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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CRUEL E INVULGAR / Patrícia Cornwell
CRUEL E INVULGAR / Patrícia Cornwell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CRUEL E INVULGAR

 

UMA MEDITAÇÃO DO MALDITO, EM SPRING STREET

Faltam duas semanas para o Natal. Quatro dias para o nada. Estou deitado na minha cama a olhar para os meus pés nus e sujos e para a sanita branca sem aro e quando as baratas correm pelo chão já não me assusto. Observo-as tal como elas me observam a mim.

Fecho os olhos e respiro devagar.

Lembro-me de ancinhar o feno à torreira do sol sem me pagarem nada comparado com a maneira como vivem os brancos. Sonho que estou a assar amendoins numa lata e quando os tomates se comiam como maçãs. Imagino-me a guiar o camião, o suor a luzir-me na cara naquele local sem futuro que jurei deixar um dia.

Não posso ir à casa de banho, assoar o nariz nem fumar sem que os guardas tomem apontamentos. Não há nenhum relógio de parede. Nunca sei que tempo faz. Abro os olhos e vejo uma parede nua que se estende, pertinaz. Que deve sentir um homem quando está prestes a morrer?

Como uma triste, triste canção.

Não sei a letra. Não me lembro. Dizem que aconteceu em Setembro quando o céu parecia um ovo de pisco e as folhas, flamejantes, tombavam para o chão. Dizem que andou um animal à solta pela cidade. Agora bate menos um coração.

Não o matam matando-me a mim. A noite é sua amiga, carne e sangue o seu festim. Quando julgas que a busca acabou é quando deves começá-la, mano.

Uma coisa leva à outra.

                                                                         Ronnie Joe Waddell

 

 

Na segunda-feira em que levei na pasta a meditação de Ronnie Joe Waddell, nunca cheguei a ver o sol. Ainda estava escuro quando saí para o trabalho, nessa manhã. Era outra vez de noite quando voltei para casa. Pequenas gotas de chuva rodopiavam diante dos faróis numa noite tristonha, de nevoeiro e frio cortante.

Acendi a lareira na sala e visualizei os campos da Virgínia com tomates a amadurecer ao sol. Imaginei um jovem negro na cabina abafada de um camião interrogando-me se nessa altura a sua mente estaria repleta de ideias homicidas. A meditação de Waddell fora publicada no Richmond Times-Dispatch e eu levara o recorte para o serviço na intenção de o juntar ao seu já volumoso processo. Mas os assuntos do dia distraíram-me e ela continuava dentro da minha pasta. Já a lera várias vezes. Creio que acharei sempre intrigante o facto de a poesia e a crueldade poderem coabitar o mesmo coração.

Nas horas que se seguiram paguei contas e escrevi cartões de Natal com a televisão ligada sem som. Tal como os restantes cidadãos da Virgínia, sempre que estava marcada uma execução era pelos media que eu ficava a saber se todos os recursos se haviam esgotado ou se o governador concedera o perdão. O noticiário determinava se iria deitar-me ou meter no carro para ir à morgue.

Por volta das dez o telefone tocou. Atendi a pensar que fosse o meu assistente ou outro membro da equipa cuja noite, tal como a minha, estava em suspenso.

— Está? — perguntou uma voz masculina que não reconheci. — Estou a tentar entrar em contacto com Kay Scarpetta. Quer dizer, a médica legista chefe, Dr.a Scarpetta.

— É a própria — respondi.

— Ah, óptimo. Fala o detective Joe Trent do Condado de Henrico. Procurei o seu número na lista. Desculpe incomodá-la em casa. — Parecia nervoso. — Mas temos um problema e precisamos mesmo da sua ajuda.

— De que se trata? — perguntei com o olhar fixo e tenso no ecrã do televisor. Estavam a dar um anúncio. Só esperava que não me chamassem ao local de um crime.

— Hoje, ao princípio da noite, um rapaz de treze anos, branco, foi sequestrado ao sair de uma loja de conveniência na zona norte. Levou um tiro na cabeça e é possível que se trate de um crime de natureza sexual.

Senti um baque no peito ao estender a mão para pegar no bloco e na caneta.

— Onde está o corpo? — perguntei.

— Foi encontrado atrás de uma mercearia na Patterson Avenue, já fora do centro. Quer dizer, não está morto. Não recuperou os sentidos mas ninguém sabe ao certo se ele se vai safar. Sei que isto não pertence ao seu pelouro, pois não houve morte, mas ele tem uns ferimentos que são muito estranhos. Nunca me apareceu nada assim. Como está habituada a ver muitos tipos de ferimentos, a minha esperança é que consiga descobrir como é que estes foram infligidos e porquê.

— Descreva-mos — pedi-lhe.

— São em duas zonas distintas. Um na parte interna da coxa direita, mesmo cá em cima junto à virilha, está a ver? O outro é na zona do ombro direito. Faltam bocados de carne — que foram cortados. E tem uns golpes esquisitos e arranhões junto às bordas das feridas. Está no hospital local.

— Encontraram o tecido excisado? — Mentalmente, começara já a passar em revista outros casos à procura de algo semelhante.

— Até ver não. Ainda lá temos uma equipa à procura. Mas é possível que a agressão se tenha dado dentro de um carro.

— De quem?

— Do agressor. O parque de estacionamento da mercearia onde o miúdo foi encontrado fica a uns bons quatro ou cinco quilómetros da loja de conveniência onde ele foi visto pela última vez. Calculo que tenha entrado no carro de alguém, se calhar à força.

— Fotografaram os ferimentos antes de o médico começar a tratá-lo?

— Sim, mas também não lhe fizeram grande coisa. Como falta muita pele, vão ter de fazer enxertos de pele — enxertos cheios, como lhes chamaram, se isso lhe diz alguma coisa.

Dizia-me que tinham limpo as feridas, que o tinham posto a antibióticos por via intravenosa e que estavam à espera para fazerem um enxerto glúteo. Se, porém, não fosse esse o caso, e tivessem dado cabo do tecido à volta das feridas para depois as suturarem, não me restaria grande coisa para examinar.

— Não lhe suturaram as feridas — deduzi.

— Foi o que me disseram.

— Quer que eu vá dar uma vista de olhos?

— Seria óptimo — respondeu ele, aliviado. — Para poder examinar bem as feridas.

— Quando gostaria que eu o fizesse?

— Pode ser já amanhã.

— Está bem. A que horas? Quanto mais cedo melhor.

— Às oito da manhã? Encontramo-nos à entrada do serviço de urgência.

— Lá estarei — disse-lhe com o olhar do apresentador do noticiário sombriamente fixo em mim. Desligando, peguei no comando e liguei o som.

“...Eugenia? Podes dizer-nos se já se sabe alguma coisa do governador?”

A câmara transferiu-se para a Penitenciária Estadual da Virgínia, sita numa faixa rochosa do rio James na zona limítrofe do centro da cidade, onde durante duzentos anos tinham estado engavetados os piores criminosos do estado. Manifestantes com cartazes de protesto e defensores da pena de morte aglomeravam-se na escuridão, os rostos sisudos banhados pela luz forte dos projectores de televisão. Fiquei estarrecida ao ver que algumas pessoas se riam. O grande plano de uma repórter jovem e bonita, de casaco vermelho, encheu o ecrã.

“Como sabes, Bill” informou “ontem foi instalada uma linha telefónica entre o gabinete do governador Norring e a penitenciária. Ainda não se sabe nada, o que é bastante significativo. Historicamente, quando o governador não tenciona intervir remete-se ao silêncio.”

“Como estão as coisas? Até ver tudo bastante calmo, não?”

“Até ver sim, Bill. Encontram-se aqui várias centenas de pessoas em vigília. E, claro, a penitenciária, em si, está praticamente vazia. Foram já transferidas para o novo centro correccional de Greensville umas largas dezenas de reclusos.”

Desliguei a televisão e minutos depois seguia de carro para leste com as portas trancadas e o rádio ligado. O cansaço invadiu-me com o torpor de uma anestesia. Sentia-me triste e desanimada. Detestava execuções. Detestava estar à espera que alguém morresse para depois cortar, com o bisturi, um corpo tão quente como o meu. Era médica e formada em Direito. Fora treinada para saber o que dava a vida e o que a tirava, o que estava certo e o que estava errado. Depois, a experiência servira-me de mentor, desprezando por completo essa minha faceta pristina ainda idealista e analítica. É desanimador um ser racional ver-se obrigado a admitir que muitos lugares-comuns são verdadeiros. Não há justiça neste mundo. Nada poderia desfazer o que Ronnie Joe Waddell tinha feito.

Estivera nove anos no corredor da morte. A sua vítima não me passara pelas mãos pois fora assassinada antes da minha nomeação para médica legista chefe da Virgínia e de me ter mudado para Richmond. Mas lera o processo e conhecia muito bem todos os pormenores chocantes. Na manhã de quatro de Setembro, há dez anos, Robyn Naismith telefonara para o Channel 8, onde trabalhava como pivot, informando que estava doente. Saiu para comprar remédios para a constipação e voltou para casa. No dia seguinte, o seu corpo nu, maltratado, foi encontrado na sala, encostado ao televisor. Uma impressão digital ensanguentada, recolhida no armário dos medicamentos, foi mais tarde identificada como pertencente a Ronnie Joe Waddell.

Havia um grande número de carros estacionados atrás da morgue quando cheguei. O meu assistente, Fielding, já lá estava. Tal como o meu administrador, Ben Stevens, e a supervisora da morgue, Susan Story. A porta de serviço estava aberta, luzes interiores iluminando debilmente o asfalto cá fora, e um agente da polícia municipal dentro da respectiva unidade móvel, a fumar. Saiu do carro quando eu estacionei.

— É seguro manter esta porta aberta? — perguntei-lhe. Era um indivíduo alto, seco de carnes, com uma farta cabeleira branca. Embora eu já tivesse falado com ele muitas vezes, não me lembrava do seu nome.

— De momento parece estar tudo em ordem, Dr.a Scarpetta — respondeu ele, correndo o fecho do grosso blusão de nylon. — Ainda não vi nenhum arruaceiro. Mas quando os Prisionais chegarem, fecho-a e mantenho-a fechada.

— Certo. Desde que, entretanto, fique por aqui.

— Sim, senhora. Pode estar descansada. E vamos colocar aqui atrás mais uns agentes fardados para o caso de haver algum problema. Pelos vistos há uma data de manifestantes. Calculo que tenha lido no jornal sobre aquela petição que essas pessoas assinaram e apresentaram ao governador. E soube, hoje de manhã, que até na Califórnia há umas almas caridosas a fazer greve de fome.

Lancei um breve olhar ao parque de estacionamento vazio e à Main Street. Um carro passou, com velocidade, pneus a derrapar no pavimento molhado. Os postes de iluminação eram borrões envoltos no nevoeiro.

— Eu cá não. Nem um café deixava de beber pelo Waddell. — O agente fechou as mãos em concha à volta do isqueiro e puxou umas passas de um cigarro. — Depois do que ele fez àquela moça. Lembro-me de a ver na televisão, sabe? Bom, para mim as mulheres têm de ser como o café — doce e claro. Mas tenho de admitir que ela era a negra mais bonita que eu já vi.

Eu só deixara de fumar há uns dois meses e ainda me custava muito ver alguém fazê-lo.

— Bolas, já deve ter sido quase há uns dez anos — continuou ele. — Mas nunca me hei-de esquecer do sururu. Um dos piores casos que tivemos por estas bandas. Mais parecia que um urso pardo tinha deitado a pata...

Interrompi-o:

— Avisa-nos do que se vai passando?

— Sim, senhora. Eles mandam-me um rádio e eu passo-vos a informação. — Voltou para o aconchego do carro.

Dentro da morgue, a iluminação fluorescente tornava branco o corredor e o cheiro a desodorizante até enjoava. Passei pelo pequeno gabinete onde as funerárias registavam os corpos, depois pela sala de raios X e pelo frigorífico, que era, aliás, uma grande câmara frigorífica com macas de dois tampos e portas duplas de aço maciço. A sala de autópsias estava toda acesa, reluzentes as mesas de aço inoxidável. Susan estava a afiar uma faca comprida e Fielding a colar etiquetas em tubos de ensaio. Pareciam ambos tão cansados e contrafeitos como eu.

— O Ben está lá em cima, na biblioteca, a ver televisão — disse-me Fielding. — Avisa-nos se houver alguma novidade.

— Há hipóteses de esse sujeito ter tido sida? — Susan referia-se a Waddell como se ele já estivesse morto.

-Não sei — respondi. — Vamos usar dois pares de luvas, tomar precauções do costume.

— Espero que nos digam alguma coisa, caso ele tenha tido — insistiu ela. — Sabe, não confio nada quando nos mandam esses presos. Acho que não se preocupam que sejam ou não seropositivos porque o problema não é deles. Não são eles que fazem as autópsias e têm de ter cuidado com picadas de agulhas.

Susan andava cada vez mais paranóica quanto aos ossos do ofício, como por exemplo, exposição a radiações, a produtos químicos e doenças. Não podia censurá-la. Estava grávida de alguns meses embora ainda mal se notasse.

Colocando um avental plástico, voltei ao balneário, vesti umas calças de trabalho, protegi os sapatos com botinhas e calcei dois pares de luvas. Inspeccionei o carrinho de instrumentos colocado ao lado da mesa três. Estava tudo rotulado com o nome de Waddell, a data e um número de autópsia. Os tubos e cartões etiquetados iam para o lixo se o governador Norring intercedesse no último minuto. O nome de Ronnie Waddell seria apagado do registo de entradas da morgue, o seu número de autópsia atribuído a quem quer que entrasse a seguir.

Às onze da noite, Ben Stevens apareceu cá em baixo e abanou a cabeça. Todos erguemos os olhos para o relógio de parede. Ninguém falou. Os minutos começaram a passar.

O agente da polícia municipal entrou com o rádio portátil na mão. Finalmente lembrei-me que se chamava Rankin.

— Foi confirmado o óbito às onze e cinco — informou. — Chega dentro de quinze minutos.

A ambulância soltou um único toque de aviso ao entrar de marcha-atrás na zona de descargas e quando as portas traseiras se abriram surgiu um número de guardas dos Serviços Prisionais suficiente para controlar um pequeno motim. Quatro puxaram para fora a maca que transportava o corpo de Ronnie Waddell. Subiram a rampa de acesso à morgue, tilintar de metal, arrastar de pés, todos nós a saírmos do caminho. Pousando a maca no chão de mosaico, sem se darem ao trabalho de soltar as pernas articuladas, empurraram-na como se fosse um trenó sobre rodas, o passageiro amarrado e coberto por um lençol ensanguentado.

— Hemorragia nasal — informou um dos guardas antes de lhe fazerem a pergunta.

— Quem é que teve uma hemorragia nasal? — inquiri, reparando que as mãos enluvadas do guarda estavam com sangue.

— Mr. Waddell.

— Dentro da ambulância? — estranhei pois Waddell já não teria pressão sanguínea na altura em que foi metido na ambulância.

Mas o guarda estava já a pensar noutras questões e não obtive resposta. Ia ter de esperar.

Transferimos o corpo para a marquesa colocada em cima da balança de chão. Mãos ágeis desapertaram as correias e abriram o lençol. A porta da sala de autópsias fechou-se silenciosamente mal os guardas dos Serviços Prisionais partiram tão abruptamente como haviam chegado.

Waddell estava morto há exactamente vinte e dois minutos. Senti o cheiro do seu suor, dos seus pés nus e sujos, e o leve odor a pele chamuscada. A perna direita das calças estava arregaçada até acima do joelho, a barriga da perna envolta em gaze limpa aplicada depois da morte sobre as queimaduras. Era um homem grande, corpulento. Os jornais tinham-lhe chamado gigante afável, poético Ronnie de olhar melancólico. Houvera, porém, um dia em que se servira das grandes mãos, dos ombros e braços possantes que tinha diante de mim, para tirar a vida a outro ser humano.

Descolei os fechos de velcro da camisa de ganga azul-clara e verifiquei o interior dos bolsos enquanto o despia. A procura de artigos pessoais é uma formalidade e normalmente infrutífera. Os reclusos não costumam levar nada com eles para a cadeira eléctrica e fiquei muito admirada ao encontrar o que parecia ser uma carta no bolso de trás dos jeans. O envelope não fora aberto. Escrito em negras e firmes maiúsculas, na parte da frente, lia-se:

EXTREMAMENTE CONFIDENCIAL. POR FAVOR ENTERRAR COMIGO!

— Tire uma fotocópia ao envelope e ao que estiver lá dentro e junte os originais aos artigos pessoais dele — disse eu, entregando o envelope a Fielding.

Ele entalou-o debaixo da ficha de autópsia, numa prancheta, murmurando:

— Bolas. Ele é maior que eu.

— Custa a crer que haja alguém maior que você — comentou Susan dirigindo-se ao meu musculado assistente.

— O que nos vale é não estar morto há muito tempo — acrescentou ele —, senão íamos precisar da serra de desencarceramento.

Mortos há umas horas, os corpos bem musculados são maleáveis como estátuas de mármore. A rigidez ainda não se instalara. Waddell estava mais frouxo do que em vida. Parecia estar a dormir.

Fomos precisos todos para o transferir, de bruços, para a mesa de autópsia. Pesava cento e dezoito quilos. Os pés ficavam de fora. Estava a medir-lhe as queimaduras da perna quando tocou a campainha da zona de descargas. Susan foi ver quem era e pouco depois entrou o tenente Pete Marino, gabardina desabotoada, uma das pontas do cinto a arrastar pelo chão de mosaico.

— A queimadura na barriga da perna mede dez por dois vírgula noventa e dois por seis vírgula zero um — ditei, a Fielding. — Está seca, franzida e empolada.

Marino acendeu um cigarro.

— Estão a fazer um enorme escarcéu por ele ter sangrado — disse, e parecia nervoso.

— Temperatura rectal quarenta — disse Susan retirando o termómetro. — Isto às onze e quarenta e nove.

— Sabe porque é que ele vinha a sangrar da cara? — perguntou Marino.

— Um dos guardas disse que foi uma hemorragia nasal — respondi, acrescentando: — Precisamos virá-lo para cima.

— Viu isto, no aspecto interno do braço esquerdo? — Perguntou-me Susan apontando para uma escoriação.

Examinei-a à lente sob uma luz forte.

— Não sei. Pode ter sido ter sido de uma das correias.

— Também tem uma no braço direito.

Dei uma olhadela enquanto Marino me observava, a fumar. Voltámos o corpo e introduzimos um tijolo debaixo dos ombros. O sangue gotejava do lado direito do nariz. Tinha a cabeça e o queixo rapados de forma irregular. Fiz a incisão em “Y”.

— É capaz de haver escoriações, aqui — disse Susan, olhando para a língua.

— Tire-a. — E introduzi o termómetro no fígado.

— Jesus — disse Marino, baixinho.

— Já? — O bisturi de Susan estava em posição.

— Não. Fotografe as queimaduras à volta da cabeça. Temos de medi-las. Depois remova a língua.

— Merda — queixou-se ela. — Quem foi o último a usar a máquina?

— Desculpe — disse Fielding. — Não havia rolos na gaveta. Esqueci-me. A propósito, cabe-lhe a si colocar rolos na gaveta.

— Seria mais fácil se me dissessem quando é que a gaveta dos rolos está vazia.

— As mulheres costumam ser intuitivas. Pensei que não fosse preciso dizer-lhe.

— Já medi estas queimaduras à volta da cabeça — informou Susan ignorando o comentário dele.

— Está bem.

Susan deu-lhe as medidas, depois começou a trabalhar na língua. Marino voltou-se de costas para a mesa.

— Jesus — tornou a dizer. — Isso faz-me sempre impressão.

— Temperatura hepática quarenta e meio — comuniquei a Fielding. Ergui os olhos para o relógio de parede. Waddell estava morto há uma hora. Não arrefecera muito. Era corpulento. A electrocussão aquece. As temperaturas cerebrais de alguns homens mais pequenos que eu autopsiara chegavam aos quarenta e três. Quarenta e três, no mínimo, era a temperatura na barriga da perna direita de Waddell, quente ao tacto, o músculo em contracção total.

— Uma pequena escoriação na margem. Mas nada de importante — informou-me Susan.

— Ele mordeu a língua a ponto de sangrar assim tanto? — perguntou Marino.

— Não — respondi.

— Bom, mas já estão a fazer um enorme escarcéu por causa disso. — Levantou a voz. — Pensei que quisesse saber.

Fiz um intervalo, pousando o bisturi na borda da mesa quando de repente me lembrei de uma coisa:

— Você assistiu.

— Sim. Eu disse-lhe que ia assistir. Olharam todos para ele.

— Aquilo, lá fora, está a aquecer — comentou. — Não quero que nenhum de vocês saia daqui sozinho.

— A aquecer como? — perguntou Susan.

— Um grupo de fanáticos religiosos que têm estado desde manhã cedo plantados em Spring Street. Devem ter sabido da hemorragia e quando a ambulância arrancou com o corpo desataram a marchar nesta direcção como uma cambada de zombies.

— Viu quando ele começou a sangrar? — perguntou-lhe Fielding.

— Ah, sim. Espremeram-no duas vezes. Da primeira largou um grande silvo, como fumo a sair de um radiador, e o sangue começou a escorrer por baixo da máscara. Já dizem que a cadeira devia estar avariada.

Susan ligou a serra Stryker e não havia voz que se sobrepusesse ao forte zumbido quando ela serrou o crânio. Continuei a examinar os órgãos. O coração estava bom, óptimas coronárias. Quando a serra parou, voltei a ditar a Fielding.

— Tem o peso? — perguntou ele.

— O coração pesa um quilo e meio e tem uma única aderência no lobo superior esquerdo do arco aórtico. Até descobri quatro paratiróides, caso ainda não tenha visto.

— Já vi.

Coloquei o estômago em cima da tábua de cortar.

— E quase tubular.

— Tem a certeza? — Fielding aproximou-se para inspeccionar. — É esquisito. Um tipo deste tamanho precisa, no mínimo, de quatro mil calorias por dia.

— Não as obtinha, pelo menos ultimamente — redargui. — Não tem conteúdo gástrico. O estômago está absolutamente vazio e limpo.

— Não comeu a última refeição? — perguntou-me Marino.

— Não me parece que tenha comido.

— Costumam comer?

— Sim, costumam — respondi.

Acabámos por volta da uma da manhã e seguimos os empregados da funerária até lá fora, onde o carro fúnebre aguardava. Ao saírmos do edifício, a escuridão pulsava com luzes encarnadas e azuis. Estalidos dos rádios pairando no ar frio e húmido, roncos de motores e, para lá da vedação metálica que envolvia o parque de estacionamento, um anel de fogo. Homens, mulheres e crianças lá continuavam em silêncio, rostos oscilando à luz das velas.

Os homens da funerária não perderam tempo a meter o corpo de Waddell pela porta traseira do carro fechando-a depois com força.

Alguém disse qualquer coisa que eu não percebi e de súbito as velas saltaram por cima da vedação como uma tempestade de estrelas cadentes aterrando suavemente no chão.

— Marados duma figa! — vociferou Marino.

As mechas lançavam um clarão alaranjado e chamas minúsculas pontilhavam o asfalto. O carro fúnebre apressou-se a sair do local. Já se viam os flashes a disparar. Avistei a carrinha de reportagem do Channel 8 estacionada na Main Street. Vinha alguém a correr pelo passeio. Agentes fardados iam chutando as velas e acercavam-se da vedação exigindo que as pessoas dispersassem.

— Não queremos aqui problemas — disse um dos agentes. — A menos que alguns queiram ir passar a noite à esquadra...

— Carniceiros — gritou uma mulher.

Juntaram-se-lhe outras vozes enquanto mãos agarravam a vedação, sacudindo-a.

Marino encaminhou-me rapidamente para o meu carro. Ergueu-se então um cântico, com fervor tribal.

— Carniceiros, carniceiros, carniceiros...

Atrapalhei-me com as chaves, deixei-as cair para cima da passadeira, apanhei-as e lá consegui encontrar a que queria.

— Vou atrás de si até casa — disse Marino.

Liguei o aquecimento no máximo mas não havia maneira de aquecer. Por duas vezes confirmei se tinha as portas trancadas. A noite adquiriu um ar de surrealismo, uma estranha assimetria de janelas com luz e às escuras, e sombras a mexer que eu via pelo canto dos olhos.

Bebemos uísque na cozinha porque se me acabara o bourbon.

— Não sei como é que consegue beber isto — comentou Marino, sem cerimónia.

— Sirva-se do que houver no bar — disse-lhe eu.

— Lá terá que ser.

Eu não sabia bem como abordar a questão e percebi logo que Marino também não ia facilitar-me as coisas. Estava tenso, o rosto afogueado. Madeixas grisalhas coladas à cabeça húmida, quase calva, e fumava um cigarro atrás do outro.

— Já tinha assistido a alguma execução? — perguntei-lhe.

— Nunca tive grande vontade.

— Mas desta vez ofereceu-se. Portanto a vontade deve ter sido bastante forte.

— Aposto que se puser um bocado de limão e soda nesta coisa ela já não fica assim tão má.

— Se quer que eu estrague um bom uísque vê-se já o que se pode arranjar.

Empurrou o copo na minha direcção e fui ver ao frigorífico.

— Tenho sumo de lima em garrafa, mas limão não. — Procurei nas prateleiras.

— Pode ser.

Despejei um pouco de sumo de lima para dentro do copo dele e acrescentei-lhe a soda. Alheio à insólita mistura que estava a beber, frisou:

— Talvez esteja esquecida, mas o caso Robyn Naismith era meu. Meu e do Sonny Jones.

— Não sou dessa altura.

— Ah, pois. Tem piada, parece que está cá há muito tempo. Mas sabe o que aconteceu, não sabe?

Eu era assistente do médico legista chefe de Dade County quando Robyn Naismith foi assassinada e lembrava-me de ter lido sobre o caso, de o seguir pelos noticiários e, mais tarde, de ver uma projecção de slides sobre ele num encontro nacional. A antiga Miss Virgínia era uma beldade deslumbrante com uma lindíssima voz de contralto. Fluente e carismática diante das câmaras. Tinha apenas vinte e sete anos.

A defesa afirmou que a intenção de Ronnie Waddell era o assalto e que Robyn teve a pouca sorte de o apanhar em flagrante quando voltou da farmácia. Supostamente, Waddell não veria televisão desconhecendo a sua identidade, ou brilhante futuro, quando lhe assaltou a casa e a assassinou de forma tão brutal. Andava tão pedrado, argumentou a defesa, que nem sabia o que estava a fazer. Os jurados rejeitaram a alegação de loucura temporária de Waddell e recomendaram a pena de morte.

— Sei que a pressão para apanhar o assassino foi incrível — comentei, com Marino.

— Nem imagina. Tínhamos uma óptima impressão digital latente. Tínhamos marcas de dentadas. Tínhamos três homens, de manhã à noite, a passar os cadastros a pente fino. Não faço ideia de quantas horas perdi naquele maldito caso. Depois apanhámos o sacana por andar a passear pela Carolina do Norte com um selo da inspecção já caducado. — Fez uma pausa e o seu olhar tornou-se mais duro quando acrescentou: — Claro que nessa altura o Jones já não era vivo. Foi uma pena ele não ter visto o Waddell receber o que merecia.

— Culpa o Waddell pelo que aconteceu ao Sonny Jones? — perguntei-lhe.

— Claro, o que é que pensava?

— Eram grandes amigos.

— Trabalhávamos um com o outro nos Homicídios, íamos à pesca juntos, pertencíamos à mesma equipa de bowling.

— Sei que a morte dele foi um duro golpe para si.

— Foi, sim, e o caso arrumou com ele. Sempre a trabalhar, sem dormir, nunca ia a casa, e isso de certeza que só lhe trouxe problemas com a mulher. Estava sempre a dizer-me que já não aguentava mais e depois deixou de se abrir comigo. Uma noite resolve dar um tiro na cabeça.

— Sinto muito — disse eu, baixinho. — Mas não sei se deva culpar o Waddell por isso.

— Tinha umas contas a acertar.

— E ficaram acertadas quando assistiu à execução dele?

Marino não respondeu logo. De maxilares cerrados, olhou para o fundo da cozinha. Fiquei a vê-lo fumar e beber.

— Quer outra dose?

— Sim. Já agora.

Levantei-me e tornei a fazer a mesma coisa pensando nas injustiças e perdas que o tinham transformado no que ele era. Sobrevivera a uma infância sem amor, de pobreza, na pior zona de Nova Jérsia e nutria uma desconfiança permanente por alguém cuja sorte tivesse sido melhor. Não há muito tempo, a mulher com quem estivera casado trinta anos deixara-o e tinha um filho sobre o qual, pelos vistos, ninguém sabia nada. Não obstante a sua lealdade à Polícia, e excelente folha de serviço, não fazia parte do seu código genético entender-se com os superiores. Era como se a sua jornada, nesta vida, tivesse de ser feita por uma estrada de pedras. Receava bem que o que ele esperava encontrar, no destino, não era sabedoria ou paz mas sim desforras. Marino estava sempre revoltado com qualquer coisa.

— Deixe-me só perguntar-lhe isto, doutora — disse-me quando voltei para a mesa. — Como é que se sentia se apanhassem os estupores que mataram o Mark?

A pergunta dele apanhou-me de surpresa. Não queria pensar nesses indivíduos.

— Não há uma parte de si mesma que quer ver os sacanas enforcados? — prosseguiu ele. — Uma parte de si mesma não quer oferecer-se para integrar o pelotão de fuzilamento para, com a sua própria mão, poder apertar o gatilho?

Mark morreu quando uma bomba colocada numa lata do lixo dentro da Estação de Vitória, em Londres, explodiu no momento em que ele, por casualidade, ia a passar ao lado. O choque e a mágoa tinham-me catapultado para lá do desejo de vingança.

— É absolutamente inútil, da minha parte, considerar a hipótese de punir um grupo de terroristas — repliquei.

Marino pôs-se a olhar fixamente para mim:

— É o que se chama uma das suas famosas respostas da tanga. Até os autopsiava de graça, se pudesse. E ia querê-los vivos para os retalhar muito devagarinho. Alguma vez lhe contei o que aconteceu aos pais de Robyn Naismith?

Estendi a mão para o meu copo.

— O pai era médico no norte da Virgínia, um homem às direitas — disse ele. — Uns seis meses depois do julgamento, adoeceu de cancro e morreu passados uns meses. Robyn era filha única. A mãe muda-se para o Texas, envolve-se num acidente de viação e passa os dias numa cadeira de rodas sem ter mais nada, apenas recordações. O Waddell matou toda a família de Robyn Naismith. Envenenou todas as vidas em que tocou.

Pensei em Waddell a crescer na quinta, relembrando as imagens da sua meditação. Imaginei-o sentado nos degraus da varanda, a dar uma trinca num tomate quente do sol. Gostava de saber o que lhe teria passado pela cabeça no último segundo da sua vida. Se teria rezado.

Marino apagou o cigarro. Tencionava ir-se embora.

— Conhece um detective chamado Trent, de Henrico? — perguntei-lhe.

— Joe Trent. Pertenceu à brigada cinotécnica e foi transferido para a investigação depois de passar a sargento, aqui há uns meses. Meio amaricado e nervoso mas é bom tipo.

— Telefonou-me por causa de um rapaz... Cortou-me a palavra:

— O Eddie Heath?

— Não sei como se chama.

— Sexo masculino, branco, com cerca de treze anos. Estamos a investigar. O Lucky’s pertence à nossa jurisdição.

— Lucky’s?

— A loja de conveniência onde ele foi visto pela última vez. Junto à Chamberlain Avenue, no Northside. Que queria o Trent? — inquiriu Marino com um franzir de sobrolho. — Soube que o Heath não se vai safar e já quer marcar vez na morgue?

— Quer que eu dê uma vista de olhos a uns ferimentos invulgares, possível mutilação.

— Santo Deus. Detesto isso quando se trata de miúdos. — Marino empurrou a cadeira para trás e massajou as têmporas. — Raios partam. Mal nos livramos dum bandido há logo outro para ocupar o lugar.

Depois de Marino sair, sentei-me no rebordo da lareira da sala observando as mexidas das brasas. Estava exausta e sentia uma tristeza profunda, implacável, que não tinha forças para combater. A morte de Mark deixara-me um rasgão na alma. Começava a dar-me conta, inacreditavelmente, do quanto a minha identidade estivera vinculada ao meu amor por ele.

A última vez que o vi foi no dia em que apanhou o avião para Londres e conseguimos fazer um almoço rápido, na baixa, antes de ele ir para o aeroporto de Dulles. O que eu recordava com maior nitidez, da última hora que passámos juntos, era de termos ambos olhado para o relógio quando o céu se encheu de nuvens e a chuva começou a salpicar a montra ao lado da nossa mesa. Ele tinha um corte no maxilar, de fazer a barba, e mais tarde, quando, mentalmente, via o seu rosto via também esse pequeno ferimento que, por qualquer razão, me deixava transtornada.

Morreu em Fevereiro quando a Guerra do Golfo estava a acabar, e eu, decidida a esquecer a dor, vendera a minha casa mudando-me para outro bairro. O que conseguira fora desenraizar-me sem de facto ir para lado nenhum e com isso perdera o familiar arvoredo e os vizinhos que, em tempos, me haviam dado um certo conforto. Decorar a nova casa ou modificar o quintal só fizeram com que ficasse ainda mais tensa. Tudo o que fazia implicava distracções para as quais eu não tinha tempo e imaginava logo Mark a abanar a cabeça.

“Para uma pessoa tão lógica...”, diria ele, com um sorriso.

“E tu, o que é que fazias?”, perguntava-lhe eu, em pensamento, nas noites em que não conseguia dormir. “Diz-me lá o que é que fazias se fosses tu que ainda cá estivesses?”

Voltando à cozinha, passei o meu copo por água e fui para o escritório ver o que me aguardava no gravador de chamadas. Tinham ligado vários repórteres, mais a minha mãe e Lucy, a minha sobrinha. Três outras chamadas em que a pessoa desligara.

Eu bem queria ter um número que não viesse na lista mas não era possível. A Polícia, o Ministério Público e os quatrocentos e tal médicos legistas espalhados pelo estado tinham razões válidas para me contactarem a desoras. Para compensar a perda de privacidade, servia-me do gravador para fazer uma filtragem dos telefonemas e alguém que deixasse mensagens ameaçadoras ou obscenas arriscava-se a ser localizado pelo sistema de identificação de chamadas.

Premindo a respectiva tecla, a sequência de números foi-se materializando no estreito visor. Quando cheguei às três chamadas que procurava, fiquei perplexa e inquieta. O número, agora, já começava a ser familiar. Nesta última semana, aparecera várias vezes no meu visor quando a pessoa desligava sem deixar mensagem. Uma vez, eu tentara ligar para lá a ver quem é que atendia e dera-me o sinal estridente do que parecia ser um fax ou um modem de computador. Fosse lá por que motivo fosse, essa pessoa, ou coisa, ligara para o meu número três vezes entre as 22.20 e as 23.00, quando eu estava na morgue à espera do corpo de Waddell. Não fazia sentido. Os contactos telefónicos computorizados não deviam ocorrer com tal frequência e a tão altas horas da noite e se um modem a tentar ligar para outro vinha parar a mim então nesta altura ainda ninguém percebera que estava a marcar um número errado?

Acordei várias vezes durante as poucas horas que faltavam para amanhecer. Qualquer estalido ou alteração sonora dentro de casa fazia com que o meu pulso disparasse. Os botões encarnados do painel de controlo do alarme defronte da minha cama brilhavam ominosamente e, quando me virava ou compunha as mantas, os sensores de movimento, que eu não ligava quando estava em casa, observavam-me silenciosamente com faiscantes olhos vermelhos. Tive uns sonhos estranhos. Às cinco e meia acendi as luzes e vesti-me.

Estava escuro lá fora e havia muito pouco trânsito quando me dirigi para o serviço. O parque de estacionamento atrás da zona de descargas estava deserto e pejado de dezenas de pequenos círios que me fizeram lembrar os festins amorosos dos Morávios e outras celebrações religiosas. Mas estas velas tinham sido usadas para protestar. Horas antes, tinham sido usadas como armas. No primeiro andar, fiz café e comecei a ler a papelada que Fielding me deixara ficar, interessada no conteúdo do envelope que encontrara no bolso de trás de Waddell. Estava a contar com um poema, talvez outra meditação ou uma carta do sacerdote.

Em vez disso, descobri que o que Waddell considerara “extremamente confidencial” e quisera que fosse enterrado com ele eram talões de recibo. Inexplicavelmente, cinco eram de portagens; os outros três eram de refeições, incluindo um jantar de galinha frita encomendado num Shoney’s duas semanas antes.

 

O detective Joe Trent pareceria bastante jovem se não fosse a barba e o cabelo louro já a rarear e a encanecer. Magro e alto, trazia uma gabardina impecável com o cinto bem apertado e sapatos muito bem engraxados. Pestanejou nervosamente quando trocámos um aperto de mão e nos apresentámos no passeio defronte do serviço de urgência do hospital de Henrico. Percebi logo que o caso Eddie Heath o deixara preocupado.

— Não se importa que falemos aqui por um instante? — perguntou soltando um bafejo branco. — Por uma questão de privacidade.

A tremer de frio, apertei mais os braços contra o corpo enquanto um helicóptero da Medflight fazia um barulho enorme ao levantar do heliporto situado num cômoro arrelvado não muito longe do sítio onde nos encontrávamos. A lua era uma esquírola de gelo a derreter-se no céu cinzento-ardósia, os carros nos parques de estacionamento sujos de sal de estrada e das gélidas chuvas de Inverno. Uma manhã triste e sem cor, o vento esbofeteante, e eu reparava em tudo isso com mais atenção pela natureza do assunto que ali me trouxera. Se a temperatura de repente subisse dez graus e o sol começasse a brilhar não creio que, mesmo assim, me sentisse mais quente.

— O que aqui temos é mesmo grave, Dr.a Scarpetta. — Pestanejou. — Por certo concordará que não há necessidade de revelarmos os pormenores.

— Que pode dizer-me acerca desse rapaz? — perguntei.

— Falei com os pais e com várias outras pessoas que o conhecem. Tanto quanto pude perceber, o Eddie Heath é um miúdo absolutamente normal — gosta de desporto e entrega o jornal, nunca teve problemas com a Polícia. O pai trabalha na companhia dos telefones e a mãe faz costura para fora. Pelos vistos, a noite passada, Mrs. Heath precisou de uma embalagem de creme de cogumelos para fazer um guisado para o jantar e pediu ao Eddie que fosse num instante comprá-la à loja de conveniência do Lucky.

— A loja fica a que distância da casa deles? — Quis eu saber.

— Uns dois quarteirões e o Eddie já lá tinha ido muitas vezes. Os empregados conheciam-no pelo nome.

— A que horas foi visto pela última vez?

— Por volta da cinco e meia da tarde. Demorou-se pouco na loja e saiu.

— Já devia estar escuro — observei.

— Estava, sim — Trent olhou fixamente para o helicóptero transfigurado pela distância numa libelinha branca matraqueando suavemente por entre as nuvens. — Por volta das oito e meia, um patrulheiro que dava uma olhadela às traseiras dos edifícios da Patterson viu o miúdo encostado ao contentor.

— Têm fotografias?

— Não, senhora. Quando o agente percebeu que o rapaz estava vivo, a primeira coisa que fez foi pedir ajuda. Não temos fotos. Mas temos uma descrição muito pormenorizada com base nas observações do agente. O rapaz estava nu e encostado com as pernas estendidas, os braços caídos e a cabeça inclinada para a frente. A roupa numa trouxa mais ou menos bem feita em cima do passeio, juntamente com um pequeno saco de papel contendo uma sopa de creme de cogumelos e um chocolate Snickers. Estavam dois graus negativos cá fora. Calculamos que lá tivesse sido deixado no máximo há meia hora quando foi encontrado.

Uma ambulância parou ao pé de nós. Portas a abrir e um ranger de metal quando os paramédicos pousaram rapidamente no chão as pernas articuladas da maca e deram entrada de um velhote pelas portas envidraçadas de abertura automática. Seguimo-los e, em silêncio, percorremos um corredor banhado de luz, anti-séptico, cheio de pessoal clínico e doentes abalados pelas desgraças que ali os haviam trazido. Enquanto subíamos de elevador até ao segundo andar, interroguei-me quantos dos vestígios não teriam sido lavados e atirados para o lixo.

— E quanto às roupas dele? Alguma bala recuperada? — Perguntei a Trent quando as portas do elevador se abriram.

— Tenho-as no meu carro e vou deixá-las, mais o PERK dele, hoje à tarde no laboratório. A bala continua alojada no cérebro. Ainda não mexeram lá. Só espero que tenham recolhido material suficiente para análise.

A unidade de cuidados intensivos pediátricos ficava ao fundo de um corredor envernizado, os vidros das duas portas de madeira tapados com um alegre papel de dinossauros. Lá dentro, arco-íris enfeitavam o céu azul pintado nas paredes e havia esculturas móveis em forma de animais suspensas por cima de camas hidráulicas nos oito quartos dispostos em semicírculo à volta da recepção. Três mulheres jovens trabalhando atrás de monitores, uma a escrever num teclado e outra a falar ao telefone. Uma morena esbelta, de calças de bombazina encarnada e camisola de gola alta, apresentou-se como enfermeira-chefe depois de Trent lhe explicar ao que íamos.

— O médico assistente ainda não chegou — informou ela.

— Só precisamos dar uma vista de olhos aos ferimentos do Eddie. Não demora nada — disse-lhe Trent. — Os pais dele ainda cá estão?

— Passaram a noite toda com ele.

Fomos atrás dela à suave iluminação artificial, passando por carros de emergência e botijas verdes de oxigénio que não estariam à porta de quartos de meninos e meninas se o mundo fosse como devia ser. Quando chegámos ao de Eddie, a enfermeira foi lá dentro e encostou a porta.

— São só uns minutos — ouvimo-la dizer aos Heath. — Enquanto o examinamos.

— Que especialista é, desta vez? — perguntou o pai com voz trémula.

— Uma médica que percebe muito de ferimentos. Uma espécie de cirurgiã da Polícia. — Diplomaticamente, a enfermeira evitara dizer-lhes que eu era patologista forense ou, pior ainda, médica legista.

Após uns segundos de silêncio, o pai disse baixinho:

— Ah. É por causa das provas.

— Sim. Não querem ir tomar um café? Ou comer qualquer coisa? Os pais de Eddie Heath saíram do quarto, ambos consideravelmente

obesos, as roupas amarrotadas de terem estado a dormir vestidos. Exibiam a expressão incrédula das pessoas ingénuas, simples, que ouviram dizer que o mundo ia acabar, e quando os seus olhares exaustos nos fitaram de relance desejei poder dizer-lhes alguma coisa que o desmentisse ou, pelo menos, tornasse menos penoso. As palavras de consolo morreram-me na garganta enquanto o casal se afastava vagarosamente. Eddie Heath estava imóvel, a cabeça envolta em ligaduras, um ventilador soprando ar para os pulmões enquanto o soro lhe gotejava para as veias. Tez leitosa e imberbe, a fina membrana das pálpebras de um levíssimo tom azulado à meia luz. Adivinhei-lhe a cor dos cabelos pelo louro das sobrancelhas. Ainda não passara desse frágil estádio pré-pubescente em que os rapazes têm lábios carnudos, são bonitos e cantam com uma voz mais suave que as irmãs. Tinha os antebraços esguios, um corpo pequeno debaixo do lençol. Só as mãos desproporcionadamente grandes, quietas, imobilizadas por tubos de soro, confirmavam a sua desabrochante virilidade. Não aparentava treze anos.

— Ela precisa ver as zonas do ombro e da perna — disse Trent, baixinho, à enfermeira.

Pegou em dois pares de luvas, um para ela outro para mim, e calçámo-las. O rapaz estava nu debaixo do lençol, com lama nas dobras da pele e as unhas sujas. Os doentes em situação instável não podem ser completamente lavados.

Trent inteiriçou-se quando a enfermeira retirou as compressas das feridas.

— Meu Deus — disse, em voz baixa. — Ainda parecem piores que ontem à noite. Jesus. — Abanou a cabeça e recuou um passo.

Se alguém me tivesse dito que o rapaz fora atacado por um tubarão eu acreditava, se não fossem as bordas lisas que, nitidamente, haviam sido infligidas por um objecto aguçado, linear, como uma faca ou lâmina. Bocados de carne do tamanho de cotoveleiras tinham sido excisados do ombro direito e da parte interna da coxa direita. Abrindo o meu estojo, tirei de lá uma régua e medi as feridas sem lhes tocar, depois fotografei-as.

— Está a ver os cortes e os arranhões nas bordas? — Frisou Trent. — Era disso que eu estava a falar. É como se ele tivesse recortado um desenho na pele e depois arrancado tudo.

— Descobriram algum rasgão anal? — Perguntei à enfermeira.

— Quando tirei a temperatura rectal não vi nenhum rasgão e ninguém reparou em nada fora do normal na boca ou na garganta quando o entubaram. Também procurei fracturas e equimoses antigas.

— E tatuagens?

— Tatuagens? — Perguntou ela como se nunca tivesse visto uma tatuagem.

— Tatuagens, sinais de nascença, cicatrizes. Qualquer coisa que alguém possa, por qualquer razão, ter removido — esclareci.

— Não faço ideia — respondeu a enfermeira, hesitante.

— Vou perguntar aos pais dele — disse Trem enxugando o suor da testa.

— São capazes de ter ido à cantina.

— Eu encontro-os — respondeu ele já da porta.

— Que dizem os médicos? — Perguntei à enfermeira.

— Estado muito crítico e não reage — respondeu ela sem a mínima emoção.

— Posso ver o sítio por onde a bala entrou? — Pedi-lhe.

Soltou as pontas da ligadura da cabeça e empurrou a gaze até eu conseguir ver o minúsculo orifício negro chamuscado nas bordas. A ferida atravessava-lhe a têmpora direita com uma ligeira inclinação para a frente.

— Atravessou o lobo frontal ? — Perguntei.

— Sim.

— Fizeram-lhe alguma angio?

— Não há irrigação cerebral devido ao inchaço. Não tem actividade electroencefálica e quando lhe pusemos água fria nos ouvidos não se verificou qualquer actividade calórica. Não desencadeou nenhuma descarga.

Ela encontrava-se do outro lado da cama, braços de mãos enluvadas caídos ao longo do corpo e um rosto inexpressivo quando prosseguiu o relato dos vários testes efectuados e técnicas utilizadas para reduzir a pressão intracraniana. Eu passara horas suficientes em serviços de urgência e unidades de cuidados intensivos para saber muito bem que era mais fácil ser-se frio com um doente que não recuperara os sentidos. E Eddie Heath nunca mais recuperaria. O seu córtex morrera. Aquilo que o tornava humano, que o fazia pensar e sentir, desaparecera e nunca mais voltaria. Restavam as funções vitais, restava um tronco cerebral. Era um corpo que respirava com um coração que batia suportado, de momento, pelas máquinas.

Comecei a procurar ferimentos defensivos. Tão concentrada em não tocar nos tubos, só me dei conta de que estava a segurar-lhe a mão quando ele me assustou apertando a minha. Tais gestos reflexos não são invulgares em pessoas que estejam cerebralmente mortas. É o mesmo que um bebé a agarrar o nosso dedo, um reflexo que não envolve nenhum processo mental. Delicadamente, soltei a mão dele e respirei fundo esperando com isso eliminar a dor que senti no peito.

— Descobriu alguma coisa? — perguntou a enfermeira.

— É difícil ver com estes tubos todos — respondi.

Ela mudou-lhe os pensos e puxou o lençol para cima. Descalcei as luvas e estava a deitá-las fora quando o detective Trent voltou com um olhar um nadinha esgazeado.

— Nenhuma tatuagem — disse, ofegante, como se tivesse ido e voltado da cantina a correr. — Nem sinais de nascença ou cicatrizes.

Momentos depois encaminhávamo-nos para a placa de estacionamento. O sol fazia negaças e no ar rodopiavam pequeninos flocos de neve. De pálpebras semicerradas contra o vento, pus-me a olhar para o trânsito intenso na Forest Avenue. Muitos carros traziam já coroas de Natal presas às grelhas.

— Acho melhor preparar-se para a eventualidade de ele morrer — disse eu.

— Se soubesse isso não lhe teria dado a maçada de vir cá. Bolas, está frio.

— Fez exactamente o que devia fazer. Daqui a uns dias as feridas dele estarão diferentes.

— Dizem que o Dezembro vai ser todo assim. Frio de rachar e muita neve. — Não tirava os olhos do chão. — Tem filhos?

— Tenho uma sobrinha — respondi.

— Eu tenho dois rapazes. Um com treze anos. Tirei as chaves.

— O meu está ali adiante — disse-lhe.

Trent acenou com a cabeça e seguiu atrás de mim. Em silêncio, viu-me destrancar o Mercedes cinzento. Quando entrei e apertei o cinto, o olhar dele reparou no pormenor dos estofos de cabedal. Mirou o carro de alto a baixo como se a apreciar uma mulher lindíssima.

— E quanto à pele que falta? — perguntou. —Já tinha visto alguma coisa assim?

— É possível que se trate de alguém com tendências canabalísticas — respondi.

Regressei ao escritório e vi o correio, rubriquei uma pilha de relatórios laboratoriais, enchi uma caneca com o alcatrão líquido que ficara no fundo do bule e não falei com ninguém. Rose apareceu tão silenciosamente quando eu estava sentada à secretária que nem teria dado logo pela sua presença se ela não tivesse pousado um recorte de jornal em cima de vários outros que já se encontravam no meio do mata-borrão.

— Parece cansada — comentou. — A que horas é que veio, hoje de manhã? Quando cheguei, vi que havia café feito e a senhora já tinha saído para qualquer lado.

— Henrico tem um caso complicado — respondi. — Um rapaz que provavelmente vai dar entrada aqui.

— Eddie Heath.

— Sim — respondi, perplexa. — Como é que soube?

— Também vem no jornal — respondeu Rose e reparei que trazia uns óculos novos que lhe tornavam menos austero o rosto de matrona.

— Gosto dos seus óculos — disse-lhe. — Uma grande melhoria, comparados com aqueles à Ben Franklin encavalitados na ponta do nariz. O que é que diz aqui sobre ele?

— Pouca coisa. O artigo só diz que foi encontrado junto à Patterson e que tinha levado um tiro. Se o meu filho ainda fosse pequeno, nem pensar em deixá-lo fazer a entrega do jornal.

— O Eddie Heath não andava a entregar o jornal quando foi agredido.

— Não interessa. Nos dias que correm, eu não deixava. Vejamos. — Levou um dedo à asa do nariz. — O Fielding está lá em baixo a fazer uma autópsia e a Susan foi ao MCV levar uns cérebros para análise. À parte isso, não aconteceu nada enquanto esteve fora, tirando o computador que se foi abaixo.

— Ainda está em baixo?

— Acho que a Margaret está a tratar disso e já falta pouco — informou Rose.

— Óptimo. Quando ele estiver outra vez bom, preciso que ela me faça uma busca. Os códigos a procurar são cortes, mutilação, canibalismo, dentadas. Talvez uma busca paralela para as palavras excisado, pele, carne — num vasto leque de combinações. Também se pode tentar desmembramento mas não creio que se trate realmente disso.

— Para que região do estado e em que espaço de tempo? — Perguntou Rose tomando nota.

— Em todo o estado nos últimos cinco anos. Estou particularmente interessada em casos envolvendo crianças mas não nos limitemos a isso. E peça-lhe para ver o que é que a Traumatologia lá tem. Falei com o director num encontro que houve o mês passado e pareceu-me interessadíssimo em colaborar connosco.

— Quer dizer que também está interessada em vítimas que sobreviveram?

— Se conseguirmos, Rose. Vamos verificar tudo a ver se descobrimos algum caso idêntico ao do Eddie Heath.

— Vou já dizer à Margaret e ver se ela pode começar a fazer isso — disse a minha secretária já de saída.

Comecei a ler os artigos que ela recortara de uma série de matutinos. Como seria de esperar, muito se especulava sobre o facto de Ronnie Waddell ter alegadamente sangrado “dos olhos, nariz e boca”. A delegação local da Amnistia Internacional afirmava que a sua execução não era menos desumana que qualquer homicídio. Um porta-voz da ACLU declarava que a cadeira eléctrica “pode ter tido uma avaria causando a Waddell um sofrimento atroz” comparando em seguida o incidente com a execução na Florida, em que esponjas sintéticas usadas pela primeira vez tinham feito com que o cabelo do condenado se incendiasse.

Juntando os artigos ao processo de Waddell, tentei adivinhar que pugilísticos coelhos o seu advogado, Nicholas Grueman, iria desta vez tirar da cartola. Os nossos confrontos, ainda que pouco frequentes, tinham-se tornado previsíveis. O verdadeiro interesse dele, começava eu a achar, era pôr em questão a minha competência profissional e, de um modo geral, fazer-me sentir idiota. Mas o que mais me aborrecia era o facto de Grueman não parecer recordar-se minimamente de que eu, em tempos, fora sua aluna em Georgetown. Por causa dele, eu detestara o primeiro ano de Direito, tirara o meu único Bom e saíra da Law Review. Nunca, enquanto fosse viva, me esqueceria de Nicholas Grueman e não me parecia justo que ele se tivesse esquecido de mim.

Tive notícias suas na quinta-feira, pouco depois de saber que Eddie Heath tinha morrido.

— Kay Scarpetta? — Perguntou a voz de Grueman, ao telefone.

— Sim. — Fechei os olhos e soube, pela pressão por detrás deles, que se aproximava rapidamente uma frente de tempestade.

— Fala Nicholas Grueman. Estive a analisar o relatório preliminar da autópsia de Mr. Waddell e tenho algumas dúvidas.

Eu não disse nada.

— Refiro-me a Ronnie Joe Waddell.

— Em que posso ajudá-lo?

— Comecemos pelo seu dito estômago quase tubular. Uma descrição interessante, diga-se de passagem. Trata-se de um termo do vosso calão ou pertence mesmo à terminologia médica? Devo concluir, acertadamente, que Mr. Waddell não andava a comer?

— Não direi que não andasse a comer absolutamente nada. Mas o estômago dele tinha encolhido. Estava vazio e limpo.

— Ter-lhe-á sido, porventura, comunicado que ele podia estar em greve de fome?

— Não me foi comunicado nada disso. — Lancei um breve olhar ao relógio de parede e a luz feriu-me os olhos. Tinham-se-me acabado as aspirinas e deixara o colírio em casa.

Ouvi barulho de papéis.

— Diz aqui que encontrou escoriações nos braços, nos aspectos internos dos dois braços — afirmou Grueman.

— Correcto.

— E o que é, exactamente, um aspecto interno”?

— A face interna do braço acima da fossa antecubital. Uma pausa.

— Fossa antecubital — repetiu ele, espantado. — Então, vejamos. Tenho a palma da mão virada para cima e estou a olhar para a parte de dentro do cotovelo. Ou, melhor dizendo, para o sítio onde o braço se dobra. Estou a dizer bem, não estou? Ou seja, que o aspecto interno é o lado em que o braço se dobra e que a fossa antecubital é, por conseguinte, o sítio onde o braço se dobra?

— Está a dizer bem.

— Bom, bom, muito bem. E a que atribui esses ferimentos nos aspectos internos dos braços de Mr. Waddell?

— Às cintas, possivelmente — respondi, irritada.

— Cintas?

— Sim, aquelas cintas de couro que a cadeira eléctrica tem.

— Disse possivelmente. Possivelmente cintas?

— Foi o que eu disse.

— Não pode, então, afirmar ao certo, Dr.a Scarpetta?

— Há muito pouco nesta vida que se pode afirmar ao certo, Mr. Grueman.

— Donde será razoável admitir a possibilidade de as cintas que causaram as escoriações serem de outra espécie? Humanas, por exemplo? Marcas deixadas por mãos humanas?

— As escoriações que encontrei não se coadunam com ferimentos infligidos por mãos humanas — afirmei.

— E coadunam-se com ferimentos infligidos pela cadeira eléctrica, pelas cintas que ela tem?

— Na minha opinião foi disso que se tratou.

— Na sua opinião, Dr.a Scarpetta?

— Não examinei a própria cadeira eléctrica — ripostei, bruscamente.

Seguiu-se uma longa pausa, daquelas que o tinham tornado famoso nas aulas quando queria que a óbvia inaptidão de um aluno pairasse no ar. Imaginei-o a olhar-me de alto, mãos apertadas atrás das costas, o rosto inexpressivo e os segundos a passarem no ruidoso tiquetaque do relógio de parede. Uma vez suportara o seu silencioso olhar perscrutador por mais de dois minutos enquanto os meus olhos varriam às cegas as páginas da sebenta aberta à minha frente. E agora, sentada à minha grande secretária de nogueira, uns vinte anos depois, uma médica legista chefe de meia-idade com graus académicos e diplomas suficientes para encherem uma parede, sentia o rosto a escaldar. Sentia a velha humilhação, a mesma raiva.

Susan entrou no meu gabinete precisamente na altura em que Grueman punha fim à conversa com um “Bom dia” e desligava.

— O corpo de Eddie Heath já chegou. — Trazia a bata cirúrgica desabotoada nas costas e limpa, o rosto com uma expressão inquieta. — Pode ficar para amanhã de manhã?

— Não — respondi. — Não pode.

O rapaz parecia mais pequeno em cima da fria mesa de aço do que dentro dos coloridos lençóis do seu leito hospitalar. Nesta sala não havia arco-íris, paredes ou janelas enfeitadas com dinossauros ou um pouco de cor para alegrar o coração de uma criança. Eddie Heath dera entrada nu com agulhas de soro, cateter e os pensos ainda postos. Pareciam tristes despojos do que o mantivera neste mundo e depois dele o desligara como um cordel preso a um balão voltejando sem rumo nas alturas. Passei quase uma hora a fazer o registo de ferimentos e marcas terapêuticas enquanto Susan tirava fotografias e atendia o telefone.

Fecháramos as portas de acesso à sala de autópsias para lá das quais se ouvia o barulho de pessoas a saírem do elevador dirigindo-se para suas casas no rápido cair da noite. A campainha da entrada de serviço tocou duas vezes quando empregados de funerárias chegaram para trazer ou levar um corpo. As feridas no ombro e na coxa de Eddie estavam secas e de um tom vermelho escuro, luzidio.

— Meu Deus — comentou Susan, de olhar fixo. — Meu Deus, quem pôde fazer uma coisa destas? E olhe também para todos esses cortes nas bordas. Parece que lhe fizeram um rendilhado e depois removeram a pele toda.

— E precisamente o que eu penso.

— Acha que alguém gravou uma espécie de desenho?

— Acho que alguém tentou apagar alguma coisa. E, não tendo conseguido, removeu a pele.

— Apagar o quê?

— Nada que já lá estivesse — respondi. — Ele não tinha tatuagens, sinais de nascença nem cicatrizes nestes sítios. Se dantes não tinha nada é porque se calhar algo lá lhe puseram que depois teve de ser removido por causa do potencial valor incriminatório.

— Algo como, por exemplo, dentadas.

— Sim — repliquei.

O corpo não atingira a rigidez total e ainda estava morno quando comecei a limpar todas as zonas que pudessem ter escapado a uma toalha. Inspeccionei as axilas, dobras glúteas, atrás das orelhas e dentro delas, e dentro do umbigo. Cortei unhas para dentro de envelopes brancos e limpos e procurei fibras e outros vestígios no cabelo.

Susan continuou a olhar-me de soslaio e apercebi-me do seu nervosismo. Por fim perguntou-me:

— Procura alguma coisa especial?

— Líquido seminal seco, para já — respondi.

— Na axila?

— Lá, em qualquer dobra da pele, qualquer orifício, em qualquer lado.

— Normalmente não se procura em todos esses sítios.

— Normalmente não ando à procura de zebras.

— De quê?

— Tínhamos um ditado na faculdade de Medicina. Se ouvirem barulho de cascos procurem cavalos. Mas, num caso como este, sei que andamos à procura de zebras — respondi.

Com uma lupa, comecei a observar o corpo centímetro a centímetro. Quando cheguei aos pulsos, voltei-lhe lentamente as mãos para um lado e para o outro, analisando-as durante tanto tempo que Susan parou o que estava a fazer. Consultei os diagramas que tinha na minha prancheta, comparando cada marca terapêutica com as que desenhara.

— Onde é que está a ficha dele? — Olhei em redor.

— Ali adiante. — Susan foi buscar os papéis a uma bancada. Comecei a folheá-los concentrando-me principalmente nos registos do serviço de urgência e no relatório apresentado pela equipa de socorro. Em lado nenhum vinha indicado que as mãos de Eddie Heath tinham sido amarradas. Tentei lembrar-me do que o detective Trent me disse quando descreveu o local onde o corpo do rapaz fora encontrado. Trent não dissera que Eddie estava de braços caídos?

— Descobriu alguma coisa? — acabou Susan por perguntar.

— Tem de se observar à lupa para se ver. Veja. Na base dos pulsos e aqui no esquerdo, à esquerda do carpo. Está a ver o resíduo pegajoso? Os vestígios de adesivo? Parecem manchas de um pó acinzentado.

— Mal se vêem. E se calhar têm fibras lá coladas — comentou Susan, espantada, de ombro encostado ao meu para ver através da lupa.

— E a pele está lisa — sublinhei, de seguida. — Tem menos pêlos neste sítio do que aqui e aqui.

— Porque ao tirarem a fita arrancaram os pêlos.

— Exactamente. Vamos ficar com amostras dos pêlos do pulso. O adesivo e as fibras podem identificar a fita, se ela vier a ser recuperada. E se for, vai identificar o rolo.

— Não estou a perceber. — Pôs-se direita e olhou para mim. — Os tubos de soro estavam presos com fita adesiva. Tem a certeza que não é essa a explicação?

— Não há picadas de agulhas nestas zonas dos pulsos que indiciem marcas terapêuticas — respondi-lhe. — E viu o que ele trazia colado quando chegou. Nada que justifique este adesivo.

— É verdade.

— Vamos tirar fotografias e eu depois recolho o resíduo adesivo para que os analistas da Perícia Técnica vejam o que conseguem descobrir.

— O corpo estava na rua, ao lado de um contentor. Vai ser um bico de obra para os peritos.

— É uma questão de saber se este resíduo nos pulsos dele esteve ou não em contacto com o chão. — Suavemente, comecei a raspar o resíduo com um bisturi.

— Não me parece que tenham por lá andado a aspirar.

— Não, de certeza que não. Mas acho que ainda se consegue dar umas varredelas se pedirmos com jeitinho. Não se perde nada em tentar.

