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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DE BAGDÁ A ISTAMBUL / Karl May
DE BAGDÁ A ISTAMBUL / Karl May

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

DE BAGDÁ A ISTAMBUL

 

A Arábia e o Maometismo

Ao sul do extenso e árido deserto sírio e mesopotâmico, cercada pelo mar Vermelho, fica situada a península Arábica, que se distende pelo mar Índico-Arábico adentro.

Em três de suas faces, esse território é cercado de uma orla de costa estreitíssima, mas extraordinariamente exuberante que, ao longo, se eleva num planalto. Este, em toda a sua extensão, apresenta um conjunto panorâmico monótono, meio grotesco, desfraldando às vistas do viajor uma extensa cadeia de montanhas, entre as quais se destaca a de Chammar de acesso dificílimo.

Esta área territorial, cuja extensão exata em metros quadrados ninguém ainda calculou, era na antigüidade dividida em três partes distintas denominadas Arábia Petrae, Arábia Deserta e Arábia Felix, o que em português significa: Arábia Pedregosa, Arábia Deserta e Arábia Feliz. Muitos geógrafos pensam originar-se a palavra Petrae da expressão greco-latina (Nétpx = Petra) que significa pedra, rocha etc, e por isso dão àquela região o nome de Arábia Pedregosa. Errônea, porém, é essa concepção. Aquele nome encontra antes a sua origem na velha cidade Petra que outrora  fora a capital dessa província do nordeste daquele país. O árabe chama a sua pátria de Dschesirat ei Arab (1), ao passo que os turcos e os persas dão-lhe o nome de Arabistão. Atualmente várias designações são dadas àquela península; as populações nômades da região não se preocupam com a denominação do país, visto que para elas, consideradas isoladamente, prevalece a designação de suas respectivas tribos clãs.

Sobre aquela península, o céu é límpido, eternamente límpido, como jamais se viu noutras zonas da terra, e à noite as estrelas brilham com uma claridade e limpidez jamais registradas em zona alguma do mundo. Pelos desfiladeiros das montanhas e pelos agrestes planaltos cruza o filho semi-selvagem das estepes, montado em fogosos corcéis ou em infatigáveis camelos. Seus olhares pousam em toda parte, porque ele vive em rixas com todo o mundo, excetuados apenas os componentes de sua tribo. De uma fronteira à outra ora o suave e límpido rumorejar da brisa ora o ciciar de odes exóticas e selvagens vem embalar a alma do viandante. Vem daío ter-se lá conhecido, através dos séculos, centenas e centenas de poetas, cujas estrofes vivem nos lábios do povo e foram também registradas para uso das gerações vindouras.

Como tronco do legítimo árabe prevalece Joktan, filho de Huts, descendente de Sem em quinta geração. Os descendentes de Yoktan povoavam a Arábia Feliz até aos golfos dos mares persas. Outros árabes, porém, orgulham-se em afirmar serem descendentes de Ismael, filho de Agar.

Aquele Ismael, segundo rezam as lendas, teria seguido com o seu pai Abraão para Meca e lá edificado a santa Caaba. A verdade, porém, é que a Kaaba foi instituída, ou pelo menos terminada a sua construção, pela tribo dos koreichites.

 

(1)     Ilha Arábica.

 

Entre os santuários de que se achava dotada Meca, conta-se a fonte santa de Zem-Zem e a pedra negra, que, segundo dizem, caiu do céu.

Para lá peregrinavam as diferentes tribos de árabes, a fim de armar os ídolos de suas tribos e por certo também os ídolos de suas próprias casas para depois adorá-los. Por isso Meca era para os árabes o que Delfos fora para os gregos e Jerusalém para os judeus. Constituía o ponto de concentração dos nômades dispersos por toda parte e que se não fora isso ter-se-iam perdido, por aí além.

Como pertencesse Meca aos koreichites, constituíam estes, naquele tempo, a mais poderosa e conceituada de todas as tribos árabes e em conseqüência também a mais rica. Os peregrinos provindos de todos os pontos nunca chegavam sem trazer presentes ou mercadorias de valor para negociar.

Um membro dessa tribo de nome Abd Allah (2) faleceu no ano 570 depois de Cristo. Alguns meses mais tarde, em 570, sua mulher, a viúva Amina, deu à luz um menino que mais tarde passou a chamar-se Mao-mé. (3) É muito provável que o menino tenha tido anteriormente outro nome e que só adotasse este último depois que sua atividade religiosa o tornou celebrada personalidade. Este nome é grafado também Mohamed, Muhamed e Mehamed.

Com a morte do pai, herdara o menino apenas dois camelos, cinco ovelhas e uma escrava abissínia. Foi, por isso, obrigado a recorrer à proteção e agasalho do seu avô Abd-al Mokalib e, com a morte deste, foi sucessivamente acolhido pelos seus tios Zuheir e Abu Taleb. Como, porém, a situação de pobreza desses homens não lhes permitia fazer muito pelo menino, este foi obrigado a angariar o pão de cada dia pastoreando ovelhas. Depois tornou-se guia de caravanas e mais tarde carregador de arcos e aljavas. Aí foi que, por certo, adquiriu o espírito belicoso de que era dotado.

Aos vinte e cinco anos de idade entrou para o serviço de Cahditscha, viúva de um comerciante.  Administrava ele com tanto zelo e espírito de sacrifício os bens da viúva riquíssima, que esta dele se enamorou, tomando-o por esposo. Mais tarde, porém, perdeu a grande fortuna adquirida pelo casamento. Até a idade de quarenta anos dedicou-se ao comércio. Em suas longas viagens de negócios entrara ele em contato com judeus e cristãos, com brâmanes e adoradores do fogo e esforçou-se por lhes estudar as religiões. Sofria Maomé de epilepsia e essa depressão nervosa predispunha-o para alucinações. Entregou-se por fim à oração, meditação e ao misticismo. Recolheu-se a uma caverna situada no monte Hara, arredores de Meca.  Lá teve as suas primeiras visões.

O círculo de crentes que aderiram logo à sua religião era assaz limitado e compunha-se de sua mulher Cahditscha, do seu escravo Zaid, dos dois mequenses Othman e Abu Bekr e de seu jovem primo Ali, que mais tarde adotou o nome de honra Areth Allah (4), e que foi um dos mais infelizes heróis do islamismo.

Ali, cujo nome significa o grande, o sublime, nascera no ano de 602 e gozava em tão alto grau da estima de Maomé que recebeu a filha deste por esposa. Quando

 

(2) Servo do Altíssimo.

(3) Muito louvado.

(4)    Leão de Deus.

 

pela primeira vez no círculo de sua família leu o profeta as proposições de sua religião e perguntou aos circunstantes: "Quem de vós quer se tornar adepto de minha seita?" todos silenciaram. Exceto, porém, o menino Ali, que entusiasmado pela poesia de que as proposições se achavam impregnadas, bradou decididamente: "Eu, e jamais dela me separarei!"

Essa sua atitude jamais foi esquecida pelo profeta.

 

A CISÃO DO ISLAMISMO

Ali foi um valente, um audaz guerreiro e a ele deve-se em grande parte haver-se depois, tão celeremente divulgado o islamismo. Contudo, ao falecer Maomé, sem uma disposição de sua última vontade, foi preterido, elegendo-se Abu Bekr, sogro do profeta, para califa (5). Este foi sucedido no ano 634 por um segundo sogro de Maomé, de nome Omar, sucedido mais tarde por Othman, um genro do profeta. Este foi assassinado no ano 656 por seu próprio filho Abu Bekrs. Atribuiu-se então a Ali o mando de tal assassínio e quando ele foi eleito, muitos chefes de Estado recusaram-se prestar-lhe juramento de fidelidade. Durante quatro anos combateu Ali pela sua sustentação no Califado e foi apunhalado no ano 660 por Abd-er-Rahman. Foi enterrado em Kufa, onde ainda hoje existe um monumento erigido em sua memória.

Data daí a cisão dos maometanos em dois exércitos contendores, em que se dividiram os sumitas e os chiitas. A cisão em apreço era motivada menos por princípios islamíticos que pela questão pessoal da sucessão ao Califado.  Os partidários da Chia afirmavam que não a Abu Bekr, Omar e Othman, mas a Ali cabia em primeiro lugar suceder a Maomé, como seu substituto imediato que o era de direito e de fato.

Ali deixou dois filhos, Hassan e Hossein. O primeiro foi pelos chiitas eleito califa, ao passo que os partidários de Sunna Muavijá I, o fundador dinastia dos ommajjaden, elevaram este ao referido cargo. Este último transferiu a sua residência para Damasco, tendo sido um dos seus primeiros atos dar o caráter de hereditariedade à sucessão ao Califado. Ainda em vida fêz sagrar califa ao seu filho Dschesid, o qual mais tarde revelou-se um califa tão furibundo que a sua memória, mesmo pelos sumitas, é lembrada com impropérios. Hassan não pôde vencer Muavijá para manter-se no califado e morreu envenenado em Medina, lá pelo ano 670.

O seu irmão Hossein contrapôs-se ao reconhecimento de Dschesid e tornou-se o herói do mais trágico episódio da história do islamismo.

A mão do califa Muavijá pousava, sinistra, sobre as províncias e os seus governadores o apoiavam com todas as forças e poder de que dispunham. Assim, por exemplo, o governador de Basra ordenou, sob pena de morte, que depois do pôr do sol ninguém saísse às ruas. À noite, logo após a decretação desta lei, cerca de duzentas pessoas foram encontradas fora de suas casas e impiedosamente decapitadas. Na noite seguinte diminuiu o número de decapitações e assim sucessivamente até que a lei foi cumprida com todo o seu rigor. O mais cruel e

 

(5)    Substituto, Lugar-tenente.

 

hediondo dos ommajjaden era Hadjadch, governador de Kufa, cujas tiranias custaram a vida a 120.000 pessoas.

Mais tirano ainda que Muavijá, tornou-se seu filho, o califa Dschesid. Ao tempo de suas atrocidades, achava-se Hossein em Meca, onde recebeu um chamado para ir a Kufa, a fim de ser investido nas funções de califa. Hossein atendeu ao chamado para desgraça sua.

Acompanhado de cem dos seus partidários quando chegou ele em Kerbelá, diante de Kufa, já encontrou a cidade sitiada pelos seus inimigos. Em vão, tentou toda sorte de negociações tendentes a um acordo. Esgotaram-se-lhes as provisões em vitualhas, a água secara à ação da causticante canícula; os animais, exaustos, tombaram e Hossein com seus companheiros de olhos encovados e febris viam o espectro da morte deles se aproximar a passos rápidos. Em vão clamava ele a Alá por salvação. O ocaso de sua vida "se achava escrito nos livros". Nisso, Obeid Allah, um dos condutores do exército de Dschesid invadiu o seu acampamento, massacrou os companheiros de Hossein e a este mandou depois decapitar. Todos já se achavam próximos da morte, mas nem essa circunstância comoveu ao tirano opressor. Contudo, os massacrados portaram-se com raro heroísmo, resistindo tanto quanto suas forças já combalidas ainda permitiam resistir. A cabeça de Hossein foi espetada na ponta de uma lança e carregada em triunfo.

Isto sucedeu no dia 10 de Moharrem; este dia ainda hoje é de luto para os chiitas. No Indostão costumam conduzir um quadro com a cabeça de Hossein espetada na lança, tal qual sucedeu depois de sua morte; com uma ferradura trabalhada em custoso metal, simbolizam-se os seus perseguidores. Todos os anos, no dia 10 de Moharrem, de Bornéos a Celebes, através das índias e da Pérsia até o mogreb (6) da Ásia, onde os chiitas possuem adeptos dispersos ressoa um brado de dor e angústia, e em Kerbela realiza-se uma representação dramática impregnada de inimagináveis cenas de desesperação. Ai do sumita, ai do giaur que neste dia estiver em Kerbela, entre os chiitas vermelhos de agitação e sedentos de vingança. Será cortado aos pedaços!

Esse intróito histórico, é para melhor compreensão dos fatos que passarei a narrar.

 

A PESTE D’ALEPO

Quando ainda no Zab, tomamos a deliberação de costeá-lo e nos dirigirmos até o Chirbani, para, depois, cavalgarmos com destino aos domínios dos curdos do Zibar. Até Chirbani, achavamo-nos munidos de recomendações do bei de Gumri e do melek de Lizan, e dali por diante esperávamos obter outras proteções. Os chirbanis nos acolheram com hostilidade, mas pelos zibaris fomos recebidos bastante hostilmente; contudo, consegui depois conquistar-lhes a amizade. Sem incidentes de maior monta, atingíramos o rio Akra, onde nos chocamos com a malquerença nata das populações montanhesas e, após várias experiências graves no terreno prático, resolvemos dirigir-nos para o sul. Atravessamos então o Zab ao

 

(6) Oeste

 

oeste do Shara Surgh, deixando a aldeia Pir Hasan à nossa esquerda e fomos obrigados, dada à circunstância de nós não podermos fiar nos curdos ali moradores, a dirigirmo-nos para o sudoeste. Seguindo este rumo, era intento nosso dobrar à direita para de qualquer forma alcançar o Tigre, entre Dyaleh e o Pequeno-Zab. Contaríamos com uma acolhida cordial da parte do árabes-zcherboas, se eles nos pusessem à disposição um guia de confiança. Mas infelizmente tivemos de constatar, em lá chegando, que aqueles se haviam aliado com os obeides e Beni-Lams para fazer sentir às tribos, residentes entre o Tigre e o Thatar, a ponta de suas lanças. É verdade que os chammares mantinham relações de amizade com um dos ferkahs dos obeides, cujo xeque era Eslah el Mahem, mas este homem podia também ter mudado de idéias, esquecendo-se daquela amizade. E quanto aos demais ferkahs sabia Maomé Emin serem todos eles inimigos dos haddedins. Nessa conjuntura, o mais aconselhável seria desviar a nossa rota para Sulimania e lá resolver a melhor forma de prosseguir a jornada. Conseguíramos libertar Amad el Ghandur e trazê-lo até aqui assim era preferível fazer uma grande volta no caminho em vez de nos atirarmos em novos perigos.

Depois de algum tempo, chegamos à montanha-norte do Zagros..

Era noite e acampamos na orla de um bosque de tschimar (7). Sobre nós brilhava um firmamento tão límpido e claro como só se observa naquelas regiões. Achavamo-nos nas fronteiras persas e a Pérsia é celebrada pela doçura de sua atmosfera. A luz das estrelas sobre a terra era tão clara que, não obstante não se achar àquela época a lua nem no calendário, nem no céu, eu podia ver as horas no mostrador do meu relógio a três passos de distância. Uma leitura, mesmo nos menores caracteres gráficos, ser-me-ia possível naquela noite tão fartamente estrelada. Os raios de Júpiter eram tão intensos, que mesmo com as lentes de um telescópio aumentadas em seu mais elevado grau, não se lhe distinguiriam os satélites, salvo se se procurasse com a margem do instrumento encobrir o corpo do planeta. Até as estrelas telescópicas eram visíveis naquela região de céu tão lindo e maravilhoso. A sétima estrela da constelação das Plêiades podia-se distinguir no céu sem maior esforço de visão. A intensa claridade de um tal firmamento causa profunda impressão ao nosso ser e agora eu compreendia a razão de ser a Pérsia cognominada a pátria da astrologia.

O local era ótimo para um acampamento. Acendemos um fogo para assar o cordeiro que compráramos a um pastor.

Os nossos cavalos pastavam nas imediações. Nesses últimos dias a nossa expedição lhes exigira o máximo das forças. Mereciam bem alguns dias de descanso, o que infelizmente não nos era possível conceder-lhes, de momento. Todos nós passávamos bem, com exceção de sir Lindsay que andava muito irritado.

Havia dias fora ele acometido de uma febre que persistiu durante vinte e quatro horas apenas. Depois cessou-lhe a febre mas com o seu desaparecimento lhe sobreveio um daqueles horríveis presentes orientais, que o latim classifica de Febris Aleppensis e que o francês denomina de Mal d’Aleppo ou Bouton d’Alep. Essa "peste d’Alepo" que acomete não só as pessoas como também determinados animais, como cães e gatos, em geral é precedida de uma curta febre, à qual

 

(7) Plátanos orientais.

 

sobrevem então um grande tumor no rosto, nos braços, no peito, nas pernas, ou no nariz. Esse tumor durante um ano inteiro produz secreções contínuas e ao desaparecer deixa na região uma cicatriz para toda a vida. O nome dessa peste não é lá muito adequado, visto que ela não grassa apenas em Alepo mas também nas regiões de Antióquia, Mussul, Diarbekr, Bagdad e nalgumas zonas persas.

Eu já me acostumara a ver constantemente pessoas com tumores d’Alepo mas não em tamanho tão descomunal como o que acometera o nosso bom Mister Lindsay. O pior, porém, não era a enormidade do tumor, mas a circunstância de haver este escolhido justamente o nariz para nele se alojar, aquele pobre nariz que já arcava com o peso de sua natural deformidade. E o nosso inglês não suportava o mal com displicência, conforme lhe cabia na qualidade de legítimo representante da

very great and excellent nation, mas explodia numa cólera e impaciência, que chegavam a causar dó aos companheiros de caravana.

Agora se achava ele sentado à fogueira do acampamento e limpava a pústula do nariz.

— Mister, disse-me ele. — Olhe aqui!

— Aí onde?

— Hum! Tola pergunta! Para minha cara, naturalmente! Yes! Tornou a crescer esta coisa?

— Crescer o que, homem?

— ‘sdeath! O tumor do nariz! Cresceu muito?

Muitíssimo. Adquiriu até o formato de um pepino.

— All devils! Horrível! Medonho! Yes!

— É provável que seu nariz com o tempo se transforme num Fowling-bull, sir!

— Quer levar um sopapo de mim, mister? Estou ao seu inteiro dispor para isso! Eu quisera que o senhor também tivesse um desses miseráveis swellings (8) no nariz!

— Sente dor?

— Não.

— Dê-se por satisfeito então!

— Satisfeito? Zounds! Como posso estar satisfeito, se toda gente julga que meu nariz nasceu acompanhado de snuff-box! (9) Que tempo acha que o tumor levará para curar?

— Um ano mais ou menos, sir!

O homem lançou-me um olhar tão raivoso, que estive prestes a recuar de susto. Abriu a boca de modo que o nariz com o seu snuff-box nela poderia ter entrado a dar um passeiozinho, se a isso estivesse disposta

— Um ano?! Um ano inteiro? Doze meses em cheio?!

— Mais ou menos.

— Oh! Ah! Horrible! Pavoroso! Tremendo! Não há meio para evitar isso? Emplastro? Pomada? Compressas? Estirpação do tumor?

— Nada, nada disso!

 

(8) Intumescimento.

(9) Caixinha de rape.

 

— Mas para todos os males há remédios!

— Exceto para esse, sir. O intumescimento do seu nariz não é em si perigoso, mas se nele fizer incisões, massagens etc, pode facilmente agravar-se e acarretar-lhe sérias complicações.

— Hum! E depois de sarar, que sucederá?

— Conforme. Quanto maior o tumor tanto maior a cicatriz, ou orifício que ele deixará no nariz.

— My-sky! Uma cicatriz, um orifício?

Infelizmente, sim.

— Que desastre! Horrível esta terra! Zona miserabilíssima! Vou tratar de voltar a Old England!

— Espere ainda um pouco, sir!

— Por quê?

— Que diriam lá na velha Inglaterra de Sir David Lindsay, quando vissem haver ele permitido ao nariz abrir uma filial?

— Hum! Tem razão, mister! Até os garotos me incomodariam. Continuarei, pois, aqui até...

 

HOSPITALIDADE QUE TRAZ COMPLICAÇÕES

— Sídi, — interrompeu-o Halef — não olhe para trás!

Eu me achava sentado de costas voltadas para o bosque e logo percebi que o meu criado notara alguma coisa de suspeito por trás de mim.

— Que estás a ver? — perguntei-lhe.

— Dois olhos a te fitarem. Bem por trás de ti estão dois plátanos e por entre eles ergue-se um tufo de pêras silvestres. Nesse tufo esconde-se o homem que nos está a observar.

— Vês ainda os olhos dele?

— Espera um momento.

O homenzinho, portando-se com a maior naturalidade possível a fim de não provocar as suspeitas do espião examinou novamente o esconderijo deste, ao mesmo tempo que eu instruía aos demais a se postarem, como se nada houvessem percebido.

— Está lá ainda o homem! — declarou Halef.

Levantei-me, dando aparências de quem ia juntar galhos secos para o fogo. Com isso, me afastei do acampamento a uma tal distância que não podia mais ser visto. Depois entranhei-me no macegal do bosque e, de esgueira primeiro, e de gatinhas depois voltei para o ponto primitivo. Cinco minutos após me achava por trás dos dois plátanos e tive então oportunidade de mais uma vez constatar a excelente acuidade visual de Halef. Entre as árvores e a moita acocorava-se realmente um homem a observar o nosso acampamento.

Por que nos estaria espionando? Achavamo-nos acampados numa região onde num perímetro de milhas e milhas não se achava estabelecida nenhuma aldeia. É verdade que nas vizinhanças havia várias tribos menores de curdos que se degladiavam e também podia ser que alguma clã nômade de persas houvesse atravessado as fronteiras com o fito de perpetrar algum saque ou roubo. Confirmado este último caso, muitos restos de tribos desbaratadaas e dizimadas havia por lá que de boamente se juntariam a qualquer clã que lhes aparecesse.

Não podia pois descuidar-me. Aproximei-me do espião e rapidamente o peguei pela garganta. O homem de tal modo se assustou que ficou hirto e nem reagiu quando o ergui do solo; transportei-o então para junto da fogueira.

Lá o depus no solo e saquei do punhal.

— Não te mexas, porque do contrário te apunhalarei! — ameacei-º

Nem por isso me animavam propósitos maus, ao fazer-lhe aquela ameaça, mas o batedor levou-a a sério. Ajoelhou e de mãos postas suplicou:

— Senhor, perdão!

— De boamente! Mas se mentires serás um homem morto! Quem és tu?

— Sou um turcomano e pertenço à tribo dos bejates.

Um turcomano nestas alturas? Pelo seu modo de trajar-se, podia ser que realmente estivesse dizendo a verdade. Também sabia eu que outrora turcomanos se haviam estabelecido entre o Tigre e as fronteiras persas e era igualmente certo que estes pertenciam exatamente a tribo dos bejates. O deserto de Lura e as planícies de Tapespi haviam sido o teatro de suas tropelias. Quando, porem, o xá Nadir atacou o Ejalet de Bagad, arrastou a tribo dos bejates para Khorassan. O xá designava esta última província de “espada da Pérsia”, devido à sua admirável situação estratégica e esforçava-se por povoa-la de atilados guerreiros.

— Um bejate? — perguntei-lhe. — Mentes!

— Digo-te a verdade, Senhor.

— Os bejates não moram nesta zona, mas na longínqua Khorassan.

— Tens razão neste ponto; mas quando outrora abandonaram esta zona, aqui deixaram alguns dos seus guerreiros, cujos descendentes hoje se contam em mais de mil guerreiros. Os nossos territórios ficam situados nas proximidades das ruínas de Kizzel-Karaba e nas margens do Kuru-Tschai.

Lembrei-me de já haver realmente ouvido dizer isso.

— E atualmente vos achais nas proximidades deste bosque?

— Sim, Senhor!

— De quantas cabanas se compõe o vosso acampamento?

— Não temos cabanas.

Aquilo levantou-me suspeitas. Quando uma tribo nômade deixa o seu acampamento sem levar as cabanas, é sinal certo de que sai em prática dalgum roubo ou assalto, ou então anda em expedição de guerra, a tomar alguma desforra.

— De quantos homens compõe-se o teu atual acampamento?

— De duzentos.

— Inclusive mulheres?

— Elas não se acham em nossa companhia.

— Onde estais acampados?

— Perto daqui. Ao dobrares lá aquela curva do mato, avistarás o nosso acampamento.

— Notastes então a nossa fogueira?

— Notamos sim, e o Khan destacou-me para observar que gente era a que aqui acampava.

— Para onde vos dirigis na presente expedição?

— Rumo ao sul.

— Qual é a localidade do vosso objetivo?

— Pretendemos atingir as cercanias de Sinna.

— Mas Sinna é território persa!

— Realmente. Os nossos amigos que lá moram vão realizar uma grande festa e nós nos achamos em caminho para nelas tomarmos parte, a convite deles.

Outra afirmativa que provocava suspeitas. Aqueles bejates possuíam a sede de sua residência nas margens do Kuru-Tschai e nas proximidades das ruínas de Kizzel-Karaba, portanto nas cercanias de Kifri. Esta cidade, porém, ficava muito distante ao sudoeste do nosso atual acampamento, ao passo que Sinna ficava muito mais perto, na região do sudeste. Por que então não se dirigiam os bejates diretamente de Kifri a Sini? Por que estavam fazendo aquela enorme volta? Com o fito de esclarecer essa estranha circunstância, perguntei-lhe:

— E que estais fazendo aqui? Com que fim alongais ao dobro o vosso caminho?

— Porque pelo caminho mais próximo teríamos de atravessar o território do Paxá de Sulimania que é nosso inimigo.

— Mas da mesma maneira vos encontrais atualmente também em território do mesmo Paxá!

— Mas ele jamais pensa em nos encontrar cá em cima. Ele sabe que caímos em expedição e julga havermos tomado o sul.

Aquela asserção, sim, soava de um modo mais verossímil; contudo eu não me fiava ainda lá muito no homem. Ademais, considerei que a presença daqueles bejates só nos poderia ser vantajosa. Sob a proteção deles poderíamos, sem sermos molestados, alcançar Sinna e de lá em diante não precisávamos recear mais perigo algum. O turcomano me veio ao encontro daquela aspiração, perguntando-me:

— Senhor, não me soltarás? Eu nada te fiz!

— Tu procedeste segundo ordens recebidas; estás em liberdade!

O homem respirou aliviado.

— Muito obrigado, Senhor! Para onde pretendeis seguir, se me permites a pergunta?

— Para o sul.

— E vindes do setentrião?

— Exatamente. Procedemos das montanhas dos Tijaris, da terra dos berwaris e dos caldeus.

— Então sois homens muito valentes e corajosos. A que tribo pertenceis?

— Este homem e eu somos emires de Frankistão e os demais amigos nossos.

— De Frankistão? Senhor, quereis viajar conosco?

— Seremos acolhidos na expedição pelo vosso khan?

— Sereis, sim. Todos sabemos que os frankes são grandes guerreiros. Queres que eu vá avisá-lo de vossa presença aqui?

— Vai e pergunta-lhe se ele está disposto a nos acolher!

O batedor levantou-se e saiu. Os companheiros concordaram todos com a minha resolução, principalmente Maomé Emin com ela muito se alegrou.

— Efêndi, — declarou este — já ouvi falar muito nos bejates. Eles vivem em eternas contendas com os dcherboas, obeides e beni-lames e por isso nos serão úteis. Contudo não lhes dirás ainda que meu filho e eu somos haddedins. É melhor ignorarem tal particularidade.

— Desde já precisamos tomar todas as cautelas, visto ignorarmos ainda se seremos bem acolhidos pelo khan. Ide buscar os vossos cavalos e armai-vos para estardes preparados para qualquer emergência.

Ao que parecia, os bejates realizaram uma grande conferência a nosso respeito, pois antes de darem sinal de si, já havíamos assado e saboreado o cordeiro. Finalmente, percebemos ruídos de passos nas folhas secas do bosque. Daí a pouco surgiu-nos o turcomano que havia pouco estivera conosco. Vinha na companhia de três camaradas.

— Senhor, — declarou ele de chegada — venho agora oficialmente da parte do khan. Temos ordens de vos conduzir ao nosso acampamento, onde sereis bem-vindos.

— Neste caso, caminha à frente e nos guia!

Montamos e o seguimos mas, por via das dúvidas, de espingardas nas mãos. Ao dobrarmos a curvatura do mato, há pouco referida pelo bejate, nada notamos em nossa frente que desse a idéia dum acampamento. Depois de atravessarmos uns densos tufos, porém, chegamos a uma clareira do bosque, na qual ardia uma enorme fogueira. Fora excelente a escolha daquele local para acampamento, visto que do lado de fora não era notada

Haviam acendido o fogo não para aquecer os expedicionários, mas a fim de assar-lhes as provisões. Duzentos vultos escuros se achavam deitados no solo nas vizinhanças da fogueira e junto a esta estava sentado o khan, que à nossa aproximação ergueu-se com lentidão. Cavalgamos diretamente a ele e lá chegando apeamos.

— A paz seja contigo! — saudei-o.

— Mi newahet kjerdem! Aceita minha saudação! — respondeu-me ele, inclinando-se respeitosamente.

O gesto era caracteristicamente persa. Talvez que com isto me queria ele provar ser realmente um bejate, cuja tribo-tronco se achava estabelecida em Khorassan. O persa é o verdadeiro francês oriental. Seu idioma é flexível e sonoro, razão por que se tornou a língua das cortes de diversos regentes e príncipes orientais. Mas as suas maneiras corteses, lisongeiras e às vezes servis até, jamais produziram-me boa impressão. O tratamento ríspido, a rude franqueza do árabe agrada-me muito mais.

Todos os membros da expedição levantaram-se e solicitamente estendiam as mãos para pegar das rédeas dos nossos cavalos, para os acomodar. Não lhes entregamos, porém, os animais porque não podíamos saber se se tratava de um gesto de hospitalidade ou de um ardil para nos roubarem os animais.

— Confiai-lhes os cavalos, que eles os acomodarão! — pediu o khan.

Resolvi pôr tudo às claras primeiro, razão por que lhe perguntei em idioma persa:

— Hestiirchad engiz? Garantes pela nossa segurança pessoal e dos nossos têres?

O khan inclinou a cabeça em sinal de afirmação e, levantando os braços, exclamou: — Mi saukend chordem! — Juro-o! Sentai-vos ao meu lado e palestremos!

Os bejates levaram os cavalos, exceção feita do meu Rih, que Halef ainda segurava. O meu criado compreendia admiravelmente bem minhas preferências. Nós outros tomamos lugar com o khan em torno da fogueira, Era um homem de meia idade de aparência marcial. Os traços fisionômicos eram-lhe francos e despertavam logo a confiança de que dele se acercasse; pela distância respeitosa em que os seus súditos tomaram lugar no acampamento inferia-se quanto o acatavam e estimavam.

— Já me conheces através do nome? — informou-se ele iniciando a palestra.

— Ainda não — respondi-lhe.

— Sou o Heider Mirlam (10), sobrinho do celebrado Bey Hassan Kerkusch. E neste já ouviste falar?

— Neste sim. Residia nas proximidades da aldeia de Dchenijah, situada na estrada real que liga Bagdad a Tauk. Foi um valente guerreiro, o que lhe não impedia de amar a paz; todo o desamparado encontrava nele acolhida e proteção.

Ele declinara-me o seu nome e a cortesia mandava que eu lhe declinasse também o meu. Por isso prossegui.

— O teu batedor já te deve ter dito que sou um franke. Quanto ao meu nome costumam chamar-me Kara Ben Nemsi e estou sempre ao teu....

Não obstante o domínio de si próprio a que está sujeito todo guerreiro oriental, o homem não pôde conter um brado de entusiasmo:

— Ajah... oh! Kara Ben Nemsi! Então este teu companheiro de vermelho é um emir do Inglistão que anda a desenterrar pedras e documentos?

— Já ouviste falar nele?

— Claro senhor! Tu me citaste apenas o teu nome, mas eu já conhecia tanto a ti como a ele através de notícias que recebi. Aquele homenzinho que segura a tua montaria é o pequeno Hadji Halef Ornar, tão temido por muitos grandes e poderosos?

— Adivinhaste.

— E quem são os outros dois?

— São amigos meus, que depuseram os seus nomes no Kuran (11). Quem te deu notícias nossas?

— Conheces o Ibn Zedar Ben Huli, o xeque dos Abu Hammed?

— Conheço. É amigo teu?

— Não é nem amigo e nem inimigo. Fica descansado. Não me compete a mim tomar de ti vinganças no seu lugar.

— Nem tenho receio disso!

— Crei-o. Encontrei-o de uma feita em Eski Kifri e então ele me disse seres tu o culpado de estar ele pagando tributos. Acautela-te senhor! O xeque te matará no dia em que lhe caires nas mãos.

— Pois já estive nas suas mãos, sem que elas me tivessem morto! Fui seu prisioneiro mas ele não conseguiu deter-me por muito tempo.

 

(10) Leão Míriam.

(11) Significa: — "Oculta o nome por motivos que precisam ficar ignorados."

 

— Soube de tudo. Mataste sozinho o leão e no escuro; depois envolvendo-te na sua pele te retiraste a cavalo. E achas que também eu não te conseguiria deter no caso de seres meu prisioneiro?

Aquela pergunta provocou-me logo graves suspeitas do homem. Contudo respondi-lhe calmamente:

— Não me deterias, não! Aliás, não sei de que modo te seria possível levar a efeito o meu aprisionamento!

— Senhor, atenta para a circunstância de sermos duzentos, ao passo que vós sois apenas cinco! ..

— Khan, não te esqueças de que entre esses cinco há dois emires do Frankistão, que valem tanto quanto duzentos bejates!

— Falas com excessiva soberba!

— E tu me fazes perguntas não condizentes com o espírito de hospitalidade! Devo pôr em dúvida a sinceridade das palavras com que nos acolheste, Heider Mirlam?

— Sois meus hóspedes, não obstante não conhecer eu os nomes desses outros dois homens. E na minha companhia sereis servidos de pão e carne.

Um sorriso respeitoso aflorou-lhe aos lábios e o olhar que dirigiu aos dois haddedins dizia-me o bastante. Maomé Emin em virtude de sua lindas barbas, longas e brancas como neve seria reconhecido entre mil.

A um sinal do khan foram trazidos vários pedaços quadriculares de couro, nos quais nos foram servidos pão, carne e tâmaras. Após havermos comido alguma coisa daquela refeição, foi-nos fornecido fumo para os cachimbos que o khan em pessoa nô-los acendeu.

Após tal cerimônia, sim, podíamos estar certos de que éramos hóspedes seus na verdadeira acepção do termo, razão por que fiz sinal a Halef para acomodar o Rih juntamente com os demais cavalos. Ele o fêz e depois sentou-se em nossa companhia.

— Qual o termo de vossa jornada? — informou-se o khan.

— Dirigimo-nos a Bagdad — respondi-lhe cautelosamente.

— E nós a Sinna — volveu ele. — Quereis fazer-nos companhia?

— Permitir-nos-ás?

— Terei imenso prazer em vos ter na minha expedição. Aperte-me a mão, Kara Ben Nemsi! Que meus irmãos sejam teus irmãos e que meus inimigos sejam teus inimigos!

Depois apertou a mão de todos os demais, pronunciando as mesmas frases; os companheiros estavam satisfeitíssimos por haverem, inesperadamente, encontrado um amigo e protetor. E no entanto, por havermos aceito aquela amizade e aquela proteção mais tarde haveríamos de nos arrepender amargamente. O chefe dos bejates não era, aliás, mal intencionado conosco; mas viu logo que nos acolhendo, fazia uma excelente aquisição que mais tarde lhe haveria de trazer extraordinárias vantagens.

— Quais são as tribos que se encontram no caminho, daqui para Sinna? — informei-me dele.

— Esta região é livre e nela ora uma ora outra tribo apascenta os seus rebanhos. Aquela que fôr a mais forte é a que fica dona da situação!

— Que tribo vos convidou para as festas?

— A dos dchiafes.

— A tua tribo deve estar orgulhosa desta amizade, pois os dchiafes são as mais poderosas de todas as tribos do país! Os xeques Ismael, Zengeneh, Kelogawani, Kelhore e até o Chenki e o Hollali a temem.

— Emir, já estiveste aqui de alguma feita?

— Nunca.

— Mas conheces todas as tribos da zona.

— Não te esqueças de que sou um franke!

— Sim, os frankes sabem de tudo, mesmo de coisas que nunca viram, Já ouviste também falar a respeito da tribo dos bebbehs?

— Já. É a tribo mais rica: possui uma enorme extensão do país e tem as suas aldeias nos arredores de Sulimania.

— Estás bem informado. Tens amigos ou inimigos entre eles?

— Nem uma cousa nem outra. Nunca me encontrei com um bebbeh,

— É possível que todos vós venhais a conhecê-los.

— Pretendeis encontrá-los na presente expedição?

— Não pretendemos, até as evitamos o mais que é possível. Mas mesmo assim pode suceder que eles se nos atravessem no caminho.

— Conheces bem a estrada daqui a Sinna?

— Muito bem.

— A que distância fica daqui?

— Bem montado, pode-se alcançá-la em três dias de viagem.

— E daqui a Sulimania?

— Podes alcançá-la em dois dias.

— A que horas levantareis acampamento amanhã?

— Assim que sair o sol. Quereis deitar-vos a dormir?

— Como achares melhor.

— A vontade do hóspede constitui lei em nossos acampamentos e vós deveis estar cansados, pois tu até já depuseste o cachimbo. Também o Amasdar, (12) está com os olhos pequeninos. Deixo-vos ao descanso!

— Bejeted chirinkar! Que nobres costumes os dois bejates! Permite então que estendamos os nossos cobertores!

— Estendei-os! Allah aramed chumara! Deus que vos conceda um bom sono!

A uma ordem sua, foi-lhe trazido um tapete para servir-lhe de leito.. Os meus companheiros se puseram bem à vontade; eu, porém, emendei o laço às rédeas do Rih e amarrei uma das extremidades no braço. Daquela maneira, o esplêndido garanhão poderia pastar a seu bel prazer e eu o tinha em segurança. Além disso, como me resolvera deitar, a uma distância do acampamento, Dojan se acomodou ao meu lado, reforçando-se deste modo a vigilância ao animal.

Assim passou-se um tempo. Não havia eu ainda cerrado os olhos, quando vi que alguém se aproximava de mim. Era o inglês que estendeu, seus dois cobertores ao meu lado e se deitou.

Bela camaradagem esta! — murmurou ele. — Estou lá sentado feito dois

 

(12) O homem do tumor: Lindsay.

 

de pau, sem perceber nada do que falam! Pensei merecer eu ao menos a atenção de me ser traduzida a palestra! Mas nisso, o tal que se diz meu amigo, deu às de Vila Diogo do acampamento, sem sequer me distinguir com um olhar! Hum! Muito obrigado, sir!

— Perdoe-me, sir! Realmente me havia esquecido do senhor!

— Havia se esquecido de mim! Estás cego ou não sou suficientemente grande?

— Ora essa, na vista o seu vulto cai logo, principalmente depois que se supriu de um farol sobre a face. Mas afinal que quer saber?

— Tudo! Ademais, deixemos de uma vez por todas, dessa coisa de farol sobre a face! Que esteve a falar com aquele xeque, khan ou coisa. que o valha?

Transmiti-lhe toda a palestra.

— Well! É promissor para nós esse encontro! Não é?

— Claro. Três dias de viagem em segurança já é alguma coisa,

— O senhor declarou que seguiria para Bagdad? Falou seriamente, sir?

— Realmente seria para nós a rota preferível, mas infelizmente não. há possibilidade de tomá-la.

— Por que não?

— Porque primeiramente temos que voltar aos campos forrageiros dos haddedins, onde o senhor deixou o seu criado, além disso muito sentiria se me visse obrigado a separar-me de Halef, em meio da jornada. Não o deixarei antes de o saber são e salvo, junto de sua jovem esposa.

— Faz muito bem! Yes! Um portento aquele homenzinho! Vale dez mil libras esterlinas! Well! Além disso, eu gostaria muito de voltar para lá.

— Por quê?

— Por causa dos fowlings-bulls.

— Oh! antiqualhas há também nas proximidades de Bagdad, por exemplo entre as ruínas de Hila. Lá há campos de ruínas que se estendem a milhas e milhas geográficas, não obstante não haver sido Babilônia tão grande como Nínive.

— Oh! Ah! Vamos até lá! Yes! Rumo de Hila! Não é assim?

— Por enquanto não nos entusiasmemos ainda com isso. O principal para nós de momento é atingirmos incólumes as margens do Tigre. O resto depois se resolverá com mais calma.

— Bem! Mas para Hila haveremos de seguir um dia! Yes! Well! Good night!

— Boa noite!

Mal pensava o bom do inglês que chegaríamos àquela região antes e em circunstâncias bem diversas das que supúnhamos. Enrolou-se no seu cobertor e daí a instantes roncava dormindo o sono do justo. Adormeci também em seguida, constatando, porém, antes que quatro dos bejates haviam montado a cavalo e abandonado o acampamento.

Quando me acordei já raiava o dia e os turcomanos estavam ocupados no tratamento de seus cavalos. Halef que já se achava também de pé notara igualmente a partida durante a noite dos quatro bejates e me comunicou o fato.

— Sídi, por que expedem emissários, se realmente estão bem intencionados conosco?

— Não creio que os quatro cavaleiros foram expedidos por nossa causa. De mais a mais, já estaríamos completamente no poder do khan se este alimentasse propósitos hostis a nosso respeito. Fica, pois, descansado, Halef!

Calculei logo que os quatro batedores haviam sido expedidos unicamente para fazer um reconhecimento do caminho, devido aos perigos de que estavam minados. A um pedido de informações que fiz ao khan, verifiquei depois que fora acertada a minha suposição.

Depois de uma frugalíssima merenda, composta apenas de algumas tâmaras, levantamos acampamento e prosseguimos viagem. O khan dividira a tropa em grupos, que cavalgavam a distância de quinze minutos uns dos outros. Via-se daí ser ele um homem previdente que cuidava carinhosamente da segurança de seus súditos.

Cavalgamos ininterruptamente até ao meio dia. Quando o sol já havia atingido o zênite, fizemos uma parada para descansar os animais. Durante toda a nossa cavalgada, não encontráramos pessoa alguma e nas moitas e árvores da orla da estrada encontrávamos sinais ali deixados pelos quatro batedores, sinais que nos indicavam o rumo a tomar.

Esse rumo afigurava-se-me enigmático. Do nosso acampamento da noite, ficava Sinna ao sudoeste, mas ao invés de seguirmos aquele rumo, haviamo-nos desviado diretamente para o sul.

— A tua expedição não tem por objetivo visitar os dchiafes?

— Conforme já te disse, sim.

— Aquela tribo nômade, não se acha atualmente nas redondezas de Sinna?

— Exatamente.

— Mas se continuarmos a cavalgar por este rumo, jamais chegaremos a Sinna, mas a Banna ou a Nweizgieh!

— Não preferes viajar a cavaleiro de quaisquer perigos, Senhor?

— Naturalmente!

— E nós também. E por isso é que fazemos uma grande volta, a fim de evitarmos algum contato com tribos inimigas. Até hoje à noite viajaremos numa cavalgada bastante forçada, mas depois poderemos descansar. Esperamos que o caminho para oeste esteja amanhã isento de perigos.

Depois de duas horas de descanso, reencetamos a cavalgada. Penosa era aquela nossa viagem e por muitas vezes fomos obrigados a cavalgar por extensos ziguezagues; havia, pois, muitos pontos, dos quais os batedores julgaram previdente nos afastar.

 

O INICIO DO PERIGO

À noitinha tivemos que transpor um trecho de caminho que se assemelhava um tanto com um desfiladeiro. Eu me conservava ao lado do khan, que dirigia o grupo da vanguarda. Já havíamos quase vencido o caminho, espécie de desfiladeiro, quando nos encontramos com um cavaleiro: este, ao avistar-nos, ficou perplexo, prova de que não esperava encontrar gente estranha pelas redondezas. Afastou-se para o lado, baixou a lança e nos saudou:

— Sallam!

— Sallam! — correspondeu o khan. — Para onde pretendes ir?

— Ao mato, caçar um bergschaj (13).

— A que tribo pertences?

— Sou um bebbeh.

— Tens residência fixa ou és nômade?

— Durante o inverno estabelecemos residência; no verão porém, saímos a apascentar os nossos rebanhos.

— E onde costumais residir no inverno?

— Em Nweizgieh, ao sudoeste daqui. Dentro de uma hora poderás alcançar a nossa aldeia. Os meus companheiros de tribo vos receberão cordialmente.

— De quantos homens compõe-se o grupo de que fazes parte?

— De quarenta. Noutros rebanhos há maior número de companheiros meus.

— Entrega-me tua lança!

— Por quê? — perguntou o homem admirado.

— E a tua espingarda!

— Por quê?

— E a tua faca! Considera-te meu prisioneiro!

— Machallah!

Essa fora uma exclamação de susto, mas no mesmo instante fêz o cavalo se erguer para depois recuar e sair a galope.

— Pegai-me, se quiserdes! — ouviu-se apenas o homem dizer em tom decisivo.

O khan tomou então da espingarda e assestou-a contra o fugitivo. Mal tive tempo de desviar o cano e a bala deflagrou. Naturalmente que o tiro em vista da minha interferência errou o alvo. O khan cerrou os punhos e ergueu-se contra mim. Prontamente, porém, resolveu mudar de resolução.

— Khyangar (14)! Que fazes tu? — exclamou encolerizado.

— Não sou traidor, não — exclamei calmamente. — Viso apenas evitar que incorras nalguma vingança de sangue.

— Mas ele terá que morrer. Se escapar, estaremos perdidos.

— Deixá-lo-ás com vida se eu o trouxer à tua presença?

— Claro. Mas não o pegarás!

— Espera!

Galopei em perseguição do fugitivo. Não se o avistava mais; dai a minutos, porém, quando cheguei ao fim do desfiladeiro, dei com os olhos nele, que galopava a uma boa distância de mim. Diante de mim descortinava-se uma planície coberta por cravos silvestres e do outro lado desta um denso matagal. Se eu deixasse o bebbeh alcançar o matagal, então, sim, jamais o capturaria.

— Rih! — bradei colocando a mão entre as orelhas do garanhão. O valente animal já há dias que vinha sendo forçado a longas cavalgadas; mas àquele sinal, voou pela planície como se já há semanas estivesse a descansar. Em dois minutos me achava apenas à distância de vinte cavalos do bebbeh.

— Pára! — bradei-lhe.

 

(13) Veado.

(14) Traidor.

 

Aquele homem era bastante animoso. Ao invés de fugir ou então parar, conforme eu intimara, fêz o cavalo rodar pelas patas traseiras e depois galopou contra mim. No próximo instante colidiriam as nossas montadas. Vi-o brandir a lança e tomei da espingarda mais leve. Neste meio tempo, desviou ele um pouco para o lado o cavalo e como um raio nos entrecruzamos. A ponteira de sua lança estava dirigida a mim, mas a aparei com felicidade. Continuando na mesma carreira, tomara nova direção, procurando a fuga. Por que não fizera ele uso de sua espingarda?

 

 

 
   

 


Também o seu cavalo não era dos comuns para que sem dó eu o alvejasse, a fim de melhor capturar o prisioneiro.

Desapresilhei o laço do serigote e armei-lhe a laçada. O fugitivo virou-se e viu que eu me aproximava dele. Nunca ouvira ele por certo falar em laço e portanto ignorava os meios de se desviar dessa arma tão terrível, quando bem manejada. Parecia não confiar mais na sua lança, visto que pegava da espingarda, cuja bala não me era possível aparar. Calculei, a olho, à distância que nos separava e precisamente no instante em que ele assestou a arma para a pontaria joguei-lhe o laço. Mal havia eu desviado para o lado o cavalo, senti um arranco no serigote; ressoou um grito e o bebbeh jazia subjugado no solo. Um momento depois me achava junto dele.

— Fôste ferido?

Essa minha pergunta, na conjuntura presente, devia ter soado a chocarrice, pois o homem procurou libertar-se da corda que o prendia e exclamou entre dentes:

— Bandoleiros!

— Enganas-te! Eu não sou nenhum bandoleiro. Desejo que me acompanhes!

— Para onde?

— Para junto do khan dos bejates, de quem acabas de fugir.

— Dos bejates? — Oh! são bejates aqueles homens! Como se chama o khan?

— Heider Mirlam.

— Agora, sei de tudo! Que Alá vos arraste para a ruína, pois não passais de pífios ladrões e canalhas da pior ralé!

— Não invectives! Prometo-te, por Alá, que nada te irá suceder!

— Encontro-me em teu poder e nada mais me resta do que seguir-te.

Tirei-lhe a faca da cinta e juntei do chão a lança e espingarda, caídas ao solo por ocasião da queda, à ação do laço. Depois afrouxei-lhe a corda e montei logo a cavalo a fim de estar preparado para o que desse e viesse. O homem parecia não estar animado de propósitos de fuga. Chamou o seu cavalo e nele montou.

— Eu me fio nas tuas palavras — disse-me. — Vamos!

Galopamos ao lado um do outro, a fim de nos juntarmos aos bejates. Quando Heider Mirlan avistou o fugitivo, desanuviou-se-lhe a fisionomia.

— Senhor, realmente me trazes o prisioneiro! — exclamou o khan.

— Conforme te havia prometido! Dei-lhe, porém, minha palavra de que nada lhe sucederia. Aqui tens as suas armas!

— Tudo ser-lhe-á devolvido mais tarde. Por enquanto, porém, será algemado, para que não nos escape das mãos!

Aquela sua ordem foi logo executada e enquanto isso fomos alcançados pela segunda secção dos bejates. A esta foi confiado o prisioneiro, com as instruções de tratá-lo bem, mas vigiá-lo com todo o rigor. Feito o que, a nossa secção prosseguiu na viagem interrompida.

— Como caiu ele em tuas mãos? — perguntou-me o khan.

— Eu o prendi, simplesmente! — respondi-lhe com laconismo, visto que me achava magoado com a sua atitude anterior.

— Senhor, estás zangado — ponderou o chefe bejate. — Mas concluirás ainda que eu não poderia ter procedido de forma diferente.

— Deus queira!

— Aquele homem não deve tagarelar por aí que os bejates se acham nas proximidades.

— E quando pretendes soltá-lo?

— Assim que o possa fazer sem que sua liberdade nos acarrete algum perigo.

— Reflete bem: aquele homem pertence-me, pois o prendi. E assim, espero que não sejas tu o primeiro a desrespeitar-me a palavra que lhe empenhei!

— E se eu não me preocupasse muito com tua palavra empenhada, que farias então?

— Eu te...

— Matarias? — acudiu o khan atalhando-me.

— Não. Sou um franke, isto é, sou um cristão; só mato a um semelhante quando a minha defesa própria assim o exige. Eu não te mataria, mas aleijaria para o resto da vida o teu braço que contribuiu para a quebra de minha palavra! E então o emir dos bejates seria qual um menino que não está em condições de manejar nem com uma faca, ou então qual uma mulher velha a cuja palavra ninguém dá atenção.

— Senhor, fora outra pessoa que me estivesse a dizer isso, eu me riria em sua própria cara. De ti, porém, não duvido de que tenhas a coragem de agredir-me mesmo em meio dos meus guerreiros.

— E te agrediríamos mesmo, disto podes estar certo! Não há um só entre nós que tema os bejates!

— Nem o Maomé Emin? — perguntou o homem com um sorriso irônico.

— Nem este!

— E tampouco Amad el Ghandur?

— Já ouviste dizer algum dia ser ele um covarde?

— Nunca! Senhor, se vós não fósseis os homens que sois, jamais vos teria eu convidado para nossos companheiros de viagem, visto que vamos trilhando caminhos muito perigosos. Contudo, tenha fé em Alá, que os haveremos de vencer sem novidade.

Anoiteceu e exatamente no instante em que escureceu de tal maneira que se tornou necessário procurarmos um local para acampamento, atingimos um arroio que de um labirinto de penedos, corria para o descampado. Neste haviam feito alto à nossa espera, os quatro batedores expedidos à frente. O khan apeou-se e foi ter com eles demorando-se por algum tempo a palestrar em voz baixa.

Por que procedia ele com tanta discrição? Estaria urdindo algum plano que dele só o khan e os batedores poderiam, por enquanto, ter conhecimento? Um dos quatro saiu à nossa frente e nos conduziu para o interior do labirinto de penedos. Seguimo-lo, levando os animais pelas rédeas e depois de algum tempo chegamos a um lugar cercado por enormes rochas. Aquele local era o mais seguro esconderijo que jamais se poderia achar por aquela zona, embora demasiadamente acanhado para acomodar duzentas pessoas.

— Ficaremos aqui? — perguntei.

— Ficaremos, sim — respondeu Heider Mirlam.

— Mas não todos nós!

— Sim, aqui pernoitaremos apenas quarenta e os demais se acomodarão mais além.

Aquele esclarecimento bastaria para me dissipar qualquer dúvida, mas me admirava ainda que, embora houvéssemos acampado num local muito seguro, não fora aceso um fogo. Também aos companheiros, este fato provocou suspeitas.

— Lindo lugarzinho! — disse Lindsay. — Uma bela arena, não é?

— Realmente.

— Mas úmido e frio, aqui à beira do arroio. Por que não se acende um fogo?

— Não sei. Talvez haja curdos inimigos pelas adjacências.

— Que tem isso? Não nos poderiam ver, apesar do fogo. Hum! Não me está agradando muito isto aqui.

Dito isso, o inglês dirigiu um olhar cheio de dúvidas ao khan, que falava à sua gente com visível empenho de não ser por nós ouvido. Sentei-me ao lado de Maomé Emin, o qual parecia esperar por essa oportunidade, visto que logo me foi perguntando:

— Emir, quanto tempo ficaremos ainda na companhia desses bejates?

— O tempo que melhor te aprouver.

— Se estiveres de acordo, já amanhã nos separaremos deles.

— Por quê?

— O homem que oculta a verdade a outrem, deste não é amigo!

— Tomas o khan por um mentiroso?

— Isto, propriamente, não. Mas não diz tudo o que pensa dos seus companheiros.

— Ele te reconheceu.

— Sei disso; notei-o pelos seus olhares.

— E não só a ti, mas também a Amad el Ghandur.

— Isto é assaz explicável, dada à semelhança dele com o pai.

— E o fato dele te haver reconhecido não te traz apreensões?

— Não. Somos hóspedes dos bejates e estes não nos trairão. Mas por que cargas d’água o khan aprisionou aquele bebbeh?

— Para que ele não vá denunciar a nossa presença aos seus.

— Mas por que não pode ser denunciada, emir? Que terão duzentos cavaleiros bem armados e montados a temer, se não conduzem bagagens, mulheres, crianças e anciãos e menos ainda tendas e rebanhos? Em que região nos encontramos, efêndi?

— Em meio do território dos bebbehs.

— E o khan pretendia visitar os dchiafs? Bem que notei virmos seguindo sempre rumo do setentrião. Por que divide o khan a sua gente cm dois acampamentos? Emir, este Heider Mirlam possui duas línguas, embora talvez não se ache mal intencionado conosco. E, separando-nos dele amanhã, que rumo tomaremos?

— Temos os montes dos Zagros à nossa esquerda. A capital do distrito de Banna deve ficar bem próxima daqui, segundo suponho. Se a atravessarmos, passaremos depois por Amehdabad, Bija, Surene e Bayen-dereh. Por trás de Amehdabad abre-se uma passagem que através de solitários desfiladeiros e soturnos vales conduz ao rio Kizzelzieh. Lá se têm as colinas de Girzeh e Serfir à direita bem como os montes de Kurri-Kazhaf; chega-se às duas correntes d’água Vistan e Karadscholan que fazem junção com o Kizzelzieh para depois desaguarem no lago de Kuipre. Se conseguirmos alcançar o referido lago, estaremos a cavaleiro de perigos, O citado caminho é, naturalmente, muito escabroso.

— Como o sabes?

— Em Bagdad encontrei-me com um curdo-bulbassi, o qual me descreveu a zona com tal precisão que me foi possível organizar um mapa. Espero não precisar utilizá-lo, contudo ele se acha riscado aqui no meu caderno de notas.

— E achas aconselhável tomarmos aquele rumo?

— Embora também eu haja anotado várias veredas por outras localidades, morros e desfiladeiros, considero este caminho o melhor para tomarmos. Poderíamos cavalgar para Sulimania ou, através de Mik e Doweiza, para Sinna, mas não sabemos a maneira por que naquelas zonas seríamos acolhidos.

— Então fica assentado: nos separaremos amanhã dos bejates e seguiremos através dos montes e colinas para o lago de Kuipre. E o teu mapa não te enganará?

— Não, salvo se o curdo-bulbassi me forneceu dados errados.

— Então vamos descansar e dormir por esta noite e deixemos que as bejates façam lá o que bem entenderem!

Levamos os nossos cavalos ao arroio para matarem a sede e depois amarramo-los a uma pastagem. Em seguida os companheiros se deitaram a dormir, ao passo que eu fui procurar o khan.

— Heider Mirlam, onde estão os outros bejates?

— Bem perto daqui. Por que perguntas?

— Com eles acha-se o bebbeh aprisionado, o qual desejo ver.

— Por que desejas vê-lo?

— Por ser meu dever, visto que ele é meu prisioneiro.

— Não é teu, mas meu prisioneiro, pois me entregaste depois de o aprisionares.

— Sobre isso não discutamos. O que desejo agora é apenas procurá-lo, para ver como vai ele passando.

— Vai passando muito bem. Se Heider Mirlam o afirma é porque é verdade. Não te preocupes com o prisioneiro, Senhor, e senta-te ao meu lado; fumemos juntos o nosso cachimbo.

Acedi-lhe ao convite, com o fim de não irritá-lo, mas o deixei logo depois para dormir. Por que não queria ele que eu visse o bebbeh? Maltratado este por certo que não o estava sendo. Neste particular, fiava-me na palavra do khan. Este, porém, alimentava algum propósito que a minha agudeza de espírito não conseguia descobrir. Resolvi à vista disso, com risco próprio, soltar de manhã bem cedo o bebbeh e só depois separar-me dos bejates. Adormeci.

 

DESVENDA-SE A MISTERIOSA ATITUDE DO KHAN

Quando se cavalga desde o amanhecer até à noite, fica-se fatigado mesmo sendo acostumado a cavalgar. Era o que se dava comigo. Dormi sono profundo e não me teria acordado de madrugada se o rosnado do meu Dojan não me houvesse despertado. Abri os olhos, era ainda muito escuro; contudo divisei diante de mim em posição ereta um homem a me contemplar. Puxei da faca.

— Quem és?

A essas minhas palavras despertaram-se também os companheiros e tomaram das armas.

— Não me conheces, Senhor? — foi a resposta. — Sou um dos bejates.

— Que queres?

— Senhor, ajuda-nos! O bebbeh nos fugiu.

Ergui-me de um salto sendo acompanhado pelos companheiros.

— O bebbeh? Quando?

— Não sei. Estávamos todos dormindo quando se deu a fuga.

— Ah! Cento e sessenta homens o vigiavam e contudo ele fugiu!

— Os outros também já estavam no acampamento, àquela hora.

— Queeê?! Os cento e sessenta bejates restantes foram embora?

— Foram, mas voltarão, Senhor.

— Para onde foram, então?

— Não sei.

— Onde está o khan?

— Saiu com a tropa. Segurei o bejate pelo peito:

— Homem, pretendes praticar algum canalismo contra nós? Afianço-te que sairás mal da empreitada!

— Deixa-me, Senhor! Como poderíamos pensar em traição contra vós, que sois nossos hóspedes?!

— Halef, dá uma batida no acampamento e conta o número de bejates que ainda aqui se encontram!

A escuridão era tanta que não se podia lançar um golpe de vista sobre o acampamento. O pequeno Hadji saiu para dar execução à minha ordem.

— Aqui se encontram quatro, — declarou o bejate, — e um está lá na entrada de vigia. No outro pouso, porém, éramos dez e a nós competia guardar o prisioneiro.

— Como conseguiu este fugir? A pé?

— Não. Escapou-nos montado no seu cavalo e levou-nos algumas armas também.

— É uma eloqüente prova do vosso espírito de vigilância!... Mas. afinal, por que vens à minha presença?

— Senhor, captura-nos o prisioneiro!

Quase soltei uma gargalhada. Era sem exemplo a ingenuidade do gesto. Não dei atenção ao pedido e continuei perguntando:

— Não sabeis então para onde foi o vosso khan?

— Não sabemos de fato, Senhor.

— Mas deve ter havido algum motivo para que ele deixasse o acampamento às caladas da noite!

— Claro que sim.

— E qual é?

— Senhor, não é para te dizermos.

— Bem, veremos agora quem manda aqui, se o khan ou eu... Halef interrompeu-me, com o aviso de que realmente só havia mais quatro bejates no acampamento.

— Estes estão ali no canto daquele penedo a nos escutar, sídi! — acrescentou o meu criado.

— Deixa que eles nos escutem. Mas dize, Hadji Halef Omar, as tuas pistolas estão carregadas?

— Já as viste algum dia descarregadas, sídi?

— Bem, tira-as da cinta e se este homem não responder à pergunta que lhe vou fazer pela última vez, manda-lhe uma bala à cabeça! Compreendeste?

— Não te incomodes, sídi! Se ele não te responder logo ao pé da letra não lhe mandarei uma só, mas duas balas ao mesmo tempo!

O homenzinho tirou da cinta as duas pistolas e depois de engatilhá-las, apontou-as para o bejate. Tornei a perguntar a este:

— Por que razão se ausentou do acampamento o teu khan? A resposta não se deixou esperar por um momento que fosse:

— Com o fim de assaltar os bebbehs.

— Os bebbehs? Como me mentiu o vosso khan! Declarou-me ainda esta noite que se dirigia para a zona dos dchiafs.

— Senhor, o khan Heider Mirlan jamais diz uma mentira! Realmente pretende, depois visitar os dchiafs, uma vez que seja bem sucedido no assalto.

Agora atinei com a razão de me haver o chefe dos bejates perguntado se eu era amigo ou inimigo dos bebbehs.

— Viveis em discórdia com os bebbehs? — prossegui no interrogatório.

— Eles é que vivem em discórdia conosco, Senhor. E em represália, tomar-lhes-emos hoje os rebanhos, os tapetes e as armas. Cento e cinqüenta dos nossos homens conduzirão essas presas à nossa aldeia e os cinqüenta restantes acompanharão o khan às festas dos dchiafs.

— Desde que nisso não vos impeçam os bebbehs! — acrescentei.

Com toda a escuridão da madrugada, notei que a essas minhas palavras, o bejate ergueu o busto em soberba postura.

— Aqueles? — retrucou-me. — Os bebbehs são uns poltrões! Não viste hoje como aquele fugiu de nós?

— Sim, mas era um contra duzentos!

— Mas, depois, tu sozinho o prendeste!

— Conforme as circunstâncias, prendo até dez ao invés de um. Por exemplo: tu e aqueles quatro que ali montam guarda à entrada, sois dagora em diante prisioneiros meus. Halef, guarnece a saída. Aquele que deixar este lugar sem o meu consentimento expresso, bem como o que nele quiser entrar, fuzilarás sumariamente!

O valente Hadji foi logo tomar posição à saída do acampamento. O bejate disse tomado de pavor:

— Senhor, estás a caçoar conosco!

