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Cristianismo Puro e Simples / C. S. Lewis
Cristianismo Puro e Simples / C. S. Lewis

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Cristianismo Puro e Simples

 

O conteúdo deste livro foi originalmente divulga­do na forma de programas de rádio antes de ser publi­cado em três volumes separados: Broadcast Talks (1942), Christian Behaviour (1943) e Beyond Personality (1944). Nas versões impressas, fiz pequenos acréscimos àquilo que falei ao microfone; mas, em linhas gerais, mantive o texto tal como fora ao ar. Na minha opinião, uma "con­versa" pelo rádio deve manter-se o mais próxima possí­vel da linguagem oral e não deve soar como um ensaio acadêmico lido em voz alta. Em meus programas, por­tanto, empreguei todas as contrações e coloquialismos usados nas conversas cotidianas. Nas edições impressas, reproduzi este modo de falar, usando don't e we've em vez de do not e we have[1]. E toda vez que, nos colóquios radiofônicos, eu sublinhara a importância de uma pa­lavra com o tom de voz, publiquei-a em itálico. Hoje, tendo a pensar que isso foi um erro — um híbrido in­desejável entre a arte da fala e a da escrita. Um pales­trante deve usar a variação da voz como instrumento de ênfase, pois esse método é próprio ao meio de co­municação empregado. Já um escritor não deve utilizar os itálicos para esse fim. Ele dispõe de meios próprios e diversos de frisar as palavras-chave, e deve usá-los. Na presente edição, desfiz as contrações e substituí a maior parte dos itálicos, reformulando as frases em que apare­ciam: espero que, mesmo assim, a obra não tenha per­dido o tom "popular" ou "familiar" que desde o início pretendi dar-lhe. Também fiz cortes e acréscimos em partes da obra cujo tema julguei compreender melhor hoje do que há dez anos, ou onde sabia que a versão original não fora compreendida pelo público.

O leitor deve saber desde já que não oferecerei aju­da a ninguém que esteja hesitante entre duas denomi­nações cristãs. Não sou eu que vou lhe dizer se você deve seguir a Igreja Anglicana, a Católica Romana, a Meto­dista ou a Presbiteriana. Essa omissão é intencional (mes­mo na lista que acabei de elaborar, a ordem é alfabética).

Não faço mistério a respeito da minha posição pessoal. Sou um simples leigo da Igreja Anglicana e não tenho preferência especial nem pela Alta Igreja, nem pela Baixa, nem por coisa alguma. Neste livro, porém, não busco converter ninguém à minha posição. Desde que me tor­nei cristão, penso que o melhor serviço, talvez o único, que posso prestar a meus semelhantes incrédulos seja explicar e defender a fé comum a praticamente todos as cristãos em todos os tempos. Tenho várias razões para pensar assim. Em primeiro lugar, as questões que divi­dem os cristãos entre si quase sempre envolvem pontos da alta teologia ou mesmo de história eclesiástica, que de­vem ser tratados apenas pelos verdadeiros conhecedores da matéria. Vadeando nessas águas profundas, eu não po­deria ajudar a ninguém; antes, teria de ser ajudado. Em segundo lugar, penso que se deve admitir que a discussão dos pontos disputados não contribui em nada para tra­zer para o âmbito cristão uma pessoa de fora. Enquan­to nos ocuparmos em escrever e discutir sobre estes te­mas, estaremos fazendo mais para impedir essa pessoa de ingressar em qualquer comunidade cristã do que para trazê-la para a comunidade à qual pertencemos. Nossas divisões só devem ser discutidas na presença dos que já chegaram a acreditar que existe um único Deus e que Jesus Cristo é seu único Filho. Por fim, tenho a impres­são de que mais e melhores autores se engajaram no debate desses temas controversos do que na defesa daquilo que Baxter chamou "cristianismo puro e simples". A par­te que me coube é a mais modesta, mas é também aquela em que penso poder dar a melhor contribuição. A deci­são de segui-la foi natural.

Pelo que sei, foram esses os meus únicos motivos, e ficarei grato se as pessoas se abstiverem de fazer espe­culações fantasiosas sobre o meu silêncio a respeito de certos temas em que há desavença.

Esse silêncio não significa, por exemplo, que eu es­teja "em cima do muro". Às vezes estou: há, entre os cris­tãos, certas questões pendentes cujas respostas, segundo penso, ainda não nos foram fornecidas. A respeito de ou­tras, talvez eu nunca obtenha as respostas; se as buscasse, mesmo que num mundo melhor, ser-me-ia dito o que foi respondido a um inquiridor bastante superior a mim: "O que lhe importa? Quanto a você, siga-me!"[2] Há uma terceira ordem de questões, no entanto, sobre as quais tenho uma posição firme, mas mesmo assim não me pronunciarei sobre elas, pois não escrevo para expor o que eu poderia chamar "minha religião", mas para ex­plicitar o cristianismo "puro e simples", que é o que é e sempre foi, desde muito antes de eu nascer, quer eu goste disso, quer não.

Certas pessoas tiram conclusões precipitadas do fato de eu manter silêncio a respeito da Virgem Maria, a não ser para afirmar o nascimento virginal de Jesus Cristo. Mas não é óbvio o meu motivo para proceder dessa ma­neira? Se falasse mais, penetraria em regiões altamente controvertidas; e não existe, entre os cristãos, uma con­trovérsia maior ou que deva ser tratada com maior tato. As crenças dos católicos sobre esse assunto não são de­fendidas apenas com o fervor normal que se espera en­contrar em toda a religiosidade sincera, mas (muito na­turalmente) com o ardor incomum e, por assim dizer, cavalheiresco, com que um homem defende a honra de sua mãe ou de sua amada. E muito difícil discordar do católico sem, ao mesmo tempo, não parecer a seus olhos um malcriado ou mesmo um herege. Já a crença do pro­testante a respeito deste assunto desperta sentimentos inerentes às raízes de todo o monoteísmo. Para o pro­testante radical, a distinção entre o Criador e a criatura (por mais santa que seja) parece ameaçada: o politeís­mo renasce. Logo, é difícil discordar do protestante sem parecer a seus olhos algo pior do que um herege — um pagão. Se existe um tema que tem o poder de causar danos a um livro sobre o "cristianismo puro e simples" - se existe um tema que pode tornar absolutamente im­produtiva sua leitura para quem ainda não acredita que o filho da Virgem é Deus —, é este.

Curiosamente, você não poderá concluir, a partir do meu silêncio deliberado sobre os temas que suscitam polémica, se eu os considero importantes ou pouco im­portantes, pois a questão da importância é em si mes­ma um dos pontos polémicos. Uma das coisas sobre as quais os cristãos discordam é a importância de suas dis­cordâncias. Quando dois cristãos de igrejas diferentes iniciam uma discussão, não demora muito para que um deles pergunte se o ponto em questão "é realmen­te importante", ao que o outro retruca: "Importante? Como não? E absolutamente essencial!"

Digo tudo isso só para tornar claro que tipo de li­vro tentei escrever; não, de forma alguma, para ocultar ou tentar fugir à responsabilidade por minhas crenças pessoais. Sobre elas, como já disse antes, não há segredo. Para citar o Tio Toby[3]: "Estão todas no Livro de Ora­ção [4]Comum."0

O maior perigo, sem dúvida, era o de apresentar como do cristianismo comum algo específico da Igreja Anglicana, ou (pior ainda) de mim mesmo. Preveni-me contra este perigo enviando os originais do atual Livro II a quatro clérigos (um anglicano, um católico, um me­todista e outro presbiteriano), pedindo suas opiniões.

O clérigo metodista achou que não falei o suficiente so­bre a Fé, e o católico achou que fui longe demais ao ta­xar de relativamente pouco importantes as teorias que explicam a Expiação. Fora isso, nós cinco estivemos de acordo. Não submeti os livros restantes a Veto" porque, neles, apesar de as diferenças entre os cristãos poderem aparecer, são somente desavenças entre indivíduos ou escolas, não entre denominações.

A partir das resenhas e das numerosas cartas que recebi, chego à conclusão de que o livro, mesmo que im­perfeito em outros aspectos, conseguiu ao menos apre­sentar um cristianismo consensual, comum, central, ou "simples". Nesse sentido, o livro pode colaborar para refutar a tese segundo a qual, uma vez omitidos os pon­tos em disputa, restaria do cristianismo apenas um va­go e minguado Máximo Divisor Comum. O MDC é, no fim, algo positivo, pleno e tocante, que se distingue das crenças não-cristãs por um abismo ao qual as piores di­vergências internas da Cristandade não são de modo algum comparáveis. Se não pude promover diretamente a causa da reunificação, talvez ao menos tenha tornado claro por que devemos nos reunir. Sem dúvida encon­trei algo do afamado odium theologicum da parte de mem­bros convictos de comunhões cristãs diferentes da mi­nha. A hostilidade, no entanto, veio principalmente de pessoas pouco qualificadas, seja de dentro da Igreja Anglicana, seja de fora: homens que, na verdade, não perten­cem propriamente a nenhuma comunhão. Isto é curio­samente consolador. E no centro da religião, onde ha­bitam seus mais verdadeiros filhos, que cada comunhão cristã se aproxima das outras em espírito, mesmo que não em doutrina. Isto sugere que nesse centro existe algo, ou Alguém, que, apesar de todas as divergências de fé, de todas as diferenças de temperamento, de toda uma história de perseguições mútuas, fala com uma só voz. Isso é tudo o que tenho a dizer sobre as omissões doutrinais. No Livro II, que trata da moral, também deixei que alguns assuntos passassem em branco, mas por outros motivos. Desde que servi na infantaria, durante a Primeira Guerra Mundial, me desagradam as pessoas que, cercadas de segurança e conforto, fazem exortações aos homens na frente de batalha. Do mesmo modo, re­luto em falar a respeito de tentações às quais não estou exposto. Nenhum homem, segundo penso, é tentado a cometer todos os pecados. A compulsão pelo jogo, por exemplo, foi deixada de fora da minha constituição; e, sem dúvida, o preço que pago por isso é faltar-me al­gum bom impulso do qual essa compulsão é o excesso ou a perversão. Logo, não me sinto qualificado para fa­lar sobre o permitido e o proibido nessa questão: não me atrevo nem mesmo a dizer se nela existe o permitido. Também não me pronunciei a respeito do controle de natalidade, pois não sou mulher, não sou nem mesmo um homem casado, nem sou sacerdote. Não caberia a mim emitir opiniões sobre as dores, os perigos e o pre­ço daquilo de que estou protegido. Não exerço nenhu­ma atividade pastoral que me obrigue a isso.

Objeções bem mais profundas poderão fazer-se sen­tir - e foram expressas — a respeito do uso que faço da palavra cristão, significando aquele que aceita as dou­trinas comuns ao cristianismo. As pessoas me pergun­tam: "Quem é você para definir quem é e quem não é cristão?" Ou então: "Não é possível que um homem que não consiga crer nessas doutrinas seja muito mais verdadeiramente cristão, esteja muito mais próximo do espírito de Cristo, do que alguns que crêem nelas?" Essa objeção é, de certo modo, muito acertada, muito gene­rosa, espiritual e sensível. Ela pode ter todas as qualida­des imagináveis, menos a de ser útil. Simplesmente não podemos, sem causar um desastre, usar a linguagem como esses contestadores querem que a usemos. Tenta­rei esclarecer o assunto a partir da história do uso de ou­tra palavra, muito menos importante.

Originalmente, a palavra gentleman tinha um sig­nificado evidente: o gentil-homem exibia um brasão e era senhor de terras. Quando dizíamos que alguém era um gentleman, não lhe estávamos fazendo um elogio, mas simplesmente reconhecendo um fato. Se disséssemos de um outro que não era um gentleman, não o estaríamos insultando, mas dando uma informação a seu respeito. Não havia contradição alguma em chamar John de men­tiroso e de gentleman, assim como não há em dizer que James é um tolo e um bacharel. Então, certas pessoas começaram a afirmar - com tanta propriedade, genero­sidade, espiritualidade, sensibilidade; com tudo, enfim, menos com praticidade: "Ah, mas o que faz um gentle­man não são as terras nem o brasão; é o saber compor-tar-se. Será que o verdadeiro gentleman não é aquele que se porta como tal? Logo, será que Edward não é mais gentleman que John?" A intenção dessas pessoas era boa. Ser honrado, cortês e corajoso é, sem dúvida, coisa me­lhor do que ter um brasão familiar. Porém, não é a mes­ma coisa. Pior, é uma coisa sobre cuja definição as pessoas jamais chegarão a um acordo. Chamar um homem de gentleman segundo esse sentido novo e mais refinado não é, na verdade, uma forma de dar informações a seu respeito, mas sim um modo de elogiá-lo: negar-se a cha­má-lo de gentleman é simplesmente uma forma de in­sultá-lo. Quando uma palavra deixa de ter valor descri­tivo e passa a ser um mero elogio, ela não nos esclarece sobre o objeto, só denota o conceito que o falante tem dele. (Uma "boa' refeição é simplesmente uma refeição que agradou a quem fala.) Um gentleman, agora que o velho sentido prosaico e objetivo da palavra deu lugar ao sentido "espiritualizado" e "refinado", quase sempre significa apenas uma pessoa do nosso agrado. O resulta­do é que hoje gentleman é uma palavra inútil. Já tínhamos no vocabulário palavras suficientes que expressam apro­vação; não precisávamos de mais uma. Por outro lado, se alguém quiser utilizar a palavra em seu velho sentido (numa obra histórica, por exemplo), não poderá fazê-lo sem dar explicações. Ela já não serve para esse fim.

Ora, se permitirmos que as pessoas comecem a es­piritualizar e refinar, ou, como elas diriam, "aprofundar" o sentido da palavra cristão, ela também vai rapida­mente se tornar inútil. Em primeiro lugar, os próprios cristãos não poderão mais aplicá-la a ninguém. Não cabe a nós dizer quem, no sentido mais profundo, está próximo do espírito de Cristo, pois não temos o dom de sondar os corações humanos. Não nos cabe julgar. Aliás, nos é proibido julgar. Para nós, seria uma maldosa arrogância dizer que um homem é ou não é cristão nes­se sentido refinado. E, obviamente, uma palavra que não podemos aplicar não é de grande utilidade. Já os des­crentes ficarão exultantes, sem dúvida, de a utilizar neste sentido refinado. Em suas bocas, ela se tornará simples­mente um elogio. Quando chamarem alguém de cristão, estarão somente dizendo que o julgam uma boa pes­soa. Este uso da palavra, porém, não enriquecerá a lín­gua, pois já dispomos do adjetivo bom. Entrementes, a palavra cristão terá sido destituída da verdadeira utili­dade que poderia ter.

Devemos, portanto, ater-nos ao sentido original, e óbvio, da palavra. O nome cristão foi empregado pela primeira vez em Antioquia (At 11:26) para designar "os discípulos", os que acataram os ensinamentos dos após­tolos. Não há, pois, por que restringir a palavra somen­te àqueles que tiraram o máximo proveito da instrução apostólica, nem estendê-la aos que, seguindo o sentido refinado, espiritual e interiorizado, estão "muito mais próximos do espírito de Cristo" do que o menos satis­fatório dos discípulos. A questão não é teológica nem moral, mas somente de usar as palavras de forma que todos possamos entender o que elas significam. Quan­do um sujeito segue uma vida indigna da doutrina cris­tã que professa, é muito mais claro dizer que se trata de um mau cristão do que chamá-lo de não-cristão.

Espero que nenhum leitor tome o cristianismo "puro e simples" aqui exposto como uma alternativa à profissão de fé das diversas comunhões cristãs existentes — como se um homem pudesse adotá-lo em vez do Congregaciona-lismo, da Igreja Ortodoxa Grega ou de qualquer outra igreja. O cristianismo "puro e simples" é como um saguão de entrada que se comunica com as diversas peças da casa. Se eu conseguir trazer alguém até esst saguão, te­rei cumprido o objetivo a que me propus. Porém, é nos cômodos da casa, e não no saguão, que estão a lareira e as cadeiras e são servidas as refeições. O saguão é uma sala de espera, um lugar a partir do qual se podem abrir as várias portas, e não um lugar de moradia. Para morar, segundo creio, o pior dos cómodos (seja lá qual for) será preferível. E verdade que certas pessoas vão desco­brir que terão de esperar no saguão por um tempo con­siderável, enquanto outras saberão com certeza e ime­diatamente em qual das portas deverão bater. Eu não co­nheço o porquê dessa diferença, mas tenho a convicção de que Deus não deixa ninguém à espera a não ser que a julgue benéfica. Quando você chegar ao seu cómodo, descobrirá que a longa espera lhe fez um bem que não seria alcançável por outros meios. Porém, sua estada no saguão deve ser encarada como uma espera, e não como um acampamento. Você deve perseverar na oração, im­plorando pela luz; e, claro, mesmo que ainda no saguão, deve começar a tentar obedecer às regras comuns à casa inteira. Acima de tudo, deve se perguntar continua­mente qual das portas é a verdadeira; não qual delas tem a pintura mais bonita ou possui os melhores orna­mentos. Em linguagem clara, a pergunta a ser feita não deve ser: "Será que eu gosto desses rituais?", mas sim: "Serão essas doutrinas verdadeiras? O sagrado mora aqui? Será que minha relutância em bater nesta porta não se deve ao orgulho, ou a um gosto pessoal, ou ao capricho de não simpatizar com o seu guardião?"

Quando você chegar ao seu cómodo, seja bondo­so com as pessoas que escolheram outras portas, bem como comas que ainda estão no saguão. Se elas estão no erro, precisam ainda mais de suas preces; e, se forem suas inimigas, você, como cristão, tem o dever de orar por elas. Esta é uma das regras comuns à casa inteira.

 

Este livro deve ser interpretado à luz de seu contex­to histórico. Num ato de coragem, seu autor quis con­tar histórias que curassem os corações num mundo que perdera a sanidade. Em 1942, apenas vinte e quatro anos depois do fim de uma guerra brutal que dizimara uma geração inteira de jovens, a Grã-Bretanha via-se de novo envolvida numa guerra. Dessa vez, quem sofria mais eram os seus cidadãos comuns, na medida em que a peque­na nação insular era bombardeada todas as noites por quatrocentos aviões, na blitz[5] de triste lembrança que mudou a face da guerra, transformando civis em alvos e suas cidades em fronts de batalha.

Ainda rapaz, C. S. Lewis serviu nas pavorosas trin­cheiras da Primeira Guerra Mundial e, em 1940, quando as bombas começaram a cair sobre a Inglaterra, se alistou como oficial da vigilância antiaérea e passou a dar pa­lestras para os soldados da Royal Air Force, homens que sabiam, com quase toda a certeza, que seriam dados co­mo mortos ou desaparecidos depois de apenas treze mis­sões de bombardeio. A situação deles incitou Lewis a fa­lar sobre os problemas do sofrimento, da dor e do mal. Estes trabalhos resultaram no convite da BBC para que ele fizesse uma série de programas de rádio sobre a fé crista. Ministradas de 1942 a 1944, estas conferências ra­diofónicas foram mais tarde reunidas no livro que co­nhecemos hoje como Cristianismo puro e simples.

Este livro, portanto, não é feito de especulações filo­sóficas académicas. E, isto sim, um trabalho de litera­tura oral dirigido a um povo em guerra. Quão insólito devia ser ligar o rádio — que a toda hora dava notícias de mortes e de uma destruição indescritível — e ouvir um homem falar, de forma inteligente, bem-humorada e profunda, sobre o comportamento digno e humano, sobre a conduta leal e sobre a importância da distinção entre o certo e o errado. Chamado pela BBC para expli­car aos seus conterrâneos no que os cristãos acreditavam, C. S. Lewis lançou-se à tarefa como se ela fosse a coisa mais fácil do mundo, mas também a mais importante.

Mal podemos imaginar o efeito que as metáforas utilizadas no livro tiveram sobre os ouvintes na época. A imagem do mundo como um território ocupado pelo inimigo, invadido por forças malignas que destroem tudo o que é bom, ainda hoje desperta fortes associações. Nossos conceitos de modernidade e de progresso, bem como todos os avanços tecnológicos, não bastaram para dar fim às guerras. O fato de termos declarado ob­soleta a noção de pecado não diminuiu o sofrimento humano. E as respostas fáceis — colocar a culpa na tec­nologia ou, por que não, nas religiões do mundo - não resolveram o problema. O problema, C. S. Lewis insis­tia, somos nós. A geração ímpia e perversa da qual fa­lavam milhares de anos atrás os salmistas e os profetas é também a nossa, sempre que nos submetemos a ma­les sistémicos e individuais como se não tivéssemos ou­tra alternativa.

C. S. Lewis, que certa vez foi descrito por um ami­go como um homem apaixonado pela imaginação, acreditava que a aceitação complacente do status quo era muito mais do que uma fraqueza inócua. Em Cris­tianismo puro e simples, não menos do que em suas obras de fantasia, como as Crónicas de Nárnia ou os ro­mances de ficção científica, Lewis deixa escapar sua crença profunda no poder que a imaginação humana tem de revelar a verdade oculta a respeito de nossa con­dição e de nos trazer esperança. "O caminho mais lon­go é o mais curto para chegar em casa"[6] — tal é a lógica tanto das fábulas quanto da fé.

Falando unicamente com a autoridade da expe­riência de leigo e ex-ateu, C. S. Lewis disse aos ouvintes na rádio que o motivo pelo qual fora selecionado para a missão de explicar o cristianismo para a nova geração era o de não ser ele um especialista no assunto, mas antes "um amador... e um iniciante, não uma mão calejada"[7]. Confidenciou a amigos que aceitara a tarefa porque acreditava que a Inglaterra, que passara a se considerar como parte de um mundo "pós-cristão", nunca tinha aprendido de fato, em termos simples, em que consistia a religião. Assim como Soren Kierkegaard antes dele, e de Dietrich Bonhoefifer, seu contemporâneo, Lewis bus­cou, em Cristianismo puro e simples, nos ajudar a ver a religião com novos olhos, como uma fé radical cujos par­tidários devem ser comparados a um grupo clandesti­no agrupado numa zona de guerra, num lugar onde o mal parece predominar, para ouvir mensagens de espe­rança vindas do lado livre.

O cristianismo "puro e simples" de C. S. Lewis não é uma filosofia nem mesmo uma teologia que deve ser lida, discutida e guardada na estante. E um modo de vida que nos desafia sempre a lembrar, como Lewis disse cer­ta vez, que "não existem pessoas comuns", e que "aque­les de quem fazemos troça, com quem trabalhamos ou nos casamos, os que menosprezamos ou exploramos, são todos imortais"[8]. Quando entramos em sintonia com essa realidade, crê Lewis, nos abrimos para transformar imaginativamente nossas vidas de tal forma que o mal declina e o bem triunfa. E isto que Cristo quis de nós quando tomou para si nossa humanidade, santificou nossa carne e nos pediu em troca que revelássemos Deus uns aos outros.

Se o mundo faz essa tarefa parecer impossível, Lewis insiste em que ela não é. Mesmo alguém que ele vê co­mo "envenenado por uma criação miserável numa casa cheia de ciúmes vulgares e brigas gratuitas"[9] pode estar seguro de que Deus está bem ciente "da máquina gros­seira que tenta dirigir", e pede-lhe somente para "ir em frente e fazer o possível". O cristianismo que Lewis co­munga é humano, mas não é fácil: ele nos chama a reco­nhecer que a maior batalha religiosa não se trava num campo espetacular, mas dentro do coração humano co­mum, quando, a cada manhã, acordamos e sentimos a pressão do dia a nos afligir e temos de decidir que tipo de imortais queremos ser. Talvez nos sirva de consolo, como serviu ao sofrido povo britânico quando ouviu pela primeira vez estes colóquios, recordar que Deus pre­ga uma peça nos que buscam o poder a qualquer preço. Lewis nos lembra, com seu humor e sua verve costumei­ra: "Quão monótona é a semelhança que une todos os grandes tiranos e conquistadores; quão gloriosa é a di­ferença dos santos!"[10]

 

 

 

 

CRISTIANISMO PURO E SIMPLES

O CERTO E O ERRADO COMO CHAVES PARA A COMPREENSÃO DO SENTIDO DO UNIVERSO

 

A LEI DA NATUREZA HUMANA

Todo o mundo já viu pessoas discutindo. Às vezes, a discussão soa engraçada; em outras, apenas desagradável. Como quer que soe, acredito que podemos aprender algo muito importante ouvindo os tipos de coisas que elas dizem. Dizem, por exemplo: "Você gostaria que fi­zessem o mesmo com você?"; "Desculpe, esse banco é meu, eu sentei aqui primeiro"; "Deixe-o em paz, que ele não lhe está fazendo nada de mal"; "Por que você teve de entrar na frente?"; "Dê-me um pedaço da sua laran­ja, pois eu lhe dei um pedaço da minha"; e "Poxa, você prometeu!" Essas coisas são ditas todos os dias por pes­soas cultas e incultas, por adultos e crianças.

O que me interessa em todos estes comentários é que o homem que os faz não está apenas expressando o quanto lhe desagrada o comportamento de seu interlocutor; está também fazendo apelo a um padrão de compor­tamento que o outro deveria conhecer. E esse outro rara­mente responde: "Ao inferno com o padrão!" Quase sem­pre tenta provar que sua atitude não infringiu este pa­drão, ou que, se infringiu, ele tinha uma desculpa muito especial para agir assim. Alega uma razão especial, em seu caso particular, para não ceder o lugar à pessoa que ocupou o banco primeiro, ou alega que a situação era muito diferente quando ele ganhou aquele gomo de la­ranja, ou, ainda, que um fato novo o desobriga de cum­prir o prometido. Está claro que os envolvidos na dis­cussão conhecem uma lei ou regra de conduta leal, de comportamento digno ou moral, ou como quer que o queiramos chamar, com a qual efetivamente concordam. E eles conhecem essa lei. Se não conhecessem, talvez lutassem como animais ferozes, mas não poderiam "dis­cutir" no sentido humano desta palavra. A intenção da discussão é mostrar que o outro está errado. Não have­ria sentido em demonstrá-lo se você e ele não tivessem algum tipo de consenso sobre o que é certo e o que é errado, da mesma forma que não haveria sentido em marcar a falta de um jogador de futebol sem que hou­vesse uma concordância prévia sobre as regras do jogo. Ora, essa lei ou regra do certo e do errado era cha­mada de Lei Natural. Hoje em dia, quando falamos das "leis naturais", quase sempre nos referimos a coisas co­mo a gravitação, a hereditariedade ou as leis da quími­ca. Porém, quando os pensadores do passado chamavam a lei do certo e do errado de "Lei Natural", estava im­plícito que se tratava da Lei da Natureza Humana. A ideia era a seguinte: assim como os corpos são regidos pela lei da gravitação, e os organismos, pelas leis da biolo­gia, assim também a criatura chamada "homem" pos­sui uma lei própria - com a grande diferença de que os corpos não são livres para escolher se vão obedecer à lei da gravitação ou não, ao passo que o homem pode es­colher entre obedecer ou desobedecer à Lei da Nature­za Humana.

Examinemos a questão sob outro prisma. Todo ho­mem está continuamente sujeito a diversos conjuntos de leis, mas a apenas um ele é livre para desobedecer. Enquanto corpo, ele é regido pela gravitação e não pode desobedecê-la; se ficar suspenso no ar, sem apoio, fatal­mente cairá como cairia uma pedra. Enquanto organis­mo, está sujeito a diversas leis biológicas, às quais, como os animais, não pode desobedecer. Em outras palavras, o homem não pode desobedecer às leis que tem em comum com os outros seres; mas a lei própria da natureza hu­mana, a lei que não é compartilhada nem pelos animais, nem pelos vegetais, nem pelos seres inorgânicos, a esta lei o ser humano pode desobedecer, se assim quiser. Essa lei era chamada de Lei Natural porque as pes­soas pensavam que todos a conheciam naturalmente e não precisavam que outros a ensinassem. Isso, evidente­mente, não significava que não se pudesse encontrar, aqui e ali, um indivíduo que a ignorasse, assim como existem indivíduos daltônicos ou desafinados. Considerando a raça humana em geral, no entanto, as pessoas pensavam que a ideia humana de comportamento digno ou decen­te era óbvia para todos. E acredito que essas pessoas ti­nham razão. Se assim não fosse, as coisas que dizemos a respeito da guerra não teriam sentido nenhum. Se o Cer­to não for uma entidade real, que os nazistas, lá no fun­do, conhecem tão bem quanto nós e têm o dever de pra­ticar, qual o sentido de dizer que o inimigo está errado? Se eles não têm nenhuma noção daquilo que chamamos de Certo, talvez tivéssemos de combatê-los do mesmo jeito, mas não poderíamos culpá-los pelas suas ações, da mesma forma que não podemos culpar um homem por ter nas­cido com os cabelos louros ou castanhos.

Sei que certas pessoas afirmam que a ideia de uma Lei Natural ou lei de dignidade de comportamento, co­nhecida de todos os homens, não tem fundamento, por­que as diversas civilizações e os povos das diversas épocas tiveram doutrinas morais muito diferentes.

Mas isso não é verdade. E certo que existem diferen­ças entre as doutrinas morais dos diversos povos, mas elas nunca chegaram a constituir algo que se asseme­lhasse a uma diferença total. Se alguém se der ao traba­lho de comparar os ensinamentos morais dos antigos egípcios, dos babilónios, dos hindus, dos chineses, dos gregos e dos romanos, ficará surpreso, isto sim, com o imenso grau de semelhança que eles têm entre si e tam­bém com nossos próprios ensinamentos morais. Reuni alguns desses dados concordantes no apêndice que es­crevi para um outro livro, chamado The Abolition of Man [A abolição do homem]. Porém, para os fins que agora temos em vista, basta perguntar ao leitor como seria uma moralidade totalmente diferente da que co­nhecemos. Imagine um país que admirasse aquele que foge do campo de batalha, ou em que um homem se orgulhasse de trair as pessoas que mais lhe fizeram bem. O leitor poderia igualmente imaginar um país em que dois e dois são cinco. Os povos discordaram a respeito de quem são as pessoas com quem você deve ser altruís­ta - sua família, seus compatriotas ou todo o género humano; mas sempre concordaram em que você não deve colocar a si mesmo em primeiro lugar. O egoísmo nunca foi admirado. Os homens divergiram quanto ao número de esposas que podiam ter, se uma ou quatro; mas sempre concordaram em que você não pode sim­plesmente ter qualquer mulher que lhe apetecer.

O mais extraordinário, porém, é que, sempre que encontramos um homem a afirmar que não acredita na existência do certo e do errado, vemos logo em segui­da este mesmo homem mudar de opinião. Ele pode não cumprir a palavra que lhe deu, mas, se você fizer a mes­ma coisa, ele lhe dirá "Não é justo!" antes que você pos­sa dizer "Cristóvão Colombo". Um país pode dizer que os tratados de nada valem; porém, no momento seguinte, porá sua causa a perder afirmando que o tratado espe­cífico que pretende romper não é um tratado justo. Se os tratados de nada valem, se não existe um certo e um errado — em outras palavras, se não existe uma Lei Na­tural -, qual a diferença entre um tratado justo e um in­justo? Será que, agindo assim, eles não deixam o rabo à mostra e demonstram que, digam o que disserem, conhe­cem a Lei Natural tanto quanto qualquer outra pessoa? Parece, portanto, que só nos resta aceitar a existên­cia de um certo e um errado. As pessoas podem volta e meia se enganar a respeito deles, da mesma forma que às vezes erram numa soma; mas a existência de ambos não depende de gostos pessoais ou de opiniões, da mesma forma que um cálculo errado não invalida a tabuada. Se concordamos com estas premissas, posso passar à se­guinte: nenhum de nós realmente segue à risca a Lei Natural. Se existir uma exceção entre os leitores, me des­culpo. Será mais proveitoso que essa pessoa leia outro livro, pois nada do que vou falar lhe diz respeito. Feita a ressalva, volto aos leitores comuns.

Espero que vocês não se irritem com o que vou di­zer. Não estou fazendo uma pregação, e Deus sabe que não pretendo ser melhor do que ninguém. Só estou ten­tando chamar a atenção para um fato: o de que, neste ano, neste mês ou, com maior probabilidade, hoje mes­mo, todos nós deixamos de praticar a conduta que gos­taríamos que os outros tivessem em relação a nós. Pode­mos apresentar mil e uma desculpas por termos agido assim. Você se impacientou com as crianças porque es­tava cansado; não foi muito correto naquela questão de dinheiro - questão que já quase fugiu da memória -porque estava com problemas financeiros; e aquilo que prometeu para fulano ou sicrano, ah!, nunca teria pro­metido se soubesse como estaria ocupado nos últimos dias. Quanto a seu modo de tratar a esposa (ou o ma­rido), a irmã (ou o irmão) — se eu soubesse o quanto eles são irritantes, não me surpreenderia; e, afinal de con­tas, quem sou eu para me intrometer? Não sou diferente. Ou seja, nem sempre consigo cumprir a Lei Natural, e, quando alguém me adverte de que a descumpri, me vem à cabeça um rosário de desculpas que dá várias vol­tas ao redor do pescoço. A pergunta que devemos fazer não é se essas desculpas são boas ou más. O que impor­ta é que elas dão prova da nossa profunda crença na Lei Natural, quer tenhamos consciência de acreditar nela, quer não. Se não acreditássemos na boa conduta, por que a ânsia de encontrar justificativas para qualquer des­lize? A verdade é que acreditamos a tal ponto na decên­cia e na dignidade, e sentimos com tanta força a pressão da Soberania da Lei, que não temos coragem de encarar o fato de que a transgredimos. Logo, tentamos transfe­rir para os outros a responsabilidade pela transgressão. Perceba que é só para o mau comportamento que nos damos ao trabalho de encontrar tantas explicações. São somente as fraquezas que procuramos justificar pelo cansaço, pela preocupação ou pela fome. Nossas boas qualidades, atribuímo-las a nós mesmos.

São essas, pois, as duas ideias centrais que preten­dia expor. Primeiro, a de que os seres humanos, em todas as regiões da Terra, possuem a singular noção de que devem comportar-se de uma certa maneira, e, por mais que tentem, não conseguem se livrar dessa noção. Se­gundo, que na prática não se comportam dessa manei­ra. Os homens conhecem a Lei Natural e transgridem-na. Esses dois fatos são o fundamento de todo pensamen­to claro a respeito de nós mesmos e do universo em que vivemos.

 

ALGUMAS OBJEÇÕES

Se essas duas ideias são nosso fundamento, é me­lhor que eu deixe esse fundamento bem firme antes de seguir em frente. Algumas das cartas que recebi mostram que um grande número de pessoas tem dificuldade para compreender o que significa essa Lei da Natureza Huma­na, ou Lei Moral, ou Regra de Bom Comportamento.

Certas pessoas, por exemplo, me escreveram per­guntando: "Isso que você chama de Lei Moral não é simplesmente o nosso instinto gregário? Será que ele não se desenvolveu como todos os nossos outros instin­tos?" Não vou negar que possuímos esse instinto, mas não é a ele que me refiro quando falo em Lei Moral. To­dos nós sabemos o que é ser movido pelo instinto — pelo amor materno, o instinto sexual ou o instinto da alimentação: sentimos o forte desejo ou impulso de agir de determinada maneira. E é claro que, às vezes, sentimos o desejo intenso de ajudar outra pessoa. Isso se deve, sem dúvida, ao instinto gregário. No entanto, sentir o desejo intenso de ajudar é bem diferente de sentir a obri­gação imperiosa de ajudar, quer o queiramos, quer não. Suponhamos que você ouça o grito de socorro de um homem em perigo. Provavelmente sentirá dois desejos: o de prestar socorro (que se deve ao instinto gregário) e o de fugir do perigo (que se deve ao instinto de auto-preservação). Mas você encontrará dentro de si, além desses dois impulsos, um terceiro elemento, que lhe man­dará seguir o impulso da ajuda e suprimir o impulso da fuga. Esse elemento, que põe na balança os dois instin­tos e decide qual deles deve ser seguido, não pode ser nenhum dos dois. Você poderia pensar também que a partitura musical, que lhe manda, num determinado momento, tocar tal nota no piano e não outra, é equi­valente a uma das notas no teclado. A Lei Moral nos informa da melodia a ser tocada; nossos instintos são meras teclas.

Há outra maneira de perceber que a Lei Moral não é simplesmente um de nossos instintos. Se existe um conflito entre dois instintos e, na mente dessa criatura, não há mais nada além desses instintos, é óbvio que o instinto mais forte tem de prevalecer. Porém, nos momentos em que enxergamos a Lei Moral com maior cla­reza, ela geralmente nos aconselha a escolher o impulso mais fraco. Provavelmente, seu desejo de ficar a salvo é maior do que o desejo de ajudar o homem que se afoga, mas a Lei Moral lhe manda ajudá-lo, apesar dos pesares. E, em geral, ela nos manda tomar o impulso correto e tentar torná-lo mais forte do que originalmente era - não é mesmo? Ou seja, sentimos que temos o dever de es­timular nosso instinto gregário, por exemplo, despertan­do a imaginação e estimulando a piedade, entre outras coisas, para termos força para agir corretamente na hora certa. E evidente, porém, que, no momento em que de­cidimos tornar mais forte um instinto, nossa ação não é instintiva. Aquilo que lhe diz: "Seu instinto está ador­mecido, desperte-o!", não pode ser o próprio instinto. O que lhe manda tocar tal nota no piano não pode ser a própria nota.

Há ainda uma terceira maneira de ver a Lei Moral. Se ela fosse um de nossos instintos, seríamos capazes de identificar dentro de nós um impulso que sempre pu­déssemos chamar de "bom" segundo a regra da boa con­duta. Mas isso não acontece. Não existe nenhum impul­so que às vezes a Lei Moral não nos aconselhe a inibir, nem outro que ela não nos encoraje a praticar de vez em quando. E um erro achar que alguns de nossos impul­sos, como o amor materno e o patriotismo, são bons, e outros, como o instinto sexual e a agressividade, são maus. Tudo o que queremos dizer é que existem mais situações em que o instinto de luta e o desejo sexual de­vem ser contidos do que situações em que devemos con­ter o amor materno e o patriotismo. No entanto, em certas ocasiões, é dever do homem casado encorajar seu impulso sexual, e do soldado fomentar sua agressividade. Existem também oportunidades em que a mãe deve re­frear o amor pelo filho, ou um homem deve conter o amor por seu país, para que não cometam injustiça con­tra outras crianças ou outros países. A rigor, não existem impulsos bons e impulsos maus. Voltemos ao piano. Não há nele dois tipos de notas, as "certas" e as "erradas". Cada uma das notas é certa para uma determinada oca­sião e errada para outra. A Lei Moral não é um instin­to particular ou um conjunto de instintos; é como um maestro que, regendo os instintos, define a melodia que chamamos de bondade ou boa conduta.

Este tema, aliás, tem grandes consequências práti­cas. A coisa mais perigosa que podemos fazer é tomar um certo impulso de nossa natureza como critério a ser seguido custe o que custar. Não existe um único im­pulso que, erigido em padrão absoluto, não tenha o po­der de nos transformar em demónios. Talvez você pense que o amor pela humanidade em geral é livre de peri­gos, mas isso não é verdade. Se deixarmos de lado o senso de justiça, logo estaremos violando acordos e falsifican­do provas judiciais em prol do "bem da humanidade". Teremos então nos tornado homens cruéis e desleais.

Outras pessoas me escreveram perguntando: "Isso que você chama de Lei Moral não é somente uma con­venção social, algo que nos foi incutido pela nossa edu­cação?" Acredito que essas pessoas incorrem num mal-entendido. Elas tomam por pressuposto que, se apren­demos alguma regra de nossos pais e professores, essa regra é uma simples invenção humana. Mas é evidente que isso não é verdade. Todos aprendemos a tabuada na escola. Uma criança que crescesse sozinha numa ilha deserta não a aprenderia. Mas salta à vista que a tabuada não é apenas uma convenção humana, algo que os seres humanos fizeram para si e que poderiam ter feito diferen­te se assim quisessem. Concordo plenamente que apren­demos a Regra de Boa Conduta dos pais e professores, dos amigos e dos livros, assim como aprendemos todas as ou­tras coisas. Porém, certas coisas que aprendemos são me­ras convenções que poderiam ser diferentes - aprendemos a manter-nos à direita na estrada, mas a regra poderia ser manter-se à esquerda -, e outras coisas, como a matemá­tica, são verdades. A pergunta a ser feita é a qual das duas classes pertence a Lei da Natureza Humana.

Há duas razões para afirmar que ela pertence à mes­ma classe que a da matemática. A primeira, expressa no primeiro capítulo, é que, apesar de haver diferenças en­tre as ideias morais de certa época ou país e as de outros tempos ou lugares, essas diferenças, na realidade, não são muito grandes - nem de longe são tão importantes quanto a maioria das pessoas imagina -, e, assim, pode­mos reconhecer a mesma lei dentro de todas elas; ao passo que as meras convenções, como o sentido do trân­sito ou os tipos de vestimenta, diferem largamente. A segunda razão é a seguinte: quando você considera as diferenças morais entre um povo e outro, não pensa que a moral de um dos dois é sempre melhor ou pior que a do outro? Será que as mudanças que se constatam en­tre elas não foram mudanças para melhor? Caso a res­posta seja negativa, então está claro que nunca houve um progresso moral. O progresso não significa apenas uma mudança, mas uma mudança para melhor. Se um conjunto de ideias morais não fosse melhor do que ou­tro, não haveria sentido em preferir a moral civilizada à moral bárbara, ou a moral cristã à moral nazista. E pon­to pacífico que a moralidade de alguns povos é melhor que a de outros. Acreditamos também que certas pes­soas que tentaram mudar os conceitos morais de sua época foram o que chamaríamos de Reformadores ou Pioneiros - pessoas que entenderam melhor a moral do que seus contemporâneos. Pois muito bem. No momen­to em que você diz que um conjunto de ideias morais é superior a outro, está, na verdade, medindo-os ambos segundo um padrão e afirmando que um deles é mais conforme a esse padrão que o outro. O padrão que os mede, no entanto, difere de ambos. Você está, na rea­lidade, comparando as duas coisas com uma Moral Ver­dadeira e admitindo que existe algo que se pode chamar de O Certo, independentemente do que as pessoas pen­sam; e está admitindo que as ideias de alguns povos se aproximaram mais desse Certo que as ideias de outros povos. Ou, em outras palavras: se as suas noções mo­rais são mais verdadeiras que as dos nazistas, deve exis­tir algo - uma Moral Verdadeira — que seja o objeto a que essa verdade se refere. A razão pela qual sua con­cepção de Nova York pode ser mais verdadeira ou mais falsa que a minha é que Nova York é um lugar real, cuja existência independe do que eu ou você pensamos a seu respeito. Se, quando mencionássemos Nova York, tudo o que pensássemos fosse "a cidade que existe na minha cabeça", como é que um de nós poderia estar mais pró­ximo da verdade do que o outro? Não haveria medida de verdade ou de falsidade. Do mesmo modo, se a Re­gra da Boa Conduta significasse simplesmente "tudo que cada povo aprova", não haveria sentido em dizer que uma nação está mais correta do que a outra, nem que o mun­do se torna moralmente melhor ou pior.

Concluo, portanto, que, apesar de as diferenças de ideias a respeito da Boa Conduta nos levarem a suspeitar de que não existe uma verdadeira Lei de Conduta natural, as coisas que estamos naturalmente propensos a pensar provam justamente o contrário. Algumas pala­vras antes de terminar: conheci pessoas que exageraram essas diferenças, por terem confundido as diferenças mo­rais com as meras diferenças de crença a respeito dos fa­tos. Por exemplo, um horíiem me perguntou certa vez: 'Trezentos anos atrás, as bruxas na Inglaterra eram quei­madas na fogueira. E isso que você chama de Regra da Natureza Humana ou de Boa Conduta?" Mas é claro que a razão pela qual não se executam mais bruxas hoje em dia é que não acreditamos que elas existam. Se acre­ditássemos - se realmente pensássemos que existem pessoas entre nós que venderam a alma para o diabo, receberam em troca poderes sobrenaturais e usaram es­ses poderes para matar ou enlouquecer os vizinhos, ou para provocar calamidades naturais —, certamente con­cordaríamos que, se alguém merecesse a pena de morte, seriam essas sórdidas traidoras. Não há aqui uma dife­rença de princípios morais, apenas de enfoque dos fatos. Pode ser que o fato de não acreditarmos em bruxas seja um grande avanço do conhecimento, mas não existe avanço moral algum em deixar de executá-las quando pensamos que elas não existem. Não consideraríamos misericordioso um homem que não armasse ratoeiras por não acreditar que houvesse ratos na casa.

 

A REALIDADE DA LEI

Volto agora ao que disse no final do primeiro capí­tulo: que a raça humana tem duas características curiosas. Em primeiro lugar, que os homens são assombrados pela ideia de um padrão de comportamento que se sentem obrigados a pôr em prática, o qual se poderia chamar de conduta leal, decência, moralidade ou Lei Natural. Em segundo lugar, que eles não o põem em prática. Al­guns de vocês podem se perguntar por que razão cha­mei de "curioso" isso que pode lhes parecer a coisa mais natural do mundo. Em especial, talvez vocês me tenham achado muito duro com a humanidade; afinal de con­tas, aquilo que chamei de transgressão da Lei do Certo e do Errado, ou da Lei Natural, significa somente que ninguém é perfeito. E por que, ó céus, esperaria eu o contrário? Essa seria uma boa resposta se tudo o que eu pretendesse fosse medir numa balança a culpa exata que cabe a cada um de nós por não nos termos portado como queremos que os outros se portem. Não é essa, porém, a tarefa que me propus. Nesta investigação, não estou preocupado com a culpa; estou tentando desco­brir a Verdade. Desse ponto de vista, a própria ideia de imperfeição, de algo que não é o que deveria ser, tem suas consequências.

Se considerarmos um ente como uma pedra ou uma árvore, ele é o que é e não há sentido em dizer que de­veria ser de outro jeito. E claro que podemos dizer que a pedra tem "a forma errada" se pretendemos usá-la para uma construção, ou que uma árvore não é boa porque não faz sombra suficiente. Porém, isso significa tão-so-mente que a pedra ou a árvore não se prestam ao uso que queremos fazer delas; não as culpamos de terem tais ou quais características, a não ser como piada. Te­mos consciência de que, dado um determinado clima e tipo de solo, a árvore não poderia ser em nada dife­rente do que é. A árvore que, de nosso ponto de vista, chamamos de "má" obedece às leis de sua natureza tan­to quanto a que chamamos de "boa".

Vocês vêem aonde quero chegar? E que o que nós costumamos chamar de leis naturais — o modo pelo qual o clima age sobre a planta, por exemplo — não são leis no sentido estrito da palavra. Essa é só uma maneira de dizer. Quando afirmamos que uma pedra obedece à lei da gravidade, isso não é, por acaso, o mesmo que dizer que essa lei significa apenas "o que a pedra sempre faz"? Não pensamos realmente que a pedra, quando é solta, su­bitamente se lembra de que tem o dever de cair. Tudo o que queremos dizer é que ela, de fato, cai. Em outras palavras, não podemos ter certeza de que exista algo su­perior aos fatos mesmos, uma lei que determine o que deve acontecer e que seja diferente do que efetivamen-te acontece. As leis da natureza, quando aplicadas às ár­vores ou pedras, podem significar apenas "o que a Na­tureza efetivamente faz". Mas, se nos voltarmos para a Lei da Natureza Humana, ou Lei da Boa Conduta, a história é outra. E ponto pacífico que ela não significa "o que os seres humanos efetivamente fazem", já que, como eu disse antes, muitos deles não obedecem em absoluto a essa lei, e nenhum deles a observa integral­mente. A lei da gravidade nos diz o que a pedra faz quan­do cai; já a Lei da Natureza Humana nos diz o que os seres humanos deveriam fazer e não fazem. Ou seja, quando tratamos de seres humanos, existe algo além e acima dos fatos. Existem os fatos (como os homens se comportam) e também uma outra coisa (como deve­riam se comportar). No resto do universo, não há necessidade de outra coisa que não os fatos. Elétrons e mo­léculas comportam-se de determinada maneira e disso decorrem certos resultados, e talvez o assunto pare aí[11]. Os homens, no entanto, comportam-se de determina­da maneira e o assunto não pára aí, já que estamos sem­pre conscientes de que o comportamento deles deveria ser diferente.

