o seu secretário de toda a vida. Mantiveram-se imóveis durante um longo momento, como que gelados pelo frio ar da manhã; depois, Cícero estendeu a mão para trás, e tocou no ombro de Tiro. Juntaram as cabeças, e conferenciaram angustiadamente. Pela maneira como recuaram e estenderam o pescoço, tentando ver sem serem vistos, calculei que o bizarro cortejo funerário estivesse a passar directamente por baixo deles. O som das trompas e das flautas tornou-se mais agudo, o dos tamborins mais maníaco. Concentrados no espectáculo que tinha lugar por baixo deles, Cícero e Tiro não se aperceberam do meu escrutínio.

 

Pareceu-me que a procissão estacava diante da casa de Cícero. Cícero balançava a cabeça para baixo e para trás, como uma codorniz nervosa. Eu imaginava o seu dilema tinha medo de afastar os olhos da turba, mas o menor vislumbre da sua pessoa poderia incitá-la à violência. As trompas soaram, as flautas trinaram, os tamborins matraquearam.

 

Por fim, o cortejo prosseguiu e o som diluiu-se.

 

Cícero e Tiro encostaram-se, suspirando de alívio. Então, Cícero estremeceu e agarrou-se ao estômago. Como o calcanhar é para Aquiles, assim é o estômago para Cícero; o pequeno-almoço voltara-se contra ele. Pôs-se de pé, ainda agachado, e subiu ao alto do telhado como um caranguejo, com Tiro atrás. Tiro voltou a cabeça e viu que nós estávamos a observá-los. Tocou na manga do seu senhor e disse-lhe qualquer coisa. Eu ergui a mão, numa saudação de vizinho. Tiro correspondeu. Cícero deixou-se estar imóvel por momentos, depois apertou o estômago e avançou apressadamente, desaparecendo do outro lado do telhado.

 

Entretanto, lá em baixo na rua, continuavam a passar homens vestidos de preto, aos grupos de dois ou três, retardatários que se apressavam para apanhar a procissão. A maioria tomava a Rampa. Eu tentei ver para onde se dirigiam, mas a minha visão do Fórum era sobretudo de telhados de cobre já gastos, brilhando à luz do Sol; de vez em quando, captava um vislumbre de umas figurinhas movendo-se nos espaços intermédios. Pareciam estar a reunir se diante do Senado, na extremidade do Fórum, onde a face rochosa do Capitólio forma uma parede natural.

 

Desde a posição onde me encontrava, eu tinha uma visão clara da parte da frente do Senado. Uns degraus largos de mármore iam dar às maciças portas de bronze, que estavam fechadas. Só conseguia ver uma parte muito reduzida do espaço que se abria diante do Senado, mas que incluía uma visão clara da Rostra, a plataforma elevada de onde os oradores se dirigiam à populaça. O espaço entre a Rostra e o Senado já estava cheio de homens vestidos de preto.

 

Os cânticos funerários, que durante algum tempo se tinham diluído com a distância, regressaram, subindo até nós vindos do Fórum. Ecoando a partir do vale, aquela música desagradável parecia mais confusa e dissonante do que nunca. De repente, sobrepôs-se-lhe o enorme brado da multidão. Tinha chegado o corpo de Clódio. Pouco depois, a padiola foi elevada até à Rostra e colocada na vertical para que a multidão pudesse vê-la, tal como fora exibida nos degraus da casa de Clódio, na noite anterior. Parecia uma coisinha minúscula mas, mesmo àquela distância, havia algo de chocante no vislumbre da carne nua no meio de tantos acompanhantes vestidos de preto e de toda aquela pedra fria e cinzelada.

 

Um orador subiu à Rostra. Chegaram até mim ecos distantes da sua voz. Enquanto ele andava de um lado para o outro pela Rostra, agitando os braços, apontando para o cadáver de Clódio e erguendo os punhos, a multidão irrompeu num urro atroador. A partir desse momento, o ruído da multidão foi aumentando e diminuindo, mas sem nunca se desvanecer por completo.

 

O que se passa? Voltei a cabeça, alarmado.

 

Diana, desce imediatamente!

 

Por quê? É perigoso estar aqui?

 

Muito. A tua mãe tinha um ataque.

 

Oh, não me parece. Foi ela que me segurou o escadote. Mas acho que ela está com medo de subir.

 

E tem razões para isso.

 

E tu, papá? Tenho a impressão de que um velhote como tu tem mais probabilidades de perder o equilíbrio do que eu.

 

Como se explica que eu tenha uma filha tão impertinente?

 

Não sou impertinente. Sou apenas curiosa. Parece o cerco de Tróia, não parece?

 

O quê?

 

Nós somos como Júpiter no Monte Ida a observar o campo de batalha, lá em baixo. São todos tão pequeninos. A pessoa sente-se... divina.

 

Sente? Júpiter podia enviar raios ou mensageiros alados. E ouvia o que estavam a dizer. Esta perspectiva não me faz sentir nada divino. Bem pelo contrário. Faz-me sentir impotente, observando as coisas a esta distância.

 

Podias descer e ir juntar-te a eles.

 

Pôr-me à mercê daquela multidão? Ninguém sabe o que farão a seguir...

 

Papá, olha!

 

Como uma corrente de água agitada por uma tempestade, a multidão pareceu subitamente extravasar da ampla praça em frente da Rostra, avançando em onda após onda para os degraus e os terraços dos templos e edifícios públicos que a rodeavam.

 

Papá, olha! O Senado!

 

Os amplos degraus estavam a ser inundados pela multidão, que os subia como se fosse uma maré negra, precipitando-se para as altas portas de bronze. Fechadas do lado de dentro, elas opuseram-se à multidão, mas não tardei a ouvir um ruído baixo, surdo e repetitivo. Era difícil perceber o que estava exactamente a acontecer, mas parecia que a multidão estava a assaltar as portas do Senado com uma espécie de aríete improvisado.

 

Impossível! disse eu. Incrível! O que lhes terá passado pela cabeça? O que é que eles querem?

 

Subitamente, as portas cederam. Momentos depois, ergueu-se da multidão um grito de triunfo. Voltei a olhar para a Rostra. O orador continuava a arengar, andando de um lado para o outro e exortando a populaça com gestos amplos, mas o corpo de Clódio tinha desaparecido. Franzi o sobrolho, intrigado, depois consegui vislumbrar o cadáver nu, deitado na padiola forrada de preto, avançando com movimentos incertos na direcção dos degraus do Senado. Parecia que a turba passava a padiola de mão em mão, por cima das suas cabeças. Subitamente, tive uma visão: a multidão era uma colónia de insectos, e o cadáver de Clódio a sua rainha. Estremeci e senti uma ameaça de vertigem. Estendi uma mão para Diana, pondo-lhe o braço à volta dos ombros, e com a outra agarrei-me com mais firmeza às telhas.

 

A padiola chegou à base dos degraus do Senado, ficou parada por momentos e depois começou a subi-los. A massa da multidão, que conseguia ver novamente o corpo, emitiu outro rugido poderoso, que era um misto de triunfo e desespero. A padiola chegou ao alto das escadas e foi colocada na vertical. Um homem avançou para o lado dela, acenando com uma tocha acesa. Parecia estar a fazer um discurso, embora fosse difícil imaginar que a multidão ululante conseguisse ouvi-lo melhor do que eu. Mesmo àquela distância, tive quase a certeza de que o orador era Sexto Clélio, o lugar-tenente de Clódio, o homem de olhar selvagem que na noite anterior falara de tumultos e de vingança contra Milo.

 

Passado algum tempo, ainda a acenar com a tocha, voltou-se e entrou no Senado. A padiola foi levada para dentro atrás dele.

 

O que lhes terá passado pela cabeça? disse eu.

 

Pegar fogo à Casa do Senado disse Belbo. Não foi isso que disse o sujeito que bateu aqui à porta?

 

Eu abanei a cabeça.

 

Ele estava a delirar. Além disso, devia estar a referir-se à casa de Milo, ou talvez de Cícero. Não podia de maneira nenhuma estar a pensar...

 

Por vezes, pronunciar o impossível pode fazer com que ele nos pareça possível. Olhei fixamente para o telhado do Senado como se, concentrando-me intensamente, pudesse ver através dele e perceber o que estava Sexto Clélio a preparar. Certamente não era...

 

Nessa altura, avistei as primeiras espirais de fumo, erguendo-se espectrais das janelas com as portadas cerradas do andar de cima da Casa do Senado.

 

Papá...

 

Sim, Diana, estou a ver. Devem estar a cremar o corpo, dentro do edifício. Idiotas! Se não têm cuidado...

 

Não me parece nada que eles sejam do género de terem cuidado disse Belbo, inclinando a cabeça para o lado com ar sério.

 

Um pouco mais tarde, saíram de uma das janelas as primeiras línguas vacilantes de fogo. Uma após outra, as portadas incendiaram-se. Um fumo preto e pesado começou a sair das janelas, e depois da porta aberta. Sexto Clélio saiu a correr do edifício, erguendo a tocha em triunfo acima da cabeça. A multidão ficou silenciosa por momentos, provavelmente tão assustada como eu pela enormidade do que tinha acontecido. Depois, soltou um rugido que deve ter sido escutado em Bovilas.

 

Foi escutado em casa de Cícero, pelo menos. Pelo canto do olho, vi um movimento no seu telhado. Ele tinha regressado, acompanhado de Tiro. Estavam ambos de pé e observavam o espectáculo que tinha lugar em baixo, no Fórum. Tiro agarrava a cara. Estava a chorar. Quantas horas felizes tinha ele passado naquele edifício, copiando os discursos do seu senhor na estenografia que ele próprio tinha inventado, dando ordens a um exército de funcionários, assistindo à construção da importante carreira para a qual tanto tinha contribuído! Os escravos são por vezes muito sentimentais!

 

Cícero não chorava. Tinha os braços cruzados, o maxilar tenso e olhava sombriamente para a orgia de destruição que tinha lugar diante de si.

 

Olha! disse Diana. Apontava para Cícero. Olha! Devia ser aquele o aspecto de Júpiter, a olhar para Tróia.

 

Conhecendo Cícero bem melhor do que a minha filha o conhecia, e certo de que não havia nele nada que fosse remotamente divino, eu preparava-me para corrigi-la, quando Belbo interveio.

 

Tens razão disse ele. Devia ser exactamente assim!

 

A certeza que ambos partilhavam obrigou-me a olhar de novo. Diana tinha razão. Tive de lho conceder. Tal como Cícero se mostrava naquele momento, olhando para a destruição do Senado pela turba de Clódio, assim devia ter-se mostrado o grande Júpiter quando cismava no Monte Ida, observando os loucos choques dos mortais, em baixo, na planície.

 

Empurradas pelo vento frio, as chamas foram subindo cada vez mais alto, até o Senado ser completamente engolido pelo fogo. A plebe dançava nos degraus de mármore, apupando e rindo, ao mesmo tempo que se esquivava à cascata de escórias e cinzas.

 

O incêndio começou a espalhar-se, primeiro para o complexo de escritórios senatoriais, a sul do edifício. A ameaça da multidão já fizera esvaziar a maior parte dos compartimentos mas, depois de pegado o incêndio, alguns funcionários saíram a correr, em pânico, levando consigo mãos-cheias de documentos. Alguns tropeçavam e caíam, outros ziguezagueavam loucamente, esquivando-se à turba que os tratava com sarcasmo, deixando cair os fardos. As tabuinhas de cera espalhavam-se pelo chão como dados lançados por jogadores. Os rolos de pergaminho desenrolavam-se e ondulavam como flâmulas na brisa.

 

Depois, o vento mudou. As chamas começaram a soprar para oeste do Senado, na direcção da Basílica Porciana. Tratava-se de um edifício com 130 anos de antiguidade, um dos grandes edifícios do Fórum e a primeira basílica jamais construída. As suas características distintivas a comprida nave, terminando numa ábside, com alas colunadas de cada um dos lados são actualmente imitadas em edifícios construídos por todo o império. Muitos dos banqueiros mais abastados do mundo tinham as suas sedes na Basílica Porciana. O fogo não demorou mais de uma hora a reduzir a sua venerável majestade a uma pilha fumegante de pedras.

 

Soube mais tarde que foram os banqueiros, desesperados por salvar o que restava dos seus registos, que finalmente organizaram um vasto contingente de libertos e escravos, para combaterem as chamas. Agindo por puro egoísmo, poderão ter salvo uma grande parte de Roma de se desvanecer em fumo. Os combatentes do fogo formavam longas e sinuosas filas, que atravessavam o Fórum e passavam pelo mercado do gado, indo dar às margens do Tibre, onde enchiam baldes de água, que passavam de mão em mão, eram deitados às chamas e regressavam vazios à água. De vez em quando, alguns arruaceiros destacavam-se do frenético cortejo fúnebre e iam perturbar os que apagavam o fogo, atirando-lhes pedras e cuspindo-lhes em cima. Desencadeavam-se rixas. Um cordão de guarda-costas, igualmente enviados pelos banqueiros, veio proteger os transportadores dos baldes.

 

Foi um dia de loucura. Roma parecia tomada pela febre, delirante. Depois de consignarem Clódio às chamas purificadoras, e com ele o Senado, os acompanhantes do cortejo prosseguiram a sua pouco convencional celebração fúnebre. Teriam planeado esta loucura previamente, ou iriam improvisando à medida que avançavam, inspirados pela dança das chamas e pelas vagas de fumo, revigorados pelo cheiro a queimado que pairava no ar? A meio da tarde, organizaram um banquete fúnebre. Colocaram mesas diante do Senado fumegante, cobriram-nas com panos pretos e dispuseram sobre elas os alimentos.

 

Enquanto uns prosseguiam o combate ao fogo em esforços frenéticos, os Clodianos bebiam e comiam em honra do seu chefe morto. Os pobres e os famintos da cidade vieram juntar-se a eles, a princípio timidamente, depois, vendo que eram bem recebidos, em júbilo. Chegavam continuamente grandes quantidades de alimentos urnas cheias de enchidos de sangue, potes de feijão preto, fatias de pão escuro, tudo adequadamente carregado, neste festim em honra de um morto, e regado com vinho tinto. Entretanto, os cidadãos de Roma, confusos, assustados e curiosos - aqueles que não dispunham da vantagem segura de um telhado no Palatino, de onde pudessem observar o que se estava a passar, calcorreavam a orla do Fórum, espreitando cautelosamente por trás das esquinas e por cima dos muros, olhando com expressões diversas, de ultraje, deleite, descrença e consternação.

 

Eu passei grande parte do dia no telhado de minha casa, a assistir. O mesmo fez Cícero. Desaparecia durante algum tempo, depois regressava com diversos visitantes, muitos deles senadores, que eu identificava pelo debrum roxo das togas. Eles contemplavam a vista, abanavam a cabeça desgostosos ou arfavam de horror, e voltavam a desaparecer, falando e gesticulando. Parecia haver uma espécie de reunião de dia inteiro em casa de Cícero.

 

Eco veio visitar-me e esteve comigo algum tempo. Disse-lhe que era uma loucura aventurar-se pelas ruas num dia como aquele. Ele mantivera-se afastado do Fórum e, embora tivesse ouvido o boato de que o Senado fora destruído, convencera-se de que se tratava apenas disso, de um boato. Levei-o até ao telhado para que pudesse apreciar o espectáculo. Pouco depois, ele regressou para junto de Menénia e dos gémeos.

 

Até Betesda ultrapassou a sua desconfiança do escadote e se aventurou a subir ao telhado para ver que confusão era aquela. Eu arreliei-a, dizendo-lhe que a contemplação de todos aqueles tumultos devia ter-lhe provocado saudades da sua cidade natal de Alexandria, já que os alexandrinos são famosos pelos seus tumultos. Ela não se riu da piada. Eu também não.

 

O festim e o combate ao fogo prolongaram-se no Fórum até muito depois de a noite ter caído. Para a tarde, Belbo trouxe-me uma taça de sopa quente e voltou a descer. Pouco depois, Diana veio ter comigo, trazendo uma taça de sopa a fumegar para si própria. Enquanto estávamos os dois sentados no telhado, o céu foi tomando tons cada vez mais escuros de azul, já próximos do preto. O lusco-fusco é, em todas as estações, a hora mais bela de Roma. As estrelas começaram a aparecer no firmamento, brilhantes como pedacinhos de gelo. Até as luzes que brilhavam no Fórum tinham uma espécie de beleza, agora que a escuridão escondia a fealdade da madeira queimada e da pedra escurecida. Os incêndios tinham-se apagado quase por completo, mas as trevas cada vez mais profundas revelavam ainda zonas fumegantes de chamas nas ruínas na Basílica Porciana e dos edifícios dos escritórios senatoriais.

 

Diana terminou a sopa. Pousou a taça e puxou uma manta para cima dos ombros.

 

Como foi que Clódio morreu, papá?

 

Por causa das feridas, suponho eu. Certamente não queres que volte a descrever-tas.

 

Não. Mas quer dizer, como foi que aquilo aconteceu?

 

Não sei bem. Julgo mesmo que ninguém sabe, à excepção daqueles que o mataram, claro. Parecia haver uma certa confusão relativamente ao assunto em casa dele, a noite passada. Clódia dizia que tinha havido uma escaramuça qualquer na Via Ápia, perto de um sítio chamado Bovilas, onde Clódio tinha uma villa. Clódio e alguns dos seus homens tiveram uma altercação com Milo e alguns dos seus homens. Clódio foi derrotado.

 

Mas qual foi o motivo da luta?

 

Há muito tempo que Clódio e Milo são inimigos, Diana.

 

Por quê?

 

Por que costumam dois homens ser inimigos? Porque querem a mesma coisa.

 

Uma mulher?

 

Às vezes. Ou um rapaz. Ou o amor de um pai. Ou uma herança, ou uma leira de terra. Neste caso, tanto Clódio como Milo queriam o poder.

 

E não podiam partilhá-lo?

 

Aparentemente, não. Por vezes, quando dois homens ambiciosos são inimigos um do outro, um deles tem de morrer para que o outro continue vivo. Pelo menos é esse o resultado habitual, mais cedo ou mais tarde. É a isso que os Romanos chamam política. Sorri sem alegria.

 

Tu detestas a política, não detestas, papá?

 

Gosto de dizer que sim.

 

Mas eu pensei...

 

Sou como aqueles homens que dizem que detestam o teatro, mas não perdem uma peça. Afirmam que são os amigos que os arrastam para os espectáculos. Apesar disso, são capazes de citar Terêncio linha a linha. Quer dizer que, secretamente, tu adoras a política.

 

Não! Mas ela povoa o ar que eu respiro, e eu não estou interessado em parar de respirar. Dito de outra maneira: a política é uma doença dos Romanos, e eu sou tão-pouco imune a ela como qualquer outra pessoa.

 

Ela franziu a testa.

 

O que queres dizer com isso?

 

Algumas doenças são peculiares a determinadas tribos ou nações. O teu irmão Meto diz que, na Gália, há uma tribo em que todas as pessoas nascem surdas de um dos ouvidos. Já ouviste a tua mãe dizer que há uma aldeia no Nilo em que as pessoas ficam com urticária quando vêem um gato. E eu li uma vez que os Espanhóis sofrem de uma inflamação nos dentes que apenas pode ser curada se beberem a sua própria urina.

 

Papá! Diana franziu o nariz.

 

Nem todas as doenças são declaradamente físicas. Os atenienses são viciados em arte; sem ela, sofrem de irritação e obstipação. Os alexandrinos vivem para o comércio; venderiam o suspiro de uma virgem se conseguissem arranjar maneira de o engarrafar. Ouvi dizer que os Partos sofrem de hipomania; há clãs inteiros que partem para a guerra para reclamarem a posse de um garanhão de qualidade.

 

Pois bem, a política é a doença romana. Todos os habitantes da cidade apanham a doença, mais cedo ou mais tarde, ultimamente até as mulheres. Ninguém recupera. Trata-se de uma doença insidiosa, com sintomas perversos. As diferentes pessoas sofrem de maneiras diferentes, e algumas não sofrem de todo; estropia um homem, mata outro, e faz com que um terceiro engorde e se torne mais forte.

 

Nesse caso, é uma coisa boa ou uma coisa má?

 

É uma coisa romana, Diana. Não te sei dizer se é boa ou má para Roma. Fez de nós os governantes do mundo. Mas começo a perguntar a mim próprio se não será ela o nosso fim. Baixei os olhos para o Fórum, já não no papel de Júpiter observando a planície do Ida, mas como Plutão observando os fossos ardentes do Hades.

 

Diana encostou-se para trás. O seu cabelo preto de azeviche formava uma almofada, onde ela apoiava a cabeça. Pôs-se a estudar o céu. Os seus olhos escuros reflectiam a luz fria das estrelas.

 

Gosto que fales comigo desta maneira, papá.

 

Gostas?

 

Era assim que costumavas falar com Meto, antes de ele partir para a vida militar.

 

Talvez.

 

Ela voltou-se de lado, apoiou a cabeça nas mãos e olhou para mim, muito séria.

 

Vai acontecer alguma coisa má, papá?

 

Presumo que as pessoas que rodeavam Clódio acham que já aconteceu uma coisa má.

 

A nós, quero eu dizer. Corremos perigo, papá?

 

Se eu puder evitar, não. Passei-lhe a mão pelo rosto e afaguei-lhe o cabelo.

 

Mas as coisas estão a piorar, não estão? É isso que tu e Eco costumam dizer um ao outro quando falam de política. E agora estão piores do que nunca Clódio morreu, o Senado foi incendiado. Está para acontecer alguma coisa horrível?

 

Está sempre para acontecer alguma coisa horrível a alguém, algures. A única alternativa é sermos amigos da Fortuna, se ela quiser ser nossa amiga, e fugirmos quando vemos um político aproximar-se de nós.

 

Falo a sério, papá. As coisas estão prestes, não sei, prestes a desmoronar-se? Para nós, para toda a gente?

 

O que podia eu responder-lhe? Lembrei-me subitamente de uma cena a que assistira no Fórum, quando era jovem, depois de Sula ter vencido a guerra civil: filas e filas de cabeças espetadas em estacas, os inimigos do ditador em homenagem diante do seu triunfo. Depois disso, as pessoas juraram que tal coisa não voltaria a acontecer. Isso fora há 30 anos.

 

Não posso adivinhar o futuro, Diana.

 

Mas conheces o passado, o suficiente para saberes o que se passava com Clódio e Milo. Explica-me. Se eu conseguisse compreender o que se está a passar, talvez não me sentisse tão preocupada.

 

Muito bem, Diana. Clódio e Milo: por onde começar? Bem, teremos de começar em César e Pompeu. Sabes quem são.

 

Claro que sei. Gaio Júlio César é o homem sob cujas ordens Meto serve, na Gália. É o maior general desde Alexandre, o Grande.

 

Eu sorri.

 

- E o que diz Meto. Não sei se Pompeu concordaria.

 

Pompeu expulsou os piratas dos mares e conquistou o Oriente. Eu acenei com a cabeça.

 

E deu a si próprio o cognome de Magno, o Grande, tal como Alexandre. Como te disse há bocado, por vezes, quando dois homens querem a mesma coisa...

 

- Ou seja, César e Pompeu querem ambos ser Alexandre, o Grande?

 

Sim, exactamente, já que pões as coisas dessa maneira. E não pode haver dois Alexandres ao mesmo tempo. O mundo não é suficientemente grande para isso.

 

Mas César e Pompeu não servem ambos o Senado e o povo de Roma?

 

Nominalmente, sim. É o Senado quem lhes dá as ordens e a licença para convocarem os seus exércitos, e entre eles conquistaram o mundo em nome do Senado. Mas, às vezes, os servos sobrepõem-se aos seus senhores. Tanto César como Pompeu se tornaram grandes de mais para o Senado. Até agora, a salvação da República tem sido o facto de os dois generais se controlarem um ao outro nenhum deles se pode tornar excessivamente poderoso, com receio de enervar o outro. E tem havido outros factores a pesar na balança.

 

Pompeu casou-se com a filha de César, não foi?

 

Sim: Júlia. Aparentemente, foi um genuíno casamento de amor. Essa ligação matrimonial fez abrandar as diferenças entre os dois homens. As relações familiares são tudo, especialmente para patrícios como César. E há outro factor: os dois rivais já foram três. Havia ainda Marco Crasso.

 

O homem que era proprietário de Meto quando ele era um rapazinho. Aquele que derrotou Espártaco e dominou a rebelião dos escravos.

 

Sim, mas apesar dessa vitória, Crasso nunca foi um grande general. Mas soube guindar-se à posição de homem mais rico do mundo. Crasso, César e Pompeu formaram aquilo a que se chamou o Triunvirato, e partilharam o poder entre si. A coisa pareceu funcionar durante algum tempo. Uma mesa com três pernas é sólida.

 

Mas uma mesa só com duas pernas...

 

Mais cedo ou mais tarde, acabará por cair. Na Primavera passada, Crasso foi morto na Partia, na extremidade oriental do mundo, numa tentativa de provar de uma vez por todas as suas capacidades militares conquistando algumas das terras que Alexandre também conquistara. Mas a cavalaria parta derrotou-o. Mataram-lhe o filho, juntamente com 40 000 soldados romanos. Cortaram a cabeça a Crasso e usaram-na como adereço de cena, para divertimento do rei. Fim de Crasso.

 

O que deixou o Triunvirato apenas com dois pés.

 

Mas, pelo menos, esses dois pés continuavam ligados pelo laço matrimonial existente entre Pompeu e César até Júlia morrer de parto. Agora, nada liga esses dois, e nada os impedirá de chegarem a vias de facto, mais cedo ou mais tarde. Roma sustém a respiração, como um ouriço-cacheiro observando duas águias a voar em círculo sobre a sua cabeça, preparadas para travarem combate e decidirem qual delas comerá o ouriço-cacheiro.

 

Acho que deves ser o primeiro homem que se lembra de comparar Roma a um ouriço-cacheiro, papá! Diana estudou as estrelas. Há alguma constelação do ouriço-cacheiro?

 

Não creio.

 

Muito bem, já me contaste a história de César e de Pompeu, o Grande. E quanto a Clódio e a Milo?

 

César e Pompeu são águias que voam nos céus, pairando sobre montanhas e mares. Aqui em baixo, em terreno sólido, têm sido Clódio e Milo a combater-se um ao outro pela própria Roma pela cidade, e não pelo império. Em vez de lutarem com exércitos, fazem-no com bandos. Em vez de disputarem serranias e mares, disputam as setes colinas e os mercados da beira-rio. Em vez de organizarem batalhas, encenam tumultos no Fórum. Em vez de fazerem campanha contra os Bárbaros, fazem campanha um contra o outro por diferentes cargos ameaçando e subornando os votantes, servindo de proxenetas aos seus eleitores, adiando eleições, recorrendo a todos os truques possíveis para levarem a melhor um sobre o outro.

 

Milo representa aqueles que se chamam a si próprios os Melhores, as famílias mais antigas, a tradição do dinheiro, os elementos mais conservadores do Senado. O género de pessoas a que Pompeu gosta de estar ligado, pelo que não é de admirar que, uma vez ou outra, Milo tenha funcionado mais ou menos como homem de mão de Pompeu, aqui em Roma.

 

Clódio é... era um radical, apesar do sangue patrício que lhe corria nas veias. Apelava à populaça. Quando estava no exército, organizou um levantamento de soldados comuns contra o comandante, que por acaso era o seu próprio cunhado. No ano em que os plebeus o elegeram tribuno, prometeu estabelecer uma distribuição gratuita de cereais, e cumpriu, anexando Chipre para financiar o esquema. Clódio estava sempre disponível para melhorar o destino dos soldados comuns de infantaria, dos camponeses e dos pobres da cidade e, em troca, eles estavam sempre disponíveis para votar nele quando era necessário. Umas vezes nas urnas, mais frequentemente com os punhos. A populaça adorava-o. E os Melhores odiavam-no.

 

De vez em quando, Clódio estava do mesmo lado que César, outro patrício com tendências populistas, por isso ajudavam-se mutuamente, em especial nos bastidores. As pessoas consideravam-nos aliados César e Clódio contra Pompeu e Milo. Os dois grandes homens moviam-se pelo mundo, e cada um deles estava aliado a um homem menor, com um bando à sua disposição aqui em Roma, disposto a lutar pelo controlo da cidade.

 

Como os heróis da Ilíada, disse Diana. Os deuses aliados aos mortais: um deus olhava por Heitor, outro deus estava do lado de Aquiles. E Heitor e Aquiles dispunham cada um de um exército.

 

Essas referências a Tróia, presumo que tenhas andado a ler Homero?

 

Tenho de treinar o Grego. A Mãe ajuda-me.

 

A tua mãe não sabe ler.

 

Pois não, mas fala Grego. Ajuda-me na pronúncia.

 

Estou a ver. Bem, uma pequena alusão literária fica sempre bem. Mas, se eu posso comparar Roma com um ouriço-cacheiro, acho que tu também podes comparar os nossos chefes de bandos locais com Heitor e Aquiles. De qualquer maneira, é adequado. Os deuses acabaram por deixar de beneficiar Heitor, não foi? E foi assim que a Casa de Príamo caiu, e com ela Tróia inteira. Os deuses também podem ser inconstantes, como qualquer aliado; no final, são tudo questões políticas. As alianças mudam como a areia debaixo dos nossos pés. A lealdade passa-nos por entre os dedos.

 

E um homem morre.

 

Sim. E depois, em geral, morrem mais homens.

 

E os edifícios ardem.

 

Observámos o Fórum em silêncio, durante algum tempo.

 

César e Pompeu, Clódio e Milo disse Diana. Mas afinal como é que chegámos a isto, papá? O Senado destruído pelas chamas...

 

Eu suspirei. Os jovens acham que tem de haver sempre uma explicação simples para as coisas.

 

Sabes como são organizadas as eleições, Diana, ou pelo menos como deviam ser: os cidadãos reúnem-se no Campo de Marte para votarem nos diversos magistrados que formam o governo. Há diversas votações, em dias separados, para os vários magistrados. A maioria das eleições tem lugar no Verão; o bom tempo ajuda às reuniões ao ar livre. Os votantes elegem dois cônsules, que são os homens com maior poder. Depois dos cônsules, vêm os pretores, e depois os edis e os questores, e por aí adiante, todos com diferentes poderes e deveres.

 

Termina o ano. No princípio de Janeiro, os magistrados eleitos assumem os seus cargos. Mantêm-nos durante um ano, e depois afastam-se ou vão para o governo das províncias estrangeiras. Assim tem sido, há centenas e centenas de anos, desde a queda dos reis e a fundação da República.

 

Ou, pelo menos, era assim que as coisas deviam funcionar. Mas Roma é hoje uma cidade sem magistrados. Estamos a meio de Janeiro e continuamos a não ter magistrados no governo da cidade.

 

E os tribunos? perguntou Diana.

 

Eu hesitei, fazendo tempo enquanto pensava na resposta. A constituição romana é tão complicada!

 

Tecnicamente, os tribunos não são magistrados. O tribunato foi estabelecido há muito tempo, numa altura em que apenas os patrícios podiam ser magistrados e os plebeus exigiam ter os seus próprios representantes. Hoje em dia, as magistraturas estão abertas a ambas as classes, mas os tribunos continuam a ter de ser plebeus. São dez por ano, escolhidos por uma assembleia especial, constituída exclusivamente por plebeus. Tendem a representar os interesses dos mais fracos, contra os mais fortes, dos pobres contra os ricos. O próprio Clódio foi tribuno foi nesse ano que conseguiu mandar Cícero para o exílio e estabelecer a distribuição gratuita de cereais.

 

Mas Clódio e a irmã são patrícios.

 

Ah, mas Clódio tratou disso; fez-se adoptar por um plebeu, praticamente com idade para ser seu filho, por forma a poder concorrer ao tribunato. Até os seus inimigos tiveram de admitir que foi engenhoso! É um cargo natural para um agitador de multidões. Atrevo-me a dizer que alguns dos nossos tribunos mais ambiciosos estão neste momento no Fórum, a arengar à multidão. De qualquer maneira, o ano passado foi constituída a habitual selecção de tribunos, sem perturbações. Mas o mesmo não se passou com os magistrados regulares.

 

O que foi que aconteceu?

 

O ano passado, Milo decidiu concorrer a cônsul. Clódio concorreu a pretor. Se ambos tivessem ganho, ter-se-iam cancelado mutuamente. Milo teria vetado os esquemas radicais de Clódio e Clódio teria impedido os esforços de Milo em benefício dos Melhores.

 

Ambos teriam sido um espinho cravado no flanco do outro disse Diana.

 

Exactamente. Por isso, ambos estavam decididos a impedir que o outro ganhasse. Mas ambos eram candidatos formidáveis, com fortes probabilidades de vencer. E assim, de cada vez que se marcavam eleições, surgia qualquer coisa que as adiava. Um augure lia os sinais no céu e dizia que os presságios eram maus e as eleições eram canceladas. Escolhia-se outro dia mas, na véspera das eleições, um membro do Senado invocava um ponto obscuro da Lei para mostrar que afinal não era permitido marcar eleições para esse dia. Grande discussão e finalmente, era escolhida uma nova data. Chegava o dia e os tumultos irrompiam no Campo de Marte. E assim sucessivamente. Nas eleições do ano passado, tinha havido irregularidades grosseiras votantes subornados ou intimidados, utilização de processos judiciais para impedir que os homens concorressem a cargos ou levassem os mandatos até ao fim, todo o género de manobras destinadas a enquinar e enviesar o processo. Mas nunca houve um ano como o último foi o caos, puro e simples. Uma república que nem sequer consegue organizar eleições é uma república que está muito doente.

 

Como que para pontuar esse sentimento, surgiu de repente uma nova bolsa de chamas fumegantes na Basílica Porciana. O fogo devia ter penetrado num armazém de óleo para lamparinas, incendiando-o. O abalo atingiu o Palatino momentos depois, como o som abafado de um tambor. À luz das chamas que se erguiam ao céu, vi dispersarem-se as figurinhas minúsculas dos assustados combatentes do fogo. Do lado dos Clodianos, ergueu-se ao ar um aplauso. A fila sinuosa de transportadores de baldes alterou o seu curso para dirigir a água à nova zona em chamas, que respondeu com fumos e línguas de fogo. Na escuridão que aumentava, a luta entre o fogo e aqueles que o combatiam começou a tomar formas fantásticas.

 

Por isso, não é de surpreender prossegui que Milo tenha morto Clódio. A única coisa menos surpreendente seria que Clódio tivesse morto Milo.

 

Diana acenou com a cabeça, pensativa.

 

Pouco depois, Betesda chamou-nos do jardim. Eram quase horas de jantar. Diana desceu para ir ajudar a mãe. Parecia satisfeita com as respostas que eu lhe tinha dado, embora eu estivesse perfeitamente consciente de que não tinha respondido às suas perguntas mais importantes.

 

Corremos perigo, papá?

 

Está para acontecer alguma coisa horrível?

 

A explosão de fogo que teve lugar no Fórum parecia ter provocado uma nova erupção de entusiasmo entre os Clodianos. Terminaram o banquete. Os oradores voltaram a subir à Rostra. A multidão entoou cânticos.

 

Iniciou-se uma estranha cerimónia. Os homens subiam em fila até às ruínas fumegantes do Senado, e voltavam a descer os degraus enegrecidos, erguendo ao alto tochas acesas. Passado algum tempo, percebi o que se estava a passar: estavam a acender as tochas no fogo purificador que tinha consumido os restos mortais de Clódio. Por piedade e devoção, levá-lo-iam para suas casas, para acenderem as suas próprias lareiras. Pelo menos foi o que eu pensei, até me aperceber de que a populaça estava a pensar em dar outra utilização ao fogo sagrado.

 

Dos degraus do Senado, os portadores de tochas dirigiram-se ao Palatino. Não era difícil seguir o seu progresso; moviam-se como rios ondulantes de chamas por entre os templos e através das praças pavimentadas. Regressavam pelos caminhos por onde tinham ido, subindo a rampa, outros desaparecendo da minha vista ao contornarem a orla da colina, tomando as ruas que os conduziriam ao flanco ocidental do Palatino. A luz das tochas que avançavam nessa direcção tinha um brilho tal, que eu conseguia ver as figuras de Cícero e Tiro recortadas em silhueta no telhado da casa de Cícero, de costas voltadas para mim e com as cabeças juntas.

 

Aqueles que subiram a Rampa voltaram para oeste, afastando-se de minha casa, e correndo em direcção à casa de Cícero. Sustive a respiração. Vi a silhueta de Cícero tornar-se rígida. Mas os portadores de tochas continuaram. Seguindo a rua e contornando a crista da colina, encontrar-se-iam com o resto da multidão, em determinado ponto do lado mais distante.

 

Quem tinha uma casa nessa zona?

 

Milo.

 

Com o mesmo fogo purificador que tinha transformado em cinzas os restos sangrentos de Clódio, tencionava a turba incendiar a casa de Milo, e Milo com ela, se se tivesse atrevido a regressar à cidade.

 

Diana chamou-me do jardim.

 

Papá! A mãe está a dizer que são horas de jantar.

 

Sim, Diana. Dá-me um momento.

 

A casa de Milo era longe, se medida pela distância a que se lança uma pedra; ou nem tanto, se medida pela velocidade das chamas que cavalgam a brisa fria, saltando de telhado em telhado. Se a multidão pegasse fogo à casa de Milo, o incêndio propagar-se-ia sem grandes dificuldades por todo o Palatino...

 

Talvez a decisão mais segura fosse levar a família para casa de Eco, no Esquilino. Mas, nesse caso, o que aconteceria se a minha casa ardesse? Quem combateria as chamas? E que razões tinha eu para pensar que poderíamos atravessar a Subura e chegar a casa de Eco em segurança numa noite como esta, com semelhante ralé à solta?

 

Papá, vais descer ou não? Estás a ver alguma coisa?

 

Alguns retardatários subiam agora a Rampa. As suas tochas estalavam no ar como flâmulas agitadas pelo vento, quando eles deram a curva apertada que os levava a casa de Cícero e mais para diante.

 

Vou já disse eu. Olhei pela última vez na direcção da casa de Milo. Pareceu-me ouvir sons de conflito, gritos, ruídos metálicos, mas os ecos eram confusos e distantes.

 

Papá?

 

Voltei-me e poisei o pé no degrau de cima do escadote. Foi uma refeição sombria. A comida não me soube a nada. Mais tarde, depois de Diana e Betesda se terem retirado para os quartos, voltei a subir ao telhado. Olhei na direcção da casa de Milo, mas não vi sinal de chamas. Ainda assim, quando decidi descer, chamei Belbo para me substituir. Fizemos turnos durante a noite, um a dormitar irregularmente debaixo de uma pilha de mantas num canapé instalado no jardim, o outro no telhado, vigiando o céu à procura de algum brilho cor de laranja e revelador. Mas, quando finalmente surgiu, o brilho vinha da direcção oposta. Era o Sol que nascia, e a minha casa continuava intacta.

 

Subi ao telhado para contemplar o panorama pela última vez. No ar frio e enublado da manhã, o Fórum parecia uma pintura manchada. Mal consegui distinguir os pormenores. Mas, quando inspirei profundamente, chegou até mim o odor da madeira ardida e da pedra queimada, o cheiro daquela que fora a Casa do Senado, transformada no crematório do derrotado campeão da populaça.

 

Expulsos com setas! disse Eco, esticando os braços por cima da cabeça e bocejando; dormira tão pouco como eu. O nevoeiro tinha levantado. O Sol brilhava no jardim. Estávamos sentados em cadeiras dobráveis diante da estátua de Minerva, a deixar-nos embeber pelo ténue calor do meio-dia.

 

Pelo menos é o que se diz nas ruas continuou. Os Clodianos não previam uma tão grande resistência. Calculo que estavam à espera de encontrar a casa de Milo mais ou menos deserta. Presumiram que podiam entrar por ali dentro, matar uns quantos escravos, pilhar aquilo, e depois pegar fogo à casa. Em vez disso, tinham à sua espera um destacamento de archeiros, postados no telhado. Aparentemente, eram atiradores experimentados. A batalha não durou muito. Houve algumas baixas, e os Clodianos voltaram costas e fugiram.

 

De qualquer modo, por essa altura já tinham feito o suficiente incendiaram o Senado, encheram-se até à boca, ouviram uma série de discursos. Seria de esperar que estivessem prontos a recolher.

 

Seria de esperar, realmente. Mas, segundo se diz, depois de ter sido expulsa de casa de Milo, a plebe abandonou o Palatino, correu pela Subura, passou os muros da cidade e foi até à necrópole.

 

À cidade dos mortos? À noite? Pensei que tivessem tanto medo dos lémures como das setas.

 

Não se aproximaram dos sepulcros nem dos fossos de enterramento. Foram à mata sagrada de Libitina.

 

A deusa dos mortos. Eco acenou com a cabeça.

 

Irromperam pelo templo dentro.

 

A meio da noite? Mas por quê? Certamente que o dever de registar Clódio entre os mortos compete à família, e não à plebe. E não é provável que estivessem interessados em arrendar objectos funerários já tinham cremado o corpo de Clódio, sem se importarem muito com pormenores religiosos.

 

Não teve nada a ver com isso, papá. Por qualquer razão, é no templo de Libitina que se guardam os fasces quando não há cônsules. Sabes, aqueles feixes de paus com um machado saliente, que os cônsules usam nas cerimónias e nas procissões.

 

Os objectos distintivos do seu cargo.

 

- Exactamente. Na ausência dos cônsules, os fasces têm de ficar arrumados em algum sítio, e parece que o local oficial é o Templo de Libitina. Por isso, a populaça irrompeu pelo templo, apoderou-se dos fasces, e regressou à cidade, para ir levá-los aos candidatos a cônsul que concorrem com Milo.

 

Públio Hipseu e Quinto Cipião.

 

Sim. Ambos apoiados por Clódio, evidentemente. A plebe vai direita a casa de Cipião e grita-lhe que saia à rua e venha tomar os fasces.

 

Esquecendo por completo as eleições? Tornando-se cônsul por nomeação da multidão.

 

Devia ser essa a ideia. Mas Cipião recusou-se a mostrar o rosto.

 

Provavelmente morto de medo, como qualquer habitante de Roma, a noite passada.

 

Depois aconteceu a mesma coisa em casa de Hipseu. Gritos de aclamação, mas o candidato manteve a porta fechada. Depois, alguém teve a ideia de ir oferecer os fasces a Pompeu.

 

A Pompeu! Mas ele nem sequer é elegível. Continua a ser pró-cônsul, encarregado do governo de Espanha. Comanda um exército; legalmente, nem sequer pode entrar dentro dos muros da cidade. É por isso que tem estado a viver na villa da Colina Pinciana.

 

A populaça não estava disposta a deixar-se deter por esse género de pormenores. Saíram pela Porta Fontinal e subiram a Via Flamínia em direcção à villa de Pompeu. Acenaram com as tochas e ergueram os fasces. Alguns apelavam a Pompeu para que se tornasse cônsul. Outros pediam-lhe que aceitasse ser ditador.

 

Eu abanei a cabeça.

 

Em nome do Hades, que ideia será a deles? Provavelmente, a maioria nem sequer era nascida da última vez que Roma teve um ditador.

 

Há muita gente nas ruas que acha que chegou o momento de voltarmos a ter um ditador, para pôr fim a todo este caos.

 

São loucos. Uma ditadura só contribuiria para piorar as coisas. Seja como for, não acredito que a ideia fosse dos chefes da populaça Clodiana. Clódio e Pompeu detestavam-se, e Pompeu nunca foi adepto das causas populistas.

 

Mas é popular entre as massas. O poderoso general, conquistador do Oriente. O Grande, Pompeu Magno.

 

Eu abanei a cabeça.

 

Mesmo assim, não me parece adequado. Não é provável que as pessoas que levaram a turba a pegar fogo ao Senado estejam interessados em que um reaccionário como Pompeu seja seu ditador. Talvez não fosse a mesma turba. Ou talvez ela tenha sido tomada, a certa altura, por infiltrados do campo de Pompeu.

 

Eco ergueu uma sobrancelha.

 

Achas então que o incidente poderá ter sido encenado pelo próprio Pompeu? Achas que ele quer ser ditador?

 

Parece-me mais provável que ele quisesse ter a oportunidade de recusar publicamente o pedido. Há muitos senadores, principalmente amigos de César, que acham que Pompeu poderá estar a conspirar para dar um golpe de Estado. Que melhor maneira de os sossegar do que recusar uma turba de cidadãos que fossem oferecer-lhe os fasces?

 

Ele não os recusou propriamente. À semelhança de Cipião e Hipseu, também não se mostrou.

 

Movi a cadeira um pouco, para acompanhar o Sol. À sombra, o ar estava frio.

 

E notícias de Milo?