— Não estou caçoando, não! O vosso khan ocultou-me a parte mais importante de sua jornada e também tu só me disseste a verdade depois que a isso te coagi. Portanto as vossas pessoas responderão pela nossa segurança pessoal aqui no acampamento. Vinde, aproximai-vos os quatro da guarda!

Eles obedeceram, sem titubiar, ao meu chamado.

— Deponham as vossas armas, aqui diante de meus pés! E, como eles hesitassem em atender, acrescentei:

— Já ouvistes falar a nosso respeito! Pois bem, se procederdes sinceramente conosco, nada vos sucederá, e recebereis vossas armas de volta. Mas se vos negais obedecer-me, vos mandarei imediatamente para o Geena.

A essa ameaça, os bejates depuseram as suas armas. Entreguei estas à guarda dos companheiros e ministrei a Maomé Emin as necessárias instruções a serem seguidas durante a minha ausência. A seguir, deixei o acampamento e saí para o descampado, acompanhando sempre o curso do arroio.

Lá fora entre dois penedos topei com a sentinela que logo me reconheceu.

— Quem mandou que te postasses aqui? — perguntei-lhe.

— O khan.

— Para quê?

— Para que, logo à sua chegada, saiba ele estar tudo em ordem no acampamento.

— Está bem. Vai ao acampamento e dize aos meus companheiros que eu não tardarei em voltar.

— Não me é permitido abandonar o posto.

— Mas o khan não saberá.

— Mas depois virá a saber.

— Isto é possível; dir-lhe-ei, porém, que o fizeste por minha ordem. Por fim o homem me obedeceu. Eu sabia muito bem que ele seria detido e desarmado por Maomé Emin. Não me informara em que ponto ficava o segundo acampamento; ouvira, porém, durante à noite vozes bem próximas ao nosso e por isso esperava encontrá-lo sem dificuldades. E foi realmente o que aconteceu. Ouvi depois de caminhar um pouco, pisoteados de cavalos e seguindo o rumor fui dar com nove bejates sentados no solo. Estes, dada à escuridão, tomaram-me por um dos seus camaradas, pois um deles perguntou-me:

— Que disse ele?

— Quem?

— O emir estranjeiro!

— Pois aqui está ele em pessoa — respondi-lhe. Foi quando me reconheceram; todos se levantaram.

— Oh! emir, vale-nos, por favor! — suplicou-me um deles. — O bebbeh conseguiu evadir-se do acampamento e quando o khan voltar seremos severamente castigados.

— Mas como conseguiu fugir? Não estava amarrado?

— Sim, mas as cordas por certo que lhe foram pouco a pouco afrouxando e quando acordamos, ele havia desaparecido com o seu cavalo e algumas armas nossas.

— Montai a cavalo e acompanhai-me!

Fui prontamente obedecido e os homens acompanharam-me até ao primeiro acampamento. Quando lá chegamos, o chefe haddedin já havia acendido uma fogueira, a fim de iluminar as circunjacências. Os meus companheiros guardavam os bejates desarmados. Os nove homens por mim trazidos, ficaram tão perplexos diante do que viam que sem vacilar me fizeram entrega das suas lanças e facas. Declarei depois aos prisioneiros que só lhes poderia suceder alguma coisa de mal, no caso do khan projetar e consumar alguma traição contra nós. Disse-lhes mais que seria impossível sair em captura do bebbeh fugitivo.

Mister Lindsay, tanto quanto lhe permitiram os seus deficientes conhecimentos do idioma árabe, averiguara de Halef o sucedido. Aproximou-se então de mim e perguntou-me:

— Sir, que faremos desses sujeitos?

— Veremos depois, quando estiver de volta o khan.

— E se eles fugirem?

— Não conseguirão. Estão sob a nossa vigilância. Ademais disso, Halef lá se acha de vigia à entrada do acampamento.

— Lá? — O inglês apontava para a brecha dos penedos que dava acesso ao descampado. Ao acenar-lhe eu afirmativamente, acrescentou Lindsay:

— Não é bastante! Existe uma segunda fenda nos penedos, que facilita a saída. Fica ali aos fundos. Yes!

Acompanhando com o olhar a indicação que me fazia o inglês, avistei à luz da fogueira um penedo alto e diante do mesmo uma moita de arbustos.

— Está pilheriando, sir! — disse-lhe eu. — Quem conseguirá entrar ou sair por aquele lanço! O penedo tem ali a altura mínima de uns cinco metros.

Ele ria-se a bom rir de modo a formar sua boca o celebrado trapezóide, no interior de cujas linhas tornavam-se visíveis os seus dentes amarelados.

— Hum! O senhor é um sujeito avisado, mister! Mas David Lindsay é mais avisado ainda! Well!

— Esclareça tudo, de uma vez, sir!

— Vá até lá e examine o penedo e a moita de arbustos!

— Mas está falando realmente sério? Não convém eu ir lá, visto que isso chamaria a atenção dos bejates aqui aprisionados para a saída secreta, se é que realmente existe.

— Ela existe sim, mister! Yes!

— Como é formada?

— Não se trata de uma rocha, mas de duas e entre o passadiço estreito é que está a moita. Compreendeu?

— Ah! aquilo nos pode ainda ser de grande valia. Sabem os bejates daquela saída?

— Creio que não, pois há pouco quando lá estive, não prestaram a mínima atenção.

— É muito estreita a abertura?

— Dá para se passar a cavalo por ela.

— E depois de se atravessá-la como é formado o terreno?

— Não sei. Não me foi possível averiguar.

Considerei de uma importância tal para nós a descoberta do inglês, que me dispus a examiná-la bem de perto. Avisei o meu propósito aos companheiros e deixei o local. A abertura, que se achava um tanto disfarçada, tinha a largura de dois metros mais ou menos. Por trás dela havia algumas pedras ali desordenadamente colocadas, mas, pelo menos de dia claro, não era difícil passar por entre elas a cavalo.

Como nos encontrássemos numa situação de dúvida, com o auxílio da faca fiz profundos cortes nas hastes dos arbustos, de modo que estes cairiam para o lado de fora, assim que por eles passasse um cavalo. Depois voltei para o acampamento e coloquei Halef de sentinela na saída secreta, com ordem de nos avisar de toda e qualquer aproximação.

— Que encontraste, efêndi — perguntou-me Maomé Emin.

— Uma excelente saída, no caso de precisarmos abandonar o acampamento sem o habitual Sallam.

— Através daquele tufo?

— Por lá mesmo. Fiz, porém, cortes nas hastes dos arbustos. Assim que por ali passar um cavaleiro o tufo tombará, abrindo caminho aos demais.

— Não existem outras pedras à flor da terra?

— Existem. Mas de dia claro pode se cavalgar por meio delas sem perigo.

— E achas que viremos a nos utilizar dessa saída?

— Não estou bem certo disso, mas tenho cá os meus pressentimentos! Não te rias de mim, Maomé Emin, se eu te disser que desde pequeno possuo o dom do pressentimento que me está a chamar a atenção muitas vezes até de coisas que vão se realizar, daí a muito tempo.

— Não, eu creio. Alá é grande!

— O interessante é que jamais pressinto acontecimentos agradáveis. Mas de quando em vez sinto-me acometido de uma sensação de intranqüilidade, de medo mesmo, como se eu houvesse praticado algum mal, cujas conseqüências precisava agora temer. E quando de mim se apossa tal estado d’alma é certo que algo sucede de danoso para mim. E se posteriormente eu confrontar as datas tudo dá certo: a trama do mal que me fora causado começara a urdir-se precisamente no instante em que de mim se apossou o pressentimento.

— Neste caso estejamos atentos ao aviso do perigo que te está agora a fazer Alá.

Realmente, horrível era o pressentimento que naquele instante tomou conta de mim e que contagiou também os companheiros. Todos subitamente emudecemos e ficamos pensativos. Assim permanecemos até clarear o dia. Mal, porém, a claridade permitia ver ao longe no horizonte, veio Halef me avisar haver divisado os vultos de muitos cavaleiros. O seu número exato não pôde ele precisar. Fui ao serigote e da maleta tirei o binóculo, acompanhando depois Halef. Realmente ao longe na planície divisavam-se a olho desarmado numerosos vultos negros em movimento; com o auxílio das lentes, pude distingui-los melhor.

— Sídi, quem são? — perguntou Halef.

— Os bejates.

— Mas não são tão numerosos!

— É que voltam com as presas. Vêm tocando os rebanhos dos bebbehs por diante. Ao que parece o khan na companhia de uma legião de homens tomou a dianteira e se apressa em chegar ao acampamento. Portanto aqui estará antes que os demais.

— E agora que faremos?

— Hum! Continuaremos aqui. Dar-te-ei notícias depois.

Voltei aos companheiros e narrei-lhes o que vira. Como eu, eram também todos de opinião que nada precisávamos recear da parte do khan. A única coisa que podíamos censurar nele era não nos haver comunicado o seu propósito predeliberado. E se ele o fizesse, por certo que não nos juntaríamos à sua gente, visto que para nós seria perigoso se fôssemos vistos na companhia de ladrões de gado. Concordamos todos em recebê-lo cortês, porém, cautelosamente.

Completamente armado, tornei ao posto de Halef. O khan se aproximava com a sua tropa e, decorridos cinco minutos, se achava ele à ininha frente.

— Salam, emir! — saudou-me. — Com certeza te admiraste de não me encontrares no acampamento, ao te acordares. É que eu tinha um negócio urgente a tratar, negócio que agora, felizmente, já se acha realizado. Olha para trás!

Continuei, não obstante, a encará-lo.

— Praticaste um roubo, khan Heider Mirlam!

— Um roubo? — perguntou-me o homem fazendo uma fisionomia de espanto. — Então aquele que apreender ao inimigo o que lhe fôr possível apreender, é considerado um ladrão?

— Segundo os ensinamentos cristãos, sim; e tu sabes muito bem que sou cristão! Mas por que nos ocultaste tão manhosamente este teu propósito preconcebido?

— Porque se eu te revelasse, nos tornaríamos inimigos, visto que nos abandonaríeis.

— Certamente.

— E depois irias prevenir os bebbehs de tudo?

— Não me teria dado ao trabalho de procurá-los. Ademais disso, ignorava por completo em que ponto ou por que lanço pretendias assaltá-los. Agora, se me encontrasse casualmente com um deles, a este eu comunicaria o perigo que pesava sobre a sua tribo.

— Vês, pois, emir, como tive razão, guardando sigilo em torno do meu plano! Aliás, eu só tinha dois caminhos a seguir: ou ocultar o meu propósito ou então aprisionar-vos a todos e segurar-vos violentamente até haver conjurado o perigo que a vossa denúncia nos poderia acarretar. Como, porém, eu era e sou teu amigo, tomei a primeira das resoluções.

— Contudo estive à noite espreitando os dez homens que deixaste no segundo acampamento — foi a minha resposta dada com toda calma.

— Que fôste fazer lá? — perguntou o khan.

— Prender os homens.

— Alá! Por quê?

— Por nos teres abandonado. Eu não podia saber o que me sucederia e aos companheiros e para garantia de nossa segurança pessoal, conservei todos os bejates que aqui ficaram presos à minha disposição.

— Senhor, não há dúvida de que és um homem assaz previdente. Contudo, deverias ter mais confiança em mim. E que fizeste do bebbeh que se achava preso?

— Nada. Nem cheguei mais a vê-lo, pois já se havia evadido. O khan mudou de côr e bradou:

— Derigh! (15) Não é possível! Isto vai transtornar-me tudo, vai conduzir-me talvez à ruína. Deixa-me entrar para o acampamento a ajustar contas com aqueles cães, que com toda certeza dormiam ao invés de vigiar o prisioneiro!

O khan saltou do cavalo, deixou-o no lado de fora e, como um doido, embarafustou-se pela fenda da rocha adentro, rumo ao acampamento. Halef e eu o seguimos. Entre o khan e a sua gente desenrolou-se uma cena difícil de se

 

(15) Interjeição Ah!

 

descrever. Aquele bramia qual leão enjaulado, desferia socos, e ponta-pés a torto e a direito e não se acalmou antes que as forças se lhe houvessem esgotado. Eu estava longe de atribuir àquele homem uma tal inclinação à fúria!

— Acalma-te, khan — intervi. — De qualquer forma terias que dar liberdade ao prisioneiro.

— Sim, eu o teria posto em liberdade, — retrucou ele furioso, — mas hoje ainda não; só depois que estivesse completamente executado o meu plano, para que este não fosse denunciado.

— Que plano?

— Trouxemos tudo o que encontramos na aldeia dos bebbehs. Agora? vamos separar os objetos de valor dos insignificantes. Os primeiros remeterei por veredas seguras e por intermédio de homens de confiança para a nossa aldeia; o resto, o que possui valor insignificante, levaremos conosco, em nossa visita aos dchiafs. Em caminho vamos largando esses objetos, de modo a desviar de nós a desconfiança dos bebbehs. Estes acabarão, por acreditar, haver sido o seu acampamento, durante a sua ausência, assaltado por uma coluna dos dchiafs. Deste modo, a minha gente chegará, sem embaraços, com as presas de valor aos acampamentos e aldeias dos bejates.

— É. O plano não é mau.

— Mas que adianta se agora vai falhar. O bebbeh que se evadiu da prisão pertence à secção por nós assaltada. Ele sabe que somos bejates e tudo irá denunciar. Aliás, ele deve ter percebido logo o plano que tínhamos em vista. Achava-se bem montado. E que será de nós se ele, enquanto promovíamos o assalto, aproveitou a agilidade do seu cavalo,. para dar o rebate aos acampamento amigos das circunjacências?

— Seria muito mau para vós, e também para nós, pois o bebbeh nos viu na vossa companhia — respondi-lhe.

— Ele sabe agora o local do nosso acampamento e é possível que também a entrada entre os penedos para este lugar não lhe seja desconhecida.

 

O PRIMEIRO ENCONTRO COM OS BEBBEHS

Mal havia o khan pronunciado as últimas palavras, da entrada ressoou o brado:

— Allah illa Allah! Ei-los aí! Vamos, prendamo-los com vida!

Viramo-nos e demos com os olhos no bebbeh fugitivo que, com olhares coruscantes, avançava contra mim; por trás dele uma legião de guerreiros invadira o acampamento, ao mesmo tempo que se ouvia uma infernal gritaria entremeada de tiros de espingarda. Havíamos descurado da vigilância da entrada do acampamento.

Não dispunha eu naquele instante de tempo para meditar sobre o que estava ocorrendo, visto que o bebbeh, que agora eu supunha um xeque ou khan, investia furiosamente contra mim. Não vinha ele armado nem de espingarda, nem de lança, mas em sua mão reluzia a fatídica lâmina do agudo punhal afghan.

Recebi o audaz contendor de mão livre, sem haver apelado para arma de espécie alguma. Com a esquerda segurei, com a rapidez dum relâmpago, a mão direita que empunhava a terrível arma e com a direita peguei-lhe a garganta.

— Morrerás agora, ladrão! — urrou o homem, fazendo um titânico esforço para desvencilhar a mão que empunhava a arma.

— Estás enganado — respondi-lhe. — Não sou um bejate e tampouco sabia que estes planejavam o assalto do vosso acampamento.

— És um ladrão, um cão! Aprisionaste-me e agora tu é que serás por mim aprisionado. Sou o xeque Gasahl Gaboya, ao qual ninguém ainda escapou até agora!

Como um raio se me perpassou pelo cérebro a idéia de já ter ouvido aquele nome como sendo o de um dos mais valentes e denodados curdos. Não havia, pois, tempo a perder com ele.

— Pois bem, prende-me, se disso fores capaz! — retruquei-lhe. Dito o que larguei-o e recuei. Ele por certo que viu naquele meu gesto uma prova de fraqueza, pois proferiu um estridente brado de triunfo e ergueu o braço para desferir o golpe. Era exatamente o que eu queria. Desferi-lhe um violento soco nas axilas, de modo que o homem perdeu logo o equilíbrio. Descreveu um arco e foi cair ao solo a seis passos distantes de mim; antes que ele se pudesse erguer desferi-lhe um soco na região temporal, deixando-o desacordado.

— Montai a cavalo e acompanhai-me! — bradei aos companheiros.

Num relancear de olhos apercebi-me de toda cena. Cerca de vinte bebbehs haviam invadido o acampamento e lutavam com os bejates. Mister Lindsay pelejava com dois, de um dos quais, no momento, conseguira livrar-se desferindo-lhe violento coronhaço. Os dois haddedins se haviam recostado às paredes da rocha e não deixavam ninguém deles se aproximar. O pequeno Halef se achava ajoelhado sobre um dos inimigos que arrojara ao solo com uma coronhada da pistola.

— Sídi, não fujamos, não! Nós já os derrotaremos! — foi a resposta que o meu valente criado deu ao meu chamado.

— Mas lá fora há maior número deles. Os bejates estão sendo assaltados. Vamos, anda! Arranquei o punhal da mão do xeque Gasahl Gaboya, a fim de levar uma lembrança daquele dia tão tristemente iniciado e montei a cavalo. Com o fim de imprimir maior impulso à derribada e também para que os meus camaradas ganhassem tempo para me seguirem, fiz o Rih se pôr nas quatro patas e depois, a toda brida, o toquei de encontro ao tufo que ruiu todo de vez, abrindo mais o caminho. Depois tive que seguir devagar, visto que a estreiteza da saida só permitia cavalgar a passos.

Assim que vi os penedos por trás de mim e me certifiquei de que os quatro companheiros também haviam conseguido sair incólumes do acampamento, premi a coxa sobre o lombo do Rih e saí a galope planície afora, seguido dos demais.

Depois já mais calmo, atinei com todo o desenrolar dos acontecimentos. Aquele xeque Gasahl Gaboya era realmente um homem astuto. Percebeu, quando ainda preso, os propósitos de rapinagem dos bejates e, ao invés de, após a fuga, prevenir a sua secção que seria pouco numerosa para assaltar os bejates, promoveu um levante de todas as tribos que nas circunjacências apascentavam o seu gado ou se haviam estacionado; depois, deixou que os bejates assaltassem o seu acampamento e lhes roubassem calmamente os havêres, para, na volta, os cercar à distância e imperceptivelmente, por todos os lados; deste modo os salteadores de boamente largariam as presas, dando-se por muito satisfeitos ainda se conseguissem sair com vida da empreitada criminosa a que se abalançaram. Por trás de nós travava-se a luta. Como conseguira o chefe bebbeh atacar de surpresa os bejates não me restava tempo para averiguá-lo. A nossa esquerda divisei uma linha de cavaleiros que a galope se aproximava do teatro da luta, e à direita em toda a região viam-se vultos escuros de ginetes em movimento a se perderem no horizonte.

— Toquemos para frente, efêndi! — exclamou Maomé Emin. — Do contrário nos encurralarão aqui. Saíste ileso da luta com o bebbeh?

— Saí, sim, e tu?

— Apenas com uma pequena arranhadura.

De fato, da face gotejava-lhe sangue; mas o ferimento não podia ser grave.

— Aproximai-vos! — determinei. — Formemos uma linha reta. Quem nos avistar dos flancos e à distância nos tomará por um único cavaleiro.

Esse ardil foi efetuado, mas os bebbehs que se achavam por trás de nós não se deixaram iludir por ele e daí a pouco notamos que éramos perseguidos por uma considerável legião deles.

— Sídi, será que nos alcançarão? — perguntou Halef.

— Quem sabe! Depende dos cavalos que montam. Mas Hadji Halef Omar, que aconteceu com os teus olhos? Estão pisados?

O meu bravo criado estava com as vistas inchadas, não obstante haver transcorrido apenas alguns minutos depois do assalto.

— Não é nada, sídi — respondeu Halef. — Aquele bebbeh era cinco vezes mais alto que eu e me desferiu algumas taponas. Hamdulillah, jamais repetirá ele a proeza!

— Como? Mataste-o, por ventura?

— Não, porque sei que não queres que se mate ninguém, efêndi!

Realmente não era pequena a minha satisfação por não havermos em nossa fuga tirado a vida a um inimigo. E isso, afora o descargo de consciência, nos trazia, sem dúvida, outras vantagens, principalmente a de não termos incorrido na vingança de sangue dos bebbehs, uma circunstância atenuante em nosso favor no caso de lhes cairmos nas mãos.

Galopamos durante uns quinze minutos. Havíamos perdido de vista o campo da luta, mas os nossos perseguidores continuavam em marcha. Haviam-se dividido em dois grupos. Os que montavam melhores animais se achavam mais próximos de nós.

— Emir, eles nos alcançarão, se não obrigarmos os nossos cavalos a forçarem a marcha — ponderou Amad el Ghandur.

— Não devemos desde já forçar demasiadamente os nossos cavalos. Além disso, os perseguidores se acham divididos, tornando-se difícil entrar num entendimento com eles.

— Machallah, entrar em entendimento? Pretendes porventura falar com eles? — exclamou Maomé Emin.

— Claro que sim! Espero levá-los a tal ponto de desistirem de continuar na perseguição. Prossegui no galope. Eu aqui me deterei à espera deles.

 

PROCURANDO UM ENTENDIMENTO

Os companheiros continuaram no mesmo galope. Eu, segundos depois, apeei, tirei as espingardas do serigote e sentei-me na relva de face virada para os perseguidores.

Quando eles de mim se aproximaram a uns mil passos, tirei o pano do turbante e o desfraldei. Imediatamente converteram eles o galope em trote, passando depois a cavalgar a passo e a quinhentos passos fizeram alto. Depois de uma breve conferência, um deles aproximou-se de mim e perguntou:

— Por que estás sentado no solo? Trata-te de algum ardil ou é sincero o teu gesto?

— Pretendo falar convosco.

— Com todos ou apenas com um de nós?

— Com um escolhido por vós para me ouvir.

— Mas estás armado.

— O emissário pode também chegar armado.

— Depõe as armas um pouco longe de ti e então um de nós irá falar contigo!

Levantei-me, pus no solo os dois revólveres e os punhais; depois coloquei as espingardas no serigote e tornei a me sentar. Seria impossível àquela gente saber quantas e que qualidades de armas conduzia eu; portanto fácil me teria sido conservar ainda pelo menos os revólveres sem que por eles fosse notado. Mas preferi proceder com lealdade para exigir que com a mesma lealdade fosse por eles tratado.

O grupo compunha-se de onze homens. O que viera ter comigo, voltou para o grupo e falou com os companheiros. Depois apeou-se, depôs a espingarda, a azagaia e a faca no chão e a passos lentos voltou para junto de mim. Era uma figura imponente, de estatura esbelta e podia contar cerca de cinqüenta anos. Os seus olhinhos negros coruscavam furiosos sobre mim, contudo o homem sentou-se mudo ao meu lado.

Como eu me conservasse no mesmo mutismo e ele se impacientasse, começou o próprio emissário às negociações dizendo:

— Que pretendes de nós?

— Falar convosco.

— Pois então fala!

— Não me é possível.

— Alá! Por quê? Apontei para trás de mim.

— Vê; conduzo comigo mais armas do que vós o poderíeis supor e as depus todas. Também tu me prometeste depor as tuas. Desde quando são os bebbehs reles mentirosos e homens desleais?

— Mentirosos e desleais? Porventura estou mentindo ou procedendo com deslealdade?

— Para que aquele volume debaixo de tuas vestes?

Eu notara que por debaixo do albornós trazia ele uma clava oculta. O homem mudou de côr e visivelmente contrariado levou a mão por debaixo das vestes e jogou longe a clava.

— Eu me esqueci de depô-la, também — desculpou-se ele.

O fato de a haver posto fora convencia-me de que não fora por perfídia que o bebbeh trouxera a arma oculta. Não tivera ele plena confiança em minhas palavras e daí o haver-se armado secretamente para reagir a qualquer eventual agressão de minha parte. Dei eu desta vez início à conversação:

— Bem! Que reine a paz entre nós até o término das negociações! Prometes contribuir para isso?

— Prometo-o.

— Em reforço disso, apertemo-nos as mãos.

— Aqui tens a minha!

— Por que estais a nos perseguir? — perguntei-lhe.

O emissário olhou-me perplexo.

— Estás doido, homem?! — exclamou depois. — Vós nos assaltais à noite, atravessais como salteadores e inimigos nossos as fronteiras e aí estás tu imbecilmente a me perguntar qual a razão por que vos perseguimos!

— Pois fica sabendo que não atravessamos as fronteiras como inimigos vossos e menos ainda como salteadores.

O homem mostrou-se mais pasmado ainda.

— Não? Allah il Allah! No entanto roubaram-nos os rebanhos e as tendas com tudo que nelas se continha!

— Estais equivocados! Não fomos nós: os bejates é que procederam de tal forma.

— Pois vós sois bejates!

— Não! Somos cinco cidadãos pacíficos. Um deles e eu somos guerreiros do longínquo Frankistão; o terceiro é meu criado, um árabe, provindo de muito além de Meca e os dois últimos são Benis-árabes do oeste daqui e nunca foram vossos inimigos.

— Isto dizes com o fito de me ludibriar. Por meio de expedientes não nos conseguireis escapar. Vós sois bejates!

Atirei para trás o albornós e arregacei a manga do casaco; depois abri a camisa de modo a ficar exposto o peito.

— Um bejate, um curdo ou um árabe tem pele tão clara como eu? — perguntei-lhe.

— Oh! como é branco — exclamou o homem. — És assim em todo o corpo?

— Naturalmente. Sabes ler?

— Claro — respondeu com orgulho.

Tirei do bolso o meu livro de notas e lhe exibi.

— São esses caracteres gráficos, curdos ou árabes?

— Não. Trata-se de uma grafia estrangeira. Guardei de novo a carteira e abri o passe.

— Conheces este selo oficial?

— Katera Allah! Por Deus! É o selo do Grão Senhor!

— E tu és obrigado a acatar este selo, pois és um guerreiro do paxá da Sulimania, que se acha sob o domínio do Sultão. Crês agora que não sou bejate?

— Agora, sim.

— E o mesmo se dá em relação aos meus camaradas.

— Mas estivestes com os bejates, isto é incontestável!

— Encontramo-los ao norte, distante um dia de viagem daqui. Disseram-nos que se dirigiam a uma festa dos dchiafs para a qual haviam sido convidados. Por eles fomos acolhidos como hóspedes sem sabermos que eram inimigos dos bebbehs. Não tínhamos igualmente a menor idéia de que os nossos hospedeiros pretendiam assaltar a vossa tribo. Ontem à noite deitamo-nos a dormir debaixo da sua proteção. Enquanto dormíamos, os bejates se retiraram sorrateiramente e só à sua volta é que verificamos haver-nos alimentado das vitualhas de ladrões e salteadores. Questionava eu com o khan Heider Mirlam por causa dessa sua atitude, quando o acampamento foi por vós assaltado.

— Oh! Queira Alá não nos escape aquele Heider Mirlam! Chegaste a reagir contra a nossa gente?

— Claro. A isso fomos obrigados, em virtude de nos haverem agredido.

— Mataste alguém?

— Ninguém.

— Jura!

— Não juro! Sou cristão e a minha palavra basta!

— Um cristão! — exclamou o homem surpreendido e com inflexão de dó na voz. — Oh! agora estou convencido de que não és nenhum curdo e tampouco um turcomano, pois um muçulmano jamais diz ser cristão. Agora creio que realmente não mataste nenhum dos nossos, mas se limitou a fugir da luta... Pudera não! De que forma poderia um cristão matar a um muçulmano!

De tanto menosprezo era o tom em que me falava o bebbeh que estive quase a esbofeteá-lo; mas em benefício de nossa caravana, era eu obrigado a suportar as suas pesadas ironias, para não dizer grosseiras ofensas. Ademais disso, não me achava eu em lá muito invejável situação, visto que a coluna retardatária havia alcançado a vanguardeira e com ela tornara a fazer junção. Destarte a quinhentos passos de mim se achavam mais de trinta inimigos. A menor inabilidade de minha parte, me poderia acarretar a ruína imediata.

— Uma vez que reconheces não sermos inimigos vossos, nos deixarás em paz?

— Para onde pretendeis seguir?

— Na direção de Bagdad.

— Fica por enquanto aqui. Vou falar com os bebbehs!

O emissário levantou-se e voltou para o grupo. Ao passar pela clava que jogara fora nem se dignou a dirigir-lhe um olhar, muito menos ainda um gesto para apanhá-la. Foi longa, bastante longa a conferência que se seguiu; conforme eu notava pelos gestos, havia opiniões discordantes e concordantes e demorou bem um quarto de hora até volver o emissário para junto de mim.

O homem não tornou a sentar-se ao meu lado, razão por que levantei-me prontamente.

— Tu poderias continuar em paz, mas o diabo é que ainda não vimos os teus companheiros — declarou o bebbeh. — Chama-os! A um sinal meu, se aproximarão igualmente mais quatro bebbehs. Deste modo estaremos em igualdade de condições.

Aquela proposta era extraordinariamente perigosa. Até ali eu não havia ainda virado para os companheiros, a fim de não decair no respeito do emissário, que poderia julgar-me receoso dele. Mas ao volver-me agora para eles, vi-os a uma distância de uns dois mil passos. Haviam parado à espera dos acontecimentos. Deveriam eles voltar para, além de perderem o avanço que já levavam, cairem, talvez, nalguma cilada e serem aprisionados? Eu precisava proceder com toda precaução.

— É um engano de tua parte. Não estaremos então em igualdade de condições, não!

— Como não? Vós sereis cinco e nós cinco!

— Atenta para a dianteira que os meus irmãos vos levam atualmente e a confronta com a que terão depois de voltarem para cá e não serem tratados com maneiras pacíficas!

A essas minhas palavras o homem fêz um movimento de profundo menosprezo.

— Não tenhas medo, giaur! Somos bebbehs e não bejates! Dar-vos-emos depois a mesma dianteira no caso de não chegarmos a um acordo e se reiniciarem as hostilidades.

Fora outra a minha situação e eu teria dado ao homem uma terrível resposta àquele seu giaur. Por enquanto, porém, achei mais prudente fingir como se nem tivesse ouvido a injúria. Em vista disso, respondi-lhe calmamente:

— Fio-me em ti! Virão os teus quatro camaradas armados?

— Como quiseres.

— Eles que conservem suas armas e também nós os dois tornaremos a nos armar.

Meneou a cabeça e sem dizer uma palavra voltou para o bando. Eu coloquei os revólveres e os punhais novamente na cintura e montei a cavalo. Depois acenei para os companheiros voltarem. A atmosfera estava tão clara que eles àquela distância divisaram nitidamente o movimento que eu lhes fiz com o braço. Imediatamente obedeceram ao meu chamado e daí a instantes uma fileira de bebbehs se achava formada defronte à nossa caravana.

— Qual deles é o outro franke? — perguntou o chefe do bando.

— Este — respondi apontando para Lindsay.

Um sorriso de desdém perpassou pela fisionomia dos curdos e o chefe opinou:

— Já não tenho mais a menor dúvida de que realmente se trata de um franke, de um cristão, visto possuir ele um focinho de khansir (16) a que se dá o nome de nariz!

Agora sim, era demais! O homem se excedera ao que eu me predispusera lhe aturar.

— Essa espécie de nariz eu cansei de ver em Alepo e Diarbekr entre os crentes! — retruquei-lhe.

— Cala-te, giaur! — trovejou o curdo-bebbeh.

Avancei uns passos com o cavalo.

— Ouve, homem: disseste há pouco que sabias ler. Leste por acaso o kuran?

— E que tens com isso?

Pergunto-te menos por me interessar pelo livro do profeta, que sou cristão

 

(16) Porco.

 

e nada tenho com ele; mas tu como muçulmano deverias saber de cor e salteado o que Maomé ordenou! Não disse ele: "Quem respeita um inimigo é um homem valente e nobre; quem não sabe respeitar o inimigo é um poltrão, um indivíduo ignóbil!" Adotas os ensinamentos pregados pelo profeta e os consideras os verdadeiros; nós adotamos os de Isa Ben Marryam e os consideramos também os verdadeiros. Portanto o mesmo direito me assiste em te chamar de giaur! Tu usaste deste direito; eu, porém, não; e se dele não usei foi porque acho pouco nobre ofender a um semelhante. Todo aquele que procurar enxovalhar ao seu semelhante, enxovalha-se a si próprio. Anota isso para teu governo, bebbeh!

O homem ficou perplexo ante a minha inominável ousadia. De repente, porém, arrancou subitamente o punhal e trovejou:

— Homem, pretendes ditar-me ensinamentos?! Tu, um cristão, a quem Alá e o profeta queiram amaldiçoar! Queres que eu te rasgue o corpo tal qual se faz com um farrapo de pano? Eu já havia resolvido deixar-vos continuar em paz; mas agora ordeno-vos: safai-vos já daqui, impuros! A vossa dianteira podereis tomar novamente depois, porém, que scheitan vos conduza ao Djehenna.

Vi que o chefe interpretara o sentimento de sua gente ali agrupada, mas vi também os olhares furiosos de Halef e dos dois haddedins repousarem em expectativa em mim. O inglês, que não compreendera o diálogo, não perdia um dos meus movimentos, a fim de estar pronto para o que sucedesse. Resolvi ministrar-lhe as instruções necessárias.

— Sir, se eu atirar, atire o senhor também, mas procurando alvejar exclusivamente os cavalos! Não derramemos sangue inutilmente.

— Yes! Lindo! Excelente! — respondeu.

Depois declarei calmamente ao bebbeh:

— Está bem, já nos safaremos daqui. Antes, porém, tenho a dizer-te uma coisa: Não penses lá que pedimos por temor de vós! Somos amantes da paz somente porque nos repugna verter sangue humano; foi este princípio e exclusivamente ele que nos levou a entrar num entendimento amistoso convosco. Tu, porém assim não o queres, pois seja feita a tua vontade e já hás de arcar com as conseqüências do teu gesto!

— Não nos temeis? — exclamou o bebbeh depois de proferir uma estridente casquinada. — Não estiveste tu aqui sentado na areia a implorar-nos misericórdia, giaur?

— Não repitas esta palavra, bebbeh senão sobre a tua cabeça cairá o meu punho cerrado qual um raio sobre a copa duma árvore! Pedi a paz exclusivamente por amor à vossa vida e não à nossa e agora vamos mostrar-vos quanto menosprezamos o valor bélico dos bebbehs. Desistimos da dianteira que nos assegurastes. Nenhuma vantagem queremos de vossa parte, ouviste?! Que se inicie já e já a luta! Aproximai-vos, se fôrdes homens!

— Assim seja! — trovejou o bebbeh levando a mão ao punhal. No mesmo instante, porém, o meu Rih num formidável pinote passara rente ao seu cavalo, instante em que o agarrei pelo braço e arranquei-o do serigote. Quatro estampidos de carabinas se fizeram ouvir seguidos de mais dois, e quando virei rapidamente o garanhão vi o cavalo do bebbeh juntamente com o cavaleiro rolando no chão.

— Depressa, avante!

 

UMA CRIATURA ORIGINAL

Galopamos como flechas. Ao passar pelo bebbeh, ergui-o do solo e desferi-lhe uma violenta bofetada dizendo: "Aí tens a recompensa por me teres qualificado de giaur!" Depois deixei-o cair novamente. Ele foi bater rente ao casco do cavalo, mas de modo a não ser por ele ferido. Tudo isso passou-se tão rapidamente, que atarantara os bebbehs, os quais só agora é que se lembraram de pôr os seus cavalos em movimento.

— Procedi bem ou com insensatez? — perguntei ao chefe haddehin durante a cavalgada.

— Emir, respondeu Maomé Emin — tu procedeste admiravelmente bem; aquele homem insultara não só a ti mas também a nós todos. Ele agora não será mais considerado guerreiro pela sua tribo, visto que foi batido na cara por um cristão. Isto para ele constitui uma desgraça ainda maior do que a morte, desgraça que procurará vingar horrivelmente. Faze tudo por não caíres jamais nas mãos dos bebbehs; terias que morrer debaixo das mais cruciantes torturas.

Dentro de cinco minutos os bebbehs haviam organizado duas secções; a frente, porém, era menos numerosa, em vista de cinco de seus cavalos terem sido fuzilados. Deixei que tomássemos um bom avanço deles e ordenei que a nossa caravana fizesse alto. Os seis cavaleiros que constituíam a coluna da vanguarda não nos teriam perdido de vista durante o dia todo, pois se achavam excelentemente montados. Precisávamos, pois, em virtude dessa circunstância, abater-lhes os cavalos. Comuniquei isso ao haddedin, apeei e peguei da espingarda.

— Atirar? — perguntou Lindsay, notando-me o gesto.

— Sim. Varramos de vez a cavalhada!

— Yes! Interessante. Vale muito dinheiro a cavalhada!

Pedi aos companheiros para não baterem os gatilhos, antes de firmarem bem a pontaria, de modo a terem a plena certeza de não acertarem nos cavaleiros, mas apenas nos cavalos.

Os nossos perseguidores se aproximavam em doida disparada e já se achavam nos limites do alcance de nossas armas, quando perceberam o nosso intuito; ao invés de se espalharem, fizeram alto agrupados.

— Fire! — comandou mister Lindsay.

Posto que os árabes não compreendessem o idioma inglês, compreenderam o que significava aquela palavra e a nossa salva ressoou. Lindsay e eu deflagramos depois mais um tiro e notamos que nenhum dos nossos tiros errara o alvo: os seis cavalos com os cavaleiros formaram uma espécie de novelo no solo, cujo desembaraço infelizmente não nos restava tempo para assistir.

Tornamos a montar e continuamos a galope; daí a pouco a segunda coluna dos perseguidores surgiu ao longe por trás de nós para depois a, perdermos de vista, achando-nos a sós na planície.

Esta por fim chegou ao seu termo. Diante de nós erguiam-se montanhas e aos lados uma cadeia de outeiros. Instintivamente fizemos parar os cavalos sem que a isso nos levasse qualquer vestígio com o qual deparássemos.

— Para onde, agora? — perguntou Maomé Emin.

— Hum! — resmunguei.

Jamais em minhas jornadas havia eu tomado uma direção tão incerta como esta.

— Reflita, emir! — pediu Amad. — Temos agora tempo. Deixemos os cavalos descansar um pouco.

— É boa! Com a mesma facilidade também poderia eu pedir-vos que refletísseis para ver se encontramos uma saída nesta conjuntura. Não me posso orientar com exatidão sobre o rumo em que nos encontramos; contudo quer me parecer que ao sul daqui estão situada Nweizgieh, Merwa,. Beytosch e Deira. Essa direção nos levaria a Sulimania.

— Para lá não iremos! — atalhou-me Maomé Emin.

— Neste caso, teremos que apelar para o caminho das montanhas a que ontem me referi. Poderemos continuar na direção que levamos até chegarmos ao rio Verozieh, cujo curso teremos que subir durante um dia, para, por trás de Banna, chegarmos ao monte.

— Concordo com este itinerário — disse Maomé.

— Esse rio tem para nós ainda a vantagem de separar a Pérsia de Ejalet e deste modo poderemos mudar de margem sempre que assim o exigir a nossa segurança pessoal.

Prosseguimos a cavalgada na direção do sul. Nesse trecho a campina cada vez mais se elevava até formar, finalmente, uma colina; vales e montanhas sucediam-se em contraste cada vez maiores. À tardinha chegamos ao espinhaço da montanha e antes do pôr do sol atingimos uma choça, de cuja abertura do telheiro saía fumaça.

— Aqui mora alguém, sídi, — disse Halef.

— Provavelmente alguém que não nos fará mal algum. Vou chegar. Esperai aqui até a minha volta.

Apeei e me acerquei da choça. Era feita de pedras; as fendas das paredes se achavam entaipadas com musgos. A cobertura era de arbustos e palhas e a abertura que servia de porta era tão baixa que mesmo uma criança mal poderia passar por ela.

Quando do interior da choça ante-diluviana os meus passos foram ouvidos, à abertura surgiu a cabeça de um animal que tomei por urso; em seguida, porém, pelo latido que soltou, constatei que a exótica criatura era um cachorro. Nisso, ouviu-se um assobio estrídulo no interior da choça e no lugar do cachorro, surgiu outra cabeça, que à primeira vista me foi também difícil dizer a que espécie pertencia. Vi apenas uma floresta de cabelos e barbas, da qual emergia um enorme e fenomenal nariz. Dois olhinhos negros brilhavam ao alto da floresta, tal qual os de um chacal enfurecido.

— Ivari ‘j ker. — Boa noite! — saudei.

Um rosnado abafado foi a resposta.

— Moras sozinho, aqui?

O abafado rosnado elevou-se mais.

— Existem outras casas aqui pelas imediações?

Agora, sim, o rosnado tornou-se terrível, ao mesmo tempo que uma ponta de venábulo era apontada para mim.

— Vem para fora — convidei em tom cortês.

O rosnado tornou-se verdadeiramente pavoroso e a ponta do venábulo visava-me a garganta. Aquilo irritou-me afinal. Peguei da ponta da arma e a puxei. O enigmático morador da choça segurou firme o venábulo e como minhas forças eram superiores às suas consegui puxá-lo para fora da porta. Primeiro saiu a sua floresta de cabelos com o nariz negrejante de carvão, depois ambas as mãos da mesma côr acrescidas de enormes unhas encardidas que causavam pavor ao menos temeroso dos homens. Depois seguiu-se-lhes um saco à guisa de avental, saco idêntico àqueles em que os mercadores de carvão costumam guardar as suas mercadorias, e, por fim, dois tubos de couro sujo que, após minuciosas pesquisas, conclui tratar-se de um par de botas, usadas em outros tempos pelo Colosso de Rodes.

Assim que as duas botas passaram pela abertura, a exótica criatura estacou hirta à minha frente, cedendo lugar para o cachorro mostrar-se em todo o seu tamanho natural. Também a estampa deste era pavorosa. A cabeça e o focinho eram também cobertas de pêlos, deixando a descoberto apenas os olhos, a ponta do nariz preto e a alva dentuça quando a arreganhava. Ambas as criaturas, porém, não obstante as suas figuras de incutir medo, pareciam recear mais a mim do que eu a eles.

— Quem és tu? — perguntei então abruptamente.

— Allo. (17) — resmungou afinal num som de voz humana.

— Qual a tua profissão?

— Kuemuerdar. (18)

Ah! explicada se achavam as cores do nariz e das mãos; mas para o melhor desempenho do seu ofício, não precisava ele deixar crescer daquele modo as unhas. Notei que o tom arrogante com que eu lhe falara me impusera ao seu respeito. O homem encolhia-se todo e também o cão punha a cola entre as pernas.

— Mora mais alguém pelas redondezas? — informei-me.

— Não — respondeu o homem a tremer.

— Que distância tem-se que caminhar para atingir a zona habitada?

— Um dia inteiro de viagem.

— Para quem fabricas carvão?

— Para o Senhor que faz ferros.

— Onde mora ele?

— Em Banna.

— És curdo?

— Sou, Senhor.

— Da tribo dos dchiafs?

— Não!

— Da clã dos bebbehs?

— Tampouco.

A essa palavra o homem escarrou em tom de escárneo. Confesso que dada à nossa situação atual, o homem em virtude daquele seu gesto começou a inspirar-me íntima simpatia.

— Afinal a que tribo pertences então?

 

(17) Alberto.

(18) Carvoeiro.

 

— Aos bannahs.

— Olha lá para cima: vês aqueles quatro cavaleiros?

O homem com as longas unhas afastou dos olhos os pêlos que lhe cobriam toda a face para obter melhor visão. Não obstante a sua cara estar completamente encarvoada, notei que o homem fizera uma fisionomia de pavor.

— São curdos? — perguntou-me.

Ah! eu conseguira afinal fazê-lo tomar também a palavra, ao invés de limitar-se a responder às minhas perguntas. Depois de lhe haver eu respondido negativamente, prosseguiu:

— Que são então?

— Somos três árabes e dois cristãos. O personagem olhou-me boquiaberto.

— Cristão! Que é isso?

— Mais tarde te esclarecerei, pois pernoitaremos na tua choça. O homem espantou-se agora muito mais do que dantes.

— Senhor, peço que não o façais!

— Por que não?

— Moram maus espíritos nas montanhas aqui ao redor.

— Muito folgamos com isso, pois teríamos grande prazer em nos defrontar com algum deles.

— Além disso, freqüentemente está a chover neste sítio!

— Melhor ainda. Aliás para ti não faria mal, se viesse um pouquinho de água...!

— E durante as chuvas troveja muito!

— É indispensável trovejar, quando chove torrencialmente.

— Ademais disso, a zona é habitada por ursos.

— Oh! se tu soubesses o quanto são saborosas as suas patas e o lombo!

— Também salteadores e ladrões costumam acoitar-se nestas montanhas.

— Mataremos todos eles.

Por fim ao ver que não havia desculpas que me demovesse do propósito, resolveu confessar a verdade:

— Senhor, tenho medo de vós!

— Não precisas ter medo de nós, não! Não somos salteadores nem ladrões. Queremos apenas dormir na tua choça e amanhã cedo prosseguiremos viagem sem te importunar. Pela pousada, te pagaremos uma piastra de prata.

— Uma piastra de prata? Sem falta de um só pára? — perguntou o homem pasmado.

— Claro e talvez que até duas, desde que nos trates com afabilidade.

— Ah! eu sou muito afável!

Ao dizer isso, o vulto negro mostrou toda a cabeluda cara risonha. O nariz, os olhos e a boca, que agora eu vira pela primeira vez, movimentaram-se com vivacidade. Era fora do comum a densidade de barbas e de cabeleira daquele curdo-bannah. Nunca eu vira coisa igual. A sua alegria parecia comunicar-se ao cachorro, que levantando a cola tentou com alegres latidos acamaradar-se com Dojan, que lhe deu tão pouca importância como a dá o sultão a um limpador de chaminés.

— Conheces bem a zona das montanhas? — perguntei-lhe.

— Toda ela.

— Sabes onde fica o rio Berozieh?

— Sei; ele constitui a linha divisória.

— A que distância fica daqui?

— Meio dia.

— Conheces Batina?

— Vou lá duas vezes por ano.

O homem conhecia também Amehdabad e Bayendereh.

— Mas ignoras onde fica situada Bistan? — inquiri-lhe.

— Sei até muito bem, visto que meu irmão reside lá.

— Tens que trabalhar todos os dias?

— Trabalho quando quero! — respondeu em tom cheio de orgulho.

— Então também daqui te podes retirar quando quiseres?

— Senhor, não sei qual a razão dessa tua pergunta! O carvoeiro era precavido; isso me agradava bastante.

— Pois te vou esclarecer a causa — respondi-lhe. — Somos forasteiros nesta região e não conhecemos esses caminhos através das montanhas e outeiros; por isso precisamos de uma pessoa honrada que nos sirva de guia. Pagar-lhe-emos pelo seu serviço duas piastras por dia.

— Oh! senhor, dizes a verdade? Eu durante todo o ano ganho apenas dez piastras, a farinha e o sal que consumo. Quereis aceitar-me para vosso guia?

— Primeiramente precisamos conhecer-te melhor, o que sucederá durante esta noite. Se ficarmos satisfeitos contigo, ganharás conosco mais dinheiro do que com o teu carvão durante um ano.

— Senhor, chama os teus companheiros. Fornecer-vos-ei farinha, sal e uma panela para preparardes os vossos alimentos. Tenho tanta caça quanta quiserdes e bem assim capim para os vossos cavalos. Lá na subida há uma vertente d’água para os animais e os vossos leitos eu os alcatifarei como se neles fosse dormir a sultana Balida.

Como se transformou o carvoeiro! E tudo isso por uma simples piastra!

Chamei os companheiros por meio de um aceno. Ao depararem com a figura do carvoeiro, não ficaram eles menos pasmados do que eu. Principalmente o inglês que de admirado pareceu haver perdido a fala; também o bannah admirava-se não menos do nariz de mister Lindsay, proferindo de quando em vez, em surdina, gargalhadas festivas através das imundas barbas. Finalmente o inglês usou da palavra!

— Hum! Que amontoado de nojeira! Que é isso? Algum gorila?

— Não, senhor; é um curdo da tribos dos bannahs.

— Arre! Vai te lavar, homem! — trovejou ele ao pobre carvoeiro. Como, porém, este não lhe compreendia o idioma, o carvão continuou a cobrir-lhe a face. Entrementes, os cavalos haviam sido, depois de desencilhados, postos à soga na pastagem e nós nos sentamos do lado de fora em esteiras cobertas por musgos. Prestei a Mahomé Emin as necessárias informações a respeito do carvoeiro, que se ofereceu para nosso guia. Ficou deliberado trazê-lo sempre debaixo da mais severa observação.

O dono da choça daí a pouco saía desta, trazendo um saco com farinha grosseira e uma vasilha de barro cheia de sal. Depois trouxe-nos uma panela que parecia haver servido durante longos anos a fins misteriosos... A seguir, abriu uma cova próxima de nós, cova que se achava encoberta por pedras e servia de guarda-comida. Nela guardara ele a sua provisão em caças que se compunha de duas lebres e um quarto de gamo. Disse-nos ele para escolhermos qual das veações preferíamos. Escolhemos o veado. Lavamo-lo bem por diversas vezes. A seguir foi aceso um fogo e preparado o espeto para o assado. E, enquanto Halef levava os cavalos à aguada, o carvoeiro cortava pasto para os mesmos com o auxílio de sua faca de mato; eu me entregava à tarefa de virar o espeto ao derredor do fogo.

— Sujeito sujo, aquele! Mas não obstante trabalhador! — resmungou o inglês. — É pena!

— Pena por quê?

— Panela nauseante! Yes! Seria melhor se fosse mais asseada. Daria tão bem para nela se preparar o acepipe.

— Com milhões de diabos, que acepipe, homem?!

— O puding.

— Puding? Ah! Mas como veio ter essa idéia, sir?

— Hum! Não sou um inglês?

— Perfeitamente, mas diga-me por favor de que pretendia o senhor preparar um puding, mesmo que a panela estivesse limpa?

— De qualquer cousa. Yes!

— Conheço umas vinte qualidades de pudings e nenhum deles se poderia preparar aqui.

— Ah! Oh! Por quê?

— Faltam-nos todos os preparos.

— Todos? O no. Temos veado, farinha e sal; basta!

— Veado, farinha, sal! Muito bem, sir, vou tomar nota dessa receita! Quer dizer que os demais ingredientes que se aplicam na preparação de um puding de carne como sejam toucinho, ovos, cebola, pimenta, limão, salsa, mostarda etc, só contribuem para estragar-lhe o gosto?

— Isto mesmo! Yes!

No lugar de um puding, recebeu ele um naco de carne de veado que devorou todo. Quando comecei a fazer a distribuição do assado, o curdo parou-se a um dos ângulos de sua choça a lamber os dedos.

— Vem, Allo! Toma parte na refeição — convidei-o.

De um salto vertiginoso o hospedeiro veio parar-se ao meu lado e notei que naquele instante ainda mais se solidificara a nossa amizade.

— Quanto queres pelo teu veado? — perguntei-lhe.

— Senhor, vo-lo faço presente! Amanhã caçarei outro.

— Contudo quero pagar-te. Aqui tens o dinheiro!

Levei a mão à bolsilha da cinta e tirei duas piastras que lhe depus nas mãos.

— Oh! Senhor! Como és bondoso! Não queres assar também as lebres?

— Levá-las-emos amanhã no farnel de viagem.

Nas proximidades da choça havia um grande monte de folhagens secas. Delas foi o curdo buscar o suficiente para nos preparar um leito com capacidade para cinco pessoas. E cobrindo as folhagens com os nossos cobertores conseguiu realmente o carvoeiro nos preparar um leito tão fofo, como em igual de há muito não dormíamos.

Na manhã seguinte, antes da partida, saboreamos o resto do veado que ficara da véspera.

— O senhor já pagou a nossa refeição, mister; agora cabe-me reembolsá-lo da quantia que adiantou — disse-me Lindsay.

— Deixemos disso! São ninharias!

— Vai este gorila nos guiar? Quanto ganhará ele por dia?

— Duas piastras.

— Pois bem, este salário correrá então por minha conta, ouviu?!

— Está bem, sir!

Como também os haddedins concordassem em tomarmos o curdo por guia, submeti-o a um exame prévio.

— Já ouviste falar no lago de Kiupri?

— Estive lá até.

— Quantos dias dista ele daqui?

— Quereis passar por muitas ou poucas aldeias?

— Queremos nos encontrar com menos gente possível.

— Neste caso levareis seis dias de viagem.

— Qual o caminho que tomamos?

— Sairemos daqui diretamente a Amehdabad, após havermos, é claro, atravessado o Berozieh; depois há uma passagem à direita que conduz para Kizzelzieh, de onde se avistam as águas que afluem para o lago de Kiupri.

Para satisfação minha constatei, pasmado, que era aquela descrição, idêntica ao mapa por mim traçado. Portanto o curdo-bulbassi que me fizera a descrição fora um excelente informador.

— Estás disposto a nos servir de guia? — perguntei-lhe novamente.

— Senhor, vos posso conduzir até à planície que conduz para Bagdad. — respondeu ele.

— Como vieste a conhecer estes caminhos?

— Por diversas vezes tenho servido de guia aos mercadores ambulantes que, carregados, vêm para as montanhas e depois de tudo negociarem voltam sem mercadoria alguma. Naquela época não era ainda carvoeiro.

Aquele homem apesar da sua sujeira, era uma verdadeira pérola para nós. Ademais disso, parecia ser uma boa alma. Por isso apressei-me em contratá-lo.

— Pois vais nos guiar até aquela planície e receberás diariamente duas piastras de honorários. Se nos servires com fidelidade e dedicação ficarás com o cavalo que compraremos para ti. Aceitas a proposta?

Um cavalo! Incalculável seria para ele a riqueza se pudesse possuir um animal desses. Pegou de minha mão que apertou com efusão na região de suas barbas em que, devido razões de ordem anatômica, era de se supor achar-se a boca.

— Oh! Senhor, a tua bondade é ainda maior que todas essas montanhas juntas! Permites que leve também o meu cão e vós custeareis o seu repasto?

— Traze-o. Pelo caminho abateremos caças mais que suficientes para a sua nutrição.

— Muito obrigado. Pena que não tenho uma espingarda e que seja obrigado a pegar as caças por meio de laçadas. Quando me comprarás o cavalo?

— Assim que fôr possível.

O homem tinha sal de que pedi-lhe levasse uma provisão.

Do tempero precioso que é o sal, só nos convencemos quando durante meses e meses somos obrigados a nos privarmos dele. A maior parte dos beduínos e também muitos curdos não estão habituados ao seu paladar.

 

UM CAVALO PARA O GUIA

Allo terminara apressadamente os seus preparativos de viagem. Escondeu a sua provisão de farinha e o resto de sal, no guarda-comida já citado, agarrou o seu terrível venábulo, pôs a faca na cintura e colocou uma coleira com corda ao cachorro, amarrando uma das extremidades à cintura. Chapéu ou qualquer outra espécie de cobertura da cabeça o homem não usava.

Começamos aquele dia de viagem, com renovada confiança em nossa boa estrela. O nosso guia nos levou sempre para o sul, até que ao meio-dia alcançamos o Berozieh. Ali fizemos alto e tomamos um banho no rio. Felizmente, Allo deixou-se persuadir da necessidade de imitar-nos, tomando também um banhozinho, sabe lá Deus depois de quanto tempo... Por sabão utilizou-se ele da areia, de que era rico o leito do rio e quando saiu das águas tinha um aspecto mais humano.

A seguir, rumamos para o oeste, tendo, porém, que fazer numerosas voltas, visto se acharem as margens do rio serpenteadas de colonizações e acampamentos de tribos nômades, das quais julgamos conveniente não nos aproximar. À noite pousamos à beira de um arroio, que, da montanha, corria diretamente ao Berozieh.

Na manhã seguinte, não havíamos viajado ainda bem uma hora, quando o curdo parou e lembrou-se da promessa que eu lhe fizera de comprar um cavalo para a sua montaria. Disse que nas proximidades residia um conhecido seu, que tinha um bom animal à venda.

— Mora este teu conhecido nalguma aldeia populosa? — perguntei-lhe.

— Ela compõe-se apenas de quatro casas.

Folguei com a resposta, visto que queria entrar o menos possível em contacto com pessoas durante aquela jornada e ao curdo sozinho eu não poderia mandar procurar o negociante de cavalo, pois ainda não me podia fiar na sua discrição.

— Quantos anos tem o cavalo a que te referes?

— É novo ainda, terá quando muito uns quinze anos.

— Bem, iremos os dois até lá a examinar o animal, enquanto os companheiros nos ficam esperando nalgum esconderijo. Escolhe um lugar próprio onde eles se possam ocultar.

Depois de uns quinze minutos divisamos ao longe, à beira-rio, algumas casas.

— É lá — disse Allo. — Espera-me aqui que vou esconder os teus camaradas.

O nosso guia levou os meus companheiros para a frente, mas daí a um minuto estava de volta.

— Onde os ocultaste?

— Ali adiante num macegal, onde ninguém os descobrirá.

— Ao teu conhecido não dirás quem sou, também para onde vamos e menos ainda que quatro companheiros aqui se acham à nossa espera!

— Senhor, não direi uma só palavra. Tens sido tão bondoso para mim, e eu te estimo. Não tenhas receio!

Descemos a ladeira e minutos depois nos achávamos diante de uma casa. No alpendre desta se achavam dependurados arreamentos de diversos sistemas. Por trás da casa havia uma espécie de curral onde pastavam vários cavalos. Um velho e esguio curdo veio ao nosso encontro.

— Allo, és tu! — exclamou o homem como que recuperando a calma depois de uma estupefação. — Bendito seja o profeta que te guiou a este caminho!

E à meia voz acrescentou:

— Quem é este grande Senhor?

— Um efêndi de Kerkuk que pretende seguir para Kekekowa, a fim de lá se encontrar com o paxá de Sinna. Como sou conhecedor desses caminhos, fui por ele contratado para guia. Tens ainda o cavalo que te sobrava?

— Tenho — respondeu o homem não tirando os olhos admirados de cima do meu garanhão preto. — Está no curral, por trás da casa. Vamos lá!

Não quis deixar os dois irem a sós: apeei rapidamente para acompanhá-los.

O cavalo que se achava à venda não pertencia ao rol dos piores; era mais novo ainda do que o julgava Allo. E como no curral pastassem outros cavalos na minha opinião todos ordinaríssimos, admirava-me de querer o dono vender exatamente aquele que era o melhor de todos.

— Quanto queres pelo animal?

— Duzentas piastras — foi a resposta.

— Puxa-o pela minha frente.

O animal foi retirado do curral e o curdo montando-o fê-lo caminhar, trotar e também galopar, o que despertou-me desconfianças: é que o animal demonstrava valer muito mais do que o preço pedido por ele.

— Põe-lhe a albarda e alguma carga!

Fui atendido e o animal obedecia a tudo.

— Este animal tem algum defeito?

— Nem um único, Chodih! — assegurou-me o curdo.

— Tem sim e será melhor que digas qual é. O cavalo destina-se ao teu amigo Allo a quem não deves enganar.

— Não o engano, não!

— Pois bem, dada à tua insistência em negar-me a verdade, vou eu sem o teu auxílio descobrir o defeito do animal. Tira-lhe a carga do lombo e põe-lhe um serigote!

— Por que, Senhor?

Essa pergunta era quase a confirmação de minha desconfiança.

— Porque assim o desejo — respondi-lhe com sequidão. Obedeceu-me, finalmente, o homem; depois de encilhado o cavalo, ordenei-lhe que o montasse.

— Senhor, não me é possível.

— Não te é possível! Por quê?

— Sofro de caimbras nas pernas. Não ando a cavalo, por causa dessa doença.

— Bem, então vou montá-lo!

Pela cara que o homem fazia, concluí que eu iria logo dar pelo defeito. O cavalo deixou que eu me aproximasse; porém, quando pus o pé no estribo, afastou-se para o lado, sestroso. Não me deixava montá-lo nem por nada até que resolvi levá-lo de encontro à parede. Montei-o então de chofre, mas o cavalo se pôs logo a pinotear e daí em diante começou a corcovear furiosamente, ameaçando cuspir-me do serigote. Depois de muitos pinotes, caí, mas de propósito, dando a impressão de haver sido arrojado pelo animal.

— Homem, este cavalo não vale nem um pára, quanto mais duzentas piastras! Ninguém o poderá montar. Foi viciado por quem o montava antes.

— Senhor, o cavalo é excelente. Apenas te estranhou, talvez.

— Conheço bem essas coisas! O cavalo durante muito tempo sofreu por certo debaixo de um péssimo serigote e nas mãos de um pior cavaleiro ainda. E isso jamais um animal de trato esquece. Quem o haverá de montar agora? Quando muito poderá ainda ser utilizado como animal cargueiro.

— E não precisas de um, Senhor?

— Por enquanto não; talvez mais tarde.

— Pois compra este; tão facilmente não encontrarás um animal por essas redondezas.

— Achas que devo conduzir inutilmente um cavalo, circunstância que apenas embaraços me traz à viagem?!

— Deixo-te por cento e cinqüenta piastras!

— Pois bem, dou-te cem e nem um pára a mais.

— Senhor, estás gracejando!

— Fica então com o teu cavalo! Fácil me será comprar um em Banna. Vem, Allo!

Montei no meu garanhão e o carvoeiro seguiu-me com fisionomia contristada. Mas cinqüenta passos, se tanto, havíamos dado quando ouvimos por trás de nós uma voz exclamar:

— Deixo por cento e trinta, Senhor! Não respondi.

— Cento e vinte!

Continuei a cavalgar sem volver-lhe um olhar.

— Volte, Senhor! Vá lá, deixo-o pelas cem piastras!

Agora sim, parei o cavalo e perguntei-lhe primeiro se ele tinha um arreamento completo para vender. Depois de me responder afirmativamente, voltei a adquirir um serigote com mais pertences, tudo em bom estado de conservação por quarenta piastras. E o que de mais vantajoso me foi: o homem aceitou o pagamento em velhas Beschlik que pouco a pouco foram se me acumulando na bolsilha. Ensilhei o animal e despedi-me do curdo.

O homem respondeu-me apenas com um sorriso de astúcia e reflexão. Allo também se despediu dele e depois quis montar o seu cavalo. Toda a sua fisionomia, ou por outra, a mínima parte dela que não era encoberta por barbas se iluminara de satisfação por possuir ele agora também o seu fogoso corcel.

— Pela graça do profeta, não o montes! O cavalo te derribaria, partindo-te o pescoço! — exclamou o curdo, agarrando-o pelo braço.

— O teu amigo tem razão — concordei. — Monta agora o meu garanhão. Este por certo que te conduzirá com mais segurança, enquanto eu vou mostrar a este outro que ele é obrigado a obedecer-me quer queira quer não!