Isso é tão singular que ficamos tentados a nos en­ganar com falsas explicações. Podemos, por exemplo, afirmar que, quando você diz que um homem não de­veria fazer o que fez, quer dizer a mesma coisa quando assevera que a pedra tem a forma errada: ou seja, que a atitude dele é inconveniente para você. Mas isso é simplesmente falso. Um homem que chega primeiro no trem e ocupa um bom assento é tão inconveniente quanto um homem que tira minha mala do assento e o ocupa sorrateiramente enquanto estou de costas. Po­rém, não culpo o primeiro homem, mas culpo o se­gundo. Não fico bravo - exceto talvez por um breve momento, até recuperar a razão - com uma pessoa que por acidente me faz tropeçar, mas ficot bravo com al­guém que tenta me fazer tropeçar de propósito, mes­mo que não consiga. Porém, foi a primeira pessoa que efetivamente me machucou, e não a segunda. Às vezes, o comportamento que julgo mau não é inconvenien­te para mim de modo algum, muito pelo contrário. Na guerra, cada um dos lados beligerantes achará muito útil um traidor do lado oposto; porém, apesar de usá-lo e de recompensá-lo pelos serviços prestados, o consi­derará um verme em forma humana. Assim, não pode­mos dizer que o que chamamos de boa conduta alheia é simplesmente a conduta que nos é útil. E, quanto à nossa boa conduta, parece-me óbvio que não se trata da que nos traz vantagens. Trata-se, isto sim, de ficar contente com 30 xelins quando poderíamos ter ganho três libras; de fazer o dever de casa honestamente quan­do poderíamos copiar o do vizinho; de respeitar uma moça quando gostaríamos de ir para a cama com ela; de não nos afastar de um posto perigoso quando po­deríamos escapar para um lugar mais seguro; de manter a palavra quando preferiríamos faltar com ela; de falar a verdade mesmo que assim pareçamos idiotas perante os outros.

Certas pessoas dizem que, apesar de a boa condu­ta não ser o que traz vantagens para cada pessoa indi­vidualmente, pode significar o que traz vantagens para a humanidade como um todo; e, portanto, a coisa não seria tão misteriosa. Os seres humanos, no fim das con­tas, possuem algum bom senso; percebem que a segu­rança e a felicidade só são possíveis numa sociedade em que cada qual age com lealdade, e é por perceber isso que tentam conduzir-se com decência. Ora, é perfeitamente verdadeira a ideia de que a segurança e a felicidade só podem vir quando os indivíduos, as classes sociais e os países são honestos, justos e bons uns com os outros. E uma das verdades mais importantes do mundo. Ela só não consegue explicar por que temos tais e tais senti­mentos diante do Certo e do Errado. Se eu perguntar: "Por que devo ser altruísta?", e você responder: "Porque isso é bom para a sociedade", poderei retrucar: "Por que devo me importar com o que é bom para a socie­dade se isso não me traz vantagens pessoais?", ao que você terá de responder: "Porque você deve ser altruísta" - o que nos leva de volta ao ponto de partida. O que você diz é verdade, mas não nos faz avançar. Se um ho­mem pergunta o motivo de se jogar futebol, de nada adianta responder que é "fazer gois", pois tentar fazer gois é o próprio jogo, e não o motivo pelo qual o joga­mos. No final, estamos dizendo somente que "futebol é futebol" - o que é verdade, mas não precisa ser dito. Da mesma forma, se uma pessoa pergunta o motivo de se agir com decência, não vale a pena responder "para o bem da sociedade", pois tentar beneficiar a sociedade, ou, em outras palavras, ser altruísta (pois "sociedade", no fim das contas, significa apenas "as outras pessoas"), é um dos elementos da decência. Tudo o que se estará dizendo é que uma conduta decente é uma conduta de­cente. Teríamos dito a mesma coisa se tivéssemos parado na declaração de que "As pessoas devem ser altruístas". E é nesse ponto que eu paro. Os homens devem ser altruístas, devem ser justos. Não que os homens se­jam altruístas ou gostem de sê-lo, mas que devem sê-lo. A Lei Moral, ou Lei da Natureza Humana, não é sim­plesmente um fato a respeito do comportamento hu­mano, como a Lei da Gravidade é ou pode ser simples­mente um fato a respeito do comportamento dos ob-jetos pesados. Por outro lado, não é mera fantasia, pois não conseguimos nos desvencilhar dessa ideia; se con­seguíssemos, a maior parte das coisas que dizemos sobre os homens seria absurda. Ela também não é uma sim­ples declaração de como gostaríamos que os homens se comportassem para a nossa conveniência, pois o com­portamento que taxamos de mau ou injusto nem sempre é inconveniente, e, muitas vezes, é exatamente o con­trário. Consequentemente, essa Regra do Certo e do Er­rado, ou Lei da Natureza Humana, ou como quer que você queira chamá-la, deve ser uma Verdade - uma coisa que existe realmente, e não uma invenção huma­na. E, no entanto, não é um fato no mesmo sentido em que o comportamento efetivo das pessoas é um fato. Co­meça a ficar claro que teremos de admitir a existência de mais de um plano de realidade; e que, neste caso em particular, existe algo que está além e acima dos fatos comuns do comportamento humano, algo que no en­tanto é perfeitamente real - uma lei verdadeira, que ne­nhum de nós elaborou, mas que nos sentimos obrigados a cumprir.

 

O QUE EXISTE POR TRÁS DA LEI

Vamos fazer um resumo de tudo o que vimos até aqui. No caso das pedras, das árvores e de coisas dessa natureza, o que chamamos de Lei Natural pode não ser nada além de uma força de expressão. Quando você diz que a natureza é governada por certas leis, quer dizer ape­nas que a natureza, de fato, se comporta de certa forma. As chamadas "leis" talvez não tenham realidade pró­pria, talvez não estejam além e acima dos fatos que po­demos observar. No caso do homem, porém, percebe­mos que as coisas não são bem assim. A Lei da Natu­reza Humana, ou Lei do Certo e do Errado, é algo que transcende os fatos do comportamento humano. Neste caso, além dos fatos em si, existe outra coisa - uma verdadeira lei que não inventamos e à qual sabemos que devemos obedecer.

Quero considerar agora o que isso nos diz sobre o universo em que vivemos. Desde que o homem se tor­nou capaz de pensar, ele se pergunta no que consiste o universo e como ele veio a existir. Grosso modo, dois pontos de vista foram sustentados. O primeiro deles é o que chamamos de materialista. Quem o adota afirma que a matéria e o espaço simplesmente existem e sem­pre existiram, ninguém sabe por quê. A matéria, que se comporta de formas fixas, veio, por algum acidente, a produzir criaturas como nós, criaturas capazes de pen­sar. Numa chance em mil, um corpo se chocou contra o sol e gerou os planetas. Por outra chance infinitesimal, as substâncias químicas necessárias à vida e a tempera­tura correta se fizeram presentes num desses planetas, e, assim, uma parte da matéria desse planeta ganhou vida. Depois, por uma longuíssima série de coincidências, as criaturas viventes se desenvolveram até se tornarem se­res como nós. O outro ponto de vista é o religioso[12]. Se­gundo ele, o que existe por trás do universo se assemelha mais a uma mente que a qualquer outra coisa conhecida. Ou seja, é algo consciente e dotado de objetivos e pre­ferências. De acordo com essa visão, esse ser criou o universo. Alguns dos seus desígnios são ocultos, enquanto outros são bastante claros: produzir criaturas semelhan­tes a si mesmo — quero dizer, semelhantes na medida em possuem mentes. Por favor, não pensem que um destes pontos de vista era sustentado há muito tempo e aos poucos foi cedendo lugar ao outro. Onde quer que tenha havido homens pensantes, os dois pontos de vista sem­pre apareceram de uma forma ou de outra. Notem tam­bém que, para saber qual deles é o correto, não pode­mos apelar à ciência no sentido comum dessa palavra. A ciência funciona a partir da experiência e observa como as coisas se comportam. Todo enunciado científico, por mais complicado que pareça à primeira vista, na verda­de significa algo como "apontei o telescópio para tal par­te do céu às 2h20min do dia 15 de janeiro e vi tal e tal fenómeno", ou "coloquei um pouco deste material num recipiente, aqueci-o a uma temperatura X e tal coisa aconteceu". Não pensem que eu esteja desmerecendo a ciência; estou apenas mostrando para que ela serve. Quan­to mais sério for o homem de ciência, mais (no meu entender) ele concordará comigo quanto ao papel dela - papel, aliás, extremamente útil e necessário. Agora, per­guntas como "Por que algo veio a existir?" e "Será que existe algo - algo de outra espécie — por trás das coisas que a ciência observa?" não são perguntas científicas. Se existe "algo por trás", ou ele há de manter-se totalmente desconhecido para o homem ou far-se-á revelar por outros meios. A ciência não pode dizer nem que tsst ser existe nem que não existe, e os verdadeiros cientis­tas geralmente não fazem essas declarações. São quase sempre jornalistas e romancistas de sucesso que as pro­duzem a partir de informações coletadas em manuais de ciência popular e assimiladas de maneira imperfei­ta. Afinal de contas, tudo não passa de uma questão de bom senso. Suponha que a ciência algum dia se tornas­se completa, tendo o conhecimento total de cada mí­nimo detalhe do universo. Não é óbvio que perguntas como "Por que existe um universo?", "Por que ele con­tinua existindo?" e "Qual o significado de sua existên­cia?" continuariam intactas?

Deveríamos perder as esperanças, não fosse por um detalhe. No universo inteiro, existe uma coisa, e somen­te uma, que nós conhecemos melhor do que conhecería­mos se contássemos somente com a observação externa. Essa coisa é o Ser Humano. Nós não nos limitamos a observar o ser humano, nós somos seres humanos. Nes­se caso, podemos dizer que as informações que possuí­mos vêm "de dentro". Estamos a par do assunto. Por cau­sa disto, sabemos que os seres humanos estão sujeitos a uma lei moral que não foi criada por eles, que não con­seguem tirar do seu horizonte mesmo quando tentam e à qual sabem que devem obedecer. Alguém que estudasse o homem "de fora", da maneira como estudamos a eletricidade ou os repolhos, sem conhecer a nossa lín­gua e, portanto, impossibilitado de obter conhecimen­to do nosso interior, não teria a mais vaga ideia da exis­tência desta lei moral a partir da observação de nossos atos. Como poderia ter? Suas observações se resumiriam ao que fazemos, ao passo que essa lei diz respeito ao que deveríamos fazer. Do mesmo modo, se existe algo acima ou por trás dos fatos observados sobre as pedras ou sobre o clima, nós, estudando-os de fora, não temos a menor esperança de descobrir o que ele é.

A natureza da questão é a seguinte: queremos saber se o universo simplesmente é o que é, sem nenhuma razão especial, ou se existe por trás dele um poder que o produziu tal como o conhecemos. Uma vez que esse poder, se ele existe, não seria um dos fatos observados, mas a realidade que os produziu, a mera observação dos fenómenos não pode encontrá-lo. Existe apenas um ca­so no qual podemos saber se esse "algo mais" existe; a saber, o nosso caso. E, nesse caso, constatamos que exis­te. Ou examinemos a questão de outro ângulo. Se existis­se um poder exterior que controlasse o universo, ele não poderia se revelar para nós como um dos fatos do pró­prio universo - da mesma forma que o arquiteto de uma casa não pode ser uma de suas escadas, paredes ou larei­ra. A única maneira pela qual podemos esperar que esta força se manifeste é dentro de nós mesmos, como uma influência ou voz de comando que tente nos levar a ado-tar uma determinada conduta. E justamente isso que descobrimos dentro de nós. Já não deveríamos ficar com a pulga atrás da orelha? No único caso em que po­demos encontrar uma resposta, ela é positiva; nos outros, em que não há respostas, entendemos por que não po­demos encontrá-las. Suponha que alguém me pergun­tasse, acerca de um homem de uniforme azul que passa de casa em casa depositando envelopes de papel em cada uma delas, por que, afinal, eu concluo que dentro dos envelopes existem cartas. Eu responderia: "Porque sem­pre que ele deixa envelopes parecidos na minha casa, dentro deles há uma carta para mim." Se o interlocutor objetasse: "Mas você nunca viu as cartas que supõe que as outras pessoas recebam", eu diria: "E claro que não, e nem quero vê-las, porque não foram endereçadas a mim. Eu imagino o conteúdo dos envelopes que não posso abrir pelo dos envelopes que posso." O mesmo se dá aqui. O único envelope que posso abrir é o Ser Hu­mano. Quando o faço, e especialmente quando abro o Ser Humano chamado "Eu", descubro que não existo por mim mesmo, mas que vivo sob uma lei, que algo ou alguém quer que eu me comporte de determinada forma. E claro que não acho que, se pudesse entrar na existência de uma pedra ou de uma árvore, encontraria exatamente a mesma coisa, assim como não acho que as pessoas da minha rua recebam exatamente as mesmas cartas que eu. Devo concluir que a pedra, por exemplo, tem de obedecer à lei da gravidade - que, enquanto o missivista se limita a aconselhar-me a obedecer à lei da minha natureza, ele obriga a pedra a obedecer às leis de sua natureza pétrea. O que não consigo negar é que, em ambos os casos, existe, por assim dizer, esse missivista, um Poder por trás dos fatos, um Diretor, um Guia.

Não pense que estou indo mais rápido do que es­tou na realidade. Ainda não estou nem perto do Deus da teologia cristã. Tudo o que obtive até aqui é a evidên­cia de Algo que dirige o universo e que se manifesta em mim como uma lei que me incita a praticar o certo e me faz sentir incomodado e responsável pelos meus er­ros. Segundo me parece, temos de supor que esse Algo é mais parecido com uma mente do que com qualquer outra coisa conhecida — porque, afinal de contas, a úni­ca outra coisa que conhecemos é a matéria, e ninguém ja­mais viu um pedaço de matéria dar instruções a alguém. E claro, porém, que não precisa ser muito parecido com uma mente, muito menos com uma pessoa. No próximo capítulo, vamos tentar descobrir mais a seu respeito. Ape­nas uma advertência. Houve muita conversa fajuta a res­peito de Deus nos últimos cem anos, e não é isso que tenho a oferecer. Esqueça tudo o que ouviu.

NOTA: Para manter esta seção curta o suficiente para ir ao ar, só mencionei os pontos de vista materialis­ta e religioso. Para completar o quadro, tenho de men­cionar o ponto de vista intermediário entre os dois, a chamada filosofia da Força Vital, ou Evolução Criativa, ou Evolução Emergente, cuja exposição mais brilhante e arguta encontra-se nas obras de Bernard Shaw, ao pas­so que a mais profunda, nas de Bergson. Seus defenso­res dizem que as pequenas variações pelas quais a vida neste planeta "evoluiu" das formas mais simples à for­ma humana não ocorreram em virtude do acaso, mas sim pelo "esforço" e pela "intenção" de uma Força Vital. Quando fazem tais afirmações, devemos perguntar se, por Força Vital, essas pessoas entendem algo semelhan­te a uma mente ou não. Se for semelhante, "uma mente que traz a vida à existência e a conduz à perfeição" não é outra coisa senão Deus, e seu ponto de vista é idên­tico ao religioso. Se não for semelhante, qual o sentido, então, de dizer que algo sem mente faça um "esforço" e tenha uma "intenção"? Este argumento me parece fatal para esse ponto de vista. Uma das razões pelas quais as pessoas julgam a Evolução Criativa tão atraente é que ela dá o consolo emocional da crença em Deus sem im­por as consequências desagradáveis desta. Quando nos sentimos ótimos e o sol brilha lá fora, e não queremos acreditar que o universo inteiro se reduz a uma dança mecânica de átomos, é reconfortante pensar nessa gigan­tesca e misteriosa Força evoluindo pelos séculos e nos car­regando em sua crista. Se, por outro lado, queremos fa­zer algo escuso, a Força Vital, que não passa de uma for­ça cega, sem moral e sem discernimento, nunca vai nos atrapalhar como fazia o aborrecido Deus que nos foi en­sinado quando éramos crianças. A Força Vital é como um deus domesticado. Você pode tirá-lo de dentro da caixa sempre que quiser, mas ele não vai incomodá-lo em ocasião alguma — todas as coisas boas da religião sem custo nenhum. Não será a Força Vital a maior invenção da fantasia humana que o mundo jamais viu?

 

TEMOS MOTIVOS PARA NOS SENTIR INQUIETOS

Encerrei o último capítulo com a noção de que, na Lei Moral, entramos em contato com algo, ou alguém, acima do universo material. Acho que alguns leitores sentiram um certo desconforto quando cheguei a esse ponto, e pensaram, inclusive, que eu lhes preguei uma peça, embalando cuidadosamente no papel de embrulho da filosofia algo que não passa de mais uma "conversa fiada sobre religião". Talvez você estivesse disposto a me ouvir se eu tivesse novidades para contar; se, porém, tudo se resume à religião, bem, o mundo já experimentou esse caminho e não podemos voltar no tempo. Tenho três coisas a dizer para quem estiver se sentindo assim.

A primeira delas é a respeito de "voltar no tempo". Você pensaria que estou brincando se dissesse que podemos atrasar o relógio e que, se o relógio está errado, é essa a coisa sensata a fazer? Prefiro, entretanto, deixar de lado essa comparação com relógios. Todos nós que­remos o progresso. Progredir, porém, é aproximarmo-nos do lugar aonde queremos chegar. Se você tomou o ca­minho errado, não vai chegar mais perto do objetivo se seguir em frente. Para quem está na estrada errada, pro­gredir é dar meia-volta e retornar à direção correta; nes­se caso, a pessoa que der meia-voJta mais cedo será a mais avançada. Todos já tivemos essa experiência com as contas de aritmética. Quando erramos uma soma des­de o início, sabemos que, quanto antes admitirmos o engano e voltarmos ao começo, tanto antes chegaremos à resposta correta. Não há nada de progressista em ser um cabeça-dura que se recusa a admitir o erro. Penso que, se examinarmos o estado atual do mundo, é bastante óbvio que a humanidade cometeu algum grande erro. Tomamos o caminho errado. Se assim for, devemos dar meia-volta. Voltar é o caminho mais rápido.

A segunda coisa a dizer é que estas palestras ainda não tomaram o rumo de uma "conversa fiada sobre re­ligião". Não chegamos ainda no Deus de nenhuma reli­gião verdadeira, muito menos no Deus dessa religião específica chamada cristianismo. Tudo o que temos até aqui é Alguém ou Algo que está por trás da Lei Moral. Não lançamos mão da Bíblia nem das igrejas: estamos tentando ver o que podemos descobrir por esforço pró­prio a respeito deste Alguém. Quero, inclusive, deixar bem claro que essa descoberta é chocante. Temos dois indícios que dão prova desse Alguém. Um deles é o uni­verso por ele criado. Se fosse essa a nossa única pista, teríamos de concluir que ele é um grande artista (já que o universo é um lugar muito bonito), mas que também é impiedoso e cruel para com o homem (uma vez que o universo é um lugar muito perigoso e terrível). O outro indício é a Lei Moral que ele pôs em nossa mente. E uma prova melhor do que a primeira, pois co­nhecemo-la em primeira mão. Descobrimos mais coi­sas a respeito de Deus a partir da Lei Moral do que a partir do universo em geral, da mesma forma que sabe­mos mais a respeito de um homem quando conversamos com ele do que quando examinamos a casa que ele cons­truiu. Partindo desse segundo vestígio, concluímos que o Ser por trás do universo está muitíssimo interessado na conduta correta - na lealdade, no altruísmo, na co­ragem, na boa fé, na honestidade e na veracidade. Nes­se sentido, devemos concordar com a visão do cristia­nismo e de outras religiões de que Deus é "bom". Mas não vamos apressar o andar da carruagem. A Lei Mo­ral não embasa a ideia de que Deus é "bom" no sentido de indulgente, suave ou condescendente. Não há nada de indulgente na Lei Moral. Ela é dura como um osso. Exorta-nos a fazer a coisa certa e parece não se importar com o quanto essa ação pode ser dolorosa, perigosa ou di­fícil. Se Deus é como a Lei Moral, ele não tem nada de suave. De nada adianta, a esta altura, dizer que um Deus "bom" é um Deus que perdoa. Estaríamos indo depres­sa demais. Só uma pessoa pode perdoar, e não chega­mos ainda a um Deus pessoal — só a um poder que está por trás da Lei Moral e se parece mais com uma men­te do que com qualquer outra coisa. Mas ainda seria improvável dizer que se trata de uma pessoa. Caso se tra­te de uma pura mente impessoal, não há sentido algum em pedir que ela nos dê uma certa folga e nos descul­pe, da mesma forma que não há sentido em pedir que a tabuada seja tolerante com nossos erros de multiplica­ção. Nesse caminho, encontraremos a resposta errada. Tampouco adianta dizer que, se existe um Deus assim - uma bondade impessoal e absoluta -, você não pre­cisa gostar dele nem se preocupar com ele. Afinal, a ques­tão é que uma parte de nós está ao lado dele e realmente concorda com ele quando desaprova a ganância, as bai-xezas e os abusos humanos. Talvez você queira que ele abra uma exceção no seu caso e o perdoe desta vez; mas no fundo sabe que, a menos que esse poder por trás do mundo realmente deteste inabakvelmente esse tipo de comportamento, ele não pode ser bom. Por outro lado, sabemos que, se existe um Bem absoluto, ele deve detestar quase tudo o que fazemos. Este é o terrível dilema em que nos encontramos. Se o universo não é governa­do por um Bem absoluto, todos os nossos esforços es­tão fadados ao insucesso a longo prazo. Se, no entanto, ele é governado por esse Bem, fazemo-nos inimigos da bondade a cada dia e o panorama não parece dar sinais de melhora no futuro. Logo, nosso caso é, de novo, ir­remediável - inviável com ou sem ele. Deus é o nosso único alento, mas também o nosso terror supremo; é a coisa de que mais precisamos, mas também da qual mais queremos nos esconder. E nosso único aliado possível, e tornamo-nos seus inimigos. Certas pessoas parecem pensar que o encontro face a face com o Bem absoluto seria divertido. Elas devem pensar melhor no que dizem. Estão apenas brincando com a religião. O Bem pode ser o maior refúgio ou o maior perigo, dependendo de como reagimos a ele. E temos reagido mal.

Enfim, a terceira coisa que tinha a dizer. Quando decidi dar todas estas voltas para chegar a meu verda­deiro assunto, nunca tive a intenção de lhes pregar uma peça. Meu motivo foi outro: foi que o cristianismo só tem sentido para quem teve de encarar de frente os te­mas tratados até aqui. O cristianismo exorta as pessoas a se arrepender e promete-lhes o perdão. Consequente­mente (que me conste), ele não tem nada a dizer às pes­soas que não têm a consciência de ter feito algo de que devem se arrepender e que não sentem a urgência de ser perdoadas. E quando nos damos conta da existência de uma Lei Moral e de um Poder por trás dessa Lei, e percebemos que nós violamos a Lei e ficamos em dívida para com esse Poder — é só então, e nunca antes disso, que o cristianismo começa a falar a nossa língua. Quan­do você sabe que está doente, dá ouvidos ao médico. Quando perceber que nossa situação é crítica, começará a entender a respeito do que os cristãos estão falando. Eles nos oferecem uma explicação de por que nos en­contramos em nosso estado atual, de odiar o bem e tam­bém de amá-lo; de por que Deus pode ser essa mente impessoal oculta por trás da Lei Moral e, ao mesmo tem­po, uma Pessoa. Explicam que as exigências dessa lei, que nem eu nem você conseguimos cumprir, foram cum­pridas por Alguém, para o nosso bem; que Deus mes­mo se fez homem para salvar os homens de sua própria ira. E uma velha história, e se você quiser esmiuçá-la poderá consultar pessoas que, sem dúvida nenhuma, têm mais autoridade do que eu para falar dela. Tudo o que faço é pedir a todos que encarem os fatos — que compreendam as perguntas para as quais o cristianis­mo pretende oferecer respostas. Os fatos amedrontam. Gostaria de poder falar de coisas mais amenas, mas devo declarar o que penso ser a verdade. Evidentemente, pen­so que, a longo prazo, a religião cristã traz um consolo indescritível; mas ela não começa assim. Ela começa com o desalento e a consternação que descrevi, e é inútil ten­tar obter o consolo sem antes passar pela consternação. Na religião, como na guerra e em todos os outros as­suntos, o consolo é a única coisa que não pode ser al­cançada quando é buscada diretamente. Se você buscar a verdade, encontrará a consolação no final; se buscar o consolo, não terá nem o consolo nem a verdade — terá somente uma melosidade vazia que culminará em deses­pero. Muitos entre nós já nos recuperamos da euforia de antes da guerra em matéria de política internacional. E hora de fazer a mesma coisa com a religião.

 

NO QUE ACREDITAM OS CRISTÃOS

 

AS CONCEPÇÕES CONCORRENTES DE DEUS

Pediram para que eu lhes dissesse em que os cristãos acreditam, mas vou falar antes sobre uma coisa em que eles não precisam acreditar. Se você é cristão, não preci­sa acreditar que todas as outras religiões estão simples­mente erradas de cabo a rabo. Se você é ateu, é obrigado a acreditar que o ponto de vista central de todas as reli­giões do mundo não passa de um gigantesco erro. Se você é cristão, está livre para pensar que todas as religiões, mes­mo as mais esquisitas, possuem pelo menos um fundo de verdade. Quando eu era ateu, tentei me convencer de que a raça humana sempre estivera enganada sobre o as­sunto que lhe era mais caro; quando me tornei cristão, pude adotar uma opinião mais liberal sobre o assunto.

É claro, no entanto, que, pelo fato de sermos cristãos, nós temos efetivamente o direito de pensar que, onde o cristianismo difere das outras religiões, ele está certo e as outras, erradas. É como na aritmética: para uma de­terminada soma, só existe uma resposta certa, e todas as outras estão erradas; porém, algumas respostas erradas estão mais próximas da certa do que as outras.

A primeira grande divisão da humanidade se dá en­tre a maioria que acredita em alguma espécie de Deus, ou deuses, e a minoria que não acredita. Nesse ponto, os cristãos se juntam à maioria - os gregos e romanos da Antigüidade, os selvagens modernos, os estóicos, os pla­tônicos, os hindus, os maometanos etc, contra o materialismo europeu ocidental moderno.

Passo agora à grande divisão seguinte. As pessoas que acreditam em Deus podem ser agrupadas de acordo com o tipo de Deus em que acreditam. Neste assunto, existem duas concepções bem diferentes uma da outra. Uma delas é a de que ele está acima do Bem e do Mal. Nós, seres humanos, dizemos que uma coisa é má e outra é boa. De acordo com alguns, porém, esse é um mero ponto de vista humano. Essas pessoas diriam que, quanto mais sábios nos tornamos, menos nos interes­samos por classificar as coisas dessa maneira, e nos da­mos conta com clareza cada vez maior de que tudo é bom sob certo ponto de vista e mau sob outro, e que nada poderia ser diferente do que é. Em conseqüência, essas pessoas crêem que, antes mesmo de nos aproximarmos do ponto de vista divino, essa distinção desaparece to­talmente. Nós consideramos o câncer mau, diriam elas, porque ele mata pessoas; mas poderíamos igualmente chamar um cirurgião de mau porque ele mata o câncer. Tudo depende do ponto de vista. A outra idéia, oposta a esta, é de que Deus é definitivamente "bom" ou "jus­to", é um Deus que toma partido, que ama o amor e odeia o ódio, que quer que nos comportemos de uma forma e não de outra. O primeiro ponto de vista - o de um Deus acima do Bem e do Mal - é chamado panteísmo. Foi sustentado por Hegel, o grande filósofo prus­siano, e, na medida em que posso compreendê-los, pe­los hindus. O outro ponto de vista é sustentado pelos judeus, maometanos e cristãos.

Essa grande diferença entre o panteísmo e a idéia cristã de Deus normalmente traz outra a reboque. Os panteístas em geral acreditam que Deus, para usar uma metáfora, anima o universo como nós animamos o cor­po: o universo quase é Deus, de tal modo que, se o uni­verso não existisse, Deus também não existiria, pois todos os seres do universo fazem parte dele. A idéia cristã é bem diferente. Os cristãos pensam que Deus inventou e criou o universo como um homem que pinta um quadro ou compõe uma música. Um pintor não é o que ele pinta e não vai morrer se o quadro for destruído. Quando di­zemos que "ele infundiu sua alma na pintura", só que­remos dizer que a beleza e o fascínio que o quadro des­perta vieram da mente dele. A habilidade dele não está presente na tela da mesma forma que está presente em sua cabeça ou mesmo em suas mãos. Acho que você já compreendeu que a diferença entre panteístas e cristãos segue essa mesma linha. Se você não leva muito a sério a distinção entre o Bem e o Mal, é fácil dizer que qual­quer coisa que encontra no mundo é uma parte de Deus. Por outro lado, se acha que certas coisas são realmente más e Deus é realmente bom, já não pode falar dessa ma­neira. Tem de acreditar que existe uma separação entre Deus e o mundo e que certas coisas que vemos são con­trárias à sua vontade. Confrontado com o câncer ou com a miséria, o panteísta pode dizer: "Se pudéssemos ver as coisas do ponto de vista divino, nos daríamos conta de que isso também é Deus." O cristão retruca: "Não diga essa maldita asneira!"[13] O cristianismo é uma religião aguerrida. Para o cristão, Deus criou o mundo - "tirou de sua cabeça" o espaço e o tempo, o calor e o frio, todas as cores e sabores, todos os animais e vegetais, como um homem que cria uma história. Por outro lado, para o cristianismo, muitas das coisas criadas por Deus caíram no erro, e Deus insiste - aliás, de forma enfática - em co­locá-las de volta no lugar.

Com isto, é claro, surge uma pergunta difícil. Se um Deus bom criou o mundo, por que esse mundo deu errado? Por muitos anos, recusei-me a ouvir as respos­tas cristãs à pergunta, pois tinha a sensação persistente de que "o que quer que vocês digam, por mais astutos que sejam seus argumentos, não é muito mais simples e mais fácil afirmar que o mundo não foi feito por um poder dotado de inteligência? As argumentações de vo­cês não são apenas uma complicada tentativa de fugir ao óbvio?" Mas, através disso, acabei deparando com outra dificuldade.

Meu argumento contra Deus era o de que o uni­verso parecia injusto e cruel. No entanto, de onde eu tirara essa idéia de justo e injusto? Um homem não diz que uma linha é torta se não souber o que é uma linha reta. Com o que eu comparava o universo quando o cha­mava de injusto? Se o espetáculo inteiro era ruim do começo ao fim, como é que eu, fazendo parte dele, po­dia ter uma reação assim tão violenta? Um homem sen­te o corpo molhado quando entra na água porque não é um animal aquático; um peixe não se sente assim. E claro que eu poderia ter desistido da minha idéia de justiça dizendo que ela não passava de uma idéia particular minha. Se procedesse assim, porém, meu argu­mento contra Deus também desmoronaria - pois de­pende da premissa de que o mundo é realmente injusto, e não de que simplesmente não agrada aos meus capri­chos pessoais. Assim, no próprio ato de tentar provar que Deus não existe - ou, por outra, que a realidade como um todo não tem sentido -, vi-me forçado a ad­mitir que uma parte da realidade - a saber, minha idéia de justiça- tem sentido, sim. Ou seja, o ateísmo é uma solução simplista. Se o universo inteiro não tivesse sen­tido, nunca perceberíamos que ele não tem sentido - do mesmo modo que, se não existisse luz no universo e as criaturas não tivessem olhos, nunca nos saberíamos imer­sos na escuridão. A própria palavra escuridão não teria significado.

 

A INVASÃO

Pois bem, então o ateísmo é simplista. E vou lhes fa­lar de outro ponto de vista igualmente simplista que chamo de "cristianismo água-com-açúcar". De acordo com ele, existe um bom Deus no Céu e tudo o mais vai muito bem, obrigado - o que deixa completamente de lado as doutrinas difíceis e terríveis a respeito do pecado, do inferno, do diabo e da redenção. Os dois pontos de vista são filosofias pueris.

Não convém exigir uma religião simples. Afinal de contas, as coisas no mundo real são complexas. Parecem simples, mas não são. A mesa à qual estou sentado pa­rece simples, mas peça a um cientista que diga do que ela é realmente feita: você ouvirá uma longa história a respeito dos átomos e de como as ondas luminosas refle­tem-se neles e chegam ao nervo óptico, provocando um efeito no cérebro. Assim, o que chamamos de "enxergar a mesa" nos leva a mistérios e complicações aparentemen­te inesgotáveis. Uma criança que faz uma oração infantil é algo singelo. Se você estiver disposto a parar por aí, ótimo. Mas, se você não se contentar com isso (coisa que acontece bastante no mundo moderno) e quiser levar avante o questionamento sobre o que realmente acon­tece, tem de estar preparado para enfrentar dificuldades. Se exigimos algo que vá além da simplicidade, é tolice nos queixarmos de que esse algo a mais não é simples. Com muita freqüência, entretanto, esse procedi­mento tolo é adotado por pessoas que não têm nada de tolas, mas que, consciente ou inconscientemente, que­rem destruir o cristianismo. Essas pessoas apresentam uma versão da religião cristã própria para crianças de seis anos e fazem dela o objeto de seu ataque. Quando tentamos explicar a doutrina cristã tal como é entendida por um adulto instruído, elas se queixam de que estamos dando um nó na cabeça delas, de que tudo o que dize­mos é complicado demais e de que, se Deus realmente existisse, teria feiro a "religião" simples, pois a simplici­dade é bela etc. Esteja sempre em guarda contra este tipo de gente, sujeitos que trocam de argumento a cada minuto e só nos fazem perder tempo. Note o absurdo da idéia de um Deus que "faz uma religião simples": co­mo se a "religião" fosse algo inventado por Deus, e não a sua afirmação de certos fatos inalteráveis a respeito de sua própria natureza.

A experiência me diz que a realidade, além de com­plicada, é quase sempre estranha. Não é precisa, nem óbvia, nem previsível. Por exemplo, quando você des­cobre que a Terra e os outros planetas giram em torno do Sol, pensa naturalmente que todos os planetas de­vem se comportar da mesma maneira, que são separa­dos por distâncias iguais ou distâncias que aumentam proporcionalmente, ou que devem aumentar ou dimi­nuir de tamanho à medida que se afastam do Sol. No en­tanto, não encontramos nem métrica nem método (que possamos compreender) nos tamanhos ou nas distâncias. Além disso, alguns planetas possuem uma lua; outros, quatro; alguns, nenhuma; e um planeta tem um anel.

A realidade, com efeito, é algo que ninguém poderia adivinhar. Este é um dos motivos pelo qual acredito no cristianismo. E uma religião que ninguém poderia adi­vinhar. Se ela nos oferecesse o tipo de universo que es­peraríamos encontrar, eu acharia que ela havia sido in­ventada pelo homem. Porém, a religião cristã não é nada daquilo que esperávamos; apresenta todas as mudanças inesperadas que as coisas reais possuem. Deixemos de lado, portanto, todas as filosofias pueris e suas respostas simplistas. O problema não é nada simples, e a respos­ta tampouco.

E qual é o problema? E um universo cheio de coi­sas evidentemente más e aparentemente sem sentido, mas que ao mesmo tempo contém criaturas como nós, que têm a consciência dessa maldade e desse absurdo. Existem só dois pontos de vista que conseguem con­templar todos esses fatos. Um deles é o cristianismo, se­gundo o qual estamos num mundo bom que se perdeu, mas que ainda assim conserva a memória de como de­veria ser. O outro ponto de vista chama-se dualismo. Dualismo é a crença de que, na raiz de todas as coisas, há duas forças iguais e independentes, uma delas boa, a outra má. O universo é o campo de batalha no qual travam uma guerra sem fim. Creio que, ao lado do cris­tianismo, o dualismo é a crença mais viril e sensata exis­tente no mercado. Porém, traz em si uma armadilha.

Os dois poderes, ou espíritos, ou deuses - o bom e o mal - são tidos como independentes um do outro. Ambos existem eternamente. Nenhum deles gerou o ou­tro, nenhum deles tem mais direito que o outro de cha­mar a si mesmo de "Deus". Cada um deles, presumi­velmente, considera a si mesmo o Bem, e ao outro, o Mal. Um deles aprecia o ódio e a crueldade; o outro, o amor e a misericórdia; e cada qual sustenta sua própria visão das coisas. No entanto, o que temos em mente quando chamamos um deles de Poder Benigno, e o outro, de Poder Maligno? Talvez queiramos dizer simplesmen­te que preferimos um ao outro — como alguém pode preferir uma cerveja a um vinho doce; ou então queira­mos dizer que o que quer que cada um deles pense a seu respeito, e independentemente de nossas preferên­cias humanas imediatas, um deles está efetivamente er­rado, enganado ao se considerar benigno. Ora, se tudo o que queremos dizer é que preferimos o primeiro po­der, temos de desistir definitivamente dessa conversa de Bem e de Mal, pois o Bem é aquilo que devemos preferir quaisquer que sejam os nossos sentimentos momentâ­neos. Se "ser bom" significasse apenas aderir ao lado que por acaso nos agrada, o Bem não mereceria ser chama­do assim. Logo, o que queremos dizer é que um dos po­deres está errado, enquanto o outro está certo.

Mas no momento em que dizemos isto, insere-se no universo um terceiro fator, distinto dos outros dois poderes: uma lei, ou padrão, ou regra geral do Bem à qual o primeiro poder se submete, e o outro, não. Se os dois poderes são julgados por esse padrão, então o próprio padrão ou o Ser que o criou está além e acima de qual­quer um dos poderes. E ele o Deus verdadeiro. Na rea­lidade, quando dizemos que um poder é bom e o outro é mau, entendemos que um está em relação harmonio­sa com o Deus verdadeiro e supremo, e o outro, não.

O mesmo argumento pode ser apresentado de ou­tra maneira. Se o dualismo é real, o poder maligno deve ser um ente que ama o Mal pelo Mal. Na realidade, po­rém, não encontramos ninguém que aprecie o Mal só porque é o Mal. O mais próximo disso seria a crueldade. Mas, na vida real, as pessoas são cruéis por um de dois motivos: por sadismo, ou seja, por causa de uma perver­são sexual que faz da dor um objeto de prazer sensual, ou pela busca de algum benefício externo - dinheiro, poder, segurança. O prazer, o dinheiro, o poder e a se­gurança, considerados em si mesmos, são coisas boas. A maldade consiste em tentar obtê-los pelos métodos errados, ou de forma errada, ou em excesso. Não quero dizer, de modo algum, que não sejam terrivelmente per­versas as pessoas que agem assim. Digo apenas que a perversidade, quando a examinamos de perto, revela-se como um jeito errado de buscar o Bem. Podemos deci­dir ser bons por amor à própria bondade, mas não po­demos ser maus por amor à maldade. Podemos agir de forma bondosa mesmo quando não nos sentimos bon­dosos e não há uma recompensa para agir assim; a bonda­de é simplesmente a atitude correta. Ninguém, no en­tanto, é cruel simplesmente porque a crueldade é má; só o é porque ela lhe parece agradável ou lhe é útil. Em outras palavras, a maldade não consegue sequer ser má como a bondade é boa. A bondade, por assim dizer, é ela mesma, ao passo que a maldade é apenas o Bem per­vertido. E, para que haja uma perversão, é preciso que antes haja uma perfeição. Chamamos o sadismo de per­versão sexual, mas, para chamá-lo assim, temos de ter a idéia de uma sexualidade normal. Conseguimos distin­guir claramente um do outro porque a perversão pode ser explicada pela normalidade, mas a normalidade não pode ser explicada pela perversão. Segue-se que o Po­der Maligno, que supostamente está em pé de igualdade com o Poder Benigno e ama o Mal pelo Mal como aque­le ama o Bem pelo Bem, não passa de um bicho-papão. Para ser mau, ele tem de querer algo de bom e buscá-lo da forma errada: tem de ter impulsos originariamente bons para depois pervertê-los. Mas, se é mau, não pode fornecer a si mesmo nem as coisas boas e desejáveis nem os bons impulsos passíveis de perversão. Tem de receber ambos do Poder Benigno. Nesse caso, não é independen­te. Faz parte do mundo do Poder do Bem: ou foi gerado por este, ou por um poder superior a ambos.

Vamos colocar o assunto de forma mais clara ainda. Para que seja mau, esse poder tem de existir e ter inte­ligência e vontade. Ora, a existência, a inteligência e a vontade são, em si mesmas, coisas boas. Logo, esse po­der tem de receber essas qualidades do Poder do Bem: mesmo para ser mau, tem de emprestá-las ou roubá-las do seu opositor. Você começa a perceber agora por que o cristianismo sempre disse que o diabo é um anjo caí­do? Isto não é apenas uma historieta para crianças. E o reconhecimento real do fato de que o Mal é um para­sita, não um ente original. As forças que fazem com que o Mal possa subsistir foram dadas pelo Bem. Todas as coisas que propiciam que um homem mau seja efetiva­mente mau são, em si mesmas, qualidades: resolução, esperteza, boa aparência, a própria existência. E por cau­sa disso que o dualismo, a rigor, não funciona.

Devo admitir, por outro lado, que o verdadeiro cristianismo (o qual não deve ser confundido com o cristianismo água-com-açúcar) é bem mais próximo do dualismo do que as pessoas imaginam. Uma das coisas que me surpreenderam quando pela primeira vez li a sério o Novo Testamento são as menções freqüentes a uma Força Negra em ação no universo — um poderoso espírito maligno, causa principal da morte, da doença e do pecado. A diferença é que o cristianismo pensa que essa Força Negra foi criada por Deus e que no momento da criação era benigna, tendo-se perdido depois. O cris­tianismo concorda com o dualismo em que o universo está em guerra, mas discorda que seja uma guerra en­tre forças independentes. Considera-a antes uma guer­ra civil, uma rebelião, e afirma que vivemos na parte do universo ocupada pelos rebeldes.

Um território ocupado pelo inimigo — assim é este mundo. O cristianismo é a história de como o rei por direito desembarcou disfarçado em sua terra e nos cha­ma a tomar parte numa grande campanha de sabota­gem. Quando você vai à igreja, na verdade vai receber os códigos secretos mandados pelos nossos amigos: não é por outro motivo que o inimigo fica tão ansioso para nos impedir de freqüentá-la. Ele apela à nossa vaidade, preguiça e esnobismo intelectual. Sei que alguém vai me perguntat: "Você quer mesmo, na época em que vi­vemos, trazer de novo à baila a figura do nosso velho amigo, o diabo, com seus chifres e seu rabo?" Bem, o que a "época em que vivemos" tem a ver com o assunto, não sei. Quanto aos chifres e ao rabo, não faço muita questão deles. Quanto ao mais, porém, minha resposta é "sim". Não afirmo conhecer coisa alguma sobre a apa­rência pessoal do diabo, mas, se alguém realmente qui­sesse conhecê-lo melhor, eu diria a essa pessoa: "Não se preocupe. Se você realmente quiser travar relações com ele, vai conseguir. Se vai gostar ou não da experiência, isso é outro assunto."

 

A ALTERNATIVA ESTARRECEDORA

Os cristãos acreditam, portanto, que um poder ma­ligno se alçou, por enquanto, ao posto de Príncipe des­se Mundo. E inevitável que isso levante alguns proble­mas. Esse estado de coisas está de acordo com a vontade de Deus ou não? Se a resposta for "sim", você dirá que esse Deus é bastante esquisito. Se for "não", como pode acontecer algo que contrarie a vontade de um ser dotado de poder absoluto?

Quem quer que tenha exercido um papel de auto­ridade, no entanto, sabe que algo pode estar de acordo com sua vontade por um lado e em desacordo por outro. É bastante sensato que a mãe diga a seus filhos: "Não vou mandá-los arrumar o quarto de brinquedos toda noite. Vocês têm de aprender a fazer isso sozinhos." Quan­do, certa noite, ela encontra o quarto todo bagunçado, com o urso de pelúcia, as canetinhas e o livro de gramá­tica espalhados pelo chão, isso contraria a sua vontade; afinal, ela preferia que os filhos fossem mais organiza­dos. Por outro lado, foi a sua vontade que permitiu que as crianças ficassem livres para deixar o quarto desorgani­zado. A mesma questão surge em qualquer regimento, sindicato ou escola. Quando algo é opcional, metade das pessoas não o cumprirá. Não era isso que queríamos, mas nossa vontade o tornou possível.

Provavelmente, o mesmo acontece no universo. Deus criou coisas dotadas de livre-arbítrio: criaturas que po­dem fazer tanto o bem quanto o mal. Alguns pensam que podem conceber uma criatura que, mesmo desfru­tando da liberdade, não tivesse possibilidade de fazer o mal. Eu não consigo. Se uma coisa é livre para o bem, é livre também para o mal. E o que tornou possível a existência do mal foi o livre-arbítrio. Por que, então, Deus o concedeu? Porque o livre-arbítrio, apesar de possibi­litar a maldade, é também aquilo que torna possível qualquer tipo de amor, bondade e alegria. Um mundo feito de autômatos — criaturas que funcionassem como máquinas - não valeria a pena ser criado. A felicidade que Deus quis para suas criaturas mais elevadas é a fe­licidade de estar, de forma livre e voluntária, unidas a ele e aos demais seres num êxtase de amor e deleite ao qual os maiores arroubos de paixão terrena entre um ho­mem e uma mulher não se comparam. Por isso, essas criaturas têm de ser livres.

E claro que Deus sabia o que poderia acontecer se a liberdade fosse usada de forma errada. Aparentemente, ele achou que valia a pena correr o risco. Talvez quei­ramos discordar dele. Existe, porém, um empecilho para se discordar de Deus. Ele é a fonte da qual vem toda a nossa faculdade de raciocínio: não podemos estar certos e ele, errado, assim como uma onda não pode mudar o sentido da maré. Quando discutimos com ele, esta­mos na verdade discutindo contra o próprio poder que nos tornou capazes de discutir: é como se cortássemos o galho no qual estamos sentados. Se Deus pensa que o estado de guerra no universo é um preço justo a pagar pelo livre-arbítrio - ou seja, pela criação de um mundo vivaz no qual as criaturas podem fazer tanto um grande bem quanto um grande mal, no qual acontecem coisas realmente importantes, em vez de um mundo de mario­netes que só se movem quando ele puxa as cordinhas -, devemos igualmente consentir que o preço é justo.

Quando compreendemos a questão do livre-arbítrio, vemos o quanto é tolo perguntar o que alguém certa vez me perguntou: "Por que Deus criou um ser de ma­téria tão corrompida, condenando-o ao erro?" Quanto melhor for a matéria da qual for feita uma criatura -quanto mais ela for inteligente, forte e livre -, tanto me­lhor será ela quando tender para o certo, e tanto pior quando tender para o errado. Uma vaca não pode ser nem muito boa, nem muito má; um cachorro já pode ser um pouco melhor ou um pouco pior; uma criança pode ser ainda melhor ou pior; um homem comum, ainda melhor ou pior; um homem de gênio, melhor ou pior ainda; um espírito sobre-humano, melhor - ou pior — do que todos os demais.

Como pôde o Poder das Trevas ter caído no erro? Para essa pergunta, sem dúvida, nós, seres humanos, não conseguimos formular uma resposta com absoluta cer­teza. Podemos, entretanto, oferecer um palpite razoável (e tradicionalmente aceito) baseado em nossas próprias experiências de erro. No momento em que possuímos um ego, temos a possibilidade de nos colocar em pri­meiro lugar - de querer ser o centro de tudo — de que­rer, na verdade, ser Deus. Esse foi o pecado de Satanás, e foi esse o pecado que ele ensinou à raça humana. Cer­tas pessoas julgam que a queda do homem teve algo a ver com o sexo, mas estão enganadas. (A história con­tada no Livro do Gênesis sugere, isto sim, que nossa na­tureza sexual foi corrompida após a queda, como uma conseqüência desta, e não uma causa.) O que Satanás colocou na cabeça dos nossos remotos ancestrais foi a idéia de que poderiam "ser como deuses" — poderiam bastar-se a si mesmos como se fossem seus próprios cria­dores; poderiam ser senhores de si mesmos e inventar um tipo de felicidade fora e à parte de Deus. Dessa ten­tativa, que não pode dar certo, vem quase tudo o que chamamos de história humana: o dinheiro, a miséria, a ambição, a guerra, a prostituição, as classes, os impé­rios, a escravidão - a longa e terrível história da tenta­tiva do homem de descobrir a felicidade em outra coisa que não Deus.

A razão pela qual essa tentativa não pode ser bem-sucedida é a seguinte: Deus nos criou como um ho­mem inventa uma máquina. Um carro é feito para ser movido a gasolina. Deus concebeu a máquina humana para ser movida por ele mesmo. O próprio Deus é o com­bustível que nosso espírito deve queimar, ou o alimento do qual deve se alimentar. Não existe outro combustível, outro alimento. Esse é o motivo pelo qual não podemos pedir que Deus nos faça felizes e ao mesmo tempo não dar a mínima para a religião. Deus não pode nos dar uma paz e uma felicidade distintas dele mesmo, porque fora dele elas não se encontram. Tal coisa não existe.

