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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CRYSTAL / V. C. Andrews
CRYSTAL / V. C. Andrews

 

 

                                                                                                                                   

 

 

 

 

Inteligente e destemida, Crystal vai descobrir que novos pais podem significar novas preocupações...

Quando os Morris escolhem Crystal entre todos os meninos e meninas do orfanato, ela sente a maior felicidade, pois finalmente terá uma casa que poderá chamar de sua. Karl Morris, seu novo pai, gosta de matemática tanto quanto ela gosta de ciência. Ele sente o maior orgulho por Crystal ser uma excelente aluna. Thelma, sua nova mãe, faz com que ela se sinta realmente desejada, pela primeira vez na vida. Embora Thelma pareça mais interessada pelas novelas da televisão do que pela vida real, Crystal sente no fundo do coração que aquela casa pequena e arrumada será um lar de verdade.

Crystal fica ainda mais satisfeita quando os Morris aprovam seu primeiro namorado. Mas descobrirá em breve que, em seu novo lar, a tristeza foi banida para o fundo de um armário... o que significa que ninguém estará preparado quando uma tragédia chocante bater à sua porta.

 

 

 

Uma noite o sr. Philips esqueceu as chaves. Foi simples assim: Embora eu tivesse apenas pouco mais de onze anos, já ajudava no escritório, arquivando pedidos de compras, recibos, ordens de consertos. Eu deixara o relógio de Molly Stuart no banheiro do sr. Philips, quando o tirara para lavar as mãos. Eu não tinha um relógio, e Molly me emprestava o dela de vez em quando. Quando viu que eu não o tinha no pulso, ela me perguntou onde estava. Só então me lembrara. Isso aconteceu depois do jantar, quando já nos encontrávamos nos quartos, fazendo os deveres de casa. Eu disse a Molly para não se preocupar. Sabia onde deixara o relógio. Só que ela foi ficando cada vez mais irritada, até que o sangue afluiu para o rosto. Tinha certeza de que alguém já o roubara àquela altura, porque a porta da sala do sr. Philips nunca estava fechada. Por isso, deixei meu quarto e desci apressada. Entrei na sala, acendi a luz, fui até o banheiro. Lá estava o relógio, na pia, onde eu o havia deixado. Virei-me para ir embora. Foi nesse instante que avistei as chaves do sr. Philips em cima da mesa. Sabia que eram as chaves dos arquivos secretos, os que continham as informações sobre cada órfão. Os outros viviam me perguntando se eu já vira os arquivos enquanto trabalhava no escritório. Isso nunca acontecera.

Meu coração disparou. Olhei para a porta e de novo para aquelas chaves mágicas. Era quase impossível para um órfão descobrir qualquer coisa a respeito de seu passado biológico, pelo menos até completar dezoito anos. Só me haviam dito que minha mãe ficara doente demais para cuidar de mim e que eu não tinha pai.

Jamais fizera uma coisa desonesta em toda a minha vida, mas aquilo era diferente, pensei. Não era roubar. Seria apenas pegar uma coisa que me pertencia por direito: o conhecimento do meu passado. Sem fazer barulho, fechei a porta da sala. Fui até a mesa, peguei as chaves, encontrei a que abria as gavetas contendo os arquivos secretos.

Foi estranho, como fiquei parada ali, com medo de tocar no arquivo que tinha meu nome na etiqueta. Medo de violar uma regra, ou medo de descobrir tudo a meu respeito? Mas acabei reunindo coragem suficiente e tirei a pasta da gaveta. Era mais grossa do que eu imaginara. Apaguei a luz da sala, para não atrair qualquer atenção. Sentei no chão, junto do banheiro, com a porta entreaberta. Uma réstia de luz proporcionava iluminação suficiente para eu ler o que havia na pasta.

As primeiras páginas continham informações que eu já conhecia: história médica, registros escolares. Mas as últimas páginas abriram as portas escuras do meu passado e revelaram informações que ao mesmo tempo me surpreenderam e assustaram.

Segundo o relato ali, minha mãe, Amanda Perry, fora diagnosticada maníaco-depressiva ainda na adolescência. Acabara sendo internada aos dezessete anos, depois de reiterados esforços para cometer suicídio, uma vez cortando os pulsos e duas vezes tomando uma overdose de pílulas para dormir.

Continuei a ler e descobri que minha mãe engravidara de um atendente quando se encontrava numa instituição de tratamento mental. Ao que parecia, nunca haviam descoberto quem fora o homem. Por isso, concluí que algum degenerado era meu pai, a menos que preferisse acreditar que minha mãe e o atendente haviam tido uma ligação romântica e maravilhosa, entre terapias de drogas, banhos frios e tratamentos de choque elétrico.

Seja como for, ao descobrirem que minha mãe estava grávida, alguém tomou a decisão oficial de não me abortar. Depois que nasci, obviamente meus avós paternos e maternos não quiseram saber de mim. E é claro que o Atendente Degenerado não se apresentou para me reivindicar. Assim, tornei-me imediatamente uma tutelada do Estado. Os relatórios não diziam quem me dera o nome de Crystal. Gostava de pensar que era a única coisa que minha pobre mãe fora capaz de me dar. Eu não tinha mais nada, nem mesmo a menor idéia de quem eu era, até dar uma olhada naquela pasta.

Encontrei um comunicado lacônico sobre a morte de minha mãe aos vinte e dois anos de idade. Sua última tentativa de acabar com a própria vida fora bem-sucedida. Eu nunca a conheceria, mesmo daqui a alguns anos, quando me tornasse independente.

Lembro que as revelações fizeram minhas mãos tremer, deixaram-me com uma sensação de vazio no fundo do estômago. Herdaria os problemas mentais de minha mãe? Herdaria a maldade de meu pai? Guardei a pasta no lugar, tranquei o arquivo, larguei as chaves na mesa e saí do escritório. Tive de ir direto ao nosso banheiro, porque tinha a sensação de que poderia vomitar a qualquer instante.

Consegui manter o jantar no estômago, mas lavei o rosto com água fria para me acalmar. Contemplei-me no espelho, avaliando os olhos, a boca, à procura de algum sinal de maldade. Sentia-me como o Doutor Jekyll em busca de um vislumbre de Mister Hyde, da história de O médico e o monstro. Daquele dia em diante, passei a ter pesadelos. Via-me mentalmente doente, tão desequilibrada que me internavam em alguma clínica para sempre.

Suponho que seria natural que qualquer psicólogo que soubesse do meu passado especulasse se eu não partilhava algumas características com meus pais. Pelo que lera, deduzi que minha mãe tinha explosões freqüentes na escola, uma aluna muito difícil para todos os professores. Vivia se metendo em encrencas. Nunca fui assim, mas li recentemente que esse tipo de comportamento é considerado um pedido de ajuda, da mesma forma que a tentativa de suicídio.

Com tantos pedidos de socorro, o mundo parecia um vasto oceano, com muitas pessoas se afogando, enquanto os salva-vidas ficavam escolhendo a seu critério ajudar esta ou aquela pessoa. Claro que os mais ricos sempre eram salvos, ou no mínimo lhes jogavam uma bóia. As pessoas como eu eram metidas em instituições de tratamento mental, lares coletivos provisórios, orfanatos e prisões. Éramos varridas para baixo do tapete. O que me levava a especular como alguém podia andar por cima.

Nunca contei a ninguém o que descobrira, é claro, mas passei a compreender por que tão poucos pais em potencial demonstravam algum interesse por mim. Provavelmente recebiam informações sobre o meu passado e decidiam não correr o risco com alguém como eu.

Uma ocasião, quando eu me encontrava em outro orfanato, sentei no jardim para ler O diário de Anne Frank. (Sempre fui duas ou três séries acima das outras crianças da minha idade no curso de leitura.) Súbitamente, senti uma sombra se deslocar por cima de mim. Levantei os olhos para ver um balão flutuando ao vento, o barbante pendendo como uma cauda. Alguma criança deixara escapulir o balão. Agora, vagava a esmo, sem estar ligado a ninguém, condenado a nunca mais voltar para o seu dono. Logo desapareceu por trás dos telhados. Pensei que todos ali éramos assim, balões que alguém soltava, de propósito ou involuntariamente, pobres almas perdidas, à deriva no vento, esperando que outra mão nos pegasse e trouxesse de volta ao solo.

Mais três anos passaram sem que eu fosse adotada ou transferida para um lar provisório. Ainda ajudava o sr. Philips no escritório. Há cerca de um ano, ele começou a me chamar de Pequena Miss Eficiência. Não me importava, mesmo quando ele me usava para repreender seus assistentes. Sempre dizia coisas como "Por que não podem ser tão responsáveis quanto Crystal?" Dizia isso, de vez em quando, até para sua secretária, a sra. Mills.

Ela dava sempre a impressão de que estava se afogando em folhas de papel-carbono. Tinha os dedos azuis ou pretos, por causa das fitas, cartuchos de tinta e almo-fadas de carimbo que precisava mudar. Pela manhã, chegava ao trabalho toda arrumada, como uma obra de arte clássica, sem um único fio dos cabelos grisalhos azulados fora do lugar, a maquilagem perfeita, as roupas limpas e bem passadas. Ao final do dia, no entanto, os cabelos sempre pendiam sobre os olhos, a blusa em geral exibia alguma mancha, talvez duas, o batom de alguma forma se espalhara pelas faces. Virava uma obra de arte abstrata. Sempre se mostrava feliz ao me receber e apreciava meu trabalho, que de outra forma ela própria teria de fazer.

Para alguém da minha idade, conheço muita coisa sobre a psicologia humana. Comecei a me interessar depois que li sobre minha mãe. Penso agora que talvez um dia me torne médica. De qualquer modo, é sempre bom saber tudo sobre psicologia. É uma coisa bem conveniente, ainda mais em orfanatos.

Mas nem sempre é uma vantagem ser mais inteligente ou mais responsável do que as outras pessoas. O que é particularmente verdadeiro com órfãos. Quanto mais desamparado você parece, maiores as suas possibilidades de adoção. Se você dá a impressão de que é capaz de cuidar de si mesmo, quem vai querer adotá-lo? Ou pelo menos essa é outra das minhas teorias sobre os motivos pelos quais eu era uma prisioneira do sistema há tanto tempo. Os pais em potencial não gostam de se sentir inferiores à criança que vão adotar. Já fui testemunha disso.

Apareceu certa vez um casal que me pediu expressamente: queriam uma criança que fosse mais velha. A mulher, cujo nome era Chastity, exibia um sorriso tolo. O marido a chamava de Chás, e ela o tratava por Arn, de Arnold. Creio que acabariam me chamando de Crys. Tinham dificuldades para completar as palavras. O mesmo problema ocorria com as frases, sempre deixando uma parte em suspenso, como no momento em que Chás me perguntou:

— O que você quer ser quando...

— Quando o quê?

— Ficar mais velha. Depois que se formar em...

— Escola secundária, serviço militar, escola de secretariado ou curso de computador?

Eu sentira uma aversão imediata aos dois. A mulher ria demais, enquanto o marido dava a impressão de que queria estar em algum outro lugar no momento em que entrava na sala.

— Isso mesmo — disse ela, rindo.

— Acho que quero ser médica. Mas também posso Ser uma escritora. Não tenho certeza. O que você quer ser?

Ela piscou várias vezes, com um sorriso de absoluta confusão.

— O quê?

— Quando você...

Olhei para Arn, que sorriu. Já o sorriso de Çhas murchou como uma flor e pouco a pouco evaporou por completo. Seus olhos se tornaram ameaçadores e logo se encheram com uma energia nervosa. Não deu para contar quantos olhares ansiosos ela lançou na direção da porta.

Os dois se mostraram bastante aliviados quando a entrevista terminou. Não tive outra entrevista até uma semana atrás, mas fiquei feliz em conhecer Thelma e Karl Morris. Aparentemente, minha origem não os assustava, nem a minha precocidade os irritava. Depois, o sr. Philips me disse que eu era exatamente o que eles queriam: uma adolescente que prometia não causar qualquer problema, que não exigiria muito de suas vidas, que tinha alguma independência e gozava de boa saúde.

Thelma parecia convencida de que todos os danos que eu sofrera como órfã seriam corrigidos depois de algumas semanas em sua casa. Adorei seu otimismo distorcido. Era uma mulher pequena, de vinte e tantos anos, cabelos castanhos-claros um pouco crespos, olhos também castanhos-claros, tão brilhantes e inocentes quanto os de uma criança de seis anos.

Karl era apenas uns poucos centímetros mais alto, cabelos lisos castanhos-escuros e olhos castanhos sem brilho. Parecia muito mais velho, embora tivesse apenas trinta e poucos anos. O sorriso era suave e cordial, assentando em seu rosto rechonchudo como morangos no creme. Era corpulento. Tinha mãos pequenas, mas dedos grossos.

Ele era contador, enquanto Thelma anunciou que era dona-de-casa. Mas ela havia decidido há muito tempo que ser dona-de-casa era também trabalho, pelo qual deveria receber um salário. Thelma até tinha aumentos nos anos bons. Não conseguiam parar de falar sobre si mesmos. Era como se quisessem expor suas vidas inteiras em um único encontro.

A melhor coisa que eu podia dizer a respeito dos Morris era que não havia absolutamente nada de sutil, dissimulado ou ameaçador neles. O que se via era o que havia. E gostei disso. Fez com que eu me sentisse à vontade. Houve momentos durante a entrevista em que mais parecia que eu é que deveria decidir se os adotaria.

— Tudo é sério demais aqui — comentou Thelma, ao final da reunião. Ela fez uma careta, contraindo os lábios numa expressão desaprovadora. — Não é possível que uma pessoa jovem considere este lugar um lar. Não ouvi nenhuma risada. Nem vi qualquer sorriso.

Subitamente, ela própria se tornou muito séria, inclinou-se para a frente e sussurrou:

— Ainda não tem um namorado, não é? Eu detestaria interromper um romance desabrochando.

— Seria muito difícil — respondi. — A maioria dos garotos aqui é muito imatura.

Thelma gostou da resposta e demonstrou alívio imediato.

— Ainda bem. Então está tudo resolvido. Você irá para casa conosco. Nunca mais falaremos de qualquer coisa desagradável. Não acreditamos em tristeza..-se você não pensa nas coisas ruins da vida, vai descobrir que simplesmente elas desaparecem. Espere só para ver.

Eu deveria ter imaginado o que isso significava. Mas por uma vez, em minha curta vida, decidi parar de analisar as pessoas e apenas desfrutar a companhia de alguém, ainda mais sendo uma mulher que queria ser minha mãe.

 

               Um novo começo

Ir para casa com os Morris foi como participar de uma excursão guiada por suas vidas num ônibus de turismo. Eles tinham um seda razoável, que fora escolhido, segundo Karl, por sua economia de combustível e pela alta classificação nos relatórios de defesa dos consumidores.

— Karl toma as decisões sobre tudo o que compramos — explicou Thelma, com uma risada jovial, a mesma que pontuava quase tudo o que ela dizia. — Ele diz que um consumidor informado é um consumidor protegido. Não se pode acreditar na propaganda. Os anúncios, especialmente os comerciais de televisão, contêm uma porção de desinformações. Não é mesmo, Karl?

— É, sim, querida — concordou Karl.

Eu estava sentada no banco de trás. Thelma manteve-se meio virada, para poder conversar comigo durante todo o percurso até a casa deles — minha nova casa, meu lar — em Wappingers Falls, Estado de Nova York.

— Karl e eu fomos namorados desde a infância. Já lhe contei isso?

Ela continuou antes que eu pudesse dizer que sim.

— Começamos a namorar na décima série. Quando Karl foi para a universidade, permaneci fiel. Ele também continuou fiel. Depois que se formou e foi contratado pela IBM, planejamos o casamento. Karl ajudou meus pais a tomarem todas as providências, da escolha do melhor lugar até as flores. Não foi mesmo, Karl?

— É verdade, querida — respondeu ele, acenando com a cabeça, sem desviar os olhos da estrada.

— Normalmente, Karl não gosta de ter longas conversas no carro quando está dirigindo — explicou Thelma, olhando para ele e sorrindo. — Diz que as pessoas esquecem que dirigir um carro é coisa que exige uma atenção total.

— Ainda mais hoje em dia, com tantos carros na estrada, tantos motoristas adolescentes e idosos — acrescentou Karl. — Esses dois grupos etários são responsáveis por mais de sessenta por cento de todos os acidentes.

— Karl tem todos os tipos de estatísticas como essa na cabeça — informou Thelma, orgulhosa. — Ainda na semana passada pensei em trocar nosso velho fogão a gás por um elétrico. Karl converteu BTUs... é isso mesmo, Karl? BTUs?

— É, sim.

— BTUs em centavos de custo e demonstrou que o fogão a gás era mais eficiente. Não é maravilhoso ter um marido como Karl, que pode impedi-la de tomar as decisões erradas?

Sorri e olhei pela janela. O orfanato não ficava a mais que uns oitenta quilômetros do lugar em que meus novos pais viviam, mas eu nunca viajara tanto para o norte. Além da participação em algumas excursões da escola, não conhecia muitos outros lugares. Só deixar o orfanato e percorrer trinta quilômetros de carro já era uma aventura.

O verão estava no fim e os ventos mais frios do outono começavam a soprar do norte. As folhas estavam começando a ficar avermelhadas e alaranjadas. Sempre que eu podia ver a distância, contemplando as montanhas cobertas por bosques, achava que a ondulação de cores era de uma beleza espetacular. E ainda por cima o dia era claro e ensolarado. O céu era de um azul profundo, as nuvens sopradas pelo vento se esticavam até ficarem quase como gaze. Ao sul, um avião transformar-se num ponto prateado e depois desaparecera nas nuvens. Eu me sentia feliz, transbordando de esperança. Teria um lar, uma casa que chamaria de minha, outras pessoas com que me preocupar além de mim... e que também, assim esperava, se preocupariam comigo. Era tudo muito simples, coisas em que a maioria das pessoas nem pensava duas vezes, mas maravilhoso, novo e precioso para órfãos como eu.

— Karl é o mais velho de três irmãos e o único casado. O irmão do meio, Stuart, é vendedor de uma fábrica de aparelhos de ar condicionado em Albany, enquanto o caçula, Gary, acaba de se formar numa escola de culinária em Poughkeepsie, onde o pai de Karl vive. Gary foi contratado para trabalhar num navio de cruzeiros. Por isso, quase não o vemos, nem temos muitas notícias dele. Karl e seus irmãos não são muito separados na idade, mas nem por isso são íntimos. Ninguém é, na família. Não é mesmo, Karl?

Ele quase virou a cabeça para fitá-la. Iniciou o movimento, mas parou de repente, quando um carro entrou na estrada, cerca de cinqüenta metros à frente, obrigando-o a diminuir a velocidade.

— Se eles não se falassem pelo telefone de vez em quando, nem saberiam quem ainda existe na família e quem não existe mais. O pai de Karl ainda é vivo, mas a mãe faleceu... há dois anos, Karl?

— Um ano e onze meses, amanhã — murmurou Karl, numa resposta mecânica.

— Um ano e onze meses — ela repetiu, como se estivesse traduzindo.

Ou seja, tenho dois tios e um avô pelo lado de Karl, pensei. Antes que eu pudesse perguntar sobre o lado de Thelma, ela tratou de fornecer a informação:

— Não tenho irmãos nem irmãs. Minha mãe não deveria ter nenhum filho. Teve câncer no seio quando tinha apenas dezessete anos, e os médicos aconselharam-na a não ter filhos. Mas já com trinta anos ela ficou grávida de mim. Meu pai tinha quarenta e um anos na ocasião. Agora minha mãe tem cinqüenta e oito e meu pai sessenta e nove. Aposto que está querendo saber por que não tivemos filhos. Isto é, antes de você.

— Não é da minha conta — murmurei.

— Claro que é. Tudo que nos diz respeito é da sua conta. Vamos ser uma família. Por isso, temos de partilhar e ser francos uns com os outros. Não é mesmo, Karl?

— É, sim — concordou ele, sinalizando que ia mudar de faixa e ultrapassar o carro à frente.

— A contagem de esperma de Karl é muito baixa — revelou Thelma, com um sorriso, como se sentisse a maior satisfação por isso.

— Não sei se devemos conversar a respeito disso, Thelma.

A nuca de Karl ficou vermelha de embaraço.

— Claro que podemos. Ela já tem idade suficiente e provavelmente sabe tudo o que há para saber. As crianças de hoje são muito adiantadas. Como podem deixar de ser, com tanta coisa aparecendo na televisão? Costuma assistir televisão com freqüência, Crystal?

— Não.

— Ahn...

O excitamento começou a se desvanecer do rosto de Thelma, pela primeira vez desde que nos conhecêramos. Os olhos pareciam pequenas lanternas com a pilha fraca. Mas depois ela pensou em alguma coisa e tornou a sorrir.

— Deve ser porque não tinha muita oportunidade numa casa com tantas crianças. Mas tentamos ter filhos. Assim que Karl decidiu que tínhamos a base financeira necessária, bem que tentamos. Não foi mesmo, Karl?

Ele acenou com a cabeça.

— Nada aconteceu, por mais que planejássemos. Eu usava um termômetro para tirar minha temperatura, calculava os dias no calendário, até preparei algumas noites românticas. — Thelma corou, deu de ombros. — Nada aconteceu. E pensávamos que estávamos errando em alguma coisa. Mire melhor, eu costumava dizer. Não é mesmo, Karl?

— Thelma, você está me deixando embaraçado.

— Ora, isso é bobagem. Somos uma família. Não podemos ficar embaraçados com essas coisas.

A simplicidade e franqueza com que Thelma falava sobre os detalhes mais íntimos de sua vida me fascinavam.

— Karl leu sobre o assunto e aprendeu que deveria manter o saco sempre fresco — continuou ela, tornando a se virar para mim. — Evitava usar qualquer coisa apertada, abstinha-se de tomar banhos quentes, fazia tudo para evitar o calor, especialmente nas ocasiões em que tentaríamos fazer um bebê. Até esperávamos mais tempo entre as ocasiões, porque os períodos de abstinência sexual em geral aumentam o volume e a potência do esperma. Não é mesmo, Karl?

— Não precisa entrar nos menores detalhes, Thelma.

— Claro que preciso. Quero que Crystal compreenda.

Li uma revista outro dia, Pais Modernos ou outro nome parecido. Um artigo dizia que mães e filhas em particular devem ser honestas e francas em tudo, para poderem desenvolver a confiança. Ela fez uma pausa.

— Onde é mesmo que eu estava? Ah, sim, o volume e a potência do esperma. Mas quando nada deu certo, resolvemos procurar um médico. Você sabia que o homem médio produz de 120 milhões a 600 milhões de espermatozóides numa única ejaculação?

— Você tem problemas com outros fatos e estatísticas, Thelma — interveio Karl, a voz gentil. — Como é possível que não esqueça isso?

— Não sei. Acho que não é fácil esquecer. — Ela deu de ombros outra vez. — Descobrimos que Karl estava abaixo dessa contagem, não importava o que fizesse. Ainda tentamos muitas vezes, é claro, até que finalmente decidimos adotar. Para dizer a verdade, tive a idéia com Vibrações do coração, de Torch Summers. Conversei com Karl, que concordou que seria uma boa idéia.

Thelma fez uma pausa.

— Mas cuidar de um bebê não é uma tarefa fácil. Você tem de acordar de madrugada. Fica cansada demais para fazer qualquer coisa no dia seguinte, até mesmo para assistir televisão. Foi por isso que decidimos procurar uma criança mais velha... e encontramos você.

— Nosso problema de conceber um bebê não é tão excepcional assim — declarou Karl, durante o primeiro momento de silêncio. — A infertilidade era considerada no passado um problema basicamente da mulher. Mas agora se sabe que o problema é do homem em trinta e cinco por cento dos casos.

— Karl se sente triste, mas eu não o culpo — comentou Thelma, numa voz um pouco acima de um sussurro. — É como acontece em A segunda chance do amor, de Amanda Fairchild. Já leu esse livro? Sei que lê muito.

— Nunca ouvi falar.

— Acho que ocupou o primeiro lugar na lista dos livros românticos mais vendidos durante quatro meses, no ano passado. O homem apaixonado por April tem o mesmo problema de Karl, mas só descobre depois que ela engravida, obviamente de outro. É muito triste no final, quando April morre no parto.

Os olhos de Thelma ficaram marejados de lágrimas. Mas ela logo pulou no banco e sorriu.

— Não vamos pensar em coisas tristes. Hoje é um grande dia para todos nós. Vamos jantar num restaurante esta noite. Certo, Karl?

— Certo. Pensei em irmos ao Sea Shell. Gosta de frutos do mar, Crystal?

— Não comi muitas vezes, mas gosto bastante.

— Normalmente não comemos fora — declarou Thelma. — Não é prático. Mas Karl acha que o Sea Shell é o que oferece mais pelo seu dólar.

— Lagosta e camarão são caros nos restaurantes, mas eles oferecem um bom prato misto, com mais salada e pão. Gosto desses pratos mistos. Têm um bom preço. E você vai gostar também das sobremesas. Aposto que adora bolo de chocolate.

— É a minha sobremesa predileta — admiti. Toda aquela conversa sobre comida estava fazendo meu estômago roncar.

— Temos muito que aprender uma sobre a outra — comentou Thelma. — Quero conhecer todas as suas coisas prediletas, como as cores prediletas, os artistas de cinema prediletos, tudo que você aprecia. Espero termos muitas coisas prediletas em comum. Mas mesmo se não tivermos, não fará a menor diferença.

Ela acenou com a cabeça vigorosamente, dando a impressão de que queria assegurar isso tanto a si mesma quanto a mim.

Pouco mais de uma hora depois entramos numa rua residencial. Paramos numa casa pequena, em estilo de rancho, com paredes num tom cinza-claro, persianas de alumínio em cinza-escuro, uma calçada atravessando um gramado, com sebes nos lados e um bordo vermelho à esquerda. Uma caixa de correspondência grande, de alumínio, tinha o nome MORRIS e o endereço inscrito por baixo.

— Lar, doce lar — murmurou Thelma, enquanto a porta da garagem se levantava.

Entramos na garagem, que parecia mais arrumada do que alguns dos quartos no orfanato. Tinha prateleiras na parede do fundo. Tudo nelas estava organizado, com etiquetas indicativas. O chão da garagem tinha até um carpete.

Karl ajudou a carregar minha bagagem e a caixa com livros. Segui-os por uma porta que levava direto à cozinha.

— Foi Karl quem projetou nossa casa — explicou Thelma. — Concluiu que era prático ir direto da garagem para a cozinha, a fim de podermos tirar as compras do carro e guardar nos armários com a maior facilidade.

Era uma cozinha pequena, mas bem arrumada e limpa. Havia um canto com uma mesa à direita, uma janela saliente que dava para um quintal nos fundos, cercado. O gramado ali não era muito maior que o gramado na frente.

Por cima da mesa havia um quadro de cortiça, com bilhetes presos, assim como um calendário, com datas circuladas. Na porta da geladeira havia um quadro com ímã, em que se lia uma lista dos alimentos que precisavam ser repostos.

— Por aqui — disse Karl.

Deixamos a cozinha e atravessamos um pequeno corredor, que levava primeiro à sala de estar e à porta da frente. Havia um pequeno vestíbulo, com um closet para casacos. À esquerda do vestíbulo havia outra sala, com estantes cobrindo as paredes, sofás e poltronas virados para o enorme aparelho de televisão. Logo depois ficava a sala de jantar. Os móveis eram coloniais.

Meu quarto não era muito maior do que o quarto que ocupava no orfanato, mas tinha um papel de parede florido, cortinas transparentes de algodão branco, uma escrivaninha com um armário em cima, duas camas com almofadas e colcha em rosa e branco. Havia um closet à esquerda e outro menor à direita.