 

Há quem pense que ele regressou discretamente à cidade a noite passada, e está escondido em casa. Dizem que foi por isso que, ontem à noite, os archeiros lá estavam para expulsar os clodianos, porque faziam parte da guarda pessoal de Milo. Mas também é possível que ele os tenha deixado a guardar a casa na sua ausência, especialmente se tinha planeado matar Clódio. Sabia que a turba havia de reagir com violência, por isso deixou a casa fortificada. Outros dizem que ele partiu para um exílio voluntário, em Massília ou noutro sítio qualquer.

 

É possível disse eu. Não é previsível que venha a ser eleito cônsul, depois de tudo o que aconteceu, se e quando o Estado conseguir finalmente organizar eleições. E, se não conseguir ser eleito cônsul, Milo está acabado. Gastou uma fortuna a organizar espectáculos e jogos, tentando impressionar os eleitores. Não dispõe dos recursos de César e Pompeu, ou mesmo de Clódio. Apostou tudo na corrida a cônsul, e agora perdeu subitamente qualquer possibilidade de vencer. O exílio poderá ter-lhe parecido a única solução honrosa.

 

Subitamente, ouvimos uma voz proveniente da direcção da estátua de Minerva.

 

Mas então, o que teria levado Milo a matar Clódio, se isso significava arruinar o seu futuro?

 

Olhei na direcção da estátua. A deusa virgem erguia-se diante de nós, pintada com cores tão vivas, que quase parecia respirar. Numa das mãos, segurava uma lança na vertical, e na outra um escudo. Tinha um mocho encarrapitado no ombro e uma serpente enrolada aos pés. Sob o sol do meio-dia, os seus olhos eram sombreados pela viseira do capacete emplumado. Por um instante, tive a impressão de que fora Minerva quem falara. Depois, Diana surgiu de trás da sombra do pórtico, e encostou-se ao pedestal, apoiando uma mão na serpente esculpida.

 

Boa pergunta, Diana disse eu. Por que havia Milo de assassinar Clódio, se sabia que provocaria tão grande fúria? Por que havia de matar o seu inimigo, se isso implicava matar também as suas hipóteses de ser eleito?

 

Talvez não tenha previsto esta reacção disse Eco. Ou talvez tenha morto Clódio por acaso. Ou em autodefesa.

 

Importam-se que me junte a vocês? disse Diana. Sem esperar pela resposta, puxou uma pequena cadeira dobrável e sentou-se. Estremeceu, apesar da capa. Está frio, aqui fora!

 

Deixa-te embeber pelo sol disse eu.

 

E ainda corre um terceiro boato disse Eco. Há quem diga que Milo conspira para organizar uma revolução, e que o assassínio de Clódio foi apenas o primeiro golpe. Dizem que ele tem armazenado armas por toda a cidade devia haver um arsenal de setas em sua casa ontem à noite, para impedir a aproximação daquela multidão e que neste momento percorre as zonas rurais de um lado para o outro, reunindo tropas para marchar sobre Roma.

 

Quer apresentar-se como um novo Catilina? Eu ergui uma sobrancelha.

 

Só que, desta vez, os revolucionários teriam do seu lado homens como Cícero, em vez de os terem contra si.

 

Cícero será o último homem a apoiar qualquer coisa que se assemelhe, ainda que remotamente, a uma revolução, mesmo que seja dirigida pelo seu amigo Milo. Mas quem sabe, hoje em dia? Acho que tudo é possível.

 

Oh, e há outra novidade, papá. Isto deve ter acontecido ontem, enquanto a populaça fazia aqueles tumultos no Fórum. Uma comissão de patrícios do Senado reuniu-se algures aqui no Palatino. Nomearam finalmente um inter-rei.

 

Diana pareceu confusa.

 

Vejamos se consigo explicar adequadamente do que se trata, Eco disse eu. Numa situação em que não há cônsules digamos, porque ambos morreram num campo de batalha...

 

Ou porque passou um ano inteiro sem haver eleições acrescentou Eco.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Nesse caso, não havendo magistrados à cabeça do Estado, o Senado nomeia um magistrado temporário chamado inter-rei, para dirigir o governo e organizar novas eleições. Cada inter-rei detém o cargo apenas durante cinco dias, e depois é nomeado um novo; dessa maneira, não ficam excessivamente agarrados ao poder. E assim sucessivamente, até um deles conseguir fazer eleger os novos cônsules. O Senado devia ter nomeado um inter-rei no começo do ano, uma vez que não havia novos cônsules quando os antigos terminaram o seu prazo no cargo, mas os amigos de Hipseu e de Cipião conseguiram adiar a nomeação, considerando que Milo estava na mó de cima e querendo por isso adiar as eleições um pouco mais. Sem inter-rei, não há eleições. Bem, talvez agora marquem finalmente as eleições e se ponha fim a esta conversa absurda de resolver a crise com um ditador.

 

Pelo menos durante os próximos cinco dias, isso não acontecerá disse Eco. Esqueceste-te de um pormenor técnico, papá: o primeiro inter-rei não pode organizar eleições. Elas só podem ser organizadas por um inter-rei posterior.

 

Não podem ser organizadas pelo primeiro inter-rei? disse eu.

 

Durante os primeiros cinco dias, ele limita-se a supervisionar uma espécie de período de acalmia.

 

Diana acenou com a cabeça.

 

A Casa do Senado deve precisar pelo menos desse tempo para arrefecer.

 

O primeiro inter-rei não tinha autoridade para convocar eleições, como Eco salientara inteligentemente. Mas os apoiantes de Cipião e de Hipseu, apercebendo-se de que a candidatura de Milo dera o que tinha a dar, decidiram que chegara a hora de organizar as eleições. No próprio momento em que Eco e eu conversávamos, cercavam eles a casa de Marco Lépido, o recém-nomeado inter-rei, no Palatino. A mulher de Lépido, uma senhora de carácter irrepreensível chamada Cornélia, estava ocupada a instalar no átrio os teares cerimoniais, respeitando um antigo costume relativo às mulheres dos inter-reis. (Não se conhece a origem deste costume; talvez esteja relacionado com o papel do inter-rei na tecedura dos fios do futuro da República.)

 

Quando Lépido apareceu à porta de sua casa, os chefes da multidão exigiram que ele convocasse imediatamente as eleições. Ele explicou-lhes que lhe era impossível fazê-lo. Eles repetiram as suas exigências. Lépido, que é um patrício muito convencional, explicou-lhes exactamente o que podiam fazer com aquela ideia radical, em termos que lhes fizeram arder as orelhas. Depois, fechou-lhes a porta na cara.

 

A multidão não irrompeu num tumulto, mas apertou o cordão à volta da casa, impedindo quem quer que fosse de sair ou entrar. Fizeram fogueiras na rua, para se aquecerem. Para se divertirem, passaram à volta odres de vinho, e entoaram os seus cantos eleitorais, muitos dos quais eram poemas obscenos acerca de Fausta, a mulher de Milo, uma mulher notória pela sua infidelidade. Quando o vinho tornou excessivamente complicada a recitação das convolutas letras, recorreram a um canto mais simples: Eleições já! Eleições já!

 

O inter-rei, que era ostensivamente a cabeça do Estado romano (pelo menos durante os próximos dias), fora feito prisioneiro na sua própria casa.

 

Evidentemente, todos os homens são prisioneiros em sua casa quando as ruas são inseguras e as atrocidades têm lugar à luz do dia. O que pode um homem fazer? Fechar-se à chave como um surdo-mudo cobarde? Ou avançar para a luta, procurando maneira de pôr fim à violência que o rodeia?

 

Eu já assistira a tempos piores em Roma à guerra civil que conduzira à ditadura de Sula, por exemplo, mas nessa altura era jovem. Vivia essas crises seguindo o instinto dos jovens, que preferem a aventura à sobrevivência. Olhando agora para trás, sinto-me chocado com a pouca importância que parecia conferir aos riscos que corria. Não era especialmente corajoso ou louco, era simplesmente novo.

 

Agora, deixara de ser novo. Era bastante mais consciente e mais respeitador da morte e da dor, que vira e experienciara em razoável quantidade nos anos intermédios. A cada ano que passava, o tecido da existência parecia-me sempre mais frágil. A vida parecia-me mais preciosa. Estava menos disposto a correr riscos, com a minha própria vida ou com a vida dos outros.

 

Mas vivia em tempos que exigiam que corresse riscos. A ideia de me fechar em casa e recusar toda e qualquer responsabilidade não me proporcionava qualquer satisfação. À semelhança do que aconteceu com muitos outros habitantes de Roma naquele Inverno, o tumulto nas ruas provocou um tumulto dentro do meu coração.

 

A República estava muito doente, talvez estivesse mesmo doente de morte. Os seus violentos espasmos constituíam um espectáculo que eu tinha dificuldade em contemplar, mas percebi que era ainda mais difícil desviar os olhos.

 

Alguns anos antes, tentara afastar-me completamente da arena da política. Farto de traições e falsas promessas, da vaidade pomposa dos políticos e credulidade ingénua dos seus apoiantes, da arrogância vingativa dos vencedores e do sórdido rebaixamento dos vencidos, declarei que não aguentava mais. Mudei-me para uma quinta na Etrúria, decidido a voltar as costas a Roma.

 

A tentativa não me trouxe qualquer vantagem. Envolvi-me em intrigas políticas mais profundamente do que teria alguma vez imaginado. Parecia um navegador aflito, que se esforça desesperadamente por evitar um remoinho, acabando por perceber que, ao fazê-lo, se meteu por um caminho que o leva directamente ao vórtice. O episódio de Catilina e do seu enigma fizeram-me reconhecer a natureza inexorável do Destino.

 

Roma é o meu destino. E o destino de Roma estava, uma vez mais, nas mãos dos seus políticos.

 

Por isso, retrospectivamente, justifico perante mim próprio a reacção que tive quando, nesse mesmo dia, depois de Eco ter regressado a casa, recebi uma visita. Tratava-se de um conhecido de muito longa data.

 

De tão longa data que, ao olhar discretamente pelo olho de segurança da porta da frente, Belbo não o reconheceu. Eu tinha dito a Belbo que não deixasse entrar ninguém que não conhecesse de vista, por isso ele foi chamar-me ao escritório para que fosse eu a decidir.

 

Eu vi um homem que já ultrapassara a meia-idade, de altura mediana, um rosto belo e aberto, e um toque de cinzento nas têmporas. Tinha os lábios bem moldados, o nariz direito e o cabelo encaracolado típico dos Gregos. Apresentava-se com uma auto-importância quase arrogante, como se fosse um filósofo ou um erudito. O jovem escravo que eu conhecera há quase 30 anos transformara-se num homem de aspecto distinto. Há muito tempo que eu não o via tão ao pé. Normalmente, quando o via, era à distância, como acontecera na noite anterior, em que ele aproximava a cabeça da de Cícero, no alto do telhado da casa deste. Era quase a última pessoa que eu estava à espera de que viesse visitar-me.

 

Fechei o olho de segurança e fiz sinal a Belbo para abrir a porta.

 

Tiro! exclamei.

 

Gordiano. Inclinou a cabeça e fez um vago sorriso. Atrás dele, estava parada uma companhia de guarda-costas. Contei pelo menos dez homens, o que me pareceu um pouco excessivo para quem percorrera apenas a curta distância que nos separava da casa de Cícero. Por outro lado, quem quer que saísse da casa de Cícero era um alvo provável da turba Clodiana. Com um gesto de mão, ele indicou-lhes que se deixassem ficar lá fora. Belbo fechou a porta atrás dele.

 

Levei-o para o meu escritório e indiquei-lhe que se sentasse na cadeira colocada ao lado da braseira acesa. Mas ele preferiu dar uma lenta volta à sala, examinando os rolos de pergaminho colocados nos respectivos orifícios e a pintura decorativa de um jardim numa das paredes.

 

Vejo que prosperaste, Gordiano.

 

Em alguns aspectos.

 

Lembro-me da tua antiga casa, no Esquilino. Era um sítio enorme e desconexo, com o jardim abandonado.

 

Pertence agora ao meu filho Eco. A mulher dele recuperou o jardim, que está imaculado.

 

O tempo passa tão depressa! Quem diria que alguma vez terias um filho com idade suficiente para ter a sua própria casa?

 

E que já fez de mim avô.

 

É o que se diz.

 

Diz-se?

 

Os cantos da sua boca vacilaram num sorriso.

 

Continuas a ser mencionado, de tempos a tempos, em casa de Cícero, Gordiano.

 

Mas não com demasiada apreciação, calculo.

 

Oh, talvez te surpreendesses.

 

Certamente que ficaria surpreendido se Cícero tivesse coisas boas a dizer a meu respeito. Seria de esperar que o julgamento de Marco Célio tivesse sido a última gota.

 

Tiro encolheu os ombros.

 

Cícero não tem qualquer má vontade contra ti. Não é um homem que guarde rancores.

 

Ah!

 

Tiro inclinou a cabeça pensativamente.

 

É um facto que Cícero pode ser um inimigo formidável, daqueles que se tornam seus inimigos pelo seu rancor e as suas fraudes, ou pelo perigo que constituem para a República. Mas isso nunca foi o teu caso, Gordiano. Cícero compreende que tu és um homem complicado, que ele nem sempre tem facilidade em compreender, mas que no fundo és um homem honesto e honrado. Honrado. Honesto repetiu, acentuando as palavras. Tal como o próprio Cícero. Se os dois estiveram ocasionalmente em conflito, foi porque vêem as coisas de maneira diferente. Não se pode esperar que os homens honrados estejam sempre de acordo.

 

Eu suspirei. Tiro continuava obviamente tão dedicado a Cícero como sempre fora. Seria inútil apontar-lhe os defeitos de carácter do seu senhor o seu comportamento totalmente desprovido de escrúpulos como advogado, a sua pomposa auto-importância, o seu total desprezo pela verdade (a não ser que, por acaso, servisse os seus objectivos), a longa cadeia de vítimas que ele tinha destruído para defender os privilégios e o poder dos Melhores.

 

Tens a certeza de que não te queres sentar, Tiro? Belbo pode ficar com a tua capa; parece-me bastante pesada, mesmo para este tempo.

 

Vou sentar-me, sim. Ultimamente, canso-me com muita facilidade. E sim, acho que posso dispensar a capa. A sala parece-me estar suficientemente quente. Tenho de ter cuidado para não apanhar uma constipação...

 

Nem ouvi bem o que ele estava a dizer porque, quando afastou a pesada capa dos ombros, vi o que ele trazia vestido por baixo e não era uma túnica de escravo, mas uma toga. Tiro estava vestido como um cidadão! Olhei para a sua mão e vi que, evidentemente, ele usava o anel de ferro dos cidadãos, tal como eu.

 

Mas, Tiro, quando foi que isto aconteceu?

 

O quê? Ele detectou a direcção do meu olhar e sorriu. Agitou os dedos, como se ainda não estivesse bem habituado ao anel. Oh, isto. Sim, foi uma mudança de estatuto. Pouco mais do que uma formalidade, em muitos aspectos. Faço o mesmo trabalho, sirvo o mesmo homem. Agora, tenho mais facilidade em ter propriedades, evidentemente...

 

Tiro, deixaste de ser escravo! És livre!

 

Pois foi. Parecia quase embaraçado.

 

Bem, Cícero demorou o seu tempo. Tu e eu falámos dessa possibilidade quando nos conhecemos. Lembras-te?

 

Nem por isso. Corou ligeiramente, e eu apercebi-me como estivera pálido, anteriormente.

 

O que foi que acabaste de dizer que não podes apanhar uma constipação e que te cansas facilmente? Passa-se alguma coisa, Tiro?

 

Ele abanou a cabeça.

 

Claro que não. Já não.

 

Eu olhei para ele cepticamente.

 

Estive doente admitiu ele, mas isso foi no ano passado. Estive muito doente, para ser franco. A minha saúde tem sido... um tanto inconstante... nos últimos anos. Sorriu. Suponho que essa foi uma das razões por que Cícero me libertou, o ano passado; nessa altura, parecia um caso de agora ou nunca. Mas já estou muito melhor. Podia ter recuperado mais depressa, mas pelo menos já não ando de bengala. Os médicos dizem que não há qualquer razão para não recuperar por completo as minhas forças e voltar a ser tão saudável como antigamente.

 

Olhei para ele com novos olhos. Aquilo que me parecera arrogância devia-se apenas à magreza do seu rosto. Fiz mentalmente as contas e calculei que ele devia andar pelos 50 anos. Subitamente, parecia ter a idade que tinha; havia entre os abundantes caracóis mais cabelos cinzentos do que me parecera, e tinha uma pequena zona de calvície no alto da cabeça. Nos seus olhos, brilhava ainda uma espécie de entusiasmo infantil, mas a luz da braseira captava igualmente o brilho assustado de um homem que conhecera uma doença grave. No entanto, ele também me parecia um homem à-vontade consigo próprio e com o lugar que ocupava no mundo; as suas maneiras francas e simples exsudavam um ar de sofisticação e autocontentamento. E por que não? O jovem escravo que me tinha vindo bater à porta há já tantos anos, na qualidade de mensageiro de um senhor obscuro, era actualmente um cidadão livre e a inestimável mão direita do mais famoso orador vivo. Tiro conhecera grandes homens e viajara pelo mundo ao lado de Cícero. Ajudara a gerir o governo quando Cícero era cônsul. Era famoso por direito próprio, já que tinha inventado uma forma de estenografia através da qual um copista podia recolher um discurso de forma literal, à velocidade a que ele era pronunciado; todos os funcionários do Senado tinham agora de aprender o método tironiano.

 

Porque vieste visitar-me, Tiro?

 

Vim em nome de Cícero, evidentemente.

 

Ele podia ter vindo pessoalmente.

 

Cícero evita sair de casa disse ele, insistindo muito ligeiramente nas últimas palavras.

 

Eu também. O que pode ele querer de mim?

 

Ele próprio to dirá.

 

Não pode passar-lhe pela cabeça que eu concordarei em ajudá-lo.

 

Mas tu não sabes o que ele pretende.

 

Isso não importa. Há anos que lhe paguei o favor que lhe devia por me ter ajudado a ficar com a propriedade etrusca, e com juros. Desde então deixa-me ser perfeitamente honesto contigo, Tiro, desde então, a cada ano que passa, Cícero foi caindo sempre mais baixo na minha estima, não que eu julgue que a minha estima tem qualquer significado para Cícero. Mas eu tenho os meus padrões, por muito humildes que eles possam ser. Não tenciono sair a correr só porque Cícero está convencido que pode utilizar-me uma vez mais.

 

Tiro manteve uma expressão impassível, o que me desapontou. Acho que esperava que ele estremecesse, ou suspirasse, ou abanasse a cabeça. Mas ele limitou-se a replicar, numa voz desapaixonada:

 

Estás enganado, evidentemente, na opinião que tens de Cícero. Julga-lo mal. Muitos homens o fazem. Isso sempre me confundiu. Mas eu trabalho com ele todos os dias. Compreendo todos os matizes do seu pensamento. Os outros não têm esse privilégio. Olhou para mim firmemente. Vamos, então?

 

Por pouco não me ri. Tiro, ouviste o que eu disse? A sua expressão tornou-se mais severa.

 

Vi-te ontem, Gordiano, a observar os incêndios do Fórum do telhado de tua casa. O que pensaste de tudo aquilo? Ficaste aterrado, naturalmente. Mas nem toda a gente ficou aterrada. Aqueles que comandaram a destruição estavam deliciados. Diz o que entenderes sobre Cícero mas, quando se trata de determinadas questões fundamentais, tu e ele estão do mesmo lado. Sabias que, ontem à noite, tentaram incendiar a casa de Milo?

 

Ouvi dizer.

 

Esse incêndio podia ter-se espalhado por todo o Palatino. Esta sala onde estamos sentados podia ser, neste momento, uma pilha de pedras fumegantes. Tiveste essa noção, não tiveste?

 

Olhei para ele por momentos, e suspirei.

 

Tu já não és mesmo um escravo, pois não, Tiro? Falas como um homem livre. Ameaças com as palavras como um verdadeiro Romano.

 

O seu rosto tornou-se rígido. Estava a tentar não sorrir.

 

Eu sou um Romano, em todos os sentidos da palavra. Tanto como tu, Gordiano.

 

Tanto como Cícero?

 

Ele riu-se.

 

Talvez não.

 

O que quer ele de mim?

 

Há um incêndio, Gordiano. Não, não é o incêndio do Fórum, é um incêndio maior, que ameaça consumir tudo aquilo por que vale a pena lutar. Cícero quer que tu ajudes a passar os baldes de água, por assim dizer. Inclinou-se na minha direcção com uma expressão séria. Há homens que provocam incêndios. Há outros homens que os apagam. Acho que ambos sabemos a qual dos dois tipos tu pertences. Importa realmente se gostas ou não do cidadão que está ao teu lado na fila de transmissão dos baldes? O objectivo é apagar o incêndio, Gordiano. Vem, deixa que Cícero fale contigo.

 

Eu deixei-me estar sentado por momentos, observando as chamas da braseira. Fiz um sinal de mão a Belbo, que ficara de pé, silenciosamente, no canto do escritório.

 

Vai buscar a capa de Tiro disse eu. As chamas dançavam e agitavam-se. E traz também uma para mim. Diz a Betesda que vou sair um bocado.

 

Tiro sorriu.

 

O passeio foi breve. O ar era estimulante. Os guarda-costas talvez fossem desnecessários; não nos cruzámos com uma única pessoa na rua. Todas as casas por que passámos estavam bem fechadas.

 

Eu nunca tinha estado dentro da casa reconstruída de Cícero. Alguns anos antes, quando Clódio tinha conseguido que Cícero fosse exilado de Roma, a turba Clodiana celebrara o seu triunfo pegando fogo à casa de Cícero; eu tinha observado o incêndio da varanda de minha casa. Quando o Senado voltou a chamar Cícero do exílio, 16 meses mais tarde, ele reconstruiu-a. Clódio perseguiu-o passo-a-passo, bloqueando-lhe o progresso por meio de manobras legais. A propriedade tinha sido confiscada pelo Estado e consagrada a uma utilização religiosa, afirmou. Cícero retorquiu que a confiscação fora ilegal e que os seus direitos como cidadão romano tinham sido grosseiramente violados. Foi uma das trocas de palavras mais vivas e desagradáveis que tiveram lugar entre ambos.

 

Cícero ganhou o caso. A casa foi reconstruída. Bem, pensei quando chegámos, Clódio não mais voltaria a ameaçá-la.

 

Tiro conduziu-me através da entrada, em direcção ao átrio. O compartimento estava gelado. Tinham-se formado nuvens altas, que bloqueavam a passagem do Sol.

 

Espera aqui um momento disse-me Tiro, e retirou-se pela minha esquerda.

 

Passada apenas uma breve pausa, ouvi vozes provenientes do corredor situado à minha direita.

 

A primeira voz era abafada e indistinta, mas reconheci imediatamente a segunda. Era Cícero.

 

Bem dizia ele, e se dissermos às pessoas que foi Clódio quem encenou a emboscada, e não o contrário?

 

Também reconheci a terceira voz. Era a voz do belo e fogoso protegido de Cícero, Marco Célio.

 

Bolas de Júpiter! Ninguém acreditaria nisso, dadas as circunstâncias. Talvez seja melhor dizermos que...

 

Os três homens entraram no átrio. Célio viu-me e calou-se.

 

Nesse momento, Tiro regressou da direcção oposta. Apercebeu-se da situação, e mostrou-se pesaroso. Cícero lançou-lhe um olhar breve e cortante, de censura por ter deixado uma visita sozinha. Teria eu ouvido alguma coisa que não se destinava aos meus ouvidos?

 

Gordiano concordou em vir visitar-te disse Tiro rapidamente. Fui ao escritório anunciá-lo, mas...

 

Mas eu não estava lá disse Cícero. A sua rica entoação oratória encheu o átrio. Um sorriso untuoso iluminou-lhe o rosto carnudo.

 

Costumo pensar melhor a andar. E, quanto mais expansivos são os pensamentos, maior é o circuito o escritório não era suficientemente grande! Andámos quilómetro e meio desde que tu saíste, Tiro, dando voltas à casa. Bem, Gordiano... Avançou para mim. É uma honra voltar a receber-te em minha casa. Conheces Marco Célio, evidentemente.

 

Conhecia, de facto. Célio cruzou os braços e lançou-me um olhar sardónico. Era uma criatura inquieta, e sempre assim fora. Começara por ser aluno de Cícero. Depois aliara-se, ou aparentara fazê-lo, ao arqui-inimigo de Cícero, Catilina; foi nessa altura que o conheci. Acabara por derivar para o campo de Clódio e para os braços alguns chamavam-lhe as garras de Clódia. Ao distanciar-se deles tivera algumas dificuldades, um julgamento por assassínio no qual eu ajudara a acusação a reunir provas. Fora salvo por Cícero, que acorrera em defesa do seu errático aluno com uma oratória arrebatada. Agora, segundo todas as aparências, Célio voltara a ser o fiel protegido. Não aparentava qualquer má vontade contra mim por

ter como aliado o outro lado durante o julgamento; a sua ambição era do género desbragado, que não tem lugar para rancores. Era famoso pela sua língua afiada, mas igualmente famoso pelo seu encanto e a sua extraordinária beleza. Presentemente, ocupava um cargo de tribuno, o que significava que era um dos poucos funcionários do Estado actualmente operativos.

 

Mas não tenho a certeza de que conheças o meu outro amigo disse Cícero. Fez um gesto na direcção do terceiro homem, que se mantinha um pouco afastado, olhando para mim com um ar desconfiado. Era um sujeito baixo e entroncado, com aquele género de corpo musculado em forma de barril que ainda parece mais corpulento dentro de uma toga. Tinha os dedos curtos e embotados, o mesmo se podendo dizer acerca do nariz. A sua cara era redonda, com uma boca pequena e olhos profundos, sob umas sobrancelhas hirsutas. A sombra da sua barba era tão acentuada, que conferia ao seu queixo um ar escuro e untuoso. Não era de espantar que fosse o inimigo natural de Clódio, o ágil Clódio, com os seus membros compridos e a sua elegância natural. Fisicamente, era difícil dois homens serem mais claramente o oposto um do outro.

 

Afinal, Milo sempre tinha regressado à cidade.

 

Claro que reconheço Tito Ânio Milo disse eu. Mas tens razão, Cícero. Nunca fomos apresentados.

 

Bem, já não era sem tempo. Milo, este é Gordiano, chamado o Descobridor, um homem de grandes talentos. Conhecemo-nos há muitos anos, quando eu aceitei o meu primeiro caso de assassínio. Leste a minha defesa de Sexto Róscio, evidentemente; toda a gente leu. Mas não são muitos os que sabem do papel que Gordiano desempenhou no caso. Foi há trinta anos!

 

Desde essa altura, os nossos caminhos têm-se cruzado ocasionalmente disse eu com frieza.

 

E a nossa relação sempre foi... O grande orador procurou a palavra mais adequada.

 

Interessante? sugeri eu.

 

Exactamente. Anda, vamos até ao escritório. Este átrio está gelado.

 

Retirámo-nos para um pequeno compartimento bem aquecido situado nas traseiras da casa. O percurso pelo corredor e através do jardim permitiu-me observar o ambiente. O mobiliário, as tapeçarias, as pinturas e os mosaicos eram todos da melhor qualidade; eu nunca vira nada tão impressionante, nem em casa de Clódio. A escala da casa de Cícero era mais modesta, é certo, mas isso tornava-a, em certo sentido, mais agradável. Cícero sempre tivera um gosto impecável.

 

E sempre tivera dinheiro suficiente para sustentar os seus gostos, mas agora parecia ter prosperado muito para além da simples manutenção das aparências. É necessário ser-se verdadeiramente rico para se possuir uma fonte decorada com mosaicos cobertos a ouro, ou para se ter na parede do escritório um quadro assinado por laia de Cízico, ou para se exibir  numa mesa coberta por uma espessa placa de vidro perfeitamente transparente (que, só por si, já devia ter custado uma soma simpática) um fragmento de um rolo original de pergaminho de um diálogo com correcções autografadas de Platão. A Lei romana proíbe aos advogados receberem honorários pelos seus serviços; todos os casos têm de ser pró bono. Apesar disso, porém, os advogados bem sucedidos conseguem enriquecer. Em vez de o serem com meros sacos de prata, são recompensados com presentes generosos ou oportunidades exclusivas de investimento. Cícero era um dos mais competentes advogados de Roma, e sempre soubera cultivar os Melhores. A sua casa estava cheia de coisas belas, raras e dispendiosas. E eu só podia imaginar os tesouros que tinham sido destruídos ou saqueados quando a populaça de Clódio lhe incendiara a casa.

 

Por indicação de Cícero, um escravo aproximou um círculo de cadeiras da braseira acesa. Antes de nos sentarmos, outro escravo trouxe umas taças de prata e um jarro de vinho aquecido. Em vez de rondar por ali, Tiro juntou-se a nós. Era agora um cidadão, um confederado de Cícero, e já não seu escravo. Apesar disso, reparei que mantinha no regaço uma tabuinha de cera e um estilete, para tirar notas.

 

Cícero beberricou graciosamente do seu copo. Tiro imitou-o. O vinho estava bem aguado; Cícero não era homem que se permitisse prazeres fortes. O mesmo não se poderia dizer de Marco Célio, ou pelo menos do Célio que eu tinha conhecido antes de Cícero o ter reformado. Ele percebeu que eu estava a observá-lo e seguiu ostensivamente o exemplo do seu mentor, apertando os lábios e mal tocando com eles na borda do cálice. A expressão conferia-lhe um ar tão afectado, que eu decidi que ele estava a troçar deliberadamente de Cícero.

 

Milo não fez qualquer esforço para ser delicado. Esvaziou o copo de uma vez só, e estendeu-o ao escravo, pedindo mais.

 

Gordiano, terá sido surpresa que li no teu rosto quando reconheceste Milo? Cícero inclinou a cabeça. Não estavas à espera de o encontrar aqui, pois não?

 

Francamente, estava convencido de que, por esta altura, ele iria a caminho de Massília.

 

Ah! Que tinha virado as costas e fugido como um coelho? Não conheces o meu amigo Milo, se pensas que ele é esse género de cobarde.

 

Não estou certo de que se trate de uma questão de cobardia; seria mais prudência. De qualquer maneira, o boato da sua fuga para Massília está bem difundido.

 

Milo franziu o sobrolho, mas nada disse.

 

Estás a ver, eu bem te disse comentou Célio, participando finalmente na conversa. Gordiano e o filho ouvem tudo. Aqueles quatro ouvidos apanham todos os sussurros que atravessam Roma.

 

Cícero acenou com a cabeça.

 

Sim, continua, Gordiano. Que mais dizem as pessoas?

 

Alguns dizem que Milo regressou sorrateiramente à cidade a noite passada e se barricou em sua casa, e que estava lá quando a populaça quis incendiá-la.

 

Quer dizer que acham que ele não é um cobarde, mas um louco! Não, Milo passou a noite cá em casa, debaixo do meu tecto, a salvo. Que mais se diz?

 

Que ele planeia incitar a uma revolução. Começou por assassinar Clódio e está neste momento a reunir um exército para marchar sobre Roma. Os confederados de que dispõe dentro de muros juntaram armas e material incendiário por toda a cidade...

 

Bem, podes verificar pessoalmente que esse boato é absurdo! Milo encontra-se aqui, em minha casa, e não anda por aí a provocar tumultos. A minha casa cheira a piche e a enxofre? Claro que não. Com que então, uma revolução! Não existe em Roma homem mais dedicado à preservação da República do que Tito Ânio Milo, nem sequer eu próprio! Quando penso nos insultos de que foi alvo, e nos riscos terríveis que correu...

 

Esses sacrifícios pareciam pesar sobre Milo, que terminou o segundo copo de vinho e olhou para mim com uma expressão sombria.

 

Eu olhei à volta da sala, para os muitos rolos de pergaminho metidos nos respectivos orifícios, para a pintura de laia, uma cena da Odisseia, para o fragmento de Platão metido debaixo do vidro.

 

Tu também corres um risco terrível, Cícero. Se a multidão soubesse que Milo estava aqui...

 

Sim, sei o que estás a pensar. Esta casa já uma vez foi incendiada. Mas isso foi porque Clódio tinha conseguido expulsar-me da cidade. Nunca teria acontecido se eu cá estivesse para o impedir. E não voltará a acontecer, desde que eu esteja presente para defender até ao último suspiro aquilo que me pertence. E o mesmo pode acontecer-te a ti, Gordiano, antes de esta crise terminar. Tu também possuis actualmente uma excelente casa. Tens uma família a proteger. Pensa nisso, e depois pensa naquela multidão ululante que vimos ontem, a correr de um lado para o outro como um bando de cães, lá em baixo no Fórum. Sabes como foi que Sexto Clélio acendeu a fogueira que incendiou o Senado? Esmagou as cadeiras dos cônsules e do tribunal sagrado e utilizou essa madeira para construir uma pira funerária para o monstro. Rasgou rolos de pergaminhos para ajudar a pegar. Foi uma profanação inominável! Tal como acontecia com o seu chefe morto, estes libertos inúteis e estes pedintes não têm ponta de respeito pela majestade do Senado, nem pela simples decência. São uma ameaça para qualquer homem que se lhes atravesse no caminho.

 

Cícero encostou-se e inspirou fundo.

 

O importante é que os clodianos foram suficientemente loucos para pegar fogo ao Senado. Até esse momento, estavam em vantagem as pessoas estalavam a língua por causa do pobre e infeliz Clódio. Foi um golpe de génio, transportar o seu corpo em parada pelas ruas, despido e com as feridas à mostra. Como advogado, não posso deixar de admirar o panache. Se eu pudesse arrastar um cadáver malcheiroso para tribunal e metê-lo por baixo dos narizes dos membros do júri, acredita em mim, nem pensava duas vezes! O choque e a simpatia são dois terços da vitória. Mas eles perderam essa vantagem.

 

Célio fez girar a taça de vinho.

 

Usaram o calor que irradiava de Milo para acenderem uma fogueira debaixo dos próprios pés.

 

Cícero ergueu o copo na direcção de Célio.

 

Precisamente! Oh, Célio, que frase requintada! Uma metáfora que também é literalmente verdadeira. "Usaram o calor que irradiava de Milo para acenderem uma fogueira debaixo dos próprios pés." Bravo!

 

Até Milo sorriu, embora de má vontade, erguendo o copo. Afinal, também era um orador, e sabia apreciar a retórica.

 

Dizes que Milo passou a noite aqui em casa? perguntei eu. Cícero acenou com a cabeça.

 

Sim. Enquanto os clodianos transportavam o corpo nu de Clódio em parada pelo Palatino, Milo esperou no exterior da cidade. Não porque tivesse medo de regressar, atenção, mas por cautela, por sensatez, estava a testar os ventos, como um general que verifica a inclinação do terreno antes de avançar. Quando eu vi que aqueles loucos dos clodianos estavam a pegar fogo a tudo, mandei um mensageiro informá-lo. Se ele quisesse regressar à cidade, devia fazê-lo sub-repticiamente, disse-lhe, e manter-se afastado de sua casa. Ofereci-lhe a minha hospitalidade, mas a decisão de regressar foi sua. Não o aconselhei num sentido nem no outro. Milo avaliou o caminho que se lhe oferecia, e decidiu tomá-lo. Tito Ânio Milo, não conheço homem mais corajoso do que tu. Cícero olhou para o alvo das suas palavras com uma intensidade que teria feito corar um homem mais modesto, mas a única reacção de Milo foi apertar o maxilar e erguer um pouco mais a cabeça. As suas feições não me pareciam, sequer, remotamente heróicas, como estamos habituados a ver nos heróis retratados em mármore ou bronze, mas ele sabia assumir uma pose de desafio.

 

Nunca teria abandonado Roma no seu momento de necessidade disse ele, com um requebro retórico na voz. Regressei para salvá-la!

 

Excelente! disse Célio. Tiro, copia o que ele disse, por favor. Não podemos esquecer-nos de usar esta frase.

 

Pareceu-me que ele estava a ser indelicado ou brincalhão, mas Milo não se ofendeu. Em vez disso, inclinou-se na direcção de Célio com uma expressão intrigada.

 

"Achas que seria melhor: Nunca abandonei Roma, nem um só dia..."

 

Não, não, estava perfeito da primeira vez. Tiro, apanhaste a frase? Tiro estava a escrever e acenou com a cabeça.

 

Apercebi-me de que a discussão estava a ter lugar a mais do que um nível, e com mais do que um objectivo.

 

Estás a escrever um discurso, não estás? perguntei.

 

Por enquanto não disse Cícero. Ainda estamos a trabalhar as ideias básicas. Tu podes ajudar-nos enormemente, Gordiano.

 

Não tenho a certeza de estar interessado em fazê-lo.

 

Acho que estás disse ele, lançando-me um olhar que devia ser familiar a Célio e a todos os outros que tinham sido seus alunos e seus protegidos. Era um olhar que dizia: Não me desiludas. Olha para nós aqui trancados no meu escritório, impossibilitados de sair sem a protecção de um destacamento de gladiadores. Estamos cegos e surdos. Dispomos de um coração feroz e corajoso Milo. De uma língua eloquente Célio. De uma mão capaz de escrever Tiro. E, atrevo-me a dizer, de uma cabeça fria eu próprio. Mas não dispomos de olhos nem de ouvidos. É uma tarefa delicada, avaliar a disposição das pessoas nas ruas. É preciso observar. É preciso ouvir. Um cálculo mal-feito, em momentos de crise como o presente, pode ser...

 

Não pronunciou a palavra desastroso. Falar de desastres seria um convite a maus presságios. Além disso, todos os presentes compreendiam exactamente o que ele queria dizer. Cícero sabia perfeitamente, por amarga experiência, o que podia acontecer quando a turba se voltava contra um homem.

 

Só pretendo conhecer a tua opinião sobre umas quantas coisas, Gordiano. Sobre a corrida ao consulado, por exemplo. Parece que será finalmente possível organizar eleições. Como avalias o estado de espírito das pessoas relativamente à candidatura de Milo?

 

Eu olhei para ele, estupefacto.

 

Pois, achas que ele tem mais ou menos hipóteses do que anteriormente? É uma pergunta bastante simples.

 

Sim, mas não consigo acreditar que estejas à espera de uma resposta séria.

 

Milo bateu nervosamente com o copo vazio no braço da cadeira.

 

Ele quer dizer que não há hipótese nenhuma.

 

É isso que pretendes dizer, Gordiano? Cícero observava-me muito sério.

 

Eu pigarreei.

 

Clódio morreu. Alguém o matou, com grande violência eu próprio vi o corpo.

 

Viste-o? Onde? saltou Milo.

 

Enquanto eu hesitava, ponderando se devia falar-lhes da minha visita a casa de Clódia, Cícero poupou-me a necessidade de decidir, interrompendo-me.

 

Gordiano viu o corpo do telhado de sua casa, tal como eu o vi da minha. Já te disse, Milo, que eles percorreram o Palatino em procissão funerária.

 

Sim, vi-o do telhado de minha casa disse eu. Afinal, não era mentira. E qualquer romano que não o tenha visto, terá certamente ouvido falar dele.

 

E o que dizem exactamente as pessoas acerca do assunto? disse Cícero.

 

Não percebo a pergunta.

 

Como é que elas acham que Clódio morreu? Quem lhes parece que foi o responsável?

 

Se Cícero estava interessado em fingir que era obtuso, eu não me importava de lhe fazer a vontade.

 

Aquilo que toda a gente diz é que foi Milo que o matou. Ou os homens de Milo.

 

Onde?

 

Na Via Ápia. Algures perto de Bovilas. Cícero acenou com a cabeça, pensativo.

 

Como?

 

Eu fiz uma pausa.

 

A avaliar pelas feridas, eu diria que foram utilizados punhais. Pensei na chaga do ombro. E talvez também uma lança. E é possível que ele tenha sido estrangulado.

 

Deves ter tido uma percepção mais clara do corpo do que eu tive comentou Cícero.

 

Talvez seja porque tenho os olhos treinados para esses pormenores.

 

Mas não ouviste pormenores acerca do... incidente fatal... e da forma como ele ocorreu?

 

Não.

 

Célio acenou vigorosamente com a cabeça.

 

E aposto que quase ninguém ouviu. Como é possível que tenham ouvido pormenores? Quem poderia tê-los fornecido?

 

Milo mexia o maxilar atarracado de um lado para o outro e tamborilava com os dedos no copo.

 

Ainda assim, os boatos nascem como ervas numa racha. Se uma história tiver um buraco, as pessoas enchem-no com o que lá couber, seja o que for.

 

Ouviste algum boato, Gordiano? disse Cícero. Acerca de uma batalha, de uma emboscada, de um acidente?

 

Ouvi todo o género de boatos. Uma emboscada, uma batalha, um único assassino, um traidor entre os homens de Clódio...

 

Acho que isso nos permite ter alguma esperança observou Célio, encostando-se na cadeira e erguendo uma sobrancelha. Estendeu o copo de vinho e um escravo acorreu a enchê-lo. As pessoas ainda não decidiram. Ainda temos algumas hipóteses de lhes contarmos o nosso lado da história. Mas teremos de o fazer rapidamente. Os boatos fixam-se como argamassa na cabeça das pessoas. Depois de endurecida, só sai à força de escopro. O melhor é despejar-lhes primeiro os nossos próprios boatos pelos ouvidos.

 

E, claro, há o incêndio disse Cícero. Certamente que isso abriu muitas cabeças duras à força. As pessoas que eram hostis a Milo devem estar dispostas a escutar a voz da razão. Só os radicais mais lunáticos podem tomar o partido daquela multidão de piromaníacos contra Milo. Suspirou, exasperado. De qualquer maneira, não compreendo por que há-de a morte de Clódio suscitar tanta controvérsia, excepto entre o reduzido número dos seus mais exaltados seguidores. Qualquer homem sensato percebe que Roma está muito melhor sem aquele patife. É tão óbvio! Se fôssemos ter com as pessoas e lhes disséssemos: "Sim, Milo matou Clódio", não estaríamos simplesmente a dizer que Milo é um herói? Estaríamos essencialmente a proclamá-lo o salvador da República!

 

Cícero olhou para mim, à espera de uma reacção. Eu respondi cautelosamente:

 

Não posso falar pela maioria das pessoas, mas parece-me que há muitos romanos que estão simplesmente cansados do caos e da desordem...

 

Exactamente disse Cícero, e era Clódio quem estava por trás de toda essa desordem, fomentando a inquietação entre a plebe, abalando a ordem natural das coisas. Livrando-nos de Clódio, estamos a meio caminho de nos livrarmos do caos. Tiro, assenta isso: "Livrando-nos de Clódio..."

 

És capaz de estar a ir depressa demais disse Célio, abanando a cabeça. Começa a parecer regozijo. Mesmo as pessoas que estão satisfeitas com o desaparecimento de Clódio poderão sentir-se fortemente incomodadas com as circunstâncias da sua morte. Não podes transformar Milo no campeão da lei e da ordem ao mesmo tempo que declaras orgulhosamente que ele infringiu a lei, matando um homem.

 

Ah, mas as coisas terão outra aparência se mostrares que Milo foi vítima de uma emboscada e se limitou a defender-se disse Cícero, acenando com um dedo.

 

Foi realmente uma emboscada? disse eu, olhando-os sucessivamente. Era realmente Milo o homem visado?

 

Tiro continuou a escrevinhar na sua tabuinha, sem erguer a cabeça. Os outros olharam para mim com curiosidade. Cícero animou-se.

 

Bem, o que te parece, Gordiano? Será credível que Clódio tenha armado uma emboscada a Milo na Via Ápia?

 

Eu encolhi os ombros.

 

O seu ódio mútuo era conhecido.

 

Célio olhou para mim cepticamente. Eu senti-me como uma testemunha a ser contra-interrogada.

 

Mas não é igualmente provável que tenha sido Milo a armar uma cilada a Clódio? O que dirias tu dessa ideia, Gordiano?

 

Certamente não podem ter sido as duas coisas. Ou foi uma coisa, ou foi outra.

 

Achas? disse Cícero. E se não tiver havido emboscada nenhuma? E se os dois grupos se tiverem encontrado na Via Ápia por puro acaso? Essa possibilidade parece-te credível?

 

Talvez. Mas as pessoas estão sempre a cruzar-se na estrada sem que alguém acabe morto.

 

Célio riu-se.

 

Ele tem razão!

 

Cícero juntou as pontas dos dedos de ambas as mãos.

 

Mas os acidentes acontecem. Um homem nem sempre é capaz de controlar os seus escravos, especialmente quando se trata de gladiadores treinados para o protegerem e reagirem à primeira sugestão de perigo.

 

Tiro, anota isto: Milo tem de libertar alguns dos seus escravos, que de outra maneira poderiam ser obrigados a testemunhar sob tortura. Os escravos podem ser torturados, mas os libertos não. Se acontecer o pior...