Essa é a chave da história humana. Despende-se uma energia incrível, erguem-se civilizações, concebem-se excelentes instituições, mas algo sempre dá errado. Uma falha fatal sempre permite que as pessoas mais egoístas e cruéis subam ao poder, trazendo a derrocada, a des­graça e a ruína. A máquina, em outras palavras, emper­ra, Ela parece engrenar bem e rodar por alguns metros, mas então se quebra. Tentamos fazê-la funcionar com o combustível errado. E isso que Satanás fez para nós, seres humanos.

E o que Deus fez? Em primeiro lugar, nos deu uma consciência, o sentido do certo e do errado. Ao longo da história, certas pessoas tentaram obedecê-la (algumas, com muito esforço); nenhuma delas conseguiu obede­cê-la totalmente. Em segundo lugar, enviou à raça hu­mana o que chamo de "sonhos bons": as histórias extraor­dinárias espalhadas por todas as religiões pagãs sobre um deus que morre e ressuscita e que, por sua morte, dá nova vida ao homem. Em terceiro lugar, Ele escolheu um certo povo e, por séculos a fio, martelou na cabeça desse povo que tipo de Deus ele era, que não havia ou­tro fora dele e que ele exigia a boa conduta. Esse povo foi o povo judeu, e o Antigo Testamento nos dá a nar­rativa de como foi esse martelar.

O verdadeiro choque vem depois. Entre os judeus surge, de repente, um homem que começa a falar como se ele próprio fosse Deus. Afirma categoricamente per­doar os pecados. Afirma existir desde sempre e diz que voltará para julgar o mundo no fim dos tempos. Deve­mos aqui esclarecer uma coisa: entre os panteístas, como os indianos, qualquer um pode dizer que é uma parte de Deus, ou é uno com Deus, e não há nada de muito es­tranho nisso. Esse homem, porém, sendo um judeu, não estava se referindo a esse tipo de divindade. Deus, na sua língua, significava um ser que está fora do mundo, que criou o mundo e é infinitamente diferente de tudo o que criou. Quando você entende esse fato, percebe que as coisas ditas por esse homem foram, simplesmente, as mais chocantes já pronunciadas por lábios humanos.

Há um elemento do que ele afirmava que tende a passar despercebido, pois o ouvimos tantas vezes que já não percebemos o que ele de fato significa. Refiro-me ao perdão dos pecados. De todos os pecados. Ora, a me­nos que seja Deus quem o afirme, isso soa tão absurdo que chega a ser cômico. Compreendemos que um ho­mem perdoe as ofensas cometidas contra ele mesmo. Você pisa no meu pé, ou rouba meu dinheiro, e eu o per­dôo. O que diríamos, no entanto, de um homem que, sem ter sido pisado ou roubado, anunciasse o perdão dos pisões e dos roubos cometidos contra os outros? Pre­sunção asinina é a descrição mais gentil que podemos dar da sua conduta. Entretanto, foi isso o que Jesus fez. Anunciou ao povo que os pecados cometidos estavam perdoados, e fez isso sem consultar os que, sem dúvida alguma, haviam sido lesados por esses pecados. Sem hesitar, comportou-se como se fosse ele a parte interessada, como se fosse o principal ofendido. Isso só tem sentido se ele for realmente Deus, cujas leis são trans­gredidas e cujo amor é ferido a cada pecado cometido. Nos lábios de qualquer pessoa que não Deus, essas pa­lavras implicam algo que só posso chamar de uma im­becilidade e uma vaidade não superadas por nenhum outro personagem da história.

No entanto (e isto é estranho e, ao mesmo tempo, significativo), nem mesmo seus inimigos, quando lêem os evangelhos, costumam ter essa impressão de imbeci­lidade ou vaidade. Quanto menos os leitores sem pre­conceitos. Cristo afirma ser "humilde e manso", e acre­ditamos nele, sem nos dar conta de que, se ele fosse so­mente um homem, a humildade e a mansidão seriam as últimas qualidades que poderíamos atribuir a alguns de seus ditos.

Estou tentando impedir que alguém repita a rema­tada tolice dita por muitos a seu respeito: "Estou dispos­to a aceitar Jesus como um grande mestre da moral, mas não aceito a sua afirmação de ser Deus." Essa é a úni­ca coisa que não devemos dizer. Um homem que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus dis­se não seria um grande mestre da moral. Seria um lu­nático - no mesmo grau de alguém que pretendesse ser um ovo cozido — ou então o diabo em pessoa. Faça a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou não passa de um louco ou coisa pior. Você pode querer calá-lo por ser um louco, pode cuspir nele e matá-lo co­mo a um demônio; ou pode prosternar-se a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas que ninguém venha, com paternal condescendência, dizer que ele não pas­sava de um grande mestre humano. Ele não nos deixou essa opção, e não quis deixá-la.

 

O PENITENTE PERFEITO

Somos confrontados, então, com uma alternativa assustadora. Ou esse homem de quem estamos falando era (e é) o que dizia ser, ou era um lunático ou coisa pior. Ora, parece-me óbvio que ele não era nem um lunático nem um demônio; conseqüentemente, por mais estra­nho, assustador ou insólito que pareça, tenho de aceitar a idéia de que ele era, e é, Deus. Deus chegou sob for­ma humana no território ocupado pelo inimigo.

Agora, qual o sentido disso tudo? O que ele veio fazer aqui? Bem, veio ensinar, é claro. No entanto, assim que começamos a examinar o Novo Testamento ou qualquer outro escrito cristão, descobrimos que eles falam constan­temente de algo bem diferente: falam de sua morte e ressurreição. É evidente que os cristãos julgam estar aí o ponto central da história. Acreditam que Jesus veio à Terra especificamente para sofrer e ser morto.

Ora, antes de me tornar cristão, eu tinha a impres­são de que a primeira coisa em que os cristãos tinham de acreditar era uma teoria particular sobre o propósito dessa morte. De acordo com essa teoria, Deus queria castigar os homens por terem desertado e se unido à Grande Rebelião, mas Cristo se ofereceu para ser puni­do em lugar dos homens, e Deus não nos puniu. Hoje admito que nem mesmo essa teoria me parece mais tão imoral e pueril quanto me parecia, mas não é essa a ques­tão que me ocupa. O que vim a perceber mais tarde é que o cristianismo não é nem essa teoria nem nenhuma outra. A principal crença cristã é que a morte de Cristo de algum modo acertou nossas contas com Deus e nos deu a possibilidade de começar de novo. As teorias so­bre como isso ocorreu são outro assunto. Várias teorias foram formuladas a esse respeito; o que todos os cristãos têm em comum é a crença na eficácia dessa morte. Vou lhes dizer o que penso do assunto. Toda pessoa de juí­zo sabe que, quando estamos cansados e famintos, um prato de comida nos fará bem. Já a teoria moderna da nutrição, com suas vitaminas e proteínas, é coisa bem di­ferente. As pessoas já comiam para sentir-se bem muito antes de ouvir falar de vitaminas. Se algum dia a teoria das vitaminas for abandonada, continuarão almoçando e jantando como sempre fizeram. As teorias a respeito da morte de Cristo não são o cristianismo: são explica­ções de como ele funciona. Os cristãos não precisam to­dos concordar com a importância delas. Minha própria igreja, a Anglicana, não propõe nenhuma delas como a única teoria correta. A Igreja Romana vai um pouco mais longe. Creio, porém, que todas concordam que a coisa em si é infinitamente mais importante que qualquer explicação produzida pelos teólogos. Elas provavelmen­te admitiriam que nenhuma explicação é perfeitamen­te adequada à realidade. Como disse no prefácio do livro, no entanto, eu sou apenas um leigo, e nesse ponto as águas começam a ficar profundas. Só posso lhes dizer como eu, pessoalmente, encaro o assunto.

Do meu ponto de vista, o que se pede que aceite­mos não são as teorias. Sem dúvida, muitos de vocês já leram os trabalhos de Jeans ou de Eddington[14]. O que eles fazem, quando tentam explicar o átomo ou coisa parecida, é nos dar uma descrição a partir da qual po­demos elaborar uma imagem mental. Em seguida, nos advertem de que não é nessas imagens que de fato acre­ditam, mas sim numa fórmula matemática. As imagens só existem para nos ajudar a compreender a fórmula.

Não são verdadeiras como a fórmula é verdadeira; não representam a realidade, mas algo que se lhe assemelha. Têm a função de ajudar; se não ajudam, podem ser deixadas de lado. A realidade em si não pode ser repre­sentada em imagens, só pode ser expressa em termos matemáticos. Estamos numa situação parecida. Acredi­tamos que a morte de Cristo é o ponto exato da história no qual algo externo a nós, absolutamente inimaginá­vel, se manifestou em nosso mundo. Se não consegui­mos nem mesmo fazer uma imagem dos átomos que compõem esse mundo, é claro que não conseguiremos imaginar essa realidade superior. Aliás, se nos constatás­semos capazes de compreendê-la integralmente, esse fato por si só mostraria que ela não é o que afirma ser - o inconcebível, o incriado, algo de fora da natureza que penetra nela como um raio. Você talvez pergunte de que isso nos serve se não podemos compreendê-lo. A resposta, porém, é fácil. Um homem pode jantar sem saber exatamente de que modo os alimentos o nutrem. Da mesma forma, pode aceitar a obra de Cristo sem en­tender como ela funciona; aliás, é certo que, para enten­dê-la, tem de aceitá-la primeiro.

Dizem-nos que Cristo morreu por nós, que sua mor­te nos lavou de nossos pecados e que, morrendo, ele destruiu a própria morte. Essa é fórmula. Esse é o cris­tianismo. E nisso que acreditamos. A meu ver, todas as teorias que construímos para explicar como a morte de Cristo operou tudo isso são perfeitamente dispensá­veis: meros esquemas ou diagramas que podem ser dei­xados de lado quando não nos ajudam e que, mesmo quando são úteis, não devem ser tomados pela própria realidade. Não obstante, algumas teorias merecem um exame mais detido.

A que a maioria das pessoas conhecem é a que já mencionei - a de que fomos absolvidos do castigo por­que Cristo se ofereceu para ser castigado em nosso lugar. Ora, à primeira vista, parece uma teoria bastante tola. Se Deus estava disposto a nos perdoar, por que não nos perdoou de antemão? E por que, além disso, castigou um inocente em lugar dos culpados? Se pensarmos o castigo na acepção policial e judicial da palavra, isso não tem sentido nenhum. Por outro lado, se pensarmos numa dívida, é muito natural que uma pessoa, possuindo bens, salde os compromissos daquela que não os possui. Ou, se tomarmos a expressão "cumprir a pena" não no sentido de ser punido, mas sim no de "agüentar as conseqüências" e "pagar a conta" - ora, todos sabem que, quando uma pessoa cai num buraco, o problema de tirá-la de lá geral­mente recai sobre os ombros de um bom amigo.

Em que tipo de "buraco" caíra o homem? Ele pro­curara ser auto-suficiente e se comportara como se per­tencesse a si mesmo. Em outras palavras, o homem decaído não é simplesmente uma criatura imperfeita que precisa ser melhorada; é um rebelde que precisa depor as armas. Depor as armas, render-se, pedir perdão, dar-se conta de que tomou o caminho errado, estar disposto a começar uma vida nova do zero — só isso pode nos "tirar do buraco". Esse processo de rendição, movimen­to de marcha a ré a toda velocidade, é o que o cristia­nismo chama de arrependimento. Mas, veja só, o arre­pendimento não é nada agradável. E bem mais difícil que simplesmente engolir um sapo. Significa desapren­der toda a presunção e a obediência à vontade própria que nos foram incutidas por milhares de anos; signifi­ca matar uma parte de si mesmo e submeter-se a uma espécie de morte. Na verdade, só um homem bom pode arrepender-se. E isso nos leva a um paradoxo. Só uma pessoa má precisa do arrependimento, mas só uma pes­soa boa consegue arrepender-se perfeitamente. Quan­to pior você é, mais precisa do arrependimento e me­nos é capaz de arrepender-se. A única pessoa capaz de arrepender-se perfeitamente seria uma pessoa perfeita - e não precisaria fazê-lo em absoluto.

Lembre que esse arrependimento, essa entrega vo­luntária à humilhação e a um tipo de morte não é algo que Deus exige de nós para que nos aceite de volta ou algo do qual pode nos livrar, se assim decidir. É simples­mente uma descrição de como é o próprio retorno a Deus. Se pedimos que ele nos aceite sem esse arrepen­dimento, estamos na verdade pedindo para voltar sem voltar. Não é possível. Pois muito bem, temos de nos arrepender. Entretanto, a maldade que nos faz precisar disso nos impede de fazê-lo. Será que podemos arre­pender-nos se Deus nos ajudar? Sim, mas o que signi­fica essa ajuda? Significa que Deus, por assim dizer, co­loca um pouco de si mesmo em nós. Empresta-nos um pouco da sua razão e assim nos tornamos capazes de pensar; nos dá um pouco do seu amor e, dessa maneira, amamos uns aos outros. Quando ensinamos uma crian­ça a escrever, seguramos-lhe a mão, ajudando-a a dese­nhar as letras. Ou seja, ela só pode formar as letras por­que nós as formamos. Nós amamos e raciocinamos porque Deus ama e raciocina e, enquanto isso, segura a nossa mão. Se não tivéssemos caído, tudo iria de vento em popa. Infelizmente, em nosso estado atual, precisa­mos da ajuda de Deus para fazer algo que, pela sua pró­pria natureza, ele nunca faz: render-se, sofrer, subme­ter-se e morrer. A natureza divina não condiz em nada com esse processo. A estrada em que mais precisamos ser guiados por Deus é uma estrada que Deus, em sua própria natureza, nunca trilhou. Deus só pode partilhar conosco o que tem; mas ele não tem essas coisas em sua própria natureza.

Suponha, no entanto, que Deus se torne homem. Suponha que nossa natureza humana seja amalgamada com a divina na forma de uma pessoa. Essa pessoa pode­ria nos ajudar. Poderia submeter-se à vontade de Deus, sofrer e morrer, porque seria um ser humano. Poderia fazer tudo isso perfeitamente, porque concomitante­mente seria Deus. Você e eu só podemos percorrer esse processo se Deus o fizer ocorrer em nós; mas Deus só pode fazê-lo se for um homem. Assim como nosso pen­samento só pode ir adiante por ser uma gota tirada do oceano da inteligência divina, assim também nossa ten­tativa de morrer só dá certo se participarmos da morte de Deus. Porém, só podemos participar dessa morte se ele morrer; e ele só pode morrer se for um homem. E nesse sentido que ele paga as nossas dívidas e sofre por nós aquilo que, por sua própria natureza, não precisa­ria sofrer de modo algum.

Certas pessoas se queixam de que, se Jesus foi ao mesmo tempo Deus e homem, seus sofrimentos e sua morte não têm valor nenhum, "pois tudo isso foi fácil para ele". Outras pessoas podem (com toda razão) pro­testar veementemente contra a ingratidão e a grosseria dessa objeção. O que me deixa espantado é a incom­preensão que ela revela. Em certo sentido, os adeptos dessa objeção não só têm razão como mesmo foram tí­midos em explorar a idéia. A submissão perfeita, o so­frimento perfeito e a morte perfeita não foram somente mais fáceis para Jesus porque ele era Deus; só foram possíveis porque ele era Deus. Mas não será essa uma ra­zão muito estranha para não aceitar essa submissão, esse sofrimento e essa morte? O professor é capaz de ajudar as crianças a formar as letras porque é adulto e sabe es­crever. Evidentemente, para o professor é fácil escrever, e é essa mesma facilidade que o habilita a ajudar a crian­ça. Se ele fosse rejeitado com a desculpa de que essa ta­refa "é fácil para adultos", e a criança quisesse aprender a escrever com outra criança igualmente analfabeta (o que anularia qualquer vantagem "injusta"), o progresso dela não seria lá muito rápido. Se eu estivesse me afo­gando numa corredeira, um homem que tivesse um dos pés solidamente plantado na margem do rio poderia estender a mão e salvar-me a vida. Será que eu deveria (entre um engasgo e outro) gritar: "Não! Isso não é jus­to! Você tem uma vantagem! Ainda está com um dos pés em terra firme!"? A vantagem — chame-a de "injus­ta", se quiser — é o único motivo pelo qual esse homem me pode ser útil. Em quem buscaremos socorro, senão em alguém mais forte do que nós?

Essa é minha própria maneira de ver o que os cris­tãos chamam de Expiação. Lembre-se, porém, de que se trata apenas de mais uma imagem, que não deve ser confundida com a realidade. Se ela não lhe for útil, dei­xe-a de lado.

 

A CONCLUSÃO PRÁTICA

Cristo entregou-se à submissão e à humilhação per­feitas: perfeitas porque era Deus; submissão e humilha­ção porque era um homem. Ora, a crença dos cristãos está em que, se partilharmos de algum modo da humil­dade e do sofrimento de Cristo, partilharemos também do seu triunfo sobre a morte, encontraremos nova vida após a morte e nela seremos criaturas perfeitas e per­feitamente felizes. Isso implica bem mais que tentar se­guir seus ensinamentos. As pessoas se perguntam quando ocorrerá o próximo passo da evolução — um passo para além do próprio homem —, mas, segundo o cristianis­mo, esse passo já foi dado. Em Cristo, um novo homem surgiu; e o novo tipo de vida que começou nele deve ser instilado em nós.

Como isso pode ocorrer? Lembremo-nos, antes de mais nada, de como adquirimos a nossa forma ordiná­ria de vida. Recebemo-la de outras pessoas, de nossos pais e de todos os nossos ancestrais, independentemente de um consentimento nosso e mediante um processo muito curioso, que envolve o prazer, a dor e o perigo: um processo que nunca teríamos imaginado. A maioria das pessoas passa boa parte da infância tentando ima­ginar como a vida se originou, e, quando a resposta lhes é dada, de início não acreditam nela. Não as culpo por isso, já que é mesmo um processo bastante estranho. Ora, o Deus que criou esse processo é o mesmo que pla­neja como o novo tipo de vida — a vida de Cristo — será difundido. Não devemos nos surpreender se também esse processo for estranho. Assim como Deus não quis ouvir nossa opinião quando inventou o sexo, também não nos consultou a respeito dessa vida nova.

Há três coisas que infundem a vida de Cristo em nós: o batismo, a fé e essa ação misteriosa que os cristãos chamam por vários nomes — a Santa Ceia, a Eucaristia, a Ceia do Senhor. São esses três, pelo menos, os méto­dos mais comuns, o que não quer dizer que não haja casos especiais em que essa vida nos possa ser dada na ausência de um ou mais deles. Não tenho tempo para me deter nos casos especiais e não tenho conhecimento suficiente para fazê-lo. Se você tentar explicar para alguém, em poucos minutos, como chegar em Edimbur­go, dirá quais os trens que deve pegar. É claro que essa pessoa pode chegar à cidade de navio ou de avião, mas dificilmente você levantará essas opções. E não vou dizer coisa alguma sobre qual das três coisas citadas é a mais essencial. Meu amigo metodista queria que eu falasse mais a respeito da fé e menos a respeito das outras duas, mas não vou fazer isso. Qualquer um que pretenda en­sinar a doutrina cristã vai, sem dúvida, dizer que os três meios devem ser utilizados, e isso é suficiente para nos­sa finalidade imediata.

Eu mesmo não consigo entender como tais coisas podem nos conduzir ao novo tipo de vida. Mas até aí, se ninguém tivesse me dito nada a respeito da procria­ção, eu jamais teria estabelecido um nexo entre um certo prazer de ordem física e o nascimento de um novo ser humano no mundo. Temos de aceitar a realidade tal como ela se nos apresenta: não devemos fazer conside­rações vãs sobre como as coisas deveriam ser ou como esperaríamos que elas fossem. No entanto, mesmo sem saber por que as coisas são assim, posso lhes dizer por que acredito nisso, já expliquei por que sou obrigado a crer que Jesus era (e é) Deus. Ora, o fato de ele ter en­sinado a seus seguidores que a nova vida é transmitida dessa forma é tão claro para nós quanto qualquer ou­tro fato da história. Em outras palavras, acredito na autoridade dele. Não tenha medo da palavra "autorida­de". Se você acredita em algo por causa da autoridade de alguém significa apenas que você acredita porque a pessoa que lhe deu a informação é confiável. Noventa e nove por cento das coisas em que acreditamos são cri­das em função da autoridade de alguém. Acredito, por exemplo, que exista um lugar chamado Nova York, mesmo sem ter estado lá e mesmo sem conseguir pro­var sua existência pelo raciocínio abstrato. Acredito nisso porque pessoas confiáveis assim o garantem. O ho­mem comum acredita no sistema solar, nos átomos, na evolução e na circulação do sangue por causa da auto­ridade de alguém - porque os cientistas o afirmam. A única prova que temos de qualquer declaração históri­ca é também a autoridade. Nenhum de nós testemu­nhou a conquista normanda ou a derrota da Invencí­vel Armada. Nenhum de nós poderia provar pela lógica pura que essas coisas aconteceram como se pode pro­var uma equação matemática. Acreditamos nelas sim­plesmente porque algumas testemunhas deixaram relatos escritos a seu respeito: na verdade, acreditamos nelas por causa de uma autoridade. Um homem que demons­trasse ceticismo em relação à autoridade em outros as­suntos, como certas pessoas o fazem em relação à reli­gião, teria de se contentar com não saber absolutamen­te nada.

Não pense que estou apresentando o batismo, a fé e a Santa Ceia como substitutos do próprio esforço para imitar a Cristo. A vida natural é recebida de nossos pais, mas isso não significa que permaneceremos vivos sem fazer nada. Você pode perder a vida por negligência ou pode dar-lhe fim com o suicídio. Tem de alimentá-la e cuidar dela, sempre lembrando que não a criamos, mas simplesmente conservamos uma vida recebida de ter­ceiros. Do mesmo modo, o cristão pode perder a vida de Cristo que lhe foi infundida, e tem de fazer esforço para mantê-la. Porém, nem mesmo o melhor cristão que já existiu age por força própria - só pode nutrir ou pro­teger uma vida que jamais poderia ter sido adquirida por esforço pessoal. Disso decorrem certas conseqüên­cias práticas. Enquanto a vida natural anima o corpo, ela trabalha para conservar esse corpo. Quando ele so­fre um ferimento, pode, até certo ponto, cicatrizar, o que não ocorre com um corpo morto. O organismo vivo não se caracteriza por nunca se ferir, mas sim por ter um po­der, mesmo que limitado, de recuperação. Da mesma forma, o cristão não é um homem que nunca erra, mas um homem capaz de se arrepender, de levantar a cabe­ça e seguir em frente após cada queda. Ele é assim por­que a vida de Cristo está dentro dele, sempre pronta para recuperá-lo, habilitando-o a imitar (em certa medida) a morte voluntária que o próprio Cristo levou a cabo.

É por isso que o cristão se encontra numa situação diferente da de outras pessoas que tentam ser boas. Es­tas esperam, por ser boas, agradar a Deus, quando nele acreditam; ou, caso não acreditem, esperam pelo me­nos receber a aprovação dos homens bons. Já o cristão pensa que todo bem que faz advém da vida de Cristo que o anima interiormente. Não pensa que Deus nos amará mais por sermos bons, mas que Deus nos fará bons porque nos amou primeiro, do mesmo modo que o teto de uma estufa não atrai o sol por ser brilhante, mas brilha porque o sol irradia sobre ele.

Gostaria de deixar bem claro que, quando os cris­tãos dizem que a vida de Cristo está dentro deles, não se referem simplesmente a algo mental ou moral. Quan­do dizem que "estão em Cristo" ou que o Cristo "está neles", não é uma mera maneira de dizer que estão pen­sando em Cristo ou tentando imitá-lo. Querem dizer que Cristo opera de fato através deles; que a massa dos cristãos é o organismo físico pelo qual Cristo age — que nós somos seus dedos e músculos, as células de seu cor­po. E talvez isso explique algumas coisas. Explica por que essa nova vida nos é infundida não apenas median­te atos puramente mentais, como a fé, mas também me­diante atos corporais, como o batismo e a Santa Ceia. Não se trata simplesmente da difusão de uma idéia; an­tes, é como a evolução — um fato biológico ou superbiológico. Não vale a pena tentar ser mais espiritual do que o próprio Deus, que nunca teve a intenção de que fôssemos criaturas puramente espirituais. Esse é o mo­tivo pelo qual se vale de meios materiais como o pão e o vinho para infundir em nós essa nova vida. Há quem diga que esses meios são pouco refinados e desespiritualizados. Deus não acha: ele inventou o ato de comer. Ele gosta da matéria; afinal, foi ele mesmo que a inventou.

Eis outra coisa que me intrigava: não é terrivelmente injusto que essa vida nova só chegue às pessoas que ouvi­ram falar de Cristo e acreditaram nele? A verdade, porém, é que Deus não nos deixou a par de seus desígnios a res­peito das outras pessoas. O que sabemos é que nenhum homem pode ser salvo a não ser por meio de Cristo; ninguém nos disse que só os que o conhecem podem ser salvos porele. Nesse ínterim, se você está preocupa­do com as pessoas de fora, a coisa menos insensata a fazer é permanecer de fora também. Os cristãos são o corpo de Cristo, o organismo através do qual ele trabalha. Cada acréscimo a esse corpo permite que ele trabalhe mais. Se você quer ajudar os que estão de fora, tem de acres­centar sua pequena célula ao corpo de Cristo, o único que pode ajudá-los. Decepar o dedo de um homem se­ria uma forma excêntrica de levá-lo a trabalhar mais.

Vamos a outra objeção possível. Por que Deus quis entrar sob disfarce neste mundo ocupado pelo inimigo, fundando uma espécie de sociedade secreta para minar o demônio? Por que não invade o território com força total? Será que ele não é forte o suficiente? Bem, os cristãos acreditam que Deus vai utilizar a força total; apenas não se sabe quando. Mas podemos adivinhar o porquê do atraso. Agindo assim, ele nos dá uma chan­ce de aderirmos à sua causa livremente. Não acho que você e eu teríamos em alta estima um francês que es­perasse os aliados marcharem Alemanha adentro para só então anunciar que estava do nosso lado. E certo que Deus vai invadir. Mas não sei se as pessoas que pedem que Deus interfira aberta e diretamente em nosso mun­do sabem exatamente o que estão pedindo. Quando ele fizer isso, será o fim do mundo. Quando o autor sobe ao palco, é porque a peça já terminou. A invasão divina vai acontecer, não há dúvida quanto a isso; mas o que vamos ganhar se só então anunciarmos que estávamos do lado dele? De que nos valerá isso quando o univer­so se dissolver como um sonho e algo até então incon­cebível para nossa mente sobrevier com estrépito — algo tão magnífico para alguns e tão terrível para outros? De que isso nos valerá quando não pudermos mais escolher? Dessa vez, Deus se apresentará sem disfarce, e virá com tamanho poder que causará em cada criatura um amor irresistível ou um irresistível horror. Será tarde demais, então, para escolher um dos lados. Quando não é mais possível ficar em pé, de nada adianta você dizer que de­cidiu ficar deitado. Aquele não será o tempo das esco­lhas, mas sim da revelação do lado a que pertencíamos, tivéssemos consciência disso ou não. Hoje, agora, nes­te momento, temos a oportunidade de escolher o lado correto. Deus tarda a aparecer para nos dar essa chance, que não durará para sempre. E pegar ou largar.

 

CONDUTA CRISTÃ

AS TRÊS PARTES DA MORAL

Conta-se a história de um garoto a quem pergunta­ram como achava que Deus era. O garoto respondeu que, pelo que era capaz de compreender, Deus era "o tipo de pessoa que está sempre xeretando a vida dos outros para ver se alguém está se divertindo e tentai' acabar com isso". Infelizmente, parece-me que é essa a idéia que um número considerável de pessoas faz da palavra "Moral": algo que se intromete em nossa vida e nos impede de ter momentos agradáveis. Na realidade, as regras morais são como que instruções de uso da máquina chamada Homem. Toda regra moral existe para prevenir o colap­so, a sobrecarga ou uma falha de funcionamento da má­quina. E por isso que essas regras, no começo, parecem estar em constante conflito com nossas inclinações na­turais. Quando estamos aprendendo a usar qualquer me­canismo, o instrutor vive dizendo "Não, não faça isso", porque existem diversas coisas que, embora pareçam muito naturais e até acertadas na forma de lidar com a máquina, na verdade não funcionam.

Certas pessoas preferem falar de "ideais" morais em vez de regras morais, e de "idealismo" moral em vez de obediência. Ora, é certo que a perfeição moral é um "ideal", na medida em que é inalcançável. Nesse senti­do, toda perfeição é, para nós, seres humanos, um ideal. Não conseguimos dirigir perfeitamente um automóvel, jogar tênis perfeitamente ou desenhar uma linha per­feitamente reta. Num outro sentido, porém, é enganador dizer que a perfeição moral é um ideal. Quando um ho­mem diz que certa mulher, casa, barco ou jardim é "seu ideal", não pretende (a menos que seja um tolo) que to­dos tenham o mesmo ideal. Nesses assuntos, temos o di­reito de ter gostos diferentes e, conseqüentemente, ideais diferentes. E perigoso, porém, dizer que um homem que se esforça para seguir a lei moral seja um homem de "altos ideais", pois isso pode nos dar a impressão de que a perfeição moral é um mero gosto pessoal dele e que o restante dos homens não teria o dever de procurar rea­lizá-la. Esse erro seria desastroso. A conduta perfeita tal­vez seja tão inalcançável quanto a perfeita perícia ao volante, mas é um ideal necessário prescrito a todos os ho­mens por causa da própria natureza da máquina huma­na, da mesma forma que a pilotagem perfeita é prescrita a todos os motoristas pela própria natureza dos auto­móveis. E seria ainda mais perigoso se você se conside­rasse uma pessoa de "altos ideais" só porque tenta não mentir (em vez de só contar mentirinhas ocasionais), não cometer adultério (em vez de só cometê-lo de vez em quando) e não ser violento com os outros (em vez de ser só um pouquinho violento). Você correria o ris­co de transformar-se num moralista hipócrita, conside­rando-se uma pessoa especial a ser felicitada por seu "idealismo". Na verdade, isso seria o mesmo que se julgar especial por esforçar-se para acertar o resultado de uma soma. É claro que a aritmética perfeita é um "ideal", pois certamente cometeremos erros em algumas con­tas. Porém, não há nada de especialmente louvável em tentar obter o resultado correto de cada passo de uma soma. Seria pura estupidez não fazer essa tentativa, pois cada erro de cálculo vai lhe causar problemas para ob­ter o resultado final. Da mesma forma, toda falha mo­ral causará problemas, provavelmente para os outros, cer­tamente para você. Ao falar de regras e obediência em vez de "ideais" e "idealismo", colaboramos muito para nos lembrar desse fato.

Vamos dar um passo além. Existem duas maneiras pelas quais a máquina humana pode quebrar. Uma delas é quando os indivíduos humanos se afastam uns dos outros ou colidem uns com os outros e prejudicam uns aos outros, traindo ou cometendo violência uns com os outros. A outra é quando as coisas vão mal dentro do próprio indivíduo — quando as diferentes partes que o compõem (suas faculdades, desejos etc.) dissociam-se ou conflitam umas com as outras. Pode-se fazer uma ima­gem clara do que estou falando se imaginarmos os se­res humanos como uma frota de navios que navega em formação. A viagem só será bem-sucedida se, em primei­ro lugar, os navios não se chocarem entre si e não en­trarem uns no caminho dos outros; e, em segundo lugar, se cada navio estiver em boas condições de navegação, com suas máquinas em ordem. Aliás, não dá para ter uma das coisas sem a outra. Se os navios se chocarem, a frota não ficará em boas condições por muito tempo. Por outro lado, se os lemes estiverem com defeito, será difícil evitar as colisões. Se você preferir, pense na hu­manidade como uma orquestra que toca uma música. Para se ter um bom resultado, duas coisas são necessá­rias: cada um dos instrumentos deve estar afinado e cada músico deve tocar no momento certo para que os ins­trumentos combinem entre si.

Há uma coisa, porém, que ainda não levamos em conta. Não nos perguntamos qual o destino da frota, ou qual a música que a banda pretende tocar. Mesmo que os instrumentos estivessem todos afinados e todos to­cassem no tempo correto, a execução não seria um su­cesso se os músicos, tendo sido contratados para tocar música dançante, tocassem somente marchas fúnebres. E, por melhor que fosse a navegação da frota, a viagem não seria um sucesso se, querendo chegar a Nova York, aportasse em Calcutá.

A moral, então, parece englobar três fatores. O pri­meiro é a conduta leal e a harmonia entre os indivíduos. O segundo pode ser chamado de organização ou harmo­nização das coisas dentro de cada indivíduo. O terceiro é o objetivo geral da vida humana como um todo: qual a razão de ser do homem, qual o destino da frota de navios, qual música o maestro quer que a banda toque.

Você já deve ter notado que o homem moderno qua­se sempre pensa no primeiro desses fatores, esquecen­do os outros dois. Quando as pessoas dizem nos jornais que estamos buscando um padrão moral cristão, quase sempre pensam na bondade e na justiça entre nações, classes e indivíduos; ou seja, referem-se apenas ao pri­meiro fator. Quando um homem, falando de um pro­jeto seu, diz que ele "não pode estar errado, pois não fará mal a ninguém", também está se referindo somente ao primeiro fator. No seu modo de pensar, não importa como o navio está por dentro, desde que não colida com a embarcação ao lado. E, quando começamos a pensar sobre a moral, é muito natural partirmos do primeiro fator, que são as relações sociais. Para começar, os resul­tados de uma moralidade deturpada nesta esfera são mui­to evidentes e nos afetam todos os dias: a guerra e a mi­séria, as jornadas desumanas de trabalho, as mentiras e todos os tipos de trabalho malfeito. Além disso, en­quanto ficamos circunscritos a esse primeiro fator, não há muito o que discutir sobre moralidade. Quase todos os povos de todos os tempos chegaram à conclusão (em tese) de que os seres humanos devem ser honestos, gentis e solícitos uns com os outros. Contudo, embora seja natural começar por aí, um pensamento moral que ficasse restrito a isso seria o mesmo que nada. Se não passarmos ao segundo fator - a organização interna de cada ser humano -, estaremos apenas nos enganando. De que vale dar instruções precisas de navegação aos barcos se eles não passam de embarcações velhas e enferrujadas, que não obedecem aos comandos? De que vale pôr no papel regras de conduta social se sabemos que, na verdade, nossa cobiça, covardia, destempero e vaidade vão nos impedir de cumpri-las? Não quero de maneira alguma dizer que não devemos pensar, e nos esforçar, para melhorar nosso sistema social e econômi­co. Quero apenas salientar que todo esse planejamento não passará de conversa fiada se não nos dermos conta de que só a coragem e o altruísmo dos indivíduos poderá fazer com que o sistema funcione de maneira apro­priada. Seria fácil eliminar os tipos particulares de fraude e tirania que subsistem em nosso sistema atual; mas, en­quanto os homens forem os mesmos trapaceiros e man­da-chuvas de sempre, encontrarão novas formas de se­guir jogando o mesmo jogo, mesmo num novo sistema. É impossível tornar o homem bom pela força da lei; e, sem homens bons, não pode haver uma boa sociedade. É por isso que temos de começar a pensar no segundo fator: a moral dentro de cada indivíduo.

Mas não penso que isso seja suficiente. Estamos che­gando a um ponto da questão em que diferentes cren­ças a respeito do universo produzem formas diferentes de conduta. A primeira vista, pode parecer bastante ra­zoável parar antes de entrar nessa questão, e só nos ocupar­mos das partes da moral que são de consenso entre as pessoas sensatas. Mas podemos nos dar a esse luxo? Lem­bre-se de que a religião envolve uma série de juízos sobre os fatos, juízos que podem ser verdadeiros ou falsos. Caso sejam verdadeiros, as conclusões deles tiradas conduzem a frota da raça humana por um determinado trajeto; caso contrário, o destino será completamente diferen­te. Voltemos, por exemplo, à pessoa que diz que uma coisa não pode estar errada se não faz mal a outros se­res humanos. Essa pessoa sabe muito bem que não deve danificar os outros navios do comboio; porém, pensa sinceramente que tudo o que fizer em seu próprio navio é da sua própria conta. Mas, para isso, não importa sa­ber se o navio é de sua propriedade ou não? Não im­porta saber se eu sou, por assim dizer, o senhorio do meu próprio corpo, ou se sou somente o seu inquilino, responsável perante o verdadeiro proprietário? Se fui fei­to por outra pessoa, por alguém que tem os seus pró­prios desígnios, o fato é que tenho uma série de obriga­ções em relação a essa pessoa, obrigações que não exis­tiriam se eu simplesmente pertencesse a mim mesmo. Além disso, o cristianismo assevera que todo indi­víduo humano viverá eternamente, o que pode ser ver­dadeiro ou falso. Há várias coisas com as quais eu não me preocuparia se fosse viver apenas setenta anos, mas que me preocupam seriamente com a perspectiva da vida eterna. Talvez minha irritabilidade ou meu ciúme fi­quem piores com o tempo - de forma tão gradual que a mudança seja imperceptível ao longo de sete décadas. No entanto, eles serão um verdadeiro inferno em um milhão de anos: aliás, se o cristianismo é verídico, "infer­no" é o termo técnico exato para designar como as coisas serão então. A imortalidade também traz à tona outra diferença que, inclusive, está ligada à diferença entre to­talitarismo e democracia. Se um homem não vive mais que setenta anos, um estado, uma nação ou uma civili­zação que pode durar mil anos são mais importantes do que ele. Porém, se o cristianismo é verdadeiro, o indi­víduo não é apenas mais importante, mas incompara­velmente mais importante, pois sua vida não tem fim; comparada à sua vida, a duração de um estado ou civi­lização não passa de um simples instante.

Parece-nos, portanto, que, para pensar a respeito da moral, temos de levar em conta os três departamentos: as relações entre os homens; as coisas que se passam no interior de cada ser humano; e as relações entre o ho­mem e o poder que o criou. Podemos todos cooperar no primeiro. Os desacordos começam com o segundo e se tornam mais sérios no terceiro. É no trato com o último que se evidenciam as principais diferenças entre cris­tãos e não-cristãos. No restante deste livro, assumirei o ponto de vista cristão e examinarei todo o cenário par­tindo do pressuposto da veracidade do cristianismo.

 

AS "VIRTUDES CARDEAIS"

O capítulo anterior foi originalmente concebido co­mo um breve colóquio para ser levado ao ar pelo rádio.

Quando você não pode falar por mais de dez mi­nutos, quase tudo tem de ser sacrificado em prol da concisão. Uma das principais razões pelas quais dividi a moral em três partes (com a imagem dos navios em comboio) foi que me pareceu ser esse o caminho mais curto para dizer o que tinha de dizer. Agora, gostaria de dar uma idéia de outro esquema no qual o assunto foi dividido por escritores antigos, um esquema que, embo­ra fosse longo demais para aquele colóquio, é excelente. De acordo com esse esquema mais longo, existem sete "virtudes". Quatro delas são chamadas virtudes "car­deais", e as restantes, virtudes "teológicas". As "cardeais" são as que toda pessoa civilizada reconhece; já as "teoló­gicas", em geral, só os cristãos conhecem. Tratarei das teo­lógicas mais adiante. Por enquanto, ocupar-me-ei das quatro virtudes cardeais. (A palavra "cardeal" não tem nenhuma relação com os "cardeais" da Igreja Católica. E derivada da palavra latina que significa "gonzo da porta". São chamadas virtudes "cardeais" porque são, podería­mos dizer, virtudes "fundamentais".) São elas: a PRUDÊN­CIA, a TEMPERANÇA, a JUSTIÇA e a FORTALEZA.

A prudência significa a sabedoria prática, parar para pensar nos nossos atos e em suas conseqüências. Nos dias de hoje, a maioria das pessoas já não considera a Prudência uma "virtude". Inclusive, como Cristo disse que só entrariam em seu Reino os que fossem como crianças, muitos cristãos pensam que podem ser tolos, desde que sejam "bonzinhos". E um erro. Em primeiro lugar, muitas crianças demonstram ter bastante "pru­dência" quando fazem coisas que são do seu interesse, e conseguem pensar a respeito dessas coisas com bas­tante sensatez. Em segundo lugar, como esclarece São Paulo, Cristo nunca quis que fôssemos como crianças na inteligência - muito pelo contrário. Ele nos exortou a ser não apenas "simples como as pombas", mas tam­bém "prudentes como as serpentes". Quer de nós um coração de criança, mas uma cabeça de adulto. Quer-nos simples, centrados, afetuosos e dóceis no aprendizado, como as boas crianças são; mas também quer que cada fração da inteligência que possuímos esteja alerta e afia­da para a batalha. O fato de você dar dinheiro para uma obra de caridade não quer dizer que não deva tentar sa­ber se a instituição de caridade é fraudulenta ou não. O fato de você pensar em Deus (por exemplo, quando reza) não significa que deva contentar-se com as cren­ças infantis que alimentava aos cinco anos de idade. É verdade que Deus não deixará de amar ninguém, nem deixará de utilizar uma pessoa como seu instrumento por ter nascido com um cérebro de segunda classe. Ele tem um coração grande o suficiente para abrigar pes­soas de pouco senso, mas quer que cada um de nós use o senso que lhe coube. Não devemos ter como lema "Seja boa, doce menina, e deixe a inteligência para quem a possui", mas sim "Seja boa, doce menina, e não se es­queça de ser o mais inteligente que puder". Deus não detesta menos os intelectualmente preguiçosos do que qualquer outro tipo de preguiçoso. Se você está pen­sando em se tornar cristão, eu lhe aviso que estará em­barcando em algo que vai ocupar toda a sua pessoa, inclu­sive o cérebro. Felizmente, existe uma compensação. Aquele que se esforça honestamente para ser cristão logo percebe que sua inteligência está aprimorada. Um dos motivos pelos quais não é necessário grande estudo para se tornar cristão é que o cristianismo é em si mesmo uma educação. Foi por isso que um crente ignorante, como Bunyan, foi capaz de escrever um livro que es­pantou o mundo inteiro[15].

Temperança, infelizmente, é uma palavra que per­deu seu significado original. Hoje em dia ela significa a abstinência total de bebidas alcoólicas1. Na época em que a segunda virtude cardeal recebeu esse nome, ela não significava nada disso. A temperança não se referia ape­nas à bebida, mas aos prazeres em geral; e não implicava a abstinência, mas a moderação e o não-passar dos li­mites. É um erro considerar que os cristãos devem ser todos abstêmios; o islamismo, e não o cristianismo, é a religião da abstinência. E claro que abster-se de bebidas fortes é dever de certos cristãos em particular ou de qual­quer cristão em determinadas ocasiões, seja porque sabe que, se tomar o primeiro copo, não conseguirá parar, seja porque, rodeado de pessoas inclinadas ao alcoolismo, não quer encorajar ninguém com seu exemplo. A ques­tão toda é que ele se abstém, por um bom motivo, de algo que não é condenável em si; e não se incomoda de ver os outros apreciando aquilo. Uma das marcas de um cer­to tipo de mau caráter é que ele não consegue se privar de algo sem querer que todo o mundo se prive também. Esse não é o caminho cristão. Um indivíduo cris­tão pode achar por bem abster-se de uma série de coi­sas por razões específicas - do casamento, da carne, da cerveja ou do cinema; no momento, porém, em que começa a dizer que essas coisas são ruins em si mesmas, ou em que começa a fazer cara feia para as pessoas que usam essas coisas, ele se desviou do caminho.

A restrição moderna do uso da palavra temperan­ça à questão da bebida fez um grande mal. Ela ajuda as pessoas a esquecer que existem muitas coisas em rela­ção às quais podemos faltar com a temperança. O homem que transforma suas partidas de golfe ou sua motocicle­ta no centro de sua vida, ou a mulher que dedica todos os seus pensamentos a roupas, a partidas de bridge ou ao seu cachorro, estão sendo tão intemperantes quanto o sujeito que bebe muito. E claro que, visto de fora, o pro­blema não é tão evidente: a mania de golfe ou de bridge não deixa a pessoa caída na sarjeta. Deus, porém, não se deixa enganar pelas aparências.

A justiça pressupõe muito mais do que os afazeres de um tribunal. E apenas o antigo nome do que hoje chamamos de "imparcialidade", que inclui a honesti­dade, a reciprocidade, a veracidade, o cumprimento da palavra e todas as coisas desse tipo. A fortaleza, por fim, abarca os dois tipos de coragem - a que nos leva a enfrentar o perigo e a que nos leva a suportar a dor.

Guts[16]talvez seja o sinônimo mais aproximado no inglês moderno. Você pode notar que não se consegue colo­car em prática nenhuma das outras virtudes por muito tempo sem ter de recorrer a essa.

Há ainda outra questão sobre as virtudes que mere­ce ser destacada. Há uma diferença entre executar um ato de justiça ou temperança, por um lado, e ser uma pessoa justa ou temperada, por outro. Alguém que não jogue tê­nis muito bem pode, vez ou outra, executar uma grande jogada. O jogador bom é aquele cujos olhos, músculos e nervos estão tão bem treinados pela execução de boas jo­gadas que já se tornaram de confiança. Existe nele um certo tom ou qualidade que transparece mesmo quando não está jogando, da mesma forma que a mente de um matemático possui certos hábitos e atitudes que não po­dem deixar de ser notados mesmo quando ele não está empenhado em fazer matemática. Igualmente, um ho­mem que persevere na prática de atos justos terminará por obter uma certa qualidade de caráter. O que chama­mos de "virtude" é essa qualidade, e não as ações isoladas.

Essa distinção é importante porque, se pensarmos somente em ações isoladas, estaremos encorajando três idéias erradas.

  1. Podemos pensar que, já que fizemos uma coisa certa, não importa como ou por que motivo a fizemos - se espontaneamente ou não, de mau humor ou com alegria, por medo da opinião pública ou por amor ao bem. A verdade é que as ações corretas praticadas pelas razões erradas não nos ajudam a construir a qualidade inter­na ou caráter chamada "virtude", e é essa qualidade ou caráter que realmente interessa. (Se um jogador medío­cre de tênis dá um saque muito forte porque perdeu a cabeça e não porque avaliou que a força era necessária, esse saque pode até, com sorte, levá-lo a vencer o jogo, mas não vai transformá-lo num bom jogador.)

  2. Podemos ser levados a crer que Deus quer sim­plesmente a obediência a uma lista de regras, ao passo que o que ele realmente quer são pessoas dotadas de um determinado caráter.

  3. Podemos pensar que as "virtudes" são necessárias apenas para a nossa vida presente — e que no outro mun­do podemos parar de ser justos pois não há nada sobre o que brigar, ou parar de ser corajosos porque não exis­te mais o perigo. E verdade que provavelmente não ha­verá ocasião para praticar a justiça ou a coragem na ou­tra vida, mas haverá uma abundância de ocasiões para sermos o tipo de pessoa que nos tornamos ao praticar esses atos aqui. A questão não é que Deus vá negar nossa entrada na vida eterna se não tivermos certas qualidades de caráter, mas que, se as pessoas não tiverem pelo me­nos os rudimentos dessas qualidades dentro de si, ne­nhuma condição exterior poderá ser um "Paraíso" para elas - em outras palavras, nenhuma condição exterior poderá dar-lhes a forte, profunda e inabalável alegria que Deus tencionou para nós.

     

MORALIDADE SOCIAL

A primeira coisa que devemos esclarecer a respeito da moralidade cristã, na relação de um homem com o outro, é que nesse departamento Cristo não veio pre­gar nenhuma nova moral. A Regra Áurea do Novo Tes­tamento (faça aos outros o que gostaria que fizessem para você) é o resumo do que todos, no íntimo, sempre re­conheceram como correto. Os grandes mestres da mo­ral nunca criam morais novas; são os charlatões que fa­zem isso. Como dizia o dr. Johnson[17], "deve-se antes refres­car a memória das pessoas a respeito do que já sabem do que instruí-las com novidades". A verdadeira função do mestre moral é a de sempre nos trazer de volta, dia após dia, aos velhos e simples princípios que tanto nos esforçamos para não ver. E a mesma coisa que levar um cavalo repetidamente para junto da cerca que ele se recusa a saltar, ou de insistir todo o dia com a criança so­bre os pontos da matéria que ela se esquiva de estudar.