O carvoeiro subiu com grande satisfação ao dôrso do meu garanhão preto, o qual consentiu naquele atentado contra a sua dignidade de corcel, somente porque me sabia próximo dele... Levei o cavalo de encontro à parede e consegui montá-lo com mais facilidade do que anteriormente. Mas mal me sentara no serigote, o animal se pôs de novo a pino e depois passou a cabrear furiosamente. Durante alguns minutos deixei que pinoteasse à sua vontade. Depois, porém, encurtei as rédeas e premi-lhe o lombo com as coxas. Quis pinotear, porém não conseguiu mais. Conseguia apenas erguer um pouco as patas, o que constituía verdadeiro brinquedo, comparada com a sua anterior atitude. Não demorou a arquejar o animal e a suar por todos os poros, e da boca saía-lhe espuma em flocos. Estava de pé não obstante fazer-lhe eu violentas pressões com as coxas.

— Homem, o cavalo está novamente domado! — exclamei triunfante. — Presta atenção como ele vai andar sem vacilações! Aconselho-te a jamais tentares ludibriar a boa fé de um amigo. Que Alá seja contigo! Até a volta, se tal suceder!

O curdo olhava-me assombrado; talvez que já se achasse arrependido da venda feita. Cavalguei à frente, com o que modestamente concordou o meu valente Rih.

— Chodih, perguntou o carvoeiro — este cavalo preto agora é meu? Hum! Outra questão!

— Não — respondi-lhe.

— Por que não?

— Este garanhão preto na primeira oportunidade te cuspiria da sela. Para isso basta que eu me afaste de ti. Viajarás nele apenas hoje, pois amanhã este aqui estará completamente domado e então poderás montá-lo.

— E me pertencerá também depois que eu me separar de vós?

— Sim, desde que nos sirvas a contento.

— Oh! farei tudo que exigirdes de mim.

Alcançamos o macegal em que se achavam escondidos os meus companheiros. Tornaram a se reunir a mim e todos ficaram satisfeitos pelo excelente negócio que eu fizera. Apenas Halef se achava indignado.

— Sídi, — declarou ele — isto Alá jamais te perdoará! Obrigar o nobre e valente Rih a conduzir um sapo sujo como aquele! Ele que passe para o meu cavalo e eu montarei o garanhão preto!

— Deixa-o, Halef. Deste modo tu o ofenderias.

— Machallah! pode lá com isso se ofender um curdo que prepara carvão e come com a sua refeição a sujeira dos dedos!

Contudo, prevaleceu a minha ordem.

Cerca do meio dia atingimos a colina de Banna e depois de uma cavalgada apressada chegamos ao passo que se abria diante de nós rumo do sul. Havíamos forçado muito os cavalos durante o dia e por isso pretendi deixá-los descansar durante mais tempo do que em geral os deixávamos ao acamparmos. Neste propósito, dobramos e entramos num vale profundo, adjacente ao passo, vale cujos flancos eram fechados por carvalheirais. Havíamos abatido bastante caça e depois da refeição sorteamos a guarda para a vigilância noturna. Aquela providência era tanto mais necessária quanto se podia calcular que a notícia do roubo de gado que sofreram os bebbehs já devia, por outras veredas, ter chegado a Banna e por certo que também a respeito de nossas pessoas tivessem falado por esta ocasião.

A noite decorreu sem que o menor incidente nos viesse despertar do sono. De manhã bem cedo prosseguimos a jornada. A estrada conduzia por caminhos pedregosos e outeiros sem relva, por escuros desfiladeiros e vales soturnos, onde raramente se encontrava alguma insignificante aguada. Via-se e sentia-se concomitantemente que por aquela zona ainda não atravessara um só europeu.

 

UM ENCONTRO SUSPEITO

Perto do meio dia tivemos que atravessar um vale que seguia direção oblíqua. Exatamente quando íamos chegando na parede oposta, Dojan parou e dirigiu-me olhares súplices. Eu o conhecia muito bem. O fiel galgo notara algo de suspeito e com aquela postura pedia-me licença para abandonar-me por momentos. Parei o cavalo e relancei os olhos ao redor, não descobrindo o menor vestígio de por ali andar alguma criatura viva.

— Juru, Dojan! — exclamei e o cachorro como um relâmpago embrenhou-se pelo macegal. Minutos em seguida ouviu-se um grito acompanhado de leves latidos de Dojan, denunciando ter um homem nas presas.

— Halef, vamos lá!

Pulamos dos serigotes, passamos as rédeas aos companheiros e entranhamo-nos no macegal na direção tomada pelo cão. Realmente à beira de uma moita de espinhal, achava-se Dojan segurando pela garganta um homem, que ele arrojara ao solo.

— Dojan, geri!

O cão afrouxou as presas e o homem levantou-se.

— Que fazes aqui?

O homem encarou-me como se refletisse a resposta que me devia dar. Mas ao invés de responder-me, deu um súbito pulo para o lado e desapareceu.

A um sinal meu o cachorro saiu em sua perseguição. Minutos depois ouvia-se o mesmo brado de angústia do fugitivo e o latido do Dojan. Num galho de árvore, que se erguia ao lado do local onde estivera o homem debaixo das presas do cão, dependurara este a sua espingarda. Mandei que Halef a agarrasse e continuamos pelo macegal adentro. Mais adiante fui encontrar o homem e o cachorro na mesma posição anterior. O primeiro nem se animava a mover-se e menos ainda fazer uso da faca que trazia à cintura.

— Permitirei agora pela última vez que te reergas desta posição. Mas anota: se fugires outra vez, deixarei o cachorro te estraçalhar — preveni-o.

Dito o que, fiz um sinal ao cachorro para largar o homem. Este levantou-se e em postura humilde parou-se diante de mim.

— Quem és tu?

— Sou um morador de Soota — respondeu ele.

— Um bebbeh?

— Deus me livre, Senhor! Somos inimigos daquela tribo, pois sou um dchiaf.

— De onde vens?

— De Achmed Kulwan.

— De tão longe? Que estiveste fazendo lá?

— Pastoreio os rebanhos do kiaja daquela aldeia.

— E para onde pretendes seguir?

— Visitar amigos meus em Soota. Os dchiaf vão realizar uma grande festa, da qual tencionamos participar.

Aquilo era exato.

— Terão os dchiafs muito hóspedes e convidados para a referida festa?

— Ouvi dizer que o khan Heider Mirlam pretendia comparecer à mesma, para o que recebeu convite.

Também aquilo era exato. De suas afirmativas, depreendia-se que não era mentiroso aquele homem.

— Por que te escondes de nós?

— Senhor, não deve um homem estando só, esconder-se ao avistar seis cavaleiros desconhecidos nessa região? Nessas montanhas a gente nunca sabe se topa com amigos ou inimigos.

— Mas por que tentaste fugir-me?

— Julguei que pretendesses proceder hostilmente contra mim, visto que atiçaste contra mim o teu cachorro.

— Andas realmente sozinho?

— Bem sozinho; juro-te pelas barbas do profeta!

— Estou inclinado a te acreditar. Vamos, sai na frente!

Levei-o à presença dos companheiros, aos quais teve ele que repetir as declarações que já antes me fizera. Foram unânimes em concordar comigo que aquele homem não nos era perigoso. Devolvi-lhe então a espingarda e declarei-o em liberdade. Depois de nos haver ele apresentado os seus agradecimentos e implorado que a bênção de Alá nos caísse sobre as cabeças, pusemo-nos em marcha, prosseguindo nossa viagem.

Eu notara que Allo contemplara pensativa e longamente o estranho; também agora cavalgava ele imerso em profunda meditação. Eu já me dispunha a dele me aproximar e lhe perguntar pela causa de se achar tão pensativo, quando ele como que se recordando finalmente do que em vão tentava recordar, de mim se acercou e disse:

— Chodih, aquele homem te mentiu! Eu o conheci mas não me recordava de momento de onde. Agora é que me lembrei de tudo. Não é um dchiaf conforme te afirmou, mas um bebbeh. Deve ser um irmão ou parente próximo do xeque Gassal Gaboya. Encontrei-os a ambos de uma feita em Nweizgieh.

— Oh! se isso fosse verdade! Não te enganaste, por acaso?

— É possível, mas tenho quase plena certeza do que estou dizendo. Comuniquei aos demais as suposições do carvoeiro.

— Estou querendo voltar e capturar o homem!

Maomé Emin meneou a cabeça.

— Para que perder tempo em retroceder? Se aquele homem fosse de fato um bebbeh como poderia ele saber haver sido Heider Mirlam convidado para as festas dos dchiafs? Dessas coisas em geral guarda-se sigilo diante do inimigo.

— E, — acrescentou Amad el Ghandur — de que forma poderia aquele homem nos trazer danos? Ele segue para o norte e nós para o sul. Jamais conseguirão nos alcançar mesmo que ele em Banna avise que nos viu.

Esses argumentos eram de todo procedentes. Desisti, em vista disso, de pegá-lo. Apenas o inglês parecia não estar satisfeito com esta resolução.

— Por que deixar aquele sujeito solto? — disse ele encolerizado. — Antes o tivéssemos fuzilado. Nenhum mal faria. Todo curdo é ladrão! Yes!

— Também o bei de Gumri?

— Hum! Também!

— Sir, o senhor é muito ingrato!

— Não é de sua conta! Aquele bom bei não nos teria feito a recepção que nos fêz se Marah Durimeh não lhe tivesse predisposto o espírito a isto. Boa mulher,

adorável aquela Grandmother (19).

 

(19) Vovó.

 

Ao ser enunciado o nome de Marah Durimeh, em mim despertaram recordações que me fizeram esquecer o presente. Entreguei-me a tais pensamentos até o inglês advertir que já estava em tempo de se escolher um local para a sesta do meio dia.

Tinha razão o inglês. Não obstante a escabrosidade do caminho, vencêramos um bom trecho naquele dia e os animais faziam jus a um descanso. Encontramos um local bem apropriado para tal fim; apeamos e nos deitamos, exceto a sentinela, para dormir uma soneca.

 

Um assalto

Quando fomos despertados, os cavalos já se achavam com suas forças-refeitas. Resolvi fazer uma experiência para ver se o animal adquirido para o carvoeiro já se amansara a ponto de deixar que este o montasse. O animal parecia haver notado que em nosso poder não seria maltratado. Tornou-se dócil e nem parecia mais o mesmo quando com Allo no serigote saiu andando, obedecendo-lhe maravilhosamente ao governo. Deste modo me foi possível montar de novo o meu Rih o que foi uma sorte, conforme pouco depois constatei.

As montanhas e outeiros até agora descampados, pouco a pouco se apresentavam vicejantes à proporção que avançávamos para o sul; é que naquela zona havia mais abundância de aguadas. Mas por outro lado mais penosa se nos tornava a cavalgada. Não havia por ali nenhum caminho ou vereda trilhada. Ora tínhamos que subir por íngremes outeiros, ora descer por ladeiras escarpadíssimas; a seguir éramos forçados a cavalgar por caminhos semeados de cantos de rochas e mais adiante por veredas atulhadas de lenha apodrecida ou então bastante lodosa e atoladiça. À tarde chegamos a um vale estreitíssimo em cujo centro somente havia linha plana em forma de prado; o resto de sua superfície, por ambos os flancos, era coberta por densas matas. Ao longe erguia-se, qual nebulosa azulada, uma alterosa montanha, que com um outeiro à frente parecia nos afastar do caminho.

— Passaremos por aquela montanha? — perguntei a Allo.

— Passaremos, sim. Tomaremos à esquerda e cruzaremos pelo seu sopé.

— Que disse o homem? — perguntou Lindsay.

— Que o nosso caminho passará à esquerda do sopé daquela montanha.

— Isso pouco ou nada nos adianta saber! — resmungou o inglês mal humorado.

Mas não tardaria em constatar ele que de capital importância fora para ele aquela observação do nosso guia, pois mal eu abrira a boca para lhe retrucar, detonaram-se muitos tiros em ambos os flancos do caminho ao mesmo tempo que do matagal que o marginava saltaram cerca de cinqüenta cavaleiros, que logo nos fecharam num cerco.

Que terrível surpresa! As montarias da nossa caravana, todas elas foram atingidas, com exceção do meu garanhão. Conforme mais tarde vim a constatar, aquela exceção não se dera por mera casualidade. Os cavaleiros procuraram livrar-se do estribo para sacar de suas armas. Dentro de poucos segundos estávamos cercados de todos os lados e contra mim galopavam dois cavaleiros que logo reconheci: eram o xeque Gasahl Gaboya e o bebbeh com o qual eu estivera em negociações de paz, quando foi de nossa fuga.

Alvejaram-nos apenas os cavalos. Pretendiam pois capturar-nos com vida. Deixei em vista disso a espingarda "Henry" no serigote e peguei da pesada "Mata ursos".

— Verme, caiste agora em minhas mãos! — trovejou o xeque. — Desta vez não me escaparás, não!

Dizendo isso, pegou de sua clava para o golpe, mas no mesmo instante Dojan abocanhou-o de um salto na altura da coxa. O xeque proferiu um grito de dor e o golpe de clava a mim destinado foi acertar a cabeça do Rih. Este relinchou angustiosamente e se pôs a pino, dando-me tempo para desferir um coronhaço no ombro do chefe bebbeh. Depois o garanhão, com a cabeça dolorida, saiu em vertiginosa carreira não me obedecendo mais às rédeas.

— Dojan! — bradei ainda por trás de mim, visto que eu não queria perder o excelente cachorro. Nesse instante quatro ponteiras de lanças procuraram embargar-me o caminho e eu as aparei todas. Mais não pude ver. A cavalgada que então se seguiu jamais dela me esquecerei em toda vida. Não havia valos demasiadamente profundos, pedras demasiadamente altas, rochedos escorregadiços e nem tampouco tremedais demasiadamente traiçoeiros. Tudo, vales, macegais, matas, rochas, outeiros voavam por mim como que impulsionados por um raio, até que me foi possível sofrear o animal. Nessa altura, vi-me só e isolado numa região agreste e desconhecida. Mas durante a desabrida carreira, tivera eu a presença de espírito de prestar atenção ao rumo que o cavalo tomara. Diante de mim se elevava a montanha de que há pouco falei.

Que deveria fazer agora? Acorrer para junto dos companheiros? Não seria possível de momento; era de se supor que os bebbehs empreenderiam a minha perseguição. Como vieram eles a parar naquelas abruptas montanhas e penedos? Como haviam descoberto termos nós tomado aquela direção? Para mim tudo constituía um enigma.

De momento nada infelizmente me era possível empreender pelos companheiros. Eles ou haviam sido mortos ou então aprisionados. De momento, a única resolução a tomar, seria procurar um esconderijo e só no dia seguinte volver ao teatro das cenas anteriores, a ver o que nele se poderia descobrir, que me servisse de ponto de partida. Só então é que me seria possível fazer alguma coisa em favor dos meus amigos.

Primeiramente examinei a cabeça da garanhão. Nela havia um enorme intumescimento produzido pela pancada. Puxei-o para uma aguada onde o fiz deitar-se. Ali então apliquei-lhe compressas na contusão, com o mesmo carinho com que uma mãe solícita cura da saúde do filho amado. Nisto gastei mais de quinze minutos, quando distingui um rumor ao longe. Era um rumor de uma doida corrida, entrecortada de arquejos de quem estivesse prestes a perder o fôlego. Momentos depois ouviu-se um latido de alegria e Dojan de mim se aproximou, pulando-me ao ombro com tamanha violência que me derribou na relva.

— Dojan!

O cachorro uivava e latia de contentamento ao mesmo tempo. Pulava ora aos meus ombros, ora no lombo do garanhão, e eu fui obrigado a permitir que ele desse expansão a toda a sua algeria, para depois se acalmar pouco a pouco e com mais facilidade. Também ele escapara sem receber o menor arranhão.

O inteligente e fiel animal compreendeu a causa por que eu cuidava tanto do cavalo, pois, depois de mais calmo, passou a lamber-lhe a região contundida. Rih calmamente deixou que o cão lhe fizesse aquele curativo e até de quando em quando desprendia alegres nitridos.

Assim estivemos ali por algum tempo ainda, até que achei de bom aviso abandonar aquele local. O melhor seria na presente conjuntura, procurar o sopé da montanha de que me falara o carvoeiro. Montei e para lá me dirigi.

Os flancos da montanha se achavam cobertos de cerradas matas. Só lá aos fundos, no vale, por onde cruzava o caminho, havia espaço para a gente se mover à vontade. Divisei naquele lugar um ângulo de mata, do qual se podia avistar tudo o que se aproximasse, a uma regular distância. Tomei o rumo do mesmo. Quando o atingi apeei, cuidando, antes de tudo, de encontar um esconderijo seguro para o meu garanhão. Mal, porém, havia eu andado alguns passos, Dojan deu o conhecido sinal de que algo de suspeito estava a perceber. Achei o caso demasiadamente delicado para confiá-lo exclusivamente ao fiel cão. Agarrei-o pela corda, amarrei o cavalo, e depois o segui de espingarda pronta para o tiro.

O cachorro impelia-se tão fortemente para diante, que ameaçava arrebentar a corda que o prendia. De repente, entre dois pinheiros, proferiu uns latidos. Ali havia uma moita de fetos (1) e, quando separei-lhe as folhas com a coronha da espingarda, notei que no solo havia uma toca de uns dois pés de diâmetro.

Estaria um animal dentro daquele covil? Por certo que não. Mas quando sondei a toca com a espingarda, constatei que nela se abrigava um corpo, corpo que não podia ser de nenhum animal feroz, conforme deixava supor o latido do cão. Fiz sinal para que este entrasse no covil, mas o animal não obedeceu, agitando a cauda e olhando alegremente para a abertura do solo. Que mistério seria aquele?!

Decidi-me e meti a mão dentro da cova e logo entrei em contato com uma cabeça cabeluda e exótica. Ah! decifrara-se o enigma! Era o cachorro do carvoeiro que se acoitara dentro da toca. Ao ouvir os primeiros estampidos o animal fugira e o pavor o trouxera casualmente para ali.

— Eisa! — chamei.

Observara eu que o carvoeiro chamava o cão por aquele nome. O animal conservou-se quieto dentro do buraco. Quando, porém, repeti o chamado, ele começou a se mexer. Afastei as folhas dos fetos e imaginem com quem deparei!

Foi um susto agradável, se me permitem a expressão, que experimentei ao encontrar ali, imaginem quem! — Nada mais, nada menos que Allo! Sim, porque se aquele homem conseguira salvar-se, era de esperar que também os companheiros haviam logrado fugir.

— Allo, tu, aqui?! — exclamei.

— Como vês! — respondeu ele muito simplesmente.

— Onde está o teu cão?

— Foi pisoteado! — respondeu o carvoeiro com inflexão de amargura na voz.

— Como conseguiste fugir?

— No momento em que todos desandaram em tua perseguição, ninguém, no primeiro instante, se preocupou conosco. Eu então aproveitei a ocasião e me entranhei no macegal, ganhando depois a mata. Resolvi, então, esconder-me aqui, visto que te havia dito, termos que passar pelo sopé desta montanha. Calculei logo que para cá virias, no caso de não conseguirem os bebbehs te encontrar.

— Quem mais conseguiu escapar?

— Não sei.

— Aqui teremos que ficar à espera de algum dos companheiros, que provavelmente virá encontrar-se conosco. Procura um esconderijo para nele recolher o meu garanhão.

— Conheço um lugar excelente para este fim, Chodih.

— Conheces então esta zona?

— Sim, já fiz carvão aqui. Acompanha-me com o garanhão! Levou-me o carvoeiro um trecho de um quarto de hora, montanha acima. Lá havia uma parede de rocha completamente encoberta por amoreiras. Separou Allo os ramos de uma amoreira num dos lanços da parede e diante de nós surgiu uma abertura, que dava folgadamente para ali guardar o cavalo.

— Aqui morei, quando por cá andei a fazer carvão — disse ele. — Amarra aí o cavalo que vou buscar pasto.

No interior da abertura, havia algumas estacas fincadas no chão, estacas que deviam ter servido de pés de mesa, embora fossem os pés da mesa, ao sistema oriental, muito baixos. Num deles amarrei o cavalo, de modo que este não pudesse se afastar do esconderijo sem ser visto por mim. Ao sair encontrei do lado de fora o carvoeiro a cortar gordos capins destinados a Rih.

— Chodih, volta lá para baixo; é possível que neste ínterim apareça um dos companheiros! Assim que eu tiver forrageado o teu cavalo, irei reunir-me a ti.

Segui-lhe o conselho e tomei uma posição ao sopé da montanha, de onde podia ao longe descortinar todo o horizonte. Alguns minutos depois chegou o carvoeiro.

— O cavalo estará seguro naquele esconderijo?

Ao responder-me ele que sim, acrescentei:

— Tens fome?

Um murmúrio de dúvida foi a sua resposta,

— Infelizmente nada tenho que comer: é preciso termos paciência até manhã.

Tornou a murmurar o homem significativamente e perguntou-me:

— Chodih, ganharei pelo dia de hoje as duas piastras que me prometeste?

— Não; receberás quatro em vez de duas.

Um terceiro murmúrio proferiu o homem, mas desta vez cheio de entusiasmo. Seguiu-se um profundo silêncio entre nós.

Anoiteceu. Precisamente no instante em que da terra se despedia a luz do dia, pareceu-me haver divisado um vulto a entrar numa pequena clareira que ficava do lado oposto. Resolvi ir ao referido local, constatar do que se tratava. Determinei que o curdo ficasse junto de minhas armas. Peguei o cachorro pela corda e saí esgueirando-me pela orla do mata Não vencera ainda metade do caminho, quando vi que o vulto atravessava a pequena clareira e dava com os olhos em mim.

— Zounds! Quem está aí?

A essas palavras dois compridos braços me eram estendidos para um abraço.

— Lindsay! Sir David Lindsay! Mas realmente é o senhor?! — exclamei.

— Oh! Ah! Mister! Yes! Well! Sou eu, sim! E o senhor? Ah! Ah! Well! Também o senhor é o senhor mesmo?... Ah! ah! sim! Yes!

O inglês se achava perturbado de tanta alegria e me deixava também perturbado pela surpresa visto que me abraçava, reabraçava, apertava-me de encontro ao peito, tentava oscular-me, não obstante o seu enfermiço nariz não me trazer lá muito desejo de receber o beijo.

— Nunca pensei de encontrá-lo aqui, sir David!

— Não? O gorila... o no! o carvoeiro disse que teríamos que passar por aqui.

— Vê agora, quanto foi bom nos ter dito ele isso! Mas diga-me de que maneira conseguiu salvar-se!

— Hum! Fui rápido. O meu cavalo foi morto; saí-lhe do lombo e vi que todos saíam em sua perseguição; pulei, então, para o lado e embarafustei pela mata.

— Tal qual Allo!

— Allo? Também fugiu com este estratagema. Também aqui?

— Lá do outro lado está ele sentado. Vamos!

Levei-o para o nosso ponto de observação. Grande foi a alegria do curdo ao ver que mais um companheiro se havia escapado. Essa alegria ele a demonstrou com sons só comparáveis ao ruído produzido pela roda de um tear avariado.

— E como se saiu o senhor? — perguntou Lindsay.

Contei-lhe todo o decurso de minha fuga.

— E nada aconteceu ao seu cavalo?

— Apenas um intumescimento na cabeça.

— E o meu teve que morrer! Bom animal! Hei de matar a esses bebbehs! A todos! Yes!

— Mas ficou ainda de posse da sua espingarda?

— Espingarda? Não faltava mais nada eu deixá-la nas mãos daqueles canalhas! Aqui está ela no chão!

— Devido à escuridão não notara a sua arma no solo.

— Pode então estar satisfeito, sir! Esta espingarda seria insubstituível.

— Também a faca. revólveres e os cartuchos, está tudo comigo.

— Que sorte não tê-los deixado no serigote! Mas não tem ao menos uma idéia se mais alguém dos nossos conseguiu também escapar?

— Nenhum mais. Halef estava ainda debaixo do próprio cavalo e os haddedins se achavam em luta no meio de um grupo de bebbehs.

— Santo Deus! estão todos perdidos!

— Calma, mister! Esperemos! Allah akbar. — Deus é grande, — dizem os turcos.

— Tem razão, sir. Contudo, se minha triste previsão falhar, tudo empreenderemos para libertá-los no caso de ainda viverem e se acharem apenas aprisonados.

— Perfeitamente! Por enquanto, porém, vamos dormir. Estou cansado; tive que andar muito a pé hoje! Dormir sem os cobertores! Miseráveis bebbehs! Miserável país! Yes!

Tanto o inglês como o curdo adormeceram logo. Eu, porém, estive horas e horas de vigília; tarde da noite me levantei e fui ver o meu Rih. Depois tentei dormir, confiando a guarda do acampamento ao fiel Dojan. Fui interrompido no sono por um repelão enérgico no braço. Acordei. Rompia a alvorada. Antes que eu respondesse, apontou o carvoeiro para a orla do macegal oposto. Um gamo se aproximava indo a caminho da aguada. Precisávamos de carne e embora a detonação de um tiro pudesse denunciar ao inimigo o nosso esconderijo, lancei mão da espingarda. Assestei-a e bati o gatilho. Ao estampido, Lindsay deu um vertiginoso salto e se pôs em posição ereta.

— Que há? Onde está o inimigo? Como? Onde? Yes!

— Lá do outro lado, está ele estirado, sir.

O companheiro olhou para a direção apontada.

— Ah! Roe-buck! Veado-macho! Esplêndido! Visitou-nos bem a tempo aquele exemplar da fauna! Desde ontem ao meio dia que não ponho mais alimento algum na boca. Well!

Allo saiu correndo em busca da caça abatida. Alguns minutos depois ardia um fogo num local oculto e nele era assada a apetitosa carne. Resolvêramos o problema de nosso abastecimento, bem como o do cão.

Durante a refeição combinamos ali ainda ficar até ao meio-dia e depois sair a ver o que havia sucedido com os nossos camaradas. Em meia da palestra, Dojan levantou-se e passou a olhar desconfiado para a mata. Permaneceu assim durante algum tempo como que à escuta de algo que viesse de longe. Nisso, em gigantescos saltos se foi o cachorro, sem dirigir-me antes os olhares como era de seu hábito. Levantei-me também rapidamente para agarrar a minha espingarda e sair nas suas pegadas. Fiquei, porém, parado porque ouvi não o brado angustioso de alguém que era agarrado pelas presas do cão, mas alegres latidos deste.

Minutos após, aproximou-se de nós... Hadji Halef Omar, a pé, sim, mas completamente armado e equipado.

— Hamdullillah, sídi, que ainda te encontro e te encontro com saúde! — saudou-me o fiel criado. — O coração partia-me de cuidados pela tua pessoa; mas me consolava a convicção de que inimigo algum conseguiria alcançar o teu Rih.

— O Hadji! — exclamou Lindsay com entusiasmo. — Oh! Ah! Não foi trucidado! Esplêndido! Incomparável! Chegou bem à hora! Venha comer assado de gamo! Well!

O bom do inglês, tomou logo a coisa pelo lado prático. Halef não se achava menos entusiasmado vendo o inglês e o guia salvos da sanha do inimigo. Agarrou logo o enorme pedaço de assado que o Lindsay lhe passava e saboreou-o.

— Como conseguiste escapar, Halef? — perguntei-lhe.

— Os bebbehs atiraram sobre os nossos cavalos — respondeu o homenzinho. — Também o meu tombou sem vida e eu fiquei preso ao estribo. — Eles não se preocuparam conosco, pois, ao que parecia, tencionavam prender especialmente a ti e ao teu garanhão; devido a este propósito dos inimigos, Alá cegou-os de modo que eles não notaram quando mister Lindsay e aquele curdo se escaparam. Quanto a mim, calmamente desprendi o pé do estribo, peguei de minhas armas e dei às de Vila Diogo,

— Que descuido dos bebbehs! Atiraram contra os animais com o fim de capturar com vida os cavaleiros e no entanto deixaram fugir!

— Não viste nada a respeito da situação dos haddedins, Halef?

— Enquanto eu fugia, vi que os haviam aprisionado.

— Oh! não temos então tempo a perder e precisamos partir já em. sua ajuda!

— Espera, sídi, deixa-me contar-te o resto! Quando consegui fugir, conclui ser mais acertado permanecer pelas redondezas e espionar o inimigo, em vez de fugir para mais longe. Subi a uma árvore cheia de ervas trepadeiras que me ocultavam completamente. Lá fiquei até ao anoitecer. Só depois de inteiramente escuro é que resolvi descer.

— Que viste?

— Os bebbehs não pretendem se retirar já. Acamparam lá mesmo e contei ao todo oitenta guerreiros.

— Em que consiste o acampamento?

— Construíram cabanas com ramagens de árvores. Numa dessas cabanas acham-se os haddedins recolhidos e estão com as mãos e os pés algemados.

— Tens certeza disso?

— Tenho, sim, sídi. Nem cheguei a dormir, e durante toda a noite rondei ao redor do acampamento, pois alimentava a esperança de talvez me ser possível chegar até a cabana dos prisioneiros. Mas baldada foi tal esperança. Só tu mesmo é que serias capaz dessa proeza, sídi, contigo é que aprendi a rastejar, no que, como aliás em tudo, és o mestre dos mestres.

— Não te foi possível descobrir, por qualquer circunstância, o motivo de haverem os bebbehs acampado? Não posso compreender por que não deixaram eles imediatamente a zona.

— Nem eu, sídi, e tampouco pude descobrir a causa disso.

— És digno de louvores, Hadji Halef Omar, por teres conseguido aproximar-te tanto de nós sem que te percebêssemos o ruído. Como chegaste à conclusão de que me achava exatamente neste ponto?

— Porque conheço o teu modo de proceder, sídi; costumas numa conjuntura dessas procurar sempre um lugar de onde tudo vês sem seres visto.

— Bem, descança agora um pouco. Eu vou resolver que devemos fazer. Allo, puxa meu cavalo à aguada e dá-lhe pasto novo!

O carvoeiro nem se havia ainda erguido para cumprir minha ordem, quando o cachorro desandou a bater com as patas no chão e a olhar desconfiado para a frente. No mais culminante ponto de nosso horizonte surgiu um cavaleiro que se aproximou rapidamente e por nós passava a trote.

— Olá! devo fuzilá-lo, mister? — perguntou o inglês.

— De forma alguma!

— Mas trata-se de um bebbeh!

— Deixa-o. Não somos assassinos.

— Desse modo teríamos um cavalo.

— Já haveremos de obter outros.

— Hum! neste caso não somos assassinos, mas ladrões! Vamos roubar cavalos! Yes!

Neste instante, aquele bebbeh me deu que pensar. Por que deixara ele o acampamento e para onde se dirigia agora?

Daí a uma hora o enigma ficou resolvido, pois ele voltava e passava por nós sem ter a menor idéia de que nos achássemos tão próximos dele.

— Que teria ele ido fazer lá em baixo? — perguntou Lindsay.

— Indubitavelmente levar algum recado.

— Recado? De quem?

— Por certo que do xeque Gasahl Gaboya.

— A quem?

— À coluna de bebbehs que conserva ocupado o caminho, a meia hora daqui.

— De que modo chega a esta conclusão?

— Muito facilmente até. O xeque sabendo com certeza que viríamos por esta estrada, mandou ocupar a outra extremidade da mesma por uma legião, a fim de que esta prendesse os primeiros de nós que conseguissem escapar.

— Bem raciocinado, sir, desde que seja acertado!

 

LIBERTANDO OS PRISIONEIROS

Se era ou não acertado o meu raciocínio, precisávamos é claro averiguar. Combinamos que o inglês ficaria com o carvoeiro no esconderijo junto do Rih, enquanto eu com Halef sairíamos em observação. Se até o meio-dia do dia seguinte não estivéssemos de volta era para mister Lindsay, guiado por Allo, cavalgar até Bistan e lá permanecer durante quatorze dias na casa do irmão de Allo à minha espera. Se até então eu ainda não estiver de volta com Halef, — acrescentei — é por que estamos mortos e o senhor, sir David, ficará como meu herdeiro universal.

— Hum! Testamento! Horrível! Eu arrasaria todo Curdistão! Herdeiro? De quê? — perguntou-me por fim o valente filho da Albion.

— Do meu cavalo — respondi-lhe.

— Não o quero, não! Se o senhor morrer, que se arrase esta maldita terra! E com ela todos os cavalos! Também os bois, as ovelhas, os bebbehs, tudo! Well!

— Bem, já está o senhor agora de posse de todas as instruções. Agora resta-me apenas instruir também o carvoeiro.

— Esclareça-lhe tudo bem, sir! Não consigo entender-lhe uma só palavra de seu idioma arrevesado! Belo passatempo vou ter com aquele sujeito! Dias agradáveis! Se eu soubesse disso, teria ficado em casa, na velha Inglaterra! Não preciso de Fowling-bulls! Yes!

Não havia tempo a perder. Deixei o inglês entregue ao seu descontentamento. Depois de haver ministrado todas as instruções a Allo, pus ambas as espingardas a tira-colo e entreguei-me à direção de Halef.

Este levou-me exatamente pelos mesmos caminhos que havia ele tomado em sua vinda, circunstância que demonstrava honrar ele as lições que de mim vinha recebendo através de minha jornada pelo oriente. Ele valera-se de todo o acidente do terreno e desfez ou confundiu a senda de um modo tão inteligente, que mesmo a um índio dos Estados Unidos seria impossível descobri-la, senão depois de longas e estafantes pesquisas.

Caminhávamos através de árvores, seculares muitas delas, e nos conduzíamos de modo a conservarmos o descampado à vista. Eu trazia Dojan comigo e como caminhávamos contra o vento, não precisaríamos recear alguma surpresa.

Finalmente nos aproximávamos da zona em que fôramos assaltados. Halef quis prosseguir, mas eu o detive.

— No caso de cair eu prisioneiro, já sabes onde encontrarás o inglês. Por enquanto o melhor é subires num daqueles pinheiros, cujos galhos constituem seguro esconderijo. Conheces muito bem o estampido de minhas espingardas e portanto a destingues do estampido de outras espingardas. Assim, concluirás que estou em perigo, quando ouvires o detonar de minhas armas.

— E que farei então?

— Continuarás no topo do pinheiro, a não ser que eu te chame em altos brados. Trepa agora!

Peguei o cão pela corda curta e me esgueirei para frente através do macegal que então era um pouco cerrado. Era, aliás, arriscadíssima empresa a que eu realizava: aproximar-me de tal modo de um acampamento inimigo.

Depois de algum tempo, divisei através do macegal as primeiras cabanas do inimigo. Eram em forma de pirâmides e construídas de arbustos. Recuei um pouco para depois cortar um semicírculo em torno do acampamento, pois eu precisava ver se havia algum bebbeh acampado no fundo da mata. Se tal acontecesse, tê-lo-ia pelas minhas costas e estaria descoberto.

Rastejei de árvore em árvore e não tardei em ver que a medida por mim tomada fora justificada, pois pareceu-me ouvir vozes humanas, ao mesmo tempo que Dojan me tocava com o focinho na perna. O nobre cão levado pelo seu instinto se apercebera da situação e sabia que um latido seu me lançaria em perigo. Olhava-me com olhares significativos, que tudo diziam.

Continuando com toda a cautela, alcancei uma moita de amoreira em cuja orla se achavam sentados três homens a palestrar. Aquele local era como se houvesse sido feito para eu executar o meu serviço de observação. E como logo julguei que os acontecimentos da véspera eram no instante o assunto da palestra, rastejei depressa para o referido tufo. Ali chegado, tomei uma posição da qual podia, sem ser visto, ouvir toda a conversa.

Como fiquei admirado em ver no grupo o curdo que por duas vezes eu livrara das presas do cão e que depois soltara, porque ele se dizia um dchiaf! Também Dojan o reconhecera, visto que seus olhos flamejavam coléricos contra ele, embora não proferindo o menor latido ou rumor. Allo tivera, pois, razão. Aquele curdo era um bebbeh e lá se achava de sentinela para depois avisar a nossa chegada ao grosso da tropa. Por certo que tinha o seu cavalo escondido pelas imediações e depois de solto tomara um atalho e nos saíra à frente, em vez de cavalgar para o norte, conforme dissera.

— Eram todos uns tolos! — ouvi-o dizer. — Mas o mais tolo de todos era o homem que montava um lindo garanhão preto.

Ah! o homem se referia a mim, e em que termos lisonjeiros!

— Se ele não houvesse prendido os bejates que ficaram no acampamento e não os tivesse ofendido — prosseguiu o que estava com a palavra — estes não nos teriam relatado a palestra por eles ouvida quando o espreitaram e na qual ele declinou todo o roteiro que pretendia seguir.

Agora também este enigma se me decifrava. Quando no acampamento dos bejates combinávamos nos separar dos bejates e traçávamos o plano de nossa rota, éramos espreitados por gente daquela tribo. Depois de aprisionados, os bejates denunciaram o nosso plano, certamente para conquistar a indulgência dos que os aprisionaram.

— Mais tolo ainda se revelou ele, — acrescentou um dos companheiros que antes falara — por se ter deixado ludibriar por ti.

— Não há dúvida. Mais tolo também não o deixou de ser Gasahl Gaboya, ordenando que alvejássemos os cavalos, com exceção do garanhão preto, a fim de poupar a vida aos cavaleiros. Com a morte dos homens nada se perderia; pena seria se perdêssemos o lindo garanhão. Afinal, agora, quatro deles fugiram, entre eles o chefe da caravana e como não dispõem de cavalos poderão refugiar-se nas montanhas mais abruptas. Se não lhes tivéssemos mortos os cavalos, seriam eles obrigados a seguir pelo caminho, cuja embocadura no extremo oposto se acha ocupada pela nossa gente.

Os três bebbehs haviam juntado cogumelos, que agora limpavam, antes de levá-los para o acampamento. Aquela tarefa lhes dava tempo para uma discreta troca de idéias.

— Agora o nosso xeque mandou um emissário à coluna que ocupa o caminho lá em baixo. Aquela secção é para esperar até o sol se achar no seu zênite. Se até então não lhes aparecerem os fugitivos é para eles levantarem acampamento e vir reunir-se a nós, visto que então provado estará que os quatro realmente conseguiram fugir. Quanto a nós regressamos hoje ainda.

— E que será feito com os dois prisioneiros?

— São homens de valor, pois até agora não falaram uma só palavra. Mas hão de nos dizer ainda quem são e pagarão um pesado resgate se não quiserem morrer.

Eu já ouvira o suficiente e tratei de retroceder. Os homens estavam com os cogumelos quase todos limpos e, ao se levantarem ou se retirarem, ser-lhes-ia fácil me descobrirem.

Com que então eu fora um tolo, dentre todos, o mais tolo, aliás!

Fui obrigado a ouvir aquela referência laudatória sem ao menos agradecer a amabilidade daqueles bons homens. O que mais me preocupava em tudo aquilo era a circunstância de pretenderem os bebbehs levantar acampamento ao meio dia. Até àquela hora, pois, eu precisaria libertar os haddedins. Mas de que maneira?

Vi que os três homens se ergueram do solo. Portanto não foi sem tempo que eu me retirara. Aquele que se nos apresentou como um dchiaf, disse:

— Ide, que eu ainda vou passar uma revista na cavalhada!

A este segui de longe. Guiou-me ele, claro que sem o saber, a uma depressão do terreno, onde corria um arroiozinho. Lá se achavam uns oitenta cavalos amarrados às árvores, distantes uns dos outros, de modo que encontravam suculenta relva mais do que suficiente para pastar. O local era claro e nele batia o sol, sendo a distância do primeiro ao último cavalo talvez de uns oitocentos passos.

Do ponto em que me achava, podia avistar tudo. Eram, no geral, excelentes cavalos e em mente já escolhera seis dos melhores entre eles. O que mais me satisfazia era o fato de se achar apenas um curdo vigiando a cavalhada. Não me seria difícil dominá-lo. O meu guia afagou um zaino, que era talvez o melhor animal da tropa. Por força era o de sua montaria e em paga do juízo tão amável que tivera a meu respeito estava resolvido a fazê-lo voltar a pé para casa.

Conversou ele algumas palavras com o guarda e depois tocou-se para o acampamento. Continuei a segui-lo e adquiri a convicção de que num vasto perímetro ao redor do acampamento ninguém me avistaria. Portanto ser-me-ia fácil aproximar-me dele.

Depois de um cuidadoso e lento reconhecimento, consegui contar dezesseis tendas que se achavam construídas em semicírculo por debaixo de árvores. Na maior das tendas deveria morar o xeque Gasahl Gaboya, pois estava ela enfeitada no seu topo com um pano de turbante. Estava armada no ponto mais central do semicírculo, de modo a me ser fácil dela me aproximar. Ao lado daquela, estava a tenda que abrigava os prisioneiros, pois à sua frente dois curdos montavam guarda, empunhando suas espingardas.

Voltei para junto de Halef. Este se achava ainda no topo do pinheiro, do qual, à minha aproximação, desceu. Cientifiquei-o de meu plano de libertação, plano aliás temerário e perigoso, e depois escondemo-nos num local de onde podíamos descortinar todo o caminho. Impacientes aguardávamos ali a hora de entrarmos em ação. Uma tal espera causa-nos, em geral, permanente perturbações e mortificações de espírito, até o momento de agir, quando os nervos se nos acalmam completamente.

Decorreram cerca de duas horas. Vimos então lá em baixo aproximar-se um cavaleiro.

— Aquele por certo vem anunciar a chegada da outra secção — disse Halef.

— É possível. Reparaste aquele carvalho que se ergue na parte mais elevada da depressão do terreno, local em que se acham amarrados os cavalos?

— Reparei, sídi.

— Rasteja até lá e espera-me depois. Preciso saber o que diz aquele cavaleiro. Leva Dojan contigo. Não posso utilizá-lo agora. Também as armas, leva-as contigo!

Halef pegou o cachorro pela corda e se afastou; quanto a mim, apressei-me em aproximar-me tanto da tenda do xeque quanto seria necessário para ouvir toda a conversa que lá se travasse. Consegui-o tanto quanto me foi possível. Mal tomara eu posição por trás do tronco de uma árvore, chegou o cavaleiro a galope e saltou do cavalo.

— Onde está o xeque? — ouvi-o perguntar.

— Na sua tenda! — respondeu alguém.

Gasahl Gaboya saiu da cabana ao encontro do recém-chegado.

— Que novas trazes?

— Os guerreiros não tardam chegar.

— Portanto não viram nenhum dos fugitivos?

— Nenhum.

— Conservastes então os olhos cerrados!

— Não, Senhor, vigiamos durante a noite toda e até agora. Ocupamos todos os vales adjacentes, mas não vimos pessoa alguma.

— Lá vêm eles! — ressoou uma voz lá fora do acampamento.

A esse brado acorreram todos para fora, abandonando o acampamento, inclusive os dois guardas; podiam fazê-lo, visto que os prisioneiros se achavam algemados!

A ocasião tornou-se-me mais propícia do que eu esperava. Com alguns saltos coloquei-me por trás das tendas dos prisioneiros. Dois cortes com a faca e me achava no seu interior. Achavam-se ligados um ao outro, por fortes cordas amarradas aos pés e mãos.

— Maomé Emin, Amad el Ghandur, levantai-vos! Depressa! Em dois segundos cortava eu as cordas que os prendiam.

— Vinde depressa!

— Desarmados mesmo? — perguntou Maomé Emin.

— Quem tirou vossas armas? — O xeque as tem.

Saí de novo pela abertura que eu fizera por trás da tenda e fiz um reconhecimento ao redor. Ninguém se achava com a atenção voltada para o acampamento.

— Para fora, e me acompanhai!

Embarafustei pela tenda do xeque adentro e os haddedins atrás. Achavam-se eles muito perturbados. Suas armas estavam dependuradas a um dos galhos, que serviam de caibros. Junto com elas se achava também uma pistola e uma espingarda persa pertencentes ao xeque. Agarrei também estas duas armas e olhei primeiro para fora; continuava abandonado o acampamento. Saímos e, de esgueira, ganhamos o vale. Este se achava distante, uns cinco minutos, mas dentro de dois achamo-nos com Halef.

— Machallah! Milagre de Deus! — exclamou o homenzinho.

— Agora, rumo à cavalhada! — comandei.

O guarda lá se achava de costas viradas para nós.

A um sinal meu, Dojan saiu correndo e num instante se achava o homem debaixo de suas presas. O homem proferiu um grito, mas o segundo já lhe não foi mais possível proferir. Assinalei os seis melhores cavalos e ordenei a Amad el Ghandur:

— Segura-os por algum tempo! Halef e Maomé Emin, depressa soltemos os demais no mato!

Os companheiros compreenderam-me imediatamente. Enquanto os bebbehs acolhiam os que chegavam, com brados de júbilo, nós saltávamos de cavalo em cavalo a cortar as cordas que os prendiam. Vinte e cinco cordas por homem! Não obstante, porém, o serviço foi efetuado com rapidez; depois enxotamos todos, por meio de varadas e pedradas, de modo a não lhes ocasionar ferimentos; entraram todos na mata, onde se dispersaram. Não foi sem grande esforço, que Amad el Ghandur continha os seis animais que segurava. Eu tinha três espingardas para pôr a tiracolo e duas pistolas para pôr à cintura. A seguir montei o zaino e levei ainda dois dos animais pelo cabresto. Cada um dos companheiros montou um dos animais.

— Agora, avante! Está mesmo em tempo!

Sem me virar, toquei o cavalo pela escarpa acima; depois a mata nos pôs ao abrigo. A cavalgada tornou-se morosa, tanto mais que éramos forçados a fazer grandes voltas. Por fim alcançamos um melhor trecho do caminho, por onde nos foi possível tocar mais ligeiro os cavalos.

De repente, ouvimos por trás de nós um brado estridente. Não havia tempo para cogitações sobre qual a verdadeira causa do brado. Para frente, sempre para frente!

Tivemos que cavalgar um longo caminho e precisamente no ponto onde este dobrava em arco, surgiram então dois cavaleiros. Assim que um deles nos notou, retrocedeu, ao passo que o outro prosseguiu ao nosso encontro.

— Galopemos, galopemos o mais que fôr possível, do contrário perderei o meu garanhão! — exclamei. — Não tarda termos bebbehs pelo costado!

  A nossa escolha fora excelente, pois os animais revelavam-se esplêndidos corredores. Daí a pouco divisamos a nossa cobertura de mata. Alçamo-la e nos postamos por trás das árvores. Vi apenas Allo.

— Onde está o emir? — perguntei-lhe.

— Junto do teu cavalo.

— Aqui tens uma espingarda! Monta esse alazão. E teu!

Dei-lhe a espingarda do xeque e galopei montanha acima, na direção do esconderijo. Este distava uns quinze minutos, mas creio que o venci em cinco. Lindsay se achava sentado no solo.

— Já de volta, mister? Oh! Ah! Como se foi, hein?

— Bem, muito bem! Mas não temos tempo para conversas, pois vamos ser perseguidos. Corra montanha abaixo, sir! Lá está um cavalo para o senhor!

— Perseguidos? Ah! Bom! Esplêndido! Cavalo para mim? Well! Em doida disparada desceu o inglês a montanha. Nem sei como não caiu e rolou por ela abaixo. Desamarrei o garanhão e puxei-o para o sopé. Isto infelizmente não pôde ser feito com a ligeireza que eu desejava; quando cheguei embaixo os companheiros de há muito que se achavam montados à minha espera e Halef segurava o sexto cavalo pela rédea.

— Demorou muito, emir! — disse Maomé Emin. — Vê, já é tarde! Dizendo isso, apontou ele para além, onde o primeiro cavaleiro que nos seguia tornou-se visível. Olhei-o atentamente e mesmo ao longe reconheci aquele homem.

— Conheceis aquele homem? — perguntei aos companheiros.

— Conheço, sídi — respondeu Halef. — É o mesmo dchiaf de ontem.

— Ele não é dchiaf não, mas um bebbeh e nos atraiçoou. Deixai-o passar que depois nos cairá nas mãos.

— Mas se neste permeio chegarem os outros?

— Tão ligeiro não será isso possível. Sir David! Nós dois cavalgaremos à frente e fecharemos aquele cavaleiro entre nós. Se ele reagir, golpeá-lo-emos de modo a deixar que caia a arma.

— Muito bem, mister! Excelente! Yes!

 

APRISIONAMENTO DO SUPOSTO DCHIAF

Neste momento desaparecia o bebbeh na primeira curvatura do caminho e nós deixávamos o esconderijo. Quando eu com Lindsay atingimos a citada curvatura, o homem se achava a uns cinqüenta passos distantes. Percebeu a nossa vinda e virou-se. Reconheceu-nos e tão assustado ficon com a nossa aparição que instintivamente fêz parar o cavalo. Acreditava-nos diante dele e agora nos via por trás. Antes que ele readquirisse a presença de espírito, haviamo-lo agarrado.

Sacou ele da faca. Peguei-lhe do pulso e apertei-o de modo que foi obrigado a largar a arma. E enquanto Lindsay o despojava da lança, com a minha faca cortei a bandoleira da arma que trazia a tira-colo, a qual caiu no chão. O homem estava pois desarmado; o animal galopou com ele a toda a brida ao lado dos nossos. Vendo que não havia outro remédio, entregou-se ao destino.

Assim fomos galopando sempre rumo do sul, até que nos convencemos de havermos vencido uma suficiente dianteira. Foi quando entramos a trotar e Allo passou para frente a nos servir de guia.

— Que faremos deste sujeito? — perguntou Lindsay.

— Castigá-lo-emos.

— Yes! Dchiaf suposto! Que corretivo lhe aplicaremos?

— Não sei ainda. Deliberaremos depois a esse respeito.

— Lindo! Uma sessão! Câmara dos Lords! Câmara dos comuns! Well! De que maneira conseguiste libertar os haddedins?

Relatei-lhe sucintamente a nossa proeza. Quando cheguei na altura em que imobilizamos a guarda do cavalo, tive que suspender a frase.

— Santo Deus! Que fiz eu?

— Que há, mister? Fêz tudo tão bem feito!

— Na pressa, esqueci-me de chamar o meu fiel Dojan de sobre o homem!

— Oh! Ah! que desastre! Mas ele virá atrás!

— Nunca! A esta hora já estará morto, bem como o guarda.

— Por que logo morto?

— Assim que fôr tocado ou que alguém o ameace, mata ele o que tem sob as presas para abocanhar ao outro. Por certo que então os bebbehs o matariam a tiro. Por causa daquele cachorro estou quase a retroceder embora me vá lançar nos maiores perigos! Mas infelizmente de nada já adiantaria isso.

Halef ficou também profundamente sensibilizado com a perda do fiel e excelente cachorro e eu durante toda a tarde estive imerso na mais profunda tristeza. À noite fizemos alto e só então algemamos o bebbeh. Não obstante a pressa com que cavalgáramos, Halef tivera ainda tempo de colocar o quarto do gamo na garupa do cavalo desmontado. Destarte havia suficiente provisão para o nosso jantar daquele dia.

Depois da refeição, inquirimos o prisioneiro. Até então ele não havia pronunciado uma só palavra. Conformara-se contudo, somente porque esperava que a todo momento chegasse a sua gente para libertá-lo.

— Ouve, homem — comecei o interrogatório — quem és tu? Um dchiaf ou um bebbeh?

Não me respondeu.

— Responde, já! Nem sequer pestanejou.

— Halef, arranca-lhe o turbante e corta-lhe a madeixa!

É a maior degradação que pode haver para um curdo e principalmente um muçulmano o cortar-lhe a madeixa do cabelo que cai sobre a testa. Quando Halef com a direita empunhava a faca e com a esquerda pegava uma boa porção de cabelos, o homem suplicou:

— Senhor, deixa-me a cabeleira! Responder-te-ei tudo!

— Bom! A que tribo pertences?

— Sou um bebbeh.

— Então nos mentiste ontem!

— Não se é obrigado a dizer a verdade a um inimigo.

— Os teus princípios são os de um canalha. E tiveste o desplante de jurar pelas barbas do profeta.

— A um infiel é permitido jurar-se falso.

— Mas juraste a fiéis também, que deles há quatro em nossa caravana!

— Nada tenho com isso.

— Além disso me classificaste de tolo!

— Mentiram-te, Senhor!

— Disseste sermos todos uns tolos e que eu era o maior deles! Disseste-o, sim, eu ouvi com os meus próprios ouvidos, na ocasião em que limpáveis os cogumelos. Eu me achava deitado por trás do tufo e ouvi toda a conversa. Depois saí de lá e soltei os prisioneiros e a vossa cavalhada. Agora, dize-me se realmente sou um tolo!

— Perdoa-me, Senhor!

— Nada tenho a perdoar-te, pois palavras proferidas por ti jamais poderão atingir a um emir do Frankistão. Ontem te deixei em liberdade, porque de ti tive compaixão; hoje me caíste novamente nas mãos. Agora dize-me quem de nós dois é o mais idiota?... És irmão do xeque Gasahl Gaboya.

— Não sou.

— Hadji Halef, corta-lhe a madeixa!

Foi tiro e queda.

— Quem te disse? — perguntou apressado o homem.

— Um de nossa caravana que te conhece.

— Dize-me então quanto queres pelo meu resgate?

— Vós pretendeis cobrar um resgate pela liberdade desses dois homens. — Dizendo isso, apontei para os haddedins e continuei: — Mas vós sois curdos. Eu, porém, jamais liberto alguém, recebendo resgate, pois sou cristão. Prendi-te apenas para te mostrar que possuímos mais. inteligência, coragem e habilidade do que pensais. Quem de vós foi o primeiro a notar que os prisioneiros haviam se evadido?

— O xeque.

— Como descobriu?

— Ao entrar em sua tenda, deu com a falta das armas dos prisioneiros e das próprias.

— Fui eu quem as tomei.

— Julguei que um cristão jamais se apossaria do alheio!

— Tens razão. Um cristão jamais se apropriaria de alguma coisa indebitamente mas também não se deixa saquear por um curdo. Matastes nossos cavalos, que estimávamos, e em paga apossei-me de seis dos vossos, que não estimamos. Em nossas maletas e fardeis de serigotes tínhamos muitos objetos de que precisávamos. Vós nô-los roubastes e em compensação apoderei-me da espingarda e das pistolas do xeque. No fundo, pois,. não passa de uma simples troca o que fizemos. Vós iniciastes a troca violentamente e violentamente eu a concluí.

— Os nossos cavalos são melhores do que os vossos!

— Nada tenho com isto, visto que ao matardes os nossos não nos perguntastes previamente pelo seu valor, se eram melhores ou piores do que os vossos, dos quais depois nos apossamos. Por que não foi meu cavalo também alvejado como os demais?

— O xeque o queria para si.

— E julgava ele que o obteria? E mesmo que conseguisse tomá-lo, eu não tardaria recuperá-lo. E quem deu hoje pela falta de vossa cavalhada?

— Também o próprio xeque. Depois de haver estado na tenda dos prisioneiros e de os não ter encontrado mais lá, dirigiu-se ao local onde se achavam guardados os cavalos: também estes lá não se achavam.

— E não encontrou ele nada naquele local?

— Apenas o guarda, que jazia debaixo do cachorro.

— Que aconteceu depois ao guarda?

— Deixamo-lo sob as presas do cão, de castigo por não haver cumprido convenientemente o seu serviço de vigia.

— Horrível! E sois vós criaturas humanas?

— Assim o determinou o nosso xeque.

— E que te acontecerá a ti, que também não fizeste convenientemente o teu serviço? Eu estive por trás da moita de amoreiras a alguns passos apenas distante de ti; depois te segui de longe até o ponto onde se achavam amarrados os cavalos, ponto que até então eu ignorava e que me foi mostrado por ti, sem saberes, é verdade; por fim, continuei a te seguir até que descobri o acampamento.

— Senhor, peço não faças com que o xeque venha a saber disso!

— Fica sossegado! Eu vou deslindar o assunto exclusivamente contigo, nada tenho com o teu xeque. Primeiramente vou agora traduzir aos meus companheiros a tua resposta e eles resolverão a respeito do destino a ser dado à tua pessoa. Não serás julgado por nós dois cristãos, mas pelos muçulmanos que fazem parte da nossa comitiva.

Traduzi em árabe o meu interrogatório.

— Que pretendes fazer dele? —perguntou Maomé Emin.

— Nada — redargui calmamente.

— Emir, ele nos mentiu, nos ludibriou e nos fez cair no poder dos inimigos. Merece, pois, ser executado.

— Ademais disso, — acrescentou Amad el Ghandur — ele jurou falso pelas barbas do profeta. Merece três vezes a morte.

— E que achas a respeito? — perguntou Halef.

— Por enquanto nada. Resolvei lá vós o que devemos fazer dele!

Enquanto os quatro maometanos realizavam um conselho sobre o castigo a ser aplicado ao traiçoeiro bebbeh, o inglês de mim se acercou e perguntou:

— Afinal? Que vamos fazer desse traidor e mentiroso?

— Não sei. Que faria o senhor?

— Hum! Mandaria fuzilá-lo sem mais delongas, nem deliberações.

— E temos nós porventura este direito?

— Yes! Como não!

— O caminho legal a seguirmos seria o seguinte: apresentamos queixa aos nossos consulados; este, por sua vez, a encaminha a Constantinopla que ordenará ao paxá de Sulimania castigue o nosso malfeitor, se é que ao invés disso, não seja ele recompensado.

— Lindo caminho legal!

— Mas o único que nos é permitido seguir, como cidadãos dos nossos respectivos países. À parte isso, diga-me que faria o senhor, como cristão, a este sujeito?

— Deixe de perguntas de ordem sentimental e religiosa, mister! Sou inglês. Faça lá o senhor como cristão o que quiser!

— E se eu o mandasse em paz?

— Então ele que vá em paz! Nada receio; por mim, só espero deixá-lo morto de tanta bordoada. Veja se arranja um meio de eu lhe transferir a filial do meu nariz. Seria este o melhor castigo para tal sujeito, que ontem nos fêz por duas vezes meter os narizes onde não éramos chamados! E os vossos narizes ficaram então em mais deplorável estado ainda do que o meu! Yes!

O bebbeh neste permeio dava mostras de se haver impacientado. Numa pausa feita pelos que deliberavam, dirigiu-se ele a mim:

— Senhor, que me acontecerá?

— Tudo depende de ti. Por quem desejas ser julgado? Pelos quatro homens a quem considerais os verdadeiros crentes ou por nós dois que qualificais insultuosamente de giaur?

— Chodih, eu adoro Alá e o profeta; portanto só me deverão julgar juizes que professam a mesma fé!

— Pois será feita a tua vontade! Se fôssemos nós dois os teus julgadores, serias perdoado e amanhã cedo permitiríamos que voltasses para junto dos teus. Exonero-me da responsabilidade do teu destino. Que te suceda o que tu próprio desejaste, mas que depois não te arrependas de haveres menosprezado dois cristãos, desviando de ti a sua proverbial indulgência!

Finalmente, os quatro juizes chegaram a uma conclusão.

— Emir, resolvemos fuzilar o canalha! — anunciou Maomé Emin, que presidira ao júri.

— De forma alguma consentirei na execução dessa sentença! — redargui-lhe.

— Mas ele enxovalhou a memória do profeta!

— E cabe a vós julgá-lo por este crime? Não. Isto é da alçada do Imam, dos profetas ou da sua própria consciência!

— Ele se fêz espião e nos traiu!

— E com isso algum de nós perdeu a vida?

— Não, mas perdemos outros bens.

— Que ressarcimos com outros melhores. Hadji Halef Omar, tu conheces bem o meu modo de proceder; aflige-me por ver-te assim sanguessedento.

— Não foi este meu voto, sídi, mas o dos haddedins e do carvoeiro bannah, os quais, como vês, constituem a maioria.

— Sou de opinião que o bannah nada tem a ver com o caso, portanto nulo é seu voto. É nosso guia e por este serviço pagamos-lhe salários. Reformai a vossa sentença!

Voltaram a conferenciar em meia voz; depois anunciou-me Moamé Emin nova sentença:

— Emir, tomando conhecimento da apelação que nos interpuseste, resolvemos poupar a vida ao criminoso, comutando a pena de morte em ultraje à sua honra de guerreiro. Cortar-lhe-emos a madeixa e lhe aplicaremos algumas varadas nas faces! E quem dele se deixar bater na face é considerado homem sem honra e desprezado pela tribo!

— Mas isso é mais desumano ainda que a morte, além de nos não trazer vantagem alguma. Ontem esbofeteei um bebbeh porque este injuriou-me a religião e depois ele combateu no entretanto ao lado dos seus contra mim. Pergunto agora se a bofetada que ele recebeu o desonrou?

— Se a bofetada não produzir tal efeito, a tosagem da madeixa o produzirá na certa!

— Ele haveria então de enterrar o turbante na cabeça, para que ninguém desse pela falta daquele ornamento capilar.

— Mas tu próprio ainda há pouco quiseste cortar!

— Ameacei apenas, mas não o teria levado a efeito. Foi um expediente de que lancei mão para obrigá-lo a falar. Afinal, por que pretendeis irritar mais este bebbeh contra nós? Até certo ponto justifica-se a sua atitude hostil contra nós, visto que julgam havermos sido aliados dos bejates. Não podem saber eles que jamais seríamos capazes de encampar uma expedição de rapinagem como a empreendida pelos bejates; não podem saber eles que eu declarei ao khan Heider Mirlam face a face que se me encontrasse com um bebbeh o preveniria do assalto que estava planejado contra os seus haveres. Encontraram-nos junto com os rapinadores e como tais nos tomaram e nos tratam. Agora tivemos a sorte de nos escapar deles e talvez que não consigam mais deitar-nos as mãos; e pretendeis vós com atos de crueldade obrigá-los a prosseguir em nossa perseguição?

— Emir, nós fomos prisioneiros deles e nos cabe tomarmos vingança!

— Também eu já não tenho sido aprisionado e por mais vezes que vós e no entanto jamais cogitei de vinganças. O Rais de Schohord, Nedir-Bey aprisionou-me. Libertei-me e depois o perdoei e ele tornou-se meu amigo. Não foi melhor assim, do que se eu estabelecesse uma questão de vingança de sangue entre nós?

— Emir, és um cristão e os cristãos ou são traidores ou verdadeiras mulheres!

— Maomé Emin, se repetires esta frase, o teu caminho daqui por diante ficará à direita e o meu à esquerda. Jamais zombei ou insultei a tua crença religiosa; porque então zombas e insultas a minha? Já me viste alguma vez ou a este David Lindsay-Bei proceder como traidores ou como mulheres? Eu poderia agora em face de tua atitude ofender o Islã; eu poderia dizer: os muçulmanos são uns ingratos porque se esquecem do que por eles faz um cristão. Mas não o digo, porque por causa de um que não soube conter o seu ímpeto de grosseria não devem pagar todos!

Ao terminar estas palavras, o xeque dos haddedins ergueu-se de um salto e estendeu-me ambas as mãos.

— Emir, perdoa-me! Minhas barbas são nevacentas e as tuas possuem ainda a côr natural da juventude; embora tenhas um coração jovem possuis a madureza e a sensatez de uma pessoa idosa. Entregamos-te este homem. Faze dele o que te aprouver!