Continuei a examinar os esguios antebraços e pulsos de Eddie Heath à procura de equimoses ou escoriações que me tivessem escapado. Mas não encontrei mais nada.

— Os tornozelos parecem estar bons — informou Susan do extremo oposto da mesa. — Não vejo nenhum adesivo nem áreas onde os pêlos tenham sido arrancados. Não tem ferimentos. Não me parece que tenha sido amarrado nos tornozelos. Só nos pulsos.

De que eu me recordasse, poucos eram os casos em que as fortes ataduras da vítima não deixassem marcas na pele. Era óbvio que a fita de atadura estivera em contacto directo com a pele de Eddie. Teria mexido as mãos, debatendo-se à medida que o desconforto ia aumentando e a circulação ficando limitada. Mas não oferecera resistência. Não fizera força, não se contorcera nem tentara fugir.

Lembrei-me das gotas de sangue no ombro do blusão e da fuligem e salpicos de tinta na gola. Tornei a examinar à volta da boca, olhei para a língua e dei uma vista de olhos à ficha. Se tivesse sido amordaçado, agora já não havia sinais disso, nenhuma escoriação ou equimose, nenhum vestígio de adesivo. Imaginei-o encostado ao contentor, nu, ao frio cortante, as roupas amontoadas ao lado, não cuidadosa nem desleixadamente mas de uma forma casual como me haviam dito. Quando tentei captar o ambiente do crime, não detectei raiva, pânico ou medo.

— Ele deu-lhe o tiro primeiro, não deu? — O olhar de Susan estava alerta como o de um estranho desconfiado com quem nos cruzamos numa rua escura e deserta. — Quem lhe fez isto amarrou-lhe os pulsos depois de lhe dar o tiro.

— Acho que sim.

— Mas é muito esquisito — comentou ela. — Não é preciso atar uma pessoa a quem se acaba de dar um tiro na cabeça.

— Não sabemos quais são as fantasias desse indivíduo. — A dor de cabeça de sinusite chegara e eu capitulara como uma cidade debaixo de cerco. Os olhos choravam-me, o crânio parecia querer estourar.

Susan puxou o grosso cabo eléctrico e ligou a serra Stryker. Colocou lâminas novas nos bisturis e conferiu as facas em cima do carrinho cirúrgico. Foi à sala de raios X e voltou com as chapas de Eddie que prendeu a negatoscópios. Andava agitadamente de um lado para o outro e depois fez uma coisa que nunca tinha feito. Deu um encontrão no carrinho cirúrgico que acabara de preparar derrubando dois frascos de formalina.

Corri para junto dela ao vê-la dar um salto para trás, arquejante, sacudindo os vapores do rosto e fazendo deslizar pelo chão os vidros partidos quando por pouco não se estatelou.

— Saltou-lhe para a cara? — Peguei-lhe por um braço e corri com ela para o balneário.

— Acho que não. Não. Oh, meu Deus. Apanhei nos pés e nas pernas. E também no braço, acho eu.

— Tem a certeza que não lhe entrou para os olhos nem para a boca? — Ajudei-a a despir a bata.

— Tenho.

Enfiei-me debaixo do chuveiro e abri a torneira enquanto ela se despia, arrancando praticamente o resto da roupa.

Obriguei-a a ficar debaixo de um jacto de água morna durante um bom bocado enquanto me equipava com máscara, óculos de protecção e grossas luvas de borracha. Enxuguei a perigosa substância com esponjas fornecidas pelo estado para emergências bioquímicas como esta. Varri os vidros e meti tudo dentro de um saco plástico reforçado com outro. Depois lavei o chão à mangueirada, passei as mãos por água e mudei de roupa. Susan finalmente saiu do chuveiro, enrubescida e assustada.

— Peço muita desculpa, Dr.a Scarpetta — disse.

— Estou preocupada é consigo. Como se sente?

— Fraca e um bocadinho zonza. Ainda sinto os vapores.

— Eu acabo isto — disse-lhe. — Por que não vai para casa?

— Acho que primeiro vou descansar um pouco. Talvez fosse melhor ir lá para cima.

A minha bata estava nas costas de uma cadeira e, metendo a mão num dos bolsos, tirei as chaves.

— Tome — disse, entregando-lhas. — Pode deitar-se no sofá do meu gabinete. Chame-me imediatamente pelo intercomunicador se as tonturas não passarem ou começar a sentir-se pior.

Tornou a aparecer cerca de uma hora depois, de casacão já vestido e abotoado até ao queixo.

— Como se sente? — perguntei enquanto suturava a incisão em “Y”.

— Um bocadinho trémula mas bem.

Observou-me em silêncio por um instante, depois acrescentou:

— Pensei numa coisa enquanto estive lá em cima. Acho que não deve pôr-me na lista de testemunhas neste caso.

Surpreendida, ergui os olhos para ela. Era normal que quem assistisse a uma autópsia fizesse parte da lista de testemunhas no relatório oficial. O pedido de Susan não tinha grande importância mas era estranho.

— Não participei na autópsia — prosseguiu ela. — Quer dizer, ajudei no exame exterior mas não assisti ao resto. E sei que este caso vai dar que falar — se chegarem a prender alguém. Se chegar a ser julgado. E acho melhor eu não fazer parte da lista dado que, como já disse, não estive de facto presente.

— Está bem — redargui. — Por mim não há problema nenhum. Pousou as minhas chaves em cima de uma bancada e foi-se embora.

Marino estava em casa quando lhe liguei do telefone do carro ao abrandar numa portagem cerca de uma hora depois.

— Conhece o director prisional de Spring Street? — perguntei-lhe.

— Frank Donahue. Onde é que está?

— No carro.

— Bem me quis parecer. O mais certo é metade dos camionistas da Virgínia estarem a ouvir-nos pela banda do cidadão.

— Não ouvem nada de mais.

— Soube do puto — disse ele. —Já o despachou?

— Já. Ligo-lhe de casa. Entretanto pode fazer-me um favor. Preciso de lá ir, sem demora, dar uma olhadela a umas coisas.

— Naquele sítio, quando se olha também se é olhado.

— Por isso é que você vai comigo — repliquei.

Quanto mais não fosse, após dois penosos semestres de tutela do meu ex-professor, eu aprendera a estar preparada. Por isso, foi numa tarde de sábado que eu e Marino nos pusemos a caminho da penitenciária estadual. Os céus cor de chumbo, o vento a fustigar as árvores na berma da estrada, o universo num estado de fria ansiedade como se reflectindo a minha própria disposição.

— Se quer a minha opinião — disse-me Marino pelo caminho —, acho que está a deixar que o Grueman a pressione.

— Nada disso.

— Então por que é que de cada vez que há uma execução, e ele está envolvido, se comporta como se estivesse a ser pressionada?

— E como é que resolvia a situação? Ele premiu o isqueiro do carro.

— Da mesma maneira. Dava uma vista de olhos ao corredor da morte e à cadeira eléctrica, documentava tudo e depois dizia-lhe que ele era um parvalhão. Melhor ainda, dizia à imprensa que ele era um parvalhão.

No matutino desse dia, Grueman era citado como tendo dito que Waddell não fora devidamente alimentado e que o seu corpo exibia equimoses para as quais eu não encontrara uma explicação adequada.

— Qual é o problema? — prosseguiu Marino. — Ele já defendia estes marados quando a senhora andou na faculdade de Direito?

— Não. Aqui há uns anos pediram-lhe para dirigir o Centro de Justiça Criminal de Georgetown. Foi quando ele começou a aceitar, de graça, casos de pena de morte.

— O tipo deve ter um parafuso a menos.

— É um forte opositor da pena capital e tem conseguido transformar qualquer constituinte seu numa causa célebre. Sobretudo o Waddell.

— Pois. São Nicolau, santo padroeiro dos bandidos. Que bonito — comentou Marino. — Por que não lhe manda umas fotos a cores do Eddie Heath e lhe pergunta se ele não quer falar com os pais do miúdo? Para ver o que é que ele sente pela besta que cometeu aquele crime.

— Nada o fará mudar de opinião.

— Ele tem filhos? Mulher? Alguém que lhe seja querido?

— Isso não faz diferença nenhuma, Marino. Calculo que não tenha nada de novo sobre o Eddie.

— Não, e Henrico também não tem. Só as roupas dele e uma bala de calibre vinte e dois. Talvez os laboratórios tenham mais sorte com

o material que lhes enviou.

— E quanto ao VICAP? — perguntei referindo-me ao Violent Criminal Apprehension Program, do FBI, no qual Marino e o profiler do FBI, Benton Wesley, formavam a equipa regional.

— O Trent está a preencher os formulários e vai enviá-los dentro de dias — respondeu Marino. — E ontem à noite dei conhecimento do caso ao Benton.

— O Eddie era miúdo para entrar para o carro de um estranho?

— Segundo os pais, não. Tratou-se de uma agressão casual ou de alguém que tenha conquistado a confiança do miúdo muito antes de lhe deitar a mão.

— Ele tem irmãos e irmãs?

— Um irmão e uma irmã, mas ambos com mais de dez anos que ele. Acho que o Eddie veio por acidente — respondeu Marino quando já se avistava a penitenciária.

Anos de negligência tinham transformado a camada de estuque num tom sujo, diluído, de rosa elixir dentário. As janelas escuras estavam tapadas com plásticos grossos, tesos e rasgados pelo vento. Virámos na saída para Belvedere e depois à esquerda na Spring Street, uma velha artéria ligando duas entidades que não pertenciam ao mesmo mapa. Continuava por vários quarteirões, depois da penitenciária, até acabar, pura e simplesmente em Gambles Hill onde a sede de tijolos brancos da Ethyl Corporation se empoleirava numa colina de belos jardins como uma enorme e alva garça-real na borda de uma lixeira.

A chuva transformara-se em granizo quando estacionámos e saímos do carro. Segui atrás de Marino, passámos por um contentor do lixo, depois subimos uma rampa que ia dar a um cais de entregas ocupado por uma série de gatos cuja indiferença se aliava à típica desconfiança dos animais de rua. A entrada principal era uma única porta de vidro e passando ao que pretendia ser um vestíbulo demos por nós atrás das grades. Não havia cadeiras; um ambiente gélido e bafiento. À nossa direita, o Centro de Comunicações tinha acesso por um pequeno guichet que uma mulher tronchuda, em uniforme de guarda prisional, levou o seu tempo a abrir.

— Que desejam?

Marino mostrou-lhe o crachá e, laconicamente, informou-a de que tínhamos uma reunião marcada com Frank Donahue, o director. Mandou-nos esperar. O guichet tornou a fechar-se.

— Esta é Helen, a Huna — disse-me Marino. —Já cá vim uma data de vezes e faz sempre de conta que não me conhece. Mas também não sou o tipo dela. Já vai conhecê-la melhor daqui a nada.

Para lá dos portões de grades estendia-se um corredor de mosaicos castanhos e betão com pequenos gabinetes que pareciam jaulas. Ao fundo, o primeiro bloco de celas, fieiras pintadas no verde da praxe e salpicadas de ferrugem. Estavam vazias.

— Quando é que os restantes presos vão ser transferidos? — perguntei.

— Lá para o fim da semana.

— Quem é que falta?

— Alguns cavalheiros genuinamente virginianos, os patifes da pior espécie. Estão todos trancados a sete chaves e amarrados às camas no bloco C, que é por ali — apontou para a esquerda. — Não fique nervosa que não passamos por lá. Eu não lhe fazia uma coisa dessas. Alguns desses estupores não vêem uma mulher há anos — e Helen, a Huna, não conta.

Um indivíduo jovem, bem constituído e envergando o uniforme dos Serviços Prisionais surgiu ao fundo do corredor e encaminhou-se na nossa direcção. Mirou-nos por entre as grades, o rosto atraente mas sério, de maxilares fortes e olhos cinzentos, frios. Um bigode ruivo escuro escondia um lábio superior que calculei fosse capaz de exibir uma expressão cruel.

Marino apresentou-nos, acrescentando:

— Viemos inspeccionar a cadeira.

— Eu sei, chamo-me Roberts e estou aqui para os acompanhar na visita de luxo guiada. — As chaves tilintaram contra o ferro quando ele abriu os pesados portões. — O Donahue hoje não veio, está doente. — O estrondo das portas a fecharem-se atrás de nós ecoou nas paredes. — Peço desculpa mas, primeiro, temos de revistá-los. Quer fazer o favor de se aproximar, minha senhora?

Já submetia Marino à passagem do detector quando outra porta de grades se abriu e “Helen” apareceu vinda do Centro de Comunicações. Era uma mulher carrancuda, entroncada e só o lustroso talabarte da farda lhe fazia realçar a cintura. O cabelo farto estava cortado à homem e pintado de preto-graxa, o olhar penetrante quando por momentos se cruzou com o meu. A chapa de identificação presa a um busto descomunal dizia “Crimes”.

— A sua mala — ordenou-me.

Entreguei-lhe o estojo clínico. Ela vasculhou lá dentro e depois, à bruta, virou-me para um lado e para o outro submetendo-me a uma salva de roços e apalpadelas com o detector. Ao todo, a revista não teria durado mais que uns vinte segundos mas ela conseguiu tocar em todos os centímetros do meu corpo, esmagando-me com a rija armadura dos seios como se fosse uma aranha gigante enquanto os dedos grossos se moviam sem pressa e ela respirava com força pela boca. Depois fez um brusco aceno com a cabeça a dar-me por despachada e voltou para a toca de betão e ferro.

Seguimos atrás de Roberts passando por grades e mais grades, através de uma série de portas que ele ia abrindo e fechando, o ar frio fazendo ressoar o triste carrilhão de hostis barras metálicas. Não nos perguntou nada a nosso respeito nem fez nenhum comentário a que eu pudesse chamar, ainda que remotamente, simpático. Parecia apenas interessado no seu papel que, nessa tarde, era de guia turístico ou cão de guarda, fiquei sem saber ao certo.

Uma curva à direita e entrámos no primeiro bloco de celas, um enorme espaço de betão verde e janelas partidas cheio de correntes de ar, com quatro fieiras de celas sobrepostas sob um tecto falso coberto por rolos de arame farpado. Em pilhas mal feitas, alinhadas no chão de mosaicos castanhos, dezenas de colchões estreitos forrados com plástico por entre um sortido de vassouras, esfregonas e puídos cadeirões encarnados. Sapatilhas de cabedal, calças de ganga e outros artigos pessoais dispersos enchiam os altos peitoris das janelas e, deixados dentro de muitas das celas, viam-se televisores, livros e baús metálicos. Pelos vistos, ao serem evacuados, os reclusos não tiveram autorização para levar os seus pertences, o que talvez explicasse as obscenidades garatujadas nas paredes.

Destrancadas mais portas, demos por nós lá fora, no pátio, um quadrado de relva acastanhada rodeado de feios blocos de celas. Não havia árvores. Torres de vigia erguiam-se nos quatro cantos do recinto, os homens lá dentro envergando casacões e munidos de espingardas. Avançámos rapidamente e em silêncio com o granizo a colar-se-nos à cara. Uns passos adiante, virámos para outra abertura que ia dar a uma porta de ferro mais grossa do que qualquer uma das outras que eu já vira.

— A cave leste — disse Roberts levando uma chave à fechadura. — O sítio onde ninguém deseja vir parar.

Entrámos no corredor da morte.

Na parede leste havia cinco celas, todas com uma cama de ferro, um lavatório de porcelana branca e uma sanita. No meio da sala, uma enorme secretária e diversas cadeiras onde os guardas se sentavam dia e noite quando o corredor da morte estava ocupado.

— O Waddell esteve na cela dois — disse Roberts apontando para lá. — Segundo as leis deste estado, um recluso deve ser transferido para aqui quinze dias antes da execução.

— Quem é que teve acesso a ele enquanto aqui esteve? — perguntou Marino.

— As mesmas pessoas que têm sempre acesso ao corredor da morte. Advogados, padres e membros da equipa da morte.

— Equipa da morte? — perguntei eu.

— É composta por agentes e supervisores dos Serviços Prisionais cuja identidade é confidencial. A equipa entra em acção quando um recluso é despachado para aqui, de Mecklenburg. Vigiam-no, tratam de tudo do princípio ao fim.

— Não me parece uma missão lá muito agradável — comentou Marino.

— Não é uma missão, é uma escolha — redarguiu Roberts com o machismo e inexcrutabilidade dos treinadores entrevistados depois de um jogo importante.

— Não lhe faz impressão? — perguntou Marino. — Olhe, eu vi o Waddell ir para a cadeira. Tem de lhe fazer alguma impressão.

— Não me faz impressão absolutamente nenhuma. A seguir vou para casa, bebo umas cervejas e cama. — Levou a mão ao bolso da camisa da farda e tirou um maço de cigarros.

— Ora bem, segundo o Donahue, querem saber tudo o que aconteceu, portanto vou contar-lhes. — Sentou-se no tampo da secretária, a fumar. — Nesse dia, treze de Dezembro, o Waddell foi autorizado a estar duas horas na companhia dos familiares mais próximos que, no caso dele, era a mãe. Colocámos-lhe correntes à cintura, grilhetas nas pernas e algemas e levámo-lo para a sala das visitas por volta da uma da tarde.

“Às cinco, tomou a última refeição. Pediu bife do lombo, salada, uma batata assada e tarte de noz que encomendámos ao Bonanza Steak House. Não foi ele que escolheu o restaurante. Não são os reclusos que escolhem. E, como é da praxe, foram encomendadas duas refeições iguais. Uma para o recluso, outra para um membro da equipa da morte. Tudo isso para se evitar que algum cozinheiro se entusiasme e resolva apressar-lhe a viagem para o Além temperando a comida com um extra qualquer, como o arsénico, por exemplo.

— O Waddell comeu a dele? — perguntei, a pensar no seu estômago vazio.

— Não estava com grande fome — pediu-nos que lha guardássemos para ele a comer no dia seguinte.

— Deve ter pensado que o governador Norring ia conceder-lhe o perdão — comentou Marino.

— O que ele pensou, não sei. Estou apenas a relatar-lhes o que o Waddell disse quando lhe serviram a refeição. Depois, às sete e meia, os agentes dos artigos pessoais foram à cela dele fazer um inventário dos seus pertences e perguntar-lhe o que ele queria que se lhes fizesse. Estamos a falar de um relógio de pulso, um anel, várias peças de roupa e cartas, livros, poesia. Às oito, levaram-no da cela. Foi pesado, tomou um duche e vestiu a roupa que ia levar para a cadeira. Depois trouxeram-no outra vez para a cela.

“Às dez e quarenta e cinco, foi-lhe lida a sentença na presença da equipa da morte. — Roberts levantou-se da secretária. — Depois foi levado, sem correntes, para a sala contígua.

— Qual era o aspecto dele, nessa altura? — perguntou Marino enquanto Roberts destrancava e abria outra porta.

— Digamos apenas que a raça não lhe permitia estar branco como a cal. Caso contrário, estaria.

A sala era mais pequena do que eu imaginara. A cerca de um metro e oitenta da parede do fundo e centrada no lustroso pavimento de betão castanho, estava a cadeira, um trono hirto, rígido, de escuro carvalho polido. Grossas correias de couro passavam pelo espaldar ripado, pelas duas pernas da frente e pelos apoios dos braços.

— Sentaram o Waddell e a primeira correia a ser amarrada foi a do peito — prosseguiu Roberts com a mesma indiferença. — A seguir as duas dos braços, a da barriga e as das pernas. — Ia pegando em cada uma delas à medida que falava. — Levou um minuto a amarrá-lo. O rosto foi então tapado com a máscara de couro — e já lhes mostro isso. O capacete foi colocado na cabeça, a perneira fixada à perna direita.

Tirei a máquina fotográfica, uma régua e fotocópias dos diagramas anatómicos de Waddell.

— Quando passavam exactamente dois minutos das onze, recebeu a primeira descarga — ou seja, dois mil e quinhentos volts e seis amperes e meio. Já agora, bastam dois amperes para matar uma pessoa.

Os ferimentos assinalados nos diagramas anatómicos de Waddell ajustavam-se perfeitamente ao formato da cadeira e das cintas.

— O capacete está ligado a isto. — Roberts apontou para um tubo suspenso do tecto e rematado por uma porca de asas de cobre directamente por cima da cadeira.

Comecei a fotografar a cadeira de todos os ângulos.

— E a perneira liga a esta aqui.

O disparo do flash provocou-me uma sensação estranha. Estava a ficar assustadiça.

— É como se o tipo fosse um grande disjuntor.

— Quando é que começou a sangrar? — perguntei.

— Mal recebeu a primeira descarga, minha senhora. E continuou a sangrar até estar tudo acabado, depois correram uma cortina para que as testemunhas não vissem. Três membros da equipa da morte desabotoaram-lhe a camisa e o médico auscultou-o com o estetoscópio, apalpou-lhe o pescoço e confirmou o óbito. O Waddell foi colocado numa maca e levado para a sala de arrefecimento que é para onde vamos a seguir.

— O que é que me diz do alegado mau funcionamento da cadeira? — perguntei-lhe.

— Tretas. O Waddell tinha quase dois metros, pesava cento e dezassete quilos. Já estava a ferver muito antes de se sentar na cadeira, se calhar com uma tensão arterial a perder de vista. Depois da confirmação do óbito, por causa da hemorragia o director-adjunto veio cá dar-lhe uma vista de olhos. Os globos oculares não saltaram. Os tímpanos não estoiraram. O Waddell tinha uma porcaria de uma hemorragia nasal, o mesmo que nos acontece quando fazemos força na sanita.

Mudamente, concordei com ele. A hemorragia nasal de Waddell devia-se à manobra de Valsalva, ou seja a um aumento brusco da pressão intratorácica. Nicholas Grueman não ia ficar satisfeito com o relatório que eu tencionava enviar-lhe.

— Que testes fizeram para ver se a cadeira estava a funcionar como deve ser? — perguntou Marino.

— Os que fazemos sempre. Primeiro, a Virgínia Power inspecciona o equipamento e testa-o. — Apontou para uma enorme caixa de distribuição protegida por portas de aço cinzentas na parede por trás da cadeira. — Aqui dentro estão vinte lâmpadas de duzentos watts instaladas numa placa de contraplacado para os testes. Testamo-la na semana anterior à execução, três vezes no próprio dia e depois mais uma quando o grupo de testemunhas já está reunido.

— Sim, lembro-me disso — afirmou Marino olhando fixamente para a cabina envidraçada das testemunhas a não mais de quatro metros e meio de distância.

— Funcionou tudo às mil maravilhas — disse Roberts.

— E foi sempre assim?

— Sim, minha senhora, que eu saiba foi.

— E o interruptor, onde fica?

Mostrou-me um quadro na parede à direita da cabina das testemunhas.

— Uma chave liga a corrente. Mas o botão está na sala de controlo. O director, ou uma pessoa por ele indicada, roda a chave e carrega no botão. Quer ver isso?

— Já agora.

Não havia grande coisa para ver, apenas um pequeno cubículo directamente por trás da parede do fundo da sala onde estava a cadeira. Lá dentro havia um grande quadro eléctrico com vários botões para aumentar e reduzir a voltagem, a qual podia atingir os três mil volts. Fieiras de luzinhas confirmavam que estava tudo em ordem ou avisavam que não.

— Em Greensville, vai ser computorizado — acrescentou Roberts. Dentro de um armário de madeira, estavam o capacete, a perneira e

dois grossos cabos que, como explicou, pegando neles:

— Ligam às porcas de asas por cima e ao lado da cadeira e depois a esta na parte de cima do capacete e a esta na perneira. — Fê-lo com toda a naturalidade, acrescentando: — É como ligar um vídeo à corrente.

O capacete e a perneira eram de cobre com orifícios através dos quais passava o fio de algodão que prendia o forro de esponja. O capacete era surpreendentemente leve, com uma patina de verdete nas bordas das placas de ligação. Não conseguia imaginar-me com uma coisa daquelas enfiada na cabeça. A máscara de cabedal preto não passava de um cinto largo e grosseiro que abotoava na nuca do recluso e tinha uma pequena abertura para o nariz, em forma de triângulo. Podia estar exposta na Torre de Londres que eu não questionaria a sua autenticidade.

Passámos por um transformador com cabos subindo até ao tecto e Roberts abriu mais uma porta. Entrámos noutra sala.

— Esta é a sala de arrefecimento — disse ele. — Trouxemos o Waddell para aqui, numa maca de rodas, e transferimo-lo para esta mesa.

Era de aço, já ferrugenta nas juntas.

— Deixámo-lo arrefecer por uns dez minutos com sacos de areia em cima da perna. Aqueles que estão ali adiante.

Os sacos de areia estavam empilhados no chão aos pés da mesa.

— Quatro quilos e meio cada um. Chamam-lhe reflexo patelar mas a perna fica mesmo dobrada. Os sacos de areia endireitaram-na. E se as queimaduras forem grandes, como eram as do Waddell, envolvemo-las em gaze. Feito isso, tornámos a deitá-lo na maca e levámo-lo pelo mesmo sítio por onde os senhores entraram. Só que não fomos pelas escadas. Não valia a pena arranjarmos uma hérnia. Usámos o elevador da cozinha, saímos pela porta da frente e transportámo-lo para a ambulância. Depois deixámo-lo na morgue como fazemos sempre depois de os nossos meninos passarem pela Faíscas.

Portas pesadas fecharam-se com estrondo. Chaves a tilintar. Estalidos de ferrolhos. Roberts continuou a falar arrogantemente enquanto nos conduzia de novo à entrada. Eu mal o ouvia e Marino não disse nada. O granizo misturado com a chuva formava contas de gelo na relva e nas paredes. O passeio estava molhado, o frio penetrante. Senti-me agoniada. Estava ansiosa por tomar um longo duche quente e mudar de roupa.

— Cretinos como o Roberts estão apenas um nível acima dos presos — comentou Marino, ligando a ignição. — Aliás, alguns não são melhores que os vadios que lá têm dentro.

Momentos depois parou num sinal vermelho. Gotas de água no pára-brisas tremeluziam como sangue, varridas e substituídas por mais um milhar delas. O gelo vidrava as árvores.

— Tem tempo para eu lhe mostrar uma coisa? — perguntou-me limpando a condensação do pára-brisas com a manga do casaco.

— Depende. Se for importante, arranja-se tempo. — Esperava que a minha visível relutância o convencesse era a levar-me a casa.

— Quero reconstituir-lhe os últimos passos de Eddie Heath. — Ligou o pisca. — Acima de tudo, acho que precisa ver o sítio onde o corpo dele foi encontrado.

Os Heath moravam a leste da Chamberlayne Avenue, ou seja, no lado errado da avenida, segundo Marino. A pequena casa de tijolos ficava a poucos quarteirões de um restaurante de frango frito da cadeia Golden Skillet e da loja de conveniência onde Eddie fora, a pé, comprar uma lata de sopa para a mãe. Vários carros grandes e americanos estavam parados na entrada dos Heath e o fumo evolava-se pela chaminé para logo desaparecer no céu cinza-fumo. O alumínio brilhou tristemente quando a porta de rede se abriu e uma mulher idosa metida num casaco preto apareceu parando por instantes a falar com alguém lá dentro. Agarrando-se ao corrimão como se a tarde ameaçasse atirá-la borda fora, desceu vagarosamente os degraus e olhou inexpressivamente para o Ford LTD branco que ia a passar.

Se tivéssemos seguido mais uns três quilómetros e meio para leste, entraríamos na zona de guerra dos bairros de habitação social.

— Este bairro era só de brancos — comentou Marino. — Lembro-me que quando vim para Richmond era um bom sítio para se morar. Cheio de gente honesta e trabalhadora que mantinha os jardins bem tratados e ia à missa ao domingo. Os tempos mudaram. Eu, por mim, não deixaria um filho meu andar na rua depois de anoitecer. Mas quando se mora num sítio uma pessoa sente-se à vontade. O Eddie andava por aqui à vontade, na entrega dos jornais e a fazer recados à mãe.

“Naquela noite, saiu pela porta da frente, atravessou a Azalea, depois virou à direita como estamos a fazer neste momento. Lá está o Lucky’s à nossa esquerda, a seguir à bomba de gasolina. — Apontou para uma loja de conveniência com uma ferradura verde no letreiro iluminado. — Aquela esquina ali adiante é um poiso habitual de drogados. Compram as doses e piram-se. Apanhamos os ranhosos e dois dias depois já estão noutra esquina qualquer a fazer a mesma coisa.

— Há alguma possibilidade de o Eddie ter andado metido na droga? — A pergunta seria uma nadinha despropositada nos primeiros anos da minha carreira mas já não era. Os jovens representavam sensivelmente dez por cento de todas as detenções por tráfico de droga na Virgínia.

— Por enquanto não há indicação nenhuma. Palpita-me que não — respondeu Marino.

Virou para o parque de estacionamento da loja de conveniência e pusemo-nos a olhar para os anúncios colados na montra e para as luzes berrantes que brilhavam por entre o nevoeiro. Os clientes formavam uma longa fila junto ao balcão enquanto o atarefado caixa os ia despachando sem erguer os olhos. Um jovem negro de ténis de lona e casaco de cabedal olhou insolentemente para o nosso carro quando saiu, bamboleante, de cerveja na mão e se dirigiu para uma cabina de moedas junto à entrada. Um sujeito de rosto corado e calças de ganga salpicadas de tinta arrancou o celofane de um maço de cigarros enquanto se dirigia para o camião.

— Aposto que foi aqui que ele se encontrou com o agressor — disse Marino.

— Como? — perguntei.

— Acho que foi tudo muito simples. Deve ter saído da loja e esse animal foi ter com ele e contou-lhe alguma tanga para o atrair. Disse alguma coisa e o Eddie foi com ele e entrou no carro.

— Pela observação do hábito externo pode muito bem ter sido isso — afirmei. — Não tinha ferimentos defensivos, nenhum sinal de luta. Dentro da loja de conveniência ninguém o viu acompanhado?

— Ninguém, das pessoas com quem já falei. Mas repare no movimento que isto tem, e estava escuro cá fora. Se alguém viu alguma coisa, terá sido algum cliente a entrar ou a voltar para o carro. Conto com a comunicação social para fazermos um apelo a alguém que tenha parado aqui entre as cinco e as seis dessa tarde. E o Crime Stoppers também vai fazer uma peça sobre isso.

— O Eddie era um miúdo reguila?

— Com um marado de falinhas mansas até os putos mais sabidos caem na esparrela. Tive um caso, ainda em Nova Iorque, em que uma miúda de dez anos foi a pé a uma loja próxima comprar meio quilo de açúcar. Quando ia a sair, um pedófilo aproxima-se e diz-lhe que o pai o mandou lá buscá-la. Diz que a mãe foi levada de urgência para o hospital e que lhe pediram para ele ir buscar a filha e levá-la para lá. Ela entra no carro e passa a ser mais um número para as estatísticas. — Lançou-me um olhar de soslaio. — Muito bem, preto ou branco?

— Em que caso?

— No do Eddie Heath.

— Com base no que me contou, o agressor é branco. Marino fez marcha-atrás e esperou por uma aberta no trânsito.

— Não há dúvida que o método aponta para um branco. O pai do Eddie não gosta de pretos e o Eddie também não confiava neles, por isso é pouco provável que um preto conseguisse ganhar a confiança dele. E se as pessoas virem um rapaz branco com um homem branco ao lado — mesmo que o rapaz vá com ar contrariado — pensam logo que é um irmão mais velho ou pai e filho. — Virou à direita, seguindo para oeste. — Continue, doutora. Que mais?

Marino adorava aquele jogo. Sentia exactamente o mesmo prazer quando eu corroborava as ideias dele como quando achava que eu estava redondamente enganada.

— Se o agressor for branco, a próxima conclusão a que eu chegaria é que não mora no bairro social, apesar da proximidade.

— À parte a raça, que mais a levou a concluir que o assassino não vem do bairro social?

— Uma vez mais, o método — limitei-me a responder. — Dar um tiro na cabeça a alguém — mesmo num miúdo de treze anos — não seria inédito num tiroteio de rua mas, tirando isso, nada bate certo. O Eddie foi alvejado por um 22, não por uma nove ou dez milímetros ou um revólver de grande calibre. Estava nu e foi mutilado, sugerindo uma violência de natureza sexual. Tanto quanto sabemos, não trazia consigo nada que valesse a pena roubar e não parecia ter um estilo de vida que o colocasse numa situação de risco.

Agora chovia com mais intensidade e as ruas estavam traiçoeiras, com carros a passar a velocidades imprudentes e de faróis ligados. Calculei que muitas pessoas se dirigissem para os centros comerciais e lembrei-me que ainda pouco fizera quanto aos preparativos de Natal.

A mercearia na Patterson Avenue ficava mesmo adiante, à nossa esquerda. Não me lembrava do seu antigo nome e os letreiros tinham sido retirados deixando apenas uma nua fachada de tijolos com várias montras cobertas com tapumes. O espaço por ela ocupado estava fracamente iluminado e calculei que a Polícia nem sequer se desse ao trabalho de inspeccionar as traseiras do edifício se não houvesse uma fieira de estabelecimentos à sua esquerda. Contei cinco: farmácia, sapateiro, lavandaria, loja de ferragens e um restaurante italiano, todos eles fechados e desertos na noite em que Eddie Heath foi para ali trazido e abandonado como morto.

— Lembra-se quando é que esta mercearia fechou? — perguntei.

— Mais ou menos na mesma altura em que fecharam uma data de outras lojas. Quando a Guerra do Golfo começou — respondeu Marino.

Enfiou pelo beco, o clarão dos máximos a lamber paredes de tijolo e a oscilar quando o piso não alcatroado se tornou mais irregular. Por detrás da loja, uma vedação de arame separava uma faixa de asfalto rachado de uma zona arborizada que se agitava tristemente ao vento. Por entre os ramos das árvores despidas consegui ver, ao longe, postes de iluminação e o letreiro aceso de um Burger King.

Marino estacionou de faróis apontados para um contentor castanho, canceroso de tinta empolada e ferrugem, contas de água a escorrer dos lados. Pingos de chuva embatiam no vidro, tamborilavam no tejadilho e os operadores da central não paravam de enviar viaturas a locais de acidentes.

Marino empurrou o volante com as mãos e arqueou os ombros. Massajou a nuca.

— Bolas, estou a ficar velho — lamentou-se. — Tenho um impermeável na bagageira.

— Precisa mais dele que eu. Não me derreto — redargui abrindo a minha porta.

Marino foi buscar a gabardina azul-marinho da Polícia e eu puxei a gola para cima. A chuva picava-me a cara e martelava-me friamente o cocuruto. Quase de imediato, as orelhas começaram a ficar dormentes. O contentor estava junto da vedação na berma do asfalto, talvez a uns vinte metros das traseiras da mercearia. Reparei que abria por cima, não de lado.

— A tampa do contentor estava aberta ou fechada quando a Polícia cá chegou? — perguntei a Marino.

— Fechada. — Por causa do capuz, tinha dificuldade em olhar para mim sem virar o tronco. — Repare que não há nada por onde subir. — Passou o foco da lanterna à volta do contentor. — E mais, estava vazio. Não tinha nada lá dentro, excepto ferrugem e a carcaça de uma ratazana suficientemente grande para se andar a cavalo nela.

— Consegue levantar a tampa?

— Só uns centímetros. A maioria dos deste modelo tem um engate de cada lado. Se a pessoa for bastante alta, consegue levantar a tampa uns cinco centímetros e fazer deslizar a mão ao longo da borda continuando a levantá-la colocando, aos poucos, os engates no sítio. Talvez consiga abrir o suficiente para meter um saco de lixo. O problema é que os engates deste não prendem. Tem de abrir a tampa toda para cima e deixá-la cair lá para trás, do outro lado, e não se consegue fazer isso a menos que se trepe para alguma coisa.

— Você mede quanto? Um e oitenta e cinco, noventa?

— Sim. Se eu não consigo abrir o contentor ele também não conseguia. Neste momento, a hipótese mais provável é que ele carregou com o corpo para fora do carro e encostou-o ao contentor enquanto tentava abrir a tampa — da mesma maneira que se pousa um saco de lixo por um instante para ficar com as mãos livres. Quando vê que não consegue abrir a tampa, dá à sola, deixando o miúdo e a trouxa de roupa aqui mesmo no chão.

— Podia tê-lo arrastado até ali atrás, à mata.

— Há uma vedação.

— Não é muito alta, tem para aí um metro e meio de altura — frisei. — No mínimo dos mínimos, podia ter deixado o corpo atrás do contentor. Da maneira que foi, se entrasse aqui algum carro, o corpo estava completamente à vista.

Marino olhou à volta em silêncio, apontando a lanterna para a vedação de arame. Gotas de chuva formavam listas diante do estreito feixe luminoso como um milhar de pequenos pregos caídos do céu. Eu mal conseguia dobrar os dedos. Tinha o cabelo ensopado e água gelada a escorrer-me pelo pescoço. Voltámos para o carro e ele ligou o aquecimento no máximo.

— O Trent e os homens dele continuam agarrados à teoria do contentor, a localização da tampa e por aí fora — comentou. — A minha opinião pessoal é que o único papel do contentor nisto tudo foi servir de cavalete para o marado expor a sua obra de arte.

Olhei lá para fora, por entre a chuva.

— A questão — prosseguiu ele, irritado — é que ele não trouxe o miúdo para aqui para esconder o corpo mas sim para ter a certeza de que o encontravam. Mas os tipos de Henrico não percebem isso. Eu não só percebo como não deixo de pensar nisso.

Continuei a olhar para o contentor, a imagem do corpinho de Eddie Heath lá encostado tão nítida como se eu estivesse presente quando o encontraram. O pormenor saltou-me à vista súbita e drasticamente.

— Quando é que analisou pela última vez o caso de Robyn Naismith? — perguntei.

— Não interessa. Lembro-me de tudo — redarguiu Marino, sempre a olhar para a frente. — Estava à espera, a ver se isso lhe vinha à ideia. Ocorreu-me na primeira vez que aqui vim.

 

Nessa noite, acendi a lareira e jantei uma sopa de legumes sentada lá à frente enquanto a chuva gelada se misturava com neve. Apagara as luzes e abrira as cortinas das portas envidraçadas de correr. A relva estava branca do gelo, as folhas dos rododendros encaracoladas, árvores que o Inverno desnudara iluminadas pela Lua.

O dia esgotara-me, como se uma força sôfrega, sinistra, tivesse sugado toda a luz do meu ser. Sentia as mãos invasoras de uma guarda prisional chamada Helen e o cheiro bafiento de cubículos que, em tempos, haviam albergado homens cruéis, odiosos. Lembrava-me de estar a ver slides à luz do candeeiro num bar de hotel em Nova Orleães, no encontro anual da Academia de Ciências Forenses. O homicídio de Robyn Naismith estava nessa altura por resolver e falar do que lhe tinham feito enquanto na rua desfilavam os ruidosos foliões do Carnaval parecera-me, de certo modo, ofensivo.

Ela fora espancada, torturada e apunhalada até à morte, ao que se julgava, na sua sala de estar. Mas eram os actos post-mortem de Waddell que mais haviam chocado as pessoas, o seu invulgar e arrepiante ritual. Depois de morta, despiu-a. Se a violou não havia provas disso. A preferência dele, ao que parecia, era morder e penetrar repetidamente as zonas mais carnosas do seu corpo com uma faca. Quando a amiga e colega passou por lá a saber dela, encontrou o corpo contuso de Robyn encostado ao televisor, cabeça tombada para a frente, braços caídos, pernas estendidas e a roupa numa trouxa ao lado. Parecia uma boneca de tamanho natural, ensanguentada, devolvida ao seu lugar após uma sessão de sexo simulado que se transformara numa cena de terror.

O depoimento de um psiquiatra em tribunal foi que Waddell, depois de assassiná-la, dominado pelos remorsos, ficara a conversar talvez durante horas com o corpo. Um psicólogo forense, pela acusação, afirmou exactamente o contrário, que Waddell sabia que Robyn era uma figura televisiva e o acto de a atirar contra o televisor era simbólico. Estava novamente a vê-la na televisão e a fantasiar. A devolvê-la ao meio de comunicação social que fizera com que se conhecessem e isso, claro, implicava premeditação. Com o tempo, as cambiantes e descobertas feitas nas intermináveis análises só se tornaram mais complicadas.

A grotesca exibição do corpo daquela pivot de vinte e sete anos era a assinatura especial de Waddell. Agora, dez anos depois, morrera um garoto e alguém assinara a sua obra — na véspera da execução de Waddell — da mesma maneira.

Fiz café, enchi um termos e levei-o para o escritório. Sentando-me à secretária, liguei o computador e fiz a ligação com o do serviço. Ainda tinha de ver o printout da busca que Margaret me fizera, embora suspeitasse que ele fosse um dos relatórios da desanimadoramente grande pilha de papelada que fora trazida para a minha mesa na sexta-feira ao fim da tarde. O ficheiro, porém, ainda devia estar no disco rígido. Na abertura de sessão UNIX escrevi o meu nome de utilizador e a senha e fui saudada pela faiscante palavra correio. Margaret, a minha analista de sistemas, enviara-me uma mensagem.

“Ver ficheiro carne” dizia ela.

— Que coisa horrorosa — resmunguei como se Margaret pudesse ouvir-me.

Mudando para o directório denominado Chefe, para o qual Margaret costumava enviar as cópias e os ficheiros originais por mim requisitados, chamei o ficheiro a que ela dera o nome de Carne.

Era bastante grande pois Margaret fizera uma selecção de todas as formas de morte e depois fundira os dados com os que obtivera dos Serviços de Traumatologia. Previsivelmente, a maioria dos casos que o computador escolhera eram acidentes nos quais houvera perdas de membros e tecidos em desastres de automóvel e acidentes com máquinas. Quatro deles eram homicídios em que os corpos exibiam marcas de dentadas. Duas dessas vítimas tinham sido esfaqueadas, as outras duas estranguladas. Das vítimas, uma era um homem adulto, duas eram mulheres adultas e a quarta uma garota de apenas seis anos. Anotei os números dos casos e códigos ICD-9.

A seguir, comecei a passar folha a folha os registos da Traumatologia de vítimas que haviam sobrevivido o suficiente para darem entrada num hospital. Já estava à espera que tal informação fosse difícil, e era. Os hospitais só forneciam os dados de um doente depois de esterilizados e despersonalizados como salas do bloco operatório. Por uma questão de sigilo, nomes, números da Segurança Social e outros identificadores eram eliminados. Não existia nenhum elo comum enquanto a pessoa ia passando pelo labirinto burocrático de equipas de socorro, bancos de urgência, inúmeros departamentos da Polícia e outras entidades. A triste conclusão a tirar era que as informações acerca de uma vítima podiam encontrar-se em seis bases de dados de diferentes serviços e nunca serem comparados, principalmente se pelo caminho tivesse havido algum erro de entrada. Era-me, por conseguinte, possível encontrar um caso que despertasse o meu interesse sem ter grande esperança de descobrir quem o doente era ou se ele, ou ela, acabara por morrer.

Tirando apontamento dos registos da Traumatologia que pudessem interessar-me, saí do ficheiro. Para terminar, fiz uma busca a ver quais os velhos relatórios de dados, memorandos ou anotações que podia retirar do meu directório para libertar espaço no disco rígido. Foi então que vi um ficheiro que não percebi.

O nome dele era tty07. Tinha apenas dezasseis bytes de tamanho e a data e a hora eram 16 de Dezembro, quinta-feira passada, às 17.26. O conteúdo do ficheiro era uma frase alarmante:

Não consigo encontrá-lo.

Pegando no auscultador, comecei a ligar o número de casa de Margaret e depois parei. O directório Chefe e respectivos ficheiros estavam protegidos. Embora qualquer pessoa pudesse aceder ao meu directório, se não entrasse o meu nome de utilizador e a senha não conseguia obter a lista dos ficheiros Chefe nem lê-los. Margaret devia ser a única, além de mim, que conhecia a minha senha. Se entrara no meu directório, que seria que não conseguia encontrar e a quem é que estava a dizer isso?

Margaret não faria uma coisa dessas, pensei olhando fixamente para a única e curta frase no ecrã.

Mesmo assim fiquei na dúvida e lembrei-me da minha sobrinha. Talvez Lucy percebesse umas coisas do UNIX. Olhei para o relógio. Já passava das dez da noite de um sábado e de certa forma iria ficar desgostosa se a apanhasse em casa. Devia ter saído com algum namorado ou com amigos. Não saíra.

— Olá, tia Kay. — Pareceu admirada, recordando-me que já não lhe telefonava havia uns tempos.

— Como está a minha sobrinha preferida?

— Sou a tua única sobrinha. Estou óptima.

— Que estás a fazer em casa num sábado à noite? — Perguntei-lhe.

— A acabar um trabalho para uma frequência. E tu, que estás a fazer em casa num sábado à noite?

Por um instante, não soube o que dizer. A minha sobrinha de dezassete anos era mais hábil, do que alguém que eu conhecesse, a pôr-me no lugar.

— Estou a matutar num problema do computador — acabei por responder.

— Então ligaste mesmo para o departamento certo — redarguiu Lucy, que não era muito dada a actos de modéstia. — Só um momento. Deixa-me empurrar para o lado estes livros e papelada para conseguir chegar ao teclado.

— Não é um problema de PC — disse-lhe. — Calculo que não percebas nada de um sistema operativo chamado UNIX, pois não?

— Eu não chamaria ao UNIX um sistema operativo, tia Kay. E o mesmo que chamar clima a uma coisa que na verdade se chama ambiente, onde se inclui o clima e todos os elementos e edificações. Estás a usar a AT&T?

— Ora bolas, Lucy. Sei lá.

— Bom, em que é que estás a trabalhar?

— Num mini NCR.

— Então é AT&T.

— Acho que alguém entrou no sistema — disse-lhe.

— Acontece. Mas o que é que te leva a pensar isso?

— Encontrei um ficheiro estranho no meu directório, Lucy. O meu directório e respectivos ficheiros estão protegidos — não se consegue ler nada se não se tiver a minha senha.

— Errado. Com acessos ao directório raiz, um superutilizador pode fazer tudo o que quiser e ler tudo o que quiser.

— O único superutilizador é a minha analista de sistemas.

— Até pode ser, mas deve haver uma data de utilizadores que têm esses mesmos acessos, utilizadores de que tu nem sequer tens conhecimento e que vêm com o software. Podemos verificar isso com toda a facilidade mas, primeiro, fala-me desse ficheiro estranho. Como se chama e o que é que lá está?

— Chama-se t-t-y-zero-sete e tem lá uma frase que diz “Não consigo encontrá-lo.”

Ouvi o bater de teclas.

— Que estás a fazer? — perguntei-lhe.

— A tomar notas enquanto falamos. Está bem. Comecemos pelo óbvio. Uma grande pista é o nome do ficheiro, t-t-y-zero-sete. Isso é um dispositivo. Por outras palavras, o t-t-y-zero-sete deve ser o terminal de alguém lá do teu serviço. É possível que seja uma impressora mas, cá para mim, quem quer que entrou no teu directório resolveu enviar um recado ao dispositivo t-t-y-zero-sete. Mas essa pessoa meteu água e em vez de enviar um recado criou um ficheiro.

— Quando se escreve um recado não se cria um ficheiro? — perguntei, baralhada.

— Não, se estiveres só a teclar.

— Como?

— É fácil. Estás no UNIX, agora?

— Estou.

— Escreve lá cat redirect t-t-y-q...

— Só um minuto.

— E não te preocupes com o barra-dev.

— Mais devagar, Lucy.

— Estamos a esquecer de propósito o directório do dispositivo, que foi, aposto, o que essa pessoa fez. — O que é que vem a seguir ao cat?

— OK. Cat redirect e o dispositivo...

— Mais devagar, por favor.

— Deves ter um chip quatro-oito-seis nessa coisa, tia Kay. Por que é que ele é tão lento?

— Não é a porcaria do chip que é lento!

— Ah, desculpa — disse Lucy, com sinceridade. — Esqueci-me. Esqueceu-se de quê?

— Voltemos ao problema — prosseguiu ela. —Já agora, calculo que não tenhas um dispositivo chamado t-t-y-q. Onde é que vais?

— Ainda vou no cat — respondi, frustrada. — Depois é redirect... Bolas. É o circunflexo a apontar para a direita?

— É. Agora faz Enter e o cursor vai saltar para a linha seguinte, que está em branco. Aí escreves a mensagem que queres que apareça no ecrã do t-t-y-q.

“Corre, Spot, corre” escrevi.

— Carrega no Enter e depois faz um control C — disse Lucy. — Agora podes fazer uma Is menos um e enviá-la para p-g que já vês o teu ficheiro.

Escrevi apenas “Is” e vi de fugida qualquer coisa a passar.

— O que eu acho que aconteceu foi o seguinte — continuou Lucy. — Alguém esteve no teu directório — e já vamos ver isso. Talvez andasse à procura de alguma coisa nos teus ficheiros e não tenha encontrado. Então essa pessoa enviou uma mensagem, ou tentou enviá-la, para o dispositivo t-t-y-zero-sete. Só que estava com pressa e em vez de escrever cat redirect barra d-e-v barra t-t-y-zero-sete, esqueceu o directório do dispositivo e escreveu cat redirect t-t-y-zero-sete. Portanto, a frase nem sequer chegou a aparecer no ecrã do t-t-y-zero-sete. Por outras palavras, em vez de mandar uma mensagem para o t-t-y-zero-sete, essa pessoa, sem querer, criou um ficheiro chamado t-t-y-zero-sete.

— Se a pessoa tivesse escrito a instrução correcta, e enviado o que teclou, a mensagem ficava gravada?

— Não. A frase aparecia no ecrã do t-t-y-zero-sete e ficava lá até o utilizador a apagar. Mas não verias nenhuma prova disso no teu directório nem em mais lado nenhum. Não haveria nenhum ficheiro.

— Ou seja, não sabemos quantas vezes alguém poderá ter enviado uma mensagem a partir do meu directório, pressupondo que fez a coisa como deve ser.

— Exactamente.

— Como é que alguém consegue ler alguma coisa que esteja no meu directório? — Perguntei, voltando à questão fundamental.

— Tens a certeza que mais ninguém sabe a tua senha?

— Só a Margaret.

— É a tua analista de sistemas?

— Exacto.

— Não a terá dado a alguém?

— Não estou a vê-la a fazer isso — redargui.

— Está bem. Pode-se entrar sem a senha se se tiver acessos ao directório raiz — afirmou Lucy. — É o que vamos ver a seguir. Muda para o directório etc, pesquisa o ficheiro Grupo e procura grupo de raiz — é r-o-o-t-g-r-p. Para veres que utilizadores lá estão.

Comecei a escrever.

.— Que vês?

Ainda não cheguei lá — respondi sem conseguir disfarçar, na voz,

a minha impaciência.

Pausadamente, ela repetiu as instruções.

Vejo três nomes de utilizador no grupo de raiz — disse-lhe.

Boa. Escreve-os. Depois vírgula, q, bum, e sais do Grupo.

- — Bum? — perguntei, sem perceber.

— Ponto de exclamação. Agora tens de ir para o ficheiro de senhas

que é p-a-s-s-w-d — e ver se algum desses nomes de utilizador com

acesso ao directório raiz não terá uma senha.

— Lucy. — Tirei as mãos do teclado.

— É fácil porque no segundo campo vais ver a forma codificada da senha do utilizador, se ele a tiver. Se não estiver nada no segundo campo, excepto duas colunas, é porque não tem.

— Lucy.

— Desculpa, tia Kay. Estou a ir muito depressa?

— Eu não sou programadora de UNIX. É como se estivesses a falar Suaíli.

— Podes aprender. O UNIX é muito giro.

— Obrigada mas o meu problema é que, agora, não tenho tempo para aprender. Alguém entrou no meu directório. Guardo lá documentos e relatórios de dados muito confidenciais. Já para não falar, se alguém anda a ler os meus ficheiros particulares, em que mais andará ele a mexer, quem é que anda a fazer isso e porquê.

— A parte do quem é fácil, a menos que o intruso faça a ligação por modem a partir do exterior.

— Mas o recado foi enviado para alguém do meu serviço — para um dispositivo do meu serviço.

— Isso não quer dizer que um tipo lá de dentro não tenha pedido a um cá de fora para entrar no sistema, tia Kay. Se calhar a pessoa que anda a bisbilhotar não percebe nada do UNIX e precisou de ajuda para entrar no teu directório, por isso foi buscar um programador de fora.

— Isso é grave — comentei.

— Talvez. Quanto mais não seja, quer-me parecer que o vosso sistema não está lá muito bem protegido.

— Quando é que tens de entregar o trabalho? — perguntei-lhe.

— Depois das Festas.

— Já acabaste?

— Quase.

— Quando é que começam as férias do Natal?

— Começam na segunda-feira.

— Gostavas de vir cá passar uns dias e ajudavas-me a resolver isto?

— perguntei-lhe.

— Estás a gozar.

— Estou a falar muito a sério. Mas não contes com grandes coisas. Normalmente não me preocupo muito com os enfeites. Umas poincianas e velas nas janelas. Mas vou cozinhar.

— Nem árvore?

— Isso é importante?

— Não. Está a nevar?

— Por acaso, está.

— Nunca vi neve. Ao vivo.

— É melhor deixares-me falar com a tua mãe — disse-lhe. Dorothy, a minha única irmã, mostrou-se exageradamente extremosa quando veio ao telefone, minutos depois.

— Continuas a trabalhar assim tanto, Kay? Não conheço ninguém que trabalhe tanto como tu. As pessoas ficam impressionadíssimas quando lhes digo que somos irmãs. Como está o tempo em Richmond?

— Há boas hipóteses de termos um Natal com neve.

— Que maravilha. A Lucy devia ver um Natal com neve pelo menos uma vez na vida. Eu nunca vi nenhum. Bom, retiro o que disse. Houve aquele Natal em que fui esquiar com o Bradley.

Eu já não me lembrava quem era esse Bradley. Os namorados e maridos da minha irmã mais nova formavam uma parada sem fim a que eu já deixara de assistir há muitos anos.

— Gostava muito que a Lucy passasse o Natal comigo — disse-lhe.

— Seria possível?

— Não podes vir tu a Miami?

— Não, Dorothy. Este ano, não. Estou a meio de vários casos muito difíceis e tenho depoimentos em tribunal marcados praticamente até à véspera de Natal.

— Não consigo imaginar o Natal sem a Lucy — respondeu ela com grande relutância.

— Já passaste natais sem ela. Quando foste esquiar com o Bradley, por exemplo.

— Certo. Mas custou-me muito — redarguiu ela, sem se desmanchar. — E sempre que passámos as Festas separadas eu jurei que não tornava a fazer isso.

Compreendo. Fica então para outra vez — retorqui fartíssima dos jogos da minha irmã. Sabia que ela estava ansiosa por ver Lucy pelas costas.

— Bom, na verdade estou em cima do prazo para o meu último livro e, bem vistas as coisas, vou passar a maior parte da época festiva sentada ao computador — reconsiderou ela, rapidamente. — Talvez a Lucy ficasse melhor contigo. Eu não vou ser grande companhia para ela. Já te disse que agora tenho um agente em Hollywood? É fantástico e conhece todas as pessoas importantes de lá. Está a negociar um contrato com a Disney.

— Isso é óptimo. Tenho a certeza que os teus livros vão dar filmes estupendos. — Dorothy escrevia maravilhosos livros infantis e já ganhara vários prémios de prestígio. Só que, como pessoa, era um fracasso.

— A mãe está aqui — disse a minha irmã. — Quer dar-te uma palavrinha. Olha, adorei falar contigo. Agora nunca falamos. Vê se a Lucy come mais alguma coisa além de saladas e aviso-te já que te vai pôr doida com a mania da ginástica. O meu medo é que comece a ficar com uma aparência masculina.

Antes de eu poder dizer alguma coisa já a minha mãe estava em linha.

— Por que é que não podes vir, Katie? Está sol e devias ver as toranjas.

— Não posso, mãe. Tenho muita pena.

— E agora a Lucy também não vai estar cá? Foi isso que eu ouvi? Que hei-de fazer, comer um peru inteiro sozinha?

— Tens a Dorothy.

— O quê? Estás a brincar? Vai para o pé do Fred. Não posso com ele. Dorothy divorciara-se outra vez no Verão passado. Nem sequer Perguntei quem era esse tal Fred.

— Acho que é iraniano, ou coisa assim. É um mafioso e tem pêlos nas orelhas. Sei que não é católico e a Dorothy também já deixou de levar a Lucy à igreja. Só te digo que aquela miúda ainda se vai perder.

— Elas podem ouvir, mãe.

— Não ouvem. Estou sozinha na cozinha a olhar para uma pia cheia de loiça suja que, sei muito bem, a Dorothy está à espera que eu lave enquanto aqui estiver. É como quando vai à minha casa porque não fez nada para o jantar e está à espera que eu cozinhe. E alguma vez se oferece para levar alguma coisa? Rala-se que eu seja uma velha praticamente entrevada? Talvez possas meter um bocado de juízo na cabeça da Lucy.

— Em que aspecto é que lhe falta juízo? — perguntei.

— Não tem amigos nenhuns, tirando aquela rapariga, o que é estranho. Devias ver o quarto da Lucy. Parece saído de um filme de ficção científica com aqueles computadores todos e impressoras e engenhocas. Não é normal uma adolescente estar sempre a matar a cabeça dessa maneira, sem sair com jovens da idade dela. Preocupo-me com ela, tal como me preocupava contigo.

— Eu saí-me bem — ripostei.

— Bom, passavas tempo de mais com os livros de ciência, Katie. Viste o que isso fez ao teu casamento.

— Mãe, gostava que a Lucy apanhasse o avião amanhã, se for possível. Vou fazer aqui a reserva e tratar do bilhete. Vê lá se ela traz as roupas mais quentes. Alguma coisa que não tenha, um casacão por exemplo, arranja-se aqui.

— É capaz de poder usar as tuas roupas. Quando foi a última vez que a viste? No Natal passado?

— Sim, já deve ter sido há esse tempo todo.

— Pois então deixa-me que te diga que, entretanto, ficou com peito. E a maneira como se veste? E achas que se deu ao trabalho de pedir conselhos à avó antes de cortar aquele cabelo maravilhoso? Não. Para que havia ela de se preocupar em dizer-me...

— Tenho de ligar para as companhias aéreas.

— Gostava tanto que viesses. Para estarmos todas juntas. — Começou a ficar com a voz esquisita. A minha mãe estava à beira das lágrimas.

— Eu também gostava de poder ir — disse-lhe.

No domingo, ao fim da manhã, segui para o aeroporto por estradas escuras e molhadas que atravessavam um ofuscante mundo de vidro. O gelo solto pela luz do sol deslizava de linhas telefónicas, telhados e árvores, estilhaçando-se no chão como mísseis de cristal caídos do céu. O boletim meteorológico previa outra tempestade e eu fiquei toda contente, apesar dos inconvenientes. Queria uns momentos de sossego diante da lareira com a minha sobrinha. Lucy estava a crescer.

Ainda há pouco tempo nascera, parecia-me. Jamais me esqueceria dos seus olhos enormes, fixos, seguindo todos os meus movimentos em casa da mãe dela, ou dos seus terríveis acessos de insolência e mágoa quando eu, por muito pouco que fosse, a desapontava. A nítida adoração de Lucy enternecia-me tão profundamente como me atemorizava. Ela despertara em mim um sentimento profundo até então desconhecido.

Identificando-me na Segurança, aguardei junto à porta observando ansiosamente os passageiros que iam saindo da manga. Procurava uma adolescente baixa e gorducha, com cabelo comprido e ruivo e aparelho nos dentes quando uma jovem vistosa me fitou nos olhos e sorriu.

— Lucy — exclamei, abraçando-a. — Meu Deus. Quase não te reconhecia.

O cabelo curto e propositadamente despenteado realçava o verde cristalino dos olhos e os bonitos traços que eu não lhe conhecia. Não havia sinais de aparelho nos dentes e os óculos grossos tinham sido substituídos por armações de tartaruga que lhe davam o aspecto de uma autêntica beldade de Harvard. Mas foi a mudança no seu corpo que mais me surpreendeu pois, desde a última vez que a vira, a adolescente tronchuda transformara-se numa atleta esbelta e alta de pernas com umas calças justas de ganga desbotada, curtas de mais, uma blusa branca, cinto de cabedal vermelho entrançado, mocassins e sem meias. Transportava uma mochila com livros e reparei no breve reflexo de uma delicada pulseira de ouro no tornozelo. Tinha quase a certeza que não usava nem maquilhagem nem soutien.

— Onde está o teu casaco? — perguntei-lhe quando nos dirigíamos para a recolha da bagagem.

- — Estavam vinte e seis graus hoje de manhã quando saí de Miami.

— Vais ficar gelada daqui até ao carro.

- — É fisicamente impossível eu gelar daqui até ao carro, a menos que tenhas estacionado em Chicago.

— Não terás, por acaso, uma camisola dentro da mala?

— Já reparaste que falas comigo da mesma maneira que a avó fala contigo? A propósito, ela acha que eu pareço uma “roqueira de guizo”. É o seu último neologismo. Mistura de guizo com roqueira punk.

— Tenho alguns blusões de esqui, calças de bombazina, gorros, luvas. Posso emprestar-te o que quiseres.

Enfiou o braço no meu e cheirou-me o cabelo.

— Continuas sem fumar.

— Continuo e detesto que mo recordem porque apetece-me logo.

— Estás com melhor aspecto e não cheiras a tabaco. E não engordaste. Caramba, que aeroporto mais rasca — comentou Lucy cujo cérebro computorizado tinha erros de formatação nas áreas da diplomacia. — Por que é que lhe chamam aeroporto Internacional de Richmond?

— Porque tem voos de Miami.

— Por que é que a avó nunca vem visitar-te?

— Não gosta de viajar e recusa-se a andar de avião.

— É mais seguro que andar de carro. A anca dela está a ficar mesmo mal, tia Kay.

— Eu sei. Ficas aqui à espera das malas que eu vou trazer o carro aqui para a frente — disse-lhe quando chegámos à zona de recolha das bagagens. — Mas primeiro vamos ver em que tapete é.

— Só há três. Acho que consigo descobrir isso sozinha. Troquei a companhia dela pelo ar frio e luminoso do exterior, grata por ter um momento sozinha, para pensar. As mudanças na minha sobrinha tinham-me apanhado desprevenida e, de repente, sentia-me mais insegura do que nunca quanto à forma de lidar com ela. Lucy nunca fora fácil. Desde pequena que o seu prodigioso intelecto de adulto se deixara dominar por sentimentos infantis, uma volubilidade que tomara forma, acidentalmente, quando a mãe casou com Armando. A minha única vantagem havia sido o tamanho e a idade. Agora, Lucy estava da minha altura e falava comigo de igual para igual, num tom de voz baixo e calmo. Não ia a correr enfiar-se no quarto, batendo com a porta. Já não poria fim a uma discussão berrando que me odiava ou que ainda bem que eu não era mãe dela. Imaginei estados de espírito imprevisíveis e discussões em que não lhe levaria a melhor. Imagens dela a sair descontraidamente de casa e a arrancar no meu carro.