A segunda coisa que devemos esclarecer é que o cristianismo nunca possuiu, nem professou possuir, um programa detalhado para aplicar o "faça aos outros o que gostaria que fizessem para você" a uma determina­da sociedade ou a um momento particular. Nem poderia ser diferente. Ele se dirige a todos os homens de todos os tempos; e um programa específico que fosse cabível para um lugar ou uma época não o seria para outros. E, de qualquer modo, é assim que o cristianismo fun­ciona. Quando nos manda alimentar os famintos, não nos dá aulas de culinária. Quando nos exorta a ler as Es­crituras, não ministra aulas de hebraico ou de grego, nem mesmo de gramática inglesa. Nunca teve a intenção de substituir ou destituir as artes e ciências profanas: tem, antes, a função de um diretor que as destina às suas fun­ções corretas e lhes infunde a energia de uma vida nova na medida em que elas se colocam à sua disposição.

As pessoas pedem: "A Igreja deve tomar a dianteira." Isso é verdade se for entendido da maneira correta, mas, caso contrário, não. Por "Igreja" deve-se entender todo o corpo de cristãos praticantes. E, quando dizem que a Igreja deve tomar a dianteira, devem querer dizer com isso que alguns cristãos - os que possuem o talento apro­priado - devem se tornar economistas ou estadistas, e que todos os estadistas e economistas devem ser cristãos e esforçar-se na política ou na economia para pôr em prática o "faça aos outros o que gostaria que fizessem para você". Se isso se tornasse realidade, e se nós, tercei­ros, estivéssemos dispostos a aceitar o fato, encontraría­mos soluções cristãs para nossos problemas sociais com bastante rapidez. E claro, porém, que, quando certas pessoas pedem que a Igreja tome a dianteira, querem mesmo é que a liderança estabeleça um programa po­lítico, o que é tolice. A liderança, dentro da Igreja, é composta pelas pessoas que foram especialmente trei­nadas e destacadas para cuidar dos nossos assuntos en­quanto criaturas que viverão para sempre; e estamos pe­dindo que cumpram uma função diferente, para a qual não foram treinadas. Essa função cabe a nós, leigos. A aplicação de princípios cristãos aos sindicatos ou às es­colas, por exemplo, deve vir de nós, sindicalistas e educa­dores cristãos, do mesmo modo que a literatura cristã deve ser feita por romancistas e dramaturgos cristãos, e não por um concilio de bispos, reunidos para escrever peças e romances no seu tempo livre.

Do mesmo modo, o Novo Testamento, sem entrar em detalhes, nos pinta um quadro bastante claro do que seria uma sociedade plenamente cristã. Talvez exija de nós mais do que estamos dispostos a dar. Informa-nos que, nessa sociedade, não há lugar para parasitas ou pas­sageiros clandestinos: aquele que não trabalhar não deve comer. Cada qual deve trabalhar com suas próprias mãos e, mais ainda, o trabalho de cada qual deve dar frutos bons: não se devem produzir artigos tolos e supérfluos, nem, muito menos, uma publicidade ainda mais tola para nos persuadir a adquiri-los. Não há lugar para a ostentação, pata a fanfarronice nem para quem queira empinar o nariz. Nesse sentido, uma sociedade crista seria o que se chama hoje em dia "de esquerda". Por ou­tro lado, ela insiste na obediência — na obediência (acom­panhada de sinais exteriores de reverência) de todos nós para com os magistrados legitimamente constituídos, dos filhos para com os pais e (acho que esta parte não será muito popular) das esposas para com os maridos. Em terceiro lugar, essa é uma sociedade alegre: uma so­ciedade repleta de canto e de regozijo, que não dá valor nem à preocupação nem à ansiedade. A cortesia é uma das virtudes cristãs, e o Novo Testamento abomina as pes­soas abelhudas, que vivem fiscalizando os outros.

Se existisse uma sociedade assim e nós a visitássemos, creio que sairíamos de lá com uma impressão curiosa. Teríamos a sensação de que sua vida econômica seria bastante socialista e, nesse sentido, "avançada", mas sua vida familiar e seu código de boas maneiras seriam, ao contrário, bastante antiquados — talvez até cerimoniosos e aristocráticos. Cada um de nós apreciaria um aspec­to dela, mas poucos a apreciariam por inteiro. Isso é o que se deve esperar de um cristianismo como projeto integral para o mecanismo da sociedade humana. Cada um de nós se desviou desse projeto integral de forma diferente, e pretende que as modificações nele inseridas substituam o próprio projeto. Você vai sempre encon­trar a mesma situação em tudo o que é verdadeiramente cristão: todos se sentem atraídos por um aspecto disso e querem pegar só esse aspecto, deixando de lado o resto. Esse é o motivo pelo qual não conseguimos avançar, e também explica por que pessoas que lutam por coisas opostas dizem estar lutando pelo cristianismo.

Passo para outra questão. Há um conselho, dado pe­los gregos pagãos da Antigüidade, pelos judeus do An­tigo Testamento e pelos grandes mestres cristãos da Ida­de Média, que foi completamente desobedecido pelo sistema econômico moderno. Todos eles disseram que não se deve emprestar dinheiro a juros; e o empréstimo a juros — o que chamamos de investimentos — é a base de todo o nosso sistema. Não se pode, no entanto, con­cluir com absoluta certeza que estejamos errados. Alguns dizem que, quando Moisés, Aristóteles e os cristãos con­cordaram em proibir o juro (ou a "usura", como diriam), eles não podiam prever as sociedades acionárias e pen­savam apenas no agiota particular, e que, portanto, não devemos nos preocupar com o que disseram. Essa é uma questão sobre a qual não cabe a mim opinar. Não sou economista e simplesmente não sei se foi o sistema de investimentos o responsável pelo estado de coisas em que nos encontramos. Por isso é que precisamos de eco­nomistas cristãos. Entretanto, eu não estaria sendo ho­nesto se não dissesse que três grandes civilizações con­cordaram (pelo menos é o que parece à primeira vista) em condenar o próprio fundamento em que se baseia toda a nossa vida.

Mais uma coisa a dizer e termino. No trecho do Novo Testamento que diz que todos devem trabalhar, ele dá uma razão para isso — "a fim de ter algo a dar para os necessitados". A caridade - dar para os pobres - é um elemento essencial da moralidade cristã: na assustadora parábola das ovelhas e dos cabritos, ela parece ser a ques­tão da qual depende tudo o mais. Hoje em dia, certas pessoas dizem que a caridade não é mais necessária e que, em vez de darmos para os pobres, deveríamos criar uma sociedade em que não existissem pobres. Elas não deixam de ter certa razão no que se refere à construção de uma sociedade assim, mas quem tira disso a conclusão de que, nesse meio tempo, pode parar de doar, se afas­tou de toda a moralidade cristã. Não acredito que alguém possa estabelecer o quanto cada um deve dar. Creio que a única regra segura é dar mais do que nos sobra. Em outras palavras, se nossos gastos com conforto, bens su­pérfluos, diversão etc. se igualam ao do padrão dos que ganham o mesmo que nós, provavelmente não estamos dando o suficiente. Se a caridade que fazemos não pesa pelo menos um pouco em nosso bolso, ela está pequena demais. E preciso que haja coisas que gostaríamos de fazer e não podemos por causa de nossos gastos com caridade. Estou falando de "caridade" no sentido comum da palavra. Os casos particulares que afetam parentes, amigos, vizinhos ou empregados, de que Deus, por as­sim dizer, nos força a tomar conhecimento, exigem mui­to mais que isso: podem inclusive nos obrigar a pôr em risco nossa própria situação. Para muitos de nós, o gran­de obstáculo à caridade não está num estilo de vida luxuo­so ou no desejo de mais prosperidade, mas no medo — na insegurança quanto ao futuro. Temos de saber que esse medo é uma tentação. As vezes, também o orgulho atra­palha a caridade; somos tentados a gastar mais do que devíamos em formas vistosas de generosidade (gorjetas, hospitalidade) e menos com aqueles que realmente ne­cessitam do nosso auxílio.

Antes de terminar, farei uma conjectura sobre como este capítulo pode ter afetado o leitor. Meu palpite é que deixei alguns esquerdistas furiosos por não ter ido mais longe na direção em que gostariam que eu fosse, e que também deixei com raiva as pessoas de orienta­ção política oposta por ter ido longe demais. Se isso é ver­dade, fica posto em evidência o verdadeiro empecilho para a concepção de um projeto de sociedade cristã. Muitos não examinam o cristianismo para descobrir como ele realmente é: sondam-no na esperança de en­contrar nele apoio para os pontos de vista de seu par­tido político. Buscamos um aliado quando nos é ofere­cido um Mestre - ou um Juiz. Não sou exceção a essa regra. Há trechos deste capítulo que eu gostaria de ter omitido, o que não deixa de ser uma demonstração de que nada de bom pode nascer destes colóquios se não nos decidirmos a trilhar o caminho mais comprido. A so­ciedade cristã só virá quando a maioria das pessoas a qui­ser, e ninguém pode querê-la se não for plenamente cristão, Posso repetir "faça aos outros o que gostaria que fizessem para você" até cansar, mas não conseguirei vi­ver assim se não amar ao próximo como a mim mes­mo; só poderei aprender esse amor quando aprender a amar a Deus; e só aprenderei a amá-lo quando apren­der a obedecê-lo. E assim, como eu já tinha dito, somos conduzidos a um aspecto mais interior da questão — saímos da problemática social e entramos na problemá­tica religiosa. O caminho mais longo é o mais curto para chegar em casa.

 

MORALIDADE E PSICANÁLISE

Eu disse que só teremos uma sociedade cristã quan­do a maioria dos indivíduos for cristã. Isso, evidente­mente, não quer dizer que devemos adiar a ação social para um dia imaginário num futuro distante. Quer di­zer, isto sim, que devemos começar os dois trabalhos agora mesmo - (1) o trabalho de ver como aplicar em detalhe na sociedade moderna o preceito "faça aos ou­tros o que gostaria que fizessem para você"; e (2) o tra­balho de nos tornarmos pessoas que realmente aplica­riam esse preceito se soubessem como fazê-lo. Gostaria agora de começar a tecer considerações sobre a idéia cris­tã de um homem bom — as instruções cristãs para o uso da máquina humana.

Antes de entrar em detalhes, gostaria de fazer duas afirmações mais gerais. Em primeiro lugar, já que a mo­ral cristã pretende ser uma técnica para colocar a máqui­na humana em ordem, achei que você gostaria de saber como ela se relaciona com outra técnica que pretende a mesma coisa - a saber, a psicanálise.

Devemos fazer uma distinção bem clara entre duas coisas: a primeira delas, a teoria médica propriamente dita e a técnica da psicanálise; a segunda, a visão geral de mun­do que Freud e outros vieram acrescentar a ela. Essa se­gunda coisa - a filosofia de Freud - está em contradi­ção direta com a de outro grande psicólogo, Jung. Além disso, quando Freud descreve a terapêutica para casos de neurose, fala como um especialista no assunto; mas, quando discorre sobre filosofia geral, fala como um ama­dor. Portanto, é sensato ouvi-lo falar sobre um assunto, mas não sobre o outro — e é isso que eu faço. Ajo assim porque me dei conta de que, quando Freud discorre sobre assuntos que não são de sua especialidade e que por acaso eu conheço bem (como é o caso do assunto "linguagem"), ele não passa de um ignorante. A psicaná­lise em si mesma, porém, separada de todos os enxertos filosóficos feitos por Freud e por outros, não está de for­ma alguma em contradição com o cristianismo. Suas técnicas coincidem com as da moralidade cristã em al­guns aspectos, e seria recomendável que toda pessoa soubesse algo sobre o assunto: as duas técnicas, porém, não seguem o mesmo curso até o fim, já que seus propósi­tos são diferentes.

Quando um homem faz uma escolha moral, duas coisas estão envolvidas. Uma delas é o próprio ato da es­colha. A outra, os diversos sentimentos, impulsos etc. que fazem parte do seu perfil psicológico e constituem a matéria-prima de suas escolhas. Essa matéria-prima pode ser de dois tipos. Por um lado, pode ser o que chamamos de normal: pode consistir nos sentimentos que são co­muns a todos os homens. Ou, por outro lado, pode con­sistir em sentimentos antinaturais, provenientes de dis­túrbios em seu subconsciente. O medo de coisas efetiva­mente perigosas é um exemplo do primeiro tipo; o medo irracional de gatos ou aranhas é exemplo do segundo. O desejo de um homem por uma mulher é do primeiro. O desejo pervertido de um homem por outro homem, do segundo. Ora, o que a psicanálise se propõe a fazer é eliminar os sentimentos anormais, ou seja, dar ao homem uma matéria-prima melhor para os seus atos de escolha; a moralidade trata destes atos em si mesmos.

Vamos dar um exemplo. Imagine três homens que vão à guerra. Um deles tem o medo natural do perigo que qualquer pessoa tem, mas vence-o pelo esforço mo­ral e se torna corajoso. Vamos supor que os outros dois tenham, como resultado do que existe em seu subcons­ciente, um medo irracional e exagerado diante do qual nenhum esforço moral consegue ser bem-sucedido. Imagine que um psicanalista consiga curar os dois, ou seja, colocá-los de novo numa situação idêntica à do primeiro homem. É nesse momento em que o proble­ma psicanalítico está resolvido que começa o problema moral. Com a cura, os dois homens podem seguir cami­nhos bastante diferentes. O primeiro deles talvez diga: "Graças a Deus, me livrei daquelas baboseiras. Enfim poderei fazer o que sempre quis — servir ao meu país." O outro, porém, pode dizer: "Bem, estou muito con­tente por me sentir relativamente tranqüilo diante do perigo, mas isso não altera o fato de que estou, como sempre estive, determinado a pensar primeiro em mim e a deixar que outros camaradas façam o trabalho arris­cado sempre que eu puder. Aliás, um dos benefícios de me sentir menos aterrorizado é que consigo cuidar de mim de forma mais eficiente e ser bem mais esperto para esconder esse fato dos outros." A diferença entre os dois é puramente moral, e a psicanálise não tem mais nada a fazer a respeito. Por mais que ela melhore a matéria-prima do homem, resta ainda outra coisa: a livre escolha do ser humano, uma escolha real feita a partir do ma­terial com que ele depara. O homem pode dar primazia a si mesmo ou aos outros. E este livre-arbítrio é a única coisa da qual a moralidade se ocupa.

O mau material psicológico não é um pecado, mas uma doença. Não é motivo para arrependimento, mas algo a ser curado, o que, por sinal, é muito im­portante. Os seres humanos julgam uns aos outros pe­las ações externas. Deus os julga por suas escolhas mo­rais. Quando um neurótico com horror patológico a gatos se obriga, por um bom motivo, a pegar um deles no colo, é bem possível que aos olhos de Deus esteja demonstrando mais coragem que outro homem que re­cebesse a Victoria Cross[18]. Quando um homem perver­tido desde a infância, durante a qual foi ensinado que a crueldade é correta, faz um pequeno gesto de bon­dade ou refreia-se de fazer um gesto cruel, correndo o risco de ser caçoado pelos seus companheiros, é possí­vel que, aos olhos de Deus, ele tenha feito mais do que nós faríamos se sacrificássemos nossa própria vida por um amigo.

Igualmente verdadeira é a possibilidade contrária. Há pessoas que parecem muito boas, mas fazem tão pouco uso de sua boa hereditariedade e de sua boa for­mação que acabam sendo piores que as que considera­mos perversas. Podemos dizer com certeza qual teria sido o nosso comportamento se sofrêssemos o estigma de um mau perfil psicológico e de uma má criação, com o agra­vante de subir ao poder, como um Himmler[19]? Esse é o motivo pelo qual os cristãos devem se abster de julgar. Só vemos o resultado das escolhas que os homens fa­zem a partir da matéria-prima de que dispõem. Deus, porém, não os julga por sua matéria-prima, mas pelo que fizeram com ela. Quase todo o arcabouço psicoló­gico do homem é derivado do corpo. Quando o corpo morrer, tudo isso desaparecerá, e o verdadeiro homem interior, aquele que escolhe e que pode fazer o melhor ou o pior com o material disponível, estará de pé, nu. Todas as coisas boas que pensávamos serem nossas, mas que não passavam do fruto de uma boa fisiologia, se­rão separadas de alguns de nós; e toda a sorte de coisas más, resultantes de complexos ou de uma saúde precária, serão separadas de outros. Veremos, então, pela primeira vez, cada qual como realmente era. Haverá surpresas.

Isso me traz à segunda questão. As pessoas normal­mente encaram a moral cristã como uma espécie de bar­ganha, na qual Deus diz: "Se você seguir uma série de regras, vou recompensá-lo; se não seguir, farei o con­trário." Não creio que essa seja a melhor forma de ver as coisas. Seria melhor dizer que, toda vez que tomamos uma decisão, tornamos um pouco diferente a parte cen­tral do nosso ser, a responsável pela decisão tomada. Considerando então nossa vida como um todo, com as inúmeras escolhas feitas ao longo do caminho, aos pou­cos vamos tornando esse elemento central numa criatura celeste ou numa criatura infernal: uma criatura em harmonia com Deus, com as outras criaturas e consigo mesma, ou uma criatura cheia de ódio e em pé de guer­ra com Deus, com as outras criaturas e consigo mesma. Ser uma criatura do primeiro tipo é o paraíso, é alegria, paz, conhecimento e poder. Ser do segundo tipo é a loucura, o horror, a idiotia, a raiva, a impotência e a so­lidão eterna. Cada um de nós, a cada momento, pro­gride em direção a um estado ou ao outro.

Isso explica o que sempre me causou perplexidade a respeito dos autores cristãos, tão rígidos num sentido e tão liberais e abertos em outro. Às vezes falam de me­ros pecados de pensamento como se fossem imensamen­te escandalosos; no momento seguinte, falam dos mais terríveis assassinatos e traições como se fossem algo do qual basta o arrependimento para se obter o perdão. Aca­bei por me convencer de que estão com a razão. Sua preocupação constante é a marca deixada por nossas ações na parte mais minúscula, mas central de nós mesmos, a parte que ninguém pode enxergar nessa vida, mas que cada um de nós terá de suportar — ou poderá fruir — para sempre. Um homem pode estar colocado nesta vida de tal modo que sua ira o leve a derramar o sangue de mi­lhares de seus semelhantes, e outro pode encontrar-se numa situação tal que, por mais irado que fique, só consegue ser motivo de chacota; a pequena marca deixada na alma, porém, pode ser a mesma num caso e no outro. Cada um deles deixou uma marca em si mesmo. A não ser que se arrependam, terão mais dificuldade para resistir à ira na próxima vez em que forem tentados, e cairão numa ira pior a cada vez que cederem à tenta­ção. Cada um deles, caso se volte seriamente para Deus, pode endireitar de novo essa deformação do homem interior; caso não se voltem, ambos estarão, a longo pra­zo, condenados. A grandeza ou pequenez do ato, visto de fora, não é o que realmente importa.

Uma última questão. Lembre-se de que, como eu dis­se, a caminhada na direção certa leva não só à paz, mas também ao conhecimento. Quando um homem melhora, torna-se cada vez mais capaz de perceber o mal que ainda existe dentro de si. Quando um homem piora, torna-se cada vez menos capaz de captar a própria maldade. Um homem moderadamente mau sabe que não é muito bom; um homem completamente mau acha que está coberto de razão. Nós sabemos disso intuitivamente. Entendemos o sono quando estamos acordados, não quando adorme­cidos. Percebemos os erros de aritmética quando nossa mente está funcionando direito, não no momento em que os cometemos. Compreendemos a natureza da em­briaguez quando estamos sóbrios, não quando bêbados. As pessoas boas conhecem tanto o bem quanto o mal; as pessoas más não conhecem nenhum dos dois.

 

MORALIDADE SEXUAL

Consideremos agora a moralidade cristã no que diz respeito à questão do sexo, ou seja, o que os cristãos cha­mam de virtude da castidade. Não se deve confundir a regra cristã da castidade com a regra social da "modéstia", no sentido de pudor ou decência. A regra social do pudor estipula quais partes do corpo podem ser mostradas e quais assuntos podem ser abordados, e de que forma, de acordo com os costumes de determinado círculo so­cial. Logo, enquanto a regra da castidade é a mesma para todos os cristãos em todas as épocas, a regra do pudor muda. Uma moça das ilhas do Pacífico, praticamente nua, e uma dama vitoriana completamente coberta, po­dem ambas ser igualmente "modestas", pudicas e decentes de acordo com o padrão da sociedade em que vivem. Ambas, pelo que suas roupas nos dizem, podem ser igualmente castas (ou igualmente devassas). Parte do vocabulário que uma mulher casta usava nos tempos de Shakespeare só seria usado no século XIX por uma mulher completamente desinibida. Quando as pessoas transgridem a regra do pudor vigente no lugar e na épo­ca em que vivem, e o fazem para excitar o desejo sexual em si mesmas ou nos outros, cometem um pecado con­tra a castidade. Se, porém, a transgridem por ignorância ou descuido, sua única culpa é a da má educação. É mui­to freqüente que a regra seja transgredida a modo de desafio, para chocar ou causar embaraço nos outros. As pessoas que fazem isso não são necessariamente devas­sas, mas faltam com a caridade, pois é falta de caridade achar graça em incomodar os outros. Quanto a mim, não acho que um padrão de pudor extremamente rígido e exigente seja uma prova de castidade ou uma grande ajuda para que essa exista; por isso, considero um bom sinal o abrandamento e a simplificação dessa regra que se deu durante minha vida. O momento atual, entre­tanto, tem o inconveniente de que pessoas de idades e tipologias diferentes não reconhecem o mesmo padrão, de modo que não podemos saber em que pé estamos. Enquanto essa confusão durar, creio que as pessoas mais velhas, ou mais antiquadas, não devem julgar que os mais jovens ou "emancipados" estão corrompidos sem­pre que agem de forma despudorada (segundo o velho padrão). Em contrapartida, os mais jovens não devem chamar os mais velhos de moralistas ou puritanos só por­que não conseguem se adaptar facilmente ao novo pa­drão. O desejo sincero de pensar sempre o melhor do próximo e de tornar-lhe a vida mais confortável resol­verá a maior parte desses problemas.

A castidade é a menos popular das virtudes cristãs. Porém, não existe escapatória. A regra cristã é clara: "Ou o casamento, com fidelidade completa ao cônjuge, ou a abstinência total." Isso é tão difícil de aceitar, e tão con­trário a nossos instintos, que das duas, uma: ou o cristia­nismo está errado ou o nosso instinto sexual, tal como é hoje em dia, se encontra deturpado. E claro que, sen­do cristão, penso que foi o instinto que se deturpou.

Tenho, no entanto, outras razões para pensar assim. O objetivo biológico do sexo são os filhos, da mesma forma que o objetivo biológico da alimentação é a con­servação do corpo. Se comêssemos sempre que tivésse­mos vontade e na quantidade que desejássemos, é bem verdade que muitos comeriam demais, mas não extraor­dinariamente demais. Uma pessoa pode comer por duas, mas não por dez. O apetite pode sobrepujar um pou­co a necessidade biológica, mas não de forma comple­tamente desproporcional. Já um jovem saudável que fosse indulgente com o seu apetite sexual, e que a cada ato produzisse um bebê, em dez anos conseguiria facilmen­te povoar uma pequena aldeia. Tal apetite excederia a sua função de forma cômica e absurda.

Tomemos outro exemplo. É fácil juntar uma gran­de platéia para um espetáculo de strip-tease — para ver uma garota se despir no palco. Agora suponha que você vá a um país em que os teatros lotassem para assistir a outro tipo de espetáculo: o de um prato coberto cuja tampa fosse retirada lentamente, de modo que, logo an­tes do apagar das luzes, se revelasse seu conteúdo - uma costeleta de carneiro ou uma bela fatia de bacon. Você não julgaria haver algo de errado com o apetite desse povo por comida? Será que, em contrapartida, uma pes­soa criada em outro ambiente também não julgaria er­rado o instinto sexual entre nós?

Um crítico disse que, se encontrasse um país onde se fizessem espetáculos de strip-tease gastronômico, con­cluiria que o povo desse país estava faminto. O que ele quis dizer, evidentemente, é que o strip-tease e coisas afins não resultam da corrupção sexual, mas da inanição se­xual. Concordo com ele que, estivesse eu num país em que o strip-tease de uma costeleta de carneiro fosse po­pular, uma das explicações que me ocorreria seria a fome. Mas, para comprovar essa hipótese, o passo seguinte se­ria descobrir se o povo desse país consome muita ou pouca comida. Caso se demonstrasse que muitos alimentos são consumidos, teríamos de abandonar a hipótese de inanição e tentar pensar em outra. Da mesma maneira, antes de aceitar a inanição sexual como causa do strip-tease, temos de procurar sinais de que, em nossa época, as pessoas praticam mais a abstinência sexual do que nas épocas em que o strip-tease era desconhecido. Esses si­nais, porém, não existem. Os métodos anticoncepcio­nais mais do que nunca tornaram a libertinagem sexual menos custosa dentro do casamento e bem mais segu­ra fora dele. A opinião pública nunca foi tão pouco hos­til às uniões ilícitas, e mesmo às perversões, desde a épo­ca do paganismo. Não é também a hipótese de "inani­ção" a única que pode nos ocorrer. Todos sabem que o apetite sexual, como qualquer outro apetite, cresce quan­do é satisfeito. Os homens famintos pensam muito em comida, mas os glutões também. Tanto os saciados quan­to os famintos gostam de estímulos novos.

Um terceiro ponto. Não existe muita gente que queira comer coisas que não são alimentos ou que goste de usar a comida em outras coisas que não a alimen­tação. Em outras palavras, as perversões do apetite ali­mentar são raras. As perversões do instinto sexual, po­rém, são numerosas, difíceis de curar e assustadoras. Des­culpe-me por descer a esses detalhes, mas tenho de fazê-lo. Tenho de fazê-lo porque, há vinte anos, temos sido obrigados a engolir diariamente uma série enorme de men­tiras bem contadas sobre sexo. Tivemos de ouvir, ad nauseam, que o desejo sexual não difere de nenhum outro desejo natural, e que, se abandonarmos a tola e anti­quada idéia vitoriana de tecer uma cortina de silêncio em torno dele, tudo neste jardim será maravilhoso. No mo­mento em que examinamos os fatos e nos distanciamos da propaganda, vemos que a coisa não é bem assim.

Dizem que o sexo se tornou um problema grave porque não se falava sobre o assunto. Nos últimos vin­te anos, não foi isso que aconteceu. Todo o dia se fala sobre o assunto, mas ele continua sendo um problema. Se o silêncio fosse a causa do problema, a conversa seria a solução. Mas não foi. Acho que é exatamente o con­trário. Acredito que a raça humana só passou a tratar do tema com discrição porque ele já tinha se tornado um problema. Os modernos sempre dizem que "o sexo não é algo de que devemos nos envergonhar". Com isso, podem estar querendo dizer duas coisas. Uma de­las é que "não há nada de errado no fato de a raça hu­mana se reproduzir de um determinado modo, nem no fato de esse modo gerar prazer". Se é isso o que têm em mente, estão cobertos de razão. O cristianismo diz a mes­ma coisa. O problema não está nem na coisa em si, nem no prazer. Os velhos pregadores cristãos diziam que, se o homem não tivesse sofrido a queda, o prazer sexual não seria menor do que é hoje, mas maior. Bem sei que alguns cristãos de mente tacanha dizem por aí que o cristianismo julga o sexo, o corpo e o prazer como coi­sas intrinsecamente más. Mas estão errados. O cristia­nismo é praticamente a única entre as grandes religiões que aprova por completo o corpo — que acredita que a matéria é uma coisa boa, que o próprio Deus cornou a forma humana e que um novo tipo de corpo nos será dado no Paraíso e será parte essencial da nossa felicidade, beleza e energia. O cristianismo exaltou o casamento mais que qualquer outra religião; e quase todos os gran­des poemas de amor foram compostos por cristãos. Se alguém disser que o sexo, em si, é algo mau, o cristia­nismo refuta essa afirmativa instantaneamente. Mas é claro que, quando as pessoas dizem "o sexo não é algo de que devemos nos envergonhar", elas podem estar que­rendo dizer que "o estado em que se encontra nosso ins­tinto sexual não é algo de que devemos sentir vergonha". Se é isso que querem dizer, penso que estão erra­das. Penso que temos todos os motivos do mundo para sentir vergonha. Não há nada de vergonhoso em apre­ciar o alimento, mas deveríamos nos cobrir de vergo­nha se metade das pessoas fizesse do alimento o maior interesse de sua vida e passasse os dias a espiar figuras de pratos, com água na boca e estalando os lábios. Não digo que você ou eu sejamos individualmente responsáveis pela situação atual. Nossos ancestrais nos legaram organismos que, sob este aspecto, são pervertidos; e cres­cemos cercados de propaganda a favor da libertinagem. Existem pessoas que querem manter o nosso instinto sexual em chamas para lucrar com ele; afinal de contas, não há dúvida de que um homem obcecado é um ho­mem com baixa resistência à publicidade. Deus conhe­ce nossa situação; ele não nos julgará como se não ti­véssemos dificuldades a superar. O que realmente im­porta é a sinceridade e a firma vontade de superá-las.

Para sermos curados, temos de querer ser curados. Todo aquele que pede socorro será atendido; porém, para o homem moderno, até mesmo esse desejo sin­cero é difícil de ter. E fácil pensar que queremos algo quando na verdade não o queremos. Um cristão famoso, de tempos antigos, disse que, quando era jovem, implo­rava constantemente pela castidade; anos depois, se deu conta de que, quando seus lábios pronunciavam "ó Se­nhor, fazei-me casto", seu cotação acrescentava secreta­mente as palavras: "Mas, por favor, que não seja agora." Isso também pode acontecer nas preces em que pedi­mos outras virtudes; mas há três motivos que tornam especialmente difícil desejar — quanto mais alcançar - a perfeita castidade.

Em primeiro lugar, nossa natureza pervertida, os de­mônios que nos tentam e a propaganda a favor da luxúria associam-se para nos fazer sentir que os desejos aos quais resistimos são tão "naturais", "saudáveis" e ra­zoáveis que essa resistência é quase uma perversidade e uma anomalia. Cartaz após cartaz, filme após filme, ro­mance após romance associam a idéia da libertinagem sexual com as idéias de saúde, normalidade, juventude, franqueza e bom humor. Essa associação é uma menti­ra. Como toda mentira poderosa, é baseada numa ver­dade - a verdade reconhecida acima de que o sexo (à parte os excessos e as obsessões que cresceram ao seu re­dor) é em si "normal", "saudável" etc. A mentira con­siste em sugerir que qualquer ato sexual que você se sinta tentado a desempenhar a qualquer momento seja também saudável e normal. Isso é estapafúrdio sob qual­quer ponto de vista concebível, mesmo sem levar em conta o cristianismo. A submissão a todos os nossos de­sejos obviamente leva à impotência, à doença, à inveja, à mentira, à dissimulação, a tudo, enfim, que é contrário à saúde, ao bom humor e à franqueza. Para qualquer tipo de felicidade, mesmo neste mundo, é necessário comedimento. Logo, a afirmação de que qualquer de­sejo é saudável e razoável só porque é forte não signifi­ca coisa alguma. Todo homem são e civilizado deve ter um conjunto de princípios pelos quais rejeita alguns de­sejos e admite outros. Um homem se baseia em princí­pios cristãos, outro se baseia em princípios de higiene, e outro, ainda, em princípios sociológicos. O verdadei­ro conflito não é o do cristianismo contra a "natureza", mas dos princípios cristãos contra outros princípios de controle da "natureza". A "natureza" (no sentido de um desejo natural) terá de ser controlada de um jeito ou de outro, a não ser que queiramos arruinar nossa vida. E bem verdade que os princípios cristãos são mais rígidos que os outros; no entanto, acreditamos que, para obe­decer-lhes, você poderá contai com uma ajuda que não terá para obedecer aos outros.

Em segundo lugar, muitas pessoas se sentem desen­corajadas de tentar seriamente seguir a castidade cristã porque a consideram impossível (mesmo antes de ten­tar). Porém, quando uma coisa precisa ser tentada, não se deve pensar se ela é possível ou impossível. Em face de uma pergunta optativa numa prova, a pessoa deve pen­sar se é capaz de respondê-la ou não; em face de uma pergunta obrigatória, a pessoa deve fazer o melhor que puder. Você poderá somar alguns pontos mesmo com uma resposta imperfeita, mas não somará ponto caso se abstenha de responder. Isso não vaie apenas para uma prova, mas também para a guerra, para o alpinismo, para aprender a patinar, a nadar e a andar de bicicleta. Até para abotoar um colarinho duro com os dedos enregelados, as pessoas conseguem fazer o que antes pare­cia impossível. O homem é capaz de prodígios quando se vê obrigado a fazê-los.

Podemos ter certeza de que a castidade perfeita — como a caridade perfeita — não será alcançada pelo mero esforço humano. Você tem de pedir a ajuda de Deus. Mesmo depois de pedir, poderá ter a impressão de que a ajuda não vem, ou vem em dose menor que a neces­sária. Não se preocupe. Depois de cada fracasso, levan­te-se e tente de novo. Muitas vezes, a primeira ajuda de Deus não é a própria virtude, mas a força para tentar de novo. Por mais importante que seja a castidade (ou a coragem, a veracidade ou qualquer outra virtude), esse processo de treinamento dos hábitos da alma é ainda mais valioso. Ele cura nossas ilusões a respeito de nós mesmos e nos ensina a confiar em Deus. Aprende­mos, por um lado, que não podemos confiar em nós mesmos nem em nossos melhores momentos; e, por ou­tro, que não devemos nos desesperar nem mesmo nos piores, pois nossos fracassos são perdoados. A única ati­tude fatal é se dar por satisfeito com qualquer coisa que não a perfeição.

Em terceiro lugar, as pessoas muitas vezes não en­tendem o que a psicologia quer dizer com "repressão". Ela nos ensinou que o sexo "reprimido" é perigoso. Nes­se caso, porém, "reprimido" é um termo técnico: não significa "suprimido" no sentido de "negado" ou "proi­bido". Um desejo ou pensamento reprimido é o que foi jogado para o fundo do subconsciente (em geral na infância) e só pode surgir na mente de forma disfarçada ou irreconhecível. Ao paciente, a sexualidade reprimi­da não parece nem mesmo ter relação com a sexualidade. Quando um adolescente ou um adulto se empenha em resistir a um desejo consciente, não está lidando com a repressão nem corre o risco de a estar criando. Pelo con­trário, os que tentam seriamente ser castos têm mais consciência de sua sexualidade e logo passam a conhe­cê-la melhor que qualquer outra pessoa. Acabam co­nhecendo seus desejos como Wellington conhecia Napoleão ou Sherlock Holmes conhecia Moriarty[20]; como um apanhador de ratos conhece ratos ou como um en­canador conhece um cano com vazamento. A virtude - mesmo o esforço para alcançá-la — traz a luz; a liber­tinagem traz apenas brumas.

Para encerrar, apesar de eu ter falado bastante a respeito de sexo, quero deixar tão claro quanto possível que o centro da moralidade cristã não está aí. Se alguém pensa que os cristãos consideram a falta de castidade o vício supremo, essa pessoa está redondamente enganada. Os pecados da carne são maus, mas, dos pecados, são os menos graves. Todos os prazeres mais tetríveis são de natureza puramente espiritual: o prazer de provar que o próximo está errado, de tiranizar, de tratar os outros com desdém e superioridade, de estragar o prazer, de difamar. São os prazeres do poder e do ódio. Isso por­que existem duas coisas dentro de mim que competem com o ser humano em que devo tentar me tornar. São elas o ser animal e o ser diabólico. O diabólico é o pior dos dois. E por isso que um moralista frio e pretensamente virtuoso que vai regularmente à igreja pode es­tar bem mais perto do inferno que uma prostituta. E claro, porém, que é melhor não ser nenhum dos dois.

 

O CASAMENTO CRISTÃO

O capítulo anterior foi quase todo negativo. Nele discuti o que há de errado com o impulso sexual no ho­mem, mas falei muito pouco sobre seu funcionamento correto - em outras palavras, sobre o casamento cristão. Há duas razões pelas quais não quis abordar o tema do casamento. A primeira é que a doutrina cristã sobre o as­sunto é extremamente impopular. A segunda é que nun­ca fui casado, e, portanto, não posso falar sobre ele por experiência própria. Apesar disso, sinto que não posso deixar este assunto de lado num sumário da moral cristã.

A idéia crista de casamento se baseia nas palavras de Cristo de que o homem e a mulher devem ser con­siderados um único organismo - tal é o sentido que as palavras "uma só carne" teriam numa língua moderna. Os cristãos acreditam que, quando disse isso, ele não estava expressando um sentimento, mas afirmando um fato — da mesma forma que expressa um fato quem diz que o trinco e a chave são um único mecanismo, ou que o violino e o arco formam um único instrumento mu­sical. O inventor da máquina humana queria nos dizer que as duas metades desta, o macho e a fêmea, foram feitas para combinar-se aos pares, não simplesmente na esfera sexual, mas em todas as esferas. A monstruosidade da relação sexual fora do casamento é que, cedendo a ela, tenta-se isolar um tipo de união (a sexual) de todos os outros tipos de união que deveriam acompanhá-la para compor a união total. A atitude cristã não toma como errada a existência de prazer no sexo, como não considera errado o prazer que temos quando nos alimen­tamos. O erro está em querer isolar esse prazer e tentar buscá-lo por si mesmo, da mesma maneira que não se deve buscar os prazeres do paladar sem engolir e digerir a comida, apenas mastigando-a e cuspindo-a.

Em conseqüência, o cristianismo ensina que o ca­samento deve durar a vida toda. Neste ponto, é claro que existem diferenças entre as diversas Igrejas: algumas não admitem o divórcio em hipótese alguma; outras o admitem com relutância em casos específicos. E uma grande lástima que os cristãos divirjam quanto a essa questão; para um leigo, porém, o fato a notar é que, no que diz respeito ao casamento, todas as Igrejas concor­dam muito mais umas com as outras do que concordam com o que vem do mundo exterior. Todas encaram o divórcio como se fosse algo que cortasse ao meio um or­ganismo vivo, como um tipo de cirurgia. Algumas acham que essa cirurgia é tão violenta que não deve ser feita de forma alguma. Outras a admitem como um recurso desesperado em casos extremos. Todas asseveram que o di­vórcio se parece mais com a amputação das pernas do corpo do que com a dissolução de uma sociedade co­mercial ou mesmo com o ato de deserção de um soldado. O que todas elas repudiam é a visão moderna de que o divórcio é simplesmente um reajustamento de parcei­ros, a ser feito sempre que as pessoas não se sentem mais apaixonadas uma pela outra, ou quando uma de­las se apaixona por outra pessoa.

Antes de analisar essa visão moderna e sua relação com a castidade, não devemos deixar de considerar sua relação com outra virtude - a saber, a justiça. A justiça, como eu disse antes, inclui a fidelidade à própria pala­vra. Todos os que se casaram na igreja fizeram a promes­sa pública e solene de permanecer unidos até a morte. O dever de cumprir essa promessa não tem nenhum vínculo especial com a moralidade sexual: ela está em pé de igualdade com qualquer outra promessa. Se, como as pessoas hoje em dia insistem em dizer, o impulso se­xual é igual a todos os outros impulsos, então deve ser tratado em pé de igualdade com eles. Assim como o gozo de todo e qualquer impulso é controlado por nos­sas promessas, assim deve ser o gozo do impulso sexual. No entanto, se, segundo penso, ele não é igual a nossos demais impulsos, mas encontra-se morbidamente in­flamado, devemos ter mais cautela para que ele não nos leve à desonestidade.

Certas pessoas podem retrucar dizendo que consi­deram a promessa feita na igreja uma simples formali­dade, a qual nunca tencionaram cumprir. A quem, en­tão, pretendiam enganar quando fizeram tal promessa? A Deus? Isso não é nada sensato. A si mesmas? Isso não é muito mais sensato que a alternativa anterior. Enganar a noiva, o noivo, os sogros? Isso é traição. E mais fre­qüente, na minha opinião, o casal (ou um deles) querer enganar o público. Quer a respeitabilidade que vem do casamento sem ter de pagar por isso: ou seja, são impostores, são enganadores. Se essas pessoas são desonestas e não se preocupam com isso, não tenho nada a lhes dizer. Quem poderia adverti-las a seguir o nobre, mas penoso, dever da castidade, se elas não pretendem nem mesmo ser honestas? Caso recobrassem a razão, a pró­pria promessa feita as constrangeria. Tudo isso, como você pode notar, está circunscrito ao âmbito da justiça, e não da castidade. Se as pessoas não acreditam em ca­samento para sempre, talvez seja melhor viver juntas sem estar casadas que fazer uma promessa que não pre­tendem cumprir. É claro que, ao viver juntas sem estar unidas pelo matrimônio, elas são culpadas de fornicação (sob o ponto de vista cristão). Uma falta, porém, não conserta a outra: a falta de castidade não é mino­rada quando a ela se acrescenta o perjúrio.

A idéia de que "estar enamorado" é o único motivo válido para permanecer casado é totalmente contrária à idéia do matrimônio como um contrato ou mesmo como uma promessa, Se tudo se resume ao amor, o ato da promessa nada lhe acrescenta; e, assim, nem deveria ser feito. Uma coisa curiosa é que os próprios amantes, enquanto permanecem apaixonados, sabem disso mui­to mais que os que só falam de amor. Como observou Chesterton[21], os apaixonados têm a tendência natural de fazer promessas um ao outro. As canções de amor do mundo inteiro estão repletas de juras de fidelidade eter­na. A lei cristã não exige do amor algo que é alheio à sua natureza: exige apenas que os amantes levem a sério algo que a própria paixão os impele a fazer.

E é evidente que a promessa de ser fiel para sem­pre, que fiz quando estava apaixonado e porque o estava, deve ser cumprida mesmo que deixe de estar. A promes­sa diz respeito a ações, a coisas que posso fazer: ninguém pode fazer a promessa de ter um determinado senti­mento para sempre. Seria o mesmo que prometer nunca mais ter dor de cabeça ou nunca mais ter fome. Pode-se perguntar, no entanto, qual o sentido de manter uni­das duas pessoas que não se amam mais. Existem várias razões sociais bem fundamentadas para tanto: dar um lar para os filhos, proteger a mulher (que provavelmen­te sacrificou a carreira pelo casamento) de ser trocada por outra quando o marido se cansar dela. Existe, no entanto, um outro motivo do qual estou bastante con­vencido, mesmo que o julgue difícil de explicar.

E difícil porque tanta gente não consegue se dar con­ta de que, mesmo que "B" seja melhor que "C", talvez "A" seja melhor que ambos. As pessoas gostam de racio­cinar com os termos "bom" e "mau", não com os ter­mos "bom", "melhor" e "o melhor de todos", e "ruim", "pior" e "o pior de todos". Elas perguntam se você jul­ga o patriotismo uma coisa boa; se você responde que ele é muito melhor que o egoísmo dos indivíduos, mas bastante inferior à caridade universal, e que deve ceder lugar a esta sempre que os dois estiverem em conflito, elas acham sua resposta evasiva. Perguntam o que você acha dos duelos. Se você responde que é muito melhor um homem perdoar o próximo que duelar com ele, mas que o duelo pode ser uma alternativa melhor que uma inimizade eterna, expressa no esforço secreto de causar a ruína do oponente, elas se queixam de que você não ofe­receu uma resposta franca e direta. Espero que ninguém cometa o mesmo erro com o que tenho a dizer agora. O que chamamos de "estar apaixonado" é um esta­do maravilhoso e, sob diversos aspectos, benéfico para nós. Ajuda-nos a ser mais generosos e corajosos, abre nos­sos olhos não apenas para a beleza do objeto amado, mas para toda a beleza, e subordina (especialmente no início) nossa sexualidade animal; nesse sentido, o amor é o grande subjugador do desejo. Ninguém que tenha o uso perfeito da razão negaria que estar apaixonado é melhor que a sensualidade ordinária ou o frio egocen­trismo. Mas, como eu disse antes, "a coisa mais perigosa que podemos fazer é tomar um certo impulso de nossa natureza como padrão a ser seguido custe o que custar". Estar apaixonado é muito bom, mas não é a melhor coisa do mundo. Existem muitas coisas abaixo, mas tam­bém muitas outras acima disso. A paixão amorosa não pode ser a base de uma vida inteira. E um sentimento nobre, mas, mesmo assim, é apenas um sentimento. Não podemos nos fiar em que um sentimento vá con­servar para sempre sua intensidade total, ou mesmo que vá perdurar. O conhecimento perdura, como também os princípios e os hábitos, mas os sentimentos vêm e vão.

E, o que quer que as pessoas digam, a verdade é que o estado de paixão amorosa normalmente não dura. Se o velho final dos contos de fadas: "E viveram felizes para sempre", quisesse dizer que "pelos cinqüenta anos seguin­tes sentiram-se atraídos um pelo outro como no dia anterior ao casamento", estaria se referindo a algo que não acontece na realidade, que não pode acontecer e que, mesmo que pudesse, seria pouquíssimo recomendável. Quem conseguiria viver nesse estado de excitação mes­mo por cinco anos? Que seria do trabalho, do apetite, do sono, das amizades? E claro, porém, que o fim da pai­xão amorosa não significa o fim do amor. O amor nesse segundo sentido - distinto da "paixão amorosa" - não é um mero sentimento. E uma unidade profunda, man­tida pela vontade e deliberadamente reforçada pelo há­bito; é fortalecida ainda (no casamento cristão) pela graça que ambos os cônjuges pedem a Deus e dele re­cebem. Eles podem fruir desse amor um pelo outro mes­mo nos momentos em que se desgostam, da mesma for­ma que amamos a nós mesmos mesmo quando não gos­tamos da nossa pessoa. Conseguem manter vivo esse amor mesmo nas situações em que, caso se descuidas­sem, poderiam ficar "apaixonados" por outra pessoa. Foi a "paixão amorosa" que primeiro os moveu a jurar fidelidade recíproca. O amor sereno permite que cum­pram o juramento. E através desse amor que a máquina do casamento funciona: a paixão amorosa foia fagulha que a pôs em funcionamento.

Se você discorda de mim, é claro que vai dizer: "Ele não sabe do que está falando. Ele nem é casado." Talvez você tenha razão. Antes de dizer isso, porém, tome o cuidado de embasar seu julgamento nas coisas que você conhece por experiência pessoal ou pela obser­vação de seus amigos, e não em idéias derivadas de ro­mances ou de filmes. Isso não é tão fácil de fazer quanto as pessoas pensam. Nossa experiência é preenchida pelas cores dos livros, peças de teatro e filmes do cinema, e é necessário ter paciência para delas desentranhar e para separar o que aprendemos da vida por nós mesmos.

As pessoas tiram dos livros a idéia de que, se você casou com a pessoa certa, viverá "apaixonado" para sem­pre. Como resultado, quando se dão conta de que não é isso o que ocorre, chegam à conclusão de que comete­ram um erro, o que lhes daria o direito de mudar - não percebem que, da mesma forma que a antiga paixão se desvaneceu, a nova também se desvanecerá. Nesse de­partamento da vida, como em qualquer outro, a excita­ção é própria do início e não dura para sempre. A emoção intensa que um garoto tem quando pensa em aprender a pilotar um avião não sobrevive quando ele se junta à Força Aérea, onde realmente vai aprender o que é voar. A palpitação de conhecer um lugar novo se esvai quando se passa a morar lá. Acaso quero dizer que não devemos aprender a voar ou não devemos morar num lugar apra­zível? De jeito nenhum. Em ambos os casos, se você perseverar, o arrepio da novidade, quando morre, é com­pensado por um interesse mais sereno e duradouro. Além disso (e mal consigo lhe dizer o quanto isto é importan­te), são exatamente as pessoas dispostas a sofrer a perda do frêmito inicial e a acatar esse interesse mais sóbrio que têm maior probabilidade de encontrar novas emo­ções em campos diferentes. O homem que aprendeu a voar e se tornou um bom piloto subitamente descobre a música; o homem que se estabeleceu num local idílico descobre a jardinagem.

Segundo me parece, essa é uma pequena parte do que Cristo quis dizer quando afirmou que nada pode viver realmente sem antes morrer. Simplesmente não vale a pena tentar manter viva uma sensação forte e fu­gaz: é a pior coisa que podemos fazer. Deixe o frisson ir embora — deixe-o morrer. Se você passar por esse perío­do de morte e penetrar na felicidade mais discreta que o segue, passará a viver num mundo que a todo tempo lhe dará novas emoções. Mas, se fizer das emoções for­tes a sua dieta diária e tentar prolongá-las artificialmen­te, elas vão se tornar cada vez mais fracas, cada vez mais raras, até você virar um velho entediado e desiludido para o resto da vida. É por serem tão poucas as pessoas que entendem isso que encontramos tantos homens e mulheres de meia-idade lamentando a juventude per­dida, na idade mesma em que novos horizontes deve­riam descortinar-se e novas portas deveriam abrir-se. E muito mais divertido aprender a nadar que tentar resga­tar incessantemente (e inutilmente) a sensação da pri­meira vez que chapinhamos na água quando garotos.