 

Se ele for a tribunal, queres tu dizer disse eu.

 

Milo resmungou. Cícero tamborilou com os dedos uns contra os outros.

 

É minha convicção que Milo acabará por ser eleito cônsul. Não merece menos do que isso pelos serviços que prestou ao Estado! Ainda assim, temos de estar preparados para eventualidades menos agradáveis.

 

Para um julgamento por assassínio? O que poderá Milo ter a recear do testemunho dos seus escravos?

 

Cícero considerou a pergunta.

 

Gordiano tem razão. Se Milo esperar e libertar os escravos num momento menos oportuno, isso pode parecer suspeito. Quanto mais cedo, melhor, parece-me a mim.

 

Podes sempre dizer que os alforriaste por gratidão, como recompensa sugeriu Célio. Afinal, salvaram-te a vida.

 

Salvaram mesmo? disse eu.

 

Bem, isso é o que nós vamos dizer observou Célio, olhando para mim como se eu fosse uma alma simples. Eu abanei a cabeça, em sinal de desagrado.

 

Vocês estão a falar das aparências, não é verdade, e de mais nada? Desta ou daquela versão hipotética daquilo que poderá, ou não, ter acontecido, e se as pessoas acreditarão nela. É como se estivessem a escrever uma comédia.

 

É preferível escrever uma comédia do que uma tragédia comentou Célio com sarcasmo.

 

Cícero olhou para mim com um ar pensativo.

 

Somos advogados, Gordiano. É isto que nós fazemos. Eu abanei a cabeça.

 

Cícero percebeu que eu não estava satisfeito.

 

Como posso explicar-te melhor? disse ele. A tua natureza é diferente da minha. A verdade tem um significado diferente para ti; aparentemente, tu estás convencido de que ela é importante em si mesma e por si mesma. Mas a verdade que tu buscas é uma ilusão! Buscar a verdade é um excelente passatempo para os filósofos gregos, que não têm nada melhor para fazer, mas nós somos romanos, Gordiano. Nós temos de governar o mundo.

 

Estudou-me por longos momentos, e percebeu que eu continuava a resistir.

 

Gordiano! Os próximos dias e os próximos meses são absolutamente críticos para a sobrevivência de tudo aquilo que é bom e honroso nesta cidade. Viste o que aconteceu ontem a loucura, a destruição, as profanações injustificadas. Consegues imaginar-te como parte daquela turba? Certamente que não! Consegues imaginar o que seria Roma se fosse governada por aquele género de pessoas? Seria um pesadelo! Certamente percebes de que lado estão os teus interesses.

 

Eu estudei cada um daqueles rostos à vez, o de Cícero, radiante pelo facto de ter um objectivo, o de Tiro, ocupado com o estilete, o de Célio, com um ar sombrio mas pronto para soltar uma gargalhada, e o de Milo, que apertava o maxilar como um rapazinho teimoso preparando-se para uma luta.

 

Mas afinal, o que foi que aconteceu na Via Ápia? disse eu. Como única resposta, tive olhares desprovidos de expressão, antes de Cícero passar suavemente a outro assunto, deixando em seguida claro, de forma rápida, graciosa, mas firme, que a minha visita tinha chegado ao fim.

 

Saí de casa de Cícero sem uma resposta satisfatória à minha pergunta e, na verdade, sem uma ideia clara da razão que o levara a convocar-me. O próprio Cícero aparentava não saber exactamente o que pretendia de mim, parecendo estar simplesmente a sondar-me. Eu fiquei com a vaga sensação de existirem forças opostas, medindo o respectivo poder, e perguntei a mim próprio qual seria exactamente o meu lugar no esquema das coisas.

 

O cerco à casa do inter-rei Marco Lépido prosseguiu no dia seguinte, e no seguinte, e no seguinte, com os partidários de Cipião e de Hipseu a exigirem eleições consulares imediatas.

 

No Fórum, os templos e os negócios fecharam as suas portas. Todos os dias grandes multidões vinham olhar de boca aberta para as ruínas chamuscadas do Senado. Uns choravam, outros aplaudiam; as rixas e os debates aos gritos eram frequentes. Alguns visitantes depunham flores nos degraus, como se se tratasse de um sepulcro, em honra do homem que ali fora cremado. Outros espalhavam as flores e pisavam-nas.

 

Os assuntos de Estado paralisaram.

 

Mas a vida continuava. Betesda mandava as jovens escravas aos mercados comprar as coisas de que precisava para o jantar. Elas demoravam mais tempo do que o habitual, porque tinham de procurar mais, mas regressavam com os cestos cheios. Belbo foi buscar-me um par de sapatos que eu tinha posto a arranjar, e contou-me que, na rua dos sapateiros, se trabalhava mais ou menos como habitualmente. As pessoas prosseguiam as suas actividades diárias, ganhavam a vida e alimentavam-se, mas com um tremendo sentimento de expectativa. Roma tinha o ar perturbado de um homem que percorre um caminho desconhecido e mal iluminado, avançando obstinadamente, mas olhando por cima do ombro à espera de ver acontecer qualquer coisa terrível.

 

Eco vinha visitar-nos todos os dias.

 

Estão os três loucos, se pensam que o sujeito ainda tem hipóteses de ser eleito cônsul disse ele, quando lhe contei a minha peculiar entrevista com Cícero, Clódio e Milo. Mas Cícero tem razão numa coisa: os clodianos foram longe de mais quando pegaram fogo ao Senado. Perderam a simpatia das pessoas intermédias. O crime é um ultraje, mas o fogo aterroriza as pessoas.

 

O fogo é um símbolo de purificação sugeri eu.

 

Talvez seja, num funeral, ou num poema. Mas quando se começam a incendiar edifícios, o fogo representa a destruição indiscriminada. Purificar o Estado pode parecer uma ideia grandiosa num discurso, mas deixa de o ser quando as pessoas começam a ficar queimadas. Quando se tornam violentos, os reformadores assustam as pessoas.

 

Quer dizer que quem tenha alguma coisa a perder prefere que as coisas permaneçam como estão.

 

Essa é uma consequência.

 

Nesse caso, talvez Milo tenha possibilidades de ser eleito cônsul.

 

Nunca. Ficou manchado pela morte de Clódio.

 

Acerca da qual continuamos a não dispor de pormenores concretos disse eu, esfregando o queixo num gesto de preocupação. Achas, pois, que os eleitores vão votar em Hipseu e Cipião para cônsules? Mas eles não estão igualmente manchados? Tiveram o apoio de Clódio, e agora as pessoas estão assustadas com os clodianos.

 

Sim, mas Hipseu e Cipião são vistos como homens independentes. Não estiveram associados ao incêndio do Senado.

 

Mas não deixam de ser agitadores! Olha para o bloqueio que os seus apoiantes fizeram à volta da casa de Lépido! Certamente não serão mais aceitáveis para as pessoas da classe intermédia do que era Clódio.

 

Eco olhou para mim, pensativo.

 

Se Milo está de fora... e se Hipseu e Cipião também estão de fora...

 

Não digas! Mas ele disse:

 

As pessoas vão voltar-se para Pompeu.

 

Naqueles dias, Pompeu ocupava intensamente o espírito de muitas pessoas, incluindo o do seu velho aliado, Milo.

 

No quinto e último dia do período de Lépido como inter-rei, um trio de tribunos radicais organizou um contio no Fórum. Eco e eu fomos assistir.

 

Um contio é um encontro ao ar livre. Embora possa ter uma aparência informal, trata-se de uma função do Estado, e obedece a regras específicas.

 

Só algumas pessoas podem usar da palavra, têm de tratar um assunto específico, e por aí fora. O mais importante de tudo é que apenas os detentores de determinados cargos podem convocar um contio. Os cônsules podem fazê-lo, por exemplo. Bem como os tribunos.

 

Roma estava sem cônsules. Mas havia dez tribunos, como habitualmente. E alguns deles andavam muito ocupados.

 

O funeral de Clódio, ou antes, a reunião no Fórum para se ouvir o elogio fúnebre de Clódio e se cremar o seu cadáver, tinha sido um contio, ou pelo menos tinha começado por sê-lo. Fora convocado pelos tribunos Pompeo e Planco. Eu tinha visto estes dois homens em casa de Clódio na noite do seu assassinato, na antessala onde os políticos se tinham reunido para avaliar a dimensão do desastre. No dia seguinte, estes dois homens tinham conduzido a procissão pelo Palatino e até ao Fórum. Tinham inflamado a multidão com os seus discursos. Pompeo e Planco eram os mesmos tribunos que tinham bloqueado a nomeação de um inter-rei no começo do novo ano, fazendo assim recuar a marcação das eleições numa altura em que Milo se sentia confiante da vitória.

 

No contio que convocaram para o último dia do período de Lépido como inter-rei, esteve presente uma grande multidão. Quando Eco veio a minha casa, nessa manhã, anunciar-me a sua intenção de estar presente, eu comecei por me recusar a acompanhá-lo. Seria uma loucura participar em coisas públicas num momento como este, argumentei, mesmo acompanhados de guarda-costas. Mas o apelo do Fórum era demasiadamente forte. Durante quatro dias, à excepção da visita que fizera a Cícero, tinha estado praticamente fechado em casa. Começava a sentir-me inquieto. Em tempos de crise ou de júbilo, há qualquer coisa no sangue de um romano que o empurra inexoravelmente a juntar-se aos seus concidadãos para ouvir outros cidadãos fazerem discursos ao ar livre, onde tanto homens como deuses podem vê-los e ouvi-los.

 

Eco insistiu em que avançássemos para a frente da multidão. Vínhamos vestidos de togas, como exigia a situação; os guarda-costas de Eco vinham de túnicas e capas. Desta maneira, é fácil detectar imediatamente, no meio de uma multidão, quem são os cidadãos, e quem são os escravos que acompanham os cidadãos.

 

Na plataforma, estavam Planco e Pompeo, e também Salusto, outro tribuno. Fora Salusto que eu tinha ouvido falar em casa de Clódio, argumentando que Clódio era o único que conseguia controlar a multidão.; Ele avisara que podia haver um banho de sangue. Mas, aparentemente,' reconciliara-se com os esforços dos outros dois tribunos para instigara ralé, e decidira juntar-se a eles. Os três dirigiram-se à multidão, não com discursos formais, mas falando alternadamente, como se estivessem a ter uma conversa ou uma discussão uns com os outros, e solicitando as reacções dos seus concidadãos.

 

Não se discutiram as circunstâncias exactas do incidente na Via Ápia. Eu começava a achar esta escassez de pormenores enlouquecedora, mas mais nenhum dos presentes aparentava sentir-se incomodado, ou sequer aperceber-se disso. Que Milo e os seus homens tinham assassinado Clódio a sangue-frio era uma coisa que era simplesmente tomada como óbvia. A questão era o que fazer com isso. O principal, concordavam todos os oradores, era organizar imediatamente as eleições consulares. Quando Hipseu e Cipião ocupassem os seus cargos, o problema de Milo seria adequadamente solucionado.

 

E quanto aos boatos de que Milo está a reunir um exército? gritou alguém, de entre a multidão.

 

Se ele está interessado numa insurreição disse Salusto, então é ainda mais importante que elejamos rapidamente os cônsules, a fim de reunirmos uma força capaz de defender a cidade.

 

E os aliados de Milo aqui na cidade? gritou outro. Dizem que ele armazenou secretamente uma enorme quantidade de armas. Eles podem cortar-nos o pescoço enquanto dormimos. Podem incendiar-nos as casas...

 

Ah! Vocês, os incendiários clodianos não deviam falar de fogo! disse outro homem. Ouviram-se palavras ásperas. Rebentou uma rixa. Embora a coisa se passasse a uma certa distância, os guarda-costas de Eco tornaram-se tensos e apertaram o círculo à nossa volta. Os oradores da plataforma ignoraram a interrupção.

 

O facto é que disse Salusto, Milo voltou a Roma. Essa notícia provocou um murmúrio entre a multidão.

 

Um homem que se encontrava por trás de mim, suficientemente perto para que eu sentisse o seu hálito a alho, pôs as mãos em concha à volta da boca.

 

Esse porco sem vergonha voltou a Roma no próprio dia em que matou Clódio! gritou ele. Milo devia estar em casa na noite em que fomos visitá-lo com as tochas na mão. Eu sei porque apanhei com uma seta num ombro! O homem abriu a toga no pescoço, para mostrar as ligaduras.

 

Cidadão corajoso! gritou Salusto. Ergueu os braços numa saudação, que provocou um coro de aplausos, juntamente com alguns assobios. Mas, qualquer que tenha sido o paradeiro de Milo nos últimos dias, sabemos que ele está na cidade desde ontem, porque ontem Milo saiu do seu esconderijo para ir fazer uma visita a Pompeu Magno, na sua vila da Colina Pinciana.

 

A notícia provocou novo murmúrio entre a multidão. Na corrida ao consulado, Pompeu dera a sua bênção a Hipseu, que servira sob as suas ordens no Oriente. Mas Pompeu e Milo já tinham sido aliados, e Pompeu e Clódio tinham sido muitas vezes inimigos. Teria o Grande sido induzido a sancionar o crime de Milo e a apoiar o assassino? O envolvimento de Pompeu podia desequilibrar conclusivamente a balança, quer a favor, quer contra Milo.

 

Salusto sorriu, apercebendo-se da ansiedade e da incerteza da multidão, e prolongando a expectativa com aquele sorriso.

 

Gostareis certamente de saber disse por fim que Pompeu Magno, para seu próprio crédito, se recusou, sequer, a receber o vilão!

 

A expectativa transformou-se em aplausos.

 

E, mais do que isso, enviou ao patife uma mensagem em que lhe pedia gentilmente que evitasse voltar lá, a fim de lhe poupar o embaraço de se recusar novamente a recebê-lo. A perfídia de Milo é tão profunda, que até o Grande teme ser contaminado por ela.

 

O tribuno Planco avançou. Falou como se estivesse a conversar com Salusto, mas as palavras saíram-lhe como só saem as de um orador treinado.

 

Imagino que Milo tenha ficado profundamente ofendido com a recusa de Pompeu.

 

Imagino que sim concordou Salusto. Sabemos queMilo é um homem que se ofende com facilidade. E já vimos quão letais podem ser os seus ressentimentos.

 

Planco fez uma expressão de consternação fingida. Estávamos tão perto da plataforma, que eu conseguia perceber o exagero com que ele desempenhava o seu papel.

 

O que queres dizer com isso, Salusto? Achas que o próprio Pompeu poderá estar... em perigo?

 

Salusto encolheu os ombros como o faz um homem fatigado com o mundo, exagerando o suficiente para que o gesto pudesse ser visto ao fundo da praça.

 

Já vimos que nada detém o monstro no seu afã para se apoderar do Estado. Clódio foi vítima da sua ânsia de sangue. Se agora Pompeu se atravessa no seu caminho...

 

Ouviram-se gritos entre a multidão:

 

Não!

 

Nunca!

 

Impossível!

 

Milo não se atreveria!

 

Não? O tribuno Pompeo, que tinha estado mais recuado, avançou. Como membro do clã de Pompeu, reclamou a atenção da multidão. Foi Milo quem produziu o cadáver que foi queimado no Senado. E será Milo a produzir outro cadáver, para ser queimado no Capitólio! O sentido das suas palavras era claro, pois nenhum outro, para além de Pompeu, era digno de ser sepultado na colina que albergava os templos mais sagrados de Roma.

 

A multidão ergueu os punhos e começou a gritar, não deixando ouvir os oradores, que pareciam não se importar nada com o silêncio a que tinham sido reduzidos, e cediam aos rugidos da ralé. Estaria Milo a conspirar para matar Pompeu? Os tribunos não tinham apresentado o menor vestígio de prova, mas a mera sugestão conduzira a multidão a um estado de frenesim.

 

O Fórum parecia uma grande concha de som. Os gritos individuais eram uma espécie de seixos que ondulavam pela multidão e ecoavam das suas extremidades. Todos coalesciam num rugido ensurdecedor e indistinto, até que alguém começou a cantar. Juntaram-se-lhe mais e mais vozes, e finalmente o canto sobrepôs-se ao rugido:

 

Eleições... já! Eleições.. Já! Era o mesmo grito que tinha ecoado durante dias à volta da casa do inter-rei Marco Lépido.

 

A multidão começou a mover-se. Nunca percebi exactamente como se iniciou este movimento. Não detectei qualquer sinal por parte dos tribunos que se encontravam no palco. Não ouvi nenhum grito da multidão instigando toda a gente a dirigir-se a casa de Lépido. Se estivesse a observar do alto do telhado de minha casa, em vez de estar ali, metido no meio dos acontecimentos, talvez tivesse compreendido a dinâmica da multidão ou talvez não. Devia ser tão fácil como entender o estranho uníssono de um enxame de abelhas.

 

Fosse como fosse, o certo é que a multidão se transformou numa turba, e a turba começou a mover-se como um só corpo, em direcção ao Palatino. Eco e eu acompanhámo-los durante algum tempo, incapazes de nos separarmos, como pedaços de madeira numa corrente. Eu fui empurrado e acotovelado para diante contra a minha vontade. Cerrei os dentes e resmunguei. Mas aquela experiência, que fora para mim tão desagradável, parecia revigorar os que me rodeavam, que se riam e lançavam gritos estonteantes de excitação, como se tivessem bebido de mais.

 

A pouco e pouco, fomos conseguindo desviar-nos da multidão, até chegarmos aos seus limites e podermos voltar para trás. Até Eco parecia contaminado pela excitação.

 

O que se passa, papá? disse ele, sorrindo e recuperando o fôlego. Não queres juntar-te à marcha até casa do inter-rei?

 

Não brinques, Eco. Ninguém sabe o que vai acontecer. Vou para casa. E tu devias fazer o mesmo.

 

Passei a tarde em cima do telhado de minha casa, tentando ansiosamente descortinar sinais de fogo ou de fumo. Nada vi, mas ouvi os ecos ribombantes de uma espécie de batalha, que tinha lugar na direcção da casa de Lépido.

 

Do norte, começou a soprar um vento cortante, seguido de nuvens escuras. Quando as primeiras gotas de chuva fria me atingiam no rosto, Betesda veio ao jardim.

 

Desce daí! ordenou, com as mãos nas ancas.

 

Eu obedeci. Mas, quando ia a meio da escada, imobilizei-me, eu e tudo o que me rodeava. Um relâmpago de luz abriu os céus. Júpiter tinha piscado o olho, como dizem os augures. O raio brilhante de luz branca foi seguido pelo estrondo de um trovão, tão forte, que a própria terra pareceu estremecer. A chuva começou a cair sobre o jardim. Apressei-me a descer o resto da escada, a tremer, e disse a Belbo que me acendesse a braseira no escritório.

 

Não cheguei a ter tempo de aquecer as mãos diante do fogo, antes de Belbo regressar, anunciando um visitante.

 

O mesmo da outra vez disse ele. O homem de Cícero.

 

Tiro?

 

Belbo acenou com a cabeça.

 

Bem, manda-o entrar.

 

E os guarda-costas?

 

Podem ficar lá fora, à chuva.

 

Momentos depois, Tiro entrou no compartimento, afastando o capuz da cabeça. A sua espessa capa de lã estava molhada. Ele pôs a mão diante da boca e tossiu.

 

Cícero nunca te mandaria sair com chuva, Tiro. Havia de preocupar-se com a tua saúde.

 

É muito perto. Além disso, ele acha que tu gostas de mim.

 

E que poderia recusar-me a ir se ele mandasse outra pessoa buscar-me?

 

Tiro sorriu.

 

Vens, então?

 

Não seria adequado tu e eu termos primeiro uma conversa, breve e polida, sobre o tempo?

 

Relâmpagos e trovões disse Tiro, fazendo rolar os olhos em direcção aos céus. Presságios e portentos.

 

Para quem acredita nessas coisas.

 

E há quem não acredite?

 

Não sejas dissimulado, Tiro. Não te fica bem. Lá porque o teu senhor o teu antigo senhor, quero eu dizer finge acreditar nessas ideias supersticiosas por razões políticas...

 

Tu desprezas mesmo Cícero, não desprezas?

 

Eu suspirei.

 

Nem mais nem menos do que desprezo os da sua laia, julgo eu.

 

A sua laia?

 

Os políticos.

 

Não, acho que o desprezas mais do que aos outros. Porque houve uma altura em que pensaste que, de alguma maneira, ele era diferente, e ele desiludiu-te.

 

Talvez.

 

Enquanto esperas apenas o pior dos restantes, por isso eles nunca te desapontaram.

 

Encolhi os ombros.

 

Mas não terão sido apenas as tuas falsas expectativas que te desapontaram, Gordiano? Achas que um homem pode atravessar uma rua enlameada sem sujar os pés? Cícero não pode andar pelo ar. Ninguém pode.

 

Cícero não se limita a atravessar uma rua enlameada, Tiro. Baixa-se e atira mãos cheias de lama a quem quer que se lhe atravesse no caminho. Estende o pé e prega rasteiras às pessoas e aplaude quando elas caem de cara no chão! Depois lava as mãos na fonte mais próxima e pretende jovialmente que elas nunca chegaram a estar sujas.

 

Tiro sorriu de má vontade.

 

É verdade que, às vezes, Cícero é um bocado hipócrita.

 

Eu diria mais enfatuado.

 

Sim. Bem, eu tento mitigar essas partes dos discursos dele. Mas é uma coisa engraçada. As pessoas podem dizer que a modéstia é uma virtude, mas respeitam um homem que canta os seus próprios louvores. Acham que, se é vaidoso, deve ter alguma razão para isso. E, quando um tipo brilhante começa a atirar lama, prestam-lhe atenção. Acham que também deve ter uma boa razão para o fazer.

 

Não precisas de me convencer de que Cícero sabe manipular uma audiência.

 

Gordiano, isto são simples questões de estilo, e não de substância. Há certas coisas relativas a Cícero que te afectam de maneira desadequada. Achas que eu não me canso das suas maneiras, de passar tantas horas do dia na sua companhia? Ele às vezes enlouquece-me. E, no entanto, não conheci em toda a minha vida homem mais admirável ou ilustre. Fundamentalmente, tu e Cícero estão do mesmo lado...

 

Tiro, não precisas de tentar convencer-me a ir contigo. Só tenho estado à espera de uma interrupção nesta conversa para mandar Belbo buscar-me a capa. Mas olha, aqui está ele, já prevendo as minhas necessidades. Belbo pôs-me a capa por cima dos ombros. Eu apertei-a à minha volta. Está a ficar mais frio.

 

Apesar disso, esperemos que a chuva continue disse Tiro. Assim, é mais difícil pegar fogo às coisas. Evita que as chamas se propaguem. Pronto, já falámos sobre o tempo. Vamos andando?

 

Encontrei Cícero no seu escritório, em animada conversa com Marco Célio.

 

Cícero ergueu os olhos e viu que eu estava a observar o compartimento.

 

Milo não está cá disse. Regressou a sua casa. Foi uma demonstração de autoconfiança. Afinal, o que tem Milo a temer em sua casa, se o povo de Roma o ama profundamente?

 

Ama?

 

Como é possível que não o amem, depois do favor que ele lhes fez, libertando o mundo daquele incrível malandro? "Prendeu o tirano com barras de ferro..."

 

"E matou-o com as suas próprias mãos" disse eu, terminando a citação de Énio. Quer dizer que foi ele?

 

Que foi ele o quê?

 

Que foi Milo que matou Clódio com as suas próprias mãos? Lembrei-me das marcas que tinha visto no pescoço de Clódio. Tinham-lhe enrolado alguma coisa à volta da garganta antes de ele morrer, fosse para o prender, para o sufocar ou para o arrastar.

 

Cícero encolheu os ombros.

 

Não estava lá, por isso não vi nada. Mas a imagem parece-me atraente. Tal como o seu homónimo, o lutador da fábula de Crotona, Milo é forte. Acho que ele podia estrangular um homem até à morte. O que te parece, Célio?

 

Célio mostrou-se pensativo.

 

Estrangulamento? Podia fazer com que as pessoas esquecessem o sangue... distraí-las daquelas feridas horríveis. A ideia de Clódio ter sido estrangulado agrada-me. É mais limpo; mete menos sangue. As pessoas  sentem-se arrepiadas quando pensam em punhais. O estrangulamento é uma coisa mais viril, mais heróica. Sugere a morte de um animal com as próprias mãos. Faz com que Clódio se assemelhe a um animal selvagem. Seria preferível contornar estes pormenores gráficos, na verdade, mas se temos mesmo de discutir as circunstâncias do crime...

 

Não vim aqui para ouvir dois oradores atirar ideias para o ar disse eu.

 

Célio sorriu.

 

Não temos outra maneira de perceber quais são as ideias que flutuam e as que caem ao chão como pedras.

 

Podem fazer isso quando eu me for embora.

 

Tiro fez uma careta de desaprovação pela minha rudeza.

 

Por que concordaste em vir aqui, Gordiano? perguntou Cícero.

 

Pensei que talvez Tiro tivesse conseguido converter-te com a sua eloquência.

 

Converter-me? Mas eu pensei que já estávamos no mesmo campo, Cícero.

 

E estamos. Só que tu ainda não te apercebeste. Enlaçou os dedos por trás da cabeça e sorriu.

 

Não sejas tão presumido, Cícero. Pediste-me que viesse. Aqui estou. Por que vim eu? Aproximei-me da braseira e estendi as mãos por cima das chamas. Porque está uma noite fria sobre Roma, e lá fora está escuro. Como qualquer outra pessoa, anseio pelo calor e pela luz. Em especial pela luz. As minhas motivações são inteiramente egoístas. Quero ser iluminado quanto à via a percorrer, quero que alguém me mostre o caminho. O conhecimento é como um fogo. E arde nesta casa. Mas nesta altura parece-me estar a produzir bastante mais fumo do que luz.

 

Cícero encolheu os ombros, bem-disposto.

 

Bem, nesse caso, talvez tu possas fazer brilhar alguma luz em meu benefício, Gordiano.

 

Talvez.

 

Creio que foste hoje ao Fórum, ao contio.

 

Fui, de facto. Como é que sabias?

 

Ele fez um gesto com a mão, como quem retira importância ao assunto.

 

Vejo coisas, oiço coisas.

 

Como?

 

Tenho olhos e ouvidos.

 

Espiões, queres tu dizer. Ele encolheu os ombros.

 

Digamos que são muito poucas as coisas que acontecem aqui no Palatino que escapam ao meu conhecimento. Mas há sítios onde os meus olhos e os meus ouvidos não podem ir. Pelo menos em segurança. Sem serem notados.

 

Tal como um contio convocado por três tribunos radicais para instigar a multidão?

 

Três?

 

Pompeo, Planco e Salusto.

 

Salusto também lá estava? Pensei que, por esta altura, já tivesse recuperado o bom senso. Cícero deu umas pancadinhas no queixo, pensativo.

 

Não é bom sinal disse Célio. Salusto é o cauteloso. Se ele decidiu começar a instigar tumultos com os outros...

 

Eles não instigaram nenhum tumulto disse eu. Aquilo terminou com uma marcha em direcção à casa de Lépido.

 

Uma marcha? disse Cícero. Pode ter começado assim mas, quando lá chegaram, era um perfeito assalto! Pôs-se de pé e começou a andar de um lado para o outro. Subitamente, mostrou-se cansado. Não assististe ao ataque, Gordiano?

 

Claro que não. Fui para casa e tranquei as portas.

 

Então eu conto-te o que aconteceu. A ralé subiu o Palatino em passo de marcha e foi juntar-se aos parceiros que já formavam uma barricada, e todos juntos investiram em direcção à casa de Lépido e arrombaram a porta. Usaram pedras do pavimento que arrancaram das ruas. Destruíram a fechadura e esmagaram a tranca. Pensa nisto, Gordiano, da próxima vez que trancares a tua porta à noite para te ires deitar, julgando que estás seguro: não há casa que esteja segura quando há uma multidão decidida a entrar nela. Saquearam a casa. Deitaram abaixo os bustos dos antepassados de Lépido, esmagaram a mobília, destruíram os teares cerimoniais que tinham sido montados na entrada para mal das senhoras patrícias que andavam a fiar um padrão ordenado para o futuro de Roma. As pobres mulheres fugiram a correr, assustadas.

 

Provavelmente, a multidão queria apoderar-se de Lépido e obrigá-lo a organizar uma espécie de eleições simuladas ali mesmo. Não há grandes dúvidas quanto aos candidatos que a plebe teria escolhido, pois não? Hipseu e Cipião, os antigos aliados de Clódio. Como se esse género de procedimento tivesse algum valor legal! Os deuses ajudem Roma quando chegar o dia em que os homens forem escolhidos para dirigir o Estado pelo capricho de uma multidão irada!

 

Felizmente, Milo estava preparado. Cícero deu umas pancadinhas no crâneo. Sempre a pensar, permanentemente vigilante! Milo esperava que se passasse qualquer coisa semelhante no último dia do inter-reinado de Lépido, por isso dispôs os seus homens numa rua lateral, fora da vista. Quando se iniciou o ataque à casa, eles acorreram e montaram um contra-ataque a partir da rectaguarda. Houve uma batalha e tanto, e não pouco derramamento de sangue. Mas nem vale a pena dizer que a populaça clodiana dispersou rapidamente, fugindo. São inúteis no combate corpo-a-corpo. Os homens de Milo encontraram Lépido fechado num compartimento do andar de cima, com a mulher e as filhas, todos preparados para cortar os pulsos. Consegues imaginar? Um inter-rei de Roma estava prestes a suicidar-se, de preferência a ser despedaçado por uma multidão de escravos e libertos, e as mulheres de sua casa preparavam-se para morrer, a fim de evitarem ser violadas pelos mesmos homens. Digo-te que nem nos dias mais negros da guerra civil a República viveu tal vergonha! Uma vez mais, foi Milo quem veio em seu auxílio. Mas que possibilidades há de que a sua capacidade de previsão e a sua vigilância sejam reconhecidas, quanto mais recompensadas como deviam? Se algum homem mereceu ser cônsul...

 

Cícero parecia sinceramente ultrajado pelo ataque a Lépido, sinceramente admirado pelo zelo patriótico do seu amigo. Mas, evidentemente, recordei a mim próprio, fazia parte da sua profissão ser capaz de falar sem aparência de artifício, como se o fizesse do coração, suscitar a emoção dos seus ouvintes contra a vontade destes.

 

Pigarreei.

 

É verdade o que se diz acerca de Milo e de Pompeu?

 

Cícero franziu o sobrolho e mostrou-se confuso com a súbita mudança de assunto. Célio ergueu um sobrolho curioso.

 

Pompeu também se transformou numa ameaça para o Estado? inquiri. É por isso que Milo conspira para se livrar dele, como se livrou de Clódio para o bem de Roma? Também tenciona estrangular o general "com as suas próprias mãos"? Não é de espantar que Pompeu não o deixe entrar na sua villa.

 

Cícero franziu mais profundamente o sobrolho.

 

Foi isso que disseram hoje no contio? Eu acenei com a cabeça.

 

Foi isso que realmente agitou a multidão. Dizem que Milo foi visitar Pompeu e que Pompeu se recusou a recebê-lo. A sugestão era que Pompeu teme pela vida, e tem razões para isso.

 

O quê? Cícero estava horrorizado, ou fingia estar.

 

Cito o tribuno Pompeo: "Foi Milo quem produziu o cadáver que foi queimado no Senado. E será Milo a produzir outro cadáver, para ser queimado no Capitólio!"

 

Absurdo! Não parecia haver mesmo nada de teatral ou premeditado na forma como Cícero cuspiu a palavra. Aqueles agitadores estão dispostos a dizer seja o que for e os idiotas acreditam neles! A audiência do contio, Gordiano, pareceu-te ser constituída por apoiantes escolhidos, agrupados com simpatizantes clodianos?

 

Nem por isso. Ouviam-se vozes discordantes entre a multidão. Era um conjunto misturado. Muitas pessoas de todos os géneros estavam interessadas em ouvir o que os tribunos tinham a dizer. Eu próprio assisti.

 

E, apesar disso, a multidão deixou-se influenciar por esse disparate?

 

Por aquilo que me disseste acerca do ataque a casa de Lépido, não se deixou apenas influenciar, Cícero. É então completamente falso o que se disse acerca de Milo e de Pompeu?

 

Evidentemente!

 

Sim, bem, talvez não seja completamente falso disse Marco Célio, erguendo uma sobrancelha na minha direcção, e lançando depois um olhar imperturbável e felino ao seu agitado mentor. Ora, Cícero, Gordiano tem sido totalmente honesto connosco. Merece que o sejamos com ele. É um facto que Milo tentou fazer uma visita a Pompeu e que Pompeu o mandou embora. Foi um erro de cálculo de Milo, se queres a minha opinião. Sentiu-se obrigado a solicitar a bênção do Grande. Devia ter pensado melhor. Mas o nosso Milo é um homem simples; simples no sentido virtuoso, como se supõe que eram os nossos antepassados. Tendo já feito tantos favores a Pompeu, Milo presumiu que o Grande se sentiria obrigado a devolver esses favores, agora que Milo está numa situação complicada. Nem pensar! Quer dizer que os tribunos radicais sabiam desta recusa?

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Como foi que Salusto a apresentou? "Pompeu enviou ao patife uma mensagem em que lhe pedia gentilmente que evitasse voltar lá, a fim de lhe poupar o embaraço de se recusar novamente a recebê-lo".

 

Sempre tiveste excelente memória para as palavras observou Cícero suavemente.

 

Na verdade comentou Célio, podias tornar obsoleta a estenografia de Tiro! Voltou-se para Cícero. Mas como é que Salusto e os outros descobriram a mensagem de Pompeu? Ela foi enviada em segredo a esta casa, e não directamente a Milo.

 

Talvez Pompeu não tenha sido tão discreto como queria que nós pensássemos disse Cícero. É bastante fácil soprar as notícias de ouvido em ouvido, até chegarem aos ouvidos dos tribunos. Neste momento, Pompeu está na mesma situação que toda a gente. Está a experimentar as águas.

 

Célio voltou-se novamente para mim.

 

E o que disseram Salusto e os restantes tribunos acerca da subsequente troca de mensagens entre Milo e Pompeu?

 

Eu abanei a cabeça.

 

Limitaram-se a mencionar a visita e a recusa de Pompeu.

 

Pois, bem, nesse caso, talvez Pompeu esteja afinal a ser discreto disse Célio. Estás a ver, Gordiano, Milo ficou bastante abalado quando Pompeu se recusou a recebê-lo. Quando a mensagem de Pompeu, declinando visitas futuras, lhe foi entregue, Milo enviou a Pompeu uma mensagem de resposta, pedindo-lhe que reconsiderasse e oferecendo-se...

 

Célio, disse Cícero.

 

O melhor é contarmos tudo a Gordiano insistiu Célio. Pois bem, Milo ofereceu-se para se retirar da corrida a cônsul, se Pompeu o desejasse. "Uma palavra tua, Pompeu Magno, e, para o bem de Roma, estou disposto a abandonar as minhas ambições de a servir." Claro que, na realidade, estava à procura de algum encorajamento indirecto... "Não, não, caro amigo, é só por razões políticas que não posso receber a tua visita, mas claro que deves candidatar-te!" Mas não foi isso que aconteceu.

 

O que disse Pompeu?

 

Aparentemente, o Grande está demasiadamente acima da refrega para se incomodar com as mesquinhas ambições de Milo. Mandou-lhe uma resposta seca: "Não me compete dizer quem deve, ou não, concorrer aos diversos cargos. Não me passa pela cabeça impor a minha opinião ao povo romano, que é perfeitamente capaz de fazer os seus próprios juizos sem os meus conselhos." Frio, frio! Tão gelado como a chuva que cai lá fora.

 

Cícero abanou a cabeça.

 

Não foram pequenos favores, os sacrifícios que Milo fez por Pompeu ao longo dos anos. Mas, agora que Milo está com problemas e que Clódio deixou de ser uma ameaça, Pompeu anseia ardentemente afastar-se de Milo!

 

Pompeu ainda pode mudar de atitude, se lhe fizerem ver que é do seu interesse disse Célio.

 

Não podemos contar com isso replicou Cícero. Milo terá de tomar as suas decisões sem o apoio de Pompeu.

 

Célio acenou com a cabeça.

 

Concordo. Esta noite propagar-se-á a notícia da salvação de Lépido. Isso contará a favor de Milo; Milo representa a ordem e a tradição, contra a plebe sem lei. E não devemos subestimar o ressentimento que as pessoas equilibradas têm contra os Clodianos por terem pegado fogo ao Senado. Penso que podemos contar com uma multidão favorável amanhã.

 

Amanhã? disse eu. Célio sorriu.

 

Vai ser convocado novo chino contio, desta vez por mim. Não deixes de estar presente, Gordiano. Vamos combater o fogo com o fogo.

 

Espero que essa declaração não deva ser tomada literalmente. Célio riu-se.

 

Na manhã seguinte, Eco foi bater-me à porta bem cedo, carregado de notícias.

 

Papá, não ouviste falar do que aconteceu em casa de Lépido ontem, depois do contio?

 

Ouvi.

 

Parece que foi uma batalha e tanto. Sangue pela casa toda, segundo ouvi dizer. Os bustos ancestrais destruídos para sempre. O fio dos teares cerimoniais todo enredado. Mas ele ficará conhecido como o inter-rei que soube manter-se firme diante da multidão já teve os seus cinco dias de fama!

 

Tivemos uma sorte incrível pelo facto de a violência não ter começado logo no Fórum, enquanto nós estávamos metidos no meio daquela multidão. E se o pequeno exército de Milo tivesse aparecido por ali, em vez de esperar emboscado em casa de Lépido? Eu estou velho, Eco. Não sou capaz de fugir a uma turba.

 

Ninguém te obrigou a ir ao contio, papá. Eu resmunguei.

 

Não confias nos meus novos guarda-costas? Voltei a resmungar.

 

Presumo que a comissão senatorial escolha hoje um novo inter-rei.

 

É o que se diz por aí. Ninguém sabe onde vão reunir-se, provavelmente, será fora dos muros da cidade. Guardaram segredo acerca do local, com receio de outro bloqueio ou de mais uma batalha. O novo inter-rei terá autoridade para convocar eleições, mas estando as coisas confusas como estão, não me parece provável que tenhamos novos cônsules nos próximos cinco dias. Oh, e por falar de confusão, vai haver outro contio hoje, desta vez...

 

Convocado por um tribuno menos radical, Marco Célio.

 

Sim, e diz-se...

 

Que o próprio Milo poderá tomar a palavra. Eco olhou para mim maliciosamente.

 

Papá, estás muito bem informado, para quem não põe os pés no Fórum, a não ser arrastado por mim. Alguma coisa me diz que estiveste novamente em contacto com Cícero. Conta-me tudo.

 

Forneci-lhe os pormenores da minha visita a casa de Cícero, no dia anterior.

 

Eco tirou as suas próprias conclusões.

 

Pompeu está a comportar-se como um patife, não está?

 

Oh, não sei.

 

Que traidor! Milo foi seu aliado durante anos, e agora...

 

Ah, mas pormenores como o assassínio podem azedar as relações mais sinceras. Se Milo matou Clódio, até onde se estendem as obrigações de amizade de Pompeu.

 

Eco olhou para mim, zombeteiro.

 

Por que dizes "se"?

 

O que queres dizer com isso?

 

Disseste "Se Milo matou Clódio".

 

Oh, suponho que disse...

 

Bem, não percebo por que razão defendes Pompeu. Esse "pormenor", este assassínio, parece ter servido para aumentar o apoio de Cícero a Milo.

 

Sim, não podemos criticar a lealdade de Cícero.

 

Acho que é por serem tão parecidos.

 

Cícero e Milo? Pensei em Cícero frágil na juventude, dispéptico na idade adulta, astuto, calculista, um modelo de bom gosto e refinamento e depois em Milo, que parecia ser o contrário, com o seu físico robusto e bovino, as suas maneiras dissimuladas e uma dureza de carácter que nem o dinheiro nem a educação tinham conseguido suavizar. Parecidos em que aspecto, Eco?

 

Bem, são os dois mais brilhantes Homens Novos, não são, as duas estrelas mais luminosas do firmamento? Ou seriam, se Milo conseguisse fazer-se eleger cônsul.

 

O evento atraiu uma multidão considerável ainda maior do que a multidão que na véspera tinha participado no contio dos tribunos radicais. A notícia da batalha em casa de Lépido tornara as pessoas ainda mais inquietas e ansiosas. Como já disse, em tempos de dificuldade, os Romanos têm o instinto de se reunir em grandes grupos para ouvir discursos.

 

Abrindo caminho com a ajuda dos guarda-costas de Eco, e apesar da confusão, conseguimos encontrar um bom lugar, diante da plataforma dos oradores. Observei o mar de rostos que nos rodeavam, tentando avaliar o estado de espírito da multidão. Reparei em diversos sujeitos enfadonhos e conservadores, homens de meios acompanhados por grandes comitivas de guarda-costas e criados, vestindo togas imaculadas em lã de qualidade superior. Eco apontou para um espécime desse género, que se encontrava perto de nós.

 

Homem de negócios disse ele.

 

Banqueiro contrapus eu, só pelo prazer de o contradizer.

 

Pró-Milo.

 

É mais natural que seja antiClódio. E provavelmente está mais irritado com o incêndio da Basílica Porciana do que com a perda do Senado.

 

Eco acenou com a cabeça.

 

Provavelmente, ficou impressionado com o facto de os homens de Milo terem salvo Marco Lépido.

 

Provavelmente espera que alguém faça o mesmo por ele quando a multidão lhe atacar a casa.

 

Mas será Milo homem para ele?

 

Talvez seja isso que ele veio decidir.

 

Mais numerosos do que os comerciantes e os banqueiros abastados, eram os cidadãos de aparência mais modesta, porventura donos de pequenas lojas ou trabalhadores livres. Eco acenou na direcção de um desses homens, que se encontrava ali perto, um sujeito de aspecto carregado acompanhado por um único escravo, que vestia uma toga com a orla já gasta.

 

Aquele ali parece ter menos a perder do que o nosso amigo banqueiro.

 

E menos com que recomeçar. Um incêndio no seu bloco de apartamentos podia dar completamente cabo

dele.

 

Bem, se o pior acontecer, Milo passará fome. Pode sempre recorrer à distribuição gratuita de cereais que Clódio instituiu.

 

Eu abanei a cabeça.

 

As pessoas do género dele querem que o Estado mantenha ordem, e não que faça uma distribuição gratuita de cereais. Ele não anseia menos pela estabilidade do que o nosso amigo banqueiro.

 

Achas que é por isso que está aqui? Que veio à procura da Lei e da Ordem?

 

Por que não?

 

Vamos investigar. Pegou-me no braço e deslizámos por entre a multidão, para consternação dos guarda-costas de Eco, que tiveram alguma dificuldade em nos seguir.

 

Cidadão disse Eco, eu não te conheço? O homem olhou para ele, avaliando-o.

 

Não me parece.

 

Sim, tenho quase a certeza de que frequentamos a mesma taberna. Sabes, aquele sítiozinho...

 

Os Três Golfinhos?

 

Exactamente! Sim, tenho a certeza de que já conversámos um com o outro.

 

Talvez. A expressão carregada do homem aligeirou-se um pouco.

 

Oh, lembras-te de que uma vez nos rimos bastante com aquele tipo divertido que lá trabalha...

 

Estás a falar de Gaio? Sim, é um sujeito estranho. O homem soltou uma pequena gargalhada.

 

E, claro... Eco fez um gesto de mãos, sugerindo um estômago avantajado.

 

O homem fez um sorriso de esguelha e acenou com a cabeça.

 

Ah, a filha do velhote. Aquela que ele afirma que ainda é virgem. Ah!

 

Eco deu-me uma pancadinha discreta com o pé, como que a dizer: Já o apanhei. Ganhar a confiança de um indivíduo totalmente desconhecido foi um dos truques que Eco aprendeu comigo, e que gosta de exibir ao seu mestre. Vi-o olhar rapidamente para as mãos do homem, avaliando os dedos gretados e as manchas vermelhas por baixo das unhas.

 

Ainda trabalhas como tintureiro?

 

Claro. Lavar e tingir, lavar e tingir. Ali na Rua dos Pisoeiros. Todos os dias, já há mais de 20 anos.

 

A sério? Eco baixou a voz para um tom de confidência. Diz lá, quanto é que eles te deram?

 

O quê?

 

Esta manhã. Estás a perceber-me. Quanto é que os homens de Milo te deram?

 

O tintureiro olhou para Eco, e depois lançou-me um olhar cauteloso.

 

- Não há problema disse Eco. O tipo está comigo. É um mudo inofensivo.

 

Eu dei-lhe um discreto pontapé no tornozelo. Aquilo era uma piada nossa, era Eco quem tinha sido mudo, e não eu. Agora, ele impedira-me eficazmente de pronunciar palavra.