Pouco falámos durante o regresso pois Lucy parecia fascinada pelo tempo invernoso. O mundo derretia-se como uma escultura de gelo enquanto outra frente fria ia surgindo no horizonte numa ominosa faixa cinzenta. Quando entrámos no bairro para o qual eu me mudara desde a última visita dela, pôs-se a admirar as casas caras e os jardins, as coloniais decorações natalícias e os passeios de tijolo. Um homem vestido como um esquimó andava cá fora a passear o cão velho e obeso e um Jaguar preto polvilhado de sal de estrada lançou salpicos de água quando passou por nós devagarinho.

— É domingo. Onde está a miudagem ou não há crianças? — perguntou Lucy como se, com tal observação, estivesse de certo modo a criticar-me.

— Há algumas. — E virei para a minha rua.

— Não se vê nenhuma bicicleta nos jardins, carrinhos de rolamento, nem uma casa de árvore. As pessoas nunca vêm cá fora?

— É um bairro muito sossegado.

— Foi por isso que o escolheste?

— Em parte. Também é muito seguro e espero que a compra de uma casa aqui tenha sido um bom investimento.

— Segurança privada?

— Sim — respondi cada vez mais constrangida.

Ela continuou a olhar para as grandes moradias por que íamos passando.

— Aposto que entra-se em casa, fecha-se a porta e não se sabe mais nada de ninguém — também nunca se vê ninguém na rua, a menos que andem a passear o cão. Mas tu não tens cão. Quantos miúdos te vieram bater à porta no Dia das Bruxas?

— O Dia das Bruxas foi sossegado — respondi, evasivamente.

Na verdade, a campainha só tocara uma vez, quando eu estava a trabalhar no escritório. Vi, pelo ecrã, os quatro garotos que estavam na varanda e, pegando no auscultador, preparava-me para lhes dizer que já ia quando ouvi os seus comentários.

“Não, não está lá dentro nenhum cadáver” cochichou a chefe de claque da UVA em miniatura.

“Está, sim senhora” retorquiu o Homem Aranha. “Ela está sempre a aparecer na televisão porque corta os mortos aos bocados e mete-os em frascos. Foi o meu pai que me disse.”

Arrumei o carro na garagem e voltei-me para Lucy:

— Vamos instalar-te no teu quarto e a seguir a primeira coisa na ordem de trabalhos é acender a lareira e fazer um bule de chocolate Quente. Depois pensa-se no almoço.

— Não bebo chocolate quente. Tens máquina de café expresso?

— Por acaso tenho.

— Prefiro isso, principalmente se tiveres descafeinado de torragem francesa. Conheces os teus vizinhos?

— Sei quem eles são. Dá-me esse saco e levas tu este para eu conseguir abrir a porta e desligar o alarme. Bolas, este está pesado.

— A avó insistiu para eu trazer toranjas. São muito boas mas têm muitos caroços. — Lucy olhou em volta quando entrámos em minha casa. — Uau! Clarabóias. Como é que se chama este estilo de arquitectura, para além de caro?

Talvez a disposição dela se autocorrigisse se eu fizesse de conta que não reparava.

— O quarto de hóspedes é por aqui — indiquei-lhe. — Podes ficar lá em cima, se quiseres, mas achei que preferias ficar cá em baixo, perto de mim.

— Cá em baixo está óptimo. Desde que fique perto do computador.

— Ele está no meu escritório, a porta a seguir à do teu quarto.

— Trouxe os meus apontamentos de UNIX, livros e mais umas coisas. — Parou na sala de estar diante das portas envidraçadas de correr. — O quintal não está tão bonito como o outro que tu tinhas. — Disse-o como se eu tivesse desiludido todas as pessoas que conhecia.

— Tenho muitos anos para tratar do quintal. Passa a ser um objectivo.

Vagarosamente, Lucy observou o que a rodeava até que, por fim, o seu olhar se fixou na minha pessoa:

— Tens câmaras de vídeo nas portas, sensores de movimento, vedação, portões de segurança e que mais? Torreões?

— Isso não.

— Isto é o teu Forte Apache, não é, tia Kay? Mudaste-te para aqui porque o Mark morreu e agora no mundo só há pessoas más.

O comentário atingiu-me com uma força impressionante e fiquei de imediato com os olhos cheios de lágrimas. Entrei no quarto de hóspedes e pousei as malas dela, depois fui à casa de banho ver se havia toalhas, sabonete, pasta de dentes. Regressando ao quarto, abri as cortinas, dei uma olhadela às gavetas da cómoda, dei mais um jeito ao roupeiro e regulei o aquecimento enquanto a minha sobrinha continuava sentada na borda da cama seguindo todos os meus gestos. Minutos depois, fui capaz de olhar outra vez para ela.

— Depois de desfazeres as malas, mostro-te um armário onde podes ir escolher roupa de Inverno — disse-lhe.

— Tu nunca o viste da mesma maneira que toda a gente o via.

— Lucy, precisamos falar de outra coisa. — Acendi um candeeiro e certifiquei-me de que o telefone estava ligado à tomada.

— Estás melhor sem ele — acrescentou ela com convicção.

— Lucy...

— Ele não te deu o apoio que devia ter dado. Nunca o fez porque era essa a sua maneira de ser. E sempre que as coisas correram mal, tu mudaste de casa.

Pus-me à janela a olhar para a adormecida clematite e para as rosas que o gelo colara às treliças.

— Lucy, tens de ter um pouco de delicadeza e tacto. Não podes dizer exactamente aquilo que pensas.

— Tem piada, olha quem fala. Sempre me disseste que detestavas hipocrisias e falsidades.

— As pessoas têm sentimentos.

— Tens razão. Incluindo eu — redarguiu.

— Eu alguma vez te ofendi?

— Como achas que eu me sentia?

— Não estou a perceber.

— Porque nem sequer pensavas em mim. Por isso é que não percebes.

— Estou sempre a pensar em ti.

— É o mesmo que dizeres que és rica e no entanto nunca me dás um tostão. Afinal que me interessa a mim o dinheiro que tu tens no banco?

Não soube o que responder.

— Já não me telefonas. Não foste visitar-me, uma única vez, desde que ele morreu. — A mágoa na sua voz já se acumulava há muito tempo. — Escrevi-te e tu não respondeste à minha carta. Então ontem telefonaste-me e pediste-me para te vir visitar porque precisavas de qualquer coisa.

— Não o fiz com essa intenção.

— É o mesmo que a minha mãe faz.

Fechei os olhos e encostei a testa ao vidro frio.

— Exiges demasiado de mim, Lucy. Eu não sou perfeita.

— Não exijo que sejas perfeita. Mas julgava que eras diferente.

— Não sei como hei-de defender-me de um comentário desses.

— Não podes defender-te!

Observei um esquilo pardo a saltitar no alto da vedação que rodeava o quintal. Os pássaros debicavam na relva à procura de sementes.

— Tia Kay?

Virei-me para ela e nunca lhe vira nos olhos uma expressão de tal desalento.

— Por que é que os homens são sempre mais importantes do que eu?

— Não são, Lucy — murmurei. — Podes ter a certeza.

A minha sobrinha quis salada de atum e caffe latte para o almoço e enquanto eu, sentada diante da lareira, revia um artigo para publicação, ela passava revista ao meu roupeiro e gavetas da cómoda. Tentei não pensar que andava alguém a mexer nas minhas roupas, a dobrar alguma coisa de uma maneira que eu não queria ou a pendurar um blusão no cabide errado. Lucy tinha o condão de me fazer sentir como o Homem de Lata a enferrujar na floresta. Estaria a tornar-me o adulto intransigente, severo, com quem não simpatizava nada quando tinha a idade dela?

— Que achas? — perguntou-me quando saiu do meu quarto à uma e meia. Trazia vestido um dos meus fatos de treino do ténis.

— Acho que demoraste muito tempo para arranjares só isso. E sim, fica-te lindamente.

— Descobri mais umas coisas porreiras mas a maioria da tua roupa é demasiado chique. Aqueles fatos todos de executiva, azuis-escuros e pretos, seda cinzenta com risquinhas, caqui e caxemira, e blusas brancas. Deves ter umas vinte blusas brancas e outras tantas gravatas. Já agora, não devias usar castanho. E não vi muita coisa em vermelho, e ficas bem de vermelho com os teus olhos azuis e o cabelo louro-acinzentado.

— Louro-cinza — retorqui.

— As cinzas são cinzentas ou brancas. Olha para a lareira. Não calçamos o mesmo número, não que eu goste de sapatos Cole-Haan ou Ferragamo. Encontrei um blusão de cabedal preto mesmo fixe. Foste motard numa outra vida?

— É de pelica e podes usá-lo à vontade.

— E o teu perfume Fendi e as pérolas? Tens algum par de jeans.

— Usa à vontade. — Comecei a rir. — E sim, tenho para aí algures um par de jeans. Talvez na garagem.

Quero levar-te às compras, tia Kay.

Só se eu estivesse maluca.

— Está bem?

— Talvez — repliquei.

Se puder ser, gostava de ir ao teu clube fazer um bocado de exercício. Estou perra do avião.

— Se quiseres jogar ténis, enquanto cá estás, falo com o Ted a ver se ele tem um tempo livre para jogar contigo. As minhas raquetes estão no roupeiro, à esquerda. Comprei há pouco uma nova Wilson. Bate-se a uma velocidade de cinquenta à hora. Vais adorar.

— Não, obrigada. Prefiro os aparelhos e os pesos ou ir correr. Por que não tens uma aula com o Ted enquanto eu faço ginástica e assim podemos ir juntas?

Condescendendo, peguei no telefone e liguei para a recepção do Westwood. Ted tinha aulas seguidas até às dez da noite. Dei a morada a Lucy, e as chaves do meu carro, e depois de ela sair continuei a ler diante da lareira até adormecer.

Quando abri os olhos, ouvi o barulho das brasas e o vento lá fora a tocar ao de leve nos espanta-espíritos de estanho junto às portas de correr. A neve caía em grandes e vagarosos flocos, um céu cor de quadro preto cheio de pó. As luzes do pátio tinham-se acendido, a casa estava tão silenciosa que se ouvia o tiquetaque do relógio de parede. Pouco passava das quatro e Lucy ainda não voltara do clube. Liguei para o telefone do carro e ninguém atendeu. Ela nunca tinha conduzido com neve, pensei, inquieta. E eu precisava de ir comprar peixe para o jantar. Podia ligar para o clube e pedir que a chamassem. Era ridículo, disse a mim mesma. Ela já não era nenhuma criança. Quando deu as quatro e meia tentei novamente o telefone do carro. As cinco liguei para o clube e ninguém sabia dela. Comecei a entrar em pânico.

— Tem a certeza que ela não está nos aparelhos ou então no balneário das senhoras a tomar um duche? Ou talvez tenha ido comer qualquer coisa? — Tornei a perguntar à jovem da recepção.

— Já a chamámos quatro vezes, Dr.a Scarpetta. E eu dei uma volta a ver se a via. Vou ver outra vez. Se a encontrar, ligo imediatamente Para si.

— Sabe se ela chegou a aparecer aí? Devia ter chegado por volta das duas.

— Ah, bom, eu só entrei às quatro. Não sei. Continuei a ligar para o telefone do carro.

“O assinante da Richmond Cellular para que ligou não atende...” Tentei falar com Marino mas ele não estava em casa nem no serviço. Às seis, estava na cozinha a olhar pela janela. A neve formava um tracejado à luz gredosa dos candeeiros de rua. O coração batia-me acelerado enquanto deambulava pela casa continuando a ligar para o telefone do carro. Às seis e meia já decidira participar o desaparecimento à Polícia quando o telefone tocou. Voltando a correr para o escritório, ia a estender a mão para o auscultador quando reparei no número já familiar que ia surgindo no visor de identificação de chamadas. Os telefonemas tinham acabado depois da noite da execução de Waddell. Desde então, nunca mais pensara neles. Intrigada, estaquei aguardando o sinal de desligar a seguir à minha mensagem. Fiquei chocada ao reconhecer a voz que começou a falar.

— Detesto fazer-lhe isto, doutora...

Arrancando o auscultador do descanso, aclarei a garganta e perguntei incrédula:

— Marino?

— Sim — respondeu ele. — Tenho más notícias.

 

— Onde é que está? — perguntei-lhe, o olhar transfixo no número que estava no visor.

— No East End e neva com’ó caraças — respondeu Marino. — Temos um morto à chegada. Branco, sexo feminino. À primeira vista, parece o típico suicídio com um carro dentro da garagem, mangueira ligada ao tubo de escape. Mas as circunstâncias são um nadinha estranhas. Acho melhor vir cá.

— De onde é que está a ligar? — Perguntei com tal rispidez que ele hesitou. Percebi que ficou admirado.

— De casa da falecida. Cheguei agora mesmo. Ora aí está outra coisa. Não estava trancada. A porta das traseiras estava só no trinco.

Ouvi a porta da garagem.

— Ah, graças a Deus. Não desligue, Marino — disse-lhe, com uma enorme sensação de alívio.

Barulho de sacos de papel quando a porta da cozinha se fechou. Tapando o bocal, gritei:

— És tu, Lucy?

— Não, é a Abominável Mulher das Neves. Devias ver o nevão que está a cair! Espectáculo!

Pegando em papel e lápis, perguntei a Marino:

— Nome e morada da falecida?

— Jennifer Deighton. Ewing dois-um-sete.

Não reconheci o nome. A Ewing ficava junto à Willamsburg Road, não muito longe do aeroporto num bairro que não me era familiar.

Lucy entrou no escritório quando eu estava a desligar. Rosto corado do frio, um brilho nos olhos.

— Onde diabo é que tu foste? — perguntei, irritada. O sorriso desvaneceu-se:

— Às compras.

— Bom, depois falamos. Tenho de ir a um local do crime. Ela encolheu os ombros e retribuiu a minha irritação:

— E isso é alguma novidade?

— Desculpa lá mas não controlo as mortes das pessoas. Pegando no casaco e nas luvas, corri para a garagem. Liguei a

ignição, pus o cinto, regulei o aquecimento e olhei para o mapa antes de me lembrar do comando de abertura automática da porta fixo à pala. É incrível a rapidez com que um espaço fechado se enche de gases de exaustão.

— Santo Deus — vociferei ralhando apenas com a minha distraída pessoa enquanto me apressava a abrir a porta da garagem.

A intoxicação por fumo de escape de automóveis é uma maneira fácil de morrer. Jovens casais a namorar no banco de trás, motor a trabalhar e aquecimento ligado, adormecem nos braços um do outro e nunca mais acordam. Os suicidas transformam os carros em pequenas câmaras de gás e deixam os seus problemas para os outros resolverem. Esquecera-me de perguntar a Marino se Jennifer Deighton vivia sozinha.

A neve já tinha muitos centímetros de altura, iluminando a noite. Não havia movimento de carros no meu bairro e muito pouco quando entrei na via rápida de acesso à baixa. Música de Natal a tocar ininterruptamente no rádio enquanto os meus pensamentos se agitavam num motim de incredulidade para depois se aquietarem, um por um, numa sensação de medo. Jennifer Deighton tinha andado a ligar para o meu número, desligando depois, ou então alguém o fizera do telefone dela. Agora estava morta. O viaduto descrevia uma curva por cima da zona leste da baixa, onde as linhas férreas cruzavam a terra como feridas suturadas e os silos automóveis eram mais altos que muitos dos prédios. A estação da Main Street recortava-se contra o céu leitoso, telhado coberto de gelo, o relógio, da torre um lacrimejante olho de Ciclope.

Na Williamsburg Road, passei muito devagar por um centro comercial deserto e, quase na fronteira entre a cidade e Henrico County, dei com a Ewing Avenue. As casas eram pequenas, com carrinhas e automóveis americanos de modelos antigos estacionados à frente. No 217, havia carros da Polícia parados na entrada e em ambos os lados da rua. Arrumando atrás do Ford de Marino, saí com o meu estojo e dirigi-me para o fim do acesso não alcatroado onde a garagem para um carro estava iluminada como um presépio. A porta enrolada para cima, lá dentro um grupo de agentes de volta de um Chevrolet bege já velhote. Fui encontrar Marino agachado junto à porta de trás do lado do condutor, analisando um pedaço de mangueira verde que, enfiado no tubo de escape, entrava por uma janela parcialmente aberta. O interior do carro estava sujo de fuligem, o cheiro dos gases no ambiente frio e húmido.

— A ignição ainda está ligada — disse-me Marino. — O carro ficou sem gasolina.

A morta aparentava uns cinquenta e muitos, sessenta e poucos. Estava caída sobre o lado direito, ao volante, a pele do pescoço e das mãos de um rosa vivo. Um fio de sangue seco manchava o estofo castanho por baixo da cabeça. Do sítio onde me encontrava, não conseguia ver-lhe o rosto. Abrindo o estojo, peguei num termómetro para tirar a temperatura dentro da garagem e calcei um par de luvas cirúrgicas. Perguntei a um jovem agente se podia abrir as portas da frente.

— íamos agora polvilhá-las — disse ele.

— Eu espero.

— Johnson, e se tratasses já das maçanetas para a doutora poder entrar no carro? — Fixou em mim uns olhos escuros, latinos. — Já agora, chamo-me Tom Lucero. O que aqui temos é uma situação que foge ao habitual. Para começar, acho estranho haver sangue no banco da frente.

— Há várias explicações possíveis para isso — redargui. — Uma delas é a purgação post mortem.

Ele semicerrou um nadinha os olhos.

— Quando a pressão dentro dos pulmões faz sair o sangue pelo nariz e pela boca — expliquei.

— Ah. Normalmente isso só acontece quando a pessoa já começou a entrar em decomposição, correcto?

— Normalmente.

— Com base no que sabemos, esta mulher está morta talvez há vinte e quatro horas e aqui dentro está frio como num frigorífico da morgue.

— Certo — concordei —, mas se ela tinha o aquecimento ligado, isso mais o vapor quente que ia entrando era o suficiente para aquecer o interior do carro e mantê-lo bastante aquecido até se acabar a gasolina.

Marino espreitou por uma janela baça de fuligem e comentou:

— Parece que o aquecimento está ligado no máximo.

— Outra possibilidade — continuei — é ela, ao perder os sentidos, ter caído para o lado batendo com a cara no volante, no tahlier, no banco. O nariz pode ter sangrado. Pode ter mordido a língua ou cortado o lábio. Só saberei quando a examinar.

— Está bem, mas e a maneira como está vestida? — perguntou Lucero. — Não acha estranho ela sair com este frio, entrar numa garagem fria, ligar a mangueira e meter-se num carro frio só em camisa de noite?

A camisa de noite azul-clara era até aos pés, de manga comprida e feita do que parecia um tecido sintético, transparente. Não há regras de etiqueta para a indumentária de quem se suicida. Seria lógico que Jennifer Deighton vestisse um casaco e calçasse uns sapatos antes de se aventurar a vir cá fora numa gélida noite de Inverno. Mas, se tencionava matar-se, saberia que não ia ter frio por muito tempo.

O técnico das impressões digitais acabou de polvilhar as portas do carro. Voltei a pegar no termómetro. Estavam três graus negativos dentro da garagem.

— Quando é que chegou? — perguntei a Lucero.

— Talvez há uma hora e meia. É claro que estava mais calor cá dentro antes de abrirmos a porta mas não muito. A garagem não tem aquecimento. Mais, o capot estava frio. Calculo que o carro tenha ficado sem gasolina e sem bateria umas boas horas antes de nos chamarem.

Abertas as portas, tirei uma série de fotografias antes de dar a volta para o lado do condutor e olhar para a cara dela. Preparei-me para um súbito reconhecimento, qualquer pormenor que desenterrasse alguma recordação do passado remoto. Mas não aconteceu nada. Eu não conhecia Jennifer Deighton. Nunca na minha vida a tinha visto.

O cabelo oxigenado estava escuro nas raízes e firmemente esticado em rolos cor-de-rosa, alguns dos quais se tinham soltado. Era grotescamente obesa embora se visse, pela delicadeza dos traços, que devia ter sido muito bonita numa vida mais jovem, mais magra. Apalpei-lhe a cabeça e o pescoço e não senti nenhuma fractura. Toquei-lhe na face com as costas da mão e depois fiz um esforço para a voltar. Estava fria e hirta, a parte do rosto que estivera pousada no banco pálida e empolada do calor. Não me pareceu que o corpo tivesse sido mudado de posição depois da morte e a pele não empalideceu quando pressionada. Estava morta há pelo menos doze horas.

Só quando me preparava para lhe ensacar as mãos é que reparei numa coisa debaixo da unha do indicador direito. Puxei de uma lanterna para ver melhor e depois tirei um envelope plástico de recolha de provas e uma pinça. A minúscula partícula, de um verde metalizado, estava entranhada na pele por baixo da unha. Enfeites de Natal, pensei. Também encontrei fibras de um corante dourado e ao examinar cada um dos dedos encontrei mais. Enfiando-lhe as mãos nos sacos de papel pardo e apertando-os nos pulsos com elásticos, passei para o outro lado do carro. Queria ver-lhe os pés. As pernas estavam absolutamente rígidas e renitentes quando, com um puxão, as libertei do volante para as estender no banco. Ao examinar as solas das grossas peúgas escuras, encontrei fibras agarradas à lã que me pareceram idênticas às encontradas debaixo das unhas. Ausência total de terra, lama ou relva. Um alarme soava já na minha mente.

— Descobriu alguma coisa interessante? — Quis saber Marino.

— Não encontraram por aqui nenhum par de pantufas ou de sapatos? — perguntei.

— Nada — respondeu Lucero. — Como lhe disse, achei estranho ela ter saído de casa numa noite fria só de...

Interrompi-o:

— Temos um problema. As peúgas dela estão demasiado limpas.

— Gaita — resmungou Marino.

— Temos de levá-la. — E afastei-me do carro.

— Vou avisar a ambulância — prontificou-se Lucero.

— Quero ver o interior da casa — disse eu a Marino.

— Sim. — Descalçara as luvas e soprava para as mãos. — Eu também quero que veja.

Enquanto esperava pelos paramédicos, dei uma volta pela garagem, com cuidado para ver onde pisava e sem atrapalhar. Não havia muito que ver, apenas o habitual amontoado de utensílios de jardinagem e demais tralha que não tinha outro sítio onde ser guardada. Passei os olhos por pilhas de jornais velhos, cestos de palha, latas de tinta empoeiradas e um ferrugento grelhador a carvão que calculei não fosse utilizado há anos. Descuidadamente enrolada a um canto, como uma cobra de listas sem cabeça, estava a mangueira da qual, aparentemente, rora cortado o bocado introduzido no tubo de escape. Ajoelhei-me ao pé da extremidade cortada sem lhe tocar. O rebordo plástico não parecia serrado mas sim cortado obliquamente com uma única pancada firme. Reparei que lá perto havia um golpe rectilíneo no chão de cimento. Pondo-me de pé, observei as ferramentas penduradas numa placa de cartão com ganchos. Um machado e uma marreta, ambos enferrujados e cobertos de teias de aranha.

Os paramédicos chegaram com a maca e o saco mortuário.

— Encontraram alguma coisa dentro de casa que ela possa ter usado para cortar a mangueira? — perguntei a Lucero.

— Não.

Jennifer Deighton não queria sair do carro, a morte a resistir às mãos da vida. Passei para o lado do condutor, para ajudar. Com três de nós a segurá-la por baixo dos braços, o auxiliar empurrou-lhe as pernas. Depois de metida no saco, e este bem amarrado na maca, afastaram-se na noite nevosa e eu, a patinhar, segui com Lucero pelo acesso à garagem lamentando não ter tido tempo para calçar umas botas. Entrámos na casa de tijolos estilo rancho por uma porta das traseiras que dava para a cozinha.

Parecia ter sido remodelada há pouco, electrodomésticos pretos, bancadas e armários brancos, papel de parede com um desenho oriental de flores em tons pastel num fundo azul-claro. Seguindo na direcção de onde vinham as vozes, Lucero e eu percorremos um corredor estreito com chão de soalho e parámos à entrada de um quarto onde Marino e um técnico das impressões digitais se dedicavam às gavetas da cómoda. Durante um bom bocado, olhei em redor observando as estranhas manifestações da personalidade de Jennifer Deighton. Era como se o quarto dela fosse um solário no qual captasse energia radiante convertendo-a em magia. Tornei a pensar nos telefonemas incompletos que eu recebera, a paranóia a aumentar a passos largos.

Paredes, cortinas, alcatifa, roupa de cama e móveis de verga, era tudo branco. Curiosamente, em cima da cama por fazer e não muito longe das duas almofadas encostadas à cabeceira, uma pirâmide de cristal servia de pisa-papéis a uma única folha branca, de papel de máquina, sem nada escrito. Em cima da cómoda e das mesinhas-de-cabeceira havia mais cristais, e outros mais pequenos pendurados nos aros da janela. Imaginei arco-íris rodopiando no ar e luz a reflectir-se em vidro prismático quando o quarto se inundava de sol.

Esquisito, não é? — comentou Lucero.

Ela era médium ou coisa assim? — perguntei.

Digamos que tinha o seu próprio negócio, trabalhando sobretudo em casa. — Lucero aproximou-se mais de um gravador de chamadas colocado numa mesa ao pé da cama. O botão luminoso das mensagens estava a piscar, o número trinta e oito num clarão vermelho.

Trinta e oito mensagens desde as oito da noite de ontem — acrescentou Lucero. —Já ouvi algumas. A fulana dedicava-se aos horóscopos. Parece que as pessoas lhe telefonavam a saber se iam ter um dia bom, ganhar a lotaria ou conseguir pagar as contas dos cartões de crédito depois do Natal.

Abrindo a tampa do gravador, Marino serviu-se do canivete para retirar a cassete que guardou num envelope plástico de recolha de provas. Eu estava interessada em vários outros objectos dispostos em cima da pequena mesa-de-cabeceira e aproximei-me para dar uma olhadela. Ao lado de um bloco e caneta, estava um copo contendo uns dois centímetros e meio de líquido cristalino. Inclinei-me e não me cheirou a nada. Agua, pensei. Ao pé do copo, dois livros em edição de bolso, Paris Trout, de Peter Dexter, e Setb Speaks, de Jane Roberts. Não vi mais nenhum livro no quarto.

— Gostava de lhes dar uma vista de olhos — disse eu a Marino.

— Paris Tront — leu ele, distraidamente. — E sobre o quê, a pesca em França?

Infelizmente ele estava a falar a sério.

— Talvez me digam alguma coisa sobre o estado de espírito dela antes de morrer — acrescentei.

— Não há problema. Peço à Documentação que procure impressões digitais e depois entrego-lhos. E acho que devíamos pedir à Documentação para darem uma olhadela também ao papel — acrescentou referindo-se à folha em branco que estava em cima da cama.

— Isso — redarguiu Lucero, com ar trocista. — Talvez ela tenha escrito um bilhete de despedida com tinta invisível.

— Vamos — disse-me Marino. — Quero mostrar-lhe umas coisas. Levou-me para a sala de estar onde uma árvore de Natal artificial

se aninhava a um canto vergada por numerosos enfeites berrantes e estrangulada por ouropel, luzes e fiapos de algodão. Agrupadas junto a base, havia caixas de bombons e de queijos, sais de banho, um frasco de vidro com o que parecia ser chá de especiarias e um unicórnio de barro com refulgentes olhos azuis e corno dourado. A carpete de pelúcia dourada era, calculei, a origem das fibras que eu vira na sola das peúgas de Jennifer Deighton e por baixo das unhas. Marino tirou do bolso uma pequena lanterna e agachou-se.

— Dê uma olhadela — disse-me.

Agachei-me ao lado dele enquanto o foco iluminava o brilho metálico e um pedaço de cordão dourado, fininho, enterrado nos pêlos da carpete à volta da base da árvore.

— Quando cheguei, a primeira coisa que fiz foi ver se ela tinha presentes debaixo da árvore — disse Marino, apagando a lanterna. — É óbvio que os abriu antes do tempo. E o papel de embrulho, mais os cartões, foram atirados ali para diante, para dentro da lareira — está cheia de cinzas de papel, alguns bocados de papel metalizado ainda por queimar. A vizinha da frente diz que ontem viu fumo a sair da chaminé pouco antes de anoitecer.

— Foi essa vizinha que chamou a Polícia? — perguntei.

— Foi.

— Porquê?

— Ainda não sei ao certo. Tenho de falar com ela.

— Quando falar, veja se consegue descobrir alguma coisa sobre a história clínica desta mulher, se tinha problemas psiquiátricos, etc. Gostava de saber quem é o médico dela.

— Vou lá daqui a bocado. Pode vir comigo e perguntar-lhe isso. Pensei em Lucy, à minha espera em casa, enquanto ia registando

mentalmente os pormenores. No meio da sala, o meu olhar deteve-se em quatro pequenas marcas quadradas na carpete.

— Também reparei nisso — disse Marino. — Parece que alguém trouxe para aqui uma cadeira, provavelmente da casa de jantar. Há quatro cadeiras à volta da mesa. Todas têm pernas de secção quadrada.

— Outra coisa que se devia fazer — disse eu, pensando em voz alta — era dar uma vista de olhos ao vídeo. Ver se ela o tinha programado para gravar alguma coisa. Isso também pode dizer-nos mais qualquer coisa a seu respeito.

— Boa ideia.

Saímos da sala passando pela pequena casa de jantar com uma mesa de carvalho e quatro cadeiras de espaldares direitos. O tapete artesanal que cobria o soalho parecia novo ou raramente pisado.

Parece que a divisão em que praticamente ela vivia era esta — disse Marino quando atravessámos um corredor e entrámos no que era, nitidamente, o escritório.

Estava atafulhado com a parafernália necessária ao seu negociozinho, incluindo um fax, que fui de imediato inspeccionar. Desligado, com o cabo de alimentação introduzido numa tomada simples, de parede. Olhei em redor, cada vez mais intrigada. Um computador pessoal, máquina de franquiar, diversos impressos e envelopes cobriam uma mesa e uma secretária. Enciclopédias e livros sobre parapsicologia, astrologia, signos do Zodíaco, religiões orientais e ocidentais alinhavam-se nas estantes. Reparei em várias traduções diferentes da Bíblia e dezenas de livros-caixa com datas escritas nas lombadas.

Junto à máquina de franquiar estava uma resma do que pareciam ser formulários de inscrição e peguei num. Por trezentos dólares anuais, podia-se telefonar uma vez por dia e Jennifer Deighton, num máximo de três minutos, dizia-nos o horóscopo “com base em pormenores pessoais, incluindo o alinhamento dos planetas à hora em que nasceu.” Por mais duzentos dólares, ela incluiria “uma leitura semanal”. Após o pagamento da quota, o subscritor recebia um cartão com um código de identificação que só era válido enquanto as quotas anuais se mantivessem em dia.

— Uma data de aldrabices — disse-me Marino.

— Deduzo que vivia sozinha.

— Por enquanto é essa a ideia que dá. Uma mulher sozinha, com um negócio destes — uma bela maneira de atrair a pessoa errada.

— Marino, sabe quantas linhas telefónicas é que ela tinha?

— Não. Porquê?

Falei-lhe dos telefonemas que recebera e ele fitou-me com um ar muito sério. Os músculos dos maxilares começaram a flectir-se.

— Preciso saber se o fax dela e o telefone estão na mesma linha — rematei.

— C’um diabo.

— Se estiverem e se ela tivesse o fax ligado na noite em que marquei o número que apareceu no meu visor de identificação de chamadas — prossegui — isso explica o sinal que ouvi.

— Com mil diabos — resmungou ele, arrancando do bolso do casaco o rádio portátil. — Por que é que não me disse isso há mais tempo?

— Não queria fazê-lo na presença dos outros. Aproximou o rádio dos lábios:

— Central. — Depois, para mim: — Se andava preocupada com esses telefonemas, por que é que não me disse nada aqui há umas semanas?

— Não andava assim tão preocupada como isso.

— Central — estalejou a voz da telefonista.

— Transferir para oito vinte e um.

A telefonista passou a chamada para o 821, o código do inspector.

— Preciso que ligue para um número — disse Marino quando ficou em linha com o inspector. — Tem o seu telemóvel à mão?

— Afirmativo.

Marino deu-lhe o número de Jennifer Deighton e depois ligou o fax. Momentos depois, começámos a ouvir uma série de toques, apitos e outros ruídos.

— Isto responde à sua pergunta? — perguntou-me Marino.

— Responde a uma pergunta mas não à mais importante — repliquei.

A vizinha da frente, que avisara a Polícia, chamava-se Myra Clary. Acompanhei Marino até à casa dela, forrada a alumínio com o Pai Natal de plástico iluminado no jardim e luzes natalícias entrelaçadas nas floreiras. Marino mal tocara a campainha quando a porta da frente se abriu e Mrs. Clary nos convidou a entrar sem perguntar quem éramos. Calculei que nos tivesse visto chegar da janela.

Levou-nos para uma sala de estar tristonha onde fomos dar com o marido enroscado junto à lareira eléctrica, cobertor por cima das pernas esquálidas, o olhar vazio fixo num homem que se ensaboava com um sabonete desodorizante na televisão. Os deploráveis cuidados médicos domiciliários manifestavam-se em todo o lado. Os estofos coçados e sujos nos sítios de permanente contacto com pele humana. As madeiras baças de camadas de cera, gravuras nas paredes amarelecidas por detrás de vidros cheios de pó. O cheiro a gordura de milhares de refeições feitas na cozinha e tomadas em bandejas diante da televisão estava impregnado no ar.

Marino explicou o motivo da nossa visita enquanto Mrs. Clary andava nervosamente de um lado para o outro, tirando jornais de cima do sofá, baixando o som da televisão e levando para a cozinha os pratos sujos do jantar. O marido não se arriscava a sair do seu mundo interior, a cabeça a tremer sustentada pelo magro pescoço. A doença de Parkinson é quando a máquina estrebucha com violência antes de se ir abaixo, como se soubesse o que a esperava e protestasse da única maneira que podia.

— Não, não precisamos de nada — respondeu Marino quando Mrs. Clary nos ofereceu de comer e beber. — Sente-se e tente acalmar-se. Sei que tem sido um dia difícil para si.

— Eles disseram que ela estava dentro do carro a inalar aqueles vapores. Que horror — comentou. — Eu vi como é que a janela estava cheia de fumo, parecia que tinha havido um incêndio na garagem. Percebi logo que havia algum problema.

— Eles quem? — inquiriu Marino.

— Os polícias. Depois de telefonar, fiquei à espera deles. Quando chegaram, fui logo lá ver se a Jenny estava bem.

Mrs. Clary não parava quieta na cadeira de baloiço à frente do sofá onde eu e Marino nos havíamos instalado. O cabelo grisalho soltara-se do totó no alto da cabeça, face engelhada como uma maçã seca, olhos ávidos de informações e cintilantes de medo.

— Sei que já falou hoje com a Polícia — disse Marino puxando o cinzeiro mais para perto dele — mas quero que nos conte tudo, a começar por quando foi a última vez que viu Jennifer Deighton.

— Vi-a um dia destes... Marino interrompeu-a:

— Que dia?

— Sexta-feira. Lembro-me que o telefone tocou e fui à cozinha para atender e vi-a pela janela. Vinha a entrar com o carro.

— Ela arrumava sempre o carro na garagem? — perguntei.

— Sempre.

— E ontem? — Quis saber Marino. — Ontem viu-a a ela ou ao carro?

— Não, não vi. Mas fui lá fora buscar o correio. Chegou atrasado, costuma ser assim nesta altura do ano. Eram umas três, quatro da tarde e o correio sem vir. Acho que eram quase cinco e meia, talvez um POUCO mais, quando me lembrei de ir outra vez à caixa. Estava a anoitecer e reparei no fumo que saía pela chaminé da Jenny.

— Tem a certeza? — perguntou Marino. Ela acenou com a cabeça.

— Ah, sim. Lembrei-me de ter achado que estava uma noite boa para acender a lareira. Mas quem fazia isso era sempre o Jimmy. Nunca me ensinou. Quando era bom nalguma coisa não ensinava ninguém. Por isso desisti das verdadeiras e instalei uma eléctrica.

Jimmy Clary estava a olhar para ela. Interroguei-me se perceberia o que ela estava a dizer.

— Gosto de cozinhar — prosseguiu ela. — Nesta altura do ano faço muitos bolos. Faço pães-de-ló e ofereço-os aos vizinhos. Ontem, quis ir levar um à Jenny mas gosto de telefonar primeiro. Nunca se sabe quando é que as pessoas estão em casa, principalmente quando guardam os carros na garagem. E deixa-se ficar um bolo em cima do tapete e vem um dos cães e leva-o. Por isso tentei ligar-lhe e atendeu-me a máquina. Passei o dia todo a ligar e ela não atendia, e para lhes ser franca, fiquei um bocadinho preocupada.

— Porquê? — perguntei. — Ela tinha problemas de saúde, algum problema de que a senhora soubesse?

— Colesterol. Para cima dos duzentos, foi o que ela me disse uma vez. Mais a tensão alta que, segundo ela, era de família.

Eu não vira nenhuma receita médica em casa de Jennifer Deighton.

— Sabe quem era o médico dela? — perguntei.

— Não me lembro. Mas a Jenny acreditava em curas naturais. Disse-me que quando se sentia mal meditava.

— Parece que eram bastante amigas — comentou Marino.

Mrs. Clary ia repuxando a saia, mãos como crianças hiperactivas.

— Passo o dia em casa, excepto quando vou às compras. — Olhou de soslaio para o marido que tornara a concentrar-se na televisão. — De vez em quando ia visitá-la, quer dizer, num gesto de boa vizinhança, às vezes para lhe levar alguma coisa cozinhada por mim.

— Ela era uma pessoa simpática? — quis saber Marino. — Tinha muitas visitas?

— Bom, como sabem ela trabalhava em casa. Acho que a maior parte do trabalho era feito pelo telefone. Mas de vez em quando via lá entrar pessoas.

— Alguém que conhecesse?

— Que me lembre, não.

— Viu se alguém veio visitá-la a noite passada? — perguntou Marino.

— Não reparei.

— E quando saiu para ir buscar o correio e viu o fumo a sair pela chaminé? Calculou que ela tivesse visitas?

— Não vi nenhum carro. Nada que me levasse a pensar que ela tivesse visitas.

Jimmy Clary acabara por adormecer. Estava a babar-se.

— Disse que ela trabalhava em casa — referi. — Sabe o que ela fazia? Mrs. Clary fitou-me de olhos arregalados. Inclinou-se para a frente

e baixou a voz:

— Sei o que as pessoas diziam.

— E o que era?

Comprimiu os lábios e abanou a cabeça.

— Mrs. Clary, — disse Marino — tudo o que nos disser pode ser útil. Sei que a senhora quer ajudar.

— Há uma igreja metodista a dois quarteirões de distância. Vê-se daqui. A torre acende-se à noite, sempre foi assim desde que a construíram há uns três ou quatro anos.

— Vi a igreja quando vínhamos para cá — afirmou Marino. — O que é que ela tem a ver...

— Bom — interrompeu ela —, a Jenny mudou-se para cá acho que em Setembro. E nunca consegui perceber aquilo. A luz da torre. Vê-se quando se vem de carro. É claro... — Fez uma pausa, uma expressão de desapontamento no rosto. — Se calhar não torna a fazer.

— A fazer o quê? — perguntou Marino.

— A apagar e a acender outra vez. A coisa mais estranha que eu já vi. Tão depressa está acesa como logo a seguir olhamos pela janela e está às escuras, como se a igreja não existisse. Então, passado um bocado, olha-se outra vez e a torre está iluminada como sempre esteve. Eu até já cronometrei. Acesa um minuto, a seguir dois minutos apagada e volta a acender-se por três minutos. Às vezes fica acesa uma hora. Não é uma coisa certa.

— O que é que isso tem a ver com Jennifer Deighton? — perguntei.

— Lembro-me que foi pouco depois de ela mudar para cá, poucas semanas antes de o Jimmy ter a trombose. A noite estava fresca e ele estava a acender a lareira. Eu estava na cozinha a lavar a louça e, olhando pela janela, conseguia ver a torre iluminada, como sempre. Quando ele foi à cozinha buscar uma bebida, digo-lhe eu “Lembra-te do que diz a Bíblia, de te embriagares com o Espírito e não com vinho.” E vai ele “Não estou a beber vinho. Estou a beber bourbon.”

Depois, ainda ele lá estava, vai a torre e apaga-se. Foi como se a igreja se tivesse evaporado. Digo-lhe eu “Ora aí tens! A Palavra do Senhor. O que ele pensa de ti e do teu bourbon.” Riu-se como se eu fosse maluca mas nunca mais tocou numa gota. Punha-se todas as noites à janela da cozinha, por cima do lava-loiça, a olhar. A torre tão depressa estava acesa como ficava às escuras. Deixei-o pensar que era obra de Deus — desde que com isso evitasse que ele bebesse. A igreja nunca fez tal coisa antes de Miss Deighton se mudar ali para a frente.

— A luz tem-se acendido e apagado ultimamente? — perguntei.

— Ainda a noite passada. Quanto a hoje, não sei. Para ser franca ainda não fui ver.

— Está portanto a dizer que ela, de certa maneira, tinha alguma influência sobre as luzes da torre da igreja — observou Marino, delicadamente.

— Estou a dizer que, há já uns tempos, mais do que uma pessoa desta rua chegou a uma conclusão sobre ela.

— Que conclusão?

— Que era bruxa — afirmou Mrs. Clary.

O marido começara a ressonar, fazendo uns ruídos horrorosos, estrangulados, em que a mulher parecia não reparar.

— Quer-me parecer que aí o seu marido começou a piorar por volta da altura em que Miss Deighton se mudou para cá e as luzes começaram a desatinar — opinou Marino.

Ela fez um ar assustado.

— Sim, é isso. Ele teve a trombose em finais de Setembro passado.

— Acha que pode haver alguma relação? Que talvez Jennifer Deighton tenha tido alguma coisa a ver com isso, tal como acha que teve a ver com as luzes da igreja?

— O Jimmy não ia à bola com ela. — Agora, Mrs. Clary falava cada vez mais depressa.

— Quer dizer que não se davam bem um com o outro — esclareceu Marino.

— Logo depois de se ter mudado, ela veio cá algumas vezes pedir-lhe para ele a ajudar numas coisas lá em casa, trabalho de homem. Lembro-me que uma vez a campainha dela estava a fazer um zumbido horrível dentro de casa e ela apareceu-nos aqui à porta, assustada, com medo de ter lá algum curto-circuito. Então o Jimmy deu lá um salto. Acho que nessa altura a máquina da loiça também teve um vazamento.

O Jimmy foi sempre muito habilidoso, lá isso é verdade. — Lançou um olhar de esguelha ao ressonante marido.

.— Ainda não nos explicou por que é que eles não se davam bem — recordou-lhe Marino.

— Ele dizia que não gostava de lá ir — respondeu ela. — Que não gostava do interior da casa dela, com aqueles cristais todos por todo o lado. E o telefone sempre a tocar. Mas o que realmente o chateou foi quando ela lhe disse que lia a sina às pessoas e que estava disposta a ler-lhe a dele de borla se ele continuasse a fazer-lhe os arranjos lá em casa. Ele disse-lhe, e lembro-me como se tivesse sido ontem “Não, obrigado, Miss Deighton. A Myra é que toma conta do meu futuro, planeia todos os minutos.”

— Sabe, por acaso, de alguém que tivesse algum conflito com Jennifer Deighton suficientemente grande para desejar o mal dela, para, de alguma maneira, lhe fazer mal? — sondou Marino.

— Acha que alguém a matou?

— Nesta altura, há muita coisa que não sabemos. Temos de considerar todas as hipóteses.

Ela cruzou os braços sob o busto flácido apertando-os contra si.

— E quanto ao estado emocional? — inquiri. — Ela alguma vez lhe pareceu deprimida? Sabe se tinha problemas difíceis de resolver, sobretudo ultimamente?

— Não a conhecia assim tão bem. — Evitou o meu olhar.

— Ela foi a algum médico, que a senhora saiba?

— Não sei.

— E parentes? Ela tinha família?

— Não faço ideia.

— E quanto ao telefone? — Perguntei então. — Ela atendia quando estava em casa ou deixava sempre a máquina atender?

— Pelo que sei, quando estava em casa atendia.

— Por isso ficou preocupada quando ela hoje não atendeu o telefone quando a senhora ligou — deduziu Marino.

— Exactamente.

Myra Clary apercebeu-se, tarde de mais, do que tinha dito.

— Interessante — comentou Marino.

Um forte rubor subiu-lhe pelo pescoço e as mãos ficaram quietas. Marino perguntou:

— Como é que sabia que ela estava em casa, hoje?

Ela não respondeu. A respiração do marido chocalhou-lhe no peito e ele tossiu abrindo uns olhos pestanejantes.

— Deduzi, acho eu. Porque não a vi sair. De carro... — A voz de Mrs. Clary embargou-se.

— Não terá, por acaso, ido lá hoje de manhã? — Aventou Marino, como que a tentar ajudá-la. — Levar-lhe o seu bolo ou dar dois dedos de conversa julgando que o carro estava na garagem?

Ela enxugou os olhos.

— Estive toda a manhã na cozinha a fazer bolos e não a vi ir lá fora buscar o jornal ou sair de carro. Por isso, a meio da manhã, quando fui lá fora, dei lá um salto e toquei a campainha. Ela não abriu. Espreitei para dentro da garagem.

— Está-me a dizer que viu as janelas cheias de fumo e não pensou que tivesse acontecido alguma coisa? — perguntou Marino.

— Não sabia o que pensar, o que fazer. — A voz dela subiu umas oitavas. — Valha-me Deus. Devia ter chamado alguém nessa altura. Talvez ela estivesse...

Marino cortou-lhe a palavra:

— Não sei se ela ainda estava viva nessa altura, se poderia estar. — E lançou-me um olhar interrogativo.

— Quando olhou para dentro da garagem, ouviu o motor do carro a trabalhar? — perguntei a Mrs. Clary.

Ela abanou a cabeça e assoou-se.

Marino pôs-se de pé e tornou a enfiar o bloco de apontamentos no bolso do casaco. Parecia desapontado, como se a falta de carácter e hipocrisia de Mrs. Clary o tivessem desiludido profundamente. Agora já não havia encenação sua que eu não conhecesse muito bem

— Eu devia ter telefonado mais cedo. — Afirmou Myra Clary, dirigindo-se a mim com voz trémula.

Não dei resposta. Marino olhava fixamente para a carpete.

— Não me sinto bem. Preciso de me ir deitar. Marino tirou um cartão da carteira e entregou-lho.

— Se se lembrar de mais alguma coisa que ache que devemos saber, dê-me uma telefonadela.

— Sim, senhor — disse ela, num fio de voz. — Prometo que telefono.

— Vai fazer a autópsia esta noite? — perguntou-me Marino depois de saírmos.

A neve já nos dava pelos tornozelos e continuava a cair.

— Amanhã de manhã — respondi, tirando as chaves do bolso do casaco.

— Que acha?

— Acho que ela, com tão invulgar profissão, corria um risco enorme de lhe aparecer pela frente o tipo de pessoa errada. Também acho que o seu aparente isolamento, segundo Mrs. Clary, e o facto de pelos vistos ter aberto os presentes de Natal antecipadamente tornam o suicídio uma dedução lógica. Mas as peúgas limpas é que são um grande problema.

— Tem toda a razão — redarguiu ele.

A casa de Jennifer Deighton tinha as luzes acesas e um semi-reboque de plataforma com correntes nos pneus entrara de marcha-atrás no acesso à garagem. As vozes dos homens que lá trabalhavam eram abafadas pela neve e todos os carros parados na rua estavam cobertos de um branco espesso que lhes arredondava os contornos.

Segui o olhar de Marino por cima do telhado da casa de Miss Deighton. A alguns quarteirões de distância, a igreja recortava-se contra o céu cinza-pérola, a torre com o estranho formato de um chapéu de bruxa. Os arcos da arcada fitavam-nos com olhos tristes, vazios, quando de súbito a luz se acendeu. Preencheu espaços e superfícies pintadas de um ocre luminoso, a arcada um rosto sério mas afável flutuando na noite.

Lancei um breve olhar à casa dos Clary e vi as cortinas da cozinha

a mexer.

— Gaita, vou mas é dar o fora — resmungou Marino atravessando a rua.

— Quer que avise o Neils acerca do carro dela? — gritei-lhe.

— Sim — gritou ele também. — Está bem.

Quando cheguei a casa, tinha as luzes acesas e um cheirinho bom a sair da cozinha. Lareira acesa e, diante dela, dois lugares postos na mesinha baixa. Deixando o estojo em cima do sofá, olhei em redor de ouvido à escuta. Do escritório, do lado de lá do vestíbulo, vinha o ruído débil, rápido, de bater de teclas.

— Lucy — chamei, descalçando as luvas e desabotoando o casaco.

— Estou aqui. — Mais bater de teclas.

— Que andaste a fazer na cozinha?

— O jantar.

Dirigi-me para o escritório onde fui dar com a minha sobrinha sentada à secretária de olhos postos no monitor. Fiquei atónita quando reparei no prompt“. Ela estava no UNIX. Conseguira ligar-se ao computador do meu serviço.

— Como é que conseguiste? — perguntei. — Não te disse o número de acesso, o meu nome de utilizador, a senha, nada.

— Nem precisavas de dizer. Encontrei o ficheiro que me disse qual era o comando bat. Além disso, tens aqui alguns programas com o teu nome de utilizador e a senha codificados por isso não há restrições no acesso. Um bom atalho mas arriscado. O teu nome de utilizador é Marley e a senha é cérebro.

— És um perigo — comentei, puxando uma cadeira.

— Quem é o Marley? — Perguntou ela continuando a escrever.

— Tínhamos lugares certos na faculdade de Medicina. O Marley Scates sentou-se ao meu lado nas aulas de laboratório durante dois anos. É neurocirurgião, algures.

— Estavas apaixonada por ele?

— Nunca namorámos.

— Ele estava apaixonado por ti?

— Fazes perguntas de mais, Lucy. Não podes perguntar tudo o que te apetece às pessoas.

— Posso, sim. Não são obrigadas a responder.

— Parece mal.

— Acho que já descobri como é que entraram no teu directório, tia Kay. Lembras-te do que eu te disse sobre os utilizadores que vêm com o softwaret

— Sim.

— Há um chamado “demo” com acesso ao directório raiz mas sem senha atribuída. Palpita-me que foi isso que alguém usou e vou mostrar-te o que deve ter acontecido. — Os seus dedos voavam pelo teclado, sem parar, enquanto falava. — O que vou fazer agora é aceder ao menu do administrador do sistema para ver o registo de entradas. Vamos procurar um determinado utilizador. Neste caso, na raiz. Agora fazemos “g” para ir e bum. Lá está. — Passou o dedo por uma linha que surgiu no ecrã.

“No dia dezasseis de Dezembro, às 17.06, alguém abriu uma sessão a partir de um dispositivo chamado t-t-y-catorze. Essa pessoa tinha acesso ao directório raiz e vamos partir do princípio que é a pessoa que entrou no teu directório. Não sei o que ele esteve a ver mas, vinte minutos depois, às 17.26, tentou enviar a mensagem “Não consigo encontrá-lo” para o t-t-y-zero-sete e, inadvertidamente, criou um ficheiro. Encerrou às 17.32, o que dá uma sessão de vinte e seis minutos. Já agora, não me parece que tenha imprimido alguma coisa. Dei uma olhadela ao spooler log da impressora, que nos mostra quais os ficheiros impressos. Não vi nada que me chamasse a atenção.

— Vamos lá ver se eu percebi. Alguém tentou enviar um recado do t-t-y-catorze para o t-t-y-zero-sete — disse-lhe.

— Sim. E já confirmei. São ambos terminais.

— Como é que podemos saber em que secção é que esses terminais estão instalados? — perguntei.

— Admira-me que não haja aqui algures uma lista, mas ainda não a encontrei. Em último caso, pode-se ir ver nos cabos que ligam os terminais. Normalmente, têm uma etiqueta. E se estás interessada na minha opinião pessoal, não creio que o espião seja a tua analista de sistemas. Em primeiro lugar, ela sabe o teu nome de utilizador e a senha e não precisava de abrir a sessão com o “demo”. Além disso, pressupondo que o mini está no gabinete dela, também deduzo que utilize o terminal do sistema.

— Utiliza.

— A identificação do vosso terminal do sistema é t-t-y-b.

— Boa.

— Outra maneira de descobrir quem é que fez isto é entrar à socapa num gabinete qualquer quando não estiver lá ninguém mas a sessão estiver aberta. É só entrar no UNIX e escrever “quem sou eu” que o sistema diz-nos.

Empurrou a cadeira para trás e levantou-se.

— Espero que estejas com fome. Temos peitos de frango e uma salada fria de arroz selvagem feita com caju, pimentos e óleo de sésamo. E há pão. O teu grelhador funciona?

— Já passa das onze e está a nevar lá fora.

— Não estava a propor que comêssemos lá fora. Gostava era de assar o frango no grelhador.

— Onde é que aprendeste a cozinhar? Já nos dirigíamos para a cozinha.

— Com a minha mãe é que não foi. Por que achas tu que eu era uma miúda tão gorducha? Por comer as porcarias que ela comprava.

Sanduíches, refrigerantes e pizzas que sabiam a cartolina. Tenho células adiposas que vão cá ficar para o resto da vida por causa da minha mãe. Nunca lhe hei-de perdoar.

— Temos de falar sobre o que se passou hoje à tarde, Lucy. Se não tivesses chegado a casa entretanto a Polícia tinha ido à tua procura.

— Fiz ginástica durante uma hora e meia e depois tomei um duche.

— Só voltaste passado quatro horas e meia.

— Tinha que comprar umas mercearias e mais umas coisas.

— Por que não atendeste o telefone do carro?

— Calculei que fosse alguém a querer falar contigo. Além do mais, nunca usei um telefone de carro. Eu já não tenho doze anos, tia Kay.

— Eu sei, mas não vives cá e nunca tinhas guiado aqui. Fiquei preocupada.

— Desculpa — disse ela.

Jantámos ao pé da lareira, sentadas no chão à volta da mesinha baixa. Eu apagara alguns dos candeeiros. As chamas saltitavam e as sombras dançavam como se festejando um momento mágico nas nossas vidas.

— Que queres para o Natal? — perguntei-lhe, levando a mão ao copo de vinho.

— Lições de tiro — respondeu ela.

 

Lucy ficou acordada até muito tarde, a trabalhar no computador, e não a senti levantada quando acordei com o despertador na segunda-feira de manhãzinha. Abrindo as cortinas do meu quarto, olhei para os flocos de pó que rodopiavam à luz dos candeeiros do quintal. A neve formava uma camada alta e, no meu bairro, nada mexia. Depois de um café e uma rápida vista de olhos pelo jornal, vesti-me e já estava quase na porta quando dei meia volta. Está bem que Lucy já não tinha doze anos mas não podia sair de casa sem lhe ir dar uma espreitadela.

Entrando silenciosamente no quarto, encontrei-a a dormir virada de lado numa trouxa de lençóis, o édredon meio caído para o chão. Enterneceu-me vê-la com um fato de treino que tirara de uma das minhas gavetas. Eu nunca desejara ver outra pessoa a dormir com algo meu vestido e endireitei-lhe a roupa com cuidado para não a acordar.

O trajecto até à baixa foi horrível e invejei os trabalhadores cujos escritórios estavam fechados por causa da neve. Nós, aos quais não fora concedida uma folga inesperada, lá nos arrastávamos lentamente pela auto-estrada, derrapando ao mais leve toque de travões, a olhar por pára-brisas raiados que as escovas não conseguiam limpar. Interroguei-me como iria explicar a Margaret que a minha sobrinha adolescente achava que o nosso sistema não era seguro. Quem teria entrado no meu directório e por que é que Jennifer Deighton andara a telefonar para o meu número desligando sempre?

Só cheguei ao serviço às oito e meia e quando entrei na morgue, parei, incrédula, a meio do corredor. Arrumada obliquamente junto à porta de aço inoxidável do frigorífico, estava uma maca com um corpo coberto por um lençol. Pegando na etiqueta presa ao dedo do pé, li o nome de Jennifer Deighton e olhei em redor. Não havia ninguém na recepção nem na sala de raios X. Abri a porta da sala de autópsias e deparei com Susan, em fato de trabalho, a marcar um número no telefone. Desligou rapidamente e saudou-me com um nervoso “Bom-dia.”

— Ainda bem que conseguiu cá chegar — comentei desabotoando o casaco e fitando-a com curiosidade.

— O Ben deu-me boleia — disse ela referindo-se ao meu administrador que tinha um jipe com tracção às quatro rodas. — Por enquanto só cá estamos nós.

— Não há sinais do Fielding?

— Telefonou há minutos a dizer que não conseguia sair com o carro. Disse-lhe que para já só temos um caso mas se houver mais o Ben pode ir lá buscá-lo.

— Sabia que o nosso caso está estacionado no corredor? Ficou atrapalhada, um rubor a subir-lhe às faces:

— Ia levá-la para o raios X quando o telefone tocou. Peço desculpa.

— Já a pesou e mediu?

— Não.

— Vamos fazer isso primeiro.

Saiu rapidamente da sala de autópsias sem me dar tempo a dizer mais nada. As secretárias e cientistas que trabalhavam nos laboratórios do primeiro andar muitas vezes entravam e saíam do edifício pela morgue porque ficava mais perto do estacionamento. Os funcionários da manutenção também o faziam. Deixar um corpo abandonado no meio de um corredor era uma grande negligência e até podia prejudicar o processo caso fosse questionada, em tribunal, a segurança do manuseamento de provas.

Susan voltou, empurrando a maca, e começámos a trabalhar, nauseabundo o cheiro de carne em decomposição. Tirei um par de luvas e um avental plástico de uma prateleira e prendi diversos formulários a uma prancheta. Susan estava calada e tensa. Quando estendeu o braço para o painel de controlo, ligando a balança de chão computorizada, reparei que as mãos lhe tremiam. Talvez estivesse com enjoos matinais.

— Sente-se bem? — perguntei-lhe.

— Só um bocadinho cansada.

— De certeza?

— Absoluta. Ela pesa exactamente oitenta e dois quilos.

Vesti o fato de trabalho e, com a ajuda de Susan, levei o corpo para a sala de raios X do outro lado do corredor, transferindo-o da maca para a marquesa. Abrindo o lençol, coloquei um tijolo sob o pescoço para evitar que a cabeça abanasse. A pele na zona da garganta estava limpa, poupada à fuligem e às queimaduras porque o queixo ficara encostado ao peito enquanto ela esteve dentro do carro com o motor ligado. Não tinha ferimentos visíveis, equimoses ou unhas partidas. O nariz não estava fracturado. Não tinha cortes na parte interna dos lábios e não mordera a língua.

Susan tirou radiografias e introduziu-as no processador enquanto eu analisava a parte da frente do corpo com uma lupa. Recolhi algumas fibras esbranquiçadas que mal se viam, muito provavelmente do lençol ou da roupa da cama, e encontrei outras semelhantes às das solas das peúgas. Não usava jóias e estava nua debaixo da camisa de noite. Lembrei-me da cama revolta, as almofadas encostadas à cabeceira e do copo de água em cima da mesa. Na noite da sua morte, pusera rolos no cabelo, despira-se e, a certa altura, talvez tivesse estado a ler na cama.

Susan saiu da sala de revelação e encostou-se à parede, pressionando os rins com as mãos.

— Qual é a história desta mulher? — perguntou. — Era casada?

— Parece que vivia sozinha.

— Trabalhava?

— Tinha um negócio montado em casa. — Algo me chamou a atenção.

— Que tipo de negócio?

— Possivelmente leitura da sina. — A pena era muito pequena e estava coberta de fuligem, agarrada à camisa de noite de Jennifer Deighton na zona da anca esquerda. Pegando num saco plástico mais pequeno, tentei recordar-me se vira penas em casa dela. Talvez no enchimento das almofadas da cama.

— Encontrou alguma prova de que andasse metida no ocultismo?

— Parece que alguns dos vizinhos achavam que ela era bruxa — respondi.

— Com base em quê?

— Há uma igreja perto da casa dela. Segundo dizem, as luzes da torre começaram a falhar depois de ela se ter mudado para lá, há uns meses.

— Está a brincar.

— Eu mesma as vi acenderem-se quando me vinha embora. A torre estava às escuras. Então, de repente, iluminou-se.

— Esquisito.

— Foi mesmo.

— Talvez tenha um temporizador.

— É pouco provável. Luzes que passam a noite a acender e a apagar não armazenam energia. Se é mesmo verdade que passam a noite a acender e a apagar. Eu só vi acontecer uma vez.

Susan não disse nada.

— Se calhar tem algum curto-circuito. — Aliás, pensei enquanto continuava a trabalhar, ia era telefonar para a igreja. Talvez não soubessem do problema.

— Alguma coisa estranha dentro de casa?

— Cristais. Alguns livros fora do vulgar. Silêncio.

Depois Susan comentou:

— Pena não me ter dito antes.

— Desculpe? — E ergui os olhos. Nervosa, não tirava os olhos do cadáver. Muito pálida.

— De certeza que se está a sentir bem? — perguntei-lhe.

— Não gosto deste tipo de coisas.

— Que coisas?

— Quando alguém tem sida ou coisa assim. Eu devia ser informada, antes. Principalmente agora.

— É pouco provável que esta mulher tenha sida ou...

— Deviam ter-me dito. Antes de eu tocar nela.

— Susan...

— Tive uma colega na escola que era bruxa.

Parei o que estava a fazer. Susan estava hirta, encostada à parede, as mãos a apertar a barriga.

— Chamava-se Doreen. Pertencia a um conventículo e, no último ano, rogou uma praga à minha irmã gémea, Judy. A Judy morreu num desastre de carro duas semanas antes do último exame.

Pasmada, olhei para ela.

— Sabe como estas coisas do ocultismo me apavoram! Como aquela língua de vaca com agulhas espetadas que a Polícia para cá trouxe há uns meses. Aquela que vinha embrulhada numa lista de nomes de pessoas mortas. Que foi deixada em cima de uma campa.

— Era uma brincadeira — recordei-lhe, calmamente. — A língua veio de uma mercearia e os nomes não tinham nenhum significado, tinham sido copiados de lápides do cemitério.

— Não devemos meter-nos com os satânicos, seja a brincar ou não. A voz tremeu-lhe. — Eu levo o Mal tão a sério como Deus.

