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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CRIME NO PALÁCIO DE BUCKINGHAM / Anne Perry
CRIME NO PALÁCIO DE BUCKINGHAM / Anne Perry

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Thomas Pitt e Victor Narraway, o chefe da Brigada Especial, foram convocados com caráter de urgência e o maior sigilo. Devem apresentar-se imediatamente no palácio de Buckingham onde, na manhã seguinte de uma pequena festa privada, apareceu o cadáver mutilado de uma jovem prostituta. Logo fica claro que o assassino não está entre o serviço de palácio e as suspeitas do Thomas Pitt caem sobre um seleto grupo de convidados do Príncipe de Gales, três homens de negócios que vieram a apresentar ao Príncipe Eduardo um projeto enormemente ambicioso, arriscado e lucrativo, que não goza do apoio do governo.

Encerrado no palácio, e contando só com a ajuda de sua fiel criada Gracie, a quem infiltrou entre o serviço, Thomas Pitt terá que empregar todos seus dotes tanto diplomáticos como investigador para esclarecer com a maior discrição um assassinato que poderia salpicar à realeza e fazer cambalear a instituição da monarquia na Inglaterra.

 

 

 

 

— Parece que a acharam no armário da roupa branca, pobre criatura - respondeu Narraway com uma expressão séria em seu rosto magro, os olhos tão escuros que pareciam negros no interior em penumbra da carruagem. Logo, antes que Pitt pudesse dizer algo, corrigiu-se: — Em um dos armários da roupa branca do Buckingham Palace. Foi um assassinato particularmente brutal.

O veículo deu uma sacudida que jogou Pitt contra o assento.

— Uma prostituta? - perguntou com incredulidade.

Narraway guardou silêncio um momento. Os cascos do cavalo soavam com estrépito, as rodas estralavam sobre os paralelepípedos passando perigosamente perto da beira da calçada.

— Deve ser uma brincadeira pesada! - exclamou Pitt por fim enquanto viravam no The Mall e voltavam a tomar velocidade.

— Muito pesada - concordou Narraway. — Ao menos isso espero. Embora tema que seja algo totalmente sério. Mas se resultar que o senhor Cahoon Dunkeld nos está fazendo perder o tempo exercitando seu senso de humor, desfrutarei colocando-o pessoalmente no cárcere, se puder em um dos menos agradáveis que tenhamos.

— Deve ser uma brincadeira - insistiu Pitt, estremecendo-se só de pensar. — Não é possível que se cometeu um assassinato no Palácio. Como ia entrar nele uma prostituta?

— Pela porta, exatamente como vamos fazer nós, Pitt - respondeu Narraway. — Não seja ingênuo. Certamente a receberam melhor do que vão receber a nós.

Pitt sentiu uma leve pontada.

— Quem é Cahoon Dunkeld? - perguntou, fugindo do olhar do Narraway. Reverenciava a rainha Vitória, especialmente por sua idade avançada e seu viuvez, apesar de estar à corrente das excentricidades que lhe atribuíam e do fato de que nem sempre tinha gozado da simpatia de seu povo. Tinha guardado luto muito tempo, afastando-se não só da alegria, mas também de seus deveres. Além disso, alguns anos atrás tinha tido ocasião de conhecer pessoalmente as extravagâncias e os excessos do príncipe de Gales, e se tinha informado de que mantinha várias amantes muito caras. Então ele era superintendente do Bow Street, e o complô em torno do príncipe não só lhe havia custado sua posição, mas tinha estado a ponto de derrocar o trono. Por essa razão trabalhava depois para Victor Narraway na Brigada Especial, ao mesmo tempo em que ampliava seus conhecimentos sobre a traição, a anarquia e outras formas de violência contra o Estado.

Mesmo assim, a idéia de uma prostituta na residência da rainha era diferente. Produzia-lhe grande rechaço e teve dificuldades em dissimular, embora soubesse que Narraway o considerava um plebeu por seu idealismo e ria um pouco dele.

— Quem é Cahoon Dunkeld? - repetiu.

Narraway se inclinou ligeiramente para diante. A luz da primeira hora da manhã salpicava de bolinhas o brilhante meio-fio do The Mall. Havia pouco tráfego. Não era um bairro residencial, e acima e abaixo do Rotten Row, ladeando Hyde Park, via-se trotar com vigor vários cavaleiros.

— Um aventureiro de considerável encanto quando quer, e com um talento indubitável, que está tratando de converter-se em um cavalheiro no sentido social mais reconhecido - respondeu Narraway. — E, ao que parece, um amigo de Sua Alteza Real.

— Que fazia no palácio a essas horas da manhã?

— Isso é o que vamos averiguar - respondeu Narraway enquanto deixavam The Mall em frente ao palácio.

As magníficas grades de ferro forjado estavam rematadas em dourado. Os guardas usavam gorros de pele de urso e jaquetas vermelhas que brilhavam ao sol.

Pitt levantou a vista para a fachada e o telhado, e sentiu um grande alívio ao ver que não ondeava nenhuma bandeira, o que significava que Sua Majestade não se achava em sua residência. Ao mesmo tempo se sentiu inexplicavelmente decepcionado. Era consciente de que Narraway o teria considerado plebeu, mas gostaria de voltar a ver, embora fosse fugazmente, Sua Majestade a rainha Vitória. Apesar do que ditava o bom senso, acelerou-lhe o pulso. Ainda dentro da carruagem, ergueu-se em seu assento, levantou ligeiramente o queixo e endireitou ombros.

Se Narraway se deu conta, não se permitiu o mais leve sorriso.

Viraram para a direita e se dirigiram à entrada de serviço. Detiveram-se ante a grade. Narraway deu seu nome e o guarda retrocedeu no ato e fez a saudação. O cocheiro, cheio de repente de respeito, apressou o cavalo a avançar a um passo solene.

Dez minutos depois Pitt e Narraway seguiam pelas amplas e elegantes escadarias a um criado que se apresentou a si mesmo como Tyndale. Era de constituição miúda, mas se movia com agilidade, inclusive com certo garbo, embora Pitt calculou que rondasse os sessenta. Mostrou-se bastante cortês, mas estava muito inquieto para ser capaz de manter sua serenidade habitual.

Em outras circunstâncias Pitt se teria maravilhado ante o fato de achar-se dentro de Buckingham Palace. Mas só podia pensar na enormidade do que tinham por diante. O esplendor da história não significava nada nesse momento.

Era uma brincadeira estúpida? O rosto pálido e os ombros rígidos do Tyndale davam a entender que não, e pela primeira vez desde que Narraway fazia essa extraordinária declaração na carruagem, Pitt considerou a possibilidade de que fosse verdade.

Estavam no alto da escada. Tyndale cruzou o patamar e bateu em uma porta situada um pouco à esquerda. Abriu-a imediatamente um homem muito mais alto que ele, largo de costas e com um rosto escuro de singular dinamismo. Clareava-se seriamente o cabelo, mas isso não diminuía não seu atrativo. As cãs deviam ter sido cabelo negro porque as sobrancelhas continuavam sendo-o. Tinha a pele queimada pelo sol e o vento, de uma cor bronze intenso.

— O senhor Narraway chegou, senhor Dunkeld - disse Tyndale em voz baixa.

— Bem - respondeu Dunkeld. — Por favor, nos deixe e assegure-se de que ninguém nos interrompa. De fato, que ninguém suba para nada a este piso. - Voltou-se para o Narraway como se Tyndale já se tivesse ido. — Narraway? - perguntou.

Narraway assentiu e apresentou ao Pitt.

— Cahoon Dunkeld. - O homem corpulento estendeu uma mão e estreitou a do Narraway brevemente. Limitou-se a saudar o Pitt com a cabeça. — Passem e fechem à porta.

Voltou-se e os conduziu a uma encantadora habitação sobrecarregada de móveis. As janelas altas e longas davam a um jardim e, além delas, as árvores eram ondas imóveis de cor verde ao sol matinal.

Dunkeld se deteve no centro da sala. Dirigiu-se só ao Narraway.

— Produziu-se um incidente atroz. Nunca tinha visto nada tão... brutal. Como pôde ocorrer em um lugar como este me escapa.

— Me diga exatamente o que aconteceu, senhor Dunkeld - pediu Narraway. — Desde o começo.

Dunkeld fez uma careta, como se lhe fosse doloroso recordar.

— Desde o começo? Eu...

Narraway se sentou com parcimônia em uma das grandes poltronas estofadas de brocado granada e com excesso de recheio. Cruzou as pernas com elegância embora um pouco rigidamente.

— Desde o começo, senhor Dunkeld. Quem é você e o que faz aqui a estas horas da manhã?

— Pelo amor de Deus...! – explodiu Dunkeld. Logo se controlou com visível dificuldade, ficando todo ele rígido, e se sentou também. Não dava a impressão de ter compreendido o raciocínio do Narraway, mas parecia acreditar que não tinha outra escolha que seguir a corrente a uma inteligência menor. Tamborilou com os dedos nos braços da poltrona e começou de novo: — Sua Alteza Real, o príncipe de Gales, está muito interessado em um projeto de engenharia que poderia levar a cabo minha companhia com vários colegas. Convidou quatro de nós ao Palácio para falar das possibilidades... ou os detalhes, se o preferir. Viemos com nossas esposas para lhe dar uma aparência mais social. Os outros três são Julius Sorokine, Simnel Marquand e Hamilton Quase. Estamos aqui há dois dias e as conversas foram muito proveitosas.

Pitt ficou em pé, escutando e observando o rosto do Dunkeld, que tinha uma expressão concentrada, os olhos cintilantes de entusiasmo. A mão esquerda com que pegava o braço da poltrona tinha os dedos brancos.

— Ontem de noite celebramos os progressos que fizemos até agora - continuou.                  — Suponho que é um homem do mundo e não necessita que lhe dê todos os detalhes. As damas se retiraram logo. Ficamos bastante tempo mais e nos ofereceu certa diversão. O brandy era excelente, e a companhia relaxante e divertida. Estávamos todos muito animados. - Não olhou nenhuma só vez ao Pitt enquanto falava. Poderia ter sido tão invisível como um criado.

— Entendo - respondeu Narraway inexpressivo.

— Entre a uma e as duas da madrugada nos retiramos - prosseguiu Dunkeld. — Eu despertei cedo, por volta das seis. Estava com roupão, ainda sem me vestir, quando entrou o valete com um recado que lhe tinham dado por telefone. Era um assunto sobre o que Sua Alteza Real tinha insistido em ser informado imediatamente, apesar da hora, de modo que fui vê-lo. Depois voltei para meu quarto, barbeei-me e vesti-me, e tomei um chá; ia ver sua Alteza Real de novo para seguir falando do assunto quando ao passar diante do armário da roupa branca do corredor vi a porta entreaberta. - A voz estava carregada de tensão. — Isso em si mesmo não tem importância, é claro, mas notei um aroma estranho, e quando a abri um pouco mais... vi... provavelmente o mais espantoso que vi jamais.              — Piscou e pareceu necessitar uns momentos para serenar-se.

Narraway não o interrompeu nem afastou o olhar do rosto do Dunkeld.

— O corpo nu e ensangüentado de uma mulher - continuou Dunkeld com voz rouca. — Havia sangue por toda a roupa branca. - Tomou uma baforada de ar. — Por um momento não pude acreditar. Ocorreu-me que tinha tomado mais brandy de que pensava e estava delirando. Não sei quanto tempo fiquei ali, apoiado contra a porta. Depois saí de novo ao corredor. Não havia ninguém.

Narraway assentiu.

— Fechei a porta. - Dunkeld pareceu achar certo consolo ao recordar esse gesto, como se com ele pudesse deixar fora o horror de sua visão interior. — Chamei ao Tyndale, o homem que os acompanhou até aqui. É o encarregado da ala dos hóspedes. Disse-lhe que tinha encontrado uma das mulheres da noite anterior morta, que devia proibir entrar no corredor outros criados, e que servisse o café da manhã aos outros hóspedes em seus aposentos. Depois lhe pedi o telefone e chamei você.

— Está à corrente Sua Alteza Real do incidente? - perguntou Narraway.

Dunkeld piscou.

— Como é natural, tive que lhe informar. Deu-me plenos poderes para atuar em seu nome e esclarecer esta horrível tragédia com a maior brevidade possível e a mais absoluta discrição. Estou certo de que se faz consciente do escândalo que se armaria se se tornasse público. - Tinha um olhar severo e exigente, e o tom ligeiramente elevado de sua voz sugeria que necessitava que Narraway o tranqüilizasse com sua inteligência e seu tato. — Sua Majestade retornará a semana que vem do Osbome, embora partirá imediatamente a Balmoral, no norte. É urgente que sua investigação tenha finalizado até então. Compreendeu-me?

Fez-se um nó no estômago de Pitt; de repente mal havia ar na sala para respirar. Só estava uns minutos ali e já se sentia aprisionado.

Devia ter feito algum ruído porque Dunkeld o olhou depois se voltou para o Narraway.

— O que me diz de seu homem? - perguntou bruscamente. — Até que ponto confia em sua discrição? E em sua habilidade para lutar com um assunto tão crucial? Porque é crucial. Se sair à luz será catastrófico; até poderia afetar à segurança do reino. O assunto que nos trouxe aqui concerne a uma parte importante do Império. Não só o destino, mas as nações poderiam mudar a partir do que façamos. - Olhava ao Narraway como se à força de vontade pudesse lhe infundir compreensão, inclusive medo ao fracasso.

Narraway encolheu os ombros de forma quase imperceptível. Foi um gesto elegante. Era muito mais magro que Dunkeld e se sentia a gosto com sua jaqueta perfeitamente talhada.

— É o melhor - disse.

Dunkeld não parecia impressionado.

— E discreto? - insistiu.

— A Brigada Especial se ocupa dos segredos - respondeu Narraway.

Dunkeld se voltou para o Pitt e o esquadrinhou com frieza.

Narraway ficou em pé.

— Eu gostaria de ver o cadáver - anunciou.

Dunkeld respirou fundo e também se levantou. Passou pelo lado do Pitt, abriu a porta e os precedeu. Conduziu-os pelo corredor com seu teto ornamentado de gesso e ouro, e os fez subir outro lance amplo de escadas. Ao chegar ao alto, virou para a direita e passou diante de duas portas até deter-se ante um jovem lacaio postado em posição de sentido fora de uma terceira.

— Pode ir - o despediu. — Espere no patamar. Chamá-lo-ei quando voltar a necessitá-lo.

— Sim, senhor.

O lacaio olhou para Narraway e a Pitt com ansiedade, logo fez o que lhe ordenava, movendo-se sem fazer ruído sobre o tapete.

Dunkeld olhou ao Narraway, depois ao Pitt.

— O que faz normalmente? Perseguir espiões? Descobrir complôs?

— Investigo assassinatos - replicou Pitt.

— Bem, pois aqui tem um. - Dunkeld abriu a porta do armário e se afastou.

Pitt ficou olhando o que havia ante ele. Ouviu Narraway a seu lado ofegar como se lhe faltasse o fôlego. O homem de mais idade engoliu a saliva e levou uma mão à boca, como se temesse desacreditar-se vomitando.

Não era de estranhar. A mulher, deitada de costas, estava obscenamente nua, com os seios descobertos, as coxas abertas. Tinham-lhe cortado à garganta de lado a lado e lhe tinham aberto sob o abdômen deixando que as pálidas entranhas aparecessem entre o sangue escuro. Tinha uma perna ligeiramente levantada, com o joelho dobrado, a outra inerte, quase roçando o chão com o pé. O cabelo, longo e castanho, parecia haver-se solto das forquilhas em uma espécie de resistência. Tinha os olhos azuis muito abertos e frágeis, a boca sem fechar. Havia sangue por toda parte, salpicada pelas paredes, empapando os lençóis amontoados, cobrindo todo o corpo e formando um atoleiro no chão. Inclusive as mãos estavam ensangüentadas.

Pitt contemplou à mulher nem tanto com repugnância como com uma compaixão entristecedora pela absoluta indignidade de tudo isso. Se fosse um animal, a crueldade lhe teria ofendido. Tratando-se de um ser humano, invadiu-lhe uma intensa cólera e um desejo de arremeter fisicamente contra algo. Respirava de forma agitada e lhe contraiu a garganta.

Mas sabia que devia manter a calma. Era preciso inteligência, não paixão, por muito justificada que estivesse. Alguém tinha feito isso. E dado que se tratava de uma residência da família real, vigiada dia e noite, tinha que ser alguém que se encontrasse entre as quatro paredes do palácio. Surpreendeu-se tremendo ante semelhante profanação do corpo feminino, da vida e do lar da rainha. Serenou-se com grande esforço e tratou de combater o estômago revolto.

Por que? Só um homem transtornado faria algo assim, e mais ainda em um lugar como esse.

Narraway pigarreou.

Pitt se voltou para ele, e viu que estava pálido e com a fronte coberta de gotas de suor. Supôs que nunca tinha visto um ato tão grotesco de violência e degradação. Devia dizer algo para suavizar o horror, mas tinha a mente em branco. Talvez não quisesse fazê-lo. A pessoa devia sentir-se enojada, aniquilada e destroçada ante semelhante espetáculo.

Voltou-se e se meteu no armário, com cuidado de não pisar no atoleiro de sangue. Parecia estar por toda parte: gotas espessas e escuras, de cor vermelha só por onde se estendia em uma fina capa.

Tocou o braço da mulher. Estava frio e cada vez mais rígido.

Calculou que levava pelo menos seis horas morta. Eram passadas às oito e meia da manhã, o que significava que a tinham matado por volta das duas e meia da madrugada, o mais tarde.

— O que acontece? - Narraway engoliu a saliva como se tivesse um nó na garganta.

Pitt o disse.

— Acredito que sabemos - anunciou Narraway com voz rouca. — Chegou aqui ontem de noite e é de supor que a viram várias pessoas até a uma - voltou-se para o Dunkeld.               — Sinto ter que perguntar-lhe, mas poderia lhe olhar o rosto, por favor, e me dizer se a reconhece? - Logo se voltou de novo para o Pitt e falou com voz trêmula, perdendo o controle. — Pelo amor de Deus, tampe-a! O armário está cheio de lençóis. Utilize um!

Pitt pegou um lençol da prateleira superior e o desdobrou. Aliviado, estendeu-o sobre ela até o pescoço, cobrindo deliberadamente o profundo corte da garganta.

Narraway se afastou para dar lugar a Dunkeld.

— Sim - respondeu Dunkeld ao cabo de uns momentos. — É uma das mulheres da festa de ontem à noite.

— Tem certeza?

— É claro que tenho certeza! - gritou Dunkeld. Depois ofegou, levou uma mão à fronte e passou os dedos pela parte superior do couro cabeludo como se tivesse cabelo.         — Pelo amor de Deus, quem ia ser se não? Não olhou o rosto das prostitutas. É uma mulher bastante comum. Foi contratada por suas... habilidades, não por sua beleza. Castanha com os olhos azuis, como centenas de milhares de outras mulheres.

Pitt voltou a olhá-la, desta vez concentrando-se no rosto. Dunkeld tinha razão, era comum: feições agradáveis, tez clara, os dentes um pouco tortos. Calculou que já tinha completado os trinta anos. Tinha tido uma bonita figura, com os seios turgentes, a cintura fina. Nisso era no que provavelmente se fixara Dunkeld. Tinha razão; quem podia ser se não fosse uma prostituta da noite anterior? Estava claro que não era uma das hóspedes. E se tivesse tratado de uma criada, já teriam informado de seu desaparecimento e a teriam identificado.

— Obrigado, senhor - disse em voz alta.

Estendeu uma mão e lhe fechou os olhos.

— Não podemos transladá-la? - perguntou Dunkeld. — É... obsceno. Uma das hóspedes poderia encontrá-la sem querer. E as criadas terão que subir para trocar os lençóis e limpar os aposentos. Conviria lhe pôr algo decente e limpar tudo isto. E será melhor mantê-lo em segredo, embora o pessoal terá que inteirar-se. Terá que interrogá-lo.

— Fá-lo-ei dentro de pouco tempo - replicou Pitt.

— Pedi a Narraway! - Dunkeld voltou a elevar a voz, perdendo a calma.

Narraway o olhou friamente com um rosto quase inexpressivo. Quando falou, sua voz soou totalmente sob controle.

— Senhor Dunkeld, o inspetor Pitt é perito em assassinatos. Trabalha para mim porque confio em sua experiência e suas aptidões. Fará o que lhe digo ou temo que não poderemos aceitar o caso. Pode chamar à polícia local. De fato, agora que estamos à corrente do ocorrido teremos que avisá-la nós mesmos.

Dunkeld o esquadrinhou. Tinha um olhar feroz, e estava vermelho de fúria por ver-se encurralado. Era evidente que não se achava em uma situação assim em muito tempo. Mas não viu indecisão, nem medo, nem compaixão no rosto do Narraway. Rendeu-se com suficiente elegância para manter a dignidade, embora Pitt não tinha nenhuma dúvida de que esperaria o momento adequado para vingar-se.

— Olhe tudo o que quiser, Pitt - disse sombrio. — Depois se ocupe disso. Talvez poderia pedir ao necrotério que envie algum transporte discreto que possa passar como de partilha. - Com sua expressão deixava claro que aludia a sua competência, não pedia ajuda.

— Uma vez que tenha averiguado tudo o que possa - respondeu Pitt, — pedirei ao senhor Tyndale que se encarregue de que limpem o armário.

— Faça-o.

Dunkeld virou sobre seus calcanhares e se afastou seguido do Narraway, deixando ao Pitt só para que fizesse o que quisesse.

Pitt voltou a afastar o lençol que cobria o cadáver e o deixou cair ao chão, depois examinou o lugar do crime, o armário da roupa branca, tratando de imaginar o que tinha ocorrido dentro. Por que tinham metido nele essa mulher e quem quer que seja que a tivesse matado? Com o que o tinha feito? Com uma faca de alguma tipo; pelo que se via através do sangue, os cortes eram limpos.

Olhou ao redor, depois deslizou uma mão entre os lençóis dobrados e amontoados, pelo chão, debaixo do cadáver; voltou a fazê-lo com mais cuidado ainda. Não havia nenhuma arma nem indícios de que alguém tivesse limpado uma antes de levá-la consigo; não havia marca esfumadas em nenhum dos lençóis, só salpicaduras e partes empapadas.

E onde estava a roupa? Não podia ter chegado ali nua, por muito desenfreada que tivesse sido a festa. As prostitutas só ofereciam aquilo pelo que as pagavam; não costumava incluir beijos sequer, e nem digamos ir por aí sem roupa. Claro que ele nunca tinha tratado com as que atendiam a uma clientela tão seleta. Mesmo assim, a pergunta seguia sendo: onde estava sua roupa? Tinha que ter chegado vestida ao palácio.

Voltou a examinar o corpo procurando marcas, arranhões ou hematomas, beliscões, o que fosse que indicasse que tirou a roupa sozinha, ou que a tinham arrancado estando ainda viva ou inclusive que a tinham despido depois de morta.

A ferida no estômago era mais irregular que a do pescoço, como se se tivesse infligido através de um material resistente como um tecido. Devia ser difícil despir um corpo sem vida, pesado, inerte e coberto de sangue. Por que demônios o tinham feito? O que podia haver tão importante em sua roupa? Algo que identificasse a seu assassino?

Uma vez que o coração se detém, o sangue deixa pouco a pouco de fluir até com feridas como essas. A julgar pela quantidade de sangue que havia nos lençóis e no chão, a mulher devia ter morrido aí dentro. O que estava fazendo em um armário da roupa branca? Era uma convidada aprovada pelo príncipe em pessoa. Não tinha necessidade de esconder-se.

A menos que tivesse deixado ao príncipe já adormecido ou imerso em um torpor etílico para ganhar um dinheiro extra. Ou possivelmente para passá-lo bem com outra pessoa, alguém sem um lugar melhor onde desfrutar de intimidade. A resposta evidente era um dos criados.

Pitt não lhe via nenhum sentido. Por que a tinha matado depois? Ela o tinha ameaçado fazer público? A quem podia lhe importar isso? A um criado não, a menos que estivesse em perigo seu emprego. Despediria o príncipe a um criado por ter estado com a mesma prostituta com a que acabava de estar ele? E a um dos hóspedes? Era improvável, posto que as esposas foram deitar sabendo a classe de festa que deixavam atrás. Podiam ter estado doídas, indignadas ou enojadas, mas nenhuma mulher em uma situação assim se exporia ao ridículo ou, pior ainda, à compaixão pública, fazendo notar os costumes de seu marido.

Pitt considerou de novo a possibilidade de que fosse um criado. Talvez tinha sido pressionado para roubar algum objeto pequeno e valioso, e tinha matado a seu atormentador antes que cair em semelhante armadilha. Não, era impossível. Isso não justificava a violência do crime, nem os cortes na garganta e o estômago. Além disso, quem iria a uma entrevista secreta com o tipo de faca que tinha causado semelhantes danos? Não havia nada mais que averiguar no cenário do crime. Desenhou-o rapidamente em seu caderno para recordar os detalhes, depois chamou o necrotério e lhes deu as instruções do Narraway para que recolhessem o cadáver e o levassem ao legista do corpo de polícia.

Descia as escadas para procurar o Narraway quando cruzou com o Cahoon Dunkeld no patamar.

— Onde se colocou? - perguntou Dunkeld sombrio. — Pelo amor de Deus, não se dá conta de que isto é urgente? O que lhe passa?

Pitt esteve a ponto de perder as estribeiras. Era culpa, vergonha ou medo o que o fazia ser tão grosseiro? Ou era um homem arrogante que não via a necessidade de ser civilizado com os que considerava inferiores?

— Vamos! - exclamou Dunkeld bruscamente. — Sua Alteza Real lhe está esperando. - Voltou-se de novo nas escadas. — Suponho que já se ocupou de que se levem o cadáver para que os criados possam limpar o armário e possamos voltar para a normalidade. Depois de tanto olhar, descobriu alguma pista sobre quem é esse maníaco?

Pitt passou por cima a pergunta e caminhou a seu lado. Eram da mesma estatura, mas tinham uma constituição muito diferente. Dunkeld era musculoso e com as costas carregadas. Pitt pelo contrário era desajeitado e falto de elegância em todo o relacionado com a moda, mas tinha certo garbo. Preocupava-se mais por sua roupa do que o tinha feito no passado, mas continuava enchendo tanto os bolsos que sempre estavam avultados e furados, e lhe pendia um lado do casaco. Não usava barba nem bigode, e quase sempre tinha o cabelo muito longo e rebelde.

Demoraram vários minutos em reunir-se com Narraway, que esperava do outro lado da porta da sala onde se supunha que ia recebê-los o príncipe de Gales.

A cólera de Pitt se evaporou e de repente tirou o chapéu muito nervoso. Tinha conhecido ao príncipe ao final do caso do Whitechapel, mas não esperava que se lembrasse dele. Naquele momento toda a atenção tinha sido monopolizada por Charles Voisey, o homem que tinha salvado aparentemente o trono correndo um grande risco pessoal. Mas Voisey agora estava morto e todo o assunto era coisa do passado.

Narraway se voltou para eles com rosto sombrio e os lábios apertados formando uma fina linha. Olhou ao Pitt interrogativamente, mas Dunkeld não lhes deu tempo para falar. Aproximou-se da porta e bateu. Abriram imediatamente, e Dunkeld entrou e fechou a porta atrás dele no preciso momento em que Narraway dava um passo para diante.

Girou sobre seus calcanhares.

— Tem algo?

— Impressões aparentemente sem sentido - replicou Pitt. — Por que...?- interrompeu-se quando a porta voltou a abrir-se e Dunkeld lhes ordenou que entrassem.

Narraway entrou primeiro, seguido de perto pelo Pitt. Os dois se detiveram a poucos passos. Era uma sala de teto alto como as demais, recarregada de móveis de madeira perfeitamente polida e com muito dourado e vermelho escuro. No centro estava o príncipe de Gales, um homem de meia idade, gordo e com barba. Tinha umas feições vulgares, salvo por seus olhos pálidos, com os extremos exteriores um pouco curvados para baixo. Essa manhã tinha a pele avermelhada, o branco dos olhos injetado em sangue e as mãos visivelmente trêmulas.

— Ah! - exclamou com visível alívio.

— Alteza - disse Dunkeld imediatamente, — permita que o apresente ao senhor Narraway, da Brigada Especial, e a seu homem, Pitt. Estão aqui para ocupar-se do desagradável incidente de ontem à noite e clarificar os fatos o antes possível. A... prova... está sendo retirada. O senhor Tyndale parece estar mantendo a calma entre os criados. Só sabem que se produziu um incidente durante a noite e que alguém ficou ferido. Não estou certo se precisam saber muito mais. - Olhou ao Narraway, arqueando ligeiramente as sobrancelhas.

Narraway inclinou um momento a cabeça, depois olhou ao príncipe.

O príncipe pigarreou e teve dificuldade para desenredar a voz.

— Obrigado. Agradeço-lhes que tenham acudido tão logo. Todo este assunto é indescritivelmente horrível. É evidente que há alguém transtornado. Não tenho nem idéia...

— Corresponde-lhes averiguá-lo, senhor - disse Dunkeld com tanta suavidade que quase não se notou que o tinha interrompido. — Se não puderem terminar hoje, um deles talvez tenha que ficar até amanhã. Se eu...

— É claro. - O príncipe agitou uma mão, com uma careta de alívio. — O que seja. Ocupe-se disso, Dunkeld. Tem minha permissão para tomar todas as medidas que julgue necessárias. Olhou ao Narraway. — O que necessita?

— Ainda não sei, alteza - respondeu Narraway. — Temos que averiguar muito mais sobre o que passou exatamente. Posso assumir que não entrou nem saiu nenhum intruso sem que o pessoal ou os guardas se inteirassem?

Dunkeld respondeu, mas dirigindo-se ao príncipe antes que ao Narraway.

— Já tomei a liberdade de perguntar, senhor. Não entrou nem saiu ninguém, além das pessoas que já sabe e que tinham autorização.

Produziu-se um momento de silêncio no qual ficou totalmente clara a implicação.

— Tudo aponta a que é um criado, senhor - disse Dunkeld ao príncipe. — O senhor Narraway averiguará qual deles foi e fará tudo o que seja necessário. Acredito firmemente que deveríamos seguir levando-o com o maior segredo possível. Se tivermos sorte, pode ser que as senhoras não tenham que inteirar-se dos detalhes.

— Agradeceria muito que a princesa de Gales não fosse informada - se apressou a dizer o príncipe. — Certamente falaria com Sua Majestade. Seria... - engoliu em seco e começou a cobrir-se o rosto de uma fina capa de suor.

Dunkeld olhou ao Narraway.

— Sua Alteza Real tem exposto com toda clareza seus desejos: não devem consternar à princesa com esta tragédia. Talvez se começar imediatamente com os criados possa resolver o caso com maior rapidez. Algum poderia inclusive confessar.

— Sim - concordou o príncipe de Gales com impaciência, olhando ao Dunkeld e ao Narraway. — Pode ser que algum saiba quem foi, e hoje mesmo se esclareça todo o assunto; assim poderemos voltar para nossas tarefas. Tem que saber que é de suma importância para o império. Obrigado, senhor Narraway. Estou-lhe muito agradecido.            - Voltou-se para o Dunkeld e acrescentou com tom mais cordial: — E obrigado, meu querido sócio. Demonstrou-me verdadeira amizade. Não esquecerei sua lealdade nem sua tenacidade. - Pareceu dar por resolvido o assunto porque fez gesto de despedi-lo.

Na mente do Pitt formavam redemoinhos as perguntas. Quem se tinha encarregado de chamar à mulher assassinada, e como e desde onde o tinham feito? Quando se tinha planejado? Tinham estado essas mulheres no concreto antes, em Palácio ou em algum outro lugar, em companhia do príncipe ou seus amigos? Mas como ia fazer essas perguntas se Dunkeld já os estava acompanhando à porta? Olhou ao Narraway.

Narraway sorriu de forma quase imperceptível.

— Alteza, o que é mais importante, a rapidez ou a discrição?

O príncipe pareceu sobressaltar-se. O medo afluiu a seu rosto, deixando-o pálido e com a mandíbula frouxa.

— Não... não saberia dizê-lo - gaguejou. — Ambas são imprescindíveis. Se demorarmos muito, a discrição será impossível. - Olhou uma vez mais ao Dunkeld.

— Pelo amor de Deus, Narraway, não é capaz de ambas as coisas? - exclamou Dunkeld, furioso. — Comece já! Interrogue aos criados. Interrogue aos hóspedes, se for necessário. Não fique aqui fazendo comentários estúpidos e absurdos.

Narraway avermelhou de indignação, mas antes que pudesse responder, Pitt aproveitou a oportunidade para formular outra pergunta.

— Senhor - disse com firmeza olhando ao príncipe de Gales. — Quantas convidadas... profissionais... estiveram aqui?

— Três - respondeu o príncipe imediatamente, ficando vermelho.

— Conhecia alguma de uma... festa anterior?

— Isto... que eu saiba, não. - Parecia mais desconcertado que incômodo, como se a pergunta o tivesse deixado confundido.

— Quem organizou sua vinda e faz quanto tempo? - continuou Pitt.

O príncipe abriu muito os olhos.

— Eu... isto...

— Fi-lo eu - respondeu Dunkeld por ele. Olhou ao Pitt indignado. — Que importância tem isso? Um louco perdeu o controle e apunhalou a pobre mulher. Quem era ou de onde saiu é irrelevante. Averiguar onde estavam todos, isso é o que tem que fazer. Assim saberá quem o fez. Não importa o porquê! - voltou-se para o Narraway. — Não perca mais tempo.

Narraway não discutiu. Ele e Pitt partiram, e Dunkeld ficou.

— O senhor Dunkeld se está fazendo indispensável - comentou Narraway secamente assim que se afastaram o suficiente para que não os ouvissem. — Será melhor que comecemos pelos criados, e para isso vamos necessitar ao senhor Tyndale. Averiguou algo do armário? - Chegaram à escada e começaram a descê-la.

— Onde está a roupa que levava a mulher? - perguntou Pitt. — Não pôde chegar aqui nua. E por que a tiraram? Não teria sido muito mais fácil deixar-lhe posta? O que havia nela que o assassino queria ou que não podia expor-se a que alguém mais visse?

Narraway se deteve.

— Como o que?

— Não tenho nem idéia. Isso é o que eu gostaria de averiguar. Como ia vestida? A quem agradou? Ao príncipe, certamente. E a quem mais?

Narraway sorriu, mas o humor se desvaneceu rapidamente como uma luz que se apaga.

— Pitt, acredito que é melhor que deixe essa parte de sua investigação até que seja inevitável.

— De repente é minha investigação?

Pitt arqueou as sobrancelhas. Seguiu descendo.

— Eu tomarei as decisões políticas, e você reunirá as provas e as interpretará.              - Narraway o seguiu de perto. — Para começar, devemos achar ao Tyndale e conseguir uma lista de todo o pessoal que esteve aqui ontem à noite e dos guardas postados em todas as entradas desta parte do edifício. E procurar a roupa da morta - acrescentou.                   — Ou provas de que alguém se desfez dela.

Tyndale se mostrou muito serviçal, embora deixasse claro com sua atitude que deplorava a idéia de que um membro da criadagem pudesse ter cometido um ato tão bárbaro. Não podia rechaçar a conclusão porque não podia permitir-lhe, mas tampouco podia aceitá-la.

— Sim, senhor. É claro, ocupar-me-ei de que todo o pessoal esteja disponível para que o interrogue. Mas insisto em estar presente. - Sustentou o olhar do Pitt com profunda consternação.

Pitt o admirou. Era um homem apanhado em uma situação impossível que tratava de ser fiel a seus deveres. Cedo ou tarde teria que escolher e Pitt sabia, embora ele ainda não.

— Sinto muito... - começou a dizer Narraway.

— É claro - acessou Pitt ao mesmo tempo.

Narraway voltou bruscamente a cabeça.

Tyndale esperou incômodo.

— Agradecerei sua ajuda – disse Pitt, sem olhar a nenhum dos dois. — Mas é fundamental que não interrompa. De acordo?

— Sim, senhor.

— Então começaremos pelo guarda que deixou entrar as mulheres quando chegaram - ordenou Pitt. — E continuaremos com quem as atendeu durante a noite até que alguém viu sair às outras duas. Perguntaram pela terceira? Se for assim, que explicação lhes deu?

— Deve ser Cuttredge quem as deixou entrar, senhor, e Edwards quem as acompanhou à porta quando se foram - respondeu Tyndale. — Já perguntei ao Edwards e diz que nesse momento pensou que a última ficou passando a noite. Não tem... muita experiência.

— Não acontece alguma vez? - perguntou Pitt.

Ao Tyndale lhe retesaram os músculos da rosto.

— Não, senhor. Não com uma mulher dessa classe.

Pitt não insistiu.

— Então, se pudéssemos falar primeiro com o Cuttredge, e depois com quem as acompanhou a... em qualquer lugar que fossem... E a quem fora que as atendeu até que partiram. E necessito a roupa que levava a mulher, se conseguem encontrá-la.

— Sim, senhor.

Quando Tyndale partiu, Pitt se expôs desculpar-se com o Narraway por haver contradito suas ordens, mas decidiu não fazê-lo. Teria sido fazer um mal precedente. Não era momento para proteger cargos nem para submeter-se a status. O preço do fracasso recairia sobre todos.

Tyndale retornou com o Cuttredge, um homem de aspecto muito vulgar mas que entrou com certo ar de dignidade e respondeu todas as perguntas sem titubear. Explicou com um desagrado apenas perceptível que tinha deixado passar às mulheres, e indicou com precisão militar aonde as tinha conduzido e a que hora. Não se tinha fixado em seus rostos. Todas as mulheres da rua lhe pareciam iguais. Saltava à vista que era uma parte de seu trabalho que lhe incomodava, mas não se atreveu a expressá-lo em palavras.

— E não as viu ir-se? - perguntou Pitt.

— Não, senhor. Devia fazê-lo Edwards. Eu já não estava de guarda a essa hora.

— Onde estava? - perguntou Narraway, inclinando-se ligeiramente para diante em sua cadeira.

Cuttredge abriu muito os olhos. Olhou ao Tyndale um momento, depois se voltou.

— Na cama, senhor! Tenho que me levantar antes das seis da manhã.

— Onde dorme? - perguntou Narraway.

Cuttredge tomou ar antes de responder, logo, de forma bastante repentina, compreendeu a importância da pergunta e empalideceu.

— Vamos, com o resto do pessoal. Eu... nunca saio de meu quarto. - Tomou ar de novo para acrescentar algo, mas engoliu a saliva e guardou silêncio.

— Obrigado, senhor Cuttredge - disse Pitt despedindo-o.

Cuttredge ficou sentado, com as mãos juntas.

— O que se passou? Dizem que morreu... uma das mulheres. É verdade?

Tyndale abriu a boca mas voltou a fechá-la, recordando a advertência do Pitt.

— Sim - respondeu Pitt. — Pense atentamente. Ouviu algo, uma discussão, uma briga, talvez planos para que ela se reunisse com outra pessoa depois da festa? Houve algum indício de que já conhecesse alguém daqui ou de que eles a tivessem visto antes?

— É claro que não - respondeu Cuttredge imediatamente.

Narraway dissimulou um sorriso tenso.

— Não necessariamente por motivos profissionais, senhor Cuttredge - indicou Pitt.            — Tinha estado antes aqui?

— Não, isso sei - replicou Cuttredge. — Não o organizamos nós. Foi... o senhor Dunkeld.

— Sim. Obrigado. - Pitt voltou a despedi-lo e Cuttredge se foi.

O seguinte homem ao que interrogaram foi Edwards, que tinha acompanhado à porta às outras duas mulheres. Era mais jovem e mais magro e, apesar das circunstâncias, mais seguro de si mesmo, como se estivesse emocionado pela repentina importância que tinha adquirido. Disse que não tinha notado nada inesperado e não olhou ao Tyndale procurando apoio. Informou que as duas mulheres pareciam animadas e um pouco altas, mas não assustadas ou alarmadas. Nenhuma das duas tinha sofrido nenhum dano. Ele tinha ido deitar se assim que tudo esteve quase recolhido e a sala de visitas principal ao menos preparada para a manhã seguinte.

— Mais ou menos por volta das duas, senhor, que eu recorde - terminou.

— E foi se deitar só?

— Sim, senhor.

— Passou perto do armário da roupa branca ao dirigir-se a seus aposentos? -atravessou Narraway.

Edwards parecia profundamente consternado e fugiu o olhar do Tyndale de maneira consciente.

— Sim, senhor. Passei por esse mesmo corredor. Não deveria havê-lo feito, já que se supõe que temos que dar toda a volta, mas era tarde e estava cansado. Requer um grande esforço assegurar-se de que tudo está bem. As garrafas, as taças, a cinza dos charutos sobre os tapetes bons e demais. As coisas danificadas. Não é coisa de uns minutos, asseguro.

— Não há criadas que o ajudem? - perguntou Narraway.

Edwards pareceu doído.

— É claro que sim, mas não a essas horas da noite. Além disso, continuo sendo o encarregado de fiscalizar tudo, comprovar que todos os móveis voltam a estar em seu lugar, que se limparam as manchas e tudo volta a cheirar como novo. Para que quando as hóspedes desçam na manhã seguinte não possam cheirar sequer que houve uma festa e menos ainda ver algum resto no meio.

Pitt se perguntou se alguma das mulheres se deixou enganar ou se simplesmente lhes permitia a dignidade de fingi-lo. Havia ocasiões em que era mais prudente a cegueira.

— Passou diante do armário - insistiu.

— Não vi nem ouvi nada - se apressou a dizer Edwards.

— Nem cheirou nada? - perguntou Pitt.

De novo Tyndale se moveu incômodo e com visível esforço se absteve de interromper.

Edwards inalou e mordeu o lábio.

— Cheirar? - perguntou vacilante. — O que ia cheirar? Quer dizer. . - Não foi capaz de pronunciar a palavra.

— Sangue - disse Pitt por ele. — Tem um aroma doce, como a ferro, quando há muito. Mas imagino que se a porta estava fechada não o teria notado. A porta estava fechada, não é verdade? Ou entreaberta? Pense e procure responder com muita exatidão.

— Estava fechada - disse Edwards sem pensar. — Se tivesse estado aberta, me teria fixado. Abre-se na direção em que ia. - Respirou fundo. — Ela estava... dentro? - Não pôde evitar estremecer, revelando mais vulnerabilidade do que teria gostado.

— Provavelmente não - replicou Pitt, embora no preciso momento em que o dizia compreendeu que se equivocara. Era quase certo que a tinham matado antes que ele passasse, e a julgar pela quantidade de sangue, tinha morrido dentro do armário. Mas se o que dizia Edwards era certo e a porta tinha estado fechada, então outra pessoa a tinha aberto entre as duas, quando passou Edwards, e as seis, quando Dunkeld achou o corpo.   Edwards tampouco podia demonstrar que fora deitar ou ficara ali.

— Deve ter mentido sobre a porta fechada - disse Narraway assim que Edwards saiu.

— Ou a fechadura estava defeituosa - respondeu Pitt. — O comprovaremos, senhor Tyndale.

— Não, senhor. Funciona perfeitamente - replicou Tyndale. — Eu mesmo a fechei... depois... depois que levaram o cadáver.

Falaram com o resto do pessoal masculino e não averiguaram nada que fosse útil. Ninguém tinha encontrado a roupa da falecida. Tyndale pediu chá e a governanta, a senhora Newsome, trouxe-o em pessoa em uma bandeja, com bolachas de farinha de aveia.

Descansaram o tempo suficiente para beber o chá e comer todas as bolachas. Depois entrevistaram aos criados pessoais dos quatro hóspedes, desta vez sem que Tyndale estivesse presente porque não estavam sob sua responsabilidade. Tampouco serviu de nada.

A senhora Newsome lhes levou mais chá, desta vez com sanduíches.

— Um deles tem que ser o culpado - disse Narraway insatisfeito, agarrando o último sanduíche de rosbife e comendo-o distraído. — Não pôde fazer-lhe a si mesmo. E nenhuma mulher faria isso a outra, embora pudesse.

— Será melhor que falemos com o pessoal feminino - disse Pitt resignado. — Alguém nos está mentindo. Até o menor deslize poderia ajudar. - Teria gostado de comer outro sanduíche, mas só ficavam de presunto e não gostava desse. — Pedirei ao Tyndale que as chame.

Requereu muita paciência lhes surrupiar muito pouco. Nenhuma criada sabia nada, nem tinha ouvido nem visto nada. Houve lágrimas, protestos de inocência e um perigo muito real de desmaio ou ataque de histeria.

— Nada! - exclamou Narraway exasperado quando todas se foram. — Não averiguamos nenhuma maldita coisa! Ainda poderia ter sido qualquer um.

— Começaremos de novo - replicou Pitt cansativamente-. Alguém o fez. Descobriremos alguma incongruência, um defeito de caráter que todos conhecem.

Repetia-o para tranqüilizar ao Narraway tanto como a si mesmo. A impaciência era uma falha da investigação, às vezes fatal.

Voltou-se para o Tyndale.

— Onde dormem os criados dos hóspedes?

— Vamos, nos quartos da criadagem - replicou Tyndale. Parecia exausto, com as faces cheias de manchas, as sardas destacando no dorso das mãos que tinha apoiado na mesa. — Há lugar de sobra para eles. Todos os hóspedes trazem seus próprios criados.

— Talvez recordem ter visto ou ouvido algo. Comem com o pessoal do palácio?

— Nem sempre - respondeu Tyndale. — Na realidade não formam parte da disciplina do palácio. Não podemos controlá-los - disse cansativamente, como se recordasse uma longa sucessão de incidentes desafortunados.

— Por favor, faça-os vir, de um em um.

Começaram pelo homem do Quase, que se limitou a repetir o que já havia dito anteriormente. O segundo foi o criado do Cahoon Dunkeld, com o rosto tão vermelho e queimado pelo sol como seu amo. Quadrou-se.

— Se desci pela escada dos criados, senhor? - respondeu ao Pitt. — Não, senhor. É impossível a menos que fosse a partir das duas da madrugada. A essa hora estava em pé, senhor. Na copa do final do corredor, frente ao pé da escada. Estava preparando uma bebida para o senhor Dunkeld, que tinha o estômago algo revolto. Entrei e saí, e percorri esse corredor justo depois de que ele subiu para deitar-se.

— O estômago revolto? - Narraway abriu muito os olhos.

O homem pareceu desconfortável.

— Sim, senhor. Se me permite dizê-lo, Sua Alteza Real agüenta o álcool muito melhor que a maioria. O senhor Dunkeld não gosta de lhe falhar, de modo que não fica atrás, mas às vezes tem que pagar por isso. Mais vale acautelar, se puder. Um remédio para aliviar a ressaca, se sabe a que me refiro.

— Isso se costuma fazer na manhã seguinte! - disse Narraway asperamente.

O homem fez uma careta.

— Tenho meus próprios remédios, senhor. Um valete tem o dever de entender destes assuntos. Não vi a porta desse armário porque está atrás da esquina da copa, mas vi a escada dos criados e apostaria o que fosse que não desceu ninguém por ela. Não antes das duas e meia da madrugada. E só subiu o senhor Edwards.

— Disse às duas! - exclamou Narraway com brusquidão.

— Sim, senhor. Esperei outra meia hora, se por acaso o senhor Dunkeld voltava a me necessitar. Tomei uma taça de chá. Pareceu-me absurdo voltar a dormir se logo tivesse que me levantar e descer de novo.

— Tem certeza?

— Sim, senhor. - Estava rígido como uma vara. — E se está pensando em que fui eu quem matou a pobre criatura, o senhor Dunkeld responderá por mim, senhor. Não tive tempo nem teria sido capaz de fazer algo assim.

— Obrigado - disse Narraway pensativo, com o rosto pálido e sombrio. — Isso é tudo.

— Sim, senhor. - O homem se retirou agradecido.

Narraway olhou ao Pitt.

— Parece que a festa de Sua Alteza Real vai necessitar de muito mais investigação. Se o que disserem Edwards e Dunkeld é certo, é impossível evitar a conclusão de que há um louco entre os hóspedes.

 

Elsa Dunkeld despertou e viu Bartle, sua criada, ao pé da cama com uma bandeja. As cortinas já tinham sido abertas e o sol entrava em torrentes, iluminando o quarto desconhecido. Demorou um momento em recordar onde estava. Tinha adormecido mal, assaltada por sonhos de corredores vazios onde procurava alguém a quem nunca achava. Estava lá ao longe, e quando se aproximava, voltava-se e era outra pessoa, um desconhecido de quem fugia.

— Bom dia, Bartle - disse, sentando-se devagar na cama.

Viu que na bandeja não havia um simples chá mas o café da manhã completo. Não tinha tido intenção de tomar o café da manhã na cama, mas talvez fosse mais agradável que voltar a enfrentar tão cedo os outros.

— Receio que não é um grande dia, senhorita Elsa.

Bartle deixou a bandeja na mesinha de noite para deixar que Elsa se acomodasse. Tinha estado com ela desde antes que contraísse matrimônio com o Cahoon Dunkeld, fazia sete anos, e nunca tinha duvidado de com quem estava sua lealdade. De uns cinqüenta anos e larga de quadris, era uma mulher sensata mas com um senso de humor surpreendentemente descarado. Em geral costumava guardar suas opiniões para si, o que, tendo em conta quais eram, era uma sorte.

— Não acredito que seja muito pior que o de ontem - replicou Elsa com um leve sorriso, afastando o cabelo da fronte. — Poderemos agüentar uma semana.

— Temo que hoje vai ser muito pior - disse Bartle, muito séria. — Será melhor que tome alguns goles de chá. - Deixou a bandeja no regaço da Elsa e serviu o chá sem que esta o pedisse.

— Por que? Está de mau humor o senhor Dunkeld? - Assim que o disse, arrependeu-se de ter sido tão franca. Deveria guardar para si seu medo.

— Não que eu saiba, senhora - respondeu Bartle, apertando os lábios. — De fato, está se dando muitas presunções, ou isso diz Nelly. Está se ocupando de tudo.

Esse era um comentário inusitadamente sincero inclusive para Bartle. A Elsa ocorreu pela primeira vez que tinha acontecido algo realmente grave.

— O que é? - perguntou nervosa. — O que aconteceu?

Imaginou alguma intriga romântica. O primeiro em que pensou, por óbvio, foi na filha do Cahoon de seu primeiro matrimônio, Minnie Sorokine. De quase trinta anos, alta e esbelta, Minnie estava cheia de uma graça voluptuosa. Não era uma beleza no sentido convencional do termo, mas possuía um aura de glamour e provocação que era mais excitante que a simples regularidade das feições ou a perfeição da pele. Sugeria paixão e originalidade, uma provocação que superar. Seu ar de insatisfação transmitia uma inquietação que a muitos homens era atraente. Fazia oito anos que se casara com o Julius Sorokine. O fato era tão doloroso para Elsa que não podia suportar pensar nisso, e ao mesmo tempo não podia tirar isso da cabeça. As bodas da Minnie e Julius tinha tido lugar pouco antes que a dela com Cahoon, apesar de Elsa ter dez anos mais que Minnie. Os deveres familiares tinham atrasado suas oportunidades para casar-se, o que em realidade não tinha suposto nenhuma privação porque não tinha havido ninguém a quem amasse de verdade. Mas conheceu Julius e foi muito tarde. Então era seu genro e já não havia possibilidade de um futuro juntos; só o sonho do que poderia ter sido imensamente melhor e mais apaixonado. Em suas vidas poderia ter havido risadas, amabilidade, um compartilhar alegrias e tristezas, a confiança e a ternura que é o amor.

Mas Minnie não o tinha encontrado no Julius, ou nunca se teria permitido ter essa breve e candente aventura com o meio-irmão do Julius, Simnel Marquand.

— O que acontece, Bartle? - perguntou com mais brusquidão. — Deixe de arrumar as coisas de minha penteadeira e me responda. - Bebeu outro gole de chá para tranqüilizar-se.

Bartle deixou a escova de cabo de concha.

— Os senhores deram uma... festa ontem à noite - disse com rigidez. — Parece que uma das fulanas que chamaram foi achada morta... no armário da roupa branca, nada menos. - Fungou. Apesar das palavras, tinha o rosto descomposto de pena. — Não consigo imaginar o que essa estúpida criatura estava fazendo ali dentro. Embora suponha que as pobrezinhas têm que fazer aquilo pelo que as pagam.

—Morta? - Elsa não dava crédito. Quase lhe caiu a taça da mão. — Que tipo de acidente pode sofrer-se dentro de um armário da roupa branca, pelo amor de Deus? Deve estar equivocada.

— Não foi um acidente, senhorita Elsa - explicou Bartle consternada. — Chamaram à polícia. Por isso hoje todo mundo está tomando o café da manhã na cama. O príncipe pediu que todos fiquem em seus aposentos até que hajam resolvido o caso.

— Isto é absurdo. - Elsa tratou de dar sentido às palavras do Bartle. — Ninguém daqui seria capaz de matar. E é evidente que em um lugar como o palácio não pode entrar ninguém pela força.

— Não, senhora. Isso é o mal - coincidiu Bartle, esperando que compreendesse.

— Deve ser um acidente. - Elsa pensava a toda velocidade no que poderia ter acontecido. Deitara-se cedo, como as outras três esposas, para evitar ter que fingir que nada sabiam sobre a festa. — É a única explicação possível. É ridículo que tenham chamado à polícia.

— Quer o de musselina verde e branco, senhorita Elsa? - perguntou Bartle.

— Se a mulher estiver morta deveria pôr um algo escuro - respondeu Elsa.

— Era uma prostituta, senhorita. E se supõe que você não sabe - indicou Bartle.

— Isso não a faz menos morta - replicou Elsa.

Bartle não respondeu, mas seguiu estendendo o caro vestido de manhã de musselina e linho. Tinha a gola adornada com renda e laços, e mais renda na parte dianteira e nas mangas, e ao redor da cintura, uma fita longa verde escura que caía sobre a primeira camada da saia. A camada do meio era de linho verde, e a terceira voltava a ser de musselina, muito franzida. Cahoon era generoso e, como era natural, esperava que sua esposa tivesse um aspecto atraente e caro. Falava bem dele. Casou-se com a Elsa porque sabia conduzir-se em sociedade e dizer as coisas adequadas, e se dirigia a cada pessoa com correção. Era uma anfitriã excelente. Seus jantares sempre eram um êxito. Tinha o dom de ter sabor de quem convidar com quem. E nunca se queixava. Isso fazia parte do acordo ao qual tinham chegado.

"Acordo" era uma palavra horrível para descrever um matrimônio mas, tacitamente, isso era o que tinha sido, apesar dos turbulentos inícios físicos. E isso já era coisa do passado. Aborrecia-lhe do ponto de vista afetivo, o que era ao mesmo tempo doloroso (por humilhante) e uma espécie de alívio, porque ela já não o desejava tampouco. Era um homem inteligente e de aspecto imponente que lhe permitia levar uma vida de luxos, viagens e conversas com pessoas extremamente interessantes, homens que inventavam, exploravam e governavam por todo o império.

Elsa sabia que era objeto de inveja. Tinha visto a rápida chama de interesse nos olhos de outras mulheres, as faces acesas, as vozes agudas. Tinha desfrutado com isso. Quem não deseja ter o que outros tão claramente desejam?

Mas ao final do dia mais animado ou ostentoso, embora fosse breve e intimamente, sentia-se sozinha. Cahoon e ela não compartilhavam risadas nem sonhos. Ela não sabia o que o fazia sofrer ou o que despertava ternura, e ele tampouco parecia sabê-lo a respeito dela. Mas o que fazia mais profunda a ferida era o fato de que não queria sabê-lo.

Teria sido diferente a vida com Julius? De repente lhe assaltou o amargo pensamento de que se não amava a Minnie, talvez fosse porque não era capaz de amar a ninguém.

Foi uma longa e frustrante manhã solitária. Não foi ao salão dos hóspedes até pouco antes de comer. As paredes estavam forradas de brocado amarelo, a jogo com o dos sofás e os assentos das elegantes cadeiras de espaldar duro. Das enormes janelas, que chegavam quase à altura do ornamentado teto azul e branco, pendiam cortinas do mesmo tom. A cornija da lareira também era branca, com altos abajures azuis em cada extremo, o que dava um ar delicado e alegre a toda a sala. O tapete era azul pálido e marrom avermelhado. Os tons mais escuros eram os das superfícies das mesas colocadas no centro e contra a parede, ao alcance da mão para deixar um copo.

Elsa achou a Olga Marquand sozinha, com um traje de um tom ameixa que não harmonizava com sua tez escura. Deveria ter dado calor a seu rosto cítrico, mas por alguma razão não o conseguia. Tampouco o severo linho prestava suavidade a sua figura. Um franzido, um drapeado ou outra capa na saia talvez tivessem ajudado.

Olga era de estatura superior à média e muito magra. Com mais segurança em si mesmo teria tido estilo, mas ao olhá-la agora Elsa se deu conta do escasso espírito de luta que demonstrava. Não sabia enfrentar as pessoas e fazê-las acreditar que seus ombros quadrados e sua graça angular eram mais interessantes que as curvas mais tradicionais de uma mulher como Minnie. Tinha as maçãs do rosto altas e o nariz ligeiramente aquilino, o cabelo negro retirado da fronte com uma severidade clássica pouco corrente, e os olhos escuros, de pálpebras caídas. No dia que a tinha conhecido tinha acreditado numa beleza original. Agora a via nariguda e fria.

Olga se voltou ao ouvi-la entrar na sala.

— Soube de algo mais? - perguntou em voz baixa. Tinha uma voz bonita, até potente. — Quem morreu? A que vem tanto mistério?

— Minha criada me disse que uma das... mulheres da festa de ontem à noite -respondeu Elsa, mantendo a voz também baixa.

Olga arqueou as sobrancelhas.

— Como foi? Caiu bêbada pelas escadas?

Falou com profunda indignação e talvez também com dor. Elsa podia imaginar como se sentia ante a idéia de que seu marido tivesse estado disposto a ter entendimentos com essa classe de mulheres, embora só fosse para agradar ao príncipe de Gales. Talvez ele tinha acreditado não ter alternativa, se queriam assegurar-se de contar com o apoio do príncipe na obtenção do contrato de construção de uma ferrovia que percorreria como um espinho dorsal toda a África, desde Cidade do Cabo até o Cairo. Entendia-o Olga, ou lhe doía muito para que lhe importasse?

Elsa a olhou e pensou em quão diferentes eram. Deu-se conta com surpresa de que ela não estava indignada ante a idéia de que Cahoon se excedera com o brandy ou com as mulheres. Devia havê-lo estado a princípio, mas já não. A Olga importava até o extremo de não poder dissimular sua dor, nem sequer diante de outros. Tratava-se de algo mais que de autodomínio ou dignidade, ou de um golpe no orgulho. Ela ainda queria ao Simnel, apesar de tudo.

Olga a olhava esperando uma resposta. Estava zangada, talvez porque Elsa não estava tão doída como ela, ou talvez porque tinha sido Cahoon quem o tinha organizado tudo.

— No armário da roupa branca, acredito - disse Elsa em voz alta.

— Deve estar equivocada - disse Olga, zombadora. — Como vai matar se alguém dentro de um armário? Asfixiou-se com um montão de lençóis?

— Acredito que foi pior que isso, mas não sei.

Olga tratou de ocultar sua surpresa.

— Quer dizer que alguém o fez deliberadamente? Mas isso é absurdo. Por que ia alguém incomodar-se? - Derrubou infinito desdém na última palavra.

Deixa ver muito sua infelicidade, pensou Elsa. Isso não a faz mais atraente. Pelo contrário disse alto:

— Não sei. Mas os homens fazem um montão de coisas por razões que não entendo.

— Entre elas, convidar a mulheres assim a uma festa! - acrescentou Olga com amargura.

Liliane Quase entrou em meio de um redemoinho de saias verdes douradas, ligeira, etérea e feminina. Era formosa em um sentido abundante. Tinha a pele creme, o cabelo mogno escuro e os olhos castanhos dourados. Faltava-lhe um pouco de estatura para possuir verdadeira elegância, mas a maior parte do tempo o dissimulava com vestidos de corte hábil que lhe faziam parecer mais alta do que era. Nesse dia a segunda camada franzida lhe caía mais abaixo do normal e se abria para fora, com o que lhe viam as pernas mais longas. Pode ser que outra mulher percebesse o artifício, mas os homens não.

Elsa se surpreendeu sorrindo. Também sabia que Liliane levava saltos e tinha aprendido a caminhar com elegância sobre eles. Devia ter praticado muito.

— Pelo amor de Deus, Olga, terá que agradar ao príncipe de Gales! - exclamou com impaciência. — Provavelmente foi algo inofensivo, um simples alarde. Tudo é uma tolice, mas ainda mais idiota é permitir que isso a ofenda. Está dando mais importância do que tem. - Olhou ao redor procurando um aperitivo, mas não viu nada. — As mulheres que seguem sentindo-se ofendidas são muito aborrecidas, querida. Nada aborrece mais rapidamente a um homem. Segue meu conselho e finge que não se importa. Melhor ainda, não permita que lhe importe.

Olga tomou ar para soltar uma réplica mordaz, mas aparentemente não lhe ocorreu nenhuma.

— Elsa está insinuando que alguém a assassinou - comentou.

Liliane se voltou rapidamente para a Elsa com surpresa.

— Quem disse algo tão absurdo? - Falou em um tom completamente sereno, mas tinha os olhos brilhantes e o olhar anormalmente fixo. — Como a assassinaram?

— Não sei - admitiu Elsa. — Mas a acharam no armário da roupa branca.

— O armário da roupa branca! - exclamou Liliane. — Quem o fez, pelo amor de Deus? Provavelmente era uma garota estúpida e lhe deu um ataque de histeria. Atrever-me-ia a dizer que a infeliz estava grávida e tratou de se abortar ela sozinha. Suponho que logo o esclarecerão e poderemos voltar para o que importa. Ainda há muito que falar para nos assegurar de que Sua Alteza Real está à corrente de tudo.

— Estou certa de que conhece o mapa da África tão bem como nós - disse Olga. — É muito simples na realidade. Cidade do Cabo está na costa da África do Sul, que é britânica. Daí a ferrovia subiria através da Bechuanalandia, o território da Companhia Britânica da África do Sul. Só a extensão entre a África Oriental alemã e o Estado Livre do Congo está em mãos estrangeiras. Depois entramos na África Oriental britânica. Sudão poderia ser difícil, mas logo está o Egito, que é britânico, e já estamos no Cairo. O problema não são as questões diplomáticas. - Desprezou-as com um gesto. — É a engenharia. Deixemos que a polícia averigüe o que passou a essa mulher do armário. É absurdo que um incidente assim atrase a discussão de uma ferrovia que mudará a face do império. Com certeza todo dia morrem prostitutas de um ou outro modo.

— Isto não é de um ou outro modo - indicou Elsa. — É um armário de roupa branca do Buckingham Palace, a menos de vinte metros de meu quarto , e do seu, por certo.

— Querida - disse Liliane com forçada paciência, — deveria lhe ser tão indiferente como se estivesse na China. Pelo amor de Deus, esquece-o e se concentre em estar encantada com Sua Alteza Real. Provavelmente não é de boa educação mencionar o assunto e menos ainda que a veja desconcertada.

— Que vulgaridade! - exclamou Minnie da soleira. — Um hóspede nunca deve exteriorizar sua estranheza, aconteça o que acontecer. Bom dia, Elsa, senhora Marquand, senhora Quase.

Tinha um aspecto magnífico com seu vestido de manhã amarelo intenso, com uma saia longa de duas camadas que balançava quando se movia, e laços ao redor do pescoço e punhos. Tinha o viço da juventude na pele, cintilavam-lhe os olhos e irradiava uma classe de energia concentrada tão delicadamente controlada que parecia mais viva que todas as demais. As pessoas diriam que era um impulso interior, como se soubesse algo que ninguém mais sabia. Elsa às vezes se perguntava se era verdade.

— Sugiro-lhe que não o mencione - acrescentou Minnie, aproximando-se da porta da sala de jantar. — Onde estão os outros?

— É mais que uma desgraça doméstica - disse Elsa asperamente.

A insensibilidade de Minnie a irritava, assim como tudo o relacionado com ela em um ou outro momento. A intensa admiração que sentia seu pai por ela raiava à fascinação, como se fosse um reflexo dele. Mas a principal causa de sua aversão era que fosse a mulher de Julius.

— Não - a contradisse Minnie encolhendo os ombros. — As pessoas morrem. Não pode evitar-se. É de má educação lhe dar muita importância. Sentir-me-ia profundamente envergonhada se uma de minhas criadas morresse de uma forma vulgar tendo hóspedes na casa.

— É claro que sim - concordou Julius entrando do vestíbulo. — Morrer de forma vulgar é um privilégio exclusivo das classes superiores. Os criados deveriam morrer decentemente em seu leito.

— Não se faça de engraçado, Julius - replicou Minnie. — Não vai. De qualquer modo, ela não era uma criada, era uma...

— Onde deveriam morrer elas, querida? Na rua? - perguntou ele languidamente.

Ela abriu muito os olhos e o olhou.

— Não tenho nem idéia. Não é algo que tenha parado para considerar. - Voltou-se, fazendo virar a saia elegantemente com uma ligeira rabada, e entrou na sala de jantar.  Julius olhou a Elsa com um sorriso triste nos lábios, depois suspirou e seguiu a sua mulher.

A Elsa lhe fez um nó na garganta e o coração lhe deu um tombo.

A cena se interrompeu quando entrou Simnel. Embora fosse o meio-irmão do Julius, não tinham nada em comum. Julius era mais alto e mais largo de costas, e Elsa via mais imaginação e maior vulnerabilidade no contorno de sua boca que na do Simnel. Mas estava mais segura de seus sentimentos que de seu julgamento. Talvez isso fosse o que queria ver.

— Que demônios está acontecendo? - perguntou Simnel, olhando ao redor. — Quem são esses homens que estão fazendo perguntas e pondo histéricos os criados? Acabo de ver uma das criadas chorando e, ao ver-me , pôs-se a correr como se tivesse chifres e cauda.

Cahoon entrou lhe pisando virtualmente os calcanhares.

— Ocorreu um incidente muito desagradável - respondeu, como se a pergunta tivesse sido dirigida a ele. — Uma das prostitutas de ontem à noite foi assassinada. Infelizmente tivemos que chamar à polícia, mas se fizerem bem seu trabalho, em menos de um dia haverão resolvido o caso. Devemos manter a calma e seguir com o nosso. Entremos para comer. - Era uma ordem mais que uma sugestão. — Onde está Hamilton?

A Elsa desagradou o uso da palavra "prostituta". Soava cruel, sobre tudo quando seu marido estava sendo brutalmente sincero. Ela sempre tinha desdenhado a essas mulheres, mas agora que tinha morrido uma as via de outro modo. Era desagradável, até desconcertante, mas pelo bem de sua própria humanidade era preciso ver os pontos que tinham em comum antes que as diferenças.

Cahoon entrou na sala de jantar deixando que ela o seguisse com a Olga. O príncipe de Gales não ia reunir se com eles, como era natural, de modo que se prescindiu em parte das formalidades. Todos ocuparam o mesmo assento que no dia anterior, as mulheres com ajuda dos criados.

Essa habitação também era esplêndida, mas muito recarregada para o gosto da Elsa. Sentia-se diminuta ao lado dos enormes quadros com molduras tão largas que quase pareciam um elemento arquitetônico. O teto se estendia como o dossel de uma sofisticada carpa, criando a ilusão óptica de ser abobadado. Era formoso, mas não se sentia à vontade debaixo dele. Sem dúvida, não tinha vontade de comer.

Serviram a sopa em um silêncio incômodo antes que Hamilton Quase se reunisse com eles e ocupasse a única cadeira vazia sem fazer nenhum comentário. Era alto e esbelto, e rondava os cinqüenta. Tinha sido atraente em sua juventude, mas seu cabelo loiro tinha começado a clarear. Tinha o rosto queimado pelo sol e marcado por uma tristeza distraída, como se tivesse esquecido a causa exata ou tivesse decidido esquecê-la.