 

Então, quanto é que eles te deram? perguntou Eco de novo.

 

- O mesmo que aos outros, imagino eu, disse o tintureiro.

 

Sim, mas quanto?

 

Bem, não gosto de referir as quantias exactas. Mas foi o suficiente. O homem deu umas palmadinhas numa bolsa que tinha metida dentro da toga, produzindo um ruído metálico abafado. E a promessa de um pouco mais se eu votar nele quando chegar o momento. E a ti?

 

Cem sestércios disse Eco.

 

O quê? Cem? A mim só me deram metade!

 

Ah, mas eles deram-nos cem para os dois. Eco indicou-me com o dedo.

 

O homem acenou com a cabeça, apaziguado pela explicação de Eco. Depois franziu o sobrolho.

 

Mas, se o teu amigo é mudo e nem sequer pode gritar em apoio dele, não me parece justo pagar-lhe o mesmo...

 

Ah, mas como podes ver, cada um de nós tem dois escravos, homens de pulmões saudáveis, e parece-me que tu só tens um. Apesar de o meu amigo ser mudo, nós somos cinco vozes, contra as tuas duas.

 

Pois, bem, suponho que sim...

 

Então, cidadão, o que te parece tudo isto? Com um gesto expansivo, Eco indicou o Fórum, e por extensão a crise que afectava Roma.

 

O tintureiro encolheu os ombros.

 

O mesmo de sempre, mais pior. Só que agora eles passaram da difamação ao assassínio puro e simples. A nossa sorte era que se matassem uns aos outros, a começar pelos de cima. Limpavam-se todos! Mas sabes o que acontece quando os grandes começam a cair caem por cima de nós, os pequenos, e esmagam-nos.

 

Eco acenou com a cabeça, compreensivamente.

 

Quer dizer que não és um apoiante particularmente entusiasta de Milo?

 

Fah! O homem enrolou o lábio com desdém. Oh, ele é melhor que alguns outros, disso não há dúvida, de outra maneira eu não teria vindo. Nem que me pagassem muito bem iria a um contio convocado pelos Clodianos. Esse sujeito, o Clódio, era pior do que um animal com o cio. Fazia a própria irmã! E dizem que, quando era miúdo, se vendia a velhos ricos. Conheces a canção "Para progredir, ia com eles, e depois levava a irmã para a cama". E...

 

Então e a distribuição de cereais?

 

O homem ficou subitamente inflamado.

 

Outro esquema para se tornar mais poderoso! Sim, Clódio estabeleceu a distribuição de cereais mas quem foi o encarregado de organizar as listas dos cidadãos elegíveis? Sexto Clélio! Pois é, o principal homem de mão de Clódio, aquele que pegou fogo ao Senado. Corrupto como não há outro! Não me fales da distribuição de cereais. Foi um regabofe!

 

Um regabofe? perguntou Eco.

 

Claro. Não me digas que não sabes como aquilo funciona.

 

Esclarece-me.

 

Muito bem: Sexto Clélio convence um homem a libertar metade dos seus escravos domésticos. Os escravos passam a libertos, mas para onde vão eles? Continuam a trabalhar para o antigo senhor, continuam a viver em sua casa. No entanto, como libertos, podem recorrer à distribuição de cereais, de maneira que o senhor não tem de continuar a alimentá-los. É o Estado que os alimenta! Por sua vez, Sexto Clélio integra estes novos libertos no bando dos clodianos, e manda-os circular pelas ruas à noite, com um ar importante, e participar nos contios afim de aterrorizar a oposição. Além disso, podem votar. A distribuição de cereais! Clódio apresentou o negócio como um grande favor que tinha feito ao homem comum de Roma, a pessoas como eu, proporcionando-nos uma maneira de nos alimentarmos em tempos de escassez. Mas aquilo foi apenas uma maneira de ele arranjar novos eleitores e membros para o seu bando alimentando-os à custa do Estado! Digo-te uma coisa, eu nasci cidadão, e enfurece-me ver os ex-escravos do bando de Clódio terem os mesmos privilégios que eu. Esse Clódio sempre se meteu em esquemas, até ao fim dizem que andava a planear conceder ainda mais poder aos libertos. Se tivesse conseguido o que queria, teria destruído o Estado e colocado o seu bando a gerir as coisas. Depois teríamos o Rei Clódio a cortar cabeças à direita e à esquerda, e uma data de ex-escravos a perseguir-nos a todos. Estamos bem melhor com ele morto, isso te garanto. Milo fez muito bem. Não me importo de vir aqui gritar-lhe umas palavras de encorajamento.

 

E se, além disso, ficares com a bolsa um bocadinho mais pesada... disse Eco.

 

E por que não?

 

Claro, por que não? Bem, depois volto a falar contigo, cidadão. Talvez nos encontremos de novo no Três Patos.

 

No Três Golfinhos? disse o tintureiro.

 

Exactamente! Eco sorriu e retirou-se, tomando-me o braço.

 

Bem, papá, eu tinha ou não razão sobre o sujeito?

 

Pelo contrário, Eco. Era eu que tinha razão. Tal como eu supunha, o nosso amigo tintureiro veio hoje aqui apoiar a Lei e a Ordem.

 

Claro que não! Papá, o homem foi subornado, provavelmente como três quartos, ou mais, dos presentes. Eu sabia que tinha visto alguns dos homens de Milo a distribuir dinheiro quando passei pelo Fórum esta manhã, a caminho de tua casa. Calculo que devamos sentir-nos insultados com o facto de a nós não nos terem oferecido nada.

 

Por esta altura, os distribuidores de subornos já nos conhecem, Eco.

 

Acho que é isso. Esta pequena reunião está a custar a Milo uma somazinha simpática.

 

É.

 

Sim, mas eu tinha razão.

 

Sobre quê?

 

Sobre o motivo por que o nosso amigo tintureiro está aqui. Veio atrás da Lei e da Ordem.

 

E de um suborno disse Eco.

 

E de um suborno concedi eu.

 

Célio e Milo não tardaram a chegar, rodeados por uma grande comitiva. Enquanto abriam caminho por entre a multidão, as pessoas estendiam o pescoço para conseguir ver Milo e, quando o avistaram, muitos começaram a aplaudir. A animação parecia genuína, e por que não? Para o melhor e para o pior, Milo era o homem do momento, e esta era a sua primeira aparição em público desde o incidente na Via Ápia. Todos os olhares estavam fixados nele. Todos os ouvidos estavam ansiosos por ouvi-lo falar.

 

Com ou sem subornos, Milo tinha muitos apoiantes. Há muito tempo que fazia campanha para o consulado e, num esforço para alargar os seus apoiantes para além dos Melhores, tinha gasto uma fortuna em jogos e espectáculos extravagantes. Roma adora os políticos que sabem encenar espectáculos. Há magistrados que têm como incumbência própria dos seus cargos organizar espectáculos em diversas festas anuais, à sua própria custa. Outros homens organizam-nas na qualidade de cidadãos privados, à laia de jogos funerários. Seja qual for o pretexto, todos os políticos que sobem os degraus da magistratura são obrigados a ultrapassar os seus rivais na produção das mais memoráveis corridas, comédias e combates entre gladiadores. A prática está de tal maneira estabelecida, que ninguém parece aperceber-se de que oferecer ao público este género de entretenimentos é um suborno eleitoral tão efectivo como depositar moedas directamente na bolsa dos eleitores. Hoje em dia, as pessoas parecem ter perdido a vontade de objectar, mesmo a isso.

 

Marco Célio subiu à plataforma e pediu ordem ao contio.

 

Célio fora treinado em oratória desde a juventude, tanto por Cícero, como pelo falecido Marco Crasso. Era o mais brilhante aluno de ambos. Dominava os aspectos formais da construção de um discurso, bem como as técnicas de modulação da voz e do seu lançamento a grandes distâncias, mas o mais notável era o facto de, ao longo dos anos, ter construído um estilo sarcástico e perverso que estabelecia o tom de toda a sua geração. Quando os oradores mais velhos, ansiosos por alcançarem novos efeitos, tentavam emular o seu estilo, o resultado era frequentemente banal e estridente, mas isso nunca acontecia quando era o próprio Célio a praticá-lo. Era essa a sua genialidade, ser capaz de enfeitiçar uma grande multidão com o mesmo encanto que dele emanava em situações mais íntimas, mas sem os recortes irónicos que muitas vezes sentíamos na sua presença imediata. Ele era capaz de pronunciar as mais horríveis insinuações e as mais obscenas frases de duplo sentido numa reunião pública sem parecer vingativo nem vulgar. Parecia apenas naturalmente inteligente e espirituoso, e perfeitamente sincero. Isto dava-lhe um poder tremendo como orador.

 

Célio não estava verdadeiramente no seu elemento a desempenhar o papel de instigador das multidões num contio. Saía-se melhor em tribunal, especialmente na posição de acusador, derramando o seu fel sobre uma vítima profundamente embaraçada, diante de um público composto por juizes cultos e capazes de o apreciar, homens educados como ele próprio, que gostavam de jogos de palavras rápidos e convolutos. Apesar disso, Célio iniciou o seu contio com a autoconfiança que o tornara famoso, uma atitude que era impossível de simular.

 

Caros cidadãos de Roma! Vedes hoje ao meu lado, aqui na plataforma, um homem que bem conheceis Tito Ânio Milo. O seu nome tem estado ultimamente nos lábios de todos vós. Fostes deitar-vos a meditar nele, perguntando a vós próprios afinal que género de homem é este Milo. Acordastes de manhã pensando onde estaria ele. E considerastes, a todas as horas do vosso dia, a mesma interrogação terrível com que certamente vos confrontais neste momento: Quando terminará esta loucura?

 

Bem, estamos aqui à procura de respostas. Não será amanhã, nem noutro sítio qualquer, mas aqui e agora. Primeiro, podeis deixar de vos interrogar acerca do paradeiro de Milo ele está aqui, na vossa frente, com a cabeça bem levantada, apresentando-se orgulhosamente no coração da cidade que tem servido, há tanto tempo e tão fielmente. Talvez tenhais ouvido boatos de que Milo deixara Roma para sempre, e não tencionava regressar. Sim, vejo alguns de vós acenar com a cabeça. Ridículo!

 

Pensai no que mais profundamente amais em todo o mundo. Poderíeis separar-vos disso, ou abandoná-lo, fosse por que razão fosse? Não! Nem que tivésseis de morrer. Nem, e aqui baixou a voz que tivésseis de matar. É esse o amor que Milo tem por Roma. Ele nunca abandonará a cidade.

 

O que nos conduz novamente à primeira questão. Que género de pessoa é Milo, que carácter é o seu? Isso é algo que cada um de vós terá de decidir pessoalmente, quando tiver oportunidade de o ouvir. Sim, Milo falar-vos-á hoje. As regras permitem-lhe falar, já que é Milo o objecto deste contio, e eu exijo que ele fale, na minha qualidade de tribuno que o convocou. Exijo-lhe que fale, dizia, porque Milo não está connosco voluntariamente. Oh não! Eu tive de o arrastar para aqui, contra a sua vontade. Parece-vos que estaria interessado em abandonar a segurança de sua casa para se passear por uma cidade onde vivem loucos que organizam tumultos, ameaçando-o de morte? Milo é extraordinariamente corajoso, mas não é tolo. Não, ele só veio porque eu insisti em que viesse, porque eu, como vosso tribuno, lho exigi.

 

O que nos conduz à terceira questão, que pesa como uma pedra em todos nós, e nos enche a cabeça como o fedor das ruínas fumegantes do Senado: Quando terminará esta loucura? Receio que ela só termine quando se fizer alguma coisa relativamente à morte de Clódio. Quando esse desagradável incidente encontrar descanso, como a sombra do próprio Clódio terá supostamente encontrado descanso quando os amigos o incendiaram como um feixe no Senado. Como morreu Clódio, por quê, e quem o matou? Os amigos de Clódio afirmam que foi cruelmente atacado e morto sem razão. Apontam o dedo da culpa a Milo. Chamam-lhe assassino. Insinuam que ele tenciona matar de novo, e que da próxima vez a sua vítima será um homem bem mais reverenciado, bem maior do que Clódio alguma vez foi.

 

Levemos, pois, Tito Ânio Milo a julgamento. Sim! Aqui mesmo, agora mesmo, levemo-lo a julgamento por assassínio. Não será um julgamento como o dos magistrados, com jurados escolhidos entre os membros do Senado e as ordens superiores. Fostes vós, o povo, os cidadãos de Roma, que sofrestes o caos dos últimos dias, por isso trago o assunto directamente à vossa presença, à presença do povo, e solicito o vosso juízo com toda a seriedade. Como vedes, não vim tecer elogios a Mllo; vim julgá-lo! E, se vós determinardes que ele é um assassino vicioso, que planeia novos assassínios, então que abandone a nossa companhia. Sim! Que seja banido, mandemo-lo para o exílio e tornemos verdadeiro esse boato vicioso. Expulsemos Milo do coração da cidade que ele ama, para o deserto!

 

Nesta altura, ouviram-se entre a multidão gritos dispersos de indignação, como se a ideia do exílio de Milo os escandalizasse. Apercebi-me de que o nosso amigo, o tintureiro, foi dos primeiros a erguer a sua voz em protesto. Não tardou a juntar-se a ele um coro arrebatado. Alguém tinha feito um excelente trabalho, semeando os seus apoiantes entre a multidão. Mas também reparei que o homem a quem eu chamara banqueiro gritava igualmente o seu protesto, indicando por gestos aos membros da sua comitiva que o imitassem; certamente que um homem abastado como ele não tinha sido comprado por uns meros 50 sestércios.

 

Célio ergueu as mãos, pedindo silêncio, e fez uma expressão de consternação.

 

Cidadãos! Por favor, contende-vos! Amais Milo, como Milo ama Roma; compreendo-o. Apesar disso, temos de chamá-lo à pedra. Ele deve ser julgado, e temos de ser prudentes no nosso veredicto. Chega de aplausos e de gritos, peço-vos. Isto não é um comício de candidatura. É um contio, convocado em tempos de terrível emergência, uma inquirição solene a uma questão que estropiou a nossa cidade com tumultos e incêndios. Aquilo que fizermos aqui hoje será discutido nas sete colinas e para além dos muros da cidade. Os que não podem estar connosco, grandes e pequenos, saberão do vosso juízo. Recordai-vos disso!

 

Eco falou-me ao ouvido:

 

Outra referência a Pompeu?

 

Célio afastou-se para um dos lados da plataforma.

 

Milo, avança!

 

Orgulhoso, de cabeça bem erguida eis como Célio descrevera Milo. É verdade que ele não tinha o passo incerto e o olhar furtivo de um homem assolado pela culpa. Avançou sem hesitar e com um ar de grandiosa, quase insolente, autoconfiança. A toga ficava-lhe melhor ao tamanho do que aquela com que eu o tinha visto em casa de Cícero, e estava pregueada e dobrada de forma a transmitir a melhor impressão possível do seu físico baixo e atarracado. O seu queixo, habitualmente sombreado de barba, estava tão pálido, que eu perguntei a mim próprio se ele teria aplicado algum cosmético.

 

Num tribunal a sério, esperar-se-ia dele que vestisse a toga mais velha, que arrastasse os pés como um velho, que viesse por pentear e que trouxesse a barba por fazer; os jurados esperam que um homem acusado explore a sua simpatia. Era óbvio que Milo não estava para aí voltado. Apresentar-se a julgamento, mesmo que fosse um julgamento fingido, mais com aspecto de candidato orgulhoso, do que de acusado ansioso, era um acto de puro desafio. E a multidão, que estava do seu lado, adorou aquela atitude. Apesar das advertências de Célio, ecoou pelo Fórum um aplauso sonoro e aparentemente espontâneo. Os lábios de Milo contorceram-se num sorriso de esguelha e ele ergueu ainda mais o queixo.

 

Célio fez uma expressão severa e ergueu os braços, pedindo silêncio.

 

Cidadãos, tenho de recordar-vos para que estamos aqui? Procedamos. Que Tito Ânio Milo faça um relato das suas acções.

 

Célio recuou para conceder a Milo o total domínio da plataforma; Milo pertencia à escola gestual de oratória, que exige uma actuação expansiva, e que era, em muitos sentidos, o oposto da de Célio. O seu forte não era a pequena graça que só mais adiante desabrocha em hilariedade, nem a sugestão elegante que esconde um punhal afiado. Milo representava aquilo a que Cícero certa vez ridicularizara como a escola de oratória do martelo e da canga: Acentuam todos os pontos com um martelo pesado, põem-nos sob o jugo da canga das metáforas, e depois levam-nos até ao mercado.

 

Mas nem todos os oradores podem ser como Cícero ou Célio; cada um tem de encontrar o estilo que mais se lhe adequa, e a seriedade obstinada, próxima do desafio estólido, era o que se adequava a Milo. Nessa manhã, agitando os braços enquanto andava de um lado para o outro na plataforma, ele parecia totalmente honesto e ingénuo, embora eu soubesse que todas as suas palavras e os seus gestos deviam ter sido cuidadosamente trabalhados e ensaiados, uma vez e outra, no escritório de Cícero.

 

Caros concidadãos desta amada cidade! O meu amigo Marco Célio tem razão a loucura que nos ameaça a todos não será afastada enquanto não forem conhecidas as verdadeiras circunstâncias da morte de Públio Clódio. Não sei o que ouvistes dizer acerca da sua morte apenas posso imaginar os horríveis boatos que têm circulado e as calúnias perversas que têm sido lançadas contra mim e contra os meus leais servidores, que arriscaram corajosamente as suas vidas para salvar a minha.

 

Não sou do género de fazer discursos agradáveis. Serei breve e preciso. Apenas vos posso falar daquilo que sei.

 

Há nove dias, saí de Roma para uma curta viagem pela Via Ápia. Alguns de vós saberão que tenho um cargo local na minha cidade natal, Lanúvio. O ano passado, os meus concidadãos lanuvianos elegeram-me "ditador" uma maneira exótica de referir o principal magistrado. O cargo não é exigente, mas tenho de lá ir de vez em quando, cumprir as minhas obrigações. Foi o caso. Fui convocado para nomear um sacerdote do culto local de Juno, que presidirá ao festival da deusa no próximo mês. O patrocínio de Juno a Lanúvio remonta aos tempos antigos, antes de os Lanuvianos terem sido conquistados por Roma. O seu festival é o dia mais importante do ano em Lanúvio. É tradicional os cônsules romanos assistirem. Por isso, tenciono regressar a Lanúvio no próximo mês, nessa qualidade porque vai haver eleições, e eu vou ser eleito cônsul!

 

Houve uma explosão de aplausos. Milo esperou que eles abrandassem.

 

Nessa manhã, assisti à reunião habitual do Senado, que acabou por volta da quarta hora do dia. Depois, voltei a casa para vestir roupas de viagem. A minha mulher ia comigo. Eu teria preferido partir imediatamente daqui até Lanúvio são cerca de 25 quilómetros, uma viagem que se faz com toda a facilidade num só dia quando se sai suficientemente cedo. Mas, com todos os preparativos de última hora dela, sabeis como são as mulheres, só saímos de Roma depois do meio-dia. Para conforto dela, viajámos numa carruagem aberta, embrulhados em capas pesadas. Eu teria preferido viajar de forma mais ligeira, mas a minha mulher insistiu em levar as suas criadas e os seus criados, por isso tínhamos uma comitiva bastante comprida.

 

Como sabeis, a Via Ápia dá para o Sul, direita como uma seta e plana como uma mesa. Só nas proximidades do Monte Alba é que a estrada dá umas voltas e começa a subir um pouco. Há umas casas grandiosas nessa zona. Pompeu tem uma villa nos bosques, não muito longe da estrada. Públio Clódio também tinha. Quem me dera ter-me recordado disso, e ter sido mais cauteloso.

 

Clódio devia estar a par do meu plano de ir nesse dia a Lanúvio não era segredo. Talvez soubesse também que eu iria acompanhado pela minha mulher e pelos criados dela, embaraçado com uma comitiva muito pouco bélica. Disseram-me que Clódio tinha declarado em público, poucos dias antes, que tencionava matar-me num prazo de dias. "Não podemos tirar o consulado a Milo, mas podemos tirar-lhe a vida!" Foi o que ele disse. E era nesse dia que ele tencionava cumprir essa ameaça, naquele ponto isolado da Via Ápia.

 

Descobri posteriormente que Clódio tinha partido de Roma súbita e discretamente no dia anterior. Para se preparar para a minha chegada, para se pôr à minha espera. Devia ter batedores colocados ao longo do caminho, que avançariam mais depressa para lhe comunicarem que eu estava a chegar. Escolheu um local em que uma elevação do terreno lhe conferia vantagem. Eu ia numa carruagem, acompanhado por uma série de mulheres e jovens criados, e Clódio estava a cavalo, acompanhado pelo seu bando de assassinos treinados, escondidos atrás das árvores à beira da estrada, à espera que eu chegasse.

 

A emboscada teve lugar por volta da décima primeira hora do dia. O Sol começava a esconder-se por trás das árvores mais altas. E depois foi o ataque, confusão, gritos, sangue. Se fosse um pássaro que na altura voasse por cima das nossas cabeças, talvez pudesse contar-vos exactamente o que se passou. Mas para mim, que ia sentado na carruagem com a minha mulher, tudo começou num piscar de olhos. De repente, vi uma série de homens com espadas na mão a bloquear a nossa passagem. O meu condutor deu-lhes um grito. Eles correram para ele, puxaram-no da carruagem abaixo e esfaquearam-no até à morte diante dos meus olhos! Eu atirei fora a capa. Peguei na espada e saltei do veículo. Por Hércules, os gritos da minha mulher ainda ecoam nos meus ouvidos! Os homens que tinham morto o meu condutor dirigiram-se a mim, mas no fundo eram uns cobardes. Uns movimentos da minha espada e fugiram como coelhos! Quando Milo imitou a acção com uns golpes amplos pelo ar, não foi difícil imaginar os homens a fugirem dele.

 

Nessa altura, apercebi-me de que havia mais homens a atacar a comitiva, atrás de mim. No meio da confusão, vi Clódio em pessoa, escarranchado em cima de um cavalo. Voltou-se e viu a minha amada Fausta. Ouviu-a gritar. Não me viu, a carruagem bloqueava-lhe a visão. Mas deve ter visto a minha capa amarfanhada e pensou que eu ainda estava dentro da carruagem com Fausta, abatido, morto porque gritou aos companheiros: "Apanhámo-lo! Milo está morto! Está finalmente morto!"

 

Deixem-me dizer-vos, cidadãos, que é uma coisa verdadeiramente estranha, ouvir alguém proclamar a nossa morte num tom jubiloso. Lá atrás, na comitiva, os meus guarda-costas tentavam abrir caminho até junto da carruagem para me ajudar, quando ouviram Clódio regozijar-se com a minha morte. Podereis censurá-los pelo que aconteceu a seguir? Lutaram para se defender, é certo, mas também lutaram porque estavam furiosos, porque pensaram que o seu senhor fora assassinado e que a sua senhora corria um perigo terrível. No meio da escaramuça, aproximaram-se de Clódio e, quando a escaramuça acabou, Clódio estava morto. Eu não lhes ordenei que o matassem. Aconteceu sem meu conhecimento e fora da minha presença. Serão os meus escravos dignos de censura? Não! Fizeram exactamente o que qualquer homem teria gostado que os seus escravos fizessem em situação idêntica. Não tenho razão?

 

Ouviu-se um rugido de concordância proveniente da multidão. Reparei que o banqueiro se mostrava particularmente entusiasta.

 

Milo pareceu retirar forças da multidão. Continuou a gritar por cima do rugido. As veias do seu pescoço aumentaram de volume e ficou com a cara muito vermelha.

 

Se a emboscada de Clódio tivesse sido bem sucedida, quem estaria hoje morto seria eu! Espetou repetidamente o pescoço com o indicador, o suficiente para deixar marcas. Seria para Clódio que todos estariam a apontar. Toda a gente estaria a acusar Clódio de assassínio, e a dizer que Clódio era uma ameaça para... Milo conteve-se. Era preferível não dizer o nome do Grande em voz alta. Mas Clódio fracassou! Clódio perdeu! Pagou o preço da sua maldade. Foi ele a causa da sua própria morte, e eu não estou disposto a ser responsabilizado por ela!

 

Isto provocou aclamações ainda mais ruidosas. Milo pôs-se nas pontas dos pés, apertando os punhos com os braços estendidos ao longo do corpo e gritando para se fazer ouvir. Tinha uns pulmões extraordinariamente fortes.

 

Nada lamento! De nada peço perdão! E recuso-me a pronunciar palavras vazias de consolo à sua viúva e aos seus filhos, e ainda menos àquela torpe irmã dele. A sua morte foi o maior presente que os deuses poderiam dar a Roma. Se o tivesse estrangulado com as minhas próprias mãos, não me sentiria envergonhado de o dizer! Se o tivesse morto a sangue-frio, se o tivesse apanhado de surpresa e esfaqueado nas costas, ainda me sentiria orgulhoso!

 

Célio avançou apressadamente, com uma expressão de rigidez no rosto. Inclinei-me na direcção de Eco.

 

Acho que Milo foi para além do que tinha sido combinado. Célio ergueu a mão esquerda, pedindo silêncio. Estendeu a mão direita para o ombro de Milo. Milo tentou sacudi-lo, mas Célio acentuou a pressão, até Milo se retrair e lhe lançar um olhar irritado.

 

A multidão ignorou o pedido de silêncio, e começou a cantar como se estivesse num comício eleitoral. Iniciaram-se imediatamente diversos cantos diferentes. O resultado era ensurdecedor. O tintureiro juntou-se àqueles que recitavam uns antigos versos macarrónicos sobre Clódio e a irmã:

 

Clódio fazia de menina quando era um rapazinho! E Clódia fez do rapazinho o seu brinquedo!

 

Este canto foi repetido uma vez e outra, pontuado por vaias de risos e entoado cada vez mais alto, para competir com outro canto, ao qual aderiram o banqueiro e a sua comitiva:

 

Cereais de graça, cereais de graça,

 

são apenas trampa

 

do olho de Clódio!

 

Paus grandes, paus pequenos

 

todos eles desaparecem pelo olho de Clódio acima!

 

No alto da plataforma, Milo desatou a rir. O seu rosto assumiu um tom apoplético de vermelho. Ria-se tanto, que começou a chorar. Parecia um homem que durante horas e horas mantivera uma pose torturada, forçando todos os seus tendões até à agonia, e que subitamente não consegue continuar a manter a mesma pose. Agitava-se de uma forma tão convulsiva, que quase parecia incapaz de se manter de pé.

 

Célio desistiu de acalmar a multidão. Tinha no rosto uma expressão divertida e vagamente preocupada, como quem diz: Não era exactamente isto que eu tinha em mente, mas acho que também serve...

 

Voltei-me para Eco, curioso de ver qual seria a reacção do meu inabalável filho, mas ele remetera-se ao silêncio, sentindo-se tão confuso como eu próprio me sentia. Ridicularizar os mortos é troçar dos deuses. Havia qualquer coisa de assustador na súbita hilariedade de mofa da multidão, uma sensação vertiginosa de quem vacila à beira de um precipício.

 

Os cantos roufenhos prosseguiam, mas começaram de repente a ser acompanhados por um ruído mais semelhante a gritos do que a gargalhadas. A multidão foi atravessada por um frémito invisível mas palpável, um arrepio de ansiedade. As cabeças voltaram-se confusas, tentando discernir a sua origem. Ao sussurro de apreensão seguiu-se rapidamente uma onda de pânico.

 

Como é que Milo tinha descrito a emboscada na Via Ápia? Confusão, gritos, sangue se fosse um pássaro que na altura voasse por cima das nossas cabeças, talvez pudesse contar-vos exactamente o que se passou mas tudo começou num piscar de olhos.

 

Foi o que aconteceu no Fórum, naquele dia, quando os Clodianos desceram sobre o contio de Célio e de Milo empunhando espadas faiscantes, como um exército de vingança.

 

Nunca fui militar, mas as batalhas não são uma novidade para mim. No ano em que Cícero foi cônsul, estava com o meu filho Meto quando ele combateu do lado de Catilina na batalha de Pistória. Tive uma espada na mão. Vi Romanos matarem Romanos.

 

Já assisti a batalhas. Sei qual é o seu aspecto, o som que produzem, ao que cheiram. O que aconteceu no Fórum, nesse dia, em nada se assemelhou a uma batalha. Foi um massacre.

 

Durante o massacre propriamente dito, não tivemos tempo para pensar em nada, para além da fuga. Só mais tarde é que eu consegui meditar no que tinha acontecido.

 

Houve quem dissesse que o ataque dos Clodianos foi espontâneo, instigado pelos relatos daquilo que Milo e Célio estavam a dizer no contio. Furiosos com a alegação de que Clódio tinha encenado uma emboscada, os seus adeptos, ainda enlutados, decidiram mostrar à multidão reunida no contio o que era uma emboscada. Outros afirmaram que o ataque foi premeditado, como o fora a emboscada de Clódio na Via Ápia, e que os Clodianos só estavam à espera de que Milo aparecesse e que os seus apoiantes se reunissem, para atacarem.

 

Premeditado ou não, o ataque foi bem organizado. Os Clodianos vinham fortemente armados. Não fizeram qualquer tentativa para esconder as armas. Traziam espadas curtas, punhais e mocas. Alguns traziam sacos de pedras. Outros, tochas. Pareciam chegar de todos os lados ao mesmo tempo. Em pânico, a multidão contraiu-se para o interior de si própria, de tal maneira que, inicialmente, o perigo de ser esmagado e pisado por amigos era tão grande como o de ser cortado ao meio ou espancado até à morte por inimigos.

 

Evidentemente que, apesar da lei que proíbe os habitantes da cidade de andarem armados dentro dos seus muros, muitos dos presentes no contio estavam secretamente armados, ou tinham guarda-costas armados, e muitos deles (especialmente os que pertenciam ao bando de Milo) tinham tanta experiência em combates de rua como os Clodianos, de maneira que o recontro não foi totalmente unilateral. Mas os Clodianos dispunham da vantagem estratégica da surpresa e da vantagem táctica de terem cercado a multidão. Também é possível que tivessem uma considerável vantagem numérica como reclamaram posteriormente os partidários de Milo, feridos e derrotados, mas eu duvido de que, na altura, alguém se tivesse incomodado a contar as cabeças.

 

Os adeptos de Milo também alegaram posteriormente que a força de ataque era constituída, em grande medida, por escravos. Os lugares-tenentes de Clódio, declararam, comandavam agora exércitos inteiros de ex-escravos, que lhes eram leais graças às inovações radicais de Clódio, como a distribuição gratuita de cereais. Foi esse o verdadeiro crime que teve lugar naquele dia, disseram as gentes de Milo: o facto de escravos e ex-escravos terem perturbado uma reunião pública e pacífica de cidadãos que tratavam de assuntos de Estado. Em que se tinha transformado a República quando esta ralé de baixa extracção comandava as ruas?

 

Mas, como eu dizia, estas considerações só foram feitas depois. Na altura, reinava o pânico.

 

Eco e eu sentimos o perigo ao mesmo tempo, embora ainda não houvesse nada para ver. Ele agarrou-me no braço e eu agarrei no dele. Os guarda-costas do meu filho voltaram-se para o exterior, formando um anel à nossa volta e meteram as mãos dentro das túnicas, à procura dos punhais.

 

Eco encostou a boca ao meu ouvido.

 

Aconteça o que acontecer, papá, não te afastes de mim!

 

Era mais fácil dizer do que fazer, pensei eu, porque os corpos empurravam-se uns aos outros e eram puxados para um lado e para o outro, como elos de uma armadura testados por um ferreiro. A sensação de ser apanhado numa multidão como esta deve ser igual à de ser arrastado em águas violentas. Um mar de corpos é uma coisa sólida e ondulante, que nos empurra, lutando, como nós, para se manter viva.

 

O ruído tornou-se ensurdecedor juras, pragas, gritos, grunhidos, súbitos queixumes agudos e sons guturais. De repente, vi ao meu lado o tintureiro e o seu escravo. Ele gritava, para ninguém em particular:

 

Eu já sabia que isto ia acontecer! Eu já sabia! Subitamente, abriu-se junto a nós um intervalo na multidão, uma espécie de rasgão num pedaço de tecido. Os Clodianos entraram por ali. Homens de olhos desvairados correram para mim com os punhais erguidos. Tinham os lábios repuxados para trás e os dentes cerrados. Rosnavam como cães.

 

Os guarda-costas de Eco pareciam ter desaparecido, juntamente com o próprio Eco. Eu tinha a multidão em pânico nas costas, como um muro inamovível; misturar-me com ela seria tão fácil como misturar-me com uma pedra.

 

Aquele! gritou um dos atacantes, apontando na minha direcção com o punhal. Apanhem o patife! E correu em direcção a mim.

 

Eu preparei-me para o ataque, lutando contra o impulso de fugir. Sempre prometi a mim próprio que não acabaria como um desses cadáveres que são descobertos com feridas nas costas. Olhei para o rosto do homem, tentando fixá-lo nos olhos, mas o seu olhar desvairado estava concentrado em qualquer coisa situada atrás de mim. Ele desviou-se de mim, e o seu punhal assobiou uma nota aguda ao passar a um dedo da minha orelha. Pelo canto do olho, vi o brilho dos punhais erguendo-se no ar, um após outro, como pássaros de pescoços longos estendendo-os para o céu.

 

Encostei-me à multidão em fuga, tentando voltar a misturar-me no seu anonimato, tentando não ver. Um impulso ainda mais forte compeliu-me a olhar de novo.

 

Os punhais erguiam-se e desciam, erguiam-se e desciam. Iam ao seu encontro outros punhais. Rios de sangue saltavam na vertical, como gritos imobilizando-se no ar gelado. No meio da confusão, detectei o homem que tinha tomado por banqueiro. Era ele que os Clodianos tinham atacado. O seu cordão de guarda-costas fora quebrado e dizimado. Os escravos que tinham caído para o defenderem amontoavam-se à sua volta numa massa informe, os seus corpos manchados de sangue prendendo-lhe as pernas, de tal maneira que ele não conseguia fugir. Os Clodianos rodearam-no como abutres, os seus punhais semelhantes a bicos ameaçadores. Esfaquearam-no uma vez e outra. Enquanto ele se retorcia e agitava, com a boca escancarada num grito silencioso, mãos gananciosas estenderam-se para lhe arrancarem do pescoço o colar de prata e lhe tirarem a saca das moedas do interior da túnica.

 

Os atacantes rodearam-no uma vez mais, e depois avançaram, como um furacão. Por um estranho milagre, o banqueiro mantinha-se de pé. Tinha os olhos e a boca muito abertos de espanto, a toga coberta de sangue. Subitamente, um dos atacantes voltou atrás e, num gesto rápido e competente, como um escravo cioso do seu dever preocupado com os atavios do seu senhor, pegou na mão do homem e tirou-lhe do dedo o anel de ouro com o sinete.

 

O ladrão podia ter ficado por ali mas, tendo voltado atrás para acabar o que começara, pareceu decidido a dar o golpe final. Colocou-se por trás do estupefacto banqueiro e ergueu o punhal ao alto, agarrando-o com ambas as mãos. Eu encolhi-me, como se o golpe fosse para mim.

 

Mas não cheguei a vê-lo cair. Uma mão forte poisou-me no ombro e obrigou-me a voltar. Fiquei a olhar de frente para um jovem maciço, de olhos brilhantes e sorriso ameaçador. Na extremidade do meu campo de visão, vi o brilho do aço e percebi que ele tinha um punhal na mão.

 

Ao longo dos meus quase 60 anos, tenho-me confrontado por diversas ocasiões com a perspectiva da morte iminente. A cadeia de pensamentos que ela provoca é sempre a mesma. Seu idiota, costumo pensar porque me parece sempre que essas situações poderiam ter sido evitadas, ou pelo menos adiadas, seu idiota, chegou então o teu fim. Os deuses perderam o interesse na pequena história da tua vida. Deixaste de os divertir. Vais ser apagado como uma lamparina no fim...

 

É sempre a mesma coisa: os nomes daqueles que amo ecoam dentro da minha cabeça. Recordo o doce som da voz do meu pai, que não oiço há muitos, muitos anos. E, por vezes, em momentos desses, e este foi um desses momentos, vejo o rosto da minha mãe, que morreu quando eu era muito jovem, e cujo rosto não consigo recordar noutras circunstâncias. Naquele instante, recordei-o vivamente, e soube que o meu pai tinha razão quando me repetia, como fazia com frequência, que ela era bela, muito bela...

 

Mas claro que uma parte de mim sabia que eu ainda não estava destinado a morrer, e compreendeu-o imediatamente quando o jovem maciço me disse, num tom de voz impaciente e desesperado:

 

Graças a Júpiter que te encontro! O senhor está furioso! Anda! Tratava-se, evidentemente, de um dos guarda-costas de Eco. Na minha confusão, não o tinha reconhecido.

 

Eco tinha-se retirado para trás de um templo próximo, onde um barraco encostado ao muro liso das traseiras criava um vago esconderijo. É verdade que continuávamos visíveis de duas direcções, dado que o barraco era aberto em ambas as extremidades, mas tratava-se pelo menos de um lugar mais defensável do que o terreno aberto.

 

Papá! Graças aos deuses que Davo te encontrou!

 

Deixa lá os deuses. Graças a Davo. Sorri para o jovem robusto, que me respondeu com outro sorriso. E agora?

 

Eco espreitou para fora, sombriamente. Não se via nada nem ninguém à excepção das paredes brancas, que ecoavam os ruídos da multidão.

 

Talvez pudéssemos ficar por aqui. Não é mau como refúgio transitório, embora ninguém saiba o que teremos de enfrentar a seguir.

 

E que tal se déssemos uma corrida?

 

Talvez seja preferível. Para tua casa ou para a minha?

 

A minha é mais perto disse eu. Mas teríamos de atravessar o Fórum, e calculo que haja mais hipóteses de o tumulto se estender para esse lado, na direcção da casa de Milo. - Senti um arrepio ao pensar na minha mulher e na minha filha, sozinhas em casa, tendo como única protecção uma porta trancada e Belbo.

 

Então vamos para minha casa, papá?

 

Não. Tenho de voltar para junto de Betesda e de Diana.

 

Ele acenou com a cabeça. O ruído do tumulto parecia estar a aumentar, embora pudesse tratar-se apenas de um efeito da acústica. Subitamente, vimos surgir duas figuras do outro lado da esquina do templo. Recuámos para a sombra.

 

Pelas túnicas simples, parecia tratar-se de escravos. Deram a volta à esquina tão depressa, que chocaram um com o outro e quase caíram. O mais alto viu o barraco e apontou.

 

Olha! Podíamos esconder-nos ali!

 

O mais baixo e possante viu o barraco e correu na sua direcção, afastando o companheiro do caminho. Pareciam aqueles escravos cómicos de Flauto, só que, se fosse uma peça, estariam a fugir de uma tareia merecida do seu senhor, e não de um tumulto sangrento.

 

Bolas de Júpiter! disse o mais alto, apressando-se a ir atrás dele. Não precisas de empurrar, Milo!

 

E tu não precisas de dizer o meu nome em voz alta, seu idiota! Anda embora, antes que alguém nos veja

 

Milo entrou dentro do barraco antes de se aperceber de que estava ocupado. A primeira coisa que viu foram quatro punhais, apontados na sua direcção pelos guarda-costas de Eco. Célio, vindo de trás, chocou com ele e empurrou-o para diante. Milo ergueu as sobrancelhas e mostrou os dentes numa careta ao tropeçar para a frente, quase se espetando no punhal mais próximo. Célio, entrevendo o aço, recuou e espreitou para dentro do barraco com os olhos muito abertos.

 

Para trás! disse Eco, chamando os seus guarda-costas. Estes não nos fazem mal.

 

Milo observou os rostos que tinha na sua frente e parou ao ver o meu.

 

Gordiano? És tu? O homem de Cícero?

 

Gordiano, sim. O homem de Cícero não. E tu és Milo, embora ninguém o dissesse, ao olhar para ti. O que fizeste à toga?

 

Estás a brincar? A plebe anda atrás de quem quer que use uma toga. São todos uma raça de escravos e ladrões talha-pescoços, dispostos a matar e a roubar qualquer cidadão que se lhes apresente. Despi a toga logo que tive oportunidade. Graças a Júpiter que trazia esta túnica por baixo.

 

Vejo que também tiraste o anel de cidadão disse eu, olhando para o seu dedo nu.

 

Sim, pois...

 

E vejo que Marco Célio seguiu a tua inspiração. Abanei a cabeça. Dois dos homens mais poderosos de Roma faziam-se passar por escravos e comportavam-se como escravos. Subitamente, não pude impedir-me de rir.

 

Pára com isso! disse Milo.

 

Desculpa. É da tensão. Mas recomecei a rir-me, e não tardou que Eco, e depois os escravos de Eco, se juntassem a mim. Até Célio, sempre pronto a ver o absurdo de qualquer situação, desatou a rir.

 

Mas onde está a tua comitiva, os teus guarda-costas? perguntei.

 

Foram massacrados. Dispersaram. Quem sabe? respondeu Milo.

 

Calculo que não sejam eles? disse eu, com o riso a morrer-me na garganta. Um grupo de homens de punhais na mão surgira de trás da esquina.

 

Oh, bolas de Júpiter! gemeu Célio. Ele e Milo abriram caminho pelo meio do barraco e fugiram pela outra extremidade. Eu segui atrás deles, com Eco e os seus guarda-costas a cobrirem a rectaguarda. Atrás de nós, ouvi o choque do aço e, quando me voltei, vi um dos atacantes tropeçar e cair, agarrado ao peito, no ponto onde Davo o tinha ferido. À visão do sangue jorrando de um dos seus, os outros perderam a coragem e recuaram.

 

Célio e Milo tinham desaparecido. Demos por nós na orla do tumulto, entre os corpos dispersos dos mortos e dos feridos. As pedras da calçada estavam escorregadias por causa do sangue. Da entrada do Templo de Castor e Pólux saíam golfadas de fumo. Na porta ao lado, no alto da Casa das Vestais, a Virgo Máxima e as suas sacerdotisas tinham-se juntado no telhado e observavam a cena com expressões de horror e ultraje.

 

Venham! Por aqui! disse eu, apontando para uma passagem pavimentada entre dois edifícios, que ia dar à base do Palatino e à Rampa. Outros seguiam à nossa frente, subindo a correr o atalho comprido e íngreme como refugiados de uma cidade saqueada. Pareceu-me detectar Célio e Milo mais adiante, progredindo a grande velocidade, e afastando as pessoas do seu caminho à esquerda e à direita.

 

Eu fiquei completamente ofegante antes de chegar ao alto da Rampa. Eco percebeu que eu estava em dificuldades e fez sinal aos guarda-costas para que me ajudassem. Eles agarraram-me nos braços e levaram-me praticamente ao colo nos últimos passos. Atravessámos apressadamente a rua, em direcção a minha casa.

 

De repente, um pouco mais adiante, saiu de uma das casas dos meus vizinhos um grupo de homens armados. O chefe do bando agarrava uma mão-cheia de jóias fieiras de pérolas e correntes de prata pendiam dos seus dedos sujos. Na outra mão, levava um punhal a pingar sangue. A porta da casa tinha sido arrancada dos gonzos.

 

Vocês aí! gritou para nós. Embora estivesse a alguma distância, cheirou-me a vinho e a alho. O alho dava energia, era um antigo truque dos gladiadores; o vinho dava coragem. Ele tinha o rosto vermelho e olhos de um azul gelado. Viram-no?

 

Vimos quem? Fiz sinal aos guarda-costas para que evitassem o grupo mas continuassem a avançar.

 

Milo, claro! Andamos de casa em casa à procura dele. Quando o encontrarmos, vamos crucificá-lo pela morte de Clódio.

 

Andam à procura de Milo, é? disse Eco. Olhava para a mão-cheia de jóias roubadas; o sarcasmo que tinha na voz fez-me encolher de medo. O ladrão ergueu a mão e agitou-a.

 

O quê, isto? Quem é que disse que a justiça deve ser gratuita, hem? Também merecemos ser pagos, ou não? Tal como estes ricaços merecem as suas coisinhas. Fez uma cara tão feia, que eu pensei que se preparava para nos atacar com o punhal. Mas, em vez disso, atirou as jóias ao chão. A prata tilintou contra as pedras da calçada e a fieira de pérolas rebentou. As bolinhas brancas e cor-de-rosa saltitaram pelo chão como pedras de granizo. Os homens que estavam atrás dele gritaram e praguejaram.

 

O que é que interessa? gritou ele. Há muito mais de onde essas vieram. Voltou-se e conduziu o bando pela rua abaixo, para longe de nós, em direcção à casa seguinte.

 

O coração começou a bater-me com toda a força dentro do peito. Se eles iam na direcção oposta, isso queria dizer que já tinham estado em minha casa...