Susan era filha de um pastor e há muito que abandonara a religião. Eu só a ouvira aludir a Satanás, ou referir-se a Deus, quando praguejava. Nunca a imaginara minimamente supersticiosa, ou apavorada, com alguma coisa. Estava quase a chorar.

— Vamos fazer o seguinte — disse-lhe, baixinho. — Como pelos vistos hoje vou ter falta de pessoal, se atender os telefones lá em cima eu trato das coisas cá em baixo.

Os seus olhos encheram-se de lágrimas e fui de imediato para junto

dela.

— Pronto. — Passando-lhe um braço pelos ombros, encaminhei-a para a porta. — Vá lá — disse-lhe, carinhosamente, quando ela se encostou a mim a chorar. — Quer que o Ben a leve a casa?

Fez que sim com a cabeça, murmurando:

— Desculpe. Desculpe.

— Precisa é de descansar um bocadinho. — Sentei-a numa cadeira dentro da secretaria da morgue e peguei no telefone.

Jennifer Deighton não inalou monóxido de carbono nem fuligem porque quando foi posta dentro do carro já não respirava. A sua morte era um caso de homicídio, dos bem óbvios, e ao longo da tarde fui deixando, impaciente, mensagens para que Marino me telefonasse. Tentei várias vezes saber de Susan mas o telefone dela tocava e ninguém atendia.

— Estou preocupada — disse, a Ben Stevens. — A Susan não atende o telefone. Quando a levou a casa, ela disse-lhe se tencionava ir a algum lado?

— Disse-me que ia deitar-se.

Estava sentado à secretária a analisar resmas de listagens de computador. Música rock a tocar baixinho no rádio colocado numa estante, ia bebendo água mineral com sabor a tangerina. Stevens era novo, esperto, de uma beleza ainda juvenil. Trabalhava muito e, pelo que me tinham dito, também frequentava muito os bares de solteiros. Eu tinha a certeza que o emprego como meu administrador viria a ser um curto trampolim para algum cargo melhor.

— Talvez tenha desligado o telefone para poder dormir — aventou ele, ligando a calculadora.

— Se calhar foi isso.

Ele já estava entretido com uma actualização dos nossos desastres orçamentais.

Ao fim da tarde, quando começava a anoitecer, Stevens ligou para a minha extensão.

— A Susan telefonou. A dizer que amanhã não vem trabalhar. E tenho um tal John Deighton em linha. Diz que é irmão de Jennifer Deighton.

Stevens transferiu a chamada.

— Está lá? Disseram-me que a senhora fez a autópsia da minha irmã — tartamudeou uma voz de homem. — Hmm, a Jennifer Deighton é minha irmã.

— O seu nome, por favor?

— John Deighton. Vivo em Columbia, Carolina do Sul.

Ergui os olhos quando Marino apareceu à porta do meu gabinete e fiz-lhe sinal para se sentar.

— Disseram-me que ela ligou uma mangueira ao carro e que se matou.

— Quem é que lhe disse isso? — inquiri. — E não se importa de falar mais alto, se faz favor?

Hesitou.

— Não me lembro do nome, devia ter apontado mas fiquei tão chocado.

O homem não parecia chocado. A voz tão abafada que eu mal conseguia ouvir o que ele estava a dizer.

— Peço muita desculpa, Mr. Deighton — disse-lhe —, mas terá de pedir qualquer informação respeitante à morte dela por escrito. Vou precisar também, juntamente com o seu pedido por escrito, de algum comprovativo do seu parentesco.

Ele não disse nada.

— Está? — perguntei. — Está? Respondeu-me um sinal de linha.

— Coisa estranha — comentei, com Marino. — Sabe da existência de algum John Deighton que afirma ser irmão de Jennifer Deighton?

— Era ele? Bolas, andamos a tentar apanhá-lo.

— Ele disse que já o informaram da morte dela.

— Sabe de onde é que ele estava a ligar?

— De Columbia, Carolina do Sul, creio eu. Desligou-me o telefone*

Marino não pareceu interessado.

— Venho agora do gabinete do Vander — disse, referindo-se Vander, o analista-chefe de impressões digitais. — Inspeccionou o carro de Jennifer Deighton, mais os livros que estavam ao lado da cama e um poema metido dentro de um deles. Quanto à folha em branco que estava em cima da cama, ainda não lhe pegou.

— Alguma coisa, até ver?

— Descobriu algumas. Vai analisá-las ao computador, se houver necessidade. Provavelmente, a maior parte das impressões é dela. Tome. .— Pousou um pequeno cartucho de papel na minha secretária. — Boa leitura.

— Acho que vai querer essas impressões analisadas o mais depressa possível — disse-lhe eu, com ar sisudo.

Uma névoa passou pelos olhos de Marino. Massajou as fontes.

— Jennifer Deighton não se suicidou — informei-o. — A taxa de CO2 não chegava aos 7%. Não tinha fuligem nas vias respiratórias. A coloração rosa-forte da pele deveu-se à exposição ao frio, não a intoxicação por CO.

— Caraças — disse ele.

Vasculhando a papelada que tinha à minha frente, entreguei-lhe um diagrama anatómico, depois abri um envelope e tirei de lá os instantâneos tirados ao pescoço de Jennifer Deighton.

— Como pode ver — prossegui — não há ferimentos externos.

— E quanto ao sangue no banco do carro?

— Um artefacto postmortem devido à purgação. O corpo estava a começar a decompor-se. Não encontrei escoriações, contusões nem nódoas negras de dedadas. Mas aqui, — mostrei-lhe uma foto do pescoço tirada durante a autópsia — tem hemorragias irregulares nos músculos esternocleidomastoideos, bilateralmente. Também tem uma fractura do corno direito do hióide. A sua morte foi causada por asfixia, devido a pressão feita no pescoço...

Marino interrompeu-me, erguendo a voz:

— Quer dizer que ela foi garroteada? Mostrei-lhe outra foto:

— Também teve algumas petéquias faciais, ou seja, pequeninas hemorragias. O que se enquadra, sim, numa asfixia desse tipo. Trata-se de um homicídio e acho melhor isso não ir parar por enquanto aos jornais.

— Não me faltava mais nada. — Fitou-me, erguendo para mim uns olhos congestionados. — Neste momento tenho à minha espera, em cima da secretária, oito homicídios por resolver. Henrico não descobriu nada sobre o Eddie Heath e o pai do miúdo telefona-me quase todos os dias. Isto sem falar da maldita da guerra da droga que está a haver em Mosby Court. Feliz Natal, o caraças. Não me faltava mais nada.

— A Jennifer Deighton também não, Marino.

— Continue. Que mais é que descobriu?

— Ela tinha mesmo a tensão alta, como nos disse a vizinha, Mrs. Clary.

— Hmmm — fez ele desviando o olhar. — Como é que se sabe?

— Tinha uma hipertrofia ventricular esquerda, ou seja, endurecimento do lado esquerdo do coração.

— A tensão alta faz isso?

— Faz. Devo encontrar alterações fibrinóides na microvasculatura renal ou nefrosclerose precoce. Calculo que o cérebro revele também alterações hipertensivas nas arteríolas cerebrais, mas não posso afirmá-lo com certeza enquanto não o observar ao microscópio.

— Quer dizer que as células dos rins e do cérebro vão sendo mortas quando se sofre de tensão alta?

— Por assim dizer.

— Mais alguma coisa?

— Nada de significativo.

— E quanto ao conteúdo gástrico? — perguntou Marino.

— Carne e legumes parcialmente digeridos.

— Álcool ou drogas?

— Álcool, não. Os testes às drogas estão a ser feitos.

— Nenhum indício de violação?

— Não há ferimentos ou quaisquer outras provas de estupro. Fiz um esfregaço para líquido seminal mas só vou ter os relatórios daqui a uns tempos. E mesmo nessa altura nunca se sabe ao certo.

O rosto de Marino estava inexcrutável.

— De que anda à procura? — acabei por perguntar-lhe.

— Bom, estou a pensar na forma como isto foi encenado. Alguém que se deu a uma data de trabalho para nos fazer crer que ela se tinha gaseado. Mas afinal a mulher já estava morta antes de ele a meter no carro. O que eu acho é que ele não tencionava matá-la dentro de casa.

Quer dizer, aplica-lhe a canga, faz força demais e ela morre. Portanto, talvez não soubesse que ela era doente e foi isso que aconteceu. Comecei a abanar a cabeça.

— A tensão alta não tem nada a ver.

Então explique-me como é que ela morreu.

Supondo que o agressor é destro, passou-lhe o braço esquerdo

pela frente do pescoço e usou a mão direita para puxar o pulso esquerdo para a direita. — Exemplifiquei. — Isso exerceu uma pressão excêntrica no pescoço, resultando na fractura do corno maior direito do osso hióide. A força fechou-lhe as vias aéreas superiores e exerceu pressão sobre as artérias carótidas. Ela deve ter ficado hipóxica, isto é, com falta de ar. Por vezes, a pressão exercida no pescoço provoca bradicardia, uma quebra no ritmo cardíaco, e a vítima sofre uma arritmia.

— Pode dizer, pela autópsia, se o agressor a prendeu com o braço acabando por garroteá-la? Por outras palavras, se estava apenas a tentar agarrá-la e exagerou na força?

— Com base no exame médico, não posso dizer-lhe que sim.

— Mas é possível.

— É uma das possibilidades.

— Vá lá, doutora — retorquiu Marino, exasperado. — Desça por um minuto do banco das testemunhas, está bem? Está mais alguma pessoa aqui dentro, além de nós dois?

Não. Mas eu estava enervada. A maior parte do meu pessoal não se apresentara hoje ao trabalho e Susan comportara-se de uma forma estranha. Jennifer Deighton, uma estranha, pelos vistos tentara telefonar-me, depois foi assassinada, e um sujeito que se dizia irmão dela acabara de me desligar o telefone na cara. Já para não falar do péssimo humor de Marino. Quando sentia que estava a perder o controlo, tornava-me muito analítica.

— Ouça — disse-lhe —, é muito provável que ele a tenha prendido com o braço, para a dominar, e acabado por exercer demasiada força estrangulando-a sem querer. Aliás, ainda vou mais longe supondo que ele tenha achado que ela estava só desmaiada e não soubesse que estava morta quando a pôs dentro do carro.

— Então trata-se de um idiota.

— Se fosse a si não tirava essa conclusão. Mas se ele amanhã de manhã acorda e lê no jornal que Jennifer Deighton foi assassinada, é capaz de ter a maior surpresa da sua vida. Vai-se pôr a pensar o que é que fez de errado. É por isso que aconselho que não se diga nada à imprensa.

— Quanto a isso não há problema. A propósito, lá por não conhecer a Jennifer Deighton não significa que ela não a conhecesse a si.

Esperei que me elucidasse.

— Tenho andado a pensar nos desliganços. A doutora aparece na televisão, vem nos jornais. Talvez ela soubesse que andava alguém atrás dela, não soubesse a quem recorrer e tenha resolvido pedir-lhe ajuda a si. Quando foi a máquina que atendeu, ficou tão assustada que não deixou mensagem.

— É uma ideia muito deprimente.

— Quase tudo aquilo em que pensamos dentro desta chafarica é deprimente. — E levantou-se da cadeira.

— Faça-me um favor — pedi-lhe. — Vá dar uma vista de olhos à casa dela. Se encontrar almofadas de penas, blusões acolchoados, espanadores, qualquer coisa relacionada com penas, diga-me.

— Porquê?

— Encontrei uma pena pequenina na camisa dela.

— Com certeza. Eu aviso. Vai-se já embora?

Olhei para trás dele quando ouvi as portas do elevador a abrir e fechar.

— Era o Stevens? — perguntei.

— Era.

— Tenho de despachar mais umas coisas antes de ir para casa — disse-lhe.

Depois de Marino entrar no elevador, cheguei-me a uma janela ao fundo do corredor que dava para o parque de estacionamento das traseiras. Queria certificar-me de que o jipe de Ben Stevens já não estava lá. Não estava e depois vi Marino sair do edifício escolhendo o caminho pelo meio da neve moída e iluminada pelos candeeiros de rua. No seu andar pesado dirigiu-se para o carro e, antes de se sentar ao volante, parou para sacudir vigorosamente a neve de cima dos pés como um gato que tivesse entrado na água. Deus nos livre de alguma coisa ir conspurcar o ar puro e desodorizado dos seus domínios. Interroguei-me se teria planos para o Natal e fiquei aborrecida por não me ter lembrado de o convidar para ir almoçar lá a casa. Era o seu primeiro Natal desde que se divorciara de Doris.

Ao regressar pelo corredor deserto, espreitei para dentro de cada um dos gabinetes a ver os terminais de computador. Infelizmente, nenhum deles estava activo e o único cabo etiquetado com um número de dispositivo era o de Fielding. Não era nem tty07 nem tty!4. Irritada, abri a porta do gabinete de Margaret e acendi a luz.

Como sempre, parecia que por lá passara um vendaval espalhando os papéis em cima da secretária, derrubando livros na estante e atirando com outros para o chão. Resmas de printouts em papel contínuo amontoavam-se como um acordeão e, colados às paredes e aos monitores, apontamentos indecifráveis e números de telefone. O minicomputador zumbia como um insecto electrónico e lâmpadas piscavam numa bateria de modems colocados numa prateleira. Sentando-me na cadeira dela à frente do terminal do sistema, abri uma gaveta à minha direita e comecei a folhear rapidamente as pastas. Encontrei algumas com etiquetas prometedoras como “utilizadores” e “rede”, mas nada do que bisbilhotei me disse o que eu precisava de saber. Olhando em redor, enquanto pensava, reparei num volumoso feixe de cabos que seguiam junto à parede por detrás do computador e desapareciam pelo tecto. Todos etiquetados.

Tanto o tty07 como o tty!4 estavam ligados directamente ao computador. Arrancando primeiro o cabo do tty07, corri de terminal em terminal a ver qual deles se desligara. O terminal no gabinete de Ben Stevens foi-se abaixo e depois voltou a funcionar quando tornei a ligar o cabo. Depois preparei-me para localizar o tty!4 e fiquei perplexa quando o desligar desse cabo não produziu nenhum efeito. Os terminais nas secretárias dos meus funcionários continuaram a trabalhar sem interrupção. Depois lembrei-me de Susan. O gabinete dela era lá em baixo, na morgue.

Abrindo a porta, reparei em dois pormenores mal entrei no seu gabinete. Não se via nenhum objecto pessoal, como retratos e bibelots, e numa estante sobranceira à secretária havia uma data de manuais do UNIX, da SQL e do WordPerfect. Tinha uma vaga ideia de que Susan se matriculara em vários cursos de informática na última Primavera. Ligando o monitor, tentei abrir uma sessão e fiquei espantada quando o sistema respondeu. O terminal dela ainda estava ligado; não podia ser o tty!4. E depois apercebi-me de uma coisa tão óbvia que me faria rir se não tivesse ficado horrorizada.

De volta ao primeiro andar, parei à entrada do meu gabinete a olhar lá para dentro como se ali trabalhasse alguém que eu não conhecesse. Espalhados à volta do terminal em cima da minha secretária, estavam relatórios laboratoriais, recados telefónicos, certidões de óbito e as provas de um compêndio de patologia forense que eu andava a rever, e o módulo de gavetas sobre o qual se encontrava o microscópio também não tinha um aspecto lá muito melhor. Encostados à parede, três arquivadores altos e, no lado oposto, um sofá suficientemente perto das estantes para com facilidade se chegar aos livros das prateleiras inferiores. Mesmo por detrás da minha cadeira, havia uma credencia de madeira de carvalho que eu desencantara há uns anos no armazém de excedentes da função pública. As gavetas tinham chave fazendo delas o perfeito repositório para a minha pasta e processos em curso que eram, por norma, confidenciais. Guardava a chave por baixo do telefone e tornei a pensar na sexta-feira passada em que Susan partira os frascos de formalina enquanto eu fazia a autópsia de Eddie Heath.

Eu não sabia o número de dispositivo do meu terminal pois nunca fora importante sabê-lo. Sentando-me à secretária e puxando para fora a gaveta do teclado, tentei abrir uma sessão mas as minhas batidas nas teclas foram ignoradas. Ao desligar o tty!4, desligara-me a mim mesma.

— Raios — murmurei sentindo-me gelar. — Raios!

Eu não enviara nenhum recado para o terminal do meu administrador. Não fora eu quem escrevera “Não consigo encontrá-lo”. Aliás, quando o ficheiro foi acidentalmente criado, na quinta-feira passada, ao fim da tarde, eu estava na morgue. Mas Susan não. Eu dera-lhe as chaves e dissera-lhe para vir deitar-se no sofá do meu gabinete até se recompor do derrame de formalina. Seria possível que ela não só tivesse entrado no meu directório como também tivesse andado a ver os meus ficheiros e a papelada que eu tinha em cima da secretária? Tentara enviar um recado a Ben Stevens porque não conseguia encontrar aquilo que lhes interessava?

Um dos técnicos da Perícia, do andar de cima, apareceu subitamente à minha porta, assustando-me.

— Viva — cumprimentou, olhando por entre a papelada, a bata do laboratório abotoada até ao queixo. Separando um relatório de várias páginas, aproximou-se e entregou-mo. — Ia deixá-lo na sua caixa — disse — mas já que aqui está, entrego-lho pessoalmente. Acabei de analisar o resíduo adesivo que recolheu dos pulsos de Eddie Heath.

— Materiais de construção? — perguntei, dando uma vista de olhos à primeira página do relatório.

— Exactamente. Tinta, estuque, madeira, cimento, amianto, vidro, formalmente, encontramos esta espécie de detritos em casos de assalto a residências, muitas vezes na roupa dos suspeitos, nos punhos das camisas, bolsos, sapatos, etc.

E quanto às roupas de Eddie Heath?

Foi encontrado um pouco do mesmo detrito.

— E as tintas? Fale-me delas.

— Encontrei pedaços de tinta de cinco origens diferentes. Três estratificadas significando que alguma coisa foi pintada e repintada uma data de vezes.

— As origens são veiculares ou construção civil? — inquiri.

— Apenas uma é veicular, uma laca acrílica aplicada geralmente como última demão em automóveis fabricados pela General Motors.

Podia ser do carro utilizado para sequestrar Eddie Heath, pensei. Ou de outro lado qualquer.

— De que cor? — perguntei.

— Azul.

— Estratificada?

— Não.

— E o material recolhido no local onde o corpo foi encontrado? Pedi ao Marino que vos mandasse amostras do que foi varrido e ele disse que ia fazer isso.

— Areia, terra, bocados de material de pavimentação, mais a miscelânea de detritos que se costuma encontrar à volta de um contentor. Vidro, papel, cinza, pólen, ferrugem, matéria vegetal.

— Tudo diferente do que encontrou agarrado ao resíduo nos pulsos dele?

— Sim. Pareceu-me que a fita foi colocada e removida dos pulsos num local onde há restos de materiais de construção e aves.

— Aves?

— Na terceira página do relatório — disse ele. — Encontrei muitos bocados de penas.

Lucy estava impaciente e bastante irritada quando cheguei a casa. óbvio que não tivera com que se ocupar durante o dia pois encarregara-se de mudar a disposição do meu escritório. A impressora a laser estava noutro sítio, tal como o modem e todos os meus manuais de informática.

— Por que é que fizeste isto? — perguntei-lhe.

Estava sentada à minha secretária, de costas para mim, e respondeu sem se virar para trás nem reduzir a velocidade dos dedos no teclado:

— Dá muito mais jeito assim.

— Lucy, não podes entrar no escritório de outra pessoa e mudar o sítio às coisas. Como é que ficavas se eu te fizesse isso a ti?

— Não haveria motivo para mudar nada do que é meu. Está tudo arrumado de uma forma muito prática. — Parou de escrever e rodou a cadeira. — Vês, agora consegues chegar à impressora sem te levantares da cadeira. Os livros estão aqui, mesmo à mão, e o modem não atrapalha absolutamente nada. Não se deve pôr livros, canecas de café e coisas assim em cima de um modem.

— Passaste aqui o dia todo? — perguntei-lhe.

— E onde é que havia de ir? Tu levaste o carro. Fui correr, aqui pelo bairro. Já experimentaste correr na neve?

Puxando uma cadeira, abri a pasta e tirei de lá o cartucho de papel que Marino me dera.

— Queres dizer que precisas de um carro.

— Até parece que estou de castigo.

— Onde é que gostavas de ir?

— Ao teu clube. Não conheço mais nada. Só para poder sair, se me apetecesse. O que é que está dentro do cartucho?

— Livros e um poema que o Marino me deu.

— Desde quando é que ele pertence ao grupo dos intelectuais? — Pôs-se de pé e espreguiçou-se. — Vou fazer um chá de ervas. Queres?

— Café, por favor.

— Faz-te mal — redarguiu, ao sair.

— Oh, que chatice — resmunguei, irritada, quando, ao tirar os livros e o poema do cartucho, me saltou para as mãos e para a roupa um pó vermelho fluorescente.

Neils Vander fizera, o habitual exame completo e eu esquecera-me da sua paixão pelo novo brinquedo. Há uns meses, adquirira uma fonte de luz alternativa e mandara o laser para a sucata. A Luma-Lite, com a sua “lâmpada de arco de alta intensidade de vapor metálico com realce de azuis de trezentos e cinquenta watts da mais avançada tecnologia” como Vander carinhosamente a definia sempre que o tema vinha à baila, transformava num berrante cor-de-laranja cabelos e fibras praticamente invisíveis. Manchas de sémen e resíduos de drogas de rua saltavam como erupções solares e, o melhor de tudo, a luz conseguia mostrar impressões digitais que, no passado, nunca seriam vistas.

Vander esmerara-se nos livros de Jennifer Deighton. Tinham sido colocados na tina e expostos aos vapores da Super Cola, o éster cianoacrilato que reage com os compostos da transpiração transferida da pele humana. Em seguida, Vander polvilhara as lustrosas capas dos livros com o pó vermelho fluorescente que agora me saltara para cima. por fim, submetera os livros à fria análise azul da Luma-Lite e arroxeara as páginas com Ninhydrin. Só esperava que ele fosse recompensado por todo aquele trabalho. A minha recompensa era ir à casa de banho limpar-me com uma toalha húmida.

A rápida leitura de Paris Trout foi pouco esclarecedora. O romance contava a história do cruel homicídio de uma jovem negra e se tinha algum significado para a história da própria Jennifer Deighton eu não estava a ver qual era. Seth Speaks era um relato assustador de alguém supostamente de outra vida a comunicar com o autor. Não me surpreendeu nada que Miss Deighton, com a sua queda para o ocultismo, lesse uma coisa daquelas. O que mais interesse me despertou foi o poema.

Estava escrito à máquina numa folha de papel branco manchada de roxo por causa do Ninhydrin e metida num saco plástico:

 

JENNY

Os muitos beijos de Jenny

aqueceram o cobre do penny

pendurado ao pescoço

com fio de algodão. Foi na Primavera

que ele a encontrou

no caminho poeirento

ao lado da campina

e lho ofertou. Não trocaram palavras

de amor.

Ele amou-a

com um penhor. A campina está seca agora

e coberta de silvas.

Ele foi-se embora. A moeda adormecida

está fria !,

esquecida

na fonte dos desejos de um bosque.

 

Sem data e sem assinatura. O papel tinha vincos de ter sido dobrado em quatro. Levantei-me e fui para a sala onde Lucy pusera o café e o chá na mesa e estava a atiçar as chamas.

— Não tens fome? — perguntou-me.

— Por acaso, tenho — respondi, lançando novo olhar ao poema e interrogando-me sobre o seu significado. “Jenny” seria Jennifer Deighton? — Que te apetece comer?

— Por incrível que pareça, apetece-me um bife. Mas só se for bom e as vacas não tiverem sido alimentadas com uma data de químicos — respondeu Lucy. — Não podes trazer um carro do serviço para eu esta semana andar com o teu?

— Normalmente não trago o carro de serviço, a menos que esteja de plantão.

— A noite passada foste a um local do crime quando, supostamente, não estavas de plantão. Estás sempre de plantão, tia Kay.

— Está bem — redargui. — Então é assim: vamos comer o melhor bife da cidade e depois passamos pelo meu serviço, eu trago a carrinha e tu o meu carro. Em certos sítios ainda há um bocadinho de gelo nas estradas. Tens de me prometer que conduzes ainda com mais cuidado.

— Nunca fui ao teu serviço.

— Se quiseres, mostro-to.

— Nem pensar. À noite, não.

— Os mortos não te fazem mal.

— Fazem sim — retorquiu Lucy. — O meu pai fez, quando morreu. Ao deixar-me entregue à minha mãe.

— Vamos buscar os casacos.

— Por que é que sempre que eu falo de alguma coisa relacionada com a nossa família disfuncional tu mudas de assunto? Fui ao meu quarto buscar o casaco.

— Queres que te empreste o blusão de cabedal preto?

— Vês? Lá estás tu — gritou-me ela.

Fomos sempre a discutir até ao Ruth’s Chris Steak House e quando arrumei o carro já ia com uma dor de cabeça e completamente revoltada comigo mesma. Lucy provocara-me ao ponto de eu levantar a voz e a única pessoa, além dela, que por norma conseguia fazer isso era a minha mãe.

— Por que estás a ser tão difícil? — perguntei-lhe, ao ouvido, quando nos dirigíamos para uma mesa.

— Quero falar contigo e tu não me deixas — respondeu ela. Surgiu imediatamente uma empregada a saber o que queríamos tomar.

— Um Dewar’s com soda — pedi eu.

— Água gasificada, com uma casca de limão — pediu Lucy. — Não devias beber se vais conduzir.

— É só um. Mas tens razão. Era melhor não beber nada. E estás outra vez a ser crítica. Como é que queres ter amigos se falas dessa maneira com as pessoas?

— Não quero ter amigos. — E desviou o olhar. — Os outros é que querem que eu tenha amigos. Se calhar não quero ter amigos porque a maior parte das pessoas me chateia.

O desespero pesou-me no peito:

— Acho que tu, mais do que ninguém, queres ter amigos, Lucy.

— Acredito que penses assim e se calhar também pensas que eu devia casar daqui a uns anos.

— Nada disso. Aliás, para ser franca, espero que não o faças.

— Hoje, quando andava a mexer no teu computador, vi o ficheiro chamado “carne”. Por que é que tens um ficheiro com esse nome? — perguntou-me a minha sobrinha.

— Porque estou a meio de um caso muito difícil.

— O miúdo, Eddie Heath? Vi o relatório dele no ficheiro. Foi encontrado sem roupa, ao lado de um contentor. Alguém lhe tinha cortado bocados de pele.

— Não devias ler os relatórios dos casos, Lucy — disse-lhe no exacto momento em que o meupager começou a tocar. Soltei-o do cós da saia e dei uma olhadela ao número.

— Desculpa, é só um minuto — disse levantando-me da mesa quando as nossas bebidas chegaram.

Procurei uma cabine telefónica. Eram quase oito da noite.

— Preciso falar consigo — disse-me Neils Vander, que ainda estava a trabalhar. — Talvez seja melhor dar cá uma saltada e trazer-me as fichas decadactilares’ do Ronnie Waddell.

— Porquê?

— Temos um problema inédito. Vou agora ligar também para o Marino.

— Está bem. Diga-lhe para ir ter comigo à morgue daqui a meia hora. Quando voltei para a mesa, Lucy percebeu logo pela minha cara que

eu me preparava para estragar outro serão.

— Peço muita desculpa — disse-lhe.

— Onde é que vamos?

— Ao meu serviço e depois ao Seaboard Building. — E peguei no porta-notas.

— O que é que há no Seaboard Building?

— Foi para onde se mudaram, recentemente, os laboratórios de serologia, de ADN e impressões digitais. O Marino vai lá ter connosco — respondi. — Há muito tempo que não o vês.

— Os parvalhões como ele não mudam nem melhoram com o tempo.

— Não sejas assim, Lucy. O Marino não é nenhum parvalhão.

— Na última vez que cá estive era.

— Tu também não foste propriamente simpática com ele.

— Não lhe chamei fedelha espertalhona.

— Chamaste-lhe muitos outros nomes, que eu bem me lembro, e estavas sempre a corrigir-lhe a gramática.

Meia hora depois, deixei Lucy na secretaria da morgue e fui num instante lá a cima. Abrindo a credencia com a chave, tirei de lá o dossier de Waddell e mal entrara no elevador quando soou a campainha do cais de descargas. Marino vinha de jeans e com umzparka azul-escura, a cabeça calva aquecida por um boné de baseball dos Braves de Richmond.

— Lembram-se um do outro, não se lembram? — perguntei-lhes. — A Lucy veio passar o Natal comigo e está a ajudar-me a resolver um problema no computador — expliquei quando saíamos já para o ar frio da noite.

O Seaboard Building ficava do outro lado da rua, a seguir ao parque de estacionamento por trás da morgue e diagonalmente oposto à estação da Main Street para onde os serviços administrativos do Departamento de Saúde tinham sido transferidos durante a remoção de amianto no anterior edifício. O relógio na torre da estação flutuava lá no alto como uma lua pascal e as luzes vermelhas no cimo dos prédios altos piscavam vagarosos alertas a aviões voando a baixa altitude. Algures na escuridão, um comboio chocalhou nos carris, a terra balouçando e chiando como um navio no mar.

Marino caminhava à nossa frente, a ponta do cigarro brilhando a intervalos certos. Não queria que Lucy ali estivesse e eu sabia que ela percebera isso. Quando chegámos ao Seaboard Building, onde, por alturas da Guerra Civil, se fizera o carregamento de provisões em carros de bois, toquei a campainha cá fora. Vander apareceu quase de imediato para nos abrir a porta.

Não cumprimentou Marino nem perguntou quem Lucy era. Se alguém da sua confiança viesse acompanhado de um extraterrestre, Vander não faria perguntas nem esperaria que lho apresentassem. Subimos atrás dele até ao primeiro andar onde velhos corredores e gabinetes tinham sido pintados de fresco em tons de cinzento-escuro e remobilados com secretárias e estantes cor de cerejeira e cadeiras forradas num tom azul-esverdeado.

— Em que é que está a trabalhar até tão tarde? — perguntei-lhe quando entrámos na sala que albergava o Sistema Automatizado de Identificação de Impressões Digitais conhecido por AFIS.

— No caso de Jennifer Deighton — respondeu ele.

— Então para que quer as fichas decadactilares do Waddell? — perguntei, intrigada.

— Quero ter a certeza de que foi o Waddell que a senhora autopsiou na semana passada — afirmou Vander, sem rodeios.

— Que raio de conversa é essa? — Perguntou Marino olhando para ele perfeitamente atónito.

— Vou já mostrar-lhes. — Vander sentou-se diante do terminal remoto que parecia um vulgar PC. Estava ligado por modem ao computador da Polícia Estadual no qual havia uma base de dados com mais de seis milhões de impressões digitais. Premiu várias teclas, activando a impressora a laser. — As equiparações perfeitas são poucas e raras mas temos uma aqui. — Vander começou a escrever no teclado e uma impressão digital, de um branco cintilante, encheu o ecrã. — Indicador direito, espiral completa. — Apontou para o vórtice de linhas concêntricas. — Uma parcial muitíssimo boa, recolhida em casa de Jennifer Deighton.

— Onde, em casa dela? — perguntei.

— Numa cadeira da casa de jantar. A princípio, pensei que houvesse algum engano. Mas pelos vistos não há. — Sempre a olhar para o ecrã, Vander continuou a premir teclas enquanto falava. — Pertence a Ronnie Waddell.

— Isso é impossível — afirmei, chocada.

— Também eu pensava — retorquiu Vander, absorto.

— Encontraram alguma coisa em casa de Jennifer Deighton que nos leve a supor que eles se conhecessem? — Perguntei a Marino enquanto abria o dossier de Waddell.

— Não.

— Se me trouxe as impressões do Waddell tiradas na morgue — disse-me Vander —, comparamo-las com as que constam no AFIS.

Tirei dois envelopes de papel pardo e achei logo estranho que não fossem pesados e grossos. Senti um calor nas faces quando, ao abri-los, encontrei as fotos e mais nada. Não havia nenhum envelope contendo as fichas decadactilares de Waddell. Quando ergui os olhos, estavam todos a olhar para mim.

— Não percebo isto — redargui, consciente do olhar apreensivo de Lucy.

— Não tem as impressões dele? — Perguntou Marino, incrédulo. Tornei a folhear o dossier.

— Não estão aqui.

— Normalmente é a Susan que faz isso, não é? — perguntou ele.

— Sim. Sempre. Devia fazer dois conjuntos. Um para os Serviços Prisionais e um para nós. Talvez as tenha dado ao Fielding e ele esqueceu-se de mas entregar.

Tirei a minha agenda e peguei no telefone. Fielding estava em casa e não sabia nada acerca das fichas.

— Não, não a vi tirar-lhe as impressões mas não reparo no que metade das pessoas lá de baixo fazem — afirmou ele. — Calculei que ela lhas tivesse dado.

Ligando a seguir para o número de Susan, tentei recordar-me se a vira ir buscar a espátula e as fichas, ou passar os dedos de Waddell pela almofada de tinta.

— Lembra-se de ter visto a Susan tirar as impressões ao Waddell? -— perguntei a Marino enquanto o telefone de Susan continuava a chamar.

— Ela não fez isso enquanto eu lá estive. Se fizesse eu tinha-me oferecido para ajudar.

— Não atende. — E desliguei.

— O Waddell foi cremado — disse Vander.

— Foi — confirmei.

Por momentos, ficámos calados.

Depois Marino voltou-se para Lucy com uma rispidez desnecessária:

— Importas-te? Precisamos falar a sós por um instante.

— Pode ir para o meu gabinete — disse-lhe Vander. — Ao fundo do corredor, última porta à direita.

Depois de ela sair, Marino pronunciou-se:

— O Waddell esteve, supostamente, preso durante dez anos e não há hipótese nenhuma de essa impressão que tirámos da cadeira de Jennifer Deighton tenha lá sido deixada há dez anos. Ela só mudou para aquela casa do Southside há uns meses e a mobília da casa de jantar parece nova em folha. Mais, havia marcas na carpete da sala de estar que parecem indicar que uma cadeira da casa de jantar foi levada para lá, talvez na noite em que ela morreu. Foi por isso mesmo que eu quis que polvilhassem as cadeiras.

— Uma hipótese inquietante — comentou Vander. — Neste momento, não podemos provar que o homem executado na semana passada era Ronnie Joe Waddell.

— Talvez haja outra explicação qualquer para o facto de a impressão digital do Waddell ter ido parar a uma cadeira em casa de Jennifer Deighton — disse eu. — Por exemplo, a penitenciária tem uma oficina de carpintaria que faz móveis.

— Improvável com’ó caraças — redarguiu Marino. — Para começar, eles não fazem trabalhos de carpintaria nem chapas de matrícula no corredor da morte. E mesmo que fizessem, a maioria dos civis não tem em casa mobílias feitas por reclusos.

— Mesmo assim — disse-lhe Vander — seria interessante vocês descobrirem a quem e onde é que ela comprou a mobília de jantar.

— Não se preocupe. Isso agora tem a máxima prioridade.

— O cadastro completo do Waddell, incluindo as impressões digitais, deve estar num único processo, no FBI — acrescentou Vander.

— Vou pedir-lhes uma cópia da ficha das impressões e ver outra vez a foto da dedada no caso Robyn Naismith. Onde mais é que o Waddell esteve preso?

— Em mais lado nenhum — respondeu Marino. — A única jurisdição que tem o cadastro dele é Richmond.

— E essa impressão encontrada numa cadeira da casa de jantar é a única que identificou? — perguntei a Vander.

— Claro que muitas das encontradas pertencem a Jennifer Deighton — respondeu ele. — Sobretudo nos livros ao lado da cama e na folha de papel dobrada — o poema. E algumas parciais desconhecidas que estavam no carro, como seria de esperar, talvez lá deixadas por alguém que lhe pôs as mercearias na bagageira ou lhe encheu o depósito. Para já, é tudo.

— E quanto ao Eddie Heath? Nada? — perguntei-lhe.

— Pouco havia para examinar. O saco de papel, a lata de sopa, a barra de chocolate. Experimentei analisar-lhe os sapatos e a roupa com a Luma-Lite. Não deu nada.

Pouco depois, acompanhou-nos à porta, passando pelo porão, onde congeladores fechados à chave armazenavam sangue de presidiários que dava para encher uma pequena cidade, amostras aguardando entrada no banco de dados de ADN do Ministério Público. Estacionado à porta, estava o carro de Jennifer Deighton e ainda me pareceu mais patético, como se tivesse entrado em visível declínio desde a morte da sua proprietária. A chapa de ambos os lados estava riscada e com mossas de tantas vezes outras portas de carros lhe terem batido. A pintura já a enferrujar nalguns sítios, lascada e empolada noutros, e a camada de vinil a descascar. Lucy parou para espreitar por uma janela enfarruscada.

— Eh, não toques em nada — disse-lhe Marino.

Ela fitou-o muito séria, sem responder, e saímos para a rua.

Lucy arrancou no meu carro e seguiu logo para casa sem esperar por Marino ou por mim. Quando chegámos já estava no escritório com a porta fechada.

— Já vi que ela continua a ser a Miss Simpatia — comentou Marino.

— Você, esta noite, também não está nada famoso. — Abri a porta da lareira e pus lá mais uns troncos.

— Ela vai ficar de bico calado quanto ao que estivemos a conversar?

— Vai — respondi, cansada. — Claro.

— Pois é, sei que confia nela porque é tia. Mas não sei se foi boa ideia ela ter ouvido aquilo tudo, doutora.

— Eu confio na Lucy. Ela é muito importante para mim. Você também é. Só espero que ainda se tornem amigos. O bar está aberto mas não me importo de ir fazer um bule de café.

— Pode ser café.

Sentou-se na borda da lareira e sacou do canivete suíço. Enquanto fiz o café, ele arranjou as unhas atirando as lascas para o meio das chamas. Tentei ligar outra vez para o número de Susan mas ninguém atendeu.

— Não me parece que a Susan lhe tenha tirado as impressões digitais — afirmou Marino quando pousei o tabuleiro na mesinha baixa. — Estive a pensar, enquanto foi à cozinha. Sei que não as tirou naquela noite enquanto eu estive na morgue e passei lá a maior parte do tempo. Portanto, se não fizeram isso logo que o corpo deu entrada, esqueça.

— Não fizemos — disse eu, cada vez mais nervosa. — Os Serviços Prisionais não demoraram nada. Foi tudo muito confuso. Era tarde e estava toda a gente cansada. A Susan esqueceu-se e eu estava muito ocupada para reparar nisso.

— Quer dizer, espera que ela se tenha esquecido. Estendi a mão para a chávena.

— Pelo que me tem contado, passa-se alguma coisa estranha. Se fosse a si, não confiava nela a cem por cento — declarou.

Agora já não confiava.

— Precisamos falar com o Benton — acrescentou.

— Você viu o Waddell em cima da mesa, Marino. Viu-o ser executado. Não posso acreditar que não se saiba ao certo se era ele ou não.

— Não sabemos. Nem que comparássemos as fotos do cadastro com as vossas, da morgue. Eu já não o via desde que ele foi preso, há mais de dez anos. O tipo que eles levaram para a cadeira devia pesar mais uns quarenta quilos. A barba, o bigode, a cabeça, tinha sido tudo rapado. Claro, era suficientemente parecido para eu deduzir que fosse ele. Mas não posso jurar que era.

Recordei-me da noite em que Lucy desembarcara. Era minha sobrinha. Ainda há um ano a tinha visto e mesmo assim quase não a reconheci. Sabia perfeitamente o quanto podem ser falíveis as identificações oculares.

— Se houve uma troca de presos — aventei — e se o Waddell está livre e outra pessoa foi executada, explique-me lá porquê.

Marino deitou mais uma colher de açúcar no café.

— Um motivo, caramba. Qual seria o motivo, Marino? Ele ergueu os olhos.

— Não sei.

Nessa altura, a porta do meu escritório abriu-se e ambos nos virámos para trás quando Lucy saiu de lá. Veio para a sala de estar e sentou-se ao pé da lareira, no extremo oposto ao de Marino, que estava de costas para as chamas, cotovelos apoiados nos joelhos.

— Que podes dizer-me a respeito do AFIS? — perguntou-me como se Marino não estivesse presente.

— Que queres saber? — redargui.

— A linguagem. E se está ligado a um mainframe.

— Não sei os pormenores técnicos. Porquê?

— Posso descobrir se os ficheiros foram mexidos. Senti o olhar de Marino pousado em mim.

— Não podes entrar no computador da Polícia Estadual, Lucy.

— Se calhar posso mas também não é propriamente o que eu quero fazer. Deve haver outra maneira de obter acesso.

Marino voltou-se para ela:

— Estás a dizer que consegues saber se no AFIS houve alterações no cadastro do Waddell?

— Sim. Estou a dizer que consigo saber se houve alterações no cadastro dele.

Marino cerrou os maxilares.

— Quer-me parecer que se houvesse alguém suficientemente esperto para fazer isso, também seria suficientemente esperto para impedir que alguma maluquinha dos computadores o descobrisse.

— Não sou nenhuma maluquinha dos computadores. Não sou maluquinha de coisa nenhuma. — Ficaram calados, um em cada ponta da lareira como cerra-livros desirmanados.

— Não podes entrar no AFIS — disse eu a Lucy. Ela fitou-me com uma expressão impávida.

— Sozinha, não podes — acrescentei. — A menos que haja uma forma segura de te garantir o acesso. E mesmo que haja prefiro que não te metas nisso.

— Acho que não preferes, não. Se andaram a mexer nalguma coisa, sabes que eu descubro, tia Kay.

— A miúda tem a mania que é boa — comentou Marino pondo-se de pé.

Lucy voltou-se para ele:

— Consegue acertar no doze daquele relógio de parede? Se sacasse já da arma e fizesse pontaria?

— Não me interessa desatar aos tiros em casa da tua tia para te provar o que quer que seja.

— Consegue acertar no doze do sítio onde está?

— Claro que sim.

— Tem a certeza?

— Sim, tenho.

— O tenente tem a mania que é bom — comentou Lucy, comigo. Marino virou-se para a lareira mas não sem que antes eu lhe vislumbrasse um brevíssimo sorriso.

— O Neils Vander só dispõe de um terminal e de uma impressora

— afirmou Lucy. — Está ligado ao computador da Polícia Estadual, por modem. Foi sempre assim?

— Não — respondi. — Antes de se mudar para o novo edifício havia muito mais equipamento.

— Explica-me.

— Bom, havia diversos componentes diferentes. Mas o computador, em si, era muito parecido com o que a Margaret tem no gabinete dela.

— Lembrando-me de que Lucy nunca entrara no gabinete de Margaret, acrescentei — Um mini.

A luz das chamas projectava sombras móveis no rosto dela.

— Aposto que o AFIS é um mainframe que não é um mainframe. Aposto que se trata de uma série de minis conjugados, tudo ligado pelo UNIX ou qualquer outro ambiente multi-utilizador, multitarefa. Se me arranjasses acesso ao sistema, se calhar conseguia fazer isso a partir do teu terminal aqui de casa, tia Kay.

— Não quero meter-me nisso — afirmei, peremptória.

— E não te metes. Entro pelo computador do teu serviço, depois passo por uma data de portas de acesso criando uma ligação verdadeiramente complicada. Quando chegar ao fim, será muito difícil localizar-me.

Marino dirigiu-se para a casa de banho.

— Ele porta-se como se morasse cá em casa — comentou Lucy.

— Não é bem assim — redargui.

Minutos depois, acompanhei Marino à porta. A crosta de neve sobre a relva parecia irradiar luz e o ar frio chegou-me aos pulmões como a primeira passa de um cigarro mentolado.

— Gostava muito que viesse almoçar connosco no dia de Natal — disse-lhe, da porta.

Ele hesitou, olhando para o carro estacionado na rua:

— É muita amabilidade sua mas não posso, doutora.

— Gostava que não antipatizasse tanto com a Lucy — afirmei, magoada.

— Estou farto de a ver tratar-me como se eu fosse um idiota qualquer nascido na parvónia.

— Às vezes comporta-se como um idiota nascido na parvónia. E não se tem esforçado muito para merecer o respeito dela.

— É uma fedelha de Miami estragada com mimos.

— Quando tinha dez anos era uma fedelha de Miami — retorqui — mas nunca foi estragada com mimos. Aliás, é precisamente o contrário. Quero que se dêem bem um com o outro. Como presente de Natal.

— Quem é que disse que eu ia dar-lhe um presente de Natal?

— Claro que vai. Vai dar-me o que eu acabo de lhe pedir. E sei exactamente como há-de fazê-lo.

— Como? — perguntou ele, desconfiado.

— A Lucy quer aprender a atirar e você ainda há pouco lhe disse que conseguia acertar no doze de um relógio. Podia dar-lhe uma ou duas lições.

— Esqueça — respondeu ele.

Os três dias seguintes foram típicos da quadra festiva. Ninguém estava em casa nem retribuía telefonemas. Os parques de estacionamento tinham lugares vagos com fartura, os intervalos de almoço eram compridos e os serviços exteriores incluíam idas clandestinas a lojas, ao banco e aos correios. Em termos práticos, a função pública fechara antes de começar o feriado oficial. Mas Neils Vander não era, de forma alguma, um caso típico. Estava alheio ao dia e ao local quando me ligou na manhã da véspera de Natal.

— Estou aqui a começar um trabalho de realce de imagem que talvez lhe interesse ver — informou-me. — No caso de Jennifer Deighton.

— Vou já para aí.

Seguindo pelo corredor, quase esbarrei com Ben Stevens quando ele saiu da casa de banho dos homens.

— Tenho uma reunião com o Vander — disse-lhe. — Não devo demorar e já recebi o meu jornal.

— Ia agora falar consigo — replicou ele.

Relutantemente, parei para ouvir o que ele tinha para me dizer. Interroguei-me se perceberia o quanto me custava agir com naturalidade ao pé dele. Lucy continuava a vigiar o nosso computador a partir do meu terminal de casa a ver se alguém tentava entrar novamente no meu directório. Até ver, ninguém o fizera.

— Falei com a Susan hoje de manhã — disse Stevens.

— Como é que ela está?

— Não vem trabalhar mais, Dr.a Scarpetta.

Não fiquei surpreendida mas fiquei magoada por não ter sido ela mesma a dizer-mo. Já tentara ligar-lhe pelo menos meia dúzia de vezes e ou ninguém atendia ou atendia o marido com uma desculpa qualquer para o facto de Susan não vir ao telefone.

— Só isso? — perguntei-lhe. — Não vem mais e pronto? Invocou alguma razão?

— Acho que a gravidez está a dar-lhe mais problemas do que ela pensava. Calculo que, neste momento, não aguente a pressão do trabalho.

— Vai ter de enviar uma carta de demissão — redargui, incapaz de disfarçar a irritação. — E deixo consigo os pormenores com o Serviço de Pessoal. Precisamos de começar já a procurar um substituto.

— Há um congelamento na contratação — recordou-me ele quando eu já me afastava.

Lá fora, a neve varrida para as bermas congelara em montículos de gelo imundo onde era impossível estacionar um carro ou atravessar a pé e o sol brilhava palidamente por entre nuvens agourentas. Passou um eléctrico com uma pequena banda de metais e foi ao som de “Joy to the World” que subi os degraus de granito rangentes de sal. Um agente da Perícia deixou-me entrar no Seaboard Building e, subindo as escadas, fui dar com Vander numa sala iluminada por ecrãs policromáticos e lâmpadas ultravioletas. Sentado diante da estação de trabalho do realçador de imagem, olhava com atenção para algo que estava no ecrã manipulando simultaneamente um rato.

— Não está em branco — afirmou sem sequer me dar os bons-dias. — Alguém escreveu qualquer coisa numa folha de papel que estava mesmo por cima desta ou praticamente por cima. Se olharmos com atenção, mal se consegue ver as marcas.

Então comecei a perceber. Em cima da mesa de luz à sua esquerda estava uma folha de papel branco sem nada escrito e aproximei-me para dar uma vista de olhos. As marcas eram tão ténues que fiquei sem saber se não seriam imaginação minha.

— É a folha de papel encontrada debaixo do cristal na cama de Jennifer Deighton? — perguntei, entusiasmada.

Ele acenou com a cabeça, movendo um nadinha o rato para regular os tons cinzentos.

— Isto é directo?

— Não. A câmara de vídeo já gravou as marcas e estão guardadas no disco rígido. Mas não toque no papel. Ainda não fiz a busca de impressões digitais. Estou só a começar, faça figas. Vá lá, vá lá. — Agora falava com o realçador. — Sei que a câmara viu lindamente. Tens que nos dar uma ajudinha.

As técnicas computorizadas de realce de imagem são o que há de melhor na resolução de contrastes e dúvidas. Uma câmara consegue distinguir mais de duzentos tons de cinzento, o olho humano menos de quarenta. Só por uma coisa não estar lá não quer dizer que não esteja.

— Ainda bem que com o papel não temos de nos preocupar com o ruído de fundo — prosseguiu Vander sem interromper o trabalho. — O não termos de nos preocupar com isso acelera consideravelmente o processo. Um dia destes tive um trabalhão enorme com uma impressão digital ensanguentada deixada num lençol. A textura do tecido, está a ver? Ainda não há muito tempo, a impressão seria inútil. Pronto. — Outra mancha cinzenta espalhou-se pela área que ele estava a processar. — Agora já temos alguma coisa. Vê? — Apontou para as formas esguias, etéreas, na parte superior do ecrã.

— Mal.

— O que estamos a querer realçar é a sombra e não o texto eliminado porque aqui não foi nada escrito nem apagado. A sombra foi produzida quando a luz oblíqua incidiu na superfície plana do papel e nas marcas nele deixadas — pelo menos a câmara de vídeo captou nitidamente a sombra. Nós dois não conseguimos vê-la a olho nu. Vamos dar mais um pouco de contraste nas verticais. — Moveu o rato. — Escurecer as horizontais só um bocadinho. Óptimo. Está a aparecer. Dois-zero-dois travessão. Temos parte de um número de telefone.

Puxei uma cadeira perto da dele e sentei-me.

— O indicativo de Washington — disse eu.

— Estou a ver um quatro e um três. Ou é um oito? Semicerrei os olhos:

— Acho que é um três.

— Está melhor. Tem razão. É de facto um três.

Continuou a trabalhar por mais um bocado e tornaram-se visíveis no ecrã mais números e palavras. Depois, com um suspiro, resmungou:

— Ora bolas. Não consigo apanhar o último dígito. Não está lá mas repare nisto aqui antes do indicativo de Washington. “Para” seguido de uma vírgula. E mesmo por baixo está um “De” seguido de outra vírgula e outro número. Oito-zero-quatro. E aqui da zona. Este número não está nada nítido. Um cinco e talvez um sete, ou é um nove?

— Acho que vai ser o número de Jennifer Deighton — disse eu. — O fax e o telefone dela estão na mesma linha — ela tinha um fax no escritório, um daqueles de alimentação folha a folha que utiliza papel de máquina vulgar. Parece que redigiu um fax por cima desta folha de papel. O que é que ela enviou? Um documento à parte? Não está aqui nenhuma mensagem.

— Ainda não acabámos. Agora parece que vem lá a data. Um onze? Não, é um sete. Dezassete de Dezembro. Vou passar para baixo.

Moveu o rato e as setas desceram pelo ecrã. Premindo uma tecla, ampliou a área que lhe interessava, depois começou a colori-la em tons de cinzento. Mantive-me muito quieta enquanto as formas começaram lentamente a materializar-se a partir de um limbo literário, curvas aqui, pontos acolá e os “t” traçados com mão firme. Vander trabalhava em silêncio. Quase nem pestanejávamos, sustendo a respiração. E passou-se uma hora, as palavras a ficarem aos poucos mais nítidas, um tom de cinzento a contrastar com outro, molécula por molécula, bit por bit. Ele incentivava-as, dava-lhes vida. Era incrível. Estava lá tudo.

Exactamente há uma semana, dois dias apenas antes de ser assassinada, Jennifer Deighton enviara a seguinte mensagem para um número de Washington:

Sim, vou colaborar, mas é tarde de mais, tarde de mais, tarde de mais. É melhor vir cá. É um erro tão grande!

Quando finalmente ergui os olhos do ecrã, estava Vander a carregar na tecla de imprimir, senti uma tontura. A visão temporariamente desfocada, um afluxo de adrenalina.

— O Marino tem de ver isto imediatamente. Só espero que se consiga descobrir de quem é este número de fax, o número de Washington. Falta-nos o último dígito. Quantos números de fax iguais a este, excepto no último dígito, haverá em Washington?

— Os dígitos vão de zero a nove — respondeu Vander falando mais alto por causa do matraquear da impressora. — Quanto muito, haverá dez. Dez números, de fax ou não, exactamente iguais a este excepto no último dígito.

Deu-me um printout.

— Vou limpar mais um bocadinho e depois arranjo-lhe uma cópia melhor — disse ele. — E há mais uma coisa. Não consigo apanhar a impressão digital do Ronnie Waddell, a foto da marca ensanguentada do polegar recolhida em casa de Robyn Naismith. Sempre que ligo para o Arquivo, dizem-me que andam à procura do processo dele.

— Lembre-se que estamos no Natal. Aposto que não está lá praticamente ninguém — redargui incapaz de afugentar uma certa apreensão.

De volta ao meu gabinete, liguei para Marino e contei-lhe o que o realçador de imagem descobrira.

— Olhe, esqueça a companhia dos telefones — disse ele. — O contacto que eu lá tenho já foi para fora e mais ninguém vai mexer uma palha na véspera de Natal.

— Há uma hipótese de sermos nós a descobrir para quem é que ela mandou o fax — afirmei.

— Não estou a ver como, a menos que se envie um fax a perguntar “Quem é você?” e depois esperar receber outro a dizer “Olá. Sou o assassino da Jennifer Deighton.”

— Tudo depende se a pessoa tiver uma etiqueta programada no fax — redargui.

— Uma etiquetai

— Os faxes mais modernos permitem-nos programar o nosso nome ou nome da empresa dentro do sistema. Essa etiqueta virá impressa em tudo o que se enviar por fax para outra pessoa. Mas o mais importante é que a etiqueta da pessoa que recebe o fax também aparecerá no visor da máquina que envia o fax. Por outras palavras, se eu lhe enviar um fax, no visor da minha máquina aparece “Polícia de Richmond” logo por cima do número de fax que acabei de marcar.

— Tem acesso a uma dessas máquinas modernas? A que nós temos na divisão é uma desgraça.

— Tenho uma aqui, no serviço.

— Bom, depois diga-me o que descobriu. Tenho de ir para a rua.

Rapidamente, elaborei uma lista de dez números de telefone começados pelos seis dígitos que eu e Vander conseguíramos ver na folha de papel encontrada em cima da cama de Jennifer Deighton. Completei cada um dos números com um “0”, um “1”, um “2”, e por aí fora, e comecei a ligar. Apenas um deles foi atendido por um sinal estridente, não humano.

O fax estava instalado no gabinete da minha analista de sistemas e, por sorte, também Margaret começara mais cedo o feriado. Fechei a

porta e sentei-me à secretária dela, a pensar, enquanto o minicomputador zumbia e as luzes do modem piscavam. As etiquetas funcionavam para ambos os lados. Se eu iniciasse uma transmissão, a etiqueta do OCME apareceria no visor do fax para o qual eu ligara. Tinha de abortar rapidamente o processo, antes de completar a transmissão. Só esperava que quando alguém fosse à máquina ver o que se passava, já o “Office of the Chief Medicai Examiner” e o nosso número tivessem desaparecido do visor.

Colocando uma folha em branco no tabuleiro, marquei um número de Washington e esperei que a transmissão se iniciasse. Não apareceu nada escrito no visor. Bolas. O fax para onde eu ligara não tinha etiqueta. Paciência. Abortei o processo e voltei para o meu gabinete, derrotada.

Acabara de me sentar à secretária quando o telefone tocou.

— Dr.a Scarpetta — atendi.

— Fala Nicholas Grueman. O fax que tentou enviar agora mesmo não foi transmitido.

— Desculpe? — perguntei, atónita.

— Só cá recebi uma folha de papel em branco com o vosso nome impresso. Hmm, erro código zero-zero-um “por favor envie de novo” é o que diz.

— Ah, sim — disse-lhe com os pêlos dos braços todos eriçados.

— Se calhar estava a tentar enviar-me um aditamento ao seu relatório, não? Sei que foi inspeccionar a cadeira eléctrica.

Não dei resposta.

— Muito louvável da sua parte, Dr.a Scarpetta. Por acaso descobriu mais alguma coisa acerca daqueles ferimentos de que falámos, as escoriações nos aspectos internos dos braços de Mr. Waddell? As fossas antecubitais?

— Por favor, dê-me outra vez o número do seu fax — pedi, calmamente.

Ele assim fez. O número condizia com o da minha lista.

— O fax está no seu gabinete ou partilha-o com outros advogados, Mr. Grueman?

— Está mesmo ao lado da minha secretária. Não é preciso nenhuma indicação especial. Basta enviá-lo — e por favor despache-se, Dr.a Scarpetta. Estava a pensar sair mais cedo.

Saí pouco depois, impulsionada, porta fora, pela irritação. Não conseguia apanhar Marino. Não podia fazer mais nada. Sentia-me presa numa teia de estranhas ligações sem a mínima ideia de qual seria o elo comum.

Obedecendo a um impulso, parei o carro junto a um terreno vago de West Cary onde um velhote estava a vender coroas e árvores de Natal. Parecia um madeireiro de fábula, sentado num banquinho no meio da sua pequena floresta, o ar frio a cheirar a sempre-verdes. Talvez a minha relutância para com o espírito natalício tivesse acabado por ceder. Ou talvez eu quisesse apenas alhear-me. Tão em cima da hora, não havia muito por onde escolher, eram árvores rejeitadas, defeituosas ou moribundas, destinadas, calculei, a ir para o lixo, excepto a que eu escolhi. Seria bonita se não fosse escoliótica. Decorá-la acabou por ser mais um exercício ortopédico do que um ritual festivo mas com enfeites, luzes estrategicamente penduradas e arame a endireitar os sítios problemáticos, postou-se, orgulhosa, na minha sala de estar.

— Pronto — disse eu a Lucy recuando para admirar a minha obra. — Que achas?

— Acho estranho tu de repente decidires arranjar uma árvore na véspera de Natal. Quando foi a última vez que fizeste árvore?

— Acho que quando estava casada.

— É daí que vêm os enfeites?

— Nessa altura eu dava muita importância ao Natal.

— É por isso que já não dás.

— Tenho muito mais que fazer do que tinha nessa altura — retorqui. Lucy abriu a porta da lareira e deu um jeito aos troncos com o atiçador.

— Tu e o Mark passaram algum Natal juntos?

— Não te lembras? Fomos visitar-vos no Natal passado.

— Não foram, não. Tu foste lá passar três dias depois do Natal e voltaste para cá no dia de Ano Novo.

— Ele passou o Dia de Natal com a família.

— Não foste convidada?

— Não.

— Porquê?

— O Mark pertencia a uma das velhas famílias de Boston. Tinham lá as suas tradições. Que resolveste, quanto a esta noite? O meu blusão com a gola de veludo preto serviu-te?

— Ainda não o provei. Por que é que temos de ir a esses sítios todos? — perguntou Lucy. — Não vou conhecer ninguém.

— Não é assim tão mau. Só tenho de ir entregar um presente a uma pessoa que está grávida e que se calhar não volta a trabalhar comigo. E tenho de marcar presença numa festa do bairro. Aceitei o convite antes de saber que tu vinhas. Não és obrigada a ir.

— Prefiro ficar aqui — afirmou ela. — Quem me dera poder começar a trabalhar no AFIS.

— Paciência — disse-lhe embora eu própria não me sentisse com paciência nenhuma.

Ao fim da tarde, deixei nova mensagem na central e comecei a pensar que ou o pager de Marino estava avariado ou ele com muito que fazer para ir à procura de uma cabina. Velas acesas nas janelas dos meus vizinhos, uma lua oblonga a brilhar lá no alto, acima das árvores. Pus a tocar aquela música de Natal do Pavarotti com a Orquestra Filarmónica de Nova Iorque fazendo todos os possíveis por entrar no espírito da quadra enquanto tomava um duche e me vestia. A festa a que eu ia só começava às sete. O que me dava tempo suficiente para ir levar a prenda a Susan e falar com ela.

Surpreendeu-me ao atender o telefone e pareceu relutante e tensa quando lhe perguntei se podia passar lá por casa.

— O Jason saiu — disse ela como se isso tivesse alguma importância. — Foi ao centro comercial.

— É que tenho umas coisas para si — expliquei.

— Que coisas?

— Coisas de Natal. Tenho de ir a uma festa, por isso não me demoro. Está bem?

— Pode ser. Quer dizer, claro que sim.

Tinha-me esquecido que ela morava no Southside, onde eu raramente ia e tinha tendência para me perder. O trânsito estava pior do que eu pensava, a portagem da Midlothian entupida com os compradores de última hora dispostos a atirar connosco para fora da estrada da mesma maneira que tinham despachado as compras de Natal. Parques de estacionamento enxameados de carros, lojas e centros comerciais tão berrantemente iluminados que até nos cegavam. O bairro de Susan era muito escuro e por duas vezes tive de encostar e acender a luz interior para ler as orientações que ela me dera. Depois de muitas voltas, finalmente lá dei com a sua casinha estilo rancho ensanduichada entre outras duas exactamente iguais.

— Olá — cumprimentei-a espreitando por entre as folhas da poinciana cor-de-rosa que levava nos braços.

Nervosamente, ela fechou a porta à chave e fez-me entrar para a sala. Empurrando livros e revistas para o lado, colocou a planta em cima da mesa de centro.

— Como se sente? — perguntei-lhe.

— Melhor. Quer beber alguma coisa? Dê-me o seu casaco.

— Obrigada. Não bebo nada. Não me posso demorar. — Entreguei-lhe o embrulho. — Uma coisinha que comprei em S. Francisco no Verão passado. — E sentei-me no sofá.

— Ena! Faz mesmo as compras com antecedência. — Evitou o meu olhar quando se enroscou numa cadeira de baloiço. — Quer que o abra agora?

— Como preferir.

Com todo o cuidado, descolou a fita com a unha do polegar e retirou, intacta, a faixa de cetim. Alisando a folha de papel num rectângulo perfeito como se tencionasse voltar a usá-la, pousou-a no colo e abriu a caixa preta.

— Oh — exclamou, baixinho, desdobrando o lenço de seda vermelho.

— Achei que ia ficar bem com o seu casaco preto — disse-lhe. — No seu caso não sei, mas eu não gosto de sentir a lã encostada à pele.