Liliane o olhou com ansiedade. O lacaio lhe ofereceu sopa e ele declinou, dizendo que esperaria o peixe. Mas aceitou o vinho branco e bebeu imediatamente de sua taça.

— A pessoa esperaria que um lugar como Buckingham Palace fosse seguro, não? -comentou desafiante. — Como demônios pôde penetrar um louco nele? Como pode entrar ou sair qualquer um a seu desejo?

— Não entrou ninguém - disse Cahoon. — Nem saiu ninguém.

Hamilton deixou a taça com tanta violência na mesa que derramou parte do vinho.

— Deus! Quer dizer que continua dentro?

— É claro que continua dentro! - replicou Cahoon. — Sempre esteve dentro!

Hamilton o olhou, empalidecendo.

— Está assustando às mulheres - disse Julius ao Cahoon com tom desaprovador. Olhou ao redor da mesa. — Não entrou ninguém nem entrará. Um dos criados deve ter perdido totalmente o controle e a golpeou, ou a estrangulou, ou o que fosse que fez. É uma tragédia, mas não nos incumbe. E não temos nada que temer. A polícia se ocupará disso.

Hamilton ergueu a taça em uma saudação e voltou a beber.

Liliane se relaxou um pouco e pegou o garfo.

— Esfaqueou-a - informou Cahoon enquanto o mordomo lhe punha diante o prato de peixe. — Cortou-lhe a garganta e... o corpo. Temo que vai ser um assunto desagradável.

— Como sabe? - perguntou Simnel mais intrigado que alarmado. Olhou a Minnie e de novo ao Cahoon.

— Encontrei-a eu - se limitou a dizer Cahoon.

Elsa se sobressaltou. Escorregou-lhe a taça de vinho dos dedos e a pegou bem a tempo de que se derramasse.

— Pensava que estava no armário de roupa branca!

— Que demônios estava fazendo em um armário às seis da manhã? – perguntou Julius com um leve sorriso. — Ou a qualquer hora, na realidade.

— A porta estava aberta - respondeu Cahoon asperamente. — Me chegou o cheiro.

Liliane enrugou o nariz.

— Se tivermos que falar disso, ao menos poderíamos deixá-lo para quando tivermos terminado de comer. Cahoon, agradecemos-lhe que te esteja fazendo encarregado de tudo, mas seu entusiasmo está ultrapassando o bom gosto cada vez mais. Preferiria comer o peixe sem saber os detalhes.

— Temo que não vamos poder escapar dos desconfortos – replicou Cahoon secamente. — Os criados não nos vão ser de grande utilidade por um tempo. Pode ser que alguns até se vão.

— A pessoa terá que fazê-lo forçosamente - indicou Julius.

Elsa quis rir, mas sabia que era mais por medo que porque achasse engraçado, e teria sido totalmente inapropriado. Engoliu a vontade de rir, fingindo ter se engasgado. Ninguém lhe prestou a mínima atenção.

— Isso demonstra o pouco que conhecemos às pessoas - murmurou Olga.

— As pessoas não conhecem seus criados - a corrigiu Minnie. — Só sabe deles.

— Se tivessem sabido algo dele, duvido que o tivessem contratado. - Julius a olhou com frieza.

— Imagino que acreditaram fazê-lo. - Cahoon começou a comer de novo. — Nunca sabemos tanto das pessoas como acreditam. - Olhou ao redor da mesa, detendo um momento em cada convidado. — Faz anos que nos conhecemos, mas não tenho nem idéia dos sonhos que passaram por sua cabeça, Julius. Ou pela tua, Hamilton. O que mais deseja neste momento, Simnel?

— Uma comida tranqüila e uma tarde produtiva - replicou Simnel imediatamente, mas se ruborizou ligeiramente e não olhou ao Cahoon nos olhos, e menos ainda a Olga.

Elsa sabia que estava pensando em Minnie. Provavelmente todos sabiam. Olhou a Olga de esguelha, e viu a palidez de seu rosto e o tecido do vestido que lhe estava ao redor de seus ombros afundados, e por um prolongado e desagradável instante odiou ao Cahoon por sua crueldade.

Minnie estava concentrada em seu prato e as pestanas faziam sombra em suas faces. Parecia radiante de satisfação.

— Esfaqueada? - perguntou Elsa em voz alta. — Quem levaria uma faca ao armário da roupa branca? Não tem sentido!

— Esfaquear a uma prostituta não tem nenhum sentido o faça onde o faça - disse Cahoon com brutalidade. — Como sem dúvida percebeu, não estamos procurando um homem cordato.

Ela se sentiu humilhada, mas não lhe ocorreu nada que dizer. É claro que sabia que não era um ato de prudência. Tinha sido um comentário impulsivo.

Estranhamente foi Hamilton Quase quem a defendeu.

— Alguém que está bastante cordato para fazer-se passar por um criado de palácio provavelmente parece cordato em quase tudo o que faz - disse com ar despreocupado, como se estivessem falando de um jogo de salão. — Se tivesse subido e descido as escadas com o olhar extraviado e as mãos manchadas de sangue, alguém se teria dado conta.

— Caso estivesse sóbrio - disse Olga mordazmente. — E que não estivesse fazendo o mesmo! Algum de vocês esteve bastante sóbrio ontem à noite para notar algo?

— Que pouco amável, querida - respondeu Hamilton, agarrando a taça de novo.              — Não deveria recordar a um homem seus enganos, e menos diante de sua mulher.

— Ela é a única pessoa com quem está totalmente a salvo - disse Cahoon olhando para Liliane, sentada em frente.

Liliane tinha os olhos muito brilhantes e as faces ligeiramente acesas. Ela também pareceu procurar em vão algo que dizer. Por um momento lhe escureceu o rosto, certamente de ódio. Depois, como se houvesse tornado a sair o sol, animou-se.

— É claro - disse com seu encantador sorriso. — Não somos todos leais à família e aos amigos? Uma coisa assim não é digna de menção.

Julius aplaudiu sem fazer ruído, mas a ninguém passou por cima o gesto.

Minnie se estremeceu.

— É horrível pensar nisso. - Olhou a seu pai, dando de ombros com elegância e desviando-se ao olhar de todos menos ao dele. — Espero que o encontrem logo.

— Enquanto isso, não esteja com nenhum criado no armário da roupa branca - lhe disse Julius. — Deve estar segura.

Cahoon ficou imóvel, com o rosto vermelho.

— O que disse? - perguntou com tom gélido.

Julius empalideceu ligeiramente, mas repetiu as palavras exatas lhe sustentando o olhar.

Cahoon se inclinou para diante para levantar-se e derramou uma taça de água sobre a toalha, mas não se alterou. Elsa sabia que devia intervir, mas seu marido lhe assustava quando perdia o controle. Tratou de falar, mas tinha a boca seca e a garganta constrangida.

— Está falando de minha filha! - exclamou Cahoon. — Pedirá desculpas a ela e a todos os pressentes, ou farei açoitá-lo!

— Não, senhor - o corrigiu Julius. — Estou falando de minha mulher. Acredito que às vezes se esquece. É evidente que ela às vezes o faz.

Por uma vez Minnie se ruborizou.

Cahoon tinha o rosto aceso, os olhos cintilantes.

— Sente-se e não faça ridículo - disse Hamilton Quase com calma e um tom ligeiramente zombador. — Ninguém vai deixar se enganar por isso. Todos estamos assustados. Um louco anda solto pelo palácio e poderia vir de baixo, socialmente falando, mas não há nenhuma barreira física nas escadas que lhe impeça de subir aqui acima quando desejar muito, como o demonstra o fato de que encontrassem a infeliz no armário da roupa branca de nosso patamar. A polícia veio para fazer seu trabalho e levará o responsável o antes possível.

Cahoon se voltou para olhar ao Hamilton com frieza.

— Tem alguma idéia do que está dizendo, Hamilton? Eu vi o corpo da mulher! Nunca viu nada igual. Ou possivelmente sim. Quanto tempo passou na África?

Liliane pegava o garfo de peixe como se fosse uma arma, com os dedos brancos. Olhou ao Cahoon com ódio.

— O tempo suficiente para demonstrar coragem e resolução ante a tragédia, senhor Dunkeld, e dar ajuda em lugar de piorar as coisas perdendo o controle ou o julgamento -respondeu Liliane com voz poderosa. — Quanto tempo esteve você?

Hamilton a olhou com certa surpresa, e uma repentina e entristecedora ternura nos olhos. Depois se voltou para o Cahoon.

Elsa se perguntou do que estavam falando. Viu Julius abrir muito os olhos e Hamilton ruborizar-se. Referiam-se a um incidente em concreto. Minnie, Olga e ela estavam totalmente confusas.

Cahoon voltou a sentar-se devagar.

Elsa se surpreendeu tremendo de alívio.

Os criados, que tinham retrocedido, reataram seus silenciosos deveres, e um a um, todos começaram a comer de novo.

Amontoavam as idéias na cabeça de Elsa. A que se referiu Cahoon? Tinha sido uma espécie de ataque contra Hamilton e Liliane tinha saído em sua defesa, como fazia com muita freqüência. Contra o que? Segundo Cahoon, uma mulher da rua tinha morrido assassinada onde estavam alojados e todos tinham medo. Mas todos tinham medo do mesmo ou era um medo diferente para cada um?

Serviram o prato principal. Cahoon voltou a trazer o assunto da grande ferrovia. Todos eles contribuíram seus conhecimentos e sua experiência para falar das dificuldades com que poderiam topar.

Simnel era um financista brilhante na hora de atrair recursos nas melhores condições. O que tinha que dizer era em muitos sentidos árido: listas de banqueiros e pessoas enriquecidas que estariam dispostas a investir. A abundância de informação e sua memória para os detalhes impressionavam. Não só sabia o que tinha cada um mas sua história, e, se o propunha, podia ser divertido ao explicar.

Dirigiu-se sobre tudo ao Cahoon, mas abrangeu a tudo com o olhar. Quando olhou a Olga o fez com naturalidade, como olharia a Elsa e ao Liliane, nada mais. Quando olhou a Minnie houve certo ardor em seus olhos e os desviou rapidamente, como se soubesse que se traira a si mesmo.

Não olhou em nenhum momento ao Julius. Elsa se perguntou se era culpa, porque Minnie era sua esposa, ou algo mais profundo e que vinha de mais longe. Queria a Minnie para ele ou só porque ao tomá-la fazia cornudo a seu irmão?

Passaram a falar de uma das etapas da viagem mais difíceis do ponto de vista diplomático, que como tinha dito Minnie, achava-se entre a África Oriental alemã e o Estado Livre do Congo. Julius explicou brevemente que era um problema político e logístico. Sua arte consistia em persuadir, em sugerir um compromisso, em conhecer as aspirações e os temores de cada nação, seus pontos fortes e fracos, para poder oferecer uma solução que deixasse satisfeitas a todas as partes implicadas.

Elsa o escutou com atenção e só afastou o olhar de seu rosto quando notou que Cahoon a observava e que Minnie sorria. Julius não a tinha olhado uma só vez.

Temia deixar ver algo muito íntimo ou muito delicado? Ou simplesmente não tinha nenhum desejo de fazê-lo? Quanto do que recordava era só coisa de sua imaginação ou de seu desejo, uma fome urgente, enquanto que para ele era simples cortesia, talvez inclusive algo embaraçoso?

Minnie estava cheia de vida. Cahoon a observava pensativo mas com os olhos brilhantes de satisfação.

Ele era quem organizava o trabalho e os empregados. Tinha visão de futuro para planejar o traslado da maquinaria, a madeira e o aço. Sabia onde comprá-los e aonde transportá-los. Apaixonava-lhe o projeto e a emoção ressoava em sua voz. Parecia irradiar energia.

Minnie se voltou para ele para observá-lo atentamente.

Descrevia o que seria o espinho dorsal da África do Cabo de Boa Esperança, que afastava o Atlântico Sul do índico, até o delta onde o Nilo vertia suas águas no Mediterrâneo, quase doze mil quilômetros cruzando o Equador. Elsa não podia evitar ver-se estimulada também pela visão.

Por último falou Hamilton. Ele era o engenheiro. Não só sopesava e decidia as questões mais óbvias, mas sim podia dar saltos laterais na imaginação, expondo possibilidades que ninguém mais tinha contemplado, resolvendo problemas e inventando novas formas de fazer as coisas. Falou bem, com um humor seco e auto desaprovatório. Era uma pose, como se tivesse mostrado a vulgaridade da auto-emulação ? Ou tinha realmente em tão pouca estima suas aptidões?

Elsa olhou para Liliane para ver se também o tinha notado e viu medo, mas não sabia do que. Logo desejou não havê-lo entendido tão claramente. Sentiu-se culpada pela intrusão.

Na realidade não lhe interessavam os fatos. Desejava que o projeto saísse adiante porque era o que queriam os homens. Reportar-lhes-ia uns benefícios econômicos enormes, e ainda mais, proporcionar-lhes-ia indevidamente fama e honras. Sabia que isso era o que Cahoon desejava.

Olhou-o, sentado de novo, com suas largas costas um pouco encurvadas como se a jaqueta o constrangesse, o rosto concentrado.

Procurava reconhecimento, um título de nobreza. Estava desejando passar a formar parte do círculo do príncipe de Gales. Era o círculo mais elevado do país, dado que a rainha já não tinha nenhum. Tinha vivido virtualmente encerrada desde a morte do príncipe Alberto, fazia mais de três décadas.

Elsa olhou ao outro lado da mesa onde Minnie observava a seu pai. Viu afeto em seu rosto, e tranqüilidade em seus olhos e em sua boca, mas não estava de todo relaxada. Estava muito concentrada.

Todos fingiam estar absortos nos detalhes do grande plano, mas quantos deles não estavam mais atentos a seus próprios desejos, por debaixo do interesse? Por que Minnie achava ao Simnel atraente? Era para demonstrar seu poder porque não achava em seu marido a paixão que procurava?

A Elsa assaltaram os remorsos. Imaginou no lugar da Minnie, casada com o Julius. De cara ao mundo exterior teria toda a felicidade que podia desejar uma mulher. Ela mesma a invejava! Mas talvez também estivesse sozinha, rodeada de pessoas amealhadas mas com quem não tinha conexão nem mental nem emocional, uma proximidade sem intimidade. Quantas pessoas viviam assim?

Alguém lhe falava, mas Elsa não o tinha ouvido. Era Cahoon e estava zangado porque não o escutava. Era uma falta de respeito. Doía-lhe algo mais que sua vaidade? Queria que ela o quisesse. Mas por que? Pelo poder que isso lhe dava, para alimentar seu ego? Ou porque ele também desejava ternura, alguém com quem compartilhar as alegrias e as penas?

— Elsa! - A voz soou áspera.

Devia prestar atenção.

— Sim, Cahoon?

— O que lhe passa? - perguntou ele. — Encontra-se mal?

— Não. - Devia pensar rapidamente em uma mentira. — Me perguntava se a polícia estava fazendo progressos.

— Vieram dois homens, e da Brigada Especial - a corrigiu ele. — Ao parecer são mais discretos que os agentes comuns. Perguntei-lhe se você gostaria de me acompanhar ao Cairo quando formos a ali para ultimar os detalhes.

Ela se perguntou no ato se Julius também iria. Referia-se aos detalhes diplomáticos ou aos de engenharia? Não o perguntou. Queria estar perto do Julius ou não? Desejava experimentar a solidão intensificada, a incerteza? Ter a certeza de que ele a amava lhe encheria o coração. Seria desesperadamente doce, entristecedor. Mas nunca poderiam fazer nada a respeito. Ele estava casado com sua enteada. Não podia sair felicidade de uma traição dupla. Ou descobriria que ele não a amava, mas sim só a desejava, como Simnel tinha desejado e parecia seguir desejando Minnie, com uma avidez cheia de ressentimento porque era uma espécie de escravidão? Isso só aumentaria o vazio interior. Queria averiguar se ele era mais superficial do que achava, se valia menos? Pior ainda, se ela mesma valia menos?

— Elsa, controle-se! - exclamou Cahoon. — Quer me acompanhar ou não?

— É claro - respondeu ela, porque não lhe ocorreu nenhuma desculpa para não ir. Ou talvez porque não podia deixar escapar a oportunidade de passar tempo com o Julius, a qualquer preço. Ia contra toda lógica, mas tinha escolhido sem titubear.

Tinha a sensação de que Minnie e ela viviam em mundos à parte, tão diferentes entre si que não havia possibilidade de entendimento entre as duas. Mas talvez estivesse equivocada e em realidade ela era igual a Minnie, e só as diferenciava que o fazia tudo com menos uso.

 

Foi uma tarde deprimente. Os homens reataram suas discussões, às quais por volta das três da tarde se uniu o príncipe de Gales, muito sério e formal. Elsa falou brevemente com ele, mas lhe notava que seguia sob os efeitos de uma noite de excessos e da surpresa mais espantosa. Ele a saudou com sua cortesia habitual, mas se limitou a lhe perguntar se estava bem e a lhe desejar uma boa tarde. Ela não pôde evitar perceber o alívio em seu rosto quando viu o Cahoon aproximar-se dele sorridente e com um aprumo em seu andar e no gesto de seus ombros que sugeria que era dono da situação. Não havia nada que temer, depois de tudo.

É claro que não, disse-se ela. Era trágico para a mulher envolvida e extremamente desagradável, mas nada mais.

Passou a tarde passeando sozinha pelos jardins, e depois jogando cartas com Olga, que parecia ter os mesmos problemas que ela para concentrar-se. À hora do chá, conversou com Liliane, sobre tudo de fofocas que a nenhuma das duas interessava. Nunca lhes tinha importado muito quem havia dito o que a quem.

Por volta das seis e quinze Bartle foi ao quarto de Elsa para lhe dizer que a polícia queria falar com ela.

— Comigo? - Elsa se sobressaltou. — Por que? Não tenho nem idéia do que aconteceu.

Bartle tinha uma expressão sombria.

— Não sei, senhorita Elsa. Mas ele e o outro homem passaram toda a tarde falando com todos os criados. Acaba de falar com a senhora Quase e agora gostaria de falar-lhe. Acredito que aconteceu algo, senhora.

Mais intrigada que perturbada, Elsa abriu a porta da pequena saleta. O homem que achou nela era mais alto do que tinha esperado, mas pelo resto bastante comum, se não fosse pelo brilho de inteligência que viu em seus olhos. Não levava nem barba nem bigode. Tinha o cabelo encaracolado e muito longo, e em seguida se fixou em que lhe pendia um lado da jaqueta, certamente devido a algo grande que levava no bolso direito. Tinha o colarinho da camisa torcido e a gravata muito frouxa. Parecia cansado.

— Boa tarde - disse ela fechando a porta. — Soube que quer falar comigo.

— Sim, senhora Dunkeld - respondeu ele, retrocedendo uns passos para lhe deixar passar e escolher a cadeira que queria. — Sou o inspetor Pitt.

Ficou surpreendida. Tinha uma magnífica voz grave, com o timbre e a pronúncia de um homem educado, o que era impensável ou não trabalharia em algo assim. Todo mundo sabia que, com a exceção dos cargos mais altos, os policiais provinham de extratos sociais baixos. Inclusive os criados os desdenhavam.

Ela se sentou em um dos pequenos sofás e ordenou as saias de seu vestido de tarde.

— Não posso lhe ajudar - disse educadamente. — Sei muito pouco do palácio. É a primeira vez que me alojo nele e faz apenas dois dias que cheguei.

— Sim, sei, senhora Dunkeld. - Ele se sentou frente a ela, o que pareceu direto e mais intimidante. — Está à corrente do que aconteceu aqui ontem à noite?

Ela se deu conta de que estava preocupado, como se se visse obrigado a dizer algo que ia angustiá-la, e quis tranqüilizá-lo.

— Sim. Uma das mulheres que foram à festa de ontem à noite morreu assassinada.

Ele pareceu surpreender-se de sua franqueza. Elsa se perguntou se tinha temido que não soubesse a classe de mulheres que eram.

— Levam todo o dia interrogando aos criados para averiguar quem é o responsável -acrescentou. — Espero que já o tenham feito. A razão pela que somos hóspedes de Sua Alteza Real concerne a um assunto de suma importância. Seria muito melhor que os cavalheiros pudessem seguir com isso sem mais inquietações.

Escolheu as palavras com todo o tato possível, deixando no ar a compaixão que sentia pela a mulher falecida assim como os incômodos que supunha sua morte. Não soube dizer pela expressão do Pitt se o tinha entendido. Em seus olhos viu um brilho de humor que poderia ter significado algo. Desconcertou-lhe não poder lhe ler o pensamento tão rapidamente como tinha esperado.

Ele a olhava sem pestanejar, ligeiramente carrancudo.

— A prostituta que o príncipe escolheu foi encontrada esta manhã no armário da roupa branca - disse. — Receio que estava totalmente nua e que tinha sido apunhalada.

Elsa ficou aniquilada. Por um momento teve dificuldades para respirar. Cahoon tinha mencionado uma faca, mas ela acreditou que estava sendo deliberadamente brutal. Na boca desse homem tranqüilo com os bolsos avultados e um olhar fixo, a morte da mulher tinha adquirido de repente uma realidade surpreendente. Começou a falar, mas se deu conta de que não sabia o que queria dizer.

— Interrogamos a todos os criados - continuou Pitt — e chegamos à conclusão de que nenhum pôde fazê-lo.

Por um momento ela não compreendeu.

— Quer dizer que entrou alguém? - perguntou com incredulidade. — Mas se estamos no Palácio! É impossível. Ou está dizendo que foi um dos guardas? Custa-me acreditar. Tem certeza?

— Não entrou ninguém, senhora Dunkeld. Os guardas responderam uns dos outros. Este é o tipo de crime que um homem comete só.

— Quer dizer que foi...? - Não quis utilizar as palavras necessárias para explicar-se. Por que tinha suposto que o crime se cometeu em um arranque de ira? Dada a ocupação da mulher, podia dar-se como claro que ganhara seus honorários. — Pobrezinha - acrescentou, imaginando pelo que tinha passado.

Involuntariamente evocou os momentos de intimidade com Cahoon em que tinha sido consciente de sua falta de defesa e se assustara, até tinha sofrido danos físicos. Ele tinha desfrutado com sua dor, de repente estava certa. Tinha-lhe excitado.

— Sinto muito.

O policial se desculpava. Tão transparente era? Notou que lhe ardia o rosto. Graças a Deus o homem o tinha tomado por modéstia. Estava permitindo que a intimidasse.

Cahoon se indignaria.

— Sou perfeitamente capaz de confrontar os fatos, senhor Pitt - disse com aspereza. — Por desagradáveis que sejam. Não vivi toda minha vida em um salão.

Se ele a compreendeu, não se refletiu em sua expressão salvo talvez em um vislumbre de compaixão.

— Não entrou ninguém, senhora Dunkeld. Temo que só fica a possibilidade de que fosse um dos hóspedes.

Ela o olhou surpreendida. Isso era incrível.

— Quer dizer um de nós? - Sua voz soou aguda; negava-se a aceitá-lo. — Isso é absurdo!

Mas inclusive enquanto lhe brotavam as palavras, soube que não o era. Toda classe de pessoas têm paixões sob sua aparência disciplinada, até que o medo ou a avidez as torna momentaneamente incontroláveis. Em geral se pronunciam palavras violentas, ou se rompe algo formoso ou valioso em um arrebatamento. O que impede que seja um ser humano? Os convencionalismos e o medo ao castigo. Toda vida humana deve considerar-se sagrada ou a própria vida poderia estar em perigo. Mas as mulheres que vendem seu corpo contam como vida humana no mesmo sentido? E se for certo que contam, é lícito que alguém o compre?

Ele a observava.

— Não sei nada que possa lhe ajudar, senhor Pitt - disse com toda a firmeza de que foi capaz. — Como já deve saber, os cavalheiros ficaram na festa e nos retiramos cedo. Não tornei a ver ninguém até que minha criada me despertou esta manhã e me disse que tinha ocorrido uma tragédia e que nos pediam que ficássemos na habitação.

— Sabe a que hora se retirou seu marido? - perguntou ele.

Devia estar à corrente de que dormiam em quartos separados. Era algo muito habitual entre os ricos, mas não para a classe social a que ele pertencia, imaginou Elsa.

— Não, não sei - respondeu. — Talvez se perguntar a outros cavalheiros eles possam dizer-lhe.

Sem contar o príncipe de Gales, e que ele fosse o culpado era inimaginável, só eram quatro: Cahoon, Julius, Hamilton e Simnel. O que dizia esse policial parecia inelutável e ao mesmo tempo era ridículo. O não os conhecia, ou jamais lhe teria passado pela cabeça.

Mas até que ponto os conhecia ela? Estava há sete anos casada com Cahoon e vivendo sob o mesmo teto, às vezes de forma íntima, outras como dois completos desconhecidos, interpretando mal, dizendo umas palavras e querendo dizer outras. Ela conhecia a mente do Cahoon. Era lúcida. Mas nunca tinha conhecido seu coração.

Hamilton Quase era encantador quando queria, mas era evidente que Liliane temia por ele. Lançava-se a defendê-lo como se fosse muito vulnerável. Recordou os olhares que cruzaram Julius e ela, a repentina palidez do Hamilton, o sorriso do Cahoon, que em seguida se havia posto sério e trocado de assunto de forma forçada.

— Ajudar-lhe-ia se estivesse em minha mão, senhor Pitt - disse, lutando para parecer resoluta e dona de si mesma. — É horrível o que ocorreu, para todos nós, mas sobre tudo, como é lógico, para a pobre mulher. Eu me retirei pouco depois das nove. Não tenho nem idéia do que aconteceu. Terá que perguntar a meu marido e a outros cavalheiros.

— Já o fiz, senhora Dunkeld - replicou Pitt. — Todos afirmam que depois da... diversão se retiraram sós. Exceto o senhor Sorokine, que diz que partiu antes, e todos o confirmam, assim como os criados. Por desgraça, como não compartilha dormitório com a senhora Sorokine e não voltou a vê-la até a manhã seguinte, isso não nos serve para excluí-lo.

Ela notou que lhe ardia o rosto.

— Entendo. De modo que não sabe nada além de que fomos um de nós.

— Sim. Receio que isso é exatamente o que quero dizer.

A ela não lhe ocorreu nenhuma resposta, nem sequer um protesto ou uma pergunta. O silêncio se estendeu pela sala como um sudário.

 

No dia que descobriu o assassinato no palácio, Gracie Phipps estava há quase oito anos como criada para tudo na casa dos Pitt. Agora tinha vinte e um e estava noiva do sargento de polícia Samuel Tellman. Gracie se sentia profundamente orgulhosa de trabalhar para um homem tão extraordinário como Pitt. Não tinha nenhuma dúvida de que era o melhor detetive da Inglaterra.

Quando chegou não estava nem há metro e meio do chão, e não sabia ler nem escrever, nem se tinha exposto nunca tentá-lo. Mas Charlotte Pitt se ofereceu para lhe ensinar. Agora Gracie não só podia ler os jornais mas até livros. Mais ainda, desfrutava fazendo-o. Também tinha crescido quatro centímetros.

Lia em seu quarto da água-furtada com as janelas abertas, ouvindo o sussurro das folhas e o longínquo ruído do tráfego, quando alguém bateu na porta. Ficou surpreendida. Fora estava escuro e devia ser tarde. Tinha perdido a noção do tempo, imersa na aventura que relatavam as páginas.

Levantou-se rapidamente para abrir.

Charlotte estava no patamar, ainda vestida mas com o cabelo mal recolhido, como se se tivesse penteado com pressa.

— Sim, senhora? - disse Gracie com certo alarme. — Acontece algo? - Em seguida recordou que tinham chamado Pitt para uma emergência muito cedo essa manhã. Não tinham sabido nada dele depois. — Está bem o senhor Pitt?

— Perfeitamente, acredito - disse Charlotte com um sorriso estranhamente triste.            — O senhor Narraway, da Brigada Especial, quer vê-la. Tem algo que lhe perguntar.                  – Sua expressão se suavizou. — Por favor, é livre de responder o que quiser. Diga o que disser, parecer-me-á bem e me ocuparei de que se respeite sua decisão.

— O que... vai dizer-me? - perguntou Gracie, presa de um crescente pânico. Sabia que Narraway era o superior do Pitt. Era um homem estranho, de falar suave e elegante apesar de seu aspecto magro e muito moreno. Gracie tinha visto homens duros no East End de Londres onde tinha crescido, homens que levavam uma navalha e sabiam utilizá-la, mas não os teria defendido em uma briga contra o senhor Narraway. Havia algo nele que só um néscio desafiaria. Exceto quando olhava à senhora Pitt. Então era tão humano e vulnerável como qualquer um. Gracie pensou que talvez fosse a única que se dava conta disso. Era estranho o que às pessoas passavam freqüentemente por alto. — O que quer de mim? - insistiu.

— Desça e o averiguará - respondeu Charlotte. — Não vou dizer ao chefe da Brigada Especial que não quer vê-lo!

Gracie pensou em seu cabelo, liso como a chuva e enroscado no alto da cabeça, e em seu traje azul marinho, que estava bastante enrugado. Pensava vestir outro limpo no dia seguinte, de modo que se tinha sentado tranqüilamente em cima dele.

— Desça tal como está. - Charlotte devia lhe haver lido os pensamentos. — Lhe importarão menos as rugas que ter que esperar.

Isso era alarmante. Gracie alisou a saia inutilmente com mãos trêmulas. Depois seguiu Charlotte pelo patamar, diante das portas da Jemima e Daniel, os dois filhos dos Pitt, e escada abaixo até o vestíbulo.

Narraway esperava no salão dianteiro. Parecia muito cansado. Tinha o rosto sulcado de rugas, e seu cabelo abundante e moreno salpicado de cãs se via menos limpo que de costume. Estava muito inquieto para sentar-se.

Gracie se endireitou.

— Sim, senhor?

Charlotte fechou a porta e Gracie confiou que ficou dentro, mas não se atreveu a voltar-se para comprová-lo.

— Senhorita Phipps - começou a dizer Narraway, — o que lhe vou dizer guardará para si com a mesma discrição que tudo o que sabe desta casa. Compreendeu-me?

— Sim, senhor! Sei o que é a discrição - replicou Gracie indignada. — Não falo de coisas que não incumbem a ninguém.

— Bem. Chamaram ao senhor Pitt esta manhã porque se cometeu um assassinato no Buckingham Palace, onde vive a rainha. Felizmente, ela não se encontra ali neste momento. Mas está o príncipe de Gales.

Gracie o olhou petrificada.

— Mataram a punhaladas a uma prostituta - continuou Narraway. — E deixaram seu corpo no armário da roupa branca da ala dos hóspedes, onde se estão alojando oito pessoas. Estão ali para tratar de um assunto extremamente importante com sua Alteza Real.

— E o senhor Pitt tem que averiguar quem a matou - terminou Gracie por ele. — Não se preocupe, senhor. Poderemos-nos arrumar aqui.

— Estou seguro, senhorita Phipps. - Narraway assentiu levemente, com um breve brilho de humor nos olhos. — Mas isso não é o que a nação requer de você.

Charlotte deixou escapar um suspiro.

Narraway se ruborizou ligeiramente, mas não se voltou para olhá-la.

— O que quer dizer com a nação? - perguntou Gracie, totalmente desconcertada.            — Eu não posso fazer nada.

— Sugiro-lhe que vá ao ponto, senhor Narraway - atravessou Charlotte por fim. — Se me permite dizer-está perdendo tempo e é tarde.

Narraway parecia desconfortável. Tinha notado uma nota distante na voz de Charlotte e Gracie compadeceu-se dele. Deixou de sentir-se intimidada por ele. Tinha ouvido dizer que nenhum homem era um herói para seu valete. Talvez tampouco o era para uma criada que podia ler nele sentimentos que o tornavam tão estranhamente vulnerável.

— O que quer de mim, senhor? - perguntou com suavidade.

No rosto de Narraway transpareceu uma onda de gratidão, logo desapareceu.

— Eu gostaria que trabalhasse temporariamente nem Buckingham Palace, senhorita Phipps. Já lhe procurei um posto como ajudante de cozinha e limpeza. Ninguém saberá que na realidade está trabalhando para a Brigada Especial, ajudando ao senhor Pitt, exceto o senhor Tyndale, que é o responsável pela criadagem nessa ala. É uma tarefa difícil e certamente perigosa. Um dos hóspedes é o assassino. Necessitamos a alguém em cuja discrição e aptidões possamos confiar plenamente, e não tenho a nenhum homem a minhas ordens que possa passar por criado. Descobrir-no-iam em meia hora. A você não. Pitt diz que é observadora e digna de confiança. Só serão uns dias, quando muito. Temos que resolver este crime antes que Sua Majestade volte do Osbome.

Olhou-a fixamente.

— Se isto se fizer público, o escândalo será enorme. Fá-lo-á? Informará ao senhor Pitt e fará tudo o que lhe diga ao pé da letra?

— Não tem por que fazê-lo, Gracie - o interrompeu Charlotte rapidamente. — É perigoso. Esse homem já degolou a uma prostituta. É livre de dizer que não e ninguém pensará mal de você.

Gracie tremeu a voz.

— Isso não é certo, senhora. Todos pensarão mal de mim, sobre tudo eu. Tenho que ajudar ao senhor Pitt.

— E Sua Majestade - acrescentou Narraway.

Gracie endireitou os ombros e se esticou tanto como podia.

— E a essa pobre desgraçada a que mataram. Quem vai fazer lhe justiça se não o fizermos nós?

Narraway engoliu a saliva e pigarreou. Em seu rosto apareceu um vislumbre de sorriso.

— Ninguém, senhorita Phipps. Estamos profundamente agradecidos. Seria amável de fazer uma bolsa com o que vá necessitar? Eles lhe proporcionarão os uniformes. Esperarei e a levarei ali esta mesma noite. Quanto antes começar, melhor.

Gracie se voltou para Charlotte e esquadrinhou seus olhos antes que suas palavras, para assegurar-se de que queria realmente que fosse.

— Por favor, Gracie, cuide-se - sussurrou Charlotte. — Sentiremos sua falta, mas será por pouco tempo.

— E sobre a lavagem de roupa? - perguntou Gracie em um último esforço de aferrar-se à segurança.

— Pedirei à senhora Claypole que venha um dia extra - respondeu Charlotte. — Não se preocupe. Você vá ajudar ao senhor Pitt. Acredito que a necessita muito mais que eu neste momento.

— Sim. É claro que o farei - disse Gracie, sentindo o pulso de repente no pescoço.

"Observadora e digna de confiança", haviam-na descrito. As palavras ardiam como uma chama em seu interior.

 

Uma hora depois, Gracie se achava em Buckingham Palace, e o senhor Pitt lhe apresentava ao senhor Tyndale. Achavam-se na sala da governanta, mas a senhora Newsome não estava. Não devia inteirar-se do encargo de Gracie. Só o senhor Tyndale estava à corrente e essa situação de precário equilíbrio ia requerer certa habilidade. Nesse momento o senhor Tyndale explicava à Gracie suas tarefas e as normas básicas de comportamento que deviam cumprir os criados.

— Isto vai ser totalmente diferente de qualquer posto que tenha tido até agora - disse o senhor Tyndale com cautela, vendo suas costas retas como uma vara e sua figura tão miúda que devia cortar todos os uniformes para que não tropeçasse com as saias. Tinha tido que fazer um esforço para dissimular sua incredulidade ante o fato de que estivesse realmente ali em nome da Brigada Especial.

— Sim, senhor.

Não tinha intenção de lhe dizer que tinha ido a casa dos Pitt aos treze anos e nunca tinha trabalhado para ninguém mais. Ele não era tampouco muito corpulento, e também endireitou os ombros e se ergueu um par de centímetros mais dos que realmente media.

— Não falará com nenhum dos hóspedes a menos que se dirijam antes a você, entendido? - continuou com gravidade.

— Sim, senhor.

— E sob nenhum conceito falará em presença de Sua Alteza Real nem da princesa de Gales ou de qualquer outro membro da casa, se chegar a servir o jantar aos hóspedes. E isso inclui as damas e os gentis-homens de câmara.

— Sim, senhor.

— Realizará afazeres domésticos comuns como varrer, tirar o pó, encerar móveis ou ir procurar o que lhe peça. Levará touca e avental em todo tempo. Falará com os criados só se o requererem seus deveres, e não haverá risinhos nem paqueras nem nenhuma tolice por sua parte...

— A senhorita Phipps está aqui em nome da Brigada Especial, senhor Tyndale - o interrompeu Pitt com frieza. — Necessita instruções sobre a etiqueta de palácio, não sobre como conduzir-se com dignidade. Conviria que recordasse que é você quem precisa de sua ajuda neste desafortunado incidente, e que ela tem direito a esperar que você a proteja enquanto me ajuda a averiguar o mais rápida e discretamente possível a verdade.

Tyndale se ruborizou.

— Pode contar comigo, inspetor - disse com rigidez. — Se a ofendi em algo, senhorita Phipps, rogo-lhe que me desculpe. Ada lhe mostrará seu quarto. Encarreguei-me que não tenha que compartilhá-lo com ninguém. Imagino que poderia tornar mais difícil seu trabalho.

— Obrigada, senhor Tyndale.

Estava sinceramente agradecida. Já ia ser bastante difícil receber ordens todo o dia, para ter que compartilhar além disso o quarto. Deu-se conta com um sobressalto de quão acostumada estava a trabalhar a seu desejo. Parecia que tinha transcorrido muito tempo desde esse dia em que tinha chegado a casa dos Pitt, uma menina desajeitada e desalinhada a que tinham tido que ensinar virtualmente tudo. Agora que levava a casa, que sabia ler e escrever, e que estava noiva, estava a ponto de converter-se em uma mulher totalmente respeitável.

Voltou-se para Pitt.

— Como o aviso se averiguar algo, senhor?

— Buscá-la-ei eu - prometeu Pitt. — E... obrigado, Gracie.

Ela sorriu de orelha a orelha, depois, consciente do pouco apropriado que era, virou sobre seus calcanhares e saiu ao corredor para esperar a Ada, que devia lhe mostrar seu dormitório.

Ada era uma jovem atraente de cabelo muito loiro, e pele clara e viçosa. Olhou para Gracie com pouco interesse. A expressão de seu rosto dava a entender que uma garota tão miúda e magra não podia supor uma ameaça a seu posto na hierarquia, nem era provável que se convertesse em companheira de grandes diversões.

— Vamos - disse bruscamente, estabelecendo com uma só frase sua superioridade na ordem das coisas.

O estreito quarto, desenhado em realidade para acomodar a duas pessoas, achava-se no alto das escadas. Estava bem situado, e a janela oferecia uma vista de copas de árvores até os longínquos telhados da cidade. Gracie agradeceu a Ada e assim que a porta se fechou atrás dela, tirou da bolsa seus poucos pertences e os pôs na cômoda que havia ao pé da cama. Mal tinha terminado quando bateram na porta. Outra criada, que se apresentou como Norah, trouxe-lhe um uniforme escuro, que parecia do tamanho adequado, e uma touca e um avental recém engomados e com um bonito cós de renda.

— Chamarei as seis - disse alegremente enquanto saía.

Mas apesar de quão cansada estava Gracie, foi-lhe quase impossível dormir. Voltou-se para um lado, logo para o outro, e finalmente se deitou de barriga para cima e olhou o teto. Estava em Buckingham Palace! Ela, Gracie Phipps, achava-se ali em uma missão especial para o senhor Pitt. Alguém tinha matado a punhaladas uma prostituta em um armário da roupa branca da ala dos hóspedes, um par de pisos abaixo de onde ela estava, e devia ajudar a resolver o caso. Como demônios ia fazê-lo? Por onde deveria começar?

Não tinha tido tempo de avisar ao Samuel, e talvez era melhor não fazê-lo até que terminasse. Mas quantas coisas teria que contar então! Podia imaginar a cara dele enquanto explicava tudo. Apostaria o salário de uma semana que ele nunca tinha estado em Buckingham Palace.

De todo modo agora gostaria de haver-lhe dito. Era um detetive realmente bom. Ele teria feito muito melhor que ela. Mas desdenhava o serviço doméstico. Tinham discutido muito sobre isso. Ela achava que era uma ridícula questão de orgulho preferir passar frio e fome, viver em habitações fedidas e beber água de um poço que podia estar poluído, só pela satisfação de decidir por si mesmo aonde ia e vinha. Era melhor dormir em um quarto bem quente, ter comida quente no prato todo dia e estar tão seguro quanto fosse possível, ao preço de fazer o que lhe dissessem.

Todo mundo tinha que obedecer umas regras ou outras. Mas ele não o via. Era teimoso. E ela não teria querido que fosse de outro modo, embora sim mais sensato. Sorriu na escuridão ao pensar nele. Logo poderia lhe contar tudo. Tomaria notas para não esquecer-se de nada, sobre o palácio, não sobre seu trabalho de detetive. Isso era um segredo, salvo para o senhor Pitt, é claro.

Devia ter ficado por fim adormecida porque se sobressaltou ao ouvir que alguém batia na porta. Um momento depois Norah estava sentada em sua cama com uma vela na mão.

Esperou que Gracie se levantasse e ficasse em pé com camisola e descalça.

— Não pode chegar tarde no primeiro dia - disse alegremente e, satisfeita, voltou-se para sair. — O café da manhã é às seis e meia na sala de jantar do serviço. Não falte ou passará fome.

Gracie lhe agradeceu, depois encheu a bacia com a água que tinha ido procurar na noite anterior e se dispôs a preparar-se o melhor que pôde, tanto física como mentalmente.

O uniforme era um pouco grande, sobre tudo de cintura, mas com o avental ficava muito elegante. Estava perfeitamente engomado, sem a mais mínima ruga, e a renda era tão boa como o de uma dama. A touca lhe pareceu incômoda, mas quando se olhou no pequeno espelho que havia em cima da cômoda, surpreendeu-se do bem que lhe assentava. Sentiu-se coibida mas ao mesmo tempo orgulhosa de si mesmo.

O salão de jantar do serviço era menos ostentoso e bastante mais funcional do que tinha imaginado, mas ela nunca tinha trabalhado fora da casa dos Pitt. Suas visões de mansões grandes e suntuosas se apoiavam só na casa da irmã do Charlotte, onde tinha passado uns poucos dias fazia anos. O palácio lhe parecia em algo, e isso era em parte reconfortante. Das grandes vigas que percorriam o teto também pendiam ervas secas, e havia panelas e outros utensílios de cobre polido na parede do fundo.

Havia outras doze pessoas ali, entre elas Ada, a quem estava atraente e muito elegante com um lindo uniforme negro que fazia ressaltar suas curvas. O avental debruado de renda lhe rodeava a cintura. Mostraram a Gracie seu lugar na mesa e se uniu a eles em silêncio. O senhor Tyndale esperou a que todos se calaram para rezar a oração do dia. Ao chegar ao final titubeou, e Gracie, com os olhos fechados, perguntou-se se tinha querido mencionar à mulher morta mas tinha mudado de opinião.

Todos se sentaram obedientes e se serviram papa, seguidas de uma torrada com presunto e chá. Ela tinha esperado que houvesse mais conversa. Sempre estavam tão calados ou era devido ao assassinato? Quantos sabiam algo do assunto? Enquanto comia os observou com cautela, tratando de que não lhe vissem fazê-lo.

— Seguem aqui os policiais? - perguntou uma das criadas, nervosa.

— Claro! - exclamou um lacaio moreno. — Estarão até que averiguem qual dos hóspedes a matou! - Era um desafio, não uma pergunta.

— E como vão averiguá-lo? - perguntou Ada. — Ninguém o viu ou já saberíamos quem foi, não?

— Como vou saber? - replicou o lacaio, cortante. — Eu não sou policial! Eles saberão como.

Gracie se lançou a falar.

— Suponho que farão perguntas.

— Bom, você não tem por que preocupar-se - disse o lacaio sorrindo. — Não fomos nós. Um dos criados pessoais esteve levantado a metade da noite e assegura que não viu descer nenhum criado pelas escadas.

— Cuidado, Edwards - disse Tyndale com tom de advertência. — Tem a língua muito solta.

— Sinto muito, senhor Tyndale - se apressou a dizer o lacaio, mas por debaixo de suas pestanas olhava para Gracie.

— É claro que não foi nenhum de nós - acrescentou a senhora Newsome. — A ninguém ocorreria semelhante idéia.

— Me ocorreram umas quantas idéias - disse Ada em voz baixa.

— Como diz? - A senhora Newsome deixou a faca e a olhou com frieza.

— Não me ocorreria uma idéia assim, senhora - replicou Ada com estudada inocência.

Alguém soltou um risinho.

— Vou ter que lhe pedir que se levante da mesa? - disse a senhora Newsome com tom gélido.

— Não, senhora - murmurou Ada.

O resto da refeição transcorreu em silêncio. Quando por fim lhes indicaram que podiam levantar-se, Gracie se desculpou e se foi, consciente de que o senhor Tyndale e a senhora Newsome a observavam, por motivos totalmente diferentes.

Era tarefa de Ada ocupar-se dela, lhe dizer o que devia fazer e por onde começar. Ou tinha sido afortunada ou o senhor Tyndale o tinha organizado tudo para que trabalhasse na ala dos hóspedes, em lugar das cozinhas ou na lavanderia. Armando-se das vassouras, escovas, espanadores e todos os produtos de limpeza que fossem necessitar, subiram as escadas para pôr mãos à obra.

— Temos que limpar o salão e os dormitórios - disse Ada. — Mas antes temos que nos assegurar de que nem os hóspedes nem seus criados estão neles.

— Têm seus próprios criados? - perguntou Gracie.

Ada a olhou com desdém.

— Claro! De onde saiu?

Gracie lamentou não ter mordido a língua antes de falar. Trocou rapidamente de assunto. Achavam-se no longo corredor do piso de cima. Olhou ao redor sobressaltada, não muito segura do que tinha esperado achar. Era espaçoso, com o teto mais alto que jamais tinha visto, todo muito ornamentado com gesso dourado, mas pelo resto não era diferente. Não havia coroas nas molduras de gesso, nem lacaios com libré escura e luvas brancas esperando ordens; de fato, não havia ninguém mais. Reinava o silêncio mais absoluto. Uma das portas era mais estreita que as demais.

— É esse o armário? - perguntou em um sussurro.

Ada estremeceu convulsivamente.

— Sim. Não podemos entrar, graças a Deus. Desmaio só de pensar. Mas isso significa que temos que subir todo dia a roupa limpa da lavanderia, o que supõe muito mais trabalho. - Olhou para Gracie dos pés à cabeça. — Não tem nem idéia da quantidade de trabalho que há aqui. Temos que fazer o primeiro salão, antes que os hóspedes se levantem e queiram entrar.

Pôs-se a andar de novo.

— Vamos! Os cavalheiros estiveram nele ontem à noite e não pudemos fazê-lo porque a polícia esteve todo o dia nos fazendo perguntas. Um tipo desalinhado. Deve ter uma mulher com as duas mãos canhotas, a julgar pelo colarinho de sua camisa. Embora acredite que estava limpa, o que é mais do que poderia dizer-se dele.

Gracie se incomodou profundamente com o comentário sobre as camisas do Pitt, mas não podia dizer nada. Ela mesma lhe tinha engomado as camisas e estavam impecáveis quando as tinha posto.

Entraram na sala de estar e Ada a percorreu com olho crítico.

— Cheira a algo, verdade? Aos charutos do senhor Dunkeld. Não sei como os suporta sua mulher. Deve ter sabor de terra.

— Não acredito que tenha outra escolha - replicou Gracie.

Pitt não fumava, e ela logo percebeu o ar viciado e carregado. Era uma sala bonita, com um chão de madeira que tinha adquirido uma cor escura e intensa com o passar do tempo e da cera. Das paredes pendiam fileiras de retratos e janelas enormes com molduras douradas. Havia uma magnífica lareira com uma ornamentada cornija de mármore lavrado e incrustado, e um número considerável de sofás e poltronas. Aqui e lá havia pequenas mesas de madeira cujas superfícies brilhavam como o cetim exceto alguma ou outra coberta de cinza ou manchada pelas taças. Também havia cinza em alguns lugares do tapete e ao menos uma mancha que parecia vinho derramado.

Ada se fixou na expressão de Gracie.

— Deveria ter visto na noite da "festa" - disse curvando o lábio. — Isto não é nada.            - Tomou ar. — Bom, não fique aí plantada com a boca aberta! Ponha-se a limpar.

— O que é isto? - perguntou Gracie, olhando a mancha e dando rédea solta à imaginação. Vinho? Sangue?

— Isso não é seu assunto! - replicou Ada. — Trabalha aqui, beata. Tem que aprender a guardar suas opiniões e a não fazer perguntas. Há dois regimes de vida: um para eles e outro para nós. Não o esqueça nunca. Dá na mesma o que pense. Entendido?

Gracie ficou rígida. Desagradava-lhe Ada, mas isso carecia de importância. Estava ali para ajudar ao Pitt e ao senhor Narraway.

— Não me importa como se fez essa mancha - disse com frieza. — Tenho que saber o que é para tirá-la. É vinho, café, sangue... o que?

— Ah. - Ada pareceu um pouco arrependida. — Essa é a cadeira favorita de sua senhoria, de modo que deve ser brandy. Aqui se usa água e sabão para limpar quase tudo, bicarbonato de sódio para tirar os cheiros e folhas de chá para o pó e demais.

— Sei - replicou Gracie com dignidade, mas se arrependeu no ato. Poderia necessitar mais adiante sua ajuda. Quase se engasgou ao desculpar-se: — Não é que não lhe agradeça o conselho - acrescentou. — Eu não gostaria de agir mal.

— Cair-te-ia uma boa da senhora Newsome - disse Ada com ênfase. — E não se entretenha, que não temos todo o dia. Hoje não ficarão em seus aposentos até a hora de comer. Temos que nos pôr ao dia.

Gracie se inclinou obediente e ficou a limpar as manchas, a varrer a cinza, a polir a madeira e o mármore, enquanto Ada estendia folhas de chá úmidas por todos os tapetes para absorver o pó e a seguir as varria.

Gracie olhou a lareira. Estava bastante limpa porque não era preciso acendê-la nessa época do ano, mas o mármore deixava um pouco que desejar. Devia dizer-lhe ou Ada tomaria como uma crítica?

— O que está olhando? - perguntou Ada. — Não se faz só!

— Parece-lhe que está bastante limpo? - Gracie indicou o mármore com um gesto.

— Terá que está-lo - replicou Ada. — Se demora alguns dias em limpá-lo a fundo. Terá que deixar repousar a massa sobre o mármore. Não pode fazer-se quando há hóspedes.

— Com o que o limpa?

Ada suspirou com impaciência.

— Sedimentos de sabão, terebintina, albero e fel de boi. Não sabe nada?

— Eu o faço com soda, pedra-pome e giz misturados com água - replicou Gracie.              — Se vai em seguida.

— Não se faça de esperta! - Ada estava visivelmente zangada. — E se as manchas piorarem, quem as carregará, né? Estamos no Buckingham Palace, senhorita. Aqui fazemos as coisas bem. Assim nem te aproxime dessa lareira a menos que eu lhe diga isso. Ouviu-me?

Gracie engoliu a saliva.

— Sim.

— Limpe todas as cobertas de abajur e se assegure de que o faz bem - disse Ada, assinalando os abajures de gás. — Quero que pareça cristal, ouve-me? Sem marca, nem manchas, nem listas. E se quebrar uma, será descontado do salário... durante todo o ano! - Ficou em pé com os braços cruzados, observando como Gracie pegava de novo o trapo e ficava a trabalhar.

Gracie sabia que ganhara um inimigo. Tinha começado mal. Dava voltas a como demônios achava o senhor Narraway que podia ajudar ao senhor Pitt. Sabia muito bem que com o tempo os criados sabiam muitas coisas de seus senhores. Viam seus defeitos e seus pontos fracos, averiguavam o que temiam e o que fugiam porque não eram capazes de enfrentar isso, e o que os fazia rir. Sabiam quem gozava de sua simpatia e quem não. Era fácil com as mulheres. Como se vestiam, quanto demoravam para fazê-lo, quantas vezes trocava de opinião, todo isso informava de toda classe de coisas. Mas servia de algo?

Um criado podia observar às pessoas em um momento de descuido. Ter um criado no aposento era como estar só. Mas quanto tempo teria que estar entrando e saindo, indo procurar coisas, limpando e ordenando, antes de ver ou ouvir algo que fosse de interesse?

Era um descobrimento horrível, ser tão pouco importante como um móvel. Isso significava que aos senhores trazia sem cuidado o que pensasse deles. Imaginou o que diria Samuel! Charlotte Pitt nunca a tinha tratado assim.

Mas um desses homens ricos e importantes era um demente que mutilava mulheres e as deixava morrer sangrando em armários. Notou que estremecia ao pensar nisso. Como uma imagem piscando foi a sua memória a lembrança do horrível cadáver que tinha encontrado no Mitre Square. Não se tinha assustado tanto em toda sua vida. Também o tinham aberto rasgando-o como às demais vítimas do Whitechapel. Por que faria alguém algo assim?

— Depressa! - disse Ada em tom imperioso. — Temos que ir daqui antes que alguém queira entrar e ainda nos falta muito para acabar. Recolhe esses panos e as taças, e procura não deixar nenhum sítio nas mesas ou a senhora Newsome a esfolará viva.

— Nesta mesa há um risco - disse Gracie, assinalando uma elegante mesa Sheraton.

— Sim. Fizeram-no a noite que vieram as fulanas. - A voz da Ada soou desaprovadora. — Não sei por que não as levam diretamente ao dormitório. Se não sabem nem cantar.

— Você gosta de trabalhar aqui? - perguntou Gracie rapidamente.

Ada pareceu surpreendida.

— Pois claro! Conhece gente bem. Nunca sabe aonde a levará isso, se tiver sorte e jogar bem suas cartas.

— Onde poderia estar melhor que aqui? - Gracie estava assombrada.

— Não estou falando de trabalhar, atordoada! - replicou Ada indignada. — Quer trabalhar toda sua vida? Eu quero me casar com um homem com um emprego fixo e ter uma casa de propriedade. E que ninguém diga a que hora tenho que me levantar e me deitar.

Gracie estava a ponto de dizer: "Eu me vou casar com um policial! E não um simples agente, mas um sargento". Logo se deu conta de que nunca poderia dizer isso ali. Uma lástima. Em seguida faria desaparecer esse ar condescendente da Ada.

— O que lhe passa? - perguntou Ada, olhando-a com o espanador na mão.

— Sim. - Gracie exalou. — Sei o que quer dizer. Um dos guardas não estaria mal.

Ada riu.

— São cavalheiros, estúpida! Que curta é! De onde saiu? Será melhor que busque um vendedor ou algo assim. Quando terminar aqui, varre as escadas. Depois vá procurar a roupa limpa da lavanderia para quando fizermos os quartos. E não se entretenha. Não há tempo a perder.

— Já vou.

Gracie estava assombrada de como lhe incomodava que lhe dessem ordens. Não tinha contado com que lhe custasse tanto. Talvez Samuel estivesse certo, depois de tudo. Mas a liberdade tinha um preço muito alto. E ela estava ali para ajudar ao Pitt e fazer algo por seu país. Talvez conseguisse um pouco de informação ao fazer os quartos, embora não lhe ocorria o que podia ser. Como demônios ia averiguar algo útil? O que podia ser útil, de todo modo? Como o reconheceria? E o que seria do Pitt se fracassavam?

Entretanto, sobrou-lhe pouco tempo para fazer algo mais que limpar, tirar o pó, ordenar e ir procurar os lençóis para a Ada. Era um problema subir e descer as escadas, mas entre a criadagem havia uma rígida hierarquia em que ela estava abaixo de tudo, e Ada não ia permitir lhe esquecê-lo. Apesar de já ter completado vinte e um anos e tinha um posto de antigüidade para uma criada, ali estava passando por alguém muito mais jovem e lhe doía um pouco que lhe fosse tão fácil.

Narraway havia dito ao senhor Tyndale sua verdadeira idade e a que ia aparentar, e ele não tinha protestado. Era a nova, isso era tudo o que contava. Ada desfrutava com seu poder e lhe estava tirando o maior partido. Ela também devia ter sido nova uma vez e se estava assegurando de vingar-se de todas as indignidades que tinha sofrido então.

Gracie subia com um montão de toalhas que mal lhe deixavam ver por cima quando Edwards a alcançou e se ofereceu para levá-las.

— Não, obrigado - declinou ela.

— Somos independentes, né? - disse ele um pouco ofendido.

Ela fugiu a seu olhar, porque não queria ver o que havia nele.

— Não é isso - disse com firmeza, subindo as escadas virtualmente a tato. — Não posso me permitir pôr-me mal com ninguém no primeiro dia.

— E se eu pensar que é distante? - perguntou ele. — Ou que se acha muito importante para deixar se ajudar por alguém?

— Não seria tão bobo! - replicou ela com aspereza, esperando ter razão. Não necessitava problemas de um lacaio apaixonado. — Conhece a Ada melhor que eu, embora não me conheça. - Tropeçou com o degrau superior do seguinte lance e ele a pegou pelo braço para segurá-la. — Obrigada - disse asperamente. — Agora, por favor, não me ponha mal com ninguém.

— Ada está embaixo - replicou ele. — Ajudarei você à deixá-las nos quartos, para que não volte a tropeçar.

— Ah, sim? E se uma das senhoras entra em seu quarto? Como vai explicar, né? -disse ela rapidamente. — Que não lhe vejam neste patamar ou a polícia começará a lhe perguntar com que freqüência sobe aqui quando se supõe que não deve!

Isso o silenciou imediatamente, e ela sentiu grande alívio quando o viu descer de novo as escadas, deixando-a só para distribuir as toalhas. Posto que já não a acompanhava Ada, dispunha de mais tempo. Devia aproveitá-lo.

Moveu-se depressa pelos quartos das senhoras. O dormitório da senhora Quase era muito feminino. Havia um montão de perfumes e pentes ornamentados, lenços finos, escovas de prata, e cremes e ungüentos em potes de cristal. Gracie imaginou a uma mulher desejosa de conservar sua beleza. Não pôde resistir ao impulso de dar uma olhada dentro do armário e calculou que havia suficiente dinheiro em vestidos para pagar uma vintena de criados durante todo um ano. Pelo que viu, os vestidos estavam em perfeito estado.

O quarto do senhor Quase era outro assunto. Não cheirava a perfume mas a couro e betume. Todas as superfícies estavam ordenadas e havia uma maleta cheia de papéis. Tratou de abri-la mas estava fechada com chave.

No quarto do senhor Dunkeld também havia uma maleta, maior que a do Quase, que também estava fechada. Em um pequeno recipiente havia várias abotoaduras para colarinho e punhos de aspecto caro. Pareciam de ouro. Os artigos de barbear também eram caros, e havia escovas de cabo prateado para o cabelo e para a roupa, uma calçadeira de prata e uma cigarreira também de prata gravada com uma capa de couro de porco. Saltava à vista que era um homem que gostava dos objetos caros e alardear um pouco. O quarto cheirava vagamente a fumaça de charuto, apesar de todos os esforços de Ada de desfazer-se dele. Teriam que voltar com mais lavanda e cera de móveis. Que perda de tempo!

Observou que na prateleira havia sete livros, todos relacionados com a África. Gostaria de lhes dar uma olhada, mas não podia arriscar-se que a surpreendessem.

No quarto da senhora Dunkeld não havia indícios de fumaça. Cheirava a lírios do vale, uma fragrância limpa e refrescante, não enjoativa como no quarto da senhora Quase.

Desceu para procurar mais toalhas e voltou a subir.

O quarto da senhora Sorokine tinha de extraordinário o penhoar vermelho estendido em cima da cama e os colares de pérolas e cristais jogados sobre o penteadeira em meio de um matagal de adornos para o cabelo, frascos de perfume e cremes. Temendo que retornasse a qualquer momento pelo aspecto de atividade interrompida que oferecia o quarto, Gracie não se atreveu a entreter-se nele. Deixou as toalhas e saiu.

A habitação do senhor Sorokine a surpreendeu, sobre tudo pela quantidade de livros; nenhum era sobre a África, pelo que viu. Na mesinha de noite havia um com um marcador. Pegou-o e leu o título: O retrato de Dorian Gray. Abriu-o ao acaso e começou a ler. Ficou tão absorta pela força das palavras, e a maldade e a paixão que transmitiam, que não ouviu abrir a porta. Não se deu conta de sua presença até que falou.

— Sabe ler?

Gracie se sobressaltou de tal modo que lhe caiu o livro das mãos.

— Sinto muito! - disse muito forte, notando o calor nas faces.

— Sabe? - perguntou de novo ele.

Ela o olhou horrorizada. Era um homem alto e bonito de fronte ampla e feições pronunciadas, mas não sem sensibilidade. Por alguma razão teria esperado que tivesse os olhos de cor castanha, não cinzas como eram. Assentiu. Não se tratava tanto de mentir como de negar o presente que lhe tinha feito Charlotte.

Ele sorriu.

— O que lia?

— Algo sobre querer ser sempre formoso - respondeu ela, engolindo a saliva. — E jovem.

Ele pareceu satisfeito, como se lhe tivesse agradado a resposta.

— Deixá-lo-ei na mesa, assim poderá voltar a lhe dar uma olhada. Pode deixar as toalhas em cima da cômoda.

Ela as tinha deixado em um montão sobre a cama. Ainda lhe ardia o rosto quando as pegou e as pôs onde deveriam ter estado. Depois, com as mãos trêmulas, saiu correndo ao corredor.

Sem olhar nada, pôs as toalhas nos quartos do senhor e da senhora Marquand e recolheu as usadas. Enquanto descia cambaleante à lavanderia, deixou cair um par ao chão e teve que retroceder torpemente para recolhê-las, deixando cair outras ao fazê-lo.

Uma vez na lavanderia, puxou-as a uma das grandes cestas de vime e decidiu olhar ao redor. Se alguém a surpreendesse ali, poderia dizer facilmente que procurava sabão, salvo ou qualquer outra coisa. Parte de seus deveres era familiarizar-se com todo o material de limpeza disponível. Viu grande quantidade de farelo de cereais.

Charlotte lhe tinha ensinado a utilizá-lo para tirar manchas dos tecidos bons. Com o mesmo fim havia aguarrás, sabão, pedra-pome, giz, terebintina, albero, flores de enxofre, colofonia negra, vários pedaços grandes de cera amarela, anilina e amido recém feito. Debaixo havia garrafas em cujas etiquetas se lia ácido oxálico, sal de acedera, sal amoníaco e borracha arábica.

Mudou de parecer sobre tentar ajudar na lavanderia e decidiu fazer trabalho detetivesco. Tirou a outra cesta de vime e a abriu. O coração lhe pulsava com força e lhe revolveu o estômago. Estava cheio de lençóis brancos com manchas vermelhas que estavam adquirindo um tom marronáceo. Estavam empapadas, salpicadas e manchadas de sangue. As Bordas estavam secas, mas pelo centro as manchas seguiam vermelhas e quando as tocou lhe pareceram úmidas. Pobrezinha. Havia tanto sangue! Devia ter emanado sem parar. Gracie ficou um pouco aturdida ao pensar nisso. Quem faria uma coisa assim? E, de todos os lugares da Inglaterra, precisamente ali.

Mas muitas coisas não eram como tinha imaginado. Essa era a residência da rainha. Deveria ser diferente de qualquer lugar no mundo. E entretanto o pó e os sítios nas mesas, a cinza caída, os arranhões do chão, tudo era exatamente igual às demais casas. A única diferença era que Pitt o teria recolhido ele mesmo e, como não podia permitir-se trocar os tapetes e as mesas - teria que economizar para comprar, para começar-, teria tido mais cuidado.

Um dos homens tinha matado a essa mulher. Por que? Que tipo de cólera impulsionaria a fazer algo assim? Achava que sairia impune? Já se tinha dado conta de que aí os criados protegiam a seus senhores de passar pela realidade como fazia a maioria das pessoas. Encobririam também isso? Supunha-se que era obra de um criado? Compravam não só seu tempo e sua obediência, mas também sua consciência? Imaginou o que haveria dito Samuel!

Mas servia de algo que te respaldasse a lei? Essa era uma idéia totalmente nova: tinha Pitt algum poder ali? Se não, por que fingiam com palavras bonitas que queriam que descobrissem o culpado para julgá-lo, se iriam encobri-lo e ocupar-se eles mesmos disso? Sabia a resposta: porque não eram capazes de averiguar quem era sem ele. Talvez necessitassem de seu cérebro, mas não de sua honradez. Como iriam mantê-lo calado? enfrentava um perigo do qual não sabia nada?

Gracie de repente teve frio, apesar do mormaço que fazia ali e do aroma de sabão e carbonato sódico. O que podia fazer ela para ajudá-lo? Deveria avisá-lo ou só pioraria as coisas?

Começou a olhar de novo entre os lençóis do fundo da cesta. Essa podia ser sua última oportunidade para examiná-las antes que as lavassem. Eram de uma qualidade que nunca tinha visto; finas e suaves, de um fio tão delicado que poderia ter sido seda. E notou o aroma nauseabundo do sangue.

Todas tinham pequenos buracos entre os pontos com o passar da prega. Tinha visto fazer esse tipo de trabalho de bordado. Levava horas. Algumas tinham outros bordados. Nas duas melhores havia o que parecia um "V" e um "R", em ponto raso, assim como uma pequena coroa. Vitória Regina. Só podia querer dizer uma coisa: os lençóis da rainha tinham estado no armário onde tinham matado a pobre mulher! Mas estavam empapados de sangue! E enrugados. Tinham sido utilizados, de fato tinham dormido neles. As manchas de sangue eram mais superficiais, como se as tivesse deixado um corpo envolvido neles.

Gracie se pôs em movimento. Devia escondê-los onde ninguém pudesse achá-los e ir procurar imediatamente Pitt. Não tinha nem idéia do que significava esse achado, mas alguém estava mentindo, já que não tinha nenhum sentido. Quem tinha roubado os lençóis da rainha e os tinha utilizado, e para que? Para levar o corpo da pobre mulher, tampá-lo e escondê-lo temporariamente?

Tinha os lençóis nas mãos quando ouviu ruído de passos nas escadas e uma risinho de alguma criada. Logo reconheceu claramente a voz do Edwards, o lacaio, xavecando, enrolando.

— Vamos, Ada! Sabe que quer!

Gracie nunca se viu nessa situação, mas sabia o que significava. O que não sabia era se ele tinha razão e Ada queria. Fosse como fosse, sua presença ali poderia convertê-la em inimizade por toda vida de um deles, certamente dos dois. E já lhe estava indo bastante mal com a Ada, tal como estavam as coisas. ruborizou-se de vergonha ao pensar que podia ser testemunha de algo que preferiria não ver.

— Descarado! - soltou Ada com efusão. — Não sei do que me está falando! Gosta muito a si mesmo, senhor Edwards, isso está claro!

— Nem a metade do que eu gosto de você! - replicou ele. — Fique quieta então!   Ainda não tinham visto Gracie, mas se descessem um par de degraus mais e entravam na lavanderia o fariam. Pior ainda, dar-se-iam conta de que os tinha ouvido. O que podia fazer? Repugnou-lhe a idéia de esconder-se dentro de uma das cestas, cheia dos lençóis sujos de outras pessoas. Além disso, poderia manchar-se de sangue e como ia explicar isso? Mas tinha que conseguir esses lençóis para o Pitt. Não havia outro modo de sair daí que essas escadas, e Ada e Edwards já tinham descido de todo. Se Gracie não fosse tão miúda e não se agachasse detrás de uma cesta, já a teriam visto.

Devia guardar bem os lençóis; isso era mais importante que economizar a vergonha ou inclusive a perseguição que sofreria no futuro. Só seriam uns dias de todo modo! Mas como? O que podia fazer para distraí-los? Ficou olhando as prateleiras cheias de potes e pacotes, e os grandes caldeirões de cobre que ferviam cheios de lençóis e toalhas. Se abrisse a saída de fumaças da caldeira, esta rugiria imediatamente. Tudo se encheria de vapor, talvez até se produzisse uma pequena inundação. Ela poderia esconder temporariamente os lençóis bordados no balde de farelo de cereais, e enquanto Ada e Edwards estavam ocupados tratando de deter a inundação, apareceria ao pé das escadas como se acabasse de chegar. Podia funcionar. Tinha que funcionar.