— Pode usar este closet menor para guardar outras coisas que não roupas — sugeriu Karl.

Parei diante da escrivaninha e abri a porta do armário. Havia um computador ali.

— Surpresa! — exclamou Thelma, batendo palmas. — Compramos para você há apenas dois dias. Karl fez um levantamento de preços e descobriu o melhor negócio.

— É o mais moderno no mercado — acrescentou Karl. — Também providenciei a ligação com a Internet. Assim, poderá fazer as pesquisas em seu quarto quando começarem as aulas, dentro de algumas semanas.

— Obrigada — murmurei, emocionada. Ninguém jamais me comprara qualquer coisa cara.

Por um momento, mal consegui respirar. Passei as pontas dos dedos pelas teclas, a fim de verificar se era mesmo real.

— Mas não fique como aquelas crianças de que ouvimos falar — advertiu Thelma —, passando todo o tempo sozinhas a olhar para a tela do computador. Queremos ser uma família e passar um bom tempo juntos, durante o jantar, assistindo televisão.

— Eu também. — Balancei a cabeça, excitada demais para prestar atenção a qualquer coisa que ela dissesse. — Obrigada.

— O prazer é nosso — declarou Karl.

— Vou ajudá-la a arrumar suas roupas. Veremos que coisas novas vai precisar de imediato. Faremos uma lista e Karl nos dirá onde é melhor comprar. Certo, Karl?

— Claro.

— Oh, não, não! — exclamou Thelma de repente, levando a mão ao coração.

O meu parou por um instante. Eu já fizera alguma coisa errada?

— Qual é o problema? — perguntou Karl.

— Olhe só para a hora! — Ela acenou com a cabeça para o pequeno relógio na mesa do computador. — Passa de três horas. Estou perdendo Corações e flores. É hoje que Ariel vai descobrir se Todd é o pai de seu filho. Você assiste essa, Crystal?

Olhei para Karl, em busca de ajuda. Não tinha a menor idéia do que ela falava.

— Ela se refere a uma novela da televisão. Como Crystal poderia acompanhar essa, Thelma? Estaria voltando para o orfanato ou ainda na escola quando a novela vai ao ar.

— Ah, tinha esquecido. Sabe o que faço quando vou perder um capítulo? Gravo tudo. Só que hoje esqueci de ligar o vídeo, com toda a emoção. Importa-se de esperar um pouco, querida? Eu a ajudarei a arrumar suas coisas assim que a novela terminar.

— Não tem problema. — Pus uma mala na cama e abri o fecho. — Não há mesmo muito para fazer.

— Não, não, Crystal querida! — Thelma pegou minha mão. — Venha comigo. Assistiremos à novela juntas, e depois cuidaremos do seu quarto.

Olhei para Karl, na expectativa de que ele me salvasse, enquanto Thelma me puxava para a porta. Mas ele disse apenas:

— Thelma, lembre-se de que devemos estar prontos às cinco horas, pontualmente, para ir ao restaurante.

— Está bem, Karl.

Ela me deu um puxão com força. Quase que voei para fora do quarto.

— Seja bem-vinda ao nosso lar feliz! — gritou Karl lá de trás.

 

                 Outro mundo

Um dos maiores medos de qualquer órfão é o de não conseguir se ajustar ao novo estilo de vida quando se torna parte de uma família. Não podemos saber como nos comportar à mesa do jantar, como fazer na presença de outros parentes, como cuidar de nossos quartos e como passar o tempo. Em suma, não sabemos como agradar nossos novos pais. Para nós, é sempre como uma audição, um teste. Sentimos seus olhos nos seguindo por toda parte, ouvimos seus sussurros, sempre especulamos sobre o que realmente pensavam. Sentem-se felizes por nos terem incluído em suas vidas? Ou se arrependem e procuram por uma maneira gentil de nos devolver?

Foi fácil me adaptar à vida com meus novos pais, saber o que eles esperavam, gostavam e detestavam. Não havia nada de imprevisível em Karl. Era a pessoa mais organizada que eu já conhecera. Levantava-se exatamente à mesma hora todos os dias, até nos fins de semana.

— As pessoas cometem o erro de dormir até mais tarde nos fins de semana — comentou ele para mim. — Só que isso confunde seu relógio biológico.

Ele também comia a mesma coisa no desjejum durante os dias úteis, uma combinação de cereais frios, misturando a fórmula correta de fibras, grãos e frutas. Nos fins de semana, fazia uma omelete, ou comia mingau de aveia com passas. Embora fosse gorducho, dispensava a maior atenção à nutrição e queria que eu fizesse a mesma coisa.

Mas não fazia exercícios. Admitia que isso era uma falha, mas não se empenhava em corrigi-la. O mais próximo que chegou disso foi a aquisição de uma esteira rolante, depois de meses e meses, como descreveu, de comparação de preços e características. Comentei que o aparelho parecia novo em folha. Karl confessou que ainda tinha de desenvolver um programa regular para seu uso.

— Talvez agora que você está aqui para me lembrar — disse ele —, eu passe a dar mais atenção a essas coisas.

Não pensei que ele precisasse de lembretes meus para qualquer coisa. Tudo de Karl era organizado e calculado. Ele sabia exatamente quantas meias tinha, quantas camisas brancas, quantas calças e paletós, quantas gravatas. Podia até dizer quanto custara cada item. E ainda mais impressionante, sabia quantas vezes usara cada peça de roupa, quando precisava ser lavada e passada. Cuidava de suas roupas da maneira como os mecânicos cuidam de seus carros; e quando alguma coisa era usada ou lavada um determinado número de vezes, ele a guardava num saco com a etiqueta "Para doação".

Karl mantinha sua existência organizada e regulamentada ao longo do dia, sempre comendo na mesma hora à noite, assistindo ao seu noticiário na televisão, lendo seus jornais e revistas. Dormia exatamente às dez horas todas as noites, até nos fins de semana, a menos que tivessem planos para uma saída.

Se Thelma queria assistir a um filme, Karl pesquisava as críticas e lhe apresentava um relatório, decidindo se era ou não um desperdício de dinheiro. Se houvesse alguma dúvida sobre a qualidade do filme, ele sugeria que fossem à tarde, porque havia um desconto no ingresso e assim o risco seria menor.

— Equilíbrio, Crystal — explicou ele. — É o que torna a vida confortável, a manutenção do equilíbrio. Ativo num lado, passivo no outro. Tudo o que você faz, todas as pessoas que conhece, têm seus prós e contras. Descubra quais são, pois assim saberá o que fazer.

Karl sempre me fazia preleções desse tipo. E eu sempre prestava atenção, respeitosa, embora muitas vezes achasse que ele estava sendo obsessivo. Nem tudo na vida podia ser avaliado em termos de lucros e perdas, eu pensava.

De certa forma, a vida de Thelma era quase tão calculada e organizada quanto a de Karl, só que determinada pela programação na televisão de suas novelas e outros programas. Se saía de casa por algum motivo durante o dia, Thelma programava os encontros e compromissos de acordo com os horários da TV naquele dia. Podia assistir tudo em vídeo, mas dizia que não era a mesma coisa que assistir no momento da transmissão.

— É como observar a história no instante em que ocorre, em vez de acompanhar mais tarde pelos noticiários — comentou ela para mim.

Thelma também tinha um horário reservado para a leitura. Sentava em sua cadeira de balanço com um xale de renda em torno dos ombros, lendo o livro que recebera naquele mês do seu clube de ficção romântica. A água podia ferver no fogão, os telefones podiam tocar, alguém podia bater na porta. Nada mais importava depois que ela se absorvia numa história; não ligava para coisa alguma. Deixava este mundo e viajava por outro.

Apesar disso, era tão devotada a Karl e suas necessidades quanto qualquer esposa podia ser. Aos domingos, Karl planejava o cardápio da semana, escolhendo com cuidado alimentos que podiam ser usados de várias maneiras, a fim de justificar a compra em quantidades maiores ou permitir o aproveitamento de sobras. Thelma executava o cardápio, ao pé da letra. Se alguma coisa não saía como Karl planejara, ela considerava umaa grave crise. Uma manhã tivemos de ir a outro supermercado, a mais de trinta quilômetros de distância, porque o mais próximo da casa não tinha a marca de pêssegos em lata que Karl queria.

Enquanto Karl era um motorista calmo e cuidadoso, Thelma falava tanto desde o momento em que sentava ao volante que meus ouvidos zumbiam. Sua atenção era desviada do tráfego com tanta freqüência que por duas vezes pulei tão alto que quase bati com a cabeça no teto, quando ela mudou de faixa abruptamente e os outros motoristas buzinaram furiosos.

Uma semana depois de minha chegada fomos visitar o pai de Karl. Ele morava sozinho numa pequena casa ao estilo de Cape Cod, que ocupava há quase quarenta anos. Era um bairro residencial antigo e sossegado, só de casas, a maioria como a casa do pai de Karl.

Era mais alto e bem mais magro do que o filho, com um rosto que me fez pensar em Abraham Lincoln, comprido e marcado. Pelos retratos que vi na mesa da sala de estar, concluí que Karl saíra mais à mãe. Seus irmãos, por outro lado, pareciam com o pai, ambos mais altos e mais magros do que Karl.

Papai Morris, como ele me foi apresentado, era um velho rabugento, que trabalhara para o departamento de água da cidade. Sentia-se contente em viver da pensão, confraternizar com os amigos aposentados, jogar cartas, visitar o bar local e ler os jornais. Karl combinara com uma mulher para fazer uma limpeza duas vezes por semana, mas seu pai não admitia que ninguém cozinhasse para ele.

— Saberei quando não puder mais cuidar de mim — murmurou ele, quando Karl fez a sugestão mais uma vez.

A cozinha, no entanto, não era muito limpa. Havia panelas com restos de feijão e arroz, alguns pratos empilhados na pia, esperando pela faxineira. Thelma foi lavar tudo assim que chegamos. Eu a ajudei. Arrumamos mais ou menos a cozinha, enquanto Karl e o pai conversavam. Depois, sentamos todos na sala de estar e tomamos limonada.

Papai Morris observou-me com algum interesse, enquanto Thelma descrevia o começo maravilhoso de nossa vida juntos. Os olhos castanhos de Papai Morris, grandes e foscos, se contraíram em desconfiança.

— Gosta de viver com esses dois? — perguntou-me ele, cético.

— Sim, senhor — respondi sem hesitar.

— Sim, senhor? — repetiu ele, olhando para Karl, sentado com as mãos cruzadas no colo.

— Ela é uma mocinha muito bem-educada. — Thelma lançou-me um olhar orgulhoso. — Muito parecida com Whelma Matthews em Dias de sol.

— Não precisa me chamar de senhor, menina. Ninguém jamais me chamou de senhor. Não tenho qualquer pretensão. Sou apenas um aposentado.

— Ela é muito inteligente, papai — acrescentou Thelma. — Só tira A na escola.

— Isso é ótimo. — Ele balançou a cabeça para mim, o rosto abrandando um pouco. — Minha Lily sempre quis ter netos, mas nenhum dos meus filhos jamais lhe deu nenhum. Netos são uma espécie de retorno do seu investimento.

O velho fez uma pausa, olhou para Karl.

— Por falar em investimentos, o que está acontecendo com aquele fundo em que você aplicou minhas economias, Karl?

— Subiu vinte e dois por cento, papai.

— Você é mesmo esperto, Karl.

Ele tirou do bolso um pedaço de tabaco para mascar.

— Deveria parar com isso, papai. Já se sabe que causa câncer na boca. Li uma reportagem a respeito ontem.

— Masco fumo há cinqüenta anos. Não há sentido em parar agora uma coisa de que gosto. Não concorda, Thelma?

Ela olhou para Karl, apreensiva.

— Ahn... eu...

— Claro que deve e claro que há sentido — interveio Karl. — Por que causar a si mesmo um sofrimento desnecessário?

— Não estou sofrendo. Ao contrário, gosto muito. Não sei quem é mais chato, se você ou aquela mulher que manda trabalhar aqui. Tudo o que ela faz é se queixar do trabalho que faço para ajudá-la. Quanto paga a ela?

— Dez dólares por hora.

— Dez dólares? Quer saber de uma coisa? — Ele olhou para mim. — Houve um tempo em que era dinheiro suficiente para alimentar a família durante uma semana.

— Houve muitos motivos para a inflação desde então — comentei.

— É mesmo? Você é um gênio econômico como Karl?

— Não, senhor. Apenas leio um pouco.

— Ela lê muito, papai — disse Thelma. — Lê mais do que eu.

— Lily gostava de ler.

O velho pensou por um momento. Depois, bateu com a mão no braço da poltrona, com toda força. Thelma e eu tivemos um sobressalto.

— Podem trazer essa mocinha bem-educada para me visitar com mais freqüência — declarou ele, levantando-se.

— Podemos ficar mais um pouco, papai — sugeriu Thelma.

— Mas eu não posso. Tenho de me encontrar com Charlie, Richard e Marty no Gordon's para nossa partida de pinochle.

Thelma olhou para Karl.

— Só viemos para apresentar Crystal e saber como você está, papai — declarou Karl, levantando-se também.

— Vou tão bem quanto posso com o que tenho — respondeu o velho, olhando para mim.

Todos nos levantamos.

— Foi um prazer conhecê-la — acrescentou ele.

O pai de Karl estendeu a mão e apertei-a. Ele tinha dedos compridos e ásperos, com unhas amareladas e grossas, dois anos além da época em que deveriam ter sido cortadas.

Na volta para casa, pensei no velho e na maneira como sempre imaginara que meus avós seriam. Nunca, em qualquer dos meus sonhos, projetara-me a apertar a mão deles. Pensava que me dariam abraços e beijos, exultariam por mim, como costumava acontecer nos filmes e livros. Talvez a mãe e o pai de Thelma fossem mais parecidos com o que eu imaginava, refleti.

E eram mesmo.

A mãe de Thelma era também uma mulher pequena, até menor do que a filha, muito magra, com pulsos tão finos que davam a impressão de que poderiam partir se ela levantasse uma xícara de café cheia. Mas tinha um sorriso largo e os olhos azul-esverdeados mais adoráveis que eu já vira. Mantinha os cabelos na cor grisalha natural, mas cortados e penteados com a maior elegância. O pai de Thelma também era alto e magro, mas muito mais efusivo do que o pai de Karl. Exigiram de imediato que eu os chamasse de vovô e vovó. Vovó me abraçou e beijou assim que fomos apresentadas.

— Fico muito feliz porque haverá alguém jovem nesta casa. Agora será um lar de verdade. Não deixe de mimar esta criança, Karl Morris — advertiu ela, sacudindo o indicador direito no rosto dele. — Nada de pensar como um contador em relação a Crystal. É o que os pais devem fazer.

Vovó sorriu e arrematou, como uma ameaça jovial:

— Se você não fizer, nós faremos.

Antes de irem embora, eles me deram vinte dólares. Vovó disse:

— Compre o que Karl não quiser que você tenha, o que ele acha que é um desperdício de dinheiro.

Ela riu e tornou a me beijar. Gostei muito de minha nova avó, já ansiosa pela próxima vez em que voltaria a vê-la.

Entre tudo o que acontecera desde que eu viera viver com Karl e Thelma, aquilo fora o melhor. Meus avós finalmente me fizeram sentir parte de uma família de verdade. A vida com Karl e Thelma começara de uma maneira tão formal e organizada que eu ainda tinha de pensar neles como pais. Karl era mais como um conselheiro, e Thelma vivia tão absorvida em seus livros e programas de televisão que eu me sentia mais como uma hóspede que ela convidara para partilhar suas fantasias.

Aguardava ansiosa pelo início das aulas, a possibilidade de formar novas amizades, o desafio de novas matérias e professores. Thelma levou-me para fazer a matrícula. Por causa da minha ficha, fui para uma tur-ma adiantada. Ela gabou-se disso durante todo o jantar naquela noite. Como sempre, no entanto, encontrou uma personagem da ficção para me comparar.

— A filha de Brenda em Tempestade no coração é igual a você, Crystal. Ela também é genial. Talvez se torne presidente do país algum dia.

— Como a filha de Brenda pode ser presidente algum dia, Thelma? — indagou Karl. — Ela não está num livro que você já leu?

— Mas tem uma continuação para sair, Karl — informou Thelma, sorrindo. — Há sempre uma continuação.

— Ah, sim... — murmurou ele, balançando a cabeça e olhando para mim.

— Só que Crystal é mais inteligente — garantiu Thelma. — Deveria ouvir algumas das coisas que ela diz, Karl. Pode prever o que vai acontecer em minhas novelas antes que aconteça.

— São bastante previsíveis — comentei.

— O que isso significa? — perguntou Thelma, batendo as pestanas.

— Significa que não são difíceis de decifrar — disse Karl. — São muito simples.

— Ahn... — Thelma soltou sua risada estridente. — São difíceis para mim.

Karl me lançou um olhar. Passamos a conversar sobre outra coisa. Senti-me mal com o incidente. Mais tarde, pedi desculpas.

— Não quis fazer troça de seus programas, Thelma.

— Fez troça deles? Não pensei assim. Como poderia zombar deles? São repletos de emoção e romance. Não gosta disso?

— Claro que gosto de boas histórias.

— Aí está. Eu sabia que você gostaria. Não se esqueça que amanhã saberemos sobre o ex-marido de November. Acha que ele ainda a ama?

— Não me lembro dele — admiti.

Ela fitou-me como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.

— Não pode ter esquecido de Edmond. Ele é bonito demais. Se batesse na porta da minha casa, eu desmaiaria.

Thelma arrematou o comentário com sua risada estridente. Especulei se todas as pessoas que assistiam novelas de televisão eram tão absorvidas e envolvidas quanto Thelma. Poucos dias depois, um dos seus personagens prediletos morreu, em Dias de sol. Entrei na sala no momento em que isso acontecia. Thelma desatou a chorar tão forte que fiquei assustada. Pôs-se a gritar para o aparelho de TV.

— Ele não pode estar morto! Não é possível! Como pode morrer? Por favor, não o deixe morrer! Oh, Crystal, ele está morto! Grant morreu! Como pode ter morrido?

— As pessoas morrem na vida real, mamãe. Portanto, algumas têm de morrer nas novelas, não é mesmo?

— Não, não é — insistiu Thelma, o rosto irradiando uma raiva que eu ainda não vira até então. — Não é justo. Eles nos fizeram amá-lo, e agora resolvem matá-lo. Não é justo!

Ela mergulhou numa profunda depressão. Nada que eu dissesse ou fizesse podia mudar seu ânimo. Ainda permanecia nesse estado quando Karl chegou em casa e sentamos para jantar. Ele perguntou por que Thelma se sentia tão triste. Ela explicou o que acontecera, para depois recomeçar a chorar. Karl olhou para mim. Baixei os olhos para o meu prato. Meu coração batia forte. Não sabia o que dizer.

— Está assustando sua filha — comentou Karl.

Thelma me fitou e fez um esforço para reprimir os soluços.

— Não tive a menor intenção de assustá-la, Crystal. Mas é tão triste...

— É apenas um programa, mamãe. Amanhã acontecerá alguma coisa nova. Tenho certeza de que se sentirá melhor.

— Tem razão. Vou me sentir melhor. Está vendo como ela é inteligente, Karl?

— Claro que sim — respondeu Karl. Terminamos o jantar. Mais tarde, encontrei Thelma em sua cadeira de balanço, olhando para o chão.

— Vou subir agora para ler e dormir, mamãe.

— Como? Ah, sim... Boa-noite, querida. Tenha bons pensamentos. Pobre Grant... Não pude deixar de lembrar como foi quando a mãe de Karl morreu.

Fiquei aturdida. Como a morte de uma pessoa real podia ser igual à morte de um personagem de novela?

— Ele é um ator, mamãe. Vai aparecer de novo, em outra novela.

— Quem?

— Grant.

— Não vai, não, sua boba. Grant não é um ator. Era uma pessoa que morreu. Não penso neles como atores. — Thelma voltou a se balançar, olhando para o chão. -Todos estarão muito tristes no capítulo de amanhã.

— Nesse caso, talvez seja melhor não assistir.

Ela levantou os olhos para fitar-me, aturdida, como se eu tivesse acabado de dizer uma blasfêmia.

— Tenho de assistir, Crystal. Eu me importo com todos eles. São meus amigos.

Thelma dava a impressão de que eles sabiam que ela os assistia e dependiam dela.

Tornou a olhar para o chão, em vez de me dar um beijo de boa-noite, como fizera desde o meu primeiro dia na casa. Subi apressada para dormir. Não sabia exatamente por que, mas senti alguma apreensão, pela primeira vez desde que viera morar aqui. Deitada na cama, tentei compreender o motivo para essa apreensão. Acho que tive medo de que minha nova mãe sempre se importaria mais com seus personagens do que comigo.

Eu encontrara um lar cheio de retratos da família, conversas sobre parentes, promessas de férias e viagens. Tinha avós, muito em breve começaria a estudar numa nova escola. Tinha meu próprio quarto, iniciara toda uma vida nova.

Mas, e se acordasse de manhã e descobrisse que alguém virara um botão e me fizera voltar ao orfanato?

 

                       Farinha do mesmo saco.

Dois dias antes das aulas começarem, eu estava sentada na varanda, lendo um livro. Thelma queria que eu assistisse Cuidados de emergência em sua companhia. Era uma nova série, ao final da manhã, sobre o pronto-socorro num hospital de cidade grande. Ela tentou me atrair com a promessa de que eu aprenderia muitas informações médicas.

— Se você quer ser médica um dia, Crystal — enfatizou ela — aprenderá muito com o programa.

— Aprenderei mais lendo.

Percebi que isso a deixava infeliz, mas senti que já tomara uma overdose de novelas e televisão em geral. No orfanato, se eu assistia a dois programas por semana era muito. Sabia que a maioria das outras crianças da minha idade me achava esquisita, porque eu preferia ler um livro ou trabalhar no computador a assistir seus programas noturnos prediletos. Mas eu era assim.

Além disso, o dia estava lindo. Não era admissível desperdiçá-lo dentro de casa, com o brilho da tela da televisão em meus olhos. Aquela era a minha época predileta do ano. O verão se aproximava rápido do fim, o ar já transmitia a sensação dos iminentes dias frios do outono. Parecia mais claro, com uma fragrância mais viçosa. Sem a umidade e as temperaturas elevadas, eu me sentia mais vigorosa. Até me sentia irrequieta, sentada ali, lendo.

— Oi — disse alguém.

Levantei os olhos para me deparar com uma garota mais ou menos da minha idade, cabelos louros da cor de girassóis, parada no portão. Usava um short largo e uma camiseta com meias-luas impressas. Dois brincos de prata compridos, com pedras azuis e verdes, pendiam de suas orelhas.

— Eu moro ali — disse ela, apontando para uma casa no outro lado da rua.

-Oi.

Tentei me lembrar se já a vira antes na vizinhança.

— Acaba de se mudar para a casa de Karl e Thelma, certo? Já me contaram — ela falou antes que eu pudesse responder. Jogou alguns fios de cabelos para trás, por cima do ombro, como se estivesse se descartando de um papel de bala. — Meu nome é Helga. Acho que vamos ser colegas de turma. Vai para a décima, não é?

— Isso mesmo. Sou Crystal.

— Helga e Crystal. Vão pensar que somos irmãs. Ela soltou uma risadinha. Apoiou todo o peso do corpo na perna direita. Do lugar em que eu sentava, parecia que Helga se encostava num muro imaginário.

— O que você está lendo, Crystal?

— O senhor das moscas. Está incluído no curso de literatura inglesa este ano.

— Como sabe?

— Perguntei quando fiz a matrícula. Deram-me a lista dos livros.

Helga fez uma careta, transferiu o peso para a perna esquerda, de novo para a direita. Mais tarde, eu descobriria que ela tinha o hábito de fazer isso quando se sentia confusa ou aborrecida.

— Já está fazendo os deveres da escola?

— Por que não? — Dei de ombros. — Gosto de me antecipar.

— Deve ser uma boa aluna — murmurou ela, recostando-se no portão, com uma cara desapontada.

— Você não é?

Foi a vez de Helga dar de ombros.

— Quase todas as minhas notas são C, de vez em quando tenho um B. Desde que não tire nenhum D e F, meus pais não me chateiam. Morava com alguma outra família no ano passado?

— Não.

Ela me fitou atentamente, como se estivesse tomando coragem para fazer outra pergunta.

— Eu vivia num orfanato — expliquei.

— Ah... Tinha irmãos ou irmãs que teve de deixar para trás? Ou que foram adotados por outras famílias?

— Não, mas já vi isso acontecer... e não é nada agradável.

Helga sorriu.

— Espero que não se incomode por eu ser bisbilhoteira. Minha mãe diz que é uma característica da família. Assim que ouvimos ou vemos alguma coisa que não é da nossa conta, ficamos na ponta dos pés e esticamos o ouvido. Ela diz que nossa família serviu de inspiração para os primeiros espiões.

Soltei uma risada.

— Quer dar uma volta, Crystal? Posso lhe mostrar o que tem por aqui.

— Boa idéia.

Levantei-me. Hesitei por um instante, olhando para a porta.

— Qual é o problema? — perguntou ela.

— Devo avisar à minha mãe?

— Sua mãe? Quer dizer que você tem de comunicar quando entra ou sai?

— Não.

— Então, por que se preocupar? Só vamos dar uma volta pela rua.

Acenei com a cabeça. Já que não esperava me ausentar por muito tempo, decidi não interrompê-la enquanto assistia sua novela.

Só quando me aproximei de Helga é que percebi que ela era pelo menos dez centímetros mais alta do que eu. Tinha pequenas sardas nas faces. Parecia que alguém as pintara ali com uma caneta esferográfica de tinta marrom-claro.

— São bem grossas as lentes dos seus óculos — comentou ela.

— Tenho astigmatismo.

— Seus óculos são horríveis. Deve ir comigo ao shopping center um dia desses para comprar uma armação mais bonita. Talvez possa também arrumar óculos escuros de grau. Vai ficar mais atraente.

— Não uso óculos pela aparência, mas sim para me ajudar a ver e a ler.

Helga riu.

— Claro... até que alguém como Tom McNamara apareça em seu caminho. Ele é lindo, mas está no último ano. Provavelmente nem vai olhar para nós. E por acaso ele é também o capitão do time de futebol americano.

— Provavelmente eu não me interessaria mesmo por ele.

Ela parou de andar.

— Tenho certeza que não. — Helga deslocou o peso do corpo de uma perna para outra. — Tinha um namorado no orfanato?

— Não. Nunca tive um namorado de verdade. Ela me fitou nos olhos por um longo momento, depois recomeçou a andar.

— Eu também não. Fingi gostar de Jack Martin um ano, só para dar a impressão de que tinha um namorado. Mas nunca o beijei... e quando ele tentou me beijar, virei a cabeça. Assim, o beijo foi no rosto, como um tio ou alguém parecido. Está vendo aquela casa enorme?

Helga fez uma pausa, apontando.

— Clara Seymour mora ali. Ela também vai fazer o último ano e deve ser a rainha do baile de formatura. O pai dela é médico do coração, cárdio... alguma coisa.

— Cardiologista.

— Acho que é isso. — Ela inclinou a cabeça para o lado, fitou-me com os olhos contraídos. — Você é inteligente.

— Estou pensando em me tornar médica também.

— Médica? Custa muito caro, pelo que me disseram.

— Espero conseguir uma bolsa de estudos.

— Pois eu me sentirei muito contente só de tirar o diploma do secundário. Não tenho a menor idéia do que farei. Pensei em me tornar uma atriz, mas nem sequer consegui entrar na peça da escola.

— O que gosta de fazer?