Outra idéia que apreendemos de romances e peças de teatro é que a paixão amorosa é algo irresistível, algo que simplesmente "contraímos", como sarampo. Por acre­ditar nisso, certas pessoas casadas largam tudo e se atiram a um novo amor quando se sentem atraídas por alguém. Penso, porém, que essas paixões irresistíveis são muito mais raras na vida real que nos livros, pelo menos depois de chegarmos à idade adulta. Quando conhecemos uma pessoa bonita, inteligente e bem-humorada, é claro que devemos, num certo sentido, admirar e amar essas belas qualidades. Porém, não cabe a nós em boa medida julgar se esse amor deve ou não dar lugar ao que chamamos de paixão amorosa? Sem dúvida, se nossa cabeça está cheia de romances, peças e canções sentimentalistas, e nosso corpo está cheio de álcool, vamos tender a transformar qualquer amor nesse tipo específico de amor, da mesma forma que, se houver uma valeta junto à estrada num dia de chuva, toda a água vai correr por ela, ou, se você esti­ver usando um par de óculos de lentes azuis, tudo ficará azulado. A culpa será sua.

Antes de deixar a questão do divórcio, gostaria de esclarecer a distinção entre duas coisas que geralmente se confundem. Uma delas é a concepção cristã de casa­mento; a outra, completamente diferente, é se os cris­tãos, enquanto eleitores ou membros do Parlamento, de­vem impor sua visão do casamento sobre o restante da comunidade, incorporando essa visão às leis estatais que regem o divórcio. Um grande número de pessoas pare­ce pensar que, se você é cristão, deve tentar tornar o di­vórcio difícil para todo o mundo. Eu não penso assim. Pelo menos creio que ficaria bastante zangado se os mu­çulmanos tentassem proibir que o restante da popula­ção tomasse vinho. Minha opinião é que as Igrejas devem reconhecer francamente que a maioria dos britâ­nicos não são cristãos, e, portanto, não se deve esperar que levem uma vida crista. Deve haver dois tipos dis­tintos de casamento: um governado pelo Estado, com regras aplicáveis a todos os cidadãos, e outro governa­do pela Igreja, com regras que ela mesma aplica a seus membros. A distinção entre os dois tipos deve ser bas­tante nítida, de tal forma que se saiba sem sombra de dúvida quais casais são casados pela Igreja e quais não.

Isso já é o bastante a respeito da doutrina cristã da indissolubilidade do casamento. Resta tratar de outra coisa, ainda menos popular. As esposas cristãs fazem o voto de obedecer a seus maridos. No casamento cristão, diz-se que os homens são a "cabeça". Duas questões ob­viamente se levantam. (1) Por que a necessidade de uma "cabeça" — por que não a igualdade? (2) Por que a "cabeça" deve ser o homem?

  1. A necessidade de uma cabeça segue-se da idéia de que o casamento é permanente. E claro que, na me­dida em que o marido e a esposa estão de acordo, a ne­cessidade de um líder desaparece; e gostaríamos que esse fosse o estado de coisas normal no casamento cristão. Mas, quando existe um desacordo real, o que se deve fa­zer? Conversar sobre o assunto, é claro; estou partindo da idéia de que tentatam fazer isso e mesmo assim não conseguiram chegar a um acordo. O que fazer então? O casal não pode decidir por votação, pois não existe maioria absoluta entre duas pessoas. Certamente, uma das duas coisas pode acontecer: podem separar-se e cada um ir para o seu lado, ou então uma das partes deve ter o poder de decisão. Se o casamento é permanente, uma das duas partes deve, em última instância, ter o poder de decidir a política familiar. Não se pode ter uma asso­ciação permanente sem uma constituição.

  2. Se há a necessidade de um líder, por que o ho­mem? Em primeiro lugar, pergunto: existe uma vontade generalizada de que isso caiba à mulher? Como eu dis­se, não sou casado, mas, pelo que vejo, nem mesmo a mulher que quer ser a chefe de sua própria casa admira essa situação quando a observa na casa ao lado. Nessas circunstâncias, costuma exclamar: "Pobre sr. X! Por que ele se deixa dominar por aquela mulherzinha horrível? Isso está acima da minha compreensão." Também não penso que ela fique lisonjeada quando alguém mencio­na o fato de ser ela a "cabeça". Deve haver algo de anti-natural na proeminência das esposas sobre os maridos, pois as próprias esposas ficam bastante envergonhadas disso e desprezam o marido que se submete. Porém, há mais uma razão, e sobre ela falo francamente a partir da minha condição de solteiro, pois pode ser vista me­lhor por quem está de fora que por quem está dentro. As relações da família com o mundo exterior - o que poderíamos chamar de política externa — devem de­pender, em última análise, do homem, porque ele deve ser, e normalmente é, mais justo em relação às pessoas de fora. A mulher luta prioritariamente pelos filhos e pelo marido contra o resto do mundo. Naturalmente e, em certo sentido, quase com razão, as necessidades de­les são priorizadas em detrimento de todas as outras ne­cessidades. A mulher é a curadora especial dos interes­ses da família. A função do marido é garantir que essa predisposição natural da mulher não chegue a predo­minar. Ele tem a última palavra para proteger as outras pessoas do intenso patriotismo familiar da esposa. Se al­guém duvida de mim, deixe-me fazer uma pergunta simples. Se seu cachorro mordeu a criança da casa ao lado, ou se seu filho machucou o cachorro do vizinho, com quem você prefere tratar — com o chefe da família ou com a dona da casa? E, se você é uma mulher casada, deixe-me fazer outra pergunta. Apesar de admirar seu marido, você não diria que a falha principal dele está em não fazer valer os direitos da família contra os dos vizinhos tão vigorosamente quanto você gostaria? Não seria ele apaziguador demais?

     

O PERDÃO

Eu disse no capítulo anterior que a castidade era a menos popular das virtudes cristãs. Mas não estou tão certo disso. Acredito que haja uma virtude ainda me­nos popular, expressa na regra cristã "Amarás a teu pró­ximo como a ti mesmo". Porque, na moral cristã, "amar o próximo" inclui "amar o inimigo", o que nos impin­ge o odioso dever de perdoar nossos inimigos.

Todos dizem que o perdão é um ideal belíssimo até terem algo a perdoar, como nós tivemos durante a guer­ra. Nesse momento, a simples menção do assunto é re­cebida com bramidos de ódio. Não é que as pessoas julguem essa virtude muito elevada e difícil de praticar: julgam-na, isto sim, odiosa e desprezível. "Essa conversa nos dá nojo", dizem. E metade de vocês já deve estar querendo me perguntar: "E, se você fosse judeu ou po­lonês, perdoaria a Gestapo?"

Eu também me faço essa pergunta. Faço-a muitas vezes. Do mesmo modo, quando o cristianismo me diz que não posso negar minha religião mesmo que seja para me salvar da morte pela tortura, pergunto-me muitas vezes qual seria minha atitude numa situação dessas. Neste livro, não quero lhe dizer o que eu faria — aliás, o que posso fazer é bem pouco —, mas sim o que é o cris­tianismo. Não fui eu que o inventei. E ali, bem no meio dele, encontro as palavras: "Perdoa as nossas dívidas, as­sim como perdoamos aos nossos devedores." Não há a menor insinuação de que exista outra maneira de obter­mos o perdão. Está perfeitamente claro que, se não per­doarmos, não seremos perdoados. Não há alternativa. O que podemos fazer?

Vai ser difícil de qualquer modo, mas creio que exis­tem duas coisas que podemos fazer para facilitar um pouco as coisas. Quando vamos estudar matemática, não começamos pelo cálculo integral, mas pela simples arit­mética. Da mesma maneira, se realmente queremos (e tudo depende dessa vontade real) aprender a perdoar, o melhor talvez seja começar com algo mais fácil que a Gestapo. Você pode começar por perdoar seu marido ou esposa, seus pais ou filhos ou o funcionário público mais próximo por tudo o que fizeram e disseram na sema­na passada. Isso já vai lhe dar trabalho. Em segundo lu­gar, você deve tentar entender exatamente o que signi­fica amar o próximo como a si mesmo. Tenho de amá-lo como amo a mim mesmo. Bem, como é exatamente esse amor a mim mesmo?

Agora que começo a pensar no assunto, vejo que não nutro exatamente um grande afeto nem tenho especial predileção pela minha pessoa, e nem sempre gosto da minha própria companhia. Aparentemente, portanto, "amar o próximo" não significa "ter grande simpatia por ele" nem "considerá-lo um grande sujeito". Isso já de­veria ser evidente, pois não conseguimos gostar de al­guém por esforço. Será que eu me considero um bom camarada? Infelizmente, às vezes sim (e esses são, sem dú­vida, meus piores momentos), mas não é por esse moti­vo que amo a mim mesmo. Na verdade, o que acontece é o inverso: não é por considerar-me agradável que amo a mim mesmo; é meu amor próprio que faz com que eu me considere agradável. Analogamente, portanto, amar meus inimigos não é o mesmo que considerá-los boas pessoas. O que não deixa de ser um grande alívio, pois muita gente imagina que perdoar os inimigos significa concluir que eles, no fim das contas, não são tão maus assim, ao passo que é evidente que são. Vamos dar um passo adiante. Nos meus momentos de maior lucidez, vejo que não somente não sou lá um grande sujeito como posso ser uma péssima pessoa. Recuo com horror e repugnância diante de certas coisas que fiz. Logo, isso parece me dar o direito de me sentir horrorizado e repugnado diante dos atos de meus inimigos. Aliás, pen­sando no assunto, lembro que os primeiros mestres cris­tãos já diziam que se devem odiar as ações de um ho­mem mau, mas não odiar o próprio homem; ou, como eles diriam, odiar o pecado, mas não o pecador.

Por muito tempo julguei essa distinção tola e insig­nificante: como se pode odiar o que um homem faz e não odiá-lo por isso? Somente anos depois me ocorreu que fora exatamente essa a conduta que eu sempre ti­vera com uma pessoa em particular: eu mesmo. Por mais que eu abominasse minha covardia, vaidade ou cobiça, continuei amando a mim mesmo. Nunca tive a menor dificuldade para isso. Na verdade, a razão mesma pela qual detestava tais coisas é que amava o homem que as co­metia. Por amar a mim mesmo, sentia um profundo pe­sar por agir assim. Conseqüentemente, o cristianismo não quer ver reduzida a um átomo a aversão que sentimos pela crueldade e pela deslealdade. Devemos odiá-las. Não devemos desdizer nada do que dissemos a esse res­peito. Porém, devemos odiá-las da mesma forma que odiámos nossos próprios atos: sentindo pena do homem que as praticou e tendo, na medida do possível, a esperança de que, de alguma forma, em algum tempo e lu­gar, ele possa ser curado e se tornar novamente um ser humano.

A verdadeira prova é a seguinte: suponha que você leia no jornal uma reportagem sobre atrocidades ignominiosas e que, no final, se revele que a reportagem era falsa ou que as atrocidades não eram tão terríveis quanto na primeira versão. Qual será sua reação? Será "graças a Deus, nem eles são capazes de tanta maldade"? Ou você ficará decepcionado, disposto até a continuar acre­ditando na primeira reportagem pelo simples prazer de continuar julgando seus inimigos tão maus quanto pos­sível? Se for a segunda reação, infelizmente você dará o primeiro passo de um processo que, no final, o trans­formará num demônio. E fácil notar que a pessoa que agiu assim está começando a desejar que a escuridão seja um pouco mais escura. Se dermos vazão a esse tipo de sentimento, logo estaremos desejando que a penumbra também seja escura, e, depois, que a própria claridade seja negra. No final, insistiremos em ver tudo — inclusi­ve Deus, nossos amigos e nós mesmos — como maus, e não seremos capazes de parar. Estaremos presos para sempre num universo de puro ódio.

Vamos dar um passo além. Será que amar o inimigo quer dizer que não devemos puni-lo? Não, de maneira alguma. O amor que sinto por mim não me exime do dever de me submeter à punição — nem mesmo à morte. Se você cometesse um assassinato, a coisa correta a fa­zer, segundo o cristianismo, seria entregar-se à polícia para ser enforcado. Na minha opinião, portanto, é per­feitamente correto que um juiz cristão sentencie um homem à morte ou que um soldado cristão mate o ini­migo em combate. Sempre pensei assim, desde que me tornei cristão e desde muito antes da guerra, e meu pen­samento não mudou em nada agora que estamos em paz. Não vai adiantar citar "Não matarás". Existem no grego duas palavras: uma geral para matar, e outra es­pecífica para assassinar. Quando Cristo pronunciou esse mandamento, ele usou a palavra equivalente a assassinar nos três relatos: em Mateus, Marcos e Lucas. Disseram-me que a mesma distinção existe no hebraico. Nem todo ato de matar é assassinato, da mesma forma que nem todo ato sexual é adultério. Quando os soldados se dirigiram a João Batista perguntando-lhe o que fazer, ele nem de longe sugeriu que abandonassem o exército; tampouco o fez Cristo quando conheceu um sargento-mor romano — que eles chamavam de centurião. O ideal do cavaleiro — o cristão armado na defesa de uma boa causa - é um dos grandes ideais cristãos. A guerra é uma coisa terrível e tenho respeito pelos pacifistas ho­nestos, apesar de achar que eles estão redondamente en­ganados. O que não consigo entender é esse semipacifismo de hoje em dia, que dá às pessoas a idéia de que, apesar de ser nosso dever lutar, devemos fazê-lo desola­dos, como se estivéssemos envergonhados desse ato. Não é outro o sentimento que rouba um grande número de nossos magníficos jovens cristãos, jovens que se alista­ram e que têm toda justificativa para lutar, de algo que é a conseqüência natural da coragem — uma espécie de brio, júbilo e entusiasmo.

Penso com freqüência no que teria acontecido se, durante a Primeira Guerra Mundial, quando servi como soldado, eu e um jovem alemão matássemos um ao ou­tro e nos encontrássemos logo depois da morte. Não consigo imaginar que nenhum de nós sentisse um pingo de ressentimento ou de embaraço. Creio que, juntos, daríamos boas risadas.

Imagino que alguém dirá: "Bem, se podemos con­denar os atos do inimigo, puni-lo e mesmo matá-lo, qual é então a diferença entre a moral cristã e a moral co­mum?" Toda a diferença do mundo. Lembre-se de que nós, cristãos, acreditamos que o homem vive eterna­mente. Logo, o que realmente importa são as pequenas marcas deixadas e as pequenas mudanças feitas na parte central e interior da alma, as quais vão nos tornar, a longo prazo, numa criatura celestial ou infernal. Talvez sejamos obrigados a matar, mas não devemos alimentar o ódio nem gostar de odiar. Podemos punir, se isso for necessário, mas não devemos gostar de punir. Em outras pa­lavras, os sentimentos de ressentimento e de vingança de­vem ser simplesmente exterminados de dentro de nós. Bem sei que ninguém tem o poder de decidir que, des­te momento em diante, não terá tais sentimentos. As coisas não acontecem assim. Quero somente dizer que, toda vez que esses sentimentos levantarem a cabeça, de­vemos espancá-la — dia após dia, ano após ano, até o fim da nossa vida. É um trabalho árduo, mas não é im­possível tentar executá-lo. Mesmo no momento em que castigamos ou matamos o inimigo, devemos sentir por ele o mesmo que sentimos por nós — devemos desejar que ele não seja mau; devemos ter a esperança de que algum dia, neste mundo ou em outro, ele venha a curar-se. Falando claramente, devemos desejar o seu bem. E isso que a Bíblia quer dizer com o amor ao próximo: desejar o seu bem, sem ter de sentir afeto nem dizer que ele é gentil quando não é.

Admito que isso significa amar pessoas que não têm nada de amáveis. Mas pergunto: será que eu mesmo sou uma pessoa digna de ser amada? Amo a mim mes­mo simplesmente porque sou eu mesmo. Deus quer que amemos a todas as criaturas, todos os "eus", da mesma forma e pela mesma razão: apenas, no caso pessoal de cada um, já deu o resultado certo da conta para nos en­sinar como é que se soma. Devemos, a partir disso, aplicar a regra a todas as outras pessoas. Talvez isso se tor­ne mais fácil se lembrarmos que é dessa forma que ele nos ama. Não pelas belas qualidades que julgamos pos­suir, mas simplesmente porque cada um de nós é um "eu". Pois, na realidade, não existe mais nada em nós que seja digno de amor: nós, que encontramos um prazer tão grande no ódio que abdicar dele é mais difícil que largar a bebida ou o cigarro...

 

O GRANDE PECADO

Chego agora à parte em que a moral cristã difere mais nitidamente de todas as outras morais. Existe um ví­cio do qual homem algum está livre, que causa repug­nância quando é notado nos outros, mas do qual, com a exceção dos cristãos, ninguém se acha culpado. Já ouvi quem admitisse ser mau humorado, ou não ser capaz de resistir a um rabo de saia ou à bebida, ou mesmo ser covarde. Mas acho que nunca ouvi um não-cristão se acusar desse vício. Ao mesmo tempo, é raríssimo encon­trar um não-cristão que tenha alguma tolerância com esse vício nas outras pessoas. Não existe nenhum outro defeito que torne alguém tão impopular, e mesmo as­sim não existe defeito mais difícil de ser detectado em nós mesmos. Quanto mais o temos, menos gostamos de vê-lo nos outros.

O vício de que estou falando é o orgulho ou a pre­sunção. A virtude oposta a ele, na moral cristã, é cha­mada de humildade. Você deve se lembrar de que, quan­do falávamos sobre a moralidade sexual, adverti que não era ela o centro da moral cristã. Bem, agora chegamos ao centro. De acordo com os mestres cristãos, o vício fun­damental, o mal supremo, é o orgulho. A devassidão, a ira, a cobiça, a embriaguez e tudo o mais não passam de ninharias comparadas com ele. E por causa do orgulho que o diabo se tornou o que é. O orgulho leva a todos os outros vícios; é o estado mental mais oposto a Deus que existe.

Parece que estou exagerando? Se você acha que sim, pense um pouco mais no assunto. Agora há pouco, ob­servei que, quanto mais orgulho uma pessoa tem, me­nos gosta de vê-lo nos outros. Se quer descobrir quão orgulhoso você é, a maneira mais fácil é perguntar-se: "Quanto me desagrada que os outros me tratem como inferior, ou não notem minha presença, ou interfiram nos meus negócios, ou me tratem com condescendência, ou se exibam na minha frente?" A questão é que o or­gulho de cada um está em competição direta com o orgu­lho de todos os outros. Se me sinto incomodado por­que outra pessoa fez mais sucesso na festa, é porque eu mesmo queria ser o grande sucesso. Dois bicudos não se beijam. O que quero deixar claro é que o orgulho é es­sencialmente competitivo — por sua própria natureza -, ao passo que os outros vícios só o são acidentalmente, por assim dizer. O prazer do orgulho não está em se ter algo, mas somente em se ter mais que a pessoa ao lado. Dizemos que uma pessoa é orgulhosa por ser rica, inte­ligente ou bonita, mas isso não é verdade. As pessoas são orgulhosas por serem mais ricas, mais inteligentes e mais bonitas que as outras. Se todos fossem igualmente ri­cos, inteligentes e bonitos, não haveria do que se orgu­lhar. É a comparação que torna uma pessoa orgulhosa: o prazer de estar acima do restante dos seres. Eliminado o elemento de competição, o orgulho se vai. E por isso que eu disse que o orgulho ê essencialmente competitivo de uma forma que os outros vícios não são. O impulso sexual pode levar dois homens a competir se ambos es­tão interessados na mesma moça. Mas a competição ali é acidental; eles poderiam, com a mesma facilidade, ter se interessado por moças diferentes. Um homem orgu­lhoso, porém, fará questão de tomar a sua garota, não por desejá-la, mas para provar para si mesmo que é me­lhor do que você. A cobiça pode levar os homens a com­petir entre si se não existe o suficiente para todos; mas o homem orgulhoso, mesmo que tenha mais do que ja­mais poderia precisar, vai tentar acumular mais ainda só para afirmar seu poder. Praticamente todos os males no mundo que as pessoas julgam ser causados pela cobi­ça ou pelo egoísmo são bem mais o resultado do orgulho. Veja a questão do dinheiro. A cobiça pode fazer com que o homem deseje ganhar dinheiro para comprar uma casa melhor, poder viajar nas férias e ter coisas mais apetitosas para comer e beber. Mas só até certo ponto. O que faz com que um homem que ganha 10.000 li­bras por ano fique ansioso para ganhar 20.000 libras? Não é a cobiça de mais prazer. A soma de 10.000 libras pode sustentar todos os luxos de que ele queira desfrutar. E o orgulho — o desejo de ser mais rico que os outros ricos e, mais do que isso, o desejo de poder. Pois, evi­dentemente, é do poder que o orgulho realmente gos­ta: nada faz o homem sentir-se tão superior aos outros quanto o fato de poder movê-los como soldadinhos de brinquedo. Por que uma moça bonita à caça de admi­radores espalha a infelicidade por onde quer que vá? Cer­tamente não é por causa de seu instinto sexual: esse tipo de moça é quase sempre sexualmente frígida. É o orgulho. O que faz um líder político ou uma nação inteira quererem expandir-se indefinidamente, exigindo tudo para si? De novo, o orgulho. Ele é competitivo pela pró­pria natureza: é por isso que se expande indefinidamen­te. Se sou um homem orgulhoso, enquanto existir al­guém mais poderoso do que eu, ou mais rico, ou mais es­perto, esse será meu rival e meu inimigo.

Os cristãos estão com a razão: o orgulho é a causa principal da infelicidade em todas as nações e em todas as famílias desde que o mundo foi criado. Os outros ví­cios podem, às vezes, até mesmo congregar as pessoas: pode haver uma boa camaradagem, risos e piadas entre gente bêbada ou entre devassos. O orgulho, porém, sem­pre significa a inimizade - é a inimizade. E não só ini­mizade entre os homens, mas também entre o homem e Deus.

Em Deus defrontamos com algo que é, em todos os aspectos, infinitamente superior a nós. Se você não sabe que Deus é assim — e que, portanto, você não é nada comparado a ele -, não sabe absolutamente nada sobre Deus. O homem orgulhoso sempre olha de cima para baixo para as outras pessoas e coisas: é claro que, fazen­do assim, não pode enxergar o que está acima de si.

Isso levanta uma questão terrível. Como podem exis­tir pessoas evidentemente cheias de orgulho que decla­ram acreditar em Deus e se consideram muitíssimo reli­giosas? Infelizmente, elas adoram um Deus imaginário. Na teoria, admitem que não são nada comparadas a esse Deus fantasma, mas na prática passam o tempo todo a imaginar o quanto ele as aprova e as tem em melhor con­ta que ao resto dos comuns mortais. Ou seja, pagam al­guns tostões de humildade imaginária para receber uma fortuna de orgulho em relação a seus semelhantes. Suponho que é a esse tipo de gente que Cristo se referia quando dizia que pregariam e expulsariam os demônios em seu nome, mas no final ouviriam dele que jamais os conhecera. Cada um de nós, a todo momento, vê-se diante dessa armadilha mortal. Felizmente, temos como saber se caímos nela ou não. Sempre que constatamos que nossa vida religiosa nos faz pensar que somos bons — sobretudo, que somos melhores que os outros —, po­demos ter certeza de que estamos agindo como mario­netes, não de Deus, mas do diabo. A verdadeira prova de que estamos na presença de Deus é que nos esque­cemos completamente de nós mesmos ou então nos ve­mos como objetos pequenos e sujos. O melhor é esque­cer-nos de nós mesmos.

É uma coisa terrível que o pior de todos os vícios insinue-se assim no próprio centro de nossa vida religio­sa. Mas é fácil saber por que isso acontece. Todos os vícios menores vêm do diabo quando trabalha sobre o nosso lado animal. Este vício, porém, não nasce em absoluto da nossa natureza animal. Vem diretamente do infer­no. E puramente espiritual: conseqüentemente, muito mais sutil e perigoso. Pela mesma razão, o orgulho é usa­do com freqüência para vencer os vícios mais simples. Os professores, que sabem disso, apelam costumeiramente para o orgulho dos meninos, ou, como dizem, para seu amor-próprio, a fim de fazê-los comportar-se direito. Mais de um homem conseguiu superar a covar­dia, a luxúria ou o mau humor pela crença inculcada de que tudo isso estava abaixo da sua dignidade. Ou seja, venceram pelo orgulho. O diabo ri às gargalhadas. Fica satisfeitíssimo de nos ver castos, corajosos e controla­dos desde que, em troca, prepare para nós uma Dita­dura do Orgulho. Do mesmo modo, ele ficaria contente de curar as frieiras dos nossos pés se pudesse, em troca, nos deixar com câncer. O orgulho é um câncer espiri­tual: ele corrói a possibilidade mesma do amor, do con­tentamento e até do bom senso.

Antes de sair deste assunto, é bom me resguardar de certos mal-entendidos:

(1) O prazer do elogio não é orgulho. A criança que recebe um tapinha nas costas por fazer bem o dever de casa, a mulher cuja beleza é elogiada pelo marido, a alma salva para quem Cristo diz "Muito bem": todos ficam contentes, e têm todo o direito de ficar. Em cada uma dessas situações, as pessoas não se comprazem naquilo que são, mas no fato de terem agradado a alguém que (pelos motivos corretos) queriam agradar. O problema começa quando você deixa de pensar "Eu o agradei: tudo está bem", e substitui esse pensamento por outro: "Eu sou mesmo uma pessoa magnífica por ter feito isso." Quanto mais você se compraz em si mesmo e menos no elogio, pior você fica. Quando todo o seu deleite vem de você mesmo e você não se importa mais com o elogio, chegou ao fundo do poço. É por isso que a vaidade, em­bora seja o tipo de orgulho mais visível no exterior, é também o menos grave e mais facilmente perdoável. A pessoa vaidosa deseja demais o elogio, o aplauso, a ad­miração, e está sempre em busca dessas coisas. É um de­feito - mas é um defeito quase infantil e (estranhamen­te) bastante modesto. Demonstra que a pessoa não está inteiramente satisfeita com a admiração que nutre por si mesma. Levando em conta a opinião alheia, ela mos­tra que ainda valoriza um pouco as outras pessoas. Em resumo, ela ainda é humana. O orgulho diabólico nas­ce quando desprezamos tanto os outros que não mais le­vamos em consideração o que pensam de nós. Eviden­temente, é corretíssimo, e às vezes é nosso dever, não nos importar com a opinião dos outros, mas sempre pelo motivo correto, ou seja, porque nos importamos infi­nitamente mais com a opinião de Deus. Já o homem orgulhoso tem um motivo diferente para não se impor­tar. Ele pensa: "Por que devo me importar com o aplau­so da plebe se a opinião dela não vale nada? Mesmo se valesse, não sou de ficar corado por causa de um cumpri­mento como se fosse uma mocinha em seu primeiro baile. Não; sou dono de uma personalidade adulta e integrada. Tudo o que fiz foi para satisfazer meus pró­prios ideais - ou minha consciência artística — ou minha tradição familiar - ou, resumindo, porque Eu Sou O Tal. Se a turba gosta ou não, o problema é dela. Ela não vale nada para mim." Dessa maneira, o orgulho plena­mente desenvolvido pode até coibir a vaidade; como eu disse agora há pouco, o diabo adora "curar" um de­feito menor com um maior. Devemos nos esforçar para não sermos vaidosos, mas não devemos jamais nos valer do orgulho para curar a vaidade.

  1. Dizemos, em inglês [ou em português], que um homem tem "orgulho" de seu filho, de seu pai, de sua escola, de seu regimento. Podemos nos perguntar se, nes­se caso, o "orgulho" é um pecado. Acho que isso depende do que queremos dizer com "ter orgulho de algo". Com muita freqüência, essa expressão significa "ter uma calo­rosa admiração por algo ou alguém". Tal admiração, evi­dentemente, está bem distante do pecado. Mas talvez sig­nifique que a pessoa "empine o nariz" por ter um pai ilus­tre ou pertencer a um regimento famoso. Isso com certe­za é um defeito; mesmo nesse caso, entretanto, é melhor isso que ter orgulho de si mesmos. Amar e admirar algo exterior a nós mesmos é um passo para longe da ruína espiritual, desde que esse amor e admiração não sobre­pujem o que sentimos por Deus.

  2. Não devemos julgar que Deus proibiu o orgu­lho porque ele o ofende, ou que a humildade nos foi prescrita por causa de sua dignidade — como se o próprio Deus fosse orgulhoso. Ele não está nem um pouco preocupado com sua dignidade. A questão é simples: ele quer que nós o conheçamos, quer se doar para nós. O ser humano e ele são feitos de tal modo que, no mo­mento em que efetivamente entramos em contato com ele, nos sentimos de fato humildes: deliciosamente hu­mildes, aliviados de uma vez por todas do fardo das fal­sas crenças sobre nossa dignidade, que só serviam para nos deixar desassossegados e infelizes. Deus tenta nos tornar humildes para que esse momento seja possível: o momento de lançarmos fora a tola e horrenda fantasia com que nos adornamos e que nos entravava os movi­mentos, enquanto a exibíamos por aí feito idiotas. Gos­taria de ter mais experiência da humildade. Assim, pro­vavelmente poderia falar mais sobre o alívio e o consolo de despir essa fantasia - de lançar fora esse falso eu, com todos os seus "Olhem para mim" e "Eu sou um bom menino, não sou?", todas as suas poses e falsas postu­ras. O mero fato de estar próximo disso, ainda que por um breve momento, é tão reconfortante quanto um gole de água fresca no deserto.

    (4) Não pense que, se você conhecer um homem verdadeiramente humilde, ele será o que as pessoas cha­mam de "humilde" hoje em dia: não será nem uma pes­soa submissa ou bajuladora, que vive lhe dizendo que não é nada. Provavelmente, o que você vai pensar dele é que se trata de um camarada animado e inteligente, que realmente se interessou pelo que você tinha a lhe di­zer. Se você não simpatizar com ele, será porque sente um pouco de inveja de alguém que parece contentar-se tão facilmente com a vida. Ele não estará pensando so­bre a humildade; não estará pensando em si mesmo de modo algum.

    Se alguém quer adquirir a humildade, creio poder dizer-lhe qual é o primeiro passo: é reconhecer o pró­prio orgulho. Aliás, é um grande passo. O mínimo que se pode dizer é que, se ele não for dado, nada mais po­derá ser feito. Se você acha que não é presunçoso, isso sig­nifica que você é presunçoso demais.

     

A CARIDADE

Eu disse num capítulo anterior que existem quatro virtudes "cardeais" e três "teológicas". As virtudes teoló­gicas são a fé, a esperança e a caridade. Trataremos da fé nos últimos dois capítulos. A caridade foi exposta par­cialmente no Capítulo 7, em que tratei sobretudo daquela parte dela que se chama perdão. Quero acrescentar ago­ra mais algumas palavras.

Em primeiro lugar, quanto ao significado da palavra. "Caridade" hoje significa simplesmente o que antes se chamava "esmola" — ou seja, o que damos para os po­bres. Originalmente, seu significado era muito mais am­plo. (Você vai entender por que ela ganhou essa acepção moderna: se uma pessoa é "caridosa", dar esmolas aos pobres é uma das coisas mais óbvias que ela faz, e, assim, as pessoas passaram a dar a esse ato o nome da própria virtude. A mesma coisa aconteceu com a poesia, cuja expressão mais óbvia é a rima. Ora, para a maioria das pessoas, hoje, a "rima" é a própria poesia.) A caridade sig­nifica "amor no sentido cristão". Mas o amor no sentido cristão não é uma emoção. Não é um estado do senti­mento, mas da vontade: aquele estado da vontade que temos naturalmente com a nossa pessoa, mas devemos aprender a ter com as outras pessoas.

No capítulo sobre o perdão, observei que o amor que temos por nós mesmos não implica simpatia por nós mesmos. Significa que queremos nosso próprio bem. Do mesmo modo, o amor cristão (ou caridade) em re­lação ao próximo é bem diferente da afinidade ou da afeição. Nós temos "afinidade" ou "afeição" em relação a algumas pessoas, mas não a outras. E importante en­tender que essa "afinidade" ou "gosto" não é nem um pe­cado nem uma virtude, como tampouco o são nossas preferências pessoais de alimentação. É somente um fato. É claro, porém, que nossas atitudes em relação a esses gostos podem ser pecaminosas ou virtuosas.

A afeição natural pelas pessoas torna mais fácil a "ca­ridade" com elas. Por isso, normalmente temos o dever de estimular nossas afeições — de gostar dos outros tan­to quanto pudermos (da mesma maneira que, em geral, temos o dever de estimular em nós o gosto pelo exercí­cio físico ou por alimentos saudáveis) - não por ser em si esse gostar a virtude da caridade, mas por nos ajudar a alcançar esse fim. Por outro lado, é necessário tomar muitíssimo cuidado para que nosso afeto por alguém não nos torne pouco caridosos, ou até mesmo injustos, com outra pessoa. Existem inclusive casos em que nos­sas escolhas afetivas entram em conflito com a caridade em relação à própria pessoa de quem gostamos. Uma mãe extremosa, por exemplo, por causa de sua afeição na­tural, pode ser tentada a "mimar" o filho; ou seja, a dar vazão a seus impulsos afetivos à custa da verdadeira fe­licidade da criança mais tarde.

Normalmente, a afeição natural deve ser encorajada. No entanto, seria um erro pensar que o caminho para se obter a caridade consiste em sentar-se e tentar fabri­car bons sentimentos. Certas pessoas são "frias" por temperamento; isso pode ser um azar para elas, mas é tão pecaminoso quanto ter problemas de digestão — ou seja, não é pecado. Isso não lhes tira a oportunidade nem as exime do dever de aprender a caridade. A regra co­mum a todos nós é perfeitamente simples. Não perca tempo perguntando-se se você "ama" o próximo ou não; aja como se amasse. Assim que colocamos isso em prá­tica, descobrimos um dos maiores segredos. Quando você se comporta como se tivesse amor por alguém, logo começa a gostar dessa pessoa. Quando faz mal a alguém de quem não gosta, passa a desgostar ainda mais dessa pes­soa. Já se, por outro lado, lhe fizer um bem, verá que a aversão diminui. Existe, porém, uma exceção a essa re­gra. Se você lhe fizer um bem, não para agradar a Deus e obedecer à lei da caridade, mas para lhe mostrar como você é uma pessoa capaz de perdoar, para lhe deixar em dívida e para sentar-se à espera de manifestações de "gratidão", provavelmente vai decepcionar-se. (As pes­soas não são bobas: elas têm um olho clínico para to­das as formas de exibicionismo ou condescendência pa­ternalista.) Sempre, porém, que fizermos o bem ao pró­ximo por ser ele um "eu" igual a nós, criado por Deus, que deseja sua própria felicidade como nós desejamos a nossa, teremos aprendido a amá-lo um pouco mais ou, no mínimo, a desgostar dele um pouco menos.

Conseqüentemente, apesar de a caridade cristã pa­recer fria para as pessoas cujas cabeças estão cheias de sentimentalismo, e apesar de ser bem diferente da afeição, ela nos conduz a este sentimento. A diferença entre um cristão e um ímpio não é que este tem afeições e gos­tos pessoais ao passo que o cristão só tem a "caridade". O ímpio trata bem certas pessoas porque "gosta" delas; o cristão, tentando tratar a todos com bondade, tende a gostar de um número cada vez maior de pessoas no decorrer do tempo — inclusive de pessoas de quem ele não poderia imaginar que um dia fosse gostar.

A mesma lei espiritual funciona de maneira terrí­vel no sentido oposto. Pode ser que os alemães, de início, maltratassem os judeus porque os odiassem; depois, passaram a odiá-los ainda mais por tê-los maltratado. Quanto mais cruel você é, mais ódio você terá; quanto mais ódio tiver, mais cruel será - e assim para sempre, num círculo vicioso perpétuo.

O Bem e o Mal aumentam ambos à velocidade dos juros compostos. E por isso que as pequenas decisões que eu ou você tomamos todos os dias têm tanta im­portância. O menor gesto de bondade feito hoje garante a conquista de um ponto estratégico a partir do qual, em alguns meses, você poderá alcançar vitórias nunca sonhadas. Já uma concessão aparentemente trivial à luxúria ou à ira significa a perda de uma colina, de uma li­nha férrea ou de uma cabeça de ponte a partir das quais o inimigo poderá lançar um ataque que, de outro modo, seria inviável.

Alguns escritores usam a palavra "caridade" para de­signar não somente o amor cristão entre seres humanos, mas também o amor de Deus pelo homem e o amor do homem por Deus. As pessoas costumam preocupar-se mais com este último. Ouviram dizer que devem amar a Deus, mas elas não encontram esse amor dentro de si. O que devem fazer? A resposta é a mesma de antes. Aja como se você amasse. Não fique sentado tentando fabricar esse sentimento. Pergunte a si mesmo: "Se es­tivesse certo de que amasse a Deus, o que eu faria?" Quando encontrar a resposta, vá e faça.

No geral, o amor de Deus por nós é um tema mui­to mais seguro que o nosso amor por ele. Ninguém con­segue ter sempre o sentimento de devoção: e, mesmo que conseguisse, não são os sentimentos que mais im­portam a Deus. O amor cristão, seja para com Deus, seja para com os homens, é um assunto da vontade. Se nos esforçamos para obedecer à sua vontade, estamos cum­prindo o mandamento "Amarás o Senhor teu Deus". Ele nos dará o sentimento do amor se assim desejar. Não podemos criá-lo por nós mesmos nem podemos exigi-lo como se fosse um direito nosso. Porém, a grande coisa a se lembrar é que, apesar de nossos sentimentos irem e virem, o amor dele por nós não se altera. Não se des­gasta por causa dos nossos pecados nem por nossa in­diferença. Logo, é inflexível em sua determinação de que seremos curados desses pecados custe o que custar, seja para nós, seja para ele.

 

A ESPERANÇA

A esperança é uma das virtudes teológicas. Isso quer dizer que (ao contrário do que o homem moderno pen­sa) o anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou de auto-ilusão, mas uma das coi­sas que se espera do cristão. Não significa que se deve deixar o mundo presente tal como está. Se você estudar a história, verá que os cristãos que mais trabalharam por este mundo eram exatamente os que mais pensavam no outro mundo. Os apóstolos, que desencadearam a con­versão do Império Romano, os grandes homens que erigiram a Idade Média, os protestantes ingleses que abo­liram o tráfico de escravos - todos deixaram sua marca sobre a Terra precisamente porque suas mentes estavam ocupadas com o Paraíso. Foi quando os cristãos deixa­ram de pensar no outro mundo que se tornaram tão incompetentes neste aqui. Se você aspirar ao Céu, ga­nhará a Terra "de lambuja"; se aspirar à Terra, perderá ambos. Essa regra parece esquisita, mas pode-se obser­var algo semelhante em outros assuntos. A saúde é uma grande bênção, mas, no momento em que fazemos dela um dos nossos principais objetivos, nos tornamos hi­pocondríacos e passamos a imaginar que há algo de er­rado conosco. Só nos mantemos saudáveis na medida em que queremos outras coisas além da saúde: comida, jogos, trabalho, lazer, a vida ao ar livre. Do mesmo mo­do, nunca conseguiremos salvar a civilização enquanto for esse o nosso principal objetivo. Temos de aprender a querer outra coisa ainda mais do que queremos isso.

A maioria de nós acha muito difícil desejar o "Pa­raíso" - a não ser que por esse nome queiramos dizer o encontro com os amigos que já morreram. Uma das ra­zões dessa dificuldade é que não tivemos uma boa forma­ção: toda a educação atual tende a fixar nossa atenção neste mundo. Outra razão é que, quando o verdadeiro anseio pelo Paraíso está presente em nós, não o reconhe­cemos. A maior parte das pessoas, se tivesse aprendido a examinar profundamente seus corações, saberia que querem, e querem com veemência, algo que não pode ser alcançado neste mundo. Existem aqui coisas prazerosas de todo tipo que nos prometem isso que queremos, mas que nunca cumprem o prometido. Aquele anseio que nasce em nós quando nos apaixonamos pela primei­ra vez, quando pela primeira vez pensamos numa terra estrangeira, quando começamos a estudar um assunto que nos entusiasma, é um anseio que nenhum casamen­to, viagem ou estudo pode realmente satisfazer. Não es­tou falando aqui do que costumam chamar de casa­mentos infelizes, férias frustradas e carreiras fracassadas, mas sim das melhores possibilidades em cada um des­ses campos. Havia algo que vislumbramos no primeiro instante de encantamento e que simplesmente desapa­rece quando o anseio se torna realidade. Acho que todos sabem do que estou falando. A esposa pode ser uma boa esposa, os hotéis e a paisagem podem ter sido excelen­tes, e talvez a Química seja uma bela profissão: algo, po­rém, nos escapou. Ora, existem duas maneiras erradas, e uma certa, de lidar com esse fato.

(1) A Via do Tolo — Ele põe a culpa nas próprias coisas. Passa a vida toda a conjectutar que, se arranjasse outra mulher, fizesse uma viagem mais cara, ou seja lá o que for, conseguiria dessa vez capturar essa coisa mis­teriosa que todos nós procuramos. A maior parte dos ri­cos entediados e descontentes do nosso mundo são des­se tipo. Eles passam a vida toda pulando de uma mulher para outra (com a ajuda dos tribunais), de continente para continente, de passatempo para passatempo, sempre na esperança de que o último será, enfim, "a coisa certa", e sempre decepcionados.

  1. A Via do "Homem Sensato" Desiludido - Logo ele conclui que tudo não passava de conversa fiada. "E bem verdade", diz ele, "que, quando é jovem, a pessoa se sente assim. Quando chega à minha idade, porém, você desiste de buscar o fim do arco-íris." Então, ele se acomoda, aprende a não esperar muito da vida e repri­me a parte de si mesmo que, nas suas palavras, costuma­va "uivar para a lua". Essa é, sem dúvida, uma via bem melhor que a primeira; torna o homem mais feliz e não faz dele um problema para a sociedade. Tende a torná-lo um chato (sempre pronto a se achar superior diante dos que julga "adolescentes"), mas, de maneira geral, faz com que ele leve uma vida sem grandes sobressaltos. Seria a melhor opção se o homem não tivesse uma vida eter­na. Mas suponha que a felicidade infinita realmente exis­ta e esteja logo ali, à nossa espera. Suponha que real­mente seja possível alcançar o fim do arco-íris — nesse caso, seria uma pena descobrir tarde demais (imediata­mente após a morte) que, por causa do nosso suposto "bom senso", sufocamos em nós mesmos a faculdade de gozar dessa felicidade.

  2. A Via Cristã - Dizem os cristãos: "As criaturas não nascem com desejos que não podem ser satisfeitos. Um bebê sente fome: bem, existe o alimento. Um pati­nho gosta de nadar: existe a água. O homem sente o de­sejo sexual: existe o sexo. Se descubro em mim um dese­jo que nenhuma experiência deste mundo pode satis­fazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo. Se nenhum dos prazeres terrenos satis­faz esse desejo, isso não prova que o universo é uma tre­menda enganação. Provavelmente, esses prazeres não existem para satisfazer esse desejo, mas só para desper­tá-lo e sugerir a verdadeira satisfação. Se assim for, tenho de tomar cuidado, por um lado, para nunca desprezar as bênçãos terrenas nem deixar de ser grato por elas; por outro, para nunca tomá-las pelo 'algo a mais' do qual são apenas a cópia, o eco ou a miragem, Tenho de man­ter viva em mim a chama do desejo pela minha verda­deira terra natal, a qual só encontrarei depois da morte; e jamais permitir que ela seja arrasada ou caia no esque­cimento. Tenho de fazer com que o principal objetivo de minha vida seja buscar essa terra e ajudar as outras pessoas a buscá-la também."

    Não devemos nos preocupar com os irônicos que tentam ridicularizar a esperança cristã do "Paraíso" di­zendo que "não querem passar a eternidade tocando har­pa". A resposta que devemos dar a essas pessoas é que, se elas não entendem os livros que são escritos para adultos, não devem palpitar sobre eles. Todas as imagens das Escrituras (as harpas, as coroas, o ouro etc.) são, ob­viamente, uma tentativa simbólica de expressar o inexprimível. Os instrumentos musicais são mencionados porque, para muita gente (não todos), a música é o ob­jeto conhecido nesta vida que mais fortemente sugere o êxtase e a infinitude. A coroa é mencionada para nos dar a entender que todo aquele que estiver reunido com Deus na eternidade tem parte no seu esplendor, no seu poder e na sua alegria. O ouro é citado para nos dar a idéia da eternidade do Paraíso (o ouro não enferruja) e também da sua preciosidade. As pessoas que entendem esses sím­bolos literalmente poderiam também pensar que, quan­do Cristo nos exortou a ser como as pombas, quis dizer que deveríamos botar ovos.

     

 A FÉ

Devo falar neste capítulo sobre o que os cristãos entendem por fé. Grosso modo, a palavra "fé" é usada no cristianismo em dois sentidos, ou em dois níveis, e trata­rei primeiro de um deles e depois do outro. No primei­ro sentido, significa simplesmente a crença - aceitar ou considerar verdadeiras as doutrinas do cristianismo. Isso é bastante simples. O que provoca confusão nas pessoas - pelo menos provocava confusão em mim - é que os cristãos consideram a fé, nesse sentido, uma vir­tude. Eu queria saber como ela poderia ser uma virtu­de - o que existe de moral ou imoral em acreditar ou não acreditar num conjunto de princípios? Eu costuma­va dizer: é óbvio que todo homem são aceita ou rejeita uma determinada afirmação não por querer, mas por ha­ver provas que a confirmem ou refutem. Se ele se enga­nar sobre as provas, isso não fará dele um homem mau, apenas um homem não muito inteligente. Se ele achar que as provas indicam que a afirmação é falsa, e mesmo assim tentar acreditar nela, isso será mera estupidez.

Bem, ainda sou dessa opinião. O que eu não via en­tão — e muita gente ainda não vê — é o seguinte: eu supu­nha que, a partir do momento em que a mente huma­na aceita algo como verdadeiro, vai automaticamente continuar considerando-o verdadeiro até encontrar um bom motivo para reconsiderar essa opinião. Na verdade, eu partia do pressuposto de que a mente é completa­mente regida pela razão, o que não é verdade. Vou dar um exemplo. Minha razão tem motivos de sobra para acreditar que a anestesia geral não me asfixiará e que os cirurgiões só começarão a operar quando eu estiver com­pletamente sedado. Isso, porém, não altera o fato de que, quando eles me prendem na mesa da operação e me cobrem a face com sua tenebrosa máscara, um pânico infantil toma conta de mim. Começo a pensar que vou me asfixiar e que os médicos vão começar a cortar meu corpo antes que eu perca a consciência. Em outras pa­lavras, perco a fé na anestesia. Não é a razão que me faz perder a fé: pelo contrário, minha fé é baseada na razão. São, isto sim, a imaginação e as emoções. A batalha se dá entre a fé e a razão, de um lado, e as emoções e a ima­ginação, de outro.

Quando você pára para pensar, começa a lembrar de vários exemplos como esse. Um homem tem provas concretas de que aquela moça bonita é uma mentirosa, não sabe guardar segredos e, portanto, é alguém em quem não se deve confiar. Entretanto, no momento em que se vê a sós com ela, sua mente perde a fé no conhecimen­to que possuí e ele pensa: "Quem sabe desta vez ela seja diferente", e mais uma vez faz papel de bobo com ela, contando-lhe segredos que deveria guardar para si. Seus sentidos e emoções destruíram-lhe a fé em algo que ele sabia ser verdadeiro. Ou tomemos o exemplo do garo­to que aprende a nadar. Ele sabe perfeitamente bem que o corpo não vai necessariamente afundar na água: já viu dezenas de pessoas boiando e nadando. Mas a ques­tão principal é se ele continuará crendo nisso quando o instrutor tirar a mão, deixando-o sozinho na água -ou se vai repentinamente deixar de acreditar, entrar em pânico e afundar.