Agachou-se atrás da cesta e pegou a pá de madeira que se utilizava para mexer a roupa do caldeirão. Era bastante longa para chegar à saída de fumaças, se tivesse muito cuidado. Doeu-lhe o braço de sustentá-la em alto por um extremo e mantê-la firme. Não devia fazer movimentos bruscos ou chamaria a atenção.

Ada ria mais forte e Edwards não parava de falar. Se Gracie não fizesse algo logo, as coisas iriam ficar feias. A pá era longa e pesada. Tinha os olhos cheios de lágrimas de frustração quando por fim abriu a saída de fumaças de um golpe. Logo lhe escorregou a pá da mão e caiu ao chão com estrondo.

Milagrosamente, nenhum dos dois se inteirou. Se a vissem agora, Ada nunca a perdoaria. Não podia permitir-se. Ada já a odiava bastante. Gracie se imaginou dentro do armário da roupa branca como a prostituta. Também a pobrezinha tinha visto algo que não devia ver? Por isso a tinham matado? Era a única explicação que tinha sentido. Mas o que podia ter visto que importasse tanto a alguém? Pareciam fazer o que desejavam muito, de todo modo.

Transcorriam os segundos. Ada resistia brincalhona, graças a Deus. Gracie não tinha nem idéia de onde achar ao Pitt. Podia pedir ao senhor Tyndale que o buscasse?

Começou a sair vapor do caldeirão e a tampa deu botes pela pressão. Um segundo depois Ada se deu conta do que acontecia soltou um grito horrorizada. Edwards deve ter acreditado que era por algo que tinha feito, porque riu.

— O caldeirão está muito alto, estúpido! - gritou Ada, enquanto o lugar se enchia de vapor. — Vamos, me ajude a baixá-lo!

Enquanto se precipitava para diante estirando o vestido, Gracie correu até as escadas através do vapor e se voltou.

— O que se passou? - gritou com fingido horror.

— Não é seu assunto! - soltou Ada. — Vá fazer suas tarefas. Já estou eu aqui. Já varreu as escadas? Pois faça isso. Não fique aí boquiaberta!

— Sim, senhorita - disse Gracie obediente.

E escapou escada acima antes que desaparecesse o vapor deixando ver o traje desabotoado e o aspecto desalinhado da Ada em geral.

Não tinha nem idéia de onde achar ao Pitt, e uma vez que alguém pusesse a ferver esses lençóis, ninguém poderia demonstrar nada. Esteve a ponto de perguntar a Mags, a outra criada que, como ela, trabalhava de ajudante de cozinha e limpeza, se tinha visto a polícia, mas não sabia que explicação dar para querer falar com ele, de modo que passou imediatamente a seu plano alternativo e procurou o senhor Tyndale.

Encontrou-o só na copa, revisando o faqueiro para assegurar-se de que estava em perfeito estado. Parecia muito sério, com o sobrecenho ligeiramente franzido.

Gracie bateu na porta.

Ele se voltou irritado, logo viu quem era e perguntou nervoso:

— Senhorita Phipps? Aconteceu algo?

Ela entrou e fechou a porta atrás de si.

— Pode me chamar Gracie, senhor - o corrigiu, sentindo-se incômoda e saboreando ao mesmo tempo o momento. — Tenho que falar urgentemente com o senhor Pitt, mas não posso perguntar a ninguém onde está. Descobri algo que poderia ser importante. Pode me ajudar?

— Sim, é claro. O que descobriu? - Estava visivelmente preocupado.

Ela sacudiu a cabeça.

— Devo dizer ao senhor Pitt.

Tyndale pareceu envergonhado. Sentiu-se estúpido por havê-lo perguntado e pelo desprezo que tinha recebido.

Ela se compadeceu dele e também se sentiu um pouco idiota por tê-lo feito sentir-se desconfortável. Poderia ter-lhe em conta e não ser o aliado que necessitava. Engoliu a saliva com esforço. Cabia que se equivocou, mas mesmo assim era melhor que se apressasse.

— Posso lhe perguntar algo, senhor?

Ele seguiu mostrando-se cauteloso, sem saber que protocolo seguir com ela. Era e não era uma criada.

— É claro. Do que se trata?

— Os lençóis bordados com as letras V e R e uma pequena coroa, utiliza-as alguém além de Sua Majestade?

— Onde os viu? - perguntou ele com aspereza.

— Na lavanderia.

— Isso é impossível! Sua Majestade está no Osbome e não os utiliza ninguém mais. Obrigado por me dizer isso. Averiguarei o que aconteceu e me encarregarei de que não volte a ocorrer.

— Não o faça, senhor! - Ela esteve a ponto de agarrá-lo, mas só lhe tocou a manga antes de afastar a mão. — É uma pista, ou ao menos poderia ser. Tem que manter segredo até que o senhor Pitt lhe diga que pode falar disso. É um assassinato, senhor Tyndale. Não pode falar com ninguém.

Ele empalideceu.

— Entendo.

Bateram bruscamente à porta e um momento depois se abriu de repente e apareceu a senhora Newsome na soleira. Era uma mulher atraente em um sentido agradável e comum, mas tinha as faces acesas e lançava fogo pelos olhos.

— O que está fazendo aqui, Gracie Phipps?

Seu olhar foi de Gracie a um senhor Tyndale visivelmente incômodo a quem também lhe subiram as cores de indignação e vergonha.

— Veio... - começou a dizer ele, debatendo-se.

A senhora Newsome tinha o rosto tenso e endurecido o olhar.

Por ridículo que fosse, Gracie pensou na Ada e Edwards nas escadas da lavanderia, e notou que também lhe ardiam as faces. Devia ir em auxílio do senhor Tyndale. A idéia era descabelada e horrível, mas não havia dúvida de que isso era o que tinha em mente a senhora Newsome. E o senhor Tyndale se achava nessa situação por ajudá-la. Era possível que lhe importasse o que pensasse a senhora Newsome dele, mas embora não fosse assim, lamentaria amargamente que acreditasse que se estava comportando de modo indecoroso com uma criada nova que tinha a metade de anos que ele.

Gracie mentiu com facilidade.

— Venho lhe dar o recado de que o policial queria lhe ver, senhora.

— Ah, sim? - replicou a senhora Newsome com frieza. — E por que pediu a você que lhe dê o recado?

— Suponho que porque estava ali - respondeu ela com os olhos muito abertos.

— Entendo. - O rosto da senhora Newsome estava sombrio. — Mas no futuro, Gracie, ocupar-se-á de suas obrigações sem falar com os policiais, e não permanecerá na copa nem em nenhum outro aposento com a porta fechada. Entendido? É totalmente indecoroso.

— Sim, senhora. Quero dizer que não, senhora. Não o farei. - Gracie se engoliu com esforço a cólera e a dignidade.

Tyndale recuperou de repente a fala.

— Pedi-lhe eu que a fechasse, senhora Newsome. Não queria que o resto do pessoal ouvisse um recado do policial. Já é bastante inquietante os ter aqui. Todo mundo está muito afetado.

O rosto da senhora Newsome refletia um desgosto que raiava o cômico.

— Acredita que não perceba, senhor Tyndale? - replicou ela com mordacidade.                — Enquanto estava você aqui com o Gracie contando os cobertos, estive procurando Ada; assegurei à senhora Oliphant que não a assassinarão na cama; convenci ao Biddie para que não parta, ao menos até que o autorize a polícia, e lhe disse que não lhe darei nenhuma recomendação se nos deixar na estacada. Também estou tratando de impedir que Norah tenha um ataque de histeria e de me assegurar de que alguém tire o pó da sala e comece a engomar. - Agarrou uma mecha solta que lhe caía sobre a testa e a segurou bruscamente com as forquilhas, piorando o efeito global. — E se por acaso não o notou -continuou, — falta uma de suas facas de serra. Deveria haver vinte e quatro.

Menos acalorada, teria sido uma mulher atraente, e não tão velha como tinha parecido à Gracie de entrada. De repente percebeu nela uma vulnerabilidade que quase lhe tirou o fôlego. A senhora Newsome tinha ciúmes. Era absurdo e desesperadamente humano. O senhor Tyndale lhe importava.

— Será melhor que vá ver o que quer o policial - disse Tyndale com ar desgraçado. — Eu... sei que é difícil. Rogo-lhe que faça todo o possível, senhora Newsome. E já sei que falta uma das facas. Falarei disso com o Cuttredge.

Fechou as gavetas das facas, cada uma em sua ranhura verde, com uma das chaves que pendia de uma pequena corrente prateada. Depois passou junto às duas mulheres e saiu a procurar Pitt.

Gracie e a senhora Newsome se olharam. O silêncio se fez cada vez mais incômodo.

— Se me desculpar, senhora - disse Gracie por fim, com a boca seca.

Morria por escapar da emoção contida no aposento. A senhora Newsome não devia inteirar-se do que tinha percebido. Nunca o perdoaria.

— Sim. - A senhora Newsome se estirou a saia mecanicamente, fazendo tilintar seu chaveiro, muito mais longo. — É claro. Está-se ocupando Ada de ti, você ensinando tudo o que tem que fazer?

— Sim, senhora. Obrigada.

Não podia dizer o que estava fazendo Ada em realidade na lavanderia, nem o tirana que era com ela. Custava acreditar que a senhora Newsome fosse tão cega! Mas ela não era fofoqueira.

— Bem. Pode ir à cozinha tomar uma taça de chá, que já são as onze.

— Obrigada, senhora.

Gracie fez uma torpe inclinação. Não era algo que acostumasse fazer; a Charlotte teria parecido ridículo.

Ao final do corredor, na enorme cozinha com seus aparadores cheios de baixela, as panelas de cobre penduradas nas paredes e as ervas seguras às vigas, Cuttredge estava sentado em uma das cadeiras de espaldar duro. Em frente tinha à senhora Oliphant. Na mesa havia um bule, várias xícaras limpas e dois pratos de plum-cake.

— Eu digo que o roubaram - disse Rob, o engraxate, dando de ombros. — Nunca o achará.

— Tolices! - replicou a senhora Oliphant com aspereza. — Morda a língua, moço, ou irá à cama sem jantar!

Ele mordeu o lábio, mas dava a entender com sua expressão que sabia muitas coisas que não se atrevia a dizer.

— Então, o que aconteceu? - perguntou a senhora Oliphant. — Quem a roubou? Está dizendo que há um ladrão entre nós?

— Claro que não - replicou ele indignado, abrindo muito seus olhos redondos. — Para que íamos pegar uma faca um de nós? As facas de mesa não se podem vender, não?

— Certamente caiu - atravessou Cuttredge.

A senhora Oliphant passou por cima o comentário.

— Pois não há ninguém mais, a menos que esteja pensando em que o pegou uma dessas pobres garotas - disse ao Rob. — Nem se aproximaram da sala de jantar, estúpido! A mesa já estava recolhida quando chegaram. A gente não dá de comer a essa classe de fulanas. No que está pensando?

— Esteve o velho - disse Rob obstinado.

— Que velho? - perguntou Oliphant desafiante. — Aqui está. Chama-se Gracie, não é? Sente-se, menina. Sirva-se de uma xícara de chá. A bolacha é de hoje. Vamos! –Agarrou o bule e uma xícara limpa, e serviu Gracie com impaciência. Deixou-a diante dela junto com um dos pratos. — Menina, parece um coelho esquálido. Engorda um pouco ou nos acusarão de matá-la de fome. - Voltou-se para o Rob. — Que velho? Do que está falando?

Ele empalideceu e as sardas ressaltaram como manchas em seu rosto.

— Do velho que entrou com essa caixa enorme, senhora Oliphant.

— Que velho? - repetiu ela com incredulidade. — Do que está falando?

Gracie deteve a xícara no ar.

— O homem que chegou pouco depois das doze com essa caixa de livros para o senhor Dunkle ou como se chamou - respondeu Rob.

A senhora Oliphant arqueou suas finas sobrancelhas.

— Está insinuando que o velho que trouxe os livros levou uma de nossas facas? -perguntou com incredulidade. — Para que?

— Não sei! - exclamou Rob indignado. — Porque era do palácio, suponho. Não sabe a de coisas que me pedem as pessoas.

— Leve uma só bolinha de pó, menino, e não tocará o chão com os pés! - gritou a senhora Oliphant furiosa. — Agarrarei você e juro que não poderá sentar-se em um mês dos açoites que te darei.

Rob esfregou o traseiro como se já lhe doesse.

— Disse que me pedem coisas, não que tenha levado algo! - Estava realmente ofendido. — Fui eu que descobriu que faltava a faca. Ingratos, isso é o que são.

— Não me fale assim, descarado! - replicou ela acalorada. — Se esquece de quem é, Rob Tompkins. Se o senhor Tyndale o pega dizendo tolices lavará sua boca com sabão! Com sabão de lejía nada menos!

— Então lhe diga que foi o velho quem pegou a faca! - arremeteu ele.

— Como sabe? - replicou ela. — Deixa de gritar e tome seu chá antes que o atire.

Ele pegou a bolacha antes que ela pudesse lhe retirar o prato.

— Será melhor que também pegue a última. Vamos, pega-a! Outro coelho esquálido!

Ele sorriu mostrando seus dentes com ocos.

— Onde o viu? - perguntou Gracie com toda a naturalidade de que foi capaz, notando a boca seca. Ao menos estava averiguando algo.

— Não lhe dê asas! - exclamou a senhora Oliphant.

Gracie deu de ombros.

— Perdão. Certamente não é ninguém.

— Sim que é! - insistiu Rob. — Era mais alto que eu, com o cabelo grisalho e sujo, e o rosto também sujo. Edwards sabe porque foi ele quem o ajudou a levá-los. Ficou embaixo enquanto esvaziavam a caixa, antes que voltassem a levá-lo a tomar uma xícara de chá, suponho. Passou diante da copa e saiu ao pátio pela porta lateral da cozinha. Suponho que voltou para sua carruagem. Depois voltou a entrar. Mas passou por diante da copa, tenho certeza! - Olhou para Gracie, esperando que o apoiasse.

— E você como sabe? - perguntou a senhora Oliphant. — O que estava fazendo ali a essas horas da noite? Roubar bolacha, com certeza!

— Vim buscar um copo de água! - respondeu Rob com coibida retidão.

— Desceu as escadas? - perguntou Gracie hesitante.

— Dorme na dispensa - explicou a senhora Oliphant.

Rob assentiu sorrindo.

— Está quentinho aí dentro.

Gracie se conteve de indicar que ali também havia um grifo, mas não bolacha.

— Que estupidez - disse, bebendo um gole de chá. — Roubar uma faca de mesa! Nem sequer é boa. Por que não pegou uma de cozinha se necessitava uma?

— As facas de mesa são para cortar carne - replicou a senhora Oliphant. — Poderia se barbear com uma, me acredite!

Gracie terminou seu chá com o coração lhe pulsando com força, depois agradeceu à senhora Oliphant e se desculpou o mais rápido que pôde. Ia tão depressa que quase se chocou com o Pitt nas escadas.

— O que acontece? - perguntou ele com tom premente. — Me disse o senhor Tyndale que queria ver-me. Algo relacionado com uns lençóis.

— Encontrei-os na lavanderia - respondeu ela sem fôlego, em voz muito baixa.                — Escondi-os no balde do farelo de cereais. São os lençóis de Sua Majestade. Têm um V bordados e um R com uma coroa em cima, e estão empapadas de sangue.

— Serão do armário - explicou ele com calma. — Tiraram todas para ver quais podiam aproveitar-se.

— Mas só seus lençóis levam o V e o R! - Gracie ficou olhando-o, exasperada por sua teimosia. — Além disso, não estavam dobrados como os demais lençóis do armário, senhor. Alguém dormiu neles! Estão enrugados e emaranhados!

Pitt estava muito sério.

— Tem certeza, Gracie?

— Claro que tenho! Não tem sentido, mas estou cem por cem segura. - Falou com ênfase. — E isso não é tudo. Falta uma faca de mesa, uma muito afiada para cortar carne. Rob, o engraxate, diz que viu um velho entrar meia-noite com uma caixa grande e que a levou consigo ao partir.

— Quando? - perguntou Pitt. — Na noite do assassinato? Onde?

— Desceu as escadas, passou diante da copa e saiu ao pátio - replicou ela. — Entrou com uma grande caixa de madeira. Edwards o ajudou a levá-la.

— De que tamanho? - perguntou Pitt imediatamente.

— Não sei, mas posso perguntar.

— Não - disse ele rapidamente, lhe agarrando o braço. — Não pergunte nada. Não importa. Tenta averiguar se o viu alguém mais e quanto tempo esteve aqui esse homem. É muito possível que a morte da mulher não tenha nada que ver com os hóspedes, depois de tudo. - De repente sorriu com um olhar risonho, cheio de otimismo.

Gracie lhe devolveu o sorriso, satisfeita por havê-lo ajudado. Talvez até tivesse ajudado à própria rainha. De repente valiam a pena o trabalho duro e as ordens. Ouviu passos mais abaixo e se apressou a subir as escadas, deixando que Pitt as descesse.

 

Pitt recebeu a notícia de Gracie com uma onda de otimismo. Passeou pelo quarto que lhe tinham atribuído, dando voltas e mais voltas na cabeça. Se conseguisse demonstrar que o ancião que o engraxate tinha visto entrar no palácio com uma caixa dirigida ao Cahoon Dunkeld era o culpado, poderiam fechar o caso sem mais escândalo que o de certa lassidão por parte dos guardas que o tinham deixado passar. Mas nem sequer lhes poderia culpar disso. O homem tinha acudido porque era um carreteiro e devia entregar uma caixa que pertencia a um dos hóspedes de Sua Alteza Real. E se de repente lhe tivesse apresentado a oportunidade e tinha pegado uma das facas, isso significava que não tinha chegado armado nem com intenção de cometer nenhum assassinato.

Então, como demônios havia encontrado a prostituta e a tinha persuadido para que se metesse com ele no armário da roupa branca? E o que tinha sido feito do vestido dela? Ainda não o tinham encontrado. Mais ainda, se era um louco que procurava uma vítima ao acaso, por que não foi com a primeira criada que cruzou no corredor?

Era fundamental averiguar algo mais dessa mulher: o caráter que tinha, suas origens, inclusive seus outros clientes. Afinal, podia tratar-se de um crime pessoal. Devia ficar em contato com o Narraway e dizer-lhe depois de tudo, era possível escapar à conclusão atroz de que um dos hóspedes era o assassino.

Girou sobre seus calcanhares e foi procurar ao Tyndale imediatamente para perguntar se podia utilizar o telefone. Uma vez obtida a permissão, chamou Narraway e lhe contou os últimos progressos e a necessidade de averiguar todo o possível sobre a mulher. Depois mandou chamar o lacaio Edwards e o interrogou de novo.

— A caixa que trouxeram para o senhor Dunkeld entre as doze e a uma da madrugada do assassinato... - começou dizendo.

Edwards pareceu incômodo, mas não piscou.

— Sim?

— Poderia descrever o carreteiro?

Edwards mordeu o lábio inferior enquanto deslocava o peso de um pé ao outro.

— Não o vi bem. Estava muito ocupado levando a caixa ao piso de cima. Ele a segurava por detrás.

— Que tamanho tinha? - perguntou Pitt.

— Um metro de comprimento, talvez um pouco mais... - Edwards descreveu com suas grandes mãos a forma de um cofre mais largo que profundo. — Assim.

— Pesava?

— Como não ia a pesar se estava cheia de livros e papéis.

— Muitos livros?

— Não sei, uns quarenta ou cinqüenta. Não estou acostumado a carregar livros.

— Onde os deixou e que hora era?

— No salão contíguo. Não podia levar ao seu dono a meia-noite. Poderia ter estado fazendo algo! - Um esboço de sorriso lascivo se desenhou em seus lábios e voltou a desvanecer-se. — Mas ele saiu, como se os esperasse. E nos pediu que voltássemos ao fim de dez minutos para procurar a caixa. Parece que o carreteiro queria recuperá-la.

Pitt se surpreendeu detestando profundamente a esse jovem.

— Me diga tudo o que recorde do carreteiro - ordenou.

Edwards deu de ombros.

— Não lhe vi bem o rosto. Era bem velho, curvado. Levava um chapéu, bem encasquetado, um casaco com gola e luvas com os dedos cortados, provavelmente para conduzir o cavalo. Não fazia tanto frio.

— Como era a carruagem?

— Não sei.

— De quatro rodas ou de duas? - insistiu Pitt.

— De quatro.

— E o cavalo?

— Não sei. De uma cor clara. Cinza, suponho.

— E voltou após os dez minutos?

Edwards abriu muito os olhos.

— Acredita que pôde havê-lo feito ele?

— Poderia?

Edwards pareceu resistente.

— Não vejo como. Só esteve uns minutos dentro da casa. E desceu e saiu por trás antes de voltar a entrar. Foi muito sangrento o assassinato?

Pitt fez uma careta ao recordar as pálidas entranhas da mulher em meio de todo o sangue.

— Sim.

— Então não sei como pôde fazê-lo. Estava limpo como uma patena quando se foi replicou Edwards sem piscar. — Não lhe vi nenhuma mancha, para não falar de sangue.

— Tem certeza? - As esperanças de Pitt se desvaneceram.

— Sim, senhor. Pergunte ao Rob, o engraxate, que lhe dirá o mesmo.

— Que fazia o engraxate levantado essa hora da madrugada?

— Certamente foi procurar um pedaço de bolo. Sempre está comendo.

— Mas disse que o senhor Dunkeld esperava. Onde?

— Nas escadas. Disse-nos que não subíssemos mais, que despertaríamos às senhoras. Disse que eram livros que necessitava urgentemente, e que tínhamos que levá-los ao quarto do lado. Disse ainda que ele os tiraria da caixa e que voltássemos ao fim de dez minutos para recolhê-la. O carreteiro não chegou a subir até onde está o armário da roupa branca - acrescentou.

— E você voltou a procurar a caixa e o carreteiro a levou?

— Sim. Pesava um montão, a maldita caixa. Devia ser de teca ou algo assim. Não pude vê-la bem a essa hora da noite e com a pouca luz que havia.

— E isso foi a meia-noite, não depois?

— Sim.

— Obrigado. Isto é tudo, por agora.

A contragosto Pitt descartou a possibilidade de que o carreteiro tivesse matado à mulher e voltou para a inevitável hipótese de que tinha que ter sido um dos hóspedes do príncipe de Gales.

Estava no patamar seguinte, afligido por uma decepção que sabia que era irrazoável, quando cruzou com Cahoon Dunkeld que subia.

— Boa tarde, Pitt - disse bruscamente. — Sua Alteza Real deseja vê-lo. - Franziu o sobrecenho. — Pelo amor de Deus, esvazie o bolso. E endireite a gravata. Parece que dormiu vestido! Não há prancha ou agulha e fio em sua casa?

Pitt sabia que era desalinhado e até então não lhe tinha importado. Mas que insultasse a Charlotte o feriu profundamente. Morreria para lhe devolver a grosseria, mas não se atreveu. Só durante breves espaços de tempo, uma hora ou duas quando muito, esquecia-se de que estava no palácio da rainha; ele, o filho de um guarda-florestal que tinha sido deportado a Austrália por roubar na propriedade de seu senhor. Nunca estava certo de quem sabia e quem não. Se replicasse, sempre esperava o mordaz desdém de que respondia.

Tremendo de raiva, tirou o punhado de coisas que levava no bolso da jaqueta e as distribuiu como pôde entre outros bolsos, depois endireitou a gravata.

Dunkeld não fez nenhum comentário, mas sua expressão era eloqüente. Dando de ombros exasperado, conduziu-o até onde o esperava o príncipe de Gales. Para consternação de Pitt, ele também entrou.

Pitt se endireitou. Sabia que não devia falar primeiro, nem olhar o teto ornamentado e as magníficas pinturas que cobriam virtualmente as paredes.

O príncipe levava um traje de linho de uma cor indescritível. Estava barbeado e oferecia muito melhor aspecto que a última vez que se viram. Tinha os olhos menos vermelhos e, embora lhe visse a pele ligeiramente salpicada, era mais provável que se devesse a toda uma vida de excessos que a uma só noite de bebedeira e à devastadora comoção do assassinato.

Agradeceu a Dunkeld e esquadrinhou ao Pitt avaliando-o.

Pitt se sentiu incomodado como uma cabeça de gado exposta em um mercado, mas não se moveu.

— Boa tarde... Pitt, verdade? - disse o príncipe por fim. — Está cooperando todo mundo?

— Sim, senhor, obrigado - respondeu Pitt.

— Não lhe perguntou por sua saúde - grunhiu Dunkeld. — Que progressos fez?

Pitt não era seu igual, e era perfeitamente consciente de que só estaria perdendo se se comportasse como se o fosse, por muito que Dunkeld o provocasse. Sorriu. Podia ser encantador quando se propunha.

— Perguntou-me por minhas necessidades profissionais - disse com calma. — A ajuda de Sua Alteza Real é necessária para que tenhamos êxito e a agradeço.

O príncipe lançou um olhar frio e aturdido ao Dunkeld, depois a Pitt.

— Bem dito - disse em voz baixa.

Era uma forma de recordar a Dunkeld que não tomasse muitas liberdades.

Pitt olhou o rosto do Dunkeld e o viu arder de humilhação, e por um instante desejou não ter falado. Pior ainda, sabia que Dunkeld o tinha entendido.

— Estou totalmente certo de que nenhum membro do pessoal doméstico é culpado, senhor. - Obrigou-se a dirigir-se ao príncipe com solenidade. — Duas pessoas tiveram ocasião de observar a escada dos criados à hora que nos concerne e nenhum subiu nem desceu por ela.

— E não poderia havê-lo feito uma dessas duas pessoas? - perguntou o príncipe esperançado.

— Não, senhor. Um era o senhor Dunkeld e o outro seu valete.

O príncipe se voltou para olhar ao Dunkeld com hostilidade.

— Não me mencionou isso! - acusou-o.

Dunkeld se manteve firme, a cólera momentaneamente dissipada.

— Não percebi que coincidia a hora, senhor. O senhor Pitt averiguou então quando se fez?

O príncipe se voltou para o Pitt com frieza nos olhos.

— Sim, senhor - respondeu Pitt. — A última vez que se viu a mulher com vida foi entre as doze e a uma, e a julgar pela rigidez do corpo quando o encontramos, deve ter morrido antes das duas e meia da manhã, quando o criado do senhor Dunkeld deixou o patamar e não pôde seguir vigiando o pé da escada que conduz aos quartos da criadagem.

Dunkeld trocou de postura, tenso e impaciente.

Pitt o ignorou.

— Fui informado que entrou um ancião no palácio para entregar uma caixa ao senhor Dunkeld - continuou. — Mas esteve vigiado todo o tempo salvo uns poucos minutos que não teriam bastado para cometer este crime.

O príncipe abriu muito seus olhos algo saltados.

— Não? tem certeza?

— Sim, senhor. Além disso, partiu sem rastro de sangue na roupa e nas mãos.

O príncipe empalideceu visivelmente. Talvez Dunkeld lhe tinha dado a entender a quantidade de sangue que tinha havido. Voltou-se de novo para o Dunkeld. Pitt teria preferido que o tivesse feito sair, mas não se atreveu a pedi-lo. Envergonhou-se por ter cedido à pressão. Essa era sua profissão, e Dunkeld carecia de importância para a Brigada Especial. Não tinha nenhum cargo no palácio, só o poder de sua personalidade e a necessidade que o príncipe parecia ter de sua presença. Do que tinha medo o príncipe? De um escândalo? De que se produzisse outro crime? Ou de que viesse à luz algo desagradável? Sabia quem era o assassino e não se atrevia a dizê-lo?

Pitt lamentou sua impotência.

— Senhor - disse com firmeza, — a única conclusão possível que fica é que um dos cavalheiros que estão alojados no palácio assassinasse a essa desafortunada mulher.

— Oh, não! - exclamou o príncipe imediatamente, sacudindo várias vezes a cabeça.            — Tem que estar equivocado. Tem que haver uma alternativa que não investigou. Explique-lhe Dunkeld! Deu de ombros, como se Pitt fosse um problema com o que Dunkeld devia lutar.

Pitt fechou os punhos aos flancos, cravando as unhas nas palmas. Desta vez não devia permitir que Dunkeld o dominasse. Tomou ar para falar, mas Dunkeld se adiantou.

— Sinto muito, senhor - disse em voz muito baixa ao príncipe. — Mas tem razão. Dói-me profundamente ter que dizê-lo, mas só pode ser um de nós. Isso é o terrível da situação.

Tinha o rosto tenso, e os olhos estavam quase negros na penumbra da sala, apesar do céu estar azul intenso além da janela com cortinas de veludo.

O príncipe ficou petrificado com os olhos muito abertos, as mãos levantadas em um gesto de impotência.

— Mas confiamos nesses homens! - exclamou horrorizado. — São extraordinários, todos e cada um deles! Necessitamo-los para construir a ferrovia! Voltou-se de novo para o Dunkeld, como se pudesse oferecer alguma explicação para mudar a situação.

— Não sei, senhor - disse Dunkeld com ar desgraçado. — Eu mesmo teria posto a mão no fogo por eles.

— Pô-la! - replicou o príncipe com repentina petulância.

Dunkeld contraiu o rosto.

— Pu-la por sua inteligência e suas faculdades, senhor. E também por seu prestígio.

O príncipe se esticou, irritado.

— Sim, sim, sinto muito. Quanto teria gostado de chamar o Watson Forbes. Teria sido o homem perfeito. Acredita que ainda poderíamos persuadi-lo? Se... ocorresse o pior e encontrássemos... - Tomou ar torpemente — ...se perdêssemos a alguém?

Dunkeld mordeu o lábio inferior.

— Duvido-o, senhor. Mas o tentarei. Forbes me disse de um modo que não se prestava a equívocos que tinha abandonado seus interesses na África.

— E se o pedisse eu pessoalmente? - perguntou o príncipe olhando ao Dunkeld.

— Estou certo de que faria tudo o que estivesse em sua mão para agradá-lo, senhor. Todos o faríamos - replicou, mas em sua voz não havia efusão. Disse-o só para aplacá-lo, e embora o príncipe passasse por cima, Pitt não. Por um instante pareceu apaziguar-se.    — Mas temo que a razão pela que renunciou a seus interesses na África é a morte de seu filho - continuou Dunkeld como se fosse preciso uma explicação.

O príncipe o olhou perplexo.

— A morte de seu filho? O que aconteceu? Não pode ser motivo suficiente para que um homem de seu talento e seus recursos abandone o trabalho de toda sua vida.

— Era seu único filho. - Dunkeld baixou ainda mais a voz. — E morreu em circunstâncias terríveis faz nove anos. O pobre Forbes ficou terrivelmente afetado. Ouvi dizer que foi ele quem achou ao jovem, ou o que restava dele. -Tinha uma expressão de asco e as comissuras dos lábios curvadas para baixo. — Foram crocodilos ou algo igualmente espantoso. Eu não estava na África então, mas sim meu genro, Julius Sorokine. E acredito que Quase e Marquand também estavam. E a filha do Forbes, Liliane. Isso foi antes que ela se casasse. - Esticou a boca. — Não estranho que Forbes tenha resolvido seus assuntos ali e não queira voltar, e menos ainda com a mesma pessoas a que ainda deve associar com a tragédia mais amarga de sua vida. - Com o tom baixo de sua voz insistia em que o príncipe respeitasse semelhante perda.

Sua Alteza Real pareceu resignar-se. Não toleraria ver-se dificultado por outras pessoas, mas sim por circunstâncias que sabia que não podia mudar. Era preciso respeitar os rituais da morte. Ele tinha sobrevivido ao luto de sua mãe durante três décadas sem ter penetrado sequer a camada exterior.

Olhou de novo para Pitt como se percebesse de repente de sua presença.

— É uma situação muito desventurada - disse, como se Pitt não pudesse entendê-lo - agradeceria que tivesse todo o tato que o fosse possível, mas temos que averiguar quem o fez. Isto não pode ficar assim.

Pitt não tinha intenção de abandonar nem dar-se por vencido. A atitude do príncipe era condescendente e lhe doeu, mas não podia fazer nada a respeito. Pensou na noite de indulgência e nos apetites que a tinham precipitado. Os dois homens que tinha ante si não tinham tido escrúpulos em pagar por utilizar o corpo da mulher nessa noite, sob o mesmo teto onde dormiam suas esposas. A falta de delicadeza lhe repugnou. E agora tudo o que lhes preocupava eram as perturbações e o medo a um escândalo. O príncipe pelo menos tinha tido relações íntimas com a mulher, a havia tocado, a tinha usado, e na manhã seguinte a tinham encontrado morta a punhaladas. Estavam furiosos porque um homem que chorava a morte de seu filho único tinha abandonado seus negócios na África e não queria participar da construção da ferrovia.

A magnitude de tudo isso, o poder desses simples indivíduos e sua profunda arrogância o deixaram atônito. Também lhe assustou que uns homens tão infantis tivessem tanto poder.

— E não ficará assim, senhor - disse com rigidez. — Cometeu-se um crime atroz. Cortaram o pescoço da mulher, cortaram-lhe o abdômen e a deixaram com as entranhas penduradas.

Viu o príncipe estremecer e sentiu certa satisfação enquanto o observava perder a cor do rosto até ficar branco e com a testa coberta de uma fina capa de suor.

Dunkeld suspirou dando a entender que Pitt era grosseiro e mais que um pouco tedioso, mas que não tinha esperado outra coisa dele.

— Certo! - disse cansativamente, voltando-se para o príncipe. — Peço-lhe desculpas, senhor. Pitt está... fazendo o que pode.

Era evidente que o achava de uma classe social inferior, mais ou menos como a mulher falecida. Mas enquanto ela tinha sido abertamente uma prostituta e tinha sido divertida a sua maneira, ele era um dissimulado profundamente aborrecido.

Pitt foi às nuvens. Só a expressão de humor do Dunkeld quando se voltou para ele, dando as costas ao príncipe, conteve-o de arremeter contra ele.

— O senhor Dunkeld tem toda a razão - disse em vez disso. — Mas é um assunto extremamente delicado. Naturalmente, todos os cavalheiros afirmam ter estado deitados a essa hora, mas dada a aula de diversão da noite, suas esposas não podem corroborar.

— E os criados? - perguntou o príncipe em um vislumbre de esperança.

— Todos os cavalheiros os despediram, exceto o senhor Dunkeld.

— Ah, sim, me esquecia. Bom, tem que haver algo que possa fazer! Como costuma proceder em casos assim?

— Faço perguntas, examino os fatos, as provas - replicou Pitt. — Mas nem todos os casos de assassinato resolvem-se, especialmente quando envolveu prostitutas. – Queria acrescentar "e seus clientes", mas sabia que se o fizesse, nunca o perdoaria. Não valia a pena só por uns momentos de satisfação; além disso, seria pouco profissional. Devia sair em seu auxílio antes que alguém falasse. — Mas a pessoa que mente costuma cair ela mesma em sua própria armadilha, cedo ou tarde - continuou, muito depressa. — Esta classe de crimes não acontecem sem que um primeiro incidente sacuda ao assassino além de sua capacidade para controlar sua obsessão.

— E isso é o que está procurando? - perguntou o príncipe, cético.

Pitt notou que se ruborizava. Assim expresso parecia totalmente inefetivo. Obrigou-se a recordar o número de casos que havia resolvido que em um momento ou outro tinham parecido sem solução.

— E outras coisas, senhor. - Sorriu forçado, e lhe pareceu que mostrava os dentes. — Mas agradecerei qualquer ajuda que possa oferecer, qualquer opinião. A rapidez tem grande importância, assim como a discrição.

Nas faces queimadas pelo sol do Dunkeld apareceram duas manchas escuras e furiosas, mas nem sequer ele se atreveu a contradizê-lo. O ambiente era eletrizante. Parecia que, além das janelas altas, estava a ponto de estalar uma tormenta.

— Sim - concordou o príncipe alegremente. — É claro que sim. É claro, qualquer ajuda. O que quer saber?

Não olhou ao Dunkeld, mas Pitt teve a impressão de que se proibia fazê-lo com um esforço consciente.

Era muito possível que não voltasse a ter uma oportunidade assim.

— Houve alguma desavença entre os hóspedes, ou entre os hóspedes e as convidadas? A franqueza seria de grande utilidade, senhor.

O príncipe pareceu aliviado ao responder.

— Sorokine estava mal-humorado. Não foi grosseiro, mas sua reticência a participar foi pouco cortês. Parecia absorto.

Pitt se conteve de sugerir que possivelmente não desfrutasse com esse tipo de diversão e foi incapaz de dissimular.

Como se lhe lesse o pensamento, Dunkeld o interrompeu.

— Antes que lhe atribua algum sentimento mais elevado, inspetor, Sorokine é um homem do mundo e portanto totalmente capaz de desfrutar como um cavalheiro. Acredito que tinha discutido com sua mulher e com seu irmão, Simnel Marquand. É meu genro, mas reconheço que tem um temperamento imprevisível.

— E os outros cavalheiros, participaram com entusiasmo? - perguntou Pitt.

— É claro que sim - respondeu o príncipe sem vacilar. Sorriu um momento antes que a lembrança se empanasse com o horror da manhã. — Sim - repetiu.

— Retiraram-se todos a essa hora? - insistiu Pitt.

O príncipe deixou ver seu desagrado. Era uma pergunta indiscreta, com pouco tato. Pitt era consciente disso, assim como da tensão que flutuava no ambiente. Mas não tinha intenção de fazer caso dessa repentina sensibilidade. Os sentimentos delicados desses homens eram por eles mesmos, como se um desconhecido lascivo os tivesse estado observando enquanto faziam alguma função corporal. Talvez não estivesse muito longe da verdade. Esperou.

— Não olhei o relógio - disse com frieza. — Calculo que eram passadas as doze. Sorokine se retirou antes.

— Entendo. Cada um com uma mulher diferente?

— Naturalmente! - replicou o príncipe. Parecia a ponto de acrescentar algo, mas trocou de opinião. Seguia vermelho.

— Quem de vocês se foi com a mulher assassinada, senhor? - perguntou Pitt.

— Eu - se apressou a responder Dunkeld.

Pela expressão de seu rosto e a do príncipe, Pitt soube que mentia. Foi um momento absurdo e ao mesmo tempo irreparável. Percebeu a onda de gratidão que sentiu o príncipe, e a vergonha que a substituiu ao ver que Pitt percebeu-a , como se o tivesse surpreendido cometendo um ato de covardia.

— Entendo - murmurou Pitt, e se obrigou a fazer cara inexpressiva, sem rastro de brincadeira e desprezo, embora não foi fácil. — E quanto tempo esteve com você, senhor Dunkeld?

— Não o cronometrei! - exclamou Dunkeld em um arrebatamento de ira. — E antes que me pergunte isso, não tenho nem idéia de aonde foi depois. Certamente ao encontro de um dos outros e de sua morte.

— Sabemos pelo Edwards, um dos lacaios, a que hora partiram as outras duas mulheres - indicou Pitt, — e a que hora deve ter morrido a terceira, tendo em conta o estado do corpo e a última vez que a viram.

— Então, como sugeriu há um momento deve ter sido Sorokine, Marquand ou Quase - disse o príncipe com profundo desalento. — Será melhor que averigue qual deles foi. Obrigado, Dunkeld. Agradeço sua discrição e sua lealdade. Já pode retirar-se... este, Pitt.

Pitt inclinou a cabeça e saiu ao corredor, seguido de perto pelo Dunkeld.

Tão logo estiveram bastante longe para que alguém os ouvisse, Dunkeld lhe pegou o braço e lhe deu a volta, quase empurrando-o contra a parede.

— Estúpido incompetente! - grunhiu. — Esteve falando com o futuro rei da Inglaterra como se fosse uma tia solteira beata. Quem diabos acredita que é para tratá-lo com essa condescendência escrupulosa de classe operária? Tem alguma idéia do ridículo que fez? Ninguém espera que se comporte como um cavalheiro, mas tenha ao menos a inteligência de calar seus julgamentos morais. Tem maneiras de subúrbio, de onde certamente provêm todos os de sua profissão.

— Sim - replicou Pitt entre dentes. O rosto do Dunkeld estava a menos de um palmo do seu, e lhe chegou fisicamente o calor de sua raiva e o aroma que desprendia sua pele. — Mas há subúrbios nos lugares mais inesperados. - Não afastou os olhos.

Dunkeld jogou o ombro direito para trás como se fosse golpeá-lo, mas ao ver o olhar impávido do Pitt, mudou de opinião e sorriu, curvando os lábios em uma careta desagradável.

— Se eu fosse você, aproveitaria esta oportunidade para melhorar de posição e ganhar a gratidão de meu futuro soberano, com a esperança de que meus filhos encontrassem uma ocupação mais respeitável - disse entre dentes. — Talvez até poderiam escapar de um emprego como o de policial, limpando a merda de outros. E suas filhas poderiam casar-se com comerciantes em vez de seus chefes. Mas é evidente que você não tem inteligência nem visão para isso. - Soltou-lhe por fim o ombro. — É você um néscio. Se for realmente o melhor homem que tem Narraway, que Deus nos proteja. Vá-se e siga com seus interrogatórios. Suponho que é inútil lhe pedir que procure não ofender a ninguém.

— Seria uma perda de tempo que me desse ordens, senhor Dunkeld - disse Pitt com voz rouca. — Respondo ao senhor Narraway, não a você.

Afastou-se, negando-se a arrumar a jaqueta que Dunkeld tinha torcido.

Mas enquanto percorria o corredor, não pôde impedir que as palavras do Dunkeld ressoassem em sua mente. Tinha havido beatice em sua retidão? Tinha dado mostras dela quando um homem melhor jamais o teria permitido? Não gostava de Dunkeld, mas tinha sido ingênuo o bastante para deixar que visse não só ele, mas também o príncipe de Gales. Por outra parte, o príncipe não só apreciava e confiava no Dunkeld, mas sim se apoiava em seu julgamento e sua lealdade.

Pitt poderia ter demonstrado também lealdade e certa compreensão para um homem que, sem sabê-lo, tinha convidado a sua casa (ou, mais exatamente, à casa de sua mãe) um sujeito que resultou estar louco. Se houvesse feito isso, teria ganhado a gratidão do príncipe e teria subido outro degrau na escada para a condição de cavalheiro.

Não importava se o devia ou não a seus filhos. Todos os homens querem que seus filhos tenham mais do que têm. Ele devia sem dúvida à Charlotte. Ela tinha nascido no seio de uma família economicamente abastada e socialmente respeitada. Sua irmã, Emily, casara-se com lorde Ashworth e a sua morte tinha herdado sua fortuna. Seu filho ia herdar todos os privilégios de seu pai. Charlotte, pelo contrário, casara-se com Pitt, e seu filho teria a melhor educação que Pitt pudesse lhe oferecer, mas nada mais.

Dunkeld tinha razão: poderia ter dado algo mais a Charlotte para seus filhos, inclusive para si mesmo. Mas tinha permitido que o orgulho e a cólera o contivessem. Ficou surpreso de seu próprio egoísmo e enojado de que tivesse sido precisamente Dunkeld quem o tivesse dito.

Achava-se em um dos corredores principais. Era muito largo comparado com o de sua casa. Como podia sentir-se tão encerrado, quase aprisionado, em um lugar assim? Deveria sentir-se orgulhoso de achar-se ali em lugar de estar desejando escapar.

Devia averiguar todo o possível sobre os hóspedes, incluído Dunkeld. Narraway estava investigando os fatos: reputação, posição econômica, ambições, amigos e inimigos. Pitt devia indagar seu caráter, suas iras e seus medos, até que ponto conheciam-se entre si. Um deles tinha matado uma mulher a punhaladas. Por debaixo de sua aparência inteligente e cortês tinha que haver um louco impulsionado por um ódio tão bestial que não tinha podido controlar-se nem sequer entre as paredes do palácio.

Pitt falou primeiro com Hamilton Quase. Viu-se obrigado a interromper sua conversa com o Marquand, mas não pôde achar ao Julius Sorokine, e não queria voltar a falar com o Dunkeld tão cedo.

Tinha esboçado uma espécie de plano. Embora não fosse suficiente para lhe infundir confiança, só um ponto de partida. Sentou-se em uma poltrona grande na sala que Tyndale lhe tinha atribuído. Frente a ele, Hamilton Quase ocupava outra das poltronas. Cruzou as pernas com elegância e esperou. Parecia cansado, com os olhos injetados em sangue e a pele, curtida pelo sol e o vento, salpicada como conseqüência de um excesso de álcool. Tinha as mãos apoiadas no regaço, mas Pitt pensou que se as tivesse deixado mais relaxadas lhe teriam tremido.

— Poderia me descrever a festa, senhor Quase? - começou sem rodeios. — Desde o começo. Quem a organizou? De quem foi a idéia?

Quase pareceu ligeiramente surpreso.

— Não acreditará que o assassinato dessa desventurada foi planejado? Por que ia fazer alguém algo tão... estúpido? E perigoso. - Tinha uma voz potente, mais forte do que qualquer um esperaria de seu aspecto ligeiramente hesitante.

— Você o que acha? - replicou Pitt.

Quase arqueou ainda mais as sobrancelhas.

— Não tenho nem idéia de quem o fez, se isso for o que me está perguntando.

Pitt sorriu de um modo quase imperceptível.

— Se soubesse, por que não me teria dito?

Quase lhe devolveu o sorriso com repentino humor.

— Há alguma classe de penalização para o primeiro que responda uma pergunta? Perdemos?

— Perdemos o que?

— A luta de engenho - replicou Quase.

— Então ganhei eu - disse Pitt.

— Oh... sim. - Quase sorriu. — Lhe respondi. Sente-o como uma vitória?

— Absolutamente. Por que íriamos brigar? Não estamos do mesmo lado?

— Isso depende de quão longe vamos - respondeu Quase. — Não sei quem matou à mulher nem por que. Suponho que quero que o averigue, mas há respostas que não vou gostar.

— Provavelmente ninguém gostará - concordou Pitt. — Qualquer assassinato afeta muito mais pessoas que ao assassino e a sua vítima. - Recostou-se, como se se relaxasse em seu assento. — Todos têm afetos e ódios, e segredos. Isso não muda as perguntas que tenho que fazer e que seguirei fazendo até que saiba quem a matou e possa demonstrá-lo.

Quase o olhou ligeiramente divertido. Havia algo mais em seus olhos que para Pitt foi muito difícil de decifrar, uma espécie de infelicidade, como uma velha ferida que voltava a doer.

— Então será melhor que comece já - disse em voz baixa. — O advirto, não tenho absolutamente nem idéia de quem a matou, e menos ainda de por quê. Parecia uma fulana muito inofensiva.

— Sim? - Pitt media o caminho. Era uma investigação estranha. A vítima era uma desconhecida para todos os que podiam ser culpados de havê-la assassinado. Ninguém tinha admitido tê-la visto antes sequer. — Como era? Por certo, como se chamava?

Quase franziu o sobrecenho, mas em seus lábios se desenhou um sorriso torcido.

— Sadie, acredito. Não cheguei a... falar com ela. Não estava aqui para agradar a mim salvo de uma forma indireta.

— Para agradar a quem estava então?

Quase ficou de novo ligeiramente surpreso.

— A Sua Alteza Real, é claro.

— Por que era expressamente para ele?

— Parecia realmente inteligente - disse Quase com franqueza. — Era muito engenhosa. Mas não era um engenho cruel absolutamente, só muito agudo. Sabia ler e escrever, e tinha um grande conhecimento dos homens e da natureza humana. Refiro a emocional assim como aos aspectos mais claros.

— Uma cortesã antes que uma prostituta? - perguntou Pitt. Deveria tê-lo imaginado.

— Expresso com elegância, sim - concordou Quase. — Não era particularmente bonita. Vi muitas mais bonitas. Com boa cútis e uns olhos bonitos, mas pelo resto muito comum. Era sua personalidade, sua risada, a agilidade de sua mente assim como de seu corpo. E cantava muito bem. Era muito divertida. - Escureceu-lhe o rosto e por um momento esteve muito longe dali.

Pitt fez uma careta, perguntando-se quanto do que dizia era verdade e quanto omitia. Certamente o que calava teria sido mais revelador.

— Pobrezinha - disse Quase em voz baixa. — Estava tão cheia de vida.

Pitt inalou e exalou devagar, com a repentina sensação de que Quase não estava falando dessa mulher mas sim de outra. Rechaçou-o como coisa de sua imaginação. Devia estar mais cansado do que se achava. A tarde chegava a seu fim e não ia a sua casa essa noite; talvez tampouco o fizesse no dia seguinte.

— Observou-a com muita atenção - disse por fim.

— O que? - Quase levantou o olhar.

— Observou-a com muita atenção - repetiu Pitt. — Deve ter passado bastante tempo na sala e falar muito.

— Não. Só foi a impressão que me deu.

Quase mentia.

— Tinha-a visto antes? - perguntou Pitt. — Tinha contratado possivelmente seus serviços em outra ocasião? Por favor, não o negue se for verdade. Não será muito difícil comprová-lo e então poderia vir à luz outro tipo de informação. - A ameaça, embora velada, era perfeitamente clara.

Quase sorriu de orelha a orelha, mas em seu olhar havia sofrimento.

— Está perdendo o tempo, senhor Pitt. Tenho muitos vícios. Posso chegar a atuar como um covarde moral. Rebaixo-me servindo a homens com um cargo superior ao meu e uma moralidade inferior, e sei. Salta à vista que bebo muito. Mas não freqüento os bordéis de Londres nem de nenhum outro lugar. Como talvez percebeu, tenho uma bonita mulher. - Inalou fundo e deixou escapar um suspiro de dor. — E, a diferença de alguns homens, dou-me por satisfeito.

Pitt acreditou nele. O tato fez que não insistisse no assunto.

— Soube que o senhor Sorokine também se retirou logo. É isso certo? - perguntou.

Por um momento lhe iluminaram os olhos de gratidão.

— Sim. E só, se for o que está perguntando. Se ficou só, não tenho nem idéia.

— De modo que havia três mulheres, uma para o senhor Marquand, outra para o senhor Cahoon e outra para Sua Alteza Real? - disse Pitt a modo de conclusão.

— Isso parece - concordou Quase. — Eu fiquei até que se retiraram, que foi por meia-noite. Não sei o que aconteceu. Pelo que sei, eram umas mulheres muito divertidas e ganharam seus honorários fazendo que passasse uma noite lenta e aborrecida da forma mais prazenteira.

— Uma noite lenta e aborrecida? - Pitt arqueou as sobrancelhas.

— Sua Alteza Real, quando está sóbrio, pode ficar muito pesado - disse Quase com o esboço de um sorriso. — E quando está bêbado, ainda mais. É como arar um campo depois de uma semana de chuva. Dunkeld é um fanfarrão, como pode ser que já tenha percebido. Marquand é um bom tipo, suponho, embora me aborreça bastante sua rivalidade com Sorokine. São meio-irmãos, suponho que sabe. Sorokine pode ser também um chato porque vive absorto em seus problemas e estes lhe pesam. E antes que me pergunte isso, não sei quais são, mas suponho que têm que ver em grande medida com sua mulher, cujo comportamento com o Marquand é escandaloso.

— Tampouco me diria isso se soubesse - acrescentou Pitt.

— Exatamente - concordou Quase.

— Então, foi uma noite agradável? Sem discussões? Não houve tensões na hora de decidir quem se ia com essa mulher?

Quase riu abertamente.

— Entre quem, pelo amor de Deus? Sua Alteza Real levou a que queria, Dunkeld escolheu entre as outras duas e Marquand se conformou com a que ficou. Se necessitar que o explique, então não tem nem idéia de nada, para não falar de quem matou a pobre mulher!

— Não se trata só do que me diz, senhor Quase, mas sim de quem me diz isso e como - replicou Pitt, mas se arrependeu no ato. Defendeu-se, traindo assim sua necessidade de fazê-lo. Era muito tarde para retirar as palavras. — Obrigado. Pode pedir ao senhor Marquand que venha?

Cinco minutos depois Simnel Marquand entrou e fechou a porta atrás dele.

— Não posso lhe ajudar - disse antes de cruzar sequer a sala.

Sentou-se, com menos graça e mais desconforto que Hamilton Quase. Era um homem de aparência agradável com um rosto inteligente e sensual. Vestia-se bem, mas sem a elegância natural de quem, tendo entendido em outro tempo de moda, pode segui-la ou passar dela quando deseja muito.

— Não voltei a ver a pobre mulher depois de ir deitar - explicou. — E não tenho nem idéia do que aconteceu. Não vi ninguém pelo corredor, e soube que já interrogou aos criados. Parece-me inexplicável. - Falou como dando por terminado o assunto.

— Parece - concordou Pitt. — Mas deve ser porque ainda não demos com a explicação. Os fatos são inelutáveis. Três mulheres vieram de noite, duas se foram e a terceira a acharam morta no armário da roupa branca. Os criados têm álibi e a única outra pessoa que foi além da cozinha, mas que só esteve uns minutos escassos, é o carreteiro que ajudou ao lacaio a levar a caixa do senhor Dunkeld ao piso de cima. Ficou uns minutos e não pisou no corredor dos dormitórios. Além disso, não havia rastro de sangue em sua roupa quando partiu. Se você tivesse visto o cadáver da pobre mulher, saberia que quem a matou não poderia ter deixado de manchar-se.

Marquand estava pálido e imóvel de um modo antinatural. Era evidente que lhe tinha afetado a gráfica descrição do Pitt. Tinha as mãos fortes e esbeltas, mas com as pontas dos dedos quadradas. Tinha-as juntado em um esforço de impedir que seguissem tremendo.

— Eu não a matei e não tenho nem idéia de quem o fez - repetiu.

Pitt sorriu.

— Não esperava que me dissesse isso, senhor Marquand. Mas poderia me descrever a festa dessa noite.

— Só foi uma... - começou a dizer Marquand, logo se interrompeu. — Imagino que você nunca esteve em uma... noite assim.

— Não - respondeu Pitt com solenidade. Calou o comentário sarcástico que tinha na ponta da língua só porque era seu dever. — Certamente suas esposas se retiraram logo e depois fizeram entrar às... mulheres.

Marquand apertou os lábios e lhe subiram ligeiramente as cores.

— Faz com que soe vulgar - disse com tom de crítica.

Pitt se recostou. Não podia tirar da cabeça o rosto moreno e triste da Olga Marquand. Entretanto era uma tolice. Certamente estava acostumada a esses acertos e saberia que em grande medida o encargo de seu marido ali era agradar ao príncipe de Gales.

— Pois me explique isso - ofereceu.

Marquand abriu muito os olhos.

— Pelo amor de Deus, tem inveja? - exclamou assombrado. — Posso lhe assegurar que se teria divertido o mesmo cantando na taverna de seu bairro com seus amigos! Ou em uma grande noite de music hall, prazeres que não são acessíveis a Sua Alteza Real, por motivos claros. As mulheres se retiraram cedo. Tampouco teriam ficado mesmo que a sociedade lhes tivesse permitido tal liberdade. Bebemos, provavelmente muito, cantamos umas quantas canções, contamos piadas más e rimos muito forte.

Pitt imaginou.

— Está-me dizendo que todos foram se deitar por separado? - inquiriu, sem incomodar-se em dissimular sua incredulidade.

— Não, é claro que não - replicou Marquand. — O príncipe levou a mulher que acharam mais tarde morta. Sarah, ou Salli, como se chamasse...

— Sadie - ofereceu Pitt.

— Isso, Sadie. Eu fui com o Molly e Dunkeld com Bela. Não voltei a ver as demais. Tem certeza de que não poderia ter sido uma delas quem matou Sadie? Em um feroz ataque de ciúmes ou em alguma classe de briga, certamente por dinheiro? Parece bastante provável.

Pitt decidiu lhe seguir a corrente.

— Acredita que isso é o que poderia ter se passado? - perguntou.

Marquand o olhou.

— Por que não? Tem mais sentido que a hipótese de que a tenhamos matado um de nós! Acredita que algum perdeu o juízo... fez em migalhas a pobrezinha durante meia hora e voltou para a cama, e a manhã seguinte despertou em perfeito controle, tomou o café da manhã e reatou as conservações sobre a ferrovia do Cabo ao Cairo? – Não se incomodou em dissimular o sarcasmo.

— Preferiria acreditar que foi uma das outras mulheres, certamente - concedeu Pitt. — Digamos, por seguir com sua hipótese, que foi Bela. Deixou a cama do senhor Dunkeld, percorreu o corredor sem despertar ninguém e se achou por acaso com o Sadie, que tinha deixado por sua vez a cama do príncipe totalmente nua. Viram o armário da roupa branca e decidiram meter-se nele, procurando talvez intimidade. Uma vez dentro tiveram uma briga furiosa, que por sorte ninguém ouviu, e Bela, que tinha tido a previsão de agarrar uma das facas da copa, rasgou a garganta e o estômago do Sadie. Por sorte, não lhe caiu nenhuma só gota de sangue no vestido, nem nas mãos ou braços. Depois partiu discretamente com Molly, a quem achou também por acaso, e saíram juntas do palácio e se foram para suas casas. Algo assim?

Marquand estava vermelho e lançava fogo pelos olhos. Começou a falar duas vezes, mas se deu conta de que o que ia dizer era absurdo e voltou a interromper-se.

— Talvez possa me dizer algo mais dos ânimos ou o ambiente que se respirou durante a noite, senhor Marquand - perguntou Pitt, consciente de estar utilizando um tom extremamente condescendente. — Havia maus sentimentos entre os homens, ou entre eles e as mulheres?

Marquand estava a ponto de negá-lo, mas mudou de opinião.

— Põe-me em uma situação odiosa - se queixou. — Seria ridículo acreditar que o príncipe do Gales poderia fazer algo assim. Sei que não o fez, mas não posso demonstrá-lo. Dunkeld esteve supostamente com a outra mulher, Bela, menos quando foi esvaziar a maldita caixa de livros, e parece que pode demonstrá-lo. - A inflexão de sua voz mudou ligeiramente, adotando um tom tenso. — Meu irmão, Julius, retirou-se cedo e só. Não quis ficar conosco e não nos deu nenhum motivo. O príncipe de Gales não ficou satisfeito, mas não chegou a ser incômodo.

— senhora Sorokine é muito atraente - omentou Pitt com toda a naturalidade de que foi capaz. — Provavelmente preferiu sua companhia a de uma mulher da rua.

Marquand recuperou a cor.

— É você extremamente insultante, senhor! Só posso desculpá-lo sua ignorância!

— Como preferiria que o expressasse, senhor? - perguntou Pitt.

— Julius foi se deitar com atitude santarrona - disse Marquand com aspereza, olhando-o momentaneamente com ódio. — Sua mulher não o viu até a hora de comer do dia seguinte.

Pitt ficou desconcertado pela força de seus sentimentos e desconfortável por ter sido testemunha deles.

— Disse-o ele ou ela? - perguntou ele.

— O que? - A cor do rosto do Marquand não diminuiu. — Ela. E antes que me pergunte isso, não tenho nada mais que dizer sobre a questão. Julius é meu irmão. A honra me obriga a dizer a verdade. Não penso mentir, nem sequer por ele.

— Entendo. E, é claro, a senhora Sorokine é sua cunhada - concedeu Pitt.

Na realidade não o entendia. A cólera do Marquand ia dirigida contra seu irmão, porque o tinha posto em uma situação que o obrigava a mentir ou a traí-lo? Ou contra as circunstâncias, contra o príncipe e suas expectativas, inclusive contra Dunkeld, por ser o artífice de toda essa situação? Ou contra sua própria mulher, por lhe fazer sentir-se culpado por ter assistido à festa e tê-la passado bem?

Pitt surrupiou uns poucos detalhes mais e o deixou partir. Depois chamou Julius Sorokine, apesar de se retirar antes e poder saber ainda menos que os outros homens.

Julius entrou com toda tranqüilidade, mas Pitt percebeu nele uma ansiedade inconfundível. Era mais alto que seu irmão e se movia com a classe de elegância que não se aprende. Sua desenvoltura era um dom da natureza. Sentou-se frente a Pitt e esperou que o interrogasse.

— Por que se retirou da festa antes de alguém, senhor Sorokine? - perguntou Pitt sem rodeios.

A pergunta pareceu incomodá-lo e ao Pitt lhe passou pela cabeça que, antes de passar o tempo com uma das prostitutas que tinha procurado seu sogro, talvez tivesse estado com outra mulher de sua escolha. Talvez fosse isso o que lhe tinha confiado a atraente Minnie Sorokine a seu cunhado.

— Tinha uma entrevista com alguém? - perguntou Pitt bruscamente. — Se for assim, esse alguém poderá dar razão de seu tempo sem que seja necessário que se inteire sua esposa.

Julius riu abertamente, apesar de seu desconforto. Foi um som claro e afável.

— Eu gostaria, mas temo que não. Estive totalmente só. Nem sequer meu criado pode responder por mim além da primeira meia hora, que não coincidiu com a hora em questão posto que as mulheres continuavam na festa.

— Por que se retirou cedo? - perguntou Pitt. — Se achava mal? Hoje parece estar bem.

— Encontrava-me perfeitamente - replicou Sorokine. Parecia coibido. — Simplesmente preferi não me permitir essa espécie de prazer.

Pitt abriu um pouco os olhos, não muito seguro de se estava tirando precipitadamente conclusões infundadas.

Sorokine o entendeu imediatamente e se ruborizou.

— Verá, tenho em grande estima a uma mulher que não é minha esposa - disse com voz rouca. Estava visivelmente envergonhado. — Prefiro que não me veja bebendo e fornicando com prostitutas. Importa-me a opinião que possa ter de mim. - Ergueu o olhar e olhou ao Pitt com surpreendente franqueza.

— Desculpe - disse Pitt, logo se sentiu estúpido. Só estava fazendo seu trabalho e não tinha sido mais que uma simples idéia que tinha descartado. Mas não esqueceria essas palavras do Julius Sorokine. Era um estrato mais das complicadas emoções que havia entre essas pessoas. Referia-se à atraente senhora Quase, cujo marido bebia muito e falava de si mesmo em termos tão depreciativos?

Seria bastante fácil de compreender. Ou à desventurada Olga Marquand, a mulher de seu irmão, elegante, rígida e retraída? Ou a Elsa Dunkeld, tão remota como um país inexplorado onde tudo estava por descobrir? Teria que ser valente o homem que abandonasse à filha do Cahoon Dunkeld para tratar de ir com sua mulher!

Esquadrinhou atentamente o rosto do Sorokine e não viu nele essa classe de coragem. Havia força, mas não fogo nem resolução.

Pitt lhe fez umas poucas perguntas mais, mas não averiguou nada que parecesse de interesse. Finalmente o despediu e mandou chamar o Dunkeld.

— E então? - perguntou Dunkeld enquanto fechava a porta. — Obteve algo além de insultar ao príncipe do Gales e contrariar a todos outros?

Não se sentou, mas ficou em pé, erguendo-se sobre o Pitt, que não tinha tido tempo de levantar-se.

Pitt permaneceu sentado, tratando deliberadamente de parecer relaxado.

— A grande caixa que lhe trouxeram pouco antes que assassinassem a Sadie - disse com calma, cruzando comodamente as pernas. — O que havia nela e onde está agora?

— Como diz? - Dunkeld ergueu a voz, furioso. — Me fez interromper uma reunião para me perguntar isto? Fez averiguações sobre quem matou a essa desventurada? -Inclinou-se para diante. — Perdeu o juízo? Tem alguma idéia do que ocorreu? Alguém assassinou a uma prostituta na residência da rainha! O que é preciso para movê-lo a agir? Um desses homens, que Deus nos livre, está louco.

Pitt se recostou devagar e levantou a vista para ele.

— Suponho que se refere a um dos outros três: Marquand, Sorokine ou Quase.

Dunkeld empalideceu ligeiramente.

— Infelizmente sim. Lhe ocorre outra explicação?

— O que havia dentro da caixa? - voltou a perguntar Pitt. — Parece que a esperava. por que a essa hora da noite? Os carreteiros não costumam fazer entregas à meia-noite.

Dunkeld se sentou por fim e se inclinou para diante, com os cotovelos apoiados nos joelhos.

— Livros - respondeu asperamente. — Sobretudo mapas da região da África que nos interessa. Sim, esperava-os. São muito importantes para o trabalho que estamos planejando fazer.

— Por que não os trouxe com você, então? - perguntou Pitt.

— Pedi a um livreiro que me mandasse isso! - replicou Dunkeld. — Se já tivessem estado em meu poder, teria os trazido comigo! É você estúpido?

— E os enviou a meia-noite?

— Isso salta à vista! Não sei por que demorou tanto. Que demônios tem que ver isso com a morte da mulher?

— Ainda não sei. E você?

Dunkeld conteve sua cólera com visível dificuldade.

— Não, é claro que não, ou o diria. É evidente que vai necessitar toda a ajuda que possa obter.

— Se não recorda mal, senhor Dunkeld, foi você quem nos chamou - replicou Pitt.

O rosto do Dunkeld se escureceu perigosamente.

— Toco arrogante! Você é um criado. Está aqui para limpar a porcaria de outros e velar pela segurança de seus superiores. Você é o furão que os homens decentes metem nas fossas para caçar coelhos.

— Pois se quiser que alguém cace seu coelho porque não é capaz de fazê-lo você mesmo - disse Pitt gelidamente, — será melhor que empregue o melhor furão que possa achar e lhe dê liberdade de ação. Ou o coelho escapará e ficará você só junto a uma fossa vazia.

Dunkeld se levantou devagar.

— Não lhe esquecerei, Pitt. - Era claramente uma ameaça.

Pitt também ficou em pé. Eram da mesma estatura e estavam muito perto um do outro para sentir-se cômodos ou para guardar as aparências, mas nenhum dos dois se moveu.

— Eu pelo contrário é muito provável que o esqueça, senhor - replicou. — Conheço muitos homens como você em meu trabalho. - Esboçou um sorriso. — Obrigado por responder minhas perguntas. Não acredito que seja necessário lhe perguntar pela... festa... que organizou o príncipe de Gales. Já tenho várias crônicas bastante boas.

Dunkeld virou sobre seus calcanhares e bateu a porta ao sair.

 

Eram passadas às seis da tarde e Pitt voltava a estar sentado na mesma sala, refletindo sobre as impressões que lhe tinham causado os quatro homens. Perguntava-se se devia usar a campainha e pedir a quem acudisse uma taça de chá quando bateram na porta.

— Entre - disse surpreso.

Gracie não podia ficar em contato com ele tão abertamente e não lhe ocorreu quem mais podia ir vê-lo.

Mas quando se abriu a porta, não foi Gracie quem apareceu na soleira, mas uma elegante mulher de meia idade. Ia vestida à última moda em seda muito escura, com babados da cintura para baixo e uma pequena cauda. No peito levava renda cara e um camafeu que Pitt calculou que devia custar o mesmo que uma boa carruagem.

Levantou-se, seguro de que se equivocara de sala.

— Boa tarde - disse ela cortesmente. — É você o inspetor Pitt?

— Sim, senhora.

Parecia ridículo oferecer-se a ajudá-la. Estava muito mais tranqüila que ele.

Ela sorriu ligeiramente.

— Sou a criada da princesa de Gales. Sua Alteza Real lhe estaria muito agradecida se a atendesse. Posso lhe acompanhar agora. - Expressou-o como um pedido, mas estava claro que Pitt não podia recusar.

— Por... certo.

Tinha a boca seca. Deu voltas a por que quereria vê-lo e o que podia lhe dizer ele. A primeira coisa que pensou foi que Dunkeld se queixara de suas maneiras. Mas por que ia chamá-lo a princesa de Gales em lugar do príncipe? Que classe de mentira podia lhe dizer para evitar falar do caso que estava investigando? Quanto a sabia já? Tinha ouvido dizer que padecia de uma surdez severa. Talvez não sabia nada e queria lhe perguntar que fazia ali. O que devia lhe responder?

Seguiu sumisamente à criada de quarto, quem o conduziu a considerável distância por corredores amplos de tetos altos até o que pareceu ser seu destino. Ela bateu na porta e entrou sem esperar resposta, indicando por gestos ao Pitt que a seguisse.