— Maomé Emin fico-te muito obrigado! Também teu filho concorda contigo?

— Concordo, sim, efêndi — exclamou sensibilizado Amad el Ghandur.

Satisfeito, dirigi-me então ao bebbeh.

— Já nos mentiste uma vez. Prometes falar-nos hoje a verdade?

— Prometo, sim!

— Se prometeres não fugir, tirar-te-emos já as algemas.

— Senhor, prometo-te!

Pois bem; estes quatro muçulmanos deliberaram dar-te a liberdade. Hoje ficarás ainda conosco mas amanhã cedo podes ir para onde quiseres.

 

A RECONCILIAÇÃO COM O BEBBEH

Tirei as cordas que lhe prendiam pés e mãos.

— Senhor, não te mentirei jamais, mas, perdoa-me a franqueza, inverteram-se os papeis: agora fôste tu, senhor, que me disseste uma inverdade.

— Como assim?

— Disseste-me haverem estes homens me perdoado e isso não é verdade. A minha liberdade, devo-a exclusivamente a ti. Eles primeiramente condenaram-me a fuzilamento; depois, quando te opuseste à sentença, comutaram eles a mesma, resolvendo vergastar-me as faces e cortar-me a madeixa de crente. Mas de mim te compadeceste. Compreendi tudo palavra por palavra, pois entendo o árabe tão bem como o curdo. E também pelas tuas palavras vim a constatar não serdes aliados dos bejates, mas antes mais amigos nossos que deles. Emir, és um cristão e eu sempre odiei os cristãos; hoje vim a conhecê-los, porém, melhor. Queres ser meu amigo e irmão?

— Com muito prazer!

— Queres ter confiança em mim e ficar, embora amanhã os vossos perseguidores estejam aqui?

— Confio em ti!

— Dá-me a tua mão!

— Aqui a tens! Mas também os meus companheiros ficarão em segurança?

— Todo aquele que pertencer à tua caravana. Não exigiste de mim nenhum pagamento a título de resgate pela minha liberdade; primeiro salvaste-me a vida e depois a honra. Quer em ti quer nos demais, ninguém tocará num só fio de cabelo!

Todas as apreensões que nos preocupavam estavam pois removidas! Eu nem idéia tinha de que aquele homem também comprendesse o árabe; considerava-me feliz, porém, por haver ignorado tal circunstância e mais feliz ainda por havermos chegado àquele auspicioso desfecho. Para festejá-lo tirei da maleta o resto de fumo que trazia; não era muito, mas o seu odor agradabilíssimo alegrou-nos os ânimos, que eram agora bem diversos do que os que nos dominavam ao iniciarmos o júri.

Jubilosos, deitamo-nos tranqüilamente a dormir, cometendo ainda a audácia de não postarmos guarda durante o pouso.

Na manhã seguinte o ambiente não era tão poético como o da noite com as chamas do fogo do acampamento a iluminar as redondezas. Resolvi dar uma nova demonstração de confiança ao bebbeh, dizendo-lhe:

— És agora um homem livre. Lá está o teu cavalo e as tuas armas encontrarás ainda no caminho.

— Os meus as acharão. Eu aqui ficarei! — respondeu-me o homem.

— E se eles não vierem?

— Vêm, sim! — respondeu ele em tom convincente. — Tomarei então as providências para que por acaso não passem por nós sem nos verem.

Havíamos pernoitado num vale adjacente, cheio de curvaturas, de modo que dele não era possível sermos vistos do vale principal. O bebbeh foi se postar na saída do vale numa posição em que pudesse descortinar tudo ao redor de si. Nós outros aguardávamos curiosos o desenrolar dos acontecimentos.

— E se ele tornar a nos ludibriar? — perguntou Maomé Emin.

— Desta vez tenho confiança nele. Ele sabia que iria recuperar a sua liberdade; portanto não tinha necessidade de confessar-me que compreendera todas as nossas negociações, a respeito do destino a lhe ser dado. Estou certo de que ele está agora procedendo com toda a sinceridade.

— Mas se ele tornar a nos trair, emir, juro-te por Alá que será ele o primeiro a quem minha bala atingirá.

— Então, sim, o homem não merecerá outra coisa!

Também David Lindsay parecia não concordar lá muito com minha atitude.

— Mister, lá está ele na entrada do vale — disse o inglês. — Se ele nos mentir novamente, estaremos metidos na mais terrível cilada que poderíamos imaginar. Não me leve a mal, se estiver com o olho nas armas e no meu cavalo.

Eu tomara sobre os ombros o peso de uma formidável responsabilidade e confesso francamente que naquele instante não me achava também lá muito tranqüilo. Por sorte, não tardaria a decidir-se tudo, pois notei que o bebbeh se levantara. Com as mãos diante dos olhos, à guisa de pala, parecia olhar ao longe. Depois aproximou-se do seu animal para monta-lo apressadamente.

— Para onde? — perguntei-lhe.

— Ao encontro de minha gente; ela vem vindo lá ao longe. Permite-me, senhor, que eu lhe vá preparar o espírito!

Vai!

 

A PRISÃO DE GASAHL GABOYA

O homem saiu a galope. Maomé Emin opinou:

— Emir, não terias cometido uma asneira?

— Espero haver procedido com sensatez. Firmamos a paz e se eu me mostrasse desconfiado dele seria isso motivo bastante para o tornarmos novamente nosso inimigo.

— Mas ele já se achava em nossas mãos e o devíamos ter conservado como refém.

— De qualquer forma, ele para aqui voltará. Os nossos cavalos acham-se em posição tal que de um salto os poderemos montar. Ficai com as armas em riste, mas de modo que não dê na vista!

— De que nos adiantará isso, emir? São muito mais numerosos que nós e além disso, queres que alvejemos somente aos cavalos deixando incólumes os cavaleiros.

— Maomé Emin, afianço-te que, no caso de nos trair novamente aquele bebbeh de nada nos adiantará alvejar as montarias e eu serei o primeiro que apontarei a espingarda contra os cavaleiros. Ficai vós todos calmamente sentados! Eu me vou postar na entrada do vale. Vós podereis então vos guiar pelo que eu fizer lá.

Montei a cavalo e munido da espingarda me postei na entrada do vale. Avistei logo, a uma distância não muito grande, uma legião de cavaleiros que fizeram alto e ouviam a palavara do bebbeh nosso ex-prisioneiro e que, como ficou dito, era irmão do xeque Gasahl Gaboya. Depois de algum tempo, dois cavaleiros separaram-se da tropa e cavalgaram na direção do vale em que nos achávamos, ao passo que os demais permaneciam no mesmo local. Reconheci nos dois cavaleiros o xeque Gasahl Gaboya e o seu irmão. Agora eu estava certo de que nada mais precisávamos recear.

Ao se aproximarem, o xeque me reconheceu e parou. Os traços de sua fisionomia tostada pelo sol não eram ainda lá muito amáveis e a sua voz soou quase que ameaçadoramente ao perguntar-me:

— Que queres aqui?

— Acolher-te — respondi-lhe lacônicamente.

— Mas a tua acolhida não é lá muito cortês, estrangeiro!

— Exiges porventura que um forasteiro de Frankistão te vá receber com mais cortesia do que a com que dele te aproximas?

— Homem, és muito orgulhoso! Por que montaste a cavalo para receber-me?

— Porque também estás montado.

— Bem, vamos até o vosso acampamento, pois este homem aqui, que também é filho do meu pai, deseja que averigúe se me é possível perdoar-vos.

— Muito bem, vamos até lá. Também os meus companheiros desejam realizar um conselho para resolver se deveis ser castigados ou perdoados.

Aquilo foi-lhe afinal demasiadamente forte.

— Homem, — trovejou ele — medita o que sois vós e o que somos nós!

— Já estou cansado de meditar sobre isso! — respondi-lhe com a maior calma deste mundo.

— Vós sois apenas seis homens!

Meneei a cabeça zombeteiramente.

— Ao passo que nós somos uma grande legião, um grande exército! Respondi-lhe com o mesmo gesto de ironia.

— Bem, obedece-me, e entremos neste vale!

Tornei a repetir o gesto zombeteiro e afastei-me de modo que o xeque e seu irmão pudessem cavalgar pela estreita entrada do vale. Agora, sim, a partida estava ganha por nós, pois se o xeque tentasse proceder em desacordo com a vontade do irmão estariam ambos encurralados por nós no estreito vale.

Ambos cavalgaram na direção do grupo dos meus camaradas; chegando lá apearam-se e se abancaram ao lado deles na relva. Fiz o mesmo.

— Esses homens vêm com propósitos hostis ou amistosos? — perguntou-me o inglês.

— Ainda não sei. Pretende o senhor tomar parte na solução do caso?

— É lógico, sir! Yes!

— Daqui a um minuto levante-se, então, afetando indiferença e vá se postar na entrada do vale, onde há pouco esteve o nosso ex-prisioneiro.

— Watch-man? Bravo! Esplêndido!

— Well! Irei com horrível indiferentismo!

— Assim que o senhor notar que a legião de bebbehs que se acha lá ao longe se põe em movimento para vir para cá, toque a rebate.

— Yes! Hei de gritar a plenos pulmões!

— E assim que um destes dois pretenderem sair do vale sem a minha licença, fuzile-os sumariamente!

— Well! Vou levar o meu porrete de fogo. All right! Sou David Lindsay! Não gosto de brincadeiras! Yes!

Os dois bebbehs naturalmente ouviram a nossa conversa.

— Por que falais vós num idioma estranho? — perguntou desconfiado o xeque.

— Porque este valente emir do ocidente só sabe falar o idioma do seu país — respondi-lhe, indicando Lindsay.

— Valente? Julgais realmente que algum de vós é valente? E com um sinal de desprezo feito com o braço acrescentou:

— Fugistes covardemente de nós!

— Dizes a verdade, xeque — respondi-lhe num riso chocarreiro. — Por duas vezes conseguimos fugir-vos, porque somos mais audazes e valentes que vós. Nenhum bebbeh é homem para lutar com um filho das terras do ocidente!

— Homem, pretendes insultar-me?

— Gasahl Gaboya, acalma o teu espírito para que tenhas a visão clara das coisas! Viestes ter conosco para negociar a paz. Se de fato a queres, concito-te a te portares com mais cortesia do que até aqui. Nós somos apenas poucos homens e vós, conforme tu mesmo o disseste, sois um grande exército; mas este “grande exército” não será capaz de nos aprisionar! Agora, dize-me, constitui isso uma vergonha ou uma honra para nós? Não por covardia, evitamos entrar em luta convosco, mas simplesmente porque desejamos poupar-vos as vidas!

— Estrangeiro, estás redondamente enganado! — atalhou o xeque.

— Achas? Pois já tivemos um guerreiro vosso aprisionado por duas vezes. Poupamos-lhe, porém, a vida. Quando penetrei no teu acampamento, fácil me seria liquidar contigo, mas poupei-te. Sempre vos temos poupado e ainda continuaremos a poupar-vos, mas exigimos também que sejas bastante prudente para reconheceres a tua verdadeira posição.

— Conheço perfeitamente a minha posição. É a posição do vencedor que dita condições! Espero que me peçais perdão e me devolvais tudo que nos roubastes!

— Xeque, enganas-te, pois a tua posição é a do vencido. Não a nós, mas a ti é que compete pedir-nos perdão e espero que o faças imediatamente!

O bebbeh olhou-me estarrecido e emudeceu; depois, porém, proferiu uma formidável casquinada.

— Estrangeiro, tomas os bebbehs por cães e a mim o seu xeque, pelo bastardo de uma cachorra?! Cedi aos rogos deste meu irmão e vim ter convosco para examinar com os olhos da misericórdia a extensão de vossa culpa. Pretendia eu aplicar-vos um castigo brando. Mas como não conheceis qual o caminho a seguirdes para encontrar a vossa salvação, então que o brado das hostilidades torne a ressoar entre nós, e vós haveis de constatar que basta a minha voz de comando para serdes esmagados!

— Pois dá tal voz de comando, xeque Gasahl Gaboya! — respondi-lhe friamente.

Foi então que o seu irmão tomou pela primeira vez a palavra.

— Este estrangeiro do ocidente é meu amigo; ele salvou-me da morte e da desonra: dei-lhe espontaneamente a minha palavra de que reinaria daqui por diante a paz entre nós e a minha palavra há de ser cumprida!

— Pois cumpre-a se o puderes, sem minha intervenção! — retrucou-lhe o xeque.

— Um bebbeh jamais falta aos seus compromissos e haja o que houver permanecerei ao lado dos meus protegidos, enquanto a vida deles correr perigo. E agora eu quero ver se os guerreiros de nossa tribo se atrevem a agredir homens que se acham debaixo de minha proteção!

— A tua proteção não eqüivale à proteção da tribo. A tua parvoíce será a tua desgraça, visto que tombarás com estes estrangeiros!

O xeque ergueu-se e aproximou-se do seu cavalo.

— É a tua última resolução? — perguntou-lhe o irmão.

— É sim! Ficas aqui e eu nada mais posso fazer por ti do que recomendar à minha gente que evite atingir-te durante o tiroteio!

— Pois fica sabendo que não necessito desta tua ordem; todo aquele que se abalançar em agredir os meus amigos, será homem morto! Mesmo que sejas tu em pessoa.

— Faze o que quiseres! Alá concordou que perdesses o juízo; ele que te ampare desde o momento em que te não possa eu mais defender! Eu me vou!

Enquanto o irmão conservava-se sentado ao nosso lado, o xeque montou a cavalo e tentou deixar o vale. Mas ao chegar na entrada, Lindsay assestou-lhe a espingarda ao peito e bradou-lhe:

— Stop, old boy! — Pára, meu velho! — ameaçou-lhe o inglês. — Apeia já, senão vou brincar de matar-te! Não te matarei de um todo, mas aos poucos. Well!

O xeque virou-se para mim e perguntou:

— Que quer de mim este homem?

— Fuzilar-te — respondi-lhe tranqüilamente. — E não faz ele mais do que cumprir ordens, pois não te dei licença para deixares o vale.

O homem viu pelo tom decisivo de minha resposta que eu estava falando seriamente; viu também que o inglês tinha os dedos no gatilho pronto para batê-lo e retrocedeu até o nosso grupo, onde me trovejou:

— Estrangeiro, és um canalha!

— Xeque, repete esta palavra que farei um sinal ao guarda e tu serás então um cadáver!

— Mas procedes como um traidor! Aqui vim como enviado de minha tribo e portanto tens o dever de assegurar-me a minha volta!

— Não és o enviado, não, mas o chefe da tribo. Não te cabem, pois, as imunidades de um parlamentar.

— Conheces alguma coisa de direito das gentes?

— Conheço, mas tu, não. Talvez que já ouvisses algum dia falar neste direito, mas o teu bestunto não permitiu que o compreendesses. O direito a que te referes manda que se mantenha lealdade numa luta; ordena que se avise previamente ao inimigo quando se o pretende atacar. E tomaste tal medida? Não. Investiste contra nós qual um salteador, qual um gavião sobre inerme pomba, para a estraçalhar. E agora te encolerizas porque te tratamos como pifio salteador. Acercaste-te de nós porque julgaste sermos umas múmias que se intimidavam ante a tua tropa e o teu aparato bélico; mas te convencerás do contrário, pois agora só deixarás este vale quando me aprouver. E se tentares forçar a saída, o teu ato custar-te-á a vida. Apeia, pois, e volta a sentar-te ao nosso lado. Mas não te esqueças de que te impusemos uma postura cortês e que tua morte será inevitável se os teus bebbehs ousarem invadir este vale!

Indeciso, o homem obedeceu à minha intimação, mas não deixou de observar em tom de ameaça:

— Deixa estar: minha gente há de me vingar horrivelmente!

— Não tememos a tua gente, conforme, aliás, já tiveste ocasião de constatar! Mas falemos por enquanto com calma e reflexão a respeito do assunto que te trouxe à nossa presença. Fala, pois, xeque Gasahl Gaboya, mas evita toda e qualquer ofensa!

— Vós sois inimigos nossos, pois vos juntastes aos bejates, com o fim predeliberado de nos roubar...

— É um engano teu. Durante um dos pousos de nossa jornada, encontramo-nos com os bejates e o xeque Heider Mirlam convidou-nos para sermos hóspedes de sua tribo. Declarou-nos ele então que se achava a caminho para uma festa dos dchiafs a que fora convidado e nós acreditamos no que disse. Se soubéssemos que era seu propósito assaltar-vos não nos teríamos reunido à sua legião. O referido xeque com sua gente, assaltou os vossos rebanhos à noite enquanto dormíamos e depois que descobrimos o seu ato reprovável demonstrei-lhe de viva voz a minha indignação em face do mesmo. Tu nos assaltaste e mandaste nos perseguir; não vos tememos; poupamos as vossas vidas e conseguimos escapar-vos, depois de te haver eu provado que éramos inocentes em todo o roubo perpetrado pelos nossos hospedeiros. Contudo, não nos deixaste ir em paz. Armaste-nos uma emboscada e nós prendemos o teu espião e procedemos complacentemente para com ele. Tornaste a nos agredir e nós te poupamos novamente a vida. Invadi o vosso acampamento e libertei os meus camaradas que havias aprisionado; estiveste em minhas mãos e eu entretanto não quis que se derramasse uma só gota de sangue. Vós nos perseguistes; aprisionamos teu irmão e não lhe tocamos num só fio de cabelo. Aviva a tua memória, xeque, e compreende afinal que procedemos não como inimigos mas como amigos. E em paga disso tudo, te aproximas de nós com palavras injuriosas e em vez de nos pedires desculpas, exiges que nós te peçamos perdão! Que seja Alá o juiz entre vós e nós! Não vos tememos, repito!

O homem me ouvira quase desatento e atalhou-me ironicamente:

— O teu discurso é demasiadamente extenso, estrangeiro; entretanto, o que dizes não passa de mentiras e falsidades.

— Prova-o!

— É fácil de provar. Os bejates são nossos inimigos; estivestes na sua companhia, conseqüentemente sois também nossos inimigos. Quando minha gente vos perseguiu, matastes os seus cavalos. E qualificas este gesto de amigo?

— E era gesto de amigos o de nos perseguirdes?

— Tu me bateste na cabeça de modo a ficar atordoado, caído no solo. Depois bateste nas faces do mais valente dos meus guerreiros, como se ele não passasse de um verme. E qualificas este gesto de amigo?

— Tu me agrediste e ao derribar-te, nada mais fiz do que me defender; teu mais valente guerreiro lançou-me um grave ultraje em face e eu provei-lhe que ele não passa de um verme diante de mim.

— O espancamento do meu guerreiro constitui para ele o mais infamante ultraje, que só conseguirá ele desagravar, vertendo-te sangue!

— As minhas pancadas não devem ter sido um ultraje para ele, mas sim uma honra, visto que não obstante consentiste que ele continuasse a lutar ao teu lado. E se ele para desagravar-se da ofensa pretende verter-me o sangue que venha!

— E finalmente roubastes-nos ontem os melhores cavalos. E qualificas este gesto de amigo?

— Tomamos-te os cavalos porque tua gente havia morto os nossos. Todas as tuas acusações são falsas e infundadas. Não dispomos de tempo e nem a isso estamos inclinados, para permitir que continueis a abusar de nossa paciência. Dize-me, mas sucintamente, o que de nós exiges que sucintamente também te responderei!

O xeque começou, então, a desenrolar o seu rosário de exigências:

— Em primeiro lugar exijo que venhais para o meio de minha legião...

— Continua! — ordenei-lhe, visto que o homem suspendera a frase.

— Que nos entregues os cavalos, as armas, tudo enfim que conduzis convosco.

— Continua!

— Depois podeis ir para onde bem vos aprouver.

— É tudo?

— É sim. Como vês, sou muito indulgente!

— E que espécie de satisfação exiges mais de mim?

— Exijo ainda uma indenização de guerra cujo valor depois fixarei. Espero que concordarás também com esta condição!

— Não concordo, aliás, discordo de tudo. Não vós mas nós é que temos o direito de fazer-vos imposições. Ademais disso, as tuas exigências são verdadeiramente idiotas. Como poderíamos nós pagar-vos uma idenização se tudo quanto nos pertencia roubastes? Aconselho-vos a deixar que nos retiremos sem que oponhais o menor embaraço! Reflete c compreende que estás em nosso poder e que de ti poderemos fazer o que bem entendemos!

— Pretendes ordenar o meu trucidamento?

— Trucidamento não, mas o teu fuzilamento, no caso dos teus bebbehs cometerem o menor ato hostil contra nós.

— Eles me vingarão a morte; já te disse!

— Não vingarão coisa alguma, mas se lançarão todos na ruína irremediável. Olha cá, xeque Gasahl Gaboya! Nesta espingarda tenho eu carregados vinte e cinco tiros e nesta outra, dois; cada um destes revólveres possuem seis tiros e cada uma de tuas pistolas que vês aqui na minha cinta, dois; estou apto a fazer fogo durante quarenta e três vezes consecutivas sem carregar as armas. Os meus companheiros estão armados da mesma maneira e, além disso, estás encerrado neste vale, por cuja entrada só pode passar um único guerreiro de cada vez. Todos, pois, tombariam sem ter ocasião de matar ou ferir um só de nós. Atende a mim e ao teu irmão: deixa que nos retiremos em paz que nada te faremos!

— Queres porventura que me cubra de ridículo perante a minha gente? Como podes carregar tantos tiros numa espingarda? As tuas palavras não parecem dizer a verdade.

 

— Não minto, não. Os silahdar (2) do ocidente são mais hábeis que os vossos. Olha atentamente para cá, que te vou dar algumas explicações acerca destas armas.

Mostrei-lhe as disposições da espingarda de repetição e dos revólveres e a sua fisionomia cada vez mais sulcada de apreensão comprovava que eu apelara para a verdadeira tática.

— Alá é onipotente! — murmurou o homem. — Por que não deu ele aos verdadeiros crentes a habilidade de construir armas tão eficientes!?

— Porque eles abusariam dessas armas. Alá é onisciente e todo bondade. Ele só põe dessas armas nas mãos dos cristãos porque estes só se utilizam delas quando se lhes esgota a paciência. Toma de uma vez por todas uma resolução difinitiva!

— Senhor, vi as vossas armas; são excelentes; contudo não as receamos. Não obstante, porém, farei derramar a minha indulgência sobre vós, desde que concordeis com as novas exigências que agora vos farei.

— Que novas exigências?

— Que nos devolvais os seis cavalos bem como o garanhão preto que montas. Além disso, entregar-me-ás essa espingarda de vinte e cinco tiros, as duas pistolinhas de seis cada uma e mais as minhas pistolas que te apoderaste quando me invadiste a tenda. Mais nada quero eu!

— Não receberás um só dos teus cavalos de volta, visto que matastes os nossos; não obterás o meu garanhão preto, porque este vale mais do que mil cavalos dos bebbehs. Nem minhas armas, que delas eu próprio necessito. Mas como prova de minha liberalidade, estou pronto a devolver-te as tuas armas, no momento em que me convencer de que de fato nos deixais prosseguir na jornada sem nos perrurbardes.

— Reflete estrangeiro, que tu...

O homem suspendeu a frase, visto que fora do vale deflagrou-se um tiro, mais outro e diversos. Dirigi-me ao inglês em altos brados:

— Que houve, sir?

— Dojan! — respondeu Lindsay.

Aquela palavra eletrizou-me de tal modo que o próximo segundo já me achava na entrada do vale. Realmente era o meu lindo galgo. Os curdos o perseguiam mas Dojan teve a prudência de cortar um arco, a fim de se afastar do alcance das armas dos perseguidores. Mas o ardil parecia não surtir efeito, pois o cão se achava tão esfalfado que os matungos dos bebbehs desenvolviam mais velocidade do que ele. Notei que ele se achava em perigo de ser morto a tiros e montei a cavalo.

— Gasahl Gaboya, vais ver agora que espécie de armas conduz um emir do ocidente. Mas ai de ti se durante a minha ausência tentares sair do vale. Considera-te meu prisioneiro até a minha volta!

— Para onde vais, sídi? — perguntou Halef.

— Defender o meu fiel Dojan.

— Vou junto!

Tu ficas. Cuida da vigilância para que os bebbehs não se escapem!

 

(2) Armeiros.

 

UM TIROTEIO COM OS BEBBEHS

Saí pela planície afora e com o braço estendido fiz um sinal aos curdos para desistirem da perseguição ao cachorro. Eles bem que viram o sinal, mas não obedeceram. Também o cão me avistou e, em vez de seguir pelo arco que ia descrevendo, dele se desviou e em linha reta veio ao meu encontro. Essa direção conduzia-o bem perto dos seus perseguidores. Era natural que tudo eu empreenderia para não me matarem o animal que eu já dera por perdido. Por isso ao me achar à distância dos bebbehs correspondente ao alcance da espingarda, parei o cavalo e fiz pontaria. Abati os cavalos dos dois curdos que se achavam mais próximos de Dojan. Este passou incólume pelos perseguidores, que ergueram nm formidável berreiro de raiva e a toda brida vieram em minha direção.

De alegria por me haver achado, o cão esqueceu-se do cansaço e com alguns saltos se achava junto de mim e pulava-me incessantemente no serigote; eu, porém, não permiti que ele ficasse na garupa, pois me estorvaria em qualquer manobra a que me visse obrigado a realizar.

— Buraja, buraja! Aqui, para cá! — ouvi bradar na entrada do vale. Era o xeque que pretendia valer-se da ocasião para safar-se de sua situação nada agradável. Os curdos ouviram a voz, deram de esporas nos cavalos e brandiam as armas. Naturalmente que cheguei antes deles na entrada do vale e vi o xeque atirado no solo, ao passo que Halef e o inglês se achavam ocupados em algemá-lo. O seu irmão achava-se livre, ao lado, e, de sua postura, concluía-se que se mantinha neutro em face da luta.

— Emir, poupa o meu irmão! — pediu-me ele.

— Desde que o vigies! — respondi-lhe.

— Vigiá-lo-ei, Senhor!

Apeei depressa e ordenei aos companheiros que tomassem posição por trás dos rochedos que se levantavam à entrada.

— Atirai somente contra os cavalos! — pedi-lhes.

— Esqueces-te da palavra dada, emir? — exclamou Maomé Emin meio indignado.

— O irmão do xeque está procedendo com sinceridade. A primeira salva, pois, somente contra os cavalos! Depois disso veremos o resto.

Os bebbehs se haviam aproximado de tal modo que se encontravam já nos limites do alcance de nossas espingardas. Eu havia deflagrado os dois canos da espingarda “Mata-ursos” e por isso tomei da espingarda de repetição, sistema Henry. As nossas armas deram duas descargas mais.

— Bounce-bardauz, ei-los que tombam! — exclamou o inglês. Cinco, oito, nove cavalos ao todo! Yes!

Os companheiros ergueram-se de suas posições a fim de carregarem as armas, enquanto que eu continuei atirando ininterruptamente. Até Allo havia dado um tiro com o arcabuz do xeque. Ele é que fora o culpado de haver sido ferido um dos bebbehs. Os demais companheiros nenhum deles errou o alvo.

A primeira salva conseguiu diminuir o galope dos curdos que se aproximavam de nós e a segunda os fêz parar imediatamente.

— Come on — avante! — bradou Lindsay. — Para fora! — esmagar aqueles Houndchatchter, caçadores de cães!

O mister Fowling-bull pegou da espingarda pelo cano e quis realmente sair do vale e investir contra os curdos. Eu, porém, o agarrei, detendo-o.

— Está doido, sir? — bradei-lhe. — Pretende perder o seu nariz privilegiado? Permaneça na sua atual posição!

— Por quê? O momento é azado. Em cima deles, em cima deles> mister!

— Tolice! Aqui estamos seguros, o que não acontece lá fora.

— Seguros? Hum! Pois então refestele-se no canapé e durma a sua sesta, mister! Tolice, deixar aqueles sujeitos fugirem! Well!

— Calma e sangue frio, mister Lindsay! Vê como eles se retiram? Receberam uma lição da qual haverão de se lembrar por muito tempo.

— Bela lição e barata! Custou-lhes apenas alguns cavalos! Nesse instante o irmão do xeque pôs a mão sobre o meu ombro.

— Emir — disse ele — eu te fico muito obrigado! Tu poderias matar os meus companheiros em número superior aos cavalos que tombaram lá fora, e no entanto não o fizeste. És um cristão, mas mesmo assim Alá há de proteger-te.

— Reconheces que nossas armas superam às vossas em eficiência?

— Reconheço.

— Então vai lá fora e dize isso aos teus irmãos de tribo!

— Vou já. Mas que será feito do xeque!

— Ficará aqui. Dou-te quinze minutos de tempo. Se até então não estivestes de volta com a mensagem de paz, o xeque será enforcado nesta árvore! Estou cansado de lutar com um inimigo obstinado.

— E se eu voltar com a mensagem de paz?

— Soltarei o xeque.

— E os tributos de guerra que ele te impôs?

— Não os pagarei de maneira alguma.

— Nem lhe devolverás as suas armas?

— Também não. Ele é o culpado da agressão há pouco por nós rechaçada; portanto não deve ele esperar mais a menor indulgência de nossa parte. Somos os vencedores absolutos. Faze o que entenderes!

O bebbeh foi ter com a tropa, enquanto que eu me entreguei ao trabalho de carregar as espingardas deflagradas. O cão rosnava de alegria, embora estivesse tão esgotado que a língua pendia-lhe da boca.

— Que achas, emir, teria ele morto o guarda da cavalhada? — perguntou Amad el Ghandur.

— Espero que não. Quero admitir tenha ele abandonado o homem, por ter sido obrigado a segurá-lo por demasiado tempo. Segurou durante a tarde e a noite toda. O pobre animal está ainda horrivelmente fatigado. Allo, dá-lhe de comer! Só mais tarde é que deverá beber um pouco de água.

O xeque algemado jazia no solo e não dizia uma só palavra; os seus olhares, porém, nos acompanhavam todos os movimentos. Estava-se vendo que jamais se tornaria amigo nosso.

 

GASAHL GABOYA COMO REFÉM

Esperávamos ansiosos pela resolução dos bebbehs. Achavam-se eles agrupados e pelas suas gesticulações, depreendemos que a conferência se tornava agitadíssima. Finalmente, voltou o nosso enviado.

— Venho com a paz, Senhor! — anunciou o irmão do xeque. — E sob que condição?

— Nenhuma.

— Por isto eu não esperava. Parece-nos que não foi sem grandes esforços, que fizeste prevalecer o teu ponto de vista junto dos companheiros. Eu te agradeço!

— Compreende-me primeiro, antes que me apresentes teus agradecimentos, Senhor! Trago-te a paz mas também os bebbehs não aceitam quaisquer condições.

— Ah! e a isso chamais de paz? Bem, pois então vamos nos pôr em segurança. Dize-lhes que levarei o xeque, teu irmão, como refém.

— Até que tempo o conservarás em teu poder?

— O tempo que me convier; até que nos julguemos o cavaleiro de vossa perseguição. Depois, sim, o mandaremos em paz sem lhe fazer o menor mal.

— Eu creio na tua promessa. Permite-me que a transmita aos meus irmãos de tribo!

— Sim, transmite-a e dize-lhes que recuem para o morro que fica ao pé daquela planície. E assim que notar que eles se movimentam em nossa perseguição, matarei o vosso xeque.

O homem saiu para transmitir o recado e daí a pouco vimos que os bebbehs quer os montados como os desmontados, recuavam lentamente para o norte. O irmão do xeque, porém, voltou a fim de buscar o seu cavalo.

— Emir, eu era teu prisioneiro. Dar-me-ás agora a liberdade? — perguntou ele ao acercar-se de nós.

— Sim, porque és meu amigo. Aqui leva as pistolas do teu irmão. Não a ele mas a ti as devolvo. Quanto ao arcabuz, este fica pertencendo ao homem a quem presenteei.

Ficou ainda ele conosco até que amarrássemos o seu irmão ao cavalo e nos aprestássemos para iniciar a viagem. Depois estendeu-me a mão.

— Adeus, Senhor! Que Alá abençoe tuas mãos e teus pés! Levas contigo um homem que é teu inimigo e agora também meu, entretanto, recomendo-o à tua benevolência, pois apesar de tudo ele é filho de meu pai!

 

UMA DIVERGÊNCIA COM OS HADDEDINS

Seguiu-nos durante muito tempo com o olhar, até desaparecermos no horizonte. Tomamos a direção do sul. Halef e Allo escoltavam o xeque e depois de algumas instruções indispensáveis prosseguimos a jornada debaixo de absoluto mutismo. Eu notara que a minha atitude desses últimos dias não contava com a aprovação dos haddedins. Não me faziam eles a menor observação neste sentido, mas aquilo se depreendia de seus olhares, de suas fisionomias, enfim de todos os seus gestos. Eu preferiria que os camaradas me censurassem com toda franqueza a que se mantivessem naquela postura de reprovação surda. Também a natureza, o conjunto panorâmico que nos cercava não era de molde a nos alegrar o espírito. Cavalgávamos através de ápices de montanhas e outeiros desertos e áridos, através de sombrios desfiladeiros. Quando anoiteceu estava tão frio e ventava tanto como se estivéssemos em pleno inverno. Pernoitamos entre dois rochedos que se erguiam paralelos um ao outro e não houve nada que os levantasse o moral.

Pouco antes de romper a alvorada, levantei-me, agarrei a espingarda e saí a ver se abatia uma caça. Depois de longa procura, consegui abater um mísero texugo que levei para o acampamento. Os meus camaradas já se achavam todos acordados. Um olhar que me dirigiu então Halef significou-me haver sucedido alguma coisa durante a minha ausência. Não precisei esperar muito para saber o que se passara, pois ao me abancar na relva, perguntou-me Maomé Emin.

— Emir, que tempo vamos ainda arrastar conosco este bebbeh?

— Se pretendes entabolar uma palestra mais minuciosa, afastemo-nos daqui, visto que o prisioneiro compreende tão bem o árabe como o seu irmão! — ponderei-lhe.

— Allo que o tome sob sua guarda.

Aceitei o conselho do haddedin, conduzi o prisioneiro a uma distância e o confiei aos cuidados do carvoeiro, com a recomendação de vigiá-io severamente. Depois voltei ao acampamento.

— Agora sim, podemos falar sem testemunhas inconvenientes — disse Maomé Emin. — Repito a minha pergunta: Que tempo vamos ainda arrastar conosco este bebbeh?

— Por que me fazes esta pergunta?

— Não tenho o direito de fazê-la, efêndi?

— Não há dúvida, é um direito que não discuto. Pretendo retê-lo em nosso poder, até julgarmos possível prosseguir na jornada a coberto da perseguição de sua gente.

— Mas de que maneira obterás tal certeza?

— Muito fácil. Cavalgaremos até ao meio-dia; depois vós acampais em determinado lugar enquanto que eu voltarei; tenho a certeza de encontrar os bebbehs, no caso de haverem eles empreendido a nossa perseguição. Amanhã cedo estarei de volta.

— Mas merece o inimigo um tal incômodo de tua parte?

— Não merece coisa alguma, mas a nossa segurança é que está a exigir tal providência.

— E por que não poupas a ti e nós maiores serviços, com viagens de retornos, vigilância redobrada, etc?

— De que modo se poderia poupá-lo?

— Estás convencido de que ele é exatamente inimigo nosso?

— E um ferrenho inimigo!

— Que está constantemente a ansiar por nossa morte?

— Isto mesmo.

— Que mesmo depois de se achar em nossas mãos, nos atraiçôou, pois chamou sua gente quando saíste para o vale em defesa de Dojan.

— Também neste ponto tens razão.

— Segundo as leis dos schammares este homem por várias vezes incorreu na pena de morte.

— E essas leis prevalecem também para esta zona?

— Prevalece onde quer que haja um schammar interessado no julgamento de um criminoso.

— Ah! pretendes julgar o prisioneiro? Acho mesmo que já lhe lavraste a sentença; qual é?

— A de morte.

— E por que já não a executaste?

— Poderíamos fazê-la sem o teu assentimento, emir?

— Não tens coragem de executar a sentença imposta ao prisioneiro, mas tiveste a “lealdade” de julgá-lo à minha revelia. Oh! Maomé Emin, estás trilhando por um caminho errado, pois a execução deste bebbeb acarretaria também a tua.

— Como explicas isto?

— De um modo facílimo. Aqui estão sentados os meus amigos Lindsay-Bei e o meu valente Hadji Halef Omar. Achas que eles permitiriam que tu matasses o bebbeh durante a minha ausência?

— Eles não nos teriam impedido de fazê-lo. Sabem muito bem que somos fisicamente mais fortes que eles.

— Não há dúvida de que sois os mais valentes heróis dos haddedins, mas estes dois homens jamais sentiriam medo de inimigo algum. E que pensas tu teria eu feito se na minha volta testemunhasse a tua ação?

— Já não te seria mais possível remediar o que estava feito.

— Nesse ponto tens razão, mas nem por isso deixaria de ser um homem morto. Eu fincaria a faca no solo diante de ti e em ti vingaria eu a morte do prisioneiro, muito embora te encontres debaixo de minha proteção. Só Alá é quem sabe se tu me terias vencido.

— Emir, não falemos mais disso. Bem vês que te estamos a consultar antes de procedermos concretamente. O xeque mereceu a pena de morte, deliberemos a seu respeito!

— Deliberarmos? Não sabes então que prometi ao seu irmão soltá-lo ileso, assim que nos sentíssemos imunes de alguma perseguição dos seus guerreiros?

— Foi uma promessa precipitada. Fizeste-a sem nos consultar previamente. És porventura nosso chefe? Noto que ultimamente te habituas-te a proceder sempre por conta própria!

Foi uma censura que eu jamais esperava dos seus lábios. Calei-me por algum tempo a fazer um exame de consciência. Depois repliquei-lhe:

— Tendes todos razão se disserdes que algumas vezes eu procedi sem consultar-vos previamente. Mas assim o fiz não por me julgar o mais graduado dentre vós, mas por outros motivos. Vós não falais curdo e eu era o único que sempre tratava com os curdos. Achas que a toda pergunta e a toda resposta, deveria eu suspender as negociações para vô-las traduzir? Quando se tem de tomar uma resolução urgente, ou concertar uma ação inadiável, dispõe-se de tempo para perder com delongas conferenciado com camaradas, que nem todos falam o mesmo idioma? Algum dia as minhas orientações trouxeram alguma desvantagem para a caravana?

— Desde que nos encontramos com os bejates, os teus conselhos nunca foram bons.

— Não concordo com esta asserção, posto que não pretendo discutir contigo. Não sou Alá. mas uma criatura humana como qualquer outra sujeita a errar. Até agora nos entregastes espontaneamente a direção da jornada porque confiáveis em mim; mas como vejo que desapareceu esta confiança considero-me destituído da chefia; és o mais idoso de nós, Maomé Emin e prazeirosamente te confiamos daqui por diante a direção de nossa comitiva!

Por isso ninguém da caravana esperava; minhas últimas frases lisonjearam sobremodo o velho haddedin, para que ele recusasse a incumbência sem corar.

— É este o teu desejo, emir? E achas que realmente estou na altura de assumir a vossa chefia?

— Sim, porque és tão sábio quanto valente e forte.

— Fico-te muito agradecido pela distinção, mas não conheço o idioma curdo.

— Serei o teu intérprete.

O bom homem não compreendia que em vista da original composição de nossa pequena caravana, não seria possível confiar a um só homem a sua direção absoluta.

— Ademais disso, — acrescentei — não tardaremos a chegar numa zona em que só se fala árabe.

— E os demais companheiros concordam com a tua resolução? — perguntou Maomé Emin.

— O Hadji Halef Omar fará o que eu quero e quanto ao inglês, vou consultá-lo.

Depois de haver posto o inglês ao corrente do que projetava, retrucou-me ele:

— Não cometa tal erro, mister! Já de há muito que eu vinha notando que o haddedin metera alguma tolice na cabeça. Somos cristãos e demasiadamente humanos para acatarmos todas as ordens dadas por esta gente. Well!

— Contudo acho que tomei uma resolução acertada. Pede o haddedin que eu lhe pergunte se concorda com a sua chefia?

— Yes, desde que ele conheça os caminhos. Quanto ao resto, pouco me preocupa com o ter ou não a caravana um chefe. Sou inglês e faço o que bem rne aprouver.

— Devo dizer-lhe isto?

— Diga-lhe isto e por mim mais alguma coisa que lhe ocorra. Eu estou satisfeito mesmo que fosse aquele carvoeiro sujo o designado para chefiar a. caravana.

Transmiti a resolução do inglês ao haddedin com as seguintes palavras:

— David Lindsay-Bei está de acordo. A ele é indiferente se o chefe és tu ou o carvoeiro Allo. É um emir do Inglistão e de qualquer maneira, seja quem fôr o condutor da comitiva, ele procederá como bem lhe aprouver.

O haddedin franziu o sobrecenho; a sua autoridade ameaçava baquear desde logo.

— Aquele que confiar em mim, comigo ficará satisfeito — disse por fim Maomé Emin. — Mas agora vamos resolver a respeito do bebbeh. Ele está condenado à morte. Devemos fuzilá-lo ou enforcá-lo?

— Nem uma nem outra coisa. Já te disse que dei minha palavra como penhor de sua vida!

— Emir, isso agora não vale mais, pois acho-me investido nas funções de condutor da caravana. E o que o chefe diz, faz-se!

— O que o chefe diz, faz-se, desde que os restantes membros da caravana ou, pelo menos a sua maioria, estejam de acordo. E não admito que se ponha em jogo a minha palavra, que quero seja cumprida à risca!

— Efêndi!

— Xeque Maomé Emin!

Nesta altura, o pequeno Halef sacou de uma de suas pistolas e perguntou-me:

— Sídi, apraz-te que eu mande uma bala à cabeça de alguém? Por Alá que o farei imediatamente!

— Hadji Halef Omar, deixa tuas armas na cinta, visto que todos somos amigos, embora que o haddedin pareça esquecer esta circunstância — respondi-lhe calmamente.

— Senhor, não nos esquecemos, não, — retrucou Amad el Ghandur — mas também tu não deves esquecer que és um cristão que se encontra na companhia de verdadeiros crentes. Aqui prevalecem as leis do Karan e um cristão não nos impedirá de cumpri-las. Já defendeste o irmão deste xeque e basta. A este não deixaremos que nos arranques das mãos. Por que nos ordenaste que lhes alvejássemos exclusivamente os cavalos? Achas que somos curdos que conduzem armas para brincar? Por que havemos de ser complacentes para com traidores? Os ensinamentos que segues te custarão ainda a vida!

— Cala-te Amad el Ghandur, que és ainda um menino, embora sejas portador de um nome que significa herói. Aprende primeiro a conhecer os homens antes de falares!

— Senhor, eu já sou um homem!

— Não o és! Se já fosses um homem não contribuirias para que a palavra de outrem fosse quebrada!

— Tu não faltarás com a tua palavra, visto que seremos nós quem castigará o bebbeh.

— Proibo terminantemente tal execução e acabou-se!

— E eu a ordeno e acabou-se! — exclamou Maomé Emin, erguendo-se encolerizado.

— Com que direito dás ordens aqui? — perguntei-lhe.

— Com que direito proíbes tu que se faça alguma coisa aqui? — retrucou-me o haddedin.

— A minha palavra empenhada assegura-me tal direito!

— Tua palavra de nada vale para nós. Estamos fartos de ser dirigidos por um homem que estima os nossos inimigos! Esqueceste-te do bem. que te tenho feito. Acolhi-te como hóspede, protegi-te e te presenteei um cavalo que vale metade de minha existência. És um ingrato!

Senti que o sangue fervia-me nas faces e a mão instintivamente tremia na direção do punhal. Felizmente, porém, consegui me dominar.

— Retira essas expressões! — redargüi-lhe, erguendo-me calmamente.

Fiz um aceno a Halef e me encaminhei para o local onde se achava o prisioneiro sob a guarda do carvoeiro. Chegando lá, sentei-me. Minutos depois também o inglês abancou-se ao nosso lado.

— Que há, mister? — perguntou-me Lindsay. — Zounds, está com os olhos rasos d’água! Homem, diga-me a quem devo fuzilar e estrangular de uma vez!

— Aqueles que ousarem tocar neste prisioneiro.

— E quem são?

— Os haddedins. Maomé Emin lançou-me em face proceder eu com ingratidão para com ele. Devolvi-lhe o garanhão preto.

— O garanhão? Mas enloqueceu, mister? Devolver o animal depois. de haver passado à sua legítima propriedade! Espero, porém, que as coisas ainda se venham a modificar.

Nesse instante, chegou Halef com dois cavalos: o dele e um dos quê havíamos tomado aos bebbehs. O animal que até agora trazíamos no cabresto, estava encilhado com o meu arreamento que o meu criado tirara ao garanhão. Também o pequeno Halef estava com os olhos cheios de lágrimas e sua voz tremia quando me disse:

— Procedeste muito bem, Senhor! O scheitan entrou no corpo dos haddedins. Queres que eu tome o chicote e o afugente de lá?

— Não, eu os perdôo. Vamos partir já!

— Sídi, o que faremos se eles quiserem matar o bebbeh?

— Matá-los-emos a tiros no próprio local.

— Muito bem! Que Alá apedreje esses canalhas!

O prisioneiro foi novamente amarrado ao cavalo e nós montamos: eu, naturalmente, não no lindo garanhão mas num zaino que na Alemanha valeria uns quatrocentos taleres. A pequena comitiva se pôs em movimento e passou pelos haddedins que ainda se achavam abancados num cômoro de relva. Julgaram talvez que nós haveríamos de ceder às suas. imposições. Agora, porém, como viram que procedíamos seriamente, ergueram-se de chôfre do solo.

— Emir, para onde pretendes ir? — perguntou-me Maomé Emin.

— Embora — respondi-lhe lacônicamente.

— Sem nós?

— Como quiserdes!

— Onde está o garanhão?

— Lá onde se achava maneado.

— Macballah! mas ele te pertence!

— Agora, não: devolvo-te, Sallam. Alá faça reinar a paz entre ti e os teus!

Dei de esporas no cavalo e saímos a trote. Mas mal vencêramos uma milha inglesa os dois nos saíram atrás. Amad el Ghandur montara o garanhão e trazia o animal pelo cabresto. Agora tornava-se-me impossível aceitar novamente o garanhão.

Maomé Emin cavalgou para o meu lado, ao passo que o filho ficou à alguma distância.

— Eu penso que fui nomeado chefe da comitiva, emir, — começou ele.

— Precisamos de um chefe mas não de um tirano!

— Eu apenas quero castigar o bebbeh que aprisionou a mim e ao meu filho. E que te fiz eu?!

— Maomé Emin, enxovalhaste a amizade e o respeito de três homens que por várias vezes arriscaram a sua vida por ti e teu filho e que ainda agora por vossa salvação não trepidariam afrontar os maiores perigos!

— Efêndi, perdôa-me!

— Não te odeio!

— Aceita novamente o garanhão. É teu, pois dele te fiz presente.

— Jamais o aceitarei novamente!

— Pretendes castigar-me a velhice e causar vergonha às minhas barbas brancas?

— Exatamente a tua velhice e as tuas nevacentas barbas deveriam te ter dito que a cólera nunca traz resultados apreciáveis.

— Queres que entre os filhos do Beni Arabs se diga que o xeque dos haddedins recebeu de volta um presente que fizera a alguém, porque não se tornara digno de fazer tal presente?

— Claro que dirão isso!

— Emir, és cruel, pois lanças a vergonha sobre minha fronte encanecida!

— Tu próprio é que a lanças. Fui teu amigo e te estimava, tanto que te perdôo e não me separo de ti odiando-te. Sei bem qual a vergonha por que pássaras se voltares levando o garanhão de volta. Eu quisera salvar-te, mas não me é possível.

— É possível, sim. Basta que recebas novamente o garanhão.

— Eu o faria em atenção à amizade e ao respeito que te dedico; mas até isso se me tornou impossível. Olha para trás!

O xeque virou-se e meneou a cabeça.

— Não vejo nada. Ao que te referes, emir?

— Não vês que o garanhão já tem dono?

— Agora compreendo-te, emir! Amad já apeará.

— Mas eu não aceitaria mais o cavalo. Ele encilhou-o com o seu arreio e o montou; isto prova que aceitaste a devolução que tacitamente te fiz eu. Se o houvesses trazido desencilhado tal qual o deixei, então, sim, eu acreditaria que tu eras meu amigo e te livraria da vergonha que pesa sobre ti. Amad el Ghandur declarou-me em tom de menosprezo se eu um cristão e como um cristão procedia; pois ele é um muçulmano e não procede como um muçulmano, visto que monta um cavalo, cujo dorso já conduziu um cristão. Conta isto aos crentes que encontrares!

— Allah il Allah! que grave erro fomos cometer!

Compadecia-me do velho xeque, mas não me era possível fazer nada em seu favor. Devera eu proceder de modo a tirar-lhe a vergonha e passá-la para mim? Não. Aliás, eu não podia compreender o que de um momento para outro dera na cabeça daqueles dois homens, em geral sensatos. Questões pessoais por certo que não o eram. Talvez que o germe determinante daquela atitude neles já se aninhara há mais tempo e eu o vinha desenvolvendo cada vez mais pelo simples fato de tratar indulgentemente os nossos inimigos. E a circunstância de querer eu poupar a vida daquele bebbeh constituiu a última gota que fêz transbordar-lhes a medida. Mas não obstante pesar-me a perda do garanhão, não me levou nem por sombras à idéia de sacrificar daí por diante os meus pontos de vista de humanidade aos hábitos vingativos daqueles nômades.

 

UM GESTO PRECIPITADO DE MAOMÉ EMIN

O haddedihn cavalgou por muito tempo silenciosamente ao meu lado. Por fim, disse fraquejando:

— Por que continuas encolerizado?

— Não estou encolerizado contigo, não, Maomé Emin; mas pesa-me sinceramente que desejes tomar vingança de sangue contra aqueles aos quais o teu amigo já perdoara.

— Pois está bem, vou reparar esta minha falta!

Dito o que, retrocedeu. Por trás de mim cavalgavam Halef e o inglês; depois vinha Allo com o preso e por último Amad el Ghandur. Não voltei, porque pensava pretender Maomé Emin falar com o filho; o mesmo fizeram Halef e Lindsay. Só nos viramos ao ouvir o haddedihn dizer em voz alta:

— Volta para os teus, pois estás em liberdade!

Ao primeiro golpe de vista, notei que ele havia cortado as cordas ao preso, que no mesmo instante segurou as rédeas do seu cavalo e se foi a toda disparada.

— Xeque Maomé, o que fôste fazer! — exclamou Halef.

— Thunder strom, que foi dar na veneta daquele sujeito! — bradou o inglês.

— Procedi corretamente, emir? — perguntou o chefe haddedihn.

— Procedeste como uma criança! — retruquei-lhe colérico.

— Eu tencionei satisfazer-te a vontade! — respondeu.

— Quem te disse ser desejo meu soltá-lo, já? Agora perdemos o nosso refém e nos achamos novamente em perigo!

— Allah istafer! — Deus que o perdoe! — exclamou Halef. — Partamos em perseguição do fugitivo!

— Não o alcançaremos mais! — ponderei. — Os nossos cavalos são inferiores ao seu; só mesmo o garanhão seria capaz de vencer-lhe o animal que monta.

— Amad sai já a persegui-lo! — gritou Maomé Emin. — Traze-o de volta ou mata-o se não o conseguires prender.

O filho do xeque virou o garanhão. Vencera uns quinhentos passos, quando o cavalo passou a corcovear negando-se a continuar a conduzi-lo. Mas Amad não era homem para se deixar arrojar assim sem mais nem menos ao solo. Naturalmente que cavalgamos em sua direção. Desaparecera numa curvataura e quando alcançamos a mesma, vimo-lo a uma distância novamente em luta com o cavalo. Aplicava o jovem haddedihn todas as suas forças e todas as suas habilidades, mas em vão. Finalmente o animal cuspiu-o da sela. O animal retrocedeu em disparada e veio parar ao meu lado, bufando alegremente e afagando-me a perna com a cabeça.

— Allah akbar, Deus é grande! — disse Halef. — Ele dota um cavalo de melhor coração do que a muitos homens! Que pena, sídi, que o teu sentimento de honra não permita reaver o nobre animal!

Amad levara uma não pequena queda e ao examiná-lo, constatei que não se ferira propriamente.

— Este garanhão é um demônio! — disse ele. — No entretanto antigamente conduzia-me com garbo!

— Tu te esqueces de que depois passei a montá-lo — esclareci-lhe — e eu o habituei a carregar apenas aqueles a quem eu dou permissão para isso.

— Jamais montarei este scheitan!

— Terias procedido com prudência se já antes não o tivesses montado. Tivesse eu estado no seu dorso aquele Gasahl não nos teria escapado.

— Monta-o agora, emir, e persegue-o — pediu-me Maomé Emin.

— Não me ofendas! — repliquei-lhe.

— Queres então que o bebbeh fuja?

— Ele fugirá de qualquer forma e por tua exclusiva culpa!

— Horrível! — exclamou o inglês. — Formidável asneira! Desagradabilíssimo! Yes!

-— Que vamos fazer, sídi? — perguntou Halef.

— Para capturar o bebbeh? Nada. Eu mandaria o cão em sua perseguição, se este não me tivesse tanto valor. Mas em todo caso, precisamos tomar uma resolução.

E dirigindo-me ao haddedin, informei-me:

— Quando pela manhã saí em caçada, falaste na presença do bebbeh a respeito do rumo que pretendíamos seguir?

Maomé Emin hesitou na resposta e Halef acudiu:

— Sim, sídi, eles falaram a tal respeito.

— Mas em árabe — desculpou-se o chefe haddedin.

Se a sua aparência não fosse tão respeitosa, não se escaparia ele de um corretivo em regra. Assim, limitei-me a censurá-lo com calma.

— Não procedeste com a devida precaução. Que disseste então?

— Que tencionávamos seguir para Bistan.

— Nada mais? Dá tento à memória! É indispensável para tomarmos uma resolução, sabermos agora palavra por palavra o que falastes. O mais insignificante pormenor que omitires pode acarretar-nos graves danos.

— Eu disse mais, que de Bistan provavelmente nos dirigiríamos a Kulwan, mas que em qualquer dos casos cavalgaríamos para Kizzeldschi, a fim de chegarmos ao lago Kiupri.

— Fôste um parvo, xeque Maomé Emin. Não tenho mais a menor dúvida de que o xeque Gasahl Gaboya agora reencetará a nossa perseguição. E continuas ainda pensando que estarias em condições de ser o nosso chefe?

— Emir, perdoa-me! Mas estou convencido de que os bebbehs não nos alcançarão mais. O xeque terá que cavalgar uma muito longa distância para encontrar a sua gente.

— Achas? Já visitei muitos povos cujos costumes estudei minuciosamente e por isso não me iludo de um modo tão fácil. O irmão do xeque é um homem leal mas não é ele o chefe dos bebbehs. Ele apenas conseguiu de sua tribo que pudéssemos partir sem nos acontecer alguma coisa, mas dou minha cabeça ao picador se depois a legião não nos veio seguindo à distância. Enquanto estivesse o xeque em nosso poder, nada precisaríamos temer, mas agora que ele conseguiu fugir precisamos tomar todas as precauções. Eles nos tirarão vingança de tudo, inclusive dos cavalos que lhes matamos.

— Não os precisamos temer, — consolou-nos Amad el Ghandur — pois exatamente devido aos cavalos que lhes matamos não poderão nos perseguir a todos. E mesmo no caso de virem, serão recebidos com nossas excelentes armas.

— Isto soa muito bem, mas o pior é que não será como pensas. Eles já constantaram que lhes somos superiores para uma luta em campo aberto. Portanto resolverão agora armar-nos uma emboscada ou assaltar-nos durante a noite.

— Postaremos sentinelas!

— Somos seis homens e exatamente este número será necessário para estarmos em segurança. Precisamos adotar outra medida de defesa que não esta que propões.

O nosso guia, o carvoeiro, mantinha-se um tanto afastado do grupo. Estava contrafeito visto que esperava ser censurado por haver permitido ao haddedin soltar o preso.

— Até que ponto do sul perambulam os bebbehs? — perguntei-lhe.

— Até além do lago — respondeu.

— E conhecem eles bem toda a zona?

— Oh! se conhecem! Tão bem quanto eu conheço qualquer montanha ou outeiro, desfiladeiro ou vale entre Derghezin e Miek, entre Nweizgieb e Dschenawera.

— Temos necessidade, — prossegui — de tomar outro caminho que o anteriormente planejado. Para o oeste não devemos rumar. É muito longe daqui até a cadeia principal das montanhas dos Zagro?

— Oito horas, se seguirmos em linha reta.

— E se não nos fôr possível seguir em linha reta?

— Conforme. Conheço um pouco abaixo daqui um passo. Se cavalgarmos em direção ao levante, poderemos pernoitar numa mata segura e amanhã quando o sol estiver no zenite chegaremos às montanhas do Zagro.

— Mas se não me engano, lá deve ser a fronteira persa.

— Realmente ali confina o território curdo Terratul com o distrito persa de Sakiz, que pertence a Sinna.

— Existem lá curdos dos dchiafs?

— Existem e são muito perigosos.

— Mas talvez nos acolham bem, visto que nada lhes fizemos. E também é possível que o nome do khan Heider Mirlam nos sirva de recomendação. Guia-nos ao passo de que falaste. Seguiremos para o leste.

Os companheiros concordaram todos com esta resolução. Depois de haver Amad el Ghahdur passado os arreios para o seu cavalo, partimos para o rumo combinado. Maomé Emin conduzia o garanhão pelo cabresto. O incidente desagradável e depois a fuga do bebbeh tudo enfim roubara muito tempo e já era quase meio dia quando atingimos o passo. Quando nos achamos em meio das montanhas, dirigimo-nos para leste, depois de havermos tomado todas as providências no sentido de não deixarmos vestígio de termos mudado de roteiro.

Em breve começou o terreno a se desenvolver numa depressão e soube então pelo carvoeiro que entre o ponto em que nos encontrávamos e a cadeia de Montanhas de Zagro havia um considerável vale a atravessar. O incidente da manhã causara uma sensível dissonância em nossa comitiva que antes vivia em fraternal cordialidade, dissonância que era notada principalmente em meu semblante. Eu não podia nem pôr os olhos no garanhão. O alazão não era lá um cavalo muito mau, mas os curdos não sabem domar convenientemente as suas montarias. Portanto eu montava aquele animal com indecisão, pois precisava estudar-lhe os defeitos e as manhas. Comprazia-me, na verdade, por ver caminhar o garanhão desmontado ao nosso lado.

À noitinha alcançamos o mato no qual iríamos acampar. Até então não havíamos encontrado pessoa alguma e no trajeto abatêramos várias caças, que constituiriam o nosso jantar da noite. Durante a refeição reinou sepulcral silêncio entre a comitiva. Finda esta, deitamo-nos a dormir.

A mim tocara o primeiro quarto da guarda e me recostara a uma árvore num dos flancos da mata. Daí a instantes, de mim se aproximou Halef e me perguntou em voz baixa:

— Sídi, estás triste? Estimarás mais aquele cavalo do que o teu fiel Hadji Halef Omar?

— Não, Halef, por ti eu daria mil cavalos iguais àquele.

— Pois então consola-te, que estou contigo e contigo ficarei sem jamais me separar de ti!

Dito o que, deitou-se ao meu lado a dormir, visto que o quarto seguinte seria o dele. Sentei-me, e ali permaneci envolvido pelo silêncio da noite. Vieram-me então, pensamentos de ordem sentimental: sonhava unir-me um dia a uma criatura que me amasse. Oh! quão feliz não seria o homem que vivesse tranqüilamente na sua pátria e possuísse não só uma esposa dedicada e carinhosa, mas ainda um filho no qual visse crescer e se desenvolver a sua própria imagem.

Na manhã seguinte reencetamos a jornada e em breve constatamos que Allo não se enganara. Divisamos, ainda antes do meio dia, os cumes das montanhas do Zagro e resolvemos então prodigalizar um descanso aos animais que se achavam fatigados da puxada que havíamos feito naquele dia. Fizemos parada num vale de paredes tão escarpadas que pareciam inacessíveis. Deixamos que os animais pastassem à vontade e deitamo-nos na relva, que era viçosa, visto ser o vale banhado por um arroio.

Lindsay deitara-se ao meu lado e resmungava alguma coisa que eu não compreendia. Estava de mau humor.

 

UMA “PESCARIA” ESTRATÉGICA QUE FALHA

De repente, ele soergueu-se e apontou para trás de mim. Virei e dei corn três homens que de nós se aproximavam. Trajavam vestes leves e xadrezadas, e não usavam chapéu ou coisa que o valha na cabeça; achavam-se armados apenas de faca. Em face daquelas míseras criaturas não valia a pena pegar das armas, como é de hábito em ocasiões tais. Pararam diante do nosso grupo e saudaram-nos respeitosamente.

— Quem sois vós? — perguntei-lhes.

— Somos curdos da tribo dos mer mammallis.

— Que fazeis por aqui?

— Incorremos numa vindita de sangue e fugimos para ver se encontramos guarida nalguma outra tribo. E quem sois vós?

— Viandantes.

— E que fazeis aqui?

— Descmsamos.

— Neste arroio há peixes. Permitis que pesquemos alguns?

— Mas não tendes nem rede nem anzóis!

— Pegamo-los à mão, no que estamos adestrados.

Eu notara que no arroio havia muita truta e como estivesse curioso em saber como se as pegava à mão, disse-lhes:

— Conforme já vos disse, somos estranhos nesta zona; portanto não nos cabe o direito de vos impedir a pesca.

Imediatamente começaram eles com o auxílio das facas a cortar capim. Quando já haviam cortado o suficiente, carregaram pedras para uma das curvaturas do arroio, a fim de ali improvisarem um dique. Daí a pouco, a parte do arroio que ficava além do dique secou e podiam-se pegar as trutas facilmente com as mãos. Aquela pesca, a despeito da sua simplicidade originalíssima, despertou o nosso interesse, pelo que tomamos também parte nela. As trutas, escorregadiças como são, nos escapavam constantemente das mãos de modo que precisávamos estar bem atentos. Farta fora a colheita; enquanto nela nos ocupávamos, esquecemo-nos dos três curdos, até que subitamente ouvimos um infernal brado do nosso guia:

— Atenção! eles vos estão roubando!

Olhei para cima e vi os três sujeitos já montados em nossos cavalos: um no garanhão, outro no meu alazão e o terceiro no cavalo de Lindsay. Antes que os companheiros se recobrassem do susto eles sairam em doida disparada.

— Ali devils! O meu cavalo! — exclamou Lindsay.

— Allah kehrim! Deus que nos seja misericordioso! O garanhão! — gritava Maomé Emin.

— No seu encalço, avante! — bradou Amad el Ghandur.

Eu fui o único que me portei com calma. Não se tratava de ladrões de cavalos e muito menos de homens desembaraçados do contrário não nos teriam deixado os outros cavalos.