A mesma coisa acontece no cristianismo. Não que­ro que ninguém o aceite se, na balança da sua razão, as provas pesarem contra ele. Não é aí que entra a fé. Va­mos supor, entretanto, que a razão de um homem deci­da a favor do cristianismo. Posso prever o que vai acon­tecer com esse sujeito nas semanas seguintes. Chegará um momento em que receberá más notícias, terá pro­blemas ou será obrigado a conviver com pessoas descren­tes; nesse momento, de repente, suas emoções se insur­girão e começarão a bombardear sua crença. Haverá, além disso, momentos em que desejará uma mulher, sentir-se-á propenso a contar uma mentira, ficará vaidoso de si mesmo ou buscará uma oportunidade para ganhar um dinheirinho de maneira não totalmente lícita; nes­ses momentos, seria muito conveniente que o cristianis­mo não fosse a verdade. Mais uma vez, suas emoções e desejos serão artilharia pesada contra ele. Não estou fa­lando de momentos em que ele venha a descobrir no­vas razões contrárias ao cristianismo. Essas razões têm de ser enfrentadas, e isso, de qualquer modo, é um assunto completamente diferente. Estou falando é dos meros sentimentos que se insurgem contra ele.

A fé, no sentido em que estou usando a palavra, é a arte de se aferrar, apesar das mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou. Pois o humor sempre há de mudar, qualquer que seja o ponto de vista da razão. Agora que sou cristão, há dias em que tudo na religião parece muito improvável. Quando eu era ateu, porém, passava por fases em que o cristianismo parecia probabilíssimo. A rebelião dos humores contra o nosso eu ver­dadeiro virá de um jeito ou de outro. E por isso que a fé é uma virtude tão necessária: se não colocar os humores em seu devido lugar, você não poderá jamais ser um cristão firme ou mesmo um ateu firme; será apenas uma criatura hesitante, cujas crenças dependem, na ver­dade, da qualidade do clima ou da sua digestão naque­le dia. Conseqüentemente, temos de formar o hábito da fé.

O primeiro passo para que isso aconteça é reco­nhecer que os sentimentos mudam. O passo seguinte, se você já aceitou o cristianismo, é garantir que algumas de suas principais doutrinas sejam mantidas deliberadamente diante dos olhos de sua mente por alguns mo­mentos do dia, todos os dias. É por esse motivo que as orações diárias, as leituras religiosas e a freqüência aos cultos são partes necessárias da vida cristã. Temos de nos recordar continuamente das coisas em que acreditamos. Nem essa crença nem nenhuma outra podem perma­necer vivas automaticamente em nossa mente. Têm de ser alimentadas. Aliás, se examinarmos um grupo de cem pessoas que perderam a fé no cristianismo, me pergun­to quantas delas o terão abandonado depois de conven­cidas por uma argumentação honesta. Não é verdade que a maior parte das pessoas simplesmente se afasta, como que levadas pela correnteza?

Volto-me agora para a fé no seu segundo sentido, o mais elevado: será o assunto mais difícil de que terei tratado até aqui. Para abordá-lo, retorno ao tópico da humildade. Você há de se lembrar que eu disse que o primei­ro passo em direção à humildade era dar-se conta do próprio orgulho. Acrescento agora que o segundo passo consiste em empenhar um esforço dedicado para pra­ticar as virtudes cristãs. Uma semana não basta. As coisas vão de vento em popa na primeira semana. Experimen­te seis semanas. Até lá, depois de sucumbir e voltar à estaca zero, ou ter decaído para um ponto ainda inferior, teremos descoberto algumas verdades a respeito de nós mesmos. Nenhum homem sabe realmente o quanto é mau até se esforçar muito para ser bom. Circula por aí a idéia tola de que as pessoas virtuosas não conhecem as tentações. Trata-se de uma mentira deslavada. Só os que tentam resistir às tentações sabem quão fortes elas são. Afinal de contas, para conhecer a força do exército alemão, temos de enfrentá-lo, e não entregar as armas. Para conhecer a intensidade do vento, temos de andar contra ele, e não deitar no chão. Um homem que cede à tentação em cinco minutos não tem a menor idéia de como ela seria uma hora depois. Por esse motivo, as pes­soas más, em certo sentido, sabem muito pouco a respei­to da maldade. Na medida em que sempre se rendem, levam uma vida protegida. É impossível conhecer a for­ça do mal que se esconde em nós até o momento em que decidimos enfrentá-lo; e Cristo, por ter sido o úni­co homem que nunca caiu em tentação, é também o único que conhece a tentação em sua plenitude - o mais realista de todos os homens. Pois bem. A principal coi­sa que aprendemos quando tentamos praticar as virtu­des cristãs é que fracassamos. Se tínhamos a idéia de que Deus nos impunha uma espécie de prova na qual po­deríamos merecer passar por tirar boas notas, essa idéia tem de ser eliminada. Se tínhamos a idéia de uma es­pécie de barganha — a idéia de que poderíamos cum­prir a parte que nos cabe no contrato e deixar Deus em dívida conosco, de tal modo que, por uma questão de justiça, ele ficasse obrigado a cumprir a parte dele —, ela deve ser eliminada também.

Creio que quantos possuem uma vaga crença em Deus acreditam, até se tornarem cristãos, nessa idéia da prova ou da barganha. O primeiro resultado do verdadei­ro cristianismo é o de reduzir essa idéia a pó. Quando a vêem reduzida a pó, certas pessoas chegam à conclusão de que o cristianismo é um embuste e dele desistem. Essa gente parece imaginar que Deus é extremamente simpló­rio. Na verdade, ele sabe de tudo isso. Uma das intenções do cristianismo é justamente reduzir essa idéia a pó. Deus está à espera do momento em que você vai descobrir que jamais conseguirá tirar a nota mínima para passar nesse exame, e não poderá jamais deixá-lo em dívida.

Com isso vem outra descoberta. Todas as faculdades que você possui, sua faculdade de pensar ou de mover os membros a cada momento, lhe são dadas por Deus. Mesmo se dedicasse cada momento de sua vida exclusi­vamente ao seu serviço, você não poderia dar-lhe nada que, em certo sentido, já não lhe pertencesse. Logo, quando uma pessoa diz que faz algo para Deus ou lhe dá algo, é como se fosse uma criança pequena que inter­pelasse o pai e lhe pedisse: "Papai, me dê cinqüenta cen­tavos para lhe comprar um presente de aniversário." E claro que o pai dá o dinheiro e fica contente com o ges­to do filho. Tudo é muito bonito e muito correto, mas só um imbecil acharia que o pai lucrou cinqüenta cen­tavos com a transação. Quando o homem descobre es­sas duas coisas, Deus pode realmente começar a agir. E depois disso que a verdadeira vida começa. O homem agora está desperto. Podemos passar a discorrer sobre o segundo sentido da palavra "fé".

 

Vou começar por dizer algo em que gostaria que to­dos prestassem a máxima atenção. E o seguinte. Se este. capítulo não significar nada para você, se ele der a im­pressão de procurar responder a perguntas que você nun­ca fez, largue-o imediatamente. Não se amofine por causa dele. Existem coisas no cristianismo que podem ser compreendidas mesmo por quem está de fora, por quem ainda não é cristão; existe, por outro lado, um grande número de coisas que só podem ser compreen­didas por quem já percorreu um certo trecho da estra­da cristã. São coisas puramente práticas, embora não o pareçam. São instruções de como lidar com certas en­cruzilhadas e obstáculos da jornada, instruções que não têm sentido até que a pessoa esteja diante deles. Sem­pre que você deparar com uma frase de um escrito cristão que você não seja capaz de compreender, não se aborre­ça. Deixe-a de lado. Virá um dia, talvez anos mais tarde, em que você subitamente entenderá o que ela queria di­zer. Se não consegue entendê-la agora, é porque ela só lhe faria mal.

E claro que isso diz respeito não só aos outros, mas a mim também. O que tentarei explicar neste capítulo talvez esteja muito acima da minha compreensão. E pos­sível que eu pense que já tenha chegado lá, mas na rea­lidade não tenha. Só posso pedir aos cristãos instruídos que ouçam com muita atenção o que digo e me avisem se estiver errado; quanto aos outros, que aceitem com cautela o que for dito - como algo que ofereço por pen­sar que pode ajudar, não por ter a certeza de estar com a razão.

Estou tentando falar sobre a fé nesse segundo sen­tido, o mais elevado. Disse há pouco que essa questão surge no homem depois que ele tentou ao máximo pra­ticar as virtudes cristãs, constatou-se incapaz e chegou à conclusão de que, mesmo que tivesse conseguido, não estaria oferecendo a Deus nada que já não lhe per­tencesse. Em outras palavras, ele descobre que está fa­lido. E bom repetir: o que importa para Deus não são nossas ações enquanto tais. O que lhe importa é que sejamos criaturas de determinado tipo ou qualidade — o tipo de criaturas que ele tencionava que fôssemos quan­do nos criou -, vinculadas a ele de uma determinada maneira. Não acrescento "e vinculados uns aos outros", porque isso é uma conseqüência natural. Se você tem a atitude correta diante de Deus, inevitavelmente terá a ati­tude correta diante do próximo, da mesma forma que, quando os raios de uma roda estão bem encaixados no cubo e no aro, inevitavelmente guardam as distâncias corretas entre si. E, enquanto o homem concebe Deus como uma espécie de examinador que nos passa uma prova, ou como a outra parte numa espécie de barga­nha em que cada parte tem seus direitos e obrigações, não está ainda com a atitude correta diante de Deus. Não sabe nem o que ele é nem o que é Deus, e só poderá ter a atitude correta quando descobrir que está falido.

Quando digo "descobrir", quero dizer exatamente isso: não é o mesmo que repetir palavras como um pa­pagaio. Qualquer criança que tenha recebido a educa­ção cristã mais elementar aprende rapidamente que o homem não tem nada a oferecer a Deus que já não seja dele, e que nem isso conseguimos oferecer sem surru­piar uma parte para nós. Mas estou falando de uma des­coberta real, advinda da experiência pessoal.

Nesse sentido, só podemos descobrir que somos in­capazes de cumprir a Lei de Deus depois de tentar cumpri-la com todas as nossas forças (e fracassar em seguida). Se não tentarmos, continuaremos pensando em nosso íntimo que, se nos esforçarmos mais na próxima vez, conseguiremos ser completamente bons. Assim, em cer­to sentido, a estrada que nos leva de volta a Deus é a do esforço moral, a via da auto-superação. Mas, em outro sentido, não é o esforço que nos levará para casa. Toda a força que fazemos nos conduz ao momento crucial em que nos voltamos para Deus e lhe dizemos: "O Se­nhor tem de fazer isso. Não consigo." Imploro que vo­cês não comecem a se perguntar: "Será que já cheguei a esse momento?" Não fique sentado esperando, obser­vando a própria mente para ver se o momento está che­gando. Isso o levará a tomar o bonde errado. Quando acontecem as coisas mais importantes da vida, nem sem­pre nos damos conta do que está ocorrendo. A pessoa não pára de repente e diz para si mesma: "Opa, estou crescendo!" Em geral, é só quando olha para trás que percebe o que aconteceu e reconhece que é isso que as pessoas chamam de "crescer". Isso pode ser notado até nos assuntos mais prosaicos. O homem que começa a querer saber se vai conseguir dormir ou não, com toda probabi­lidade vai passar a noite em claro. Além disso, o fenôme­no de que estou falando pode não ocorrer de repente, como ocorreu com o apóstolo Paulo ou Bunyan. Pode se dar de forma tão gradual que ninguém consiga apontar uma hora específica, ou mesmo o ano em que acon­teceu. O que interessa é a natureza da mudança em si, e não como nos sentimos quando ela ocorre. É a mudan­ça do sentimento de confiança em nossos próprios es­forços para um estado em que nos desesperamos com­pletamente e deixamos tudo nas mãos de Deus.

Sei que as palavras "deixar tudo nas mãos de Deus" podem ser entendidas de forma errada, mas vamos dei­xá-las assim por enquanto. O sentido em que um cristão deixa tudo nas mãos de Deus é que ele deposita toda a sua confiança em Cristo: confia em que, de alguma for­ma, Cristo vai dividir sua obediência humana perfeita com ele, obediência que Cristo carregou consigo do nascimento à crucificação. Cristo fará do homem uma imagem de si, compensando, de certa forma, suas de­ficiências. Na linguagem cristã, ele repartirá a sua "fi­liação", fará de nós "filhos de Deus", como ele mesmo; no Livro IV, farei um esforço para analisar o significa­do dessas palavras com mais profundidade. Se lhe agrada colocar as coisas sob essa perspectiva, Cristo nos oferece algo por nada; na verdade, oferece tudo por nada. Num sentido, toda a vida cristã se baseia em aceitar essa ofer­ta extraordinária. A dificuldade está em chegar ao pon­to de reconhecer que tudo o que fazemos e podemos fazer se resume a nada. Gostaríamos que a coisa fosse diferente, que Deus contasse nossos pontos bons e ignorasse os ruins. Ou senão, num certo sentido, podemos dizer que nenhuma tentação pode ser superada se não desistirmos de superá-la - se não jogarmos a toalha. Por outro lado, ninguém poderia "parar de tentar" da for­ma correta e pelas razões corretas se antes não tentasse com todas as suas forças. E, num outro sentido ainda, é claro que deixar tudo nas mãos de Cristo não signifi­ca que devemos parar de nos esforçar. Confiar nele sig­nifica tentar fazer tudo o que ele disse. Não há sentido em dizer que confiamos em tal pessoa se não aceitamos seus conselhos. Logo, se você realmente se entregou nas mãos dele, conclui-se daí que está tentando obedecer-lhe. No entanto, está tentando de uma forma nova, menos preocupada. Não está fazendo essas coisas para ser sal­vo, mas porque ele já começou a salvá-lo. Não está es­perando ganhar o Paraíso como recompensa das suas ações, mas quer inevitavelmente agir de uma determi­nada forma porque já tem dentro de si os primeiros e tênues vislumbres do Paraíso.

Os cristãos sempre tiveram o costume de polemi­zar sobre o que conduz o cristão à sua morada: se as boas ações ou se a fé em Cristo. Na verdade, não tenho o direito de falar sobre um assunto tão difícil, mas me parece que é como perguntar qual das lâminas de uma tesoura é a mais importante. O esforço moral sério é a única coisa que pode nos conduzir ao ponto de jogar a toalha. A fé em Cristo é a única coisa que pode nos sal­var do desespero nesse ponto: e, dessa fé, é inevitável que surjam boas ações. No passado, alguns grupos cris­tãos acusaram outros grupos cristãos de parodiar a ver­dade de duas formas. O exagero das situações talvez ajude a tornar a verdade mais clara. Um dos grupos era acusado de dizer: "As boas ações são tudo o que interessa. A melhor das boas ações é a caridade. O melhor tipo de caridade é dar dinheiro. A melhor forma de dar di­nheiro é fazer uma doação para a Igreja. Logo, faça uma doação de 10.000 libras e garantiremos sua entrada na vida eterna." A resposta a esse absurdo é que as ações feitas com essa intenção, com a idéia de que o Paraíso pode ser comprado, não são boas ações de forma alguma, mas somente especulações comerciais. Outro grupo era acusado de dizer: "A fé é tudo o que importa. Logo, se você tem fé, não importam as suas ações. Peque à von­tade, meu filho, divirta-se a valer, que para Jesus Cristo não vai fazer a mínima diferença no final." A resposta a esse absurdo é que, se o que você chama de "fé" em Cris­to não implica dar atenção ao que ele disse, ela não é fé de maneira alguma — nem Fé nem confiança, mas ape­nas a aceitação mental de alguma teoria a seu respeito.

A Bíblia encerra a discussão quando junta as duas coisas numa única sentença admirável. A primeira me­tade diz: "Ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor" - o que dá a idéia de que tudo depende de nós e de nossas boas ações; mas a segunda metade complementa: "Pois é Deus que efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar" - o que dá a idéia de que Deus faz tudo e nós, nada. Esse é o tipo de coisa com a qual nos defrontamos no cristianismo. Fico perplexo, mas não surpreso. Veja você, estamos tentando compreender e separar em compartimentos estanques o que Deus faz e o que o homem faz quando se põem a trabalhar juntos. É claro que a nossa concepção inicial desse trabalho é a de dois homens que atuam em conjunto, de quem poderíamos dizer: "Ele fez isto e eu, aquilo." Porém, essa maneira de pensar não se sustenta. Deus não é as­sim. Não está só fora de você, mas também dentro: mes­mo que pudéssemos compreender quem fez o quê, não creio que a linguagem humana pudesse expressá-lo de forma apropriada. Na tentativa de expressar essa verdade, as diferentes igrejas dizem coisas diversas. Você há de cons­tatar, porém, que mesmo as que mais insistem na im­portância das boas ações lhe dirão que você precisa ter fé; e as que mais insistem na fé lhe dirão para praticar boas ações. Neste assunto, não me arrisco a ir mais longe. • Creio que todos os cristãos concordariam comigo se eu dissesse que, apesar de o cristianismo, num primeiro momento, dar a impressão de só se preocupar com a mo­ral, com deveres, regras, culpa e virtude, ele nos leva além, para fora de tudo isso e para algo completamente dife­rente. Vislumbramos então um país cujos habitantes não falam dessas coisas, a não ser, talvez, como piada. Todos eles são repletos do que chamaríamos de bondade, co­mo um espelho é repleto de luz. Eles mesmos, porém, não chamam isso de bondade. Não o chamam por nome algum. Não pensam a respeito desse assunto, pois estão ocupados demais em contemplar a fonte de onde isso provém. Mas nos aproximamos aí do ponto em que a estrada cruza o limiar deste nosso mundo. Nenhum olhar pode enxergar muito além disso; muitos olhares podem enxergar bem mais longe que o meu.

 

ALÉM DA PERSONALIDADE  OU OS PRIMEIROS PASSOS NA DOUTRINA DA TRINDADE

 

CRIAR E GERAR

Todos me aconselharam a não lhes dizer o que vou dizer neste último livro. Afirmam: "O leitor comum não quer saber de Teologia; dê-lhe somente a religião sim­ples e prática." Rejeitei o conselho. Não acho que o lei­tor comum seja um tolo. Teologia significa "a Ciência de Deus", e creio que todo homem que pensa sobre Deus gostaria de ter sobre ele a noção mais clara e mais pre­cisa possível. Vocês não são crianças: por que, então, lhes tratar como tal?

Em certo sentido, até compreendo por que algumas pessoas se sentem desconcertadas ou até incomodadas pela Teologia. Lembro-me de certa ocasião em que dava uma palestra para os pilotos da R.A.F. e um oficial velho e rijo levantou-se e disse: "Nada disso tem serventia para mim. Mas saiba que também sou um homem re­ligioso. Sei que existe um Deus. Sozinho no deserto, à noite, já senti a presença dele: o tremendo mistério. E é exatamente por isso que não acredito em todas essas fórmulas e esses dogmas a respeito dele. Para qualquer um que tenha conhecido a realidade, todos eles pare­cem mesquinhos, pedantes e irreais."

Ora, num sentido, até concordo com esse homem. Creio que ele provavelmente teve uma experiência real de Deus no deserto. Quando se voltou da experiência para o credo cristão, acho que realmente passou de algo real para algo menos real. Da mesma maneira, um ho­mem que já viu o Atlântico da praia e depois olha um mapa do Atlântico também está trocando a coisa real pela menos real: troca as ondas de verdade por um peda­ço de papel colorido. Mas é exatamente essa a questão. Admito que o mapa não passa de uma folha de papel colorido, mas há duas coisas que devemos lembrar a seu respeito. Em primeiro lugar, ele se baseia nas experiên­cias de centenas ou milhares de pessoas que navegaram pelas águas do verdadeiro oceano Atlântico. Dessa for­ma, tem por trás de si uma massa de informações tão reais quanto a que se pode ter da beira da praia; com a diferença que, enquanto a sua é um único relance, o ma­pa abarca e colige todas as experiências de diversas pes­soas. Em segundo lugar, se você quer ir para algum lugar, o mapa é absolutamente necessário. Enquanto você se contentar com caminhadas à beira da praia, seus vis­lumbres serão mais divertidos que o exame do mapa; mas o mapa será de mais valia que uma caminhada pela praia se você quiser ir para os Estados Unidos.

A Teologia é como o mapa. O simples ato de apren­der e pensar sobre as doutrinas cristãs, considerado em si mesmo, é sem dúvida menos real e menos instigante do que o tipo de experiência que meu amigo teve no de­serto. As doutrinas não são Deus, são como um mapa. Esse mapa, porém, é baseado nas experiências de cen­tenas de pessoas que realmente tiveram contato com Deus — experiências diante das quais os pequenos frêmi­tos e sentimentos piedosos que você e eu podemos ter não passam de coisas elementares e bastante confusas. Além disso, se você quiser progredir, precisará desse mapa. Note que o que aconteceu com aquele homem no de­serto pode ter sido real e certamente foi emocionante, mas não deu em nada. Não levou a lugar nenhum. Não há nada que possamos fazer. Na verdade, é justamente por isso que uma religiosidade vaga — sentir Deus na natureza e assim por diante — é tão atraente. Ela é toda baseada em sensações e não dá trabalho algum: é como mirar as ondas da praia. Você jamais alcançará o Novo Mundo simplesmente estudando o Atlântico dessa ma­neira, e jamais alcançará a vida eterna sentindo a presença de Deus nas flores ou na música. Também não che­gará a lugar algum se ficar examinando os mapas sem fazer-se ao mar. E, se fizer-se ao mar sem um mapa, não estará seguro.

Em outras palavras, a Teologia é uma questão prá­tica, especialmente hoje em dia. No passado, quando havia menos instrução formal e menos discussões, talvez fosse possível passar com algumas poucas idéias sim­ples sobre Deus. Hoje não é mais assim. Todo mundo lê, todo mundo presta atenção a discussões. Conseqüen­temente, se você não der atenção à Teologia, isso não significa que não terá idéia alguma sobre Deus. Significa que terá, isto sim, uma porção de idéias erradas — idéias más, confusas, obsoletas. A imensa maioria das idéias que são disseminadas como novidades hoje em dia são as que os verdadeiros teólogos testaram vários séculos atrás e rejeitaram. Acreditar na religião popular moderna da Inglaterra é a mesma coisa que acreditar que a Terra é plana — um retrocesso.

Pois, na prática, a idéia popular de cristianismo é sim­plesmente esta: Jesus Cristo foi um grande mestre da moral e, se seguíssemos seus conselhos, conseguiríamos estabelecer uma ordem social melhor e evitar uma nova guerra. Saiba que isso tem seu fundo de verdade. Mas é muito menos que a verdade integral do cristianismo, e na realidade não tem importância prática alguma.

E verdade que, se seguíssemos os conselhos de Cris­to, viveríamos em breve num mundo mais feliz. Nem precisaríamos ir tão longe: se déssemos ouvidos ao que disseram Platão, Aristóteles ou Confúcio, estaríamos muito melhor do que estamos. E daí? Nunca seguimos os conselhos dos grandes mestres. Por que começaría­mos a segui-los agora? E por que estaríamos mais dis­postos a ouvir a Cristo que aos outros? Porque ele é o melhor mestre da moral? Com isso, é ainda menos pro­vável que o sigamos. Se não conseguimos aprender nem as lições elementares, como passaremos às mais adian­tadas? Se o cristianismo não passa de mais um bocado de conselhos, ele não tem importância nenhuma. Não nos faltaram bons conselhos nos últimos quatro mil anos. Um pouquinho mais não faz diferença.

No entanto, logo que nos debruçamos sobre os verdadeiros escritos cristãos, vemos que eles falam de algo inteiramente diferente dessa religião popular. Di­zem que Cristo é o Filho de Deus (o que quer que isso signifique). Dizem que os que nele depositam sua con­fiança podem também tornar-se filhos de Deus (o que quer que isso signifique). E dizem ainda que sua mor­te nos salvou de nossos pecados (o que quer que isso signifique).

Não adianta reclamar que essas afirmações são difí­ceis. O cristianismo pretende falar-nos de um outro mundo, de algo que está por trás do mundo que podemos ver, ouvir e tocar. Você pode até pensar que essa preten­são é falsa, mas, se for verdadeira, o que o cristianismo nos diz será necessariamente difícil — pelo menos tão di­fícil quanto a Física moderna, e pela mesma razão.

O ponto mais chocante do cristianismo é a afirma­ção de que, quando nos ligamos a Cristo, podemos nos tornar "filhos de Deus". Alguém pergunta: "Mas já não so­mos filhos de Deus? A paternidade de Deus não é uma das idéias principais do cristianismo?" Bem, em certo sen­tido não há dúvida de que já somos filhos de Deus. Ou seja, Deus nos trouxe à existência, nos ama e cuida de nós, como um pai. Mas, quando a Bíblia fala que podemos "nos tornar" filhos de Deus, obviamente quer dar a en­tender algo diferente. E isso nos leva para o próprio co­ração da Teologia.

Um dos credos diz que Cristo é o Filho de Deus "ge­rado, não criado"; e acrescenta: "Gerado pelo Pai antes de todos os mundos." Por favor, ponha na sua cabeça que isto não tem nada que ver com o fato de que, quan­do Cristo nasceu na terra como homem, foi filho de uma virgem. Não estamos falando aqui do nascimento virginal, mas de algo que aconteceu antes que a natu­reza fosse criada, antes que o próprio tempo existisse. "Antes de todos os mundos" Cristo é gerado, não criado. O que isso significa?

Não usamos mais as palavras begetting e begotten[22]no inglês moderno, mas todo o mundo ainda sabe o que elas significam. Gerar (to beget) é ser pai de alguém; criar (to create) é fazer, construir algo. A diferença é a seguinte: na geração, o que foi gerado é da mesma espécie que o gera­dor. Um homem gera bebês humanos, um castor gera castorzinhos e um pássaro gera ovos de onde sairão ou­tros passarinhos. Mas, quando fazemos algo, esse algo é de uma espécie diferente. Um pássaro faz um ninho, um castor constrói uma represa, um homem faz um aparelho de rádio - ou talvez algo um pouco mais parecido consi­go mesmo que um rádio: uma estátua, por exemplo. Se for um escultor habilidoso, sua estátua se parecerá muito com um homem. Mas é claro que não será um homem de verdade; terá somente a aparência. Não poderá pensar nem respirar. Não tem vida.

Esse é o primeiro ponto que devemos deixar claro. O que Deus gera é Deus, assim como o que o homem gera é homem. O que Deus cria não é Deus, assim como o que o homem faz não é homem. É por isso que os ho­mens não são filhos de Deus no mesmo sentido em que Cristo o é. Podem se parecer com Deus em certos aspec­tos, mas não são coisas da mesma espécie. Os homens são mais semelhantes a estátuas ou quadros de Deus.

A estátua tem a forma de um homem, mas não tem vida. Da mesma maneira, o homem tem (num sentido que ainda vou explicar) a "forma" ou semelhança de Deus, mas não o tipo de vida que Deus possui. Vamos examinar o primeiro ponto (a semelhança com Deus) em primeiro lugar. Tudo o que Deus criou tem alguma semelhança com ele mesmo. O espaço se parece com ele em sua vastidão; não que a grandeza do espaço seja do mesmo tipo que a grandeza de Deus, mas é uma espé­cie de símbolo dela, ou uma tradução dela em termos não-espirituais. A matéria é semelhante a Deus por ter energia: embora a energia física seja diferente do poder de Deus. O mundo vegetal é semelhante a Deus por ter vida, pois ele é o "Deus vivo". A vida em seu sentido biológico, porém, não é a mesma coisa que a vida em Deus: é como um símbolo ou uma sombra. Já nos ani­mais encontramos outras formas de semelhança com Deus além da vida vegetativa. A intensa atividade e a fertilidade dos insetos, por exemplo, é uma primeira e vaga imagem da atividade incessante e da criatividade de Deus. Nos mamíferos superiores, temos um princí­pio de instinto afetivo. Não é a mesma coisa que o amor que existe em Deus; mas é semelhante a este - da mes­ma maneira que uma figura desenhada numa folha pla­na de papel pode ser "semelhante" a uma paisagem. Quando chegamos ao homem, o mais elevado dos animais, vemos, entre as coisas que nos são conhecidas, a semelhança mais perfeita com Deus. (Pode haver cria­turas em outros mundos que se pareçam ainda mais com Deus, mas não as conhecemos.) O homem não apenas vive como também ama e raciocina: nele, a vida bioló­gica atinge o nível mais elevado de que temos notícia. Mas o que o homem, em sua condição natural, não possui, é a vida espiritual — um tipo diferente e supe­rior de vida que existe em Deus. Usamos a mesma pa­lavra — vida - para designar a ambas; mas se você pensa que por isso as duas são a mesma coisa, é como se pen­sasse que a "grandeza" do espaço e a "grandeza" de Deus são o mesmo tipo de grandeza. Na realidade, a diferen­ça entre a vida biológica e a vida espiritual é tão impor­tante que vou tratá-las por nomes diferentes. A vida bio­lógica, que vem da natureza e que (como tudo o mais no mundo natural) tende a se corromper e a decair -de modo que só pode se conservar através de contínuos subsídios dados pela natureza na forma de ar, água, ali­mentos etc. - é bíos. A vida espiritual, que é em Deus desde toda a eternidade e que criou o universo natural inteiro, é zoé. É certo que bíos tem uma certa semelhan­ça parcial ou simbólica com zoé: mas é apenas a seme­lhança que existe entre uma fotografia e um lugar, ou entre uma estátua e um homem. O homem que tinha bíos e passa a ter zoé sofre uma mudança tão grande quanto a de uma estátua que deixasse de ser pedra entalhada e se transformasse num homem real. E é exatamente disso que trata o cristianismo. Este mundo é como o ateliê de um grande escultor. Nós so­mos as estátuas, e corre por aí o boato de que alguns de nós, um dia, ganharão a vida.

 

UM DEUS EM TRÊS PESSOAS

O capítulo anterior tratou da diferença entre gerar e criar. Um homem gera uma criança, mas cria uma es­tátua. Deus gerou o Cristo, mas fez o homem. Contudo, quando digo isso, estou apenas ilustrando um aspecto de Deus, a saber, que o que Deus Pai gera é Deus, alguém da mesma espécie que ele. Nesse sentido, esse ato é se­melhante ao de um pai humano que gera um filho hu­mano. Mas não é exatamente igual. Por isso, tenho de tentar dar mais algumas explicações.

Hoje em dia, um bom número de pessoas diz: "Acre­dito em Deus, mas não num Deus pessoal." Elas pres­sentem que o mistério por trás de todas as coisas deve ser maior que uma pessoa. Os cristãos concordam com isso. Porém, os cristãos são os únicos que oferecem uma idéia de como seria esse ser que está além da persona­lidade. Todas as outras pessoas, apesar de dizerem que Deus está além da personalidade, na verdade conce­bem-no como um ser impessoal: melhor dizendo, como algo aquém do pessoal. Se você está em busca de algo suprapessoal, algo que seja mais que uma pessoa, não se verá obrigado a escolher entre a idéia cristã e as outras idéias, pois a idéia cristã é a única existente no mercado.

Além disso, alguns crêem que depois desta vida, ou talvez de várias, as almas humanas serão "absorvidas" em Deus. No entanto, quando tentam explicar o que isso significa, parecem ter a noção de que a absorção do nosso ser em Deus é como a absorção de um material por outro. Dizem que seria como uma gota d'água que caísse no oceano. E claro, porém, que esse seria o fim da gota. Se é isso que acontece conosco, ser absorvido é o mesmo que deixar de existir. Só os cristãos fazem idéia de como as almas humanas podem ser assumidas pela vida divina e continuar sendo elas mesmas — aliás, ser mui­to mais "elas mesmas" do que antes.

Avisei que a Teologia é um assunto prático. O obje­tivo único da nossa existência é ser assumidos pela vida divina. Quando temos idéias erradas sobre o que é essa vida, a realização do objetivo torna-se mais difícil. E ago­ra peço que vocês sigam meu raciocínio com a máxima atenção por alguns minutos.

Todos sabem que, no espaço, podemos nos mover de três maneiras: para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás, para cima e para baixo. Toda direção espacial é uma dessas três ou uma combinação delas. São o que chamamos de três dimensões. Agora note o seguinte. Se você usar apenas uma dimensão, poderá desenhar somente uma linha reta. Se usar duas, pode­rá desenhar uma figura: um quadrado, digamos, que é feito de quatro linhas retas. Vamos dar mais um passo. Se usar três dimensões, você poderá construir o que cha­mamos de um corpo sólido, como um cubo — um dado, por exemplo, ou um torrão de açúcar. O cubo é com­posto de seis quadrados.

Compreendeu? Um mundo unidimensional seria uma linha reta. Num mundo bidimensional, ainda ha­veria linhas retas, mas as linhas poderiam compor figuras. Num mundo tridimensional, ainda existem figuras, mas, combinadas, elas compõem corpos sólidos. Em outras palavras, à medida que avançamos para níveis mais com­plexos e mais reais, não deixamos para trás as coisas encon­tradas nos níveis mais simples: elas ainda existem, mas se combinam de maneiras novas — maneiras que nem sequer poderiam ser imaginadas por alguém que só conhecesse os níveis mais simples.

Ora, a noção cristã de Deus envolve o mesmíssimo princípio. O nível humano é um nível simples e mais ou menos vazio. Nele, uma pessoa é um ser e duas pessoas são dois seres separados - da mesma forma que, num plano bidimensional como o de uma folha de papel, um quadrado é uma figura e dois quadrados são duas figu­ras separadas. No nível divino, ainda existem persona­lidades; nele, porém, as encontramos combinadas de ma­neiras novas, maneiras que nós, que não vivemos nesse nível, não podemos imaginar. Na dimensão de Deus, por assim dizer, encontramos um Ser que são três pes­soas sem deixar de ser um único Ser, da mesma forma que um cubo são seis quadrados sem deixar de ser um único cubo. E claro que não conseguimos conceber ple­namente um Ser como esse. Do mesmo modo, se perce­bêssemos apenas duas dimensões do espaço, não podería­mos jamais imaginar um cubo. Mesmo assim podemos ter dele uma noção vaga. Quando isso acontece, nós conseguimos ter, pela primeira vez na vida, uma idéia positiva, mesmo que tênue, de algo suprapessoal — algo maior que uma pessoa. É algo que nos surpreende com­pletamente e que, no entanto, quando ouvimos falar dele, quase nos faz sentir que poderíamos tê-lo adivinha­do, uma vez que se harmoniza tão bem com as coisas que já conhecemos.

Você pode perguntar: "Se não conseguimos imagi­nar esse Ser tripessoal, de que adianta falar sobre ele?" Bem, de nada adianta falar sobre ele. O que interessa é sermos atraídos e conduzidos de fato para dentro dessa vida tripessoal. Esse processo pode começar, aliás, a qual­quer momento — hoje à noite, se você quiser.

O que quero dizer é o seguinte: o simples cristão ajoelha-se e faz suas orações, tentando entrar em contato com Deus. Porém, se ele é cristão, sabe que o que o induz a orar é também Deus: Deus, por assim dizer, dentro dele. E sabe também que todo o conhecimento real que possui de Deus veio por meio de Cristo, o Homem que foi Deus. Sabe que Cristo está de pé a seu lado, aju­dando-o a orar, orando por ele. Você vê o que está acon­tecendo? Deus é aquilo para o qual ele ora — o objeti­vo que tenta alcançar. Deus é também aquilo, dentro dele, que o impele — a força motriz. Deus, por fim, é a estrada ou a ponte que ele percorre para chegar a seu objetivo. Assim, toda a vida tríplice do Ser tripessoal en­tra em ação nesse quarto humilde onde um homem co­mum faz suas orações. O homem está sendo capturado por um tipo superior de vida — o que chamei de zoé ou vida espiritual: está sendo atraído para dentro de Deus pelo próprio Deus, sem deixar de ser ele mesmo.

E foi assim que começou a Teologia. As pessoas já conheciam Deus de forma mais ou menos vaga. Então veio um homem que dizia ser Deus; um homem que, no entanto, ninguém conseguia rejeitar como um luná­tico. Esse homem fez com que as pessoas acreditassem nele. Essas pessoas voltaram a encontrar-se com ele de­pois de tê-lo visto ser assassinado. Por fim, tendo-se cons­tituído numa pequena sociedade ou comunidade, essas pessoas de alguma forma descobriram a Deus dentro de si próprias, dizendo-lhes o que fazer e tornando-as capazes de atos que até então eram impossíveis. Quando entenderam tudo isto, elas chegaram à definição crista do Deus tripessoal.

Essa definição não é algo que inventamos. A Teolo­gia, em certo sentido, é uma ciência experimental. São as religiões simplistas que foram inventadas. Quando digo que ela é uma ciência experimental "em certo sentido", quero dizer que é igual às outras ciências experimentais sob alguns aspectos, mas não todos. Se você é um geó­logo que estuda minerais, você tem de ir a campo para encontrá-los. Eles não irão até você e, quando você os en­contra, eles não podem escapulir. Toda a iniciativa cabe a você. Os minerais não podem nem ajudá-lo, nem pre­judicá-lo. Agora suponha que você seja um zoólogo que se propôs a tirar fotos de animais em seu hábitat natu­ral. A situação fica um pouco diferente. Os animais sel­vagens não irão ao seu encontro, mas podem fugir de você, e, se você não ficar bem quieto, certamente o fa­rão. Começa a haver aqui um pouquinho de iniciativa por parte deles.

Passemos a um estágio superior. Suponha que você queira estudar um ser humano. Se ele estiver determinado a não se deixar estudar, você não conseguirá co­nhecê-lo. Vai ser preciso ganhar-lhe a confiança. Nesse caso, a iniciativa se divide igualmente pelos dois lados - para uma amizade, são necessárias duas pessoas.

Quando se trata do conhecimento de Deus, a ini­ciativa cabe inteiramente a ele. Se ele não se revelar, nada que você fizer o capacitará a encontrá-lo. E, na verda­de, ele se dá a conhecer muito mais a certas pessoas que a outras — não porque tenha predileções, mas porque é impossível que ele se revele ao homem cuja mente e cujo caráter estejam em más condições. Da mesma forma, os raios do sol, apesar de também não terem predile­ções, não se refletem tão bem num espelho empoeirado quanto num espelho polido.

Podemos dizê-lo de outra forma: enquanto nas ou­tras ciências os instrumentos são externos a nós (como o microscópio e o telescópio), o instrumento pelo qual vemos a Deus é nosso próprio ser, nosso ser inteiro. Se o ser do homem não estiver limpo e brilhante, sua vi­são de Deus será turva — como a lua vista por um te­lescópio sujo. E por isso que os povos abomináveis têm religiões abomináveis: eles vêem a Deus através de uma lente suja.

Deus só pode se revelar verdadeiramente para ho­mens de verdade. Isso não significa apenas homens in­dividualmente bons, mas homens unidos entre si num único corpo, amando-se e auxiliando-se mutuamente, revelando Deus uns aos outros. Pois é assim que Deus quer que a humanidade seja: como os músicos de uma orquestra, como os órgãos de um corpo.

Em conseqüência, o único instrumento verdadei­ramente adequado para conhecer Deus é a comunidade cristã como um todo, a comunidade dos que juntos o aguardam. Numa analogia, a fraternidade cristã é o equi­pamento técnico dessa ciência — os apetrechos do labo­ratório. Por isso, as pessoas que, ano sim, ano não, lançam uma versão flagrantemente simplificada da religião na tentativa de substituir a tradição cristã estão perdendo completamente o seu tempo. São como o sujeito que, contando apenas com um velho binóculo, resolve cor­rigir toda a comunidade dos astrônomos. Pode ser que esse sujeito seja bastante inteligente, talvez até mais in­teligente do que alguns astrônomos de verdade, mas ele próprio se sabota. Em dois anos estará esquecido, enquanto a verdadeira ciência continuará de pé.

Se o cristianismo fosse algo que inventamos, é cla­ro que seria mais fácil. Mas não é. Não podemos com­petir, em matéria de simplicidade, com as pessoas que inventam religiões. Como poderíamos? Trabalhamos com a realidade como ela é. Só quem não se importa com a realidade pode se dar ao luxo de ser simplista.

 

O TEMPO E ALÉM DO TEMPO

É uma idéia pueril a de que não podemos, na lei­tura de um livro, "pular" algumas de suas partes. Todas as pessoas sensatas o fazem quando chegam a um capí­tulo que julgam que não vai ser útil. Neste capítulo, vou falar de algo que talvez ajude alguns leitores, mas que pode ser visto por outros somente como uma compli­cação desnecessária. Se você pertence ao segundo gru­po, aconselho-o a não se preocupar com este capítulo, mas a passar direto para o próximo.

No capítulo anterior, toquei de leve na questão da oração. Enquanto ela está fresquinha tanto na sua men­te quanto na minha, vamos tratar de uma dificuldade ge­ral que certas pessoas encontram para orar. Um homem resumiu para mim a situação: "Acredito em Deus, mas não consigo engolir a idéia de que atenda a centenas de milhões de pessoas que se dirigem a ele num mesmo momento." E constatei que muita gente pensa do mes­mo modo.

A primeira coisa a notar é que o problema surge com as palavras num mesmo momento. A maioria das pessoas é capaz de imaginar Deus atendendo a um número infini­to de peticionários, desde que cheguem um por vez e ele tenha um tempo infinito para atendê-los. Assim, o que está na raiz desta dificuldade é a idéia de que Deus tenha de fazer muitas coisas numa única fração de tempo.

É isso, evidentemente, que acontece conosco. Nos­sa vida nos vem momento a momento. Um momento desaparece antes que o outro chegue, e em cada um de­les cabe pouquíssima coisa. Essa é a natureza do tem­po. E é claro que você e eu temos como certo que essa série temporal - esse arranjo de passado, presente e fu­turo — não é apenas o modo como a vida se apresenta para nós, mas o modo como funcionam todas as coi­sas que existem. Costumamos pensar que todo o uni­verso e até o próprio Deus passam do passado para o futuro, como nós fazemos. Muitos homens cultos, no entanto, não concordam com isso. Foram os teólogos que primeiro levantaram a idéia de que muitas coisas não estão submetidas ao tempo. Mais tarde, os filóso­fos assumiram essa idéia, e agora os cientistas fazem a mesma coisa.

Com quase toda a certeza, Deus não está no tempo. A vida dele não consiste em momentos que são seguidos por outros momentos. Se um milhão de pessoas oram para ele às dez e meia da noite, ele não precisa ouvi-las todas no instantezinho que chamamos de dez e meia. Dez e meia, ou qualquer outro momento ocorrido des­de a criação do mundo, é sempre o presente para Deus. Para dizê-lo de outra maneira, Deus tem toda a eterni­dade para ouvir a brevíssima oração de um piloto cujo avião está prestes a cair em chamas.

Sei que isso é difícil. Vou tentar dar outro exemplo, não exatamente sobre a mesma coisa, mas de algo um pou­co parecido. Suponha que eu esteja escrevendo um ro­mance. Escrevo: "Mary largou o trabalho e logo em se­guida ouviu baterem à porta." Para Mary, que vive no tempo imaginário da minha história, não há intervalo entre largar o trabalho e ouvir a batida na porta. Eu, po­rém, que sou o criador de Mary, não vivo nesse tempo imaginário. Entre o tempo de escrever a primeira meta­de da frase e a segunda, posso parar o trabalho por umas três horas e ficar imerso em pensamentos sobre Mary. Posso pensar sobre minha personagem como se ela fosse a única personagem do livro e por quanto tempo eu de­sejar, e no entanto as horas passadas nessa atividade não aparecerão no tempo dela (dentro da história).

Sei muito bem que esse exemplo não é perfeito. Mas ele talvez dê uma pálida noção do que eu acredito seja verdade. Deus não precisa se afobar no fluxo de tempo deste universo, assim como um escritor não precisa vi­ver o tempo imaginário de seu romance. Ele pode dar atenção infinita a cada um de nós. Nunca teve de nos tratar como a uma massa. Você está sozinho na com­panhia dele como se fosse o único ser que ele tivesse criado. Quando Cristo foi crucificado, ele morreu por você, individualmente, como se você fosse o único ho­mem da Terra.

O meu exemplo falha porque o escritor abandona uma seqüência temporal (a do romance) mas entra em outra (a verdadeira). Creio, porém, que Deus não vive preso a nenhuma seqüência temporal. Sua vida não se es­coa momento a momento como a nossa: ele, por assim dizer, ainda está em 1920 mas também já está em 2060[23]. Pois sua vida é ele mesmo.

Se você visualizar o tempo como uma linha reta pela qual viajamos, tem de imaginar a Deus como a página na qual a linha é desenhada. Percorremos uma a uma as partes da linha: temos de deixar o ponto A para alcan­çar o ponto B, e só alcançamos C depois de deixar B. Deus, por sua vez, está fora e acima disso, contém a li­nha inteira e vê tudo.

Vale a pena tentar compreender essa idéia porque ela desfaz algumas contradições aparentes do cristianis­mo. Antes de me tornar cristão, eu propunha a seguinte objeção: os cristãos dizem que o Deus eterno que está em toda parte e governa o universo inteiro se tornou ser humano. Ora pois, eu perguntava, como ele conse­guia governar o universo enquanto era bebê ou enquan­to dormia? Como podia ele ser ao mesmo tempo o Deus que tudo sabe e o homem que perguntou aos discípulos: "Quem me tocou?" Você há de notar que o problema nasce dos termos relacionados a tempo: "Enquanto era bebê" - "Como podia ser ao mesmo tempo..." Em ou­tras palavras, eu pressupunha que a vida de Cristo en­quanto Deus se desenrolava no tempo e que sua vida enquanto Jesus, o homem da Palestina, era um pequeno lapso destacado desse fluxo de tempo - da mesma for­ma que o período em que servi no exército é um período destacado do total da minha vida. E é assim que a maio­ria das pessoas, talvez, compreende o assunto. Imagi­nam que houve um período na existência de Deus em que sua vida na Terra ainda estava no futuro, seguido de um momento em que ela era o presente e passando para um momento em que esse tempo ficou no passa­do. Provavelmente, essas idéias não correspondem à rea­lidade. Não dá para encaixar a vida terrena de Cristo na Palestina numa relação temporal com sua vida enquanto Deus, pois esta se encontra além do tempo e do espa­ço. Ouso afirmar que a natureza humana, e a experiência humana da fraqueza, do sono e da ignorância, de algum modo se incluem no todo da vida divina de Deus, e afir­mo que essa é uma verdade eterna sobre a sua natureza. Essa vida humana em Deus, vista da nossa perspectiva, corresponde a um período particular da história do nos­so mundo (do ano 1 à crucificação). Imaginamos assim que também corresponda a um período da história da própria existência de Deus. Deus, porém, não tem his­tória. Ele é tão absolutamente real que não pode ter. Isso porque ter uma história significa perder uma parte da realidade (que se desvanece no passado) e ainda não gozar de outra parte (que se encontra no futuro): na ver­dade, ter uma história é não possuir nada a não ser o minúsculo tempo presente, que acaba antes que possa­mos abrir a boca para falar dele. Deus nos livre de pen­sar que ele seja assim. Mesmo nós temos a esperança de não ficar limitados dessa forma para sempre.

Outra dificuldade que surge se acreditamos que Deus vive no tempo: todos que crêem em Deus acreditam que ele sabe o que eu e você faremos amanhã. Mas, se ele sabe que farei isto ou aquilo, onde está a minha liberdade de fazer o contrário? Bem, mais uma vez a dificuldade está em pensar que Deus progride como nós numa seqüên­cia temporal, com a única diferença de que ele consegue enxergar o futuro e nós, não. Bem, se isso é verdade, se Deus prevê os nossos atos, fica difícil entender nossa liberdade de não fazer algo. Suponha, no entanto, que Deus esteja fora e acima da linha de tempo. Nesse caso, isso que chamamos "amanhã" é visível para ele da mes­ma forma que o que chamamos "hoje". Todos os dias são "agora" aos olhos de Deus. Ele não se lembra de que ontem você fez isto e aquilo; simplesmente vê você fa­zer essas coisas, porque, embora você tenha perdido para sempre o dia de ontem, ele não perdeu. Ele não "antevê" você fazendo isto e aquilo amanhã; simplesmente vê você fazendo essas coisas, pois, embora o amanhã ainda não exista para você, já existe para ele. Você nunca pensou que os atos que faz agora são menos livres só porque Deus sabe o que você está fazendo. Bem, ele conhece suas ações de amanhã exatamente da mesma maneira — pois já está no amanhã e pode simplesmente observá-lo. Num certo sentido, ele não conhece nossas ações até que elas tenham acontecido; no entanto, o momento em que elas acon­tecem já é "agora" para ele.

Essa idéia me ajudou muito. Se ela não ajudar você, deixe-a de lado. Ela é uma "idéia cristã" na medida em que grandes sábios cristãos a sustentaram e que nela não há nada de contrário ao cristianismo. Porém, não se encon­tra nem na Bíblia nem em nenhum dos credos. Você po­de ser perfeitamente cristão sem aceitá-la, ou mesmo sem pensar em absoluto neste assunto.