O aposento em que se achou de repente estava muito mobiliado, como todos os que tinha visto, e tinha os tetos altos e cobertos de molduras douradas e pintadas, mas não os olhou sequer. Concentrou toda sua atenção na mulher sentada em uma cadeira alta junto à janela, com uma bandeja de chá na mesa de marchetaria que tinha diante. Havia três xícaras, um prato com sanduíches diminutos, e pequenos pedaços de bolo cortados como se tivessem asas sobre creme montado. Também havia scones recém feitos cujo aroma reconheceu, um prato de manteiga, outro de geléia e outro de creme cremoso. Engoliu a saliva como se os provasse. Não se tinha dado conta da fome que tinha.

— É muito amável me vindo ver, senhor Pitt - disse a mulher da janela com elegância.

Pitt tinha ouvido dizer que a princesa Alejandra era formosa, mas não estava preparado para as feições regulares e a cútis perfeita na sua bem entrada meia idade.

O que se dizia a uma princesa surda que algum dia seria rainha? Importava? Ajudá-la-ia a criada? Devia elevar a voz ou era inadmissível, apesar de seu problema de ouvido?

Engoliu em seco.

— É uma honra, alteza. - Tinha falado muito alto?

Ela o observava atentamente. O que ia perguntar lhe?

— Sente-se, por favor - o convidou, assinalando a cadeira que tinha em frente.              — Aceita uma xícara de chá?

Devia aceitar o oferecimento ou era uma mera fórmula de cortesia? Não tinha nem idéia. Estava à corrente do grosseiro que se mostrara com o príncipe?

— Por favor, diga que sim - sussurrou a criada um par de passos detrás dele. — Sua Alteza Real deseja falar com você. Será agradável.

— Obrigado - disse Pitt com mais suavidade. — Obrigado, senhora. - Sentou-se sentindo-se torpe, todo braços e pernas não coordenados, como se ainda fosse um adolescente.

— Tem um trabalho muito difícil, senhor Pitt - comentou a princesa pegando um sanduíche de pepino e o convidando por gestos a fazer o mesmo.

— Sim, senhora - assentiu ele.

Pegou um sanduíche com cuidado, perguntando-se se seria capaz de despachá-lo em três dentadas.

— Já conheceu a todos os hóspedes de Sua Alteza Real? - inquiriu ela. Tinha uns olhos formosos, inteligentes e muito francos.

— Sim, senhora. - Devia acrescentar algo mais. Parecia estúpido. — Falei com os cavalheiros esta tarde. Não tenho certeza se as damas podem me dizer grande coisa.

Quanto sabia a princesa? Devia ter muitíssimo cuidado de não dizer nada que não soubesse. Isso seria terrível.

— Pode ser que leve uma surpresa - disse ela com um leve sorriso cheio de humor. — As mulheres observam mais do que acha.

Ele não soube como responder a isso e não lhe pareceu educado dar outra dentada ao sanduíche.

Ela bebeu um gole de chá.

— Pode ser que descubra que elas também perceberam as tensões, as simpatias e antipatias, as rivalidades.

— Perguntarei, senhora - prometeu ele, embora pensasse que seria inútil.

— Está pensando que serão muito leais a seus maridos para lhe dizer algo que possa lhe ser útil neste desagradável assunto - prosseguiu ela.

A última parte de sanduíche lhe desceu por outro conduto, provavelmente porque inalou ao mesmo tempo, e se achou tossindo com lágrimas nos olhos. Estava fazendo o ridículo. Era como um pesadelo.

— Beba um pouco de chá, senhor Pitt, e lhe passará - indicou-lhe com delicadeza.        — Em seguida estará bem. Não trate de falar, que será pior, por favor. Faço-me perfeito cargo. Eu mesma me fixei em pequenos detalhes que pode ser que lhe sirvam de ajuda.

Ao Pitt pareceu tão improvável para ser impossível. O que podia saber ela do comportamento das prostitutas ou dos elementos mais violentos da natureza dos homens? Mas não podia dizê-lo porque o proibia a cortesia. Além disso, continuava temendo engasgar-se tentasse falar.

Ela sorriu um pouco absorta, como se estivesse concentrada em ordenar seus pensamentos.

— Observei que a senhora Sorokine possui um glamour voluptuoso que não parece reter o olhar de seu marido - disse com uma franqueza devastadora. — Não acredito que ele finja indiferença. Não vi nenhum indício nele. Se olha a alguém com discrição é a sua madrasta, a senhora Dunkeld.

Pitt clareou a voz.

— É muito observadora, senhora.

— Disponho de muito tempo - respondeu ela com tristeza, mas a expressão serena de seu rosto mal mudou. — As pessoas não falam muito com um surdo. Supõe-lhes muito trabalho fazer-se entender. Poucos se dão conta de quanto se entende só vendo o rosto de uma pessoa ou observando-a enquanto fala. Surpreender-lhe-ia as vezes que os olhos e os lábios dão mensagens contraditórias.

Ele sabia que tinha razão. Assim era como freqüentemente intuía que alguém mentia, até antes de conhecer os fatos.

— E o que observou em outros, senhora? - perguntou.

Ela franziu ligeiramente o sobrecenho.

— Como diz?

Ele repetiu a pergunta mais devagar e um pouco mais forte. Notou que se ruborizava de vergonha. Pareceu-lhe que estava sendo ligeiramente condescendente sem propor-lhe evidente que ela não o havia ouvido.

— Oh. - Desta vez entendeu. — A senhora Marquand é muito desgraçada. Observe seu rosto em repouso. Passa da cólera à tristeza. E a senhora Quase está assustada. Sempre tem algo nas mãos.

— E a senhora Dunkeld? - perguntou ele.

Fez-se evidente que ela não o tinha ouvido.

— E a senhora Dunkeld - continuou — tem medo de seu marido, o que é muito diferente. A senhora Quase tem medo por seu marido, embora não sei o que acredita que poderia lhe acontecer. A senhora Dunkeld nunca olha à senhora Sorokine. Acredito que não se atreve, se por acaso lhe trai o olhar.

— É extremamente observadora, senhora - disse ele com sinceridade.

— Por favor, tome o chá. - Ela indicou a bandeja. — Frio não está tão bom. E prove um scone. Não é uma falta de educação. Pedi-os para você e terei um desgosto se não o comer.

Ele se atreveu a lhe sorrir.

— Obrigado, senhora.

Devolveu-lhe o sorriso em um gesto repentinamente encantador.

— Como vê, seria um detetive muito melhor do que acredita. Ao senhor Dunkeld não agrada o senhor Sorokine. Não ouço o que diz, mas vejo seus olhos. Inclusive quando ri, não é uma risada afável ou agradável. Está zangado.

— Sabe por que, senhora? - perguntou Pitt.

Ela não o ouviu.

— A meu marido agrada, mas a mim não. Acredito que está utilizando a Sua Alteza Real para obter o que deseja. Não é nada extraordinário, é claro. Uma pessoa conta com isso, mas o príncipe às vezes pensa melhor da pessoa do que a meu parecer é prudente. Acredita-se que as pessoas com as que se diverte em seus momentos de ócio são mais afins a ele do que realmente são.

Pitt entreviu uma profunda solidão, um mundo onde não havia iguais e onde ninguém se atrevia a dizer a verdade se por acaso não era bem recebida. Onde a pessoa sempre vivia imersa em muitas mentiras.

— Sinto-o - disse com profundo sentimento.

Deve ter lhe lido os lábios.

— Tem bom coração, senhor Pitt. Por favor, recorde como morreu essa pobre mulher. Quem é que está procurando não tem compaixão, nem por ela nem por você.

Ele guardou silêncio, perplexo.

— Ponha creme no scone - acrescentou ela. — Está ainda melhor.

— Obrigado, senhora - aceitou ele, com considerável gratidão. Estava delicioso.

— Todos estão muito afetados - prosseguiu ela, como se respondesse algum comentário que tinha feito ele, embora em realidade tivesse a boca cheia.

Ele se perguntou se tinha a mais mínima idéia do que tinha ocorrido em realidade, da violência e a hostilidade que havia em jogo.

— Não se pode esperar que tudo siga como se nada tivesse acontecido - continuou. — Mas devemos fazer um esforço. É parte de nosso dever, não lhe parece?

Engoliu a saliva e deu a única resposta que era capaz de pronunciar. Dificilmente podia contradizê-la.

— Sim, senhora, na medida em que seja possível.

— Têm que mudar muitas pequenas coisas, naturalmente. Quer mais chá? Eleanor, querida...

A criada o serviu antes que Pitt pudesse responder.

— Obrigado - disse rapidamente.

— Foi muito amável me dedicando tempo - acrescentou a princesa. — Estou certa de que está muito ocupado. É claro, poderia ser algo relacionado com a ferrovia, mas confesso que não vejo a conexão. Todos parecem muito entusiasmados com o projeto, exceto talvez o senhor Sorokine. Fez um comentário e temo que não ouvi, mas em seu rosto havia dúvida, recordo-o, e todos outros se zangaram com ele. Até aí esteve claro.

Pegou um scone e o cobriu de creme e geléia.

— A que horas mataram a pobre criatura, senhor Pitt?

Pitt ficou paralisado. Sabia!

— Na madrugada, senhora. Antes das duas e meia.

A seu lado, a criada ficou rígida.

Alexandra o notou.

— Fique calma, Eleanor - se apressou a dizer. — Estou surda, mas não cega. Sei perfeitamente no que consistiu a festa. O que não sei é por que a banheira continuava quente.

— Como diz? - perguntou Pitt antes de dar-se conta da falta de decoro.

— A banheira estava quente - repetiu ela, lhe oferecendo outro scone. — O ferro fundido conserva o calor da água durante um tempo, já sabe. Se não está frio. Continuava surpreendentemente quente às oito da manhã. Eu mesma a toquei.

— Que banheira, senhora?

— A de Sua Alteza Real, é claro. Mas seu valete não subiu a água. Ponha mais creme. Já verá que diferença.

Pitt se serviu automaticamente, com os dedos quase intumescidos enquanto as palavras lhe amontoavam na cabeça.

 

Enquanto Pitt dava início à investigação nessa manhã, Narraway se dirigia em um coche de aluguel a Westminster e à Câmara dos Comuns. Escreveu em um cartão uma breve nota dizendo que precisava consultar um tema de suma urgência e pediu a um dos jovens administrativos que a levasse ao Somerset Carlisle ali onde se encontrasse.

Depois esperou, dando voltas e olhando cada poucos minutos para as portas do amplo hall, para ver se aparecia Carlisle. Cada vez que ouvia passos se sobressaltava e embora soubesse que muitos dos parlamentares saíam de uma reunião para entrar em outra, optou por encostar-se à parede e fugir de seus olhares. Realizava melhor seu trabalho quando se movia com discrição e ninguém podia dizer com exatidão que aspecto tinha ou quem era.

Transcorreram vinte minutos antes que Carlisle saísse. Caminhava com passo suave pelo chão lajeado, mais magro e não tão erguido como antes. Mas tinha exatamente o mesmo rosto enxuto e irônico, as sobrancelhas grossas e um olhar inteligente, com esse ar de quem não escapa nenhuma brincadeira.

— O que pode ser tão urgente para fazê-lo sair de seu escritório? - perguntou em voz baixa.

Para um mero observador não fez mais que reconhecer a presença do Narraway, como teria feito qualquer com um membro de seu distrito eleitoral que tivesse ido por negócios.

— Necessito de certa informação - respondeu Narraway sorrindo.

— Que surpresa. - Seu tom era mais divertido que sarcástico. — Sobre o que?

— A ferrovia do Cabo ao Cairo.

Carlisle arqueou as sobrancelhas.

— E é bastante urgente para me tirar de uma reunião com o ministro de Interior?

— Sim - replicou Narraway. Viu o ceticismo do Carlisle e acrescentou: — me acredite.

— Demorará décadas em construir-se - destacou Carlisle, voltando-se para Narraway. — Se é que a constroem. Assim, logo, não me ocorre nada menos importante.

— Preciso saber mais do assunto e das pessoas envolvidas - disse Narraway. — Hoje. Inclusive poderia ser muito tarde.

— Mas espera que eu lhe diga a verdade. - Carlisle deixou claro que não confiava em Narraway. Havia irritação em seu rosto, como se acreditasse que mentia para utilizá-lo. Era pouco próprio dele, pois não era um homem vaidoso nem irascível.

— Se o digo devemos estar os dois sós onde ninguém possa nos ouvir nem nos ver se for possível.

Narraway cedeu para economizar tempo. Tratava-se de um caso desagradável. A implicação do príncipe requeria ir com muito mais cuidado que na maioria dos casos de violência ou ameaça anarquista. O descobrimento de um escândalo poderia ter conseqüências imprevisíveis. Não se sabia o alcance que podia ter.

— Subamos pelo Great George Street até o Birdeage Walk - propôs Carlisle. — Uma vez que nos tenhamos afastado do Westminster, poderá me dizer o que precisa saber e lhe darei a informação de que disponho. Mas lhe advirto que todo o projeto é pura especulação. Cecil Rhodes o apoiaria sem titubear e isso significa muito. É um homem extremamente ambicioso. Não estará relacionado com ele?

— Não - disse Narraway com ironia. — Ao menos o duvido. É algo muito mais imediato.

— Suponho que sabe do que está falando, porque eu não tenho nem idéia! -exclamou Carlisle com um gesto de resignação. — Mas o escutarei. Vamos.

Conduziu-o até a rua e subiram devagar a colina, afastando-se do rio e do tráfego de navios de recreio, barcos e ferries, até que estiveram sós no Birdeage Walk. A sua direita se estendia a verde esplanada do St. James Park, onde as árvores se agitavam com a suave brisa e os casais passeavam totalmente absortos neles mesmos.

Narraway tomou por fim a palavra. Tinha decidido que o assunto era bastante urgente para que as conseqüências ameaçassem descontrolar-se. Não tinha nem idéia se o assassinato estava relacionado de algum modo com o projeto da ferrovia ou com qualquer de suas ramificações diplomáticas. Os motivos podiam ser a ambição ou a avareza pessoal que nasciam do poder e dos benefícios. Ou simplesmente que um dos homens envolvidos estava louco, e o tempo e o lugar que tinha escolhido para agir eram uma horrível coincidência.

À margem de todas as variações possíveis, precisava averiguar tudo o que fosse possível. Carlisle era o último homem em quem podia confiar e ao mesmo tempo era o que mais discrição podia oferecer.

— O príncipe de Gales está interessado na ferrovia do Cabo ao Cairo - começou a dizer, expressando-o-o mais sucintamente possível. — Neste momento tem como hóspedes a quatro homens com suas esposas: Cahoon Dunkeld, Hamilton Quase, Julius Sorokine e Simnel Marquand.

— Pretendem obter o contrato da ferrovia? - perguntou Carlisle, afrouxando o passo.

— Sim. Querem persuadir ao príncipe para que os apóie. - Narraway se adequou a seu passo.

— Tem sentido. E o que preocupa à Brigada Especial? Desconfia de algum?

Narraway sorriu.

— Profundamente - respondeu com amargura. — O problema é de qual deles. Verá, há duas noites os cavalheiros, junto com o príncipe, organizaram uma festa bastante desenfreada com três prostitutas que foram para entretê-los. Na manhã seguinte acharam o cadáver de uma delas no armário da roupa branca, degolada e estripada. Excluímos a possibilidade de que fosse um dos criados e, tratando-se do palácio, não é difícil descartar aos intrusos.

Carlisle se tinha detido em seco, quase perdendo o equilíbrio.

— Como? - Piscou. — O que disse?

— Exatamente o que ouviu - respondeu Narraway com suavidade. — Não foi Dunkeld. Tem álibi. Tem que ser um dos outros três. Preciso saber qual com a maior rapidez e discrição possível.

— Chame Thomas Pitt - respondeu Carlisle com um brilho de humor zombador nos olhos. — É o homem mais capaz que conheço para resolver um assassinato complicado entre a aristocracia.

Tinha motivos pessoais para sabê-lo. Narraway tinha ouvido dizê-lo, mas nunca tinha perguntado os detalhes. Esse não era momento para fazê-lo, no caso de que Carlisle os tivesse dado.

— Já está ali - respondeu Narraway. — O que pode me dizer dos aspectos menos claros da ferrovia do Cabo ao Cairo?

Carlisle ficou surpreso.

— Acredita que poderia estar relacionado? Não é uma simples... loucura privada?

— Não sei. O momento e o lugar para fazê-lo parecem estranhos.

— É claro que sim. Mas imagino que a verdadeira loucura não atende à conveniência.

Caminhavam sob as árvores por um atalho confortável e plano, e o aroma de erva recém cortada flutuava no ar. Apenas se ouvia o suave ranger da terra sob seus pés e o canto dos pássaros ao longe. Um menino atirava paus a um feliz cachorrinho spaniel.

— Essa classe de loucura não explode sem algum fato que atue como catalisador respondeu Narraway. — Alguma velha paixão despertada por uma brincadeira, um desprezo ou uma coação que estala na mente, uma repentina onda de fúria desatada.

— Sei muito pouco desses homens - disse Carlisle com tom de desculpa. — Não muito mais do que já é do domínio público.

— Também poderia tratasse de um motivo mais frio e cordato - continuou Narraway. — Uma forma de sabotar as conversas. Uma longa e inflamada inimizade. Quem mais poderia construir essa ferrovia além desses homens? Quem poderia querer detê-lo e por que? Orgulho nacional? Poder político? Diga-me algo que não possa ler nos jornais.

Carlisle refletiu uns minutos. Deixaram atrás a sombra das árvores e saíram de novo ao sol.

— Não sei de ninguém mais que pudesse ser melhor que este grupo de homens, se trabalharem juntos - disse por fim. — Marquand é um grande financista com excelentes contatos. Sorokine é melhor diplomata do que demonstrou ser até agora. Só é folgazão. Não digo que não seja bom, mas poderia ser brilhante se o propusesse. Quase é um engenheiro com golpes de genialidade e conhece a África. E Dunkeld é uma força barco a motor com inteligência, imaginação e uma vontade de ferro. Se alguém pode coordenar tudo é ele.

— Cruel?

Carlisle sorriu.

— Sem dúvida. Mas para que serviria um homem com semelhante traço se não o fosse? Disse que tem um álibi?

— Sim. Quem mais poderia construí-lo?

Carlisle pensou um momento.

— Há uns anos teria dito Watson Forbes - respondeu. — É mais inteligente que Dunkeld, embora talvez menos carismático. Com um conhecimento mais profundo da África. Ele mesmo explorou uma extensão considerável, de Cidade do Cabo ao Mashonaland e Matabeleland, ao norte. Conhece pessoalmente Cecil Rhodes. Percorreu a pé o Veld, visitou o vale do Grande Rift, pegou um navio até o Zambeze e contemplou as quedas, pode ser que as maiores do mundo. E também conhece o Egito e Sudão. Subiu pelo Nilo, além de Karnak e o Vale dos Reis, e chegou a lombos de um camelo até o Jartum. Mas agora voltou para a Inglaterra. Teve suficiente. Cansou-se. De fato, ofereceram-lhe este projeto e o rechaçou, que é a razão pela qual Dunkeld passou a primeiro plano.

— Por quê? Sabe?

— Na realidade não. Perdeu a energia. Talvez lhe assentasse mal o clima.

Narraway refletiu durante uns cem metros, depois se voltou de novo para Carlisle.

— Conta com inimigos políticos sérios este projeto?

— Mudaria algo? - perguntou Carlisle encolhendo ligeiramente os ombros. — Sinto muito, mas acredito que está procurando um homem que parece cordato e extremamente inteligente a maior parte do tempo, mas que tem um germe de loucura que explodiu há algumas noites. Não vejo que relação poderia ter com a ferrovia. É claro, há muito dinheiro que ganhar, e além das fortunas econômicas, há em jogo honra, muito poder pessoal, títulos de nobreza e fama na vida e mais à frente. Seu nome poderia sair nos mapas e nos livros de história. Para alguns homens, essa seria a maior das recompensas. Nunca subestime a paixão pelo poder.

Caminharam uns metros mais em silêncio enquanto Narraway dava voltas às palavras do Carlisle. A brisa transportava a fraca música de um realejo.

— É possível que descubra um ódio pessoal entre esses homens, embora continue sem ver de que modo poderia beneficiar a algum o assassinato de uma prostituta – continuou Carlisle. — Mesmo assim, provavelmente enfrenta um homem com uma anomalia sexual que em um momento de excitação em que havia poder e dinheiro em jogo perdeu simplesmente a cabeça, e sua loucura básica lhe arrebatou seu habitual controle. Talvez as mulheres zombaram dele ou o menosprezaram de algum modo.

— Não há ninguém que se oponha à ferrovia? - perguntou Narraway esperando outra negativa.

— Possivelmente alguém com interesses em outro país - respondeu Carlisle pensativo, afundando mais as mãos nos bolsos enquanto andava. — Os franceses, os alemães e os belgas vão ver-se forçosamente afetados se tomamos semelhante vantagem. Mas já a temos, isto só a aumentaria. Olhe o mapa do mundo. Um dos homens poderia ter interesses econômicos que desconhecemos ou ser objeto de algum suborno. Isso seria quase uma traição. Mas poderia estar relacionado com o assassinato de uma prostituta?

— Nem idéia - admitiu Narraway com sinceridade. Quanto mais voltas dava, mais lhe parecia que devia tratar-se de uma loucura pessoal que tinha deixado descoberto certa classe de pressão. Desejou que o assassinato tivesse tido lugar em qualquer outra parte; então teria sido competência da polícia metropolitana e não da Brigada Especial. — Nada de tudo isto tem nenhum sentido - acrescentou. — O que sabe destes homens pessoalmente?

— Muito pouco - respondeu Carlisle com uma careta. — Ao menos nada que possa nos ser útil. Grande embrulhada! Como se não fosse já bastante questionável a reputação do príncipe!

— Quem os conhece? - insistiu Narraway. — Quem poderia me responder com sinceridade sem fazer perguntas?

— Lady Vespasia - disse Carlisle sem vacilar.

Narraway sorriu.

— Não me surpreende. Obrigado por seu tempo.

Carlisle assentiu. Sabia que era inútil pedir ao Narraway que o tivesse informado. Deram meia volta e retornaram juntos ao Great George Street através das sombras salpicadas.

 

Narraway retornou em seguida a seu escritório e deu instruções em relação a outros temas. Pitt telefonou do palácio para lhe dar o nome do Sadie e lhe pedir toda a informação que pudesse obter sobre ela.

Narraway enviou dois homens para investigar e saiu em busca de lady Vespasia Cumming Gould.

Demorou quase quatro horas para localizar. Vespasia tinha sido a maior beleza de sua época, e até a sua avançada idade conservava as feições, a elegância e o ardor que a tinham feito famosa. A elas tinha acrescentado ainda mais coragem e sabedoria, curiosidade e uma paixão pela vida.

Não estava em sua casa, mas sua criada, sabendo quem era Narraway, tinha-o informado que tinha saído para almoçar com sua sobrinha. Depois iria ver a exposição de pintura da National Gallery onde sem dúvida poderia encontrá-la. Seguindo seu conselho Narraway passeou de uma sala a outra da galeria, examinando esperançado cada dama elegante cuja estatura fora um pouco superior à média e que se movesse com a perfeita postura erguida que se requeria para manter em equilíbrio uma tiara particularmente pesada sobre a cabeça.

Assim que a viu, sentiu-se estúpido por ter esbanjado um segundo só olhando a alguém mais. Trazia um simples vestido de seda de corte delicioso e de um delicado tom cinza azulado, e um chapéu menor dos que tinham estado recentemente de moda, de aba mais alta que deixava ver seu rosto. Era menos dramático, salvo pelo véu fino que o cobria, o qual, longe de ocultar, acentuava a beleza de sua pele, e a personalidade e o mistério de seus olhos.

A seu lado havia uma mulher de tez clara e sem imperfeições que devia ter pouco mais de trinta anos. Levava um delicado vestido verde aquoso que em uma pessoa menos animada poderia ter ficado insosso, mas que nela era favorecedor. Quando Narraway a viu, ria e descrevia alguma forma que lhe tinha divertido, traçando-a com suas mãos enluvadas. Era a irmã de Charlotte Pitt, Emily Radley. Por um instante Narraway recordou um calor humano que tinha presenciado só desde fora, como observador, e sentiu uma onda de inveja por Pitt porque formava parte dele.

Narraway pensou em Pitt no palácio, sentindo-se estranho e afligido. Certamente cometeria enganos em sua conduta social que o fariam envergonhar-se. Sentir-se-ia ofendido em sua moralidade. Poderiam ver-se frustradas suas ilusões e inclusive algumas de suas lealdades, se o caso lhe obrigava a averiguar mais sobre o príncipe do que já sabia. Mas Pitt tinha claro no que achava e por que, e isso era outra coisa que Narraway invejava nele.

Apartou esses pensamentos de sua mente e se colocou onde Vespasia pudesse vê-lo.

— Boa tarde, Victor - disse ela com interesse. — Emily, recorda o senhor Narraway? Minha sobrinha, a senhora Radley.

— Boa tarde, senhor Narraway - disse Emily em voz baixa. Não era bonita, mas a vitalidade que irradiava era ainda mais atraente, e a forma curvada de sua fronte e a redondez de suas faces lhe fizeram pensar de novo em Charlotte Pitt. — Está bem, espero.

— Boa tarde, senhora Radley - respondeu ele. — Estou muito bem, obrigado, mas infelizmente preciso pedir ajuda a lady Vespasia em um assunto confidencial. Peço-lhe desculpas por uma intrusão tão grosseira. Se estivesse em minha mão, evitá-la-ia.

Emily hesitou, mas, apesar da curiosidade que se refletia em seus olhos, em seguida compreendeu que não havia nenhuma alternativa digna.

— É claro. - Dedicou-lhe um sorriso deslumbrante e se voltou para Vespasia.                    — Espero-a na carruagem dentro de... uma hora? - E com um redemoinho de saias se afastou sem esperar resposta.

— Deve tratar-se de um problema urgente. - Vespasia pegou Narraway pelo braço e se encaminharam lentamente a seguinte sala. — Está relacionado com o Thomas?

Ele percebeu ansiedade em sua voz.

— Pitt está bem - se apressou a dizer. — Mas estamos vendo-nos com um caso muito delicado do que só posso lhe dizer que está relacionado com o príncipe de Gales. Necessito sua ajuda.

— Conte com ela. O que quer que faça? - Não ergueu a voz nem trocou de tom.

Sabia que levaria uma decepção quando lhe dissesse que unicamente necessitava informação dela e o lamentou. No passado se viu envolvida em casos perigosos e tinha demonstrado ter um instinto considerável.

— Há certas pessoas de quem preciso saber mais do que posso perguntar sem despertar suspeitas, e com a rapidez e a discrição que requeiro - disse.

— Entendo. - Ela desviou o olhar, sem lhe deixar ver seus olhos cinza prateado nem as emoções que se refletiam neles.

— Cometeu-se um assassinato - confiou enquanto entravam na seguinte sala. — A vítima é uma mulher da rua, mas a acharam em uma residência onde só sua presença seria motivo de escândalo, e nem digamos o achado de seu cadáver ensangüentado dentro do armário da roupa branca.

Vespasia arqueou suas sobrancelhas prateadas.

— Seriamente? Que lamentável. Quem é o suspeito?

— Tem que ser um destes três homens. - E lhe deu os nomes.

— Estou surpreendida - confessou ela.

— Acredita que nenhum seria capaz?

Ela sorriu.

— Acredito que nenhum seria tão néscio, o que não é exatamente o mesmo.

— O que me pode dizer deles? Uma fofoca, um escândalo ou o que seja que possa ser de interesse.

— Quererá dizer de relevância - o corrigiu ela. — Sou perfeitamente capaz de ler entrelinhas, Victor.

Ele se alegrou de que o chamasse por seu nome de batismo, e em seguida se deu conta de que era ridículo que isso fosse importante para ele.

— O que pode me dizer? - repetiu.

— Surpreender-me-ia que tivesse sido Julius Sorokine - começou a dizer ela pensativamente, falando em voz muito baixa. — É um jovem talvez muito bonito para seu próprio bem. Obteve tudo com muita facilidade, salvo sua felicidade pessoal, diria. Nunca se esforçou ao máximo porque não lhe foi preciso. Não tem nem o caráter nem a classe de vaidade que arremete contra a negação. É muito folgazão para deixar de viver na periferia da vida, e até a data nunca demonstrou ter a energia emocional necessária para empregar a violência. - Ficou um pouco triste enquanto o dizia, como se o jovem lhe tivesse decepcionado.

Se alguém lhe tivesse perguntado, haveria dito o mesmo dele? "Na periferia da vida"? Contendo a violência, não através do autodomínio, mas sim por simples indolência emocional? Tinha amado e tinha traído, mas isso tinha sido há muito tempo. Como sempre, tinha escolhido o dever acima da paixão.

Não, isso não era certo. "Paixão" era uma palavra muito forte para descrever o que ele havia sentido. A escolha não lhe tinha quebrado o coração. Recordou-o com certa vergonha, mas sem dor.

Vespasia o observava, esperando recuperar sua atenção.

— E Marquand? - perguntou ele.

— É possível - concedeu ela. — É o meio-irmão do Julius, tem alguns anos mais que ele e em certo modo o move o ciúme. Julius se casou com a filha do Cahoon Dunkeld, Wihelmina. Acredito que se faz chamar Minnie. Uma jovem de grande talento para obter a admiração masculina que exerce livremente. O que as pessoas pouco amáveis talvez descrevam como uma criadora de conflitos.

— E como a descreveria você, lady Vespasia? - Narraway dissimulou um sorriso.

— Uma jovem desventurada que está tendo uma raivazinha prolongada - respondeu ela sem vacilar. — Se parece muito a seu pai.

— E o que pode me dizer dele?

— Não lhe incluiu - indicou ela.

— Só porque pode dar razão de seu paradeiro.

— Seria totalmente capaz de matar a alguém - disse ela sem titubear. — Mas é muito inteligente para fazê-lo. Se for culpado, diria que se deixou levar por seu considerável gênio e que foi mais involuntário que planejado.

— Ninguém fatia o pescoço a uma mulher dentro de um armário da roupa branca sem querer.

Ela abriu ligeiramente os olhos.

— É certo. Então duvido que fosse Dunkeld. Mas se me houvesse dito que tinha batido em sua mulher, lhe teria acreditado.

— Por que?

— Porque é um homem muito possessivo.

— Entendo. Só fica Hamilton Quase.

— Um homem muito civilizado - observou ela.

— Muito para cometer um ato de violência?

— Certamente que não! Os mais civilizados na aparência são os mais capazes de enganar. Estou completamente certa de que você sabe tão bem como eu. - Havia certa recriminação em sua voz.

— Desculpe - disse ele com sinceridade.

— Obrigada. Acredito que se o senhor Quase fizesse algo assim, teria tido um motivo que lhe teria parecido razoável. Mas é um homem que toma riscos e que está disposto a pagar um preço muito alto pelo que quer.

— Sério? - Narraway tinha visto o Quase como um homem mais dado a sonhar que a agir, dos que achavam a maior parte de sua realidade no fundo de uma garrafa. — E o que quer?

— Há uns anos diria que Liliane Forbes - disse ela. — Agora não sei. Talvez não mudou.

— Está casado com ela - observou ele.

— É preciso algo mais que a legalidade do matrimônio para possuir a uma mulher, Victor - precisou ela. — Ele estava muito apaixonado por ela ou não se teria comportado como o fez à morte do irmão. Um assunto muito feio. Se Éden Forbes tivesse vivido, Liliane provavelmente se teria casado com o Julius Sorokine, e muitas coisas seriam diferentes.

Ele parecia sinceramente interessado.

— O filho do Watson Forbes?

— Seu único filho.

— O que lhe aconteceu?

Ela franziu o sobrecenho e desceu ainda mais a voz enquanto se detinham frente a um retrato grande e muito pouco atraente de uma mulher.

— Os detalhes não estão muito claros - respondeu. — Morreu na África, em um navio que naufragou em um rio. Hipopótamos, crocodilos ou algo pelo estilo. Watson Forbes ficou destroçado, assim como Liliane. Foi Hamilton Quase quem se ocupou de todo o lamentável assunto. Manteve-o com a maior discrição possível, e se ocupou do funeral e demais. Liliane tinha estado apaixonada pelo Julius, mas depois de guardar luto durante um período decoroso se casou com o Quase.

— Gratidão? - inquiriu Narraway. — Se Quase esteve à altura das circunstâncias, e Sorokine não, talvez escolhesse o homem melhor.

— É possível.

— Mas você não acredita.

Ela sorriu.

— Acredito que pagou uma dívida de gratidão, mas só é uma intuição. Não sei.

— Como é que sabe tanto sobre isso? Onde estava você?

— Na África? Céus, não. Não me atrai - replicou ela. — Mas tenho uma excelente amiga, Zenobia Gunne, que explorou toda espécie de lugares, entre eles extensos lances dos rios, Congo e Zambeze, e grande parte do sul da África. Foi ela quem me contou isso.

— Nobby Gunne - disse Narraway sorridente, recordando uma mulher assombrosa a quem não assustavam os leões, nem os elefantes, nem as moscas tsé-tsé, nem a malária, mas a quem continuava ferindo no mais vivo a deslealdade e o sofrimento alheio. — Se ela o disser, então acreditarei.

— Mas receio que não é de grande utilidade - disse Vespasia com tristeza.                        — Conheço suas esposas, mas só levianamente, sobre temas de moda e fofocas, quem disse o que a quem, ou aonde teriam conduzido os sonhos ou o amor. Não acredito que nada de tudo isso ajude a esclarecer um assassinato cometido em um armário da roupa branca, seja quem for a vítima. Parece-me uma história absurda.

— É claro que sim - concordou ele. — Mas infelizmente é verdade. Somerset Carlisle me deu a entender que Watson Forbes era o principal perito nos aspectos práticos do projeto da ferrovia, tanto do ponto de vista diplomático como em questões de engenharia.

— Depois de Cecil Rhodes, quererá dizer - disse ela com uma expressão divertida.    — Suponho que o senhor Rhodes, com sua ambição sem limites e seu amor pelo império, é um grande defensor deste projeto. - Começou a afastar-se do quadro. — Como primeiro-ministro da colônia do Cabo, será de grande interesse para ele. Toda a África britânica ficará aberta a ele por terra e por mar. Convém o ter como amigo antes que como inimigo.

— Não o duvido - assentiu Narraway seguindo a de perto. — Mas não me ocorre de que modo poderia estar envolvido nesta tragédia de Londres.

— Não vejo por que ia estar ou qualquer outro - disse Vespasia com ar desventurado. — Acredito que averiguará que é fruto de uma loucura pessoal e que poderia ter ocorrido facilmente em outro lugar, uma vez que se interrompe a paixão que a induz.

Passaram diante de alguns retratos mais, olhando brevemente os rostos, e se encaminharam à entrada. Levavam uma hora juntos. Ele a acompanhou à carruagem onde Emily a esperava. Agradeceu-lhe pela informação e, com bastante sinceridade, pelo prazer da companhia, e agradeceu à Emily sua paciência.

Meia hora depois desembarcava de uma carruagem de aluguel no Lowndes Square para fazer uma visita ao Watson Forbes. Assegurou-se por telefone que o receberia.

Era uma casa elegante com todos os sinais de uma riqueza modesta, um homem que se sente cômodo com suas posses e não precisa exibi-las salvo para seu próprio deleite. As portas exteriores eram de teca esculpida e brilhante. O chão de assoalho do vestíbulo era de nobre madeira a Índia de vários tons de marrom. Os quadros eram discretos: cenas de canais holandeses, interiores domésticos, luz sobre superfícies de água, um veleiro com as velas recolhidas, um rosto em repouso, uma cena invernal de azuis e cinzas sobre gelo.

Até estar no estúdio do Forbes, Narraway não viu os quadros de savanas com um elefante imóvel no meio do calor e as estranhas acácias de copa plana ao longe. Havia muitas talhas animais de marfim e pedras semipreciosas. Uma parede inteira estava coberta de livros, quase todos encadernados em couro. Na escrivaninha lotada havia um ovo de avestruz e uma caixa forrada do que parecia pele de crocodilo.

Watson Forbes era um homem robusto com um abundante cabelo que tinha sido escuro e agora era quase branco, deixando umas sobrancelhas negras e uma tez bronzeada pelo sol. Tinha o nariz largo e uma boca bem cinzelada surpreendentemente expressiva. Possuía um rosto enérgico e extremamente original. Narraway tinha ouvido dizer que rondava os setenta, mas se levantou agilmente e se aproximou para saudar o homem da Brigada Especial com curiosidade.

— Encantado. Disse por telefone (que grande invento) que necessitava informação específica sobre a África. Só conheço partes, mas todos os conhecimentos que possuo estão ao seu dispor. Por favor. - Assinalou as poltronas de couro, convidando-o a escolher. — O que deseja saber? - sentou-se na de frente. — Um uísque? Ou prefere algo mais exótico? Brandy, talvez? Ou xerez?

— Ainda não, muito obrigado - declinou Narraway. — Conhece Cecil Rhodes?

Forbes esboçou um sorriso que lhe iluminou o rosto, alterando a severidade de suas feições. Mas em seus olhos escuros havia cautela.

— É claro que sim. É impossível fazer negócios sérios na África britânica e não o conhecer.

— E ao Cahoon Dunkeld?

— É interessante que mencione a ambos quase de uma vez - observou Forbes.                — Uma coincidência? - Desta vez também havia um brilho de humor em seus olhos.

— É claro que não - respondeu Narraway.

A inteligência de Forbes saltava à vista; seria uma estupidez tratar de enganá-lo.

Necessitava toda a informação que pudesse lhe dar e talvez também sua opinião. Não devia insultá-lo, nem sequer involuntariamente.

— Vê alguma semelhança? Ou um contraste?

— Ambas as coisas - respondeu Forbes. — Dunkeld tem a mesma ambição e parte da mesma crueldade, mas muito mais encanto. Entretanto, empreendeu suas aventuras africanas mais tarde que Rhodes e não tem irmãos que o ajudem.

— Mas é um homem de talento? - insistiu Narraway. — E é capaz de rodear-se de outros dotados de talento e lhes inculcar lealdade?

— Obediência - replicou Forbes, escolhendo cuidadosamente a palavra. Não afastou os olhos do rosto do Narraway.

— É apreciado?

Forbes sorriu de novo.

— Não. Por que o pergunta? Tem algo que ver com a ferrovia do Cabo ao Cairo? -Estudava abertamente ao Narraway. O humor se fez mais evidente, brilharam-lhe os olhos. — Não é um novo sonho, senhor Narraway. Poderia construir-se, mas é uma empresa de muito maior envergadura do que acreditam alguns de seus partidários. Tem idéia do terreno que percorrerá? Há mais distancia entre a Cidade do Cabo e Cairo da que se cobre em ir e voltar de Nova Iorque às costas do Pacífico, passando pelas grandes pradarias norte-americanas e as Montanhas Rochosas. E o clima e os terrenos cruzam extremos de selva equatorial, savanas, montanhas, deserto e páramos áridos inimagináveis. - Fez um gesto com suas mãos fortes e quadradas. — Há enfermidades, parasitas, répteis venenosos e insetos, pragas de lagostas e as bestas maiores da terra. África é outro mundo, senhor Narraway. Não se parece em nada a Europa.

Narraway percebeu a emoção. Forbes falava com voz grosa, quase trêmula, e em seus olhos havia paixão.

— Possui uma beleza imensa e terrível - prosseguiu, inclinando-se ligeiramente para diante. — Teria que ver investir um elefante touro! É a besta mais magnífica do mundo. E inteligente! E ouvir rugir os leões de noite. Ou rir às hienas. Soam como seres humanos, mas dementes. Gela o sangue. Ouviu falar dos tambores? Enviam mensagens de um tambor a outro através de centenas de quilômetros, como utilizamos nós os faróis. Só que suas mensagens são muito mais complicadas, toda uma linguagem.

Narraway não o interrompeu.

— Há montões de reino - continuou Forbes com apresso. — Fronteiras que não têm nada que ver com o homem branco: zulus, madonas, hutus, masáis, kikuyus e muitas mais. E os árabes continuam traficando com escravos, levando-os do interior às costas. Há velhas guerras e inimizades que se remontam a mil anos, das quais nunca ouvimos falar.

— Está dizendo que é impossível? - perguntou Narraway.

Estava ao mesmo tempo assombrado e decepcionado. Queria domesticar a África com a ferrovia do homem branco? Queria que o Império britânico difundisse por toda parte a cultura, o comércio e o cristianismo? Ou era melhor deixar seu escuro coração sem conquistar?

Surpreendeu-se a si mesmo. Amava o saber, adquiria-o, intercambiava e se beneficiava de seu poder. Havia certa segurança no fato de que seguisse havendo algo desconhecido, como se ainda pudessem existir os sonhos e os milagres. Saber tudo equivalia a aniquilar as infinitas possibilidades de uma esperança irracional.

Via também algo disso no semblante do Watson Forbes, inclusive certa humildade? Ou só imaginava?

— Não - respondeu Forbes com voz suave. — Pode ser que aconteça um dia, mas acredito que será uma empresa muito mais longa do que esses homens calculam. Será preciso mais coragem e fortaleza, e requererá mais conhecimentos dos que eles possuem.

— Conhece às pessoas que poderia fazê-lo? - Narraway se obrigou a voltar para assunto que o tinha levado ali.

— É claro. A África é maior do que possamos imaginar, acostumados como estamos a Inglaterra, mas os homens brancos continuam conhecendo-se entre si. Há poucos.

— Me diga com sinceridade o que sabe deles. Não posso lhe dizer as razões pelas que necessito que o faça, mas são reais e urgentes.

Forbes não discutiu. Se lhe comia a curiosidade, não se refletiu em seu original rosto.

— Por onde começo? - perguntou.

— Pelo Cahoon Dunkeld - respondeu Narraway. Dunkeld era o cabeça, a personalidade mais dominante com diferença. Se havia uma pessoa comum atrás desse crime, sem dúvida a vontade do Dunkeld, sua crueldade ou seu engano estavam em seu núcleo. — Pode me dizer algo mais dele? O que sabe de sua esposa?

— Elsa? - Forbes se surpreendeu. — Pouca coisa. Uma mulher com o potencial para ser uma beleza, mas sem o fogo. No fundo é aborrecida.

— Dunkeld se aborrece com ela?

— Sem dúvida. Mas tem certas qualidades que a convertem em uma excelente esposa.

Narraway fez uma careta.

— Sua filha é outro cantar - continuou Forbes com um leve sorriso em seus lábios em movimento. — É apaixonada, formosa e perigosa. Não consigo compreender por que se casou com um homem tão emocionalmente aborrecido como Julius Sorokine. É um grande diplomata e tem grande encanto quando quer utilizá-lo, mas é indolente. Poderia ser incalculavelmente melhor do que é, essa é sua tragédia.

— E seu meio-irmão, Simnel Marquand?

— Oh, Simnel. Provavelmente se encontra na cúpula de seus lucros. Suas aptidões financeiras são excelentes. Entende o dinheiro melhor que nenhum outro homem que conheço.

— Isso é tudo? - perguntou Narrraway, recordando que Vespasia havia dito que invejava a seu irmão. Não podia invejá-lo por umas habilidades que era muito vago para explorar.

— Certamente. Mas isso é tudo o que necessitarão dele para construir a ferrovia. - No rosto do Forbes seguia havendo humor, mas também outras emoções: cólera, pesar e um imenso poder.

— E Hamilton Quase? - perguntou Narraway, baixando a voz sem dar-se conta. Conhecia a relação entre os dois homens.

— Meu genro? - Forbes arqueou suas sobrancelhas escuras. — Não posso ser muito imparcial.

— Contrastá-lo-ei com as opiniões de outras pessoas.

Desta vez Forbes mediu cuidadosamente suas palavras.

— É um engenheiro brilhante, imaginativo, com uma grande preparação técnica. Tudo que queira construir através de todo um continente fará bem em contratá-lo.

— Está-me falando de suas aptidões profissionais. O que me diz de seu caráter?

— É leal - disse Forbes imediatamente. — E acredito que fundamentalmente justo. Está disposto a pagar para conseguir o que quer. É difícil calá-lo, seus gostos se afastam do comum, e talvez também seus sonhos. Bebe muito. Não acredito traí-lo ao dizê-lo. Qualquer o dirá.

Narraway recordou o que Vespasia havia dito do Quase, a coragem e a discrição que tinha demonstrado como resultado da morte de Éden Forbes porque estava apaixonado por Liliane. E Liliane tinha amado Julius Sorokine. Aparentemente os entendimentos de seu pai com o Quase lhe tinham proporcionado o melhor homem. Narraway esperava sinceramente que ela tivesse alcançado a sabedoria para perceber também isso.

— Obrigado - disse com sinceridade.

— Foi-lhe que alguma ajuda? - inquiriu Forbes.

— Não tenho nem idéia - confessou Narraway. — Acredita que conseguirão construir a ferrovia com o apoio necessário?

Forbes titubeou, com os olhos brilhantes de um sentimento repentino e intenso, mas quase imediatamente voltou a mascará-lo.

— A rainha o aprovará - disse em voz baixa. — O risco é considerável em curto prazo, mas em médio prazo, digamos nas próximas quatro ou cinco décadas, será o grande êxito do homem, talvez das nações.

Narraway observou com atenção até a mais mínima sombra de seu rosto.

— E em longo prazo? - perguntou. — Passado meio século, segundo seus cálculos?

— O futuro da África e de sua gente? - A cautela abandonou o rosto de Forbes, deixando a emoção descoberta. — Isso dependerá de nós. Haverá homens bons que quererão a ensinar a África, tirá-la da escuridão em que acreditam que está. Só Deus sabe se verão com clareza. - Torceu ligeiramente o gesto. — E pisando os calcanhares desses homens bons chegarão os comerciantes e os oportunistas, os construtores, os mineiros, os exploradores. Depois os granjeiros e os colonos, centenas de homens brancos que tratarão de converter a África em uma prolongação da Inglaterra, mas com mais sol. Entre eles haverá professores e médicos, mas serão uma minoria.

Narraway esperou, sabendo que Forbes acrescentaria algo.

— Bons e maus - disse Forbes, apertando os lábios. — Mas o faremos a nossa maneira, não à maneira dos africanos.

Narraway ficou perturbado por esse pensamento.

— Não é inevitável? Não podemos deixar de descobrir a África - indicou. Mas era como se estivesse falando de algo já quebrado.

— Provavelmente é - respondeu Forbes sem emoção. — E suponho que se alguém tiver que explorá-la, é melhor que seja Grã-Bretanha quem o faça. Não nos dá mal e sabe Deus que temos suficiente experiência. Mas não me voltei atrás por este motivo. É difícil viver em climas duros e tão longe de seu país. Agora me interessa mais a aventura da imaginação antes que a do corpo. Cahoon é um homem tão válido como qualquer. Não tenho reparo em que ele seja quem o faça.

— E Sorokine, Quase e Marquand?

— Certamente são os melhores homens que tem ao seu dispor.

— Por que? Porque são os ótimos para o trabalho ou porque Sorokine é seu genro, Marquand o meio-irmão do Sorokine e Quase o seu genro?

Forbes sorriu de repente.

— Sem dúvida há algo disso. A gente confia no julgamento das pessoas que conhece, ou ao menos tem uma idéia de suas vulnerabilidades. Teme que a ferrovia esteja sob a ameaça de alguma classe de sabotagem, até em uma fase tão cedo?

— Se estivesse de quem suspeitaria? - perguntou Narraway.

— Ah, é isso o que realmente quer saber? - Forbes se recostou ligeiramente em sua cadeira.

— E se fosse assim?

— Se houver outro grupo de homens igualmente preparados, não estou informado disso. Se seus temores são fundados, deveria olhar a alguns dos outros países com grandes interesses na África. Poderia começar pela Bélgica. O Livre Estado do Congo é enorme e rico em minerais. O rei Leopoldo tem grandes aspirações ali. - Formou uma pirâmide com os dedos. — O outro grande participante é a Alemanha. Qualquer ferrovia teria que cruzar o território de um desses dois países ou obter um passo entre ambos. Mas suponho que sabe olhar um mapa tão bem como eu.

— Olhei-o, certamente.

— Aqui entraria Sorokine. É um diplomata com muitos contatos e muito mais inteligente do que sugere sua atitude frívola.

— Obrigado. Foi extremamente atencioso. - Narraway se levantou.

— Um comentário adequadamente equívoco. - Forbes também ficou em pé. — Se posso fazer algo mais, não deixe de me chamar.

 

Narraway retornou ao palácio e achou Pitt no quarto que lhe tinham atribuído, com as janelas abertas e o ar quente da tarde entrando através delas. Estava comendo uns sanduíches de rosbife frio. Narraway surpreendeu-se como parecia cansado. Não parecia ter a energia mental com que estava acostumado a associá-lo.

— Tem algo? - perguntou Pitt com a boca cheia, antes que Narraway tivesse fechado sequer a porta.

— Informação interessante - replicou Narraway, aproximando-se e sentando-se na outra poltrona. Os sanduíches tinham bom aspecto: pão fresco e muita carne. Caiu na conta de que não tinha comido em todo o dia. Mesmo assim, eram para Pitt, não para ele, e seu status superior não justificava os maus modos. — Mas não estou seguro de que signifique algo. O que me diz de você?

— Gracie é a única que conseguiu algo - disse Pitt compungido. — E tampouco parece ter muito sentido. Tem alguém investigando Sadie?

— Sim. É muito cedo para esperar algo.

— Sei. E não tenho certeza se segue importando. Provavelmente não.

Narraway procurou o puxador da campainha.

— Acredita que me trariam uns quantos? - Olhou os sanduíches.

— Coma destes - ofereceu Pitt. — Mas não tem cidra. Embora talvez prefira cerveja.

— A cidra me está bem, mas eu mesmo a pedirei, obrigado - respondeu Narraway, e se levantou para chamar. — O que averiguou Gracie?

Estava decepcionado. Tinha tido muitas e talvez irracionais esperanças que Pitt averiguasse e deduzisse algo importante. Tinha chegado a valorizar sua habilidade para resolver assassinatos complicados e não tinha nenhuma intenção de permitir que voltasse para a polícia metropolitana. Utilizaria suas influências, rogaria pela segurança do reino frente à anarquia e a subversão estrangeira, faria o que fosse para conservá-lo.

Estava pressionando Pitt para consegui-lo e era consciente disso. Era duro, mas não podiam permitir-se fracassar. Estava lhe pedindo muito?

Pitt terminou seu sanduíche antes de responder. Não acudiu ninguém aos toques da campainha, mas sabiam em que aposento se achava e sem dúvida os hóspedes teriam prioridade.

— Dois lençóis muito ensangüentados em uma das cestas da lavanderia - respondeu Pitt, observando-o.

Narraway o olhou desconcertado. Pitt estava afirmando o claro. Estava afligido pelo lugar onde se achava?

— Onde esperava que estivessem? - perguntou. — Imagino que a maioria dos lençóis do armário de roupa branca está ali. Ao menos os que acreditaram que poderiam salvar.

— Tinham o monograma da rainha. - Pitt o olhou carrancudo, com uma expressão de perplexidade. — Não o do palácio, mas o da rainha em pessoa. E alguém tinha dormido neles. Estavam enrugados e o sangue se estendeu.

— Deus Todo-poderoso, Pitt! - exclamou Narraway. — O que está dizendo? A rainha está em Osbome.

— Isso já sei - replicou Pitt com firmeza. — Estive dando voltas desde que Gracie me mostrou isso e sigo sem saber o que estou dizendo. Alguém pôs os lençóis da rainha em uma cama em que dormiu ou ao menos se utilizou, se preferir um termo mais exato, e em que se perdeu muito sangue.

As idéias se amontoavam na cabeça do Narraway.

— Então não a apunhalaram no armário da roupa branca. Mataram-na em outra parte e a colocaram ali. Isso tem mais sentido. Por que ia meter-se nele voluntariamente? Quem a matou a transladou a um lugar que acreditou que não o incriminaria. Deveríamos ter pensado antes nisso.

— Um corpo não sangra muito uma vez que está morto - indicou Pitt. — O coração se detém.

— Mas não o faz imediatamente. Pode continuar sangrando - argüiu Narraway.

— Não como o que vimos no armário. Devia estar viva quando a levaram ali.

Pitt torceu o gesto com uma compaixão e uma cólera que Narraway quase nunca tinha visto nele, e que era ainda mais comovedor por essa razão.

— Abriram-lhe o estômago na cama, depois a levaram nua pelo corredor e lhe cortaram a garganta, e deixaram que morresse sangrando no armário - disse Narraway em voz baixa. — Por certo, achou já a roupa?

— Não - respondeu Pitt.

Narraway estremeceu.

— O que estamos enfrentando, Pitt?

Bateram na porta.

— Entre - disse Narraway com ferocidade.

A porta se abriu e na soleira apareceu a figura diminuta de Gracie. Parecia ainda mais miúda com o uniforme do palácio.

— Entre - repetiu Narraway, desta vez mais civilizado. — Poderia me trazer um jantar como o do Pitt, uns sanduíches de rosbife e um copo de cidra?

— Perguntarei à cozinheira, senhor - disse Gracie, fechando a porta atrás dela. — Mas vim porque uma das criadas achou a faca que faltava. - Dirigiu-se ao Pitt, não ao Narraway. — E há sangue nela, senhor. Até alguns cabelos pequenos. - Ruborizou-se ligeiramente. Não pôde ser mais exata.

— Onde? - Pitt a olhava fixamente. — Onde a acharam? Quem?

— Ada. No armário da roupa branca, senhor.

— Mas se o revistamos a fundo! - protestou Pitt. — Não havia nenhuma faca!

— Sei, senhor - concordou ela. — Alguém o pôs ali ontem. No palácio há alguém que é muito perverso. O senhor Tyndale tem a faca, senhor. Irei procurar os sanduíches e o copo de cidra.

Voltou-se e saiu com um revôo de saias que eram um par de centímetros no mínimo muito longas, deixando ao Pitt e ao Narraway olhando-se.

 

Elsa estava sentada frente ao espelho de sua penteadeira, rígida e triste. Todos tinham medo. No dia que tinham encontrado o cadáver tinha sido tal a comoção que tinham demorado um pouco em assimilar o horror do que aconteceu, mas no dia seguinte a realidade se tornou muito mais impactante. O policial desajeitado dos bolsos abarrotados estava fazendo perguntas. Sempre eram educadas; só depois se dava conta de quão indiscretas tinham sido.

Parecia absurdo, como algo disparatado tirado de um pesadelo em que não encaixava nenhuma peça, mas por fim estavam compreendendo que tinha que ser um deles quem tinha matado à mulher. Ninguém se atrevia a expressá-lo com palavras. Tinham falado de toda classe de coisas, fazendo comentários que ninguém escutava e contando fofocas que, por uma vez, não interessavam a ninguém.

Contemplou seu reflexo no espelho. Pálido e familiar; e horrivelmente vulgar.

Era impossível dormir bem, mas do pouco tempo que tinha descansado despertou com uma percepção da realidade muito mais vivida e dolorosa. Estavam apanhados ali dentro até que o policial resolvesse o caso e um deles ficasse destruído para sempre. Ou talvez, todos. Como se sobrevive ao fato de que alguém a quem se conhece, talvez a quem se ama, seja capaz de matar desse modo? Era assim como sempre tinha sido esse alguém por debaixo das aparências? Tinham sido muito estúpidos ou muito insensíveis para dar-se conta?

Estava apaixonada pelo Julius. Ou estava apaixonada pela idéia, dessa avidez de amor que era uma dor aguda em seu interior, como se algo a devorasse por dentro? Na realidade, não conhecia o Julius.

Estremeceu enquanto Bartle lhe preparava o traje de noite. Era de uma elegância deliciosa, de uma azul fumaça que harmonizava com a fria cor de sua tez e com adornos de renda negra. Minnie podia arriscar com escarlates quentes, e ter um aspecto ousado e desenfreado. Elsa só teria parecido uma imitação barata, e assim o havia dito Cahoon, que a tinha comparado freqüentemente com ela, nunca de forma favorável. Isso tinha sido nos tons do entardecer ou do mar do crepúsculo, que ela tinha acreditado então românticos. Agora simplesmente os achava insossos.

Obedeceu pacientemente enquanto Bartle lhe ajudava a vestir a camisa, as anáguas e finalmente o vestido, e não se moveu quando lhe atou as fitas o mais alto que permitia a comodidade. Era largo de ombros, com os típicos exageros da moda, e muito decote. Tinha uma ampla queda de seda na parte dianteira e um franzido de um tom mais pálido no passar da prega. A anquinha de trás era muito ligeira, mas extremamente favorecedora. A cor fazia com que a pele parecesse fina como o alabastro e os olhos, de um azul mais escuro do que eram em realidade.

Sentou-se de novo e permaneceu imóvel enquanto Bartle a penteava. Tinha o cabelo abundante e longo, de um castanho escuro com mechas mais claras. As jóias de que tão orgulhoso se sentia Cahoon foram o último toque.

Era ridículo estar preparando-se para jantar quando uma mulher tinha morrido apunhalada e não podiam escapar ao fato de que um dos homens sentados à mesa o tinha feito. Mas era impossível rechaçar a ocasião sem despertar suspeitas que não podia permitir-se. Tanto o príncipe como a princesa foram jantar com eles. Iam somar-se os lorde Taunton, um financista que Simnel tinha estado cortejando e que tinha interesses específicos na África. Seu apoio seria de grande importância e certamente inclusive necessário. Nunca se tinha casado, de modo que ia vir acompanhado de sua irmã menor, lady Parr, que tinha enviuvado recentemente. Seu marido lhe tinha deixado uma fortuna própria e era formosa de um modo algo chamativo. Sem dúvida contava com admiradores, entre eles Cahoon. Elsa tinha visto em seus olhos o mesmo brilho ávido com que a tinha olhado em outro tempo.

A noite ia exigir uma grande fortaleza e a classe de autodomínio que até a mulher mais forte achava exaustiva. Todos teriam que ocultar seus temores. Não deveria haver ânimos crispados nem indícios de ansiedade. Era preciso fazer acreditar no Taunton que tudo partia bem, que todos estavam cheios de otimismo e fé no êxito dessa nova e maravilhosa aventura.

— Já está bem, senhorita Elsa - disse Bartle, fechando o colar de safiras ao redor de seu pescoço. — Está encantadora.

Ela se olhou no espelho. Tinha rosto de cansaço e estava muito pálida, mas não podia fazer nada a respeito. Beliscando-as faces lhes devolveria um pouco de cor, mas só momentaneamente. Não valia a pena tentá-lo.

Agradeceu à Bartle e lhe pediu que anunciasse ao Cahoon que estava preparada.

Um momento depois ouviu a porta fechar-se e o viu refletido no espelho. Ele a examinou com olho crítico e pareceu ficar satisfeito, mas não disse nada. Desceram juntos as escadas, em silêncio.

No salão amarelo que criava uma ilusão de sol os esperavam Olga e Simnel em pé, a um par de metros um do outro. Ela levava um vestido verde escuro, mais escuro que as esmeraldas que lhe pendiam das orelhas e do pescoço. Era de uma cor severa e muito fria. Absorvia-lhe a pouca cor de sua tez, e sua apagada intensidade a fazia parecer ainda mais angulosa. Sua criada deveria haver-lhe dito. Talvez o tivesse feito e ela não tinha querido fazer conta. Não havia nela a calidez nem a delicadeza que se deseja achar em uma mulher.

Voltou-se enquanto Elsa e Cahoon entravam e os saudou com nervosa cortesia.

— Conhece lady Parr? - perguntou Olga a Elsa.

— Encontrei-me com ela em várias ocasiões - respondeu a interpelada, dando-se conta enquanto o dizia do pouco que gostava de Amelia Parr. Não tinha nem idéia de por que. Era injusto e irracional. — É muito agradável - mentiu.

Viu Cahoon olhá-la e soube que o rosto a tinha traído.

— Dizem que é uma mulher muito interessante - continuou Olga. — Assim espero, porque me vai custar achar algo que dizer esta noite.

Ninguém lhe pediu que se explicasse.

Entraram Hamilton e Liliane. Ele parecia ter bebido já uma quantidade considerável de uísque. Tinha o rosto muito aceso e um olhar afável e ligeiramente vítreo. Liliane não parava de olhá-lo para assegurar-se de que estava bem. Ela estava esplêndida. Seu brilhante cabelo cor âmbar e seus olhos castanhos dourados ficavam deliciosamente complementados com o bronze de seu vestido adornado com elaboradas fitas de veludo negro. Fez com que Elsa se sentisse tão em falta de estilo como ela mesma tinha visto a Olga fazia uns momentos. A julgar pelo rosto de Cahoon, ele era da mesma opinião.

Trocaram-se mais palavras de apreensão e fôlego, depois voltou a abrir-se a porta e entrou Minnie. Estava tão cheia de vida como uma chama vermelho fogo, com o cabelo escuro magnificamente recolhido no alto da cabeça, o que aumentava sua estatura. Tinha as faces acesas, e levava um decote muito mais pronunciado do que Elsa se teria atrevido a levar, embora fosse igualmente bem dotada pela natureza. Mas o atrativo da Minnie tinha pouco que ver com suas curvas; estava em sua vitalidade, no desafio que encerrava seu olhar atrevido, na graça com que se movia. Havia nela um contínuo ar de risco e valentia, como se sempre estivesse a ponto de fazer algo emocionante.

— Boa noite - disse Olga em voz baixa.

Ninguém respondeu.

Minnie sorriu, esquecendo-se do Julius, que estava dois passos atrás dela.

— Preparados para o ataque? - perguntou animadamente. — Está preparado para se mostrar encantado com lady Parr? - acrescentou dirigindo-se a Cahoon. Logo, antes que ele pudesse responder, voltou-se para Elsa. — Ou possivelmente é melhor que você o faça. Isso a desconcertará por completo, sobretudo depois de seu último encontro. -Dedicou-lhe um pequeno, mas eloqüente sorriso.

Elsa sabia exatamente a que se referia, e notou que lhe ardiam as faces, mas não tinha forma de defender-se. Morria por desprezar a Minnie, fazer em pedacinhos por uma vez sua confiança. Depois se repreenderia a si mesma, mas teria sido maravilhoso saber que podia fazê-lo.

— E papai pode esmagar à princesa de Gales, enquanto Simnel e o príncipe falam com lorde Taunton - continuou Minnie. — Na realidade não importa o que lhe diga à princesa. Fingirá estar interessada e não ouvirá uma só palavra. - Lançou um olhar de aço a seu marido. — Talvez devêssemos deixar que Julius se dela ocupe.

A indireta foi tão óbvia que por um momento ninguém respondeu.

Elsa sentiu uma onda de cólera em seu interior. Cahoon lhe havia dito muitas vezes que devia guardar silêncio em momentos assim, mas as palavras foram a seus lábios.

— Uma idéia excelente - aprovou asperamente. — Sabe comportar-se, e mostrar lealdade e boas maneiras. Não a envergonhará com alardes.

— É claro que não - replicou Minnie imediatamente. — Será totalmente previdente.

— Para quem? - replicou Elsa. — Você não seria capaz de predizer que vai chover nem no meio de uma tormenta.

Minnie a olhou dos pés à cabeça, com o lábio inferior ligeiramente curvado.

— Se for um dia frio e cinza, e choveu toda a manhã, posso predizer que choverá toda a tarde - disse arqueando as sobrancelhas e com uma expressão fria e compassiva enquanto examinava o traje de Elsa.

Elsa desejou ter algo esmagador para dizer, algo que a ferisse do mesmo modo, mas não lhe ocorreu nada. Às vezes, o que sentia pela Minnie estava muito perto do ódio.

Julius sorria. Era para ocultar sua dor ou simplesmente não tinha entendido a implicação? Ou talvez pretendesse com isso dissimular sua vergonha?

— Viram alguma vez uma tormenta elétrica sem chuva? - perguntou a ninguém em particular. — Às vezes há no verão. São espetaculares, mas bastante perigosas. Na África

podem tocar fogo a uma savana e deixar milhares de hectares reduzidos a cinzas.

— Que destrutivo - murmurou Olga, incômoda.

— Sim - concordou ele. — Mas a vegetação que cresce a seguir é maravilhosa. Há certas plantas cujas sementes só germinam com o calor extremo. - Olhou a Elsa com uma expressão doce antes de desviar os olhos. Ou ela imaginou?

Minnie ficou por um momento confusa, consciente de ter perdido algo, mas não muito certa de como tinha ocorrido. Sorriu radiante ao Simnel.

— Acredito que as tormentas podem ser muito divertidas. Você não?

Ele pareceu incômodo, como se se sentisse culpado, mas não podia deixar de olhá-la.

Olga se afastou ainda mais dele, com o rosto quase branco. Seu corpo era todo anguloso, o que lhe dava uma impressão de estupidez, como se pudesse atirar os objetos de adorno que havia nas mesas laterais. Tinha idéia de quão transparentes eram seus sentimentos?

Elsa olhou ao Julius e viu compaixão em seu rosto. Por um momento lhe pareceu o mais formoso que tinha conhecido. Era totalmente diferente do Cahoon. Cahoon não tinha paciência com os fracos. A compaixão era um obstáculo para a marcha do progresso. Tinha ouvido-o dizer muitas vezes e em seu foro interno tinha querido protestar. O que tinha todo o formoso, divertido e bondoso que também podia ser vulnerável?

Tinha medo de Cahoon. Soube com uma espécie de repulsão que fez que a idéia de comer lhe produzisse náuseas. Como ia agüentar toda a noite sem que lhe caíssem os talheres das mãos, fazendo comentários banais porque não podia deixar de pensar na mulher do armário e em que um desses homens a tinha matado? Tinha sido Simnel, porque desejava a Minnie e se odiava por não ser capaz de controlar a situação? Acaso achava que matar a uma pobre mulher que despertava o mesmo nele ia mudar as coisas? Ou Hamilton Quase, pela razão que fosse? Porque estava bêbado e assustado, e de repente tinha perdido o controle? Talvez a mulher risse dele? Elsa tratou de imaginar. Era patético e repulsivo. Esperava de todo coração que não fosse verdade. Por outra parte, negava-se a acreditar que tivesse sido Julius. Era insuportável.

Era uma lástima que não pudesse ser Cahoon. Que pensamento mais horrível! Como podia ter permitido que lhe passasse pela cabeça? Ela tinha estado em seus braços. No passado até tinha acreditado amá-lo e despertar nele uma ternura que nunca tinha sentido por ninguém. Que ingênua! A única pessoa a que ele tinha querido era Minnie, e até isso era ambíguo. Sua filha se parecia muito a ele, era muito forte para deixar-se controlar, e isso o contrariava.

O lacaio anunciou que o jantar estava a ponto de ser servido. Todos o seguiram em turba desde a ala dos hóspedes à esplêndida sala de jantar de ornamento, cheio de retratos com molduras barrocas douradas de membros da família real falecidos. Era muito espaçoso para a ocasião e Elsa se perguntou por quê o tinha escolhido o príncipe de Gales. Os cortinados e o tapete vermelho davam calor a essa espécie de cripta catedralícia de paredes douradas pálidas e tetos abobodados e bordados. Mesmo assim os fazia sentir-se pequenos, e a mesa dava a impressão de perder-se em sua enormidade. Os lustres estavam acesos, e a luz que irradiavam sobre o cristal e a prata era cegadora. A cornija da lareira e a toalha eram de um branco antigo como a neve. O aroma dos lírios que adornavam a mesa lhe fez pensar em uma estufa. Por toda parte havia lacaios com libré de reluzentes botões dourados e luvas brancas imaculadas.

Receberam-nos o príncipe e a princesa de Gales. Ela estava magnífica com um vestido creme, dourado e azul, cintilante de diamantes. Era uma mulher formosa de feições clássicas; tranqüila, distante e ligeiramente aturdida.

Elsa fez uma reverência e sorriu; perguntou-se quanto sabia a princesa do que acontecia ao redor. Devia ser um purgatório estar surda e não inteirar-se bem do que ocorria, como ver tudo através de um cristal grosso. Ver mas não ouvir, conhecer, mas não tocar e nunca entender de tudo. Quantas vezes a pessoa se sentia frustrada e simplesmente não se incomodava em comunicar-se mais?

Sabia sequer que se cometeu um assassinato? Provavelmente não. Talvez sempre tivesse vivido à margem de tudo.