— Pára! Espera! — gritei para Amad. — Maomé Emin, reconheces o garanhão como novamente de tua propriedade?

— Sim, emir!

— Bem! Não devo permitir que mo presenteies de novo. Mas queres me emprestar o garanhão por alguns minutos?

— Como, se ele também foi roubado?

— Responde-me depressa se queres emprestar?

— Claro que sim, emir!

— Então segue-me lentamente.

Pulei no lombo do melhor dos cavalos e saí em perseguição dos ladrões. O que eu previra sucedeu. Pouco adiante se achava o curdo mal seguro no garanhão que pinoteava violentamente, visando derribar o cavaleiro. Não me havia aproximado bem dele, quando foi cuspido do arreio. O garanhão voltou e ao meu chamado veio postar-se bem ao meu lado. Passei rapidamente para o seu dorso, deixando o outro cavalo parado, e saí a toda a brida.

O curdo se reerguera e procurava fugir. Puxei uma das pistolas, agarrei-a pelo cano e ergui o braço. Ao passar por ele desferi-lhe um coronhaço, que o deixou estirado no solo. Pus novamente a pistola na cinta e preparei o laço que trazia à cintura. Longe, já mais abaixo, vi os outros dois que prosseguiam em disparada. Pus a mão entre as orelhas do cavalo.

— Rih!

O animal voava mais rápido que um pássaro nos ares. Não se passou um minuto, quando eu alcencei o da retaguarda.

— Pára! Apeia imediatamente! — ordenei-lhe.

O homem olhou para trás; vi que se assustara. Não obedeceu, porém, e tocou mais ainda o cavalo. Atirei-lhe o laço certeiro; seguiu-se um tirão. Arrastei-o a uma pequena distância e depois parei para apear. O homem perdera os sentidos ao ser arrastado. Desenvencilhei-o do laço, fiz nova laçada e, montando novamente, persegui o terceiro e último deles. Não tardei a alcançá-lo também. O terreno era muito favorável, porque nem à direita e nem à esquerda havia caminho por onde ele se escapasse. Ordenei-lhe que parasse, mas desobedeceu-me também. Atirei-lhe o laço e ele teve a mesma sorte do companheiro, com a única diferença de não ter perdido os sentidos.

Apeei e passei-lhe o laço pelo ventre, erguendo-o depois. O seu cavalo parará trêmulo.

— Então eram estes os peixes que pretendíeis pegar à mão?! Como te chamas?

— O homem não respondeu.

— Como é isso! Há pouco não eras mudo. Não contes com nossa indulgência se não te decidires a responder-me.

Insistiu no seu mutismo.

— Bem, ficarás aí estirado, até os meus camaradas trazerem os outros dois.

Dei-lhe um empurrão que ele, por não se animar a mover-se caiu redondamente no solo. Sentei-me na relva à espera dos companheiros que vinham vindo a uma boa distância ainda. Dentro em breve, eles chegaram com os nossos cavalos e com os ladrões. O carvoeiro tivera a feliz idéia de, enquanto perseguíamos os curdos, enrolar na sua manta os peixes que pegáramos.

Acendemos um fogo e os preparamos como foi possível, visto que não tinham água e menos ainda temperos para os mesmos.

O bravo David Lindsay recuperara o seu bom humor. Mas muito desconcertados se achavam os pobres diabos aos quais obrigáramos a realizar uma tão formidável prova de equitação... Não se arriscavam nem a abrir os olhos.

— Por que pretendestes vos apoderardes dos nossos cavalos? — perguntei a um deles.

— Porque deles tínhamos muita necessidade, visto sermos fugitivos.

Era uma desculpa que eu aceitava tanto mais que o roubo de cavalo não constitui uma ação infamante.

— És ainda jovem. Teus pais estão na tribo?

— Estão, sim, tanto os meus como os dos outros; este aqui até tem mulher e um filho.

— Por que não falam os teus companheiros?

— Senhor, eles estão envergonhados.

— E tu não te envergonhas?

— Mas não deve haver um de nós que te responda às perguntas?

— Parece-me que não és um sujeito mau, e como tenho pena de vós, vou ver se consigo a indulgência dos companheiros para o vosso caso.

Foi em vão aquele meu esforço, pois todos, inclusive Halef e o inglês, sustentaram a sua opinião de que os curdos mereciam um corretivo qualquer. O inglês opinara até que deviam ser vergastados. Desistiu, porém, disso, ao lhe dizer eu que aquilo constituía o mais grave ultraje, incorrendo por isso na vingança de sangue, ao passo que para os curdos roubar cavalos constituía um ato cavalheiresco.

— Então não os vergastamos! — disse Lindsay — Well! Então lhes cortaremos os bigodes! Excelente! Pitoresco! Depois podem ir em paz! Yes!

Tive que me rir e transmiti aos outros o plano do inglês. Concordaram logo com ele. Os três homens foram segurados e dentro de alguns minutos só lhes restava um toco dos bigodes. Nenhum deles resistiu e menos ainda pronunciou uma palavra. Mas assustei-me ao notar os olhos hostis que nos dirigiram ao se retirarem.

Depois de algum tempo aprestamo-nos também para partir. Maomé Emin aproximando-se então de mim, disse:

— Emir, queres me fazer um favor?

— Qual?

— Quero emprestar-te o garanhão por hoje.

Sujeito astuto! Acreditou haver encontrado o meio de se reconciliar comigo e fazer com que pouco a pouco me fosse reapoderando do animal

— Agora não preciso mais dele — repliquei-lhe.

— Mas poderás precisar a todo momento, como sucedeu há pouco.

— Nessas ocasiões te pedirei.

— Mas pode bem acontecer que não tenhas tempo para isso. Monta-o, efêndi, visto que ele não permite que outro o monte!

— Pois sim, montá-lo-ei, mas com a condição de continuar ele sendo teu.

— Vá lá que seja!

Eu me achava com o espírito de reconciliação e aceitei a sua proposta, frisando embora que jamais o aceitaria novamente como meu. Mal sabia que o futuro me obrigaria à resolução bem diferente.

 

Hospedagem Cativante

Não tencionávamos subir as montanhas do Zagro; prosseguimos ao contrário pelo vale em que nos achávamos, sempre rumo do sul. Passamos, depois através de outeiros verdejantes e alcançamos finalmente, ao pôr do sol, um rochedo isolado e muito alto, por trás do qual resolvemos acampar. Contornamo-lo. Eu, que cavalgava na ponta, ao dobrar um dos ângulos do rochedo, quase que derribei a patas de cavalo uma jovem mulher curda, que conduzia um menino de uns quatro anos pelo braço. Ela ficou assustadíssima. Ali bem perto, na orla de um macegal se levantava um edifício de pedra que parecia não servir de residência a gente lá muito comum.

— Não te assustes, — disse à mulher, estendendo-lhe mesmo a mão para o cumprimento. — Que Alá abençoe a ti e a esta formosa criança! A quem pertence esta casa?

— Ao xeque Mahmud Khansur.

— De que tribo é o xeque?

— Dos dchiafs.

— Está ele em casa?

— Não. Raramente vem cá, pois esta casa é a sua residência de verão. Atualmente o xeque se acha longe, ao norte, onde se realiza uma festa.

— Já ouvi dizer. E quem mora aqui na sua ausência?

— O meu marido.

— Quem é o teu marido?

— Chama-se Gibrail Mamrahsch e é o mordomo do xeque.

— Permitir-nos-á ele pernoitarmos esta noite na sua casa?

— Sois amigos dos dchiafs?

— Somos forasteiros, vimos de longínquas terras e somos amigos de todos os homens.

— Espera! Vou falar com Mamrahsch.

Ela afastou-se e nós apeamos. Em breve veio receber-nos um homem que podia andar lá pela casa dos quarenta. A sua fisionomia era muito. franca e leal e o homem causou-nos a melhor impressão.

— Alá abençoe a vossa vinda nesta casa! — saudou-nos ele. — Sereis todos bem-vindos em nosso solar, se vos digneis nele entrar para passar a noite!

Inclinou-se diante de cada um de nós a quem estendeu a mão. Daquele gesto de cortesia, depreendia-se logo que nos achávamos em território persa.

— Tens igualmente lugar para os nossos cavalos? — informei-me.

— Lugar e também pasto suficiente. Poderão ser acomodados no pátio e se forragearem de cevada.

A propriedade era constituída de um muro de forma retangular, no interior do qual se achavam casa, pátio e jardim. Ao entrarmos, notamos logo que a casa dividia-se em duas partes distintas, independentes até no que dizia respeito à entrada. A porta de entrada para a secção dos homens abria-se para fora, ao passo que a entrada para os compartimentos destinados às damas ficava aos fundos.

Nós fomos, é claro, conduzidos pelo dono da casa para a secção dos homens, que media vinte passos de comprimento por dez de largura, espaço portanto mais que suficiente. Janelas não as havia na casa, que era arejada por enormes frestas formadas entre o telheiro e os intervalos dos caibros. Uma alcatifa de cortiça cobria todo o solo à guisa de assoalho, e em torno da parede, viam-se divas. Não eram muito altos esses divas, mas bastante cômodos para quem durante semanas se conservava sentado quase que permanentemente no serigote.

Fomos convidados a sentar-nos e depois o nosso hospedeiro, abrindo um cofre que se achava a um dos ângulos da casa, perguntou-nos:

— Tendes os vossos próprios cachimbos convosco?

Não se pode descrever como foi agradável a impressão que aquela pergunta nos causou. Tendo Allo ficado lá fora com os cavalos, éramos cinco dentro da sala. A pergunta tão amável daquele homem, todas as dez mãos e os cinqüenta dedos, se movimentaram em busca dos respetivos cachimbos, ao mesmo tempo que a resposta “temos” ecoou em harmonioso coro pela sala!

— Permiti então que vos ofereça fumo!

O homem passou-nos fumo, que de há muito fôramos obrigados a deixar de saborear, visto que não o encontrávamos à venda por onde passávamos. Era daquele excelente artigo amarelinho, acondicionado em pacotinhos quadriculares, plantado em Basiran, nas fronteiras do norte da Pérsia. Em dois tempos enchemos os cachimbos e mal as odoríferas espirais subiram ao teto da casa, chegou a mulher com o saboroso moca, do qual também nos víamos privados há tanto tempo. Como era natural, o homem com aquela acolhida hospitaleira, levantava-nos o moral, ainda um tanto abatido em virtude das lutas e incidentes dos últimos dias. Eu me achava em tão bom humor, que teria aceitado novamente o presente, não de um, mas de dez ou vinte garanhões, se Maomé Emin me oferecesse naquele instante. Zangava-me comigo mesmo por haver perdido tanto tempo na pesca, ou melhor, na colheita de trutas, ao invés de cavalgar diretamente para aquela casa. Assim é o homem: sempre e cada vez mais escravo da impressão do momento!

Tomei umas três ou quatro taças de café e com o cachimbo fumegando sai para o pátio a ver os cavalos. O carvoeiro ao me deparar de cachimbo aceso, fêz desprender do ponto de sua floresta de barba onde era de se supor estivesse situada a boca, um tão ansioso grunhido de desejo que eu, penalizado, voltei a pedir ao hospedeiro também um pouco de fumo de Basiran para ele. Ao lhe entregar o fumo, o carvoeiro, em vez de o pôr no cachimbo, levou-o à boca e passou a mascá-lo. Adotava sistema diferente para saborear o fumo.

O muro que cercava a casa tinha a altura de mais de um homem e portanto ali se achavam os animais em segurança, assim que se fechasse o pesado portão da entrada. Aquilo me deixou satisfeito e voltei para a sala, onde encontrei o hospedeiro palestrando em árabe com os companheiros.

Em breve, a hospedeira trouxe algumas lanternas de papel que espalhavam uma agradável meia luz no compartimento; depois trouxe-nos ela o jantar, que se compunha de assados de diversos pássaros, frios, que saboreamos com pão fabricado de farinha de cevada.

— Esta zona ao que parece é rica em aves — observou Maomé Emin.

— Riquíssima — declarou Mamrahsch. — O lago não fica muita distante daqui.

— Que lago? — perguntei-lhe.

— De Zeribar.

— Ah! de Zeribar, em cujo fundo sossobrou a cidade da maldição, que era edificada de puro ouro?

— Exatamente, Senhor. Já ouviste falar naquela cidade?

— A população era tão ateia que escarnecia de Alá e do profeta. Por causa disso o Onisciente mandou um terremoto que fêz sossobrar toda a cidade.

— Ouviste a verdade. Em determinados dias, vêem-se brilhar, quando se navega pelo lago, ao pôr do sol, os palácios e os minaretes de ouro, bem no fundo do lago, e aquele que fôr inspirado por Deus, ouve até a voz do Muezzin ressoar do fundo para a tona: ai aal ei sallah! — Sim, prepara-te para a oração! Depois vê também as pessoas soçobradas carregadas pelas ondas a Moschiah, onde oram e se penitenciam dos seus pecados.

— Também tu já viste e ouviste tudo isso?

— Não, mas o pai de minha esposa viu e ouviu e depois contou-me. Ele pescava no lago e testemunhou tudo quanto há pouco te relatei. Bem, permiti-me que agora eu vá fechar o portão. Deveis estar cansados e precisais, pois, de dormir.

O homem retirou-se e daí a pouco ouvimos o portão bater nos seus gonzos.

— Mister, um bom sujeito este! — disse o inglês.

— Claro. Não perguntou pelo nosso nome e nem pela nossa origem e finalidade. Legítimo espírito de hospitalidade oriental.

— Vou dar-lhe uma boa gorjeta, Well!

Daí a instantes voltou o dono da casa, trazendo travesseiros e cobertores para dormirmos.

— Nesta zona, além dos dchiafs, moram também bebbehs? — perguntei-lhe.

— Moram, mas muito poucos. Os dchiafs e os bebbehs não se estimam lá muito, não. Atualmente não encontrareis muitos dchiafs, porque a maior parte deles expedicionaram para cima, na direção do norte, visto que uma tribo dos bilbas se transferiu para as nossas fronteiras. São os mais selvagens sakeadores que há e supõe-se estejam eles a planejar assaltos e tropelias. Daí o motivo de haver nossa gente deixado a aldeia para ir pôr os seus rebanhos em lugar seguro.

— E tu ficas aqui?

— Assim determinou o meu Senhor.

— Mas se os sakeadores vierem, despojar-te-ão de tudo.

— Eles encontrarão apenas o muro e nada dentro dele.

— Mas poderão prender-te ou até matar-te.

— Também não me acharão. O lago é cercado de juncos e tremedais assaz atoladiços. Lá existem esconderijos que um estranho jamais dará por eles. Bem, agora permiti que me retire para que possais dormir!

— Esta porta aqui fica aberta? — perguntei-lhe.

— Fica; por que perguntas?

— Estamos habituados a nos revesarmos na guarda aos cavalos; por isso necessitamos de sair e entrar a qualquer hora da noite.

— Não precisais montar guarda, não; eu farei este serviço por vós.

— A tua bondade excede o nosso merecimento; mas pedimos que por nossa causa não sacrifiques tuas horas de repouso!

— Sois meus hóspedes e Alá ordena-me que vigie pela vossa segurança, Ele que vos conceda a graça de um bom sonho e de uma boa noite!

Sem o menor incidente gozamos da hospitalidade do curdo-dchiaf. Quando partimos na manhã seguinte, aconselhou-nos o hospedeiro que não rumássemos para o oeste, pois neste caso nos chocaríamos facilmente com os ladrões e ferozes bilbas; o melhor roteiro para tornarmos, acrescentou ele, seria procurarmos o rio Djalah e depois seguir sempre pela sua margem e daí ganhar a planície do sul. Eu não estava lá muito inclinado a seguir tal conselho, pois lembrei-me dos bebbehs com os quais nos podíamos chocar naquela zona, no caso de haverem eles continuado a nos perseguir. Mas o plano de tal modo mereceu a aprovação dos dois haddedins, que eu terminei por concordar com ele.

Depois de havermos presenteado, regiamente aliás, no modo de compreender daqueles povos, Mamrahsch e sua mulher, reencetamos a jornada. Numerosos curdos-dchiafs montados e por ordem do nosso hospedeiro nos acompanharam, a fim de nos assegurarem garantias individuais. Após algumas horas de cavalgada, atingimos o vale que corre entre as montanhas de Zagro e as de Aroman. Por este vale passa a célebre estrada Schamian que estabelece ligação direta entre Sulimania e Kormanscha. Fizemos parada num riacho.

— É este o rio Garran — disse o chefe dos dchiafs que nos acompanhavam. — Seguindo-lhe o curso que vai desaguar no Djalah, estareis no caminho que procurais. Agora de vós nos despedimos! Passai bem e tende muito feliz jornada! Que Alá vos guie!

O contingente voltou e nós ficamos novamente entregues a nós mesmos.

 

A MORTE DO HADDEDIN

No dia seguinte atingimos o Djalah que conduz para Bagdad. Fizemos alto à sua margem a fim de fazermos a nossa refeição do meio dia. Era um dia resplandecente de sol, de que jamais me esquecerei. À nossa direita ouvia-se o murmúrio das águas do rio; à esquerda elevava-se o declive suave de um outeiro, sombreado por copados acerais, plátanos, castanheiras e cornisos; diante de nós, pouco a pouco surgia o espinhaço de uma elevação cujas coroas de rochedos despenhadiços rebrilhavam para baixo, qual as ruínas de um castelo feudal.

A esposa de Mamrahsch suprira de provisões os nossos farnéis, mas estas provisões já haviam terminado; peguei então da espingarda para ver se abatia alguma caça para o nosso sustento. Segui o citado espinhaço de elevação durante bem meia hora sem encontrar a mínima caça e dirigi-me, por este motivo, novamente para o vale. Não atingira ainda este, quando ouvi a detonação de um tiro, seguida de outra. Quem teria atirado? Apressei o passo para alcançar o mais depressa possível os companheiros. Quando lá cheguei, encontrei apenas o inglês, Halef e Allo.

— Onde estão os haddedins? — perguntei-lhes.

— Em busca de caça — respondeu Lindsay.

Também eles ouviram os estampidos, mas supuseram que fossem das armas dos haddedins. Agora detonaram novamente três tiros e pouco depois mais um.

— Por amor de Deus, montemos depressa! — exclamei. — Algo de grave aconteceu.

Montamos e galopamos para a frente. Allo seguiu-nos mais devagar, porque conduzia os animais dos haddedins. Mais dois tiros foram desfechados, seguidos depois de alguns tiros de pistola.

— Um combate, mas um combate de verdade! — exclamou o inglês.

A galope, invadimos o prado cercado pelo rio e depois de dobrar uma curvatura vimos o teatro da luta tão próximo de nós que nela logo passamos a tomar parte. À beira do rio, achavam-se deitados alguns camelos na relva. Não tive tempo de contar o número dos animais. Vi ao lado dos animais um monte de objetos cobertos, à direita junto do penedo uns seis a oito vultos estranhos que se defendiam de uma maioria de curdos e bem à nossa frente se achava Amad el Ghandur a se defender a golpes de coronhas contra um monte de inimigos que o cercavam. Bem ao seu lado jazia Maomé Emin como morto. Aqui de nada valiam perguntas e mostras de fraquezas. Invadi o novelo de curdos, depois de haver deflagrado a espingarda.

— Aí está ele, aí está ele! Poupem-lhe o cavalo! — ouvi uma voz comandar.

Virei-me e reconheci o xeque Gasahl Gaboya. Mal pronunciara a última palavra, Halef cavalgou de encontro a ele e bateu-lhe com a espingarda. Seguiu-se um combate cujas minúcias não me animo a descrever, porque, dado ao fragor da luta, eu próprio delas não me lembro. O quadro do haddedin morto produzira uma impressão desoladora. De fúria, teríamos investido contra mil lanceiros se estes nos atacassem. Lembro-me apenas de que do meu corpo escorria sangue, que do corpo do cavalo escorria sangue, que os tiros detonavam-se uns após outros e que as balas inflamadas passavam-me diante dos olhos; que eu aparava golpes e repelões e que ao meu lado sempre permanecia um vulto auxiliando-me a aparar os golpes que me eram destinados; era o pequeno Halef. Numa dessas, cai o cavalo com uma punhalada no pescoço, punhalada que fora desferida contra mim. Nada mais vi nem ouvi.

 

UM ENCONTRO PROVIDENCIAL

Quando me acordei dei logo com os olhos no meu pequeno Hadji; estava lacrimoso.

— Hamdulillah — Graças a Alá que ele ainda vive! — Ele abre os olhos! — exclamou o meu fiel e dedicado criado, cheio de entusiasmo. — Sídi, ainda sentes dores?

Quis responder-lhe mas não pude. Achava-me tão fatigado que as pálpebras caíam-me.

— Ia Allah, ia Allah, ia jazik, ia wai! Santo Deus, Santo Deus, ele morre! — Ouvi-o ainda exclamar chorando. Depois caí em novo letargo.

O resto foi-me como um sonho, como um pesadelo. Eu lutava contra dragões e gigantes; subitamente, porém, desapareceram os vultos hediondos; uma suave fragrância fêz-se sentir depois ern torno de mim; sons brandos e melodiosos soavam-me aos ouvidos como se fossem vozes angélicas e quatro mãos quentes cuidavam de mim. Continuava agora tudo aquilo a ser sonho como dantes ou era realidade? Abri novamente os olhos.

O sol ia morrendo por trás das montanhas e coloria o céu de maravilhosos tons; o vale jazia no lusco-fusco. Mas a parca claridade ainda permitia admirar a beleza das duas mulheres que se inclinavam para mim.

— Dirigha bija! Vamos-nos embora! — exclamaram enquanto deixavam os véus cair-lhes sobre os rostos; e elas se retiraram a correr.

Procurei soerguer-me do chão e o consegui. Nesse movimento, notei que me achava ferido abaixo da clavícula. Conforme vira a saber mais tarde, levara eu um lançaço naquela região do corpo. Também o resto do corpo doía-me. Era como se me houvessem supliciado. A ferida me haviam amarrado com todo o cuidado e a fragrância que eu sentira há pouco continuava a bafejar-me.

Nesse instante chega Halef e exclama:

— Allah kerihm! Deus é misericordioso, porque te devolveu a vida. Louvado seja ele para todo o sempre!

— Como conseguiste escapar, Halef? — perguntei-lhe exausto.

— Muito bem, sídi. Recebi um tiro na coxa; a bala fêz-me um orifício e atravessou a perna.

— E o inglês?

— Recebeu um tiro de raspão na cabeça e perdeu dois dedos da mão.

— Pobre Lindsay! E que mais?

— Allo recebeu muitas pancadas mas não verteu sangue algum.

— E Amad el Ghandur?

— Não foi ferido mas não fala mais.

— E seu pai?

— Morreu. Que Alá lhe dê o paraíso!

Halef, tendo dito isso, conservou-se em religioso mutismo e eu fiz o mesmo. A confirmação da morte do meu velho amigo comovia-me. Só -depois de uma longa pausa perguntei:

— E que é feito do meu garanhão preto?

— Os ferimentos por ele recebidos são dolorosos mas não são graves. Queres que te fale sobre eles?

— Agora não. Vou tentar reunir-me aos demais. Por que me separaram de vós?

— Porque as mulheres do persa tomaram a si os teus curativos e tratamento. Ele deve ser um homem rico e de distinção. Já acendemos uma fogueira e tu o encontrarás agora em torno da mesma.

Ao erguer-me de um todo do solo senti algumas dores, mas com a ajuda de Halef pus-me de pé. Também me foi possível caminhar. Perto do local onde eu tombara, ardia uma fogueira para a qual me conduziu Halef. O vulto esbelto do inglês me veio ao encontro.

— Behaold, aí está, mister! Levou uma famosa queda mas possui valentes costelas ao que parece. Tomamos o seu desmaio por morte. Yes!

— E o que sucedeu ao senhor? Está com a cabeça e a mão atada!

— Levei um arranhão exatamente na região em que os frenólogos supõem estar o juízo. Perdi alguns cabelos e também um pedacinho de osso; mas isso não quer dizer nada. Yes! Claro que também dois dedos se foram. Vá lá que seja. Não me faziam mesmo grande falta aqueles dedos!

Juntamente com o inglês, outra figura que se achava em torno da fogueira se ergueu. Era um homem de postura respeitosa e de bela estatura. Ele usava sirdchame (1) comprido e manufaturado em tecido de seda vermelha, uma pirahan (2) de seda branca e um alkalik justo e que vinha até aos joelhos. Sobre este ele

 

(1) Pantalonas.   

(2) Camisa.

 

tinha ainda uma kaba (3) azul-marinho e um balapusch de finíssima seda. Num fino kaschmir que lhe cingia a cintura reluziam uma espada de preço, duas pistolas de cabos dourados, um punhal e o kinschals (4). Tinha os pés metidos em botas de montaria feitas de saffian; à cabeça usava um boné de couro de cordeiro envolto num custoso chalé de seda.

Aproximou-se de mim, fêz uma inclinação e saudou-me.

— Mi newahet kjerdem tura. — Aceita os meus cumprimentos!

— Ali scheker kjerdem tura! Muito te agradeço! — respondi-lhe no mesmo tom de profunda cortesia, inclinando-me também.

— Emir, neberd azmai. — És um perito em combate!

— Mir, pahawani — Senhor és um herói!

— Puradarem tu. — És meu irmão!

— Wafaldarem tu! — Sou teu amigo!

Apertamo-nos as mãos. Depois teve ele a delicadeza de dizer-me:

— Já me disseram como te chamas. Quanto a mim, trata-me de Hassan Ardschir-Mirza e considera-me um servo ao teu dispor!

Ele era portador do título Mirza que na Pérsia é usado pelos príncipes; portanto tratava-se de uma personalidade importante.

— Recebe-me tu também a mim debaixo do teu comando! — respondi-lhe.

— Esses oito homens me foram confiados, irás conhecê-los.

A essas palavras apontava o persa para oito figuras que em atitude respeitosa ali se achavam, e prosseguiu:

— Tu és o senhor deste acampamento. Senta-te.

— Acedo ao teu desejo, filho da nobreza que te exorna o sêr. Mas permite que antes vá consolar aquele meu companheiro.

Não muito distante da fogueira jazia o corpo de Maomé Emin. Junto dele e de costas para nós se achava sentado seu filho Amad el Ghandur. Acerquei-me dele. O velho haddedin fora atingido na testa por uma bala e suas barbas nevacentas estavam tintas do sangue que lhe escorria de uma ferida que recebera no pescoço. Ajoelhei-me diante dele em mutismo religioso e com o coração cheio de dor. Só depois de muito tempo é que consegui acalmar a minha perturbação e pus a mão sobre o ombro de Amad!

— Amad, lamento contigo a morte do teu extremoso pai, acredita-me!

Não me respondeu e nem moveu um só músculo. Esforcei-me por fazê-lo falar mas em vão. Era como se a dor o tivesse convertido numa estátua. Tornei para junto da fogueira a sentar-me ao lado do persa. Por esta ocasião quase que tropecei no carvoeiro que deitado de bruços gemia baixinho.

Examinei-o. Não sofrerá ele o menor ferimento, mas recebera algumas bordoadas e repelões que ainda agora lhe causavam dores. Consegui consolá-lo.

Também Hassan Ardschir-Mirza sairá ileso da luta, o que não se dera com sua gente. Esta, no entretanto, não deixava perceber o menor sina! de que sentia dores.

— Emir, — disse-me o persa — tu chegaste bem a tempo. Salvaste-nos a todos!

 

(3) Peça do vestuário parecido com colete.

(4) Casaco-alfange, tipo de faca destinada a decapitações

 

— Compraz-me em te haver servido!

— Vou relatar-te como se deu tudo.

— Permite-me antes que te peça algumas indispensáveis informações! Fugiram os curdos?

— Fugiram. Mandei dois dos meus servos segui-los, a fim de me informarem, de volta, para onde se dirigiram. Eram quarenta. Eles perderam muitos de seus guerreiros, ao passo que nós só temos a morte de um a lamentar, a do teu inditoso companheiro. Para onde conduzem os vossos caminhos?

— Para o território das pastagens dos haddedins, na margem oposta do Tigre. Fomos obrigados a fazer esta volta.

— E os meus para o sul. Ouvi dizer que estiveste em Bagdad?

— Mas demorei-me pouco tempo.

— Conheces o caminho para lá?

— Não conheço, mas é fácil de achá-lo.

— Também o de Bagdad a Kerbela?

— Também este. Pretendes ir a Kerbela?

— Pretendo. Tenciono visitar em romaria o túmulo de Hossein.

Aquela notícia sobremodo me agradou. Portanto o homem era um chiita; intimamente, eu desejava poder fazer com ele aquela interessante viagem.

— Como fôste tomar o caminho destas montanhas? — perguntei.

— Visando evitar os salteadores árabes, que nos caminhos dos peregrinos, estão permanentemente à espreita de presas.

— Em compensação, porém, vieste a cair nas mãos dos curdos. Procedes de Kirmanscha?

— De mais longe ainda. Desde ontem que já estávamos aqui acampados. Um dos meus servos fora ao mato e de longe avistou os curdos que se aproximavam. Também eles o avistaram. Perseguiram-no e conseguiram chegar ao acampamento de modo a nos colherem de surpresa. Durante o combate, em que esperávamos perecer, apareceu-nos o valente ancião que ali jaz morto. Ele fêz tombar dois curdos varados por suas balas e passou logo a participar do combate. Depois chegou seu filho que revelou a mesma valentia e bravura do pai; contudo teríamos perecido se vós outros não chegásseis. Emir, a ti pertence minha vida e tudo que possuo! Faze que o teu caminho nesta jornada seja tanto quanto possível o mesmo que o meu!

— Eu quisera de coração que o pudesse! Mas temos um morto e nos achamos feridos. O morto precisa ser sepultado e nós teremos que ficar aqui mais uns dias, do contrário seremos acometidos de febre proveniente dos ferimentos.

— Pois também ficarei, visto que meus servos foram também feridos.

Em meio da nossa palestra, lembrei-me de que ainda não vira Dojan. Perguntei ao inglês por ele mas não me soube informar a respeito. Halef se lembrava de ter visto o fiel cachorro participar da luta, mas só isso.

Os servos do persa trouxeram abundantes vitualhas que foram preparadas no fogo. Depois da refeição, levantei-me para fazer um reconhecimento pelas redondezas do acampamento e procurar Dojan. Halef acompanhtu-me. Antes dirigimo-nos aos cavalos. O pobre garanhão se achava deitado. Ele recebera, além do ferimento com a lança, um bem incisivo tiro de raspão, mas fora cuidadosamente pensado por Halef. Por ali perto se achavam deitados os camelos. Eram cinco que no momento ruminavam; estava demasiadamente escuro para que lhes pudesse julgar o valor. A seu lado se achavam as cargas por eles conduzidas e mais adiante a tenda das mulheres.

— Tu me viste cair, Halef. Como se deu a queda?

— Pensei que estivesses morto, sídi e este pensamento me deu forças de um louco. Também o inglês estava sedento de vingança e por isso os homens tiveram muito serviço conosco. O persa é um homem muito valente bem como os seus servos.

— Não fizeste presas?

— Armas e alguns cavalos, que nem notaste com a escuridão, agora quando por eles passaste. Aos mortos mandou o persa lançar ao rio.

— Entre os que foram atirados no rio, não haveria algum apenas ferido e desacordado?

— Não sei. Depois da refrega examinei-te e constatei que teu coração ainda batia. Quis te pensar, mas o persa não permitiu. Mandou conduzir-te para o lugar onde há pouco estavas deitado, e as mulheres é que se encarregaram do teu tratamento.

— Que soubeste a respeito dessas mulheres?

— Uma delas é a mulher e a outra uma irmã do persa. Elas têm uma velha serva que se acha permanentemente sentada na tenda a mastigar tâmaras.

— E o persa? Quem é ele?

— Não sei. Os servos não o dizem. Deve-lhes ser vedado revelar a personalidade do seu amo e eu penso que...

— Pára! — atalhei-o. — Ouve!

Haviamo-nos afastado de tal modo do acampamento que não ouvíamos mais os rumores que de lá vinham; em volta, reinava profundo silêncio. Enquanto falava Halef, foi como se eu tivesse ouvido uns uivos muito meus conhecidos. Paramo-nos à escuta. Realmente mais perceptível se tornara agora o latido que o galgo costumava proferir ao derrubar uma presa. Mas não nos apercebêramos ainda da direção de onde partiam os latidos.

— Dojan! — gritei.

A este brado recebi uma resposta muito nítida: vinha do macegal que cobria a escarpa. Galgamo-la vagarosamente. Para melhor me orientar, chamava de quando em quando pelo cachorro, que sempre me respondia. A seguir ouvimos-lhe os latidos com que costumava ele significar a sua alegria. Isto nos conduziu diretamente ao local em que o animal se encontrava. No chão jazia um curdo e sobre ele o cão pronto para o bote mortal. Inclinei-me a contemplar o homem. Não me era possível distinguir-lhe a fisionomia, mas o calor do seu corpo provava que ainda se achava com vida, embora não se arriscasse ele a mover-se.

— Dojan, larga!

O cão obedeceu-me imediatamente e ordenei ao curdo que se levantasse. Ele o fêz e respirou profundamente o que provava haver passado por não pequeno susto. Interroguei-o e ele afirmou ser um curdo da tribo dos sorans. Como esta tribo é inimiga mortal dos bebbehs suspeitei ser ele um bebbeh que se dizia falsamente um soran, para salvar-se.

Perguntei-lhe por isto:

— E como vens aqui e nesta posição, se é verdade que és um soran?

— Pareces ser um forasteiro neste país, visto me fazeres tal pergunta — retrucou-me o homem. — A tribo dos sorans era grande e poderosa. Morava ao sul de Bulbas, e se formava de quatro tribos: rumok, manzar, piran e namash e possuía a sua sede em Harrir, a melhor cidade do Curdistão. Mas Alá deixou de protegê-la tirando-lhe as forças e o poder e passando-os para os inimigos. A sua última aldeia foi fixada na região do Keuy Sandschiak; mas um belo dia lá apareceram os bebbehs e destruíram-na. Os bebbehs roubaram-lhes os rebanhos, as mulheres e as moças levaram-nas eles consigo e os homens, rapazes e meninos mataram-nos. Apenas poucos se salvaram e vivem isoladamente dispersos por outras zonas. Aos primeiros pertenço eu, que moro lá em cima entre os penedos; minha mulher faleceu, meus filhos e irmãos foram assassinados. Não possuo nem um cavalo e minhas armas se resumem numa faca e numa espingarda. Hoje ouvi tiros e desci a apreciar o combate. Vi que se tratava de meus inimigos, os bebbehs, e fui buscar a minha espingarda. Açoitado por trás de árvores abati mais de um; matei-os por vingança e porque pretendia apossar-me de um dos seus cavalos. Ainda acharás a bala de minha espingarda nos seus corpos. Nesse entretempo, o teu cão viu o fogo de minha espingarda e tomou-me por um inimigo. Atacou-me. Eu deixara cair a faca e a arma não fora carregada novamente. Procurei defender-me com o cano da arrua e recuei; o animal, porém, atirou-me finalmente ao solo. Notei que ele me estraçalharia se me aventurasse a fazer o menor movimento e por isso fiquei imóvel até agora. Foram horas horríveis as por que passei!

Via-se que o homem falava a verdade. Não obstante, porém, eu precisava proceder com toda cautela.

— Queres mostrar-nos a tua residência? — perguntei-lhe.

— Pois não! É uma choupana de musgos e galhos de arbustos, com o interior alcatifado de capim e folhas secas.

— Onde está tua espingarda?

— Deve estar por aqui.

— Procura-a.

O curdo afastou-se em procura da arma, ao passo que nós ficamos parados no mesmo lugar.

— Sidi, — cochichou Halef — ele é capaz de fugir.

— Se fôr um bebbeh, sim. Mas se realmente é um soran, voltará e então podemos confiar nele.

Não foi preciso esperarmos muito, pois o homem chamou para cima:

— Desce, Senhor! Achei tanto a espingarda como a faca. Descemos. O homem, pois, parecia ser sincero.

— Acompanhar-nos-ás agora ao acampamento! — disse-lhe eu.

— De boamente, Senhor — respondeu-me. — Mas não poderei falar com o persa, porque só conheço o idioma curdo e a língua dos hagaris .(5)

— Falas corretamente o árabe?

 

(5) Árabe.

 

— Falo, desci até além do mar e até além do Eufrates e conheço toda a zona e todos os caminhos.

Eu folgava com aquilo, porque era vantajoso para nós o encontro com aquele homem. O seu aparecimento despertou a atenção no acampamento; maior impressão causara, porém, ele a Amad el Ghandur, que ao avistar o curdo saiu imediatamente do seu torpor espiritual e ergueu-se.

O jovem xeque dos haddedins tomou o soran por um bebbeh e levou logo a mão ao punhal. Pus-lhe então a mão ao ombro e lhe esclareci que o homem era um inimigo dos bebbehs e que se achava debaixo de minha proteção.

— Um inimigo dos bebbehs! Porventura os conheces? Como também o seu caminho? — perguntou ele então precipitadamente ao soran.

— Conheço-os — respondeu-lhe o homem.

— Então depois continuarei a falar contigo.

Dito o que virou-se o rapaz e tornou a sentar-se junto ao corpo do pai. Narrei ao persa a maneira como eu encontrara o soran e ele concordou em acolhê-lo no acampamento.

Mais tarde voltaram os nuker (6) e anunciaram que os bebbehs haviam cavalgado um bom trecho ao sul e depois fazendo uma volta para a direita, volveram ao monte de Merivan. Não precisávamos pois receá-los mais e os persas se deitaram a dormir depois de havermos tomado em conjunto as medidas de precauções que a nossa situação exigia.

Procurei Amad el Ghandur e pedi-lhe que repousasse também um pouco.

— Repousar? — exclamou ele. — Repouso só o tem um: este morto aqui. Infelizmente não irá repousar na necrópole dos haddedins, na terra dos filhos de suas tribos que o choram; ele dormirá o sono da morte em terra estranha, sobre a qual estará eternamente suspensa a maldição de Amad el Ghandur. Ele saíra de sua tribo para me reconduzir à pátria. E achas que volverei agora à minha pátria antes de vingar a sua morte? Vi a ambos: o que lhe desferiu a punhalada e também o que lhe alvejou a testa com uma bala. Ambos conseguiram escapar-me, mas os conservo bem na retina e hei de mandá-los para o Scheitan.

— Compreendo a tua cólera e compunge-me a tua dor; mas suplico-te que não percas a noção das cousas. Queres perseguir os bebbehs, para vingar a morte do teu extremoso pai. Já refletiste o que significa isso?

— A lei da vingança de sangue ordena-o e o meu dever é obedecê-la. És cristão, emir, e por isso não podes compreender estas coisas.

Conservou-se em silêncio, por algum tempo e depois perguntou-me:

— Acompanhar-me-ás, emir, na perseguição aos bebbehs? Respondi-lhe negativamente e ele, baixando a cabeça, replicou:

— Eu bem que sabia haver Alá feito um mundo onde não existe a verdadeira amizade e o sentimento de gratidão.

— Tu é que te aferras a um falso ponto de vista acerca do que seja a verdadeira amizade e o sentimento de gratidão — redargüi-lhe. — Lança um olhar retrospectivo aos acontecimentos dos últimos tempos e concluirás fatalmente que sempre fui um verdadeiro amigo do teu pai e por isso devias me ser grato. Estou

 

(6) Pájens.

 

pronto a acompanhar-te, com risco de minha vida, aos campos de pastagens dos schammares; mas exatamente por ser teu amigo, devo impedir-te que te lances a um perigo, no qual perecerás inutilmente.

— Repito: és cristão e como cristão falas e procedes. O próprio Alá quer que eu vingue a morte de meu pai, porque hoje de noite deu-me ensejo para isto. Peço-te que me deixes só!

— Vou satisfazer-te esta vontade; mas peço-te que nada empreendas sem antes combinar comigo.

O jovem haddedin afastou-se sem me responder. Depreendi dos seus gestos, que tomara uma resolução e temia que eu o impedisse de levá-la a efeito. Resolvi, à vista disso, observá-lo.

Quando me acordei na manhã seguinte ele continuava sentado no mesmo lugar, mas agora em companhia do soran. Palestravam animadamente e pelos gestos parecia ser grave o assunto de que tratavam. Também os demais companheiros se achavam de pé. O persa estava sentado em frente à tenda e conversava com as duas mulheres; estas tinham as faces envoltas em densos véus.

— Emir, vou sepultar o papai. Vós me ajudareis no trabalho e participareis da cerimônia? — perguntou-me Amad el Ghandur.

— Sim. Onde deve ser ele sepultado?

— Este homem aqui me informou que lá em cima entre os rochedos há um lugar que o sol saúda pela manhã, ao surgir, e à noite, ao se-pôr no ocaso. Eu agora vou lá examinar o local.

— Acompanhar-te-ei — respondi-lhe.

Mal notara o persa que me levantara, acercou-se pressurosamente de mim a trazer-me a sua saudação matinal e ao saber que tencionávamos subir aos penedos, ofereceu-se para nos acompanhar. Encontramos no ápice da montanha um enorme rochedo e na sua chapada resolvemos erigir o túmulo de Maomé Emin. Ali perto estava a palhoça do soran e ao redor da mesma um descampado que se prestava maravilhosamente para nele acamparmos, tanto mais que o mesmo era banhado por uma vertente de água. Realizamos uma conferência em que ficou resolvido ficarmos ali e buscar os animais e todos os havêres nossos.

O transporte foi difícil, mas conseguimos afinal efetuá-lo. Enquanto os que sairam incólumes e os pouco feridos cuidavam da ereção do túmulo, os outros construíam uma palhoça com paredes de certa espessura, para separar as mulheres dos homens. Como os cavalos não suportam a exalação dos camelos, separamos aqueles destes.

 

AS CERIMÔNIAS FÚNEBRES

Ao meio dia o acampamento estava organizado. O persa possuía abundantes provisões de farinha, café, fumo e outras vitualhas indispensáveis. Carne poderíamos obtê-la facilmente, pois a região era abundante em caças. Desse modo, estávamos a coberto de sofrermos privações.

O túmulo só mais tarde é que ficou concluído. Em forma de cone, tinha a altura de oito pés e todo ele foi erigido de pedras. O sepultamento se deveria realizar à hora do Mogreb. O próprio Amad el Ghandur preparou o cadáver para o enterro, muito embora, segundo os ensinamentos de sua religião, ele se impurificasse com aquilo.

O sol aproximava-se do horizonte, quando o pequeno préstito fúnebre se movimentou. À frente ia Allo e o soran conduzindo o morto numa liteira improvisada com ramos de árvores; nós outros seguimo-los dois s dois e Amad esperava o cortejo junto do túmulo. A abertura do mesmo estava voltada para sudoeste exatamente na direção da Kibbla de Meca e quando nela se depositou o corpo do morto este ficou com as faces voltadas na direção do lugar em que o profeta dos muçulmanos recebeu a visita e a inspiração do anjo.

Amad el Ghandur mortalmente pálido acercou-se de mim e perguntou-me:

— Emir, és um cristão, não há dúvida; mas estiveste na cidade santa e conheces o livro sagrado. Queres prestar a tua derradeira homenagem ao teu amigo morto, pronunciando-lhe a sura fúnebre sobre o corpo?

— De boamente e também pronunciarei a sura do encerramento.

— Então demos início às cerimônias!

O sol desaparecia no poente e todos se prostraram a rezar o Mogreb (7) em religioso silêncio. Depois levantamo-nos, formando um semicírculo em torno do túmulo. Foi um momento cheio de unção. O morto se achava em posição sentada na sua derradeira morada. O sol lançava purpúreos raios sobre o seu pálido semblante e a forte aragem que soprava na montanha fazia tremer-lhe as nevacentas barbas. Amad el Ghandur postou-se na direção de Meca, ergueu suas mãos postas e orou:

“Em nome de Deus todo misericordioso! Graças e louvado seja Deus, o Senhor dos Mundos, que reinará no dia do Juízo. A Ti queremos servir, e para Ti queremos suplicar que nos conduzas ao verdadeiro caminho, ao caminho daqueles que se alegram com as tuas graças e não ao caminho daqueles que incorrem na tua cólera e nem ao caminho dos errantes!”

Agora também ergui eu como ele as mãos postas e pronunciei a setuagésima quinta sura do Koran, intitulada Ressurreição e assim concebida:

“Em nome de Deus todo Misericordioso! Juro pelo dia do Juízo Final, juro pelas almas dos que a si mesmos se acusam: pretende realmente o homem crer que um dia não lhe juntaremos os ossos? Em verdade lhos uniremos, mesmo o menor osso de suas falangetas; contudo o homem sempre está predisposto a renegar mesmo o que está diante dele. Ele pergunta: Quando chegará o dia da ressurreição? Quando os olhares lhe obscurecerem, a lua se apagar e fizer junção com o sol, então neste dia perguntará o homem: Onde há por aí um local para refúgio? Mas será em vão pois então já não mais haverá um local de salvação. Vós amais a vida que passa e não curais da vida futura. Algumas fisionomias se iluminarão neste dia a contemplar o seu Senhor; outras, porém, terão um aspeto triste, pois pesadas aflições cairão sobre elas. Seguramente! Esses homens verão suas almas subir, àquela hora, até a garganta e os circunstantes dirão: Quem lhes ministrará uma bebida mágica para a sua salvação? Então será chegada a hora da partida; colar-se-á membro por membro e eles serão conduzidos à presença do Supremo Juiz, porque

 

(7) Oração ao pôr do sol.

 

não creram e nem oraram. Por isso ai de ti, ai de ti! Mais uma vez, ai de ti, ai!

Pensa o homem que está em plena liberdade? Não constitui ele uma semente lançada na seara? Nesta base, formou-o Deus e dele fêz um homem. E Ele que assim o fêz não disporá de poder de despertar nele uma nova vida?”

Dirigi-me depois ao morto e orei:

“Allah il Allah! Ha um só Deus e nós todos somos seus filhos. Ele conduz-nos pela sua mão e nos conserva a todos à sua direita. Ele nos fêz irmãos e nos enviou para a terra, para servi-lo e para alegrá-lo na harmonia da sua graça e misericórdia. Ele nos faz crescer o corpo e desenvolver a alma até esta ansiar pelo céu. Depois manda Ele o anjo da morte livrá-la e conduzi-la para o alto, para a fonte em que se bebe a vida eterna. A alma então estará livre de dores e sofrimentos e não dará atenção aos que choram sobre os outeiros das sepulturas. Aqui jaz Hadji Maomé Emin Ben Abdul Mutaher es Seim Ibn Abu Merwen Baschar esch Schohanah, o valente xeque dos haddedins da tribo dos esc schammar. Foi um dileto de Alá; dos seus lábios jamais brotou a mentira e de suas mãos derramavam-se benefícios pela imensidade das cabanas em que habita a pobreza: era um herói nos campos de batalha; era amigo dos seus amigos; era temido pelos inimigos, e respeitado por todos quanto o conheciam. Por isso Alá não quis que ele morresse na penumbra de sua tenda, mas enviou o Abu Dschajah (8) a buscá-lo em pleno combate do lado dos guerreiros que o cercam no presente instante. Agora o seu pó volverá à terra. A sua fisionomia dirige-se para Meca, a áurea, mas a sua alma está diante do Onipotente a contemplar os esplendores, que olhos mortais não podem penetrar. Dele é a vida agora, e nosso o consolo de que um dia estaremos ao seu lado, quando Isa Ben Marryan (9) tiver de julgar os vivos e os mortos”.

Agora Allo e o soran se aproximaram a fechar o sepulcro. Eu já ia retomar a palavra, quando o persa me fêz um aceno e veio à frente e rezou algumas frases da octogésima segunda sura:

“Em nome de Deus todo Poderoso! Quando o céu se fender e as estrelas se dispersarem, os mares se confundirem e os túmulos se abrirem; então cada uma das almas saberá o que fêz e o que deixou de fazer. Assim é e no entanto renegam o dia do juízo final. Mas sobre vós estão postados guardas que tudo anotam e tudo vêem o que fazeis. Os justos auferirão os gozos e doçuras do paraíso; os maus, porém, os tormentos do inferno. Neste dia nem uma alma dominará a outra por que o único poder será o que emana de Deus!”

Neste ínterim foi entaipado o nicho que guardava o cadáver e chegara, pois, o momento da oração final. Desta também eu me encarregara, mas Halef adiantou-se. Os olhos do bravo e pequeno Hadji se debulhavam de lágrimas e sua voz tornou-se trêmula ao dizer:

— Quero orar!

Ajoelhou-se de mãos postas e orou:

“Vós ouvistes que todos somos irmãos e que Alá nos reunirá a todos no dia do Juízo final. Lá no ocaso desapareceu o sol e amanhã ele ressurgirá com todo o seu esplendor; assim também nós ressurgiremos lá em cima depois que aqui

 

(8) Anjo da morte.

(9) Jesus.

 

morrermos. Oh! Alá, fazei que pertençamos ao rol dos homens que se tornaram dignos da tua graça e não nos separeis então daqueles a quem amamos neste mundo. És onipotente e podes atender a esta minha súplica!”

Enterros como aquele são raros. Um cristão, dois sunitas e um chiita oraram sobre a sepultura do morto, sem que Maomé fizesse cair um raio!... No que se refere a mim, creio não haver cometido pecado algum, despedindo-me do amigo morto no idioma falado por ele em vida; a contribuição do persa, porém, constituía uma prova de que ele ultrapassara a mentalidade dos muçulmanos. A Halef estive quase que a abraçar, por sua oração curta e reveladora de sua grandeza d’alma. Eu de há muito que o sabia: sem que ele próprio o soubesse, era apenas exteriormente um muçulmano, mas o seu íntimo já se havia convertido ao cristianismo.

 

EM BUSCA DA VINGANÇA

Dispusemo-nos a deixar o túmulo. De repente, Amad el Ghandur saca do punhal e com ele quebra uma lasca de uma das pedras do sepulcro e a coloca no bolso. Eu sabia o que significava aquilo e estava certo de que agora, sim, não havia criatura humana capaz de demovê-lo do desejo de vingança que lhe dominava todo o ser. No decorrer da noite ele não tomou alimento algum e tampouco bebeu coisa alguma. Não participou nem com uma sílaba de nossas palestras e nem comigo mostrou desejo de sustentar a mais lacônica conversa. Apenas a uma única observação respondeu-me o jovem haddedin:

— Tu sabes, — dissera-lhe eu — que Maomé Emin recebera a devolução do garanhão preto. Agora o soberbo animal pertence a ti.

— Portanto assiste-me o direito de presenteá-lo?

— Sem dúvida

— Então te ofereço como dádiva.

— Não o aceito.

— Pois obrigar-te-ei a aceitá-lo.

— De que forma?

— Verás em tempo. Leikum saaide! — Boa noite.

Afastou-se e me deixou parado no lugar. Convenci-me de que agora chegara o instante de redobrar a vigilância em que o vinha mantendo. Mas infelizmente, aconteceu diferentemente do que eu tencionava. O persa se achava por trás da parede de arbustos com sua gente e eu, Halef e o inglês nos achávamos no arroio refrescando nossos ferimentos que ardiam. A morte de Maomé comovera-nos mais do que mostrávamos um ao outro. À ardência, com que o sangue me borbulhava nas veias, seguia-se um estremecimento em todo corpo, seguido de dores como se me estivessem a alfinetar. Era o indício da febre proveniente do ferimento.

Passei mal a noite mas a minha robustez orgânica me pôs a salvo de um ataque febril propriamente dito. Era como se eu sentisse o sangue circular-me gota a gota pelas veias; meio acordado, tneio dormindo, meio delirando, andava eu de um lado para outro; falava com toda sorte de gente que a minha imaginação criava; contudo eu sabia que tudo eram fantasias e só pela manhã ferrei no sono do qual só despertei... à noitinha. A mesma fragrância fazia-se sentir, mas em lugar das duas lindas figuras femininas, deparei-me com o nariz d’Alepo do inglês.

— Acordou-se, afinal? — perguntou Lindsay.

— Penso que sim. Que! Lá já vai o sol desaparecendo no poente? Já é quase noite!

— Esteja satisfeito, mister! As damas se encarregaram novamente do seu tratamento. Mandaram gotas para a ferida. Halef as aplicou. Depois veio uma delas em pessoa e derramou um líquido por entre a fileira de dentes do senhor. Não se tratava de cerveja “Porter”, penso eu.

— Qual delas foi?

— Uma delas. A outra ficou na palhoça. Mas também podia ser a outra e a primeira ficou na palhoça. Não sei !

— Que complicação, mister Lindsay! Eu pergunto se foi a de olhos negros ou a de olhos azuis que veio cá?

— Não vi olho algum. O órgão visual destas mulheres está metido dentro de um envólucro como se fossem encomendas postais. Mas deve ter sido a de olhos azuis.

— Por que supõe fosse ela?

— Porque o senhor se acordou de olhos azuis. Além disso, ao que parece, está muito disposto, está passando às maravilhas, o que na Inglaterra se diz “Ouro sobre azul”. Yes!

— Tem razão, mister. Sinto-me muito disposto e forte.

— Creio. O mesmo sucede comigo. As gotas me fizeram um bem extraordinário à ferida, de modo que ela já não dói mais. Excelente mistura aquela! Quer comer?

— Tem o senhor aí alguma cousa? Estou realmente com uma fome canina.

— Aqui tem. Foi a de olhos azuis que mandou. Ou também pode ter sido a de olhos negros. Não sei! Yes!

Ao meu lado havia uma tabah (10) de prata com carne fria, pão e uma variedade de mazih (11). Perto da bandeja estava um tschidan (12) que em vez de chá continha um suculento caldo de carne ainda quente.

— As ladies, parece, sabiam que eu me acordaria antes do caldo esfriar — disse eu.

— Este bule, desde o meio-dia, que está à sua espera. Assim que ele esfriava vinha a velha serva buscá-lo para aquentar. O senhor, ao que parece, caiu nas boas graças daquelas mulheres.

Só agora é que examinei melhor em torno de mim. Não muito longe jazia Halef a dormir. Além dele e o inglês, eu não via pessoa alguma pelas imediações.

— Onde está o persa? — perguntei.

— Com as mulheres. Saiu pela manhã e caçou um cabrito montes. Este caldo que o senhor está tomando é feito da carne do cabrito.

— Mais apetitoso se torna ainda este caldo, quando a gente se lembra que foi preparado por aquelas mãozinhas.

— Não se afobe! Pense, antes, que ele foi preparado pela velha serva! Yes!

 

(10) Bandeja.

(11) Guloseima.

(12) Caçarola para chá.

 

— Onde está Amad el Ghandur?

— Saiu hoje bem cedo a dar um passeiozinho.

Ergui-me de um vertiginoso salto e exclamei:

— Foi-se embora, o louco!

— E acompanhado do carvoeiro e mais o soran. Yes!

Ah! eu agora compreendi a razão de haver ele dito que o próprio Alá lhe proporcionara ensejo de vingar a morte do pai. O soran, um inimigo mortal dos bebbehs, servir-lhe-ia de intérprete na jornada em perseguição ao inimigo. Contudo era de se ter pena do pobre haddedin. Sair-lhe ao encalço, a fim de obrigá-lo a retroceder, era cousa que já não podia ser mais objeto de cogitações. Primeiramente o seu avanço era demasiadamente grande, para se ter esperança de alcançá-lo; em segundo lugar, o meu estado de saúde, à vista dos ferimentos, exigia uma breve estação de cura e, em terceiro, não devíamos tornar-nos assassinos, por causa de uma vingança de sangue alimentada por outrem.

— Foi ele no garanhão? — perguntei.

— O garanhão? Este está aqui — respondeu Lindsay.

Mais esta! Daquele modo obrigava-me Amad el Ghandur aceitar o presente que me oferecera! Verdadeiramente, no primeiro instante eu não sabia se me encolerizaria ou alegraria. Ademais disso, o desaparecimento de Amad constituía um acontecimento diante do qual eu não me podia manter com indiferença. Foi preciso um brutal esforço íntimo para tranquilizar-me até certo ponto.

— Então também Allo se foi embora? — inquiri. — E como liquidaram a questão do seu salário?

— Desistiu. Incomoda-me isso! Não gosto de receber nada de presente de um carvoeiro.

— Console-se, mister Lindsay! Ele está de posse de um cavalo e de uma espingarda. Com isso ele ficou regiamente pago. Ademais, sabe lá qual a oferta que não lhe fêz o haddedin. Quanto tempo já dorme Halef?

— Tanto quanto o senhor.

— Que miraculoso remédio o que nos aplicaram as persas! Mas antes de tudo, quero comer alguma coisa.

 

O NOVO ROTEIRO

Mal havia eu começado a comer, quando fui interrompido. Hassan Ardschir-Mirza veio ter comigo. Quis levantar-me mas ele delicadamente mo impediu de fazer.

— Fica sentado, emir, e come! Isto é o mais necessário. Como te sentes?

— Muito bem, obrigado.

— Eu sabia. A febre não voltará. Agora vou transmitir-te um recado. Amad el Ghandur veio falar comigo. Contou-me muita coisa a teu respeito, de modo que te conheço agora tão bem como ele. Ele saiu ao encalço dos bebbehs e manda pedir-te desculpas, desejando que vós não o acompanheis. Espera ele encontrar-vos mais tarde nos campos de pastagens dos haddedins. Era este o recado que eu tinha a transmitir-te.

— Muito obrigado, Hassan Ardschir-Mirza! A sua partida aflige-me. Mas outro meio não me resta, senão deixá-lo entregue ao seu destino.

— E agora para onde pretendeis dirigir-vos?

— Isto será ainda objeto de deliberação. Este meu amigo e servo Hadji Halef Omar precisa tornar aos haddedins, pois lá se encontra sua mulher. Também lá se encontram dois servos deste emir de Inglistão. Mas é bem possível que antes disso dirijamos nossa jornada para Bagdad. Naquela cidade tem o meu amigo inglês um navio, no qual poderemos nos transportar, através do Tigre, até os campos de pastagens dos haddedins.

— Então resolve, emir! No caso de seguirdes para Bagdad, peço-vos de não me abandonardes. Sois guerreiros valentes; a vós devemos todos a vida e eu desejaria muito mostrar-te o quanto vim a estimar-te. Aqui permaneceremos até podermos, sem perigo para a tua saúde, reencetar a jornada. Por enquanto come! Vou mandar-vos mais alimentos, pois sois meus hóspedes. Deus esteja convosco!

O persa retirou-se e em breve chegou a velha serva com mais duas bandejas de alimentos.

— Aceita! O meu Senhor te manda! — declarou ela.

— Tendes fogo na palhoça? — informei-me.

— Temos e também uma djagard (13), sobre a qual cozinhamos rapidamente.

— Maderka (14) nós vos estamos dando muito trabalho! — disse-lhe eu.

— Oh não, emir! A casa alegra-se em ter hóspede. O Senhor contou à casa quem vós sois e sereis tratados pela casa como se o Senhor dela o fosse! Mas não me chama de Maderka! Eu ainda sou uma duschireh (15) e tratam-me de Alwah e às vezes também de Halwa.

Dito o que, ela foi saindo. Interessante! Estava eu fadado a realizar nesta jornada estudos antropo-botânicos? Ainda há pouco tempo uma “salsa” ern Schohord e agora já uma Alwah que também de quando em vez era chamada de Halwa! Ambas as palavras compõem-se das mesmas letras mas são de diferente significado. Alwah é em persa tanto quanto aloés e halwa é a nossa apreciadíssima flor vermelha e aveludada do amaranto.

Mas aquela donzela envelhecida assemelhava-se mais ao hirsuto aloés do que à linda e mimosa flor do amaranto.

Achava-se ela trajada com compridas bragas amarradas ao tornozelo e uns chinelos de feltro cobriam-lhe os pés. Por cima da braga um colete marrom e uma espécie de albornós côr de castanha. À cabeça trazia um turbante, ao qual se achava preso o véu; mostrava à nuca uma considerável calvície e na fisionomia apenas os dois olhos de coruja desenhados pela junção das duas pontas do véu. Contudo aquela Flor de Amaranto ou Aloés parecia ser uma boa alma e eu resolvi acamaradar-me o mais possível com ela.

Ela trouxera as bandejas em tempo, pois apenas se retirara, Halef começou a bocejar e por fim abriu os olhos. Olhou admirado em redor de si, soergueu-se e exclamou:

— Machallah! Lá já está o sol! Fui eu ou ele que se virou?

 

(13) Tripé.

(14) Mãezinha.

(15) Virgem.

 

Com ele deu-se a mesma coisa do que comigo: não podia imaginar haver dormido por tanto tempo e a sua surpresa aumentou mais ao saber que Amad el Ghandur não se achava mais em nossa companhia.

— Foi-se? Mas foi-se daqui de fato? — perguntou ele. — Sem se despedir? Por Alá que não procedeu bem! E que faremos agora? Agora não precisas voltar para o campo de pastagens do haddedins.

— Eu penso o contrário, pois não te hei de abandonar, sem saber que tornaste ao xeque Melek e te reuniste a Hanneh, tua mulher!

— Sidi, esses dois estão muito bem guardados e poderão esperar até a minha volta. Amo Hanneh, mas não arredarei o pé de ti, antes de regressares para o país em que moram teus pais.

— Não posso exigir tamanho sacrifício de tua parte.

— Não de minha parte, mas da tua é que é sacrifício conservar-te ao meu lado até eu voltar, sidi. Resolve sobre o novo itinerário. Eu te acompanharei fielmente, desde que não pratiques a crueldade de me escorraçares de ti!

Os persas trouxeram naquele instante abundante provisão de peixes pescados no arroio e que serviriam para o nosso jantar. Não participei deste, visto já haver me alimentado e subi à montanha para assistir do túmulo do haddedin ao pôr do sol.

Aquele monumento feito com penedos fêz-me lembrar o que erigimos ao Pir Kamek no vale do Idiz. Nunca imaginávamos, quando foi do enterramento do santo dos dschesidis, que Maomé Emin iria encontrar sua derradeira morada nas longínquas montanhas curdas! Lúgubre e triste era o meu estado d’alma naquele momento. Eu sentia um vazio tal em mim, que se me afigurava haver-se apagado uma parte do meu sêr, com a morte daquele amigo. E no entanto nunca se deve entristecer quando se encontra a sepultura de uma pessoa de bem; a morte é a mensageira de Deus, enviada para nos conduzir às alturas iluminadas onde o Salvador dizia aos apóstolos: “Na casa do meu pai há muitas moradas e para lá. vou eu para preparar-vos um lugar”. A vida é uma luta; vive-se para lutar e morre-se para vencer. Daí a prevenção do apóstolo: Luta a boa luta da Fé e aproveita a vida para o fim a que fôste chamado!