— É lindo. Foi realmente muito simpático da sua parte, Dr.a Scarpetta. Nunca ninguém me tinha trazido nada de S. Francisco.

A expressão no rosto dela comoveu-me e, de súbito, apercebi-me, com maior clareza, do ambiente que me rodeava. Susan tinha vestido um roupão turco amarelo, esfiapado nos punhos, e umas peúgas pretas que calculei fossem do marido. A mobília era velha e barata, os estofos com lustro. A árvore de Natal artificial junto ao pequeno televisor estava escassamente enfeitada e faltavam-lhe vários ramos. Com poucos presentes em baixo. Encostado a uma parede, um berço dobrado que era, nitidamente, em segunda mão.

Susan apanhou-me a olhar em redor e pareceu constrangida.

— Está tudo tão limpinho — comentei.

— Sabe como eu sou. Obsessiva-compulsiva.

— Ainda bem. Se há morgue com bom aspecto é a nossa.

Com todo o cuidado, dobrou o lenço e tornou a guardá-lo na caixa. Aconchegando-se melhor no roupão, pôs-se a olhar, calada, para a poinciana.

— Susan — disse eu, calmamente —, quer desabafar? Não olhou para mim.

— Não é normal, em si, ficar nervosa como ficou naquela manhã. Não é normal faltar ao trabalho e depois despedir-se sem sequer me telefonar.

Respirou fundo.

— Peço muita desculpa. Só que ultimamente parece que não consigo enfrentar as coisas. Descontrolo-me. Como quando me lembrei da Judy.

— Sei que a morte da sua irmã deve ter sido terrível para si.

— Éramos gémeas. Não idênticas. A Judy era muito mais bonita que eu. Em parte, o problema era esse. A Doreen tinha ciúmes dela.

— A Doreen era a rapariga que se dizia bruxa?

— Sim. Desculpe. Não quero trabalhar num sítio daqueles. Principalmente agora.

— Talvez fique mais descansada se eu lhe disser que liguei para a igreja perto da casa de Jennifer Deighton e disseram-me que a torre é iluminada com lâmpadas de vapor de sódio que começaram a falhar aqui há uns meses. Pelos vistos, ninguém sabia que as lâmpadas não tinham sido devidamente reparadas. Parece ser essa a explicação para andarem sempre a piscar.

— Quando eu era pequena, criada numa igreja — disse ela —, havia pentecostais na congregação que acreditavam em bruxedos e na expulsão dos demónios. Lembro-me de um homem que foi jantar a nossa casa e se pôs a falar de um encontro com os demónios, de estar deitado na cama à noite e ouvir alguma coisa a respirar na escuridão e livros que voavam das prateleiras e iam contra as paredes do quarto. Eu ficava apavorada com esse tipo de coisas. Nem sequer consegui ir ver O Exorcista.

— Susan, na nossa profissão temos de ser objectivos e racionais. Não podemos deixar que os nossos passados, crenças ou fobias interfiram no trabalho.

— Não cresceu como filha de um pastor.

— Cresci como católica — redargui.

— Não há nada que se compare com a infância de uma filha de um pastor fundamentalista — contrapôs, pestanejando para não chorar.

Não argumentei.

— Quando julgo que já me libertei do passado, ele deita-me a mão ao pescoço — prosseguiu, com dificuldade. — Como se houvesse outra pessoa cá dentro a torturar-me.

— A torturá-la, como?

— Destruindo certas coisas.

Aguardei que se explicasse melhor, mas não o fez. O olhar, de uma profunda tristeza, sempre fixo nas mãos.

— É muita pressão — murmurou.

— O que é que é muita pressão, Susan?

— O trabalho.

— Qual é a diferença, agora? — Calculei que fosse dizer-me que o facto de estar grávida alterava tudo.

— O Jason acha que não é saudável para mim. Sempre achou.

— Compreendo.

— Chego a casa, conto-lhe como foi o meu dia e custa-lhe mesmo a aceitar. Diz: “Não percebes como isso é horrível? Não pode fazer-te bem de maneira nenhuma.” Ele tem razão. Já não consigo abstrair-me. Estou farta de corpos putrefactos e pessoas violadas, retalhadas e mortas a tiro. Estou farta de crianças mortas e pessoas que morrem na estrada. Não quero mais violência. — Fitou-me com o lábio inferior a tremer. — Não quero mais mortes.

Pensei no quanto ia ser difícil substituí-la. Com uma pessoa nova, os dias seriam lentos, a curva de aprendizagem longa. Maior ainda era a dificuldade de entrevistar os candidatos e eliminar os tarados. Nem toda a gente disposta a trabalhar numa morgue é um exemplo de normalidade. Eu gostava de Susan e sentia-me magoada, profundamente apreensiva. Ela não estava a ser sincera comigo.

— Há mais alguma coisa de que queira falar-me? — perguntei-lhe sem desviar os olhos dela.

Lançou-me um breve olhar, de medo.

— Não me lembro de nada.

Ouvi uma porta de carro a fechar-se.

— Chegou o Jason — mal conseguiu ela dizer.

A nossa conversa terminara e, ao levantar-me, disse-lhe baixinho:

— Por favor entre em contacto comigo se precisar de alguma coisa, Susan. Uma carta de recomendação ou só para conversar. Sabe onde eu estou.

Troquei meia dúzia de palavras com o marido, já de saída. Era alto e bem constituído, com cabelo castanho encaracolado e um olhar distante. Embora educado, percebi que não ficara satisfeito ao encontrar-me em sua casa. Enquanto atravessava o rio, dei-me conta da ideia que aquele jovem casal esforçado devia fazer de mim. Eu era a patroa que, envergando um vestido assinado, chegava no seu Mercedes para levar prendas simbólicas na véspera de Natal. A perda da lealdade de Susan tocou as minhas mais profundas inseguranças. Já não estava segura das minhas relações nem da forma como os outros me viam. Receava ter falhado nalgum teste depois da morte de Mark, como se a minha reacção a essa perda fosse a resposta a uma pergunta nas vidas dos que me rodeavam. Afinal, eu, melhor que ninguém, devia saber lidar com a morte. Dr.a Scarpetta, a especialista na matéria. Em vez disso, distanciara-me e sabia que os outros sentiam a frieza que me envolvia por mais simpática ou atenciosa que tentasse ser. Os meus subordinados já não confiavam em mim. Tudo indicava que tinha havido uma violação da segurança nos meus serviços, e Susan demitira-se.

Depois da saída de Cary Street, virei à esquerda, para o meu bairro, e dirigi-me para a casa de Bruce Cárter, juiz distrital. Morava na Sulgrave, a uns quarteirões de mim, e de repente senti-me de novo como uma criança de Miami a olhar para o que, na altura, me pareciam mansões. Lembrava-me de andar de porta em porta com um carrinho cheio de citrinos, sabendo que as elegantes mãos que me atiravam umas moedas pertenciam a pessoas inatingíveis que tinham pena de mim. Lembrava-me de voltar para casa com o bolso cheio de moedas e de sentir o cheiro da doença no quarto onde o meu pai agonizava.

Windsor Farms era de uma riqueza discreta, com casas georgianas e tudorianas perfiladas em ruas com nomes ingleses e grandes jardins sombreados por árvores e protegidos por serpenteantes muros de tijolo. A segurança privada guardava zelosamente os privilegiados para quem os alarmes eram vulgares como os aspersores de rega automática. Os acordos tácitos eram mais intimidadores do que os escritos. Não se chocava os vizinhos com cordas de roupa a secar nem aparecendo lá em casa sem avisar. Não era preciso conduzir um Jaguar, mas se o meio de transporte fosse uma camioneta enferrujada ou uma carrinha da morgue, uma pessoa escondia-a dentro da garagem.

Às sete e um quarto, estacionei atrás de uma longa fila de carros defronte de uma casa de tijolo pintada de branco com telhado de ardósia. Luzes brancas presas como minúsculas estrelas em floreiras e coníferas e, na porta da frente, vermelha, uma perfumada coroa de flores naturais. Nancy Cárter recebeu-me com um belo sorriso e braços estendidos para o meu casaco. Falava sem parar sobrepondo-se à indecifrável linguagem das multidões enquanto a luz se reflectia nas lantejoulas do longo vestido vermelho. A mulher do juiz era uma cinquentona que o dinheiro refinara numa obra de arte genuína. Calculei que, em nova, não tivesse sido bonita.

— O Bruce anda para aí... — E olhou em redor. — O bar é acolá. Levou-me para a sala de estar onde os garridos trajes festivos dos convidados se fundiam maravilhosamente com um enorme e colorido tapete persa que, imaginei, teria custado mais que a casa onde eu há pouco estivera, do outro lado do rio. Vi o juiz a falar com um homem que eu não conhecia. Olhei para os rostos, reconhecendo alguns médicos e advogados, o representante de um lobby e o chefe de gabinete do governador. Pouco depois já tinha um uísque com soda na mão e um sujeito que eu nunca vira a tocar-me no braço.

— Dr.a Scarpetta? Frank Donahue — apresentou-se ele, efusivo. — Feliz Natal.

— Igualmente — redargui.

O director, que alegadamente faltara por motivos de saúde no dia em que eu e Marino fizéramos a visita à penitenciária, era baixo, de feições grosseiras e cabelo farto, grisalho. Fazia lembrar um mestre-sala inglês, de casaca encarnada, camisa branca de folhos e um laço vermelho com luzinhas a piscar. Um copo de uísque de malte, seco, inclinou-se periclitantemente numa mão quando me estendeu a outra.

Chegou-se ao meu ouvido:

— Fiquei cheio de pena de não ter podido mostrar-lhe a penitenciária no dia em que lá foi.

— Um dos seus funcionários tratou-nos bem. Obrigada.

— Calculo que tenha sido o Roberts.

— Sim, acho que era.

— Bom, infelizmente teve de se dar a esse trabalho. — Relanceando o olhar pela sala, piscou o olho a alguém que estava atrás de mim. — Uma data de tretas, foi o que foi. É que o Waddell já tinha tido algumas hemorragias nasais e sofria de tensão alta. Estava sempre a queixar-se de qualquer coisa. Dores de cabeça. Insónias.

Inclinei a cabeça para conseguir ouvi-lo.

— Estes tipos do corredor da morte são uns autênticos vigaristas. E, para ser franco, o Waddell era um dos piores.

— Não sabia — redargui, erguendo os olhos para ele.

— Aí é que está o problema, ninguém sabe. Diga-se o que se disser, ninguém sabe, só nós, que passamos o dia todo com esses tipos.

— Acredito.

— É como a dita regeneração do Waddell, o amorzinho em que ele se transformou. Um dia hei-de contar-lhe isso, Dr.” Scarpetta, a maneira como ele se vangloriava com os outros reclusos sobre o que tinha feito à pobre da Naismith. Julgava-se o maior por ter despachado uma celebridade.

A sala estava abafada e demasiado aquecida. Senti o olhar dele a percorrer-me o corpo.

— Claro, a si também já não há muita coisa que a surpreenda, acho eu — acrescentou.

— Não, Mr. Donahue. Já não há muita coisa que me surpreenda.

— Para ser franco, não sei como é que aguenta o trabalho que faz todos os dias. Sobretudo nesta época do ano, pessoas a matarem-se umas às outras e a si próprias, como aquela pobre mulher que outro dia se suicidou na garagem depois de abrir os presentes de Natal antes do tempo.

O comentário dele atingiu-me como uma cotovelada nas costelas. Viera um pequeno artigo no matutino sobre a morte de Jennifer Deighton e uma fonte policial fora citada afirmando que aparentemente ela abrira os presentes de Natal antes do tempo. Poder-se-ia deduzir, por aí, que ela se suicidara mas não houvera nenhum comunicado a confirmá-lo.

— A que mulher se refere? — perguntei.

— Não me lembro do nome. — Donahue deu um gole na bebida, rosto corado, olhos brilhantes e em constante movimento. — É triste, é muito triste. Bom, um dia destes tem de ir visitar as nossas novas instalações em Greensville. — Fez um sorriso rasgado, depois trocou-me por uma matrona peituda vestida de preto. Beijou-a na boca e desataram ambos a rir à gargalhada.

Fui-me embora mal tive oportunidade e, em casa, deparei com a lareira acesa e a minha sobrinha estendida no sofá a ler. Reparei que havia mais alguns presentes debaixo da árvore.

— Como é que foi? — perguntou-me ela com um bocejo.

— Tu é que tiveste juízo em ficar em casa — respondi. — O Marino telefonou?

— Não.

Liguei-lhe novamente e, ao quarto toque, ele atendeu, irritado.

— Espero não estar a ligar tarde de mais — disse, à laia de desculpa.

— Eu também. Qual é o problema, agora?

— Uma data deles. Esta noite conheci o seu amigo, Mr. Donahue, numa festa.

— Ai, que excitante.

— Não me impressionou e se calhar é só paranóia minha mas achei estranho ele ter falado na morte de Jennifer Deighton.

Silêncio.

— A outra novidadezinha — continuei — é que, ao que tudo indica, Jennifer Deighton enviou uma mensagem por fax a Nicholas Grueman menos de dois dias antes de morrer. Na qual parecia transtornada e fiquei com a impressão de que ele queria encontrar-se com ela. Ela propôs-lhe que viesse a Richmond.

Marino continuava sem dizer nada.

— Ainda aí está? — perguntei.

— Estou a pensar.

— Ainda bem. Mas talvez devêssemos pensar em conjunto. De certeza que não consigo fazê-lo mudar de ideias quanto ao almoço de amanhã?

Ele respirou fundo.

— Eu gostava de ir, doutora, mas...

Uma voz feminina, ao fundo, perguntou “Em que gaveta é que está?”

Percebi que Marino tapou o bocal com a mão e disse qualquer coisa. Antes de voltar a falar comigo, pigarreou.

— Desculpe — disse-lhe —, não sabia que estava acompanhado.

— Pois é. — E fez uma pausa.

— Adorava que você e a sua amiga viessem cá almoçar amanhã — convidei.

— O Sheraton tem aquele buffet. Tencionávamos ir lá.

— Bom, há aqui uma coisa para si, debaixo da árvore. Se mudar de ideias, dê-me uma telefonadela de manhã.

— Não acredito. Acabou por arranjar uma árvore? Aposto que é uma coisinha horrorosa.

— Fique sabendo que faz inveja à vizinhança toda — redargui. — Deseje, por mim, um Feliz Natal à sua amiga.

 

Acordei na manhã seguinte com o repicar dos sinos e as cortinas brilhantes de sol. Embora pouco tivesse bebido na noite anterior, estava de ressaca. Deixei-me ficar na cama, tornei a adormecer e vi Mark nos meus sonhos.

Quando finalmente me levantei, a cozinha cheirava a baunilha e a laranjas. Lucy estava a moer grãos de café.

— Vais estragar-me com mimos e depois o que é que eu faço? Feliz Natal. — Dei-lhe um beijo no alto da cabeça e vi em cima da bancada uma caixa de cereais diferente. — O que é isto?

— Muesli de queijo. Uma delícia. Trouxe o meu próprio fornecimento. É melhor com iogurte simples, se tiveres, que não é o caso. Por isso vamos ter de contentar-nos com leite magro e bananas. Mais, temos sumo de laranja natural e descafeinado francês com sabor a baunilha. Acho que devíamos telefonar à minha mãe e à avó.

Enquanto eu, da cozinha, marcava o número da minha mãe, Lucy foi para o escritório para usar a extensão de lá. A minha irmã já estava em casa da minha mãe e não tardou que ficássemos as quatro em linha, com a minha mãe a lamentar-se por causa do tempo. Estava a trovejar desalmadamente em Miami, disse. Chuvas torrenciais acompanhadas de ventos demolidores tinham começado ao fim da tarde da véspera de Natal sendo a manhã festejada com uma grandiosa explosão de relâmpagos.

— Não deviam estar ao telefone durante uma trovoada — disse-lhes. — Ligamos mais tarde.

— Que paranóica, Kay — troçou Dorothy. — Estás sempre a ver, em tudo, a hipótese de alguém vir a morrer.

— Fala-me dos teus presentes, Lucy — interrompeu a minha mãe.

— Ainda não os abrimos, avó.

— Eh, pá. Este foi mesmo perto — exclamou Dorothy, bem alto, por causa dos ruídos da estática. — As luzes até piscaram.

— Mãe, espero que não tenhas nenhum ficheiro aberto no computador — disse Lucy. — porque se tiveres o mais certo é perderes tudo aquilo em que tens estado a trabalhar.

— Lembraste-te de trazer a manteiga, Dorothy? — perguntou a minha mãe.

- — Bolas. Eu sabia que faltava alguma coisa...

— Devo ter-te lembrado pelo menos umas três vezes a noite passada.

— Já te disse que não fixo as coisas quando me telefonas eu estou a escrever, mãe.

— Já viram isto? Véspera de Natal e vens à missa comigo? Não. Ficas em casa a trabalhar nesse livro e depois esqueces-te de trazer a manteiga.

— Vou já comprar um pacote.

— E que julgas tu que está aberto na manhã do dia de Natal?

— Alguma coisa há-de estar.

Ergui os olhos quando Lucy entrou na cozinha.

— Não acredito nisto — cochichou-me enquanto a minha mãe e a minha irmã continuavam a discutir uma com a outra.

Depois de eu desligar, fomos as duas para a sala que nos fez regressar a uma tranquila manhã de Inverno na Virgínia, à quietude das árvores despidas e retalhos de neve intacta à sombra. Já não conseguiria tornar a viver em Miami. A mudança das estações era como as fases da Lua, uma força que me atraía e estimulava. Precisava da novidade total e das cambiantes intermédias, que os dias fossem curtos e frios para poder apreciar as manhãs de Primavera.

O presente da avó para Lucy era um cheque de cinquenta dólares. Dorothy também lhe deu dinheiro e fiquei embaraçada quando Lucy abriu o envelope e juntou o meu cheque aos outros.

— O dinheiro parece uma coisa tão impessoal — disse-lhe, constrangida.

— Para mim não é impessoal porque é o que eu quero. Acabas de comprar mais um mega de memória para o meu computador. — Entregou-me um presente pequeno, pesado, embrulhado em papel vermelho e prateado e não conseguiu conter a alegria ao ver a minha expressão quando abri a caixa e afastei o papel de seda.

— Achei que podias apontar aí as tuas idas ao tribunal — explicou. — Condiz com o teu blusão de motociclista.

— É giríssima, Lucy. — Acariciei a capa de pelica preta da agenda e folheei as sedosas páginas beges. Lembrei-me do domingo em que ela fora à cidade, do tempo que se demorara quando a deixei levar o meu carro para ir ao clube. Aposto que a espertalhona tinha ido às compras.

— E este aqui são só as recargas para a parte das moradas, mais o calendário do próximo ano. — Pôs-me no colo uma prenda mais pequena na altura em que o telefone tocou.

Marino desejou-me um Feliz Natal e disse que queria passar por lá com o meu “presente”.

— Diga à Lucy para vestir uma coisa quente mas nada que seja justo — acrescentou, em tom irritado.

— De que está a falar? — Perguntei, sem perceber.

— Nada de calças justas senão não consegue meter nem tirar cartuchos dos bolsos. Disse-me que ela queria aprender a atirar. A primeira lição é agora de manhã, antes do almoço. Se faltar, o problema é dela. A que horas se almoça?

— Entre a uma e meia e as duas. Julguei que estivesse comprometido.

— Pois é, descomprometi-me. Passo aí dentro de vinte minutos. Diga à fedelha que está um frio do caraças na rua. Quer vir connosco?

— Desta vez, não. Fico a cozinhar.

A disposição de Marino não estava mais afável quando me apareceu à porta e fez questão de dar uma vista de olhos ao meu revólver de reserva, um Ruger 38 com punho de borracha. Empurrando a patilha de abertura, soltou o tambor e, lentamente, fê-lo rodar espreitando para dentro de cada uma das câmaras. Puxou o cão para trás, examinou o cano e depois experimentou o gatilho. Enquanto Lucy o observava em curioso silêncio, pontificou sobre a acumulação de resíduos deixados pelo dissolvente que eu usava e informou-me que o meu Ruger se calhar tinha “esporas” que precisavam ser limadas. Depois meteu-se com Lucy no Ford e arrancaram.

Quando voltaram, horas depois, traziam as faces rosadas do frio e Lucy mostrou-me, orgulhosamente, a bolha que fizera no dedo do gatilho.

— Como é que ela se portou? — perguntei enxugando as mãos ao avental.

— Mais ou menos — respondeu Marino olhando para trás de mim. — Cheira-me a galinha frita.

- Cheira-lhe a quê? — Não cheira, não. — Peguei nos casacos deles. toletta di tacchino alia bolognese.

— Portei-me melhor que “mais ou menos” — afirmou Lucy. — Só

falhei o alvo duas vezes.

— É só continuares a treinar até não largares o gatilho. Lembra-te,

o cão puxa-se devagarinho.

— Tenho mais fuligem em cima de mim que o Pai Natal depois de descer pela chaminé — comentou Lucy, alegremente. — Vou tomar um

duche.

Na cozinha, servi o café enquanto Marino inspeccionava uma banca atulhada de garrafas de Marsala, parmesão acabado de ralar, presunto, trufas brancas, filetes de peru salteados e outros ingredientes sortidos que iam fazer parte da nossa refeição. Fomos para a sala onde a lareira

estava acesa.

— O seu gesto foi muito simpático — disse-lhe. — Não imagina o

quanto lhe estou grata.

— Uma lição não chega. Talvez possa levá-la lá mais umas vezes antes de ela voltar para a Florida.

— Obrigada, Marino. Espero que a mudança de planos não lhe tenha causado muito transtorno e sacrifício.

— Não era nada de importante — redarguiu, lacónico.

— Pelos vistos decidiu não ir almoçar ao Sheraton — sondei. — A sua amiga podia ter vindo também.

— Surgiu um imprevisto.

— Ela tem nome?

— Tanda.

— Um nome interessante. O rosto de Marino estava a ficar vermelho.

— Como é que ela é?

— Se quer que lhe diga, não vale a pena falarmos dela. — Bruscamente, levantou-se e seguiu pelo corredor para ir à casa de banho.

Eu tivera sempre o cuidado de não fazer perguntas a Marino a respeito da sua vida pessoal, a menos que ele tomasse a iniciativa. Mas desta vez não consegui resistir.

— Como é que se conheceram? — perguntei-lhe quando ele voltou.

— No baile da FOP.

— Acho óptimo que saia e conheça pessoas.

— É uma seca, deixe-me que lhe diga. Eu já não saía com ninguém há mais de trinta anos. É como o Rip Van Wrinkle a acordar noutro século. As mulheres agora são diferentes.

— Como? — Fiz um esforço para não sorrir. Era óbvio que, para Marino, nada daquilo tinha piada.

— Já não são simples.

— Simples?

— Sim, como a Doris. A nossa relação não era complicada. Depois, passados trinta anos, de repente dá à sola e eu tenho de começar do zero. Há uns tipos que me convencem a ir a essa seca do baile da FOP. Estou lá muito sossegadinho quando a Tanda se chega à minha mesa. Duas cervejas depois, pede-me o número de telefone, já viu uma destas?

— Deu-lho?

— Vou eu e digo-lhe “Ouça, se quer sair comigo dê-me o seu. Eu é que telefono.” Ela pergunta-me então de que jardim zoológico é que eu fugi e depois convida-me para ir jogar howling. Foi assim que a coisa começou. Acabou com ela a dizer-me que tinha batido por trás em alguém aqui há umas semanas e que tinha sido multada por condução imprudente. Queria que eu a safasse.

— Que pena. — Fui buscar o presente dele à árvore e entreguei-lho. — Não sei se isto vai beneficiar ou não a sua vida social.

Desembrulhou uns suspensórios vermelho-Natal com gravata de seda a condizer.

— É muita amabilidade, doutora. Gaita. — Levantando-se, resmungou aborrecido: — Malditos comprimidos — e tornou a ir à casa de banho. Minutos depois voltou para junto da lareira.

— Quando é que fez o último checkupt — perguntei-lhe.

— Há umas duas semanas.

— E?

— E o que é que acha? — redarguiu.

— Acho que está com a tensão alta.

— Ah, sim?

— O que é que o seu médico lhe disse, concretamente? — perguntei.

— Está 15-10 e tenho a porcaria da próstata dilatada. Por isso é que ando a tomar estes comprimidos. Passo a vida a levantar-me com vontade de urinar e metade das vezes não consigo. Se as coisas não melhorarem, diz que vai ter de me fazer uma RTUP.

Uma RTUP era uma ressecção transuretral da próstata. Não era grave embora não fosse nada agradável. A tensão alta de Marino preocupava-me. Candidatava-se seriamente a uma trombose ou a um enfarte.

— Além disso, incham-me os tornozelos — prosseguiu ele. — Doem-me os pés e tenho umas dores de cabeça horríveis. Tenho de deixar de fumar, de beber café, perder vinte quilos, reduzir o stress.

— Sim, tem de fazer essas coisas todas — afirmei, categórica. — E não me parece que esteja a fazer alguma delas.

— É mudar a minha vida por completo. E olhe quem fala.

— Eu não tenho a tensão alta e deixei de fumar há exactamente dois meses e cinco dias. Já para não dizer que se perdesse vinte quilos não estava agora aqui.

Lançou um olhar furioso às chamas.

— Ouça — disse-lhe —, por que não fazemos isso os dois? Cortamos no café e passamos a fazer exercício.

— Não estou a vê-la a fazer aeróbica — retorquiu ele, sarcasticamente.

— Eu jogo ténis e você pode fazer aeróbica.

— Ai de quem se chegue ao pé de mim com um par de collants.

— Não está a ajudar nada, Marino. Já irritado, mudou de assunto:

— Tem alguma cópia do fax de que me falou?

Fui ao escritório e voltei com a pasta. Abrindo-a, entreguei-lhe o printout da mensagem que Vander descobrira com o realçador de imagem.

— Isto estava na folha em branco que encontrámos em cima da cama de Jennifer Deighton, certo? — perguntou ele.

— Exactamente.

— Ainda não percebi por que é que ela tinha uma folha em branco em cima da cama com um cristal por cima. Que estavam lá a fazer?

— Não sei — respondi. — E quanto às mensagens deixadas no gravador dela? Nada?

— Ainda estamos a ouvi-las. Temos uma data de gente para interrogar. — Tirou um maço de Marlboro do bolso da camisa e soltou um ruidoso suspiro. — Raios. — Pousou-o com força na mesa de centro. — Agora vai-me chatear de cada vez que eu acender um cigarro, não vai?

— Não, vou ficar só a olhar. Mas não digo nada.

— Lembra-se daquela sua entrevista que passou na PBS há uns meses?

— Tenho uma vaga ideia.

— Jennifer Deighton gravou-a. A cassete estava metida no vídeo e quando o ligámos lá apareceu a doutora.

— O quê? — perguntei, espantada.

— Claro que a sua entrevista não era a única rubrica do tal programa. Havia também uma treta qualquer sobre uma escavação arqueológica e um filme de Hollywood que estava a ser rodado por estas bandas.

— Por que me terá ela gravado?

— É apenas mais uma peça que, por enquanto, não se encaixa em mais nada. Tirando as chamadas feitas do telefone dela — os desliganços. Parece que a Deighton estava a pensar em si quando foi agredida.

— Que mais apurou acerca dela?

— Tenho de fumar. Quer que vá lá para fora?

— Claro que não.

— A coisa está cada vez mais esquisita — disse ele. — Quando andávamos a revistar o escritório dela, encontrámos uma certidão de divórcio. Parece que se casou em 1961, divorciou-se dois anos depois, e voltou a usar o apelido Deighton. Depois mudou-se da Florida para Richmond. O ex-marido chama-se Willie Travers e é um desses tipos com a mania da saúde — sabe como é, isso da saúde do todo. Gaita, não me lembro do nome.

— Medicina holística?

— Isso mesmo. Ainda vive na Florida, em Fort Myers Beach. Falei com ele pelo telefone. Um bico de obra arrancar-lhe alguma coisa mas consegui descobrir umas coisas. Diz que ele e Miss Deighton continuaram a ser amigos depois da separação e até continuavam a encontrar-se.

— Ele vinha cá?

— O Travers disse que ia ela visitá-lo à Florida. Encontravam-se, segundo ele, “em nome dos velhos tempos”. A última vez que ela lá esteve foi em Novembro passado, por alturas do Dia de Acção de Graças. Também lhe saquei umas informaçõezinhas acerca dos irmãos dela. A irmã é muito mais nova, casada, vive na costa oeste. O irmão é o mais velho, a meio dos cinquenta e é gerente de uma mercearia. Teve um cancro na garganta há uns anos e ficou sem cordas vocais.

— Espere aí — disse eu.

— Pois. Sabe como é que eles falam. Perceberia logo, se o ouvisse. É impossível que o tipo que lhe ligou para o serviço fosse John Deighton. Era outra pessoa qualquer com motivos pessoais para querer saber o resultado da autópsia de Jennifer Deighton. Sabia o suficiente para dar o nome certo. Sabia o suficiente para afirmar que estava a falar de Columbia, na Carolina do Sul. Mas não sabia dos problemas de saúde do verdadeiro John Deighton, não sabia que a voz tinha de parecer que estava a falar através de uma máquina.

— O Travers sabe que a morte da ex-mulher foi um homicídio? — perguntei.

— Eu disse-lhe que a médica legista ainda está a fazer análises.

— E ele estava na Florida quando ela morreu?

— Alegadamente. Gostava de saber onde é que o seu amigo Nicholas Grueman estava quando ela morreu.

— Nunca foi meu amigo — retorqui. — Como é que vai abordado?

— Não é para já. Só se tem uma oportunidade com tipos como o Grueman. Que idade é que ele tem?

— Uns sessenta e tal.

— É um tipo grande?

— Não o vejo desde que andei em Direito. — Levantei-me para atiçar as chamas. — Nessa altura, o Grueman tinha uma constituição normal, quase magro. Diria que é de estatura média.

Marino não disse nada.

— Jennifer Deighton pesava oitenta e dois quilos — recordei-lhe. — Ao que parece, o assassino garroteou-a e depois carregou com o corpo para dentro do carro.

— Certo. Então se calhar o Grueman teve ajuda. Quer uma hipótese estapafúrdia? Veja lá esta. O Grueman representava o Ronnie Waddell que não era, propriamente, um lingrinhas. Ou talvez, melhor dizendo, não é propriamente um lingrinhas. Foi encontrada uma impressão digital do Waddell em casa de Jennifer Deighton. Talvez o Grueman tenha ido visitá-la e não fosse sozinho.

Continuei a olhar para as chamas.

— A propósito, não vi nada em casa de Jennifer Deighton que pudesse ser a origem da pena que encontrou — acrescentou. — Pediu-me para ver isso.

Nessa altura o pager dele tocou. Arrancando-o do cinto, deu uma olhadela ao estreito visor.

— Gaita — resmungou encaminhando-se para o telefone da cozinha.

— Que foi... O quê? — Ouvi-o perguntar. — Oh, senhores. Tem a certeza? — Ficou calado por um instante. Parecia muito tenso quando respondeu: — Não se incomode. Estou a uns quatro metros e meio dela.

Marino passou um sinal vermelho na West Cary e no Windsor Way e rumou para leste. Com os quatro piscas ligados mais a luz de tejadilho a rodopiar no Ford LTD branco. Mensagens em código estalejavam no rádio enquanto eu imaginava Susan enroscada na cadeira de baloiço, o roupão turco bem apertado contra o corpo resguardando-a de um frio que não tinha nada a ver com a temperatura ambiente. Recordei a expressão no seu rosto, sempre a mudar como nuvens no céu, uns olhos que nada me revelavam. Toda eu tremia e parecia que até o ar me faltava. O coração latejava - me com força na garganta. A Polícia encontrara o carro de Susan num beco junto à Strawberry Street. Estava sentada ao volante, morta.

Desconhecia-se o que estaria a fazer nessa zona da cidade ou qual o motivo da agressão.

— Que mais lhe disse ela quando falaram a noite passada? — perguntou Marino.

Não me ocorreu nada de importante.

— Estava tensa — respondi. — Perturbada com qualquer coisa.

— Com quê? Faz alguma ideia?

— Não sei com quê. — As mãos tremeram-me quando mexi dentro do estojo a conferir, uma vez mais, o seu conteúdo. Máquina fotográfica, luvas e tudo o mais que devia lá estar. Lembrava-me de ter ouvido Susan dizer, um dia, que se alguém tentasse sequestrá-la ou violá-la primeiro teria de matá-la.

Muitos tinham sido os finais de tarde em que só lá ficáramos as duas a fazer arrumações e a tratar da papelada. Tivéramos muitas conversas sobre o ser mulher e gostar de homens e como seria ser-se mãe. Uma vez falámos da morte e Susan confessou que tinha medo de morrer. “E olhe que não estou a falar do Inferno, da condenação pelas chamas de que o meu pai fala nos sermões dele — não é disso que eu tenho medo”, afirmou, categórica. “Tenho medo é que a vida se resuma a isto.”

“A vida não se resume a isto”, disse-lhe eu.

“Como é que se sabe?”

“Falta qualquer coisa. Olha-se para as caras deles e percebe-se. A energia deles esgotou-se. O espírito não morreu. Só morreu o corpo.”

“Mas como é que se sabe?”, tornou ela a perguntar.

Afrouxando, Marino virou para a Strawberry Street. Olhei pelo espelho do meu lado. Vinha outro carro da Polícia atrás de nós, a barra do tejadilho a piscar clarões vermelhos e azuis. Passámos por restaurantes e uma pequena mercearia. Não estava nada aberto e os poucos carros que se viam davam-nos passagem. Junto ao Strawberry Street Café, a rua estreita estava bordejada de carros-patrulha e viaturas não identificadas e uma ambulância bloqueava a entrada de um beco. Duas carrinhas da televisão haviam estacionado um pouco mais adiante. Os repórteres andavam impacientemente de um lado para o outro junto à fita que delimitava o local. Marino estacionou e abrimos as portas ao mesmo tempo. E logo as câmaras apontaram na nossa direcção.

Vi por onde Marino ia e segui-o. Zumbiram obturadores, rodaram películas e ergueram-se microfones. As largas passadas de Marino não perderam o ritmo e não respondia a ninguém. Eu virava a cara para o outro lado. Contornando a ambulância, passámos por baixo da fita. O velho Toyota cor de vinho estava parado a meio, com a grelha para a frente junto a uma estreita calçada coberta de neve esmagada e suja. Feias paredes de tijolo erguiam-se de ambos os lados bloqueando os oblíquos e baixos raios solares. A água gotejava lentamente dos telhados e das ferrugentas escadas de incêndio. O cheiro a lixo pairava no ar húmido e ventoso.

Mal me apercebi de que o jovem agente de traços latinos a falar por um rádio portátil era alguém que eu conhecera recentemente. Tom Lucero observou-nos enquanto resmungava qualquer coisa antes de desligar. Do sítio onde me encontrava, pela porta do condutor aberta só conseguia ver uma anca esquerda e um braço. Senti um choque ao reconhecer o casaco de lã preto, a aliança de ouro martelado e o relógio de pulso de plástico preto. Entalada entre o pára-brisas e o tabher, a placa vermelha de médica legista.

— Está registado em nome de Jason Story. Calculo que seja o marido — disse Lucero a Marino. — Ela traz a identificação dentro da bolsa. A carta está em nome de Susan Dawson Story, branca, vinte e oito anos.

— E dinheiro?

— Onze dólares na carteira e alguns cartões de crédito. Para já, nada que aponte para um assalto. Conhece-a?

Marino inclinou-se para a frente para ver melhor. Cerrou os maxilares com força.

— Sim. Conheço-a. O carro foi encontrado assim como está?

— Abrimos a porta do condutor. Mais nada — respondeu Lucero, enfiando o rádio portátil num bolso.

— O motor estava desligado, as portas trancadas?

— Estavam. Como lhe disse pelo telefone, o Fritz viu o carro durante a ronda. Hmm, por volta das 15.00 e reparou na placa de médica legista no pára-brisas. — Lançou-me um olhar de soslaio. — Se der a volta para o lado do passageiro, consegue ver o sangue junto ao ouvido direito. Alguém fez um servicinho limpo.

Marino chegou-se para trás e olhou para a neve espezinhada.

— Parece que não vamos ter muita sorte com pegadas.

— Tem razão. Está-se a derreter como um gelado. Já estava quando chegámos.

— Encontraram alguma cápsula?

— Népia.

— A família já sabe?

— Ainda não. Pensei que quisesse tomar conta deste caso — respondeu Lucero.

— Veja lá é se a identidade dela e o sítio onde trabalhava não vão parar à comunicação social antes de a família saber. Jesus. — Marino concentrou-se então em mim. — Que quer fazer aqui?

— Não quero tocar em nada dentro do carro — respondi relanceando o olhar pelas imediações enquanto sacava da máquina fotográfica. Estava controlada e a raciocinar com clareza mas as mãos não paravam de tremer. — Dê-me um minuto para dar uma vista de olhos e depois colocamo-la numa maca.

— Estão a postos para as ordens da doutora? — perguntou Marino a Lucero.

— Estamos.

Susan trazia uns jeans desbotados, botas de atacadores já muito usadas, o casaco de lã preto abotoado até cima. Senti um baque no peito ao ver o lenço de seda vermelho a sair da gola. Usava óculos de sol e estava recostada no banco do condutor como se tivesse procurado uma posição confortável acabando por adormecer. No estofo cinzento-claro junto à nuca havia uma mancha avermelhada. Passei para o outro lado do carro e vi o sangue a que Lucero se referira. Comecei a fotografar e depois fiz uma pausa para me aproximar mais do rosto dela, detectando a leve fragrância de uma água de colónia nitidamente masculina. O cinto de segurança, reparei, estava desapertado.

Não lhe toquei na cabeça enquanto a equipa de socorro não chegou e o corpo de Susan foi depositado numa maca dentro da ambulância. Aí entrei e passei alguns minutos à procura de ferimentos de bala. Descobri um na têmpora direita, outro na cova da nuca logo abaixo da linha do cabelo. Passei os dedos enluvados pelo seu cabelo castanho-arruivado, à procura de mais sangue mas não encontrei.

Marino trepou para a parte de trás da ambulância.

— Quantos tiros levou? — perguntou-me.

— Encontrei dois orifícios de entrada. Nenhum de saída embora se sinta uma bala sob a pele por cima do osso temporal esquerdo.

Ele lançou um olhar nervoso ao relógio de pulso.

— Os Dawson não moram muito longe daqui. Em Glenburnie.

— Os Dawson? — Descalcei as luvas.

— Os pais dela. Tenho de falar com eles. Já. Antes que algum parvo dê à língua e acabem por saber pela rádio ou pela televisão. Vou arranjar um carro-patrulha para a levar a casa.

— Não — respondi — Vou consigo. Acho que devo ir.

Os candeeiros da rua começavam a acender-se quando nos afastámos. Marino não tirava os olhos da estrada, o rosto perigosamente vermelho.

— Raios! — vociferou, dando um murro no volante. — Raios partam! Um tiro na cabeça. Dar um tiro a uma mulher grávida.

Pus-me a olhar pela janela, os pensamentos dispersos perpassados por imagens fragmentadas, distorcidas. Pigarreei.

— Já localizaram o marido dela?

— Ninguém atende em casa deles. Talvez esteja com os pais dela. Bolas, detesto este trabalho. Não quero fazer isto, gaita. Feliz Natal uma merda. Bato à porta e alguém fica lixado porque eu vou dizer-lhe uma coisa que lhe vai destruir a vida.

— Você não destruiu a vida de ninguém.

— Sim, está bem, mas prepare-se porque é isso que vou fazer.

Virou para a Albermarle. Enormes contentores que tinham sido empurrados para a berma do passeio estavam agora rodeados de sacos de asas cheios de lixo natalício. Janelas acolhedoramente acesas, algumas enfeitadas com lâmpadas de muitas cores. No passeio, um jovem pai empurrava um trenó de rodas com o filhote lá dentro. Sorriram e acenaram-nos quando passámos. Glenburnie era o bairro das famílias da classe média, de jovens executivos, solteiros, casados e homossexuais. Nos meses quentes, as pessoas sentavam-se nas varandas e cozinhavam cá fora nos quintais. Davam festas e falavam uns com os outros de um lado para o outro da rua.

A modesta casa dos Dawson era tudoriana, serenamente desgastada pelo tempo com cuidadas sebes de sempre-verdes à frente. As janelas do primeiro andar e do rés-do-chão estavam iluminadas, uma velha station parada junto ao passeio.

Ao toque da campainha respondeu uma voz de mulher do lado de lá da porta:

— Quem é?

— Mrs. Dawson?

— Sim?

— Detective Marino da Polícia de Richmond. Preciso de falar consigo — disse ele, bem alto, encostando o crachá ao óculo da porta.

Barulho de trincos a correr enquanto o meu pulso acelerava. Durante as minhas várias especializações médicas, deparara com doentes que, gritando de dor, me imploravam que não os deixasse morrer. Tranquilizara-os com falsos “Vai ficar bom” enquanto eles se seguravam com força à minha mão. Dissera “Sinto muito” a entes queridos desesperados em salas pequenas, abafadas, onde até os capelães se sentiam constrangidos. Mas nunca levara a notícia de uma morte a casa de ninguém no dia de Natal.

A única parecença que pude ver entre Mrs. Dawson e a filha era a firme curva dos maxilares. Mrs. Dawson tinha um rosto anguloso, cabelo curto, grisalho. Não devia pesar mais que uns cinquenta quilos e fez-me lembrar uma avezinha assustada. Quando Marino me apresentou, o seu olhar foi de pânico.

— Que aconteceu? — mal conseguiu ela perguntar.

— Infelizmente tenho muito más notícias para lhe dar, Mrs. Dawson — disse Marino. — A sua filha, Susan. Sinto muito, mas ela faleceu.

Ouvimos o andar de pés pequeninos numa divisão próxima e apareceu uma garotinha na soleira da porta à nossa direita. Parou, a mirar-nos com uns grandes olhos azuis.

— Hailey, onde está o avô? — Perguntou Mrs. Dawson com voz trémula, o rosto agora de uma palidez total.

— Lá em cima. — Hailey era uma pequena maria-rapaz, de jeans e ténis de cabedal com aspecto de novos. O cabelo claro brilhava como ouro e usava óculos para corrigir um estrabismo no olho esquerdo. Calculei que tivesse, quanto muito, uns oito anos.

— Vai dizer-lhe para vir cá abaixo — pediu Mrs. Dawson. — E tu e o Charlie fiquem lá em cima até eu ir ter convosco.

A criança hesitou na soleira da porta, enfiando dois dedos na boca. A olhar, desconfiada, para mim e para Marino.

— Vai lá, Hailey!

Hailey desandou com um abrupto acesso de energia.

Sentámo-nos na cozinha com a mãe de Susan. As suas costas não tocavam no encosto da cadeira. Só começou a chorar quando o marido lá entrou, minutos depois.

— Oh, Mack — disse ela, num fio de voz. — Ob, Mack. — E começou a soluçar.

Ele passou-lhe um braço pelos ombros, puxando-a para si. O rosto empalideceu e ficou de lábios firmemente cerrados enquanto Marino lhe explicou o que acontecera.

— Sim, sei onde é a Strawberry Street — disse o pai de Susan. — Não sei o que a terá levado a ir lá. Que eu saiba, não é uma zona onde ela costumasse ir. Não devia estar nada aberto, hoje. Não sei.

— Sabe onde está o marido dela, Jason Story? — perguntou Marino.

— Está aqui.

— Aqui? — Marino olhou em redor.

— Lá em cima, a dormir. O Jason não se está a sentir bem.

— As crianças são filhas de quem?

— Do Tom e da Marie. O Tom é nosso filho. Vieram cá passar as Festas e saíram ao princípio da tarde. Foram a Tidewater visitar uns amigos. Devem estar a chegar. — Pegou na mão da mulher. — Millie, estes senhores têm muitas perguntas para fazer. É melhor ires chamar o Jason.

— Ouça — disse Marino —, preferia falar a sós com ele, só por um momento. Importa-se de me levar lá?

Mrs. Dawson fez um gesto de assentimento escondendo o rosto nas mãos.

— É melhor ires ver o Charlie e a Hailey — disse-lhe o marido. — Vê se consegues ligar para a tua irmã. Talvez ela possa dar cá um salto.

Os seus olhos azuis-claros seguiram Marino e a mulher quando saíram da cozinha. O pai de Susan era alto, com boa constituição óssea, o cabelo castanho-escuro e farto, com muito poucas brancas. Parco de gestos, emoções bem controladas. Susan herdara-lhe os traços e, talvez, o temperamento.

— O carro dela é velho. Não tem nada de valor para roubar e sei que não andava metida em nada. Em drogas ou coisa assim. — O seu olhar sondou o meu rosto.

— Não sabemos por que é que isto aconteceu, reverendo Dawson.

— Estava grávida — disse ele, com a voz embargada. — Como é que alguém foi capaz?

— Não sei — redargui. — Não sei mesmo. Tossicou.

— Ela não tinha nenhuma arma.

Por um momento fiquei sem saber onde ele queria chegar. Depois percebi e tranquilizei-o:

— Não. A Polícia não encontrou nenhuma arma. Não há nenhuma prova de que se tenha suicidado.

— A Polícia? A senhora não é da Polícia?

— Não. Sou a médica legista chefe. Kay Scarpetta. Ficou a olhar para mim, alheado.

— A sua filha trabalhava para mim.

— Ah. Claro. Desculpe.

— Não sei o que dizer para o confortar — disse-lhe, a custo. — Eu própria ainda não me recompus. Mas vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para descobrir o que aconteceu. Garanto-lhe.

— A Susan falava de si. Sempre quis ser médica. — Desviou o olhar, pestanejando para conter as lágrimas.

— Eu falei com ela a noite passada. Durante um bocadinho, em casa dela — hesitei, relutante em pesquisar as facetas sensíveis das suas vidas. — Achei-a nervosa. E ultimamente não parecia a mesma no serviço.

Ele engoliu em seco, as mãos firmemente entrelaçadas em cima dá mesa. Os nós dos dedos estavam brancos.

— Precisamos rezar. Quer rezar comigo, Dr.a Scarpetta? — deu-me a mão. — Por favor.

Quando os dedos dele se fecharam com força à volta dos meus não pude deixar de pensar no nítido desprezo de Susan pelo pai e desconfiança por aquilo que ele representava. Os fundamentalistas também me amedrontavam. Foi com uma sensação de ansiedade que fechei os olhos e dei a mão ao reverendo Mack Dawson quando ele agradecia a Deus uma misericórdia da qual eu não via provas e apregoava promessas que Deus já não podia cumprir. Abrindo os olhos, retirei a mão. Por um segundo, receei, aflita, que o pai de Susan se apercebesse do meu cepticismo e questionasse as minhas crenças. Mas não era o destino da minha alma que lhe ocupava os pensamentos.

Do primeiro andar veio o som de um berro, um protesto abafado que não percebi. Uma cadeira a arrastar no chão. O telefone tocou várias vezes e a voz tornou a erguer-se num grito animalesco de raiva e dor. Dawson fechou os olhos. Murmurou qualquer coisa entre dentes que me pareceu muito estranha. Creio que disse “Fica no teu quarto.”

— O Jason esteve sempre cá em casa — disse. Vi-lhe o sangue a latejar nas fontes. — Sei que ele pode responder por si mesmo mas só queria que o soubesse, por mim.

— O senhor disse que ele não estava a sentir-se bem.

— Acordou com uma constipação, com um princípio de constipação. A Susan viu-lhe a febre depois do almoço e aconselhou-o a ir deitar-se. Ele nunca faria mal... Enfim. — Tornou a tossir. — Sei que a Polícia tem de fazer perguntas, tem de considerar os problemas domésticos. Mas aqui não foi o caso.

— Reverendo Dawson, a que horas é que a Susan saiu de casa hoje e onde é que ela disse que ia?

— Saiu depois do almoço, depois de o Jason se ter ido deitar. Acho que por volta da uma e meia, duas. Disse que ia a casa de uma amiga.

— Que amiga?

Ele olhou fixamente para um ponto atrás de mim.

— Uma amiga dos tempos de liceu. Dianne Lee.

— Onde é que ela mora?

— Na zona norte, perto do seminário.

— O carro da Susan foi encontrado junto à Strawberry Street, não na zona norte.

— Acho que se alguém... Ela podia ter ido parar a qualquer lugar.

— Convinha saber se ela chegou a ir a casa de Dianne e de quem partiu a ideia da visita — afirmei.

Ele levantou-se e começou a abrir gavetas da cozinha. Só à terceira tentativa é que encontrou a lista telefónica. As mãos tremiam-lhe ao folheá-la e ao marcar o número. Pigarreando várias vezes, pediu para falar com Dianne.

— Compreendo. Como disse? — Escutou por um momento. — Não, não. — A voz tremeu-lhe. — As coisas não estão nada bem.

Mantive-me imóvel enquanto ele contava o que se passara e imaginei-o muitos anos mais novo a rezar e a falar ao telefone quando confrontado com a morte da sua outra filha, Judy. Quando voltou para a mesa, confirmou o que eu receava. Susan não visitara a amiga nessa tarde nem houvera quaisquer planos nesse sentido. A amiga nem sequer estava na cidade.

— Foi com o marido para a Carolina do Norte — disse-me o pai de Susan. —Já lá está há uns dias. Por que teria ela mentido? Não era preciso. Sempre lhe disse que, acontecesse o que acontecesse, não precisava de mentir.

— Pelos vistos não queria que ninguém soubesse onde ela ia ou com quem ia encontrar-se. Sei que isso levanta especulações desagradáveis mas temos de considerá-las — afirmei, delicadamente.

Limitou-se a baixar os olhos para as mãos.

— Ela e o Jason davam-se bem?

— Não sei. — Fez um esforço para se recompor. — Santo Deus, outra vez, não. — Novo sussurrar estranho. “Vai para o teu quarto. Por favor, vai.” Depois ergueu para mim uns olhos injectados de sangue. — Ela tinha uma irmã gémea. A Judy morreu quando andavam no liceu.

— Sim, num acidente de carro. A Susan contou-me. Sinto muito.

— Ela nunca se conformou. Culpava Deus. Culpava-me a mim.

— Não fiquei com essa impressão — disse-lhe. — Se culpava alguém, pareceu-me que era uma rapariga chamada Doreen.

Dawson tirou um lenço do bolso e assoou-se discretamente.

— Quem? — perguntou.

— A colega de liceu que, constava, era bruxa. Ele abanou a cabeça.

— A que teria rogado uma praga a Judy. — Mas não valia a pena estar com mais pormenores pois percebi logo que Dawson não sabia do que eu estava a falar. Voltámo-nos ambos para trás quando Hailey entrou na cozinha. Abraçada a uma luva de baseball, o olhar assustado.

— Que trazes aí, querida? — perguntei, forçando um sorriso.

Ela aproximou-se mais de mim. Senti o cheiro do cabedal novo. A luva estava amarrada com um cordel, uma bola felpuda metida na concavidade como uma grande pérola dentro de uma ostra.

— Foi a tia Susan que ma deu — respondeu ela baixinho. — Tem que se partir o fio. Tenho de o pôr debaixo do meu colchão. A tia Susan diz que tenho de fazer isso durante uma semana.

O avô estendeu-lhe os braços e sentou-a no colo. Enterrou o rosto no cabelo dela, abraçando-a com força.

— Quero que vás um bocadinho para o teu quarto, fofinha. Fazes-me esse favor para eu poder tratar de umas coisas? Só um instantinho?

Ela acenou com a cabeça, o olhar sempre fixo em mim.

— O que é que a avó e o Charlie estão a fazer?

— Não sei. — Deslizou do colo dele e, relutantemente, deixou-nos sós.

— Já tinha dito isso — observei. Pareceu espantado.

— Disse-lhe para ela ir para o quarto — continuei. — Ouvi-o dizer isso há pouco, murmurar qualquer coisa sobre ir para o quarto. Com quem estava a falar?

Ele baixou os olhos.

— A criança é o eu. O eu sente intensamente, chora, não consegue dominar as emoções. Às vezes é melhor mandá-lo para o quarto como eu disse à Hailey. Para serenar. Um truque que eu aprendi. Quando era miúdo aprendi, tive de aprender. O meu pai não reagia bem se eu chorasse.

— Faz bem chorar, reverendo Dawson.

Os olhos dele encheram-se de lágrimas. Ouvi os passos de Marino nas escadas. Depois entrou pesadamente na cozinha e Dawson tornou a dizer a frase, angustiado, por entre dentes.

Marino olhou para ele, desconcertado.

— Acho que o seu filho chegou — disse.

O pai de Susan começou a chorar descontroladamente quando lá de fora, da invernosa escuridão, veio o som de portas de carro a bater e risos na varanda.

O almoço de Natal foi para o lixo, o fim de tarde passado a andar de um lado para o outro pela casa e a falar ao telefone enquanto Lucy se mantinha no meu escritório com a porta fechada. Havia coisas a tratar. O homicídio de Susan lançara os meus serviços num estado de crise. O caso tinha de ser sigiloso, as fotos escondidas daqueles que a haviam conhecido. A Polícia teria de passar revista ao gabinete e ao cacifo dela. Iam querer interrogar membros do meu pessoal.

— Não sou capaz de ir lá a baixo — disse-me Fielding, o meu assistente, pelo telefone.

— Eu sei — redargui com um nó na garganta. — Também não estou a contar com isso, nem quero que ninguém vá.

— E a senhora?

— Eu tenho de ir.

— Meu Deus. Não consigo acreditar que tenha acontecido. Não consigo.

O Dr. Wright, meu assistente em Norfolk, acedeu amavelmente em vir a Richmond de manhã cedo no dia seguinte. Como era domingo, não estava mais ninguém no edifício excepto Vander que viera dar uma ajuda com a Luma-Lite. Mesmo que me sentisse emocionalmente capaz de fazer a autópsia de Susan, teria recusado. A pior coisa que eu podia fazer por ela era prejudicar a investigação levando a defesa a questionar a objectividade e o discernimento de uma especialista que era também, por sinal, sua chefe. Por isso, sentei-me a uma secretária na morgue enquanto Wright trabalhava. De vez em quando ele fazia-me uma observação por entre o tilintar de instrumentos de aço e o barulho de água a correr enquanto eu me mantinha de olhar fixo na parede de betão. Não toquei em nenhum dos formulários nem etiquetei um único tubo de ensaio. Não me virei para olhar.

Uma vez perguntei-lhe:

— Detectou algum cheiro nela ou nas roupas dela? Alguma água de colónia?

Ele parou o que estava a fazer e ouvi-o dar uns passos.

— Sim. Sem dúvida nenhuma na gola do casaco e no lenço.

— Cheirou-lhe a água de colónia de homem?

— Hmmm. Acho que sim. Sim, diria que se trata de uma fragrância masculina. Talvez do marido? — Wright estava quase na idade da reforma, um indivíduo calvo, barrigudo, com um sotaque da Virgínia Ocidental. Era um patologista forense muito competente e sabia ao certo o que eu estava a pensar.

— Boa pergunta — redargui. — Vou pedir ao Marino para verificar isso. Mas o marido dela esteve doente ontem e foi-se deitar depois do almoço. Não quer dizer que não usasse água de colónia. Não quer dizer que o irmão ou o pai dela não usassem água de colónia que passou para a gola dela quando a abraçaram.

— Isto parece de pequeno calibre. Não há feridas de saída. Fechei os olhos e escutei.

— A ferida na têmpora direita tem cerca de 0,50 cm com 1,25 cm de chamuscado — um padrão incompleto. Um pequeno resíduo granuloso e pólvora mas a maior parte entranhou-se no cabelo. Pólvora no músculo temporal. Quase nada no osso ou na dura.

— Trajectória? — perguntei.

— A bala entra pelo aspecto posterior do lobo frontal direito, atravessa o anterior até aos gânglios basais, atinge o osso temporal esquerdo e aloja-se no músculo subcutâneo. E trata-se de uma bala de aço puro, hmmm, com uma camada de cobre mas não revestida.

— E não se fragmentou? — indaguei.

— Não. Depois temos uma segunda ferida aqui na base da nuca. Negra, orla queimada por abrasão com marca da boca. Uma pequenina laceração com cerca de 15 milímetros nos bordos. Muita pólvora nos músculos occipitais.

— Contacto directo?

— Sim. Quer-me parecer que ele encostou o cano com força ao pescoço dela. A bala entra na junção do forame magno com a C-1 e desfaz a junção cervico-medular. E sobe directamente para o mesocéfalo.

— E quanto ao ângulo? — perguntei.

— É bastante pronunciado. Eu diria que, se estava sentada no carro na altura que esta ferida lhe foi infligida, tombou para a frente ou empurraram-lhe a cabeça.

— Não foi assim que a encontraram — disse eu. — Estava recostada no banco.

— Nesse caso foi ele que a pôs nessa posição — comentou Wright. — Depois de a alvejar. E a bala que lhe atravessou o mesocéfalo foi a última a ser disparada. Calculo que ela já estivesse incapacitada, talvez caída para o lado, quando levou o segundo tiro.

Houve alturas em que me aguentei, como se não estivéssemos a falar de alguém que eu conhecesse. Depois invadia-me um tremor, as lágrimas a quererem soltar-se. Por duas vezes tive de ir lá para fora, passar uns minutos no parque de estacionamento, ao frio. Quando ele chegou ao feto de dez semanas que ela trazia no ventre, uma menina, fui refugiar-me lá em cima, no meu gabinete. Segundo o código penal da Virgínia, o nascituro não era uma pessoa e por conseguinte não podia ter sido assassinado porque não se pode assassinar uma não-pessoa.

— Dois pelo preço de um — comentou Marino, amargamente, pelo telefone quando falámos mais tarde.

— Eu sei — retorqui tirando da bolsa um frasco de aspirina.

— Em tribunal, o júri não vai ser informado de que ela estava grávida. Não é levado em consideração, não importa que ele tenha assassinado uma mulher grávida.

— Eu sei — tornei a dizer. — O Wright está quase a acabar. Não se descobriu nada de significativo durante o exame exterior. Nenhum vestígio digno de nota, nada de estranho. E por aí, que se passa?

— A Susan estava decididamente a atravessar uma crise — respondeu Marino.

— Problemas com o marido?

— Segundo ele, o problema dela era consigo. Afirma que a doutora andava muito esquisita, que lhe telefonava muitas vezes, a pressioná-la. E havia dias em que voltava do trabalho meia amalucada como se andasse com medo de qualquer coisa.

— Eu e a Susan não tínhamos problema nenhum. — Tomei três aspirinas com um gole de café frio.

— Só estou a contar-lhe o que o tipo disse. Outra coisa — e acho que vai interessar-lhe — parece que encontrámos outra pena. Não estou a afirmar que seja um elo de ligação entre o caso Deighton e este, doutora, ou que esteja necessariamente a pensar em tal hipótese. Mas olhe, se calhar é algum marado que usa luvas ou um blusão de penas. Sei lá. Não é muito vulgar. A única vez em que encontrei penas foi quando um vadio partiu uma janela para assaltar uma casa e rasgou o blusão de penas nos vidros.

A cabeça doía-me tanto que até estava agoniada.

— A que encontrámos no carro da Susan é muito pequena — um bocadinho de uma pena branca — prosseguiu ele. — Estava agarrada ao forro da porta do passageiro. Por dentro, junto ao chão, uns cinco centímetros abaixo do apoio do braço.

— Pode trazer-ma? — perguntei-lhe.

— Posso. Que vai fazer?

— Ligar ao Benton.

— Já estou farto de ligar, bolas. Acho que ele e a mulher foram para fora.

— Preciso perguntar-lhe se o Minor Downey pode ajudar-nos.

— Está a falar de uma pessoa ou de um amaciador para a roupa?

— O Minor Downey que trabalha nos laboratórios de cabelos e fibras do FBI. É especialista em penas.

— E o apelido dele é mesmo Downeyt1 — perguntou Marino, incrédulo.

— É mesmo — respondi.

1 Downey, de down (penugem), poderá traduzir-se, dada a ironia da situação, por

Peninha. (N T)

O telefone tocou durante muito tempo na Unidade de Ciência Comportamental do FBI situada nas profundezas subterrânicas da Academia, em Quântico. Recordei os seus corredores sinistros, confusos, e gabinetes atulhados de recordações de bravos guerreiros como Benton Wesley que, segundo me informaram, tinha ido para a neve.

— Aliás, de momento sou o único que cá está — disse o simpático agente que atendeu o telefone.

— Fala a Dr/ Kay Scarpetta e tenho urgência em contactá-lo. Benton Wesley retribuiu o meu telefonema quase de imediato.

— Onde é que está, Benton? — Falei bem alto por causa do horroroso ruído da estática.

— No carro — respondeu ele. — Eu e a Connie passámos o Natal com a família dela em Charlottesville. Vamos agora para oeste, a caminho de Hot Springs. Soube o que aconteceu à Susan Story. Os meus sinceros pêsames. Ia telefonar-lhe hoje à noite.

— Está a perder o sinal. Quase não consigo ouvi-lo.

— Só um momento.

Esperei impacientemente durante um minuto. Depois ele voltou à linha.

— Ficou melhor. Estávamos numa zona baixa. Então que deseja de mim?

— Preciso da ajuda do FBI na análise de umas penas.

— Não há problema. Eu ligo para o Downey.

— Preciso falar consigo — acrescentei com grande relutância pois sabia que estava a pressioná-lo. — Acho que não pode esperar.

— Só um momento.

Desta vez a pausa não se ficou a dever à estática. Ele estava a conversar com a mulher.

— Sabe esquiar? — Perguntou ele, voltando à linha.

— Depende da pessoa a quem perguntar.

— Eu e a Connie vamos passar uns dias no Homestead. Podíamos conversar lá. Consegue desenfiar-se?

— Movo céus e terra se for preciso mas levo a Lucy.

— Óptimo. Ela e a Connie podem fazer companhia uma à outra enquanto nós falamos. Reservo-lhe o quarto quando lá chegarmos. Pode trazer-me alguma coisa para eu ver?

— Sim.

— Incluindo o que tiver sobre o caso Robyn Naismith. Para considerarmos todas as hipóteses possíveis e imaginárias.

— Obrigada, Benton — disse-lhe, reconhecidamente. — E, por favor, agradeça à Connie.

Resolvi sair logo e poucas explicações dei.

— Vai fazer-lhe bem — comentou Rose apontando o número de telefone do Homestead. Não entendia que a minha intenção não era desopilar numa estância turística de cinco estrelas. Por um instante, os seus olhos brilharam de lágrimas quando lhe pedi para dizer a Marino onde eu estava para que pudesse contactar-me imediatamente caso houvesse alguma novidade no caso de Susan.

— Por favor não informe mais ninguém do meu paradeiro — acrescentei.