Fizeram entrar lorde Taunton e lady Parr, que foram apresentados a todos outros comensais. Ela ia vestida com um traje de seda de uma cor ameixa muito intensa que complementava o tom de sua pele. Desafinava com o vermelho da Minnie. Cahoon o admirou divertido, Elsa o notou.

Anunciaram o jantar e todos se dirigiram à mesa exatamente em ordem de precedência: a princesa de Gales pelo braço de lorde Taunton, seguida pelo Cahoon e Elsa. Esta viu nos olhos de seu marido um brilho de descontentamento. Ele gostaria de estar no lugar do Taunton. Mas não tinha nenhum título nem mais status que o dinheiro, e todo o dinheiro do mundo não servia de nada ali.

Seguiram-nos Hamilton e Liliane, Simnel, como irmão mais velho, com Olga, Julius com Minnie, e por último o príncipe de Gales com lady Parr.

Serviu-se o primeiro prato de sopa Juliana, robalo com molho holandês ou salmonete, a escolher. Elsa comeu muito pouco. Sabia que seguiria um prato forte de carne ou ave, um terceiro prato de carne mais pesada, talvez caça, veado certamente nessa época do ano. Depois haveria um quarto prato, provavelmente alguma classe de confeitaria, como bolo de fruta, tartaletas, mingau, e por último uma sobremesa de uva ou outra fruta fresca, e depois da comida, queijo.

Alongar-se-ia interminavelmente antes que as mulheres se retirassem deixando aos cavalheiros com o Porto e os charutos. Os cavalheiros falariam da África e ferrovia; as damas, se falassem, limitar-se-iam a mexericar.

Se os cavalheiros se reuniam de novo com elas, lady Parr paqueraria com o Cahoon e com o príncipe. Minnie paqueraria com o Simnel e com o príncipe, como não. Liliane se comportaria com estupidez; Olga se sentiria cada vez pior. Elsa trataria de pensar em algo que dizer, e acabaria sendo aborrecida e terrivelmente previsível, como Minnie havia dito de Julius em um tom tão condenatório.  

E, entretanto, um deles tinha sido inconcebivelmente imprevisível e tinha assassinado à mulher do armário.

O lacaio lhe serviu vinho branco.

Era possível que, fosse quem fosse o assassino, sua esposa não soubesse nada? Como se podia viver com um homem, adotar seu sobrenome, dormir na mesma cama e saber tão pouco dele? Não saber nada do que realmente importa, como no que acreditava, o que temia ou desejava? Claro que ninguém sabia tampouco o que importava a ela, só as trivialidades que dizia.

Devia tomar cuidado com o vinho se comesse tão pouco ou ele poderia subir à cabeça. Não havia nada pior de se ver que uma mulher ébria; tagarela, indiscreta; uma vergonha.

Alguém se negaria a saber como era realmente seu marido porque seria insuportável? Vivia de sonhos. Que classe de sonhos? Não de riqueza, nem de fama, certamente, nem de beleza. Tampouco de poder. Que poder tinha uma mulher além do de influir em outros com seu exemplo? Sonhos de ser amada por alguém a quem se podia corresponder. Alguém a quem se admirava, que fazia rir, que respirava a acreditar que o mundo era um lugar melhor, mais luminoso e mais sábio só porque se estava nele. Alguém em quem se confiava.

Lorde Taunton lhe estava falando. Respondeu educada com alguma vacuidade. Serviram o peixe; depois ofereceram lagosta ao curry ou fricandó de vitela e, é claro, mais vinho.

Se não se podia ter amor, talvez o único que ficava era fazer algo que valesse a pena. Muitas pessoas, ao contemplar essa mesa reluzente repleta de comida e de mulheres envoltas em seda e jóias, a beleza, o conforto e a abundância, invejariam aos comensais. Elsa podia entender aos homens; estavam nervosos, levavam a ansiedade escrita no rosto enquanto traçavam planos e sonhavam com uma linha de ferrovia de mais de onze mil quilômetros que se estenderia de um extremo a outro do continente. Mudaria o império e o mundo inteiro. Talvez nos séculos vindouros seria contemplado como um dos grandes lucros humanos.

Mas que fazia ela? Não tinha filhos. Casara-se muito tarde para isso. Não desejava nada material. Tinha cobertas suas necessidades de comida, roupa e um teto sobre sua cabeça. Gozava de boa saúde e do respeito de outros por ser a esposa do Cahoon. Não tinha contribuído com nada.

Olhou ao redor da mesa e se expôs se havia alguém ali cuja vida se viu afetada de algum modo por sua existência. Algum dos pressentes era mais sábio, mais valente ou melhor graças a ela? Não precisava perguntar, a resposta estava aí. Nunca o teria exposto se tivesse havido algo para afirmá-lo.

Minnie ria. Via ela tão cheia de vitalidade como a seda cor fogo de seu vestido. O ar que a rodeava parecia quente. Estava Julius apaixonado por ela na realidade e sua indiferença era só uma pose, um escudo para dissimular quão ávido estava em seu foro interno de seu amor?

Elsa sentiu tantas náuseas que mal pôde engolir e só a idéia de comer outro bocado quase lhe provocou enjôo. Talvez Minnie só paquerasse com o Simnel para pôr ciumento ao Julius. Era um jogo entre eles?

Quanto importaria a ela que Cahoon flertasse com alguém? Nada absolutamente, salvo pela ferida em seu amor próprio ante o fato de que preferisse tão abertamente a outra mulher. Nesse momento falava da madeira para as travessas e o aço das vias da ferrovia. Dirigia-se a lorde Taunton, mas foram os olhos para lady Parr. Era uma cortesia para fazê-la sentir-se integrada? Não. Sorria-lhe com calidez nos olhos. Elsa conhecia esse olhar. Também a conhecia Amelia Parr, a julgar por sua expressão satisfeita.

Por que amava uma mulher a um homem e não a outro? Havia realmente algo nobre ou formoso no Julius que não tinha Cahoon, ou imaginava porque queria que fosse assim? Tratou de recordar cada vez que tinham falado, as visitas que tinha feito acompanhado de Minnie. O que havia dito ou feito ele para cativá-la desse modo, para que visse nele algo mais que um homem cujo rosto prometia uma sensibilidade, uma impressão de ternura, de força para fazer algo mais que procurar seu próprio proveito?

Julius falava com lorde Taunton. Simnel o observava, esperando o momento para interrompê-lo. Por debaixo da suposta cortesia havia fúria. Agarrava a faca com força, sem prestar atenção à lagosta de seu prato.

— A maior dificuldade poderia ser o Congo - dizia Julius. — O rei Leopoldo sonha ampliar o domínio belga na África. O preço que nos pedirá para cruzar seu país poderia ser enorme.

— Pelo amor de Deus, Julius! - exclamou Simnel com impaciência. — A ferrovia beneficiará a toda a África. E se Leopoldo não nos concede o acesso, passará pela África Oriental que está em mãos dos alemães. Eles são muito mais razoáveis. Fala como se Leopoldo fosse a única pessoa com quem podemos negociar. Espera que tudo caia em seu regaço sem esforço? - Havia um brilho de amargura em seus olhos e tinha os ombros rígidos sob o tecido negro de sua jaqueta.

— Não espero que ocorra sem esforço, Simnel - disse Julius, com a voz também carregada de emoção, como se não fosse uma nova discussão a não ser a continuação de uma antiga que tinha adotado outra forma. — Mas há preços que são justos e outros que são excessivos para o que recebe em troca.

— Você se ocupe da diplomacia - disse Simnel. Nos deixe as finanças a mim ou a lorde Taunton. Nunca se deu muito bem com os números. - Parecia a ponto de acrescentar algo, mas se conteve.

— Referia a um preço diplomático - replicou Julius.

Soou cansado, como se todo o projeto supusesse muitas perturbações e estivesse em parte desencantado com ele.

Era evidente que Simnel tinha dificuldades para controlar sua fúria. Elsa pensou que, se estivessem a sós, teriam tido uma discussão acalorada, Simnel atacando e Julius defendendo-se, talvez de forma inadequada. Significava isso falta de coragem? Cahoon, apesar de todos seus defeitos, nunca tinha sido covarde. Apartou o prato dela, só um par de centímetros, porque não havia onde pô-lo.

O lacaio recolheu os segundos e trouxe o seguinte prato: quarto traseiro de cordeiro assado, anca de veado ou capão cozido e ostras, tudo acompanhado de verduras.

Cahoon falava com lady Parr. Elsa pensou em quão encantador podia ser, e em quão aliciantes eram seu poder e sua inteligência. Recordou como se apaixonara por ele, e o emocionada e adulada que se havia sentido quando lhe tinha pedido que se casasse com ele. Teria se tornado tão oco seu matrimônio se tivesse sido com o Julius? Acaso ele falava com Minnie, confiava nela, fazia-a partícipe de suas idéias e seus sonhos, fazia-a rir, permitia-lhe ver suas desilusões e sua dor?

Comeu com pouco apetite o capão cozido e olhou para Minnie, sentada frente a ela. Era muito atraente, com esses assombrosos olhos castanhos dourados. Só porque a conhecia bem detectou a nota de crispação em sua voz e notou a freqüência com que ia o olhar para o Hamilton, que permitia que o lacaio lhe preenchesse a taça muito freqüentemente e cujos olhos começavam a estar ainda mais frágeis. Se bebesse tanto deveria comer mais. Certamente alguém teria que lhe ajudar logo para evitar uma cena embaraçosa quando tratasse de levantar-se. Seria humilhante e impossível fingir que não o tinham visto.

Houve outra gargalhada. Encoberto por seu som, Cahoon a olhou furioso do outro extremo da mesa. "Cumpre com seu dever! - ordenou movendo os lábios. — Não seja tão fraca!"

Ela notou que lhe ardiam as faces. A acusação era fundada. Esperou para ouvir o suficiente da conversa de lady Parr para participar dela e o fez concentrando-se nas boas maneiras. Não gostava nada dessa mulher. Tinha um rosto atraente, mas vulgar; o lábio inferior muito grosso. Só o esforço de dirigir-se a ela com entusiasmo requereu de toda sua concentração. Falaram de arte, da recente regata do Henley, de conhecidos mútuos, de temas seguros e banais para as duas.

Serviram um prato mais, desta vez galo silvestre assado e molho de pão, pudim de ameixas, gelatina de frutas, creme de framboesas, mingau e pudim de figo. E, naturalmente, mais vinho.

Depois chegou a sobremesa. Os cavalheiros recusaram e as damas se deram por satisfeitas. Elsa viu a princesa de Gales fazer um ligeiro gesto com a cabeça a lady Parr para lhe indicar que era o momento de que se retirassem.

Elsa estava cansada de fingir e reconheceu na Olga o mesmo instante de rendição, mas em seguida a viu erguer a cabeça e sorrir forçadamente.

Minnie passou por seu lado com as saias formando redemoinhos, a suave pele de seus pálidos ombros destacando contra a seda escarlate. Estava duas vezes mais cheia de vida que qualquer delas, e observava e escutava tudo como se não lhe passasse inadvertido nenhum gesto. Parecia transbordante de uma curiosidade insaciável que excitava não só sua mente, mas também suas emoções. Por um desagradável instante Elsa se perguntou se sabia o que tinha acontecido realmente à mulher do armário e quem o tinha feito. Logo descartou a idéia como absurda. Só era Minnie alardeando e sendo, como sempre, o centro da atenção.

Olga endireitou os ombros e a seguiu, mas não caminhou com passo firme nem olhou aos lados, como se no momento não pudesse cruzar-se com o olhar de ninguém.

Liliane se voltou para trás antes que se fechasse a porta do salão. Elsa pensou que lançava um último olhar ao Hamilton, para assegurar-se de que ainda se mantinha erguido, ou inclusive para atrair seu olhar e adverti-lo. Depois se deu conta de que era ao Julius a quem olhava, e que em seu rosto havia uma cólera momentânea, e uma dor sem resposta, como se lhe tivesse negado algo.

A Elsa dava voltas a cabeça. Lady Parr estava dizendo algo e não tinha nem idéia do que era. Liliane e Julius tinham estado na África ao mesmo tempo, antes que nenhum dos dois estivesse casado. Tinha sido na mesma época em que Éden Forbes tinha morrido.

Todas as damas tomaram assento olhando à princesa de Gales. Elsa foi convidada a sentar-se a seu lado. Ia ser um trabalho duro, mas por alguma razão essa noite parecia preferir a ela.

— Seu marido é um homem que impõe - comentou a princesa com naturalidade, mas observando o rosto da Elsa enquanto falava. Talvez fosse assim como adivinhava a resposta das pessoas: não entendia as palavras, mas lia a emoção.

Elsa sorriu.

— É certo, senhora. - Inclinou a cabeça. — E está apaixonadamente interessado neste projeto. - Falou com frases curtas.

— Naturalmente - disse Alejandra com humor na voz. — Tem muito que oferecer. - Referia-se a África, ao império ou ao Cahoon pessoalmente? Tinha lido em seu rosto quão ávido estava de reconhecimento, de obter uma cadeira na Câmara dos Lordes e todas as honras sociais que isso comportaria? Devia estar acostumada a que a cortejassem por sua posição e não por ela mesma. A propósito, tinha alguma idéia da quantidade de mulheres com quem o príncipe flertava ou inclusive se deitava? Ou se negava a vê-lo porque lhe era insuportável?

Quanto doeria a ela, emocional e intelectualmente, saber que Cahoon fazia o amor com lady Parr? Não muito; só a repugnaria se depois voltasse para seu lado. E, se era sincera, talvez não o fizesse. Isso também era uma classe de rechaço estranho, uma espécie de solidão entre procurada e dolorosa.

Alexandra voltava a lhe perguntar algo. Elsa pensou na dificuldade de ter que ser sempre a que iniciasse a conversa, mas não se podia falar com um membro da família real até que se dirigiam a você. Não podia ajudá-la, por muito que quisesse.

— Sentirá falta de seu marido quando começarem a obra - prosseguiu Alexandra.              — Ou você também irá a África?

— Ainda não sei, senhora - respondeu Elsa.

— Soube que é muito bonito - continuou Alexandra.

Elsa devia fazer um esforço. Viu a expressão de manifesto desdém da Minnie.

— Deveria ir - disse Minnie de repente. — Isso lhe daria algo de que falar. É tão aborrecido não ter nada que dizer... - Sabia que, com o rosto voltado para Elsa, Alexandra não a ouviria.

— Terrível - disse Elsa de maneira cortante. — Sobretudo para os que insistem em falar de todo modo.

Alexandra se voltou para a Minnie a tempo para vê-la ruborizar-se. Pareceu entendê-lo tão bem como se o tivesse ouvido.

— Seria uma lástima perder uma aventura assim - disse em voz baixa.

— Não há nada que a retenha em sua casa - acrescentou Minnie.

Não disse que não tinha filhos, mas ficou implícito. Ela tampouco tinha, mas era bastante jovem para tentá-lo.

— Imagino que você irá - disse Olga a Minnie de repente. — Quererá seguir aos homens!

Minnie arqueou as sobrancelhas.

— Como diz? - replicou gelidamente. Mas continuava tinta.

Lady Parr parecia divertida.

— Quer que o repita mais alto? - perguntou Olga.

Se estivesse em sua casa, Minnie teria partido irada da sala, já que tinha um gênio impulsivo como seu pai. Viu-se obrigada a ficar.

— Imagino que começarão ao mesmo tempo no Cairo e na Cidade do Cabo - murmurou Alexandra, como se não tivesse entendido o último intercâmbio. — Você conhece Cidade do Cabo, não é verdade, senhora Marquand?

— De forma superficial, senhora - respondeu Liliane. — E lamento não ter estado no Cairo.

— Achava que conhecia muito bem Cidade do Cabo. - Minnie parecia desconcertada. — Papai me comentou que você tinha vivido ali. Equivocou-se?

Liliane a enfrentou.

— Provavelmente lhe disse que meu irmão morreu ali - respondeu com uma voz ligeiramente trêmula, que tornava difícil que a entendesse. — Ou talvez foi seu marido quem o disse. Ele estava ali naquela época.

— Julius nunca me diz nada - replicou Minnie. — Mas estou certa de que você já sabe. Conheceu-o antes de mim. - Franziu o sobrecenho. — Embora me parece estranho que não o mencionasse.

— Talvez simplesmente não escutava - sugeriu Elsa.

— Suponho que a você disse - replicou Minnie. — Você sempre o escuta. Não sei o que espera ouvir. Ou talvez não te importe, sempre que ouvir algo.

Elsa a olhou muito séria.

— Estou certa de que você gostaria de reconsiderar esse comentário - observou.            — Não é possível que tenha querido dizer algo assim. - Permitiu que seu olhar se deslocasse para a Alexandra e o desviou rapidamente.

Minnie compreendeu de repente a que se referia e o rubor lhe estendeu das faces ao pescoço e deste ao peito. Mas não havia uma forma elegante de explicar que tinha estado falando da vaidade da Elsa, não da surdez da princesa.

Pela primeira vez na noite Olga riu. Foi um som potente e extraordinariamente agradável, mais atraente que a voz forte e aguda da Minnie.

Seguiu outra meia hora de bate-papo, fofocas e educadas trivialidades até que os cavalheiros se reuniram de novo com elas. Cahoon entrou o primeiro, falando com o príncipe com tanta gravidade que ambos pareceram fazer um esforço para distrair o tempo justo para saudar as damas e reataram quase imediatamente a conversa.

Era evidente que Simnel e lorde Taunton discutiam de finanças, mas a linguagem que empregavam era bastante esotérico para não ter necessidade de ser discretos.

Hamilton foi o último em entrar, caminhando tão pego ao Julius que era fácil adivinhar que este o conduzia para impedir que caísse.

Ao vê-los, Liliane começou a levantar-se, mas se sentou de novo, mordendo o lábio. Aproximando-se o teria deixado ainda mais em evidência. Ficou sentada em silêncio, com o rosto tenso, fugindo aos olhares dos outros.

— Tenho a sensação de que estamos mais perto - disse Cahoon sorridente. Olhou para Taunton. — Recebemos não só apoio, mas excelentes conselhos. Estou impaciente por estar de novo na África. Quase posso notar o sol na pele, o calor, o pó, o aroma dos animais. - Olhou a lady Parr e depois a Alexandra. — A África é diferente de qualquer outro lugar do mundo, senhoras. É como se lhe fizessem retroceder aos começos da criação, quando tudo era novo e recém acabado. Há uma energia que revolve o sangue e estimula o cérebro. - Essas últimas palavras foram dirigidas só a lady Parr. — Adoraria!

Ela sorriu e lhe iluminaram os olhos ao imaginá-lo.

— Eu adorarei. - Parecia uma promessa em lugar de um mero comentário.

Elsa cruzou com o olhar de Alexandra, mas nenhuma das duas falou. Talvez um entendimento assim fosse melhor sem palavras.

— Nem tudo é... glamour - disse Hamilton pronunciando mal. — Também há sujeira, e faz um calor infernal. Exceto quando há umidade, é claro. Então é como se o fervessem vivo.

— Suponho que não entraríamos na selva - disse Olga enchendo o silêncio que seguiu. Voltou-se para Liliane. — Não é agradável a Cidade do Cabo?

— O clima é extremamente agradável - respondeu Liliane, deslocando o olhar da Olga ao Hamilton. — Gostaria de conhecer Cairo. E você, Julius?

— Ao Julius trazem sem cuidado as duas - disse Simnel antes que Julius pudesse responder. — Provavelmente estará percorrendo as capitais da Europa, dando amostras de seu encanto, comendo a melhor comida e bebendo os vinhos mais seletos sem se expor a manchar as botas, e sem ter que preocupar-se com a febre ou as mordidas de serpente ou por acaso a investida de um elefante touro. Mas não verá um milhão de estrelas no céu nem ouvirá rugir os leões de noite. - Sorria, mas atrás de seu tom despreocupado havia irritação.

— A maioria dos bancos está em Londres, Zurich e Berlim - indicou Julius. — Suas botas tampouco deveriam sofrer muito por ali. Nem seu apetite. E talvez haja bons bancos em Roma ou em Melam. Lombardía também é um grande lugar para o dinheiro. E a comida italiana é maravilhosa. Além disso, suas botas são de boa qualidade.

— Seguirei seu conselho, posto que sempre tem o melhor - replicou Simnel.

Algo em seu rosto dava a entender que seu comentário abrangia muito mais do que dizia literalmente.

Julius lhe deu as costas.

Cahoon olhou a lady Parr.

— A África é um lugar perigoso, é claro. Acontecem coisas terríveis. Mas também acontecem em Londres. Todos os lugares onde o homem se aventura têm seu lado escuro.

Liliane o olhava sem piscar. Elsa tinha visto aranhas no lavabo com essa mesma sensação em seu interior. O que assusta pode ser espantoso, mas ao menos se o vigia saberá quando vai saltar.

— Não imagino a África imersa na miséria e a exploração, ou degradada como certas partes de Londres - disse lady Parr a Cahoon. — Tem que ser, como diz, mais primitiva, menos debulhada e corrupta.

Cahoon olhou para Hamilton, que estava um pouco torcido em sua cadeira.

— O que diz você, Quase? Passou mais tempo na África que qualquer de nós.

Hamilton abriu muito os olhos e com um grande esforço se concentrou nele.

— Eu acredito que há bárbaros em toda parte - respondeu, pronunciando as palavras com exagerado cuidado. — Mas o verniz é mais grosso em umas partes que em outras.

— É diferente da Europa, certamente - se apressou a dizer Liliane. — Isso não significa nada na realidade.

Lady Parr a olhou surpreendida, esperando uma explicação. Ao dar-se conta de que não ia receber nenhuma, olhou de novo ao Cahoon.

— O que o faz dizer isso, Hamilton? - perguntou Cahoon com curiosidade, com uma expressão inocente que Elsa soube que era falsa. O que se propunha? Hamilton estava bêbado, tinha o rosto crispado de dor, e era evidente que Liliane estava assustada por ele. Por que?

O que tinha ocorrido na África? Algo que continuava sendo uma ferida aberta, um perigo inclusive agora? Não. O irmão do Liliane tinha morrido na África. Devia ser isso. Como Elsa podia impedir que Cahoon seguisse sondando? Era cruel. Mas Cahoon nunca tinha retrocedido ante a crueldade se podia lhe ser útil. Havia-lhe dito muitas vezes que não era possível construir nada de valor se a pessoa temia destruir o que havia em seu lugar.

— O que o faz pensá-lo, Hamilton? -repetiu Cahoon.

Hamilton piscou como se tivesse esquecido a pergunta, mas em seus olhos havia medo e aversão.

— Ah, sim - disse Cahoon, fingindo recordar algo por fim. — Está pensando nesse horrível assassinato. A pobre mulher que morreu apunhalada em Cidade do Cabo. Com a garganta cortada e... outras coisas. Ouvi falar dele. Foi espantoso. Você também estava lá, não é, Julius?

Todos se voltaram para Julius.

— Sim - limitou-se a dizer ele.

Parecia a ponto de acrescentar algo mas mudou de opinião, como se fosse inútil dizê-lo até sendo verdade.

— Pode acontecer em toda parte - disse Liliane um pouco alto. — Nem sequer na África houve algo tão horrível como o assassino do Whitechapel que tivemos aqui mesmo em Londres.

Hamilton estremeceu com violência.

— Outro brandy? - ofereceu o príncipe do Gales. Via-o desconfortável e triste, mas tratava de dissimular.

— Não - respondeu Liliane muito rapidamente. — Obrigada, senhor.

O príncipe olhou ao Hamilton, depois suspirou e se voltou para o Cahoon.

— Talvez seja um país de homens, ao menos de entrada. Invejo-lhe a oportunidade de formar parte dos mesmos alicerces de uma empresa que mudará por completo o mundo. Ficar aqui parece comparativamente pouco emocionante. A pessoa não pode construir uma felicidade plena sobre a segurança.

— Nós podemos arrumar isso com um aventureiro mais ou menos, senhor - replicou Cahoon, — mas só temos um futuro rei.

Julius sorriu. Hamilton voltou a estremecer, com os punhos fechados. Simnel olhou ao Julius com uma expressão inescrutável. Lady Parr olhou ao Cahoon com aberta admiração.

Elsa gostaria de dar por terminada a noite, mas sabia que tinha diante duas horas pelo menos, talvez três, antes que pudesse retirar-se. Ninguém podia partir antes que os príncipes de Gales.

 

Era quase meia-noite quando Alexandra convidou a Elsa a acompanhá-la a uma das galerias para lhe mostrar vários de seus quadros favoritos. Elsa não tinha nenhum interesse em ver quadros nesse momento, mas, além do fato de não querer negar algo a uma princesa, agradeceu fugir dali. Desculparam-se e se levantaram.

Elsa caminhou ao lado da princesa através de magníficas salas, paredes cobertas de grandes obras primas da Europa de todos os tempos. Era uma história visual dos sonhos, a vida e os personagens do meio milênio de civilização ocidental. Não pôde evitar sentir-se fascinada.

— Uma noite algo original - comentou Alexandra sorridente, atraindo por um momento o olhar de Elsa enquanto se detinham ante um Rembrandt escuro e meditabundo, todo luz dourada e cor carne sobre um fundo pardo escuro.

A seu lado havia um Vermeer frio, luz matinal sobre azuis e cinzas, e uma clareza tão assombrosa que se conseguia ver a superfície granulosa das lajes do chão.

— Sinto muito - desculpou-se Elsa. — Estão todos em desacordo. - Não podia dar a verdadeira razão. — Têm um grande interesse no projeto.

— É claro que sim - concordou Alexandra. — Há muito que ganhar ou que perder com ele. Mas imagino que é o outro fato desafortunado o que os tem realmente alterado e o que está despertando, acredito, velhos medos relacionados com os novos.

Elsa a olhou fixamente, tratando de deduzir se a implicação era acidental ou não. Era possível que soubesse?

Alexandra sorriu sem alegria.

— Supunha que não estava inteirada. Querida, esse tal Pitt não estaria aqui nem teria autorização para fazer perguntas se não tivesse acontecido algo muito grave. Sinto muito. Deve ser terrível para você.

Elsa tratou de dizer algo apropriado, mas não lhe ocorreu nada. Caminharam em silêncio dessa galeria a seguinte, e depois a seguinte.

— Se quer ver estes quadros com mais vagar, estou certa de que não há motivo para que não o faça - disse Alexandra por fim. — Lamento ter que voltar para falar de novo com lady Parr. Duvido que se importasse se não o fizesse, mas o exige o dever.

— Obrigada - disse Elsa com sinceridade.

A cabeça lhe dava voltas e essa pausa lhe era muito para agradecer. Precisava estar sozinha. Seus pensamentos eram caóticos, mantidos em confusão pela emoção. Estava assustada porque tinha que ser Simnel, Hamilton ou Julius quem tinha matado a essa mulher de uma forma tão atroz. Alguém com quem se acotovelara e conversara educadamente, tinha esmigalhado com uma faca a uma mulher, uma mulher de quem não sabia como se chamava e da qual ignorava tudo salvo a sórdida forma em que ganhava a vida. Tinha tido outra escolha?

Todos estavam aprisionados até que a polícia encontrasse a resposta. E se não a achassem? Não podiam ficar ali indefinidamente. Deixá-los-iam partir? Com essa corda sobre suas cabeças para sempre? Seria insuportável viver com isso. Tinha poder a polícia para mantê-lo em segredo? Era um pensamento frio e aterrador. Uma mulher tinha entrado ali e tinha sido assassinada como um animal, e nunca se saberia! Essa espécie de poder não deveria existir.

Mas como iram tornar público e permitir que três homens conduzissem isso sobre suas cabeças o resto de suas vidas?

Contemplava o rosto moreno e apaixonado de um retrato do Velázquez quando o ruído de passos lhe fez dar um pulo. Por favor, que seja um criado, alguém com quem não tenha que falar. Manteve o rosto resolutamente voltado para o quadro. Quem quer que fosse se deteve perto dela.

— Pode sentir suas emoções, verdade? - observou.

Era Julius. Era a primeira vez que estava a sós com ele em todo um ano. Recordou a última vez. Tinha sido depois de um jantar na nova casa que Cahoon tinha comprado em Chelsea, na estufa. O aroma de folhas e terra úmida flutuava no ar, quente e imóvel, como em uma selva tropical.

Ela clareou a voz. Tremia.

— Sim. - Deveria voltar com o grupo? Seria um ato covarde. Detestava a covardia nela ainda mais que em outros. Queria ficar ali, embora não falassem. — Há um Rembrandt na seguinte galeria. Um rosto completamente diferente.

— Um auto-retrato? - perguntou ele.

— Acredito que sim. Deve ser duro ver-se a si mesmo com suficiente honradez para pintar um quadro que valha a pena, não? - Não era uma pergunta, mas um simples comentário para encher o silêncio e evitar falar de algo pessoal.

— Sim - assentiu ele. — Plasmar a debilidade, a indecisão, o que é agradável, mas pouco profundo. A determinação seria mais fácil. Ou a avidez.

— Mais atraente? - perguntou ela, pensando em Minnie.

E ela? Achava a paixão e a vontade do Cahoon mais emocionantes que o caráter mais fraco do Julius? Temia que depois dos ossos fortes de seu rosto houvesse um homem sem a avidez nem a coragem para lutar por seus sonhos? Ou sem sonhos? Mas por que ia esperar que ele tivesse o que parecia faltar a ela mesma?

Ele não tinha respondido.

— É? - insistiu ela. — É o que todos gostam de ver?

Logo, assim que pronunciou as palavras, deixou de querer que ele respondesse. Mas se voltava a falar para detê-lo, sempre se perguntaria o que haveria dito.

— Não entre minhas quatro paredes - respondeu ele. — Preferiria ter algo de uma beleza mais autêntica, que acredita que lhe sorriria se pudesse mover-se. - Titubeou. — E preferiria o mistério, a sensação de que ainda há algo por descobrir, que talvez nunca conheça de todo, porque poderia mudar com o tempo, crescer, como as criaturas vivas.

Ela tinha frio e calor ao mesmo tempo, pulsava-lhe com força o coração e notava as mãos geladas.

— Eu quereria algo com uma calidez em que pudesse confiar - disse.

Era muito claro? Estava sendo tão torpe e previsível como Minnie havia dito que era.

Julius estava tão perto dela que lhe chegava o débil aroma de sabão e algodão limpo, e o calor de sua pele.

— É possível que todos o queiramos. - Sua voz foi pouco mais que um murmúrio.                          — Quanto do que vemos em um rosto está realmente ali?

— Não muito – admitiu ela. — Se pudéssemos lê-lo não cometeríamos tantos enganos. Mas só vemos o que queremos ver.

— E mudamos - acrescentou ele. — Encontramos o que procurávamos e descobrimos que nós não gostamos, depois de tudo. - Tocou-lhe o ombro com uma mão, mas a deixou cair de novo.

Ela queria voltar-se para ele e olhá-lo nos olhos. Era mentira. Queria muito mais que isso, mas seria um desastre, algo muito maravilhoso para esquecer, ou muito vazio, muito revelador de uma desilusão para que sanasse algum dia. Devia trocar de assunto, embora fosse bruscamente.

— O que estava contando Cahoon da África? Foi como o que aconteceu com a pobre mulher daqui? - Sua voz soou muito áspera.

— Sim, pareceu-se bastante. - Ele não se afastou.

— Acha que... insinuava que foi a mesma pessoa a que o fez?

— Sim, acredito que sim. Sobre tudo porque ele estava na Europa nesse momento e não poderia ter sido. E Éden Forbes está morto.

— O irmão de Liliane? Por que o mencionou? O que lhe aconteceu? Ela nunca falou disso. - Não era sua intenção, mas soou assustada e acusadora.

— Não sei - respondeu ele. — Acredito que foram crocodilos. Ia em um bote que virou. Nunca se esclareceram os fatos e todo mundo ficou muito afetado. Disseram-me que Hamilton ajudou muito. Watson Forbes estava ali, e também Liliane, mas ficaram destroçados. Eu me achava a uns trezentos quilômetros dali quando ocorreu.

Ela tratou de imaginar e se deteve deliberadamente.

— Não tenho certeza de que gostaria da África. Não é que tenha que ir. Não acredito que ao Cahoon importe se for ou não, e certamente não sou necessária.

— Ainda não temos o contrato - indicou ele.

Ela ficou surpreendida.

— Não acredita que o consigamos?

O fracasso não era algo que tivesse considerado seriamente. Cahoon nunca fracassava, e desejava esse projeto mais que nenhuma outra coisa no mundo. Mas isso tinha sido antes do assassinato.

Julius respondeu devagar, concentrando-se em cada palavra.

— Suponho que isso depende do que averigue o policial. - Havia ironia em sua voz, mas também compaixão e medo. Ela se alegrou de percebê-lo; ao menos sentia algo. — E não estou tão convencido como antes da grande vantagem que suporá a ferrovia. Há outros fatores que se devem ter em conta. Achava saber todo o necessário, mas agora já não estou tão certo. O que acontecerá dentro de um par de gerações? As fronteiras internas da África são todas muito incertas. E se as trocassem? Bastaria que um só país se opusesse ao Império britânico, e se tivermos que percorrer todo seu território, estaremos em uma situação desesperadamente vulnerável. E até no caso de que possamos proteger o projeto, militarmente ou por meio de um tratado, que efeito terá na África propriamente dita?

— Dar-lhe-á unidade - replicou ela imediatamente. Não entendia o que o preocupava. — Não é algo positivo? Fizemos o mesmo na Índia.

— Na Índia já havia certa unidade – disse ele. — Na África não. Há muito mais diferenças no clima e no terreno, nas raças, cultura e religião. É possível que tudo esteja melhor com uma ferrovia britânica, mas estou longe de estar certo. Estive me perguntando se desde ao oeste, quer dizer, do interior à costa, não seria muito mais prático, não só física, mas moralmente.

Elsa estava assombrada, e apesar de sua determinação de não fazê-lo, voltou-se para ele.

— Disse-o?

— Não. Não tenho certeza, e Cahoon não me escutaria de qualquer modo. Considera que todo o que o questiona está cometendo um ato de traição. - Um esboço de sorriso apareceu em seus lábios. — Mas isso já sabe.

Ela sabia. Deu-se conta de que devia ser tão evidente que ele o tinha visto inclusive de fora. Não tinha nenhuma resposta. De repente quis escapar.

— Deveria voltar - disse. — Estive fora muito tempo. Não queria ter que dar explicações.

— É claro. Eu irei em seguida. Eu gostaria de olhar um pouco mais este retrato.

Ela se afastou sem voltar a olhá-lo. Ele não a havia tocado, e se sentiu sozinha e de algum modo incompleta por essa razão.

 

Cahoon a seguiu até seu dormitório e fechou com uma portada. Despediu-se de Bartle, que esperava dentro.

— Sua senhora a chamará se precisar - disse com brutalidade.

Bartle saiu com a cabeça alta, os ombros rígidos.

Elsa o olhava.

— Não sabia, verdade? - perguntou ele com um ligeiro rictus de humor. — Achava que era a primeira vez que o fazia.

— Não sei do que está falando.

Elsa tratou de ganhar tempo. Assustava-lhe seu temperamento. Tinha batido nela antes, mas nunca onde pudessem ver-se as marcas. Sempre tinha sido por sua frieza, sua falta de fogo ou paixão, pelas formas em que não satisfazia seus desejos ou faltava a seus deveres como esposa. Era Minnie com quem a comparava, ou com Amelia Parr?

— O homem que matou à maldita mulher do armário, Elsa! - gritou ele. — Por Deus, deixa de fingir! - Seu asco era evidente. — Vive em um mundo de sonhos insípidos, com o fio da paixão ou da dor embotado. Bom, pois agora vai ter que enfrentar a realidade.

Aproximou-se mais dela. Tirava-lhe quinze centímetros de estatura e era muito mais forte. Lhe chegou o aroma de puro brandy de sua respiração.

— Não sei a verdade - disse com toda a serenidade de que foi capaz, negando-se a retroceder. — Se você sabe, deveria falar com a polícia.

— Isso vou fazer quando puder demonstrar. Embora não sei o que fará esse toco do policial com ela, a menos que o diga o príncipe. Estúpido incompetente!

— O príncipe ou o policial? - perguntou ela com certo sarcasmo.

Estava cansada de ser complacente a todo custo. Desprezava-se por isso, embora soubesse que teria que pagá-lo mais tarde.

Ele abriu muito os olhos.

— Acha talvez que o príncipe de Gales é um estúpido incompetente? - perguntou em voz baixa.

— Como demônios vou saber? - replicou ela. — Bebe muito e parece fazer tudo o que você lhe diz. Admira isso? - Era um desafio.

— Provavelmente está morto de asco com sua aborrecida mulher - replicou ele. — Só que o pobre não pode escapar... nunca. A menos que ela morra.

Ela sentiu frio, como se tivesse saído de repente sob uma chuva gelada e se molhasse até os ossos. Ele a olhava divertido, desfrutando com isso.

— Por isso organiza festas e empreita a prostitutas para que venham a entretê-lo. -disse ela sem a força que lhe teria gostado de expressar porque tremia. — Pobre homem. Não estranho que se compadeça dele. Eu me compadeço dela. Deve envergonhar-se dele.

Ele sabia exatamente a que se referia ela e a olhou furioso. Arrojou o braço para trás, mas mudou de opinião.

— Suponho que correria ao Julius para lhe dizer que bati em você! Eu não estava na África quando mataram essa outra mulher, Elsa. Ele sim! Parou para pensar no que é capaz de fazer às mulheres quando consegue sair-se com a sua? Não é exatamente com o que sonha, não?

— Não tem nem idéia de quais são meus sonhos, Cahoon. Esse é um lugar ao que não pode chegar. Nunca o fará.

— Acha que eu gostaria? - Ele arqueou suas sobrancelhas negras com incredulidade. — O adjetivo "insípido" apenas lhes faz justiça. É mais como um creme de maisena, pálido e insípido. Aborrece-me mortalmente, Elsa. - Deu meia volta, mas quando chegou à porta se voltou de novo para ela. — É possível que Julius não obtenha mais que tolerância da Minnie, já que a lei não permite que uma mulher abandone a um homem por adultério, se alguma vez tiver a coragem ou a dignidade para cometê-lo, um fato que faria bem em recordar. Deve-me tudo o que tem: a comida que leva a boca, a roupa com que se veste e sua lealdade... ao menos em público. Se o esquecer a destruirei. Julius não pode salvá-la nem o tentará. Se a quisesse já teria feito algo a respeito, e se você tivesse coragem ou honestidade já teria dado conta disso. Ele teria motivos de sobra para repudiar a Minnie, se quisesse. Mas não quer. Confronta-o. Só a quer para me irritar.

— Parece tê-lo conseguido - replicou ela com voz gélida. — Perdeu as estribeiras... uma vez mais.

— Equivoca-se - a contradisse ele. — Se os tivesse perdido estaria inconsciente no chão. - Saiu e fechou com uma portada.

Ela se aproximou da porta e a fechou com chave, depois desabou na cama e pôs-se a chorar.

 

Gracie tinha levado a faca manchada de sangue para Pitt, que tinha compreendido imediatamente o que significava. Alguém a tinha posto no armário depois que o tinham revistado a fundo ao achar o cadáver. Isso significava que só podia ser alguém instalado na ala do palácio reservada aos hóspedes. Tinha-o feito para se desfazer da faca, se por acaso Pitt o surpreendesse com ela, ou para que a encontrasse e acusasse a outra pessoa? Isso era provavelmente o que estava pensando Pitt nesse momento. Gracie esfregava o chão da lavanderia. Ada gostava de lhe dar as tarefas mais duras, das que requeriam uso de água, para lhe deixar clara sua posição no mais baixo da hierarquia, no caso de esquecer.

Pitt também devia estar pensando nos lençóis ensangüentados da rainha. Não tinha muito sentido. Conseguiria averiguar quem o tinha feito e, ainda mais importante, demonstrá-lo?

A escova de Gracie se moveu um pouco mais devagar. E se não o averiguasse? Esse pensamento a assustou. Não sabia o que fariam com ele, mas entendia o poder, a cólera e o medo. Certamente nem sequer essas pessoas poderiam encobrir um escândalo assim. Ou talvez acreditassem que deviam fazê-lo. Recordava quando o assassino do Whitechapel tinha atuado fazia cinco anos. Tinha havido indignação nas ruas. As coisas se puseram muito feias no East End. Os anarquistas e os republicanos se voltaram contra a rainha. Falou-se em desfazer-se dela e pôr em marcha um novo regime, prescindindo da monarquia. Haviam-se dito disparates sobre que alguém da família real tinha participado disso. Isso era uma estupidez. Uma das primeiras premissas de toda investigação era saber onde estavam as pessoas. Fazia anos que ela sabia.

Mas também sabia como a pessoa néscia podia repetir coisas que, se tivessem parado uns momentos para pensar saberiam que não era verdade. Não era preciso muito para avivar a cólera. A pessoa pobre e faminta tem mais sentimento que prudência. Ela tinha crescido no East End e conhecia bem suas origens, embora os tivesse deixado atrás para ir para Keppel Street e nesse momento estivesse de joelhos esfregando o chão da lavanderia da rainha.

Limpou o último lance e foi procurar água limpa para continuar no salão das manhãs, depois de pedir permissão a Biddie, que estava ocupada engomando anáguas.

Ficou de novo a esfregar.

Essas três mulheres que o príncipe tinha mandado chamar eram da mesma classe que as apunhaladas pelo assassino do Whitechapel. Tratava-se de alguma manobra para ameaçar de novo à Coroa? Sabia Pitt? Ou estava sendo utilizado sem saber para fazer explodir outro escândalo? A idéia lhe indignou tanto que passou os dedos sem querer pelos lados da escova e colocou uma cerda por debaixo de uma unha. Estava sentada em um canto, tratando de tirá-la quando ouviu passos no corredor seguidos de um frufru de saias ao roçar os lados da porta. Soava como seda. O traje de algodão simples de uma criada não fazia esse ruído. Esquecendo-se da cerda, adiantou-se um pouco para ver a porta.

Era uma saia de um intenso rosa ameixa e com muito volume. Devia ser a senhora Sorokine. Gostava das cores quentes.

O som se aproximou mais e um momento depois a voz da Minnie lhe confirmou que não se equivocara.

— Queria saber se poderia me engomar isto - perguntou Minnie. — Enrugou muito sem querer e não quero que minha criada se inteire de como sou pouco cuidadosa.

Biddie se sobressaltou e lhe escorregou a prancha da mão; caiu na tabela com um golpe surdo.

— Sinto muito - disse Minnie desculpando-se. — Não queria assustá-la. Acredito que estamos todos muito alterados estes dias.

— Sim, senhora - respondeu Biddie automaticamente. — É claro que posso. Deixe-me isso aqui e o levarei quando terminar.

— Não me importa esperar um momento - respondeu Minnie. — Não quero fazer você subir.

Biddie começou a dizer que não era nenhum trabalho, mas se conteve.

Gracie estava intrigada. Tanta consideração não parecia concordar com o caráter que tinha observado até então na senhora Sorokine. Ficou ali escutando. O chão podia esperar.

— Não estranho que esteja assustada - prosseguiu Minnie para entabular conversa. — Eu também estou. Sei que o culpado tem que ser alguém que provavelmente vimos as duas na mesma noite que aconteceu. Pode ser que até falássemos com ele.

— Oh, senhora! Dá horror pensar nisso! - exclamou Biddie em voz baixa.

— Pode imaginar quão preocupada estou - disse Minnie com cordialidade. — Meu próprio marido é um dos suspeitos.

— Sinto-o muito, senhora - disse Biddie em tom apagado, como se acabasse de dar-se conta da enormidade do crime. — Estou certa de que verá que não foi.

— Está? - Pelo tom era uma pergunta, não um desafio. — Como pode estar? Sabe onde estava? Suponho que vocês viram muitas coisas, mais do que lhe ocorreu lhes perguntar esse policial. - Ouviu-se um revôo de saias quando se inclinou. — Esteve subindo e descendo escadas quase toda a noite, não é?

— Suponho que sim.

A voz de Biddie soava atemorizada e já não se ouvia a prancha. Devia estar totalmente fria a essas alturas e não a tinha mudado por quão quente estava sobre a estufa.

— Como eram essas três mulheres? - perguntou Minnie. — Eu nem sequer as vi.

Ainda imóvel, Gracie viu como Biddie retorcia a saia ao encolher os ombros.

— Bastante vulgares, senhora. Não deveria saber destas coisas.

— Oh, vamos - suplicou Minnie. — Não direi a ninguém que me disse. Preciso saber. Só há três suspeitos e um deles é meu marido. Por favor!

Biddie devia ter olhado Minnie no rosto, porque cedeu.

— Bom, eram mulheres de um dos bordéis, não da rua. Limpas, ao menos pelo que se via. E estavam vestidas com bastante decência quando chegaram.

— Mas eram... profissionais?

— Ah, sim. Notava-se pela forma de falar.

— Tinha-as visto antes? - pressionou Minnie.

Gracie começava a ter cãibras, mas não se atreveu a mover-se por medo a chamar a atenção.

— A elas em particular não - respondeu Biddie depois de refletir aparentemente uns momentos. — Mas sim a outras como elas.

— Conhece-as o senhor Tyndale? - Minnie não se dava por satisfeita.

Biddie riu bobamente.

— O senhor Tyndale não, senhora. Não o passaria, embora lhe dizê-lo custaria seu emprego. Não é bom que saibam que tem opiniões.

— Não - concordou Minnie. — É claro que não. Quem chama a essas mulheres então?

— Oh, senhora... Eu...

— Está-me dizendo que não sabe? - Minnie se mostrou desconfiada. — Alguém deve tê-las deixado entrar, conduzi-las ao piso de cima e avisar a alguém de que tinham chegado. Ou poderiam ter sido outras pessoas.

— É claro que eram quem disseram ser, senhora! - respondeu Biddie imediatamente.

— Quem o disse?

— O senhor Dunkeld, senhora.

— Entendo. - Na voz da Minnie havia profunda emoção. Soou rouca, quase afogada. Era isso o que tinha querido provar ou desmentir. — E quando as outras duas se foram, quem as acompanhou à porta? E o que sabe do velho que ajudou a subir a caixa?

— Quando as duas se foram tinham o mesmo aspecto que quando chegaram - disse Biddie. — Um pouco mais opacas, como era de esperar. E se notava o efeito de umas quantas taças, mas não estavam feridas nem nada pelo estilo.

— E o velho - apressou Minnie. — Que aspecto tinha? Era forte? Acha que poderia havê-la atacado? Parecia violento?

Biddie falou com suavidade.

— Sinto muito, senhora, mas parecia muito velho para poder fazer tais coisas. E, pelo que eu ouvi, subiu a caixa e em seguida desceu e voltou com seu cavalo, e entrou de novo para recolher a caixa quando já estava vazia. Sinto muito, mas isso não a ajudará, senhora, por mais que quisesse.

— Está bem. Obrigada - disse Minnie movendo-se de novo, a julgar pelo revôo de suas saias. — Agradeço-lhe muito a ajuda. Por favor, não repita a ninguém nossa conversa.

— Não, senhora - prometeu Biddie.

Ouviu-se um frufru de seda e um momento depois Biddie soltou um palavrão.

— Será estúpida! - exclamou exasperada. — Nem sequer levou a camisa!

Gracie se levantou, aliviada de poder mover-se por fim.

— A levarei eu quando tiver terminado aqui. Já quase acabei.

— Obrigada - disse Biddie com sinceridade.

 

Um quarto de hora depois, Gracie estava no patamar dos hóspedes com a camisa da Minnie Sorokine pulcramente dobrada, mas ninguém foi abrir a porta, que estava fechada com chave. Norah, na copa, não soube lhe dizer onde estava, embora lhe parecesse havê-la ouvido descer as escadas.

— Outra vez? - perguntou Gracie. — Tem certeza?

— É claro que tenho - replicou Norah indignada. — É muito estranha. - Estava guardando as cestas de chá depois de enchê-las: Darjeeling, Earl Grei, China. — Não é uma beleza como a senhora Quase, mas está claro que o senhor Marquand a prefere. Diz Ada que não pode afastar os olhos dela. E a senhora Sorokine não parece se importar. Esteve-me perguntando sobre alguém que conduzia baldes no meio da noite. Como se eu soubesse algo! E agora desceu para perguntar ao Timmons sobre isso.

— Sobre o que?

— Sobre quem esteve limpando, e indo e vindo com pedaços de porcelana quebrada e baldes de água, trapos e escovas! Não me está escutando?

Gracie ficou rígida.

— Quando?

— Na noite que morreu essa pobre criatura no armário, é claro!

— Então, alguém esteve limpando o armário - concluiu Gracie. — Não está suficientemente claro? - Pensou na faca. — Quem o fez, por certo?

— Não, não foi o armário o que limparam! - replicou Norah rapidamente.

— Banque a esperta, senhorita! Isso o fez o policial. Estou falando da outra ala, a dos aposentos dos príncipes e da própria rainha. Embora a dela esteja um pouco afastada. Talvez tratavam de desfazer-se de alguém que sabia que essa fulana tinha estado no quarto do príncipe. Não sei porque! Pode ser que esse policial não seja muito vivo, mas não é estúpido! Sabe onde estava ela. E não me pergunte o que era essa porcelana quebrada, porque não sei.

— Isso era o que tentava averiguar a senhora Sorokine? - As idéias se amontoavam na cabeça de Gracie. Que demônios estava imaginando?

— Isso é o que disse. Bom, quer que lhe dê isso quando voltar ou não? - Indicou a camisa com um gesto.

— Sim... obrigada. Irei procurá-la para lhe dizer que a tem aqui.

E Gracie passou por seu lado, depois deu meia volta e, com a cabeça transbordante de idéias, foi ver se podia averiguar o que Minnie Sorokine queria saber. Por que fazia perguntas? O que suspeitava? Não tinha sentido.

Teve que perguntar a três pessoas antes de quase tropeçar com a própria Minnie, que falava em voz baixa com um dos lacaios. Deteve-se justo antes que um dos dois a visse e se escondeu atrás de uma cortina para escutar. Sentia-se estúpida, mas não quis deixar passar a oportunidade.

— Que tipo de porcelana? - dizia Minnie com tom excitado.

Walton, o lacaio, pensou obviamente que estava tão confusa pelo assassinato que tinha perdido o juízo.

— Porcelana sem mais, senhora, como um prato ou um recipiente. Não é grave, temos de sobra. Não digo que esteja bem que se quebre algo, mas às vezes acontece.

— Uma das criadas quebrou algo? - perguntou ela.

— Suponho - raciocinou ele.

— Um balde cheio?

— Tinha que levar os pedaços quebrados de algum modo, senhora.

— Poderia levar todo um serviço de chá em um balde! - indicou ela. — Quem o quebrou? Não têm que dar cara?

— Não foi um serviço de chá, senhora, mas um simples prato de grande tamanho. E não sei quem o quebrou.

— Que prato era?

Gracie via o rosto de Walton. Parecia totalmente perplexo.

— Não sei, senhora Sorokine. Azul com um pouco dourado e branco, acredito.

— Há alguma baixela assim? - Na voz da Minnie voltava a perceber-se emoção.

— Não me vem à cabeça neste momento. Mas deve havê-la ou não se teria quebrado, não?

— Muito obrigado. - A voz da Minnie soou assustada, cheia de pura emoção.

Quando Gracie a viu dar meia volta, voltou a escapulir ridiculamente atrás da cortina, bem a tempo para evitar que a visse se voltasse. Mas Minnie não se voltou, mas sim percorreu o corredor a um passo impossível de seguir a menos que Gracie tivesse posto-se a correr, o que teria chamado tanto a atenção que teria deixado de prestar um serviço ali.

Perdeu a Minnie de vista e se achou cara a cara com a senhora Newsome.

— Se não tem nada que fazer, vá dar uma mão ao Mags na cozinha - disse com severidade. — Há muitos pratos que lavar. Não lhe pagam para que fantasie.

— Sim, senhora Newsome.

Gracie não tinha escolha. E não havia nada mais que averiguar ali na lavanderia. Foi à cozinha e fez o que lhe tinha pedido.

Para a hora de comer estava exausta, além de molhada e enrugada. O que pensaria Samuel dela se a visse? E nem sequer estava averiguando nada de útil! Não conseguia deduzir o que achava ter descoberto Minnie.

Comeu seu cordeiro frio com purê de batatas e embutidos sem levantar os olhos do prato. Amontoavam-lhe as idéias na cabeça: porcelana quebrada que não coincidia com nenhum dos jogos de chá, baldes de água levados acima e abaixo; descrições das mulheres da rua... por que Minnie Sorokine perguntava sobre todas essas coisas? Eram bastante comuns. Achava realmente ter descoberto algo?

É claro que sim. Lhe notava na voz, no olhar, na forma em que tinha posto-se a correr pelo corredor. Mas era algo relacionado com o assassinato ou só um romance que estava planejando? Tratava-se de algo que demonstrava a inocência de seu marido?

Mais tarde, quando se asseou e trocou de uniforme, com um avental limpo para subir outra bandeja de sanduíches para o chá de meia tarde, voltou a ver a Minnie. Estava na galeria com um bonito traje de tarde de musselina com babados e fitas rosa cereja. Paquerava descaradamente com o príncipe de Gales, que a olhava sorridente banhado pela luz do sol que entrava em torrentes através das janelas salientes. Perguntava-lhe algo e ele parecia encantado de responder, exceto uma vez que Gracie o viu franzir o sobrecenho, momentaneamente incomodado.

— Outra vez bisbilhotando?

Gracie se voltou e viu Ada a menos de um metro de distância, com uma expressão satisfeita no rosto. Notou que ficava tinta porque não tinha nenhuma desculpa.

— Escutando o que dizem seus superiores, né? - prosseguiu Ada. — Se o que quer é aprender a flertar, não poderia ter escolhido melhor professora! Nunca vi ninguém como ela. Mas não é de sua classe. Se a surpreendem olhando a Sua Alteza, ter-lhe-ão despedido antes que se faça de noite. - Disse-o com evidente prazer. — Mas não vai conseguir que me mandem embora por não a vigiar como é devido, assim se voltar a pilhar, o direi à senhora Newsome. Toca-me esvaziar os urinóis. Você gostaria de fazê-lo por mim, não é?

Por muito que lhe desagradasse, Gracie não teve outra escolha. Estava ali para averiguar tudo o que pudesse ajudar ao Pitt, não para forjar uma carreira no palácio. Foi obedientemente a procurar os urinóis para esvaziá-los, lavou todas as bacias e as jarras, e teve que trocar-se de novo, e umedecer e engomar de novo o primeiro uniforme.

Chegou tarde para jantar e a senhora Newsome a repreendeu diante de todos.

— Vai ter que aprender a não se atrasar, Phipps - disse friamente. — Não pode se sentar à mesa tão tarde. É uma grosseria e um aborrecimento para todos. Deve aprender a se adaptar. Nem sempre é fácil, mas se não puder é porque não encaixa no posto. Talvez seja um pouco maior para se adaptar.

Gracie notou como a cólera fervia em seu interior enquanto todos se voltavam para olhá-la. Morria por lhes dizer que não tinha nenhuma intenção de ficar ali mais tempo do estritamente necessário para ajudar ao senhor Pitt e ao senhor Narraway. Mas, naturalmente, não podia dizer nada. Defender-se seria trair uma confiança que faria seu papel inútil. Tomou ar para desculpar-se, mas se engasgou sob o olhar triunfal da Ada. Nesse instante compreendeu que Ada o tinha feito precisamente para que a mandassem embora. Ada a via como uma espécie de ameaça. Devia ter percebido uma força de vontade nela, porque não podia ser por seu aspecto físico. Como havia dito inclusive Samuel, era do tamanho de um coelho insignificante.

Apesar do perigo, Gracie sentiu uma onda de euforia.

— Está sendo muito dura, senhora Newsome - disse o senhor Tyndale com aspereza. — As circunstâncias são especiais. Todo mundo está assustado e afetado pelo que aconteceu...

— Phipps não estava aqui quando aconteceu - interrompeu a senhora Newsome.                — Não pode utilizá-lo como desculpa.

— Não foi Phipps quem trouxe o assunto, senhora Newsome, mas eu. - O senhor Tyndale também estava avermelhado, e tinha a mão fechada em um punho em cima da mesa. — Antes que diga algo mais, ia dizer que ninguém do pessoal se está levando com normalidade. Notei outras irregularidades. Mas com a polícia fazendo perguntas e os hóspedes em um estado de grande ansiedade e com um medo ainda maior que o nosso, não podemos esperar o nível de conduta costumeiro.

A senhora Newsome abriu a boca, mas voltou a fechá-la. Tinha os lábios pálidos, os olhos acesos de ira e vergonha. O senhor Tyndale a tinha interrompido com bastante aspereza diante de inferiores. A julgar pelo silêncio que se fez ao redor da mesa, isso era algo que não tinha ocorrido nunca. Gracie se surpreendeu de sentir-se tão desconfortável por ela.

— Continuem jantando - ordenou o senhor Tyndale, e um a um pegaram os talheres de novo e continuaram comendo, conscientes de cada movimento, de cada ruído. Ninguém falou, nem sequer para pedir o sal ou o bule.

Gracie pensava a toda velocidade. Tinha visto a expressão furiosa e perplexa da Ada, e sabia que não demoraria para lançar outro ataque. A próxima vez era possível que até comprometesse ao senhor Tyndale. Este tinha sido pouco prudente, no mínimo, ao erigir-se em defensor de Gracie, e era evidente que a Ada não tinha passado por cima.

A senhora Newsome tampouco ia esquecê-lo, e tanto Gracie como o senhor Tyndale teriam provavelmente que pagar por isso. Essa rivalidade, a cólera e a manipulação, eram algo no que nunca tinha pensado sequer. Keppel Street parecia um remanso de paz; não havia nada que fazer além de tarefas à que estava acostumada e que sabia que fazia bem. Não tinha que prestar contas a ninguém na maior parte do tempo, e se fosse preciso só à senhora Pitt, quem, apesar de provir de uma família bem, nunca se dava ares.

Gracie se perguntou se seria tão feliz como a senhora Pitt quando se casasse com o Samuel. Seria uma experiência totalmente nova e perderia todas as pequenas coisas com as quais estava familiarizada. Ficou surpreendida ao descobrir que, além de emocionada, estava um pouco assustada, inclusive triste.

Claro que se o senhor Pitt não resolvesse esse horrível crime, tudo poderia mudar, provavelmente para todos. E se mudava, seria capaz de deixá-los, embora fosse para casar-se com o Samuel? Pareceria uma deserção. Talvez tivesse que ficar a trabalhar sem cobrar, só em troca da comida. Não é que isso lhe importasse; seria justo.

Qual desses três homens tinha perdido o juízo por completo e tinha feito em pedaços a essa pobre fulana? Por que ia fazer alguém algo assim? Era compreensível matar a um intimidador ou a um chantagista. Mas para que matar a uma pobre prostituta a quem nem sequer tinham visto antes?

E se alguém estava tão transtornado, por que não notava-se a simples vista?

Gracie terminou seu arroz com leite e rejeitou outra fatia de pão com geléia. Quando todos deixaram as facas ou as colheres, levantou-se e esperou um momento para ver aonde ia o senhor Tyndale, depois o seguiu. Confiou em que acreditassem que ia desculpar se.

Alcançou-o na copa. Dispunha-se a fechar a porta, mas recordou as especulações que tinha gerado antes esse ato e deixou entreaberta. Falou em voz muito baixa. Era muito violento e tinha que fazê-lo imediatamente, antes que lhe faltasse coragem.

— Senhor Tyndale - começou. — Lhe agradeço que tenha saído em minha defesa, porque Ada me está pondo as coisas difíceis, que é a razão pela que cheguei tarde. Mas não tem por que fazê-lo, porque não pode dizer a ninguém por que estou aqui, e sendo como são vão pensar que há algo mais e não é justo. - Respirou fundo. — Você tem que ficar, senhor, e eu não, assim não importa o que pensem de mim.

Ele pareceu desconfortável. De repente Gracie se compadeceu dele. Esse lugar e as pessoas que viviam ali eram toda sua vida, a razão pela qual acreditava em si mesmo. Talvez tivesse descoberto alguma forma de conciliar-se com as coisas que desaprovava; as mulheres estranhas que acudiam de noite, por motivos que devia conhecer; os hóspedes que não lhe agradavam, por suas maneiras e pelo propósito de sua presença. Muitos deles se aproveitavam de seus anfitriões e não havia nada que ele pudesse fazer.

Agora se tinha cometido um assassinato e ele tinha que procurar mantê-lo em segredo e que tudo funcionasse com normalidade. O agradeciam sequer? Um "obrigado" significaria muito, de fato significaria quase tudo.

— Mas o agradeço - acrescentou no meio do silêncio espinhoso. — Teria sido inútil dizer a todos que Ada me tinha feito esvaziar os urinóis por ela, que é pelo que cheguei tarde. E não diga nada, por favor! Arrumar-me-ei com isso.

Ele parecia desesperadamente desconfortável.

— Há... averiguou algo? - perguntou com voz entrecortada.

— É melhor que não saiba nada, senhor - replicou ela.

— Ser-lhe-ia útil servir o jantar esta noite? - perguntou ele.

— Servir? Refere-se à mesa? - perguntou horrorizada.

— Sim. Não vão jantar até tarde. Tem ao menos duas horas. Ajudar-lhe-ia observá-los?

— Eu... - Gracie odiava admiti-lo. — Não sei fazê-lo, senhor. Não... não com pratos de prata e todas essas taças e demais.

— Não terá que servir vinho - lhe assegurou ele. Tinha melhor aspecto e voltava a controlar a situação. — Só a verdura. E recolherá os pratos. O lacaio servirá o vinho e a sopa. Ajudar-lhe-ia?

— Se alguém estivesse tão louco teria que notá-lo, não? - disse ela pensativa. — A senhora Sorokine esteve todo o dia fazendo perguntas. Senhor Tyndale, sabe se alguém quebrou um prato de porcelana azul e branco com a borda dourada? Um dos do piso de cima, quero dizer. Esteve perguntando por ele como se fosse algo importante.

Ele pareceu preocupado.

— Sim, estou informado. Também me perguntou. Tratei de desalentá-la, mas parece que não o consegui. A quem mais perguntou?

— Ao Walton. Tem algo que ver com o assassinato, senhor?

— Não, entendeu-o mau. Não há nenhum prato destas características aqui. O incidente está relacionado com uma conduta desafortunada de outra natureza - disse ele com firmeza, observando-a para ver se acreditava. — Se trata de Sua Alteza Real. Deixe estar. Entendeu senhorita Phipps? Falo muito a sério.

Ela ficou surpreendida, além de um pouco assustada. Pela primeira vez se deu conta do delicado equilíbrio que o senhor Tyndale devia manter entre suas próprias convicções e as do homem e a classe a que servia. Via sequer o absurdo de tudo isso? Tinha dificuldades em explicar a si mesmo e justificá-lo quando estava só em seu quarto, entrada a noite? Duvidava ou fraquejava? Reparava nas conseqüências?

Ele piscou sob seu olhar.

— Entendeu, senhorita Phipps? - repetiu.

— Não, senhor - replicou ela. — Mas farei o que me pede.

Abriu-se a porta de par em par e aí voltava a estar a senhora Newsome, com o rosto branco além de duas manchas de cor nas faces.

— Phipps... - começou.

— Se tiver algo a dizer, senhora Newsome, será melhor que me diga isso - a interrompeu Tyndale bruscamente. — Phipps me estava falando de certo assunto de que devo informar imediatamente à polícia. Quanto menos pessoas estejam à corrente, melhor. Pode ser que não seja nada, mas é preciso assegurar-se. Não falará disso com ninguém.   - Era uma ordem; desta vez não havia margem para mal-entendidos. Estava castigando-a por lhe haver posto em evidência diante do resto do pessoal na mesa?

— Está bem - disse a senhora Newsome com pesar. Voltou-se para Gracie. — Phipps, na sala de destilaria há muito lixo da noite da festa que ninguém recolheu ainda.

Vá fazê-lo, e já que está ali, aproveita para esfregar o chão.

— Quero que esta noite ajude a servir - disse o senhor Tyndale.

— Não está preparada, mas se quiser, pode fazê-lo logo depois de esfregar a sala de destilaria - replicou a senhora Newsome. — Não fique aí! Vá fazer o que lhe ordenei!

 

Foi um trabalho difícil e desagradável. O lugar estava abarrotado de toda classe de lixo, tal como havia dito a senhora Newsome, e no calor do meio da tarde Gracie ouvia o irritante zumbido das moscas. Detestava essas criaturas grandes e preguiçosas que davam voltas a redor de tudo sujo ou pegajoso, pousando e deixando ovas nas superfícies. Estremeceu de asco, e foi procurar um balde de água com bicarbonato de sódio para eliminar os aromas.

Esteve meia hora limpando, esfregando, lavando e polindo antes de chegar às garrafas onde estavam as moscas. Eram garrafas de vinho velhas, a julgar por seu aspecto, além de caras. Tinham etiquetas ornamentadas de cores suaves, como pergaminho velho. Agarrou uma e a examinou. Uma mosca saiu da boca e se afastou zumbindo.

— Puaf - disse com asco. — Deve ser muito doce.

Olhou a etiqueta. Não se lia bem, mas reconheceu a palavra "Porto". Devia ser uma bebida para depois do jantar. Tinha ouvido falar dela. Podia ser muito cara. Levou-a ao nariz e cheirou. Era doce, uma mescla de açúcar, sal e um pouco de ferro. Não era algo que gostaria de beber. Era repugnante! Perguntou-se se estava mal. Danificava-se o vinho?

Pegou outra garrafa e a cheirou com muito cuidado. Tinha um aroma totalmente diferente e muito agradável, como o vinho de verdade que tinha provado. Voltou a pegar a primeira garrafa e a cheirou de novo. Pareceu-lhe igualmente horrível. Havia oito garrafas vazias; cinco cheiravam bem e três repugnantes, com esse mesmo aroma enjoativo e parecido ao ferro.

Inclinou uma e deixou cair umas gotas no dorso de sua mão, e as espalhou. Uma mosca retornou e posou nela; afastou-a com brutalidade. Pôs o dedo na substância vermelha e a estendeu em sua palma. Em seguida soube o que era: sangue.  

Inclinou as outras que cheiravam igual e de cada uma caiu um fio de sangue mesclado com o sedimento do vinho. Por que ia alguém encher de sangue uma garrafa de vinho? E que espécie de sangue era, animal ou humano?

Levantou-se tão depressa que quase perdeu o equilíbrio e teve que agarrar-se ao pau da vassoura para sustentar-se. Estava um pouco enjoada, mas não tinha nenhuma dúvida do que devia fazer: esconder as três garrafas que tinham contido sangue e ir dizer a Pitt. Ninguém devia inteirar-se. Faria ridículo se estivesse relacionado com alguma receita especial do cozinheiro, mas seria muito maior o ridículo se tinha que ver com a pobre mulher assassinada e não tinha feito nada. Fosse quem fosse, ninguém merecia terminar assim.

Foi ver o senhor Tyndale e lhe disse que tinha que falar com o Pitt imediatamente. Dez minutos depois estava frente a ele.

Parecia cansado e preocupado. Tinha o cabelo ainda mais alvoroçado que de costume e o colarinho da camisa enrugado. Parecia que ninguém estava cuidando dele e sentiu uma pontada de pesar e culpa, mas carecia de importância ao lado das garrafas da sala de destilaria.

— Está bem, Gracie? - perguntou assim que ela fechou a porta. — Diz Tyndale que as outras criadas lhe estão pondo as coisas difíceis.

— Não é importante, senhor - disse ela, surpreendida de que Tyndale o houvesse dito. — Vim porque encontrei algo que poderia... não sei. Talvez esteja sendo um pouco idiota, mas não me parece normal, ou não tem sentido.

Um raio de esperança iluminou os olhos do Pitt.

— O que é?

— Estava limpando a sala de destilaria e encontrei oito garrafas vazias de Porto - replicou. — Cinco cheiravam a vinho realmente bom, e três tinham moscas ao redor e cheiravam diferente. Inclinei-as e caiu umas gotas de sangue.

— Sangue! - ficou atônito. — Gracie, tem certeza?