 

A BOA INFECÇÃO

Começo este capítulo pedindo que vocês visuali­zem uma imagem: a de dois livros sobre uma mesa, um em cima do outro. E óbvio que o livro que está em bai­xo eleva e sustenta o que está em cima. E por causa do livro de baixo que o de cima fica, digamos, uns cinco centímetros acima da superfície da mesa, e não encostado nela. Vamos chamar o livro de baixo de A, e o de cima, de B. A posição de A é a causa da posição de B, certo? Ago­ra vamos imaginar — isto não poderia acontecer, é claro, mas servirá para nós como ilustração —, vamos imaginar que os dois livros estejam em suas respectivas posições desde toda a eternidade. Nesse caso, a posição de B seria causada desde sempre pela de A. Mas, por outro lado, a posição de A não teria existido antes da posição de B.

Em outras palavras, o efeito não teria ocorrido depois da causa. E claro que, em geral, os efeitos sucedem-se às causas: primeiro você come a salada de pepinos e só depois tem a indigestão. No entanto, isso não ocorre com todas as causas e efeitos. Você verá num instante por que penso que isto é tão importante.

Algumas páginas atrás, eu disse que Deus é um Ser que contém três pessoas sem deixar de ser um único Ser, da mesma forma que o cubo contém seis quadrados e não deixa de ser um único corpo. Contudo, quando eu começar a explicar como essas pessoas estão relacio­nadas entre si, terei de usar palavras que dão a impres­são de que uma delas existe antes das outras. A primeira pessoa é chamada de Pai, e a segunda, de Filho. Dizemos que o primeiro gera, ou produz, o segundo; usamos a palavra gera, e não faz, porque o que foi gerado é da mesma espécie do que o gerou. Assim, a palavra "Pai" é a única apropriada. Infelizmente, porém, ela dá a en­tender que o Pai é anterior ao Fílho — como um pai hu­mano existe antes de seu filho. Mas isso não é verdade. Nesse caso, não existe antes e depois. E por isso que con­sidero importante deixar o mais claro possível que uma coisa pode ser a fonte, a causa ou a origem de outra sem necessariamente existir antes dela. O Filho existe porque o Pai existe, mas nunca houve um tempo em que o Pai não houvesse ainda gerado o Filho.

Talvez a melhor maneira de entender o assunto seja a seguinte: pedi agora há pouco que vocês imaginassem dois livros, e provavelmente a maioria de vocês imagi­nou. Ou seja, vocês produziram um ato de imaginação que resultou numa imagem mental. Salta à vista que o ato de imaginação foi a causa, e a imagem mental, o efei­to. Isso, porém, não significa que você primeiro fez o esforço imaginativo e depois chegou à imagem. As duas coisas aconteceram simultaneamente. Sua vontade retinha a imagem diante dos olhos de sua mente. Não obstante, o ato de vontade e a imagem se manifestaram no mesmíssimo momento e terminaram igualmente num mesmo momento. Se houvesse um Ser que sempre ti­vesse existido e tivesse imaginado algo desde a eternida­de, seu ato teria produzido desde sempre uma imagem mental; mas a imagem seria tão eterna quanto o ato.

Da mesma maneira, temos de conceber que o Fi­lho, por assim dizer, desde sempre fluí do Pai, como a luz flui da lâmpada, ou o calor do fogo, ou os pensa­mentos da mente. Ele é a auto-expressão do Pai — o que o Pai tem a dizer. E nunca houve um tempo em que o Pai ficou calado. Mas veja só o que aconteceu: todas es­sas imagens de luz e de calor fazem com que o Pai e o Filho acabem se parecendo com duas coisas, e não com duas pessoas. Assim, no fim das contas, a imagem de um Pai e de um Filho, que o Novo Testamento nos dá, revela-se muito mais exata que qualquer outra pela qual tentarmos substituí-la. E isso que sempre acontece quan­do nos afastamos das palavras da Bíblia. Não há nada de errado em nos afastarmos delas por certo tempo para esclarecermos uma questão específica. No entanto, sem­pre devemos voltar. Naturalmente, Deus sabe descre­ver-se a si mesmo muito melhor do que nós poderíamos descrevê-lo. Sabe que a relação entre Pai e Filho, aqui descrita, se parece muito mais com a da Primeira e da Segunda Pessoa que qualquer outra que pudéssemos con­ceber. A coisa mais importante a saber é que ela é uma relação de amor. O Pai se compraz no Filho; o Filho, cheio de admiração, modela-se no Pai.

Antes de seguirmos adiante, perceba o quanto isso é importante do ponto de vista prático. Pessoas de to­dos os tipos gostam de repetir a afirmação cristã de que "Deus é amor". Elas não se dão conta de que essas pala­vras só podem significar alguma coisa se Deus contiver pelo menos duas pessoas. O amor é algo que uma pes­soa sente por outra. Se Deus fosse uma única pessoa, não poderia ter sido amor antes da criação do mundo. E claro que, em geral, o que essas pessoas querem dizer é algo bastante diferente: "O amor é Deus." Querem di­zer, na realidade, que nossos sentimentos amorosos, como quer e onde quer que surjam, e quaisquer que sejam seus efeitos, devem ser tratados com todo o respeito. Pode até ser, mas trata-se de algo bem diferente do que os cris­tãos entendem pela afirmação "Deus é amor". Eles acre­ditam que a atividade vivida e dinâmica do amor sem­pre esteve presente em Deus, desde toda a eternidade, e criou todas as outras coisas.

Aliás, talvez seja essa a diferença fundamental entre o cristianismo e todas as outras religiões: no cristianis­mo, Deus não é um ente estático - nem mesmo uma pessoa estática -, mas uma atividade pulsante e dinâmi­ca; é uma vida dotada de grande complexidade interna. E quase — por favor, não me julguem irreverente - como uma dança. A união entre o Pai e o Filho é algo tão vivo e concreto que ela mesma é também uma pessoa. Sei que isso é quase inconcebível, mas tente compreender a questão sob este ponto de vista: você sabe que, entre os seres humanos que se unem numa família, num clube ou num sindicato, as pessoas falam do "espírito" dessas agremiações. Falam desse "espírito" porque os membros individuais, quando estão juntos, desenvolvem manei­ras particulares de conversar e de se comportar que não desenvolveriam se não estivessem juntos[24]. E como se uma personalidade comunal ganhasse existência. E cla­ro que, nesse exemplo, não se trata de uma pessoa real: é apenas algo que se parece com uma pessoa. Mas essa é somente uma das diferenças entre Deus e nós. Aquilo que nasce da vida conjunta do Pai e do Filho é uma pes­soa real; é, com efeito, a terceira das três pessoas de Deus.

Essa Terceira Pessoa é chamada, em linguagem téc­nica, de Espírito Santo ou "Espírito de Deus". Não se preocupe nem se surpreenda se acontecer de você achar essa pessoa mais vaga e misteriosa que as outras duas. Penso que existe uma razão para que isso aconteça. Na vida cristã, nós não costumamos olhar para ele. Ele está sempre agindo através de nós, Se você imagina o Pai como algo que está "fora", à sua frente, e imagina o Fi­lho como alguém que está ao seu lado, ajudando-o a orar, tentando fazer de você também um filho de Deus, então tem de conceber a terceira pessoa como algo dentro de você, ou atrás de você. Talvez algumas pessoas achem mais fácil começar pela terceira pessoa e fazer o caminho inverso. Deus é amor, e esse amor opera atra­vés dos homens — especialmente através de toda a co­munidade cristã. Mas esse espírito de amor é, desde toda a eternidade, um amor que se dá entre o Pai e o Filho.

Bem, e qual a importância disso? É a coisa mais im­portante do mundo. A dança, o enredo dramático ou a complexidade interna dessa vida tripessoal deve se de­senrolar dentro de cada um de nós. Vendo a questão do outro lado, cada um de nós tem de penetrar nessa com­plexidade interna, assumir seu lugar nessa dança. Não existe outra maneira de se alcançar e usufruir a felici­dade para a qual fomos criados. Saiba você que não só as coisas más, mas também as boas, são contraídas como uma espécie de infecção. Se você quer se aquecer, tem de se aproximar do fogo; se quer se molhar, tem de en­trar debaixo d'água. Se quer a alegria, o poder, a paz e a vida eterna, tem de se aproximar ou mesmo penetrar naquilo que as contém. Essas coisas não são prêmios que Deus poderia, se quisesse, simplesmente conceder a qual­quer pessoa. São uma grande fonte de energia e de be­leza que jorra a partir do próprio centro da realidade. Se você estiver próximo da fonte, as rajadas de água o mo­lharão; se se mantiver afastado, continuará seco. Quan­do o homem está unido a Deus, como poderia não vi­ver para sempre? Quando está separado de Deus, o que pode fazer senão definhar e morrer?

Mas como pode ele se unir a Deus? Como podemos ser atraídos para dentro da vida trinitária?

Lembre-se do que eu disse no Capítulo 2 sobre a geração e a criação. Nós não fomos gerados por Deus, mas apenas criados: em nosso estado natural, não somos filhos de Deus, mas apenas (por assim dizer) estátuas. Não possuímos zoé, a vida espiritual, mas apenas bíos, a vida biológica, que em breve definhará e morrerá. A ofer­ta que o cristianismo faz se resume no seguinte: se dei­xarmos Deus agir, poderemos vir a compartilhar da vida de Cristo. Então, partilharemos de uma vida que foi gerada, não criada; uma vida que sempre existiu e sem­pre existirá. Cristo é o Filho de Deus. Se participarmos desse tipo de vida, também seremos filhos de Deus. Amaremos o Pai como o Filho o ama, e o Espírito San­to despertará em nós. Cristo veio a este mundo e se fez homem a fim de disseminar nos outros homens o tipo de vida que ele possui - por meio daquilo que chamo de "boa infecção". Todo cristão deve tornar-se um peque­no Cristo. O propósito de se tornar cristão não é outro senão esse.

 

OS TEIMOSOS SOLDADINHOS DE CHUMBO

O Filho de Deus se fez homem para que os homens pudessem tornar-se filhos de Deus. Não sabemos - eu, pelo menos, não sei — como as coisas seriam se a raça humana nunca tivesse se rebelado contra Deus e se alia­do ao inimigo. Talvez todos os homens vivessem "em Cristo", compartilhassem desde o nascimento a vida do Filho de Deus. Talvez a vida que chamamos de bíos, a vida natural, tivesse sido assumida e incorporada a zoé, a vida incriada, de imediato e de uma vez por todas. Mas isso não passa de um palpite. O que nos interessa é a situação tal como se apresenta para nós agora.

O atual estado de coisas é o seguinte: os dois tipos de vida são não apenas completamente diferentes entre si (o que sempre foram e sempre serão), mas também opostos. A vida natural de cada um de nós é uma coisa egocêntrica, que quer ser paparicada e admirada, quer tirar vantagem das outras vidas e usar para seu proveito o universo inteiro. Acima de tudo, ela quer ser deixada em paz: quer distância de tudo que possa ser melhor, mais forte ou mais elevado que ela, tudo que possa re­velar a sua pequenez. Tem medo da luz e do ar fresco do mundo espiritual, da mesma forma que as pessoas que foram criadas sem higiene não gostam de tomar banho. Num sentido, ela tem toda a razão, pois sabe que, se cair nas garras da vida espiritual, seu egocentrismo e sua vontade própria serão exterminados. Assim, luta com unhas e dentes para que isso não aconteça.

Você nunca imaginou, quando era pequeno, como seria divertido se seus brinquedos ganhassem vida? Bem, imagine que você tivesse efetivamente o poder de dar-lhes vida. Imagine que pudesse transformar um soldadi­nho de chumbo num homenzinho de verdade. O chum­bo teria de transformar-se em carne. Imagine que o sol­dadinho não gostasse da mudança. A carne não o inte­ressa; tudo o que ele vê é o chumbo arruinado. Pensa que você quer matá-lo e fará tudo o que puder para im­pedi-lo. Se isso estiver ao seu alcance, não se deixará trans­formar em homem de jeito nenhum.

O que você faria com esse soldadinho eu não sei, mas o que Deus fez com o gênero humano foi o seguinte: a Segunda Pessoa de Deus, o Filho, tornou-se ele mes­mo um homem: nasceu em nosso mundo como um homem — uma pessoa real, que falava determinada lín­gua, tinha determinada altura, determinado peso e uma certa cor de cabelo. O Ser Eterno, que tudo sabe e criou todo o universo, tornou-se não apenas um homem, mas (antes disso) um bebê e, antes disso ainda, um feto dentro do corpo de uma mulher. Se quer saber como ele deve ter se sentido, imagine se você se transformas­se numa lesma ou num caranguejo.

Como resultado, houve um homem que foi de fato como todos os seres humanos deveriam ser: um ho­mem cuja vida criada, herdada de sua mãe, deixou-se as­similar completa e perfeitamente pela vida gerada. Nele, a criatura humana natural foi plenamente assumida pelo divino Filho. Assim, num caso particular, a huma­nidade chegou, por assim dizer, aonde tinha de chegar: passou à vida de Cristo. E, uma vez que toda a nossa di­ficuldade reside no fato de que, em certo sentido, a vida natural tem de ser "morta", ele escolheu um caminho terreno marcado pela morte cotidiana de todos os seus desejos humanos — escolheu a pobreza, a incompreen­são de sua própria família, a traição de um de seus ami­gos íntimos, a zombaria e o espancamento nas mãos da polícia e a execução mediante tortura. E então, depois de ser morta - morta, de certa maneira, a cada dia -, a criatura humana que nele havia, por ser unida ao divi­no Filho, voltou de novo à vida. O homem em Cristo ressuscitou: não apenas o Deus. Tudo se resume a isto. Pela primeira vez vimos um homem de verdade. Um sol­dadinho de brinquedo - feito de chumbo como todos os outros - se tornou esplêndida e totalmente vivo.

E aqui, como seria de esperar, chegamos ao ponto em que minha analogia fica imperfeita. Se um soldadi­nho ou uma estátua ganhasse vida, isso não faria grande diferença para o resto dos soldadinhos ou das estátuas, pois uns estão separados dos outros. Os seres humanos, no entanto, não são assim. Parecem separados porque andam todos por aí, cada um para seu lado. O proble­ma é que somos constituídos de tal modo que só conse­guimos ver o momento presente. Se pudéssemos enxer­gar o passado, tudo teria para nós uma aparência muito diferente, porque houve um tempo em que todo homem fazia parte da sua mãe e (num passado ainda mais dis­tante) de seu pai; e um outro tempo em que estes faziam parte dos avós. Se pudéssemos enxergar a humanidade no decorrer do tempo, como Deus a vê, ela não nos pa­receria um pontilhado de muitos entes distintos, mas sim uma única coisa viva, que não pára de crescer - como uma frondosa árvore. Cada indivíduo afigurar-se-ia li­gado a todos os outros. E mais: assim como estão todos ligados uns aos outros, estão todos ligados a Deus. Agora mesmo, neste exato momento, todos os homens, mulhe­res e crianças do mundo inteiro só respiram e sentem por­que Deus, por assim dizer, os "mantém funcionando".

Logo, quando o Cristo se torna homem, não é o mesmo que se você se tornasse um determinado solda­dinho de chumbo. E como se algo que sempre afetou toda a massa da humanidade passasse, num determinado ponto, a afetá-la de maneira nova. A partir desse pon­to, o efeito se espalha por todo o gênero humano. Afe­ta não só as pessoas que viveram depois de Cristo, mas também as que viveram antes dele; afeta inclusive as que nunca ouviram falar dele. E como pingar num copo d'água uma gota de uma substância que desse novo sa­bor e nova cor a todo o líquido. Porém, é claro que ne­nhum desses exemplos ilustra a realidade de forma per­feita. No fim das contas, só Deus é igual a ele mesmo, e o que ele faz não se assemelha a nenhuma outra coisa. Nem seria de esperar que se assemelhasse.

De que modo, então, ele afetou toda a massa da hu­manidade? Da seguinte maneira: toda a tarefa de nos tornarmos filhos de Deus, de transformarmo-nos de se­res criados em seres gerados, de passarmos de uma vida biológica provisória para uma vida "espiritual" eterna — toda essa tarefa já foi feita para nós. Deus se encarregou dela. A humanidade já foi "salva" em princípio. Nós, in­divíduos, temos de nos apropriar dessa salvação. Mas o trabalho pesado - que nunca conseguiríamos levar a cabo sozinhos - já foi feito. Não precisamos tentar esca­lar a vida espiritual pela nossa própria força, pois ela já desceu sobre a raça humana. Se simplesmente nos abrir­mos ao Homem que a possuiu em sua plenitude, Ho­mem que, apesar de ser Deus, também é verdadeira­mente humano, ele a fará funcionar em nós e por nós. Lembre-se do que eu disse sobre a "boa infecção". Um Ser da nossa raça já foi infectado por essa nova vida; se nos aproximarmos dele, seremos infectados também.

Não há dúvida de que podemos expressar essa ver­dade de diversas maneiras. Podemos dizer que Cristo morreu por nossos pecados. Podemos dizer que o Pai nos perdoou porque Cristo fez por nós o que devería­mos ter feito por conta própria. Podemos dizer que fo­mos banhados no sangue do Cordeiro. Ou, ainda, que Cristo venceu a morte. Tudo isso é verdade. Se alguma dessas formulações não lhe agrada, deixe-a de lado e adote a que mais lhe agradar. E, qualquer que seja a esco­lhida, não comece a discutir com as pessoas pelo sim­ples fato de usarem fórmulas diferentes da sua.

 

DUAS NOTAS

A fim de evitar mal-entendidos, resolvi acrescentar notas a duas questões suscitadas pelo capítulo anterior:

(1) Um crítico bastante sensato me perguntou por que, se Deus queria que fôssemos seus filhos e não "sol­dadinhos de brinquedo", ele não gerou muitos filhos desde o começo em vez de criar bonequinhos e depois dar-lhes vida por meio de um processo tão difícil e do­loroso. Uma parte da resposta é bastante fácil; a outra provavelmente está acima da compreensão humana. Va­mos à parte fácil: o processo de transformação do ho­mem de criatura em filho não seria difícil nem doloroso se a raça humana não tivesse se afastado de Deus séculos atrás. O homem pôde afastar-se porque Deus lhe deu o livre-arbítrio; e Deus deu-lhe o livre-arbítrio porque um mundo de meros autômatos não poderia conhecer o amor e, portanto, não poderia tampouco conhecer a felicidade infinita. Agora a parte difícil: todos os cris­tãos concordam em que, no sentido pleno e original da palavra, só existe um "Filho de Deus". Se insistirmos em perguntar "Não poderia ter havido muitos?", nos vere­mos entranhados num mistério profundo. Será que as palavras "poderia ter havido" têm algum sentido quan­do aplicadas a Deus? Podemos dizer que uma coisa finita "poderia ter sido" diferente do que é, e podemos dizê-lo porque ela efetivamente teria sido diferente se uma outra coisa também tivesse sido diferente; e esta outra coisa teria sido diferente se uma terceira coisa tam­bém o tivesse sido, e assim por diante. (As letras que compõem esta página teriam sido vermelhas se o tipógrafo tivesse usado tinta vermelha, e ele teria usado tin­ta vermelha se o chefe da gráfica o tivesse mandado fazê-lo, e por aí afora.) Mas, quando falamos a respeito de Deus — a respeito do Fato irredutível do qual todos os outros dependem e no qual se sedimentam -, é ab­surdo perguntar se as coisas poderiam ter se dado de ou­tra maneira. Com Deus, as coisas são o que são, e fim da história. Mesmo sem levar isso em conta, encontro um problema na própria idéia de o Pai gerar muitos fi­lhos desde toda a eternidade. Para que houvesse muitos filhos, eles teriam de ser diferentes uns dos outros. Duas moedas de um penny têm o mesmo formato. Como podem ser duas? Ora, ocupando posições diferentes no espaço e contendo átomos diferentes. Em outras pala­vras, para concebê-las como distintas entre si, tivemos de introduzir os conceitos de espaço e matéria; na ver­dade, tivemos de introduzir toda a "natureza", o univer­so criado. Posso compreender a diferença entre Pai e Fi­lho sem utilizar os conceitos de espaço e a matéria, por­que um gera e o outro é gerado. A relação do Pai com o Filho não é idêntica à relação do Filho com o Pai. Po­rém, se houvesse muitos filhos, todos teriam a mesma relação entre si e a mesma relação com o Pai. Como di­feririam entre si? Essa dificuldade não se evidencia de imediato. De início, imagino que sou capaz de conce­ber a idéia de diversos "filhos". Mas, quando me ponho a pensar, constato que isso só é possível porque os ima­gino vagamente como figuras humanas reunidas numa espécie qualquer de espaço. Em outras palavras, embora quisesse pensar em algo que existia antes que o univer­so fosse criado, introduzi aí, inadvertidamente, a idéia do universo físico e coloquei dentro dela esse algo. Quan­do paro de fazer isso e ainda assim tento pensar no Pai gerando muitos filhos "antes de todos os mundos", vejo que, na realidade, não estou pensando em nada. A idéia se desvanece em meras palavras. (Será que a natureza — o espaço, o tempo e a matéria — foi criada precisamente a fim de tornar possível a multiplicidade? Será que, para haver uma multidão de espíritos eternos, não é preciso antes fazer muitas criaturas naturais, num universo, para depois espiritualizá-las? E claro que tudo isso são especulações.)

(2) A idéia de que toda a raça humana é, em certo sentido, um único corpo - um imenso organismo, como uma árvore - não deve ser confundida com a noção de que as diferenças individuais não importam ou que as pessoas reais, como Tom, Nobby e Kate, são menos im­portantes que entes coletivos como classes, raças etc. Na verdade, as duas idéias são opostas. Os órgãos que com­põem um organismo são muito diferentes uns dos ou­tros; já os entes que não formam um organismo podem ser bastante parecidos. Seis moedas de um penny são totalmente separadas, mas bastante semelhantes; meu nariz e meu pulmão são completamente diferentes, mas só estão vivos porque fazem parte do meu corpo e par­tilham uma vida comum. O cristianismo não concebe os indivíduos humanos como meros membros de um grupo, ou itens numa lista, mas como órgãos num cor­po - uns diferentes dos outros, e cada qual oferecendo uma contribuição própria e insubstituível. Quando você se flagrar tentando transformar seus filhos, alunos ou até vizinhos em pessoas exatamente iguais a você, lembre-se de que Deus provavelmente não quis que eles fos­sem assim. Você e eles são órgãos diferentes, com fina­lidades diferentes. Por outro lado, quando você se sentir tentado a não se incomodar com os problemas de alguém porque eles "não lhe dizem respeito", lembre-se de que, apesar de essa pessoa ser diferente de você, ela faz par­te do mesmo organismo. Se esquecer esse fato, você se tornará um individualista. Se, por outro lado, esquecer que ela é um órgão diferente, quiser suprimir as diferen­ças e fazer todas as pessoas iguais, tornar-se-á um totali­tário. O cristão não deve ser nem uma coisa nem outra. Sinto o forte desejo de lhe dizer — e acho que você sente a mesma coisa — qual dos dois erros é o pior. Essa é a estratégia do diabo para nos pegar. Ele sempre envia ao mundo erros aos pares — pares de opostos. E sempre nos estimula a desperdiçar um tempo precioso na tenta­tiva de adivinhar qual deles é o pior. Sabe por quê? Ele usa o fato de você abominar um deles para levá-lo aos poucos a cair no extremo oposto; Mas não nos deixemos enganar. Temos de manter os olhos fixos em nosso obje­tivo, que está bem à nossa frente, e passar reto no meio de ambos os erros. Nem um nem outro nos interessam.

 

O DIVINO FINGIMENTO

Peço licença ao leitor para iniciar novamente o ca­pítulo com duas imagens, ou histórias. Uma das histórias você já deve ter lido; chama-se A Bela e a Fera. Você há de se lembrar que a garota, por alguma razão, tem de se casar com o monstro. Depois de casada, beija-o como a um homem e então, para seu alívio, ele se torna um rapaz e eles vivem felizes para sempre. A segunda his­tória é sobre uma pessoa que teve de usar uma máscara, uma máscara que a tornava muito mais bonita do que era de fato. Teve de usá-la por anos a fio. Quando final­mente a tirou, descobriu que sua face tinha se adapta­do, crescido e se tornado igual à máscara. Assim, se tor­nara muito bonita. O que começara como um disfarce terminou como a própria realidade. Tenho a impressão de que ambas as histórias podem ajudar a ilustrar (den­tro dos limites da fantasia, é claro) o que tenho a dizer neste capítulo. Até aqui, tentei descrever fatos - o que é Deus e o que ele fez. Agora, gostaria de passar para a prática - o que fazer a seguir. Qual a importância de toda essa Teologia? Ela pode começar a ter importância hoje à noite. Se você teve interesse suficiente para ler o livro até aqui, provavelmente terá interesse suficiente para fazer suas orações à noite; e, quaisquer que sejam essas orações, uma delas certamente será o Pai-nosso.

Suas primeiras palavras são justamente essas, Pai nos­so. Você percebe, por acaso, o que elas significam? Sig­nificam, na verdade, que você se põe na posição de um filho de Deus. Sem meias-palavras, é como se você se fan­tasiasse de Cristo. Você finge. Porque é evidente que, no momento em que se dá conta do significado das pala­vras, você percebe que não é um filho de Deus. Não é um ser como o Filho de Deus, cuja vontade e cujos in­teresses estavam em uníssono com os do Pai: é um feixe de medos egocêntricos, de esperanças vãs, de cobiça, de ciúmes, de vaidade, fadados à morte. Sob um certo pon­to de vista, portanto, fantasiar-se de Cristo é uma tre­menda desfaçatez. O estranho nisso tudo é que ele or­denou que agíssemos assim.

Por quê? Qual a vantagem de fingir ser o que não somos? Bem, na esfera humana existem dois tipos de fingimento. Existe um ruim, em que o fingir toma o lu­gar da própria coisa, como quando um homem diz que vai nos ajudar, mas não ajuda. Mas também existe um bom, quando o fingimento nos leva à realidade. Quan­do você não está se sentindo muito amigável, mas sabe que deveria sê-lo, em geral a melhor coisa a fazer é adotar modos agradáveis e se comportar como se fosse uma pessoa melhor do que realmente é. Em poucos minutos, como todos sabemos por experiência própria, passará a se sentir, de fato, mais amistoso. Com muita freqüên­cia, a única maneira de adquirir uma qualidade consis­te em comportar-se como se já a tivesse. E por isso que as brincadeiras infantis são tão importantes. As crianças fingem ser adultos - brincando de soldado e de dona-de-casa. Estão sempre retesando os músculos e afiando a inteligência, de modo que, fingindo ser adultos, aca­bam tornando-se adultos de verdade.

No momento em que você se dá por si e diz "Aqui estou, nos trajes de Cristo", é bem provável que vislum­bre de imediato algum modo pelo qual o fingimento possa deixar de ser tão fingido e se torne mais real. Fla­grará, por exemplo, diversos pensamentos passando pela sua mente, pensamentos que não deveriam ocorrer a um filho de Deus. Ora, pare de pensá-los. Ou senão per­ceberá que, em vez de estar orando, deveria estar na sala escrevendo uma carta ou ajudando sua esposa com a lou­ça. Ora, faça isso.

Você já entendeu o que está acontecendo. O pró­prio Cristo, Filho de Deus, que é homem (como você) e Deus (como seu Pai), está na verdade a seu lado e já desde aquele momento começa a transformar seu fin­gimento em realidade. Esta não é simplesmente uma maneira rebuscada de dizer que a sua consciência está lhe ditando o que fazer. Se você simplesmente pergun­tar à consciência o que deve fazer, terá uma resposta; se recordar que está sob as vestes de Cristo, terá outra res­posta bem diferente. Há uma porção de coisas que sua consciência não vai achar especialmente erradas (espe­cialmente coisas que passam pela sua cabeça), mas que você percebe de imediato que são inaceitáveis para quem faz um esforço sério para ser como o Cristo. Você não está mais pensando simplesmente em certo e errado; está tentando contrair a boa infecção de uma Pessoa. E uma atividade mais próxima da pintura de um quadro que da obediência a um código de regras. E o curioso é que, de um lado, ela é bem mais difícil que a obediência, mas, de outro, é muito mais fácil.

O verdadeiro Filho de Deus está ao seu lado. Ele está começando a transformar você em algo semelhante a ele. Está começando, por assim dizer, a "injetar" seu tipo de vida e pensamento, sua zoé, em você; está come­çando a transformar o soldadinho de chumbo num ho­mem vivo. A parte de você que não gosta disso é a par­te que ainda é feita de chumbo.

Alguns de vocês podem achar que isto está muito distante de suas experiências pessoais. Talvez digam: "Nunca senti a presença invisível de Cristo a meu lado me ajudando, mas várias vezes fui ajudado por outros se­res humanos." Mal comparando, é como a mulher que, na Primeira Guerra, disse que não se importava com uma possível carestia de pão, pois em sua casa só comiam tor­radas. Se não houver pão, não haverá torrada. Da mesma forma, sem a ajuda de Cristo, os outros seres humanos também não vão nos ajudar. Ele opera em nós de diver­sas maneiras: não apenas dentro dos limites do que cha­mamos de "vida religiosa", mas também por meio da na­tureza, do nosso próprio corpo, dos livros, às vezes inclu­sive mediante experiências que poderiam ser vistas (na hora em que ocorreram) como anticristãs. Quando um jovem que freqüenta a igreja de forma rotineira se dá conta de que realmente não acredita no cristianismo e pára de freqüentá-la - pressupondo que se trate de uma atitude honesta e sincera, e não de algo que ele faz só para aborrecer os pais -, o Espírito de Cristo está mais próxi­mo dele do que jamais esteve antes - pressupondo que tomou essa atitude de coração, e não para incomodar os seus pais. Porém, acima de tudo, Cristo opera em nós através dos outros seres humanos, e neles através de nós.

Os seres humanos são espelhos ou "portadores" de Cristo para os outros seres humanos. Às vezes, portadores inconscientes. A "boa infecção" pode ser transmiti­da até mesmo pelos que não foram infectados. Certas pessoas que não eram cristas me ajudaram a abraçar o cristianismo. Em geral, porém, são os que conhecem o Cristo que o levam às outras pessoas. Esse é o motivo pelo qual a Igreja é tão importante - o corpo inteiro dos cristãos, que revelam o Cristo uns aos outros. Pode-se dizer que, quando dois fiéis juntos seguem Jesus Cristo, o cristianismo não se fortalece apenas em dobro, com­parado ao tempo em que os dois o seguiam separados, mas sim dezesseis vezes.

Não se esqueça de uma coisa: é natural que uma criança de colo, a princípio, beba o leite do seio mater­no sem saber que quem lhe dá o leite é sua mãe. É igual­mente natural que vejamos o homem que nos ajuda sem perceber o Cristo por trás dele. Porém, não devemos permanecer bebês para sempre. Temos de crescer e re­conhecer o verdadeiro Doador. Seria loucura não fazer isso, pois, nesse caso, tudo o que nos restaria seria con­fiar apenas em seres humanos como nós, o que nos le­varia à decepção. Os melhores entre eles cometem er­ros, e todos estão fadados à morte. Devemos ser gratos a todas as pessoas que nos ajudaram, devemos honrá-las e amá-las. Mas nunca, nunca deposite toda a sua fé num ser humano, mesmo que seja a melhor e a mais sá­bia pessoa do mundo. Existe uma porção de coisas interessantes que você pode fazer com areia; mas não vá construir uma casa sobre ela.

Nesse ponto começamos a entender o que o Novo Testamento quer dizer quando assevera que os cristãos "nascem de novo", que "se revestem de Cristo", que Cris­to "é formado em nós" e que aos poucos passamos a "ter a mente de Cristo".

Devemos repelir a idéia de que tudo isso não pas­sa de uma forma figurada de dizer que o cristão é aquele que lê os ensinamentos de Cristo e os segue, como o homem comum que lê Platão ou Marx e tenta seguir o que eles disseram. O que o Novo Testamento pretende é bem mais que isso: que uma Pessoa real, o Cristo, aqui e agora, no aposento em que você ora, está fazen­do algo em você. E não se trata apenas de um homem bom que morreu há dois mil anos. Trata-se de um Ho­mem vivo, ainda tão homem quanto você e ainda tão divino quanto era quando criou o mundo, que realmen­te chega para interferir em seu eu mais profundo, para matar em você o homem velho e substituí-lo pelo tipo de alma que ele mesmo tem. No início, ele só faz isso em alguns momentos. Depois, por períodos mais pro­longados. Por fim, se tudo corre bem, transforma-o per­manentemente num ser de espécie diferente e nova, num pequeno Cristo, num ser que, à sua humilde maneira, possui a mesma espécie de vida que Deus, comungando de seu poder, de sua felicidade, do seu saber e de sua eter­nidade. E logo descobrimos duas outras coisas.

(1) Passamos a notar não apenas nossos atos peca­minosos particulares, mas nossa atitude pecaminosa em geral; ficamos incomodados não apenas com o que fazemos, mas com o que somos. Isso pode ser um pou­co difícil de compreender, e assim vou tentar explicá-lo a partir da minha experiência pessoal. Nas minhas ora­ções noturnas, quando tento contabilizar os pecados do dia, nove em dez vezes pequei contra a caridade: pelo acabrunhamento, pela irritação, pelo escárnio, pelo des­dém ou pelo destempero. A desculpa que surge de ime­diato em minha mente é que a provocação foi súbita e inesperada demais; fui pego com a guarda baixa, não tive tempo para me prevenir. Isso até pode servir como atenuante para aqueles atos particulares, que seriam mui­tíssimo piores se cometidos de forma deliberada e pre­meditada. Por outro lado, será que o que um homem faz quando é pego com a guarda baixa não é o melhor sinal de que tipo de homem ele é na realidade? Não é a verdade que sempre se evidencia quando o homem não tem tempo de vestir seu disfarce? Se existem ratos no porão, a melhor maneira de apanhá-los é entrando no local de sopetão. A entrada repentina não cria os ratos, apenas os impede de se esconder. Da mesma forma, a ra­pidez da provocação não faz de mim um homem mal-humorado; simplesmente mostra o quão mal-humora­do eu efetivamente sou. O porão está sempre cheio de ratos, mas, se chegamos fazendo barulho, eles têm tem­po de buscar um esconderijo antes de acendermos a luz. Pelo jeito, os ratos do ressentimento e da vingança mo­ram no porão da minha alma. Ora, esse porão não está ao alcance da minha vontade consciente. Posso contro­lar meus atos em certa medida, mas não tenho controle direto sobre meu temperamento. Se (como eu disse an­tes) o que mais importa é o que somos, não o que faze­mos - se, com efeito, o que fazemos é importante so­bretudo na medida em que revela o que somos -, a con­clusão inescapável a que chego é que a mudança mais urgente a que devo me submeter é uma mudança que meus esforços diretos e voluntários não podem realizar. Isso vale também para as minhas boas ações. Quantas delas foram praticadas pelos motivos corretos? Quan­tas foram feitas por medo do que os outros iriam pen­sar ou por desejo de me exibir? Quantas delas não sur­giram de uma espécie de teimosia ou senso de superio­ridade que, em circunstâncias diferentes, me levariam a cometer atos abomináveis? Não consigo, pelo esforço moral direto, dar motivos mais nobres às minhas ações. Depois dos primeiros passos na vida cristã, nos damos conta de que tudo o que realmente precisa mudar na alma só pode ser feito por Deus. E isso nos leva a algo que pode ter dado motivo a mal-entendidos na lingua­gem que usei até aqui.

(2) Quem me ouviu falar até agora deve ter ficado com a impressão de que somos nós que fazemos tudo. Na verdade, como é óbvio, é Deus que faz tudo. Nós, na melhor das hipóteses, permitimos que ele o faça. Num certo sentido, até mesmo o fingimento de que falamos é Deus quem o faz. O Deus tripessoal, por assim dizer, vê diante de si um animal humano egocêntrico, ganan­cioso, ressentido e rebelde. Mas diz: "Vamos fazer de conta que esta não é uma mera criatura, mas nosso fi­lho. Na medida em que é um homem, é como o Cristo, que se fez homem. Vamos fazer de conta que essa cria­tura também se parece com ele em espírito. Vamos tra­tá-la como se ela fosse o que não é. Vamos fingir tudo isso para que o fingido se torne o real." Deus olha para você como se você fosse um pequeno Cristo. O Cristo está de pé a seu lado para operar essa transformação em você. Sei que essa idéia de um divino faz-de-conta pode soar estranha num primeiro momento. Mas será ela tão estranha assim? Não é desse modo que as coisas mais elevadas sempre elevam as mais baixas? Para ensinar o bebê a falar, a mãe fala com ele como se ele pudesse en­tendê-la. Tratamos nossos cães como se fossem "quase humanos", e é por isso que eles realmente se tornam quase humanos no final.

 

O CRISTIANISMO É DIFÍCIL OU FÁCIL?

No capítulo antetior, consideramos a idéia cristã de "revestir-se de Cristo", ou seja, de "vestir-se" de filho de Deus para tornar-se enfim um filho de verdade. Gosta­ria agora de deixar bem claro que essa não é apenas uma das muitas tarefas a que o cristão tem de se dedicar, nem tampouco é uma espécie de exercício especial para a classe dos adiantados. E todo o cristianismo. O cristia­nismo não nos oferece nada além disso. E chamo a aten­ção para o quanto isso é diferente das idéias convencio­nais de "moral" e de "ser bom".

A idéia convencional que todos nós temos antes de nos tornarmos cristãos é a seguinte: tomamos como pon­to de partida nosso ser comum, com seus muitos desejos e interesses, Admitimos em seguida que uma outra coisa — chamemo-la "moralidade", "bom comportamen­to" ou "o bem da sociedade" — também tem direitos so­bre o nosso ser, direitos que embaraçam os desejos pró­prios desse ser. Para nós, "ser bom" é ceder a esses direi­tos. Percebemos que algumas coisas que o ser comum queria fazer são o que chamamos de "erradas": ora, temos de desistir de fazê-las. Mas o tempo todo ficamos à espe­ra de que, quando todas as exigências tiverem sido cum­pridas, o pobre ser natural ainda tenha alguma oportuni­dade e algum tempo para cuidar da própria vida e fazer o que bem lhe aprouver. Na verdade, assemelhamo-nos ao homem honesto que paga seus impostos. Ele efetiva­mente os paga, mas sempre espera que lhe reste o sufi­ciente para continuar vivendo. Isso tudo porque ainda tomamos como ponto de partida o nosso ser natural.

Enquanto pensamos desse modo, os resultados pos­síveis que nos esperam são dois: ou desistimos de tentar ser bons ou nos tornamos muito, muito infelizes. Não se engane — se você está realmente disposto a tentar aten­der a todas as exigências que se impõem ao seu ser natu­ral, saiba que não lhe restará o suficiente para continuar vivendo. Quanto mais você obedecer à sua consciência, tanto mais ela lhe cobrará. E o seu ser natural, continua­mente submetido a fome, aos aborrecimentos e aos tormentos, vai se irar cada vez mais. No final, ou você desistirá de tentar ser bom ou se tornará uma daquelas pes­soas que, como se costuma dizer, "vivem para os outros", mas sempre de modo descontente e resmungão — sem­pre a se perguntar por que os outros não reparam nelas e sempre fazendo-se de mártires. E, quando isso aconte­cer, será um estorvo muito maior para os que tiverem de conviver com você do que seria se tivesse permanecido explicitamente egoísta desde o princípio.

A via cristã é diferente: é mais difícil e é mais fácil. Cristo diz: "Quero tudo o que é seu. Não quero uma parte do seu tempo, uma parte do seu dinheiro e uma par­te do seu trabalho: quero você. Não vim para atormen­tar o seu ser natural, vim para matá-lo. As meias-medidas não me bastam. Não quero cortar um ramo aqui e outro ali; quero abater a árvore inteira. Não quero ras­par, revestir ou obturar o dente; quero arrancá-lo. En­tregue-me todo o ser natural, não só os desejos que lhe parecem maus, mas também os que se afiguram inocen­tes - o aparato inteiro. Em lugar dele, dar-lhe-ei um ser novo. Na verdade, dar-lhe-ei a mim mesmo: o que é meu se tornará seu."

Isso é mais difícil e mais fácil do que aquilo que to­dos nós tentamos fazer. Acho que você já percebeu que o próprio Cristo às vezes descreve a via cristã como algo muito difícil, às vezes como algo muito fácil. Diz: "Tome a sua cruz" - em outras palavras, prepare-se para ser espancado até a morte num campo de concentração. Mas, um minuto depois, diz: "Meu jugo é suave e meu fardo é leve." Ele de fato quis dizer as duas coisas, e, se fizermos um pouquinho de esforço, veremos por que as duas são verdadeiras.

Qualquer professor lhe dirá que o aluno mais pre­guiçoso da classe é aquele que, no fim, tem de traba­lhar mais. O que eles querem dizer é o seguinte: se você der a dois meninos um exercício de geometria para re­solver, por exemplo, o menino mais bem disposto pro­curará entendê-lo. O preguiçoso tentará aprendê-lo de cor, pois é isso que, naquele momento, exige menos es­forço. Seis meses depois, porém, quando estiverem am­bos se preparando para um exame, o menino preguiçoso estará penando por horas a fio para estudar coisas que o outro compreende em poucos minutos, e das quais até gosta. Com o tempo, o preguiçoso tem de trabalhar mais. Vamos dar outro exemplo. Numa batalha ou numa escalada de montanha, muitas vezes há uma manobra que exige muita coragem; mas é ela também que, no fi­nal, constitui o movimento mais seguro. Se você optar por outro curso de ação, ver-se-á horas depois num pe­rigo muito maior. O caminho do covarde é também o caminho mais perigoso.

Assim é a nossa vida aqui. A coisa que lhe dá hor­ror, que lhe parece quase impossível, é entregar todo o seu ser — todos os seus desejos e precauções — a Cristo. Mas isso é muito mais fácil que aquilo que todos nós tentamos fazer. Pois o que cada um tenta fazer é conti­nuar sendo aquilo que chama de "ele mesmo", é continuar tendo a felicidade pessoal como grande objetivo na vida, e ao mesmo tempo ser "bom". Cada um tenta deixar que sua mente e seu coração sigam seus próprios cami­nhos — centrados no dinheiro, no prazer ou na ambi­ção —, e apesar disso tem a esperança de se comportar de modo honesto, casto e humilde. Mas é exatamente isso que Cristo nos advertiu que não se pode fazer. Co­mo ele disse, não se geram figos dos abrolhos. Se sou um campo que só contém sementes de capim, não pos­so produzir trigo. Se o capim for cortado, pode até per­manecer baixo: mas nem por isso vou produzir trigo em vez de capim. Se quiser produzir trigo, a mudança terá de ser mais profunda. Meu campo terá de ser carpido e depois semeado com sementes novas.

É por isso que o verdadeiro problema da vida cris­tã se apresenta num contexto em que geralmente não esperamos encontrá-lo: apresenta-se no momento mes­mo em que você acorda de manhã. Todos os seus dese­jos e esperanças para aquele dia avançam em sua direção como bestas selvagens. E, a cada manhã, sua primeira tarefa é simplesmente a de repeli-los; é a tarefa de ouvir aquela outra voz, assumir aquele outro ponto de vista, abrir caminho para aquela outra vida, uma vida maior, mais forte e mais silenciosa. E assim também no res­tante do dia: distanciar-se de todas as suas manhas e ressentimentos naturais; sair do vendaval.

No começo, só nos é possível fazer isso por alguns instantes. Mas, a partir desses instantes, esse novo tipo de vida se dissemina pelo nosso organismo: pois agora deixamos que ele trabalhe sobre a parte correta do nosso ser. E essa a diferença que existe entre uma tinta, que se deposita simplesmente sobre a superfície, e um pigmento ou tintura que penetra no fundo. As palavras dele nunca foram vagas e idealistas. Quando disse "Sede perfeitos", ele estava falando sério. Queria dizer que temos de fazer o tratamento completo. Não é fácil: mas a solução de meio-termo pela qual ansiamos é muito mais difícil - na ver­dade, impossível. Pode ser difícil para um ovo transfor­mar-se numa ave; mas seria muitíssimo mais difícil apren­der a voar sem deixar de ser ovo. Atualmente, nós somos como ovos. O problema é que ninguém pode continuar sendo um simples ovo para sempre. Ou o pássaro quebra a casca ou o ovo gora.

Volto então ao assunto anterior. Nisso está todo o cristianismo. Não há mais nada. E fácil perder esse fato de vista. E fácil pensar que a Igreja tem muitos objetivos diferentes - cuidar da educação, construir edifícios, en­viar missões, organizar cerimônias. Do mesmo modo, é fácil achar que o Estado tem muitos objetivos dife­rentes - militares, políticos, econômicos e por aí afora. Porém, de certo modo, as coisas são muito mais sim­ples que isso. O Estado existe simplesmente para pro­mover e proteger a felicidade comum dos seres huma­nos nesta vida. O marido e a mulher que conversam ao pé do fogo, um grupo de amigos que joga dardos num pub, um homem que lê em seu escritório ou cuida do seu jardim — é para isso que o Estado existe. E a menos que ajudem a multiplicar, prolongar e proteger esses mo­mentos, todas as leis, parlamentos, exércitos, tribunais, polícias, políticas econômicas etc. serão mera perda de tempo. Do mesmo modo, a Igreja só existe para reabsorver os homens em Cristo, para fazer deles pequenos Cristos. E, se isso não acontece, as catedrais, o clero, as missões, os sermões, a própria Bíblia não passam de uma perda de tempo. Foi só para isso que Deus se fez homem. Pode até ser, saiba você, que o próprio univer­so tenha sido criado só para isso. A Bíblia diz que o universo inteiro foi feito para Cristo e que todas as coi­sas devem ser unidas nele. Parece-me que ninguém pode saber como isso vai acontecer com o universo inteiro. Não sabemos quais os seres (se é que existem) que vi­vem naquelas partes do universo que ficam a milhões de milhas desta Terra. Mesmo nesta Terra, não sabemos como isso pode acontecer com outros seres que não o homem. Mas, no fim das contas, isso seria de esperar. Só nos foi revelada aquela parte do plano que nos diz res­peito diretamente.

Às vezes gosto de imaginar que sou capaz de vis­lumbrar como o mesmo poderia acontecer com outras coisas. Vejo que os animais superiores são de certa for­ma reabsorvidos no ser humano quando ele os ama e os torna (como de fato acontece) muito mais humanos do que de outro modo seriam. Vejo até mesmo que, de certo modo, os seres inanimados e os vegetais são reab­sorvidos no ser humano à medida que ele os estuda e os aprecia. E, se existem criaturas inteligentes em outros mundos, elas podem fazer a mesma coisa nos mundos que habitam. Pode ser que, quando os seres inteligentes en­trarem em Cristo, eles levem consigo, desse modo, todas os outros seres criados. Pode ser, mas não sei: é só um palpite que tenho.

O que nós sabemos, porque isto sim nos foi dito, é como nós homens podemos ser reabsorvidos em Cristo - podemos passar a fazer parte daquele presen­te maravilhoso que o jovem Príncipe do universo quer oferecer ao seu Pai - aquele presente que é ele mesmo e, portanto, somos nós nele. Foi só para isso que fomos criados. E a Bíblia nos dá a entender que, quando for­mos reabsorvidos, muitas outras coisas da natureza co­meçarão a entrar nos eixos. O pesadelo terá terminado e um novo dia nascerá.

 

AVALIAR O CUSTO

Ao que parece, muita gente se sentiu incomodada com o que eu disse no capítulo anterior a respeito das pa­lavras de Nosso Senhor: "Sede perfeitos." Certas pes­soas aparentemente pensam que isso significa: "Se vocês não forem perfeitos, não os ajudarei"; e, se foi isso que ele quis dizer, não temos esperança alguma, pois não conseguimos ser perfeitos. Mas não acho que foi isso que ele quis dizer. Acho que ele disse: "A única ajuda que lhes darei é a ajuda de que vocês precisam para ser per­feitos. Pode até ser que vocês queiram menos que isso; mas eu não lhes darei menos."