 

Tinha a cabeça a andar à roda. Pestanejei ao sentir os olhos húmidos. Confrontado com a possibilidade da minha própria morte, há uma parte de mim que reage com resignação céptica. Mas, ao encarar a possibilidade de qualquer coisa terrível ter acontecido a Betesda ou a Diana, senti um terror esmagador.

 

Eco compreendeu. Agarrou-me na mão e apertou-ma. Quando nos aproximávamos da casa, procurei sinais de fogo ou de fumo, mas não os detectei. Depois vi as duplas portas da entrada. Estavam abertas para trás. A fechadura tinha sido arrombada. O mesmo acontecera à barra de madeira, que estava caída no limiar, partida ao meio.

 

Entrei no átrio, que me pareceu muito escuro, depois da luminosidade exterior. Andando apressadamente, tropecei em qualquer coisa grande e sólida. Eco e Davo ajudaram-me a levantar.

 

Papá... disse Eco.

 

Eu continuei apressadamente.

 

Betesda! Diana!

 

Ninguém respondeu. Corri um quarto após outro, só vagamente consciente de que Eco e os seus homens me seguiam. As camas e as cadeiras tinham sido deitadas ao chão. Os armários estavam tombados, com as portas abertas.

 

No meu quarto, a minha cama tinha sido insensivelmente rasgada e o enchimento espalhado pelo chão. Havia uma poça de uma coisa escura e pegajosa no chão, diante do toucador de Betesda. Sangue? Estremeci, já perto das lágrimas, mas depois apercebi-me de que se tratava apenas de um unguento que escorrera de um frasco partido que tinha sido atirado ao chão.

 

Não havia ninguém nas cozinhas, ninguém nos quartos de dormir. Onde estavam os escravos?

 

Fui a correr ao quarto de Diana. A porta do guarda-fatos estava escancarada e as suas roupas espalhadas pelo chão. A caixinha de prata onde ela guardava as suas pequenas jóias tinha desaparecido. Chamei-a. Ninguém respondeu.

 

Fui ao meu escritório. Os orifícios dos rolinhos de papiro estavam vazios. Tinham-nos deitado todos ao chão, provavelmente à procura de objectos de valor. Não os tendo encontrado, tinham pelo menos deixado intactos os meus livros e os instrumentos de escrita. Que utilidade podiam semelhantes coisas ter para os ladrões? Estava tudo empilhado no chão, espalhado mas não estragado, os pergaminhos ainda muito bem enrolados e atados com fitas.

 

Depois chegou até mim um cheiro desagradável. Franzi o nariz e segui-o até ao canto do compartimento. Alguém tinha defecado no chão, e depois utilizara um pedaço rasgado de um pergaminho para se limpar.

 

Peguei cuidadosamente no pedaço pelo canto, para ver o que estava escrito naquelas linhas:

 

Pai, que infelicidade caiu sobre nós! Lamento-te ainda mais do que lamento os mortos.

 

Pobre Antígona! Pobre Eurípides!

 

Saí do escritório para o jardim do centro da casa. A estátua de Minerva, que eu herdara do meu querido amigo Lúcio Cláudio juntamente com a casa, que fora o seu e meu orgulho e alegria, e que suscitara a cobiça do próprio Cícero, tinha sido atirada abaixo do seu pedestal. Estariam convencidos de que iam encontrar algum tesouro no compartimento que havia por baixo, ou tê-lo-iam feito por puro e gratuito espírito destrutivo? Seria de esperar que o bronze tivesse sobrevivido à queda, mas devia haver uma falha escondida no molde. A deusa virgem da sabedoria estava partida em duas.

 

Papá!

 

O que foi, Eco? Encontraste-as?

 

Não, papá. Nem Betesda, nem Diana. Mas no átrio devias vir ver com os teus próprios olhos...

 

Ver o quê?

 

Antes que eu pudesse responder-lhe, uma voz chamou-nos do alto. Ergui os olhos e vi Diana espreitar por cima da beira do telhado. Fiquei com a garganta apertada e quase solucei de alívio.

 

Diana! Oh, Diana! Mas o que, como é que subiste para aí?

 

Pelo escadote, claro. Depois, puxámo-lo para cima. E depois escondemo-nos e deixámo-nos estar em silêncio. Os ladrões nem chegaram a saber que nós estávamos aqui.

 

A tua mãe também?

 

Sim. Ela não teve medo nenhum de subir o escadote! E os escravos também. A ideia foi minha.

 

E foi uma excelente ideia. Fiquei com os olhos inundados de lágrimas, até Diana se transformar numa mancha embaciada.

 

E olha, papá! Até me lembrei de trazer o meu guarda-jóias. Estendeu-o orgulhosamente diante de si.

 

Sim, óptimo. Agora vai chamar a mãe disse eu, impaciente por verificar pessoalmente que Betesda estava bem. E diz a Belbo que venha também.

 

Eco falou-me suavemente ao ouvido.

 

Papá, vem até ao átrio.

 

O quê?

 

Vem comigo. Pegou-me no braço e levou-me até lá.

 

Ao entrar apressadamente em casa, eu tinha tropeçado numa coisa grande e pesada. A coisa em que eu tinha tropeçado era um corpo. Os homens de Eco tinham-no voltado para cima e puxado para a luz.

 

O rosto de Belbo, normalmente tão bovino e submisso, ficara cristalizado numa careta de feroz determinação. Na mão direita, tinha um punhal sujo de sangue. A parte da frente da sua túnica clara estava manchada com grandes zonas de vermelho.

 

Tinha morrido à entrada da casa, defendendo a brecha aberta na porta, tentando impedi-los de entrar. O punhal mostrava que infligira pelo menos um ferimento, mas recebera muitos mais.

 

As lágrimas que eu tinha contido, e que deixara correr de má vontade com o alívio de ter visto Diana, soltaram-se agora numa corrente que me cegou. O homem simples e alegre que fora meu companheiro durante 25 anos e o protector daqueles que eu amava, que me tinha salvo a vida mais do que uma vez, que sempre parecera iluminado a partir de dentro por uma chama constante que nada podia extinguir, estava inerte a meus pés. Belbo tinha morrido.

 

As pilhagens e os incêndios prolongaram-se por vários dias.

 

Roma era presa da desordem. Havia incêndios por toda a cidade, alguns deles deliberadamente provocados. Uma névoa de fumo instalou-se nos vales entre as sete colinas. Equipas de soldados e de libertos, com o rosto e o vestuário cobertos de fuligem, acorriam de crise em crise.

 

Ouviam-se mulheres a gritar durante a noite, pedidos roucos de socorro, o tinir do aço contra o aço. Havia boatos loucos que relatavam todo o género de ultrajes violações, assassínios, raptos, crianças fechadas dentro de casas e queimadas vivas, homens pendurados de pernas para o ar nas esquinas, espancados até à morte com mocas, e para ali deixados, como troféus.

 

No dia seguinte à morte de Belbo, Eco e eu enfrentámos as ruas para ir depositar o seu corpo na necrópole situada fora dos muros da cidade. Dois dos meus escravos domésticos puxaram a carroça que levava o seu cadáver. Os guarda-costas de Eco flanqueavam a nossa procissão. Embora tivéssemos passado por diversos bandos de saqueadores, ninguém nos incomodou. Estavam demasiadamente ocupados a assaltar os vivos, para se preocuparem com os mortos.

 

Na mata de Libitina, inscrevemos Belbo no registo dos mortos. Nesse dia, os crematórios estavam cheios. Belbo foi queimado juntamente com vários outros corpos numa pira funerária, e as suas cinzas foram levadas para uma sepultura comum. Pareceu-me um final demasiadamente insignificante para uma vida tão robusta.

 

Eco e eu discutimos se a minha família devia ir para sua casa ou a sua família vir para minha casa, para juntarmos as nossas defesas. Acabámos por decidir deixar os escravos domésticos dele a guardar a casa do Esquilino, e trazer Menénia e os gémeos para minha casa que, depois de reparada e reforçada a porta, parecia mais defensável. O Palatino era perigoso, mas também tinha havido notícia de diversas atrocidades no Esquilino, e não havia qualquer aparência de ordem na Subura. Além disso, a minha casa já tinha sido pilhada. Não havia qualquer razão para que eles voltassem uma segunda vez.

 

Como normalmente acontece nestas circunstâncias, o ambiente de crise emprestou uma confortável solidariedade à vida doméstica. Betesda, Menénia e Diana trabalhavam em conjunto, assistindo às reparações do mobiliário danificado, fazendo listas das coisas que precisavam de ser substituídas, descobrindo maneiras de nos alimentar quando a maioria dos mercados tinha fechado e os restantes só estavam abertos algumas horas por dia, e mesmo essas eram imprevisíveis. Os gémeos, Tito e Titânia, apercebendo-se da gravidade da situação, andavam ansiosos por ajudar e portaram-se com uma maturidade que em muito ultrapassava os seus sete anos. Eu sentia-me mais seguro na companhia de Davo e dos outros guarda-costas, e era agradável ter Eco ao meu lado. Mas a casa pilhada era, em si mesma, uma recordação constante da nossa vulnerabilidade. Sempre que passava pelo jardim, via a Minerva caída no chão, partida em duas. Sempre que passava pelo átrio, lembrava-me de Belbo, como o encontrara ali. Sentia imensamente a sua ausência. Às vezes chamava-o alto pelo nome, antes de me fazer calar. Ele estivera diariamente ao meu lado durante tanto tempo, que eu acabara por tomá-lo como uma evidência, como o ar que respiro; e, tal como aconteceria com o ar que respiro, quando ele desapareceu, apercebi-me da profunda necessidade que tinha dele.

 

Um inter-rei deu lugar ao seguinte, e ao seguinte, e continuámos sem eleições, ou sequer a perspectiva de elas virem a ser marcadas. Não era possível fazê-lo, num estado de caos como o que se vivia. Dia a dia, hora a hora, parecia aumentar o sentimento de que Roma precisava de um ditador. Ocasionalmente, o nome de César era mencionado. Mais frequente e veementemente, era Pompeu o invocado, como se o nome do Grande fosse uma espécie de encantamento mágico que pudesse endireitar todos os males.

 

Todos os dias eu pensava que podia voltar a ser contactado por Cícero, mas não recebi novas convocatórias de Tiro, nem tive mais encontros sussurrados com Milo e Célio. Eu quase desejava que Cícero me mandasse chamar, para ter uma ideia daquilo que ele e o seu círculo andavam a preparar, no meio daquela desordem.

 

Mas foi outro quem veio procurar-me.

 

Foi numa manhã fria e luminosa de Februarius. Eco tinha ido ver como estavam as coisas em sua casa, por isso eu encontrava-me sozinho no escritório. Apesar do frio, tinha aberto as portadas para deixar entrar a luz do sol e o ar fresco. Talvez os muitos incêndios que havia na cidade se tivessem finalmente extinguido; só me apercebi de um leve cheiro a fumo. Davo entrou-me no escritório para me dizer que tinha parado diante da minha porta uma liteira acompanhada por um comboio de escravos, e que um dos escravos tinha uma mensagem para mim.

 

Uma liteira?

 

Sim. Um veículo bastante grandioso. Com... Listas vermelhas e brancas disse eu, num golpe de intuição.

 

Isso mesmo. Ele ergueu as sobrancelhas, e eu tive um movimento interior de tristeza, ao recordar Belbo. O jovem Davo não era nada parecido com ele, já que era moreno e consideravelmente mais bonito do que Belbo alguma vez fora, mas tinha o mesmo tamanho e a mesma expressão bovina. Ele franziu a testa. Parece-me conhecida.

 

Será a mesma liteira que vimos chegar a casa de Clódio na noite da sua morte?

 

Acho que sim.

 

Estou a ver. E dizes que há um escravo com uma mensagem? Manda-o entrar.

 

O homem era um exemplo típico dos escravos masculinos de Clódia, jovem e impecavelmente treinado, com um perfil notável e um pescoço musculado. Eu teria adivinhado quem o enviara mesmo que Davo não me tivesse falado da liteira, porque havia uma sugestão do perfume dela nas suas roupas. Nunca me tinha esquecido daquele odor, uma mistura de nardo com um dispendioso óleo de açafrão. Ele devia ser um dos seus escravos preferidos, para cheirar tanto à sua senhora.

 

O seu estatuto foi confirmado pelas suas maneiras altivas. Ele farejou e espreitou o meu escritório como se estivesse a pensar em comprar a casa, e não viesse apenas entregar uma mensagem.

 

Bem, jovem disse eu por fim, o que pretende Clódia de mim? Ele lançou-me um olhar de dúvida, como quem diz: Não consigo imaginar e depois sorriu:

 

Ela solicita ao prazer da tua companhia na sua liteira.

 

Na sua liteira? Ela estará realmente à espera que eu vá passear de liteira pelas ruas de Roma numa altura destas, com tudo o que se está a passar?

 

Se é na tua segurança que estás a pensar, não te preocupes. Em que outro sítio estarias mais seguro?

 

Aqui não, certamente, pareceu sugerir, olhando por cima do meu ombro e pelas portadas abertas na direcção da Minerva partida. E provavelmente tinha razão. Eram os Clodianos que andavam a provocar distúrbios; todos eles conheciam a liteira de Clódia; não era provável que atacassem a irmã do seu ídolo. Além disso, a comitiva dela devia incluir alguns dos maiores e mais ferozes gladiadores da cidade. Na verdade, em que outro sítio estaria mais seguro do que atravessando o Palatino dentro da liteira de Clódia a não ser, evidentemente, que nos cruzássemos com um bando de homens de Milo que andassem à procura de sarilhos...

 

Por outro lado, tendo em conta as circunstâncias a anarquia que grassava pelas ruas, a virtual guerra civil entre bandos rivais, a perspectiva de uma ditadura e de um futuro incerto, se calhar não era muito boa ideia conviver com Clódia neste momento. Eco ter-me-ia certamente aconselhado a não o fazer, mas Eco não estava aqui e eu estava cansado de me esconder dentro de minha casa, fazendo o papel de espectador passivo de uma cidade que estava a ficar fora de controlo. Enquanto Cícero me tomara como seu confidente, por muito suspeitas que fossem as circunstâncias, eu sentira que tinha acesso a revelações especiais. O privilégio de saber mais do que os outros homens descansava-me; dava-me uma sensação de poder e de controlo, fosse ela real ou não. Agora, sentia-me posto de parte e à deriva, mais ansioso do que me sentiria se estivesse a enfrentar deliberadamente um perigo que começava finalmente a abarcar. Um encontro com Clódia era uma promessa de um vislumbre de informação privilegiada. Não consegui resistir.

 

Disse a mim próprio que a oportunidade de rever Clódia nada tinha a ver com a minha decisão. A possibilidade de me reclinar a seu lado na sua liteira, fechado no casulo criado pela aura do seu perfume, suficientemente perto dela para sentir o calor do seu corpo...

 

Davo, diz à tua senhora que eu fui convocado para uma pequena missão. Não espero estar ausente durante muito tempo, mas se isso acontecer mando-lhe um mensageiro.

 

Vais sair, senhor?

 

Vou.

 

Eu devia ir contigo.

 

Não é necessário disse o escravo de Clódia, lançando a Davo um olhar depreciativo. Calculo que Davo lhe parecesse franzino, em comparação com os gigantes ruivos de Clódia.

 

Suspeito de que este amigo tem razão, Davo. Preferia que ficasses por cá, a vigiar a casa.

 

Segui atrás do escravo, pelo átrio e para fora da casa. O pavilhão vermelho e branco da liteira tinha um aspecto deslumbrante à luz do Sol frio. O ar estava quase parado, apenas com a sugestão de uma brisa, mas o tecido era de tal maneira delicado, que as listas vacilavam e roçavam umas nas outras como serpentes oscilantes. Os gladiadores ruivos que cercavam a liteira colocaram-se em posição de alerta. Um dos carregadores acorreu, colocando um bloco de madeira diante da entrada da liteira, para me servir de degrau. Antes que eu próprio pudesse fazê-lo, as cortinas foram separadas do lado de dentro. Depois, a jovem escrava que as abrira afastou-se para o lado e acenou com a cabeça em direcção ao local onde eu deveria sentar-me, ao lado da sua senhora, mas eu apenas pude ver os olhos de Clódia. Os seus famosos olhos: num dos seus poemas de amor, Catulo afirmara que eles brilhavam como esmeraldas; no discurso em que quase a destruíra, Cícero tinha dito que os seus olhos brilhavam como chispas de uma lâmina afiada. Aqueles olhos podiam seduzir ou escandalizar; mas também podiam chorar. Neste momento, brilhavam por efeito das lágrimas. Perguntei a mim próprio se ela já teria parado de chorar, desde a morte do irmão.

 

Ela desviou o rosto. Noutras circunstâncias, eu poderia ter considerado que o movimento fora propositado, e se destinava a mostrar o extraordinário  perfil da sua testa e a linha do seu nariz. Tinha o lustroso cabelo preto solto, em sinal de luto. Trazia um vestido preto, da mesma cor das almofadas que a rodeavam. O canto onde se aninhara parecia engoli-la na escuridão, à excepção do rosto e do pescoço, que eram de um branco macio e luminoso.

 

Eu subi para a liteira e sentei-me a seu lado. Ela estendeu a mão para a minha, ainda com os olhos desviados.

 

Obrigada por teres vindo, Gordiano. Tive medo de que não o fizesses.

 

Por quê, com receio das ruas?

 

Não, com receio da tua mulher de Alexandria. Os seus lábios comprimiram-se num sorriso breve.

 

Onde vamos?

 

A casa de Clódio. O sorriso tornou-se rígido. Acho que devia dizer antes a casa de Fúlvia.

 

Fazer o quê?

 

Deves lembrar-te de que te convidei a entrar na noite em que ele morreu tive uma premonição de que viríamos a precisar de ti, mais cedo ou mais tarde. E tinha razão. É Fúlvia quem precisa de ti.

 

A sério? Julgo recordar que a tua cunhada ficou muito pouco satisfeita com a minha presença na sala onde se encontrava o corpo.

 

As coisas mudam. Fúlvia é uma mulher pragmática. Neste momento, tu és o homem de quem ela precisa.

 

Para quê?

 

Ela explica-te pessoalmente do que se trata. Por mim, peço-te o seguinte: tudo aquilo que descobrires acerca da morte do meu irmão conta-mo, por favor. Voltou os olhos para mim, e apertou-me a mão. Sei que és um defensor da verdade, Gordiano. Sei como ela é importante para ti. Também é importante para mim. Se eu pudesse ter a certeza acerca da forma como Clódio morreu, de quem o matou e por quê, talvez pudesse finalmente parar de chorar. Conseguiu lançar-me outro sorriso débil e soltou-me a mão. Chegámos.

 

Já? A volta fora tão suave que eu quase nem me apercebera de que tínhamos estado em movimento.

 

Eu espero aqui por ti, e depois levo-te novamente a casa.

 

A jovem escrava abriu as cortinas para me deixar passar. O bloco de madeira estava à espera do meu pé. O enorme pátio da entrada da casa de Clódio estava vazio, à excepção dos diversos homens que guardavam os terraços e o portão. Um dos gladiadores de Clódia subiu os degraus comigo. As portas maciças abriram-se a partir de dentro como se uma aragem de vento divino me precedesse.

 

Um escravo acompanhou-me ao longo dos corredores e das galerias e subiu comigo um lanço de escadas, até uma sala que eu nunca tinha visto. Era num dos cantos da casa, e tinha janelas amplas com vista para os telhados do Palatino e os grandes templos do Capitólio, para além dele. As paredes estavam pintadas com uma aguada verde clara e decoradas com remates azuis e brancos de configuração grega. Era uma sala brilhante e alegre, arejada e luminosa.

 

A primeira pessoa que avistei foi Semprónia. Estava sentada numa cadeira ao pé das janelas, embrulhada numa manta vermelha por causa do frio. Mantinha o comprido cabelo grisalho caído, em sinal de luto, preso com um gancho na nuca e solto pelas costas, até ao chão. O olhar que me lançou era quase tão frio como o ar da rua.

 

Fúlvia avançou para diante das janelas. A luz que entrava era de tal maneira intensa, que eu apenas conseguia vê-la como uma silhueta alta e esguia. À medida que se ia aproximando, o véu de sombra que lhe cobria as feições foi-se dissolvendo lentamente. Era exactamente como eu me recordava, menos bonita do que Clódia, mas notável, à sua maneira, mais jovem e com uma astúcia qualquer nos olhos. Sentou-se numa cadeira ao lado da mãe. Como não havia mais cadeiras na sala, eu deixei-me estar de pé.

 

Fúlvia olhou para mim, avaliando-me.

 

Clódia diz que tu és inteligente. Calculo que ela deve saber.

 

Eu encolhi os ombros, sem saber bem se devia reagir ao elogio ou à insinuação.

 

Soube que ultimamente tens feito algumas visitas a Cícero. Ela fixou-me nos olhos.

 

Nos últimos dias não.

 

Mas desde o assassínio do meu marido fizeste.

 

Sim, num par de ocasiões. Como soubeste?

 

Digamos que herdei os olhos e os ouvidos do meu marido.

 

Bem como os seus hábitos calculistas, pensei. Estava de preto, é certo, mas não detectei mais nenhum sinal de luto. Teria aquela explosão histérica que eu a vira ter diante da multidão, no pátio, sido apenas pelo espectáculo, ou fora uma libertação genuína de uma angústia que normalmente ela mantinha dominada? Neste momento, aparentava estar efectivamente controlada. Clódia parecia mais a viúva enlutada, pensei, e Fúlvia a herdeira impassível, que não desperdiça as lágrimas quando toma sobre os ombros o manto do marido.

 

Estás a tentar perceber-me disse ela. Não te incomodes. Eu também não vou tentar perceber-te. Os teus assuntos com Cícero são teus. Não te vou pedir coisa alguma que ponha em causa a relação que tens com ele, seja ela qual for. Ou com Milo, já agora. Eu ergui a mão, num gesto de protesto, mas ela prosseguiu. Toda a gente sabe que Milo foi responsável pela morte do meu marido. Não é isso que pretendo que descubras.

 

Então o que é?

 

Pela primeira vez, detectei no seu rosto um brilho de desconforto na única ruga na testa, uma tremura dos lábios.

 

Há um certo homem, um amigo do meu marido. Que também é um velho amigo meu, devo dizê-lo. Ele abordou-me, oferecendo-me os seus serviços para quando chegar o momento de levar Milo a tribunal. A sua ajuda e o seu apoio podiam ser-me úteis. Mas...

 

Sim?

 

Não tenho a certeza de poder confiar nele.

- Podes dizer-me como se chama?

 

Marco António. Ergueu uma sobrancelha. Conhece-lo?

 

Não.

 

Mas a tua expressão...

 

Conheço o nome. É um dos homens de César oh, sim, já me lembro. Os nossos caminhos cruzaram-se nessa mesma noite. Quando eu saía de tua casa, ele dirigia-se para aqui. Acontece que ele conhece um dos meus filhos. Trocámos algumas palavras.

 

Só algumas?

 

Deixa-me pensar. Ele perguntou-me se era verdade o que se dizia. Acerca de Públio Clódio. Eu disse-lhe que era.

 

Semprónia remexeu na manta. A filha viria alguma vez a ter um rosto tão endurecido?

 

E como reagiu António? disse Fúlvia.

 

Estava escuro. Eu quase não lhe via o rosto. Mas lembro-me de que a sua voz me pareceu um tanto ansiosa. Disse qualquer coisa do género: "Ah, quer dizer que acabou tudo. É o fim de Públio, para bem ou para mal." Depois, seguiu o seu caminho.

 

Fúlvia olhou pela janela, para o longínquo Capitólio. Foi Semprónia quem respondeu.

 

Que acabou aqui em casa. Mas Fúlvia não estava em condições de o receber, a ele ou fosse a quem fosse. António esteve algum tempo a falar com os outros homens na antessala e depois foi-se embora. É por isso que nós sabemos que António estava em Roma nessa noite.

 

Sim disse Fúlvia, mantendo os olhos fixos em qualquer coisa distante. Mas onde estava ele no princípio desse dia?

 

Queres dizer que estás convencida de que ele teve alguma coisa a ver com a morte do teu marido?

 

Fúlvia não respondeu. Semprónia apertou a manta vermelha.

 

O homem tentou matar Clódio a sangue-frio há apenas um ano. Fúlvia regressou do sítio para onde os pensamentos a tinham transportado.

 

A minha mãe exagera.

 

Achas?

 

O que foi isso? perguntei eu.

 

Nunca ouviste essa história? perguntou Fúlvia. Pensei que tinha corrido as capelinhas, era uma coscuvilhice tão sumarenta. Se calhar, por uma vez, os implicados conseguiram manter o silêncio. Não houve motivo para escândalo, foi apenas uma discussão entre dois velhos amigos, e nada mais.

 

Teria sido consideravelmente mais, se António tivesse conseguido o que queria! disse Semprónia.

 

Mas não conseguiu insistiu Fúlvia.

 

Talvez devesses explicar-me o que se passou. Fúlvia acenou com a cabeça.

 

Foi no Campo de Marte, no ano passado, num dos dias de eleições que acabaram por ser canceladas. Todos os candidatos estavam presentes, a arengar aos seus apoiantes. Segundo me disseram, o movimento era o habitual, alguns arrastavam os pés, havia homens com sacas de moedas oferecendo subornos de última hora, algumas escaramuças com pouca importância. Sabes como é. Isto é, sendo homem, já deves ter participado em eleições e assistido pessoalmente a tudo isto. Talvez até lá estivesses nesse dia.

 

Não. A última vez que votei em eleições consulares foi há dez anos, quando Catilina se candidatou.

 

Semprónia mostrou-se subitamente interessada.

 

Votaste em Catilina?

 

Não. Na verdade, votei num sujeito sem cabeça chamado Nemo. As duas mulheres olharam para mim com curiosidade.

 

É uma história muito comprida. Deixem lá. Não, não estava lá no dia a que te referes. Mas consigo imaginar a cena. O que se passou?

 

António e o meu marido trocaram algumas palavras disse Fúlvia. Pelo que pude perceber, a coisa começou de forma amigável, mas não acabou da mesma maneira. Públio nunca me contou exactamente quem disse o quê a quem.

 

Mas sabemos qual foi o resultado disse Semprónia, com partes iguais de desdém e divertimento na voz. António desembainhou a espada e perseguiu Públio de uma ponta à outra do Campo de Marte.

 

Onde estavam os guarda-costas do teu marido? perguntei eu.

 

Aqueles guarda-costas específicos? disse Fúlvia. Não sei onde se encontravam nesse dia, mas sei onde estão agora a trabalhar nas minas. Houve um brilho nos seus olhos que fez com que ela parecesse, por um breve instante, tão dura como a sua mãe. De qualquer maneira, Públio saiu ileso.

 

Excepto na sua dignidade! comentou Semprónia. Meteu-se num armário debaixo de uma escada, num armazém infestado de ratos, à beira-rio como um escravo cobarde fugindo ao chicote do seu senhor numa comédia de segunda categoria.

 

Chega, mãe. Fúlvia voltou os seus olhos impiedosos para a mãe. O confronto de vontades entre ambas foi quase palpável, parecido com o som do aço contra uma pedra de amolar. Semprónia recuou visivelmente, voltando a afundar-se dentro da manta vermelha. Fúlvia, a protectora da dignidade do marido morto, pôs-se muito direita. Que género de homem teria Clódio sido, para lidar diariamente com as duas, e ainda com a intervenção da irmã para ajudar? Não era de espantar que se considerasse capaz de gerir a cidade, se tinha aprendido a controlar a sua própria casa.

 

Qual foi a natureza dessa discussão entre o teu marido e António?

 

Já te disse que nunca cheguei a perceber exactamente o que despoletou o incidente.

 

Mas tens certamente alguma ideia.

 

Fúlvia mostrou-se novamente distante, voltando a olhar pela janela.

 

Esta oscilação entre clareza cruel e distanciamento teria sido pensada para me fazer sentir instável, seria apenas a sua natureza, ou seria uma espécie de doença induzida pelo choque da morte do marido?

 

Não precisas de te preocupar com coisas tão específicas, Gordiano. O que eu quero saber é se Marco António teve alguma participação naquilo que aconteceu a Públio na Via Ápia.

 

Primeiro, julgo que preciso de determinar, para minha satisfação pessoal, o que aconteceu na Via Ápia.

 

Isso significa que aceitas a incumbência?

 

Não. Primeiro tenho de pensar no assunto.

 

Quando podes dar-me uma resposta. Eu esfreguei o queixo.

 

Amanhã.

 

Fúlvia acenou com a cabeça.

 

Entretanto disse eu, quero que me contes exactamente o que se passou nesse dia, tanto quanto sabes. Quero saber o que fazia Clódio fora de Roma, quem poderia estar informado dos seus movimentos, quem trouxe o corpo para Roma, e como se iniciou a escaramuça.

 

Fúlvia inspirou profundamente.

 

Em primeiro lugar, essa conversa da emboscada é um disparate completo, a não ser que tenha sido Milo a emboscar Clódio. Não há dúvida de que foram os homens de Milo que iniciaram o confronto, sem qualquer provocação. O meu marido estava completamente inocente.

 

E as atrocidades que os homens de Milo cometeram em seguida na nossa villa do campo, aterrorizando os criados...

 

Uma hora mais tarde, a entrevista terminou.

 

Eu ainda não tinha decidido se queria ajudar Fúlvia, embora tivesse sido mencionada uma remuneração em prata tremendamente tentadora, especialmente tendo em conta os prejuízos que a minha casa tinha sofrido e o facto de eu precisar de mais guarda-costas. Parecia que, quando mais próspero me tornava, mais dispendiosa era a minha vida literalmente, a defesa da minha vida. A simples necessidade tornava a oferta de Fúlvia atraente; mas ela também me daria uma desculpa para ir meter o nariz no incidente que tinha posto Roma ao rubro e acabara com a morte de um homem que me era muito chegado. Por outro lado, como sempre, era necessário considerar o grau de perigo em que ia envolver-me. Betesda diria que eu era louco. E Eco provavelmente diria o mesmo, antes de insistir em partilhar o perigo comigo.

 

Tinha a cabeça cheia destes pensamentos enquanto voltava para casa ao lado de Clódia, na sua liteira, mas não tão cheia que não tenha reparado no seu perfume e no calor da sua perna, encostada à minha.

 

Aceitaste a incumbência da minha cunhada? perguntou ela.

 

Ainda não.

 

Chegámos a minha casa. Quando eu ia a sair da liteira, Clódia agarrou-me no braço.

 

Se chegares a aceitar, Gordiano, espero que partilhes comigo tudo o que descobrires. É muito importante para mim saber tudo o que puder acerca da morte do meu irmão.

 

Era a sexta hora do dia e eu estava com fome. Ia dirigir-me à cozinha, mas Davo aproximou-se de mim no corredor e disse-me que Eco estava à minha espera. Pela expressão do rosto de Davo, presumi que alguém o tinha repreendido severamente por me ter deixado sair sem ele.

 

Encontrei Eco no meu escritório, na companhia de Betesda.

 

Marido, onde estiveste?

 

Davo não te disse? Fui chamado em serviço.

 

As narinas de Betesda estremeceram. Ela inclinou a cabeça. Um pouco embaraçado, eu levei a ponta da manga ao nariz e inspirei um leve odor a nardo e óleo de açafrão.

 

Clódia declarou Betesda. Oh, eu já sabia. Davo disse-me que tinha visto a liteira dela.

 

O que queria ela, papá? Eco mostrava-se quase tão desaprovador como Betesda.

 

Na verdade comecei eu, mas fui interrompido pelo reaparecimento de Davo à porta.

 

Outra visita, Senhor.

 

Sim?

 

Diz que se chama Tiro... Era a concretização do velho adágio etrusco, pensei eu. Não chovia durante um mês, e depois vinha uma carga de água. Diz ele que estás convidado a ir partilhar a refeição do meio-dia com Marco Túlio Cícero.

 

E Eco também está convidado, evidentemente disse Tiro, aparecendo de repente por trás de Davo. O que acontecera ao escravo discreto e bem-comportado, que nunca teria pensado em tomar a liberdade de circular sozinho pela casa de um cidadão? Tiro parecia ter-se transformado num liberto impertinente, e numa prova viva do consenso geral de que as boas maneiras da República tinham ido para o Hades.

 

Eu tenho fome concedeu Eco, dando umas pancadinhas no estômago.

 

E eu estou faminto disse eu.

 

Betesda cruzou os braços e nada disse. Por muito imperiosa que fosse, não era Semprónia nem Fúlvia. Graças a Júpiter por isso.

 

Havia homens armados de guarda à porta da casa de Cícero e patrulhando o telhado. E mais homens dentro do átrio. Senti-me como se estivesse a entrar no campo de um general.

 

As portadas da sala de jantar tinham sido fechadas, para proteger o compartimento do frio. Do jardim, chegava uma pálida luz de Inverno, aquecida pelo brilho das lamparinas suspensas. Cícero já se encontrava instalado num canapé de jantar, com Marco Célio ao seu lado. Tiro indicou-nos com um gesto que tomássemos o nosso lugar no canapé fronteiro, que era suficientemente comprido para ser partilhado por nós três.

 

Célio estava com um ar presumido por causa de qualquer coisa, como habitualmente, o que me irritou, como habitualmente.

 

Marco Célio, subiste na vida desde a última vez que te vi. Ele ergueu preguiçosamente uma sobrancelha.

 

Quer dizer, pareces ser agora um cidadão livre. Quando os nossos caminhos se cruzaram no Fórum naquele barraco por trás do templo, tomei-te, e a Tito Ânio Milo, por escravos em fuga.

 

Cícero e Tiro franziram o sobrolho. Eco lançou-me um olhar hesitante. O rosto de Célio transformou-se por momentos numa máscara desprovida de expressão, e depois ele desatou a rir.

 

Oh, Gordiano, quem me dera ter sido eu a lembrar-me dessa! "Célio subiu na vida". Agitou um dedo. Se um dos tribunos meus rivais a usar contra mim, fico a saber que te dedicaste a escrever discursos para o inimigo.

 

Certamente que Gordiano nunca se lembraria de semelhante coisa disse Cícero, fixando os olhos em mim. Avançamos já com a refeição? Oiço daqui os vossos estômagos a roncar. Receio só poder servir-vos coisas simples. O cozinheiro disse-me que é impossível encontrar provisões nos mercados. De qualquer maneira, o melhor é um homem manter uma dieta simples. Cícero sofria de dispepsia crónica desde que eu o conhecia.

 

Mas a comida estava soberba. A uma sopa de peixe com torta seguiram-se pedaços de galinha assada envolvidos em folhas de parra de vinagrete, com um molho aromático de cominhos. Cícero tinha aprendido a apreciar prazeres mais refinados, que se adequavam a um homem com o seu estatuto.

 

Apesar de tudo, comia cautelosamente, analisando o conteúdo de cada colher antes de o meter na boca, como se fosse capaz de dizer, com um simples olhar, que porção lhe provocaria indigestão.

 

Por falar de subir na vida, ou de descer, Gordiano, tenho a impressão de que aceitar uma boleia na liteira de uma certa dama levaria muitas pessoas a pensar que o passageiro se tinha rebaixado consideravelmente.

 

Como é que isso pode ser, Cícero? Uma liteira anda para trás e para diante, e não para cima e para baixo.

 

Célio riu-se.

 

Depende de quem vai na liteira com ela. Cícero olhou manhosamente para Célio.

 

Não foi um comentário prudente, meu amigo, tendo em conta a tua própria história com a dama em questão. Ou o papel que desempenhaste na sua... Ascensão! disse Célio, quase se engasgando com um bocado de galinha na pressa de dizer a palavra antes de Cícero. Calculei que se tratasse de uma espécie de jogo entre eles, dizer piadas à custa dos inimigos de ambos, em particular dos Clódios.

 

Presumo que estejas a referir-te a uma visita que tive hoje de manhã disse eu.

 

À dama que te raptou disse Célio.

 

Como se explica que estejas informado das minhas visitas, Cícero? Nem quero pensar que a minha casa está a ser vigiada.

 

Cícero poisou a colher.

 

Francamente, Gordiano! Vivemos na mesma rua. Nesta casa, estão constantemente a entrar e a sair escravos e visitas. Todos eles conhecem a liteira da senhora em questão. Toda a gente a conhece. Não estavas certamente à espera de que ela parasse a coisa diante da tua porta sem que as pessoas reparassem no facto. Voltou a pegar na colher e brincou com ela. Mas o mais curioso é teres partido com ela. Não sei onde foste, estás a ver, não tenho ninguém a vigiar-te, senão ter-te-iam seguido.

 

Mas gostarias de saber?

 

Só se tu quiseres dizer-me.

 

Na verdade, não foi a senhora em questão quem bem, ela tem nome, não tem, por isso é melhor usá-lo. Sim, fui na liteira de Clódia, mas não era Clódia que me queria.

 

Que pena comentou Célio.

 

Será? Não sei. O tom ligeiramente irritado da minha voz surpreendeu-me. Clódia estava apenas a servir de intermediária. Levou-me a casa da cunhada, já que queres saber.

 

Estou a ver. Cícero não se mostrou surpreendido. Teria afinal mandado um espião seguir a liteira? Seria trair uma confidência se nos dissesses o que queria Fúlvia de ti?

 

Queria a minha ajuda num assunto pessoal. Nada de estranho.

 

Oh, duvido muito.

 

A sério? Calculo que julgues que ela queria a minha ajuda em qualquer coisa relacionada com a morte do marido. Mas já todos sabemos como isso aconteceu, não é verdade? O próprio Milo tornou públicos os factos no contio de Célio, diante de Roma inteira. Clódio organizou uma emboscada maldosa, as coisas correram-lhe mal, e um dos escravos de Milo deu cabo dele. Pergunta a Célio. Ele estava presente. Ouviu a história, tal como Eco e eu, embora Milo tenha sido interrompido antes de acabar o que tinha a dizer. Célio devolveu-me o olhar, sem pestanejar e pouco divertido. Não, Fúlvia quase nem se referiu a Milo, se é nisso que estás a pensar. E também não tinha grande coisa a dizer sobre o amigo de Milo, Marco António.

 

Cícero mostrou-se genuinamente confuso.

 

António? Amigo de Milo? Duvido de que se conheçam, sequer.

 

Olhei para Célio, que parecia tão perdido como Cícero sem aquele sorriso intrigante, sem um estremecimento dos lábios de secreto divertimento.

 

Nesse caso, devo estar enganado. Talvez tenha confundido os nomes. Isso acontece-me cada vez mais, com a idade. Tu só és um pouco mais jovem do que eu, Cícero. Não tens dificuldade em reter os nomes? Um homem aprende tantos nomes ao longo da vida. Para onde vão eles? São como as palavras que se escrevem numa tabuinha, só conseguimos encaixar uns quantos, e depois temos de escrever em letras cada vez mais pequenas, até se tornarem ilegíveis e os gatafunhos se misturarem uns com os outros. Acho que algumas pessoas são dotadas para nomes, e até há escravos especialmente preparados para essa tarefa.

 

Cícero acenou com a cabeça.

 

Tiro sempre teve habilidade para os nomes. Salvou-me de cometer muitas gaffes todos aqueles eleitores das cidades pequenas do interior, que ficam muito ofendidos quando não conseguimos recordar-nos da sua árvore genealógica, que remonta sempre ao Rei Numa! Tratava-se de uma piada política! Rimo-nos todos, mas a Célio só faltou zurrar.

 

Mas este assunto com Marco António... disse Cícero.

 

Eu encolhi os ombros.

 

Como te disse, praticamente não se falou nele. Dizes que não é amigo de Milo. E é teu amigo, Cícero?

 

Ele olhou para mim, pensativo.

 

Não somos inimigos, se é isso que queres dizer. Foi a minha vez de me mostrar espantado.

 

Não há qualquer má vontade entre Marco António e eu disse ele, pelo menos da minha parte.

 

Vá lá, Cícero disse Célio, revirando os olhos. É óbvio que Gordiano está à procura de informações sobre António. Não consigo imaginar para quê. Mas não tens razões para ser acanhado. Gordiano é teu convidado, partilha a tua comida. Sugiro que lhe digamos aquilo que ele quer saber. E talvez que, noutra ocasião, ele nos pague esse favor dizendo-nos alguma coisa que saiba.

 

Cícero mostrou-se hesitante por momentos, depois abriu as mãos num gesto de aquiescência. O que é que sabes acerca de Marco António?

 

Quase nada. Sei que é um dos lugares-tenentes de César, e ouvi dizer que regressou da Gália para se candidatar a um cargo.

 

De questor disse Célio, e o mais provável é ganhar, se e quando houver eleições.

 

Quais são as suas tendências políticas?

 

É aliado de César, claro disse Cícero. Para além disso, o seu único programa, tanto quanto consigo perceber, é a sua autopromoção.

 

Quer dizer que é um original, único entre os políticos romanos disse eu. Nem Cícero nem Célio reagiram à piada. Tiro franziu o sobrolho, como seria de prever, ofendendo-se em nome do seu antigo senhor. Eco manteve a seriedade mas abanou a cabeça quase imperceptivelmente, espantado com a impertinência do pai.

 

Ouvi dizer que é muito querido pelas suas tropas disse eu. Foi o que me disse o meu filho Meto.

 

E por que não? António nunca se deu mal com o povo. O tom de Cícero não era elogioso. É nobre de nascimento, mas dizem que bebe e faz patuscadas nas casernas com os soldados. Sempre foi assim. Quando era adolescente, costumava andar na companhia dos escravos e libertos de casa de sua mãe. Sempre foi o género de rapazinho que gosta de meter as mãos na lama. Sempre se sentiu atraído por prazeres ruidosos e vulgares. Bem, começou mal.

 

Por quê?

 

Teríamos de recuar, pelo menos, ao avô dele... Claro, pensei eu; a carreira de um romano de boas famílias nunca poderia ser descrita simplesmente a partir do seu próprio nascimento. Na minha juventude, o velhote era uma potência e tanto, na verdade, foi meu professor de retórica, e era um dos melhores. Excelentes discursos! Palavras que ressoavam como trovões! Mas recusou-se sempre a publicá-los; dizia que só um louco faria semelhante coisa, porque isso era uma maneira de conceder aos nossos inimigos a possibilidade de salientarem as nossas inconsistências. Cícero, que publicara e divulgara todos os seus discursos, riu-se com ar pesaroso.

 

Célio sorriu.

 

Não houve um escândalo qualquer com o avô de António e uma Virgem Vestal?

 

Célio, tens de te lembrar sempre de um escândalo qualquer?

 

Pois tenho! E, quando não há escândalo nenhum, invento!

 

Bem, por acaso tens razão. Algures, no passado distante, ele foi levado a tribunal por ter atentado contra uma Vestal, mas foi ilibado, e em seguida teve uma carreira verdadeiramente distinta. Acabou como cônsul, depois censor, e por fim foi eleito membro vitalício do Colégio dos Augures. Mas a sua ascensão começou de facto com o serviço militar. Foi um dos primeiros a organizar uma campanha contra os piratas na Cicília. Foi tão bem sucedido, que lhe concederam uma procissão triunfal em Roma. O Senado permitiu-lhe decorar a Rostra com os bicos dos navios que tinha capturado, e chegou mesmo a votar a erecção de uma estátua em sua honra.

 

De uma estátua? perguntou Eco. Não me lembro de ter visto nenhuma.

 

Foi deitada abaixo pouco depois da sua execução, durante a guerra civil. Lembro-me de ver a cabeça dele num espeto, no Fórum; tive pesadelos durante meses. Foi um choque e tanto, ver um antigo professor em semelhante situação. Naquela época, nem os políticos mais hábeis estavam livres de cometer erros fatais.

 

Tal como nesta época murmurou Célio.

 

Reparei que Eco tinha poisado um pedaço de galinha que se preparava para meter na boca.

 

Seja como for prosseguiu Cícero, o avô de António teve uma carreira extraordinária, apesar de ter terminado de forma tão inglória. António não chegou a conhecê-lo, evidentemente, o velhote foi morto uns anos antes de ele nascer.

 

Já o pai de António é um caso completamente diferente. Bonito, bem-amado, generoso para os seus amigos, mas terrivelmente desajeitado. Tal como o pai, foi encarregado de dominar os piratas. Juntou um orçamento maciço, reuniu uma formidável armada e depois malbaratou-a em escaramuças isoladas, desde Espanha até Creta. Ter negociado uma paz humilhante com os piratas foi a última gota. O Senado rejeitou o tratado como injurioso. O pai de António morreu em Creta, dizem alguns que de vergonha. António devia ter apenas que idade, Célio? 11 ou 12 anos?

 

Célio acenou com a cabeça.