— Ir a festas e assistir televisão. — Ela soltou uma risada. Depois, parou de repente e segurou meu braço. — Ei! Tome cuidado com o cachorro naquela casa. A velha Potter mora ali. Tem um Rotweiller para sua proteção. No ano passado ele mordeu um entregador. Deu a maior confusão, com a polícia e todo o resto.

— Pode ter certeza de que me manterei a distância daquele jardim. — Não pude deixar de rir. — Obrigada pelo conselho.

— Se virar à direita na esquina e percorrer dois quarteirões, vai encontrar a Quick Shop, onde poderá comprar revistas, chicletes e outras coisas. Não estamos longe da escola, apenas uns três quilômetros. Vai pegar o ônibus?

— Acho que sim. Não creio que Karl queira me levar de carro todos os dias, ainda mais se tem um ônibus.

— Você o chama de Karl?

— Neste momento, sim — respondi, desviando os olhos.

— Mas chama Thelma de mamãe?

— Ela quis assim desde o início. Mas quer saber de uma coisa? Você tem razão.

— Em quê?

— É mesmo intrometida. Helga riu.

— Venha comigo. Vou apresentá-la a Bernie Felder. Tenho o pressentimento de que os dois vão se dar muito bem. Ele também é um gênio.

— Não sou um gênio.

— Ou alguma coisa parecida.

Ela acelerou os passos, seguindo para outra casa em estilo de rancho, com uma fachada de alvenaria. Era uma casa mais luxuosa. Tinha um jardim mais requintado do que a maioria, com quase o dobro do tamanho da casa de Karl e Thelma.

— O que os pais de Bernie fazem?

— O pai tem uma grande loja de pneus que atende a caminhões. Bernie é filho único, como você.

— E você?

— Tenho-um irmão menor que ignoro. Meus pais lhe deram o nome de William, mas só chamam de Buster.

— Buster?

— Quando o conhecer, vai compreender por quê.

Ele é mesmo um buster, alguém que vive quebrando coisas. Mas vamos até lá.

Helga foi direto para a porta da frente.

— Talvez devêssemos telefonar primeiro — murmurei.

Mas ela tocou a campainha.

— Prefiro ser inesperada. É mais divertido.

Uma criada abriu a porta. Helga pediu para falar com Bernie. Poucos momentos depois, um menino mais ou menos da minha altura, com cabelos ruivos despenteados e olhos verde-claros, apareceu na porta. Usava uma camiseta que parecia ser um número duas vezes maior do que o dele, jeans e tênis sem meias. O rosto era pálido, com lábios vermelhos polpudos e queixo com uma fenda.

— Oi, Bernie — disse Helga. Ele fez uma careta.

— O que você quer?

— Isso não é uma maneira muito simpática de receber as pessoas.

— Eu estava fazendo uma coisa — murmurou ele, como uma desculpa.

— Não está fazendo bombas, não é? — Helga olhou para mim. — Minha mãe sempre diz que Bernie é bem capaz de fazer bombas.

Quando ela se virou para mim, Bernie finalmente me percebeu. O rosto se encheu de interesse.

— Quem é essa?

— Nossa nova vizinha, Bernie. Se não tivesse rosnado para mim, eu já a teria apresentado.

— Desculpe. — Ele olhou para mim. — Olá.

— Olá. Lamento se o interrompemos, mas...

— Não tem problema. Bernie parecia embaraçado.

— Claro que não tem problema — declarou Helga.

- O que Bernie podia estar fazendo que não devesse ser interrompido?

— O que quer que fosse, era importante para ele — comentei, secamente.

Helga sorriu, enquanto o rosto de Bernie se desanuviava.

— Acaba de se mudar para cá?

— Se não passasse o tempo todo com o nariz num tubo de ensaio, Bernie, já teria sabido. O nome dela é Crystal. Foi adotada pelos Morris.

— É mesmo?

Os lábios de Bernie se contraíram, enquanto ele me fitava com um interesse ainda maior.

— Ela era órfã.

Helga recuou um passo para me olhar. Os dois me fitaram em silêncio por um longo momento.

— Eu era apenas uma órfã, não uma extraterrestre. Bernie sorriu.

— Ela gosta de ler e é muito inteligente — continuou Helga. — Talvez até mais do que você, Bernie. Foi por isso que achei que deveriam se conhecer.

— Jura? — murmurou ele, com interesse crescente.

— A idéia foi dela. Sinto muito por termos incomodado.

Comecei a me virar.

— Ei, não foi nada! Vamos entrar.

— Bernie está nos convidando para entrar. — Helga franziu as sobrancelhas. — Vai nos mostrar seu laboratório?

— Não tenho nenhum laboratório.

Bernie falou em tom ríspido. Helga riu. Ele olhou Para mim.

— Helga e seus amigos estão sempre inventando estórias a meu respeito.

— Não inventamos nada, Bernie. E se o fizéssemos, você deveria se sentir honrado por falarmos a seu respeito.

— Que honra...

Bernie deu um passo para trás. Com um gesto enfático, Helga determinou que eu entrasse atrás dela. Foi o que fiz.

Compreendi no mesmo instante que os pais de Bernie tinham muito dinheiro. Havia quadros por todas as paredes, as salas eram enormes, com móveis que pareciam muito caros. No corredor para o quarto dele havia uma cristaleira com estatuetas. Todos os assoalhos eram cobertos por um carpete tão macio que experimentei a sensação de andar sobre marshmallow.

O quarto de Bernie era duas vezes maior do que o meu, talvez três. Ele tinha uma escrivaninha grande, um computador e todos os tipos de acessórios. Reconheci um scanner e duas impressoras. Ele tinha até seu próprio aparelho de fax. Uma parede era coberta por gráficos, que incluíam a anatomia do corpo humano, uma relação de planetas e algumas galáxias, uma cronologia da evolução, e um sumário histórico dos presidentes e vice-presidentes americanos, com uma relação dos principais eventos durante os seus mandatos.

À direita havia prateleiras que continham um microscópio, slides, balanças e até um bico Bunsen. Vi material de química e várias prateleiras com livros de referências. O que ele não tinha?

— Está vendo? — disse Helga. — Ele tem um laboratório em seu quarto.

— Não é um laboratório. Tenho apenas algumas coisas para aprofundar meus interesses — protestou Bernie, na defensiva. — Quero um dia me dedicar à pesquisa genética.

— Nem sei o que isso significa — comentou Helga.

Ele franziu o rosto e sacudiu a cabeça. Apontou para uma coisa que parecia um Tinker Toy e me perguntou:

— Sabe o que é aquilo?

— Sei, sim. É um modelo de DNA.

— Exatamente!

O rosto de Bernie se tornou mais animado do que em qualquer outro momento desde que nos conhecêramos.

— O que é um DNA? — perguntou Helga.

— Tem a ver com a genética — respondeu Bernie.

— Quer dar uma olhada nisto? Eu mesmo montei.

Adiantei-me, enquanto Helga indagava:

— Não tem um CD ou algo parecido por aqui, Bernie?

— Não.

— Como ouve música?

— Pelo computador, quando quero. Bernie virou as costas a Helga.

— É como estar de volta à escola — queixou-se ela.

— Não tem nenhum cartaz de filme, nem de astro do rock, apenas essas coisas... essas coisas educativas.

— É muito bom — comentei, acenando com a cabeça para o modelo.

Ele ficou radiante de orgulho.

— Vamos embora, Crystal — disse Helga. — Vou lhe mostrar o resto da vizinhança. Talvez Fern Peabody esteja em casa. Ela anda de namoro firme com Gary Lakewood. Sempre tem boas histórias para contar.

— Tenho também alguns slides interessantes — informou Bernie, ignorando-a. — Recebi ontem. São de embriões humanos.

— Jura? — murmurei.

— Essa não! — exclamou Helga. — Eles fedem?

— Claro que não — respondeu Bernie, ríspido. — Você devia prestar mais atenção às aulas de ciências.

— Isto aqui está muito chato. — Helga fez uma pausa, antes de ameaçar: — Vou embora.

Bernie pôs a mão no microscópio e olhou para mim.

— Mas eu vou ficar.

Sabia que deveria sair com ela, para conhecer mais gente da rua. Só que os projetos de Bernie me fascinavam demais.

— Eu já sabia — declarou Helga. — Farinha do mesmo saco. Falarei com você mais tarde.

Ela me lançou um olhar contrariado, antes de sair do quarto. Bernie sorriu. Depois levou o microscópio para a mesa e se apressou em arrumar tudo.

— Sente-se aqui — disse ele, indicando sua cadeira. Bernie punha os slides no microscópio, falando a respeito de cada um, enquanto eu olhava. Era como estar numa aula, mas eu não me importava. Já conhecia alguma coisa, mas não a maioria. Bernie se sentia tão entusiasmado por ter uma audiência que não parava de falar. Pegou até mais slides. Fiquei tão absorvida que nem percebi a passagem do tempo, até olhar para o relógio na mesinha-de-cabeceira.

— Oh, não! — exclamei. — É melhor eu voltar para casa agora. Não avisei à minha mãe que ia sair. Não pensei que podia demorar tanto. Já passaram dez minutos do início do jantar.

— Está bem. — O desapontamento de Bernie era evidente. Ele também olhou para o relógio. — Não janto numa hora determinada. Como quando tenho fome.

— E seus pais?

— Em geral eles saem ou jantam em horários diferentes.

— Nunca jantam juntos?

— Às vezes — respondeu ele, enquanto guardava seus slides.

— Obrigada por me mostrar tudo — murmurei, quando me encaminhava para a porta.

— Não foi nada.

Ele me acompanhou pelo corredor.

— Talvez eu torne a vê-lo — comentei, virando-me para fitá-lo, antes de sair.

— Está bem. Quando quiser.

— Obrigada. Comecei a me afastar.

— Ahn... Parei.

— O que é?

— Esqueci uma coisa. Qual é mesmo o seu nome?

— Crystal.

— O meu é Bernie.

Tive vontade de dizer: "Sei disso. Lembro seu nome. Como eu podia esquecê-lo?" Mas ele fechou a porta antes que eu pudesse acrescentar qualquer palavra.

Segui apressada pela calçada. Ao chegar em casa, vi que meu livro não estava mais no braço da cadeira. Senti um pequeno pânico, porque compreendi que Thelma viera me procurar. Acelerei os passos e entrei em casa quase correndo.

— Pronto! — exclamou Karl, ao ouvir a porta fechar e saindo da sala de estar. — Ela voltou e está bem.

Avistei Thelma, com os olhos injetados, o rosto pálido. Segurava a saia e torcia o pano na maior ansiedade.

— Oh, Crystal! Tive certeza de que alguma coisa terrível havia acontecido com você. Quando saí para chamá-la na hora do jantar e encontrei apenas seu livro...

— Desculpe — murmurei para os dois. — Uma garota veio até a porta para se apresentar. Saímos para dar uma volta e demorou mais tempo do que eu pensava. Paramos para visitar Bernie Felder e...

— Quando vi o livro e a cadeira vazia — continuou Thelma, sem escutar minha explicação —, só pude pensar em Coração vazio, de Amanda Glass. É a história de uma menina que foi seqüestrada e criada por outra família. Há uma cena igualzinha. Encontram o livro dela na grama, ao lado de sua cadeirinha. Só depois de se tornar uma moça é que ela volta para os pais verdadeiros.

Fiquei olhando para Thelma sem dizer nada.

— Mas Crystal não foi seqüestrada — interveio Karl, calmamente. — Portanto, Thelma, tire todo esse horror de sua mente.

Ele virou-se para mim.

— Na próxima vez, Crystal, avise-nos para onde vai, por favor.

— Desculpe. Não pensei que demoraria tanto. Fiquei absorvida demais nos slides de Bernie Felder. Nunca vi tantas coisas na casa de uma pessoa e...

— Está tudo bem. O jantar atrasou um pouco, mas não tem problema. Vamos esquecer, Thelma, certo? — Karl olhou para o relógio. — Não há sentido em desperdiçar mais tempo com isso.

— Tem razão. — Thelma respirou fundo. — Está certo.

Ela sorriu e acrescentou, como se eu tivesse me ausentado por séculos:

— Apenas estou feliz porque você voltou. Foi isso o que a mãe disse em Coração vazio.

Thelma me abraçou como se tivesse medo de que eu pudesse desaparecer se me largasse. Senti-me muito confusa. Claro que ficava feliz por alguém se importar tanto comigo, por alguém se mostrar tão triste e transtornada com o medo de que eu tivesse ido embora. E, no entanto, não podia deixar de especular. Quando Thelma me fitava, a quem ela realmente via? Eu ou a garota em Coração vazio?

 

                   Escolha do elenco

Thelma sentiu-se melhor ao jantar depois que começou a me falar sobre uma novela da televisão. Como ainda me sentia culpada pelo que fizera, fingi me interessar pela história e os personagens. Mas me parecia um absurdo que pessoas entrassem e saíssem daqueles casos de amor ardente com tanta facilidade, que as pessoas se traíssem mutuamente apesar de se conhecerem e confiarem umas nas outras há muito tempo, e que os filhos pudessem desprezar tanto seus pais. Para Thelma, no entanto, o que acontecia nas novelas era como o evangelho. A impressão era a de que alguns profetas bíblicos escreviam os roteiros.

Até certo ponto, eu não podia culpá-la. A maioria dos galãs tinha uma aparência divina, perfeita. As mulheres eram atraentes até mesmo quando acordavam pela manhã. Quando perguntei, na maior inocência, se devíamos acreditar que iam dormir maquiladas, Thelma respondeu que as mulheres tão lindas sempre dão a impressão de que usam maquilagem.

— Jamais conheci uma mulher tão bonita — comentei.

Thelma riu de uma maneira que me fez sentir como uma desinformada.

— Por isso é que são minhas pessoas especiais, Crystal. Entende agora por que gosto de assistir as minhas novelas?

Não há mal nenhum em assisti-las, pensei, desde que nos lembremos de que a vida não é realmente como uma novela. Nossas vidas não são repletas de eventos dramáticos, as pessoas quase nunca se sentem tão apaixonadas por qualquer coisa como acontece a todo instante na telinha.

— O que aconteceu entre Nevada e Johnny Lee afetou meu coração! — exclamou ela, quase ao final do jantar.

Thelma sorriu, as lágrimas preenchendo os sulcos em torno de seus olhos. Depois, ela olhou para Karl e se inclinou para pegar sua mão.

Karl me fitou quando ela pôs a mão sobre a dele. Parecia constrangido, mas não a deteve, nem retirou a mão. Não pude deixar de pensar no tipo de vida amorosa que meus novos pais partilhavam. Em todos os retratos dos dois na casa, eles pareciam muito formais. Karl sempre numa pose empertigada e rígida, Thelma sempre dando a impressão de que tinha medo de cometer um terrível erro social.

Mais tarde, ainda naquela noite, descobri que tipo de vida romântica eles tinham. Subi para me deitar antes dos dois, como sempre. Quando os deixei na sala de estar, Karl lia Business Weekly, enquanto Thelma assistia ao vídeo que fizera do capítulo de uma novela, perdido por causa de uma consulta com o dentista. Terminei de ler meu livro. Sentia-me um pouco cansada. Mais uma vez, pedi desculpas a Thelma pelo susto que lhe dera. Prometi que nunca mais faria aquilo.

— Você é maravilhosa por dizer isso, querida. Karl e eu tivemos certeza, desde o momento em que a vimos pela primeira vez, de que era uma moça responsável e que coisas assim não aconteceriam com freqüência, se é que poderiam acontecer. Tudo já foi perdoado.

Ela falou com um inesperado ar teatral, alteando a voz, os braços estendidos para o ar num gesto dramático. Até mesmo Karl baixou a revista e fitou-a com preocupação por um momento.

Thelma virou os braços para mim. Avancei para que ela pudesse me abraçar, embalando-me para a frente e para trás, enquanto dizia, como se recitasse uma canção monótona:

— Devemos ser boas uma com a outra, gentis, atenciosas e afetuosas. Você tem sofrido demais, querida, e minha vida foi vazia sem a sua presença. O amor que temos uma pela outra é quase sagrado. Sempre, mas sempre mesmo, devemos ter um lugar em sua vida. Promete, Crystal? Promete?

— Prometo.

Eu não sabia direito o que estava prometendo. Ela soltou um suspiro profundo, embora continuasse a me abraçar.

— Thelma — interveio Karl, com extrema gentileza —, a criança está cansada e quer ir para a cama.

— É verdade, para a cama. Boa-noite, querida. Boa-noite, boa-noite, boa noite.

Ela entoou as palavras em meu ouvido, beijou-me no topo da cabeça.

— Boa-noite para vocês também.

Subi em seguida. Seria mesmo possível, especulei, que Thelma precisasse de mim mais do que eu precisava dela? Ninguém jamais me abraçara assim, muito menos por tanto tempo. Embora as mulheres que trabalhavam nos orfanatos me beijassem de vez em quando, seus beijos não passavam de um rápido estalar dos lábios, quase como um afago nas faces ou na testa. Eu não sentia nada, nem amor, nem uma profunda preocupação. A verdade é que Thelma, apesar de todos os seus defeitos, fazia-me sentir amada. O que podia ser mais importante do que isso?

Eu acabara de fechar os olhos e puxara o cobertor até o queixo quando ouvi passos suaves no corredor. E de repente, numa voz que quase não reconheci, ouvi Thelma falar. Foi desconcertante. Tive de sentar na cama para escutar melhor.

— Johnny Lee, perdoe-me, por favor — murmurou ela. — Não me odeie, por favor.

A princípio, pensei que ela estivesse apenas repetindo as falas que mais gostara da novela que acabara de assistir. Mas depois ouvi Karl responder:

— Eu não a odeio. Nunca poderia odiá-la, Nevada.

— Quero me entregar a você, Johnny Lee. Quero me entregar a você como nunca me entreguei a mais ninguém.

— Sei disso. E também a quero, Nevada.

Houve um momento de silêncio, depois os passos continuaram. Fui até a porta e a entreabri para espiar. Os dois estavam parados no corredor, beijando-se na boca. Fiquei hipnotizada. Karl enfiou a mão esquerda sob a blusa de Thelma.

— Não! — murmurou ela, recuando.

— Por que não?

— Não acontece assim. Não há nada até ela começar a chorar.

Karl retirou a mão de dentro da blusa, baixou-a para o quadril de Thelma.

— Está bem, está bem. Eu tinha esquecido.

— Vai estragar tudo.

— Já disse que eu tinha esquecido.

— Comece de novo.

— Por quê?

— Tem de começar tudo desde o início.

— Isso é bobagem, Thelma.

— Não me chame de Thelma! Está estragando tudo!

— Calma, calma... Desculpe. Vou recomeçar. Karl recuou um passo. Fechei a porta sem fazer barulho, para que nenhum dos dois me visse espionando. Mas meu coração batia tão forte que tive medo que escutassem o barulho. Continuei a escutar.

Karl atravessou o corredor e fechou uma porta. Tornou a abri-la e chamou:

— Nevada!

Entreabri a porta outra vez. Thelma estava parada no meio do corredor, agora de costas para mim. Virou-se devagar, com uma expressão muito diferente. Dava a impressão de que se encontrava num palco.

— Johnny Lee!

Ela passou a mão pelas faces. Percebi que derramava lágrimas de verdade.

— Por favor, perdoe-me, por favor. Não me odeie.

— Não a odeio. Nunca poderia odiá-la, Nevada.

— Quero me entregar a você, Johnny Lee. Quero me entregar a você como nunca me entreguei a mais ninguém.

— Sei disso. E também a quero, Nevada.

Karl repetia suas falas como fizera antes. Adiantou-se e os dois se abraçaram, mas não se beijaram. Desta vez ele manteve as mãos nos quadris de Thelma. Ela começou a chorar, o corpo todo tremendo. Karl abraçou-a e apertou-a contra seu peito, beijando-a nos cabelos e faces. Depois de um momento, ele levantou o rosto de Thelma com extrema gentileza, para beijá-la nos lábios.

Em seguida, Karl tornou a enfiar a mão por baixo da blusa, levantou-a para o seio. Thelma gemeu.

— Será diferente esta noite, Johnny Lee? Será uma viagem à lua e de volta?

— Como eu prometi...

Karl estendeu o braço direito em torno da cintura de Thelma, seguiram para o quarto. Ela encostou a cabeça no ombro dele enquanto andavam. Continuei a observar até que entraram no quarto e fecharam a porta.

Não queria mais ouvi-los, mas a curiosidade, foi como um ímã me atraindo para a parede entre os dois quartos. As vozes soaram abafadas, assim como os soluços de Thelma. Encostei o ouvido na parede e fechei os olhos.

— Oh, Johnny Lee, quero que me acaricie por todo o corpo desta vez. Faça o que prometeu que faria. Faça meu corpo cantar.

— É o que farei.

Eles pararam de falar, mas pude ouvir com toda nitidez o barulho das molas da cama. Os gemidos de Thelma foram se tornando cada vez mais altos e mais longos. A combinação de gemidos e gritos me deixou ainda mais curiosa. O ato de amor era agradável, além de doloroso? Por que Karl não gritava também?

Finalmente, depois de um grito mais alto e prolongado, houve silêncio. Prestei atenção por mais algum tempo, antes de voltar para a minha cama. Era assim que costumava acontecer? Eu conhecia todos os detalhes científicos. Podia descrever os hormônios, o movimento do sangue, até mesmo os impulsos nervosos, mas as emoções eram desconcertantes. Sexo era uma coisa, mas sexo com amor deveria ser outra diferente.

Subitamente, ouvi a porta ser aberta e mais alguns sussurros. Saí da cama e voltei à porta do meu quarto.

— Boa-noite. A despedida é um doce pesar...

Os dois riram. Divisei Karl no corredor, olhando para seu quarto. Estava vestido. Soprou um beijo.

— Eu gostaria que você pudesse ficar — murmurou Thelma.

— Eu também gostaria.

— Algum dia...

— Isso mesmo, algum dia.

Karl virou-se. Recuei um passo, enquanto ele passava pela porta do meu quarto. Ouvi Thelma fechar sua porta.

Eu gostaria que você pudesse ficar? Para onde ele ia? O que aquilo significava?

Houve silêncio por um longo momento. Depois, ouvi de novo os passos de Karl no corredor, pesados, bem altos, como se fosse proposital. Tornei a entreabrir a porta e observei-o se encaminhar para seu quarto. Ele abriu a porta e disse:

— Ainda está acordada, Thelma?

— Não conseguia dormir. Decidi ler um pouco, mas agora me sinto cansada.

— Ainda bem. Já é hora de dormir.

Ele entrou no quarto e fechou a porta. Fui encostar o ouvido na parede. Ouvi a água na pia do banheiro, a descarga do vaso. Nenhum dos dois falou por um longo tempo. O silêncio foi rompido por Karl:

— Boa-noite, Thelma.

— Boa-noite, Karl.

O silêncio voltou a reinar. Fui para a cama, mas não dormi durante algum tempo. Como os adultos podiam se comportar como crianças, empenhando-se em jogos e fingindo? Como seria o amor para mim, se algum dia me acontecesse? Que tipo de homem me acharia atraente? Ou será que nenhum homem me acharia atraente e eu seria forçada também a imaginar uma vida?

Como eu gostaria de ter uma irmã mais velha ou uma amiga íntima, alguém a quem pudesse confidenciar sem medo, a quem pudesse revelar meus segredos mais profundos... Eis o que era maravilhoso em ter uma família, pensei. Quando se tinha uma família, não era preciso manter todos os sentimentos desconcertantes e todos os medos em ebulição dentro de uma panela fechada. As pessoas podiam ajudar umas às outras, evitar o medo.

Não era a coisa mais importante?

Claro que na manhã seguinte eu não disse nada sobre o que vira e ouvira Thelma e Karl fazerem na noite anterior. De qualquer forma, sentia-me culpada por espioná-los. Karl fizera planos de voltar do trabalho mais cedo, a fim de poder sair com Thelma e comigo para comprar as coisas de que eu precisaria no início das aulas no dia seguinte. A princípio, ele apenas diria a Thelma quais eram os melhores lugares. Mas ela se queixou que era uma atividade de família e por isso ele deveria participar. Karl pensou um pouco a respeito e concordou.

— Vocês devem me perdoar — disse ele. — Não estou acostumado a pensar como pai. Claro que estarei aqui. Claro que quero participar de tudo que é importante.

Sei que ele tentou relaxar, fazer com que parecesse divertido, mas não era de sua natureza considerar compras algo menos que um projeto muito sério. Thelma fizera uma lista de roupas, enquanto eu preparara a lista de material escolar. Karl pegou nossas listas e pesquisou tudo. Sabia exatamente onde encontraríamos o melhor preço para cada item. Cores, modas e estilos tinham um significado secundário. Nossas compras foram planejadas com a maior eficiência, até onde jantaríamos e mesmo qual seria o melhor preço da comida.

— Uma família é, na verdade, um pequeno empreendimento — explicou Karl, enquanto comíamos —, um empreendimento comercial, uma sociedade. Quanto mais for planejado, melhor será.

— Karl até planejou nosso casamento e a lua-de-mel, a fim de aproveitar algumas ofertas especiais — anunciou Thelma, orgulhosa. — Não é mesmo, Karl?

— É, sim. Foi na baixa temporada, depois do feriado do Dia do Trabalho, no início de setembro, terminadas as férias escolares. A melhor ocasião para se negociar bons preços.

— Mas era um lugar para onde queriam ir? — perguntei.

— Se o preço é bom, então é o lugar certo — respondeu Karl. — As pessoas pagam mais pelas coisas que querem e precisam porque não fazem a pesquisa e o planejamento necessários.

— Karl até já comprou nossas sepulturas e pagou nosso funeral. Tratou disso pouco depois do casamento.

— Tão cedo assim? — indaguei, inocente.

— É uma grande sujeira deixar as providências finais para pessoas da família. Deve-se cuidar de tudo enquanto ainda se está vivo. Não tenha medo de planejar tudo, Crystal. Nunca permita que alguém a intimide, querendo fazer com que pense que está sendo prática demais. Nunca se pode ser prático demais.

Os pais de Thelma haviam-nos pedido que passássemos por sua casa depois que terminássemos as compras para a escola. Disseram que tinham uma coisa que queriam me dar. Ao seguirmos para lá, Karl lembrou a Thelma quanto tempo deveríamos ficar.

Meus novos avós tinham uma casa em estilo de rancho, pequena mas aconchegante. Thelma comentou que Karl descobrira a casa para eles pouco depois da aposentadoria de seu pai.

— Cabia no novo orçamento deles perfeitamente — comentou Karl, com o maior orgulho. — É outra coisa em que nunca é cedo demais pensar: sua aposentadoria. A maioria das pessoas não economiza o suficiente e sofre por causa disso.

— Mas não é o nosso caso — declarou Thelma.

— Não, não é o nosso caso — concordou Karl, com um sorriso.

O que meus avós tinham para mim era uma mala de couro marrom, com meu nome gravado em letras douradas no lado de fora. Fiquei mais satisfeita com a mala do que com qualquer outra coisa que ganhara naquele dia.

— Não havia necessidade de comprar uma mala de couro verdadeiro, Martha — comentou Karl para minha avó.

— Claro que havia — respondeu ela, sorrindo para mim. — Por que Crystal não deveria ter as coisas mais bonitas?

Tomamos chá. Vovó serviu seus biscoitos de açúcar, que achei deliciosos. Ela contou histórias sobre seus dias de estudante. Cursara uma pequena escola rural. Tinha de andar mais de dois quilômetros para chegar à escola.

— Até mesmo na neve!

— Até mesmo na neve, porque não tínhamos ônibus escolares como vocês têm agora.

Vovô tentou contar histórias similares, mas ela o corrigia a todo instante, insistindo que ele exagerava. Os dois eram simpáticos e engraçados. Eu começava a me divertir quando Karl anunciou que tínhamos de ir para casa.