— Sim. - Ela franziu o sobrecenho. — É possível que o cozinheiro tenha misturado sangue com o vinho para fazer algo? Um molho ou algo assim?

— Três garrafas de Porto! Não acredito. - Sacudiu a cabeça. — Além disso, por que ia pôr o sangue em garrafas de Porto? Não o teria misturado em uma terrina ou uma panela?

— É claro. Onde deixou as garrafas?

— Escondi-as. - Disse-lhe exatamente onde. — Averiguou algo mais, senhor? - Não lhe teria feito essa pergunta há um mês.

— Não muito - ele admitiu com uma voz apagada pela derrota apesar do visível esforço por animá-la. — Ainda poderia ser qualquer dos três homens. Dunkeld me disse que chamou as prostitutas por recomendação de um conhecido. Nunca as tinha visto antes. O senhor Narraway tratou de averiguar algo sobre elas que possa ser de interesse. Interrogou às duas que seguem vivas, mas afirmam que nunca tinham visto nem ouvido falar antes dos homens. Sadie lhes disse que tampouco os conhecia. Falaram disso ao vir aqui.

— Um homem não mata prostitutas a menos que esteja louco - disse ela de modo peremptório. — Para começar, não lhe importam o suficiente. Por que ia fazê-lo ele? Não tem sentido. Mas alguém quebrou algo. Pensei que era um desses pratos decorativos, de porcelana azul, branca e dourada. Mas o senhor Tyndale diz que não há nenhum assim na casa. - Franziu o sobrecenho. — Ouvi dizer que se quebrou no piso de cima e que desceram os pedaços em um balde. Também houve alguém subindo e descendo as escadas com baldes de água, mas quando perguntei ao senhor Tyndale, pôs-se pálido e me disse que foi por Sua Alteza Real que se achou mal. Disse-me que o esquecesse e que não falasse disso. Mas me inteirei porque a senhora Sorokine esteve fazendo perguntas ao Walton hoje e se excitou muito quando ele o disse. Estava emocionada e contrariada ao mesmo tempo.

Pitt franziu o sobrecenho.

— A senhora Sorokine?

— Sim. Esteve fazendo perguntas, senhor. Não sei se tem a ver com o assassinato ou com sua vida privada, que não é como deve ser.

Pitt a olhou com um sorriso torcido.

— Deu-se conta!

— É impossível não fazê-lo, não? - replicou ela. — Se uma criada se movesse retorcendo as saias atrás dela desse modo, tomariam por mulher fácil.

— As normas para as damas e para as criadas nunca foram as mesmas. - Pitt se levantou. — Vamos procurar essas curiosas garrafas de sangue. Não tem nenhum sentido, é certo. Mas quase nada de todo este desagradável assunto o tem.

 

Uma hora depois Gracie voltava a estar embaixo com seu melhor uniforme, uma touca e um avental debruados de renda, limpos e perfeitamente engomados, e aguardou em fila com outros criados que a senhora Newsome a revistasse, lhe mostrando as palmas e o dorso das mãos. Levava tantos passadores no cabelo que era como se tivesse um casco sob a touca, mas estava segura de que não lhe escaparia nenhuma mecha danificando o aspecto global. Suas botas impecáveis também superaram a inspeção.

— Não sei para que - disse Ada quando saíram. — A saia é tão longa que ninguém sabe se tem pés, e nem digamos botas. Nunca vi ninguém mais esquálido.

— Pois eu vi muitíssimas como você! - replicou Gracie. — Há aos montões, passeando por qualquer rua, e inclusive fazendo a rua. Com muito peito e demais. Todos lhes vemos os pés, são bastante grandes, mas é certo que você não lhe vê!

— Lavar-lhe-ei a boca com lejía, descarada! - vaiou Ada enquanto Prudence as fulminava com o olhar. — Você jamais será gostada por nenhum homem que não seja um desses que parecem pirralhos!

— Então estou a salvo do Edwards, não? - replicou Gracie. — Porque gosta de grandes e corpulentas, com suficientes carnes para ser sua mãe!

Ada estendeu a mão para lhe cruzar a rosto, mas se deu conta de que Prudence e Biddie as olhavam, e mudou de opinião.

— Vai saber, bruxa! - sussurrou.

— Não acredito - respondeu Gracie no mesmo tom. — Ou direi o que vi outro dia na lavanderia, quando tudo estava cheio de vapor. Não era só a caldeira que jogava fumaça!

— Direi que está mentindo! - replicou Ada. — Me acreditarão porque não gosta de ninguém! Direi que foi você quem flertava com o Edwards, e a senhora Newsome se desfará de você, estou certa. Só está esperando uma oportunidade.

— Não lhe acreditarão - vaiou Gracie. — Porque, como disse, eu não gosto de ninguém. Além disso, todos sabem que Edwards vai atrás e que você vai atrás do Cuttridge. Acreditar-me-ão. Assim mantém a boca fechada e me deixe em paz!

Chegaram à sala de jantar e Ada se viu obrigada a guardar silêncio. Estava raivosa, mas também se sabia derrotada, ao menos até que lhe ocorresse uma forma de vingar-se.

Os hóspedes entraram e tomaram assento. Os lacaios com libré lhes seguraram as portas abertas enquanto Gracie e outros criados esperavam na sala de espera, mas ela conseguiu vê-los através delas. Tinham um aspecto esplêndido, todo seda, veludo, rendas de vivas cores, brilhos de jóias. Gracie ficou pasmada com os pescoços pálidos e os decotes. Nunca tinha visto tanta pele exposta, nem sequer quando se banhava.

A senhora Sorokine levava outro vestido de um tom rosa tão ardente que quase se teria podido cozinhar sobre ele. Parecia emocionada enquanto se voltava para uns e outros com seus olhos negros brilhantes, sem fazer caso de seu marido. Olhou de cima abaixo à senhora Marquand, dentro de um vestido azul escuro que a fazia parecer ainda mais ossuda, depois olhou ao senhor Marquand, que lhe sustentou o olhar sorrindo. Ele também estava algo rosado, como se se tivesse esquentado no resplendor de seu vestido. Gracie se perguntou se a classe alta se comportava assim muito freqüentemente ou se eles eram uma exceção. Talvez algum dia reunisse coragem suficiente para perguntar à senhora Pitt.

A senhora Quase ia com um traje de um estranho dourado castanho com um grande decote diante, embora ninguém pareceu fixar-se muito nele. Estava muito atraente.

A senhora Dunkeld levava um cinza lavanda suave e frio que estranhamente dava calidez a sua pele. Também estava atraente a seu estilo de grande dama. Parecia triste, e olhava a todos menos a seu marido e ao senhor Sorokine.

Gracie recebeu instruções de descer à adega e pedir ao senhor Tyndale outras duas garrafas de vinho branco. Quando voltou era quase o momento de retirar os pratos de sopa.

— Tome cuidado! - advertiu Ada com os olhos brilhantes de antecipação. — Se te cai algum sobre um vestido estará acabada!

Gracie entrou na sala de jantar tremendo e temendo tropeçar com seus próprios pés, ou pior, com sua saia muito longa, e atirar os pratos ao chão.

Cumpriu seu encargo com feroz concentração, consciente da satisfação que daria a Ada se causava um desastre. Depois ajudou a servir o peixe e ficou atrás observando enquanto o comiam. Cheirava delicioso. Ninguém considerou que bisbilhotava porque ninguém se fixou nela.

Primeiro observou ao Cahoon Dunkeld. Irradiava um poder que atraiu seu olhar, como se houvesse algo em sua mente, uma força de vontade que dominava a todos. Falava da África e da grande ferrovia que foram construir e que seria o espinho dorsal de todo o continente.

— E, é claro, Sua Alteza Real nos dará seu apoio, não é, papai? - perguntou a senhora Sorokine com convicção. Parecia tão segura que não era realmente uma pergunta.

— Isso espero - replicou o senhor Dunkeld. — Mas não deveríamos dá-lo por feito. Isso seria imprudente e ofensivo.

Gracie pensou que o dizia para agradar ao príncipe em caso de que alguém lhe repetisse o comentário.

— Mas não são amigos? - pressionou a senhora Sorokine. — Depois de como o ajudou neste horrível assunto, diria que lhe estará agradecido por toda vida. - Havia uma nota animada e divertida em sua voz, e não afastou os olhos dele.

— Este horrível assunto, como o chamou, não teria acontecido se não tivéssemos estado nós aqui - indicou o senhor Sorokine. — Ao que parece, um de nós a matou. Ninguém vai agradecer isso.

— Oh, cale-se! - exclamou sua mulher com impaciência. — Foi ele quem quis chamar a essas mulheres. Papai só o organizou por ele. - Voltou-se para seu pai. — Não é?

— Não poderíamos falar de outro assunto? - interrompeu a senhora Quase com irritação. — Ao menos enquanto comemos.

— Por que? - perguntou a senhora Marquand de repente. — Falemos do que falemos, do tempo, da moda, fofocas, da política, até da África, todos estamos pensando nisso. Olho a toalha e penso nos lençóis do armário onde a mataram. Olho a comida de meu prato e penso no sangue!

— É peixe - disse seu marido. — Deixa de dar rédea solta a sua imaginação ou acabará histérica. Bebe um pouco de água. - Levantou uma mão. — Que alguém lhe traga um copo de água!

Gracie deu um passo adiante, pegou a jarra de cristal e lhe serviu água em uma taça de vinho. Ofereceu à senhora Marquand, que a aceitou com um gesto surpreso e bebeu alguns goles antes de deixá-la na mesa.

Gracie voltou a retirar-se, esperando recuperar sua invisibilidade.

— Mas continua confiando em você, não é, papai? - A senhora Sorokine reatou a conversa anterior como se não tivesse se passado nada. — Acredito que seu apoio total está fora de dúvida.

— Esperemos - disse o senhor Dunkeld.

Não parecia tão satisfeito com sua filha como Gracie teria esperado. Depois de tudo, ela o estava felicitando.

— Não há ninguém com melhores créditos que você - atravessou a senhora Quase com forçada alegria. — De fato, não estou certa se há alguém mais.

— Haverá outras ofertas - indicou o senhor Sorokine. — Mas estou de acordo, nenhuma será tão boa.

— Mas conta com que haja, não? - A senhora Sorokine olhava de novo a seu pai.              — O apoio do príncipe do Gales será decisivo, não é?

— Isso é evidente! - exclamou Dunkeld com considerável brusquidão. — Para isso estamos aqui. Não é preciso que siga repetindo o claro.

— Não podemos confiar - disse a senhora Dunkeld, tomando pela primeira vez a palavra. — Depois de tudo, por muito bem que nos dê construir ferrovias, um de nós matou ao parecer a essa pobre mulher.

— Era uma mulher da rua, Elsa - replicou Dunkeld com brutalidade. — Não dela fale como se fora uma pobre garota a que assaltam caminho da igreja.

A senhora Dunkeld o olhou com repentina cólera em seus olhos verdes.

— Também o eram as vítimas do assassino do Whitechapel. O teriam enforcado igualmente se o tivessem encontrado.

A senhora Quase soltou um grito abafado. A senhora Marquand estava branca.

A senhora Sorokine levantou as mãos em um fingido aplauso.

— Bravo, madrasta! É o comentário perfeito para condimentar o peixe! Agora gostarão todos muito mais do prato de caça. O que será? Faisão em gelatina, guisado de lebre ou talvez um pouco de veado? Não há nada como falar de uma boa execução na forca para abrir o apetite.

— Ao menos o seu, é evidente! - replicou a senhora Dunkeld. — É estúpido estar aqui sentados traçando planos para construir uma ferrovia que percorra toda a África quando um de nós é um louco que mata mulheres. E a polícia está aqui e não vai-se até que averigue qual de nós foi.

— Todos nos damos perfeita conta disso - disse Dunkeld gelidamente, com expressão dura. — Mas parece que se escapou a sua inteligência que estamos fazendo todo o possível por desfrutar de uma comida civilizada e nos comportar com certa dignidade em um momento assim. Caso, claro está, que esse policial idiota seja capaz de fazer algo mais que sentar-se a fazer perguntas estúpidas e intermináveis. Não parece ter avançado muito desde que chegou.

Gracie estava tão furiosa que quase se afogou com sua própria respiração, em parte porque temia que fora verdade o que dizia o senhor Dunkeld sobre a falta de progressos do Pitt. Tinham como provas os lençóis da rainha, a faca e as garrafas, e sabiam de um prato quebrado que se supunha que não existia, e de baldes e mais baldes de água, mas nada de tudo isso tinha sentido. Morria por replicar que se supunha que eles não tinham que inteirar-se dos progressos que fazia Pitt até que estivesse preparado para prender a alguém, mas não podia fazer nada mais que ficar ali contra a parede como um fardo de roupa pendurado num prego.

Por incrível que parecesse, foi a senhora Sorokine quem disse o que Gracie pensava.

— Poderia saber muitas coisas, papai. Mas duvido que nos dissesse. Depois de tudo, somos os suspeitos.

— Mas se é um néscio! - replicou Dunkeld. — Eu nem sequer estava na África quando mataram a essa primeira mulher, coisa que terei que lhe recordar se for tão idiota para suspeitar de mim. E nenhuma mulher poderia ter feito algo assim.

Hamilton Quase deixou a taça de vinho com mão trêmula, derramando parte sobre a toalha, apesar de estar meio vazia.

— Parece assumir que foi a mesma pessoa. Não sei por que! Não tem por que sê-lo. Por desgraça, matar prostitutas a punhaladas não é uma inclinação única.

— Isso seria forçar um pouco a casualidade, não lhe parece? - Dunkeld torceu o gesto com sarcasmo. — A mesma espécie de morte e com os três mesmos homens presentes? Até o Pitt poderia ir tão longe para ver quão improvável seria. Mas se não puder, terei que lhe jogar um cabo.

— Talvez possa lhe dizer também quem foi o assassino do Whitechapel - sugeriu Quase, mordaz. — Todo o país se alegraria se soubesse. Exceto o culpado, é claro.

— Isso não vem ao caso - observou o senhor Marquand com desdém. — Nenhum de nós estava em Londres no outono de 1888.

— Exceto papai - disse a senhora Sorokine. — Sei porque eu também estava e o vi. Todos sabemos o que aconteceu a essas mulheres porque foi de domínio público. – Sorriu radiante, com os olhos muito brilhantes. — E se acha que não vem ao caso, sou da opinião de que quando ocorre algo horrível, a pessoa se inteira e pode copiá-lo com bastante exatidão, se estiver bastante louco ou é bastante perverso.

— Já dei conta de todo o peixe que sou capaz de comer. - A senhora Quase deixou os talheres no prato e se voltou para Gracie. — Pode retirar meu prato e começar a servir o seguinte? Não tenha medo de interromper a conversa. Terminou-se.

— Sim, senhora - disse Gracie obediente.

— E traz mais vinho - acrescentou o senhor Quase, levantando a garrafa quase vazia para que lesse a etiqueta.

— Não! Obrigada. - O interrompeu a senhora Quase. — Bebemos suficiente. Só recolhe os pratos.

— Se minha mulher não quer tomar mais vinho, não tem por que fazê-lo. - Quase se voltou cambaleante para Gracie. — Eu sim, quero. Vá buscá-lo. Leve a garrafa, para não se equivocar. - Estendeu-a para ela.

O senhor Sorokine se levantou e a tirou das mãos.

— Só recolhe os pratos - disse para Gracie. — O lacaio trará o vinho que acompanha o seguinte prato. Pode ser que seja tinto ou um diferente.

Gracie pegou a garrafa, aliviada de ser resgatada.

— Sim, senhor. - Voltou-se para dar-lhe a Ada, que estava ao outro lado da porta, e começou a recolher os pratos com ajuda de Biddie.

Quando retornou da cozinha, já se tinha servido o seguinte prato e todos voltavam a comer ou fingiam fazê-lo.

A senhora Sorokine estava muito nervosa para dar mais de um bocado de vez em quando. Seguiu soltando indiretas ao seu pai como se tivesse se proposto atormentá-lo. Ele em geral não o fazia caso, mas em duas ocasiões replicou com aspereza, quase com virulência.

Gracie viu a senhora Dunkeld estremecer, como se as grosserias tivessem ido dirigidas a ela. Em seu rosto em repouso havia infelicidade, e certa imobilidade, como se estivesse se concentrando em conter a dor. Fez com que Gracie se perguntasse quão assustada estava, e se era por ela, ou por uma tragédia que ainda tinha que ocorrer e que poderia levar a todos por diante. Tinha alguma idéia de qual dos homens sentados a seu redor tinha cometido este ato atroz?

Quando a senhora Sorokine não olhava a seu pai, lançava um olhar ao Simnel Marquand. Gracie não a viu olhar a seu marido nenhuma só vez. O que significava isso? Não queria ou não se atrevia a fazê-lo?

Olga Marquand esteve virtualmente calada.

Recolheram os pratos e serviram o rosbife, depois as sobremesas, e por último o queijo e a fruta. Gracie conseguiu levar tudo sem cometer nenhum engano sério até o final, quando Ada lhe deu uma cotovelada e deixou cair um montão de pratos sujos pelas escadas. Não se quebrou nada, mas passou a seguinte meia hora limpando e lavando as manchas do tapete.

— Rameira presunçosa! - soltou Ada com satisfação enquanto passava por seu lado, levantando as saias com cuidado.

Gracie se conteve com esforço de lhe dar uma rasteira. Esperaria. Nesse momento tinha a mente ocupada tentando compreender as caóticas emoções que tinha visto ao redor da mesa e deduzir o que tinha querido dizer realmente a senhora Sorokine quando falava com seu pai. Gracie estava quase certa de que tinha que ver com as perguntas que tinha estado fazendo todo o dia. Tinha averiguado algo e tratava de dizer a todos, talvez para assustar a alguém e movê-lo a fazer algo que o delatasse.

Era um jogo perigoso, mas na senhora Sorokine parecia haver uma sede de emoção, por arriscado ou inclusive moralmente equivocado que fosse.

Ou talvez não fosse emoção, mas medo, e o tinha ocultado como tinha podido, porque o homem que o tinha feito era alguém a quem ela amava? Era essa a razão pela qual não podia olhar a seu marido?

Talvez fosse uma mulher valente e muito honesta, a qualquer preço.

Gracie recolheu, levou e limpou sem deixar de refletir, o que subtraiu toda importância a Ada; somente era um problema, como as moscas que zumbiam ao redor das garrafas que tinham estado cheias de sangue.

 

Pitt passou uma má noite. Não gostava de estar longe de casa e sentia muita falta de Charlotte. Desde que se tinha incorporado à Brigada Especial não podia lhe contar os detalhes dos casos que levava, o que significava que ela já não podia ajudá-lo da forma prática em que o tinha feito quando resolvia simples assassinatos. Além disso, sua presença e sua fé nele faziam-lhe sentir-se mais sereno e forte.

A informação que lhe tinha dado Gracie era extraordinária. Devia significar algo, mas não conseguia lhe dar sentido. Tinha perguntado à cozinheira sobre as garrafas de Porto, e esta lhe tinha confirmado que o senhor Dunkeld as tinha dado ao príncipe. Tinha sido um Porto de uma qualidade muito superior ao que estava acostumado a usar-se para cozinhar e o tinham servido aos cavalheiros depois de comer. Ele não mencionou o sangue. Por muito que a avisasse, ela o diria a alguém, provavelmente a todo mundo.

Tinha perguntado a respeito da porcelana quebrada, mas não tinha tirado nada a limpo. Todos tinham afirmado não saber nada. De modo similar, todos haviam dito que os lençóis da rainha deviam ter estado no armário da roupa branca por equívoco, sem cair em conta de que alguém tinha dormido neles.

Quando finalmente conseguiu dormir, teve um embrulho de sonhos nos que o esplendor do Buckingham Palace se mesclava com o fedor e o terror dos becos do Whitechapel onde tinham encontrado esses outros espantosos cadáveres de mulheres.

Despertou sobressaltado, com o coração lhe pulsando com força, e se sentou sem saber por um momento onde se achava. Alguém esmurrava a porta. Antes que pudesse reagir, abriu-se de par em par e Cahoon Dunkeld entrou cambaleando, com o rosto cinzento à luz do corredor.

Pitt se levantou com dificuldade da cama e se aproximou instintivamente dele. Parecia à beira do colapso. Segurou-o pelos ombros e o ajudou a sentar-se na única cadeira que havia no quarto.

Cahoon se inclinou para diante e ocultou a cabeça entre as mãos. Fosse o que fosse que tinha ocorrido, parecia destroçado por isso.

Pitt acendeu o abajur a gás e subiu a chama, e esperou que Cahoon recuperasse o controle.

Quando por fim se ergueu, viu que os dedos lhe tinham deixado marcas no rosto e que tinha um olhar febril. Estava tão carregado de emoção que tinha o corpo rígido e não podia deixar de mover os braços, como se estivesse desesperado por fazer alguma atividade física, mas não soubesse qual nem como.

Esfregou a fronte e a parte superior da cabeça. Tinha os dedos machucados, e um deles arrebentado.

— É Minnie - disse com voz rouca. — Ontem passou todo o dia comportando-se de forma imprevisível, mas pensei que só queria chamar a atenção, como sempre. Ela... precisa despertar admiração, atrair os olhares de outros, ocupar seus pensamentos. Seu marido é... - Apertou a mandíbula e por uns momentos não pôde continuar.

Pitt esteve a ponto de terminar a frase por ele, para insistir que continuasse, mas decidiu que era um assunto muito sério para dirigi-lo mal. Esperou imóvel.

Cahoon tomou ar, trêmulo.

— Durante o jantar não parou de trazer o assunto da mulher que assassinaram no armário. Pedi-lhe com bastante brusquidão que se calasse. Achei que tinha medo e que estava perdendo o controle. Meu Deus! - Respirava agitadamente e pareceu esticar todos os músculos da parte superior do corpo.

Pitt começou a assustar-se.

— O que ocorreu, senhor Dunkeld? - perguntou.

Devagar, Cahoon voltou a levantar a cabeça e o olhou fixamente.

— Durante a noite pensei no que ela tinha estado dizendo. Não podia dormir. Não tinha nem idéia de que hora era. Dava voltas e mais voltas, e comecei a me perguntar se ela sabia algo. Ela me disse abertamente que tinha estado fazendo um montão de perguntas aos criados e que tinha averiguado o que queria saber... Eu... não acreditei. -Parecia desesperado para que Pitt o compreendesse. — Pensei que era um alarde.

— O que se passou, senhor Dunkeld? - perguntou Pit com mais apresso, inclinando-se um pouco para ele.

O homem que tinha ante si estava claramente à beira da histeria. Era um aventureiro, um explorador acostumado a dar ordens a outros homens. Quando acharam o cadáver no armário foi ele quem se fez encarregado de tudo, quem tinha decidido o que fazer, e tinha apoiado e reconfortado ao príncipe de Gales. Algo que lhe tivesse levado a esse estado, devia havê-lo afetado profundamente. Havia-lhe dito Minnie quem tinha matado à mulher, e era alguém próximo, de sua própria família? Então devia ser Julius Sorokine. Minnie, como sua mulher, conhecia seu caráter, até seus gostos íntimos e seus hábitos, e tinha suspeitado dele. Ao Pitt sempre havia custado acreditar que uma mulher inteligente - e honrada - pudesse casar-se com um homem assim, e não ter uma sombra de dúvida ou de medo.

As lágrimas caíam silenciosas pelas faces do Cahoon.

Pitt lhe tocou o ombro com delicadeza. Não gostava desse homem, e não podia permitir-se esquecer as ameaças que lhe tinha feito, nem o prazer que obtinha de seu poder para as fazer, mas nesse momento só podia compadecer dele.

— Comecei a temer por ela - disse Cahoon, com uma voz meio abafada. Voltou a esfregar o rosto, manchando-lhe com o sangue do corte do nódulo. Tinha as faces inchadas — e... fui adverti-la. Queria lhe dizer que tomasse cuidado. Não sei o que pensava que seria capaz de fazer! - deteve-se bruscamente.

— E a advertiu? - perguntou Pitt. — Lhe disse ela o que sabia? Não pode protegê-lo, seja quem for! Não... ? - As palavras do Pitt morreram em seus lábios. Nos olhos do Cahoon havia um horror que o paralisou. — O que aconteceu? - gritou.

— Encontrei-a - sussurrou Cahoon. — No chão de seu dormitório, com a garganta cortada, o... - estremeceu-se com violência. — O traje rasgado e o... estômago aberto e sangrando. Exatamente como... meu Deus! Como a prostituta do armário. Cheguei muito tarde!

Não havia nada a dizer. A compaixão era uma resposta tão inadequada que tentar demonstrá-la sequer era um insulto. Pitt se viu alagado de culpa. Se tivesse feito seu trabalho antes, de forma mais inteligente e mais minuciosa, isso jamais teria ocorrido! Minnie Sorokine ainda estaria viva. Esperava que Cahoon o jogasse na cara, inclusive que arremetesse fisicamente contra ele. Os golpes corporais dificilmente lhe doeriam mais que a autocondenação de sua mente. Minnie tinha estado ardentemente cheia de vida, e Gracie a tinha visto perguntar aos criados pela porcelana quebrada e os baldes de água. Das respostas tinha deduzido o ocorrido enquanto que ele seguia dando paus de cego, sem uma só hipótese. Era néscio e incompetente. Não via o final da escuridão de sua culpa.

Cahoon falava de novo.

— Fui ver o Julius... seu marido. Pareceu-me o mais natural.

— Sim? - Pitt podia imaginar sua dor.

Cahoon o olhava.

— Estava em seu quarto. Levantado e meio vestido inclusive uma hora tão cedo. Me ficou olhando. - Começou a tremer. — Tinha o olhar extraviado, como o de um louco, e as mãos e o rosto manchado de sangue, com arranhões e rasgões na pele. Nesse momento eu... soube que era ele quem o tinha feito. Não pude me conter. Perdi... perdi o controle e o golpeei. Só Deus sabe por que não o matei. Quando o vi no chão, recuperei o juízo e me dei conta de que estava golpeando a um homem inconsciente. De algum modo o fato de não saber o que fazer, me fez esquecer a raiva o tempo justo para recuperar o controle.

Pitt imaginou a cena. Os dois homens eram corpulentos e fisicamente fortes. Julius era mais jovem, mas pego por surpresa poderia ter perdido sua vantagem. Mesmo assim, Pitt compreendeu de repente os dedos arrebentados e os hematomas que seguiam inchando e enegrecendo o rosto do Cahoon. Tinha sido uma luta frenética até assumindo que tivesse sido breve.

— Onde está Sorokine agora? - perguntou em voz baixa.

Não censurava ao Cahoon. Se tivesse sido sua filha Jemima o teria feito em pedaços.

— Estará ainda inconsciente no chão, imagino. Mas não o matei, se isso for o que teme. - Cahoon sorriu com amargura e fez uma careta de dor. Levou uma mão à mandíbula com apreensão. — Acredito que tenho um dente frouxo.

— Volte para seu quarto, senhor Dunkeld - disse Pitt. — Acompanhá-lo-ei. Será melhor que desperte sua mulher e lhe diga você mesmo o ocorrido. Mando chamar à criada de sua mulher? Quer um chá ou um brandy? Prefere que uma das outras mulheres esteja com sua mulher? A senhora Marquand ou a senhora Quase? Com quem tem ela mais amizade?

Cahoon o olhou.

— O que? - Tinha o olhar desfocado.

— Alguém deve dizer à senhora Dunkeld - voltou a dizer Pitt. — Se você não se sentir com forças poderia fazê-lo outra pessoa. Eu mesmo se quiser, mas estou seguro de que, dadas as circunstâncias, a senhora Dunkeld preferirá estar levantada e vestida.

— Ela não era a mãe da Minnie - disse Cahoon com tom inexpressivo. — Chame quem quiser. O que tem sobre Sorokine?

— Chamarei à senhora Quase para que acompanhe a sua mulher e logo irei ver o senhor Sorokine. Volte para seu quarto. Quer que alguém lhe faça companhia?

— Não, não, preferiria estar só. - Cahoon se levantou muito devagar, balançando um pouco, e Pitt amaldiçoou não ter consigo um sargento a quem delegar outras tarefas.

Acompanhou ao Cahoon pelo silencioso corredor até seu quarto e o deixou ali. Depois voltou rapidamente sobre seus passos até o quarto de Hamilton Quase e bateu bruscamente à porta.

Não houve resposta. Talvez tivesse bebido muito a noite anterior e não podia voltar a si tão facilmente. Pitt não teve mais remédio que acudir diretamente à senhora Quase. Era algo que não desejava fazer.

Ela abriu ao cabo de uns minutos. Estava envolta em um penhoar de seda e seu bonito cabelo lhe caía solto sobre os ombros.

— Sim? - disse ansiosa.

— Senhora Quase, sinto muito incomodá-la. Tratei de despertar ao senhor Quase, mas...

— O que aconteceu? - interrompeu-o ela. — Me diga.

— Temo que a senhora Sorokine morreu. O senhor Dunkeld está muito afetado, muito para informar pessoalmente à senhora Dunkeld ou estar com ela. Eu devo ir ver o senhor Sorokine e pode ser que leve um pouco de tempo. Lamento pedir-lhe, mas poderia dar a notícia à senhora Dunkeld e estar com ela?

Ela perdeu toda a cor do rosto e levou uma mão à boca.

— Quer dizer... Minnie... mataram-na?

— Isso receio.

Mal disse caiu na conta de que deveria ter esperado que se sentasse. Ela cambaleou e se segurou à maçaneta da porta, e se apoiou contra ela para tratar de sustentar-se.

— É muito pedir? - perguntou ele em tom de desculpa. — Devo chamar à senhora Marquand?

— Não! Não! - protestou ela. — Irei ver a Elsa imediatamente. Mas isto é absurdo. Chamarei a minha criada para que nos leve chá e em seguida irei. Estará perfeitamente. Que horrível. Um de nós está louco de atar. Isto é pior que qualquer pesadelo.

Ele voltou a desculpar-se, agradeceu e se encaminhou ao quarto do Julius Sorokine. Perguntou-se por um momento se devia dar uma primeira olhada no cadáver, depois caiu na conta de que os quartos deviam estar comunicados, e que se Julius recuperava o conhecimento, não haveria modo de lhe impedir que apagasse as provas ou que profanasse ainda mais o corpo. Pitt necessitava ajuda, mas não havia ninguém em quem pudesse confiar, ou que tivesse visto antes uma morte tão violenta e trágica.

Não bateu na porta, mas sim a abriu e entrou diretamente.

A cena que achou era exatamente como a havia descrito Dunkeld. Havia uma cadeira estilhaçada e caída de lado no chão. Sobre o tapete estava estendido um penhoar que devia ter estado no espaldar. Até a grande cama com dossel parecia algo movida de lugar, como se tivessem se chocado com força contra ela. A cômoda alta também estava torcida, e o jogo de escovas de cabo de prata, assim como a caixa de abotoaduras de punhos e colarinho que deviam ter estado em cima, estavam espalhadas pelo tapete. Julius Sorokine estava deitado de barriga para baixo. Levava calças e camisa, sem jaqueta. Não se movia.

Pitt fechou a porta e se aproximou. Inclinou-se e lhe tocou o pescoço por cima da camisa. O pulso era forte e firme, e antes que se erguesse, Julius começou a mover-se.

— Sente-se devagar, senhor Sorokine - disse Pitt.

Julius se voltou e abriu os olhos. Olhou fixamente ao Pitt com evidente confusão.

— O que está fazendo aqui? - perguntou com voz áspera.

Tossiu e se sentou, fazendo uma careta de dor. Tinha o rosto machucado e um grande corte na face, e sangue no lábio e queixo. Estava despenteado, mas, a diferença do Cahoon, já se tinha barbeado, provavelmente com água fria, porque não havia indícios de que tivesse estado seu criado.

— O que ocorreu, senhor Sorokine? - perguntou Pitt. — Por favor, fique sentado no chão.

Soou como uma ordem. Temia que se se levantasse, começasse a brigar. Era ao menos tão alto como ele, e a julgar pela gracilidade com que se moveu anteriormente, estava em forma.

Julius piscou. Logo recordou.

— Meu Deus! Minnie! - Começou a levantar-se.

Pitt estendeu uma mão e o empurrou, fazendo-o perder o equilíbrio.

— O que aconteceu, senhor Sorokine?

Julius estremeceu.

— Cahoon entrou aqui como um louco, grunhindo algo sobre Minnie, e me deu um murro. - Tocou o rosto e afastou os dedos manchados de sangue. — Me jogou contra a cama. Quando voltei a me levantar, perguntei-lhe que demônios se passava. Gritou-me algo que não entendi e me golpeou de novo. Desta vez o vi vir e o alcancei eu antes. Joguei-o contra a cômoda e tudo saiu pelos ares. - Sacudiu a cabeça e fez uma careta.          — Pensei que isso lhe faria recuperar o juízo, mas não. Parecia fora de si. - Estava totalmente perplexo. — Voltou e me golpeou de novo, primeiro com a mão esquerda, que desviei, e depois com a direita. Lutamos um pouco mais. Era ridículo, parecíamos dois bêbados em um beco. Ele deve ter podido mais que eu, porque o seguinte que lembro foi um golpe tremendo, e depois você me falando. - Piscou. — O que aconteceu a Minnie? Armamos muitíssimo escândalo, assim seguro que nos ouviu! Chamou-o ela? Isto é absurdo. Não posso apresentar queixa. É meu sogro. Maldita seja!

Pitt quase poderia lhe haver acreditado.

— Sinto muito, senhor Sorokine, mas sua mulher morreu.

Julius pareceu receber outro golpe.

— O que?

Era possível que padecesse alguma classe de alienação mental que o fazia esquecer logo tudo o que tinha feito? Isso explicaria por que ninguém se deu conta de que era culpado; não sabia nem ele.

— Sinto muito - disse Pitt claramente. — A senhora Sorokine está morta.

— Como morreu? - perguntou Julius. — Não foi Olga, verdade? Pobre mulher.

Fechou os olhos de novo e tomou ar como se fosse dizer algo mais, logo mudou de opinião e olhou ao Pitt, esperando uma resposta.

— Não, senhor. Nenhuma mulher poderia lhe haver feito o que descreveu Dunkeld. Temo que vou ter que lhe encerrar aqui até que possa me pôr em contato com o senhor Narraway e cheguem reforços. Pedirei a um dos criados do palácio que lhe traga algo de comer e veja se necessitar ajuda médica.

— Eu? - Julius não parecia compreender o que dizia Pitt.

— Sim. O senhor Dunkeld diz que já tinha todas essas feridas no rosto antes que entrasse ele.

— Feridas? - Voltou a levar uma mão aos lábios, como se se tivesse se esquecido da dor e o sangue. — Não as tinha. Já o disse, ele entrou aqui e me golpeou. – Depois perdeu toda a cor do rosto e se levantou tão depressa que Pitt se viu arrojado para trás. — Meu Deus! Acredita que eu a matei! - exclamou horrorizado. — Se nem sequer a tornei a ver desde ontem de noite. - Voltou-se. — Está...?

Pitt passou rapidamente a seu lado para lhe impedir de entrar no quarto de vestir que se comunicava com o dormitório.

— Não, senhor. Ainda não. Não me obrigue a algemá-lo à cama. Seria muito desagradável para você.

— Eu não a matei - disse Julius em voz baixa, deixando cair os braços aos lados.          — E tampouco toquei à outra pobre mulher.

Pitt se aproximou de novo à porta, passou a chave e a guardou no bolso. Depois cruzou a porta do quarto de vestir e correu o ferrolho pelo outro lado. Não sabia no que acreditar, mas tinha que seguir as provas.

Apesar do que havia dito Cahoon, não estava preparado para ver Minnie Sorokine esparramada no chão de seu dormitório, com o pescoço vermelho, seu precioso vestido rosa flamingo meio arrancado e a parte inferior do torso rasgada e brilhante de sangue.

Enjoado, ajoelhou-se ao lado das saias avultadas. Não havia nenhuma dúvida sobre se estava morta ou não, nem sobre o que tinha causado a morte. Ninguém teria podido sobreviver a uma ferida assim. O corte se estendia quase de lado a lado, e a cabeça estava colocada em um ângulo torcido, como se tivesse o pescoço quebrado.

Estava fria ao tato. Tinha esperado que o estivesse. Continuava usando o traje de noite, de modo que a criada não tinha entrado no quarto. Teria que averiguar por que não o tinha feito, mas assumiu que por discrição. Só acudia quando a chamavam, do contrário se mantinha prudentemente ausente.

Pitt se obrigou a examinar as mutilações. A ferida do pescoço era pior que a de Sadie, mas o corte do abdômen inferior parecia bastante menos grave. De fato, percebia-se certo decoro. O corte estava mais acima, era menos abertamente sexual, e o peito não estava descoberto. Era possível que uma parte do cérebro do Julius tivesse tido presente, até em sua loucura, que essa mulher era sua esposa? O pensamento era repugnante e peculiarmente doloroso. Pitt tinha conhecido a assassinos que lhe tinham agradado, até tinha chegado a compreendê-los, mas não havia nada compreensível no assassinato de Sadie. Nenhum dos homens a tinha visto antes. E agora isso! Não estranhava que Cahoon Dunkeld tivesse acabado meio transtornado pelo horror e dor. Julius tinha sorte de continuar com vida. Se fosse um homem menos corpulento ou menos em forma, certamente também estaria morto a essas alturas, em lugar de simplesmente preso.

Pitt se sentou no tapete e considerou o que devia fazer. Tinha que ficar em contato com Narraway, é claro; lhe deixar o recado de que acudisse imediatamente ao palácio. Parecia que o caso estava resolvido, mas devia reunir muitas provas. Para que? Não poderia celebrar um julgamento público de dois assassinatos no palácio! Qualificar-no-iam de segredo de Estado, devido ao lugar onde se produziram? Ou decidiriam que Julius Sorokine estava louco de atar e o encerrariam sem um julgamento sequer? Isso seria o mais fácil.

Mesmo assim, as provas deveriam ser concludentes. Nenhum médico de honra o declararia louco a menos que pudesse demonstrar-se que tinha matado a duas mulheres.

Se parecia igualmente razoável que tivesse sido outro culpado não teriam nada contra ele. O resto de seu comportamento era irreprochável, inclusive do ponto de vista moral, para não falar do legal.

Mas certamente poderiam achar um médico que não fosse muito escrupuloso na hora de examinar os detalhes e a quem lhe pudesse persuadir facilmente.

Pitt não podia permiti-lo. Sua própria consciência o achava inaceitável. Se Julius Sorokine ia passar o resto de sua vida encerrado em um manicômio para delinqüentes psicóticos, tinha que estabelecer além de toda dúvida que era ele quem tinha matado às mulheres.

Não podia deixar o corpo da Minnie ali esparramado sem tomar nota antes da quantidade e a natureza exata das mutilações que lhe tinham infligido. Também devia revistar e descrever o resto do quarto. Provavelmente não haveria nada nele que lhe dissesse mais que o claro: tinha subido para deitar-se e alguém mais tinha entrado no quarto, antes ou depois dela, quase com toda certeza seu marido. Tinham discutido e acabado, literalmente, brigando.

Voltou a olhá-la e observou que tinha hematomas no rosto. Eram muito fracos, já que tinha morrido pouco depois. Mas nas mãos e nos antebraços também tinha arranhões, como se tivesse lutado para defender-se. Isso justificaria os arranhões no rosto e nas mãos de Julius, que Cahoon afirmava ter visto assim que tinha entrado em seu quarto e antes de atacá-lo ele mesmo.

Com mãos trêmulas Pitt a desenhou tal como estava. Saiu-lhe desproporcionada e com traços pouco firmes porque não podia deixar de tremer. Depois desenhou rapidamente o quarto. Era difícil saber se havia algo desconjurado; talvez soubesse a criada. Teria que perguntar-lhe Não havia nada quebrado nem rasgado além do pequeno recipiente de vidro cujos pedaços estavam no cesto de papéis. Não havia vidros pelo chão. Devia haver-se quebrado depois da última vez que tinham esvaziado o cesto de papéis, certamente no dia anterior pela manhã.

Pareceu-lhe indecoroso deixá-la assim, mas não havia nenhum outro lugar ao que transladá-la até que chegasse Narraway. Tinha sido diferente com Sadie. Cahoon tinha dado instruções de que a levassem a depósito do gelo, quase como se tivesse sido um pedaço de carne. Pitt saiu por fim ao corredor e fechou a porta por fora.

Desceu e procurou Tyndale, e lhe pediu permissão para utilizar o telefone. Demorou quinze minutos em ficar em contato com o Narraway. Estava só na copa, com a porta fechada.

— O que aconteceu? - perguntou Narraway ansioso.

— Houve outro assassinato - respondeu Pitt. Ouviu o Narraway inalar bruscamente. — A senhora Sorokine - continuou. Estava estranhamente sem fôlego. — Em seu próprio dormitório. Pelo resto, foi exatamente igual ao primeiro. À mesma hora da noite. Também o achou Dunkeld. Até agora tudo aponta que foi seu marido.

Narraway guardou silêncio uns momentos.

— Surpreende-me - disse por fim. — Embora não deveria. Tinha que ser um deles. É isso o que acredita, Pitt, que foi Sorokine?

Não era uma opinião, eram os fatos que lhe tinham sido impostos.

— Ainda não tenho certeza. Encerrei-o em seu quarto. Teremos que demonstrá-lo.

— É claro que teremos que demonstrá-lo! Pelo amor de Deus, por que ia matar aonde podiam descobri-lo? Está louco de atar?

— Não. Parece totalmente cordato, só está aturdido.

— Admitiu algo?

— Não.

— Estarei ali dentro de uma hora, antes se puder.

— Sim, senhor.

Pitt pendurou e se reuniu com o Tyndale, que o esperava pálido.

— Houve outra morte - disse sombrio. — A senhora Sorokine. Está em seu quarto. Como é lógico, pedirá que as criadas não entrem nele sem lhes dizer o motivo. Tampouco poderão entrar no quarto do senhor Sorokine. Está encerrado nele no momento.

Tyndale lutou por manter a calma. Tinha os punhos fechados e tremia.

— Sinto muito, senhor. É terrível. Informou a Sua Alteza Real? Estará aliviado de que haja resolvido o caso, apesar do trágico da solução.

Pitt não tinha pensado no príncipe de Gales, mas era evidente que devia dizer-lhe. Entretanto, não devia ser Cahoon Dunkeld quem o fizesse.

— Não - respondeu consternado. — Pode conseguir que me receba, por favor? Assim que lhe seja possível. De fato, faça-o imediatamente. Não pode haver nada mais urgente, dadas as circunstâncias.

— Sim, senhor. É claro - concordou Tyndale.

Vestiu bem a jaqueta bastante desnecessariamente e saiu. Ao cabo de quinze minutos voltou e conduziu ao Pitt pelos magníficos corredores e galerias até a própria habitação onde o príncipe o tinha recebido a vez anterior.

Tinha um aspecto completamente diferente, quase relaxado: um cavalheiro de meia idade e de ar benévolo, com maneiras inusitadamente impecáveis. Estava vestido com um traje de linho pálido e tinha uma cor de rosto saudável.

— Bom dia, Pitt - disse com cordialidade. — Tyndale me diz que já se resolveu este horrível caso. Uma tragédia terrível. Mas estou entusiasmado, estimado amigo, com a rapidez com que chegou ao fundo do assunto com a mais estrita discrição. Dunkeld fez bem em chamar à Brigada Especial. - Seu rosto se encheu de consternação. — Meu Deus. A senhora Sorokine era sua filha. Tinha-o esquecido por completo. Que terrível! Deve estar destroçado. Mandar-lhe-ei meu médico, se por acaso pode fazer algo por ele. Há algo mais? Posso lhe oferecer algo?

— É extremamente compreensivo, senhor - replicou Pitt. Era impossível confundir a compaixão que refletia seu rosto ou a atitude de todo seu corpo. — Mas acredito que no momento não há nada mais. Chamei ao senhor Narraway e nos ocuparemos o mais rapidamente possível do assunto, uma vez que tenhamos estabelecido além de toda dúvida que o senhor Sorokine é o responsável. Suponho que o seguinte passo será declará-lo louco e encarcerá-lo onde não possa fazer mais dano.

— Esse homem é um... um... - O príncipe não achava palavras suficientemente fortes para expressar o que sentia.

— Louco, senhor - ofereceu Pitt.

— Monstro! - corrigiu-o o príncipe.

— Sim, senhor, isso parece. Mas acredito que não queremos que o mundo saiba. Será melhor que todos nos ponhamos de acordo em que é uma enfermidade mental e o tratemos de forma de acordo. Um julgamento não beneficiaria a ninguém.

— Um julgamento. - O príncipe estava claramente alarmado. — Por Deus, não! Tem toda a razão, é claro. Encerrá-lo será o melhor.

— Assim que tivermos certeza.

— Certeza? - O príncipe arqueou as sobrancelhas. — Querido amigo, não há nenhuma dúvida. Sabia que o próprio Cahoon suspeitava dele? Mas, como é lógico, não queria acreditá-lo. Era seu genro. É horripilante.

Pitt se surpreendeu.

— Não me comentou que suspeitasse do Sorokine. Por que? Sabia algo que não nos disse?

O príncipe pareceu envergonhado.

— Temo que terá que perguntar-lhe você mesmo, se acredita que ainda é importante. Mas agora que resultou ter razão e que pagou um preço tão alto por isso, não acredito que tenha sentido destacar-lhe.

— Não, senhor. Preferiria que me dissesse isso - pressionou Pitt.

— Não posso. É uma questão de honra - respondeu o príncipe de forma pouco convincente. — Verá, dei-lhe minha palavra e não há mais que falar. Sinto muito. Embora, nas presentes circunstâncias, sem dúvida já não importa. Sorokine partiu da festa cedo na noite que mataram à outra pobre criatura. Deve tê-lo apunhalado ele também. Não sabe quão aliviado estou que se terminou este assunto antes que volte Sua Majestade. Estou-lhe agradecido, Pitt. Não o esquecerei. Obrigado por dizer-me pessoalmente.

Despedia-o, e não havia nada que Pitt pudesse dizer que não soasse combativo ou, dadas as circunstâncias, indesculpável. Agradeceu ao príncipe e se retirou.

Meia hora depois se reuniu com Narraway e o levou imediatamente para ver o corpo da Minnie Sorokine.

Narraway ficou em pé no tapete e a olhou com o rosto crispado de tristeza.

— Parece igual - disse com tristeza. — Mas não é! Uma era uma prostituta profissional e a outra sua esposa.

Pitt franziu o sobrecenho.

— Paquerava descaradamente com o Simnel Marquand, o meio-irmão do Sorokine.

Narraway o olhou com incredulidade.

— É suficiente motivo para fazer isto? Está dizendo que é uma espécie de julgamento moral sobre a prostituição?

— Não. A senhora Sorokine passou a maior parte do dia de ontem fazendo perguntas aos criados - disse Pitt. — Gracie a seguiu e ouviu quase tudo. Ao que parece, na noite do primeiro assassinato houve pessoas indo e vindo, e se quebrou um prato azul, branco e dourado do qual ninguém sabe nada e cuja existência nega Tyndale.

— De que demônios está falando, Pitt? Está divagando!

Pitt se controlou com grande esforço. Estava cansado, doía-lhe a cabeça e de repente tinha muito frio. As paredes do palácio, com todas suas obras de arte de molduras ornamentadas, cercavam-no. Sentia-se preso ali.

— Não sei - respondeu com rigidez. — A senhora Sorokine passou todo o dia fazendo perguntas e pareceu ficar muito satisfeita com as respostas. Quando Gracie perguntou ao Tyndale sobre isso, lhe disse bruscamente que deixasse estar o assunto, que estava relacionado com uma má conduta privada do príncipe do Gales e não tinha nada que ver com o assassinato da prostituta.

Narraway o olhou.

— Na mesma noite? - perguntou duvidoso. — Esteve muito ocupado, não?

— Eu teria dito que foi à cama com uma das mulheres e caiu em uma espécie de torpor etílico - respondeu Pitt. — Talvez não o tenha feito. Acredita que é necessário averiguá-lo? - Esperava profundamente que não o fosse. — Certamente é a mesma classe de conduta desafortunada... desafortunada aos olhos do Tyndale. É um pouco rígido.

— E o que acontece com o prato quebrado? - perguntou Narraway. — O príncipe quebrou um prato. E o que?

— Tyndale diz que não existe tal prato. É cortante.

— Talvez fosse um jarro ou algum tipo de objeto decorativo - sugeriu Narraway.

— Tyndale realmente acredita que Gracie não sabe que tipo de encargo tinham essas mulheres? - perguntou Pitt com incredulidade. — Sabe que ela está conosco.

Narraway passou por cima e voltou a olhar o corpo da Minnie.

— Recebeu um forte golpe no pescoço. Muito violento. Parece que lhe partiu a coluna vertebral. Achou a faca?

— Não. Temos que revistar seu quarto.

Narraway notou como lhe retesavam os músculos, depois voltou a relaxar.

— Bom, se se suicida com ele, melhor que tudo. Não podemos deixá-lo solto. Mas deveria havê-lo buscado de todo modo. Agora teremos que ir com supremo cuidado.

Pitt amaldiçoou sua estupidez por não ter revistado o quarto. Mas não tinha querido fazê-lo só, estando Sorokine ainda ali dentro. Teria se sentido muito vulnerável. Abriu a porta e saíram e percorreram o corredor.

Julius estava deitado na cama olhando o teto, mas não pôde dissimular a tensão nem o medo que sentia. Lhe tinha secado o sangue da rosto e os arranhões eram profundos enquanto que os hematomas se obscureciam ostensivamente. Sentou-se e os olhou.

Pitt deixou falar com o Narraway.

— Onde está a roupa que levou ontem à noite, senhor Sorokine?

Julius piscou.

— O traje está no armário e a camisa na cesta da roupa suja, com minha roupa interior. Não estão manchados de sangue, se isso for o que busca.

— E a faca? - perguntou Narraway.

Parecia imperturbável, mas se percebia certa ansiedade nos músculos de seu pescoço e sua mandíbula.

— Não tenho nem idéia - disse Julius. — Eu não matei a minha mulher. - Olhou ao Pitt. — Acredita que se inteirou... do que acontecia? Sofreu?

Narraway inalou e deixou escapar o ar.

— Não - respondeu Pitt. — Lutou, mas parece que recebeu um só golpe na nuca e que este a matou.

Julius fez uma careta.

— Ontem esteve fazendo perguntas aos criados - continuou Narraway. — Lhe disse o que tinha averiguado?

Julius parecia confuso.

— Não sei. Durante o jantar soltou um montão de indiretas ao Cahoon, como se esperasse lhe fazer ver algo. - Ergueu um pouco a voz, como se lhe custasse um esforço que lhe passasse pela garganta. — Está insinuando que essa é a razão pela que a mataram? Que averiguou quem tinha assassinado à mulher do armário? - Ergueu-se mais.

— Lhe ocorre outra razão? - perguntou Narraway.

Julius titubeou só um momento.

— Não. - Encheu-lhe o rosto de aflição, não sofrimento mas sim mas uma pena profunda e silenciosa.

Pitt o olhou e se assustou ao pensar que se estava realmente louco, era uma loucura invisível, uma raiva que não se via através do revestimento do que parecia um homem razoável, até decente. Como iriam saber? Como podia-se detectá-lo ou proteger-se disso? Qualquer um podia ocultar atrás de um sorriso a loucura assassina. Seu melhor amigo!

— Pitt, reviste a penteadeira a ver se achar a faca - ordenou Narraway. — E procure roupa manchada de sangue ou com rasgaduras. - Ficou em pé, de frente a Julius, que continuava sentado na cama. Não podia permitir-se lhe dar as costas, por sereno que parecesse.

Mas uma hora depois não tinham encontrado nada que sugerisse violência de nenhuma classe. Ao parecer tinha lutado com a Minnie, e lhe tinha cortado a garganta e o abdômen sem que lhe caísse uma gota de sangue nas mangas da camisa. Na lareira não havia cinza que indicasse que destruíra algo.

— Deve ter se despido antes de entrar em seu quarto - disse assim que estiveram sós de novo no corredor, cansados e derrotados. — O que soa singularmente premeditado... e cordato.

— Ou não foi ele - segurou Pitt.

Narraway mordeu o lábio inferior.

— Segue sendo um assunto muito desagradável - disse em voz muito baixa. — Seja quem for o culpado, vamos ter que lutar com isso como se se tratasse de loucura e encerrar ao culpado com discrição. - Sua voz soou de repente apaixonada e assustada.              — Mas, que Deus nos livre, precisamos dar com o homem adequado, Pitt. Além da injustiça, não podemos nos permitir deixar o verdadeiro assassino solto.

 

A primeira reação de Elsa tinha sido de horror e compaixão ante outra vida esbanjada. Estava sentada na cama, rígida pela tristeza. Sabia que nunca tinha gostado de Minnie. A relação tinha sido incômoda desde o começo. Elsa tinha substituído à mãe falecida da Minnie, socialmente ao menos, se não no afeto do Cahoon. Não é que ele tivesse mencionado alguma vez a sua primeira esposa, e, certamente, nunca tinha feito comparações nem falado dela com dor. Deveria ter sentido saudades, mas nesse momento tinha estado tão fascinada por seu poder e o peso de seus sentimentos que se havia sentido adulada de que a desejasse. E a tinha desejado então. Que depressa se cansou dela!

Minnie o tinha visto e tinha compreendido. A frieza entre a Elsa e Minnie tinha derivado em desprezo mútuo a certo nível e em certa tolerância a outro nível. Era uma situação da qual nenhuma das duas podia escapar. Para sobreviver, o melhor era lhe dar a menor importância possível.

E depois havia Julius. Elsa já não estava segura dos sentimentos dos outros. Essa espantosa semana tinha feito cambalear todas suas certezas. Olhando-os sentados ao redor da mesa na noite anterior, deu-se conta de que mal sabia o que lhes importava realmente, o que amavam ou odiavam, desejavam ou lamentavam. O isolamento e a autocensura da Olga eram simples, ao menos na aparência. Mas por que não se rebelava? Tornara-se absurdo tentar vencer? Tratava-se da palidez e do cansaço da desilusão antes que a derrota?

O enamoramento de Simnel pela Minnie não era difícil de compreender. Ao lado da tristeza da Olga, ela tinha sido fogo, paixão e risadas. Mas acaso esses atributos eram algo mais que desenhos sobre a superfície? Não havia mais que apetite no fogo da Minnie? E a frieza da Olga só era conseqüência da dor da rejeição? Mal tinha mencionado seus filhos, como se já não tivesse forças para lutar com as armas que tinha.

Liliane estava visivelmente aterrorizada de que Hamilton bebesse mais da conta e deixasse escapar algum segredo terrível, sobre ele mesmo ou sobre alguém mais. Tratava-se do assassinato da outra mulher na África, tão parecido aos encargos ali? Protegia a seu marido como se fosse um de seus filhos.

E Julius. Esse era o golpe que a tinha deixado aturdida. Não podia aceitar que tivesse assassinado a Minnie e destruído toda essa vontade férrea, essa avidez e ânsias de viver, ao preço que fosse. Minnie tinha sido egoísta, inclusive cruel, mas tinha brilhado como o fogo. Havê-la feito extinguir-se parecia quase um crime contra a natureza.

Elsa compadecia-se profundamente de Cahoon. Tinha parecido ferido no mais fundo quando lhe tinha explicado como tinha morrido Minnie, como se tivesse perdido uma parte de si mesmo. Ela tinha querido chegar até sua dor, mas ele se encerrou em si mesmo e lhe tinha dado as costas. Uns momentos depois tinha saído do quarto, deixando-a sozinha, perplexa, doída pela rejeição e desesperadamente triste.

Não queria falar com ninguém, mas ficar sentada em seu quarto parecia ainda pior. Levantou-se e se aproximou da janela, e ficou olhando as frondosas árvores do verão sem mal vê-los. Quem tinha feito isso? Não podia ser Cahoon. Minnie era a única pessoa no mundo a quem amava. Recordou as vezes que os havia visto juntos rindo-se de uma brincadeira ou compartilhando uma idéia, a compreensão instantânea a metade de frase que existe entre certas pessoas quando estão realmente unidas. Ela nunca a tinha conhecido. Seu pai tinha sido um homem distante que não via as mulheres como companheiras, mas sim como seres nascidos para o consolo, a dependência, o afeto, a obediência e a virtude.

Minnie não tinha completado nenhum requisito. Tinha sido ávida, egoísta, valente e forte como seu pai. Cahoon discutia com ela mas também a admirava. Se tivesse encontrado uma mulher igual se teria casado com ela sem pensar.

Tinha sido Simnel, que lutava por liberar-se da incontrolável fascinação que exercia Minnie sobre ele, quem tinha acabado matando-a? Tinha-lhe levado a trair à mulher que tinha amado em outro tempo, não só na intimidade mas também em público, porque não sabia fingir. Olga devia havê-lo visto dia após dia, inclusive durante cada refeição: a compaixão e a impaciência nos olhos de seus amigos porque não sabia defender-se.

Elsa tinha frio, apesar do sol que esquentava através do vidro. Olga se tinha defendido por fim?

Não. Isso era ridículo. Se Minnie tinha morrido da mesma forma que a mulher da rua, devia havê-lo feito um homem. Claro que se a Elsa lhe podia ter ocorrido copiar o assassinato original, por que não podia haver feito o mesmo Olga ou qualquer uma? Podia uma mulher deixar-se levar por essa classe de cólera por causa do ciúmes?

Não eram simples ciúmes, nenhuma questão de ódio por alguém por ter algo que você não tinha ou inclusive por haver lhe arrebatado isso. Não era do amor do que lhe tinham despojado, mas sim do calor da necessidade física, do furioso apetite que destruía o julgamento e a honra. Tinha consumido Simnel como uma enfermidade.

Sobretudo poderia ter sido a humilhação, a destruição de sua fé nela mesma ou inclusive no amor, a última traição. Tão diferente isso era da loucura?

Mas Olga não podia ter matado também à mulher da rua. Não, isso era totalmente diferente. Nisso não tinha havido nada pessoal, se tinha ocorrido sequer. Tinham chamado às prostitutas em busca de entretenimento, nada mais, embora existisse a possibilidade de uns serviços mais amplos.

A outra idéia, que esperava nas bordas de sua cabeça, negava-se a ser descartada de novo. Se Olga podia matar por ciúmes e humilhação, como ia negar que Julius também fosse capaz de fazê-lo? E Julius tinha a força física para matar a Minnie, que era uma mulher corpulenta, alta e graciosa, de seios grandes, braços arredondados e porte perfeito. Olga não teria tido suficiente força, a menos que a tivesse pegado totalmente por surpresa. Julius sim.

Mas lhe tinha importado o suficiente para fazê-lo? Elsa não tinha nem idéia. Conhecia homem de portas para fora: a cortesia, o humor seco, a aparente delicadeza, a forma de olhá-la nos olhos quando falava com ele. Conhecia íntima e apaixonadamente à pessoa que esperava, que sonhava que fosse ele, mas tinha algo que ver com a realidade? Até que ponto estava apaixonada por algo que existia só em sua imaginação? Até que ponto o estava alguém?

É fácil ver o que quer ver, talvez é até necessário.

O que tinha visto Julius na Minnie? O que tinha pensado dela? Devia tê-la visto carinhosa e leal, compreensiva com os defeitos alheios, firme em suas concreções, e com um núcleo no mais profundo de seu ser que não podia empanar-se.

Ou talvez tinha bastado que fosse formosa e dócil? Possuía uma integridade que não podia quebrantar-se, nem manchar-se nem comprar, por alto que fora o preço?

E ela?

Alguém bateu na porta. Pensou que era Bartle e a fez entrar sem incomodar-se em voltar-se.

— Sinto incomodá-la, senhora Dunkeld, mas é necessário.

Elsa deu a volta e viu o policial dentro do quarto.

— Oh! - Tomou ar bruscamente. — Sim, é claro. Quer que vá a sua sala de estar?

— Sim, por favor, se se sentir bem. Talvez a criada possa acompanhá-la.

— Estou bem, obrigada - disse ela, e saiu atrás dele e o seguiu pelas escadas até ao aposento que lhe tinham atribuído.

Bartle a conhecia muito bem; não queria que estivesse presente e escutasse as perguntas que lhe ia fazer o policial. Sentou-se frente a ele.

Ele se desculpou pela dor que lhe estava causando. Ela desprezou suas palavras com um gesto.

— Não tem outra opção - disse. Temos que saber quem o fez.

Ele assentiu levemente.

— Falou com a senhora Sorokine em algum momento de ontem ou de antes de ontem, senhora Dunkeld? Parece que tinha fortes suspeitas sobre quem tinha matado à mulher do armário e esteve fazendo muitas perguntas.

Elsa se sobressaltou. Estava a ponto de negá-lo de modo peremptório quando recordou quão alterada tinha estado, e como tinha insinuado durante o jantar que tinha averiguado algo que ninguém mais sabia. Tinha alardeado ante seu pai. Todos a tinham ouvido. Talvez um deles se deu conta de que Minnie estava a ponto de averiguar toda a verdade e dá-la a conhecer.

Pitt a observava. Devia enfrentar a ele e responder.

— Não. Soltou indiretas durante o jantar, mas isso foi tudo. Não as entendi. Pareceu-me tudo muito... - procurou a palavra adequada — enigmático. Pensei que só tratava de ser o centro de atenção. O... sinto tanto...

Isso era uma admissão de culpa. Era culpado de não ter escutado, de não ter julgado com mais benevolência, inclusive de não ter querido Minnie. Para ser sincera, não a tinha gostado particularmente. Mas como ia gostar dela, estando apaixonada pelo Julius? E Minnie não tinha tido a culpa de nada.

Olhou ao Pitt nos olhos e viu mais compreensão neles do que tinha desejado achar. Voltou-se e se deu conta de que, ao fazê-lo, delatava-se ainda mais.

— Pode recordar o que disse? - perguntou ele.

— Pareceram-me tolices. - Tratou de recordar as palavras da Minnie. — Disse algo de uma porcelana, e de muita limpeza, e de quanto tinha ajudado seu pai ao príncipe de Gales. Acredita que ela averiguou realmente quem tinha matado à mulher? - Esperava que assim fosse, rezava para que assim fosse! Então não teria nada que ver com Julius nem com Olga. Por favor, Deus!

— Você não acha? - perguntou ele com suavidade.

— Bom... sim. Suponho... a menos que... não, parece que foi isso. - Balbuciava. Deveria guardar silêncio. Por que falava tanto, como uma néscia?

— Poderia ter alguém outra razão, senhora Dunkeld?

Ela levantou a vista rapidamente para ele e viu compaixão em seus olhos. Teve um calafrio. Estaria à corrente do da Minnie e Simnel? Suspeitava do Julius?

— Poderia?

Era possível que estivesse informado da aventura? Se ela mentia para ocultá-lo, ele saberia que tratava de proteger ao Julius. Parecer-lhe-ia extraordinário, além de suspeito. Minnie tinha sido sua enteada; ali devia estar sua lealdade. Ou ao menos fingir que estava. E entretanto, todos estavam inteirados da aventura. Alguém o diria, provavelmente já o tinha feito. Se fingia não saber, Pitt saberia que mentia.

— Por cólera talvez - sugeriu. — O senhor Marquand se sentia... atraído por ela. Só posso supor o longe que chegaram, mas foi intenso, ao menos por um tempo. – Fez que soasse prosaico, reduzindo a paixão a algo vulgar. — Por desgraça, essas coisas ocorrem continuamente - acrescentou. — A pessoa não mata por isso. Podem chorar ou até arremeter de um ou outro modo. É melhor conservar toda a dignidade possível e confiar em que seja algo passageiro. Apesar disso senhor Pitt, não havia motivo para matar à prostituta, que não tinha nada que ver com nossos assuntos privados. Não a tínhamos visto, nem tínhamos ouvido falar dela. E você diz que Minnie esteve fazendo perguntas que a levaram a acreditar que sabia quem tinha matado a pobre mulher. Foi essa a razão pela que também mataram a ela?

— Isso parece – concordou ele. — Minhas próprias indagações me dizem que passou a maior parte do dia de ontem fazendo perguntas aos criados, e que parecia ter descoberto algo que a tinha alterado em grau supremo, como se tivesse encontrado a resposta.

— E... - Elsa se engasgou — você acredita que enfrentou alguém?

— Acredito que alguém percebeu que sabia algo - corrigiu ele.

— Não sei quem foi. - Assim que Elsa falou, soube que o tinha feito muito depressa. Ele não tinha perguntado. Ela já havia dito que não tinha nem idéia. Ardia-lhe o rosto.

Pitt a olhava fixamente.

— O senhor Dunkeld está convencido de que foi o senhor Sorokine. Enfrentou-o e brigaram. Os dois têm feridas no rosto e mãos.

Ela não entendeu. Só queria que Pitt deixasse de acreditá-lo. O que podia dizer? Se defendia ao Julius e acusava ao Cahoon, Pitt veria seus sentimentos em toda sua nudez. Era o que tratava de fazer ele, averiguar se Julius tinha matado a sua mulher e jogar a culpa ao Cahoon?

— Se brigaram... - começou a dizer, mas se deu conta de que era um comentário absurdo e se interrompeu.

— Nenhum dos dois o negou - disse ele. — Ambos afirmam que o outro já estava ferido antes que brigassem.

Ela não compreendeu.

— Sinto muito. - Ele suavizou o tom como se se compadecesse dela. — A senhora Sorokine lutou por sua vida. Quem a matou também deveria ter arranhões e talvez até hematomas.

Ela tinha que dizer. Eram palavras horripilantes, mas se não as pronunciasse seria ainda pior. Como podia ser mais hábil que ele?

— Meu marido nunca teria matado a sua filha, senhor Pitt. Queria-a mais que a ninguém no mundo.

— E o senhor Sorokine não queria também a sua mulher? – perguntou ele.

Desta vez ela não soube lhe ler a expressão. Tinha os olhos cinza, muito claros, como se pudesse entrever o horror e a confusão que havia dentro dela.

— Imagino que sim - respondeu hesitante. — É o que se dá sempre como claro. E quando se trata da família, ainda mais. Eu... não posso acreditar que Julius a matasse.

Ele esperou.

Era uma tolice dizer algo assim, mas era verdade. Não importava o que Cahoon tinha visto ou afirmava que tinha visto; Elsa não podia acreditar que Julius tivesse assassinado à mulher do armário e a Minnie. Não acreditava; a carga da perda que isso implicaria seria mais do que poderia suportar.

— Obrigado, senhora Dunkeld. Acredito que não tenho mais pergunta no momento - disse Pitt.

Ela se tinha delatado. Ele sabia agora o que sentia. Tinha-o visto em seu rosto, sentia-se envergonhada, como se tivesse ficado emocionalmente nua. Levantou-se e tratou de pensar em algo que dizer para poder retirar-se com certa elegância, mas não lhe ocorreu nada. Foi à porta e a abriu sem voltar a falar.

Enquanto se trocava para comer se achou a sós com Cahoon. Era precisamente o que tinha querido evitar. Bartle saía quando ele entrou no quarto de vestir e Elsa se voltou para ele. Sempre se sentia incômoda quando o tinha atrás.

Estava com olheiras. Tinha envelhecido dez anos em um só dia. Voltou a sentir uma momentânea pontada de compaixão por ele. Instintivamente o teria tocado, teria se aproximado dele e o teria abraçado, mas a barreira que se erguia entre ambos era muito alta. Haviam se tocado em um momento de fome física, mas nunca por ternura, pela necessidade da mente e do coração.

— Sinto muito - murmurou ela.

Ele a observava com os olhos tão escuros que não se via neles nenhuma emoção.

— Não achava que Julius faria algo assim! - Era um desafio, não uma pergunta.

Um calafrio de alarme a percorreu.

— É claro que não - replicou ela bruscamente.

— Pois não o conhecia tão bem como pensava! - Um brilho de prazer, quase de triunfo, iluminou-lhe os olhos.

Ela sentiu frio em seu interior, temendo que a odiasse o suficiente para desfrutar fazendo-lhe mal, apesar da dor de sua própria perda.

Tratou de parecer surpreendida.

— Por que? Você achava?

Devia estar desesperada para contra-atacar. Tinha pensado em fazê-lo antes, mas nunca tinha tido a coragem.