 

E todos conhecemos um dos resultados do fracasso do pai. O Senado procurou outra pessoa que acabasse com o problema dos piratas. Pompeu conseguiu que o encargo lhe fosse atribuído e atirou-se aos piratas como um maremoto. Desde então, a sua importância não mais parou de aumentar.

 

Estás a desviar-te comentou Cícero. Gordiano não está interessado em Pompeu. Está interessado em Marco António. Bem, ele não será um Pompeu, mas César parece estar convencido de que é competente. Como vês, se Marco António tem alguma perspicácia militar, deve tê-la herdado do avô. Mas também há nele uma forte marca do pai. António é encantador, afável, alegre e completamente temerário. Claro que isso deve ser atribuído, pelo menos em parte, à lamentável influência do padrasto.

 

Do padrasto? perguntei eu. Cícero mostrou-se entristecido.

 

Sim, António não tem propriamente a culpa de que a mãe tenha feito um segundo casamento tão desastroso, ligando o seu destino a um derrotado como aquele. Presumo que Júlia tenha achado que o casamento a faria ascender socialmente, uma vez que Lentulo tinha sido cônsul, era patrício, tal como ela...

 

Lentulo? Quer dizer que o padrasto de António era...

 

Sim, Lentulo Pernas disse Cícero em tom de desprezo, assim chamado por ter arregaçado a toga e desnudado as pernas como um rapazinho que se preparasse para receber uns açoites quando os seus colegas do Senado o levaram a tribunal por ter desviado dinheiros públicos. Um homem tão flagrantemente corrupto, que acabou por ser expulso do Senado e de tal maneira persistente, que conseguiu recuperar o seu lugar. E supersticioso; uma vidente charlatã convenceu-o de que estava destinado a tornar-se ditador por causa de uns versos macarrónicos dos Livros Sibilinos. Foi por isso que Lentulo se envolveu com Catilina e a sua claque de traidores. Todos sabemos como isso terminou.

 

Sabíamos, de facto. Tinha acontecido no ano de consulado de Cícero. A chamada conspiração de Catilina fora implacavelmente eliminada; sob a autoridade de Cícero, Lentulo e vários outros tinham sido executados sem julgamento formal. Os Melhores tinham louvado Cícero pela sua decisão, por meio da qual salvara a República; entre os populistas, tinham sido muitos os que o tinham condenado, chamando-lhe tirano assassino. Seguira-se uma revolta popular, que culminara na legislação vingativa congeminada por Clódio com o fito de exilar Cícero. O Senado acabara por revogar o exílio; Cícero voltara a ser um actor de peso no palco de Roma; e Clódio tinha morrido...

 

Passaram dez anos desde Catilina disse eu baixinho.

 

Sim, e há dez anos que Marco António está ressentido comigo comentou Cícero. Nunca conseguiu aceitar o facto de que o padrasto tinha de morrer. Na altura, António tinha apenas 20 anos. Nem sempre é possível chegar pela razão a um jovem apaixonado. Eles guardam ressentimentos durante muito tempo. Cícero suspirou, mas não percebi se era da emoção ou da dispepsia. Ouvi dizer que ele até afirma que eu me recusei a entregar o corpo à mãe depois de Lentulo ter sido estrangulado, e que Júlia teve de ir suplicar à minha mulher que intercedesse. Que disparate! É uma mentira obscena! Eu preocupei-me que os corpos de todos os conspiradores fossem adequadamente sepultados. Cícero estremeceu e encostou as mãos ao estômago. Avaliou o que restava da refeição, como que para identificar o prato responsável pela sua indigestão.

 

O avô de António, o pai, o padrasto todos eles tinham ascendido em glória e terminado em ruína. O mundo é uma espécie de disco rotativo, que conduz os homens e as mulheres para as suas extremidades e depois os lança violentamente em várias direcções, para o vazio que está para além do arco giratório. Muitos deles nunca mais são vistos, mas alguns conseguem agarrar-se à borda e trepar à força para o centro, não uma vez, mas muitas. Cícero era um deles. Célio era outro.

 

Já me explicaste a sua linhagem disse eu. E quanto ao próprio António?

 

Juntou-se aos maus, a Clódio e ao seu bando de jovens aristocratas incorrigíveis disse Cícero. A fórmula habitual de dissipação: um estilo de vida dispendioso, opiniões políticas radicais, esquemas loucos para o futuro. E sem dinheiro para financiarem tudo isso. O pai de António deixou-lhe uma propriedade tão sobrecarregada de dívidas, que António recusou a herança. Tecnicamente, começou a sua carreira na bancarrota. Foi o jovem Gaio Curió quem lhe pagou as dívidas. Ele e António eram como ervilhas dentro da mesma vagem. Companheiros de deboche. Inseparáveis. Tão íntimos, que a sua relação deu origem a todo o género de... rumores desagradáveis. Bem, quando o pai de Curió recebeu a conta das dívidas de António, subiu ao céu. Veio pedir-me conselho. Eu disse-lhe que cerrasse os dentes, entregasse a prata, e proibisse o filho de voltar a encontrar-se com António. Da vez seguinte que António foi bater à porta de Curió, os guardas impediram-no de entrar. Então o que fez António? Escalou um muro e entrou por um buraco do telhado, directamente no quarto de Curió, como um pretendente decidido!

 

Cícero e Célio soltaram uma gargalhada, interrompida por outro estremecimento de Cícero, que voltou a agarrar-se vivamente ao estômago.

 

Seja como for, António resolveu os seus problemas de dinheiro quando se casou com uma mulher chamada Fádia, filha de um liberto rico. Um liberto! Quando eu era novo, qualquer aristocrata que se casasse tão abaixo do seu estatuto provocaria um escândalo que lhe arruinaria para sempre a carreira, mas calculo que os incorrigíveis do círculo de António o tenham aplaudido por ter ignorado as convenções e conseguido apoderar-se de um grande dote. Pelo menos o casamento parece ter distraído António de Curió; segundo me disseram, António teve vários filhos antes da morte de Fádia. Entretanto, passou algum tempo na Grécia a estudar oratória, fez umas comissões militares na Judeia e na Síria, ajudou a dominar uma revolta contra o Rei Ptolemeu, no Egipto, e acabou por se atrelar a César, partindo para a Gália. Oh, e há uns anos, ainda encontrou tempo para voltar a casar-se desta vez com a sua prima Antónia.

 

E agora, Marco António é um dos lugares-tenentes de maior confiança de César. Calculo que seja competente, dado que César andou a prepará-lo para um cargo político e o mandou regressar a Roma para se candidatar a questor.

 

Enquanto os escravos voltavam a encher os nossos copos com água e vinho, e levavam os pratos, eu meditei nas informações que Cícero acabava de me fornecer. Semprónia tinha-me dito que António perseguira Clódio com uma espada no Campo de Marte, tentando matá-lo. Mas, de acordo com o relato de Cícero, António fora membro do círculo íntimo de Clódio.

 

Quer dizer que António e Clódio eram bons amigos arrisquei.

 

Eram disse Célio, cuja idade e cujas alianças de oportunidade o tornavam mais conhecedor dos assuntos íntimos da geração radical do que Cícero, até terem tido um pequeno desentendimento por causa de Fúlvia.

 

Um desentendimento?

 

Aparentemente, António não percebeu que Fúlvia era mulher de Clódio e pensou que ela estava livre. Célio pôs a língua de fora para apanhar uma gota de vinho que lhe tinha ficado no canto da boca.

 

Ou seja...

 

Oh, provavelmente o caso não teve qualquer significado para António. Entre Curió, o amante dos primeiros anos, as duas mulheres legítimas, e todas as prostitutas da sua juventude, o que poderia significar uma pequena dança com Fúlvia? Mas Clódio ficou furioso quando descobriu. Ele e Fúlvia ainda eram mais ou menos recém-casados. E Clódio costumava reagir violentamente à mais pequena provocação, não era? Isto deve ter sido há uns seis anos. Depois disso, instalou-se uma certa frieza entre António e Clódio. E a seguir um mar inteiro, quando António partiu para a Grécia e para a Judeia. E diversas cordilheiras de montanhas, quando António foi para a Gália. Ele e Clódio não voltaram a ver-se frente-a-frente. Nunca mais estiveram suficientemente próximos um do outro.

 

Excepto no Campo de Marte? sugeri eu. Célio atirou a cabeça para trás e riu-se.

 

Oh, essa! Como é que eu pude esquecer-me dessa? Cícero, deves lembrar-te de eu te ter contado a história. O ano passado, durante umas eleições que depois foram canceladas, António e Clódio encontraram-se, presumo que por acaso. Trocaram umas palavras. António puxou da espada, feroz assassino de 1000 gauleses e Clódio soltou um guincho e desatou a fugir como um coelho assustado. Calculo que isso faz de António o perdigueiro; que alternativa tinha ele, senão perseguir Clódio? Claro que, se o tivesse apanhado, podia ter sido mais um caso do cão perseguido pelo furão, com o pateta a ser mordido no nariz e a fugir aos uivos para a Gália.

 

O que foi que provocou a rixa? Foi a antiga questão com Fúlvia? Mas tu dizes que isso foi há seis anos...

 

Célio encolheu os ombros.

 

Quem sabe? Clódio e António são ambos famosos por terem memórias compridas e paciências curtas.

 

Mas afinal como é que começámos a falar de Marco António? perguntou Cícero.

 

Fúlvia devia sentir-se nostálgica quando Gordiano foi visitá-la, esta manhã comentou Célio. Ela discutiu contigo todos os amantes anteriores?

 

Não respondi eu. E Clódia também não. O sorriso gelou nos lábios de Célio. Cícero lançou-lhe um olhar desprovido de compaixão. Eu endireitei-me para me levantar. A refeição estava excelente, Marco Cícero. Perfeita para uma refeição do meio-dia nem leve demais nem excessivamente pesada. O mesmo posso dizer da conversa. E agora creio que o meu filho e eu temos de nos ir embora.

 

Por que falaste de Marco António? perguntou Eco na curta viagem de regresso a nossa casa.

 

Era por causa de António que Fúlvia queria falar comigo. Ele ofereceu-se para levar Milo a tribunal. Ela não tem a certeza de poder confiar nele. Desconfia de que ele esteja, de alguma maneira, envolvido na morte de Clódio. Ou talvez seja a mãe dela que suspeita de António, e Fúlvia pretende provar que ele está inocente.

 

Ela disse-te que foi amante de António?

 

Não. E o simples facto de Cícero e Célio o afirmarem não faz com que seja verdade.

 

Mas falou-te da perseguição pelo Campo de Marte, no ano passado?

 

Falou.

 

Eco acenou com a cabeça. Momentos depois, riu-se.

 

Foi espantosa, a maneira como lidaste com eles.

 

Com quem?

 

Com Cícero e Célio.

 

Achaste? Tenho a certeza de que eles ficaram convencidos que foram eles que lidaram bem comigo. Provavelmente, disse-lhes mais do que devia. E agora, em troca de umas migalhas de informação acerca de Marco António, vão comportar-se como se eu tivesse ficado a dever-lhes o mundo inteiro.

 

Mas a maneira como às vezes falas com eles, praticamente, insulta-los na cara!

 

Pois é, é uma coisa estranha, mas as pessoas como Célio e Cícero gostam de ser insultadas.

 

Gostam?

 

É o que me diz a minha experiência. Eu pico-as e elas picam-me. Sabem que nada têm a recear de mim; nada do que eu possa dizer poderá realmente magoá-las. Gostam que eu as pique, como às vezes nós gostamos que um mosquito nos pique a comichão dá-nos alguma coisa que coçar. Não é como o ferrão de uma abelha; não é como as chagas sangrentas que vi Cícero infligir aos seus inimigos com uma ou outra palavra que mais pareciam um espeto em brasa.

 

Foi Davo quem nos abriu a porta. Pela sua expressão, percebi que se passava qualquer coisa. Antes de Davo poder falar, uma voz trovejou atrás dele.

 

Chegou finalmente o dono da casa!

 

Tratava-se de um homem grande, devia ser um gladiador ou um soldado, apesar do tecido ricamente bordado da sua túnica cinzenta e da capa verde-escura. Tinha partido o nariz, talvez mais do que uma vez, e as suas mãos eram do tamanho da cabeça de um bebé. Era calvo como um bebé e quase tão feio como eles costumam ser. Tinha a aparência de um homem que podia atravessar um lugar perigoso sem se incomodar com isso.

 

Uma visita disse Davo, desnecessariamente.

 

Bem vejo. E quem te enviou... cidadão? perguntei eu, reparando no anel de ferro que ele usava no dedo. Devia ser um liberto de alguém.

 

O Grande disse ele rudemente. A sua voz era como cascalho num dique.

 

Queres dizer...

 

Eu nunca o trato de outra maneira. É assim que ele gosta de ser tratado.

 

Calculo que sim. E o que quer o Grande...

 

A honra da tua presença, assim que te for conveniente.

 

Agora?

 

A não ser que possas ir mais cedo.

 

Davo...

 

Sim, Senhor?

 

Diz à tua senhora que eu ainda tenho de ir tratar de outro assunto. Desta vez, calculo que terei de sair dos muros da cidade.

 

Queres que eu te acompanhe?

 

Olhei para o homem a quem tinha decidido chamar Cara de Bebé, que sorriu e disse:

 

Eu trouxe comigo um destacamento inteiro de guarda-costas.

 

Onde estão eles?

 

Disse-lhes que esperassem do outro lado da rua, ao pé da Rampa. Pareceu-me que não valia a pena perturbar os teus vizinhos com o movimento.

 

És mais discreto do que algumas das pessoas que já vieram visitar-me hoje.

 

Obrigado.

 

Eco, vens comigo?

 

Claro, papá. Eco também não conhecia o Grande. Reparei que o meu estômago começava subitamente a agitar-se. Mas a culpa não era do cozinheiro de Cícero.

 

Por isso saí, pela terceira vez naquele dia, recordando novamente o velho provérbio etrusco. Mas isto não era bem uma carga de água. Era mais um dilúvio.

 

A lei proíbe um homem que comande um exército de entrar dentro dos muros da cidade. Tecnicamente, Pompeu era um comandante, embora o seu exército estivesse em Espanha; ele considerara adequado delegar a sua condução nos seus lugares-tenentes, enquanto permanecia perto de Roma para vigiar a crise eleitoral. Estava por isso a residir na sua villa da Colina Pinciana, do lado de fora dos muros, mas perto da cidade. Como Pompeu não podia entrar em Roma, era Roma que ia ter com Pompeu, como tinha feito a plebe quando acorrera à sua villa para lhe oferecer os machados consulares, ou como tinha feito Milo, quando procurara, sem êxito, conseguir uma audiência, ou como Eco e eu demos por nós a fazer naquela tarde.

 

O Cara de Bebé e o seu destacamento de gladiadores cerraram fileiras à nossa volta como uma tartaruga em armas durante todo o percurso; descemos a Rampa, cruzámos o Fórum e passámos pela Porta Fontinal. Ao sairmos por essa porta, atravessámos a fronteira tradicional da cidade, mas havia tantos edifícios na extensão da Via Flamínia que ficava dentro da cidade, como na que ficava fora dos seus muros. Depois, os edifícios foram-se tornando gradualmente mais pequenos e menos numerosos, até chegarmos a uma zona de campo aberto. Os quiosques públicos destinados às eleições ficavam para a nossa esquerda. À nossa frente e para a direita, havia um portão alto e guardado, que se abriu quando nos aproximámos.

 

O caminho pavimentado passava por jardins em socalcos, umas vezes em taludes, outras em degraus, curvando para a direita e para a esquerda à medida que ia subindo. Os terrenos de ambos os lados estavam cobertos pelo manto cinzento e castanho do Inverno, e a tristeza das árvores nuas era aliviada, aqui e ali, por estátuas de mármore e de bronze. Um cisne real, que até podia ser Júpiter fazendo a corte a Leda, passeava graciosamente num pequeno lago circular. Passámos por um muro baixo onde estava sentado um jovem escravo tirando um espinho do pé, pintado com cores tão naturais, que eu o teria confundido com um ser de carne e osso se ele não estivesse nu debaixo de um sol quente. Não vi deuses nem deusas no jardim, até nos cruzarmos com o indispensável Príapo, guardião e motor das coisas que crescem, que ocupava uma alcova de pedra colocada em lugar elevado, sorrindo lascivamente e exibindo uma erecção quase do seu próprio tamanho. A coroa do seu falo de mármore fora amaciada pelas mãos que nela tocavam, e tinha um polimento brilhante.

 

Finalmente, chegámos à villa, onde mais gladiadores guardavam um par de portas altas de madeira com guarnições de bronze. O Cara de Bebé disse-nos para esperarmos ali enquanto ele ia lá dentro.

 

Eco puxou-me pela manga. Quando me voltei, não precisei de lhe perguntar o que queria ele mostrar-me. A vista era espectacular. Ramos entrelaçados e topos de árvores escondiam o caminho que tínhamos acabado de percorrer, bem como a Via Flamínia e os quiosques das eleições, situados imediatamente abaixo de nós; mas, por cima e para além dos topos das árvores, o Campo de Marte abria-se por inteiro à nossa frente. As antigas carreiras de marcha e de treino equestre tinham desaparecido quase por completo durante o meu tempo de vida, substituídas por edifícios de habitações baratas e armazéns amontoados. Dominando tudo o resto, via-se o enorme complexo construído por Pompeu no seu consulado, dois anos antes, um corpo alongado de salas de reunião, galerias, fontes, jardins e o primeiro teatro permanente da cidade. Mais adiante, como um grande braço em curva à volta do Campo de Marte, ficava o Tibre, cujo curso era marcado por um manto baixo e espesso de nevoeiro do rio que só possibilitava uns vislumbres dos jardins e das villas situados na outra margem. A villa ribeirinha de Clódia, diante da qual os jovens elegantes de Roma costumavam ir nadar nus, para divertimento da proprietária, ficava situada algures nessa margem mais distante. O cenário mais parecia uma pintura em tonalidades suaves de Inverno, vermelho-ferrugem e verde-acinzentado, branco de osso e azul-ferro.

 

Eco voltou a puxar-me pelo cotovelo e acenou com a cabeça em direcção ao sul. O volume da villa bloqueava a visão da maior parte da cidade, à excepção de uma tira estreita, com os templos, o Capitólio, e a confusão urbana para lá dele. Ao longe, talvez no Monte Aventino, uma pluma de fumo erguia-se no ar parado como um vasto pilar de mármore. Fosse qual fosse o caos que reinava na base desse pilar, ficava demasiadamente longe para que pudéssemos vê-lo ou ouvi-lo. Um homem começaria a sentir-se distanciado e indiferente olhando para Roma de um lugar elevado como este? Ou tornar-se-ia ainda mais agudamente consciente dos edifícios a arder sem controlo e do caos nas ruas quando vigiava Roma de um tal ponto de vantagem divino?

 

Atrás de nós, as portas abriram-se com um som metálico. O Cara de Bebé emergiu, sorrindo com ar severo. O Grande vai receber-vos.

 

Eu devia estar bastante nervoso quando o Cara de Bebé nos conduziu através da entrada, depois do átrio, e subiu connosco um lanço de escadas em curva, porque mais tarde, quando Betesda me perguntou, não me consegui lembrar de nada do que dizia respeito ao mobiliário ou à decoração, embora me recordasse vivamente de que tinha a boca seca como velino, e que o meu coração parecia ter aumentado para o dobro do seu tamanho normal.

 

Fomos levados até uma sala com muitas janelas, situada no canto sudoeste da casa. As cortinas e as portadas tinham sido abertas, proporcionando uma perspectiva ampla da cidade. A coluna de fumo que se erguia no ar a sul, e que tínhamos avistado da entrada, encontrava-se no centro desta perspectiva, e juntavam-se-lhe outros dois pilares de fumo, mais perto e mais para a esquerda, provavelmente produzidos por incêndios no Monte Esquilino ou na Subura. Pompeu estava ao pé das janelas, de costas para nós. A princípio, era apenas uma silhueta, uma coroa de caracóis revoltos por cima de uns ombros largos e de um tronco robusto e bem almofadado. Quando os meus olhos se adaptaram à luz, vi que ele trazia uma túnica de lã verde-esmeralda, comprida e larga. Tinha as mãos atrás das costas, e fazia tamborilar nervosamente os dedos uns contra os outros. Ouviu-nos entrar e voltou-se lentamente para nós. O Cara de Bebé afastou-se discretamente para um canto. Eu detectei a sombra de outro guarda na varanda.

 

Pompeu tinha a mesma idade que Cícero, ou seja, era uns anos mais novo do que eu. Eu gostaria de ter tão poucas rugas como ele, mas preferia não dispor do mesmo número de queixos. Ocorreu-me que Pompeu podia ser do género de homem que, em momentos de crise, se refugia na comida. A actividade de comandar exércitos em movimento mantinha-o ocupado e em forma. Porém, ali metido na sua villa pinciana, aumentara de peso com o peso do mundo.

 

Neste momento, porém, o meu espírito não estava capaz de se concentrar em trocadilhos. Este homem não era Fúlvia nem Clódia, misteriosas e sinistramente decididas, mas vulneráveis em consequência do sexo a que pertenciam. Nem era Cícero ou Célio, um par meu conhecido, com quem podia trocar gracejos descuidados. Este homem era Pompeu.

 

Quando era jovem, os poetas tinham desfalecido diante da sua beleza. Contemplando os seus caracóis luxuriantes e sacudidos pelo vento, a testa suave e o nariz cinzelado, as pessoas já chamavam ao jovem general o novo Alexandre antes de as suas proezas militares provarem que havia razões para isso. A expressão típica do jovem Pompeu fora um meio sorriso plácido e sonhador, como se a contemplação da sua própria grandeza futura o mantivesse perpetuamente satisfeito, mas também um pouco distanciado. Se o seu rosto tinha algum defeito, era a sua tendência para a rotundidade e a opulência dos seus lábios e das suas faces, que podiam parecer maduramente sensuais ou agradavelmente roliças, dependendo do ângulo e da luz.

 

À medida que se foi tornando adulto, o seu rosto pareceu achatar um pouco e tornar-se ainda mais redondo. O nariz cinzelado tornou-se carnudo, os caracóis bravios foram aparados em deferência pela maturidade. O sorriso tornou-se menos sensual e mais complacente. Era como se, enquanto o seu prestígio e o seu poder aumentavam, Pompeu fosse tendo menos necessidade da beleza física, pondo assim de parte o agradável ornamento da sua juventude.

 

Tudo isto vira eu à distância enquanto Pompeu ia construindo a sua carreira, orando nos tribunais, fazendo campanha no Campo de Marte, mostrando-se no Fórum acompanhado pela sua vasta comitiva de ajudantes militares e políticos, cada um deles seguido por uma roda pessoal de acompanhantes, que procuravam obter do Grande, favores em segunda-mão. Mas aquilo que não se vê à distância são os olhos de um homem, como eu agora via os olhos de Pompeu, que se fixaram nos meus com desconcertante intensidade. Por qualquer razão, recordei uma famosa citação da sua juventude. Quando fora enviado para a Sicília, a fim de expulsar os inimigos de Sula, o povo da cidade libertada queixara-se de que Pompeu não possuía jurisdição sobre ele, com base em antigos acordos estabelecidos com Roma. Ao que Pompeu replicara: Parem de citar as leis. Nós trazemos espadas na mão.

 

Gordiano, o Descobridor disse ele e o seu filho adoptivo, Eco.

 

Sorriu para si próprio e fez um aceno de cabeça, como quem se sente satisfeito por ser capaz de se lembrar de pormenores tão insignificantes sem que um escravo lhos recorde. Não nos conhecemos, pois não?

 

Não, Grande.

 

Também me pareceu.

 

O silêncio que se seguiu foi desconfortável para mim, mas aparentemente não o foi para Pompeu, que andava silenciosamente de um lado para o outro diante de nós, sempre com as mãos atrás das costas.

 

Tiveste um dia atarefado disse ele por fim.

 

Perdão, Grande?

 

Clódia passou por tua casa e levou-te na sua liteira. Foste fazer uma visita a Fúlvia. Presumo que Semprónia também estivesse presente. Logo que chegaste a casa, o liberto de Cícero foi bater-te à porta, e tu e o teu filho saíram para conferenciar com Cícero e Célio. Milo não estava lá hoje, pois não?

 

Eu ia responder, mas depois apercebi-me de que Pompeu não estava a olhar para mim, mas para o Cara de Bebé, que abanou a cabeça e respondeu:

 

Não, Grande, Milo não saiu de casa o dia todo.

 

Pompeu acenou com a cabeça e voltou a pousar o seu olhar em mim. Mas já te encontraste com Milo, debaixo do tecto de Cícero. Não se tratava de uma pergunta, mas parecia pedir uma resposta

 

ou antes, uma confissão.

 

Sim.

 

Há algum tempo que não vejo Tito ânio Milo. Como está ele?

 

Como está ele, Grande?

 

Sempre foi tão orgulhoso do seu físico, de ter o mesmo nome que Milo, o lendário lutador de Crotona, e tudo isso. Está a aguentar-se?

 

Parece estar numa forma bastante razoável.

 

E de cabeça?

 

Isso já não sei, Grande.

 

Não? Mas tu costumas ler sinais, não costumas? Certamente leste alguma coisa na sua voz, no seu rosto.

 

Milo sente-se ansioso, irritado, hesitante. Mas certamente não precisas que eu te diga estas coisas.

 

Pois não. O seu sorriso parecia desprovido de ironia, um simples gesto de apreciação pelo facto de eu não o fazer perder tempo. O que te queria Clódia esta manhã? Ao ver-me hesitar, Pompeu franziu o sobrolho. Não me digas que não tenho nada a ver com isso. Tenho. Tenho a ver com tudo o que acontece actualmente em Roma. O que te queria Clódia?

 

Levar-me até Fúlvia. Nada mais. E o que queria Fúlvia?

 

Grande, certamente que palavras ditas em confidência por uma viúva enlutada...

 

Descobridor, estás a impacientar-me. Pensei na melhor maneira de lhe responder.

 

Um certo homem abordou-a. Ela não sabe se deve confiar nele.

 

Não me digas que os pretendentes já começaram a bater-lhe à porta!

 

Não era exactamente um pretendente disse eu, embora na realidade, e a acreditar em Célio, António tivesse sido amante de Fúlvia.

 

Pompeu mostrou-se profundamente desinteressado.

 

Bem, não insistirei nos pormenores; os assuntos pessoais de Fúlvia não têm importância imediata para mim. Concordaste em ajudá-la?

 

Ainda não tomei uma decisão.

 

Talvez eu possa ajudar-te. Quem sabe? Talvez eu possua a informação que tu procuras.

 

Não me parecia provável. Marco António era um homem de César, e não de Pompeu.

 

Estás a oferecer-me ajuda, Grande?

 

- Talvez. Sou um homem razoável. Se puder oferecer-te alguma coisa de valor, presumo que fiques mais disponível para me dar aquilo que eu quero.

 

E o que queres tu de mim, Grande?

 

Já lá vamos. Tens alguma pergunta a fazer-me? Pensei cuidadosamente, e pareceu-me que não havia perigo em perguntar:

 

O que podes dizer-me acerca de Marco António?

 

Do lugar-tenente de César? Sei que o pai dele enrolou as coisas quando o mandaram tratar dos piratas, antes de o Senado me encarregar da mesma tarefa. E que o padrasto foi executado por traição por ordem de Cícero. E recordo que o jovem António andou a fazer de soldado nos meus antigos territórios durante uns anos, antes de se passar para o lado de César. Há mais alguma coisa para saber?

 

Talvez não.

 

Por Hércules, não é ele que anda a fazer a corte a Fúlvia, pois não? Não percebo como. Já é casado com a prima Antónia, e não é o género de casamento ao qual seja possível escapar. Mas, se é ele o pretendente, Fúlvia fará melhor em evitá-lo; seria esse o meu conselho. Clódio pode ter sido um extorsionista e um agitador da ralé, mas pelo menos sabia levar a prata para casa; basta pensar na mansão que lhe deixou. Mas o jovem António é completamente diferente. Tal como César e o resto desse círculo, está cada vez mais afundado em dívidas, sempre a vender-se para obter o empréstimo seguinte. Vão acabar mal, todos eles. Só espero que, pelo caminho, não levem a República à bancarrota.

 

Calou-se e ergueu uma sobrancelha num gesto de surpresa ligeira consigo próprio, percebi então, por ter dito mais do que tencionava.

 

E qual foi a reacção de Cícero à tua visita a Fúlvia? disse Pompeu, insistindo.

 

Eu pigarreei.

 

Mostrou-se curioso, tal como tu, Grande.

 

Ele não estava, de alguma maneira por trás dessa visita a Fúlvia, pois não? Não? Pensei que talvez ele tivesse conseguido contratar-te como seu espião. Seria tão típico de Cícero. Redes escondidas, cartas anónimas, mensagens num código secreto inventado por Tiro, informadores pagos, cada espião a espiar o seguinte. É como uma aranha a construir teias em todas as direcções. Seria um homem diferente se tivesse algum talento como militar. Mais acção e menos palavras.

 

És espião de Cícero, Descobridor? Voltou a desconcertar-me com o seu olhar.

 

Não, Grande.

 

Talvez sejas, e nem sequer te apercebas.

 

A sugestão surpreendeu-me, e depois deixou-me um tanto constrangido.

 

Acho que, por esta altura, já conheço todos os truques de Cícero. Pompeu ergueu uma sobrancelha.

 

A sério? Nem eu faria semelhante afirmação! E que te parece o comportamento de Célio? Por que razão defende Milo? O que pretende ele ganhar com isso?

 

Célio está do lado de Cícero; Cícero está do lado de Milo.

 

Por isso, e por extensão, Célio é um homem de Milo?

 

Não tenho a certeza de que Célio seja homem seja de quem for.

 

Aí tens razão, Descobridor. E que te parece o próprio Milo?

 

Como já te disse, Grande...

 

Sim, já sei: "ansioso, irritado, hesitante". Mas o que te parece a tí?

 

Só o conheci recentemente depois da morte de Clódio.

 

A sério? Não tinham tido qualquer contacto antes disso?

 

Não.

 

Mas tu tinhas uma relação antiga com Clódio.

 

Não. Fiz um certo trabalho para a irmã de Clódio, há uns anos... Ele acenou com a cabeça.

 

Quando ela ajudou a acusar Célio de assassínio. Talvez te recordes que eu falei em defesa de Célio.

 

Sim. Receio não ter ouvido o teu discurso.

 

Não foi muito bom. Ainda bem; um bom discurso teria sido um desperdício. Ninguém se teria recordado dele, depois do discurso que Cícero fez nesse dia em defesa de Célio ou contra Clódia. Então, Descobridor, alguma vez estiveste do lado de Clódio?

 

Não estive nem estou.

 

E também não estás do lado de Milo.

 

Não.

 

Ele avaliou-me durante longos momentos, depois voltou-se para Eco.

 

E tu? Tal pai, tal filho? Eco pigarreou.

 

Ajudei o meu pai quando ele trabalhou para Clódia, mas não cheguei a conhecer o irmão. Fui hoje a casa de Cícero na companhia do meu pai, mas nunca me encontrei pessoalmente com Milo.

 

E de que lado estão as tuas lealdades?

 

Do lado do meu pai. Pompeu sorriu.

 

Um filho leal é o melhor de todos os aliados, hem, Descobridor? E o teu outro filho, aquele que anda pela Gália? Não atraiu os restantes Gordianos para a órbita de César?

 

O meu filho Meto é um soldado leal, mas a minha família não tem qualquer lealdade especial a César.

 

Pompeu olhou para mim com curiosidade.

 

Como consegues navegar com uma rota tão independente, Descobridor, sem te esmagares nas rochas?

 

Parece-me, Grande, que, se deixasse outro homem navegar por mim, há muito que me teria esmagado nas rochas.

 

Costumas decidir a tua própria rota, Descobridor? Mas como? Tens algum conhecimento especial das estrelas? Ou avanças às cegas em direcção ao futuro?

 

Tão às cegas como outra pessoa qualquer, suponho eu. Talvez sejam as estrelas que traçam o nosso caminho.

 

Ah, sim, conheço esse sentimento. Estás convencido de que tens um destino, não é?

 

Um destino muito pequeno, talvez.

 

Suponho que é melhor do que não ter destino nenhum. O Grande abanou a cabeça, como se a ideia de não ter destino nenhum, ou de ter um destino muito pequeno, fosse demasiado difícil de conceber para ele. O destino é uma coisa estranha. Olha para Clódio, terminou como um cadáver coberto de sangue na grande estrada construída pelo seu antepassado; é quase excessivamente adequado, mais parece uma tragédia grega. Pensa em Milo. Calculo que o fim mais adequado para ele seria ser apanhado numa cilada qualquer, e ser comido vivo pelos seus inimigos.

 

Não estou a perceber bem, Grande.

 

- Não estás a perceber? Como o lendário Milo de Crotona.

 

Há uma história relacionada com a sua morte? Nunca me interessei muito por atletas famosos.

 

Não? Mas nunca compreenderás verdadeiramente o nosso Milo, a não ser que conheças o seu homónimo. O nome com que um homem se apresenta é um sinal daquilo que pensa sobre si próprio, e por vezes dos seus objectivos. Com certeza não preciso de chamar a atenção desse facto a um homem que se chama a si próprio "Descobridor".

 

Compreendo... Grande. Pompeu nem sequer pestanejou.

 

Nesse caso, vou-vos contar a história de Milo de Crotona disse ele. Venham, estamos melhor na varanda. Podemos sentar-nos ao sol. Vou mandar vir um pouco de vinho aquecido. Albano ou Falerniano? Por mim prefiro o Albano, é mais seco...

 

Sentámo-nos, pois, na varanda de sudoeste da villa pinciana de Pompeu, beberricando um vinho com dez anos e contemplando a cidade. Aparentemente, o incêndio do Monte Aventino tinha sido extinguido. A enorme coluna de fumo fora cortada pela base e parecia flutuar acima dos telhados das casas como uma coisa saída de um pesadelo. Nas proximidades da Porta Colina, à nossa esquerda e ao longe, surgira um novo pilar de fumo, mais espesso e preto como azeviche.

 

Pompeu fez girar o vinho no copo.

 

Quando era jovem, o nosso Milo era um atleta e tanto. Pelo menos é isso que ele diz; depois do terceiro copo de vinho, começa a gabar-se dos seus tempos de glória como atleta como um soldado se gaba de batalhas antigas. Ganhou muitas competições, especialmente como lutador. Não sei que género de adversários tem um rapaz que cresce numa cidadezinha como Lanúvio, mas Milo sempre foi o mais forte, o mais veloz, o mais decidido. Possante como um touro. E teimoso como um touro é assim, o nosso Milo.

 

Continua a ser vaidoso como um grego relativamente ao seu físico, sabem? Não é exactamente o ideal grego é demasiadamente baixo e encorpado, mas não há dúvida de que se manteve em forma. Já o vi nu, nas termas. Tem um estômago que mais parece um tijolo, e ombros como pedras de catapulta. Seria capaz de partir uma noz entre as nádegas! Pompeu soltou uma gargalhada rouca, discretamente ecoada pelo soldado que montava guarda na ponta da varanda, e que não podia deixar de ouvir a conversa. Apercebi-me de que Eco e eu tínhamos sido admitidos numa certa intimidade com o Grande. Ele estava a ter connosco o género de conversa de homens que um comandante tem com os seus subordinados em momentos de lazer.

 

Por isso, quando Tito Ânio andava à procura de um nome para si próprio, decidiu-se por Milo. Lembram-se daquele antigo exercício escolar sobre Milo?

 

Eu não reagi mas Eco, cuja formação irregular tinha, ainda assim, sido mais formal do que a minha, aventurou-se a responder:

 

Compõe uma oração com base no seguinte tema e mostra que lições podemos retirar dele para o conjunto da nossa vida: Tendo-se acostumado a exercitar-se diariamente carregando um vitelo, Milo de Crotona continuou a carregá-lo até ele se transformar num touro.

 

Pompeu e Eco partilharam uma gargalhada nostálgica.

 

Moral da história: à medida que um rapaz se vai tornando um homem, também vão aumentando os fardos que carrega - disse Pompeu, e quando se é um tipo como Milo de Crotona, não se foge deles, continua-se a sorrir de dentes cerrados, arrastando os fardos para diante, gemendo e grunhindo. Tenho a certeza de que o nosso Milo teve de escrever sobre o mesmo tema. Aparentemente, não se esqueceu da lição.

 

Bebeu um gole de vinho, franziu um sobrolho, e chamou o criado.

 

Este é mesmo o nosso melhor Albano? Já não está bom. Não serve. Traz o Falerniano. Muito bem, onde é que eu ia? Oh, pois. Proezas de força. Dizem que Milo de Crotona era capaz de apertar numa mão uma romã madura, com tanta firmeza que ninguém conseguia abrir-lhe os dedos, mas com tanto cuidado que a romã não escorria sumo. Era capaz de subir para um disco coberto de gordura e equilibrar-se de modo tão perfeito, que ninguém conseguia empurrá-lo dali. Era capaz de atar uma corda à volta da cabeça, suster a respiração, e fazer aumentar as veias da testa até a corda rebentar, a isso gostava eu de ter assistido!

 

Mas Milo de Crotona nem sempre era gracioso. Certa vez, nos jogos de Olímpia, quando se preparava para ir receber a coroa de folhas de louro da luta, escorregou e caiu de costas no chão. Enquanto tentava pôr-se de pé, alguns palermas que estavam entre a multidão começaram a dizer que ele não devia ser coroado, depois de ter dado mostras de uma tal falta de jeito. Milo respondeu: "Não foi a terceira queda! Só caí uma vez. Vamos lá ver qual de vocês me atira ao chão mais duas vezes!" Eles calaram-se imediatamente.

 

Ganhou ao todo, 12 coroas, seis em Olímpia e seis em Delfos. Quando Crotona entrou em guerra com os Sibaritas, Milo colocou na cabeça as seis coroas de louros à laia de capacete eram suficientes para aparar os golpes e vestiu-se como Hércules, o seu herói, com uma pele de leão, levando uma moca na mão. Conduziu o povo de Crotona à vitória. E quando num gesto de gratidão, eles decidiram erguer-lhe uma estátua, Milo transportou a sua própria estátua até à praça e colocou-a no pedestal.

 

Quando Pitágoras, o filósofo, vivia em Crotona, ele e Milo tornaram-se grandes amigos. Os opostos atraíram-se: o pensador e o homem da força. Foi uma sorte para Pitágoras, porque Milo salvou-lhe a vida. Houve um tremor de terra, e um pilar da sala de jantar da escola dos filósofos cedeu. Milo segurou o tecto, evitando que ele se desmoronasse, enquanto Pitágoras e os alunos se escapavam, acabando por conseguir salvar-se também.

 

Começas a perceber, Descobridor, a relação alegórica que estas façanhas lendárias podem ter com a forma como o nosso Milo se conduz e aprecia o seu próprio destino? O herói lendário cujo punho fechado não pode ser aberto contra a sua vontade; que não se deixa derrubar, por muito escorregadio que seja o chão que pisa; que transporta um grande fardo sem se queixar; que consegue suster a respiração até as veias da testa lhe saltarem; que é o melhor amigo de um sábio famoso; que está disposto a perder-se para salvar os seus amigos; que parte para uma batalha levando aos ombros o manto ou, neste caso, o nome do seu herói de infância; que não se importa de colocar a sua própria estátua no respectivo pedestal; que ninguém consegue derrubar... mas que é capaz de cair de costas no chão, sem ser empurrado e à vista do mundo.

 

Pensei naquilo enquanto bebia uns goles do Falerniano que me tinham servido. Uma brisa de final da tarde começava a agitar o céu de Roma, fazendo inclinar os pilares de fumo e desfazendo em farrapos as suas extremidades superiores.

 

E como morreu Milo de Crotona, Grande?

 

O que diz o adágio? "É inútil ter muita força, se um homem não souber usá-la." Foi esse o mal de Milo de Crotona. Certo dia, partiu de viagem, a pé, e perdeu-se numa floresta densa. Já longe da estrada, chegou a uma zona de clareira onde tinham estado a trabalhar alguns lenhadores, mas já era tarde e os lenhadores tinham-se ido embora. Viu um grande tronco. Havia uma comprida racha ao longo do tronco, dentro da qual estavam metidas diversas cunhas de metal. Aparentemente, os lenhadores tinham tentado dividir o tronco em dois mas, não o conseguindo, tinham deixado a tarefa para o dia seguinte. Milo pensou: Vou eu dividir o tronco. Eles vão ficar completamente surpreendidos quando virem que houve um homem que conseguiu fazè-lo só com as duas mãos! Vão achar que eu sou muito inteligente! Vão sentir-se muito gratos! Outro famoso acto de força de Milo de Crotona! Meteu os dedos pela racha estreita e encostou as palmas das mãos aos dois lados. Afastou-os com toda a sua força. As cunhas de ferro soltaram-se e caíram e o tronco fechou-se imediatamente. Milo ficou com as mãos presas. Tinha os braços dobrados. O tronco era demasiadamente pesado e ele não conseguiu voltá-lo. Ficou imobilizado.

 

Caiu a noite. Ouviu-se um uivo nos bosques. A clareira foi invadida por animais selvagens, provenientes da floresta. Eles sentiram o medo de Milo, aperceberam-se da sua impotência. A princípio, limitaram-se a mordê-lo mas, ao verem que ele não era capaz de se defender, atiraram-se a ele, com os dentes a faiscar. Rasgaram-no de cima a baixo e comeram-no vivo.

 

Na manhã seguinte, os horrorizados lenhadores encontraram aquilo que restara de Milo de Crotona. Pompeu bebeu uns goles de vinho. Não preciso de elaborar os óbvios paralelos com o perigo em que se encontra o nosso Milo, pois não?

 

Não, Grande. Pareces estar muito bem informado sobre os dois Milos.

 

O meu pai costumava contar-me histórias sobre Milo de Crotona, quando eu era miúdo. Quanto a Tito Ânio Milo, temos sido ocasionalmente aliados.

 

Mas deixaram de ser?

 

Clódio e eu também fomos aliados disse ele, evitando a pergunta, tal como César e eu fomos aliados, e continuamos a ser, tanto quanto sei.

 

Não compreendo, Grande.

 

Há coisas que só as Parcas parecem conhecer. Não importa. E tu, Descobridor? Quem são os teus aliados? Quem serves tu? Pareces ser um homem que se move em todos os campos sem pertencer a nenhum.

 

Parece-me que é mesmo assim, Grande.

 

O que faz de ti um sujeito um tanto invulgar, Descobridor. Um amigo valioso.

 

Não percebo bem como, Grande.

 

Quero que me faças um pequeno trabalho.

 

Senti diversas coisas ao mesmo tempo excitação, cautela, uma sensação de afundamento.

 

Talvez, Grande. Se eu puder.

 

Quero que faças uma viagem pela Via Ápia, até ao local onde Clódio foi morto. Leva o teu filho contigo, se quiseres. Fala com as pessoas. Vê o que consegues descobrir. Se fores tão bom como o teu nome indica, talvez descubras algumas coisas que passaram despercebidas a outros.

 

Por quê eu, Grande? Certamente que há outros homens a quem podias recorrer.

 

Não conheço mais ninguém que se mova com a liberdade com que tu pareces mover-te entre a casa de Fúlvia e a de Cícero. Como já disse, és um sujeito invulgar.

 

As Parcas parecem ter-me colocado num local curioso.

 

Não foste o único. Todos temos de nos submeter às Parcas. Acabou de beber o vinho lentamente, sem tirar os olhos de mim. Deixa-me explicar-te uma coisa, Descobridor. Como general, tenho sido quase infalível. Tenho avançado de triunfo em triunfo sem dar um passo em falso, raramente me concedendo um momento de hesitação. Tenho instinto para isso, compreendes? É um génio peculiar, muito próprio. Podia fazê-lo de olhos fechados. Mas a política a política é uma coisa diferente. Eu aproximo-me do Fórum da mesma maneira que me aproximo de um campo de batalha. Reúno as minhas forças, concebo um plano mas as coisas nunca saem exactamente como eu quero. Penso que estou a caminhar em direcção ao prémio, sem desvios, e subitamente apercebo-me de que não faço ideia de onde estou, ou de como lá cheguei. Perco por completo o sentido de orientação.

 

Júlia costumava dizer que eu tinha maus conselheiros. Talvez tivesse razão. Num campo de batalha, as nossas tropas estão aqui, o inimigo está ali, e se um homem não nos dá a informação correcta, no dia seguinte está morto. Mas, nesta escuridão nebulosa, alguém pode espetar-te um punhal no coração sem tu te aperceberes, e os chamados conselheiros têm o costume de te dizer aquilo que acham que tu queres ouvir, sem se incomodarem com os factos. Não imaginas a quantidade de vezes que percorri um caminho com a ajuda de um mapa, e fui parar diante de uma parede. Desta vez, isso não pode acontecer! Não poderá haver maus conselhos, mentiras aduladoras, enganos. Tenho de conhecer o chão que piso, a disposição do inimigo, os movimentos precisos de todas as forças que me cercam. Primeiro que tudo, e antes de mais, quero saber exactamente o que aconteceu na Via Ápia. Compreendes?