— Amanhã é o primeiro dia de aula de Crystal na nova escola — declarou ele, quando minha avó se queixou de que a visita ainda não durara uma hora. — Ela precisa dormir cedo.

— Telefone para mim assim que puder depois das aulas, Crystal, e me conte como foi seu primeiro dia — pediu minha avó.

— Claro. Muito obrigada pela mala. Vovó me abraçou.

— O prazer é nosso. Não temos muito em que gastar nosso dinheiro hoje em dia, a não ser em remédios e coisas assim.

— Vocês têm o melhor plano de assistência médica — disse Karl.

— Não quero falar sobre isso — respondeu vovó. — Agora que temos uma neta, não quero mais falar sobre minhas doenças.

Demos boa-noite e nos retiramos.

— Se não tivessem o plano que providenciei — murmurou Karl, quando entramos no carro —, ela não teria mais como pagar os remédios para o coração. São caros demais.

— Ela sabe disso — garantiu Thelma. — Apenas está excitada com Crystal. Como todos nós. Gostaria de poder ir à escola com você amanhã, Crystal. Seria maravilhoso começar tudo de novo.

— Não é fácil trocar de escola — lembrou Karl. — Não há nada para invejar.

— Eu sei. Já leu Amor sobre rodas, a história daquela família que vive num trailer e tem de ir de uma cidade para outra, acompanhando as ofertas de emprego para os trabalhadores rurais itinerantes?

— Não, mamãe.

— No momento em que encontra o amor de sua vida, Stacy tem de deixá-lo. Vou lhe dar o livro. Por falar nisso, você deveria ler todos os meus livros. Assim poderíamos conversar a respeito, falar sobre todas as minhas pessoas especiais. Não seria sensacional?

Não respondi com a presteza devida.

— Ela terá muito para fazer agora que as aulas vão começar — disse Karl, vindo em meu socorro.

— Mas ela terá tempo de folga, não é mesmo? — insistiu Thelma. — Que melhor maneira pode haver de aproveitá-lo do que lendo?

Era muito engraçado, pensei. Eu teria deveres na escola e deveres em casa. Não tinha a menor dúvida sobre que deveres minha mãe considerava mais importantes.

Depois que cheguei em casa e guardei todas as minhas novas coisas, compreendi que Karl tinha razão. Eu precisava mesmo me deitar. Sentia-me tão nervosa com o dia seguinte e o que me traria que tive dificuldade para dormir. E Karl também estava certo em outra coisa. Não era fácil mudar de escola, fazer novas amizades, me acostumar a diferentes professores e normas.

Era quase como perder a memória e começar tudo de novo como uma pessoa diferente.

E não era exatamente isso o que eu me tornara, uma nova pessoa, com um novo sobrenome e uma nova família?

Meu antigo eu encolhia-se em algum canto escuro, trêmulo, desamparado e sozinho.

"O que vai acontecer comigo?", perguntou aquela outra garota.

"Com o passar do tempo, você acabará desaparecendo", respondi.

Era um pensamento cruel, mas era o que eu esperava que acontecesse, não é mesmo?

Era também o que me fazia encolher em meu novo canto do mundo, tão desamparada e assustada.

 

                       Um novo amigo

Para minha surpresa, Karl decidiu que me levaria para a escola todas as manhãs. Mas eu teria de voltar de ônibus. Nada disso era problema, pois ele só precisava fazer um desvio de poucos minutos do percurso para o trabalho. Foi Thelma quem fez a sugestão.

— Assim vocês dois terão mais tempo para se conhecerem — explicou ela.

Fiquei esperando que ela acrescentasse o nome de um livro e os nomes de personagens numa situação similar, mas isso não aconteceu. Karl pensou um pouco e concluiu que ela estava certa.

Karl e eu não havíamos passado muito tempo juntos sem a presença de Thelma. Era sempre ela quem iniciava as conversas ou fazia as perguntas. Quando Karl e eu partimos, naquela primeira manhã, lembrei que ele não gostava de ter sua atenção desviada da direção. Por isso, não falei nada. Seguimos em silêncio total, interrompido de vez em quando por suas explicações sobre o percurso.

— Qual é a sua matéria predileta? — perguntou ele finalmente.

— Ciências, especialmente biologia.

Karl acenou com a cabeça, os olhos fixados no carro à nossa frente.

— Eu também gostava de ciências, mas matemática sempre foi a minha matéria predileta. Nunca contei a ninguém... — Ele fez uma pausa, oferecendo-me um pequeno sorriso, antes de tornar a virar a cabeça para se concentrar na rua. — mas para mim os números são coisas vivas. Parecem animais uni-, bi- e multicelulares, dependendo das combinações, fórmulas, e assim por diante.

— É interessante...

Fiquei contente. Conversar com ele reduzia um pouco o meu nervosismo. Mantinha-me distraída o suficiente para não me preocupar com a entrada iminente numa nova escola, cheia de estranhos.

— Tenho a sensação de que estou criando alguma coisa quando trabalho com minhas contas e balanços. Tudo tem um jeito de se relacionar com todo o resto. Aposto que você pode compreender o que estou dizendo.

— Acho que sim.

Mas eu não tinha certeza se entendia mesmo. Karl me ofereceu um sorriso ainda maior.

— Quando tentávamos fazer um bebê, eu acalentava a esperança de que ele ou ela crescesse para se tornar alguém com quem eu poderia conversar, alguém que fosse bastante inteligente para me compreender. Foi por isso que me senti tão feliz quando Thelma disse que também gostou de você. A maioria das crianças não tem nada dentro da cabeça hoje em dia. — A expressão de Karl tornou-se sombria. — Não levam a vida a sério até que é quase tarde demais... ou, em muitos casos, quando já é tarde demais. Não conte a Thelma que eu disse isso, mas acho ótimo que você não queira passar todo o seu tempo livre olhando para uma lâmpada.

— Como assim?

— A televisão não passa disso para mim, uma lâmpada com cenas idiotas na superfície. Não gosto sequer da maneira como eles dão as notícias. Mais parece uma revista de histórias em quadrinhos.

Surpreendi-me pela veemência com que ele condenava a televisão. Podia imaginá-lo entrando à força nas casas de outras pessoas e quebrando seus aparelhos de TV com uma marreta. Mas quando chegava em sua própria casa, no entanto, não fazia nada, apenas sentava em silêncio, lendo suas revistas, enquanto Thelma assistia televisão, fascinada.

— Thelma adora seus programas — comentei.

— Tem razão. — Karl fez uma pausa, antes de acrescentar, com um sorriso: — E aprecio a maneira como você é indulgente com isso.

— Ela sempre passou tanto tempo assistindo televisão?

Karl permaneceu calado, concentrado em guiar. Paramos num sinal de trânsito. Ele respirou fundo.

— Thelma não contou tudo sobre a tentativa de ter nosso próprio filho — confessou ele. — Tentamos inclusive a fertilização in vitro. Sabe o que é isso?

— Sei. Tirar um óvulo de uma mulher, inserir nele um espermatozóide numa placa de Petri, e colocar de volta no útero da mulher.

— Você é mesmo inteligente. Não deu certo. Ela abortou. Ficou deprimida depois. Muito deprimida. — Karl alteou as sobrancelhas, alargando os olhos. — Foi nessa ocasião que começou a assistir televisão desse jeito. Envolver-se com as histórias era a única coisa que a deixava animada. Eu não podia me opor.

Ele fez uma pausa, depois me lançou um rápido olhar.

— Não queria lhe dizer isso tão cedo, mas você é a minha grande esperança.

— Eu? Como assim?

— Espero que ela se torne tão envolvida com você e com as coisas da vida real que comece a se afastar do mundo do faz-de-conta. Prendi a respiração quando você entrou em nossa casa, esperando para verificar se seria atraída também para aquelas novelas de televisão. Não imagina como fiquei contente ao descobrir que você não sentia o menor fascínio por elas.

— Gosto de uma boa história.

— E quem não gosta? Mas não podem se tornar toda a sua vida. Só acontece com as pessoas que não têm nada na cabeça. Você não é uma delas. É uma moça séria e objetiva. Vai ser alguém na vida. Quero estar presente quando lhe entregarem o primeiro diploma.

Não pude deixar de sorrir. Karl já se mostrava orgulhoso, mas eu ainda não fizera nada. De qualquer maneira, era a primeira vez que ele me tratava como um pai de verdade.

— Também espero que você esteja lá — murmurei. Karl relaxou um pouco. Já não apertava o volante com tanta força. Não restava a menor dúvida de que começávamos a nos conhecer melhor. Thelma fizera uma boa sugestão.

— Vou lhe contar outro segredo, Crystal. Até vejo as pessoas em termos de números.

— De que maneira?

— É fácil. — Ele fez uma pausa, como se não fosse dizer mais nada, mas os lábios tornaram a se contrair num pequeno sorriso. — Algumas pessoas são números positivos, muitas são números negativos. Nunca ouviu alguém dizer: "Ele é um zero total"? É assim que agrupo as pessoas em minha mente. Só que também tenho categorias no negativo.

Karl soltou uma risada, antes de acrescentar:

— Meu superior imediato é um menos dez. Já foi um menos cinco, mas piorou.

— Já ouvi falar de mulheres sendo classificadas assim. Uma mulher bonita é nota dez.

— Isso acontece, mas é um uso estúpido dos números. — Ele falou furioso, como se os números fossem de sua exclusiva competência, e ninguém mais tivesse o direito de usá-los. — O que acontece aqui dentro é que conta.

Enquanto falava, Karl bateu com o indicador na têmpora, com tanta força que devia ter doído. Depois ele sorriu e acrescentou:

— Conta, entende? Acenei com a cabeça.

— Lá está! — exclamou ele.

Avistei a escola mais adiante. Ônibus parados desembarcavam passageiros. Velhos amigos se abraçavam e conversavam excitados. Todos tinham a aparência de primeiro dia de aula, a imagem limpa e arrumada que os pais deviam ter imposto.

— Sabe qual é o número do ônibus que a levará para casa? — perguntou Karl.

— Sei, sim.

— Tenha um bom primeiro dia de aula.

Ele parou o carro. Fitou-me como se quisesse me dar um beijo de despedida. Esperei um momento, na expectativa, mas Karl apenas sorriu e acenou com a cabeça, remexendo-se no banco, como se estivesse contrafeito. Ainda orbitávamos em torno um do outro como estranhos, esperando por alguma coisa que nos faria pai e filha de fato. Por que era muito mais difícil para mim do que para todos aqueles jovens rir e gritar na frente da escola? Que coisas maravilhosas eles haviam feito para merecer suas famílias, suas mães e seus pais? E que coisa terrível eu fizera para nascer sozinha?

— Tchau... — murmurei.

Saltei do carro. Virei-me para acenar, mas Karl já se afastava, a atenção concentrada na rua à sua frente.

Os primeiros dias de aula sempre proporcionavam uma sensação especial. As carteiras, quadros-negros, corredores, banheiros, janelas e assoalhos exibiam uma limpeza impecável. Ainda se podia sentir o cheiro de detergentes, cera, limpador de vidros e tinta fresca. Vozes, passos e campainhas tinham ecos mais profundos e mais prolongados. Havia um clima de expectativa no ar, assim como algum mistério. O que exigiriam de nós? Será que nos daríamos bem com os novos professores? E até que ponto nos ajustaríamos uns aos outros? Os que já estudavam aqui antes observavam uns aos outros, querendo descobrir que mudanças um verão de diversão ou trabalho, se não as duas coisas, promovera em seus corpos, rostos e, acima de tudo, personalidades.

Rapazes e moças exploravam novas modas, usavam os cabelos de uma maneira diferente, vestiam-se com mais maturidade. Os mais inseguros se mantinham apartados, em segundo plano, fora do fluxo direto de conversas e atenções, enquanto os confiantes desfilavam de cabeça erguida, procurando reconquistar logo seu território, olhando cada possível rival com desconfiança.

Os novos alunos eram interessantes, mas também ameaçadores. Eu quase que podia ouvir a suspeita quando olhavam para mim. A garota que esperava conquistar o papel principal na peça da escola especulava se eu tentaria lhe roubar o brilho. Os primeiros da turma, ansiosos por medalhas e prêmios, pensavam se eu não seria uma nova rival. As garotas que eram líderes de seus pequenos grupos temiam que eu pudesse ser mais sofisticada e arrebatar suas fiéis seguidoras. As moças e até os rapazes que se encontravam à margem do círculo de vida social esperavam que eu pudesse ser igual, uma amiga, uma bóia em que pudessem se segurar no mar agitado que os adultos chamam de adolescência.

Eu estava aqui. Desembarcara num porto seguro, vivia agora com uma família. Ninguém podia mais afixar o rótulo de órfã em minha testa, como a marca de Caim, e me fazer sentir tão diferente que via a curiosidade e rejeição nos olhos dos que deveriam ser amigos. Ou pelo menos era o que eu esperava.

No instante em que avistei Helga, conversando e rindo com um grupo de garotas, perto do banheiro, senti um presságio sinistro envolvendo meu coração. Ela me viu e cutucou alguém. Todas se calaram, olhando para mim.

— Oi! — gritou Helga, acenando para que eu me aproximasse.

-Oi.

— Você não pegou o ônibus esta manhã. Fiquei sem saber se continuava ou não a morar com Karl e Thelma.

— Por que eu teria ido embora?

Ela olhou para as amigas, depois para mim, deu de ombros.

— Apenas pensei... — Helga deslocou o peso do corpo de uma perna para outra, e tornou a sorrir. — Apresentei Crystal a Bernie Felder. Fomos até a casa dele. Crystal não queria sair. Quanto tempo ficou lá?

— Um pouco.

Então era isso, pensei. Estava sendo punida por não fazer exatamente o que ela queria, por desafiá-la e ficar com Bernie.

— Crystal também é um gênio — acrescentou ela, os lábios contraídos numa expressão desdenhosa.

— Estou longe de ser um gênio, mas sou bem-educada. — Olhei para as outras. — Meu nome é Crystal Morris.

Elas me fitaram, imóveis por um instante. Depois, uma morena baixa, com um rosto que parecia de boneca, as feições pequenas e perfeitas, estendeu a mão.

— Sou Alicia.

— E eu sou Mona — disse outra garota, com um rosto mais arredondado, cabelos castanhos-claros e lisos, olhos castanhos, os dedos curtos e grossos.

— Meu nome é Rachael Peterson. — Ela era quase tão alta quanto Helga. Falou num tom formal, sem estender a mão. Mas olhou para a minha mala. — É de couro de verdade?

— É, sim.

— Muito bonita.

— Obrigada. Meus avós me deram.

— Avós? Como pode ter avós? — perguntou Helga.

— Os pais de Thelma são meus avós — expliquei, sarcástica. — É assim que funciona.

— Como veio para a escola esta manhã? — indagou Helga, ignorando meu sarcasmo. — Não veio com Bernie, não é?

— Karl me trouxe, a caminho do trabalho. Vai me trazer todas as manhãs, mas terei de voltar de ônibus.

— Estou vendo que ainda o chama de Karl. Helga olhou para as amigas, com um sorriso irônico.

— Não tive tanta sorte quanto vocês. Não nasci numa família.

As sobrancelhas de Alicia se altearam. Os olhos de Mona se encheram de confusão.

— Eu disse que ela era muito inteligente — comentou Helga.

Alicia e Mona acenaram com a cabeça, mas Rachael continuou a me fitar com uma expressão firme.

— Não é preciso muita inteligência para saber que não se deve dizer coisas que vão embaraçar uma aluna nova e estranha na escola. De um modo geral, isso indica uma certa carência.

Virei-me e segui para a minha sala de aula, no momento em que a campainha tocava.

Bernie Felder estava na minha sala. Inclinou a cabeça quando me viu, os olhos amigáveis ao perceber minha aflição por ser nova e insegura. Mas ele não sentou perto de mim. Foi ocupar a última carteira na primeira fila, como se aquele lugar tivesse ficado à sua espera durante todo o verão. O professor parecia não se importar onde os alunos sentavam. Por isso, sentei na frente e abri minha mala.

Havia mais alunos na sala do que o normal naquele primeiro dia, para que as normas da escola pudessem ser explicadas a todos. A maioria dos alunos não prestou muita atenção. Até mesmo o professor parecia entediado com aquela exigência burocrática. Mostrou-se aliviado quando soou a campainha encerrando a primeira hora de aula.

Fiz alguns amigos durante aquele dia: uma dupla de gêmeas ruivas, Rea e Zoe, que me explicaram que seus pais haviam escolhido nomes com o mesmo número de letras; uma garota preta corpulenta, chamada Haley Thomas; e um garoto alto e muito magro, Randal Wolfe, que era o campeão de xadrez da escola. Havia uma garota chamada Ashley, sempre em segundo plano, tímida demais para dizer qualquer coisa. As gêmeas usavam vestidos iguais, tinham os cabelos cortados e penteados da mesma maneira. Contaram que gostavam de brincar com as outras pessoas, até mesmo com os professores, passando uma pela outra, de vez em quando.

— E quando casarmos, faremos a mesma coisa com nossos maridos — comentou Rea, rindo.

Sentamos à mesma mesa e almoçamos juntos. Procurei por Bernie, mas não o avistei no refeitório. Mais tarde, quando o encontrei no corredor, perguntei onde estivera. Ele parecia embaraçado e bastante nervoso por eu detê-lo para conversar. Seus olhos se deslocaram de um lado para outro, depois se fixaram no chão, quando ele respondeu:

— Almocei no laboratório de biologia. O sr Eried-man deixa. Faço meus trabalhos e às vezes o ajudo a montar os equipamentos para as aulas. Ele também permite que eu realize minhas experiências de vez em quando, em geral depois das aulas. — Bernie levantou os olhos. — Como foi seu primeiro dia até agora?

— Foi bem. Gostei muito do professor de inglês e do nosso professor de matemática.

Bernie e eu estávamos na mesma turma de matemática.

— O sr. Albert é o melhor da escola em geometria. Temos sorte. Preciso ir para o ginásio agora — disse ele, já se afastando. — Estou sempre atrasado para a aula de ginástica.

Observei-o se afastar apressado pelo corredor, depois entrei na biblioteca para meu período de estudo. Não tornei a vê-lo até o final das aulas, quando peguei o ônibus. Helga sentava na frente com Alicia. Sorriu para mim.

— Bernie está lá atrás — disse ela.

— Você não é nada engraçada.

Ela riu, apesar do meu comentário. Fui para o fundo do ônibus, passando por Ashley, sentada sozinha. Ela me fitou, como se quisesse me pedir para sentar ao seu lado. Bernie levantou os olhos para mim, logo tornou a baixá-los para o livro em seu colo. Sentei no banco ao lado e olhei pela janela.

— Sua amiga Helga tem dito coisas a nosso respeito — murmurou ele.

Virei-me para fitá-lo.

— O que você disse?

— Alguns dos caras em minha aula de ginástica falaram de nós.

— Primeiro, ela não é minha amiga. Falei com ela pela primeira vez no dia em que o conheci. E segundo, acho que nunca poderia ser amiga de Helga. Ela não é nada simpática.

Bernie não mexeu os lábios, mas seus olhos sorriram.

— Não podia imaginar como você era capaz de ser amiga dela — comentou ele, para depois voltar a se concentrar no livro.

Viajamos em silêncio até nossa rua. Minha parada era antes da dele. Despedi-me de Bernie. Ele acenou com a cabeça e olhou para o livro. Helga já saltara. Esperava por mim na calçada.

— Não estou querendo ser mesquinha — disse ela. — Apenas brincava com você. Gostaria que fôssemos amigas.

— Por quê? — perguntei.

— Por quê?

— Isso mesmo, por que quer ser minha amiga?

— Não sei. Por que uma pessoa se torna amiga de outra?

— Em geral porque têm alguma coisa em comum, gostam das mesmas coisas, querem fazer as mesmas coisas.

— O que isso significa?

— Quando você pensar em alguma coisa que nós duas poderíamos gostar de fazer juntas, pode me avisar.

Tratei de me afastar. Talvez estivesse sendo inflexível; talvez apenas não confiasse nela. Qualquer que fosse a razão, senti-me bem pelo que fizera.

Ouvi o som da TV quando entrei na casa. Sabia que novela Thelma estava assistindo, até que ponto era importante para ela. Mas lembrei o que Karl me dissera pela manhã, o quanto ele esperava que eu ajudasse a trazer Thelma de volta à realidade.

— Oi — falei, ao entrar na sala.

— Oi, Crystal. Quero ouvir tudo sobre o seu primeiro dia. Espere só um instante. Já vai haver um imtervalo para os comerciais.

— Vou trocar de roupa primeiro.

Ela acenou com a cabeça, já concentrada outra vez na tela. Quando voltei, a televisão estava desligada. Thelma sentava-se em silêncio na cadeira de balanço. Olhava para o chão, balançando um pouco para a frente e para trás.

— Mamãe?

Ela levantou o rosto, os olhos vazios por um momento, acendendo-os em seguida como dois pequenos lampiões.

— Oh, Crystal, estou atordoada. No final do capítulo, Brock disse à mãe que é gay... e durante todo esse tempo pensei que ele era apaixonado por Megan. Falo sério. Nunca imaginei. — Ela sacudiu a cabeça. — O que a mãe dela vai dizer?

— Ahn... não sei... — Sem saber como responder, decidi falar sobre o meu dia. — Gostei da minha nova escola.

— Como? Ah, sim, a nova escola. Como foi seu primeiro dia?

— Foi bom. Gostei da maioria dos meus professores.

— Fez amizade com alguém? — perguntou ela, como se isso fosse o maior motivo para ir à escola.

— Fiz, sim. Almocei com irmãs gêmeas.

— Gêmeas?

— Isso mesmo. Rea e Zoe. São muito simpáticas.

— Rea? Onde foi que já ouvi esse nome? Rea... Ah, sim. Os filhos de ontem. Rea era a irmã perdida de Lindsey.

— Esta Rea é real, mamãe. Posso telefonar e falar com ela. Posso ir a lugares com ela. Posso estudar com ela. Posso tocá-la. É uma pessoa real.

Thelma fitou-me como se eu tivesse perdido o juízo.

— Isso é ótimo, querida. É melhor eu aprontar o jantar agora. Não quer arrumar a mesa?

— Claro — respondi, frustrada.

Quando Karl chegou em casa, fez-me muito mais perguntas sobre a escola. Na verdade, tivemos uma das nossas conversas mais longas desde a minha chegada. De vez em quando olhávamos para Thelma, que se limitava a sorrir.

— É muito agradável ter conversas de família reais à mesa do jantar — comentou ela finalmente.

Karl ficou radiante e piscou para mim. A sensação que eu tive foi a de que éramos companheiros numa conspiração. O telefone tocou logo depois do jantar. Karl atendeu e me chamou.

— É para você.

— Isso é ótimo — disse Thelma. — Ela está fazendo amizades depressa.

Eu não imaginava quem poderia ser. Só esperava que não fosse Helga.

— Alô? — murmurei, hesitante.

— Recebi novos slides hoje, cortes transversais de tecido do coração humano. Achei que você poderia estar interessada — disse Bernie, sem sequer se preocupar com qualquer cumprimento.

— Claro que estou interessada.

— Pode vir até aqui?

— Agora?

Ele não disse nada.

— Acho que sim.

Tapei o bocal com a mão e falei com Karl e Thelma, explicando o que Bernie tinha para me mostrar.

— Contanto que você não fique fora até muito tarde — disse Karl.

Thelma limitou-se a sorrir. Falei para Bernie:

— Estarei aí assim que terminar de ajudar a tirar a mesa e lavar a louça.

Ele desligou sem se despedir.

— Não precisa me ajudar — declarou Thelma. — Não tem muita coisa para fazer. Pode ir.

— Tem certeza, mamãe?

— Claro.

Fui para o meu quarto e peguei um casaco. Quando saí, Thelma estava na porta.

— Vai até lá para olhar cortes transversais de um coração humano? — perguntou ela.

— Foi o que Bernie disse. Ela balançou a cabeça.

— Tenho certeza de que é interessante. Ele é um rapaz bonito?

— É simpático, mas estou realmente mais interessada nos slides.

Thelma inclinou a cabeça, como um cachorrinho quando ouve um som totalmente desconcertante. Mas depois ela sorriu, até soltou uma risada, e comentou:

— Não seria sensacional se você pudesse ver também o amor num microscópio? Neste caso, saberíamos se uma pessoa estava mesmo doente do coração. — Thelma deu outra risada. — Divirta-se, Crystal.

Ela voltou à cozinha. Sacudi a cabeça e ri também. Seria sensacional se pudéssemos ver sentimentos e saber se eram sinceros e verdadeiros.

Todos saberiam então se eu estava realmente mais interessada nos slides.

 

                         Meu tutor.

Dernie abriu a porta. A casa estava escura e silenciosa.

— É a noite de folga da empregada — murmurou ele, dando um passo para o lado.

— Onde estão seus pais? — perguntei ao entrar. Depois de viver toda a minha vida em orfanatos e agora com Thelma, que mantinha a televisão ligada da maneira como algumas pessoas ficam com as luzes acesas, parecia estranho entrar numa casa tão silenciosa.

— Saíram. Foram a uma reunião, um jantar, ou qualquer coisa parecida. Deixaram os telefones na cozinha, mas nem olhei. Vamos.

Ele seguiu na frente pelo corredor até seu quarto. Já montara o microscópio e deixara os slides ao lado. Havia ali também uma réplica de plástico do coração humano.

— Estas células são do músculo cardíaco. Bernie deu uma olhada no microscópio. Ainda não me fitara diretamente. Fui para o seu lado e esperei até que ele saiu do microscópio e me disse:

— Dê uma olhada.

Sentei e olhei. Tive de ajustar o foco de acordo com a minha vista. A imagem logo se tornou clara. Fiquei espantada com os detalhes.

— Isto veio com os slides.

Bernie passou a ler uma folha do material impresso:

— Estudamos transplantes cardíacos e corações autopsiados de pacientes com deficiência cardíaca congestiva crônica, causada por uma cardiomiopatia dilatada ou doença cardíaca isquêmica, em comparação com corações normais. Nos corações de controle, as células endoteliais raramente eram positivas para PALE. Em corações de pacientes com cardiomiopatias isquêmicas, havia manchas nítidas com esse contraste.

Ele fez uma pausa e continuou:

— Conclusões: Uma alteração fenotípica na expressão endotelial antígena da microvascularidade coronariana ocorre tanto nos corações isquêmicos quanto nos corações com cardiomiopatias dilatadas, conforme revelado pelo PAL-E, em comparação com os corações de controle. A mudança pode estar relacionada com mecanismos de compensação na deficiência cardíaca crônica prolongada.

Bernie largou o papel como se eu tivesse compreendido uma parte ou tudo. Sacudi a cabeça.

— Onde conseguiu tudo isso?

— Um amigo de meu pai trabalha num laboratório de pesquisa cardiovascular em Minnesota. Foi ele quem me mandou. Meu pai diz a todo mundo que sou uma espécie de gênio científico. As pessoas me mandam coisas. — Ele olhou para o papel. — Isso é pesquisa séria.

— Deixe-me dar uma olhada.

Bernie me entregou o papel. Reli a maior parte do que ele já lera em voz alta.

— Não tenho a menor possibilidade de compreender. — Balancei a cabeça. — É como se estivesse escrito numa língua que desconheço. Sei o que algumas palavras significam, é claro, mas tudo junto desse jeito... Acho que descobriram uma maneira de diagnosticar um problema cardíaco.

— Certo.

Bernie parecia aliviado por eu não saber muito mais do que ele. Tornei a olhar para a célula no microscópio.

— É fascinante pensar que isto já foi parte de um ser humano — comentei.

— Não lhe mostrei nem a metade antes. Tenho células de todos os tipos de órgãos humanos.