— Nos últimos vinte minutos ligaram três jornalistas — disse ela. — Incluindo o Washington Post.

— Neste momento, não me pronuncio acerca do caso da Susan. Diga-lhes o costume, que estamos à espera dos resultados laboratoriais. Diga-lhes que fui para fora e não estou contactável.

Ao seguir para oeste, em direcção às montanhas, fui perseguida por uma série de imagens. Imaginei Susan com as largas calças de serviço e os rostos dos pais dela quando Marino lhes disse que a filha morrera.

— Sentes-te bem? — perguntou Lucy. Desde que saímos de casa que me olhava quase de minuto a minuto.

— Estou só a pensar — respondi concentrando-me na estrada. — Vais adorar fazer esqui. Palpita-me que tens muito jeito.

Calada, pôs-se a olhar pelo pára-brisas. O céu estava de um azul ganga-desbotada, as montanhas erguendo-se ao longe polvilhadas de neve.

— Desculpa lá isto — acrescentei. — Parece que sempre que me visitas acontece alguma coisa que me impede de te dar toda a minha atenção.

— Não preciso de toda a tua atenção.

— Um dia vais entender.

— Talvez eu seja na mesma em relação ao meu trabalho. Aliás, aprendi contigo. Se calhar também vou ser famosa como tu.

O meu ânimo estava pesado como chumbo. Dei graças por trazer os óculos de sol. Não queria que Lucy me visse os olhos.

— Sei que gostas muito de mim. Isso é que importa. Sei que a minha mãe não gosta de mim — afirmou a minha sobrinha.

— A Dorothy tem por ti todo o amor de que é capaz de sentir por alguém.

— Tens toda a razão. Todo o amor de que é capaz, o que não é lá grande coisa visto eu não ser homem. Ela só gosta de homens.

— Não, Lucy. A tua mãe não gosta de facto dos homens. Eles são um sintoma da busca obsessiva de encontrar alguém que a faça sentir-se completa. Não percebe que é ela própria que tem de fazer com que se sinta completa.

— A única coisa “completa” nisso tudo é que anda sempre a arranjar completos idiotas.

— Concordo que a média de sucessos dela não tem sido boa.

— Não vou viver assim. Não quero ser nada parecida com ela.

— Não és — redargui.

— Li no panfleto que esse sítio para onde vamos tem tiro aos pratos.

— Tem tudo e mais alguma coisa.

— Trouxeste algum dos revólveres?

— Não se faz tiro aos pratos com um revólver, Lucy.

— Faz-se, quando se é de Miami.

— Se não paras de bocejar eu também começo.

— Por que não trouxeste uma arma? — insistiu ela.

O Ruger estava dentro da minha mala mas eu não fazia tenções de lho dizer.

— Por que estás tão interessada em saber se eu trouxe uma arma? — perguntei-lhe.

— Quero ser boa a atirar. Tão boa que acerte no doze do relógio sempre que tentar — respondeu, sonolenta.

Senti um peso no peito quando ela enrolou o blusão e o utilizou como almofada. Estendeu-se ao meu lado, o topo da cabeça a roçar-me a coxa e adormeceu. Sem saber o quanto eu, nesse momento, me sentia tentada a recambiá-la para Miami. Mas via-se que se apercebera dos meus temores.

O Homestead situava-se em seis mil hectares de floresta e riachos nos montes Allegheny, sendo a ala principal do hotel em tijolo encarnado-escuro com pilares brancos. A torre branca tinha um relógio em cada uma das quatro faces, sempre certos e visíveis a quilómetros de distância, os courts de ténis e os greens de golfe completamente brancos de neve.

— Estás com sorte — disse eu a Lucy quando prestimosos funcionários, de fardas cinzentas, vieram ao nosso encontro. — Vai estar um tempo óptimo para esquiar.

Benton Wesley conseguira o que prometera e tínhamos uma reserva à nossa espera quando chegámos à recepção. Reservara um duplo com portas envidraçadas que abriam para uma varanda sobranceira ao casino, e, em cima de uma mesa, estava um arranjo de flores oferta dele e de Connie. “Encontramo-nos nas pistas” dizia o cartão. “Marcámos uma aula para a Lucy às três e meia.”

— Temos de nos despachar — disse-lhe enquanto abríamos as malas. — Tens a primeira aula de esqui exactamente daqui a quarenta minutos. Experimenta estas. — Atirei-lhe um par de calças de esquiar encarnadas seguindo-se-lhes o blusão, as meias, as luvas e a camisola que voaram pelo ar aterrando na cama dela. — Não te esqueças da mochila. Se precisares de mais alguma coisa, depois compra-se.

— Não tenho óculos de esqui — disse ela enfiando pela cabeça uma camisola azul-forte de gola alta. — Vou ficar encandeada com a neve.

— Podes usar os meus. O sol também já está quase a pôr-se. Quando finalmente apanhámos o autocarro para as pistas, alugámos equipamento para Lucy e a deixei entregue ao instrutor no tele-ski, passavam vinte e nove minutos das três. Os esquiadores eram brilhantes pontos de cor descendo a encosta e só de perto se transformavam em pessoas. Inclinei-me para a frente, com as minhas botas e esquis firmemente assentes no chão e perscrutei cabos e elevadores, escudando os olhos com a mão. O sol rasava o topo das árvores fazendo cintilar a neve mas as sombras alongavam-se e a temperatura descia rapidamente.

Reparei no casal apenas pela graciosidade com que esquiavam lado a lado, bastões erguidos como penas e mal tocando a neve, curvas num deslizar suave como o voo planante das aves. Reconheci o cabelo grisalho de Benton Wesley e levantei o braço. Voltando-se para Connie e gritando-lhe qualquer coisa que não consegui ouvir, arrancou deslizando encosta abaixo como uma faca, esquis tão juntos que duvidei coubesse entre eles uma folha de papel.

Quando se imobilizou por entre polvilhos de neve e puxou os óculos para cima, ocorreu-me de repente que mesmo que não o conhecesse tê-lo-ia estado a apreciar. Calças de esqui pretas cingiam umas pernas bem musculadas que eu nunca imaginara por baixo das dos fatos clássicos e o blusão que trazia vestido fez-me lembrar um pôr-do-sol de Key West. O rosto e os olhos brilhantes do frio tornavam-lhe ainda mais atraentes as feições vincadas. Connie veio parar, suavemente, ao lado dele.

— Que maravilha, tê-la cá — disse Wesley, e eu nunca conseguia vê-lo ou ouvir a sua voz sem me lembrar de Mark. Tinham sido colegas e bons amigos. Passavam facilmente por irmãos.

— Onde está a Lucy? — perguntou Connie.

— À conquista do tele-ski, neste preciso instante — respondi apontando para lá.

— Espero que não se importe de eu lhe ter marcado uma aula.

— Importar? Não tenho palavras para lhe agradecer tal amabilidade. Está divertidíssima.

— Acho que vou ficar por aqui a apreciá-la por um bocado — disse Connie. — Depois vou querer tomar uma coisa quente e palpita-me que a Lucy também vai querer. Ben, parece que ainda não te fartaste.

Wesley voltou-se para mim:

— Está pronta para umas voltinhas rápidas?

Trocámos comentários sobre questões triviais enquanto estivemos na bicha e depois calámo-nos quando a cadeira se aproximou para nos sentarmos. Wesley baixou a barra e, lentamente, o cabo içou-nos em direcção ao topo da montanha. O ar era inebriante e deliciosamente puro, repleto dos suaves ruídos de esquis sibilantes cortando cadenciadamente a neve compacta. Uma neve lançada por canhões que pairava como fumo através dos bosques entre as pistas.

— Falei com o Downey — disse ele. — Recebe-a na sede assim que lá chegar.

— Boas notícias — redargui. — Que lhe contaram, Benton?

— Eu e o Marino falámos algumas vezes. Parece que neste momento vocês têm vários processos em curso que não estão necessariamente ligados por provas mas por uma estranha coincidência no timing.

— Acho que mais do que coincidência. Sabe que apareceu uma impressão digital do Ronnie Waddell em casa de Jennifer Deighton.

— Sei. — O seu olhar fixou-se num maciço de sempre-verdes recortando-se no clarão do pôr-do-sol. — Como eu disse ao Marino, espero que haja uma explicação lógica para a impressão digital do Waddell ter ido lá parar.

— A explicação lógica pode muito bem ser que numa altura qualquer ele tenha estado em casa dela.

— Nesse caso estamos perante uma situação que, de tão bizarra, parece de todo impossível, Kay. Um condenado do corredor da morte anda outra vez à solta, a matar. E somos levados a supor que alguém o substituiu na cadeira na noite de treze de Dezembro. Duvido que houvesse muitos voluntários.

— Não é bem assim — redargui.

— Que sabe do cadastro do Waddell?

— Muito pouco.

— Eu interroguei-o há uns anos, em Mecklenburg. Lancei-lhe um olhar de soslaio, interessada.

— Prefaciarei os meus próximos comentários dizendo que ele não se mostrou particularmente disposto a falar do homicídio de Robyn Naismith. Disse que, se a matou, não se lembrava. Não que isso seja invulgar. A maioria dos autores de crimes violentos que interroguei afirmam pouco se lembrarem ou então negam ter cometido os crimes. Pedi que me enviassem por fax uma cópia da Ficha de Avaliação do Waddell. Depois do jantar damos-lhe uma vista de olhos.

— Já valeu a pena ter vindo, Benton.

Ele olhou em frente, os nossos ombros quase a tocarem-se. A pista diante de nós tornou-se mais íngreme e, por instantes, subimos em silêncio. Depois ele perguntou-me:

— Como se sente, Kay?

— Melhor. Ainda há momentos difíceis.

— Eu sei. Haverá sempre. Mas menos, espero. Dias, talvez, em que não sente isso.

— Sim — concordei. — Há dias em que não sinto.

— Conseguimos uma pista muito boa sobre o grupo responsável. Acho que já sabemos quem colocou a bomba.

Levantámos as pontas dos esquis e inclinámo-nos para a frente quando o elevador nos largou como avezinhas arrancadas do ninho. Eu tinha as pernas hirtas e frias da subida e o gelo tornava traiçoeiros os trilhos situados na sombra. Os compridos esquis brancos de Wesley desapareceram contra o fundo de neve e, simultaneamente, reflectiam a luz. Deslizou pela encosta abaixo numa nuvem ofuscante de pó, parando de vez em quando para olhar para trás. Acenei-lhe com um ligeiro içar do bastão descendo em lânguidas voltas paralelas e saltando por cima de montículos. A meio da descida já me sentia mais solta e aquecida, os pensamentos voando, livres.

Quando voltei para o quarto, já ao cair da noite, encontrei uma mensagem de Marino a dizer que estaria na esquadra até às cinco e meia e que eu lhe ligasse o mais depressa possível.

— Que se passa? — perguntei-lhe quando ele atendeu.

— Nada que a vá fazer dormir melhor. Para começar, o Jason Story anda a dizer mal de si a toda a gente que se dê ao trabalho de o escutar — incluindo os repórteres.

— Nalgum sítio tem de descarregar a raiva— redargui, começando a ficar novamente angustiada.

— Bem, o que ele anda a fazer não é bom mas também não é o nosso maior problema. Não encontramos a ficha das impressões digitais do Waddell.

— Em lado nenhum?

— Exactamente. Vimos os processos dele na Polícia de Richmond, na Polícia Estadual e no FBI. Todas as jurisdições que deviam tê-las. Nada de fichas. Então liguei para o Donahue, na penitenciária, a ver se ele localizava os objectos pessoais do Waddell, livros, cartas, escova do cabelo, escova de dentes — qualquer coisa onde pudéssemos ir buscar impressões digitais latentes. E sabe que mais? O Donahue diz que as únicas coisas que a mãe do Waddell quis foram o relógio e o anel. O restante foi destruído pelos Serviços Prisionais.

Deixei-me cair, pesadamente, na borda da cama.

— E guardei o melhor para o fim, doutora. A balística acertou na mouche e não vai acreditar nisto. As balas recolhidas de Eddie Heath e Susan Story foram disparadas pela mesma arma, um 22.

— Santo Deus — disse eu.

No rés-do-chão do Homestead Club, uma banda tocava jazz para um público reduzido e a música não era demasiado barulhenta para se poder conversar. Connie fora ao cinema com Lucy deixando-nos, a mim e a Wesley, instalados a uma mesa num canto sossegado do salão de dança. Ambos a bebericar conhaque. Ele não parecia fisicamente tão cansado como eu mas tinha outra vez uma expressão tensa no rosto.

Estendendo o braço para trás, tirou mais uma vela de uma mesa vaga e colocou-a junto das outras duas que já pedira. A luz era irregular mas apropriada e embora não fôssemos alvo de longos olhares dos outros hóspedes mesmo assim olhavam para nós. Calculei que parecesse um local estranho para trabalhar mas o átrio e a sala de jantar não nos davam a necessária privacidade e Wesley era demasiado respeitoso para sugerir que nos reuníssemos no quarto dele ou no meu.

— Parece haver aqui um grande número de elementos contraditórios — afirmou. — Mas o comportamento humano não é rígido. O Waddell esteve preso dez anos. Não sabemos que mudanças poderá ter tido. Eu classificaria a morte de Eddie Heath como um homicídio por motivos sexuais enquanto, à primeira vista, o de Susan Story parece ser uma execução, um contrato.

— Como se cometidos por dois assassinos diferentes — opinei, rodando o balão de conhaque.

Ele inclinou-se para cima da mesa folheando distraidamente o dossier de Robyn Naismith.

— É interessante — comentou, sem erguer os olhos. — Ouve-se falar tanto do modus operandi, da assinatura do criminoso. Selecciona sempre o tipo de vítima, escolhe este ou aquele local, prefere usar facas, etc. Mas, de facto, não é sempre assim. Tal como nem sempre é óbvio o clima emocional do crime. Afirmei que, à primeira vista, o homicídio de Susan Story não parece ser de origem sexual mas quanto mais penso nisso mais me convenço de que existe essa componente. Acho que o assassino sofre de piquerismo.

— Robyn Naismith foi esfaqueada muitas vezes — referi.

— Sim. Eu diria que o que lhe fizeram é um exemplo de antologia. Não havia nenhuma prova de violação — o que não quer dizer que não tenha ocorrido. Mas não havia sémen. O repetido enterrar da faca na barriga dela, nas nádegas e nos seios foi um substituto da penetração. Nítido piquerismo. O acto de morder é menos óbvio, não tem, quanto a mim, nada a ver com qualquer componente oral do acto sexual mas trata-se, uma vez mais, de um substituto da penetração. Dentes a enterrarem-se na carne, canibalismo, como o John Joubert fazia aos miúdos da entrega do jornal que ele assassinou no Nebrasca. Depois temos as balas. Em primeira análise, não associamos os disparos ao piquerismo. Depois, nalguns casos, a dinâmica torna-se nítida. Algo a penetrar a carne. Era a técnica do Filho de Sam.

— Não há nenhuma prova de piquerismo na morte de Jennifer Deighton.

— Pois não. Confirma o que eu estava a dizer. Nem sempre há um padrão nítido. É claro que aqui não existe nenhum padrão nítido mas há um elemento que os homicídios de Eddie Heath, Jennifer Deighton e Susan Story têm em comum. Eu classificá-los-ia como crimes organizados.

— Não tanto no caso de Jennifer Deighton — sublinhei. — Parece que o assassino tentou disfarçar a morte dela como um suicídio e não conseguiu. Ou talvez nem sequer tencionasse matá-la e se tenha entusiasmado com o acto de asfixia.

— Matá-la antes de a meter no carro não era, se calhar, o plano dele — concordou Wesley — mas o facto é que, aparentemente, havia um plano. E a mangueira do jardim fixada ao tubo de escape foi cortada com um instrumento aguçado que nunca se encontrou. Ou o assassino levou o próprio instrumento ou arma para o local ou então aproveitou para usar alguma coisa que tenha encontrado em casa dela. Isso é um comportamento organizado. Mas, antes de aprofundarmos mais essa questão, deixe-me recordar-lhe que não temos nenhuma bala calibre vinte e dois ou outra prova material que associe a morte de Jennifer Deighton à do pequeno Heath e da Susan.

— Acho que temos, Benton. A impressão digital do Ronnie Waddell foi recolhida de uma cadeira da casa de jantar dentro da casa de Jennifer Deighton.

— Não sabemos se foi o Ronnie Waddell que alvejou os outros dois.

— O corpo de Eddie Heath estava posicionado de uma forma que fazia lembrar o caso de Robyn Naismith. O garoto foi atacado na noite em que o Ronnie Waddell ia ser executado. Não acha que existe aqui um elo estranho?

— Digamos que não quero pensar nisso — redarguiu ele.

— Nenhum de nós quer. Qual é o seu palpite, Benton?

Ele fez sinal à empregada para trazer mais conhaque, a luz das velas a iluminar-lhe o contorno da face esquerda e do queixo.

— O meu palpite? Está bem, tenho um palpite muito mau quanto a tudo isto — respondeu. — Acho que o denominador comum é o Ronnie Waddell mas não sei o que isso significa. Uma impressão digital latente recolhida recentemente num local do crime foi identificada como sendo dele e no entanto não conseguimos encontrar as fichas decadactilares ou qualquer outra coisa que confirme a identificação. Também não lhe tiraram as impressões digitais na morgue e a pessoa que alegadamente se esqueceu de fazer isso foi entretanto assassinada com a mesma arma usada para matar Eddie Heath. O advogado do Waddell, Nick Grueman, pelos vistos conhecia Jennifer Deighton e, aliás, tudo indica que ela lhe enviou uma mensagem por fax dias antes de ser assassinada. Finalmente, sim, existe uma vaga e estranha semelhança entre as mortes de Eddie Heath e Robyn Naismith. Para ser franco, já pensei se a agressão a Heath não terá sido, por qualquer motivo, um acto intencionalmente simbólico.

Esperou que as bebidas fossem colocadas à nossa frente e depois abriu um envelope de papel pardo anexo ao dossier de Robyn Naismith. Esse pequeno gesto espoletou algo em que eu ainda não pensara.

— Tive de requisitar as fotos dela ao Arquivo — disse-lhe. Wesley lançou-me um olhar de soslaio enquanto punha os óculos.

— Em casos tão antigos, os registos em papel foram passados a microfilme cujos printouts se encontram no processo que temos. Os documentos originais são destruídos mas guardamos as fotos. Vão para o Arquivo.

— Que é o quê? Uma sala no seu edifício?

— Não, Benton. Um armazém junto à biblioteca estadual — o mesmo armazém onde o Departamento de Ciência Forense guarda as provas de velhos casos.

— O Vander ainda não encontrou a fotografia da impressão digital do polegar ensanguentado de Waddell recolhida em casa de Robyn Naismith?

— Não — respondi fitando-o nos olhos. Ambos sabíamos que Vander jamais a encontraria.

— Santo Deus — comentou ele. — Quem é que lhe foi buscar as fotos de Robyn Naismith?

— O meu administrador — respondi. — Ben Stevens. Deu uma saltada ao Arquivo uma semana ou coisa assim antes da execução do Waddell.

— Porquê?

— Durante as últimas fases do processo de recurso, fazem-nos sempre uma data de perguntas e eu gosto de ter rápido acesso ao caso, ou casos, em questão. Por isso uma ida ao Arquivo é normal. O que é um nadinha diferente no exemplo de que estamos a falar é que eu não tive de pedir ao Stevens para me ir lá buscar as fotos. Ele ofereceu-se.

— E isso é costume?

— Pensando bem, devo confessar que é.

— Pode dar-se o caso — aventou Wesley — de o seu administrador se ter oferecido porque aquilo em que estava realmente interessado era o processo do Waddell — ou, mais concretamente, na foto da impressão digital do polegar ensanguentado que, supostamente, estaria lá dentro.

— O que eu posso dizer com toda a certeza é que se o Stevens quisesse mexer nalgum processo arquivado só poderia fazê-lo se tivesse alguma razão válida para ir ao Arquivo. Se por exemplo eu viesse a saber que ele lá tinha estado sem que nenhum dos médicos legistas lho tivesse pedido, ia achar estranho.

Falei-lhe então da falha de segurança no computador dos meus serviços, referindo que os dois terminais envolvidos estavam atribuídos a mim e a Stevens. Enquanto eu falava, Wesley ia tomando notas. Quando me calei, ele ergueu os olhos para mim.

— Não me parece que tenham encontrado o que procuravam — comentou.

— Creio que não.

— O que nos leva à pergunta óbvia. Que procuravam eles? Vagarosamente, fiz girar o cálice de conhaque. À luz das velas era

âmbar líquido e cada golinho descia pela garganta com um delicioso ardor.

— Se calhar alguma coisa relacionada com a morte de Eddie Heath. Eu andava à procura de outros casos em que as vítimas exibissem marcas de dentadas ou ferimentos do tipo canibalístico e tinha um ficheiro no meu directório. Para além disso não estou a ver o que é que alguém pode ter andado a procurar.

— Guarda sempre os memorandos interdepartamentais no seu directório?

— No processador de texto, num subdirectório.

— Com alguma senha para aceder a esses documentos?

— Sim.

E no processador de texto armazena relatórios de autópsia e outros documentos referentes aos casos?

— Armazeno. Mas na altura em que entraram no meu directório não havia lá nada de confidencial, que eu me lembre.

— Mas quem lá entrou não o sabia, necessariamente.

— Pelos vistos, não — respondi.

— E quanto ao relatório da autópsia de Ronnie Waddell, Kay? Quando entraram no seu directório, tinha-o no computador?

— Devia ter. Ele foi executado na segunda-feira, treze de Dezembro. A violação deu-se na quinta-feira, dezasseis de Dezembro, ao fim da tarde, enquanto eu autopsiava Eddie Heath e a Susan estava lá em cima no meu gabinete, supostamente a descansar no sofá depois do derrame de formalina.

— É espantoso. — E franziu o sobrolho. — Supondo que foi a Susan quem entrou no seu directório, porque estaria ela interessada no relatório da autópsia do Waddell — se é disso que se trata? Ela assistiu à autópsia. Que poderia ter lido no seu relatório que não soubesse já?

— Que me lembre, nada.

— Bom, coloquemos a questão noutros termos. Que pormenor ligado à autópsia poderia ela não saber estando lá na noite em que o corpo dele foi trazido para a morgue? Ou, melhor dizendo, na noite em que um corpo foi trazido para a morgue, visto já não termos a certeza de que esse indivíduo era o Waddell — acrescentou, carrancudo.

— Não teria tido acesso aos relatórios laboratoriais — respondi. — Mas o trabalho de laboratório não estaria concluído na altura em que entraram no meu directório. Os testes toxicológicos e de HIV, por exemplo, levam semanas.

— E a Susan saberia disso.

— Com certeza.

— E o seu administrador também.

— Sem dúvida.

— Deve haver mais alguma coisa — afirmou ele. Havia mas, pensando nisso, não estava a ver qual a sua importância.

— O Waddell — ou quem quer que fosse o recluso — trazia um envelope no bolso de trás dos jeans que queria que fosse enterrado com ele. O Fielding só deve ter aberto esse envelope quando foi lá para cima tratar da papelada, depois da autópsia.

— Então a Susan não sabia o que estava dentro do envelope enquanto esteve na morgue, nessa noite? — perguntou Wesley, interessado.

— Exactamente. Não sabia.

— E havia alguma coisa importante dentro desse envelope?

— Nada, apenas alguns recibos de refeições e portagens. Wesley franziu o sobrolho:

— Recibos — repetiu. — Para que diabo os quereria ele? Tem-os aí?

— Estão no dossier dele. — Tirei as fotocópias. — Têm todos a mesma data, trinta de Novembro.

— Que deve ter sido mais ou menos a altura em que o Waddell foi transferido de Mecklenburg para Richmond.

— Exacto. Foi transportado quinze dias antes da execução — confirmei.

— Temos de verificar os códigos desses recibos, ver se descobrimos a localização. Pode ser importante. Muito importante, à luz das nossas suposições.

— De que o Waddell está vivo?

— Sim. Que possa ter havido uma troca e ele sido libertado. Talvez o indivíduo que foi parar à cadeira quisesse ter esses recibos no bolso quando morresse para com isso tentar dizer-nos alguma coisa.

— Onde é que os terá arranjado?

— Se calhar durante a transferência de Mecklenburg para Richmond, que seria a altura ideal para tramar alguma coisa — respondeu Wesley. — Talvez tenham sido transferidos dois homens, o Waddell e outro.

— Está a insinuar que eles pararam para comer?

— Os guardas não devem parar por motivo nenhum durante a transferência de um recluso condenado à morte. Mas se havia alguma conspiração, tudo pode ter acontecido. Talvez tenham parado num take-away e fosse durante esse espaço de tempo que libertaram o Waddell. Então o outro recluso foi levado para Richmond e posto na cela do Waddell. Pense bem. Como é que algum dos guardas ou outra pessoa qualquer na Spring Street teria forma de saber que o recluso trazido não era o Waddell?

— Ele podia dizer que não era mas não significa que alguém lhe desse ouvidos.

— Calculo que ninguém lhe desse ouvidos.

— Então e a mãe do Waddell? — perguntei. — Supõe-se que tenha estado com ele umas horas antes da execução. Iria, por certo, perceber que o recluso que tinha à sua frente não era o filho.

— Temos de confirmar se houve tal visita. Mas quer tenha havido quer não, Mrs. Waddell teria todo o interesse em alinhar com qualquer esquema. Não creio que desejasse a morte do filho.

— Então está convencido de que executaram o homem errado — concluí, relutantemente, pois poucas eram as teorias que, nesse momento, mais me apetecia desaprovar.

A resposta dele foi abrir o envelope que continha as fotos de Robyn Naismith e despejar para cima da mesa um grande maço de imagens a cores que continuavam a chocar-me por mais vezes que olhasse para elas. Vagarosamente, reconstituiu o cenário da sua horrenda morte.

Depois comentou:

— Se considerarmos os três homicídios ocorridos, o perfil de Waddell não se enquadra.

— Que quer dizer com isso, Benton? Que após dez anos de cadeia a personalidade dele mudou?

— Posso apenas dizer-lhe que já ouvi falar de assassinos organizados que descontrolam, se dispersam. Começam a cometer erros. O Bundy, por exemplo. Para o fim tornou-se frenético. Mas o que geralmente não se vê é um indivíduo desorganizado mudar radicalmente, o psicótico tornar-se metódico, racional — tornar-se organizado.

Quando Wesley aludia aos Bundys e Filhos de Sam deste mundo, fazia-o de uma forma muito teórica, impessoal, como se as suas análises e teorias fossem tiradas de fontes secundárias. Não se vangloriava. Não citava nomes ilustres nem assumia o papel de alguém que conhecia pessoalmente esses criminosos. A sua postura era, por conseguinte, deliberadamente enganadora.

A verdade é que passara longas, intimistas horas com homens da laia de Theodore Bundy, David Berkowitz, Sirhan Sirhan, Richard Speck, e Charles Manson, para além dos menos conhecidos buracos negros que tinham sugado a luz ao planeta Terra. Lembrava-me de Marino me ter contado um dia que quando Wesley voltava de uma dessas peregrinações a penitenciárias de segurança máxima vinha pálido e esgotado. Absorver o veneno desses homens e suportar os vínculos que eles, inevitavelmente, criavam com ele era algo que quase lhe provocava um mal-estar físico. Alguns dos piores sádicos da história recente escreviam-lhe cartas com certa regularidade, enviavam-lhe cartões de Natal e perguntavam-lhe pela família. Não era de admirar que Wesley desse a imagem de um homem carregando um fardo enorme e que se mantivesse tantas vezes calado. A troco de informações, fazia exactamente aquilo que nenhum de nós deseja fazer. Permitia que o monstro se ligasse a ele.

— Ficou provado que o Waddell era um psicótico? — perguntei.

— Ficou provado que estava no seu juízo perfeito quando assassinou Robyn Naismith. — Wesley pegou numa foto e empurrou-a na minha direcção. — Mas, para ser franco, não creio que estivesse.

A foto era a que eu recordava com mais clareza e, ao observá-la, não conseguia imaginar a entrada de uma alma incauta num cenário daqueles.

A sala de estar de Robyn Naismith não tinha muitos móveis, apenas algumas poltronas em forma de meia barrica com almofadas verde-escuro e um sofá de cabedal castanho-chocolate. Um pequeno tapete Bakhara a meio, sobre o chão de parquet, as paredes com painéis tingidos de modo a parecer nogueira ou mogno. Um móvel de televisão encostado à parede oposta à da porta, permitindo a quem quer que entrasse uma panorâmica frontal dos hediondos dotes artísticos de Ronnie Joe Waddell.

O que a amiga de Robyn viu no momento em que abriu a porta e a empurrou para trás, chamando-a, foi um corpo nu sentado no chão, encostado ao televisor, a pele tão listrada e manchada de sangue seco que a exacta natureza dos ferimentos só pôde ser determinada mais tarde na morgue. Na fotografia, o sangue coagulado numa poça em volta das nádegas de Robyn parecia alcatrão tinto de vermelho e, atiradas para o lado, viam-se algumas toalhas ensanguentadas. A arma nunca foi encontrada embora a Polícia descobrisse que, num suporte fixado na cozinha, faltava uma faca de carne de aço inoxidável, sendo as características da lâmina consistentes com as feridas.

Abrindo o dossier de Eddie Heath, Wesley tirou de lá um diagrama do local desenhado pelo agente de Henrico County que encontrara o garoto gravemente ferido nas traseiras da mercearia fechada. Wesley colocou o diagrama ao lado da fotografia de Robyn Naismith. Por momentos, nenhum de nós falou enquanto os nossos olhares iam comparando o que viam. As semelhanças eram mais pronunciadas do que eu imaginara, a posição do corpo praticamente igual, desde os braços caídos às roupas frouxamente empilhadas junto aos pés nus.

— Tenho de admitir que é arrepiante — comentou Wesley. — Quase como se o local do crime, no caso de Eddie Heath, fosse uma imagem de espelho deste. — Tocou na fotografia de Robyn Naismith. — Corpos posicionados como bonecas de trapos, atirados contra objectos cúbicos. Um grande móvel de TV. Um contentor castanho. — Espalhando mais fotografias em cima da mesa, como se fossem cartas de jogar, tirou outra do monte. Era um grande plano do corpo dela na morgue, os círculos irregulares, tangenciais, de dentadas humanas eram bem visíveis no seio esquerdo e na face interna da coxa esquerda.

— Uma vez mais, uma semelhança espantosa — disse ele. — Mordeduras aqui e aqui correspondendo praticamente às zonas descarnadas no ombro e na coxa de Eddie Heath. Por outras palavras — tirou os óculos e ergueu os olhos para mim —, Eddie Heath deve ter sido mordido, a carne excisada para eliminar provas.

— Então o assassino dele tem pelo menos alguns conhecimentos de perícia forense — redargui.

— Quase todos os criminosos que estiveram presos têm conhecimentos de perícia forense. Se o Waddell não percebia nada de identificação de dentadas quando assassinou Robyn Naismith, agora já deve perceber.

— Fala como se tivesse sido ele outra vez o assassino — fiz-lhe ver. — Há pouco afirmou que o perfil não se enquadrava.

— Há dez anos, o perfil não se enquadrava, é só o que eu posso dizer.

— Tem a Ficha de Avaliação dele. Podemos falar sobre isso?

— Claro.

A Ficha era, na verdade, um questionário de quarenta páginas do FBI preenchido durante uma conversa a dois, na prisão, com um criminoso violento.

— Folheie-a você mesma — disse Wesley pondo-me à frente a Ficha de Waddell. — Gostava de ouvir as suas impressões sem eu adiantar mais nada.

A conversa entre Wesley e Ronnie Joe Waddell tivera lugar seis anos antes no corredor da morte em Mecklenburg County. A Ficha começava pelos habituais dados descritivos. A postura de Waddell, estado emocional, trejeitos e maneira de falar indicavam que estava agitado e confuso. Depois, quando Wesley lhe deu oportunidade para fazer perguntas, Waddell fez apenas uma: “Vi pequenos flocos brancos quando passámos por uma janela. Está a nevar ou são cinzas do incinerador?”

A data na Ficha era, reparei, de Agosto.

Perguntas sobre a forma como o crime podia ter sido evitado não deram em nada. Waddell teria morto a sua vítima numa zona populosa? Tê-la-ia morto na presença de testemunhas? Alguma coisa o impediria de matá-la? Achava que a pena capital era um meio dissuasor? Waddell disse que não se lembrava de matar “a mulher da televisão”. Não sabia o que o impediria de cometer um acto do qual não se recordava. A única recordação que tinha era de estar “pegajoso”. Disse que era como acordar de um sonho erótico. A viscosidade que Ronnie Waddell sentira não era sémen. Era o sangue de Robyn Naismith.

— O rol de problemas dele parece bastante vulgar — disse eu, pensando em voz alta. — Dores de cabeça, extrema timidez, grande propensão para o devaneio e sair de casa aos dezanove anos. Não vejo aqui nada que se possa considerar os típicos sinais de alerta. Crueldade para com os animais, fogo posto, assaltos, etc.

— Continue — disse Wesley.

Passei os olhos por mais algumas páginas.

— Drogas e álcool — salientei.

— Se não tivesse sido preso acabava por morrer da droga ou num tiroteio de rua — afirmou Wesley. — E o que é interessante é que o vício só começou nos primeiros anos da idade adulta. Lembro-me de Waddell me ter dito que só bebeu pela primeira vez aos vinte anos e depois de sair de casa.

— Foi criado numa quinta?

— Em Suffolk. Uma quinta de tamanho razoável onde cultivavam amendoim, milho, soja. Toda a família vivia disso e trabalhava para os proprietários. Eram quatro irmãos, sendo Ronnie Joe o mais novo. A mãe era muito religiosa e todos os domingos levava os filhos à igreja. Nada de álcool, palavrões ou cigarros. Teve uma infância muito protegida. A bem dizer, nunca saiu da quinta até o pai morrer e foi nessa altura que resolveu partir. Apanhou a camioneta para Richmond e não teve grande dificuldade em arranjar trabalho por ter bom físico. Partir alcatrão com um martelo pneumático, levantar cargas pesadas, esse tipo de coisas. Acho que não conseguiu resistir à tentação quando finalmente ela se lhe deparou. Primeiro foi a cerveja e o vinho, depois a marijuana. No espaço de um ano estava metido na cocaína e na heroína, comprando e vendendo, e roubando tudo aquilo a que pudesse deitar a mão.

“Quando lhe perguntei quantos actos criminosos cometera e pelos quais não fora preso, respondeu que lhes perdera a conta. Disse que assaltava casas, arrombava carros — crimes contra a propriedade, em suma. Então assaltou a casa de Robyn Naismith e ela teve o infortúnio de chegar quando ele lá estava.

— Não foi classificado como violento, Benton — frisei.

— Pois não. Nunca teve o perfil do típico criminoso violento. A defesa alegou que as drogas e o álcool lhe provocaram uma loucura temporária. Para ser franco, acho que foi isso mesmo. Não muito antes de assassinar Robyn Naismith, já se metera no PCP. É muito possível que, ao dar de caras com Robyn, o Waddell estivesse completamente passado e mais tarde pouco ou nada se lembrasse do que lhe tinha feito.

— Lembra-se do que ele roubou, se é que roubou alguma coisa? — perguntei. — Gostaria de saber se havia provas concretas de que, ao entrar em casa dela, a sua intenção fosse cometer um assalto.

— Estava tudo remexido. Sabemos que faltavam jóias. O armário dos medicamentos foi limpo e o porta-notas dela estava vazio. É difícil saber o que mais terá sido roubado porque ela vivia sozinha.

— Não andava com ninguém?

— Uma questão interessante. — Wesley olhava agora para um velho casal dançando soporificamente ao som sussurrante de um saxofone. — Foram encontradas manchas de sémen num lençol e na capa do colchão. A mancha no lençol tinha de ser fresca a menos que Robyn não mudasse frequentemente a roupa de cama e sabemos que a origem das manchas não foi o Waddell. Não condiziam com o seu tipo de sangue.

— Ninguém que a conhecia fez referência a algum amante?

— Ninguém. É óbvio que havia um grande interesse em saber quem era essa pessoa e como nunca contactou a Polícia deduziu-se que ela tivesse um affair possivelmente com um dos colegas casados ou uma das suas fontes.

— Talvez tivesse — redargui — mas não foi ele o assassino.

— Não. O assassino foi Ronnie Joe Waddell. Vamos dar uma vista de olhos.

Abri o dossier de Waddell e mostrei a Wesley as fotos do recluso executado que eu autopsiara na noite de treze de Dezembro.

— Pode dizer-me se este é o homem que interrogou há seis anos? Impávido, Wesley analisou as fotografias uma por uma. Olhou para

grandes planos do rosto e da nuca e de relance para as do tronco e mãos. Tirou uma foto de cadastro da Ficha de Avaliação de Waddell e começou a compará-las enquanto eu o observava.

— Vejo uma semelhança — afirmei.

— É o máximo que se pode dizer — comentou Wesley. — A foto de cadastro tem dez anos. O Waddell usava barba e bigode, era muito musculado mas seco de carnes. Tinha o rosto magro. Este tipo — apontou para o das fotografias da morgue — está barbeado e é muito mais gordo. O rosto muito mais cheio. Com base nestas fotos, não posso dizer que é o mesmo homem.

Eu também não podia confirmar. Aliás, estava a lembrar-me de velhas fotos minhas que ninguém reconheceria.

— Tem algumas sugestões quanto à forma como vamos resolver este problema? — perguntei-lhe.

— Vou considerar algumas hipóteses — respondeu ele juntando as fotos num maço e batendo com ele no tampo da mesa para alinhar as arestas. — O seu velho amigo Nick Grueman tem um papel qualquer nisto tudo e tenho andado a pensar na melhor forma de lidarmos com ele sem nos desmascararmos. Se eu ou o Marino formos falar com ele, vai perceber logo que há algum problema.

Percebi onde ele queria chegar e tentei interromper mas Wesley não deixou.

— O Marino falou-me do seu atrito com o Grueman, que ele lhe telefona para, em norma, a chatear. E depois, é claro, há o passado, os seus quatro anos em Georgetown. Talvez devesse falar com ele.

— Não quero falar com ele, Benton.

— Ele pode ter retratos do Waddell, cartas, outros documentos. Alguma coisa com as impressões digitais do Waddell. Ou talvez lhe diga, durante a conversa, qualquer coisa que nos esclareça. A questão é que tem acesso a ele, se quiser, através das vossas actividades normais, enquanto nós não. E de qualquer maneira vai a Washington para falar com o Downey.

— Não — recusei.

— É apenas uma ideia. — Desviou o olhar e fez sinal à empregada para trazer a conta. — Quanto tempo é que a Lucy vai cá ficar? — perguntou.

— Só tem de voltar às aulas a sete de Janeiro.

— Lembro-me que ela é muito boa em computadores.

— É mais do que muito boa. Wesley fez um leve sorriso.

— Foi o que o Marino me disse. Diz que ela acha que pode dar-nos uma ajuda com o AFIS.

— Tenho a certeza de que gostaria de tentar. — De repente senti-me de novo protectora e dividida. Queria recambiá-la para Miami mas, ao mesmo tempo, não queria.

— Talvez não se lembre mas a Michele trabalha para os Serviços de Justiça Criminal que dão assistência à Polícia Estadual no sector do AFIS — disse-me Wesley.

— Quer-me parecer que isso, agora, o preocupa um nadinha. — E acabei o meu conhaque.

— Não há um único dia da minha vida em que não me preocupe — redarguiu ele.

Na manhã seguinte, começou a cair uma neve fraca quando Lucy e eu estávamos a vestir uns fatos de esqui do mais berrante que se podia imaginar.

— Pareço um cone de sinalização rodoviária — disse ela vendo reflectido no espelho o fluorescente cor-de-laranja.

— Pois claro. Se te perderes num trilho não será difícil encontrar-te. — Tomei vitaminas e duas aspirinas com água gasificada que tirei do minibar.

A minha sobrinha olhou para o meu fato, que era quase tão eléctrico como o dela, e abanou a cabeça:

— Para alguém tão conservador, não há dúvida que no desporto vestes-te como um pavão de néon.

— Tento não ser sempre uma bota-de-elástico. Tens fome?

— Montes.

— O Benton vai ter connosco à sala de jantar às oito e meia. Podemos descer já, se não quiseres esperar.

— Estou pronta. A Connie não vai comer connosco?

— Encontramo-nos com ela nas pistas. O Benton quer falar de trabalho, primeiro.

— Deve chateá-la ser posta de lado — comentou Lucy. — Pelos vistos, sempre que ele fala com alguém ela afasta-se.

Fechei a porta do quarto à chave e seguimos pelo corredor silencioso.

— Acho que a Connie não quer envolver-se — respondi em voz baixa. — Saber todos os pormenores do trabalho do marido só seria um peso para ela.

— Portanto ele fala contigo em vez de falar com ela.

— De casos, sim.

— De trabalho. E o trabalho é o mais importante para vocês dois.

— É certo que o trabalho parece dominar as nossas vidas.

— Tu e Mr. Wesley estão em vias de ter algum affair?

— Estamos em vias de tomar o pequeno-almoço — respondi, com um sorriso.

O buffet do Homestead era tipicamente impressionante. Longas mesas cobertas de toalhas atulhadas de bacon curado da Virgínia e fiambre, ovos cozinhados de todas as maneiras imagináveis, bolos, pães e panquecas. Lucy parecia imune às tentações e dirigiu-se logo para os cereais e frutas. Obrigada a portar-me bem pelo exemplo dela, e pelo recente sermão que passara a Marino sobre a saúde dele, evitei tudo o que me apetecia incluindo o café.

— As pessoas estão a olhar para ti, tia Kay — segredou-me Lucy. Calculei que a curiosidade se devesse às nossas berrantes fatiotas até abrir o Washington Post e, chocada, dar com a minha foto na primeira página. O cabeçalho dizia “CRIME NA MORGUE”, seguindo-se um artigo pormenorizado acerca do homicídio de Susan, acompanhado por uma foto destacada de mim a chegar ao local do crime com um ar muito tenso. Claro que a grande fonte do repórter era o abalado marido de Susan, Jason, cujas informações pintavam um quadro da mulher a deixar o emprego em circunstâncias estranhas, se não mesmo suspeitas, menos de uma semana antes da sua morte violenta.

Afirmava-se, por exemplo, que Susan discutira recentemente comigo quando tentei incluí-la como testemunha no caso de um garoto assassinado embora ela não tivesse assistido à autópsia. Quando Susan adoeceu e meteu baixa “após um derrame de formalina”, eu telefonava-lhe para casa com tal frequência que ela já tinha medo de atender o telefone, depois “apareci em casa dela na noite anterior ao crime com uma poinciana e vagas propostas de favores.

“Entrei em casa depois de ter ido fazer compras de Natal e lá estava a Médica Legista Chefe na minha sala”, afirmava o marido de Susan. “Ela [a Dr.a Scarpetta] foi-se logo embora e, mal a porta se fechou, a Susan começou a chorar. Estava apavorada com qualquer coisa mas não me quis dizer o que era.”

Por inquietante que achasse a minha difamação pública por parte de Jason Story, pior era a revelação das recentes transacções financeiras de Susan. Alegadamente, duas semanas antes da sua morte, gastara mais de três mil dólares em facturas de cartão de crédito depois de ter depositado três mil e quinhentos dólares na sua conta à ordem. Não havia explicação para a súbita entrada de fundos. O marido fora dispensado temporariamente do emprego de vendedor durante o Outono e Susan ganhava menos de vinte mil dólares por ano.

— Mr. Wesley já chegou — disse Lucy tirando-me o jornal. Wesley trazia umas calças de esqui pretas e uma camisola de gola alta, um blusão vermelho-vivo debaixo do braço. Percebi, pela sua expressão, pelo cerrar dos maxilares, que já estava ao corrente das notícias.

— O Post tentou falar consigo? — Perguntou-me, puxando uma cadeira. — Não posso crer que publiquem uma porcaria destas sem lhe darem uma oportunidade de se pronunciar.

— Um repórter do Post telefonou ontem quando eu ia a sair do serviço — respondi. — Queria fazer-me umas perguntas acerca do homicídio da Susan e eu preferi não falar com ele. Acho que era essa a minha oportunidade.

— Então não sabia de nada, não imaginava que andassem a forjar uma coisa destas.

— Completamente às escuras, até pegar no jornal.

— Não se fala noutra coisa, Kay. — Fitou-me nos olhos. — Ouvi, hoje de manhã, na televisão. O Marino telefonou-me. A imprensa de Richmond não fala de outra coisa. Já se diz que a morte da Susan pode estar associada ao OCME — que você pode estar envolvida e que de repente saiu da cidade.

— Que disparate.

— O que é que há de verdade no artigo? — perguntou ele.

— Os factos foram completamente distorcidos. Liguei para casa da Susan quando ela não foi trabalhar. Queria saber se ela estava bem e depois liguei a perguntar-lhe se se lembrava de ter tirado as impressões digitais ao Waddell na morgue. Fui visitá-la na véspera de Natal para lhe dar um presente e a poinciana. Calculo que a minha promessa de favores fosse quando me informou que ia demitir-se e eu lhe disse para me avisar se precisasse de uma carta de recomendação ou se havia alguma coisa em que pudesse ajudá-la.

— E quanto a essa história de ela não querer ser incluída como testemunha no caso Eddie Heath?

— Foi na tarde em que ela partiu vários frascos de formalina e voltou lá para cima para o meu gabinete. É costume indicar como testemunhas os assistentes ou técnicos que assistem às autópsias. Neste caso, a Susan assistiu apenas ao exame exterior e foi categórica ao afirmar que não queria que o nome dela constasse no relatório da autópsia de Eddie Heath. Achei estranho o pedido e o comportamento dela mas não houve nenhuma discussão.

— O artigo dá a entender que andavas a suborná-la — comentou Lucy. — Era o que eu pensava se lesse isto e não soubesse.

— Eu de certeza que não andava a suborná-la mas parece que alguém andava — afirmei.

— Agora já faz tudo um pouco mais de sentido — disse Wesley. — Se esta parte sobre o quadro financeiro dela for verdade, a Susan recebeu uma soma considerável, o que significa que terá prestado um serviço a alguém. Mais ou menos por essa altura, entraram no vosso computador e a personalidade da Susan alterou-se. Tornou-se nervosa e descuidada. Evitava-a o mais possível. Acho que não conseguia encará-la, Kay, porque sabia que estava a traí-la.

Acenei com a cabeça tentando controlar o nervosismo. Susan metera-se nalguma coisa da qual não sabia como havia de sair e ocorreu-me que talvez fosse essa a verdadeira explicação para ter fugido da autópsia de Edite Heath e, depois, da de Jennifer Deighton. As suas descargas emocionais não tinham nada a ver com bruxarias ou tonturas depois de exposta aos vapores da formalina. Estava era a entrar em pânico. Não queria ser testemunha em nenhum dos casos.

— Interessante — comentou Wesley quando lhe expus a minha teoria. — Se perguntarmos o que é que Susan Story tinha de valor, para vender, a resposta é informações. Se não assistisse às autópsias, não tinha nenhuma informação. E é muito provável que a pessoa que lhe estava a comprar essas informações fosse a mesma com quem ela foi encontrar-se no dia de Natal.

— Que informação seria importante ao ponto de alguém estar disposto a pagar milhares de dólares por ela e depois assassinar uma mulher grávida? — perguntou Lucy, sem rodeios.

Não sabíamos mas tínhamos uma suspeita. O denominador comum, uma vez mais, parecia ser Ronnie Joe Waddell.

— A Susan não se esqueceu de tirar as impressões digitais ao Waddell ou a quem quer que seja que foi executado — afirmei. — Não as tirou propositadamente.

— É o que parece — concordou Wesley. — Alguém lhe pediu para ela, muito convenientemente, se esquecer. Ou para perder as fichas no caso de a Kay, ou outro funcionário seu, lhe tirar as impressões.

Pensei em Ben Stevens. O sacana.

— E isso leva-nos outra vez à conclusão a que chegámos a noite passada, Kay — prosseguiu Wesley. — Temos de voltar à noite em que o Waddell ia supostamente ser executado e descobrir quem é que eles amarraram à cadeira. E um ponto de partida é o AFIS. O que queremos saber é se e quais os registos que foram adulterados. — Agora estava a falar para Lucy. — Tratei de tudo para analisares as fitas dos registos diários, se estiveres disposta.

— Estou — respondeu Lucy. — Quando é que quer que eu comece?

— Podes começar quando quiseres porque o primeiro passo requer apenas um telefonema. Tens de ligar para a Michele. Ela é analista de sistemas nos Serviços de Justiça Criminal e trabalha no quartel-general da Polícia Estadual. Está familiarizada com o AFIS e vai explicar-te pormenorizadamente como é que tudo funciona. Depois começará a instalar as fitas para que tu possas ter acesso a elas.

— Ela não se importa que eu faça isso? — perguntou Lucy, desconfiada.

— Pelo contrário. Está entusiasmadíssima. As fitas não são mais que diários de auditoria, um registo automático das alterações feitas na base de dados do AFIS. Por outras palavras, não são legíveis. Acho que a Michele lhes chamou “descargas hex”, se isso te diz alguma coisa.

— Hexadecimais, ou base 16. Ou seja, hieróglifos — disse Lucy. — Significa que terei de decifrar os dados e escrever um programa que vá procurar tudo o que se relacione com os números de identificação dos registos em que vocês estão interessados.

— Consegues fazer isso? — perguntou Wesley.

— Assim que descobrir o código e o formato de registos. Por que não faz isso ela mesma, essa analista sua conhecida?

— Queremos ser o mais discretos possível. Ia dar nas vistas se a Michele de repente pusesse de lado o seu serviço habitual e passasse dez horas por dia a analisar fitas dos registos diários. Tu podes trabalhar sem ninguém te ver a partir do computador de casa da tua tia ligando-te por uma linha de diagnóstico.

— Desde que não se saiba que ela está a ligar de minha casa — frisei.

— Não se vai saber — garantiu Wesley.

— E ninguém vai reparar que alguém de fora está a ligar para o computador da Polícia Estadual, a analisar as fitas? — perguntei.

— A Michele diz que consegue dar a volta a isso. — Correndo o fecho de um dos bolsos do blusão de esqui, Wesley tirou um cartão que entregou a Lucy. — Aqui tens os números dela, do serviço e de casa.

— Como é que sabe que pode confiar nela? — Perguntou Lucy. — Se tem havido marosca, como é que sabe que ela não está metida?

— A Michele nunca teve jeito para mentir. Já em pequenina punha-se a olhar para os pés e ficava vermelha como o nariz do Rudolfo.

— Conhece-a desde pequenina? — Perguntou Lucy, estupefacta.

— Até antes — respondeu Wesley. — É a minha filha mais velha.

Depois de muita conversa, assentámos no que nos pareceu um plano razoável. Lucy ficaria no Homestead com os Wesley até quarta-feira, permitindo-me uma breve pausa para tratar dos meus problemas sem me preocupar com o seu bem-estar. Depois do pequeno-almoço, pus-me a caminho debaixo de um suave nevão que se transformara em chuva quando cheguei a Richmond.

Ao fim da tarde, já estivera no gabinete e nos laboratórios. Conferenciara com Fielding, e alguns dos cientistas forenses, e evitara Ben Stevens. Não atendi um único telefonema de repórteres e ignorei o meu correio electrónico pois se o comissário da saúde me tivesse mandado uma comunicação não queria saber o seu teor. Às quatro e meia, estava a meter gasolina numa bomba da Exxon, na Grove Avenue, quando um Ford LTD branco estacionou atrás de mim. Vi Marino sair do carro, puxar as calças para cima e encaminhar-se para os sanitários. Ao voltar, momentos depois, olhou furtivamente em redor como se com medo que alguém o tivesse visto ir à casa de banho. Depois dirigiu-se, em largas passadas, para junto de mim.

— Vi-a quando ia a passar — disse, enfiando as mãos nos bolsos do blusão azul.

— Que é do seu casaco? — perguntei-lhe, começando a limpar o pára-brisas da frente.

— Dentro do carro. Só atrapalha. — Arqueou os ombros por causa do ar frio, agreste. — Se ainda não resolveu acabar com esses boatos, acho melhor começar a pensar nisso.

Irritada, tornei a pôr a esponja no recipiente da solução de limpeza.

— E que me aconselha a fazer, Marino? Que ligue para o Jason Story e lhe diga que lamento que a mulher dele e a filha nascitura tenham morrido mas que gostaria que ele descarregasse a mágoa e a raiva noutro sítio qualquer?

— Ele culpa-a, doutora.

— Depois de ler as declarações dele no Post, acho que muito boa gente me culpa. Conseguiu pintar-me como uma cabra maquiavélica.

— Tem fome?

— Não.

— Bom, está com ar disso.

Fitei-o como se ele tivesse perdido o juízo.

— E se algo me dá uma impressão qualquer, o meu dever é investigar. Por isso dou-lhe a escolher, doutora. Posso ir ali às máquinas buscar umas sandes e umas colas e ficamos aqui a morrer de frio e a inalar fumos de escape impedindo que outros desgraçados usem as bombas de auto-serviço. Ou podemos dar uma saltada ao Phil’s. Em qualquer dos casos, quem convida sou eu.

Dez minutos depois estávamos sentados numa mesa de canto a olhar para as lustrosas e ilustradas ementas onde havia de tudo, de esparguete a peixe frito. Marino de frente para a porta pintada de escuro e eu com uma bela panorâmica dos lavabos. Ele fumava, como a maioria das pessoas à nossa volta, recordando-me o quanto era difícil resistir ao vício. De resto, dadas as circunstâncias, ele não podia ter escolhido um restaurante mais adequado. O Philip s Continental Lounge era um velho estabelecimento de bairro onde os fregueses, que já se conheciam há muito tempo, continuavam a encontrar-se pela comida saborosa e cerveja de garrafa. O cliente típico era bonacheirão e gregário e não devia reconhecer-me ou dar-me a mínima importância a menos que o meu retrato aparecesse regularmente na secção desportiva do jornal.

— Então é assim, — disse Marino fechando a lista — Jason Story acha que a Susan ainda estaria viva se trabalhasse noutro sítio. E se calhar tem razão. Para mais, é um falhado — um desses parvalhões egoístas que acha que os outros é que têm culpa de tudo. A verdade é que se calhar tem mais culpas do que ninguém na morte da Susan.

— Está a insinuar que ele a matou?

A empregada apareceu e fizemos os pedidos. Frango grelhado e arroz para Marino e um cachorro com chili de carne kosher para mim, mais duas colas de dieta.

— Não estou a dizer que esse Jason tenha morto a mulher — redarguiu Marino, em voz baixa — mas sim que a levou a envolver-se no que quer que seja que tenha dado origem ao homicídio. Pagar as contas era responsabilidade da Susan e ela andava sob uma enorme tensão financeira.

— Não admira — redargui. — O marido acabara de perder o emprego.

— É uma pena não ter perdido os gostos caros. Estamos a falar de camisas Polo, calças Britches of Georgetown e gravatas de seda. Umas semanas depois de ser dispensado do emprego, o estúpido vai gastar setecentos dólares em equipamento de esqui e depois zarpa para Wintergreen a passar o fim-de-semana. Antes disso, foi um blusão de cabedal de duzentos dólares e uma bicicleta de quatrocentos. A Susan encafuada na morgue a dar o litro para depois chegar a casa e ter lá contas que o ordenado dela não chegava nem por sombras para pagar.

— Não sabia — disse eu, entristecida por uma súbita visão de Susan sentada à secretária. O seu ritual diário era passar a hora do almoço no gabinete e de vez em quando eu ia fazer-lhe companhia para dois dedos de conversa. Lembrava-me das suas bolachas de milho produto branco e dos autocolantes de promoção nos refrigerantes. Acho que nunca comia nem bebia nada que não levasse de casa.

— Esses gostos caros do Jason — prosseguiu Marino — é que estão na origem de todo o mal que ele lhe anda a causar a si. A difamá-la aos quatro ventos porque a senhora é uma médica-advogada-gente-fina que conduz um Mercedes e vive numa grande casa em Windsor Farms. Acho que o idiota está convencido de que se, de alguma forma, conseguir culpá-la pelo que aconteceu à mulher se calhar obtém alguma indemnizaçãozinha.

— Bem pode tentar.

— E vai.

As nossas bebidas de dieta chegaram e mudei de assunto:

— Vou encontrar-me com o Downey amanhã de manhã.

O olhar de Marino vagueou até ao televisor suspenso por cima do balcão.

— A Lucy vai dedicar-se ao AFIS. E depois tenho de tomar uma atitude quanto ao Ben Stevens.

— O que devia fazer era pô-lo no olho da rua.

— Faz ideia do quanto é difícil despedir um funcionário público?

— Dizem que é mais fácil despedir Jesus Cristo — retorquiu Marino. — A menos que o funcionário tenha sido nomeado para um cargo como o seu. Mesmo assim, tem de arranjar maneira de correr com o sacana.

— Falou com ele?

— Ah, sim. Segundo ele, a senhora é arrogante, ambiciosa e estranha. Uma verdadeira chatice trabalhar consigo.

— Ele disse mesmo isso? — perguntei, incrédula.

— Em termos gerais.

— Espero que alguém lhe investigue as finanças. Gostava de saber se ele nestes últimos tempos fez algum depósito chorudo. A Susan não se meteu em alhadas sozinha.

— Concordo consigo. Acho que o Stevens sabe muita coisa e anda aflito, a cobrir o próprio rasto. A propósito, fui ao banco da Susan. Um dos caixas lembra-se que ela fez um depósito de três mil e quinhentos dólares em dinheiro. Notas de vinte, de cinquenta e de cem que trazia na bolsa.

— Que disse o Stevens a respeito da Susan?

— Diz que não a conhecia bem mas que lhe dava a ideia de que havia algum problema entre vocês duas. Por outras palavras, está a reforçar o que vem nos jornais.

A nossa comida chegou e, de tão furiosa, só consegui engolir uma garfada.

— E quanto ao Fielding? — perguntei. — Acha-me uma pessoa horrível, como colega?

Marimo tornou a desviar os olhos.

— Diz que é muito esforçada e que nunca conseguiu percebê-la.

— Eu não o contratei para ele me perceber e, comparada com ele, claro que sou esforçada. O Fielding está desencantado com a medicina forense e isso já há uns anos. Gasta a maior parte das energias no ginásio.

— Ouça — disse Marino fitando-me nos olhos —, a doutora é esforçada em comparação com qualquer um e a maioria das pessoas não consegue percebê-la. Não anda propriamente por aí a abrir o seu coração. Aliás, a ideia que dá é de alguém que não tem sentimentos. É tão difícil de entender, para aqueles que não a conhecem, que às vezes parece que nada a afecta. Há outros polícias, advogados, que me fazem perguntas a seu respeito. Querem saber como a senhora é realmente, como é que consegue fazer o que faz todos os dias — qual é o segredo. Vêem-na como uma pessoa que não se apega a ninguém.

— E o que é que lhes diz quando lhe perguntam isso? — Quis eu saber.

— Não lhes digo nada.

— Já acabou de me psicoanalisar, Marino? Ele acendeu um cigarro.

— Olhe, vou dizer-lhe uma coisa que não vai gostar de ouvir. Foi sempre uma mulher reservada, profissional — de quem só passado muito tempo alguém consegue tornar-se amigo mas quando isso acontece é a sério. Fica-se com uma amiga para toda a vida e é capaz de tudo por essa pessoa. Mas modificou-se neste último ano. Ergueu uma data de barreiras à sua volta desde a morte do Mark. Para os que a rodeiam,

é como estar numa sala onde a temperatura era de trinta graus e de repente baixou para os dez. Acho que nem sequer se apercebe disso. Portanto, neste momento, ninguém se sente muito apegado a si. Talvez até estejam um bocadinho ressentidos consigo por se sentirem ignorados ou desprezados. Talvez até nunca tenham simpatizado consigo. Ou se sintam apenas indiferentes. O que se passa com as pessoas é que, quer se esteja num pedestal ou metido numa alhada, vão querer aproveitar-se da nossa situação. E se não houver nenhum laço entre essa pessoa e eles ainda lhes é mais fácil tentarem obter o que querem sem se preocuparem minimamente com o que nos acontece. É nessa situação que está. Há muita gente que anda, há anos, à espera de vê-la sangrar.

— Não tenciono sangrar. — E empurrei o prato para o lado.

— Doutora — soprou uma baforada de fumo —, já está a sangrar. E diz o senso comum que se andarmos a nadar com tubarões e começarmos a sangrar o melhor é sair logo da água.

— Podemos conversar sem recorrer a lugares-comuns, pelo menos durante um ou dois minutos?

— Olhe, posso dizer isto em português ou chinês que não me ouve na mesma.

— Se falar português ou chinês, prometo que ouço. Aliás, se resolver falar inglês, prometo que ouço.

— Comentários como esse não a favorecem nada. Era disso mesmo que eu estava a falar.

— Fi-lo com um sorriso.

— Já a vi retalhar corpos com um sorriso.

— Nunca. Uso sempre um bisturi.

— Às vezes não há diferença nenhuma entre uma coisa e outra. Já vi o seu sorriso fazer sangrar advogados de defesa.

— Se sou uma pessoa assim tão horrorosa, por que é que somos amigos?

— Porque eu tenho mais barreiras do que a senhora. A verdade é que há um esquilo em cada árvore e a água está cheia de tubarões. Todos nos querem arrancar um pedaço.

— Está paranóico, Marino.

— Tem toda a razão, por isso é que gostava que batesse a bola baixinho por uns tempos, doutora. A sério.

— Não sou capaz.

— Se quer que lhe diga, o seu envolvimento nestes casos vai começar a parecer um conflito de interesses. Ainda vai piorar mais a sua imagem.

Ripostei:

— A Susan está morta. O Eddie Heath está morto. A Jennifer Deighton está morta. Há corrupção nos meus serviços e não sabemos ao certo quem é que outro dia foi parar à cadeira eléctrica. Aconselha-me a virar as costas até que, por algum golpe de magia, volte tudo a entrar nos eixos?

Marino estendeu a mão para o saleiro mas eu antecipei-me.

— Não. Mas pode pôr a pimenta que quiser — disse-lhe, empurrando o pimenteiro.

Deixei Marino por volta da sete da tarde e voltei ao escritório. A temperatura subira acima dos cinco positivos, a noite escura e fustigada por bátegas de água suficientemente fortes para fazerem parar o trânsito. As lâmpadas de vapor de sódio pareciam borrões amarelo-pólen por detrás da morgue onde a porta do cais estava fechada, vagos todos os lugares do estacionamento. Dentro do edifício, senti o pulso acelerado ao percorrer os bem iluminados corredores, passando pela sala de autópsias a caminho do pequeno gabinete de Susan.