 

Julgo que sim, Grande.

 

Posso confiar em ti, Descobridor?

 

Eu olhei para ele por longos momentos, perguntando a mim próprio se poderia confiar em Pompeu.

 

Não precisas de responder disse ele por fim. O meu instinto de general sente que não há falsidade em ti. Estás disposto a fazer o que te pedi?

 

Fúlvia já me tinha pedido que investigasse as circunstâncias da morte do marido. Agora, Pompeu fazia a mesma coisa. Senti os olhos de Eco pousados em mim. Inspirei profundamente.

 

Percorrerei a Via Ápia. E descobrirei tudo o que puder acerca da morte de Clódio.

 

Pompeu acenou com a cabeça.

 

Óptimo. Estou certo de que estaremos de acordo quanto às condições; nunca pedi a nenhum homem que marchasse por mim sem o remunerar adequadamente. Quanto ao alojamento, podes ficar instalado na minha villa. Não é longe de casa de Clódio. E deve ser muito perto do sítio onde ele foi morto.

 

Bebeu um gole do Falerniano e olhou para a cidade.

 

Sairei de Roma dentro de um ou dois dias. Quando voltar, porei fim a estes disparates todos.

 

Disparates, Grande?

 

Com um movimento da mão, indicou os pilares de fumo.

 

Esta desordem infernal.

 

Mas como, Grande?

 

Pompeu olhou para mim com astúcia.

 

Julgo que não fará mal dizer-to. Amanhã, o Senado vai reunir-se no pórtico do meu teatro, no Campo de Marte.

 

Fora dos muros da cidade?

 

Sim. Desse modo, eu também posso participar na reuniãolegalmente. Que nenhum homem possa dizer que Pompeu acha que está acima da lei! Têm-se acumulado diversos assuntos, como podes imaginar. Serão apresentadas várias propostas. Uma delas, relativa à reconstrução do Senado. Aí, não haverá controvérsias. Vou sugerir que o contrato seja entregue ao cunhado de Milo, Fausto Sula. Que nenhum homem possa dizer que Pompeu não foi justo com os parentes de Milo! Além disso, é perfeitamente adequado, dado que foi Sula, o pai de Fausto, quem remodelou o antigo Senado. O Senado prestará assim homenagem à memória do ditador Sula e dos seus feitos. Muitos romanos estremecem ao ouvir essa palavra, ditador. Esquecem-se de como é importante dispor de mecanismos por meio dos quais o poder supremo possa ser colocado nas mãos de um único homem, quando as circunstâncias o exigem.

 

Bebeu outro gole de vinho e contemplou os pilares de fumo como se pudesse dispersá-los pela simples força da sua vontade.

 

E haverá ainda outra proposta, mais importante do que essa: que o Senado declare o estado de emergência e promulgue o Decreto Final. Sabes o que significa isso, Descobridor?

 

Sei respondi eu, recordando-me da última vez em que esse decreto fora promulgado, quando Cícero era cônsul e exigira poderes extraordinários para lidar com Catilina e o seu círculo. O Decreto Final solicita aos cônsules que façam "tudo o que for necessário para salvar o Estado".

 

É a lei marcial disse Pompeu sem mais rodeios.

 

Mas nós não temos cônsules.

 

Pois não, isso é um problema. Não é possível requisitar as tropas que estão fora da cidade, porque não dispomos de um cônsul que as requisite. Bem, na verdade, trata-se apenas de um pormenor técnico. É um papel que terá de ser assumido por outra pessoa, e pronto. Felizmente, como homem que já foi eleito cônsul por duas vezes e é o actual comandante das tropas romanas em Espanha, eu possuo, tanto os necessários conhecimentos militares para criar uma milícia aqui em Itália, como a capacidade de a organizar da forma mais eficaz para trazer de novo a ordem à cidade.

 

E o Senado vai concordar com isso?

 

Estou certo de que sim. É apenas uma questão de se contarem os votos antecipadamente. Oh, alguns apoiantes de César vão protestar, e o mesmo farão provavelmente os conservadores mais preconceituosos, como Catão. É um precedente terrível, dirão eles, mas que outra solução propõem? Não poderão protestar com demasiada veemência. Eu arranjo maneira de os aplacar. O importante é que a ordem seja restabelecida. Se tivermos de recorrer a determinadas inovações para obter esse fim, se tivermos de vergar um pouco a lei, que assim seja.

 

Desviou finalmente os olhos dos pilares de fumo que, pelo menos de momento, se recusavam a dispersar.

 

Muito bem, vamos então discutir os teus honorários, Descobridor?

 

Um homem inicia uma viagem pela Via Ápia com o cheiro a peixe nas narinas e o som da água a pingar nos ouvidos.

 

O cheiro provém dos mercados de peixe situados mesmo à entrada da Porta Capena, na extremidade sul da cidade. Os pescadores do Tibre, desde Roma até Ostia, exibem a sua pescaria em fileiras sucessivas de peixes pendurados pelas bocas abertas, alternando aqui e ali com um cesto cheio de moluscos, polvos ou lulas. Num dia normal, a uma hora normal, ressoa no local a tagarelice dos escravos das cozinhas, das mães de família e dos mercadores. Nós partimos àquela hora cinzenta que antecede a aurora, antes da hora habitual de abertura dos mercados, mas apesar disso o local estava estranhamente silencioso e deserto. De acordo com Betesda, há vários dias que não havia mercado à entrada da Porta Capena. Como vairões assustados, os pescadores tinham debandado. Ainda assim, o odor a peixe era forte, como se o mar tivesse penetrado nas próprias pedras que pisávamos.

 

O som da água a pingar provém de uma falha no aqueduto apiano, construído pelo mesmo Ápio Cláudio Ceco que construiu a Via Ápia, há 260 anos. Quando chega à cidade, o aqueduto insere-se na muralha e corre no seu interior durante uma distância considerável, um rio dentro de uma parede, uma maravilha de concepção e engenharia prejudicada por um único defeito: na Porta Capena, o aqueduto verte. Nos meses de calor, os grandes blocos de pedra que formam o arco acima das nossas cabeças cobrem-se de um musgo que pinga, como se fosse o tecto de uma gruta. No pico do Inverno, o musgo morre e, por vezes, a água congela, transformando-se num lençol de gelo brilhante. Nesta manhã, não estava assim tanto frio. A água corria, lenta mas livremente. Quando passámos pela porta, houve uma gota em particular, uma gota especialmente grande e especialmente fria, que me atingiu na parte de trás do pescoço, serpenteando em seguida pelas minhas costas abaixo. Eu sacudi-me, e devo ter emitido um ruído curioso, porque Eco me agarrou no braço e Davo olhou para mim alarmado.

 

Eu sabia o que Davo devia estar a pensar: que era um mau presságio começar uma viagem com um estremecimento e uma praga do seu senhor. Eco, que era menos supersticioso, deve ter receado que eu estivesse a ter um ataque. Depois, uma gota resvalou-lhe pela ponta do nariz, obrigando-o a pestanejar, confuso. Quando Davo inclinou a cabeça para trás e abriu a boca para se rir, houve outra gota que o atingiu em cheio entre os olhos.

 

Pronto, já fomos todos ungidos pela Porta Capena. Isto é um excelente presságio disse eu, para benefício de Davo.

 

Eco ergueu uma sobrancelha, num gesto de dúvida.

 

Onde é o tal estábulo a que Pompeu se referiu? Nunca reparei nele. Olhei à volta. Para a esquerda, mesmo a seguir ao mercado, havia uma densa mata de árvores que rodeavam o santuário de Egera, com as suas torrentes calcárias. Não podia ser naquela direcção. Olhei para a direita. Deve ser aquilo ali. Parece um estábulo, não parece? Normalmente, ficaria oculto por trás dos peixes pendurados. A porta está aberta e há luz no interior. Já deve haver gente a pé.

 

Um caminho estreito flanqueado de ciprestes conduzia ao edifício comprido e baixo aninhado à sombra dos muros da cidade. Dei um passo para o interior, e fui recebido por um odor a feno e a estrume de cavalo, que foi um alívio bem-vindo relativamente ao fedor a peixe, e por uma forquilha apontada ao meu pescoço.

 

Quem és tu? O que pretendes? O homem tinha na outra mão uma lamparina, cujo brilho lhe iluminava o rosto magro e desconfiado.

 

Vimos da parte do teu senhor disse eu. Pensei que estavas à nossa espera.

 

Talvez esteja. Como te chamas?

 

Descobridor.

 

Muito bem. O homem baixou a forquilha. Tenho de ter cuidado. Ultimamente, tem havido muitos problemas. Homens desesperados, excelentes cavalos, e eu no meio de uns e de outros e serei eu a pagar se algum deles for roubado. Compreendes? E digo-te uma coisa, o senhor tem aqui uns belos cavalos. Belos cavalos! Só um militar é realmente capaz de apreciar o valor de um cavalo. Mantém-nos aqui por comodidade, para quando lhe apetece ir dar uma volta até à villa que tem a Sul. Venham ver. Cuidado, sigam a luz da lamparina. Ele disse que vos deixasse escolher. Quantos são? Três? Olhem, tenho aqui três pretos, sem uma única mancha de branco. Se fosse a vocês, era estes que levava.

 

Vi os três cavalos a que ele se referia e aproximei-me do que estava mais próximo. O animal tinha um pescoço comprido e forte e uns olhos brilhantes.

 

Porquê? Estes são os mais velozes? Ele encolheu os ombros.

 

Talvez sejam, talvez não. Mas serão com certeza os mais difíceis de detectar se viajarem de noite. É um factor importante nestes tempos, não nos deixarmos ver quando andamos de noite.

 

Os três cavalos pareciam suficientemente fortes e em forma, e eram de facto muito pretos; apesar do brilho da lamparina do homem, tendiam a desaparecer nas sombras da cocheira. Aceitei o conselho dele.

 

Davo teve alguma dificuldade em montar o cavalo que lhe coube. Ficámos então a saber que nunca tinha montado.

 

Eco parecia completamente desgostoso não tanto irritado com Davo, mas consigo próprio por não se ter lembrado de um pormenor tão elementar antes da partida. De que servia um guarda-costas que não era capaz de controlar a sua montada? Davo era agora o meu guarda-costas pessoal; era eu que lhe devia ter perguntado se ele sabia montar, mas estava tão habituado a Belbo que nem pensei nisso.

 

Quer dizer que nunca montaste? perguntei-lhe.

 

Não, senhor.

 

Não sabes nada sobre cavalos?

 

Nada, senhor. Davo olhava nervosamente para o chão, de um lado para o outro, como um homem empoleirado numa mesa instável.

 

Nesse caso, hoje vais aprender a montar disse eu. E amanhã terás imensa dificuldade em te manter de pé, pensei. De que serviria um guarda-costas com fendas causadas pela sela e as pernas rígidas como madeira?

 

O cavalo resfolegou. Davo teve um sobressalto e agarrou nas rédeas com toda a força. O homem do estábulo estava muito divertido.

 

Não te preocupes! Já te disse que estes cavalos são do melhor que há. Foram treinados para pensar sozinhos. São cavalos de batalha, mantêm a perspicácia, aconteça o que acontecer. São mais espertos do que o escravo mediano, disso não tenho dúvida nenhuma. O Grande até autoriza que sejam montados por mulheres!

 

Davo tomou esta afirmação como um desafio. Franziu a testa, expulsou do rosto o ar enjoado e sentou-se muito direito.

 

Afastámo-nos lentamente dos estábulos, deixando as montadas sentir-nos. Eco estava maldisposto, mas não era por causa de Davo.

 

Parece-te que foi boa ideia meter estrangeiros dentro de casa?

 

São homens de Pompeu. Achas que não devíamos ter confiado neles?

 

Acho que tinha de ser...

 

Era a única maneira. Bem, talvez não fosse a única maneira... Na verdade, Pompeu tinha-se oferecido para permitir que Betesda, Menénia e Diana, e os criados de que elas precisassem, fossem viver para a sua antiga casa de família, dentro dos muros da cidade, no bairro de Carina, na encosta ocidental do Esquilino, enquanto nós estávamos fora. Fazia sentido; aí, estariam certamente seguras, e a casa ficava situada a meio caminho entre a casa de Eco e a minha. Mas eu não quis ir tão longe, passar tão depressa para o campo de Pompeu. Colocar a minha família totalmente ao seu cuidado significava colocá-la por completo sob o seu poder, de uma maneira que seria com certeza detectada pelas outras pessoas. Por outro lado, estava fora de questão eu sair de Roma durante uns dias sem fazer alguma coisa para salvaguardar as casas da família, especialmente tendo em conta que Eco ia comigo, coisa em que ele insistiu. A solução era pedir emprestado a Pompeu um destacamento de guarda-costas, como parte dos meus honorários, os suficientes para proteger a casa do Esquilino e a casa do Palatino na nossa ausência. Pompeu concordou. Os seus homens tinham chegado a minha casa ao princípio daquela manhã, antes de Eco e eu partirmos.

 

Não gostei do aspecto de alguns daqueles tipos cismou Eco.

 

Acho que a ideia é essa. São assustadores.

 

Mas poderemos confiar neles?

 

Pompeu diz que sim. Duvido de que haja ao cimo da terra outro homem tão capaz de manter a disciplina nas suas fileiras como Pompeu.

 

Betesda não ficou satisfeita.

 

Betesda não ficou satisfeita com nada disto. Tem a casa num caos, o marido foi novamente meter-se em situações perigosas, e os gladiadores de outro homem enchem-lhe a casa de lama. Mas eu descontio de que, no fundo, estava satisfeita por dispor daquela protecção. Aqueles homens que pilharam a casa e mataram Belbo, abalaram-na mais do que ela gostaria de admitir. E presta atenção ao que eu te digo, quando voltarmos, ela terá treinado todos os brutamontes de Pompeu para tirarem os sapatos antes de pisarem as carpetes e pedirem autorização para ir à retrete.

 

Eco riu-se.

 

Talvez Pompeu a contrate como instrutora! Avançámos mais um bocado. Menénia mostrou-se bastante razoável com tudo aquilo observou ele. O tom de desejo que pressenti na sua voz fez-me pensar que teriam chegado a mais do que um entendimento mental durante a noite.

 

Menénia é a essência da razão disse eu.

 

E Diana...

 

Não fales nisso. Vi a maneira como ela olhava para alguns daqueles tipos. Prefiro não pensar nisso.

 

Davo mexeu-se pouco à-vontade, e pigarreou, mas Eco insistiu.

 

Ela tem 17 anos, Papá. Provavelmente, casar-se-á em breve.

 

Talvez, mas como? Um casamento decente implica negociações entre as duas famílias, um plano, anúncios aos amigos, todas as coisas por que passámos quando tu te casaste com Menénia. Consegues imaginar-nos a fazer isso tudo, no estado em que as coisas estão actualmente?

 

Os tumultos hão-de acabar, papá. As coisas não tardarão a regressar ao normal.

 

Achas que sim?

 

A vida continua, papá. As coisas vão mesmo ter de melhorar.

 

Achas? Desta vez não tenho assim tanta certeza...

 

Não se via ninguém na estrada, pelo menos pessoas vivas. Alinhada ao longo do caminho, como sempre acontecia ao longo dos percursos importantes fora das cidades, via-se uma sucessão de túmulos e sepulcros, grandes e pequenos. Era ilegal enterrar os mortos dentro das cidades, por isso as zonas de enterramento iniciavam-se logo à saída dos muros. Cenotáfios torcidos com inscrições gastas pelo tempo erguiam-se ao lado de retratos de família recém-esculpidos, em mármore e calcário. Entre os túmulos mais grandiosos, contavam-se os dos Cipiões, a família cuja glória dominara Roma na época anterior ao nascimento do meu pai. Tinham conquistado Cartago e iniciado a formação do império; agora, eram pó.

 

Igualmente grandiosos eram os túmulos dos Cláudios. A Via Ápia era a sua estrada, ou pelo menos eles assim a consideravam, dado que fora construída por um dos seus antepassados. Os Cláudios já falecidos e depositados nos seus túmulos de pedra ornamentada estavam agrupados ao longo do percurso, como espectadores apinhados para assistir a uma parada. Os Cláudios continuavam a imprimir a sua marca em Roma; Públio Cláudio, que assumira a variante plebeia do nome, era o mais recente membro influente da família. Como Pompeu observara, o facto de ter sido assassinado na estrada construída pelos seus antepassados fora uma volta do destino do género adorado pelos dramaturgos melodramáticos e os retóricos sentimentais. No futuro, a ironia da situação poderia proporcionar um tema de composição aos alunos das escolas: ápio Cláudio Ceco construiu a Via Ápia. Duzentos e 60 anos mais tarde, o seu descendente Públio Clódiofoi assassinado no mesmo local. Compara e contrasta os feitos dos dois homens.

 

Para além dos túmulos, viam-se grande montes de lixo e despejos, fragmentos de cerâmica e sapatos rotos, cacos de vidro e pedaços de metal e de gesso. Uma cidade com a dimensão de Roma produz uma grande quantidade de lixo, e ele tem de ser colocado em algum sítio. Era melhor transportá-lo em carretas para fora das muralhas e atirá-lo para a cidade dos mortos, do que deixá-lo acumular-se no meio dos vivos. Na extremidade da cidade, onde os túmulos e os montes de lixo eram menores e mais escassos, e se iniciava a zona rural, passámos pelo Monumento de Basílio. Eu nunca soube quem era Basílio, nem por que razão era o seu túmulo, que tinha a forma de um templo grego em miniatura e fora colocado no alto de uma pequena colina, tão grandioso como os dos Cláudios ou dos Cipiões. As inscrições são tão antigas, que já não se conseguem ler. Mas a proeminência e a localização do monumento fazem dele uma espécie de marco territorial. O Monumento de Basílio marca o limite dos vícios da cidade ou da incursão da ameaça das zonas rurais, dependendo do ponto de vista. Aqui se congrega todo o tipo de personagens pouco aconselháveis. O local é conhecido pelos roubos e violações que nele ocorrem. Daí a advertência amigável a quem faz caminho pela Via Ápia: "Tem cuidado quando passares pelo Monumento de Basílio!" Nessa manhã, tinham sido essas as últimas palavras que Betesda me dirigira. De momento, os únicos vagabundos que se avistavam eram umas figuras miseráveis, amontoadas na base do monumento debaixo de mantas grosseiras, e rodeadas de recipientes de vinho vazios. Provavelmente, eram tão inofensivos e desgraçados como pareciam; por outro lado, os bandidos são conhecidos por assumirem disfarces destes.

 

Esporeei a montada, incitando-a ao trote, ansioso por deixar para trás aquele local. Mas, enquanto avançávamos, a minha intuição disse-me que estávamos a aproximar-nos, e não a afastar-nos, do perigo. Quando insisti com Pompeu para que mandasse guardar a minha família na minha ausência, ele ofereceu-se para também mandar uns guardas com Eco e comigo. Eu recusei. Era provável que os seus homens fossem reconhecidos. Não valia de nada mandar-me procurar aquilo que os homens de Pompeu não tinham conseguido descobrir, se as pessoas percebessem imediatamente que eu vinha da parte de Pompeu. Além disso, tinha eu raciocinado, três homens saudáveis e armados a cavalo, sem constituírem perigo para ninguém, não deviam ter muito com que se preocupar.

 

As últimas palavras que Betesda me dirigira naquela manhã com o que me pareceu uma lágrima ao canto do olho tinham sido:

 

És um louco. Eu esperava que ela não tivesse razão.

 

Passado o Monumento de Basílio, a Via Ápia estende-se como uma fita comprida e direita em direcção ao Monte Alba, que se perfila no horizonte. A terra de ambos os lados é plana como uma mesa, pontuada aqui e ali, à distância, de árvores e cavalos. Para além de nós, não se via mais ninguém na estrada, naquela manhã, nem escravos a trabalhar nos campos, que estavam de pousio. À excepção de uma quantas plumas de fumo, provenientes das lareiras de casas dispersas, não havia qualquer sinal de vida. Esta é uma das passagens mais seguras da Via Ápia, já que a topografia não proporciona locais para emboscadas. O ar fresco, o cheiro a terra, o vasto espaço vazio, o Sol a nascer por cima da longa crista das colinas, para Oeste, todas estas coisas me faziam sentir feliz, satisfeito por ter deixado atrás de mim, durante algum tempo, a cidade e a sua loucura. Mas havia um de nós que não tinha um ar nada satisfeito.

 

Passa-se alguma coisa, Davo? Pareces estar a apanhar o jeito.

 

Senhor? Não, o cavalo é excelente. Ao falar, apertou as rédeas, como se o animal pudesse ouvi-lo e dar um solavanco, só para contrariar.

 

Então o que é?

 

Nada, senhor. É que... Observou os campos de ambos os lados da estrada com um olhar tão desconcertado, que eu segui a direcção desse olhar, pensando que talvez houvesse alguma coisa ameaçadora escondida nos maciços de terra frígida e erva castanha.

 

Em nome de Júpiter, o que estás tu a ver, Davo?

 

Nada, senhor.

 

Pára de dizer isso! Deves ver qualquer coisa.

 

Não, senhor, é exactamente isso. Não vejo nada. Nada de nada. E parece-me que nunca mais acaba.

 

Estás a ficar cego?

 

Não! Vejo bem. Só que não há nada para ver! Subitamente, compreendi. Não pude deixar de me rir do absurdo da situação. Eco franziu o sobrolho e aproximou a montada.

 

O que se passa, papá?

 

Davo nunca saiu da cidade em toda a sua vida disse eu. Pois não, Davo?

 

Não, senhor.

 

Que idade tens tu, Davo?

 

19 anos, Senhor.

 

Davo tem 19 anos, Eco, e nunca montou a cavalo, e nunca saiu de Roma.

 

Eco soltou uma praga, ergueu os olhos ao céu e fez avançar o cavalo.

 

Ele está irritado comigo, senhor.

 

Não está não, Davo. Tem saudades da mulher e está preocupado com ela.

 

Então és tu que estás zangado comigo.

 

Não, Davo. Esquece-te de que me viste rir. Não penses mais nisso. Vais precisar de toda a tua concentração para te manteres direito nesse cavalo sem te desviares de todo este nada por onde vamos passando.

 

Prosseguimos durante mais algum tempo, com o silêncio apenas quebrado pelo som dos cascos dos cavalos na estrada. Das narinas dos animais saíam tufos de vapor. Eu inspirei profundamente, com vontade de sentir o ar frio dentro dos pulmões. A taça vazia e azul do céu da manhã parecia cristal. A terra castanha de Inverno parecia um gigante adormecido, sobre o qual avançávamos lentamente. Eu sentia-me indescritivelmente feliz por estar longe de Roma.

 

Ele era um escravo óptimo, não era? disse Davo, com uma expressão tão carregada, que lhe empurrava o queixo contra o peito.

 

Quem?

 

O guarda-costas que tinhas antes de mim. Aquele que foi morto. Eu suspirei.

 

Chamava-se Belbo. Sim, era um óptimo escravo. Um bom homem.

 

Calculo que fosse mais forte do que eu. E mais esperto do que eu. Olhei para os braços e os ombros volumosos de Davo e observei a infeliz confusão estampada no seu rosto.

 

Não me parece provável respondi.

 

- Mas aposto que sabia andar a cavalo. E aposto que não tinha medo de um campo vazio.

 

Não te preocupes com isso disse eu, com toda a simpatia de que fui capaz. Afinal, ele não tinha culpa de nada disto.

 

O Sol vai alto, Eco. O ar está frio e limpo. Não se vê ninguém na estrada, não há ninguém à vista. Ah! ouviste aquilo?

 

Não ouvi nada, papá.

 

Exactamente. Nem um pássaro nem um grilo. Silêncio, parece-me que começo a recuperar as faculdades. Talvez volte mesmo a ser capaz de pensar.

 

Eco riu-se.

 

Tinhas perdido essa capacidade?

 

Não era uma piada. Não sentes? Quanto mais nos afastamos da cidade, mais limpo fica o meu cérebro. É como se tivesse estado mergulhado num nevoeiro, que agora se levantasse.

 

A névoa que ficou para trás, na cidade, era fumo, papá.

 

A névoa que é visível era. Mas há outra névoa que poisou sobre Roma. Pânico, confusão e fraude não se consegue pensar adequadamente. As pessoas comportam-se como loucas, correndo de um lado para o outro, escondendo-se em buracos, fugindo da própria sombra. Parece um pesadelo que nunca mais acaba. Mas agora sinto que estou a acordar. Não sentes o mesmo?

 

Ele olhou à volta, inspirou fundo e riu-se.

 

Sinto!

 

Óptimo! Talvez possamos então começar a perceber algumas coisas.

 

Por onde queres começar, papá?

 

Por aqui mesmo. Mas vamos recuar 21 dias.

 

Por quê?

 

Porque foi há exactamente 21 dias que Clódio partiu de viagem pela Via Ápia. Fiz este cálculo ontem à noite.

 

E Milo?

 

Milo partiu no dia seguinte, no dia do fatal encontro de ambos mas já lá vamos. Comecemos por Clódio, e vamos reconstruir os acontecimentos tal como se deram, tanto quanto sabemos, por Milo e por Fúlvia. Ainda não contara a Eco todos os pormenores da entrevista que tivera com Fúlvia no dia anterior. Para começar, Fúlvia disse-me que Clódio partiu da casa de ambos, no Palatino, por volta da terceira hora. Mais tarde do que nós nós saímos antes de nascer o Sol, antes da primeira hora. Mas a terceira hora já era bem cedo para um homem como Clódio.

 

Por quê, por ser tão dissoluto como Cícero pretende?

 

Não, porque quando um homem tão poderoso como Clódio sai da cidade, mesmo que seja numa viagem curta, há sempre muitos fios soltos e pormenores de última hora a tratar. Soube por Fúlvia que foi isso que aconteceu com Clódio naquela manhã, notas a escrever à pressa, mensageiros a despachar, e por aí adiante. Por fim, Clódio partiu. Pelo caminho, ainda antes de sair do Monte Palatino, fez uma paragem para visitar um amigo que estava muito doente: Ciro, o arquitecto.

 

O nome não me é desconhecido. Vamos ter de o interrogar?

 

Receio que não possamos. Ciro morreu nesse mesmo dia, pouco depois de Clódio o ter deixado. Era um arquitecto dos ricos e famosos, muito solicitado. Parece ter estado acima das controvérsias políticas. Cícero contratou-o para reconstruir a sua casa do Palatino depois de ter sido incendiada pela multidão. Clódio contratou-o quando comprou aquela casa monstruosa a Escauro, e foi ele que planeou todas as alterações. Presumo que Ciro passasse muito tempo em casa de Clódio nos últimos meses, vigiando os trabalhadores, tomando refeições com a família.

 

Quer dizer que Ciro trabalhou para Cícero e para Clódio?

 

Presumo que tivesse um temperamento artístico do tipo que tem demasiado talento para ter opções políticas. Não só tanto Clódio como Cícero usaram os seus serviços, como ambos o aconselharam legalmente. Parece que Ciro os consultou ambos, em separado, quando adoeceu e quis fazer testamento, incluindo ambos entre os seus herdeiros. Depois da visita de despedida que Clódio lhe fez nessa manhã, Cícero foi visitar Ciro e estava junto dele no momento da sua morte.

 

Um arquitecto com sentido de simetria observou Eco. Dizes que ele estava acima da política, mas eu pergunto a mim próprio se seria bem assim. Passando tanto tempo em casa de Clódio, tomando refeições com a família, com liberdade de andar por ali à sua vontade que esplêndido informador não teria constituído para Cícero.

 

Também pensei nisso. Mesmo que não fosse um espião deliberado, é natural que, no contexto de uma conversa normal, Ciro tivesse inadvertidamente fornecido a Cícero muitas informações sobre a casa e a família de Clódio, e os respectivos movimentos. E Cícero saberia muito bem extrair as informações que lhe interessavam. Mas isto são meras suposições. Não temos qualquer motivo para pensar que Ciro fosse, em qualquer sentido, um espião. Ciro é apenas uma ligação curiosa entre Cícero e Clódio mais outro exemplo do que é verdadeiramente uma cidade pequena como Roma. O nome de Ciro voltará a aparecer mais adiante, e foi por isso que o referi agora, mas a sua participação na história é provavelmente insignificante.

 

Já percebi. Eco olhou para mim com argúcia. Ainda assim, tenho algumas suspeitas desse tal Ciro. Vou vigiá-lo de perto, esteja morto ou vivo.

 

É esse o espírito!

 

Ugh! Papá, não é teu costume fazer trocadilhos.

 

Não era minha intenção. Continuemos: Clódio fez uma última visita ao agonizante Ciro e em seguida tomou a Via Ápia. O objectivo da sua viagem era ir tratar de uns negócios que tinha na cidade de Arícia, a cerca de 25 quilómetros de Roma. A cavalo, é uma viagem que se faz num dia, o tradicional ponto de paragem durante a noite quando se vai para Sul, um sítio onde há estalagens e tabernas para os viajantes.

 

Clódio tinha negócios aí?

 

Ia fazer um discurso no Senado da cidade, na manhã seguinte. Fúlvia disse-me que não sabia bem do que se tratava, ou por que fora solicitada a presença de Clódio. Talvez houvesse alguma festa anual do porco em Arícia, ou uma celebração de uma divindade local. Os políticos andam sempre a fazer viagens a cidades vizinhas para fazerem a corte aos seus eleitores. Clódio tinha uma propriedade importante nas redondezas; ele e Fúlvia possuem uma villa mesmo à saída de Arícia. Há um pormenor digno de nota: Fúlvia não foi com ele. Isso é um bocado estranho. Tanto quanto ouvi dizer, Fúlvia desempenhava com todo o cuidado o seu papel de esposa de um político e, de uma maneira geral, as esposas acompanham os maridos neste género de viagens. Enquanto os políticos conversam amigavelmente com os magistrados locais, as mulheres irradiam virtudes de matrona e trocam receitas com as mulheres dos magistrados, ou coisa assim. Mas Fúlvia ficou em casa.

 

Perguntaste-lhe por quê?

 

Ela disse-me que estava preocupada com o estado de saúde de Ciro.

 

Era assim tão íntima de Ciro?

 

Viste a casa dela, imagina morrer-te o arquitecto a meio da reconstrução daquela monstruosidade!

 

Percebo o que queres dizer. Mas é assim tão importante que Fúlvia tenha, ou não, ido com Clódio?

 

Talvez seja, talvez não. Considera o seguinte: se um homem planeava emboscar o inimigo como Milo afirma que Clódio planeava, deixaria a mulher em casa, não te parece? Mas há uma coisa curiosa: Clódio levou o filho mais novo consigo. O rapaz não passa de uma criança tem oito anos. Isto parece contradizer a ideia de que Clódio deixou Fúlvia em casa porque planeava levar a cabo uma acção violenta. Se assim fosse, também teria deixado o filho em segurança.

 

Fúlvia disse-te por que razão ele levou o rapaz?

 

Disse-me que Clódio queria apresentar o filho aos chefes da cidade de Arícia. O que me parece uma atitude típica de um político romano nunca é cedo demais para começar a educar o herdeiro! E, evidentemente, na ausência de mulher, a melhor maneira de exibir as virtudes de um homem de família é exibir o filho. Os inimigos de Clódio...

 

Ou seja, Cícero e Milo.

 

... passaram anos a retratá-lo como um incestuoso traficante deprostitutas e antigo prostituto, que dedica a sua vida a seduzir as mulheres e os filhos dos outros homens o que pode, ou não, ser verdade. Esse género de conversa não destrói necessariamente a reputação de um homem numa Roma entediada e sofisticada, mas é veneno nas zonas rurais, onde as pessoas continuam a levar a sério as antigas virtudes. Por isso, quando vai discursar diante dos cidadãos de Arícia, Clódio deseja apresentar-se como um marido e um pai íntegro. E não há melhor maneira de o fazer do que pronunciar o seu discurso tendo ao lado Públio Júnior, o seu filho de oito anos. Eco franziu o sobrolho.

 

Mas o rapaz não estava presente no dia seguinte, durante a escaramuça entre Clódio e Milo na Via Ápia, pois não?

 

Não. Mas já lá vamos. Há outra coisa a ter em conta, quando falamos da partida de Clódio para Arícia: nessa manhã, houve um grande contio no Fórum, convocado pelos mesmos tribunos radicais que têm instigado os tumultos desde a morte de Clódio. Normalmente, Clódio teria feito questão de estar presente nesse condo, para ter a certeza de que as coisas corriam conforme o planeado. Em vez disso, partiu para Arícia.

 

Eco encolheu os ombros.

 

Um homem não pode estar em dois sítios ao mesmo tempo.

 

Pois não, por isso tem de optar. Alguns diriam que é difícil imaginar Clódio a perder um contio destinado a instigar a multidão, só para ir ganhar a benevolência dos chefes locais de uma paragem de repouso na Via Ápia, a não ser que tivesse outra motivação.

 

Como uma emboscada a um inimigo mortal?

 

É o que poderão sugerir os seus inimigos. É simplesmente mais um ponto a reter.

 

Que género de comitiva levou Clódio consigo?

 

Três amigos e diversos escravos Fúlvia diz que eram 25 ou

30, a maioria dos quais a pé e todos armados.

 

Tantos?

 

Um destacamento numeroso, é certo, mas não propriamente exagerado. De que outra maneira poderia um homem como Clódio viajar com segurança pelo campo? E a verdade é que nem o destacamento conseguiu salvá-lo. Mas também há quem sugira que grupo tão formidável devia ter como objectivo o ataque, e não a defesa. Outro pormenor a ter em conta.

 

E assim, temos finalmente Clódio na estrada.

 

Temos. Resolve uns assuntos de última hora em casa, dá um beijo a Fúlvia, pára em casa do arquitecto moribundo. Ele e os seus cerca de 30 homens passam pela Porta Capena talvez uma gota de água gelada lhe caia pelo pescoço abaixo, como caiu pelo meu, sobressaltando-o. A manhã vai a meio o mercado está cheio de vendedores e fede a peixe. Os escravos e os cidadãos da classe baixa reconhecem-no e aclamam-no. Aqueles que o desprezam limitam-se a franzir o sobrolho e a morder a língua seriam dominados pela multidão. Ele e os amigos vão buscar cavalos a um sítio qualquer o estábulo de Pompeu não será o único naquela zona, e tomam a Via Ápia, com a comitiva atrás. É provável que Clódio faça uma paragem para prestar as suas homenagens nos túmulos dos seus ilustres antepassados, leva o filho consigo, e qual é o pai patrício que dispensa a oportunidade de deixar impresso num rapaz o estatuto da sua família?

 

Passam pelo conhecido Monumento de Basílio e Clódio nem pensa no assunto o local só é perigoso à noite, e marcha atrás de si, um destacamento de homens armados. A estrada é larga, por isso Clódio e os seus três amigos avançam lado-a-lado, com o filho à direita do pai, ouvindo a conversa dos adultos. O miúdo devia sentir-se bastante impressionado com ele tantos homens às ordens do papá, as multidões que se reúnem quando o papá fala, crescer numa casa grandiosa como aquela. Pensar que tudo isso estará em ruínas no dia seguinte.

 

Clódio e a sua comitiva chegaram ao mesmo trecho longo e monótono de estrada onde nós nos encontramos. Clódio mantém uma conversa animada com os amigos, e vai apontando ao filho diversos santuários e túmulos que continuam a pontuar o percurso, aqui e ali. Quando a conversa morre, pode gabar-se da própria estrada, como têm feito todos os Claudianos, desde que ela foi construída. É uma estrada espantosa, não é? Os blocos de pedra estão cortados e ligados na perfeição, a superfície é tão lisa e regular, o caminho tão largo, que dois carros de bois que circulem em direcções opostas podem passar um pelo outro sem terem sequer necessidade de abrandar. Até parece que foram os deuses que fizeram esta estrada, mas não, foi Ápio Cláudio Ceco, um avô muito recuado do nosso Públio Clódio. Mais uma coisa de que aquele rapazinho pode sentir-se orgulhoso.

 

Arícia fica situada adiante, no final da jornada, a cerca de quatro horas daqui. Um cavaleiro apressado poderia lá chegar mais cedo mas, dado que os guarda-costas vão a pé, Clódio e os seus amigos, que seguem a cavalo, são obrigados a manter um ritmo lento e constante. E por onde passam eles, a caminho de Arícia?

 

Por uma data de coisa nenhuma! disse Davo, afirmando a sua presença depois de um longo silêncio. Parecia estar a controlar o cavalo e mais bem-disposto, preparado para se rir de si próprio.

 

Uma data de terrenos de cultura vazios, para sermos mais precisos, intercalados com bosques, aqui e ali, e uns charcos nos pontos mais baixos, tudo muito plano e não especialmente panorâmico. À esquerda, montanhas longínquas no horizonte. À direita, uma inclinação suave e gradual, em direcção ao mar. E, diante deles, aumentando regularmente de tamanho à medida que se aproximam, o Monte Alba. O que te parece, Davo?

 

Ele olhou atentamente para a massa de terra baixa e pontiaguda que tinha no seu horizonte.

 

Deve ser enorme!

 

Eu sorri.

 

Nem tanto. É apenas uma pequena montanha, mas é um ponto de referência importante nestes territórios planos. Há várias cidadezinhas nas cumeeiras e nos vales. Arícia é uma delas. Mas a primeira a que chegaremos, e que fica mesmo no início da encosta, é Bovilas. Já percorreste esta estrada por diversas vezes, a caminho de Neápolis, Eco a que distância fica Bovilas de Roma?

 

Fica um bocadinho depois do décimo primeiro marco.

 

E como é a cidade?

 

Tenho passado por lá, papá. Mas não tenho a certeza de ter alguma vez parado.

 

Pensa!

 

Ele semicerrou os olhos e fixou os valados que se estendiam à sua frente, como se dessa maneira pudesse distinguir todos os pormenores à distância.

 

Julgo recordar que há uma estalagem na estrada. E um estábulo.

 

Sim, o estábulo deve existir, de uma forma ou de outra, há bem uns 200 anos, desde que foi pavimentada a primeira extensão da Via Ápia, entre Roma e Bovilas. Ápio Cláudio Ceco construiu a estrada como via militar para as legiões, e é por isso que ela é tão larga e direita. Bovilas era a primeira estação de muda dos mensageiros militares, um sítio onde podiam trocar de cavalos. E onde quer que haja um estábulo, há evidentemente uma estalagem. Como é a estalagem de Bovilas?

 

É um edifício de pedra. Com dois andares.

 

Sim, deve haver um compartimento comunal para dormidas no andar de cima, uma taberna em baixo, e uma cozinha na parte de trás. Um estábulo e uma estalagem; e que mais?

 

Eco encolheu os ombros.

 

Mais umas casas aqui e ali, longe da estrada. Oh, e um altar a Júpiter, erguido debaixo de um círculo de carvalhos, com um pequeno riacho ao pé. Um sítio muito simpático.

 

Exacto, carvalhos. Quando a estrada começa a subir, acompanhando o terreno, o arvoredo torna-se mais denso. O alto da montanha é uma verdadeira floresta. Calculo que nunca tenhas visto uma floresta, Davo?

 

Já vi aquilo a que chamam matas, à volta dos templos, na cidade.

 

Não é bem a mesma coisa. Bem, assim é Bovilas. Não tem muito que se lhe diga, pois não? Não é um sítio especialmente interessante para um homem soltar o último suspiro, mas foi aí que Clódio morreu, no dia seguinte. A escaramuça começou um pouco adiante, na estrada, mas aparentemente os homens de Milo perseguiram Clódio até à estalagem, onde ele tentou resistir. De acordo com Fúlvia, foi um senador chamado Sexto Tédio, que por ali passou mais tarde, quem encontrou o corpo caído na estrada. Ordenou aos escravos que colocassem o cadáver na sua própria liteira e o levassem para Roma. Nós vimos o estado em que ele estava quando chegou a casa de Fúlvia, esfaqueado e estrangulado. E depois de Bovilas, Eco? Qual é a etapa seguinte na estrada?

 

O terreno começa a subir, como disseste. Encostas arborizadas, onde ficam as propriedades dos ricos pilones flanqueando entradas para caminhos privados, que vão dar a grandes casas, que mal se avistam ao longe. Inclinou a cabeça e semicerrou os olhos. Há uma coisa recente, mais perto da estrada um templo qualquer...

 

Não é um templo, é uma residência: a Casa das Virgens Vestais. Tens razão, é recente, foi construída nos últimos anos. Antes disso, as Vestais viviam algures mais para o alto das montanhas. Há um templo de Vesta algures por ali. Não é um sítio onde nós, os homens, gostemos de entrar. Continua, viajante imaginário. O que vem a seguir?

 

Do outro lado da estrada... há outra coisa religiosa... tem a ver com as mulheres. Não é um templo, é um santuário... um santuário a Fauna, a Boa Deusa.

 

Excelente! Um sítio onde as mulheres que veneram Fauna vão deixar oferendas e fazer orações, outro sítio onde nós não seríamos particularmente bem recebidos. Mas, segundo Fúlvia, foi diante do santuário da Boa Deusa que se iniciou a escaramuça entre Clódio e Milo. Por isso, analisaremos cuidadosamente o local, para ver se será adequado a uma emboscada. Mas voltemos a Clódio e ao dia que antecedeu a sua morte, quando se dirigia de Roma para Arícia. Terá passado por todos estes sítios, talvez sem parar, desejoso de chegar ao seu destino, já tão próximo. O que vem a seguir, Eco?

 

Hmm. Julgo recordar-me de uns pilones monumentais à esquerda e de uma estrada que vai dar a uma villa situada numa cumeeira.

 

Sim. E, se a minha hipótese estiver correcta, é aí que vamos passar a noite.

 

É a villa de Pompeu?

 

Pelas indicações que o Cara de Bebé me deu, acho que deve ser essa. Eco soltou um assobio.

 

A vista deve ser extraordinária.

 

Sim. Pompeu parece gostar de viver em sítios de onde pode olhar de cima para o mundo que o rodeia. Mas continuemos. O que vem a seguir?

 

Mais propriedades particulares. Uma delas deve pertencer a Clódio.

 

Sim, a dele é aquela coisa enorme que parece estar escarranchada na encosta da colina.

 

Aquele sítio onde derrubaram uma série de árvores e fizeram aquelas escavações?

 

Exacto. Parece que uma grande parte do espaço interior é subterrâneo, como se fosse uma adega, defensável como uma fortaleza, segundo me disse Fúlvia. Pelo que ela me contou, pareceu-me que Clódio se sentia especialmente orgulhoso da casa, ainda mais satisfeito do que com o palácio que comprou no Palatino. Teremos oportunidade de a ver mais de perto. Foi aí que terminou a jornada de Clódio naquele dia, a pouco mais de um quilómetro de Arícia. Ainda devia haver umas horas de sol. Clódio terá inspeccionado a propriedade, falado com o encarregado, tratado daquelas coisas de que todos os proprietários têm de tratar quando chegam a uma das suas propriedades. Nessa noite, o cozinheiro preparou uma refeição para a qual foram convidados alguns membros da elite local. Parece tudo muito respeitável, muito aborrecido. Depois de uma viagem tão longa como aquela, calculo que o jovem Públio tenha adormecido à mesa. Na manhã seguinte, Clódio fez o seu discurso no senado da cidade, em Arícia, e seguiu-se uma breve recepção. Voltou à sua propriedade pouco depois do meio-dia ou ao princípio da tarde. Fúlvia afirma que ele tencionava lá dormir pelo menos mais uma noite.

 

Tinha mais assuntos a tratar na zona?

 

Não sei. Sejamos um pouco sentimentais, e pensemos que queria dedicar algum tempo ao filho, passear com ele pelos terrenos arborizados que rodeiam a villa. Mas foi então que chegou um mensageiro.

 

- Um mensageiro?

 

O mensageiro que Fúlvia lhe enviara nessa manhã, comunicando ao marido a triste notícia da morte de Ciro, o arquitecto. Ela pedia a Clódio que regressasse imediatamente a Roma.

 

Era mesmo necessário Clódio voltar para casa a correr?

 

Fúlvia parece ter achado que sim. Ciro era um amigo suficientemente íntimo para ter incluído Clódio entre os seus herdeiros, e Fúlvia confiava nele para terminar a casa do Palatino. Sentiu-se devastada pela sua morte. Queria que o marido regressasse a casa.

 

E Clódio largou tudo para responder ao apelo?

 

Essa hipótese não te parece credível, Eco?

 

Não sei, papá. Tu tiveste mais contacto com a mulher do que eu.

 

Pois foi, bem, eu diria que, quando Fúlvia diz a um homem para fazer qualquer coisa, há grandes probabilidades de que o homem faça aquilo que Fúlvia lhe mandou fazer.