Havia um intenso excitamento em sua voz. Ele foi até seu pequeno arquivo e abriu uma gaveta. Começou a ler as etiquetas:

— Fígado, rim, pulmões, ovários, próstata, até mesmo algumas células do cérebro.

Era quase como se eu tivesse ido fazer compras numa loja de departamentos, à procura de células, e ele fosse o vendedor. Não pude deixar de sorrir.

— O que é tão engraçado? — perguntou ele.

— Não foi nada. — Não queria que Bernie se sentisse embaraçado. — Apenas acho curioso ver alguém com tudo isso em seu quarto.

Ele fechou a gaveta.

— Pensei que ficaria interessada e até excitada.

— E estou, Bernie, juro que estou.

Ele me fitou de lado, os olhos contraídos em suspeita.

— Falo sério, Bernie. Sinto muito se dei outra impressão.

Depois de um momento de hesitação, ele tornou a abrir a gaveta.

— Quer ver mais alguma coisa?

— Eu gostaria de ver uma célula do cérebro.

Bernie a trouxe e ajeitou o slide no microscópio. Depois recuou para que eu pudesse olhar.

— Já deve saber que há cerca de dez bilhões dessas células em seu cérebro — disse ele, enquanto eu estudava a célula. — O cérebro controla cada função vital de nossos corpos. Controla até nossas emoções, como ódio, raiva e amor.

Desta vez soltei uma risada.

— O que foi?

— Minha mãe, Thelma, perguntou se podíamos ver o amor numa célula do coração.

— É uma antiga crença medieval, a de que o amor se concentra no coração. Já falei. Está tudo no cérebro. E não se pode ver os sentimentos.

— Sei disso. Foi apenas uma idéia absurda.

— Tem razão, é mesmo absurda. — Ele começou a guardar os slides. — Já sabe o que quer ser?

— Talvez médica. Também gosto de escrever. Posso até me tornar uma professora.

Como Bernie fizesse uma careta, resolvi perguntar:

— Você não gostaria de ser um professor?

— Claro que não. — Ele tornou a me fitar. — Não suportaria as garotas soltando risadinhas e os atletas com todos os seus problemas.

— Mas bons professores são importantes.

— É uma coisa que não me interessa. Quero fazer pesquisa pura, em vez de aturar idiotas.

— Mas por que fazer pesquisa se não se importa com as pessoas?

— Eu me importo. Apenas não quero ser... interrompido e chateado.

— Nem todos os alunos serão irritantes. Ele me fitou nos olhos.

— Você gosta de argumentar, não é?

— Não, mas não me importo de ter uma discussão.

Bernie finalmente sorriu, uma pequena contração nos cantos dos lábios, um brilho um pouco mais intenso nos olhos verdes.

— Está com fome?

— Não. Acabei de jantar, lembra? Você não jantou?

— Não. Fiquei tão absorvido em meus novos slides que esqueci. A empregada deixou comida para esquentar. Quer me ver comer?

— É tão divertido quanto olhar para seus slides? Ele riu.

— É a primeira garota que já conheci com quem posso conversar com a maior facilidade.

— Acho que devo agradecer.

— Vamos.

Segui-o para a cozinha. Era três vezes maior do que a nossa e tinha eletrodomésticos que davam a impressão de pertencer a uma estação espacial.

— O que é aquilo? — perguntei, apontando para um aparelho em cima do balcão.

— Aquilo? Um aparelho de cappuccino. Minha mãe gosta de tomar um cappuccino depois do jantar. Sempre que janta em casa. — Ele abriu uma enorme geladeira e tirou um prato coberto. — Lasanha. Só preciso pôr no microondas por dois minutos.

Observei-o fazer isso.

— Quer beber alguma coisa? — indagou ele. — Limonada, chá gelado, refrigerante, leite, cerveja?

— Cerveja?

— Nunca tomou? — perguntou Bernie, cético.

— Nunca. Vou beber a mesma coisa que você. Ele nos serviu chá gelado. Já havia um lugar posto para ele à mesa da sala de jantar. Era uma mesa grande, oval, de carvalho escuro, os pés grossos. Havia uma dúzia de cadeiras de braços ao redor. Por cima havia um lustre grande, pendendo de uma corrente dourada. Por trás de nós, a parede era toda espelhada. Na parede do outro lado havia um armário grande, também em carvalho escuro, com pratos e copos que pareciam muito caros. Bernie trouxe a comida e ajeitou na mesa.

— Nossa empregada é uma boa cozinheira. Se não fosse por isso, eu passaria fome.

— Sua mãe não cozinha?

— Minha mãe? Ela não é capaz de ferver água sem queimar.

— Não se pode queimar água.

— É uma piada. Ou pelo menos deveria ser.

— Com que freqüência você come sozinho desse jeito?

Ele pensou um pouco, como se fosse uma pergunta de resposta difícil.

— Em média, eu diria que quatro vezes por semana.

— Quatro?

— Eu disse em média. O que significa que há semanas em que janto sozinho mais vezes.

— Você deveria virar um professor. Gosta de ressaltar as coisas... e aposto que adora corrigir as pessoas.

Bernie me fitou em silêncio por um momento, depois sorriu.

— Quer fazer nosso dever de matemática depois que eu jantar?

— Fiz antes do meu jantar.

— E eu fiz no ônibus.

— Então por que perguntou? Ele deu de ombros.

— Pensei em ajudá-la.

— Talvez eu é que o ajudasse. Bernie riu de novo. Depois se tornou sério, os olhos pequenos fixados em mim com a maior intensidade. Tinha um jeito de olhar como se as pessoas estivessem sob um microscópio. Deixou-me um pouco constrangida.

— O que é, Bernie?

— Pensava no que devia ser para você a vida num orfanato.

— Lá vamos nós outra vez — murmurei.

— Como assim?

— É o que todos querem saber.

— Eu estava apenas curioso, de um ponto de vista científico.

— Quer mesmo saber? Pois vou lhe contar. Foi muito difícil. Eu tinha a impressão de que não era ninguém. Sentia-me em suspenso, à espera do início da minha vida. Todos sentem inveja de qualquer coisa afortunada que acontece com qualquer outro. Conselheiros, assistentes sociais, os adultos que aparecem para escolher uma criança, todos nos fazem sentir como se estivéssemos...

— Sob um microscópio?

— Exatamente. E não é nada agradável. Você tem medo de fazer amizade com alguém, porque a outra criança pode ir embora a qualquer momento.

— E seus pais verdadeiros?

— O que tem eles?

— Por que a deixaram no orfanato?

— Eu era filha ilegítima, e minha mãe estava doente demais para cuidar de mim. Não sei quem é meu pai... e não me importo.

— Por que não?

— Não porque não — respondi, sentindo as lágrimas ardendo sob as minhas pálpebras. — Portanto, para responder à pergunta dele, não era nada agradável.

Concluí num tom muito mais ríspido do que ten-cionava. Bernie não estremeceu, não desviou os olhos. Apenas acenou com a cabeça.

— Eu compreendo.

— Compreende mesmo? Não sei como poderia, a menos que seja órfão também.

Meu ânimo agora não era dos mais generosos. Bernie correu os olhos pela sala, antes de me fitar.

— Acontece que também sou órfão — disse ele, indiferente, como se fosse um fato óbvio. — Um órfão com pais. Sempre foi assim. Minha mãe me trata como se eu fosse alguma espécie de criatura espacial. Teve uma gravidez difícil, e precisou fazer uma cesariana. Sabe o que é isso, não é?

— Claro.

— Por isso, ela não teve mais filhos. Se pudesse, provavelmente teria me abortado. Uma ocasião, quando estava zangada comigo por algum motivo, disse isso.

— Que coisa terrível... — murmurei, balançando a cabeça.

— Meu pai sente-se desapontado por eu não ser um atleta. Tenta me levar para a loja dele, quer me pôr para trabalhar com seus mecânicos, para fortalecer meu corpo... ou, como ele diz, fortalecer meu caráter. Acha que o caráter vem do suor.

Bernie largou o garfo no prato, com um estrépito que me causou um sobressalto.

— Desculpe, Crystal. Sei que você não quer ouvir esse lixo.

— Não tem problema. Apenas fiquei surpresa.

— Você se sente surpresa? Pode então imaginar como eu fico espantado. — Ele empurrou sua cadeira para longe da mesa. — Deixam-me sozinho e compram tudo o que peço. Quer saber o que eu penso?

Os olhos de Bernie começavam a ficar turvos com as lágrimas.

— Acho que minha própria mãe tem medo de mim. Detesta entrar no meu quarto. Diz que não suporta olhar para os espécimes que guardo nos potes, que o fedor é grande. Meu quarto fede?

— Não — respondi, com sinceridade.

— Ela só se interessa em me comprar as roupas mais elegantes. É praticamente a única ocasião em que saio com ela.

Baixei os olhos. Era estranho ouvir alguém com pais parecer mais infeliz do que eu sem eles. Talvez Bernie tivesse razão; talvez houvesse mais órfãos no mundo do que eu podia imaginar.

— Alguma vez teve um namorado no orfanato? — perguntou ele.

Levantei os olhos e sacudi a cabeça.

— Todo mundo quer saber isso também. Até mesmo Thelma me fez essa pergunta.

— Apenas queria saber que tipos de garotos você gosta.

— Gosto dos que são honestos, inteligentes e preocupados com os sentimentos de outra pessoa tanto quanto com os seus próprios.

— E a aparência?

— Ajuda se não tiverem uma verruga na ponta do nariz ou um olho no meio da testa.

Bernie soltou uma risada.

— Acho você simpática e agradável, muito mais do que a maioria das garotas que conheço e que não são órfãs. Deve ter bons genes. E sua mãe devia ser simpática também.

Desviei os olhos.

— De que ela morreu? — Como eu não respondesse, Bernie acrescentou: — Qual era a doença dela?

— Era maníaco-depressiva. — Levantei-me. — Morreu num hospital mental. Eu agradeceria se não contasse a ninguém. Portanto, meus genes não são tão bons assim, no final das contas. Tenho de ir agora. Disse a eles que não demoraria.

— Desculpe. Não tive a intenção...

— Não tem importância. Obrigada por me mostrar seus slides.

Encaminhei-me para a porta. Bernie foi atrás de mim. Pegou meu braço para me deter, antes que eu abrisse a porta.

— Desculpe — murmurou ele. — Não tinha a intenção de fazer tantas perguntas pessoais.

— Não tem problema. Preciso aprender a lidar com isso. Apenas tenho medo, mais nada... medo de me tornar como ela.

— Isso não vai acontecer.

— Não? E sua convicção sobre os genes?

— Você tem também os genes de seu pai.

— Ele era pior — comentei, sem entrar em detalhes.

— Tem avós. Há muitas combinações e influências sobre quem somos.

— E quando descobrimos? — indaguei, sentindo as lágrimas borbulhando contra as pálpebras.

— Descobrimos o quê?

— Quem somos.

— Estamos sempre fazendo descobertas a respeito. Abri a porta.

— Mais uma coisa... — disse Bernie, saindo comigo.

— O que é?

— Obrigado por ter vindo.

Ele inclinou-se antes que eu pudesse reagir e deu-me um beijo no rosto.

— Por que fez isso? Bernie deu de ombros.

— Por causa dos meus genes, eu acho.

Ele riu, enquanto recuava para dentro da casa e fechava a porta. Continuei parada ali por um momento, com a mão no rosto, no ponto em que ele beijara. Acontecera depressa, muito depressa. Sentia-me desapontada.

88

Era a primeira vez que um garoto fazia aquilo comigo, pensei, enquanto voltava para casa. Tentei compreender a emoção que fazia meu coração bater forte e deixava o rosto quente. Havia um fluxo de sensações em meu corpo, uma corrente que se irradiava em ondas das pernas, passava pela barriga, envolvia o coração, enviando pontadas elétricas até as extremidades dos dedos. Aquilo era amor... meu primeiro amor?

Meus olhos só viam os olhos verdes de Bernie. Seu sorriso se ajustava como uma luva sobre o meu. Meu cérebro de dez bilhões de células era um caleidoscópio de emoções. Sentia pena por ele viver como um órfão naquela casa enorme, bonita e luxuosa. Tinha vontade de voltar para lhe fazer companhia. Queria abraçá-lo, dizer como podia superar a solidão, uma solidão tão intensa que nem mesmo todo o dinheiro do mundo, comprando todas as coisas que ele quisesse, seria capaz de impedir a dor profunda de seu coração. Tinha vontade de beijá-lo no rosto... e depois queria que nossos lábios se encontrassem.

Queria mais ainda... e o que queria me assustava.

Fechei os olhos, mas tratei de acelerar os passos. Quando tornei a abri-los, estava parada na frente da minha nova casa.

Desatei a rir.

Era engraçado. Quando saíra, Thelma me perguntara se eu podia ver o amor sob um microscópio.

Talvez eu pudesse.

 

                   Vendo estrelas

Pegar no sono foi mais difícil do que nunca depois que voltei da casa de Bernie. Thelma me manteve ocupada com sua conversa sobre um novo seriado em horário noturno, que assistira pela primeira vez. Descreveu todo o episódio inicial em detalhes, inclusive os cenários e os personagens principais. Minha mente vagueava mesmo enquanto ela falava. Podia ouvir sua voz monótona, observava o rosto animado passar por todas as emoções, com um suspiro aqui, uma risada ali, desmanchando-se em sorrisos e lágrimas, antes de terminar com uma declaração:

— É o melhor programa em horário noturno a que já assisti.

Prometi assistir com ela na próxima vez. Depois fui para o meu quarto, a fim de terminar os deveres de casa e organizar minha agenda. Tinha a sensação de que havia uma abelha furiosa zumbindo dentro de minha barriga. Não consegui me concentrar em qualquer coisa. Logo me descobri na janela, olhando para as estrelas. Fiquei hipnotizada pelo brilho e cintilar do céu estrelado. Quando pensei a respeito, compreendi que quase nunca passara algum tempo olhando para o céu noturno quando vivia no orfanato. Sempre me sentia trancafiada, contida, acorrentada pelas normas burocráticas e o trabalho de escrituração, que me deixavam com a sensação de ser pequena e isolada, apenas outro número em algum registro oficial, apenas outro problema para a sociedade. Era melhor permanecer despercebida, encolher-me em algum canto, engolir minhas lágrimas, esconder o rosto em livros, fechar as janelas. Não havia lugar para estrelas ou sonhos naquele mundo.

Mas agora, depois de apenas um dia em minha nova escola, conhecendo novas pessoas, sentindo-me alguém, eu me via como renascida. Desabrochava como uma flor que ficara espremida entre as páginas dos livros do sistema de assistência à infância e adolescência. Era livre para crescer, sentir, chorar e rir. Tinha um lar. Tinha um nome. Tinha um direito de estar viva e ser ouvida.

Não podia deixar de me sentir como um peixe fora d'água, no entanto. Expressar emoções, ter uma opinião e ser confiante no meio de pessoas da minha idade eram tamanhas novidades para mim que me deixavam ansiosa e até um pouco assustada. Agora, mais do que nunca, eu não queria fracassar. Não podia ser um desapontamento para as pessoas que haviam investido sua fé em mim. Seria a melhor aluna possível, pensei. Karl ficaria muito orgulhoso. Ajudaria Thelma a esquecer o horror e desapontamentos em seu passado. Proporcionaria a ela, tanto quanto a mim mesma, uma razão para enfrentar cada novo dia.

E depois me permitiria crescer para ser uma mulher. Era isso o que mais me assustava. Enquanto ainda fosse considerada uma menina, sentia-me segura, até mesmo no orfanato. Vivia em algum lugar neutro, sem sexo, ignorada, sem chamar a atenção de ninguém, especialmente dos meninos.

Mas, subitamente, o beijo de Bernie mudara tudo. Sentia-me agora como A Bela Adormecida. Claro que acalentara antes pensamentos de sexo e romance, mas por algum motivo nunca me imaginara como a paixão em potencial de alguém. Ainda era uma observadora, a menina que senta junto das garotas mais velhas, muito mais sofisticadas, e escuta com olhos arregalados e profundo interesse as histórias íntimas, descrevendo eventos e experiências que ainda eram mais como fantasia ou ficção científica, nunca algo que poderia acontecer comigo.

Mas agora podia. Toquei em meu rosto o lugar que Bernie beijara. Levantei e fui me contemplar no espelho. Meu rosto se tornara mais amadurecido? Alguém olharia para mim agora e me julgaria uma linda garota?

Estendi a camisola na cama. Fui para o banheiro, escovei os dentes, tirei as roupas e voltei. Mas não vesti a camisola. Nua, parei na janela e estudei meu corpo. Observei os contornos dos seios desabrochando. Quando me virei um pouco de lado, constatei que meu corpo começava a assumir novas formas, como as curvas se suavizavam, se tornavam mais cheias.

Meu coração bateu forte quando me contemplei desse jeito. Experimentei a sensação de que atiçara alguma parte do meu eu interior que estivera hibernando. Levantava a cabeça agora e sorria, dando as boas-vindas à minha curiosidade. Isso mesmo, eu podia ouvir seu sussurro dentro de mim: Estou aqui, pronta para levá-la por uma nova jornada, repleta de sensações e emoções excitantes. Os rios biológicos internos vão se juntar e irrigar todas as partes ressequidas de você. Qualquer pessoa que olhar para seus lábios, seus olhos, que tocar em sua mão, vai perceber o calor e a fome. Eu a transformarei numa mulher. Meu corpo transbordava com a promessa.

Vesti a camisola e me ajeitei por baixo das cobertas, até me sentir aconchegada. O travesseiro macio era como uma nuvem sob a minha cabeça. Flutuava acima dos raios e trovoadas do excitamento que despertara em mim, mas ainda assim me revirei na cama por horas, até que finalmente me acomodei num bolsão quente de sono, exausta.

O barulho de portas fechando, passos rápidos e os gritos de Thelma me arrancaram da escuridão. Fiquei prestando atenção. Alguém subiu a escada depressa, Karl ou Thelma, entrou no quarto. Thelma chorava. Levantei-me e fui até a porta.

Ela estava parada no corredor, de casaco. Viu-me e enxugou as lágrimas que escorriam pelas faces, com tanta intensidade que até pingavam do queixo.

— Oh, Crystal, você acordou! Desculpe termos acordado você, mas talvez seja melhor assim.

Karl saiu do quarto, também de casaco.

— O que aconteceu? — perguntei.

— É minha mãe! — exclamou Thelma. — Acaba de ser levada para o pronto-socorro. Temos de ir. Meu pai está tão transtornado que pode sofrer um derrame.

— Devo me vestir para ir também?

— Não, não — interveio Karl. — Podemos demorar horas e horas. Trate de dormir. Amanhã de manhã, se não tivermos voltado a tempo, pegue o ônibus para a escola. Não precisa se preocupar conosco.

Ele passou o braço pela cintura de Thelma. Ela estendeu os braços e me apertou por um momento. Depois, os dois se afastaram, apressados.

— Não há nada que eu possa fazer? — ainda gritei.

— Não, não — respondeu Karl. — Apenas volte a dormir.

Os passos foram se tornando mais baixos, à medida que eles dobravam o corredor, a caminho da garagem.

Fui até a janela do meu quarto e observei o carro partir. Afora isso, a rua estava deserta, os focos de iluminação dos lampiões criando uma colcha branco-amarelada na escuridão até a esquina, onde o carro de Karl virou e desapareceu na noite.

O silêncio na casa era absoluto. Tudo acontecera tão depressa que a sensação era a de que fora um sonho, ainda mais depois que voltei para baixo das cobertas e fechei os olhos. Foi ainda mais difícil então pegar no sono, mas consegui adormecer pouco antes da primeira claridade do dia. O despertador me acordou. Se não fosse por isso, eu teria dormido durante a maior parte da manhã.

Tomei um demorado banho de chuveiro, preparei um mingau de aveia. Enquanto comia, olhei para o telefone, na expectativa de que Karl ligasse antes do ônibus chegar. Mas isso não aconteceu. Senti-me tentada a ir ao hospital, em vez da escola, mas pensei que isso poderia deixá-los ainda mais transtornados. Terminei de me vestir, peguei os livros e saí para esperar o ônibus.

Helga já estava no ponto, com Ashley Raymond, cuja mãe, Vera, era praticamente a única vizinha com quem Thelma falava — e só porque Vera também gostava de assistir às novelas da televisão.

— Karl não vai levá-la para a escola hoje? — perguntou Helga.

Ashley era mais ou menos da minha altura, com cabelos castanhos-claros, olhos azuis grandes demais para a boca e o nariz pequenos. Ela me fitou. Sempre me parecera uma corça assustada. Eu não trocara mais do que quatro palavras com ela antes.

— Aconteceu alguma coisa com minha avó ontem à noite. Karl e Thelma foram para o hospital. Ainda estão lá.

Se havia alguma solidariedade em Helga, estava enterrada tão fundo em seu coração que uma sonda de petróleo levaria duas semanas para descobrir. Ela sorriu e cutucou Ashley.

— Bernie vai ficar feliz. Terá alguém para sentar-se ao lado dele.

— O que houve com sua avó? — perguntou Ashley.

— Não sei. Eles saíram tão depressa que nem tive tempo de perguntar.

— Eu a conheço — disse Ashley. — Ela é muito simpática.

— É mesmo.

— Quantas vezes você já se encontrou com ela? — indagou Helga, como se eu não tivesse o direito de comentar.

— Não é preciso muito tempo para saber quem é simpático e quem não é.

Fitei-a com uma expressão furiosa. Ela teve de desviar os olhos, mas soltou uma risadinha.

O ônibus chegou e embarcamos. Fui para o fundo, onde Bernie estava sentado, lendo. Ele nem percebeu a minha presença até que me instalei ao seu lado.

— O que está fazendo no ônibus? — perguntou ele, surpreso.

Bernie sacudiu a cabeça quando expliquei.

— É uma coisa terrível.

— Espero que ela fique boa.

— Eu também. — Depois de uma pausa, ele acrescentou: — Minha mãe tem pavor de ficar velha, mas não porque pode morrer. Tem medo das rugas, da pele ressequida e cabelos brancos. Fez duas cirurgias faciais só este ano e...

Bernie baixou a voz para um sussurro ao dizer:

—... uma cirurgia na barriga. Você parece cansada.

— E estou mesmo.

Ouvimos risadas altas e levantamos os olhos. Lá na frente, Helga e outros alunos conversavam, olhando para nós.

— Quando conheci Helga, pensei que seria ótimo ter uma amiga. Nunca tive uma amiga íntima. Quase que cometi um grande erro.

— Os bosques estão cheios de lobos. — Bernie desviou os olhos do grupo lá na frente para me fitar. — Serei seu grande amigo, se quiser.

Sorri para ele.

— Claro que quero.

Bernie voltou a se concentrar no livro, como se olhar para mim fosse doloroso para ele. Fechei os olhos e excluí as conversas e risos, até chegarmos à escola, para o início do meu segundo dia.

Foi quase impossível me concentrar nas aulas. Eu não podia deixar de especular e me preocupar. Na hora do almoço, Bernie me acompanhou até o telefone público. Ficou esperando enquanto eu ligava para casa. O telefone tocou e tocou, até que a voz de Karl saiu da secretária eletrônica, pedindo à pessoa para deixar o nome e número, hora da chamada e um breve relato sobre o propósito da ligação. Parecia mais com uma mensagem num escritório do que numa casa. Deixei meu nome.

— Ainda não tem ninguém em casa — informei a Bernie.

Ele pensou por um momento.

— É um bom sinal. Significa que continuam fazendo o que precisava ser feito por ela.

Bernie relutou um pouco em voltar ao refeitório para almoçar comigo, mas acabou concordando. Sentamos numa mesa pequena, no fundo. Dessa posição, pudemos constatar que muitos nos observavam e falavam a nosso respeito.

— A sensação é que estamos num aquário — gracejou Bernie.

Ele comeu e leu seu livro de ciências, com pausas ocasionais para algum comentário sobre as aulas.

Comecei a me perguntar se o beijo de Bernie não fora imaginário. Ele demonstrava bem pouco interesse por mim, até tivera um sobressalto quando nossos braços roçaram. Outras garotas que tinham namorados, sentavam-se mais perto deles, algumas quase no colo, rindo e falando como se não houvesse mais ninguém no refeitório. Quando a campainha soou, encerrando a hora do almoço, saíam de mãos dadas. Bernie e eu fomos andando lado a lado, mas segurando nossos livros, como se fossem coletes salva-vidas e estivéssemos no convés de um navio afundando. Compreendi logo, pela maneira como algumas garotas nos observavam, sussurrando e rindo, que já éramos o alvo de piadas de mau gosto.

Minha aula seguinte estava quase no meio quando o alto-falante-na parede estalou e uma voz solicitou que o professor me mandasse para o gabinete do diretor. Todos me fitavam quando levantei e deixei a sala. A secretária do diretor me disse para sentar e esperar. A porta foi aberta poucos minutos depois. Avistei Karl com o sr. Nissen. Não precisava ouvir as palavras. As expressões em seus rostos diziam tudo.

— Eu não queria tirá-la da escola, Crystal, mas Thelma quer você e acha que deve ir direto para casa comigo.

— Claro.

Eu não sabia o que mais dizer.

— Não se preocupe com os deveres — disse o sr. Nissen. — Mandarei entregá-los em sua casa.

— Ela não ficará ausente da escola por muito tempo — assegurou Karl.

— Pode tirar o tempo que for necessário — declarou o sr. Nissen. — Por favor, apresente minhas condolências à sra. Morris.

Lembrei que deixara minha mala, livros e cadernos na carteira. Voltei apressada para buscá-los. Todos me olharam quando entrei na sala. O professor fez uma pausa. Recolhi os livros e os cadernos, guardei na mala.

— O que está fazendo, Crystal? — perguntou o sr. Sadler.

Fui até a frente da sala. Não era uma coisa que eu quisesse gritar.

— Desculpe, sr. Sadler, mas tenho de voltar para casa agora. Minha avó morreu.

— Ahn... — Ele parecia embaraçado e confuso, como alguém que pisava em gelo. — Claro. Sinto muito.

O professor esperou que eu me retirasse antes de recomeçar a aula. Ao me encaminhar para a porta, olhei para Bernie. Ele me acenou com a cabeça, o rosto tão sério e tenso quanto um médico dando más notícias aos parentes de um paciente. Saí apressada, fechando a porta sem fazer barulho. Segui pelo corredor até o lugar em que Karl me esperava. Deixamos a escola juntos, nenhum dos dois falando, até chegarmos ao carro.

— O que aconteceu? — perguntei então.

— O médico disse que ela não tinha mais do que quinze por cento do músculo cardíaco funcionando quando chegou no hospital. Fizeram tudo o que podiam para salvá-la. E ela resistiu por mais tempo do que julgaram que seria possível. Thelma diz que foi por sua causa.

— Minha?

— Ela diz que a mãe queria continuar conosco por mais tempo para vê-la crescer em nossa família. É o que ela acredita... e que torna o fato ainda mais triste. Lamento que você tenha um começo tão difícil conosco.

— Como está vovô? Karl balançou a cabeça.

— Frágil. Não sei como ele vai sobreviver sozinho. Apesar de doente, a mãe de Thelma sempre cuidava dele.

— O que vai acontecer com ele?

— Assim que eu puder, começarei a procurar uma boa residência para adultos. Não podemos aceitá-lo em nossa casa. Não temos mais espaço.

Se eu não tivesse ido morar com eles, teriam o espaço necessário, pensei. E isso me deixou angustiada. Vovô ficaria ressentido comigo? E Thelma?

— Posso partilhar meu quarto com ele — sugeri.