O sol beijava o horizonte, e os seus raios moribundos tingiam-no de luzes candentes que se perdiam para o oeste cada vez mais desbotadas. Os outeiros relvosos situados em baixo da montanha assemelhavam-se à vastidão de um verde mar em cujas ondas o crepúsculo vespertino cada vez mais espalhava as suas sombras. Apenas sobre o espigão da serra situada ali perto notava-se o sopro da brisa a balouçar levemente os ramos das árvores. As sombras cada vez se tornavam mais densas; o horizonte sumia-se; a luz apagava-se e por fim o manto da noite desceu sobre toda a região. Oh! se a gente pudesse seguir junto com o sol! Seguir o sol para além do oeste onde ele naquele instante enviava luz e calor à minha pátria querida! Agora aqui na montanha a nostalgia apoderou-se-me do coração, nostalgia que em terras estranhas ninguém, em cujo peito bata um coração pleno de sentimento, dela se pode livrar. Ubi bene ibi patria é um adágio, que nem sempre se confirma na prática. As impressões da juventude nunca se nos apagam de um todo; a recordação pode adormecer, porém jamais morrer. Quando menos o pensamos, ela desperta e nos causa uma tal saudade, capaz de enfermar todo o ser sentimental da gente. Lembrei-me naquele momento das sentimentais estrofes do poeta teuto-norte-americano:

Oh! terra dos meus pais! Quão longe de ser minha estás!...

O santo solo teu a nenhum se parece

e na minha alma tu jamais te apagarás!...

 

Mesmo quando da vida o vínculo amoroso

a ti não me ligasse, os teus mortos, oh! terra,

os mortos, que, a dormir, repousam no teu chão,

me uniriam a ti, pátria do coração!...

 

Fazendo uma volta, regressei ao acampamento, onde todos já dormiam,. Não obstante a tardia hora da noite, estive por muito tempo deitado sobre o cobertor sem conseguir adormecer. Já se ouviam alguns trinados de passarinho, quando finalmente conciliei o sono. Acordei-me ao meio dia e fui informado por Halef que o inglês saíra com o persa em caçadas de galinhas silvestres. Haviam levado Dojan junto. As feridas do bravo Hadji Halef Omar eram mais dolorosas que as minhas, mas a persa trouxera-lhe pela manhã as gotas que não deixaram de produzir os seus efeitos..

— Quanto tempo ficaremos aqui? — perguntou-me o fiel servo.

— Tanto tempo quanto necessário para que nossas feridas não nos acarretem maiores perigos. Que comeste?

— Uma porção de coisa que nem conheço. Essas persas conhecem às maravilhas a arte culinária. Que Alá as conserve conosco durante todo tempo em que delas necessitarmos! O Mirza me disse que logo que tu acordasses, eu o fosse chamar, bastando para isso aproximar-me da parede da palhoça e bater palmas.

— Faze-o então Halef!

Minutos após haver Halef dado o sinal convencionado junto da tenda, apareceu-me a “Flor de Amaranto” com um znabilik (16) e uma kaweh-dan (17). No primeiro havia pão fresco com fatias de carne fria e na última fumegava a deliciosa bebida, cuja imitação feita com chicórea, na Saxônia, tem o nome de “café de florzinhas”.

— Como te sentes, emir? — perguntou-me a serva. — Descansaste hoje outra vez bastante, graças a Alá!

— Estou bem disposto e sinto fome, cara Flor de Amaranto.

— Aí trago-te tudo; come e bebe para que teus dias jamais se acabem!

— Obrigado; dá lembranças minhas à “casa”!

— Não é hábito, aliás, entre nós mandar-se lembranças; contudo as transmitirei, pois és amigo e irmão do Senhor.

Ela retirou-se e eu me pus a comer. No fundo do cesto encontrei para sobremesa excelentes passas de uvas, helwa (18) e gridgan, (19) que despertaram o desejo do meu Halef. Vi que ele se dispunha a fazer uma observação, mas no instante chegava Halwa com uma segunda vazilha.

 

(16) Cestinho.

(17) Cafeteira.

(18) Nata batida.  

(19) Avelãs.

 

— Emir, — disse ela — aqui te manda a nossa “casa” mais um alimento que é muito bom para acabar com a febre. Permite que depois eu venha buscar o vazilhame!

Ao se retirar a serva, examinei o conteúdo do pote e para surpresa minha verifiquei tratar-se de peras cozidas em calda. Agora sim, Halef não se conteve mais.

— Allah il Allah! — exclamou ele. — louvado seja Deus que promove a vegetação de frutos deliciosos e criou amáveis mulheres que tudo sabem preparar com perícia! Sídi, aquelas persas te são muito afeiçoadas, do contrário não te mandariam servir tão deliciosos quitutes. Casa com a solteira para que esta seja obrigada a cozinhar para ti agora e por toda a eternidade!

— Halef, levanta-te, senão de tão entusiasmado pela tua proposta, esqueço-me de dividir contigo esta guloseima.

O homenzinho estendeu ambos os braços em sinal negativo, posto que estivesse com água na boca.

— Que Alá me guarde do pecado; jamais te privarei do sabor que te causará esse doce. Eu sou um pobre Ben el Aaarab e tu um grande Emir de Nemsistão. Eu posso esperar até que um dia as huris me sirvam, no paraíso, esses deliciosos manjares!

— Mas isso ainda leva muito tempo, Halef. Vamos dividir!

— Sídi, a tua tentação está quase a superar as minhas forças. Não comi ainda nenhum manjar genuinamente persa.

— Senta-te aqui! Eu me alimentarei do café, do pão e da carne e tu comerás as peras e as outras frutas.

— Mas foram preparadas especialmente para ti, efêndi!

— Penso que és meu servo, Halef!

— E o servo mais fiel que possa haver!

— Então obedece, se não me queres encolerizar!

— Se me dás a ordem num tom de tal severidade, nada mais me resta senão obedecer-te!

A sua obediência foi tão ávida que as peras em calda em poucos segundos desapareciam entre os seus enormes bigodes. Eu sabia que o meu pequeno Halef era até certo ponto um tanto guloso; com aquela ninharia eu iria proporcionar-lhe um grande prazer.

Algum tempo depois voltaram os dois caçadores trazendo caças em abundância. O persa saudou-me com sincera alegria e depois se encaminhou para a tenda das mulheres, levando as galinhas abatidas. O inglês abancou-se ao meu lado.

— Como? Agora é que se levantou? Vejo pelo café que toma! — começou ele a palestra.

— Realmente, dormi outra vez muito.

— Well! Vivemos como no país dos Schlarafes. Quanto tempo durará ainda esta boa vida?

— Pelo menos durante o tempo em que estivermos aqui.

— Witty ingenious! E depois para onde iremos?

— Acompanha-nos a Bagdad?

— Concordo com o itinerário. Estou ansioso por sair dessas montanhas. E de Bagdad?

— Depois veremos. Não é certo ainda se meu objetivo será Bagdad. Apenas citei de passagem aquele roteiro.

— Indiferente. O principal é sair daqui de uma vez por todas.

 

A ODISSÉIA DE UM ARISTOCRATA PERSA

Nesse comenos chegou a “Aloés” a fim de entregar ao criado do Mirza as galinhas silvestres para depená-las. Por trás dela vinha o seu Senhor, que, depois de me chamar com um aceno, deixou lentamente o acampamento. Segui-o. Á sombra de duas árvores, abancou-se ele no musgo e me fez um sinal para eu tomar lugar ao seu lado. Depois de me haver sentado, deu ele início á palestra.

— Emir, tenho confiança em ti; ouve-me, pois: Eu sou um perseguido. Não me perguntas quem era meu pai. Este morreu repentinamente, fulminado por uma morte assaz violenta. Os seus amigos murmuravam haver sido ele assassinado porque estorvava alguém. Eu, porém, seu filho, vinguei-lhe a morte e fui obrigado a fugir. Antes porém, carreguei tudo o que de valores me era possível salvar em camelos e confiei a um súdito de confiança para conduzir através das fronteiras do império persa. Depois o seguimos por outro caminho. Eu sabia muito bem que seríamos perseguidos e por isso para confundir e despistar os perseguidores tomei o roteiro pelo Kurdistão bravio. Bem, responde-me agora, Emir se estás disposto a acompanhar-me enquanto forem nossos caminhos os mesmos; mas reflete: eu sou um fugitivo.

Dito o que, conservou-se em silêncio e eu respondi resolutamente:

— Hassan Ardschir-Mirza (20) eu te acompanharei enquanto possa ser útil a ti e aos teus.

O homem estendeu a mão e disse:

— Oh! quanto te sou grato, Emir! E os teus companheiros?

— Vão para onde eu fôr. Permite que pergunte pela meta da tua jornada?

— Hadramaut

Hadramaut! Aquela palavra eletrizou-me. A Hadramaut perigosa e inexplorada! Como por encanto desaparecera-me todo o cansaço e mau humor que me sobreviera aos acontecimentos desses últimos dias. Perguntei com viva tonalidade de voz:

— Estás sendo esperado lá?

— Estou. Mora lá um amigo meu ao qual mandei avisar por um emissário a minha próxima chegada.

— E posso acompanhar-te a Hadramaut? — perguntei.

— Tão longe, emir? É um sacrifício que eu não posso exigir do meu melhor amigo.

— Não é sacrifício, não! Acompanhar-te-ei até lá prazerosamente desde que não te seja inconveniente.

 

(20) Mirza literalmente é: filho de um Senhor. — Anteposto ao nome é um título honorífico e posposto significa: — príncipe.

 

— Sê bem-vindo então, Senhor! Ficarás nosso hóspede durante o tempo que quiseres. Mas devo dizer-te que antes de ir a Hadramaut, visitarei Kerbela.

— Kerbela? Ah! estamos em fins do mês de Dsu ‘l hedsche e começará breve o de Muharren. A dez deste último mês realizam-se as grandes festas dos peregrinos em Kerbela.

— Exatamente. As Hsdsch el manijat (21) já se acham em caminho e eu também me dirijo a Kerbela a fim de sepultar meu pai na cidade dos sofrimentos de Hossein. Como vês, não te será de forma alguma possível acompanhar-nos até lá!

— Impossível por quê? Porque sou cristão e por isso não devo ir a Kerbela? Pois estive em Meca, não obstante a entrada naquela cidade só ser permitida a muçulmanos.

— Hão de estraçalhar-te, se lá fores reconhecido!

— Em Meca me reconheceram também e no entanto não me estraçalharam.

— Emir, és um homem arrojado! Estou certo de que meu pai descansa nas mãos de Alá, quer seja sepultado em Teheran ou Kerbela. Jamais eu peregrinaria a Kerbela, Nedschef (22) e Meca, pois Maomé, Ali, Hassan e Hossein foram também homens como qualquer de nós; mas desejo cumprir a última vontade do meu pai de ser sepultado em Kerbela e por esta razão é que me unirei à caravana da morte. Se pretenderes conservar-te ao meu lado não serei eu que te vá denunciar; a minha casa silenciará também a respeito; mas os meus servos não esposam a minha opinião a respeito dos ensinamentos do profeta; eles serão os primeiros a matar-te.

— Deixa isso aos meus cuidados. Onde te encontrarás com os teus camelos?

— Conheces Ghadhim em Bagdad?

— A cidade dos cavalos? Conheço; fica situada à margem direita do Tigre e defronte a Madhim; está ligada a Bagdad por meio de uma estrada.

— Pois lá me esperam os meus tocadores de camelos, os mesmos que conduzem o corpo de meu pai.

— Pois te acompanharei, primeiramente, até ali e o resto combinaremos depois. Mas em Ghadhim estás em segurança?

— Penso que sim. Serei perseguido, é verdade, mas o paxá de Bagdad não me entregará aos perseguidores.

— Não te fies em nenhum turco, não te fies também em nenhum persa! Fôste tão precavido em tomar caminho através do Curdistão; e supor que pretendes agora desistir dessa sábia prudência. Podes atingir Kerbela, mesmo não te unindo à caravana da morte.

— Como? Não conheço outro caminho.

— Eu te guiarei.

— Conheces a estrada?

— Não, mas a encontrarei. Alá me concedeu o dom de achar localidades em que nunca estive, sem o auxílio de guia.

— Mas mesmo assim é impossível, emir. Eu preciso ir a Ghadhim, onde minha gente está à minha espera.

— Então vai secretamente, evitando Bagdad e a caravana da morte!

 

 (21) Caravanas fúnebres.

(22) Nessa cidade está sepultado o califa Ali.

 

— Senhor, não sou covarde!

— Bom, também tu és arrojado! Isso me alegra, pois servimos um para o outro e juntos viajaremos.

— Concordo, emir, mas com uma condição. Sou rico, muito rico mesmo; exijo que tudo de que careceres na jornada seja por mim fornecido gratuitamente!

— Neste caso a minha situação para contigo será a do servo que percebe salários.

— Não; és meu hóspede, meu irmão, cuja estima me permite ter esses cuidados contigo. Juro por Alá que não cavalgarei na tua companhia se não aceitares esta condição que imponho!

— Com este juramento, obrigas-me a ceder ao teu desejo. És muito bondoso e confiante em mim, não obstante não me conheceres.

— Achas que não te conheço? Não nos salvaste das mãos dos bebbehs? Não me falou Amad el Ghandur a teu respeito? Ficaremos juntos e pelo pouco que eu te oferecer, receberei de ti tesouros que até agora em vão tenho procurado: tesouros espirituais. Emir, não sou um persa vulgar, mas não me posso comparar a ti. Sei que em tua pátria um menino possui maior cabedal de conhecimentos do que, entre nós, um homem maduro, bem como que nadais em bens cujos nomes nem sequer nós conhecemos. Dêem-nos boas mães e os nossos filhos não tardarão em não temer cotejo com os vossos. O coração de mãe é o solo em que se fixam as raízes do espírito da criança. Oh! Maomé, quanto te odeio, pois tiraste a alma às nossas mulheres e as convertestes em escravas e com isso quebrantaste-nos as forças, empederniste-nos o coração, desolaste-nos os solos e ludibriaste todos que te seguem!

Ele se erguera e proferia o exórdio acusativo a Maomé em voz alta. A sorte é que ninguém de sua gente podia ouvi-lo! Só depois de uma pausa, é que se dirigiu novamente a mim, voltando ao assunto anterior.

— Conheces o caminho que conduz daqui a Bagdad?

— Nunca o cavalguei, mas tenho certeza de não o errar. Podemos tomar duas direções: a primeira conduz para as montanhas de Hamrin, ao sudoeste e a outra ao longo do rio Djalah até Ghadhiro.

— A que distância achas que fica Ghadhim daqui?

 

CONCERTANDO DEFINITIVAMENTE O ROTEIRO

— Pelo primeiro caminho chegaremos em cinco dias, e pelo segundo, em seis.

— E esses caminhos atravessam por zonas populosas?

— Atravessam e é exatamente por isso que eu os considero os melhores.

— Há então outros caminhos?

— Há, sim; mas por eles seremos obrigados a cavalgar por trechos em que perambulam os beduínos salteadores...

— De que tribo são estes?

— São na sua maioria dscherdoas, cujas fronteiras são também de quando em quando atravessadas por tropas da tribo de Beni Lam.

— Temes a estas?

— Temê-las? Não! A prudência, porém, manda que entre vários caminhos, se escolha o menos perigoso. Tenho comigo um passe do Grão Senhor e este no Djalah e também ao oeste deste rio será acatado.

— E não obstante, eu desejaria tomar estradas desertas, visto que sou um fugitivo. Já tão próximo da fronteira persa, não desejaria eu ser alcançado pelos meus perseguidores.

— Talvez que o teu ponto de vista seja o verdadeiro; mas leva em conta que a estrada através das estepes, onde a vegetação feneceu à ação da soalheira causticante por que atravessamos, torna-se bastante penosa para as mulheres.

— Estas não temem nem fome nem sede, nem calor e nem geadas; elas só temem uma coisa: que eu seja capturado. Tenho odres que comportam água para o nosso abastecimento durante oito dias e estou provido de vitualhas para o mesmo tempo.

— E podes te fiar na tua gente?

— Em absoluto, emir.

— Bom, cavalgaremos então através do território dos dscherboas; Alá nos há de proteger. Ademais disso, assim que alcançarmos a planície, avançaremos com rapidez, ao passo que os teus camelos só vencerão este terreno cheio de outeiros com muita dificuldade. Estamos portanto combinados e esperaremos apenas que nossas feridas permitam que empreendamos viagem.

— Peço-te que me atendas num pedido! — disse ele com timidez. — Ao empreender jornada supri-me de tudo que era necessário. Em longas viagens as vestes se gastam e como eu soubesse que no trajeto até Hadramaut não encontraria bons bazares, trouxe comigo uma boa provisão de trajes. A vossa indumentária não é mais digna dos cavalheiros que sois; peço-vos por isto que vos suprais do vestuário de que careceis naquela minha provisão!

Aquela proposta eu a recebi com um misto de contentamento e de preocupação. Hassan Ardschir-Mirza tinha razão; nós os três não nos podíamos deixar avistar em localidade civilizada alguma sem que fôssemos tomados por vagabundos autênticos. Mas eu sabia também que o inglês não aceitaria nada de graça e para mim constituía mesmo uma questão de honra não prevalecer-me da amizade do persa, assim logo no primeiro dia. De resto era-me indiferente apresentar-me com trajes árabes. Um legítimo beduíno afere da qualidade do homem pelo cavalo que este monta e em tal sentido eu sabia muito bem que causava inveja a todos que me vissem cavalgar. Na pior das perspectivas, poderia suceder que um filho do deserto me tomasse por um ladrão de cavalo, o que no seu ponto de vista, constituía, aliás, mais um motivo de honra do que de vergonha. Por isso respondi ao Mirza:

— Muito obrigado! Sei quanto és bem intencionado conosco, mas peço-te falar-me nesse assunto só depois que chegarmos a Ghadhim. Para os dscherboas os nossos trajos são mais do que decentes e hão de resistir ainda até as proximidades de Bagdad. Acho que...

Sustive a frase, pois partceu-me haver percebido um rumor por trás de umas amoreiras que se erguiam por entre os carvalhos.

— Não tenhas cuidado, emir, que não foi nada; foi um animal simplesmente, talvez algum pássaro, um tscbelpiseh (23) ou mair-mar (24), — tranquilizou-me o Mirza.

— Estudei toda sorte de rumor nas matas — redargüi-lhe — e aquele não foi de animal nenhum, mas de gente.

 

TRAIÇÃO DE UM SERVO

De um salto cheguei por trás do rufo e segurei um homem que se dispunha a fugir. Era um dos servos da persa.

— Que fazes aqui? — perguntei-lhe.

Não me respondeu.

— Fala, pois do contrário te desprenderei a língua da abóbada palatina!

Abriu os lábios então, mas apenas gaguejou desarticuladamente. Aproximou-se então o Mirza que, ao avistar o homem, exclamou:

— Saduk ists? Ele não te pode responder, porque é mudo.

— Mas que perdeu ele ali por trás do grupo de amoreiras?

— Ele me dirá; eu o compreendo.

Dirigindo-se ao servo, perguntou o Mirza:

— Saduk, que estás a fazer aqui?

O interrogado abriu as mãos onde havia algumas folhas e bagas de zimbro e tentou por meio de gestos tornar-se compreensível.

— De onde vieste?

Saduk apontou para a retaguarda na direção do acampamento.

— E sabias que nos encontrávamos aqui?

O servo sacudiu a cabeça negativamente.

— Ouviste o que estivemos a falar?

Seguiu-se o mesmo sinal.

— Bom, podes ir, mas não tornes a nos interromper.

Saduk retirou-se e o seu amo declarou-me:

— Ele foi encarregado por Allwah de colher temperos necessários ao preparo das galinhas que abati. O acaso é que o trouxe às nossas imediações.

— E esteve a nos espiar — atalhei-o.

— Tu viste que ele negou esta circunstância.

— Não o acredito.

— Oh! é um servo fiel, o Saduk!

— Sua fisionomia não me agrada. O homem portador de um queixo quebrado em ângulo, em geral, é falso. Pode ser um preconceito, mas até aqui todas as minhas observações nesse sentido se confirmaram. Ele já nasceu mudo?

— Não nasceu, não.

— Como perdeu então a fala?

O Mirza hesitou em responder. Por fim esclareceu:

— O homem não tem mais língua.

 

(23) Lagarto.

(24) Espécie de víbora.

 

— Ah! E antes tinha ele a faculdade de falar? Cortaram-lhe então a língua?

— Infelizmente, sim — respondeu o Mirza com reservas.

Lembrei-me no instante, cheio de pavor, do costume, felizmente hoje raríssimo, de se castigar uma pessoa que cometeu alguma falta ou crime por meio de palavras, cortando-lhe a língua. Essa desumanidade era praticada especialmente no Oriente e nos Estados escravagistas dos Estados Unidos da América do Norte.

— Hassan Ardschir-Mirza, vejo que não gostas de falar sobre tal assunto; mas aquele Saduk não me agrada; jamais eu poderia confiar nele e o fato de haver escutado a nossa conversa desperta-me cá algumas suspeitas. Não sou curioso, mas quando me encontro em situações de perigo, costumo observar mesmo as coisas mais insignificantes e indiferentes. Peço-te, por isso, que me contes a maneira como aquele homem foi perder a sua língua!

— Já o tenho submetido a constantes provas, emir; ele é fiel e sincera Contudo saberás já o que levou meu pai a castigá-lo daquela forma.

— Teu pai? Ah! é importante o relato!

— Enganas-te, emir. Aquele Saduk foi em sua mocidade kmankasch (25) do meu falecido pai e como tal cabia-lhe transmitir as suas ordens, mensagens, etc. Nesse caráter visitava ele freqüentemente a casa do Muschtahed (26) e veio a conhecer a filha deste. Agradou-se dela e ele era um rapaz bonito. Um dia quando a moça se achava ocupada em regar as flores do jardim, ele saltou o muro e foi declarar-lhe o seu amor. O muschtahed se achava nas proximidades e mandou prendê-lo. Em consideração ao meu pai, não foi Saduk entregue ao tribunal, que o condenaria fatalmente à morte; mas ele pecara com a língua e o muschtahed fêz pressão sobre o meu pai, obrigando-o a mandar cortar a língua do seu transmissor de recados. Para este fim foi chamado o maitchunigar (27) que era ao mesmo tempo um celebrado médico.

— Mas o castigo era ainda mais cruel do que a morte. Saduk desde então continuou com o teu pai?

— Continuou, sim. Ele suportou as dores com resignação, pois tinha um caráter forte. Mas a maldição pareceu ter-se seguido àquele ato.

— Como assim?

— O muschtahed morreu envenenado; o médico apareceu um dia assassinado diante da porta de sua farmácia; e a moça morreu afogada em conseqüência de ter virado o barco em que ela viajava, à uma colisão sofrida com a de um homem embuçado que navegava em sentido contrário.

— Singular tudo isso! E os três assassinos nunca foram descobertos?

— Não. Já sei o que julgas, emir. Mas a tua suspeita não tem fundamento, pois Saduk quase sempre andava doente e, por coincidência, se achava acamado todas as vezes que se deram aqueles dolorosos acontecimentos.

— Também o teu pai morreu de morte não natural?

— Foi assaltado durante uma excursão que fizera a cavalo. Achava-se então acompanhado de Saduk e de um Kajem Makam. (28) Apenas o primeiro conseguiu

 

(25) Atirador de arcos.

(26) Sacerdote-mor, que, na Pérsia, está ainda, hierarquicamente sobre o “cheik ul Islam”.

(27) Farmacêutico.

(28) Tenente.

 

sair com vida da emboscada e isso mesmo sangrando em virtude de um ferimento que recebeu. Meu pai e o Kajem Makam, porém, foram assassinados.

— Hum! E Saduk não reconheceu os assassinos?

— Era noite muito escura; contudo a um deles pôde reconhecer pela voz; tratava-se do maior adversário do meu pai.

— E dele é que tomaste vingança agora?

— Os juizes o absolveram mas ele... está morto!

O semblante do Mirza dizia-me nitidamente de quão horrível morte tivera o seu antagonista. O tal Saduk ou era um indivíduo sem energia e vida própria ou então um refinado malfeitor. Eu resolvi trazê-lo sempre de olho. Quando eu mais tarde retornei ao acampamento lá estavam ocupados em preparar o almoço. Declarei ao inglês que me achava inclinado a cavalgar na companhia do persa a Bagdad e dali para Kerbela; ele logo decidiu-se a fazer conosco a perigosíssima viagem.

 

NOVOS INDÍCIOS DA TRAIÇÃO DE SADUK

Os ferimentos não me incomodavam, pelo menos nesse dia. Por isso à tarde peguei de uma das espingardas e saí a dar uma volta pelas redondezas acompanhado do meu fiel Dojan. Lindsay quis acompanhar-me, mas eu preferi sair desta vez só. Seguindo hábito arraigado já de há longos anos, tencionava eu nesta caminhada certificar-me pessoalmente da segurança da localização do nosso acampamento. O principal nessa tarefa é desfazer tanto quanto possível as próprias pegadas e ver se encontramos pegadas de outrem que venham a provocar suspeitas. Fiz várias voltas ao acampamento e me aproximei do rio. De longe constatei que a relva da ribeira se achava pisoteada e de um modo a causar sérias desconfianças. Ia chegar-me ao local, quando percebi ramalhar por trás de mim.

Imediatamente acoitei-me por trás de um denso tufo e me pus à espreita. Em breve ouvi passos e... o mudo persa saiu de dentro dum macegal que orlava a ribeira. Relanceou os olhos em torno de si e quando supôs não estar sendo observado, encaminhou-se para o local onde a relva estava pisoteada. Chegando lá continuou a pisotear outro trecho de hervas e, sem deter-se voltou depois. Antes de alcançar o meu esconderijo, dirigiu, ele uns olhares misteriosos para a moita em que o mesmo estava situado e depois prosseguiu.

De repente, porém, saltei da moita e, agarrando-o com a mão esquerda, com a direita desferi-lhe uma violenta tapona que anulou-lhe toda a capacidade de resistência.

— Chaintkar, traidor! Que estás fazendo aqui? — trovejei-lhe.

O homem, aliás, era mudo mas os sons articulados que proferiu eram antes a conseqüência do susto que levara do que o seu intento em esclarecer-me a sua atitude.

— Estás vendo este arcabuz? — perguntei-lhe. — Se não fizeres imediatamente o que te vou ordenar, no mesmo instante serás homem morto. Toma do teu kelah (29), enche-o com água e rega a relva para que esta se erga novamente

 

(29) Boné de pele de cordeiro.

 

o mais depressa possível, no que tu a auxiliarás com as mãos!

O homem fêz, com a mão, um movimento de resistência ou talvez que também o fosse de desculpa; mas quando tirei a espingarda do ombro, obedeceu-me com um olho no seu trabalho e com o outro no cano da arma.

— Bom, agora acompanha-me! — disse-lhe eu ao estar pronto o serviço. — Vamos até àquela moita a ver se encontramos o objeto que atraiu há pouco os teus significativos olhares.

Chegando lá, examinei os dois pontos para onde haviam convergido os seus olhares e vi dependurado em cada um dos dois tufos que ali se levantavam, não muito distante um do outro, um molho de grama.

— Ah! um sinal! A coisa vai então tornar-se interessante! Pega aqueles molhos de capim e lança-os no arroio!

O homem obedeceu sem titubear.

— Bom, agora voltemos para o acampamento. Avante! Se tentares fugir, serás atingido pela bala de minha espingarda ou te estraçalhará o meu cão!

Não me enganara, pois, na idéia que eu formara daquele sujeito: tratava-se de um traidor, embora os fatos precisassem ainda ser constatados com mais exatidão. Quando chegamos ao acampamento, mandei chamar o persa, por intermédio de um dos servos.

— Que há? — perguntou-me ele. — Por que seguras Saduk pelo braço?

— Porque é meu prisioneiro. Ele pretende lançar-te numa emboscada. Estás sendo perseguido e este biltre indica aos teus perseguidores o nosso paradeiro por meio de sinais no solo. Peguei-o em flagrante, pisoteando a relva da ribeira e na orla de dois tufos se achavam pendurados feixes de capim a indicar que para alcançar o nosso acampamento bastava atravessar o macegal.

— É impossível!

— Como impossível, se estou te dizendo! Interroga-o!

O Mirza formulou um sem número de perguntas ao prisioneiro; das mímicas deste pude apenas compreender que ele se dizia admirado da minha atitude, pois que nada fizera de mal.

— Estás vendo, emir, como ele está inocente! — ponderou o persa.

— Bom, neste caso vou eu agir em teu lugar — repliquei-lhe. — Espero poder provar-te que este homem é um traidor. Vai buscar a tua espingarda e acompanha-me. Dize, porém, antes à tua gente que meus companheiros fuzilarão todo aquele que tentar libertar Saduk. Não estão habituados que se graceje com eles. Um dos teus servos se postará de sentinela lá na orla do macegal, a fim de prevenir os demais no caso de algum perigo.

— Iremos a pé ou a cavalo? — perguntou-me.

— A que distância fica daqui o local do vosso último acampamento?

— Umas seis horas de viagem.

— Logo não atingiremos hoje. Portanto vamos sair a pé.

 

EM  RECONHECIMENTO

O homem saiu em busca de sua espingarda. Ministrei a Halef e ao inglês as necessárias instruções. O preso foi por ele algemado e vigiado. Achava-se em tão boas mãos que eu podia me retirar despreocupadamente.

A seguir, saímos vale abaixo rumo ao rio. Em meio deste curto caminho, parei surpreso, pois que numa arvorezinha se achava dependurado um molho de capim igual aos que Saduk fora forçado a jogar no rio.

— Pára, Mirza! Que é isso? — perguntei-lhe.

— Capim — respondeu o persa.

— E nasce este nas árvores? — perguntei-lhe.

— Allah hu! Quem o teria dependurado aqui?

— Saduk! Prossigamos uns vinte passos à direita, onde espero encontrar outro sinal!

O homem acompanhou-me e a minha previsão confirmou-se.

— Mas esses molhos de capim podiam também estar aqui já antes de nossa chegada — disse o Mirza.

— Oh! Hassan Ardschir-Mirza que bom que só eu estou a te ouvir! Não vês então que este capim está verde ainda, prova de que foi cortado recentemente?

— Bom, desçamos agora até o rio, onde na distância correspondente encontrei há pouco o primeiro sinal. Saduk vem assinalando um caminho da largura de vinte passos, caminho que partindo do rio conduz para o nosso acampamento. Lá seríamos assaltados e mortos tal qual sucedeu ao teu pai, ao farmacêutico, ao muschtahed e sua filha.

— Ah! senhor se tu tivesses razão!

— E tenho-a, fica certo disso! És um bom caminhante: acharás o caminho trilhado até aqui ao deixardes o último acampamento?

Ele respondeu afirmativamente e nós subimos pela ribeira, alcançando daí a pouco o local em que eu estivera acampado com os haddedins e os demais companheiros, antes de acorrermos em socorro dos persas. Viéramos então do norte; aqui, porém, o vale do rio não tardou em curvar para o leste e nós seguimos este rumo. Já havíamos vencido a curvatura do vale, quando notamos à direita um vime, de cuja casca haviam tirado duas fitas.

— Em que ordem cavalgastes, em geral, durante a presente jornada? — inquiri.

— As mulheres no meio e os homens divididos em duas secções.

— À qual das secções pertencia Saduk?

— Sempre à da retaguarda. Muitas vezes atrasou-se na marcha, porque se detinha a contemplar e colher flores de que é um grande apreciador.

— Pois, afianço-te que ele ficava para trás com o propósito de assinalar o caminho aos teus perseguidores, sem que tu o notasses. É de uma sagacidade extraordinária o teu Saduk!

— Mas onde estão os sinais?

— Aqui neste vime está um; vamos para frente!

Depois de três quartos de hora o rio era umas três vezes mais largo do que no seu trajeto anterior, formando um lanço facilmente vadeável. Aí ficou o Mirza parado e apontou para um pé de bétula ainda tenro e que fora partido um pouco abaixo de sua copa.

— Talvez tomes isto também por um sinal?! — perguntou ele com ar de gracejo.

Examinei a arvorezinha.

— E realmente é um sinal. Examina bem a arvorezinha e também outras árvores; contempla as direções das elevações e verás que só do oeste é que podem bater os ventos aqui. Nenhum vento norte, sul e leste terá aqui a força de partir uma árvore abaixo de sua copa. E no entanto foi quebrada e de modo que a quebradura indique o lado oeste. Não te cai na vista uma tão curiosa circunstância, Mirza?

— Realmente, emir!

— E contempla a superfície do corte! Está ainda branquinha, logo o corte foi feito ao tempo de tua passagem por aqui. A copa está atirada para o oeste, exatamente a direção que tomaste com tua gente. Continuemos nas pesquisas!

— Vamos nadar?

— Nadar? Para que? O rio é baixo e permite passarmos a pé. Verás que o ponto em que entraste no rio, para atravessá-lo, está assinalado também.

 

AVISTANDO OS PERSEGUIDORES

Despimo-nos e amarramos os nossos trajes sobre a cabeça. A água em geral só nos ia pouco acima dos joelhos; houve apenas um ponto em que a sua profundidade era da altura dos meus ombros. Ao chegarmos ao lado oposto, Mirza teve que constatar que a minha suposição era certa. No ponto em que a caravana entrara no rio para vadeá-lo havia vários cipós amarrados à guisa de porta.

— Mas Saduk teve tempo para trançar todos aqueles cipós? — perguntei.

— Teve sim. Lembro-me de que os camelos obstinavam-se a entrar no rio; tivemos muito trabalho com eles. Saduk deixou o seu cavalo para trás, a fim de fazer um dos camelos atravessar. Depois voltou sozinho a buscar a sua montaria.

— Que finório! E continuas a não suspeitar dele?

— Emir, eu já estou concordando contigo. Mas nas planícies onde só há relva, que espécie de sinal teria ele feito?

— Também isto já havemos de descobrir. De que rumo procedíeis ao chegardes neste ponto?

— Do levante. Lá do outro lado há... Oh! emir, que é aquilo? Dizendo isso, apontou para o leste. Olhei na direção indicada e divisei no horizonte uma linha escura que de nós se aproximava em linha reta.

— São cavaleiros? — perguntou o persa.

— Exatamente. Ligeiro para dentro d’água de novo! Deste lado não há lugar apropriado a esconderijo e lá temos os macegais e os penedos para isso.

A retirada foi feita com rapidez; chegados à margem oposta escondemo-nos num ponto de onde podíamos espreitar os que passavam. Só ali é que tivemos tempo de nos vestir.

— Quem será aquela gente? — perguntou o Mirza.

— Hum! Por esta estrada não há movimento comercial; mas o passo pode também ser conhecido por outros. Aguardemos, pois, os acontecimentos.

Os cavaleiros aproximavam-se a passo e alcançaram a margem oposta do rio. Estavam agora tão perto que dava para se lhes distinguir as fisionomias.

— Derigh! (30) — sussurrou-me o persa. — São tropas persas.

— Em território turco? — perguntei, duvidando.

— Tu vês que ostentam vestes de beduínos!

— São ihlats (31) ou milicianos?

— Ihlats. Conheço o comandante; foi meu comandado.

— Quem é ele?

— É o susbaschi Maktub Agha, (32) o audaz filho de Ejub Khan.

 

(30) Irra!

(31) Os ihlats são recrutados entre as tribos nômades, ao passo que os milicianos entre os moradores das cidades.

(32) Comandante de 500 homens.

 

Vimos que o comandante examinou detidamente as trancas de cipó; depois passou a falar aos seus homens indicando sempre o cipó e entrou no rio para vadeá-lo. Os demais o seguiram.

— Senhor, — cochichou o persa profundamente agitado — tiveste razão em tudo. Essa gente foi expedida para me capturar. Entre ela também se acha o pendschahbaschi (33) Omram, sobrinho de Saduk. Oh! Alá, se eles nos descobrirem aqui! Não há perigo de teu cachorro trair a nossa presença?

— Não, ele ficará em silêncio.

Os perseguidores compunham-se de trinta homens. O seu comandante era um sujeito audaz; conhecia-se à primeira vista. Junto à bétula ficou parado, a rir-se.

— Dusad diwwan, com mil demônios! — exclamou ele. — Vem cá pendschahbaschi e vê! quanto nos podemos fiar no filho do teu irmão. Aqui está um novo sinal. Daqui por diante dirige-se o caminho rio abaixo. Avante!

Passaram por nós os trinta homens sem nos notarem.

— Afinal, Mirza, estás ou não convencido de tudo?

— Convencidíssimo, — respondeu o persa. — Mas não há tempo para conversa; o momento é de ação e não de palavras.

— Ação? Nada mais nos resta fazer do que segui-los cautelosamente.

Deixamos o esconderijo e seguimos os ihlats de modo a conservá-los à vista sem sermos notados por eles. Era vantajoso para nós que os homens cavalgassem com bastante morosidade. Daí a uns quinze minutos, chegaram os soldados persas ao ponto de onde Maomé Emin sairá para lançar-se à morte. Estacaram ali a examinar os vestígios do acampamento.

Quanto a nós, dobramos a direita pelo macegal adentro, a fim de ganharmos distância. De lá ao acampamento nosso distava dez minutos, mas esta distância a vencemos em cinco. Lá chegamos, eu suando em bicas e o Mirza resfolegando. Um golpe de vista pelo acampamento bastou para que se visse estar tudo em ordem.

— Conservai-vos em silêncio! — ordenou o Mirza. — Aproximam-se inimigos.

Dito o que voltamos e fomos nos postar à beira do caminho, num denso macegal, onde antes deixáramos uma sentinela. Os perseguidores não tardaram a surgir. Estacaram defronte ao nosso esconderijo.

— Este seria um excelente local para acampamento — ponderou o susbaschi. — Que achas, Omram?

— O sol está prestes a desaparecer no ocaso! — declarou o pendschahbaschi.

— Bom, pernoitaremos então aqui; água e relva também não faltam.

Por isso naturalmente é que eu não esperava. A resolução podia redundar em perigo para nós. Apagamos todos os vestígios de nossa passagem, menos no local do acampamento primitivo, onde havia gramas pisoteadas e cinza da fogueira. Além disso, eu notara agora que a grama pisoteada à tarde por Saduk se havia reerguido, mas não completamente.

— Allah il Allah, que faremos? — perguntou Ardschir-Mirza.

— Os três somos demais aqui; podemos facilmente ser descobertos. Um basta e este serei eu. Leva o cachorro, volta para o acampamento e preparai-vos para o

 

(33) Tenente, comandante de 50 homens.

 

combate. Se ouvirdes o detonar deste revolver continuai no acampamento; no caso, porém, do estampido ser o desta espingarda vinde apressadamente em meu auxílio porque me encontro em perigo. Halef trará então a minha pesada espingarda que ficou no acampamento.

— Emir, nessa conjuntura de perigo não te posso abandonar aqui!

— Eu aqui estou mais seguro do que tua gente lá em cima. Vai! Tu me estorvas!

Na companhia do seu servo e de Dojan, subiu o persa a encosta e eu fiquei no mesmo local. Era-me preferível isso, do que me achar em companhia de companheiros inexperientes. Eu só estaria propriamente em perigo no caso do susbaschi mandar efetuar uma batida nas redondezas. Mas aquele capitão persa não era nenhum cacique de tribos indígenas dos Estados Unidos para alimentar tal idéia: disso me apercebi da maneira negligente com que acampou, não curando nem mesmo de averiguar se se encontrava em lugar seguro.

Os cavalos foram desencilhados e soltos. Correram logo para a aguada e se espalharam. Cada um deles conhecia o chamado do dono. Os cavaleiros jogaram suas lanças no chão onde também puseram os seus objetos na mais perfeita desordem que se pode observar num acampamento daqueles, e se deitaram a descansar. Apenas o pendschahbaschi fêz uma exploração do terreno e chegou ao local onde, quando acampados, acendêramos o fogo.

— Purtu we diwbad! Raios e trovões! que encontro aqui! — exclamou ele.

— Que? — perguntou-lhe seu superior, erguendo-se de um salto.

— Aqui ardeu um fogo. Aqui eles pernoitaram.

— Hallejah (34)! Onde?

— Iadscha, aqui!

O susbaschi correu até lá, examinou o local e constatou a exatidão da. descoberta do subordinado. A seguir perguntou-lhe:

— Há por aí algum sinal?

— Não vejo nenhum — respondeu o tenente. — Não deve isso ter sido possível a Saduk. Amanhã os acharemos mais adiante. Aqui também nós podemos acender um fogo. Tomai farinha para fazer o pão!

Ao ver eu os soldados procederem tão descuidadamente cheguei logo à conclusão de que não os precisaríamos recear na mínima coisa. Acenderam uma enorme fogueira, fizeram da água do rio e farinha uma massa que depois de batida e enrolada, foi espetada na ponta da lança e segurada diante do fogo. Constituía o pão que eles comiam ainda meio cru e meio queimado com uma sofreguidão de quem estivesse faminto. Oh! quanto uma porção de lingüiça com ervilhas não levantaria o moral daqueles defensores da pátria!

Aquele pão assado no espeto, por assim dizer constituiu a sua única refeição.

Quando a noite caiu sobre as montanhas, eles fizeram a sua oração e aproximaram-se depois da fogueira a contar as suas lendas das “Mil e uma noites” pela milésima primeira vez. Vi que nada adiantaria para a nossa segurança estar ali a ouvir as lendas e voltei para o acampamento. Lá não ardia fogueira alguma e

 

(34) Alleluia, louvado seja o Senhor, Graças a Deus!

 

todos se achavam a postos prontos para a luta. Saduk continuava guardado por Halef e pelo inglês. Haviam-lhe reforçado as algemas e colocado também uma mordaça na boca.

— Em que pé estão os acontecimentos, emir? — perguntou o Mirza.

— Muito bem — respondi.

— Eles se foram embora?

— Não foram, não.

— E como então diz o senhor estarem bem os acontecimentos?

— Porque aqueles ihlats com todo o seu horrível Maktub Agha são os indivíduos mais nadanan (35) que tenho visto em toda minha vida. Se nos conservarmos aqui durante a noite no mais absoluto silêncio, eles amanhã bem cedo prosseguirão a marcha sem darem pela nossa presença. Halef, com tua perna pisada consegues ainda descer a encosta?

— Consigo, sídi.

— Então eles são teus, pois em ti é que melhor me posso fiar. Ficarás a postos lá em baixo, até que eu te venha substituir.

— Onde me procurarás?

— Os homens acenderam uma fogueira e pouco acima desta ergue-se um pinheiro desgalhado. Junto de seu tronco nos encontraremos.

— Já vou, sídi. Deixarei a espingarda aqui; ela me estorvará. A minha faca está afiada e é bastante pontiaguda e se um daqueles lorpas se aventurar a subir a encosta há de se lembrar depois no djehenna do Hadji Halef Omar! Allahi, wallahi, tallahi, tenho dito!

Dito o que, ele foi saindo. O inglês pegou-me pelo braço.

— Mister, onde ficou o seu juízo? Estou aqui sentado durante todo este tempo e não entendo uma só palavra do que falam. Sei que lá em baixo acha-se acampado uma tropa persa, e nada mais. Desembuche, pois: preciso saber alguma coisa.

Em poucas palavras disse-lhe como iam as coisas; ao Mirza afigurou-se gastar eu demasiado tempo com o relato. Fui interrompido por ele com a pergunta:

— Emir, não é permitido nem ao menos ver aqueles ihlats?

— Sabes caminhar através de folhas secas e macegais sem fazer o menor ruído?

— Sei, emir.

— Sabes dominar os espirros e a tosse?

— Isto é impossível.

— Não é impossível, não; nem ao menos é difícil, quando se exercita bem. Contudo vamos tentar. Talvez que nos seja possível espreitá-los e deles ouvir alguma coisa importante para nós. Quando sentires uma irritação por leve que seja na garganta ou no nariz encosta a boca rente ao chão e cobre a cabeça. Aquele que espreita outro, jamais tomará respiração pelo nariz; deste modo é pouco provável espirrar. E se não puder evitar a tosse, deve tossir imitando o mugido do búfalo. Um atilado chekarji (36), porém, jamais tosse ou espirra!

 

(35) Imbecis.

(36) Caçador.

 

Saí rastejando na frente e ele seguiu-me. Procurei remover-lhe do caminho tudo que o levasse a fazer ruído. Deste modo chegamos sem novidade à posição ocupada por Halef e nos ocultamos entre moitas densas. A doze passos de nós ardia a fogueira dos persas. Os dois oficiais estavam sentados bem perto dela e o pessoal se reunira formando três quartos de círculo em torno das chamas. De quando em quando o clarão iluminava o vulto dum dos cavalos, dos quais alguns pastavam dispersos e outros se achavam deitados.

Hassan Ardschir-Mirza não sussurrava uma só palavra, mas pela sua respiração depreendia-se quanto ele se achava agitado. Era um homem cheio de coragem e hábil no manejo das armas, mas nunca se achara em situação idêntica à do momento. Também a mim me bateu o coração quando pela primeira vez espreitei uma tropa de sioux que haviam saído para prender-me. Como era natural, a experiência me proporcionara mais sangue frio.

Os ihlats pareciam convictos de que se achavam sozinhos em toda a região, pois conversavam em voz tão alta que se podia ouvir do outro lado do rio. No momento em que alcançávamos o nosso esconderijo, perguntou o pendschahbaschi:

— Vais prendê-lo com vida?

— Se ele se deixar prender com vida, sim.

— E reconduzi-lo vivo?

— Não sou nenhum lorpa. Quereis que eu o prenda vivo ou morto?

— Morto! — ecoou na roda.

— Naturalmente! Temos ordem de persegui-lo e se não o prendermos com vida, devemos levar a sua cabeça. Se o levarmos com vida, teremos que entregar todos os havêres que lhe apreendermos. E se levarmos apenas a sua cabeça, ninguém nos perguntará pelo resto.

— Dizem que ele conduz o seu dinheiro e mais objetos de valor em camelos — observou o tenente.

— Portanto, aquele filho dum serdar (37) excomungado é muito rico; precisou de oito ou dez camelos para transportar os seus tesouros. Iremos colher boa presa e tocará boa quota a cada um.

— Dize-me cá, susbaschi, que farás se o Mirza se recolher à proteção de algum xeque ou funcionário turco?

— Nem me preocuparei com esta proteção; mas neste caso não devemos declinar a nossa nacionalidade, compreendeis? Ademais, ele nem tempo terá para se asilar sob a proteção de ninguém, pois já amanhã ou o mais tardar depois de amanhã o teremos capturado. Partiremos amanhã ao romper d’alva e continuaremos a encontrar sinais que, como até agora, nos conduzam com segurança ao paradeiro do fugitivo. Aquele idiota Hassan Ardschir-Mirza pensa que Saduk por não poder falar também não sabe escrever. Os sinais que nos vem ele distribuindo pelo caminho constituem uma escrita que se lê com toda nitidez. Acorde deiatia, ide descançar, cães e lorpas, pois já não dispomos mais de muito tempo para o sono reparador de nossas forças.

Todos obedeceram à ordem do comandante e por certo que muitos entraram

 

(37) Generalíssimo

 

logo a sonhar com os fabulosos tesouros que esperavam dentro em breve ter nas mãos. A nossa observação trouxera, além da vantagem de ordem tática, mais a de vir a saber que o pai do Mirza fora um serdar e eu tomava quase como certo que o Mirza mesmo tivesse também o posto de general nas tropas persas. Devia tratar-se de pessoas de condição aquelas de cuja vingança ele vinha fugindo.

Depois que os ihlats se enrolaram nos seus cobertores, nós vagarosamente retrocedemos dali.

Ao chegarmos a uma distância a não podermos mais ser ouvidos, disse o Mirza:

— Emir, aqueles susbaschi e pendschahbaschi foram sempre por mim acumulados de benefícios, de que ignominiosamente se esquecem agora. Ambos devem ser executados!

— Eles neste caso nem são dignos de tua atenção; são verdadeiros cães que correm em tua perseguição; não te encolerizes com eles mas com os seus senhores!

— Mas pretendem matar-me para se apoderarem de meus cabedais.

— Pretendem mas não consumarão o propósito. No acampamento acertaremos medidas neste sentido. Vai indo que breve te seguirei.

O Mirza continuou meio contrariado. Quando não avistei mais os seus vagarosos movimentos procurei Halef a quem ministrei algumas instruções indispensáveis. Depois dobrei um arco em torno do acampamento dos ihlats, de modo a atingir à direita a orla do macegal, onde quebrei um arbusto. Depois segui sempre rumo sul. Cerca de dois minutos depois quebrei outro ramo de modo que o galho quebrado se dirigisse para o sul e assim fui fazendo sucessivamente de cinco em cinco e depois de dez em dez minutos. Feito o que, regressei ao nosso acampamento.

Gastei com aquela excursão mais de meia hora e encontrei o Mirza tomado de cuidados por mim. Também o inglês perguntou-me:

— Por onde andou perambulando? Aqui estou sentado feito um menino órfão, pelo qual ninguém se interessa; estou farto dessa situação! Well!

— Tranqüilize-se! Não tardará a ter ocupação.

— Muito bem! Bravo! Esmagaremos aqueles sujeitos?

— Não, mas lhes pregaremos uma peça bem perto do seu nariz.

— Folgo! Que fiquem com o nariz tal qual o meu! Yes! Quem tomará parte na tal peça?

— Apenas o senhor e eu.

— Tanto melhor! Quem executa um serviço sozinho lhe colherá os louros. E quando começaremos?

— Pouco antes do romper da alvorada.

— Só então? Neste caso vou descansar ainda um pouco os ossos. Enrolou-se no cobertor e ferrou no sono.

Hassan Ardschir-Mirza estava ansioso por acertar as medidas comigo e fora da tenda vi três vultos femininos que a apreensão tirara do leito para ouvir-nos diretamente, visto não poderem esperar para ouvir depois.

— Onde estiveste, depois que nos separamos, emir?

— Quis deixar-te tempo para refletires, a fim de acalmar-te depois. Um homem prudente não pede conselho à sua cólera, mas à razão. Creio haver se acalmado a tua cólera; dize-me, pois, que pretendes fazer?

— Assaltar aquela gente e matá-la!

— Pensas atirar os teus homens exaustos e feridos contra aqueles trinta possantes e cheios de saúde?

— Tu e os teus companheiros estareis do nosso lado.

— Não estaremos, não! Não sou nenhum bárbaro, mas um cristão. A minha fé permite-me defender-me a vida, no caso de ser eu agredido; no mais, porém, ordena-me que respeite a vida dos meus irmãos. O santo livro dos cristãos manda: Amarás a Deus de todo o coração e com todas as tuas forças e ao teu próximo como a ti mesmo! Portanto, a vida do meu próximo deve ser para mim tão sagrada quanto a minha.

— Mas aqueles homens não são nossos irmãos e sim nossos inimigos!

— Mesmo assim, não deixam de ser nossos irmãos. O kuran dos cristãos diz: “Amai os vossos inimigos; abençoai os que vos amaldiçoam; fazei o bem aos que vos ofendem e perseguem; então sereis o filho do vosso Pai no céu!” E eu sou obrigado a obedecer a esses ensinamentos, visto que sou cristão.

— Mas são ensinamentos imprudentes e desvantajosos. Se o seguires, terás que morrer a todo o perigo que te surgir e em todo o combate serás obrigado a ceder terreno ao inimigo.

— Ao contrário! Essas prescrições encerram em si a súmula da sabedoria divina. Achei-me já envolvido em perigos maiores ainda que este e na maior parte das vezes estive em piores condições de me defender do que milhares de outros. Mas como vês, vivo ainda e consegui sair sempre vencedor porque Deus protege os que lhe são obedientes.

— Então não me queres ajudar, emir, não obstante seres meu amigo?

— Sou teu amigo e disso vou dar-te exuberantes provas; mas pergunto-te: pretendes tu, Hassan Ardschir-Mirza, te tornar um assassino?

— Jamais, emir!

— Contudo projetas assaltar os ihlats na ocasião em que estão a dormir! Ou pretendes acordá-los previamente, para que o combate se efetue lealmente? Neste último caso estarias irremediavelmente perdido.

— Senhor, eu não os temo!

— Sei-o. Afianço-te que eu sozinho seria capaz de enfrentar aqueles trinta homens, se se tratasse aqui de uma luta justa; minhas armas são mais eficientes que as deles. Mas quem me garante que o seu primeiro tiro, primeiro golpe ou primeira punhalada não me vai atingir exatamente? Uma valentia selvagem e insofreável assemelha-se à fúria do búfalo, que se atira cegamente à morte. Figuro a hipótese: ainda que matásseis quinze ihlats, restariam ainda quinze que prosseguiriam no combate contra vós. Tu mesmo então lhes terias denunciado a tua senda e eles a conservariam até vos matar a todos!

— As tuas palavras são sábias, Senhor; mas se eu poupar os meus perseguidores, nas mãos lhes cairei! Mais hoje, mais amanhã me capturarão e o que então me sucederá tu próprio acabaste de dizer.

— Quem disse para te atirares em suas mãos?

— E que mais representa isso? Ou quem sabe se serás capaz de movê-los a me deixar seguir calmamente a minha rota?

— Pois é isso mesmo o que pretendo fazer.

— W’Allah! Isto até constitui... constitui uma... uma... Emir, nem sei como deva eu qualificar-te depois de me haveres saído com essa!

— Pois qualifica-me de deli, louco, é a expressão adequada. Não é assim?

— Não devo dizer nem sim nem não, visto que te estimo de todo o coração. Então achas que conseguirás demover aquela gente do seu propósito, aquela gente que anseia pela minha vida e pelos meus cabedais?

— Estou convencido de que o conseguirei; mas ouve: estive há pouco lá em baixo no rio, onde quebrei alguns arbustos e galhinhos de árvores. Se os ihlats virem esses sinais suporão haverem sido feitos por Saduk. Levantarão eles acampamento ao romper d’alva. Eu cavalguei na frente deles a fazer tais sinais, com o fim de despistá-los. Mas se eles vos descobrirem antes de partir o vosso acampamento, defendei-vos; eu ouvirei os vossos tiros e acorrerei imediatamente em vosso auxílio.

— Mas de que nos adiantará desviá-los de nossa senda, se eles mais tarde a encontrarão de novo?

— Deixa tudo por minha conta! Hei de fazê-los errar de tal modo, que não darão mais com a senda primitiva. Trazes pergaminhos contigo?

— Trago. Achamos também um em poder de Saduk; deste faltam algumas folhas.

— Ele as deve ter aproveitado com o fim de deixar secretamente notícias aos ihlats.

— Interrogaste-o neste sentido?

— Interroguei, mas não confessou nada.

— Não precisamos de sua confissão. Dá-me o pergaminho e vai dormir. Vigiarei o nosso acampamento e te acordarei quando fôr hora!

As mulheres desapareceram e os homens deitaram-se a dormir. Saduk pôde ouvir nossa palestra palavra por palavra; ele devia estar como que deitado sobre agulhas. Examinei-lhe as cordas que o algemavam e também a mordaça. As primeiras estavam suficientemente seguras e a última permitia a respiração, embora um tanto pesada.

Enrolei-me no cobertor, sem, porém, dormir.

 

DESPISTANDO OS PERSEGUIDORES

Ao romper do dia acordei o inglês. Também os persas despertaram e o seu chefe não tardou em aparecer.

— Vais partir, Senhor? — perguntou Mirza. — Quando voltarás?

— Assim que adquirir a certeza de haver despistado os perseguidores.

— Isso pode demorar até amanhã!

— Lógico que pode.

— Então leva farinha, carne e tâmaras. E que faremos nós até tua volta?

— Manter-vos-eis em atitude silenciosa e saireis o menos possível do acampamento. No caso de surgir algo de anormal aconselha-te com o meu Hadji Halef Omar, que te deixo no acampamento. Ele é um homem sincero, experimentado e sensato e em quem se pode confiar.

Desci ligeiro a procurar novamente Halef, a fim de pô-lo ao par do meu propósito. Quando voltei. Lindsay já se achava aprestado para a viagem e vi que o persa nos suprira os farnéis com abundantes previsões. Depois de uma breve despedida empreendemos viagem.

Foi muito dificultoso e demandou bastante tempo até que conseguimos passar com os cavalos por entre as árvores e macegais através da semi-escuridão ainda reinante. Fomos forçados a quebrar um atalho a fim de não sermos avistados pelos ihlats. Finalmente alcançamos o vale, montamos a cavalo e prosseguimos a trote, costeando sempre o rio. Não se podia ver muito distante à nossa frente, visto que a cerração tudo envolvia; nisso uma fagueira brisa soprada do sul anunciava-nos o próximo raiar do dia. Em breve atingíamos o ponto em que o rio descreve uma curva e onde na véspera colocara eu o último sinal. Aí apeei.

— Stop! — perguntou o inglês. — Por quê?

— Aqui teremos que aguardar a ver se a tropa persa continuará sem deter a marcha, ou se antes farão uma exploração nas circunjacências, caso em que facilmente se chocaria com os nossos amigos.

— Ah! Boa idéia. Excelente medida de precaução. Well! Então será ainda tempo de corrermos em auxílio dos nossos aliados. Yes! Há fumo entre a nossa provisão?

— Vou ver.

Hassan Ardschir-Mirza — ou também podia ter sido a sua jovem e formosa irmã — fora de uma atenção a toda prova conosco pois junto com as vitualhas havia também uma provisãozinha de fumo persa e do bom.

— Muito bem. Well! Vamos logo fumar! Excelente homem aquele Mirza! Yes! — disse o inglês.

— Vê como lá se desfaz a cerração e dentro de dois minutos poderemos avistar os ihlats. Temos que nos conservar por trás da curvatura, do contrário nos verão eles e o nosso plano estará descoberto.

Ocultamo-nos na curvatura do rio e ali ficamos à espera. Finalmente vi através das lentes do binóculo os trinta ihlats virem cavalgando a passo. Montamos a cavalo e nos fomos com a rapidez de uma flecha. Só uma milha adiante fiz alto e esfolei a casca de um vime.

— Hum! é preciso que sejam muito tolos, para não reconhecerem que esse sinal é muito recente e que data quando muito de hoje de manhã — murmurou Lindsay.

— Tem razão; mas convenha que aquele susbaschi não é nenhum David Lindsay-Bei! Vê, visto daqui, o rio parece formar um arco muito extenso; é certo que mais adiante por trás daqueles montes ele surja de novo, ao sul. Trata-se de um arco com uma corda de umas oito milhas inglesas no mínimo. Vamos fazer aqueles persas andarem um pouquinho por dentro do rio!

— Sou companheiro para qualquer aventura. Yes! Mas eles cairão na esparrela?

— Na certa, alteie o farnel de provisão no serigote!

— Mas aqui é fundo!

— Tanto melhor. Tem medo de morrer afogado?

— Psiu! Creio que me conhece bem! Mas acreditará aquela gente haver o Mirza atravessado o rio com os seus camelos?

— Pois é exatamente isto o que pretendo averiguar. Se o acreditarem, acreditarão também em todos os outros truques.

Larguei um emaranhado de cipó na beira do rio, fiz o cavalo deixar pegadas nítidas e confusas como se fossem de vários e entrei n’água. Vencendo a correnteza que era um tanto forte, atingimos a margem oposta do rio, onde quebrei alguns ramos de arbustos para significar um rumo direto ao sul. O solo era relvoso, com o que muito folguei, visto que a umidade deixava pouco visível nossas pegadas.

Tocamos então a galope para frente. Dentro de meia hora estariam os persas naquele local. Reconheceriam então, desde que não fossem inexperientes ou quiçá uns levianos, que nossa senda datava da manhã. Prosseguimos a galope durante umas duas horas, atravessando pequenas planícies, pequenos outeiros, pequenos vales banhados por pequenos arroios. Alcançamos então, conforme eu previra, novamente o rio Djalah que atravessamos novamente. Claro que nos lugares apropriados deixávamos os sinais convencionados. Agora peguei do pergaminho e dele rasguei uma folha.

— Pretende escrever? — perguntou Lindsay.

— Pretendo. Os sinais cessarão dentro em breve e por isso quero experimentar se a folha do pergaminho produz o mesmo efeito.

— Mostre-me o que escreveu!

— Ei-lo, vê se compreende!

Passei-lhe a folha, na qual se achavam escritas algumas palavras em persa. Do papel passou o homem a olhar-me; a boca se lhe escancara no clássico trapezóide e o nariz, contrafeito, virou-se para um dos lados.

— Heigh ho! Quem conseguirá ler esses garranchos! Que significa?

— São caracteres persas e lêm-se de trás para diante, isto é, da direita para a esquerda. Rezam: “Halijab hemwer zirn bala — daqui em diante permanentemente para baixo!” Quero ver se eles obedecem a essa instrução.

Quebrei dois ramos de um arbusto e neles prendi a folha do pergaminho de modo a não deixar de ser visto. Feito o que, voltamos para o ponto onde vadeáramos o rio a fim de ver os persas sem sermos vistos por eles. Lá chegados, descavalgamos para tomar nossas refeição matinal e deixar os cavalos pastarem nas sumarentas ervas que ali vicejavam. Como era natural, estávamos ansiosos por ver se o nosso ardil vingaria.

Tivemos que esperar muito mais de uma hora, quando ao longe divisamos os cavaleiros em marcha. Depois que eles passaram, através das lentes verifiquei haver produzido efeito o nosso estratagema. Continuamos satisfeitíssimos para a frente. Só ao meio dia deixei novo sinal pelo caminho e depois à noitinha outro, este último num dos ângulos de um vale adjacente que se estendia do rio para o oeste. Chegara o instante de executarmos a segunda parte do nosso programa, isto é, desviar os persas para a direita. Até aqui o terreno não se prestara a isso.

Na estrada deste vale acampamos para pernoitar.

 

Na manhã seguinte deixei em local visível outra folha de pergaminho, avisando que o caminho dali por diante conduziria por muito tempo rumo do ocidente. No decorrer da manhã deixei um terceiro preso à casca de uma árvore e no qual eu avisava que o Hassan Ardschir-Mirza tornara-se desconfiado por me haver (isto é a Saduk) pilhado fazendo um dos sinais. Ao meio dia preguei o quarto e último pergaminho. Continha este o aviso de que o Mirza pretendia seguir através das encostas do Bozian para Dschumeila ou então para Kifri; acrescentava que sua desconfiança recrudescera e que ele me mantinha sempre debaixo de observação; que portanto daqui por diante se me tornava quase que impossível continuar a fazer os sinais combinados.

Com isso estava finda a nossa tarefa. Não achei necessário aguardar a ver se os susbaschi me acompanhariam até aqui, pois isto pelo que sucedera até então era mais do que certo.

 

A FUGA DE SADUK

Dobrando um ângulo retrocedemos, passando por pontos talvez que até então jamais pisados por criaturas humanas. Fomos obrigados a cortar muitos atalhos e por fim atingimos novamente a margem do Djalah. Cavalgamos mais um trecho rio acima até que anoiteceu e fomos forçados a tomar pouso. De manhã bem cedo partimos e ao meio dia chegávamos ao acampamento.