Ele a olhou furioso.

— Pelo amor de Deus, acha que lhe teria permitido viver sob o mesmo teto que minha filha se o tivesse acreditado? - Sua voz soou áspera, quase quebrada pela dor.

De novo a compaixão afogou a cólera que ela sentia.

— Ninguém o viu vir, Cahoon, ou teríamos feito algo para impedir - disse ela com suavidade.

Se culpava por não ter se dado conta de que era Julius e não tê-lo detido a tempo? Como podia lhe dizer que ele não tinha a culpa sem soar condescendente ou falsa?

Ele a olhava de novo com essa estranha expressão de triunfo, como se tivesse arrancado do desastre um fragmento de vitória.

— Não o enforcarão, o que é uma lástima - continuou. — Manterão tudo em segredo para proteger ao príncipe de Gales. Mas o levarão a um manicômio e o terão ali encerrado o resto de seus dias. - Havia algo parecido a um sorriso em seu rosto enquanto a olhava fixamente.

Como se tivesse que ter visto desde o começo, Elsa compreendeu de repente com cegadora clareza que Cahoon sempre tinha odiado ao Julius. Apesar da morte da Minnie, continuava sendo capaz de alegrar-se de sua destruição. Tinha-a planejado de um modo diferente e se torceu algo? Supunha-se que a morte da prostituta deveria ter comprometido e arruinado ao Julius? Por quê? Porque Elsa o amava? Cahoon não a amava; nunca o tinha feito. Mas lhe pertencia. Isso não eram ciúmes, era ódio por ter sido insultado. Sua vaidade tinha sido ferida, seu direito de posse se viu prejudicado.

Devia permitir que ele a esmagasse dessa maneira? Achava que Julius tinha matado a essa mulher e que quando Minnie o tinha averiguado e o enfrentara, tinha-a matado do mesmo modo? Se não dizia nada era como admitir que acreditava, e teria que viver sempre com isso. Era melhor negá-lo, a qualquer preço, que renunciar ao sonho.

— Terão que demonstrar primeiro sua culpa - disse ela em voz alta.

— Fá-lo-ão - replicou ele, com os olhos brilhantes de novo. — Aferre-se a tudo o que quiser, Elsa! Fantasia quanto queira. Não conhece os homens e não tem nem idéia do que é o amor. Nunca o soube! Julius é um louco. Minnie teve a coragem de enfrentar a isso. Mas ela sempre foi mais valente, mais forte e melhor que você!

Ela o olhou e viu em seu rosto ódio por Julius, mas também por ela. Em meio a sua dor pela Minnie - e ela acreditava nele -, alegrava-se de que Julius também fosse destruído. Talvez isso fosse tudo o que restava.

Exceto destruir também a ela.

Como o faria? Se Julius estava encerrado com chave em seu quarto, não podia lhe cortar o pescoço e o estômago, e depois jogar a culpa nele. Mas poderia envolvê-la de algum modo em algo e a seguir repudiá-la e divorciar-se dela. Então talvez pudesse casar-se com a Amelia Parr!

Esquadrinhou-lhe o rosto e viu com fria certeza que era certo. Não havia nada que a protegesse salva sua própria coragem e inteligência, e a vontade de não deixar-se vencer.

— Isso já veremos - disse em voz baixa. — Ainda não terminou.

 

Victor Narraway ia sentado na carruagem, alheio às ruas ensolaradas pelas quais passava. Estava mais preocupado pelos assassinatos cometidos no palácio do que tinha deixado Pitt ver. Cinco anos atrás, na época das atrocidades do homem do Whitechapel conhecido como Jack o Estripador, a rainha quase se retirara de suas obrigações públicas. Os gastos do príncipe de Gales se converteram em esbanjamento e tinha contraído grandes dívidas. A reputação da Coroa se achou tão pelo chão que o clamor pela república tinha ganhado muitos adeptos. Houve distúrbios desagradáveis nas ruas, sobre tudo no East End e pelo bairro do Whitechapel em particular.

Três anos depois, Pitt tinha encontrado os ânimos ainda quentes pela tentativa de Charles Voisey de dar um golpe republicano. Tinha estado muito perto de ter êxito, e continuava sendo muito recente para que um escândalo como esse não fosse profundamente perigoso. Havia uma corrente de descontentamento político mais sério do que Pitt imaginava.

O outro assunto que preocupava ao Narraway era toda a questão da ferrovia do Cabo ao Cairo. Aparentemente era uma idéia brilhante: audaz, patriótica e com visão de futuro. Uniria fisicamente a África, obteria novos prodígios em engenharia e exploração, e levaria as culturas, a civilização e certamente a cristandade a novas regiões que nunca tinham sido exploradas de todo. E, é claro, seria o maior impulso para o comércio do império desde os começos da Companhia das Índias Orientais mais de um século atrás.

Entretanto, uma empresa de tal envergadura também tinha seus aspectos negativos. Atormentava-lhe que algum que nem sequer conhecia pudesse ser fatal. Toda a vida tinha ouvido as duas partes de uma discussão, para dar ao menos a mesma importância às críticas que aos elogios. Tinha sido uma prática dolorosa e freqüentemente pouco popular, mas tinha economizado dinheiro e vidas, para não falar de constrangimentos políticos.

Neste caso só tinha ouvido murmúrios em contra do projeto. Poderia tratar-se facilmente de inveja ou acanhamento ante uma empresa tão enorme. Dispunha-se a ir comer em casa de Watson Forbes, onde haveria tempo para prolongar a conversa todo o que fosse necessário. Não tinha anulado a entrevista por causa da morte da Minnie Sorokine, o que talvez provasse que todo o assunto se devia à loucura pessoal do Julius Sorokine, alguma separação sexual sem uma relação real com o projeto do Cabo ao Cairo. As outras possibilidades eram muito temíveis para considerar. O fantasma do Estripador seguia atormentando-o.

Apesar disso, havia questões sobre a ferrovia que lhe inquietavam, dúvidas que, se fossem fundadas, poderiam prejudicar ao império durante várias gerações.

Chegou à casa do Forbes e lhe abriu a porta o mordomo, que o conduziu à mesma agradável habitação da visita anterior, com seus quadros e suas curiosidades africanas.

Forbes lhe ofereceu um xerez e ficou em pé junto à cornija da lareira, embora não estivesse acesa. O sol de finais do verão entrava em torrentes pelas janelas alongadas, criando desenhos sobre as cores do tapete turco. Tinha uma expressão ligeiramente divertida, os olhos brilhantes.

— O que espera que lhe explique, senhor Narraway? Não estou no projeto da ferrovia. Não o deixei claro?

— Completamente claro - replicou Narraway. — Por essa mesma razão é possível que suas opiniões estejam menos influenciadas pelo desejo de que seja um êxito.

Forbes sorriu.

— Acredita que Dunkeld é muito parcial para oferecer uma opinião racional?

— Não o seria você se seu futuro e sua honra dependessem disso? - perguntou Narraway.

Forbes bebeu um gole de xerez e o saboreou na boca antes de engolir.

— É claro que sim. É a maior aventura de uma vida e mais do que a maioria dos homens sonhou jamais. Teme algo em concreto?

— O custo? - sugeriu Narraway.

— Toda construção custa mais do que se calculou - replicou Forbes com um sorriso compungido. — Seja um abrigo para o jardim ou uma ferrovia transcontinental. Um conta com isso. Ou teme que o custo supere seu valor?

— Poderia ocorrer? - perguntou Narraway.

O custo não era o que tinha temido, mas queria pôr a prova ao Forbes. Precisava saber por que, com toda sua experiência africana, não se tinha envolvido embora só fosse como assessor.

Forbes o observava por cima da borda de sua taça.

— Não - se limitou a responder. — Sua construção reportará grandes benefícios de toda classe: de engenharia, comércio, madeira, aço, fama. E Marquand é brilhante. Pelo que respeita aos construtores, todo o dinheiro que se invista estará protegido. África tem diamantes, ouro, cobre, madeira, marfim... só para começar. Cecil Rhodes está atrás desta aventura. Afluirá muito dinheiro. - Não havia nenhuma dúvida nem em seu rosto nem em sua voz.

Narraway tratou em vão de esquadrinhá-lo mais a fundo. Percebia nele certas reservas, mas não tinha nem idéia de quais eram. Poderia ter sido inclusive um sentimento pessoal pelas pessoas envolvidas antes que para o projeto em si.

— É possível que nossos conhecimentos de engenharia não bastem? - perguntou.            — Grande parte do país está relativamente inexplorado. Será preciso estender pontes sobre abismos, perfurar montanhas, cruzar desertos e areias movediças, atravessar territórios hostis de todo tipo, certamente até selvas.

— Reconhecerão o terreno antes de começar - respondeu Forbes sem titubear. — E o que não possam cruzar, rodearão. Poderiam necessitar dotes diplomáticos extra, mas Sorokine as tem. E sabe demonstrar grande encanto quando se propõe. O Estado Livre do Congo poderia dar problemas, mas não terá que preocupar-se se a África Oriental alemã está disposta a ceder. Certamente jogarão uns contra os outros. - Bebeu outro gole de xerez e baixou um pouco a voz. — De qualquer modo, a maior parte do território é britânico. - Havia tristeza em seu rosto.

Narraway se dispunha a inclinar-se para diante, mas mudou de opinião. Qual era o temor do Forbes, as reservas que seguia tendo?

— Dá a impressão de que será uma grande vantagem para o Império britânico - disse Narraway devagar. — Algo que reportará lucros de todo tipo, possivelmente a muito longo prazo. Mas suponho que faremos inimigos. Bélgica, França e Alemanha, para começar.

Forbes sorriu.

— É muito possível, sim - assentiu. — Mas qualquer vantagem para uma nação supõe uma desvantagem para as demais. Se teme ofender a alguém nunca fará nada. É questão de medida.

Narraway sabia que estavam jogando com as palavras. Ainda não haviam tocado no verdadeiro assunto.

— Acredita que o projeto irá adiante?

— Sim. Dunkeld não parará até consegui-lo.

— E fará uma fortuna. - Era uma conclusão antes que uma pergunta.

No rosto de Forbes houve uma mudança tão imperceptível que poderia não ter sido mais que uma alteração da luz.

— Suponho que sim.

— Como a farão os fornecedores de madeira, aço e mão de obra, ou os exportadores de ouro, diamantes, cobre, madeira e marfim - acrescentou Narraway.

Forbes não mudou de expressão. Inalou ar e o exalou em um suspiro.

— Quer saber por que não me interessa participar da ferrovia. Acredita que poderia ser uma questão pessoal com o Cahoon Dunkeld. Equivoca-se. Passei a metade de minha vida na África. - Em seu rosto havia de repente uma emoção inconfundível. Era evidente em seus olhos, em sua boca, até nos músculos tensos de seu pescoço. — Amo esse continente. É o último grande mistério que resta no mundo, o único lugar muito grande para que o submetamos e ocupemos com nossa pequenez, tratando de imprimir nossa imagem em suas gentes, de convencê-las de que é semelhante a Deus.

Narraway estava atônito. A paixão do Forbes o tinha pegado totalmente de surpresa.

— Você não conhece a África, senhor Narraway - continuou Forbes em voz baixa.            — Nunca sentiu o calor no rosto, nem cheirou o vento quente que sopra através de milhares de quilômetros de savana tão cheios de bestas como areia tem a praia. Não viu arder o céu com pôr-do-sol atrás das acácias, nem ouviu rugir os leões de noite com o Cruzeiro do Sul brilhando no negrume por cima de você, nem pegou o ouvido ao chão quando treme com o estrondo de um milhão de patas. Viu alguma vez as pestanas de uma girafa? Ou um cheetah correr? Sentiu o terror no sangue e ossos quando sabe que há um leopardo espreitando-o? Então saberá quão doce é a vida, e insuportavelmente frágil.

Sacudiu ligeiramente a cabeça, um gesto de negação tão imperceptível que Narraway quase não percebeu-o.

— Aqui na Inglaterra há um muro de vidro entre você e uma amostra da realidade. Não quero ver a última verdadeira paixão dominada pela ferrovia, nem homens com bíblias gritando que cubram os corpos de suas gentes. - Estendeu suas mãos fortes e elegantes. — Escute seus quintetos de corda, senhor Narraway, não seria preciso mais, mas não silencie os tambores só porque não os entende. Os homens que tocam o violino têm aço e pólvora, os que tocam o tambor não.

Narraway não respondeu imediatamente. Estudou a expressão intensa do Forbes, o nariz enérgico, a curiosa boca de lábios finos, mas muito expressiva.

Esperou tanto que foi Forbes quem rompeu o silêncio.

— Para isso existe o império? - perguntou. — Para converter tudo em algo que se possa comprar e vender?

Narraway desprezou a idéia. Era mais que ofensiva, era blasfema.

Mas não queria que Forbes soubesse. Não podia permitir-se lhe revelar quão afetado estava.

— Exploração? - respondeu com calma.

— Não é? - Forbes arqueou suas sobrancelhas negras. Observava ao Narraway com atenção.

— E você está contra? - Narraway se permitiu uma nota sarcástica na voz.

A cólera acendeu as faces do Forbes, mas logo se desvaneceu.

— É preciso uma visão mais ampla - murmurou. — O que será a África dentro de um século? Um domínio, um aliado, um inimigo, um campo de batalha? - Narraway voltou a guardar silêncio. — Não estaremos vivos então - continuou. — É isso tudo o que conta, a base de todo julgamento?

Narraway não respondeu.

— Mas acredita que Dunkeld o construirá de todos os modos? - perguntou.

— Não tão facilmente, e não com minha ajuda, mas sim, construi-lo-á. - De novo lhe escureceu o rosto, mas era uma mescla tão conflitiva de sentimentos que era impossível lê-los.

Durante o jantar falaram de outros temas. Forbes era um anfitrião hospitaleiro e interessante, e Narraway não chegou a sua casa até perto da meia-noite.

 

Na manhã seguinte Narraway voltava a estar no palácio, olhando ao Pitt. Na mesa havia uma bandeja com chá e Pitt estava sentado em frente dele. Parecia cansado, apanhado. Mais ainda, havia nele um desencanto que Narraway não tinha visto nunca. De repente se deu conta de quanto lhe oprimia estar ali. Tinha sido testemunha freqüentemente de violência e degradação, mas esse caso afetava seus sonhos e as lealdades que havia no mais profundo de seu ser e que lhe faziam ser o que era. Os assassinatos não eram mais brutais que outros, mas se tinham cometido em um lugar que tinha considerado inviolável.

Talvez também contava o fato de que as vítimas tivessem sido mulheres, a segunda não muito diferente do Charlotte, ao menos de origens e classe. Charlotte irradiava o mesmo calor; também tinha a mesma coragem e a mesma língua rápida. Mas era mais doce e imensamente mais feliz.

Esse caso estava transtornando os ideais do Pitt a respeito de seu monarca e pondo em perigo seus sentimentos.

Narraway não invejava esses ideais. Fazia muito tempo que tinha deixado de fazer-se ilusões a respeito das pessoas. A proximidade havia tornado-o realista. Custava acreditar que Pitt tivesse conservado tanto tempo sua ingenuidade. Devia haver resistido a ver o que não queria ver. Narraway se impacientava com ele ao mesmo tempo que se compadecia dele.

Pensou no rosto de Charlotte, os olhos, a curva de sua boca e de seu pescoço, e lhe inundou uma sensação de solidão. Nesse instante teria trocado todo seu saber e sua experiência por possuir a inocência de Pitt que tinha conquistado Charlotte. Era inocência ou esperança?

E se esses assassinatos de palácio acabavam com essa qualidade, o que perderia Pitt? Teria destruído a um homem a quem admirava, como acabava de descobrir com surpresa?

Pitt terminou seu chá e deixou a xícara, esperando que Narraway falasse. Estava com olheiras, com a pele cinzenta e pequenos cortes no queixo por onde se barbeara com estupidez. A ele também lhe revolvia ainda o estômago com a morte violenta, apesar do bem que o dissimulava? Sentia-se igualmente culpado como ele por não ter podido impedir a morte da Minnie Sorokine?

— Ainda tem Sorokine encerrado em seu quarto? - perguntou.

— Sim. Não houve alternativa - replicou Pitt com tristeza.

— Está convencido de que foi ele quem a matou? - Narraway não queria perguntar-lhe, mas precisava fechar o caso, e a expressão preocupada do Pitt não lhe deixava outra escolha. — Certamente ela deduziu que ele tinha matado à primeira mulher e ele não pôde permitir-se deixá-la com vida, porque cedo ou tarde o delataria.

Pitt falou devagar.

— Isso parece.

— Por que não está convencido?

Narraway ergueu a voz apesar de seu esforço por manter-se sereno e sob controle. Estava acostumado com a anarquia, a traição e a muita violência, mas nunca enfrentara uma aberração sexual. Havia algo excepcionalmente repulsivo na intimidade que desprendia o ato, como o fedor de uma enfermidade.

— Não manchou a roupa de sangue. - Pitt falou com cuidado, como se abrisse passagem entre um matagal de pensamentos. — Não há nem rastro exceto em uns poucos arranhões no rosto. Nenhuma só gota de todo o sangue escuro que brotou dela.

Narraway teve náuseas e notou o frio do suor na pele.

— Teve toda a noite para lavar-se - destacou.

Pitt sacudiu a cabeça.

— Encontramos a bacia e a jarra que tinha utilizado para barbear-se, mas a água estava limpa. Só havia sabão. E o que me diz da roupa?

— Despir-se-ia antes de fazê-lo - sugeriu ele. — Tampouco houve sangue na roupa de alguém a primeira vez. Parece ser sua forma de atuar.

Pitt franziu o cenho.

— Na primeira vez poderia tê-lo planejado, mas na segunda foi porque ela o desafiou. Custa acreditar que lhe pedisse que esperasse enquanto se despia e que logo voltasse para matá-la!

— Então, como o fez? - inquiriu Narraway, fervendo por dentro de decepção.

Pitt sabia tão pouco dos mistérios da anarquia como ele da natureza do assassinato.

— Não sei - replicou Pitt. — Estava afetado por sua morte, mas me pareceu totalmente cordato. Negou-o tudo.

Narraway se sobressaltou.

— Esperava que confessasse?

Pitt afastou o cabelo dos olhos com estupidez.

— Não é só o que disse mas como o disse. Não sei o que pensar. - Franziu o sobrecenho. — Há algo que me escapa. Espremi os miolos, mas segue faltando algo no raciocínio para que tudo se encaixe. Nem sequer estou certo do que estou procurando.

— Pois pense, pelo amor de Deus! - gritou Narraway desesperado. — Antes que seja muito tarde. Temos que deter alguém. Esta vítima não era uma prostituta, era a filha do Dunkel. Não podemos nos permitir nos equivocar. Se o fizermos e temos que reconhecê-lo, será o final da Brigada Especial. Nunca teremos um caso mais importante nos olhos do público que este quando sair à luz. E me acredite que o fará.

— Não vou condenar um homem inocente a uma vida infernal em um manicômio – replicou Pitt, suas feições endurecidas pela obstinação. — Esteve alguma vez em um desses lugares? Eu sim. Estará balbuciando em menos de um par de anos, embora não o fizesse quando entrou. Seria mais limpo e mais humano mandá-lo à forca. Às vezes ainda ouço os gritos do Bedlam em meus pesadelos.

Narraway se inclinou para diante.

— Pitt, não podemos nos permitir mais mulheres mortas, independentemente de se a ferrovia do Cabo ao Cairo é um êxito ou um fracasso. Um desses três homens assassinou a duas mulheres em quatro dias. A rainha voltará no transcurso desta semana.

Pitt não disse nada.

Narraway voltou a esperar, repassando mentalmente o que havia dito Forbes sobre o Julius Sorokine. Parecia um homem inteligente e civilizado, embora algo indolente, ou que dava por feito certos privilégios. O que podia ter passado para converter-se em um ser que tinha cortado o pescoço e aberto o estômago de duas mulheres?

— Algo desencadeou tudo - disse alto. — Averigue-o.

Pitt levantou a vista.

— Dois em quatro dias? Começou muito antes. A pessoa não está calma um dia e se torna um assassino sanguinário e louco de atar no seguinte, a menos que ocorra algo no meio que lhe destroce a mente, e não ocorreu nada. Estiveram sentados falando da ferrovia africana e fazendo planos de um futuro de riqueza e lucros para todos. Flertaram, concretamente a senhora Sorokine com o senhor Marquand. E a senhora Dunkeld está apaixonada pelo senhor Sorokine.

— E ele corresponde? - perguntou Narraway rapidamente. Era uma pista para a verdade?

Pitt deu ligeiramente de ombros.

— Não sei. Mas nada de tudo isto começou enquanto estavam aqui, e duvido que alguém descobrisse algo pela primeira vez. Embora tivesse sido assim, isso não explica o assassinato da prostituta. Não é um crime de ciúmes ou inclusive uma traição, é ódio surgido de algum tipo de loucura.

— Posto que esta loucura em particular está em estado latente a maior parte do tempo, o que a desata? - perguntou Narraway, com crescente urgência em seu interior.                                       — Você enfrentou antes a loucura, com pessoas que matam uma e outra vez até que as descobrem. Eu conheço a maldade, mas não a loucura. Me ajude, Pitt! Se revisar o histórico do Sorokine, o que devo procurar?

Pitt exalou um suspiro; havia cansaço e desespero nele.

— Obviamente outra morte como esta: uma mulher com o pescoço cortado e o estômago aberto. Antes disso, discussões violentas, um ódio irracional pelas mulheres, alguém que o tivesse menosprezado, deixado plantado ou feito algo que ele considerasse uma traição. Um temperamento explosivo. Isto teria que ter sido cuidadosamente abafado. Ele é diplomata. Procure alguém que carregue uma culpa ou que tenha algum assunto por resolver, possivelmente definido como um acidente.

Narraway refletiu uns minutos.

— Falei com Watson Forbes - disse por fim. — Está contra a ferrovia do Cabo ao Cairo. Acredita que servirá para explorar a África em prejuízo dos africanos e que em última instância será nocivo para todo o Império britânico, certamente no próximo século.

— Interessante - admitiu Pitt. — Mas não vejo que relação tem isso com os assassinatos. E você?

— Tampouco. Não parece ter nenhuma relação com a ferrovia só é uma grande coincidência que se cometessem aqui enquanto falavam sobre ele. Mas eu não gosto das coincidências. Conheci poucas que o sejam de verdade.

— Há outras coisas que não entendo - prosseguiu Pitt. — Se a senhora Sorokine deduziu a partir de toda essa informação solta como seu marido matou Sadie, e possivelmente por que, quero saber como o fez. Me parece ilógica e desconexa.

— Que informação? - perguntou Narraway.

— As garrafas de Porto cheias de sangue, um prato quebrado que ninguém admite que tenha existido, baldes de água que subiram e desceram discretamente pelas escadas. Os lençóis da rainha nos quais alguém dormiu, empapados de sangue. Como demonstra tudo isto que foi seu marido quem matou Sadie?

— Quem levou esses baldes de água? Não seria Sorokine.

— Não, os criados.

— E de que modo está relacionado?

— Não tenho nem idéia!

Narraway se levantou.

— Investigarei seu passado. E o dos outros, ao menos a partir de quando se cruzam.

Quinze minutos depois estava fora sob o sol e o vento. E uma hora mais tarde falava com um amigo dele que tinha conseguido uma fortuna com serviços de transporte e gastava grandes somas comprando e vendendo pedras preciosas. Conhecia a maioria das cidades mediterrâneas tanto da Europa como da África, e, é claro, os grandes centros de polimento de pedras preciosas e negócio de diamantes do Oriente Próximo. Chamava-se Maurice Kelter.

— Sorokine - pronunciou pensativo. — O que é, russo?

— É possível - replicou Narraway, cruzando as pernas e recostando-se na ampla poltrona de couro. Estava em seu clube, onde deveria estar relaxado. — Se é, sê-lo-á em terceira ou quarta geração. É um diplomata alto e de aparência agradável, de uns quarenta anos.

Kelter assentiu e bebeu um gole do uísque com soda que tinha ao lado.

— Sim, sei a quem se refere. Casado com a filha do Dunkeld, não? Uma mulher encantadora, embora um pouco pícara. Por que está interessado nele? Aconteceu algo?

Narraway sorriu, mas pareceu forçado.

— Acontecem coisas com freqüência. Que qualidade associaria com o Sorokine?

Kelter fez uma pequena careta.

— Com franqueza, provavelmente a indiferença. Não acredito que se esforçou nunca o suficiente para dar o melhor de si. Um tipo muito agradável, mas tudo lhe foi dado com muita facilidade. Posição, dinheiro, sem dúvida mulheres.

— Muitas mulheres? - apressou-se a perguntar Narraway.

Kelter abriu um pouco mais os olhos.

— É possível. Por que?

Narraway passou por cima a pergunta.

— Mau gênio? - perguntou.

Kelter sorriu.

— Que eu saiba não, mas, ...quer ouvir um rumor pouco fundado?

— Se for tudo o que pode me oferecer... - Ao Narraway desagradavam as insinuações, mas freqüentemente eram o ponto de partida de uma investigação. — Mau caráter? - insistiu de novo.

Kelter deixou seu uísque.

— Houve um assunto particularmente desagradável faz uns anos em Cidade do Cabo. Uma mulher mestiça foi assassinada. Cortaram-lhe o pescoço e lhe abriram o estômago. Nunca se soube quem o tinha feito. Era uma espécie de prostituta, de modo que não se investigou tão a fundo como se tivesse sido uma mulher decente ou branca.

Narraway se mostrou cético. Podia ser tão fácil?

— De que modo esteve relacionado Sorokine?

Kelter se encolheu de ombros.

— Não sei. Houve rumores. Ao que parece conhecia a mulher, tinha algum tipo de relação com ela.

— Investigou-o a polícia?

Kelter suspirou.

— Estamos falando de uma prostituta mestiça dos subúrbios de Cidade do Cabo, Narraway. Ninguém investigou. Só fizeram umas poucas perguntas. Os homens iam e vinham, mineiros, comerciantes, exploradores, aventureiros, de todas as nacionalidades, ex-patriotas que não podiam voltar para seus países, bêbados e fugitivos de todo tipo. Poderia ter sido qualquer um.

— Quem disse que tinha sido Sorokine?

Kelter franziu o sobrecenho.

— Agora que penso, não estou certo. Não houve muito mais que olhares e gestos. Não o segui porque, com franqueza, não me importava. Nesse momento estavam acontecendo coisas muito mais interessantes.

Narraway não o pressionou, mas havia outras pessoas que conhecia que lhe deviam favores e nesse momento as buscou. Não resultou fácil eliminar o apresso de sua atitude. Sabia que se traísse suas necessidades, abriria a possibilidade de que lhe mentissem, e que, no futuro, os favores que lhe fizessem agora teria que devolvê-los, talvez em um momento que não pudesse permitir-se.

Entrou em outra sala abarrotada onde a fumaça dos charutos se mesclava com o cheiro de sofás de couro e a uísque de malte antigo. Às vezes adorava o jogo de perguntas e contra perguntas, talvez porque se dava bem. Via o respeito nos olhos de outros, a admiração comedida e um medo igualmente comedido. Aquele dia estava cansado. Medir continuamente as palavras, até os gestos, a profunda solidão que implicava pesava sobre ele. Pitt se sentia apanhado no sufocante protocolo do palácio, mas só seria por um breve espaço de tempo, dias quando muito. Logo voltaria ao lado do Charlotte, a calidez e a harmonia, a uma segurança interior que Narraway jamais teria. Mesmo que todas suas ilusões se desvanecessem e as lealdades de toda sua vida ficassem destruídas, Pitt sairia ileso. Nada poderia alcançar o que estava seguro em seu interior. Tinha alguma idéia de quão afortunado era?

Rodeou uma esquina e achou ao homem que procurava. Sentou-se frente a ele, sabendo que o estava importunando em um momento de tranqüilidade, e também que não se atreveria a despedi-lo.

Mas se ele não jogasse esses jogos, quem o faria? Durante longos anos não tinha desenvolvido outra habilidade que a de utilizar ao máximo as capacidades da mente ou a perspicácia que tanto tinha aperfeiçoado.

Welling levantou a vista e saiu do estudo no qual tinha estado absorto.

— Atrás de quem anda? - perguntou.

— Sorokine - respondeu Narraway.

— Está morto - disse Welling. — Era um bom homem. Morreu faz cinco anos. Surpreende-me que não saiba. - Em seus olhos havia um ligeiro brilho de satisfação.

— Julius Sorokine - o corrigiu Narraway.

Do rosto do Welling desapareceu parte do prazer.

— Ah, sim. O filho. Um bom homem também, mas muito bonito para seu próprio bem. Não tem que esforçar-se muito. Suponho que isso poderia mudar. Parecia que estava pondo um pouco mais de energia nos meses passados, mas tornou a afrouxar.

— Afrouxar? - Narraway estava surpreso. Não parecia estar relacionado com o assassinato de Cidade do Cabo que investigava, mas lhe interessou porque não tinha sentido. Devia investigar qualquer anomalia. — O que está fazendo?

— Pelo amor de Deus, Narraway, não me trate como se fosse estúpido! - exclamou Welling com impaciência. — Está negociando para construir essa maldita ferrovia do Dunkeld. Falando com belgas e alemães, e de todos os terrenos africanos que há até o Cairo.

— E afrouxou? Por que? - Desta vez Narraway estava realmente interessado, apesar de si mesmo. De repente Sorokine era um homem mais complexo do que tinha acreditado. — Abordou-o alguém mais? - Era um pensamento desagradável, ante uma traição particularmente ofensiva, certamente por dinheiro.

Welling sorriu, mas curvando os lábios para baixo.

— Duvido. Não há ninguém mais que esteja em situação de competir com o Dunkeld, já que Watson Forbes não está interessado. De todos os modos, Sorokine está casado com a filha do Dunkeld. Iria contra seus próprios interesses.

— Então por que? Só por indolência?

Welling deu de ombros.

— Não sei mais que rumores, fragmentos de falações que não valem grande coisa.

— Sabotagem? - sugeriu Narraway.

Tinha investigado alguém o assassinato do Cabo e tinha descoberto algo, inclusive um segundo crime em outra parte, e o tinha chantageado? Custava-lhe acreditar, simplesmente porque o assassinato parecia ser fruto de explosões de uma escuridão mental que ninguém podia controlar, fosse qual fosse a ameaça.

— A sabotagem sempre é uma possibilidade - respondeu Welling o interpretando mal. — Mais de onze mil quilômetros de vias, a maior parte desprotegida? Desculpe-me, mas é uma pergunta estúpida.

— Não me refiro às vias - disse Narraway, — mas ao projeto em si.

— Para tirar do meio Sorokine? Suponho que é possível. Mas seria muito em curto prazo e duvido que valesse a pena incomodar-se. - Welling se ergueu um pouco mais em sua poltrona com um olhar penetrante. — Atrás do que anda, Narraway?

— O que se está dizendo exatamente por aí? - Narraway passou por cima a pergunta.

— É grave? - Welling piscou. — Ouvi dizer que a lealdade do Sorokine para o projeto não está clara. Alguém esteve lhe falando de ramais laterais que vão do interior ao mar em lugar de um longo eixo que percorra a África de cima abaixo. O verdadeiro futuro do Império britânico está no domínio do mar, não na África. Construir uma ferrovia para levar madeira, marfim, ouro e demais do interior aos portos. Deixar que os países africanos tenham seu próprio transporte independente, que o construam e eles mantenham os mesmos; enquanto, nós transportaremos as mercadorias a todo mundo. É o que sempre temos feito. Exploramos o mundo, colonizamo-lo e comerciamos com ele. A África nunca foi um continente marítimo. Deixemos que continue assim. – Observava o rosto do Narraway mais atentamente do que parecia, com os olhos entrecerrados.

Narraway deu voltas à idéia na cabeça. De entrada lhe pareceu reacionária: a negação da aventura, o comércio, o brilhante avanço de engenharia que seria a ferrovia do Cabo ao Cairo. Depois caiu na conta de que não se tratava de negar uma nova exploração ou uma construção, mas simplesmente da escala de tudo isso. Seguiria havendo novos projetos, mas lateralmente, deste ao oeste em lugar do norte ao sul. A diferença estava em que a ferrovia pertenceria a todas as nações afetadas e não ao Império britânico.

A chave seriam os navios, não os trens. E os britânicos tinham sido os donos do mar desde os tempos de Nelson e da iniciativa marítima da derrota da Armada Invencível, na época da rainha Isabel I. Os navios britânicos comerciavam com todos os portos e através de todos os mares.

— E Sorokine lhe fez conta? - perguntou alto.

— Isso entendi - replicou Welling. — Mas poderia ter mandado o homem ao inferno, pelo que sei. O que ouviu você? E por que lhe importa? A ferrovia do Cabo ao Cairo é assunto da Brigada Especial?

— Não - respondeu Narraway com sinceridade. Voltaria a necessitar ao Welling em outra ocasião. Mentir destruiria a futura confiança. — Está relacionado com o homem, não com o projeto. Ao menos isso acredito. Conhece o Sorokine pessoalmente?

— Encontrei , mas não posso dizer que o conheça. Por que?

— É mulherengo?  

— Provavelmente. É muito bonito. Não tem que esforçar-se muito. - Desta vez olhava ao Narraway intrigado. — Está pensando no maldito assunto de Cidade do Cabo com a prostituta? Não houve provas de que fosse ele, só rumores e, com franqueza, acredito que descobriria que a maioria provinha do Dunkeld.

— Por que ia divulgar Dunkeld algo assim sem fundamento? Sorokine está casado com sua filha - indicou Narraway.

Welling suspirou.

— Às vezes você é tão preparado e matreiro que lhe escapa o que um homem mais sentimental e com o cérebro menos ocupado saberia de forma instintiva. Dunkeld é possessivo, sobretudo com sua filha. Sorokine se sentiu atraído por ela de entrada, mas se aborreceu em seguida. Carece de fundo afetivo.

— Sorokine ou Minnie Dunkeld? - perguntou Narraway.

Welling sorriu.

— Provavelmente os dois, mas me referia a ela. O amor ou o ódio são desculpáveis, mas uma mulher como Minnie nunca perdoará a um homem que se aborreceu dela, seja de quem for a culpa. Iria bem apaixonar-se, Narraway. Compreenderia muito melhor as forças da natureza. Se sobrevivesse. - Tirou uma caixa prateada do bolso. — Quer um charuto?

— Não, obrigado. - Narraway conteve com esforço a sensação de que se intrometeram em sua vida. — Acredita que Sorokine teve algo que ver com a mulher de Cidade do Cabo? - perguntou com frieza.

— Não. - A expressão do Welling não deixava lugar a dúvidas. — Quem o fez estava louco de atar. Se continuar vivo, neste momento estará jogando espuma pela boca, e certamente tornou a fazê-lo, provavelmente várias vezes. - Lhe caiu da boca o charuto sem acender. — Deus Todo-poderoso, é isso o que ocorreu?

— Não me obrigue a lhe deter por traição - disse Narraway com um tremor na voz que preferiria ter controlado. — Gosto de você e isso me faria muito infeliz.

— Duvido muito que seja Sorokine. - Welling estava nervoso. Recolheu o charuto para dar-se um pouco de tempo antes de responder. — Não acredito que tenha o caráter. Mas me enganaram outros antes.

Narraway tratou de pensar em outras perguntas que fazer, algo que abrisse outra linha de investigação. Uma mulher tinha morrido na África e o método empregado era aparentemente o mesmo que o que tinham utilizado no palácio. Sabia que Welling o observava. Seria uma estupidez subestimar sua inteligência.

— Me fale mais do crime da Cidade do Cabo – disse.

Welling deu de ombros.

— Uma prostituta mestiça com os melhores traços das duas raças, como ocorre freqüentemente, os ossos finos dos brancos, e a cor e a graciosidade dos negros, mas que não era aceita nem por uns nem por outros. Ganhava dinheiro como podia, quem podia censurá-la? Ninguém queria casar-se com ela: era muito branca para os negros, com idéias que estavam acima de sua posição. E muito negra para os brancos, que não podiam levá-la a casa de seus pais. Mas era muito formosa para não despertar luxúria.

Acendeu o charuto e o chupou medindo.

— Acabou no chão de um prostíbulo, com a garganta rasgada e o estômago aberto. Nunca se soube quem o fez.

— Mas Sorokine estava ali?

— Só na região. Como um montão de homens brancos.

— Tinha que ser um homem branco?

— Aparentemente. Era um lugar onde estava proibida a entrada de negros.

Narraway guardou silêncio. Era um assunto desagradável, ambíguo e pouco concludente. Além disso, parecia-se inquietantemente aos crimes recentes. Finalmente agradeceu ao Welling e partiu.

Fez algumas perguntas mais, se por acaso se inteirava de outros assassinatos de mulheres encargos de forma similar e relacionados de algum modo com o Sorokine, Marquand ou Quase. Ouviu histórias, possibilidades. Sempre eram crimes realizados em grandes cidades ou em populações situadas nos limites de lugares inexplorados onde havia muitos homens e poucas mulheres. Nada encaixava exatamente, embora vários poderiam haver-se aproximado o bastante. Não se mencionou o nome do Julius Sorokine.

Por último foi ver uma vez mais ao Watson Forbes. Já se tinha feito de noite e era de má educação importunar a alguém a essa hora, mas não hesitou em fazê-lo.

Forbes se mostrou educado, como sempre.

— Parece cansado - observou. — Comeu?

— Ainda não - confessou Narraway.

Forbes tocou a campainha e quando acudiu o criado, pediu-lhe rosbife frio, molho de rabanete picante e pão com manteiga.

— Talvez prefira um chá antes que um uísque - sugeriu.

Narraway teria preferido o uísque, mas aceitou o chá. Forbes tinha razão, era mais prudente. Falaram de trivialidades até que chegou a comida e o criado se retirou.

— Suponho que continua preocupado pela ferrovia - disse Forbes assim que ficaram a sós. — Não posso lhe dizer nada que lhe seja de utilidade. Fui mais que franco ao lhe dar minha opinião.

— Sei - respondeu Narraway. Engoliu a saliva. — Falei com outra pessoa que é partidária de construir linhas laterais deste ao oeste, para os portos, em lugar de uma só do norte ao sul. A suposta potência histórica de Grã-Bretanha está no mar. Deveríamos ampliá-la e permitir que seja a África quem se desenvolva por si mesma.

Forbes abriu um pouco os olhos, mas de forma quase imperceptível, quase como se não quisesse que se notasse.

— Seriamente! Algo... conservador, mas talvez tenha razão. Não parece uma grande aventura. Era uma pessoa idosa, suponho.

Narraway sorriu.

— Acredita que é a visão de uma pessoa idosa?

— Não é?

— Acredito que ele o via, como a visão de um homem que quer construir sobre o que já temos, tanto física como moralmente, em lugar de arriscar tudo em uma nova aventura que poderia ser perigosa em ambos os sentidos.

Forbes sorriu.

— É possível. Aprovo sua resistência a dividir a África, mantendo todos os lugares importantes em mãos britânicas. Veio me dizer isso?

— Não. Duas ou três pessoas me mencionaram um incidente ocorrido em Cidade do Cabo. Uma tragédia que poderia ter relação com o presente.

— Com o projeto do Dunkeld? - perguntou Forbes.

Produziu-se um silêncio na sala, como uma espera.

— É possível.

Narraway se tinha debatido sobre como pedir ao Forbes a informação sem lhe falar da crise do momento. Se Sorokine era ser culpado, não importaria. O medo do escândalo passaria. Podia mencionar o crime, já que a morte da Minnie Sorokine não se ocultaria, mas podia e devia mentir sobre os detalhes, particularmente sobre o lugar e as circunstâncias. Talvez até fosse necessário dizer que Julius também tinha morrido.

— Do que se trata? - perguntou Forbes, com voz muito firme.

Talvez fossem necessárias mais mentiras.

— Um assassinato que teve lugar na Cidade do Cabo faz vários anos - respondeu Narraway com toda a naturalidade de que foi capaz.

— Seriamente?

O silêncio se fez mais intenso.

Narraway estava a ponto de continuar, mas percebeu certo conflito de emoções no rosto do Forbes que lhe fez titubear. Forbes tratava de tomar uma decisão. Narraway terminou a carne e passou manteiga em outra fatia de pão. Tinha comido quando Forbes por fim falou.

— Dado que está preocupado pelo Sorokine, imagino que também lhe preocupa o assassinato da mulher que, pelo que eu sei, nunca foi resolvido.

Narraway tragou o último bocado.

— Isso temo. Ouvi todo tipo de rumores, nada sério, mas o suficiente para estar preocupado.

Forbes pareceu surpreso.

— Devido à participação do Sorokine na ferrovia?

Talvez fosse necessário oferecer por fim um elemento de verdade para empurrá-lo a ser sincero.

— Sim. É possível que o príncipe de Gales empreste apoio ao projeto.

— Entendo. Agora compreendo por que lhe preocupa à Brigada Especial. - Forbes tinha uma expressão estranhamente inescrutável. — Tomara pudesse tranqüilizá-lo. Sorokine é sem dúvida o homem mais capaz que conheço para ocupar-se dos aspectos diplomáticos. Seu pai era hábil e tinha muito bons contatos. Acredito que Julius é ainda mais, e é claro, os contatos seguem aí. Poderia vencer certa falta de dedicação, se quisesse. Acredito que está nele.

— Mas... - pressionou Narraway. Era coisa de sua imaginação ou fazia frio na habitação, como se já tivesse passado o verão?

— Mas não posso afirmar que não estivesse envolvido no assassinato da mulher, - terminou Forbes. — O sinto, mas acredito que é mais que provável que o estivesse. Não sei se alguma vez conseguirá prová-lo nem como se inteirou do assunto. Mas já que está informado, é melhor que saiba a verdade. - Parecia resignado. — Ele estava ali e parece que tinha relação com a mulher. África pode ter efeitos estranhos nas pessoas. Pode lhes fazer esquecer as leis que respeitariam de forma natural em seus próprios países.

Tomou ar e o exalou devagar.

— Não tenho provas, mas se eu fosse responsável da o honra e a reputação do herdeiro ao trono, não permitiria que se associasse com Sorokine. Não pode permitir o escândalo que se armaria se viesse à luz o assunto. Suponho que por essa razão me perguntou antes se o projeto poderia ter inimigos. É claro que os terá, e virão desses mesmos homens que viveram na África. E tanto se os mover a inveja, a avareza, o altruísmo ou o ódio pessoal, já estarão à corrente disso ou se encarregarão de averiguá-lo.

— Obrigado - disse Narraway com tristeza. — Lhe agradeço sua franqueza.

Sentia-se estranhamente só e desiludido quando saiu da casa do Forbes e desceu os degraus dianteiros até a rua. Era como se um grande sonho, um conceito de nobreza e visão, derrubasse-se inesperadamente, deixando atrás só pó.

Pensou no Pitt em seu quarto do palácio, e em como devia estar enfrentando também a desilusão. Seria bastante honrado e valente para admiti-la, se fosse verdade? Parte dele esperava que não; Pitt já tinha tanto da verdadeira riqueza da vida!

Posteriormente se desvaneceu esse sentimento. Esperou de todo coração que Pitt achasse a coragem. Se fosse um homem de fé, teria rezado. Havia vezes em que alguém se sentia vazio sem algo maior e melhor que a própria pessoa no que acreditar.

 

Depois que Narraway se foi, Pitt deixou de fingir e pediu a Tyndale que chamasse Gracie. Ela chegou dez minutos depois, com uma bandeja de chá com três torradas com manteiga e um pratinho de geléia. Deixou-a na mesa e ficou mais ou menos em posição de sentido. Estava muito miúda, desventurada e um pouco enrugada.

— Sente-se - disse ele com suavidade. — Agradeço o chá, mas só era uma desculpa para chamá-la.

Ela obedeceu.

— É verdade que a carregaram como a pobre mulher do armário? - perguntou.

Franziu o rosto enquanto procurava nos olhos do Pitt, temendo o que podia achar neles.

Ele tratou de dissimular todo sinal de pânico.

— Sim, quase exatamente igual. Deve ter sido a mesma pessoa. Disse que esteve fazendo perguntas todo o dia.

— Sim. - Ela fez um gesto de assentimento. — E acredito que sabia quem o tinha feito. Tinha-o escrito no rosto, e em sua forma de andar, cada vez mais nervosa. Analisou tudo e lhe achou sentido, embora para nós não o tenha.

— Me diga outra vez com quem falou e tudo o que saiba sobre isso.

Ela assentiu, com os lábios apertados. Ele percebeu em todos os ângulos de seu miúdo corpo que temia por ele.

— Não sei tudo - começou a dizer ela. — Porque não a pude seguir sempre. Poderia ter falado também com outros. Mas esteve em cima de Biddie e Norah com a questão dos lençóis, e também sobre o Mags, e ao Edwards perguntou pelos baldes que subiram e desceram pelas escadas da outra parte. - Assinalou vagamente. — Este lugar é tão grande que nunca estou certa de aonde vão outros, mas era fora desta ala, em um desses lugares onde não nos está permitido entrar. E voltaram com pedaços de porcelana quebrada.

Parecia ainda mais infeliz.

— Perguntei ao senhor Tyndale e teve uma reação estranha, como se tivesse muito medo. Nunca lhe tinha visto assim, um tipo tão rígido e correto como ele. O que acontece, senhor Pitt? É porque o que o fez está louco? É isso o que lhe assustou tanto? Como se o proibido tivesse entrado no palácio, que se supunha que estava protegido da realidade?

— É possível, Gracie - disse ele. Tinha lhe passado pela cabeça essa idéia e o surpreendeu que ela o tivesse visto com tanta clareza. Doía-lhe tanto como a ele? Talvez a desilusão era a mesma para todos. — Mas há algo mais. Sabia a senhora Sorokine das garrafas de Porto?

Ela sacudiu a cabeça.

— Não sei. Não vejo como ia saber. A menos que alguém mais as tivesse encontrado e o houvesse dito. Mas suponho que se as tivesse visto alguém as teria tirado, pelas moscas. Não iria dizer o correndo aos hóspedes, não? E ela não teria perguntado, porque o que ia dizer? "Perdão, mas viu umas velhas garrafas de vinho cheias de sangue?"

— De todos os modos - disse Pitt pensativo, — pergunto-me se sabia ou imaginava. Ou se tiveram algo a ver com o assassinato. - Enquanto o dizia, não podia acreditar.                 — Isso significa premeditação - disse alto.

— O que? - Ela franziu o sobrecenho. — Beba seu chá, senhor Pitt. Não ajudará que se esfrie.

— Não. Obrigado. - Distraído, serviu-se, vagamente consciente da fragrante fumaça que se ergueu no ar. — Isso significa que não foi um crime de loucura repentina, sem pensar, como quem perde o controle. Se alguém levou sangue em umas garrafas é que o tinha planejado tudo de antemão. Não pode encher tão facilmente de sangue uma garrafa de vinho. É preciso um funil e jogá-la com muito cuidado.

Gracie franziu o sobrecenho.

— É claro - disse. — Mas de quem era o sangue e para que?

— Uma diversão - respondeu ele. — Poderia não ser mais que isso. E poderia ser todo tipo de sangue, de boi, de ovelha ou de coelho. - Estendeu geléia na primeira torrada e deu uma dentada.

— Não é muito sangue para um coelho? - indicou Gracie, sempre prática. — Também poderia conseguir-se em um açougue. Acredita que trouxeram o sangue para jogá-lo nos lençóis da rainha e nos assustar tanto que não olhássemos mais de perto?

Ele sorriu. Perguntou-se o mesmo.

— Mas não vai funcionar, não é? - perguntou ela ansiosa, tratando de lhe ler o olhar.

— Não - respondeu ele. — Não deixaremos de procurar a verdade, seja qual for.

Viu-a relaxar-se e se deu conta do conflito de emoções que havia em seu interior, todas elas encabeçadas pelo medo à desilusão. Nem sequer tinha pensado nisso. Era a dor que o tinha atirado dos bordos de suas próprias emoções desde que tinha chegado ali. Não queria ver a fragilidade daqueles a quem tinha admirado desde menino, acreditando-os não só privilegiados, mas também excepcionalmente dignos da honra. Apesar de todas as fraquezas do gosto e inclusive da lealdade mútua, tinha imaginado que amavam os mesmos valores que o mais exemplar de seus súditos. Tinha dado por feito que aceitavam a responsabilidade de seus próprios atos, bons ou maus, da bondade e verdade, do valor da amizade e da gratidão pela boa fortuna.

Ela o olhava tranqüilizada.

— O que quer que faça, senhor? Tem as garrafas, mas posso tratar de averiguar se a senhora Sorokine perguntou por elas.

O primeiro que pensou Pitt foi no perigo que corria Gracie.

— Não, não pode fazê-lo sem dizer que as achou.

Ela o olhou com os olhos muito abertos.

Pitt tinha ferido seus sentimentos ao rejeitar sua ajuda.

— Não poderia explicá-lo a menos que dissesse que as achou - disse, desejando havê-lo expresso assim desde o começo. — Não posso me permitir que averiguem quem é, e alguém poderia deduzi-lo.

— Não tem certeza de que o fizesse ele, não é? - disse ela horrorizada.

Ele não tinha caído na conta de que Gracie devia sabê-lo. Tinha dado instruções ao Tyndale de que não entrasse ninguém do pessoal no quarto de Julius Sorokine e de que só lhe levasse a comida, levando um criado consigo. A notícia devia haver-se propagado como o fogo entre a criadagem. De repente todos deviam haver-se sentido seguros. O mistério se resolvera e o louco estava preso. Gracie devia ter assumido o mesmo. Agora o olhava com uma compreensão mais clara que a sua. Talvez seu medo à desilusão não proviesse da casa da rainha, mas sim dele. A idéia lhe feriu no mais profundo de seu ser.

— Se formos prendê-lo o resto de seus dias, temos que estar seguros além de toda dúvida - respondeu, tratando de convencer-se a si mesmo. — Ao menos eu.

Ela assentiu devagar.

— Bom, se não foi ele, então foi outro - disse em voz baixa. — Averiguarei se a senhora Sorokine sabia sobre as garrafas ou não. Fá-lo-ei sobre tudo por mim, porque preciso saber para que era esse sangue e como chegou até aqui.

— Gracie, tome cuidado.

— Também tome cuidado, senhor Pitt - respondeu ela ferozmente. — Se não foi o senhor Sorokine, tem que ser um dos hóspedes. Não é um dos criados, de modo que não irá por mim. Pode ser que esteja louco de pedra, mas não é estúpido. E isso não é a única coisa que está acontecendo aqui, senhor. Eu não gosto de dizer, mas há algo terrível que o senhor Tyndale sabe e que não quer que ninguém mais saiba.

— Então não indague! - disse ele com brusquidão. — É uma ordem. Ouviu-me?

Ela ficou sentada muito rígida.

— Sim, senhor, é claro que o ouvi. Posso ir já? Se não quer que se inteirem ainda de quem sou, então é melhor que não esteja aqui mais tempo de que possa explicar.

Ele a viu sair com certa apreensão, como se a solução que tinha encontrado já lhe estivesse escapando das mãos, escapando a seu controle.

Pegou outra torrada e a comeu sem reparar em seu sabor.

Podia ter confiado Minnie em alguém mais, fazendo perguntas que talvez tinham deixado ver o curso de seus pensamentos? Talvez não fosse relevante para o caso, mas para ele sim, compreender o que tinha ocorrido e ver todas as peças encaixadas. Tratava-se de algo mais que simples orgulho ferido pelo fato de que Minnie Sorokine tivesse sabido atar todos os cabos e ele não. Enquanto não visse as conexões, temia que se cometesse um engano e que a conclusão fosse equivocada. Atormentava-o que estivessem provando um crime de loucura incontrolável que se cometeu com minuciosa e intrincada previsão.

Em quem podia ter confiado Minnie, além de seu pai? Os homens tinham estado ocupados com o projeto a maior parte do dia. Não teria falado com Elsa; a relação entre elas estava carregada de tensão. Os sentimentos de Elsa por Julius e a lealdade de Minnie por seu pai faziam que a amizade entre ambas fosse impossível.

Olga Marquand, consumida em sua própria infelicidade, devia ter odiado a Minnie o suficiente para havê-la destruído pessoalmente se pudesse. Isso significava que tinha que ser Liliane. Estava menos assustada agora?

Pitt a encontrou passeando sozinha pelos jardins, perto dos canteiros de flores. As cores vivas e a perfeita ordem pareciam zombar da agitação com que se movia, e de sua expressão absorta sob um chapéu de aba longa que lhe protegia a tez do resplendor do sol.

Falou-lhe quando ainda estava a dois ou três metros, porque viu em sua atitude que não o tinha ouvido aproximar-se.

— Bom dia, senhora Quase.

Ela se deteve e se voltou devagar. No meio do calor e da fragrância do silencioso jardim estava ainda mais formosa que no ambiente formal das grandes estadias do palácio. Tinha os olhos de cor castanha dourada e o cabelo que aparecia sob o chapéu brilhava como cobre gentil, mas mais claro e mais delicado.

— Bom dia, inspetor - respondeu. — Se perdeu?

— Não no sentido literal - replicou ele. — Esperava poder falar com você um momento. - Não pedia permissão, só expressava educadamente sua intenção.

— Metaforicamente então? - disse ela, mas em seguida se perguntou se tinha utilizado uma palavra incompreensível para ele. Por seu sorriso soube que não, que compreendia sua confusão, e se ruborizou, mas teria sido chato desculpar-se. Em lugar disso se apressou a dizer: — Achava que estava certo de que tinha sido Julius. Cahoon parece acreditar nisso. Mas o pobre está destroçado. Surpreende-me que só o deixasse inconsciente.

Olhou além dele, para as fileiras ordenadas de flores e a grama perfeitamente talhada, tão uniforme como uma mesa de veludo verde. Ouvia-se um débil zumbido de abelhas e de vez em quando chegava uma rajada de perfume.

— Não somos muito civilizados, não é? - comentou. — O verniz não é mais grosso que uma capa de pintura. Ficaria surpreso do horror que se esconde debaixo de algo tão comum.

— Parece que a senhora Sorokine viu com muita clareza através da pintura. - Lhe tinha dado a perfeita chance.

Esticou os ombros. Lhe marcava o pulso no pescoço.

— Acredita que essa foi a razão pela que a mataram? Viu algo com o que um de nós não podia viver? Ou com o que não podia deixá-la com vida?

— Sim. Você não? - perguntou.

— Suponho que é a única resposta que tem sentido.

Tão evidente era que ele se referia ao assassinato da prostituta que ela não achava necessário dizê-lo, ou temia que fosse outra coisa, outro segredo?

— Sempre tinha tanta curiosidade a respeito dos atos e motivações das pessoas? -insistiu ele. — Anteontem esteve fazendo muitas perguntas, sobretudo aos criados.

Ela franziu o sobrecenho.

— Sim? Não sabia. Mas mal a vi. Certamente, lançou muitas indiretas durante o jantar, como se estivesse resolvida a provocar a alguém. Pensei que era ao Cahoon, mas é evidente que foram dirigidas ao Julius.

— Falou com você ou com alguém mais antes de jantar, senhora Quase? Sabe?

Refletiu uns momentos antes de responder. Uma mariposa revoou sobre as flores e se posou no centro de uma. Ao longe ladrou um cão.

— Perguntou-me se meu marido tinha dado vinho ao príncipe de Gales - respondeu. — E perguntou o mesmo à senhora Marquand.

— E o tinha feito algum, que você saiba?

— Não. Suponho que foi Cahoon. Se tivesse sido Julius, ela já o teria sabido, ou o teria perguntado a ele.

De modo que Minnie tinha sabido sobre as garrafas de vinho ou tinha adivinhado para que as tinham utilizado!

— Obrigado, senhora Quase.

Ela o olhou com curiosidade.

— O que tem a ver o vinho? Nas adegas do palácio estão os melhores do mundo, em grandes quantidades.

— Acredito que o que lhe interessava eram as garrafas, não o vinho. Mencionou uma porcelana quebrada?

— Não. Por que? - Ela estremeceu. — O que importa agora, inspetor? Não terminou tudo? A pobre Minnie fez muitas perguntas e averiguou algo que mais teria lhe valido não saber. Sei que é uma estupidez. A pessoa pode proteger a seus seres queridos de certas coisas, de cometer pequenos enganos, mas não do assassinato. Suponho que esse homem está louco. - Afastou o olhar do Pitt e o posou nas flores. — Conheci o Julius antes que conhecesse a Minnie, sabe? Poderia me haver casado com ele, mas meu pai se opôs. Talvez tivesse mais vista que eu. - Havia dor em sua voz surpreendentemente áspera.

— Foi na África?

Ela ficou rígida de uma forma quase imperceptível. Respondeu com voz tão rouca e fraca que ele mal a ouviu.

— Sim.

Pitt recordou que seu irmão tinha morrido ali. Era essa a tragédia que ainda a comovia?

— Mas conheceu o senhor Quase e se casou com ele. Acredita que seu pai sabia algo da personalidade do senhor Sorokine que o fez opor-se a suas bodas?

— Não me disse isso. Foi... um momento difícil para nós. Meu irmão morreu em circunstâncias terríveis... no rio. - Esforçou-se por manter a voz sob controle. — Hamilton foi maravilhoso. Ajudou aos dois. Fez todas as gestões, ocupou-se de tudo. Aprendi a valorizar sua fortaleza, sua bondade, sua extraordinária lealdade. Depois disso... Julius me pareceu... superficial. Dava-me conta de que meu pai tinha razão. - Ficou imóvel, com as costas e os ombros rígidos. - Pobre Minnie, tão forte, tão segura de si mesma, tão... tão cheia de espírito e de paixão... e ao final tão néscia.

Tudo o que dizia era certo, e Pitt se perguntou se a falecida lhe tinha se agradado. Não havia nada nela que lhe permitisse confirmá-lo.

— Senhora Quase, comentou-lhe algo sobre o que averiguou de todas essas perguntas? Preciso saber.

— Por que? Tudo terminou e Minnie está morta. - Havia um curioso tom definitivo em sua voz.

— Ainda não terminou - corrigiu ele. Desagradava-lhe falar com suas costas. Não lhe via o rosto. Fazia de propósito. — Ainda não demonstrei o que aconteceu - continuou.             — Nem por que mataram à prostituta e todo o resto que parece ter tão pouco sentido.

— Realmente importa? - Percebia-se um medo mal dissimulado em sua voz.

— Sim. Não quer que se esclareça tudo antes de ir-se?

Ela insistia em lhe dar as costas.

— Imagino que iremos logo. Não sei como vamos continuar com o projeto sem o Julius. E duvido que Cahoon se veja com forças para continuar, ao menos por um tempo.

— Doer-lhe-ia muito? Ou a seu marido e ao senhor Marquand?

Ela se voltou para ele, surpreendida.

— Não sei. Cahoon sempre foi o mais interessado. Suponho que procurará outro diplomata para substituir ao Julius.

— Disse-lhe algo a senhora Sorokine sobre o que deduziu? - perguntou ele uma vez mais.

Clareou a vista.

— Disse que sabia onde tinha acontecido - replicou. — Um comentário algo absurdo, tendo em conta que todos sabemos que aconteceu no armário da roupa branca. Pensei que só tratava de chamar a atenção. Envergonha-me dizê-lo agora.

— Obrigado, senhora Quase. Mencionou uma porcelana quebrada?

— Não. - Em seu rosto havia rejeição. — Mas isso não é muito relevante, não? -voltou-se e pôs-se a andar pela grama.

Ele não a seguiu, mas encaminhou-se de novo para a entrada do palácio, dando voltas a suas palavras na cabeça. Só parecia haver uma conclusão possível: Sadie não tinha morrido no armário onde a tinham encontrado, apesar do sangue.

Mas assim que entendeu um dos fatos, deixou de entender outro. Os lençóis estavam empapados de sangue; além disso, nem sequer um louco a teria matado em um lugar e teria levado o corpo nu e sangrando a outro.

Tinham-na atacado, mortalmente inclusive, e a tinham tido envolvido nos lençóis para que não a encontrassem em um lugar relacionado com uma pessoa em concreto? Depois tinham descido à lavanderia os lençóis da rainha nos quais a tinham transladado, com a esperança de que não as descobrissem nem as examinassem tão atentamente para identificar? Isso começava a ter mais sentido.

Mas onde a tinham matado, então? Na cama de quem? Certamente na do Julius Sorokine. Como se tinha informado Minnie?

Voltava a estar dentro do palácio. Interrogou pacientemente a todos os membros do pessoal a quem Gracie tinha visto falar com a Minnie no dia anterior a sua morte. Cada um repetiu o que lhe havia dito, embora lhe levasse um tempo fazê-los falar sem revelar que alguém os tinha ouvido.

Minnie tinha seguido uma curiosa pista com crescente expectativa. Tinha perguntado pelos lençóis. Tinha mostrado muito interesse nos pedaços de porcelana chinesa, de onde tinham saído, e que cor e forma tinham. Isso, ao que parecia, tinha perguntado ao senhor Tyndale, quem lhe tinha dado uma resposta súbita e cortante. Também tinha mostrado interesse no lacaio que tinha subido e descido baldes de água, mas não havia nada que sugerisse que tinha conhecido a existência das garrafas de Porto encontradas por Gracie.

O outro foco de suas perguntas tinha sido a chegada e a saída das mulheres, e a entrega da grande caixa cheia de livros e papéis para o Cahoon Dunkeld. Exatamente quando tinha chegado e onde estavam agora esses livros?

Pitt estava totalmente confuso. Tinham chegado três mulheres, das quais duas partiram e a terceira tinha sido encontrada morta. O carreteiro não tinha estado só em nenhum momento nas proximidades do piso de cima, para não falar dos dormitórios. Qual de toda essa informação estava relacionada com a morte de Sadie?

Voltou a repassar mentalmente os fatos. O único que parecia surgir uma e outra vez, apesar de não ter nenhuma prova física, eram os pedaços de porcelana quebrados dos que Tyndale se negou a falar com Gracie. Algo relacionado com eles o tinha assustado ainda mais que a presença de umas prostitutas na ala dos hóspedes de palácio, mesmo que uma delas tinha morrido assassinada. Ou era algo tão valioso que estava além da imaginação do Pitt, ou o fato de que se quebrado, somado às demais provas, implicava algo tão atroz que devia ocultá-lo a todo custo.

Sua imaginação não era capaz de criar algo tão catastrófico. Por difícil, desagradável ou inclusive absurdo que fosse, devia tentar achar as partes. E devia fazê-lo com discrição. Tyndale certamente sabia onde estavam, e se se inteirasse de que Pitt os buscava, destruí-los-ia.

Por outra parte, essa talvez era a única forma que tinha de achar um punhado de pedaços de porcelana em um lugar tão enorme. Dispunha de muito pouco tempo. Na manhã seguinte sem ir mais longe poderia ver-se obrigado a culpar ao Julius Sorokine e a fechar o caso. Não haveria julgamento, nem provas relevantes, nem nenhuma defesa, é claro. As dúvidas do Pitt eram a única voz que tinha Sorokine para defender-se.

Isso não lhe deixava outra escolha. Era consciente de que ao Narraway incomodava seguir questionando as provas. Além disso, havia certa deslealdade em investigar algo que podia fazer envergonhar o príncipe, e que sem dúvida ricochetearia contra o próprio Narraway, possivelmente contra toda a Brigada Especial. Pitt talvez tivesse que pagar por isso, e se dava perfeita conta de que Narraway poderia não ter alternativa a não ser despedi-lo.

Se isso ocorresse, resultar-lhe-ia muito difícil achar outro emprego que gostasse tanto ou para o que servisse, e não haveria ninguém mais para manter a sua família. Tinha direito a lhes fazer pagar por suas decisões morais?

Se aceitasse as provas tal como eram e deixasse que Julius Sorokine fosse ao Bedlam, um inferno vivente para o corpo e a mente, por ter matado a duas mulheres, no que se converteria ele? Em um homem ao qual Charlotte poderia seguir amando? Ou em um pelo qual sentiria cada vez mais aversão e acabaria desprezando, chorando o que tinha sido?

Era um preço muito alto a pagar, mas inclusive enquanto lhe dava voltas na cabeça, soube que a decisão já tinha sido tomada. Voltou a chamar Gracie utilizando deliberadamente Tyndale.

— Sim, senhor? - disse ela esperançada assim que entrou. — Tem algo?

— Terá que achar a porcelana quebrada - replicou ele.

— Refere-se ao prato ou ao que fosse que se rompeu? O senhor Tyndale se assustou muito por isso. - Os olhos de Gracie se encheram de dúvida. — Se encarregou de escondê-los bem.

— Sei. Poderia ser a única pessoa que sabe onde estão - disse ele. — Não me dirá isso, mas se acreditar que vou remover céu e terra até dar com os pedaços, pode ser que se alarme tanto que os destrua, triturando-os até convertê-los em um pó irreconhecível.

— Quer que lhe diga que o está procurando e que volte a lhe perguntar por ele? - disse ela.

— Sim, por favor. Lhe diga que pedirei reforços se for necessário, porque me dei conta de que é crucial para o caso.

— E é?

— Não sei. Minnie Sorokine parecia pensá-lo. E, se não é, por que escondê-lo? -Olhou seu pequeno rosto intrigado e compreendeu que se sentia traidora enganando a um homem que tinha posto em perigo sua segurança e sua comodidade para lhe oferecer sua amizade. — Sinto - acrescentou com suavidade, — mas tenho que estar certo de que Sorokine é culpado. Calculo que o culparão formalmente amanhã, e depois disso não haverá ninguém que fale por ele. Não haverá julgamento.

Ela empalideceu.

— Sei. Levá-lo-ão ao Bedlam entre a porcaria e os gritos. - Tomou ar e o deixou escapar de forma algo brusca. — Irei dizer-lhe.

Parecia à beira das lágrimas. Voltou-se rapidamente e saiu, miúda e muito rígida, com um uniforme que, apesar dos acertos, continuava muito grande. Pitt sabia que tinha dividido suas lealdades como tinha feito com as suas.

Não foi nada fácil vigiar Tyndale depois que Gracie falara com ele sem que se notasse que o fazia. Em várias ocasiões teve que ficar atrás e deixar que ela parecesse ocupada com uma bandeja nas mãos ou um montão de roupa suja.

Quase duas horas depois de lhe haver pedido ajuda ela retornou com um pacote com a porcelana quebrada em uma caixa de papelão e o deu sem dizer nada. Estava pálida e triste. O fato de que calasse, sem expressar nenhuma recriminação, fez isso ainda mais difícil.

Subiram juntos ao quarto dele e deixaram a caixa na mesa. Ela se plantou diante, sem lhe permitir questionar-se sequer se devia ficar ou não.

Com muito cuidado ele desembrulhou o papel de jornal e examinou os fragmentos. Eram exatamente como havia dito Walton: pequenos pedaços de porcelana quebrada, alguns pouco mais que pó, outros de um par de centímetros de largura. Havia pintura dourada e azul em um desenho delicioso: um pequeno vigamento de folhas douradas e o contorno do que parecia o vestido de uma mulher. O fragmento maior era curvado, como se correspondesse com o lado de um pedestal.

Gracie pegou um pedaço quase branco e lhe deu voltas nas mãos.

— Parece a base ou algo assim - comentou pensativa. — Mas por que tanto alvoroço por um prato quebrado? Por que o esconderam em lugar de atirá-lo ao lixo como qualquer outra coisa que se rompe? Acredita que é algo especial? Da família real ou algo assim?

— Não sei - respondeu Pitt com sinceridade, pegando outro pedaço que era bastante grande e de forma irregular. — A pintura que o cobre é formosa, mas não sei o que poderia representar. - Deu-lhe a volta. — Parece que também está pintado por dentro. E esta parte parece muito plana para ser de um recipiente. Pergunto-me se era a tampa. Como pôde alguém quebrá-lo tanto? Está quebrado em mil pedaços.

— Jogando-o contra a parede - respondeu Gracie, franzindo o rosto. — Não quebra algo assim se só cai ao chão, embora este seja de pedra. E não é do piso de cima. O chão de madeira o teria feito em pedacinhos, mas parece que alguém o tenha pisoteado de propósito. - Ficou olhando-o horrorizada. — Quem faria algo tão terrível como quebrar um prato tão bonito em mil pedaços de propósito?