— Não, Crystal, não pode. Além do mais, não podemos lhe dispensar a atenção que ele vai precisar. Thelma não é capaz de cuidar de doentes. Se tenho um resfriado, ela entra em pânico. Não fique doente. Aqueles lamentáveis programas de televisão metem as idéias mais incríveis na cabeça de Thelma sobre uma doença e outra. Mencione uma dor, e ela vai relatar um episódio de Hospital Geral que se ajusta ao caso. Mas não precisa se preocupar com seu avô. Cuidarei dele. Com seu seguro e pensão, ele pode ir para uma ótima casa.

Isso não fez com que eu me sentisse melhor sobre a situação, mas não falei mais nada. Ao entrarmos na casa, vi o brilho do aparelho de televisão. Quando nos adiantamos, porém, não ouvi qualquer coisa.

— Voltamos! — gritou Karl, parando na porta. Thelma sentava-se em sua poltrona predileta, olhando para a tela de televisão, o rosto molhado de lágrimas. Levantou os olhos para mim. Os ombros tremeram quando murmurou:

— Pobre vovó... Queria tanto ter uma neta, mas morre no momento em que consegue. É muito injusto. Como se... como se a eletricidade fosse cortada numa parte importante de um dos meus programas.

— Sinto muito. — Eu tinha certeza de que a morte da mãe significava mais para ela do que um corte de energia elétrica. — Ela era muito simpática... e eu esperava conhecê-la melhor.

— Ah, minha pobre querida, agora você não tem mais avó!

Eu não sabia se devia ou não me adiantar para abraçá-la. Ela desviou os olhos de mim, tornou a fixá-los na televisão.

— Quer comer alguma coisa, Thelma? — Karl virou-se para mim. — Ela não comeu nada durante o dia inteiro.

— Vou preparar uma coisa para você, mamãe. Ela sorriu através das lágrimas.

— Talvez um chá e torradas com um pouco de geléia. E depois venha se sentar um pouco ao meu lado.

Karl e eu fomos para a cozinha. Arrumamos o chá e as torradas numa bandeja. Quando a peguei, para levar a Thelma, ele perguntou:

— Acha que vai ficar tudo bem aqui? Tenho de ir ao escritório por alguns minutos.

— Não se preocupe. Não haverá problemas.

Ele avisou a Thelma o que ia fazer, mas não teve resposta. Observei-a dar uma mordida numa torrada e tomar um gole de chá, os olhos se deslocando com os movimentos dos atores na tela. Desligar o som parecia ser o seu gesto de luta.

— O funeral será depois de amanhã — anunciou ela, durante o comercial. Os olhos permaneceram fixados na tela, como se tivesse medo de desmoronar se não fizesse isso. — Karl já providenciou tudo.

— Onde está vovô?

— Em casa, com alguns amigos. Pessoas da sua idade. Ele se sente melhor assim. — Thelma mordeu de novo a torrada, tomou mais um gole de chá. — Quando você perde alguém que ama, é melhor permanecer em algum lugar que é familiar, fazendo as coisas a que está acostumado. Vovó não ia querer que eu perdesse meu programa.

Foi nesse instante que o programa recomeçou. Olhei para ela, depois para a tela da televisão. Os personagens obviamente gritavam um com o outro, em alguma discussão. De que adiantava assistir sem o som? Thelma balançou a cabeça, como se pudesse ouvir as palavras mesmo assim.

— Não seria melhor se conversássemos, mamãe? — perguntei, suavemente.

— Conversar? Sobre o quê? Não sobre vovó. — Thelma tornou a sacudir a cabeça, com mais vigor. — Não quero falar sobre sua morte. Ela não deveria morrer.

Ela falava com firmeza, como se alguém tivesse reescrito um roteiro.

— Sua avó queria acompanhar o crescimento da neta. Eu disse a Karl que deveríamos ter adotado uma criança há muito tempo. Não deveríamos ter esperado para adotar você. Veja agora o que aconteceu. Não podia ser assim. De jeito nenhum.

— Não podemos planejar nossas vidas como uma novela de televisão, mamãe. Não temos esse poder.

Tive vontade de acrescentar "por enquanto", porque achava que algum dia a ciência desvendaria todos os mistérios da genética e grande parte de nossas vidas seria predeterminada. Mas aquele não era o momento para levantar esse assunto, pensei.

— Não quero falar sobre isso, Crystal. É triste demais.

— Thelma tornou a olhar para a televisão. — Você nunca chega em casa a tempo para assistir este programa. Mas já lhe falei a respeito. É aquele em que a filha tem AIDS. Os pais culpam um ao outro. Está vendo?

Olhei para o chão. Estava longe de ser uma perita no luto por uma pessoa amada. Até agora, nunca tivera pessoas amadas. Nenhuma morte jamais me afetara profundamente. Mesmo quando lera sobre minha mãe verdadeira, fora mais como ler uma história sobre outra pessoa. Não tinha seu rosto em minha mente, nem sua voz na memória. Não podia recordá-la a me acariciar, a me beijar, a conversar comigo. Nunca tivera a morte de pai, avós ou quaisquer parentes para lamentar. Nunca tivera uma amiga íntima nos orfanatos em que fora criada para me sentir desolada com sua morte ou partida.

Ser sozinha tinha suas vantagens, pensei. Só podia lamentar por mim mesma. Só precisava sentir pena de mim mesma.

Num certo sentido, Helga tinha razão. Eu não conhecera minha nova avó por tempo suficiente para sentir sua morte tão profundamente como outras crianças que perdessem seus amados avós. Eu não deveria estar chorando? Não deveria estar metida em algum canto, soluçando? Não tinha nenhuma certeza sobre meus sentimentos e ações. Nem mesmo sabia se devia criticar Thelma pelo que ela fazia agora. Talvez fosse um erro afastá-la de suas distrações. Talvez fosse um erro forçá-la a enfrentar a realidade da morte da mãe. Ela terminou de comer a torrada e me sorriu.

— Fico contente por você estar aqui comigo, Crys-tal. Por outro lado, lamento que esteja perdendo as aulas.

— Não tem problema. Vou receber os deveres em casa. É bem provável que Bernie traga tudo quando voltar da escola.

— Isso é ótimo. Você bem que poderia sentar mais perto de mim.

Foi o que fiz. Thelma pegou minha mão. Depois, tornou a olhar para a tela da televisão silenciosa. Observei seu rosto. O jogo de sombras e luz alterava a expressão, projetando primeiro um sorriso, depois um ar de compaixão ou repulsa. De vez em quando ela suspirava ou estalava os lábios em crítica. Arregalei os olhos em espanto. Era como se Thelma soubesse com certeza o que os personagens diziam.

Tive vontade de perguntar como ela podia assistir ao programa daquele jeito. Queria lembrá-la de que o som estava desligado, mas não fui capaz. Seria como dizer a alguém que não era real o que via, não passava de ficção.

Mas Thelma precisava da ficção, pensei. Quem era eu para dizer que ela não podia tê-la? Ou não devia acreditar?

Deixei-a apertar minha mão com mais força ainda e continuei sentada a seu lado, em silêncio.

Foi assim que Karl nos encontrou quando voltou do escritório.

 

                     Verdade ou desafio.

Depois do jantar, Ashley e sua mãe, Vera, vieram dar os pêsames a Thelma. Ashley trouxe todas as matérias que eu perdera naquele dia. Trouxe inclusive os deveres das aulas que eu partilhava com Bernie. Informou que ele lhe entregara no ônibus. Fiquei decepcionada, porque esperava que Bernie viesse pessoalmente. Às vezes meus olhos eram como janelas com as cortinas abertas. Ashley percebeu meu desapontamento.

— Bernie é tímido demais — disse ela. — Sou uma das poucas pessoas com quem ele fala, de vez em quando... e apenas porque nunca rio dele. Acho que Bernie é brilhante.

— Pois eu tenho certeza.

Levei Ashley para o meu quarto, enquanto sua mãe conversava com Thelma e Karl.

— Como era a vida no orfanato? — perguntou ela, assim que ficamos a sós. Haveria alguém que olhasse para mim sem especular a respeito? — Os adultos eram cruéis com você?

— Não é como um orfanato num romance de Dickens.

— O que é um romance de Dickens?

— Charles Dickens? Contos de Natal? Oliver Twist? Tempos difíceis? Nenhuma destas obras lembra nada a você?

Franzi o rosto, espantada.

— Claro, claro... — respondeu Ashley, mas ainda com uma expressão vazia.

— O que eu quis dizer foi que não é como viver com sua própria família, tendo seu próprio quarto, mas você também não é obrigada a jogar carvão na fornalha ou lavar o chão, não precisa vestir trapos ou comer restos.

— Só de pensar nisso fico arrepiada.

— Ninguém tinha de comer o que não quisesse. Não me sentia feliz ali, mas também não era torturada.

Ela balançou a cabeça.

— Helga diz que as garotas que vivem em orfanatos perdem a virgindade mais depressa.

— O quê? Que direito ela tem de dizer uma coisa tão absurda? Como ela pode saber qualquer coisa sobre garotas que vivem em orfanatos?

Ashley deu de ombros.

— É o que ela diz.

— Para informação sua e de Helga, não é o que acontece.

Percebi que Ashley me fitava fixamente e acrescentei:

— Não perdi a minha. Mas Helga dá a impressão de que perdeu a dela.

Ashley riu.

— Às vezes acho que ela bem que gostaria. Pela maneira como dá em cima de alguns dos garotos. Ela me disse que deixaria Todd Philips fazer qualquer coisa que quisesse se a convidasse para sair.

— Helga disse isso?

— Disse — respondeu Ashley, os olhos grandes ainda maiores.

— Ela pode ficar desapontada.

— Por quê? Sempre pensei que era a coisa mais maravilhosa que podia acontecer.

— Quem lhe disse isso? Ela tornou a dar de ombros.

— Apenas escuto o que as outras dizem a respeito, especialmente as que já fizeram sexo e se gabam no banheiro das meninas. Falam como se fosse uma coisa maravilhosa.

— Não sei dizer, pois eu nunca... — Eu já ia revelar a Ashley que nunca antes fora beijada, mas não confiava que ela guardaria essa informação para si mesma. — Nunca fui de beijar e contar.

Conversamos um pouco sobre beijos no cinema e quem achávamos que beijava melhor. Percebi que Ashley sentia tanta curiosidade quanto eu sobre como seria o beijo de um garoto.

Depois que Ashley foi embora, comecei os deveres de casa, ansiosa em pensar em outra coisa que não em garotos. Antes de Karl e Thelma irem para a cama, ele voltou ao meu quarto.

— Talvez você devesse ir à escola amanhã, Crystal. Não há sentido em ficar sentada aqui durante o dia inteiro.

— Thelma não vai precisar de mim? Ele pensou por um momento.

— Ela vai passar o dia dormindo.

— Mesmo assim, acho melhor ficar por perto. Karl sorriu.

— Está bem. Provavelmente você tem razão. É bom ter mais alguém na casa que se importa com ela.

Pensei que Karl poderia avançar por meu quarto e me dar um beijo de boa-noite. Mas ele ficou parado ali, balançando a cabeça por mais um momento, depois me desejou uma boa-noite e fechou a porta.

Leva tempo para as pessoas se tornarem pai e filha, pensei; e em alguns casos é preciso ainda mais tempo.

Thelma não se levantou tão cedo quanto costumava fazer na manhã seguinte. Karl preparou o café da manhã para ela. Depois, pediu-me para ficar de olho nela. Disse que ia verificar como estava vovô antes de ir para o trabalho. Ofereci-me para acompanhá-lo, mas ele alegou que assim teria de me trazer de volta para casa, o que aumentaria demais seu tempo de ausência do escritório.

— Ficaria surpresa se visse como o trabalho se acumula — comentou ele.

— Eles não podem compreender a situação na companhia?

— Ninguém me supervisiona mais do que eu mesmo. — Os olhos de Karl se tornaram solenes. — É o segredo do sucesso, Crystal: exigir mais de si mesmo do que os outros exigem. Você é o seu melhor crítico, entende?

— Entendo.

Ele saiu de casa. Fiquei lendo meu livro de história, além do ponto determinado, tentando imaginar qual seria o próximo dever. Thelma apareceu na porta da sala de estar pouco mais de uma hora depois. Tinha os cabelos desgrenhados, os olhos injetados. Estava muito pálida. Dava a impressão de que envelhecera anos em apenas uma noite. Trazia meia dúzia de lenços de papel na mão. Ainda de camisola, arrastou-se pela sala, em chinelos que pareciam ser de Karl. Arriou em sua poltrona predileta com um profundo suspiro.

— Quer alguma coisa, mamãe? Ela sacudiu a cabeça.

— Não gosto de lembrar de minha mãe. Dói demais. Pensei em pegar o telefone e ligar para ela esta manhã, como costumava fazer antes de Sombras ao amanhecer. Mas depois recordei que ela morreu. Thelma fungou e enxugou os olhos. — O que posso fazer?

— Podemos conversar, mamãe. Às vezes as pessoas se sentem melhor quando falam sobre o que as angustia.

Meus conselheiros sempre usavam esse argumento em todos os orfanatos por que passei. E havia mesmo algum fundo de verdade nisso. Mas Thelma balançou a cabeça.

— Não posso. Cada vez que penso nela, começo a chorar. Não posso. É melhor não pensar.

Ela pegou o controle remoto da televisão como se fosse um vidro de pílulas prometendo alívio. Ligou o aparelho e foi trocando de canais até encontrar um programa que apreciava. E dessa vez deixou o som ligado. Começou a reagir ao que assistia, sorrindo, rindo, mostrando-se preocupada. Eu recomeçara a ler quando ela disse, abruptamente:

— Tenho medo de ir ao funeral amanhã. Por que devemos ter funerais?

— É a nossa última chance de nos despedirmos.

É verdade que eu nunca tinha comparecido a um funeral antes e a perspectiva me causava quase a mesma apreensão.

— Não quero me despedir. — Ela soltou um gemido. — Detesto despedidas. Gostaria de poder ficar sentada aqui e assistir televisão. Assim, se eu ficar triste, posso trocar de canal, ver outra coisa.

— Meu psicólogo no orfanato sempre me disse que é pior evitar seus problemas, mamãe. É melhor enfrentá-los.

Ela me fitou em silêncio por um longo momento, depois sorriu.

— Você é inteligente. Temos sorte por você estar aqui. Eu gostaria de comer. Pode me fazer ovos mexidos com torradas?

— Claro.

— E faça um café também — acrescentou ela, quando eu já saía da sala, para depois voltar a se concentrar no programa.

Thelma permaneceu ali durante a maior parte do dia, só se levantando para ir ao banheiro. Preparei o almoço também. Ela não falava, a não ser quando tinha algum comentário a fazer sobre o programa que assistia. O ponto alto de seu dia começou quando a primeira novela entrou no ar. Depois disso, eu poderia muito bem ter ido para a escola. Karl ligou para perguntar como ela passava e avisar que arrumara alguém para cuidar de vovô. Informei que Thelma não saía da frente da televisão.

— Talvez ela esteja melhor desligada assim — comentou Karl.

— Não estou fazendo muita coisa.

Tive vontade de acrescentar que ele tinha razão, eu deveria ter ido para a escola.

— Sua simples presença aí já é importante, Crys-tal. É bem provável que ela não comeria nada de outra forma.

Karl estava certo nesse ponto, mas ainda assim eu me sentia mais como uma criada do que como uma filha. Queria conversar. Queria ouvir Thelma contar histórias sobre sua mãe, como fora ser sua filha, as coisas que haviam partilhado, todos os momentos preciosos de que ela sentiria saudade. Queria sentir que era parte de uma família, não me encontrava mais no orfanato, entre estranhos.

Quando Thelma começou a chorar pelo que acontecia com uma personagem na novela, levantei e fui para meu quarto. Como ela podia se importar mais com as pessoas do mundo de faz-de-conta? Seria por considerá-lo mais seguro? O programa terminava, e você não tinha mais de pensar a respeito? Seria por isso? Mas Thelma parecia pensar nos personagens constantemente, não apenas enquanto o programa era transmitido. Eu não conseguia perceber o menor sentido.

Pouco depois, a campainha da porta tocou. Eram Ashley e sua mãe outra vez, só que agora Bernie as acompanhava. Ofereci um sorriso, para Bernie acima de tudo, e murmurei:

-Oi.

— Como ela está? — perguntou a sra. Raymond.

— Fica assistindo televisão, tentando não pensar no que aconteceu.

— Não posso culpá-la por isso — comentou a sra. Raymond.

— Trouxemos todos os seus deveres de casa — informou Ashley. — E Bernie veio junto para explicar a matéria nova.

— Obrigada.

Dei um passo para o lado e todos entraram. A sra. Raymond foi falar com Thelma. Levei Ashley e Bernie para o meu quarto. Bernie abriu o livro de matemática e pôs-se a falar sobre os novos problemas imediatamente. Escutei e acenei com a cabeça quando ele perguntou se eu havia entendido.

Ashley sentou na minha cama e ficou nos observando estudar. Quando as explicações terminaram, Bernie sentou na frente do meu computador.

— Quando será o funeral? — perguntou ele.

— De manhã. Não haverá muita gente presente. O pai de Karl não tem condições de viajar, e seu irmão em Albany não poderá vir. O irmão caçula está no mar.

Nenhum dos primos de Thelma virá. Alguns dos amigos mais antigos de meus avós vão comparecer.

— Minha mãe também vai — informou Ashley. — Mas não quer me deixar acompanhá-la. Diz que tenho de ir à escola.

— Ela tem razão — declarou Bernie. — A escola é mais importante. Os funerais são realmente desnecessários.

— Desnecessários? — repetiu Ashley. — Como pode dizer uma coisa dessas?

— Quando alguém morre, está acabado. Não há sentido em desperdiçar mais tempo com isso.

— É uma coisa horrível para se dizer — protestou Ashley. — É preciso prestar a última homenagem.

— Para quê? A pessoa morreu. É melhor se despedir de um retrato. Detestei ir ao funeral de meu avô. Houve uma festa grande depois, com a presença de muitas pessoas que nunca o conheceram direito. Foi apenas um pretexto para uma festa.

— Não vamos ter nenhuma festa depois.

— Ainda bem — disse Bernie.

— Isso é cruel, Bernie Felder — acusou Ashley.

— Estou apenas sendo realista. Quando morre, você retorna a alguma forma de energia, que vai para outra coisa. É só isso.

— Que outra coisa? — indagou Ashley, as sobrancelhas tão erguidas que pareciam estar no meio da testa.

— Não sei. Talvez... uma planta ou um inseto.

— Um inseto? Crystal, você não acredita nisso, não é?

— Não sei em que acredito. Às vezes imagino que minha mãe verdadeira está comigo, o seu espírito, mas depois penso que isso é um absurdo.

— Não tem nada de absurdo. Ao contrário, é uma coisa linda — declarou Ashley. — Não me tornarei nenhum inseto, Bernie Felder. Talvez você se torne.

— É possível — respondeu Bernie, indiferente.

— Não se importa?

— Por que deveria me importar? Não conheço qualquer coisa diferente.

Ashley soltou um grunhido.

— Os cientistas são as pessoas mais chatas do mundo. Detesto a matéria, ainda mais as experiências com todas aquelas substâncias químicas fedorentas e bichos mortos. As experiências me deixam enojada.

— Aposto que posso pensar numa experiência que você gostaria. Por exemplo, que tal uma experiência para descobrir que tipos de beijos gostamos mais? — sugeri.

— Crystal! — exclamou ela, lançando um olhar para Bernie.

— Como seria a experiência? — perguntou ele, excitado.

Inventei uma experiência que era quase como uma competição... o julgamento do melhor beijo. Bernie ouviu e acenou com a cabeça sem rir. O rosto de Ashley ficou avermelhado quando me virei para perguntar se não queria entrar.

— Uma idéia interessante, mas não posso considerar uma experiência científica... — Bernie pensou por um instante, depois balançou a cabeça para mim. — Mas eu gostaria de participar.

— Ótimo, Bernie.

— Pensei que estivesse apenas brincando, Crystal! — exclamou Ashley.

— Não seja covarde, Ashley — declarou Bernie. — Não vamos fazer nada de mais sério... apenas dar um beijo.

— Mas não quero ser julgada em comparação com Crystal... nunca beijei um garoto antes! — disse ela, virando-se para mim, em busca de ajuda.

Tive vontade de fazer Ashley se sentir melhor, dizendo que também nunca beijara um garoto. Mas preferi ocultar minha inexperiência de Bernie.

— Terá de jurar que vai guardar segredo. Sabe o que alguém como Helga diria se descobrisse.

Ashley olhou para Bernie e depois para mim, apreensiva.

— Não vai engravidar nem nada parecido — prometeu Bernie. — Vai apenas descobrir mais sobre si mesma... e será um conhecimento que a tornará mais sábia e mais forte. É esse o propósito e poder do conhecimento.

— Ele tem razão, Ashley. Aceita?

— Talvez... Vou pensar nisso.

Seu tom era cauteloso, mas dava para perceber que ela se sentia tão fascinada pela idéia quanto nós. Bernie se ofereceu para organizar o que chamou de procedimentos de controle. Disse que estaríamos mais seguros se nos reuníssemos em sua casa. Com alguma relutância, Ashley acabou concordando.

— É como brincar de médico — sussurrou ela para mim, quando saímos do quarto.

— Já fez isso alguma vez, Ashley?

Ela desviou os olhos para Bernie, voltou a me fitar.

— Não. E você?

— Também não, mas sempre tive vontade. Ashley respirou fundo.

— Eu também.

Ela se afastou apressada para se encontrar com a mãe e ir embora, assustada com sua confissão.

O funeral no dia seguinte foi simples e demorou menos tempo do que eu esperava, provavelmente porque Karl organizou tudo tão bem. Depois do serviço na igreja, o carro da agência funerária nos levou ao cemitério. Vovô parecia muito frágil, apoiando-se no braço de uma enfermeira particular, contratada por Karl. Thelma dava a impressão de uma pessoa drogada, desde o momento em que acordou e se vestiu. Sempre que eu a observava, constatava que tinha os olhos desfocados e distantes. Era como se estivessem abertos e fechados ao mesmo tempo, sem que ela visse ou ouvisse qualquer coisa ao seu redor. Refugiara-se dentro de sua própria mente. Talvez estivesse reprisando algum capítulo de uma de suas novelas.

Karl conduziu-a durante todo o tempo, de uma forma gentil e eficiente. Algumas pessoas do seu escritório foram ao serviço na igreja, mas no cemitério só havia dois casais idosos, amigos da mãe de Thelma, seu pai com a enfermeira, Thelma, Karl, eu, a mãe de Ashley e o ministro.

Não era um bom dia para um funeral. Fazia muito calor, o céu quase não tinha nuvens, exibia uma tonalidade turquesa. O ar no cemitério estava impregnado com o aroma da grama recém-cortada. Os passarinhos voavam de uma árvore para outra, esquilos corriam entre as lápides, como se todo o cemitério tivesse sido criado para sua diversão.

Não pude deixar de especular como teria sido o funeral de minha mãe verdadeira. Imaginei-me a descobrir onde ela fora enterrada, indo visitar sua sepultura algum dia. O que diria? E quem ouviria? Bernie tinha razão? Nada restava de nós depois que morríamos? Ou alguma coisa preciosa perdurava, algo que não compreendíamos, não podíamos compreender? Na volta para casa, Thelma finalmente falou:

— Pobre mamãe. Espero que ela não esteja sozinha.

Era disso que Thelma sentia mais medo, pensei, de ficar sozinha. Durante anos, os programas de televisão haviam lhe proporcionado as famílias e amigos que nunca tivera na vida real. Povoavam sua vida de distração, impediam-na de pensar em sua própria solidão. Karl achara que minha adoção ajudaria, mas eu ainda não sentia que estava lhes dando muita coisa. Nem mesmo sentia que formávamos uma família. Pelo menos não como eu pensava que uma família devia ser.

Vovô veio almoçar em nossa casa, mas dormiu depois de algumas garfadas. Dava a impressão de que encolhera e murchara com seu sofrimento. Esperava em meu coração secreto que algum dia, de alguma forma, pudesse encontrar alguém que me amasse tanto. Isso, pensei, era o verdadeiro antídoto para a solidão, a melhor de todas as curas.

Dois dias depois, vovô sofreu um derrame e foi levado para o hospital. Não morreu, mas ficou tão incapacitado que Karl teve de providenciar sua internação. Thelma não podia suportar a perspectiva de visitá-lo em tal ambiente.

— Por que temos de envelhecer? — lamentou ela. — Não é justo. Elena não parece um dia mais velha do que na época em que comecei a assistir Sombras da eternidade. Deveríamos todos viver dentro de um programa de televisão.

Karl sacudiu a cabeça, desolado, e voltou a se concentrar em sua revista de economia. Eu retornei a meus deveres. Nossas vidas continuaram como se fôssemos três sombras à procura de um meio de nos tornarmos pessoas outra vez.

Visitamos o pai de Karl, mas não foi uma visita mais bem-sucedida do que a primeira. Ele se impacientou com o comportamento triste de Thelma e as críticas de Karl a seu estilo de vida, saiu de casa para se encontrar com os amigos. Poucos dias depois, Stuart, o irmão de Karl, veio de carro de Albany para me conhecer e apresentar seus pêsames a Thelma. Era mais alto e mais magro do que Karl, mas tinha olhos mais frios, um rosto mais definido, com um sorriso apenas fugaz. Fez-me perguntas sobre a escola, mas parecia constrangido quando eu respondia e o fitava. Notei que evitava meus olhos, não me fitava diretamente quando falava comigo. Depois que Stuart foi embora, Karl revelou que o irmão quase se tornara um monge. Acrescentou que era possível que isso ainda viesse a ocorrer.

— As pessoas o deixam nervoso — confessou Karl. — Ele aprecia a solidão.

— Como pode então ser vendedor? — perguntei. — Os vendedores precisam conversar com as pessoas.

— Ele faz a maior parte do seu trabalho pelo telefone.

Fiquei desapontada. Esperava que meu tio fosse mais afável e mais divertido. Até imaginara que ia visitá-lo em Albany. Lamentei o fato para Bernie e Ashley no dia seguinte.

Desde que decidíramos participar de uma experiência, Ashley passava mais tempo comigo na escola... e por conseguinte com Bernie. Ela sentou conosco para almoçar.

— Minha maior esperança era me tornar parte de uma família de verdade, ter parentes com festas e aniversários, noivados e casamentos. Tudo, enfim. Às vezes me sinto mais sozinha do que era no orfanato.

Ashley ficou muito triste por mim, os olhos cheios de angústia. Mas Bernie pensou por um momento, como se eu tivesse levantado um assunto da aula de ciências.

— Exageram a importância da família — declarou ele, exibindo aquele ar confiante e até arrogante com que respondia às perguntas e fazia declarações na sala de aula. — É um mito criado pelas companhias que fabricam cartões de cumprimentos. As pessoas vivem ocupadas demais consigo mesmas para pensarem na família.

— Isso é terrível, mas não acontece com a minha família — protestou Ashley.

As sobrancelhas de Bernie quase se encostaram quando ele franziu os lábios.

— Seu pai está sempre viajando. Foi o que nos disse há poucos dias. Sua mãe tem pavor de envelhecer, como a minha. Temos de enfrentar a verdade, Ashley: não somos muito diferentes de Crystal. Ninguém nos dá maior atenção. De um modo geral, só servimos para atrapalhar. Na melhor das hipóteses, somos um pequeno incômodo.

— Não sou, não!

— Somos todos órfãos — murmurou Bernie. — Estamos todos procurando uma coisa que não existe.

— Não é verdade. Não acredita nisso, não é, Crystal?

— Não sei. Não quero acreditar, mas não sei.

Ashley estava profundamente transtornada, prestes a se levantar de um pulo e sair correndo. Foi nesse momento que Bernie se inclinou e sussurrou:

— Não vamos nos preocupar com isso. Devemos iniciar nossa experiência. Estou pronto. Minha casa esta noite, por volta das sete e meia. Combinado?