Deixem-me explicar. Quando era criança, eu tinha muita dor de dentes e sabia que, se me queixasse à minha mãe, ela me daria algo que faria passar a dor naquela noite e me deixaria dormir. Porém, eu não me queixa­va à minha mãe — ou só o fazia quando a dor se tornava insuportável. E o motivo pelo qual não me queixava é o seguinte: não tinha dúvidas de que ela me daria uma aspirina, mas sabia que não pararia por aí. Sabia que, na manhã seguinte, me levaria ao dentista. Eu não po­dia obter dela o que queria sem obter também outra coisa, que não queria. Queria o alívio imediato da dor; mas, para ter isso, teria de submeter meus dentes ao tratamento completo. E conhecia os dentistas: sabia que eles começariam a mexer com outros dentes que ainda não escavam doendo. Eram do tipo que mexiam em casa de marimbondos e que, quando se lhes dava a mão, que­riam pegar também o braço.

Ora, se posso me exprimir deste modo, Nosso Se­nhor é como os dentistas. Se você lhe der a mão, ele vai querer o braço. Dezenas de pessoas o procuram para se curar de um pecado específico que as envergonha (como a masturbação ou a covardia física) ou que perturba de modo evidente sua vida cotidiana (como o mau humor ou o alcoolismo). Bem, ele cura esse problema; mas não pára por aí. Mesmo que você lhe peça somente a cura da­quele mal específico, ele lhe dará o tratamento completo. E por isso que ele nos aconselhou a "avaliar o custo" antes de nos tornarmos cristãos. "Não se engane", diz ele. "Se você me deixar trabalhar, vou torná-lo perfei­to. No momento em que você se entregar em minhas mãos, é para isso que se terá entregue - nada menos que isso, nada diferente disso. Você é dotado de vontade li­vre e, se quiser, pode me afastar de si. Mas, se não me afastar, saiba que não vou parar enquanto não terminar esse serviço. Por mais que você sofra nessa vida terrena, por mais que passe por purificações inconcebíveis de­pois da morte, por mais que isso me custe, não descan­sarei nem o deixarei descansar enquanto você não for literalmente perfeito - enquanto meu Pai não puder di­zer sem reservas que se agrada de você como se agradou de mim. E isso que posso fazer e é isso que vou fazer. Mas não farei nada menos que isso."

Não obstante — e este é o outro lado da questão, tão importante quanto o primeiro -, o mesmo Auxiliador que não aceita ao final nenhuma outra coisa que não seja a perfeição absoluta também se compraz com o mais ínfimo e titubeante esforço que você empreende para cumprir o menor dos seus deveres. Como obser­vou um grande escritor cristão (George MacDonald), não há pai que não se agrade com os primeiros passos de seu bebê; mas nenhum pai ficaria satisfeito se não visse o filho já crescido caminhar com um passo firme, livre e másculo. Do mesmo modo, segundo ele, "Deus se agrada facilmente, mas não se satisfaz com facilidade".

A conseqüência prática é a seguinte: por um lado, mesmo que Deus exija a perfeição, você não precisa em absoluto se desanimar com suas tentativas atuais de ser bom, ou mesmo com seus atuais fracassos. Toda vez que você fracassar, ele o colocará novamente em pé. E ele tem perfeita consciência de que seus próprios esforços não o aproximarão em nada da perfeição. Por outro lado, você tem de saber desde o principio que a meta rumo à qual ele o dirige é a perfeição absoluta; e não existe poder algum no universo, exceto você mesmo, que pos­sa impedi-lo de conduzir você a essa meta. E nisso que você entrou, e é importante que o saiba. Se não souber, a certa altura provavelmente começará a recalcitrar e a resistir. Segundo me parece, quando Cristo nos habili­ta a vencer um ou dois pecados que nos atrapalhavam de maneira óbvia, muitos de nós tendemos a sentir (em­bora não o formulemos em palavras) que já somos bons o suficiente. Ele fez tudo quanto queríamos que fizes­se e agora agradeceríamos muito se nos deixasse em paz. E como costumamos dizer: "Nunca quis ser santo. Tudo o que queria era ser uma pessoa decente e comum." E, quando dizemos isso, imaginamos que estamos sendo humildes.

Mas eis aí um engano fatídico. E claro que nunca quisemos e nunca pedimos que ele nos transformasse nesse tipo de criatura em que vai nos transformar. Mas o problema não é o que nós queríamos ser; é o que ele queria que fôssemos quando nos criou. Foi ele que nos fez. Ele é o inventor; nós somos a máquina. Ele é o pin­tor; nós, a pintura. Como podemos saber o que ele quer que sejamos? Veja só, ele já fez de nós algo muito diferente do que antes éramos. Há muito tempo, antes de nascermos, quando ainda estávamos no útero de nos­sa mãe, passamos por vários estágios. Éramos, no co­meço, semelhantes a vegetais, e depois nos tornamos semelhantes a peixes; foi só num estágio posterior que nos tornamos semelhantes a bebês humanos. E, se tivés­semos tido consciência desses estágios anteriores, arris­co-me a dizer que teríamos ficado muito contentes de permanecer semelhantes a vegetais ou a peixes — não te­ríamos gostado de ser transformados em bebês. Porém, ele sempre conheceu o plano que fez para nós e sempre esteve determinado a levá-lo a cabo. Algo parecido está acontecendo agora, num nível superior. Podemos até nos contentar com ser o que chamamos de "pessoas co­muns", mas ele está determinado a levar a cabo um pla­no muito diferente. Recusar-se a seguir esse plano não é humildade: é preguiça e covardia. Submeter-se a ele não é presunção nem megalomania, mas obediência.

Eis outra maneira de formular os dois lados dessa verdade. Por um lado, não devemos jamais imaginar que nossos esforços por si sós bastarão para nos conservar como pessoas "decentes" nem mesmo pelas próximas vinte e quatro horas. Se ele não nos sustentar, nenhum de nós estará a salvo de cometer algum pecado abomi­nável. Por outro lado, nenhum grau de santidade ou heroísmo, nem mesmo os graus alcançados pelos maio­res entre os santos, está além do que ele se determina a produzir em cada um de nós no final. A tarefa não fi­cará terminada nesta vida; mas ele pretende nos levar tão longe quanto possível antes de morrermos.

E por isso que não devemos nos surpreender se coi­sas ruins começarem a acontecer. Quando um homem se volta pata Cristo e parece estar bem (na medida em que alguns de seus maus hábitos estão corrigidos), ele pode pensar que a coisa mais natural seria que sua vida agora transcorresse sem problemas. Quando as tributa­ções chegam - doenças, problemas de dinheiro, novos tipos de tentação —, ele se decepciona. Aos olhos dele, essas coisas foram necessárias antes, para despertá-lo e fazê-lo arrepender-se; mas, e agora: por quê? Porque Deus o está obrigando a progredir ou subir a um novo nível: colocando-o em situações em que ele terá de ser muito mais corajoso, muito mais paciente, muito mais amoroso do que jamais sonhara ser. A nós, tudo isso parece desnecessário: mas é porque não temos ainda o menor vislumbre do ser tremendo em que ele quer nos transformar.

Parece-me que tenho de tomar emprestada mais uma parábola de George MacDonald. Imagine-se como uma casa, uma casa viva. Deus chega para reformar e reconstruir essa casa. No começo, talvez você consiga entendei o que ele está fazendo. Ele desentope os ralos, conserta as goteiras do telhado etc: você sabia que esses consertos eram necessários e por isso não se surpreen­de. Mas de repente ele começa a derrubar as paredes da casa; isso lhe causa uma dor terrível e aparentemente não tem sentido. O que ele pretende fazer? A explica­ção é que ele está construindo uma casa muito diferente da que você queria ser — está construindo uma nova ala aqui, acrescentando um novo pavimento ali, erguendo torres, abrindo pátios. Você pensava que seria transfor­mado num simpático chalezinho, mas ele está construin­do um palácio no qual pretende habitar em pessoa.

O mandamento Sede perfeitos não é uma palavra vazia e idealista, nem uma ordem para que o ser huma­no realize o impossível. Ele vai nos transformar em cria­turas capazes de obedecer a esse mandamento. Na Bí­blia, ele disse que somos "deuses", e será fiel às suas pa­lavras. Se o deixarmos agir — pois podemos impedi-lo, se quisermos —, ele fará do mais fraco e do maior pecador entre nós um deus ou uma deusa, uma criatura lumi­nosa, radiante e imortal, tomada por uma pulsação tal de energia, alegria, sabedoria e amor que agora somos incapazes de imaginar; um espelho claríssimo e sem mácula que reflete perfeitamente ao próprio Deus (em­bora, como é óbvio, numa escala menor) o seu poder, sua bondade e sua felicidade infinita. O processo será longo e, às vezes, muito doloroso, mas é nesse proces­so que entramos — nada menos do que isso. Ele estava falando sério.

 

BOAS PESSOAS OU NOVAS CRIATURAS

Ele estava falando sério. Os que se colocam em suas mãos serão perfeitos como ele é perfeito — perfeitos em amor, em sabedoria, em alegria, em beleza e em imor­talidade. A mudança não se completará nesta vida, pois a morte é um elemento importante do tratamento. Não se sabe o quanto o processo de transformação estará avan­çado na hora da morte de cada cristão.

Acho que chegou a hora certa para responder a uma pergunta que muitas vezes se coloca: se o cristianis­mo é verdadeiro, por que nem todos os cristãos são evi­dentemente melhores do que os não-cristãos? Por trás des­sa pergunta existe algo perfeitamente razoável e algo que não é razoável de modo algum. O elemento razoável é o seguinte: se a conversão ao cristianismo não melhora em nada as ações exteriores de um homem — se ele con­tinua sendo tão esnobe, tão rancoroso, tão invejoso ou tão ambicioso quanto era antes - devemos, na minha opinião, suspeitar que sua "conversão" foi, em grande medida, imaginária; e a cada avanço que a pessoa pen­sa ter feito depois da conversão original, é essa a prova a ser aplicada. Bons sentimentos, novas idéias e um in­teresse maior pela "religião" nada significam se não me­lhoram nosso comportamento, assim como o fato de um doente se "sentir melhor" de nada aproveita se o termô­metro mostra que sua temperatura ainda está subindo. Nesse sentido, o mundo exterior tem toda razão de jul­gar o cristianismo pelos seus resultados. O próprio Cris­to nos mandou julgar pelos resultados. A árvore é co­nhecida pelos seus frutos; ou, como dizem os ingleses, a prova da sobremesa está no comer. Quando nós, cris­tãos, nos comportamos mal ou deixamos de nos com­portar bem, fazemos com que o cristianismo perca cre­dibilidade aos olhos do mundo exterior. Os pôsteres da época da guerra nos diziam que "Palavras descuidadas custam vidas" [Careless talk costs lives]. Com a mesma verdade podemos dizer que "Vidas descuidadas custam palavras". Nossas vidas descuidadas levam o mundo ex­terior a falar; e nós lhe damos motivos para falar palavras que põem em dúvida a verdade do próprio cristianismo.

Mas existe um outro modo de se exigir resultados, um modo no qual o mundo exterior se mostra totalmen­te ilógico. As pessoas que pertencem a ele não se limi­tam a exigir que a vida de cada homem melhore quando ele se torna cristão; exigem também, para poder crer no cristianismo, que o mundo inteiro se lhes apresente nitidamente dividido em dois campos - o cristão e o não-cristão — e que todas as pessoas que estão no primei­ro campo sejam, a qualquer momento, evidentemente melhores que todas as que estão no segundo. Por diver­sos motivos, isso não é nem um pouco razoável.

(1) Em primeiro lugar, a situação verdadeira do mun­do é muito mais complicada. O mundo não é feito de pessoas 100 por cento cristãs e pessoas 100 por cento não-cristãs. Existem pessoas (em grande número) que estão lentamente deixando de ser cristãs, mas que ain­da se chamam por esse nome; algumas delas fazem parte da liderança da Igreja. Existem outras pessoas que estão lentamente se tornando cristãs, embora ainda não se cha­mem por esse nome. Existem pessoas que não aceitam toda a doutrina cristã a respeito de Cristo, mas que são a tal ponto atraídas por ele que chegam a pertencer a ele num sentido muito mais profundo do que elas mes­mas poderiam compreender. Existem membros de ou­tras religiões que, pela influência secreta de Deus, são levados a concentrar-se naqueles elementos de suas religiões que concordam com o cristianismo, e que assim pertencem a Cristo sem o saber. Um budista de boa vontade, por exemplo, pode ser levado a concentrar-se cada vez mais na doutrina budista da compaixão, dei­xando em segundo plano os elementos doutrinais que versam sobre outras questões (embora possa ainda afir­mar crer nessa doutrina como um todo). E possível que muitos dos bons pagãos que viveram antes do nasci­mento de Cristo tenham estado nessa situação. E, como seria de esperar, sempre existe um número infindável de pessoas que são simplesmente confusas e têm uma por­ção de crenças incoerentes misturadas dentro de si. Con­seqüentemente, não há muita utilidade em se tentar emi­tir juízos sobre os cristãos e os não-cristãos considera­dos em seu conjunto. Vale a pena tentar comparar em conjunto os cães e os gatos, ou mesmo os homens e as mulheres, pois nesses casos não há a menor dúvida so­bre quem é quem. Além disso, nenhum animal se trans­forma de gato em cachorro (nem lentamente nem de súbito). Mas, quando comparamos os cristãos em geral com os não-cristãos em geral, com freqüência não pen­samos nas pessoas reais que conhecemos, mas em duas idéias vagas que nos foram incutidas pelos romances e notícias de jornal. Se você quiser comparar o bom ateu com o mau cristão, terá de pensar sobre dois espécimes reais que você efetivamente conheceu. Se não descermos assim aos fatos concretos, estaremos simplesmente perdendo tempo.

(2) Vamos supor que descemos aos fatos concretos e não estamos mais falando sobre um cristão e um não-cristão imaginários, mas sobre duas pessoas de verdade que moram no nosso bairro. Mesmo nesse caso, temos de cuidar para não fazer a pergunta errada. Se o cristia­nismo é verdadeiro, é necessário que (a) qualquer cristão seja melhor do que ele mesmo seria se não fosse cris­tão; e (b) todo aquele que se tornar cristão seja melhor do que era antes. Da mesmíssima maneira, se as propa­gandas do creme dental Sorriso de Prata são verdadei­ras, é necessário que (a) qualquer um que o use tenha dentes melhores do que teria se não o usasse; e (b) se alguém começar a usá-lo, seus dentes melhorem. Mas o simples fato de que eu, que uso Sorriso de Prata mas herdei dentes ruins do meu pai e da minha mãe, não te­nho dentes tão bons quanto os de um jovem africano saudável que nunca usou creme dental de espécie alguma, não prova por si mesmo que a propaganda é enganosa. Assim, a cristã srta. Bates pode ter uma língua mais mal­dosa que a do incréu Dick Firkin. Esse fato, por si mes­mo, não nos diz se o cristianismo funciona ou não. As perguntas são as seguintes: como seria a língua da srta. Bates se ela não fosse cristã, e como seria a de Dick se ele se convertesse? Em virtude de causas naturais e da criação que tiveram, Dick e a srta. Bates têm certos tem­peramentos; o cristianismo propõe-se a colocar ambos os temperamentos sob nova direção se seus respectivos donos o permitirem. O que você tem o direito de per­guntar é se a nova direção, caso possa assumir o con­trole, de fato vai melhorar o desempenho da empresa. Todos sabem que aquilo que está sendo administrado em Dick Firkin é muito melhor que na srta. Bates. Não é esse o problema. Para julgar a administração de uma fábrica, não basta considerar os produtos; é preciso con­siderar o maquinado. Em vista do maquinário da Fá­brica A, pode ser um verdadeiro milagre que ela consiga produzir qualquer coisa; em vista do maquinário da Fá­brica B, sua produção, embora grande, talvez seja bem menor do que deveria ser. Não há dúvida de que o bom administrador da Fábrica A vai instalar novas máquinas assim que puder, mas isso leva tempo. Enquanto isso, a baixa produção não prova que ele fracassou.

(3) Agora, vamos um pouco mais ao fundo. O admi­nistrador vai instalar novas máquinas: quando Cristo terminar de fazer o que tem de fazer com a srta. Bates, ela será efetivamente muito "boa". Mas, se parássemos por aí, ficaríamos com a impressão de que o único ob­jetivo de Cristo foi conduzir a srta. Bates ao mesmo nível em que Dick sempre esteve. Na verdade, estivemos fa­lando como se com Dick estivesse tudo bem; como se o cristianismo fosse algo que os mal-humorados neces­sitam e que os simpáticos podem se dar ao luxo de fi­car sem; e como se tudo quanto Deus exige fosse um pouco de bondade natural. Porém, esse é um engano fatal. A verdade é que, aos olhos de Deus, Dick Firkin precisa ser "salvo" exatamente da mesma maneira que a srta. Bates. Em certo sentido (vou explicar esse sentido daqui a pouco), essa bondade natural nem sequer é le­vada em conta.

Não se pode pensar que Deus vê exatamente da mesma maneira que nós o temperamento plácido e a disposição amistosa de Dick. Eles resultam de causas na­turais criadas pelo próprio Deus. Uma vez que são qua­lidades de temperamento, vão todas desaparecer se os processos digestivos de Dick se alterarem. A bondade na­tural, na verdade, é um dom que Deus concedeu a Dick, e não um dom que Dick concedeu a Deus. Do mesmo modo, Deus deixou que as causas naturais, operando num mundo estragado por séculos e séculos de peca­do, produzissem na srta. Bates a mente estreita e os ner­vos à flor da pele que explicam a maior parte do seu mau humor. Ele pretende, a seu tempo, endireitar esse elemento da constituição dela. Mas, para Deus, não é essa a parte mais importante do assunto. Não é a parte difícil nem a parte que o preocupa. O que ele observa, espera e pretende produzir é algo que não é fácil nem mesmo para ele, uma vez que, em virtude da natureza das coisas, nem mesmo ele é capaz de produzi-lo por um simples ato de poder. Ele observa e espera por algo tanto na srta. Bates quanto em Dick Firkin. Trata-se de algo que eles podem entregar livremente a ele ou livre­mente recusar. Será que vão voltar-se para ele e assim cumprir a finalidade única em vista da qual foram cria­dos? Ou será que não? O livre-arbítrio trepida dentro deles como a agulha de uma bússola. Porém, essa agulha é dotada do poder de escolha: ela pode indicar o Norte verdadeiro, mas não necessariamente o indica. Será que a agulha vai girar, parar e apontar para Deus?

Ele pode ajudá-la a fazer isso, mas não pode obri­gá-la. Não pode, por assim dizer, estender sua mão e co­locar a agulha na posição correta, pois nesse caso ela não seria livre. Será que ela vai apontar para o Norte? E essa a pergunta da qual tudo depende. Será que a srta. Ba­tes e Dick Firkin vão oferecer cada qual a sua natureza a Deus? Se a natureza que eles negam ou oferecem é, num determinado momento, boa ou má, isso é um ponto de importância secundária. Deus mesmo pode cuidar des­sa parte do problema.

Não me entendam mal. E claro que, aos olhos de Deus, uma natureza má é ruim e deplorável. E é claro que, para ele, uma boa natureza é uma coisa boa - boa como o pão, a luz do sol ou a água. Ou seja, é uma daquelas coisas boas que ele dá e nós recebemos. Foi ele quem criou os nervos sãos e a boa digestão de Dick, e nele existem muitos outros iguais a esses. Pelo que sa­bemos, a criação de coisas boas não custa nada a Deus; mas a conversão de vontades rebeldes custou-lhe a crucificação. E, pelo fato de serem vontades, elas podem - nas pessoas "boas" como nas "malvadas" - recusar o pedi­do dele. Então, como a simpatia de Dick é um simples elemento da natureza, no fim ela vai ruir. A própria na­tureza passará. As causas naturais se juntaram em Dick para constituir um padrão psicológico agradável, assim como se juntam num pôr-do-sol para constituir um agradável padrão de cores. Muito em breve (pois é as­sim que a natureza funciona) elas vão se separar de novo e ambos os padrões vão desaparecer. Dick teve a opor­tunidade de transformar (ou, antes, de deixar Deus trans­formar) esse padrão momentâneo na beleza de um es­pírito eterno; e não a aproveitou.

Há aí um paradoxo. Enquanto Dick não se volta para Deus, pensa que sua bondade pertence a ele; e, en­quanto ele pensar assim, ela não lhe pertencerá. E só quan­do Dick perceber que sua bondade não é dele, mas um dom de Deus, e quando a oferecer de novo a Deus — é só então que ela começará a pertencer-lhe realmente. Por enquanto, Dick está apenas usufruindo sua cria­ção. As únicas coisas que podemos conservar são as que entregamos a Deus. As que guardamos para nós são as que perderemos com certeza.

Por isso, não devemos nos surpreender se encon­trarmos entre os cristãos pessoas que ainda são más. Quando se pensa no assunto, conclui-se até que existe uma razão pela qual é de esperar que as pessoas más se convertam a Cristo em número maior do que as boazinhas. Foi por causa disso que as pessoas se queixaram de Cristo durante sua vida terrena: ele atraía essas "pes­soas desagradáveis". Ê disso que as pessoas ainda se quei­xam e sempre se queixarão. Você não vê por quê? Cristo disse: "Bem-aventurados os pobres" e "Como é difícil a um rico entrar no Reino", e não há dúvida de que ti­nha em mente, antes de mais nada, os economicamen­te ricos e os economicamente pobres. Mas será que suas palavras não se aplicam também a um outro tipo de ri­queza e de pobreza? Um dos perigos de se ter muito di­nheiro é que você pode ficar satisfeito com o tipo de fe­licidade que o dinheiro pode comprar e, assim, pode deixar de perceber o quanto precisa de Deus. Quando tudo parece depender do simples ato de assinar um che­que, você pode se esquecer de que, a cada momento, depende totalmente de Deus. Ora, é óbvio que os dons naturais levam em si um perigo semelhante. Se você tem um sistema nervoso sólido, inteligência, saúde, popu­laridade e uma boa criação, é muito provável que fique satisfeito com o seu caráter tal como ele é. Pode per­guntar: "Por que meter Deus nisso?" Para você, não é difícil ter um certo nível de boa conduta. Você não é uma daquelas criaturas miseráveis que está sempre trope­çando no sexo, na dipsomania, no nervosismo ou no mau humor. Todos dizem que você é um cara legal e (cá entre nós) você concorda com eles. Tende a crer que toda essa simpatia vem de você mesmo; e não sente a necessidade de um tipo melhor de bondade. E muito comum que as pessoas que têm esses bons traços natu­rais não possam ser levadas a reconhecer o quanto pre­cisam de Cristo até o dia em que sua bondade natural fracassa e sua auto-estima vai por água abaixo. Em ou­tras palavras, para os que são "ricos" nesse sentido, é di­fícil entrar no Reino.

E muito diferente a situação das pessoas más e de­sagradáveis - das pessoas pequenas, vis, tímidas, perver­tidas, covardes e solitárias, ou das passionais, sensuais e desequilibradas. Quando elas fazem qualquer tentativa de ser boas, percebem em dois tempos que precisam de ajuda. Para elas, é ou Cristo ou nada. É tomar a cruz e segui-lo — ou cair no desespero. São elas as ovelhas per­didas: ele veio especialmente para encontrá-las. São elas (num sentido muito verdadeiro, e terrível) os "pobres": ele as declarou bem-aventuradas. São elas o "bando de esfarrapados" com os quais ele caminha - e é claro que os fariseus ainda dizem, como disseram desde o início: "Se o cristianismo fosse algo sério, essas pessoas não se­riam cristãs!"

Há aí uma advertência ou uma palavra de encora­jamento para cada um de nós. Se você é uma pessoa "boa" - se a virtude para você é algo fácil -, cuidado! Muito se espera daquele a quem muito se deu. Se você atribui a seus próprios méritos aquilo que na verdade foi uma dádiva que Deus lhe concedeu pela natureza, e se contenta com o simples fato de ser bom, ainda não passa de um rebelde: e todos esses dons só servirão para tornar mais terrível a sua queda, mais complicada a sua corrupção, mais desastroso o seu mau exemplo. O dia­bo já foi um arcanjo; os dons naturais dele estavam tão acima dos seus quanto os seus estão acima dos de um chimpanzé.

Mas, se você é um dos pobres - envenenado por uma criação miserável numa casa cheia de ciúmes vulga­res e brigas gratuitas -, sobrecarregado, independente­mente da sua vontade, por uma abominável perversão sexual - espicaçado noite e dia por um complexo de in­ferioridade que o leva a perder a paciência com seus me­lhores amigos -, não se desespere. Ele está bem ciente de tudo isso. Você é um dos pobres que ele abençoou. Ele conhece a máquina ruim que você tenta dirigir. Vá em frente. Faça o possível. Um dia (talvez em outro mundo, mas talvez muito antes disso) ela jogará essa máquina no monturo de ferro-velho e lhe dará uma nova. E en­tão você poderá nos surpreender a todos — e inclusive a si mesmo: pois terá aprendido a dirigir numa escola bem difícil. (Alguns dos últimos serão os primeiros, e alguns dos primeiros serão os últimos.)

A "bondade natural" - uma personalidade sadia e integrada — é uma coisa excelente. Por todos os meios que a medicina, a educação, a economia e a política nos põem à disposição, temos de procurar produzir um mun­do em que o maior número possível de pessoas cres­çam "boas" - assim como temos de tentar produzir um mundo em que todos tenham o bastante para comer. Mas não devemos pensar que, mesmo que nos fosse pos­sível fazer com que todos fossem bons, estaríamos sal­vando as almas de todos. Um mundo de pessoas boazinhas, satisfeitas com a própria bondade natural, cegas para tudo o mais, olhando para longe de Deus, estaria tão necessitado de salvação quanto um mundo de infe­licidade — e talvez fosse até mais difícil de salvar.

Isso porque a simples melhora não é redenção, em­bora a redenção sempre melhore as pessoas, mesmo aqui e agora, e no fim chegue a aperfeiçoá-las num grau que ainda não conseguimos imaginar. Deus se fez homem para que as criaturas se tornassem filhos: não simples­mente para produzir homens melhores do tipo antigo, mas para produzir um novo tipo de homem. É como se,

em vez de ensinar um cavalo a saltar cada vez melhor e mais alto, nós o tornássemos uma criatura alada. E claro que, quando suas asas crescessem, ele voaria por sobre cercas que nenhum cavalo poderia saltar, e assim vence­ria o cavalo natural no seu próprio território. Mas ha­veria um período, quando as asas ainda estivessem ape­nas começando a crescer, em que não poderia fazer isso; e, nesse estágio, as protuberâncias nos ombros — nin­guém seria capaz de dizer, pelo simples olhar, que vi­riam a transformar-se em asas - poderiam até dar-lhe uma aparência canhestra.

Mas talvez já tenhamos nos estendido demais so­bre este assunto. Se o que você quer é um argumento contra o cristianismo (e me lembro muito bem de o quanto ansiei por um argumento desses quando come­cei a ter medo de que o cristianismo fosse verdadeiro), não é difícil encontrar um cristão estúpido e medíocre e vociferar: "Então é essa a nova criatura da qual vocês se gabam! Prefiro a antiga!" Porém, quando você começar a perceber que existem outros motivos pelos quais o cristianismo é plausível, saberá em seu coração que esse tipo de argumento não tem nada a ver com o assunto. Que sabe você das almas das outras pessoas - de suas ten­tações, suas oportunidades, suas lutas? De toda a criação, só uma alma você conhece; ela é a única cujo destino está em suas mãos. Se Deus existe, você está, em certo sentido, sozinho diante dele. Não pode fazê-lo desapa­recer com especulações sobre seus vizinhos ou memórias de coisas lidas em livros. De que valerá essa balbúrdia e essa murmuração - será que você será mesmo capaz de se lembrar de tudo isso? — quando a neblina anestésica que chamamos de "natureza" ou de "mundo real" se dissipar e a Presença diante da qual você sempre es­teve se mostrar palpável, imediata e inevitável?

 

AS NOVAS CRIATURAS

No capítulo anterior, comparei a obra crística de criar novas criaturas com o processo pelo qual um cavalo se torna uma criatura alada. Usei esse exemplo extremo para deixar bem claro que aquilo de que se trata não é uma simples melhora, mas uma transformação. A coisa que mais se aproxima disso no mundo da natureza são as transformações notáveis que podemos provocar nos in­setos quando projetamos certos raios sobre eles. Há quem pense que foi assim que ocorreu a evolução. As altera­ções das quais esse processo depende poderiam ter sido produzidas por raios vindos do espaço sideral. (É claro que, quando as alterações passam a existir, passam tam­bém a sofrer a influência daquilo que se chama "seleção natural": as alterações úteis permanecem e as demais são extirpadas.)

Talvez um homem moderno possa compreender melhor a idéia cristã se a entender no contexto da evo­lução. Hoje em dia, todos já ouviram falar da evolução (embora haja homens instruídos que não creiam nela): todos já tiveram de ouvir que o homem evoluiu a par­tir das formas inferiores de vida. Conseqüentemente, as pessoas amiúde se perguntam: "Qual será o próximo passo? Quando aparecerá o ser que virá depois do ho­mem?" Escritores cheios de imaginação tentam às vezes desenhar a figura desse próximo passo - o "super-homem", pois assim o chamam; mas, no geral, só conse­guem esboçar os contornos de um ser muito pior do que o homem que conhecemos, e depois tentam compen­sar esse fato dando-lhe novos pares de braços e pernas. Mas suponhamos que o próximo passo seja algo muito mais dessemelhante dos passos anteriores do que ima­ginam esses escritores. Não é provável que assim seja? Há milhares de séculos, criaturas gigantescas e dotadas de cascos pesadíssimos surgiram sobre a Terra. Se na­quela época houvesse alguém que observasse o curso da evolução, provavelmente pensaria que ela caminhava na direção de cascos cada vez mais pesados. Estaria erra­do, porém. O futuro tinha uma carta na manga, uma car­ta que, naquele momento, não poderia ter sido prevista de modo algum. Estava a ponto de gerar pequenos seres nus, sem cascos nem espinhos, mas dotados de cérebros melhores: seres que, com esses cérebros, viriam a domi­nar o planeta inteiro. Não só teriam mais poder que os monstros pré-históricos como teriam um novo tipo de poder. O passo seguinte não só foi diferente como tam­bém foi marcado por um novo tipo de diferença. A cor­rente da evolução não seguiria a direção em que nosso hipotético observador a via fluir: na verdade, estava a ponto de fazer uma curva acentuada.

Ora, me parece que a maioria das conjecturas po­pulares sobre o próximo passo estão cometendo o mes­mo tipo de erro. As pessoas vêem (ou pelo menos pen­sam que vêem) os homens desenvolvendo um cérebro gigantesco e ampliando o domínio sobre a natureza. E, como pensam que a corrente está fluindo nessa dire­ção, imaginam que continuará seguindo o mesmo curso. Mas não posso deixar de pensar que o próximo passo será completamente novo e tomará uma direção com a qual ninguém teria sonhado. Se não fosse assim, não poderia propriamente ser chamado um próximo passo. Penso que ele não só será diferente como também será caracterizado por um novo tipo de diferença. Não con­jectura uma simples mudança, mas um novo método de produzir a mudança. Ou, para propor um paradoxo, conjectura que o próximo estágio da evolução não será de modo algum um estágio evolutivo: penso que a pró­pria evolução será superada enquanto método de produ­ção da mudança. E, por fim, não me surpreenderei se, quando isso acontecer, pouca gente perceber que está acontecendo.

Ora, se pretendemos continuar usando essa lingua­gem, a idéia cristã é que esse próximo passo já foi dado. E, de fato, ele é completamente novo. Não é uma mu­dança de homens cerebrais para homens mais cerebrais ainda: é uma mudança que parte numa direção com­pletamente diferente — de criaturas de Deus para filhos de Deus. O primeiro caso dessa mudança surgiu na Pa­lestina há dois mil anos. Em certo sentido, a mudança não é uma "evolução" de modo algum. Não é algo que nasce do processo natural dos acontecimentos, mas algo que entra na natureza vindo de fora dela. Porém, não deveríamos esperar outra coisa. Foi do estudo do pas­sado que chegamos à nossa idéia de "evolução". Se de fato existem novidades à nossa espera, é evidente que nos­sa idéia, baseada no passado, não poderia prevê-las. E na verdade esse próximo passo é diferente dos anterio­res não só por vir de fora da natureza, mas por vários outros motivos também.

(1) Ele não se propaga pela reprodução sexual. Por que nos surpreender diante disso? Houve tempo em que os sexos não existiam; o desenvolvimento se dava por outros métodos. Conseqüentemente, é de esperar que ve­nha um tempo em que as relações sexuais não existam mais, ou senão (como já está de fato acontecendo) um tempo em que, embora elas continuem existindo, dei­xem de ser os principais canais do desenvolvimento.

  1. Nos estágios anteriores, os organismos vivos não tinham escolha: eram obrigados ou praticamente obri­gados a dar o passo seguinte. Em geral, o progresso era algo que lhes acontecia, não algo que eles mesmos em­preendiam. Porém, este passo novo, o passo que nos con­duz da condição de criaturas à condição de filhos, é vo­luntário. E voluntário pelo menos em um sentido. Não é voluntário porque nós, por nossa própria conta, po­deríamos tê-lo dado ou tê-lo mesmo imaginado; mas é voluntário na medida em que, quando nos é oferecido, podemos recusá-lo. Se quisermos, podemos regredir; po­demos recalcitrar e deixar que a nova humanidade vá em frente sem a nossa presença.

  2. Eu disse que Cristo foi o "primeiro caso" do ho­mem novo. Mas é claro que ele é muito mais que isso. Não é simplesmente um homem novo, um espécime da espécie, mas o homem novo. E a origem, o centro e a vida de todos os homens novos. Entrou de livre e es­pontânea vontade no universo criado, trazendo consigo a zoé, a vida nova. (Nova para nós, evidentemente: no lu­gar de onde vem, a zoè existe desde toda a eternidade.). E ele não a transmite por hereditariedade, mas por aqui­lo que chamei de "boa infecção". Todos os que a rece­bem adquirem-na pelo contato pessoal com ele. Os ou­tros homens se tornam "novos" por estar "nele".

    (4) Esse passo se dá numa velocidade diferente da dos passos anteriores. Comparada com o desenvolvimen­to do homem neste planeta, a difusão do cristianismo pela raça humana parece dar-se na velocidade do raio — dois mil anos são quase nada em comparação com a his­tória do universo. (Nunca se esqueça de que nós ainda somos os "primitivos cristãos". Temos a esperança de que as atuais divisões em nosso seio, inúteis e malignas, sejam uma doença da infância: nossos dentes de leite ain­da estão nascendo. Sem dúvida, o mundo exterior pen­sa o contrário. Pensa que estamos morrendo de velhice. Mas não é a primeira vez que esse pensamento lhe ocor­re. Já lhe ocorreu pensar que o cristianismo estava mor­rendo por causa das perseguições externas, da corrup­ção interna, da ascensão do islamismo, da ascensão das ciências físicas, do surgimento dos grandes movimen­tos revolucionários anticristãos. Em cada um desses casos, porém, o mundo se decepcionou. Sua primeira decep­ção foi a crucificação: o Homem ressuscitou. Em certo sentido - e sei muito bem que isso deve parecer terri­velmente injusto aos olhos do mundo -, esse mesmo fato vem se repetindo desde então. O mundo continua matando aquilo que Jesus fundou; e a cada vez, quando está alisando a terra por cima da cova, ouve dizer de re­pente que aquilo ainda está vivo e surgiu de novo em al­gum outro lugar. Não admira que o mundo nos odeie.) (5) Desta vez, o que está em jogo é algo muito maior. Se retrocedesse aos passos anteriores, uma criatura per­deria, na pior das hipóteses, seus poucos anos de vida nesta Terra; muitas vezes, nem isso. Retrocedendo nes­te passo, perdemos uma recompensa infinita (no sentido mais estrito da palavra). Isso porque o momento críti­co chegou. No decorrer dos séculos, Deus conduziu a natureza ao ponto de produzir criaturas que podem (se quiserem) ser abstraídas da própria natureza e transfor­madas em "deuses". Será que elas deixarão que isso acon­teça? De certo modo, isso se assemelha à crise do nasci­mento. Até o momento em que nos levantamos e segui­mos a Cristo, ainda somos elementos da natureza e re­pousamos no útero da nossa grande mãe. A gestação foi prolongada, dolorosa e cheia de ansiedade, mas agora atingiu o clímax. O grande momento chegou. Tudo está pronto. Até o Médico já está aqui. Será que o parto vai "transcorrer sem problemas"? Mas é claro que existe uma diferença importante entre esse parto e um parto comum. No parto comum, o bebê não tem muita esco­lha; neste, ele tem. Fico a pensar o que um bebê comum faria se tivesse escolha. Talvez ele preferisse permanecer na escuridão quente e segura do útero. Evidentemente, para ele o útero seria sinônimo de segurança. Mas ele estaria enganado; se lá permanecesse, morreria.

    Sob esse ponto de vista, a coisa já aconteceu: o novo passo já foi dado e ainda está sendo dado. As novas cria­turas já estão espalhadas, aqui e ali, por toda a superfí­cie da Terra. Algumas, como eu mesmo admiti, ainda não são reconhecíveis, mas outras podem ser reconhe­cidas. De quando em vez, encontramos uma delas. As próprias vozes e rostos delas são diferentes dos nossos: mais fortes, mais tranqüilos, mais felizes, mais radiantes. Elas partem de onde a maioria de nós mal consegue chegar. Como eu disse, são reconhecíveis; mas você pre­cisa saber o que procurar. Não se assemelham em nada à idéia de "pessoas religiosas" que você formou a partir de suas leituras. Não chamam a atenção para si. Você tende a pensar que está sendo gentil com elas, quando na verdade são elas que estão sendo gentis com você. Amam-no mais do que os outros homens, mas precisam menos de você. (Aliás, temos de superar a vontade de nos sentirmos necessários: em certas pessoas "boazinhas", especialmente mulheres, essa é a tentação mais difícil de vencer.) Em geral, parecem ter tempo de sobra; fica­mos a pensar de onde vem esse tempo. Depois de reco­nhecer a primeira dessas novas criaturas, você reconhece­rá com muito mais facilidade a segunda. E tenho a forte suspeita (mas como vou saber com certeza?) de que elas mesmas se reconhecem umas às outras de modo imediato e infalível, por cima de todas as barreiras de cor, sexo, classe social, idade e até mesmo de credo. Nesse senti­do, santificar-se é como entrar numa sociedade secreta. No mínimo, no mínimo, deve ser uma coisa extrema­mente divertida.

    Mas você não deve imaginar que as novas criaturas são todas "iguais" no sentido comum da palavra. Muitas coisas que eu disse neste último livro podem levá-lo a su­por que assim seja. Para nos tornarmos novas criaturas, temos de perder o que agora chamamos de "nós mes­mos". Temos de sair de nós mesmos e entrar em Cristo. A vontade dele tem de ser a nossa e temos de pensar seus pensamentos; temos de "ter a mente de Cristo", como diz a Bíblia. E, se Cristo é um só e tem de estar "dentro" de todos nós, acaso não ficaremos todos iguais? Parece que sim, com certeza; mas, na verdade, não é assim.

    Neste caso, é difícil encontrar um exemplo que ilus­tre aquilo de que se trata, pois não existem duas coisas que guardem entre si uma relação semelhante à que o Criador tem com uma de suas criaturas. Mas vou apre­sentar, com certa hesitação, dois exemplos extremamen­te imperfeitos que talvez nos dêem uma vaga idéia da verdade. Imagine um bando de pessoas que sempre vi­veu na mais completa escuridão. Você chega e tenta ex­plicar-lhes como é a luz. Pode tentar dizer-lhes que, se eles saírem na luz, a mesma luz incidirá sobre eles todos, eles a refletirão e assim se tornarão o que chamamos de "visíveis". Não seria perfeitamente possível que eles imaginassem que, como todos receberiam a mesma luz e reagiriam a ela do mesmo modo (ou seja, a refletiriam), ficariam todos com a mesma aparência? Mas você e eu sabemos que, na verdade, a luz mostra ou evidencia o quanto todos eles são diferentes. Ou senão imagine uma pessoa que não conhecesse o sal. Você lhe dá uma pi­tada para experimentar e ela sente um sabor específico, forte e pungente. Você então lhe diz que, no seu país, as pessoas usam o sal como tempero de todos os pra­tos. Não poderia ela responder: "Mas, nesse caso, todos os seus pratos devem ficar exatamente com o mesmo gosto, pois o sabor desse pó branco que você me deu é tão forte que deve matar todos os outros sabores." Po­rém, você e eu sabemos que o sal tem um efeito diame­tralmente oposto. Longe de "matar" o sabor do ovo, da dobradinha e do repolho, ele na verdade o realça. Os ali­mentos só mostram seu verdadeiro sabor quando você lhes acrescenta o sal. (E claro que, como eu disse, esse exemplo não é muito bom, pois, no fim das contas, de fato é possível abafar os outros sabores pelo excesso de sal, ao passo que o sabor de uma personalidade huma­na não pode ser abafado pelo excesso de Cristo. Estou me esforçando ao máximo.)

    O que acontece com Cristo e conosco é algo seme­lhante a isso. Quanto mais tiramos do caminho aquilo que agora chamamos de "nós mesmos" e deixamos que ele tome conta de nós, tanto mais nos tornamos aqui­lo que realmente somos. Ele é tão grande que milhões e milhões de "pequenos Cristos", todos diferentes, não se­rão suficientes para expressá-lo plenamente. Foi ele que os fez a todos. Ele inventou — como um escritor inventa os personagens de um romance - todos os homens di­ferentes que vocês e eu devemos ser. Nesse sentido, nos­sos verdadeiros seres estão todos nele, esperando por nós. De nada vale procurar "ser eu mesmo" sem ele. Quan­to mais resisto a ele e tento viver sozinho, tanto mais me deixo dominar por minha hereditariedade, minha criação, meus desejos naturais e o meio em que vivo. Na verdade, aquilo que chamo com tanto orgulho de "eu mesmo" é simplesmente o ponto de encontro de miríades de cadeias de acontecimentos que não foram ini­ciadas por mim e não poderão ser encerradas por mim. Os desejos que chamo de "meus" são meramente os de­sejos vomitados pelo meu organismo físico, incutidos em mim pelo pensamento de outros homens ou mes­mo sugeridos a mim pelos demônios. Ovos, álcool e uma boa noite de sono: eis aí a verdadeira origem da mi­nha decisão de beijar a moça sentada à minha frente na cabine do trem, decisão que, para fazer uma vênia a mim mesmo, considero pessoalíssima e maduramente refletida. A propaganda será a verdadeira origem de mi­nhas idéias políticas, que considero próprias e específi­cas. Em meu estado natural, não sou tanto uma "pes­soa" quanto gosto de pensar que sou: a maior parte da­quilo que chamo de "eu" pode ser facilmente explicada por outros fatores. E só quando me volto para Cristo, quando me entrego à personalidade dele, que começo a ter uma verdadeira personalidade minha.

    No começo eu disse que há Personalidades em Deus. Agora vou mais longe e afirmo que em nenhum outro lugar há personalidades verdadeiras. Você não terá um eu verdadeiro enquanto não entregar a ele o seu eu. A igualdade ou semelhança existe sobretudo entre os mais "naturais" dos homens, não entre os que se rendem a Cristo. Quão monótona é a semelhança que iguala to­dos os grandes tiranos e conquistadores; quão gloriosa é a diferença dos santos!

    Mas o eu precisa ser entregue de verdade. Você tem, por assim dizer, de lançá-lo fora "às cegas". Cristo de fato lhe dará uma personalidade nova, mas não é por causa disso que você deve buscá-lo. Enquanto estiver preocupado com sua personalidade, você não estará ca­minhando na direção dele de modo algum. O primei­ro passo consiste em procurar esquecer completamen­te de si mesmo. Seu novo eu, seu eu verdadeiro (que é de Cristo e também é seu, e é seu justamente porque é dele) não surgirá enquanto você o estiver procurando. Só surgirá quando o objeto de sua procura for ele. Aca­so isso parece estranho? Saiba que o mesmo princípio vigora em assuntos muito mais terrenos. Mesmo na vida social, você jamais causará boa impressão a outras pes­soas enquanto não parar de pensar na impressão que está causando. Mesmo na literatura e na arte, ninguém que se preocupe especificamente com a originalidade pode­rá jamais ser original; ao passo que, se você tentar falar a verdade (sem ligar a mínima a quantas vezes a mesma verdade já foi declarada no passado), nove vezes em dez será original sem percebê-lo. Esse princípio rege a vida inteira, do começo ao fim. Entregue-se, pois assim você encontrará a si mesmo. Perca a sua vida para salvá-la. Submeta-se à morte, à morte cotidiana de suas ambições e dos seus maiores desejos e, no fim, à morte do seu cor­po inteiro: submeta-se a ela com todas as fibras do seu ser, e você encontrará a vida eterna. Não guarde nada para si. Nada que você não deu chegará a ser verdadei­ramente seu. Nada que não tiver morrido chegará a ser ressuscitado dos mortos. Se você buscar a si mesmo, no fim só encontrará o ódio, a solidão, o desespero, a fúria, a ruína e a podridão. Se buscar a Cristo, o encontrará; e, junto com ele, encontrará todas as coisas.



 

[1] Em inglês, as formas verbais não abreviadas são mais formais, e poderiam soar pretensio­sas ao público a que C. S. Lewis se dirigia. (N. do T.)

[2] As referências bíblicas foram extraídas da Nova Versão Internacional (Sociedade Bíblica In­ternacional), salvo quando outra referência é mencionada. (N. do R. T.)

[3] Uncle Toby, "Tio Toby": o autor faz referência ao personagem do romance A vida e as opi­niões do cavaleiroTristram Shandy, de Laurence Sterne (1713-1768), publicado no Brasil pela Companhia das Letras. (N. do T.)

[4] Livro de Oração Comum: livro de orações da Igreja Anglicana. (N. do T.)

[5] As informações sobre a blitz e os pilotos da Royal Air Force foram tiradas das seções dos anos 1941 e 1942 do livro Clive Staples Lewis: A Dramatic Life, de William Griffin (Holt & Rinehart, 1986).

[6] "The longest way round", citação tirada de Cristianismo puro e simples.

[7] "An amateur", de um colóquio radiofónico levado ao ar em 11 de janeiro de 1942. Ci­tado em Clive Staples Lewis: A Dramatic Life.

[8] "There are no ordinary people", citação tirada de "The Weight of Glory", sermão profe­rido por Lewis em 8 de junho de 1941.

[9] "Poisoned by a wretched upbringing", citação tirada de Cristianismo puro e simples.

[10] "How monotonously alike", citação tirada de Cristianismo puro e simples.

[11] Não acredito que "o assunto pare aí", como você verá mais adiante. quis dizer que, a se levar em conta somente os argumentos dados até aqui, pode ser que pare.

[12] Ver a Nota ao fim do capítulo.

[13] Um ouvinte queixou-se do uso da palavra damned (maldita), que seria uma imprecação le­viana. Mas eu quis dizer literalmente o que disse: uma asneira maldita é a que sofre a mal­dição de Deus e que (exceto pela graça divina) leva à morte eterna os que nela acreditam.

[14] Provável menção aos astrônomos ingleses Arthur Stanley Eddington (1882-1944) e James Hopwood Jeans (1877-1946). (N. do R. T.)

[15] Referência a John Bunyan (1628-1688), escritor e pregador inglês, autor do clássico O pe­regrino, (N. do R. T.) 1. Na língua inglesa corrente, em específico, a palavra tem esse significado, (N. do T.)

[16] Guts, literalmente "intestino". Expressão informal para designar coragem - to have guts é semelhante ao nosso "ter peito". (N. do T)

[17] Samuel Johnson (1709-1784), crítico literário, ensaísta e poeta inglês. Sua verve e sua personalidade viva foram retratadas na biografia Life of Johnson, escrita pelo amigo e pupilo James Boswell, um clássico da literatura inglesa. (N. do T.)

[18] Condecoração militar britânica para atos de bravura. (N. do T.)

[19] Heirich Himmler (1900-1945), diretor da Gestapo e ministro do Interior durante o go­verno nazista na Alemanha, responsável pela aniquilação em massa de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. (N. do R. T.)

[20] Professor Moriarty, o maior inimigo de Sherlock Holmes nas histórias criadas por Conan Doyle. (N.doT.)

[21] Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), escritor cristão inglês. (N. doR.T.)

[22] Do verbo to beget: gerar, originar. (N. doT.)

[23] No original, "1960". O objetivo do autor era mostrar que Deus está acima dos limites do tem­po, c para ele não há o passado e o futuro como os conhecemos. Como os textos foram escritos na década de 1940, o ano de 1960 era uma referência de futuro. (N. do R. T.)

[24] Esse comportamento corporativo pode ser, evidentemente, melhor ou pior que o com­portamento individual.

 

                                                                                            C. S. Lewis

 

 

                      

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