— Não sei, mas acredito que precisamos saber. - Pitt examinou com cuidado os fragmentos quebrados procurando um bastante grande para identificar o que era. — Não há grande coisa. Quebrou alguma vez um prato grande, Gracie?

Ela se ruborizou com tristeza.

— Sim. - Não deu os detalhes.

— Isto é tudo o que ficou dele?

— Não. Havia muito mais. Mas quebrei taças e não havia tantos pedaços, ao menos com os de porcelana boa. Acredita que não era um prato normal, senhor Pitt?

— Sim, Gracie. Mas não sei o que era. - Pegou outro fragmento redondo e pequeno de uns dois centímetros de largura. Deu-lhe voltas, examinando-o com atenção. Era quase branco, mas havia algo escrito em um lado, as letras "IMO" e o que parecia um "E" incompleto.

Era parte de uma palavra e de repente soube que era "LIMOGES". Já a havia visto escrita em peças de porcelana fina: palmatórias, fontes, vasos, bacias e figurinhas. Há muito tempo a polícia tinha investigado um roubo de obras de arte desse tipo.

— Era um objeto decorativo - disse em voz baixa. Deu mais voltas ao fragmento que tinha nas mãos. — Acredito que isto formava parte da base. Levava o nome. O ouro provavelmente corresponde ao bordo e o azul formava parte de um desenho.

— É muito valioso? - perguntou ela, compadecendo-se da pessoa que o tinha quebrado. — Alguém vai perder seu emprego pelo descuido.

— Acha que isso bastaria para explicar que o escondesse o senhor Tyndale? -replicou Pitt a modo de resposta.

Ela sacudiu a cabeça com certa rigidez.

— Parece que o quebraram na noite que assassinaram a Sadie - continuou ele, pensativo. — Tem que ter estado relacionado com isso. Isso é quão único explicaria por que Tyndale teve tanto trabalho escondendo-o.

— Quem quer que seja o dono, vai zangar-se muito - disse ela muito séria.

— Não o esconde do dono, que de qualquer modo sentirá falta - disse ele.                        — Esconde-o de nós.

— Isso acha? - perguntou ela carrancuda.

— Sim, ou nos diria confidencialmente e não teríamos tornado a pensar nele. Um acidente doméstico não é competência da Brigada Especial. Queria saber em que quarto estava.

— Acredita que o roubou a pobre garota? - Gracie parecia duvidosa. — Como o teria levado? Não é fácil levar um prato sem que ninguém o veja.

— Exatamente - concordou ele. — E por que quereria proteger o senhor Tyndale a uma prostituta que também era uma ladra? Acredito que o que importa aqui é o fato de que se quebrasse.

— Vai interrogar ao senhor Tyndale? - Ela o olhava muito atenta.

— Sim.

Pitt examinou um momento mais as peças grandes para fazer uma idéia do tamanho e o diâmetro do prato, e chegou à conclusão de que era decorativo. Alguns dos fragmentos eram muito grossos para ser de uma jogo ou um prato ordinário.

Voltou a pôr as partes na caixa e os levou a copa, onde achou ao Tyndale com os livros de contas abertos e um lápis na mão. Ao parecer revisava os registros das adegas. Levantou a vista enquanto Pitt entrava e fechava a porta.

— O que posso fazer por você, senhor Pitt? - perguntou friamente.

Pitt se apoiou contra a parede.

— Me dizer onde estava o prato decorativo Limoges e como se quebrou - respondeu.

Tyndale empalideceu e lhe saiu a voz com esforço.

— Sinto muito, senhor, mas não tenho nem idéia do que está falando. Sua Majestade tem literalmente milhares de peças de porcelana. Se tiver quebrado uma, não fui informado. Não acredito que seja desta ala. Se o fosse, teria me dito isso uma das criadas.

— A senhora Sorokine sabia de onde era - disse Pitt.

Tyndale empalideceu ainda mais. Pitt temeu que estivesse à beira de um ataque, possivelmente do coração.

— Sinto muito. - Era sincero, mas não podia permitir-se mostrar toda a compaixão que teria gostado. — Julius Sorokine se expõe a passar o resto de sua vida em um manicômio, sem um julgamento. Antes de deixar que isso ocorra, quero me assegurar além de toda dúvida razoável de que ele é o responsável pelas mortes dessas duas mulheres. Vou averiguar quem fez em pedacinhos o prato de Limoges na noite em que mataram Sadie. Posso fazê-lo discretamente com sua ajuda, senhor Tyndale. Ou posso interrogar a cada criado, e averiguar o que a senhora Sorokine descobriu e o que provavelmente lhe custou a vida!

— Matou-a seu marido - disse Tyndale engasgando-se. — Este... acidente não tem nada a ver com isso. É um assunto completamente diferente e privado.

— Não há privacidade quando se trata de um assassinato, senhor Tyndale. O que era esse objeto decorativo e onde estava? Como se quebrou e por que o escondeu você?

Tyndale estava destroçado. Odiava mentir e lhe notava no rosto.

— Quebrou-se sem querer. Não o escondi, simplesmente me desfiz dos pedaços. Não tinha sentido guardá-los. Era impossível repará-lo. Pelo amor de Deus, inspetor, está quebrado em mil pedaços. É pó!

— Isso já vejo. Também vejo que é de Limoges e que é muito fino. Onde estava e quem o quebrou?

— Uma das criadas, mas nenhuma o admitiu, e não posso castigar a ninguém por uma estupidez quando não sei quem a cometeu. - Tyndale parecia muito razoável, com a voz novamente sob controle.

Pitt não tinha a menor duvida de que mentia. Minnie Sorokine tinha insistido até averiguar o que era. Como? Que pergunta fizera? Por que Tyndale tinha respondido a ela e resistia a dizer a ele? Que horrível realidade lhe tinha revelado ela com suas perguntas?

— A que horas? - perguntou.

— Como diz? - Tyndale evitava responder.

— Quando o quebraram? A que horas? Isso certamente lhe indicará quem o fez.

— Não... não sei. - Tyndale ficou nervoso. — Em algum momento do... dia em que morreu essa mulher. Estávamos todos muito afetados. Não nos demos conta em seguida.

— Havia um prato de Limoges feito em pedacinhos no chão e a criada que entrou para limpar não o viu? - perguntou Pitt com aberta incredulidade. — Sinto, senhor Tyndale, mas não serve. Onde estava esse prato?

— Não sei. - Tyndale estava resolvido a calar.

— Era um prato decorativo - disse Pitt, medindo. — Branco com um desenho azul no centro e o bordo dourado. Encontrei uns pedaços.

— Não sei - repetiu Tyndale obstinado.

— Então falarei com as criadas - replicou Pitt. — E os lacaios. Alguém deve havê-lo visto. Não tiram o pó com regularidade?

— É claro que sim! Mas... - Tyndale se interrompeu. Tinha o rosto torcido; palpitava-lhe um músculo no queixo.

— Reúna a todos os criados na sala do serviço, senhor Tyndale. Falarei com eles dentro de quinze minutos. Quero que estejam todos - ordenou Pitt.

Tyndale titubeou.

— Não me obrigue a pedir ajuda ao príncipe de Gales neste assunto - advertiu Pitt.

— Não tem por que estar relacionado com as mortes! - protestou Tyndale de novo.    — É... é um assunto doméstico! Isto é absurdo!

— Um objeto decorativo se fez em migalhas na noite de um assassinato - disse Pitt sombrio. — Alguém estava no aposento e cometeu um ato extraordinário e violento, talvez movido pela cólera. Quero saber em que aposento foi. Reúna ao pessoal, senhor Tyndale.

Tyndale saiu submissamente, caminhando como um homem sob a condenação de um castigo terrível.

Pitt esperou sentindo-se culpado. Estava seguindo uma pista que explicaria realmente as anomalias do caso e lhe permitiria convencer-se de que Julius Sorokine tinha assassinado Sadie e sua esposa? Ou só estava resolvido a impor sua vontade sobre o Tyndale porque o tinha desafiado, e queria uma resposta por nenhum outro motivo que sua própria satisfação? Estava ressentido porque Minnie Sorokine tinha conseguido atar todos os cabos e descobrir a verdade, e ele não? Tinha sabido algo mais ela?

Quinze minutos depois entrou na sala do serviço e os viu colocados em fileira, sufocados e assustados. Gracie estava diante, certamente para que não a cobrissem as garotas mais altas e corpulentas. Fugiu do seu olhar.

— Na noite que assassinaram à prostituta se quebrou um prato de porcelana de Limoges - disse Pitt com delicadeza. — É provável que fosse um prato decorativo, branco com um desenho azul no centro e o bordo dourado. Não acredito que o quebrasse nenhum de vocês. Acredito mais que foi um dos hóspedes, que matou à mulher ou outro que viu o que aconteceu. - Isso era um resumo da verdade. — Quero saber em que aposento estava.

Todos ficaram olhando-o. Ninguém falou.

— Quem se encarrega de tirar o pó? - perguntou ele.

— Norah e eu - respondeu Ada nervosa. — E Gracie desde que está aqui.

— Em que aposento estava o prato? - perguntou Pitt.

— Não sei.

— Não tirou o pó a um prato assim?

— Nunca o vi.

Pitt se voltou para a senhora Newsome.

— Você é a governanta... não é a responsável pelas obras de arte? Sobre tudo as valiosas?

— Sim - respondeu a senhora Newsome rigidamente.

Estava confusa e desolada. Evitava olhar ao Tyndale de forma tão manifesta que era chamativo.

— Onde estava esse prato, senhora Newsome?

— Não recordo nenhum prato dessas características - respondeu em tom peremptório.

— Na manhã seguinte ao assassinato fez as criadas limparem algum aposento?

— É claro. O armário da roupa branca. Mas só depois de que você me indicou - respondeu ela com rigidez.

— Antes disso! No fundo desta ala ou nesta ala.

— Não. Além disso, a ala este não é minha responsabilidade. Estaria abusando de minha autoridade se o fizesse.

A Pitt não ocorreu nada mais a dizer. Ficaram rigidamente em pé, com os ombros jogados para trás, os rostos cuidadosamente inexpressivos. Ninguém ia confessar. Não podia fazer outra coisa que aceitar a derrota com a pouca dignidade que ficava.

Voltou para seu quarto confuso e zangado. Passeou de um lado a outro, tratando de pensar no modo de pressionar ao Tyndale. Estava seguro de que sabia onde tinha estado o prato e que o havia dito a Minnie. Quanto mais resistente a falar o via, mais certo estava que era importante.

Tinha que ter saído de alguma parte. Por que mentiam todos? Não tinha visto titubear a nenhum, nem sequer à senhora Newsome. Serviria de algo pedir a Gracie que falasse com eles? Talvez tivessem visto trocinhos incrustados em algum tapete ou entre as pranchas dos chãos de madeira. Até Gracie podia havê-los visto sem saber o que eram.

Aproximou-se do puxador da campainha e estava a ponto de chamar quando lhe assaltou outro pensamento. Deteve a mão, com os dedos ainda rígidos ao redor do puxador. Talvez não mentissem. Talvez não o tivessem visto porque não estava em nenhum dos aposentos que eles limpavam. E se tivesse estado nos aposentos do príncipe de Gales?

Uma discussão acalorada, uma mulher histérica, um objeto de porcelana quebrado. Tinha que escondê-lo, a todo custo. Era isso o que tinha ocorrido? Talvez Sadie se negasse a fazer algo que lhe tinha pedido ou que não podia fazer. O príncipe estava bêbado. Tinha perdido o controle e tinha explodido. E então o que? Tinha-a matado? Tinha-lhe cortado o pescoço com uma das facas da sala de jantar e a tinha talhado?

Se tivesse estado tão bêbado, teria perdido o conhecimento, teria despertado na manhã seguinte ao lado do corpo ensangüentado e teria chamado ao Cahoon Dunkeld para que o ajudasse.

Bateram na porta e Pitt virou sobre seus calcanhares como se lhe tivessem disparado um tiro. Acalmou-se respirando fundo, com o coração lhe pulsando com força.

— Sim?

Gracie entrou e fechou a porta atrás dela. Ficou imóvel contra a maçaneta olhando-o fixamente.

— Não o disse, verdade? - disse em voz baixa. — O que significa isso, senhor Pitt? Não estão mentindo. Ninguém sabe nada. O que está acontecendo?

— Acredito que estava em um aposento onde eles não entram - replicou ele com a boca seca. — O senhor Tyndale sabe onde estava, mas prefere que lhe acuse de ocultar um assassinato antes que dizer a alguém.

Ela abriu muito os olhos com o rosto ainda mais tenso e pálido. Soube que tinha pensado o mesmo. Lamentava que tivesse que sabê-lo. Não se teria informado se ele não a tivesse levado ali. Era injusto. Ela era uma civil, não um policial, e certamente não pertencia à Brigada Especial.

— Sinto muito.

— O que pensa fazer? - sussurrou ela. — O senhor Tyndale nunca o dirá. E se tivesse quebrado em uma briga ou algo assim, ele o haveria dito, para evitar que pense o que agora está pensando. Mas não havia sangue nele.

— Sei. Mas se não significa nada e não tem relação com a morte de Sadie, por que está mentindo o senhor Tyndale? E está mentindo.

— Sei. - Gracie levava o sofrimento escrito no rosto. — Está protegendo a Sua Alteza Real. Suponho que o faz freqüentemente... É... uma classe de lealdade. Senhor Pitt... -acrescentou, franzindo o sobrecenho, — acredita que é o correto? Não é isso o que se supõe que deveríamos fazer nós? Não teria que fazê-lo você também? E eu?

— E deixar que Sorokine passe o resto de sua vida em um manicômio por algo que não fez? - perguntou ele.

Ela sacudiu a cabeça minimamente.

— O que vai fazer então?

Ele se sentou na borda da mesa.

— Não tenho certeza. Este prato não caiu sozinho nem se quebrou em alguns pedaços. Fizeram-no em pedacinhos até que ficou irreconhecível em um arrebatamento de cólera incontrolável. Se ela zombou dele, menosprezou-o ou o ameaçou dizer a todo mundo e lhe pôr em ridículo, nunca saberemos. Mas ele ficou feito uma fera e lhe cortou a garganta...

— Com o que? - interrompeu-o ela.

— Talvez com a faca de mesa... havia sangue nela. Ou com algo diferente, um abre cartas ou uma faca de fruta que ela tinha. Não o encontramos porque ainda não o procuramos. Puseram a outra faca no armário da roupa branca depois de levar o cadáver. O sangue poderia ter sido de algo.

— Então não a mataram no armário, não é? - perguntou Gracie.

— Não. A teriam matado no quarto dele. Essa é a razão pela que os lacaios subiram e desceram as escadas com baldes de água, para limpar.

— Acredita que os chamou ele? - perguntou ela com incredulidade.

— Não. Acredito que ele chamou o Cahoon Dunkeld. Suponho que os lacaios só levaram a água, e que Dunkeld e certamente o próprio príncipe o limparam. Não podiam confiar a ninguém mais um segredo assim.

— O que vamos fazer? – A Gracie brilhavam os olhos de profundo terror. — Não podemos dizer que o fez ele! Enforcar-nos-ão por traição!

— Não sei - admitiu Pitt. — Mas se ele também matou à senhora Sorokine, terá que detê-lo. Voltará a matar. Dunkeld não pode seguir protegendo-o, e duvido que queira... quando sua própria filha foi a vítima.

— Então por que não disse nada? - perguntou ela. — Por que deixou que culpe o senhor Sorokine?

— Não me deixou. Ele mesmo me disse que tinha sido Sorokine. - Enquanto o dizia, deu-se conta de que não tinha sentido. Achava realmente Dunkeld que Julius tinha matado a Minnie? Talvez achasse que o príncipe era inocente e que Julius o tinha feito de algum modo, ou talvez os três estavivessem envolvidos. — Não sei - continuou. — Não o entendo. Se o príncipe a matou em um arrebatamento causado pelo álcool e caiu em um torpor etílico, e quando despertou na manhã seguinte entrou em pânico, poderia ter chamado ao Dunkeld para que o ajudasse. Dunkeld transladou o corpo, com os lençóis ensangüentados, ao armário da roupa branca, para que ao menos não o encontrássemos nas dependências reais.

Gracie não afastou os olhos dele.

— Depois o príncipe tomou um banho, para lavar-se e pode ser que para limpar-se também da bebedeira - continuou ele. — Isso explicaria por que a princesa achou a banheira ainda quente a uma hora tão inusitada. Enquanto isso Dunkeld limpou o quarto e se encarregou de que retirassem os fragmentos do objeto decorativo e que limpassem tudo. Depois fingiu ter encontrado ele mesmo o corpo, para assegurar-se de que nos chamavam e para ter as provas debaixo de certo controle.

— Mas a senhora Sorokine foi muito esperta e o averiguou - concluiu ela. — Então, ele mesmo matou a sua filha para ocultá-lo? É horrível! Não deve essa classe de lealdade nem à rainha nem a ninguém! E não disse você que a talharam do mesmo modo que a essa pobre fêmea... quero dizer, mulher?

— Sim.

— Então é lógico que também fosse o príncipe quem o fez, não?

Ele se sentiu incapaz de negá-lo, mas não podia pronunciar as palavras.

— Não sei.

— Ainda acredita que o fez o senhor Sorokine? - perguntou ela.

— Suponho que é possível - disse ele a contragosto. — Não vejo o Dunkeld matando a sua própria filha. Matar a uma esposa é diferente. É trágico, mas acontece freqüentemente.

— Para proteger a Sua Alteza Real? - A expressão do Gracie era de incredulidade mesclada com um medo terrível e entristecedor. — Tenho uma grande opinião da rainha, mas não mataria a ninguém de minha família para protegê-la, embora não tenha feito nada mau em sua vida. E não moveria nem um dedo para salvar a Sua Alteza Real se tivesse feito isso à Sadie. Não me importa o que acontecer com a Coroa. Não quero uma Coroa vermelha de sangue.

— Não, Gracie, eu tampouco - admitiu Pitt. — Não sei o que vou fazer, mas farei algo, prometo-lhe isso.

Iluminou-se o rosto dela.

— O dirá ao senhor Narraway quando voltar, não é? Pode que ele saiba o que fazer.

— Pode ser - acessou ele. — Está tratando de averiguar se houve algo no passado do Sorokine que demonstre que fez algo parecido antes.

Gracie suspirou, confusa e triste.

— Estará bem? - perguntou ansiosa. — Não vai dizer a ninguém o que pensa, não é?

Ele sorriu.

— É claro que não. E você tampouco o faça! Pelo que a nós respeita, o culpado é Julius Sorokine. Só estamos procurando provas. É uma ordem, Gracie.

— Não tem que me dar ordens.

Ela estremeceu e esticou o avental com tanta brutalidade que o desatou. Voltou a fazer uma inclinação um pouco torcida e se desculpou, fechando a porta atrás de si com um estalo.

Pitt não tinha mentido, mas tampouco havia dito a Gracie toda a verdade. Aparentemente, não ficava mais opção que falar diretamente com o príncipe de Gales. Era uma conversa que não tinha nenhuma vontade de manter. O único pior seria ver o Julius Sorokine condenado sem saber com segurança se era culpado ou não.

Desta vez não acudiu ao Dunkeld nem ao senhor Tyndale para obter uma audiência. Não ia permitir que a denegassem. Viu-se obrigado a esperar quase quarenta e cinco minutos.

— Senhor inspetor - disse o príncipe quando por fim apareceu. — Já fui informado que Sorokine foi detido e está encerrado em sua habitação. Sem dúvida o senhor Narraway virá com homens para levá-lo com total discrição. Será esta noite? Conviria fazê-lo ao abrigo da escuridão. Agradeço-lhe a rapidez e o... tato com que dirigiu todo o assunto. Também lamento profundamente que não tenhamos podido resolvê-lo antes que a senhora Sorokine também perdesse a vida.

Em uma só declaração tinha agradecido a Pitt, tinha-o criticado por não ter salvado a Minnie e tinha dado por terminado o assunto. Era muito hábil. Obrigava Pitt a adotar uma postura ridícula se insistisse em ficar.

— O senhor Narraway está investigando o passado do senhor Sorokine, senhor - disse medindo. — Para ver se houve algum outro incidente similar.

— Muito bem - aprovou o príncipe assentindo. — Mas isso não me concerne nem aos envolvidos no projeto da ferrovia. Teremos que pensar em substituir ao Sorokine. Essa será nossa tarefa imediata. Obrigado pela informação, senhor Pitt, mas não é necessário que nos diga nada mais. Que passe um bom dia. Agradecerei, naturalmente, ao Narraway por haver posto a você no caso a tempo completo.

Pitt apertou os dentes e notou que lhe ardia o rosto. Foi em parte o ver que o despedia o que lhe permitiu ficar parado no lugar.

— Estou seguro de que o senhor Narraway o agradecerá, senhor, e lhe informará que estamos sempre ao seu serviço. Acredito que o arrumará para que se levem o senhor Sorokine amanhã.

— Um triste final. Me agradava. Mas se deve fazê-lo - disse o príncipe cansativamente. — Já não tem muita importância.

— Também levarão o corpo da senhora Sorokine - prosseguiu Pitt sem mover-se ainda, embora o príncipe se aproximasse meio passo mais dele e se sentisse esmagado. Encetaram-se em uma luta de resistência. — Imagino que o senhor Dunkeld quererá lhe dar um enterro cristão em uma igreja de sua escolha, talvez uma cripta da família.

O príncipe pareceu surpreso.

— Sim... sim, imagino que sim. Será... - interrompeu-se porque o que ia dizer teria se mostrado cruel. Já estava suficientemente claro em sua expressão. — Assistiria, mas chamaria a atenção. Pobre homem. - Em seu rosto se traduziu certa ansiedade. — Espero que sejam discretos quando levarem ao Sorokine. Contrariar-me-ia muito que se armasse alvoroço dando pé a especulações. Talvez pudesse levar-lhe você como se estivesse doente. Em certo modo o está. - Estremeceu ligeiramente. — Baixo as devidas medidas de contenção, é claro.

Pitt se enfureceu e fez um esforço físico por controlar-se. Também lhe tinha se agradado Sorokine. O príncipe lhe consideraria pouco sofisticado por isso, mas Julius Sorokine era o único que tinha deixado de assistir à festa, apesar de não estar apaixonado por sua mulher e era evidente que ela tinha tido uma aventura com seu meio-irmão.

— Ainda há alguns assuntos que preciso esclarecer - disse rapidamente com a mandíbula rígida e os dentes quase apertados, pronunciando mal as palavras. — Devem estabelecer o assunto além de toda dúvida.

— Não há nenhuma dúvida - replicou o príncipe, arqueando as sobrancelhas.                    — Sorokine matou à mulher, sua esposa se inteirou e enfrentou-o, e ele a matou. Que mais quer saber? Está claramente louco. Seremos discretos além de compassivos se o internarmos em um centro de cuidados privado o resto de sua vida. Se fosse alguém menos importante o teriam enforcado.

— O teriam julgado antes e lhe teriam dado a oportunidade de defender-se - replicou Pitt imediatamente, e nesse preciso momento soube que tinha cometido um engano imperdoável pelo que se referia ao príncipe.

— Como? - perguntou o príncipe com frieza. — Alegando que está louco? Isso já sabemos.

Pitt era totalmente consciente de que se achava em presença do homem que algum dia, logo talvez, seria seu soberano e a quem teria que jurar lealdade. Sentiu-se traidor de abrigar sequer essas idéias mas estavam ali.

— Senhor, durante o assassinato dessa mulher, Sadie, quebrou-se uma peça de porcelana do Limoges em mil partes. A partir dos fragmentos posso dizer aproximadamente a forma e a cor. Parece que era um prato decorativo branco com um desenho de uma figura azul cobalto bastante proeminente no centro e um rebordo dourado. Em que aposento se achava esse prato?

O príncipe o olhou, piscando várias vezes. Tinha o rosto curiosamente coberto de gotas de suor apesar de fazer frio na sala.

— Senhor? - repetiu Pitt.

— Não recordo esse prato - disse o príncipe com voz rouca. — Há muitas peças de porcelana... objetos decorativos... por toda parte. Não reparei nele. - Piscou de novo.

— Talvez sinta falta dele - sugeriu Pitt. — Os criados da ala dos hóspedes recolheram os fragmentos, mas nenhum o reconheceu, de modo que tem que ter estado nesta parte do palácio e ter sido importante.

— Não me ocorre como. - O príncipe estava zangado. — Um acidente doméstico e um criado tratando de encobri-lo não são assuntos que concirnam à Brigada Especial. –Havia algo terminante em seu tom e pareceu a ponto de voltar-se e partir.

— Estava em seu quarto, senhor? - perguntou Pitt bruscamente. — Isso explicaria que os criados não o tenham reconhecido, salvo o senhor Tyndale, que tem medo de dizer onde estava. Terei que deduzi-lo por um processo de eliminação.

O príncipe ficou imóvel.

— Está excedendo seu dever, inspetor. - O tom era gélido, mas carecia da firmeza que Pitt teria esperado. Observou-o piscar com a testa coberta de suor. — Você sabe quem matou à prostituta e a pobre senhora Sorokine. Detenha-o e leve-o daqui. Isso é tudo o que se requer de você. Achava havê-lo deixado claro. Se não o tiver feito, permita que o faça agora.

— O que me disse, senhor, é que se achou a uma prostituta apunhalada no palácio, e que era meu dever para com Sua Majestade averiguar o que tinha ocorrido e quem era o responsável, e dirigi-lo com rapidez e discrição. Duvido que Sua Majestade não deseje também que se faça de forma justa. Não me disse, mas suponho que não se acreditou necessário fazê-lo. E a justiça é também muito prática. A injustiça não repousa tranqüila.

Olharam-se, o príncipe com o rosto salpicado de uma cor desagradável e com ódio nos olhos.

— Como era esse prato?

— Acredito que era um prato decorativo, senhor. De Limoges - repetiu Pitt. — Tinha muito branco e algo de azul, e uma espécie de borda dourada.

— Tinha um assim em meus aposentos. Talvez saísse dali. - O príncipe titubeou ao ver que Pitt não respondia. — Me atreveria a dizer que o levou a mulher. Mais tarde, quando brigou com o Sorokine, quebrou-se.

— Desapareceu ou se quebrou algo mais, senhor?

— Não. - Pronunciou a palavra de forma cortante.

— É evidente que não a viu sair, senhor - indicou Pitt. — Não poderia ter levado um prato decorativo escondido em sua pessoa sem que se desse conta.

O príncipe não disse nada. Não podia rebater essa conclusão sem soar ridículo.

— Poderia ter ido o senhor Sorokine procurá-la? - continuou Pitt implacável. — Como haveriam ficado de achar-se? Por que levaria ela o prato? Em suas dependências deve haver outros objetos formosos e valiosos certamente mais fáceis de levar ou esconder, senhor.

— É claro que não vi como o levava! - replicou o príncipe. — E não tenho nem idéia de como ficou com o Sorokine ou se o fez sequer. Não vejo que importância tem agora. Está morta.

— Onde estão as roupas da mulher, senhor?

— Como?

— Encontraram-na totalmente nua no armário.

O príncipe ficou lívido, com os olhos cintilantes.

— Pelo amor de Deus! Não tenho nem idéia! Pergunte ao Sorokine. Reviste seus aposentos. Embora terá tido tempo de sobra para desfazer-se delas. Ou seja lá o que é capaz de fazer um louco.

— É possível, senhor, que estivesse profundamente adormecido, e que ele brigasse com ela em seu quarto, quebrasse o prato e lhe rasgasse as roupas ali mesmo?

— Eu... - Pensou uns momentos e se deu conta de que Pitt lhe estava perguntando educadamente se podia ter estado tão bêbado para ficar inconsciente. Mas seguia sendo uma escapatória. — Suponho - disse a contragosto.

— Poderia dar uma olhada em seu quarto para ver se deixou algum rastro, senhor, ou qualquer prova que o demonstre?

— Não vejo a importância que pode ter isso. Já o disse, poderia ter ocorrido - disse o príncipe, aborrecido.

Ficaram um frente a outro, olhando-se. Talvez foi a referência à justiça o que os fez sair desse transe.

— Se insiste... - replicou o príncipe.

— Obrigado, senhor - aceitou Pitt.

Mas não achou nada de interesse nas dependências do príncipe do Gales. Nem sequer viu um espaço evidente onde poderia ter estado o prato. O dormitório e o quarto de vestir eram elegantes e confortáveis, mas não muito diferentes dos aposentos de qualquer cavalheiro de meia idade de sua condição privilegiada e sua riqueza. Não achou nenhum pedaço de porcelana ou vidro no tapete, nem nenhuma mancha de sangue ou de vinho. Não havia nada quebrado, nem enrugado nem prejudicado não. Se alguém tinha cometido algum crime ali, tinha-o feito sem deixar rastro.

Pitt partiu confuso, como se tivesse sido derrotado em um concurso de inteligência. Sentia um doloroso vazio em seu interior. Tinha escapado a um perigo, enfrentando um homem que tinha poder para prejudicá-lo seriamente, se não arruiná-lo, e não tinha descoberto nada. Ainda mais, fazia ridículo.

Voltou a percorrer devagar o corredor que conduzia à ala dos hóspedes, tratando de reunir seus pensamentos e dar sentido ao miasma de feitos que pareciam carecer de significado.

Reparou em uma mulher serena e muito discreta que o esperava à volta da esquina.

— Senhor Pitt - disse com suavidade.

Ele prestou atenção.

— Sim, senhora?  

— Sua Alteza Real a princesa de Gales desejaria falar com você, se tiver um momento - disse. Era uma forma elegante de expressar o que equivalia a uma ordem.

Pitt achou à princesa em sua sala de estar, como na vez anterior. Estava vestida com um traje de tarde de gola alta com renda branca ao redor. Estava sentada muito erguida, com a cabeça alta. Era uma mulher formosa, mas mais que a cor de sua tez ou a regularidade de suas feições, ao Pitt impressionou a dignidade que emanava de sua pessoa. Era como esperava e desejava que fosse um membro da realeza. Endireitou-se imediatamente.

— Boa tarde, senhor Pitt - disse ela esboçando um sorriso. — Ouvi dizer que a pobre senhora Sorokine se converteu também em uma trágica vítima. Sinto muito. Foi uma jovem muito desafortunada. - Não explicou o comentário, mas o olhou como se assumisse que compreenderia a sutileza da implicação.

— Sim, senhora - assentiu ele. — Lamento que seja certo. - Inclinou a cabeça para deixar mais clara sua afirmação.

— É verdade que o responsável é o senhor Sorokine? - perguntou ela.

Ele fez um gesto de confusão, estendendo as mãos.

— Isso parece.

Ela compreendeu.

— Mas não tem certeza.

— Ainda não.

— Espera ter?

— Eu gostaria. Eu gostaria muito.

Ela assentiu devagar. Ao que parecia tinha compreendido. Em seus olhos havia um brilho do que poderia ter sido gratidão, assim como um fraco brilho de humor auto zombeteiro.

— Tenho certeza. Poderia ajudá-lo de algum modo? Vi que acaba de falar com Sua Alteza Real.

— Sim, senhora. Quebrou-se uma peça de porcelana de Limoges e lhe perguntei se sabia onde estava normalmente. Nenhum dos criados parece reconhecê-la.

— E está relacionado com a morte de uma dessas pobres mulheres? - perguntou ela. — Como era?

— É difícil dizê-lo a partir dos restos, senhora, mas parece ter sido um prato decorativo. - Ele o desenhou com as mãos. — Com um vigamento dourado, acredito que ao redor do bordo, e um desenho azul cobalto no centro. - Falou devagar, mas seguia sem estar seguro, pela expressão de completo desconcerto nos olhos da princesa, se ela o tinha entendido. — Azul, como o céu. - Olhou para cima. — E dourado ao redor do bordo. -Riscou um círculo no ar com um dedo.

— Ouvi-o, senhor Pitt - disse ela em voz baixa. — Sua dicção é excelente. Mas estou perplexa. Há um prato exatamente igual no dormitório de Sua Majestade. Tem-lhe muito apreço, não pelo que realmente é, mas sim porque o deu de presente uma das princesas quando era muito jovem.

Depois de tudo, devia ter entendido mal. Entretanto, enquanto lhe sustentava o olhar, parecia estar totalmente segura não só do que havia dito, mas também da enormidade de seu significado. Tratou de pensar em algo que dizer que não soasse absurdo.

A princesa se levantou.

— Acredito, senhor Pitt, que seja melhor que vamos ver se o prato de Sua Majestade se quebrou. Quando voltar quererá alguma explicação e uma desculpa. Quer me acompanhar, por favor?

— Sim... senhora.

Ele obedeceu, e a rodeou rapidamente para chegar à porta antes dela e abrir-lhe. Não sabia se estava eufórico por saber a procedência do prato, ou se isso lhe aterrava ainda mais. Tinha levado-o dali o príncipe? Por que, pelo amor de Deus? Estava totalmente louco? Se a princesa se dava conta do que isso significava, o que faria? Era possível que Pitt tivesse caído, em sua cegueira, em um complô de palácio? Estava louco o príncipe do Gales, e ela sabia e pretendia utilizar ao Pitt para trazer a luz?

Não. Isso era delirante. Tinha que haver uma explicação totalmente racional. Certamente um criado ladrão, depois de tudo. Isso tinha muito mais sentido.

Seguiu-a pelos largos corredores até a outra ala, e a viu falar brevemente com um criado e logo com outro. Finalmente entrou atrás dela, junto com dois lacaios com libré e uma criada, nas dependências da rainha Vitória.

Eram curiosamente tal como Pitt tinha esperado: muitos móveis, todos grandes e belamente esculpidos, e muitos quadros, ornamentos e fotografias por toda parte. Entrava o sol obliquamente através das altas janelas com pesadas cortinas fazendo desenhos de cores sobre os tapetes.

— Aí o tem - disse a princesa, indicando uma cornija de lareira ornamentada.

Sobre ela havia um formoso prato de Limoges com folhas douradas ao redor dos bordos, como um vigamento dourado, e no centro um desenho de um casal romântico sentado em um banco de jardim. Não era o céu o que era azul, mas o casaco dele e a capa que envolvia os ombros dela e que lhe caía por detrás até o chão.

A princesa se voltou e olhou ao Pitt com os olhos muito abertos, interrogante.

— Havia outra peça no jogo? - perguntou, sentindo-se estúpido.

— Não - respondeu pela princesa a dama de companhia, temendo talvez que esta não o tivesse ouvido.

Pitt se voltou, fingindo procurar um espaço de que poderiam haver-se levado outro prato mas sem esperar encontrá-lo. Estava perplexo, derrotado pela segunda vez. Olhou a cama. Tinham os lençóis o mesmo formoso monograma que as manchadas e enrugadas que tinha encontrado Gracie na lavanderia? Não se atreveu a olhar. Não poderia oferecer nenhuma desculpa, e o que importava?

Inclinou-se e tocou os pesados cortinados bordados, apalpando a textura do tecido. Moveu-o ligeiramente e viu uma parte mais escura no tapete debaixo. Parecia uma mancha. Inclinou-se e a tocou com um dedo. Estava seca. Umedeceu o dedo com a língua e voltou a tocá-la, e o afastou vermelho marronáceo.

Retesou o corpo como se lhe tivesse percorrido uma descarga elétrica. Era sangue. Examinou as abas da cama, explorando-as com os dedos. Encontrou uma costura onde não deveria ter havido nenhuma. Levantou-se e se dirigiu rapidamente ao outro lado, à mesma altura. Por ali as abas eram lisas e não havia costura. Tinham cortado um pedaço e dissimulado sua ausência. Mais sangue? Um acidente? Uma enfermidade?

Mas ainda não secara de tudo. Não podia ter mais de alguns dias; em outras palavras, tinha ocorrido depois que a rainha fora a sua casa do Osbome, na ilha do Wight.

Aproximou-se de novo ao prato do Limoges e se agachou debaixo da cornija. Era uma bonita peça de antiquário, gasta de tanto polir e pelo passar dos anos. Mas entre as pranchas do chão havia um pozinho branco como de porcelana quebrada. Quebrara-se algo ali.

Voltou-se muito devagar e percorreu com o olhar o quarto. Todos o observavam, a princesa, a criada e os dois lacaios. Com o horror de quem possui uma certeza soube o que tinha ocorrido: pela razão que fosse, era ali onde tinham assassinado Sadie.

Tinham-na transladado ao quarto da roupa branca pelas razões mais óbvias. Para que tinha sido o sangue das garrafas de Porto? Para fazer acreditar que a tinham matado no armário e que ninguém procurasse em nenhuma outra parte? Era sangue animal da cozinha? Tinham utilizado as garrafas de Porto só para levar o sangue ao piso de cima?

Três garrafas pareciam excessivas. No armário não tinha havido tanto sangue. Tinham atirado o resto?

A mente lhe funcionava a toda velocidade...

Quem o tinha feito? O príncipe não, certamente. Movia-se ainda devagar, com restos de ressaca, quando Pitt o tinha visto na manhã seguinte. A resposta era óbvia: Cahoon Dunkeld. O príncipe tinha despertado e tinha encontrado um horror que quase não podia acreditar: não só havia uma mulher morta a seu lado, mas sim estava na cama de sua mãe. Devia haver ficado histérico. Tinha chamado Dunkeld, que tinha acudido imediatamente e tinha feito todo o possível para controlar a situação, disfarçá-la e inclusive achar a outro que carregasse com a culpa: seu genro, Julius Sorokine, a quem de todos os modos odiava por não querer a Minnie e talvez por lhe haver arrebatado o amor de Elsa, fosse isto real ou imaginário.

E, é claro, o príncipe tinha contraído uma dívida com o Dunkeld que nunca poderia pagar. Todo o apoio que desse à ferrovia do Cabo ao Cairo seria insignificante ao lado do que Dunkeld fazia por ele. Era o melhor ato de oportunismo que Pitt jamais tinha visto. Desprezava a moralidade do Dunkeld ao mesmo tempo em que admirava sua coragem e sua criatividade.

Tinha alguma idéia Minnie Sorokine de como tinha utilizado o crime seu pai?

E se o príncipe de Gales era culpado, o que podia fazer-se a respeito? Até enquanto se formava a pergunta em sua mente, Pitt soube a resposta. Encerrar-no-iam discretamente. Lhe atribuiriam alguma enfermidade, talvez febre tifóide, como seu pai! Não estalaria nenhum escândalo. Quanto ao Julius Sorokine, simplesmente desapareceria. Publicariam uma nota trágica sobre sua morte. Nunca se saberia toda a verdade.

Agradeceu à princesa e saiu o quarto com a boca seca, as pernas trêmulas e as mãos suadas e frias.

 

Simnel Marquand parecia exausto, como se em seu interior não ficasse nada de vida ou de paixão. Estava com Elsa no salão amarelo. Em pé um ao lado do outro, olhavam através das altas janelas os jardins formais em toda sua rigorosa e radiante beleza.

— Sabe Deus! - exclamou ele com amargura. — Pessoalmente, acredito que este homem é um total incompetente. Se servisse para algo, Minnie continuaria com vida. - A dor que transmitia sua voz era grande.

Elsa evitou olhá-lo. Fazê-lo seria uma intrusão, como contemplar a alguém cujas funções corporais estão fora de controle. Entretanto, estava zangada com ele por jogar a culpa em Pitt.

— O que teria feito? - perguntou ela com voz quase desapaixonada apesar da intensidade de suas próprias emoções.

— Não teria estado todo o tempo enfurecendo ao príncipe de Gales e a todo o pessoal por esse maldito prato! - Quase se engasgou com as palavras. — Esse homem é um bufão!

Na realidade ela tratava de defender ao Julius, mas falou como se se tratasse do Pitt.

— Que conclusão poderia ter tirado das provas? Não havia nada que demonstrasse quem tinha matado à mulher ou por que.

— Minnie o averiguou! - gritou ele acusador. — O deduziu a partir das provas.

— Que provas?

Desta vez ela virou sobre seus calcanhares para olhar o doído e desesperado que se sentia. A única diferença entre eles era que Minnie, a quem ele tinha querido, estava morta enquanto que Julius seguia vivo, ao menos no momento.

Ele não respondeu. Tinha olheiras e a pele torcida, como se estivesse doente. Ela sabia que sua obsessão pela Minnie tinha estado além de seu controle. Tinha visto homens assim com o jogo, odiando-o cada vez mais mas incapazes de parar até que tinham perdido tudo.

Perderia ela tudo quando se levassem ao Julius para encerrá-lo o resto de seus dias? Era o homem que realmente achava conhecer e que amava, ou uma criatura que só existia em seus próprios desejos?

Era absurdo achar-se com Simnel nessa bonita sala, dois completos desconhecidos no plano emocional, atacando-se mutuamente mas sofrendo a mesma dor.

— Se sabia que ia matar a Minnie, por que não fez algo? - perguntou ela.

Era uma pergunta cruel, mas a merecia por aceitar tão rápida e cegamente que Julius era culpado. Julius era seu irmão! Deveria sentir certa lealdade por ele, tanto se fossem rivais como se não. Minnie tinha destruído seu critério junto com tudo quão bom havia nele.

— Pelo amor de Deus! - explodiu ele. — Não acha que o teria feito se soubesse? Queria-a! Minnie era... a pessoa mais maravilhosa e apaixonadamente vital que jamais conheci. Era como se ele tivesse destruído a vida em si mesmo!

— Não acha que ele também sabia como era cheia de vida? - perguntou ela, ferindo-se a si mesma ao dizê-lo.

— Ele não a amava - replicou Simnel em voz baixa. — Não a merecia.

— Diz isso como se amar e merecer fossem uma mesma coisa - respondeu ela. De novo evitavam olhar-se. — Nesse caso, Olga merece seu amor. Ou alguma vez parou para pensar nisso?

— Não pode evitar amar a alguém - disse ele entre dentes. — Não pode amar por obrigação. Se alguma vez amou a alguém, e não escolheu simplesmente se casar com essa pessoa como a aliança mais proveitosa e segura que poderia fazer, tem que saber.

Não podia acusá-lo de ser cruel; ela mesma tinha sido igualmente cruel.

— Não me ofereceu um matrimônio por amor - respondeu ela. — Como tampouco ofereceu a você nem talvez a Minnie. É muito ingênuo se acha que pode escolher fazer ou desfazer a vontade. Ou se pensa que o que quer sairá tal como espera. Olga o queria. Parece que continua querendo-o, mas acha que vai fazer o eternamente?

— Eu queria a Minnie - disse ele de novo. — Não acredito que o entenda. Você nunca a quis. Ela sabia. Tinha-lhe ciúmes pelo afeto que sentia Cahoon por ela. O a admirava como nunca admirou a você.

Ambas as coisas eram certas, mas, curiosamente, foi a acusação de que ela não tinha querido a Minnie o que lhe doeu mais profundamente. Deveria havê-lo tentado pelo menos. Mostrou-se passiva, perdida em sua própria solidão, muito absorta em si mesmo para imaginar o que sentia Minnie. Pensou nisso com honestidade e ficou horrorizada. Não era de estranhar que Cahoon não a tivesse querido. Ela tampouco se quis muito a si mesma.

— Sei - disse alto. — Mas você amava a Minnie? Ou amava como lhe fazia sentir, apaixonado e cheio também de vida? E o odiava! Fazia que se comportasse como um néscio. Amava-a tanto que não se importava que todos soubessem... e sabiam. Você traiu tanto a sua mulher como a seu irmão. Era isso o que queria ser, o que admira por si mesmo? - voltou-se por fim para olhá-lo.

Ele estava lívido.

— Realmente a odiava, verdade? - sussurrou. Por que? Pelo Cahoon ou pelo Julius?

Ela sorriu.

— Ao menos não tem a arrogância de acreditar que era por si! Ocorreu-lhe pensar que a maioria das mulheres casadas se compadecem umas das outras quando são traídas? Talvez a odiasse pelo que estava fazendo a Olga assim como ao Julius.

Simnel tinha os olhos brilhantes.

— O suficiente para matá-la por isso?

— Achava que suspeitava de seu próprio irmão. - Era uma acusação, mas o medo e a fúria fizeram que o tom soasse cortante.

— Bom, não fui eu, e ela era a pessoa a que Cahoon mais queria - indicou ele. — Se não foi Julius, deve ter sido Hamilton, e por que demônios ia fazê-lo ele? Confronta-o, Elsa, quem quer que seja matou ao menos três vezes: a Minnie, a pobre prostituta que só veio aqui para fazer seu trabalho e à outra desgraçada da África que todos estivemos tratando de esquecer. Cahoon nem sequer estava ali, de modo que não pôde ser ele.

— Então tem que ser Hamilton - se limitou a dizer ela. — Mas não estou certa de que não fosse você. Talvez estivesse desesperado por escapar do controle que ela exercia sobre você. Ou talvez tivesse cansado da luxúria e traição. Não podia evitá-lo. Cada vez que zombava, respondia como um cão domesticado. Pode ser que desprezasse a si mesmo e que esse fosse o único modo de recuperar a liberdade.

— Cahoon tem razão, é uma mulher fria e patética. - Pronunciou as palavras entre dentes, com voz trêmula.

— Porque não vou por aí com um vestido vermelho, provocando às pessoas? -replicou ela, mas a acusação tinha feito brecha.

Sabia que Cahoon já não a queria. Se queria a alguém era a Amelia Parr. Tinha-o visto em seus olhos. Mas mesmo assim lhe doía que o tivesse confessado a outro homem. Era negar por completo que ela tivesse algum valor.

— Porque vai por aí com um vestido azul, fria como gelo e assustada de sua própria sombra - replicou ele. — E, Deus a perdoe, você está viva!

— Você também o está! - replicou ela. — E talvez se tivesse contido seus apetites em lugar de lhes dar rédea solta, Minnie também o estaria. Parou para pensar nisso? Se Julius a matou, então talvez foi você quem o empurrou a isso. - Tinha estado a ponto de dizer que talvez o fez Olga. Quase lhe escaparam as palavras.

Ele tinha o rosto pálido, com manchas de cor nas faces.

— Está dizendo que se sua mulher preferir a outro homem isso é motivo suficiente para que a mate?

— Mais vale que não o seja ou Olga poderia acreditar que está justificado matá-lo respondeu ela. — E eu não a culparia.

Era mentira. A raiva contra ele por ter acusado ao Julius, e a deslealdade disso, retorciam-se em seu interior. Também estava o amargo medo, minúsculo, mas inegável, de que pudesse ser verdade. Odiava-se ainda mais por isso, mas estava ali.

Amava ao Julius? Era o amor uma lealdade inquebrável, fossem quais fossem as provas? Uma negação de seus próprios valores, de sua inteligência? Era algo que se nega a acreditar o mal e o superficial de uma pessoa, que só vê o limpo, o desejo a ser valente, generoso, gracioso e amável? Ou também mostra os medos e os fracassos, os sonhos quebrados, mas mesmo assim segue amando? É terno com a esperança machucada? Ainda lhe importaria Julius se não se parecesse em nada à imagem que formara dele?

Era amor ou uma obsessão, por seu rosto de uma beleza fascinante, seu sorriso e suas mãos, o tom de sua voz? Era a seus próprios sonhos ao que se aferrava e amava? Que fácil e que irreal.

Abriu-se a porta e entrou Liliane, seguida ao cabo de um momento por Olga. Elsa disse umas palavras de cortesia. Simnel murmurou algo sem sentido e lhes deu as costas. Ninguém sabia o que dizer que fosse sincero ou algo mais que um tópico para romper o silêncio.

Elsa olhou às outras mulheres e se perguntou quantas concessões tinham feito. Eram mais honestas que ela ao enfrentar à realidade, ao amar aos homens apesar de suas debilidades e fraquezas?

Acaso não há um pouco de cegueira em todo amor? Como sobrevive se não? Não é a fé nas possibilidades do bom e o formoso o que inspira sua existência?

Entrou Cahoon seguido de Hamilton Quase. Os dois estavam abatidos, com manchas na pele e as faces afundadas, sobretudo Cahoon porque também se cortara ao barbear-se. Tinha um estranho ar exânime, como se tivesse encolhido fisicamente. Saltava à vista que Hamilton já tinha bebido bastante. Uma lamentável agressividade em sua atitude sugeria que se propunha seguir fazendo-o. Fugiu deliberadamente o olhar preocupado de Liliane.

O jantar foi espantoso. Havia seis talheres, e a ausência do Julius e Minnie saltava à vista. As mulheres não foram de negro porque não tinham levado nada dessa cor e a noite anterior tinham jantado em seus quartos. Decantaram-se pelos tons mais escuros de seu vestuário e por uma ausência total de joalheria. A conversa era entrecortada e desesperadamente artificial até que Cahoon jogou a farsa por terra.

— Alguém viu ao estúpido do policial desde esta manhã? - perguntou.

Ninguém respondeu. Ao final Simnel sacudiu a cabeça, com a boca cheia.

— Deveria estar resolvido para amanhã - prosseguiu Cahoon. — Não sei por que não pôde fechar o caso hoje.

— Teremos que ir? - perguntou Olga, olhando a uns e outros.

Hamilton se recostou em sua cadeira e olhou ao Cahoon com muita seriedade.

— Não - disse Cahoon laconicamente. — O curso da história não se detém por uma morte individual, nem mesmo quando se tratasse da dos reis e rainhas, e nem digamos a de um simples ser querido. Concluirei as negociações com Sua Alteza Real, o que não levará muito tempo mais. Depois, todos poderemos partir. Terá que procurar um diplomata adequado é claro, para substituir ao Julius.

— Aqui não aconteceu nada - disse Elsa com frieza. — Por que deveríamos deixar que uma simples morte ou uma condenação se interponha no caminho da ferrovia?

— Não beba mais, Elsa. Não lhe assenta bem - disse Cahoon sem voltar-se para ela.

— Admitiu Julius que matou a Minnie? - perguntou Hamilton, erguendo-se de novo em sua cadeira. — Suponho que não e que por isso o policial segue fazendo perguntas por aí. Ouvi dizer que hoje viu o príncipe de Gales e depois à princesa.

Cahoon estava imóvel. Tinha os dedos brancos por onde pegava o pé da taça.

— Imagino que é verdade - disse, pigarreando para tratar de aliviar a tensão que estrangulava sua voz. — Está seguindo as mesmas pistas que seguiu Minnie, só que, Deus o mande ao inferno, é muito tarde para salvá-la.

— Pistas? - repetiu Simnel com aspereza. .

— Não seja estúpido! - exclamou Cahoon ferozmente. — Se Minnie não tivesse averiguado a verdade sobre a morte dessa mulher, Julius não a teria matado a ela também! Nem sequer o bufão do Pitt é capaz de averiguar!

— Que pistas? - As palavras saíram da boca de Elsa antes que se detivesse para pensar nas conseqüências, depois foi muito tarde.

Cahoon se voltou em seu assento para olhá-la fixamente. Pareceu considerar uma resposta indignada ou displicente, mas trocou de opinião.

— Estão relacionadas com uns lençóis com monograma, uma porcelana quebrada e grande quantidade de sangue.

Todos ficaram paralisados, com a comida a meio caminho da boca, as taças no ar. A Liliane lhe escapou um grito. Hamilton deixou o garfo devagar na mesa.

Elsa esperou. Sabia pela expressão de Cahoon que ia dizer algo mais.

— Parece que se quebrou um objeto de porcelana chinesa - começou a dizer.              — Porcelana do Limoges, para ser exato. Bastante peculiar. Os criados limparam as partes e os levaram...

— De onde? - perguntou Hamilton. — Não seria do armário da roupa branca!

Elsa notou como lhe subia uma risada histérica e aguda pela garganta e levou uma mão à boca para reprimi-la.

Simnel se inclinou para diante.

— Está dizendo que estava no quarto de Julius e que Minnie sabia? Por que os criados o limparam igualmente?

Ao Cahoon lhe esticou um músculo ameaçador no queixo.

— Não, é claro que não aconteceu no quarto de Julius. Parece que a pobre mulher morreu no dormitório da rainha...

— O que? - estalou Simnel.

Liliane deixou cair o garfo ruidosamente.

Olga soltou um grito que foi instantaneamente contido; atrás poderia ter havido qualquer emoção.

— Sua Majestade está em Osbome - indicou Cahoon. — Não deve ter sido muito difícil para o Julius levar ali a pobre mulher...

— Mas por que? - insistiu Hamilton. — Não tem sentido!

— Um cavalheiro hospedado no Buckingham Palace viola e estripa a uma prostituta e pretende lhe achar um sentido! - gritou Cahoon, desafogando por fim a raiva e a dor. — O álcool te faz podre o cérebro, Quase. Estou falando do que averiguou Minnie, não trato de explicá-lo!

Elsa não pôde suportar. Negava-se a acreditar que Julius fosse o homem que Cahoon estava descrevendo.

— Se Minnie te disse tudo isto, por que não a protegeu você mesmo? - acusou-o.      — Joga a culpa no Pitt por não ter detido antes ao Julius, mas você não lhe deu esta informação, não é verdade?

Cahoon a ignorou, mas ela soube pelo sangue que lhe amontoou no pescoço que a tinha ouvido.

— Minnie compreendeu que a mulher não podia ter morrido no armário - continuou ele. — E que a porcelana era a chave.

— Disse-lhe isso ela? - insistiu Hamilton.

— É claro que não! - replicou Cahoon. — O deduzi por mim mesmo!

— Muito tarde para ajudá-la - indicou Elsa.

— Está visto que sim! - Zombou ele. — É um comentário estúpido e malicioso, Elsa, muito malicioso.

Ela estava muito zangada, muito desesperada para que lhe seguisse importando que a humilhasse diante de outros.

— Mas certo. Você conhecia a Minnie, via-a e falava com ela todo dia, e conhecia o Julius - disse. — Se não o deduziu até que foi muito tarde, não é uma hipocrisia acusar à polícia por não havê-lo feito tampouco?

O sangue obscureceu o rosto do Dunkeld. Se estivessem os dois sós, a teria golpeado, ela não tinha nenhuma dúvida. Viu-o em seus olhos e soube que ele tinha visto que sabia. Odiava-o pela Minnie, pelo Julius e por seu próprio sentimento de culpa por não ter querido a Minnie. Ela não a tinha protegido nem tinha sido alguém em quem Minnie poderia ter confiado as coisas terríveis que tinha descoberto. Não podia defender-se; só podia atacar.

— Como demonstra isso que foi Julius? - perguntou. — Qualquer um poderia ter entrado no dormitório da rainha. Como sabia Julius onde estava? Nunca tinha estado antes no palácio. E como entrou nele?

Todos olharam ao Cahoon.

— Como sabe que era o dormitório da rainha? - perguntou Hamilton com curiosidade.

— Porque o Limoges era dali, estúpido! - replicou Cahoon.

— Como sabe? Viu-o você ali? - Hamilton não se deixou persuadir sem provas.

— Pelos lençóis com monograma. - Cahoon se mostrou exageradamente paciente. — E o fato de que não fosse o quarto do príncipe. Espero que não vá sugerir que era o da princesa.

Hamilton deu de ombros.

— Parece lógico - concedeu.

— Obrigado. - Cahoon inclinou a cabeça com sarcasmo.

O resto da comida se desenvolveu quase em silêncio. O ruído do faqueiro contra a porcelana e o tinido das taças pareciam uma intrusão. Assim que recolheram o prato principal, Olga se desculpou pondo uma enxaqueca como pretexto. Os homens ficaram sentados enquanto Elsa e Liliane se levantavam, declinando tomar algo mais e desejando que os criados se retirassem por essa noite.

O silêncio entre as duas mulheres crepitava de incerteza, e de uma emoção tensa e impronunciada durante anos. As duas temiam pelos homens que amavam. Para Liliane era seu marido, o lógico e correto. O amor da Elsa, pelo contrário, era tão solitário e estava tão carregado de incerteza que o nó que se o fazia no estômago era como uma pedra, uma dor dura, pesado e doloroso a todas as horas. Era uma situação intolerável.

— Acha que Cahoon tem razão? - começou a dizer com voz trêmula. — Me refiro a que Minnie averiguou o que tinha passado a partir de uns fragmentos de porcelana e de uns lençóis manchados de sangue.

Liliane seguia de costas a Elsa. A luz fazia brilhar seus caracóis brunidos, aquela noite sem ornamentos. Tinha a pele dos ombros sem imperfeições.

— Temo que não tenho nem idéia - respondeu. — Minnie não confiou em mim.

Elsa não se deixou desanimar.

— Não supunha que o tivesse feito. Se tivesse falado com alguém teria sido com seu pai. Estava pensando na probabilidade disso, até na lógica. Como se inteirou da porcelana quando ninguém mais sabia?

— Não sei, Elsa. - Liliane se voltou por fim. — Entendo que esteja afetada com a morte da Minnie e que entender algo te ajudaria. Far-nos-ia sentir a todos um pouco menos impotentes, mas não tenho nem idéia do que aconteceu. Para mim não tem nenhum sentido e já não estou segura do que esperar. Sinto muito.

Mentia. Elsa de repente teve certeza. Liliane tinha medo. Estava em seu olhar fixo, não de todo enfocado, e em sua postura, como pronta para mover-se em qualquer momento na direção que oferecesse mais segurança.

— Não acredita que fosse Julius, não é? - disse Elsa, e assim que pronunciou as palavras, soube que tinha falado muito depressa. Sua impulsividade lhe tinha feito perder vantagem.

— Já lhe disse - repetiu Liliane com paciência. — Não sei nada. Se soubesse algo, o haveria dito a esse policial, como se chama...

Isso também era mentira, mas esta vez se notou mais. Talvez ela se desse conta porque desviou o olhar.

— O que tem a mulher que mataram na África? - perguntou Elsa. — Você estava ali. Foi como os assassinatos daqui?

Liliane empalideceu.

— Que eu saiba, sim. Isso não significa que fosse a mesma pessoa quem o fez.

— Oh, Liliane! - exclamou Elsa com brusquidão. — Não me tome por tola. Hamilton, Julius e Simnel estavam ali, e um deles tem que ser o que cometeu os dois assassinatos daqui.

Liliane se voltou de novo, fazendo virar as saias com uma elegância inconsciente.

— Certamente. - Disse-o sem convicção, de fato quase com indiferença.

Do que tinha medo? Só podia ter sido Hamilton. Ou se tratava de um segredo que ocultava? Cahoon tinha comentado que tinha estado a ponto de casar-se com o Julius mas seu pai se havia oposto. Depois Hamilton tinha ajudado tanto, com tanta delicadeza e compreensão quando seu irmão tinha morrido que se apaixonou por ele.

Talvez fosse melhor homem que Julius; mais honrado, mais compassivo e leal, todas as qualidades que Elsa sabia que admirava. O que importava se o sorriso de alguém lhe produzia um nó no estômago e a deixava com o pulso acelerado e as mãos trêmulas? Isso era uma obsessão, não valia a pena falar disso com o mesmo fôlego que o amor.

Liliane voltou a olhá-la com uma expressão mais suave, como se houvesse sentido um momento de compaixão.

— Minnie deve ter falado com seu pai - disse em voz baixa. — Quem mais pôde lhe haver dito que estava fazendo todas essas perguntas? Deve ter sido isso o que esteve insinuando durante o jantar na noite que a mataram. Atormentou-o, teve que notá-lo.

— Para que?

Na cabeça da Elsa se amontoavam idéias desatinadas e formadas pela metade. Tinha averiguado Minnie que tinha sido Julius? Ou temendo que o ódio de seu pai por ele o levasse a acusar ao Julius e inclusive a alterar as provas, havia-lhe dito que defenderia a seu marido, tanto se o amava como se não? Minnie era a única que nunca tinha temido Cahoon. Talvez isso era o que mais gostava ele dela.

Tinha querido Minnie ao Julius depois de tudo? Sua aventura amorosa com o Simnel tinha sido só uma forma de fazê-lo reagir, de lhe provocar ciúmes para não falar de amor? Pobre Minnie; muito orgulhosa e muito cheia de paixão para suplicar, muito só para confiar em alguém, e talvez muito doída pelo que poderia ter sido o único rechaço que lhe importava na vida. Nada a tinha preparado para isso; talvez não tivesse tido sonhos internos que a fortalecessem.

E não lhe tinha devotado nada além de rivalidade. Que miserável, que mesquinha e profundamente egoísta tinha sido. Estava envergonhada agora que era muito tarde.  Liliane a observava, seus bonitos olhos fixos, vendo as razões que havia detrás da necessidade de respostas.

Desta vez foi Elsa quem desviou o olhar. Parte de sua confusão interior se devia ao ciúmes. Reconheceu-os com uma espécie de amargura. Julius tinha cortejado Liliane mas ela o tinha rejeitado para ir-se com o Hamilton Quase. Tinha estado sempre no centro de todo isso? Ele nunca tinha deixado de estar apaixonado por ela. Minnie sabia, e Elsa era a única que não o fazia.

— Não pode fazer nada - disse Liliane com suavidade. — Não se podem mudar as coisas, só piorá-las.

— Suponho que tem razão - concedeu Elsa, apesar de que mentia enquanto o dizia.

Preferia procurar a verdade, embora isso significasse descobrir que Julius era culpado, a render-se sem saber e trair seus sonhos por covardia. Trocou deliberadamente de assunto por outro totalmente corriqueiro.

Liliane pareceu aliviada.

 

Todos se retiraram cedo. Não havia nada que dizer. Nem sequer os homens se viram com ânimos de seguir falando da África, e abordar outro tema teria seria acantonado e absurdo. A ausência do Julius e Minnie era como um enorme fossa ao redor do qual todos andavam nas pontas dos pés, aterrados de cair nele e ao mesmo tempo, atraídos para ele por uma espécie de vertigem emocional.

Quando Elsa se desculpou, foi desagradavelmente consciente de que Cahoon a seguia imediatamente, quase lhe pisando a prega do vestido ao entrar no quarto. Bartle a esperava, mas Cahoon lhe ordenou que saísse e fechou a porta.

Elsa sentiu palpitar o medo. Retrocedeu, mas em seguida se enfureceu consigo mesma por havê-lo feito. Deteve-se, muito perto da cama. Poderia arrojá-la facilmente sobre ela, mas se se movesse de lado teria forçosamente que aproximar-se dele. Negou-se a ser a primeira a falar. Era o que ele esperava que fizesse: o signo de rendição e o impulso de aplacá-lo.

— Está fazendo ridículo, Elsa - disse com frieza. — Se quer jogar por terra sua reputação, não me importa. Mas continua sendo minha esposa e não permitirei que se comporte de forma histérica uma vez que vamos daqui. Se não puder controlar sua imaginação e ter um pouco de dignidade, terão que fazer uma carga de ti, talvez em algum estabelecimento apropriado onde não possa fazer mal, nem a mim nem a si mesma. - Falava a sério. Não era só um arrebatamento de cólera, era uma ameaça. Ela viu em seus olhos, intensa e real. Notou que lhe tremiam os joelhos e lhe supôs um esforço manter-se em pé, olhando-o.

— Refere a um manicômio, como ao Julius? - murmurou. — Isso seria muito oportuno. Assim poderia ter uma aventura com a Amelia Parr sem que eu o estorvasse.

— Não me estorva, Elsa - replicou ele. Era condenatório. Nada a teria eliminado de forma mais efetiva. — Esqueça os assassinatos ou averiguará muitas coisas mais sobre o Julius que prefere não saber. - Brilhavam-lhe os olhos, como se em seu foro interno risse sem piedade de seu absurdo.

Nesse momento tomou a determinação de lutar. Se tinha havido alguma indecisão em seu interior tinha desaparecido. Envergonhava-se do muito que tinha demorado para decidir-se. Isso não tinha nada que ver com o Julius: era por ela mesma, para ser a pessoa que queria ser, e não uma mulher tão absorta em suas próprias necessidades e medos para pensar em alguém mais, ou para perceber que as fanfarronadas de Minnie ocultavam, de fato, que ela também sofria.

Tomou ar para dizer a Cahoon, mas em seguida caiu na conta de que era uma tolice fazê-lo. E se Julius não era culpado, mas tinham conseguido que o parecesse? Não era isso o que ela tratava de acreditar? Mas quem tinha sido se não Cahoon? Era porque odiava ao Julius por querer ao Liliane em lugar da Minnie, porque se sentia insultado e doído por ela?

Não, havia outro motivo mais claro e muito mais compreensível. Saltava à vista, agora que podia vê-lo. Cahoon queria repudiá-la para casar-se com a Amelia Parr. Se ela fosse inocente, a boa esposa que tinha parecido ser até agora, ele não tinha nenhuma desculpa para afastá-la de seu lado. E jamais mancharia a reputação que ganhou com tanto esforço. Queria obter o título de lorde como fosse. Era como um homem faminto que sonha com comida; só que em seu caso se tratava de respeitabilidade, de sensação de pertença, a aceitação que tinha desejado e que o tinha evitado toda sua vida.

Devia conseguir que Elsa fosse um ser tão horrível aos olhos da sociedade que ninguém o culparia por repudiá-la. Devia lhes fazer acreditar que, se estivesse em sua situação, não teriam tido mais remédio que fazer o mesmo que ele.

Se ela lutava agora pelo Julius, que parecia inegavelmente culpado de assassinato e loucura não uma mas três vezes, seria fácil convencê-los de que também tinha uma aventura sentimental com ele. Teria traído seu marido e a sua filha, exatamente os pecados que se negara a si mesmo. Quem acreditaria nela?

Isso significava que não devia lutar, ou se o fizesse, que devia ganhar.

— Seriamente? - disse, fazendo um esforço tão intenso por não elevar a voz que cravou as unhas nas palmas das mãos, e se alegrou de poder a escondê-las debaixo das dobras da saia. — Isso me surpreenderia. Não acredito que averigüemos nada. Acredito que vamos manter tudo em segredo. Depois de ter tido tanto trabalho para procurar o apoio do príncipe de Gales, não quererá que se arme um escândalo que lhe obrigue a abandoná-lo, não?

Viu que lhe escurecia o rosto e que dava dois passos para ela. Estava tão perto que sentia o calor que emanava dele, e o aroma de fumaça de charuto e o débil fedor que desprendia sua pele. Ela não se moveu, embora lhe custasse manter o equilíbrio sem piscar. Tinha pronunciado essas palavras a modo de alegação por escrito e evasiva. Ele o tinha tomado como uma ameaça. Não estava sendo muito ardilosa.

Ele a esbofeteou com força, fazendo-a cambalear. Ela chocou com a cama com a parte posterior dos joelhos e caiu de costas em cima, impotente.

Ele se inclinou sobre ela, com uma mão a cada lado, e desceu o rosto até detê-la a um palmo da dela.

— Não lute contra mim, Elsa - disse entre dentes. — Sou não só mais forte que você mas também mais esperto, mais sábio e mais valente. Além disso, sou seu marido, o que põe a lei de meu lado. Não enforcarão ao Julius, limitar-se-ão a encerrá-lo. Não interfira.

Não havia nada que ela pudesse dizer, mas não afastou os olhos dele.

Ele esperou que respondesse, ainda inclinado sobre ela.

— Não quererá ficar aqui toda a noite? - perguntou ela. Doía-lhe o rosto e notava-o arder. Relaxou deliberadamente o corpo. — Te cansará antes que eu - acrescentou.

Ele se ergueu bruscamente e saiu com uma portada. Ela se levantou rapidamente e fechou com chave a porta do quarto de vestir que se comunicava com seu quarto, assim como a porta do corredor. Depois se deitou na cama, tremendo com tanta violência que lhe pareceu que todo seu esqueleto se sacudia com ela.

Não tinha nem idéia de quanto tempo tinha transcorrido quando se endireitou de novo, mais serena, e começou a pensar. Não se tinha deixado alternativa que lutar. Por fim tinha tomado uma decisão. Podia ser a equivocada, mas era preferível a perder por não ter encontrado a paixão ou a coragem de tentar.

Minnie tinha falado suficientemente da verdade para que a matassem para sossegá-la. Aparentemente o prato de Limoges quebrado tinha sido importante. Cahoon o havia descrito como branco e azul com a borda dourada. Ela o tinha visualizado claramente: um prato decorativo com uma espécie de ripado dourado pelo bordo e um desenho no centro de um homem e uma mulher relaxadamente sentados em um banco de jardim. O azul estava em sua roupa. Pensou nele porque era o único Limoges que recordava ter visto. É claro, poderia ter sido de qualquer forma ou desenho.