Ao abrir a porta não sabia o que esperava lá encontrar mas fui atraída para o arquivador e gavetas da secretária, para todos os livros e velhas mensagens telefónicas. Parecia estar tudo como antes de ela morrer. Marino tinha muito jeito para revistar os domínios de alguém sem perturbar a desordem natural das coisas. O telefone continuava de esguelha no canto direito da secretária, o fio enrolado como um saca-rolhas. Uma tesoura e dois lápis com os bicos partidos em cima do mata-borrão verde, a bata atirada para as costas de uma cadeira.

Uma nota a lembrar uma consulta médica ainda colada ao monitor do computador e ao olhar para as tímidas curvas e suave inclinação da letra dela senti-me tremer por dentro. Quando se teria desviado do bom caminho? Quando casou com Jason Story? Ou a sua destruição começara muito antes disso, enquanto jovem filha de um pastor escrupuloso, a gémea sobrevivente à morte da irmã?

Sentando-me na cadeira dela, empurrei-a mais para junto do arquivador e, um por um, comecei a analisar o conteúdo dos processos. A maior parte do que vi eram brochuras e outras publicações relacionadas com equipamento cirúrgico e uma variedade de instrumentos utilizados na morgue. Nada que me parecesse estranho até descobrir que ela guardara praticamente todos os memorandos que recebera de Fielding mas não de Ben Stevens ou de mim sabendo eu que tanto de um como de outro recebera muitos. Procurando depois em gavetas e prateleiras, não encontrei nenhum processo pertencente a Stevens ou a mim e foi então que concluí que alguém os levara.

A primeira coisa em que pensei foi que Marino os tivesse levado. Depois algo me ocorreu, como um choque eléctrico, e corri para o andar de cima. Abrindo a porta do meu gabinete, fui directa à gaveta de arquivo onde guardava a rotineira papelada administrativa, como registos de chamadas telefónicas, memorandos, printouts de comunicações de correio electrónico que recebera, estudos de propostas orçamentais e planos a longo prazo. Ansiosamente, vasculhei pastas e gavetas. A grossa pasta que eu procurava tinha apenas uma etiqueta a dizer “Memorandos” e continha cópias de todos os que eu enviara aos meus funcionários e a vários outros serviços de pessoal nos últimos anos. Passei revista ao gabinete de Rose e tive o cuidado de procurar de novo no meu. A pasta desaparecera.

— Sacana — disse baixinho já a dirigir-me furiosamente para o fundo do corredor. — Grandessíssimo sacana.

O gabinete de Ben Stevens estava impecavelmente arrumado e tão cuidadosamente decorado que podia estar exposto numa loja de mobílias. A secretária era uma cópia Williamsburg com reluzentes puxadores de latão e polimento de mogno e ele escolhera candeeiros de pé alto de latão com quebra-luzes verde-escuro. O chão estava coberto por um tapete persa de fábrica, as paredes ornadas com grandes gravuras de esquiadores alpinos, homens montados em possantes cavalos brandindo malhos de pólo, e marinheiros enfrentando mares encapelados. Comecei por ver a ficha de Susan, que continha a habitual descrição do cargo, o currículo e outros documentos. Faltavam vários louvores que eu redigira desde que a contratara e que eu própria anexara ao seu processo. Comecei a abrir as gavetas da secretária e, numa delas, encontrei um estojo de plástico castanho contendo escova de dentes, pasta, gillette, creme de barbear e um pequeno frasco de água de colónia.

Talvez fosse a quase imperceptível deslocação de ar quando a porta se abriu silenciosamente ou apenas a sensação de uma presença como sucede com os animais. Aconteceu erguer os olhos e deparar com Ben Stevens parado à porta estando eu sentada à secretária dele a colocar de novo a tampa num frasco de colónia Red. Por um longo e gélido momento os nossos olhares fixaram-se um no outro sem que nenhum de nós falasse. Não senti medo. Não me senti minimamente preocupada com o que ele me apanhara a fazer. Senti raiva.

— É estranho trabalhar até tão tarde, Ben. — Correndo o fecho do estojo, tornei a guardá-lo na gaveta. Entrelacei os dedos em cima do mata-borrão, firmes e pausados todos os meus gestos, todas as minhas palavras.

— Do que eu sempre gostei nos serões foi não ter ninguém à volta — disse-lhe. — Não há distracções. Não há o perigo de alguém entrar, interrompendo o que estamos a fazer. Não há olhos nem ouvidos. Não há barulho, excepto nas raras ocasiões em que o segurança dá por aqui uma volta. E todos sabemos que isso não acontece muitas vezes a menos que algo chame a atenção dele porque detesta vir à morgue seja a que horas for. Não conheço nenhum que não deteste. O mesmo se aplica ao pessoal da limpeza. Nem sequer vão lá a baixo e aqui em cima fazem o mínimo possível. Mas nem vale a pena falar nisso, pois não? São quase nove horas. O pessoal da limpeza sai sempre por volta das sete e meia.

“O que acho estranho é não ter percebido antes. Nunca me passou pela cabeça. Talvez isso revele, infelizmente, o quanto andava embrenhada no trabalho. Você disse à Polícia que não conhecia pessoalmente a Susan, no entanto dava-lhe muitas vezes boleia de e para o trabalho, como naquela manhã nevosa em que eu autopsiei Jennifer Deighton. Lembro-me que, nesse dia, a Susan estava muito nervosa. Deixou ficar o corpo no meio do corredor e estava a marcar um número no telefone e desligou à pressa quando eu entrei na sala de autópsias. Duvido que estivesse a fazer um telefonema de serviço às sete e meia da manhã, num dia em que a maior parte das pessoas não se aventurava a sair de suas casas por causa do tempo. E aqui não estava ninguém a quem telefonar — ainda não tinha chegado ninguém, tirando você. Se estava a ligar para si, para quê aquele impulso de mo ocultar? A menos que você fosse mais do que o supervisor directo dela.

“É claro que também acho estranha a sua relação comigo. Parece que nos damos bem e, de repente, afirma que sou a pior chefe do mundo. Isso leva-me a pensar se o Jason Story será a única pessoa que anda a falar com os repórteres. Incrível essapersona que eu de repente passo a ter. Essa imagem. A tirana. A neurótica. A pessoa que, de certa forma, é responsável pela morte violenta da minha supervisora da morgue. A Susan e eu tínhamos uma relação de trabalho muito cordial e, até há pouco tempo, Ben, também nós dois tínhamos. Mas é a minha palavra contra a sua, sobretudo agora dado que qualquer pedacinho de papel que possa documentar o que eu estou a dizer desapareceu muito convenientemente. E calculo que já tenha contado a alguém que desapareceram aqui do serviço importantes dossiers pessoais e memorandos dando assim a entender que fui eu que os levei. Quando desaparecem dossiers e memorandos podemos dizer o que quisermos acerca do conteúdo deles, não podemos?

— Não sei do que está a falar — redarguiu Ben Stevens. Afastou-se do aro da porta mas não se aproximou da secretária nem puxou uma cadeira. Tinha o rosto corado, o olhar cheio de ódio. — Não sei nada de dossiers ou memorandos desaparecidos mas, se for verdade, não posso ocultar o facto às autoridades tal como não posso ocultar o facto de por casualidade ter passado esta noite pelo serviço para vir buscar uma coisa e dar consigo a mexer na minha secretária.

— De que é que se esqueceu, Ben?

— Não tenho de responder às suas perguntas.

— Por acaso, até tem. Trabalha para mim e se entra no edifício a altas horas da noite e eu venho a saber disso tenho o direito de o interrogar.

— Então, suspenda-me. Tente despedir-me. Nesta altura isso vai favorecê-la muito.

— Você parece um choco, Ben.

Arregalou os olhos e humedeceu os lábios.

— As suas tentativas de sabotagem não passam de uma data de tinta que esguicha para dentro de água porque está a entrar em pânico e quer desviar de si as atenções. Matou a Susan?

— Deve estar é maluca! — Ripostou com voz trémula.

— Ela saiu de casa ao princípio da tarde no dia de Natal, alegadamente para se encontrar com uma amiga. Na verdade, a pessoa com quem ia encontrar-se era você, não era? Sabia que quando foi encontrada morta dentro do carro, a gola e o lenço dela cheiravam a água de colónia de homem, como a água de colónia Red que você tem na secretária para poder perfumar-se antes de correr os bares da Slip depois do trabalho?

— Não sei do que está a falar.

— Quem é que lhe andava a pagar, a ela?

— A senhora, se calhar.

— Isso é ridículo — redargui, calmamente. — Você e a Susan estavam metidos nalgum esquema de dinheiro fácil e quer-me parecer que foi você que a meteu nisso porque sabia dos problemas dela. Ela se calhar fez-lhe confidências. Sabia como convencê-la a alinhar e sabe Deus o jeito que o dinheiro lhe fazia, a si. Só as contas de bar chegam para rebentar com o seu orçamento. A farrice sai muito cara e eu sei quanto você ganha.

— Não sabe coisa nenhuma.

— Ben — Baixei a voz. — Deixe-se disso. Pare enquanto é tempo. Diga-me quem é que está por detrás dessa história toda.

Não conseguiu olhar-me nos olhos.

— O risco é muito grande quando começam a morrer pessoas. Julga que, se matou a Susan, consegue safar-se?

Não disse nada.

— Se foi outra pessoa que a matou, julga que está a salvo, que não lhe pode acontecer a mesma coisa?

— Está a ameaçar-me.

— Disparate.

— Não pode provar que a água de colónia que cheirou na Susan era minha. Não há nenhum teste para uma coisa desse tipo. Não pode meter um cheiro num tubo de ensaio, não pode preservá-lo — retorquiu ele.

— Agora vou ter de pedir-lhe que saia, Ben.

Ele deu meia volta e saiu do gabinete. Quando ouvi as portas do elevador a fecharem-se, segui pelo corredor e espreitei por uma janela sobranceira ao parque de estacionamento das traseiras. Não me arrisquei a voltar para o carro enquanto Stevens não arrancou.

O edifício do FBI é um forte de betão na esquina da 9th Street com a Pennsylvania Avenue no coração de Washington e quando lá entrei na manhã seguinte foi na esteira de pelo menos umas cem barulhentas criancinhas de escola. Fizeram-me lembrar Lucy quando tinha a idade delas ao estrondearem escadas acima, correrem para os bancos e juntarem-se travessamente à volta de enormes arbustos e árvores em vasos. Lucy teria adorado visitar os laboratórios e de repente senti uma enorme saudade dela.

O burburinho de estridentes vozes infantis desvaneceu-se como se levado pelo vento quando me afastei com destino certo e em passo acelerado pois já ali estivera vezes suficientes para saber o caminho. Dirigindo-me para o centro do edifício, passei por um pátio, depois por uma área de estacionamento restrito e um segurança antes de chegar à porta envidraçada. Lá dentro havia um vestíbulo com móveis claros, espelhos e bandeiras. Um retrato do presidente sorria de uma das paredes enquanto noutra se alinhava um hit parade dos dez fugitivos mais procurados.

Na portaria, mostrei a carta de condução a um jovem agente cujo semblante era tão sombrio como o fato cinzento.

— Sou a Dr.a Kay Scarpetta, Médica Legista Chefe da Virgínia.

— Para falar com quem? Disse-lhe.

Comparou-me com a foto, certificou-se de que eu não vinha armada, fez um telefonema e deu-me um passe. Ao contrário da Academia, em Quântico, a Sede tinha uma ambiência que parecia engomar a alma e retesar a espinha.

Eu não conhecia o Agente Especial Minor Downey embora a ironia do seu apelido me tivesse trazido à mente algumas imagens burlescas. Devia ser um homem efeminado, frágil, com um cabelo louro-claro a cobrir-lhe todos os centímetros do corpo excepto a cabeça. Teria uns olhos piscos, a pele raramente exposta ao sol, e por certo uma maneira discreta de andar de um lado para o outro sem atrair as atenções. Claro que me enganei. Quando me apareceu à frente um sujeito entroncado, em mangas de camisa, e me olhou nos olhos levantei-me logo da cadeira.

— Deve ser Mr. Downey — disse eu.

— Dr.a Scarpetta — cumprimentou-me ele com um aperto de mão.

— Por favor, trate-me por Minor.

Tinha no máximo uns quarenta anos e era atraente no seu ar de académico, com óculos de lentes sem armação, cabelo castanho bem tratado e uma gravata às riscas azul e grená. Exsudava uma simpatia e uma riqueza intelectual imediatamente perceptível a quem quer que tivesse passado por duros anos de estudos de pós-graduação pois não me lembrava de nenhum professor de Georgetown ou Johns Hopkins que, lidando com o invulgar, conseguisse ligar-se aos simples mortais.

— Porquê as penas? — perguntei-lhe quando entrávamos para o elevador.

— Tenho uma amiga que é ornitologista no Museu de História Nacional do Smithsonian — respondeu ele. — Quando os serviços oficiais da aviação começaram a pedir-lhe ajuda nos casos de acidentes com pássaros, eu interessei-me. Sabe, os pássaros são ingeridos pelos motores dos aviões e quando analisamos os destroços, em terra, encontramos bocados de penas e queremos descobrir que espécie de ave causou o problema. Por outras palavras, o que quer que tenha sido engolido fica muito bem mastigado. Uma gaivota pode deitar abaixo um bombardeiro B-1 e quando se perde um motor por causa de uma ave, num avião de grande porte, cheio de gente, isso é um problema. Ou então o caso do mergulhão que entrou pelo pára-brisas de um jacto da Lear e decapitou o piloto. Essa é uma parte do meu trabalho. Dedico-me à ingestão de aves. Testamos turbinas e lâminas atirando galinhas lá para dentro. Do género, o avião sobrevive a uma ou duas galinhas ?

“Mas as aves encaixam-se em todo o tipo de coisas. Frouxel de pombo em excrementos agarrados à sola dos sapatos de um suspeito

— o suspeito esteve na ruela em que o corpo foi encontrado ou não? Ou o caso do tipo que roubou um amazona amarelo durante um assalto e encontrámos bocados de penas na parte de trás do carro dele idênticas às provenientes de um amazona amarelo. Ou a pena removida do corpo de uma mulher que foi violada e assassinada. Encontraram-na na caixa de uma coluna Panasonic dentro de um contentor do lixo. Pelo aspecto, pareceu-me uma pena de um pequeno pato-selvagem branco, o mesmo tipo de enchimento do édredon que estava na cama do suspeito. Esse caso foi resolvido com uma pena e dois cabelos.

O segundo andar era um quarteirão de laboratórios onde os técnicos analisavam explosivos, lascas de tinta, pólenes, ferramentas, pneus e detritos usados em crimes ou recolhidos nos locais. Detectores de cromatografia gasosa, microespectrofotómetros e computadores centrais ligados 24 horas por dia e colecções de amostras enchiam salas com tipos de tinta de automóvel, fitas de revestimento e plásticos. Segui atrás de Downey por corredores brancos passando pelo laboratório de análise de ADN, depois entrámos na Unidade de Cabelos e Fibras onde ele trabalhava. O seu gabinete funcionava também como laboratório com móveis de madeira escura e estantes partilhando o espaço com bancadas e microscópios. As paredes e a alcatifa eram beges e desenhos a lápis de cor presos num quadro de cortiça disseram-me que aquele especialista em penas, de renome internacional, era pai.

Abrindo um envelope de papel pardo, tirei de lá três outros mais pequenos de plástico transparente. Dois continham as penas recolhidas nos casos de Jennifer Deighton e Susan Story, enquanto um terceiro continha uma amostra do resíduo viscoso retirado dos pulsos de Eddie Heath.

— Parece que esta é a melhor — disse eu apontando para a pena retirada da camisa de dormir de Jennifer Deighton.

Ele tirou-a do envelope e afirmou:

— Isto é frouxel — penugem do peito ou do dorso. Tem um belo tufo em cima. Óptimo. Quanto mais pena houver, melhor. — Utilizando uma pinça, arrancou algumas das ramificações ou “barbas” de ambos os lados da haste e, instalando-se ao microscópio estereoscópico, colocou-as sobre uma leve película de xileno do qual vertera umas gotas para uma lamela. Isso serviu para separar as delicadas estruturas, ou pô-las a flutuar, e quando viu que cada uma das barbas estava intactamente isolada, tocou com um canto do mata-borrão verde no xileno para o absorver. Acrescentou o fixador Flo-Texx, depois cobriu com uma lâmina de vidro e colocou a lamela sob o microscópio de comparação que estava ligado a uma câmara de vídeo.

— Começarei por dizer-lhe que as penas das aves possuem todas, basicamente, a mesma estrutura. Temos uma haste central, as barbas, que por sua vez se ramificam em bárbulas finíssimas, e temos uma base mais larga por cima da qual existe um poro chamado umbigo superior. As barbas são os filamentos que dão à pena o seu aspecto penugento e, quando ampliadas, verifica-se que na verdade são como minipenas a irradiar da haste. — Voltou-se para o monitor. — Aqui está uma barba.

— Parece um feto — comentei.

— Em muitos casos, sim. Agora vamos ampliá-la um pouco mais para podermos ver as bárbulas pois são as características das bárbulas que nos permitem uma identificação. Concretamente, o que mais nos interessa são os nódulos.

— Deixe-me ver se percebi bem — interrompi. — Os nódulos caracterizam as bárbulas, as bárbulas caracterizam as barbas, as barbas caracterizam as penas e as penas caracterizam as aves.

— Exacto. E cada família de aves tem a sua própria e típica estrutura penífera.

O que vi no ecrã do monitor parecia-se, espantosamente, com o desenho estilizado de uma erva ou perna de um insecto. As linhas estavam unidas em segmentos por estruturas triangulares tridimensionais que Downey afirmou serem os nódulos.

— É o tamanho, a forma, o número e a pigmentação dos nódulos, e a sua disposição ao longo da bárbula, que interessam — explicou ele, pacientemente. — Por exemplo, no caso de nódulos estelares trata-se de pombos, nódulos anelares de galinhas e perus, rebordos largos com inchaço prenodal de cucos. Estes — apontou para o ecrã — são nitidamente triangulares pelo que sei de imediato que a sua pena é de um pato ou de um ganso. Não que isso me surpreenda. Por regra, a origem das penas recolhidas em assaltos, violações e homicídios está em almofadas, édredons, coletes, blusões, luvas. E, geralmente, o enchimento desses artigos é composto de bocados de penas e penugem de patos e gansos ou, nos mais baratos, de galinhas.

“Mas neste caso podemos eliminar decididamente as galinhas. E estou prestes a concluir que a sua também não provém de nenhum ganso.

— Porquê? — perguntei.

— Bom, seria fácil ver se tivéssemos a pena toda. Só com o frouxel é difícil. Mas, com base no que estou a ver, existem, em média, muito poucos nódulos. Além disso, não estão dispostos ao longo da bárbula sim distanciados ou situados mais junto da extremidade da bár. E isso é uma característica dos patos. Abriu um armário e retirou várias placas de lamelas.

— Vejamos. Tenho cerca de sessenta lamelas de patos. Pelo sim pelo não, vou analisá-las todas, eliminando-as sucessivamente.

Uma por uma, colocou as lamelas sob o microscópio de comparação que consiste, basicamente, em dois microscópios compostos combinados numa única unidade binocular. No monitor do vídeo estava um campo de luz circular dividido ao meio por uma linha estreita, tendo esta de um lado o exemplar identificado e do outro o que desejávamos identificar. Rapidamente, analisou penas de pato-selvagem, pato-almiscarado, arlequim, negrinha, ruivo e marreco americano e depois dezenas de outros. Downey não precisou de olhar muito tempo para cada um deles para concluir que o pato que procurávamos era dos raros.

— Será impressão minha ou esta é mais delicada que as outras? — Aventei, referindo-me à pena em questão.

— Não é impressão sua. É mais delicada, mais filiforme. Está a ver como as estruturas triangulares não sobressaem tanto?

— Estou, agora que me chamou a atenção para isso.

— O que nos dá uma pista importante sobre a ave. Isso é que é fascinante. A Natureza tem de facto um motivo para as coisas e quer-me parecer que neste caso o motivo é o isolamento. A função da penugem é reter o ar e quanto mais finas forem as bárbulas, quanto mais filiformes ou cónicos forem os nódulos e mais distanciados estiverem, mais eficazmente ela fará a retenção do ar. Quando o ar está contido ou inerte, é como estar dentro de uma sala pequena, isolada, sem ventilação. Aquece-se.

Colocou outra lamela na platina do microscópio e desta vez pude perceber que estávamos quase a chegar lá. As bárbulas eram delicadas, os nódulos cónicos e distanciados.

— Que temos aí? — perguntei-lhe.

— Deixei os principais suspeitos para o fim. — Fez um ar satisfeito. — Patos marinhos. E em primeiro lugar estão os êideres. Vamos aumentar a ampliação para os quatrocentos. — Trocou a objectiva, focou e analisámos mais algumas lamelas. — Não é o rei nem o luneta. E não me parece que seja o estrelado por causa da pigmentação acastanhada na base do nódulo. A sua pena não tem isso, está a ver?

— Estou.

— Portanto vou passar ao êider comum. Muito bem. A pigmentação condiz — afirmou olhando fixamente para o ecrã — e, vejamos, uma média de dois nódulos distanciados ao longo das bárbulas. Mais, o formato filiforme para uma maior capacidade isoladora — e isso é importante quando se nada no oceano Árctico. Acho que é este, o Somateria mollissima, que se encontra normalmente na Islândia, Noruega, Alasca e nas costas da Sibéria. Vou fazer mais um teste com o SEM — acrescentou, referindo-se à busca por microscopia electrónica.

— À procura de quê?

— Cristais de sal.

— Claro — redargui, fascinada. — Porque os êideres são aves de água salgada.

— Exactamente. E bem interessantes por sinal, um notável exemplo de exploração. Na Islândia e na Noruega, as suas colónias de reprodução estão protegidas dos predadores e outras intrusões para que as pessoas possam recolher a penugem com a qual as fêmeas forram o ninho e cobrem os ovos. Depois é limpa e vendida aos fabricantes.

— De quê?

— Normalmente, de sacos-camas e édredons. — Enquanto falava, ia preparando várias barbas da pena encontrada dentro do carro de Susan Story.

— Jennifer Deighton não tinha nada disso em casa dela — referi. — Absolutamente nada com enchimento de penas.

— Então se calhar estamos perante uma transferência secundária ou terciária na qual a pena foi transferida para o assassino que, por sua vez, a transferiu para a vítima. Sabe, isto é muito interessante.

O exemplar estava agora visível no monitor.

— Êider, outra vez — disse eu.

— Acho que sim. Vamos ver a lamela. É do miúdo?

— É — respondi. — De um resíduo adesivo encontrado nos pulsos de Eddie Heath.

— Esta agora!

Os microscópicos resíduos surgiram no monitor como uma incrível variedade de cores, formas, fibras e as familiares bárbulas e nódulos triangulares.

— Bom, deita por terra a minha própria teoria— comentou Downey. — Se é que se trata de três homicídios diferentes ocorridos em locais diferentes e em alturas diferentes.

— Exactamente.

— Se só uma destas penas fosse de êider, eu seria tentado a considerar a hipótese de ter sido um contaminante. É como aquelas etiquetas que dizem cem por cento acrílico e vai-se a ver são noventa por cento acrílico e dez por cento nylon. As etiquetas mentem. Se a fornada antes da sua camisola de acrílico, por exemplo, foi uma data de blusões de nylon, as primeiras camisolas que saem a seguir trazem contaminantes de nylon. À medida que vão sendo produzidas mais camisolas, o contaminante dissipa-se.

— Ou seja — deduzi —, se alguém andar com um blusão de penas, ou tiver um édredon que apanhou contaminantes de frouxel, as probabilidades de o blusão ou édredon desse indivíduo estar a largar só as penas de êider são quase nulas.

— Exactamente. Por isso vamos partir do princípio de que o artigo em questão está cheio de frouxel de êider puro, o que é extremamente curioso. Normalmente o que me aparece aqui são os vulgares blusões, luvas ou édredons com enchimento de penas de galinha ou, quanto muito, de ganso. O êider é um artigo raro, um artigo muito caro. Um colete, blusão, édredon ou saco-cama de frouxel de êider não larga quase penas nenhumas, é muito bem confeccionado — e caríssimo.

— Já alguma vez lhe trouxeram frouxel de êider para perícia técnica?

— Esta é a primeira.

— Por que é tão valioso?

— Pelas qualidades isoladoras de que já lhe falei. Mas o factor estético também conta muito. O verdadeiro frouxel de êider é branco. Os outros são, quase todos, de um branco sujo.

— E se eu comprasse um desses artigos caros, saberia que estava cheio de frouxel de êider branco ou na etiqueta vinha só “penas de pato”?

— Tenho quase a certeza de que saberia — respondeu ele. — Na etiqueta viria algo do género “cem por cento frouxel de êider”. Tinha de haver alguma coisa que justificasse o preço.

— Pode ver aí, no computador, quais são os distribuidores de penas?

— Claro. Mas é óbvio que nenhum distribuidor vai poder afirmar que as penas que recolheu são deles sem lhes apresentar a respectiva peça de roupa ou artigo. Infelizmente, uma pena só não chega.

— Não sei — redargui. — É capaz de chegar.

Ao meio-dia, já percorrera dois quarteirões até ao local onde tinha arrumado o carro e já me enfiara lá dentro com o aquecimento no máximo. Estava tão perto da New Jersey Avenue que me senti como a maré, a ser atraída pela Lua. Apertei o cinto de segurança, sintonizei o rádio e, por duas vezes, peguei no telefone mas mudei de ideias. Era uma loucura pensar sequer em contactar Nicholas Grueman.

Ele, aliás, nem devia estar, pensei, tornando a pegar no telefone e marcando o número.

— Grueman — disse a voz.

— Fala a Dr.a Scarpetta. — Levantei a voz por causa do barulho do aquecimento.

— Ora, viva. Outro dia li o que vinha no jornal a seu respeito. Parece que está a falar de um telefone de carro.

— Porque estou mesmo. Por sinal, encontro-me em Washington.

— Fico verdadeiramente lisonjeado por pensar em mim de passagem pela minha humilde cidade.

— A sua cidade nada tem de humilde e o meu telefonema nada tem de social. Achei que devíamos falar sobre Ronnie Joe Waddell.

— Entendo. A que distância está do Law Center?

— A dez minutos.

— Ainda não almocei e calculo que a senhora também não. Importa-se que mande vir umas sanduíches?

— Está muito bem — respondi.

O Law Center ficava a uns trinta e cinco quarteirões da cidade universitária e recordei o desalento que sentira, muitos anos atrás, ao descobrir que os meus estudos não incluíam passeios pelas velhas e penumbrosas ruas das Heights nem as aulas seriam em belos edifícios de tijolo oitocentistas. Em vez disso, iria passar três longos anos numas instalações novinhas em folha, desprovidas de qualquer encanto numa zona barulhenta e movimentada de Washington. O meu desapontamento não viria, porém, a durar muito. Havia uma certa excitação, já para não dizer conveniência, em estudar Direito à sombra do Capitólio. Mas talvez mais significativo fosse o facto de pouco depois ter conhecido Mark.

O que eu mais recordava dos meus primeiros encontros com Mark James durante o primeiro semestre do nosso primeiro ano era o efeito físico que ele exercia em mim. De início, foi a própria aparência dele que me impressionou, embora não soubesse porquê. Depois, à medida que nos fomos conhecendo, a sua presença desencadeava em mim descargas de adrenalina. O coração batia disparado e de súbito dava por mim a reparar atentamente em todos os seus gestos, por mais banais que fossem. Durante semanas, as nossas conversas eram arrebatadoras ao arrastarem-se até de madrugada. As nossas palavras não eram elementos de oratória mas sim notas de um crescendo inevitável, secreto, que aconteceu uma noite com a surpreendente imprevisibilidade e impacte de um acidente.

Desde então o traçado físico do Law Center crescera e alterara-se significativamente. O Centro de Justiça Criminal ficava no terceiro andar e quando saí do elevador não se via ninguém, desertos os gabinetes por onde passei. Estava-se, afinal, ainda em época festiva e só os incansáveis ou desesperados teriam vontade de ir trabalhar. A porta da sala 418 estava aberta, vaga a mesa da secretária, entreaberta a porta de comunicação com o gabinete de Grueman.

Não querendo assustá-lo, chamei-o enquanto me aproximava da porta. Não respondeu.

— Mr. Grueman? Está aí? — Chamei novamente empurrando a porta um nadinha mais.

A secretária dele estava atulhada de papéis em volta de um computador e os dossiers e actas empilhavam-se no chão junto à base das sobrelotadas estantes. À esquerda da secretária, havia uma mesa com uma impressora e um fax ocupado a enviar alguma coisa a alguém. Quando, silenciosamente, olhava em redor, o telefone tocou três vezes e depois parou. As persianas por detrás da secretária estavam descidas, talvez para reduzir a luminosidade que incidia no ecrã do computador, e encostada ao parapeito da janela estava uma pasta de cabedal castanho riscada e já muito batida.

— Desculpe lá — disse uma voz atrás de mim pregando-me um valente susto. — Saí só por um instante e contava estar de volta antes de a senhora chegar.

Nicholas Grueman não me estendeu a mão nem fez qualquer espécie de cumprimento pessoal. Parecia apenas interessado em voltar a sentar-se, o que fez muito vagarosamente e com a ajuda de uma bengala de castão de prata.

— Oferecia-lhe um café mas ninguém o faz quando a Evelyn não está — disse, sentando-se na cadeira de espaldar. — Mas a pastelaria que daqui a pouco cá vem entregar o almoço vai trazer bebidas. Espero que não se importe de esperar e, por favor, sente-se, Dr.a Scarpetta. Fico nervoso quando uma mulher me olha de alto.

Puxei uma cadeira junto à secretária e verifiquei com espanto que, em pessoa, Grueman não era o monstro que eu recordava dos meus tempos de faculdade. Para começar, parecia ter encolhido, embora calculasse que a explicação mais provável fosse eu, na minha imaginação, tê-lo ampliado à escala do Monte Rushmore. Via-o, agora, como um homem franzino, de cabelo branco, cujo rosto, talhado pelos anos, se transformara numa interessante caricatura. Continuava a usar laço e colete e a fumar cachimbo, e quando me fitou, os seus olhos cinzentos eram capazes de dissecar como qualquer bisturi. Mas não os achei frios. Eram apenas inexcrutáveis, tal como os meus na maior parte do tempo.

— Por que coxeia? — Perguntei-lhe, sem rodeios.

— Gota. A doença dos déspotas — respondeu ele sem um sorriso. — Manifesta-se de tempos a tempos e por favor poupe-me a bons conselhos e receitas. Vocês, os médicos, irritam-me solenemente com as vossas opiniões espontâneas sobre que assunto for, desde cadeiras eléctricas avariadas às comidas e bebidas que devo excluir da minha pobre dieta alimentar.

— A cadeira eléctrica não estava avariada — redargui. — Pelo menos no caso a que, por certo, se está a referir.

— Não pode saber a que eu estou a referir-me e quer-me parecer que durante a sua breve passagem por aqui tive de repreendê-la mais do que uma vez pela sua enorme facilidade de fazer suposições. Lamento que não me tenha dado ouvidos. Continua a fazer suposições embora, neste caso, a sua suposição estivesse de facto correcta.

— Mr. Grueman, fico lisonjeada por se lembrar de mim como aluna, mas não vim cá para recordar as malfadadas horas que passei na suas aulas. Nem estou aqui para me envolver, de novo, num confronto mental de que o senhor parece gostar tanto. Para que saiba, dir-lhe-ei que tem a honra de ser o professor mais misógino e arrogante que conheci nos meus trinta e tal anos de formação académica. E devo agradecer-lhe por me ter instruído tão bem na arte de lidar com sacanas porque o mundo está cheio deles e eu tenho de lidar com eles todos os dias.

— Tenho a certeza de que lida com eles todos os dias e ainda não sei bem se o faz como deve ser.

— Não estou interessada na sua opinião a esse respeito. Gostaria que me falasse mais acerca de Ronnie Joe Waddell.

— Que deseja saber, para além do facto óbvio de ter tido um desfecho condenável? Como se sentiria se os políticos decidissem que devia ser condenada à morte, Dr.a Scarpetta? Olhe, veja só o que lhe está a acontecer agora. A recente campanha na imprensa, contra si, não será uma manobra política, pelo menos em parte? Todos os envolvidos têm os seus próprios interesses, algo a ganhar ao desacreditá-la publicamente. Não tem nada a ver com justiça ou verdade. Por isso, imagine só como seria se essas mesmas pessoas detivessem o poder de privá-la da sua liberdade ou até da sua vida.

“O Ronnie foi destruído por um sistema irracional e injusto. Não importa quais os precedentes anteriormente aplicados ou se as alegações foram apresentadas em revisão directa ou colateral. Não importa as questões que eu levantei porque, neste caso, no vosso lindo estado, o kabeas não serviu como elemento dissuasor destinado a garantir que os juizes do tribunal estadual e de apelação procurassem, conscienciosamente, conduzir o processo de uma forma de acordo com os princípios estabelecidos pela constituição. Deus nos livre do mais pequeno interesse por violações constitucionais que aprofundem a evolução do nosso pensamento nalguma área do Direito. Nos três anos que lutei pelo Ronnie, mais valia ter-me dedicado à pesca.

— A que violações constitucionais se refere? — perguntei.

— Quanto tempo tem? Mas comecemos pelo recurso óbvio da acusação a peremptórias contestações de uma forma racialmente discriminatória. Os direitos do Ronnie sob a cláusula de igualdade de protecção foram violados do princípio ao fim e a actuação do promotor público infringiu escandalosamente o direito dele, pela Sexta Emenda, a um júri escolhido de um sector justo da comunidade. Creio que não assistiu ao julgamento do Ronnie e que nem sequer sabe muitos pormenores visto ter sido há mais de nove anos e nessa altura ainda não estar na Virgínia. A publicidade local foi impressionante e no entanto não houve qualquer mudança do foro do delito. O júri era formado por seis mulheres e quatro homens. Quatro das mulheres e dois dos homens eram brancos. Os quatro jurados negros eram um vendedor de automóveis, um caixa de banco, uma enfermeira e uma professora universitária. As profissões dos jurados brancos iam de um agulheiro dos caminhos-de-ferro reformado, que ainda chamava “pretos” aos negros, a uma rica dona de casa cujo único contacto com negros era através dos noticiários onde via que mais um deles tinha morto alguém a tiro nos bairros sociais. As características demográficas do júri impossibilitaram-no de ser justamente sentenciado.

— E quer com isso dizer que uma infracção constitucional como essa, ou quaisquer outras no caso do Waddell, se tratou de uma manobra política? Que interesse político poderia haver em condenar Ronnie Waddell à morte?

De repente Grueman olhou para a porta.

— Se os meus ouvidos não me enganam, acho que chegou o almoço. Ouvi passos rápidos e barulho de papel, depois uma voz a chamar:

— Eh, Nick. Está aí?

— Entra, Joe — respondeu Grueman sem se levantar da secretária. Apareceu um jovem negro bem-disposto, de jeans e ténis, que pousou dois sacos de papel à frente de Grueman.

— Neste estão as bebidas e aqui temos duas sanduíches à marinheiro, salada de batata epickles. São $15.40.

— Fica com o troco. E olha, Joe, obrigado. Eles nunca te dão férias ?

— As pessoas não deixam de comer, meu. Estou no ir.

Grueman distribuiu a comida e os guardanapos enquanto eu tentava desesperadamente descobrir o que fazer. Sentia-me cada vez mais cativada pela sua postura e pelas suas palavras, pois não havia nele nada de falso, nada que eu considerasse um gesto paternalista ou hipócrita.

— Que interesse político? — tornei a perguntar-lhe enquanto desembrulhava a minha sanduíche.

Ele fez saltar a cápsula do ginger-ale e retirou a tampa da embalagem de salada de batata.

— Aqui há umas semanas, julguei ter obtido uma resposta a essa pergunta — redarguiu. — Mas depois a pessoa que podia ter-me esclarecido foi encontrada morta dentro do carro. E tenho a certeza que sabe de quem estou a falar, Dr.a Scarpetta. Jennifer Deighton é um dos seus casos e embora não tenha sido ainda afirmado publicamente que a sua morte se tratou de um suicídio, é o que uma pessoa tem sido levada a pensar. Considero o timing da morte dela muito estranho, se não mesmo assustador.

— Devo concluir que conheceu Jennifer Deighton? — Perguntei-lhe com toda a frontalidade.

— Sim e não. Não a conheci pessoalmente e as nossas conversas telefónicas, as poucas que tivemos, foram muito curtas. É que só a contactei depois da morte do Ronnie.

— Donde devo também concluir que ela conhecia o Waddell. Grueman deu uma dentada na sanduíche e estendeu a mão para o ginger-ale.

— Não há dúvida que se conheciam — respondeu. — Como deve saber, Miss Deighton tinha um serviço de horóscopos, andava metida na parapsicologia e nesse tipo de coisas. Bom, há oito anos, quando estava no corredor da morte em Mecklenburg, o Ronnie calhou em ver um anúncio dos serviços dela numa revista qualquer. Escreveu-lhe, inicialmente na esperança de que ela, olhando para a bola de cristal, por assim dizer, pudesse adivinhar o seu futuro. Concretamente, penso que ele queria saber se ia morrer na cadeira eléctrica e isso não é um fenómeno raro — reclusos que escrevem a videntes, ciganas, e lhes fazem perguntas sobre o futuro, ou que falam com sacerdotes a pedir que rezem por eles. O que foi um nadinha mais invulgar no caso do Ronnie é que, pelos vistos, ele e Miss Deighton iniciaram uma troca de correspondência íntima que durou vários meses antes da morte dele. Depois, de repente, as cartas dela acabaram.

— Está a pôr a hipótese de terem interceptado as cartas dela?

— Tenho a certeza. Quando falei com Jennifer Deighton pelo telefone, ela afirmou que continuara a escrever ao Ronnie. Também disse que não recebera nenhuma carta dele nos últimos meses e estou muito desconfiado que tenham também interceptado as cartas dele.

— Por que é que só a contactou depois da execução? — Perguntei, intrigada.

— Antes disso não sabia da sua existência. O Ronnie só me falou dela na nossa última conversa que foi, talvez, a conversa mais estranha que eu já tive com um recluso meu constituinte. — Grueman remirou a sanduíche e depois pô-la de lado. Pegou no cachimbo. — Não sei se tem conhecimento disso, Dr.a Scarpetta, mas o Ronnie dispensou os meus serviços.

— Não faço a mínima ideia do que está a falar.

— A última vez que falei com o Ronnie foi uma semana antes de o transferirem de Mecklenburg para Richmond. Nessa altura afirmou que sabia que ia ser executado e que nada que eu fizesse iria alterar a situação. Disse que o que lhe ia acontecer estava decidido desde o princípio e que aceitava a inevitabilidade da sua morte. Disse que estava desejoso de morrer e preferia que eu não fizesse mais nenhuma tentativa para obter um indulto do tribunal federal. Depois pediu-me para não voltar a telefonar-lhe nem visitá-lo.

— Mas não o despediu.

Grueman introduziu a chama do isqueiro na chaminé do cachimbo de roseira-brava e puxou uma fumaça.

— Não, não me despediu. Recusou-se, apenas, a receber-me ou a falar comigo pelo telefone.

— Quer-me parecer que isso, só por si, asseguraria um adiamento da execução para uma avaliação do seu estado mental.

— Eu bem tentei. Citei tudo e mais alguma coisa, desde o caso Hays contra Murphy até ao Pai Nosso. O tribunal chegou à brilhante conclusão de que o Ronnie não pedira para ser executado. Limitara-se a afirmar que desejava morrer e o pedido foi recusado.

— Se não teve nenhum contacto com o Waddell nas últimas semanas antes da execução, como é que soube da existência de Jennifer Deighton?

— Durante a minha última conversa com o Ronnie, ele fez-me três últimos pedidos. O primeiro foi que me certificasse de que a meditação que ele tinha escrito seria publicada no jornal dias depois da sua morte. Entregou-ma e eu tratei do assunto com o Richmond Times-Dispatch.

— Eu li-a.

— O segundo pedido dele — e passo a citar — foi “Não deixe que nada aconteça à minha amiga.” Perguntei-lhe a que amiga se referia e ele disse, e cito novamente, “Se é bom homem, proteja-a. Ela nunca fez mal a ninguém.” Deu-me o nome dela e pediu-me que só a contactasse depois da sua morte. Nessa altura eu devia telefonar-lhe a dizer o quanto ela fora importante para ele. Bom, claro que não levei esse pedido à letra. Tentei entrar imediatamente em contacto com ela porque sabia que o Ronnie me estava a escapar e percebi que havia ali qualquer coisa terrivelmente errada. A minha esperança era que essa amiga dele pudesse ajudar-me. Se tinham escrito um ao outro, por exemplo, talvez ela pudesse elucidar-me.

— E apanhou-a? — Perguntei, lembrando-me que Marino me dissera que Jennifer Deighton passara duas semanas na Florida por alturas do Dia de Acção de Graças.

— Nunca me atenderam o telefone — respondeu Grueman. — Fui tentando durante várias semanas e depois, para ser franco, com a tensão e percalços de saúde relacionados com o ritmo dos trabalhos, as Festas, e um violentíssimo ataque de gota, passou-me de ideia. Só me lembrei de telefonar outra vez a Jennifer Deighton depois da morte do Ronnie e precisava contactá-la para lhe transmitir, a pedido do Ronnie, que ela fora muito importante para ele, etc., etc.

— Ao tentar contactá-la antes — perguntei —, deixou-lhe alguma mensagem no gravador de chamadas?

— Não estava ligado. O que, se pensarmos bem, faz sentido. Era só o que lhe faltava voltar de férias e encontrar umas quinhentas mensagens de pessoas que não conseguem tomar uma decisão enquanto não lhes lerem o horóscopo. E se ela deixasse uma mensagem na máquina a dizer que ia ausentar-se por duas semanas seria o convite ideal para os gatunos.

— Que aconteceu quando finalmente a apanhou?

— Foi então que ela me revelou que se tinham correspondido durante oito anos e que se amavam. Afirmou que a verdade jamais será conhecida. Perguntei-lhe o que queria dizer com isso mas ela não me respondeu e desligou o telefone. Acabei por lhe escrever uma carta a pedir-lhe encarecidamente que falasse comigo.

— Quando é que escreveu essa carta? — perguntei.

— Deixe-me ver. No dia a seguir à execução. Deve ter sido a catorze de Dezembro.

— E ela respondeu?

— Respondeu por fax, o que é curioso. Eu não sabia que ela tinha fax, mas o número do meu vem no papel de carta. Tenho uma cópia do fax dela, se quiser ver.

Vasculhou por entre as grossas pastas de processos e outra papelada que tinha em cima da secretária. Encontrando o que procurava, folheou-o e retirou o fax que reconheci de imediato. “Sim, vou colaborar” lia-se “mas é tarde de mais, tarde de mais, tarde de mais. É melhor vir cá. É um erro tão grande!” Gostava de saber como é que Grueman reagiria se soubesse que o texto que ela lhe enviara havia sido recriado por um realçador de imagem no laboratório de Neils Vander.

— Sabe o que ela queria dizer? Tarde de mais para quê e que erro tão grande era esse? — perguntei:

— É óbvio que era tarde demais para se fazer alguma coisa que impedisse a execução do Ronnie dado que se realizara quatro dias antes.

Não sei bem o que é que ela considerava um erro assim tão grande, Dr.a Scarpetta. Sabe, há já uns tempos que tenho a sensação de que havia qualquer coisa perniciosa no caso do Ronnie. Nunca criámos, um com o outro, uma grande proximidade o que, só por si, é estranho. Normalmente, ficamos muito amigos. Eu sou o único defensor num sistema que nos quer matar — o único a defender os direitos que o sistema não defende. Mas o Ronnie foi tão frio com o primeiro advogado dele que o sujeito chegou à conclusão que era uma causa perdida e desistiu. Mais tarde, quando peguei no caso, o Ronnie também se mostrou esquivo. Foi extremamente frustrante. Quando julgava que ele ia começar a confiar em mim, erguia-se nova barreira. De repente remetia-se ao silêncio e começava, literalmente, a transpirar.

— Parecia-lhe assustado?

— Assustado, deprimido, por vezes furioso.

— Está a insinuar que havia alguma conspiração envolvida no caso dele e que ele poderá ter contado isso à amiga, talvez numa das primeiras cartas que lhe escreveu?

— Não sei o que é que a Jenny Deighton sabia mas calculo que soubesse alguma coisa.

— O Waddell tratava-a por “Jenny”? Grueman tornou a pegar no isqueiro.

— Sim.

— Ele alguma vez lhe falou de um romance chamado Paris Trout”?

— É espantoso — comentou, parecendo admirado. — Há tempos que não pensava nisso mas durante uma das minhas primeiras conversas com o Ronnie, há uns anos, falámos de livros e da poesia dele. Ele gostava de ler e aconselhou-me o Paris Trout. Disse-lhe que já tinha lido o romance mas tive curiosidade em saber por que é que ele mo aconselhara. Respondeu-me muito calmamente: “Porque é assim que as coisas se passam, Mr. Grueman. E não há hipótese de mudar nada.” Na altura pensei que se estava a referir ao facto de ser um negro sulista em luta contra o sistema do homem branco e que nenhum recurso federal ou qualquer outra solução mágica que eu invocasse durante o processo de revisão judicial iria alterar o seu destino.

— Continua a ser essa a sua interpretação?

Olhou, pensativo, através de uma nuvem de fumo perfumado.

— Acho que sim. Por que está interessada na lista de leituras recomendadas do Ronnie? — E olhou-me nos olhos.

— Jennifer Deighton tinha um exemplar do Paris Trout ao lado da cama. Lá dentro, estava um poema que creio tenha sido escrito pelo Waddell, para ela. Não interessa. Apenas curiosidade minha.

— Interessa sim, ou não teria feito a pergunta. O que está a pensar é que talvez o Ronnie lhe tenha aconselhado o romance pelo mesmo motivo que mo aconselhou a mim. O enredo, na opinião dele, era de certo modo a sua própria história. E isso conduz-nos novamente à questão do que terá ele revelado a Miss Deighton. Por outras palavras, que segredo dele levou ela para a cova?

— Que acha que era, Mr. Grueman?

— Penso que houve um encobrimento de alguma indiscrição muito grave e que, por qualquer motivo, o Ronnie teve conhecimento disso. Talvez tenha a ver com o que se passa atrás das grades, ou seja a corrupção dentro do sistema prisional. Não sei mas gostava de saber.

— Mas para quê esconder alguma coisa quando se vai enfrentar a morte? Por que não ir em frente, arriscar e contar tudo?

— Seria a atitude mais racional, não seria? E agora que tão paciente e generosamente respondi às suas perguntas, Dr.a Scarpetta, talvez possa entender melhor por que me mostrei tão preocupado com quaisquer maus tratos que o Ronnie possa ter sofrido antes da execução. Pode entender melhor, talvez, a minha acérrima oposição à pena capital, que é um acto cruel e desusado. Mesmo que não se tenha equimoses ou escoriações ou se sangre do nariz.

— Não havia nenhuma prova de maus tratos físicos — afirmei. — Nem encontrámos sinais de toxicodependência. O senhor recebeu o meu relatório.

— Está a ser evasiva — comentou Grueman, sacudindo o tabaco do cachimbo. — Veio aqui, hoje, porque quer alguma coisa de mim. Eu dei-lhe muita coisa através de um diálogo ao qual não estava obrigado. Mas fui prestável porque ando eternamente em busca da justiça e da verdade, não obstante a ideia que possa fazer de mim. E há outro motivo. Uma ex-aluna minha está com problemas.

— Se se refere a mim, deixe-me recordar-lhe a sua própria máxima. Não faça suposições.

— Não creio que esteja a fazê-las.

— Nesse caso devo confessar-lhe a minha mais profunda curiosidade quanto a este súbito gesto caridoso que, alegadamente, tem para com uma ex-aluna. Com efeito, Mr. Grueman, caridade foi uma palavra que nunca me passou pela cabeça associar à sua pessoa.

— Talvez não saiba, então, o verdadeiro significado da palavra. Um acto ou sentimento de boavontade, dar esmolas aos necessitados. Caridade é dar a alguém o que ele precisa e não aquilo que se lhe quer dar. Eu sempre lhe dei o que precisava. Dei-lhe o que precisava enquanto foi minha aluna e estou a dar-lhe hoje o que precisa embora os actos se expressem de uma forma muito diferente porque as necessidades são muito diferentes.

“Agora sou um velho, Dr.a Scarpetta, e se calhar pensa que já não me lembro bem dos seus tempos em Georgetown. Mas talvez fique admirada se eu lhe disser que me lembro perfeitamente de si porque foi uma das alunas mais promissoras que eu tive. O que não precisava que eu lhe desse eram palmadinhas nas costas e elogios. O risco, no seu caso, não era que perdesse a confiança em si e no seu excelente intelecto, mas que se perdesse a si mesma, mais nada. Julga que quando aparecia exausta e distraída nas minhas aulas eu não sabia qual era o motivo? Julga que eu não tinha conhecimento da sua dedicação total ao Mark James que, já agora, era medíocre pelos seus padrões? E se eu parecia zangado consigo e muito exigente era porque queria que me desse ouvidos. Queria que ficasse irritada. Queria que se sentisse viva no Direito e não apenas no amor. Receava que desperdiçasse uma magnífica oportunidade por andar com as hormonas e as emoções em alvoroço. Sabe, há um dia em que se acorda e se lamenta tais decisões. Acordamos numa cama vazia tendo pela frente um dia vazio e apenas a perspectiva de semanas, meses e anos vazios. Eu estava decidido a evitar que desperdiçasse os seus dotes e perdesse a sua força.

Fitei-o com o ar mais perplexo deste mundo e o rosto a escaldar.

— Nunca fui sincero nos meus insultos e falta de cavalheirismo para consigo — prosseguiu com a mesma frontalidade serena e precisão que o tornavam assustador na sala de audiências. — São tácticas. Nós, os advogados, somos famosos pelas nossas tácticas. São os cortes e rotações que imprimimos à bola, os ângulos e a velocidade que usamos para causar um certo efeito necessário. Na base de tudo aquilo que eu sou está um desejo sincero e ardente de fortalecer os meus alunos e rezar para que eles se distingam neste mundo mal amanhado em que vivemos. E não sinto, em si, nenhum desapontamento. É, talvez, uma das minhas estrelas mais brilhantes.

— Por que está a dizer-me tudo isso? — perguntei.

— Porque nesta altura da sua vida, precisa saber. Está com problemas, como já afirmei. Só que é muito orgulhosa para o admitir.

Fiquei calada, os pensamentos entregues a um aceso debate.

— Ajudá-la-ei, se mo permitir.

Se ele estava a dizer-me a verdade, impunha-se que eu lhe retribuísse. Lancei um olhar à porta aberta e imaginei o quanto seria fácil alguém ali entrar. Imaginei o quanto seria fácil alguém ir ao seu encontro enquanto se dirigia, a coxear, para o carro.

— Se esses artigos incriminadores continuam a ser publicados no jornal, por exemplo, ser-lhe-ia conveniente definir algumas estratégias...

Interrompi-o:

— Mr. Grueman, quando foi a última vez que viu Ronnie Joe Waddell?

Ele calou-se e olhou fixamente para o tecto.

— A última vez que estive, fisicamente, na presença dele deve ter sido há pelo menos um ano. Como é hábito, a maior parte das nossas conversas eram pelo telefone. Tê-lo-ia acompanhado, no fim, se ele mo tivesse permitido, como já referi.

— Então nunca o viu nem falou com ele quando, supostamente, ele esteve na Spring Street a aguardar a execução.

— Supostamente, Que curiosa escolha de palavras, Dr.a Scarpetta.

— Não podemos provar que foi o Waddell quem foi executado na noite de treze de Dezembro.

— Não está, por certo, a falar a sério — comentou com ar de espanto.

Relatei-lhe tudo o que se descobrira, incluindo a informação de que a morte de Jennifer Deighton fora um homicídio e que, em casa dela, aparecera uma impressão digital de Waddell numa cadeira da casa de jantar. Falei-lhe de Eddie Heath e Susan Story e das provas de que alguém andara a mexer no AFIS. Quando acabei, Grueman estava muito quieto, o olhar fixo no meu.

— Santo Deus — murmurou.

— A carta que escreveu a Jennifer Deighton nunca apareceu — prossegui. — A Polícia não a encontrou, nem o original do fax que ela lhe enviou, quando revistaram a casa. Talvez alguém os tenha levado. Talvez o assassino os tenha queimado na lareira na noite do crime. Ou talvez ela própria os tenha destruído por estar assustada. Estou convencida que a mataram por causa de alguma coisa que ela sabia.

— Razão pela qual Susan Story também foi assassinada? Por saber alguma coisa?

— É muito possível — redargui. — O que eu quero dizer é que, para já, foram assassinadas duas pessoas relacionadas com Ronnie Waddell. Em termos de alguém que poderá saber muita coisa a respeito de Waddell, o senhor vem no topo da lista.

— Então acha que posso ser o próximo — replicou com um sorriso amarelo. — Sabe, a minha maior indignação contra o Todo Poderoso talvez seja o facto de a diferença entre a vida e a morte depender, tantas vezes, do timing. Considero-me avisado, Dr.a Scarpetta, mas não sou idiota ao ponto de achar que se alguém tenciona dar-me um tiro vou ser capaz de lhe cortar as voltas.

— Pelo menos podia tentar — comentei. — Pelo menos podia tomar certas precauções.

— E vou tomar.

— Talvez pudesse tirar umas férias com a sua mulher, sair da cidade por uns tempos.

— A Beverly faleceu há três anos — disse ele.

— Sinto muito, Mr. Grueman.

— Há muitos anos que ela não andava bem — aliás, na maior parte dos anos que vivemos juntos. Agora que não tenho ninguém dependente de mim, entreguei-me por completo às minhas actividades preferidas. Sou um workaholic incurável que quer mudar o mundo.

— Acho que se houvesse alguém capaz disso, seria o senhor.

— É uma opinião que não se baseia em nenhum facto mas mesmo assim agradeço. E também quero expressar-lhe o meu profundo pesar pela morte do Mark. Não o conheci bem quando ele trabalhou aqui mas pareceu-me um sujeito íntegro.

— Obrigada. — Levantei-me e vesti o casaco. Levei uns segundos a encontrar as chaves do carro.

Ele pôs-se também de pé.

— Que fazemos agora, Dr.a Scarpetta?

— Não tem, por acaso, cartas ou outros objectos de Ronnie Waddell que valha a pena analisar a ver se têm impressões digitais latentes?

— Cartas não tenho e qualquer documento que ele possa ter assinado já andou pelas mãos de uma data de gente. Pode tentar, se quiser.

— Aviso-o, se não tivermos outra alternativa. Mas há uma última coisa que gostaria de perguntar-lhe. — Parámos à porta com Grueman apoiado na bengala. — Disse que na sua última conversa com Waddell ele fez-lhe três últimos pedidos. Um para publicar a meditação, outro para telefonar a Jennifer Deighton. Qual era o terceiro?

— Queria que eu convidasse o Norring para assistir à execução.

— E convidou?

— Sim, claro — respondeu Grueman. — E o vosso simpático governador nem sequer teve a delicadeza de responder.

 

A tarde estava a acabar e já se via a silhueta urbana de Richmond quando liguei para Rose.

— Onde é que está, Dr.a Scarpetta? — Perguntou, aflita, a minha secretária. — No carro?

— Sim. A uns cinco minutos daí.

— Bom, então siga. Não venha cá agora.

— O quê?

— O tenente Marino anda a tentar contactá-la. Pediu-me para, se falasse consigo, lhe dizer para ligar primeiro para ele antes de fazer outra coisa qualquer. Disse que era muito, muito urgente.

— Rose, de que diabo está a falar?

— Tem ouvido as notícias? Leu o jornal da tarde?

— Passei o dia todo em Washington. Que notícias?

— Frank Donahue foi encontrado morto hoje ao princípio da tarde.

— O director prisional? Esse Frank Donahue?

— Sim.

As mãos crisparam-se-me no volante, o olhar fixo na estrada.

— Que aconteceu?

— Foi morto a tiro. Encontraram-no dentro do carro há umas horas. Exactamente como a Susan.

— Vou já para aí — disse-lhe, guinando para a faixa da esquerda e acelerando.

— Se fosse a si não vinha. O Fielding já começou a autopsiá-lo. Por favor, ligue para o Marino. Tem de ler o jornal da tarde. Eles já sabem das balas.

— Eles quem? — perguntei.

— Os repórteres. Sabem das balas que relacionam o caso de Eddie Heath com o da Susan.

Liguei para opager de Marino e avisei que ia a caminho de casa. Depois de arrumar o carro na garagem, fui directa aos degraus da porta da frente buscar o vespertino.

Um retrato de Frank Donahue sorria na metade superior da primeira página. A manchete dizia “DIRECTOR DA PENITENCIÁRIA ASSASSINADO.” Por baixo vinha um segundo artigo exibindo a foto de outro funcionário público — eu. A pista desse artigo era que as balas retiradas dos corpos do pequeno Heath e de Susan tinham sido disparadas pela mesma arma e uma série de bizarras ligações pareciam associar-me a ambos os crimes. A somar às mesmas insinuações publicadas no Post havia dados muito mais sinistros.

As minhas impressões digitais, fiquei chocada ao ler, tinham sido descobertas num envelope contendo dinheiro que a Polícia encontrara dentro de casa de Susan Story. Eu revelara um “invulgar interesse” pelo caso de Eddie Heath ao apresentar-me no Hospital de Henrico antes da sua morte para lhe examinar as feridas. Posteriormente, efectuara a sua autópsia e foi nessa altura que Susan se recusou a servir de testemunha no caso dele e terá, supostamente, fugido da morgue. Quando foi assassinada, menos de duas semanas depois, eu fui ao local do crime, logo a seguir apareci sem avisar em casa dos pais dela para lhes fazer perguntas e fiz questão de estar presente durante a autópsia.

Não me atribuíam directamente nenhum motivo de malevolência para com ninguém mas o que insinuavam, no caso de Susan, tinha tanto de enfurecedor como de absurdo. Eu teria cometido erros gravíssimos no exercício das minhas funções. Esquecera-me de tirar as impressões digitais de Ronnie Joe Waddell quando o seu corpo deu entrada na morgue após a execução. Recentemente, deixara o corpo de uma vítima de homicídio no meio de um corredor, praticamente defronte de um elevador usado por um grande número de pessoas que trabalhavam no edifício, comprometendo assim seriamente a segurança das provas. Era descrita como uma pessoa distante e imprevisível, com colegas, afirmando que a minha personalidade começou a alterar-se depois da morte do meu amante, Mark James. Talvez Susan, que trabalhara diariamente ao meu lado, soubesse de algo capaz de me arruinar profissionalmente. Talvez eu tivesse andado a pagar pelo seu silêncio. — As minhas impressões digitais? — perguntei a Marino mal ele chegou. — Que história é essa de impressões digitais que são minhas?

— Calma, doutora.

— Desta vez sou mesmo capaz de os processar. Agora passou das marcas.

— Acho que neste momento é melhor não processar ninguém. — Sacou dos cigarros e seguiu atrás de mim até à cozinha onde o jornal da tarde estava aberto em cima da mesa.

— É o Ben Stevens que está por detrás disto.

— Doutora, acho melhor ouvir o que eu tenho para dizer.

— A fuga sobre as balas só pode ter vindo dele...

— Doutora. Cale-se, bolas. Sentei-me.

— Eu também estou metido ao barulho — disse ele. — Trabalho consigo nos casos e agora, de repente, a senhora passou a ser um elemento. Sim, encontrámos um envelope em casa da Susan. Estava numa gaveta da cómoda, debaixo de umas roupas. Com três notas de cem dólares lá dentro. O Vander analisou o envelope e apareceram algumas impressões latentes. Duas delas são suas. As suas impressões digitais, tal como as minhas e as de muitos outros investigadores, estão no AFIS para efeitos exclusionários no caso de fazermos alguma asneirada como, por exemplo, deixar as nossas impressões digitais num local do crime.

— Eu não deixei impressões digitais em local nenhum. Há uma explicação lógica para isso. Tem de haver. Se calhar o envelope era algum em que eu mexi em qualquer altura, no gabinete ou na morgue, e a Susan levou para casa.

— Não é, decididamente, um envelope de serviço — redarguiu Marino. — Tem quase o dobro da largura de um envelope normalizado e o papel é rijo, preto e brilhante. Sem nada escrito.

Olhei para ele incrédula quando me lembrei do que se tratava.

— O lenço que eu lhe dei.

— Que lenço?

— O meu presente de Natal para a Susan foi um lenço de seda encarnado que comprei em S. Francisco. O que está a descrever é o envelope em que ele vinha, um envelope preto brilhante, de cartolina ou papel rijo. A aba fechava com um pequeno selo dourado. Eu própria embrulhei o presente. Claro que lá estão as minhas impressões digitais.

— E os trezentos dólares? — perguntou ele, evitando o meu olhar.

— Não sei de dinheiro nenhum.

— Por que estava o dinheiro dentro do envelope que lhe deu, quero eu dizer?

— Porque talvez ela quisesse esconder o dinheiro dentro de qualquer coisa. O envelope deu jeito. Talvez não quisesse deitá-lo fora. Sei lá. Não tinha nada a ver com o que ela fazia com qualquer coisa que eu lhe desse.

— Alguém a viu dar-lhe o lenço? — perguntou ele.

— Não. O marido não estava em casa quando ela o desembrulhou.

— Pois é, o único presente seu de que pelos vistos alguém tinha conhecimento era a poinciana cor-de-rosa. Parece que a Susan não falou do lenço.

— Francamente, Marino, ela trazia-o quando foi morta.

— Isso não nos diz qual a sua proveniência.

— Está quase a entrar na fase acusatória — ripostei.

— Não estou a acusá-la de nada. Não percebe? Isto é mesmo assim, gaita. Quer que eu a console e lhe dê palmadinhas na mão para depois outro polícia qualquer entrar por aqui dentro a bombardeá-la com este tipo de perguntas?

Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, a olhar para o chão, de mãos nos bolsos.

— Fale-me do Donahue — pedi-lhe, calmamente.

— Foi morto dentro do carro, provavelmente hoje de manhã cedo. Segundo a mulher, saiu de casa por volta das seis e um quarto. Cerca da uma e meia, encontraram o Thunderbird dele parado no Deep Water Terminal com ele lá dentro.

— Isso li eu no jornal.

— Ouça, quanto menos falarmos disso, melhor.

— Porquê? Os repórteres também vão insinuar que eu o matei?