Pouco antes de alcançá-lo, Halef veio pulando ao nosso encontro.

— Graças e louvado seja Alá, sídi, que tu chegas são e salvo! Estivemos todos apreensivos, pois estiveste dois dias e meio ausente em vez de um conforme fora combinado. Aconteceu-vos, por acaso, alguma desgraça em caminho, efêndi?

— Não, ao contrário, tudo correu muito bem. E se não voltamos antes, foi porque ainda não adquiríramos a certeza de que vingara o ardil de que lançamos mão para despistar e confundir os persas. E no acampamento como vão as coisas?

— Bem, embora haja sucedido uma coisa que não deveria ter sucedido.

— Quê?

— Saduk fugiu.

— Saduk! Mas como pôde ele fugir?

— Deve ter entre os persas que acompanham o Mirza alguém que o libertou, cortando-lhe as cordas.

— Quando fugiu ele?

— Ontem, de manhã, já dia claro.

— Mas como foi isso possível?

— Tu estavas ausente com o inglês e eu montava guarda lá em baixo. Os persas, porém, abandonaram o acampamento uns após os outros para ver o que faziam os ihlats. Estes se retiraram calmamente em prosseguimento da viagem, mas quando os nossos voltaram ao acampamento havia desaparecido o prisioneiro.

— Isto é grave, gravíssimo mesmo! Se a fuga se desse um dia depois, poderíamos estar tranqüilos. Vem, acomoda o garanhão.

Chegado ao acampamento todos nos acolheram com transportes de alegria. Via-se o cuidado por que se achavam tomados devido à nossa demora. A seguir, o Mirza conduziu-me para um lado e participou-me a fuga de Saduk.

— Há duas hipóteses a considerar: primeiro, se Saduk conseguir alcançar os ihlats os trará imediatamente de volta; segundo, ele também pode estar acoitado pelas proximidades do acampamento à espreita do momento azado para desforrar-se. Em qualquer dos casos, não nos encontramos mais em segurança se ficarmos aqui. Portanto urge que abandonemos este local.

— E para onde iremos? — perguntou Hassan Ardschir-Mirza.

— Antes de mais nada para a margem oposta. Na direção de baixo não há um passo, consequentemente voltaremos até ao ponto em que atravessaste o rio. Isto nos reforça a segurança, visto que ninguém acreditará que seguiste para cima. No caso de estar Saduk acoitado por aí na expectativa de tomar uma desforra durante a noite, não se aventurará ele a aproximar-se de dia do nosso acampamento. Eu poderia aliás tentar descobrir sua senda expedindo o meu cão à procura da mesma; mas isso é de êxito um tanto duvidoso e requer muito dispêndio de tempo. Dá as ordens no sentido de ser levantado o acampamento e mostra-me as cordas em que esteve o prisioneiro algemado. Dagora em diante cuida com todo empenho de jamais conhecerem os teus servos os propósitos que tens em vista.

 

AS CONDIÇÕES EM QUE SE DEU A FUGA

O homem dirigiu-se à palhoça das mulheres, voltando em seguida com as cordas e a mordaça; esta era feita de um pano. Tudo estava cortado. Passei a examinar os cortes.

— Ordena à tua gente que se aproxime! — propus ao Mirza.

Os servos, ao chamado do chefe, se aproximaram sem perceberem naturalmente de que se tratava; depois, porém, deram com os olhos nas cordas, depostas no chão à minha frente.

— Dai-me vossas facas e punhais! — ordenei-lhes.

Enquanto estendiam os braços com as armas, examinava-lhes eu as. fisionomias de cada um, sem que descobrisse a mais leve contração denunciadora. Examinei depois as lâminas e os fios das facas e punhais. Observara que as cordas e a mordaça haviam sido cortadas com um punhal de três cantos; não tardaria em descobrir o autor dos cortes e conseqüente libertador do prisioneiro.

Havia apenas dois servos armados com punhais de três cantos e notei logo, àquelas palavras, que um deles empalidecia. Descobri mais que o mesmo levantava lentamente um dos pés como quem se preparava para fugir em vertiginosa disparada. Por isso adverti:

— O autor da libertação prepara-se para fugir; ele que não se arrisque, pois complicará com isso a sua situação em vez de minorá-la. No pé em que se acham as coisas só a confissão franca o poderá salvar!

O Mirza contemplava-me admirado e também da fisionomia das mulheres, através do véu diáfano, depreendia-se a surpresa que lhes causavam as minhas palavras.

Terminara eu o exame e estava certo de haver chegado a diligência a um resultado satisfatório. Apontei para o culpado e disse:

— Foi este aqui! Amarrem-no!

Mal eu pronunciara tal ordem, o homem ergueu-se num salto e ganhou o macegal. Os demais queriam persegui-lo.

— Alto! — ordenei-lhes.

— Emir, ele nos escapará! — ponderou o Mirza.

— Não se escapará, não! — repliquei-lhe. — Não vês que Dojan está comigo? — “Dojan tut onu, Dojan pega-o!”

O cachorro saiu a toda velocidade macegal adentro e um grito logo se fêz ouvir de permeio com o latido anunciador do cão.

— Halef vai buscar o sujeito! — ordenei ao meu servo. O pequeno Hadji obedeceu-me de fisionomia satisfeita.

— Mas, emir, — acudiu o Mirza — como podes descobrir pelo punhal, o autor do corte das cordas?

— Muito facilmente! Uma lâmina chata faria cortes bem diferentes que uma de três cantos, apropriadas mais para punhaladas do que para cortes. As superfícies dos cortes se desenvolveram muito para os flancos, razão por que não é possível que tivessem sido feitos com uma lâmina chata. E atenta para aqui: o corte não é liso, mas irregular e cheio de rompimento dos tecidos do couro; a lâmina pois com que foi cortada deve ter uma grande falha no corte. Agora vê o punhal daquele homem. É o único de todos que possui tal falha.

— Senhor, admirável é tua sabedoria!

— Não mereço tal elogio. A experiência ensinou-me a levar em consideração, em casos destes os mínimos detalhes; portanto não é sabedoria, mas um simples hábito que se arraigou em mim.

— Mas como sabias que ele tinha em vista fugir?

— Porque notei que o homem empalideceu e levantou de leve um pé, preparando-se para correr. Quem o interrogará agora, tu ou eu?

— Interroga-o tu, emir! A ti talvez ele não negará coisa alguma.

— Então a tua gente que se afaste, para que a confissão se torne mais fácil. Aqui, devolve-lhes as facas! Vou interrogá-lo, mas com a condição de que me entregues também o julgamento e não me oponhas embargos à execução da sentença a que eu condená-lo.

O Mirza aceitou prazerosamente a condição.

Agora chegava Halef com o criminoso, que se mostrava perturbadíssimo. A um sinal meu, Halef o trouxe para a frente do local em que me achava abancado ao lado do Mirza. Contemplei-o por algum tempo agudamente e depois declarei-lhe:

— O destino que tomaras depende tudo de ti; se confessares sinceramente a tua falta contarás com a nossa indulgência; mas se negares, prepara-te a fim de viajares hoje para o djehenah!

— Senhor, contarei tudo, — disse o indigitado — mas por amor de Deus toca daqui o cachorro!

— O cão ficará postado à tua frente, até concluirmos o interrogatório. Ele está pronto para te estraçalhar ao menor aceno meu. Agora, responde-me sinceramente: fôste tu o libertador de Saduk?

— Sim, fui eu mesmo.

— E por que o fizeste?

— Por que lhe fizera um juramento.

— Quando?

— Antes de encetarmos esta jornada.

— Como lhe poderias ter jurado alguma coisa, se Saduk é mudo e consequentemente não pôde falar contigo?

— Senhor, eu sei ler — respondeu o homem com orgulho.

— Então conta o resto!

— Saduk e eu estivemos sentados a sós no pátio; escreveu ele então num pergaminho a pergunta se eu o estimava. Respondi-lhe que sim, pois compadecia-me dele, por lhe haverem arrancado a língua. Ele escreveu depois que também me estimava e que deveríamos ser amigos e irmãos de sangue. Concordei e então juramos por Alá e sobre o Kuran que jamais nos abandonaríamos mutuamente e que estaríamos ao lado um do outro em todos os perigos e provações da vida.

— Falas a verdade?

— Posso provar-te o que digo, emir, porque conservo ainda em meu poder o pergaminho em que foram aquelas palavras escritas.

— Onde está o pergaminho?

— Aqui na minha cinta.

— Mostra-me.

O homem passou-me a folha; estava suja mas nela se podiam ainda ler nitidamente aquelas palavras. Mostrei o pergaminho ao Mirza; este o leu e meneou a cabeça com ar de que acreditava nas palavras do interrogado.

— Fôste muito imprudente — disse eu ao homem. — Fizeste aquele juramento, sem antes refletir se o mesmo não redundaria talvez em teu mal.

— Emir, todos o tomávamos por um homem leal!

— Conta o resto!

— Nunca supus que ele fosse um biltre, razão por que dele me compadeci, ao vê-lo preso. Lembrei-me então do meu juramento de estar ao seu lado em todos os perigos e provações da vida e temi que Alá me castigasse, caso eu não cumprisse o juramento. Por isso, esperei o momento em que todos se haviam retirado e libertei Saduk.

— Falou ele contigo?

— Ele não fala, pois é mudo.

— Sei disso, mas pergunto se não te falou por meio de mímica!

— Não. Ele ergueu-se, distendeu os membros e depois de me apertar a mão pulou para o matagal.

— Em que direção?

— Naquela.

Apontou para a direção oposta ao rio.

— Quebraste a fidelidade que deves ao teu senhor e nos traiste, para cumprires um juramento feito com leviandade. Adivinha qual o castigo que receberás?

— A morte, emir.

— Sim, mereceste a morte, pois libertaste um assassino e com isso nos lançaste a todos em perigo de morte. Mas como confessaste sinceramente a falta, permito que supliques ao teu senhor um castigo mais brando. Não creio que pertenças ao rol de gente que comete o mal por odiar o bem.

O pobre homem se achava banhado em lágrimas e arrojou-se de joelhos diante do Mirza. Estava tomado de medo, de modo que os lábios lhe tremiam e ele não podia pronunciar uma palavra. A fisionomia severa do seu Senhor, cada vez se abrandava mais.

— Não fales, — declarou este — eu já sei o que me queres pedir e não posso te ajudar em coisa alguma. Eu sempre estive satisfeito contigo, mas o teu destino já não depende mais de mim; só ao emir cabe resolver a teu respeito.

— Senhor, tu ouviste! — tartamudeou o homem, dirigindo-se súplice a mim.

— É de opinião que um bom muçulmano é obrigado a cumprir o seu juramento? — perguntei-lhe.

— Sou, emir.

— Serás capaz de quebrar uma jura?

— Não e mesmo que me custasse a vida!

— E se Saduk voltar secretamente, continuarás ao seu lado?

— Não! Libertei-o, cumprido, pois, está o meu juramento. Dagora em diante, estou desobrigado do mesmo.

Singular aquele ponto de vista sobre a durabilidade de um juramento! Contudo ele nos favorecia.

— Queres tornar esquecido o teu erro, servindo o teu senhor com fidelidade e estima?

— Oh! senhor, se isso fosse possível!

— É possível, sim. Aqui aperta-me a mão e jura!

— Juro-o por Alá e sobre o Kuran, pelos califas e todos os santos que existiram!

— Bom, estás livre e continuarás ao serviço de Hassan Ardschir-Mirza. Mas guarda sempre tal juramento na memória!

O homem de alegria e felicidade, ficou quase fora de si e quanto ao Mirza notei nele que estava de acordo comigo. Contudo não pudemos trocar palavras a este respeito dada a premência de tempo, ocupados que nos achávamos com a transferência do acampamento.

 

 

Em Bagdad

Na transferência do acampamento foram os camelos que mais serviços nos deram. Os estúpidos ruminantes, habituados nos vastos desertos e planícies, andavam com dificuldade por entre as árvores e penedos. Fomos obrigados a carregarmos nós as suas cargas para a margem do rio e depois empurrá-los, por assim dizer, como se fossem viaturas. A mesma dificuldade tivemo-la na travessia do rio.

Conservara-me com Halef sempre por trás dos outros, a fim de desfazer todas as pegadas que deixávamos no solo.

De forma alguma era propósito nosso encetar imediatamente a viagem para Bagdad; pretendíamos apenas abandonar um local onde não nos achávamos mais em segurança e procurarmos outro em que estivéssemos a cavaleiro de sermos descobertos pelos ihlats e Saduk. A tardinha, depois de já havermos rumado de há muito para o sul, encontramos uma palhoça abandonada que por certo havia servido apenas de parada transitória a um único curdo, seguidamente em viagem pela zona. A palhoça recostava-se à parede de uma rocha e nos três flancos restantes era cercada por moitas e arbustos isolados. Do lado de lá das moitas avistávamos ao longe o horizonte, e no meio das mesmas era fácil de se acomodar os animais. Resolvemos fixar ali o nosso acampamento o que não demandou muito tempo e trabalho, pois este consistiu apenas em estendermos nossas colchas no solo.

 

UM ENCARGO DE CONFIANÇA

Quando terminamos o nosso serviço, anoitecera e as mulheres que habitavam a palhoça se entregavam aos seus quefazeres culinários. Foi-nos servido um gostoso jantar. Em conseqüência da forçada cavalgada de quase três dias, achava-me fatigadíssimo e não tardei em adormecer. Havia dormido já algumas horas, quando senti que me tocavam no braço, e abri logo os olhos. A velha Halwa se achava diante de mim a acenar-me. Ergui-me para acompanhá-la. Os outros dormiam todos, a não ser o persa que se achava de sentinela num macegal, de modo a não nos ver. A velha conduziu-me a um dos flancos da casa, onde se erguia uma moita de sabugueiros; lá se achava Hassan Ardschir-Mirza.

— Tens algo de importante a combinar? — perguntei-lhe.

— Para nós muito importante, pois refere-se ao prosseguimento de nossa viagem. Refleti sobre o caminho a seguir e muito folgaria se minha idéia merecesse a tua aprovação. Desculpa-me por te haver interrompido o sono.

— Dize-me o que resolveste!

— Tu já estiveste em Bagdad. Tens amigos ou conhecidos lá?

— Alguns conhecimentos passageiros, contudo não tenho dúvida de que esses homens tenham propósitos amistosos comigo.

— Então poderás lá morar com segurança?

— Não sei do que precisaria eu temer lá. Além disso, acho-me debaixo da proteção do Grão Senhor e em último caso posso também recorrer à de uma potência européia que tenha consulado naquela cidade.

— Então vou fazer-te um pedido. Conforme já te disse, a minha gente me está esperando em Ghadhim. Tenho um pressentimento de que lá não estarei em segurança e daí o pedir-te que vás tu até lá cuidar dos meus interesses.

— Prazerosamente. Quais as incumbências que tens a confiar-me?

— Os camelos que lá encontrares carregam os meus cabedais que pude salvar. Isto no prosseguimento da viagem será trabalhoso de conduzir; resolvi, pois, vender tudo. Queres te encarregar da venda?

— Sim, desde que me dás uma tão elevada prova de confiança.

— Confio muito em ti. Mandarei um dos meus servos acompanhar-te, o qual te legitimará junto com uma carta minha, ao Mirza Selim Agha. Converterás tudo em dinheiro, inclusive os animais e depois pagarás o pessoal e o despedirás.

— E o Mirza Selim Agha não se encolerizará por lhe não haveres confiado a ele tal incumbência? Ele te serviu com fidelidade e dedicação. Afrontando os maiores perigos, conduziu-te os cabedais até Bagdad; portanto fêz jus à tua confiança.

— Não me contraries, emir, pois sei o que faço. Ele será o único que não despeço dos meus serviços com o que poderá dar-se por muito satisfeito. Acho que desempenharás melhor o encargo do que ele e, além disso, outra razão há para eu tomar tal deliberação, razão que depois direi. Encontrarás logo uma residência em Bagdad?

— O difícil será unicamente a escolha.

— Confiar-te-ei não só os meus haveres, como também a minha “casa”, emir. Aceitas?

— Hassan Ardschir-Mirza tu me causas surpresas e me deixas embaraçado! Reflete que sou um homem e um cristão!

— Não te pergunto se és cristão ou muçulmano, pois, quando me arrancaste das mãos dos bebbehs também me não fizeste antes tal pergunta. Eu preciso tudo fazer para escapar dos meus perseguidores. Estes, não devem saber onde se acha Hassan Ardschir-Mirza; por isso entrego-te os meus cabedais e te confio a minha “casa” para que esta durante a minha ausência fique debaixo de tua proteção. Sei que respeitarás a honra de minha mulher e de minha irmã Benda.

— Nem exigirei que elas se apresentem diante dos meus olhos e tampouco que falem comigo. Mas que ausência é esta de que falas, Mirza?

— Enquanto permaneceis em Bagdad, irei na companhia do Mirza Selim Agha a Kerbela enterrar os despojos de meu pai.

— E te esqueces de que também eu pretendo ir a Kerbela!

— Emir, desiste dessa idéia; é bastante perigosa para ti. Sim, estiveste em Meca sem perder a vida; mas tem em vista a diferença que há entre Meca e Kerbela. Lá se acham muçulmanos devotos e pacatos e em Kerbela homens fanáticos que diante da representação da tragédia de Hossein se perturbam até ao delírio e desandam nos paroxismos do ódio, que muitas vezes sacrificam até os próprios crentes. Basta um deles desconfiar de que não és um chiita, ou mesmo que nem muçulmano és, para que sofras a morte mais horrível que se possa conceber. Segue os meus conselhos, e abandona o teu propósito.

— Bem! Em Bagdad resolverei sobre o assunto. Mas quer eu vá quer fique, fica certo, Hassan Ardschir-Mirza, de que tua “casa” ficará protegida e de que nada lhe sucederá.

Com isso terminara a nossa conferência.

Ficamos cinco dias acampados naquele local e só prosseguimos na jornada, depois de estarmos certos de que todos os componentes da caravana haviam refeito suas forças. A cavalgada através das montanhas realizou-se com mais êxito do que esperávamos e, ao contrário de minhas suposições, não tivéramos o menor encontro com os árabes, o que deveríamos agradecer mais ao nosso espírito de precaução do que à boa vontade dos beduínos.

Por trás de Beni Seyd, cinco dias distantes de Bagdad, fizemos alto num canal. Daqui deveria eu partir para Ghadhim a falar com o Mirza Selim Agha a quem Hassan Ardschir confiara os seus haveres. A nossa pequena caravana escolhera para acampamento um ponto em que não era de recear o menor incômodo por parte de inimigos e salteadores. Ajudei primeiramente a organizar o acampamento e depois me foi entregue a carta na qual o Hassan me acreditava junto ao seu súdito.

— Mas encontrarei realmente boa vontade da parte do Selim Agha? — perguntei-lhe ainda.

— A ele cabe obedecer-te como se tu fosses eu em pessoa. Tomaras conta de tudo o que ele conduz e depois de não necessitares mais dele, manda-o para cá, juntamente com o emissário que te vai acompanhar agora. Ficarei aqui até a tua volta. Venderás tudo o que tenho e o que fizeres está bem feito.

O inglês notou os preparativos para o prosseguimento da viagem e perguntou:

— Para Bagdad, mister? Irei junto!

Não me opunha a isso. Mas outro também pretendia acompanhar-me: era Halef. Isso, porém, não era possível, visto que a sua presença era necessária para a defesa do acampamento.

 

GHADHIM

Partimos e daí a duas horas alcançávamos a terceira curvatura do Tigre acima de Bagdad em cujo interior, na margem oposta do rio, ficava situada Ghadhim. Desviamo-nos para a direita da estrada-correios que conduz para Kerkuk, Erbil, Mossul e Diarbekir e passamos pela grande olaria que ali existe. Atravessando lindas alamedas de palmeiras, atingimos Ghadhim que é habitada exclusivamente por chiitas persas.

Aquela localidade está situada dentro do solo “santo”, visto que nela está o túmulo do Imam Ibn Dschafer. Esta célebre personalidade fizera a peregrinação a Meca ao lado do califa Harun al Raschid. Nesta última cidade Imam Ibn Dschafer saudou o profeta com as palavras: “Salve, Pai”! ao passo que o califa havia feito a sua saudação com o seguinte: “Salve, primo”! — “Como, pretendes ser parente mais próximo do profeta que eu que sou o seu legítimo sucessor?!” — trovejou-lhe Harun encolerizado. Desde aquele dia o califa passou a odiá-lo no mesmo grau em que antes o estimava e o preferia. Imam Ibn Dschafer foi depois lançado na masmorra, onde morreu. Mas depois de sua morte ergueram-lhe um pomposo templo sobre o túmulo, templo cuja cúpula é toda de ouro maciço, encimada por quatro imponentes minaretes.

Ghadhim tornou-se notável em virtude de possuir uma instituição de utilidade pública, modelo ocidental, e que a distingue das outras, causando por isto mesmo uma impressão estranha ao viajor: possui ela uma estrada de rodagem e um serviço regular de correio; a estrada tem por ponto de partida o local fronteiro ao arsenal de Bagdad. Foi ela mandada construir pelo espírito altamente adiantado e reformador do regente Midhat Paxá, que mais tarde tão saliente papel veio representar em Istambul. Não tivesse aquele homem sido chamado do cargo de governador geral de Iraque para exercer outras funções governamentais e a Mesopotâmia estaria hoje suprida de uma via férrea cujo objetivo seria ligar os territórios do Tigre e Eufrates através das principais regiões da Síria até Constantinopla. Infelizmente, porém, aquele empreendimento de vulto até hoje não passou de projeto. Midhat Paxá foi forçado naquela época a reunir à chibata os interessados pela construção de sua estrada de rodagem, o que nitidamente ilustra a estabilidade do maometanismo.

Os persas que povoam Ghadhim são em maioria mercadores e negociantes, que diariamente vêm a Bagdad para negócios. E para encontrar o Agha entre aquela população precisava eu procurar uma estação de caravanas que em Bagdad há muitas e em Ghadhim algumas.

 

UM ENCONTRO QUE DEGENERA EM PUGILATO

Era meio dia e nos achávamos no mês de julho. O calor era asfixiante; a temperatura estava a 35 graus Reaumur. Uma aragem muito leve soprava pela cidade e todos que encontrávamos traziam os rostos debaixo de véus. Numa das ruas encontramo-nos com um homem ostentando riquíssimos trajes persas; montava fogoso cavalo tordilho aperado com um reschma, arreios custosíssimos com os quais só os mais abastados poderiam ornar os cavalos. Em face daquele homem nós com nossas vestes nos assemelhávamos a verdadeiros bandoleiros.

— Ez andscha, tschepu rast; raspai-vos daqui, desviai pela direita! — trovejou-nos o homem fazendo com o braço um sinal de aborrecimento.

Eu cavalgava ao lado do inglês, mas a rua era tão larga que o persa poderia com muita folga passar por nós. Eu lhe teria feito a vontade, se não tivesse acompanhado as suas palavras do gesto de menosprezo.

— Há suficiente lugar para passares! — trovejei-lhe, olhando-o de través. — Avante!

Ao invés de passar, atravessou ele o tordilho em nossa frente e urrou:

— Porcos de sunitas, não conheceis o lugar onde vos encontrais; afasta-te do caminho, se não o meu chicote indicará a tua vereda!

— Pois experimenta!

O homem desapresilhou o chicote manufaturado em couro de camelo, do serigote e o levantou para o golpe. Este não me atingiu, porém, porque Rih desviou-se e a galope passou por ele. De passagem, desferi-lhe um soco na cara que ele, apesar de montar num serigote oriental, tombou ao solo. Eu queria prosseguir calmamente o meu caminho; mas nesse instante ouço, além do furioso praguejar do homem, a voz assustada do servo que nos fora posto à disposição por Hassan Ardschir Mirza exclamar:

— Az baray chodeh — Por amor de Deus, este é o Mirza Selim Agha!

Virei-me imediatamente e volvi para o local do incidente. O meu antagonista tornara a montar e brandia o alfange. Só agora é que reconhecera o servo.

— Arap, és tu! — exclamou ele. — Como vieste parar na companhia desses naschijestan (1), que Alá amaldiçoe?!

Não deixei o servo responder, e retruquei:

— Cala-te! O teu nome é Mirza Selim Agha?

— Sim — respondeu, colhido de surpresa pelo tom de minha pergunta.

Aproximei o meu cavalo rente ao dele e disse-lhe à meia voz:

— Sou um enviado de Hassan Ardschir Mirza. Conduze-me à tua residência!

— Tu?! — perguntou, admirado, medindo-me o exterior com um olhar. — Depois dirigiu-se ao servo com a pergunta:

— É isso verdade Arap?

— É sim — respondeu o mesmo. — Este efêndi é o emir Kara Ben Nemsi, que tem uma carta do nosso senhor a entregar-te.

Mais uma vez o olhar desprezível, desaforado mesmo do Agha repousou sobre nós; depois declarou em tom arrogante:

— Vou primeiro ler a carta e depois ajustar contas contigo. Hás de pagar-me caro o bofetão que me desferiste! Acompanhai-me, mas à distância; a vossa promiscuidade ofende-me as vistas!

Aquele homem era, pois, o Schah-Swar, o fiel, que abandonara seu posto no exército persa, a quem o Mirza confiara os seus cabedais e que conquistara até o coração da jovem Benda, pois até isso o Mirza me dissera em horas de confidencias. Pobre moça! E se aquele Agha realmente fosse um Schah-Swar, isto é, um extraordinário cavaleiro, devia também ter aprendido a julgar o homem pelo cavalo que monta e neste particular, nem eu nem o inglês poderíamos ser tomados por gente da ralé. Além disso, fora uma imprudência sua andar na qualidade de fugitivo, de um modo tão ostensivo, trajando-se de maneira a chamar para si a atenção de todos e mantendo uma postura tão arrogante que nem em individualidades de maior relevo se justificaria. Nem por sombras estava eu inclinado a fortalecer-lhe o orgulho e a arrogância; antes, fiz um sinal a Lindsay que, compreendendo-o logo, cavalgou para frente e nós os dois passamos a escoltar o fanfarrão.

— Cão! — trovejou-me este. Afasta-te de mim, do contrário mandar-te-ei chibatar!

— Cala-te, biwakuf, (2) — retruquei-lhe — do contrário te mandarei novamente o punho no nariz! Aquele que passeia usando os aperos do seu Senhor, pode facilmente arrogar-se um grande homem sem o ser! Cuida-te, que te ensinarei a ser cortês!

O homem nada me respondeu e colocou de novo o véu sobre o rosto, que com

a queda se descobrira. Devido ao véu, é que ele não reconhecera logo o servo nosso

 

(1) Indivíduo sem honra.

 (2) Estúpido.

 

guia.

Cavalgamos por várias ruas estreitas e por fim o Agha parou defronte a um muro baixo, que, estando quebrada a cancela, era fechada por meio de alguns sarrafos. Um homem veio-nos abrir a porteira, se é que tal nome se pudesse dar àquilo. No interior do pátio deparamos logo com um certo número de camelos deitados a receber forragem, que se compunha de papa feita de farinha de cevada e semente de algodão, forragem que em Bagdad se distribui aos animais. Por ali jaziam no solo vários vultos de homens em atitude de preguiça, os quais ao avistarem o Agha ergueram-se de chofre, em atitude respeitosa. Ao que parecia, aquele pequeno comandante soubera se impor ao respeito de sua gente.

O homem entregou o seu tordilho a um dos servos para acomodá-lo e nós deixamos as nossas montarias entregues ao servo que nos acompanhara. Depois conduziu-nos à casa, cuja frente formava os fundos do muro. Descemos por uma escada ao sardaubs (3), uma necessidade para a canícula reinante na região. O compartimento quadricular estava “mobiliado” com várias almofadas recostadas à parede; sobre uma das almofadas havia um serviço de café todo de prata maciça; ao lado via-se um kukah (4) de alto preço e na parede se achavam dependurados, além de várias armas de alto valor, certo número de tjibuks destinados aos hóspedes eventuais. Num vaso antiquado, de porcelana, onde se via representada uma cabeça de chinês, havia fumo e do meio do teto pendia uma lâmpada cheia de azeite de sesam.

Correspondendo ao meio, constituía tudo aquilo uma instalação verdadeiramente principesca, razão por que eu estava longe de supor pertencer a mesma ao Agha.

 

ACOLHIDA POUCO HOSPITALEIRA

— Saiam aleikum! — saudei à entrada.

Lindsay fêz o mesmo, mas o Agha não nos correspondeu a saudação. Abancou-se numa das almofadas e bateu palmas. Imediatamente lhe apareceu um dos homens que eu vira no pátio e que recebeu ordem de acender o kukah. Isto foi feito com vagarosidade verdadeiramente oriental, com solenidade de gestos, enquanto nós permanecíamos durante toda a cerimônia como moleques de rua postados na porta. Finalmente a gloriosa tarefa concluíra-se e o criado se afastou indo parar por trás da porta, a ouvir o que se falaria. Agora, afinal, julgou o Agha ter chegado o momento de nos dedicar a sua atenção. Depois de expelir algumas espirais de fumaça, perguntou, sem mandar que nos aproximássemos:

— De onde vindes?

Aquela pergunta era aliás supérflua, pois pelo criado já soubera do objetivo de nossa vinda; contudo em atenção a Benda, irmã do Mirza, resolvi evitar o mais possível que o homem se irritasse conosco. Por isso respondi-lhe.

— Somos emissários de Hassan Ardschir-Mirza.

— Onde se encontra ele?

 

(3) Pavimento térreo.

(4) Cachimbo persa, meio termo entre nargilé e tjibuk.

 

— Nas proximidades da cidade.

— E por que não vem ele em pessoa?

— Por medida de precaução.

— Quem sois?

— Somos dois frankes.

— Giaurs? Ah! Que fazeis neste país?

— Viajamos a conhecer as suas cidades, aldeias e populações.

— Sois muito curiosos! De uma tamanha falta de educação só mesmo os caffirs são capazes. Como viestes a vos encontrar com o Mirza?

— Pelo caminho.

— Grande novidade! Onde, queria eu perguntar.

— Do outro lado, nas montanhas do Curdistão. Estivemos no seu acampamento até hoje. Sou portador de uma carta para ti.

— Constitui imperdoável leviandade da parte do Mirza declinar-vos o seu nome e, o que é mais grave ainda, confiar à gente de vossa laia, uma carta. Sou um crente; nada posso receber diretamente de vossas mãos; entregai a carta ao servo que vou agora chamar!

Aquilo já era mais do que descaramento! Contudo repliquei em tom calmo:

— Não considero o Mirza um homem leviano e peço-te lhe dizeres isto pessoalmente. Além disso, ele jamais se utilizou de terceiros para receber alguma coisa de nossas mãos.

— Cala-te, caffir! (5) Sou Mirza Selim Agha e faço o que bem me aprouver! Conheceis todas as pessoas que fazem parte da caravana do Mirza?

Respondi-lhe afirmativamente e ele continou a interrogar-me, inclusive se também havia mulheres na comitiva do persa e caso afirmativo quantas.

— Duas senhoras e uma serva — respondi-lhe.

— Viste-lhes as figuras?

— Mais de uma vez!

— Foi uma grande imprudência do Mirza. Os olhos de um infiel jamais devem repousar nem sequer nas vestes de uma mulher!

— Dize-o pessoalmente ao Mirza!

— Cala-te desavergonhado! Não preciso dos teus conselhos! Ouvis-te as vozes das mulheres?

Aquele sujeito grosseiro submetia-me a paciência a duras provas!

— Em nosso país não se pergunta pelas mulheres dos outros de modo a dar na vista. Não se adota aqui o mesmo hábito de civilidade? — retruquei-lhe com energia.

— Tens o arrojo de me fâlares neste tom?! — trovejou-me o homem. — Cuida-te! Além disto preciso ainda liquidar contas contigo, sobre o soco que me desferiste há pouco na face. Isto o farei depois. Por enquanto, porém, entrega a carta!

 

(5) Infiel.

 

INVERTEM-SE OS PAPÉIS

Bateu novamente palmas. O criado apareceu, mas não lhe dei atenção. Tirei a carta do bolso e com ela estendi a mão ao Agha.

— Entrega-a ao servo! — ordenou-me, apontando para o serviçal. — Compreendeste?!

— Bom, neste caso voltarei para o local de onde vim. Passa bem, Mirza Selim Agha! — Virei-me e o inglês também.

— Alto! Não permito que vos retires! — exclamou o Agha ordenando depois ao servo:

— Não os deixes sair!

Eu já alcançara a porta e o servo travou-me do braço para deter-me. Aquilo foi demais. Sir Lindsay não compreendera o nosso diálogo, mas pelos gestos e pela seriedade de nossas fisionomias, depreendeu logo não havermos trocado lá muitas amabilidades. Por isso pegou o delgado persa pelas ilhargas, ergueu-o e arrojou-o pelos ares na extensão de todo o compartimento, de encontro ao Agha, derribando-o no solo.

— Fiz bem, mister? — perguntou-me, a seguir.

— Yes! Well!

O Agha ergueu-se de salto e pegou da espada.

— Cães! Corto-vos a cabeça!

Agora, sim, estava a tempo de ministrar-lhe eu uma liçãozinha. Avancei para ele e lhe desferi um soco no braço, que a espada caiu-lhe no chão; depois travei-lhe dos ombros.

— Selim Agha, não és tu o homem capaz de decapitar-nos; senta-te e daqui por diante porta-te com obediência. Eis a carta e ordeno-te que a leias imediatamente!

Pronunciadas tais palavras, com ambas as mãos premi violentamente o homem, fazendo-o sentar-se na almofada. Atônito, o Agha nem se lembrou de resistir; olhava-me, perplexo, pronto a obedecer-me. Virei-me e vi que o seu valente servo preferiu concentrar-se corajosamente na retaguarda... Desaparecera e, ao bater eu palmas, arriscou apenas meter a cabeça pela abertura da porta semi-aberta.

— Entra! — ordenei-lhe.

Obedeceu-me, mas permanecia pronto para a fuga, diante da porta.

— Arranja cachimbos e café! Depressa!

Olhou-me primeiro estarrecido e depois interrogativamente ao Agha; aproximei-me dele e o empurrei para o local em que os cachimbos se achavam dependurados na parede. Aquele ato impôs-me difinitivamente ao seu respeito, visto que o homem colocou-nos logo os cachimbos entre os lábios, ao mesmo tempo que nos oferecia fogo para os acendermos.

— Agora o café! Anda! Depressa e do bom!

O servo desapareceu girando os calcanhares ligeiro como uma flecha.

Refestelamo-nos sobre os divãs fumando displicentemente à espera de que o Agha terminasse a leitura da carta. O homem fazia-o lentamente; disso, porém, não tinha culpa o seu apoucado desenvolvimento em leituras; antes o conteúdo da carta é que talvez lhe parecesse tão estranho, que ele mal se podia aperceber do mesmo!

Era uma linda, mas muito linda figura de homem; vi-o, agora que dispunha de bastante tempo para observá-lo. Tinha carregadas olheiras. O que denunciava desperdício de energia e de tempo em libertinagens; também em seu semblante havia um que de indefinível que, após um exame mais detido, para ele atraía franca repulsa. Aquele Selim Agha não era por certo o homem para fazer feliz Benda, a formosa irmã do Mirza.

Nesse entretempo, apareceu o servo, trazendo as xícaras de café em pires de fina porcelana. Ao invés de duas chícaras, trazia umas duas dúzias de xícaras, para que logo se pudesse retirar sem ser chamado novamente. Também o Agha dava mostras de haver recuperado o equilíbrio íntimo. Dirigiu-me os seus olhares ensombreados e perguntou-me:

— Como te chamas?

— Costumam tratar-me Kara Ben Nemsi.

— E como se chama este outro?

— David Lindsay-Bei.

— É para eu entregar-te tudo?

— Pelos menos é o que ordena o Mirza.

— No entanto eu não entregarei coisa alguma.

— Faze o que bem te aprouver; não me cabe dar-te ordens.

— Volverás imediatamente à presença do Mirza a transmitir-lhe o meu recado.

— Não faltava mais nada.

— Por que não?

— Porque assim como não me compete dar-te ordens a ti também não cabe dar-mas; eu faço o que melhor entender.

— Bom! Enviarei um emissário ao Mirza e não deixarei esta antes de obter resposta.

— O teu emissário não o encontrará.

— Arap, que vos conduziu aqui, deve conhecer o local em que se encontra o seu senhor!

— Claro que conhece!

— Pois a ele é que enviarei.

— Arap não irá!

— Por quê?

— Porque não quero que ele vá! Hassan Ardschir-Mirza incumbiu-me de receber os seus cabedais das tuas mãos e enviar-te juntamente com Arap para o seu atual acampamento. E é o que vou fazer, não modificando nada em tal incumbência. Arap só voltará para junto do seu senhor, acompanhado por ti.

— Tens a presunção de forçar-me à obedecer-te as ordens? Arriscas-te muito!

— Pah, presunção! Arriscar! Que arriscaria eu contigo?! Se tu te igualasses a mim, falar-te-ia eu em bem outros termos; mas eu sou um emir de Frankistão e tu um modesto Agha dos persas. Além disso, tu nem ao menos aprendeste a maneira de se conviver com homens de linha. Na rua exiges que te demos lugar como se fosses um grande da terra; aqui na tua casa te esqueces de corresponder-nos à saudação; não nos convidaste a sentar-nos; não nos serviste café e cachimbos; chamaste-nos de caffires, porcos e cães. Entretanto de um verme não passas diante de nós e do teu senhor, o Mirza! Com um leão, luto eu; mas com um verme não me preocupo, se lhe apraz revolver-se no lodo e nos monturos! Hassan Ardschir-Mirza confiou-me os seus cabedais; portanto aqui ficarei. Agora faze lá tu o que não podes deixar de fazer!. . .

— Hei de apresentar minhas queixas contra ti! — retrucou o homem,

— Não me oponho a isso.

— Não te entregarei coisa alguma!

— Nem é preciso, pois aqui já me abanquei tomando conta de tudo.

— Não tocarás em nada!

— Tocarei daqui por diante em tudo que me foi entregue a mim pelo legítimo dono. E se me importunares levarei logo o fato ao conhecimento do Mirza. Por enquanto, porém, dá ordens no sentido de nos servirem uma boa refeição, visto que já não sou hóspede nesta casa, mas o próprio senhor.

— Esta casa não pertence nem a ti nem a mim.

— Não há dúvida; tu, porém, a alugaste. Não cries embaraços à missão que aqui me trouxe. Dou-te uma alta prova de consideração, permitindo que continues a distribuir as ordens entre o pessoal; mas se não corresponderes a este gesto de fidalguia com que te cumulo, saberei eu em pessoa ordenar o que me apraz e também saberei fazer com que me acatem as determinações.

O homem viu-se num beco sem saída, como se diz em linguagem vulgar. Ergueu-se da almofada e fêz menção de retirar-se.

— Para onde? — inquiri-lhe.

— Ordenar que vos seja trazida uma refeição.

— Isto podes muito bem fazer, daqui mesmo. Chama o servo!

— Homem, porventura sou teu prisioneiro?

— Mais ou menos! Pões embaraços no exercício do meu direito; portanto sou obrigado a impedir que saias daqui, visto ser bem possível que desejes empreender alguma coisa que não me convenha.

— Senhor, ignoras por completo quem eu sou!

Pela primeira vez o homem tratava-me de Senhor; perdera, pois, o senso da segurança individual.

— Como não? Sei até muito bem — repliquei-lhe. — És Mirza Selim Agha e nada mais!

— Sou amigo e pessoa da confiança do Mirza. Sacrifiquei tudo para acompanhá-lo e pôr-lhe a salvo os haveres.

— É uma ação louvável e meritória de tua parte, não há duvida; um servo jamais deve quebrar a sua fidelidade ao senhor. Acompanhar-me-ás agora à presença do Mirza.

— Sim, com isso concordo; vamos já!

— Este meu companheiro aqui permanecerá e providenciarás para que não lhe falte coisa alguma. Quanto ao resto, Hassan Ardschir que resolverá.

 

DE VOLTA AO ACAMPAMENTO DO MIRZA

Ministrei as instruções ao inglês que muito folgou com elas. Era-lhe mais agradável ficar ali na sombra a tratar-se do que, como a mim me ia acontecer, fazer uma cavalgada de retorno debaixo de um sol abrasador. Depois de haver também o Agha dado as necessárias ordens ao seu pessoal, passamos para o pátio onde ele ia montar o excelente tordilho, que comprara em Ghadhim com o dinheiro do Mirza.

— Deixa este; monta outro cavalo! — ordenei-lhe. Olhou-me admirado e perguntou:

— Por quê?

— Para que tua figura não caia na vista. Toma um cavalo dos criados para esta curta viagem!

Se me levou a mal ou não a ordem isto era lá com ele; pouco se me dava! O servo Arap nos acompanhou. A fim de despistar alguns prováveis curiosos ou quiçá perseguidores mesmo, rumei para Madhim, que fica fronteira a Ghadhim, e, depois, por um atalho seguimos para o norte.

Madhim é uma vila de certo renome, situada à margem esquerda do Tigre e dista de Bagdad, ao norte, cerca de uma hora. Lá se acha sepultado o Iman Abu Hanife, um dos fundadores das quatro escolas ortodoxas do Islã; por ele guiam-se todos os livros de leis e rituais dos osmanlis. Primitivamente sobre o seu túmulo erguia-se uma mesquita mandada construir por Seldschukide Melek-Xá; mas quando o primeiro osmanli, Euliman I, dominou Bagdad, constituiu um castelo sobre o sepulcro. Abu Hanife foi envenenado pelo Califa Mansur que lhe votava ódio mortal; agora milhares de chiitas peregrinam anualmente à sua sepultura.

Decorreram duas horas, até alcançarmos o local em que se achava o Mirza acampado. Este ficou visivelmente surpreendido ao ver que eu retornava, mas recebeu o Agha com grande contentamento.

— Por que voltas? — perguntou-me o Mirza.

— Pergunta a este homem! — respondi-lhe, indicando o Agha.

— Então, fala! — ordenou depois a este. O Agha exibiu-lhe a carta e perguntou-lhe:

— Senhor, fôste tu quem escreveu isto?

— Foi. Conheces minha letra, por que, pois, me fazes tal pergunta?

— Por que ordenas uma coisa que eu nunca esperava e tampouco merecia?

As mulheres se postaram por trás das ramagens dos arbustos a ouvir o que falávamos.

— Que não esperavas tu? — perguntou-lhe Hassan Ardschir.

— De ter que entregar tudo quanto salvamos, a este estranho.

— Este emir não é nenhum estranho, mas meu amigo e irmão.

— Senhor, também eu não sou teu amigo?

— Ês meu servo de confiança; quando, porém, te dei o direito de te dizeres meu amigo?

— Senhor, abandonei a pátria; sacrifiquei o meu futuro; tornei-me fugitivo; vigiei e defendi as tuas riquezas: procedi então como amigo ou não?

— Procedeste como era de esperar de todo servo fiel e tal qual procederam todos os outros que compõem minha caravana. Tuas palavras doem-me, pois jamais julguei que serias capaz de creditar o cumprimento dos teus deveres à conta de favores para comigo. Não te disse eu nesta carta que obedecesses ao emir como se fosse a mim em pessoa?

A voz do Mirza adquirira um tom de gravidade; o Agha viu-se em sérios apuros, notadamente quando deu pelas mulheres a espreitar a conversa, ocasião em que procurou escusar-se dizendo:

— Senhor, este homem bateu-me, quando me encontrou!

O Mirza dirigiu-me um olhar e riu-se, replicando depois:

— Mas Selim Agha por que não o mataste? Como permitiste tu que te ofendessem de tal forma! Por que te bateu ele?

— Encontramo-nos numa das ruas e eu ordenei-lhe que fizesse lugar à minha passagem. O homem, além de não me obedecer, bateu-me na face com tamanha violência que me fêz tombar do cavalo.

— É isto verdade, emir? — perguntou-me o Mirza.

— Mais ou menos. Eu não o conhecia e o servo também não o reconheceu de momento, visto que o Agha trazia o véu no rosto. Cavalgava, ele um fogoso corcel tordilho aperado com os teus finíssimos arreios; tomei-o à vista disso, por um grande senhor. Ordenou-nos o Agha que abríssemos ala à sua passagem, não obstante haver suficiente lugar para ele cruzar, e a sua voz por esta ocasião tinha o tom arrogante da de um paxá. Tu me conheces bem, Mirza; gosto muito de ser cortês mas exijo que sejam também corteses comigo; chamei-lhe então a atenção para o lugar que havia, o qual dava para ele passar folgadamente sem nos molestar; o Agha então agarrou o chicote, chamou-me de porco e tentou chicotear-me. Foi então que no próximo instante jazia ele no solo arrojado por mim e só depois disso é que eu soube, infelizmente já tarde, de que se tratava do homem ao qual tu me havias enviado. É tudo quanto eu tinha a dizer. Agora fala com ele mesmo que me vou retirar; se precisares de mim, chama-me.

Dito o que, retirei-me indo para junto dos cavalos, palestrar com Halef.

 

UM TESOURO FABULOSO

Meia hora depois fui procurado por Hassan Ardschir-Mirza. Sua fisionomia mostrava profundas rugas de contrariedade.

— Emir, muitos aborrecimentos me causou tudo o que aconteceu. Estás disposto a perdoar àquele imprudente Selim Agha?

— Prazerosamente, se com isso te alegras! Que resolveste?

— Ele não voltará mais contigo.

— Assim o espero.

— Eis aqui uma relação de tudo quanto eu lhe entreguei. Avaliarás esses cabedais e os venderás: concordarei com tudo que realizares neste sentido, pois sei quanto é difícil achar compradores em tão curto lapso de tempo. Feito o que despedirás os meus servos, pagando-lhes os salários e gratificações que vão assinalados nesta lista à parte. O dinheiro para este pagamento já coloquei na maleta do teu serigote. Quando deverei partir para Kerbela?

— Estamos hoje a primeiro de Moharrem e a dez realiza-se a festa. Quatro dias de viagem levam-se para, de Bagdad, alcançar Kerbela, onde se prefere estar um dia antes da festa; portanto o dia cinco é o designado para a partida.

— Então tenho que me conservar oculto por aqui durante quatro dias!

Não. Há de se encontrar na cidade um lugar seguro para te conservares juntamente com os teus servos. Queres ficar com tudo que tens contigo atualmente?

— Não, também estes haveres devem ser convertidos em dinheiro.

— Neste caso dá-me tudo que te fôr dispensável para eu levar logo junto e dize-me o preço pelo qual deve ser vendido. Há muita gente rica em Bagdad. Talvez me seja possível encontrar um parsi ou armênio que adquira tudo num só lote.

— Mas, emir, o preço de tudo constituirá uma fortuna!

— Deixa isso comigo! Zelarei tanto pelos teus interesses como se estivesse curando dos meus próprios.

— Confio em ti. Vem, vamos examinar os haveres!

Os pacotes e fardos foram abertos e diante dos meus olhos pasmados depararam-se objetos de alto valor, como em tanta variedade e quantidade jamais vira eu. De tudo fizemos uma relação, após o que o Mirza marcou os respetivos preços. Estes eram muito baixos, levando-se em consideração o verdadeiro valor dos objetos; contudo representava o total uma verdadeira fortuna.

— E que farás dos servos que te acompanham, Mirza? — perguntei-lhe.

— Presentear-lhes-ei e os despeço dos meus serviços, assim que encontrar uma residência fixa.

— Para quantas pessoas deve ser a casa?

— Para mim, o Agha, as mulheres e sua serva. Depois tomarei a meu serviço um criado que não me conheça.

— Espero conseguir-te tudo isso. Manda carregar os objetos.

— Quantos tocadores de camelos levarás?

— Nenhum. Basta Halef e eu.

— Emir, não concordo! Não é serviço para ser feito por ti.

— Por que não? Queres que eu leve comigo gente que depois em Ghadhim e Bagdad se me tornem verdadeiros fardos?

— Bom, faze o que melhor achares. Cedo à tua vontade.

Os camelos foram carregados e amarrados uns aos outros e nós nos preparamos para a partida.

— Agora, dá-me um sinal que me acredite junto do teu pessoal — pedi ao Mirza.

— Leva o meu anel oficial.

Jamais sucedera-me usar um anel persa de alto preço como aquele. Após haver eu enfiado o anel, a caravana se pôs em movimento. O Agha não se deixou ver mais e eu não tive de fato a menor vontade de despedir-me dele.

Desta vez gastamos mais tempo em alcançar o Tigre e transpô-lo. Contudo a viagem decorreu bem.

Os persas se admiraram, quando entramos no pátio com o carregamento. Reuni-os imediatamente, exibi-lhes o anel do seu senhor e avisei-os de que daqui por diante cabia-lhes obedecerem exclusivamente a mim, que substituía o Agha.

Soube depois por intermédio deles que o dono da casa em que nos alojávamos era um abastado negociante em grande escala, morador do outro lado de Bagdad, no arrabalde do oeste, próximo de Medresse Mostansirs. Num vasto compartimento da casa se achavam depositados os cabedais conduzidos pelo Agha. Ali mandei depositar também os valores por nós trazidos. Resolvera eu só no dia seguinte entregar-me à tarefa que me fora confiada, visto achar-me fatigado.

Examinando a maleta do serigote, ali encontrei a soma de que o Mirza me falara. Compunha-se em seu total de tomans altamente cotados e representavam quantia quatro vezes maior do que a que eu precisava para o pagamento dos servos. Confiei a Halef a chefia dos servos persas e saí em procura do inglês.

Este se achava deitado preguiçosamente sobre um divã. O nariz se lhe movimentava, obedecendo rigorosamente ao compasso marcado pela respiração: de boca aberta roncava o homem.

— Sir David!

Ouviu-me logo, ergueu-se de um salto e puxou da faca.

— Quem é? Oh! Ah! All right! É o senhor, mister!

— Yes! Como vai o senhor?

__ Bem, muito bem! Esplêndido, aqui em Ghadhim!

— Veja como suo! Infernal esta soalheira.

— Well! Deite-se aqui e durma também!

— Temos mais que fazer. Antes de tudo quero finalmente comer alguma coisa.

— Bata palmas e o sujeito logo aparece.

— Já experimentou?

— Yes. Mas não lhe compreendi uma só palavra. Pedi cerveja “Porter” e ele trouxe-me angu; mandei que me servisse cherry e ele me veio com tâmaras. Horrível!

— Pois vou experimentar a ver se tenho melhor sorte.

Bati palmas e no mesmo instante surgiu o servo, o mesmo que atendera ao Agha. Primeiramente comuniquei-lhe que eu estava substituindo o Agha.

— Senhor, dize-me como devo tratar-te! — pediu-me o criado.

— Me tratarás de emir e a este mirza ali de bei. Providencia logo para que me seja trazida uma refeição.

— Que preferes comer, emir.

— O que houver. Não esqueças de trazer também água fresca! És o mestre-cuca?

— Sou, emir. Espero que ficarás satisfeito comigo.

— De que modo te pagava o Agha?

— Eu adiantava tudo de que carecia e de dois em dois dias recebia dele o dinheiro.

Bem, o mesmo critério adotaremos nós. Agora podes ir!

 

UM COMPRADOR PARA OS CABEDAIS DO MIRZA

Em breve foi-nos servido do que em Bagdad se pode adquirir de vimalhas e iguarias e o bom Lindsay-bei abancou-se novamente a participar da refeição.

— Conseguiu livrar-se daquele sujeito, o Agha, mister? — informou-se ele.

— Consegui. Por enquanto ficará ele na companhia do seu senhor. Temo que ele anseie por vingança.

— Psiu! Covarde! Mas sabe o que faremos depois da refeição? Seguiremos pelo correio até Bagdad a fim de comprarmos vestuários novos.

— Estou de acordo; está mesmo em tempo de mudarmos de indumentária. Além disso, por essa ocasião poderei colher alguns informes, de que careço ainda mais do que dos vestuários. É que eu procuro um comprador para os cabedais do Mirza, dos quais trouxe mais alguns camelos carregados.

— Ah! Oh! Em que consistem esses cabedais?

— São objetos finíssimos e de alto preço que o Mirza é obrigado a vender por verdadeira ninharia. Fosse eu um homem rico e ficaria com tudo.

— Cite-me alguns objetos!

Peguei da relação escrita em persa e li para o inglês.

— Oh! Ah! — exclamou ele. — Quanto pede o Mirza por tudo?

Citei-lhe a importância.

— E vale isso?

— Mesmo em se tratando de irmão para irmão, vale o dobro!

— Well! Bravo! Não precisa procurar ninguém. Sei de um homem que ficará com tudo o que pertence ao Mirza.

— O senhor sabe de um comprador?! Quem?

— David Lindsay. Yes!

— Será possível, sir? Oh! com isto o senhor me alivia de uma grande responsabilidade! Mas como está o senhor no que se refere ao numerário? Naturalmente que o Mirza precisa vender tudo ao contado.

— Numerário? Psiu. O dinheiro está aí. Tanto dinheiro assim só possui David Lindsay-bei. Yes!

— Que sorte! Bem, quanto a isto é assunto resolvido. Agora vem o resto. Refiro-me aos objetos que constituem o cabedal que até agora esteve entregue ao Agha. Este os preciso vender também.

— É muita coisa?

— Precisamos ver primeiro. Tenho a relação aqui e amanhã abriremos os fardos para avaliar as mercadorias ou então mandar avaliá-las por peritos. Só então é que poderei dizer ao certo em quanto importará, esta segunda transação.

— Há coisas bonitas entre esses haveres, hein?

— É claro! Há, por exemplo, entre outras coisas de alto preço, três couraças sarracenas de correntes, raridade de alto preço para um colecionador, alfanges forjados com aço de Lahore; várias garrafas com legítimo, óleo de rosas; brocais de ouro e prata, finíssimos tapetes, xales persas de fina lã de Kerman, um fardo contendo tecidos de seda raríssima, e assim. por diante. Aquele que adquirir essas preciosidades e as levar para os mercados ocidentais para vendê-los a retalho, terá feito um altíssimo negócio.

— Negócio! Oh! Era só o que faltava! Compro tudo para mim, para o meu uso pessoal.

— Tudo, sir? Também os cabedais a que se refere a segunda lista?

— Yes!

— Mas, sir, atente para a fabulosa soma que custará tudo isso!

— Fabulosa? Para o senhor, mas não para David Lindsay. Sabe em quanto monta a minha fortuna?

— Não, pois jamais imaginei sobre a sua situação financeira.

— Pois então cale-se! Minha situação financeira é boa, ótima, Yes!

— É fácil de se calcular ser o senhor um milionário, mas mesmo para um milionário é preciso muita reflexão antes de converter uma tão elevada soma em objetos tais.

— Não quer dizer nada. O valor não me falta e isso é o principal É verdade que não tenho presente toda a quantia necessária ao pagamento, mas possuo conhecidos nesta cidade. Escreverei alguns papéis com a assinatura de David Lindsay e depois receberei dinheiro a rodo. Well! Amanhã veremos os objetos.

— Está muito bem. Conduzir-me-ei com imparcialidade nesta transação visto que o senhor é meu amigo como também o é o Mirza. Vou contratar peritos para efetuarem a avaliação minuciosa de tudo. Depois é que entraremos em negociações propriamente ditas.

— Well! Agora, porém, rumo à cidade, para que depois possamos apresentar um exterior mais civilizado!

— Leve um tjibuk junto, sir. Vamos visitar a cidade com ares de autênticos muçulmanos.

 

UM PASSEIO A BAGDAD

Depois de haver eu comunicado a Halef que talvez ainda voltássemos antes da noite, saímos em procura do correio. Este se encontrava já em péssimo estado de conservação. As janelas caíam aos pedaços, os estofamentos dos bancos já haviam desaparecido e era puxado por dois matungos que sem exagero se poderiam qualificar de “esqueletos ambulantes”. Não obstante, porém, atingimos Bagdad sem acidente algum.

O nosso primeiro passo, como era natural, foi para uma loja de roupas, que depois abandonamos, ostentando outro aspecto. Não consegui convencer Lindsay para não pagar as despesas decorrentes de minhas compras. Também para Halef comprou o inglês uma vestimenta completa, que confiou para carregar a um jovem árabe que se apresentou oferecendo-se para este fim, logo que nos viu sair da loja com o pacote.

— E agora aonde iremos, mister? — perguntou Lindsay.

— Comprar vinho e raki e depois tomar um café.

Lindsay apoiou a minha idéia com um original grunhido e depois de alguma procura encontramos um estabelecimento do gênero que buscávamos. Como as compras por nós feitas iriam sobrecarregar demasiadamente o árabe de pacotes, indicamos ao dono da casa a nossa residência, para onde ele nô-lo devia remeter. A seguir estivemos num café, que ao mesmo tempo era barbearia, onde saboreamos um moca acompanhado de cachimbadas de fumo persa e depois entregamo-nos aos fígaros, para completarem o nosso embelezamento físico.

O nosso carregador postou-se bem diante da porta à nossa espera. Não vestia mais que um simples avental, mas sua postura era a de um rei. Por certo que se tratava de um beduíno já nascido livre. Como viera aquele filho do deserto a abraçar a profissão de mariola e carregador! A sua fisionomia interessou-me de tal modo que o convidei a tomar lugar ao meu lado.

Ele acedeu com ares de um homem cônscio do seu valor individual e aceitou o cachimbo que eu lhe oferecia. Depois de algum tempo, com ele entabolei palestra:

— Não és um turco mas um livre Ben Arab. Permite que te pergunte como vieste parar em Bagdad?

— A pé e depois a cavalo! — respondeu.

— Por que fazes carretos?

— Porque preciso viver.

— Qual o motivo por que não ficaste com os teus irmãos?

— O thar (6) é que me levou a isso.

— Então estás sendo perseguido por um vingador?

— Não é isso; eu é que sou o vingador.

— O teu inimigo fugiu para Bagdad?

— Justamente. Aqui me acho já há dois anos em sua procura.

Portanto impelido pelo desejo de vingança aquele árabe cheio de orgulho descera à condição de mandalete.

— De que terra vieste?

— Senhor, qual a razão de tantas perguntas?

— Porque me encontro em visita a todas as terras do Islã e desejaria saber se já conheço a tua pátria.

— Sou de Kara, no ponto em que o Wadi Montisch bifurca com o Wadi Qirbe.

— Da região dos Saybans em Belad Beni Yssa? Lá ainda não estive eu; recentemente me acho em caminho para aquela zona.

— E serás bem-vindo desde que sejas um devoto filho do profeta.

— Há outros patrícios teus nesta cidade?

— Um único que se apronta para o regresso.

— Quando deixará ele Bagdad?

— Assim que encontrar ocasião. Também ele foi impelido a Dar es Sallam (7) pelo desejo de vingança.

— Estará ele pronto a nos servir de guia à sua pátria?

— Não só como guia mas como Dachyl, que perante vós assume a responsabilidade de tudo.

— Posso falar com ele?

— Hoje e amanhã, não, pois ele foi a Dokhala, de onde regressará depois de amanhã. Vem à noite neste café, que o trarei aqui.

— Pois te esperarei. Como te encontras há dois anos em Bagdad deves conhecer bem a cidade.

— Conheço casa por casa, senhor.

— Não sabes de uma casa onde se possa morar confortavelmente, dela saindo e entrando a qualquer hora sem ser molestado?

— Conheço uma.

— Onde fica?

— Não muito distante daquela em que moro, na alameda das palmeiras, ao sul da cidade.

— Quem é o senhorio?

— É um tealeb devotíssimo que lá vive em isolamento, jamais importunando os inquilinos.

— Fica longe daqui?

 

(6) Vingança de sangue.

(7) Casa do santo.

 

— Se alugares uma cavalgadura, lá chegarás rapidamente.

— Vai então a um almocreve e aluga-nos três bestas. Depois nos guiarás até lá.

— Senhor, duas bastam, pois eu irei a pé.

Em breve tínhamos diante da porta duas cavalgaduras acompanhadas de dois recoveiros. Eram mulas tordilhas, das que há em grande manadas era Bagdad.

Até agora eu e o inglês achavamo-nos sentados de costas, visto que o espaço da barbearia e café ao mesmo tempo não nos permitia outra posição. O fígaro que se encarregara de pôr em ordem o meu ornamento capilar terminara o serviço e o do inglês; daí a segundos bateu palmas significando estar concluída a sua tarefa. Viramo-nos ao mesmo tempo um para o outro. Raramente se se haviam encontrado duas fisionomias tão desarmônicas em relação uma a outra, como as nossas naquele instante. Ao passo que Lindsay proferia uma exclamação de surpresa, não me con-tíve eu e desandei em estrondosa gargalhada.

— Que há para graças? — informou-se Lindsay desconfiado.

— Peça um espelho!

— Como se chama espelho nesta terra?

— Ajna.

— Well! E dirigindo-se ao barbeiro: — Pray the ajna!

O homem segurou um espelho diante do cliente e então, sim, impossível se tornou conter uma gargalhada mais estrondosa ainda em face dos jogos fisionômicos do inglês. Figure-se um semblante comprido e crestado pelo sol, com um cavanhaque de raras barbas avermelhadas; a boca enorme que naquele instante tinha uma abertura igual a do túnel de Gotardo; o enorme nariz três vezes aumentado em conseqüência do tumor d’Alepo e encimando tudo isso um crânio raspado a navalha, erguendo-se ao alto um topete, já de si suficiente para fazer rir a pessoa mais sisuda. Acrescente-se a isso o jogo fisionômico que fazia ele no instante! Não! O próprio beduíno por mais esforços que fêz não conteve o riso diante daquela figura impagável.

— Thunder-storn! Horrível, satânico! — exclamou David Lindsay. — Onde está o meu revólver? Mato este biltre a tiro! Varo-lhe o ventre com um punhal!

— Não se precipite, sir! — disse para solucionar o caso. — Este bom homem não tinha a menor idéia de que o senhor era um inglês. Tomou-o por um muçulmano, e de sua cabeça salvou apenas um topete.

— Well! Tem razão. Mas esta minha cara. Horrível. Detestável!

— Console-se, mister! O turbante cobrirá tudo e antes de regressar o senhor à velha Inglaterra, o couro cabeludo estará novamente em ordem.

— Couro cabeludo! Oh, mister! Por que então a sua cabeleira vai-Ihe tão bem, não obstante lhe haver o seu fígaro poupado igualmente apenas um topetezinho ao alto?

— É devido ao nariz, sir. E, além disso, o alemão em toda parte se sente bem, adapta-se de boamente ao meio.

— Yes! É isso mesmo! O senhor aí está a confirmar a regra. Quanto custa esta tosagem?

— Vou pagar dez piastras por tudo.

— Dez piastras? Está doido? Uns goles de péssimo café, umas cachimbadas de fumo mal odorento, formidável estrago nas cabeças e nas caras da gente e ainda por cima de tudo isso pagar-se dez piastras!

— Mas leve em conta que antes nos assemelhávamos a uns selvagens e agora...

— Yes!