Olhei para Ashley. O rosto dela mudou de repente, do sombrio para o animado. Os olhos se agitaram, nervosos, enquanto me fitavam e a Bernie.

— Combinado — respondi. — E você, Ashley?

— Combinado — murmurou ela, num fio de voz. — Mas não sou uma órfã.

Bernie soltou uma risada. Eu nunca o ouvira rir daquele jeito antes. Trouxe um sorriso para o meu rosto, fez Ashley sorrir também.

Através do refeitório, os outros estudantes, que sempre nos olhavam com desdém, demonstraram agora uma súbita e intensa curiosidade.

Mas a nossa própria curiosidade era muito maior.

 

                         Em nome da ciência

— Isto é um gráfico — começou Bernie, mostrando uma folha quadriculada. — Cada um de nós tem o seu.

Ashley e eu sentávamos em cadeiras em seu quarto, enquanto ele nos dava as instruções de pé. Ela comentou que se sentia na escola. Pedi-lhe que fosse paciente.

— Esta será a primeira sessão — continuou Bernie, fechando e abrindo os olhos, irritado. — Faremos as mesmas coisas em cada sessão, classificando nossas reações numa escala de um a dez, dez sendo a mais intensa. O objetivo é determinar como o beijo nos afeta, que beijos gostamos mais, e assim por diante. Entendido?

Ele falava e parecia com o sr. Friedman, nosso professor de ciências.

— Não — respondeu Ashley, balançando a cabeça.

— Não faz o menor sentido. O que um gráfico tem a ver com um beijo?

— Claro que o gráfico nada tem a ver com o beijo. É apenas uma maneira de registrar nossas reações de uma forma científica. — Ele suspirou em frustração e olhou para mim. — Compreende agora por que eu nunca poderia ser um professor?

Bernie balançou a cabeça, respirou fundo e voltou ao seu programa.

— Vamos nos encontrar aqui todas as noites, durante a próxima semana.

— Ainda não sei o que estamos fazendo — murmurou Ashley.

— Em última análise, vamos determinar que tipos de beijos mais apreciamos: secos, rápidos ou longos, babados. Vocês já pensaram em beijar um garoto antes, não é mesmo? Pois finjam que sou o garoto por quem estão apaixonadas esta semana, depois me beijem como se fosse ele.

Ashley aspirou fundo e prendeu a respiração. Dava a impressão de que poderia explodir a qualquer instante. Os olhos ficaram esbugalhados. Olhou de mim para Bernie, sacudiu a cabeça.

— Não vou fazer isso.

Ela continuou a balançar a cabeça.

— Vai nos dizer que nunca pensou em beijar um garoto? — A irritação de Bernie era crescente. — É natural pensar nisso.

Ashley não podia ficar mais vermelha, pensei, enquanto sentia que também corava. Toda aquela conversa sobre beijos me deixava tão nervosa quanto Asnley.

— É muito importante que sejamos honestos uns com os outros — enfatizou Bernie. — Na ciência, a honestidade é essencial. Não podemos esconder a verdade. Não podemos fingir. Ninguém aqui vai rir, nem gozar alguém. É uma experiência séria e temos de nos comportar como adultos. Certo, Crystal?

— Certo.

Não podia deixar de me surpreender pela maneira como Bernie fazia com que tudo parecesse objetivo e frio. Não parecia nem um pouco sensual ou misterioso. Como eu sempre sonhara que seria.

— Por que é ele quem nos diz tudo o que temos de fazer? — protestou Ashley.

— Vocês me pediram para ajudar na experiência — respondeu Bernie. — É o que estou fazendo.

— Não pedi nada. Crystal e eu estávamos curiosas sobre o beijo. Você se intrometeu. Não foi assim, Crystal?

— Foi, sim. Mas precisamos da ajuda de Bernie.

— Vai mesmo fazer isso, Crystal?

— Claro. — Olhei para Bernie, que parecia mais determinado e decidido do que nunca. — Estou muito interessada, e tenho certeza de que aprenderemos bastante sobre nós.

Ashley fixou seus olhos enormes em mim por um longo momento.

— E então? — perguntou Bernie.

— Está bem — murmurou ela. — Se Crystal vai fazer, eu tentarei.

— Ótimo.

Bernie foi até a porta do quarto e trancou-a. Fechou todas as cortinas das janelas. Os olhos de Ashley acompanhavam atentamente cada movimento dele. Bernie nos entregou os gráficos.

— Os números ao lado correspondem às atividades — explicou ele. — Será mais fácil se apenas nos referirmos pelos números. Em cima ficam as datas, começando por hoje. Enquanto mantivermos a experiência numa base científica, não haverá qualquer problema.

Ele foi até um armário por baixo das prateleiras e abriu-o.

— O que é isso? — perguntou Ashley, antes que ele tivesse tempo de explicar.

— É um medidor de pressão arterial. Também registra a pulsação.

— Onde conseguiu isso? — indagou ela, como se fosse algum fruto proibido.

— Pode-se comprar em qualquer lugar, Ashley. Vendem em farmácias. Não é nada demais. Quando estiverem excitadas — continuou Bernie, com sua voz de cientista —, a pressão deverá aumentar e a pulsação irá acelerar. Vamos verificar nossa pressão e pulsação neste momento, antes de fazermos qualquer outra coisa. Assim saberemos o que devemos considerar normal e o que não devemos, certo? Quem é a primeira?

— Eu começo — respondi.

Bernie tirou minha pressão, depois a de Ashley.

— Você está um pouco nervosa, Ashley — disse ele. — Não esperava que sua pressão fosse tão alta.

Ele tirou a própria pressão, tão baixa quanto a minha.

— Como é possível que vocês dois estejam tão calmos? — perguntou Ashley, desconfiada. — Não se sente nervosa, Crystal?

— Não.

Era verdade. Agora que estávamos prontos para começar, eu me sentia mais ansiosa do que nervosa em descobrir qual era a sensação de ser beijada. Ashley parecia cética.

— E agora? — indagou ela.

Bernie sentou na nossa frente, cruzou as pernas, consultou suas anotações.

— Agora devemos nos beijar. Quer ser a primeira, Ashley?

Ela deu um pulo da cadeira como um boneco de mola. Foi abrir a porta do quarto e saiu correndo, antes que Bernie pudesse lhe perguntar o que estava fazendo. Momentos depois, ouvimos a batida da porta da frente.

Bernie e eu nos fitamos.

— Acho que ela ainda não estava preparada para isso — comentou ele, sorrindo.

— Tenho a impressão de que você fez tudo isso só para se livrar de Ashley — murmurei, começando a compreender por que ele se mostrara tão objetivo e frio.

Os olhos de Bernie se encontraram com os meus, enquanto ele tentava esconder a verdade.

— Eu sabia que Ashley não estaria preparada. Por que perder tempo com ela?

— Por que você queria fazer isso, Bernie? E lembre-se de que a honestidade é essencial na ciência.

Ele começou a sorrir, mas logo se controlou, voltou a ficar sério.

— Tenho sentimentos diferentes por você... diferentes do que já senti por outras garotas. Queria compreender por quê.

— Quer dizer que ainda é uma experiência?

— Claro que sim. O que mais poderia ser?

Tive vontade de dizer que podia ser amor; podia ser romance. Tive vontade de dizer que talvez não devêssemos dissecar nossos sentimentos, que talvez isso os destruísse, mas não falei nada. Não queria afastá-lo. Sentia também um excitamento, que começava por um pequeno tremor nas pernas, subia pela coluna, até fazer o coração disparar.

— Devemos continuar, Crystal?

Os olhos de Bernie transbordavam de expectativa e esperança. Uma ocasião, no orfanato, eu surpreendera uma garota chamada Marsha Benjamin num abraço ardente com um garoto muito mais velho. Ele se chamava Glen Fraser. Lembro que tinha medo dele, da maneira como me olhava. Era muito pequena para compreender o motivo naquele tempo. Quando vi Glen e Marsha se beijando, ele enfiando a mão por baixo da saia dela, forçando-a a se virar para que pudesse se meter entre suas pernas, fiquei atordoada de medo e depois de espanto. Comecei a fugir, mas parei no instante seguinte, incapaz de fechar meus olhos curiosos. A verdade é que me sentia fascinada pelo rosto de Marsha, com a maneira pela qual ela deixava a cabeça pender para trás, soltando pequenos gemidos. Suas mãos me impressionaram ainda mais, primeiro tentando impedir que as coisas acontecessem, mas depois, como se dominada por um excitamento incontrolável, largando as mãos de Glen e segurando-o pela nuca, puxando com toda força, como se sua vida dependesse daquilo.

Ele virou-se e me viu parada ali, observando-os. Não se zangou. Sorriu friamente e disse:

— Há espaço para mais uma.

Tratei de fugir. Corri tanto e tão depressa que se poderia pensar que era perseguida por algum monstro. Anos mais tarde, eu pensaria que o monstro estava dentro de mim. Queria dominá-lo, deixar de ter medo. Pensei que não tornaria a acontecer até eu me sentir amada por alguém que me atraísse. Especulei agora se Bernie não seria essa pessoa.

— Claro — respondi, depois de um longo momento. — Vamos continuar.

Bernie sorriu. Como se lesse meus pensamentos, acrescentou em seguida:

— Vamos começar devagar. Se qualquer dos dois se sentir constrangido, pararemos no mesmo instante. Pois isso só serviria para arruinar a experiência.

— Está certo.

Engoli em seco, para tentar dissolver o caroço de nervosismo em minha garganta. Bernie se adiantou e começou a me beijar. Fechei os olhos e deixei a mente vaguear. Mas podia sentir o coração disparado. Fiquei preocupada, pensando que Bernie perceberia. Afastei-me.

Bernie tirou as mãos dos meus ombros. Levantou os olhos lentamente e me fitou.

— Como se sente, Crystal?

— Muito nervosa.

— Você é a garota mais corajosa que já conheci. Pensei que não chegaria a esse ponto.

Tive a impressão de que havia um tênue tremor de nervosismo em sua voz.

— Já disse que estou tão interessada quanto você — murmurei, tentando parecer mesmo corajosa.

Ele acenou com a cabeça.

— O que vamos fazer em seguida?

— Por que não experimentamos um beijo de língua? Você me conta tudo o que está sentindo, e eu farei a mesma coisa. Combinado?

Inclinei a cabeça em concordância. Comecei a desejar ter saído com Ashley, mas era tarde demais agora para recuar. Além do mais, sentia-me curiosa por Bernie e pela maneira como seu beijo me fizera sentir.

— Pronta?

— Pronta.

Olhei para o teto e depois para ele. Os olhos de Bernie me absorveram da cabeça aos pés. Nunca antes um garoto me olhara da maneira como Bernie fazia agora. Deixava-me tonta.

— Meu coração está batendo forte. — Bernie começou a andar ao meu redor. — Sinto-me nervoso, com um pouco de medo de fazer algo errado.

Era como alguém enviando informações do espaço exterior... como se eu não estivesse no mesmo quarto, experimentando os mesmos sentimentos e emoções.

— Eu também.

Queria ser honesta sobre minhas reações.,, pela validade da experiência, é claro.

— Eu também o quê?

— Tudo o que você disse.

Minha voz tremia. Fechei os olhos, enquanto ele andava ao meu redor. Podia sentir sua respiração no pescoço. Um momento depois, Bernie estava outra vez na minha frente, a poucos centímetros de distância.

— Vou fechar os olhos, Crystal. Depois, experimentaremos o beijo de língua. Certo?

Ele fechou os olhos e me beijou.

Não tive certeza se gostei daquele tipo de beijo. Tive a sensação de que podia dizer o que Bernie jantara. Já vira outros beijarem assim na escola. Pareciam gostar. Por isso, tentei gostar. Depois de um momento, meu coração passou a bater ainda mais forte, minhas mãos ficaram suadas. Desta vez, no entanto, foi Bernie quem interrompeu o beijo.

— Puxa... — Ele balançou a cabeça, como se tentasse dissipar o nevoeiro. — Agora compreendo por que todo o excitamento.

— Ahn... eu também.

Tentei evitar que o desapontamento transparecesse em minha voz. Nunca fui dessas garotas que se mostram sonhadoras quando falam sobre garotos e beijos, mas também nunca imaginei que seria objetiva e fria quando chegasse o momento.

— Eu gostaria de saber se Ashley vai contar tudo às amigas — comentou Bernie.

— Cuidarei para que ela não diga nada.

— Vão inventar histórias sobre nós de qualquer maneira, Crystal. Provavelmente já fizeram isso.

— É bem possível.

Houve um longo momento de silêncio. Para mim, era como se tivéssemos fantasiado os beijos que partilháramos. Só que o gráfico em minhas mãos, com meus comentários, confirmavam que não fora um sonho.

— É melhor eu ir para casa agora, Bernie.

— Vou acompanhá-la até sua casa. — Ele sorriu da minha surpresa. — Acho que não vou conseguir ler, nem me concentrar em qualquer coisa, muito menos dormir por algum tempo.

Soltei uma risada para ocultar o que sentia, o mesmo excitamento ainda ressoando em meu corpo.

Bernie abriu a porta e saímos. Já estávamos quase na porta da frente quando ouvimos alguém chamar da sala de estar.

— Minha mãe — murmurou Bernie.

Uma mulher elegante, vestida como se estivesse a caminho ou voltando de um baile importante, aproximou-se de nós, os brincos de diamantes balançando nas orelhas. Os cabelos bem penteados eram quase platinados, as mechas tão perfeitas que até pensei que devia ser uma peruca. Era alta, com um corpo de ampulheta que parecia suspenso por fios e pinos. Quando ela saiu das sombras e chegou mais perto, constatei que seu rosto era tão livre de rugas que mais parecia uma máscara. As têmporas eram esticadas, puxando os olhos, como se a pele tivesse encolhido. O nariz era pequeno, mas com as narinas um pouco grandes demais. Os lábios estufados faziam com que o sorriso parecesse doloroso. Era mais uma careta.

Os dedos da mão esquerda exibiam vários anéis. Dava a impressão de ser uma joalheria ambulante, com seu colar de diamantes, travessa nos cabelos e pulseiras. Pensei que ela devia ter tomado um banho de um perfume caro. O cheiro chegava dias na sua frente.

— Quem é essa, Bernard? — perguntou ela.

— Uma amiga.

— Por que não me apresenta? Nunca fez uma amizade antes, ainda mais com uma garota.

Ela me fitava enquanto falava.

— Esta é Crystal — disse Bernie. — Crystal, minha mãe.

— Olá — murmurei.

— Crystal o quê? — perguntou ela, sem responder ao cumprimento.

— Crystal Morris — informou Bernie. — Ela estava voltando para casa.

— Morris? Filha de que Morris? De Charne Morris, da agência de propaganda?

— Não — disse Bernie. — Vou acompanhá-la até sua casa.

Ele quase que correu para a porta da frente e abriu-a.

— Foi um prazer conhecê-la — disse a mãe, enquanto eu partia atrás de Bernie. — Já era tempo de Bernie trazer alguém para casa.

A impressão era de que seu rosto poderia explodir com uma mudança de expressão abrupta demais. Olhei para trás uma vez, depois me apressei para alcançar Bernie, que já saíra.

Ele fechou a porta depois que saí também, e quase correu pelo caminho.

— Talvez não devêssemos sair correndo desse jeito, Bernie — comentei, ao alcançá-lo.

Ele passou a andar ainda mais depressa.

— Ela só quer que eu tenha namoradas, escute rock e me vista como um artista adolescente do cinema ou televisão. Olhe só para ela. — Bernie parou e virou-se para a casa. — Se aquela fosse sua mãe, gostaria que alguém a conhecesse? Ela só gosta de me embaraçar.

Bernie recomeçou a andar.

— Já era tempo de você trazer alguém para casa — arremedou ele. — Especialmente uma garota.

— Provavelmente ela está apenas preocupada com você.

— Não está, não. Minha mãe só se preocupa com ela própria, o que os outros vão dizer se eu não parecer um jovem supostamente normal. Não vamos mais falar sobre isso. Só me deixa irritado.

Andamos em silêncio até minha casa. Era uma noite nublada, o ar se tornara um pouco frio. Nossa respiração aparecia em pequenas nuvens de vapor. Nenhum dos dois usava agasalho.

— Fique com isto — disse Bernie, na porta da minha casa.

Ele me estendeu os gráficos. Eu nem notara que os trouxera.

— Talvez seja melhor deixar em seu quarto. Bernie sacudiu a cabeça.

— Às vezes ela entra em meu quarto e revista tudo, à procura de alguma coisa estranha, enquanto estou na escola. Uma vez deixei uma rã dissecada fedendo a for-mol na mesa, de propósito. Ela passou algum tempo sem entrar, mas ainda me espiona de vez em quando. Não quero que encontre estes papéis. Ela nunca entenderia.

— Está bem.

Peguei os gráficos. Tinha certeza de que Karl e Thelma também não entenderiam, mas não queria encerrar a experiência.

— Boa-noite. — Bernie hesitou. — Gostei muito da experiência. E aguardo ansioso pela continuação amanhã.

Ele virou-se para ir embora, mas depois voltou e me deu um beijo rápido na face. Fiquei parada ali, com a mão no rosto, observando-o desaparecer pela calçada. Depois entrei, a cabeça em turbilhão, com uma sucessão vertiginosa de emoções que me deixavam tonta. Karl ainda estava acordado, mas Thelma já fora para a cama.

— Ela sentia-se muito cansada esta noite. Adormecia na poltrona a todo instante. Por isso, levei-a para a cama. Como você está?

— Muito bem.

— Isso é ótimo. Creio que o pior já passou. Agora voltaremos a uma vida normal.

O que é uma vida normal? Tive vontade de fazer essa pergunta. Era uma vida dominada pela solidão e medo? Era uma vida em que ignorávamos uns aos outros? Thelma não se mostrava muito diferente do que era no dia em que eu chegara. Em vez de voltar ao mundo real por minha causa, ela continuava a se empenhar para que eu entrasse também em seu mundo de faz-de-conta. Karl permanecia firme e leal à sua agenda organizada. Eu conhecera inúmeros jovens da minha idade, mas muitos pareciam ainda mais perturbados do que eu era... e sempre haviam tido uma família!

— Vou dormir também — murmurei. — Boa-noite.

— Boa-noite. Até amanhã.

Os olhos de Karl ainda seguiam as palavras na página da revista em sua mão. Fui para o meu quarto e me aprontei para deitar. Depois de me meter sob as cobertas, recostei-me no travesseiro e peguei os gráficos. Sabia o que escrevera no meu, mas não tinha a menor idéia do que havia no gráfico de Bernie.

Suas notas eram tão altas quanto as minhas, mas o que ele escreveu no fundo atraiu meu interesse.

Nunca antes me senti atraído por alguém com tanta intensidade. Eu me pergunto se isso significa que Crystal é especial ou se não passa de uma reação natural ao beijar uma garota bonita.

A maioria das outras pessoas, pensei, pensaria que era muito estranho o que ele escrevera, mas eu sabia que aquela era a única maneira pela qual Bernie podia dizer "Eu amo você".

Por enquanto, teria de me contentar com isso. Tinha grandes esperanças para o dia seguinte. E naquela noite, para variar, tive a maior facilidade para fechar os olhos, sonhar e adormecer.

 

               O desejo do coração

Ashley parecia assustada quando a confrontei na escola no dia seguinte. Bernie ficara com medo de que ela espalhasse histórias a nosso respeito. Em vez disso, porém, Ashley estava com medo de que espalhássemos histórias a seu respeito.

— Você ficou?

Ela fez a pergunta num sussurro, quando nos encontramos na frente de nossos armários, no corredor. Olhou para os dois lados, a fim de se certificar de que ninguém podia nos ouvir.

— Fiquei.

— E fez a experiência?

— Claro.

Fechei a porta do meu armário e comecei a seguir para minha sala. Ashley foi atrás de mim, como um cachorrinho puxado por uma correia invisível.

— O que aconteceu?

Parei e virei-me para fitá-la.

— Se quer saber tanto, por que não ficou?

— Não pude ficar.

Seu rosto dava a impressão de que poderia desatar em soluços histéricos a qualquer momento.

— Contou a alguém? A Helga, por exemplo? Ashley sacudiu a cabeça com tanto vigor que pensei que seus olhos iam chocalhar.

— Ainda bem.

Continuei a seguir para a sala. Ela permaneceu ao meu lado, passo a passo, até avistar Bernie. Baixou então a cabeça e foi para o seu lugar.

Bernie fitou-a por um momento e depois olhou para mim, com uma expressão inquisitiva. Indiquei que estava tudo bem. Ele relaxou. Não me falou até sairmos outra vez para o corredor. Quando ele se aproximou, Ashley tratou de se afastar.

— Não posso encontrá-la no almoço hoje, Crystal. Prometi ajudar o sr. Friedman a instalar os equipamentos.

— Não tem problema.

— Está tudo bem?

— Claro.

— Posso esperá-la em minha casa à mesma hora esta noite?

Hesitei por um instante. Bernie procurou ansioso pela resposta em meus olhos.

— Continuaremos a pesquisa de acordo com o gráfico — acrescentou ele.

— Estarei lá.

E seguimos nossos caminhos. Na hora do almoço, Ashley quase correu ao meu encontro.

— Vai me contar o que aconteceu? — perguntou ela, assim que pôs a bandeja na mesa e sentou na cadeira ao meu lado.

— Só nos beijamos duas vezes — informei, a voz tão fria e objetiva quanto era possível.

— Só duas? Por que apenas duas?

— É difícil explicar para alguém que não estava presente, mas foi tudo muito científico. Não aconteceu nada demais.

Ela ficou desapontada.

— Gostou de beijá-lo?

— Não. Isto é, sim. Foi... Ora, não posso falar a respeito desse jeito. Faz com que pareça uma coisa obscena.

Ashley acenou com a cabeça como se compreendesse.

— Não estou tentando zombar de você, Crystal. É diferente para você e Bernie. — O tom da voz era de tristeza. — Os dois são muito inteligentes. Tive a sensação de que meu lugar não era ali, com vocês, e me apavorei. Se algum dia quiser me contar qualquer coisa, prometo que ouvirei tudo e não direi a ninguém.

Compreendi que ela não podia participar de nossas experiências, mas queria se sentir especial, como se estivesse por dentro, autorizada a conhecer os maiores segredos. Ashley ainda é uma menina, pensei. Para ela, ainda é um jogo, como "você mostra o seu que eu mostro a minha". Mas se eu a repelisse, ela poderia se virar contra nós e começar a contar histórias.

— Está bem, Ashley. Contarei tudo assim que acontecer alguma coisa... assim que houver conclusões científicas concretas.

Ela sorriu.

— Pode ir à minha casa na noite de sexta-feira e jantar comigo e com minha mãe? Meu pai ainda está viajando.

Pela maneira como Ashley falava sobre o pai, eu chegara à conclusão de que ele passava tanto tempo viajando quanto ficava em casa.

— Talvez você possa me ajudar nos problemas de matemática para a prova na semana que vem — acrescentou ela.

— Pedirei a meus pais.

Ashley ficou radiante. Eu sabia que ela não era muito popular. Raramente era convidada para qualquer coisa. As outras garotas tratavam-na como se fosse socialmente inferior, uma intrusa, por causa do seu tamanho e timidez. Apesar do que ocorrera na casa de Bernie, eu me tornava rapidamente sua melhor amiga. Ela tinha a maior consideração por mim. Gostava do fato de que as outras garotas podiam não se mostrar cordiais, mas também não queriam me desafiar. Talvez minha carapaça exterior tivesse sido endurecida por anos de vida em orfanatos. Claro que eu não tinha medo de garotas como Helga, que costumavam apunhalar pelas costas, dizendo fofocas no banheiro, mas se calando quando você aparecia. Havia muitas idéias erradas sobre órfãs. Se queriam acreditar que eu era capaz de arrancar seus olhos, o problema era delas. Há muito tempo eu aprendera que se não podia fazer com que outra garota ou rapaz gostasse de mim por quem eu era, então era melhor que me temessem. Pelo menos assim ficava segura.

À medida que as aulas se aproximavam do fim, senti que o excitamento se acumulava dentro de mim, como uma distante trovoada no horizonte. De vez em quando um pequeno choque elétrico me atingia o coração. O estômago se agitava, não parava por um instante sequer. Até que ponto iríamos no gráfico de Bernie? Quando olhei para as folhas, sozinha em meu quarto, pareciam fogo em minhas mãos. O calor subiu pelos braços, envolveu o coração. Ao me contemplar no espelho, verifiquei como tinha as faces coradas, como os olhos faiscavam. Karl compreenderia tudo só de me olhar? E Thelma, cuja dose diária de paixão através da televisão seria capaz de sufocar a própria Vênus?

— Está se sentindo bem esta noite, Crystal? — perguntou Karl ao jantar.

Thelma levantou os olhos, ansiosa.

— Estou, sim. Apenas me sinto um pouco preocupada com a primeira prova de matemática na escola.

— Ah... — Thelma soltou uma risada. — Provavelmente você vai tirar dez. Não é mesmo, Karl?

— Ela vai se sair bem. Ficar nervosa com a prova não tem problema, desde que não interfira com seu desempenho. Os alunos que não se preocupam com as provas é que se dão mal. Você é uma mocinha bastante motivada. E sentimos o maior orgulho por isso, não é mesmo, Thelma?

— Como? Ah, sim... claro, querida. Os outros pais terão inveja de nós. — Thelma parecia muito feliz. — Suas notas na escola foram uma das primeiras considerações de Karl. Não é mesmo, Karl?

— É verdade.

Olhei para os dois e pensei um pouco. Se eu tirasse mais C em vez de A, eles não teriam me adotado. De certa forma, não parecia certo basear tanta coisa em resultados de provas, ainda mais quando o objetivo era fazer de alguém sua filha. Se minhas notas baixassem, eles me mandariam de volta para o orfanato?

— Ashley Raymond perguntou se eu não queria jantar com ela e sua mãe na sexta-feira. Posso ir?

— Para ser franco, seria ótimo — respondeu Karl. — Creio que nós não voltaremos a tempo para o jantar. Eu ia pedir a Thelma que preparasse um prato que você pudesse esquentar.

— De volta a tempo? Para onde vamos, Karl? Thelma parecia confusa.

— Não se lembra, Thelma? Temos uma reunião com os médicos e o administrador da clínica para tratar da situação de seu pai. Ele terá de ser transferido para outra instituição, onde receberá mais atenção durante as vinte e quatro horas do dia.

— Detesto fazer essas coisas — murmurou ela. — Não podemos resolver tudo pelo telefone?

— Não, querida. Há documentos para assinar. Mas não vai demorar muito. — Ele sorriu para mim. — Thelma não gosta de lembrar coisas tristes. Com o tempo que leva para ir à clínica e voltar, eu não queria que você ficasse nos esperando para jantar, Crystal.

— Ela não poderia ir conosco, Karl?

— Acabou de ouvi-la dizer que Ashley a convidou para jantar, Thelma. Deixe-a conhecer gente de sua idade. Quer que ela tenha amigos, não é?

— Claro que sim.

Desde a morte da mãe que Thelma parecia ainda mais retraída e com medo da vida real. Pensei que ela não hesitaria se pudesse entrar por dentro do aparelho de TV ou em um livro.

— Então está tudo resolvido — disse Karl.

— Sabe o que vai passar esta noite, Crystal? Teatro de romance, com uma nova história.

— Vou estudar para a minha prova de matemática com Bernie Felder.

Não era uma mentira total. Eu esperava estudar um pouco no encontro com Bernie.

— Neste caso, posso gravar para você assistir comigo no fim de semana, está bem?

— Seria ótimo.