— Onde é que estava hoje às seis da manhã, doutora?

— A preparar-me para sair de casa e ir a Washington.

— Tem alguma testemunha que confirme que não passou pelas bandas do Deep Water Terminal? Olhe que não é muito longe do seu serviço. Uns dois minutos, talvez.

— Que disparate.

— Vá-se habituando. Isto é apenas o começo. Espere até o Patterson lhe fincar os dentes.

Antes de concorrer a Procurador do Estado, Roy Patterson fora um dos advogados criminais mais agressivos e egoístas da cidade. Já nessa altura não gostava do que eu tinha para dizer dado que, na maioria dos casos, o depoimento do médico legista não faz com que os jurados fiquem com uma melhor imagem do arguido.

— Alguma vez lhe disse o quanto Patterson a odeia? — prosseguiu Marino. — Envergonhou-o quando ele era advogado de defesa. Lá sentada com a sua calma toda e os seus fatos elegantes a fazê-lo parecer um idiota.

— Ele é que tudo fazia para parecer um idiota. Eu limitava-me a responder às perguntas.

— Já para não falar que o seu antigo namorado, Bill Boltz, era um dos melhores amigos dele, e nem sequer preciso de entrar nesses pormenores.

— Preferia que não entrasse.

— O que eu sei é que o Patterson há-de vir atrás de si. Caramba, aposto que neste momento está todo contente.

— Marino, você está encarnado como uma beterraba. Por amor de Deus, não me tenha agora um enfarte.

— Voltemos a esse lenço que disse que ofereceu à Susan.

— Que eu disse que ofereci à Susan?

— Como se chamava a loja em S. Francisco que lho vendeu? — perguntou.

— Não era uma loja.

Lançou-me um olhar penetrante sempre a andar de um lado para o outro.

— Foi num mercado de rua. Montes de bancas e barracas a vender quadros, artesanato. Como em Covent Garden — expliquei.

— Tem algum recibo?

— Não havia razão para ficar com um recibo.

— Portanto não sabe o nome da banca ou lá o que era. Logo, não temos como confirmar que comprou um lenço a um artesão qualquer que usa esses envelopes pretos, brilhantes.

— Não posso confirmar.

Deu mais uns passos e eu pus-me a olhar pela janela. As nuvens passavam lentamente diante de uma lua oblonga e os vultos escuros das árvores oscilavam ao vento. Levantei-me para fechar as persianas.

Marino parou.

— Preciso de dar uma vista de olhos à sua contabilidade, doutora. Não lhe dei resposta.

— Tenho de confirmar que nos últimos meses não fez grandes levantamentos em dinheiro.

Continuei calada.

— Não fez, pois não, doutora? Levantei-me da mesa, o pulso acelerado.

— Pode falar com o meu advogado — respondi-lhe.

Depois de Marino se ir embora, fui lá cima, ao armário de cedro onde guardava a minha papelada pessoal, e comecei a juntar extractos bancários, declarações de impostos e vários registos contabilísticos. Pensei em todos os advogados de defesa de Richmond que se calhar ficariam encantados se eu fosse presa ou exilada para o resto dos meus dias.

Estava sentada na cozinha a tirar apontamentos num bloco quando a campainha da porta tocou. Abri a porta a Benton Wesley e Lucy e percebi de imediato, pelo silêncio de ambos, que não era preciso dizer-lhes o que se estava a passar.

— A Connie? — perguntei, desconfiada.

— Fica até ao Ano Novo com a família dela em Charlottesville.

— Vou voltar para o teu escritório, tia Kay — disse Lucy sem me abraçar nem sorrir. Afastou-se levando a mala.

— O Marino quer inspeccionar as minhas finanças — informei Wesley ao dirigirmo-nos para a sala. — O Ben Stevens anda a tramar-me. Desapareceram lá do serviço processos e cópias de memorandos e a esperança dele é que pareça que fui eu que os levei. E o Roy Patterson, segundo diz o Marino, anda todo contente. Eis as últimas.

— Onde é que guarda o uísque?

— O bom guardo dentro daquela arca, ali adiante. Os copos estão no bar.

— Não quero beber-lhe o bom.

— Mas quero eu. — E comecei a pôr troncos na lareira.

— Liguei para o seu assistente quando vinha para cá. A Balística já deu uma olhadela às balas alojadas no cérebro do Donahue. Winchester, chumbo 150 GR, sem revestimento, calibre vinte e dois. Duas. Uma entrou pela face esquerda e atravessou-lhe o crânio, a outra de cano encostado à nuca.

— Disparadas pela mesma arma que matou os outros dois?

— Sim. Quer gelo?

— Se faz favor. — Fechei a porta da lareira e tornei a pendurar o atiçador no suporte. — Não encontraram, por acaso, nenhuma pena no local do crime ou no corpo do Donahue?

— Que eu saiba, não. Já se sabe que o agressor estava do lado de fora do carro e que o alvejou através da janela aberta do lado do condutor. Não significa que o indivíduo não tenha estado lá dentro antes, mas não me parece. Quanto a mim, o Donahue ia encontrar-se com alguém no parque de estacionamento do Deep Water Terminal. Quando essa pessoa chegou, o Donahue abriu o vidro e pronto. Conseguiu alguma coisa com o Downey? — Entregou-me o copo e instalou-se no sofá.

— Parece que a origem das penas e partículas de penas recolhidas nos três casos é o vulgar pato êider.

— Um pato marinho? — Perguntou Wesley franzindo o sobrolho. — Essas penas são usadas em quê, blusões de esqui, luvas?

— Raramente. A penugem de êider é extremamente cara. Não é o cidadão comum que tem alguma coisa com esse tipo de enchimento.

Fiz-lhe então um relato dos acontecimentos do dia, não me poupando a pormenores ao confessar-lhe que passara várias horas com Nicholas Grueman e que não achava que ele estivesse, ainda que remotamente, envolvido em algo sinistro.

— Ainda bem que foi falar com ele — comentou Wesley. — Estava com esperanças que o fizesse.

— Não ficou admirado com o desfecho?

— Não. É um desfecho lógico. A situação do Grueman é um tudo-nada idêntica à sua. Recebe um fax de Jennifer Deighton e isso parece suspeito tal como parece suspeito as suas impressões digitais terem sido encontradas num envelope dentro da gaveta da cómoda da Susan. Quando a violência rebenta ao pé de nós, ficamos salpicados. Ficamos sujos.

— Mais do que salpicados. Sinto-me como se estivesse prestes a afogar-me.

— De momento, é a ideia que dá. Talvez devesse falar com o Grueman a respeito disso.

Não dei resposta.

— Eu preferia tê-lo do meu lado.

— Não sabia que o conhecia.

O gelo tilintou suavemente quando Wesley deu um pequeno gole. As chamas, na lareira, faziam cintilar o rebordo de latão. A madeira estalou lançando para a chaminé uma nuvem de faúlhas.

— Sei umas coisas acerca do Grueman — disse ele. — Sei que foi o primeiro classificado no curso de Direito em Harvard, que foi editor-chefe da Law Review e que lhe ofereceram lá uma cátedra mas recusou. Com muita mágoa dele. Mas a mulher, Beverly, não queria sair da região de Washington. Pelos vistos, ela tinha uma data de problemas e um nada-pequeno era uma filha de um primeiro casamento que foi internada no Saint Elizabeth mais ou menos quando Grueman conheceu Beverly. Ele mudou-se para Washington. A filha dela morreu uns anos depois.

— Anda a investigar o passado dele — comentei.

— Mais ou menos.

— Desde quando?

— Desde que soube que ele tinha recebido um fax de Jennifer Deighton. Para todos os efeitos, parece um homem sem mácula mas mesmo assim convinha que alguém fosse falar com ele.

— Não foi esse o único motivo por que me aconselhou a fazê-lo, pois não?

— Importante mas não o único. Achei que devia voltar lá. Respirei fundo.

— Obrigada, Benton. É um homem bom e bem-intencionado. Ele levou o copo à boca e olhou fixamente para as chamas.

— Por favor não interfira — acrescentei.

— Não é o meu estilo.

— Claro que é. É um verdadeiro profissional nesse campo. Quando quer conduzir, forçar ou tirar alguém dos bastidores sabe fazê-lo. Sabe erguer tantos obstáculos e rebentar tantas pontes que alguém como eu só com muita sorte conseguiria encontrar o caminho de casa.

— Eu e o Marino estamos muito envolvidos nisto tudo, Kay. A Polícia de Richmond também. Tal como o FBI. Das duas uma, ou temos por aí à solta um psicopata que devia ter sido executado ou outra pessoa qualquer, que pelos vistos tenciona fazer-nos crer que anda por aí alguém que devia ter sido executado.

— O Marino não me quer ver envolvida nisso — disse-lhe.

— Ele está numa situação muito difícil. É o chefe da brigada de homicídios da Polícia local e membro de uma equipa VICAP do FBI mas também é seu colega e amigo. A obrigação dele é descobrir tudo acerca de si e o que se passa nos seus serviços. No entanto, a tendência é protegê-la. Tente colocar-se na posição dele.

— Está bem. Mas ele tem de colocar-se na minha.

— Perfeitamente de acordo.

— Da maneira que ele fala, Benton, parece que metade do mundo quer vingar-se de mim e adoraria ver-me pegar fogo.

— Metade do mundo talvez não, mas há mais pessoas, para além do Ben Stevens, que estão a postos com caixas de fósforos e gasolina.

— Quem?

— Não posso dar-lhe nomes porque não sei. E não diria que a sua ruína profissional seja o principal objectivo de quem quer que está por detrás disto tudo. Mas calculo que faça parte dos planos quanto mais não seja pelo facto de os casos ficarem seriamente comprometidos se parecer que todas as provas analisadas pelos seus serviços foram adulteradas. Já para não dizer que, sem si, o Ministério Público perde uma das suas mais valiosas especialistas. — Fixou o olhar no meu. — Temos de pensar no valor que o seu testemunho teria nesta altura. Indo depor, agora, estaria a beneficiar ou a prejudicar Eddie Heath?

O comentário foi acutilante.

— Nesta altura, não o beneficiaria grandemente. Mas não comparecendo, até que ponto isso irá beneficiá-lo, ou a alguém?

— Boa pergunta. O Marino não quer que faça mais estragos, Kay.

— Então talvez lhe possa fazer ver que a única reacção acertada a tão desacertada situação é eu deixá-lo fazer o trabalho dele e ele deixar-me fazer o meu.

— Vai outra dose? — Levantando-se, voltou com a garrafa. Dispensámos o gelo.

— Benton, falemos do assassino. À luz do que aconteceu ao Donahue, qual é agora a sua opinião?

Pousou a garrafa e atiçou as chamas. Por instantes, deixou-se ficar diante da lareira, de costas para mim, mãos nos bolsos. Depois sentou-se no rebordo e apoiou os braços nos joelhos. Há muito tempo que não o via tão nervoso.

— Se quer saber a verdade, Kay, esse animal apavora-me.

— O que é que o distingue de outros assassinos que já perseguiu?

— Creio que começou com um conjunto de regras bem definidas e depois resolveu alterá-las.

— Regras dele ou de outra pessoa?

— Penso que, de início, as regras não eram dele. Quem quer que esteve por detrás da conspiração para libertar o Waddell terá tomado as decisões iniciais. Mas este tipo tem, agora, as suas próprias regras. Ou talvez seja melhor dizer que agora não há regras nenhumas. É astuto e cuidadoso. Para já, quem manda é ele.

— E quanto ao móbil? — indaguei.

— Isso é difícil. Se calhar o que eu devia fazer era considerá-lo em termos de missão ou incumbência. Creio que existe um certo método na sua loucura mas é a loucura que o excita. Dá-lhe prazer jogar com a mente das pessoas. O Waddell esteve preso dez anos, depois, subitamente, o horror do seu crime é recriado. Na noite da sua execução, um garoto é assassinado de uma forma sexualmente sádica que faz lembrar o caso de Robyn Naismith. Começam a morrer outras pessoas e todas elas estão, de certo modo, ligadas ao Waddell. Jennifer Deighton era amiga dele. Susan, ao que parece, estava envolvida, pelo menos tangencialmente, no que quer que essa conspiração seja. Frank Donahue era o director prisional e terá supervisionado a execução que ocorreu na noite de treze de Dezembro. E como é que isso se reflecte nos outros todos, nos outros membros?

— Acho que quem quer que tenha tido alguma ligação com Ronnie Waddell, legítima ou não, deve sentir-se muito ameaçado — respondi.

— Exacto. Se anda por aí à solta um assassino de polícias e eu for polícia sei que posso ser o próximo. Posso sair de sua casa hoje à noite e esse tipo estar à minha espera nas sombras para me dar um tiro. Pode andar para aí de carro à procura do Marino ou a ver se descobre onde é que eu moro. Pode estar já a fantasiar sobre a morte do Grueman.

— Ou a minha.

Wesley levantou-se e começou outra vez a mexer nos troncos.

— Acha que seria prudente eu mandar a Lucy outra vez para Miami? — perguntei-lhe.

— Bolas, Kay, não sei o que dizer-lhe. Ela não quer ir para casa. É uma coisa que salta logo à vista. Talvez você se sentisse melhor se ela voltasse hoje à noite para Miami. Bem vistas as coisas, eu sentir-me-ia melhor se fossem as duas. Aliás, se calhar toda a gente — você, o Marino, o Grueman, o Vander, a Connie, a Michele, eu — se sentiria melhor se saíssemos todos da cidade. Mas nesse caso quem é que ficava?

— Ficava ele — redargui. — Quem quer que ele seja.

Wesley olhou para o relógio e pousou o copo na mesa de centro.

— Nenhum de nós deve interferir na vida dos outros — afirmou. — Não podemos.

— Tenho de limpar o meu nome, Benton.

— Exactamente o que eu faria. Por onde quer começar?

— Por uma pena.

— Explique lá isso.

— É possível que esse assassino tenha comprado algum artigo caro, com enchimento de penugem de êider, mas diria que há mais hipóteses de o ter roubado.

— É uma teoria plausível.

— Só podemos localizar o artigo se tivermos a etiqueta ou outro bocado que nos remeta para o fabricante mas é capaz de haver outra maneira. Talvez publicando qualquer coisa no jornal.

— Não acho bem o assassino saber que anda a largar penas por aí. O mais certo era ver-se logo livre do artigo em questão.

— Concordo. Mas isso não impede que peça a uma das suas fontes jornalísticas para publicar uma notazinha sobre o pato êider e a sua caríssima penugem, explicando que, por serem tão caros, esses artigos tornam-se um isco para os ladrões. Talvez até pudesse vir associado à época do esqui ou coisa no género.

— O quê? Na esperança que alguém telefone a dizer que lhe arrombaram o carro para roubar o blusão de penas?

— Sim. Se o jornalista citar alguns detectives que, supostamente, tenham investigado os roubos, os leitores já têm para quem telefonar. Sabe como é, uma pessoa lê o artigo e diz: “Aconteceu-me a mesma coisa.” O primeiro impulso deles é colaborar. Querem sentir-se importantes. Por isso pegam no telefone.

— Vou ter de pensar nisso.

— Reconheço que é um tiro no escuro. Começámos a dirigir-nos para a porta.

— Tive uma pequena conversa com a Michele antes de sairmos do Homestead — disse Wesley. — Ela e a Lucy já falaram uma com a outra. A Michele diz que a sua sobrinha é assustadora.

— Desde que nasceu que é um verdadeiro terror. Ele sorriu.

— Não foi isso que a Michele quis dizer. Diz que o intelecto da Lucy é assustador.

— Por vezes receio que seja demasiada potência para uma embarcação tão frágil.

— Não sei se ela é assim tão frágil. Lembre-se que acabo de passar dois dias inteiros com ela. A Lucy impressionou-me bastante, em muitos aspectos.

— Não tente recrutá-la para o FBI.

— Vou esperar que acabe o curso. Ela faz isso em quanto tempo? Um ano?

Lucy só saiu do meu escritório depois de Wesley arrancar com o carro, estava eu a levar os copos para a cozinha.

— Divertiste-te? — perguntei-lhe,

— Claro.

— Bom, ouvi dizer que te entendeste às mil maravilhas com os Wesley. — Fechei a torneira e sentei-me à mesa onde deixara o bloco de apontamentos.

— São simpáticos.

— Consta que também te acham simpática.

Ela abriu a porta do frigorífico e, distraidamente, pôs-se a olhar lá para dentro.

— Que veio cá fazer o Pete?

Estranhei ouvir alguém referir-se a Marino pelo nome próprio e deduzi que ele e Lucy tivessem passado de um estado de guerra-fria para uma détente quando ele a levou à carreira de tiro.

— Por que é que achas que ele cá esteve? — perguntei-lhe.

— Cheirou-me a cigarro quando entrei em casa. Calculei que ele tivesse cá estado a menos que tenhas voltado a fumar. — Fechou a porta do frigorífico e aproximou-se da mesa.

— Não voltei a fumar e o Marino esteve cá de fugida.

— O que é que ele queria?

— Fazer-me uma data de perguntas — respondi.

— Sobre o quê?

— Para que precisas tu de saber os pormenores?

O seu olhar desviou-se do meu rosto para o monte de processos de contabilidade e depois para o bloco de apontamentos coberto com a minha letra indecifrável:

— Não interessa, uma vez que pelos vistos não queres dizer-me.

— É complicado, Lucy.

— Dizes sempre que uma coisa é complicada quando não me queres contar — redarguiu virando-me as costas e saindo da cozinha.

Senti o meu mundo a desabar, as pessoas que dele faziam parte a espalharem-se como sementes secas ao vento. Quando olhava para casais com filhos, ficava sempre maravilhada com a graciosidade das suas interacções e, secretamente, receava não possuir um instinto que não podia ser ensinado.

Fui dar com a minha sobrinha no meu escritório sentada à frente do computador. No ecrã, colunas de números combinados com letras do alfabeto e, embebidos aqui e ali, havia fragmentos do que calculei serem dados. Ela estava a fazer cálculos a lápis numa folha de papel milimétrico e não ergueu os olhos quando me aproximei.

— Lucy, a tua mãe tem metido lá em casa muitos homens e sei como te ressentes com isso. Mas esta não é a tua casa e eu não sou a tua mãe. Não precisas sentir-te ameaçada pelos meus colegas e amigos. Não precisas andar constantemente à procura de provas de que esteve cá algum homem e não há motivo nenhum para desconfiares da minha relação com o Marino ou com o Wesley, ou com quem quer que seja.

Não fez nenhum comentário. Pousei a mão no ombro dela.

— Posso não ser a presença constante na tua vida que desejaria ser mas tu és muito importante para mim.

Apagando um número e sacudindo as partículas de borracha de cima da folha, perguntou-me:

— Vais ser acusada de algum crime?

— Claro que não. Não cometi crime nenhum. — E inclinei-me mais para junto do monitor.

— O que estás a ver é uma descarga hex — explicou-me.

— Tinhas razão. São hieróglifos.

Pousando os dedos no teclado, Lucy começou a mover o cursor à medida que falava:

— O que estou a fazer é tentar obter a posição exacta do número SID. Ou seja, o número de identificação estadual que é o único identificador. Dentro do sistema, todas as pessoas têm um número SID, incluindo tu, visto que também tens as impressões digitais no AFIS. Numa linguagem da quarta geração, como a SQL, eu podia fazer a busca por nome de coluna. Mas em hexadecimal, a linguagem é técnica e matemática. Não há nomes de colunas, apenas posições no formato de registos. Por outras palavras, se eu quisesse ir para Miami, em SQL bastava-me dizer ao computador que queria ir para Miami. Mas em hexadecimal tinha de dizer que queria ir para uma posição que está a tantos graus a norte do equador e a tantos graus a oeste do meridiano zero.

“Portanto, continuando com a analogia geográfica, estou a calcular a longitude e latitude do número SID e também do número que indica o tipo de registo. Depois posso escrever um programa para procurar qualquer número SID em que o registo seja um tipo dois, que é uma anulação, ou um tipo três, que é uma actualização. Vou correr esse programa sobre todas as fitas.

— Estás a partir do princípio de que, se um registo foi adulterado, o que mudou foi o SID? — perguntei-lhe.

— Digamos apenas que seria muito mais fácil mexer no número SID do que nas próprias imagens das impressões digitais gravadas no registo do disco óptico. E é, aliás, tudo o que está no AFIS — o número SID e as respectivas impressões digitais. O nome da pessoa, cadastro e outras informações pessoais estão no seu CCH, registo criminal computorizado, que está armazenado no CCRE, registo central dos serviços cadastrais.

— Se bem percebi, os registos que estão no CCRE correspondem, pelos números SID, às impressões digitais do AFIS — disse eu.

— Exactamente.

Lucy ainda estava a trabalhar quando fui para a cama. Adormeci de imediato mas acordei às duas da manhã. Só tornei a mergulhar no sono às cinco e o despertador acordou-me menos de uma hora depois. Dirigi-me para a baixa ainda de noite escutando um intercalar de notícias de uma das rádios locais. Informava o locutor que a Polícia me interrogara tendo eu recusado revelar quaisquer informações relacionadas com as minhas finanças. Recordou que Susan Story depositara três mil e quinhentos dólares na sua conta à ordem poucas semanas antes de ser assassinada.

Quando cheguei ao serviço, mal despira o casaco quando Marino telefonou.

— O estupor do major não consegue ficar calado — disparou ele.

— Parece que não.

— Gaita. Desculpe lá.

— A culpa não é sua. Sei que tem de responder perante ele. Marino disse então, acabrunhado:

— Tenho de lhe perguntar pelas armas. Não tem um 22, pois não?

— Você sabe tudo acerca das minhas armas. Tenho um Ruger e um Smith and Wesson. E se disser ao major Cunningham, tenho a certeza de que daqui a uma hora ouço falar disso na rádio.

— Ele quer que a Balística as examine, doutora. Por um instante, pensei que Marino estava a brincar.

— Acha que deve concordar em submetê-las a um exame — acrescentou. — Acha conveniente provar sem demora que as balas recuperadas nos casos da Susan, do pequeno Heath e do Donahue não podem ter sido disparadas pelas suas armas.

— Disse ao major que os revólveres que eu tenho são trinta e oito! — Ripostei, furiosa.

— Disse.

— E ele sabe que as balas extraídas dos corpos eram vinte e dois?

— Sabe. Fartei-me de lhe dizer isso.

— Bom, pergunte-lhe, por mim, se ele sabe de algum adaptador com o qual se possa usar cartuchos 22 num revólver 38. Se ele souber, diga-lhe que devia apresentar uma palestra sobre isso no próximo encontro da Academia Americana de Ciências Forenses.

— Não quer, por certo, que eu lhe diga isso.

— Isto não passa de política, manobras publicitárias. Nem sequer faz sentido.

Marino não comentou.

— Ouça — afirmei, categórica —, eu não infringi nenhuma lei. Não apresentarei os meus registos financeiros, as minhas armas ou o que quer que seja enquanto não for devidamente aconselhada. Sei que tem de cumprir a sua obrigação e quero que o faça. Mas também quero que me deixem em paz para eu cumprir a minha. Tenho três casos lá em baixo e o Fielding foi para o tribunal.

Mas não iam deixar-me em paz e isso ficou bem claro quando, concluída a minha conversa com Marino, Rose apareceu no meu gabinete. De rosto pálido, olhar assustado.

— O governador quer falar consigo — disse.

— Quando? — perguntei, com um baque no peito.

— Às nove.

Já eram oito e quarenta.

— O que é que ele quer, Rose?

— A pessoa que ligou não disse.

Pegando no casaco e no guarda-chuva, enfrentei uma chuva invernosa que começava a gelar. Caminhando em passo acelerado pela 14th Street, tentei recordar-me da última vez que falara com o Governador Toe Norring e concluí que fora quase há um ano numa recepção no Virgínia Museum. Era republicano, episcopaliano e formado em Direito pela UVA. Eu era Italiana, católica, nascida em Miami e formada no norte. Intimamente, era democrata.

O Capitol fica em Shockhoe Hill e está rodeado por uma vedação de ferro ornamental erguida em inícios do século XIX para impedir a entrada do gado. O edifício de tijolos brancos que Jefferson projectou é típico da sua arquitectura, uma simetria pura de cornijas e colunas lisas com capitéis iónicos inspirados por um templo romano. Bancos ladeavam a escadaria de granito que percorria o jardim e, sob a chuva que caía sem parar, lembrei-me da minha resolução anual de Primavera de aproveitar a hora de almoço para me vir sentar ali, ao sol. Mas nunca o fizera. Dias a fio da minha vida passados à luz artificial e em espaços restritos, sem janelas, que rejeitavam qualquer traço arquitectónico.

Já dentro do Capitol, procurei uma casa de banho tentando, com uns retoques, estimular a minha confiança. Apesar dos esforços com bâton e escova, o espelho não tinha nada de animador para me dizer. Enlameada e nervosa, apanhei o elevador até ao alto da Rotunda, onde antigos governadores nos fitavam austeramente de retratos a óleo, três pisos acima da estátua de George Washington feita por Houdon. A meio da ala sul, os jornalistas agrupavam-se com blocos de notas, câmaras e microfones. Não me passou pela cabeça que o alvo deles pudesse ser eu senão quando, ao aproximar-me, as câmaras foram montadas em ombros, microfones brandidos como espadas e os obturadores começaram a disparar com a rapidez de metralhadoras.

— Por que não revela a sua situação financeira?

— Dr.a Scarpetta...

— Deu dinheiro a Susan Story?

— Que tipo de arma tem?

— Doutora...

— É verdade que desapareceram registos pessoais nos seus serviços? Foram agitando as águas com as suas acusações e perguntas

enquanto eu fixava o olhar no corredor à minha frente, os pensamentos paralisados. Microfones espetados no meu queixo, corpos a roçar por mim e o clarão das luzes a ferir-me os olhos. Pareceu-me uma eternidade até chegar à pesada porta de mogno e refugiar-me na serena tranquilidade do outro lado.

— Bom dia — disse a recepcionista da sua bela fortaleza de madeira por baixo de um retrato de John Tyler.

Na outra ponta, a uma secretária junto à janela, um agente à civil da Executive Protection Unit lançou-me um olhar de soslaio, rosto inexcrutável.

— Como é que a imprensa soube? — perguntei à recepcionista.

— Perdão? — Era mais velha que eu, vestida de tweed.

— Como é que eles souberam que eu vinha, agora de manhã, falar com o governador?

— Desculpe, mas não sei.

Instalei-me num sofá de dois lugares, azul-claro. As paredes estavam cobertas por um papel do mesmo tom; o mobiliário era antigo, o selo oficial bordado a ponto cruz nos assentos das cadeiras. Vagarosamente, passaram dez minutos. Abriu-se então uma porta e um homem ainda novo, que reconheci como sendo o porta-voz para a imprensa, entrou e sorriu-me.

— O governador vai recebê-la agora, Dr.a Scarpetta. — Era um indivíduo magro, louro, e envergava um fato azul-escuro com suspensórios amarelos. — Peço desculpa por tê-la feito esperar. Que tempo este. E disseram-me que esta noite a temperatura vai descer aos dez negativos. Amanhã de manhã as ruas vão estar como vidro.

Conduziu-me por uma série de gabinetes bem apetrechados, onde as secretárias não tiravam os olhos dos ecrãs de computador e os adidos se deslocavam silenciosa e determinadamente de um lado para o outro. Batendo ao de leve numa porta de aspecto majestoso, rodou a maçaneta de latão e, com uma cavalheiresca palmadinha nas minhas costas, fez-me entrar à sua frente no gabinete privado do homem mais poderoso da Virgínia. O Governador Norring não se levantou da sua almofadada cadeira de cabedal atrás da bem arrumada secretária de raiz de nogueira. Do lado de cá havia duas cadeiras e fui convidada a sentar-me numa enquanto ele continuava a passar os olhos por um documento.

— Deseja tomar alguma coisa? — perguntou-me o porta-voz para a imprensa.

— Não, obrigada.

Ele saiu, fechando silenciosamente a porta.

O governador pousou o documento em cima da secretária e recostou-se na cadeira. Era um homem de aspecto distinto, com um rosto de traços suficientemente irregulares para o levarmos a sério, e quando entrava numa sala nunca passava despercebido. Tal como George Washington, que media l,88m, numa época de homens baixos, Norring tinha uma estatura bastante acima da média, o cabelo forte e negro numa idade em que os homens são calvos ou já grisalhos.

— Doutora, tenho estado a pensar se haverá alguma maneira de extinguir as chamas da polémica antes que o fogo se torne completamente incontrolável. — Falava no tom suave e cadenciado de um autêntico virginiano.

— Espero sinceramente que haja, Governador Norring.

— Então, ajude-me, por favor, a entender a sua falta de cooperação com a Polícia.

— Desejo ouvir a opinião de um advogado e ainda não tive oportunidade de o fazer. Não vejo isso como falta de cooperação.

— Claro que tem o direito de não se incriminar — redarguiu ele, pausadamente — mas a simples hipótese de vir a recorrer à Quinta Emenda só irá escurecer a nuvem de suspeita que a envolve. Estou certo de que sabe isso.

— Sei que provavelmente vou ser criticada, faça agora o que fizer. É normal e prudente que eu me proteja.

— Andou a fazer pagamentos à sua supervisora da morgue, Susan Story?

— Não, senhor governador, não andei. Não cometi nenhuma ilegalidade.

— Dr.a Scarpetta. — Inclinou-se para a frente na cadeira e entrelaçou os dedos em cima da secretária. — Fui informado de que não está disposta a colaborar apresentando quaisquer registos que possam comprovar essas suas alegações.

— Não fui informada de que era suspeita nalgum crime nem me deram ordem de prisão. Não renunciei aos meus direitos. Ainda não tive oportunidade de procurar um advogado. Neste momento, não faço tenções de mostrar a documentação da minha vida profissional e privada à Polícia ou a quem quer que seja.

— Então, em resumo, recusa-se a fazer uma revelação total — comentou ele.

Quando um quadro do executivo é acusado de conflito de interesses, ou de qualquer outro tipo de comportamento não-ético, só há duas defesas, revelação total ou resignação. A última escancarava-se diante dos meus olhos como um abismo. Estava bem claro que a intenção do governador era obrigar-me a chegar à borda.

— É uma patologista forense de renome nacional e médica legista chefe deste estado — prosseguiu ele. — Fez uma carreira notável e goza de uma reputação exemplar entre as forças da autoridade. Mas, na questão em análise, demonstra um fraco discernimento. Não está a ser cuidadosa, tentando evitar qualquer aspecto de impropriedade.

— Tenho sido cuidadosa, Governador, e não cometi nenhuma ilegalidade — repeti. — Os factos comprová-lo-ão mas não discutirei mais este assunto enquanto não falar com um advogado. E só farei uma revelação total se for por intermédio dele e perante um juiz numa audiência fechada.

— Uma audiência fechada? — Semicerrou os olhos.

— Há certos pormenores da minha vida pessoal que afectam outras pessoas, para além de mim.

— Quem? Marido, filhos, amante? Sei que não tem nada disso, que vive sozinha e que está — para usar o chavão — casada com o seu trabalho. Quem iria, então, proteger?

— Está a pressionar-me, Governador Norring.

— Não, minha senhora. Estou apenas à procura de algo que corrobore as suas afirmações. Diz-se interessada em proteger outros e eu só lhe pergunto que outros são esses? Doentes não serão por certo. Os seus doentes são defuntos.

— Não me parece que esteja a ser justo ou imparcial — afirmei e percebi que falara com toda a frieza. — Esta reunião não teve nada de justo desde o princípio. Convocam-me com vinte minutos de antecedência e não me dizem qual é o assunto em agenda...

Ele interrompeu-me:

— Ora, doutora, devia ter calculado qual era o assunto em agenda.

— Tal como devia ter calculado que a nossa reunião era um acontecimento público.

— Sei que a imprensa veio em peso — redarguiu sem que a sua expressão se alterasse.

— Gostaria de saber como é que isso aconteceu — ripostei, acaloradamente.

— Se quer saber se este gabinete avisou a imprensa sobre a nossa reunião, digo-lhe que não o fizemos.

Não me pronunciei.

— Doutora, não sei se sabe que, como funcionários públicos, temos de obedecer a um conjunto de regras diferentes. De certa forma, não nos permitem uma vida pessoal. Ou talvez devesse dizer que se a nossa ética ou competência está a ser questionada, o público tem o direito de examinar, nalguns casos, os aspectos mais íntimos das nossas vidas. Sempre que me preparo para exercer uma determinada actividade, ou até passar um cheque, tenho de perguntar a mim mesmo se o que estou a fazer suportará o mais firme dos escrutínios.

Reparei que pouco gesticulava ao falar e que o tecido e padrão do seu fato e gravata eram um verdadeiro exemplo de contida extravagância. A minha atenção foi-se fixando aqui e ali enquanto ele continuava a sua prédica e percebi que nada do que eu pudesse dizer, ou fazer, me salvaria. Embora tivesse sido nomeada pelo comissário da saúde, não me teriam oferecido o cargo, nem nele poderia permanecer muito tempo, sem o apoio do governador. A maneira mais rápida de o perder era colocando-o numa situação embaraçosa ou de conflito, o que já conseguira. Ele detinha o poder de forçar a minha resignação. Eu o de ganhar algum tempo ameaçando colocá-lo numa situação ainda mais embaraçosa.

— Não gostaria de dizer-me o que faria se estivesse na minha posição, doutora?

Pela janela, via-se a chuva misturada com granizo e as silhuetas descoradas dos edifícios bancários contra um céu triste, acinzentado. Fitei-o em silêncio, depois respondi-lhe calmamente:

— Governador Norring, gostaria de pensar que não convocaria a médica legista chefe ao meu gabinete para a insultar de uma forma gratuita, tanto profissional como pessoalmente, e depois exigir-lhe que prescinda dos direitos que a Constituição confere a todas as pessoas.

“Mais, gostaria de pensar que acreditaria na inocência dessa pessoa até ela ser considerada culpada, e não comprometeria a sua ética e o juramento de Hipócrates por ela feito exigindo-lhe que submetesse à apreciação pública processos confidenciais quando isso iria prejudicá-la, a ela e a outras pessoas. Gostaria de pensar, Governador Norring, que não daria a quem dedicadamente tem servido o estado outra alternativa senão resignar a bem do serviço público.

O governador pegou distraidamente numa caneta de tinta permanente, de prata, reflectindo sobre o que acabara de ouvir. A minha resignação a bem do serviço público depois de falar com ele daria a entender a todos os repórteres que aguardavam à porta do seu gabinete que eu me demitira porque Norring me pediu para fazer algo que eu considerava não-ético.

— Neste momento, não me interessa que resigne — redarguiu, com frieza. — Aliás, nem aceitaria a sua resignação. Sou um homem justo, Dr.a Scarpetta, e também sensato, espero. E dita a sensatez que eu não autorize uma pessoa a fazer autópsias médico-legais a vítimas de homicídio quando essa pessoa está, ela própria, implicada num homicídio ou tida como cúmplice no mesmo. Por conseguinte, acho melhor suspendê-la com manutenção de salário até este assunto estar resolvido. — Levou a mão ao auscultador. — John, quer fazer o favor de acompanhar a médica legista chefe à porta?

O risonho porta-voz para a imprensa apareceu quase de imediato.

Ao sair dos aposentos do governador, fui acostada de todos os lados. Clarões de flashes diante dos olhos e parecia que estava toda a gente aos berros. A principal notícia, durante o resto do dia e na manhã seguinte, era que o governador me dispensara temporariamente das minhas funções até eu limpar o meu nome. Um editorial conjecturava que Norring provara ser um cavalheiro e que se eu fosse uma senhora punha o meu cargo à disposição.

 

Na sexta-feira fiquei em casa, à frente da lareira, prosseguindo a maçadora e frustrante tarefa de tirar apontamentos para mim mesma num esforço de documentar todos os meus movimentos ao longo das últimas semanas. Infelizmente, ia no meu carro, do serviço para casa, à hora a que a Polícia calculava que Eddie Heath fora sequestrado da loja de conveniência. Quando Susan foi assassinada, eu estava sozinha em casa pois Marino levara Lucy à carreira de tiro. Também estava sozinha à hora da manhã em que Donahue foi morto a tiro. Não tinha testemunhas que confirmassem as minhas actividades aquando dos três homicídios.

O móbil e o modus operandi seriam significativamente mais difíceis de impingir. É muito raro uma mulher matar em estilo de execução e não havia absolutamente nenhum móbil na morte de Eddie Heath, a menos que eu fosse, não assumidamente, uma sádica sexual.

Estava embrenhada nos meus pensamentos quando Lucy me gritou:

— Descobri uma coisa.

Estava sentada diante do computador, a cadeira virada de lado, os pés assentes numa otomana. No colo, uma data de folhas de papel e, à direita do teclado, o meu Smith and Wesson 38.

— Para que tens aí o meu revólver? — perguntei-lhe, apreensiva.

— O Pete disse-me para disparar em seco sempre que pudesse. Por isso tenho estado a treinar enquanto passo as fitas pelo meu programa.

Pelo sim pelo não, peguei no revólver, empurrei a patilha de abertura e verifiquei as câmaras.

— Embora ainda tenha de ver mais algumas, acho que já tenho uma pista sobre o que procuramos — disse ela.

Senti-me mais optimista e puxei uma cadeira.

— A fita de nove de Dezembro mostra três AD’s interessantes.

— AD’s? — perguntei.

— Actualizações de decadactilares — explicou Lucy. — Trata-se de três registos. Um foi completamente apagado. Noutro, o número SID foi alterado. Depois temos um terceiro registo que foi uma nova entrada feita mais ou menos na mesma altura em que os outros dois foram apagados ou mudados. Liguei-me ao CCRE e procurei os números SID tanto do alterado como da nova entrada. O alterado refere-se a Ronnie Joe Waddell.

— E o novo? — perguntei-lhe.

— Isso é que é esquisito. Não tem cadastro. Entrei o número SID cinco vezes e deu-me sempre “Não consta”. Sabes o que isso significa?

— Sem cadastro no CCRE não temos maneira de saber quem essa pessoa é. Lucy acenou com a cabeça.

— Certo. Temos as impressões digitais e o número SID de alguém no AFIS, mas não há nenhum nome ou outros identificadores pessoais com que compará-los. E eu diria que alguém eliminou o registo CCRE dessa pessoa. Por outras palavras, também andaram a mexer no CCRE.

— Voltemos ao Ronnie Waddell — disse eu. — Consegues reconstituir o que fizeram ao registo dele?

— Tenho uma explicação. Primeiro, é preciso que saibas que o número SID é um identificador único e tem um índice único, ou seja, o sistema não permite a entrada de um duplicado. Portanto, se por exemplo eu quisesse trocar de número SID contigo tinha de apagar primeiro o teu registo. Então, depois de ter trocado o meu número SID pelo teu, tornava a entrar o teu registo atribuindo-te o meu antigo número SID.

— E achas que foi isso que aconteceu? — perguntei-lhe.

— Esse tipo de troca justificaria as AD’s que encontrei na fita de nove de Dezembro.

Quatro dias antes da execução de Waddell, pensei.

— Mas há mais — afirmou Lucy. — No dia dezasseis de Dezembro, o registo do Waddell foi apagado do AFIS.

— Como é possível? — perguntei, atónita. — Uma impressão digital encontrada em casa de Jennifer Deighton foi identificada como sendo do Waddell quando o Vander fez a busca no AFIS há pouco mais de uma semana.

— O AFIS foi-se abaixo no dia dezasseis de Dezembro às 10.56, exactamente noventa e oito minutos depois de o registo do Waddell ser apagado — respondeu Lucy. — A base de dados foi recuperada com as fitas diárias mas não te esqueças que só se faz uma cópia de segurança uma vez por dia, ao fim da tarde. Por conseguinte, quaisquer mudanças feitas na base de dados na manhã de dezasseis de Dezembro ainda não tinham sido salvaguardadas quando o sistema foi abaixo. Quando a base de dados foi recuperada, o mesmo aconteceu ao registo do Waddell.

— Quer dizer que alguém mexeu no número SID do Waddell quatro dias antes da sua execução? Depois, três dias após a execução, alguém apagou o registo dele do AFIS?

— É a ideia que me dá. Não percebo é por que é que a pessoa não apagou logo o registo dele. Para que se deu ao trabalho de mudar o número SID se depois lá voltou para apagar tudo?

Neils Vander tinha uma resposta muito simples para essa pergunta quando, momentos depois, lhe telefonei.

— É costume as impressões digitais de um recluso serem apagadas do AFIS depois de ele morrer — disse Vander. — Aliás, a única razão para não apagarmos os registos de um recluso falecido seria se existisse a possibilidade de as suas impressões digitais aparecerem nalgum caso pendente. Mas o Waddell estava preso há nove, dez anos — estava há tanto tempo fora de circulação que não valia a pena manter as suas impressões digitais disponíveis.

— Então o apagar do registo dele no dia dezasseis de Dezembro terá sido pura rotina — concluí.

— Sem dúvida. Mas não seria pura rotina apagar o registo a nove de Dezembro, dia em que a Lucy acha que o número SID dele foi alterado, porque nessa altura o Waddell ainda estava vivo.

— Que acha disto tudo, Neils?

— Quando se muda o número SID de alguém, Kay, está-se de facto a mudar a sua identidade. Posso encontrar as impressões digitais dele mas quando entro, o respectivo número SID do CCRE não é o cadastro dele que me aparece. Das duas uma, ou não me aparece cadastro nenhum ou aparece o cadastro de outra pessoa qualquer.

— Identificou uma impressão digital deixada em casa de Jennifer Deighton — recapitulei. — Entrou o respectivo número SID do CCRE e apareceu-lhe o Ronnie Waddell. Contudo, agora temos razões para crer que o número original dele foi mudado. Não sabemos, portanto, quem é que deixou a impressão digital na cadeira da casa de jantar dela, pois não?

— Não. E começa a tornar-se óbvio que alguém fez todos os possíveis para que nós não conseguíssemos verificar quem será essa pessoa. Não posso provar que não é o Waddell. Nem provar que é.

Enquanto ele falava, a minha mente foi invadida por uma série de imagens fugazes.

— Para ter a certeza de que o Waddell não deixou aquela impressão digital na cadeira de Jennifer Deighton preciso de uma antiga, em que possa confiar, uma que eu saiba que não pode ter sido manipulada. Só que não sei onde mais hei-de ir procurá-la.

Imaginei painéis escuros, um chão de parquet e sangue seco, vermeIho-granada.

— Em casa dela — murmurei.

— Em casa de quem? — perguntou Vander, intrigado.

— Em casa de Robyn Naismith — respondi-lhe.

Dez anos antes, quando a Polícia inspeccionou a casa de Robyn Naismith não o fez com a ajuda do laser nem da Luma-Lite. Nessa altura não havia identificação por ADN. Não havia nenhum sistema automatizado de identificação de impressões digitais na Virgínia, nenhum meio computorizado de realçar uma parcial ensanguentada deixada numa parede ou noutro sítio qualquer. Embora as novas tecnologias sejam irrelevantes em casos há muito encerrados, existem excepções. Eu achava que o homicídio de Robyn Naismith era uma delas.

Se pudéssemos pulverizar a casa dela com produtos químicos, era bem provável que conseguíssemos reconstituir, literalmente, a cena. O sangue coagula, goteja, pinga, salpica, mancha e mostra-se vermelho-vivo. Escorre para dentro de rachas e fissuras, mete-se por baixo de almofadas e pavimentos. Embora possa sair com lavagens e esbater-se com os anos, nunca desaparece por completo. Tal como o texto escrito na folha de papel encontrada em cima da cama de Jennifer Deighton, havia sangue invisível ao olho nu dentro dos compartimentos em que Robyn Naismith fora atacada e morta. Sem a ajuda da tecnologia, a Polícia encontrara, aquando da primeira investigação do crime, uma impressão digital ensanguentada. Talvez Waddell tivesse deixado mais. Talvez ainda lá estivessem.

Rumámos, Neils Vander, Benton Wesley e eu, para leste em direcção à Universidade de Richmond, um magnífico conjunto de edifícios georgianos rodeando um lago entre as estradas Three Chop e River.

Fora ali que Robyn Naismith se formara, com distinção, muitos anos antes e tal era o seu amor pela zona que mais tarde comprara a primeira casa a dois quarteirões da cidade universitária.

A pequena casa de tijolos, com o seu telhado de duas águas, estava implantada num lote de dois hectares. Não admirava que o sítio fosse ideal para um assalto. O quintal densamente arborizado, as traseiras da casa ananicadas por três gigantescas magnólias que bloqueavam o sol por completo. Eu duvidava que os vizinhos de ambos os lados, estando em casa, conseguissem ter visto ou ouvido alguma coisa na de Robyn Naismith. Na manhã em que ela foi assassinada, os vizinhos tinham ido para o trabalho.

Devido às circunstâncias que haviam colocado a casa à venda dez anos antes, o preço fora baixo para a zona. Soubéramos que a universidade decidira comprá-la para alojamento de docentes e conservara a maior parte do recheio. Robyn era solteira, filha única, e os pais, residentes no norte da Virgínia, não quiseram ficar com os móveis. Calculei que lhes custasse tê-los ou sequer olhar para eles. O Professor Sam Potter, um solteirão que leccionava Alemão, alugara a casa ao seu empregador desde a sua compra.

Quando estávamos a tirar da bagageira o equipamento óptico, recipientes de químicos e outros artigos, a porta de trás abriu-se. Um indivíduo de aspecto doente recebeu-nos com um desalentado bom-dia.

— Precisam de ajuda? — Sam Potter desceu os degraus a afastar dos olhos a longa melena preta já rala e a fumar um cigarro. Era baixo e gorducho, ancas largas como as de uma mulher.

— Se quiser levar esta caixa — respondeu Vander.

Potter atirou o cigarro para o chão e não se deu ao trabalho de o apagar com o pé. Subimos os degraus atrás dele e entrámos numa cozinha com velhos electrodomésticos verde-abacate e dezenas de pratos sujos. Fez-nos atravessar a casa de jantar, com roupa suja empilhada em cima da mesa, e passámos à sala de estar, na parte da frente da casa. Pousei o que levava na mão e tentei não mostrar o choque que senti ao ver o televisor ligado a uma tomada de parede, as cortinas, o sofá de cabedal castanho, o chão de parquet, agora riscado e sem brilho. Havia livros e papéis espalhados por todo o lado, que Potter começou a arrumar, descuidadamente, enquanto falava.

— Como podem ver, não sou dado às lides domésticas — comentou no seu sotaque nitidamente germânico. — Para já vou pôr estas coisas em cima da mesa de jantar. Pronto — disse, quando voltou. — Querem que mude mais alguma coisa? — Tirou um maço de Camel do bolso da camisa branca e pescou uma caixa de fósforos das desbotadas calças de ganga. Usava um relógio de bolso preso ao cinto por uma tirinha de cabedal e quando o puxou para fora para ver as horas e depois acendeu o cigarro reparei numa série de coisas. As mãos tremiam-lhe, tinha os dedos inchados e as faces e nariz cobertas de derrames capilares. Não se dignara esvaziar os cinzeiros, mas pegara nas garrafas e nos copos e tivera o cuidado de ir pôr o lixo lá fora.

— Está óptimo. Não precisa mudar mais nada — respondeu Wesley. — Se nós mudarmos, tornamos a pôr no sítio.

— E disse que esse produto químico que vão usar não estraga nada nem é tóxico para as pessoas?

— Não, não é perigoso. Vai deixar um resíduo granular — parece água salgada quando seca — disse-lhe eu. — Vamos tentar deixar tudo limpo.

— Não quero cá estar enquanto fazem isso — afirmou Potter dando uma passa nervosa no cigarro. — Podem dar-me uma estimativa de quanto tempo vai ser preciso?

— Esperemos que não mais de duas horas — respondeu Wesley relanceando o olhar pela sala, e embora o seu rosto estivesse completamente inexpressivo eu sabia o que ele estava a pensar.

Despi o casaco e pus-me a ver onde havia de pousá-lo enquanto Vander abria a caixa de uma cassete.

— Se acabarem antes de eu voltar, por favor fechem a porta e vejam se ficou bem fechada. Não tenho que me preocupar com alarmes. — Potter tornou a sair pela cozinha e quando ligou o motor, pelo barulho, parecia um autocarro a gasóleo.

— É mesmo uma pena — comentou Vander tirando dois frascos de uma caixa. — Podia ser uma casa tão bonita. Mas por dentro não é muito melhor do que algumas barracas que eu já vi. Repararam na frigideira com ovos mexidos em cima do fogão? Que mais é que querem levantar? — Perguntou-nos agachando-se no chão. — Só vou misturar isto quando estivermos prontos.

— Acho que devíamos tirar o máximo possível. Trouxe as fotografias, Kay? — perguntou Wesley.

Peguei nas fotografias do local do crime do dossier de Robyn Naismith.

— Já viram que o nosso amigo professor ficou com a mobília dela — comentei.

— Bom, nesse caso deixamo-la ficar — retorquiu Vander como se fosse normal a mobília de um local do crime com dez anos ainda estar no mesmo sítio. — Mas o tapete tem de sair. Vê-se logo que não veio

com a casa.

— Como? — perguntou Wesley olhando para o tapete azul e encarnado que tinha debaixo dos pés. Estava imundo e a enrolar nas bordas.

— Se levantarmos a borda, vê-se que o parquet está tão baço e riscado lá por baixo como nos outros sítios. O tapete não está aqui há muito. Além disso, não parece lá muito bem feito. Duvido que durasse este tempo todo.

Espalhando várias fotografias no chão, virei-as para um lado e para outro até as perspectivas estarem certas e sabermos o que precisava ser mudado, quais os móveis que entretanto tinham sido dispostos de outra forma. Tanto quanto nos era possível fazê-lo, começámos a reconstituir o cenário da morte de Robyn.

— Bom, a árvore-da-borracha vai para ali — disse eu como se fosse um director de cena. — Certo, mas empurre o sofá para trás mais uns sessenta centímetros, Neils. E só mais um bocadinho para lá. A planta devia estar a uns dez centímetros do braço esquerdo do sofá. Um bocadinho mais perto. Está bom.

— Não, não está. Os ramos caem para cima do sofá.

— A árvore entretanto cresceu.

— Nem acredito que ainda resista. Admira-me que alguma coisa consiga viver à volta do Professor Potter, excepto, talvez, bactérias ou fungos.

— E o tapete sai? — Perguntou Wesley despindo o casaco.

— Sim. Ela tinha uma passadeira pequena junto à porta da frente e um persa pequeno debaixo da mesa de centro. O chão estava quase todo à mostra.

Ele pôs-se de gatas e começou a enrolar o tapete. Aproximei-me do televisor e inspeccionei o vídeo colocado em cima e o cabo de ligação à tomada na parede.

— Isto tem de ser encostado à parede defronte do sofá e da porta da frente. Algum dos cavalheiros percebe de vídeos e cabos de ligação?

— Não — responderam eles em uníssono.

— Então tenho de ser eu mesma a fazer isto. Cá vai.

Desliguei o cabo e o vídeo, puxei a ficha do televisor e, cuidadosamente, empurrei-o pelo chão nu e empoeirado. Baseando-me novamente na fotografia, desloquei-o mais uns centímetros até ficar exactamente defronte da porta de entrada. Depois observei as paredes. Pelos vistos, Potter coleccionava quadros e era apreciador de um artista cujo nome não consegui perceber mas que me pareceu francês. Os esboços eram estudos a carvão do corpo feminino com muitas curvas, borrões cor-de-rosa e triângulos. Um por um, todos eles foram retirados e depois fui encostá-los às paredes da casa de jantar. Nesta altura a sala estava quase despida e eu cheia de comichão por causa do pó.

Wesley enxugou a testa às costas do braço.

— Está quase? — Perguntou, olhando para mim.

— Acho que sim. É claro que não estão cá todas as coisas. Ela tinha três poltronas em forma de meia-barrica ali adiante — salientei.

— Estão nos quartos — disse Vander. — Duas num e uma noutro. Quer que vá buscá-las?

— É melhor.

Ele e Wesley trouxeram as cadeiras.

— Tinha um quadro naquela parede e outro à direita da porta que dá para a casa de jantar — referi. — Uma natureza-morta e uma paisagem inglesa. Quer dizer que o Potter não consegue viver com os quadros dela mas quanto ao resto parece não haver problemas.

— Temos de dar uma volta à casa e fechar todas as persianas, estores e cortinas — disse Vander. — Se mesmo assim ainda entrar luz, corta-se um bocado deste papel — apontou para um rolo de papel pardo que estava no chão — e cola-se na janela.

Nos quinze minutos seguintes, a casa encheu-se de ruído de passos, chocalhar de persianas e tesoura a cortar papel. De vez em quando alguém soltava um palavrão quando o papel ficava pequeno demais ou a fita adesiva só se colava a si mesma. Eu fiquei na sala a tapar o vidro da porta da frente e das duas janelas que davam para a rua. Quando voltámos a juntar-nos e apagámos as luzes, a casa ficou completamente às escuras. Nem sequer conseguia ver a minha mão à frente da cara.

— Perfeito — comentou Vander quando a luz do tecto voltou a acender-se.

Calçando as luvas, dispôs garrafas de água destilada, produtos químicos e dois borrifadores plásticos em cima da mesa de centro.

— Vamos fazer assim — disse. — Dr.a Scarpetta, pode ir borrifando enquanto eu filmo e se houver uma reacção nalgum sítio continue a borrifar até eu lhe dizer para seguir.

— Que quer que eu faça? — perguntou Wesley.

— Que não atrapalhe.

— O que é que está aqui dentro? — perguntou ele quando Vander desrolhou os frascos de produtos químicos secos.

— Nem queira saber — replicou o outro.

— Já sou crescidinho. Pode dizer-me.

— O reagente é uma mistura de perborato de sódio que o Neils está a misturar com água destilada, aminoftalidrazida-três e carbonato de sódio — expliquei tirando da minha bolsa uma embalagem de luvas.

— E têm a certeza que isso vai resultar com sangue tão antigo? — quis saber Wesley.

— Por sinal, o sangue velho e decomposto reage melhor ao luminol do que as manchas de sangue fresco porque quanto mais oxidado estiver melhor. Ao envelhecer, o sangue fica muito mais oxidado.

— Não me parece que nenhuma destas madeiras esteja tratada.

— Também acho que não. — Depois expliquei a Wesley: — O maior problema com o luminol são os falsos positivos. Há muita coisa que reage a ele, como o cobre e o níquel, e os sais de cobre em madeira tratada.

— Também gosta de ferrugem, lixívia, tintura de iodo e formalina — acrescentou Vander. — Além das peroxidases existentes nas bananas, melancias, citrinos e muitos vegetais. E de rábano.

Wesley olhou para mim com um sorriso.

Vander abriu um envelope e retirou dois quadrados de papel de filtro manchados com sangue seco, diluído. Depois acrescentou a mistura A com B e pediu a Wesley que apagasse as luzes. Algumas borrifadelas rápidas e apareceu em cima da mesa de centro um clarão branco azulado, fluorescente. Começou a esbater-se quase tão rapidamente como surgira.

— Tome — disse-me Vander.

Senti o borrifador a tocar-me no braço e peguei nele. Acendeu-se uma luzinha vermelha quando Vander ligou a câmara de vídeo; depois a lâmpada de visão nocturna emitiu um clarão branco que, qual olho luminoso, apontava para tudo o que ele fazia.

— Onde é que está? — Perguntou, à minha esquerda, a voz de Vander.

— Estou no meio da sala. Com a borda da mesa de centro a tocar-me na perna — respondi como se fôssemos miúdos a brincar às escuras.

— Vou é sair do caminho — ouviu-se a voz de Wesley já das proximidades da casa de jantar.

O foco branco de Vander deslocou-se, lentamente, na minha direcção. Estendi o braço e toquei-lhe no ombro.

— Preparado?

— Estou a gravar. Comece e vá andando até eu lhe dizer para parar.

Comecei a borrifar o chão à nossa volta, sem tirar o dedo do gatilho, envolta numa névoa enquanto as formas e configurações geométricas se iam materializando em redor dos meus pés. Por um instante, foi como se estivesse a cruzar rapidamente a noite por cima da grelha iluminada de uma cidade. O sangue antigo, preso nas fendas do parquet, emitia um clarão branco-azulado. Continuei a borrifar sem saber exactamente onde me encontrava em relação ao resto e vi pegadas por toda a sala. Fui de encontro à planta e logo apareceram uns leves fiapos brancos no vaso. À minha direita, surgiram, de repente, impressões palmares na parede.

— Luzes — disse Vander.

Wesley acendeu a luz de tecto e Vander montou uma câmara de

35 mm num tripé para maior firmeza. A única luz disponível seria a fluorescência do luminol e a película ia precisar de uma longa exposição para a captar. Peguei num frasco cheio de luminol e, quando as luzes voltaram a apagar-se, tornei a borrifar as impressões palmares na parede enquanto a câmara registava em filme as macabras imagens. Depois continuámos. Largas varredelas, vagarosas, surgiram nos painéis de madeira e no parquet e o pespontado no sofá de cabedal era uma série de escotilhas iluminadas delineando, de forma incompleta, os rectângulos das almofadas.

— Consegue tirá-las? — perguntou-me Vander.

Uma por uma, deitei-as para o chão e borrifei a armação do sofá. Os espaços entre as almofadas iluminaram-se. No encosto apareceram mais varredelas e manchas e no tecto uma constelação de pequenas estrelas cintilantes. Foi no velho televisor que obtivemos a nossa primeira mostra pirofórica de falsos positivos quando o metal à volta dos botões e do ecrã se iluminou e os cabos de ligação mostraram o branco-azulado do leite magro. Não havia nada de especial no televisor, apenas umas esborratadelas que podiam ser sangue, mas o chão mesmo à sua frente, onde fora encontrado o corpo de Robyn, era um festival. O sangue estava tão entranhado que consegui ver as bordas dos embutidos do parquet e a direcção das fibras do grão da madeira. Alastrando a partir da maior concentração de luminosidade, via-se uma marca de arrastamento e junto dela um curioso desenho de anéis tangenciais feitos por um objecto com um diâmetro ligeiramente inferior ao de uma bola de basquete.

A busca não terminou na sala de estar. Começámos a seguir pegadas. De vez em quando éramos obrigados a acender as luzes, preparar mais luminol e remover obstáculos do caminho, principalmente na lixeira linguística que em tempos fora o quarto de Robyn e agora era onde vivia o Professor Potter. O chão tinha uma camada de vários centímetros de trabalhos de pesquisa, artigos de revistas, exames e pilhas de livros escritos em alemão, francês e italiano. Roupas espalhadas por todo o lado e atiradas para cima das coisas tão aleatoriamente como se um redemoinho se tivesse soltado do roupeiro e criado um vórtice no meio do quarto. Apanhámos o maior número possível formando trouxas e pilhas em cima da cama por fazer. Depois seguimos o rasto ensanguentado de Waddell.

Conduziu-me à casa de banho, com Vander no meu encalço. Marcas de sapatos e borrões espalhavam-se pelo chão e, junto à banheira, fluoresceram os mesmos desenhos circulares que havíamos encontrado na sala. Comecei a borrifar as paredes até meio e, de ambos os lados da sanita, surgiram de repente duas enormes impressões palmares. O foco da câmara de vídeo aproximou-se, flutuante.

Depois a voz de Vander ordenou, excitadamente:

— Acenda a luz.

A casa de banho de Potter estava, no mínimo, tão maltratada como o resto dos seus aposentos. Quase de nariz encostado à parede, Vander pôs-se a examinar a área onde tinham aparecido as impressões.

— Consegue vê-las?

— Hmm. Muito mal. — Inclinou a cabeça para um lado, depois para o outro, semicerrando os olhos. — Fantástico. É que, como o papel tem este estampado azul muito escuro, não se vai ver grande coisa a olho nu. E é plastificado ou de vinil — por outras palavras, uma boa superfície para impressões.

— Jesus — exclamou Wesley que ficara à porta da casa de banho. — A porcaria da sanita nunca deve ter sido lavada desde que ele se mudou para cá. Bolas, nem sequer puxou o autoclismo.

— Mesmo que ele lavasse ou passasse um pano pelas paredes de tempos a tempos, não se consegue eliminar todos os vestígios de sangue — disse eu, a Vander. — Num chão de linóleo como este, por exemplo, um resíduo entranha-se na superfície rugosa e o luminol vai fazê-lo aparecer.

— Quer com isso dizer que se tornássemos a borrifar isto tudo daqui a dez anos o sangue ainda cá estava?— perguntou Wesley, espantado.

— Só se consegue eliminar a maior parte do sangue tornando a pintar tudo, colocando novo papel nas paredes, dando nova camada de verniz no chão e de cera nos móveis — respondeu Vander. — Para eliminar completamente todos os vestígios, tinha de arrancar tudo e pôr novo.

Wesley olhou para o relógio.

— Já aqui estamos há três horas e meia.

— Então proponho o seguinte — disse eu. — Benton, nós dois começamos a devolver à casa o seu estado caótico natural e você, Neils, vai fazendo o que tem a fazer.

— Certo. Vou instalar aqui a Luma-Lite e façam figas para que ela consiga realçar o estriado.

Voltámos para a sala de estar. Enquanto Vander levava a Luma-Lite portátil e a câmara para a casa de banho, eu e Wesley olhámos, ambos um nadinha perplexos, para o sofá, o velho televisor e o chão empoeirado, riscado. Com as luzes acesas, não havia o mais leve vestígio do horror que víramos às escuras. Naquela soalheira tarde de Inverno, recuáramos no tempo e assistíramos ao que Ronnie Joe Waddell tinha feito.

Wesley estava muito quieto ao pé da janela tapada com papel.

— Tenho medo de me sentar em qualquer lado ou de me encostar a qualquer coisa. Bolas, o raio da casa tem sangue por todo o lado.

Olhando em volta, imaginei o foco de luz branca na escuridão, o meu olhar percorrendo vagarosamente o sofá, seguindo pelo chão até parar no televisor. As almofadas do sofá ainda estavam onde eu as deixara e agachei-me para as ver melhor. O sangue que escorrera para o pespontado castanho agora não se via, nem os riscos e manchas no cabedal castanho do encosto. Mas uma observação cuidadosa revelou algo importante embora não necessariamente espantoso. Na parte lateral de uma das almofadas do encosto, descobri um golpe linear que teria, no máximo, uns dois centímetros de comprimento.

— Benton, sabe se o Waddell era canhoto?

— Acho que sim.

— Pensaram que ele a esfaqueou e agrediu no chão, ao pé do televisor, por haver tanto sangue à volta do corpo — disse eu — mas não. Matou-a em cima do sofá. Acho que tenho de ir lá fora. Se esta casa não fosse a lixeira que é, sentia-me tentada a palmar um dos cigarros