— Se a velha “Allwah” lhe enxergasse, de tão entusiasmada sairia dançando um minueto! Agora vamo-nos daqui!

— Mas para onde?

— Alugar uma casa, nalgum arrabalde da cidade. Este beduíno nos guiará. Montaremos aquelas mulas tordilhas que lá se acham com os recoveiros.

Well! Lindo! Avante!

 

ALUGANDO UMA CASA

Deixamos a barbearia-café e montamos as pequenas, mas resistentes cavalgaduras. Os meus pés quase que roçavam no solo e o inglês foi obrigado a encolher as pernas. O beduíno caminhava à frente e desferia golpes de cajado à direita e à esquerda, sem consideração de espécie alguma, sempre que alguém se aventurava a atravessar o caminho. Nós montávamos as mulas quais macacos em camelos e por trás de nós os recoveiros tocavam os animais com varapaus apropriados a este fim. Assim fomos atravessando ruas e becos até que as casas foram diminuindo. Diante de um muro alto parou o beduíno e nós descavalgamos, Postamo-nos defronte a um estreito portão em que o nosso guia bateu violentamente com uma pedra que apanhara na rua. Demorou muito a se abrir o portão; primeiramente vimos um nariz adunco e depois surgiu uma fisionomia macilenta pelo portão entreaberto.

— Que quereis? — perguntou o homem.

— Efêndi, este estrangeiro deseja falar-te — declarou o guia.

Os dois olhinhos pousaram em mim e depois o homem, escancarando a boca desdentada, disse-me com voz trêmula:

— Entra, mas apenas tu!

— Este emir entrará também — repliquei apontando para o inglês.

— Pois sim, mas só ele, e isso porque se trata dum emir.

Entramos e o portão fechou-se por trás de nós. Os esqueléticos pés do velho se achavam metidos num enorme par de pantufas; conduziu-nos o dono da casa através de uma modelar organização de jardim sobre a qual balouçavam as poéticas ramagens das palmeiras exóticas, cujas folhas largas e enormes assemelhavam-se a leques. Diante de uma bela casinha parou o homem.

— Que quereis? — tornou a perguntar.

— És tu o dono deste lindo jardim e tens alguns apartamentos para alugar?

— Tenho. Pretendeis alugar algum?

— Talvez. Precisamos, porém, vê-los antes.

— Entrai, então. Burza z piorunami! Onde estará minha chave!

Enquanto ele dava busca em todos os bolsos em procura da chave, tive tempo de refazer-me da surpresa por ver um velho turco praguejar em idioma polonês. Finalmente deu ele com a chave depositada numa saliência da janela.

— Entrai!

Passamos para um lindo vestíbulo a cujos fundos se elevava uma escada. À direita e à esquerda havia portas. O velho abriu a da direita e levou-nos a uma ampla sala. No primeiro instante julguei estar a sala alcatifada de tapetes verdes; depois, porém, notei que ao redor havia prateiras com cortinados verdes; o que ocultavam os cortinados, era fácil de calcular olhando-se para a mesa que havia no meio do compartimento: estava repleta de livros e bem diante de mim se achava aberta uma bíblia ilustrada, edição de uma livraria de Nuremberg. Num ligeiro passo, encontrei-me diante da bíblia e sobre a mesma coloquei a mão.

— A bíblia! — exclamei em idioma alemão. — E continuando a examinar os livros: — Shakespeare, Montesquieu, Rousseau, Schiller, Lord Byron! Como vieram parar aqui essas preciosidades literárias!

Esses eram os nomes de alguns dos autores que vi sobre a mesa. O velho ergueu as mãos postas e exclamou:

— Quê? O senhor fala alemão?

— Conforme o senhor ouviu!

— É alemão?

— Sou; e o senhor?

— Sou polonês. E o outro senhor que o acompanha?

— Inglês. O meu nome é...

— Peço que não o decline ainda — atalhou-me o dono da casa. — Antes disso, vamos nos conhecer melhor mutuamente.

Dito o que, bateu palmas à moda oriental por várias vezes; por fim abriu-se uma das portas e no seu limiar apareceu uma figura como tão rotunda e reluzente de gordura raramente tenho visto.

— Allah akhar! Outra vez! — ressoou através dos lábios tipo salsichas do gorducho. — Que queres, efêndi?

— Café e fumo!

— Para ti só?

— Para todos.

— Café forte?

— Vai, safa-te daqui a cumprir a minha ordem!

— Wallahi, billahi, tallahi que efêndi é este meu amo!!

Com essas exclamações, de permeio com verdadeiro gemido, desapareceu pela mesma porta a estranha criatura.

— Quem é aquela criatura, verdadeiro monstrengo? — perguntei talvez que um tanto afoitamente.

— Meu criado e cozinheiro.

— Arre!

— Sim, a maior parte é ele que come e bebe; eu recebo só o que sobra.

— Mas isso não está certo!

— Já estou acostumado assim. É meu criado desde o tempo em que eu ainda era oficial. É apenas um ano mais moço que eu. Não apresenta a idade que tem.

— O senhor foi oficial?

— Ao serviço da Turquia.

— E agora aqui mora sozinho?

— Sozinho.

A essas palavras, uma nuvem de profunda tristeza ensombrou o semblante do velho.

— Fala também o inglês?

— Aprendi-o na minha juventude.

— Neste caso passemos a palestrar nessa língua, para que isto não se torne monótono ao meu companheiro.

— Prazerosamente! Com que então o senhor veio com o fito de alugar minha casa? Quem lhe falou a meu respeito?

— Não a seu, mas a respeito da casa é que me falaram. Foi o árabe que nos acompanhou até o portão. É seu vizinho.

— Não o conheço; não me importo com pessoa alguma. Procura o senhor um quarto só para si?

— Não. Pertencemos a uma caravana, composta de quatro homens, duas damas e uma velha serva.

— Quatro homens, duas damas... hum! Isto soa-me algo romântico!

— E o é de fato. Tudo lhe esclareceremos assim que tivermos examinado os compartimentos a alugar.

— Mas aqui mal há lugar para tanta gente. Aí vem o café!

Voltava o gorducho vermelho como cereja. Sobre uma enorme bandeja apresentava-nos ele três xícaras com café a fumegar; ao lado das xícaras um velho tjibuk com um pouquinho de fumo que mal dava para enchê-lo.

— Aí está, — grunhiu o original servo — é café para todos!

Estávamos sentados num divã e lhe tomamos a bandeija, pois devido à gordura o criado não podia inclinar-se para nós. O seu senhor foi o primeiro a levar a xícara aos lábios.

— Está bom? — perguntou-lhe o gordo servo.

— Está.

O inglês provou depois a rubiácea.

— Está bom? — perguntou-lhe o criado.

— Fi!

O inglês afastou de si a xícara e quanto a mim repus simplesmente a minha na bandeja.

— Não está bom? — perguntou-me o gorducho.

— Prova-o tu mesmo! — retruquei-lhe.

— Machallah, desta qualidade não tomo eu!

Nesse instante, o nosso hospedeiro pegou no cachimbo.

— Mas o fornilho está ainda cheio de cinzas! — declarou em tom de censura ao criado.

— Sim, estive há pouco fumando! — respondeu.

— Pois então competia-te limpá-lo!

— Dá-me!

Dito o que, arrancou a cachimbo da mão do amo, chegou à porta onde bateu a cinza do fornilho e depois o devolveu.

— Aqui o tens agora; podes enchê-lo, efêndi.

O velho obedeceu ao criado, mas enquanto enchia o cachimbo deve ter-se lembrado de que nada havíamos ainda saboreado na sua casa. Por isso resolveu oferecer-nos do melhor que tinha, ordenando ao servo:

— Aqui está a chave da adega. Vai lá.

— Esta bem, efêndi. Que devo trazer?

— O vinho.

— O vinho? Allah kerhim! Senhor, pretendes vender tua alma ao diabo? Queres ser amaldiçoado e conduzido ao fundo das fornalhas do inferno? Toma café ou água! Ambos conservam claras as vistas e crente a alma; aquele, porém, que toma scharab atira-se à mais negra miséria, à ruína certa!

— Anda, vai fazer o que te disse!

— Efêndi, ao menos poupa-me o dissabor de servir de instrumento de tua perdição. Não quero ser eu o primeiro a lançar-te nas garras do scheitan!

— Cala-te e obedece! Lá ainda tem umas três garrafas; traze-as todas!

— Bem, sou obrigado a obedecer-te; mas Alá que me perdoe! Sou inocente em tua maldição.

Após essas palavras, desapareceu ele pela porta.

— Espírito original! — observei.

— Mas fiel, muito embora não me poupe as provisões; apenas no vinho é que não toca porque não tem outro remédio. Dou-lhe a chave, apenas quando quero bebê-lo e assim que mo traz devolve-ma.

— É uma providencial organização, mas...

Não pude prosseguir visto que o rotundo servo voltava fumegando qual uma locomotiva. Trazia uma garrafa debaixo de cada braço e a terceira na mão direita. Baixou-se o quanto lhe foi possível e depositou as garrafas diante dos pés do amo. Tive que morder os lábios para não desandar numa risada travessa: duas das garrafas estavam completamente vazias e a outra mal estava pela metade. O seu senhor olhou-o perplexo, na cara.

— Mas isto é o vinho? — perguntou-lhe.

— As três últimas garrafas!

— Mas estão vazias!...

— Bom bosch — completamente vazias!

— E quem tomou o vinho?

— Eu, efêndi.

— Estás doido? Tomar de vez o vinho todo que era destinado aos meus respeitáveis hóspedes e a mim?

— De vez? Ora, efêndi, aposto contigo como isso não é verdade. Neste ponto de tua acusação lavo as mãos como Pilatos. Sou inocente. Não o tomei de vez, não! Foi aos poucos: ontem, ante-ontem, trás-ante-ontem e sei mais que de ante-ontem; eu tomava o vinho paulatinamente, um copo de cada vez. Não me faças uma injustiça, por Alá!

— Gatuno, ladrão, canalha! Como conseguiste penetrar na adega em todos esses dias? Pois eu é que tenho a chave dia e noite no bolso, bem pertinho de mim? Ou quem sabe, roubaste-me à noite enquanto eu dormia?!

— Oh! que efêndi este! Pilatos me acuda que sou contigo solidário! Também a mim sucede o mesmo que sucedeu contigo! Lavo-me as mãos de tudo isso. Em verdade, em verdade vos digo que o efêndi me está caluniando também neste ponto!

— Mas como chegaste tu a entrar na adega se permanentemente trago as chaves comigo?

— Efêndi, apelo para a tua consciência se algum dia eu fui arrombador?! Não isto é que não! O raio da adega é que em todos esses dias nem fechada esteve. Esta é que é a verdade! Eu jamais seria capaz da leviandade de fechá-la, desde que lá houvesse vinho!

— Trzaskatvica! É bom que eu sabia disso!

— Senhor, praguejar em torno do assunto numa língua estranha é o que não modifica a situação! Tu ainda tens aqui vinho mais do que suficiente para mim e os teus hóspedes!

O velho tomou da garrafa e a segurou contra a luz.

— E que aspecto tem este vinho, eh!

— Efêndi, um aspecto inofensivo; esclareço-te: havia na garrafa quando muito urn cálice da bebida do diabo; claro que não daria para três pessoas e então eu resolvi aumentá-la com água pura e da boa.

— Água! Oh! toma lá a tua água.

Dito o que, o velho arremessou a garrafa de encontro à cabeça do gorducho servo; este, porém, baixou-se mais depressa do que de sua obesidade era de esperar e a garrafa voou por cima dele indo estilhaçar-se de encontro ao portal, derramando-se o líquido no solo. O servo de mãos postas bradou como que em êxtase:

— Por Alá! o que estás a fazer, efêndi. Lá se foi a santa água sucedânea legítima do bom vinho! E estes estilhaços! Não, tu é que te encarregarás de juntá-los, pois sabes muito bem que me é impossível baixar a tal ponto...

Dizendo isso, saiu o homem porta afora gingando as suas adiposidades.

Foi uma cena que eu qualificaria de inverossímil se dela não pudesse dar o meu testemunho pessoal. E o que mais me admirou foi de haver o efêndi, logo após o desastrado arremesso, recuperado a sua habitual tranqüilidade. Para uma tal indulgência de um amo para com o criado atrevido e idiota, deveria haver um motivo qualquer bastante forte e justificável. O dono da casa era como que um enigma cuja decifração passei logo a estudar.

— Desculpem, meus senhores — disse depois o polonês. — Isto não se reproduzirá. Talvez se me proporcione ainda ensejo para relatar-lhes a razão de minha indulgência para com este servo. Prestou-me ele em outros tempos inestimáveis serviços. Encham os cachimbos!

Tirei minha bolsa e do meu fumo derramei uma certa quantidade sobre a mesa, para que todos dele se servissem. Depois de se acharem os fornilhos fumegando, convidou-nos o hospedeiro:

— Venham agora; vou mostrar-lhes a casa!

Conduziu-nos ao primeiro andar. Compunha-se este de quatro salas todas com um vistoso tapete no centro e de vários divãs recostados às paredes. Na sotéia havia ainda dois pequenos compartimentos, independentes do primeiro andar. Agradou-me a casa e perguntei ao homem pelo valor do aluguel.

— Para o caso presente não cogitemos de preço. Somos quase patrícios e peço-lhe, no que se refere à questão da residência considerar-se com os companheiros de comitiva, como meus hóspedes de honra.

Recusei delicadamente a gentileza e depois de alguma relutância do velho acedeu em cobrar aluguel, que ficou logo convencionado.

— Não há muito movimento de visitas em sua casa? Precisamos morar o mais isoladamente possível.

— Pois para isto não pode haver casa mais apropriada que esta. Quanto tempo pensa o senhor morar nela?

— Infelizmente por pouco tempo; no mínimo quatro dias e no máximo dua semanas. Para melhor esclarecer-lhe minha situação, permita-me que lhe conte uma pequena aventura?

— Naturalmente; sentemo-nos. Aqui estaremos tão à vontade quanto lá em baixo, e os nossos cachimbos fumegam ainda.

Sentamo-nos e eu relatei-lhe tanto quanto julguei necessário a nossa situação, bem como as circunstâncias em que nos encontráramos com Hassam Ardschir-Mirza. O homem escutou-me com toda a atenção e quando terminei a narrativa, ergueu-se ele de um salto e exclamou:

— Pois aqui pode o senhor estar seguro que ninguém o molestará, ou aos seus companheiros, menos ainda denunciará. Quando tomarão conta da casa?

— Amanhã ao anoitecer. Esqueci-me, porém, de uma circunstância: possuímos diversos cavalos e dois camelos; tem o senhor algum lugar para guardá-los?

— Mais do que suficiente. O senhor ainda não viu o pátio aos fundos da casa. A sua parte coberta acomoda perfeitamente todos os animais. Apenas de uma coisa me não é possível cuidar: da alimentação de sua comitiva. Esta terá que ficar ao seu cargo.

— Claro; era mesmo o meu propósito.

— Neste caso, estamos entendidos. Em breve corresponderei à sua confiança, narrando-lhe também a situação de minha vida; mas não hoje, visto que o senhor já se levantou e ao que presumo tem outros negócios a tratar. Quando chegar amanhã, contorne o muro do jardim; no lado oposto do portãozinho, pelo qual entraram agora, há um portão maior; lá estarei eu à espera de sua comitiva.

Deixamos o velho satisfeito com o sucesso de nossas negociações e na companhia do nosso guia e dos recoveiros regressamos para a cidade.

 

A NOVA RESIDÊNCIA

Na noite do dia seguinte a nossa caravana foi ocupar a casa. Hassan Ardschir-Mirza ostentava vestes femininas a fim de desviar dele prováveis suspeitas. Os servos foram todos dispensados sendo mantido apenas o Mirza Selim Agha. Para o lugar de criado do Mirza, contratou este por indicação nossa, o árabe que de véspera nos servira de guia.

A permanência em nossa nova moradia deu lugar a um acontecimento, que deixo de parte, não obstante a sua importância, visto que talvez mais tarde terei ocasião de narrá-lo mais minuciosamente aos leitores. De passagem direi apenas que durante as minhas caminhadas por Bagdad encontrei-me por duas vezes com um vulto no qual julguei reconhecer Saduk.

Quando voltei a falar com o persa a respeito de sua excursão a Kerbela tive que constatar persistir ele ainda em se opor que eu o acompanhasse. Não lhe podia em levar a mal tal oposição, pois ele era um chiita e a sua fé lhe proibia sob pena de morte visitar a cidade santa acompanhado de um infiel. A única concessão que me fazia o Mirza era a de acompanhá-lo apenas até Hila, onde nos separaríamos para depois nos reunirmos novamente em Bagdad. Estava, mais, inclinado a deixar as duas mulheres, nesta última cidade; estas, porém, não concordaram com tal resolução e tanto devem ter insistido que ele terminou por aceder em levá-las consigo.

Com isso ficou removida a probabilidade de me ver obrigado a assumir o encargo de protetor das damas.

 

A “CARAVANA FÚNEBRE”

Já agora numerosos peregrinos cruzavam a cidade de Bagdad rumando para o oeste. Mas no dia cinco de Moharrem é que recebemos a notícia de que a “Caravana Fúnebre” propriamente dita se aproximava da cidade. Imediatamente na companhia de Halef e do inglês, montei a cavalo para ir deleitar-me com o espetáculo de sua passagem.

Deleitar? Este deleite era assaz duvidoso! O chiita crê que todo muçulmano cujo cadáver fôr sepultado em Kerbela e Nedschef Ali, irá, sem embargos de espécie alguma, diretamente para o paraíso. Daí o desejo ardente de cada qual ser sepultado numa daquelas duas localidades. Como o transporte de cadáveres por meio de caravanas se torna assaz dispendioso, só os ricos é que podem efetuá-lo; o pobre quando deseja ser sepultado numa das cidades santas, despede-se dos seus parentes e amigos e transporta-se através de longínquos caminhos para as cidades sepulturas de Hossein e Ali, onde aguarda a morte.

Anualmente centenas de milhares de pessoas encaminham-se para aquelas cidades, mas o maior movimento mesmo de peregrinos se dá nas vésperas do dia dez de Moharrem, dia em que se comemora o aniversário do passamento de Hossein. Então descem as “Caravanas fúnebres” de chiitas persas, afgãos, beludschos, etc; de todas as partes vêm caravanas conduzindo cadáveres e alguns são transportados até em vapores que singram o Eufrates. Os cadáveres muitas vezes estão já preparados para a viagem meses e meses antes do encetamento da mesma. Os caminhos trilhados pelas caravanas são longínquos e elas se transportam muito vagarosamente. O calor sulino é intenso, tudo crestando e daí a

razão do cheiro horrível que espalham essas caravanas em sua passagem. Os mortos jazem em frágeis ataúdes que racham à ação do calor ou estão envolvidos em tecidos de feltro ameaçados e na maioria das vezes furados pelos elementos de decomposição; não é de admirar pois que o fantasma da peste montando esquelético cavalo acompanhe pari-passu os préstitos fúnebres. Quem os encontra, deles se desvia já ao longe; só os chacais e os beduínos é que secretamente seguem as caravanas. Os primeiros atraídos pelo cheiro dos corpos humanos em decomposição e os últimos seduzidos pelos tesouros que conduzem os caravaneiros para, no fim da jornada, guardá-los com o morto no túmulo. Guarnições de diamantes, jarros, pérolas, tecidos de alto preço, armas de valor, baixelas custosíssimas de ouro maciço, inestimáveis amuletos, etc. são transportados para Kerbela e Nedschef-Ali, onde desaparecem na tesouraria subterrânea que é o cemitério. Estes valores, a fim de despistarem os bandoleiros, são acondicionados em fardos do formato de um ataúde. No entretanto, a experiência ensinou às tribos árabes empreendedoras meios de tornar improfícua tal medida. Quando assaltam uma caravana abrem eles caixão por caixão, fardel fúnebre por fardel fúnebre até encontrarem os objetos de valor ambicionados. Tétrico é o quadro que depois de um combate desses apresenta o campo da luta, cheio de animais tombados, homens que pereceram na refrega, cadáveres mutilados, destroços de ataúdes; o viajor desvia-se mais que depressa dum local deste, fugindo da peste e do contágio.

As “Caravanas Fúnebres” não devem passar por cidades densamente populosas. Antigamente era-lhe permitido atravessar a cidade de Bagdad. Entravam pelo Schedt Omer, a porta do oeste; mas mal deixavam elas a parte oeste da cidade já o hálito da peste difundia-se pela mesma; imediatamente começavam a grassar violentas epidemias e milhares de pessoas sacrificavam-se ao indiferentismo muçulmano fortalecido pelo triste consolo de que a “vida do homem está escrita no livro”. Posteriormente a situação modificou-se; principalmente o paxá Midhal tão admirado quanto combatido, pôs cobro a preconceitos e praxes que tinham tanto de absurdos quanto de perigosos ao bem público. As “Caravanas Fúnebres” só podem agora tocar na fronteira norte da cidade, para depois atravessar a ponte de barca sobre o Tigre. Neste ponto foi onde nos fomos encontrar com as caravanas deste ano.

Um hálito de peste vinha-nos ao encontro quando delas nos aproximamos. A ponta do extenso préstito surgiu e logo entregou-se aos preparativos para o alto. Uma vistosa bandeira com o escudo persa (um leão e por trás dele o sol nascente) foi fincada ao solo; constituiria ela o ponto central do acampamento. Os pedestres sentaram-se; os ginetes apearam-se dos cavalos e camelos. Os muares, porém, que conduziam os cadáveres não foram descarregados a significar que a parada seria por pouco tempo apenas. Por trás da ponta e lentamente qual lesma movimentava-se a cauda da caravana arrastando-se em linha reta. Nos olhos negros daquela gente chispava o fanatismo, a obsessão, ao entoar a canção de peregrino:

 

Allah, hesti dscbohandar,

Allab, bestem asman pejwend,

Hossein, hesti chun alud

Hossein, bestem eschk eschk fiz! (8)

 

Avançáramos de tal maneira ao encontro dos peregrinos, que fomos nos postar bem próximos deles; mas quanto mais nos acercávamos da caravana, tanto mais infernal se tornava o cheiro, de modo que Halef foi obrigado a desprender uma ponta do lenço do turbante, a fim de com ela tapar as narinas. Um dos persas notou este gesto e acercou-se de nós trovejando ao meu servo:

— Sak — cão! Por que tapas o nariz?

Como Halef não compreendesse o persa, encarreguei-ir.e eu da resposta em seu lugar:

— Achas que a exalação daqueles cadáveres é um aroma do paraíso? !

Olhou-me desprezivelmente e retrucou:

— Não sabes o que diz o Kuran? Diz que os despojos de um crente possuem o aroma do âmbar, gul, sêmen, musch, naschew e nardjin. (9)

— Estas palavras não se acham escritas no Kuran mas no Veria eddin attars pendmameh; anota isso! Ademais, por que tendes vós próprios envolvidos em panos a boca e o nariz?

— São os outros e não eu!

— Então exproba primeiramente os teus e depois vem ter conosco! Não temos e nem queremos ter assuntos a resolver contigo!

— Homem, falas com muita soberba! És um sunita. Vós trouxestes amarguras para o coração dos verdadeiros califas e seus filhos! Que Alá vos amaldiçoe e vos leve aos recônditos do inferno!

Dito o que, o persa fazendo com as mãos um gesto de profundo desprezo, virou-se e tornou aos seus. Com sua atitude tive ocasião de presenciar um exemplo vivo do ódio irreconciliável que, quanto mais velho mais latente, ardia entre Cuna e Schia. Aquele homem se arriscava a nos injuriar nas portas de uma cidade composta de milhares de habitantes sunitas; que então não sucederia a um homem não chiita que fosse descoberto em Kerbela e Nedschef Ali!...

Eu teria esperado até passar o infindável corso, mas o espírito de precaução fêz que me fosse dali. Eu resolvera, desde que os obstáculos não se tornassem de um todo insuperáveis, ir a Kerbela e por isso não era aconselhável postar-me por muito tempo diante dos chiitas. Minha pessoa por um motivo qualquer poderia cair na vista de algum dos peregrinos que depois me reconheceriam na cidade santa. O inglês prazerosamente concordou com a nossa retirada, pois afirmou não resistir mais ao horrível cheiro de cadáveres; Halef, em geral tão valente, fugiu também diante do mau cheiro que tornava insuportável a presença nas proximidades dos persas.

 

 (8) Deus, és Senhor do mundo

     Deus, já estou a alcançar o paraíso

     Hossein, estás salpicado de sangue.

     Hossein, estou lacrimejante.

(9) Âmbar, rosa, jasmim, almíscar, bagas de zimbro e alfazema.

 

ATITUDES SUSPEITAS

Chegados em casa, soube de Hassan Ardschir-Mirza que não se uniria ele à caravana e que seguiria no dia seguinte. Pusera ele Selim Agha ao par de sua resolução e este saíra, a fim de assistir à chegada dos peregrinos persas.

Eu mesmo não encontrava explicação para a suspeita que logo me provocou aquele passo do Agha. O fato de haver ele resolvido ver a chegada da caravana nada tinha em si que despertasse desconfiança; contudo um sombrio pressentimento apoderou-se logo de mim. Até a hora de nos recolhermos ao leito não havia ainda o homem voltado. Também Halef não estava em casa; depois do jantar se dirigira para o jardim e de lá ainda não tornara. Só lá pela volta da meia noite é que percebi leves rumores de passos que de mansinho eram dados diante da porta do nosso compartimento; dez minutos depois foi a mesma quase que imperceptivelmente aberta e alguém se aproximava do local em que eu dormia.

— Quem é? — perguntei a meia voz.

— Eu, sídi — ouvi dizer a voz de Halef. — Levanta-te e vem comigo!

— Mas para onde?

— Silêncio por enquanto! É bem possível que estejamos sendo espreitados.

— Devo levar armas?

— Apenas as pequenas.

Pus a faca e os revólveres na cintura e saí descalço. Encaminhamo-nos para o portão dos fundos; lá chegados é que calcei os sapatos.

— Que há, Halef?

— Por enquanto acompanha-me, efêndi! Precisamos nos apressar e no caminho posso muito bem narrar-te o que se passa.

O meu servo e amigo abriu o portão e nós deixamos o jardim. Em vez de Halef conduzir-me para o centro da cidade, conduziu-me para o sul, o que muito me admirou. Contudo segui-o silencioso até que ele falou:

— Senhor, desculpa-me haver interrompido o teu sono! Mas desconfio qualquer coisa daquele Mirza Selim Agha.

— Que houve com ele? Vi que há pouco é que tornou à casa.

— Vou dizer-te. Quando voltamos do nosso passeio ao encontro dos peregrinos, fui logo acomodar os nossos cavalos. Nas baias encontrei então o rotundo criado do nosso hospedeiro. Estava este enfurecido.

— Com quem?

— Com o Mirza Selim Agha. Este saíra e deixara-lhe ordem para conservar aberto o portão, pois talvez voltasse muito tarde para casa. Eu antipatizo solenemente com o Agha, pois sei que ele não te tolera. O criado mandou alguém segui-lo e descobriu que ele não se dirigiu para a cidade mas rumo do sul. Que pretendia fazer o persa fora da cidade? Efêndi, hás de desculpar-me por ter sido curioso. Voltei para o meu compartimento, jantei e fiz minha oração da noite para depois dormir. Mas estive deitado por algum tempo a ruminar sobre que atitude oculta estaria tomando o tal de Agha. A noite estava tão linda e o céu recamadíssimo de estrelas; eu me achava livre de fazer o que fêz o Agha: saí a passear, tomando o mesmo rumo que ele. Fui bem sozinho; pensei em ti, no xeque Malek, o avô de minha mulher Hanneh, a flor das mulheres, e nessa cadeia de pensamentos não dei pelo fato de já me haver afastado muito. Nisso cheguei defronte a um muro desmoronado; passando por cima dos destroços vi-me num descampado. Fui caminhando sempre até atingir um ponto em que vi árvores e cruzes erguerem-se do solo. Era um mezaristan (10) dos infiéis. As cruzes reluziam à luz das estréias e eu me aproximei de leve, pois não se deve despertar a alma dos infiéis, caminhando com passos fortes. Elas ficam encolerizadas e jamais deixarão a senda dos que lhe interromperam o descanso. Nisso divisei vultos sentados sobre os túmulos. Não eram almas, não; porque fumavam tjibuks, palestravam e riam-se às gargalhadas. Também não se tratava de moradores da cidade porque usavam trajes persas; alguns árabes apenas havia no meio deles e mais adiante, num local onde não havia sepulturas, percebi o rumor de cavalos amarrados.

— Ouviste sobre que falavam os homens?

— Estavam muito distantes de mim e só pude perceber que falavam numa grande presa que pretendiam fazer e que duas pessoas apenas deixariam com vida por esta ocasião. Ouvi ainda uma voz autoritária determinar que os homens continuassem acampados no cemitério até o alvorecer, e depois levantou-se um outro para se despedir dos demais. Passou este bem perto do local em que me ocultara e reconheci nele o Agha. Segui-o ocultamente até em casa. Depois me plantei a matutar e conclui ser talvez de conveniência para nós averiguarmos quem são os homens com os quais esteve o Agha a confabular. Por esta razão é que te fui acordar.

— És portanto de opinião que eles ainda se encontram no cemitério?

— Pelo menos foi o que ouvi ordenar.

— Deve ser o cemitério dos ingleses. Conheço-o de minha primeira estada em Bagdad; não se acha muito distante do portão da cidade e ser-nos-á fácil caminharmos de esgueira até o acampamento dos homens.

Saímos a caminhar de leve e daí a pouco atingimos o lanço desmoronado do muro. Neste local deixei Halef para, caso fosse necessário, cobrir-me a retirada, e segui cautelosamente à meta final do objetivo. O cemitério dos ingleses erguia-se diante de mim; não soprava a mais leve brisa e nem o menor som de voz ou rumor quebrava a quietude da noite. Atingi, sem novidade, a entrada — norte da necrópole: estava escancarado o portão. Entrei de leve e ouvi logo, ao lado, o nitrido dum animal. Devia pertencer a um beduíno, pois só os corcéis que vivem ao ar livre e cruzam estepes e savanas é que possuem tão apurado o sentido do olfato, a ponto de com aqueles nitridos característicos denunciarem a presença de algum perigo ou aproximação de pessoas e animais. Aquele bufido poderia facilmente trair a minha presença no campo santo e tornar-se perigoso para mim: virei-me, pois, para o lado oposto e saí rastejando para frente.

Depois de algum tempo, notei algo branco através das moitas. Eu, conhecia aquilo: era a côr dos albornozes árabes. Rastejei até lá e pude contar seis homens que estirados no chão dormiam a bom dormir. Eram codos árabes; persa não vi nenhum. Mas eu achava impossível que Halef se tivesse enganado. Ou os persas se achavam mais para baixo ou então haviam deixado o cemitério para acampar noutra zona. A fim de obter certeza a tal respeito, continuei a rastejar; cheguei bem perto

 

(10) Cemitério.

 

dos cavalos, sem que, no entanto, descobrisse mais vestígios de pessoas. Embora houvesse eu agora chegado do outro lado, os animais ficaram inquietos; isso, porém, não me preocupava mais. Eu precisava averiguar a trama que urdiam contra nós, houvesse o que houvesse. Contei os animais: eram sete. Lá se achavam seis árabes. Onde estaria o sétimo? Mal fizera eu tal pergunta de mim para mim, quando me vi calcado ao solo por um homem, que se ajoelhara sobre mim. Era o sétimo, que se achava de guarda à cavalhada. E aquele homem não era nenhuma criatura frágil, não! O seu formidável peso premia-me ao mesmo tempo que sua voz, qual urro de leão, chamava os companheiros.

Deveria eu deixar que aquilo degenerasse em luta? Deveria entregar-me tranqüilamente para deste modo descobrir os propósitos daqueles homens? Ergui-me de salto e arrojei-me de costas ao solo; neste movimento ficou o meu agressor emprensado pelas minhas costas. Este movimento de tão inesperado deve-lhe ter causado grande surpresa pois ficou; perturbado; ou então com a manobra por mim efetuada deve ele ter batido violentamente com a cabeça ao solo. O fato é que senti logo que suas mãos se desprendiam de mim, levantei-me e saí correndo vertiginosamente na direção da saída. Mas bem próximo, por trás de mim, percebi os rumores de passos dos que me perseguiam. Felizmente ostentava eu trajes leves e trazia pequenas armas que não me embaraçavam a fuga. Não me alcançaram os beduínos. Ao chegar ao lanço destruído do muro que cingia o descampado, detonei dois tiros de revólver e Halef descarregou as suas duas pistolas. Naturalmente, deflagramos os tiros para o ar e os vultos brancos amedrontados retrocederam, desaparecendo por trás de mim. Momentos depois vimo-los sair do cemitério montados em seis corcéis. O lugar tornara-se-lhes pouco seguro, naturalmente que não por causa dos mortos que lá dormiam o sono eterno!...

— Deixaste que te pilhassem, sídi? — perguntou-me Halef, serenada a primeira impressão da luta.

— Foi isso mesmo. Desta vez procedi com imprevidência. Aqueles, árabes eram mais inteligentes do que supus; haviam destacado uma sentinela e esta foi que me agarrou.

— Allah kerhim! tiveste ainda sorte; coisa de mais grave podia ter-te sucedido, pois que se aqueles homens procuraram acampar no cemitério, por certo que o não fizeram levados por propósitos honestos! Mas eram exclusivamente árabes os teus perseguidores?

— Os persas por ti avistados não se acham mais na sua companhia. Não te pareceu pessoa conhecida a figura do chefe daquele bando?

— Não pude observá-lo bem; para isso não era suficientemente clara a noite, acrescido da circunstância de se achar ele acocorado no meio do grupo.

— Portanto foi em vão que fizemos esta caminhada, posto que estou quase a jurar que os persas não são outros senão os perseguidores do Mirza.

— Mas estes, dado o rumo que tomaram, já poderiam estar aqui?

— Folgadamente. Haviam-se dirigido rumo do oeste, mas fácil lhes era de supor haver o Mirza se encaminhado para Bagdad e então é fácil de concluir hajam eles tomado o rumo sul na direção desta cidade, passando por Dschumeila, Kifri e Zengabad. Por causa das mulheres, não pudemos cavalgar tão apressadamente como eles.

Voltamos para casa, onde comuniquei a nossa aventura e os meus temores ao Hassan Ardschir-Mirza, temores que ele considerava improcedentes. O Mirza era de opinião que os seus perseguidores de forma alguma poderiam ter vindo para Bagdad; inverossímil se lhe afigurava também a probabilidade de se relacionarem com o fato as palavras ouvidas por Halef, quando os espreitou no cemitério. Aconselhei-o que tivesse toda prudência e que recorresse à proteção do paxá; também esta última sugestão não foi aprovada por ele.

— Não tenho o menor receio — disse-me o Mirza. — Aos chiitas não preciso temer, visto que durante as festas cessam quaisquer hostilidades, arrefecendo-se nesses dias mesmo os mais arraigados desejos de vingança. Isto constitui igualmente uma segurança de que não serei assaltado pelos árabes. Até Hila, tu e os teus companheiros viajareis comigo e de lá até Kerbela é só um dia de viagem. Além disso a estrada se acha tão movimentada de peregrinos que nenhuma horda de salteadores lá se há de animar a exercer o seu ofício criminoso.

— Não posso obrigar-te a seguir meus conselhos. Levarás só do que careces até Kerbela e tudo o resto deixarás aqui?

— Nada deixarei em Bagdad. Achas que devo confiar os meus haveres a pessoas estranhas?

— O nosso hospedeiro afigura-se um homem honesto e de toda a confiança.

— Mas a sua casa fica na solidão. Bem, boa noite, emir.

Nada mais me restava do que calar-me ante a resolução inabalável do Mirza. Deitei-me novamente a dormir e só me acordei quando o sol já ia alto. O inglês não estava presente; fora à cidade e ao regressar trouxe quatro homens junto, todos armados de pás, enxadas e picaretas.

— Que vai fazer esta gente? — perguntei-lhe.

— Hum! trabalhar! — respondeu-me. — Três deles são marinheiros ingleses desembarcados e o quarto é um escocês que compreende alguma coisa de árabe. Preciso deles, pois sei que o senhor está resolvido a ir ocultamente a Kerbela. Well!

— Quem lhe arranjou estes homens?

— Encontrei-os, por informações colhidas no consulado.

— O senhor lá esteve? Sem me dizer coisa alguma?

— Yes! Recebi cartas e expedi outras; mandei vir dinheiro. Nada lhe disse porque não sou mais seu amigo!

— Ora essa, e por quê?

— Quem vai a Kerbela e se nega a levar-me junto, não tem igualmente o direito de se interessar com os meus assuntos particulares. Well!

— Mas, sir, que foi que lhe virou tão repentinamente a cabeça?! A sua companhia só podia trazer danos a mim e ao senhor próprio.

— Até hoje sempre o acompanhei, sem acarretar danos a quem quer que fosse. Ao contrário, se danos houve, estes sofri-os eu. Dois dedos, lá se foram; aliás, não representam lá grande prejuízo, porque em compensação me aumentaram o nariz...

Dito o que, em tom de ironia, virou-se Lindsay e saiu a tratar com sua gente.

O bom David Lindsay apesar de sua paixão pelos fowling-bulls, estava ansioso por assistir as festas do dia 10 de Moharrem; mas de forma alguma me seria possível levá-lo comigo.

 

Bagdad de outrora e Bagdad de hoje

À tarde, depois de haver diminuído um pouco o calor, empreendemos viagem, deixando Bagdad. À frente, cavalgava o guia contratado por Hassan Ardschir, tocando alguns muares cargueiros alugados pelo persa. Estes eram de propriedade do próprio guia. Isto fora uma inexplicável imprudência do Mirza. Depois seguia Hassan com o Selim Agha junto com os camelos que levavam as mulheres. Eu ia ao lado de Halef; fechava o corso o inglês que com ares de homem empreendedor vigiava o seu pessoal contratado para forçar as ruínas da Babilônia a lhe entregar os tesouros que ocultavam. Alwah montava uma cavalgadura e o criado árabe ficara em Bagdad.

Fora outra a idéia que eu fizera da presente cavalgada. Toda a sua organização fora feita o inverso do que eu pretendia. Talvez que eu próprio fosse o culpado disso, mas tornara-se-me penoso ventilar no momento o assunto. A minha robustez orgânica, que a princípio parecia resistir galhardamente aos ferimentos, não deixou de sofrer as conseqüências desastrosas dos mesmos. É que em todo esse tempo a mim tocou a maior soma de cuidados, perturbações e esforços do que a qualquer dos outros. Sentia-me fisicamente fatigado e moralmente abatido sem que descobrisse a causa de tudo isso. Eu estava magoado com Hassan Ardschir e com o inglês, sem refletir que o meu aborrecimento é que dera lugar a que me preocupasse menos com os seus assuntos do que era de esperar. O meu estado de espírito tinha origem remota e profunda e quando sua causa veio à tona, quase que se me tornou fatal.

Seguimos sempre beirando o rio, a fim de transpor a ponte de barca da parte alta do rio. Na ponte parei a contemplar a outra residência de Harum el Raschid. Estava ela diante de mim à luz do sol em todo o seu esplendor e grandiosidade, embora mostrasse os inapagáveis vestígios de sua decadência. À esquerda, na parte fronteira, o jardim do povo por trás do qual a pista de cavalos desvia-se para o norte e, um pouco recuado, o posto da quarentena. Depois o alteroso castelo e o edifício do governo, cuja base se assentava no leito do Tigre. À direita, o arrabalde habitado quase que exclusivamente por árabes pobres, com a Medresse Mostansir, único edifício ainda existente mandado construir no mais antigo arrabalde da cidade pelo califa Mansur. Por trás desse edifício um vasto casario encimado por minaretes estilizados e cheios de cúpulas envernizadas de centenas de mesquitas. Por sobre este mar de casas, balouça aqui e ali a copa de uma linda palmeira a dissipar com o seu encanto o pó e o mau cheiro que permanentemente pairam sobre a cidade.

Nesse arrabalde saudou Mansur aquela embaixada do rei da França que viera para com ele negociar a respeito dos omíadas, tão temidos na Espanha. Aí viveu o celebrado Harun el Raschid, ao lado da formosa Zobeide que com ele repartia toda a sua devoção e amor esplendorosos. Repetidamente peregrinavam eles a Meca, mandando por esta ocasião alcatifar a estrada até aquela cidade com custosos tapetes. É onde está hoje a árvore de ouro com frutos de diamantes, rubis, safiras e outras pedras preciosas, árvore esta que, segundo a tradição, projetava sombra sobre o trono de Harun. Aquele califa era cognominado El Raschid (1) e contudo não passava de um tirano traiçoeiro, pois assassinou hediondamente o seu fiel vizir Djafer, mandou murar vivos a sua irmã e filhos e ainda chacinar os bamecidas. A fama laudatória com que as “Mil e uma Noites” o exalta já de há muito a história destruiu, encarregando-se de provar exuberantemente ter sido aquele califa um homem bem diverso do que naquela obra é descrito. Enxotado pelo seu povo, fugiu ele para Rakka e morreu em Rhagas, na Pérsia. Acha-se ele sepultado debaixo duma cúpula em Masched, província de Khorassan; Zobeide, porém, a desperdiçadora de milhões, repousa na orla do deserto e lhe foi erigido um templo com esculturas divinas, templo que os séculos de há muito já reduziram ao nada.

Aqui viveu também o califa Maamun, que renegou a divindade do alcorão e adorou o “Juízo Eterno”. Ao seu tempo corria vinho em cascata e no reinado do seu sucessor Motassim foi ainda pior. Este edificou num ermo a sua residência Samara, que se converteu, é verdade, num paraíso, mas este paraíso consumia todo o erário público. Aí pontificava as mais desbravadas sensualidades e enquanto se pagavam fabulosas riquezas por um olhar de sereia, os súditos morriam de privações. O governador do profeta Mutawakil não se contentou ainda com aquele “paraíso”; mandou edificar uma nova residência, e querendo exibir uma coisa nunca vista, os barrotes deveriam ser extraídos da antiga e afamada “Arvore de Zoroaster”. Esta árvore, um cipreste gigantesco, erguia-se em Tus, na província de Khorassan. Em vão suplicaram todos os mágicos e sacerdotes do Sol. Ofereceram fabulosas somas para salvar a árvore simbólica de sua fé; de nada adiantou. A árvore foi derribada e arrastada para a margem do Tigre; lá chegou ela justamente no instante em que Mutawakil era assassinado pela sua guarda.

Com ele ofuscara-se o brilho dos califas e a celebridade da “Cidade da salvação” cada vez mais se apagava. Bagdad possuía antigamente 100.000 mesquitas, 80.000 casas de negócio, 60.000 casas de banho, 12.000 moinhos, a mesma quantidade de estações de caravanas e dois milhões de habitantes. Que diferença em relação a Bagdad de hoje! Sujeira, pó, ruínas e trapos por toda parte. Até a ponte de barca sobre a qual eu parará estava em ruínas, a cair aos pedaços. Ao invés de Dar ur Khalifet ou Dar us Sallam o nome Dar et Taum (2) mais assenta à cidade. Apesar da vista ainda hoje maravilhosa que ela oferece ao viandante, a terça parte da zona que cinge a cidade compõe-se de necrópoles, campos pestilentos, tremedais pútridos, monturo por toda parte onde bandos enormes de urubus repastam. A peste de cinco em cinco anos grassa em caráter endêmico, exigindo o sacrifício de milhares de vítimas. O muçulmano em face desses casos persiste na sua incurável indolência. “Alá é que assim determina; é pecado empreender o menor embargo à sua vontade” — costuma ele dizer. — Quando foi da terrível epidemia do ano de 1831, o representante consular inglês envidou os mais ingentes esforços para que se tomassem medidas tendentes a debelar a peste; contra a sua atitude, porém, ergueram-se os Mulahs, argumentando ir a mesma de encontro aos ensinamentos do alcorão e o cônsul foi obrigado a se

 

(1) O justiceiro.

(2) Casa da peste.

 

pôr em fuga, sob pena de ser linchado. O resultado disso foi sacrificar a peste com o seu cortejo de horrores uma média diária de três mil pessoas. Depois veio o declínio dos canais que fêz desmoronar numa só noite milhares de prédios, sepultando os habitantes sob os escombros.

A essa idéia era como se também eu me houvesse contagiado naquele instante. Não obstante a canícula, um tremor de frio sacudia-me o corpo. Saí a galope a fim de alcançar os companheiros e dissipar os pensamentos que me ameaçavam dominar.

Entre a estrada que conduz a Basra à direita e a que segue para Deir à esquerda passamos por várias olarias e pelo túmulo da Zobeide, atravessamos o canal de Oschah e afinal encontramo-nos em campo aberto. Para alcançarmos Hila teríamos que transpor o estreito istmo que separa o Eufrates do Tigre. Ali erguiam-se ao fim da Idade Média jardins ao lado de jardins; lá balouçavam as palmeiras, lá as flores exalavam os seus aromas e reluziam ao sol os mais apetitosos e sazonados frutos. Agora, porém, pode-se aplicar àquele lugar a estrofe de Uhland:

 

Nenhuma árvore espalhava sombra

Nenhuma fonte brotava da areia. (3)

 

Os canais que banhavam e davam vida à zona estão ressequidos e só servem para esconderijos dos beduínos salteadores.

O sol desaparecia vermelho no ocaso e a atmosfera tresandava ainda com a passagem das caravanas fúnebres, que no dia anterior sorrateiramente por ali haviam deslizado. Eu tinha a impressão de me achar num hospital desarejado cheio de doentes atacados de varíola. Não era puramente impressão minha, não; Halef sem que ouvisse a minha opinião a este respeito, declarou-me, daí a pouco, sentir a mesma sensação e o inglês mexia o seu nariz intumescido em sinal de aborrecimento em face da estagnada atmosfera.

Aqui e ali encontrávamos com um idoso peregrino que seguia para Kerbela a fim de lá morrer e lá ser enterrado, mas que fatigado da longa jornada se havia detido; ou então grupos de aliistas puxando uma esquelética cavalgadura que conduzia vários cadáveres; o animal arquejava todo suarento e os homens marchavam a seu lado com as mãos às narinas e por trás deles a exalação de corpos humanos em decomposição vinha-nos ao encontro.

 

MENDIGO ORIGINAL

À beira do caminho achava-se sentado um mendigo; estava completamente nu, se um estreito avental não lhe envolvesse as coxas. Dava ele demonstrações crudelíssimas da sua dor pela morte de Hussein: as coxas e os braços se achavam espetados com agudas facas, o ante-braço, a barriga das pernas, por entre as duas fossas nasais, queixo e lábios cravados de polegada em polegada com pregos e taxas; na cintura e no ventre viam-se seguros às carnes rombudos colchetes de aço;

 

(3) Da “Saengers-Fluch”,uma das mais lindas produções do grande rate alemão.

 

todas as outras partes do corpo se achavam espetadas com agulhas; em suma, não havia em todo o corpo uma região do tamanho de uma moeda de um pfennig que não estivesse horrivelmente martirizada. À nossa aproximação ergueu-se o homem e com ele enorme enxame de moscas e mosquitos que lhe cobriam o corpo ensangüentado. Era horrível de ver o homem.

— Dirigha Allah waj Mahomed! Dirigha Hussan, Hussein! — rangeu o mendigo entre dentes com voz repugnante e estendendo ambas as mãos.

Eu vira na Índia penitentes que se ocasionavam a si próprios os mais terríveis martírios e deles sempre tivera dó; a este, porém, que agora nos estendia as mãos e que não passava de um fanático, de um sandeu na verdadeira acepção do termo, preferia eu dar bofetadas ao invés de esmola, pois além da aversão que o seu aspecto despertava, não tolerava eu aquela martirizaçao insensata de um homem pleno de pecado, que contava remi-los com penitências físicas em lugar de purificar a alma. Ademais disso, um tal homem considera-se um santo, a quem depois da morte está assegurado um lugar de realce no paraíso; mesmo aqui na terra faz-se cercar de todas as humildes reverências, conseguindo as mais regias esmolas.

Hassati Ardschir Mirza pôs-lhe uma peça de ouro na mão.

— Hasgadad Allah — Deus te abençoe! — disse o mendigo erguendo o braço como se fosse um sacerdote.

Lindsay levando a mão ao bolso tirou uma moeda de dez piastras e deu-a ao mendigo.

— Subhallan Allah — Deus é misericordioso! — exclamou o penitente mal humorado e pouco cortês, visto que apresentou Alá como doador e não o inglês.

A seguir peguei de uma única piastra e lancei-lhe aos pés. O “Santo” chiita fez primeiro uma fisionomia de espanto e depois de cólera.

— Azdar! — avarento! — trovejou-me acrescentando depois com ares de asco e com incrível ligeireza no linguajar: Azdari pendsch Azdarani, deh azdarani, hazar azdarani, lek azdarani — és um avarento, és cinco vezes avarento, és dez vezes avarento, és cem vezes avarento, és mil vezes avarento e és cem mil vezes avarento!

Pisava sobre a minha piastra, cuspia nela e nisso mostrava uma raiva de que em outras circunstâncias era da gente se pôr em guarda.

— Sídi, que quer dizer Azdar? — perguntou-me Halef.

— Avarento.

— Allah il Allah! E sujeito imbecil em persa como é?

— Bisman.

— E um grosseiro labrego?

— Dschaf.

A seguir virou-se o pequeno Hadji para o persa, ergueu diante dele a mão espalmada, limpou-a na perna, gesto que vale pela mais grave ofensa segundo o costume persa, e bradou-lhe: “Bisman, dschaf, dschaf!”

A essas palavras de Halef, abriram-se as comportas retóricas do mendigo chiita de uma tal forma agressiva que tivemos que nos pôr em fuga. O “Santo Mártir” possuía um tão formidável vocabulário ofensivo que para guardar o decoro não nos é possível reproduzir um só termo aqui. Inclinamo-nos numa saudação irônica de respeito e nos fomos.

 

EM HILA

A atmosfera que ali em diante passamos a respirar não era melhor do que a anterior. As pegadas da caravana fúnebre estavam bem visíveis, e os vestígios de ferraduras e cascos de cavalos mostravam que a escolta militar expedida de Bagdad para defender os caravaneiros dos assaltos dos beduínos havia tomado um caminho bem distante da estrada real para seguir depois paralelamente ao cortejo.

Propus a Hassan Ardschir abandonarmos a senda da caravana e tomar a da escolta; ele, porém, não aceitou a sugestão alegando “ser um grande mérito perante Deus, seguir o peregrino a exalação cadavérica dos que partiram para a mansão do paraíso”. Por sorte nossa, conseguimos ao menos dissuadi-lo de pernoitar num Khan em que os peregrinos tomaram pouso; fomos acampar distante dali, num canal ressequido.

Achavamo-nos numa zona perigosíssima e não devíamos afastar-nos do acampamento. Antes de nos deitarmos, ficou resolvido adiantarmo-nos no dia seguinte dos peregrinos, a fim de alcançarmos Hila e acamparmos na “Torre de Babel”. Ali esperaria Hassan a passagem da caravana para depois segui-la, ao passo que nós outros lá ficaríamos até a sua volta.

Eu me achava fatigadíssimo e me senti subitamente acometido de agudas e ardentes dores de cabeça; impressionei-me com isso, se bem que não era a primeira vez que me via acometido de tais dores. Era como se uma febre me tivesse atacado, razão por que tomei algumas gotas de quinino, que juntamente com outros medicamentos necessários a uma viagem, comprara em Bagdad. Apesar do cansaço que me dominava custou-me a conciliar o sono; finalmente adormeci, mas pesadelos terríveis faziam-me constantemente despertar. Durante um dos pesadelos foi como se eu percebesse a aproximação de abafados passos de cavalos; como eu me achasse meio dormindo, julguei ser aquilo sonho.

Finalmente a agitação fêz-me erguer do leito e saí para a frente da tenda. Começava o dia a raiar; no oeste clareava o horizonte e naquela região dentro em pouco estaria completamente claro. Contemplando o horizonte, vi depois no rumo do levante um ponto negro que cada vez mais se avolumava até que nele reconheci o vulto dum cavaleiro. Era o... Mirza Selim Agha. O seu cavalo resfolegava quando ele desmontou; mostrou uma certa contrariedade ao notar-me ali. Saudou-me com sequidão, amarrou o animal e ia passando por mim quando o interroguei:

— Onde estiveste?

— Que tens com isso? — retrucou-me.

— Muita coisa. Homens que viajam em comum numa zona tão perigosa como esta são obrigados mutuamente a se darem satisfações dos seus atos.

— Fui buscar o meu cavalo.

— Onde o tinhas?

— Havia arrebentado a corda e fugido. Aproximei-me do animal e examinei-lhe as cordas.

— Mas como? As cordas não estão arrebentadas em ponto algum?

— Desfez-se o nó.

— Dá graças a Alá se o que um dia te hão de fazer ao pescoço não resistir melhor que esta corda!

Dito o que, ia me afastar da sua presença; ele, porém, avançou arrogantemente alguns passos à frente e trovejou-me:

— Que disseste tu?! A que te referiste? Não te entendi!

— Raciocina, pois, e tira lá as tuas conclusões!

— Pára, não te podes retirar daqui, antes de me esclareceres o que pretendeste dizer-me com aquelas palavras!

— Pois sim, vá lá. Com elas quis eu lembrar-te do cemitério dos ingleses em Bagdad.

A essas minhas palavras, o homem empalideceu ligeiramente; dominou-se, porém, de modo a dizer em tom de calma:

— Do cemitério dos ingleses? Que tenho eu a ver com ele? Não sou inglês! Tu, porém, falaste sobre uma corda ou um nó ao meu pescoço. Nada tenho a ver contigo diretamente. Vou narrar o sucedido a Hassan Ardschir Mirza. Este já te ministrará instruções sobre o modo com que te cabe tratar-me.

— Quer lhe digas quer não, me é indiferente; de qualquer maneira hei de tratar-te sempre conforme mereces!

A nossa troca de palavras efetuadas em voz alta despertou os demais. Logo foram iniciados os preparativos para o prosseguimento da viagem e depois partimos. Durante a cavalgada, eu vi que o Selim Agha falava animadoramente com Hassan Ardschir. Logo depois este sofreando o cavalo esperou que dele me aproximasse para cavalgar ao meu lado.

— Emir, permite-me que te fale sobre o Selim Agha? — perguntou-me o Mirza.

— Pois não.

— Tu não simpatizas com ele?

— Não simpatizo, não.

— Contudo peço-te que não o ofendas!

— A ofensa que lhe fiz, ele a recebeu sem se defender; portanto com ela não lhe fiz uma injustiça!

— Mas dize-me cá: é motivo para forca deixar-se fugir o cavalo?

— Isso, não. Mas motivo mais que suficiente para forca constitui alguém sair às caladas da noite a confabular com gente que pretende assaltar os companheiros.

— Emir, já notei que estás enfermo física e espiritualmente e o teu corpo está fatigadíssimo; por isso é que vês demasiadamente negras as coisas e o teu modo de falar se tornou muito áspero. Ficarás restabelecido e então, estou certo, reconhecerás o erro em que vens incidindo, pois conheço que és um homem justiceiro. Selim vem me servindo com fidelidade e dedicação já há muitos anos e assim continuará até Alá o chamar da terra.

— E a sua ida secreta ao cemitério dos ingleses?

— Foi mero acaso; há pouco ele ainda me falou nisso: A noite estava linda e ele saiu a dar um passeio: chegou ao cemitério sem que soubesse haver gente pernoitando no mesmo. Eram viandantes pacíficos que palestravam sobre os salteadores que infestam a zona e naturalmente que por esta ocasião falaram também em presas feitas pelos mesmos. Aliás, eu já te dissera que não me impressionava com aquele ato do Selim.

— Mas, acreditas que realmente o seu cavalo fugiu hoje?

— Não tenho a menor dúvida a respeito.

— E achas o Selim Agha um homem capaz de pegar na escuridão da noite um animal fugitivo?

— Por que não?

— Mesmo que o cavalo tenha disparado para muito longe? O animal estava coberto de suor e espuma.

— Por castigo, o Selim o fustigou muito, fazendo-o estugar o passo. Peço-te que o julgues melhor do que o tens julgado até agora!

— Julgá-lo-ei com prazer até, desde que ele mantenha atitudes menos misteriosas, do que até agora.

— Vou ordená-lo! Quanto a ti, tem em mente de que errar é do homem. Apenas Alá é onisciente!

Com esta advertência encerrara-se o nosso diálogo.

 

NA CIDADE E JUNTO À “TORRE DE BABEL”

Que deveria ou aliás, que poderia eu fazer em face da cegueira do Mirza? Eu estava mais do que convencido de que aquele Selim Agha projetava qualquer ladroeira; estava convencido ainda de que naquela noite ele estivera em confabulação com os mesmos homens por nós surpreendidos na necrópole dos ingleses em Bagdad. Como, porém, podia eu provar aquilo? Achava-me abatido. Tinha a impressão de que os ossos se me desconjuntavam e se tornavam ocos e de que a minha cabeça se transformara num tambor, que estava a rufar; sentia que pouco a pouco se arrefecia a força de vontade e que me tornava indiferente em face de coisas que, noutras épocas, punham em ação toda a minha energia física e espiritual. Daí o fato de haver eu aceito o pedido de Hassan Ardschir, pedido que constituía antes uma reprimenda do que uma prova de consideração. No entanto, em silêncio, tomara eu a resolução de estar sempre de atalaia.

Cavalgamos rapidamente através da planície. Os peregrinos pelos quais passávamos aumentavam cada vez mais de número; o cheiro tornava-se a cada passo mais insuportável e antes do meio dia vimos ao oeste, no horizonte, surgir uma das grandes caravanas fúnebres.

— Contornamo-la? — perguntei.

— Sim — respondeu o Mirza, e a um sinal seu o guia dobrou à direita, afastando-se da senda macabra.

Em breve cavalgamos a sós em campo aberto e o ar se nos tornou limpo. Com verdadeira sofreguidão respiramo-lo. Uma rápida cavalgada me teria sido preferível se o caminho não estivesse serpenteado de canais, buracos e valos. Com minha dor de cabeça, transpor tais obstáculos proporcionava-me sofrimentos; por isso alegrei-me quando ao meio dia apeamos a fim de esperar que diminuísse a ardência da canícula.

— Sidi, — declarou Halef que sempre me estivera a observar — a tua fisionomia dá sinais de profundo abatimento e estás com acentuadas olheiras. Sentes-te muito mal?

— Apenas dores de cabeça. Dá-me água do odre e a garrafa de vinagre!

— Gostaria que me fosse possível tirar-te estas dores e passá-las para a minha cabeça!

Bondoso Halef! O coitado nem por sombra pensava no que lhe estava também reservado. Não fosse o meu Rih uma tão excelente montaria, não teria eu suportado a cavalgada e me teria envergonhado da “Aloé”, que como uma elegante amazona montava a sua cavalgadura. Nunca pensei que ela cavalgasse com tanta elegância e habilidade!

Finalmente avistamos à nossa direita as ruínas de El Himaar nos surgir à frente; esta dista apenas uma milha de Hila. A seguir, avistamos as colinas diante de El Mudschellibeh e ao sul as cidades de Amaran-Ohn-Aly; alcançamos os jardins de Hila que vicejam à margem esquerda do Eufrates e transpusemos o mesmo por uma ponte de barca em ruínas para atingir a cidadezinha. Esta é afamada pelos seus parasitas, pela falta de asseio que nela se nota e que mesmo em se tratando do Oriente não se justifica, e pelo fanatismo dos seus habitantes. Íamos fazendo ligeiras paradas a fim de satisfazer sumariamente aos mendigos que se achavam pelo caminho; continuamos depois a galope na direção do Birs Nimrod (4), da “Torre de Babel”, que fica situada a três quartos de hora ao oeste de Hija. Como esta cidade constitui a parte central das ruínas, fácil é de se calcular quão extensa fora Babel.

O sol já declinava no horizonte, quando ao lado das ruínas Ibrahim Cholil vimos erguer-se a Birs Nimrod cercada de ermos e tremedais. A ruína da torre poderá hoje ter uma altura de uns cinqüenta metros no máximo e nela existem algumas colunas isoladas que dominam as redondezas com a sua altura de uns dez metros. São esses os únicos restos ainda de pé da “Mãe das cidades”, como Babel fora cognominada outrora; e mais uma vez tive que me lembrar de Uhland:

 

Apenas uma alterosa coluna

Atesta esplendor ofuscado

Mas mesmo esta já em ruínas

Pode cair à noite.

 

Fizemos alto ao pé da ruína e enquanto os demais realizavam os preparativos para o jantar, subi à plataforma a relancear os olhares pelas redondezas. Solitário, me achava eu cá em cima; o sol alcançara o horizonte e os seus últimos raios se despediam dos destroços da gigantesca cidade destruída.

Que foi aquela Babel?

Banhada pelo Eufrates que a dividia em duas partes, tinha a cidade, segundo Heródoto, um perímetro de 480 estádios, portanto dezesseis milhas. Era cercada por um muro de 50 côvados de espessura e 200 de altura, dotado de torres para a sua defesa; era também a cidade defendida por um profundo valo d’água. Com portas de bronze davam acesso à cidade pelo referido muro. Em cada uma dessas portas havia uma rua que em linha reta conduzia para o portão oposto, de forma que Babel possuía a configuração de um quadrado regular. As casas de três a quatro andares eram construídas de alvenaria de tijolos argamassados com asfalto. Os edifícios possuíam fachadas belíssimas e eram separados uns dos outros por espaços não edificados. Esses vãos que as separavam eram transformados em atraentes jardins. Praças e jardins públicos havia-os aos milhares a deleitar os dois milhões de habitantes da cidade.

Também ambas as margens do rio estavam cingidas por alterosos e espessos muros; pelo seu portão que se fechava à noite tinha-se que passar sempre que se precisava transpor o rio em navios ou batéis. Além disso sobre o rio se achava construída uma ponte esplendorosa com cinqüenta pés de largura e, segundo Estrabão, um estádio que, conforme narra Diodorus, tinha um quarto de hora a cavalo de comprimento. O seu telhado era desmontável. Para conter as ondas

 

(4) Torre de Nemrod.

 

durante a sua construção, fora aberto ao oeste um lago de doze milhas de perímetro e 75 pés de profundidade, para a qual desviou-se o Eufrates. Este lago foi conservado também mais tarde: cabia-lhe acolher as cheias e constituía um formidável reservatório do qual em épocas de seca se aguavam os campos por meio de possantes mangueiras.

Em cada extremidade da ponte erguia-se um suntuoso palácio; ambos se comunicavam por um caminho subterrâneo que corria em toda a sua extensão por baixo do leito do Eufrates, a exemplo do que sucede com o túnel por baixo do Tâmisa. Os principais edifícios da monumental cidade eram: o velho castelo real, com um perímetro superior a uma milha; o novo palácio, cercado por tr