Thelma ficou satisfeita. Karl fitou-me com uma expressão perturbada. Depois de ajudar Thelma com os pratos, fui para o meu quarto, peguei os livros e meti os gráficos dentro do caderno. Quando voltei, Thelma já estava absorvida num programa de televisão. Karl sentava-se em sua poltrona, lendo o Wall Street Journal.

— Não volte muito tarde — disse ele, quando me encaminhei para a porta da frente.

— Não voltarei.

Respirei fundo e saí. Era uma noite clara. As estrelas pareciam maiores e mais brilhantes. Havia silêncio na rua, mas as sombras eram mais profundas e mais longas. Meu coração enchia os ouvidos com batidas tão fortes que eu nem ouvia os carros passando. Tinha a sensação de que flutuava quando cheguei na casa de Bernie. O dedo tremia ao apertar o botão da campainha. Ouvi o barulho lá dentro. Bernie abriu a porta momentos depois.

— Oi — disse ele.

- Oi.

Entrei, meio esperando deparar também com sua mãe. Mas, como sempre, não havia qualquer barulho na casa.

— Não há ninguém em casa. — Bernie me ofereceu um sorriso de conspirador. — Não se preocupe. Não seremos interrompidos.

— Pensei que poderíamos também estudar um pouco para a prova de matemática.

— Claro. Mas posso garantir que será fácil. As primeiras provas do sr. Albert sempre são fáceis. Ele gosta de proporcionar a todos a sensação de que vão se sair sempre bem. Uma falsa esperança.

Assim que entramos em seu quarto, ele fechou a porta e virou-se para mim.

— Trouxe os gráficos de volta?

— Trouxe.

Tirei-os do caderno e entreguei-os. Bernie estudou-os como se tivesse esquecido o que estava escrito ali.

— Ótimo. — Ele me fitou. — Está pronta? Hesitei por um instante. Bernie se mostrou preocupado.

— Ainda quer continuar a experiência, não é?

— Claro que quero.

Minha vontade era contar que pensara demais em nossos beijos, mas tinha medo de que ele não quisesse continuar se eu não encarasse a experiência com a devida seriedade.

Não podia deixar de acalentar a esperança de que também para Bernie a experiência era mais do que apenas um teste científico.

O beijo começou suave, como na primeira vez, mas logo ele se tornou mais insistente. Forçou-me a beijá-lo mais profundamente, por mais tempo. Esse tipo de beijo me deixava nervosa, mas não da maneira agradável e especial que sentira antes. Enquanto Bernie comprimia os lábios e depois o corpo contra mim, não pude deixar de sentir que ele queria fazer mais do que apenas beijar.

— Pare, Bernie. Precisamos fazer pausas para anotar os resultados.

Eu esperava parecer calma; dentro do peito, sentia que o coração podia explodir de bater tão depressa.

— Ora, Crystal, não vamos parar. Agora é que começava a ficar interessante.

Ele se adiantou e estendeu as mãos para meus ombros.

— Não, Bernie. Não quero continuar assim.

Virei-me e fui até a escrivaninha. Peguei meu gráfico e comecei a escrever os resultados. Mas minhas mãos tremiam tanto que pude apenas rabiscar.

— Não entendo, Crystal. Fiz alguma coisa errada? Não quer continuar a experiência?

Bernie estava magoado. Embora soubesse que tínhamos de parar com aquilo, não queria que Bernie pensasse que eu não gostava dele.

— Não, Bernie, o problema não é esse. Acontece apenas que... começa a parecer mais do que uma experiência... e não me sinto preparada para isso.

Torcia para que ele apreciasse minha honestidade.

— Como quiser, Crystal. Acho que você é como Ashley... assustada demais para fazer qualquer coisa adulta, até mesmo em nome da ciência!

Ele se encaminhou para a porta do quarto, furioso.

— Não posso acreditar que você esteja agindo como se fosse uma coisa... uma coisa errada ou obscena. Obviamente é mais imatura do que eu pensava. Acho melhor você ir embora agora, Crystal. Não precisa se dar ao trabalho de voltar.

Enquanto saía correndo da casa de Bernie, as lágrimas escorrendo pelo rosto, não pude deixar de sentir que era errado encerrar nossa experiência. Queria voltar. Bernie era meu amigo. Não tivera a intenção de fazê-lo sentir que fazíamos algo obsceno. Na verdade, eu começava a pensar que havia uma ligação especial entre nós, que significava alguma coisa o que fazíamos. E tivera a esperança de que Bernie também pensasse assim. Agora, pensei, nunca descobriria o que Bernie sentia por mim. Se pensava em mim quando nos beijávamos... ou se pensava apenas em seus gráficos e projeções.

Talvez Thelma estivesse certa... era muito mais fácil envolver-se na vida de outras pessoas na TV do que na vida real.

Ao chegar em casa, parei e sentei numa cadeira no gramado, a fim de recuperar o fôlego. Não queria entrar com a aparência que devia ter naquele momento. Além do mais, Karl e Thelma haveriam de querer saber por que eu voltara para casa tão cedo. Antes de Bernie, pensei, nenhum garoto jamais sequer tentara me beijar.

O ar frio da noite me provocou calafrios. Passei os braços em torno do corpo, balancei para a frente e para trás. Não conseguia me livrar dos sentimentos angustiantes.

Era muito difícil encontrar alguém para amá-la de um jeito que a deixasse feliz, pensei, mas queríamos e precisávamos desesperadamente de amor. De repente, Thelma já não parecia tão tola e perturbada como eu julgara antes. Só queria ser amada tanto quanto os personagens de suas novelas.

Karl e Thelma me fitaram quando entrei.

— Já de volta tão cedo? — murmurou Karl.

— Não havia muito para estudar. — Olhei para o aparelho de televisão. — Por isso, decidi voltar para casa e assistir ao programa com mamãe.

— É mesmo? — gritou ela.

Karl me fitou desconfiado, os olhos contraídos.

— Está tudo bem? — perguntou ele.

— Claro.

— Por que não estaria tudo bem? — indagou Thelma. — Ela veio assistir ao programa comigo. Isso é tudo.

Ela estava exultante. Os olhos faiscavam de felicidade.

— Tem razão, mamãe.

— Chegou bem a tempo — declarou Thelma, arrumando um lugar para mim a seu lado.

 

                     Sonhos destruídos

Bernie esperava junto do meu armário de manhã. Fitei-o de passagem e fui abrir minha tranca de combinação.

— Desculpe, Crystal. Acho que avançamos depressa demais. Não podemos tentar de novo?

— Não. Acho que estávamos certos ontem. Vamos esperar para ver o que acontece naturalmente.

Eu esperava parecer mais segura do que me sentia.

— Você é a única pessoa com quem eu faria aquilo — murmurou ele, desolado, antes de virar e se afastar.

Ashley observava do outro lado do corredor. Veio ao meu encontro em passos rápidos.

— Meus pais disseram que posso jantar em sua casa na sexta-feira, Ashley. — Os olhos dela brilharam como luzes de árvore de Natal. — Não me faça outras perguntas. Absolutamente nenhuma.

Ela me fitou atentamente e balançou a cabeça em concordância. Bernie não apareceu no refeitório na hora do almoço. Não olhou para mim nas aulas que tivemos juntos. Tratei de me concentrar nos estudos, removendo da mente todos os outros pensamentos. Ashley ficou tão assustada com meu comportamento que andou e sentou em silêncio ao meu lado durante o dia inteiro. Só decidiu falar depois da campainha final, quando seguíamos para pegar o ônibus.

— Direi à minha mãe que você vai jantar conosco. Depois de comer e estudar um pouco para a prova de matemática, talvez possamos ouvir música. Comprei dois CDs novos esta semana. Gosta de Timmy e dos Grasshoppers?

— Nunca ouvi falar deles. — Virei-me para fitá-la. — Quase nunca escuto rock.

— Ahn...

Soltei um suspiro profundo.

— Mas talvez seja melhor eu me atualizar. Vamos ouvir seus CDs.

— Sensacional!

Ela entrou no ônibus na minha frente. Bernie já sentara lá atrás, em seu lugar habitual. Manteve os olhos em seu livro. Sentei no meio, ao lado de Ashley.

— Vocês duas não estão se tornando muito chegadas? — comentou Helga, zombeteira, ao passar por nós.

— Está com inveja? — perguntei, com um sorriso frio.

— Inveja de quê?

Ela olhou para as amigas, em busca do aplauso que esperava divisar em seus olhos.

— Da inteligência, charme, espírito... em suma, tudo que falta em você.

Ela abriu e fechou a boca, enquanto procurava por alguma resposta apropriada. Mas os estudantes por trás no corredor do ônibus gritaram para que ela saísse da frente. Assim, Helga limitou-se a dar de ombros e jogar os cabelos para trás, antes de se afastar.

— Você não tem medo de ninguém, não é? — perguntou Ashley, com uma admiração evidente.

Pensei um pouco.

— Tenho, sim.

— De quem?

— De mim mesma.

Claro, eu sabia que ela não compreenderia. Anos se passariam antes que pudesse compreender.

Os dois dias seguintes foram muito parecidos. Concentrei a maior parte da minha energia e atenção nos estudos, no primeiro trabalho do semestre e nas provas iniciais. De noite, tirava algum tempo para assistir televisão com Thelma. Nós duas começamos a conversar sobre outras coisas. Aprendi mais e mais sobre a infância de Thelma, seus sonhos e desapontamentos. Karl se mostrou bastante satisfeito. Apresentou a idéia de passarmos um fim de semana em Montreal, no Canadá, dentro de duas semanas. O que deixou Thelma ainda mais feliz. Achei que talvez pudéssemos formar uma família de verdade, no final das contas.

Na sexta-feira, depois das aulas, voltei para casa, troquei de roupa, fiz alguns deveres de que queria me livrar logo, e depois fui para a casa de Ashley. Sua mãe demonstrou a maior felicidade ao me ver. Senti-me embaraçada com tanta atenção. Ninguém, nem mesmo Thelma, era tão atenciosa, me adulava tanto. Sua preocupação era intensa, de que eu não gostasse do que fizera para o jantar, do que tinha para beber, da sobremesa.

— Com que freqüência seu pai costuma viajar assim? — perguntei a Ashley, quando ficamos a sós em seu quarto, depois do jantar.

A cadeira vazia à cabeceira da mesa se destacava. Proporcionava-me uma estranha sensação, como se um fantasma sentasse ali. Por hábito ou apenas para manter a aparência da mesa equilibrada, a mãe de Ashley também pusera prato e talheres na cabeceira.

— Quase de duas em duas semanas. Os dois brigam muito por isso. Na semana passada minha mãe acusou-o de ter outra família.

— Seu pai tem de trabalhar desse jeito?

— Ele diz que sim — respondeu Ashley, com a maior tristeza. — Sinto pena de mamãe. Passa tempo demais sozinha.

Balancei a cabeça em compaixão. Muitos dos colegas que conhecera na escola sentiam-se tão solitários quanto eu fora, apesar de viverem com suas famílias. Sob vários aspectos, seus lares e vidas estavam arruinados, mantidos juntos apenas pela cola mais fraca. Embora nunca tivessem vivido em orfanatos como eu, muitas vezes exibiam os rostos de órfãos, rostos que revelavam sua solidão, anseio por mais afeição e amor, os olhos esquadrinhando os amigos, para descobrir se alguém tinha mais.

Peguei o livro de matemática de Ashley e ajudei-a a compreender nossos últimos deveres.

— Você deveria ser professora, Crystal. É melhor do que o sr. Albert.

— De jeito nenhum.

Soltei uma risada. Já íamos começar a ouvir os CDs quando o telefone tocou. Ashley fez uma pausa. Percebi que ela esperava que fosse o pai, ligando do lugar em que se encontrava. Praticamente prendia a respiração. Foi por isso que ouvimos sua mãe gritar:

— Oh, não! Quando?

Os olhos de Ashley foram dominados pelo medo no mesmo instante. Momentos depois, sua mãe apareceu na porta do quarto. Olhei para Ashley. Ela estava quase em lágrimas, prevendo o pior. Mas a sra. Raymond olhou para mim e disse:

— Crystal, houve um terrível acidente. Sabe o telefone de seu tio Stuart em Albany?

— Tenho certeza que está no Rolodex do meu pai. Vou procurar.

Saí correndo do quarto antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa. Meu coração batia tão forte que as pernas pareciam de borracha. Quase tropecei ao passar pela porta da frente. Lá fora, comecei a correr. As lágrimas já turvavam minha visão. Que tipo de acidente? O que aquilo significava?

Entrei em casa e atravessei o corredor até o escritório de Karl. Depois de encontrar o telefone de Stuart, respirei fundo, incapaz de engolir um inchaço na garganta, que ameaçava me sufocar.

Mesmo assim, voltei correndo para a casa de Ashley. Entreguei o papel com o telefone para sua mãe, como se fosse uma corredora de revezamento passando o bastão. Ela pegou-o devagar, os olhos fixados em mim, cheios de lágrimas. Disse que nos explicaria depois que falasse com tio Stuart. Pediu-nos para esperar na sala de estar. Deixei o quarto com Ashley, mas me demorei no corredor. Não podia esperar por mais tempo para descobrir o que acontecera.

Ashley parecia assustada, mas parou perto de mim no corredor. Trocamos um olhar, para em seguida nos virarmos, quando a sra. Raymond começou a falar.

— Stuart, aqui é Vera Raymond, amiga de Thelma. Claro, claro, estou bem. Stuart, um amigo do meu marido, na polícia daqui, acaba de me telefonar. Houve um terrível acidente. Um acidente de carro. Karl e Thelma... os dois morreram, Stuart. Sinto muito.

Ashley reprimiu um grito, com o punho cerrado na boca. Balancei a cabeça para ela.

Não, isso não é verdade, pensei. Karl é um excelente motorista. O motorista mais cuidadoso do mundo. Eles são jovens demais para morrer.

— Aconteceu hoje, há poucas horas. Um motorista bêbado numa pickup atravessou a pista para o outro lado da estrada. Eles não tiveram a menor chance. Sinto muito.

Uma pickup? Um motorista bêbado? Por um momento, foi como escutar a conversa sobre a vida de outra pessoa. Senti que assistia e ouvia uma das novelas de Thelma. Era tudo invenção, mera fantasia. Thelma vai ficar furiosa com isso, pensei. No momento em que ela se afeiçoa aos personagens, eles são retirados da novela. Sacudi a cabeça.

Ashley me fitava de uma maneira estranha. Parecia congelada no tempo, uma estátua de cera representando o medo.

— Isso mesmo — disse a sra. Raymond. — Ela está conosco. O que deseja que eu faça?

Houve um momento de silêncio. Minha mente disparou, pensando no que Stuart poderia estar dizendo. O que me aconteceria? Seria enviada de volta ao orfanato?

— Eu compreendo, Stuart. Mas até lá, o que você quer que eu faça? É mesmo? Está certo. Descobrirei e cuidarei de tudo. Sinto muito, Stuart. Foi um choque terrível. Até eu tenho dificuldade para absorver. Sinto muito.

Ela desligou e saiu para o corredor. Por sua expressão, percebi que ficou surpresa ao me ver parada ali, mas também aliviada porque não teria mais de explicar a tragédia de novo.

— Sinto muito, Crystal. É horrível. Sinto muito, querida.

— Tenho de ir para casa agora. Prometi à minha mãe que não voltaria muito tarde. Eles preferem que eu esteja presente ao voltarem.

— Espere um pouco, querida...

— Obrigada pelo jantar, sra. Raymond. Obrigada, Ashley. Falo com você amanhã. Obrigada.

Corri para a porta.

— Crystal! — gritou a sra. Raymond.

Mas eu já passara pela porta, correndo tanto que ofegava quando cheguei em casa. Gritei ao entrar:

— Já cheguei!

O silêncio me saudou. Era como estar na casa de Bernie. Fiquei parada ali, respirando com dificuldade, prestando atenção a todos os sons.

É igual a uma novela, repeti para mim mesma, várias vezes. A mãe de Ashley é como Thelma. Também adora novelas. Aposto que sei qual é. Soltei uma risada. Claro, aposto que sei.

Quando a campainha da porta tocou, eu estava sentada na poltrona de Thelma, assistindo televisão. Ignorei-a. A campainha tocou outras vezes. Alguém começou a bater na porta. Uma voz ameaçou arrombá-la. Houve mais batidas. No intervalo para os comerciais, levantei-me e fui abrir a porta.

Havia um homem e uma mulher parados ali. O homem vestia terno e gravata. Usava óculos e carregava uma pequena pasta. A mulher era baixa e larga nos quadris. Tinha cabelos castanhos-escuros, bem curtos. Pude sentir o cheiro de agência de assistência ao menor. Tinham essa aparência.

— Olá, Crystal. Sou o sr. Kolton, e esta é a sra. Thacker. Estamos aqui para ajudá-la.

— Não posso ir a lugar nenhum — declarei. - Meu programa ainda não terminou.

— Como?

— Estou assistindo uma novela. Thelma sempre assiste e vai querer saber o que aconteceu quando voltar. Mas esqueceu de ligar o gravador.

Os dois trocaram um olhar. A mulher sacudiu a cabeça.

— Tudo vai acabar bem — murmurou o homem, com um sorriso profissional.

Para mim, parecia que ambos usavam máscaras familiares, máscaras que eu vira durante toda a minha vida.

— Ainda não sei — respondi. — Temos de esperar pelo final.

Deixei-os parados na porta e voltei para a frente da televisão. Eles entraram. A mulher sentou ao meu lado, enquanto o homem dava alguns telefonemas. Poucas horas depois, eu sentava no banco traseiro do carro deles, voltando para o covil do monstro, o sistema, o único verdadeiro pai e mãe que eu já conhecera.

 

-Vai ser muito melhor do que o orfanato, Crystal — prometeu a sra. Thacker, ao nos aproximarmos de Lakewood House.

À nossa frente havia uma casa enorme, de dois andares, com uma varanda em torno do primeiro andar. Havia bordos e salgueiros na frente, com muito gramado verde. Ao nos aproximarmos, vi que tinha também um lago atrás.

— Louise Tooey é provavelmente a melhor mãe de adoção provisória que temos. Trata todos os jovens e crianças sob seus cuidados como se fossem seus próprios filhos. É o que todos dizem.

— Isto aqui era antes uma pousada — acrescentou o sr. Kolton. — E muito popular, diga-se de passagem. Tem um refeitório grande, um lindo saguão, campos para jogos.

— E um lindo jardim — ressaltou a sra. Thacker.

— Talvez queira se mudar para cá junto comigo — comentei, sarcástica.

Ela me lançou um olhar. Depois ofereceu aquele seu sorriso açucarado que eu tanto detestava, antes de voltar a olhar pela janela.

— Há outras moças da sua idade aqui e a escola em que vai estudar é uma das melhores — assegurou o sr. Kolton.

— Como sabe disso?

Ele também lançou um olhar rápido, mas não respondeu.

— Crystal se sai bem em qualquer escola — comentou a sra. Thacker, arrancando uma risada do sr. Kolton. — Provavelmente vai ensinar às outras crianças daqui. Não é mesmo, Crystal?

Não respondi. Olhei pela janela, mas sem ver minha nova casa. Meus pensamentos voltaram ao funeral a que acabara de comparecer. Ironicamente, Karl acertara em cheio ao planejar antes sua morte e a de Thelma. A agência decidira que eu podia comparecer, apesar de Karl e Thelma não terem concluído o processo de adoção. Todos os parentes me apresentaram suas condolências, para depois, com expressões culpadas, explicarem que não tinham lugar para mim. Os irmãos de Karl não podiam me receber. O pai dele e o pai de Thelma não tinham condições de ser meus tutores. Thelma não tinha parentes que estivessem interessados.

Ashley e sua mãe foram ao funeral, assim como tio Stuart e algumas pessoas do escritório de Karl. Antes da cerimônia terminar, olhei para trás e avistei Bernie parado perto de uma árvore, observando. Depois das orações finais, segui para o carro com o sr. Kolton e a sra. Thacker. Ashley veio me abraçar e prometeu que me escreveria, se eu lhe escrevesse. Acenei com a cabeça. Detestava promessas. Eram como aqueles balões que eu vira levados pelo vento. Tinham uma forma até o ar escapar, e depois todos os esqueciam.

Bernie adiantou-se e eu parei.

— Pensei que você não aprovava funerais — comentei.

— Não aprovo, mas queria estar aqui por você.

— O que isso representa? A sétima etapa? Ele baixou os olhos.

— Desculpe. — Bernie tornou a me fitar e acrescentei: — Ambos estávamos errados. Deveríamos apenas dizer o que sentíamos, em vez de usar disfarces.

Bernie inclinou a cabeça em concordância.

— Acho que aprendemos uma coisa importante, Crystal.

— Também acho.

Entrei no carro. Ele continuou parado ali. Acenou, enquanto nos afastávamos.

Eu ainda podia vê-lo parado. Pisquei e despertei para o presente quando o sr. Kolton parou o carro na frente da casa. Eles pegaram minhas coisas e entramos. Um garoto e uma menina, que não deviam ter mais que dez ou onze anos, sentavam-se a uma mesa grande, absorvidos em algum jogo de tabuleiro. Levantaram os olhos, curiosos. Uma porta se abriu no fundo do saguão. Uma mulher alta, com cabelos castanhos até a altura dos ombros, balançando em torno do rosto, adiantou-se apressada para nos cumprimentar. Embora tivesse um rosto bonito e enormes olhos azuis, as rugas na testa e nos cantos dos olhos eram bastante profundas para me levarem a pensar que devia ser mais velha do que parecia à primeira vista.

— Olá! — exclamou ela, com um excitamento evidente. — Eu estava na cozinha e não ouvi quando chegaram. Suponho que esta é Crystal. Oi, Crystal. Seja bem-vinda a Lakewood. Este será um lar de verdade. Vai ver só. Terá uma colega de quarto ótima. Seu nome é Janet, a garota mais doce do mundo. Ela é tímida, mas aposto que você fará com que seja mais extrovertida. Disseram que você é muito inteligente. Tenho certeza de que poderemos aproveitar alguma ajuda nessa área.

Ela olhou para o sr. Kolton, que sorriu. Pensei que ela nunca mais pararia de falar.

— É verdade que as crianças por aqui em geral se saem bem nos estudos. Exigimos que façam os deveres antes de qualquer outra coisa. Há regras aqui, mas são boas regras. Ah, esqueci de me apresentar. Sou Louise Tooey.

A mulher estendeu a mão. Fiz a mesma coisa, apenas para trocar um aperto rápido, mas ela segurou minha mão e afagou-a.

— Sei que se sente um pouco assustada por estar em uma nova casa, mas esta é especial. Já foi uma pousada das mais populares. É aconchegante, vai se divertir aqui. De qualquer maneira...

— Continue! — ouvimos alguém gritar.

Um garoto em torno dos quatorze anos desceu a escada às pressas. Lá em cima apareceu um homem alto, de rosto impassível. Tinha ombros largos, braços longos e musculosos, um dos quais exibia uma tatuagem no antebraço.

— Gordon! — Louise acenou com a cabeça para o sr. Kolton e a sra. Thacker. — A agência está aqui com uma nova garota.

A postura do homem relaxou. O rosto, tão ameaçador um instante antes, tornou-se mais suave.

— Isso é ótimo. — Ele olhou para o garoto. — Faça logo o que tem de fazer, Billy.

Gordon sorriu para o sr. Kolton e acrescentou, enquanto o garoto deixava a casa:

— Temos de manter a disciplina aqui.

— Eu compreendo. Louise interveio:

— Esta é Crystal. Crystal, este é meu marido, Gordon.

— Seja bem-vinda, Crystal.

Havia alguma coisa nos olhos de Gordon que me assustava, uma expressão animal. Olhei para o sr. Kolton e a sra. Thacker, a fim de verificar se eles também percebiam. Mas os dois pareciam alheios a tudo, a não ser à sua missão, que era a de me entregar e ir embora.

— Vou mostrar o quarto a Crystal e apresentá-la a Janet. Gordon, por que não pega as malas da garota?

— Claro.

— Voltaremos num instante — acrescentou ela para o sr. Kolton.

— Está bem. Boa sorte, Crystal — disse o sr. Kolton, enquanto subíamos a escada.

— Isso mesmo, boa sorte, querida — acrescentou a sra. Thacker.

Não olhei para trás. Louise continuou a falar sem parar, descrevendo a casa, sua história, como ela gostava de tomar conta das crianças sob seus cuidados.

— Todas são preciosas para nós, não é mesmo, Gordon?

— É, sim — murmurou ele. — Preciosas.

Ela parou diante de uma porta e bateu antes de abrir. Uma garota pequena, com um rosto tão perfeito quanto um querubim, levantou a cabeça para nos fitar. Estava enroscada na cama. Usava o que parecia ser um tutu e sapatilhas.

— Janet, você não está doente de novo, não é, querida? — perguntou Louise.

A garota sacudiu a cabeça em negativa.

— Apenas cansada de praticar seu balé?

Janet acenou com a cabeça, os olhos fixados em mim, cheios de terror.

— Esta é sua nova colega de quarto, Crystal. Crystal, esta é Janet. Tenho certeza de que vocês duas vão se dar muito bem. Janet também não é uma má aluna... não é, Janet?

A garota sacudiu a cabeça.

— Talvez agora, que tem uma colega de quarto, não fique mais tão retraída — comentou Louise.

Gordon largou as malas no chão e resmungou:

— Tenho coisas para fazer.

— Está bem, querido — disse Louise.

— Até mais tarde.

Assim que ele se retirou, Louise declarou:

— Gordon vive resmungando, mas é muito manso no fundo do coração. Deixarei vocês duas se conhecendo, enquanto desço para acertar tudo com o pessoal da agência. Fique à vontade para andar por toda parte e explorar seu novo lar, Crystal. Mais uma vez, querida, seja bem-vinda.

Ela se retirou. Olhei para Janet. Ela parecia muito frágil, mas tinha pernas firmes e musculosas.

— Você estuda balé?

Ela acenou com a cabeça. É uma garota tímida como uma borboleta, pensei. Comecei a arrumar minhas roupas. Janet me observou em silêncio por algum tempo, depois sentou na cama e disse:

— Não estudo mais. Não tenho mais uma professora.

Olhei para ela.

— Se gosta tanto, continue a dançar. Talvez algum dia arrume outra professora.

Ela sorriu. Era um sorriso bonito, ansioso em iluminar alguém que lhe desse amor. Gostei dela. Talvez fosse melhor que se mostrasse tão tímida e frágil. Talvez fosse melhor eu ter outra pessoa para cuidar, além de mim mesma, pensei. Fui até a janela e olhei para o lago.

— É um lindo lugar.

À claridade púrpura do crepúsculo, as estrelas começavam a surgir, cada uma como a extremidade de uma varinha de condão, repleta de promessas.

Janet e eu ficamos sentadas ali, junto da janela, contemplando o céu. Tive uma surpresa agradável quando sua mão encontrou a minha. Permanecemos em silêncio por um longo momento. Talvez não houvesse uma família lá fora esperando por nós. Talvez só tivéssemos uma à outra como única família. Talvez as únicas promessas que pudéssemos realizar fossem as que faríamos uma para a outra. Não tínhamos riqueza, nenhum dinheiro, nada que pudéssemos oferecer uma à outra, a não ser confiança.

Mais tarde, ela me mostrou fotos suas em traje de balé, começou a falar sobre sua vida. Não saiu depressa. Fora magoada no amor, como eu, tinha medo de confiar nas pessoas. Os segredos de nossos corações teriam de ser desenrolados como uma bola de barbante, um pouco de cada vez. Juntaríamos nossos passados, nossas angústias e nossos sonhos, até formar um casulo em que nos sentiríamos seguras.

Só depois poderíamos voltar ao mundo.

 

 

                                                                                V. C. Andrews 

 

 

                      

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