 

Mesmo que se trate de Clódio?

 

Mesmo que se trate de Clódio. O que significa que aquilo que Fúlvia me disse me pareceu credível, ainda que não necessariamente convicente: que Clódio tencionava dormir mais uma noite na villa, mas acabou por se meter inesperadamente ao caminho, regressando a Roma pela Via Ápia, em consequência da mensagem que recebeu de Fúlvia. Se tiver sido assim, não houve nenhuma emboscada premeditada, pois não? Quando Milo e a sua comitiva passaram por ali, Clódio previra andar a passear pelos bosques com o filho; é certo que, na realidade, andava pela Via Ápia, mas isso foi um acaso.

 

Mas onde estava o filho, se não estava com ele quando teve lugar a escaramuça?

 

Fúlvia diz que Clódio tinha prometido ao miúdo uma estadia no campo, e o deixou na villa, na companhia do tutor.

 

Parece-te credível que ele não tenha levado o rapaz consigo, papá?

 

Talvez. Podes pensar que Fúlvia teria querido que lhe levassem o filho, mas os ricos vêem estas coisas de outra maneira. Calculo que, se eu tivesse uma villa enorme no campo, com um exército de escravos a cuidarem dela, talvez não me importasse de deixar o meu filho de oito anos à sua guarda. Ou talvez o rapaz seja um fedelho insuportável que se porte mal durante as viagens. Talvez tivesse sido uma peste no dia anterior, e Clódio não estivesse disposto a suportar outra viagem comprida com o monstro, e quisesse livrar-se dele.

 

Eco riu-se.

 

Prefiro essa hipótese! Esquece o sentimentalismo.

 

Claro que pode parecer suspeito que Clódio tenha partido da sua villa com uma comitiva armada exactamente na altura em que Milo se aproximava pela Via Ápia, e tenha casualmente deixado o filho em casa, fora de perigo. É outro pormenor a ter em conta.

 

Quer dizer que chegamos finalmente a Milo. O que estava ele a fazer na Via Ápia?

 

Ouviste o discurso que ele pronunciou no outro dia, no Fórum. Estavam à espera dele para uma cerimónia religiosa em Lanúvio, que é a cidade que fica a seguir a Arícia, a pouca distância, para sul. Pelo que pude perceber, os factos que Milo apresentou no contio de Célio são verdadeiros: nessa manhã, esteve presente numa reunião do Senado, em Roma, e em seguida partiu, à cabeça de uma comitiva numerosa, viajando de carruagem na companhia da mulher. Milo afirma que saíram tarde e só pararam em Bovilas depois da décima primeira hora, a última hora de luz. Se isso for verdade, parece contradizer a história de Fúlvia relativamente ao regresso de Clódio a casa, porque ninguém com um mínimo de bom senso partiria à décima primeira hora de um dia de Inverno para uma viagem de várias horas com um destacamento de homens a pé. Clódio só teria chegado a Roma muito depois de anoitecer, e é perigoso viajar à noite, quanto mais não seja porque um homem ou um animal podem tropeçar no escuro e partir uma perna. Por isso, terá o incidente realmente ocorrido assim tão tarde? Fúlvia afirma que o corpo de Clódio, transportado numa liteira, chegou a sua casa, no Palatino, à primeira hora da noite apenas uma ou duas horas depois do momento em que Milo afirma ter a escaramuça começado, o que é impossível.

 

Ou seja, há uma discrepância quanto ao momento em que ocorreu o incidente. Fúlvia diz que foi ao princípio da tarde; Milo diz que foi pouco antes do pôr do Sol. Isso é importante, papá?

 

Significa que um deles tem de estar enganado, ou então, que está a mentir deliberadamente.

 

Vou tentar moderar o meu espanto!

 

Sim, mas para quê mentir acerca do tempo, Eco? E, se Fúlvia ou Milo mentiram acerca disso, sobre que outras coisas terá um deles mentido igualmente?

 

Achas que é provável que venhamos a descobrir pelo simples facto de irmos a estes sítios fazer umas perguntas?

 

Podemos tentar respondi eu.

 

O Monte Alba erguia-se agora à nossa frente, aumentando progressivamente de tamanho. O seu cume estava tapado pelas nuvens, que lançavam na sombra os declives mais elevados, fazendo com que a montanha parecesse irromper das planícies iluminadas pelo sol que a rodeavam, como uma massa pensativa e cheia de dúvidas. Davo franziu a testa, contemplando o panorama com maus pressentimentos. Não era o único.

 

Embora tivéssemos chegado a Bovilas antes da quarta hora, a refeição do meio-dia já estava a ser preparada. Saía fumo da cozinha situada na parte de trás da estalagem, transportando consigo os odores a pão cozido e a carne assada.

 

Estou cheio de fome! disse Eco. O estômago de Davo roncou solidariamente.

 

Óptimo disse eu. Não teremos de inventar desculpas para parar na estalagem.

 

Tratava-se de um edifício de dois andares, de uma pedra já muito gasta. O terreno à volta estava limpo, e fora pisado por muitos pés, ao longo de muitos anos. Fora para este sítio que, de acordo com Fúlvia, Clódio fugira quando os homens de Milo o tinham dominado. Refugiara-se na taberna. Os homens de Milo tinham invadido o local. Fúlvia não conhecia os pormenores da batalha, mas apenas que um senador que se dirigia para Roma tinha acabado por tropeçar no corpo de Clódio, caído na estrada à porta da taberna, e o mandara transportar para Roma na sua própria liteira.

 

Davo foi prender os cavalos ali perto, ao lado de um maciço de árvores, onde havia um regato de água para os cavalos, e um banco para ele se sentar a vigiá-los.

 

Antes de entrarmos, Eco e eu observámos rapidamente os quatro cantos do edifício, tentando perceber se seria fácil de defender. No andar superior, havia janelas grandes com portadas, inacessíveis pelo facto de não haver maneira de trepar até elas. As janelas de portadas das traseiras e das paredes laterais do andar de baixo eram pequenas e tinham sido rasgadas a uma altura razoável. Um homem poderia esgueirar-se por elas, mas só se lhe dessem uma ajuda, e se não houvesse ninguém da parte de dentro a impedi-lo de entrar. A porta de trás, feita de madeira compacta, dava para um corredor coberto, que ia ter à cozinha. A porta da frente, que naquele momento estava aberta, também era feita de madeira sólida. A passagem era de tal maneira estreita, que Eco e eu tivemos de nos voltar de lado e entrar à vez. As janelas dos dois lados da porta da frente eram ligeiramente maiores e estavam situadas um pouco mais abaixo do que as restantes janelas do andar térreo mas, mesmo assim, não seria fácil entrar nem sair por elas.

 

De uma maneira geral, a estalagem parecia um edifício defensável. Apesar de tudo, detectei vestígios de uma batalha recente.

 

E Eco também.

 

Reparaste na diferença das portadas, papá?

 

Reparei.

 

As das janelas do andar de cima são todas de madeira antiga e gasta...

 

... enquanto as portadas de todas as janelas do andar inferior são evidentemente novas, como o são as portas da frente e de trás. E também há bastante reboco recente à volta do umbral. Tu e eu sabemos muito bem que as portas podem ser arrombadas e têm de ser substituídas.

 

Onde te parece que está toda a gente, papá?

 

Quem esperavas encontrar? Não vimos mais ninguém na estrada, esta manhã. Devemos ter chegado antes da habitual clientela do meio-dia. À medida que os meus olhos se iam adaptando à luz mortiça, vi um compartimento simples e rústico, com umas quantas mesas e uns bancos. Do canto esquerdo mais distante, subia uma escada íngreme e angulosa, que ia dar ao andar superior. Por baixo da escada, um balcão bloqueava a parte de trás do compartimento. Na parede por trás do balcão, havia um pequeno arco com uma cortina corrida, que deixava ver um armazém mergulhado na sombra, que ia dar à porta das traseiras. Momentos depois, a porta estalou e abriu-se, dando a ver a silhueta de uma mulher possante, delineada pela luz brilhante do sol. Ela fechou a porta atrás de si e bamboleou-se até ao bar, limpando as mãos à parte da frente do vestido grosseiro. Cheirava a pão cozido e a carne assada.

 

Pareceu-me ter visto entrar alguém. Observou-nos com os olhos semicerrados, que me pareceram quase hostis até ter percebido que ela estava à espera de que se adaptassem à obscuridade. Era uma mulher com um ar forte, braços carnudos e um rosto circular e aberto, rodeado por um emaranhado de cabelo ruivo que começava a ficar grisalho.

 

O sujeito que está com os cavalos ao pé do regato é vosso?

 

É disse eu.

 

São três ao todo?

 

Sim, vimos de viagem.

 

E estamos com fome acrescentou Eco, encostando-se ao bar. Ela mostrou uma sugestão de sorriso.

 

Podemos tratar disso, desde que tenham alguma coisa que tilinte. Eco apresentou a bolsa das moedas.

 

Ela acenou com a cabeça.

 

Tenho um par de coelhos a assar. Ainda demoram um bocadinho, mas entretanto posso trazer-vos um pouco de pão e queijo. Meteu a mão por baixo do bar e tirou dois copos, depois voltou ao armazém e regressou com um cântaro de vinho e um cântaro de água.

 

Não te importas de levar alguma comida ao sujeito que está por trás das árvores? pedi eu. Consigo ouvir daqui o estômago dele a roncar.

 

Com certeza. Vou mandar um dos meus rapazes tratar dele. Estão ali atrás, na cozinha, a vigiar o fogo. Com o meu marido acrescentou, como se quisesse deixar claro que não era uma mulher sozinha. Vêm de viagem, é? Vão para Norte ou para Sul?

 

Para Sul?

 

Quer dizer que vêm de Roma? Serviu-nos porções generosas de vinho, ao qual acrescentou umas gotas de água.

 

Partimos de manhã cedo.

 

E como vão as coisas na cidade?

 

Uma confusão terrível. Foi agradável sair de lá.

 

Bem, as coisas também têm andado terrivelmente confusas por aqui, se querem que vos diga. Desde aquele dia maldito... Suspirou e abanou a cabeça.

 

Ah, sim, deve ter sido aqui perto, a escaramuça na estrada. Ela resfolegou.

 

Chamem-lhe escaramuça, se quiserem, mas eu chamar-lhe-ia uma batalha campal, tendo em conta os danos que causou e os corpos mortos que sobejaram. E talvez tenha começado na estrada, mas foi aqui mesmo que acabou. Deu uma palmada em cima do balcão.

 

O que queres dizer com isso?

 

Não estamos a falar da mesma coisa? Milo e Clódio e todo aquele sangue derramado?

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Em Roma não se fala de outra coisa. Mas é tudo tão confuso e disperso. Cada versão contradiz a anterior. Aconteceu qualquer coisa na Via Ápia e no fim Clódio estava morto é praticamente a única coisa em que todas as histórias estão de acordo. Onde, quando e como, ninguém sabe ao certo.

 

Ela fez rolar os olhos.

 

Com tanto sofrimento e destruição, seria de pensar que as pessoas se preocupassem, ao menos, em saber o que se tinha realmente passado, quanto mais não fosse para se sentirem satisfeitas por não ter sido com elas. Mas vocês disseram que tinham fome. Vou buscar-vos um pão, quente a sair do forno.

 

Eco abriu a boca para a chamar, mas eu apertei-lhe o braço e abanei a cabeça.

 

A mulher está ansiosa por nos contar o que sabe disse-lhe em voz baixa. Deixa-a fazer as coisas ao seu ritmo.

 

Ela voltou com um pão fumegante dentro de um cesto e um pedaço de queijo do tamanho de um tijolo, depois regressou ao armazém e voltou com uma taça cheia de azeitonas pretas e verdes. Apoiou os cotovelos no bar, inclinou-se para nós e recomeçou a história sem mais demoras.

 

Esta taberna era do meu cunhado, o irmão da minha irmã mais nova. Era um homem trabalhador, pertencente a uma antiga família de trabalhadores. Herdou este sítio do pai; há várias gerações que esta estalagem pertence à família. Chorou de alegria no dia em que a minha irmã lhe deu um filho a quem a transmitir. Suspirou. Quem poderia adivinhar que ele não tardaria a deixar-lhe a casa? O rapaz é bebé, e agora que o pai morreu não há mais nenhum homem adulto de nenhum dos lados da família que possa gerir isto. Por isso, ficámos nós com ela, o meu marido e eu, e os nossos rapazes ajudam-nos, enquanto a minha pobre irmã cuida do bebé. Ah, pobre Marco' Era o nome do marido dela. Ter um sítio como este ao pé da estrada implica sempre alguns riscos, podemos ser atacados por bandidos ou por escravos em fuga, que nos cortam o pescoço sem pestanejar. Mas Marco era um sujeito grande e entroncado, que não tinha medo de nada, e esta estalagem era a menina dos seus olhos. Sempre tinha sido, desde criança. Acho que ele nem se apercebeu do perigo no dia em que os homens de Clódio entraram por aí a correr, cobertos de sangue e arquejantes. Não os mandou embora, limitou-se a perguntar o que podia fazer para os ajudar. Clódio entrou a cambalear, ferido e a sangrar, e disse-lhe que trancasse as portas. Depois, deitaram Clódio aqui mesmo, de costas. Deu uma palmada no balcão, suficientemente forte para provocar ondulações nos nossos copos. À luz mortiça, estudei a superfície manchada da madeira velha. Ao longo dos anos, devia ter sido derramado muito vinho em cima daquele balcão, pensei eu, mas também havia manchas que podiam ser de outra coisa.

 

Marco devia tê-lo mandado imediatamente embora, diz o meu marido. Mas o que sabe ele? Não estava cá. Mas estava a pobre da minha irmã. Foi ela que lhe contou tudo. Nesse dia, tinha deixado o bebé comigo. Oh, ela adorava trabalhar nesta taberna, tanto como Marco; era impossível mantê-la afastada daqui. Quando Clódio apareceu com os seus homens, ela estava lá em cima a sacudir os cobertores e a varrer o chão. Se ao menos o miúdo estivesse doente; se ao menos alguma coisa, fosse o que fosse, a tivesse obrigado a ficar em casa nesse dia. O choque do que aconteceu a Marco já foi muito mau, mas ter estado aqui, ter assistido a tudo, fez-lhe muito mal. Pois, é por isso que nós temos de fazer todo o possível por manter a estalagem, até o jovem Marco ter idade suficiente para tomar o lugar do pai.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Quer dizer que a escaramuça a batalha começou ali na estrada, mas Clódio acabou aqui. Ele já tinha estado nesta taberna? Conhecia o teu cunhado, Marco?

 

Oh, claro que sim. Públio Clódio parava aqui muitas vezes, quando se dirigia para aquela villa que ele tem no alto da montanha. Eu própria o conheci e encontrei por diversas vezes, ao longo dos anos. Era um homem encantador, percebia-se imediatamente que era de boa estirpe, não era possível esconder esse facto. Tinha uma certa maneira de se apresentar, e usava sempre umas roupas muito finas e excelentes cavalos, e tinha o cabelo e as unhas sempre muito bem cuidados. Não é frequente um homem manter as unhas tão bem tratadas. Mas não era distante. Lembrava-se sempre do nome de Marco, perguntava como ia andando o pequeno. Ele próprio tinha um filho.

 

Também ouvi dizer isso.

 

Claro, nem toda a gente gostava de Públio Clódio. Ele suscitou alguns ressentimentos por aqui, quando começou a construir a villa.

 

Ressentimentos?

 

Pois, alguns diziam que a maneira como ele se tinha apoderado das terras em redor não fora completamente honesta, e havia outros que se queixavam do facto de ele ter derrubado algumas árvores que pertenciam ao bosque sagrado de Júpiter. E as Vestais tiveram de sair da sua antiga casa. Mas Clódio deu-lhes dinheiro para construírem a nova casa, que é só um bocadinho mais afastada do Templo de Vesta do que a antiga, por isso eu nunca percebi por que se queixavam. Abanou a cabeça. Mas não quero falar mal dos mortos, especialmente quando o lémure do pobre homem abandonou o seu corpo aqui mesmo.

 

Quer dizer que o teu cunhado era amigo de Clódio, apesar dos ressentimentos que alguns vizinhos pudessem ter?

 

Oh, sim. Acho que foi por isso que Clódio fugiu para aqui quando viu que estava metido em sarilhos. Se ao menos não tivesse trazido os sarilhos consigo! Mas não censuro o morto. Censuro o outro.

 

O outro?

 

Ela pegou num trapo que tinha atrás do bar e começou a torcê-lo, apertando os punhos até ficar com os nós dos dedos brancos.

 

Aquele cujos homens perseguiram Clódio nesse dia. É ele o patife que tem a culpa do que aconteceu nesta sala.

 

Estás a falar de Tito Ânio Milo, não?

 

Ela fez um ruído na garganta, como se fosse cuspir.

 

Se querem chamar-lhe assim. Milo! Foi ele que escolheu esse nome, não foi? Que sujeito presunçoso, pensa que é parecido com um grande herói do Olimpo. Bem, por aqui ninguém se sente atemorizado com esse tal Milo. É mais um tipo do outro lado da montanha que foi para Roma fazer fortuna. É natural de Lanúvio, sabiam?

 

Sim, acho que já ouvi dizer.

 

Tito Ânio Milo, chamaste-lhe tu. Esse também não é um nome de nascença. Nem sequer o Tito! O nome do homem era simplesmente Gaio Pápio, como o pai, e deixem-me dizer-vos que os Pápios de Lanúvio nunca fizeram nada digno de nota. Por nascimento, é tão vulgar como a lama. Mas, quando o pai morreu, foi adoptado pelo avô. Era o pai da mãe, Tito Ânio, que tinha antepassados nobres. Por isso, Milo ficou com os nomes do velhote, acrescentou mais um por sua conta, e Gaio Pápio transformou-se em Tito Ânio Milo. Assim, já toda a gente ouviu falar dele. Também herdou o dinheiro do avô, quando o velhote morreu, mas dizem que tem andado a esbanjá-lo naqueles jogos funerários elegantes que organizou para impressionar os eleitores de Roma. As coisas que um homem faz para ser eleito para um cargo importante! Bem, nenhum homem que eu conheça estaria disposto a votar nele. Anda sempre com uns grandes ares, tão falsos como aqueles três nomes. Não, esse Milo nunca nos agradou.

 

Fez uma pausa para respirar e começou a limpar o balcão com o trapo, como se pudesse apagar as manchas de sangue.

 

Oh, Milo passava por aqui de vez em quando, quando ia para Lanúvio, pagava uma rodada de vinho a toda a gente, dizia umas palavras simpáticas, para ter a certeza de que toda a gente reparava nele. O rapaz da zona que se tinha tornado muito importante em Roma, amigo de Cícero, aliado de Pompeu, que certamente viria a ser cônsul um destes dias! Mas, se querem saber a minha opinião, Milo não tem um fragmento do encanto de Clódio. Clódio entrava nesta casa, e era como se alguém tivesse acendido velas a toda a volta subitamente, as coisas começavam todas a brilhar. Milo entrava, a fazer barulho e a rir, e parecia uma pessoa com mau hálito a respirar-nos para cima. O encanto dele era só para dar nas vistas. Quase se conseguia vê-lo ranger os dentes, por ser obrigado a misturar-se com as pessoas vulgares que trocara pela sua nova vida. Quanto àquela mulher dele, como é que ela se chama...

 

Acho que é Fausta disse Eco.

 

Pois, é isso, Fausta Cornélia bem, é um caso típico de um homem que sobe na vida através do casamento! Como é que a filha do velho ditador Sula acabou nos braços de Gaio Pápio, de Lanúvio? Calculo que sejam tudo jogos de dinheiro e de poder. Os casamentos entre esse género de pessoas nunca passam de contas feitas a frio, não é? Segundo dizem, não foi isso que a impediu de ter todos os amantes que quis. Dizem que Fausta é mais vadia agora do que era com o primeiro marido. Mas, apesar disso, deixem-me dizer-vos, ela nunca fingiu que se sentia bem entre o povo. Quando ela e Milo passavam aí pela Via Ápia em grande parada, e ele entrava para pagar bebidas a toda a gente, a grande Fausta Cornélia deixava-se ficar aninhada na sua elegante carruagem, rígida como uma estátua, a olhar em frente, como se ficasse com gases pelo simples facto de olhar para uma pessoa como eu. Bem, posso compreender que ela não quisesse entrar na taberna, uma senhora como ela a mulher de Clódio, Fúlvia, era a mesma coisa, ela e as mulheres que a acompanhavam nunca entravam quando Clódio parava aqui, mas ia passear debaixo das árvores, brincava com o rapazinho ou tomava conta da miúda, comportava-se como uma pessoa normal. Não era como Fausta Cornélia, que nem se dignava trocar um olhar com pessoas como eu. Mas houve uma vez, uma vez...

 

Subitamente, a mulher começou a abanar-se e engasgou-se de riso.

 

A natureza acaba sempre por ser mais forte do que as pessoas, não é? conseguiu dizer, controlando-se. Lembro-me dessa vez oh, ela devia precisar mesmo de se aliviar, porque mandou uma escrava perguntar-me onde era a sanita. Por isso, eu indiquei à rapariga aquele pequeno edifício ao pé do ribeiro, do lado de lá dos estábulos. E a rapariga voltou, dizendo que Fausta Cornélia não tinha gostado da retrete e se tinha recusado a utilizá-la. Como devem calcular, Milo saiu da taberna e partiu de caminho sem grandes demoras. Calculo que ela se tenha aguentado daqui até Lanúvio! Mas como? Até a Via Ápia tem alguns buracos. Todos falámos disso, perguntando-nos se ela teria tido algum acidente na carruagem, e como teria Milo reagido. Oh, imagino a expressão do homem...

 

Desatou novamente a rir, até as lágrimas começarem a rolar-lhe pela cara abaixo. Por fim, recompôs-se e começou a limpar as lágrimas com as costas das mãos.

 

Ah! O coelho! A esta hora, já deve estar pronto.

 

E com isso voltou a desaparecer pela porta das traseiras. Eco ergueu uma sobrancelha.

 

Parece que tanto Clódio como Milo eram bastante conhecidos por estas paragens.

 

Sim, o rapaz ambicioso, natural da terra, e o forasteiro aristocrata, com dinheiro e encanto. Dois tipos destinados a suscitar reacções fortes nas pessoas. Admiração, respeito...

 

Inveja, ódio...

 

Sim disse eu, e ambos políticos, sem vergonha de se autopromoverem. Sabemos como o habilidoso Clódio se sentia à-vontade entre as camadas populares; fazia disso uma arte. Milo, que realmente tinha raízes populares, parece ter tido pouco talento para o mesmo.

 

Pelo menos é o que diz a nossa anfitriã, papá, mas é óbvio que ela é parcial. E que história é essa de Clódio ter derrubado árvores sagradas, deslocado as Virgens Vestais...

 

Abrindo a porta com o pé, a nossa anfitriã regressou com uma travessa fumegante. Atrás dela, entrou uma figura alta e entroncada, trazendo uma taça igualmente fumegante. O homem era tão grande, que eu me senti apreensivo, até me aperceber de quem se tratava.

 

Davo! O que estás tu aqui a fazer? Devias estar a guardar os cavalos. Seria excelente se, ao acabarmos de comer, descobríssemos que eles tinham desaparecido. Não estou interessado em percorrer a pé os quase 20 quilómetros que nos separam de Roma.

 

Não se preocupem disse a mulher. Mandei um dos meus rapazes substituí-lo. Os vossos cavalos ficam a salvo, confiem em mim. Importam-se que o vosso escravo entre? As nuvens começam a descer do alto da montanha, e um tipo pode constipar-se, ali sentado ao ar livre. Deixem-no aquecer-se um bocado. Lançou a Davo um olhar que, infelizmente, poucas mulheres me lançaram. Lá porque um tipo tem 19 anos, cabelo preto ondulado, ombros de touro e um perfil de estátua grega...

 

Ela mandou-o entrar para poder olhar para ele! disse Eco do canto da boca.

 

Obviamente concordei eu. Esta é a mulher que prefere Clódio a Milo, não te esqueças.

 

A mulher colocou diante de nós, pratos e talheres e encheu-nos os copos. A travessa fumegante era o coelho assado. A carne de coelho não é das minhas preferidas é muito gorda e tem ossos a mais, mas estava bem cozinhada, e eu tinha demasiada fome para discutir. A taça fumegante estava cheia de nabos lustrosos. Elogiei a nossa anfitriã pelo molho.

 

Oh, é bastante simples. Um pouco de cominhos, um pouco de alho, mel, vinagre e azeite, uma pontinha de ruda. Um vegetal de raiz pede um molho picante, costumava dizer a minha mãe.

 

É mesmo excelente disse eu, e estava a ser sincero. Mas era tempo de a conduzir de novo para o dia da morte de Clódio. Costumavas cozinhar muito aqui na taberna, antes daquele dia infeliz?

 

Oh, de vez em quando, especialmente depois de a minha irmã ter tido o bebé.

 

Mas não estavas cá quando aquilo aconteceu?

 

Não, como vos disse, só cá estava a minha irmã, a trabalhar lá em cima, e Marco.

 

Clódio tinha passado por Bovilas na véspera?

 

Segundo me disse a minha irmã, sim, mas não tinha parado. Ela viu chegar a comitiva, mas passaram tão depressa, que só conseguiu vislumbrar Clódio, que seguia a cavalo à frente, com o filhito ao lado e mais um par de amigos.

 

E, no dia do incidente, Milo deve ter passado por aqui pouco tempo antes da batalha.

 

Oh, sim, a minha irmã lembra-se muito bem disso lembra-se de tudo o que aconteceu nesse dia, como um pesadelo de que não se consegue esquecer. Milo parou algum tempo, para dar de beber aos cavalos, mas nenhum dos seus homens entrou na taberna. Ainda assim, diz ela que era impossível deixar de reparar na comitiva. Nunca mais acabava, parecia uma daquelas procissões triunfais que se fazem na cidade. Era assim que ele costumava viajar, pelo menos quando ela vinha com ele.

 

Estás a falar de Fausta Cornélia.

 

Sim. Parece que não podia sair de casa sem levar dez escravas para lhe tratarem da pele de manhã, e mais dez para lhe aconchegarem a roupa à noite. E calculo que Gaio Pápio Milo, se preferirem, gostava de exibir todos aqueles escravos e guarda-costas aos seus amigos e à sua família, em Lanúvio. "Olhem para mim! Parece que não consigo sair de casa sem trazer comigo uma centena de criados!"

 

Uma centena? Eram assim tantos, naquele dia? Ela encolheu os ombros.

 

Oh, não sei quantos eram. Como já vos disse, não fui eu que os vi, foi a minha irmã. Mas ela diz que, enquanto Milo dava de beber aos cavalos no estábulo, a gente dele girava por aí enchendo a estrada, como uma multidão no Fórum de Roma, e quando finalmente se meteram de novo ao caminho, a procissão parecia nunca mais acabar. Se ao menos Milo tivesse dado de beber aos escravos, como tinha dado aos cavalos, podiam ter vendido o vinho todo que tinham em armazém e mandado colocar um telhado novo!

 

Quer dizer que a comitiva de Milo era maior do que o grupo com que Clódio passara no dia anterior?

 

És pouco inteligente, ou apenas distraído? Sim, sem dúvida nenhuma. Muito, muito maior.

 

Mas o grupo de Clódio era composto exclusivamente por homens armados segundo me contaram, enquanto que, pelo que tu dizes, Milo viajava na companhia de cabeleireiros e massagistas.

 

Os escravos de Fausta também faziam parte da comitiva, de facto, mas Milo viajava sempre com muitos gladiadores, alguns dos quais bastante famosos. Já ouviste falar de Eudamo e de Birria?

 

Claro que sim. Faziam parte da comitiva de Milo?

 

Eram ambos dele. Não é mesmo típico do homem comprar um par de gladiadores famosos, só para os exibir? Até eu ouvi falar de Eudamo e de Birria, e tenho tanto interesse em ver homens a matarem-se uns aos outros numa arena, como em ver um escaravelho a fazer rolar um pedaço de estrume pela estrada fora. Embora alguns desses gladiadores não sejam nada desagradáveis à vista... Lançou um olhar a Davo, que estava ocupado a separar um bocado de carne de coelho do respectivo osso. Eudamo e Birria, por seu lado bem, são tão bonitos como o traseiro de um burro, e igualmente difíceis de ignorar. Vêm sempre na rectaguarda da comitiva de Milo. São enormes, parecem umas árvores ambulantes. Nunca se separam. O meu marido diz que eles lutavam juntos na arena.

 

Sim, dois contra dois, e às vezes dois contra quatro disse Davo, tirando um osso de coelho da boca. Eco e eu olhámos para ele, surpreendidos.

 

E que mais, Davo? Ele pigarreou.

 

É que, quando eu era miúdo, o meu antigo senhor levava-nos a ver os combates explicou ele. Ele próprio tinha alguns gladiadores. Pensou em treinar-me para a arena, mas acabou por decidir que eu era pequeno demais e que faria melhor negócio vendendo-me como guarda-costas. Costumava dizer que quem apostasse em Eudamo e Birria nunca perderia o seu dinheiro. Fosse qual fosse a arma que usassem, ou a combinação de armas tridente e rede, espada curta, machado, com ou sem escudo. Elas eram capazes de paralisar um homem de medo, só de olharem para ele. São os dois homens mais assustadores que jamais viveram, era o que dizia o meu antigo senhor.

 

Eu espetei um nabo com o garfo e mergulhei-o no molho.

 

E esses gladiadores vinham com Milo naquele dia? A mulher acenou com a cabeça.

 

Oh, disso tenho a certeza, porque foram os primeiros a correr atrás de Clódio. A minha irmã viu-os de uma janela do andar de cima.

 

Foi aí que ela ficou durante o ataque, no andar de cima?

 

Pelo menos foi assim que ela contou a história: ouviu o barulho que Clódio e os seus homens fizeram ao entrar, e começou a descer as escadas. Viu-os de raspão, mas Marco gritou-lhe que voltasse para cima.

 

Quantos homens viu ela?

 

Não eram muitos. Uns cinco ou seis, disse-me ela, e Clódio deitado neste balcão, agarrado ao ombro e a ranger os dentes, dando ordens aos restantes.

 

Dando ordens?

 

Sim, dizia-lhes para fecharem as portadas, e por aí fora.

 

Quer dizer que ele estava ferido, mas continuava consciente.

 

Perfeitamente. Decidido, é a expressão da minha irmã. Os homens dele esperavam as suas ordens. Mas as expressões desses homens...

 

Como eram elas?

 

Parecia que tinham a morte às canelas, e se preparavam para se voltar e olhar para ela. Foi mesmo assim que ela disse. Cheios de pânico e ofegantes. Quando a ouviram nas escadas, apanharam um susto e olharam para ela como coelhos assustados. Todos excepto Clódio, disse ela. Ele sorriu-lhe. Sorriu-lhe! Depois Marco gritou-lhe que voltasse para cima, e ela subiu as escadas a correr.

 

E depois?

 

Correu para uma janela, para ver de que fugiam eles. Viu um homem caído na estrada. Tinha sobre ele dois homens, que o espetavam com as espadas o sangue espirrava por todo o lado. O homem caído devia ser dos de Clódio. Os outros dois eram Eudamo e Birria. Ela reconheceu-os imediatamente pareciam demónios saídos do Hades, disse ela, monstros de uma história antiga. Mais adiante, viu mais homens caídos na estrada, e o que parecia um exército inteiro de gladiadores a dirigir-se à taberna. Podem imaginar como ela se sentiu! Eudamo e Birria tinham acabado de espetar o homem caído, e deslocavam-se pesadamente na direcção da taberna. Os outros corriam atrás deles. Oh, que impressão que me faz pensar nisso. A minha irmãzinha... Abanou a cabeça e deu umas palmadinhas no peito.

 

Eco afastou o prato da frente, com uma expressão ligeiramente agoniada. Davo olhou fixamente para a mulher e, com os dentes, rasgou um pedaço de carne de coelho.

 

E depois? perguntei eu.

 

- Marco tinha barrado as portas e as portadas lá em baixo. Os atacantes estavam cada vez mais próximos, e chegaram à porta. Bang, bang, bang. Batiam à porta, às portadas, com os punhos, com os copos das espadas. O ruído era aterrador. Ela tapou os ouvidos, mas continuava a ouvi-los, os homens a gritarem, a madeira e as dobradiças a estalarem, brados e gritos, o ruído metálico do aço. A mulher ergueu os olhos ao alto. Às vezes, nem consigo dormir, ponho-me a imaginar aquilo por que ela deve ter passado, ali metida, sozinha e impotente. Finalmente, juntou as mantas todas, aninhou-se num canto e empilhou os cobertores por cima dela. Diz que nem sequer se lembra de o fazer, mas que deve ter sido assim, porque finalmente percebeu que o ruído tinha passado, e ali estava ela, a suar por baixo das mantas, mas a tremer como se estivesse nua.

 

Quanto tempo tinha passado?

 

Quem sabe? Alguns momentos, uma hora? Ela não foi capaz de dizer. Por fim, arranjou coragem para espreitar por entre as mantas. Continuava sozinha no andar de cima, e do andar de baixo apenas lhe chegava o silêncio. Foi à janela e olhou para fora. Viu corpos espalhados pela estrada, e uma coisa estranhíssima, mesmo em frente da taberna, uma liteira com um grupo de pessoas à volta.

 

Uma liteira?

 

Sim, não era uma carruagem nem uma carroça, era uma liteira, daquelas que são transportadas por escravos, com cortinas para manter a privacidade. A liteira tinha sido poisada no chão e os carregadores andavam por ali. Um velhote com uma toga de senador e uma mulher estavam debruçados sobre o homem caído na estrada, com as cabeças juntas, a conversar.

 

A tua irmã reconheceu o senador?

 

Não, mas conhecia a liteira. Há anos que a vemos passar, na direcção de Roma, e novamente para baixo. Pertence a um velho senador, que tem uma villa na montanha, Sexto Tédio. Não é do género de frequentar um sítio como este.

 

E o homem sobre quem estavam debruçados?

 

Era Clódio.

 

A tua irmã conseguiu reconhecê-lo, mesmo à distância?

 

Suponho que sim. Foi o que ela disse, que era Clódio.

 

Como é que ele saiu da taberna para a estrada?

 

Quem sabe? Provavelmente, foram Eudamo e Birria que o arrastaram, como os cães fazem com os coelhos. Pensei nas marcas que Clódio tinha no pescoço. Talvez tivesse sido literalmente arrastado pelo pescoço.

 

A mulher olhou para os nossos pratos.

 

Olha, vocês não acabaram a carne! Num dia frio como o de hoje, um homem precisa de muita comida quente no estômago, para manter as forças. Este sabe comer! Atirou um sorriso a Davo, que acabou de chupar o último bocado do tutano de um osso e lançou um olhar demorado à carne que nós tínhamos deixado nos pratos. Não estava bom?

 

Estava excelente garanti-lhe. Assado na perfeição. Receio que tenhamos comido demasiado pão e queijo, que também eram óptimos. Fiz deslizar o meu prato e o de Eco na direcção de Davo.

 

Dizias que a tua irmã viu uma série de corpos espalhados pela estrada e o Senador Tédio e a mulher...

 

Não era a mulher dele, o Senador Tédio é viúvo. Calculo que fosse a filha. É a sua única filha; não se casou e é-lhe muito dedicada.

 

Estou a ver. Então ela viu o Senador Tédio e a filha, com a liteira ao lado, a discutirem o que haviam de fazer com Clódio. Onde estavam os homens de Milo?

 

Tinham desaparecido. Tinham ganho a batalha, não é verdade? Não havia razão nenhuma para se deixarem estar. A minha pobre irmã conseguiu finalmente arranjar coragem para descer as escadas. Sei o que ela viu, porque eu própria vi o mesmo, mais tarde tudo virado ao contrário e partido, a porta fora das dobradiças, as portadas destruídas. Parecia que as próprias Fúrias tinham andado à solta nesta sala. E o pior de tudo foi ver o pobre Marco, mesmo ao fundo das escadas, coberto de feridas e sem um alento de vida no corpo. Ao fundo das escadas, estão a perceber, defendendo-a. Ela deve ter perdido os sentidos durante algum tempo porque, depois disso, só se lembra de chegar a minha casa, que é no alto da colina. Chorava tanto, que quase não conseguia falar. Oh, chorava imenso!

 

E as pessoas que estavam do lado de fora da taberna? perguntei eu, suavemente. O senador Tédio e a sua comitiva.

 

Ela encolheu os ombros.

 

Já tinham desaparecido quando o meu marido e eu cá chegámos. E Clódio, ou o que restava dele, também. Mais tarde, ouvimos dizer que Tédio tinha mandado o corpo para Roma na sua liteira, e que nessa noite centenas de pessoas se reuniram à volta da casa de Clódio, em Roma, e acenderam fogueiras. Pobre viúva! Mas o desgosto de Fúlvia não deve ter sido maior do que o da minha irmã. Aqui, não houve reuniões, nem fogueiras, ficou apenas uma grande confusão para limpar. No dia seguinte, o meu marido mandou reunir os cadáveres e colocá-los em fila ao pé do estábulo. Veio um homem da villa de Clódio com uma carroça, e levou-os. Mas não limparam o sangue da Via Ápia ainda se vêem grandes manchas, daqui até ao santuário da Boa Deusa. E ninguém se ofereceu para pagar um único sestércio das reparações que tivemos de fazer aqui na estalagem. Eu disse ao meu marido que ele devia levar Milo a tribunal por causa dos prejuízos, mas ele respondeu-me que devíamos esperar para ver como as coisas se resolvem em Roma antes de nos metermos em mais sarilhos. O que achas disto? As pessoas honestas sofrem em silêncio, enquanto um homem como Milo é candidato a cônsul. É uma vergonha!

 

Eu acenei com a cabeça, num gesto de compreensão.

 

Quer dizer que tu e o teu marido chegaram depois de toda a gente ter dispersado?

 

Sim. Já só vimos os cadáveres.

 

Em que altura do dia é que isso aconteceu?

 

A batalha? Bem, considerando a hora a que nós chegámos, e por tudo aquilo que a minha irmã me contou, acho que deve ter sido a meio da tarde. Eu diria que Milo chegou a Bovilas à nona hora, deu de beber aos cavalos, reuniu a comitiva e marchou, e depois os gladiadores dele perseguiram Clódio até aqui pela décima hora.

 

Não terá sido mais tarde? Mais perto do pôr do Sol? Ela abanou a cabeça.

 

Por que perguntas? Eu encolhi os ombros.

 

Em Roma, circulam tantas versões diferentes da história... Chegou até nós um ruído proveniente da porta aberta. Eu tornei-me rígido, mas a mulher sorriu aos homens que entravam.

 

Pelo cheiro, hoje deve haver coelho assado disse um deles.

 

E nabos com o molho especial da nossa anfitriã! disse um dos companheiros, cheirando o ar. Instalaram-se nuns bancos, num canto.

 

Quanto é que nós te devemos? perguntei à mulher. Enquanto contava as moedas da bolsa de Eco, inclinei-me na direcção dela, por cima do balcão. A tua irmã, como está ela?

 

Ela abanou a cabeça.

 

Está desfeita, como vos disse. Nem sei se alguma vez recuperará.

 

Poderá receber uma visita?

 

Uma visita? A mulher franziu o sobrolho.

 

Eu baixei ainda mais a voz.

 

Perdoa-me: receio não ter sido totalmente honesto contigo. Mas, depois de te ouvir falar, sei que posso confiar em ti. Não foi por acaso que passei hoje por aqui.

 

Não? A mulher olhou para mim com um ar desconfiado, mas com um interesse crescente.

 

Não. Venho em representação de Fúlvia.

 

A viúva de Clódio? Ela ergueu as sobrancelhas.

 

Sim, por favor, não fales alto. Não tinha a certeza de poder confiar em ti, mas agora que te ouvi expressar o que sentes por Clódio, e por Milo e pela mulher dele...

 

Coelho assado! Coelho assado! Os recém-chegados começaram a cantarolar e a bater com os punhos nas mesas, rindo bem-dispostos.

 

Esperem a vossa vez! disse a nossa anfitriã, com uma expressão que eles tomaram por graça. Riram-se e começaram outro canto, que se transformou rapidamente numa série de gargalhadas. Na-bos! Na-bos! Na...

 

Ela inclinou-se para mim e falou quase num murmúrio.

 

Estou a ver! Quer dizer que vieste cá para ajudar a dar cabo dos esquemas de Milo?

 

Eu cerrei os lábios.

 

Não posso dizer-te qual é exactamente o meu objectivo, mas posso dizer-te que Fúlvia me pediu que descobrisse o que pudesse acerca da morte do marido.

 

Ah! Ela acenou com a cabeça, com um ar entendido.

 

Já percebes por que razão gostaria de falar com a tua irmã, se pudesse ser.

 

Claro. Acenou gravemente com a cabeça e depois franziu o sobrolho. Mas isso não é possível.

 

Compreendo que ela se encontre num estado muito frágil...

 

Não é apenas isso. Ela não está cá.

 

Não?

 

Foi com o filho para casa de uma tia nossa, em Régio. Toda a gente achou que, durante algum tempo, era melhor ela afastar-se o mais que pudesse daqui.

 

Eu acenei com a cabeça. De facto, não era possível ir para muito mais longe do que Régio, que ficava mesmo na extremidade da península itálica.

 

Coelho assado e nabos e molho! Coelho assado e nabos e molho! A mulher encolheu os ombros.

 

Agora tenho mesmo de ir atender os outros. Mas boa sorte! Tudo o que puder contribuir para fazer Milo recuar um ou dois degraus...

 

Oh, só mais uma pergunta...

 

Coelho assado e nabos e molho...

 

Sim?

 

Marco António, esse nome tem algum significado para ti? Ela pensou por momentos, depois abanou a cabeça.

 

Tens a certeza?

 

Nunca ouvi falar dele. Não deve ser destes lados.

 

Coelho assado e nabos e molho... A nossa anfitriã resmungou.

 

Tenho de ir dar de comer àqueles rapidamente, antes que haja outro tumulto aqui dentro! Fez rolar os olhos, lançou um último sorriso a Davo, e afastou-se apressadamente.

 

E agora, para onde? disse Eco quando saímos da estalagem. Sabia-me bem uma sesta, depois daquela refeição.

 

Davo bocejou e espreguiçou-se, num gesto de concordância.

 

Que disparate! Ainda é cedo, e temos muito que fazer. Davo, vai buscar os cavalos.

 

Metemo-nos pela Via Ápia e passámos pelo estábulo e pelo edifício exterior, cujas retretes tinham ficado aquém das exigências de Fausta Cornélia.

 

Eco riu-se.

 

Achas que a mulher de Milo será tão desagradável como parecia pensar a nossa anfitriã?

 

Nunca tive o prazer de conhecer a senhora em questão, mas não há dúvida de que foi objecto de vários boatos. Não é que eu me interesse por essas histórias; mas Betesda conta-as a Diana, e eu oiço sem querer.

 

Claro, papá, compreendo. Acontece o mesmo com Menénia, que está sempre a sujeitar-me a bisbilhotices desagradáveis. Mas seria falta de educação tapar os ouvidos, não achas? Vá lá, conta-me o que ouviste dizer, que eu conto-te o que ouvi!

 

Eu ri-me. Davo, imune à ironia, olhou para nós como se fôssemos loucos.

 

A maior parte tem a ver com os hábitos sexuais dela disse eu. Quando o anterior marido, Gaio Mémio, foi para fora, como governador de uma província qualquer, ela decidiu ficar em Roma, e portou-se de forma tão escandalosa que, quando Mémio regressou, se divorciou. Foi nessa altura que ela se casou com Milo.

 

Têm filhos?

 

Ainda não. Casaram-se há poucos anos. Mas, pelo que oiço dizer, ela anda demasiadamente ocupada com os amantes para ter tempo para procriar com o marido.

 

Pobre Milo!

 

Poupa a tua simpatia. Suspeito de que o casamento foi como a nossa anfitriã o descreveu: por razões de poder e de lucro. Independentemente do resto, Fausta é a filha do ditador Sula, e isso tem um grande peso, especialmente para os chamados Melhores, cujos favores Milo toda a vida tem procurado conquistar.

 

Como seria, ser filho de Sula?

 

Duvido de que qualquer de nós possa sequer imaginar, Eco. Ela e o irmão gémeo, Fausto, já nasceram para o fim da vida do ditador, e aparentemente ele ficou muito satisfeito consigo próprio imagina, amaldiçoar um filho com um nome que significa Mau Presságio. Se Fausta é uma garota mimada, o culpado é o monstro do pai dela, que foi quem a mimou.

 

Percebo que casar com ela foi um passo ascendente para Milo.

 

Mas que ganhou Fausta com o casamento?